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Full text of "Memorias de litteratura portugueza"

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MEMORIAS 

D E 

LITTERATURA 

PORTUGUEZA. 



D.,.,„cb,Google 



D.,.Ecct,GoogIc 



MEMORIAS 

DE 

LITTERATURA 

PORTUGUEZA, 
PUBLICADAS 

PELA 

ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 

DE LISBOA. 

Niti utiti tst íjuod faàmtti , stulta eit gloria* 
TOMO VIII. Parte L 



LISBOA 
NA OFFICINA DA MESMA ACADEMIA. 

A N N o M. DCCC. XII. 

Cm líten^a de S, JÍLTMZA REjIL, 



D.,.„cb,GoogIc 



'mi" '>"■'' ''■ 

-40CT.194I á! 
VVí. OF tljuríi .9./ 



iGoogle 



MEMORIA 

S<^re as origem da Typografia em Portugal 
na Século XV. 

Por -António Ribeiro dos Santos. 

Qu A s I todas as Nações Européas tem a Historia , ou 
Annaes da sua Typografia ; Escritores eruditos , e ze- 
losos , que se can^rao em averiguar as antiguidades 
da sna pátria julgarão justamente , que as que tocavâo á 
sua Typografia não desmerecido huma parte de suas ioda- 
gaçôes, e trabalhos; e escreverão sobre isto doutas obras, 
rortugal porém, sendo tão rico de boos engenhos^ e con- 
tando muitos , e mui illustres escritores de seus feitos , que 
letantárâo com a penna a fama de nossa terra ; tíko teve 
hum até agora , quanto nós podemos saber, que chegasse a 
publicar as noticias , e progressos das origens de sua Ty- 
pografia , e a esclarecer esta parte assaz escura , e difEcul- 
tosa da sua Historia Lttteraria. (<z) 

Moveu isto a nossa curiosidade , e entrámos f m pen- 
samentos de colligir noticias , que illustrassem as nossas 
antiguidades Typograficas. Revolvemos para isso nossa His- 
Tom. VIU. A to- 



(n) Não nos conita de obra alguma impressa lobre este assumpto . 
sem embargo , que alguns htiuve eiitre-Râs , (jue tratárSo de apunr esta 
matéria: sabemos <jue Gregório de Freitas, EiciifSo da Correição do 
Setabal , pessoa de não vulgar curiosidade neit« género de estud&s , 
cuja Livraria sérvio de muito para a composiçlo da BibliDthed Lu- 
sitana do douto Abbade de Cever ; havia lançado em i7jo algumas 
linhas para formar buns Annaes TypograRcoí de Portugal > e liuma 
eipecie de Suppl^mento aos de Aliguel Maittaire: foi iito porím fei- 
to com tão pottea ventura , que seus apontamentos ficando mss. ou 
de todo se perd£ião , uu estincdtão em paite aonde estão inúteis i 
Nação 1 a quem poderão muito aproveitar. 

D. António Caetano de Sousa, varão de grande notne entre nos- 
sos Histoiiadores 1 tratava de escrever sobre esta paite de dossíHÍi- 



:. Ckiogie 



2. Memorias 

toria; corremos algumas das mais providas Blbliothecm; 
consultámos pessoas de bom saber , e pedimos Documen- 
tos de muitas partes j mas forao tão escassas as noticias , 
que alcançámos, que quasi estivemos resolvidos a deixar de 
as escrever; muito mais encontrando difficddades^ que bas- 
tantes erâo para quebrar nosso animo , e nos fazer desis- 
tir deste trabalho. Porém valeu mais para com nosco o de- 
sejo de sermos úteis aos nossos com esse pouco que fosse, 
que o temor de parecermos de curto alcance , e cabedal 
nestas matérias ; entendendo , que estas noticias assim mesmo 
imperfeitas, e diminutas, como aqui as damos, náo deixa- 
rilo de servir de alguma cousa aos curiosos destes estudos , 
e de espertar sujeitos da Nação , para se abalançarem a 
maior obra , com mais largo conhecimento deste assumpto*. 
Se conseguirmos este fim , havello-hemos por grandioso , c 
honrado fhiflo destas nossas indagações, e tentativas. 



CA- 



tom ; mal apenaa chegou a fatei huma curta Liita dot Impressores 
do) ties. últimos seculot, que existia entre os copiosns niss. da Casa 
dos Clérigos Regulares da Divina Providencia , e hoje na Real Biblio- 
tbeca da CArte. 

Fr, Manoel de FigUeit«do , Chromsta da Ordem d« Cister > e bem 
conhecido por seus cargos i estudos , e composições eruditas , começou 
de escrever huma particular Dissertação sobre a entrada , e progressos 
da Typografia em Porcugai > de que elle Fiz memoria no indica ds 
suas obras ; mas ferido de gravisiima doença , não p&de avançar até 
onde a sua idía pensava ir , como elle mesmo se explica em hu- 
ton Carta, de 36 de Abiil 179; j que nos mandou em reposta de hu- 
ma nossa j por que □ havíamos consultado sobre este assumpto ; e a mor- 
te que no-)o toubou hn poucos tempos com viva saudade do) qu« 
bem conhectáo seus grandes talentos, e estudos ■ acabou de nas pri- 
var da esperança, que tínhamos de huma obra completa, que fiíeiso 
eictiiado qualquer outro trabalho neita matéria. 



:.,GoogIe 



DE LiTTERATVRA FoSTVânEZA 3 

CAPITULO I. 
Da antiguidade da Typografia em Portugal, 

Poucos annos depois de seu nascimento entrou a Ty- 
pografia em Portugal. Huma Naçlo , como a iiossa , qu« 
pelo meio do Século XV. avultava já muito em trato de 
Litteratura Sagrada , e Civií , como se sabe de suas anti- 
gas escolas , e de varias composições , que trabalhou na- 
quelles tempos i nao podia deixar de acolher logo com boa 
sombra , e gazalhado huma tal Arte , que tanto servia de 
encurtar os trabalhos da escritura manual , e de propagar 
com maior facilidade j e energia os conhecimentos de todas 
as Artes e Sciencias. Ella vto com maravilha levantarem- 
se naquelle mesmo Século em três íllustres Cidades os pri- 
meiros prelos Typograficos, que sobre maneira nos honrá- 
1^0, e ennobrecetâo naquella idade. 

He com tudo mui difficil de apurar entre nós os prin- nífficuid»- 
cipios desta Arte, e assentar ao certo o anno em que elIa m'„etíii.* 
entrou em Portugal , descuido de nossos Chronistas passa- 
dos , ou antes condição dos tempos , em que viverão , nos 
, "quaes somente os rompimentos de batalhas , c feitos d'ap- 
mas , e conquistas deslumbravao os olhos da Nação , e at- 
trahião a penua dos Elscritores, que não os estabelecimen- 
tos pacíficos, e menos apparalosos das Artes Liberaes, oú 
Mechanicas, das quaes como se forao matérias menos im- 
portantes , ou nao escreverão , ou só tocarão levemente : 
donde vêm, que deseus prlncipios se nos escondeu esta par- 
te de nossa Historia , perdendo-se entre as trevas do lera- 
po , quasi toda a lembrança da sua fiindaçao, e progres- 
sos : pelb que hoje nao podemos caminhar senão pela ve- 
reda de meras conjeifturas , deduzidas de alguns faclos dis- 
persos , e fugitivos , para rastrearmos a verdadeira origem , 
e primeiros progessos das Artes , e das Sciencias entre nós. 
Com este presupposto .diremos o que nos tem parecido 
mais provável nesta matéria, seguindo huns longes, esom- 
à ii bras. 



:,CoogIe 



4 Mehokias 

bras de verdade , como aquelle que no melo da noite e»- 
cura vai atinando a lume posto em grandíssima distancia, 
■eielti-ie Ãlguns para datarem de mui alto a introducçâo da 

que'*K ti- nossa Typografia recorrem á Carta Executorial de D. 
Tl d» dat« João Manoel, Bispo da Guarda de 13 de Outubro de J461 , 
Exefuíoí sobre o Breve do Santo Padre Pio 11. , expedido á instan- 
lia] de D. cia do Senhor Rei D. Affonso V. para a reforma dos ves- 
íoeí" 'bTi-^'^°^ ^° Clero destes Reinos ; por quanto eiplÍcando-se o 
po dl Gu- Executeríal a respeito da tonsura , manda , que os Qe- 
"•■■■ figos tragão Coroa aberta tão grande , e tão redonda , co- 
mo a redondeza em fim daquella Carta impressa , donde 
colhem , que já correndo o anno de 1461 se achava do- 
miciliaria entre nós a Typografia dos Alemães (a) 

Mas do theor da mesma Cana Eiecutorial se vé , que 
alli se nâo fallava da Impreiua Tipográfica ; mas tSo so- 
mente da fórma, ou marca da Coroa Clerical, figurada na 
dita Carta , segundo a redondeza do sello de chumbo , que 
trazia o Breve Pontifício , impressa , e estampada com o 
mesmo instrumento, e pela mesma fórma, e maneira coi^ 
. que antigamente se fíguravao nos Pergaminhos , e nos 
sellos de Cera , e de outras semelhantes matéria? os escu- 
dos , as armas , as letras , e divizas muito antes da in- 
venção da Typograha ( ^ ) . 

To- 



(«} Desta prova usimot nós em nossai Afemunji Je Lilttraiurn Sa- 
grada jobre a íé do erudito , e zeloso Authcu da: MimorUi d» Púl- 
pito §. XIV. pag, 117 por not parecer entiio decisiva a passagem 
que allegiira desta Carta; mudámos porént de juízo , e não oosamot 
hoje eneo3tar>nos nesle arrimo , depois qiie houveinoi i tnSo hum tras- 
lado do Breve, e do seu Executoiíal , e por certo que nSo leii este 
uoda o único lugar em que nói eriámns. 

(i) Ad)So-sc no Real Archrvo da Torre do Tombo a Carta do 
Bispo t e o Breve do Papa , lançados de Leitura nova em o Lir. 
de Extrav. de foi. 197 ^. at^ foi. aoo, e a Bulta origina) com aello 
maior de doze vimens do Ala.ço í% das Bulias n, 29. Na Bulia vem 
esta clausula a que a Carta se refere : Tansuram vtl coranam largam , et 
TBtuadam, lieiíl pluniiam praetentiain dc/trre dticúnl : O que o Bispo D. 
JoSo traduz por este modo : Tragam tcniura Clirícat , e Cer«» larga ^ 
t rtdtnáa asi^ tama e itlla dt ebumha atitai prtunits Ittrét : t no fim 



DE LItteba-tubaPortuqtjeza. 5- 
Tomemos pois mao de outras provas , qne nos asse- p«>"íii ià 
gurem melhor da antiguidade de nossa Typografia. Será âe^'dl!'Ty* 
Auma delias a que se tira da tradição , que recolheu a cu- pografia 
riosa diligencia de Pedro Affonso de Vasconcellos na sua I^. ''*""'* 
jaxa^Obxa da Harmonia das Rubricas do Direito Canoni- i. Provi 1 
có (a). Fallando elle á Rubricai de Renunciatione , ^t-J"^lll^ 
testa da fema, e voz constante^^no seu tempo, que já vi- maioiei. 
n]ia authorizada do nosso insigne Mathcmaiico Pedro Nu- 
nes, 



mandai que os Cletigns : Tragam Ceròa «bcrta lio grande, t Itie reina- 
da , cem» a rtioaieía cm fim ieita Carta imprtiia itgande a forma d» 
Sella de plambo da dita Leiera dt Sante Padre predito. E no cabo de tU- 
dó depois da testemunha da Nntario se dix assim ; Esta h* a grandt- 
xa , e rtimàtía da stUo do plunibo dr Papa , per qual manda , e nis per 
sua eulhartdadt mandcmn qut itjãii feita* ai Coréas. E no traslado da mei* 
ma Eulla , que se scíia no meamo Archivo no Livro de Leis Extra- 
vagantes, que coinpiiuii Duarte Nunes de Leão em !{&{ a fot. 17S. 
está por baixo delia lium circulo de tinta semelhante a huina moeda 
de cinco leís do tempo d'agoia. A mesma figura Igual á do sello ia 
imprimio no Epitome , ou Compilação 11- do mesmo Duarte Nunes 
em ijâp. Part II. Tit. IV, 

Devemos conressar agradecidos por quem nisto aproveitamof ; o 
erudito Cistcrciense Fr. Manoel de Figueiredo , aiiuem pouco antes de 
sua morte, haviamos consultado sobre a oiigem da nossa Typografia , 
nos advertio por sua Catta de iode Abril de 179^ , de que ja falli- 

cutorial do Bispo D. João; e o Senhor José Anastiisio de Figueire- 
do, Ofticia] da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, erudi- 
to, e incançavel indagador de nossas antiguidades , e niu) amigo de 
inxisCencia , desta edição .d&SiQbfw 
(to dnfanre , ip^de tirai-se huma objecção án clausiilu ,dç P<oÍ«go , 
ou Dedicatoiia , que pòi António Durtea na edição > que deu no mea- 
iDo &eculo destas 'Obras ; nias disto falUiemos ao itÚanu a» íCap- 
VI. Atu III. 



;.CotigIe 



XI Memorias 

e majorniente quando as primeiras ediç^ , que tem apa- 
recido até aqui das Officinas da Basiléa , descem muito 
abaixo , i&to he aos annos de 147S, sendo para suspeitar, 
ou que aquella edição foi supposta , e muito posterior ao 
tempo em que se diz publicada , ,ou que o Editor assim 
como seeqganou sobre o lugar em que nasceu a Typogra- 
fia , se enganou igualmente sobre a computação dos annos 
da sua invenção para delia datar aquella obra (a). 

Mas nem por taes razoes havemos de esmorecer, e 
desamparar esta causa : se todo o fundamento desta sus- 
peita ne o nascimento , que se assigna desta Arte em Ba- 
siléa , não he isto motivo suíliciente , nem para havermos 
por supposta a edição , nem para taxarmos de ignorante , 
ou de falsario o Editor. Esta Arre nasceu occultamente , 
os seus primeiros esboços forão clandestinos , e secretos ; 
pois que seus inventores os recatarão por alguns tempos, 
para fazerem passar por mss. os primeiros (lodigos , que 
imprimirão, estampando-os então coui caraâeresseruelhan- 



(n^ douto, e erudita Gis 




sua Carta cm reposta i Coniult 


que lhe fiiemoi de que acima falia- 


mos , não approvou , que nós 


os a ffi a 11 cassemos nesta prova. A sua 


só authoiidade , que reipeitavar 


nos 1 como de Vatão mui sabedor de 


nossas antiguidades , nos Tez es 


tremecer , e vacillar sobre o em que 


até entSo haviatnos estado muitc 


firmc! : e em verdade , que bastaii- 


te motivo tinha elie para assim 


entender, por se suppôr naquella 


nnta a invenção da TypuEfafía 


em Basiléa , que ainda ha pouco» 


tempos causou novidade a Rayt 


nundn Diosdato Deprima T^pagraphi^ 


Hlipanitie ^tate pag. çg . , . Cor 


n tudo nSo causou escrúpulo ao eru- 


dito antiquário João Hemique Leicliio , que no Supplemento a Mait- 


taire , que vem no 6m da sua 


Obta Dt íírígin. ef intrtment. Ti/po- 



graphne Lipiitntii pag. ii;. cpnta esta edição como Iiuma prova 
quão cedo entrou a Typografia em Portugal: Luiitaal^ ti/pfgraphia ce~ 
Itrittr innetuit el txlenr mnt libri , iit ^iwí Cel. Mpilldira áUigenlia 
indcgavit , laulti vttaitlies ; itrvunlar iit Bibliothtca crmiiis JtVimui~ 
TO Liiiitanirtrum tpltadisiima Demni Pttrt Principii Regii Opera qaibui aj- 
àhur ea itxtt peil inventam BaiiteíC arttm aaaa ia Lnsiltaia inpreitm 
rtse: e a nota de Basilta , que nSo causou escrúpulo a hum Vaião 
netural dcAlemaiiha , e tão sabin como elle era neitk easu de es- 
tudos , não DOS .deve traiei maior espanto* 



Dni.tizecbvGoOgle 



DE LiTTEBATURA PoRTÚGUEZA. IJ 

tes aos da escritura natural , para adquirirem coin esta tra- 
ça grandes sommas de cabedal. Ã desavença , e demanda 
que houve entre Fausto , e Guttemberg , foi a que deu 
occazião a descobrir-se este segredo ; daqui veio não se saber 
depois com certeza, nem o lugar aonde começarão as ten- 
tativas desta Arte , nem as primeiras Obras , que se im- 
primirão. Assim que quatorze Cidades entrarão depois em 
debate sobre o nascimento da Typografia , sendo huoia 
delias Basiléa , e os Historiadores , e Bibliografos , que 
mais tratarão das origens , e progressos desta Arte , até 
agora se nao tem acordado entre si sobre o lugar , que a 
TÍo nascer. 

Pôde ser pois , que a noticia , que corria abonada 
com maiores créditos nos tempos do Editor das Obras do 
Infante , desse a invenção desta Arte a Basiléa : com ef- 
feito a não ser assim , como era praticável , que elle se 
enganasse nesta parte, e attribuisse este invento a Basiléa, 
se a voz geral o desse então a Moguncia ? Ou como he 
CTivel , que se fosse supposta esta eaiçâo , a datassem com 
huma nota , que por si mesma descobria logo a sua sup- 
posição , e falsidade? 

De mais , não só se conta Basiléa entre as quatorze 
Gdades, que disputarão a gloria desta invenção a Mogun- 
cia ; mas até pretendem alguns , que ella appresentou o 
primeiro parto da Typografia tabularia na impressão do Li- 
vro Reformatorium vtía morumque Clericorum , publicado 
nos annos de 1444 , e ainda até agora se não mostrou com 
fundamento decisivo , oue ou era falsa a data deste Li- 
vro , ou que eile nao fora -producção de Basiléa ( fl ) . 

Pelo que com muita reflexão accresccntou o douto 
Conde da Ericeira , a quem não erão desconhecidas as con- 
trovérsias , que nisto havia , que a edição das Obras do 
Infante podia servir de muito fundamento para disputar á 

Ci- 



C") P<Sde vcT-se Joáa Jorge Dittrl. ie libra quodam ande Baslliin- 
iU TypBgrephní mvtnliimtm aitenn ijuiJam ementar, (jue vem Do filet- 
cuiio de Suisia de Agojto de 17)4. 



:,CoOgIc 



14 Memorias 

Cidade de Moguncia a gloria desta invenção. No mesmo 
pensamento entrou depois João Henrique Leichio fallando 
desta edição: Apparet etiam bine gloriam , quam Mogvn- 
tini dicunt esse suam , Argentoratenses repetuHt , Har- 
lemenses vero suam esse contenãunt , Basilienses jam olim 
sibi tribuisse (a ) . 

E com effeito se este ponto he obscuro , e embara- 
çado, se senão acha ainda decidido com clareza, se ain- 
da hoje disputío os Escritores sobre o lugar do nascimen- 
to da Tipografia , certo , que o testemunno do nosso Edi- 
tor , long^ ae dever pór-se em rejeição , e desabono , he 
talvez o documento mais subido , que apparece em toda a 
Histmia Typc^rafica para fixar o palz nativo desta Arte, 
pois que elíe parece ser anterior á Chronica de Triche- 
mio , e á (Nitra Anonyma de Colónia , que s^o dos monu- 
mentos mais antigos , que se costumão trazer sobre as ori- 
gens Typograficas. 

Âccrescenuremos ainda a tudo isto , que posto que 
d^ois twrresse , como huma g^al opinião em muitas par- 
tes , que Mt^unda fôra o berço desta Arte , todavia he 
hoje assentado entre os que melhor averiguarão estas ma- 
térias , qae ella o foi somente da Typografia de fundi- 
Ç^ , que se aperfeiçoou pela invenção de carafteres mo- 
veis, e metallicos , tmal hoje temos, e nao da Typogra- 
fia Tabularia de esculptura , que constava de caradleres im- 
moveis , e relevados em pranchas de madeira , que foi o 
primeiro género de Typografia , que se invaitcai , que esta 
negão constantecnente Marchand , Meerman , c outros mui- 
tos , que ÔKK pano de Moguncia. Acaso pois desta pri- 

mei- 



(<r) De Origine , et IncreimtttQ Typagrapki^ Lipiieniii no Supple- 
mento a naitcaire pag. iif. oT. Fr. Manoel de Ti^eiredo oi-iua Car- 
ta , sein embaigo âe não reconhecer a authoiidaJe da nota do Editor 
At* Obras do Infance j tada via eicava no conceito , de que AlogUD- 
cia nSff fbra t atíieedotra ia Tipografia, Eu me detlue , diz elle , para 
toneiliar aí tpimSei rKjpettivas a» A-ithõr da merma Artt d»a ir» tfm id- 
Jinit''da Eiircpj , e ainda ifue ntíf d«»iiíi m favtr iht MvgmntioM , ttete^ 
vi bem larga ttnjStt 



Dni.tizecbvCopgle 



DE LlTTEKATUSA PoUTUQVEZA. Jf 

ffleira espécie de Impressão , se datava naquelles tempos 
a origem , e invenção desia Arte em geral , e se attribuia 
então a Basiléa , como outros depois a quizerâo attribuir a 
Harlem {a). Pelo que Jiâo ha por ora razão bastante pa-^ 
ra desconfiarmos da nota do Editor das Obras do Iníànte, 
e deixarmos de aproveitar o argumento , que delia se tira 
para datarmos a nossa Typografia de tão subida antigui- 
dade. 

Isto posto podemos dizer com muita probabilida- „ . 
de, sem que pareçamos arremeçados por demasiado amor de tudo. 
de nossas cousas , que Portugal foi das primeiras Provín- 
cias fòra de Hollanda , e de Alemanha , que receberão a 
Arte Typografica , e que elle pôde datar com muita vero- 
similhança a sua entrada pelos annos de 14Ó4, ou 1465', 
levando assim a dianteira a muitas Cidades da E^nt>pa , que 
se gabão hoje de grandes Letras (é). 

Isto 



(li) Tem apparecido diversas Obtas impregnas neste geneto de Ty- 
pogralia , que pela impeifeiçaa , s rude» d« fabrica , e esculptura dos 
cataâeres em pranchas de pio , assai mostrSo , que são dai primei- 
ras ptoducçõei desta Arte , das quaes toda via le igiiotão inteiramen- 
te os seus Artífices , e n tempo , c lunar etn que rdscÊtão , sem se 
poderem attribuir mais, a liuma Nação do que a outra, coino adverte 
Marchand, na Hiíioria da Impressão Sed. II. g. 11. pag, 14, c i(. 
Taes são por exemplo h,,'» M:>nual . ou Hsr^hgli.m Bíal4fVirginu M»- 
ria: An mexnaranii naiahilis ptr FigaratEvintrcIhltiam: OCoHtien , ta 
Huleria Biat^ Vírginli : HlHoria S- /fuinõ Evaageluiie : Spículam ha- 
mana Salalii : Confruionalia : hum Pialttru , e outros mais Livros , dos 
quaes te consetvavãn alguns ha poucos annos em Hirlem , e nas Livra- 
rias do Conde de Pembrock , de Vffenbacli , de Vilembrouk , e de 
Schelhorn ; e sobre tudo a (arisíimi Obra TraSaiai hrtvh oc valilt «íi- 
íu Je arte et leieolia beite meriendi, em 4,° As leiras abertas per bu- 
nia mão tacillante, e ainda pouco assente , a tinta desbotada > e desi- 
gual , as figuras , pelo diíet assim , exmgau , etitrigotM, tudo indi- 
ca a subida ant^uidade deitas ediçtíes, 

Ç*) Sendo provável o nascimento da Typojeafia entre osaniwsde 
i4io, e i4ii se^nda^a melhor opiniSo . « açodo ai OÍKds do In- 
fante iinpfeaias 6 , ou 9 innos depois da tua invençáa , (ica pfovaveJ 
peto irenos a introducçáo da ntwsa Typografia peios annos *le 1464 » 
«u 146Í , tetnpo em qite tan>bem « estabeleceu em Sublaco a pri- 
■leira Typografia de Itália. Pelo que crivei he , que tiveatemos Piéloi 



:X'OogIe 



t6 Memorias 

Isto he o que podemos alcançar da origem de nos- 
sa Typografia , seguindo os rastos , é vestígios da tradiçlo 
dos maiores , e o resultado da Legeoda da edição das Obras 
do Infante : e na verdade bem considerado o discurso de 
tudo o que temos dito , assaz máo de contentar seria , quem - 
para prova de feitos tão antigos desejasse melhores argu- 
mentos , visto que âs idades não tiverao cuidado de nos 
deixar com mais clareza a noticia destas cousas. Mas po- 
nhamos fim a este arrazoado por evitar a prolixidade, em 
que já cuidamos ter cahido, e passemos a fazer particular 
memoria dos diversos géneros de Tipografia , que entre nós 
houve : das Cidades em que se estabelecênío naquelles Sé- 
culos OiBcinas Typograficas: dos Impressoreseslranhos, e 
nacionaes , que en^o tivemos , e das Obras , que sahírao 
de seus prelos, quanto opermittlrem as escacas noticias de 
nossa Historia: e em quanto , ou a casualidade, ou a di- 
ligencia nos nSo descobre documentos, que oii mostrem o 
que está occulto , ou desembarassem o que ainda está in- 
certo, e duvidoso. 

CAPITULOU. 

Das ires Classes de Typografia em Portugal. 

T "" ^fi l^r ^ Século XV. houve três classes de Typografia em 
j/lívw»' i-^ Portugal , a saber a Typografia Portugueza , a He- 
portuguo- braica, e a Latina. 

E 

Typogtaficos pouco depoii de Baiiléa , Hirlem ■ Strasbour^ , Mo- 
gunciii ( e Sublaco , que íáa u que hombreáo em mii'i( aiitiguidiule 
Typografica , e por conieguinte antea de muita* Cidadet de Alema- 
nha , e de Itália ■ e antet de França , Inglaterra , e Hcspanha ; poii 
que a) que madmgátSo mais cedo , só apparecein com Obias de seui 
Picloi depoii dos annos de i4Õt. Com o que se pôde occocier á 
opinião de Pioipero Marcband ^ que em huma Memoria de sua pra- 
ptia letra, que conservava D.José da Silva Pessanha , e que vio nos- 
so amigo , e honrado Franciíco José da Serra , Chronista dos Esta- 
dos Ultramarinos, lançava a Época da noisa Typogtaãa pata OS an- 
tiQS de i4Sa 



Dni.tizc-cc.Google 



DE LiTTERATURA PoKTVQVEZA. IJ 

E pelo que roca á Portugueza , isio he , á impressão 
de Livros em linguagem, parece que esta foi entre nÓs an- 
terior ás outras duas , e que começou de se estabelecer pou- 
cos annos depois do nascimento da Typografia oa Hol- 
landa, ou na Alemanha , segundo- o que havemos discor- 
rido no Capitulo II. de sua origem ^ e antiguidade em Por- 
tugal. He certo com tudo , que os Impressores Estrangei- 
ros forâo os que vierâo assentar os nossos prelos , e ensi- 
nar-nos esta Arte j mas por ventura quizerao dar as pri- 
meiras amostras delia na estampa de Livros Portuguezes^ 
que logo podessem correr mais facilmente pelas mãos de 
todos. Esta Typografia porém não fez grandes avanços na- 
quelle século , ou porque delia não curarão muito os im- 
pressores estrangeiros , ou porque os estudos dos nossos se 
vohiião para os Livros Latinos , que se estimavâo então 
mais que os Portuguezes. 

Seguio-se a esta a Typografia Hebraica ; ella nos ^'"" ^'- 
veio transplantada de Itália , e por mãos dos Hebreos , ti/ d°/""i- 
que erâo os únicos naquelles tempos , que a estabelecião , 1'°* He- 
e propagavlo por toda a parte; por quanto, os Judeos ^'"^'^'='"' 
maiormente os Alemães da Gdade de Spira , que haviao 
passado á Itália , tinhão levantado os seus primeiros pre- 
los nás Cidades de Soclno , de Piobe , de Pesaro , de Bo- 
lonha , e de Ferrara , e destes víeráo alguns a Portugal, 
para onde muito os attrahia e convindava a grande quan- 
tidade , que cá tínhamos de Judeos estrangeiros , e nacio- 
naes ^ e a esperança do grosso lucro , que lhes promettia 
o muito fervor, com que então se trata vão os estudos da 
Litteratura Sagrada nas Synagogas deste Reino. 

Suspeitamos , que os Judeos Portuguezes da. Acade- 
mia de Lisboa , e os da Communa de Leiria , que mui- 
to figuravão naquelle século , querendo aproveitar-se de 
hum invento , que com tania facilidade podia multiplicar 
os Livros de sua Lei , forâo os que com mais ardor , e 
deligencia chamarão a si de algumas partes da Itália a es- 
tes primeiros Impressores, para virem exercer entre elles es- 
ta Arte \ e com effeito não sabemos , que sé levantasse 
Tom. VIU. C Ty- 



i8 Memosias 

Typografia Hebraica senão nas doas Cidades de Lisboa , 
« Leiria. 

Ella appareceu entre nós , quanto podemos conjeíhi- 
rar , hum pouco mais tarde , que a Tipografia Poriugueza ; 
porém muito mais cedo , que a Latina. Provável he , se- 
gundo o que temos de notar ao diante, que nds a tiTesse* 
mos já pelos annos de 14S; , tempo em que ainda a tíio 
. j '^-r\!}~ I -tinha nenhuma outra Cidade da Europa, excepto as cinco 
jifíja \ <3e que acima falíamos, isto he , Socíno, Ferrara, Piobe, 
-^ j Bolonha , e Pesaro , que são as que^remonrâo nesta parte 
">^ . ' á maior antiguidade. 

Esta Tipografia começou de luzir com grande esplen- 
der e apuramento ; e pelas brilhantes ediçSes que logo a- 
presentou de seus prelos, bem fiindadas esperanças nos da- 
va de apostar períèições e gentilezas com todas as OfEcí- 
nas das Nações estranhas. Entrou porém em nossos Rdnos 
cim má estrea , e foi sua existência de curta duração j 
porque avio acabar o mesmo Século, que a vira nascer. O 
ódio com que olhávamos os Hebreos \ a desconfiança em que 
estávamos de tbdos os seus Livros Hebraicos ,. suppondo ser 
desvario tudo o que nelles se escrevera ; e o temor de que 
por meio da impressão se propagassem as doutrinas do Tal- 
mud , de que tanto ^mal se havia dito; excitado os clamo- 
res de algtfns Christãos , que com mais piedade, que sabe- 
doria desaprovarão indistinítamente todas as Obras de He- 
braísmo, e trabalharão por arrancar em seu mesmo nasci- 
ftiertto este ramo de Litteratura Sagrada , de que podíamos 
*r colhido grandes fruftos. Por fim o Decreto de i45)(S 
que desterrou de Portugal os Hebreos, e o outro de 1497, 
porque se prohibio aos que cá ficarão a titulo de conversos 
todos os Livros em Hebreo; desanimou inteiramente a Lit- 
feratura Hebraica , tornou inúteis os seus prelos , e fez sa- 
hir de Portugal para estranhas terras huma Typografia tão 
lítil e vantajosa , que então nos honrou por suas illustres 
producçóss, e que ainda hoje nos podia ipuito ennbbrecer 
com suas obras (a) 

. A 

(o ) Refere eile Dctreio Tr. Pedro Monteiro na Hiilaria da Ittf^' 



DE LiTTEBATVRA PoRTUGOEZA íp 

A Typografia Latina entrou ieualmente em Portugal ^'"«™' 
naquelle Século j ella se propagou ainda mais, que a Ty- d/r^íoi* 
pagrafia Hebraica, pois se estabeleceu nas três Cidades de **«''"'»• 
Lisboa, Leiria, e Braga: nem podia deixar de ser vulgar, 
e de mais uso por serem os estudos da Latinidade , os 
que mais tratavao os Ecclesiasticos naquelles tempos , e es 
em que quasi se assommava naquella. idade toda a erudição 
e Litteratura dos homens sábios. Muito se deveu nesta par- ' . i 

te á diligencia, e persuaslo dos illustres Mestres António 
Martins, Cataldo rarisio de Sicicilia, Freíxenal , e outros ■ ' 

mais que trabalhavão por inspirar nas Escolas de Portugal 
o mesmo gosto da Latinidade, que excitava o doutíssimo 
Nebrissa nas de Çastella ; os quaes promovião por sua au- 
tboridade a impressão dos Livros Latinos para uso dos es- 
tudos , que então corriáo. Com tudo esta Typografia nap 
sobresahio entre nós com a mesma gala e luzimento, que 
a Hebraica, conservando-se até aos Bns daquelle século, e 
ainda quasi até o melo do seguinte sem maior adianta- 
mento e perfeição. 

Qaanto a Typografia Grega , corremos no Século XV. ^^ =°'"<» 
a mesma sorte , que quasi todas as mais Nações ; porque "„"« n"âí* 
sabido he queá excepção de mui poucoS Livros Gregos, que Typogi»- 
se imprimirão em Milão , e Veneza , delia se cuidou njui- ^'o^ gw- 
10 pouco naquelles tempos , ficando esta gloria reservada goi. 
ao incomparável varão Ãldo Manucio , que pelos annos 
de lyoo começou de a propagar e aperfeiçoar na sua Oí- 
ficína de Veneza , e a GlUes Garmont , que pelo^ annos de 
I5'07 a introduzio nas Officínas de Parlz (a). ^ 

C ii CA- 



tiçS». Tom. 11. pig. 419, 4)0. CxceptuárSo-ie tão somente 01 Livros 
4le. Medicina , e Cirurgia ; e sissm mesmo só > respeito dos Judeot 
Conversos, que já fossem Fysicos , ou Cituigiâei intet de sua Con- 
veisSo. 

^ d } No Sccutn XV. piiuca se imptimio do! Autores Gregos : apo- 
nns se «tampou em Miláti em íjpb a Grtinmalica ie Leicarii , e as 
Obrai de Diúa Canis , par Dlanij lio Paroviíine , em l4Íi « Pi*ltt'i' Grega , 
t Lalioa M *"> 14<?4 " Stnteofai Merati , « Veriti CbUí^ííbi per l.aicarii , 
e i/tJi*ídai aPtir* itMtiitit; em H90 em Veneu o Elhjmt^tgism-; 



D„t,:cct;,C00gIe 



20 Memorias 

CAPITULO III. 

Das Cidades de Portugal em que se erigirão Officinas 
Typograficas no Século XV. 

QUANTO ás Cidades de Portugal, em que se erigi- 
rão Officinas Typograficas no Século XV , não nos 
consta com certeza senão de três Leiria Lisboa e 
Braga. 

5. I. 

Leiria. 

E pelo que toca a Leiria ji delia falíamos no Cap. 
I. Ainda , que se não tenha até agora descoberto obra al- 
guma de seus prelos , anterior ás que saliíi^o de Lisboa , 
todavia ficou em tradição , que esta Gdade não só tive- 
ra Officina Typografica , antes que a mesma Capital 
do Reino \ mas fora a primeira em toda a Hespanha , 
que recebera e exercitara a Typografia ( tf ) . Ora o 
primeira Livro de que temos noticia , que se imprimisse 
em Hespanha , segundo já notámos , foi a Historia de Ro- 
drigo Sanches de Ârevafo em Falência no anno de 1470, 
ou pelo menos o Certame Poético dos Louvores da Santa 
Virgem em Valença em 1474; donde podemos conjedu- 
rar, que já por 1470, ou por 1474 tínhamos em Leiria 

hu- 



Magoam , em 149( liuma Collecçao de Grammaticos Gregos Theo- 
dpro , Apollonio , e Herodiano ; em 1497 huma CoHecçSo de variai 
Obnt de Atiitoleles * de Philo > e de Thenphraito ; e em 149S ai 
Comediai de Aiiitophaaei ( ambai a>tat duai Obrai )á por Aldo^ e 
pouco mais. 

(o^ Já cítamni o testemunho de Pedro Affmiio de Vaicnncellos , 
natural de Leirir, na lua rara Obra: De Harmonia RiAritarum Jarit 
Ccatnici , que le refere a Pedro Nunei , Cosmógrafo Mór de Poitu* 
) de outros Varóei doutos ; veji-sa a lugar acima jtitado do 



Êit , e at 
ap. I. 



Dni,t,zc-ct,GpogIe 



DE LlTTERATURA PoRTUaUEIA, It 

. huma Officina Typografica ; he certo , que por 1494 flo- 
recia nella huma TypograBa Hebraica de grande nome , e 
he provável , que os Judeos Soncínates fossem os primei- 
ros , que a trouxessem áquellas partes (a), Honrou-se esta 
Cidade com prelos não só Hebraicos; mas também Lati- 
nos , e Portuguezes , que produzírâo alguns Livros , hoje 
raros, de que faremos memoria em seu lugar. Parece Po- 
rém , que as suas OfHcinas acabarão nos fíns do mesmo 
Século aV , pelo menos a Tjrpografia Hebraica descahio 
de todo com a extin9ão da communa dos Hebreos , que 
alli havia. 

§. IL 

Lisboa. 

Lisboa (bi a segunda Gdade de Portugal , que apre- 
sentou em utilidade das Artes e das Sctencias bem pro- 
vidas Officinas Tipográficas , em que se estamparão Li- 
vros Hebraicos , Latinos , e Portuguezes. Nâo sabemos em 
^e anno se erigirão j mas parecendo muito provável, se- 
gundo o exame, e com,binação, que fez o eiudito Rossi , 
Sue a primeira- edição do Livro Sepber Orach Chaim 
<. Jacob Ben Ascer , de que fallaremos adiante, foi obra 
dos prelos Lisbonenses ; podemos assentar com probabili- 
dade a sua Época pelos annos de i^^, tempo em que se 
imprimio aquelle Livro ( ^ ) . 
Á Bra- 



(d^ Maittaire , que muito averiguou a! origens, • ptojiíeitos da 
Typogf afia , nín duvida de atienlar , que o) Judeos Sondnatei ha*iSo 
tfaiido seui príloi a Leiria. Ann. Typog. Xoi"' !• r*g- )•)■ OrUn- 
di querendo diíer, o tneimo nai Origem ■ e Progreitoi da Estampa 
p»g. 114, , confunde Leiria com Liria , Lugar no Reino de Valência. 
Detta Typogrifia falia atim de Maittaire Prospero Matcband a» His- 
toria da Impressão pag. SS. 

C^) Advertimos aqui , que os Hebreos nas ediç6es Lisbonenses al- 
gumas veies punbío libfna por Liliana , como se acha entre outras na 
edição du Centatheuco Olisiponense i e no Código mis. do Canon (fe 
Avicenna ■ copiado em Lisboa , que existe na Bibliottieca de Medíeis t no 
quat s«.diz Itbona i^a^o Aibona como se eictevcu no Catalogo Ák-i 



.^Aiogle 



Memorias 



Braga. 



Braga foi a terceira Cidade , que se honroa e en- 
nobreceu com a Tipografia naquelle século, offèreceodoao 
público as primeiras producqóes desta Arte pelos aanos de 
1494, ou talvez antes. A sua TypograBa quanto até aqui 
nos tem constado , foi a principio de Livros Latinos , que 
eraô os de mais trato , e uso em huma Qdade , em que 
só iiguravâo os estudos do Qero. 

Não sabemos de outra Cidade do Reino , que na- 
quelle século tivesse Typografia. O Porto, Coimbra, Évo- 
ra , e Viseu só no Século XVI he que virão erigir os 
seus prelos ; e as Villas , e Lugares do Reino , que nos de- 
rao producções Typograficas, só apparecem com ellas ou 
no mesmo Século XVI , ou ainda mais tarde ; e assim mesmo 
entendemos , que só tiverão prelos portáteis por algum tem- 
po, que alli levárao os Impressores das Qoades. (d) 



CA- 



quelh Bibliothcca ) como adverte Roati de O ri g. Typ.^ig. 4S. L»r 
se nt Geografia do Nubienie , segundo Caiiti , Ashona. 

Cb) O nosso particular antigo, e honrador , 9 digno Sodo da Real 
Academia dai Sciencias , o Excelíentiiiímo Senhor D. Pr. Alexandre 
da Sagrada Família, Sispo de Malaca, cuja vaita , e apurada Lilte- 
tatura honra a Nagáo , e o Século» nos a^legurou. ipe tinha visto 
entre os papeis da curiosa Liviria de Grej^orin de Freitas , Escrivão 
da Correição de Setúbal , de (juein já acitna filiamos , buma Lei de 
nossos Pnncipei , impressa na Cidade da Porto , no Século XV 1 e 
pela ter visto ba muitos annos nSo nos pòá« dar noticias mais indiví- 
duaes desta impressão. Com effeito-era de esperar , que em huma Ci- 
dade tão principal do Reino t de tão grosso trato , como então já era 
a Porto t se estabelecesse esta Arte a piír das outras, que alli havia, 
fl que 3 vizinhança de Braga , aonde se tinha levantado huma Officina 
Typografica , despertasse a curiosidade de a erigir também nesta Ci- 
dade. .Com tildo como não apparecem outras obras diqueile tempo, 
que foiiem alli impressas , julgamos , que a edição daquella Lei leria 
producpSo dalgum prílo portátil, que alli pasttsie , como succedeo de* 
pois em outcaj terias dest« Kaiuo. 



D.q.tizecbvGoOgle 



DE LiTTEBATTJSA PoTvTWGUEZA. JJ 

CAPITULO IV. 
Dos Impressores do Século XF. em Portugal, 

POIS que a Arte Typografica conrribuio maravilhosa- 
mente para os progressos das Artes e das Sdencias, 
e para a reputado dos Vartíes sábios de Portugal , justo 
he, que consagremos respeitosamente a memoria dos sei» 
Àrtiãces , honrando com particular lembrança , -os que a 
exerciíárãD entre nós naquelle século. Foiâo d!es de duas 
Classes , Hebreos , e Christáos. Fallemos de Jiuos , e ou- 
tros. 

A R T I a o I. 

Dos Impressores Hehreos em Bortugai. 

Os primeiros Impressores , que apparecêfâo entre nós , 
quanto até aqui podemos descobrir , forao Judeos Estran- 
geiros , que vierão a Portugal de diversas partes de Itália. 
A pratica em que estavão os Judeos de multiplicarem os 
exemplares da Lei para uso de suas Synagogas , e dos 
mesmos particulares, fazia cora que também se multiplicas- 
sem os Impressores da Nação. Noticia nos ficou dos três 
seguintes , que certo forao dos primeiros , que pozerão n^o 
nestes trabalhos. 

Rabhan Eliezer. 

Era Impressor em Lisboa pelos annos de 1489, em 
que imprimio hum Pentatheuco Hebraico com os Com- 
mentarios deR. Moyses Nahmanide, epor 1492 em ^e 
deu huma^-adéfâo de Isaías , e Jeremias , duas obras , de 
que fallaremos em seu lugar. 

Rab Tzorba.. 

Este também fiw Impressor em Lisboa , e na mes- 



ma 

;.CoogIe 



24 Memouias 

ma Offícina de Rabban Etiezer pelos annos de 1489 , em 
que imprímio de parceria com elle o Fentateuco Hebrai- 
co , de que acima falíamos. 

Zacheo filho de Rabban £)liezer ibi outro Impres- 
sor em Lisboa pelos annos de 1491 , em que publicou o 
o Fentatbeuco Hebraico com a Paráfrase Chaldaica de 
Ookelos , e Commentarios de R. Salomão Jarchi. 

Não podemos alcançar noticia de outros ( <> ) : o pou- 
co acolhimento , ou antes odío , que os Hebreos acharão entre 
nòs os Christâos , e as desventuras , que tiverlo de soffrer des- 
de o anno de 1496 os desanim^írao , e estorvarão de prose- 
guir em seus trabalhos ; nem d'entre os mesmos , que cá fi- 
carão , e se tornárao Christâos, podia haver hum sÓ , que 
se animasse a continuar em suas Obras Typografícas pe- 
las razões j que já tocamos do Cap. I. fallando da Typo- 
grafia' Hebraica. 

A R T I a o II. 

Dos Impressores Cbrhtãos em Portugal, 

Depois dos três Impressores Hebreos de que temos 
fallado, entrao a apparecer alguns dos Christâos: erao el- 
les E^strapgelros , que se passái^o a Pormgal das partes da 
Itália , e de Alemanha , e vlerao propagar entre nòs as 
Officlnas Tvpc^raficas , de que daremos aqui noticia. 

§^ 

(a) Suspeitamos , que em Lisboa exercitaria esta Arte Moysei , Im- 
preisor , fillio de Scem-Tsv , tjue na edicáo do Livro. Mikn , ou Ma- 
kre Dardtki , isto he ■ LiçSe iai Parviilti em M. , que Wolfio cri 
(et impresso em Constantinopla i e Rossi em Napolei , se di f , JaJet 
Eitrangeirt , t onttt bahítader ia S^nta Sj/nagega de Liibta, 

Não contamos na Classe dos Impressores Hebreos , que tivemns , 
a Rabi Aiba , parque a ediçSo do Commentario de R. Moyses Na- 
cbamanide, em que se acba o leu nome, nãi> he a de Lisboa de 14IÍ9 
mas a de Itália de 14^0 >s quaei Wolfio confundio. 



,: Ckiogie 



DE LlTTBRAirtlRAPoRTUaVEZA. Zf 

§. I. 

Impressores Alemães em Portugal 

Niceldo âe Saxània. 

Este Impressor íoí hum. dos mais afamados , que 
aquelles tempos houverâo : tinha elle sua OQiciaa em 
Lisboa aonde imprímio o Breviário Eborense do Arcebis- 
po D. Jcáo da Costa por 1490 a Vtta Qbristi da tra- 
dacçao de Fr, Beroardo de Alcobaça por \^^^ , e, o Mis- 
«al e Breviário Bracarense do Arcebispo D. Jorge daCosra 
por I4y6, e 1498. 

Valentim de Moravia. 

Floreceu pelos mesmo tempos" em Lisboa, e traba- 
lhou com Nict^áo de Saxonia na me^na estampa do Li- 
tro, de yíta Cbristi , e na de outras obí^s, 

João Gberliae. ' 

Este Impressor foi também Alemão, passo» a-^Br^ 
ga, e aili assentou huma Officina Typografica, aonde fez 
a primeira edifão- do Breviário 3racarense em 1494. Pa- 
rece ter sido parente de Vlrico Geríng , Impressor em Pa- 
^z por 1470 , de que falia Marchand sobre 3 Ediçlo das 
Epistolas de Gasparino Pergamense {a). Julgo, que este 
João Gherline he o mesmo João Berlinc , ou antes Gher- 
linc, que por 1496 ioiprimia na Villa de Monte-Kei nO 
Reino de Galltza, confinante com Portugal (í). 
Tom. nu. D ra-_ 

C") HistotU dí Intptessão pag. 57. 

C^) Aqui estnmpoii por 1496 o Manual: Sraciienic intitulado,; 
MaiiitaU Sacremeidiraat cuip irevi CtmpUaliant Miiiaraat , tí eligaeram 
Valeram , ftciiadam cMittctudincm Metrppolilaaa Eceleiiie Bracarentii »'«- 
ftiium ftr ÍSagiitruM JtanatM Birliatb Alainanum , fiú fiaU iatut Mar 



:,Googlc 



%6 MEMORIAS 

Valentim Fernandes Mourão. 

-,, Devemoí pôr nos fins deste Século , a Valentim Fer- 

\ nandes Mourão, Morâo , ou Morano , também Alemão, 

■ e Escudeiro da Casa da Rainha D. Leonor, terceira mu- 
I Iher do Senhor Rei D. Manoel , pois que apparece com 

! -j ■ sua Officiua Typografica em Lisboa no principio do anno 
' L?- .^Ví ; dc ifoo , tempo em que escrevia a D. Pedro de Mene- 
' ■ - í 226 , terceiro Marquez de Villa Real , pedindo-lhe suas 
Obras para as imprimir, que lhe respondeu por sua Cap- 
ta deu de Fevereiro do meGmo anno, que tem por titulo: 
EpistâU ad Valentinum Ferãinandum íãoranum Typogra* 
': phum data 21 de Fehruariis anno àpartu Virginis ijoOj 

■ o que bem mostra ter-se já estabelecido a suar Typografia 
; no lim do Século XV ( « ) . 

Imprimio os Livros de Marco Paulo Veneziano , e 
com elles o de Nicoláo lambem Veneziano, e a Carta de 
JiUm Genovcz mercador , qixã elle trasladou em Lingoagetii , 
e dedicou ao Senhor Rei D. Manoel , em Lisboa em 1501 
:i. vol. foi. Gothico \ obra raríssima de que ha hum ex- 
iemplar na Real Bibliotheca páblicíi da Corte (^') . 

Teve parceria com João Pedro de Bonhomini de 
Cremona , e imprimio côm elle entre outros Livros o Ca- 
tecismo pequeno da Doutrina , e InttrucçSo j que os Chris- 
iâos hSo de crer , e obrar pani conwgair a bem-aventu- 
^nça eterna, feito por D. Diogo Ortiz, Bispo de Ceuta. 
í Lis- 

! . • 

A Scgt». Z>MiiM F>unajjw ie Cuaiga itmitMntt ín r»itm villa , tt Cf 
Biitttjt snno 1494 *° Um JuhU foi. 

(•) Desta Epistda se vê, que elle teve o sobrenome de Maiaac , 
ou Mourão . posto que na edição dos Livros de Matco Paulo Vene- 
ziano ^as duãg edlçCêi da Granimatica deEsteván Cavalletto de i;o) , 
e de ijió y e em outrai obras le denomina simplciraente Valentim 
Fernind», e tuim lhe chtntt o erudito Barbosa. 

(i) Da SulHCFJpçSo desta ediçlo se va , que elle era Alemío , e 
nfio-Portufuez , como «ffirma Baiboía , • suspeitamos set talvex o 
mua» ^1 ValMtíD» de Monvia d» que Kiim fallaiiMi. 



:,C~.oogIe 



DE LirTBlATOIlA PoRTUQUEZA. a? 

Lisboa 15-04 I. vol. foi. Gothico 2.' Edição. Imprimio 
também as OraçÓes, e Epistolas de Cataldo Aquila Sicu- 
lo com as Obras do Iilarguez de Villa B.eal em Lisboa, 
de que ha hum exemplar no Collegio da Graça da Uni- ' 
versidade de Coimbra , que se acha truncado. / 

j. II. 

Impressores Itafíams em Portugal \ 

Cbristevão de Cremofta. 

Passando aos Impressores Italianos , hum aponta 
Maittaire , qual foi ChristoTao , ou Chnstolo de Cremo- 
na f que diz fora Impressor em Lisboa em 1491 , de que 
teria achado documentos , que assim o certificassem ; nSo 
podemos com tudo ter notícia de obra alguma de seus pre- 
los : suspeitamos , que poucos tempos rezidiria em Portu- 
gal , e que seria o mesmo , que Christovão de Antlgnato 
Cremonense , que já em 1493 *® achava em huma Ofi- 
cina em Veneza , para onde voltaria de Portugal (a). í 

yoãff Pedro dos BoÕsbemês, \ 

João Pedro dos BoÔshomês , em Italiano deBuonho- 
mini , ou Buonhomyni , ou Bognomino , em Latim de Bi>- 
«is Hominibus , ( que assim diversamente se acha escrito ) 
foi Milanez , e natural de Cremona ; parece ter tido hu- 
ma OtHcina em Lisboa no fim do Século XV , porque o 
vemos jáem 1501 estampando a Obra Grammaticâl de An- 
tónio Martins, de que se usava nas escolas, de que falla- 
remos mais largamente nas Memorias , que temos escrito 
de nossa Typografía no Século XVI. 

D ii §. III. 



(a) Ann. Typpgr. Tom. I. pag. (ci, 

DniUizecbvGoOgle 



'U, 



m 



28 '.MsMoklAS 

§. III. 

Impressores de erigem incerta em Portugal 
O hí^stre Qrtas. 

Este Impressor tinha sua Officina em Leiria , e nd- 
la trabalhou a edição do Almairach , ou Taboas Astronó- 
micas de Abrahão Zacuto. Parece ter sido Castelhano. 

Naquella edição he qualificado com o titulo de Vi- 
ri Solertis Magistri Ortas. .Talvez seria este o mesmo, 
que Samuel d^Orta , Judeo , e Impressor , que deu huma 
edijão HebXaica dos Provérbios de Salomão (í). 

. Impressores em Portugal , que parecem pertencer 
aiftda ao Secuk XF. 

Fersuadimo-nos , que alguns Impressores, de que so- 
mente apparecem Livros estampados nos princípios do Sé- 
culo XVf, haviâo já erigido suas Officinas Typograficas 
uos. derradeiros dias doSeCuIo XV. Taes sSo os seguintes: 

O Editor do Sacramentai 

Parece nos pertencer ainda a este Século o Editor do 
Sacramental , ou Catecismo dos Parochos do Arcediago de 
Valdeiras na Igreja de Leão Crimente Sanches Vercial , 
traduzido do Castelhano em Portuguez , e impresso cm 
.Lisboa em 1502. foi. 

O Editor dos Catecismos maior , e menor. 

O mesmo dizemos do Editor do Catecismo maior, 

de 

(i) Raymuiido Dioidado ác prlnlT^pa^. HUp. ^rofe na setic dos Ty- 
pografos , suspeita que seria o mesmo <jueAffonso de Orla de Valença 
pag. laj. Ft. Francisco Mendes na Typog. Ejpan. falia delle em 149Ú, 
cm que imprimio em VaJença iiuma obia de Imaglaiiut Aítrtatmitii p. ya. 



DE LiTTER ATUR A PoaTUQUEZA. 19 

de D." Dit^ de Ortiz , Bispo de Ceuta , e depois de Vi- 
zeu , e do outro Catecismo chamado pequeno do mesmo 
Bispo, inípresso no mesmo anno de lyoi (-a). 

C A P I T U L O IV. 

Has Bdi0es Hebraicas de Portugal no Século XV. 

Do s Impressores passemos ás Edições. Daremos primei- 
ro por sua Ordem Chronologica as IJebraicas, de que 
podemos haver noticia , começando pelas aue rem certe- 
za de era, e de lugar , e passando depois as outras, que 
2 não tem. 

Artigo I. 

Has EàiçSes Hebraicas ãe Portugal, que tem certeza 
de Era , e de Lugar, . 

As Edições Hebraicas , que tem certeza de Era , e 
de Lugar , quanto nòs podemos atégora saber , são as seguin- 
tes; ' 

Pentatheuco Hebraico com os Commentarios >4S9 

de Rabbi Moses, e Rabbt Moscbe N.ich- nnVbr"-' 

man. Lisboa anno Judaico 249 {deCbris- ca. 

to 14S9 ) no mez de Av. foi. nas Casas de 
Rabbi Tzorba, e de Rabban Eliezer (è). 

He 

(j.) Não ousamcis eiitendet o mesmo da outros, cujas obras appa- 
recitSo maií tarde d[)que eiws ; cwiio foi , por exemplo , o Eiliior do 
Caieciímo Doutrinal pequeno de D Diogo Orlii . e o da Rejra , e 
Definição da Ordem do Mestrado de Nosso Senhor Jesu Chnsto 
de 1(04, e Vicente Fernandes , Editor da rara obra dos Autos dot 
Apóstolos (Je ii05- Lisboa - w, ,c 

(i) Esta obta não foi impressa em 149O , como escreveu Wolfio 
na Bibliotheca Hebraica no Tom. lU- pag. 79* . "i^' «"" '489 . c«.mo 
elle mesmo reconheceu depois no Tom. IV. pag 911 , efoi em foi. . 
e nSu em 4.", Cumpre náti confundir esta edição com a Napolitana 
de 1490 , da Officina de R. Arba , como fiíerao o mesmo Ví^olho 
na Mluthtca Hibraica Tom. III. pip- 796 . e Tom, IV. pas;. 921- 
Maiehand na Historia da Impressão pag. Í4. « oíiudup Auibor daj 



t^i-i.^'' í'" ^.^ 



/t^J 



50 Mesíorias 

He em duas columnas , e em CaraAeres Rabbtnos 
de inflexão Hispânica, ou Oriental qual se usava em Hes- 
panha por aquelles tempos. Das duas dícçâes Sepher Be- 
resciã , por que começa o Commentario , a primeira he com 
letras maiúsculas ornadas , a segunda com letras menores 
quadradas , c assim vão rodos os principies das Secções. 
Consta de ij)9 folhas: na epigrafe, que vem no fim, ha 36 
versos em duas columnas : depois huma longa deprecaçâp de 
Nachman , e huma epistola em que elle louva a Deos pe- 
lo haver ajudado a concluir a impressão de tão estimável 
obra. Foi impresso doze annos depois das duas primeiras, 
e mais antigas edições de Livros Hebraicos, que tem ap- 
' parecido ategora , quaes forlo o Commentario Ralbagiam 
de R. Levi Gerson a Joè em Pesaro por Abraham filho 
de David Chaiim em 1477 , e o Psalterh Hebraico com 
os CommeHtarhs de Kimchi, no mesmo atino. He esta edi- 
ção raríssima ; delia tinha Jablonsk hum exemplar , que 
wolfio examinou para a descripção que delle tez , outro 
tinha Rossi. Fazem memoria desta edição Wolfio (íí) p 
IjivmSpecilegfumveíerumedifionmnft/íarchand (è) o so- 
bredito Rossi (f), e D. José Rodrigues de Castro (*/). 

. Isaías , a Jeremias com os Commentarios 
de Kimcèi, Lisboa 1450. 

João Bernardo de Rossi attesta haver visto hum ex- 
emplar desta edição (í). 
P en- 

Mimertai HiiliirScai de Miniiteria dâ Pvlfitt na nota ao §. 14 do Ap- 
tendix pag. 11! , e Fr. Francisco Mendet na Typogiafia CspanoU 
Tom. I. pag. 394. Ji Hossi notou a equírocacão que nisto linha 
havido. 

f B ) Bibliótheea Hebraica Ton^. III. pag, fipy , Tom. IV. p»g. 93 1. 



f t) Hiiterta da Impret/ão. 

(,V ■ - ■ - 



1 índag, Hiil. da Orig. do Typi>gi-efia Hthfãita pag. ( 9. 

{á) Bibliatfieca EipaSola pag. g;). Daqui se vê, que Portugal te*e 
Typografia Hebraica , piimeiro que Ftança , que só atlvera em 1508, 
quando Giltes Gourmant a estabeleceu cm Patii debaixo da direcção 
de Tessard. 

Çí) tadagajáa Critica itire a «rigcn da T^pap: Hf^rotM pag. í<. 
Jí delia f " ■- - -- ' - 



I falíamos 1 



1 Oucn obra pag. 47 !• 



DE LlT,TE»AT0»A PORTUQUEZA. 31 

Pentatbeuca Jiehraice cem e Targmm , «u Pa- 
ráfrase Chaláaica de Otikelos , e ctm os , \\ 
Commentarios dê Rah. SaiotnSo Jarcbu Lis- m 
boa nomez Av. anno 1151 (^ Corista 1491 ) 
.2. vol. em 4." grande (*) 

O primeiro volume comprehende o Génesis , e o 
Êxodo, e no fim os Tosafad, ou Âãditameatar \ e cons* 
ta de 215 folhas : o segundo contém os mais Lívn» de 
Moyses, e íeiii'239 folhas. O caraéterdo Texto, e o da 
Paráfrase, que lhe fica ao lado, he quadrado com pontoa, 
e accentoB , aquelle maior , e este menor ; o caraâer do 
Commentario , que corte por cima, epor baixo he Hispâ- 
nico Rabbinico ; o título do Comníentario he feito em 
letras maiores , e ornadas as duas letras , porque começa o 
Texto de Moyses, e a Rsrafraae : o Impressor foi ojudeo 
Zacheo , filho de Kabbi Eliezer , como se lê nos versos 
que vem no fim. He esta edição pela formosura , e elegân- 
cia dos typoB a mais bella , e primorosa de quantas se 6- 
zerâo entaa do Pentatheuco, como attcstâo Le Long , çRos- 
si; ehe ao mesmo tempo amais estimável pela sna correc- 
ção , por haver sido escrupulosamente apurada sobre os 
mais antigos , e mais correítos Mss. de Hespanha , e se- 
gundo todas as regras da Maséra , ou Critica Sagrada 
aos Judeas : por essa razáo em hum Livro , que elles escrer 
vérâo sobre as regras , que haviSo de seguir os Amanuenses , 
e Impressores nas novas ediçtíes que fizessem do Pentatheu- 
co, se lhes mandava, que nunca despregassem os olhos do 
exemplar Olisiponense. Com eiFeito entre elles o grande 
Critico Lonzano na sua obra Or Torab a tem pela mais 
eiaíla de quantas se haviâo feito (í), e todos os mais 
Críticos modernos não dixâo de recorrer a ella , dando-lhe 

setft- 



("^ 



(«) He em 4.», e liín em fo! como escreveu MáittiitB , • Fr. 
• Francitco Mendej. Da Tj/pagre/a Hupantola Toi». I. r*S- »?* 
C*) Bdiíit httiilena M tmnUiai ríilifnliut aifíir»titf fo!* «J. 



;vCoogIe 



32 Memorias 

sempre a mesma preferencia entre as antigas ^ que costu* 
mavâo dar ás duas Lombrosiana > é Norziana de Ãmster- 
dam entre as modenias ( tf ) . 

Fallao desta edição Maittaire m&Annães TypogrS' 
ficos , ( è ) Le Lòng na Bibliotbeca Sacra , Orlandi nas 
Origens , e Progressos da Estampa ( f ) Struvio na Bi- 
hliotheca Sele-la da Historia Lttteraria (d), e Rossi 
nas Varias Lições do Testamento Velho (f), ena obra 
"da Origem da Typo^afia Hebraica (f). Delia tem hum 
exemplar o mesmo Rossi , Fr. Francisco Mendes ( — ), 
que o houve por donativo de Elias Levi, Presidente da Sy- 
nagoga dos Judcos de Alexandria : ha outro na Biblíothe- 
ca Eleal de Londres , o qual conferio Benjamim Kenicot 
em 1767 Cg) , outro linha MoysesTóa , Livreiro Regien- 
se, de que attesta o mesmo Rosei na Origem da Typo- 

frafia Hebraica (<&), outro na Bíbliotheca d*EIRei de 
Vatiça, outro tinha Crevenoa (/). 

Isaias, e jeremias , com os Commentarios 

de Kimchi. Lisboa em yiyi. ( ãe Cbristo 

■ 1492) fol.peq.na Officina de R. Eliezer •(*:), 

Es- 



Ca") Donde sem taiSo o Author Anonymo das Vletes , que vem na 
£ibliothec3 Critica de Ricardo SimSo vol. ]II. pag. 4J1 a taxou de 
pouco exaíla , e trabalhada , como obra feita para uio do povo. 

<t) Tom. I. Part. 11, pag. j jo. 

CO Pag. !i'i. 

Cd) Tom. Iir. pag. 2223. da ediçSó de Veneia de 1761. 

(O Tom. I. pag. jS. §. J4. 

(/) Cap. VI. pag. 4i , e ^6. 

C — ) Da Typogr. Espanh, Tom. I. pag. 194. 

Cf 5 OhitrtiiçSa Geral ao Ttitomtnl* Velh». 

O) Cap, V. pag. 4Í. , e 4«. 

C í ])■ Cútalegae dei Livret Tom. I. pag. 49. 

<i) Maittaire, VColfio , Le Long , e Masche na edição da Bllhii^- 
thcco Sacra de Le Long , c Rossi no Tratado de Hebr. Tope>rr. Ori- 
gine , põe 'esta edição em 1497 » "^ 1"* ^' engano ,' como depois ad- 
vertia o mesmo Rossi no ApjienJix da Bíhintheca Mosch pag, í%. no 
Livro 4' algamn antiquliumat EiiiçííS deseanhecldai do Texio Htbraiet . 
pa^. 29, e no Aj>parató\ Heirea-Bihlieo pag. i^. a. ijj o ^e contu- 



DE LiTTEBATUSA PoRTUGtTEZA. 35 

Esta edição he raríssima : apenas sabemos que exis- 
tem quatro exemplares conhecidos , dois que descobrio Ros- 
si, hum que fora de Seldeno , e se acha hoje em Oxford, 
eoire os Livrosjáa BibIioth«:a Bodleiana , o qual viooeru- 
to Paulo Jacob Bruns, e o outro que havia na Bibliotheca 
de Crevenna {a). Fazem memoria desta edição Wolfio ( í ) 
Le Loiíg (r) Maittaire ( — ) e seu Continuador Miguel 
Diniz (*) Benjamim KenJcott {d) Masch (f), e os so- 
breditos Bruns {/) , e Rossi (g ) Fr. Francisco Mendes {b) , 

Provérbios com os. Commentarios de Ger- 
son , e de R. Meir. Lisboa em I4|?2. 

Esta edição he também rarissima (O- segundo as 
noticias que temos, havia hum exemplar na famosa Biblio- 
theca de Oppenheimer ( fe ) , e outro na Bibliotheca pú- 
Tom. FIlL E bli- 



ma o douto Bibliothecario da Academia Jiiiia Carolina , Paul» José 
liiun) tm a Nata m Supalemente sobre a DissertaçãB gtr»l a» Teita- 
mtata Velha de Benjamin Kenleatl pag, {{7. }^. Angtia. 

Çí) Calalaguc éí Livrei &c. Tom. I. pag. J [, n. aa). 

CÓ Biblialheca Htbraiea Tom. I. pag. JOI. 

(cí Bibliathtca Soerá. 

C — ) Anaal. Tfptgr. Tom. I. Paft. II. pag. 6)1. 

C) Part. I. pag. ,a8. 

iJ") Nv Eítado da CalUefÚa , t DititrUçí» g«r4l M TtttamtatB Velka, 

Ce) IVo BAlialkee» Sacra. 

Cf) No lugsr acima citarlo. 

Cg) No< lugares já citadoí , e no Sptcim*4 Vararam LiHUnwn 
VH- ia. W- 

Ci) Tjr,iíjr. Eipan. Tom. I. pag. 294- 

(i) Esta edição he dewe aotio , e não de 1497 como escreíírSo al- 
guns Bibliografos , o que advertio o douto Romí no Apparata Hebna- 
Miica pag, jf o Catalogo lía Eiblinthaca de Oppenbciínet , publicado 
em Hamburgo tamljem erra o anno , e o lugar da Impieisão -. dev« 
Umbem corrcgir-se a paisagem da Btbltoth. Sacra de Moicl) , aood* 
se diz . que o Commentario de Heir fora pela primeira vei iinpresio 
em Amsterdam em J7Z4.. 

C^) Delia acteitou W o\fio m Blblieth. Heir. Tom. II. pag. 4°? . 
e vem assigiiaUdi naCetalag» da Sibiiailitta dl Opfttihtuinr , pabUcadm 
tm Hambarga pag, JOi 



:,GoogIc 



j4 Mbmorias 

Wica de Mamua (a) , Fallão desta edição entre outros 
Wolfio (*), Rossi , Paulo José Bruns (f) , Miguel Di* 
Diz (rf), e Fr. Francisco Mendes (f). 

1494 Prúfetas^ Primeiros com o Targum , e Cem- 

PI?mé^ol. mentarios de Kimcbi , e de Rahbi Levi Ben 

(jersofL Leiria an. 154 deChristo 1494. foi. 

He em Hebraico ^ e coutem os Livros de Josué , dos 
Juizes , e dos Reis, com a Paráfrase Chaldaica (f)\ he 
huma das antigas edições de muita estimação , e raridade. 
No Catalogo oa Bibliotheca Real de Pariz se hz menção 
de hum exemplar , que só tem a parte qne comprehende os 
Livros dos Reis (g), Rossi conservava outro exemplar. 
Fallão desta edição Le Long na Biblictheca Sacra ( A ) , 
a obra intitulada Specilegium Veteruni editiortum ,~ e líav 
cband na Historia da Impressão ( i), os quaes só fazem 
memoria, dos Çonimentarios de Gerson , c nao de Kimchi , 
nem do Targum. Também delia fallao Maittaire nos Âa- 
naes Typograficos (fc), Wolfio na Bihliotbeca Hebraica 
( /) , Orlandi nas Origens , e Progressos da Estampa (m) , 

Stru- 



( o ^ Eiimt vin e consultou nt« eneniplar . e drpois o houve a ti o 
nieimo Rotsi , de que elle falia ni Oríg. da T^ptgr. Htbr. pag, {7, 
m Appenéix áú Blbt. Serra Mank , e no l*oin. 1. iai variai Lifíct 
da Ttitemenla Velha Cap, II. n. 191 ■ «no A aparate 4 BiU. Htbr. p, {6. 

C O No lugar acima citado. 

C « ) Nos lugares citados. 

(d) Part. 1. pag. m- 

C/} £<ia edição coinprehende os Profetas Primeiros , e não os Me- 
nores como algiini dmeréo. 

Cf) f*s- 19 

(A) Tom. K p>g. 7). Tom. 11. pag. E17 em que sõ s« M\it do 
Coimnent«iOk 

COP»g. *«■ 

C*) Tom. IV. pag. ijo. pag. no. 
C/) Tom. 1. pag. 30I . e Tom II. pag. 9ítf. 
Ç«)P^. BI4 Erra a citaçSn de Leiria julgando ser Liria , Lugar 
4a Heipinba Tanaconenie noReino^dc VsJenci* ;uuo do Aio Tum. 



DE LlTTEHATURA PoRTUQUEZA. Jf 

Stravio Da Bibtiothecs Seleiía da Historia Litteraria (a) , 
o mesmo Rossi ( i), e Raimundo Diosdado no Ensaio so- 
bre a primeira idade da Typografia Espanhola ( f ) , e 
Fr. Francisco Mendes ( d) . 

Seder Tejilod ^ ou Ordem das preces de fido »49t 

o anno de R. David filbs de José chamado Pwcei. " 

Avudraham, Lisboa foi. an. ijy ( de Cbris- 
to i49y ) . 

He huma obra Litúrgica em Hebraico , em que se 
contém huma completa exposição das preces Judaicas , que 
Rabbi David havia composto em Sevilha', de que falia 
Voifio , e Bartholocio ; foi impressa , e acabada no mez 
de Teveth ( Dezembro , e Janeiro ^ j e em casa de Elie- 
zer , que se diz ser Varão sábio , pio , e temente a Deos , a 
íjuem' se louva nos versos, que vem no fim. Cuidamos ser o 
mesmo que Eliezer Impressor , de que já fizemos menção : 
lie huma edição elegantíssima, e em duas columnas, com 
caraíter Rabbinico Hespanhol ; mas os princípios das Sec- 
ções , Capítulos , e OraçÓes , são formados com letras maiús- 
culas , qijadradas de extrema formosura : consta esta obra 
^e 170 folhas, e achada com dois poemas, hum de do- 
ze versos feito pelo mesmo Author, que nelles attesta ha- 
ver composto aquella obra em Sevilha no anno yiQO da 
Creaçao do Mundo \ outro de auarenta versos , em que se 
dá a -obra por impressa em LisDoa , e se ciiama â Syna- 
goga, que está em meio delia, a fortaleza, e a mat de 
ledas as principaes Synagogas. Esta edição foi desco- 
nhecida dos Judeos modernos , e também dos Christ3os ; 
E ii por- _ 



(a) Tom. )." pag. a*2Í. ediçSo de Sena de \^6\. 

(i) Apfaralo Htbr. Bíbl. pag. 54- Origem ia T^pogr. Heir. pag. 
i4, AppaiJto á fiibl. ftlaich. pag. jo. Spseinttn Yar. trífion. Sacr. 
Tcxt. Ptnlif. Ced. pag. 41. 

CO Pag. 48. 

i^) Typogr. Esp, Tom. I. pag. 09. 



■Dniitizc-ccvCcogle 



^6 Memorias 

porque se havíapro primeira edição a de I5'I4, em quanto 
Rossi nao deu notícias delia {a). 

Isaías , e jeremias em Hebreo com os Com- 
l mentarios de Kimcbi. Lisboa 1497 foi. vol. i. 

He- terceira edição. Fazem memoria delia Le Long 
na Bibliotheca Sacra ( é ) Wolfio na Bibliotheca Hebrai- 
ca (.f), Maittaire nos seus Annaes Typograficos (<í), 
Orlandi nas Origens , e Progressos da Estampa (<?), e 
Rossi na Origem da Typografia Hebraica (/") 

Artigo II. 

Das Edições Hebraicas sem nota de lugar , ou 
duvidosas. 

Sepher Oracb Chaiim , ou Livro do Cami- 
\ nhe da Viâa de R. ^acob Beu Ascer ann. 

145". ^de Christo 1485") foi. 

He huma edição de tanta raridade, e tao desconhe- 
cida, que antes de Rossi nenhum Biblioerafo Judeo, ou 
Christão havia feito memoria delia. O caracter da obra , i 
* excepção dos ritulos de cada huma das Ordenanças , e Ca- 

pi- 



ca) De Orlg. Ti/pogr. Hcbr. Cap. VI. pag. 56. Vimos hum exeni- 
plnr desta obra enite os Livros raros , que alcançou em sua viagem 
de Heipanha ã Portugal o douiissímo vaiSo U. Franciíce Peres BaycT, 
Arcediago de Valença, e Eibliolliecario de Sua IVlagestade Catholí», 
que Bo-lo communicou na sua passagem por Coimbra. 

CA) Tom. I. pag, 7i , e Tom. ]I. pag, figo, 

CO Tom. I. pag. joi . e Tem. II. pag. J99, 

Cíí) Tom. I. Part. II. pag. 6}!.. 

ÇOP-g. an. 

C/} P*g tS. Rossi todavia confessa, que nenhum exemplar tinha 
visto desta edição, Le Long. \rolíio , e Maittaire, que delia faltãoi 
não a descreverão , item nos deixarão maioi noticia , notando apenu 
.0 anno, o lugar, e a fórina. 



:,Cot;)g[c 



DE Li TTER AT O ftA. P O RTUGTJE ZA. 37 

pitulos, que sao em letras maiúsculas quadradas, he Rab- 
binico Hespanhol j ou inflexo. Consta de 98 folhas, e traz 
no fim hum Cármen de 30 versos , em que se louva a obra , 
e se faz deprecação à Deos. Aqui se diz, que foi acabada 
em i^f no mez Ebul. Rossi , que vio e examinou hum 
exemplar desta obra , crê , que a edição foÍ feita em Lis- 
boa pelo caradler , que he inteiramente o mesmo , que o 
do Commentario de Nachman , e do Livro Avuãraham , 
impressos na mesma Cidade poucos annos depois , pelo 
caraíler quadrado, porque começa cada huma aas Secções 
e capítulos , e pelo mesmo papel em que he impressa: o 
juizo de hum homem tão lidado nos estudos' Btbliografos, 
como era Rossi, hé çrédor ao nosso conceito para haver- 
mos esta edição por Portugueza sobre a fé de seu -exa- 
me ( íi ) . 

Se isto assim he , teve Portugal Typografia Hebrai- 
ca, não sópriiiiçiro que Alemanha, França, Castella , Po- 
lónia , Hollanda Inglaterra , Thessalonica , e Constantino- 
pla ; mas ainda que todas as Cidades de Itália , excepto 
Ferrara , Piobe , Pesaro , Socino , e Bolonha {b). ^ 

Pen- 



Co) Ellc 


a di pela. píiitici" obra estampada em Portugal . ou ge- 


talmente em 


toda a Hepanha. Se entendeu fallir de Livros Hebrai- 




e nenhum outro se tem atá agora descoberto anterior ao 


sMnó de 148 


; se das obra! esciilas em oulraí lingoas , Hespar.ba se 


appTCsenta já 


com pioduccóes dç sua Typografia pelin annos de 1470* 


ou de 1474, 


como havemo) rotado no Cap I, e(;uanto a Portugal 


provável he 


que antes de 1485 livessemos Impressão de Livros , e 


que foise liu 


m delles das Obr3s do Infante D. Pedro , de qae tam- 


bem ]i temo 


falladí) , e de que ainda fallareir.os adiante. 



(i) Estas forão as cinco Cidade de Itália aonde primeiro ! 
gitSo Offieinas Typograficas Hebraicas; ai que mais se apresiárSo em 
at imitar foráo Brescia . Rimihi . Fano, Vencia, Cremona . Mantua, 
Sabioneia . Verona , Psdua . Liorne , Nápoles , Riva , Isna , e UriMa . 
e com tudo nenhuma destas Cidades tem app/esentadoaiigora , quaii- 
to nós saibamos , Livto algujn Hebraico de seui ptílos 
ao anno de 1485. Aj ediçõs que sedão como anteriores a esie 
Je exceptuamos as de Feriara, Piobe, Pesaro, e Socino, sái. ^ 
vidas, humas por decisivamente falsai, e suppostaj , con.o as de 
za de 143S , ede 146a , e ai de Ottona de 14^1 . e <le 147^ • 
•uspeiu] de faUidade como as de Solonba de 147 '• 



:, Ckiogie 



3$ Mkmokias 

Pentatbmco Hebraico com a Paráfrase Ckal- 
^"* ãaica de Oa!uios, e Gommentarior ãe ysr- 

e chi foL anil. lyo ( de Cbristo 1 490 ) • 

He sem pontos ; no meio vem o Terto com cara- 
âer quadrado , e de hum e outro la^lo a Paráfrase Chal- 
daica, em terras menores quadradas , e o Commentarlo em 
Hespanhol Raòbinico ; contém o volume 264 folhas. O 
Editor foiSalon^o, €Iho deRabbi Maimon Zaimari. He 
em folha , como nota o Catalogo da Bibliotheca R.eal Pa- 
risiense, e Fabrício, « não em 4.° c»mo escrevem Wol- 
-fÍD, LeLong, e Maíttaire. Nenhum destes lhe assiemu o 
lugar -àz. edição. Fabrício entendeu , que Ibra na Ilha de 
Sora , pertencente a Nápoles , interpretando assim as pa- 
lavras, que vem no terceiro Cármen , no fim da obra. O 
Erudito Kossi duvida , que se deva ler na Ilha de Sor , oa 
Sora, como lê Fabricio: porque elle lê como duas pala- 
vras separadas , o que he huma só: segundo, porque para 
indicar o nome de Sora , deveria o Editor usar de z»*», 
como he costume , e não de alepb : terceiro , porque a 
Sora de Nápoles aio se pôde' propriamente chamar Ilha : 
quarto, porque se escreve diversamente entre os Hebreos, 
como se vê da edição Pisaurense dos Profetas Menores de 
iflió : quinto , porque ainda lendo-se Sora , não ha mais ra- 
zão para se entender a Sora Napolitana , e não a Soria 
de Hespanba. Rossl lé como huma só palavra , Iscar , ou 
Iscor^ que também se pôde ler Líscar , ou Liscor (assim 
como os Hebreos dizem Isbona e Lisboua ) e accrescen- 
ta , que a haver em Hespanha , ou em Portugal algum lu- 
gar deste nome, crera com mais verosimilhança, que nelle 
se havia feito esta edição. 

Em verdade os ornamentos das letras , e 3 forma 
dos caraâeres principalmente ào Commentarío de Jarchi 
persuadem , que a impressão se fez em Castella , ou em 
Portugal, e não em o Reino de Nápoles, ou em outra al- 
guma paite de Itália > aonde se usavão outros oraatos , e 



:,C0t>g[c 



DE LlTTEHATVRA PoBTUQUEZA. 39 

caraíícres diversos; e como emCastelIa senão tem achado 
atéagora Typograéa Hebraica naquelle Século ,. razão ha 
para ter como provável , que a edição se fei em Portugal. 
O douto ,■ e enidiro Arcegiago de Valença D. Francisco 
VzKs fiayer, a quem haviamos consultado sobre este arti- 
go , nos assegurou por sua Carta , que tendo examinado 
em outro tempo o exemplar, que havia deste Pentatheuco 
Ha Bibliotheca Casanarense, achara inteira semdhança en- 
tre os seus caradleres , e ornamentos , e os do Pcntathcu- 
ço Olisiponcnse de-.i79i , e havia indubitavelmeme esta 
obra por huma producção dos prelos de Lisboa (j^). 

Artigo III. 

Das Edições Hebraicas sem nota âe anna , nem 
de lugar. 

■Sihíia Hekraiíã.. bí 

bi 

He Iiuma edição elegantíssima , e muito rara , cm /vtít. y-un . 'C 
folio, com pontos, e accentos : não traz nota de anno,i]eni l 

de lugar , nem de impressor. Consta-ooy somente de qua- 
tro exemplares, e esses não inteiros, hum qae cnsua em 
Ãmsterdam , que vio Hermano Ven de Wal nas mãos de 
hum Jiideo daquella Cidade : outro em Pariz , que Le 
Long encontrou no Museo de Mr. Boisliec , o qual tinha 
sido da Livraria de Dionysio Noli , Jurisconsulto Pàrisí* 
ense , outro rinha ROssi ( ^ )■ , outro Crevenna ( f ) ; fie 
tradição constante dos Judeos , de que nos certífica o mes- 
mo Hermano Vàn de Wal , que esta edição fora obra do» 

pré- 

Ca) Rwssí tÍQha hum exemplar , bavi» outro na BibUotheca Real 
d* Psrii , outra na Casanatnrse ; tinha ham Aiiemanno , Arcebispo 
fàt Apamta , c priinmro Bibliolhatario do V^ncana , f outra Ma^set 
Benjamim Fáa , Lirroiro do Duque de Mod«na. / 

(i) De H<br. T^pagr. Orig. pag, 6a e seguirdes. 

C e > Camlegae dei Livrei de la BiUiinhe^m dt M, Pkrrt Anltint 
Bthngtn Crtvtana Tcin I, pag. 4. n. 11. 

. - -. DniUizeccvGoOglC 



40 Memorias *~ ' 

prelos de Lisboa ; e este testemunho deve (M-evalecer con- 
tra as simplices suspeitas de R,ossi , que a quet impressa 
na Typografia de Socino; as suas razões sem embargo de 
serem de tâo sábio, e profundo critico, a quem geralmen- 
te seguimos em tudo; nao nos podem inteiramente conven- 
cer neste lugar. . 

• ■ Elle se fundou no fragmento de hum exemplar, que 
houve dojudeo Zacharias Pádua, que lhe pareceu impres- 
são de ~£ocino ; mas devia mostrar , que a edição aes;e 
exemplar era a mesma , que a dá Biblia , que vio Hermano 
Van .de Wal nas mãos dojudeo de Amsterdam , que os He- 
breos dão por obra dos prelos Lisbonenses , e isto he o que . 
élle nâo mostrou , aniès parece o contrario j porque primei- 
ramente o Código de Hermano Van de Wal não passa do 
Psalterio , e o de Rossi contém de mais os Provérbios , e 
Job: 2° os Judeos que fallâo desta Biblia , como testemu- 
nhas oculares , dizem que o seu caraiSer he o mesmo que 
o do Commentario Olisiponense de Nachman ; e o que se 
acha no exemplar de Rossi nâo combina com elle j mas 
antes he mais desordenado , e mais antigo , sendo de 
letras Rabbinicas , e inteiramente de mui diversos typos 
como elle mesmo confessa ; nem he verosimil , que sendo 
a edição Olisiponense dos Commentarios tão conhecida dos 
Judeos f se enganassem estes na qualificação de seu cara- 
âer. 

Por tanto ficao sem pezo e elHcacia as objecções , 
que fez Rossi em razão do carader, e da falta de correc- 
to nOB pontos do seu exemplar para. suspeitar , que tal- 
vez seria impressão de Socino, visto que sendo diversas 
edições , como parece , já pôde ser , que numa se fizesse em 
Lisboa, e outra em Socino , quadrando a esta ultima as 
noras, que elle aponta de semelhança com as edições, que 
alli fez Abraham Ben Chaiim de Pisauro em 14SS. 

Quanto mais, que ainda que o exemplar, que Ros- 
si créo impresso em Socino , tivesse semelhança com o de 
Hermano Van de Wal , nem por isso se deveria concluir , ■ 
que elie fora parto da Typografia Socinense j por quanto os 

Ju- 

D.g.tizecbyGoOgle 



D E LiTTER ATBR A PoRTOQUEZA. 41 

Judeos Socinatcs forâo no parecer de Maittaíre os primei- 
ros Typografos, que vierâo a Fcrtugal (d), e podião muir 
to bem imprimir algumas obras emre nós com os mesmos 
typos, e caraíleres , que houvessem trazido de Socino. 

Os Judeos havião esta edição per corrtdissima, e 
affirmavão , que em hum Livro em que se conrinlilo as 
regras, que deviâo seguir os editores nas reímpressííes do 

"^Peiítatheuco, se propunha esta ediçSo por exemplar, e mo- 
dcllo , principalmente para as leiras finaes ; e com efFeito 
estas letras se aciíâo nesta edição assim , e da maneira qu« 
alli se prescreviJío , e allegavão (i ). Fallao delia os so- 

■breditos Hermano Van de Wal , e Rossi (r) . 

Pentatheuco com o Targum , e Commenta- Penutheu- 

rios de Jarchi roL mentajo 

[)or Jaccbi* 
Não traz npta de anuo , nem de lugar.; he huma 
edição esplendida, e elegante 1 tem caraifter quadrado com 
pontos , e accentos , e parece o mesmo que o da edição 
do Pentatheuco de Lisboa de 1489 , posto que já hum pou- 
co mais cançado, e menos nítido; do que tudo nos infor- 
ma o laborioso Rossi por hum exemplar, que vio desta edi- 
Tomi nu. F são. 



(a) Annae» Typogr. Tom. I. pag. (0|. 

05 Jwíg» Rossi, que os Jiideoi se enganitSo neste conceito, por- 
que a edição , para que ns remetiia aquelle Livro , não era ena ; iti« a 
do Pentaiheueo de Lisboa de 1491. Cum tudo, que implicância ha- 
via para que se fizeste depois liuma srfdicção áquelle Livro , 011 le «- 
tampasse outro de novo ,em qtie também se ordenasse o recurso a 
«ia mesma eiliçSo , por ser «lia muito cxafla , e correda? E cora 
efFeito ainda siippondo como suppoem Roísi, ser a sua edição ames- 
ma , que a que os Judeos de Amsterdam julgáo let de Lisboa , iugat 
havia de a propor por modello aot luiptessores , pois que o mesmo 
Rossi attesta ler ella apviradissima , não tendo mais que alguns ie»e» 
deFeitos , e esses principalmente nos pontos , confessando , que na 
correcçío excedia a meima edição de Socino de 1438 tio celebrada 
por sua e^acçáo , e apuramento. 

(r) Otl^. da Tjfífr. Hebratta pag. 6j. 



DniUizecbvGoOgle 



41 Memorias 

^ , qi» eUe muito louva por seus primores Typc^ra& 

cos (d). 
Proterbioi Proverhtas eovt o C^mmentaria de- 

Kdoí?*"' nvmittada Kavettaki &i. menor. 

Esta' edição também- não traz era , nem lugac da im^ 
ptessâo ; mas parece ter sido- feita . em Lisboa peU) cara- 
fter do Texto , que he o mesmo quadrada Olisiponeiise 
do PentãtlieucQ de 1451 , e de Isaías e Jeremias de 1492. 
AcasQ far-se-hia esta edição poraquelles aunoi (í 1, . O ca-- 
ratHer do Texto he quadrado com pontos; o da Prefação, 
e dos Commenrarios he Rabbinico , da inflexão , e fórma 
Hispânica. Consta de 60 folhas , e começa pela Prefação 
do Interprete. Era esta edição mui pouca conhecida , e 
Rossi foi o único, que a descreveu (f). Sabe-se de qua- 
. tro exemplares , dois do mesmo Rossi , hum da Biblíothe- 
ca Casanatense , outro da BrbUotheca. do. Coílegio de Pro- 
paganda, eoutro da Bibliotheca deCrevoína, mal conBei> 
vado (d). 

Estas, saa m únicas obras da Tjfpografia Hebraica , 
de que podemos ter noticia'!' rnubtasi outras sahírão' estani'» 
padas dos préLosjde; Portugal, que por ventura sc' acbaráà 
n^a. Copiosas Bibliorhecaa de Itália , de AIemanba^ , de 
HoIIanda , e de Inglaterra , assim conio nellas se encon- 
tràiio exem pla rea àav que havemos atégera- refefid*^ nen»- 
he de espantar, que só em Pormgal as não achemos depois 
das alterações , e desventura? , porque passarão os-Judeos 
naquelle Século (e). Basta considerar, quão grande quaii'- 



' (V) Veja-íc Sfitrimtú- Var-, LtB.Pmtif. Cii. paj. % , etOfiatuhJm* 
tHíStt ietcinheeiiat pag. 1401 

(_h-^ EsM he- o ^uiro que fei Rosit. 
' (e) 0'piiicalê Jti tdíjíei liitetohteidoí Cap. {. plg- 7- rf» Tf sei» Hf ir, 
Gkp. Til. píg. 7. ApparttB^ Utbrte-Bibliea pag. [A, Ytirm LifSti rf» 
Tntament» Vtth» yo\. K pSg. 11. n, 19). 

^á'^ Catahga* dis hivrei &c- Toiti. I. p>g. {4, d> 319. 
C e ^ O erudito sábio o laborioso Roíii havia àián esperanças 
9 ^' imi Rodiigucs de Castro dcilhe- cvminunicac paiticutaret oeti- 



DE LiTTBRATWtA P-OBTUaOEZA 45 

tídade de Livros Hebraicos não sahiria de Portugal para 
estranhas terras , pelo desterro ., e dispersão dos Judeos , 
que não quizerao mudar de crença , e pela deserção de 
muitos outros , que cá tinháo ficado a titulo de convei-sos; 
como elles erão naquelles tempos os maiores depositários 
da LitteratUra Hebraica , os únicos Artífices , que impri- 
-mít^o Livros deste género ; e íwasí os únicos Senhores , 
que posEuião estas obras , comsigo levií^o a maioi' par- 
le delias para os Reinos estrangeiros , aonde forSo buscar 
asylo , e domicilio. 

Nem os mesmos Judeos , que se deixarão ficar entre 
nós com sombra dcChristâos, j)od»írão conservar-nos exem- 
plares destas Obras , antes crao fârçados a abandonallos , 
e remetellos para fora do Reino em consequência da fatal 
■prohibiçao , que se lhes fez etn i^^y do uso de todos os 
seus Livros Hebraicos 7 sem pelo menos se exceptuarem, 
■como cimipria, os Livros Sagrados do Testamento Velho, 
aos quaes foi culpa, ou estarem escritas na LiRgua Santa, 
em que primeiro haviao sido revelados por Deos , ou se- 
rem impressos por homens de divarsa crença da nossa , ou 
acharem-se commentados , -e illuatraáos- por seus Rab- 
bis (a). Que se alguns restarão occultos em Portugal em 
'ftoder dos Judeoe , foi^o elles envolvidos nos frequentes 
confiscos, que se lhes fizer^o, eou forâo queimados, como 
suspeitosos de erros , e de blasfémias , á maneira do que 
se praticou em Roma , Bolonha , Romania , Ãncona , e 
Avmhão ; ou ficarão entregues á recluso , e esquecimen- 
to em parte , aonde os acabou de consumir , e sepultar p 
Jiorroroso terremoto, e incêndio de Lisboa de ij'^^ {b). 
F ii C A- 

c\ii de muitas nbrai Aos Juden; 'Datuiaei de Hespanha^ para a com- 
fiosiçSn da sua Biblíoiheca Hespanhola , en[r« at quaes ji pôde ter 
que -vKSseni algurtiai impEestaj em Potiugal por aquellú tempo*. IHas 
não sabamos se se vWlficnu a ptomessa , netn se já sahio o j.° Tomo , 
ou Supplrmeiíto di Eibliotlieca deCaitio; aotidc ai devemos esperar. 

(n } Daqui vem , que de^Kiis de 1497 nSo appaíccem mais ediçfiea 
de Livios Hebraicos das Oficinas 3iid»ica» , sendo a ultima de que 
ternos noticia , ^ de Jsaiis , e Jeremias de Lisboa daquelle annn. 

C í ) Esifes foião as friAciptes causas da ftUa ■ ^e-cxpetímcRtamot 



v.OOgIe 



44 Memorias 

CAPITULO V. 

Das EãíÇ0es âe Livros Latinos em Portugal no 

Século Xr. 

PASSEMOS ás EldíçÕes de Livros Latinos , que sahi- 
râo das Officinas de Portugal naquelles tempos : as de 
que temos noticia sao as seguintes , que aqui pomos por 
sua ordem Chronologica ; 

Breviarium Eborense 
Olisipone 1490. 

Foi esta a primeira edição , que se fez do Breviá- 
rio Eborense , a qual se deveu aos cuidados Pastoraes do 
Arcebispo D. João da Costa. Sahio da OíEcina de Nico- 
láo de Sasonia ( <» ) . 

Breviarimn Bracbarense 
anno 1494 i. vol. 4.° 

Foi esta a primeira edição , quç se fez do Brevia- 



hoje desta) obrai 


Nâo A 


wafemos p..rí,n 


de reconhecer 


e confes- 


sar . (juc paQ eli 




eu iijiiíio a me 


na piaflic» doi 


Kebrcos ; 


porqire sendo manima iS; 


Entada entre eli« 


t , lesiiuardac os seus Li- 


VT01 , maiormente 


01 Saítadiis , da* mSo(. dm oue chamaváo 


líolatta» , 


e Gentioi , e liavendo ao 


s CUristSoí com 


ia:s , cfiatum 


vão escru- 


pubsanimte recatu dos r 


oiso! os cKcmpla 


rres das suns obra« ; o qua 


Fazia com que mu 


j poucos 


podeiiem cliega 


r então ás noss 


as maoi. 


Ca) Foidepoi» 


reimpres 


so em nio, i.\ 


ol. 8.", correflo. e emen- 


dado pelo Mestfe 
e Cónego Fern 


JoSn P 


rvo , Arcediago , 


Fianciscn Pedr 


) Chantre, 


ão- Kodt 


Siic! Boto , por 


mart^ado de D 


Affnnso , 


Cardeal Infante , 


Adminis 


rador dn Arceb 


pado, e puhlicado ein Se- 



viiha por João Cmmbcroer Alsmio eni uai , em i. voi. de g.°( 
de nova revisto, e reformado pilo Al. Andté de Resende, e outros» 
por mandado do Senbor Rei D Bentii^ue , então Cardeal Infante , e 
piiineko Arcebispo de Évora , e se reirapiimio em Lisboa ua Offici- 
na de Luiz Rodrigues em ii4li- 1- vot.-g.", e destas edições ha tam- 
fceiQ exemplarei aa Reid £ib!iotheca da C6rie. 



'.vA)Og[c 



DE LlTTÉllATURAPoRTUGUEZA. 45- 

rio Bracarense, p foi trabalhada sobre o Código Mss, em 
pergaminho, que havia no Cartório da Relação de Bra- 
ga , escrito no tempo do Arcebispo D. Fernando da Guer- 
ra pelos ^nnoE de 1440. Foi impressor desta obra o Mes- 
tre João Gherlinc , Alemão (a): no fim vem esta subscri- 
pção. 

Impressus est boc opus breviarii in augíis* 
ta Bracharensi Civitate Htspaniarum pri- 
ntate : per Magistrum Jobanem Gherimc 
«kmanum inpensis petri de barzena. Anno ' 

salutts Cbristiane Mcccclxxxxiv. die xii 
Deccmbris. 

Faz memoria delia D. Thomaz Caetano de Bem , 
Clérigo Regular da Casa da Divina Providencia desta 
Corte, e Chronista do Serenissimo Estado ,. e Casa de 
Bragança , e var^ío muito erudito e snbio , na sua ^9- 
ticia Previa da Colleeçao dos Conditos de Portugal, im- 
pressa em Lisboa em 1757 (i) . Ha hum exemplar des- 
ta tarissima edicáo na Real Bibliotheca da Corte. 

Al- 



(») f<e|unil() at noticiai , qii« alcancjmo!; de^te Codlio ms. h« 

3ua st extraltin a Cnpii , que se acha deite K>evU<io na Bibliotheca 
o Vaiicanti. Ha faiãa paij ctcr , que cace Coili^o fnia tiailadailo de 
outru em fórm» menor , e em peigaminbo de irai» de quinbentoi 
annos de aiiíigui<la>le , qut costumava esui f»culliid<> no [amulo em 
que JB encerrava o Senhor na Sexta feira Santa. 

(í) A foi. T9. Delia fatiava Gregório Majani em hufna Carta ins. 
dirigida a Gerardo Meetman , que tem lioje enlre outros. ms. Fr. Fran- 
cisco Alendei , Auguitiniano dn Convento de S. Fi)ip|>e o Real da 
Aladrid , que delia falta na Typogr. Eípanh. Tom. 1. pag. 419 na 
Addição. Esia edição foi desccnhecida do erudito e laborioso Escri- 
tor D. António Caetann de Sousa , que dá por primeira a de Lislraa 
de 149S pçi Nicolío deSaxonia ( Expedith Hiipun. Part. 111. Assert. 
Liv, IV, pag. 7ifi), e rambem do ílluatre Ttieologo PeFcira , que ot 
sua DiíseftaçSo Critica , que deíxru ms. snbre n antig'i e muiderna 
Calendário Bracarense , faiendn no Cap. IV. a reienlia dos lireviarios 
VncíTttiíet para excluir por elles ■ existência de S. Pedro de Katei, 
Arcebispo de Braga , sem fatiar desta edição de 1494 , nem ainda d;i 
de 1496 de que logo fallarctnos * (]ue muito ihe servirláo pau 



4^ M K M o -» IA » 

M96 Mmanacb perpetuua Celestiuz motuuz at- 

dJzVcMo. STonomi ZactUi. Leirie 149^ i. vol. 4.» 

■ — ■' E«» obra he huma das ma» famosas e mais raras 

-to Século XV ^ e por assim ser daremos aqui ddila ma^ 
larga informação, segundo o que notámos em dois exeat- 

Í liares , que aèllà temos visto. Seu Ãuthor foi o celebre 
udeo Abrahão Zacuto , naiural de Salamanca , domiciliá- 
rio em Portugal , e Astrónomo do Senhor Rei JD. Ma- 
noel , « o mesmo que compoz em Li^a a obra das li- 
nhagetB « íàmilras , mtitidada Sefibtr Jucbasta , que os Ju- 
deos costumâo ter em muita conta (<>). O mnlo inteiro 
desta obra he o seguinte : 

Mmanach perpetuum CeJestium maluum as- 
trmomi Zacuti. cajus Radix cst 1473. 

Charaíbapcs Sigaoram Zodiaci. 



V Aries 1 ^ Ubn 
•tf Tauruí n\^ Scnrpiui 


H Gemini 1 o^ Sagiutius 
69 Câncer | X Capricorniui 


.^ Leo 1 ^ A^jiunui 



No reverso tem a Ded«;atorÍa com « titulo 

Epistola au£íoris ad episcúpum Salmantice. 

Nâo traz declaração do nome : começa desta maneira : 

Magnam esse aãmodum etfuissc semper in edenàis 

. - li- 

KU ajjumpto, por nâo vir netiu aLeada do dúo Sinto ; «imente f«E 
menção das di»s edi;6« mandadas fner peb Arcebispo D. Diogo de 
de S^otrsa em Salamant» na Officína dd ioio de Portei em ifoS, • 
i^^^\ , e da outra do Arcebispo B. Manoel d« .Sousa feita em liriga 
em i{49. 
'-' C») Delis fazem hoarosa metnona -Manoel A^ab na au Konolo- 



DB LiTTEK JlVtrRA -PoStÚQUEZA. ^Jt 

lãris diffic»hat9m michi 'viâeri suiles áuik revolvia majo- 
rum mstrorum exewfloria ae presertim eoram ■■ ex9rãia 
ísnspícia uhè plerimtg temtitatem ingeniorum SMOrmm tn* 
smalant ntn infeâupam videUcet ctpto 9peri. ■ Attn 'ôer9 
aràuitate tanti negotii pene dttcrreri- viãentítr iandent 
st eaque judmis aitronrm ptrtinent omnino âimittant. 
AlUi vero bane calculandi difficultatem valentes suh cla- 
ro modo ommbuy prtfdeíte fuhtiiia brgematr sunt. 
Acaba na segnnda íolha' por esie modct: 
Eas ifaqut' ppimicias openmtwteomm- síeicipeft-Áistteris 
quas ubi pro acumine ingenii tui prol/averts f» paBlicum 
proâire jubeto. 

Vatk pretulam decvs'. 

Não traz data: nesta Dedicatória faz menção dç D. 
Affbnso de Castella , e do Hebreo Abenverga. 

Consta este livro de duas obras , huma menor, e ou- 
tra maior. A menor começa na mesma segtmJa foliia em 
que se acaba a Dedicatória com este titnlo: 

Cânones- tahularum Celâstium motuum astro^ 
nomi rabi abraham Zacuti orâínatíssínte fe- 
lici sidere incipiunt. Canon primus. 

Consta de 13 Cânones, e entre elles de algumas re- 
gras, e acaia: 

Expliciutít Cânones tahularurn sequentium, 
Deo grafias. 

Seguem-se três taboas , que tem por título : 

Tabula tabularam ad ingress4tm earum post 
radicem inserviens. 



£n pag. 19a. Wolfia m BAlaith Htbr. Toin, l^Mj^ n. lãj , 
cob ReiínianQ na Huitría Litttraría de Eitad» G*aales, pag- : 



^, M B M o R T A S 

E com ellas se arremata a obra , que consta de do^ 
ze folhas. Fot ella escrita originalmente em Hebraico por 
seu autlior , e trespassada depois a Latim por seu Discl- 
puto José VízídIio , como Se concige da declaração, que 
lem no fini do Livro (a). 

A esta pequena obra segue-se a maior com este titulo ; 

Almanacb perpetuum cujus Radix est an- 
nus 1473. Compositus ab excellentisstmo 
magistro in astronomia nomine vocatus Za- 
cutus. 

No reverso não tem cousa alguma. Esta obra he to- 
da de Taboas sobre o seu assumpto, assim nos anversos, 
Como nos reversos , as qiiaes começlo logo na segunda fo- 
lha, e principiâo por Março, e Abril desta maneira 

Martius Aprilis 

Tabula ascenãentis et ãuoàecim ãomorum: 

G)mprehendem três folhas , e seis taboas por esta 
fôrma: 

Tabula prima solis cujus radix est anno 1 47 j. 

E contínua até á quarta , e contém quatro folhas , ç 
oito taboas : 

Tabula ãeclinationis planetarum 
et solis ab equiuo£Íiali i.' taboa. 

Ta- 



Cfl) Acaio parente de Diogo Mendes Viiinlio , de alcunha o Coi- 
xo Astrónomo nos tempos do Senhor Rei D. Manoel , nu de Abra- 
báo Viiintio , Astrónomo, que escreveu em Cnstelbano hum Cslenda- 
rio Astronómico para uso dos Judeoi , de que faila l!iicholocio na 
Bihiii.th. Rabia. Tom. IIJ. pag. J. O índice tns. Sevillunn, tefeiindo 
trsta obrai annuncie | que ella era traduzida em Castelhano pot José 
Vizinho , o que foi engano. 



DK LlTTERATVHA PoSTUGUEZA. 

Tahula equationis dierum i taboa. 

Tabula introitus solis in quolibet sigmrum 4. foi. e 8 
ta boas. 

Tahula prima lune cujut radix est 1473 31 foi. e jr 
ta boas. 

Tabula suplimentum annorum Lune i taboa. 

Tabula conjunSíionum et opposionum 8 foi. e 1 6 taboas. 
- Tahula medii motus argumenti lune in 180 annis i. 
taboa. 

Tabula argumenti lune i taboa. 

Tabula veri motas capitis ãraconis in 905 annis 1 fo- 
lhas, e 4 taboas. 

Tabula diversitatis aspeSíus i folha , e a taboas. 

Tabula eclip. Solis Tabula eclip. Lune i taboa. 

Tubula ad verificandum horam aspeSíuum vel conjun- 
Slionis 3 taboas. 

Tabula Latitudinis Lune i folha , e 2. taboas. 

Tabula ascensionum signorum in meridiano 1 taboa. ' 

Tabula prima veri motus saturni cujui radix est 1473 
6 taboas. 

Tabula centri saturni 6 taboas. 
. Tabula argumenti saturni 6 taboas. 

Tabula latitudinis saturni septemtrimalis 4 taboas. 

Seguem-se pela mesma forma , e distribuição as ta- 
boas veri motus centri argumenti et latitudinis de Jú- 
piter , Marte, Vénus, e Mercúrio, que contém 8y folhas, 
tí meia, e 171 taboas, as quaes vão por este raodo:^ 

Tabula tabularnm aã omnes cakulationes proportio' 

num inserviens 3 taboas. 
Tabula stellarum prime et secunde magnitudinis atque 

oBa-úe spere 1 taboas. 
De animodar ptholomei a taboas. 
Tabula eclipsis luminartum et primo de sole- 

E na mesma taboa : 
Tabula de ecHpsibus lune i taboa. 
Tom. VIU. G Ta- 



Dni.tizc-cc.Google 



>fõ Mehoaiaís 

Tabula quantitatis ãterum t taboa. 
Tabula hngitudhis et latitudinh chitatum ah occi- 
ãente babitatoi taboas. 

Segue-se a taboa das Festas desde Janeiro até De- 
zembro , que são 4 taboas. 

Tabula ai scienãum litteram dominicalem et principtum 
cujuslihet mensis cu jus radix est minus 1473 i taboa. 
, Tabula festorum moèilium 2 taboas , que são as ultimas 
de toda a obra. 

Termina toda ella d«sta maneira : 

Expliciunt tabule tabularam âstronomice Rahy abraham 
Zacati astronomi Serenisimi Regis Emanuel Rex portu- 
galie et cet. Cum canonibas traduãis a língua ebrayea in 
latinam per magistrum Joseph Fizinum discipulum ejus 
acaris opera et arte viri súlertis magistri Ortas cura- 
que sua non mediocrt impresione complete existunt fe~ 
licibus astris anno a prima rerum etberearum circuitio~ 
ne 1496 sole existente in 15" gradibus 53 minutis 34 se- 
rundis pisciunt X a ) sub fjeh Leiree. 

Remata com huin sdto , que tem em roda o nome- 
de José Vizinho. 

Consta toda esta obra de \<;6 folhas. Ha hum 
exemplar deara edi^o na Réál BiblioiIieGa da Côite., 
que examinámos para este extraílo. Havia outro na curio- 



C a ) lito he , no mei de F«eteiro , que je denota pela palavra Pií- 
ccs, Cosiumava-se entãi) em iiiiiius nh.as pót data» astroiiomicai , co- 
mo oai Taboaj Astroiioinicas Aa D, Affonso de Castella impresias 
«m uSi , e em upí , e n» obra <fê Cosmografia de Pamponio Me- 
la . impressa em Salamanca em 1498 , o que le praticou ainda, em 
algumai do Século XVI; como por estempb na edição da Arte de 
Estevão Cnalleiro de 1516 aonde se diz no fim SiU i» ttftima €ún- 
tri parte txistente. 



Cflg.tizecbvGoOglc 



DE LiTTERATTrnA PoSTUGUEZA. ^t 

sa Livraria do Doutor Guaitcr Antunes , Cidadáo do Por- 
to, e hum dos maiores Antiquários , que tivemos, o qual 
vimos em tempos passados , e não sabemos aonde hoje 
existe, o qual pelo excraíto, que então fizemos, concor- 
da com este de Lisboa. Ha hum exemplar na Livraria do 
Cclleeio da Graça de Coimbra , que nao podemos vêr; 
mas do extraílo , que delle houvemos feito pela hábil pen- 
na do Senhor Fr. Joaquim de Santo Agostinho , Sócio 
da Academia Real das Sciencias , ficamos entendendo, 
que não combinava em muitas cousas com o de Lisboa , 
e que houve transposição na ordem das folhas na encader- 
nação , que se fez daquelle exemplar , ou que o Editor se sér- 
vio para a impressão de dois diversos orginaes, de que sa- 
hírao exemplares também diversos (a). 

Fazem memoria desta edição Nicoláo António ( í ) , 

\7olfio (c), o Catalogo dos Mes. de Inglaterra (d), o 

G ii In- 



(a) Esta obra tem tiáo denominada com muita diveriidade , cha- 
mandõ-se Almanae ã» S»l — Almanac ftrpetaa áoi Mavimiitlat CeltiUt 
— Tabeat Aitreaemlcús ; e como le lia em hum Catalúfo ml. doi Li- 
vfoi do Escutial — Almaaatk it Tahlat Atínatmittii , a ajant»nunt» 

(i} Bibliotheca Hispânica. 

C c ) Volfio lembra-se deita edição mi Bibltoth. Hebt, Tom. III. 
pag. ãã , ena por£m o lugar ■ parque a supp6e feita em Veneza. 

(rf) Tom. II. n. 014a aonde ie fai menção di hum Ctidijo bm," (-, 
dai Taboai Aitronomicai. Houve depoii huma edição em Venexa em 
249S, por João Miguel Germano Sudofenie : Sihio terceíia vea ím- 
preiso lambem em Veneza em itoodaOfficiua de Lucti António de 
Florença em 1. »ol de 4-" em que »em oa Theoremas de João Mi- 
, ^el Budorente ,^e ai emendas , e correcção do Doutor Lucas Oau- 
rinn ; publicou-ic c&m ente tirulo: 

Almaeach ptrpetaum. 
She Tanihaii (^ Ephenurides tt Diurlum Abraami Zacali ktbrti. Et 
Tiiirtmata aoH Jcanaii Mielvelis Gtrwam baáarmiií tum li. G^nriti 
OiStrii tgregii eaitigatimilrat , tt fltrisqat laitllii naptr adjtSit J fut- 
'«m inJcx eit. 

Ha hum exemplar d;3ta edição na Real Bibliotheca da C6rte. 
Konve qn.iriB edição também em Verieia em Moa por fedro Liedi- 
tenttem de Colónia , com as addiçúet ■ e cotrecçtics de Affoosn 
Mit[iaWiii« dn CoTdpva , Doutor (l'Artc3 , e Medicina « qua a dadicait 



vAiogIe 



ya Mkmouias- 

lodicé Sevilhano (a), Francisco Peres Bayer ( i ) , Ray- 
mundo Diosdado (r), e Fr. Francisco Mendes (<í). 

„. '^?* Missale Bracarense 

_ Mwnit. Olisipone 1496. 

Foi impresso por ordem do mesmo Arcebispo D. Jor-, 

fe.da Costa, Irmão do Cardeal do mesmo nome chamado 
e Ãlpedrina , na Officina de Nicoláo de Saxonia : a sua 
subscnpçâo he da maneira seguinte : 

»» Missale hoc secundum Ritum et consueiu- 
- - >» dinem almse Bracarensis EcclesiEC fideli stu- 

» dio revisum solertique cura castigatum emen- 
)» datumque justo sydere CEt explicitum. Impres- 
j)Sum florenti in Civitate Ulixbonensi anno 
»saliitis Chrístianse 1496 11. Kaiend. Juiii 
»ei Officina Nicolai de Saxonia (e). 

