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Full text of "Memorias de litteratura portugueza"

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MEMORIAS 

liITTERATURA 

PORTUGUEZA. 



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MEMORIAS 

D E 

LITTERATURA 

PORTUGUEZA, 

PUBLICADAS 

F E ^ A 

ACADEMIA REAL DAS SCIENQAS 

DE LISBOA. 

Ni^ utiU efi quad facimus , ftttlta efi gloria. 
T O M O V. 



LISBOA 

NAOFFICINA D A MESMA ACADEMIA. 

ANNO M. DCC. XCIII. 

Com licença da Rtal Meta ia ComniJfaS Geral folre o Exame, 
e Cesfura dos Livros. 

r 1.1,1=1, CoOglc 



„db,G(5oglc 



ENSAIO (*) 

Sohre a Filologia Portuguesa por meio do Exame e 
ComparafaS àã locuçaS e ejiHo dos mjfes mais in- 
Jignet Poetas , que fiorecêraÕ no ficuh XVI. 

Por António das Neves Peueiba. 

'Dtetmtntt /u/fira , itct eaata 

A PfrtafutXfl Muja , Jílha , herdeira 

Da Grega e ia Latina , qae aji ijpanta. 

Ferr. Citt. liv. a. cirt. loi. 

PRIMEIRA PARTE 

Da Poejta a rtjpeito d» exercieio das linguas. 

ARTI qu LO I. 

Como as línguas fe augmentaÕ e fe aperfeifoaÕ por meio> 
da Poejia. 

Na6 lia naçalí alguma ta6 barbara , que mais ou 
menos oao tenha cultivado a Poeíia \ e bem íabí- 
do he, que no priacípio entre os Gregos a úni- 
ca , que fe empregava nos difcurles públicos , e toda a 
vez, que fe foliava com intimativa, era a linguagem- 
poética -y porque fora defta a linguagem familiar , como 
languida e inculta , naÕ fe julgava aíTás oportuna para 
áífumptos graves e diícurfos leguidos , e por Iflb tudo a 
que havia de homens capazes de merecer attençaõ dos 
povos por talento e erudição , eraõ ao mefino tempo Fi- 
lofofbs , Oradores , Hiftoriadores , e Poetas , ifto he , ho- 

(*) Premiado aa SelTaõ Pública de 12 de Maio de 1792. 

mehs. 



2 Memorias 

rnens capazes 4e inftruir o povo , e de lhes fazer ref- 
peitar as verdades Tólidas, e paxá eHe âm fe ferviaò áa 
Poelia : de fóima que verdadeiramente naÕ havia mais 
que huma fó Ãrtc , huma íò Sciencia , e hum fó género 
de Efcriptores. (a) 

Verdade he, que em quinto a Imguagem dos po- 
vos era rude e groííbir» , também a Poefia devi» de íer 
informe ; por íjuanto , como obferva Quintiliano os ver- 
fos Djfcérao dos homens j antes que elles tízelíem íuas 
ohfervajoss fobre os verfo?. O ouvido por feu próprio 
inftiníto , e íera outra rogra he o que dirigia a econo- 
mia da frafe conteniando-fe com a fortuita repetirão das 
mefmas cadencias diípoíVas com igualdade de efpaço em 
efpaço. {b) 

Aflim foi eiitre nós a Poefia Portuguéza nos feus prin- 
cípios. A invenção gothica das Rimas era quait o unicO' 
caraifter , que a dilVinguia da Profa 0L*dinan3. Surgindo 
infenllvelmente , e como por degráos, da barbaridade, 
já no Reinado do Senhor D. Diniz chegou a ter algum 
apphufo ; por quanto : 

■Indã naqueila idade inculta e fera 
As firças toda dada bum fprito raro 
Ptedofo Templo ao branda Jípollo erguera 
SanSiú Diniz na Fé , nas armas claro 
Da pátria pay , da fua lingua amigo 
Daquellas Mujas rujiicas emparo. (c) 
Todo o trabalho dos Trovadores fe reduzia quafi a al- 
guns Epigrãmmas , Glofas , e outros Poemas ligeiros ,' 

(a) V. Deslandes Hift. Critiq. de Ia Philofopfi. Tom. i. liv, 
2. chap. VIII. Condillac Coars d'EtuA Tom. 6. Hift. Ancien. 
liv. í- chap. X. 