_ ■■*S7. Breviarium secundum ConsuC' 

tudíttem Compostellane Bccle- 
sie. 1497. 8.° 

Diz 



ao notso D. Affonsi> , Bnpo de Évora. E di )/ edição ha hum 
exemplar n» Livraria de S. Francisco da Cidade, e outV.i no Colle- 
gia da Graça de Coimbra. Ai três primeiras furão drscon decida* do 
erudito O. José Rodrigues de Castro , que na sua BiWiotheca Hes> 
panhola Tom. 1. pag. 0] , tà faz memoria da quarta , isto he da 
Veneiiaria de. ifoa , sendo que Nicoláo António a havia já feito da 
primeira, posto que nSo soubesse o tugar cm que le havia publicado. 

<a)Nelte se \l Abrohaa Zseat TnbUí Aunminieai Iradatidas ãl 
CaiUttana ptr Jmeph Vetino , Diicipalo dtl Aator impmm tn Ltlrte f» 
ti Maeitrc Ortat Anm 1496 4° Já acima notamos , que Joié Viiinho tra- 
duzira esta obra do Hebiaico para o Latím , e não pata Castelhano- 

(^b') Nas Addiçâex , e Emendai, que põz no Torno II. da Bihlitth, 
■Vítuf de NícoWo Antnnio pag. t*0- 

(^c") De prima Typígiafk. Hiipanie^ telatt pag, Õ4. 
■ Ç<í) Typogr. Esp. pag. J40. 

(«} Deste Missal se fez depnís huma nova edigão «m Salamanca 
em 1 i02 em 4 " na Officina de Joãn de Porres . por ordem de D. Dio- 
go de Soum: outra. etn iíiS por ordem de D.Jorge d'AlnKtdi * Bi*- 



DB LlTTEBATUBA PORTCGTTEZA. ^^ 

Diz na penúltima folha : 

»» Accípite modo Sacerdotes optimi finem bre- 
») viarii ad ruum et consuetudinem alme com- 
»»postellane Ecclesie: Studio pervigili examí- 
*f natúm i eqneodatimique cura diligecitissífDa., . y^ 
wlmpressum arte mira Magistri Nicolai Sa- '.'/-"'' \ 
3j xonia. yiixbone A nno Salutifere Christi Íò- - ' '' j 
» carnatjonis M.cccc.Xcvu. pridie Kalend. ^, ^ '„ 
ííjunias. Laus Dco. . ; ' 

He em 8." , e de encarnado , e preto. Falia desta 
edição Fr. Francisco Mendes, attestando ter existida hum 
exemplar falto de principio no Gabinete do Mestre Henri- 
que Floíes (a), 

Breviarium Bracarense 

Olisipone 1498. 5 

Esta he a segunda edição do Breviário Bracarense , 
c foi ordenada por mandado do Arcebispo D. Jorge da Cos- 
ta II. do nome: ímprimio-se na Officina deNicoIáo deSa- 
xonia aos 20 de Junho. Desta edição se lembra o nosso 
çni^ito Dr. António Caetano de Sousa na sua obra Ex- 
peditio Hispânica ( í ) . 

■■ ■ ■ Mis- 



po de Coimbra , eleitn Arcebispo de Bragi : nutra em LeSo de Fran- 
ça «m isií foi. em pergaminho, por mandido de D Ealrfiaiar Lirri- 
po, na OtBcina de João de Borgonha, que se intitula í-iúrrira J'£/- 
R«i dt Pírtugcl , do qual ainda hoje usa a T^rcja Biacaiense Ç de que 
ba hum exemplar na Real Bibiioiheca da Cõrt«). 

fo) Typografia Espanhola Tom. I pag. 19S. 

Cf) Tom, I. Patl. 111. Sea. Ul. Aiíert. Li*. IV. §. t. pag. ^áf , 
n. 104. Elle a di pela primeira, lendo realmente a segunda como jí 
dissemos. Esta edição também foi desconhecida do erudito Theolo- 
go Pereira, quando trabalhava na Dissertação Critica Ms. sobre o an- 
tigo , e moderna Calondario Bracarense, como }i nntámo* a respeito 
da primeira. Vimos em tqmpos ^passados hum ejteinpl.ir desta ediçSõ 
na Livraria do Doutor Gualler Antunes , Cidadão do Porto , de quem 
acima falíamos , mas nío fizemos então os apontamentos necessários 
para aqui darmos maior noticia delia. 



:,CoogIe 



{'4 Mbuorias 

»^i Mtssale Bmarenít. 

iMÍ Si- 



«areoio. 



''*■ Olisipone 1498. 



■1 1. 



Segunda ediçSo , lahio da mesma Offiâna de Nico- 
láo de Saxonia , aonde se acabou de estampar aos zo de , 
Junho de 1458. ;>-.'-'< i-.,,, -,^TI^í"T)™:; 

CAPITULO VI. ^''^""' 

Das edifSes de Livros Portugueiaes no Século XFÍ 

FALL&MOs em ultimo lugar das odjçtfes de Livros 
Portuguezes daquelle século, posto que sejáo mui pou- 
cas as de que podemos haver noticia. 



Ãft. 



A eitii duat ediç6es se legiiítSo depois ou trai , a laber-' huraa 
em Salamanca em j;oS na Officina ile Joán dePorrei , por ordem do 
Aríebíipo D.Diogo de Sousa , a injttnciís do ^ynodo Biacafenie des- 
te mesmo anno ; outn na mesma Cidade , e Officina por mandado 
ào mesmo Arcebispo em pergaminho em i{<i ■ outra (por nÍo bas- 
tar a quantidads doi volumes , que se estampáiSo) cm Mil. coma 
escrevârSo D. Rodrigo da Cunha , e D. Jcronyttio Contador d'ATgo- 
te. mal arguidos pelo Tbeologo Pereira na lu^^Disiertaçio acima re- 
ferida, como consta de hum Livro de Memorias antigas de Braga mi. 
buma em Sraga em i{49 por JoSo Alvares , e João Garreira em i.° em 
tetra Gothica , sendo Arcebispo D Manoel de Souia , de que se 
conserva hum exemplar na Livraria do Paço A rchi episcopal , e outro 
na Real Bibliotheca da Corte, edifio de que OsárSo os PP. Bollan- 
distas , e Henrique Florei na Eifanha Sagrada ; huma em Leío eia 
iJSl, correâa , t augmentdda pelo Arcebispo D, Baltbai^r Limpo; 
outra em Braga em j6j4 . e corrigida por ordem do ArcAisp» D. ■ 
Rodrigo da Cunha , em 4,.° ; e outra também " em Biag» em 1724. , 
augmentada , e rerormada pelo Arcebispo D. Rodrigo de Motiia Tel* 
lei 3. vol. 4.° (Real Bibliotheca da Cdrte). 



:, Google 



DE LiTTERATWRA PoRTUOUElA. 5^ 

Artigo I. 

Das edições , que tem certeza de aant , e de lugar. 

Livro de Vita Christi Lisboa 1495' por '«i 

.:V'alcntino: de, Monvia e Niooláo de Sa- viuchtli- 

xonia. 4. Tom. foi. Ms^ ti. 

Demos particular informação destra obra por ser não 
s6 rara , mas huma das mais famoEaz , cfuz produzio a 
T^rpograâa Portagneza naquella idade. Foi este Livro es- 
crito originalmente em Latim pela Mestre Rudolfo de So- 
xonia , rrior do Mosteiro de Argentina , da Ordem da. 
■ Cartuxa , com o titulo de Meditações da Fida de Chris- 
tú , e foi traduzida em Linguagem por Fe Bernardo de 
Alcobaça douto , e pio Moi^ Qsiercieose , Abbade do 
Mosteiro de S. Paulo cm 1445* (a). Elle entrou oesto 
Santo trabalho por mandado do Abbade de Alcobaça D. 
Estevão de Aguiar , e á instancia da Senhora Infanta D. 
Isabel , Duqueza de Coimbra , e Senhora de Montemor. , 
que muito desejata Vér esta oèra trasladada de Latim a Por- 
tuguez, havendo por ella a mesma ajfóçao, que teve Fer- 
nando , e Isabel , para a mandarwii traduzir >m Castelha- 
no por Fr. Ambrósio Montesino. Contém a vida de Christo 
segundo a oRlem da História Evangélica , em que se ex- 
põe, e illustra o Sagrado Texto , com a explicado dou- 
trinal nos lugares ^ que delia neceseitao , tirada dos San- 
tos Doutores ; rematando cada Capitulo com hama devo- 
ta Oração , ou jaculatória. Passados cincoenta annos im- 

pri- 

(a) Do p/opfio original , que se cnnserva no Mosteiro de Alço* 
b»ça , consti que Fr. Bernardo fora o Traduítor , porque tfii no "fim í 
» Aqueste Libro m»ndou trotadar á honri Áa Jhesu Chriítn ao mui in- 
'í digno, e pobre de viicudei Fr. Bernardo Mon«e do Mosteiro de S- 
> Paulo annn de 144Í. o Abbade D. Estevão de Aguiar , que mo inao- 
X dou fazer: le finou no aiino da Senlior 144a, Idiiiii' Edraai-ii tadi» 
S Je SeftMgtiima. 



ytf M E K O 11 IAS 

firimio-se esta traducção em quatro grandes tomos de fb- 
ha. 

O primeiro tomo tem no alto do frontespicio as ar- 
mas Keaesde huma parte , e da outra as da Rainha D. 
Leonor , e por baixo o titulo seguinte : 

A primeira parte do Livro de Fita Céristi. 

No reverso vem huma estampa com a Imagem de 
' Christo Crucificado, e com as da Santa Virgem, e deS. 
João Evangelista , e por baixo huma tarja com varias fi- 
guras de joelhos , e assim vem nos outros tomos. Consta 
esta primeira parte de 6i Capítulos , nos quaes se contém 
a Historia de J e s u Christo , desde a sua geração , e nasci- 
mento atéoanno 31 de sua vida, e tem 186 folhas. Traz 
no principio huma Epistola Proemial , dirigida pelos Impri- 
miaores ao Senhor Rei D.João II, e depois oProemio, oti 
Prologo feito sobre todo o Livro por Ludolfo Carihusiano : 
sègue-se a obra.j que principia por esta rubrica geral: 

Começase o Livro da Fida de JHESU 
Christo mm aqueUe que se chama da mi- 
ninice do Salvador o qual he apocriffo xv 
mas deste que compoz ho venerável meestre 
Ludolfo prior do moesteyro muy honrado de . 
Argetítina da Ordem muy exceÚente da Car- 
■■■tuxa, Foe tirado e ordenado segundo ha 
ordem da estaria evangelical e enten^ao fios 
Sanãos doutores, 

em duas tarjas , humá que 
tém a divisa do Senhor Rei D.João II, que he hum 
Pelicano ferindo o peito para alimentar seus filhos , com a 
letra pola Ley ; e pola grey , e outra com divisa , que 
não sabemos decifrar ao certo. Segue-se a subcripçâo se- 
guinte : 

Aca- 



DB LiTTERATVRA PoUTUQUEIA 



57 



jícaba-se o primeyro liuro inthullaão de vi- 
da de Cbristt em linguagem português notn 
aquelle qse se chama da mininice âv Salva- 
dor ho qual be apogriffo xv di mas este que 
èompòz bo vtnerabie meestre Ludolfo prier 
do moesteyro. muy honrado de argentina da. 
Ordem muy excelknte da Cartuxa e foy ty~ 
rada segundo a ordem da hystoria euangeli- 
cai. O qual mandou treslaãar de Ldtym em 
lingoagem portuguez a tnuyto alta princessa 
infante dona ysabel ãuquessa de Coymbra e 
senhora de monte moor ao muy pobre de vir- 
tudes dom abade do maesieyro ae sam paulo. 
E foi corregido 'e reuisto com muyta diligencia, 
por os reuerendos padres da Ordem de sam 
francisco de emxohregas de observância cha- 
mados menores. Efoi empresso em a muy no- 
bre e sempre leal Cidade de Lisboa a princi- 
pal dos regnos de portugal per os honrra- 
âos meestres e parceyros Nicoldo~-de saxonia 
e Valentyno de moravia por mandado do muy 
yllustrissimo Senhor elRey dom Jabam ho 
segundo e da muy esclarecida Raynba do- 
na Lyanor sua molber. Alouuor e gloria de 
nosso Senhor Jhesu Cbristo nosso JJeos e re- 
ãemptor e da sua intemerada , e sempre 
Virgem madre gloriosa santa Maria em cu- 
jo nome e louuor bo dÍão liuro foe e he com- 
posto , cujo louuor e gloria regne em seus 
. fiees Cbristãos pêra sempre amen. Em o an- 
no do nascimento do diElo Sahador de mil e 
quatrocentos e noventa e cinco, aos 4 <fo mes 
de Agosto. 

Consta de sessenta, e hum Capitules. 

Segue-se o segundo tomo , que tem no alto do rosto 

as mesmas armas que o primeiro , e este titulo : 
Tom. FIIL H • A 



:. Google 



A segunda parte ão Livre de Vtta Cbristu 

Foi impresso no mesmo anno , rrioando sínda o Se- 
nhor Rei D. João 11 , principia dnta maneira : 

Ctmecase o lJur§ ttgund» intitullado de Vi- 
da ae Céristo em Ungoagem fortugaez , em 
<fi« traãa ' bo que fez o Seabor em- ho tric^e- ' 
- simo segundo ann» segando se contém na.bys- 
taria euangelicaL 

fj) 1 t,-^- 1 Consta deji Capítulos, e88 folhas, e termina qua- 

cJi"^ ^- V, si com a mesiB» subscripçao , oue a primeiía prte, da- 
tando a impressão dos 14 dias de Agosto do mesmo an- 
no. Tem depois a taboada das rubricas dos Capírulos , e 
no fim delia as duas tarjas, que o primeira tomo traz an- 
tes da subscripçao : 

S^ue>«e o terceiro tomo desta obra , que se intitula : 

A terceira farte às Liun> dt Vtta Cbristi, 

A qual prind^a por esta Rubrica gorai : 

/í*w se começa » Ihro terreyro intitatioá» 
vraa de Cbrirto segundo a byjtoria enange- 
lieai. 

Consta de 50 Ca^ntutos, e vem no fim do Livro a 
taboa das Rubricas de todos dle». Seguem-se depois as 
duas Tanas de que já fizemos men^ , e depois delias a 
subscrípcao , que he ^uasi a mesma , que a dos dois- pri- 
meiros Livros, e delia consta que foi impressa no mesmo 
anno de 1495 , a j& diaí» de Novembro , rán^ndo já o 
Senhor Rei D. Manoel ; no fim de tudo vem a terja do 
remate , e como se acha na prlmeim , e secunda porte; 
d'epoÍ9 buffla tarja com hum menino nom^, e logo a 
taboada das rubricas dos CãiNCulos. 

Se- 

D.g.tizecbyQoOglc 



DE L ITTEUAftTRÃ PORTUaVEZA. f^ 

Segufr-se o quarto temo, que tem por titulo: 

* A qaartm parte dõ lÀurê Je yits Ciriíti. 

' Cuja rubiica geral h« a BCguínte : 

jíqui se começão os Capitólios àaquesta pos- 
tameyra parte ão Livre rf# f^da de Cbrh- 
to a qual falia da paixem do di£lo nosso 
Senhor e Saluador e das cousas que se de- 
pois ieila seguirem^ 

Tem 39 Opítulos , e traz no fim a taboada dae cuae 
rubricas , seguem^se as duas tarjas , e depois a tubscripção , 
que he quasi a mesma que as outras, e delia se vé , que 
esta quarta parte se acabou de imprimir no mesmo anno 
de 14^5 , a 14 dias de Maio , e por conseguinte ancec 
de se concluir a impressão da terceira ; vem depois a 
tarja , que arremata o Livro á maneira dos outros. Ha 
hum exemplar desta obra na Real Bibiiotheca da Côr- 
te(tf). 

Fazem memoria desta ediç!io Kioúlio António na 

Bikliotòeca Hisp. Fr. Manod do Sepulchro na Refeição 

H ii Es-- 

C") P^g- Í7' Sabemos de quitro exempUrci , tfite cHistem net- 
ta Cidade : o da Rui Bibllotheci da CArtc . que foi da Livraria 
dúi Clérigo* Regularei da Divina Providencia ; o da JiibHnibeca do 
Convento de S. Piaucisco da Cidade,, o do Kml Mtniciro de S. Vi- 
cente de Tora , que tão os que temos visto , e examinada , e o da 
Illusicisiitim « Excedentissimo Seiílim Marquei d'Alorna. F Ara da Cor- 
te sabemoi tão somente de quatro: d da Sibliothcc* do Ezceileniis- 
línao e Reveiendissimo Senhor h\-^pa de Síja , o do Convento das 
Freiras de Arouca . o das de Ijoivâo , • t> da Bibiiotheca do Real 
Wofteiro de Sania Ciui de Coimbra , que sA tem a I.*, J.*, e 4." 
parte desta obra em três volumes. O original da traducçSn existe ne 
Bibliotiiwa rtd AUubsija , e» ftmfjiBiiniiD dividido etn quatro paitei, 
de que bila, Barbosa, e o Índice dos Códigos Ms. daquella Êibliotheca , 
publicado em o anno de 177; pag. 13a , e ia) , o qual he escrito 
parte pein mesmo Fr. Bernardo de Alcobaça , e parte por Fr. Nico- 
la o Vieira, 



DniUizecbvGoOgle 



6o ,7-.. MiEMOBlAS 

Espiritu'al\ l,eitão nas Memories Cbrowlogicat da Uni- 
versidade , Barbosa na Bibliotheca Lusitana , o Author 
das Memorias do Ministério da Púlpito , o Diccianario da 
academia Real das Sctencias de Lisboa no Catalogo dos 
Authores , Raimundo Diosdat De prima Typograpbiae 
JJisp.' aetate , e Fr. Francisco Mendes ( tf ) . 

Estaria do muy nobre J'espasiaao impera- 
dor de romã, 1496. i. vol. 4." 

He em Caraíler meio Gothíco , mas elegante , e 
em papel muito encorpado, e forte. Esta obra foi produc- 
ção dós prélés de LisDoa , e sahío da Ofiiclna de Valen- 
.tino de Moravia. Consta de vinte e nove Opitulos , e nel- 
]e» se tratão vários feitos do Emperador Vespasiano, e de 
eeu filho Tito, e de outros a respeito da Relípíão Chri&- 
tãi do cerco de Jenisalíin. , e da morte de ArcKeláo, ede 
Pilatos ; c traz em- todos os Capítulos estampas allusivas 
a estes feitos. 

No &a\ da obra vem esta Subscripçâo : 

Esta estoria ordenaram ^acoi e ^osep aha- 
ramatia que a todas estas tousas foram 
presentes e jafel per sua maão a escripveo^ 
Donde roguemos a Deos , e aa -virgem Ma- 
ria e a todallos Santos e Santas de Deos que 
a noos guardem de todo mal e de todo pery- 
go e pecado- por tal que mereçamos todos 
seer guardados das nossos imygos visíveis 
e nom visiveis : e do falso testemunbt e hir 
aã gloria cellestial amen. 

E depois conclue com esta legenda : 

Foy emprrmiãa a presente estoria ãe muy m- 
bre 

(a) Typogr. Esp. Tom. i. pag. ays , 898. . . 



DE LlTtEBATURA PoRTUQUEZA. 6t_ 

hteVejpasiam emperaàar de romã emamuy 
twbre t sempre leal Cidade de Lisboa per 
Valentim de moravia a íouuor de Deos e ex- 
alçamento de sua Santa ffe catbolica na era 
de MillccecLxxxTii a xx dies do mes de abril. 

Existe hum eieniplar desta raríssima edição , que he 
udíco , quanto sabemos , na Real Bibliotheca da Cor- 
te, o qual foi da Livraria dos Clérigos Regulares da Di- 
vina Providencia j de huma noia ms. , que vem no fím , 
consta , que elle fora de Paulo Heytor de Sousa , que o 
possuia em Agosto de 1563. Está mutilado porque lhe fal- 
ta o rosto , os primeiros dois Capítulos , e parte do tercei- 
ro. Em nenhum Bibtiografo , nem em outro algum Elscri- 
tor encontramos memoria desta obra. 

A R T I G o- II. 

Das ediçSes , que não tem certeza de anno. 

Bom Regimento muito necessário para eon- ííentò*^' 

servação de suas saúdes e segurança das p, ku. 

pestinencias feito por o 'Sjsuerendissimo Se- 
nhor D. Raminto Bispo Arusiense do Rey- 
no de Dada e tresladada de Latim em 
lingoagem por o Reverendo Fadre Fr. Luiz 
de Raz Mestre em Santa Theohgia da Or- -^ 

dem de S. Francisco. Lisboa por Valentim 
de Moravia i. vol. em 4.° x 

Não traz nota de anno, consta porém que Fr. Luiz 
de Raz fora Provincial da sua Ordem em lyoi , o que 
sento anmincia na obra, donde podemos conjeíhirar, que 
ella se publicou pelo fira do Século XV , tempo em que ve- 
mos ÍSgurar o seu Impressor Valentim de Moravia ( ^ ) • 

Faz 

C) £*u obra de Raminco parece ser a mesma « ou lepclhant^ á ' 

Dni.tizc-cc.Google 



ít MsMOnrAs 

Faz delia brere memoria Fr. Fernaniilo da Soledade na saa 
Historia Seráfica da Província de Portugal Part. IV. Liv. I. 
Cap. I. Barbosa na Biblíotheca Lusitana , e o «nidito , e 

zeloso Author das Memorias do Púlpito (*). 

LUre dl O Jjivro da Imitação àe Cbristo fiffr Tbf- 

de"cteii. «*a de Kemph tresladado em Ptrtuguez. 

*•. Leiria I. vol. em ii. 

Pomos aqui esta obra , posto que nSo pertença pro- 
priamente a este artigo ( pois nos consta , que tem data do 
anno em que foi impressa ) nao podamos porém vér esta 
ediçSo, nem nos souberío informar da certeza de sm an- 
no ; Sabemos só que foi estampada em Leiria , e no Sécu- 
lo XV. 
itiBerarío Itinerário da Conde D. Pedro. Lisboa. 

do Condo 

D. vún. Também pomos neste lugar esia obra , de que não 

podémofi haver maior noticia , que a que nos dá o Excel- 
feniissimo e Reverendissimo Sennor D. Fr. Manoel do Ce- 
náculo > Bispo de Beja , na sua pia , e douta obra dos Cui- 
dador Litterarios , que a faz impressa em Lisboa no Seca- 
lo XV. (4). 

A K T I a o UI. 
Das edições , e^ue nMo tem certeza de anno , nem de lagar. 

copiit do Coplas do Iirfanti D. Pedro. 

Infinte D. . _ 

p«dre. Ji dissemos no Cap. L, que estas obras foráo im- 

pressas poucos annos depois da invenção dá Typografia., 

' e 

qu« M imprimis QiB Cobtiti «n 1494 co;n o titulo ~ Rtgimea têtiittit 
«MMficf **iHvripliâf cum ttitiUii tpheriimii , tt Irtãaiu ^aadent é* ri- 
gifliiat centro Inarbiii» efiátmim 4,", que rcforo J. Hcnr. Leichio D« 
Ori'. tt lacrem. Ti/pígr.' Lipiíflts. in Srfppl. Mniitairiaiia pag. 1 j [. 

C*} Nenhum MetnpIíT p«dt«i«i vtf Ãettí obM, ^ar> darintii ^elh 
nwiot notícií. Falta a Memorii deste Author 1)1 Biblíotheca Francií- 
«uu t impccua em Madrid em 17)1 dn Salmaticente Fr. Joio de SlQ- 
to António , quando era de esjMiar que nío faltasse. 



;, CklOglc 



SE LlTTERATUSA FoRTUaVEZA, 6% 

e havia raaâo para julgar , que o fo^ em Portugal. Existia 

hum -exemplar desta raríssima edição na preciosa Bibliothe- 
ca daConae de Vimieiro , que ae queimou com toda ella no 
incêndio do Terremoto de Lisboa de 175'; , e bavía outio 
na Casa dos Senhores Duques de Laftíes , Marquezes de 
Arronches, que fora da Livraria do Cardeal de Sousa («). 

Fallâo delia o mesmo Conde da Ericeira na coo* 
ta , que deu á Academia Real da Historia Fortugueia na 
conferencia de ij de Agosto de 1714 (^), e José Soares 
da Silva nas Memorias para a Historia ie Portugal na 
Gavern» ão Senhor Rei D. João I. , e entre os estranhos 
}<Áo Henrique Leícluo De Orig. et ínerem. Typog. U- 
fifiens, in sa^l, Maittairiano (^), e Raimundo Dios- 
dido De prima Typografi.e Hispânica atate specimem {d) , 

Das Coplas, ou Oitavas do Infimte sobre o despre- 
zo do mundo fez o Hespanhot António D^urrea huma 
edição com Commentarios dedicada a D. ASbtiso de Ara- 
gão ,, Administrador perpetuo do Arcebispado de C^rago* 
Ça, qiic sahio com este timlo: Copias fechas ay mil ver- 
sos con sus glosas contenientes ãel mems freçiv e con- 
temptQ de las cosas JèrnuJas dei mundo demanstrando ia 
tu vawia beldad. 

He em folio , e em caraâer Gothico , nâo toa ao- 
iK> de impressão ^ mas sendo esta obra dedicada a D. Ã^ 
fonso, ainda então Administrador do Arcebispado de ^a* 
ragoça « e ccMistando , que elle só foi sagrado Arcebispo 
em 1478 fica provável , que se impriíiússe pelo Hwnoa ao 
dito anno (f)i e com eflfeito á margem ao Prologo dd 
-cièmplar, que temos visto , ha huma no(a ms. , que asú- 
naila este mesmo anno ; he certo , que o caraílej a poif- 



■.(6) Tom.'l. LW. i. -Cáç. ^%. pa|- )9( , e }66. 
(.) Píg. I»S. 
C«í) Pag. -98. 

(«> Uíiibert» da Círagoç» no Taid. IV. do TAíoíi-í B*tlt„;t,t 
^ngtatait , dii que elle tomita pot» do A^icpitpKdo em 1479. 



.vCkiogIe 



^4 Memokias 

tuaçao e o mesmo papel assaz indícáo sua muita atitl- 

guidade. 

Quanto ao lugar da impressão -1130 podemos saber , 
em que parte se estampou esta obra. Consta este Livro 
de 114 Oitavas , commentadas a maior parte delias por 
IVurrea. He raríssima esta ediçSo, delia fãlla Nicoláo An- 
tónio na Antiga Bibliotheca Hispânica confessando y que 
nunca a vira {a) ,' 

A Real Bibliotheca da Corte possue hoje hum 
exemplar , que foi da Livraria dos Clérigos Regula- 
res da Divina Providencia , o qual pertencia ao Sábio D. 
José Barbosa , e foi o mesmo que vÍo , e examinou seu Ir- 
mão o douto Abbade de Cever para o eitraílo, que del- 
le fez na Bibliotheca Lusitana , e de que nds nos ser- 
vimos para este. Esta edição parece ser diversa de outra, 
que.vio Fr. Francisco Mendes , Augustiniano do Con- 
vento de-S. Filippe el Real de Madrid, juntamente com 
hum Cancioneiro Espanhol , por quanto diversificáo em al- 
gumas cousas do titulo, e do mais corpo da obra (A) . 

Aqui he lugar próprio de occupar huma duvida , 
que pôde resultar do Prologo desta edição de I^urrea con- 
tra a existência da primeira edição Portugueza das obras 
do Infante , de que temos fallado , e contra as provas, 
que delia trouxemos no Cap. I. destas Memorias' sobre 
a origem , e antiguidade de nossa Typografia ; por quan- 
to neíie se diz : Trabajh eu divulgar la presente obra que 
. quasi stava scondida , la haztendo emprentar: indicando- 
se por este modo de fallar , que antes- se nlo havia feito • 
outra alguma edição daquellas coplas : com tudo não he 
difficil a qualquer soltar a duvida , que daqui nasce , se 
considerar o estado da impressão-, e do co.Timercio dos Li- 
vros 



(4^ EiU he a única edição iw Pneiias du Iiifante , de que fei 
nie:tir)ria i> Abbade de Ccvcr. 

C*) IVp^d''- E'P- Tom. I. pag. 1 1;. aonde diz na nota , que qui- 
ti aão duvida que fora feita em Líibga. 



Dni.tizecbvGoOgle 



DE LiTTEWATUBA PoRTUGUEZA. 6f 

*ros daqueíla idade; porque em tempo , em que a Arte Ty- 
pografica começava de. se estabelecer em Portugal ; em que 
cno poucas as obras , e poucos os exemplares , que delias 
se estamparão , e estreito e curto o giro do seu commer- 
cio exterior ; podia muito bem acontecer , que I^urrea em 
hum paiz distante do nosso ignorasse a edição, que se ti- 
nha feito entre nós, ou por não terem ainda então entra- 
do 03 seus exemplares nos Reinos de Castella , ou por el- 
le os não ter ainda visto. De mais esta edição só he das ' 
Oitavas sobre o desprezo das cousas do mundo, e não de 
todas as outras poesias do Infante, e já pôde ser que des- 
tas, e não daquellas tosse a edição primeira Pormgueza. 

Esta obra do Infante vem no Cancioneiro geral de 
Garcia de Rezende , impresso em Lisboa por Hermâo de 
Campos em lyió , e também se achâo no fim do To- 
mo IV. das Memorias para a Historia de Portugal no 
Goverso do Senhor Rei D. João I. por José Soares da 
Silva. Fr. Francisco Mendes , de quem acima falíamos , 
possue hum tomo em foi. ms. desta obra , escrito no Sé- 
culo XV, papel grosso, e letra clara , e formosa , em que 
se contém 126 Oitavas ( muitas delias com sua glosa, co- 
mo no inijjresso, ainda que com alguma pequena varieda- ' 
de) que fazem ao todo mil e oito versos: a estas Oita- 
vas precede hum Proemio em prosa , que não tem o im- 
gesso , e occupa seis folhas : he dirigido ao Senhor Rei 
. Aifonso V. Depois das Oitavas vem hum discurso de 
despedida , e admoestações Christãas , que ao que parece 
fez o dito Rei á Senhora Infanta D. Joanna , estando para 
casar com ElRei D, Henrique de Castella. 

Estas são as únicas obras do Século XV. de que po- 
demos haver noticia ; por certo que muitas outras se es- 
tamparião em nossps prelos , que nlo he de crer , que seus 
obreiros se limitassem a estas únicas producçôes de sua Ar- 
te, cruzando as mãos inutilmente para ficarem ociosos, e 
sem lucro no meio de suas dispendiosas Officinas. O tem> 
po , e a curiosidade dos nossos as hirá porventura desco- 
brindo; com o que não só se augmentaráá as noticias de 
Tom. VIU. I nos- 



;,CoogIe 



66 Memorias 

nossa Historia Litteraría; mas também se dará maior er* 
tençáo, eluz aos Aonacs, ainda muito diminutos, daTy- 
pografía P<Mttigueza. Se alguém achar est^s nossas noticias 
muito apoucadas , já d*anre mão confessamos esta falta , 
que nem podemos , nem soubemos evitar. 

Diremos t^o somente , que não be maravilha , que 
tâo pouco saibamos de nossas primeiras e mais antigas 
ediç^s , c que tâo poucas appareçao nestes tempos , pois 
que além de outras causas que para isto concorretáo , e 
que forão transcendentes a todas as ediçóes daquelle sécu- 
lo , he de crer , que algumas delias se passirâo para as 
nossas Colónias da Ásia , e da Africa , como sabemos, 
que passáiíío em grande quantidade os exemplares das 
Tradncçóes da Vlaa de Christo de Alcobaça , e da ImU 
tacão de Christo de Thomaz Kempis , para uso dos ín- 
dios convertidos ; por onde derramando-se por tão remo- 
tos Climas e Regioss , facilmente se gastarão , e consu- 
mirão os exemplares. 

Das duas antigas edições do Missal Bracarense de 
1496, e de 1498, se sabe que dentro em sessenta annos, 
se consumirão e gastarão de maneira , que o Arcebispo 
D. Balthasar Limpo vendo multo poucos exemplares , e 
esses tão usados e gastados, entendeu que convinha fazer 
. a nova edição de i^'j% (<>)- De mais alguns dos nossos Li- 
vreiros , ignorando a preciosidade e estimação destas pri- 
meiras edições ; maltratárâo a muitos dos antigos exempla- 
res, que achavâo , formando de seus pergaminhos, e das 
folhas;" que erâo pelo commum de papel encorpado e for- 
te, as capas e guardas dos nossos Livros , que encader- 
narão , de que ainda hoje se achâo vestigitís em encader- 
naçâes dos Século XVT , e XVII as quaes se vem guar^ 



C a ) Efnum iii(«r ta qaiiat iit magli necetiiifln «pfitrlmiui tccurrof 
iw» fvlz , rtytrlmui vtfat ^utàdant vtiumen (^ijnij MhtaU adpttlanty 
torruftain illui ctrU vttMtat* , il li^ua ixlobnnt tr*nt paacã ília qaUtm 
cl iaveUrata tt údea ttgtotium lua-iHut atlrita JtUtnque , 11: plaribai in 
Ittii txthiãara^n jaia pene diBlonam vOligia telum»d» Kmantrait. Pasto- 
ral que vem ao principio da Aliiial. 



DK!,t,:c-ct;,CAH>g[c 



DE LlTTERATWHA PoRTUOVBZA. íSj' 

necidas de pergaminho, e empastadas de folhas de Lítk» 
impressos , que pelo seu caradcr assaz tnostrâo haverem 
sido de huma venerável antiguidade. 

Nâo erã com tudo de esperar, que naquella idade 
se imprimisse grande numero de Livros nossos, maiorme»- 
te em Lingoagem ; porque sabido he, que as edições da- 
quelies tempos em Lingoas vulgares , em todos os paizes 
íorao poucas: a Lingoa Latina era a que então levava os 
oliios de todos apóz si como a única , que caraâerizava 
e distingpia o homem sábio ;' e seus Livros erão conse- 
quentemente os que mais se procuravao ; que por isso rae^ 
mo que davao esperanças de maior consumo , e lucro , 
ocaipavao mais que os outros os trsbalhos das OíBcinas ' 
Typograficas. 

C A P I T U L O VIL 

De algumas edifÕes a que se nao deu lugar nestts 
Memorias, 

RESERVAMOS para este lugar fazer memoria de al- 
guns Livros , os qimes porventura poderia alguém 
haver pqr obras da Typografia Portugueza , não o sendo , 
ou nao havendo razão bastante para as dar como taes: nes- 
ta conta enirâo as seguintes. t 

Pereerina Glossa Botiifaciana a compilãtore Bo- Gioi» B»- r ,. 
ntfacio Lusitano Ulysjpanenst , sive jurts legum con-^^ -\ 

clusionumqiie glossarum àb ipsa Bonifácio 1497. foi. 
He obra do nosso Jurisconsulto Bonifácio Garcez , Lis- 
bonense , Ouvidor da Sereníssima Rainha de Castella D. 
Joanna , Filha do Senhor Rei D. Duarte , casada com 
Henrique IV, de que havia hum exemplar na Livraria do 
Cardeal de Sousa. Foi impressa fora de Portugal , e em 
Castella , aonde esteve seu Author quando acompanhou a- 

?uel]a Princeza , nos tempos em que se foi despozar com 
lenrique IV ; por quanto da subscripçâo , e fim da obra 
se vé , que foi impressa por ordem , e á custa de Lazaro 

I ii de , 



€S Memorias 

de Gazanis , e pelos Impressores Mánardo Vngut , Ale- 
mão , e Estantsláo de Felonia, Sócios, e de nenhum des- 
'tes consta , que estivesse jamais em Portugal («). 
Hiitori» Historia dos trabalhos da sem ventura Isea natu- 

ral da Cidade de Epbeso , e dos Jmores de Clarco , e 
Flerisea , com Real Privilegio, i. vol. em 12. , sem an- 
no, nem lugar da impressão. He em caraíler GothicOj e 
mostra ser edição do Século XV. Tem hum exemplar des- 
ta raríssima obra a escolhida Bibliotheca do Illustríssimo e 
Excellentissimo Luiz Finto de Sousa Coutinho , Ministro , 
e Secretario de Estado dos Negócios do* Reino: parece- 
nos obra da Tipografia Portugueza , porém não podemos 
haver disso maior informação , que nos confirmasse neste 
juizo: assim não ousamos classificalla entre as nossas pro- 
ducçoes Typograficas. 
commen- Âffonsi de Albuquerque Commeataria in Parva 

Affonio Naturalia Aristotelis 1498. foi. Fazem lembrança des- 
^íi'Aibn- ta obra Maittaire nos Annaes Typograficos (í), Thua- 
querque. ^^ ^^^ Bibliotheca (f), e o nosso Barbosa na tiibliothe- 
ca Lusitana {d). Não nos attrevemos a affirmar, que fo- 
ra Portuguez , , bem que o pareça por seu appclHoo , co- 
mo pareceu a Barbosa , em quanto se não mostrar com 
maiores fundamentos a sua naturalidade Portugueza , e 
menos ainda , que Portugal foi o lugar da edição desta 
j obra. 

tvançe- Gonçah Garcia de S. Maria : Evangelhos , e Epis- 

p'iitoialdê'''^'*-'' '^ Atmo, traduzidos emCastelbano {e). Esta obra 
Gonçalo fòi impressa em 1485 a lo de Fevereiro, não em Portu-, 
; d. S.M.. gal^ 



(a} De Raymufldo Díosdado: DePrtrnaTypigraphlaHiiptmU^^nrte 
pag. Ó6, ede-Fr. Fiancisc» Mendes naTfpogr. Hcipaah Tom. 1. pag. 
aio, e 311, consta que fmáo Impresíores em Sevilha, e em Gra- 
na 1a , edelles ha na Real Bibliocheca (ta Coite a obra de Syao.iyiniS 
.de Affonso Palentino, iiiiprejia em Sevilba em 1491. 

(i ) Tom. 1. pag. 6Í0. 

CO Tom. 11. pag, a,. 

C«í) Tom. U. pag- )94 eoi: V^ 

C«3 ^^^ escritas em Casltrlluno > e não em Portuguei. 



DE LlTTERA^ruSA PoBTUGUEZA. 6^ 

gal , mas em Çaragoça por Paulo Hurus de Constância , 
como se vê das noticias , que deu desta obra o erudito 
Académico Francisco Leitão Ferreira em as Noticias Chro- 
nolc^icas da Universidade de Coimbra (a), as quaes se- 
guio o mesmo Barbosa , reformando no tomo quarto , o que 
havia escrito no segundo (h), e das que deu lia poucos 
annos Fr. Francisco Mendes na Typografia Hespanho- 
la CO- 

CAPITULO VIIL 

Do Merecimento Typagrafico àas ediçSes de Portueal 
no Século XK 

SEGUNDO O que observamos em algumas destas edi- 
tes , e o que de outras nos referem os que as virao 
e registarão , em todas ellas se notão as mesmas imper- 
feições e defeitos , que erío transcendentes em quasi to- 
das as que se fízerão naquella idade em diversas partes da 
Europa i porque huma Arte , que acabava de saliir do ber- 
90 , não se podia desembrulhar de todo das mantilhas 
em que nascera \ e crescer e chegar ao cume de sua alteza 
e perfeição em poucos annps; com tudo em suas obras ha 
muitas bondades relativamente áquelle século , em que os 
começos de huma Arte nascente não promettião maiores 
apuramentos e primores ; e certo que se vem nellas al- 
guns donaires , e gentilezas , que ainda hoje não tem en- 
velhecido , por que podem emparelhar com as edições mo- 
dernas mais perfeitas, e acabadas. 

O 



C«) Pag. íio §. 1176. 

C*) Pag. lia. Níí reformamos também aqui o que «crcvemoj de 
paiiageiTi em outii obra, guiado* pelas noticias do a,° Tomo da Ei- 
bHoiheea Lusitana de Barbosa , sem ter consultado ainda entSo nem 
a sua correcção no 4.° Tomo , nem as -MemoEiai de Leitlo. 

(O To™. I. pag, ií:. 



D.q.KlcnGOOglc 



PoTtusuc 



70 Memorias 

O papel pelo coiTimum he muito lízo igual ccn^ 
pulento , e bem batido , o que o faz ser de liuroa forte 
consistência \ cm algumas obras he assaz branctí , como 
na ediqlo da Vida Be Christo , n'outías hum pouco tri- 
gueiro e basso , como na da vida do Emperador Vespa- 
ziano , e no Almanach de Zacutp : a marca nSo he sem- 
pre a mesma em huma obra , como se observa no mesmo 
Almanach , aonde ha diversas marcas , sendo a mais fre- 
quente de huma como torre , ou gurira de que sahe huma 
estrella : algumas obras não tem marca , como se vê entre 
outras na edição da Vida do Emperador Vespaziano. 

A tinta he sempre muito preta e luzidia , e cor- 
re por toda a parte igual e solicfa. Usarão em algumas 
obras de imprimir de encarnado os ritulos e summarios , 
as letras iniciaes das Orações , e outras partes , como se 
vê no Breviário Bracarense de r^2i._„ 

O caratíter no tocante ás edições Latinas , ç Portu- 
guezas , em algumas he rude e informe , a que vulgar- 
■ mente" se chama Gothíco , formado das depravadas letras 
. unciaes dos Romanos, e muito usado em nossa Espanha, 
e semelhante ao que haviâo introduzido os primeiros Im- 
pressores de Strasbourg , de que geralmente usárSo os Fran- 
cezes , e Alemles , de que pôde ser bom exemplo o mes- 
mo Breviário Bracarense ; em outras he meio Gothico , 
ou entre o Romano , e o Gothico , isro he arredondado 
desempedido e rfegante , á maneira do que havião appre- 
sentado os primeiros Discipuíos de Fausto , e de Schoif- 
fer, de que he hum bom exemplo o Almanach de Zacu- 
10 , e ambos estes géneros de carafter tanto reinarão nas 
nossas Officinas , que continuarão ainda muito depois até 
o meio do Século XVI. Em algumas obras he o caradter 
grado , como na edição da Vida de Christo de Aíco- 
baça , em outras miúdo, como se observa no caraíjter da 
Leitura , ou texto de Zacuto , e algumas vezes minutissi- 
mo , como o do algarismo de suas Taboas. Em todas as 
ediçSes que vimos , a forma do carafler he sempre de 
hum mechanismo regular , e a lineaçâo igual , e reda , 



D.q.tizecbvCoOgle 



DE LlTTER ATUB A P O R * U G U E Z A, 7I 

mostrando suas linhas bem assentadas , sem aquellas pe- 
quenas desigualdades , que apparecem em muitas das pri- 
nteiras ediçtíes de fóra. 

Pelo commum todas as iniciaes dos Capítulos, e 
e dos Summarios são letras maiúsculas , algumas vezes 
também o são as de cada Oração , ou período , que faz 
ponto i fóra disto ha poucas maiúsculas , e ainda nos no- 
mes próprios. Algumas vezes faltâo letras capitães , por- 
que em lugar deíías se deixava espaço em tranco para 
serem feitas de peniia , e illuminadas da mesma sorte , 
que se praticava no adorno dos antigos Ms. em pergami- 
nho. 

A escrituração nâo tem divisão de períodos , nem Maneira 
de parágrafos ; tem bastantes abbreviaturas adoptadas dos planeia 
mesmos Mss. o v consoante pelo ccmmum só se usa no 
principio da palavra ,- no jnais quasi sempre se põem ou 
Togal , ou a letra seja vogal , ou consoante j náo se 
Usa de e diphihongo, ou diphthongos unidos; não ha ac~ 
centos sobre as palavras agudas , nem apostofros. 

Toda a pontuação se reduz ao ponto iinal , ou a Paotua- 
dois pontos , não se achando nem virgulas , nem pontoa ''^*' 
de admiração , ou interrogação , e o ponto não he redon- 
do na forma , que aítualmente usamOs , mas quadrado 
obliquo ou 3 maneira de hiim rombo , ou de cruz: com 
elle se arremata o fecho de qualquer sentido da oração. 
Sobre o / não se pSe o nosso ponto , mas a pequena ce- 
dilhaj' e as hasteas com que no fim da r^ra se denota 
muitas vezes nao estar acabada a palavra , são duas U- 
niias , ou riscos paralellos de alto abaixo inclinados : não 
lia reclamos da ultima palavra, que denote a seguinte: as 
folhas nao estão assignadas com números , nem Jia em 
bailo o registro tão necessário para se reconhecer a inte- 
gridade do Livro ; o que tudo he ordinário' nas edições 
daquelle século. 

Quanto ás ediçíSes Hebraicas , o caraíler Rabbinico , Carsíter 
hunias vezes he inflero á maneira do que UEavão osjudeos"?' ^^^ 
Orientacs j <H)tras vezes quadrado com pontos, e accenros, bMU»s.*' 

e 

. . " r;:,;...COOgIe. 



y^ Memorias 

e ora maior , ora menor , como se acha na obra Sefer Orach 
Cbaiim. Alineaçao he igual e direita , conservando sem- 
pre muita regularidade , e formosura , e mostrando serem 
obras trabalhadas em matrizes muito perfeitas. Quasi to- 
dos os Livros Hebraicos slo estampados em duas colum- 
nas, da maneira, que se vê no Livro Seder Tefilod, ou 
ordem, das Preces: as letras capitães das Secções, Capí- 
tulos , e Oraçdes sSo maiúsculas , e quadradas , como se 
observa entre outros no mesmo Livro ò'eãer Tefilod. 
Correc^ío. No tocante á correcção , as impressões dos Livros 

Latinos, e Portuguezes nlo tem muito apuramento e exac- 
çâo ; nesta parte passâo por óptimas , e dignas de todos 
os elogios as eáiçoes Hebraicas , em cuja correcção se en- 
tendeu sempre com muito cuidado e vigilância ; dá boa 
prova disto entre outras obras a do Pentatheuco Olisipo- 
nense de 1491 , que tanto os Judeos a houverão por cor- 
reílissima , que mandavâo , que seus impressores a etla 
recorressem nas novas ediçSes , que houvessem de fazer, 
e ainda hoje lhe dlo a primeira entre as antigas , como 
a dão entre as modernas ás duas Lombroziana , e Nor- 
ziana de Amsterdam. 

C A P I T U L O IX. 

Do ornato das ediçSes do Século X^l em Portugal. 

Bitimp». Tr\iGAMos alguma cousa do ornato da Chalcografia , 
TiadeGr». |^ qyg naquelles tempos se unio á Arte Typografica pa- 
ra mais aflformosear os Livros ; os nossos Impressores á 
imitação dos estranhos usarão em algumas edições de pôr 
enfeiteecto j 
AntóHio'LuÍz, que nas Aulas explicava Aristotetes,6 Ga- 
leno pefo texto Gi'ego : e traduzia a este ultimo , e os 
commentarios de S. CyrlWo à Isaías ; e Cypriano Soare*, 
Diogo Fernandes , FVancisco Martins , Cosrtte de Maga- 
lhães » e. Luiz; da Crua , SábitJs Jezuitas , e Mestresdo (^ 
legio das Artes de Coimbra , q^e coraponhSo aa Grego 
Tarias obras de muito preço, ^a ) 

■ ■ • ■ '• - O* 

(a) Este) Pad(«s etit> mtii lobedotM da Liagiu Orega ■ de que 
aindi noi ficarão illustres dociimentai nai suMcompoiiçâet t^ue exit- 
t«in «m hum piedoso Código MS. que b« Di Reil £ibliotbeca de 



BK LlTTEDATimA FoRTVGUEZA. 79 

Os dois h)rtuguezes Pedro Henriques , e Gonçalo Ál- 
vares , quo em í^zi viei^o de Paris psra ensinar o Gre* 
go, e Vicente Fabrício, Jorge Buchanam, e depois delle 
e Flamei^o Clenardo, Mestre desta Lingua,forao dos que 
mais a propagarão nas Escolas de Coimbra ;ianto progresso 
se havia feito nestes estudos , que já quando Qenardo alí 
chegou se espantou do seu adiantamento , parecendo-lha 
aquelU Cidade outra Âtheoa« : ( «z ) o que tudo concorria 
para ^e algijns prelos se provessem de caiaaeres Gre* 
gos, e se iiusem animando pouco a pouco os estabeleci- 
mento» da Typogralia Grega. 

Não nos consta em que anno se introduzio entre nós ; 
sabemos porém, que Já em 25:34 se achava com assento^ 
e domicilio no R,eal Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra ^ 
fodo luzida Escola de Litteratura Portugueza } C^) e foi 
eata a primeira de caracteres Gregos quanto parece , qae 
le euabeleceo em Portugal. Contribuio muito para ella o 
doutissimo Vicente Fabrício , que ali prímeiro ensinc»i o 
Gr^o i brilhante luzeiro , que espalhava luz por toda 4 
parte , e acçendia amor a taes estudos. 

Em verdade tao adiantada a achou Clenardo que es? 
crevia , e aconselhava a seu amigo Vaséo, que se queria 
ter provimento de Livros Gregos , se houvesse com Vi* 
cçnte Fabrício ; que daquella O^çína lhos podería mas* 
dar commodaiBence 1 e ctnn Isso se animariao os Conegcw 
Kegulares a imprigúr neíla omitas qíxís (f), De^ta Of- 



UAof , em que le contém diveriai obras Latinas em prosa , a versa 
d* txcellcnte goite ; alli vem cm Gtcgo entre outUH «icritoi ■ £pi- 
lagot do fjuti* Cypri4ti0 $Qap«s ; EpigrAmina* ^os Pf^Hs Diog(k 
Fernando , FiiRciícn lUartúi , e Coitps d« l&fg^Mts , « foeiui» 
L^ricai do Padre Luiz da Cruz. 

(«) Clenardo na Epistola 4ié CkriítuiMz lib. 11. pag. *(»■ J^'« 
jaiitium ftrrt peiíum rují Jt auditaria Gnet» , ^aoi me mvP tníratuh 
reáiUlt attúnitim. 

(t) Ei( Ctmm'<ri^ apaé Laiitoiuí jam fr/elum , mu ttium Loti- 
MWM , it4 tti^m Gretaram Litltr»iiim. . . , ii nim ( JH*««cJbi.} tt 
**h*lmt,tt ft^luat iftliluaiualA Ej^ui. Ulv ti.% a Vanio pag. ha, ■ 

C*) Viit num Ctniiliuia all^mú rtptrht ptiiii ní ioét mnf» t?1«» 



vklOt^lc 



f; 



8o - M S M o ft t A S 

ficina sahio entt-e outras em 15*34 a edição dé Boe- 
cio de Divisíofiibus et Definittortibus : em 4.'» em que 
já vem algims lugares de caracteres Gregos perfeitamente 
trabalhados , que mostrâo bem , quanto floreciSo aquelles 
prelos. 

A outra OfEclna que tratou as letras Gregas, foi a da 
Universidade, transferida de Lisboa para Coirabra : pre- 
sidia nella João Barreira , grande nome entre os nossos Im- 
pressores daquella idade : foi ella logo em seu comejo pro- 
vida de caractere» Gregos , de que já fez prova em I5'49 
na edição, que deo do índice das Chiliadas de Erasmo, 
por Vasco , Mestre de Latim , e na Oração , que imprimio 
de Pedro Fernandes In ãoctrinarum Scientiarum que com- 
mendatioHem em ijyo , que traz muitas passagens Gregas. 
Continuavão ainda os t]rpo9 Gregos desta Oificina 
lor 15*83 no tempo de António de Mariz , outro insigne 
impressor daquelle Século ; e delia sahio entre outras obras 
a pequena Colleçáode algumas peças Gregas para uso das 
Escolas Jesuíticas de Coimbra com o titulo = Aliquot o- 
fuscula Gr^ca ex variií Auctoribus discerpta zz Nesta 
Collecçao vem no Teito original a Oração da paz, a O- 
ração á Epistola de Fillipe , e a outra da Prefectura Na- 
Tal de Demosthenes: o Idyllio IV. de Theocrito , intitu- 
lado Battòí e Corydon , menos os últimos seis versos , e 
O VIII. de Daphnis j eMèulcos; as Exéquias de Bion de 
Moscho ; a obra moral de Pytbagoras ,*ou de seus Discípulos , 
chamada Versos de ouro ; os Hymnos de Homero a Vé- 
nus , a Diana , a Palias , á Madre Terra , e ao Sol : os 
Diálogos Marítimos do Cyclope, e Nepmno , os de Me- 
neláo , e Protheo , o de Panopes , e Galeaes , o de Nep- 
tuno , e Delphim ; de íris , e Neptuno, e do Xantho , e 
Mar de Luciano: vários Epigrammas Gregos dos Antigos, 



*»'am VArtrum nwatram jaitam ttnsequarit , ti qrui fteiU fiet ■ lí eum 
Vincentio Pabricit per tpuittaí éliqmd etiitakrii ■ lai UHt Gctui áa- 
*tt. Epiítol. lupra, ..;:•. 



D.g.tizecbyGoOgIe 



DE LiTTE-B ATWB A PoUTU aUEZi; 8t 

escolhidos dentre os mais elegantes , os quaes vem no Texto 
Grego, e com a Tradução Latina de Ãlciato, Feliciano, 
Ausonio , Moro , Geraldo Lilio , Luscino , Ursino , Joio 
Sleidano , Mamlo , Volatcrrano , e outros ; e as Fabula? 
de Esopo em Grego , e com traducçao Latina 8." ( ha 
hum exemplar na Real Bibliotheca de Lisboa e temos Dutro)u 

Desta mesma OiKcina se publicou por Ãmonip dp 
Maris a Obra Grammatical intitulada = Craca Nomir 
num ac Verborum Infiectiones' in usum Tyronum Coaim- 
brica. Coflimbricíe ij'94. i. vol. 8.°, de que também ha 
hutn exemplar na Real Bibliotheca de Lisboa. 

A terceira OiEciaa de Coimbra. , aonde se tratavâo 
as Letras Gregas , foi a do Collcgio dos Jesuítas. Estes 
Padres havendo recorrido a principio á Typografia 4-^3" 
demica para imprimir a pequena . Collecçâo de Peças Gre- 
gas , de que acima falíamos , e outrxjs Livros mais \ jul- 
gado conveniente collocar no Còllegio das Artes huma 
OfHcina própria , em que podeçsem estampar qom- ^aior 
commodidade as suas obras. O' Magistério que elles enião 
exercitavão da. Língua Grega ,.nas Aulas das Hu/nanida- 
des , fazia necessário o uso deste género de Typografia ; 
e 03 Padres Cypriano Soares, Diogo Fernandes , Francisco 
Martins ^Luiz da Cruz , Cosme de Magalhães , e outros 
mais de que também acima falíamos, que naquelle Collegio 
se déráo com grande esmero aos estudos da Lingua Grega ; 
contribuirão muito para fomentar naquelles tempos os pro- 
gressos desta Officina. Ça) 

Em Lisboa houve também prelos de caracteres Gre- 
gos : com elles se distinguia muito a Officina de Simão 
Lopes , em que além de outras , se estamparâo em i^^^ as 
Instituições da Língua Grega de Clenardo em 12.° (Real 
Bibliotheca de" Lisboa. ) Ainda no Século XVL subsistia 
Tom. VIIL L em- 



(a) Delia sahitio deputi entre outras as edtç6e> da Grammattci 
Grega de Micoláo Clenardo para uio das lUas Escolas ; quaet fot^o 
11 (te lúoS, e no Século passado as de^i7ia, e de 1739 (de qua 
lu çiempUres na Kcal Bibliottieca de Litboa}. 



izecbyGoOglC 



K£ M em o r I a s 

tm Lisboa a Typografia Grega , que conservava Fedro 
Oaasbeck , Impressor muí conhecido entre nós ; na qual 
se reimprimirão as mesmas lostituiçJSes da Língua Grega 
de Genardoi 

Com tudo devemos confessar , que sem embargp dca 
cuidados que houve naquelles tempos , de firmar , e pro- 
mover a Typografia Grega j esta plantação nâo medrou 
muito etitre nós , vindo por fím a esmorecer , e quasí a 
acabar de todo nos fins daquelle Século com grande de- 
trimento dos estudos da Naçãa 

CAPITULOU. 

- Das Cidades ^ Fií/as, e Lagares de Portugal, e de 
suas Cohnias , em ípte houve Typografia Uo Se- 
culo XFl. por ordem a^aèettca^ 

PASSEMOS a fazer por ordem alfabética particular 
memoria dos Lugares do Reino, e das Colónias , a- 
onde houve Typografias , ou fixas , ou volantes ^ no Século 
XVI , acfontando ae cada hum deiles por ordem Chrono- 
lógica ião somente as ediçdes que, ou sSo mais raras , ou 
de maior merecimento , e estimação principalmente de livros 
PortBguezes ; porque nâo bos propômíw fazer annáes de todas 
as que se publicarão , por nem ser de oostó assumpto. 
Bem termos todas as noticias cc^petêiues para isso. 

Jílcobaça^ 

Em Alcobaça houve por algum tempo huma Oflícii» 
Typpgraííca , a qual teve seu assento fto Real Mosteiro 
dos Giftercieaces. Neila sé estampou a Primeira parte da 
Menarchia Lusitana , por Alexandre de Sequeira, e Jn- 
tonia Alvares em 15^97. &I. ediçáo muiio estimada; e no 
mesmo anito a Geografia da Antiga Lusitânia^ por An- 
tonio Alvares, feL . 



BE LlTTERAT tTK A FoRTVatJEZX Sf' 

ÂJmetrm. 

Almeirim foi outra Vitla , que se honrou por algum 
tempo com hum prelo portátil , que alli levou Herman, 
eu Germáo de Campos ; delle sahio em \^i6 a Edição 
da Regra , Estatutos y e Defini f Ses da Ordem de Avia^ 
I. vol. foi. ( Bibliotheca Hasseana ) e nelle se .começou 
a imprimir o Cancioneiro de úarcia de Rezende , que de- 
pois se acabou de estampar em Lisboa em I$'I5'. i. voL 
fbl. pelo mesmo Germao de Campos. ( R.eal Biblioteca àt 
Lisboa , e a da Real Casa de Nossa Senhora das Neces- 
sidades , e a Hasseana ) . 

Em 1580 Houve outro prelo portátil em Almeirim > em 
que se imprimio a Allegaçãodí Direito n^ Causa dasttc- 
cessao destes Reinos por parte da Senhora t). Catèarina, 
por Félix Teixeira ^e Aff^onso de Lucena. i.yoL foi. He o- 
fcra de muita estimação ( keal Bibliotheca de Lisboa , e 
Hasseana e a nossa ) . Não sabemos se esta obra he diãèrente 
da outra que não podemos ainda achar, que com o mesmo 
titulo i e com a mesma nota da era , do lugar , e dos Injipres- 
«ores se diz fora composta pelos Doutores António Vaz Ca- 
baço , Lente de Leys , e Luiz Corrêa , Lente do Decreta* 

Amacusa. 

Veja-se verb. Japão. 

Braga. 

No Século XVL continuou na Cidade de Braga o 
exercicio da Arte Typografia , que nella havia entrado no 
Século XV i como dissemos em seu lugar : os principaes 
Impressores , qne ali a exercitarão , forâo Joáo Barreira , 
Jcrao Alvares, António de Mariz,e João Beltrão: dos pre- 
los Bracarenses sahirao entre outras as seguintes obras , qijp 
bem merecem , que aqui se faça delias especial memoria , a sa- 
ber : em i^^Z Nkolai Clenardi Instttutiones Gramynatica 
L ii La- 



;.CoogIe 



84 Memorias 

Latina sumptibus Gulielmià Trajecto i. vol. 8." gothlco 
(Real Bibliotheca de Lisboa ) = I5'39 O Sacramental 
de Clemente Sanches de Vercial , traduzido de Castelhano 
em Portuguez y por ordem àò Senhor Cardeal Rey , então 
Infante, e Arcebispo de Braga, de que falia D. Nicoljo 
António, D. Rodrigo da Cunha, e António de Souza de 
Macedo ; de que havia hum exemplar na Livraria de I- 

fnacio' de Carvalho e Souza , Académico da Academia 
.eal da Historia Portugueza ~ i5'4;?- Breviário Braca- 
rense, reformado por oraem do Arcebispo D. Manoel de 
Souza, na OíEcina de João Alvares , e de João Barreira; 
cmgothico. =r ifói Grammatica Latina de Despauterio; 
e Cartilha de Marcos Jorge, que foi a primeira obra es- 
campada da composição dos Jesiiitas "neste Reino , como 
escreve TelIesÇtf) r= 1562 Manual c'énfòrme a Ordem 
^à Igreja' .Éracàrense , por mandado do Arcebispo D. 
Bartholomeo dos .MartyrK , n.i Officina de António de 
TMariz = I5'^4j Catecismo , ou Doutrina ChristSa , de 
D. Fr. Bartholomeo dos Manyres, na mesma Officina. 
=■ 15:65" Summa Caetana tresladaãã em Portugsez de 
Fr. Diogo do Rosário por Mdriz S.» = lyé? Carti- 
lha que ensina a lêr \ em que vem o Symbolo ^ e 
D modo de ajudar á Missa em Latim , e algumas O- 
raçtíes em Poriuguez , em proza , e verso , com huma 
Eoífà de cantiga , para fixar a memoria , e curiosidade- 
dos meninos , com dois Alfabetos , hum figurado ,■ outro 
de Letras. (í) 

;_ c^ 

(fl5 Tom. 1, l,iv. IV.Cap. ja, 

íft) Coniiiiiiífáo as Tjpografias Bracarenses no Secnio seguinte 
debaixo da ditecçã» de Fructuoso Lourenço de Basto , e de leu Ir- 
mlo Francisco Fernindes de Euto, de Gonçalo de Batto , e de Ma- 
noel Cardoso; do primeiro, he a edição da Obra Aniiguidadei dl la 
Ciudai j Igleiia CelhtJral de Tai/ , y de t»s Oíiipus , por Sandoval 
1610. I. vol. 4''(Bib!icnKeca Hasteaiii ) Diclionarlim Lmilanicc La- 
tinam de Agostinho Barbosa 1611 fiil. Brívinriuni Braeareosi do Af- 
-cebispa D Rodrigo da Cunha ein ió)4 Miíselc Bracarinie , ivapitita 
por mandado do Arbebispu D. Balthezar Limpo ; e de Gonçalo de 
íaito , he o Tom, I. dos Sermfits du P. M. Francisco de AmiraL, 
foi. em 1641. 

D.g.tizecbyGoOglC 



DE LíTTESATURA PoRTtTGUEZA. gj* 

Coimbra» 

Teado sido Coimbra huma das príncipaes Cdade? 
do Reino , rodavla não Ío\ das que se honrarão com o re- 
cebimento da Typografía no Século XV. Nâo tardou po- 
rém de a chamar a si, desde que os estudos come^râo 
de espçrtar entre nós no Século XVI. O Real Mosteiro de 
Santa Cruz, aonde a principio se achava depositada quasi 
toda a Littcrattira de Coimbra , foi o que hospedou os 

Èrimeiros prelos , que nella se erigirão: pelo que diz Fr. 
raz de Barros na Dedicatória do Espelho de PrefeiçSo, 
de que logo fallaremos , e.pela subscripção que vem no 
fim do Livro, em que se itotSi^ que a imprimirão par suas 
mãos \ parece que os Impressores erâo Contos do mesmo 
Mosteiro. 

 Universidade trespassando para Coimbra as suas 
E^scolas de Lisboa , fundou outra Omcinade grande nome, 
que apostou primores com as mais famosas do Reino foi 
assentada nos Paços d'KlReÍ; e para ella ajustou o P. Fr. 
Diogo de Murcia , Reitor da Universidade , os dow 
grandes Impressores João Barreira , e João Alvares , por 
contracto , e obrigação que com elles fez ^pircommissão 
Real , confirmada por Provisão de ii deMar^deij:48(<7). 

Estes dois homens , e António de Manz , nomes me- 
moráveis nos Fastos Typograficos de Portugal , que mere» 
cêi^o sempre as attençoes de todos os Sábios da Nação , 
.petas muitas, e boas edições que nos deixarão ; fodo dos 
.principaes que levarao a Typografia de Coimbra ao mais 
.alto ponto, a que ella chegou entre nós naquella idade; Po- 
remos aqui por sua ordem algumas das Edições dos Pré- 



Cí) Áf l,ettM.e mattiies deiu Officina tinliSo lido «ilviad»* i 
Diogo de Teiv« , que quando depois entregou o Collegio dat Ateci 
ao» Jetuitas, as commetteo como lhe foi mandado ■ FeroSo Lofea 
de Castanheda , Guarda do Cartório da UniTcríidíde , pita as tef ■ 
bom recado. Deducc. Chronol. P. I. §. (í. pag. +. P" i(49 «hí- 
ino) noticia, d« tuim Coinctoi com o oidenado.de doie inil icis< 



:,Goog[e 



S£ MBHÕKIAf 

los Conmbricenses , ou mais raras , ou de maior apreço j 
que temos visto , ou de qde podemos ter noticia. 

lyij Reportório dos tempOT por Joáo Barreira. 4." 

i$i.Q Chrofifca do Emperaádr Cltrtmunàa , donde os 
jReis de Portugal descendem , de Joio de Barrbs , por João 
Barreira, foi. 

lyji Livro da Regrave Prefeifã» âã Cofrversaç^ 

iús Monges j escrito em Latim por S. Louíençb JuMinia^ 

no, e traddzido em Linguoagem pela Senhora D. Cathe- 

rina , Irmí do Senhor ELei D. Àffbnso V. no Mosteiro d« 

-Santa Gruz por Gérmâo Galharde i. vol. fi^. edição rara. 

i5'3í Lexicon Gr/eeum Hehraicum de H«lÍodorô de 
Paiva ria Mosteiro de S. Cruz. 

íyjj Espelho dè Prefiifío, ahr» traduzida do La- 
tim èth PorfDi^ez , que Fr. Braz de Barros , da ÒMèm de 
S. Jeronymo , dedicou ao Senhor Rei D. João III. em letra 
ftrèíá gothica , clara , e bella ; a C[ual tem no fim ~ Impri- 
niia-íe por os Cónegos de Santa Grusi : em o aHrio da en- 
carnação de Nosso Senbgr Jesu Christo 15-33 '""'^ sexta 
êa refortfiaçSo do dito moesteirv. 4.° ft»6uia hum eiémtdar 
fleitía rara obra D. Jozé Barboza , Chrònista da Serenissi- 
iíía Caza de Bragança , que vio Francisco Leitão (í/)(Bi- 
Miotheca HHtteana). 

íyjy ^ie deGramrHatica Latina Út D. Máximo de 
Souza , Cónego Regrante de Saiita Cruz de Coimbra , na 
Gfficiria do mesmo BÍbàtèiro (Real Biblioithecd de LIs- 
fcoa). \ 

1^:36 Amitmoria et Ept^rammata Ae Ayres Bar- 
toza ■=■ Seteai fsimi et Illustrtssifni Principis D:\Alf9n- 
'ii S. R. E. Carãinalts , ac Pcrtugallia Iifãutis conse- 
crath per 'Georgittm Coeliitm Lasitatiam : ambas estas 
otífas apud Ccenobium Divie Crucis : em hum vol. de 
$." raro' tte que t e mos bum esempíw ( Bibtíetheea - da Re al 
Casa de Nossa Senhora das Neoassidades. ) z= Boeci» De 
Dívisionibus , et Definitioniòas , também raro = Divi 

Hie- 

Ca^ Meinorhs CbtoâologrçH 4* Unlvoriidado. f*S"í^í' 



SB LiTTBRATIfllA POÍTUGUEZA. tf 

fwtymi ai selectissimarum , tta Divitiitaíis plettissima- 
rvm ephtolerum volumea in eommuttem studiosorum »/JÍ- 
litatem nuperrime editum. 

15* 41 Meditação da Paixão ydeFr, António de For- 
tslegre , obra rara. 

I5'4Z Martini Ab Aspilcueta Navarri Júris censults 
in três de poenitentia distinctienes posteriores Comme»r 
tarii : ex Officina Joannis Âlvari , et Joannis SarreriL 

1544 Commento en Romance amanera de repeticioit 
Latina , y Scbolastica de 'juristas , sobre el Capitule 
Inter verba XI. q. III. Compuesto por el Dector Mar- 
tim de Aspilcutta Navaro \ Cathedratico de primt en 
Cânones de la Umversidnd de Coimbra etc, 1544. O^* 
Jobannis Barrerii , e Joannis Ãlvari. i. vol. fol.( Real 
Bibliotheca de Lisboa). 

1545' Commentarios ao Can. Scindite corda vestra 
de ccnsrcrat: X>ist. I. He obra do mesmo Navarro (Bibl. 
Hasseana ) . 

IÍ4Í Andr. Resendii Flneentius Levita, afud Lvr 
áov. Khotorig. j. vcd. S.^^^Píír/ NonÍÍ Salaciensis dt 
Arte atque ratione navsgandi libri duo : por António M*- 
riz, e segunda vez em 1573. 

15*47 Pralectio in C. Accept. de Reitit. Spoliat. do 
mesmo Navarro. 

15-48 Constituições Synodaes do Bispado de Coimbrã 
fo\.i—.Àrmldi Fabricii Oratio de Uhtralium Artium Sim- 
diis raro: vimos hum exemplar na Livraria de Xabregas, 
e outro na do Excellentissimo , e Reverendipsimo Pnnci- 
pal Castro , = Joannis Fernandes Orationes dua ad Jo~ 
amiem III Portugalli^ , et Algarbíorum Regem , de ce- 
lehritate Academia Conimbricensis e Oratio funebris 
bahita infunere Eduardi filii D. N. R. 1. vol. 8/ Esta 
Autiior era natural de Sevilha , e Professor de Rhetorica 
em Coimbra = Bele!iiorBe!íiago.i)í diseiplinarum rniair 
um Stuàiis: ohrz rara (Bibliotheca de S. Francisco de En<- 
lobregas , ôu Xabregas ) = Regra , e estatutos da Ordem de 
Santiago UsÈoa por GçroDáo Galharde, Francez 4'. 



D.g.tizecbvGoOglc 



SS MSUOHIAS 

1^49 Oração ou antes Poema Latitto de Pedro Men* 
des em louvor do Senhor Rei D. Jt^o III. 4.^ = Aris' 
toteles de Reprebensiauibus Sopbistarum : raro ( Biblto- 
theca de Xabregas ) =: índice das Cbiliadas de Erasmo , 
dedicado a Martim Navarro , por João Barreira =: Bel- 
chior Belliago. De Dialéctica : lie buma Lógica muito 
abbreviada , que Belliago publicou á instancias de seus Dis- 
cípulos , dedicada a D. João Aflõnsa de Menezes =: Ma- 
nual de Confessores , por hum Religioso de S. Francisco 
da Provincia da Piedade. 

lyyo Cartinha para ensinar a ler e escrever ^ do 
Bispo D. Fr. João Soares: com o Tratado dos Remédios 
contra os sette peccados ii.", em Casa de João Alvares , e 
Jítío Barreira = Panegyris Atpbonsi I. do Senhor D. An- 
tónio Vrioráo Crato -^zRhetorica breve de Joaquim Rhin- 
gelhergio =: Colloquios de Erasmo ; dedicados ao Senhor 
Rei D. J(wo in. , e ao Senhor Cardeal Infante, por Jt^o 
Fernandes de Sevilha,^ Chronica geral de Marco Ãntor 
nio Coecio Sahellico, des ho começo do mundo atee nosso 
tempo traduduzida em linguagem pis* D. Leonor de .No- 
ronha, foi. I. Part. 

ijji Historia do descobrimento , e conquista da 
índia pelos Portuguezes , de Fernão Lopes de Castanhe- 
da. 4.' por Joio Barreira , e João Alvares ; que he huma 
das obras mais notáveis que naquelle tempo se publicá- 
■râo == Lógica de Trapezuncio ; com a$ notas de Diogo 
Conrréras. = Constituições do Bispado de Coimbra de D. 
Affonso de 'Castello Branco por António Mariz. 

lyj» Arte de Rhetorica de Cypriano Soares Valen- 
ciano = Cármen Heroico-Latino , do Jurisconsulto Ma- 
noel da Costa , nos Despozqrios do Infante D. Duarte, 
e D. Izabel. = As vidas de alguns Santos da Ordem 
dos Pregadores , tiradas da j." parte historial de S. 
Antonino em linguagem de Fr. António de S. Domingos, 
por Barreira , e Alvares foi. = Historia do Descobrimen- 
to e conquista da índia de Castanheda foi. por Barreira 
contém sete livros, em ijya. ijyj , e 1554 = Segunda 

far- 

D.g.tizecbyGoOglc 



BE tlTt EH A Tt) R A PoRTUaUEZA. S^» 

parte da Cbrmlca geral de Marco António Coeclo Sa^ 
hdlíco de D. Leonor de Noronha, foi. 

I5'j'3 Ruàimenta Grammaticte ( Bibliotheca de Xa- 
bregas) =z Livro das Constituições , e costumes que se 
guardão ém os Mosteiros da Congregação da Santa Crua 
de Coimbra dos Canónicos Regulares da Ordem de San- 
to Agostinho: na Officina do mesmo Mosteiro de Coim- 
bra anoo da Reformação XXVI , em 4.° 

I5'y4 Historia de' Eusébio de Cesárea , traduzida 
por Fr. Jo3o da Cruz da Ordem dos Pregadores da Pro- 
TÍncia de Portugal : por João Alvares — Historia do co~ 
meço de nossa Redempçao , publicada por mandado de 
D. Leonor de Noronha : por João Barreira i5'5'4. 4.° (Re- 
al Bibliotheca de Lisboa , e das Necessidades) = Histo- 
ria da vida , e martyrio de Santo Thomaz , Jrcebispa 
de Cantuaria : por Jc^o Alvares. 4.°. 

I5'5'5' Grammatica Despauterii. = Arte da Guerra 
de Fernão de Oliveira 4." 

lyyó Constituições Synodaes do Bispado de Viseu: 
por João Alvares, foi. Houve outra edição de Constituições 
deste Bispado por mandado de D. Miguel da Siira de 
16 de Outubro de i^^j. sem anno nem Tiígar 4." gothico, 

i5'-5'7 Dois Compêndios de Grammatica de remando 
Soai es y Mestre da Sereníssima Casa de Bragança. 

i^S9 ^- -^fif^s Senec£ Cordubensis TragoediíC du/S 
por Mariz 8." ( são o ^hyestes , e Troas para o uzo das 
Escolas Jesuíticas.) 

i$6o Hercules Furioso , e Medéa do mesmo Séneca 
= Cartinha com o fazimento de Graças do Bispo D.Fr. 
João Soares por João Barreira = Comedia de Vilhalpanr 
dos de Francisco de Sá de Miranda por António de Ma- 
riz 1= Tratado notável de huma pratica , que hum La- 
vrador teve com hum Rei da Pérsia , traduzido em Por- 
tuguez por Fr. Jeronymo , Monge de Alcobaça , estando . 
era Paris. Coimbra porJoaoBarreira , em gothico. i.vol.4''. 
rarissimo. zz: Historia Belli Hydruntini de Garcia de 
Menezes. = Itinerário de António Tenrreiro por Mariz 4- 
Tom. yiii- — - M lyói 



:,GoogIe 



|yo" Memorias 

S^6j He oetavo Livro da Historia áé 'Fernão Lo- 
fes de Castanheda foi. 3 vol. por João Barreira , obra çie 
whio poathuma dedicada pelíw filhos ao Senhor ^ei D.Se- 
bastião = Cborograpbia de alguns lugares , que estão ein 
bum caminho que fez Gaspar Barreiros , por João Alva- 
íes, 4.'' , e bem assim as suas Censuras sobre A/, fortio 
Catam , Beroso Chaldeo , Manetbon F.gypçio , e Q, Fabiú 
Fictar Romano ; pelo mesmo Impressor. 4.° =1 Os seus 
Commentarios Latinos de Ophira Regione. = Orafáo 
Latina de Garcia de Menezes , que começa = Si tia ai 
ivimortaíi Deo, é^ que tudo vem com a sobredita Cho- 
vognapbia i. yoI. /^"zz Commentarti in Matbteum de D. 
Fr.' João Soares Bispo de Coimbra ia adibus Calcograjicií 
Rtgis ; por João Barreira. 

lydi Qratia habita ab Joavne Teixeira ,ei/mMar' 
chionaius Dignitas callata tributaquefttit illustri magm-i 
fico Domino Fttro Menesio , Filie RegaUis Marchioni , Co- 
mitique Urania anno 1489. Begia : per Joan. Alvar. Cth 
nimo. r. ,vol. 4.° raríssimo de que temos hum «eqiplar- 

1564 Decretos ,e Determinares do Concilio Tridenti- 
MO ^ tirados em Linguagem vulgar : por João Barreira 8. = 
Eartas qu^ os PP. da Compaafia escreverão do Japão 4.' 

if 6y Itinerário de António Tenreiro por Barreira 8." 

1^67 Memorial das Proezas da seeunda Tavola re- 
d&xâa , ^wr Barreira. 4.° = he obra de Jorge Ferreira 
de VaBconceílps = Veritatis Reportorium per Fratrem 
Franciscum Securim Doctorem Parisiensem apud Joas. 
Barrer. lyóy. i. vol. 4.* 

1^68 Pulularia ,Captiví Xtic&us , et TriMumas Plauti 
( Real Biblioiheca de Lisboa ) 

ijói! Tratado 4^ vida, e martyrio dar cinco Mar- 
tyres de Marrocos em sothico. 

lyííí Cemedia dos tistrangeiros de Francisco de Sá 

Miranda. ( João Barreira ) 8." ;z: Summario das Chroni' 

cas dos Reis de Portugal de Christováo Roiz Áainheira 

iy70 Falia que se fez a ElRei iX Sebastião na en- 

t^^da de Coimbra aos 13 de de Outubro : por João AL- 



D.q.tizecbvCoOglc 



Dl tiTTEfc AÍTfB A VoiVVHVMZAí y» 

tares i. vol. 4." = Cdrtas que os PP. da Companhia àt 
JesKS escreverão do Japão 8.° 

if/i Petri Nonii Salaciensis decrepusculis por An* 
tonio Mariz. = De erratis Orontit . . . Petri Nonii Sa* 
laciensis liher vnus , pelo mesmo Mariz. As darás Tem 
em alguns exemplares emendadas á pennapara 1573 , de 
que ji demos a razão em outra obra. 

I5'84 Tratado dei Consejè y de los Consejeros de 
los Príncipes por Doutor Bartbolomé Felippe, i. vol. 4." ' 

ij88 Syh£ illustriorum Aathorum. ~ He Imma 
Selecta Grega para o uso das Aulas Jesuíticas. Na 1. Parb 
Tem algumas Epístolas de Cícero , pedaços de Quinto Cur- 
cio , e dàs Epístolas de S. Jeron^rmo j de Lactando dos 
Mjsterios da Cruz de Chrísto ; de Osório de Justitia^ 
e de Segis Institutioae ; da Oração de João de PerpinhSo 
áo Santo Padre Fio IV. quando TÍsitou o Collegio Ronui* 
íio ; e de huma Carta de Ayres Sanches , Jesuíta , escrita 
em Bungo no Japão. Na lí. Parte achío-se lugares das 
Metamorfoses, das Heroides , de Noce, de Arte e Remé- 
dio AmòriSjdas e Elegias de Ovídio : a Andria,Eunucho, 
è Heautontimorumenos de Terêncio: Captivi , et Sticbus 
de Plauto : alguns versos de Tibullo , e Propercio j e ai- 
runs de Sdnazaro , de Jeronymo Vida , de Ãusonio , e de 
Boecio. 

1^89 Primeiro Cerco de Dio de Francisco de Andra- 
de : 1. vol. raro. 

IJ91 Mariyrtilogio Romano ytradus^do 1. vol.(RcaI 
Btbliotlíeca de Lisboa, e Hasseana ). 

1594 Manual de Epictecto Filosofo , traduzddo do 
Grego em linguagem : por Mariz : he obra do Bispo D. Fr. 
António de Souza. 

1595 Obras de Francisco de Sá de Miranda : edi- 
ção rara = Comedia dos Estrangeiros , do mesmo em 4.". 
edição igualmente rara. 

Em anno incerto. Ad Sereni ssimum Luiitani/e Pritpr 

cipem Joannem Filium D. N. Regis Joatinis IIJ. jam felici- 

ter Rígem designatum Ekmsnta Grammatices cum adaúta^ 

M ii tio' 



:,CoogIe 



ipi Memorias 

iionihus in eaâem per Joamem Fernanãum ffispaknsem 
Rbetorem Regum tnclyta Conirnbrice, 8." Existia hum ei' 
■_:, emplar na Real Bibliotheca d'Ajuda , que vio , e consul- 
tou o Padre Manoel Monteiro, da Congregação do Ora- 
tório, para a composição do seu NovoMethodo de Gram- 
matic? Latina. (17) 

^ " Évora, 

A Qdade de Évora começou de ter Officinas Typo- 

fraficas logo desde os principios do Século XVI. Houve 
uma no Convento de S. Domingos , e foi muito afema- 
daa de André de Burgos , Impressor do Senhor Cardeal 
Infante , e hum dos mais assignalados Typografos daquella 
idade. Imprimindo M.' Rezende em lyyj a Historia- da. 
Antiguidade de Évora falia no Prologo ao mesmo Infante 
daquella Typografia , dizendo ; Offerecendo-se hora nova 
imprersam haqui , quisme anticipar com dar primeiro a 
V. A. este gosto, que sei , que ha de teer aa antigui- 
dade da sua pátria. E se os caracteres da Impressam 
lhes parescerem bÕos , e de bÔo talho , saiba que ainda 
-teemos cinquo eu sex differencias delles , para que fa- 
voresça bo impressor com ElRey nosso Senhor vosso 
pae. 

■ ^' Entre as edições de mais raridade, e estimação que se 
produzirão dos prelos Eborenses , podem contar-se as se- 
guintes':; z:^- Meditações e Homi/iasáe D. Henrique Car- 
deal Rei 1/ edição sem anno , nem nome de Impressor. 

15 li Itinerário da Terra Santa , de Fr. Pantaleão 
de Aveiro, t. vol. 4.° 

lyjS Historia da Antiguidade de Évora M'. Re- 
«ènde. -■ ' - ' , 

v^Sí^ Homilia- do Satttissimo Sacramento com huma 
Elegia da alma devota d seu Esposp. i. vol. em gotliico, 
que he obra de Jorge da Silva ( Bibliotheca Hasseana) 

<a) Piefaçáo. 

D.g.tizecbyGoOglC 



DE LiTTE-RATUBA .PoRTUGUEZA. 93 

iSS7 Primeira parte tia Menina , e Moça de Ber- 
nardim Ribeiro 8.°, que se repetío em IS'78. 

lyóy Constituições Synoàaes do Arcebisfaào de E^ 
vora por André de Burgos, foi. /J ^^ Cr-.^ 

iféS Decretos do Concilio Provincial Eborense. 8.* ^*^-^ 
impresso em Casa de André de Burgos. 

iy.69 Tratado em que se contaa as cousas da Chi- 
na , por Fr. Gaspar da Cruz , Dominicanp. 4.° 

1572 Grammatica de Fernando Soares Homem: por 
André de Burgos. ' 

15'74 Reportório dos tempos em Linguagem Por tu- 
guez pelo mesmo Impressor 4.° , , - 

1^76. André de Resende Historia da- antiguidade da 
Cidade de Évora por Aodre de Burgos S.*" vem juntas as 
FaUas á Princesa D. Joanna e á ^Rei' D. .Sebastião. 

1597 Nova edição de Camões. 

1598 Cartas que os PP. da Companhia dejèsuses' 
creverao do Japão : por Manoel de Lyra i vol. foi. 

= Em anno incerto , mas ainda no Século XVI. o F/o- 
rifel 4e Niquéa. foi. em gothico , livro raríssimo , e já 
ímpresse pelos herdeiros de André de Burgos , que conti- 
nuarão a sustentar a Officina , que elle havia estabelecido 
çom muito credito de seu nome. 

Goa. 

Em Goa , Cabeça do Império Lusitano na Ásia , hou- 
yc OfBcinas Typograficas, que se dèyêrão emgraudepar^ 
le á ioílustria aos dois celebres Impressores João de Edem, 
e João Quinquennio de. Campada , e ao cuidado dos Jesuí- 
tas - delias sahirão entre outras obras as seguintes : 

. i$6\ Compendio Espiritual da vida ÇbristSa , ti- 
rada pelo primeiro Arcebispo de Goa D. Gaspai de Leão: 
por João Qiiinquenio ij.° , , . " • 

i5'63 Colloquios .dos simples , e cousas, meãicinaes 
da índia de Garcia de Orta 4.° por João de Edem. 
- I J65 Carta do primeiro. Arcebispo de Goa ao Pozo 
■ - ■■ de •■ 



:,Google 



^4 M B H Ò R 1 À S 

âe Istael, em a Traducção dos dais Tratados e&niraos 
JudMS de Mestre Jeronymõ de Santa Pé. i. vol. 4.' 

I5ÓS O Ptimetta ConíUis Provinda/ cèUirado em 
Goa em o ama de lyfi? , ttasf/iâado de Latiík etft Lin- 
guagem , ein casa de JoSo de Edeirí por ordem dó Atr 
cebispo D. Joree Themudo , 4.* 

== àofiítituiçffes Syiiodats do Arcebispado ãe Goa , pelo 
arcebispo D. Gaspar , pelo mesmo Etíem. foi. ( Real ffiUió* 
tíecá dê Lisboa ) . 

I5'7i Mappa mundo de Fernando Dias Dourado. 

\<Íf^ Desenganos de perdidos do mesmo Arcebispo 
D. Gaspar. ^ 

Ainda tiO Secuíô XVII. contrniiaTa em Goa húràa Of- 
Jicina Tjí^pbgràfiía ; he prova diSto á rara obi^ dos Jj/j^ 
cursos sobre a 'lÂda da Apostolo S. Pedro , ít* jífí se 
refutão os principaes erros do Oriente , compostos em ver- 
so em Liiiguâ Bramana Marastãpth Paire Estettão da 
Cruz , impresãos na cisa Professa de Jesus em Í634. a^ 
Yol. fóI. C Reaí Bibliotlieía de Lisboa ) . 

. \ Discurso ou Pàlla' ^ué Jèz o Pddre Fr. Mano&i ãa 
Crua , Mestre em Sbkta Tiseologia , no Acto solemne , 
«M que o t^onde Joito dâ Siha Teito e Menezes , Viro- 
Rei da índia , jurou o Príncipe D. Tbeodosio aos 20 dé 
Outubro de 1641. Impressa em Dezembro do mesmo an- 
uo I. folheto de 4.° , sem tlome de Impressor ( Real Bi- 
bliotheca de Lisboa ) . 

MagSèpb ãssetat , ou fiagello das Méntfras : no' Col- 
íéglo de S. Paulo em 1642 ; obra do Padre Aiitooío fer- 
fiaades , Jesuita , impressa em caracteres Abexins , que faa- 
viâo sido mandados' aô Patriarcha D. Affonso Mendes, 
pelo Papa Urbano Vlll. (^Real Bibliotheca de Lisb<M). 

Fida da Santa Ptfgem em 165:1 4.* Obra dò mes- 
ínò Padre. 

Reiaçam do que succedeo na Cidade de Goa e em to- 
das as mais Cidades , e Fortalezas do Estado da índia , 
na felice Acclamaçao delRei D. João IK de Portugal , 
e no jurafitento m Priiicipe D. Tbeodosio , eooforme a 



;.CoogIe 



DE LlTT&.RATVB.A PpitTVOUElA. M 
ordem, que a huma , e outra ceusa ãeo o Conde âe A- 
veiras João da Stha Telío e Menezes , Vice-Rei , e Ca~ 
pitão geral do mesmo Estado: dedicada ao Príncipe D. 
\CbâQdo^ÍQ , P9F A^aiipel Jjicome de Mesquita , morador 
IIQ Cidade dç Goa , no CoU^gio de S. Paulo novq 44 
CompanhU ^e Jfsuç. 1^43. 

Tratado dos Mi /agres, que fglos merecim^ntps M 
gjí^iofo Saflto: Atitofiiú, afsm ejn fida do Sãnt^ , ^01^4 
àfpoif de SU4 m^rpe^foi nfsso Senhor servíd$ ol^ar-.ctm 
a vfdg de m$sm9 ^anto ; tradv^do , e composto w Líjh 
gtia da terra corrente ( que hç 9 Prgmana ) p^ri^ fertm 
4$ todos mais faejlmfnte pptendido , pek Ffiàre Jiftonff 
de S4/d4if^ttt da C9mpanhÍ4.4»j€$f(s, natural^ Aíiw> 
roeos lójj. 4.° Esra obra foi Impressa eiji Goa / cooifl JM 
jiê peia ^atá da CoBimiseão para a Revisío , p M licen- 
$4 psra a estampe. ( Keal Bibliotheca de Lisbw ) . 

Japão, ou Amacttsa. 

Façamos também memoria dó Japão , aotjde o« no»! 
eat estabelecera© Officinas Typograficai :■ c» Jesditaí eôr 
girao huma no ceu CoUegio Amacusence , áondé fizer^o 
estampar aos fins do Século XVI. algumas obras ; he di* 
gna de se pôr aqui , por não ser vulgar esta noticia , a 
edição que ali derão em 1^93 dos três livros das Institui- 
ções da Grammatica Latina do Padre Manoel Alvares, 
eom á traducçao em Japão: em papel deíiseda^de .(Jue e- 
^isee hum pracioso sxemplar na BiHibihtsca Angélica Aè 
Roma , de que attcsta Francisco Xavier Laire na sua obrtt 
Sprcmen Historia Typograjis Remanã Seculi Xf, cap. 
i. fiag. 14. Not. edição que se deve accrescentar nz Bin 
l)lÍDthâca Lusitana jde Barbosa. Podemos pór aqui outra» 
qoe tem eatiinaçao , qual iic a do Biçtienarium Latino-Lusii 
Éamíuu ac, Japonicum i Amacvsa , no Colk^o ida .Q>m^ 
panhia lyjy. ■ 






-j^ ■' ■. ^ ' ;: M B M o it I aS- ■■ 

' Lxyria. 

Tarecé que a Arte Thypografica , que havia come- 
çado e^ Leyria no -Século XV. com grande brio , -e lu- 
ziinento , ainda continuara no Século XVI por alguns tem- 
pos : teve pòréni' de se apagar por fim , e extinguir de to- 
tío naquelle mesmo Século : por quanto vemos , que o Dou- 
tor Pedro Affonso de Vasconcellos .natural daquella Cida- 
de , na sua Prefação á Rubrica de Renuntiattone a sup- 
póe inteiramenteeitinctâ, mostrando pensamentos de a sus- 
citar: Nec mirum, diz elle, si hama Leyriensis IjeyriíC 
S multis annis extinctam Lítterarnm impressionem ite- 
¥Hm excitem. ( a ) ' 

- ' • iMas nem por isso se entenda , qiie elle lérou ao; fim 
^o louva.veI , e patriótico projecto , porque t^o consta , 
qus aquella Cidade chegasse a ver ainda então resuscitados 
os seus prelos, como eeu fílho tão ardentemente desejava. 
Ella com tudo não deixou de os ter nos últimos tempos j 
c»nGtando-nos por tradição de seus naturaâs , que houvera 
buma Officina nas faldas do Monte , a que hoje chatnâo 
o Moinho de Papel : até agora porém não podemos vêr 
producção alguma destes prelos. 

' ■ Lisbosí 

Lisboa contíriíiou no. Século XVI. os seus trabalhos 
Typograficbs , fazendo grandiosos progressas nesta Arte , 
pela quantidade de Officinas que érigio. Foi huma delias 
a de S. Vicente de Fora, que já houve naquelle Século, 
« foráo das niais 'famosas , e de mais trato as de Valentim 
Fernandes , de Jacob Combreger, de Heraian de Campos, 
de Joio de Kempis,- de João Blavio ;■ todos Alemães y.òc 
João Pedro Bonhomini , Italiano de Ctemona , e de Ger- 
mão Galharde , Francez ; e as dos Nacionaes Luis Ro- 

dri- 

C«) P^ 104 da Edição da Madrid. 



DE LlTTERAruiA PoR VtraUEZ A, 97, 

driguez , e Luiz Corrêa. Destas 0£cÍoas publicárão-se na- 
queífa idade inDumeraveis obras , que ainda hoje formão 
a preciosidade das Livrarias mais dtstinctas deste Reino. 
Faremos menção tao somente de algumas, ou mais raras, 
ou mais notareis. 

1500 Obras de Cataldo Aqutia Século ; hum dos 
Tardes mais sábios do seu século , que tinha vindo a estes. 
Reinos ensinar Rhctorica na Universidade de Lisboa. O 
Titulo primeiro do Livro he Epistola Cataldt: na i/fo- 
lha diz : Epistola et Orationes qu^edam Cataldi Siculi. 
Consta de duas partes, e no fim da segunda diz: Impres- 
sum Ulysbone anno a pariu virginis MD mensis Februarii 
die XXL íol. obra rara , de que eó sabemos h^er três 
exemplares hum na Livraria do Collemo da Graça , e ou- 
tro na do Real Collegio de S. Paulo da Universidade : e hum 
na Bibliolheca Corsiníana em Roma ) estas obras fbi^o das 
primeiras que honrát^o nossos prelos naquelle século j na 
rart. II. destas Epístolas , e Orações vem a Oração Latina 
do- Marquez D. Fedro de Menezes , que recitou na U- 
niversidade de Lisboa perante o Senhor Rei D. Ma- 
noel. 

ijoi Thesaurus Pauperum sive speculum puerorum 
em 4.° e em gothico ; por João Pedro de Bonis bomfnibusy 
ou Bonhomini edição rarissima. Tinha antes sido impressa 
em Salamanca ainda no Século XV, quanto parece: heo- 
bra do Mestre João Pastrana : vem no fím o Tratado 
do Báculo dos cegos de António Martins, primeiro Mes- 
tre que houve na Universidade de Lisboa ; e feito tudo 
emendado, e correcto por João Vaz, Bacharel: traz estam- 
pado no írontespicio á direita as Armas Reaes de Por- 
tugal , e á esquerda em proporção igual huma Esfera 
com seu pé , e por baixo em letra Gothica maiúscula = 
Grammatica Pastrana. Possuia hum exemplar desta edi- 
ção Ignacio de Carvalho e Souza , Académico da Acade- 
mia Real da Historia Portugueza , -^ Glosa famosis sinta, 
sobre las Coplas de Don Jorge Manrique etc. por Va- 
lentim Fernandes , também, raro. 

T«m. VIU N iJOÍ 



:,C~.oogIe 



^ " Me m o s I a s 

lycw Sacratnental ^ o qual copiloii , e tiroa das Sa- 
gradas Scfipturas Crimcnte Sanches Verçial . . . Arcedia- 
go de Valaeiras em a Igreja de Lilo , traduzido em Por- 
tuguei ft^. gothico. Obra de muita raridade = Livradas 
Viagens de Marco Paulo Veneto á índia com o de 
Nicoláo Veneto , e huma Carta de bmn Genovez sobre 
o mesmo assumpto : tirado do Latim em Portuguez por 
Valentim Fernandes Alemão, i. vol. foi. ( Real Biblio- 
fheca de Lisboa ) Traducfão da Relação da Viagem, 
que Nicoláo Comi fez ao Oriente , dedicada ao Senhor 
Rei D. Manoel : ediçòes todas de raridade. 

1^04 Catecismo Pequeno da Doutrina e itístruifão- 
de D.- Diogo Ortis , Bispo de Ceut» , e depois de Vizeu 
foi. per Valentim Fernandes , caracter meio gothico, e ele- 
gante. Rarissimo ( Real Bibliotheca de Lisboa ) . 

ifoj Epistola -Serenissimi Emtnanuelif primi Dei 
grafia Pertitealli£ Rfgis . . . ad Summum Rontanum 
Pontificem (Julium IL) Ulixbana XII. JuiU , anne ijoy 4.° 
de que temos hum exemplar: parece ter sido impressa em 
Lisboa, e neste mesmo armo. 

ifop Todas as Obras de Catalão Siculo^ corrigidas 
for António de Castro ^ segunda edição, e também raranz 
Missal Eborense ^vÀ]2í reformação ftH committida aos Có- 
negos Lopo Fernandes , e Luiz Martins ; na Officina de , 
Gêrmio Galharde. fcíl. raro ( Real Bibliotheca de Lisboa )- 

r5'ió Çbronita dotriump-ho dos nave da fama ^ e vi- 
Úa de^Seítr^ãá Cloquim Condestabre de Franca , de An- 
»AÍo Rodrigues Portugal por GermSo Galharde. foi. 

ifij Arte da Grammatica de Mestre 'João Pastra- 
I»* a.' edição ( Real Biblfotheca da Ajuda , entre as Obras 
da CoIIecção dA douto Abbadc B.irbozs ) = Efistoia Em- 
manuelis Fortfígalliis R-egis ad Leonem X FmtificeTn. 
Ulyxbonie pridie K. Otíobris t$i^. r. vd. 4.' 

15'iíl Cancioneiro geral, ordenado , e emendado de 

Garcia de Rezende , por Hermair de Campos: foi. (Real 

Bibliotheca de Lisboa , Real Casa de Nossa Sonliora 

das Necessidades , e Biblíothecíi Hass-eaiw ) — Jrs P^ir- 

-- -■ . ■ - £/- 

D.g.tizecbyGoOgle 



DE LlTTEBATBRA PóRYuaUEZA. -^ 

ginif Mariíé:({ac he huma nova Grammatica Latina, dU 
TÍdida em f Livros , e impressa em Lisboa por Valentim 
Fernandes : foi. raro. = Regimento , e Ordenações da Fa~, 
zenda. Lisboa por Germio de Catiipos, Btmibardeiro del- 
Rei. I. vol. foi. C Real Bibliotheca de Lisboa ) . 

ryio Ordenações da Índia de. 8.". de Setembco foi. 
(Livraria do Ulustrissimo Monsenhor Feiteira) . . ,. 

lyii Breve Memorial âos.peccadás , e aifías úlfe 
pertencem á Confissão ■.orâx.a^Lào por Garcia d Qmvento Âe Santa Mar- 

tha de Jesus , por D. Marianna de t4iiiB' 4." =r Isagege 

Philos^bfca , do Padre Pedro da f^itóeca por Aiitonio 

. JÍAv*-- Aivaroa 8.f 

, g „.X,-^ I5'93 Ite/^ai^ià da' Terra JWíW». de Fr. Páhtalião 

■* de Aveiro; por Síhilto Lopes 4.' t)e^»ÍçSeí^ Ordem de 

Cister : por AtiCOnio Alvares. 4;° dr-Alvaro Válasoo C011- 

sultaiioaesitc rerum yudicvii//n.-sr Í7J Regfw Lvntanije. foi. 

1594 Livro da perdigão de Maiiaei de Souza de Se- 
puheda , por Lopo de Souza Coutinho : por Simio Lo- 
pes 4-°.,= Naufrágio e lastimoso -s-uccesso da perdição 
Se Manoel de Sousa de Sepúlveda , por Jeronymo Corte 
Real : pêlo mesmo 4.° =r fida da Princeza Y). Joanna 
de Fr. Píicoláo Dias : por António Alvares. 8.° zr: Varias 
Rimas ào Bom .Jesus e a Virs,em sua Mãi e a parti- 
pfílírfríJ" de -Diogo Bernardes , por Síníao Lopes 4." = Aía-^ 
nuãl do Epitecto tritdtizich -do Qrcgo em Português : hc 
olira do D. Fr. António de Souza: 12.° 

lyjiy Regimento llantito , de Jc^o Baptista Lara- 
■nha,por SJmao Lopes 4.° 

1596 Rimas varias : fores do Lima de Diogo Ber- 
liardes, -por "Manoel de I.yra 8." •:= O Lima em o qual 
se cétitém as Éclogas e carias ., -pnffíimão Lopes 4."' 
^ Summaria reeapituiaçÕo 4a Antiguidade da Sé de La* 
'wego do Padre Manoel Fernandes,- pw Manoel de "Lyra 
4.° = Discurso sobre a vida emdrte de Saritd ízàbel ,t 
outras Rbytmas de Vasco Mousiulio de tí^bedo , pelo 
inésmo.4.'' * 

tl.g.tizecbvGoOgIe 



Dl LiTTBBiirORA Poii-WGUEZA. ÍOf 

ly?; Diali^os Selectos ãe Joceè FtíMtano-. edíçí» 
fnra uso das Âaks de Kbetorica. = Syloia 4^ Liss^rdb 
12.' = Relação do succeâide na Ilha de S. Mi^el sen- 
do Gavernaãor Gonçalo Vaz Coutinho , com a ornada 
Real de Inglarerra , Gemrai .Roberto de Boreos Conde 
de Essexia 4.' 

rS^S Compendio de alsumas Cartas que víêrãé-em 
i$^7. pelo. Padre Amador Rebello 8,"::=: Poemas Lusita- 
nos do Dontor António Ferreira por Pedro : On^bftli 
Vi.') 

Mecdo. 

Macáo no Japão também se honrou no Século XVt 

com producç6es da Arte Typogtafica. Ali se- imprimtd < ' ' * ■ 
além de outras a seguinte obra : 

De Missione Le^atomím Japonensium adRomanam 
Cariam , rebusque tn Europa ac totó itinere animad- 
versii 3ialogtts.\ In M^caenii portu Sinici Kegni in do- 
me Societatis jfíx» 'lyço. I. .voi. 4.° Barboza fàlla de 
hum ItÍDerario de «juatro Príncipes Japonczes erc , eaojiíó 
peb' Psfdré Duarte de Sande no mesmo anno , e impresso 
tacnbeih em Macáo em Portuguez, e diz sahtra traduzido 
em Latim em Antuérpia em 1553 , não o Timos , e nSò 
labemos se he a mesma obra. 

Porto. 

Já advertimos nas Memorias do Século XV , que a 
Cidade do Porto , sem embargo de seu grande trato, e 
Commercio , nos lÀo ofíèrecia documento aígum , por que 
CBteadssBemos oom scguraaça, que aella havia eno^do na^ 
qitdle Século a Typografía iixa , e permanente , sendo prelo 
O ii por- - 

(•) Algumas outras ediçSeidoí Prelos deLiiboai quo tfio dama* 
ttcimeiíMfOu )de ladiída, podem Mr>w adianta 00- cap, lU. 4*t Imi 
preiiores. 

D.g.tizecbyGoOglC 



çortàtil, -e velanté, o que ali imprimio a Ley , ou Orá^ 
napça 4e qu« se diz ter «istidò num «templarna oirioa 
Livraria de Gregório de Freitas , Escrivão da Corrdçâo de 
Setúbal. Não se pódc porém duvidar , que já pelo meado 
do Século XVI. havia a Typografia. asscptadò nesta Gda- 
de huma Officina , a que presidia Vasco Dias Tanquo 
Fteitenal , que noa parece haver sido Hespanhol de Nação. 
• As piim^ras obtes que sabemos sahírâo dos seus pie- 
kw ,: forão : . - , , .■■..'.■'.. 

iy40 Espelho àe Casados do Doutor João de Barros 
por Vasco Dias do Frexenal 4.° gothico. 

i5'4i Constituições Synòda.es do Bispado do Perto; 
ordenadas pelo Bispo D. Balthasar Limpo. i. vol. pelo 
rtííS)fio.'-í= euã ■Arte'de.'Ar&hmetÍcà díf . Boito Fteífiandes 
jfel, (ficada flo. lulailte; É). Euí2."(i?):j ■ .-: 

■■ ■■■■ ■•, ■ ■ .S^Uete :■'-' 

■'.. Em SalsQte Península d£Gaa,'emlqMe..o« JesiiitâS ti- 
yerâo; á MissÊaVidoi: Canaris:, home jjoV.scu Colírio de 
it^hol.huDiaOilicina de limpréssão no Secdo XiVI. Bn* 
Ice outros . escritos que estamparão, merece plarticuiar lenr- 
brança.o mguime =^^ Explicação da Doutrina Cbristâa 
C&lleg{da-do Cardeal BellarmÍno,e de.mtrvs Autèores, 
composta na Lingua BramaBdvúi^an.^úoA^AÁTe.Tyiozii 
Ribeiro , Jesuíta , natural de Lisboa : 1552. 4"^. (Real Bi- 
bliotheca de Lisboa). .r ^, \ 



, Sãi-nacbe .doíAihos. 



■ ■_. Na abeira de Saroatíhe idos Âl)uí3,em osíMoinhoí 
do Acipresic:, lugar dietanije doas- línguas de Coimbra^ es- 



(«-5- A" Typografia-rí>riiie¥!e c,íiíTInu^ú~no-SEcul.í XTlf. em 

titAdtil, Aitaofiniaáar.ptiA .Rán-Mila Afia». .1u11.j4.f1i;, oatnit at 
brai. .(!,-..! :;, 



:,C00glc 



DE LirTERATURA P O R" T UQ UEZ Á. IO? 

«ve nos Ins do Século XVI. hum prelo portátil de An- 
tónio de Mariz , fomoso Impressor da Universidade de 
Coimbra , que para ali lhe mudou o domicilio , quando 
toda a Cidade ardia em peste no anno de i5'97. Ali aca- 
bou elle de imprimira obra de seu lilho Pedro Mariz, que^ 
Iwm já começado a estampar em Coimbra naquelle mes- 
mo anno, intitulada Dialogas de varia Historia =z (_a). 

Setuhal. 

Setúbal entra na conta das Villas de Portugal , que 
tiverâo prelo portátil, qual foi o que lá levou Herman de 
Ketnpii y Alemão. Os Livros mais antigos que ali impri- 
mio," quanto nós podemos saber, forao a Regra , e Ès'. 
tatutos da Ordem Militar de S. Tiago^ que se acabái^o 
de estamfiar a 13 de Dezembro de lyo^. i. voL foi. (Real 
Bibliotheca de Lisboa, Livrarias da Real Casa de Nossa 
Senhora das Necessidades, e do Convento de S. Francisco 
da Província de Portugal, e Hasseána ) := CoftJissioHal da 
maneira que os Cavalleiros . da Ordem de Santiago se 
devem accusar de Garcia de Rezende. 1505. 4.° Obra ra- 
ríssima ( Real' Bibliotheca de Lisboa). 

■ Villa Verde. : 

Villa Verde foi também hum dos Lugares , em que 
a Arte Typografica teve bxckÍcío por algum tempo : ali 
a ledou o celebre Impressor António Ribeiro por 1581 á 
instancias de Paulo de Palácios Salazar ,. Prior daquella. 
Villa, que para ella o chamou, a fim de lhe imprimir a 
seguinte obra = In Ecclesiasticum Commcntarius pius et 
doctus per Paulum de Palácios Granatensem D. Henrici 

: ■^ - .■ . . Lu- 

(<i.^ X>i' Epistola Latina, que poi o mesnio Marfz no piíDtipio da 
obra <eic(ita an Duutou Diogo Jtlcndcf de Vaicnncellof , se vc , (]ue 
cjttão 3e achava tiabaíhancto^ com .seus prjtos.ei» Sain^phe , pois j^ue 
a data cilm as'" tegilin~)ès pãtavtat' — E'Mitcaiíliii Cujiieii' if R'V^ ^P' 



:X'OogIe 



rra .. ,M A' í* a R I* s * : 

Lu-rUani^ Regh , et S. Romaa^ Ecclesia CarMfuHs 
Citnció/taíotâm et 1). Catherina Lusitanarum RegmM £• 
ieèmfisittarium^ee S. Litteraram in inclyta Câaimbrécea- 
ciam Atãdemiã enarratorem: apud Villam Viridem Fraih 
esmm, Excttdebal Atttenias Rtheriur Typegrapbus anno 
IX. is^t. I. vol fbl. (Livraria do Convento w £^ Fn» 
cisco) de EtgK^j-egas.). 

Físev. 

Eta Viseu também entrou a Typ<wrafia do Século 
XVIy e ali xsvz Iiuma- officina Manoel Joio , Impressor 
do Bispo Dl Jorge de Attaide , que a estabdeceo prioa 
anoossde z^6$. As imicas obras que temos vista delia, 
saò o. Campendio e Sammario de Coi^ess9rex de iftíp. =2 
Mígulã Cancellaria SS. PH Papa V. ejusque Mútns pr»- 
^fi , Bulia , et aUa Decreta , que mandou imprimir o 
B>?sinoi Bispo em 1570 (B.sal Btbllotheca de Lisboa.} 
:^- Exevcictos de D. Fr. Marcos de Lisboa 1571. 8-"* =3 
&■ FloseulttT Sacrameatorum : 1571. 1. voi. obra de Pe- 
dra Feirnandes. Vilhegas. ( Real Bibliotheca de Lisboa no 
volume qae tem pot titulo := Censura- in Glossas ^ et Ad* 
ãitiones Júris Canonici. Olisipone iy7y. Il.°) Levantou 
ali outro prelo o Impressor Mawros Jorge em que estan> 
pou por lyóá a Cbronica de D. Florisel de Niqaea de 
Feticiano da Sylva. Acaso se inprínàriio em- Viseo as Cons- 
timíções ãynonaes daquela EKocese , feitas pelo Bispo IX 
Miguel da SjlvA em 1517 sem noea de aano mm kigap 
4." em gotKico. 

e A F ! T U L O ni. 

■ ^ Dos Impressores do Século XF2. em Portuga/. 

FAçAMOS memoria dos- Impressores do Século XVI. 
de (Tue podemos haver notícia , de alguns dos quaes já 
temos fallado no Cap. II. na relajão das edijtíes das T7- 

DniUizecbvGoOgle 



DE LlTTElATnSA POBTVGUEZA. Ilt 

bografias das Gdades , Villas , e lugares ; que posto nío 
fossem todos dotados -de grandes partes para tratarem esta 
Arte com a devida applicaçao, e cuidado ; todavia alguns 
houve ^ue tfabalhàrâo com bastante apuramento , e per- 
feição, deixando de si á posteridade hum nome honroso; 
João de Barreira , Amónio Alrares , Luiz Rodrigues , e 
Anponio de Mariz , nomes consagrados em nossa Historia 
Tipográfica , forSo os nossos AÍdos , Estevâoe , JiHitas , 
Frobtfnios , Píantlnos , c Elzeviros , os quaes não só pela 

fralde qnantidade de o&ras que estamparão , mas am- 
em _pHa limpeza , ^eg^ncia , e eiacçao de suas «diçôee 
merecem 'flinda hoje a nossa estimação , e louvor; e o h»- 
verá6 dos vindouros em quanto se der honra ás Letrastem 
geral o jHflrecem todos os bons operaríosdcsta nobre Arte, 
pois que eJIes fazem pBftE Jda Historia Litteraria das Beú 
las Artes , e pelas producjées de seus prelos, concorrem 
para estender e progagar os conl>ecimentos humanos em 
todas as classes, e com ellas instruir e iUustrar facilmente 
os povos. Poremos aqui por ordem alfabética o Catálogo 
de todos -elles^, indicando de alguns as obras, ou de mais 
nome, ou de maior raridade, além das outras, que já no- 
támos no Cap. II. das Qdades, Villas e Lugares etc. 

Affons» Fernandes. 

Comta-nos que este Impressor trabalhava em skus pre- 
tos por if^i. 

Affonso Lopes. 