(í) Poema nemo dobiraverit imperito- quodam- inirio fulorti ,' 
et aurtum menfura , ec fímiliter decurrentium: fpatiotum obfer-< 
vationc eíTe generacum ; mox in eo repertos pedes. Ante eniirt 
carmen repertum eft , quam obrervatio carminis. Inftit. Orator. 
lib. p. cap. 4. , 

(c) Ferr. Das Cart, liv. 2. Cart, lo. 

que 

DgitizedbyCoOglC 



DE LitteujvtiU»* Pobtuqueza. J 
<ibe fe CDnurreJrendíaâino titulo de Troras : tiido recen- 
dia ainda ora á galantaria inourifca , ora á groífería go- 
thica, que &ra o feu pricneiro berço , e taõ informe , 
que mais parecia emisriaô de Poelia , do que pi-oduça6 
regular. E naÕ he precifo retroceder aos feculos anterio- 
res , nem efquadrinhar os feus monumentos para iúndar- 
mos efte juizoí porque como adverte bum difcreto Fi- 
k)lbfa, para fabermos a hiftoria dos feculos bárbaros naÕ 
Ík pouco , faber que foraÔ bárbaros, (a) 

O que pôde parecer mais admirável he , que quanta 
-eíTe pequeno esforço dos Poetas , e as fuss .rudes pro- 
•ducçâes prottioviafi infenfivelmcnte o progreíTo das lin- 
-guas , . tanto á proporção as tnefaias línguas , deixando 
.pouco a pouco a lua primitiva rudeza, e grofleria , hia& 
contribuindo á perfeição da Poeíia ; deforte que a língua 
,c.a Podia mutuamente fe davaâ a maõ. 

.Mas iíbo noD lerá mui difficil de oomprehender , fe 
confideraniK» , que íie oatutal a cada naçaã combinar as 
iiias idéa^ de iiuma maneira , que 11k he própria , ifto 
iie , fegundo o feu génio ; e de ajuntar a Iiuma certa 
fC^amidade de idéas .princápaes, que llic isÕ familiares» 
varias outras mais ou menos, confonne a copia de no- 
ÇÒES :, que adquirem , c «variedade de imprefsdeg , que ex- 
peritnentafí. Eftas combinaçâec suihorifadas por hum Íon- 
-fío a£b fa6 as q^ie propriameoce conllítuem o génio de 
'Huma língua tal como fe mdira «a dicçaâ e fraíeologia 
das abras de Litteratuia. Mas para fe augmeniar huma 
líi^na mais eu menos , be neceflirio , que concorra nos 
«fcciptores aadonaes huma trccefiidade lal , que fcjaÓ f«r- 
içados a recofíier a Analt^ia , a fim de :qoe além da 
H^aaotidaãe x itariedade das frafes ufuaes , que IJies naó 
.bafta6,.fe inventem outras proporcionadas ao feu intento. 

Or^ nada ha que po0a occafionar ianro efta neceili- . 
'dade, ctímo aPoeua, e difcorrendo por dcgráos , fe fop- 

., <•«) OoodíUac Gmrs.iá'£-uid. Tom. ij. íiift. .'^Modetn. iiv. 17. 
cbap, 2. 

po- 

Dgilizc-JbyCoOglc 



4 Memorias 

pofermos buma naçaã , que díÓ 6zeSt outro Tifo dos ii- 
naes , fcnaõ o de analyur as fuás ídéas , efta linguagem 
Filofofíca pararíjt dentro de hum bem pequeno circmo , 
e naâ poderia ter progreíTos mui confíderareis. Maís al- 
gum tanto fe exienderia , paíTaado da Fílofofía aos Exer- 
cicios da Eloquência , mas ainda feria em certo modo 
unifona. A Poelia fó he a que força a tomar vários 
tons , e para me fcrrir da femelhança do Orador Ro- 
mano , (a) a língua lie nas maõs do Poeta como cera 
branda, pronta a receber quaefquer fíguras, que elle lhe 
queira dar. Âílim naâ he de admirar , que em to.do o 
tempo tudo o que a Eloquência teve de milhor , e mais 
admirável lhes vieíTe da Pòelia. Plataõ e Cicero naõ bri- 
Ihariaõ , como brilháraâ , fe hum e outro naÔ fizeflèm > 
como fabemos, feus enfaios na Poelia. 

A Poefia he a faculdade de pintar os objeétos da 
bella natureza. Se ífto he dizer pouco para a definir na 
fua maior extenfa(i , he dizer tudo , e precifamente o que 
he necelfario , para a dlftioguir da Eloquência, da Hif- 
toria , e da Fllofofia ; e confeguintemente , para fazer 
comprehender , que ventagens delia refultaò á liogua » 
que lhe ferve de ipftnimento. 

Accrefcentemos , que a Poefia he hama pintura , que 
falia : como tal , o feu maior complemento elU em que 
ao mefmo tempo pinte os objeâos ao animo e ao ou- 
vido , pois que efte íèntido tem huma mui grande in- 
fluencia na alma , dÍfpondo-a com os feus movimentos , 
para receber mais vivamente a imprefiàâ das imagens e 
dos aifedos (í) . Para efte efieito pois necefiita a Poelia 
de inílituir huma lingua ao mefmo tempo hannonioía e 
imitativa , quero dizer , língua , que com os fona , nu- 

(À) Sicuc mollilfimam ceram ad noQram arbitríura formamos 
et fíngimus , lib. ;. n. 4$. De Orat. 

(^b) Nihil incrare poteft in aíFe£tam , quod in aure velnc quo^ 
dam veftibulo ftaiiu offiendit. Quinâil. loftit. Oiuoi. lib. 9, 
cap. 4. 



DgitizedbyCoOglC 



DE LlTTEBATUBA Po R T U G U E 2 A. J 

meros e accentos communíque ás palavras , quanto pô- 
de fer , o caraíler das coufas ; de forma que naÔ fó mo- 
va o animo cora a expreíTafí dos fentimentos , e com o 
colorido das imagens ; mas também encante o ouvido 
com a belleza Fyílca dos fons. / 

Por quanto, que liuma língua tenha abundância de 
termos diÍHníftos , ou equivalentes para exprimir as idtas, 
e as difTerentes relações das idéas , iíTo oaQaria paia os 
difcurfos da Eloquência , e muito mais para os da i'i- 
lofofia ; mas iíTo naõ iie baftante para a Poelia. He ne- 
ceíTario, que a lingua forneça grande numero de expref- 
s6es para reprefentar as imagens j mas ainda ifio naÕ fe- 
ria a maior ditficuldade, pois que todas as linguas def- 
de o feu principio faõ figuradas , e por iíTo aílás aptas 
para faiisfazur fuíE cientemente a elTa parte da Poefia em 
quanto Pintura ; mas para reprefentar hum meímo objcj- 
cio por differentes faces , com novidade e graça ; para 
dar as imagens o relevo , que lhes convém j para expri- 
mir os movimentos e inclinações do animo , cada Iiuma no 
differente gráo de força , de delicadeza que a imaginação 
concebeo , e que a Poefia deve reprefentar , que numero , 
variedade , e delicadeza de expreísões naÕ he necelTarFo ? 
Quanto raais de termos além de figurados, hannoniofos e 
fonoros para fatisfazer a fumma delicadeza do ouvido ? 

Sem duvida naÕ poderia nunca a Foejia íatisfazer ef~ 
tas fiincções fe eftivefle ligada a lincuagem do ulo, e ef- 
crava das fuás leis feveras ; fe naÔ houvefíe meio de ti- 
rar da mefma linguagem commum e conhecida ncvo íiin- 
do de riquezas próprias para o fcu ufu , e ainda i^e buf- 
car fora da própria lingua todos os auxilios pçfliveis , 
para fe acreditar por linguagem das Mufds. 