Ha poucas noticias deste Impressor ; e apenqs sabc- 
Ihes , que floreceo pelos annos de 15^7, tempo em que 
bubliçou dç sua Offtcina o Livro intitulado: Lysuarte dè 
Grécia , JJbro Septimo do Amaàis. Lisboa i. vol. foh 
(fiibKotheca Hasseana) 



A- 

■D.g.nzecbvGoOgle 



II» ' M K ií o B .1 A s . n 

Jlexanâre de Sequeira. 

Exercitou a Arte Typograííca em Lisboa , e Alcoba- 
ça; e delle achamos memorias desde os annos de lygijcm 
que estampou o D/cWcHííWaffi LatJno-Lífsitaaicem , de Jero- 
nymo Cardoso: Lisboa 4.° , que traz no fim a obra Farii 
Uquendi modi. OUsipone ; que he hum Diccioilario</f /ro^/Vj 
náminihus. Entre outras obras que imprimio sqo raras , c 
de estimação, = Naufrágio da Não Santo Alberto , e 
Itinerário da gente que delle se salvou , .«scrito por João 
Baptista Lavanna. Lisboa i$^7. 8.° = Compendio de al- 
gumas Cartas do anno de iS97f qf^ vierão dos Padres 
da Companhia de Jesus , que residem na índia , psh Pa- 
dre Amador Ríbello: Lisboa 1598. 8.° 

André de Anellar. 

Sabemos deste Impressor , posto que nos nao recor^ 
damos de haver vista obra alguma de seus prelos. . . . 

André de Burgos. 

Foi ^Impressor , em Évora , e Cavalleiro da casa do 
Cardeal Infante, como elle mesmo se intitula : exercitou de 
maneira a sua Arte;, que direitos teve para .pretender hum 
lugar distincto entre os bons Impressores do seu tempo: 
D:lle slo entre outras as obras seguintes , que merecem 
ter a qui particular memoria ^ Exercidos Espirituaes de 
Nicoldo Eschio , traduzidos do Latim em Romance Por~ 
tuguesa por hum Frade Menor t^^^. Z.'^ (Real Biblio- 
tiieca de Lisboa ) = Decretos do Concilio Provincial E^ 
borettse: \^6% era S.^CRealBibliotheca de Lisboa )= Jítfj-- 
ponsio ad Epistolam Ambrosii Morales de M. André de, 
Resende i$~o -rz Ad Philippum Regem Cobortatio do 
mesmo Author I5'70. 

Continuou a Officina em seus herdeiros , que impri-. 



:,CoogIe 



t)Z LiTTBItATITItA T oiTVQVttAi U^ 
mlrao entre outros Livros a III. Parte ãe D. Florifel dt 
Niquêa em foi. gothíco sem anno , de que já falíamos = 
e a Cbrmica do Palmeirim i.' e i.' parte Évora. 1567. 

André I.ohaío. 

Foi Impressor em Lisboa, e florecia por 1583, tnn* 
po em que estampou a Reformação da Justiça de Filippe 
II. Lisooa á custa de Isabel de MeMonça , mulher de 
Luiz Martil, Livreiro que fora d'ElRri 15-83 foi. Con- 
tinuava ainda em 15*87 em que imprimio a primeira par- 
te dos Autos , e Comedias Portuguesas de António Prestes 
Lisboa 4.** 

António Alvares. 

Foi bum Impressor de grande nome em Lisboa , e 
digno de collocar-se nos primeiros assentos dos Typogra-. 
fos daquella idade ■■, estampou infinitas obras que muito o 
accreditái^o. Delle tie entre outras a edição da = HistO' 
ria Ecclesiastica dei Scisma de Inglaterra pelo .Padre Pe- 
dro de Ribadaneira 1. vol. em 8." , o i." em lySS , o 1.° 
em I5'94. — a da Imagem da vida CbristSa , ordenada 
em Diálogos , por Fr. Heitor Pinto 1592. S.» = e a das 
Consideraciones sobre túdas los Evangelhos por Fr. Her- 
nando de S. Tiago i. vol. em 4.° (Biblioteca Hasseana ) 
Continuou no Século seguinte , e estampou a Relação do 
caminho, que fez ãe Pérsia o Embaixador do Grão Sofi^ 
e as honras que lhe fizerão nos Reynos , e Senhorios por 
onde passou até chegar a este Reino de Portugal. Lis- 
boa 1602. em 8." obra rara. 

Foi honrado com o titulo de Impressor Régio , de 
que usa nas edições que vimos de 1641 , 1^43 , e 1644 
e na — Chronica ^ElRei D. Jeao I. de Fernam Lopes, 
e de Gomes Annes de Azurara de 1649. ^ ^^ outras. 

Tom. FUI. Ç -<4»- 



Ânttnic Bsrreèrs* 

Foi Impressor da Universidade de Coimbra , t ga- 
nhou pelo cuidado , e aedo com qUe trabalhava as suas 
edições , grandiozo nome naquelles tempos , que ainda não 
perdeo em nossos dias. Florecia muito porij/jt, até lyjío 
anno em queimpriraio a Rílação das grandes akeraçSes ^ 
g mudanças que houve em os Reinos do Japão , pelo Pa' 
dre LufzFroes. Coimbra i. vol. em 4.° (Bibiiotheca Has- 
seana ) = e em 1593 fez sahir de sua Officina o Livro 
da Esfera de jínaré de Avellar , Lisbonense j Froiessw 
de Mathematica na Universidade 8." 

Atonto Gmçslves. 

Este Impressor foi hum dos' que mais figúrátâo em 
Lisboa naqueíle Século , dè que apparecem muitos Livros 
impressos desde 15:69 em que estampou a obra das Leis 
Ejxtravagantes » coUigidas , e relatadas pelo Licencia- 
do Duarte Nunes do Leão etc. Delle he a edição da ÍJpj- 
eripção àa Quinta de Santa Crua de Cadabai Gravio- 
1508. =: AaEspejo dei Príncipe Cèristianeo de Francisco 
Monçon de I5'7i em foi. = a De rebus gestis Emma- 
nuetis Regis Lusitânia , do Bispo Osório , do mesmo anno 
foi. = a dos Lusiaáas de Canioes de 1^71. 4.° primeira 
edição de que já falíamos :zz e a da Historia da Previncia 
4e Santa Cruz de Fero de Magalhães Gandavo 1576 em 4."^ 

Ântottio de Mariz. 

Fòi este Impressor pai de Pedro de Matiz ambos 
l>em -conJiecidos em nossa Historia LirterarÍ3,e Typogra* 
fica j em que deixarão Ulustre- mernoria de seire nomes. Ti» 
nha ji Officina em if J7 , e por 15-67 se achara Goaidl» 
na Cidade de Braga , aonde foi Impressor do Arcebispo, 
como se vê da edição do Catecismo de D. Fr, Bartholo- 



izecbvGoogle 



nE LiTTEllàTtrBAPoÍTVQUEZI. írf 

meu dos Martyres , e do fim do Compendio , e Summa- 
rio de Confessores, impresso em Viseu em lyyí) por Itfa- 
noel João. Tinha em seus prelos caracteres muito claros , 
c formosos, como apparece de mus beilas edições. Passou 
depois a Coimbra, e ficou Impressor da Universedadc. 

Forâo distintas produccács de seus trabalhos emre ou- 
tras raras edicç6es = a oa Cvmedra dos Vilhalpandas , 
feita pela Doutor Francisca de Sé de Miranda. CarmirM 
2$6o. I. vol. em 8.° =: a dos Diálogos de D. Fr. -Ama- 
dor Arraes lySi. = a da Historia das vidas , e feitos 
heróicos . . . dos Santos, de Fr. Diogo do Rosário : em 
em 15-77, =: a do Symdo Portuense , que celebrou D. Fr. 
Marcos de Lisboa em ijSf. =. a do Livro de Harmonia 
Rtíbricarum Júris Canonicids Pedro AiFonso de Vascel- 
los em 1^88. i. vol. 4.'» ( Real Bibliotíieca de Lisboa ) 
r: e a do Synodo C»n$mbricense de D. Affonso de Cas- 
tdlo Branco, Bispo de Coimbrã em 159 !■ Achamos delle 
memoria até i$^7. 

Jntonia Rilfetra. 

Foi Imprestor Régio , e exercitou esta Arte em Lis- 
boa ; delle achamos memorias desde os annos de 15*74 aré 
1624. Sâo da sna Typografia , e de muita estimação entre 
outras as obras seguintes : Meditações , e Homilias do Car- 
deallt^ante. Lisboa em 1774 ^f" ^° i-' edição. = CAr<7»í- 
ca do Infante D. Fernando, 1 5'77. =1 Genealogia dos Reis 
<fe Portugal de Duarte Nunes do Ldo i$%$ r= Defen- 
sio Tridentina Fidei Catholica de Diogo de Paiva dè 
Andrade , na Officina do Convento de Santa Maria da 
Graça dos Erènutas de S. Agostinho. Lisboa I5'78. r. 
toI. 4.0 = Patente das Mercês , Graças^ e Privilegiar^ 
de que ElRei D. Pbiltppe fm mercê a estes Reinos. Li& 
boa iy84 foi. = Censura in Libellam de Regnm Port»- 
gallia origine Olysipone lySf de Duarte Nunes i. vot 
4.° , aonde se diz ex Officina Jntonii Riparii , que se 
deve entender Ribeira. =1 

P ii BaU 



D.g.tizecbvGoOgle 



tkS Meuoriac 

Baltbazar Ribeiro. 

Pouco temos visto das producç6es deste Impressor \ a 
principal lie a edição do Discurso e relato do Cerco da Ci- 
dade de Faríí , e defensão delia pelo Duque de Nemurs 
contra o Vandoma no anm de lyjíO, traduzido^ do Fran. 
cez para Portaguez par João Fogaça. Lisboa ij^i. 8.*'' 

Belchior Bàbeiro. 

Achamos noticia deste Impressor, masjiâo temos vis- 
to obra alguma de seu prélo. 

Belchior Rodrigues. 

Teve este Impressor sua Officina Typografica em Lis- 
boa , aonde além de outras obras imprimro em 1589. El 
Pastor de Philida por Luiz Gonçalves de Montalvo. u 
Tol. iz." (BibliothecaHasseana) em ijSS Synodo de Lis^ 
boa , sendo Arcebispo o Senhor Cardeal Infante D. -Affon- 
«;eemi588as Constituições Extravagantes do Arcebispa- 
do de Lisboa por mandado do Arcebispo D. Miguel dè 
Castro. 

Francisco Corrêa. 

Este Impressor teve seus prelos em Lisboa , e traba- 
lhou nesta Arte com grande credito de seu nome: foi Im- 
pressor do CoIIegio Real das Artes em Coimbra , e do 
Senhor Cardeal Infante D. Henrique. Imprimio em Lis- 
boa além de outras obras = Livro do Rosário de Fr.Ni- 
€olda Dias em is^y. = Tratado Moral de Louvores^e 
perigos de alguns estados seculares, e das obrigações que 
nelles ha , com exortação em cada estado de que se tra- 
ta; comiostopor D. Sancho de Noronha CoítahTUtmi^^^. 
tz. as Constituições Synodaes do Bispado. de Miranda em 

DK!iti:c(;t;/CA)Ol^lc 



Dí LlTTSlÍATVKA Po» T OOITÈX A". fl^ 

xfâz = á obra de Cadabal Gravio Calydoàio na morte 
de ElRei D. João III. em iy6y = Jaeobi Tevii Ep»- 
don lib. IIL Lisboa em 1^74 = a Obra de Jeronymo 
Osório Dr Regis Institutione em 1571 = De vera sapi- 
entia do mesmo Author em 1J78 4.° = Meditações ^ < 
Homilias em Latim do Senhor Cardeal D. Henrtque em 
ijr8i (Real Bibliotheca de lÁútoa.)— Collecfao das Leis 
Extravagantes f (a mesma Real Bibliotheca). 

Francisco Garcia ou GarfSo, 

Foi Impressor^ hoje menos conhecido por seu nome: 
delle he a edição de alguns Opúsculos de M. André de 
Resende, a saber =: Endecasyllabon ad Sebasttanum Re- 
gem -z: Pro Sanctis Cbristi Martyribus = Epist. ad Bar- 
tbolàmaum Kebedum ^ e algumas Poesias Latinas. Lúbot 

1567 I. TOl. 4." 

Germão de Campos» 

Hennan, Hermam , ou Germão de Campos , foi A". 
lémão de Naçlo , e Bombardeiro d'£lRei , e hum dos aih 
tjgos Impressores , que vierío exercitar entrenó* a Arte Ty- 
pografica : he delle a ediçlo das duas obras seguintes -^ 
Regimento e Ordenação da Fazenda. Lisboa 1512 (Real 
Biblioihrca de Lisboa ) = Artigos das Sisas destes Rei- 
nos foi. =: Espelho de Cbrisiina, a qual falia dos três 
Estados das mulheres. Lisboa i^rilt. rol. Obra raríssima 
de que temos hum exemplar. Este foi o que imprímío em 
Setúbal a Regra Esututos , e Definirdes da oraem de S. 
Tiago. 

Germão Galbarde. 

Germão Galharde (<pie diversamente se acha escrito 
Gailharde, Galharde, Galha rd , e GaiUardo) foi Franccz 
de Nação , e veio a ser Impressor Regío desde o anno de 

1536 



.X-ooglc 



T^^6 , m talvea antes : a ^a Officína se acreáttou por 
hama das mais iUustres do 'Sc« tempo. IMIa salina 'ea>' 
tre outras obras d« preço , as que aqui apresentamos : 

Carta que Jetmymo Motttano JÚemão erereweo de 
Nori^iàerga a. EíRei D. Jaao 11. a ij^ de JuU» dt r^j 
tirada- d»- Latim por M.' Fr. Álvaro da Torrt Domim- 
MAo('ss(t ftçgacior) rarissimo. = Offciar des Santos dfi 
Portugal ,.çm «fif- ^r Breviariaitt staindam. tturem^^ 
consuetudinem Romana CurÍ£.Olisipõnei^z^. i. vol. 8." 
(Real Bihltotliec^ de Lisboa, e-Hasseana). 

Scholastica Disciplina de André da Veiga, da Or- 
dem Tenceir» de S. Francisco ifji -.^ Dois Tratados f bum^ 
^ Cantochão,e outro do Contraponto de Matheus Aran-> 
da , MeetTe da Capella da Sé dê Lisboa , dedicados aa 
Ssnboí Cardeal Infante , e Arcebispo de Braga D. Aâbi^ 
90- sm- 1733- '^^ Ordenançs para es Estudantes da. Uni* 
versidade de Coimbra , sobre os Criados , bestas , trajos , 
e outras causas. 1^59. =: Lei , que declara o compri- 
mento que hão de ter as espadas , e a pena que baverãa 
as pessoas , que doutra maneira as trouverem. = Decla- 
ra^Mô brevemetife trascàda sobre os sete F saímos dã fe- 
mtemia , onde qualquer fesÁoa devota f&de vér o cami- 
nbo da- penitemeia- , e ser ensinado a perseverar nella ; 
for onde pàde alcançar a vida eterna , offèrecida ao vir*- 
tuoso , e. devoto pobre. Tristão , Provincial de. todas as Pr(h 
bacias dos pobres da Serra ^Ossa , e vida beremitica 
di S. Paulo , primeiro bgrtnitaò \ por António bermitão, 
seu Irmão em Jesu CBristo ; e dedicada depois a: D. Guio- 
mar de Vilhena , Condessa da Vidigueira , |tor Germâo Ga- 
■ Ibacdc em 1544 8." obra muitp rara , de que vimos hum 
exemplar que era do Padre Mestre Fr. Manoei de S. Damazo , 
da mesma Ordem = Dois Breves Tratados sobre duas 
perguntas de Jntanio Maldonado 1548 4.° =: Ceremonial 
da Missa y por Ayres da Costa no mesmo anno 4.'» 

lyfo Cbronica da Triitn^b» dos nove da fama. foi. 
= Omeço da HistoriM da nossa Redempçm, de D. Leo» 
Bor de-Noronha lyya. 4." = Coiístitui^Ses da Bispadodt 

M- 

DKl.t.ZC-CC.COOglC 



DE LiTTiWATWnrAr PdJíS-uqueta. itçi 

Jlgarve 1$$^. I. Tol. em 4." (Real Bibliotheca de Lis- 
boa) = Tragedia da Plvgànçia , qire foi feita sobre s 
morte ãelRei jígamemnen , novamente tirada do Grego em j ■ 
Unguagem trwada por Anfimtes Ayres Fretaria , cujo 
atgumsnt» be de Hopbocks , Poeta Grego ; agora sega»-^ ■' . ,' 
da vez impressa , e emendada , e anhadida peio mesmo: '^/ 
Author. Lisboa ryyy. 4.0 goitiico. =: Lei de D. Sebas- 
tião sobre se não fazerexecução- pelas Sentenças dos Corre- 
gidores dos feitos Civeis da Corte i^^y.z=. a outra sobre 
os q»e compra» pão para tornarem a vender e a owra jíh 
bre se não tirar para, fora âa Reino prata , nem oi/tid) 
amoedado , nem para amoedar ; todas trez em l$$7, := 
Constituições do Arcebispado de Evof-a do Cardeal Infante 
D. Affmso;em 1565" rol. Naquelle mesmo anno falleceo 
Oalharde , pois que as Coplas do CaTalteim- Fern^ Pe- 
ies ds Gusmão , se dizem impressas em Lisboa íwsie sih^ 
ao, em cftsa da viuva de Geriirao Galfaarde. 

Herman de Campos. 

Veja-se Germão de Campos. ' 

Jacob Comhreger , ou Cromhetger. ^__.. 

Era Alemão , e foi mandado rir a estes Reinos nò* ] ; , , ] ■. ^ , , 
Iffíoíàpios do Século XVI. pelo Senhor Rei D. Manoel ,<.' ^ -'''■' ' 
que lhe fez grande honra , e gssathado , e lhe deu huoia^ 
Carta de Privilégios ^ passada cm Santarém aos vinte d^ Oti ^ )< ' ' 
Fflveredrò de lyoS , peíá qual lhe concedeo as honras de / / ' ' ' 

Cavalleiro de sua Casa. Teve OSicina em Lisboa , e ent 
Évora , com grande credito de seu nome ; elle foi o que 
fez a primeira edição dá Segunda «Compilação das Qrde- 
mpes do Senhor Rei D. Manoel de 15 11 , da qual pú- 
"Wkou o primeiro e quarto volinne em Évora , e o segun- 
de, taíceiío , e quinto em Lisboa ; estere em Sevilha' a-' 
oode-imprimio em 1$^^ os quatro livros das mesmas Or- 
diu0ts de 15-11 esiftmpandor o quiOFo em lisboa : ter- 
wira-edíçao da sirgunda compUa^.' i ^ ' 



110 M E.M'0 « I A i 

Jeronymo de Miranda* 

Existe memoria deste Impressor por i^6z em Li»^ 
boa; nâo alcançamos potém< até agora vêr obra alguma de 
Gua Typografía. 

Jerenytno àe Oleastro , ou de JzamhMJa. 

Foi Impressor em Lisboa por i;;6 « e também na- 
à^ temos visK> das producçóes de sua Officina T/pografica. 

JoMo Alvares. \ 

Este Impressor exercitou a Arte Tipográfica em Lis- 
boa y Coimbra , e Braga , de parceria com João Barreira , 
e foi com elle Impressor da Universidade. Também o foi 
d*ElR.eÍ , como se vè no fim das Cartas dos Jesuitãs im- 
pressas em i^éz. Delle são entre outras obras de estima- 
ção =: Dialogo da Perfeição , e partes que tÕo necessá- 
rias ao bom Medico 1^62. i. vol. 4.° = Oraçãe Latina 
«ffí teve o Doutor João Teixeira , Cbanceller Mor del- 
Rei D. João II t quando D. Pedro de Menezes foi feito 
Marquez de Filia Real ; e a tresladação delia em Por- 
íuguez por Miguel Soares: Coiméra no mesmo anno: x* 
ToT. 4.° muito raro , de que temos hum exemplar = 7>tf^ 
tado da vida , e Martyrio dos cinco Martyres de Mar- 
rocos , enviados por S.Francisco : Coimbra tmi$6Z I. vol. 
4.° raro. 

João Barreira. 

Foi este hum dos Impressores , que deixárao de Á HoiíT' 
roso nome á posteridade , e que mais conhecidos se fíze- 
râo em nossa Historia Typografica : trabalhava de com- 
panhia com João Alvares, de quem acima falUmos , eín Lis-, 
boa., Coimbra , e Braga. Morou na rua de S. Mamede 

em 



DE tiTTE R'A*tnrA' Po»'M^n(3 VEi a; ixr 
em Lisbrá ,'coW consta da edição' db iTiátado xíos''dÍ\ 
rersos caminhos de António' Gama: .ínèlhcniou muitó:a; 
Arte, esmerando-se èm fazer ■ edições -rtcotnmendaTeiá ^clai. 
bondade do papel , peia belleza do caracter , e pela correC'* 
são , e actíov roí Impfçfieor Régio , e da Xlirivetóidade dô 
Coimbra. :■''■■,' - ... '.■. .'. ■. , ,' ■. -. ■ ■■ \ 

Já falíamos nó Capi XI.. .de muitap édiç6es dé sda 
officina , e entre eilasdé três -jtnuito notáveis, re muito ra-* 
ras, de que vimo?, eteojpknes na- fiibKotheca de Enxobre-^ 
gas. quaes sâctr: i^r/j/^íf/»/ de RepreheusiÀttibits Saphis- 
tarum liber unas •.Nicvláo Gr.oucbio Rbotomagensi- intsr-^ 
prete. ConimhHci^.i^^^; i-.vvtil. 4/'' impresso pot cuidado; 
e:áícusi^de Belchior. Bellrágd r::' \Arnoiái Fabrkii ÂquU 
tani dr Liberaltum ^rtium Stúãtís Oratii» ,. CoÀmhrjcOi 
habita in Gymnàsio Régio pridiè quam ludus aperiretur 
IX. Cal. Martii i5'47. . Q>nitttbrice 1^48. i. vol. 4.° =z 
Melchiorh Belliago Portuensis de DiscipUnarum omnium 
StuãirsOrafáo aà univffrsitm: tíícademiavt. Coiriínèricensem 
habita Gali Qotabria'í.5'48. Cfttiimbr. oi. vcj, 4'. (que ssi 
adaioa meaoiai.BiblSothecai^eift liui» volume ^em que.esr; 
úo as obras Graroinatipses, derThomaz Linacro^de LuÍ3Í 
Vives, e de outros ). A estas, prodúcçoes accrecentar^mos: 
agora outras , quaes são as seguintes : z= Monosthicon depri- 
mis Bispânorum Regibi/s.r^ ,Çbroaologia seu Ratio Tem- 
púrum (duas obras de Fr. Nicoláo Coelho de Amaral, 
da Ordenai dtTSantiasimá Trfndâde') Coimbra i. vòl. 155'4. 
Ignatii-jMoralis ih lal^ritu Principi/ Joannis : Conimbt. 
IS:J4. .4." =. Historia de Nossa Redémpção, que se fe& 
para consolação dos que hMo sabem Latitn. Coimbra i ^54 4.".. 
== Hieronymu^: Opera, i^.^ 6 foi. n; Tratado notável de^ 
httma pratica, ^nè bum Law^éçr teve com hutn Rti 4(t. 
Perjial ?«* J"^ cb^mav^ jlnano ; feffo.par bunf B.çrsia 
porttóme Coãio- Rufo .;. reduzido em ,Partugiíez por Fr-i 
Jerõtiyrtto ' da Orãimde ^.' bernardo do Convento de Àlr^ 
cobaça. Coimbra i$6o> z< vol. '4." obra rara =zMortis- 
Meditatiffi A-.-Jacobo: Tevto^Olisip,- .i$6i == Imagem/ia 
vida Çbrí^fãa de; jpriti^itor Pinto :vot ,0 mc3i?io[= JEx- 
Tom, VIII. Õ. fo- 



:X'OogIe 



rW ..' ^ :■ "■ ■-■ :Mv.S m O-tr t 1l.jS:- ■; . ■ ■ " ■ ■; 

fOfifSes lát; Pjíàh lie PvJacio aa.EwmgíIhfde S. Màttheas. 
Cernira! i^6jf kA. nziJí^taria -daS coesas ^ae a Capitão 
D. Chrift9vâ« Jà Gtaãe fez rtõ Bevie <lb Preste Jtmo 
i$6\ 4." =: Andreat ResenÂii Cãrmát Endecassyllã' 
bum. ad SeèksUanum Regem is^7* = Verttath Repor- 
tnrium per Frantrem Frandscum Securim ( isto Jie , Ma- 
chado) i. vol. 4." = Leis., de trnnt bSo de ir armados 
es Navios- : sekre Q\peeead0- âe Sodtmiã i.esoérf or Li' 
vros defesos. Lisboa 15:71- i. voL 8.".:= Regimento , e 
Estatutos sobre a Reformação das três Ordens Milita- 
rts: no mesmo anno i. rol. S.^.^que costumâo andar jun- 
tos com a Cotlecçaodas Leis por Francisco Ooiréa =: Me- 
morial paru os peràSts : Oiisipt/né 4.' , sem era ; obra ra- 
ra (Real Bihliotbera de Lisboaj^; ■ ' ' .: ■ . 

J»ão Beltrão da Rptíba. 

Tinha oflicina Typografica na Cidade de ■Braga , a- 
onde imprimiò = Reportório dos tempos ertt içií». Este 
foi o íjue de parceria com Pedrt> daRbcha iestampoitem 
Braga «n iyj^ a fará obra* do Sacramental de Clemente 
Sanches, de que ji falUmofi. 

■ ■ ■ Joã» Slavi^. • . 

■ Foi ftattiral^ de Colónia ■Aggripina , 'e'Im'prt«ÒT Ré- 
gio ; floretfá em Lisbpa pdoe atinoà à't t^SS \ e^correo 
parelhias coui os melhores Impí^ssores' dá sua idade : delle 
são entre 'outras edições as seguintes — Tratado de como S. 
Francisco huscò , y halfá a su jítuy ^querida Sefiora la 
Sant\iPobresa, m-andadò transladar per'-eS_^u^ de'Sra- 
gaftfa D. james. hUhòs iff?- í> Vol.' li;.* 't^ Ley sò' 
bre- osjrcaiuzes' delRei i): 'Sei?astiâo.'Áe iff? ^^'Tw)»- 
fa , y dos SermÕ?íes -dei Padre Pr. -^tían de la Crvx,. 
1558 12.° C R-eal Biblioíhecà' de Lisboa) ~ Treze Ser^ 
mõnes de Fr. Luiz de Granada Lisboa KJ?. ■'■ vol. 4. 
(BiWiotfieca de Enxobregas') :=Sènímaòíètana dei Pa- 
\ , ' .-'- J •"•Olhe 



SB LlTTBIÁTVKA Pc&TVQVBZA. ttj 

irt Paula 4e Palácio is6o. i.. vol. 8.° (Real Bibliotheca 
de Lisboa) := PUseadri Epsfd<ff três carmine ad Lu- 
pum Scintillam etc. Olisipone lyói. = Escola Espiri- 
tual de S. juan Climaco. Lishoa i^6i. 8^<» Èdíçáa j/ 
(Real Bibliotheca de Lisboa , e HssKuna y :=-Aifi sor Es*- 
piritaa-les t que enseáan conw el sue^g' corporal soa pro>- 
vecboio àl i;pí>//« , dedicados ao Senhor Cardeal Irifánte IX 
Henrique 15^3. 8." ' . • 

"João de BorgOj ou Borges^ 

Poucas edições temos visto deste Impressor ; he esti- 
mável a do Livro do Mestre Resende , jQtituIada =: Lu- 
dsvica Segea Tumulus, Olisip. 1561. ! 

João de Eitdem, 

Foi Impressor em Goa , bem conhecido por muitas 
obras que estampou , de qui se pádem vêr algumas no ar- 
tigo da Typoeraíia de Goa òú Çapinito 11. das 'Cidades, 
e Villas et c , ne niuitó estimada emre todds a édiçlo dog 
Colloeptios d&s Simples , e Drogas , ê causas títedicinae-j 
dalfidia ,pelo Doutor Garcia ^Orta:G<XLif6^. 1,^0^.4.". 

Joãú Fernandes. 



Não temos visto producçòes da Typografia deste Im- 
pressor , senão a do Livro 5= Ordo Officiorum Canonic^r 
rum RegulariumiOlisipoite t^y^ i»monasterio S. Vtnceth 
tii. 4.* 

João Lapes. ^, 

Também não temos visto edições deste Impressor; de 
que ai^ii devamos fazer memoria* 



?»4 ..*, •. r. . rW r»- HO -» i-.-i f 1 2. ■: v i .1 a ff 
-VI * .. ■■.. lâV*^'*^ ■Í^^^ÍÍ^J' ,.;\ 1. ( •: ..' 

Era: i^lemão ^e. Naçâo, 'e tmlia em Lisboa huina fa- 
flnosa oíHcina em que estampou muitas obras ; elle foi o 
que fçíi^a, primeira, edição, aas OrdejiafÕes 4o. Reino, An 
Sçnhqr R..ei D.' M^npel, daprimçiraCompiía^qi fol.que 
não podemos até agora vêr. (^a) . .; ,; , i :,>[■. . ! 



joèam Pedro Bonbominh 

-■-A X^híim ífíírP.tí^Boáe,, hQmat]HiQU,jBoiftl)qniÍfVípttBon 
homyni , ou Bognònjijp j Qta,^i^úf^{ApJfçmj,-h^i^iiit(í:, 
(que assim diversamente se" adia escrito) foi Miíanez de 
Cremona : parece que^M.-.çyilA O^ina Typografica em 
■ Lisboa no fim do Século XV. como'']^ notámos nas Me- 
^núri|a6 ^e^uetle. Século- (ir). 'No «^uínte estampon elle 
_Yariaf oÍjr^Sj.e a}gfiraas de. p^rcei»^^ com Valeníim.Ecti 
Jia;;^í:,jde;.qu,qili ,3diaiíte fajjafe^jyjs t, „ .', . ■ j' . f, ,. 
'■)\- :;ííQí jEs^.\fpi-Q:9yeiiçíprími^9,LÍKroGr<Hflw 
5pã^~P^^|^iía,ej4^ 4iitofTÍQ.JÍhirtiifls % i^ai,, dp"qHe se usava 
^s,||^pía,^^iji^l j<]ypse,q^m^9a.-3?fíjra»if/f deferes e 
Espelho de meninos (/)> Fez delie outra edição em lyij ,áe 
:r-.-..-.A ■> -■V. que 

"""^"^''Jíãff'^^ -píítí^í-^vÍH^r^Vs 'Ãíin^ÃdU'- ÍteírÍ'"Urr*>fti' Váic5o , 

-«âflí<ÃfAnílí«j(«3*<4A Xútpmi^tt que.- AíiUOciJèlttmçiVioiiiínoLRTe- 
gimentu tta Alfandega do Pucto ~, que existe na Cantata dàíjucll* Ci- 

(i5 Maittaire Fai menção (teste Imniessor noi leui Annaes Ty- 
gtaficof. .*,l\íA í.-..':- . 

Çc} Na^uellei tempoi Tai costume em a)g<jus Reinos coi]>|>6r, 

t\\ik as pí>dísscm'facÍtnrBnte comprar', foniõ fói a' obra de ÍJicnliq.de 
Hanape intittilada: BiAíin paií^ítt/m; a-oirtri' coM^'#'tii«ín<j'iftTilo*di 
Aiitot.io de Rape^ollii , e oníra jiiiiilhante ein Aleiíiiío, 

Esta ub a du Thesouio rir>s pobies saliio íuíii dstC titulo ir: An- 
ta(ft' Mar tini quand-n A/,;- 4rt'tj^Pvftraa£ in alma UnivrruMe Ulix- 



DE LiTTBSsATlíllA Po* t^I Q U EZ A. t%f_ 

tó.íiurfí.eEefnplârna ít.èal Bihliothecia d'AjUdi» , o ^ualfoi. 
á^JLm^m íSo Abbatie Barbosa, quevio , e exainiDou o 
Padrp Msooei ^onteirp , da Congregação do Oratório de 
Lisboa, para o seu Novo Methodo da Grammatíca La- 
tina. Estampou mais = F/os Sanctortim , antigo Ponuguez , 
por ordem do Seobor Rei D. Manoel lyij = Livro pri- 
meiro das Ordena fões com sua taboada , que assina os titu- 
Us , ^ fole AT :■ e iratase nelle dos Officios de nossa Qtrte , 
e da Casa da ^Supplica^çãit,, e' do Civel , e daquelle que pei\, 
nos tt carrego de ministrar Direito , e Justtça : novamente . 
corregido nesta segunda impressam per especial manda- 
dado do muy alto y mHy.poderose Senhor Rey D. Ma~ 
noel Nosso Senhor ^ imprimido com privilegio de sua Al- 
/«M>;;?ri^z. no fim a sul^cripçlo seguinte := Acabpu-se de 
emprimir èp -l.° ^Livradas Ordenações cerregido,e eme/t^ 
dado por o houtor Ruy Batío , do Conselho Del Rey N, 
Senhor , e Chancellçr níOor destes Regnos , e Senhorios 
per authoridaãe , e privilegio de S. A. em Lisboa per 
Jokfitn Pedro de Bonhotfi/ni aos jd dia/ de Octobro de 
iyi4- O segundo Livro estampado em Dezembro ; o ter:-; 
ctíro e^n Março j o quarto çm Maio , e o quinto em Ju- 
nho .pelo dito Boi^omini , com rostos differentes t. vol. 
foli (« ) =q Regimento de como os Contadores das Cornar-' 
cas hão de prover sobre as Capellas , Hospitaes , Alber- 
garias , Covff árias , Gafarias ^ Obras , Terças , e Resi- 
ioi mavifmgnfií ordenado, > e copiltaâo pelo muyto al(o , e, 
tnfHto. pfí4erof&Rey D. M«»flí/, Lisboa 15-14. i. vo], foJ. 
gothÍWi,í Reil' Biblioíhera dç'LÍsboa e Hasseana)=:£re- 



imíiijí praetptnTit materiarum táiiía a hacal» r^íoram hrtvUer ml- 
Utta aãplt: «atáiba rz Megiiíri Jahannli de Petlrano cum ttnjag^tif 

?iÍBi ttmpor mn>ij-er 'mvtatis ttim matcritíui Aatenii l^arlint tl,e ,, 

ptr víotrubilem JBktnatm Pilri dt henii l^eminibas de Cremona in tplen- 
ihiima Víixifna C\viiiti ^aarln Kdtnáiii Deceniins impreiíum anm Pune 
inilíeiimo/^aingenttisimt prhiio felUt i^dère txpUfil. 

C") 'Eue» exemplarei forSo assignailbs por dois doi quatro o 
JftMiior JoSp jjÇony , o Doutor J..5a^<le Fa/w , o ;Doutor Pêro Jorge, 
e o Licenciado Christováo Esteves. 



l2£' M E M O K I A S 

ve Memoriai dos peceadoí : áe Garcia ãe Reimêt. Lis- 
boa em 1^12. I. vol. S." Faro ( R.eal Bibliotkeca de Li»> 
boa) = Ordena fam da Ordem dâ Juiz» : Mnbem em 
£Jsboa em [52^ 

João Quinquénio de Campania. 

Foi Impmsor em Goa, e estraiig«Fe: e de algamaa 
de suas edi^s fizemos men^o no cap. U. du» Cnades, 
e Villas T. Goa. 

João de Ribeira. 

Sabemos deste Impressor peh edição do^ Dicctonari* 
ttnt Latino-Lusitanicum : OHsipene anno iy5«. 

Jorge Rodriguez. 

Ha noticra deste Impressor desde os annos de tf^ , 
Cm que publicou de sua Officína := Norte de Confessores, 
Lisboa I. vol. de 8." obra dedicada ao Senhor Rei D. 
João ni. De seus prelos sahk) o Lirro Sentenças género- 
tes de Francisco de Gusman, Lisboa ifçS. i. vol. em 
l.tí. (Bibliotheca Hasseana ) — e Tr/«^ dei MonarcÒa Fe* 
lippe Tíh 4." Continuou no Seeulo XVII. , e são (fesse 
tempo =:: Sentenças de D. Francisco de Portugal , Fr/- 
mtiro Conde de Plmioso 160$. i. v<rf. 2." =: e Década IIL 
de João. de Barros ^ segunda edição de Lisboa i6i8. 

£«Í2 Rodrigues* 

. Este illiístte Impressor , que residio em Lisboa ». tau 
nas obras que publicou os títulos mais incontestareis para 
ser qualificado entre os bons Tipógrafos do seu tempo: 
ainda hoje se estimao as suas edições , entre as quaes se 
destingaem muito as s^uíntes = Oratio Panegyrica de 
António Luiz a ElRey D. Joío III , que estampou em 

m9 



t)E LlTTE» ATURA PoUf UQUEZA Í17: 
15*39 1 ^'i' 4-** ( R"^' Bibliotheca d* Ajuda na CoUccçâo que 
tem pçr titulo = Elogiai Oratórios ,e Poéticos dos Sere- 
ttisifsimos Reis , e Rainhas ) = Commentarios de Bar- 
tholameu pilippe ao Camn : Scindite corda vestra : no mes- 
mo anno = Livro de Patientia Còristiama , e outras o- 
bras de Jorge Coelho em Lisboa em I5'4S. i vol- 4.° ( Real 
Bibliocheca de Lisboa, e a nossa) Obras de António Luis 
:r De Oceuitis proprietatihus. De Emfyricis. DePuàore. 
et Probiemat. foi. ^:=^Verd/ideira I/rformafãa do Preste JoSê 
das índias por Francisco Alvares em I5'40. íbl. {-a) =z 
Fiammeta de Bocado. Lisboa 1^41. i. vol. .gothico (Bi- 
Uiodieca Hasseana ) = £/ Deceoso : <em 4.° tambeoi em 
gothico , no mesmo anno , com só cinco partes := Libro 
de la verdaã de la Fe , composto por Fr. João Soares ^ 
da Ordem de Santo Agostinho , Confessor , e Pregador 
Btlkti D. João IIL Lisboa ij+j. i. vol. fòL gothico. 
=: Breviário Eborense. Lisboa 1548. i. vol. 8." he refor- 
mado por M.° André de Resende = Ordenações sobre hoi 
Cavafíoi- , e armas delRei D. João III. , t sobre os Lo* 
ío^em 1^49. Com estas, e otítras muitas ImpressÒcs fiex 
dle especial beneficio á Litt«'atura Naãonal. (^) 

Mn' 

'C"D Não vinlo» «dição ■nterlor a «sU de iJfJ . qBe cwi* 
íomo primeira , »endo' ^ue parece *et «gundi . por Viella t« fli«r: 
»pT» luviutote itrretu : BatboM fallwi Av írtipreísSo deita «bta , 
mas Mm notjw nem o irri;o , ncni « tw-gar í o q«o daria motivo » 
conjeciarar ..que. fallavide primeira, ediçá.., em que .não haveria eíW 
hoU: por outia pane nSo te £ai vcioiímil , que elle Ignoiasíe e»U 
iv 1;'40. 

<i) Se«(|. TypiJfrrfi. he, que.o TadreFrarKMCo AUarei , Ca- 
I(éllS(»id'^m#ij COllocmuaiwUmptíi e cai*cier^ de letia* de vAa 
ineooi primor , e qualidade , que as de Itália , Alemanha . e França, 
tonde maii esta Arte florecia , que elle dii haver tibiido de fatft 
para a impreisáo de lua obt» do Preste J^o , jeguodo jc tira dei* 
Ui palavra» de seu Prologo a EtRei : CcmtV. Alicx«fèdê iilr ptU 
rfra «r «n*; *jjfnrW« rnt Lirh* i ««.<»■« jtífw-* teaíaitJimtnt» 



:. parectr , , (bí 



AHcta BUI' kva gwt» C«m «ffeito ( 



cter da offici„a de LuLi Rodrigues be mais regular , e aceado , que 
o comirrortr datoutas officínas 'daqtieHcteiinwiii e de setu pietoa «- 
bio 1 ediçSo que cone da obra de Francisco A1»«m. 



:X'Oog[e 



Maneei JoSa> , ' ' ' 

Este Impressor teve sua Officina Typografíca na G» 
dade de Lisboa , em' que escampou em icój 'oa inae- 
rioridadé :do Senhor D. Sebastiãtías-Cr^safwí d5'Senhor 
#.g D.'Mainoei I. vol. fóI. que he a quarca edição da'5ejíun- 
/ da compilação de lyii cujos eiemplares forâó assignados 
pelo Desembargador Matheus Esteves, Juiz dos Feitos/ia 
Fazenda. Depois passou seus prelos para Vizeu, aonde foi 
- Impressor do. Bispo daquella Diocese, e ali estampou, algu- 
mas obtas ; veja-se v. Ftseu no cap. II. das Gdades e VilLis. 

Maneei de Lyra. , - - i 

Foi este Impressor mui nomeado entre oós pelas mui- 
tas ediçíSes que produzirão seus prelos. Entre outras mere- 
cem, aqui particular memoria a Az' Entrada-. qae em Por- 
tugal.fez D. Philippe I, de Portugal, 'por tsidoro^ Velas- 
quês eta lySj. 4.° i. vol, ém Castelhano ( BibHotheca Has- 
seana ) == a áo&',Cercoí. de -Malaca dejorg^ide Lemos 
ifZ$ j^°^=.3l da Tragedia muy sentida^ e elegante de D. 
Jgnes de Castra etn ijS/ 12.°, que he a mesma de Ferreira 
com alguma alienação , sem^ nota de lugar ; edição rarisçi- 
ma de que. temos, hum exemplar :=za|,çla,fÇÍl^yííffJ deLuiz 
Pefeira de rySB' em 8.° r= a do Discurso -sobre ávida. 
e Morte de Santa' Isabel Rainha de Fortv^al ,'com oh- 
iras }varias Rimas tm ijjío, em 4-° i. voT;t^ a do Re- 
portório dos tempos de André de Avellar 4."' também em., 
líço sem tiotade lugar. = Obra? de. Francisco de Sá de 
Mirarífla i-jos". r. vúJ. %."• — Regimento do Auditi/r$«- de 
Évora i^^a. . " , ,'',.'■ ' ' " , '.(,'.■;' ' ' . ' ' ' ', 
,' ' ..' ., Marços' Bdtger.' / '' ' '•:' • '[ 

Era Impressor Régio em Liteboa por iy(í6, tempo em 

3ue imprimio Ptfriíííflw de Joaò Cóifitèa^— Cbronica de 
'canéekfrg, em ÍJ87 =?; Regimento 4ç '10 4f, Dezembro. 



àe 15-70 doí Capitães mares , e mais Capitães , e Off.ciaes 
das Companhias de gente de cavalh , e àe pé 1571 = 
Terceira e quarta Partt -da-Gh^imica do Palmeirim de 
Inglaterra 1587. Este foi o que imprimio a Chrònica do 
Fíorizel em i$6o. 

Martim.de Burgos^ 

Foi Impressor em Évora , e ali d«o á -luz entre ou- 
tros os quatro liyros de M.* Resende = De Ântiquitatit 
bus Lusitânia em IJJJS. foi. 

Pedro Craesheck. 

Nos fias do Século XVI. começou de figarar o Im- 
pressor Pedro Craesbeeck , com as edições que deo de. 
seus prelos. Em iy97 estampou nelles ~ Index IJbro- 
rum probibitorum de mandato D. Antonii de Mattos de 
Noragna , Episcopi Helvensis , Inquisit. Generalis Lusit. 
I. voX 4,° e em 1^98. = Doctrina militar por Bartbolo- 
mett Searifítt de Pavia i. vol.' 4.° (Bibliotheca Hasseana) 
Continuou no Século seguinte , e delle se conservao memo- 
rias-nas ediçées-que temos visto de 1603 até l6iy. He ra- 
ra a do Opúsculo intitulado : Chori Tragedias quie inscri- 
hitur D. AntoniusMlisipone \(>o^ com os Súmmarios doa 
Actos desta . Tragedia (a). Esta o£cÍna durou mais de 
hum Século em seus descendentes, 

Pedro da Rocha. 

Foi parceiro de João Beltrão , com quem imprimio em 
Braga o Sacramental de Clemente Sanches em i^^^ de que 
já falíamos. 
Tom. VIU. R ' Si- 

C-D V. Karia na Europ» P. III. O Senhor Rei D. PedfO II. 
faz mercÉa grandiotat a seu filbo Anionio Craibeeck tà pelos mui- 
toi Livros qua imprimio das Historias do Reino t dando-lbc ten;« 
dl 40 inil íeis com o Habito para seu filho. 



izecbyGoOgIe 



fj© M EM a RITA » ' ;. - 

Simso Lofef. 

Foi Impressor em Lisboa nos Bhe do Secc^ .XVI. 
Delle são entre outras as edi<^ôes.=z do Itinerário ^a Terra 
Santa de Fr. Pantaleâo de Aveiro. Lisboa 1593. 4-'' ~ 
do Naufrágio e Lastimoso Successoãa perdição de Manoel 
de Souza em i$^i^^°^zDos valerasas feitos de ^maleon 
15-98. =: do Regimento Náutico de Joio Baptista' hava- 
ríha f Cosmograpbo rmr. Lisboa i$95'. i. vol. 4.<« 

Ibomé Carvalho, 

Consta-nos que fora Impressor em Coimbra por lyíjí 
nío Doa recordtmôs içotétn de ter twKi-edíjóes feuasl 

F^alentim Ftritattdet, ■' 

De Valentim Fernandes já falíamos lias Memorias do 
Século XV. (a) foi Alemlo , da Prorincia de Moravia , 
(i) e Escudeiro da Casa da Rainha D. Leímor , tercei» 

mu- 

Ca) bs5eii](.í em nossa ftleiíiorij d* Tip/igrafi» do ■S«çuln XV. 
qup suspeitavamot , que esie liupiessur foia o nietmo que Valemim 
de Moravia, que imprímíia com Nicotáo dç Saionia o Umo de FíM 
Cbriui : agota o afBruiainns sobre as combioaçôds qu« dapníã. file- 
mos ; principalmente sobrei ediçS» das Coplat (i« Jorge íáa^ri|qq«, 
«m que elle se di; Valenrim Fernaniles da Província de Moravia : Lei- 
ião liai Memorias Chronologicaí daJhe u subrenome de Moráo pag. 
467 %■ 1000. e com tffciío o Marquei de Vtli» Real D. Pedio ds 
Meneies na epiílota que lhe eícreveo , lhe cliamou Jtforanuni : com tudo 
M» Aiai «diçfiei da Gramniatica de Estflviç Ç»v*W*tç«..e na das o- 
braj de Majcn Paulo e de Nicoláo Veneto, ena das Coplas de Jotgw 
Maorique, só se cbama Valeuiiin Fernandes: donde suspèitainoi que 
houve cquivocação , e que Mcaaam que deu occaiiáo ao sobrenom», 
de laerãt , se deveria ler ^Wrrauam .noir.e de sua terra ; sendo íacil n» 
ntiptesíit) pôT o por v. - - 

C*) E"e mesmo se chama Alemão na PrefaçSo j Tresíidacão do 
Livro de Nicofao Voneto . que vem com os Livtos de Marco Faulo: 
A)nd« le lu de oonigir o lujar da Bibliotheca Lusitana-, que o *• 
pot Poctuguez. . , , ., 



UB LiTTBRATVRA PoRtUQUEZA. IJt 

mulíier do Senhor Rei D. Manoel , (a) he o primeiro , e 
mais antigo que apparece na frente deste Século ,. continua 
ando etn Lisboa com sua oiEcina Tfpograãca por 1500: 
nesse anno escreveo elle a D. Pedro de Menezes , terceiro 
Marquez de Villa Real , pedíndo-lhe suas obras para an 
imprimir; a cjuem o M»rquez respoadeo por sua carta de 
»i de Fevereiro que tem por titub : Epistola ad Falen- 
tinum Ferdinanàum Moranum Typograpbjtm data 11 de 
Februariy anno á partu J^rginis ijoo. 

Este foi o que estampou as ^^ Orações , e Episto- 
las de Catalão Jquila Sieuh^àç que já falia mos, com as 
obras do Marquez em Lisboa em lyoojde que ha exem- 
plares nas Bíbliothecâs do Colkgio da Graça de Coimbra , 
e do Real CoUegio de S. Paulo da Universidade , e na CJbt- 
sinlana em Roma , como já notámos no Cap. IL das Ci- 
dades e Villas etc. (^) 

Teve parceria, com João Pedro Bonhominí de Cre- 
mona, com quem Ímprimio= Catecismo piqueno da Dou- 
trina , e Instituição , que os Christãgs bao de crer , e 
õhrar para conseguir a Bemavenfarança eterna : feito por 
Diogo Ortiz , Bispo de Ceuta. Lisboa 15'04. i. vol. foi, 
gothico de que também já fizemos menção ( Bibliotheca 
de Lisboa) Outras ediçóes suas podem vêr-seno cap. ÍL 

Vasco Dias Tanto de FrexenaL 

Este Impressor assentou sua officina na Cidade do Porto , 
c parece, que foi o primeiro que ali- exercitou a Arte'Ty- 
pt^fica naquelle Século : (. f ) forâo partos de seus prelos 
R ii o 



Co) Astim 10 intitula na PtefaçSo doi Livros de Mirco Paulo 
^e rnipr-mio em Lúboi. 

C^) Pelo que M d^e corrigir o lugar do erudito Etpa(ihot Ray 
mundo Hiaiiat no Sprclmen de prima erigint Ti/ppg, Hiíp, tílaie , que 
dii a pa];. 76. que não conata do Impressor. 

C«) AcMo leria parente de Freixenal , Mestre de Graminatica em 
Liiboi no Bairro dan Eicol» , de quem falia Leitão nai Memorias da 
UaÍTenidadc ^ looth íàU 4Ú6. 467. 



DniUizecbvGoOglc 



iji Memokia^ 

= o Espelho de casados ^ em lyip = e as Constituiçoís 
Synodaes do Bispado do Porto, ordenadas pelo Bispo D. 
Fr. Balthezar Limpo em 1541. foi. das qua«s obras já de- 
mos noticia no Cap. IL Verb. Porto. 

Vicente Álvares, 

Nlo temos visto obras da Tipografia deste Impressor 
para darmos aqui maior oottcía delle. 

'^ Vicente Fernandes Peres. 

Este foi lium dos mais antigos Impressores , que teVe 
Lisboa naquelle Século ; foi de .sua omcina a rara edição 
dos Autos dos Apóstolos em IJ05. 

CAPITULO IV. 

Do merecimento Typograjica das Edições A Portu- 
ga/ no Século XVI. 

I. 

Dos caracteres. 

D Io A MOS alguma cousa dos caracteres de que a Tj- 
pografia usou naquella idade, e do mais que pertence 
á perfeição desta Arte. -^ 

O caracter que dominou em nossas OfKcínas no prin^ 
cipio do Século XVI. foi o mesmo que já' delias se havia 
senhoreado no Século antecedente, isto he,o gothico , ou 
semi-gorhico, ou entre o gothico , e o. redondo, que pro- 
cedeo das depravadas letras Uncíaes Roroangs ,e particular- 
mente da letra Toledana do Século SM. introduzida em 
Toledo nos tempos de D. Affbnso IV. que imitarão os 
primeiros Impressores Alemães no Século XV: («) 

Es- 

C*) He Imina esptcie de ciucler ou .Uírí.qwe em todi a paice 



DE LlTTERATUHA PoRTUflUEZA. IJJ 

Este caractec em muitas oíwas waainda.tònuoso, in-í 
forme, falhado, e pouco claro' como o fora no prMidpio 
da Typografía : com tudo em outras começou de appar»* 
cer com mais algum primor, e aporameiíto, fbrmando-se 
as letras de liam modo mais claro ', distrncto , aceado, e 
degante , . como se vé já nas E)diçães da Regra , e Deãni- 
ç6es da Ordem de Christode 1504, do Catecismo peque- 
no do Bispo D. Diogo de Ortiz , do meimo anno ; daa 
Ordenaçâes da Reino de 15* 14 , do CanfelSonario de Re- 
zende de lyj-i , das Constituições de Briga de rfjS ,ido» 
Capítulos de Cortes, e Leis de iS39s * ^^ verdadeira Im- 
fbrmaçâo das Terras do Preste João , de Francisco Alvares 
de 1540. e de outras. Depois andando o Século entrou a 
tar maior limpeza, e elegância; e ficou imals direito , re- 
gular , desémpedidoe' claro ,'como já sei acha na .edição 
da Fiamm^ra de Boccacio de 1^41 , e nos Commeiítarío^ 
de Navarro ás três -uhimas Distinções de Penitehcia de 
15'42 , e em outras obras. 

Desta soEte continuou a estar de posse de nossos pre- 
los o caracter Gothico ouserai-gotliico«éaomeio doSecuio 
Xyi , e aijida até mais tarde ; humas «ezes solitário ,'Conio no 
principio j outras alterado com o Romano , 'que se lhe foi sub- 
stituindo pouco a pouco. Com eSeitò ainda elle aparece na» 
oiEcinas de Lisboa por lyyj nas Décadas de João deBar- 
ro6, e mais adiante em outras obras. Em Coimbra reinou 
ainda pela mesmo tempo na Oficina de João Barreira , co- 
mo se , vê no Opustulo de Alberto Magno De adh^ren-' 
éo Deo -de. 1555, na Histoiia de nossa Redempça»-, im» 
pressa por mandado de. D.> Leonor de Noronha em 15^4» 
nia Traducção da Historia de Eusébio de Cesárea por Fr. 
João da Cruz no mesmo anno, e no Tratado Notável de 

. hu- 



maJ! do meio Ao' Século XVI'a que dão varioi ' namtk 
! 3iiHa , Antiga e Gcikica, lejn mais mouta tjue o de 
loa cnnlusão', e abbreviatutas ,e tanibetn . KtntJidaa . pòt que NicoMs 
Sansnn o levou a Venesa , e impiimio nelle muitos livros desd e 
1470 atá. i4iiz. e finalmente teve lambCEti nvnie de CatdárHh» , e 
^Ttriit ImpFcsior VetiWiatlow 



..C~,oot^lc 



- 134 M E H o K I A f 

huma pratica que tere hum Lavrador com litun Rei da 
Pérsia, de 75*^0; e na ofScina de Jcâo Álvares na Tra- 
tado da Vida , e Martyria dos cinco Martyrea de Marn> 
cos , de if68. Em Évora estava elle em uao pelos ntet- 
ni33 amun de 15^4, e ainda depois , como se mostm da 
Homilia de Jorge da Silva , e da Terceira Farte de lu 
grandes Haiafías de los Principn D. Kogel d« .Greda etc. 
O nKsmo sHCcedta em 3raga', cotno o prova a edIçSo da 
Breviário- Bracarense de 1549 ^ reformado, e mandado ídB' 
pnmir' peto .Arcebispo D. Manoel de Smiza. 

Alem do gothíco , oa meio gothíco bouve também 
o Rocnano , o qual entnsu nas officioas de Portugal , pouco 
depois que se espalhou peias de Itália .^ e França. Ja elle 
havia começado a apparecer em Colmitra por if}6 na ra-* 
ríssima edição da Amimona , s outras obras Poéticas de 
Ayre» ' Barbosa j' na de Boecio de Drvisionibus , ambas e* 
diçóes-da officioá do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra 
e no Tratado Moral dos Louvores,* perigos por D. San- 
dra de Noronha de 15*49 , e em irais alemãs outras 
.daquelles tem:^»» : tBss não ch^cua predominar ,ea ex- 
duff d nidcEs de caracter gothíco :j sen^o na declinação 
já daquellè SecnJo. 

£ste caracter fòi de duas castas ^ o Itálico , que 
proprtamemre se chamou RomanO' , e o Veneziana A 
princípio usou-se muito em nossas Officinas do Itálico , ou 
CuFsivo, que havia inventado JilIòo Manucio bo princípio 
do Século XVI á semilhança da Escritura Manual, ou le* 
tra bastardliha , o qual se tinha espalhado em toda .a. Ita^ 
lia, e em outras partes da Europa. Coot estes caracteres, 
e de muita elegância já trabalhava por 153a a offictna de 
Santa Croe de Coimbra \ coma se vê da bella edáçao da 
mesma Antimoria de Ayres Barbosa, e na das Poesias La- 
tinas de JergcCeelho ao Cardeal I n fante D. Affianaa :- tra- 
balhavfl tambam Luiz Kodriguez joas suas ediçde» , sendo 
huma boa peça e amostra delias a dOs c\aá> Livros dos 
Problemas de Amónio Luiz de lyyo : trabalhava igual- 
mente com o mesmo apuramento Francisco Corrêa , de que 

d». 

DniUizecbvGoOglc 



BE LlTTfcfcATVBA PcÍÍTUGUEzA. ÍJJ" 

deo boas provas na edição das Homilias do Cardeal In- 
fame D. Henrique de 1^76. O mesmo fazia Pedro Craes- 
beeck, por não referirmos outros mais, o qual o empregou 
com muito aceio nas edições do Lima de Diogo Bernar- 
des de ijpó , e das Odes , Elegias , Ecciogas , e Carias 
do DcMitor António Ferreira de ifpS. 

Os nossos nSo comentes com o caracter Itálico ^ ov» 
Cufsíto introduzirão também o Veneziano , ou caracter re- 
dondo, e gFOSío , cjueJoSo, e Vadelim de Spita hariâo a*- 
Cresentado desds 1469 , e qifê muito usárSo depois os mais 
abeis Impressores de Veneza , que llie fizerâo dar d no- 
me de Veneriano. Este carticter se estabeiecao á ma-neira 
de Utta redonda , que C6rd'á ,e era mais bem formada, 
cfit a- ItilicB , 9 mais facií de lér ; e se ibi adocicando 
pdo- tempo adiante em todas as offícítias com [aneren« 
«ia ao Itálico, que por ser mais delgado, c miúdo , se fa- 
zia molesto aos olhos ; e se foi reservando para citações de 
menos -exttoção ou pára obras mais pequenas, (a) 

Deãte caracter Romano havia boa copia entre aás, e 
muita parte delle âssás liínpo, clato, c accado, e de ba»* 
tatiíe elegância , e fonfit>sura.. Deite abundavlo as ofiicinsâ 
de Lisboa , principalmente a de António Gonçalves , de 
^e deo provas nas edíç5es das Leis Extravagantes de 15*65) 
e'de Osório de Rebus Emmanuelis de 1571. Em Coim- 
fcra tiavlã tanirbem'primoroso' (fafacter nas Typografiâs de 
Sfltftá Crufe', e de' João Baneir* , e João Alvares , de que 
fodert» Séír\% -dé iamoâtía as Bpistol&s Selectas de S. Jero- 
nymo-, c òsCoAimeMárfos de ^Navarro ao C. inter Verba 
X. eofi 1544, e á Dist. de Poitiiientia de 1561 a Choro- 
grafiadé Barráros e as suas Cétisúras, c a Oração Latina 
àe EC 6arciií "de Menezes. ■ ■ • 



11. 



C") Este çaractM chegou apAr-se «m ciesuso aindaentre o» mes- 
mo^ Venezianos ; m»t depois de hiima longa intenmpçS» «K> a ler 
doMniinte em Veiifza , e «a toda a Europa. 



cc.GoogIe 



Ijrf JW É M o Jf T A « 1 

11.. 

Do ornato Typografico. 

ContinuavSo no Seçtilo XVl «s ornatos, e figurarias, 
que a (Typògntm havLa herdado éo Século aatecedeme; 
ma? estes ornamentos com que ella costumava de.relevaf 
as suas obras, 'erão pelo commuffl defeituosoe, porque ha- 
via pouca invenção, pouca ordem,, nenhuma arte ae con- 
tornar na fórma mais regular e agradarei o Desenho tao 
necessário :para á Gravadur9j,.e Est^n^^ria nâo tinha fei- 
to progressos considerawiseptTeiJnós- para podôr.-fiirigií o* 
Imaginários , c Gra^vadores i;etle «? tos^ío ^ e a $tia gravo- 
duta grosseira & rude: o capricho «ra a ufiíca regra ,. que 
guiava a fantasia, e a mio dos Artiíices, Não havia gosK) 
para discernir o que convinha nav fachadas , e frontispícios 
dos Livros; çmravâo adoriMs que não «nHao relftção cq9 
» p^$t; ornaoos' errra^^gaute^,^coJ.u^na$-,cofn.L.dç9]a£Íados 
floríios, pedefitaes çayrjchosos, frisei cheios de^ttascaFfisj-gri- 
fos'^ihÍmalejti9,Ci-cpftcatt)rap;.Qu afvi^r&s 'mufpis veafes car- 
regadas de. cascos , escudos ,'CapaçqteEi ,-^ corpos ^d'annas 
pendeat!es , Satyros , e %u|r4S humaijas sem proporção , e 
outras) rematando eiQpeÍí[f^.,.^i mais, ,arahpsço^ deste gen@u 
- Com^ wdo ejfftr ^uflwft «(diçóeS; j^paroce -^um,' ,:g(^ifl 
mais Sao e deparado^ çoquíii^^^f Asípnjp InUifígue t^- 
zem as suâp ^portàd^s cpm:- ((lai^r ^^^iiçi^i, as .col^mnA» 
com mais-sinií>liciiíade^.e as figuras coça, .^na)s,. Regularida- 
de, e airoso ílançamefito , ainda que corp ^arios arabescos, 
como na Portada ,do Poemj ,yiacentius-'^e Resende. Os 
ornamentos são muitas vezes al.l^yçs; a -^pijs^^j 43^eIIe 
Sículo , e podem servir para espalhar luz sobre a scienda 
do Brazâo , e Armería , sobre os hábitos, trajes , armas, 
e trem de guerra , e sobre outros costumes do Século , e 
particularidades da antiga Historia , em que tem que apro; 
veitar os Pintores, GravadoreS)Imaginarios,Histonãdores7 
Poetas ,, e os mesmos Críticos. 

' . > .■ „,:■;.■,'.■. = ... .-■■ .• .uM 



III. 

Das divisas dtit Impressores. 

O uio das divisas , ou iniígmas Typograficas no fim 
das Obras,, ornamento de que inuíto se servi ão os Im- 

Srcssores de outras Nações, não entrou muito peio Século 
.VI em Portugal.' A Arte da Gravadora nâo tendo ainda 
-feito progressos eotre nós , nâo despertava nos nossos Im- 
pressonss a curiosidade, e timbre de (úanddr abrir empre^ 
Eas,-e assinalar as suas edições pelo ornamento- e expres- 
são das divisas. Com tudo alguns houve que se não des- 
cuidárao de marcar com ellas suas obras ^ para mais se da- 
rem a conhecer ao publico. 

Valentim Fernandes conservou ainda neste Século a 
mesma divisa de que havia usado no antecedente , na edi- 
ção da Historia do Emperador Vespasiano de 1496 , ainda 
que com alguma variedade , e difíerença , como se vê no 
fim da dossa sobre as Coplas de Jorge Manrique impressa 
em Usboá em 1501: a saber: em hum galliardo escudo hum 
Leão ccunado , e.':em péi, ecom grande cauda levantada, 
com huma. cednk nas mãos ,que tem hum 'V letra Inicial 
de seu nome, e no meto delia huma hastea ao alto com 
fita volteada, que remata em cruz, com a letra por baixo 

Ldiz Rodriffues , insigne Impressor de Lisboa , Usava 
dá põf no-fim de suas ediçióes huma Serpente, ou Drago 
com azas estendidas , vibrando a língua farpada, con^paN 
te da cauda, enroscada no tronco de huma arvore, em que 
se enlaçava huma fita ou fecha presa, e pendente do mesr 
mo tronco, que ss alargava, € estendia para os lados ^ totti 
a letra r= Salus vit£ nr: e junto da raiz ■ do tronco \ hu- 
ma pequena cédula que deiia = Luãavicus Ruâuriçi zx 
Affllmse vê na jcdiçao dos' cinco LivroSi 'dos Problemas^* 
António Luiz, do Livro de Patientia de Jorge Coelho, 
à.í o\yT^ .verâadde la Fé 3 de Fr, João Soares ^ào Gonupeo- 
Tom. jniL S ta- 



D.g.tizecbvGoOglc 



IJÍ M B W o H t A * ' ■ 

tario de Verhorum conjugatione de M/ Resende , e de 
outras mais , que saliirso de seus prelos. 

João Alvares algumas vezes pez corro divisa a Esfera, 
com a legenda em baixo : Sfera i» Dta , ftfiic benieatem , 
como vem na edição das Censuras de Gaspar Barreiras de 
ifói e mesma usava seu parceiro João Bnrreira , como no 
principio do Memorial ãõi perdões , impresso em Lisboi 
e em .outras obras. /" 

Pedro Craesbeeck, outro Impressor de /grande Dcme 
entre nós , tomava por armas hum escudo , e hiun. gyra- 
sot voltado para o SdI, que do alto ò attrahia j teodo na 
orla esta letra =: Trabii sua quemque voliáptas zz ccmo 
se acha entre outras lia edição dos Poemas de AntoDÍo 
Ferreira, 

iv: '■■'■'-...: 

Do papel das EdiçSes, 

Qyanto á matéria sobre que estamparão os Livros no 
principio do Século XVI , ainda se empregou alguma vez 
o pergaminho : ainda hoje são testemunhas disto os dois 
raríssimos exemplares , que existem na Real Bihíiotheca de 
Lisboa da ediçSo-ido Confessionário de Resende dé lyii ■ 
pw Germão Galharde, e da ChronJca do Condestabre D. 
Nuno Alvares Pereira de i5'26foI. pelo mesmo Galharde, 
a edição segunda das Ordenaçíiés do Senhor Rei Dl Ma- 
noel de I5r4. por João Pedro Bonhominl em pergaminho 
-finoj bura exemplar também rarÍBiimo .das Onicnaçâes ds 
JodJi pelo Senhor Rei D. Manoel de i^io. que poEsue 
a escwhida Bibliotheca do líl.'"* Monsenhor Pecreirai a 
-Epistola Latina dq Senhor Rei D. Maranel aD,Bapa-Lé&o 
X. De' victoriis tMpér in Africa èalritisàitiàz. de. Lis- 
boa de Outubro de i^ij ent pergaminho , de qne cemos 
Itum exemplar : e^So^ que se deve «cccescentar em Bar- 
l>oea ; e o tom. L aa Vida de Christòdè Alcobaça^ que 
Te conserva na Livraria de S.~Fraacisco da Odade. 

..:. . o 



;.CoogIe 



DÊ LiTTERATUttA VoUTftJQJJlSZA. l^f 
O papel jKirém foi mais usado , e o que logo conti- 
nuou a servir com exclusão quasi total do pergaminho fora 
dos lÃ7iàE Coraes , ou Rituaes ; porque se bem era de n»- 
nos consigceiKÍa , e duragao, eta com. tudo menos dispen- 
tUoao pafB a etfondmia dos trabalhos /Typográfkos. O pa- 
pel tendo entSo multo consumo , começou de se àpucar , e 
tomar huma cór mais branca , no que excedia ao do Sé- 
culo antecedente , qae erà hum poUtk) b4ço ; mas ficava- 
Ihe inferior em outras cousas ; porque pela maior parte era 
mal faòrícsdd , e o ^ cQrpo nSo ttona a ctrasisteodk e 
textura j do (fie havi»; no Século XV. 

APPENDICEI- 

£>m Frhtilsghf , e honrai dét lmfress<^s de 
' ;i-- Portugal 

RÈs TA. dizer alguma ccnisa dos Privilégios , e iwi»- 
tas dos impressores naqiielle Seeulo : a Arte Ty- 
pografica , ou da Impr^são havenâo. sido; hum feliz invento , 
que muito concorreo para facilitar as grandes despezas e 
incomm ed oy éa escritura- raanael ,eft«eqt«siçSo das predue- 
çíSes IjjterariaS , e promover e propagar ôs conhecimentos 
ÉumariQS em todo o género , não podia deixar de mere- 
cer asatt^nções dos povos cÍviIÍsados , e dos Principes para 
lhe darem bom recebimento e honra em seus Estados, 
Assim que foi ella havido entre nós por muito nobre Ar- 
te e por mui digtios de distinção e estimação os seus O- 
preíros. Bem o mostrou o Senhor Rei D. Manoel, grandioso 
Protector das Leiiãs , e das Artes ; por quanto ainda an- 
tes que Luiz XII. de França privilegiasse os Impféssores, 
reconhecendo as muitas vantagens , que delles nos podííò 
vir com, tão preciosa Arte : começou dç os contemplar, le 
animar liehte Rdno fazendo-lhes liíercé e graça; por q«c 
a' Jacob Combreget Aletílâo,e a todos oS mais Imprrâsó- 
^ Christãos còncedeo os Privilégios , Hberdadeá , e hbn- 
'ss , que haTiâo , & devido haver os Cavallciros de sua 
S ii não - 



DniUizecbvGoOglc 



14© M £ M a R I A s . - ■ 

Casa Real , por elle confirmados , posto que não tivessem 
armas ^ nem cavallos segundo as Ordenaçóes j detCTminando 
■que por taes fbssera tidos e havidos em-todaa parte, com 
tanto quC'.possuissem de cabedal duas mil, dobras. de.ouio^ 
e fossem Christâos velhos , sem raça .de Mouro> nem de 
Judeo. (tf) . ' : 

AP PENDI: CE .11.- '.■■-' 

Breve noticie das Cidades , Filias , e . Lttgarís'' em . 

vidO' Typôgrajia Portugui 

calos Xm, e XPIIL 



que tem havido- Tymgrafia Portuguesa nòs ^ff-- 

■ xn 



AS noticias das Cidades, Villas, e Lugares , em que 
■houve Typografia pernianènrey ou.;sá'.pbtTatilc^ Sé- 
culo XVI. julgamos curioso t ntjl accrescentar em resu- 
mo , e como por digressão no fim destas Memorias por or- 
dem alfabética , as que tocao aos Séculos XVHe-SVIír. 
sobre as terras de Portugal ,e defôra , aonde houve e6£am[fl 
de Livros Porrugiiezes. Além de Lisboa , Évora, Coimbra, 

■;,--■.■:;. : . y ,: , i:;.Poi>- 

Cd} -Luii xn. .previlegiou o« linprctsoret ,.e Livreiroi da Unj- 

TEríidade de Paris em ipí , v. Óiccion. de Ttevóux lom.JIl. Co|. 

910 infine; e o Senhor Rei D. Mino el já em ijcS (is havia com- 

letnplado como cnnsta de sua Carta dada na Villa de Satitaireni a ao 
.de. Fevereiro daquelie aiino;a ijiiat CKiite na Torre do Twnjbo . don- 
jile' a- ft(}u«rin)enu>- d« Klig,ue] De«Undet , Im-pieísor , s« túov ''■">' 

traslado poj: u.andado do Senhor kei p. Pedro 1| , e Sitiado cxiirt 
'ai Armas de seu Sello Real. em Listiòa'^ 17 de Máru de i'iliú, o 

(jut referem LeítSo iia* Alemer: ChrtmL da V Hlvt\-i'iéailt §. il%. foi, 
-irS , «119. -e Soasa ni piíí. Gtnta(. Tom. IV; p. ij4 ;P«de vet- 

se r> Piivílíg-ío .por inteiro no I Tomo da Sy/Ufsis Chreacltgiía àa 

eiudilo eiciitor José Anasrssto de Ftgueíiedo^ a' pag. 164 e i6í'. 

Da nobresa dos linpressores em geral pode consurtar-se Oralora , 
■JoSo- Carcio í e Tii«]Metlo ét IfeUriiàtt , c o» Authore»- queescif 

verão, dn I.rij de tieKpanha , tioi quaes le «ata. dã Nobr^sar, e t*-. 
.qvesítos r\eceisatios, para elb > I^acbkus Tamborint , ia. DetaUge lib. 

IV. ,cap. 11,1, o 7. e n. í.;Ê!tevÍo Toiculo L. IV. dt Im^io (t 
"Ppihiephia Gallerum : r 'í'órtecitba lohi. 11- de Consulcas cap. J f. 

ai{. -Entre ii6s T)5o padecem- devida na Boceta , us-^tic MSi -dois^ 
Imprcsiores. 



izecbyGoogle 



DE LiTTES ATUHA Pt)R*lUGUEZ A. 14! 

Porto , e Braga , que continuarão com seus antigos prelos , fi- 
gurarão com producçôes .Typogrãficas os seguintes lugares. 
(a). 

i:. í' ■ -:, * . ;-■-','.■ ^ ■ '-, -^r. Aleijqiftn ; - 

No Termo de Alenquer entrou hum prelo portátil ; 
que pwa lá fanferio Vicente Alvares, levando-o de Lislròa 
p^ra a Qyint^ chamada do Mascote , no qual estampou 
em 1612 a Arte Militar de Luiz Mendes de Vaácootfel-í 
los, obra já de raridade. 

Bemfica. 

y O Lugar de Bemfica nas abas de Lisboa teve tam-' 
b?Rt pW,«%arfl'teai^ Mm prelo portátil , que ali jaôsGee 
i4l{l<3i ld% Vinha no Cpnve6to-(k>s,KeHgio6bB Dominicanos «^ 
ii¥^<>^e.esta&ippiía pri^ti^a farte, dit:^ht«rí».àt^. j^' 
«/í^ôí dç.Fr.;Luíz de Sousa 1643. 1^ toI. foi. ' 

Benavente, 

Também para Benavente se traspassou hum prelo por- 
taUj; 4e:ipÍí$boa: ,' quM &iiV o de Maueui rlDonato , qte ali 
iín|wiipÍo' a , s^ini». obra = Sánethsimi Z). N.~Fafae 
Paxif P^. statutff .nuper emisso tn ■ coices sarios. fteminas- 
satticitantes in ^Q^essione mota soluta questiones aliquot 
4u^t_itft6 J^amno Sifiãçrito^d^Cunha Júris Canonici. C<h 
nim^t\ Poí^^i Bepape^t.e -.^pn^ M^t^eum Donatum. Ani . 
m,Bomni-i(>ii,-:Uy6i.,,^.\ (-filie^:3tbliotHeca deLisboai' 
çLirta^ (Je í^3Wt«g40 ■ 1 •'■■■ 

Bu- 

C*^' AV éíiçReí <le Iijírros Pbrni^cra em Amesterdão i Ham- 
^IP.Si^M^^ TimigiqBbar',.c}ti Tianquieb/r , í;Bt(>«(a'fe euni outras' 
píliM esliaahos p^áem prtfciirar s« «m (iòUm Jffemofjas ..í|er I,i«ef»-> 
tura Sagrada dos /udeòs Póttugueiis dos Seculoi XVII , e XVIII ,e 
naomtí tobie alguinai Traducçúes . e ediçftes Biblkas nos tom. . . 
» • •^das JUcinotiat de Littciatuia Poitugucia. 



;.CoOgIc 



14* M B li 6 H I A » 

Bucillas. 

Bucellas, Lugar nar vizinhaaças de Lisboa , hospedou 
por alguns mezes num prelo volante , que fbí o de Pedro 
CraeibeeclE , Impresior de grsnde nóm* \ ao ^aal' 6e im- 
prínUo em (644 a Ârti ie Rtinsr de Ântonio d« Ol^ 
vaUvo de Pan«da , Prior da mesma Ignja de BuceSa* t, 

" CantSe. 

Em Cantão, terra do Império da China, houre tam- 
bém Tjr^graik dos nossos: delia porém nâo temos Tisto 
eotfa- obia. sctsão. a se^inie -. 'Go^s^fraçSer p^ptf^a/í^s 
fMTã.qwai^ter Oifrripáa viver- ttttf, e -slcsnpit à-ésàia^' 
vsnturai^a , pdr hum-Faái^e ^CúiManhÍM atysufté^t', 
I. vol. g.^-em-papd Cbiae» ( Reaí Bifalieítieci áè Lé#^ 
boa ). 

Carnota. 

'ú:. ■■ Ka. Csnffua houirclium 'ptelo jp^t^tilpor í^ú ttm^ 
pO', que. (nandou ir de Usboa o 'Guardião d» Gbtiveftfb' 
- dos Capuchos j que ali lia^ O qual fts imprlEtíit em 1617 
^António Alvares s Livro Ãít ^igafdg do WPàâe mt- 
nor , em ^te se ttmtãò as eom»aí » 90^ '^ftd' okr^d» » 
guardar, Aufbor Fr. Danado da F*é^nt'afã& filb» ét 
Gaéa-de-^HUrSfííbprw-d^hsySayda Privikií» à<r-^. JH^ 
tomo de Portugal i. vol. 8.''-(.Líwi#l#á« Énx&brSgW^ 

Goa. 



Ainda. na Século XVXI,. eontiuusva^ em Coat huma 
oiSicina TypografioB.. Vfejjwe o <jue' liotamoS sobie á- Tf' 
p^rafia no Secufó XVi. no ra|f;'l'L v; Go*.' ' 

Jm.. 

Dni.t.zc-cc.Coogle 



1)E LiTTPSATffRA PoKTUGUBZA. r4J 

Em Htang Xan, ou Hanchâti no Império da Chiaa, 
Cffi que os Jesuítas tinhão huma Casa de Residência, hou- 
ye huma officioa Typografica na qual se impritnio = o 
Livro da Mjelacion sincera , y verdadeira de ia justa de* 
fensfw de las rfgatiasy Privi/egtffj de la. Gtrena dePpr^ 
íugal en la Ciaãaã de Macdo . . . escrita per ({ JhfÂor 
D. Félix Z.eal de Castro , í» la misma Ciudad a \ de 
Febrero de 1711 foi. He'itnprcs«» eni papel Chinez. (Real 
Bibliotheca de Lisboa). 

LordéUo. . .■■■'. 

■'. NoíMosteira (Íç:LordéUo na Prováncia df Tns cm 
Montes, eeièTe-.poi-^a%um renipo -huiJi 'prelo! portáttl;, -«ni 
que sê Qttampou a ohm do Doutor Luiz Corrêa , Abbade 
de LcrdellD ., t Leute da Faculdade .de Cânones na Uni* 
versidade.de .Giwmbra.,. imltuEada :^ RêJectia ad C»fi..tÍMt 
ter alia de immunitate Ecclesiarum In Monasterto de 
.Lordello per Ji>annem\B:*J(ricuTã, Aano 1616. 4.° (Real 
Bibltotheca de Lisboa ) . 

.1 Mweda. 

::: HlorSeadà 3£¥I|4x:ontiõufni e.Tyçb^^kde.lAieáãy 
de «luejsatito^etitrb o^aa á -«oguiete: .odtfâp' da ?^ jírít 
Brtvr da i^inexa-^at^ tiraáa.dà Jrte :grmdt . da mep- 
via Uágua, Macde, no Collegto áa Madre de Deos 1614. 
I. 'vcj.. 4,°.'Hei,ol)i'a do Padré Jcwo, Rodrigues Girão , Je- 
suíta , natural da Vilta de' ÀlcochtíeCBibuotheca de Real 
Casa de Nossa Senhora das Necessidades ) e he esta hu- 
ma. Sas obras, que se hão de accresceatar na Bibliotheca 

Lusitspa- de .Bsíbassr . __ , ...... 

Continuou no Século XyHL.a mesma Typografia, e 
jiellíí se 'çstapípow =. j^W^ííi 4f ^mií' Tavares por Vel- 



do»- 



t44 Mehorií.» 

les Guerreira em 171 8 foi. =: Jornada que António de At- 
huquerque Coelho , GovernaSr , e Capitão General da 
Cidade do Nome de Deos de Macdo na China , fez ie 
Goa ate' chegar d dita Cidade de 'Maedo •='Si6 tem no- 
nle de Ifnpressor , nem anno de ediçflo 1 foi porém impr»* 
sa depois de 1718, como se collige da mesma obra ; hs 
em papel Clilnez, e em folhas dobradas , segundo o uso 
das Impresõeff- da China (Keal Biblibthçca de Lisboa e 
a nossa). , > .. 



Na^azachi. 

Em Nangazachi, terra e Cidade Episêopaí do Japão, 
é pono, aonde desembarca vão os Navios Porruguezes, ti- 
verão os Jesuítas no seu CoUegio , e Seminário huma of- 
ficina Ty^íográfici': delkfoí producçáo «ntre oiiÈras' a edi- 
ç3o dá obra, intitulada izFhscuH dhVirtíttilms- ;'er'%»^ 
tiis ex vetèris et novi lestamenti ^ et Sanctorum Doctõ' 
rsm, et Philosophorumjloribus selecti 1610. i. voi.-He 
eomppsição do Padre Aunod Barreta Jesond. (-íT'-))- - '^''- '' 

i:;,"!; .: ..■.;>;! ■, ;■ 'Ri^dá^iamirK-- .ív. ^' \'i>,\ t;,>,-- . . 
<-..,;,■ I '■ - ■ ■ ".,i ' 

O trato da Arte Typografica , que havia penetrado 
na Azia, aio teve a mesmaeatrada noBrazil: só no meio 
do Século XVm levantou António da Fonseca huma of- 
fioina ria -Cidàde^díí-Kio deiJiíieiíoi^Ssè fói^eBaeáé mui 
curta duraçlo:^ boccjue-sei^ndoa.logD dcSíàzeBrj.' %;4É)oUb 
por oitiem da "Oitte. A])enas sabemtjsTjqoff" neira sfr imjwi' 
mio em 1747 a Relação da entrada y que fez o-Bispú D* 
Fr. . António do DesBerro Malheiro , esctíca fcfer LuiiuÃn* 
toniò Rosadauia-Cunba-'4í?í/-. '.''> -'■■!■*■' th ieiujeo , iíI::jí 
;í ■■•■ ■■ ■■)'.-' ■ ':■■■':. v.J^ 'nvAivj?. r.??oH '-h c^sD 

„-)'_-i;'. ■/. :í r,(| -.-■ ;.:,j'-., ■ : ■ãb .i\'.i\ íd SUp .ZtnÚO ■.■■if.íí''-í 

—_ : ,v^'r'- ÍF ■^\- "■-'- ■-^"- 

C>») Dere corrigir-íe o íugar da ÍEibliõlhecí t-usítan» , em que pot 
descuido do AtRanusnse> ou da Impreisòiy te p6t' o iniio <le i(io« 
p4r 1610. 



;.CoogIe 



»E LlTTEllATVB A PoRfirOff EIA, 145" 
Salsete em RacboL 

Ainda no Século XVII. permaneceo a Typografia de 
Rachol, de que sâo testemunhas duas obras, que aqui po- 
mos de raridade e estimação := Doutrina Christãa em 
Lingua Bramana Camarim pelo Padre Tliorr.as Estevão 
Jesuíta no Collegio deRacliol 1622 8.° ( Real Bibliotheca 
de Lisboa )= Jrte da Lirtgua Canarina^ do mesmo Au- 
thor., accrescentada pelo Padre Diogo Ribeiro 1640. 

Fiana. 

Viana do Minho , Villa em outro tempo de grande 
trato, e grangearia , entre as mais Artes , que chamou a 
SI, convidou também a Typografia. Para ali roi NicoUo de 
Carvalho, que imprimio cm 1619 a Fida de D. Fr. Bar- 
tholomeu dos Mertyres , escrita por Fr. Luiz de Souza. 

Villa Viçosa. 

Villa Viçosa vio também hum prelo naquelle Século 
que parece, que alt haviao mandado erigir os Sereníssimos 
Duques de Bragança , pelo seu Impressor Manoel de Car- 
valho. Sabemos de dois Livros que ali se estamparão , quaes 
foiao := Desmayos de Maio de Diogo Ferreira de Figuei- 
rôa, em lóaf. l. voJ. 8.° impresso no Paço Ducal, ^i: Os 
Ires tratados de André António de Castro. De Febrium 
curatione ; de simplicium Medicamentorum facultate j 
e De qualitatihus alimentorum em 1636. i. vol. foi. 

lAsta dos Impressores no Século XVII. 

Àccrescentamos aqui a Lista dos Impressores do Século 

XVII. de que podemos haver noticia ; porque fiquem seus 

nomes em mais viva memoria , como de Artifices de tão 

Útil , e nobre Arte ; c se veja ao mesmo tempo o grande nu- 

Xom. VIU. X me-. 



D.q.tizecbvGoOgle 



f^6 Memorias 

mero dos que nella se occupai^o naquella idade (a). 

António Alvares, que continuou com suaTypografia neste 
SecuJo. 

António Craasbeeck , 

António Pedroso Galrâo , 

Amónio Pinheiro , 

António Rodrigues de Abreu , 

Bernardo da C^sta de Carvalho, 

Diogo Gomes Loureiro, 

Diogo Soares de BuIhÔes, 

Domingos Carneiro , 

Domingos Lopes Rosa, 

Francisco Villella , 

Fructuoso Lourenço de Basto, 

Gerardo de la Vinha , 

Gonçalo de Basto , 

Henrique Valente de Oliveira , 

João íia Costa o Velho, 

JoSo da Costa o Moço, 

João Gatrão , 

Joáo Rodrigues , 

Jorge Rodrigues, 

José Antunes, 

José Ferreira , 

Lourenço de Anveres, 

Lourenço Craasbeeck de Mello, 

Luiz Étupinliao, ou Estupiuan,, 

Manoel de Araújo , 

Manoel de Carvalho, 

Manoel Dias , . 

Ma- 



(a) O curioso escritor Fr, Ní«oMa d* Oliveira no Livro d» 
Grandezas de Lisboa Trat. IV. Cap. VIIL dos officiaes que nella ha 
a pag. 96. só numera três Impretsores no teropo em que escreveo 
que foi por >âi9, e 1610 em que já devia bavtr muiloi doi que 
aqui v3o apontados. 



D.g.tizecbyGoOglC 



BE LifTER A-ruH A PoSTVauXZA. í^f 
Manoel Gomes de Carvalho , 
Manoel Lopes Ferreira , 
Manoel Roíz de Almeida , 
Manoel da Silva, 
Mattheus Donato, 
Martheus Pinheiro, 
Mattheus Ribeiro , 
Mattheus Rodrigues, 
Mathias Rodrigues , 
Miguel Deslanoes, 
Miguel Manescal , 
Nícoláo de Carvalho , 
Paulo Craasbeeck, 
Pedro Craasbeeck, 
Pedro Gracia de Paredes, 

Theoronio Dâmaso Craasbeeck de Mello, ;^ 

Theotonio Dâmaso de Mello, 
Vicente Alvares. 

Lista dos Impressores Régios ao Século XFIl 

Forâo honrados com titulo de Tjpografos Régios os 
seguintes : 

António Alvares, 
António Craasbeeck , 
Diogo Gomes Loureiro , 
Henrique Valente de Oliveira, 
João da Costa o Velho , 
João da Costa o Moço, 
Lourenço Craasbeeck , 
Manoel Gomes de Carvalho, 
Miguel Deslandes , 
Nicoláo de Carvalho , 
Theotonio Craasbeeck , 
Theotonio Dâmaso de Mello. 

S U M & 

D.q.tizc-ccvGoogle 



14% Mehokias 



MEMORIAS HISTÓRICAS 

Sobre alguns Matbemattcos Portugueses , e Estrangeiros 
Domiciliários em Portugal y ou nas Conquistas. 

Po» Antoniq Ribeiro dos Santos. 



CAPITULO I. 

Da Natureza dos Estudos das Sdencias Matbematicas^ 
e da sua utilidade. 

Eu- T R E as Sciencías Naturaes , que mais podem con- 
triliuir para dar vigor e claridade á Razão do Ho- 
mem , tem por certo o primeiro e mais honroso assentor 
as Mathematícas ^ sublimes producções da mais exacta Fi- 
losofia : ellas se apoiao sobre hum pequeno numero de- 
principios evidentes , que não tem. ambiguidade nenhuma 
nos seus termos , isto he , sobre objectos , de ípie todos 
temos idéas claras , quaes os números , e as dimensóes da 
extení:âo , em que se demostra tudo , o que se pretende , 
nâo se servindo , sraao de axiomas , ou de- proposições y. 
que delles immediatamente se deduzem , e se tornâo ou- 
tros tantos principios para o conhecimemo das verdades 
simpJes. 

Não se entenda porém , que seus trabalhos- se empre- 
gao tão somente na indaeaçâo de verdades simples ; oc- 
cup3o-se também na averiguação de verdades compostas , 
e dependentes entre si humas das out-ras ; ajudande-se em 
tudo dos ãous Metbodos, já da Synthese , on Composição ^ 
que fórma o corpo de huma sciencia inteira , já da Aaa- 
Jyse , ou Reíolução , que resolve as questões particulares. 
Assim esta Sciencia conduz o homem ,. como pela mão, e 

diri- 



izecbyGoOgle 



DE LlTTETtATUHA PoítVOUEZA. 149 

dirige com facilidade e firmeza os progressos do seu en- 
tendimento na investigação das verdades Físicas da Natu- 
reza ; e o que muito importa , em toda a carreira das Ar- 
tes , e das Sciencias ; por quanto ella faz , que pelo habi- 
to de se seguir constantemente os seus princípios , venha 
o nosso espirito a adquirir em geral huma grande sagaci- 
dade , clareza , exacçao , e ordem para toda a averigua- 
ção da verdade em qualquer género, Isto he, huma logi' 
ca luminosa , para melhor se poder discernir o verdadeiro 
e o falso, o bom e o máo, o justo e o injusto. 

Pelo que bem se alcança , quanto o estudo da Ma- 
thematica além de seus objectos propiios e primários , a 
que dirige as suas operações , pòae servir para facilitar, 
e aperfeiçoar as mais Sciencias Fysicas , e todas as Artes 
Mechanicas , e Liberaes , que dependem dejjas \ e para 
ajudar por seus Methodos e Hábitos constantes de discor- 
rer exacta , e ordenadamente , as mesmas Sciencias Mo- 
raes , Civis , e Politicas , as quaes pela multiplicidade, e 
complicação mui frequente de seus princípios , máximas e 
dictados; e pela falta geral de Evidencia Fysica , necessi- 
tão de ser tratadas com a exacção , que sua namreza pô- 
de permittir , e com a ordem , distinção e arranjamento, 
que mais possa pôr os seus resultados em clareza , certe- 
za e segurança. Tal foi , e he a natureza destino e in- 
fluencia das Mathematicas. 

Conhecerão os Antigos estas vantagens ; e Egypcios 
Gregos e Árabes cultivarão estes estudos com muito ar- 
dor. As nações modernas , mais civilizadas, aproveitando 
a doutrina , que elles nos tinhao deixado , adiantarão ma- 
ravilhosamente por suas novas observações e meditações 
os progressos desta Sciencia ; e applicárão as suas regras , 
e os seus methodos a todas as Sctencias Fysicas , com o 
que sobremaneira alargarão a esfera dos conhecimentos hu- 
manos. 

Portugal foi hum dos Reinos , que amou as Mathe- 
matiças , e lhes dco as suas attei^es , ora mais , ora me- 
HÍ» j segundo, as diversas condições dos, tempos ; e muitçt 

pat- 



:,CoogIc 



t$'o Memorias 

particularmente as dirígío para o uso da Navegação , por 
aer o que muito convinha a huma Nação Marítima , e de 
tão bella posição no Occidenre; que tempo houTcJá, em 
que foi a primeira Potencia Marítima de toda a Europa, 
e ainda o podara ser hoje, se fossemos tão activos, e cui- 
dadosos em conservar nossa Marinha , como o fomos de 
principio em a crear com tanta gloria. 

Do que fízerao, ou escreverão nestas Sciencías alguns 
nossos , e ainda os estranhos , domiciliários entre nós , 
maiormente em relação ás Sciencias Náuticas , fatiaremos 
nesta Memoria , tendo por fim compilar noticias varias e 
dispersas , que aqui unidas em hum só corpo, pos^o mfr 
Ihor .servir , se for possível, para huma patte aa Historia 
Litteraria destes Reinos: Ilmitando-nos a fallar não de to> 
dos os Mathematicos , o que demandaria maior obra , do 
que huma simples Memoria , mas só de alguns dclles ; e 
assim mesmo não de tudo , o que escreverão , ou fizerao, 
mas só de huma parte de seus feitos , e das obras , que 
podemos ver , ou de que houvemos maior informado e 
noticia. 

CAPITULO II. 

Dos Estudos Mathematicos nos primeiros tempos àa 

Monarcbia até os fins ào Reinado do Senhor 

D. Afonso ir. 

Os primeiros Séculos da nossa Monarchia , mais guCT- 
reiros que iitterarios , não nos apresentão noticias de 
estudos Mathematicos entre os nossos. Ainda em tempos 
do Senhor R.ei D. Diniz , tão amador das boas Letras, e 
fondador das Escolas Geraes , não houve lembrança de as 
contemplar , como bem mereciao , entre as sciencias , que 
então se mandarão ensinar nas Escolas de Lisboa , e de- 
pois na Universidade de Coimbra , para onde forao tras- 
ladadas ; descuido , que então foi geral em quasi todas as 
escolas das Nações Europeas, porem mais notável naquel- 
ie Principe , a quem o eiemplo de seu Avó D. ASoaso 

46 



DniuizecbvGoOgle 



DE LlTTRSATORA POBTUGVEZA. IJí 

de Castdia , que muito amou as Sciencias Mathematicas , 
eprotegeo seus Sabedores, podia ter excitado para lhes dar 
assento , e domicilio em Pcnugal , quando não bastasfcm 
os exemplos do Imperador Frederico 11. , que fez tradu- 
zir as Taboas de Ptolomeo no Século XII., e os do He- 
breo Hazan , e do Árabe Alboacen , e d'outros , qite mui- 
tt) figurarão dentro da mesma Hespanha e no mesmo Sé- 
culo. 

No Reinado de seu 61ho o Senhor D. AfFonso IV., 
he que o estudo das Mathematicas começou de se Intro* 
duzir neste Reino : consta , que aquelle Frincipe era mui 
dado ás espeailaç6es desta Sctencia , e particularmen- 
te ás de Astronomia ; e que por esta causa tíío só alguns 
Nacionaes, mas também estrangeiros, assim Mouros, co- 
mo Judeos , que viviao em Portugal , cuidavão disvelada- 
mente desta Sctencia , como coizas , de que tao grande 
Principe levava contentamento. Comtudo parece , que a •» 
maior parte dos cuidados dos estudiosos se encaminhava a ° ^ 
Astrologia Judiciaria , como succedia em outras partes jítt"iI,^-^-^3(,,,g.-.v. 
em que se fazia applicação dos conhecimentos das Esfe«5 i^^^^ '^. 
ras , para se íormarem conjecturas , e prognósticos sobre os** '^jSffí^í^ 
tempos, e as pessoas pela observação do aspecto dos Pia- *l*5-^^?v^ 
netas , e conjunção dos astros predominantes , e influen- 
cia das estrellas \ estudo , que muito se propagou nas 
Hespanhas pelas obras Astrológicas dos Hebreos , e dos 
Árabes : maiormente de Schalda Ben Baschar Ben Hao- 
ni , escritor do Século oitavo , ou nono , - que grande ap- 
plauso teye em toda a Europa. 



CA- 



;.CoogIe 



IS'2 ' KSMOltlAS 

CAPITULO III. 

De alguns Mathematicús nos Reinados dos Senhores 
D. Duarte , e D. Affonso F. 

Os verdadeiros Estudos das Mathematicas não toma- 
rão maior vòo senão no Século XV. , e mais do 
que se podia esperar da condição daquelles tempos , em 
que estas Scienctas se achavão desprezadas, ou esquecidas 
em quasi toda a Europa , apenas cultivadas dos Árabes e 
dos Hebreos , e mui pouco dos Christaos : verdadeira- 
mente no Reinado do Senhor D. Duarte , he que come- 
çou de apparecer com dignidade e luzimento a primeira 
scena destas Sciencias, que continuou no do Senhor D. Af- 
fonso V. A Navega9âo , que naquelles tempos se dirigia 
para as Costas de Aft'ica por. causa de nossas guerras e 
conquistas , deo occasiâo a se promoverem os Estudos 
Mathematicos , principalmente os da Cosmografia , e As- 
tronomia , bazes da Sciencia Náutica. O Senhor D. Duar- 
te , Rei filosofo , que magoa foi , que não reinasse por 
mais tempo , e com melhor ventura , amou muito estas 
Sciencias , e lhes deo soccòrro , quanto o permittirão os 
tristes acontecimentos de seu tempo. Foi mostra de seu 
interesse nestes estudos o discurso da observação , que elle 
fez , da lua , que com outros sahio impresso no Tom. I. 
das Provas da Historia Genealógica da Real Casa Portu- 
guesa de D. António Caetano de Sousa de pag. ^x^. ate 

O Senhor D. AíFonso V. seu filho não deixou de ter 
luzes desta sciencia , como se pôde inferir , sabendo-se , 
que escreveo hum Discurso , em que pretendeo mostrar, 
que a Constellação chamada Cão Celeste constava de v^^ 
te e nove estrellas , e a menor de duas. 

JAz época destes dous Príncipes parece se erígio a 
Odeira de Mathematica , que houve entre nós : ella já fi- 
gura em 1435 na Universidade, que o Senhor D. Feroath 

áOf 



izecbyGoOgIe 



DE LiTTEBATUHA PoiíTUQUEZA, IfJ 

do, l]ísneto do primeiro instituidor delia , havia já antes 
transferido de Coimbra para Lisboa por I375' (a). 

Então florecer^o alguns homens nestas Scienclas , e en- 
tre elJes figurou o Agostiniano Fr. JoSo Gallo Lente de 
Mathematica na novaXTniversidade peles annosdei435' (í). 

Distinguio-se cóm brado de grando nome M.* Abra- 
Iiatn Guedelha ou Gadelha , Hebreo Astrónomo , e Cos- A^nlum 
mografo do Senhor D. Duarte, homem versado na histo-jh». 
ria das cousas da Geografia de Africa , e muito dado parti- 
cularmente á Astronomia , mas grandemente aíFeiçoado á As- 
trologia Judiciaria : este foi , o que aconselhoa aquelle Prin- 
cipe em razão de melhor agoiro , que dilatasse a hora da sua 
Acclamação (r). O que porém leva todas as nossas atten- 
çtíes nesta época he lium de nossos Príncipes , Que, senão 
foi Monarcha , digno era de o ser, e de presidir a todas 
as Nações do mundo ; Príncipe Filosofo » que empregou 
toda a sua vida , e toda a sua Filosofia em fazer bem á 
sua Pátria. 

O Infante D. Henrique , filho do Senhor Rei D. O rnftn. 
Joio L , e da Sí;nhora D. Filippi , irmã de Henrique IV, JJ^^J, 
de Inglaterra , e Dnqiw de Viseo foi o que primeiro vol- que. 
tou as especuiaçfíes da Mathematica até alli estéreis para 
a practica , e as fez servir com grande friicto á Marinha, 
e Navegação destes Reinos. As Mathematícas até então i^o 
'havião medrado, como convinha , nem delias se havia feito 
applicação aos objectos úteis dr.s Sciencias Fysicas , e das 
Artes, à que podião servir de illustração , e apoio , prin- 
cipalmente i Cosmografia , e á Nantica , que muito ím- 
Tmn. rui V por- 

(•) Acaso foi ellí institulçân do Infante D. Henriíine, que ten- 
do feito cmi4l r doaçSo djj pruptias casas , em e,ue vivia , á Univer- 
íidide deLiiboa, dotandi>-a de (Viandes rendas; e *nntbieccndo-a com 
^niides Medires , lhe estabeleceria Cadeira de , Mathematica , ^c;ue até 
alli iián tinha . pois que elle amou e aproveitou muiio esta Sciencia. '^ 

(i) Fr. António da PurificacSo na Cli'onica dos Aeostinlios P. IF. 
L. VII. Tit. 1, §. III. foi. aii.Col. I. Leilão nas Notic. daUniver- 
íidade ao anno i4íí- §■ 74+. f. JiSedo anno i(íi. §. 996. f. 46í. 

( e) Kui de Fina na Cbronica do iiephot D. Duaiie. Cap. li> 



Dni.tizc-cc.CoOglc 



if4 Memorias 

jíortaváo a hum Reino maritimo , como o dosco. Faltant 
pois ainda luim Génio Creador , que as ãzeese mudar de 
jãce , que lhes desse direcção , e as aproveitasse ; e esta 
gloria cttava reservada para o Infante D. Hearique. 

Este Príncipe , dotado de sabedoria , de zoo ^ e de 
constância verdadeiramente Real , tão famoso nas Artes 
da paz , como nas da guerra , foi verdadeiramente o cpit 
deo azas aos E^iudOE Mathematícoã, para voarem Í maior 
altura , do que até alli tinhão lubido. Erlo estes estudos 
até alli raros , mais o erão ainda nos Principec ; a dle os 
atltivou com hum ardor extraordinário ^ como setúa tives- 
se nascido para outro fim. 

Depois que por suas acç6es militares em Afirics il* 
histrou p nome de Príncipe com o de valerowj Stádado , a- 
brindo novas portas a victorías de no^ea gente ^ tottou seus 
magnânimos pensamentos a fazer o mar hum tbeatro de 
- tuas conquistai. Ver!!adú nos conheci iacnto£ das Mathe-^ 
maticas , e entendendo bem j.de quanto elles podião ser^ 
vir para os progressots da Náutica, concebeo o grandioso 
projecto do descobrimento de novos mares e CoKas de A- 
fi-ica , com que se abrisse caminho para a índia , e ciai- 
IO sj accrescentasse a grandeza c optuencia da Coroa dea- 
les Reinos. 

Para este fim começou pòr buscar noticias por via dos 
Mouros de Barboria de todnj as coisas , que pettenclâo á 
Geografia daqudJt! continente , e suas gentes já conviú-^ 
Ilhas , já remotas : e procurou haver padrões de Mappas e 
Cartas , de que muito se ajudasse ; scodo huma delias, a 
que trouxera seu irmão o- Infante D. Pedro, quando se re- 
colheo a Portugal de suas peregrinações , e viagens j na 

2tial estava delineada a Costa maritiraa de Africa com o 
ilabo da Boa Esperança («). 

Ã's noticias , que diligentemente precurava , unia a 
liçfe de alguns escritos antigos de CarthsgineíeS , Gregos, 
6 Romanos ,■ a que muito se deu , em que a.chava opi- 
niões e factos , que servião a seu propósito ; e aproveitou 
■ ^__ a 

(fl) Víje-ic e Ifela A ai fâi ilitt ISmirbU 



DE LiTTERATURA PoRtUGUEZA. Iff 

a leitura das viagens modernas de Marco Polo, e de ou- 
trçB , que muito o excitavâo (a); e de todos estes conhe* 
cimentos , e das combinaçóes e induc^âes , que delles tira- 
va , veio a perceber a redondcxa do Orbe , a unidade e 
immeaEÍdade do Oceano, e a junção , ou livre communi- 
cação do Mar Atlântico com o Mar Indico; e por conse-< 
guitite a possibilidade da ctrcumnavegaç^o de Africa , e 
dos descobrimentos maritimoa de suas terras. 

Demovido deitas altas idéas , deixou a Corte , t foí 
assentar a sua residência no Retno do Algarve no lugar de 
Sagres junto do Promontório Sacro , ou Cabo de São Vi- 
cente á vista do Oceano Atlântico , dlspertador continuo 
do seu espirito , que o animava a pôr em pratica os seus 
projectos. Alli erigio hum observatório Astronómico , o 
primeiro , que tivemos : diatnou a si muitos homens sá- 
bios, Capitães anin\osos , Pilotos experimentados, e Mes- 
tres da Nav^açâo , convida ndo-)he sua fama estrangei- 
ros iltustres de quasi rodas as Nações da Europa , quo 
vierlo offérecer-se em seu serviço : fez com elles o seu Pa- 
^ huma escola de estudos e ãpplicaçòes Mattiematicas , 
e fium Seminário de Geógrafos , de Astrónomos , e de 
Náuticos , que davão luz aquelies tempos : adiantou al- 
guns dos instrumentos Náuticos : inventou , ou pelo me- 
nos aperfeiçoou o Astrolábio para se achar por elle a al- 
tura dos astros , e o Nocturlabio , para se saber , quanto 
a estrella do Norte estava mais alta , ou mais baixa que 
o Poio , e que hora era da noite : e fez appljcar efficazmen-' 
te o uso da Bússola ás navegações do Oceano ( í ) . 

Providos destes auxílios e soccorros , e com sabias in- 
strucçôes e regimentos enviou seus Argonautas a tentar novos 
mares e a commetter e traspassar o temeroso Cabo Boja- 
dor, qoe por lançar e bojar muitas legoas para a LoestCj 
V ii a 



(«) Ve/a-t€ a Ifría B n» fin» étsta Mtmaría. 

( fr ) FallantDt tainbem disto em outti ~AtecnorÍ3 , que temos pron»> 
pta lobre » NovidMle. 6 Ratultadoí da Navegação Paitugucz' no S*; 
cuia XV. 



Dni.tizecbvGoOgle 



j^6 Memouias 

entrando pe!o Oceano dentro , e pelos medonhos baixos e 
restingas , pelo novo movimento das aguas , e pelas epi- 
polas e fervedouro das ondas , era a tocíos pavor e medo , 
como padrasto alli posto pela Natureza , para fechar a- 
quelles mares incógnitos , e vedar a passagem a todos os 
navegantes da Europa. 

Quebrado este encanto formidável , prosegiiío então 
com novo ardor nos mais descobrimentos para o Sul , pe- 
las Costas da Numidia e Nigricia e por toda a de Guiné 
até a Serra Leoa , em que eíla acaba if gráos da linha 
equinocial ; no que avançou muito mais longe , do que foi 
em nosso conceito , a viagem e descobrimento- do Almi- 
rante Canhaginez Hannon , tão celebrado na antiga His- 
toria (a) . 

Nesta empreza , que tão bem llie succedeo em muita 
honra da Naç3o e grande accrescen ta mento desta Coroa , 
eom não ser R.ei , nem ter fiiiios , trabalhou pelo largo 
espaço de 40 annos; em que teve de fazer immensas des- 
pezas , combater opiniííes, que contra ria v ao os seus desíg- 
nios , e sobremoniar com íncrivel perseverança preocupa- 
ções , que se oppunhao fortemente aos seus projectos. 

EUes parecerãO' aos espirites fracos de seu século te- 

- me- 



■ (n ). FlixiSci ij'0(;4nipo , Bochait , João Alberto FabiLio , Campo- 
Bianci , BjUj;iinviile e- outros não coiiceiíão <nire si em demarcar a 
termo di viagem de Haiiooti : Iv.ins a leiúo até a Seru Lco3 , mi 
até o CabD de SuiUa Anni no Gulfo ds Guvià ; omroí ao CiU> djs 
Paliius . ai. Cíb., da; Ttcs P..rua( . ou ao Cabo Lopo , e ahida até 
« Seio Aríbic. . ou Golfo uo Mar Roxo. Nós comtuflo . bem com- 
biniilo o Peripi., . que es-.fíveo n mesmo Almiíaiite Carlbiginn , 
periuaiJiiro-ncu , qii« a toa navegação alo pessoa do Cubo ie Nam ; 
termiiiainln por conseguinte , aoiirie dep. is c-meçoii a expeJÍç3n do 
no)s<i InfaiUi:: no tjijo h.tvcndo a^^-.iita.Io em tenipoi passados, hojd 
mais ;)ai couIit!í)jiin>$ , depois cnie vi^i.o» ler eita a opiLiiúo do di.uto 
« mujeiíiii Gotielim , que br^airentc a coi»provi na sua Obia da 
Geostafia do» Aniif;-)*. Dtjln fairamo) em hwn Opúsculo particular, 
■wu Memoiii em ijue pomos a Traiíitcçáo a lUimrjçíd do- 1'eripio pa- 
ra-co:e)o da sua expedição com a du . Infante , que já apieieatamJi 
a Academia. 



D.q.tizecbvGoOgle 



Ol LlfTBrRATlTBA PoUTVQUEZA. IJ/ 

merarios , e dispendiosos, eaté inúteis i mas o Infante era 
Filosofo, e empregava toda a sua Filosofia em fazer bem 
aos homens , havendo tomado por sua honradíssima divi- 
sa a letra Talent de èien fairt , tenção , ou vontade de bem 
fazer ; e cdm esta vista levou avante a sua empreza sem 
embargo de todos os estorvos, que lhe oppozerSo : que só 
os grandes homens podem formar vastos projectos , posto 
que para chegar a executalos tenháo sempre , ou de vín- 
cer a imbecilTidade do vulgo , ou de combater os falsos 
raciocínios dos máos Políticos. 

A mais ainda se adíantariâo as suas expedições , se- 
não fosse anticipado com a morte ( que para Varão tão 
sublime viria sempre cedo , por mais tarde que viesse ) a- 
cabando seus úteis dias no mesmo lugar , donde seu espi- 
rito' talhira as emprezas marítimas , com a gloria immot' 
tal de- ter sido o primeiro dos Mathemaricos , que pronn 
rou submetter a navegação a princípios e regras; de deixar 
descuberto 57Ó legoas de Costa maritima , e terras de va-, 
ria gente e producções ', de que então a Europa nao sabí^: 
e de preparar pela luz de seus methodos , e operações À- ■ 
pantosas sobre o mar a passagem famosa para as índias 
Orientaes e Occidentaes , que depois delle se descobrirão; 
e de se tornar' finalmente o primeiro fundador da nova 
grandeza de nosso Império , e da riqueza da Coroa de 
nossos Reis C tf ). 

O Génio da Navegação deveria elevar á gloria des- 
te Príncipe hum sublÍme'monumento piiblico, e ofièrecer k 
sua Estatua hum Astrolábio e huma Bússola , formando- 
Ihe o pedestal hum Globo com a sua divisa Talént de 
bienfaire\ ao que satisfez em parte a que o Senhor Rei 
D. Manoel mandou levantar no frontispício do Templo 
de Belém, a única que teve, que talvez accusa mais o es- 
quecimentQ dos outros Reis , que recommenda a gratidão 
oeste Monarca. Tal foi pois , pelo dizer com as palavras 
de Pêro de Andrade Caminha , .' 

AqutU 

■Ca~) Veja-ít a Neta C na fim dtsta Memtria, 

I 



D.,.„cb,Google 



Âquellt altú It^ante , àe quem aicrita 
Mil maravilbas acho , s qiitm se deve 
Hum alto Canto , bum raro e grave escrito \ 

Em quem principio teve ielle âino 
Nossa Navegação , que o muna» espanta , 
Que tantos annos escondida esteve. 

( Epist. II. ao Seohor D. Duarte pag. 30. ) 

Verdadeiramente era matéria , que devia disvelar mui- 
tos engeahos , para a tratarem oa lir^uagem das Musas; 
mas nao houve entre nós Lyra , a cujo som harmonioso se 
entoasse em largo Canto todo o seu elogio , e sublimasse por 
cima das estrellas o seu nome , amado entre os nossos , in- 
veiado entre os estranhos. O claro Cantor dos LAtsiadas , 
tinha occasião muito opportuna de fallar ddlc, e de 
r de seus descobrimeiuos hum necessário e iodispensa- 
spisodio , mais ligado com a acção do seu Poema , 
o que fez do desafia dos doze de Inglaterra, conten- 
K de o nomear simplesmente , e de passagem em pou* 
versos , o- que bem podéra ser objecto de hum Poema. 
*-..,. em satisfà^io da divida , em que lhe estamos , pre- 
tendemos em outro tempo bosquejar-Uie. 30 menos em hit- 
ma pequena Canção o seu louvor , nâo tendo forças para 
tentar maior poema : aqui a poremos como em somma do 
natiito que quizera-mos dizer, para rematar C(»n mais algu- 
asa varieda^ de estjlo tão formoso artigo da nosaa Historia. 

Pois que o grande Cantor do excdso Gama, 
De ti devendo urdir a rica teia 
Da Lusa gloria na carreira undosa y 
Te deo louvor escasso. 

Eu , que sou menoei que elle , mòr ainda 
Serei só por cantar teu nome illu^re ; 
O* Glaio Henrique, ó resplendor de Lysía: 
Ouve ttt lá do Oiympo, 



izecbyGoOglc" 



t)E LlTTSHATURA PorYXJ GUEZ A, 

Donde refulges nora estrelb aos nautas^ 
Este Carme por ti ãoberbo: amda 
Virá Cantor maior, de ti td digno , 
Qi^e em largo mcCfo altivo, 

A ti somente consagrado^ lere 
Desde as ondas do Tejo ao mar da Aurora 
Teu espirito , em acçãcs sabtimes grande, 
Sábio , constante , invicto. 

Era o mundo > tj» a Europa conhecia , 
Pequeno espaço ao generofio patO: 
Sóíta as azas do génio , kmge voa , 
Presente haver mais inu&dos. 

Tu , o' TerOTwbál , ó vine feuni dia 
Co sagaz instrumento , que iíiTentára , 
Desde a torre , qu& al^ aos Ceos vizinhos , 
Medir a Estòa , e os asmtt. 



lyali quantos segiiedos provdtosbs. 
Desde a ongem do mundo recatados , 
Descobrio aos mortats ? quantos arcanos 
Da Celeste Uranía? 



iS9 



Co a vasta idéa ,- que a natura a&range 
Do orbe inteiro , talfia a empreza auguela 
De abrir novos Limites do Universo 
Em treva escura emroltos. 

Seu immortal compasso a nSta marca , 
Que hade correr a cortadora proa ; 
A Bússola polar outra energia 

Adquire, e o curso rege. * 



Da 



D.g.tizecbvGoOgle 



t6o ' - Memo»! a s 

Da sabia .mão novo Astrolábio ^ novo ' 
Deraostrador nocturno á . luz da Estrella , 
Novo Tridente , que subjugue os mares , 
Rscebe o Luso Nauta. 

. Eis accendes , Henrique , a facha ardente ^ 
Claro farol de Sagres , que allumia .* 
Esse esqundrâo de Heroes , que se abalança . 
à undivagos caminhos 

Nunca abertos té então: que entre os horrores 
Da solidão das ondas, -das procellas. 
Sem medo rasga pélagos .immeosps , 
Varias naçóes descobre. 

Sem ti inda hoje Europa não soubera 
Os novos Ceos e mares , novos climas , 
Novas Gentes de vario gesto e, língua , 
■■ '' Que outro Hemisfério parte. -.. 

Assim do alto Lycêo da. jllustre Sagres. 
A Marinha Sciencia nasce ao Orbe , 
E a esfera alarga ás náuticas derrotas , 

O novo Deos dos mares. '■ 

i)*ali , d'ali raiarão novas luzes, 
Brilhantes mais\ que o lume das Estrellas , 
Que guiarão depois á, novos mundos ■ 
Colora , e o invicto Gama. 



CA- 

izecbyGoOgle 



DE LlTTEBATUKA FoSTVGVEZA. l6l 

CAPITULO IV. 

Dí alguns Mathematieos no Reinado do Senhor 

D. yoão II. 

O Reinado do Senhor D. João II. nâo foi menos glo- 
rioso para as Sciendas Matliematicas , que os dous 
antecedentes , maiormente para a Navegação. Este Prínci- 
pe acceso em desejos de adiantar os descobrimentos de 
seu Tio o Infante D. Henrique , tentou descobrir o novo 
caminiio , que ainda restava para a índia , e que já co- 
meçava de apparecer mais possivel aos nossos ousados na- 
vegantes j desde que arrostarão os mares muito avante do 
temeroso Cabo do Bojador. Elle tinha em vista por este 
descobrimento chamar todo o Commercio de levante a Por- 
tugal , como a geral Empório de toda a Europa. 

Para isto promoveo muito os estudos da Cosmogra- 
fia , e da Astronomia, fundamentos de toda a Navegação; 
e tanto amou estes estudos , que parece os quiz vincular 
e deixar em herança ao Senhor D. Manoel , que havia ser 
eeu Successor. Este Príncipe não tinha tomado divisa , se- 
gundo o costume dos Príncipes , e ElRei lhe deo huma , 
que era a figura da Esfera , por que os Mathematieos re- 
presentão a forma de toda a maquina do Ceo , e terra ; 
cousa por certo de espantar , porque por etla demostrava 
ao mesmo tempo a entrega e cessão , que lhe já fazia da 
enipreza do descobrimento da Índia , para elle a proseguir 
por sua morte ; como querendo , que assim como elle ha- 
via de ser seu herdeiro na Coroa , assim o fosse na acção 
da Conquista e dotninios de Africa, e Ásia. 

Em verdade a Navegação protegida por elle cora to- 
do o ardor de seu animo Real , e dirigida pelas luzes das 
Mathematicas , deo então grandes passos : elle fez de no- 
vo aperfeiçoar a Bússola , formar Cartas Maritimas que 
guiassem as rotas , e descobrir maneira , para que a Na- 
vegação , que até alii se fazia pelo longo da Costa , cozi- 
Tm. FIIL X da 



;,COOglc 



j6t Memosias 

da com a terra , levando-a sempre, como rumo , de que 
havia noticias por sinaes , de que se fortnavao roteiros , 
sepodesse já fazer pela altura do Sol , engolfando-se no 
mais alto , e largo do Oceano, 

Este invento commetteo elle a três Matheraaticos de 
grande nome , dos quaes logo faremos particular memo- 
ria. Estes depois de varias considerações e especulaçòes 
Matliematicas , em que muito trabalharão , vierao a achar 
as taboadas da Declinarão do Sol , o que ibi invenção ad- 
mirável e proveitosa , que muito animou os nossos , e abrio 
diais o caminho do Descobrimento da índia , em que por 
isso lhe está em grande divida Portugal , e toda a Europa. 
Assim pois mandou o Principe proseguir as viagens , 
que o Infante já havia adiantado , e descobrio por suas 
Irotas o Reino de Congo. A maior difficuldade estava no 
ir do Cabo da Boa Esperança , e passalo ; e isto foi 
!e com grande trabalho , e despeza da sua Real Fazen- 
se fez em seu tempo; porque navegando então com in- 
ú ousadia chegarão os nossos ao Ilheo de Cruz, aon- 
[lozcríio hum padrão ; e reconhecerão o Cabo situado 
•xtremidade de Africa Meridional , que chamarão Ca- 
ie Tormenta , ou Tormentório , e depois da Boa Es- 
perança pela muita que dava, de se assegurar pela volta 
delle a pa?sagem , quese pertendia abrir para as Índias Ori- 
eiitaes. Animvjdos com este pasraoso descobrimento correrão 
mais além do Cabo pela Costa , até chegarem quasi aos li- 
mites de Çofala , e Moçambique. Deste Principe cantoa 
com razão Gabriel Pereira na Ulyssea : 

Logo Joãff Segundo bellicoso 
Fnrd escura toda a fama alhêa , 
Vevdo levar seu nome glorioso 
Te onde a ardente S'ol ferve tia ãté9 ^ 
Descobrindo o grão Cabo. 
(Canto IV. Est. loi.) 



D.g.tizecbyGoOgle 



DE LiTTERATURA Po R TU Q CE Z A. KÍj 

Façamos hoorosa memoria de alguns do; illustres 
Mathematicos desta Época. Distlnguio-se entre elles com 
grandes créditos de seu nome o Licenciado Calçadillia , 
Bispo i^ue foi de Visco , a quem a Antig-t Historia apregoa- p,fíJ5*. 
va por muito sábio, c mui particularmente por grande Cos-iíia. 
inografo. Debaixo deseusolnosse fez cm casa de Pêro de 
Alcáçova a Carta , ou Mappamuiido , qtie levarão os nos- 
sos viajantes Pêro da CovJlhá, e Affonso de Paiva naniral 
de Castello Branco, quan- do o Senhor D. João II. os man- 
dou a descobrir as terras do Preste João da índia (a) . 

Merecem entrar na classe dos grandes Mathematicos 
daquelle tempo os três Hêbreos M.« Moyses , M.' José Me- M.«Moy- 
dico do Sennor Rei D. Jo3o II. , e M.* Rodrigo também '."^ ^^^^ 
Fysico do mesmo Príncipe (é): os dois últimos trabalha- m.' Ro- 
ráo na invenção das Taboas da Declinação do Sol , de ''"So* 

que acima falíamos (r) , efbrão também prezentes "" '^ 

a Carta , ou Mappamundo para a viagem de Pêro 
vilha , e AfFonso de Paiva (d) . 

Figurou muito nesta Época D. Diogo Ortiz , ( 
no, pio e douto Bispo de Ceuta, que grande reputaç 
geou por sua muita Litteraiura , e conhecimentos 
tliematicas , principalmente na Cosmografia, a qu( 
nhor Rei D. João II. costumava tratar e consult 
foi hum daquelles , que lhe aconselharão a tentativa da 
Navegação da índia , e hum dos que depois examinarão 
o plano deChristovâo Colem quando este o apresentou á- 
quelie Príncipe para o descobrimento do Novo Mundo Ce). 
X ii Com 

(a^ hto the (<i tnnta hnnra , quío pouca □ ter sídn iiuin dos 
i|ue le op[>oseráo á ptoposia de Clnistovãn Coiom nesta Còiie , pa> 
fa a emprera do deicobtimento do Novo Miiorfo. Delle fali.» entte oj 
nus».: Francisco Aliarei no Preste João das índias ; e entre oí ei- 
tranhoi Witfliet na Obca iniítulada Dticrlpiimir Plalamalcje augmenta 
pig. jo. 

(i) Díz-ie morador em Liiboa i% Pedrat Negras. 

CO Battoí Dec f. Liv. IV. Cjp. Ii. foi. 64. 

(J) Mariz. Dial. IV. Cap. X. pag. jij. 

(e) Ellc o reprovou também com o Licenciado Calíjidilha , ou íos- 
14 por opiai^et eiiadai 1 «m que estava, ou fojic por systeinaj pois 

Dni.tizc-cc.Google 



164 Memorias 

Com este pôde ajuntar-se outro grande Mathematlco, 
que entre nós viveo , e nos foi útil e proveitoso para o 
' uso da Navegação , qual foi o Alemão Martim Behalm , 
ou de Boémia , que variamente se escreve. Era elle de 
huma nobre família de Noremberg ( tf ) , homem , de 
quem pouco disserâo os nossos , e por quem se não deve 
passar sem maior commemoraçao de sua pessoa e nome. 

Foi este díscipulo do famoso Maihcmatico Jcíío de 
Monte U-egio , Professor de Astronomia (í), eapplicou-se 
com mui particular cuidado i Cosmografia , e á Náutica. 
Elle veio ao serviço de Portugal , e foi bem recebido dos 
Senhores Reis D. AlFonso V., e D.João 11. pela nobre- 
za de sua pessoa , e por attençóes á sua Proíissáo , e pra- 
tica. Este ultimo Príncipe lhe deo as honras de seu Es- 
cudeiro a 18 de Fevereiro de 1485" , e delle se aproveitou 
para os progressos da Navegação Portugueza. 

Delle dizem os seus , que foi o primeiro que applicou 
a invenção da Bússola ao grande uso da Navegação , o que 
bastaria para dar immortalídade a seu nome , e muíta hon- 
ra á Alemanha sua pátria C^)" sobre este louvor ainda lhe 
dão outro, quCj a Ine ser devido, elle só o podéra consa- 
grar, e eniiobrecer em todas as idades; por quanto lhe at- 
tribnem a primeira idéa do descobrimento da America , e 
até a gloria de ter achado hiima parle delia , a saber o Bra- 
zií , e o Estreito, que depois se chamou Magellanico (íÍ). 

Com eíFeito conta-se , que elle contrahio amizade com 



que h.ivia ante* acnnseiliailo a Navegação para » índia Otientai por 
caminlio cnntraiio an de Cnlnm , o 'que justamente se llie não loií- 
vou , por nos privar da gloria e iwilidarfc do descobrimento e acqui- 
siçõps , que então poderaiiios fajer. 

( fl) Vcja-ie a Ktia D no /im <le,la Nemcria. 

C*) João Pedro MafFei na Hiuotia Indica I,iv. 1. juntamente com 
os no!i(is o faiem Discípulo dest^ grande IVlíthematico. 

Ct) O Seiíliot Rei D. João II. fez app|ii;ar de iKivo a Bússola ao 
uso da Navegação, como acima dissemos, e o fci por direcção deste 
í«bifj Mafhematico e de nulios , que com elle concorrârão. 

(^d") Dizem que obtivera em L4Ú0 (1« D. Isjbel Duquezi, e Re*en 



DeLiTTEBATURA POBTUGfrEZA. l6f 

O nosso Feínando de Magalhães (a), e lhe dera hum 
Globo terrestre, em que havia traçado a rota , que suppu- 
nha , se podia seguir, para se demandarem pelo Occiden- 
te as índias Orientaes (í). Accrescenta-se , que em huma 
Carta Marítima desenhada por sua mão , que o tnesmo 
Magalhães tinha visto no Gabinete do Senhor Rei D. João 
11. , demarcara disiinctamente o mesmo Estreito, da qual 
affirmão, que Magalhães se sérvio para a Navegação, que 
fez áquellas partes , e a que deo seu nome (f) . Dizem 
também , que elle fora grande amigo de Chrisrovão Co- 
lora (d)j e que este igualmente se aprovciíára de outra Car- 
ta , que delle achara na Ilha da Madeira (e) . O que pa- 
rece certo he que elle foi o que descobrio a Ilha do Faial, 
chamada assim pelas muitas faias, de que abundava (J) 
ou pelo menos hum de seus primeiros povoadores (g) 

Foi 



te de Borgonha , mulher do Duque Filippe II. por sobrenome o Pio , 
que lhe manda» apparelhar hum navio para ir ao descobrimento da A- 
merica- A elle attribuetn os Alemaei o i.° prcijecio desta empreia , e a 
lua execui^ão como são entre outro» João Frederico StUvenio erli hu- 
ma Dissertação ; Dí vire nevi trhii in-uenlert , Mr. Vangeiniei! fun- 
dido noi Documentfiit dos Archivos de Notember g , Mr. Doppolmayer 
na Relação citada e Otto na Memoria acerca do verdadeiro de^cobti- 
dor da À tu cri ca , que apteseniou na Sociedade de Filadélfia, e vem 
inserta no Tora 11. n. jj. pag. a6). das Trsnsacçííe* Filosóficas. 

(fl) IVlotetr. (i) Gomera Hiit. Cap. 19. («) Poppolmayer, 

C<í) Herre.a Dec. I. LÍv. I. Cap. H. 

[<) João Baptista Riceioli , « flloreri. 

Q/) Consta de hum pergaminho em anti^r> Alemão do Archivoda 
Família de Mariim , que traz fiielfeld na obra dos Progressos dos Ale* 
mães nas Artes , e nas Sciencias. I>oppolmayer diz delle , que po- 
voando-se esta Ilha receheo ordem del-Rei ( o Senhor D. Affonso V. ) 
em 1466 para it estabelecer-se nella ; que lá passou huma grande par- 
te de sua vida ; e que d.ili vindo depois a Lisboa falleceo a 29 de 
Julho de 15OJ. tres mezes antes de Colom. Moreri accrescenta , qu» 
deixou hum filho de seu mesmo nome , rue teve de D. Joanna de Ma- 
cedo , filhado Almiranre de Poitu^jai , ou antes , como outros diíam , de 
hum Capitão Jorge de U(tra , fidalgo flamengo , e Senhor de .ter- 
ras em Flandres , primeiro Donatário da Ilha do Faial , e de suamu- 
Ihet D. Brites de Macedo , Dama do P^^ço. 

C?) o P. Cordeiro na Historia Insulana. 



izecbyGoOglC 



l66 M E MO K IA S 

Foi delle hum globo de 20 polegadas de dUmetro, 
feiro em 149a em que desenhara toda a terra , segundo o 
systema dePtolomeOj ajuntando-lhe osnovou descobrimen- 
tos, qiií fizera (<7), gtobo , que ainda conservavas fami- 
lia deBeJiaim em tempo de Doppolmayer , que oreduzio, 
a hum Mappamundo , e o mandou gravar no Bm de seu 
livro ; acaso o fez nos tempos , em que foi doFaial a 
sua pátria (è). 

A este, como aos M.'=' José, e Rodrigo Hebreos acima 
nomeados foi encommendada a empreza de descobrir ma- 
nara , para que a Navegação , que até alli se fazia ao longo 
da Costa, se podesse fazsr pela alwra do Sol , c no lar- 
go mar , de que já falíamos ; e cou effèito elle teve par- 
te nas considerações , e especula96.>3 Mathematicas , que 
a acharão , e por que se fízeráo as taboadas da declinarão 
do Sol ( í- ) . 

Floreceo também por estes tempos hum Rabi , cha- 
mado Abraham , que por sua Sciencia Mathematica teve 

ham!" O dictado de Astrólogo (d). 

Parece tocar a este século Diogo Rodrigues (^acuto : 

T>íofo conta-se que fora Astrónomo de reputação , e compozera 

guV/q» hamas Taboas Astronómicas ( í ) . 

«Hto. Me- 



(n) o que prova Octo com DocumenEoi extrahidoí da Archiro de 
Noremberg. 

Qi") Doopolmiyer na RelaçSn Histórica dos Mathematícos , e At- 
líiias da Noremberg. 

(c) Barto) Dec. I. Liv. IV. foi. <S4. Mariz Dial. IV. Cap. 10. pzg. 
)i(. Veja-ie a Hiitoría Diplomática de Alartim Behaim por Chriíto- 
vão Gntlieb Murr tradutida do AlemSn por Chtistavao Cladera : Iii- 
Vistigdcienei Hiittricai Aladrid 174S. 

(i) Noi Documento! 1 que vimos , níío tem mais que o límplei 
nome de Abraham. He chiniida EnroVtea , iito he , Attrologo no Al* 
vari original do Senhor Rei D.João II., porque llie mandou dar dez 
espadim de ouro ; feho em Torret Vedrai a 9 de Junho de I49J>' 
( Torte do Tombo Corp. Chron. [«att. I. Maç, II, Doe. XVIII. ) 

(c) Porque tem occorrido duvida sobre a existência deite Aoihoi'» 
esuas Taboas , reservamos para o (im desti AtemoiU fallai maíi pC 
exteato deius matéria. Vtja-tt « Iftia £, 



DE LiTTER ATURA PORTUQUEZA. IÍ7 

C A P I T U L O V. 

Be alguns Mãtbematicos ne Reinada do Senhor 
D. Manoel. 

No Reinado do Senhor D. Manoel Príncipe de grt 
ventura , que tão glorioso foi a Portugal , nao se abrio 
vaso dos estudos Mathemaricos , antes se cuidou muito de 
os promover. Continuando este Monarcha no sublime pro- 
jecto dos seus illustres Antecessores para o descobri mento 
da índia, e querendo bem realizar o prognostico da. divisa 
da Esfera , que o Senhor Rei D. João II. lhe havia dado, 
entendeo , de quanta conveniência erSo para este fim oa 
Cosmógrafos , Astrónomos e Náuticos , que com seus es- 
tudos e practica podessem presidir a esta grande obra ; e 
por esta causa cuidou muito cm fomentar íb progressos 
das Mathematicas , maiormente os de Cosmograiia , da A&< 
tronomia e da Náutica. 

E quanto ás duas primeiras , que erao as bases da 
Sciencia da Navegação , tanto as amou e pFoniOYeo , que 
com muita honra e mercê recebia e agazalhava a todos os 
que se davão a taes estudos ; e da Astronomia creou na 
Universidade.de Lisboa huma Cadeira particular para suas 
Lições ; donde muito se espalhou por todo o Reino a luz 
desta Sciencia , que certo allumiou .e abrio caminho aos 
grandes hoanens , (pie depois brilharão no Reinado st- 
guinte. 

Não deixareaoos comtudo de confessar , que a Astro- Aitroii» 
iõgia Judiciaria, qne pretendia prognosticar o ínturo P^loe gj^.JjJ- 
sinaes e conjunções dos astros, reinava imperiosamente na- 
quelles tempos , occupando os Jaientos de ^uiíos , que 
bem se bouverao de empegar iroi cuidados d3 vo-dadei- 
ra AstTonon^ia : o mesmo Rei foi dado a ella era tan- 
to , que Tro ^^rrir das Tiátis -psra a í-ndia , ou -no íecipo , 
que se esperavao , mandava tirar juízo por hum afamado 
Astrólogo Portuguez Diogo Mendes Vizinho , de quem 

adian- 



l68 M B H o K I A S 

adiante fallaremos ; e depois deste fallecer, por Thomaz 
de Torres , seu Fysico , homem mui acreditado assim na 
Astrologia , como cm outras Sciencias , de quem igualmen- 
te faremos adiante memoria (^). 

Tão valida andava então a Astrologia por toda a 
parte , que chegou o seu estudo a ser galhardia entre os 
Letrados ; que deo occasiâo ás galantarias do Cómico Gil 
Vicente, que, qual curro Aristófanes escarnecedor , mote- 
jou dos Astrónomos no Liv. 1. das suas obras de Deva- 
Çáo , postoque confundio a Astronomia verdadeira com a 
Astronomia Judiciaria. 

E porque estronomia 

Anda agora mui maneira , - 

Mal sabida e.lisongctra^ 

Eu á honra deste dia 

Muitos presumem saber , 

As operações dos Ceos , 

E que morte hâo de morrer : 

£ cada hum sabe , o que monta 

Nas estrellas , que olhou , 

E ao moço , que mandou , 

Não lhe sabe tomar conta 

lyum vintém que lhe entregou ( í ) - 

Contra esta espécie de Astrologia declamou com gran- 
de zelo o pio, e douto Fr. António de Beja da Ordem 
de S. Jeronymo , refutando os prognósticos e juizos de al- 
guns Astrólogos , que havíão ahnimcíado hum grande diluvio 
na terra no mez de Fevereiro de I5'24, e com isso con- 
sternado a todo o povo de Lisboa. 
^ Quanto á Náutica , levou este Príncipe muito longe 

' as nossas Navegações como herdeiro universal de toda a 

ma- 

(a) Accrescenta DamiSo de Góes , que postoque desse credito ■ 
Astrdogia , nunca o dava a agouros , mas antes fora mui imigo dellei , 
e lhe pesava de saber , que era alguém dado z isso. IV> Pait> Cap. íi-, 

(a) íig, j6, vus.. 



:,.C00Í^|C 



DE LiTTER ATURA PoRTTJGUEZA. l6p 

maquina e pezo delias ; não contente do que já era descu- 
berto ; mas ailtes muito desejoso de passar adiante , logo 
no começo do seu 'Reinado cuidou de abrir caminho pa- 
ra as índias Orientaes pelo Cabo da Boa Esperança , 
como huma das coisas , que elle maiii tinha nos olhos , 
e de que se mais queria honrai : e a este fim tendo 
em Monte Mór o Novo sobre isso Conselho (sem em- 
bargo que alguns forao de opinião , que se não proseguis- 
se mais nestas viagens ) seguio constantemente o voto da- 
quelies , a quem isto pareceo ao contrario , e em Julho 
de 1491 fez partir a famosa esquadra dos Argonautas 
Portuguezes, Capitão D. Vasco da Gama, natural da Vil- 
la de Sines. 

Esta armada heróica ^ animada pelos estímulos da 
honra de seu Rei , e de sua Pátria , depois de ter corrido 
a Costa Occidental da Africa » já descuberta , chegou a 
dobrar o temeroso Cabo da Boa Esperança , descubrio a 
Costa Oriental do mesmo Continente : passando o Cabo 
das Correntes , e a grande Illia de S. Lxjuren^o , entrou 
no Rio dos Bons Sinaes ; chegou a Moçambique ; correo 
a Costa de Melinde : atravessou o Mar Indico pelas por- 
tas do Estreito do Mar Roxo ; abordou no Indostan , an- 
corando no porto famoso de Calecut o mais rico empório 
do Oriente. 

Assim rematou este Rei venturoso a maior empreza 
marilima , que até então fizerão os nossos ; qne espantou 
a toda a Europa , e cubrio de gloria a Portugal : Nave- 
gação foi esta verdadeiramente msravilhosa , e toda fi- 
lha das Mathematicas , não emprehendida ao acerto e á 
fortuna , mas sabiamente calculada sobre profundas com- 
binações e altíssimas conjecturas ; guiada pelos principies 
da Cosmografia e Geografia , apoios da Náutica ; talhada 
sobre hum plano luminoso constante e regular ; e dirigida 
por novos instrumentos e applicaçao das regras da Astro- 
nomia e Geometria ; sendo tudo isto por conseguinte effeí- 
to dos conhecimentos , que entre nós espalharão as Sden- 
cias Mathematicas , suscitadas nos tempos do immòrtal 
Tom. FlIL Y Ifr. 



Dni.tizc-ccvGoOglC- 



170 Memorias 

Infante D. Henrique, e constantemente ailtitadas nos do 
Senhores Reis D. João II., e D. Manoel , gloriosos Suc- 
cessores do grande espirito e empreia daquelle Príncipe (a). 
Por certo podemos sem duvida alguma asseverar , que 
tamanha Navegação ou foi nova , e feita , pelo dizer com 
o Poeta: 

Per mares nunca dantes navegados , 
Ou pelo menos em si tal , que commettída depois de tantos 
séculos de inteiro desiiso, e esquecimento das antigas Nave- 
gações , se algumas houve , como esta , veio a ser nova e 
original , como se nunca antes houvesse sido praticada (è). 
Se esta Navegação porém foi maravilhosa peto espi- 
rito sublime de grandeza actividade e perseverança , que 
lhe presidio, e pela sabedoria , e felicidade , com que foi 
projectada e executada debaixo dos auspicies dos Estu- 
dos Marhematicos ; não o foi menos pela sua inBuen- 
cia em Portugal , e na ordem politica e scientifica de to- 
da a Europa ; por quanto , quebrando nós por nossa Na- 
vegação as barreiras , que pareciâo oppoStas , pela Na- 
tureza entre os dous Hemisférios ; e descobrindo novos 
mares e Costas e terras e gemes e producçóes daquella 
Vasta porção do globo , até então a nós cerradas e desco- 
hheclaas ; e alargando assim os limites e balizas do Uni- 
verso , viemos por ella a unir entre si dous mundos , e a 



- (o) Já notnu isto o sábio Mathematico Pêro Nunei no «eu rara 
Tratado da Ocfaimni rfa A.te àt Manar na i.' foi. ver», ara rnenf 
ftu» he t diz ellej ./«e eitti deicchrimentei de Cbiíbi ilhat t Urrai fif 
tittt nSt H fiitiam iitit a acertar , mai partiam et aosioi martitnlet maa 
xnilnadei t provlJaj át eilrtnienlei , e rtgrai de mli-ehgia , e geometria , 
yuí iam ai ctuiai , ie ijiit bl Cciniugra/ii liam i'andar aperíthíJúj it- 
gaida dit Ptattmta no i.° livra da sua Gctgrajia , t levavam cariai maa 
portltularmtatt r amada i, 

C^) Pallamni disio na Memoria sobie a novidade e resuliidos da 
■Navegação Portiigiieia : assuinpM acerca do qual se pôde ler com par- 
■ticular satiifaga» a sabia e erudita Memoria tie nosso Sfício o Senhor 
Francisco de Borja Garção Stockler lebre a Ori^inúUdade dat Deu»- 
Irimeiítej Mariciauí dn Partuganti aa Tom. 1. de luas Obras pag. 
Í4Í. e leg. . - 



:,CoogIq 



DELiTTERATVHA PoRTtTGffEZA. 171- 

arizinhar as Nações da Europa a outras Naçtíes remntas »- 
por tantos séculos separadas da cooimunicação do nosso 
CODtinente. 

For ella facilitamos a ncís e a tcdos os Huropeos o 
trato de recíprocos interesses com os povos Africanos e 
Asiáticos : por ella lizenios ir.iidar o curso do Commercio 
dos preciosos géneros e especiarias da índia , estancando 
o monopólio e Senhorio do Cominercio de Levante , que, 
tinháo feito e com que tanto se enriqueciáo os Venesianoa 
e Genovezes ; e o que mais era , as Nações Turcas e Ara- 
bescas , com enorme desigualdade na balança mercantil i 
trazendo nos em direitura ao Tejo as riquezas do Indo \ e 
convertendo a Capital deste Reino em huma nova Alexan- 
dria e empório, ou feira universal de todo o Occldente. 

Por ella consequentemente abatemos a potencia dos 
Soldôcs do Egypto , e as forças da Ccrôa da Casa Otto- 
mana , sangrados e diminuídos os grossos mananciaes de ^ 
seus rendimentos e opulência : salvando a imminente e te- O 
merosa invasão e savidao , de que toda a Europa Chrís- ^■^ 
tá se achava altamente ameaçada ; e abrimos ao mesmo» 
tempo caminho para estendermos nosso Império no Orien- * 
te; tornando assim o nosso Reino mais opulento em fama 
e mais rico em seus domínios. Com ella despertamos a 
nobre emulação das Potencias Estranhas para as emprezaa 
maritimas ; e estabelecimentos Coloniaes , e demos occa- 
siâo ao mesmo descobrimento do Novo Mundo. 

E quanto não concorremos com esta mesma Navega- 
ção para os adiantamentos ccíentificos , que desde então 
se fizerão ? Nós demos á Europa notáveis conhecimentos 
do globo habitável , que não tmha , nem tiverão antigos 
Gregos e Romanos : tiramos muitas ignorâncias e erros 
em matérias Scientificas : iUustramos a Cosmografia , 4 
Geografia , e a Corografia , e reformamos muitas noti- 
cias falsas e erróneas dos antigos , incautamente a"dopta- 
das dos modernos até á época dos nossos descobrimen- 
tos. Explicamos muitos fenómenos portentosos : apresen- 
tamos aos Astrónomos novas estrellas e Ceos : patentea- 
y li mos 




:,CoogIe 



I7Z Memor ia« 

mos aos Filósofos pelos descobertos de Africa e Ásia es- 
paçosos ca.npos da Natureza , para enriquecer a sua His- 
toria , e todas as Artes e Sciencias Fysicas , que delia de- 
pendião : abrimos sobre rudo nova esfera ás Sciencias Náu- 
ticas , que fizemos mudar de semblante, adiantando a Ar- 
chitectura Naval , acertando os calailos e as alturas , for- 
mando Cartas mais bem rumadas que as dos antigos , e 
aperfeiçoando os methodos , e os instrumentos da Navega- 
ção, e todos os con li eci mentos do mar (tf). 

Florecerão neste Reinado algunS bons Mathematicos, 
huns nossos , outros estrangeiros , estantes nestes Reinos: 
de huns e outros faremos agora memoria. Hum delles foi 
o grande homem , de quem sempre se fallará com muito 
espanto em Portugal , e em todo o mundo , o Portuguez 
■ Fernando de Magalhães , Cavalheiro de qualidade e va- 
lor ; e de tanto espirito , e experiência na Arte de nave- 
gar , quanfo tinha na da guerra , como mostrou na Con- 
quista de Malaca pelo grande Albuquerque em ijio (^). 
Desarrendido pelo Senhor Rei D. Manoel na supplica, 
que lhe fizera para âccrescenta mento da moradia por seus 
serviços na Ásia , e na Africa ; mercê t^o proporcionada 
A qualidade de sua pessoa , como inferior ao seu mereci- 
mento ; descontente da Corte se ausentou da Pátria, para 
ir dar a Cascella a immensa urilitade e gloria , que pode- 
rá ficar en; nossa casa, e lá se desnaturalizou solemnemen- 
te ; e buscando ao Imperador Carlos V. lhe promettco o 
descobrimeuro de hum novo caminho para as Ilhas Ma- 
lucas , de cuja navegação, e conquista rcceberião os Hes- 
panhoes opulenta riqueza , e grande nome e poderio. 

Em verdade elle formou o maior projecto , que ho- 
mem algum imaginou ; c fot este de buscar huma rtira para 
as índias Orientaes navegando pelo Poente, ou Sudoeste: 

Que 



Ca) Vestes efteitos e resultados falíamos mais largimeiUe na Me- 
moria , que ja annunciamos , Sobre a Novidade , « Resultados da Na- 
vegação Portu-;ueia. 
■ (í) Os estranhos chamáo-lhe cominuraeoie filagtllai. 



.^AlOgle 



DE LlTTlRATVÍ A PoR TUQ tí KZ A. 175 

Que bum Português fugido e descontente 
Bastará a revolver o mar profundo , 
E abrir nelle caminho a hum novo mundo. 
(Gabriel Per. de Castro Ulyssea no C. VII. Est. 119.) 

Escolhendo dous Cantabros João Sebastião de Elcano de 
Guipuscoa , e João de Elurriaga Biscainho , que regia a 
segunda náo , e levando comsigo o seu Cunhado Duarte 
Barbosa , Álvaro de Mesquita , EstevSo Gomes , e João 
Rodrigues de Carvalho, todos Portuguezes {a)% comraet- 
teo os mares nunca vistos , com incrivel audácia ; e des- 
cubrio o Cabo , que chamou das Virgens , situado em yx 
gráos, e passadas 12 legoas o Estreito, que depois se cha- 
mou de íáagalhães , depois de ter navegado por elle jo 
legoas achou outro maior, que desembocava nos mares do 
Poente, que tomou o seu nome: e atravessadas mais lyco 
legoas desde a boca deste Estreito ,. descubrio diversas 
Unas de gentio , e chegou á de Zabo , aonde foi a prín- 
cifiç bem hospedado deHamabar, Senhor da Ilha, elhe 
foi mui util por lhe haver conseguido em i5'2i'(Juas vÍ- 
ctorias contra Calpulupo, Senhor da Ilha de Mathan, seu 
inimi^ s e confinante. Teve a desgraça por fim de ser 
morto por elle Com perfídia e cilada ; mas o seu navio 
íèz a viagem a volta do mundo pela primeira vez , mos- 
trando-se então pela experiência , que a terra era hum glo- 
bo. Deixou ms. hum Roteiro de sua navegação {b ) . 

Houve naquella idade outro nosso Mathematico de 
esclarecida fama , qual foi D. Francisco de Mello, Fidal-n. Fiin- 
go da Casa Real , primeiro Bispo nomeado de Goa , Va- ='"<>o ^« 
râo de muitas letras humanas, e divinas, excellente Lati- * **' 
no , bom Orador , e Poeta : foi mui particularmente in- 
struído nas Sciencias Machematicas , que com grande ap- 

pli- 

Çd^ Marianng, Gaiibay , Silva, Henao. 
■, C') Sobre o pr^jucto . e viagans de Migalhíes. Veja-se a Histotii. 
da Ameiica do li>glez Robeiitoa no h». V. 



D.q.tizecbvGoOgle 



174 Mehosiaí' 

plicaçâo estudara em Fariz por ordem , e liberal assisto 
cia do Senhor Rei D. ManoeJ. Dcizou-ncf illustres teste- 
iniinhos de seus estudos dos dous Tratados Latinos. Mk. 
que compoz , e dedicou ao mesmo Senhor por amostras 
qo aproveitamento de seus estudos ; hum sobre a Theoria 
da Óptica e Prespectiva , adribuido a Euclides ; e outro 
a respeito do Livro da, Incidência dos Corpos sobre os lí- 
quidos de Ârchiraedes ; obras , que existem boje na Real 
Bibliotheca de Lisboa , que forao da tsagnifiea- doação , 
que lhe fez o mui douto, e pio Bispo de Béja, hoje Ar- 
cebispo de Évora D.Fr. Manoel. do Cenáculo Villasboas. 
Delle e de seus escritos mais poderamos dizer ; mas 
o Leitor se haja por satisfeito, com o oiie já dissemcs, e 
compilamos nas Memorias , que escrevciros de sua vida * 
c obras , que correm já impressas no Tom. VIL éz$ Me- 
morias de Litteratura Fortugueza da Real Academia das 
Sdencias de Lisboa. Bastará , que aqui lancemos por seu 
louvor o honroso testemunho de M.' Rezende na Oração 
de I5'34 , recitada na Universidade de Lisboa : Nom ( tran- 
aibo ) Franciscíim, Mel/um summa elegantia , sítmma in 
scrihenâo facilitate , summa jofitutia virum, qui Cèrts- 
tiattie Pbihsopbia non eontentus lingua nitortm aàde- 
re , Mathematicis Scriptis^ jem claru-s nemen juvm ai 
aèlivhnis injuria vindicavit (a) . 

Com estes se deve aqui pòr outro grande Mathema- 
Simão tico daquella idade , Simão Fernandes , que vivia no Al- 
de"*"' g^iTffi pelos annos de ifit). Este foi o que disputou em 
Fiiippe Lisboa com Filippe Guilhem , Castelhano , grande LogÍ- 
Quiibcm CO , muito eloquente , e de mui boa practica , e com «»• 



(,«") Fai também memoria dello , e de lua Sciencia entre outi 
o Cómico Gil Vicente: 

Esie Franciíco de MtlU, 
Qat labt Stiencia »h«nde , 
Dis que a Ceo ht redcndí t 
(Xiv. I. das Obras de Devaçâo. A. Feira pa|. )<■ vers. ) o I 
chama grande AttroUg* , e nas Obrai do Liv. V> pag* 376. « mtli 
Mtthtmatie» ^ qut talSa hêoui m Rtiat, 



Dni.tizecbvGoOgle 



DE LiTTESATURA PORTUGUEZA. ty^ 

tãàos de Matiiematica , e grande trovador , a quem os 
nossos entre muitos sabedores folgavâo então de ouvir (a), 
Este se oítereceo a ElRei para dar a Arte, que dizia ter 
achado de navegar de Leste a Oeste , affirmando haver 
feito muitos instrumentos para dar mostras desta Arte , e 
entre eiles hum Astrolábio de tomar o Sol a toda a hora. 
Praticou elle a Arte perante Francisco de Mello , e ou- 
tros , que para isso se ajuntanío por mandado de EIReí, 
e todos a approvarao por boa , e ElRei lhe fez por isso 
mercê de cem mil réis de tença com Habito , e a Carro* 
tagem da Casa da índia, que valia muito. Com este pois 
travou hunia grande conversação , e disputa Simão Fer- 
nandes , a quem ElRei mandara vir do Algarve , o qual 
ou por mais alta Sciencia, que a dos outros, ou por sys* 
tema lhe. fez de tudo falso (è)* 

Luzio com muito esplendor de seu nome neste mes' 
mo século M.* Filippe , Medico , a quem o Senhor Rei *?•' ^i^ 
D. Manoel conferio a nova Cadeira de Astronomia , que '^^*' 
creara no Estudo de Lisboa , de que já falíamos ; orde- 
nando-lhe , que a lesse huma vez na semana no dia , e 
hora , que pelo seu Reitor lhe fosse consignada ( f ) . 

O outro Mathetnatico , que então houve mui nomea- 
do , foi Tliomaz de Torres Castelhano , Bacharel em Me- Jj'^'^^ 
dicina (d); foi também Fysico do Senhor Rei D. Ma-ret. 



C«) FaIU delle Gil Vicente nis Obra» do Li». V, p. a^6. 

C í ) Guithem , ou enitnuladn , ou lemerosu , poi-ie em retirada psT 
R Cattella, e hindu jí em Alde4 Galle°a em hum cavallo de pos- 
li, f.ii preio por Ordem del-Rei. Gil Vicente pag. a?!. 
. ( r ) Conita da Carta teitcmunhavel de dou< Atvarái do Senlmr Rei 
D. Manoel hum feito oa Aiambuji a 39 de Outubro de iji) > que 
h» d« Lente ; e putro 1 que he de seus piivilegios , feito em Liiboa a 
30 de Outubii) de ijii referendído na Carta do Senhor D. JoSo Hf. 
dadi em Lisboa a { de Janeiro de isaj ( Chanc. de D. JoSo Ilt. 
U». L foL) 

PallSo de M.' filippe ai Memoriai Chronologicas de Leitão ao 
fino t!iS. g, 9S). Toi. 4S9. 460. 

C) A lUB naiucalidade se cullif;e da linguagem Castelhana , em 



:X'OOgIc 



lyé M E u o H I A s 

noel ., e Lente da Cadeira , que se íntítulava de Astrolo^ 
£Ía e Mãthematica na Universidade , na qual succedeo a 
M.* Filippe, de que tomou posse em ip de Outubro de 
IS"!! ; e a lêo até se mudar a Universidade para Coimbra 
no de 1537 (a)y Teve cargo de dar algumas Iiçóes dos 
princípios de Astronomia ao Senhor D. João III. sendo 
ainda Príncipe , a quem explicou a Theorica dos Plane- 
tas, e outras coisas da Astronomia. Mereceo ser contem- 
plado pelos Senhores Reis D. Manoel , ç D. Jo3o com 
algumas Jionras e mercês (è). , 
jj. Accrscentemos a estes Diogo Mendes Vizinho , natu- 

MenJe» fal da CovíIhâ , de alcunha o Coxo, porque o era de ale- 
Viiiiiiio. jgQ. qyg fçj[ imjjj Mathematico de credito não vulgar na- 
queíle século, e havido por grande Astrólogo , a quem o 
Senhor Rei D. Manoel. consultava muito nas coisas tocan- 
tes á Astrologia, de quem já acima falíamos (c). 

Façamos também honrosa lembrança de hum , que ■ 

postoque nao nosso , entre nós esteve e sérvio ; do qual 

Americtt ^o^^o^ DOme todo o Continente da America. Foi este A- 

Veipu- merico Vespucio, Florentino, grande Mathematico eCos- 

^'■'*- mografo. Deste se disse, que tirara huma cópia do Map- 

{)a dos Descobrimentos do Infante D. Henrique, feito pe- 
oMalhorquino Gabriel de Valseca, em 1439, que depois 
teve em Florença D. António Dezpuig , Cónego da Cathedral 
de Malhorca , e Auditor da Rota ( d) . Tendo este vin- 
do a serviço deste Reino , logo que soarão as primeiras 
noticias do descobrimento das terras tão espaçosas e fer- 
ieis 



que etie paisou Kum lecibo da quantia^ que lhe mandou dar a Rai- 
nlia, como a Porteiro da Sua Camará pela Provisão datada de Aíinei- 
tim a 18 d« Janeiro de i{a8 C Torre do Tombo Corpo Chron. Part. 
I. Maço IXXVIII. Doe. 96. 3 

( a ) Informação do Refoimador , que cita LeitSo a eite anno d* 
ijii. §. 99S. foi. 4^6. 

Qb) Ve)a-ie a ífiita P na fim destat Mtmtriai. 

(c) Delle fazem memoria Damião de Goei na Clironica del-ReJ 
D. Manoel , e Leitão nai Memoriai Chronologicas not annoi de ifaii 

((<) Veja-se António R.aiinundo Paical . Descobrimento de L'A|uyii 
l^autSea pag. S7. 



Dni.tizc-ccvGoOglc 



DE LlTTEBATUBA PoRÍOaUEZA, VJf . 

teis do Brasil, que o General Pedro Álvares Cabral , seu 
primeiro Descobridor , mandou pelo Capitão Gaspar de 
Lemos , o enviou o Senhor Rei D. Manoel com a Brevi- 
dade possível a reconhecer o mar, e a demarcar a terra e 
Costa marítima do Novo Mundo ; elle o fez , experimen- 
tando varias fortunas e monções , vencendo as correntes 
das aguas e as tormentas, entrando portos, meitendo ba- 
lizas , e voltando a Portugal com as informações , do que 
rio e obrou ( íí ) . 

Fechemos a Serie dos Escriptores Mathematicos des- 
te Reinada com a memoria de outro estranho , de mui 
alta sabedoria e íàma , que para nós veio , e entre nós 
luzia com grandes créditos, qual Rabi Abraham Zac^to,^J^^^„„ 
ou Cacuto , Salmaticense , terceiro avó do nosso celebre ztcuto. 
Medico Zacuto Lusitano. Foi Professor de Astronomia 
em Salamanca. Passou elle em 1491 de Castella a Portu- 
gal , aonde mereceo , pela ^ voz , que corria de seus es- 
tudos , que o Senhor D. Manoel o nomeasse seu Astrono- 
mo. Muito conhecido e estimado se fez este Rabi pela 
composição da famosa Obra Mathematica, intitulada AU 
manacb perpetuum celestium motuum . . . Leyree 1496 
I. voL 4."; foi dedicada esta Obra ao Bispo de Salaman- 
ca , e impressa pelo M.* Orias. Nella nos deo elle as pri- 
meiras Taboadas Quadriennaes , que tivemos do movimen- 
to do Sol , que lhe fazem honra a elle e a seu século. 
Correria aqui mais largamente a nossa penna, , senão ti- 
véssemos faliado delle nas Memorias da Ty-pografia Por- 
tugueza do Século XV. , que já se achao/impressas ( é ) • 



Tom. FlII. Z . CA-, 



(a') Vaiconceltos Noticiai do Brai. Liv. L $. iS. pag. <4- 
( i ) Vtja-iê a Una G a» fim itH« Mtnmi» , cm (jue se illuitií<f 
al£umu du coutM , qu« a<]ui i« diiem. 



D.g.tizecbyGoOglC 



jyt Memorias 

CAPITULO VI. 

Dè alguns Mathematices no Reinado ão Senhor 
D. 'João III 

SE lançamos ob olhos pelo Reinado do Senhor D. João 
III. vemos, que este Princepe formando o glorioso pro- 
jecto de reformar , e promover as Letras , quiz dar-!lie 
hum domicilio mais accommodado á trnnquillidade , que 
pedi ao seus estudos, e o transfèrio por isso de Lisboa pa- 
ia Coimbra , cidade de mais commodidade , e quíftaçSo, 
e cuidou de adiantar naquella nova Academia a Sciencia 
MacheiTiatica. 

Em seu tempo lia-ae EuclidcE , o Tratado da Esfe- 
ra , e a Theorica dos Planetas. O estudo da Geometria 
paroceo então t3o fundamental para todas as Sciencias , 
se mandou , que elle precedesse ao da Lógica , como 
ollige da Oração Latina de Belcliior Bellisgo, o que 
o acredita a sabedoria da reforma litteraria daqueiles 

303. 

Comtudo assim mesmo foi ainda mui desigual , e 
ícado o estabelecimento das Mathematicas em com- 
paraçlo das outras Sciencias , a que se deráo grandiosos 
feríw e liberdades: ix>rqneescabelecendo-*?e nove Cadeiras, 
c C-athedriíhas de Tlifologia , sete de Cânones , outo de 
Leis , seis de Medicina , cinco de Línguas , e quatro de 
Cursos de Artes; nó h uma coube em pequena sorte ás Ma- 
thematicas , sendo qite nos mesmos Estatutos Académicos 
se reconhecia serem Sciencias importantes ao bem com- 
mum deste Ilcino , e á sua Navegação , e de muito orna- 
mento á Universidade. (, Liv. 111. Tit. V. §. 17. pag. 
144. ) pelo que ficarlip estas Sciencias mettidas ainda 
em estreiteza e acanhamento , limitando-se tudo ao sim- 
ples conhecimento da Cosinr>grafia , á-Ceomenria de Eu- 
clides , € i THeorica dos Planetas , devendo os Opposito- 
res daquella Faculdade ler duas lições de ponto somente 



izecbyGoOgIe 



DE LiTTERATUSA PoRTUQlTEZA. I79 

Daquellas duas ultimas ( §. 13. do Lív. XIV. Tit. V. p. lyo. ) 
A falta , que houve de hum amplo estabelecimento 
na Universidade para estas Sciendas sublimes , que o bem 
mereciâo , emendarão o5 grandes homens , que então tive- 
mos -y os quaes levados de seu natural se derão com incrí- 
vel ardor a estes bons escudos. 

Foi bum delles , e o primeiro , que deve apparecer á 
frente de todos nesta Época , o immortal varão Ptro Nu- p*™ Nu- 
nes , natural de Alcácer do Sal (a ). Foi o maior Ma-""" 
tbematico, que produzio Fonugal naquelle tempo, e o pri- 
meiro Professor da Mathematica na nova Universidade i 
iiomem de génio profundo , grande Geometra , insigne 
Cosmógrafo , Astrónomo sábio , nascido verdadeiramente 
para as Sciencias Eiactas ; elle foi hum novo astro , que 
nellas espalhou brilhante luz , e alumiou a todos os ou- 
tros , que figurarão naquelle scculo, A sua Escola jbi a se- 
gunda depois da do claro Infante D. Henrique. 

Deste seu merecimento nos deixou elle eterna 
ria nos três tratados , que traduzio em linguagem 
gueza , 3 saber: o da Esfera de Sacrobosco; o da 
rica do Sol e da Lua de Jorge Purbachio ; e o 
meiro Livro da Geografia de Piolomeo ; e mais { 
larmente ainda nas suas obras origínaes da defensão ua 
Carta de marear; da Arte da NavegaçSo ; dos erros de 
Orcncio Fine; dos Crepúsculos; dos Oinias; da Álgebra, 
e em outros mais , em que dusencerrou a sua mui alta 
sabedoria e doutrina ; c em que disse muitas cousas , que 
ninguém até então havia dito ; e geralmente corrígio quan- 
tidade de erros , em que outros havião cahido , como no- 
tou Vossio ( de Mathematicis ) com o que subio acima 
da inveja , e poz seu nome em muita alteza. A mais a(|UL 
Z ii se 



CO Delle, e de sua palria se lembra M.' Reiende : Sahcla eit , 
qat e Soraceou rnimint mulato nane Alcannr lolit vecatiir : »rii ntstro 
Icmpert ntn aJmoáam tiara, nlii cliitm hahtrct Petrum Neniam cinnpri- 
"lii MiiUm Mfithemalicum, (In Vincent. Annot. iii libro posteiioii 
num, 41. 



izecbyGoOglC 



iSo Memorias 

86 alargara nossa penna por credito seu e de todo o Rd- 
no , se já não tivéssemos satisfeito a este officio , da ma- 
neira que nos foi possível , im Memoria Histórica , que 
escrevemos deste insigne Mathematico , já impressas no 
Tom. VII. das Memorias de Litteratura Poriugueza da A- 
cademia Real das Sciencias de Lisboa. 

Não podem deixar de lembrar fallando deste homem 
alguns de seus discipulos ; e primeiro dous Príncipes 
nossos, que figurário nesta classe com luzimento, osquaes 
requerem de nós neste lugar hum testemunho de nossa at- 
tenção e respeito , não jnenos pela sua litteratura e sabe- 
doria , que por suas altas personagens. 

1, Foi hum o Senhor Infante D. Henrique , irmão do 

Senhor D. João III. , depois Cardeal e Rei , Príncipe mui- 
to dado ás Sciencias Mathematicas. Etic com summa di* 
ligencía e aproveitamento aprendeo de, Pêro Nunes a Ari- 
thmetica e a Geometria dos Elementos de Ecciides ; o 
Tratado da Esfera j as Theoricas dos Planetas ; parte da 
grande composição dos Astros de Piolomeo ; e a Mecha- 
nica de Aristóteles ; tcda a Cosmografia , o uso dos instni- 
memos antigos, e de alguns , que o mesmo Mestre havia 
inventado pdra a pratica da Navegação, (a) Os estudos e 
indagações , que sobre tudo o dcsvellavão , como os de seu 
maior gosto , e propensão , forao os da Astronomia , e tan- 
to folgava com eJlcs , que ainda depois de se achar de to- 

, do entregue aos estudos e coisas Ecciesiasticas , costumava 
quasl todos os dias propor a Nunes algum Problema ar-, 

duo. 



(a) Comta do que escTcveo o mesmo Nunes na Dedicatom lo 
Senhor Rei D. Joáo III, do Traradn de Crepaicalls , de 4ue porei 

aqui o lugar: Intídit nupet- de Crtjiiiiculii Cerom Priníife ia- 

Itgtrrima Inftnit HenriCo illiiJlriítimo , eoni la , Rea: haraanit- 

linie , átctm abhiat oaaii Melheaiotieii Srienliii Imliluiiidum à me tu- 
rasti. Didicil ilU diligentiísime .... AilthaitlU^ et Gicmtliica Ea- 
tliJti tUmenla , SjiheréS lraeieluin\, Thecrltai Plantleriim , ti ft->-iei 
a>iign^ Ãstrerum eempclhunli Píehm^i ; Ariítuíilii Mtchiiiiica Ctum»- 
grapliUa emala pilitoram .ijmruiidam ' initrumintoruiii tiuim j « attii ult- 
ruia tliant t gatt egt ad nevígandi arttm txefgitovtfAi»' 



,: COOglC 



DB LiTTItB AttfS A PôlíTVGUEZA. l8l 

duo , e pedirllie , ^e o resolvesse por' demoflstraçtles de 
Mathematka fa). • ''''•■-. 

Não he de c^ar aoutro Príncipe , que grandemente sè 
applicou naquelle tempo ás Mathematicas , qual o Infan-^^^^jJ*" 
te D. Luís ; das liçòes de Fero Nunes tomou elle , com luii.' 
seu irmão, os conhecimentos, que teve, de Filosofia, de 
Arithmetica , de Geometria , ae Musica , e de Astrono- 
mia ; e de seus progressos nestas ScJencias falia o Mestre 
muito 3 seu louvor na Epistola ao mesmo Infante no Tra- 
tado da Esfera , e na outra ao Senhor Rei D. João III. , 
que vem no Tratado dos Crepúsculos , em que p exalta. 
Compoz hum livro de modos, proporções, e medidas; e 
hum tratado sobre a quadratura do Circulo (^). 

Com 



( d ^ Veja-ie o que diz o meimo Nunes na data Dedicatória ; donde 
menos lazáo fica de duvidar , se elle Toi Mestie dn Senhor D. 
Henrique , do que já Fallamoi em nossa Memotia solwe Pedro Nu- 
nes impressa no Tnm. Vil. das Memorias de Lítieraiuia da Aca- 
demia Real das Sciencias de Lisboa, O douto Flamengo Clenar- 
do falia deste Príncipe em vários lugares de suas Epistolas Latinas, 
e n> que dirigio aá Cliriílionei emnti no Liv. II. pag. «44. se lembra 
de seus estudiíS Mathematicos : Nun numercbe Melhematicas , ijuoi dlái- 
til vrc, , e este Aiithor e lugar pôde accrescentaf.se aoi que o dou- 
to fiarbosa referio no Artigo deste Principe, 

(í) Poremos' aqui em seu abono o hip ar do Mestre na dedicação, 
que lhe fez, da sua Traducçáo dos três Tratados da Esfera, da TÍieo- 
rica do Sol e da Lua , e do ptinreiro Livro da Geografia de Ptolo 
meo , poisque também o erudito Baibosa transcrevendo o da Episto- 
la ao Senhor Rei D. João III, na Obra di CrepuicaUí , se esquecèo 
de compilar este da Epistola ao mesmo Infante: E àuvláando multo 
eõrhigo , diz Nunes , le dirigiria itte a V. A. , a mattria dt Obra me eanvi- 
dova «tfa %tr : for pti$ V. A. ttm tonto primar na Ceimtgrafia , e no par- 
te instranttnlal , e um iSt alio t lÓo trort tnttadimtnto e imagineçSo , 
çae piit facilmente inventor mtiitai ceuios , tjue et «nligos ignorarão, 
partce que de direi/to Ihi pertencia '. deeiíira parte pimho-nie grende re- 
tio ter a Obra tio peíjuena enão aver nttla couio gue oV.A. itja mva, 
Acctesceniaieiros ainda outro testemunho honroio , que tairbeth 
íe não acha transciipto em Barbosa, tirado do antigo e insigne Bhc- 
torico , e Orador João Fernandes na tarissima Oração Latina , que 
recitou na Universidade de Coimbra , quando a foi visitar o Infante 
D. Luís ; na qual faltando de Pêro Nunes > da-lhe por somma do seu 
louvor o ter elle dirigido oi estudos Mathematicos deite Principe; 



:, V Aíogie 



Comcues dou8 ilIuEtiKfrtPrincipes ajuntetnos o iou- 

D. Joio g"fi Capitão e Viso-Rei da índia D. J<^o (ie Castro, ou- 

d0 cii- no disdpulo do mesino Nun» , coiq quem estudou as 

^' ^ Matliematicas , como se as houvesse de ensinar , makw- 

mcntâ a Geograéa e a Cosmografia » sendo tSo eminente 

Cosmógrafo j e Geógrafo, como era Capitâa 

Acompanhando a D. Estevão da Gama na jornada do 
Estreito fdo Mar Roxo , dèscreveo esta viagem até Suez: 
por quanto em todas as angras e enleadas desde a boca 
do Estreito até alli foi comando o Sol , e fazendo rotei- 
ro, formando netie juízo jade Filosofo naisral , já de Pi- 
loto. Aqui especulou todas as cousas notáveis do Mar Ro- 
xo , e discursou doutamente sobre as causas da cór de 
suas aguas , e do nome , que se Ilie impoz , dos impul- 
sos e movimentos naturaes, e das crescentes do Nilo nas 
monções do Estio {a). 

Nas Iioras , que lhe perdoavSo os cuidados da guei^ 
ra» dèscreveo também era copioso Tratado toda a Costa, 
que jaz entre Goa e DÍo; sinalando os baixos e recifes; 
a altura da eleva^ do Polo , em que estão as Cidades ; 
as angras e enseadas , que formão os portos , as monções 
dos ventos j G condiçóes dos mares ; e a força d^ coerentes ^ 
e Ímpeto doa rios ^ arrumando as linliaa em taboas diSFe- 
rentes, tudo com tão miúda e acertada Geografia, cpie o 
podéra esta só obra fazer conhecido , seja o ntoíoiz tanto 
pelo seu valor militar. Ãmba^. estas obras dedicou ao In- 
fante D. Luis, a qtiem )i desde a Escola de Nunes se ha* 
via feito familiar pda qualidade , e pelo engenha 

Fe- 



Vm verh» ontnii tamgUetar : per te factam etl , ai Prínecft ntiter Lu^ 
envie us t "" terra panetai est , laliiiimei Híos manai erbei çantempleíur ^ 
Jignam prefeita Prioiípe eentemplatlonem ^c. Oral. ad Priaclpem LaJ»' 
uUrnn it etlehrttale AiaJemle! Cealaibriceaiii. Cimimtr^ ana. i {^,8. Ve- 
ja-s« tambcm lobre teas eitudos , o qu* «creveo D. José Miguel JoSo 
de Portugal 1 Conde de Vimioso, na vida deste Príncipe pag. m. 

( a > Vida Jacinto Freire de Andrade na sua vida Liv. IV. , e Mi' 
i^cl Cotttt Doi. ConuBcntoi aoft laisiadai de Cunóei Cap. X> est^ 



.D.,.„cb,Google 



DE LlfFEUATtrUA; Pos"t UGITEZ A. j8j 

Feche a lustrosa companhia dós cldrissimos varóes 
Discimlos do grande Mestre Pêro Nunes, o que entre to- 
dos el]es muito se afamou , e distínguio , Fr. Nicoláo Coe- Fr. ni- 
lho de Amaral , Religioso da Santíssima Trindade , e o 'cot^t\o 
primeiro Reitor do seu Collegio de Coimbra , tio acredi- Je Am»» 
tado nestas Sciencias , que na ausência de Fero Nunes '*'* 
era miandado substituir a sua Cadeira de Mathemaiica (a). 

Com muita honra nossa ccllocamos nesta clasee de 
sábios o insigne Historiador João deBatros, instruido nas ,pj^ ^^ 
Mathematicas , principalmente na Cosmografia j eGeo-Bín-oi, 
grafia , a que muito se deo para escrever a sua Historia 
da índia : nesta se houve elle com tanta curiosidade , que 
itío contente de haver revolvido a Ptolomeo , e a outros 
Geógrafos antigos , e ainda modernos , e de eeu teiiipo }■ 
passou a ler hum Livro de Geografia da Pcrsja , é ♦arios 
outros da China com soAs taboas , comprando para isso 
hum Chin 'douto , que lhos podcsse devidamente inter- 
pretar ( í ) . 

Para acertar em tudo , o que pertencia á pratica da 
Sciencía Náutica ■, tratou de se instruir profundamente dos 
nossos Pilotos ■, que havião navegado 'todos oe mares da 
índia com o Astrolábio^ e a Sonda nas mãos; e com to- 
dos estes conhecimentos escrevia a- sua Geografia Univer- 
sal , que hia'compondo em Latim , e deixou' imperfeita , 
em que tratada do Astrolábio ,'' c mais Instrumentos da 
Navegação ( c). ■..■,■..-■,. 

■ Nas' suas DecadâS ' vtnios rtós 'á grande- provisão de 
ejtudòs, que tinha fdtcí para graduar as' provincias , e. pa- 



f fl ) ■Veia-'se' a siia Obra de ChtnrMfgi» 
Sihcii , pitAs ^ P«ro f^uiirs , a quem &it 

C*5 Decad. II. Liv. V.'Cip. 1/ ^ .. . . 

fc) Eilo atinimciou en<* l>hia no Li», IV. il. e VI. , » ín«fwi 
he t{ue deiappareceste ou exijiaata^b, aonde" w Mo eítiiwí , «apro-' 
»eite, quede umanlio homem nada *e dsveri» pe* d;r , ou fi:af lípul- 
uda'em totp* eiquèciíiisiito. -<Jusin[a» cntKBÍ c«f4o9a« ,■ emieia ■ por. 
clles não laberiamoi da noiia Navegação, e Pilotagem í ■•■ . . 



:,C~.oogIe 



1^4 - M E M o -» I A S ■ - - 

ra saber reprorar muitas das opiniões dos Gregos^ é Ro* 
manos , que fàllai^o das cousas do Oriente -com pouca im> 
ttcia ; e fazer as emendas e correcções, de que estão cheas 
as suas Décadas, sobre Ptolomeo , Arríaoo, e outros Geó- 
grafos antigos , que escreverão da índia , no que sáo por 
■ extremo úteis e proveitosas. 

Não nos havemos de esquecer de hum sábio Portu- 
guez , que tendo florecido neste Reinado em muitos ra- 
mos de -Litteratura Civil , e Sagrada , estendeo também 
seus estudos a huma pane das S.ciencías Mathematicas : 
ítí lie"" ^°' ^^^ ^*' ■A-ndré de Resende, nome esclarecido e prin- 
Reiende. cipal nos fastOB litterarios da Nação ; era perito na TJieo- 
rica da Architectura , e por está razão lhe deo cargo o Se- 
nhor R.eÍ D. João III. de traduzir o livro , que delia com- 
posera Leão Baptista , de que elle mesmo lêz meação no 
r rologo das Antiguidades de Evpra ; por sua morte o dei- 
xou por legado a seu filho Barnabé de Resende , de que 
falia Gaspar Estaco nas Antiguidades Cap. 44, §. 4. (a). 
Martim Pertence a esta Época Martwft Affonso de Sousa , Se- 

de^ft/u- ilíor do Prado e Alcoentre , Ajcaide Mór de Bragança , 
■«• e de Rio M^aior , conhecido por suas grandes Navegações , 
e victorias na Ásia : leve estudos de Mathematica ; e mos- 
trou sua perícia nas curiosas observações , que fez na sua 
Srimeira Nave^aç^o par» o Sul > que propoz' ao illustre 
lestre Pêro Nanes , as, quaes Tem por este expostas no 
Tratado em defensam da Carta de Marear. 
Diogo Façamos ítiemoria de Dic^o .Botelho Pereira , India- 

vVtlln. tico , e, soldado valeroso , que para. o immortalinar basta- 
ria a acçlo atrevida , mas sublime , de vir desde DIo até 



Ça'^ Eicievaa dom Livros doi Aqueductas < que offereceo ao mes-!' 
mn Prlncip«n> (iccaijáo > em que «ste havia feito conduzir a Évora > 
agua da Fonte da Prata pelo antigo aqiieducto de Sertório; 01 quMS 
livroi eicritos^de ma própria tnSo entregou 10 Senado daqijella Cid>- 
de , de que tambom faz memoria no Cap. dii mesmai Antiguidades 
de Évora. Ná[> lahemai , le cita Obra era puramente hiatorica . (Hi 
did>.<:tv;4.^e. tfalnlbads jobis gi priacipiot , « conheciaiflDtos dl 
Hydcaulica. 



DniUizecbvGoOgle 



DE LiTTEB A T UR A PoRTUGUEZA. iSf 

O Tejo em huma mui pequena fiísta , que fabricara cm 
Cochim, passan.lo nella a Almeirim a dar ao Senhor Rei 
D. João ITT. a nova de estar fundada comra tcdoopoderdo 
inimigo ■ a fortaleza de DÍo , chave do Commercio da A- 
rabia, e Pérsia , e freio do Reino de Cambaia. Ao valor 
de soldado ajuntou a Sciencia de Geógrafo e de Náuti- 
co , de que deo boas mostras na Carta de Marear , que 
compoz , em que descreveo o mundo até então descuber- 
to , que apresentou ao mesmo Principe , quando veio da 
Índia a primeira vez a Portugal. ( Barr. Dec. I. Lít. VI. 
Cap. . . . ) 

Figurou também neste Reinado o P. António deCas-i*; Ant«- 
tello Branco , Jesuita : lêo Mathematica , de que tinha mui cmèuo 
largos conhecimentos, particularmente da Astronomia: es-BMoco. 
creveo em Latim hum Tratado sobre os Cometas em 2 
Tol. de foi. , e três Livros de Astronomia também de foi. (a) . 

Tem direito a ser nomeado neste século Diogo aemog^j, 
Sá , vat^o digno de muito louvor , nao menos por sua pe- Sí. 
ricia nas Disciplinas Mathematicas , que por suas .acções 
militares na Ásia : foi sobre tudo eminente na Náutica, 
da qual lhe ensinou a experiência muitos segredos, que ou- 
tros antes nao souberSo : escreveo bum Tratado de Navi~ 
gatione em três Livros, impresso em Pariz em 1Ç49. 8.°, 
em que pertendeo refutar algumas cousas , que tiniia dito 
Pêro Nunes nas Respostas aMartim Atfonso, ena sua Hy- 
drografia , que certo bastava a empreza de contrariar dou- 
trinas daquelle primeiro Mathematico do seu século, para 
lhe dar hum grande brado. 

Pede também o nosso reconhecimento Fernando Al- Fernw- 
vares Seco , hum dos maiores Geógrafos do seu tempo: ílfisec*". 
deixou hum monumento da sua applicação e estudo no seu 
eicellente Mappa de Portugal , que passou pelo mais exa- 
cto de todos, etal foi elle, que o doutissimo varão Achil- 
les Estaco , a quem as letras tanto deverão em Portugal e 
na Itaiia , o fez estampar em Roma em ijóo , e o dedi- 
cou ao Cardeal Sforcia. 

Tom, nu. Aa CA- ' 

(.ij Eianeo aa Imag. do Nov. de Liibos Liv. II. Gap. 14. 

Dni.tizc-cc.Google 



i8£ Memorias 

CAPITULO VII. 

JDí aJgUHS Matbematicos, no Reiaanado do Senbot 
D. Sebaítião. 



o\ 



k s tempos do Reinado do Senhor D. Sebastião , fu- 
' nestoi a Portugal nas cousas politicas e militares, nâo 
lhe podiâo ser tnui favoráveis nas lltterartas. As Artes e , 
Seiencias , e rodos os ramos de Litteratura Nacional , que 
até então havião florecidoj começarão dedesmedrar e esmo- 
recer. Então quebrou o ardor de nossos esrudos tSo bem vin- 
gados i e com etles a Matheniatica , que se tinha cultivado 
nos tempos de seu Avô o Senhor Rei D* João III. pro- 
mettendo grandes e perduráveis frucios da luzida Elscola, 
e plantação do inimorra! Professor Pêro Nunes : comtudo 
assim mesmo naquella idade se estabeleceo noCollegio 
dos Jesuítas de Santo Antão de Lisboa huma Aula da Esfe- 
ra , a qual permaneceo com muita utilidade ; mantendo 
sempre num tão importante estudo , ainda na decadência 
das outras Aulas. 

Então mesmo florecerSo ainda alguns vartSes de me- 
recimento nestes estudos , que tem direito a ser aqui no- 
meados com a bem merecida diftinção de louvor e honra. 
Fr.PedM ■ Foi hum delles Fr. Pedro do Espirito Santo da Or- 
do Eipi-deni Terceira de S. Francisco, que passou por bom Ma- 
mo 4n. (ftçjjj3(i(^ . jg gyj |p(pa ge conservava hum fragmento de 
obra sua sobre a Esfera , que existia no seu CoUegio de 
Coimbra (.a). 
iiidíiro Foi outro Mathemafico de nome Isidoro de Almei- 

meidl! ^^ » ^^ <!"«" ^"- Luís Pereira na sua Eleg. Cap. II. pag. 

novo Arquimedes , 

Era Nesior, e ás vezes Palamcdes. 

De- 



t A ^ Memorias Historieis pari ai Eituttoi da Ordem Terceira da 
S. Fiancílco Tom. li* pag. Sa. 



DKiitizt-cc/Cí-lOí^lc 



DE LlTTERATUBA PoBTUQUEIA. iSf 

Deve ter nesta Época lugar honroso Fernando Vaz J""""' 
Dourado , homem de não vulgares estudos na Cosmcgra- jjour" 
fia } ainda hoje se estima a rara Obra das suas Cartas d«- 
Hidrográficas, e.oMappamundo,em que tratou de todos 
os Kelnos , terras e ilhas , cem suas derrotas e alturas por 
esquadria , o qual se estampou em Goa em i;7l. lol. : o 
original conservava-se na livraria dos Monges Cartuxos do 
Convento de Scala Qsli de Évora : ouvimos dizer , que 
está hoje na Academia Real da Marinha de Lisboa ■■, e 
que consta de regras e princípios de Hydrografía com Map- 
pas de todo o mundo , itluminados primorosamente de 
cores e ouro. 

Não dríxemos de lembrar nesta idade a Francisco p^ncic 
Sanches , bem conhecido pelas Obras de Medicina , que «o Sia>^ 
publicarão seus filhos , homem versado na Sciencia Ma- '^''"' 
thematica ; porque , postoque estudou e ensinou fora de Por- 
tugal , nelle primeiro aprendeo , e por Portuguez not 
cabe parte da gloria de seu nome : roi Cathedratico de 
Medicina em Mompilher; e ensinou Filosofia por 20 an- 
nos : escrevco e diriglo ao grande Professor de Mathema- 
tica Chri^stovlo Clavio huma Obra intitulada Eretemata 
super Geométricas Euclidis demonstrationes aã' CbristO' 
pSorum CJavium , em que lhe propoz varias duvidas e ar- 
gumentos , a que o mesmo Clavio respondeo : escreveo 
mais hum Discurso sobre o Cometa , que appareceo no 
anno de 1577. 

CAPITULO VIIL 

De aiguns Mathematicos nos Reinados dos Filippes. 

O Reinado dos Filippes não foi esreril nestes estudos: 
abatendo a liberdade Portugueza , nem- pw isso foi 
estorvo á carreira das Mathematicas : e houve alguns ho- 
mens sábios, que as tratarão 'com mais intelligeacia e aiif 
dado do que ae podia esperar da decadência , em que en^ 
tâo estavâo .nossas letras : elles participai^ aini^ das Inr 
Aa ii struc- 



l98 MlEUORlAS 

strucçôes dos dous Reinados antecedentw , donde trouxe- 
rão o cabedal , com que então luzií^o : demos-Uie honra , 
que. a bem merecem. 

Entre estes podem apparecer em primeiro lugar os 
que se derâo aos estudos theoreticos , ou práticos da 
Náutica em bqneíicio de nossa Navegação. A esta classe 
Chriíto. pertence o Patire Christovão Borro, Jesuíta, varão mui cii- 
J^" "" rioso j e amigo de indagar as vCTdades da Natureza : iêo 
Mathematica em Lisboa , e imprimio huma Obra de As- 
tronomia por encommenda do Conde de Villa Nova Gre- 
gório de Castel Branco , que fora seu discípulo nas Ma- 
thematicas. 

Trabalhou sobre o conhecimento das variaçScsdá Agu- 
lha Magnética , e com este intento navegou á índia , para 
observar, quanto a Agulha variava nos Meridianos, por que 
elle passava, para dahl formar hum Mappá, que em dian- 
te servisse de regra e metliodo para os navegantes. O seu 
inodo foi annotar e demarcar em cada alnira o Meridiano, 
em que se adiava, e quanto variava a Agulha Magnética. 
Depois fabricou hum Mappamimdo , lançando Im- 
mas Unhas tortuosas de Polo a Pòío, as quaes vinhâo a ser 
as variações, que tinha demarcado^ a que chamou Linhas 
Magnéticas , e se chamou também Tractus Chalyhocly- 
ticus:. por meio destas Linhas affirmava , que logo se sa- 
beria a longitude, c as paragens , em que se achassem os 
navegantes ; de sorte que , se tomando a altura , e a va- 
riação da Agulha , achassem no seu Mappa na mesma 
altura a mesma variação , forçosamente havlâo de estar 
também debaixo do mesmo Meridiano , que o Mappa a- 
. ponta va. 

Este foi o invento e trsça -, que apresentou na Cor- 
te de Madrid ■, aonde foi pretender o premio de citicoen- 
ra mH cruza.ios, promettido a qilem primeiro desenvolves- 
se este nó Gordiano , e pcwtoque lhe fosse rejeitado na- 
quelta Corte o seu invento por pouco seguro e solido ; e 
* havido e refutado depois pelo Padre Vaienrim Estancel 
no seu Discurso sobre a Navegação de Leste a. Oeste: ta- 

da- 

D.g.NzecbvCoOgle 



deLitt^ehatubaPobíttigueza. 189 
davia mostrou por estes seus trabalhos o ardor, com que 
s^ havia dado aos Estudos Mathem áticos. 

Nomeemos lambem a Francisco da Costa , Jcsuita , Fr«nc'«- 
Professor , que foi de Mathematica , que passou em seus coitt- 
dias por hum dos melhores Mestres ; e se bem não vi- 
mos seus escritos nestas matérias, sabemos todavia , queos 
houve, poisque attesta Simão de Oliveira , de quem abai- 
xo fàllaremos , ter-se ajudado delles para a composição da 
sua Arte de Navegar ( " ) • 

Pôde entrar na companhia dos Mathematicos desta 
Época Pedro de Moura , que passou por homem erande- ^'^^'* ^^ 
mente instruído na Astronomia , e na bciencia Náutica : 
a fim de experimentar praticamente a doutrina do Pa- 
dre Christovão Borro , e se certificar melhor dcHa , cor- 
rêo huma e outra vez todo o Oceano Atlântico até che- 
gar ao Indico com bastante successo , segundo se contava 
delie (é). 

Merece distincto assento nesta mesma classe Simão de simSode 
Oliveira Lisbonense; foi homem sábio na Arte Náutica : oii<eít«. 
elle vio, que os Authores,' que tinhão tratado desta maté- 
ria, o haviao feito sem ordem, por nenhum delles a reduzir 
a mcthodo , de modo quê" se podesse ensinar e aprender , 
salvo hum ou outro , que escreveo em Latim , e não po- 
dia aproveitar a todos. Peloque tomou a seu cargo sup- 
"prir esta falta , e escrever da Arte de Navegar. 

Dedicou 3 sua Obra a D. Pedro de Castilho, Bispo 
de Leiria , Inquisidor Mór , e Viso-Rei em os Reinos de Por- 
tugal ; e foi impressa em Lisboa por Pedro Craesbeeck era 
1606. T. vol. em 4.\ Escreveo-a em Porfuguez , vendo que 
aproveitaria poiíco , como elIe diz, se a escrevesse em La- 
tim, cOmo todos até alli tinhão feito, menos Pêro Nunes; 



Çfl) Elle onomea entre os Aiithotes morfeino» , de que tirou dou- 
trina para a 5ua Obta ( Listi (jue vem no piincipio (talla ). 

(b} FalU delIe EtUncel no Discurso lobre a Navegação de Lote 
a ,Òestc. 



:,GoogIe 



IÇO M B H o K I A S 

e porque esta Obra he de grande merecimento e ji rara, 
daremos aqui o Sumniario dos seus Artigos. 

Trata no Liv. I. dos Círculos da Esfera Artificial, 
por ella ser o fiindamento e alicerce , em que estriba a 
Cosmografia , a Astronomia , e a Navegação , e de cuja 
noticia depende a Arte de Navegar : nelTe falia de seu in- 
ventor , e fim da invenção : dá as definições da Esfera , 
e das suas partes , e as noções de seus Vocábulos j a di* 
visão da Esfera , os nomes definições e divisões do Ori- 
zonte , do Meridiano , da Equinocial , do Zodiaco , dos 
dous Coluros , dos dous Trópicos , e dos dous Círculos 
Polares. 

No Liv. II. falia dos Officios , dos Círculos , da 

Esfera Artificial , isto be , do Orizonte , do Meridiano , 

da Equinocial, do Zodiaco, dos Coluros, dos Trópicos, 

e dos Círculos Polares ; e isto assim para maior clareza'^ 

escuzar em outra parte repetições. 

V. III. trata da faorica dos Instrumentos Nau- 

í do Astrolábio, da Armilla Náutica , doQua- 

Agulha de Marear, da Pedra de Cevar , da 

guina , e do Instrumento para o Nordestear , 

ir das Agulhas ; e de tudo o que até o seu jtem- 

,». .« ..^,.c achado. 

No Liv. IV. explica , o que toca ao uso dos sobre- 
ditos instrumentos e preceitos de Navegar ; do Astrolá- 
bio ; da altura e da declinação do Sol ; da altura das es- 
trellas , e do Polo Septemtrional ; dos usos da Agulha de 
Marear ; dos ventos ; do uso da Carta da Navegação de 
Leste a Oeste ; do Mar Mediterrâneo ; das legoas ; das 
Luas ; dos mares; das aguas vivas, e mortas j dos sinaes, 
que apparecem no mar ; e de outros avisos úteis aos nave- 

f antes ; e traz depois no fim deste IV. Livro a Rota de 
ormgal para a Índia. 

Servio-se para as doutrinas desta Obra de A ristóte l es , 
e Ptolomeo entre os antigos ; e quanto aos modernos dos 
dous Árabe» Alphragano , e AlbatM;nio , de Gemma- 
Phr/sio , de OroDcio , de João de Ji&ODtç Rei , de João 



DE LlTTESATffltA PoíTTTGVEZA. IJt 
íe SaCFoBosco , de Mogino , de Thyco Brahe , de Pêra 
Nanes, de Jc^o Baptista Lavanha , e do P. Francisco da 
Costa Jesuíta , e Mestre de Mathematica. Por certo , c^ue 
tratou esta Sciencia com mais ordem do que o havilo fei- 
to os outros , paraque bem se podesse ensinar , e apren- 
der ; porque antes delle nenhum a havia reduzido a me- 
ihodo. 

Façamos honrada memoria de Manoe! de Figueire- minoei 
do, natural da Villa de Torres Novas, Discípulo do gran-''* fi- 
de Mathematico Pêro Nunes, e Cosmógrafo Mór do Rei. j^'"" 
Escreve© huma Chronografia oi) reportório dos tempos , 
em que trata da Esfera Comosgrafa, Arte de Navegação, 
Astrologia Rústica , tempos e prognósticos dos Eclypscs, 
Cometas e sementeiras , uso e fabrica da Balle^tilha , e Qua- 
drante Geométrico, com hum tratado dos relógios , que so 
estampou em Lisboa em 1603. 4.". Escreveo tambei" - 
Hidrografia , Ou exame de Pilotos , com roteiros par 
Brasil , R*1 da Prata , Guiné , S. Thomé , e Angola 
índias de Portugal e Castella, Lisboa i6o8> e 1614. 
Roteiro c Navegação das índias Occidentaes , e II 
Antilhas do Mar Occéano Occidental , Lisboa 1609. 
Prognostico do Cometa , que appareceo em iç de 
tembro de 1604. Lisboa lóoj. 4.". Tratado da Practica 
da Arithmetica , composta por Gaspar NicoMo, emenda- 
da e accrtscentada , Lisboa 1679. 8." 61716. S.°. 

Não deve ficar sem quinhão de honra e gloria neste 
logar o P. João Duarte da Costa , douto Mathematico , joio d»- 
escolhido to.n Manoel de Figueiredo para demarcar os ^" ''' 
domínios da Colónia do Sacramento. 

N3o dev» também esquecer João Pereira Corte Rea! , i^So Pe. 
General do Mar , varSo muito experimentado na Arte de"'"C"- 
Nave^ar, que passou oito vezes á índia Oriental e Occi- *ú~* 
dental : el!e inventou hum novo instrumento da demarca- 
ção; e compoz em Castelliano Discursos sobre a Navcga- 
çSo das Niòs da índia de Portugal, Madrid. 1622. 4.". 

Com este se ha de ajimtaf Valentim de SáLlsbonen- vaien- 
«, Cosmógrafo MtSr do Reino, o qual escreveo fium Re- éV" ''■ 

gi- 

Dni.tizc-cc.Google 



1^% -Memorias 

flmento da Navegação , que se estampou em Lisboa pof 
edro Craesbeeck em 1614. em 4.", c fez doutas notas , 
ou advertências sobre ò Instrumento de demarcar do. refe- 
rido General da Armada João Pereira Corte Real, de que 
acabamos de fallar. 
António Tem lugar nesta classe Ãntonío de Naxara , ou Na-, 

d* iía- jera Castelhano por nascimento , porém por educação. 
*'" e moradia Olisiponense : estudou Mathematicas , e foi 
havido por varão eminente nas Sciencias da Cosmogra- 
fia e da Astronomia; Forlo Obras suas as seguintes : 
Navegação especulativa e pratica , reformadas suas re- 
gras e taboas pelas observações de Ticbo Brabe , que se 
estampou em Lisboa por Pedro Craesbeeck em láiS. 4." 
em Castelhano : Discursos Astrológicos sobre o Cometa , 
que appareceo em 2í de Novembro de 1618. Lisboa por 
Craesbeeck 1619. 4.°. Summa Astrológica , e Arte para 
ensinar a fazer prognósticos dos tempos , Obra , em que 
vem mqitas cousas úteis á Agricultura , e á Astronomia , 
em que se achão assomadas varias observações e experiên- 
cias Metereologicas curiosas j e recopiladas as doutrinas cie 
Ptolomeo , e de outros Astrónomos Gregos , e Árabes , a 
qual se publicou em Lisboa por António Alvares em 
1632. 4.°. 

Devemos prestar tributo de loUvor e reconhecimento 
igaacio ao P. Ignacio Staftord , liiglez de nação , e Jesuíta : este 
stiffotii. grande Mestre tomou a Cadeira de Mathematíca no Col- 
legio de Santo Antão em Lisboa, por querer acudir prom- 
ptamente á necessidade, em que então estava aquella Au- 
la, e escreveo e imprimio na Lingua Castelhana Elemen- 
tos Mathematicos ^ dedicados á Nobreza Lusitana na Real 
Academia Mathematica do mesmo CoUegio de Santo Ao; 
tão , que sahirão em Lisboa por Mathias Rodrigues em 
1634. I. vol. 8." , de que temos hum exemplar. Este Li- 
vro comprehende os Elementos da Geometria e Astrono- 
mia ; e he breve , claro , e methodíco ; o que ent^o foi 
de muita utilidade pela grande falta , que havia neste Rei- 
no de livros desta Faculdade , o que notava o Qualificador 

DniUizecbvGoOgle 



DELlTTEUArUHAPoRTUGUEZA. ipj 

de muita utilidade pela grande falta , que havia neste 
Reino de livros desta Faculdade , o que notava o Quali- 
ficador do Santo Officio Fr. Francisco de Paiva , Religio- 
so do Convento de N. Senhora de Jesus na Censura , da 
obra. 

Merece boa memoria e fama Fr. Lucas , Religioso ^^^ ^*" 
de Sr Francisco , Mathematico distincto no seu tempo, ' , 
o qual compoz hum Livro de Arithmetica , e Geometria , 
em -que dedarou os onze Livros de Geometria, e o IV. 
de Arithmetica de Euclides (a). 

Floreceo na mesma idade Manoel Godinho de Here- Manoci 
dia , que depois assistio em Malaca , e em Goa pelos fins Godinho 
desteseculo, vivendo atéii de Novembro de lóiy. Além^dii. ' 
da Historia do Martjrrio de Luiz Monteiro Coutinho no 
anno de iy88 , dedicada a D. Aleixo de Menezes , Ar- 
cebispo de Braga , cscreveo como Cosmógrafo no tempo 
do Conde D. Francisco da Gaina Almirante, e Vice-Rei 
das índias hum Livro , que intitulou Informa f ao ãa Áurea 
Cbersoseso , ou Península , e das Ilhas Auríferas , Car- 
biniculas-, e Aromáticas (è). O seu intento nesta Obra 
foi tratar das minas de ouro , prata , estanho , ou ca- 
hjn j e pimenta da Áurea Chersoneso , e Ilhas , e seus 
mineraes para informação dos Príncipes da Europa i e 
também para se poderem accrescentar novos patrimónios 
á Coroa de Portugal , e facilitar-Ihe o descobrimento do 
ouro, do carbúnculo, e mais preciosa pedraria ; e das es- 
peciarias , e aromas do Mar Oriental , e das Ilhas Aus- 
traes , com que ella sobremaneira se podesse enriquecer. 

Deve-se fazer memoria de D. Basílio de Faria, Chan-p-*"i* 
tre de Évora , e depois Monge Cartuxo , instruído nas Fari». 
Disciplinas Mathematícas , escreveo hum Tratado , que 
Tem. nil. . Bb fi- 



(tf) Delle fai mençSo Gaspar Nícolio em lua Arithmetica foi. s-* 
da ).• ImpTOssIa de i(íi. ^ 

(() Inédito > que publicou Antónia Louianço Caminha. Lisboa 
un 1Í07. i°. 



D.g.tizecbyGoOglC 



194 M B M o B I A S 

ficou ms, , em que pertendía mostrar ter achado a Qua- 
dratura do Circulo. 
luix Milito se ennobreceo nesta Época Liii» Teixeira ; foi 

'Xeiíei- Jiomem de grande saber nas Sciencias Mathematicas , e 
muito versado nas cgusas náuticas pelas muitas navega- 
ções , que fez : teve o cargo de Cosmógrafo Mór ; por 
sua perícia se lhe deo commissSo , estando na Bahia de 
iodos os Samos em tempo do Governador Luiz de Brito 
de Almeida , de ir vêr , e emendar a Costa do Brasil ; o 
que elle executou sondando, e vendo todos os baixos , e 
descobrindo a Ilha da Ascensão, de que houve vista. Del- 
le faz memoria António de Marls no Roteiro da índia 
pag. 8y. Escreveo as DescripçÓe» das Ilhas Terceiras, 
e da ilha do Jap3o , que sahiráo impressas em Latim : 
a l." no Thoatro do Mundo de Abraham Ortelio Antu- 
érpia , ou Anvers eivi I5'^4, a 2." também em Aniuerpia 
em lyç), e compoz hunia grande Taboa nova Geográfica 
de iodo o Mundo em forma maior , que se estampou em 
Anisterdam em 1604 foi. em Latim. 

Com todos estes entra de companhia Leão Camello, 
„,*i"p^^*hum dos vaL'ntcs soldados , que perderão a libtrrdade na 
infausta batalha de Alcácer : era muito perito na Ari- 
ihmctica, e na Álgebra; e nesta ultima revê fama de ser 
o maior homem , aue entre nás se conhecia. ( Delle faz 
memoria D. Francisco Manoel na Centur. IV. Cart. L 
pag. 492.) 
Vicente Também* tem parte na gloria destes estudos Vicente 

°"' Roiz,quecom o Vice-Reí Mathias de Albuquerque passou 
á índia em I5'9i ; o qual deo muito a conhecer a sua appli- 
cação com hum Roteiro, que escreveo , com que costuma 
allcgar o douto Cosmógrafo António de Maris Carneiro. 
Gaspar JuHtcmos-lhe Gaspar Ferreira Reimão , Piloto Mordo 

Síeia>'iL .í^^'"o > 1U5 t^ve créditos de muito rerito na pratica : he 
delle hum Roteiro da Navegação , e carreira da índia 
com seus caminhos, e derrotas, impresso emi6ll,oqual 
teve acceitação no seu tempo. 
co1"'o° " ^*^^ contar-'se neste numero Ignacio Colaço de Bri- 
de 11 rito. to 



izecbyGoOgIe 



DE LiTTERATTIRA PoRTUGUEZA. 195' 

to, nascido na Villa de Coruche, Desembargador da Casa 
da Supplicaçâo , Presidente da Junta da Agricultura do 
Reino ; escrevendo vários Tratados de Direito , estende© 
também seus estudos i Sciencia Mathematica , de quecom- 
poz hum Livro de cousas a ella perceacentes , que deixou 
tns. com farias figuras primorosamente debuxadas por sua 
mão. 

Dé-se aqui honra ao nome de André de Âvellar Lisbo-AndriSde 
nense. Foi Mestre em Artes , e Tercenario na Sé de Coim- -AvelUi, 
bra , e Professor de Mathematica na Universidade: (a) 
léo por espa^ de vinte annos, e houve Jubilação na Fa- 
culdade (e), Deo mostras de seus estudos na Obra , que 
publicou intitulada Sphaerae utriusqtte Tabeliã , ad Sphae- 
rae hujui munãi facHiorem evucleationem. CúnimSricat 
apud Ant. Barrer. IS9Í 8." com figuras , de que temos 
hum exemplar. He dedicada a D. Fernando Martins Mas- 
carenhas, Reitor da Universidade , e foi Obra, que pos- 
tíHou para seus discípulos , como se vê da Prefação , que 
lhe fez. Compoz mais Apostillãe , seu expositio in Theo- 
rias Septem Planetaram , et octavae Spbatra Parbnchii. 
Parece , que também foi Tratado , que elle dictou na mes- 
ma Universidade, (f) 

Bb ii Ca- 

(d) Foi nomeado pela Uni' 
a Meitce em Aries , que havia 
mento do M-* miguei Vai Pií 

em conciitsc com òs IVlotre? un Aneí'j<:ão Gal-3o, é flianjei Cor- 
)éa: EIRei Filippe II. lhe ^eo C»pia de Cojifiimação , e Apiesenta- 
çáo feita em Lisboa aos zi de Nnvemb'» de 160) , e diiigida a D. 
Affonso de Castelio Branco , iilsf. de Coimbra , e Vice-Rei deste 
Reino. ( Toire do Toirbo . Chanca ll.iria dr rillipe II. I.iv. X. foi. 3(9.) 

Ci) Paisoii-je-lhe Carta de Jul ilação, dMsda de Lisboa de aí de 
Setembro de i6tz, ( Tof te do Tombo > Citancellacia de Filippe II. 
Liv. XXXI, foi. ai.) 

(c) Existe bum ms. desta Obra em 4-° na Cibliolheca do Escu- 
tial , etciito por 1650 p<:Uco mais cti menos, de que temos noticia 
pelo Catalogo dos mjs, do mesmo Escuiial , feilo poi rosso amiga 
D. Francisco Peies Eayer l,iv. I. vers. et Plut.l IV. n. p. pag. 
3j0, que nos cominunicoU o outro nosso amigo Cotiega 1 e honrador 
o Illustrissimo Monsenhoi Ferreira , sobre sábio muito indagadoí ds 
Dutiu cousas. 



t para liuma 


Teitenaria affects 


de C.iinbta 


, vaga por falleci- 




wou pot opposição 



„cb,GoogIc 



tt}6 Memorias' 

Deígâ" Cabe aqui lugar ao P. João Delgado , Jesuita natural 

do. de Lagos. Foi discípulo do P. Christovâo Qaudio , illus- 
tre Mathematico , e reeeo a Cadeira de Mathematica no 
Collegio de Santo Amao de Lisboa. 
_ -, _ Com elle deve ir seu discipulo D. Manoel de Mene- 

noei de zes , Capitão Mòr das náos da índia , e General de nossa 
Mene- Armada para a recuperação da Bailia ; e hum dos varões, 
que melhor juntarão no seu tempo a profissão de Letras, 
e a das Armas. Este foi Chronista Mór do Reino, e mui- 
to instruído nas Mathematicas , e na pratica de nave- 
gar, por onde veio asér Cosmosgrafo Mór destes Reinos; 
tal era o ardor e afFeiçao, que tinha á Cosmografia , que 
determinava, abrir em S. Vicente de Póra huma Aula des- 
ta Sciencia , o que comtudo não teve eíFeito (a) . Escre- 
veo Astrologia Pratica, ou Judiciaria na. qual se continhao 
4 Tratados , em que faltava 

i." Dos principies da Astixjlogia : 
a." Dos juízos dos tempos: 
3." Dos nascimentos : 

4.* Dos juízos da Medicina : existirão ms. na Livraria 
dos Theatinís. 
João Ba- Não queiramos passar com ingratidão a João Baptís- 
ptiita taLavanha, que estudou Mathematica em Roma , e foi 
*■ Cosmógrafo Mór no Reinado de Filippe o I. , e Chro- 
nista Mór de Portugal , nomeado por Filippe IIL em 
1618: escreveo hum Regimento Náutico , que sahio em 
Lisboa por Simão Lopes em lyçy 4.°. Compoz mais 
huma Obra muiio notável pelas Taboas do lugar do Sol, 
e largura de Leste a Oeste com hum instrumento ■ de 
duas laminas huma sobre outra , representando nellas duas 
Agulhas, graduadas de grãos com hum amostra dor , e A- 
guíha , Obra que ficou ms. 

Dis- 



Çfl) D. FrancUeo Manoel, Epanaf. 11. pag. 168 , e Epanaf. V. 
576. Acrescentemos aqui que elle fora ecníidiado para o Cadeií. 
Watheiíiatica da Universidade de Coimbra , ei^ir.o coima do Livr. 
Constilias da Meia da Contcieacia de lúzi íot. veis. 



,.t~,oogIe 



DE LiTTEBATUBA PoRTUQUEZA. I97 

IMsto faz memoria honrosa o outro Cosmógrafo M^>^ 
António Maris Carneiro no Roteiro da índia pag. 78^ 
dizendo , que com hum mostrador , e a Agulha debaixo 
representa ir sempre fixa , e a de cima ser sempre a que 
varia , e não ha necessidade de vêr o Sol mais , que pela 
manhã , ou quando elle se pãe , porque com huma só demar- 
cação se faz logo a conta, e se sabe a differença , que ha. 

He este instrumento, accresceata Maris, multo neces- 
sário para estas difFerenças da Agulha , e demarcações do 
Sol , porque são embaraçadas não tão somente para os 
modernos , senão para os velhos , que se enleio muitas 
vezes ao ^zer da conta. EUe deo estas Taboas e Lami- 
nas , antesque fosse para Castella , ao mesmo António 
de Maris , e a Manoel Monteiro , paraque as verificas- 
sem , e Maris as continuou , e achou muito boas , e cer- 
tas , e as teve por muito necessárias á Navegação. Dei- 
xou mais dous Livros ms. hum de Architectura Náutica, 
e outro da Esfera do Mundo. 

Segue-se dizer alguma cousa do mesmo António deMa- . 
ris Carneiro. Foi elle Lisbonense filho do Licenciado Pedro aeMaríi 
de Maris , e varão bem conhecido em nossa Historia por suas c»mei- 
grãndes partes , que muito o recommendavâo , e lhe houve- ""' 
râo o- Officio de Cosmógrafo Mór do Reino , vago por 
fallecimento de D. Manoel de Menezes. Publicou o Regi- 
mento de Pilotos , e Roteiro das Navegações da índia 
Oriental , que se estampou em Lisboa cm 1641 4>°'j he 
huma das Obras boas , que se tem feito neste género : 
'netia fez emendas ao antigo Regimento , e Roteiro , de 
qge necessitava assim nas derrotas , e alturas das terras, 
que mais ajustadas experiências descobtirão , como nas de- 
clinações do Sol , que pela variedade do movimento da tre- 
pidação principalmente havião variado com sensibilidade, 
reformando as que traziac os Roteiros antecedentes. Accre- 
scentou-o com o Roteiro de Moçambique , e com os por» 
tos , e barras do Cabo de Fiais terra até o Estreito de 
Gibraltar com suas alturas , sondas , e demonstraçóes. 

Trabalhou por descobrir o segredo de fixar a Agu- 
lha 



198 Memorias 

lha de Marear , eme por is» the chamavão a Agulha fi- 
xa ; e para este descobrimento navegou á índia por or- 
dem d'elRei y e fez curiosas especulações postoque o sue- 
cesso nâo correspondesse ás suas esperanças ( a) . 
tttii d« Com Maris se pôde ajuntar Luiz da Fonseca Coutí- 
couti-* nho , que se esmerou nesta mesma indagação, e escreveo 
»'">' da Arte da Agulha fíxa , e do modo de saber por ella 
a longitude : Obra que oSereceo ao Consellio Real de 
^Espanha, e ficou ms. 

CAPITULO IX. 
De alguns Mathematicõs no Reinado âo Senhor D. João IFl 

NO Reinado do Senhor D. João IV. , tão glorioso 
para Portugal continuarão os Estudos das Mathema- 
! , em que se distinguirão alguns varões , muí sabedo- 
destas Sciencias. Deve ter entre todos assinalado lugar 
i Filho seu. Príncipe de grande engenho, e agudeza , 
muito as honrou e etinobreceo ; digno por seus raros 
a de ter mais larga vida , é de sUcceder no Throoo 
seus Pais para levar estas Sciencias á maior alteza. 
o Ptin- ^' Theodosio o pritnogeniio daquelle feliz Monar- 
cips D. eha , deo-se desde a tenra idade de 9 annos ás Disciplí- 
Tbeotio- „gg Mathematicâs ; primeiro não levando outro guia , que 
P°V 5^, a si mesmo ; depois dirigido por seu Mestre o P. João Pas- 
Patcha- chasio Cteromns de Flandres Jesuíta , que entre nós se 
tio cier- chamou Cosmandef , que se esmerou em desenvolver o seu 
talento, e aperfeiçoar OB seus estudos maiormcnte os de Geo- 
metria. FoHki seus Condiscípulos nesta illustre carreira 
Jc^o Rodrigues de Sá , Conde que foi de Penaguião , e João 
Nunes da Cunha , aos quaes na retirada do Mestre para 
Alémtéjo exfdicava a maior parte dos seis Livros de Eu- 
clides , segundo a exposição do P. Qavio. 
Ap' 

(a) D. Francisco Manoel Epanaf. Trágica iia(. Também conita, 
que Mari) fora consultado para a Cadeira de Mathematica it^ Univer- 
inlade juntamente Com D. ManosI de Meneies, Liv. éat Coasultai da 
Mau da ConKJeacia de 1621 a foi. 7]. vfln. 



:,GoogIe 



1)E LlTTE»ATV«A PoRTUQUEZA. ipí» 

AppHcou-se á Geografia , á Statica , e á Hidrogra- 
fia , e Náutica , e muito particularmente á Astronomia , 
em que teve por Mestre a D. Pedro Puéros ; e com tan- 
to aitior se dava elle a esta ultima Sciencia , que para 
por ella se não distrabir de todo dos outros estudos , ec 
vio obrigado o Mestre a fcchar-lhe os Livros Astroro- 
micos, e a lhos nSo permittir, senSo cm certos dias. Be- 
tava provido de todos os instrumentos Mathematícoa, com 
que sobremaneira se entrelinha : e folgava de fazer pelo 
Astrolábio observações , em que gastava muito tempo. Es- 
creveo hum Compendio de Astronomia , e outro de Geo- 
grafia , á maneira do que fizera Cluvier, e hum oiit?o de 
Astronomia , que existia no Archívo Real com o tlttilo 
Summa Astronómica in duos divisa temos ; frimus de 
Astronomia : secundus de Astrologia {a). 

De todas as Disciplinas Machematicas , que se culti- 
varão nesta Época a Sciencia da Fortificação , e Archite- 
ctura Militar foi a que levantou maiores voos. Conhec 
do o Senhor Rei D. João IV. quio necessários erão c 
a boa defensão de nossos Reinos os conhecimentos í 
tftematicos desta Arte , maiormente em buns tempos , 
que nossos visinhos nos ameaçavâo , mandou eregir na '. 

be 

ffl) Foi destas cousas illmire, e familiar teítetrimha D. Iwii de 
Sousa , filho do Conde de Miranda , Cardeal , e Auíbispo de Lii.' 
boa , n f|i]al in Ohra , l)u( th« consapciu intitulada "Xtmmhii S/rtnis- 
lúni Theticiii LailtaniiS PiÍucÍbíi , ni> reiumo de Siu vídii , dá eUe 
breve maj expressivo elogio de seus estudos , Mnthocot anibus cla- 
rail .... Orbet Mathemal iein vcr^úbaí , ijai d* Orbf viitullbus íllaf 
traaia cc^llahat. 

De *emt espantosos proirrtssoí oas Sciencias Maititmatirti M\a- 
ria di^ameote as «mm drus Cmtditci pulos João Nuno da Cunba , 
Conde de S Vicente sru Camareiro IHÓr , na v^da <;ue detie e!crep 
'60. íD. João Rodiiaues de ?á , Conde de Peraguiao , nci Eli-fií. Fú- 
nebre, que lhe fez. ^Mt consultar-se o P . Manoel I.tiir , Jesuíta, 
■pw no MU. TieúJefiíu CjiiíJfloni no, Liv, t. foh aj. e s»"mntc com- 
pilou , o ({oe 01 dous antccc<Íaoi«i Iiavt5.> aiciiu) sohre a SJencia 
Martemaiica deste Principe. Ellc aítesca do Ccmpendio de Aurono- 
mia, ^ue diz , existia no Rtat Arillivo , eque o viia ■ e tivera em sua^ 
"^^««iuíndo cscievia a Historia de sua vida foi. ja. vers. 



:cvGoogIe 



soo M E M d R I A f 

beira das NáoB huma Aula desta Sciencia , que depois se 
transferio para o Terreiro do Paço , aonde eiístio com o 
titulo de Academia Militar. Aqui se ínstruíi^o muitos En- 
genheiros , que com grande utilidade serrit^o o Reino, e 
Buas Conquistas, 
i^ii^er- poi o primeiro Mestre desta Aula Luiz Serrão Pi- 
meatei. mentel, natural de Lisboa, que foi o que inspirou ao Se- 
nhor Rei D. João IV. o feliz pensamento da erecção da- 
quella Escola. Tinha sido Discípulo por espaço de lo an- 
nos dos Mestres do Collegio de Santo Antap , e de Va- 
lentim de Sá , Cosmógrafo Mór do Reino : em 1641 en- 
trou a exercitar aquelle Officio por impedimento do Pro- 
prietário António de Maris Carneiro, do qual tinha ap- 
Í trovado o Regimento , que compozera de Pilotos j e por 
álecimento deste teve seu cargo de propriedade , e foi 
Engenhàro Mór , e Tenente General de Artilheria com 
exercido em todas as -Províncias do Reino. 

Mostrou tanto a sua pericia , como o seu valor no 
sitio da Praça de Badajoz ; no desenho da maior parte das 
trincheiras , com que se cobrio o nosso exercito ; no recon- 
tro sobre a ribeira de Digebei na memorável batalha do 
Amexial ; e nos ataques , e aproxes na restauração da Ci- 
dade de Évora ; e na reforma , que foi mandado fazer 
das fortificações das Praças do Reino. 

L&> lições de Mathematica na Academia dos Gene- 
rosos , instituída em casa de D. António Alvares da Cu- 
nha ; e lêo' também por 21 annos diversas matérias desta 
Sciencia na nova Escola de Fortificação , e de Archítectu- 
ra Militar. 

Escreveo hum Tratado pequeno da Pratica da Ari- 
thmetica Decimal , e com elle a Obra da Trignometria , 
Pratica , Rectilínea , como subsídios para os Estudos da 
Architectura Militar ; sobre esta publicou huma Obra ,, 
que intitulou Methodo Lusitanico de desenhar as Fortifi' 
cações das Praças Regulares , e Irregulares , Fortes de 
Campanha , e outras Ohras pertencentes d Architectu- 
ra Militar. Dedicou-a ao Príncipe D. Pedro , entío Re- 

D.q.tizecbvGoOgle 



DE LitteraturaPor rii Q u E z A. aoi. 
gente. Estanvpciu-se em Lisboa- em 1.4S80. foi. 

Foi a primeira obra , que appareceo em nossa lingua , 
e de grande merecimento para aquelle tempo : he dividi- 
da em duas partes; a primeira trata das operações; a se- 
gunda das provas demonstrativas , com que se vereficáo as 
operaçóes da primeira. Para esta obra vio elle os melho- 
res Authores Latinos , Italianos , Castelhanos, e France- 
ses até o seu tempo ; e cuidou de aproveitar o bom que 
elies tinbâo , e melhorar eom algumas novas regras sua 
doutrina no que faltavao, ou erravâo. 

Como o Systema de Fortificação do Conde de Pa- 
gun corria naquelie tempo com grande acolhimento em 
toda a Europa , sendo o mais famoso , que houve antes 
do do Marechal de Vauban , fez hum resumo de todo 
elle , que poz por appendix , com huma censura sobre as 
faltas, que lhe achou, o qual vem no fim do Compendio 
de alguns Problemas de Geometria Practica , e.Theore- 
mas da Especulativa, 

Desta obra havia elle feito , antes de a publicar , 
hum Opúsculo , que intitulou Extracto Ichmgrafico do 
Methodo Lusitattico , o qual dedicou a Cosmo III. de 
Malicis , Grâo Duque de Toscana , com quem teve pra- 
tica , quando esteve neste Reino ; e de quem recebeo 
tanta mercê , que havendo-Ihe este Príncipe promettido 
hum Livro , que elle não tiulia , lhe mandou huma selecta 
Livraria i a) . 

Compo? mais Hercotectonia Militar , que ficou ms, 
de que elle faz menção no Proemio do Methodo .^usita- 
no , Alojamento das Exércitos. Poliorcetica , em que se tra- 
ta da expugnação das Praças. 

Não só a Archiiectura , e Fortificação Militar ; mas 
também a Náutica mereceo neste Reinado a particular at- Nautlcaa 
tenção de alguns dos no$sos. Faltava então , e ainda hoje 
íalta huma cousa capital para a perfeição desta Arte , 
Tom. FlII. Ce qual 

. C") Oesu obrapossue- noisa Livraria Imm elegante exemplat em 
11° coH> iiguiai i quanto paiece , Oiiginal. 



D.q.tizecbvGoOgle 



aoi M E w o R í A s 

qual era hum mcthodo para conhecer contiiraada , e snc- 
cessivameftte , quFuto caminho se tinha andado no irar ao 
Oeste do lugar, donde o navio sahira, isto he-, o metho- 
do , e maneira de calcular e fixar a Longitude na nave- 
gaçSo de Leste a Oeste; assim como se calculava, e co- 
nhecia pela observação das alturas , quanto se havia decli- 
nado ao Norte , ou ao Sul. Este Problema era então ob- 
jecto , que desvellava os engenhos de grandes homens na 
Europa , por ser com eiFeito huma parte muito importan- 
te da Navegação , de qne dependia a perfeição desta Scien- 
cla i poisque para o marinheirt) saber no mar , aonde fc 
achava , necessitava saber a longitude , e latitude do lu- 
gar , aonde estava. 

Pelos differenteS in«rumentos , que excogitarSo os Ma- 
thematicoS para obserrat- os astros, conllecia-se bem a la- 
titude ; estes comtudo nlo serviSo para determinar a lon- 
gitude. Cuidno-se pois de supprir a isrò por diversos meios, 
já da medida do caminho , que faz o navio por relógios; 
já pela variação da Agulha tocatía com a pedra Imanj já 
pelo conhecimento perfeito do movimento da I.iia j já |.ior 
outros modcs: a que nunca correspondeo o sufccsso. Isto 
que então ocCunava a rodos os Mathematicos dos paizes 
maritimns da Europa j excitou também entre os nossos lou- 
váveis desejos de commetter líio diílicil descuberta : assim 
que alguns entrarão nt-sca empreza Chm altos brios, posto- 
que com a mesma pouca fortuna do P. Borro , de Maris , 
'e de *outros nossos , e estranhos , que já antefi sè havião 
abalançado á mesma especulação. 
mo"o<o"- ^°^ '^""^ delles Jeronymo Osório da Fonseca , Má- 

rio íii thematico de nome , e parti ularmente dado aos estudos, 
Fonieca, g pratica' da Scíencia Náutica , Que por fim de muitas 
fadigas, e tentativas iu!;;ava rer achando à Navegação de 
Leste a Oeste, Ferrdo por isso chamado- da Invíia pelo 'Se- 
'nhor Rei D. Joáo IV. para realizar o scu desct*rittief)io. 
O outro foi José de Moura Lobo , que credites teve 
Moura de vatão muito instruído na "SciffTicta Náutica : eile se 
lobo. persuadio também haver feito o mesmo descobrimento , 



izecbyGoOgIe 



DE LiTTEBATUBA PoBTUQDEZA. aoj 

havendo a seu favor a apprõvaçSo doi Erliditos de Roma, 
e do CoUegio. Imperial de Madrid. Posicqiie o douto Cos- 
mógrafo Liiíz Scrrlo Pimentel noírrcu depois na presen- 
ça dos Vôdcrcs da Fiizciu-a Rol , € de Ciittcs graves Mi- 
nistros , a fallcncia da Navegação de Leste a Getitf , qu« 
elie , e Jeronymo Osório julga vão ter achado; todavia nâo 
desdoirou isto o seu mcreciír.cnto , e nome ; assim como 
não deslustrou a Wisron , a.Dilton, e alguns outros Sá- 
bios, que trabalhando muito nesta em preza , excitados pe- 
lo premio, que os Ingíezes oíTercceráo etn 1713; e depois 
os Hollandezes , e Hespanhoes, não pcdfr^o com seus m0- 
tliodos produzir o eiFeito , que se queria , apparecendo sem- 
pre grandes homens por seus estudos , ainda quando náo 
cliegavão ao fim louvável , que nelles se propunhão. Por 
certo , que Osório , e Moura mostrarao bem haver feito , 
trabalhosas observações, e serem ambos de mui largos es- 
tudos nesta Sciencia. 

C A P I T U L O X. 

De alguns Matbematicos nos Reinados dos Senhores 
D. Jff&nso VI. , e D. Itdro II. 

Nos tempos dos dois Reinados dos Senhores D. Aí- 
fonso VI. e D. Pedro II. seu Irmão , continuáriío 
com alguns alentos os estudos Mathemaricos. Enire os 
Professores muito se ennobrtceo o P. Barrholomeo. Duar- OP.Bsr* 
te, que lêo Mathematíca nesta Corte com grande reputa- uu.^i^e." 
çao e nome. Algumas partes' destas Scicncias, e principal- 
mente a Architectura , e Foiíificaçao Militar , e a Scien- 
cia Náutica liverâo então particulares Escritores, que me- 
recem figurar nestas Memorias. 