Eis-aqui pois a que íê reduz todo o trabalho do Pcê- 
ta. Elle tenrará todos os eftylos análogos ao génio da 
Jingua , e efcrevendo na mefma lingua nacioral , que lo- 
dos faÚaÕ , eile a modificará de fornia , que Itm fcr es- 
tranha parecerá nova j fem fer obfcuia parecerá £S,tiaor- 
dinaria , irfpirada, e admirável. ■ ■ - 

Tm. r. B Os 



l.lzccbyCtXlglC 



6 Memorias 

Os termos e frafeè ds huma língua fòea6 íifftiruidos 
a arbítrio dos que fallavaó ; porém eíTes vocabufós pri- 
mitivos , e as primeiras frafes , que íe introduzirão n'Umn 
língua naõ (aó os mais claros, nein os mais juftos , nem 
os mais elegantes. Efta perfeição náfl a pôde vir a ter 
henhâa língua , fennô por meio da comparação , e efco- 
Iha ; e efta naõ fe pôde effeimar , fenao depois de huma 
longa experiência , ifto lie , depois de varias teoiativas 
em obras de lítteratura , taes como as dos Poetas , e de- 
pois deitas as outras , que mais fe llies aflemelhaÕ. 

TaÕ pouco ie pôde efperar , que eflàs mefmas vozes 
e frafes primitivas fejaô as mais fiarmoniofas , principal- 
mente nas línguas modernas. Por quanto quando eítas fô- 
raã ínftituídas , nad confultáraC os homens a natureza 
para a pintarem , nem formáraò vocábulos , que repre- 
TeatalTem os cara^eres das coufas denominadas ; nem 
também confultáraõ as línguas antigas , examinando o 
feu mecanifmo , de que refultava a melodia dos fons , 
o? accentos , os números , que IheseraíS próprios, e que 
uniaò a Mufica e Poefia , fazendo tudo huma -íó arte. 
Eftas línguas fôraÕ formadas das relíquias de oiltras va- 
rias línguas, e poriífo adoptando -alguma coulÀ de cada 
huma , pela miftura de vocábulos , e frafes , que oafi fò- 
paõ feitas Jiumas para as outras , naõ podem deixar 'de 
formar hum grande obítaculo i harmonia do difcurfo. 
"Nos Postas mais , que em nenhum piitro género de Eí^ 
critores , eftá o trabalharem para Vencer efle obftaculo , 
e por efte meio lie que cada língua vem a ter fua har- 
monia caradleriftíca » e feu eftylo , ou cada vez fe yai 
aproximando aellc m^is e mais. (tf) 

j^(/í), Poetx) plttrim.i víttere ipfa mctri neceffir«e cogtfirur. 
^-QuiniSil. Inft. Orar. lib. VIII. ftap. 6. AUigati ad certampcdam 

'jíeceíficatem non femper 'propriis oti pofíunt . . ,'nec<Jflari% ad 
' «lòqtiendi 'quxdam diveriicuU confugiant, fiec mtitáfe qtíxdam 
"tnodo verba, fed extendeie , sorripeíe , ^onVenere ^.^ divídere 

co^ncur. Id. líb. X. cap. i, 

£n- 

DigitizedbyGoOglC 



DE LlTTEBATURA PORTUGVEIA. J 

Entendido ifto , naô he de admirar , que também a 
Poeiia em todas as nações tenha feito progreíTos propor- 
cionados aos da língua. Tem-íè feito os maiores elogiot 
de Honiero principalmente a refpeito do «ftjrlo da fu* 
f oeiia , e com bem merecida admiraçaG naquella parte , 
que involve a Mufica da exprefiãó , que nenhuma Unf' 
gua pode hoje imitar , fcoaõ por fombra. Mas quaes fc- 
ríaÒ os outros Poetas , que vivéraò alguns íeculos antes 
delie ? Quaes os que vivêraS antes da guerra de Tróia , 
taes como Lino , Orfeo , ThamJris , e outros ? Se jul- 
garmos deJles conforme a celebridade em que os põem 
a commum tradijad , faremos delies outros tantos Home- 
ros. Porém para nos perfuadirmos do contrario , baíla re- 
AeAirmos , que ainda muito tempo depois defles , que 
aqui nomeamos, toda a Grécia era barbara, e ainda mui- 
to tempo depois da guerra de Tróia nao era commum 
aos Gregos faber ler; além de que os manufcriíos era5 
fobre caros mui raros. Qual feria logo a língua Grega 
flaquelles tempos ? E fendo barbara , como os povos , qi^e 
a fallavaó, como podia fer digna de admiração a 'íiia 
Poelia ? 