Foi hum delles Manoel, Pimentel , filho segundo do Manoel 
grande Cosmógrafo , e Engenheiro Luiz Serrão Pímental tei?'"" 
e herdáro de sua doutrina : foi também Cosmógrafo Mór , 
e Engenheiro Mór do Reino, e Tenente General de Ar- 
tilàeriai era homem de muitas Letras, e grandemente ins^ 
Ce ii trui- 



D.g.tizecbvGoOglc 



104 Memorias 

tmido nas Mathematícas ; Substituio aCadeira de For 
tificaçlo por ausência de seu Irmão Franciíco Pimentel 
em 1683. 

Foi nomeado com o P. João Duarte da Costa para 
a decisão sobre a demarcação dos domínios da Colónia 
do Sacramento , e escreveo doutos Tratados sobre isto. 
Compoz Arte Pratica de Navegar, e Roteiro das Viagens j 
e Costas Marítimas do Brasil , Guiné , Angola , Índias 
Orientaes , e Occidentaes &c. accresccntado o Roteiro da 
Costa de Hespanha , e Mar Mediterrâneo , que sahio em 
Lisboa por Bernardo da Costa em i6jí.. foi., e seguiida 
vez por Deslandes em i^ii foi. 

Com o nome de Manoel Pimentel , deve aqui unir-se 
'' o de Francisco Pimentel seu irmão , e filho terceiro de 
. Luiz Serrão Pimentel. FoÍ muito perito nas Discíplinns 
Mathcmaticas, maiormetite em Geometria, e Fortificação, 
e como tal nomeado pelo Senhor Rei D. Pedro II. em 
1677 por Capitão Ajudante de seu Pai Engenheiro Mór, 
a quem substituio na Cadeira de Fortificação : grandes cré- 
ditos conssguio por seus estudos , e esperlencia. 

Foi á Poloiiia , e à Hungria ; achou-se oa expugna- 
çao da Praça de Newhaudel pelos Imperlaes contra o Tur- 
co , e nas operações militares á vista da Praça de Buda. 
"Esteve na Beira em 1704 com o posto de Quartel Mes- 
tre General ,■ e se achou na recuperação do Castello de 
Monsanto contra os Castelhanos ; no Trem de Artilhe- 
tia , que marchou da Praça de Penamacor para a Praça 
de Almeida ; na recuperação da Praça de Salvaterra , e 
TIO sitio de Badajoz, Deixou em prova de suas applica- 
■çâes litterarias os mss. seguintes: VJementos de Geometria: 
Geometria Pratica : Tratado da ofensa e defensa das 
Praças : Fortificação moderna. 
;i. Ajuntemos com este o P. Fr. Valentim de Alpoem , 

; Religioso da Ordem Terceira de S. Francisco ; ailtlvou 
n, as Maihemaiicas não só neste Reino ; mas também em 
Goa , onde foÍ Confessor do Vice-Rei António de Mello 
^e Castro, e donde depois voltou para este Reino: escre- 

evo 



izecbyGoOgIe 



DE LlTTEBATtlBA PoRTUGUEZA. 2tf 

Teo Supplementos , e Addi0es ás Taboas Astronómicas 
de FUippe, de Lansberg, e á Obra Ingteza dos Cânones 
dos Triangules (a). 

A Astrologia foi huin grande objecto de seus estudos: 
compoz a Obra Scyphus Nestoris , seu sumtna Astrolo- 
gia practica , que dixou em 3. vol. mss. em que se res- 
tríngio á Astrologia Natural, deixando a Judiciaria (í), 
e escreveo trais três Tratados , que vem no fim daqiiella 
Obra , e se intitulao Ars Navigandi communis. Comptí- 
tus Ecclesiasticus. Ars conficiendi horologia tam horizon- 
talia , quam verticalia , declinantiaque. 

Nao deixemos de fazer memoria de José Homem de j«ié Ho- 
Menezes, Lisbonense, que foi dado a estudos Mathemati- ^"' ^' 
Cos : sendo Almoxarife das Armas escreveo Breve Retra-ze». 
to da Avie de Artilberia , e Geometria , e Artificio dè 
fogo , que se estampou em Lisboa em 1676 8." o qual 
he traduc^áo da Obra Italiana de Lazaro da Islã Geno- 
yez. 

Nem deve ficar em esquecimento o grande Soldado , . 
I/Coniz de Pina e Mendoça , Alumno da Sociedade Real de pina e 
de Londres , que toda a sua vida empregou nos estudos "="^<*' 
Mathematicos, Forao Obras suas , que deixou ms. hum^^' 
Tratado Cosmegrãfico , Ires Centúrias de Problemas , e 
Tbeoremas Geométricos. 

Menos deve esquecer o P. António Pimenta , ou de ?*!■■*"" 
Lessa , natural da Villa de Torres Novas , Doutor em Theo- meuta. 
logia , e Direito Canónico : desde a idade de sete annos 
se séntio com particular inclinação para os estudos de Ma. 
thematica , e nelles sahio xio douto , que ensinou em Co- 



C^a") Deve accrescentsr-ie nà Bíbliorheca Lusitana de Barbosa. 

(í^ Auim se coilíge do queelle diz em lium dos seui Tratados : 
Bií laat Àitrrlcgiíe peitei , de qaihai a vill iepar4nlct , leltcxa ti aa- 
faralia eligentti traclandam tril ; ti de irnllíl micfrlbal prttioiwi a -vi- 
li itparantet , itlecta et natai/ilio cliginte! , siiprutUltm damnanlei >S^t, 

Vid. ntemoiiai His^oricai par^ ai Esiudiis da Cuiigregaçáo da Ordem 
Teicaiia de S. Fiancisco : Tom. \I. pag. ij4< i>> >'9< 



Dni,t,zc-cj;vG00gIe 



'; iOé M B M O « I A S 

imbr» alguns 'annos eita Faculdtidç ^.e com unto credV* 
to de seu nomí , que passou, pelo -maíor M^tliemati» 
CO, que havia no seu tempo: escrevco «m 1685" Epípba-- 
niay ou DemonHraçáo Geométrica em Latim e Hespa- 
nhol , çm que tratou da quadratura do Circulo. 

Fechç roda esta companhU , e çom gloria superior á 
iTj. de todos o P. Valentim Estancei, Jesuíta estrangeiro , gran- 
1 de amigo do outro Matliemaiico o P. Partholomeu Duar- 
te , Professor em Ushoa , de q^wm acima falíamos. Foi 
Lente de Mathematica em varias Universidades , e ulti- 
mamente o foi também no Collegio de Santo Antão desta 
Corte. Escreveo Imma obra intitulada Or^e /iffensíno , 
QU Horóscopo JJttiversal, dedicado ao Senhor Ra D. Af- 
fonso VL estampado em Évora em 1658 na impressâada 
Universidade em ti.™, em que tr*ta de ensinar (-cokio se 
pôde saber , que hora seja em qualquer lugar de todo o 
mundo : o Qrculo Meridiooal ; o Oiúette e Poente do Sol ; 

. aesquantidade dos dias : e a altura do Polo , e Equador « 

^cw Lifitia. 

1'*^ PrometcQ três Livros dç Gnomica Universal , de qut 

\já tioha doua acabados : na i.^ paire tratava da explica- 
do , C: composição do Relógio .Uuiversal ; na i.-" dos 
Hiuitosi e, insignes «Ma deUe ; avm varias outras curiosida- 
des, e experiências da virtude da Magnete, çom huma no- 
va Taboa das longiwdes' , fiel e mil para os que navega- 
vâo para huma e ouira ladia. 

Ha deite: ns Reai Blbliotheca. de Lisboa hum Godi^ 

f\ ms. de huniaObra sua incitulada Tiphys LusitMto, eu 
egitmnt^. Náutica JVtfV4> no-, qwai ensina a tomar as al- 
tura?, e descobrir os meridianos, e demarcar as variações 
da Agulha a qualquer hora do dia e noite, com hum dis- 
curso pratico sobre a Navegação de Leste a Oeste; com- 
posto em Lisboa , e offerecido ao Senhor D.Pedro IL Co- 
mo he obra inédita, e de matéria muito importante, em 
que nao tenws muita abundância de Escritores, e nectase 
acha entre muitas cousas , já vulgares, algumas, que o não 
Úo i julgamos , que o Leitor sofrerá com boa sombra , que 

Aqui 

D.g.tizecbvGoOglc 



DE LlTfE^AfUÍ A PoVtTJGTTEZA. Í07 

aqui Bicamos delia mais larga exposição. 

Tem no principio <Íous elogios poéticos ; Kum que 
lhe fez o ?. André de Figoeiredo ; e outro , que lhe 
consagrou o Jurisconsulto Manoel de Oliveira ; e mais dom 
Epigrammas Latinos , com que o louvou Francisco Garan- 
dino da Companhia. 

Começa o Proemio ao Leitor sobre a Fabrica de hum 
novo instrumento : segue-se a forma do instrumento primeiro- 
que chama Poiimetro, que vem desentiado : depois os Ele- 
mentos Gtocosmicos , ou noticias necessárias da ft brica , e 
construcçáo dos círculos imaginados nas duas Esferas do mun- 
do, a saber , na do Ceo, e na da terra e mar; entendeo 
em tratar disto, porque todo o Piloto, como elle diz, pa- 
ra andar acertado e seguro no seu governo , e Regimento 
Náutico , ha de ter alguma noticia da Fabrica , e cons- 
tnicção da Esfera do mundo assim Celeste , como Ter- 
restre, e dos círculos nellaS imaginados; e maiorment 
rendo-se servir ao diante daquelle seu Instrumento P 
trOi o qual por novo, universal , e extraordinário n 
ta também de meios novos, e extraordinários para o 
a sua Astronómica derrota ao fim , que pertende. - 

A Obra he dividida em três partes : na primei 
no primeiro capitulo trata i.° ; da fabrica e consf 
do instrumento primeiro , de cuja intdligencia depende a 
pratica e nso delle , com huma estampa : 3.° da fábrica 
deste Instrumento primeiro, lavrado em forma de Iimn da- 
do circulemiente vasado. 

No Cap. n. esplica os muitos, e agradáveis usos des- 
te Instrumento; 'Seíido o primeiro tomar a qualquer hora a 
altura do Poio , c da linha , fazendo por esta occasião hu- 
ma advertcocia acerca das variações da Agulha : o segun- 
do, conhecer a qualquer tempo a hora corrente. 

Per (KcaílaO disto trata da regra geral para saber , 
me stgno con-esponde á cada hum dos mezes , e an que 
aia éBtra' D Sol em cada J^im delle ; e páe' a<Taboa 
Geral ,' que mostra Os signos , e os grãos do Zodiaoo,- 
em qoe o Sol anda todos os dias do aimo^ e dqtois hu- 



D.g.tizecbvGoOgle 



■2o8 .Memorias" 

ma declaração jdesÉa Tafaoa : o terceiro., tomar e saber a ; 
altura do Sot a qualquer hora : o quarto , sabeudo-se á 
almra, e a hora, logo também saber-seo Leste e Oes;e , 
e por conseguinte todos os mais rumos : quinto , saber pe- 
lo mesmo Instrumento , em que signo e gráo anda o Sol : 
sexto , saber a sua declinaçlo da linha pelo dito Instru- 
mento : septimo , conhecer-sô a qualquer hora da noite a 
altura do Polo , ou da linha por algumas estrellas 6xas 
de maior grandeza ; sobre o que accrescenta três regras , 
e com suas declarações; e remata com huma Taboa das 
declinações de algumas estrellas de marca maior , que fi- 
tío da banda do Sul. 

Entra depois na Parte IL, quese diz Theoríco-Prati- 
oa; e no Cap. I. dá huma breve noticia das cousas perten- 
centes ao segundo mods de tomar as alturas , a que cha- 
ma Especulativo- Pratico : começa pela descripçâo da Bos- 
seta Magnética com estampa ; e pela outra da esquadra , 
ou Gnomon para tamar as sombras juntamente, quan- 
do se tomao as alturas do Sol , também com estampa. No 
Cap. II. trata, de como sabida a declinação, ou lugar do 
Sol no Zodíaco pelas regras antecedentes por via de duas 
sombras , e duas alturas do mesmo Sol , se descobre a al- 
tura do Polo, ou da linha -fóra do meio dia. 

No Cap. III. como achada a altura do Polo , logo se 
sabe também a Linha Meridional , e pelo conseguinte a 
variação da Agulha , e p6e depois huma demonstração , e 
resolução Geométrica desta Theoria. Segue-se a isto , co- 
mo achada a altura do Polo , se ha de .buscar a Linha 
Meridional, e a variação da Agulha , em que aponta ^res 
regras , e conclue com huma Taboa abbreviada para o co- 
nhecimento das declinações, c a explica; sobre o que faz 
quatro advertências. 

Passa á Parte III. também pratica , c o Cap. I. des- 
creve a fabrica do Instrumento segundo : no Cap. IL , co- 
mo se ha de tomar a altura da linlia , ou do Polo por via 
deste Instrumento , a qualquer tempo : no III. como se ha 
de marcar o Meridiano , e a variação da Agulha : no IV. 



:,GoogIe 



DE LlTTRR ATVBA.PoRTÍfGUEZA. 309 

dá a conhecer a altura do Polo de noite a qualquer tempo 
pelas estrellas ; e traz três advertências , ou regras para 
isto com huma Taboa dos gráos da altura do Sol , le- 
vantado sobre o Orizonte com suas refracç6es. 

No V. vem a declaração de algumas cousas, que to- 
câo ao Regimento Náutico, e aqui se falia do Aurco Nu- 
mero, das Epactas, da Letra Dominical , dos Novilunios , 
e vem a Taboa dos Interluníos , dos Novilunios de to- 
do o anno , segundo a Igreja , e Taboas perpetuas dos 
mares. No VI. trata das variações da Agulha, que os Pi- 
lotos modernos Porcuguezes , Inglezes , e Hollandezes , e 
os PP. Missionários , e Marhomaticos da Companhia de 
Jesus tinhão observado em varias alturas j e aqui corrige 
alguns erros , ou falias de Manoel de Figueiredo na sua 
Arte de Navegari Segue-se hum índice geral das variardes 
da Agulha , observadas pelos sobreditos Pilotos Portugue- 
zes, inglezes, e Hollandezes, e Missionários. 

O Cap. VII. expõe o Problema curioso , sabida a va- 
riação da Agulha , ou não a havendo , como se ha de co- 
nhecer a elevação do Polo ao nascer , ou ao por do Sol 
fora da linha. O Cap. VIII. contem hum discurso tam- 
bém curioso e útil sobre a Navegação de Leste a Oeste, 
e dos vários modos , que os curiosos inventarão nesta ma- 
téria i e aqui falia da traça de Gemma Trisio Mathemati- 
co no sca^Radiuf Astronomicus ; de Oroncio Del finas , 
Astrónomo e Geometra ■■, de Miguel Baptista Langreno , 
Cosmógrafo, e Mathematico dos Reis Cathplicos ; e do 
Padre Christovâo Borro , Lente , que foi de Mathematicas 
em Lisboa. Pâe huma Taboa, que mostra , quantos gráos, 
ou minutos de gráo correspondem aos minutos das horas: 
e depois a declaração , e uso desta Taboa j e conclue com. 
algumas advertências necessárias. 

Seguem-se Questões , ou Problemas pertencentes á Náu- 
tica , cuja noticia diz ser útil aos Pilotos y e a todo o na- 
vegante curioso : na Qiiestão I. expõe , quantas legoas 
montão por cada gráo por rumo direito de Norte e Sul , 
ou de Leste e Oeste : na IL o que responde por cada grão 
Tonu niL Dd de 



:,GoogIe 



2IO Memorias 

de diffèrença de altura , segundo o rumo obliquo, porque 
se navega : na III. como se saberá a longitude , ou quan- 
tos grjos ha entre o Meridiano do rumo de Morte e Sul, 
que passa pelo lugar , donde partimos i e o que passa pe- 
lo , em que nos achamos , medidos pelo nimo de Leste a 
Oeste : na IV. como poderá saber-se , pouco mais ou me- 
nos , quantas legoas dista por linha direita o lugar , em 
que os achamos do Meridiano , donde partimos; ou quantos 
gráos , ou legoas tem o arco representado por huma linha 
parallela da Equinocial : na V. finalmente, como se conhe- 
cera a altura da linha , sabendo-se o rumo da nossa der- 
rota } e as legoas , que temos andado. 

CAPITULO XI. 

De alguns Mathematicos no Reinado do Senhor 
D. "joâo V. 

O Século XVIII. nâo deixou de nos apresentar alguns 
zelosos cultivndores das Sciencias Mathematicas ain- 
da antes da nova Reformação dos Estudos da Universi- 
dade de Coimbra , que são os de que somente aqui falla- 
remosi deixando para maior Obra , e mais aparada penna 
de engenhos sublimes a Historia da renovação , e estabe- 
lecimento das Sciencias MaihematicaB, c de seus mais dis- 
tinctos Professores depois daquelia Época. 

O Senhor Rei D. João V. teve por estes estudos es- 
pecial inclinação , que podéra subir a mais alto ponto a 
favor deli es , se a educação tivesse promovido o seu espi- 
rito para esta parte. Elle mandou buscar primorosos instru- 
mentos para as operações Mathematicas ; e até fez vir de 
Itália três insignes Professores desta Sciencia , que forao 
os Padres Francisco Musarra , natural de Sicilia , Domin- 
gos Capacce , e Joâo Baptista Carboni , Jesuitas, que es- 
palharão luzes , e concorrerão a excitar o estudo dos 



ser 



Destes três Padres o primeiro , que já havia mostrado 

s"- 

D.q.tizec bvGoogIe 



deLittebatubaPoiituqueia. 21 1 
ser discincto Mathematico na Obra da Astronomia, que pu- 
blicara em Messana em 170Í em 1. voi. de foi. foi Pro- 
fessor de Mathematica no CoUegio dos Jesuítas de Évora, 
de quem os nossos muito se aproveitarão. 

Luzio nestes tempos com grandes créditos de seu no- ^j^"y^j"; 
me o P. Ignacio Vieira , Lisbonense Jesiiíra , Confessor do ta. 
Senhor Infante D. Pedro , filho do Senhor Rei D. João V. 
Foi Lente de Mathematica no Real CoIIegio de Santo Antão 
de Lisboa , e homem de largos conhecimentos nesta Scien- 
cja, como se mostrou no seu Tratado de Astronomia , que 
compóz em 1709. He dividido em trrf partes; na I. tra- 
ta da Astrononia Elementar, ou Esfera: na IL da Astro- 
nomia Pratica , em que falia do uso do Globo material , 
e de outras cousas a ella pertencentes : na III. da Astro- 
nomia Theorica , que comprehende as hypotheses dos Pla- 
netas , e como se salvâo as apparenclas, que nelles ha. 
Vem no fim delineadas muitas figuras para illustraçao da 
doutrina deste Tratado ( a) . 

Compoz mais três Tratados era 4.°, que deixou pri- 
morosamente escritos com figuras, a saber; hum da Dio- 
ptrica , hum da Captotrica , e outro da Pyrotechnia : to- 
dos em 4.° , qiie existião na Livraria de Joio de Sousa 
Coutinho, irmão do Correio Mór do Reino, os quaes vio 
o erudito Barbosa. 

Pertence a estes tempos José Sanches da Silva , Sar- J"«*S»h- 
gento Mór de Infantaria , e com exercício de Engenheiro suva. 
na Corte: cultivou com bom nome as Disciplinas Mathema- 
ticas, e compoz huma Obra Pyrotehnica , dividida em três 
Tratados, que comprehendia Ari th m ética , e parte de Geo- 
metria especulativa e pratica , e o uso dos fogos militares 
por mar e terra , e dos fogos festivos; hum Tomo em 4..'' 
com figuras ms. ; e também huma Arte de deitar Bom- 
bas , em que tratava do seu uso e movimento , com hum 
Appendii do Petardo em 4.° também ms. 

Dd ii Nlo 

C<i) Posuimos huma copia desta Obra , que tirou seu Discípulo João 
BiTboia dl Silva : ejta obri pódd accrescentat-se na Bibtiotlieca Lu- 
lílina de Baibo», 



DniUizecbvGoOgle 



212 Memorias 

Manoel Náo deve esquecer neste lugar Manoel António de Mei' 

^TZt relles , natural de Villa Flor , o qual foi Capitão Enge* 
reii«. nheiro , que assistio nas Conquistas de varias Praças da 
índia , sendo Vice-Rei D. Pedro de Almeida primeiro 
Marquez de Castello Novo , e Conde de Assumar. Foi 
fructo de seus estudos huma Obra , que deixou ms. , inti- 
tulada Thesouro Mathemattco , dividida em diversos tomos, 
que estavijo já aparelhados para a impressão nos teoipos 
de Diogo Barbosa. 
_ . Dê-sc aqui lugar a Luiz Francisco Pimentel natural de 

ciico Í*V- Lisboa ,e filbo de Manoel Pimentel, Cosmógrafo Mòr do 
memei. Reino, a quem succedeo no cargo, que era como heredi- 
tário na sua Casa. Foi Académico da Academia Real da 
HistoriaPorrugucza , e a fama delle apregoava , que era mui- 
to versado nas Disciplinas Mathematicas , tendo para taes 
estudos os bons exemplos de seu avô , de seu .pai , e de seus 
tios Jorge Pimentel , e Francisco Pimentel , do ultimo dos 
quaes se fez acima, menção. 

Houve também distincto nome de Mathematico na- 
Fr.Andri*!''^"^ idade Fr. André da Conceição , Lisbonense , con- 
da Con- verso de Santa Cruz de Coimbra. Escreveo v-irio:í Trata- 
cei^ao. jj^j (3g Arithmeiica Inferior e Superior , de Álgebra , de 
Architectura , de Perspectiva, e de Hydrostatica ; dos quaes 
deixou ornados de tão bellas estampas os três últimos, 
feitas á penna , que parccião abertas pelo mais primoroso 
buril , como attesia Diogo Barbosa na sua Bibliotheca Lu- 
sitana. 
Duarte ^^° desmercce perpetua memoria Duarte de Abreu 

de Abf«u Vieira, Lisbonense, Capitão Tenente da Torre dcOutao: 
Vieini. g[]g ^gg huma parte de seus estudos ás Disciplinas Ma- 
thematicas, e particularmente á Náutica , sobre que escre- 
veo hum livro , que ficou ms. , a que chamou : Ihesouro 
Universal, breve Tratada da Navegação de Leste para 
o Oeste , novamente achado pela regra das declinações 
do Sol , e pedra de Cevar ; com exposição da variação 
da Agulha de Marear. Constava de dez capítulos e qua- 
tro Taboas , e hum Globo. 

Com 



izecbyGoOglc 



deLitteuatubaPobtugueza. arj 
Com este pôde ir de companhia António Carvalho ^"q^^ 
da Costa, Lisbonense, que passou por instruído nas Scien- vaibod» 
cias Mathematicas : compoz alguns Tratados de Geogra- *'*'"*• 
fia , e de Astronomia , do que além dos nossos faz memo- 
ria Lenglet no Methodo para estudar (a) . 

D. Luiz Caetano de Lima , Clerieo Regular Theati- ^- *'"'« 

r ■ ^ , , 1 ° I ° Caetano 

no , roí varão de largos e apurados estudos , com que a- ue Limi. 
brangeo muitas Sciencias. A Mathematica , e algumas Ar- 
tes dependentes delia , forâo objecto de seus entretenimen- 
tos : deo provas da sua curiosidade na Gnonionia Univer- 
sal , que escreveo , e no Methodo paia toda a casta de 
Relógios regulares e irregulares , Astronómicos, Judaicos, 
Babilónicos, e Itálicos, com figuras 4.° 

Pede aqui nossa lembrança o P. D. Thomaz Beeck-^j^^-^-^ 
man, natural de Lisboa , e Clérigo Theati no : teve mui- Beeck- 
tos conhecimentos das Mathematicas , particularmente da "í"- 
Óptica, Dioptrica , e Captotrica , havendo tratado muito 
em Florença hum hábil Professor destas Sciencias : foi emi- 
nente em nizer instrumentos Mathematicos , e fabricar ócu- 
los de vêr ao perto , e de longa vista ; o Infante D. Fran- 
cisco, que estimava as Mathematicas, e tinha em seu Pa- 
lácio huma boa collecçao de instrumentos , o mandava 
muitas vezes chamar para o vêr manejar. 

Entre todos deve ter ornais honroso assento o P. Ma-op, m»- 
noel de Campos Jesuira , Lisbonense , hum 'dos primeiros ^**J^ * 
cincoenta Académicos da Academia Real da Historia Por- 
tugueza; vario mui erudito e sábio nas Mathematicas: lêo 
no Collegio Imperial de Madrid , e no nosso Collegio de 
Santo Aniao de Lisboa: e vendo , que a Aula da Esfera, 
que havia neste ultimo , tinha numeroso concurso de ou- 
vintes, e necessitava de Livros Clássicos emanuaes; e con- 
siderando , que os do P. Staffbrd tinhao sido Obra feita 
çom muita pressa , e estes mesmos com os do P. Tacquet , de 
que se usava , não estavão em Língua Portugueza , resol- 
veo-se a formar hum Curso Mathematico , manual , e ex- 
pedito, para servir com elle aos naturaes. 

Fa^ 

Ca) «o Tom. IV. pag. jj?. 

D.g.tizecbyGoOglC 




214 M E M o K I A S 

Para isso publicou este Padre a sua Obra dos Elemen- 
tos de Geometria Plana e Solida , segundo a ordem de 
Euclides, accrescentada com três úteis Appendices, o i." 
da Logística das ProporçôtM : o 2." dos Theoremas Sde- 
ctos de Archimedes: e o 5." da Quadratura do Dinostra- 
to , para quadrar o circulo , e tri-secar o Angulo. Sahio 
etn Lisboa na Officina Rita Casseana era iTjy 4.". 

Esra obra he traducçao do Original de Tacquet, por 
ser muito usado nas Aulas da Companhia , e em muitos EUru- 
dos públicos ; e estimado por ser methodo breve , claro e 
solido ; na qual fez alguma alteração , e mudança em al- 
gumas Demonstrações ; e accrescentou o Liv. XIIL , que 
o dito Author supprimira, e hum Appendix ultimo, com 
que lhe pareceo , que ficava a obra mais completa. Com- 
poz também para uso da mesma Aula da Esfera do.Colle- 
' gio de Santo Antão a outra obra da Trignometria Pla- 
j^na e Esférica com o Canon Trignometrico Linear , e 
ÉLogarithmicD , tirado dos Autbores mais celebres , que es- 
.'^reverão nesta matéria : impressa em Lisboa por António 
, dsidoro da Fonseca 1737 4.". Além desta escreveo huma 
f- oynopse Trignometrica dos casos , que commumenre oc- 
correm em huma e outra Trignometria Plana , e Esférica 
com as analogias respectivas , que lhe correspondem. Lis- 
boa, pela mesma impressão em 1737 4.°. 

Honremos ainda mais aquelle século com a memoria 
de hum Fidalgo de mui alta jerarchia , o terceiro Mar- 
o Hír- quez de Alegrete Manoel Telles da Silva : os nossos 
quei Ma- niuito o exaltarão de varão dotado de muitas prendas , e 
Teclei instruído nos Estudos de Mathematica: delles deo provas, 
da Silvi. que por extremo o abonarão nas Lições , que fez na Aca- 
demia Portugueza , instituída no Palácio do sábio Conde 
de Ericeira , em que láo huma parte da sua obra da Es- 
fera , que havia composto em forma do Dialogo , dividi- 
do em II Traçados , que deixou mss. 



D.g.NzecbvGoOglc' 



DE LiTTEEAT-URA PoSTVGUEIA. 21^ 
NOTAS 

As Memcvias HistoricaB de alguns Mathenmicos Portu- 
guezes, e Estrangeiros Domiciliários em Portugal. 

NOTA (ii) 
.Sobre a Inquirição de Noticias foi. i $^ 

Olnfonte foÍ por extremo curioso na inciuiriçSo das ter- 
ras e povos , e de todas as cousas , que pertenciao á 
Geografia maiormente da Africa >* assim que na tomada de 
»» Ceuta ( como nota Barros ) e em outras vezes que lá pas- 
»)sou , sempre inquirio dos Mouros as cousas de dentro 
»»do Sertão da terra , principal mente das partes remotas 
»aos Reinos de Fez e de Marrocos . . . porque veio a 
íjsaber por elles não somente das terras dos Alarves, quC 
' »^o visinhos aos desertos de Africa a que elles champô , 
Ȃahara, mas ainda das que habituo os povos Azenegue^ 
»que confinâo com Negros de Jalof, onde se começa Ê 
"Região de Guiné : e por isso accrescenta Barros:»» an- 
te que armasse os primeiros navios estava hem infor- 
mam das cousas de toda a Costa da terra , que os Mou' 
ros habitavão per meio delles ( Dec. I. Liv. I. Cap. II. 
pag- f • ) . 

Além destas noticias procurava o Infante haver al- 
guns Mappas , ou Cartas , de que se ajudasse para suas 
expedições : hum dos que houve á mão foi o que trouxe 
de suas peregrinaçóes o Infante D. Pedro seu írmao ; so- 
bre o qual não alargamos a penna , porque delle mais par- 
ticularmente falíamos em huma Memoria , que temos es- 
crito sobre este Mappa , e o outro de Alcobaça , de que 
fizicrâo lembrança alguns de ríksos Escritores. 

Elle conseguio taniheni hum grande Planísferío , co- 
piado de outro , que existia no Convento dos Camaldulcn- 



D.g.tizecbvGoOgle 



atá Memorias 

ses de S. Miguel de Murano junto de Veneza , por Fr. 
Alauro , íàmoso Cosmógrafo e Astrónomo , de ortíem do 
Senhor Rei D. AfTonso V., e provavelmente á instancia 
do mesmo Infante ; o qual em t^çç enviou para esta Cor- 
re Estevão Trevisano , que disso fora encarregada Con- 
serva se ainda na Bibliotheca daciuella Casa num Livro 
de Registro de Receita e Despesa daquUe Convento , que iie 
da mão do P. Maffei"Gerard , Abbade , que foi delle em 
1448 C depois Patriarcha de Veneza em 1466 , e Cardeal 
em T4S9 ) aonde vem lançada a nota do custo desta Car- 
ta. Pôde ver-se o Conde Carli no Tom. IX. de suas obras, 
pag. 9 , e no XIII. Part. II. pag. 212 , e o Extracto da 
Carta que M. Villoison lhe escreveo ( aonde se lê Affon- 
so IV. em lugar de Affbnso V. ) 

NOTA (i) 

Sobre a Leitura dos Livros de flagens foi. 1$$. 

Muito excitou os desejos do Infante a Leitura das 
Viagens tle Marco Polo , ou Paulo á Ásia. He provável , 
que houvesse esta obra da mão do Infante D. Pedro , seu 
irmão ; porque consta , que estando este em Veneza , aon- 
de com muitas e grandes festas e honras o receberão 
tanto por sua pessoa , e porque elle as merecia , como 
pelas liberdades , e franquezas , que tinhao os Venezianos 
em Portugal , lhe derao em grande prezente o Livro das 
Viagens de Marco Polo á Ásia , que elles tinhao guar- 
dado na Casa de seu Thesouro , como obra de grande 
preço , para por ella se reger o Infante, pois desejava de 
vêr , e andar pelo mundo. Consta isto por fé de Valen- 
tim Fernandes , que assim o diz na Introducção á Trasla- 
dação do dito Livro de Marco Polo, impresso em 15*01 
dirigindo-se ao Senhor Rei D. Manoel , a quem a dedi- 
cou ; e afHrma ouvira dizer , que existia na Torre do 
Tombo. 

Accrescentaremos , que também, o excitarião ás suas 



izecbyGoOglc 



DE LlTTERATWRA Po» TtTG (TEZ A. 217 

empresas as Viagens de Tibet , pai de Marco Polo , á 
China , ao JapSo , is Fílippinas , e ás Molucas , e as dog 
irmãos Zeni á Noruega , e á Graelandía. 

NOTA (f) 

Sobre as Noticias dos Descobrimentos do /»- 

fantefol. 1J7. 

Destes descobrimentos deixou o mesmo Infante humas 
noticias , que nâo sabemos , se ainda hoje existem > dig- 
nas de serem depositadas nos Archivos desta Càroa , e 
trazidas na memoria dos Principesca que podiâo servir de 
despertador de cousas grandes. 

Francisco Ãlcafbrado, Escudeiro do Infante , fez huma 
relação de todo o successo do descobrimento da Ilha da 
Madeira y que offereceo ao mesmo Infante , cujo original 
tinha D. Francisco Manoel de Mello ( Epanafora Amo- 
rosa III. pag. 278), que diz ser tao chêa de singelleza, 
como de verdade. 

De todos os descobrimentos do Infante até antes de 14;^ 
fez o Malhorquino Gabriel de Valseca huma Carta marí- 
tima em Malhorca no mesmo anno de 1439, em que no- 
meou e demarcou as Costas de Africa , descrevendo palmo 
a palmo os cabos , e enseadas , e tudo o mais que os 
nossos haviâo descuberto;e alHrma-se,que o fez com tan- 
ta eiacção , que ou fora pessoalmente a estas Viagens , e 
registrara tudo com seus olhos , ou pelo menos houvera 
de algum testemunho occultar eintelligente,a relação e no- 
ticia destas cousas. 

Esta Carta era em pergaminho de $ palmos de largo 
e 4 de cumprido ; o qual comprou em Florença D. Antó- 
nio Dezpuíq , Cónego da Cathedral de Malhorc? ^ e Au- 
ditor da Rota , do que falia António Raymundo Pascal na 
obra do Descubrimiento de la Âguja Náutica (pag. 87.) 

Foi ella vista e examinada pelo Abbade fietinelli , c 
Im. niL Ee pe- 



;.CoogIe 



ai8 Mlmokias 

pelo Abbade Lampillas , e por outros mais ; e a houver 
rfo por legitima (ibi pag. S7. ) 

Desta Carta se diz , que tirara Américo Vespucio Flo- 
rentino huma cópia , que lhe custara 1 30 ducados de ouro 
de marca ( ibi pag. 87. ) 

NO TA (d) 

Acerca de Martim de Bebaim foi. 164. 

Os nossos , como Barros ( Dec. I. Liv. IV. Cap. III. ) 
e Maris nos Dial. , Fr. Fructuoso na Obra das Saudades da 
Terra , e o P. Cordeiro na Historia Insulana cbamão-lhe 
Martim dg Boémia : os estranhos , Bebaim , e Morerí , 
Bebaim de Scbviartzbach. Herrera na Dec. II. Cap. 19. 
da-o por Portuguez , e nascido na Ilha do Faial , huma 
das Açores ; e Robertson na sua Historia da America XVIII. 
pag. 220. Tom. I. na nota , entende ser provável , que o 
seu nome levasse os Alemães a fàzello nascido em Bohe- 
mia : comtudo Barros mais antigo e mais clássico , do que 
Robertson , expresamente o reconhece natural daquellas 
terras Dec. I. Liv. IV. Cap. III. pag. 64, e com elle Maris 
1» Dial. IV. Cap. X.pag. jiy. ,Fr. Fructuoso na Obra ms. 
das Delicias da Terra , o P. Cordeiro ^^^ Historia Insula- 
na P. Liv. VIII. Cap. III. pag. 4^7. e Liv. IX. Cap. 8. 
pag. 494: dos estranhos o tem por Alemão o compilador 
do Grande Diccionario Universal Holtandez ; Wanginscil 
in Paneg. Bohem. Riecidi na Geog. Reform. Lív. IlT. Fre- 
cher in TheatrO' ; e Mr. Doppolmayer na soa Relata 
Histórica dos Marhematicoe , e dos Artistas de Norem- 
berg , o qual o faz daquella Cidade , e nascido de huma 
»Dtiga femíEa da Alemanha , que ainda em' seu rempo 
subsistia , que , como diz Moren , tirara sua origem de 
Bt)kemia% 



no- 

D.q.tizecbvGoOgle 



DE LlTTESATVBA ?Ot.TVaVtZA. llf 

NOTA ie) 
Acerca àe Diogo Rodrigues Caca to foi. i66. 

Puzemos entre oi Mathematicos do Reinado do Se- 
nhor D. João IL a Diogo Rodrigues Qacuto , ou Zacu- 
to , Astrónomo. O Padre Francisco da Fonseca Jesuita , 
varao douto, e grave, foz menção deste Escritor no Cata- 
logo dos Ãuíhores Hiorensea , que vem na sua Évora Glo- 
riosa (Évora Douta pag. 41 lO dizendo , que era Ebo- 
rense, e fora Medico de fama nos Reinados dos Senho- 
res D. João II. , e D. Manoel. Barbosa também delle faz 
menção. 

O douto Padre D. António da Visitação Freire, Cor- 
respondente , que foi do numero da Academia Real das 
Sciencias de Lisboa, em a nota ji , que pôz á Vida de 
Fr. Bernardo de Brito na Nova Edição Académica da 
Monarchia Lusitana pag. XIII. , censurou a Fonseca , e a 
Barbosa , e a nós , que os seguimos por admittirmos este 
AuthcM". Nâo desculpemos os erros , que em quanto a nós 
em muitos por certo teremos já cabido; mas também não 
consintamos , que tão facilmente no-los imputem sem maior 
prova. Pelo que somos aqui obrigados a dizer alguma cou- 
sa por nossa parte , e mais ainda pela destes dous illustres 
Escritores. 

Diz-se , que Fonseca he Escritor mnito moderno , pa- 
ra attestar da existência de hum Author ún antigo ca* 
mo este , nao allegando authoridade , que o apoie ; mas 
em que implica , que a noticia deste Author , a pudesse 
Fonseca haver , ou da tradição vulgar dos Eborenses , que 
bem se podia conservar por espaço de duzentos e quaren- 
ta e sete annos , que tantos vão do principio do Reinado 
do Senhor D. JoSo II. até o anno , em que se imprimio 
a Obra de Fonseca, o que não era tamanlia antiguidade; 
ou ainda dos antigos mss. , que havia no CoUegio de Évo- 
ra , aonde elle escrevia esta Obra } Alll tinha ellc á mão 
Ee ii en- 



:,CoogIe 



lio Memorias 

entre outros os do P. Francisco da Cruz , lambem Jesuí- 
ta , que Empregou ioda a sua vida em ajuntar muitos pa- 
feis , e (^oairoeiíos; e escreveo huma ampla Bibliorlieca 
ortugueza , quJ por sua morte se entregou com os mes- 
mos papeis ao douto Conde de Ericeira D. Francisco Xa- 
vier de Menezes , que se offerecera para a imprimir \ a 
qual obra vio , e consultou o laborioso e erudito Barbo- 
sa por via do mesmo Conde. 

Postoque Fonseca não allegue especificamente com Au- 
thor antigo, que faliasse deste Zacuto, prevenio elle o re- 
paro , que se lhe poderia fazer sobre esta , e outras noti- 
cias, dizendo em geral na sua Prefação, que lhe occorre- 
ra ,para dar maior credite â Historia , allegar sempre 
os Autbores ; mas que sê o fizera nas matérias , ou no- 
vas , ou controversas , deixando de o fazer nas corren- 
tes , e sabidas ( Not. Prelim. ) e por venttu^ a noticia 
deste Auilior , e de sua obra era huma das vulgares na- 
quelles tempos : Depois disto a Relação , que elle ajunta 
para ornamento da sua obra não he huma Bibliotheca dis- 
cursada , mas huma simples lista dos Escritores Eborenses, 
em que se não propoz mais, doque apontar seus nomes, 
e indicar succintamente os títulos de suas obras. 

De mais Fonseca referindo este Author, ou se ha de 
dizer , que inventou, e forjou a sai alvedrio esta noticia, 
ou que a achou em Escritor, ou Documento antigo , que 
a annunciava : se o primeiro, que razão se dá para se lhe 
imputar huma tal falsidade , nem ainda para se lhe sus- 
peitar algum interesse em .tal ficção? se o segundo, porque 
senão ha de acreditar o que os antigos nos deixarão em 
tradição , não havendo, como não ha , motivo algum para 
se suppor a existência de hum Author , que nunca hou- 
vera? 

Accrescentamos agora para maior desengano , que pos- 
toque não saibamos de que Escritor , ou Documento usou 
Fonseca para fallar deste C^acuto , achamos todavia no 
antigo Tratado de Hispânia do douto , e erudito Damião 
de Góes a memoria de hum C^acuto , Astrólogo Fcrtu- 

guez: 

D.g.tizecbyCoOglc 



DE LlTTESATtrilA P O R T W G U E Z A. IJI 

guez : Cacutus Judaus Lusitanus magnus Astrologus: 
e porque não será este o de Fonseca , poraue certo nlo 
podia ser o Âbraham Zacuto , Ãuthor do Almaoach , que 
nao era Portugucz , mas Castelhano? Eisaqui hum Author 
antigo , que podemos ofltTccer em resposta ao escrúpulo 
do Padre Freire : e isto basta quanto á esta parte , pois 
ao Padre Freire he que tocaria , que não a nos , allegar 
provas de impossibilidade , ou inverosemelhança da exis- 
tência deste Author. 

Dissemos mais , que este C^cuto compozera humas 
Taboas Astronómicas; delias faz memoria o mesmo Padre 
Fonseca na sua Évora Gloriosa: donde se vê, quão inad- 
vertidamente escreveo o Padre Freire na nota acima ci- 
tada quando arguio ao Padre Fonseca , de que sendo elle 
hum Escritor do Século XVII., que pela primeira vez ci- 
tava hum Author notável do Século XV. não nomeava as 
suas obras; porque como não léo elle,que Fonseca havia 
expressada mente mencionado estas Taboas } 

Barbosa também as cita y. Diogo Rodrigues ZacU" 
to; e he por tanto outra íakz taxar a este uhimu e bene- 
mérito Escritor Bibliographo de haver imaginado estas Ta- 
boas quando se achão muito antes referidas em Fonseca ; 
nem Barbosa se fundaria só neste Author , com quem al- 
lega , mas em algum outro , e talvez na Bibliotheca Lu- 
sitana ms. e Documentos do Padre Francisco da Cruz , que 
vio em poder do Conde de Ericeira ; e na outra Biblio- 
theca Portugueza do Licenciado Francisco Galvão de Mé- 
danha , Beneficiado da Igreja de S. Fedro de Évora , <u- 
io original igualmente vto , e teve o mesmo Barbosa da 
Bibliotheca do Conde de Vimieiro ;â com efTeito parece , 

Sue elle se sérvio para isto de memorias diversas das de , 
'oQseca , poisque dando este as Taboas de Çacuto por 
impressas ; todavia Barbosa as poz por mss. , o que ajuda 
a crer , que usara de outras noticias , que não das únicas 
de Fonseca , e do Addiclonador da Bibliotheca de Pinei- 
lo , que o seguia. 

£ isto , que acabamos de escrever nesta nota sobre 

X/io> 



:cvGoogIe 



ill MSHOKtAS 

Diogo Rodrí^es Qacuto , e com o mais que diremos tus 
notas a Rabi Abraham Zacuto , bastará para satisfazer 
aos reparos , e censura , que fez o P. Freire a Fonseca , 
e a Barbosa , e a nós que o seguimos ; e pelo que disse* 
mos , se poderáã também corrigir alguns descuíaos , que 
escaparão naquella nota. 

Não se deve confundir este Qacuto com o Hebreo do 
, mesmo appellido , e Filosofo , que se diz haver compos- 
to hum Tratado do Clima da Lusitânia , que existia ms. 
no. Cartório de Alcobaça , de que dão fé o Licenciado 
Hieronjmo do Souto , Ouvidor da Comarca , e Correição 
dos CcHitos de Alcobaça , e o D. Abbadc Fr. Francisco 
de Santa Oara nas attestaçdes , que destas , e de outras 
obras passarão , o qual n\s. dta Fr. Bernardo de Brito ^ 
T^- huma só vez , como se disse na nota do P. Frare , 
"■í^ a roas duas vezes , fallando elle dos rios Zêzere c Tarora 
~^^ no Cap. in. do seu Livro da Geographia da antiga Lu- 
\ sitanla : o douto Âbbade Barbosa , ou talvez o Amanoen- 
*tvn O ae , ou Impressor inadvertidamente pôz Liv. III. em lu- 
aJí sar de CW^. III. o que bem se lhe poderá perdoir sem lhe 
ftzer arruido neste género de faltas , tão ordinário nos 
melhores escritores, e nas muito apuradas e correctas edi- 
ções. Este he o mesmo , que dle cita na Monarchia Lu* 
*itana no Liv. 1. Cap. ^o. , e em ontros lugares ^ author , 
com quem igualmente allega Manoel de Faria e Sousa no 
Tom. III. da Europa Portuguesa , trazendo ambos elles 
hun* troço do Prologo da obra , e porque o P. Freire tan»- 
bem nos censura a nós e a Brito , a queth seguimos em 
admittirmos este Escritor no tempo do SenhíM" Rei D. Af- 
Ê)nso V. Será necessário lembrar , que a respeito da sua 
idade Faria o remonta ao Reinado do Senhor D. Affi»»- 
so III. , eo Abbade Barbosa ao do Senhor D. AffonsaV. 
que talvez em se apartar de Fonseca teria documento, que 
o guiasse , muito mais citando elle o Theatro Lusitana 
ms. de João Soares de Brito , que possiria além dos dou» 
Authores ; e de caminho se note , que forao três , os que elle 
alienou, enãodous coaio se disse em a noca di&F. Freire. 

Ser 

D.g.tizecbyGoOgIe 



DE L:tteiiatuba Por t ugueza. íij 
Seguimos nqsta pane a data de Barbosa , por ver- 
mos, que pela maneira da Linguagem parece ser o frag- 
mento obra de idade mais moderna , que a do Setihoi Kel 
D. Âffbiua III. , em que a Língua era ainda muito mais 
rude , e mais chegada ao antigo Dialecto Fortuguez-Gal- 
liziano, que muito dominou nos primeiros tempos daMõ-. 
narchia. 

Ignoramos se este Abraham foi o mesmo , que se cha- 
ma Abram Juâen fisyquo , e peliguem , morador em EU 
Tas , e provido em Kabí da Communa dos Judeos da- 
quella Cidade pelo Alvará do Senhor D. Ailonso V. da- 
do na Cidade de Touro aos 27 de Julho de 1475. (Tor- 
re do Tombo Chancell. do Senhor D. Affonso V. Liv. 
XXX. foL 48. ) 

Ãpparece hum Hebreo do mesmo nome por 14S2 mo- 
iad« ena Bragança , hum outro mais , provido por 1484 
na Cadeira da Synagoga dot Judeos de Lisboa , quê ts-. 
gara de Yssaque Chananell com foro de três alqueires de 
azeite em cada humanno; outro, que houve Carta deFy- L ^y ^^.^i.^^- 
íico, morador já em Bragança, já em Aveiro , já em Se- ^ -C^^ " 
tubál , se por ventura nâo são diversos , e outro feito R»- ^Ç C^S^ 
bi dos Judeos de CJafim. Para todos os quads ha Provi- !S ^v*^ '^~' 
sÔÊs - e Cartas dos Senhores Reis D. Jo3o- II. D. Ma- ''íír.^-s^ 

»ei;eD.JoaolIL " ^^ 

NOTA (f) 

Jíerca d» Tèama^ de lórrts ftl. 176* 

Edte Medico , e Matliematico pflrècâ ser dít^rsO do 
emrOjdfirtomina^do t^ sómeme-Thoinaí ertofadfâi' em La-" 
£0s , qtce foi examinado por Anrovnõ àa Lâcáná , Fy«i^ 
«o Mér , Á qdeffií sâ (he d^o faoddadè pai9 podef úsa^ 
da Arte Yyi^ti , c qae n^ he nettlium âoi 66tr<;íã do' m㻫 
8» MHite r iRoradoves ewi B^ora' , em Sáivrdreifi , «m Vi*' 
aéa , e em Lisbea , mb- quaíes- se paSsarStf CartáS de Fysi^ 
cos , e Médicos. ( Torre do Tomko^ C^x^^txx do ^ 

nhoT 

D=;-,:cc;..C00gIe 



114 Memorias 

nhor Rei D. Manoel Uv. XII. foi. 29. Uv. XlV.fol. 91. 
Liv. XII. foi. 9. Uv. 1$. foi. 7S , e Liv. XXXIX. foL 
107. ) Também parece ser diverso de hum do mesmo no- 
me, que se diz Porteiro da Gamara da Rainha, que lhe fez 
mercê de 1000 réis , que lhe mandou dar pelo seu The- 
soureiro Diogo Salema. ( Mandado assignado pela mesma 
Senhora em Almeirim a 18 de Janeiro de lyiS , e vem 
por baixo o Recibo delle de 10 de Janeiro Corp. Chro- 
nol. Part. I. Maço XXXXIII. Docum. 36. ) 

Teve Moradia com alqueire de sevada por dia , e a 
2000 réis por cada hum mcz , e vestiarias ordenadas a 
razão de 4240 réis por anno \ (ibi Maço I. Liv. VIL 
íbl. 133 das Moradias da Casa Real) que se lhe manda- 
rão pagar, ainda quando r^o havia servido na Corte, que 
estava era Évora, por ficar cora o Secretario António Car- 
neiro em Lisboa. ( Provisões datadas em Évora a 4 de 
Julho de I5'34 , e de 16 de Janeiro de lyaj no Corpo 
Chronol. Part. IL Maço CXCL Doe. 113. e Maço CXCVIL 
Doe. 63. ) 

Houve finalmente Padrão de 6000 réis de tença passa- 
do em Évora a 19 de Junho de 15:37 , que se lhe deu, 
depoJsque acabou de ser Lente de Astrologia na Uni- 
versidade . de Lisboa , quando ella se mudou para Coim- 
bra com t<)dos os privilégios , honras , e liberdades , que 
tinha , como Lente , salvo o de se poder chamar á juris- 
dicçâo do Conservador dos Estudos , ( Chancellaria do Se- 
nhor Rei D. Joio IIL Liv. XXXIV , ou XXIV. Vid. 
foi. 12a a qual Carta se reporta alli á que se acha ímme- 
diatamente antes delia, dada ao Licenciado Antão Soares.) 

Co^ta , que Thomaz de Torres houve mercê de hum 
chão junto á serra da Alhandra por Alvará de 26 de 
Maio de I5'23 dado em Almeirim,C Torre do Tombo no 
Corpo Chronol. Part. L Ma^ XX115C. Doe. 71. ) e mais 
loooo réis de tença , que tivera Simão de Sousa , filho 
de Duarte Galvio , por Carta dada em Évora a 26. de 
Outubro de 15*24 ( ChanceU. do Senhor Rei D. João IIL 
Uy. XXXyiI. foL 182.) 

NO. 



D.g.tizecbvGoOglc 



DB LlfTEBATURA PORTUGUEZA. Í2j 
N O T J (g) 

Acerca âeRabhi Mrabam Zacuto foL 177. 

Wolfio chama a Zacuto Sacut \ os Hespanhoes Za- j,^^j,. 
mt , e Zecut ; a edição de seu Almanach de Leiria , Za- Ahr>hini 
cvt; Damião de Góes, e Fr. Bernardo de Brito fallando Z''^"'»-- 
de, outros Hebreos deste appellido , escrevem CJaciito. Ha 
variedade em assinallar a sua pátria : Roman de Ja Hi- 
guera o faz Toletano ; outros de Saragoça ; mas Afionso 
Hispalense de Córdova ao Almanach , Nicoláo Anton^} 
na Blbliotheca , Pedro Simelo na Prefação ao Curso Ma- 
thematico Salmaticense ,' Pedro Cyneo no Tratado da Re- 
publica dos Hebreos , Wolfio na Bibliotheca Hebraica, D. 
José Rodrigues de Castro na Bibliotheca Hespanhola , e 
outros mais o houverlo por natural de Salamanca i e ne 
. Esta a opinião corrente. 

Folgáramos a bom prazer , se elle fosse nosso , a«no 
entenderâo alguns , havendo-o por natural de Beja , e tal- 
Tez com apoio sobre algum antigo documento , que por 
tal o declarasse , nós porém o não sabemos. He verdade , 
que Castanheda, Barros, Maríz , Faria, e alguns outros 
Mzera menção de hum Rabbi Abraham de Beja , ( posto- 
que Castanheda só lhe chama morador em Beja) eBasna- 
ge no Tom. IX. da Historia dos Judeos Cap. 2,5-. pag. 719 > 
que na nota cita a este mesmo Rabbi Abraham de Beja , 
mandado pelo Senhor D. João II. a Ormuz , e ao Mar - 
Roiío : mas he também certo , que nenhum destes Escri- 
tores o appellida Zacuto, e que nem as viagens do Rabbi 
Abraham por varias terras ao Oriente quadrão no tempo 
ao Zacuto , de que tratamos , que os Historiadores dão 
por vindo de Hespaiiha a nosso Reino em tempos doSe-^ 
nhor D. Manoel por 1492 , nem consta , que sahisse ja- 
mais de Portugal para outras partes. 

Foi Zacuto hum dos ascendentes de Zacuto Lusitano 

Medico , como affirma D. Luii de Lemos Lisbonense , Medi- 

Tom. nil. Ff CO 



n6 Memorias 

CO do Paço , que escreveo a vida deste ultimo antes 
de 1667 , dizendo , que era terceiro neto do famoso As- 
trónomo Zacuto , a quem o Senhor Rej D. Manoel fize- 
ra muita mercê , e honra ; Conscius est universus , ac 
Litteratorum orbis , quantum nominis famam Zacutus , 
quondarft Mathematicus ( qui nostrum agnosctt trineto- 
tem ) sibimet peperit ob singularem Matbeseos scie»- 
ti/e peritiam , propter quam summum gmíite locum ob- 
tinuit apud Regem Emmanuelem. C In vita Zacuti §. L. 
no Tom. I; edição de Lcao de França de 1^67 foi. ) 

Foi Professor de Astronomia na Universidade de Sa- 
lamanca , do que dá testemunho hum de seus Discipulos 
o P. Agostinho Ricci , que confessa ter ouvido naquella 
Academia as lições deste Mestre : Abrabam Zacutb , 
quem pr/eéeptortw. tn Astronomia habutmus ia Civitate 
Salamanchã. ( Tie Motu Octav£ Sph^rie , da edição de 
Pariz de 1521. i. vol. 4.° ) Dizrse , que também fora 
Mestre de Astronomia em Saragoça , e Carthagena , do 
que não achamos noticia certa. 

O titulo da obra , que compoz , pertencente a este lu- 
gar , he este : Almanach perpetuam Coelestium motuumAs- 
tronomi Zacuti. Leyree 1496. 1. vol. 4.° Consta de duas 
obras, huma menor, que contem 13 Cânones das Taboas 
Celestes , ou Astronómicas , outra maior , que contem o 
Almanach perpetuo, que he todo de Taboas (a). A pri- 
meira obra foi traduzida da Lingua Hebraica, em Latim 
por seu Discípulo. José Vizinho : se traduzio também a 
outra obra , nao o sabemos. 

A primeira edição , quanto apparece , foi a de Lei- 
ria em 1496 na Òfficina , que alli t(nha a Communa dos 
Judeos ; o que he assaz notável y por ser ainda então mui 



C«) Se o douto P. D. Antonm d» Visitição Freire fiouvesse con- 
luludó alguinexemplaT detta obra , de que ha hum na Reil Bibliothe- 
ca de Lisboa , acharia , que se não podia duvidar , se as Taboas , e o 
Almanach erSo esscnciílmente a mesma obra; nem aflegaiia cnmNi- 
colio António , que aisim o presumia , como &i ni lus nota fSt 
Do fim da vida de Fr. Seimido d* Srito. 



Dni.tizecbvGoOgle 



PE LlTPtERATUBA PoaTUGWEZA. 217 

raro achar hum impressor , que soubesse haver-se com a 
estampa - deste género de escritos Mathematicos , contan- 
do-se por maravilha haver hum em Veneza , e algum ou- 
tro por aquelles tempos. _, 

Nicolio António ignorou o lugar desta edição , e 
Wolfio a fez Venesiana. D. Francisco Peres Bayer a de- 
marcou em Leiria na Addiçao e Emenda , que poz no 
Tom. 11. da Bibliotheca Vetus de Nicoláo Antomo pag. 
380 , e com elle o P. Fr. Francisco Mendes na Tvpo- 
graphia Hespanhola no Tom. I. pag. 340. Ha delia hum 
estimável exemplar na Real Bibliotheca de Lisboa. Havia 
outro exemplar , que vimos, na Livraria do CoUegio da 
Graça de Coimbra. Foi esta ediçlo de todo desconheci- 
da de Bartholocio , erudito Aurhor da Bibliotheca Rabbi- 
nica , e de D. José Rodrigues de Castro , Author da Bi- 
bliorheca Rabbinica Hespanhola. _ 

A segunda edição , quanto sabemos , foÍ a de Mi- 
guel Germano Budorense em 1499 em Veneza , ja corre- 
cta , e emendada ; de que falia Semlero na sua Bibliothe- 
ca , e com elle Wolfio. Da Prefação parece ter havido 
outra Venesiana ; senão he , que ha equivocação com a 
de Leiria. _ 

Houve mais outra em ijoo também Venesiana da Om- 
cina de Lucas António de Florença , em que vem os Theo- 
remas de Jcmo Miguel Budorense , e as emendas , e cor- 
reções do Doutor Lucas Guarino , de que também ha hum 
exemplar na Real Bibliotheca de Lisboa, 

Houve ainda outra de Fedro Liechtenstein de Coló- 
nia em lyoi com as correçôes de Affonso Hispalense de 
Córdova , dedicada a D. Affonso , Bispo de Évora, por 
hum Affonso Doutor em Artes , e Medicina , de aue te- 
mos hum exemplar : e esta edição he a única , oe que 
faz memoria D. José Rodrigues de Castro na sua Biblio- 
theca Rabbinico-Hespanhóla. 

Falla-se de hum Código ms. no Catalogo dos mss. 

de Inglaterra no Tom. IL n. 6141 ; e de outro em Hes- 

panhoT na Bibliotheca do Escurial com o titulo : Abrab 

. . Ffii Za- 



:,GoogIe 



2lS M&MOAIAS 

Zacut Âhnanacb de Tablas Astronomieas a ajuntamen- 
to maior , que diz Woliio o vira apontado em o Catalo- 
fo ms. da mesma Bibliotheca j de que todavia não fàlla 
). José Rodrigues de Castro. 

O mais que poderamos aqui dizer desta obra , lama- 
mente o tratamos já em nossas Memorias , para ã His- 
toria da Typografia Portugueza do Século XV. , que já 
apresentámos a esta Academia Real das Sciencias. 



ãF- 

izecbyGoOgIe 



DE LlTTEB ATUBA PORTVGUEZA. 219 
A P P E N D I X. 

Arespãto âe hum Matbematico por nome Barthe/omea 
Crescendo que se dizi Portugaez. 

O Averín na Hiftoria dos Progressos do Espirito Hu- 
mano pag. 213. faz menção de hum Portuguez Bartliolo- 
meo Crescencio, que nâo conhecemos em nossa Historia : 
delle diz, que tratou de substituir á maquina dos antigos 
para medir a sillage , ou singradura do navio, Iium meio 
mais exacto , que o antigo; este tinha-se feito impractica- 
vel depois da invenção das veiras,por quanto as rodas da 
maquina antiga , com que se media e calculava a sillage , 
não recebiâo o impulso da rota do navio., e não podiao 
por consequência marcar a sua celeridade e presteza , sem 
fallar das osciiiaçoes perpetuas do mesmo navio , que im- 
pediâo quasi remprejque esta roda girasse. 

Estas reflexões lhe ensinarão , que nao era possível 
medir a velocidade ou singradura do navio pelo movimen-' 
to da agua , que elle despejava ; e entendeo , que a alcança- 
ria tendo conta com o esforço do vento , que fazia avan- 
çar o navio. Com esta idéa imaginou huma espécie de co- 
fre ou caxã , na qual estava encastoado ou encazilhado hum 
páo ou balestilha móbil guarnecida de azas , em torno da 
qual estava preza huma corda : o vento feria estas azas , e 
segundo era mais ou menos forte puxava mais ou menos 
pela corda : esta corda estava enrolada sobre hum cylindro 
de páo de maneira , que este girava ao mesmo tempo , 
que a balestilha ; dividindo-se assim a corda passava do 
cylindro á balestilha ; era pela quantidade das cordas di- 
vididas e enroscadas em roda da balestilha he que se jul- 
gava da Tclocidade e singradura do navio. Postoque esta 
invenção era muito defeituoza , foi comtudo de utilidade, 
emquanto o InglezLúcè não imaginou outro meio melhor, 
de que se entrou a uzar , sem comtudo ainda' ser em si 
perfeito. 

IN- 



izecbyGoOgle 



D.,.„ct,GoogIc 



ÍNDICE 

Das Memorias que contém a Primeira parte do Outavo 
Tomo. 



M. 



EMORTJ sohre as Origens da Typografia 
em Portugal no Século XV.,^r António Ri- 
TiEiKo DOS Santos. pag. x. 

Memoria sobre a Hijloria da Typografia Portu- 
eueza do Século XVL , pelo mesmo .... 77. 

Memorias Históricas sobre alguns Matbematicos 
Portuguezes t ' Estrangeiros Domiciliários em 
Portugal , ou nas Conquistas , pelo mesmo . . Z4.S>' 



;,CoogIe 



:,G00glc 



CATALOGO 

Das Obras }d imprttsas , t aandfídas compor pela Jcaâtmm 

Real das Scitncias de Lisboa : com os preços , por que cada 

buina delias se vende brochada. 



I. Jj Revi* Inftrucçóes aos Correrpondentes da ■ 
AcademiA íobre as remciras dos produflos naturaes 
para formar ham Mufco Níidonal, folheto 8.° - - UO 

II. Memorias fobrc o modo de apetFeiçoar a Ma- 
nuíaãu» do Azeite cm Portugal rtmeititlai á Aca- 
demia , por Joaõ António Dalla-Bella , Sócio da 
mefma , i. vol. 4.° .----- --- - 480 

XII. Memoriai fobrc a Cultura dasOliveiras emPor- 
ciigal retnetcidas á Academia pelo mefmo Author , 
1. vol. 4.° -- .-.-------- 480 

IV. McmoTias de. Agricultura premladai pela Acade- 
mia , 2. voí 8," - - - - - p6o 

V. Pafchaiis Jofepbi Meliii Freirii Hiftoria Jiirii Civilis 
Lufitani Liber fioguíaris , 1, vol. 4.° - - - - - ^40 

VI. Eicfdem Infticutioties Júris Civilis, ec Criminalis 
Lufiiani, 5, v6l. 4.°--.----.--- 24OO 

^VII. Olmia j Tragedia coroada peia Academia ,Jolb. 4,'' '240 

VIII. Vida do InTante D. Duarte , por André de Re- ■■'■ 
zetíde , fotb.-4.° -"- - - - -- - - -- -' i6o 

IX. Veftigiofl da Lingoa Arábica em PonugaJ , ou 
Lexlcoti EiymoJogico das palavras , e nomes Porta- 
guezes , que. tem origem Arábica , compofto por' 
otdem da Academia, por Fr. Joaó deSoufa , i. vol. 4-° 480 

X. Domintiri Vandeíli Víridatium Gryslcy Lulitanicúih 
Linnseanis nominibus illuftratum , i. vòl 8.° " " . - '*^ 

XI. Ephemerídes Náuticas, ou Diário Aftronomico - 
para o amio de (789, calculado para o Mcr:di<ino 
de Lisboa , c pablicado por ordem da Academia , 

I. vol. 4,"', ■....----.. .--. -jéo 
O mefmo para os annos feguíntes até iSop inclusivamente. ~ 

XII. Memorias Bconomica«^ da Academia Real das 
jScicncias de Lisboa '« pant o adiantámenro da Agri- ' 
cultura, das Arfes , e da ífíàtf&úA eiKPoriQgnl', é 
fua» Conquiftas , !(. voK 4.° - - - - - '-' - !'400 

XIII. CoUevçap de Livros ifitíditos^ de HiftorÍ'a''Pèrtu- -' 
gu&za , dos Reinados dos Senhoves- Kcys D. ]eaó I. , -"' 

• D. 



;.CoogIe 



D.Duarte , D. Aiibnfo V., e D. JoaóII. j ;. voL/o/. 54CO 

XIV. Avifos intcrefiantes febre as tr.ortes apparentes , 
mandados recopilar por ordem da Academia ,jolh. 8." gr, 

XV. Tratado de Educação Fyíica para ufo da Naçaó 
Forcugueza , publicado por ordem da Academia 
Real das Sciencias , por Francifco de Mello Fiancp, 
Correfpondente da mefina , i. vol. 4-° - . - - j6o 

XVI. Documentos Arábicos da Hiftoría Portugucza , 
copiados dosOriginaes da Torre do Tombo com per- 
milTaõ de S. Mageílade , e vertidos em Portugucz, 

. por ordem da Academia , pelo feu Correípondente 
Fr. Joaõ de Soufa , i'. vol. 4.° ----- - 480 

XVII. Obfervaçóes fobre asprincipaes caufas da de- 
cadência dos Poriuguezes na Alia , crcrjtas por Dio- 
go de Coíito em Forma de Dialogo , com o titulo de 
Soldado Pratico ; publicadas por ordem Ja Academia 
Real das Sciencias , por Anioitio Caetano do Amara] , 
Sócio EfteíHvo da mefma , i. tom, 8.° mai, - - 480 

XVII!. Flora Cochinchinenfis j fiftens Plantas in Re- 
gno Cochinchins nafcentes. Quibus accediint alix 
obfervaiEE in Sinenli Império , Africa Oricntali , In- 
dixi^ue locis variis , labore ac íludio ]oannis de Lou- 
reÍTo , Regiae Scieniiatum Academiac Ulylliponen- 
fts Socii : JuiTu Acad. R. Scient. in Iticem edita > 
2. vol. 4° mai, .-----. _,.,. 24c© 

XIX. Synopíis CHronologica de Subfídios « ainda .os . 

( imais raros , para a Híftoria , e Eftúdo critico da Le- 
gislação Porrugueza i mandada publicar pela Acade- 
mia.Real das Sciencias , e ordenada por Jofé Anafta- 
íio de Figueiredo , Corre ípondente do. Número da 
mefma Academia ,' 1. vol. 4,°. . - . - . - . 1800 

XX. Xra.tado de Ednciçaó Fyíica para ufo da Kaçaó 
Poriugueza,publ-icado por ordem da Academia Real 
das Sciencias ,. por Fra;»cifcQ jofé de Almeida, Cor- 
refpondente da mefmq > 1. vol. 4.* - . - - - ^fo 

XXI. Obras Poetic.13 de Pedro de Andrade Caminha, 
publicadas de ordem da Academia , i. vel. 8.° - - 600 

XXII. Advertências íobre os abufos , e legitimo ufo 
das Agoas Mineraes das Caldas da Rainha , publica- 
das de ordem da AcademiaiReal das Sciencias , por 
Francifco Tavares , Soçio Livre da mefma Academia , 

, fclh. À-° • • ■ íío* 

XXIII. Memorias de LitteraturaPonugue2a,7. vol. 4.° 5^00 
A Ptimeira Parte do Tomo 8.°-------- 4C0 

XXIVs 

D.g.tizecbyGoOglc 



XXIV. Fontes Próximas do CoJigo Filrppíno , por Joa- ^ 

3uim Jofc Ferreira Gordo , Correfponciente. aa Aca- 
emia , l. vol. 4," -------..-- ^co 

XXV. DiccionariodaUngoaPoriugnezn, i. vol.foí.mai.ASoo 

XXVI. Compendio da Theorica 3os Limites , ou In- 
troducçaõ ao Methodo das Fluxófs por Frarcifco de 
Borja Garçaõ Stockler, Sócio da Academia ... 240 

XXVÍl. Enfáio Económico fobre o Comercio de Por- 
tugal , e ítíss Colónias , oferecido ao Princípe do 
Brazil N. S. , e publicado de ordem da Academia 
Real das Sciéncias pelo feu Sócio Jozc Joaquim da 
Cunha de Azeredo Courinho. -.---.. 480 

XXVIII. Tratado de Agrimenfura por Eftcvaõ Cabral, 
Sócio da Academia , em 8." --..,.. 240 

XXIX. Analyfe Chimica da Agoa das Caldat , por Gui- 
lherme Withering, em Ponuguez e IngIcz._/o//t. 4.° 240 

XXX. Princípios de Taftíca Naval porManoel doEfpi» 
rito Santo Limpo , Correfpondentc do Numero da 
Academia, i. vol. 8." ------'---. 480 

XXXI. Memorias da Academia Real d^s Scieticias, 2. 

vol. foi. -.-------..-__ 4COO 

A Primeira Pane do Tom. MI. - ----.., loco 

SXXII. Memorias para a Hiftoria da Capií^nia de S.Vi- 
cente , I. voJ. 4,°-.-.-.--.-. 480 

XXXIII. ObicrvaçÕes Hiflorieas e Criticas para fcrví- 
rem d« Memorias ao fyftema da Diplomática Portu- 
gueza, porjooó Pedro Ribeiro, Sócio da Academia, 
Patt. I. 4" 48Ò 

XXXIV. ]. H. Lambert Suppl ementa Tabolarnm Lo- 
garlthrnicaruni , et Trigonometricatum. i. vbl. 4.° - jáò 

XXXV. Obras Poccicas de Francifco Dias Gomes j 

I. vol. 4.° .-... 8c» 

XXXVI. Compilação de Reflexões de Sanches , Priti- 
gle &c. íobte as Causas e Prevenções das Doenças 
dos Exércitos , por Alexandre António das Neves :. 
para distribuir-sc ao Exercito Poituguez/o//'. Ii..° - gr^ 

XXXVII. Advertências dos meios par.? pieservaj da 
Peste. Segunda edição accrescentaáa com o Opúsculo 

de Thomaz Alvares sobre a Peste àe^^Cp., Jtth 12.° 120 
XXXVni. Hippolyio, Tragedia de Furlpedes , ver- 

tida do Grego cm Ponuguez, pelo Director de hu- 

ma das Classes da Academia ; cem o texto, 1 vot. 4.° 480 
XXXIX. Taboas Logaríthmicas , calculadas aré á se- 

tíma casa decimal t publicadas de ordem da Real 
Acar 



Dni.tizecbvGoOgle 



Academia Jw Sciencias por J, M. D. P. l. vol. 8." -tto 
XL. índice ChroBOlogico Remissivo da Legislação 

PortuggsZJ posterior á publicação do Código Filip- 

pino pot joio Pedro ttibeito , Pait. i.' , 2.' , J.*« 4." íóoo 
XUI. Obras de Francisco de Borja Garção Scocklei , 

Secretario da Academia R.eai das Sciencias, Tom. 1. 

vol. 8." 800 

XLU. Coiieçáo dos principaes Aucrores da Hisroria 

Portugnezi, pubticada co.n nnus pelo l>irecror da 

Clusc di Litteraiura da Academia í<.. das Sciencias. 

8 Tom. em 8." - - 4800 

XLIII. Di9senaçõeí Chronologicas , e Chriticas , por 

]oáo Pedro liibeiro , Tom. i.", e i.° em^." - - líoo 
XLIV. Collecçáo de Noticias para a Historia e Geo- 

grafiíi das Nações Ultramarinas , Tomo l.° Números 
i.^/i", e j." - - - - ^ jtío 

O !>Jumero 4° ------------ 140 

O Tomo II. Numero* i." , e 2." - - 240 

Estão no prelo as seguintes. 

TaSosdas Peipétuas Astronómicas paia aso da Navegação 
Põttugueza. 

Memorias Económicas , 4.° j e 5.° vol. 

Documentos pata a Historia da Legislação Poitugue2a, pe- 
los Sócios da Academia loáo Pedro Ribeiro , e Joaquim 
de Santo Agostinho de Brito Galvão , i. vol. 

Collecçáo dos principaes Historiadores Portuguezes. 

Taboas Trigonométricas , por J. M. D P. i. vol. 

Obras de Francisco de Botja Gatçáo Stockícr. Tom. I." 



ytndtm'fe em Lisboa na loja de Bettrand i e em. Coin> 
bta. , e no Poc[« tambein pelos nufinos pregos. 



;.CoogIc 



MEMORIAS 

DE 

LITTERATURA 

PORTUGUEZA, 
PUBLICADAS 

PELA 

ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 

DE LISBOA. 

Niít utite est quoi tadmm , stulta est gloria. 

TOMO VIII. Paíte II. 



LISBOA 
NA OFFICINA DA MESMA ACADEMIA. 

ANHO U. DCCC. XIV. 

Cem licença de S. A LT E Z A REAL. 



c,t„ct,GoogIc 



iGooglc 



DAS ORIGENS , e PROGRESSOS 

D A. 

POESIA PORTUGUEZA 

For António Ríbeiro dos Santos. 



Introdução do uso da Poesia na Ihsfanba primitiva , e 
particularmente na Lusitânia. 



Ap 



L FoESU , amável filha do Prazer , e producçâo do 
Rhythmo , e da Harmonia , para que todos os homens tem 
huma notável inclinação , foi huma Arte de todos os tem- 
pos , e de todas as nações \ e os Hespanlioes não podido 
deixar de a ter entfe si, como os outros povos : elles com 
«ifèito a cultivit^o , e desde tão alta antiguidade que hom- 
ípreavâo com as mais antigas naçâes nos eítudos Poéticos. 
Descendentes dos Celtas, (á) que muito amavâo as Mu- 
sas, não podião deixar de exercitar como elles a Poesia , e 
de ter seus Poetas, e Trovadores como tinhao os Gallos 
Celtas os seus Bardas , os quaes escrevião, e cantavão em, 
seus poemas as máximas da Religião , e da Moral , as suas 
Leis Civis , e as façanhas , e proezas de setjs maiores ; e 
eftas suas trovas , e rimances pas3avão em herança de país 
a filhos , como brazões de seus avoengos . e annaes da 
sua hi(l:oria , e se aprendião de cór nas Esct^Ias para se 
formarem os coftumes , c a doutrina na primeira educação 
da mocidade. 

Não se reítriagia a Poética dos antigos Hespanhoes a 

eíte único fim ^ a sua Poezia sahindo das Escolas entrava 

como hum prazer, e ornamento nas ceremonias do Culto, 

nas danças , nos banquetes , e em outras muitas occasi6es 

Tom. rin. Gg de 



(.liy Temoi moftr&do a origem Céltica dos Hespaahoei em nossa Obra 
da« Origem Célticas da antiga Lingeii de Hetponht , eit itui ãttiuet Dia- 
ítetpf. 



:X'OogIe 



234 Memorias 

de feíla, e de appsrato: nem abriâo mão delIá nos mes- 
mos temps de guerra ; marchavâo para a campanha to- 
cando concertadamente os escudos , ou broqueis sonoros , 
que pela maneira por que erâo feitos , retumbavão como os 
siftros dos CoribanteSj e cantando varias trovas, e mote- 
tes, que muito os alvoroçavâo , e accendião em grandes 
brios , e ardimeDto, e os tornavâo mais agudos, e arreme- 
dados para a batalha ; até nella entravão cantando seus 
versos , e se vencido seus inimigos , entoavâo no meio do 
exercito o Peão, ou Cânticos da víctoríaj como de Viriato 
o conta Silio Itálico. 



■ \Ac rita ^am moris Iberi 



Carmina puhata fiindenteni barkar* cetra 
IfKvadít. (tf) 

Efte formoso erorcicio da Poesia , que assim era geral 
em toda aHespanha, muito particularmente o foi de nos* 
sa antiga Lusitânia, já então râo menos célebre pela cul- 
tura das bellas artes, que por seus feitos militares; ella 
foi bum terreno mui ftcundo, e grato para as Musas, que 
nella puzemo seu assento , e domicitio : nem os Lusitanos 
dados naturalmente em hum clima suave , e doce aos pra- 
zeres eencantos do-Rhythrao , edaHarraonia, podrao dei* 
Xai de receber as Musas, e as Graça» no sen seio, e de 
Bíiir com as bellas artes da Orchestica , e d» Musica , que 
muito amavio ^ os atractivos de huma arte tao gentil co- 
mo a Poética , que era como a alma e espirito de ambas 
elias , e cem ellas nascera dehuma. mesma origem. A an- 
tiga Hiftoria nos conta , que elles usavão de cantar versos 
entre os seus bailes , e feftíns , e que também o faziao no 
meio das acções militares , cam-inhando para a guerra ao 
som harmonioso de íjiftrumentos , eemoandoancecipadamen- 



Ça) Lib. X. V. a jo. Efte- coftwmr eta o mwnrto do» po»e* Celticot-, 
comn tepói)ev«r de Tito Livto , de Diodoro de Sicilik i odeoittros, 
cu;os lu;Ares tiazemoi em oossa obit doi Antigos coftumei Cclticos 
da fleipaohai 



DE LlTTÊBATORA PoUTDGUEZA. i^J' 

te ao afrontar, e inveftir os inimigos os canric:»s da victo- 
ria , Como que a levavao comsigo apertada nas mãos. {a) 

Dous povos entre outros da Lusitânia nos deiíarlo de 
si memoria honrosa nefte trato das Bellas Artes, os Turde- 
tanos , que erao em parte Lusitanos, e os Callaicos, que 
pertenciâo inteiramente á Lusitânia. E pelo que toca ao^ 
Turdetanos foi a sua Província , ou região a em que primei- 
ramente âorecêráo as Musas da antiga Hespanha : os seus 
habitadores que se eftendião pela cofta marítima desde o 
Betis , ou Guadalquiblr , até o Guadiana na Betica , e des- 
de o Guadiana até o Promontório Sacro , e o Barbario na 
Lusitânia , (h) blazonavao nos tempos de Strabão de te- 
rem Poemas de mais de 9.'is mil annos de antiguidade , 
em que dizião acliarem-se escritas , e consagradas ás me- 
morias dos homens as suas Leis , e os feitos assignalados 
da sua Hidoria : (r) e poítoque se devlo tomar quatro 
mezes por cada hum anno, segundo a maneira antiga de 
contar dosHespanhoes; todavia sempre a origem dos seus 
Poemas remontava a mui alta antiguidade emparelhando 
com os tempos heróicos da Hiíloría do mundo primitivo. 
{d) Efte uso da Poesia lhes vinha a elles da prática dos 
Gg ii Cel- 

(a) Astim o conta Diodoro de Sicilii , B o no» Jufto Liptio ad Mili- 
tiam. L. 111. Dialago Vlt. 

ijí) A Turdetania Betica occupava o espaço que ha entre os Ríoi Gua- 
diana , e Guadalquibir : e a Turdetania Lusitânia . segundo Ptolomeo , 
todii a terra que corre desde a boca dn Guadiana pelo fromontorio Sa- 
cro ate o Promontório Barbaríco , nu Cabo de Espichel ; tendo na CoUa 
as Cidades de Balsi ■ Ossonola , Sibcia , e CetobrJga ; e nn Mditetrineo 
(jua discorre sobre o Promontório Sacro , as Cidades de Julia Myrtillii , 
ePax Júlia. Eiles Turdetanos da Lusitânia erJo patentes dui da Betica , 
e tinhão os mesmus usos , e colluinei, 

(t) ÂatiífailatU mtnamtnta kéititt , eaaeripta Ptentata tt metrls intlaiU 
Itgei , a lex millibut , ai eiaat , anna mm. Strabo III, 3U4. 

C<0 o anno entre Iberos era ordinaTÍameiíte de quatro meies , e iam 
vezes Solar: Xenopbonte de equinócio tempor. Uerii anant qaaJrtíotf 
trií ai pliirimiiin tit rarUiimc Solaris Segundo O calculo de Peiavio n9 
Rfllúii ttaijnr. desde a confusio das Línguas succedida perto de erma 
« tiinta annos depois do Diluvio, que innundou a terra em 3)39 an- 
nos antes do Nascimento de Chrifto , até o temp» em que eicreveo Stra> 
báo , que floicceo not fim do Império de Auguflo > e ptinciíHoi do df 



íjó Memorias 

Celtas de que tiravão sua origem , gente por certo muito 
dada a taes eíludos , e a todas as gentilezas , e donaires 
das Bellas Arteg. {a) 

Depois dos Turdetanos maíto se extremarão os ooscos 
Callaicos, ou Povos da primitiva Galliza , que entSo se es- 
tendia p^Ia parte Septentrionil j e Occidental daHespanha 
desde as coftas marítimas das Allurias , ou dos Arlabros 
até á margem direita do rio Douro , e fazia huma parte 
considerável da nossa antiga Lusitânia, {b) 

Erão elles como os Turdetanos , e outras mais gentes 
de Hespanha , também descendentes dos Celtas; e deites 
Jiavião derivado o gofto de poetar, assim como o> exercí- 
cios da musica '^, e da dança, e vários outros eíUlos, e cos- 
tumes em que muito com elles se parectâo. {c) 
El- 

Tiberi», conârSo 2179 aniios Solares, elleí compõem judamente 01 
6000 annoi que tínhão de antiguidade 01 Poeniis do« Turdetanos. 

(jt) Os Turdetanos da Lusitânia eiáo Celtas de origem , que por isso 
aos que Ptoiftineo clia:na Turdetanos , dando-lhes todo o Algarve , e par- 
te de Alemtéjo até Beja : chjinãn ouCrof especificamente Ctliieoi , maior- 
meiíte aos que viviáo pela margem direiía do Guadiani. Plinio e Mella 
dáj-lhes o íipme genérico de Lusitanos, que nt^s inoflramos serem de 
origem Céltica na obra de nossis origens Célticas da antiga Lingua de 
Hespanha , e de seus actuaes dialectos : os Turdetanos da Cetíca eráo 
seus paremes , e vinliáo também do mesmo tronco Céltico , que por 
essa rajão Pnssidonio em Sciabáo lhes chama não só viiiahot , mas tam- 
bém paientes dos CeJticiis. L. III. 

CO A Galliza antei da divisão , que fez Auguflo, das Ptovincias de 
Hespaiilia, pertencia i Lusiunia. Posiidonio em iitrabãr) , chama aos 
Artabro!, últimos povos dj Lusitânia , e o mesmo Srrabão failandn da 
região que cwria do Douio para o Norte , diz que ella no antigo se 
cliaiiiira Laiilaoia , e nos seus tempos Callaica: Tractain «inncni y fui 
cliai Lasiluaia nane CaUuica álcitue ; e conta os rios Lima e Alinho en- 
tre os limites da Lusitânia L, III. : do que se vC também quanto se en- 
ganarão Nicoláo Antonii. , Utito , e outros mais, que não reconlrecírão 
a Galliia por huma parte ila Luzitania. 

(*) Pomponio Mella failarido delia região o dii espressamente To/ím 
Ctttiel celluní Lib. Ill Cap. 1. , sobre que se podem ver a: nbservaçijes , 
e Ni>tas de Isaac Vossiu a elle lugar p. 790.' Strahão aSirma , que os 
COÍluiTies da Galliia se assemnlliavão aos dos Ccltas.Thracios , e Sc; tlias ; 
c c.iloca Celtas junto dos A.tabros . e Pro.nonlotiu Nerio , e os f^i lies- 
csntes dos Cclticns do Guadiana, contando com ellcs furmanJn liuina 
Mpçdi^ão cgm os Turdeíanos haviáu entradu pela região Entre Domo , 



DA LlTTERATVRA PoBTUQUEZA. 237 

-Elles erâo o que são ainda lioje, amadores da musica, 
e da orcheftica , coftumando cantar e dançar ao som dos 
inftrumentos , especialmente das cetras , ou e. cudos que fa- 
zião ressoar por hum moio harmonioso. 

A eftas duas Bellas Artes união sempre a da Poezia , 
natural companheira de ambas ellas , entoando na sua Lín- 
gua cantigas, e poemas, por que muito se faziâo conheci- 
dos, e notados naquella iaade. Efte eílilo, e prática dos 
antigos Callaicos tinha ante os olhos Silio Itálico , quando 
fazendo a resenha da gente Hespanhola , que levava Anni- 
bal contra os Romanos, representou os Callaicos, como 
gente mui dada ao baile , ao canto , e á Poesia. 

Misit ãives Callacia puhem 

Barèara nunc patrns ululante Carmina Unguis , 

'Nunc fedis alterno percussa verbere terra 

Ad numeram resonas gaudentem phuâere cetras. («) 

Deftes primitivos tempos não ficou á pofterldade , nem 
monumento algum de sua poesia , nem memoria do nome 
de algum de seus Poetas , correndo niílo parelhas a nossa 
Hespanha com as mais antigas Nações da Europa , que 
sabendo por tradição dos exercícios Poéticos de seus maio- 
res nas primeiras idades , ignorao quaes fossem os seus poe- 
mas primitivos, e quaes os seus primeiros Poetas j he po- 
.^ rém 

e Minho , e le tiiVbão derramado por aquelfai paitei donde nSo só of 
Callaicos «ao Celtas de oiigem , mai huma boa patte delles o erSo 
particularmente pelo eilabeleciniento que alli iizerSo as Colónias dos 
Celtat do Guadiana. 

Cú) Lib. IH. V, )4í e leg. Deíle antigo coAume que tiverlo nossos 
Lusitanos de fazerem ressoar em maneira de musica infttumental as ci- 
fras , ou broqueis, não se esqueceo o nosso Poeta Braz Gracia Alasci- 
lenbas ao seu Viriato Trágico Canto 11. Ed. jõ. p. %%. 

Quanros eftaváo promptos escuiaii<lo 
Com mil vivai em pé se levantarão, 
BusJnas, Frautas , e Broqueis tocando, 
Que nos côncavos valles letumbaváo. 



izecbyGqOgle 



$3^ Memorias 

révn ds presumir , pelo que se colhe de nossa Hiftoría , e 
da dos Celtas de que nós viemos, que os poemas daquelles 
séculos ei^o pela maior parce , como os dos Bardas, Drui- 
das, e Samotliéos , Ifto ne, dogmáticos, moraes, e hifto- 
ricos , poisque a Poesia eftava então menos diftante de 
Bua primeira origem , que foi cantar hymnos a Deos, e 
gravar na memoria dos poros , por meio da harmonia do 
metro, a hiíloria , e a doutrina. 

Do US9 da Poezia Hespanhola nos tempos da Dominafãt 
dos Romanos , e dos Wisigodos. 



Ne 



I Os tempos em que os Romanos se mantivei^ senho* 

res do nosso continente , n^o deíxdião os nossos de coati- 

nuar o antigo exercicio das Musas, muito roais tendo oes- 

-T .___t- ç g imitação dos bons modellos dentre os Gregos, 

K , que corriao por toda a parte , sendo ainda noje 

na Hiftoria Poética Latina daquella idade os no- 

Lucano , de Sextillo Hesa , de Cornelio Severo, 

I Itálico , de Marcial , de M. Vnico , de E)eciano, 

IDO , de Séneca , de Prudencio , e de Jurenco , que 

s Musas Romanas muitos Poemas , de que ainda ai* 

fins tigurao hoje com honrosa memoria de seus nomes, (tf) 
rovavel he que se compozesse, e escrevese também na an- 
tiga Língua nativa da nossa Hespanfia, ou em seus diversos 
dialectos, sem embargo da extensão, e ascendente que ha- 
via tomado a Língua Latina na Provinda : {b) com tudo 
aquella idade n^o nos deixou em nossa herança documeo* 
to algum dos Poemas delia classe, 

O gofto de poetar em Latim ^ bemque depois intei- 
ramente corrompido pela geral decadência em que ficáiao 
as Bailas Artes em toda a Europa , manteve ainda entre 



CO Podem vâT-ieCrinito, e Lilio Giraldo , Dial. IV. Kitt. Poética. 

(Jí) ftloftiiiTios em na»a obra dai Ofigens da antiga Lingaa de Hm- 
panha, e de leui actuaei Dialecto) , que a Nação Heipanbola conier- 
rou tempre o leu idiuma primitivo , poftotjue alterado etn todo • 
tempo do Senhorio t e domioasSo Romaaa. 



DA LlTTEíATUlA PORTUGUEZA. 239 

íàt seu excràcío na época do Reinado dos Wisigodos : es< 
ta gente Sepientrional , postoque a principio rude, e mais 
dada ás armas, do que ás letras , nao deixava de ter seus 
Poemas, como os tinhao quast todas as Nações doNone; 
elles erão amadores da consonância, e folgaváo muito de 
compor suas trovas com Iiuma locução sonora que fizesse 
a sua Poesia mais harmoniosa , e musical : e para iíto em- 
pregava muitas rezM as nmas , ou cadencias semelhan- 
tes , ínvençóes Orientaes , que delles foi^o conhecidas , e 
praticadas em alguns dos seus Poemas como esmaltes que 
nniito realçavas os adornos Poéticos, e davão nora gra- 
ça á sua Musa , (tf) e confia que usavâo defbs consonaiH 
cias, e cadencias não só nos versos em sua língua vulgar, 
dos qtaes muitos acabaviio com semelhança de deEÍnei>< 
das, mas também nos que escrevlão na Latina , compon- 
do nella algumas vezes versos Leoninos , com rimas ner. 
feitas de duas sjllabas em hum espondeo » e di 
hum dactylo. {à) 

Com tudo , ficando-nos de ncssos Hespanhoe 
dos alguns íiagmentos de Poesia Latina, nenhur 
a nós de sua Poesia vulgar , nem em sua Lingoa 
nem oa antiga , e própria de Hespanha , que com 

exiftir naquella idade , (c) podendo-se dizer aqui l -, 

quelles tempos disse o insigne Poeta António Ferreira a- 
respeito da roesía. 

>t Ficou e mundo bum tempo friê , e mudo. 

Pas- 
ço Alguns até qneicm derivar a palavra R/wd átRutierl, ido he , 
Poetas entre os Godos , e de JRuncj Poeiias , tioir>e que elles davSo aoi 
Hiim»nos do* Versos daquelle tempo. 

fí) Das ?oesios Gotliicai fallàráo Jornandei , e Paulo Wanefiido na 
Siftoíia do» Longchardos ,,Oláii \formio da Faft. Danic. C. 6. . cLoc- 
ccnia nas Anfiguid, Suco-Gotliicas. C. i j. Dos Poemas em Linguagetrt 
Gothica , e rimada Fazem memoria Jorge Hieskei no Cap. XXIV. do 
Thesouro, Junio no principio de seu Glossário Gothicti , Eftifanío,"» 
outtoi. 

Çt) Temos lambem medrado em nessa abra das Origens Visi^ollii* 
cas daLingua de Hespanha , e de seus actuacs Dialectos , ijue o artigo 
úKoma H<i)i9nhol se ntanteve quanto ao t«u fiindo em todo o icmy» 
do Império ^isisotbico. 



:,GoogIe 



24'^ Memorias 

Passemos á E*po;a da Conquifta , e Icnperío dos Ara- 
'bes cm nossa Hespanha. 



Do uso da Poesia fia Hespanha nos tempos da Dominação 
dos Árabes. 



Ne 



_ i| Os Campos de Xeres acabou a gloria do Império Wi* 
sigoibico , mas a Poesia longe de esmorecer , e afrouxar 
debaixo da dominação dos Árabes , recebeo delles nova 
força e energia. Eftes Sarracenos vencedores da maior par- 
te de Hespanha , assim como fbrâo os Senhores das tet^ 
ras , forão também os meftres , e os oráculos da Líttera- 
tura deíla Península. Clles não erão naquelle tempo o que 
sâo hoje, ifto he, hum povo grosseiro e rude: era nu- 
ma Nação illuftrada pelas Sciencias , e polida em todas 
as galas , e gentilezas das Bellas Artes. Ã Poesia era hum 
dos seus encantos , e primores : huma gente dotada de 
espirito vivo, e de génio ardente , naturalmente se ele^ 
vava ao enthuslasmo Poético : até havia famílias , e Tri- 
bus entre elles , em que a Poesia eftava como vinculada 
em morgado , e se herdava de pais a filhos com emu- 
lação de nuns , e outros; para se igualarem, ou se excede^ 
rem nos seus Poemas, (a) 

Os mais antigos monumentos da Litteratura daquella 
Nação havião sido consagrados pelas suas Musas, e já an- 
tes de Mahomec contava ella de seis até sete Poetas de 11- 
lullre nome. (í) Os seus Poemas erâo os Livros de suas 
genealogias , e as Faltos , e Annaes de sua historia , e ao 
mesmo tempo os maiores brazoes de sua Lingua. Elles 
deviâo á sua Poesia, a inteire7a a regularidade, a cooítan- 
cia , e a extensão de seu Arábigo ; (r) e nenhuma outra 

Na- 

(d) Ciiiri Bibl. Arab. Scurial. tom. t, pag. 91. 

(f) Aiiemani Bibliotb, tom. III. pag. { 80 , Casíri Bibliotb. Arab. Seu- 
fiai, I. pag. 71. 

(/) Asiutbeo lib. Antologiaci Veja se Casiií Sibliotb. At»bico Seu- 
nalcns. tom. U. pag. 17. 



•DE LtTTERATURA PoSTUGUEZA. 14! 
Na;ão na meia idade apresentava nem maior niímero de 
Poetas , nem Poesia mais rica , e copiosa. 

Os Árabes , que vierão á nussa Mtspanha , nâo degene- 
rarão do gofto de seus antepassados , eiles produzirão em 
terra eílranha Poetas iguaes aos primeiros da sua pátria , 
que taes forâo entre outros Almotanabbi , Abbu Navar , 
AbbuTaman, Albagrai, Khali ben Abik , BenMokanes, 
e Benzaidun , nomes decantados no Arabismo. Deites, e 
doutros muitos traz vários versos , e escolhidos Poemas o 
Árabe Abilualid Ismail ben Mohamar ben Amer, natural 
de Córdova , que floreceo no século VII. da Egira , no seu 
Tratado da Arte Poética, (a) Abi Bahr Sephuan ben Edrís 
Hespanhol, refere os versos de mais detetenta e dois Poe- 
tas Arabico-Hespanlioes , ria sua Collecjâo Poética , e na 
outra intitulada Provisão do Viajante^ {b) e Alpath ben 
Mohamad ben Khanan Alcaissi , que morreo em yjf da 
Effira , faz memoria era sua Bibliotíieca de Reis , Vizires , 
JManiftros , Juizes , Jurisconsultos , e outras pessoas doutas 
d'entre os Árabes Hespanhoes, que haviâo sido bons Poe- 
tas, (r) 

Entre eftes, extremarão-se muito os de Portugal , porei 
aqui alguns de maior nome , porque acuda com ifto á cu- 
riosidade de alguns Leitores , são elles os seguintes. 

Abdala ben Rada ben Khalid > natural de Évora , que poetw At«- 
morreo no anno da Egira 429 , que os seus contâo por hum ^",1*"* '"'' 
Poeta sentencioso, e pollido , que soube ajuntar a ellegan- 
cia do eílilo com a gravidade das sentenças. 

Said ben Hakem Abu Othman Alorasita , originário de 
Tavira, e de mui nobre familia entre os seus, que passou 
por grande Poeta , e publicou muitos versos. 

Abdelmalek ben Abdala benBadrua Alhadramita, na- 
Tom. niL Hh tu- 

fo) Traiem muitoi fragmento» de Poesia Arábiga Sehiilteni na An- 
thologta Arábiga ■ Etpenio , e Golio nis Collecçãei de Poesias Arábi- 
cas ; jonet na Poeaia Asiática ; Pocok no ensaio dos Pioyerbios de 
Meidati , que traduzio , publicada depois por Scliultenz em 177J. 
Çi) Casiri Bibliotíieca Arabico-SíUtialcnsis Tom. I. pag. 9}. 
CÓ Caiiii I. pag. 102. 



izecbyGoOglC 



2^1 Memokias 

lurai de Silves, Poeta intigne, que viveo no Século VI. da 
Egira , e illuftrou o famoso Poema intitulado Bea Abãun 
com hum erudito Commemario. 

Âbu Baker Moiíamad ben Ãtpar Dulvazatín, que se 
diz natural de Scbanabos , no território de Silves , iftohe, 
como parece , de Ossonoba , o qual foi cxcellente Poeta , 
e por sua Poesia abrio caminho para conseguir grandes 
honras ; os seus versos refere o Araoe Ebn Albareo. 

Abulcassem Kahalaph ben Âlabraschi, natural de San- 
tarém , que morreo na Egíra ^^t. 

Ãbu Baker Mohamad ben Abrahen Âlamari Alcarsi, 
nascido ein Beja. 

Abu Baker ben Sokon , que também nasceo em Beja. 

Abulvalid Ismael , natural de Silves , por sobrenome 
Ebn Ascliuasch , que morreo na Egira. yyS. 

Abu Moiíamad Ãbdala ben Abl Baker ben Abrahím 
ben Almonkhol , da mesma Cidade de Silves. 

AbuAmran, Musa ben Hossain benAmran, que ce- 
ve por pátria a Mcrtola , e morreo no anno da Egira 604. 

Abul Cassem Abdelmalek ben Badrun Alhadramita , 
que nasceo em Silves ; author da Hiftoria de Joscph , "que 
se intitula Ephod. 
Poeui He- Com as obras deftes , e de outros muitos Poetas se 

b«#i em derramou por toda a Hespanha ogofto da Poesia Arábica , 
«irtusai. ç^ J3I (naneira , que os mesmos Hebreos Hespanhoes que 
havião até então religiosamente guardado a sua antiga Poe- 
sia da Escriptura Sagi^ada , se voltarão a seguir as pizadas 
dos Sarraceno? , tomaiido delles huma nova íbrma de poe- 
tar, que não tinhao, e sugeit.^ndo-se ao seu magiíterio nao 
metios na Poesia , que nas mais Artes , e Sciencias. Assim 
elles transferirão para o seu Rabhinico, o metro, e versi- 
ficação do goílo Árabe, de tal sorte, que receberão a me- 
dida dos versos, as rimas, e quasi todas as Leis da Poe- 
sia Arábica , e até adoptarão em seus discursos Didácticos 
o uso das palavras facultativas, ou próprias da Arte Poé- 
tica dos mesmos Árabes. 

Chegou iíto a tal pcuito , que o famoso Autlior do 

Cu- 



D.g.tizecbvGoOgle 



DELlTTERATUSAPoRTirGUEZA. 24 J 
Cuzari , mais de duas vezes reprehendeo severamente os 
seus por haverem contaminado a sua Poesia com o metro 
Arábico, e versificdçio eftrangeira. Fora R. Salomão ben 
Gabirol , Cordovêz , o primeiro que por 1040 introduzira 
entre os seus efte gofto de Poemas Árabes , que por isso 
foi cliamado pai da Poesia Hebraica moderna , a quem o 
Porruguez R.. Moysés benChabil, de Lisboa , no seu Tra- 
ctado da Poesia , que escreveo com o titulo de Caminhas 
ào prazer deo muitos, e mui altos louvores, gabando seus 
hymnos sobre diversos assumptos, que se coítumavâo can- 
tar nas Synagogas. {a) Elle excitou os engenhos de mui- 
tos a entrar no caminho que tinha aberto , e- forao logo 
por seus veftigios os Hespanhoes R. Isaac , o douto R. Aben 
Hezra , de quem exifte hum famoso Poema sobre o Jogo 
do Xadrez ; (b) o occulto , e elegante Maimomdes , que 
compóz alj^uns Poemas; R. Manoef, Poeta do Século XII, 
cujo Machberotb , ou Colherão em que vem a das Can- 
ções , eMadrigaes, se gabão deter vivacidade de imagi- 
nação, grandeza de idéas , clareza na dicção , e mui varia- 
da doutrina na Fysica , e de Moral ; e finalmente outros 
muitos de que fazem honiosa memoria as BÍblÍothecas Rab- 
binicas. 

Ora assim como os Hebreos Hespanhoes adoptarão 
dos Árabes muitas das bellcz s de suas Musas , natural 
era que também os Chriftãos as tomassem dellesi a intro- 
ducção da sua língua assentada com o seu império emqua- 
si todas as Províncias de Hespanlia , facilitava aos nossos 
o commercío das Musas Arábigas, e os levava a imitar 
Hh ii na 

C«) Isto liavia ji feito em Bahylonia R. Hai . que morreo por 10(7 
pondo enifC ai orações da noiíe do grande jejum , huma deprecaçSo 
llietrica rimada no Machaior , iiit liteviatio , que liavia compodo para 
U!r> das Synagoga; de Iialia , e usou da iiiesiiia Poesia no seu Poema 
Didacticn da Inilracçáe áo En: (ndtmtnl e, 

(A) Ha delle muitas eoinposiçóeí Poelicas na Livraria do Escurial , das 
cnaes vio, e copioa aii;umas Eliai Maiputgo , Cabeça dos Hebreos em 
Gradisca, no Discurso inipresso em Gorica em \^%^ , e de atgumas 
fiib Uiscioni r>a Bibiioilieca Laureotiana tom. 1. par. i4i- Eírioloccio. 
aiiella ter viflo mais de Uit> cumposicâei Poeticis deile Rabbino. 



..C~,oogIe 



244 Memorias 

na Linguagem Hespanhola , o que os Sarracenos fazião no 
seu Arábigo ; porque bem sabido he , que efta Língua era 
então mui corrente entre os nossos, e que nas tenras avas- 
salladas dos Árabes andava de parceria com o idioma na- 
tlvo do paiz , havendo entre ambos liuma reciproca com- 
municação, e commercin. 

Assim os Hespanhocs usavâo muitas vezes doArabis- 
mo não só no trato familiar com os Sarracenos , ou fosse 
de viva voz, ou por escrito, mas ainda nas Escrituras, e 
inftrumentos públicos, nas Artes, eSciencias , nos mesmos 
eftudos Sagrados ; sobre tudo na Poesia : ouvião-se os seus 
Poemas Arábicos em todas as partes na boca não menos 
de Hespanhoes , que de Sarracenos ; ejá chegava a tal pon- 
to entre os nossos, o amor que tomarão as suas Musas, 
que com muita promptidão , e elegância versificávao na- 
qnella Língua na medida , e rima dos mesmos Árabes, (a) 
Êftes ao mesmo tempo, fosse politica para attrahir os nos- 
sos, fosse por necessidade de tratar com elles , esmeravao- 
se em faJIar , e escrever correntemente em Hespanhol , do 
que ainda hoje eiiítem documentos em Escripturas por el- 
les feitas na Lingua vulgar deHespanha, nos últimos tem- 
pos de seu império. (í) 

Eltã mutua communicação das duas Línguas natural- 
mente havia a buma muitos dos primores , e donaires da 
outra, e a gentil arte de poetizar, que tâo valida, e rica 



(fl) Alviro Cordubenie com os mais Eccksiafticos que promovião a 
Língua Latina , por jtt a da Relipiãif , e a da Igreja Occidental , lamen- 
Iav4 haver cniSo , quem apenas soube: ■= escrever íiuma carta Latina , ha- 
vendo tantos , que sabião iSn bani o Árabe , e a sua Poesia. PreprUra 
ííigiiam nín oávtrtiml. Latíni Ha fit '^ "'"«Í CAriíli Ctllegio vix inve- 
vimar uniii ex nliileiw bominiim niimcio ijni laliitatatiai featri pmilí rúliana- 
bilÍ!€r dirigeri LUlerai & reptrios ãhuiin numero maltipHctt turbat , fn^ 
tradltt ChMnUat vtrhtrum t^plicet pempai ila , iil meiriei erudilme ei 
ipíil geoliliaí Carmine , O" iiiMlnúort pidcln-ituàine fiaaies eiaaiatas amiit 
lUltrie cearei leae dtcorent , KrjiixiJliicãiin^iiieipsiatrcijiui-il idlaMo ijiije 
«mntt vncalei aptces efinm,tla claiiillt , & c-lia tlii/l/imkt , Ce. 

(i) N'oArcliivo da Casa do Dii.Tte do Iiifanlad.> em Hespanha . acháo- 
»e Escipiufas dus Aiabtfs em Caiielbann , ainda em letras Aficana». 
Pizii ao Ensaio sobie U Ciamatica > y PaetÍM de los Aiabes. p. i }. 



DA LiTTEBATURA PoHTUGUEZA. 245* 

andava entre os Árabes, et^o tratada dos nossos, não po- 
áeria deixar por eíle meio de muiio influir nas nossss Tro- 
vas , e de lhes dar novas graças , e bellezas ; porque certo 
que os nossos ao. passo que se applicassem aos estudos do 
Arabismo, iriâo achando nellehum fundo inexhaurivel de 
riquissimos Poemas , que naturalmente os attrahiríão com 
seus encantos , e os convidariâo a transferir para a Lín- 
gua própria o mesmo gollo de poetar , que achassem na 
eftranha , de que ficou muito sabor nas trovas , e riman- 
ces dos quatro primeiros Séculos da Monarchia Portugue- 
za: do que fallaremos em seu lugar; maiorraente da Ri- 
ma, que deo nova forma á Poesia vulgar , e veio a con- 
stituir huma das suas bellezas, a que allude o insigne Foe=i , 
ta A. Ferreira. 

»» Veio outra gente , trouxe outra arte tiez-a , 
'» Em que alfou hera sôm grave , hora agudo : 
>» Chamou o povo d sua invenção trova , 
í» Por ser achado consoante nova, 
" Em que Hespanha até aqui deo alta prova. 

DaquelLs tempos porém , em que tanto florecêrao os 
eiercicíos Poéticos, bem como doa Séculos anteriores, não 
ch^ou a nós monumento algum da Poesia de nossos maio- 
res, salvo algumas composições métricas no Latim bárba- 
ro daquella Jdãde , pelo que somos obrigados a saltar to- 
do efte espaço de tempo em que dominarão os Árabes , è .. 
a descer a época do eftabelecimento da nossa Monarchia 
sobre as ruínas do Arabismo , tempo em que entrão a ap- 
parecer as primeiras obras da nos^a vulgar Poesia. 



DA 

Dni.tizecbvGoOgle 



^4^ Memorias 



DA ORIGEM , E PROGRESSOS 

1> A 

POESIA PORTUGUEZA. 



CAPITULO II. 
Da Poesia Portugueza nos Séculos XIL e XIII. 



N^ 




„ Âo podemos fiiar ao certo a primeira época da Poe- 
sia Portugueza \ mas podemos conjecturar , que ella come- 
çou logo de figurar nos primeiros tempos da Monarchia , 
■"■- he , no Século XII. \ mas nem por isso se entenda , que 
103 inferiores nefta parte ás mais Naçòes da Europa, 
< se for á Norwega , e á Suécia , que sobem mais assi- 
com eeos poemas, (a) Com eíFeito , quando Portugal 



{a) O Narte he o unJcn pait que remonta i iniior antiguidade, por- 
<]ue lem Taltar de tempoi niaii temotos i em que muitos queiem pàrai 
suai Musai , he ceito que )i nos íini de Século X. os Escildros , ou Poe- 
tas da Norwega, e da Suécia apresentavJo as suas primeiras composi- 
ções em versos Saphicos , sem riitii , e tamhem Poesias rimadas, como 
(Sa > Satyra do lilandei Kjalte escrtta em 994 sobte Odino , e Froja , 
e a Saia de Olaf Tryggvason , qui nloiteo cm 1000 , e as obrai de £i- 
narSkuleson, Poeta de Irveticer , que são os primeiros partos de (]ue 
se sabe com mais certeia da Poesia Septentrional ; a que depoii accre- 
círão por liso a» rimai de RoUon , Rei de Suécia , e de outroi: so- 
bre que se páde ver Gaílon Rezzonico nas notas ao seu Disctlrso sobre 
a Poeiia vulgar , que preceda ii obrai de Trugoni da Edição de Parma , 

NoE. n- 

NSo contamos aqui 1 Gría Bretanha, porque aindaque Feda falia 
do Monge Benedíctino Coedmon , como Poeta mui dsftincto , que faiia 
improvisos em sua Língua , pelo meio do Século VI , nlo relia delle 
obra alguma , nem que reftasic poderia por ella datar-ie a origem , e 
época da primeira Poesia conhecida da Língua Ingleaa muito maii mo- 
derna, e mui diversa do antiga Bretão daquelia Ilha. A Poesia Tngleza , 
quaOM labcmos , começou no Século XIV. ou quando muito no Xlll. > 



DE LlTTEIlAÍURA PoRTUQDEZA. I47 

começou de firmar , e eílender o seu Império , e Principa- 
do dividido do de Lèáo , e dasAllurias, ainda entre os 
tumultos da guerra em que andava baralhado com os Ára- 
bes, deo lugar, e honra á cultura da Poesia, como se es* 
tivesse em tempos de muita paz, e assocego. Conrribuio 
muito para Jfto o mesmo exemplo t]ue nos havia ficado 
dos Árabes , que grandemente tinhão excitado nossa afei- 
ção aos prazeres poéticos j maiormente nos Portuguezes que 
havíamos eftado debaixo do seu dominio , nas terras sugei- 
tas, e tributarias ao seu Império ; porque coAumados com 
elles a todos os folgares da poesia , facilmeme continuá- 
vamos em manter o antigo trato , e exercício das Musas , 
depois de nos acharmos em liberdade , e Izençao de poder 
eftranho. 

Nem menos contribuio para ifto o exemplo de algu-' 
mas Nações, e Provindas que por aquelles temp 
Çaváo também de eftabelecer o seu Parnaso j quaeí 
Alemanha , que então promovia muito eíles euudo 
dúzia seus Poetas , (.3) a Catalunha ^ Valência , t 
em nossa Hespanha ; e a Provença , e Provindas 
naes da França circumvislnhas , que começarão d 

H"' 

e verdadeiramente as ptimeiras obra« exillentes deqiie havemos noticiat 
tão, as de Cliaucer contemporâneo de Petrarca , e premeiro Padie da 
PoHia Briíanica. 

Tambein nSa contamos aqui a Escócia , pmsque o primeiro poe- 
ma qite ella apreieiítnu de Ossian Barda Ersc , filho de Fingal , que 
á poucos aiinos descobrio , e traHuiio em pTn7a Ingleza o EscOcei Jacoh 
Macplierson , e em Italiano o Abbade Ceiarotti , aindaqiie te quii dar 
por obra doSecuUiXI. foi poHo em disputa pelos Críticos , que duvida- 
rão defta sua antiguidadade , sem embargo dns exforçits com que aquiz 
defender Hugo Blair , douto ProFesíor da Universidade de Bdimburg, 

A Itália também aqui nSo tem liii^ar , porque a sua Poesia não 
appirecâo senão nos fins do SeeuioXlli; com Giiido Sanuncelo , Polo- 
nhei , com Dante Alegheii , com Baccacio , com Petrarca , e outros. 

(o) A Alemanha por 1155 no Reinado de Federico Paibarojia tinlia 
jí Poetai , sobre oquo se pôde ver «orhofio na Hiftori.i da Poesia , que 
dá a lifta dellet ; Bothmer de Ziirick nas Amoftias da antiga Poesia 
dosSuabes dr. Século XJf , e o Ea.áí. de Zurlauben no Extracto que deo 
á Academia das Eellas Letras em 1775 , de hum Código de Canções Ale- 
iDãi de Poetai dotfins daquelie Seeuío ué ijio. 



D.q.tizecbvCoOgle 



248 Memouias 

primeiros passos da Poesia Proençal ; (a) tiâo menos Cas* 
tella , que já encáo se ensaiava nas suas primeiras produc- 
çâes, e tentativas Poéticas. (í) 

O que porém excitou , e acendeo ainda mais os ikk- 
sos , foi por certo o maior trato , e communicação que 
mantivemos com a Gallíza , nossa visinha , e comarcia, 
antigo Solar das Musas Hespanholas , e Província de pri- 
mor , e fartura na Lingua ; (c) e muito affeita desde a 
Hiais alta antiguidade ao exercício de trovas , e cantares. 
Com sua gente se povoarão nossas terras em diversos 
tempos ; já dos Reis de Leão D. Ramiro I. D. Ordonho I. 

D. 

(a) Todas eftai Provincial de Hispanha , c de França, só corneçá- 
iSo de poetiiar no Século XII. , e na Lingua Pmençal , ou Lemotini, 

?ue era realmente Heipanhola de Cacslâei . e Aragoneiei , e uiada ni) 
mvinciís Aufttaej da Franga, entre Pioençaes , Gascões , Lemosinc), 
Seamezei , e Viaueicj , chamaiido-ie pot isio LingUa CatalSa-Franceia , 
e- pelo cominu:!! Catalão , ou Pcoengal : do Século Xlt. aão o< prirneito] 
Ptoençaei que apparei;e!ii com íua* obras, como são MeKre Eullhachio. 
Guilherme VIU. Duque de Aquitania , Jofre Rodei , que morreo pot 
II 6a , D. AtToíiçoII. de Aragão , e Conde de Barcelona, e de Proveu- 
' ça que reinou dssde liba, Ué 1196 ; lendo mais modernos Gonçalo 
de Beruo , e Guilherme de Beiguedun , que descem ao Século XÍII* 
Pedem ver-ie sobre illo João Noilradamus na Vida dos princtpaei Pr". 
ençaes ; Mr. Fuuchet , Recueil de rOrigine de la Langue «t Poeiie Fran* 
çoise , Rime , et Romint , e Mr. Amaine du Vert^ier , Snr. de Vaupct- 
vai, Eibliotlieque dei Auteurs Françoisei. 

(i) Caítella entrou também afigurar pelo mesmo tempo; a ella per- 
tence o Poema do Cid Campeador , que te dá pelo mais antigo monu- 
mento daquella idade, o qual vem na Coilccção dos Poetas Callelhinos 
anteriores ao Século XV. de D. TlioEnai Antonin Sanches , tom. I. , que 
quanto ao Poema de Alexandre , que D. Nicoláo António , Pillicer , e 
D. Luiz Velasques atcribuirão sem íundamento a D. Affonio o Sábio, 
e a Academia Hetpanhola póz anterior aiioo, Sanches achou , queera 
do meio do Século XIII. e de João Lourenço Segura de Aftorga , tom. H. 
(e) Diogo de Campos, Chanceller de Caftella no Livro da Planeta, 
que escreveo no principio do Reinado de S. Fernando , fallando noPro- 
logo da Sabedoria Universal do Arcebispo D. Rodrigo , dizia entre ou- 
tras cousas , que elle: ctnimenáat Galljtcti ia hqaelU , Legivntiua i» 
tUqatatia. Tendo ante 01 olhos as tradições que dillo carrilo «m nos- 
sa Hespanhi , não duvidou reconhecer o P. Sarmiento , que nos dous 
Séculos X I e XL se cantarão muitas coplas e trovas em CaNcgo por 
toda a Heipanha. , . 



izecbyGoOgIe 



DE LlTTERATUBA PORTVGVEZA. 349 

D. AíFonso III. D. Fernando , e D. Affonso VI. ; iá do ConJe " 
D.Osaiio, cloCoa.leD. ÍI iirtane, c de teu Filno o Senhor 
Rei D- AíFonso I. , cone rrcnJo os niituities dt Galliza nss 
conquiftas , e povoa^d^í deíls Reino, ou viessem de envol- 
ta com as tropas militares, que cá descerão, cuja com 
esperança de mellior fortuna , c jin eíles vicrao de r.iiílura 
iunumeraveis famílias nobres daquelle Reino , de que ain- 
da hoje reíljo nelle seus primeiros Solares, e Avocngos. {a) 
A mesma Giiliiza- chegou a eftar unida com Portugid em 
hum mesmo Reino, e ffindpado nos tempo» de D. Ordo- 
nholl. , Filho de D. Aííbnso Uí. de Leão, e nos de D. 
Garcia , Filho de D. Fernando ; e-ainda depois muitas ter- 
ras daquella Província , que havia adquirido o Conde D. 
Henrique, e deiícado a' seu Filho, ficarão por algum tem- 
po na dependência de Portugal. 

A Galliza pois , com quem tínhamos tantas re'aç6es 
naqiielles tempos , sendo como já dissemos muiro dada 
desde a mais subida antiguidade aos exercícios da Poesia, 
não podia deixar pelo intimo trato , e cõmmercio , que cotn- 
nosco teve , de dar com seu exemplo novo esforço , e ar-' 
dímendo is nossas Musas. 

Accrescentemos agora , que nos primeiros tempos da 
Monarchia . era huma mesma Lingua aGallega , e a Portu- 
gueza ; pois certo que sd pelos annos adiante entrou a dí- 
vidir-se , e a extremar-se em dois differentes Dialectos : (í/) 
o que muito facilitava , e animava a propagação do gofto 
Tom. FUI. ' Ti poe- 

(fl) Defla concorrência da gentes de Galiiia na conquifta , e povoa- 
ção de Poriugal , fatiou entre outros o amigo Poeta JoSo de Mena na 
copla 27f de seu Labyrinto. 

Conquíso Sepúlveda con Io ganado , 
Avis > Poitugal ; y poblólas luego 
De Gente de Afturias y y mucho Gallego , 
Oentio , que vlno de bueUa mézelado. 

CO Cotejados, oi primeiros documentos, que apparecem de hUtna > 
e out» Lingua, achi-s8 entiç g114j Ituma gtaade conformidade nosuiea? 



;X'OogIe 



aço Memorias 

poético entre os nossos, êos quaes por meio. de Ituffia ires- 
iraLiiigua commrm ficarão transcendenres , e communica- 
vds as trova<i, e rimances dd Galliza , que emao erSo tao 
cantados, e famo:ios <.ni toda aHcspanba. (a) 

E em verdade fcz ifto crescer lanio na Galliza , e em 
Portupal o amor das Musas, e o exercício de trovar, que 
eftas duas Províncias se Iiavião entSo por mais polidas', e 
extremadas neíta arte entre as mais famosas deHespanha, 
passando suas rimas, e canções por t3o donosas, e engra- 
çadas , que bom recebimcnio , e agazalho achavSo sempre 
em toda a parte deíla Península (í) : chegando a tal alte- 
za, 

moi rfythongoi , nas mesmat pa'5vras , na mesma Oithogrifia , e accen* 
to, que ceito coitformáo enire si hum, e outro Dialecto , e molliSo 
leiem ambas lumia mesma Lingiia. 

Na Província do Alinho, que sobre ler a maí( visinlia àe Gallíia 
Foi a mais povoada' dè gentes (iaqutlle Reino , amdi hoje se divisão 
velligios delta antiga conforniiriadc na pionunctaçSo , e ejn muitas pa- 
lavias , e idiotismos que ih« são próprios , e ao mesmo tempo análo- 
gos ao Callegn, Eíla origem commum reconheceo bein o douto S«im- 
5or Duaite Nunes de Leão no ciirioioT.ivro , que compôi das Otigen» 
da Lingua Portugueza p. Ji , e D, Gregiiiio Mcjans e Sisear na obia da 
Origem da I.ingua de Hespanlia Csp. 8i. pag. iç. ,eo P. Efteváo Tet- 
^ecos e Pando na tua Paleografia Ncsparihola p. 10. Ainda hoje muitas 
'das nossas Villas , e Lugares , e muitas de nossas antigas familiai , e Sola- 
res tem os itwsmo! nomes deGalliia, o que mnllramos em outra obra. 

ffl) A desmembração que depois se fez daGalliia separa tido-se de 
Portugal, e a cultura que teve o nosso Dialecto na Corte de nossos 
'Keis , enas mais pattBs deUe Reino , fiíetáo neceiíarísmente , i)uc o 
Poituguez se fosse pouco a pouco (li ssimel bando de-G»llsgo , e tjue 
' efle licasse no nrenro Hiado, y sem maior attençlo , muito mais po( 
ser idioma em que se não Cicrevif , nem imprimia poi falta à* escó- 
Jas , e de Coite na Galliya , que sao as officinas , em que se forjSo , « 
apuráo mais os «ocabuloi , e expressões de qualquer Linguai 

(í) Daqui vem que ai nossas Poesias dos piimeiros tempos ( o tti es- 
mo se ba de dizer da prosa) se parecem tanto com es Gellegas , que le 
vi claramente ser a linguagem de humas , a linguagem das outras , ou 
quas) a mesma , aue por run Argote de Molirta , grande -indagador das 
antiguid<ides de Hespanha , fallando do Poeta Macias no l.Ívro da No- 
breza de Andaluzia notava ,. que se a alguém partce^se , que elle era na- 
tural de Portugal píir setis veTíos serem Cm Portoguez , tftivesíe adierti* 
do, ctue atí ao temno d'EIRei D HenriqueDL todas as coplas que s» 
"fiúit) eriío p'ela TRjior panv ndU Língua , cotno dando a etílcnder , ous 
'ã Llrvgua Gallega 'de-Macias , e afvttti^uêiS', erão en^So husta. ntmuA 



DE LlTTERATURA PORTUGUEZA. IJI 

2a, que se delias fez , que houve tempo em que foi mui 
cursaao entre os Hespannnes , e maiormente entre os de 
Caftella, de Andaluzia , e de Eílremadura, poetizar no Dia-^ 
lecto Gallego , e Portuguez , e até delle tomar muitos ter- 
mos próprios defta Arte. (a) 



Língua , no que injultamence foi criticado por Sarmiento ■ e D. Thomái 
Sinchís no Diicuno da Collecçáo dos Poetas Caftelhaaoi anteriíxei ao 
S«ciilo XV. Tom. I, pag. 19S. , que seva ra»o lhe censurlráo haver cor- 
Fundidn o Dialecto Portuguez com o Gallego. 

Ca) Muita antes de Argoto da Mollna que o atfiriHou 110 \tí%at aci- 
ma citada a s de Sariníento que eicrsveo 9 nieima , o bavia já dito o 
Marquei de Santitiana D. Inígo Lopei de Mendãga na Cartn eicrita ao 
Condellavel de Portugal D. Pedro , Fillin do Infante P. Pedro, Duqus 
de Coimbra , que traz o mesmo Sanches na sua .collecgão , o qual as- 
severa , que os Caílelbdnoi aatígos poetizaváo em Gallego ■ ou Portu- 



Uii DIS? 



MzMO&tAS 



DISSERTAÇÃO HISTORIGO-JURIDICA 

Sobre a ligitimtdaãe da Senhora D. Ttresa , mulher ds 
Sr. Conde D. Hetiriíjue , e mãi do Sr. Rei 
D. ^onsQ Henriques. 



Ha 



La Séculos que combatem entre si os Hiftoríadores Cas- 
telhanos, e Portuguezes sobre a ligitimidade da S.' D. Te- 
resa , mulher do Sr. Conde D. Henrique, nobilíssimos Pro- 
genitores dosMonarcha^Luzitanos. A falta de documeotos,. 
que moítra sem a verdade dos factos daquelte Século , deo 
lugar ás conjecturas , que se tem formado conformes aos 
discursos fuadadoS já neftas , já naquellas razfies^ que me- 
Ihores parecerão. 

O Bispo de Oviedo , o Chronicon Floriacense , ou de 
Fleuri, na ordem dosHiííoriadores os mais antigos, (i)sâo 
os que introduzirão a nota da baftardia em huma das raí- 
zes do tronco dos Senhores Reis de Portugal , affirraando,^ 
que D. Ximena Munhòs , ou Nunes fora concubina de Dom 
Áffonso VI. Rei de Leio, eCaftelIa , de cujo concubinato 
nascera a Sr.* D. Teresa. Não tem fal;ado quem intentasse 
purifica-la dessa mancha, e eu queria persuadlr-mc , que na 
illumioada Critica do nosso Século, não haveria Português 
inftniido, a quem se não representassem fúteis , e despresi- 
veis os Áindamentos da opinlSo contraria. Mas como hum 
Escritor moderno , cujo nome serve de honroso credito á 
republica lirteraria de Portugal , arruinou efte meu pensa- 
mento, promettendo moftrar com brevidade, que a Sr.' Do- 
na Teresa , mulher do Sr. Conde D. Henrique , era filha il- 
ligitima de D. AffonsoVI. , senri-me inspirado pelo amor 
da Pátria, e da verdade, a revolver os Átndamentos , que 



(i) O R ""• P. M. fr. HenrJtjuí ílgrci Tom. 1. du Rainhas Citholi- 
MS . pag. Í9Í. 



;,CoogIe 



deLittbratura Porttjgtjeza, ayj 
a matéria , e o Direito me offerecem , para firmar sobre ei- 
les a Ligitimidade defta mâi Illuílrissimá do primeiro Fun- 
dador da nossa Monarchia. 

Três pontSs se me propõe por assumpto defte meu em- 
penho. Ser D. Ximena Nunes o oMecto da Carta , que o 
S. P. Gregoiio Vil. escreveo a D. Affonso VI. para fc apartar 
da mulher, com quem eftava casado. Ter ella' contrahido 
Matrimonio sem contradição da Igreja , na sua face , e 
com boa fé. Serem nessas circumftancias ligitimos os filhos, 
que nascét^o na figura desse matrimonio. Como porém al- 
guns Hiftoriadores combatem eftes três pontos, convence- 
rei finalmente os seus mais fortes argumentes. Confesso, 
oue ainda suppondo a baílardia naquella raiz , não deixa 
ae brilhar mageílosamente a Ãuguíla Serie dos Senhores 
Reis de Porttigal : porém a sua ligitimídade he huma pe- 
dra preciosa , com que se augmenta o explendor da sua Co- 
roa, que a mão de num bom Fonuguez não pode arrancar 
sem a nota de atrevida , e temerária ; e que todo o que 
se prezar desse nome , o não deve consentir. 

Excedo verdadeiramente ás minhas forças, os limites 
da minha capacidade , quando pertendo examinar factos 
hiftoricos , que são alheios da minha profissão. Bem o cor 
Jiheço. Mas nasci Portuguez , amo a gloria da Nação, res- 
peito a niemoria dos Senhores Reis , e Príncipes da nossa 
Monarchia , tenho paixão pela verdade : e se com efies 
louváveis eftimulos nao desempenhar o que prometio, nem 
evitar completamente qualquer defeito, espero que os bons 
Portuguezes me perdoem ; porque dos que o nlo forem , e 
dos Eftrangeiros , nem temo a aítica , nem pertendo huma 
favorável censura. 



PRIN. 

DKi.t.zccc.Googlc 



2 54 Memorias 

PRINCIPIO. 



O. 



'Facto, de qur vou tratar, hc do seciío XF. : scculo 
propriamente de emprezas militares, no qual os Caftelha- 
nos, e Portuguezes mais se applicaváo a enreftar a lança , 
empunhar a espada , para expulsarem os Mouros d.i Hes- 
panha , do que a pegar da penna , para escreverem os fas- 
tos da sua Nação. Os grandes Génios , que no Po;ego da 
Eaz os eternizarião deixando-os escritos á pofteridade , em- 
araçados com o ellroddo das armas , descuidir^o-se de os 
escrever, e ficou a hiltoria escura, confusa , .e duvidosa. 
São pois as conjecturas , as qtie somente podem descobrir 
a luz da verdade no centro da escuridão daquelle século. 
Efte he o meio , que os sábios Jurisconsultos nos acoose- 
IhSa (i) O S. P. InnocIII. nos ensina (2) como pro?a li- 
' »5 factos antigos, e de que eu vou servir-me-pa* 
ecer o juizo qu2 faço nefta Dissertação, 
hum dos Hiftoriadores duvida, que a Sr.' D.Te- 
illií de D. AfFonso VI. e de D. Ximena Nunes, 
IS fazem da llluftrissiraa Casa de Gusmão. Se foi 
n matrimonio verdadeiro , ou por hum reprehen- 
;ubÍnato , he O ponto da divisão dos Hiftoriído- 
ae seguem efte ultimo partido, me parecem Sol- 
dados traços , á querti faltao as forças para segurarem o 
triunfo. 

OsMonarchasHespanhoes daqiiella' idade não se des- 
prezavao de casar com a3 suas NaturHes , e fazerem Rai-> 
nha huma das suas Vassallas. D. Nuna , mulher de EIRei 
D. Frueta , de sua cativa sobio aoThrono: (3) D. Creusa, 
mulher de Mauregato , (4) D. Urraca , mulher de D. Ra- 



fi) Matcilujin Leg. Cenaus ,ecmonuinentaff. i!&probat. Gotbofte<L 

ibidem li tf. C. Menoch.de Arbitr. Ib. a. Cas. iij.!!."». 
(a) O S. P. Innoc. III. in C»p. Cum oliin de Censib. 
CO F!if- Tn.n. I. das Rainhai Catliolicas. pag. 49. 
^4) O >ae;m> pag. f[. Saiid^vai aat vidas dm cinco Reis de Leão; 
pag. 112. 



BE LlTTERATURA PORTUQVEZA. ajj 
íniio I. (i) D. Niiiia , mulher de D.Garcia, (:) D.Elvi- 
ra, mulher de D. Ordonho II. (3) outra D. Elvira, mu- 
lher de D. AfFonsó V. (4) D. Teresa , mulher de D. Fer- 
nando II. (5) sao provas balbntes defta verdade. D. Ignez, 
primeira mulher do mesmo D. AíFonso VI. , he na melhor 
opinião reputada por Hespanhola. (6) Nefta certeza foge a 
toda a razio, que fosse concubina pública de D. Affbnso 
huma Senhora da qualidade de D. Ximena Nunes , por cu» 
ias veias corria ainda bem fresco o Real Sangue de ElRei 
D. Bermudo II., de quem era bisneta por seu filho o Infan- 
te D. Ordonho. (7) A sua Illuftrissima condição a habilitava, 
naquelle tempo para Rainha, e mulher ligitima, e não pa- 
ra concubina deD. AíFonso. 

Poderá inftar-se-me, que semelhantes manchas se tem 
vifto em outras 4e alta graduação; Eu o confess" - ' - 
eítou persuadido que se não mculrará alguma daq 
lidade , qu^ fosse tio publicamente concubina , qi 
se o objecto da exbortação da Cabeça Visível í 
para ^deixar de o ser. Tem-se vifto até Rainhas ii 
porém Senhoras taes como D, Ximena Nunes , 1 
da descendente de hum Rei , concubinas publica 
encontrão nas hiftorias. 

■Quantas forão, como se chamarão, de donde erão as 
nralheres de D. Affonso VI. Quem foi a separada delle , 
qual era o seu nome, e em que tempo, são também pon- 
tos de disputa entre os Hiftoriadores. Tal he a escuridão 
da hiíloria daquelle século. Huns lhe assignão cinco , ou- 
tros mais , alguns menos. Flor. nota efta variedade como 
hum labyrinto da mesma hiftorla. (8) Os que convém nag 
<inco , excluindo D. Ximena Nunes , nomeão D. Ignez 

D.' 

(t) Flor- n,. dito Tom. 1. pag. 64 e frS- 
Ca) O mwm:. paj. 77. 
CO « "'"'"■' pag-So. 
C43 ^ "mesnio pap. 1 j6. 
Cs) o mesmo pag. 537. 

C6) O mesmo psg. aia Sandova! na referida obra pag. 106. 
C?) flor, lio oito Tom. pajr. líi. 
CS) FJor. Tom. 1. darRíietrísSattiolicasfag. ifrj- 



Dni.tizc-ccvGoogle 



2s6 Memorias 

D.Conftança, D.Berta, D.Isabel, e D. Beatriz, a quem 
o citado Flor. dá tambirm por conciliação o nome deignes, 
(i) e eu accrescento por sexta, (o que já fizcSo outros) 
D. Xiín:;na Ntines ; ella pois foi a separada , o qus passo 
a moftrar. 

Dos Hiftoriadores querem huns , que a Sr.' D. Teresa, 
fosse gerada e;n D. Xímena Nunes antes do defternj de 
D. Aifonso Vi. outros suftentáo , ser a separada D. Ignes : 
alguns supp6em também, que efta foi D. Ignes de Gutena. 
Cada hum conjecturou como lhe pareceo. De outra manei- 
ra discorrerião , se reflectissem , queD. Atfonso era de pou- 
ca idade, quando seu irmão D. Sancho o perseguio, e o 
fez entrar Monge em Sahagum , (2) (facto acontecido pe^ 
los annos de 1070 ) , e que se nao poderia verificar se já 
fossa casado. (3) Qae na volta que fez de Toledo para 
subir aoThrono outra vez, e casou com D. Ignes, apenas 
tinha dezanove até vinte annos. (4) Que até esse tempo 
nao ha memoria nas hiílorias de Hespauha , houvesse ou* 
tra denominada Rainha , senão sua irmã D. Urraca , a quem 
juftamente honrou com efte titulo, (y) 

Se attendessem , que D. Ignes de Guiena , reputada por 
Flor. D. Beatriz , sobreviveo a D. Affonso , e casou trinta 
annos depois daquella separaçáo com D. Elias , Ginde de 
leMans: (6) se juntassem todas eftas refteiôes, certamen- 
te não formariâo semelhantes conjecturas. , 

A mais commum opinião he , que D. Ignes fbí a pri- 
meira mulher de D. AfFonso VI, (7) Sendo-o , não ppoia 
ser a separada ; pois que eíta o foi , por ser parenta em 
gráo pronibido, da que já D. Affonso tinha tido, como be 
expresso na Carta de S. Gregório VII. Ella morreo em 6 

de 

CO Flor. Toin. 1. pag.aa2. 

(2) Sanduv. nat Vidai di>i cíQcu Refi pag, aS. Confoime huma «ai' 
tura de Doação feita poi certoi Cavalheiros ao Moíleito de SahlgUDlt 
()) Sandov. no dito Tom. pag. J7. veri. Flor. supra pag, i6{. 
(4) Flor. no meimn-Tom. dito pag. lõf. e «x 330. 
(l) Flor. no! referido» lugatei. 

(6) Flor. Ton. t. dat Rainhas Catholicas pig. 2io, 

(7) Matian. de leb. Hiipaa. Liv. {(, Cap. il. 

Dni.tizecbvGoOgle 



DH LlTTBRATVRA P0RT'UGUE2A, t$'' 

■de Junho de 1078. (i) Não se sabe com certeza a sua na- 
turalidade, epor isso mesmo se reputa Hcspanhola. (a) D. 
Ximena Nunes o era também , como indica o seu apclli- 
do, só próprio da Nação. (3) D. Affbnso casou com Do- 
na Confiança em 1080 , (4) de maneira , que viuvando de 
D. Isnez em 1Ò78 , não apparece outra Rainha , ( a não ser 
D. Ximena Nunes) até 27 de Junho de 1080; poisque en- 
tão lhe escreveo oS. F. para a separação daquella mulher, 
com quem eftava casado; (5) e no citado de viuvo o con- 
templao as Hiftoriadores , quando se lhe dirigio a carta , 
excluindo a D. Ximena do numero das Rainhas. (6) Sen- 
do pois a primeira mulher D. Ignez, morrendo em Junho 
de 1078 , casando D. AlFonso com D. Conítança nois 
fins de 1080, sendo D. Ignez , cD. Ximena Hespanholas, 
(7) eílá cahindo sobre eíles principies a conjectura , de 
que nesse meio tempo contrahírão D. AfFonsoVI. , e D. Xi- 
mena Nunes asna aliança; eque efta foi no dito anno de 
1080 a separada , por parenta de D. Ignez , do que convém 
Sandoval , e Florez. (8) 

Passando já defte ao segundo ponto, -a carta , queS. 
Gregório VII. escreveo a D. Àffonso VI. para se apartar 
da mulher , com quem eHava casado , he no meu concei- 
to prova inn^avel de ter D. Affbnso contrahido matri- 
monio com D. Ximena Nunes com todas as circumftan- 
cias , que requer o Direito Ecclesiaftico , para se repu- 
tar efta mulher legitima , e se excluir a illegitimidade, 
de suas fílhas. A exiftencia , e verdade daquella carta 
não derem entrar em duvida ; pois as segurão meniimei^ 
Tom. Fia Kk tos 



(1) Sandovil na Vida dos cinco Keis pag. tf {. verso , «Flores «iprt 
pag. iâ(. 
(a) O mesmo Sandov. pag. loft v. , Flor. pag. asa. 
CO ^iot. na mesmo lugar. 
CÓ O mesmo pag. aj8. 
(O Sandov. no dito liv. pag. 107. 
^6) Flor. nu leferido Tom. pag. 337. 
Õ) Sandov. supra pag. 106 v. , Flor. dito Tom. pag- 112. 
(S) Sandov. tbid. pig. lod. , Flor. dito. pig. lu « c 218^ 



,,CoogIe 



15^ Memorias 

tos irrefí-agaveis , (i) e as abonão authorídades sem Saí* 
peita (i). 

Aindaque ella não tenha data, também se nâo deve 
duvidar, que foi remettida aD. ASbnso VI. em 1080, por 
ser esse o tempo,, em que o Legado Ricardo , a quem ella 
se sefere, eftava em Hcspanha. (3) Sendo de conjecturar, 
que sabendo entio o Legado do impedimento canónico, 
com que se contraliíra aquelle m^itrímonio , avisou delle 
ao S. P., e o moveo a escrever a D. Affonso para a separa- 
ção, e assim o tem Sandovalj pondo a sua data em 27 
de Junho de ic8o. (4) 

As forças daquella carta >sâo taes , que eftou persua- 
dido, não lhe podem fazer reslftencla quantos argumentos 
se tem «cogirado para fazerem illegitima a br.* D. Tere- 
sa : consiâem ellas nas seguintes palavras: 

Firís resume; il/icitam eon'7uhs!im , quoi cum 
Uxoris tua consanguínea inistt , peni. us respue : 

E que termos mais enérgicos para dar 3 conhecer, que 
foi D. Ximena Nunes casada com D. AíEjnso VI. sem con- 
tradição da Igreja , na sua face , e boa fé? As palavras 
= connubium inisti ^ = provão com evidencia , que ha- 
via casamento feito; = cumVxoris tua consanguínea , = 
dao a conhecer , que efte era o uníco impedimento canó- 
nico i que não havia clandeftinidade , nem contradição da 
Igreja ; pois se houvesse algum delles , se daria como 
de maior jfbrça ,. por causal da separação. O primeiro 
termo = connubium =; significa propriamente o casa- 

men- 

(0 Collecçãi doi Ooncit. d« Binin rf» Edição de Pai is de 1644. Tomo 
26. pa?. 433. A do Cardeal deAguinedoí Coftcil. deHejp. Tom. IIL 

(a) Sanctfiv nas Vidas dos cino Reis pag. 49 v. e loâ 1. Brand. Mo- 
na-ch. Luiu. T..01. IH. Liv. %.° Cap. 1 j, 

CO hirtas que It>e e<crevro o ineimo S. Padie cefcrtdai nas iobrcditat 
CoflecçSe^ > diu! pae:. cum >eqq 

(4^ Nu Vidu doi ciaco Keu deLeSo pag. lof., 



..Ckiogie 



bE LiTTERArTIRAPoiírwaTTEÍA. í;p 
tteíito. Com elle quiz moftrar claratneníe o S. P. a sua 
eiiftencia , tomando-o na mesma significação em Que sempre 
o usár§o os mais apurados Latinos; ,(i) devendo nós en- 
, tender por elie verdadeiro matrimonio á face da Igreja, 
Até nesse mesmo sentido o tomarão os sábios Legislado- 
res, (i) 

De tudo ifto resulta a certeza de eftarem casados D. 
Afibnso VI. e D- Ximena , quando llie escreveo o S. P. Gre- 
gório VII. : que a carta lhe foi dirigida , para a separação 
do casamento já feito , e não paraque deixasse de casar: 
qu& D. Ximena Nunes não eftava na reputação de concu- 
bina de D. Afibnso : que era sua legitima mulher, ainda 
3ue com impedimento canónico , provavelmente ignora- 
o. Eis-aqui temos expressamente provada a primeira par^ 
te do fundamento da legitimidade da mH illuAríssima do 
Fundador da nossa Monarchia. 

A segunda , qu» he ser aquelle casamento contrahido 
sem contradição da Igreja , e na sua face , prova a vehe* 
mentissima conjectura , resultante das mesmas palavras =z 
qtt-)d cum Uxoris tu£ consanguínea inisti. =z Efte he o 
Único impedimento, porque oS. P. exhorta a D. AífonsO} 
que se separe do matrimonio contrahido ; se houvera ou- 
tro , se a Igreja o tivera conrradicto , se fora clandeíUno , 
Kk ii não 

(i) Robett. Steph. Thesaur. ling. laiin, e Calepin. Veib. = Cvmxi- 
iium ZZ ibi. 

Cannaiiam idtm eit »e fot ItgltUitl in»trimtiui a virit iiui«, 
Virg, JEneid. i, vono 77. ibf. 

CntttiAiê jiuígam ittibill , pnpríamqae ilcaht, 
Ovid. Ep. 6, Hypiipyl. ad Jas. «x veri. 41, 

Heu\ ttii faetofiitif Vbi céitauHttlia jura? 

Faxque mh oriaroi Jign!»r ire r»gn ? 
Núit ega iam furtt tití fsgnila , pniiui» fam 

MfnM , tt itrtii ttmptra Vinclui Hjrmen. 

C>) O Imp. CoaRant, m Lei {. G)d. de IncesE. et ínutilib. nupt. ibi 
Cum aneiUis lua pttttt tut etmtuiiam , nau ex ejmmxii fgotuitrni» 
nrvi MttaatMr, 



:,C~.oogIe 



aíò Memo»ia« 

não ommhtiria eftas raztSes , como de maior fbrça , pari 
fazer mais efEcaz a exhoreaçlo. Quando se vé , que só da- 
quelle se lembra , salta logo aos olhos , e sobe a qualquer 
juizo, que nâoeftiver preoccupado , que não havia outro al- 
gum impedimento , que lhe oppuzesse ; e seguramente conje- 
ctura o discurso, que- no casamento de D. Affonso VI. com 
D. Ximena Nunes , não tinha havido , nem dandeftinida- 
de , nem contradicção da Igreja , e só o impedimento daquel- 
ie parentesco os embaraçava , para não continuarem na 
sua alliança. 

A terceira , e ultima parte, que he a boa fé , como 
seja acto interno , de que não pôde haver prova alguma 
externa j além da conjectura, o Direito a abona, presumin- 
do-a , emquanto se não prova o contrario; (i) e ãssIm 
mesmo a ignorância do impedimento, que funda a boa fé, 
quando se não faz certa a sciencia. (i) Dizer-nos Florez , 
(3) que a má fé daquelle casamento se verificava pela con- 
tradicção do Legado Apoftolico , e Prelados do Reino , hc 
fantaziar sem mndamento. Que certeza nos dá , de que 
D contradisserSo , quando elle secontrahio? Com que pro- 
va, que houve essa Contradicção no tempo em que se fez? 
Qual he o documento , que delia apparece ? Nenhuma dá, 
nenhum documento aponta ; a sua authorídade s6 r^ bas- 
ta , para deítruir as presumpçfies de Direito : logo deve 
subsiftir a conclusão , sem embargo delia , e não se deve 
escandalizar , de que o não acreditemos. 

A què podia resultar depois da carta do S. P. Gregó- 
rio Vil/, das inftâncias , que fizessem o seu Legado , e os 
Prelados pela sua execução , de ncnliuma maneira obíta á 
boa, que houve no seu principio. Quando se move alguma 
queftâo sobre nullidade de matrimonio, não obftante omo- 
nitorío do Juiz, se dizem us cônjuges em boa fé, emquan- 
to se não dá a sentença. (4) E. quanto mais se nâo devem 

en- 

CO Tx. iii Leg. pen. CoJ de F.viciimib. Gutietr. de Matr. Cap. 71. 

fO Tx in Lt%. Verius PF. et»- ProSat. 

^j5 Toin. I- (ln< Rainhas Gatholícai pag. 314. 

^4^ Ant- 4e Butr, adCap. II. Qui&lii siDtlegítim. Gabr. Rum, Com. 



fender conftituidos nella D. Afibnso , e D. Ximena , ao 
menos até o tempo daquella carta ? Se nio he baftante o 
monitorio do Juiz, e pender causa sobre a nullidade, para 
se deftruif a boa fé do casamento no seu principio , que 
o Direito presume; como se ha de presumir a ma, quando 
não havia causa , nem confta. da contradicção do Legado, 
e dos Prelados em tempo algum. 

A mesma contradicçâo da Cabeça vísivel da Igreja tí- 
verâo os casamentos de D. Affonso IX. com Santa Tere» 
sa , e a Senhora D. Berenguela ; porém como foi depois de 
feitos , ríío se reputarão celebrados com má fé , nem seus 
filhos illegitimos. O mesmo R.™" confessa , que no tempo 
de D. Aironso IX. , se não reparava , como hoje , nos pa- 
rentescos: (l) e quanto menos se repararia no de D. Affon- 
so VI. mais de hum século antes ? O de Santa Teresa podia 
ter mais desculpa , do que o da Sr.* D. Berenguela , que 
se seguio á separação da nossa Santa ; e ainda assim loi 
nelle presumida a, boa fé, por se não provar o contrario, 
não obftante mandala separar o Summo Pontífice : e quan- 
to mais se deve, pelos mesmos principios , presumir no de 
D. Ximena Nunes ? A inftancia sim he, mas não o parece, 
do R.™" Florez. Outra maior força devem ter os argumentos, 
para concluirem. 

Eftes ^o os requisitos necessários , para se íeputarem 
legítimos em taes casos os filhos , que nascem na figura io 
matrimonio. Em concorrendo todos elles, nâo se pode sem 
erro ncgar-se-lhes a legitimidade. Assim o tem decidido a 
Igreja : (i) assim convém a communissima sentença dos 
Canoniftas. (?■) Para se reveftiiem deita qualidade , bafta 
que seus pais vivão em boa fé ao tempo de se conceberem , 
aindaque já a nâo lènhâo ao tempo do seu nascimento , 

co- 

Concl. Lib. VL titulo de Legitimaiicn. Concl. -(.. n." Goniat. ao dito 
Cap n." i. 

CO Tom. I. (Ii*R"inh»sCatholÍcas r»g " (■ 

(*) O S. P. Alex. ni. in Cap. a. O S. P. CeleBino III. in Cip. ii. 
Qui fílii sint Icgitimi. 

CO B^^b. e Gomai, aoi ditos Cap. Covaiuv. de Maicimon. paite a^ 
Cap. S.. Í,UO°»i 

D.q.tizecbvGoOgle 



1(5* M E M o 1 1 Á S ' ' ' 

tomo querem alguns DD. : (r) e nefta certeza eífâo puIàtP 
do ãs ideas da legitimidade da Sr.* D. Teresa. 

Vcndo-se pais provado pela carta de S. Gregório VII. 
a exiftencia do casamento deD. Affonso VI. comD. Xime- 
ftj Nunes ; pela vehementisslma conjectura , que delia re' 
sulta , 6sr clle celebrado na face da Igreja, e semque en- 
tão o contradissesse ; e pela presumpção de Direito a boa 
fé, com que o contahírão, segue-se innegavelmente, que a 
mii illuftrissima do Sr. Rd D. ASbnso Henriques, nascida 
na figura daquelle matrimonio , tem a qualidade de legíti- 
ma , que não se lhe pôde negar sem grave injuria. 

O casamento deD. Affonso IX. com a outra Sr. D. T&- 
resa, que a Igreja venera por Santa , e com D. Berengue- 
la , nâo tiveráo outras algumas circumftancias , nem melhor 
prova da sua bja fé, para se reputarem as ditas Senhoras 
mulheres legitimas , verdadeiras Rainhas , e a seus 61hoS 
i mesma qualidade de legítimos : Logo porque uío 
)fi o mesmo de D. Ximena Nunes , e de sua filha a 
âTeresa? Sempre havemos de ir seguindo cegamente 
los outros? Nao havemos de lançar de nós os pre- 
l adquiridos na lição dos livros inficionados do erro, 
nfundida credulidade ? 
c^u'não eítranho tanto aos antigos Híftoríadores a fa- 
cilidade ] com que acreditarão os daquelle século , nem a 
eíles o persuadirem-se , de que D. Ximena Nunes fora con- 
cubina de D. Affonso VI. , deixando á pofteridade os ^em- 
baraços da hiftoríá , porque escreverão em tempos mais es- 
curos , te de menos luzes : como culpo nos modernos a sua 
credulidade, o seu aj^rro aos escritos dos antigos, quando 
já a Critica se vê apurada ; e descobrindo com ella tantos 
erros nasChronicas antigas , e nos documentos, que ellas 
referem , os impugnlo, convencem , deítroem; mas, che- 
gando a tratar do suppofto concubinato de D. Ximena , com 
Kuma nimía credulidade cegamente oacredí[âo\ e como se 
fosse hum ponto de Híftona demoníh-ado. 

^ Se 

CO Abb. in Cap. Ex tenore Qui filii lint legitiin. ia ). not. Cabr^ 
Rom. ConhConcl. lib.VJ. titul. de Legitimation. Conclt-4. o*", u. 



BE LiTTBRArWRA PORTUQUEZA. »jfj 

Se huns , ou os outros apontassem algumas m6es , ao 
menos apparentes , em abono desEa opinião, seriâo menos 
escandalosos os seus escritos \ porém não assígnarem os 
primeiros algumas , fundarem-se os segundos em erros tK>- 
torios , ou em que assim o tinhao aqueltes escrito , assifs 
escandaliza. Deftes taes se pôde dizer, o que disse Marcardo 
das teítemunhas , que não assignâo razão alguma dos seus 
depoimentos, que por isso as compara aos irracionaes. (i) 
Fazer prova por si mesmo , he privilegio da Soberania , de 
cuja verdade se não pôde duvidar, (z) O Hiftoriador aio 
tem a mesma authoridade. (3) 

O Exc.'""» Sandoval he hum Hiftoriador afamado ; po- 
rém nefta matéria deixou-se arraftar da opiniSo Caftelhana , 
e ao que parece, contrj o que entendia. O R.'"" Flores he 
hum aos mais sábios Críticos do nosso feculo , grande iu- 
dagador das antiguidades deHespanla. Elle , eíie mesmo 
na sua notável obra da Hespanha Sagrada , e particu' •"•"-"- 
te nas vidas das Rainhas Catholicas, (4) descobre, > 
te, convence muitos erros dasChronicas a!;tigas, e 
cumentos , que nellas se referem ; mas quando eh 
ponto do concubinato de O. Ximena Nunes, ou da 
midade da Sr.* D. Teresa sua filha , tudo quanto n 
escreveo por essa primeira opinião , e pela illegi 
de, acredita como verdade incoutellavel. Para piova dei- 
las não duvida abonar escrituras apócrifas , epitáfios in- 
ventados por noveleiros, e. impoílores , e se vale de argu- 
mentos , que elle mesmo saberia bem rebater , se o nlo 
aiFectásse a paixão Ciifldhana , e quizesse «braçar a opi- 
nião da legitimidade da dita Senhora. Ora eu passo a mos- 
trar o pouco pezo, que tem os seus melhores argumentos j^ 
porque os outros por si mesmos se convcDcem. 

Não 

(i) De frobat- Conel. 901. 

Ça) Hiipan. Pedin. irict. de Majeftd, Princip. V«Uíc. Com. 167. 
n." 1 1. Cnm outios muitos Qnbi. Roman. Com. Concl. Liv. I. titulo da 
prob Concl. *. n." 18. e 19 

CO DD. adtx, in Cap Venieni de Tellib. Fatinac. de T«flib. q. 64. 
FMgoj. do Regim. Re;p. Tom, I. Uvt. V. disp. ij. §, 4. 

(4^ T001.L á4i R^iob» C«tW<(tt pag 165* )47. 16S. lii. «aij* 



.X-oogIe 



1^4 MEHÒittÃãl 

Náo me quero lembrctr dos que oppoz á opinião , que 
abraço, Pelicer seguido por Herrcras , (i) Brito, (i) e Faria 
e Sousa ; (3) porque os seus erros são laes , e tão palpá- 
veis , que ao primeiro toque se dão a conhecer. Serem três 
as filhas de D. Ximena Nunes, suppôr já casada a Sr.* D. 
Teresa em 1077 , querer que a gerasse D AfFonso VI. no 
, eftado de solteiro antes de se recolher a Sahagun , presu- 
mir necessário hum anno depois da separação de D. Xime- 
na , para casar com D. Conftança : slo argumentos , que 
não obriglo a lhes responder. Sanãoral na obra muitas ve- 
zes apontada pag. 28 e 29, e Florez no mencionado tomo 
pag. 2Z2. baílantemente os deftroem. Os que eíles respeitá- 
veis Hiftoriadores fórmâo , por serem entre todos elles os 
de maior fbrça , farão somente o objecto das minhas re- 
flexões. 

O citado Sandoval sim confessa , que D.Ãf&nso VL 

Suando lhe escreveo o S. P. , já tinha tomado por mulher 
í- Ximena Nunes , reconhecendo nifto mesmo o seii casa- 
mento ; porém que não apparecendo assignada corno Rai- 
nha em alguma das escrituras daquelle tempo, se deve en- 
tender occutto o matrimonio. (4) Para dar força a eíte ar- 
gumento , devia provar , que as Rainhas assignavâo em 
todas as escrituras de doação naquella idade , e que achan- 
do-se algumas então feitas , nellas se não via o nome de 
D. Ximena; pois só deitas premissas he, que pôde sahir a 
sua conclusão ; e como nenhuma delias segura , he mal ti- 
rada, e nenhuma força tem de persuadir. 

Os Reis não fazião doações todos os dias , e podia 
acontecer , que D. Àf&nso não fizesse alguma no tempo, 
que efteve casado com D. Ximena.. O seu casamento só du- 
rou dous annos , conforme o mesmo Sandoval. (5') E que 
prora pôde fazer , não se descobrir em tão pouco tempo 

(O Tom, V. pag. ij6. 

(9^ Monarch. Luiitan. Tom. 11. Cap.fin. 

(j) Epitottie da Europa PorCiig. Tom. I. Cip. ultima 

(4^ Nas Vidai doi cinco Reis de LeSo pag. fO. 

Cs) No meimo Tom. combinando o que diz a pag, ((, • 107. 



DE LlTTfeBATDBA PoBTtIGUEZA. 26$ 

alguma , que meftrasse o nome de D.XÍmena ? Se naqucl- 
les dous annos não fizesse D. AíTonso VI. doação , o que bem 
poderia acontecer , como se pertende para prova do seu ca- 
samento querer que appareça alguir.a confirmada , eassigna- 
da por D. Ximena na qualidade de Rainha ? Nem ft con- 
clusão se tira , nem o argumento colhe. 

De mais: que o mesmo Sándoval nos dá a prova , que 
o deftroe. Na grande doação, que D. AtfbnsoVI., citando 
casado com D. Confiança , fez á Igreja Metropolitana de 
Toledo em lo8ó, e elle exemplou, (i) não se vè assigna- 
da D. Confiança , a queai se nâo nega a qualidade de Rainha. 
Se pois efta nao assignou, que muito que nao assignasseD. 
Ximena em alguma, que apparecesse do seu tempo ? Porque 
a dita D. Connança nao assignou naquella, duvidou alguém , 
de que fosse mulher legitima de D. Affonso VI, , e Rainha 
de Leão? Se nenhum Hiftoriador o tem duvidado, se o fal-: 
tar ali a sua assignatura , nâo he prova de que fosse con- 
cubina , como o será a respeito de D. Ximena? Se Sando- 
val refletissc nefta doação , de que eiemplou a escripiura , 
talvez se nâo lembrasse de hum tão fútil argumento. 

Pode ser , que refieiisse na sua debilidade , quando re- 
ferindo a carta doS. P. se refugiou da sua fbrça á intelli- 
genda , que lhe deo , (i) de ser dirigida para se nao ef- 
feituar o casamento ; porém eíle erro ainda be peior que 
o primeiTo ; por quanto nelle se contradiz a si próprio ; e 
não o soarem as expre.-sas palavras da mesma carta Con~ 
mibio quod intsti. Delias se vê innegavelmente , que o ca- 
samento eflava feito. O verbo inistt explica o pretérito , 
e nâo o futuro. E eis-aqui , que valentia tem os argumen- 
tos do Eicno Sandovai. E quem não vê, que nada con- 
cluem , em nada provâo a opinião do concubinato de D. 
Ximena Nunes , e da illegitimidade de sua filha a Sr.* D. 
Teresa ? Pois os do R.""" P. M. Fr. Henrique Florez nâo 
tem forças maiores. 

Tom, rill. LI 0_ 

Ci^ Vidai doi cinco Reis deLeSo pag. 7f. verio. 
(a) No meimoTom. pag. lo. n: Porque siendo ellftul, y ja rcce- 
bicU pot mugei dura co» eia apaitu-ie delia. ^ 



D.q.tizecbvGoOgle 



i66 Memorias 

O primeiro , que nos opp^e , combatendo aos nossõfl 
Barbosa, Resende, e Brandão , he 3 authorídade de maia 
de cem Escritores, que diz, seguem a opinião da illegiti* 
midade da Sr/ D. Teresa , a quem chama teftemunhas de 
maior credito: (i) e efte argumento he muito fraco para 
ajudar ao triunfo. Â força de huma opinilo consííle nas 
Iraas razoes , nos ftindamentos que a suilentlo , e de ne- 
nhuma maneira em o numero dos que a seguem- Efia he 
huma regra , que deixou eftabeleciaa , a>m principio de 
Direito, o Imperador Juíliniano. (2) 

O Bispo de .Oviedo, e o Chronicon FJoriacense virao 
separado D. Ãifonso de D, Ximena pelo impedimento Can- 
nonico, com que tínháo contrahido o matrimonio ," € co- 
mo ainda nesse tempo não tinlião apparecido as decisdes 
dos SS. FF. Alexandre III., eCeleftinoIII. , reputarão con- 
cubina a D. Ximena , tt illegitimas a suas filhas. Assim per- 
suadidos o escreverão; e porque nellee o achárâo escnto, 
os que depois hiftoriárao , assim mesmo prcfcindindo de 
maior exame, o forao escrevendo, scmque huns, e outros 
SC cançassem de buscar razdes , e fiindamentos capazes a 
persuadi-lo. Defte modo achou Flor. mais de cemAA. ,ou 
teftemunhas da sua opinião. E poderá hum tal argumento 
enervar as solidas razoes da legitimidade , tiradas da mes- 
ma carta de S. Gr^orio VII. , edas regras de Direito , que 
deixo ponderadas? Julgue o quem eftiver livre de paixão, 
e sem eftar prejudicado de huma nimia credulidade , que 
no meu conceito nao tem força alguma. 

Forma outro de não succeder no Reino de Lrâo D. 
Elvira , filha mais velha de D. Ximena Nunes, ou seu fílho 
D. AíFonso Jordão , e subir ao Throno D- Urraca , ainda 
que mais moça , como filha de D. Confiança ; concluindo 
dahi a illegitimidade das filhas de D. Ximena Nunes. (3) 
Dar a razão , por que . alguma cousa se não fez , só compete 
áquelle , que devia obrar , e não obrou. Ninguém se pôde con- 
tem- 

Ci") Ti'm 1 dai Rainhas Caihulitai pag. 187. ei leq. 

(a) f\- in Leg. i. §- 6. lib. i. tit. 17. Coi deVttet. jat, enculiand. 

O) No íobredito Tom. paj. aoj. 

Dni.tizc-ccvCoogle 



DE LlTTEUATORA PoUTVQUEZA. 2<!7 
tfimplar obrigado a moftrar , porque D. Elvira , ou seu fillio 
nío intentou succeder naquelle Reino, e se o pcrtendeo porque 
o não conseguio. Eu poderia perguntar ao R.""" Florra, por- 

3ue não snccedeo nos de Le3o , e Caftella D. Aílònso filho 
eD. Fernando de Lacerda , e neto de D. AlFonso X. , eos 
occupou seu tio D. Sancho ? Porque nSo herdou o de Por- 
tugal, ou a Sr.* D. Brites, ou algum de seus tios, D.João 
c D. Diniz filhos da Sr.' D. Ignez de Caftro, e succedeo 
nelle o Sr, D. João I. ? Dir-me-hia talvez, que a força , e 
vontade dos Grandes , e Povo , razÒes de Eftado causarão 
essa muiança. Que achando-se dentro do Reino amados de 
todos D. Sancho , e o Sr. D.João I. , prevalecerão aos que 
ellavão fôra : pois essa mesma respeita lhe posso eu dar 
no caso de D. Elvira , e de D. Uiraca. 

Accrescento a ella , que não eftando naquelle tempo 
declarado pela Igreja , que devem reputar-se Icgitimos os 
filhos nascidos na íigura do matrimonio , flue se contrahio 
em boa fé, público, e sem contradição, facilmente repu- 
Tarião aquelles Reinos íllegitima a D. Elvira , para ellcva- 
Tem ao Throno , e suftentarera nelle a D. Urraca , e unin- 
do se efta circumftancia ás outras, que já toquei, não deve 
ter nessa contemplação força o argumento contra a legi- 
timidade da Sr/ D. Teresa , veriticada por fundamentos 
mais subftanciaes. 

D. Urraca , como escreverão alguns AA. , já eftava ca- 
sada comD. AfEbno de Aragão, quando morreo o dito seu 
pai, (i) Outros dizem, que evadindo o Aragonez os Rei- 
nos , os Grandes a obrigarão a casar com elle , para evita- 
rem a guerra, (i) Tal he a incerteza dos factos daquelle 
tempo. Fosse porém de hum, ou de outro modo, ella es- 
tava em Leão , ou Caftella ; os Grandes , e Povo qucriao- 
na Rainha \ as suas forças unidas com as de Aragão, Iia- 
vião ser formidáveis ao pequeno Efiado de D. Elvira , ou 
LI ii de 

CO O. Rodrigo Arcebispo de Toledo Liv. VI. Cap. j^. Flor. Tom, I. 
d» Rainhas Cathol. pag. ajç , e 340. 

(3) Seigança Hiit. de Satiagun Tom. II. pig. {. O mcimo Floicz 
P>g. 340. 



:,GoogIe 



368 IAemorias 

de seu Blho, eatndii a Portugal: 'que muito pois , qu€ fies^ 
tas circumftancias siiccedesse D. Urraca , e nâo D. £lvira , 
como em outro tempo succedèrâo D. Sancho , e o Sr. Rei 
D. João I. ? Não se deixa bem ver a fraqueza defte argu- 
mento , que oppôe Flor. ? Passemos a outro. 

Atacado pelos nossos Hiitoriadores , que sem perde' 
rem de vifta a verdade da hiftoria , se nâo esquecerão do 
nome Portuguez , no reparo de que não havia memoria, 
se intitulassem naHespanna Infantes, ou Rainhas osillegi- 
timos , e que apparecendo muitas escripturas , em que a 
Sr." D. Teresa se intitula , ora Infante , ora Rainha , era 
ifto huma evidente prova da sua legitimidade, responde, 
que até o tempo deElRei D. Fernando II. tal eftilo se não 
praticava , e que até ali indifti neta mente se intitulavâo as- 
sim huns, e outros, (r) Ora sendo efte P. M. tão grande 
descobridor das antiguidades deHespanha, hebem de no- 
tar, que não aponte algum exemplo para prova da respos- 
ta , que dá ao argumento dos nossos Hiftoriadores. Para o 
devermos acreditar , havia produzir alguma escríptura , que 
assim o verificasse. Sem ifto não tem jus ao nosso credi- 
to; porque a sua authoridade só não baila, para nos obri- 
gar a prefta-lo , como já moftrci. O Imperador Juftiniano 
nos diz, que se deve envergonhar, o que falia sem Lei; 
ifto He, sem legitima autlioridade , que prove o qae alle- 
ga. (i) Como pois pertendeo o R.""> Flor. lhe aaeditas- 
semos a sua respofta , sem a provar por algum documen- 
to , quando a contradizem outros muitos ? (3) Em não o 
produzir , nos dá a conhecer , que fantaziou sem fundamen- 
to , e lhe faltarão as armas, para rebater o argumento; fi- 
cando efte com toda a sua força , fazendo nervosa prova 
da legitimidade da mãi ílluftrissima do Fundador da nos- 
sa Monarchia, 

Ahi 

(O Ti.m. I. daa Rainlia? Catliolicas ps?. 107. 

Ò) Auth, CoUat. }, daTiient. tit. f, Consideremus í. ou Novell. iS. 
Cai., s. 

CO Salst. e Cauf. Hist Gensalogic. âi Ci\i de Lara Tom, III. Liv. lá. 
Cap, z. Brand. Monaich. Luslt. Tom. III. Liv. S, Csp. 13. 



vAlOglc 



■ Ahi rtiesitio reputa adulação dos Fortuguezes o titulo 
de Infante, e Rainha, com que se vê condecorada em mui- 
tas escripturas efta Senhora. Eu nSo me posso persuadir , 
que tugissem á sua prespicacia , as que produzío Sandoval 
na vida do Imperador D. Âi&nsoVII., antes quero capaci- 
tar-me, de que se esqueceo da que refere, quando trata da 
Coroado , que se lhe fez na Igreja de Santa Maria de Re* 

{[la , oriae se lê , que entre outros grandes , concorreo áquel- 
e acto D. Affbnso Jordão , filho de D. Ramon , Conde de 
Tolosa , e da Infanta D. Elvira, (i) Efte titulo , que ahi 
se dá á irmã mais velha da Sr.* D. Teresa de pai e mH , 
he dado pelos mesmos Caftelhanos , e não pela aduIaçSo 
Porrugueza. Elle só se dava ás legitimas , (z) e se bem 
Florez o contradiz, não prova o contrario: assim pois se 
ellá persuadindo que esse tratamento, dado sempie á dita 
Sr.'' , náo provinha da adulação dos Fortuguezes ; poisque 
o mesmo davao naquelle tempo osCaAelhanos a sua irmã: 
antes se conclue dani mesmo, que se o Bispo de Oviedo, 
e Chronicon Floriacense as reputarão illegitimas , outros 
1^0 só Fortuguezes , mas também Castelhanos , então me^ 
mo, as contemplavão legitimas naquelle tratamento , que 
lhes davão: e he desprezivel efte argumento de Flor. 

Não he mais nervoso , o que raz fimdado na autho- 
ridade de Fr. Bernardo de Brito : de que as filhas legiti- 
mas, quando assignavão nas escripturas , declaravão pais, e 
mais , e as illegitimas somente os pais : concluindo , que a 
Sr.» D. Tesesa , que só coftumava declarar o pai , se reco- 
nhecia baftarda. (3) Não ha diívida , que Brito assim o 
notou , como lembrança sua , para tirar a mesma illação , 
produzindo hum documento de doação, feita ao Moíleiro 
de Escalonça , em que se vê nomear a dita Sr.* somente a 
seu pai D. AfFonso VI. , quando sua irmã D. Urraca filha da 
Rainha D. Conftança , e sua tia D. Elvira nomeão pai , t 

mãi 

<0 Vida de D. Affonjo VII . Cíp. 8. 

C«) Bfand. Monarch. Luiit Tom. III. Liv. 8. Cap. ia. SaUzir na Cí»- 
5a de Lara Tom. III- U*. iiS. Cip. i. 
CO Tom. I, àu Rsinfias Catliolicas pag. 307. 



izecbvGoOglC 



ãTO Memôriaí " ^ 

tnll. (i) Ora efte sabia Hiftoriador pudera advertir , qoe Bri- 
to nlohe, dos que merecem o maior credito, para não for* 
mar hjm argumento sobre a sua palavra : mas o certo he, 
que algumas vezes a falta de boas anuas faz aproveitar, 
as que se desprezariao em outras occaslôes. 

Eu não quero dizer, que o façanhoso Brito, hábil em 
moldar subscripçòes , que authonzassem a sua opinião, (2) 
ou demaziadainent^ crédulo em adoptar documentos apó- 
crifos, e fabulosos, (3) fingio aquellas assignaturas , ou cr&) 
àc leve em algum papel talso ^ onde as lêo. Se assim o 
dissesse o Direito me abonava. (4^ Ella pôde ser irmSj da 
bue o mesmo Brito pouco antes tinha referido , na qual se 
figura doando Ocia ao Abbade de Lorvão o Sr. Osnde D. 
Henrique e a Sr.* D.Teresa cm o anno de 1076, anno,, 
em que pelas reflexões, que faz o mesmo Flor. , ainda efts 
ascida. (f) Se nclla reflectisse eíte HiAoria- 
lo quizesse fundar o seu argumento na autho- 
Q ; porém nada' difto quero dizer , nem he 

a gratuitamente a verdadde daquelle docu- 

ada prova neíle assumpto i face da doação, 

■andão, (A. de outro caracter) (6) feita por 

de Gatliza á Sé de Coimbra , na qual se vê 

confirmar D. Urraca sua mulher, que he a mesma irmã da 

Sr/ D. Teresa , ( que Brito diz assignada naquella escriptu- 

. ra) 

(i) MonaichU Lujitína Tom. II, Liv- 7.Cap. jo: ígeUrmca Adefiif 
li Sirfaiiiiml Regii , tir CcnHantite Filia Cúb/. Tkertiia Aátfemi Rigit 
fiU» Canfinn. 

(2) O Académico Manoel Pereira di Silva Leal , Noticiai Academícu 
da Hiitor. Portug. Tom. III. Not. i ;. pag. 9;. 

()) Baluiio Tom. I. Cullect. Concil. in aparat. =: Joio Saptilla Pe- 
rei apud Harduinum Tom. I. edilion. Concilior. Fr. Ant. Pag. iii criííc 
annil. Baron. Tom. l\, aD.° 411. an,** 18. = O mesmu Académico 
■iip. es foi. 3i{. 

f4) Tk, in Reg. !. de R. J. tn fi." 

({) Tom. I. dai Rainhjs Citholicai ex pag. aai. 

(6) Menatcb. Lmit. Tom 111. Liv. S. Cap. 7. Egt Rapoãitiltu Dtigfr 
ti» Cernes M Mim Gallteiée Deminiu Cunf. Ege Vtttta Ad*f»iui l»fÀ 
filia Çmtf. 



, D.q.tizecbvGoOglC 



tiE tlTTESATWHA PORVUGUEZA. t^J 

n) nomestião-se somente filha de D- AfFonso VI. Huns taes 
argumentos são incapazes de persuadir os homens sábios , 
pmdent«B , e desabuzados. 

O mais forte , conforme parece no conceito de Flòr ; 
poisque tamo nelle insiAe, he o epitaão , que diz achada 
no Mofteiro de Espinareda , em Bierco , sobre a sepultura 
de D. Ximena Nunes. Elle o exemplou na linguagem Cafte- 
Uiana , e também com os caracteres Góticos, (i) Na ver- 
dade, que quando penso nefte argumento , me faz d^r ba- 
ques -oa cabeça a consideração , de que hum homem tão 
affamado , como o R.'"° P. M. Fr. Henrique Florez , quizes- 
se prorar a sua opinião com hum epitanoj e ainda mais, 
pela quasi puerilidade de figurar , que 3 mesma D. Xime- 
na Nunes he, que nelle falTava. (i) Se bem reconhecen- 
do efte erro o retractou , attribuindo a composição a algum 
dos Monges daquella casa. (3) Mas oh ! quanto não teia 
cegado as paixões, até aos maiores homens! Qua 
zes não tem o timbre de suftentar huma opinião a 
o seu nome , o seu credito , a sua reputação ! 

Os epitáfios nunca fizerão nem devem fazer, 
bons críticos prova segura. Elles sao compoftos , ( 
a fantasia de quem os dieta , e a imagem , que 1 
representa , ou o afiecto , ou o desaffecto : tamber 
mão algumas vezes muitos annos , e ainda séculos depois 
da morte daquelles , que lhe servem de objecto, ideados 
pela authortd.ide de Hiftoriadores crédulos de noticias va- 
gas, ou fabulosas, pouco exactos , ou que não alcançárao 
as luzes da verdade. O que se lê no sepulchro do Sr. Con- 
de D. Henrique na Sé de Braga , foÍ aberto por ordem do 
Arcd)ispo D. Diogo de Sousa em lyi^ , quatro séculos de^ 
pois da sua morte. (4) O da Sr.' D. Brites , mulher do Sr. 
D. Affimso III. , que se vê na sua sepulmra em o Real 
Mofteiro de Alcobaça , ainda se não tinha lavrado em 
1630, 

' (1^ Tom.I. d» Rainha; Catholicaspag. 191. e pag- 199. 
Cí) Dito Tom. paç. 191. 
■ CO No meiLTio Tom pag. aoo. 
(4) BiiadSo lUgnardi., Luiit. .Tom. lII, Liv. i.° Cap. 39. ^ 



\ 



;,Coogle 



tji Memórias ~ f 

1630, quando escrevia Brandão a sua Monarcbia, (comd 
elle confessa ) e se escreveo depois de ires séculos, (i) 

Aindaque nada dtfto acontecesse naquelle epitáfio; 
baftava ser , quem o conipoz , da opinilo , que fiindáráo 
o Bispo de OvÍLdo , e Chronicon Fioriacense , para fnzer 
nelie a D. Ximena Nunes barregã de I). AfFonso VI. E pô- 
de elle servir de prova á mesma , que segue Florez , contra- 
ditada por tantos outros , e pelos princípios , que deixo 
ponderados ? Quantos epitaiios nlo impugna elle mesmo , 
ou por falsos , ou por conterem erro manifefto ? não he el- 
le, o que reconhece menos verdadeiro hum , dos que se 
abrií^o a D. Isabel mulher do sebredito D. AÁbnso VI. em 
Leão , e Sahagun , fazendo-a sepultada em ambos os lu- 
gares ? (1) Não nos diz elle mesmo , qne Samora , e Co- 
Tanibias pertendem eftar alii sepultada D. Sancha irmã de 
D. Àffiinso VII í (3) Nâo confessa , haver muitas ínscripçôes 
apócrifas, duvidosas, ou fingidas? (4) Como pois nos quer 
dar como buma prova decisiva o epitáfio de D. Ximena 
Nunes? Quem não sabe hoje, que o do Sr. Conde D. Henri- 
que labora em erro crasso, reputando-o filho deEIRei de 
Hungria, (y) Que credito merece o de D. Rodrigo ultimo 
Rei aos Godos, que se diz achado em Viseu? Que fé se 
deve dar ao que se escreveo na-sepultura do Infante D. IM- 
niz , na Igreja da Sr.* de Guadalupe , caracterizando-o de 
Rd de Portugal , que nunca foi (6) ? Quem jurará sobre a 
dúvida do que se vê eftampado no Real Moíteiro de Be- 
lém no sepulcro , que alli se fez ao Sr. Rei D. Sebaítião 
mais de cem annos depois da «ua morte , para negar alli 
a exiftencia do corpo daquelle Monharcha ? Se pois sao 
tantos 08 erros dos epitáfios , como deveremos reputar ve^ 

da- 

CO Hift. Geneil. da Ciu. R.eal Ponug. Tom. I. L. I. C l6. pag. 17SÍ 

(s) Tom.I. das Rainhat Catholicai pag. iSi. 

()) No mesmo Tom. pae. a;». 

CÂ) Heipanha Sagrada , Tom. XXIV. pag. j |3. 

(f) Braiid. Mnnarch. Lusit. Tom. III. Liv. 8." Cap; 39, De» Oftiat 
Máxima. Denno HenrUo Vtgartrom Regii Fili» Ptrlagaliie Ctmiti, 

(6") TaUvera , e Fr. Francisco Biandáo referidos por Sousa Hift> C^i 
oealog. da Cua Knl Tom. XII^ Liv. 1 j. Cap, 2. 



DB LlTTERATURA POBTVOUEZA. 173 

dadeiro de D. Ximena Nunes? Longe de nós lanta cre- 
dulidade. A tanto não nos obriga a fé , que devemos a 
hum bom Historiador. 

O que eu penso, e talvez me não enpane, be que o 
seu Author nada tinba de escrupuloso, e lhe faltava a vir- 
tude , qtie quiz suppor em D. Ximena Nunes , quando a fi- 
gurou confessando tâo publicamente a sja má vida. He 
bem provável, que só tinlia aquella que tiverao os Autho- 
rcs, que tão atrevidamente escreverão da Infanta a Sjnho- 
rà D. Branca , filha do Senhor Rei D. AíFonso III. , a quem 
outros convencerão de maldizentes; (l) e a mesma com 
que escreveo Nebrixa da Rainha a Senhora D. Joanna , 
mulher de D. Henrique IV. de Çastella , e irmã do Senhca 
D. Affonso V., a quem vindicárao os nossos Historiado- 
res. (2) Persuado-me que a paixão Castelhana o authorizou 
para decidir por huma ta! prova a questão, que até aqui 
não está averiguada. 

Finalmente, com as authoridades do Arcebispo de To- 
ledo D. Rodrigo, e do Bispo Tudense, que diz alcançá- 
râo o Reinado de D. Affonso IX., corrobora o R.""" Flo- 
res a 'sua opinião , discorrendo , que dando estes Prelados 
o titulo de Rainhas á Senhora D. Thereza , e D. Beren- 
guela , não obstante serem separadas pela mesma causa 
que o foi D. Ximena , e tratando esta de concubina, se 
conclue, que nâo foi esta legitima mulher de D. Affon- 
so VI. , assim como o fbrâo aquelias Senhoras de D. Af- 
fonso IX., nem Rainha como ellas o tinhão sido; pois 
se o fosse, lhe dariâo o mesmo tratamento. (3) Ora este 
argumento ainda tem menos valentia que os antecedentes. 
O Arcebispo Toledano, e o Bispo Tudense escreve- 
rão na fé dos primeiros , que por serem coetâneos , ou 
mais chegados áquelle tempo , reputarão veridicos nos factos • 
Tom. nil. Mm que 



CO o Marcjiiei de IWontebello plana ja. Brandão Monatcli. Lnsit. 
tom. 4 iiv. II cap. aS , e parte &■ iiv, iS cap. }S. 

Cí) Heaeni^e , Góes , e fiiandao ditu cap. aí , que 01 refer«. 
i^O Tomo I. dat Rainhas Catholicas, pag. aij. 



D.q.tizecbvGoOglc 



174 Memorias 

que rcferilo. Não examinarão as raztíes: forfo seguindo o 
que acharão escrito , assim como fízerao os que depois es 
seguíião a elles , sem reilcxão , sem crítica , sem maior 
exame. Os primeiros olhando para a separação , reputarão 
concubina a que nao fora casada conforme as detcrmina- 
çóes da Igreja , c separada por sua ordem ; e alguma descul- 
pa se lhe pôde dar , por nâo ter ainda a me?ma Igreja de- 
clarado est^ ponto : os segundos seguírSo-lhe os passes , e as- 
sim foião caminhando os- mais, todos como mesmo erro. 

Quando porém escreverão aquelles dous Prelados , ji 
estava decidido pelos Santos Padres Alexandre III. cm 1180, 
e Celestino III. em 1273, que nâo era íllegitima a prole 
nascida na figura de matrimonio contrahtão na boa (é, 
não obstante a separação dos Pais j e por conseguinte que 
era mulher legitima , e não concubina a separada , em quan- 
to pela Sentença da Igreja não estava constltuida em n^á 
fê; e seguindo esta decisão, necessariamente havlao de re- 
putar Rainhas áquellas Senhoras, e legítimos a seus filhos, 
por terem sido contrahidos seus casamentos sem contra- 
dicção da Igreja no seu principio, celebrados na sua fa- 
ce , e com boa fé presumida por Direito. O mesmo di- 
riâo de D. Ximena Nunes, se profundassem o facto da 
sua alliança com D. Affonso VI. , e não escrevessem fia- 
dos nas palavras dos Historiadores, que lhes tinhão pre- 
cedido , sem mais reflexão , ou exame. Eís^qui as raz6es 
de diííêrença , que se dâo neste ultimo argumento de Flo- 
res ,'e que elle ou não quiz ver, ou fez qua nâo entendii?. 
Se outros fundamentos mais poderosos da il legitimidade da 
Senhora D. Thereza, Mâi Augustissima do Senhor Rei D. 
Affonso Henriques , se nâo descobrirem , com estes mal se 
sustenta. 

Estas ponderações tem inspirado no meu limitado 
juízo as idéas da sua legitimidade* Se não parecerem bas- 
tantes a persuadirem-na , ao menos devem penetrar os bons 
Portuguezes , para conceituarem , que nâo he tao fiindada a 
illegitímidade que alguns Historiadores lhe tem attribuido, 
que 1^0 possa fazer ponto de erudição o demonstrada. 



D.g.tizecbvGoOglc 



MEMORIA 

Sobre dois antigos Mappas Geográficos ão Infante 
D. Pedro , e do Cartório de Alcobaça. 

PoB António Ribeiro dos Santos; 



Os 



CAPITULO I. 

Noticia dos dois Mappas. 



_/S ESTUDOS da Geografia e da Náutica, tendo come- 
çado de reviver no Século xv. em muitas panes da Eu- 
ropa , não deixarão também de excitar em Portugal a cu- 
riosidade de alguns dos nossos , para se darem aos conhe- 
cimentos destas sciencias , e formarem por elles Catras 
Geográficas e Hydrograficas , ou procurarem have-las dos 
estranhos : desta nossa applicaçáo sdentifica naqudles tem- 

Í)OS, bons testemunhos forao os dois Mappas, de que se 
alia em nossa Historia j hum do Infante D. Pedro , Du- 
que de Coimbra, e Regedor do Reino na menoridade do 
Senhor D. Affonso V., de que dizem se servira seu irmão 
o Infante D. Henrique para seus gloriosos descobrimentos 
maritimos; e outro, que fôra do precioso Cartório de Al- 
cobaça , que veio ás mãos do Infante D. Fernando, filho 
do Senhor Rei D. Alanoèl: e porque elles erão notáveis 
pelas augustas mãos em que estiveráo, e pelas singulares 
.demarcações que nelles vinhâo , do Cabo da Boa Esperan- 
ça , e de tecra do Novo Mundo, antes dos descobrimen- 
tos de Bartholomeo Dias , e de Coiom ; entendemos ser 
matéria curiosa e interessante, para delia se fallar em be- 
neficio de nossa lílstoria , dizendo alguma cousa da suã 
existência e demarcações ;. e removendo, quanto em nós 
está, alguma dúvida, que pôde haver nesta matéria. 

Mm ii O 



:,CoogIe 



17^ Memorias 

O primeiro Mappa , ou Carta. Geográfica , de qae not- 
sa Historia faz mencao , he a que o Infante D. Fedro j 
depois de haver corrido muitas partidas , trouxe a este Rei- 
no, quando se recolheo de suas peregrinações e viagens j 
e communicou a seu irmão o Infante D. Henrique, para 
deste padrão se ajudar em seus descobrimentos ; conjcciu- 
ranios que o Infante o houve dos Venezianos, assim co- 
mo delles recebeo , quando esteve em Veneza , o Livro das 
TÍagens á Ásia do célebre Marco Pauto , ou Polo , que 
havia na Casa do Thesouro da mesma Cidade de Vene* 
za. 

Do presente deste Livro das Viagens , ou fosse' o 
original , ou fosse copia , fez memoria Valentim Fernan- 
des , ainda pouco conhecido entre nós , na Prefação da 
traducfão e edição Portugueza deste mesmo Livro, estam- 
pado em Lisboa em lyoi, de que possue hum raro exem- 
plar a Real Bibtiotheca de Lisboa. Não será inútil lan- 
çar aqui o passo, em que disto falia , que pôde bem 
servir para fazer verosimil a nossa conjectura , e para mo?- 
trar ao mesmo tempo a occasião' opportuna , que podia 
ter o Infante de haver aquelle Mappa. 

»» E no tempo , diz elle , que ho Iniànte dom Pe- 
>» dro de gloriosa memoria , uosso tyo , chegou a Vene- 
** za. E depois das grandes festas e honrras, que lhe fo- 
>» rom feitas pcrfas liberdades , que elles té nestes uossoi 
»» regnofr, como ^or ho elle merecer , lhe offerecerom em 
» grande presente ho liuro de Marco Paulo , que se re- 
»> gesse per elle poys desejaua de ueer e andar poUo niun* 
»» do; do qual Imro dizé, que está na Torre doTomboi 
»» sobre esto ouul dizer nesta nossa Cidade, que he presen- 
»» te liuro hos Venezianos riuerom escon^do muitos an» 
»> nos na Casa do seu thesouro. »* (i) Por esta maneira 

de 



O) Disto fei Umbem memoria Jo^o Baptiita Ramuiio no teu Dir- 
cUDo lobre a primeira, e legunda Carta de Andti Cotiali Flnrtnti- 
nn no tom. i. da ColtccçSu das Navegaçâei* foi. 176 v. da leiccíu 
edição. 



;.CoOgIc 



DE LlTTÈRATU» A PosrUGTJEZA. 277 

de fallar parece , que o Livro que derâo ao Infante fôra 
o mesmo original de Marco Polo; e verosímil he , que 
poF presente a tamanho Príncipe , lhe ofFertasECm o ori- 
ginal , e não a copia : e que cousa mais natural , dando-lhe 
os Venezianos o original ou a copia do Livro das Via- 
gens de Marco Polo , que dar-lhe também ao mesmo tem' 
po alguma Carta marítima notável , qual era aquella , com 
que muito accrescentassem o valor de seu precioso dona- 
tivo ? 

Deste Mappa do Infante nos deixou noticia António 
Galvão, escritor do Século svi. , pessoa de muita curiosi- 
dade, e conhecimento de nossa Historia, e de grande au- 
thorídade e representação entre os nossos, assim por suas 
grandiosas victorias no Oriente , sendo Capitão das Ilhas 
Molucas , e Governador de Ternate ; como por sua mui- 
ta religião e piedade: bem louvado por isso deOstanhe- 
da , de Barros, de Couto, de Lucena , e de outros mui- 
tos , qtie refere o Abbade Barbosa , que justamente o inti- 
tulou líisigtie Capitão , e zeloso Apostolo das Molucas : (i) 
o que tudo são títulos , que affianção o conceito de sua 
intellieencia , e veracidade. 

Este Author faz memoria defte Mappa , i^o em huma 
obra alhêa de seu assumpto, ou em hum lugar fugitivo, 
mas em hum Tratado, em que escrêveo de profissão dos 
descobrimentos dos novos mares , e terras ; para o que vio 
muitos papeis antigos, e houve grande somma de noticias, 
que p6iie adquirir de muitas partes, e acaso de seu avd ' 
Rui Galvão, Secretario do Senhor Rei D. AfFonso V. , e 
de seu pai o Chronista Duarte Galvão: nelle refere como 
o Infante D. Henrique se havia aproveitado deste padrâo. 
A mesma noticia continuou em o Doutor Gaspar Fructuo- 
so, Insulano, escritor do mesm.o Século, nas Saudades da 
Terra , obra manuscripta , em que trata dos descobrimen-, 
tos das Ilhas, de que existe hu^n exemplar na Real Bi- 
bliotheca de Lisboa ; e depois em Manoel de Faria oa 

E 

O) Bibliott). LusíU tom. i. pig. aS4, e tom. 2. pig. 171^ 

u, ■:,;... Google 



278 .Memorias 

Europa Pôrtv^ueza no Tom. II. P. III. Cap. IV. , e no 
Epitem; P. III. Cap. XIV. , e no Padre Comeiro, natural 
das Uhas, na sua Historia Insulana no Liv. IV. Cap. I. 
O segjndo Mappa , de que também fazem menção 
nossos Livros , he o que existio no Carrorío do Real Mos- 
teiro de Alcobaça , tão rico em tempos passados de ma- 
ruscriptos preciosos , quanto depois malfadado pelos des- 
cainlonos que teve de muitos de seus itvros , e papeis. Es- 
te Mappa passou daquelle Archivo, não sabemos porque 
causa, as mãos do Infante D. Fernando, £Iho do Senhor 
Rei D. Manoel , Duque da Guarda e de Trancoso , e 
Marquez de Marialva, que o tinha 00 anno de 1528, e 
dizia-se, que havia então mais de cento e vinte aonos que 
era feito , vindo por conseguinte a entestar pouco mais ou 
menos com os aanos de 1408^ 

T^' '■\iitencia defte Mappa também se não pôde du- 
nsiderada a boa fe e íntelligencia das pessoas 
I neste facto: foi huma delias o mesmo Infao- 
lando, que sobre a auihoridade de sua pessoa, 
3 merece todo o respeito e atten^ao , tinha os 
sábio , e de virtuoso ; porque era , cotro escre- 
homem de muita opinião , muito verdadeiro no 
que tratava^ e f aliava; multo inclinado a letras^ e da- 
m ao estudo das Historias verdadeiras , e iminigo das 
fabulosas^ (i) ou como o sábio Bispo Jeronymo Osó- 
rio o caracteriza : Antiquitate pervestiganda valde curió- 
sus: Cl) e a tal ponto , que despendeo grandes sommas 
de dinheiro em haver ínima rica collecção de livros, e 
manuscriptos , que lhe ajuntou e trouxe de Flandres o sá- 
bio Damião de Góes ; elle vinculava com estes estudos, 
segundo o dito do mesmo Oeorio, mui altas virtudes, di- 
gnas de hum Príncipe : Muhisque virtutibus loco tilo di- 
gnis', (3) e era mui particularmente louvado de animo 

sin- 



(«} D« Reb. g««tii Eininan. Lib. V. 
()) No mcimo Livro V. 



Dni.tizecbvGoOgle 



DE LiTTERATUSA PoRTUGUEZA. 27^ 

sincero, como o apregoa Faria, (i) Este Principe pois 
foi o que vio este Mappa , havido do Cattorio de Alco- 
baça, e o teve env seu poder, e o ir.ostrcu cciro cousa 
notável a Francisco de Sousa Tavares. (2) 

Foi Francisco de Sousa outra testemunha da existetv 
cia daquelle Mappa : era este varão lambem digno de to- 
da a fe, pela qualidade de sua pessoa ; por erudito e sá- 
bio, como mostrâo suas obras; e por huma solida pieda- 
de , que depois de muitos , e espantosos triunfos no Ma- 
labar, o levou para os clauftros religiosos, aonde acabou 
santamente; chamando-Ihe com razão o Abbade Barbosa 
F.xemplar àe proesas militares , e de acções virtuosas. (3) 
Este pois vio aquelle Mappa nas mesmas mios do Infan- 
te , e assim o asseverou como testemunha ocular a Antó- 
nio Galvão. (4) 

Deste ultÍEno Já nós acima dissemos, que homem era; 
e quno digno de re; e este attcsra expressamente de assim 
lho ter ouvido ; confirmando-se a verdade desta asserção 
até com a singularidade de ser o mesmo Tai 
Testamenteiro, o editor da mesma obra dos s 
brimenios , em que se acha esta memoria ; qt 
mesmo vem este testemunho a ser , não já simples 
to d' ouvida de Galvão, mas sim ocular do n 
vares, que publicando aquella obra, e não 1 
ou impugnando aquelle facto , fez sua a alleg 
delle fizera aquelle Author. tyj Esta noticia do Map^á 



CO Eur. Porl. Tom. II P. JV. C 1. (j, 1 ij. 

Ca) Veja-se Atiionio Galvão no T.atadu dos D«$cobriin«nioi p. 32.' 

CO Biblioth. Lusit Tom, II. pa?. Í71. 

C4) No mesmo TratJrto <le Galvão. 

fO Eis-aqui o lugír de GaUSo: « Francisco de Sousa Tavarel 
» me dii^ie , que 110 anuo de jaS o Infante D. Fernando lhe mos- 
yt tríri hum Mappa, que fe afhára no Cartório d'Alcobaqa , que ha- 
» via mais de cento e vime aniioj que era feito , o quai tinha to- 
)) da a navegação da índia , com o Cabo da Boa Eipeiançj , coino 
)i 03 d' agora (do Tiaiado dos Descubiinientos antigos e modernos 
:> pag. az.) * 



;.CoOgIc 



29o M £ H o K f A S 

continuou «n tradição nas obras de Cordeiro , e de Fa- 
ria, (i) 

Ignoramos se estes Mappas erâo origlnaes, ou copias; 
e aonoe forao delineados i e por quem; o que parece be, 
que não erao copia hum do outro , pois que não combi- 
uio entre si em ambas as demarcações; e demais, feita a 
conta , o de Alcobaça existia já em 1408 , e por tanto he 
anterior muitos annos ao do Infante D. Pedro, que só po- 
dia vir com eile a Portugal em 1438 , quando se resti- 
tuio a este K.eino , e teria sido talvez feito muito antes; 
e por isso não podia ter sido copiado do que trouxe o 
Infante : igualmenie nem este po^ia ser copia , que se ti- 
rasse do de Alcobaça , pais que consta que o trouxera o In- 
' fante de fora , tendo-o adquirido em suas peregrinações. (2) 
Suspeitámos em outro tempo , que o Mappamundo 
de Alcoba;a seria o que havia feito o famoso Cosmógra- 
fo Fr. Mauro , Monge Camaldulense do Mosteiro de Sao 
Miguel de Murano junto a Veneza , e lhe fora encomen- 
dado em i45'7 por ordem da nossa Corte, e remettido a 
Lisboa por Estevão Trevizano , ou Tervigiani , que cor- 
rco com as despczas, do que adiante fallaremos; seguin- 
do nisto o dito de Marcos Foscariní , Doge que foi de 
Veneza , na Litíeratura Feaeziana no Livro da Historia 
Forasteira em a nota num. 273 pag. 4Í0, e a M. d'Ause 
de Villoison no Extracto da sua Carta ao Conde Carli, 
tom. II. das Cartas Americ. pag. yzi. Com tudo oMap- 
pa de Fr. Mauro foi remettido em 145'çi , como consta da 
Relação do estado das rendas e despezas daquelle Mostei- 
ro, que he da mão de MaíFei Girara , Abbade, que delle 
foi i (3) por tanto não podia ser o de Alcobaça , porque 

ain- 

(0 Differcin e:!tei doís d« Galváii em fa7eieiii o M^ippa aínda mm 
amigo , porque Cordeiro o púe 1 70 iniiDs intes , isto he , em 1 ) jl ; 
• Faria em 1 jSo. 

(2) Donde le lia He corrigir o pensamento de Cordeiro, que eo- 
tendeo que O Wappa de Alcobíça devii ser topia do outro Ao'l«- 
f.iíte O, l-íJr.», 

(j) Existi ain.lj no Ga-t.rio dai|uella -'^losieiro . Cart. joS. t. ms. 
mini. 32) , tefetido pelo meiíno Foicarini em 1 lobredita nou Dum. 27 (• 



D.q.tizecbvGoOgle 



DE LlTTÍlJt ATURA Po R "TU Q U EZ A. 28r 

ainda que este foi visto cm lyiS , todavia diziá-se feito 
cento e vinte annos aiues, isto he cm 1408, segundo re- 
fere António tialvâo , e assim muito anterior ao de Fr. 
Mauro, salvo se ha engano aa conca da antiguidade do 
de Alcobaça. 



CAPITULO II. 

Demarcações singulares que havia nos dois Mappas. 



O 



Mappa do Infante D. Pedro tinha delineado todo 
o âmbito da Terra, o Cabo da Boa Esperança com a der 
nominação de Fronteira de Africa , e também o Estrei- 
to , que depois se chamou de Magalhães, cora a denomi- 
nação de Cola do Dragão : assim o referem os já citados 
Autliores António Galvão, (i) Gaspar Fructuoso, (2.) o 
P-adre Cordeiro, (3) e Manoel de Faria. (4) 

O segundo Mappa, que fot o que depois leve o In- 
fancs D. Fernando, pertencente ao Cartório de Alcobaça, 
conrinha a navegação da índia, também com o Cabo da 
lio.! Esperança : o que recontão igualmente os mesmos 
quatro Escritores nossos, que fall^rão do primeiro, (y) 

He necessário confessar, que causa espanto a novida- 
de de se acharem entre- nós, "em Iiuma semelhante época, 
Mappas com as demarcações do Cabo da Boa Esperan- 
ça , e do Estreito de Mar^alhães; mas também se deve 
assentar , segundo todo o bom discurso , que com elias 
serem extraordinárias e novas naquella idade , nem por 
Tom. FlII. Nn is- 



<|0 No Tratada dai Dcííobrimtalef ^ Cap. 10. pag. ai. 

(a) Na obia manusctipta SaaJadet da Terra. C na Keú Eibliotlieca 
de Lisboa) 

Cl) Na HUteria Insulana, Liv. IV. Cap. I pag. 97, 

(4) Na E,.ropa P(,rta^u(x.a , Tom. II. Tit. IIÍ. Cap. IV., e no 
Epitome P. Hl. Cap. XIV. . 

^0 ^i" lugates acima citados^ 



Dni.tizc-ccvGoogle 



i8i Memorias 

isso se liâo de haver logo por cousa impossível ou io- 
crivel , menos que iiâo concorra huma ra/.ao sulT.ciente 
e decisiva , que se opponlia inteiramente ao facto : por 
quanto nem se pôde haver por impossível naquelles tem- 
pos , postos os mesmos dados e circumstancias , o que fc 
vio que foi possível em tempos posteriores ; nem se pódc 
liaver por inverosímil, o que, tendo potsibilídade de se fa- 
zer, se acha aitestado por pessoas fidedignas, que se fez. 
Reduz-se pois a questão ou prcblema a saber se 
erão possíveis e verosímeis naquelle tempo as sobreditas 
demarcações daquelíes Mappas ; e no caso que o fossem , 
se a navegação l'ortugueza ficou com isso perdendo algu- 
ma parte da aua originalidade? Seja-nos dado correr Jium 
pouco com a ,penna sobre este assumpto , com a liberda- 
de, que pedem as indagai,"6es liberaes e scieniificas, sem 
a mais leve offensa das opiniões de Jiomens sábios, e irui- 
to mais instruídos do que nós , que se náo ajustem com 
A nossa maneira de pensar; as quaes sempre profunda- 
mente respeitaremos, ainda quando as nao sigamos. 

Como esta matéria he bastante vasta , e merece ser 
tratada com alguma extensão, fallaremos por ora tao so- 
mente no que diz respeito á demarcação do Cabo da Boa 
Esperança , que tem hum nexo roais immediato com a His- 
toria de Portugal. 



CAPITULO IH. 

Va verosimilhança ou veracidade dos dois Mappas pela 
exemplo âe outros semelhantes fora do Reino. 



Ok 



/Ffebece , como dizíamos , razão de duvidar da au- 
tenticidade, ou veracidade deites Mappas a iK>taveI de- 
marca(,ão que se achava nelles do Promontório, que se 
chamou Cabo das Tormentas, e depois da Boa Esfieran- 
Ça f e isto antes dos famosos descobnii;ientos de Bartho- 

io- 



izecbyGoOgle 



DE LlTTERATVRA V OVirV QVEZÁ, iSj 

lomeo Dias , e de Vasco da Gama ; portím não era sómen* 
te nelles cjuc este Cabo estava demarcado : he hoje reco- 
nhecida a existência de outros Mappas e Planisferios , acha- 
dos f-m oiitr.is parles , e antfriores ou coevos com os nos- 
sos, ea elies semelhantes. N(Js os registaremos individual- 
mente , para que a existência e genuidade de huns , faça 
acreditar a" existência , e genuidade dos ontros, e dissipar 
a idéa de singularidade , e toda a estranheza e suspeição 
que delia vinha. São quatro os Mappas ou Planisferios, 
que se podem apresentar para exemplo. 

O primeiro he o Planisfcrio do Venesiano Marin Sa- 
nudo , ou Sanuto , chamado Torselio ( que escrcveo das 
praticas marítimas anteriores ao Século xiv. ) feito pelos 
anfios pouco mais ou menos de 1300, que vem inserto 
no principio da sua"obra intitulada Liber secretorum fi' 
delimn Crucis , que se segue a outra Gesta Dei per Fran- 
cos ^ da Collecçâo de Bongarfio no Tom. I.: nelle se vê 
aqueila ponta , e extremo Promontório de Africa , e a clr- 
cumferencia maritima do Continente peia juncçâo do Mar 
Atlântico com o Mar Indico. 

O segundo monumento he o outro famoso Mappa ,' 
cu Planisfcrio , que se conserva ainda hoje em o Mostei- 
ro de S. Miguel de Murano , da Ordem dos Camaldule^ 
ses, junto a Veneza ; que parece ser de 1380, e se dizia 
ser copia de hum primeiro de Marco Polo. Este Mappa 
he o mesmo, de que falia Joio Baptista Ramusio, Escri- 
tor do Século XVI. , nas suas Declaraçáes sobre os livros 
do mesmo Marco Polo. Eile attcsta , que sendo moço, 
ouvira muitas vezes ao douto Paulo Orlandino de Floren- 
ça , excellente Cosmógrafo , e muito seu amigo , que era 
Prior do Mosteiro de S. Miguel de Murano , contar al- 

fumas cousas singulares de Marco Polo, ouvidas aos seus 
'rades velhos; e entre estas a d'aquelle Mappa antigo, 
delineado em carta de pergaminho , o qual primeiro fora 
de hum antigo converso daquelle Mosteiro , que sobrema- 
neira se deleitava com os estudos da Cosmografia ; e fora 
exactamente copiado de huma bellissima e antiga Carta 
Nn ii ma- 



;X'OogIe 



384 Memorias 

maritima , e de hum Mappamundo , que havido trazia 
de Cathaio os viajantes Marco Polo, e seu pai ; o qual 
sendo confrontado com as cousas que o primeiro destes 
escreveo nos seus livros das Viajens , se achou que com- 
binava em uido com eUas ; e accrescenta , que este Map- 
pa existia ainda em seus dias, e se mostrava aos forastei- 
ros curiosos , entre as muitas outras peças de raridade que 
hiâo ver naquella casa. 

Neste Mappa assevera Ramusio í« que se continhâo 
>í muitas cousas singulares, nao sabidas ainda então, e 
»» pelo menos dos antigos como erao as partes para o 
»» Antartico , que Ptolomeo e todos os outros Cosniogra- 
>i fos faziâo terra incógnita , e sem mar ; e que neste Map- 
>» pa de Mura no , feito havia tantos antios , se via o mar 
>» cercando a Africa-, e que se podia navegar para o poen- 
>» te,,e que no tempo de Marco Polo se sabia já, que 
>» áquelle Cabo se não tinha dado algum nome, qual de- 
>» pois llie derSo os Portuguezes por lyco, chamando-lhe 
»j Cabo da Boa Esperança; e que alii se via perto a Ilha 
»» (k Magastor, ou de S. Lourenço, e a de Zln-zibar. (i) 

Depois do antigo testemunho de Ramusio , assentemos 

aqui 



(O Pomos aqui o lugar oiiglnal de Ramusio , por mou- 
Trs , he fácil de provar -y porque sendo estes os que traziâo 
todas as mercadorias Indianas , e da Costa Oriental de 
Afnca pelo Mar Roxo , e escala de Alexandria , era alli 
que os Venezianos as recebiâo , e procuravao todas as ma- 
neiras de se instruir a respeito dos Paizes d'onde ellas vi- 

nhão; 



CO Biiroi U^cad. i,* Lir. 8. Cap. 4. 
CO Bun» 'bid* 



izecbyGoOglC 



DELiTTEXATURA PoKTUGffEZA. aji 

■dMo ; o que he tanto ,fnais Tero£Ímtl , que nas mãos destes 
Venezianos be que se achárao quasi todos aquelles primei- 
ros Mappas , com demarcações semelhantes ás dos dois Por- 
tuguezes, que provavelmente também de lá vieráo; sendo 
estas tiradas das informaçòes daquelles commerciantes Moit- 
ros , que só lhas podiâo dar do destricto até onde tinháo 
penetrado. 

Para tornar de todo evidente , que as demarcaçíSes des- 
tes Mappas nao podiao passar muito adiante do dito Ca- 
bo das Correntes , o qual se devia então reputar nos confins 
4a Africa, examinemos as inscripções de c^da hum delles, 
e seja o primeiro o do Infante D. Pedro. Tinha este debu- 
arado hum Cabo com a deiiominaçao de Fronteira d^Afri- 
ta\ mas a palavra Fronteira he synonima de limite , e por 
conseguinte não se podia determinar por hum modo mais 
vago os confins de numa Re^âo, doque dando-lhe aquel- 
le nome ; pois tanto se pôde chamar Fronteira d'Africa o 
Cabo da Boa Esperança , como Fronteira da Europa a Cos- 
ta de Portugal e Galliza. { Não parece pois este nome pos- 
to por quem absolutamente ignorava que cousa era o Ca- 
bo de Africa , e traçava, conjccturalmeote a extremidade 
daquellà RegÍ3o? 

No Planisferio de 1380 de Marco Polo vé-se o mar 
cercando a Africa, a cuja extremidade segundo Ramusio, 
ainda se nao tinha posto nome algum; e próxima a esta 
.estava a Ilha de Magastor , e a de Zinzibar. Se pois Ma- 
dagáscar , e Zinzibar estavão perto desta supposta extremi- 
-dade de Africa , he claro que nunca isto se podia enten- 
der do Cabo da Boa Esperança , que dista algumas 40a 
legoas desta Ilha y e cousa de 200 daquella ; mas com mais 
razão se podia referir ao Cabo das Correntes, e suas vizl- 
.nhanças, que com effeito estão próximas, e defronte da 
mesma Ilha de Madagáscar. 

O que Azuni diz a este respeito corrobora a nossa, 
asserção. A ponta da Africa , segundo elle, escava separa- 
da do Continente, em forma de Ilha, pelo grande tio do 
Diabo ■■, e ao Planisferio de, Fr. Mauro também se vê hum 
Oo ii ' Ca- 



:X'OogIe 



Í9» M E M'0 K I A S 

Cabo com o nome de Cabo âe Satanaz, e a Ilha de Ma- 
gastor: o que prova que esta Ilha era a mesma de que, 
falia o douto Italiano, pois ainda se não conheceo outra, 
mais ao Sul daquelles mares. Isto posto, fica obvio o mo- 
tivo da denominação do Rio de Satanaz que a separa do 
Continente , o qual não pôde ser outra cousa senão o Ca- 
nal de Mossambique (bastante estreito na sua embocadih 
ra entre o Cabo de Santo André , e a Costa sua frontei- 
ra) e que pela rapidez das suas aguas, e frequentes desas- 
tres que occasionava dava bastantes motivos para aquelle 
nome , como se pôde ver em Barros Década i.' L. 8. c. 4. 

De quanto até aqui temos dito se colhe, que basta- 
Vâo as noticias da Costa Oriental da Africa para dar no- 
ções, ainda que pouco exactas, do Cabo da Boa Esperan- 
ça, e para este vir demarcado conjecturalmente nas Car- 
tas daquelles tempos : adiantemos agora em nossa carrei- 
ra , e mostremos como a configuração da Africa podia 
lambem vir por noticias, ou raciocínios fundados nas via* 
jens dos Europeos ao longo da sua Costa Occidental. 

Com eíFeito achamos que pelos mares da Costa Oc- 
cidental , nos últimos tempos anteriores ás nossas empr^ 
zas, navegarão os Guipuzcoanos e Biscainhos, nó Reinado 
de Henrique III. de Castella , c descobrirão em o anno 
de 1393 as Ilhas Canárias, que parece forão as Fortuna- 
tas dos Antigos, e as primeiras que se acharão fóra das 
Columnas de Hercules; e que o Biscainho Alonso de Mu- 
gica cm companhia de Pedro, óu Miguel Andaluz, ou So 
riano, acabou a sua conquista, (i) Achamos também que 
os I^vos que sahírao do centro da Norwegia, ou Scahdi- 
navía , e que se estabelecerão na Normandia, e principal- 
mente em Dieppa , ou Dieppe (fazendo mais de hum século 
antes de nós viajens sobre as costas de Hcspanha , e ou- 
tras maiores que as dos mais Povos marítimos) passarão era 
1346 a costear, pelo Mar Atlântico, huma parte do Con- 
tinente Occidental da Africa , até chegarem, na opinião de 
. Huet , 

CO Iico.1'0 nas Amiguiííaáet de Caittahia , c Ozaeia na ■Cantábria 
Vindiíuta pag. J9, 

DniUizecbvGoOgle 



DE LlTTES ATVRA Po* TUatTEZ A. l^J 

-Huet e de Mariíro, a fazer estabelecimentos em Guiné, 
dando nomes Francezes a alguns de seus lugarej. (i) 

Se pois estas navegações dos Dieppezes se extendérâo 
até á Costa de Guiné, o que nos nâo parece improvável, 
bem havião de saber quanto naquella altura se retralie a 
Costa Occidental de África ; e estas noticias juntas com 
as outras de que falíamos precedentemente, oevião fazer 
conhecer quasi com evidencia , que os dois lados daqueila 
Península , aproztmando^c na sua direcção cada vez mais 
hum do outro, havião necessariamente vir a encontrar-se , 
formando aquelle grande Cabo. 

He talvez por estes , ou outros semelhantes motivos 

Sue Fero da Covilham na carta que escreveo ao Sr. Rei 
>. Jc^o II. náo achava impraticável a circumtiavegaçáo 
da Africa ; assim que entre as informações que lhe diri- 
gia accrescentava u que se poderia bem navegar pela sua 
«> Costa e mares de Guiné , vindo demandar a Costa de 
» C^oíàla , em que elle também fora , ou huma grande Ilha 
9y a que os Mouros chamao a Ilha da Lua , que dizimo 
>* que tinha trezentas legoas de costa , e que de cada hu- 
» ma destas terras se poderia tomar a Costa de Cali- 
»» cut. » (i) 

Mas certamente não erao necessárias tantas evidencias 
aos Geógrafos do xiv. e xv. Século ; outras maiores luzes 
tinhão sem dúvida as do Àvi. e xvii. , e a pezar disso 
-grande parte dos seus Mappas he hypotetica , e mesmo 
ideal. Ã Califórnia tem fígurado humas vezes de Ilha , ou- 
tras 

. C") Huet na Hhluria do Cem. r Naveg. Mutillo Geogw. pag. liz. Pôde 
]cr-9e sobre isto Mr. de Ftancheville na HiiUria de Campenhla' dai Jn- 
diai , impreisa eiri Paris em l7)St c iia Diísertação ein que falia da 
Navegação de Tarscis nci Tom> XVlI. das Memerlai 4» Asadtmlú dat 
Bellai Lttras de Berlim dn aiino de 17Ú1 , e Coutt de Gibelim 00 
Mandí Primitiva Tem. VHF. ait. í. 

Ca) Francisco Alvares na Hiil. Jb Preite , e Castanheda. Deve nn. 
tai-ie que Pedro daCovIlliain nâo conhecia ouira terra alím de Qo- 
i'ila , e de hlada^ascar ^Htia da Lua) ; pnr isso aconselhando poi alli 
a paisagem para a índia .mostra que julgava perto o Cabo da Boa 
Esperança: o que coníiiiNa a nusia opinião. 



DniUizecbvGoOgle 



294 Memorias 

outras de Peniasula j e muito tempo se reputou que a Ccstft 
da America terminava pouco acima daquella latitude, até 
que os descobrimentos ao Capliâo Cook a estenderão pelo 
menos aos 72 gráos ; as terras Austraes apparecét^o e desap- 
parecéiâo das Cartas Geográficas; o Estrejto de Anian foi 
demarcado em ' diversos lugares > e sempre hipoteticamen- 
te até aos nossos dias : em ãm tie necessário nâo ter co- 
nhecimento algum da Geografia antiga, para desconhecei 
quanto as suas demarcações erâo ideaes. (i) 

Para remate deste Capitulo faremos huma reflexão , que 
no9 parece própria para acclarar o que nelle deixamos escrito. 
O Infante D. Henrique , perito nas Sciencias Mathematicas 
e Coimograficas , presidindo a huma assembléa de doutos, 
juntos em Sagres para promover o progresso destes estudos, 
ft ria sua prática em a navegaçáo , meditando tudo o que 

j^ntigos ttnhâo escrito a este respeito; náo era pessoa 
se deixasse seduzir sem alguns motivos , e que tentas- 

mma empreza tão despendiosa e arriscada, e isso com 

aliinco , sem ter huma quasi certeza do seu feliz resul- 
I ; e nada lhe podia dar este conhecimento senão as ra- 

1 e authoridades que deixamos ponderadas , as quaes 
±it.[Ío huma espécie de tradição, que não se achando es- 
crita em os Livros , só poderião vir ao seu conhecimento 
pelos modos que acabamos de indicar. 

CA- 
CO Cou» lemelhante lembrou já > João Rinaldo Conde Carti ■ 
lespeito dal demircaçãei dii ulltmat Ilhas do Occeano para at Coi- 
ta» da AmerJcfl t que indicavSo alguma) Cartai e Roteíroi que le 
raziáo em Veneza not Seculoi kiv. e nv.; porque lhe occorteo quB 
dtaj te tetllo feito , nSo por conhecimento! teaes do local , mas sim 
■obre ai tradrçdet doi intigni Heiperidei. (^ Carias Amerie. Tom. li.- 
Carta s; pag. 49.) Por ttaiemios á lembrança hum exemplo ou facto. ' 
antigo , que outra couta forSo icnSo traçot conjecturaei algumat d» 
poiiçâei de terras , que te achão not Mappat de Ptolomeo ? não ten- 
do elle (ou quem os ajuntou i lua Obra, ou a emendou) para as 
demarcaçfiei dai terras que nunca vto, mais do que merai conjectu- 
ras, ideadai talvez sobre vagas e incertai tradições ou noticias; sen- 
do este hum doi motivos dos muitos erros que os modernos Coi* 
magrafos lhes tem notado, « paitÍGulaiiii:me o notio JUathematuo 
' Peio tfuaei. 



;.CoogIe 



DE LlTTERATUBA PORTUGUEZA. 



a^S- 



CAPITULO V. 

Resolução de duas Objecções contra a existência e ve- 
racidade destes Mapfas. 



De 



/ErEMOS ainda occupar-nos de dois reparos príncípaes ^ 
<|ue se podem levantar em geral contra a existência e ve< 
racidade dos dois Mappas , que até aaui havemos susteit- 
tado ; isto he dois argumentos , não já intrínsecos c tira- 
dos das qualidades das mesmas demarcações delles , mas 
extrínsecos , deduzidos da maneira com que se houve o In- 
fante D. Henrique na sua expedição, como se os não co- 
nhecesse, e do silencio dos nossos Historiadores da índia 
a este respeito, do que agora fallaremos. 

Primeiramente pôde dizer-se , que o Infante D. Hen- 
rique, a existirem semelhantes Mappas (e príncipaln 
o de D. Pedro seu irmáo , que nao deixaria de Ihf 
.communicado ) tomaria desde que elle appareceo n 
ardor e actividade no proseguimento do seu projecto 
que até então havia tido ; e que isto porém foi muir 
revez, porque se observa , rastejando a historia da pro 
Eo das viajens que se seguirão, que eiao ainda tímida» - 
acanhadas as ordens e instrucçães , que elle dava dalli em 
diante para a continuação das expedições , e passagem do 
Cabo Bojador; e que atnda depois deste vencido, se gas- 
tou cousa de mais de oito annos para se descobrir a Cos- ' 
ta, que está entre este Cabo, e o Cabo Branco. 

' Bm verdade houve alguns periodos ou intervallos , 
em que se trabalhou com menos energia no proseguimen- 
to daquellas expedições ; mas a causa não foi certamente' 
a ignorância daquelles Mappas, nem falta que tivesse o 
Infante de noticias , que o excitassem a maior esforço ; 
outros forâo os verdadeiros motivos, que assaz constao de 
nossa Historia. 

E quanto ao atrazamento que houve em vencer, e 

mon? 



;X'OogIe 



2^6 Mehoriáí 

tar o Cabo Bojador, a causa principal foi o receio que 08 
mareantes Já tinhao herdado dos passados, sobre os po^ 
rigos e difHculdades , que então se considerarão na sua pas- 
sagem, que nenhum a ousava corametter ; porque como 
este Cabo , pelo dizer com os termas de Jc^o de Barros , , 
»> começa de incurvar a tara de mui longe , e ao respecto 
7í da Costa , que atraz tinhão descuberta , lança , e boja pe- 
>» ra aloeste perto de quarenta legoas (donde deste mui- 
» to bojar lhe chamarão Bojador); era para elles cousa 
» mui nova apartar-se do rumo que levavão , e seguir 
>t outro pêra aloeste de tantas legoas. Principalmente por- 
» que no rosto do Cabo achavão huma restinga , que lan* 
>f cava pêra o mesmo rumo d'aloeste, pbra de seis le- 
» goas : onde por razão das agoas , que alli correm oaquel- 
>i le espaço, o baixo as move de mandra, que parecem 
» saltar e ferver : a vista das quaes era a todos tao teme* 
» rosa, que não ousavão de conunetter; e mais quando 
» vJão o baixo. O qual temor cegava a todos , pêra não 
» entenderem que afastando-se do Cabo o espaço de seis 
» legoas, que occupava o baixo, podião passar alem : por- 
» que como erâo costumados as navega ^oens, que então 
» iazião de Levante a Ponente, levando sempre a Costa na 
>» mão por rumo d'agulha: não sabião cortar tão largo, 
y* que salvassem o espaço da restinga , somente com a vista 
M do ferver destas aguas e baixo que achavão , concebião 
f» que o mar d'ali em diante era todo aparcellado. »» (i) 

Em consequência daquelle temor , havia nos primeiros 
tempos dilficuldade em achar pessoas hábeis e animosas 
para commetterem a execução daquella empreza. t< Era , 
» (diz Barros) tão assentado o temor desta passagem no 
» coração de todos , ,por herdarem esta opinilo de seus 
» avós, quécom multo trabalho achava o In&nte quem 
>» nisso o quizesse servir. »» (a) 

Ainda houve outra causa de estorvo, que foi a dos 



CO l>e«H, i.* Liv. I. Cap. II. 
C*) Dacad. I.* Liv. I. Cap. IV. 



Dni.tizecbvCoOgle 



DB LlTTERATVSÃ PoS T TTGUEZ A. 2^7 
negócios interiores do Reino , e dos «ternos das guerras 
de Africa; causa que aponta o mesmo Barros em cerai. 
» Todo estava posto (diz elle) na esperança , que The o 
>» esprito prometia, se proseguisse naqiteIJa empresa: da 
.»» qual alguas vezes desistia , porque os negócios do Rey- 
» no , e as passagens que fez aos lugares de Â&ica , o 
*> empediam a tiao levar o Ho deste descobrimento tam 
»» continuado, como elle desejava. >» (i) . 

Do retardamento da navegação por causa das pertur- 
bações interiores do R.eÍRO na menoridade do Senhor Rei 
D. Aãbnso V. falia em particular Pedro deMaris. «D^s- 
>f te anno (diz elle) que he o de 14^4 depois de se ha- 
» ver passado o Cabo Bojador, e já 30 legoas alem del- 
» le, ate o de 1439 não se fez cousa notável neste desco- 
>* brimento ; porque o Infante o não mandava proseguir, 
yr como dezejava , pelas differenças e alterardes, que no 
s» Reino então havia, sobre a tutoria do Príncipe D. Af- 
w fonso, como adiante mais largo contarei: mas tanto 
» que os negócios derão lugar, e no anno do Snr. mil e 
» quatrocentos e quarenta e hum, mandou o Infante hum 
a» navio , &c. '» (2) 

- Outra causa bem sabida, que desalentou algum tan- 
to a actividade de tão uteís expedi0es, de que Talião os. 
nossos Historiadores, foJ a murmuração e reprovação que 
cntão" se fazia delias. O Infante teve de combater , já os 
emules de seu merecimento , que davão ou por chimerica , 
ou por temerária aquella empreza ; já os falsos raciocí- 
nios e timida prudência dos máos políticos, que a havíáo 
por superior á força natural do homem, e ao estado des- 
te Reino. Elle tinha de vencer ainda mais a imbecilidade 
do povo , sempre em extremos , e muitas vezes cego , que 
desabonava tamanhos esforços edespezas, para levar os 
braços do Reino, e acabarem nos naufrágios do mar, ou 
Tom. yiIL Pp.. irem 

Cl) Díc. I.» Liv. [. Cap. II. 

Ò) Maris DiaUgei di Voria Histeria Dial. IV. O mesmo nftlou o 
RÍoderns Ejchcot da Vida do Infante, Lív. 111, pag. iijõ e 197. 



:,CoogIe 



2tí8 Memorias 

irem occupar paizes bárbaros, estéreis e sem proveito; Cr 
que tildo era capaz de afrouxar no Infante a grandeza e 
fortaleza de seu peito animoso , e de o fazer parar por 
algum tempo nas suas tentativas. 

Sobre isto pôde Icr-se João de Barros: nds só pore- 
mos aqui huma parte do que elle escreveo, que biiste pa» 
Ta confírmar o que temos dito. « Com o descobrimento 
»» (diz elle) destas duas Ilhas (Porto Santo, e Madeira) 
» começou o Infante a se esforçar mais em seu principal 
». intento, que era descobrir a terra de Guiné, por aver já 
» doze annos que trabalhava nisso contra parecer de muí- 
n tos; sem achar algum sinal pêra satisfacçâo daquelles, 
>» que avião este negocio por cousa sem frucio , e mui po- 
» ngpso 3 todolos, que andavâo nesta carreira.*) (i) 

Deixamos de trazer em consideração as difiículdades 
das immensas despezas, que era necessário fazer em seme- 
lhantes expedições , para que nem sempre haverião promptos 
meios e recursos: a estreiteza de huma Arte nascente, qual 
endo era a de navegar, curta e acanhada nos seus pri- 
meiros progressos, como o forâo todas as Artes; e aes- 
provida ainda de grandes soccorros para as suas operações, 
e manobras: es temporaes, que com força de ventos con- 
trários sakavão com os mareantes, e de mares tão gros- 
SOS e alevantados, que quasi lhes comiao os navios, ain- 
da ent|o pequenos, ou os arredaváo da Cosra,,ou os fa» 
zião retroceder e voltar : tudo isto bem claro está , qite 
nâo podia deixar de retardar os passos daquella navegação, 

« Estas pois e outras raz6es »» diilo-hemos em somma 
com as palavras de Maris <( que o medo e carrancas de 
„ empresa tao nova imprimia nos corações dos h<mens,^ 
„ e as dilações e impossibilidades, (^ue doze annes havia, 
„ cada dia sobrevinnáo, trazião o Infante em notável des> 

con- 

CO I>«. I.'Liv. 1. Cap. IV. no pfincip. Deve ler-so todo este Ca- 
pitulo, ein que vem largamente o conceito , e arrezoado , <juií faiiSo 
os qae murmuraváo do projecto do Infame. Sobre o que também se 
pAAe Ur dos modenins Cândido Lusitano a» Vida d» Infante D. Hc»- 
TÍ^ae t Lir, II. pag. iS) 8cc. 



:,GoogIc 



DE LlTTEBATUIl A PõBTtTGUEZA. 299 

„ coflfUnça de si. Todas estas difSculdades (coníiDÚa elle) 
„ mosrráráo i magestadc desre descobrimento , permittindo 
„ Dãos que tambcm passá^^se pela Lei , que ordinaríamen- 
„ te guarda nas grandes coisas; dando-ine princípios mui 
„ trabalhosos, e de grande admiração. E parece ser isto 
„ tanto assim , que nem a authoridadc . . . (dos antigos) 
,, nstn rodas as mais informações, que o Infante tomava 
„ em Africa , e as conjecturas e consideraçdcs mathema- 
„ ticas em que totalmente se occupava , llre derao tanta 
„ ousadia e confiança , que podesse passar por tantos in' 
„ convenientes e resistências, como sempre de novo acha- 
„ va. »» (i) Nos mesmos pensamentos estava João de iJaiv 
ros , a quem seguio Maris , quando sobre tamanha em- 
preza lançou esta sentença: «(E assi permitiio (Deos) que 
„ este descobrimento, pela magestade delle, passasse pela " 
„ Lei que tem as grandes cousas ; as auaes , quando se 
„ q'jerem mostraf a nòs , tem huns princípios trabalhosos, 
„ e casos nâo pensados, »» (2) 

Eis-aqui pois as causas verdadeiras do atrazamento 
nas expedições do Infante , que não podia facilmente re- 
mover sem embargo da suâ actividacfe , e das idéas e co- 
nhecimentos que elle tinha da.s Costas de Africa, e da 
possibilidade da sua circumtiavegaçâo ; ou pela lição dos 
antigos Gregos e Romanos, ou pela demarcação doMap- 
pa do Infante seu irmão., e talvez do de Alcobaça; ou 
por outras mais noticias que houve de diversas partes. 

Resta agrande labedii- 
tia que tem nestas mater us : com o qu« ella muito se mclboiou 1 ^ 
se fex maí) digna de appirecer ao Público, 



Dni.tizecbvGoOgle 



ENSAIO 

Sobre os Descobrimentos, e Comktercio dos Portuguezes 
em as Terras Setentrionaes âa America, (i) 



FoK SebastiXo Francisco de Mendo Trigozo. 



Xlii 



liM quanto os Portuguezes, no Reinado do Sr. Rei IX 
Manoel, affrontavão as tormentas do Cabo da Boa Espe* 
rança; reconheciâo, e pela primeira vez circum-navegavâo 
toda a Costa d'ÀfrÍca j c se empegavão no grande golfo 
da índia; espalhando pelo Mundo, com a gloria dos seus 
descobrimentos navaes, a noticia do novo caminho quê ti- 
nhâo aberto para o Oriente ; em quanto , desde o Tejo 
até ao Indo, íjuasi todos os Povos se tinhSo feito tributá- 
rios da Coroa Portugueza , e as outras Nações Europeas 
eráo obrigadas a vir ao porto de Lisboa prover-se das nos- 
sas especiarias , e applaudir com inveja os nossos triun- 
fos: outros ijavegadores também Portuguezes, nio conten- 
tes com seguir os vestígios de seus contemporâneos, in- 
tentárâo iíuma empresa igualmente nova e atrevida ; a qual 
talvez por não ter tido num êxito tão feliz como a pri- 
meira , mereceo pouco a attençao dos antigos, e foi de- 
pois deixada cm esquecimento pelos modernos , que quize- 
ráo attribuir ás suas Naçâes descobrimentos , que propria- 
mente nos pertencem: objecto que em parte conseguirão 
facilmente , por ter havido pouco quem revendique estes 
trofeos de nossos Maiores. 

E na vírdade, se alguns Escritores tem forcejado por 
desapossar-nos da originalidade daquelles descobnmentos , 

Tom. mu. Qg a 



CO ^^'c Ensaio foi lido tia Sesilo pi^blica da Academia do anno 
de iHl I , e pur isjo não se llie òía a extensão, que o assumpto pa- 
recia talvez exigir. Escâ inconveniente ticou de alguma niaaeiía sup- 
prido pelas nocas, que depot» te lhe a)unuráD. 



D.g.tizeçbvGoOglc 



^o6 Memorias 

a favor da qual temos o voto unanime de authoridaáes 
coevas, (l) e que pelo espaço de trezentas annos se at- 
tribuípao quasi constantemente aos Portuguezes (O que suc- 
cederá quando as provas e documentos em n. sso abono 
são em pequeno numero, e pouco conhecidas? Neste caso 
hum silencio , mais fatal que as dúvidas da critica , será 
o fructo dos nossos trabalhos ; e este destino , por ceno 
não merecido, estava reservado aos no;sos Corterreaes, que 
corriâo os mares do Norte, quasi ao mesmo tempo que 
Vasco da Gama navegava -pelos do Sul, e buscavão huma 
passagem ás índias pelo Polo Artico , quando realmente 
se eflfeituava outra pelo Cabo da Boa Esperança. 

Tal era o grande fim a que se propunhão estes na- 
vegadores, n' huma época em que as terns Setentriíwiaes 
da America erao quasi absolutamente desconhecidas aos 
Europeos : verdade he que , se dermos credito a alguns 
Authores , já pelos annos de 827 ou talvez antes , se acha- 
va povoada de Christãos parte da Groenlândia (2) ; cod- 



CO Eíte testemunho doi contempotaneoi h« a prova mais irtefn- 
gavel da originalidade da nos^a navegação á toda da Africa. Embola 
ot antigos tivessem reconhecido huina maior nii menor potçSo d« ma 
Costa Oriental e Occidental , nSo ha hum só documento authentí- 
CO por onde conste claramente que dubtasiem o Cabo da Boa Espe* 
rança, nem mesmo que conhecessem exactamente a sua posição. 
Tem-s« com tudo pettendido exiender as antigas viagens marilinial 
■ latitudes onde provavelmente não chegátSo , aproveitando para isso 
O) termos ambíguos em que alguns Périplos estão escritos; mas a!- 
itim mesmo he iinponivel extendellas lanto , que clieguem dquelle 
Promontório. Nesta falta de escritos, recorreo se a Mappas aniigi», 
modeinamente descobcTto* , a tomárão-se traços conjecturacs e inívi- 
mes , poT desenhos exactamente determinados , em que apparecião o 
Cabo da Boa Esperança , e Estreito de MagalhSes , &c. , muito an- 
tes de ninguém os ter observado. O nosio erudito Sócio o Sr. An- 
tónio Ribeiro dos Santos acaba de tefuiar por hum modo victorioM 
os argumentos em que estes suppostos críticos se tem fundado. 
. C*) Huma antiga Chronica Gtoenlandeia , escrita em versos Dína- 
inarquezes pelo Paftor Cláudio Chriítopheríen , nu Liscander , dí O 
detcnbrlmento da Groenlândia em 770: além disso, existe hum Bre- 
ve de Gregório IV, , diri^iilo a Anscario , Arcebispo de HamburgOi 
e teu Legado pus ai Na^Set Setentiioi»et , e MeiidioDiet i cu o 



:,GoogIe 



deLitterattifa PonfrotrEZA. 307 
tlío elles que hum certo de Torvval Senhor NorwegJano, 
tendo-se acolhido á Islândia por causa de hum crime que 
commetêra na sua Pátria , deíjcára hum filho chamado Éri- 
co , o qual navegando por aquelles mares , avistou o Cabo 
de Heriolf , reconheceo a Costa do Sudoeste, e invernou 
em huma Ilha junto á Abra a que pôz o nome de Heric- 
sun i : o anno seguinte foi ainda empregado em descobrir 
maior porção de terreno , que achou todo deshabitado ; e 
ten.lo no terceiro voltado outra vez a Islândia, tal foi a ' 
descripçSo que fez da nova terra, que attrahio a si hu- 
ma grande quantidade de povoadores , que para lá partírao 
em vinte e cinco embarcações, (i) 

O antigo Autfíbr da Chronica de Islândia , Snorro 
Sturlesson , que escrevia em iiiy , referio estes successos (2) ; 
e Thorlacio Torfíeus , Historiógrafo da Dinamarca , nao 
somente o segue, mas traz a serie chronologica de dezase- 
te Bispos, o ultimo dos quaes foi sagrado em 1408, sem 
que com tudo haja provas de que elle tivesse seguido o 
seu destino, (3) pois parece indubitável segundo Eggcde, 
que em 1406 he que acabarão as noticias daquella Cúlunia. 

Desde este tempo não se ouvia mais fsllar na Groen- 
lândia^ os gellos tinhão submergido o lado Oriental da 
Costa, onde ainda hoje se descobrem maiores minas, e - 
que parece seria o mais povoado, pela razão de ser o mais 
próximo á Metrópole: além disso 03 Povos bárbaros, vin- 
Qg ii dos 

qual te noinea Grcnlãaáca entre ai pTÍmeirai : como potám aquelle 
rime signifique Terra verde , t conste i^ue foi piíitu a Piiiies divet- 
soi ài actua] Groenlândia , pôde entrar em dtWida qual era propria- 
nienie aquellc, a que o Papa »e refere. 

CO Veja-sc eiitie outros David Crani Historia da Greenlandia Nu- 
remberg 1783 Seíiiáo 4. , c a DeterípfSa c UUteria natural ia Graealait' 
dit por Eggede Cap. a. 

(3) Eíit; Clitoni!ta, a quem| te^ue Arngim Jonai , cTorfcus, pa« 
çstes descobrimento! no anno rfe 98a, 

CO Tinfocus ].\i% Ãniigaidadei Islantieas , dii que ainda era 1(J| O 
Bispo íufragan,eo áe RoíchilH se intitulava Bispo da Groenlândia ; 
mai nem por isto se deve pensar, que ella nesse lempo continuas- 
te I 9'^r ainda conhecida. Veja-se La f eiíete Relação- da Groenlân- 
dia I impresiainat Vi0gini a» Ntrlt, 



:,C~.oogIe 



3o8 Memorias 

dos do intírior, tinhâo destruído aquellas habitações, e 
os seus moradores; e isto por tal soite (cousa que pare- 
cerá incrível) que os mesmos Dinamarquezes firarao tão 
ignorantes a respeito daquelle estabelecimento , como cres- 
to da Europa. 

Era ja passado hum Século depois que as terras. Se- 
tentrionaes tínháo esquecido, quando os dois Venezianos 
Nicoláo , e António Zeno, abordarão novamente a ellas : 
he porém tão informe a relação desta Viagem , que neia 
se pôde fazer conceito dos paizes que reconhecerão, nem 
da veracidade do que nella se refere (j) : o que porém he 
certo, he que o fnicto de todos estes estabelecimentos e 
tentativas foi perfeitamente nullo, checando-se a perder té 
a memoria do que se havia trabalhacfo. Nunca se suspei- 
tou neste tempo que a Groenlândia fizesse parte do Con- 
tinente da America; não se descobrio, que se saiba, ou- 
tro nenhum território, senão aquelle na sua Costa Seten- 
trional , e Meridional ; e nunca veio à lembrança que se 
podesse effeituar huma passagem ás índias por aquelte la- 
do: o airazamento da Náutica , e da Cosmografia não per- 
mittia ainda Formar grandes projectos maritimos: o acaso 
conduzio os primeiros descobridores , e o desejo de viver em 
hum terreno mais productivo atrahio os primeiros ccJo^ 
nos; nada mais se tentou, nem mesmo se imaginou que 
era possível tentar : esta gloria estava reservada á Nação 

Por- 



Cl") A primeira Relação desta Viagem foi escrit» dois Séculos de- 
poii , por hum certo Nicoijo , parente dos Zenos , e impressa em Ve- 
neza ein tjjS: o seu titulo he Ralciiunt delh iteprlmtnlc dtW lie!t 
Frhianda , Iilanda , EngravtUand , EstotUonàa , tt Iceiia , faHo ptr éae 
Traitlli Zeni. Conta n Author , que António Zenn coinpoiera a Hii- 
toiia das suas naveE;açóei , a qual lendo-se comeivado por muitos 
«nnos na sua fainilia, fofa depois lançada ao fogo pelo dito NIcolioi. 
lendo ainda criança;' e por isso só de alguns papeis avulsos > e da. 
tradição que se conservava , he que podeta tirar aquellas lUetnoriít. 
Tiraboschi Sleria dilla LitUrotara Italiana Tom. V. Uv. i. Cap. !• 
crittcaesta Relação, talvez com mais acrimoria do que ella merece, 
huma vez que dímoi credito ao que deixámos dito sobro o ptimei- 
10 descobrimento t e povoaçSo da blandiai « Groenlândia. 



deLitteba^ura Portvgueza. 309 
Portugiíeza , guiada pelos Cortcrreaes , e antecipadamente 
instruída pelas luzes da E&ccla de Sagres. 

O primeiro navegador deste nome í^ue figurou na sce- 
na foi joâo Vaz Correrreal , Fidalgo da Casa do Sr. In- 
fante D.Fernando, e seu Porteiro mór i o qual accompa- 
nhado dej Álvaro Martins Homem (segundo testefica o Pa- 
dre Cordeiro na sua Hist, Insulana ) navegou os mares 
do Norte por ordem do Sr. Rei D. AfFonso V., e desco- 
brio a terra do Bacalháo. Não refere o eirado Author o an- 
no deste accontecimento; conta porém que os dois compa- 
nheiros , na sua volta da Terra nova , abordái^o á ilha 
Terceira , e achando vaga a sua Capitania pela morte de 
Jacome de Bruges , se recolherão no Reino, e a pedMo 
i Infanta Dona Brires, %'iuva do Infante D. Fernando, e 
tutora de seu filho o Duque D. Diogo. Attendeo esta Se- 
nhora aquella súpplica , e querendo recompensar os servi- 
dos destes dois Capitães , mandou repartir o terreno, dan- 
do 3 cada hum o governo da sua metade: a Carta desta 
mercê feita a Joâo Vaz , he datada da Cidade de Evor^ 
aos ^ de Abril de 1464, e por isso se pôde inferir que 
o anno deste descobrimento foi quando muito o antece- 
dente de 1462. (i) 

Sem embarco desta antiguidade, não achamos docu- 
mento por onde nos conste, que se desse mais passo al- 
gum a este respeito até ao fim do Século xv. Parece que 
os trabalhos daquellcs mares est^vâo reservados para a fa- 
mília dos Corterreaes , e não sabemos que nem no nosso 
Paiz, nem nos estrangeiros houvesse alguém que tornasse 
a navegaltos, até Gaspar Conerreal, filho do sobredito João 
Vaz, que se abalançou a huma empreza ainda mais ár- 
dua. 



CO Cumpie noUr o aiiachronismo de Herrera Década I. Liv. i.' 
Cap. {, quando refere, que liuiii dos motivos porque Coiom se per- 
iiiadia dii existência de novai terrat ■ «ra a viagem dos dois Cor-' 
Itrteae!. Como Colmiib fez a 5ua primeira expedição em 149a , ha 
(laro , que as ídéas que podia ter a respeito dí Terra neva , só p'<lião 
MC tiradas deste ptimeiío descobrimento de Joáo Vaz Coituteal*. 



;X'OogIe 



310 M B M o B I A S 

dua , qual era além de reconhecer de novo aquellas Coi- 
tas, e -Icscribrir por -lias liuma passagem á InfiÍ.i. 

D?\'emcis porém confessar , que qiiasi pelos mesmos 
tempos appareceo omro navegador Gcnovez de origem, 
que t;ndo i, segundo aíHrmâo) as mesmas idéas, foi co,a 
tudo mais tardo cm as pòr por obra. Era seu nome Se- 
bastião Cabotto; já seu pai , em cuja companhia viera para 
Inglaterra , se tinha ofFerecido a Henrique VIL para ir ao 
descobrimento dos mares do Norte, e tinha obtido esta li- 
cença , como consta das suas Cartas Patentes datadas de 
1496 (l) : a morte porém o impedio de levar adiante es- 
te projecto. Ficando só Sebastião Cabotto , e herdando com 
o sancTie aquelles mesmos desejos , contratou com alguns 
!s Inglezes para o ajudarem na empreza , que em 
1 a efFeituar-se , sem que se saiba exacta mente o 
m as particularidades que lhe acontecerão, poi 
Escritores coevos que no-las transmittissem. 
Martyr d'Anghirra, (2) que estava em Hespa- 
io Cabotto alli foi ter depois da morte de Hen- 
rique V 11. , e que o conheceo e tratou , não marca a época 
desta sua prlmcíja viagem, (3) porém Ramusio referin- 
do hnma c mvcrsação , que tinha tido com hum GentiJ- 
homem Mantuano, que conhecera Cabotto em Sevilha, 
■diz (4) que ella fora emprchendida em o verão de 1496 j 
e eis-aqui o testemunho mais antigo e authentico em que se 

fun- 



il) Hakljyi tunsjieve este Dipluina na parle j. da sua Collec- 
çSo: pódeie também ver em oi Aeui Publiem de Ryiner, vol. 11. 
pás- 59i. 

(1) Veja se e»te patio de Pedto Martyr em o terceiro volume da 
Collecçáo d<i Ramusio , ou no Ntviu Orbls de Grinrn. 
' CO 1^'g'* primeira viagem, pnrque siibie esta lie que of Escrito- 
rei diveriificáo , chegando alguns . como os Kedactorei da HUterlê 
Geral dai Viagtni ( Tom. XLV. pig. 27S ) a .duvidar delia . e a fi- 
xar Ih: a época de tf 16. A segunila viagem de Cabotio foi feita ç.it 
Orilem de Carloí V. em ifaó a (iin de descobrir melhor o Paraguay. 
Vide Herrera Uacada III. pag. jj^. 

(4) Rjmusio Tom. I. Díicodo mpra vríi vlag^i fer U qaaii »«• 
ttate eaadiltt fino a ttmpi nattri U tpttitvie , dcc. 



:.C~.opgIe 



DE I. ITTEBATUFA PoRTtJGUEZA. Jll 
fundão OS Authores que assim o escreverão. Porém ^ como 
he provável, que ter,do-se expedido as Cartas Patentes na- 
queíle anno; devendo-se seguir a ellas , e não fazerem-se 
antecipadamente, os preparativos para huma viagem que 
podia íer muito extensa, em que hiâo varias en-.barcaçCes, 
e etn que interessavâo diversos Negociantes, se aprontasse 
tudo cora tão extraordinária brevidade ? ^ Que delonga nao 
devia causar a doença c morte de João Cabotto, princi- 
pal movei daquella expedição, e os novos ajustes em que 
foi obrigado a entrar seu filho? Por certo parecerá incrí- 
vel, que tudo se arranjasse dentro de dois ou de três mezes. 
Se porém estas razôes não mostrão convincentemente, 
que a navegação de Cabotto he posterior á de Gaspar 
Corterreal , tornar-se-Iia isto indubitável quando se re- 
flectir, que sendo o testemunho de Ramusio o único, ou 
para melhor dizer o mai$ authentico, pelo qual se lhe tixa 
aquelle anno; he este mesmo Ramusio o que nos assegu- 
ra (como logo veremos) não já pelo que ouvio , mas pelo 
?[ue conchiio depois de todas as averiguações qui 
azer, que Gaspar Corterreal fora o primeiro que 
pôr por obra a grande idéa de abrir hum caminh» 
a índia , a travéz dos gelos do Polo Artíco. 

Os três principaes Historiadores Portuguezes , c 
Ião desta expedição, Galvão, (i) Góes, (2) e Oso 
fazem o Capitão delia muito da privança do Sr. 1 
Manoel , já desde o tempo era que era Cuque de Beja. 
Criado pois na casa daquelle grande Príncipe , plenamen- 
te instruído das suas idéas e vastos conhecimentos , muni- 
do das instrucçôes que seu pai lhe pedia communicar me- 
lhor do que ninguém, até a altura cia Terra fiova , dota- 
do de hum animo capaz de superar as dificuldades e tra- 
balhos, foi-lhe fácil alcançar para a sua empreza huma 
hccnça , que se fez tanto mais graciosa , que o mesmo 
Monarca quiz tomar pwtte nella , concorrendo com n.ri- 
taS das despezas necessárias. Era 

(i) Antão Galvão, Tr/tlarfo drs DtScrbnm/ntB, anllifd c motl"-n,-i. 

Cl) Damião de Goe» , arooiVa de ElRei D. Af<in«/ Vaite I. Ca;., ti. 
Ci) Jeiunyino Osoiio Dt rtbin Emanutlu Liv. 1. 



D.q.tizecbvCoOgle 



312 Memorias 

Em a primavera do anno de lyoo desaferrarão do 
porto de Lisboa as duas embarcações , que para isto se ti- 
nhâo apparelKado, pois ainda que Galvão affirme que par- 
tírâo da Ilha Terceira, parece que isto se não deve enten- 
der senão pela demora, que ali tiverao em quanto refres- 
cavâo, tomavão alguma gente, e Gaspar Corterreal dizia 
o ultimo adeos d sua família , parte da qual se achava es- 
tabelecida naquella Ilha ; daaui seguindo huma derrota , 
. em parte huma só vez trilhaaa , em parte totalmeme noTa 
para os navegadores Portuguezes, abordáiâo a huma Cos- 
ta situada para o Norte , a que pozerão o nome de Terra 
verde, O mesmo Galvão marca (ainda que com pouca exacti- 
dão) a posição delia em 5*0 grãos, e os outros dois, prin- 
cipalmente Góes, descrevem as qualidades do Paiz, e al- 
guns usos dos seus habitadores. 

Deixemos porém estas authoridades , que além de di- 
minutas , podem por nacionaes ser talvez arguidas de par- 
cialidade j e comprovemos a precedência da Navegaifão . 
Portugueza naquelles mares, e o decidido intento com que | 
foi efteituada , por meio de outras, recorrendo para maior 
evidencia, entre os Estrangeiros, áquelles a quem parece i 
que melhor competiria esta gloria; já se conhece que fal- ' 
lo dos Venezianos. 1 

Esta Republica , dada por sua natureza e posição ao I 
trafico mercantil , e que em consequência disto sempre bus* 
cou relações em os Paizes de Commercio, não podia dei- j 
•lar de ter em Portugal , que neste tempo era o Empório 
deite, pessoas capazes de a instruir miúda e exactamente 1 
de quanto se passava: n^o he pois de admirar que ali se ' 
soubesse tanto das nossas cousas , e que os Escritores V^ 1 
nezianos publicassem tantos documentos que nos dizem rei- ] 
peito. Ora em a primeira Coilecção de Viagens , que se 
conhiTceo na Europa, dada em Vicenza por Francazano 
Montaboldo em IS07 , (l) apparece huma Carta de Pe- 
dro 



3 anna i 



Ssu Collecção he dj piiineiii raiiilaile: tem por titula ^x"- 
e pit*ii noua-neate rilrevai ia Mbtriea Vdpjiio Flortn!Íot. Em 
teguince de noÍ foi Uaduiída em LMiin pai Madrignano com 



DB LlTTfeSATWHA Po«í' va ITBZ A. 5IJ 

dro Pascoal, Embaixador da Republica na nossa Corte, 
Q seus irmãos em Itália , com a data de 29 de Outubro de 
lyoi , na qual se refere a navegação de Corterreal, segun- 
do as informações que elle mesmo dera depois da sua vol- 
ta. Sabe-se por este testemunho , que tendo empregado 
quasi hum anno na dita viajem , descobrira hum Conti- 
nente entre o Oe?te e Noroeste, até então desconhecido 
ao resto do Mundo; que correra a sua costa Oriental na 
extensão de Soo milhas ; que , segundo conjecturas , esta 
terra ficava próxima a huma Região, a que n' outro tem- 
po linhão abordado os Venezianos , quasi em o Polo Se- 
tentrional i e que nao podéra levar mais adiante as suas 
tentativas , por causa dos grandes montes de gelo que 
obstruiãò o mar , e das neves que caliiâo do Ceo. Conta 
inais, que Corterreal trouxera em os seus navios clncoenta 
e sete indigenas ; gaba multo a terra pelas madeiras que 
produz, por cerem as suas Costas extremamente piscosas, 
«os homens que a habitão próprios, pela sua indole e ro- 
bustez, para todo o género de trabalhos, (i) 

Tom, niL . Rr Ajun- 



O titulo de lUiterariam Ptrlagalmtiui» e Latit»nia Íit íaJiam ,\et init 
in Occiienum , tt itmaia ia Ãi^mhaim'. fárma hum per,ueníi voluma 
in foi. Sobre enat obraa •'podem ver-te Tirahouhl , Tom. VII. V. u 
P^. x}S j e Ctmut , ÍAumire lur U Ctllettitn 4t$ graittii ti ptlilt vpyo* 

(O , , , . Vt igllur nova «nni pneuntis ialtlligalh :■ itlMt híe 
titt tam Irlrtmtm , yuxoi lapiriore ênua V.ix Pciliigttlite Strtmiti- 
mui tipedivtrat versai A^iiHanem , pr^fctt Gatpar* CtTttrate , i]m 
mtt rtfirt conlineatem invtitliit , Jiltnnlcia aJ M. éua mlli» inltr 
Citruin , (/ Pavmiam^ , hatttnai ttta ytnt trhi tacumptrlam ttrram: 
• *ajai lalui eíimt ai Mil. prtpe íoo pfcurriíie : nee tamtn finti rtm- 
ftrtta til tfuiipiam, lieo creduat teatinrnltm mn Iniulam tilt ff 
gia , ^ate videtar ene teajuncla cuidam plngct , atiai a neiíril ptragra- 
tte ijnaii lab iftío tepleniriene. Ef iiiijue cehx tamen , mn pírvtnit 
•& Cêngtlaliiiu Egaar , et iagrueniet cxla nivti. Argament* sant Itt 
^amaa qaJt ab iilit imalibui dtrivantar , fuad viéelicet ibi magn» 
vil niviuii existal : argawt prapttrea Iniulam nau peite tal ftamíM 
tmiltere : ajitnt pr^Urea leiram ute tximie taltam : Domei lubtaat 
Upitai , quei eeaperiunt. ptlliiai ae earUi pistium. Hiie adduxtrunt 
viril Jiplcm itxat atrun^ut. Ia ethtt vfri altera / juam fMitals- 



,,,,:.C,OOg\Q 



■314 M E -M O B I A S 

Ajuntaremos a este outro testemunho tirado de Ra- 
musio, cuja exactidão e saber nestas matérias he bem re- 
conhecido por todos , e iranscreveremcs hum lugar extrahí- 
do do seu Discurso sohre a terra firme das Ilhas Orien- 
taes. <( Na parte do Mundo novo (diz elle) que^decor- 
>» re para o Nor-norueste , defronte do nosso Continente 
>» habitável da Europa, navegarão alguns Capitães , o pri- 
»» melro dos quaes ( quanto se pode saber ) foi Gaspar 

» Cor- 



mur in heras , advehantar "jO rjal rtginnii ineolie r Aí , ti prtteri- 
$iilein ecrporii , li eehrem , li bahitudintm , 11 haèilum e^petlei , 
cinganti nen lunl ebiimilti : ptlUbiii piíclam veitinntar-el lulroium : 
<r eirum imprimii ga^ inilar vutpium piUomt habent ftllii. Eiiqat 
utiMIur biemt pille ad cernes verse iil nei , ad teitete ritu tert' 
trorie : ncqae eai eenlitant , aal conclnnant qaovis mede ; veram nti 
ftrt ipia belaa , le medo ataatur. Eii armes et brachia pneciput 
ttgaitl : ingaiaa vtro fane ligant maltipliei , e^n/eele ix fistium ner» 
vil, Vidtnlur prapíerta ■ illvtiírtt hemiaei , aen timt tamen invere- 
tundl , et eorpera habtnl habilhiime ; si bra^hia li armes , li cturm 
reipexerii , ait lymeiriam saat eránip. Fatie iiigmate ti-iupangunl , in> 
urunt^iit mtii maltijugit irtitar Jaderam , lex vel etto itigmatibuf 
preat libaertt : kaae merem lele veluptai medereiur, Lcguaríor goi- 
dem , led houd intelliguntur ■. Heil 'adllhili fiiennt^firé emnlum Imgua- 
iTim interpretes. Eorum plag» taret prerstii .fírre., glatiei tamen ha- 
bent , itd ex oeaminati lapide-, 1 , pari mede, cvipidaat legilas , ^tiit 
neitrli íunt aeaminatiores. Nutri inde att*il*rant eniii tanfrecti par^ 
tem inauratam , fu^ Itália rilu vidtbatur fabricota. Quídem pner 
iilie daei orbes argenteei ouribus apptnies eircamferehat , fui haud 
duiie Ctelali mert neitre viíebetiir t^laturam Venetem in primii pne 
« ftrinles : ifutbai rebas noa di^euller oáucimur tunliaeiíteia eiie ff 
tini //tiam XiUulam : i/aia li ee nav*i eliijuiinde upplicuissenl , de nt 
tamgertl aliquid habiiiiiemas. Pistibai stetet rtgie , Selmenibui vide» 
ticel et haletibai , et id gtaus cetnplaribui. Silves hebtitt emnifa- 
ria , periade ai emni Ugneram gtnere nbuadet- regia ; prapterta im- 
vei fabritaniar , aattnai , et males , treastra , et reliijaa , ^ne perli- 
neot ed nauigia : eb id hte Ktx ntiter inslilail inde multam emelameit' 
ti summtre , tum eb ligna fregaentía , pliiribai rebui n»n iaefla Z 
tom vfl aiaxime eb hemiaum genui labtribui assuetiim : ^uibas ael 
varia eis uli qiiibit ; quandeqaidem hi vir! nafi lant ad lobeni, Saai^ue 
mtliara maneipia ifOf uaqaem viderim, Viirim est prepterea tien f'r* 
eb amlcitia nestra deuium , si h^e ves nem celorem. Vbi vere elim 
ctlax , ifUis expetttttw iq ditt aduentrit í mtx etiaraia riram eertútes 
ilM.rãUant, ,., t ^ ' . 



D.q.tizecbvGoOgle 



DE LiTTERAtdif A PòRTlTGUEZA. Jlf 

» Corterreal Portugiiez de NaçSo (i), que no anno de 
» ijcx) abordou ali com duas caravellas , pensando que 
" descobriria algum estreito de mar, donde por viajem 
>» mais curta , do que o nâo he ir á roda d'Africa , po- 
j» desse passar ás lihas das especiarias. Tanto navegarão 
» por aquelles mares, até chegar a huma paragem onde 
í> navia grandíssimos frios, e em 6o gráos de latitude 
>» acharão hum Rio carregado de geloj a que pozerão o 
V nome de Rio nevado. Faltou-lhe porem o animo de 
" passar mais adiante. Toda a Costa , que decorre do Rh 
»» nevado , até o Perto das Malvas (2J que está em yó 
" gráos , e forma o espa^"o de duzentas legoas , a vÍo el- 
» Te mui povoada , e sahindo em terra , tomou alguns dos 
" naturaes que trouxe comsigo : descobrio também muitas 
>• Ilhas todas' habitadas , a cada huma, das quaes poz o 
» s.'u nome»».,. Logo teremos occasiao de ver que Ilhas 
forão estas. 

Pela confrontação dos differentes passos que copia- 
mos, he fácil conhecer-se, que a principal terra descober- 
ta por Corterreal foi a que actualmente se chama de La- 
vrador 1 home Portuguez que indica bem a qualidade ca- 
racterística dos seus habitadores , e a qual está próxima á 
Groenlândia ou Stotinlandia -^ que segundo já vimos foi re- 
conhecida anteriormente pelos Genovezes , ao que Pedro 
Pascjaí allude na sua Carta. (3) Se porém este facto ne- 
Rr íi ces- 



CO Não he muito que Ramuiia jião tivesse noticia da viajeiti de 
Joãn Vai , (]iie como dissemos ficou esquecida ; e de que nada se 
escteveo ou publitou até aaueUe tempo. 

CO Ha erro manif«to na cinta de grio. (;ue dá Ramiisio , poíj 
nesta altur:t esta o Cabo dt Hnrç» , coffio logo veremos ; e o Poríê 
im Malvoi deverá ser mais setenitiònal. Nío iios foi porém possi- 
»el ver IWappa algum era que ellc »iesse maieíido ; e he reilmenfe 
tintavel , que sendo Portugal hum dos Paiies onde primeiro se cons- 
truirão Carta; Geogrilficas , esteja actualmente em iiuiiíà tal mirlgoa 
deite subsidio , que ácclarsnfl tanto a Historia dos nòsíõs descubti- 
mentos marítimos > e a da Gíogralia em g^ral. 

CO PerteníemlOs lio potíc» aptdetar-ni« ffa gloria, que não per-» 
tence á nossa Nação , que quizemos citar expteisiltieme esta atlfKo- 



..C~,oog[e 



^i& M eTh o » r a 9 

ccssita ainda de outras provas para ficar compleiatnente 
demonstrado , nós as acharemos em huma serie de Map- 
pas , que se construirão desde aquelles tempos , até ao prin- 
cipio do Século passado. 

Seja o primeiro delles , o que accompanha huma antt- 

Sa edição de Ptolomeo, publicada em Roma em lyoS , 
e que iá em outra occasiao falíamos^ (i) o qual dá á 
Terra ae Lavrador o nome de (.orte-realis y e aponta as 
Ilhas chamadas dos Demotihs, pela perseguiçlo , dizelle, 
que 6zerâo aos navios quando ali abordarão. 

Sebastião de Munster em a sua Corcgraphia , impres- 
sa a primeira vez em Basiléa em 1544 , dá i mesma Ter- 
ra nova o nome de Coríerati; e o célebre Abrahao Or- 
tclio (i) nâo somente chama á Terra de Lavrador , Corte 
real, mas também aponta o Rio nevado, (5) a Bahia ãa- 
Serra junto i embocadura do Estreito, hoje chamado de 
Hudson ; e nota quasi no meio delle hum Rio com o no- 
me de Riê da tormenta , a que se segue outra Bahia cha- 
mada das Medas. Ainda porém que todos estes nomes 
sejâo Portuguezes, fahâo-nos dados sufficientes para poder- 
mos decidir se com efFeito foi Gaspar Corterreal , o que 
lhos primeiro dêo , e se chegou a entrar na bahia de 
Hudson ; ou se os nossos Nacionaes , que logo veremos 
seguirem as suas pisadas , lhos pozeráo posteriormente. 

Nâo corre porém a mesma dúvida a respeito do Rio 
S. Lourenço ; ainda que nâo houvessem outros testema- 
Jihos, bastaria o raciocínio para fazer-nos ver, que logo 
nesta primeira viajem elle deveria ser examinado : já sabe- 
mos 

lidade, talvez a mais intima, e authentica de quantas se tem tnen- 
digado a favor dos detcnbrimenms dos Zenos na Groenlândia. 

(1) Veja-se o nosso Appendix is Cartas de Américo Vespusio: 
nas KetUiai p«ra a HUtoría e Geagrefit iai IfagSti VltramariBai. Tom. 
11. pag. li 4' 

(a) Vide TheatramOrbuTtrrarum , impresso em Anvers. em ISTI- 
Õ) Abrabam Ortelio põem no seu Mappa o Ria ntvaáa em 6] 
gráos , e já na Costa da Ejtotitandia , o que piovavelmente fui en- 
gano do Abridor , poif oj outioi Gcogiafoi do seu Umpo o assignáo 
todos em. (Co grdot. 



Dni.tizecbvGoOgle 



JJE LiTTERÃTVRA PoíTU G VEZ A". 317 
mos, que o principal interno dos navegadores era desco- 
brir imnia passagem para as Índias, ç prdia naturalniente 
. presuirir-se , que aqiTelle Rio , de hun-a grande largura na 
sua fos, era algum braço de mar, por onde se conseguis- 
se o desejado fim. 

Independente porém desta razão, as informações que 
Ramusio obteve a este respeito são decisivas, (i) Descre- 
vendo clle as principaes paragens daquella Costa, diz que 
pra diante do Caho do Gado, que está em 54 gráos, cor- 
re ella duzentas legoas para Poente , até hum grande Rio 
cliamado S. Lourenço , que alguns tem por hum braço de 
mar, e pelo Qual acima navegarão os Portuguezes o espa- 
ço de multas legoas. 

O termo desta navegação deveria pois, segundo pa- 
rece, ser aqiiclle em que se desenganassem, que o suppos- 
to Estreito era hum Rio caudaloso. Ora o nome Cana- 
dá dado, actualmente ao Paiz daquclia margem esquerda, 
foi posto por muitos Geógrafos a huma Povoação, que fi- 
ca em 310 gráos , no confluente do Segue» a i ; e este no- 
me, segundo a maior parte dos Authores, provêm de que 
quando Jacques Carthier ali abordou cm 153^, achou a 
noticia de que os nossos o tinhão precedido, porém que 
não achando as minas de oiro que procurav^o , se tinhão 
resolvido a voltar para traz , dizendo repetidas vezes = 
Cd nada^=^ palavras que ficarão gravadas na memoria dos 
Selvagens, e que estes repetirão á vista dos Francezes quan- 
do ali chegarão. (2) O noir.e ficou subsistindo, mas con- 
fundÍo-£e a intenção com que as palavras tinhâo sido di- 
.tas^ attribuindo-se ás minas, diligencias, quesótinhão por 

íim 



(i) Em o j.° volume dá Collecçáo de Rair.usio, impiesso em isfij ; 
donde he tirado este pas^o , vem hum Mappa , no qual a terna do Xú-' 
vrtitr trai desenhadas ai Reaes Armas Portuguezas. Deve notar-ge 
que Bertio nas suas Taboas Gto^rtfieai , filiando do Rio S. Louren- 
ço, dil : Et hie fiiivhil elliu fretam íriíim Fralrwn vecatar. Nome qUe 
talvez ailuda ás tentativas , e indagações que neile se fizerSo por par- 
te dos tres Irniíoi Corterreaes , como logo veremos. 

(a) Entiehfeiia Mttbviiea Firt. Ceoft. Ait. Cattaiá. 



Dni.tizecbvCoOgle 



3iS Memorias 

fim achar a comtnuni cação do Mar da índia com o Ocea- 
no , e que se reconhecerão baldadas naquella paragem , re- 
solvendo-se por isso os Navegadores a não a tentar mais 
por aquell',' lado. 

Fica já dito , qge nesta viajem descobrira Corterreal 
ínuitas Ilhas , «.{Ue achara povoadas , e a que dera no- 
mes Portuguezes, Ramusio que assim o escreve, p6e no seu 
Mappa a Ilha dos Bacalbdoí quasi pegada com a Terra 
de Corterreal ^ a da Boa vista , e outra a que chama Mon- 
te de Trigo. No citado Mappa de Onulio vem em 43 
grãos a Iloa redonda , em 47 a Ilha da Área , em 57 a 
dos Cysnes; e finalmente a numa pequena Ilhota, que fica 
ra embocadura do Estreito de Hudson , pôe o nome de 
Caramila; o que faz crer que com etFeito também os Por- 
tuguezes ali chegarão ; pois aquella dijnominaçao Íie ma- 
nifestamente corrompida da palavra caramek^ 

ia talvez prolixo se fizesse hum mais extenso cata- 
1 authoridades , que abonão a prioridade da navega- 
rugusza nos mares do Norte; mas não passarei em 
o que a este respeito diz o celebre Pinckerton cm 
lodcrno Tratado de Geografia , (i) aonde citando 
:igo Mappa , que presentemente eiiste no Museo 
D , confessa que grande parte da Costa , que actual- 
mente se conhece com o nome de New soutb Wales , fora 
descoberta pelos Portuguezes ou Hespanhoes. Em huma No- 
ta ao citado lugar accrescenta Pinckerton , que hum excei- 
lente e hoje bem conhecido Geógrafo , Mr. de Ia Rochelle 
íhe affirmára; que os ditos nomes não só erão Portugue- 
zes , mas que os Navegadores desta Nação tinhão sido in- 
dubitavelmente os primeiros, que havião descoberto aquel- 
las paragens,' Participa também o Geógrafo Inglez , que 
Mr. Planta, primeiro Bibliotecário do Museo Britânico, 
lhe communieára huns Mappas manuscritos feitos em i^^z 
por João R.otz , nos quaes tanto a Terra de Lavrador , co- 
mo 

Ci) Pincketton. Gtts^»fh, Toai. 11, p». 46S da Ediç&o de Londiu 
de iSoa, 

Dni.tizeccvGoOgle ' 



DE LlTTEBATTIUA PoBTUGUEZA.' gi^ 

mo a Terra nova vem descritas com muitos nomes Portu- 
giiezes ; o que tudo lhe faz crer que esres e os Hespanhoes , 
no ireio do enrhiisiasmo das viagens de Magslhíies, e Ga- 
ma, descobrirão miiiros outros Paizes, que ao dej-oís fica- 
rão em esquecimento. Larguemos porém já esre assumpto , 
"^ e passemos a ver o que/succedeo a Gaspar Corterreal , que 
deixamos em Lisboa «e volta da sua primeira viajem. 

Occupado sempre dos mesmos projectos , persuadido 
da communicaçâo dos dois mares, e por conseguinte da 
possibilidade de achar o novo caminlio para a índia; co- 
nhecendo por outro lado as utilidades, que á Coroa e aoa 
Vassallos Portuguezes podiâo rcíuliar do commerclo das 
terras que descobrira, e anibícíCFO sobre tudo da gloria 
que o esperava , se fosse mais feliz em outra navegação; 
não perdia elle o tempo ociosamente na Corte, antes pelo 
contrario , sendo-lhe facil fazer de novo entrar ElRei em 
os ?eiis projectos, não tardou cm prios em execução, 
ly de Maio do mesmo anno de lyoi , estando já ] 
com outro navio mais , se fez á vela do Porto d 
boa, (i) deixando os seus compatriotas anciosos, e 
rançados em Imma melhor ventura. A viajem , segun 
firmão os nossos Authores , foi muito prospera até < 
4 Terra verde % quando porém já estava sobre aquell; 
ta, por tal forma se esgarrpu da sua conserva , que esta 
depois de o ter procurado debalde |.,or algum lempo, 
determinou fazer-se na volta do Reino , trazendo por úni- 
co 



(O A ípoca desla segunda «lajein de Gaspar Coiterreal poderia 
parecer coiitrover<a , eombiiiandoa cm i> testemunho do Eitibaixa» 
dor de Veneza. He certo que António Galvão indica, e Góes fixa 
positivaiiieiite i> dia e niez , que acima apontamos; e ainda c]ue pare- 
ça estranho que Pedro Pascoal cícrevendo a seus irm5oí em 19 ds 
Outubro daquelle anno , e referindo a piin^eira viajem em qtie tan- 
lo inteteíse mostrava , n3(i lhe? participe nada da segimda > e itata 
de Corterreal como He hum homem presente , pArte-sc com tudo di- 
zer com toda a probabilidade , que houve erro na data da dita Car- 
ta , e que em vei de Novembro sa deveti lei talv» Maiço , u >^uq 
concilia tudo. 



izecbyGoOglC 



310 M E M o n f A * 

CO fructo das suas &digas a notícia de lium t^o triste ae- 
contecímcnt . 

Miguel Corterreal , Porteiro mór do Senhor Rei D. 
Manoel , vendo-se por este successo privado de hum Ir- 
mão que amava ternamente, nao teve animo para coofiar 
de ninguém a diligencia de o procurar i porém aprontan- 
do immediaramence três embarcações, desfraldou clle mes- 
mo as velas do Tejo em lo de Maio de i5"02, guiado 
por huma esperança , que os seus desejos lhe tingião como 
certa. «Chegado (diz António Galvão) áquella Costa j co 
9» mo virão muitas bocas de rios e abras , entrou cada 
>» hum pela sua , com regimento de que se ajuntassem to- 
>» dos ate 20 dias do Mez de Agosto. Os dois Navios 
>» assim o fizerâo , e vendo que não vinh 1 Miguel Corterreal 
»f no prazo, nem depois algum tempo, se tornarão a este 
í» Reyno , sem nunca mais delle se saber nova , nem ou* 
5» tra memoria, senão chamar-se esta terra dos ■Cortcrreaes 
5» ainda agora. Perdendo assim (continua Osório) o nome 
M de Terra verde, que de principio lhe tinha sido posto.» 
Quando os Navios' trouierão a Lisboa a noticia des- 
te segundo naufrágio, restava ainda outro Corterreal, por 
nome Vasco Kanes , Vedor da Casa do Senhor Rei D. 
Manoel, e do seu Concelho; (i) o qual sem mais de- 
mora intentou partir em procura dos perdidos Irmãos , vis- 
to não ter certeza alguma da sua morte, antes pelo con- 
trario alguns indicieis , pelos quaes a reputava duvidosa ; fo- 
lão porém baldadas todas as diligencias , e empenhos para 
conseguir o seu intento: EIRei que já tinha a lamentar a 
perda de dois criados , e dois amigos , quiz ao menos con- 
servar o terceiro; por isso resistindo c»;m firmeza a todas 
as siipplicas que lhe fazia para ir pessoalmente , foi facií 



(1) Era Capiíáo e (joveni^dor da! III11) áa S. Jorge, e Tercei- 
ra , e Alcaide mór de Tavira ; deíxnu lium fillin por notns Manoel 
Corterreal , que succedea em n« emf>re;of He leu Pai , e rivli no 
tempo de Damião de Góes. Pôde ver-sè sobre eita faii/ilia o i^oí'- 
liarit do D. António Caetano de Lima, Tom. lli tit. CoiWttKS, 
c > Hiitpria liiulana , 6tç, 



izecbyGoOglC 



DE LiTTEBATVB A Po* 1* V G tJEZ A. Jll 
em ordenar qiie se aprontassem , e fizessem i vela variós 
navios, que também voltarão sem nova alguma daquelies 
navegadores. 

A pesar de semelhantes desastres não ficarão estas 
viajens sendo totalmente infriictiferas ; os exames e averi- 
guações, que se Ezerão por todos aqui^lles portos, abras, 
rios, e illias , derao hum pleno conhecimento destas para- 
gens. Os lucros que Portugal podia tirar das pescarias da- 
quelles mares, forao examinados e calculados; e as 70 le- 
goas da Costa, entre o Cabo Razo í^hoje Cabo de Raz) 
e o da Boa vista , marcadas como o lugar mais próprio 
para eU.is se fazerem com a maior vantagem. 

Aveiro era n^ste tempo huma das Povoações maríti- 
mas de Portugal , proporcionalmente mais rica em gente, 
commercio , e industria j senhora de huma barra magnifi- 
ca pelo seu fundo , extensão , e segurança ; e de muitas e 
grandes marinhas ; sahiSo todos os annos do seu Porto 
grande numero de embarcaçtíes, que proviao de sal as Pro- 
víncias da Beira, Miniio, e Traz os Montes, muitas das 
nossas Ilhas , e os portos de Galliza , deposito geral don- 
de depois se exportava para outras partes. Além do sal , 
a Agricultura de seus extensos campos, e a pescaria de 
seus mares faziâo outros dois ramos importantes de huma 
industria , em que se empregavão os moradores de 25-00 fi> 
gos , de que então se compunha a sua população. Neste 
estado florescente he que ali chegou a noticia dos desco- 
brimentos dos Corterreaes ; e logo alguns Negociantes , tan- 
to daquella Villa, como de Vianna , então igualmente opu- 
lenta e Industriosa , determinarão aproveiíar-se de circunstan* 
cias , que lhes abrião huma nova fonte de riquezas , e erão 
capazes de fazer sobir o seu commercio a hum ponto in- 
calculável. Este projecto foi concebido , e executado quasí 
ao mesmo tempo : para maior segurança delle, estes pri- 
meiros emprehendedores quizerao associar-se com alguns dá 
Ilha Terceira , e assim combinados iizerão partir huma Co- 
lónia para se estabelecer na Terra nova , (i) e isto com 

Tom. FU I. Ss tan-^ 

Cl) Depois de tetinos eicrito eiu Memoiiat achamos cilualmeIl^^c 



;X'OogIe 



-^iz Meaoria-s 

ta brevidade , que quando os Bretóes , e Noraiandos ali 
chegarão em 1^04, já achárâo, segundo se colhe de Ve- 
razzani , (t) os Portuguezes de posse de huma parte da 
Costa ; o que os fez contentar com o rçcconhccimento da 
outra porção, tanto para o Norte como para o Sul da que 
.os nossos já occupavão, e aonde fazilo as suas pescarias. 
Dentro de bem pouco tempo prosperou extraordína- 
-mente este trafico, como era de esperar: em 14 de Outu- 
bro de i5'o6; isto he seis annos depois do- segundo des- 
cobrimento, mandou o Senhor Rei D. Manoel por hum 
Decreto datado de Leiria , a Diogo Brandão , que fizesse 
arrecadar pelos Officiaes d* Elrey o importante Dizimo do 
-pescado, que para ali se conduzia da Terra nova. (2) 

Al- 



em a Biblinteci Luiiiana hum irtifio , qu« inuitii comprova a época 
que seguiijioi a respeito do principio do Commeicio do iíacalliáo > e 
seu descobrimento. Diz poii o erudito Abbnde Barbou , fatiando de 
Francisco de Souia , que elle compoicra hum Tratado áci Ilhas no- 
■vat , t ãestohrimtntt dillai , , . . ê dei Perlugueitt qae ferSe de Via- 
itd , « ií$ lihai dêi Ajiarti a ptvaar a Terra neva da Bacaikia , vai 
tm seUata annai , dt <fat lacctdtt a que a» dianlt te trela, jtnn» da Se- 
nher 15TO « em fot. Em u tempo de Barbosa' existia este mantiicrí- 
-lo n> Livraria da Casi de Abrantes, onde pefeceo com todoí os ou- 
tros Livrai «tn o falai incêndio de iTiít deísando-nos assim piivi- 
dos do único monumento Histórico em que le cuiitaváo circunstan- 
ciadamente aquelles accontecimentos. Provavelmente deste artigo bt 
que o moderno Autbor dí Arte e Dierianaiia dt Ceaimtrcit a Eetat- 
mia Parlagaeza tirou parte das noticiai que refere na palavra BaU' 
ikáe pig. 17: onde ellas vem extremamente confusas e alieiadas. 

Ç^i) João Veraiiani , Florentino , tendo passado ao jerviqo de Fran- 
ça 1 fui também T«ccoiihi:cer íTtrraneva, pouco depnis desta época; 
como se vi da Relação da sua viajem , mandada de Dieppe aos S 
de Julho de 1(11 * Fcancisco L Rei de França, » quat foi publi- 
cada em o lU. Tom. da Collecçáo de Ramutio. 

(it) Em huma Memoria sobre a pescaria das Baleas , que vetn ia- 
gcrta em o segundo volume das Economias da Academia, falia leit 
benemérito Authot , o Sr. José Bonifácio de Andrada , n» Viajem 
"de Corteneal , e conjectura judiciosamente , que de^de aquelles toa- 
pos se introduziria entre n^s-a pescaria da Terra mva. O Sr, Cons- 
tantino Botelho de Lacerda mostrou isto convincentemente , produ- 
zindo por pttmeit) vei o Estnelo do ciudo Alvui. Vi<lt Xtm. Mt*- 
pwBtf, Tom. IV. pag. }j8. 



D.^.tizecbvGoOgle 



Alguns dos no^s Escritores falláo (posto que de pas- 
sagem) dvsie commercio, que íegtindo parece, não se res- 
triogla só i Barra de Aveiro, ent ando tarrbem nelle al- 
guns Qutros portos da Província do Minlio , e principalmen- 
te a Villa de Viaona : (i) ainda mesmo porém que nao 
houvesse este concurso, era elle tal, sómenie naqaella pn~, 
meira terra , que o Author da Corografia Porfugueza , sem 
especificar a epocj , diz que n'outro tempo Kshião de Avei- 
ro sessenta Caravellas para esta pescaria. (2) Em lys*© 
affirma António de Oliveira Freire, (3J que os morado- 
res desta Cidade empregavao mais de cenro e cincoenta 
embarcações em o commercío, que então estava levado 
ao maior auge, principalmente o doBacalháo; o que tam- 
bém attesra Pimentel. 1,4) Em fim , no anno de 1^9^ , se- 
gundo o tesxemunho de Forsier , emprega vao-sç ainda cin- 
coenta Navios Portugezes na mesma pescaria, (j) 

E não pareça que era somente ao mar da Terra nova ^ 
que neste tempo reputávamos ter direito ; ainda mesmo que 
ignoremos se prosperou a Colónia , para ali mandada no prin- 
cipio deste estabelecimento ; he fóra de tuda a dúvida , 
^ue hum systema análogo ao que seguíamos nas outras 
Ss ii par- 



co * Terra (a de Viaiina) cheia de gente rica e moitn nobre, 
> de gratide trato e commetcio por huma parte com as CDii4uis[as da 
X Poitugal , Illias , c teitas novas do Eraiil : por outra com Fran- 
)t ça , e Flandrei , Inglaterra , e Alemanha , donde e para onde re- 
í cebia de ordinário muitos géneros de mercadorias , e despedia ou- 
n tias : para os quaes tratot traziSo os moradores no mar grande nu- 
n mero de náos t e caravellas com grossas dei peias , a que lespon- 
» djáo iguaes retornos, «proveito», ^e tinhág a Villa floientissíma , 
» e em esuda de hunia nova Lisboa. H Fr. Luii de Sousa Viia 4t 
Fr. Bartk. dti Mártires Liv. I. Cap. XXIV. pag. 41 v. 

(a) Cngrafia Perlag. Toin. il. pag. 117 e lií. 

(O UtierlfçSc Coro^tafica rfe Pcriagal Ediç. de 17)9 pag. J (, 

C4) Pimentel Arte de Navegar pag. j7ú. O mesmo Ãuthor advaf 
*e que muitos dos nomes dos portos da Tare neva são Portugue* 
í«. 

Cs) FifiUr* Voi/agei te NurJ, Tom. II. Esta noticia de Forster's , 
« que !e lambo o St. José Boniracio de Andtada , he fundada no 
teitemunho ocular do Capitão SaikuM. 



;.CoOgIc 



^24 Memorias ■ ■ '^ - ■•■ 

panes, aonde tínhamos irato mercantil , devia ter ali fa- 
to estabelecer huma ou mais Feitorias , não' só para pro- 
ver as necessidades da nossa marinha , mas para proteger 
hum local proporcionado a bum fíío grande trafico. Fci 
sem dúvida para exprimir isto ir.e<mo, e a pacifica posse . 
em que estávamos, ao menos de huma portão daquelle ter- 
ritório, que em alguns Mappas que ainda existem, e prin- 
cipalmente em lium , feito cm 1563 por Lazaro Luiz , (i) 
o qual se conserva em o Cartório da Academia , se dese- 
nha huma porção da Costa da Terrj nova , onde se pes- 
cão os bacalbáos , não eó com muitos nomes Purtuguezes, 
mas com o Estendarte das Quinas, ãuctuando dentro da- 
quelle Paiz. 

Com bem sentimento conhecemos, que úo grande 
prosperidade passou como hum sonho: hum género , que 
fezia grande parte do anno o principal sustento do povo, 
e em cuja extracção, preparação, e commercio, achavlo 
subsistência hum grande numero de indivíduos, cahio de 
todo nas mãos dos Estrangeiros , a quem somos obrigados 
a comprallo a peso d* ouro. As revoluções politicas cons- 
pirarão com as revoluções da Natureza , para nos fazer per- 
der o fructo de todas as nossas fadigas. Ao pesado dcmi- 
jito dos Filippes ; ã aniquilação da nossa Marinha de Guerr 
ra e Mercante, e ás desastrosas guerras de Hollanda ; ajun- 
tou-se a decadência da Barra de Vianna, e a perdição da 
de Aveiro: o seu commercio, até mesmo a sua população 
sol&érão tanto, que em 1690 pouco mais se conservava, 
do que a lembrança de huma opulência já de todo ex- 

tin- 

(1} Eite Atlas compoito de cinco grandes folhas de pcrgamich» 
dobradas ao meJo , he primorosamente debuxado e i]lumina<lo> As 
primeírai duai paginai contém algumas adveitenci» a respeito da Ei- 
Irella do Norte , Cruíciro , Movimento do Sol , com buraas taboas 
da declinn^áo deste Planeta: depois seguem-ie os Mappai ; e no re> 
ueno da ultima pagina huma Estampa de Chtiito cniciíicado coni 
3 sefuinte inscripçSo : « Laiaro Luii fei este' I.iuro de (odo ho Uni' 
M uerso, e foi feito na era de mil he «quinhentos be tescnta he ties 
)» annos. » Este interessante Documento merecia sem dilvidi, ^bb 
te (fáiie dello huma noticia m»is individual.. 



;X'OogIe 



DE LlT TER ATURA PokTUGUEZA. "Jiy 

tincta ; porém' ainda neste tempo a maior patte dos Geo» 
grafos Lstrangeiros se serviâo dos nomes Portuguezes para 
descrever a Costa da Terra nova: isto meíiro foi desap- 
parecendo pouco a pouco; as outras Nações, que não dor- 
mem sobre os seus interesses , se aproveitarão do lethargo 
em que a força das circunstancias tinha sepultado a nossa; 
e apo7 a perda de tantos lucros, seguÍo-se a da memoria 
das emprezas dos Portuguezes daquelle memorável Século, 
e o nome dos Corterreaes ficou quasí de todo desconheci- 
do. 

A pezar de tudo não se atandonou o projecto que ti- 
nha dado origem a estas no:.s2S primeiras viajens. Se dés- 
semos credito a alguns AuthoreS, seriao os Portuguezes os 
que achassem esta nova Pedra Filosofal , do caminho ás 
índias peio Norte da Ameriua (i; , em que tanto traba- 
lharão até aos nossos dias as Nações Maritimas da Euro- 
pa. 

C') Referiremos (ainda que icm lhe dar credito) n- que diíetn dois 
modecniis Esctitoríj a reipeitn deste noiso pcrivodido descobitmen- 
to. He o primeiro o Duque de Almodovar cm a Hiiterío Pe/illta de 
los EstúhUcuncMot Vllromaiiao) d< lat ÍSut.uuci Buii^ftai Tom. IV. 
pag, 584, onde conta que Lourenço Feirer Maldonado, Uespanhot 
de origem, se embarcita em 1588 no Porro de Lisboa, em hum rii- 
vJo de que era Piloto João Marliiis , natural do Algarve ; e dirigin- 
do o seu rumo pelo Nordeste á Ttrra Íb Lavrader , pitiando o Ei- 
ireiío de Davig , desemboccu pelos 7; grioi de Latitude em o Mar 
glacial ; dejiois navegando aO Oejte quarta de Sudueste , se achou 
etn o Estreito de Anian , que dista dí tíeipanha 17(0 logoaj , segun- 
do a !ua derrota , e desembocou nn Mar do &ul pelos 60" Na hida 
atravessou o Estreito em Fevereiro, e sahiu da sua boca em Março, 
pelo que padeceo niiiitiiísimo frio , e escuridade; vio grande quantida- 
de de gelo em as margens , porém nunca achou o tnut gelado. Na 
Mia volta, que foi em Jnnbo e Fiilhn , teve serrpre milito bom tem- 
po , e deide que cortou o Circtilo Artico em os 66° jo' até que o 
tornou a cortar 110 ineio do Estreito de Lauradgr , jjmaís lhe deiap- 
paieceo o Sol doOrijonte, e sempre sentio bastante calma. OAu- 
thor que dá esta noticia , diz que se conserva o Roteiro manuscrito 
donde ella foi extrahida , escrito mui circunstanciadamente, com aS 
cor teipond entes relaçfíes. das corrente» , inarí^ , e sondas , com as 
vistai das Costas da Aita , e dos rumos , e Costas da AiuerJca 8te. 

O segundo lugar he tirado de Debrosies na sua HUlería ^0 Xa' 
vtgafS» is terral Auilrati Tom. I. pag, 7j, Tratando da paisageai d> 



:, Ckiogie 



3itf Memoiiai ; :• 

pa , principalmente a Inglaterra. Não he do nosso assumpto 
referir as diligencias aos Capitães Midelleron , Smith, 
Moore , e ultimamente do celebre Phllipps nesta tentati- 
va , que até agora ficou irustrada : a viagem deste ultimo , 
combinada com a terceira que fez o iminortal Cook , pa- 
recem bastantes para fazer ver a impossibilidade de seme- 
lhante descobrimento por aquelle lado do Globo. 



ME- 



índia á Europa peias mares do Norie « Não he fora de propniiio 
X (diz cUe^ accescenUi .... o contheudo n' huma Carta esciiii a 
^ bum Miniitro d' huma Corte , que tomava informações sobre hum 
> semelhança Tacto. 

X Os novos descobrimentos C<"^ '^ Carta} qiie eu fiz sobre i 
k passagem á China pelo Norte da Europa ■ e de que me pedis a 
)) relação , vCm a ser, de que hum navio chamado o Pdrfrc Ettfm, 
3) comniandado pelo Ciipitão David Melguer , Portuguei , panin io 
'% Japão a 14 de Março de 1660 ; e navegando ao longo da Costa 
^ da 'fartaria, correo ao Norte iU ii^° de latitude; donde continuou 
31 a viajem entre Spiczebergi e a velha Groenlândia , e passando pe- 
)l Io Oeste da Escnisia e da Irlanda, chegou á Cidade do f nfto: aon- 
jl de hum Marinheiro do Havre de Grace diz ter visto haVeci ii 
k annos 'este Navio o Padre Eternt , e o Capitão Meliiier que tno^ 
)l reo neste tempo, e cujo enterro o Maiinhelm prexenceou. Já lii 
3t escrever para Portugal a fim ds obtet , se foi possível , o Jornal 
il désM nave^agSo. 8cc. 1 



D.q.tizecbvGoOgle 



MEMORIA 

Sobre a novidade da Navegação Portuguesa m Se- 
cuio xy. 

For Antoi^io Ribeiro dos Santos 

x\S viajens, que nós fizemos desde os tepipos do claro 
Infante D. Henrique, até os do Si. Rei D. Manoel^ o 
Veniuroso, foráo façanhas, que excitarão a admiragao do 
género humano, e im morta lísárao o nome Portuguez, e o 
dos seus illustres Argonautas. Ou se considerem os progres- 
sos da Navegação, ou o Commercio, e os thesouros iin- 
mensos coin que ,se enriqueceo a Europa inteira ; ou a 
extensão das Conquistas, e a grandeza dos estabelecimen- 
tos Africanos e Asiáticos, ou as noticias que se 
rão de hum mundo até então não conhecido ; ou fi 
te os augnientos e vantagens que vierao ás Scienci 
cas , ás Artes" , e á Policia ; he sem dúvida , que 
Navegação teve em tOdos estes grandes objectos a 
■ ra influencia; podendo-se bem dizer, que ella fe: 
nova creáçáo , em qúe se abrio hum novo Ceo , 
nova terra e mar aos olhos dos homens. . 

De que ledo t' espantas , 

Oceano, e dás por nova 

Do mundo ao mesmo muíido altas historias., (i) 

Em verdade, que quando bem se ponderao as árduas 
c difficulrosas emprezas de nossas primeiras viajens', nlo se 
sabe facilmente resolver , se foi maior façanha intentar 
aquella Navegação, ou já vencella. Parece que a Nature- 
za déo então azas aos Navegadores Portugueses para voa- 



CO António Fcnein i Ljv. !• .Od? h 

D.g.tizecbyGoOglC 



328 M & M o R r Á s 

rem do nosso , a outro novo hemisfério ; unirem as extremi- 
dades de dois mundos; e ligarem, pelas relações de recí- 
procos interesses , a communicaçâo social com todas as crea- 
turas da sua espécie; vindo a fazer, em certo modo, de 
todos os. povos do mundo, como hum só povo. 

Alguns dos que fallárao do Coinmerclo , e da Nave- 
gação dos antigos, pretenderão sustentar, que elles haviáo 
feito a volta de Africa pelo Mar Atlântico até o Seno 
Arábico , pela mesma rota , que nòs abrimos no Século xv.; 
e que nossa Navegação, que nossos e estranhos tao alta- 
mente exaltas a não pôde tirar irgumento decj^ivp para assentar a 
«reum-uave3;jjío da' Coita de .Africa. Sobre o qtie se podetn ler 
aMm doi ja ciudos, 1 João Augusto Pfeifficr ni SU4 ob» DiA.Vtt. 



u 



DE LlTTBBATUBA PoRTVQVEZA, 337 

ArtigoII. 
Da Viajem de MeneJáo. 

LUito notável he na antiguidade a viajem de Mene- 
láo , que descreveo Homero , e referirão depois deJle Eu- 
doxo , e Crates , fazendo-o navegar desde o Mar Roxo 
pejas Costas da Ethtopia , dos Sidonios , dos Erembos , e 
da Lybia. Allega com este facto o erudito M. Court de 
Gebelim., depois de outros, que também se haviao já fun- 
dado nelle , para mostrarem qite Meneláo havia feito a 
Toita de Africa, interpretando o termo Erembos pelo paiz 
da Arábia da Costa Occidental de Africa, (i) 

Comiudo 1° EstrabãOj e com elle Bochart, Mada- 
ma Dacier, e outros, entendêrlo o passo de Homero, co-; 
mo o mesmo Gebelim confessa , da Arábia Oriental ou 
Asiática, a que applicárao o palz dos Erembos , e não da 
Arábia Occidental. 2.° Outros houveráo esta navegação 
por huma imaginação ou ficção do Poeta. (2) Donde tam- 
bém não ha tirar argumento desta viajem de Meneldo, 
fará prova da navegação antiga á roíja de Africa j sendo 
Tom. FUI. Vv tão 



Ctniar. II. loc. XCV. pag. 4j3 , e João Franclico Buieo na Hiil.': 
Ec^Ui. Vetcr. TitUm. T.un. II. Per. II. Sectio IV, pag. atíj e seg. 
Quanto d navegaçSo para Taneli ou Tarsít lia taiubtm opiniõe» 
dirersas : huiis a tdiem pelo Meditetranci para a antiga Carthago em 
africa : outros lhe poetn 3 baliza na Ilha Tnrieiio da Betiea em 
no5;a Eipanha : ttesvairSo outros para outras partes, nSo le sabendo 
nadi com certeza, n<^ni ainda com inaiot probabilidade. 

De ambat estas regiões se deve diíer o que n nosio douto Çai* 
par Barteiroi . TaiUndo da Historia Judaica doi Keis, dizia particu- 
íjrmente de Õphyr t Veruin in quonam Orbil parte Hkc régio lit 
S posiia , ciifcta ne linari , an illl contínens , lilentk) prxterit; nec 
t <]uq iion\itK tiit leipptitibua! nuncupeturi apud aliquem idoneiitn 
K authorem inemhii me íegisse. Si qui vern surte , qui in en aliqium 
» (ipetam posuere , parum , aut nihil contecuci mihi esie vitlentur. » 
(no principio do Commeiítatio de Ophi/ra rfgieae) 

Cl) Mfl»rf< Pri-nillf. ^Tom. VIII. Art. V. 

(O Vtfja-se Gossellm na obra acimp citada pag. JOa. ., . 



Dni.tizecbvCoOgle 



338 Memorias 

tâo duvidosa, como he, a situação do paiz àosEremhos-j 
ou incerto , de qual àft% duas Arábias se ha de entender 
este lugar do Poeta Grego. 



Ne 



ÃBTIQO III. 

Da Viajem de Magão. 



I Enhuma força rem a allegação que se costuma fòzer 
de outra historia, que contava Heraclides, o Poniico, de 
hum Magão , ou Mago , nos tempos de Gek>n , Rei de Sy- 
racusia , que asseverava haver feito a volta de Africa ; his- 
toria, que elle compoz pelos annos de 330 antes da Era 
Christã : por quanto vemos , que Possidonio , citado pOT 
Estrablo , afHrmava em contrario, que a sua narrarão não 
era apoiada em algum documemo, ou testemunho, que a 
fizesse acreditar: (1) por onde de hum facto reíerido por 
hum só Historiador , e negado por outro , vâo fica lugar 
para se formar argumento condudente da certeza de huma 
antiga navegação , tão eitraordinaria e espantosa , como 
esta seria , sem mais alguma prova que decida na con- 
trariedade dos dois historiadores , e muito mais ainda teor 
do sido Heraclides Àuthor suspeito entre os antigos. 

ÃRTiao IV. 

Da Viajem dos Hespanhoes. 

X. Ambem não conclue positivamente pela opiuião coo* 
traria, o que se contava, segundo Plinio no Liv. 11. Cap, 
67, de nossos antigos Hespanhoes, que se crih terem feito 
a volta de Africa; por haver dito Caio César, filho de 
Agrippa , e de JuIia , e adoptivo de Augusto , Comman- 
dante de huma Esquadra pelo Mar Roxo, qiie tinha «clia- 

do 

CO Em Eitiabáo Liv. II. p)g. 9S. Vejt-K M* Go»ellia no Tom. t. 
d> obia acima cítida p>g. 201. > ... : 



:cvGoogIe 



DE LITTERATU8A PoPTUÔVEZA, 339 

dd fragmentos do navio Hespanhol , que ali havia naufra- 
gado; donde parecia ter-se feito a navegação em volta de 
Africa : por quanro Plinio não declara donde houvesse es* 
ta noticia ; vê-se porém <\ue a tomou de Eudoxo , que con- 
ta o mesmo das Costas Orientaes , mas perto de cem an- 
nos antes de Caio César ; o que faz a muitos desconfiar 
da narração : alóm do que Estrabão , que esteve no Egypto , 
e se informou deste facto, zomba dos que delle faíláráo; 
e ao mesmo tempo passa era silencio o outro do tempo 
de Cato César , seu contemporâneo \ no que mostra ter 
havido isto por hum rumor popular, ou noticia sem algu- 
ma prova, e fundamento, (i) 

Nem nos deve abalar a viajem do Commerciante 
Hespanhol, de quem dizia Celio Aniipatro haver navegado 
desde Gades até a Etbiopia, o que também refere Plinio 
no Liv. IT. Cap. 67; por quanto por huma pane os An- 
tigos davâo nome geral de Eíhiopia a todos os paizes , 
que se alongavão do Mediterrâneo ; e estes Ethiopes erâo 
os Occídentaes , e não os Qrientaes ; e por outra parte 
sabemos, de Possidonio, contemporâneo de Celio Aniipa- 
tro , e residente e instruído em Cadiz , referido por Estra- 
bão, que os Hespanhoes navegavlo dali até o Rio LtxOy 
que era na Costa exterior da Mauritânia y dando-a como 
a extrema, ou meta das navegações Hespanholas. 



Fa 



A R T I Q o V. 

Da Viajem de Necbo, Rei do Egypto. 



Aliemos de dois factos , que parecem de todos , os mais 
authorisados e decisivos , quaes são a viajem , que man- 
dou fazer Necl^o ou Necháo, filho do famoso Psammeti- 
co, e B,ei do Egypto, que remonta acima de 600 annos- 
antes da Era Christã ; e a de Eudoxo de Cyzica no Se- 
Vv ii culo 

CO l'*»- H. p«g, 99 — io«. Vcjt-K Gosseilin na obt» acnra el- 
tadi pag, aoi 30a. 



izecbyGoOglC 



^40 Mbmórias 

culo de Ptolomeo Latliuro. Necho ou Necbáo , o primeiro 
que abrio o seu ReÍRO aos Estrancciros , Príncipe de gran- 
des vistas, que quiz ajuntar o Nilo com o Mar Rcso , e 
pretendeo crear huma nova marinha , par;i vir a ser pode- 
roso por rerra e mar, e tirar todo o Commerclo aos Fe- 
nícios , cobrio o Mar Mediterrâneo, e o Mar Roxo de 
galeras, e tentou mandar commetter a viajem á roda de 
Africa : cheio deste projecto , encarregou a execução a cer- 
tos Fenícios de sua obediência, homens muito práticos e 
experimentados nas cousas maritinias, fazendo partir seus 
vasos do golfo Arábico ou JLrythreo com ordem de ga- 
nhar o Mar Austral y e entrar no Mediterrâneo pelo Es- 
treito. 

Diz-se pois que começarão a navegar pela Costa Orien- 
tal de Africa, aié chegar so Mar Austral, ou Mondional ; 
c que depois vierâo zo Mar Occidental , e no terceiro an- 
no entrarão no Mediterrâneo, e abordarão ao Egypto , sur- 
gindo pelas bocas do Nilo. Contavão entre outras cousas , 
que nesta viajem tiverão cuidado de desembarcar nas en- 
tradas do Outono sobre as Costas , aonde se achavio ; c 
de semear nellas grio, e esperar pela colheita, e depois 
fazer-se á vela. Este facto referio Heródoto, e sobre eiie 
he que se apoiava para asseverar , que a Africa era toda 
cercada de mar, excepto pela parte por onde pegava com 
a Ásia. (i) 

Eis-aqui hum facto , que parece provar a anrigâ cir- 
cum-navegação de Africa ; e que tem movido a muitos 
Sábios; ponderemos com tudo, que confiança se lhe deve 
dar. 

■ i." Heródoto he o único entre os antigos , que conta 
a expedição dos Fenicios por Necháo ; elTe não foi coe- 
vo a este facto , nem mostrou donde hocvera esta noti- 
cia ; o que pôde excitar dúvida sobre a sua narração. 

2." A unicidade deste Escritor, e não contemporâneo, 
faz-se mais notável e suspeitosa , vendo que Pomponio Me- 
la , 

; CO Ub. IV. MtlpmtM. 

D.q.tizecbvGoOgle 



DELl'rTEBA¥UBAPoiÍTUOirE7A. 341 

h, e Plínio (que procurarão provar a possibilidade da cir- 
cum-navegação de Africa , ajuntando es factos e tradições 
que julgirão próprias a sustentar as suas conjecturas nesta 
parte) nenhuma menção fizeráo deste pafso de Herodcto, 
que lhes seria grande apoio; e nem ainda de ;eirelhantc 
navegação , tendo occasião tão opporruna , e até necessá- 
ria , que os obrigava a failar delia ; ao mesmo tempo que 
sabemos , que files lêrâo o Historiador Grego , e o cita- 
rão , e eitrahírão vários lugares em suas mesmas obras. 
Hum silencio nestas circunstancias, nao he hirm simples ar- 
gumento negativo , mas sim decisivo , que basta por si 
só, e indica que elles não derao fé á relação da viajem 
dos Fenícios. 

3.*' Sobre a prova deduzida deste silencio em taes cir- 
cunstancias, vem mais a que se tira de Esttabão, que não 
acreditou esta viajem ; porque certo , se o seu juizo só não 
exclue o testemunho de Heródoto , ao mcncs o contraba- 
lança , e pôe em dúvida ; e tanto mais, quantOj Heródo- 
to , posto que mais antigo , foi mais fácil em acreditar 
fabulas, e cahir em faltas de.cxacçao, como já o taxa- 
vão dos antigos Plutarcho , Harpocraciao , Dion Chrysos- 
- tomo, e Ctisias de Gnido ,- que o desmentia em sua His- 
toria; c dos modernos Reineccio, Vignoles, Vallemont, e 
particularrtiente o moderno e douto Gossellin sobre esta 
mesma navegação. 

4.'' Faz tan bem desconfiar da veracidade desta viajem 
ver conta rem-se nella cousas inverosímeis, como abordarem 
os Navegantes Fenícios nas terras Africanas, por onde 
passavão no Outono, para nellas semearem grão, e não 
se retirarem dali, senão depois de concluída a colheita; e 
que eiti sua navegação gastarão três anrios; o que parece 
pouco verosimil, (i) pois que era muito pouco tempo pa- 
ra aquelles desembarques, para os trabalhos, e operações 

da 



Çi) Uáo deixaremos de iembiar aqui de passagein , o que se nSo 
tem advertido . que a cifcunsianeia dos tfes annns de viajem paieca 
forjada sobre a outra dos trci annos das fiotas de Salooiãn. 



:,Coot^Ie 



a^l M E H o H I A s 

-da agricultura, pat^ as demoras da collieita dos fructos, 
c para as novas, bngas, e perigosas navegações, que de- 
viao depois continuar a fazer por todas anucllas Costas, (i) 

A narração pois desta viajem , que Heródoto nos dei- 
xou escrita , ponderadas todas estas cousas, não se pôde 
■considerar senão como huma historia , combinada sobre a 
opinião, que ?Igun*! dos antigos tiverão da fórma , e ex- 
tensão desta parte do mundo, isto he, sobre os conheci- 
tnentos , nao práticos e locaes , mas sim especulativos e 
theoreticos que elles tinhao , e de que se fez huma sim- 
ples applicação á historia desta imaginada navegação dos 
Fenícios. 

Artigo VI. 

Da Viajem de Ei/doxo. 

fo he de passar a huma outra viajem, que he do 
e Ptolomeo Lathuro, perto de loo annos antes da 
rístã. Esta foi a que se diz, que fizera Eudoxo de 
cuja Relação 90 Périplo se acha em Poraponia 
D Liv. III. Cap. 10. extrahida de huma obra, que 
i de Cornelio Nepote , que se perdeo. Plinio no 
Liv. 11. Cap. 67 , e Marciano Cupella no Liv. VL pag. 
301 , igualmente a citão sobre a fé do mesmo Nepote. 
Este EÍudoxo jactava-se de ter sahido do GoJfo Arabíco-y 
haver feito- a circum-navegaçâo das duas Costas Meridio- 
nal , e Occidental de Africa ; e vir por fim a desembar- 
car em Cádis. Para não estarmos por esta navegação, que 
tanto se tem apregoado , devemos notar o seguinte: 

l." As quatro authoridades reduzem-se verdadeiramente 
ti huma só, que he a de Nepote; e he inteiramente des- 
conhecido, qual foi a fonte, donde élle derivou e.-ta no- 
Ticia. 



^(1) Sobr« isto pôde ler-ie H. Fiin^liíiille na 'ua Diiurlafão «i 
a navagiçáo de T^rseii no T.im XVII da-. Mcm-rias da Ateiam 
t< Btrlim pag- 419 e lag. , e o ;á citado M. GossíHm, 



:, C~.oogIe 



DE LlTTÍHATURA PoRTUQUEZA. 343 

1." Este Itinerário nÍo foí conhecido nem de Fossido- 
nio, nem de Estrabáo, que longe de o referirem, fallan- 
do das navegações dos Antigos , trouxcráo cutro do mes- 
iro Eudoxo iruito diffèrente deste; o que indica, que ou 
Iium , ou ourro delles he falso , e obra alliea de Êudoxo, 
ou ambos elies. 

3.° Esta Relação , combinada com a dos Périplos de 
Haiinon, e de Polybio , vê-se bem, que he em grande 

fiaite hum Irinerario refundido , e composto de ambos el- 
es , parecendo que o seu Áuthor pertendeo inculcar, que 
havia corrido todos os lugares, que ellcs vírao. 

4.° Eudoxo vindo desde as vizinhanças do Cairo Àpo- 
mata {Guardafui) pela Casta meridional de Africa , até o 
ponto Occidental , (aonde se proi:oz tomar a viajem de 
Hannon, para tecer, e completar com ella o curso de seu 
itinerário ) em todo aquelle iinmenso ínteivallo não des- 
creve lugar algum das partes desconhecidas das duaS Cos* 
tas extremas; mostrando bem claramente por is 
que lhe faltavâo conhecimentos reaes do local; 
tinha a quem seguisse e copiasse; e por const 
não tinha navegado, e visto aquellas Cosjas. 

5".° Elle não faz neste seu Itinerário alguma 
náutica : não falia da mudança no aspecto do 
qualidade dos mares; das dimculdades, qué te. _. _ __, 
cer naquella carreira; na travessia das Costas, e na passa*- 
gem do Cabo mais austral de Africa ; nem que tempo gas- 
tou nas viajens; nem como se provco de viveres ao longo 
dos lugares desconhecidos e selvagens ; sendo estas as tir* 
cunstancias , que mais natural e facilmente descreve hurq. 
viajante. 

6° Muito pelo contrario affecta supprir este vasio cont 
os contos de cousss incríveis , que diz que vira ; como 
homens sem hngua , homens sem boca, homens himantó- 
podes, isto he, que não andavâo em pé como homens , 
mas como animaes, e outras ínepcias , e fabulas insípidas 
e grosseiras. Hum navegante, que só apresentasse, e des- 
crevesse cousas semelhantes, para attettar tão estupenda t'a- 



izecbyGoOglC 



^^ M £ M o R I A 3 < 

canha , i mereceria por ventura algum credito ? Certo que 
nem mereceria que o refutassem. 

7.° Finalmente ha em seu Itinerário Incoherencias, fal- 
tas, e erros taes, que por elles mostra, que tanto não fi- 
zera a volta de Africa, que a nao conhecia, nem forma- 
va idea3 da grande extensão daquelle Continente para o 
Sul , nem da sua forma , nem da direcção mariíima das 
suas Costas, que dizia ter corrido-, devendo em resultado 
de todas estas combinações concluir-se, que o seu Itinera- 
no &i obra de mera fantasia , ideada sobre os Périplos 
dos outros Navegadores , e accrescentada com as suas im- 
posturas, (i) 

Ha ainda outra Relação de Eudoxo , de que fallava 
Possidonio em Estrabão no Liv. II.' pag. 98 e seg. , que 
lie hum segundo e noTO Itinerário, em que se relata a 
znesma viajem antecedente. íQue haveremos de dizer del- 
Je? 

i." Foi desconhecido de Cornelio Nepote, de Mela, 
de Plinio , e de Marciano -Herecleota , que referirão , ou 
citarão o primeiro Itinerário ; assim como este o foi de 
Possidonio , e de Estrabão , que referem este segundo : o 
^ue faz logo desconfiar da sua authenticidade. 

1° He huma nova Historia inteiramente differente da 
primeira, com a qual nao concorda em cousas essenciaes, 
o que argue a ficção de diversa pena. 

3." Ha huma espantosa variação entre os dois Autho- 
res , Nepote, e Possidonio , que esforçando-se cada hum 
dçUes em estabelecer hum mesmo facto, appellâo para o 
depoimento de hum mesmo navegador; e apresentão nada 
menos do que provas realmente oppostas , que certo senão 
conhece exemplo de huma contradicçâo mais manifesta. 

4.° Ha finalmente neste novo Itinerário muitas fabu- 
Jas , contradicçóes , e in verosimilhanças , que lhe Qotoit com 
. - ■ . des- 

ço E«e 1'= o mísmtt ju!io, que tfelle fei Isaac Vossio ao Liv. III. 
Cap. IX. de Mela , e M, Goisellin nas I»J^g«fie, fibre a Grogr^jíM 
Volitiva e Syittmatica i»i Anligo$ Tom. 1. pag. las > 3><I- 



:,CoOgIc 



DE LiTTEB ATURA PoKÍUGUEZA. 345" 

desprezo o mesmo Estrabão, que o extralilo de Possido- 
nio. (i) 

ArtigoVII. 

Da ignorância em que estiverão Ptolomeo^ e os Povos 
de Africa e Asta sobre estas navegações. 

X Emos exposto por esta breve analyse , quanto basta pa- 
ra se conhecer o pouco fundamento, com que se tem in- 
culcado as viajens geraes dos Antigos em circumferendá de 
Africa; e que todas ellas ou forão exageradas, ou fabu- 
losas, ou pelo menos contraditadas, incertas, e mal segu- . 
ras , para poderem fazer prova concludente pela opinião 
da sua circum-navegaçâo Africana. Cresce, em desabono 
delia, a força deste discurso, com huma reflexão, que nao 
podemos deixar em silencio, qual he a da total ignorân- 
cia destas viajens em Ptotomeo, com ser tão sabedor das 
Cousas antigas, e de seu tempo ; e o que mais he , nos 
mesmos povos das Costss marítimas de Africa , até á ín- 
dia. 

E quanto a Ptolomeo , claramente vê-se isto bem de 
seu Ahnagesto , aonde discorrendo dos climas , e refutan- 
do certas razoes e provas de Maiíno de Tyro , diz as- 
sim : ((Muitos Escritores sustenião, que as vizinhanças do 
>» Equador são mais temperadas, que o restante da Zona 
>> Tórrida, e que he possível habirallas. Nós nada com 
j» certeza podemos dizer; porque ninguém do nosso Orbe 
»» até este dia tem penetrado debaixo deste circulo; pelo 
>» que qualquer julgará mais simples conjectura , do que 
» verdadeira historia , o que delias se conta. >> ( Lib. II. 
Cap. 6. pag. 31, 32) Assim procurava o Geógrafo des- 
truir os raciocmios de Marino, e mostrar que as provas, 
com que este pertendia concluir, que os navegadores ha- 
■Tom. VIU. . Xx . vião 

CO Vejaie o higar de Estiabão, e da moderno M. Gossellín na 
ciwtfa obr» das InJagAíUi ioíre o Gugmf. Si/item. t PoUl. d»s An-' . 
liffi Toin, I. psg. 241 34), 

D.g.tizecByGoOglC 



^^£ M E M o R I A C 

viâo trespassado a Linha Equinocial , erão de gí jnsufficleit- 
tes para o convencerem ; do que se vê, que elte estava 
persuadido, que de seu tempo se não tinha passado ainda 
o Equadon 

Vem agora sobre isto a profunda ignorância , em que 
nós achámos os Africanos, e Asiáticos, quando navegámos 
os seus mares, e fizemos conquistas pelas suas Costas j 
porque nenhuma noticia se encontrou entre elles destas 
viajens, desde a Europa por toda a Costa de África, até 
á índia, ou desta até a Europa ; sendo bem natural se não 
apagasse a memoria de todas ellas, pur tão notáveis e pas- 
inosas que teiião sido^ se algumas se tivessem realmente 
executado : o que já com razão occorreo ao discreto juizo 
^e D. Francisco Manoel de Mello nas suas Epanaforas. (i) 
ff Naquelles tempos (diz elle) de nossas conquistas, en- 
» tre as gentes de Europa e Africa nenhuma noticia se 
ty achava Bestas navegações , nem depois as descobrirão os 
» Portuguezes em os povos de Asla ; o que não pouco 
j> enfraquecia o credito dos Autores referidos , e fazia 
» muito pela opinião dos nossos. » (z) 



CO Epanaf. Amoros- 111. pag. pi- 

(2) Nâi> pertendeino) com ludo isto abiolutameme asseverar, qii* 
01 Antigo» em Seculiu maij remptoi ■ nos tempos chamados herói- 
cos I e commuTTiente fabulosos , nío tivessem feito jamais a citcum- 
navegaçSo de toda i Africa , antes dos Egypcios e Fenicios , que 11- 
3im mesmo antigi>sr como etSo , forão precedidos de oxitras nações 
antiquíssimas t e talvez' ainda mais industriosas do (]iie eltes : he 
■liuito de presumir ([segundo nos inculca a Historia dos progressos do 
espirito humano , e dos conhecimentos sabidos que aquellas idades !■• 
veiSo I e que parecem suppor outros muitos anterioies > de qoe nio 
(abemos) que a Navegação, e as mais artes da industria do humetn 
«(^iSo a huma mui atia e lemontada antiguidade , em que ji pAde 
sei que tivessem havido viajens muito extensas , que houvestem 
costeado toda a Africa ; mas se as houve descontinuadas , e perdida) 
da memoria dos homens, como o forSo outras muitas causas , fiei- 
iSo sepultadas no atúsmo da escuiidso do antigo mundo , como W 
ounca tiveuem exjjtido nellfc 



izecbyGoOgIe 



Ofi LtTTBRAYVRA VotrVQVEZÂ, ^4^ 

AsTiao VIU. 

Sentimentot concordes de três grandes Escritores. 

Xj Echaremos todo o nosso arrezoado, se assim he pre- 
ciso, coní as authoridades de três grandes Escritores , com 
que nos possamos escudar, para nos defendermos das de 
Góes, e de outros de parecer contrario; authoridades que 
lhes não são inferiores, se nao mais respeitadas e decreto- 
rias, como de homens que muito estudarão esta matéria: 
he huma a do nosso doiitissimo Gaspar Barreiros no seu 
formoso Commentario de Ophyra Regiove « Hujusmodi 
»» navigationçs , etiam , si fieri potuerunr, prseterquam quod 
»> casu , aut felicitate quadam potíus accidisse , mca quidem 
>» sententia videniur, quam consilio alíquo , aut scientia 
»» navigandi , tantam incogniti et procellosí maris vasti- 
»» tatem, ramen non tam probatíe vel ilfis, vel posterio- 
» ribus seailis eilitére : nec tantam fidem facere potue- 
» rtujc, quanta opus erat a<f tam inusitatam et periculis 
»■ pleoam navigatíonem aggrediendam , suspectK namque, 
" ut arbitror , vufgrr nraiime ftremnr. >* 

A secunda aiithoridade he de Isaac Vossio a Pom- 
ponio Meia «tQuiquid alii contradicant , ccrtum est vete- 
» rum neminem fiiisse , clijub quidem extet memoria, quod 
>' Boníe spei Promontorium vel accesserir, nedum pncter- 
" vectus sit. »» Observar, ad Lib. X. Cap. IX. pa;;. 863. 

A outra auihoridade he a do moderno e eruditissimo 
escritor, M. Gossellin , que tendo entrado a principio no- 
scntimento contrario, na sua Geografia dos Gregos Jiialy* 
sada , levado das diíFerentes tradições dos Antigos , que an- 
nunciavâo navegações de Fenícios , e Gregos em volta des- 
ta paree do. mundo, e do grande numero de Authores mo- 
áeriios , frincipalmente dos qne escrevéíío doS progressos 
da Navegação e do Cominercio em diíFerentes épocas; mu- 
dou depois de parecer na sua. grande obra- das Indagações' 
á csrca da Geografia Fositiva e Systematica dos Jnti" 
Xx ii £flr, 



D.q.tizc-ctvGOOglc 

\ 



348 MSMOBtAS 

gos, aonde tratando de fixar o gráo de con6ança , que me- 
reciío as tradições destas viajens , as Fobmetteo a huma 
profunda discussão ; e mostrou largamente as suas contra- 
diçòes e inverosimilhanças : o que tendo sido por elle fei- 
to com repetido e apurado erame, e depois de haver an- 
tes adoptado os princípios contrários, não pôde deixar de 
ser de grande peso nesta matéria, e de ajudar a confirmar 
nosso discurso, (i) 

Conclusão. 

Eis-aqui o primeiro eenero de provas, que podemos 
offerecer, pelas quacs cuidamos haver mostrado nâo corts- 
tfir com certeza , que a circum-navegaçlo de toda a Costa 
de Africa, fosse realmente praticada entre os Antigos ; ou 
pelo menos , que ella se nao pôde com segurança susten- 
tar sobre os Périplos, e Relaçtíes, que a Antiguidade nos 
deixou de tacs viajens : donde tiramos, que pois se não 
alleglo outras além destas, que nos Içvassem a dianteira, 
se fia de haver consequentemente a navegarão Portugueza 

do 

(t) Tendo fatiado dai viajem dos Antigo), cuja memoria se con- 
servou até aos nosios dias , drvei-se-liia talvez neste lugar fazer 
meaqia das viajem mah modernas dos Séculos intermédios , mas 
isto fica luptido com outra Memoria em que tratamos da Demar- 
cação do CaSo dl Boa Etpetança > que se acha em alguns Mappas , 
anteriores i sua paisagem por Vasco da Gama ; nella Fazenios vei 
que semelhantes viajens, te as houve ( fotão somente parciacs , e não 
chegjrão ao Cabo : baste-nos por ora advertir, contia os que segueta 
a opinião contraria , que todos os Authores , ainda meimo os Estran- 
geiros, que eicrevCrSo pelo Setulo de loo , e grande parte dos quaes 
entriíãn pessoalmente neitai expedições , nos concedem a precedência 
delias; taes ião Luiz de Cadamoito na sua JVour^iif^B ; Américo Ves- 
pucio na sua Carta mbre a viajem Jt Vaito da Gama , Que vem no 
I.° Tomo de Ramusio ; Maitim fiehaim nas notas ao seu Globo 
terrestre , collegidas por M, Mutr , &c. : os quaes sendo tão viiinhot 
da:^uelles acontecimentos , e tão versados na Cosmografia , que nãt> 
cedião a palma a nenliuns dos do seu tempo ; devião estar perfei- 
tamente instruidos nestas matérias; ou ao menos muito mais do qcte 
Os modernoi , que passados Scculoi , quiíeiãa ainda que debakfe 
«rncai«nos cita gloiia. 



D.q.tizecbvGoOglC 



DE LiTTEBAT-VB A POSTUGUEZA. J49 ' 

cio SeCQlo Kv>'-por original, e prímeira'; « como tal pela 
mais admirável e portentosa, que tem havido : devendo 
todos confeçar quão nossa he a gloria de seriros os pri- 
meiros, que ousámos tomar o Sceptro do Oceano, e abrir 
novo caminho desde a Europa, até á Índia por tão lar- 
gos mares. 

jy Nunca arados de estranho, ou próprio lenho. 
Podendo dizer bem nossa gente das viajens dos Antigos, 
em comparção icom a sua 

i> Q^ essas navegações, que o mundo canta, 

>» Não merecem tamanha gloria e fama 

»» Como a sua , que o Ceo c a terra espanta, (i) 



Sepmão Género de Probas pela consideração das couiat 

de que es Antigos duvidarão, ou que nao conhecerão 

do Continente de África. 



Dé 



/Émos até aqui a substancia das razdes , que podem 
determinar o nosso juízo para negar , ou pelo menos du- 
vidar das -relações das viajens dos Antigos á volta inteira 
de Africa : agora tomaremos mão de outro género de pro- 
vas , deduzidas da ignorância , em que cstiverao os mes- 
mos Antigos , de muitas cousas notáveis d^quelle Conti- 
nente, até á ép: ca da nossa navegação e descobrimentos j 
cousas , que não pedíão longas especulações e theorias, 
cousas , que eó demandavão a attenção , que não podiao 
deixar de se advertirem e conhecerem, se se tivesse feito 
nos seus tempos a circum-navegaçio daquella parte do 
mundo : o que temos de tratar em breves clausulas, ha- 
vendo de fallar ainda desta matéria em outra Memoria, so- 
bre os resultados de nossa navegação do mesmo Século xv. 
Muitos são em verdade os argumentos nesta parte, 

que 

CO Lmiad..Cap. V. Ejt. XCIV. 

D.g.tize^byGoOgle 



55^5 M E M 6 * r A s 

WK se podem deduzir a oosso propósito, da considerando 
daquèllás ■cousas capitães, que os Antigos jgnoravão a res- 
peito de Africa: os principaes são os que se rirão. 

i." Da ignorância da junc^ao dos dois mares Atlânti- 
co, e Indico, e circumferencia maritima de Africa. 

2." Da ignorância dos triares, que haviâo pò? innavega- 
7eis, ou inexplorados. 

' j." Da jgrforancia da extenso Meridional do Contine^ 
te Africano. 

4.° Da' ignorância da sua figura e fôrma. 

5." Da ignorância das terras chamadas Incógnitas, 011 
dos lugares das duas extremas Costas Occidental , e Meri- 
dional de Africa. 

tí.° Da ignofancla " da Zona Torfida habiravel, e habi- 
tada. 

"7.** Da ignorância da visâo' do Sol á mão direita dos 
naregantes. 

Artigo I; 

^rgumeafo âeãuzião da ignorância ãq juncção dos Ml 
X mares Inâí<fà , e Atlântico. 



O. 



Primeiro e mtti decisivo :argtimento,' que podemos 
apresentar nesía matéria , he o que se tira da ignorância 
corrimum , em que «te\'equasi toda a Antiguidade , sobre 
a jtrtKrçâp , ou communica';âb dos dois mares Indico, e 
Atlântico:- Hipparco de Nícea , que flõreceo ifo annos 
antes da Era Ciiristâ , Homem famoso, verdadeiramente 
nascido para gloria- das Sciencias Exactas, o qwal muito 
trabalhou para elcYar a Geografia sobre bases fixas e in- 
variáveis , tiradas das observações do Ceo; este homem 
grande foi' o mesmo que altamente se persuadío, que w 
dòis' mares Indico , e Atlântico se nlo iiniâoi e que ca- 
da hiim ddies se continha separado, como em grandíssi- 
mas alagoas, abalisffcloa pôr terras adjaeemes, qiie-Iimita- 
v3o, e dividiâo hum do outro. (Em Estrabão Liv. I.Cap.iíO 
A famosa Escoia de Alexandria, aonde dle^laii^ ospri- 

mei- 



:t:vG00t^lc 



DE LiTTí» ATURA PoRTUGITEZA. gfl 

aieiros fundara emos de huma Geografia puramente Astro- 
nómica, seguio o seu systenia.í-Iuni femcso homem des- 
ta Escola , de quem acima fallán.os , Ptolooico , oráculo 
da Geografia , também o adoptou , não crendo iia livre 
communicaçâo dos dois mares, e por conseguinte nem na 
possibilidade da civcum-navegaçao de toda a Africa. 

Debalde Heródoto, debalde Eratostlienes , dê quem 
fell.1 Estrabâo, (Ub. XVII.. pag. 285") debalde Possido- 
nio, também referido por Estrabáo (pag. 95 e 102) se 
haviao opposio a tal systema , sustentando a doutrina da 
unidade e Jmmensidadc do Oceano, A autlicridade da Es- 
cola Alexandrina, e os grindes nomes, e bem merecida 
reputação na Antiguidade de Hipparco, e de Ptolomeo fi- 
zerâo emmudecer a opinião d.iquelles dois homens, e de 
outros, que então, e -ainda muito depois a seguíríioj e prt> 
val;:ccr a contraria por mais de ia Séculos, deii:ando asj 
sim de se crer na possibilidade de se fazer por mar avoPíj 
ta de Africa, ou esquecendo quasi de todo esta verdat^f 
Cosmografica. ' "1 

Qiie deduziremos nós daqui , se não que esta opiniáS 
da Escola de Alexandria não chegou a predominar entre 
os Gregos sobre a outra , e a soster-se por laptos Séculos 
contra a mesma verdade da disposição real dos lugares , 
senão porque os seus sectários , e muitos outros dos Anti- 
gos hcuvcrâo por falsas e fabulosas as viajens dos navega- 
dores , que se dizião haver costeado toda a Africa ? E coi^- 
sequentemente que nao crerão nem nas navegações dos Fe- 
nícios , mandados porNecháo, nem nasdeEudoxo de Cy^ 
sica, nem nas de outros alguns navegadores, que apregoa- 
tão como real , a façanha da plena circum-navegaçSo de 
toda a Africa? (i) 

Não 

(O Advertiremo) também , que a opinião de Hipparco foi ainda 
communi «me oi meimai modernoj , antes é» nossa Navegação: as* 
sim que com razão Fr. Mauro Camati<ul«nie , famoso Cniiiijografa . 
de quem ji em nutras obras havemos falladoí escreveo em huma das 
Notas, que fez ao teu grande Planiifeiio C <1"<^ refere FoicsrÍDÍ na 
Bitttriú Lilltraria itYtnna num, 27} pag, 419) havei opiíiUea^ tlt 



:X'OogIe 



3fl M E M o B I A S 

Nilo passiifemos adiante sem ootar, que pela com- 
binação que fizemos dos lugares dos Authores, nos pare- 
ceo , que tanto os que seguiáo a juncçao dos dois mares 
e circumferencia maritiiiia de Africa , como os que a ne- 
gavão , se haviâo sustentado cm suas opiniões e sistemas 
não tanto por factos , que huns adraittissem , e outros ne- 
gassem , como por meras conjecturas e theoriaF j e que até 
então não tinha havido commettimento e erperiencia real 
de todo o marítimo daqiiella- parte do mundo , que geral- 
mente sC houvesse acreditado ; por quanto nem natural , nem 
fácil era, que elles desvairassem em tão oppostas senten- 
;as, e menos ainda que se seguisse a negativa pelos dois 
àmosos Mathematicos Hipparco, e Ptolomeo, e por to- 
da ■« famosa Escola dô Alexandria/ se se houvesse feito 
por mar a volta inteira de Africa •, ou se se acreditassem 
geralmente pelos Antigos as relações das Viajens , que eii- 
tre dles mesmos se espalharão : o que ainda se verá pelo 
qiie ponderamos no seguinte Artigo. 

; ArtigoII. ' 

JÍrgumenfa deduzido da opinião dot mares innavega- 
veis-i «u inexplorados. 






V, 



OItemos para outro argumento, que não he menos 
terminante. Não só havia entre os Antigos , iiiuitos que ne- 
garão a junção dos dois mares, e a possibilidade da to 
ftl circum-navegação de Africa ; mas até houve alguns, en- 
tre os mesmos que a seguião , qaé expressamente confeça- 
vão; huns, qUe aquellas partes meridionaes de mar e ter- 
ra erao de todo innávegaveis; outros, que posto que o não 
fossem, ainda não tinhao sido averigoadas até seu tempo: 
- com 

^ue ( na parte meridinnâl de Africa , o Oceano não rncteava aquella 
babttayel'B tei-npetada "Lom , acce^centandn porém que havia tette- 
munlioi do coiKraiio , e principalmente daquellet ,- que a Alagestade 
<i'EIRei de Portugal havia mandado com seui aavios a obisirar iquel- 
1» Coíta. .■ . 



izecbyGoOgIe 



DE LiTTEÍATUBA PoBTUGUEZA. JfJ 

com O que vinhao a mostrar, que nao havilo ainda eniâo 
acreditado a realidade das Viajens dos que se diziáo ha- 
ver costeado toda a Africa. 

Hum dos que se podem aqui trazer para prova , he 
Scylax de Cotiando, ou quem foi o Author do Périplo, 
que corre em seu nome , e vem entre os Geógrafos me- 
nores Gregos no Tom. I. pag. $% , 53; porque faltando 
elle na parte , que respeita ás Costas de Africa além das Co- 
lumnas de Hercules, diz expressamente, que além da Ilha 
àsCertje, o mar dé Africa para o Sul não tinha ainda si- 
do visitado; e que era absolutamente innavegavel por cau- 
sa de sua pouca profundidade , da sua vasa chea de Io- 
do e limos, e da quantidade dé algas, de que estava to- 
do cuberto: com o que mostrava, que nem elle tinha co- 
nhecimentos da Ojsta de Africa , e dos irares além da 
Ilha de Cerne (que já dissemos em nossa Illustraíão ao 
Périplo de Hannon , ser a Ilha Fedal , o» como outros 
querem , a Madeira , ou ainda outra alguma das Canárias ') 
nem os navegadores do seu Século past^avao adiante daquel- 
la Ilha ; nem mesmo se acreditavâo então as relações dos 
outros navegadores mais antigos, que se diziao haver cur- 
sado toda a Costa daquelle Continente. ' 

Pelo que pertence á outra Costa de Africa , isto he 
à Oriental , igual testemunho nos dá Arriano , ou quem 
foi o Author do Périplo do Mar Erythreo; o qual discor- 
rendo desde o Egypto pela Costa de Africa para o Meio 
dia , e fallando dos três Cabos Septentrionaes , o dos 
Aromatas ^ ou Guardafui na entrada do Mar Roxo, do 
Raphaim acima de Melinde , e do Prassum , ou Cabo de 
Chat , ou do Gado , e contando algumas cousas da figu- 
ra c corpulência dos povos, da sua sujeição á Arábia pri- 
meira , e do Commercio , que desta se fazia para Azania ; 
accrescenta, que depois, dos últimos empórios de Jzaniãy 
que estão da parte direita de Benice , voltava a Costa pa- 
ra Oeste i e que o Oceano Oriental cercava q MeÍo-dÍa 
da Africa ; o que porém não era ainda averigoado no seu 
tempo : Nam post bac loca Oceanus necdum investiga- 
- Tom. riSL. , Y/ tus 



:,GoogIe 



35'4 Memorias 

tus ãd occasum infiectitur , et aversts partibus JEthi^ 
pi/e , LybiíB , et Africa versus meridiem exporrectus , 
Occidentali mari commiscetur. Com o que vinha a con- 
fessar, que se ignorava em seu tempo o que pertencia á 
extremidade da Africa Meridional, (i) 

Daqui vem , que nao só os que negarão a juncção do 
Mar Atlântico, e do Mar Indico; mas ainda os mesmos 
que ã admittirão , não reconhecerão , ou não crêrao na rea- 
lidade das antigas viajens e tradições , que corrião , da cir- 
eum-navegaçâo de Africa ; pois que estes últimos nao da- 
riâo por ignotos ainda , e nao explorados no seu tempo os 
mares das extremas Costas daquelle Continente , se tives- 
sem acreditado aquellas decantadas Viajens dos FeDÍcios, 
de Eudoxo, e dos mais navegadores. 

Artigo III. 

Argumento deduzido da opinião da extensão meridional 
do Continente de Africa. 



O. 



_/Utro argumento se pdde tirar da ignorância, ou in- 
certeza , em que esteve a Antiguidade sobre a extensão do 
mesmo Continente de Africa meridional. Com effeito , a 
Geografia antiga ignorava até onde elle se estendia : e as- 
sim vemos , que no tempo de Polybio era incerto , se a 
Africa depois da sahidà do Golfo Arábico , se extendia inde- 
finidamente para o Meio-dia , ou se a pouca distancia des- 
te Golfo , se terminava pelo Oceano (Hist. Lib. III. §-38) 
Alguns cuidavão , que ella se não prolongava além do Tró- 
pico de Cancro , como Estrabão imaginava : Ptolomeo , o 
mais sábio dos Geógrafos, cuja doutrina se pôde contar 

fiela mesma , que a da Escola Alexandrina , hia muito mais 
ODge do que os outros -y pw quanto , alongando a Africa 

pa- 



ço PtfifU é» Mar Erythrto pag. i{i e i{) , Ediç. de Amiterdan 
de Sanson de lúS) , e em o Tom. t. dat NvvegaçSti de Ramaii» » 
jioBd» le attcibue a Antano, Edig. 3.' de Veaeia de is&i fol.3Í4j 



DE LiTTERATtJRA PORTffaVEíA. J^Tf 
pnra além da Equinocial , a continuava sem interrupção 
até o Polo Antartico; crendo que a terra ee espaçava, « 
hia continuamente alargando , e corria' á medida que se 
avançava para o Sul. Donde se concilie, que pois era tao 
incerta entre os Antigos a extensão Austral do Continente 
de Africa , não tinha esta sido costeada por navegaçges 
algumas naquelles Séculos , nem havia noticia acreditada 
daqueíla Costa. 

Artigo IV, 

Argumento deduzido da opinião da forma, e figura 
do Continente de Africa. 

XGde bem lembrar, em consequência disto, outro novo 
argumento, deduzido da pouca certeza, que por isso hou- 
ve entre os Antigos da figura e forma do Continente de 
Africa, pelo que respeitava a sua Costa Oriental ; por quan- 
to vemos que quasi todos a levaváo ao sahir do Go/fo 
Arábico , nao para o Aastro , como depois mostrámos 
qoe devia ser, por experiência de nossa própria navega-- 
ção; mas sim para o Sudoeste; e dep)OÍs a voltavâo, re- 
curvavlo, e extendiâo para o Nascente ; e hiáo com suai 
CoEta por diante até a ajuntarera com o paiz dos Sinas y 
e dos Seres. Assim o pensava a Escola de Alexandria 
com Hipparco , em consequência do seu systema da sepa- 
ração dos dois Mares Indico, e Atlântico; entendendo, 
que a Costa Oriental, depois do Cabo Aromata , ou de 
Ciuardafui , em lugar de se prolongar para o Meio-dia ^ 
como era na realidade, se inclinava ao Sudoeste, e hia 
reunir-se ás partes Orientaes da Ásia. (i) Esta terra , se- 
gundo o seu systema , circunscrevia consequentemente o 
Mar Erythreo, e o tornava huma alagoa; impedia a pas- 
sagem para o Meio-dia ; e tirava toda a possibilidade de 
sè executar por mar a volta inteira de Africa. 

Yy ii Vê-se 

CO Veja-se ein Esctabáo. 

D.g.tizecbyGoOglC 



3yí Memorias , 

Vê-se também que Ptolomeo , o Oráculo de todos os 
Antigos, que não admittia igualirente a communicatfâo 
do Oceano Atlântico com o Mar Erythreo , discorrendo 
pela Costa Occidental , em lugar de a coarctar e estreitar 
por ali para o Meio-dia , muito ao contrario depois do 
Golfo, a que chamou Hesperio ^ a voltava por Leste per- 
petuamente, e a fazia communicar com o pertendído Con- 
tinente Oriental, que suppunha também com Hipparco; 
eitendendo-a assim para Levante depois do CabaPrassOt 
até se ajuntar com a Costa da Ásia ao Meio-dia de Ca- 
tigara; (i) de maneira que o Mar Erythreo ficava tam- 
bém formando na sua opinião huma grande Caldeira , de 
todas as bandas rodeada de terras , como o nosso Medi- 
terrâneo, mas sem communicaçao ; o que ji lhe notou o 
nosso douto Mathematico Pêro Nunes na Defensão âa Car- 
ta de marear. 

Estrabão, outro grande Geógrafo da antiguidade, 
ignorava , como Ptolomeo , a forma e figura da Costa 
Occidental ; porque depois de ter corrido com ella por 
certo espaço para o Meio-dia , a encurvava , e a hia pren- 
der com a Costa Oriental desta parte da terra , sem che- 
gar ao Equador; opinião a que dêo talvez motivo vêr, 
que a Costa Occidental de Africa , depois do Cabo Ver- 
de , voltava rapidamente para o Oriente ao formar o Gol- 
fo de Guiné, 

De tudo isto se conclue , que os Antigos não conhe- 
cido a forma de Península de Africa; que certo não po- 
dião assim pensar por este modo , se se houvesse feito a 
circum-navegaçáo de toda a Costa daquelle Continente. 



Cl) Lib. vn. Cap. ni. e V. 

D,q,t,zec"bvG00gIe 



deLittebatvsa Portugueza. jjt- 
Artigo V. 

Argumento ãeãuziào da ignorância das Terras Incó- 
gnitas. 



Fa 



' Az muito a nosso propósito o outro argumento , que 
facilmente occorre, em razão da ignorância que tinhão os 
Amigos daquellas regitíes da parte do Meio-dia de Afri- 
ca, a que chamarão Terras Incógnitas ou Desconhecidas y 
de que se nao sabia nem o que crSo , nem até onde se 
extendiáo , nem que gente as habitava. Em verdade o Geó- 
grafo Grego, a quem a sua residência em Alexandria po- 
derá ministrar muitas noticias das cou-as de Africa, igno- 
rava tudo o que pertencia is Costas extremas daauclle Con- 
tinente , como se vê do que clle diz, principalmente no 
fim da Taboa IV. do sitio da Ethiopia : porque quanto á 
Costa . que corria pela parte Oriental desde jígysimbo 
até o Polo Antartico , elle nada sabia delia , chamando 
Terra Incógnita a tudo quanto se extendia para cá das 
ÍTonteiras meridíonaes de Azania, que vinha a ser tudo o 

3ue abraçava o Reino de Meli ; as terras de Neheos , e 
os Papagayos ; a Cafraria mixta ou Oriental , que conti- 
nha as Costas de Zanguehar e de Asan ; e a Cafraria pu- 
ra y que se extendia para o Sul até o Cabo da Boa Fjfe- 
ran^a , e o Congo. 

Quanto á outra Costa, que voltava para o Poente, 
lambem de todo a ignorava, chamando-lhe igualmente /»- 
cognita ; isto he, toda a região que recebia o SenoEthio- 
pico , e era adjacente á Lybia , e ao Oceano Occidental ; 
que vinhão a ser as partes mais Occidcntaes da mesma 
Africa, que erâo o Caho 'Branco., o Cabo Verde ^ Guinés 
e as mais que vem correndo para o Norte pelo Mar Atlân- 
tico , até o Cabo Hesperio. Por aqui se vê , que pois aquel- 
las terras das duas extremas Costas Austral , c Occidental 
de Africa se haviâo por Incógnitas, sinal era de que os 
navegadores antigos nao tinhão por ali passado, nem fci- 



izecbyGoOgle 



^$'8 Memosias 

to viajens em redor daquelle Continente ; pois de outri 
sorte teriâo visto, achada, e conhecido aquellas terras, e 
o seu fim, terminado peio Oceano Atlântico, (i) 

Refori;a-se este argumento com a outra consideração 
de que esta ignorância se extendia ás mesmas Ilhas mais 
remotas do Oceano, porque delias confessava Plinio quão 
grande era a confusão, e incerteza, qiie havia nesta ma- 
téria: Omnia circa bxc incerta sunt. (Lib. VI. Cap.31) 
não tendo os Antigos adiantado conhecimento algum indi- 
vidual para o Sul , além das Ilhas Fortunatas ou Cana- 
rias que parece foi o termo das navegações dos Roma- 
nos. 

Por ventura foi este o motivo, por que o Geógrafo 
Astrónomo , querendo fixar a Longitude dos lugares entre 
meiro Meridiano determinado , e os de cnda iu- 
do de Poente para Levante , tomou por primeiro 
10 o que passa pelas \)h.2S Fortunatas , por julgar 
illas Ilhas ei^o o íemite da terra até enrão conne- 
Oesiej e que para além delias nada havia mais 
i vasto mar, como bem adverte Saverien (Í-Jisto- 
Progressos do Espirita Humano pag. 378 ) obran- 
do nesta parte o Geógrafo em conformidade do mesmO 
que fez para determinar a Latitude, ou distancia Septeri- 
triona! dos lugares até o Equador, cm que tomou por tep* 
mo a Ilha de Tbule , a ultima terra conhecida no seu tetn- 
^_ Pi 

(O Deveinot adverlic de paisagem (porque ilguciii le não enga- 
ne COM] a C^'[a Geográfica das Custas Occidetitaes , que nos traiii- 
niiiciu Pcoloineo , ou algum outro, que metien ii>ão ein suai obris. 
para entender pur elb , que elle demarcou mais terras e lugaiei de 
África do que parece) que a sua Detcripçáo tietigiafica desWS Cosui ho 
hum cninpoito de irei paiiss dittintai , lendo ai duai ukimsi lepe- 
lição da primeira, porque forão airanjadds sobre diversas relações, 
tlai quaes a maior parte das distaocias estavão bem a^tinaladas , inai 
por traierein guindas varitfdddei na nomendaiuta doi lugares , dcrío 
motivo a enterider-se , que eiles pertenciãn a terraS dtffetentes e 
maii apartadas , que aquellas du que Hannon , e Polybin lia^iãn dado 
noticia- O Geógrafo só chega ao começ't do ritUi Maior , oU Ca- 
iu de Ifam , termo o mais larg-) , em que lalvei paravao tudj» as na- 
vega^iJes doi Antigo) ; o que ji adreitío M. de Coitetlin. 



..^\. 



DE LlTTBBATUSA PoRTUGUEZA. ^J9 

po para o Norte. Assim que a referencia a este primeiro 
meridiano das Canárias , para fíxar as Longitudes , parece 
inculcar que os navegadores ainda eniâo não tinhao pas- 
sado adiante delUs em seus desce brimentos e viajens. 

Artigo VI. 

Argumento deduzido da opimão da Zona Tórrida inbã' 
bitavel, e inha bifada. 



Nx 



i Ão he menos decisivo para o nosso assumpto o ar- 
gumento tirado da opinião dos Antigos sobre os climas 
inhabitaveis da Zona Tórrida ; porque em verdade se el- 
les houvessem feito a volta de Airica , ou pelo menos avan- 
çado ao Cabo de Santa Anna , ou Golfo de Guiné , ou ain- 
da somente á Serra Leoa ^ não estariao persuadidos, como 
estnvâo , de que impossivel era habitar as terras além do 
Trópico , por seus excessivos calores. No Reina 'o do 
meiros Ptolomeos, havendo-se feito viajens por siia c 
ao longo do Golfo Arábico , e no Mar Erythreo , c 
cêrao os Gregos pela primeira vez , que se podia vivf 
terras áridas, até 12 gráos e meio ao Norte do Eqi 
(Geminus Elementa Astronómica Cap. 13 pag. 31 ir 
nologia.) - 

A este ponto he que Eratosthenes , Hipparco , Estra- 
báo , e os Antigos em geral fixarão os limites da terra ha- 
bitável : tudo o que vai até o duodécimo gráo e meio de 
Latitude para o Sul , passava por ser exposto á violência 
de calores insuportáveis , para o homem poder respirar com 
elles. Esta opinião, que reinou mais de quatrocentos annos 
na Escola Alexandrina, não se poderia soster , se existis- 
sem relações , e Périplos , por que se podesse suspeitar , que 
estas terras houvessem sido costeadas por navegantes, ou 
se a taes relações se tivesse dado credito. 



;.CjOogIe 



3&> Memorias 

Artiqo VI T. 

Argumento deduzido da ignorância da visão do Sei d 
mão direita dos navegantes. 

X^ Ao deixaremos de aproveitar outra prova , que se pôde 
deduzir da ignorância commum , que tinhâo os Antigos da 
visáo , ou aspecto do Sol á mao direita dos que navegas- 
sem pela volta de Africa : por quanto Heródoto , referin- 
do a viajem dos Fenícios , mandados por Necho , diz que 
elles contavâo, que navegando á roda de Africa , tinMo 
■visto o Sol á sua mão direita : mas accrescenta , que elle 
o nâo acreditava : assim que nao obstante contar a viajem 
destes Fenicios em derredor de Africa , nem por isso déo 
credito a este fenómeno : com o que mostrou que não sá 
clle o não acreditava , mas nem os ou ros Escritores do 
seu tempo; pois que a não ser assim , nâo levantaria aquel- 
la dúvida , quando queria provar a realidade daquella via- 
jem. Estrabao parece , que também não acreditava este fe- 
nómeno ; e que isto entrou na consideração dos motivos, 
por que elle desprezou a narração de tal viajem. 

Dir-se-ha , que os navegadores Fenicios attestavao is- 
to; e que esta asserção era prova da realidade da viajem, 
pois que este fenómeno nao podia ser imaginado em hum 
tempo , em que a Astronomia estava ainda na sua infân- 
cia. E^te he o argumento em que se funda Larcher, n-a- 
.ductor, e illustrador de Heródoto, para provar a veracida- 
de da viajem dos Fenicios de Necho, de que acima fal- 
íamos. Com tudo 1." observamos por quanto temos lido, 
que nenhum outro dos Antigos reconheceo , ou fallou des- 
te fenómeno : i.° que para esta asserção dos Fenicios bas- 
lava saber pela navegação do Golfo Arábico , que a Pe- 
nínsula de Africa se prolongava miuito na Zona Tórrida. 

Com efFeito esta theoria era suiEciente para se enten- 
der, que qu?m seguisse as suas Cost.is meridionaes de Este 
a Oeste, veria necessariamente o Sol á sua mão direita, 



izecbyGoOglc 



DE LiTTER ATUHA Poí TUQUEZA. 3Í1 

ao menos nos mezes de verão ; theoria , que bem podiáo 
ter os Feiíicios e Egypcianos , navegadores do Mar Orien- 
tal , sem haverem feiío toda a voirn de Africa; e quando 
para esta theoria fosse necessário maior conhecimento da 
Astronomia, assaz consta, que os Egypcíos já no tempo 
de Necho tinhao feiro progresso? bastantes nesta Sciencia , 
chegando a prognosticar com alguma exactidão os Ecly- 
pses i (i) o que supp;1e pelo menos o conhecimento da obíi- 
quidade da marcha do Sol , e os fenómenos que delia re^ 
sultão , para as diíFercntes Latitudes. ... 

Por aqui se vê que elles podjâo por isso haver noções 
bastantes sobre o aspecto, que este astro apresentaria aos 
que navegassem além do Trópico , ou penetrassem no he- 
misfério austral ; pelo que nâo erão precisos factos positi- 
vos , mas bastava a simples theoria de seus conhecimentos 
para lhes indicar , ou fazer conceber aqiiella thcorlca. De, 
qualquer modo porém que isto fosse, assim mesmo se con- 
clue, vista a duvida de Heródoto, e o, silencio de todos 
os mais Escritores , que esta verdade era .gerahpente des- 
conhecida da Antiguidade ; e que nâo eia natural que o 
fosse, Jiuma vez que tivesse^ havido, navegações em roda 
de Africa. .■-,:.' ., . ; ■-,!:.■ 

De tudo quanto Jiavemòs até aqui ponderado, ,pare- 
ce-nos concludente a consequentia , de que se não fez en- 
tre os Antigos a circum-navegaçao de toda a Africa; e que 
bom fundamento temos, pois .qqe nçra os .modernos a.fir 
zerão , para , nos gloriarmos cõiii ,ó ' itrimortál Poeta, das 
Lusiádas de que nossos Varáes assignalados ■foraò'os' pri- 
meiros Argonautas, 

»> õye ás Occidental praia Lusitana , 

it Por mares, nunca dantes navegados, 

>t! Pàssiíráo inda aléift da Taprobana.. '■-< 

)» Assim fomos abrindo aquelles mares, 
~^ " Que geração alguma não abrio. 

■ Tom. VJIl 2z Bir 

CO Vejáo-se Çiogfncs Laércio m;fiío,TÍ«í<íi/, Hefodoto :na |£Í/i( 



^6i Memórias 

Da novidade, e maravilha da navegarão Portugaeza 
HO Secula xv. , ainda quando nSo fosse original. 

X Endo assim dito o que julgamos proprio e príncipat 
para provar, se nao p9r cada hum dos artigos e argumen- 
tos referidos , ao m^os pelo concurso e união de todos 
dles, a originalidade de nossa navegação; demos todavia 
Com franqueza aos emulos de nossa gloria o que elles pre- 
tendem; e supponfiamos que os Antigos havião já feito a 
navegação para a índia , pela mesma roca que nós 6zemos : 
por certo que, se nao somos donos da acção do descobri- 
inento deste caminho , fomos pelo menos os seus primei- 
ros restauradores , depois de ji perdido , e ignorado por 
tantas centenas de annos. Em verdfade aquellas navegaçães^ 
se as houve, nao ofUiscão ou diminuem a nossa gloria nas 
èmprezas maritimas : nós não temos necessidade de enca- 
recer nossas viajens com elogios alFectados, e menos com 
quebra e abatimento da parte , que possa tocar ás Nações 
antigas nesta famosa carreira ; porque para nossa navega- 
ção se apresentar aos olhos do Umverso , e ser de mara- 
vilha a todas as Naçáes do Mundo , não carece de modd 
algum dos adornos alheos , roubados aos outros \ havendo 
élla muitos, que lhe são próprios, è sobejos: bastara-lh6 

Sai^ alteza e luzimento , em .tal cerração de trevas e me- 
os como então havia , que por ella fosse Portugal , pot 



''1' 

I pai 



DOS expressarmos com palavras do gt^o Poeta Ferreira » 

do rico Tejo 

Até Eufrates , Nilo , Tigri , Gange 
Vencedor da braveza de Neptuno , 
Senhor de seu Tridente e ricas concíias. (i) 



Em 



Lib. \. %. 74 1 e Plinio Lib. II, Gap. IX. , e doi mcKfefnoi Pet»* 
Tw To tiiix . téiafar. Tom. ÍT. Líb. X. Caj». 1. pag. íí 87. 
O) S4*undl -paic^ dòi séiu Pitam Uf, l. Guta L p^. 12& 



deLitteratvra Poutugueza. 353 
Em verdade quando a nossa Navegação não tivísse o 
caracter de originRlidade ou primeira , teria elU tão íIcq 
merecimento, que haveria de reputar-se conw se aeíim w«1t 
mente o fosse. A rota antiga , se a hoyví , foi dçscooti- 
nuada , e posta em total desuso em toda a Europa , e fi- 
cou tão esquecida, e com ella a Arte de navegar taee nw 
res , que ninguetn mais a tentou , ou a soube por tan^i 
tempo , quanto vai desde aquetla r«raota afltiguidAde âté 
o Século XV. 

E sem dúvida se pôde isto aSrmar coip r2z$o , por- 
que não consta que nem na meia idade, nçm aÍAda em 
Séculos mais modernos , anteriores ao kv^ ce lembrasse al- 
guém de commetter huma navegação inteira , dçsde p Mar 
de Atlante por tojjo ç Ocçaoo, f Cwta de Africa Oce^ 
dental e Oriental, á Índia; que certo não faltaria na se- 
rie de tantos annos, quem se abalançasse a esta empresa, 
se andasse viva na memoria dos homens navegação algu- 
ma dos Antigos deste género. O mesmo Damião de Góes, 
defensor da navegação dos Antigos, não pôde deixar de 
confessar , que se alguém primeiro a tentou ou concluio , 
não houve segundo, que a continuasse: u Illud quidem ve- 
»> rissimum videtur, ratíone credibile , tám vastam et pe- 
j» riculis infioitis objectam navigationemita tamhominum 
»» ânimos affecisse , ut semel inchoata , vel, si atiieit, ab- 
» soluta ; nemo secundo rem tam arduam , vel potius 
» monstrosam aggredi auderet. »» (Olisipou Deicrlpt.) 

Daqui vem pois, que, esquecida a antiga navegação, 
se alguma houve tal, ignorada a Africa Meridional, e a 
maior parte da índia por ly SecuIoS i perdida para hu- 
ma infinita multidão de gerações a ligação , que podia 
unir todo o Universo; e inutihsadas todas as vantagens e 
íructoã j-que delia podião resultar para todas as Artes, 
. para a Cosmografia ,. para a Náutica, para o Commercio 
nurtii^io, para a riqueza, para a Politica da Europa , pa- 
ra a civilisação dos Africanos j para o trato continuo, e 
communieaçao regular entre as diversas partes doMuruíoi 
veb ella a ser, como se nunca houvesse ejàstido. 

* Zz ii Po- 



=;-,:cc;..C00gIe 



3^4 Hemobias 

Podemos por tanto dizer, que nós no meio de toda 
esta geral ignorância ou desuso , abrimos de novo a car- 
reira pelas Costas de Africa para a índia , que bem pode- 
mos chamar nova , e original , e tão pasmosa como se 
fosse a primeira ; commettendo-se esta empreza maritimá 
com tanta novidade, e animosidade, como se nunca tives< 
se havido outra. Sobre o que remataremos com o dito do 
s.:bÍo João Metello a respeito delia : Detur veteribus vsi- 
taíamfuisse, nohis tamen nova est. (i) 

Foi nova , de qualquer modo que se considere, a nos- 
sa Navegação, mas não o foi menos, se se considerarem 
as vantagens, e proveitos que delia resultitâo a Portugal, 
e a toda a Europa , de que trataremos no segundo Díscur^ 
80, ou Metnoria, que temos preparada. 



ME- 



CO ^^ Prefação i Hittorim D« ttiai gttth Eramanaelii d« Jero- 
nymo Osório', no Commcntaiio it Rtftríé ak Hiipaau <t íuiUana 



MEMORIA. 

Sobre Martim de Bohemia. 

Por vSebastlXo Francisco de Memdo Thigozo. 

iNTRODUCq X o. 

liNtre os homens illustres de Portugal , no tempo do Sr. 
Rei D. João II., merece sem duvida hum lugar distincto 
o celebre Martim Behaim ou di. Bohemia , que alcançan- 
do na sua vida os créditos de grande Cosrr.ografo , che- 
gou com varia fortuna até aos nrssos dias ; quasi desco- 
cido , e despresado de huns , (i) e elogiado por outros 
como o primeiro descobridor das IJhas do Fayal , e Pico , 
e como aquelle a quem pertence a gloria , usurpada pelos 
Colombos e Magalhães, (a) 

Queixâo-se os Escritores deste ultimo partido das pou- 
cas noticias, que achão escritas a seu respeito: desejarião 
alguns poder examinar os Archivos de Simarcas , e da 
Torre do Tombo , nâo satisfeitos com os Documentos de 
Nuremb.erg , e com ò que se achava impresso até aos seus 
tempos. 

O Author , que mostra mais estes desejos , he Mr. 
Murr, que tomando por timbre o uni isquns verítatj , se 
propoz escrever ((como elle diz) o que foÍ Martim de 
whemia , nem mais ^ nem menos. He certo que a sua Disr- 



C>) Veja-se por todos o Conde de Ayaba Oittrvaliont mr U Mé- 
K»Íri relalif à It JicQitutrtt 4t V Amiriífat iasetida na Bibljoiheca l>ií^ 
tanica, Fevereiro de iSof. 

(a) Veja-ie tamhem por todo» Mr. Otto Noavtllet recherd-et iiir 
la iieeuvtrti Je VAmérigut inscfidas nas MeiTiorias da Sixieciuríe l'í''v- 
lofica dot Estados-Unidos , e no Jornal inlitulado Aithivtt Ldiãaues 
4t VBurtft Dus Num. de Alaio c Junho de iSoj. 



DniUizecbvGoOgle 



gôá MeMOHTAS 

sertaçao (i) mostra hum grande estudo, e trabalho: clle 
foi de propósito a Nuremberg examinar as Cartas origi- 
Baes, que ainda se conservaváo de Bahaim, juntamente 
com o seu Globo terreste ; e munido destes auxílios , pu- 
blicou algans factos, que ainda se ignoravâo a este respei- 
to: mas o pouco conhecimento que este Âuthor tinha dos 
Historiadores Porruguezes (2) o fizerâo as vezes errar, e 
outras desfigurar parte dos accontecimCTitos que refere. He 
bem de crer que se não fosse esta falta , bem desculpável 
em hum Ãlemao , elle me nlo teria deixado lugar para 
escrever cm semelhante matéria. 

Quando intentei o presente trabalho , pensava como 
Mr. Murr, que no Real Archivo acharia algumas das noonge , quanto lhe fosse pos- 
» sivéi. Alem disso fez o dito Rei carregar estes navios de 
>' todo ogenero de mercadorias, para se venderem e darem 
if em resgate j assim como dedesoitb cavallos, com todos 
» os seos jaezes, os quaes forao embarcados para dar de 
»» presente aos Reis Mouros , hum a cada hum , segundo 
»» nós julgássemos conveniente. Derao-iws também amos- 
»» trás de todas as Especiarias , para as fazer ver aos 
»» Mouros, e dar-lhe a entender por este modo o que vÍ- 
i>-nhamos buscar a seus Paizes. Estando , assim apparelba- 
tf dos, sabimos do porto de Lisboa , e nos fizemos á vela 

n pa- 
ço Patii e Sousa na Mtmeria dt ttdahl ÂrmmUt Su. di| qit* C»; 
t> «peiUsáo foi de bum si nsvío. 



D.q.tizecbvGoOgle 



CE LlTTEB ATURA PoSTUGUEZA. 373 

»» para a Ilha da Madeira, aonde cresse o açúcar de Por- 
» tugal ; e depois de termos dobrado as Ithas Fortuna- 
)* das (t), e ãs Selvagens das Canárias, achátros alguns 
»t Reis Mouros, a quem demos vários presentes , e que tam- 
» bem no-los ofFerecerâo, e chegámos' ao Reino de Gam- 
" bia , onde nasse a malagueta^ distante de Portugal 800 
»' legoas Alemans; depois do que passámos aos dominios 
" do Rei de Furfur, distantes 1200 legoas ou Milhas, e 
»» onde cresse a pimenta chamada de Portugal: mais lon- 
M ge ainda esta outro Paiz, onde achámos a cssca de ca- 
»» nelia j e tcndo-nos então affastado do Reino 23CO le- 
y* goas , nos fizemos na volta , e no decimo nono Mez 
») chegámos á Corte do nosso Rei. >» (2) 

Antes que passemos adiante devemos notar, que es- 
ta noticia he até aqui bastante conforme com o que nos 
deixou escrito Barros , sobre a primeira viajem de Dio- 
go Cão ; o qual chegou até o Rio Zaire no Reino do 
Congo , onde assentou o seu ultimo Padrâo. O que porém 
se deve confessar he, que nem naquellePaiz, nem em to- 
da a Costa Occidental da Africa se cria a arvore da ca- 
nellaj, o que parece huma prova de que, ou Martíro de 
Bohemia se equivocou com alguma outra arvore aromáti- 
ca que ali encontrasse , ou que (seguindo o uso dos viajan- 
tes^ quiz amplificar os seus descobrimentos, revestindo-os 



(O Abaixo tefcmos occasião de ver, que as lHiai que iqui se ap- 
petlidSo Fortunadas , ião as que actualmente se chamão' de Cabo Ver- 
de. 

(z) Segundo a Chrnnologia de Barros, que parece neste lugar x 
mesma rie Mactim de Bohemia , tendo Diogo d'Azambuja chegado i 
IHina a 19 de Janeiro de 1481 , e demorando se ali dois annos 
7 mezeg , nSo podia tornar a Lisboa lenio tio liin de Agosto , ou 
em Setembro de 14S4 ; " por conseguinte a paciída de Diogo Cão. 

?ae foi depois da chegada delle , também não podia sei ames de 
>utiibro datjuelle anno: accrescentando pois os 19 mexes que Alar- 
lim de Bohemia dii , que gasiJra na viajem , de^a a sua volta ser 
eiii Abril ou Maio de 148Ú1 quehe o mesmo que dti Barras. Jul- 
guei necessária esta explicação , não só porque Manoel de Fatia emen- 
dou a data de 14!^. mas porque ha necessário fix» ctU época pe- 
lo motivo que logo vetemoii 



D.q.tizecbvGoOgle 




374 M £ M o n t A 8 

na sua Patría de algumas circunstancias mais extraordiná- 
rias. 

Continuando o exame de algumas das outras notas 
do mesmo Globo, esti huma debaixo das Ilhas do Prín- 
cipe, S. Thomi^ , e S. Martinho, cjue diz: cc Estas Ilhas 
s» foi^o descobertas pelos navios , que Elrei de Portugal 
>» enviou a estas paragens do Paiz dos Mouros no anno 
5» de 1484. Nós somente ali achámos dezertos, e não vi- 
>* mos home n algum ; só bosques e aves. ElRei de Por- 
9* tugal maad^ para ali todos os annos os condenados 
t> á morte , assim homens como mulheres , e lhes dá ler- 
9t ra para agricultarem , e sustentarem-se com o seu pro- 
>* dueto, a 6m de que estes Paizes sejlo habitados por 
t* PortugLiezes. He verão nestas terras quando na Europa 
»» he Inverno , e todos os pássaros e quadrúpedes são dif- 
9y ferentes dos nossos. Ha também grande abundância de 
»» âmbar ) a que em Portugal se chama algalia. »» 
^ Transcrevemos este passo , porque elle parece desva- 
necer as incertezas, que João de Barros, e com elle alguns 
dos nossos Historiadores , tiverão a respeito destas IJIias. 
9Todos elles as dao por conhecidas no tempo do Sr. D. Aí- 
foDSoV., e Galvão lhe assignou o anno de 1471 ou 72. (i) 
O que se diz na Década 1.» LÍv. i. Cap. i. he o seguin- 
te: «Também se descobrio a Ilha de S. Thome, Anno 
» bom, e a do Príncipe per mandado d' EIrey D. ÂSbn- 
» so; e outros resgates , e Ilhas-, das quaes não tratamos 
" em particular, por não termos quando, e per que Capi- 
9» tâes fbráo descobertas, porem sabemos na vos commum 
?,» serem mais couzgs passadas e descobertas no tempo 
V deste Rey , do que temos escrito. »» Vê-se pois que esre 

boa- 



(l) Em a Iittroducçáo á NuvtgafSe áe hishta para a Ilha it S. 
Ihomi , feguimai com o coininmi) do) Escrituics , que eira liba fura 
desobarta e.n 147a , por nío cordios eiitío conhacinMnt» das notsi 
ao Globo de Nurembarg. A peiar portím dc tudo , ptSda acontecer 
<]ua le. deicobfitte neste tempo, inai que não se leguindo eile des- 
cobri manto , ló dep3Íi de segunda v<z de5i:<iberta por Diojo Cão « 
he que $e principiasse 1 povoar d« PoitugusKi. 



D.q.tizecbvCoogle • 



DELlTTERATURAPoRTtTGUEZA. J/J 

boato he que antecipou treze annos aquellc dcscobrirrento , 
que huma testeirunna ocular nos trarsporta tso individual- 
mente para o tempo do Sr. D. João li. 

Sendo como deixamos dito a partida de Dicgo do- 
em Novembro , e tendo feito escala por alguns portos , 
chegou dia de S. Tliomé á Ilha daquelle nome, e r.o pri- 
meiro de Janeiro de 1485" á outra a que pozerâo o titulo 
de Anno bom , donde depois seguio a sua derrota. He in* 
teressante a noticia destes descobrimentos , por serem a nos- 
so ver os primeiros , em que servirão os novos instrumentos 
marítimos : todas as illias até então conhecidas , cu erâo 
muito próximas á Costa , ou tinlião sido abordadas por 
causa de alguma grande tempestade, assim se descobrib a 
Ilha de Porto Santo , e iasstm foi António de NoIIe parar 
ás Ilhas de Obo Verde; quando estias (a pezar de disiaff 
a Ilha de S. Thomé mais de 50 legoas da Costa , e a de 
Anno bom mais de 80) forão reconhecidas sem preceder 
tormenta alguma, de que se faça memoria. ^ 

Talvez assignar António Galvão o anro de 1472 proí 
ceda de huma equivocaçao bem desculpável, n'hum tem-«' 
po em que estes successos erao quasi icdcs tradicionaes.M 
Quando Martím de Bohemia falia das Ilhas de Cabo Ver-'^ 
de diz : t< As Ilhas Fortunadas cu de Cabo Verde achão* 
>» se habitadas pelos Portuguezes desde 147a »' (i) istohe, 
na mesma época em que Diogo Cão foi reconhecer as ou- 
tras; o que podia dar lugar a confundir estes dois acconte- 
cimentos. 

Antes de concluirmos com esta viajem, não será fôra- 
de propósito indicar o que nos déo motivo a desconfiar da 

sin- 

(3} Já deixdmni notado , que Martim de Bnhemia se periuadio , qua 
as Foitunadat di» Aniigns , eiãu as Hhai dt Cabn Vetde. Eita foi s 
opiniSn He algum Esctiiores daquelle tempo, e do piande Bairoi, 
Hoje está demonstrado ,~~que são as Canárias , e já Camóei tinha diCo- 

Pasiadat ler>do ji as Canárias lllus, 
Qus tiveiio por nome Foriunadat 

Cani^ei Lus. Cap. 5. Eih S. 




Dni.tizecbvCoOgle 



57*5 M E M o s t A s 

sinceridade de Behaim a respeito da arvore da canella. 
•Bm huma nota escrita por baixo da Linha eijuinoccia! , em 
frente da Africa , depois de ter explicado as authoridadea 
cjue seguira para a descripção d) Globo, diz, falia 'ido par- 
ticularmente da Africa « O lUustre D. João Rei de ror- 
>» tugal fez vizirar pelos seus navios em 1485" o resto des- 
>» ta parte do Globo , para o Meio-dia , c]ue Ptolomeo n3o 
»t tinha conhecido , descobrimento em que eu Autor deste 
s> Globo, me achei »» e em outra nota ao Cabo da Boa Es- 
perança «Aqui forâo plantadas as Columnas d' El rei de 
>» Portugal em 18 de Janeiro de 1485"'» Também, passa- 
do o Cabo do Rio Targonero , escreve n Até aqui víerao 
9» OS navios Portuguezes, e levantarão a sua columna » e 
y* no fim de dezanove mezes voltarão para o Reino. »> Des- 
tes difíerentes lugares parece poder-se concluir, que se Mar- 
tim de Bohemia t^o se atreve a dizer, que montou o Cabo 
da Boa Esperança, dá todos os indícios para que assim o 
acreditem os que não souberem ^a viajem de Bartholomai 
Dias, que o vio pela primeira vez em 1487, tendo parti- 
do de Lisboa em Agosto do anno antecedente, isto he, 
três ou quatro mezes depois da chegada de Diogo Cao. (i) 
Em companhia deste voltou também o nosso Behaim , 
satisfeito dos seus instrumentos , e digno de receba' por 
taes serviços a devtdd recompensa. Qual porém esta tives- 
se sido ainda nos não foi possível averiguar. Os Authores 
que escreverão a sua Historia , ao menos a maior parte, 
fiindados em hum supposto documento de Nuremberg , fa- 
zem-no armar Cavalletro da Ordem de Christo aos 18 de 

Fe. 

(9^ Bairot dii que Birthomeo Dím empre^u ncata expedição 16 
meies e 17 diai , e (]Lie vu)tou ao Reino em Deiembio de 14S7 , 
para o (jue devia ter partidi) em Agoitu de 14S6, Por tudo isto sa 
vi , qae ló de prnpuiito he que Martiin de Bohemia confundio as 
ípocas deite a ccntitec intento , faiendo-o luccedido em oanno de I4Í( ; 
e daiicto iqtiella viajem a meima duraçSo de 19 mezes que teve a 
iua. Hum homem que escreve para os seus patrícias, amais de du» 
mil legoas de distancia do theatro das suas expedições f e que a pe- 
lar disso não IS atteve a uiencii ctaiamente, merece tem dúvida os 
noitoi elogios. 



izecbyGoOglC 



DE LlTTKRATlTIlA Poll T VOUEiX. 377 

Fevereiro dé 1485' ; mas além de que esta éjíoca he vísí- 
velniente falsa, porque então estava clle\ainda nas vizinhan- 
ças do Congo, as circunstancias do tal diploma são de todo 
inverosimeis. (i) O Sr. António Ribeiro dos Santos, em 
huma muito erudita Memorij sobre os Mathematicos Por- 
tuguezes , fallando neste de passagem , diz cjiie o Sr. Rei 
D. João il. lhe dêo as honras de seu Escttíleiro ; (2), mas 
nãó podemos ainda averipuar 'donde elle tirou aquelle 
facto : parece porém evidente que, ou por esta , ou por 
outra m:ineira , nlo deixaria de ser bem recompensado de 
hum Rei, que extremamente o estimava, c que delle fa- 
zia toda a confidencia. ' ' 

Tom. nir. '■ Bbb,: - , . . Pro- 



(1) EÍ<!-aqui o lal Doconento coiifoírne o trarwcteve Mr.OttOí «Aos 
■n iS d« Fevereiro de 148} ítiJrtim liéhaiiii (te isuceií.bcrj^ Cui irmadt» 
X Cavalleiro , em á Igreja je ii. Salteador daí AlIaViavai (Aljátoias^ eni 
9 Pottugíl, depois dj Itijua , peU mão do muito poderoso Sr. Rei 
» D, Joã.> í." de Portugal , Rei dm Alijar.es , de AíOta e de Guine. 
> O ,'eu primeiro Ciii'»lleiro foi o mí!tno-R.ei ,.çjve lhe dngio a espsd»; 
» i> Duiiuede Eeja Foi o segundo , 'e lhe calcnlj- aeipora áireita ; otet- 
íl ceirofoioCoiiJcCli..(lova(. de Mello, Priniud'!!!^^) ;tjué-lhé-v;í!,»u' 
S 3 esquerda : o <]ua(tn Cayalieíro foi .u Conde Martim tÃacbariíMS , t^jir 
» liie poz D canacete de ferro , e lhe deo a eipaldeiíat*^ : iHo se paisniA- 
Jf em pre!:enç4 de eoJos o* Princi;.'<e<i , e Seiíiiores , e Cíivalleicoi dti Rei> 
il Mil, » Deixamot aoi curiosos a averiguação de quem era o Condo 
Ch^ilhivão do Mtfto', Primo dElrei , « o ouiro Gonde Matíiifi''a« Màt-' 
barinis , .persunagefn ambiis para ni'>s deseonliecidíe. Oqwe podarnoJ» 
Btíir:narlje ,.^Uf, na-Cbancellarií da Ordem de Ciuíito,. qii5 se con- 
serva na T.irre dó Toml^o', não se acha nada anterior au Reinado du 
Sr, Rei D. Séhaftiáo , e por conseguinte não le pode ali fallaí de 
Mittim: de'Bohémia. 

. (i) SiippoUo que tamhem não venha o seu nome escrita no Liyfo dat, 
Moradiai da Casa do Sr. Rei U. João a." , que eflá impresso" apag. 176. 
do segundo volume dai Provai da Hifleria Gtntalugica da Caia Rtal , pode^ 
mufto' bem citar , que elle tivetse ali ascentn ; pois 3 cópia , que delle 
Livro se imprimio, parece ser baílante diminuta. Por àtuitas razãei noi 
bf i^enasa q^e o éftado da fiftadó Sr-AatonioRibeiío dos Santos o ím- 
posiibiJite' de qualquer applicaçáo , iein,ifla eite leria sem duvida aju' 
dado .milito e, ap^erfei coado os nossos trabalhos ; a Hiitoria « as Antigui- 
dades de Pott'ug'!Íl f^iem nisid hmna perda, que pot ora eftá bem lon- 
ge de lec lupp^ida^ e de que ião teftcmanhs as titai etudit» e nume- 
lo^s cumposiçõM. 



izecbyGoOglC 



57Í -' ' M «~M o S I A s ' ■ 

Pouco tempo depois de Martim. de BoHemíà Toltãf 
da Africa , teve huma noticia que lhe devia ser bem 
desagradável. Aquelle Tio, que o tinha educa-do, a quem 
atilava como Pai , e com quem tivaa huma correspondei!, 
cia epistular tão continuada , fólleceo em Nuremberg em 
1486; e talvez foi este successo que acabou de o resolref 
a fixar de todoa sua residência em Portugal, casando en- 
tío mesmo com hum» Filha de Job de Huerter , ou Joa 
d' Ultra, primeiro Capitão donatário das Ilhas do Fayat 
e Pico , e de sua Mullier Dona R-ites de Macedo ; a qual 
tínhapor nome Dona Joanna. 

Em a segunda parte teremos occtsião de tratar das 
cquivocaç^es a que estei capamento dêo motivo ; somente 
diremos agora ». qtie e.m virtude delle , acçornpanhou seu 
Sogro em a Ilha do Fayal, onde ao terceiro anno de re- 
sidência veio hum Filho estreitar mais o laco conjugal, e 
fixar Behaim em o centro de sua Família. Desejava porém 
antes disso ver ainda huma vez a sua Pátria , e abra^r os 
seus amigos e parentes j e pondo em prática esta resolu- 
jâo, partio para Nqrèmberg em' 1491 , tendo. a satisfação 
de encontrar em casa de seu Primo,, Miguel Behaíra, o 
Biesmo acolhimento e carinho , que nootro -tempo taotas 
TCzes recebera de seu Pai. 

Não foi também menos sensível ao regozijo , com que 
o receberão os outros habitantes daquella Cidade^ que o 
olhavão como hum homem extraordinário, e o maior via* 
jador do seu tempo. Para de alguma sorçç corresponder a 
çstas demonstrações de obsequio, }ii que élle lhe quiz dei- 
xar huma prova durável do seu agradecimento; diemora»- 
do*se ali até concluir o celebre (^bo terreste, em que já 
temos falladoi que Dopelmayèr e Murr nos descreverão i 
e de que, eu tomando este iiltimx) por guia, vou 3 tratar 
mais especificadamente. 

O Globo tera de diametrO hum pé e oito pollcgadas 
de Paris , e está assentado sobre hum alto pedestal de fer- 
ro; o seu Meridiano he também de ferro, porém o Ho- 
risonte he de latão ^ e ibi feão muixo' tempo depeis, «>• 
.-. -a» 

DiqltlíCCC/CoOÍ^IC 



DE LlTTEBATUHA PoiTUGUEZA, 3^9 
tnã se vé de huma inscripçâo que tem no rebordo, a qual 
diz: Anno Domini i^io , Mc y Novembris. Os diffèrenteft 
senhorios das terras são indicados peias bandeiras das Po- 
tencias respectivas, as quaes sao coloridas, assim como as 
moradas, c figuras dos habitantes de cada Paiz. Oi nomes 
dos lugares são escritos com tinta rermclha e amarelia, 
sobre hum pergaminho bastante denegrido. 

Como alguns chegarão a avançar , que já neste Glo- 
bo vem desenhada a America , ainda que , segundo disse- 
znos , trataremos particularmente disto na segunda parte 
desta Memoria , será conveniente certificar desde já , que 
he hum engano. O Cypango he o Paiz que adi se vê mais 
avançado para o Este , e he representado como huma gran;:^ 
de Ilha oblonga , e quasi rectangular , cortada superior- 
mente na terça parte do seu comprimento pelo Trópico 
de Cancro. Superior a Cypanco , e quasi no mesmo Me- 
ridiano, estão as Ilhas do Carnayo; e desde ali até o Me^ 
ridiano da ultima Ilha de Cabo Verde, nlo se vê terra al- 
guma , quer para o lado Austral , quer para o Meridio- 
nal , senão a supposta Ilha de S. Brandão , e a outra a que 
elle chama Antilia ou Sete Cidades, (i) quasi debaixo ào 
Bbb ii mes- 



(i) Junta a efta Ilha Antilia oAi a seguinte nota » No anuo de 7 14. 
Tt depoii do NHcrmeiíto il« CfiriAo , anno em quetoái a Hespanha foi 

> conqaiílaHa pelos Pjgáis , vindci d'Africa , a Ilha Aoiilia cIiMinl» 
N iate Ricode CCidideiJ fui hakitaiía pot hum Arcebispo do Purfo , pom 

> seis outros Bispxa, e quantidade de Chriláos homens e mulheres, 
il que aqui se salvarão da Hespanha com os seus gados e bens. Foi 
% hum ^fav^o Hespaiíhol que em 141416 chegoa mais perto deHa K Dí- 
pois do que diieinos acima, e do que se refert! neila nota , que pei- 
soa de hm fí poderá tirar daqui por conclusão que já neíle tempo ha- 
»ia noções da America? sem se lemliTai que Ç pela sua mesma pnsi- 
ção) a Antilia à^i Antigos era tio E^uitoia . como ■ Ilha de S, firw 
dão, aMaacnltna e Feinfnma , eotitus daquailesEioitorei. Seatllhai' 
911^ descobrir) Ci^loiitli» , jamo w) giande G^olfo dn Mesico , não' llvenen) 
recebido o nortie de Auilhas , be mmto provável ique a vetha Antilia 
•Hivesse ibnqe (Malmente esquecida : aiai argntoentiaiãi» da paridade 4af 
sanei para a das >cDliias , sem advieitifem nem na diifereocc posição* 
aeoi aDBsajo em q«c a vdha Antila eraihouw só (lha , isolada no ineid 
do mar *; c as novoB Jnbw irtimuiíe.AHtãipeb^ di&cil ^ i«f<ad«r ta^ 



vAiogIe 



3^0 Mbmobias 

mesmo Trópico de Câncer: em fim não se tira deste Glo- 
bo a menor idéa de que seu Author tivesse, na época em 
que foi feito , noticia alguma da America. 

Continuando com a sua descripçãoi na parte inferior 
delle, e perto do Polo Antartico , está pintada em hum 
circulo de 7 pollegadas de diâmetro a Águia de Nurem- 
berg com a cabeça de Virgem , e por baixo as Arnias 
da Familia de Nutzel ; á direita as da Família de Volka- 
mer, e de Behaim; eá esquerda as das Famílias de Gro- 
land e de Holzschuer : á roda de todas estas pinturas es- 
tão escritas cinco linhas com as palavras seguintes: «A 
j» requerimento dos sábios e veneráveis Magistrados da 
j» nobre Cidade Imperial de Nuremberg , que actualmente 
>» agovernio, chamados Gabriel Nuczel , P. Wolkamer, 
>» e Nicoláo Groland. Foi inventado e executado esteGIo- 
j» ba', conforme os descobrimentos , e indicações do Ca- 
« valheiro Martim Behaim , peritissimo na Arte da Ojs* 
t> mografia , o qual navegou Á roda da terça parte da Ter- 
>» ra. Tudo extrahido com summo cuidado dos Livros de 
»» Ptolomeo, Plínio, Strabão, e de Marco Paulo; e tudo 
>» disposto, tanto mares como terras, segundo a sua figura 
>» e situação , como foi ordenado pelos ditos Magistrados 
» a Jorge Holzschuer, que concorreo para a execução deste 
M Globo em 1492. E foi deixado pelo sobredito Sr. Mar- 
» tim Behaim a Cidade de Nuremberg, como hum pe- 
»> nhor e homenagem da sua parte , antes de voltar para 
5» a companhia de sua Mulher, que habita em huma Ilha 
» na distancia de 700 legoas, aonde elle fixou a sua resi- 
3» dencia, e onde se propõe de acabar seus dias.» 

Jut- 

merar. O outro indício tirado da Ecimoiogia ainda parece mais fútil ; 
dizem que as (vwas Antilhas le chamão- aisim por Hlarem frontekaj it 
grandes Ilhas da America , e quecem tjae pot igml raião se chamiiss 
assim a velha Antitia; mas camo páde íAo ser.ieem o-Mappa que * 
traz , nár) vem nenhuma deRas grandes Ilhas Americanas ? Porque não 
diremns atites que os Antigo» derio efte nome á Ilfu , que EUp|}nierú> 
oppofta e defronte das Canárias , leferindicse assim ante» á pwte áf 
Qloba so^liscicla ) (to ^UB a^oacu ^ue ainda o Dão u&( 



DE LiTTESATURA PoRTUGUEZA, 381 
Julgamos dever parar aqui , poíto que aJnda são mui- 
tas mais as notas que poderíamos traiifcrever ; mas excepto 
huiTia, de que ainda teremos occasiao de fallar , todas as 
outras são de pouco interesse , e não dÍ2em respeito nem 
á vida do Author, nem á Historia Poriusueza : quem as 

Íuizer ver em toda a extensão, achallas-ha na já eirada 
}issertaçâo de Mr. Murr , para onde remcttemos os cu- 
riosos. 

Em 1493 estava Martim de Bohemia já em Lisboa, 
de volta da sua Patría , e pouco depois na Ilha do Fajaí 
em companhia da sua Faniilla. Foi curto poriím o tempo 
que llic deix..rão gosar do socego donestimo: EIRei D, 
João II. , que estava perfeitam.cnte inteirado do seu présti- 
mo e capacidade, determinou empregallo em huma Com- 
niissão melindrosa , a cujo eiito elle tinha 1'gado o maior 
interesse, e para a qual com effeito seria dimcil encontrac 
outro homem mais próprio. 

Todos sabem , que este Monarcha tinha perdido sem 
successâo o unico Filho que tivera da Rainha Dona Leo- 
nor ; e que por isso o seu hefdciro ao Throno era o Sf. 
D. Manoel , Irmão da Rainha , e Primo com Irmão de 
EIRei; mas "este futuro successor era também Irmio do 
Duque de Viseu , assassinado ás purhaladas pelo próprio 
Rei; e só por huma particular providencia linha escapado 
ás tramas de seus inimigos , que o rao tratarão com tan- 
ta crueza. A pezar porém dtsta benignidade , he evidente 
que nem elle podia amar EIRei, nem este podia ver com 
gosto hum Príncipe, que não só lhe recordava os seus pas* 
sados ressentimentos, mas que, devia pôr hum cia na cabe- 
ça aquella Coroa , que tanto tinha forctjado por que não 
passasse á sua Família. A estes motivos, já tão fortes, ao 
crescia outro de não menor peso no coração humano : ti- 
nha EIRei hum Filho, fructo de seus amores clandestinos 
com Dona Anna de Mendoça , Senhora de nobre linha-» 
gem , e que em extremo lhe era cara. Este Filho por no- 
me D. Jorge , tinha sido criado com o maior melindre 
em casa da Princeza Santa , Dona Joanna ; e por morte d. s- 

ta. 



D,q,t,.c-ctvGOOgIc 



3?a Memorias 

ta , vivia na Corte , extremamente festejado da iftesmt 
Kainha até hum certo tempo. Foi pois para este D. Jor- 
ge, que E!R.eÍ D.Joâo II. intentou fazer passar oSceptro, 
mas para isto era necessário legitimallo primeiramente; e 
alcançar o consentimento , e approvajao de algumas Per- 
sonagens da primeira Jerarchia. 

Podem ver-se em D. Agostinho Manoel de Vascon- 
cellos as machinacões , que se pozerâo em uso para inte- 
ressar a 03rte de Roma a fàror dtste projecto: as que se 
praticarão com a Rainha forao totalmente infructiferas , e 
segundo nos diz hum dos Escritores daquelle tempo (r) 
jj a pezar de ser para isso d' Elrey muitas vezes requeri- 
>» da, soffreo pelo não consentir muitas paixoens , disfavo- 
»» res, e esquivanças, com muita paciência , dissimulação, 
9» e prudência , sem nunca querer nisso outorgar. *t 

Vendo pois ElRei que nada conseguia directamente, 
lembrou-se de fazer intervir huma terceira pessoa, cuja au- 
thoridade desse maior peso ás suas pertençôes, e cujo pa- 
rentesco com elle , com a Rainha , e com o Sr. D. Ma-- 
istasse toda a idéa de parcialidade , e parecesse 
3 aspirar senão ao bém e socego do Estado. O 
>r Miaximiliano I. estava justamente em circunstati- 
eunir todas estas qualidades. 
10 de Frederico IV., e da Princcza de Portugal 
)nor, era Neto por este lado do Sr. Rei D. Duar- 
•*, , w .v.ido casado com Maria de Burgonha , Neta da In- 
&nta Dona Izabel , tinha annexado os seus domínios aos 
que lhe pertencião pela parte paterna , o que tudo o cons- 
tituía hum excellente mediador nas cousas de Portugal. 

Tomada pois por ElRei D. João II. a resolução de 
O acariciar para os seus fins , era-lhe necessário hum ho- 
mem de confiança , versado nos usos da Alemanha, e nos 
sentimentos da Corte de Lisboa ; e achou estas vantagem 
cm Martim de Bohemia , cuja nomeação devia além disso 



i^i) Rezende qa Chrtnita d' ElRci D. Jtát II. , e o nwínto rtf«re 
Ruy de Pitii quaji peUs m«iiitai palavras. 



;,.CoogIe 



DE LlTTER ATURA PoUTUCUEZA. 3S5 

íer bem agfadavel ao Imperiídor , que tinha lium gosfo 
particular em proteger e conversar cem as Pessoas icstrui- 
das; que se applicava elle mesmo ás Letras; e que via no 
Embaixador Portuguez hum antigo súbdito seu, com a re- 
putaçíío do maior viajante do Universo, (i) 

De huma carta , escrita por Martim de Bohemía aos 
II de Março de 1494, consta, ainda que iirperfeitamen* 
re , o fim desta nova viajem , que vários inforiunlos retar- 
darão (1) ; pois apenas partido de Lisboa com as suas Cr&- 
denciaes (3) foi aprizionado no mar , e conduzido a In- 
glaterra , onde teve huma grave doença ; achando-se res- 
tab lecido delia no fim de três mezes , tornou a embar- 
car-se , e cahio de novo nas mSos de hum Corsário , 
que o conduzio a Franp. Em fim depois de ter pago a /••'?> 

seu resgate, partio para Anvers, e dali para Bruges, on- «,* \ ^j. " 
de parece t;ue estava então o Imperador, Tantas demora^ ii i^*^* 
tornarão felizmente esta jornada infníctuosa ; e pouco de-, ^lí ^j^L^j 



CO 


meiíiK 


í AlaxJmilí 


(ino BíAtrâ, 


t iiema 


anni Imye 


niegÍKjiií j 


rematai 


adivit wi, 


iWr 


Murt 


traz a pena 


baflantc i 


mp«fc; 


iio, e erFs 


D D. João 


3° manilou Mal 


» Uiral 


P.inc.p 


le Jorgf , a 



no di cHe ledemunho quando dit !Uíir-l 
ii Civiam mogit uo^uaot yercgrinoltr Jiút _' 
r rrglenei. 

hutn extracto defla Carta , C me mtsma 
io. Eii-aqui o seu principio a Em i<t94 
:im Kehaiui a Flandres , a seu Filho na-i 
|uem dsíejava pais» a Coroa» &c. O qus 
nifeflo engano , pi.ij nunca D. Jorgd etieve em Flandes , nent 
até it noorto de »efi Pay sshío deflej Reinos ; porítn ji obserTámos qua 
MuTt náw sabia muito da nossa Hií)ori«i 7 por iiso ínhe ái vezei e<a% 
eqtiivocaçóes extraordinárias : assim pot «xemplo confundindo Joio In- 
fante com hum Infante D. João > dií que Barthoiomeu Dias descobri» 
o Cabo da Boa Esperança, juntamente com o Iiifacte D. João, &c ' 
CO Parece que efla Credertciai , ou antes aleiíma cnpia se contervoai 
muito tempo na Família de Bchaim. Referem atgunj Authores ser tta- 
diçán , que ElRey O. Jt^o 2.° escrevera em liun-a Catta do seu pw- 
irho a Martim de Boliemia, (laia peripetla ncbli jamdia inttgriíai tua 
ites ináacit aá tredenilam qimJ aii tu es , eit Persima nostra , &c. Al- 
guns (Jáo efla Carta por verídica , e le jermm ctelh para exaltar as 
grande) demonflracfies de affecto da parte d'EÍRey ; nntros a dSo por 
apocryfi, reputando aquellas palavras indeciirmas ao Monarca ; e nem 
mesmo Mr. Murr , que faMa na Embalsada de Bchaim, se lembro^ d«- 
<}ue «1 buma simples Ctedencial. 



'M4-^ 



„cb,GoogIc 



pois de ali chegar j recebeo novas ordens , em contrario is 
primeiras , tendo-se augttientado neste meio tempo a mo- 
léstia d'ElRei , e tendo-se talvez com i-sso descoraçoado 
daquelle seu intento. He ao menos certo , que estas ordens 
para elle se retirar a Lisboa, forao tão instantes, que ten- 
do escrito de Bruxellas a carta de que acima falíamos, não 
lhe foi jjossivel remeitelía senlo depois de chegado a esta 
Capital. 

Desde esta época , que foi também com pouca dif- 
ferença a da morte do Sr. D. João II., cessarão as pere- 
grinações de Martim de Boliemia ; e a sua vida na Ilha 
HoFayal passou tranquilamente, repartida entre o estudo, 
e o cuidado da sua Familia, augmentada com mais hum 
í'ilho , que parece não durou muito, (i) Os seus conhe- 
cimentos, principalmente na Geografia e Astronomia, erao 
jaes , que os seus amigos , e em geral todos aquelles Fo- 
jos o olhavâo com huma reverencia supersticiosa , tanto 
erão certos os seus cálculos, e prognósticos. Podem ver-se 
cm Fr. Gaspar Fruçtuoso , e no Liv. ^. Gap. 8. da His- 
toria Insulana sufficientes noticias a este respeito. 

Gorria o armo de jjoó quando elle se resolveo a vir 
tom a sua familia para Lisboa , onde encontrou seu Irmão 
mais mojo por nome Wolf, ou Wolfrath, (a) que aqui 
veio ter. Ainda que não saibamos i.o certo o motivo des- 
ta ultima viajem , pôde conjecturar-se com toda a proba- 
bilidade que ella fõi feita por ordem superior, com o fim 
de aproveitar os seus conhecimentos Geográficos em a 
construcfão de algumas Gartás Marítimas , de huma das 

quaes 

, (O Segundf) Cordeiro ( Húl. Ini. pf;. 46).) teve Martim de Eohemii 
éois filtioi 1 o maii velbo dus quaes se chamou Martinho 1 e moiren 
ainda menino. Mr. Mucr 3Ó filia delle , e dii ciue lhe sobreviveo , e que 
<elle ainda se coiiserváo Ca.-tas. Confia lambtfm que em ij 19 fei elle 
pôr em NurembsTg i direita do Altar mói , no Coro dj Igreja de Santa 
Catharina buma ISpid» sepulcral com as armas de seu Pay 1 parece pois 
que o morto dev4ria ser o segundo , pois não he crivei qits ambot 
tivessem o mesmo nome. ' 

(a) Morreo noanno de if07t e eftienteciada na Igreja da ConceigSo 

de Lisboa. 



D.g.tizecbvGoOgle 



DE LlTTEKATUBA PoRTUGUEZA. 385- 

<^ua« (como logo veremos) ainda se conserva memoria. 
Mas estes novos serviços forâo de pouca duração , pois 
conãta por documentos authenticos , que fãlleceo a 29 de 
Julho daquelle mesmo anno , e jaz enterrado na Igreja de 
S. Domingos junto ao Rocio. 

Diz-se que a sua Familia possue ainda dois retratos 
seus, hum muito antigo, outro mais moderno: naquelle, 
que he de corpo inteiro , lè-se a seguinte ínscripçáo : t< Mar- 
tinus Bohemus Norimberg. Eques , Serenissimorum "Johan- 
nii n. et Emmanuelis Lusitânia Regum Thalastus et 
Matbematicus insignis. Obiit lyoó Lisabon^. 



PARTE II. 



XOr não cortar tantas vezes o fio da Historia de Mar- 
fim de Bohemia , guardámos para agora o exame de tres 
factos, em que alguns Escritores se persuadirão que elle 
tinha tido huma parte muito principal , e vem a ser o 
descobrimento das Ilhas do Fayal, e Pico; o da Ameri- 
ca; e o do Estreito de Magalhães ; dos quaes trataremos 
por esta mesma ordem. 

Em quanto ao primeiro, he fácil demonstrar que Mar- 
tim de Bohemia não teve nisso a menor influencia ; ouça- 
mos as suas próprias palavras, tiradas de huma nota ao 
Globo de Nuremberg: «As Ilhas dos Açores forâo habí- 
» tadas em 1466 (i); quando ElRei de Portugal as déo, 
f > depois de muitas instancias , á Duqueza de Burgonha , 
?» sua Irmã (i), por nome Izabel. Havia então em Flan- 
9* dres huma grande guerra , accompanhada de huma ex- 
« trema fome; e a Duqueza mandou para estas Ilhas gran- 
Tont' yJIL Ccc » de 



CO Ainda que ie. exprima em geral pot Ilhai Ao* Açores , só quet 
falbr do Faial è P:co. segundo parece. 

Ç^a) Em i4ãã reinava em Poiíugal D. Aff^nço V. ,0 qual eaSobri- 
nhó da Infanu D. Isabel . por quanto efta e» IimS dXkcí P. Duarte.. 



izecbyGoOglC 



^^6 M B M Ò B I A fi 

» de quantidade de homens, e mulheres de todos os Of- 
>» ficios, e igualmente Sacerdotes, e tudo o mais que per- 
»» tence ao Culto religioso ; também mandou vários na- 
•» vios carregados de moveis, e r'o necessário para a cul- 
»» tura das terras, e edificação das casas, e lhes fez dar 
*) durante dois annos tudo aquillo de que podiâo ter ne- 
** cessidade para subsistir, a mu de que pelo tempo adtan- 
»» te, em todas as Missas, cada hu i a pessoa rezasse por 
" ella huma Ave Maria, e subiâo estas a duas mil : dã 
» sorte que, com aquelles que ali passarão e nascerão de- 
'* pois, formarão alguns milhareSr Elm 1490 havia ainda 
» alguns milheiros íe pessoas, tanto Alemans como Fla- 
>» mengas , que ali tinhão vindo com o nobre Cavalheiro 
>» Job de Huerter, senhor de Mocrkirchen em Flandres, 
»» meu caro Sogro, a quem estas Ilhas forâo dadas para 
ty elle e seus descendentes, pela dita Duqueza de Burgi^nba. 
>» Cresce nellas o açúcar de Portugal : os fhictos ama- 
>» durecem duas vezes por anno, porque nlo ha Inverno; 
>» e todos os viveres são baratos , de sorte que muita 
» gente poderia lá achar a sua subsistência. 

»» No anno de 1431 depois do nascimento de N. S. 
»» Jesu Christo, reinan(Jo em Portugal o Infante D. Pedro, 
» armarão-se dois navios, munidos das cousas necessárias 
»» para dois annos de viajem , por ordem do Infante D. 
» Henrique, Irmão do Rei de Portugal; e isto para hirem 
» ao descobrimento dos Paizes que se achavão além do 
f* Cabo de Finisterra ; os quaes assim apparelhados fize- 
» rão sempre vela para o Poente, pouco mais ou menos 
»» na distancia de yoo lecoas, e finalmente descobrirão es- 
>i tas dez Ilhas (i) , e tendo desembarcado nellas , nlo acha- 
*» ráo senão desertos, e aves tSo domesticas, que não fu- 
>t gião de ninguém -y pois como não havia vestígios de ho- 



(1} Segunilo 01 iiossoj Authores não je descobifrão nelle anno lenio 
tj chamadai Formigaf : no teguinte de 141a he que Gonçallo Velho 
Cabtai abotdou 1 Santa Maiii. As outras íoiio descabeitu subsequeo-t 
jsmcDttr. 



Dni.tizc-ccvGoogle 



DE LiTTERATURA PoRTUQITBZA, jSj 
t) mens nem de quadrúpedes , esta era a causa de nSo se- 
»» rem as aves espantadiças; e assim derão a estas Ilhas 
>j o nome dos Açores. Depois para satisfazer ás ordens 
»» d^Elrei dePortugd, mandarão no anno seguinte desaseia 
>* navios com toda a espécie de animaes domésticos , e lan- 
»» jarâo huma porjão em cada Hlia para multiplicarem. »• 

Vê-se por esta nota , que o primeiro povoador das 
Ilhas do Fayal foi Job de Huerter, Sogro de Martira de 
Bohemia , cuja alliança dêo origem a reputarem alguns , 
que este descobrimento lhe pertencia: vè^e também que 
este primeiro senhorio lhe foi dado pela Duqiieza de Bor- 
gonha , em virtude da concessão que destas Ilhas lhe fize- 
ra ElRei D. AíFonso V. ; ,; mas poder-se-ha isto reputar co- 
irio huma verdade demonstrada? Ouçamos o que diz a es- 
te respeito o verídico Padre Cordeiro a pag. 4^7 da sua 
Historia Insulana. 

» Estando já em parte, ainda que pouco, povoado o 
»» Fayal por particulares Portuguezes , que da Terceira , S. 
" Jorge, e Graciosa lhe forão j tratavao as Pessoas Reaes 
M de nomear algum Capitão Donatário da Ilha , para que 
»» com mais riqueza e nobreza a povoasse toda j e porque 
« então andava em Lisboa , e no serviço das Pessoas Reaea 
»» hum grande Fidalgo Flamengo, chamado Joz d'UtT3, 
» .... a este Fidalgo nomeou Elreí de Portugal por Ca- 
» pitão donatário de toda a Ilha do Fayal , e o casou 
»> com huma Portugueza, Dama do Paço, chamada Bri- 
« tes de Macedo, da antiga Fidalguia dos Macedos. Des- 
»» te Joz d* Utra diz Barrus , que era Flamengo , natural da 
» Cidade de Bruges, no Ducado de Flandres, e que era 
» senhoF de certas Villas no mesmo Ducado, e que tinha 
»> vindo mancebo a Portugal , com a fama dos descobri- 
(( mentos feitos pelos Portuguezes , e só a ver terras , e 
»» aprender lingoas, como costumavâo entSo fezer osíUus- 
»j três e ricos Fidalgos em sua mocidade. 

»» Passadas pois as Cartas de Capitão donatário do 

»» Fayal ao dito Joz d' Utra, na forma em que se tinhSo 

n passado aos dfúiatarios da Madeira e mais Ilhas j. vot- 

Ccc ii »» toii 



..C;~,oogIc 



388 M fi M o K I A 3 

>» tou de Lisboa a Flandres' o dito Utra , e vendendo ta 
*> o muito que la tinha , metco suas riquezas em navios , to- 
»»_niou por companheiros a muitos outros Fidalgos e Pa- 
»» rentes seus.. . . e outros mais ordinários povoadores, c 
ft com tudo a sua custa se torn u a Lisboa , e com sua 
« mulher se veio meter em o Fayaí .... . 

*f Primeiro Capitão pois e donatário da tal Ilha foi 
>» o ditojoz d* Utra , e a dita sua Mulher Brites de Ma- 

>* cedo; e ainda que dizem alguns que ]oz d' Utra 

» casara com huma chamada Corterreal, enganarâo-se não 
» destínguindo o primeiro Joz d' Utra, Capitão primeiro, 
>» de hum seu Filho e do mesmo nome, que lhe succe- 
» deo na Capitania , e este íbi o que casou com aquella 
í» Corterreal. Do tal Capitão Joz d* Utra e da tal Brites 
»> de Macedo nascerão varias Filhas, que casarão com ou- 
»» troa Fidalgos em Portugal , e huma com hum illustrc 
» Alemão , chamado Marrim de Bohemia , a quem Elrei 
7» de Portugal estimava muito por sua grande nobreza , e 
>* singular scíencia, *> 

Até aqui o Padre Cordeiro, cujo testemunho nestas 
matérias he de grande peso, não só por elle, e pelas au- 
thoridades que allega i mas porque a sua Historia he trans- 
cripta das Saudades da Terra de Fr. Gaspar Fructuoso, 
bomem igualmente de summa veracidade, que escreveo nos 
mesmos lugares , com os documentos á vista , e em tempos 
em que estas memorias não deviao ainda estar de todo es- 
quecidas ; e a pezar disto vé-se que não diz palavra nem 
a respeito da transacção com a OuquL'za de Borgonha ^ 
nem da doação feita por ella. Ajuntemos ainda hum ter- 
críro testemunho digno de todo o credito , por isso que he 
hum próximo herdeiro de Job de Huerter quem tM>-Io vai 
dar. 

He pois de saber que correndo hum pleito entre Je- 
ronymo a' Utra Corterreal , e a Coroa , sobre a successão 
da Capitania das duas Ilhas do Fayal e Pico (por moti- 
vos alheios do nosso assumpto , e que se podem ver n% 
Historia Insulana a pag. 45'8) conserva-se ainda na Tor- 



D.g.tizecbyGoOgIe 



DE LlTTESATtlTIA PoíTUGVlZA. 38? 

re do Tombo (Gaveta ij Maço 16 N, ç') huma Sentenç* 
proferida no Juizo da Goroa a ó de Setembro de i^ji ; 
pela. qual, e pela AUegaçâo de dito Jeronymo d Utra que 
se refere consta, que seu Avô Joz d'Uira a instancias do 
Infante D. Fernando, Mestre da OrJem de Christo, vie- 
ra povoar aquellas duas Ilhas , pertencentes á mesma Or- 
dem ; ficando as Capitanias para elle e seus Filhos e des- 
cendentes, o que fora confirmado por ElRei D. Manoelj 
e que por morte deste primeiro Capitão, passara a Capita- 
nia para seu Filho Manoel d' Utra Corterreal. 

De tudo isto se vê convincentfraeiTte, que os Flamen- 
gos conduzidos por Joz d' Utra , fr rão os primeiros, 011 
ao menos os principaes povoadores do Fayal e Pico} po-, 
rém tudo o mais he contado por diíFerente maneira em ca-, 
da hum dos três lugares acima ; pois não se dizendo pa- 
lavra nos dois últimos a respeito da Duqueza de Borgo- 
nha , tratâo-se n' hum as Ilhas como da Coroa , e no ou- 
tro como pertencentes ao Mestrado de Christo, e doadas 
pelo Infante D. Fernando. 

Com tudo, esta contradição não passa de apparente: 
tinha EIRei D. Duarte- feito mcrcé em J433 a seu Irmão. 
o Infante D. Henrique das Ilhas té então descobertas j ,a, 
qual se augmentou com algumas das outras, que ao depois 
se forão conhecendo, e pasrárâo todas por sua morte pa- 
ra seu Sobrinho, e Filho adoptivo , o Infante D. Fer- 
nando , como se vê da Carta de mercê passada pelo Sr. 
Rei D. AfFonso V. na Cidade de Évora aos 3 dias do' 
mez de Dezembro de 146a. (1) Erão pois naquelle tem- 
po estes Infantes os que nomeavão os Capitães Donatá- 
rios daquellas Ilhas de^que estavão de posse , extendcn- 
do-se esta graja á Infanta Dona Beatriz, como tutora e 
curadora de seu Filho o Sr. D. Diogo, de quem se con- 

ser- 



(l) Ainda que neíl» Dnaçá'i nío se f»ça menção Hat llh» de qua 
tfatamoi , pein nome que ignra tem ; he miU que provável que tejáo 
algumai das que^ ali se appellldSo com nnmei rue actualmente nS9 
t£> ji conhecidos. V> Pr»v da Hist. G4n. Tom. I. p. $6j. 



Dni.tizc-ccvGoogle 



39<3 M E H o n I A I 

ecTvio alguma^ destas Cartas; e por morte deate ultimo ^ 
ao Sr. D. Manoel, que vindo a aucceder na Coroa, con- 
solidou ncUa este dominio; e fez passar, segundo parece , 
rovas Cartas de Doação aos Capitães que então as pos- 
suiâo. O Pico e Fayal achavâo-se sem dúvida nestas cir- 
(unstancias , como se colhe nâo só da Sentença acima , 
mas também da Carta de Doação passada por aquclle Mo- 
narca a favor do mesmo Joz d'Utra de quem tratamos, 
e que, abaixo se transcrevo, (i) 

Em 

Çi) O Jiiii &c A (jusmtiií efta minha Cari» virem faço jabcr , qua 
pot p»rta df Manuel Dutr» Cortercall , ifilhn mat! velho de Jooi Du- 
tra que foy capicam tia! Ilha; du Fayall eHii^uu.me fuy aperseintada 
Imuma minha t^rta pei mini aiynada c paiaila pulla cliaincelaria , di 
qual o theai 4i: Vfrbn a verbo hee osegtiimce zr D. Joam per graça 
fie Deo! Rey de Purtu^il! c doi Allgatiiej daaqtiem e daalem imr , em 
Africa Siir. de Gainz^ e da comquilta, naiiEgaçaom, comercio Ueihlopía • 
Arábia , Pitnya , e da Índia , &c. A quautoi cila minha Catia virem ffaco 
, sabef que por paite de Joi>i ,Uutia capitão das Ithai dn Fayall e Plqua 
' me fuy aperieintada htiuina Caita delRey meu Snr. e padre, i\ae samia 
■ ylnria aja , de que o theof tall hce =Z dnm Manue! per graça de Deoí 
Kay de Furtu^all e do« Allgaruei daaquem daalem mar , em Ãffrica Snr. 
! de Guinee e da CQiiu|uiCla , nauegaçaom , cuniírciu Dethiopia , Arábia , 
Persya , e da Li Jia. A quamcus efta nnisa Cana virem ffazemos saber, que 
Jouz Dutia capiiúo pgr nooi dai nosai Ilhat do Fayall • Fiquo , no*. 
emuyou ora diíer como nos lhe (iohamo* ffeita doaçaom e inercee dat 
ditai capiraniai , a*y e polia maneira que temo; dadai a« capitanias dai 
outras nmas Ilha; , sem em lua dnaçaoi» decrarar patticulaimemte ai 
cuueas que poi ellat hade aver, pcdinidonoi pm mer^e que lhe manda- 
leinos dj*r dello noia Carta , com decraração de todailai cousas cite aai 
ditas capitanias perteigcem ,da qual cousa a noos apraz , e per eita per- 
semce noia Gaita queremos que elle tenha e aja de nooi ai ditas ca- 
pitanias , e as goueriíe per nooi , e mamtenha em JuRíça em lua uyda , 
e aty despnii de seu ffallecimento o seu ffilho mayoi baraom lídimo, 
OU i-tg^nda le tall for , e asy de descemdeinte em deicemdemte per 
liaha direita mazcoliua , asy como oicapicaaeni da [lha da madeira a 
tem pei suai Caitas ; e semdu em tall idade o dito seu filho que a 
naom posa reger , uuos poremot quem a leja athe que elle seja em 
idaJe pêra ai re^er. Item nos praai que elle tenha em as sobredius 
Ilhas Jut.liçaom por nooi do ciuel e crime , reulluamdo morte ou ta- 
Jhflmemto de membro qu« dedo venha apelaçaom ou agrauo pei» nooi ; 
puiem sem embaiguo da dita Jcirdiçioni , a noas pcaaa que todoí no- 
toi mindadus e correi çaiiin seji hy comprida , asy como em nosa ciiu- 
M piopiia : outrp ly aoi praai i]u»odi[o Joi» DtiHi ^p«ra sj ectdci|it 



DE ILlTTEBATUfc A PoRTUCUEZA. J^I 
Em quanto porém á Duqueza de Borgónliá , he bem 

de - 



; mnynho) de paom que ouiier nas dita' llliai , 
r><: O cjíTieg.un , e queniinguem haoiti Faça hy i 
le ou quem lho aelle aprouuer: e ello nacm ! 
! braço , i,ue ffaçu quetii ^uiíer nauin u.ueihdo a 



gaindo poiím 

tíitll J0fl7 Dlltl 



dullos Ifuinng 



, (to qual lhe asy da- 
loynhoí , sonnipnte 
: eintelTida em moa 

outrem ; nem atafo- 
rlle apiouuer. Item 
r aja de todallas jerras daguoa c]ue se hy fizerem , de clda 
marouo de prata , i>u em cada huuin anno seu juflô val;- 
tauoas cada tnmanna das <)ue liy ctiHumiiem serrar , pa- 
1 o dizimo a lios de todlllas ditas scnas , segundo paguam 
lUsas , quamdo ictar a dita serra. F, efío aja lambem o 
i qtialquer mny-ho riie se nas ditas Ilhas firer, ti- 
I de ferrarias ou oiitro! ineráis. Item noos prais que to- 
de paoin em que ouuei paom de poya sejaom seus, po- 
rem iiom eml)ar)(Ue que quetn i,uuct laiet foiíiallias peia seu paotn , 
3ue as faça e Daoiii pêra oiitro nenhiiu»). Item no» praai que tem- 
o el'e saall peta vernder , cue o nanm posa lemder outrem senão 
elleidamdo elle a rezaom de meo real! de prata nallqueire , ou sua di« ~ 
ta vallya e mais naom ; e quamdo o rtaom tiuer que os da dita llhs 
o posaom vernder á ma \onitdde atliee que o elle tftilia: outro ly 
noi praai que de todo o que noos hy ouuernios. de lemda nas di- 
Tns Ilhas qtiê elle haja de dez huum de todas ntjas reirdas e direi- 
tos que seuus tem, no forall que pêra ello niamdamos faier : r per es- 
ta guisa nos praai que aja seu Alho efla remda , ou outro descemden- 
te per linha direita que o dito caneguo tiuer. liem nos praai qua 
elle posa daar per, suas Cartas a tetia das ditas Ilhas forra per o fo- 
Tall a quem lhe uprotiuet , cot» tall cotndiçanm que ao que dereir a di- 
ta terra a aproveite athe cimquo annos , e nanm aproueitamJo que !i 
posa daar a outrem ; e despois que aproveitada for e a leixar por apro- 
ueitat ate outros cimquo annos ,queyso mesmo a posjom daar; e is- 
to nom embargue que se hy ouuer terra peia aproueilat que nilotn 
seja dada , que nos a pruanins daar a quem ro<a írerce for ; e asy noi 
piaaz cm ha de seu filho nu erdeiros descemdetntes que o ditA car- 
rego tiuerem. Item nos praaz que os vciinhos posaom vernder suai 
herdades aproueitadas a quem lhe apiouuer ; ouiio sy nos piaai qu6 
os guados brauos pos.om n^atar os veiinhos das ditss libas seiTi avec 
hy outra defe7a , per liceinça do dito capitaom , resalluairdo alleutim lu- 
gar cerrado que seia lamçado por senhorio. E ysd rnesitio nos praar 
que 09 guadtis mamsos pasçaoiti per todas as Ilhas trazenidoos com guai* 
da que naom façam mall , e se o fiíerém que o paguem a seu donno i 
e as coymas segundo as pofluras dos Comselhos E por sua guarda a 
rosa lembramça lhe mamdamos daar ella Carta per noos isínada e ase- 
]ada do noso sello; e potem iMafndamú) a todo-llos nossos officiaei e 
pesoas > que efta posa Carta for mollrada ,, e o cOnheçinreneo rtrila per^ 
temei, que asy compraom e guardem « fa^aotn cumptii e guudat poU 



:X'OogIe 



392 MsMosiAS 

de crer, que se ella com cHèito fosse senhora absoluta da- 
qudlas Ilhas, ter-se-hía feito mençáo disso em algum dos 
citados documentos ; mas não parece provável , que as per- 
tençôes de Martim de Bohemia , e de seu Sogro se ex- 
tendessem até esse ponto ; tanto mais que nlo ne conira- 
dlctorio, antes muito natural, que visto as grandes e ex- 
traordinárias despezas , que esta Princeza , Joz d' Utra , e 
os Flamengos cin geral fizerlo para o estabelecimento da- 
quella Colónia , que lhes foi tao devedora , elles gosas- 
seiít no principio, isto he até ao tempo do Sr. D. Ma- 
noel, de cercas prerogatiras, isenç6es, e authoridades , que 
'dariâo azo ás expressões da nota do Globo de Nuremberg, 
e ao que também parece concluir-se da anecdota que refe- 
re o Padre Cordeiro no Liv. 8. Cap. 2. §. 14. 

Para de todo concluirmos com esta matéria das Ilhas, 
notaremos ainda outra differença notável, que se acha nas 
duas ultimas authoridades já transcriptas, a qual sem dú- 
vida nao terá escapado aos leitores, e vem a ser, que af- 

fir- 

la euím que le Dílla c<>n[ein , tem a «lio porejn diiuida nem einbai- 
.guo porque aiy hee nula mercê. Dada em Évora a j i dias do mct de 
Jiiayo Afoimo Fi|ueira a fei de ijog arinoi. Pedimdo-me o dito Jooi 
J)uti3 que lhe confirmase a dita carra , e vifto per mim seu requerimen- 
to i e querendo lhe fazer graça e mercê , tenho pet bem e lha comiiimo , 
e mamdu que se cumpra e guarde aiy e da maneira que nella se con- 
.tem. Ayrei Fernandes a fez em Lixboa aaadlas dautubto de ija^ an- 
Hoi. Pedindo o dito Alanutíll Dutra Coriereall que por quanto o díio 
Jooz Dutra leu pay era fallecido , e elle era o filho mais velho ba- 
raom lídimo, que por seu fallecimento fícara eque per direito subce- 
dia ái ditas capitanias do Fayai e Piquo ■ ouuesie por bem de lhe msm- 
dar daar dello lua doaçaom ; e vilto teu requerimento lhe mamdei dar 
ella Gana polia quali queru e me piaat que o ditu Alanuell Dutra te- 
nha e aja ai ditai Capitanias- do Fayal e Piquo com sua Jurdiçaom rem- 
das e ()ireitat . asy e da maneira que ai tinha o dito icu pai pela diti 
minha Carta qud neíla vai tielbdaja e se nella contem : e maiiido a 10' 
iJolIoi curregedores , uuuidDres , juizes , juíliças , ufficiaes ■ e pesaoas a 
que ella carta fur mii[(rada e a conhecimento pertencer que asy o cum- 
práo e giMt.U.Ti e façam inteiramente cumpiit e guardar sem duuida 
que a elb leja palio. Inácio Reinei a fei em LiKboa a 1{ dias domei 
juíhi ií\iw do nascimento de noso Sor. Jesus Chrillo de ii{o e eu 
Damião OUs o fia ejciever. 

L." 69 da Cb. do Sr. D. João III, 0. IC9. 



DE LlTTBKATUBA PoSTUGVEZA, 3^3" 

firmando o Padre Cordeiro Iiuma e umis vezes, que hou- 
ve t^iois Joz d' Ucra , Pai e Filho, ambos elles ■ Capitães 
donatários; agora pela AUegajao. de Jeronymo d' Utra se 
vá convincentemente não'ter havido senão hum só, ou ao 
.menos, que se houve dois, morreo o ultimo sem succes- 
são : devendo assim entender-se que o primeiro Capitão e 
.povoador casou duas vezes; a primeira com Dona Brites 
,de Macedo , de quem houve a Mulher de Martim de 
,Bohemia , e a segunda com N. Corterreal , de quem nas- 
cerão os successores, que estiverâo de posse dàquella Capi- 
tania Jior alguns tempos. 

O segundo ponto , que nos proposemos examinar, 
fbi a parte que Behaim tinha tido no descobrimento da 
America , aonde alguns pertendem que elle tivesse pene- 
trado, fundados em huma antiga Chronica de Nuremberg, 
em o testemunho de Hartman Scheldel , e em hum anti- 
go Mappa que se achou no Gabinete do Sr. Rei D. Ma- 
noel , onde esta quarta parte do Globo vinha desenhada. 
Como o Presidente Conde Carli , Mr. Murr , e o Conde de 
Ayaba fizerão já conhecer amplamente a falsidade dos dois 
primeiros argumentos , escusado será que nos demoremos 
em repizar o que outros já disserão: com effeito basta ler 
,0 que deixámos escrito na primeira pane a respeito do 
Globo Terreste , para se ver que até áquella época não 
era por forma alguma conhecido de seu Author o Conti- 
nente Americano ; ainda que depois , pelas noticias que 
alcançou até á sua morte em lyoo, podesse formar aquel- 
le Mappa, com que presenteou EIRei D. Manoel. 

Se porém em lugar de olharmos a questão de facto, 
tratarmos somente da sua possibilidade, isto he, se Mar- 
tim de Bohemia estava persuadido , que podilo existir no- 
vas terras ou Ilhas naquella parte do Globo , nao duvida- 
mos então asseverar, que isto nos parece fóra de toda a 
.dtívida. 

Data desde tempos antiquíssimos a opinião da rcdott- 

deza da terra. Aristóteles , e Plinio tínhao provado esta 

verdade, que já lhes vinha dcThalles, e de Platão. Sup- 

Tom. FÍII. Ddd pos- 



:,GoogIe 



394 I^EMOltlAS 

pofla efta esferícldade , só havia hum passo que dar para 
se crer na exiftencia dos Antípodas , já reconhecida por 
Pyihagoras , pelos mesmos Plaiao e AriAotelI.! , e por 
muitos omros que os seguirão. 

Alím disso, dividindo com Ptolomeo o Equador em 
360 gráos, vesse facilmente que os Amigos não conhecião 
senão 180, ifto he hum Emisferio do Globo \ e que as 
terras do outro eftavao fora doseu alcance, porque cerca- 
nias de largos mares , ou impenetraws gelos , era infpos- 
sivel (segundo os conhecimentos náuticos daquelles tem- 
pos) abordar a ellas. 

Se cftas rerras erâo Ilhas, ou continente j he o que não 
era fácil de decedir ; e menos ainda a sua situação : co- 
mo porém por huma pane seja difficulrosa a confissão da 
nossa própria ignorância , e pela outra seja mais fácil 
amplificar as idéas de objectos já conhecidos, do que sup- 
por outros totalmente novos ; pensou-se que o Continente 
d'AKÍa , cuja cofta não eftava ainda explorada , se extendia 
muito mais do que realmente se extende , e que a parte do 
Oceano , comprehendida entre efta e a E^opa e Africa , 
era talvez semeada de Ilhas grandes e pequenas. 

Tanto ifto he verdade , que Martim de Bohemia no- 
tou duas deftas suppoítns Ilhas no seu Globo, a dfls sete Ci- 
dades , chamada também Ãntilia , e a de S. Eírandão : e por 
huma semelhante razão quando Chriftov^o Colombo na sua 
terceira viagem em 1498 descobrrp a Terra de Paria no 
OMitinente, ficou persuadido que era huma grande Ilha. O 
mesmo nome de índias, que osHespanhoes principiarão a 
dar ií America , prova bem quanto ae persuadíiío que se 
achavão netlas, quando abordarão ao Novo Mundo; e da- 
qui procedeo ogrande espanto de Vasco Nunez deValboa, 
quando atravessando o Hiftmo de Panamá , aviftou pela 
primeira yez o mar do Sul, chamado vulgarmente Pacifico. 
Eftas erío sem duvida as idéas de Chriftovão Colom- 
bo , e de seu amigo Martim de Bohemia , que com elle 
concorreo muito tempo na Corte de Lisboa. As considera- 
ções Cosmograficas defte ultimo tomavio4he evidente 3 



izecbvGoOglC 



DE LlTTER ATURA PoRTUGUEZA. JpJ" 

exiftent-ia de terras maiores , do que as duas Ilhas , que 
elle tinha debuxado como ísolatfas no meio daquelle 
grande mar : he a qu.imo podia chegar o simples racio- 
cinio , o mais devia ser determinado pela navegação. 

Para que ifto não pareça livremente dito da nossa par- 
te , transe, everemos hum pr.sso da tantas vezes citada His- 
toria Insulana , aue o copiou de Fr. Gaspar Frucíuoso ; on- 
de a travez de algumas 'expressões maravilhosas e fantás- 
ticas , próprias daqueile tempo , se dá huma prova bem 
evidente de que tilas erao as Idéas que então grassavão [)). 
>» Advinhava ( Martim de Bohemia ) tantas outras cousas 
>► por observações deEítre!Ias,e tão certamente se viío ao 
»» depois, que o rude povo em lugar de julgar ao fidalgo 
w- por eiccllente Aftrol Jgo , o timia por Nigromantico ; 
j> como se assim como na quem vê sem Nigromancia af- 
>i guma a agoa , que corre por muito baxo e fundo de 
»> terra , e a qualidadí da agoa ; os, metaes que eítao em 
V o centro mais proftiBdo , e o que eftá dentro de húm 
» corpo humano-, como não poderá haver tninbem quem 
>» sem NigroDiancia vej» o- qiúe indicao. as Eftreílas? 

« Chegada pois o mcsano Aftrologo ao Fayal disse. . . 
>» antes de. se d^escobriretw as índias de CafteUa , que ao 
>» Suduefte da Fayal Onde eHe ^av» , via hum Planei» 
M dominaj]t£ sobre huma PM)wnct» ^ onde se serviâo' off 
i> nwradoies com vasos de curo e prata „ de que carrG^ai- 
>.y das as embarcações se verião no Fayal ,, cantes detnur- 
» to tempo-, Scc. E dentro- de poucos annos se vi-rao er» 
» o Fayal náoa que vi-nhae do- Peru , achado então, e que 
>» vinhão carregadas de ouro, prata, e pedraria. »» 

Sendo pois eias, as idéas daquelles. dous. grandes ho- 
mens, hum concurso exrraordlnarifufe circumfta-ncra-s lhes au- 
gmenrou o desejo de as- ver verificadas; tafs eran , o espi- 
rito caracteriílico daquelle Século , apai.xonailo pelas viajeos! 
e descobíi mentos marÍtÍmos-i o uso das Cartas maiiitimaBOUi. 
hydroffpaficae , poftas- nas máa? dos Pilotos pelb Infante D. 
-' Ddd ii Hen- 

CO Veja-se a Hiitma Imulana Liv. 9. Gap. ?- §v. 4a. 

DniUizecbvGoOgle 



^p6 Memosvas 

Henrique (i); o melhor emprego na navegação , da Bússola 
cujas variações principiavão a ser conhecidas (2)1 e final- 
mente mais que tudo a pratica dos novos inftrumentos, 
experimentados na viajem de Diogo Cão; e as Ephemeri- 
des publicadas por MonteRegio (3)- 

Todos conhecem hoje o resultado que tirou Colombo 
deites meios , e daquelles raciocínios ; porém o que não he 
igualmente patente a todos , he que primeiro que efte con- 
seguisse os seus intentos, soccorrido pelos Reis deHespa- 
nha , fez Martim de Bohemia com que os de Portugal 
mandassem navios á me.-ma expedição , os tjuaes com tu- 
do se retirarão sem alcançar fructo algum daquella via- 
jem. 

Efte facto veio ao nosso conhecimento não somen- 
te pelo refçrir Herrera no Cap. 7 da I.» Década , mas pe- 
lo contar o mesmo Hiftoriador das Ilhas acima citado, 
cujas palavras aínda copiaremos. >* Era (diz elle) Mar- 
»> lim de Bohemia tão grande Mathematico, e especial- 
»» mente tao insigne Aftrologo , que andando na Corte 
»» Lusitana fazia Elrey grande eftimação e conta delle,' 
tf não só por sua nobreza , mas por sua sabedoria e no- 
*> ticias que dava por observações das Eftrellas ; a qual 
" erà tão notável , que eftando ainda na Corte , e por no- 
" ticia delle mandando Elrejr de Portugal navios que de&-" 
" cobrissem as Antilhas, no mesmo Portugal disse omes- 
»» mo Bohemia aoRey o dia ehora em que os navios vol- 
» tavão, arribando, sem descobrirem as Antilhas. »» (4) 
No que acabamos de referir se inclue a parte que 

Bes 

Cl) Veja-se z Euc^clepeála Mtthed Marinha Art. Cartas niaritimu; 

(í) Veja-Sí Tiribo-ichi Slaria átlla LUlerutara lialUno Tom. 6. 

CO André ile S. Marti.n, que accompanhou acxpediçâo de Maga- 
lhães na qiialíJade de Aitronomo , e que occupou nella o lugar qje 
devia ter o nosin Falleiro , servio-se igualmente para ai suas obset-, 
vaçAei deita; Ephemeridet , ainda que se queixa que oi seus núme- 
ros eitavái) erradot , e não lhe correspondiáii bein ás suas observa- 
çô». O Alminak que elle tinha era da impreasáo At João Liei^ 
teitein Veji se o niísso Barms Dec. lU. Liv. j. Cap. lo. 



C4^ iiiittr, iamlana ioco «t. 



;.CoogIe 



DE LlTTÊHATUSA PoRTUGUEZA. 397 
Behaim teve no descobrimento da America ; e ntís passa- 
ríamos já a fallar do que diz respeito ao terceiro pcnto , 
que nos proposemos tratar, se não julgássemos dever adver- 
tir, que he manifestamente por engano , cu por vontade de 
fazer ainda o caso mais m.aravilhoso , que na cuthorídade 
acima transcrita se falia nas Antilhas i pois he certo que 
nada se suspeitava ainda delias nesse tempo : devendo as- 
sim entender-se que o que se mandou descobrir foi a Ilha 
Antilia ou das sete Ciaades , para onde tinha^hido aquel- 
le Bispo do Porto de que já fizemos menção, cu alguma 
outra terra que por acaso apparecesse. Este Author , e al- 
guns outros parecem seguir nisro aquelle errado principio 
yf pest hoc , ergo propter hoc » sem se lembrarem, que 
quando Colombo chegou a Quanahanl hun a das Lucaias ,* 
não tendo ainda visto outras Ilhas, logo pensou que estava' 
na Antilia, e por isso lhe deo aquelle nome, que depois se 
cxtendeo ás outras. Tão longe estava elle então de dar 
credito á etymologia daquelle nome, nem de pensar que 
estava perto do Continente, que em vez de seguir o seu ca- 
minho em linha recta, o que o teria conduzido ao Golfo 
do México, tomou hum rumo totalmente difFcrente j e.o , 
mesmo fez quando chegou ao Porto do Príncipe na Ilha 
da Cuba. 

Notaremos também , posto que de passagem , que o 
infeliz successo desta viajem foi talvez a cauza mais for- 
te , que teve EIRei D. João II. para regeitar os offereci- 
mentos de Christovâo Colombo.- O disfarce e segredo com 
que esteMonarcha tratou por'aigum tempo os nossos des- 
cobrimentos, fez crer que elle tinha reputado chimerico 
aquelle projecto, proposto por hum homem fallador,. e 
glorioso: taes erao as vozes que o mesmo Rei fazia es- 
palhar no publico, em quanto no particular mandava exa- 
minar aquellas paragens por navios, que fingia partidos 
para 3 Costa da Mina. O conhecimento deste facto foi 
num dos principaes motivos de dirgosco para Colombo. 

Passando já ao que diz respeito ao Estreito de Maga- 
lhães , parece não se poder duvidar que a sua existência foi 



;,ÇoogIe 



398 Memorias 
conhecida por Martim de Boliemia ; náo só por ass-im.o at- 
testarem Heirera e outros; mas sobre tudo pela autho- 
TÍdade de PigaíFeta , que sendo companheiro do mesmo 
Fernanda de Magalhães j assim o asseverou, (a) Quando 
este ulúmo , descontente da sua Pátria , se apresentou em 
Hespanha a Carlos V.» e lhe propoz farer o descobrimen- 
to das; Malucas, sem tocar nos dominios P.irtuguezes, e 
por huma derrota totaltoeste novai, fonda^a-se nas noçóes 
que Francisco Serrão (3) lhe rinha dado da posição des- 
tas Ilhas ; nas observações e^ regimento feitos porRu^ Fal- 
leiro, Asiroaomo Portuguez , (4) que também desgostoso 
tinha hido cm sua companhia ; e em hum Mappa de Mar- 
tãmj de Bohemia, que víra no Gaibinete d'ElÚ.ei D. Ma- 
ijoeL Aré aqui náb parece isto tçr dúvida alguma : resta 
porém areriguar como podia existir já a demarcação do 
testreitp dí Magalhães, que nlo foi descoberto, senão, tan- 
tos ajinOB d»pois ; he o qae até agora, tem parecidiO im- 
possível de poder*3e averiguar ao cetto ; e por isso nSa 
: : E!^ 

t) « II Capitano Genetalc che (jpevj de, dover fare U sua navi- 

iiiune pei uno esireco moko ascosn , coina vite itdía [Íi«seiaria 

U R.« (te Portugal', íi) une C^ru faiTa. jier aifu«4fe excellentiísi- 

ío huomo iWatiiin de Bohemii , &c. » V. Viui. de Pig^. 

[3 Fiaiicjsen Sertão, ()ue de. Gna tinha p^itndu ás Ilha* de Bam- 

■e de Malitcn , corrr<p')ndia-se <^h)i com Fernand» de Magalhães , 

k depi>'.s da volta' dc^re para Pnrtugiil. Karros. Deeodat, 

■.y SejULido nos ifeisátão mcfíI» CartanheJa Liv. 6, , e Bartoi 

9ec lU. Liv. ;. Capt lO- eDtr«gpu Fatleiío a MagatháM , ant«s da 

lua. (>:irtida ,. huma espécie dj^.B-egiineoto em 10 Capítulos „ ejtt que lhe 

<tva'documci)[ot sobre a sua navegação. Este Regimento veio parar 

ás mãos de Duarte- de Reiende , que sobre isso escreveo hum' rraia- 

dó ,, qu» se pEtdQo 3s%hn conto Todos 09 maisipapsM dequa falia. Bm* 

rc!» neite lugaí, S«be se poicm qge no dito- RegiíneíHo viuhão tt« 

methodgs pita calcular as Longitudes , e como pôde ser curioso nos 

tempoí aciuiej sabir quaes fossem os conhecimento! de Falleiro , 

trantcreretemos dois destes in«thudo'S , descrit«s por PigafFeta t compa* 

nheito dkjuielh viajeii> , e qu» noWi o» vJo praticar inulus vezw, 

coiiw af^in^ no seu Tratada ie- NautgifSt , tradlHído e pdbliudQ 

p^ift Cidiii' A.moteti! , Bibliothíc.'itio , «"Director ftjColle.gjo Ambro- 

jianii. 

t .."J Peh Latwude ds \mí- julgfse-da l,on:,;it(ii}e dn-liigar antide 
D n- fai a ob3Eiva;ão. Chama- se Latitude da Lua a sua distancia ds 



deLitteuatuha Pobtugueza. 39^ 
parecerá estranho que formeirps taiT>bem mais homa coíi- 
jecrura. 

Em a primeira das Cartas de Jnierfce Vesfwcro »- 
bre as duas viajens , feitas per ordem d' EiSei de Pít- 
tugal^ refere elle , que tendo era lyoi reconhecido parte da 
Costa do Brazil até a altura de 32 gttos , htolie, até>á 





Ecciitio. A Eccii 


tica' he 


(atnín 


ho do Sul 


. A lirt 


1 no !<« ira- 




vimeiíu 


1 se affasta 


$ein[yr.e 


íl«lla 31. 


: chejrar í 


. »ua tmioi diaiantia , 




drptiTt 


vnlta pa'a 


faz I 


ilc i c*\ 


leea ou >:■» 


uik do 


P<agSo , onds 




coita a 


Eccií.ica. 


E como a Lua 


a medida 


qu« le : 


itTasta delia. , 




corre a 


" mirsino ( 


empo p'á<i) para 


1 o Octid» 


ínte: elli 


3 deve nece^- 




saiiamc 


nlf ter rrai 


lor Lati 


IiKie de 


hum tado 


do Gíot 


)D ao .qut í 




outro. 


E quando • 


\t conh. 


fce a I ai 


itutfe (cuji 


n. gríos 


'e «lirinoi M 




ine(i<!m 


tom A 


strolabif 


) ) conTiíi 


.e-.e .e a I 


ua esti 


pai-a o £i6 




ou pari 


1 Oesle , 


e a qui 


iritoi firá. 


"' 'Slá pa 


Ta huni 


bu outio d; 




us doi 


% pontiit 1 


Uds não 


• se pôde 


! saber a Longitude 


.o h.B.,1 




que je 


fai a i.bservaçSo . 






latnentT 




li>.le e 


Longitude 


devia . 


trvtar a 1 


.ua á me; 


ir» ii.«i 




que se 


pattio , V. 


gr. Sf 


.)lh... Q, 


laiidi) esta 


se trub 


ei enaetairt' 






nparando a 


coma Latitude c 


Longitude 


que len 


1 no lugar -íp» 




cjue se 


atha N 


avegant< 


s; saber-; 


Ib-ha quan 


tas huias 


o Meiidiatio 






e fie está , 


fica distante do 


Mciidiam 


) if: St\ 


ilha , e tlacDÍ 




podrt-í 


e-ha deterr 


ninar a 


distancia 


Oiitntal < 


ju Occidental a respéi- 




10 díSI 


a CidaJe. 














» ..O) 


A I-ua dá 


(lUtfO 1 


meio irai 


% para se 


conhece 


t a Longitudo 




áo lugi 


ir em que 


se eni 


, mas h. 


e necessaii 


sat.r 


a hora el^atta'. 




na iiual a lua n^ 


■«.vada 


em Sevilha está tj 


(n corjur 


cçáo cem ha- 



I Éitrelli ou Claneta dado; r>u que estj coti} nSttl em tal ofi- 
9 p<i9içãu , i.ue ua j[ri(M «rjáo exactamente deietirihaclot ; o que «a 
S pôde coDhecer put meio dn Aliranak. Ora cnmo o fenómeno «ccon- 
Tl tece uo Oriente , antes de ter lugar uo OcLidenie j pelas horas a 
X minutos que tiverem pa'-Ka<lo desole que ofenoirer.o teve lugar em 
Y Sevilha até o em que o NaT«j<aitt« o vé , comlun qual fae a tni- 
X nha Longitud« Occidental de Sevilha. Mas se o fencmeno tem lu- 
X gar no sitio onde estou, primeiro do ^ue em Sevilha, pelo tempo 
X cue elle precede determino a ivinha distancia Oiitntal. E devem- 
Tt se tomit pOT cada hora if grátis de Long^íttide it Segundo affiimt 
Barros , foi este n methodo approvado por S. Alartim , e o único da 
que elle usou na viajem. 

O terceiro methodo sendn fundado -fm huina falia supposiçSo, 
a respeito da varia^án da Apjlh), ainda nestt tempo ptuco conhcti^ 
da, /ul^imoi d«jnecessaiio mcncronallo. 



:,CoogIe 



■400 Memorias 

vizinhança do Rio da Prata , no que tinha empregado dez 
niezes: vendo que não achava na terra minas algumas, de- 
-terminou deixar a Costa , e ir examinar o Paiz por outra 
- parte , o que com efFeíio se eíFectuou , levando os Navios 
agua e viveres para seis niezes , e tomando o rumo de 
.Lessoeste; e tanto andarão nesta navegação j até chegar a 
yi gráos j onde avistarão terra , e soffrêrâo huraa tormen- 
ta, que os lan^-ou sobre hum Paiz, cuja costa corréi^o 
-ainda - 20 legoas-; e achando-se-entao quasi perdidos pelo 
temporal, e frio, voítárão para Portugal, (i) 

Se pois Américo chegou aos ya gráos, e costeou a 
terra ainda mais 20 legoas, necessariamente havia de re- 
conhecer o Estfeito de Magalhães, situado naquella Lati- 
tude ; ainda que não fosse por outro modo, senão pela 
força da corrente , que sem duvida devia perceber , e cu- 
ja differença he bem sensível na embocadura de hum Es- 
treito , ou de huma Bahia. Notado pois isto tio seu Jornal , 
.com muito mais exactidão do que o notou depois nas suas 
•.Cartas , veio este parar ás mãos do Sr. Rei D. Manoel , 
-que (como elle mesmo affirma em o fim do seu Summa- 
'riò) quiz ver todos os seus Livros , e Papeis , sem que cons- 
te que lhos tornasse. outra vez a entregar. 

Vé-se pois que nada ha mais natural, do que, na as- 
sistência de Martim de Bohemia em Lisboa por aquelle 
"tempo , ter elle redegido hum Mappa ou Globo , no qual 
"viessem demarcados todos os descobrimentos modernos, e 
principalmente os de Américo. Pôde mesmo dar-se que a 
^ua vinda a Portugal fosse para este fim , visto o amor do 
■Sr. D. Manoel pelos Estudos da Geografia , e a reconhe^ 
cida~ pericia daquclle homem em a confecção das Cartas 
marítimas. A Inscripção que já citámos na primeira par- 
te , e que o appellida Cosmografia , e Mathematico daquel- 
'le Monarca, parece dar maior peso a esta asserção, pois 
pao nos occorre outro objecto, em que elle podesse desem- 
penhar então melhor aquelles títulos. 
^____ Eis- 

(O Veja-se o Tomo. II. das Notiths para a Hiiteria t Geegrefi* 
ia) NajSei Ullramarinat pag. 14S e 149. 



;.CcKigIe 



DB LlTTE«ATVRA PoWTVOUEZA. 4OI 

Eis-aquI quanto pude averiguar com irais certeza a 
respeito de Mnrtim de Bohemia , e posso assegurar a Aca- 
demia, que puz da minha parte toda a diligencia para 
satisfazer as vistas do Professor Gebauer na sua Historia 
de Portugal, tt Nâo seri? certamente (diz elle) hum iraba- 
n lho ÍQUtil dar a vida do Cavalheiro Martim B<:^haim , 
» escrita no gosto actual, sem cortar nada da verdade 
« dos factos, e sem lhe accrescentar cousa alguma, citan- 
»» do as Peças authenticas ,qae sobre isto se podessera con- 
»» sultar. Vir-se-hiio por este meio a descobrir huma quan- 
w tidade de erros de toda a espécie , tanto em favor co- 
»> mo contra este navegador, e que segundo nota o Em- 
» perador Maximiliano , sâo inseparáveis daquelles* que 
t» vlsitão Paizes muito remotos.» 



Tm. FUI. Eee I N- 



,„c bjGooglc 



índice 

De todas as Memorias contidas no Outavo Volunie. 



Me 



. E MOR IA sabre as origefis da Typografia 
em Portugal m Século XV. , por António Ri- 
beiro dos Santos pag. l 

Mejnorta sobre a Btsíoria da Typografia Portu- 
gueza do Século XFL , pelo mesmo 77 

Memorias históricas sobre alguns Mathematicos 
Portuguezés , e Estrangeiros domiciliários em 
Portugal, ou nas Conquistas , pelo mesmo. , . 14S 

Das origens , e progressos da Poezia Portugueza , 
pelo mesmo 23J 

Dissertação Historico-Juridica sobre a legitimi- 
dade da Senhora Dona Theres>a , Mulher do Sr. 
D. Henrique , e Mãi do Sr. Rei D. Ãffonso Hen- 
riques i^z 

Memoria sobre dois antigos Mappas Geográficos 
do Infante D. Pedro, e do Cartório de Alcoba- 
ça, por António Ribeiro dos Santos 275: 

Ensaio sobre os Descobrimentos , e Commercio dos 
Portuguezes em as Terras Septentrionaes da 
America , por Sebastião Francisco de Mendo Trí- 
gozo ^o^ 

Memoria sobre a novidade da Navegação Portu- 
gueza no Século Xr. , por António Ribeiro dos 
Santos 327 

Memoria sobre Martim de Bobemia , por Sebastião 
Francisco de Mendo Trigozo ^6^ 



Eee li 

D.g.tizecbrGoOglC 



D.s..»cb,GoOglc 



CATALOGO 

Das Obras jd impressas , e mandadas compor feia Atããtmia Jteéí 

das Stitnttas de Lisboa : tom os preços , per qut (ada 

bttma delias se vende brochada. 



i.Bi" 



1 R B r E 9 Inftnicçóes aos Corterpcmdentes da Act- 

demia íobre as retnefus doi produélos naiuraes para for- 
mar hum Mufeo NícíonaJ , /o/ífifro 8." ------ iio 

II. Memorias fobre o modo ae aperfeiçoar a Manufaélu» 
do Azeite em Portugal remetiiaaa áAcademÍ.i, por ]o&o 
António Dalla-Bella , Sócio dá mefma , i vol. 4.° - - i^ 

III. Memorias fobre a Cultura das Oliveiras em Portugal 
remcttidas á Academia , pelo mefmo , i vol. 4.° - - - 48a 

IV. Memorias de Agricultura premiadas peta Academia , 

2 vol. 8."- ------------ - -- j)tfo 

V. Pafchalis Jofcphi Mellii Freirii Hiftoria ]ut!sCÍvÍli> Lu- 
fitani Líber fingularis , i vol. A-" ------- 640: 

VI. Ejufdem Inftitationes Jurís Civilis, et Criminalis Lu* 
fitani , 5 vol. 4."- •-- a400' 

VII. Ofmia , Tragedia coroada pela Academia , folb. 4.° 24O' 

VIII. Vida do Infante D. Duarte, por André de Rezende, 
fo/6. 4.0.-.-...--- ifid, 

IX. Veftigtos da Lineoa Arábica em Portugal , ou Leiti- 
con Etymologico Ak palavras, e nomes Portuguezei» 

3ue tem origem Arábica , compofto por ordem da Aca- 
emia , por Fr. Joio de Soufa , i vol. 4." ----- 480- 

X. Dominici Vandelli Viridarium Grysley Luíltanicum Ltn- 
nãcanis nomitiibus ílluftratum , t vol. 8.° > - • - - soo 

3CI. Ephemetides Náuticas , ou Diário AftronomiCo para o 
anno de I789 , calculado para o Meridiano de Lisboa , e 
pulMiCado por ordem da Academia , 1 vol. 4.** - l - y6t^ 

O mermo para os annos feguintes até 1809 inclulivamente. 

XII. Memorias Economicat da Academia Real das Scien- 
cias de Lisboa, para o adiantamento da Agricultura, 
das Artes , e da Induftria em Portugal , e fuás Conquif* 
taa , 4 vol. 4."-- --_. jjoQ.. 

XIIL Collecçáo de Livros inéditos de Hiftoria Portugue- 
za , dos Reinados dos Senhores Reis D, JoaÓ I. , Dom 
Duarte , D: AfFonfo V. , e D. Joio II. , 3, vol. foi - - 5400. 

XIV. Avlfos interefTantes fobre aS mortes apparentes , man- 
dadss lecopilat por otdem da Academia, /o/ií. 8." • - - gr^. 



:, Ckiogie 




XV. Tratado de Educação Fyfica para ufo dtNacSoPor- 
tagueza^ publicado por ordem da Academia K.eal das 
Sciencias , por FranciTco de Mello Franco , Cortefpon- 
deme da mefina, i vol, 4.",........ j6q 

XVI. Documenios Arábicos da Hiftoria Ponugucza , copia- 
dos dos Originaes da Torre do Tombo com perniilTào dr 
S. MAgeftaJe , e veiiidos em Ponugucz , por oídem da 
Academia, pelo feu CorrífpondeLUe Fr, João deSoufa, 

I vol. 4.° - 480 

XVil.-Obfertraçóes fobte as princtpaes caufas da decadên- 
cia doj Portuguezes na Atia , efcTitas por Diogo de Couto 
" em fórma de Úialogo , com o titulo de Soldado Pratico ', . 
publicadas por ordem da Academia Real das Scít^cias, 
por Ancoiiio Caetano do Amaral , itocio £iFeâivo da mef- 
■ ma , 1 rom. 8.° mai. -- 480 

XVIII. Flora Cochinchinenfis ; (iftcns Plantas in Regno 
' Cochinchinx nafceiítes. Quibus accedunt alix obTeivatsc 

in Sinenfi Império , ATrica Orientali , Indi3e«}iie locjs va- 
ríis , laboie ac ftudio Joatmis de Loureiro , Regiae Scicn- 
tiarum AcademiíE Ulyíiiponenfis Socii : julTu Acad. R. 
Scient. in lucem edita , 2 vol. 4.° m-n. ----- 24OO 

XIX. SynopGs Cbronologica de Subfidios , ainda os mais 
^,M raros, para a Hiltoria , e EUudo critico da Legislação 
, <, ^ Foriugucza i mandada publicar pela Academia Real das 

"^/,'? Sciencias , e ordenada por Jofé AnaUafio de Figueiredo , 
•Í'N O' Correfpondcnte do Nuin.°(Iaraefma Academia ,1 vol. 4.° 1800 
''^ "KX, Tratado de Educação Fyfiea para ufo da Naçaó Por- 
■A tugueza , publicado pot ordem da. Academia Real das 

Sciencias , por Francifco \o(é de Almeida, Conefpon- 
dcnie da mefma , i vol. 4,° --------- 560 

XXI. Obras Poéticas de Pedro de Andrade Caminha > pu- 
blicadas de ordem da Academia , i vol. 8.° . - . . 600 

XXII. Advertências fobre os abufos , e legítimo ufo das 
Agoas Mlneraes das Caldas da Rainha > publicadas de 

t ordem da Academia Real das Sciencias, poi Francifco 
Tavares , Sócio Livre da mefma Academia , folh. 4." - 120 

XXIII. Memorias de Litteratura Portugueza, 8 vol. 4.° - £400 

XXIV. Fontes Próximas do Codigp Filippino , por Joaquim 
Jofé Ferreira Gordo j Correi ponden te da Academia, i 

'. vol. 4,0---------------- 4CO 

XXV. Diccionario. da Lingoa Portugueza , I.° vqL foL mai, 4800- 

XXVI. Compendio da Theorica dos Limites , oulntroduc- 
çáo ao Meihodo das Fluxõcs por Francifco de Borja Gar- 
ção Stockler , Sócio da Academia 8.° - - -.---" 24O' 

2ii^VU. Enfáio Económico fobte o Comércio de Portugal ', . 



:.COOg[c 



e fuás CoKnrãs j oferecido aoPrincipe êoBtazilT^.S.f 
publicado de ordem da Academia Reát das Sidncías pelo 
Teu Sócio ]ozc Joaquim da Cunha de AzerÈdo Coutinho. 480 
KXVIII. Tratado de Agiimenfura por Eltevaó Cabral , So- 
cio da Academia , em 8."---------- 240 

XXIX, Anaiyfe Chimica da Agoa das Caldas, porCiuilher- 
meWithering, cm Pottuguez e Inglez. fo/fl. 4° - - 140 

XXX, Princípios de Taática Naval por Manoel do Efpiriío 
Santo Limpo, Correfpondence do Numero da Academia , 

I vol. 8." 480 

XKXl. Memorias da Academia Real das Sciencias , ; vol. 
foi. .-.-- -- écco 

XXXII. Memorias para a Hiftoria da Capitania de S. Vicen- 
te , I vol, 4.°-- 480 

XXXIII. Obfervações Hiftoricas e Criticas para fervirem 
de Memorias ao fyftema da Diplomática Poriugueza, por 
joáo Pedro Ribeiro, Sócio da Academia , Part. 1. 4.° - 480 

XXXIV. ]. H. Lambert Supplementa TabuJarum Logarith- 
micarum , et Trigottomei rica rum. 1 voJ. 4.° - - - . j5o 

XXXV. Obras Poéticas de FranLÍko Dias Comes , ! vol. 4." 8co 

XXXVI. Compilação de Rteixócs de Santhcs, Pringle »- 
8cc. sobre as Causas e Prevenções das Doenças dos Exei' ^ 
eitos , por Alexandre António das Neves ; pata disiiibuit- ^ í 
se ao Exercito Poitugucz /o//í. ii." ....... grf, 

XXXVII. Advertências dos meios para picseivar daPtste. 5 ' 
Segunda (di^âo atcrestentada com o Opúsculo de Tho- 

maz Alvares sobre a Pciíe de isi:ç., folh. ii.° • - - - tia 

XXXVIII. Hippolyio, Tragedia deÉuripides, vertida do 
Grego em Poriuguez, pelo Director dehuma das Classes 

da Academia -, com o texto , l vol. 4.° ------ 480 

XXXIX. Taboas Loganthmicas , calculadas até á swima 
casa decimal , publicadas de ordem da Real Academia 

das Sciencias por ]. M. D. P. i vol. 8." 480 

XL. índice Chronologico Remissivo da Legislação Poriu- 
gueza posterior á publicação do Código Filippino por 
. João Pedro Ribeiro , Pait. i.*, i.f , í.' e.4.* - - - . .}6qp 
XLt. Obras de Francisco de Borja Garção Siocklcr , Se- 
cretario da Academia Real das Sciencias , \,° vol. 8." - 800 
XLIl. CoIIecçáotlosprincipaes Auctoies da Historia Por- 
tugueza , publicada com notas pelo Dirccrer da Classe da 
Liiteratura da Academia R. das Sciencias, 8 Tom, em 8.° 4800 
XLIII. Dissertações Cbronologicas , e Criticas, por Joáo 

Pedro Ribeiro , j vol. 4.0 .---..--. -. 1400 
KLIV. Collecçáo de Noticias para a Historia e Geografia 
daa Nações Ultramaiínas , Torool." Numeiosi.°> 1°, 

3.° t 



:X'OogIe 



o Tomo II. t!oo 

XLV. Híppolyto, Tragedia «leStrieca.; e Pheiira , Trage- 
dia tle Racine ; trAduVU») cm veiso, pelo Sócio da Aca- 
demia Sebastiio Francisco -de MeniJo Trigozo , com os 

textos. • T -T.-tíoo 

XLV[. Opmculoi lobre a Vaccini ; Ng meras I. até XIII. joo 
XLVIl. tteniíflco) deHygicne, por FtancÍKO de Mello 
Frat)co t Sano da Acajcmia : fMt9 !■* }C0 

EitSo HO preto as stguinteu 

Taboidaa Perpetuai Astronomtoa* paia uio da Navegarão For- 

tugueza. 
Memorias Económicas , j." vol. 
Documenioi para a Historia da Leeislaçáo Pettagueza , pe'os 

Sócios da Academia João Pedro Ribeiro j e Joai^uim desamo 

Agoiciflho de Brito Galvão. 
Collecção dos frincipaea Historiadores Pormguczes. 
Collecçãa de Noticias para a Hiftoria e Geogriíia dae Najó» 

Uitrimarini!. 
Tabois Trigonométricas , por I. M. O. P. 
Obras de l^rancisco de Borja Garção Siockler , Tom, z.° 
Collecção de Livros inéditos de Hiftoria Poitugueza, Tom, 4.* 
Elementoi de Uygiene : Fane II. 



ytnAem-fe'em Lisboa nas lojas dos Mercadores dc Livros na 
Rua das F^ircas de Santa Cachaiio» ; t em Coimbra , e mPv^ 
também pelos mefmos pregos. 



LISBOA 

N* TxrOSRAI<Jl.lA SA ACAQBHIA RiAL PAt Sci^IMIAS. 

Anno. de 1814, 



Com Lfsenia de S. A. R. 

D.g.tizecbyGoOglC 



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D.,.,„cb,Go(igIc 



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