Sobre efte principio pois, que a Poelia naó póde-dei- 
xar de fer rudiíTima em quanto huma língua be barba- 
ra , podemos crer feguramente , que os Poemas de E^s 
Moniz , e tudo o que havia de Poefia nos princípios da 
noíTa Monarquia devem eftar no mefmo parallelo, que 
os h^mnos dos Satios a refpeito das bellas producçoes 
do feculo de Auguftõ, e com tudo natí deixaríamos tal- 
vez de nos perfuadir , que os Poetas daquelle tempo eraã 
eminenttllimos , fe os noflbs avds , fem nunca os lerem , 
nem no los moftrarem , nos diireíTem delies maravilhas. Á 
nieu ver, nada ha que nos polTa dar mais jufta idéa tan- 
to da noíTa língua , como da Poelia do tempo antigo , 
como he o lembrarmo-nos , do que a cada paíTo accon- 
tecia, que alguns Eccieliafticos , que efiudavaô mais algum 
latim para o ufo da Igreja , efcrevíaõ aííás expeditamen- 
te os ieus penfamencos n'um período latino , quando em 
B ii Por- 



Cg.lzc.byCoOglC 



8 Memo&ias 

Poríuguez os nad pòdiaõ ligar fenaô miferavelmante. Ou- 
tro tanto referem os Ellraageiros das fuás liiiguai ; o que 
he baftante prova, que á proporção que a Poefia ié cul- 
tiva , crefce o progreíTo das línguas , e refpeítivamente, 
quanto mais liuma lingua fe cultiva , tanto mais perfei- 
tas fêraô as obras de Eloquência , e Poefia. 

ARTICULOU. 

Csmo a Poefia , confiâerado o jeu oàjeã» aniverfal , C0a~ 
corre para o augmento das línguas. 

ASSIM como as nóíTas idéas fe multiplicaó á propor- 
ção, que fe augmentaô os noífos conhecimentos; 
da mefma forte conforme o auge deftes e -daquellas , af- 
íim fe muUiplicã6 os íinaes , e fe augmentaÕ as línguas. 
Ora fe bem refleftirmos iio objeílo ampliifimo , que a 
Poelia abraça nao podemos imaginar coufa al^guma que 
attraia maior copta e variedade de idéas , nem prefuppo- 
ji&a mais vaftos conhecimentos , do que elta , e por con- 
feguinte nada ha mais capaz de enriquecer e augmentar 
as linguas. 

Tudo o que ha dentro da valia circumferencia da 
Natureza faã os materiaes > em que ella fe exercita , e 
o feueftylo he comq a perípeíliva em que reprefent^ to- 
da a multidão de objeclos da natureza referindo-os' ao 
entendimento , ao fentimenio , ao ouvido. O imindo Fy- 
iico , e o Moral laó como os dous pólos em que a Na- 
tureza fe termina pélo que refpeita á Poefia , nem efta 
conhece outros limites. É no mundo Moral o efpeiflacu- 
io .mais intereíTante , que ella ofFerece ao homem, he o 
mermo homeiii. Ndle fe pôde diftinguir a Natureza fim- 
ples , e a Natureza combinada ou modificada, (fiando a 
Poefia nos reprefenca as formas prímiiivas do coracaÔ 
humano , jíto he , os feus movimentos fem diiftura , íem 
eompofiçaô , effa he a natureza pura , tal como fe acha 
ao vivo fios homens incultos, nos qu^es afrafe da lín- 
gua 

.DigitizedbyCoOglC 



DE LiTTKBATtIRA POStua-UEZA. ^ 

gua he a mefma voz do coraçaò , o fentiménto fince- 
ro , as paixões em toda a íua Ibrça e vivacidade ^ final- 
mente tudo o que ias do animo , ne íem reiguardo , km 
confira ngimen to. 

Porém naô accontece aíTim no homem confiituido ná 
focicdade. Ã fcena da Natureza que a Foeíia reprefenta 
□a6 lie pura e Tem miftura , mas hum pouco contrafeita , 
e complicada , de forma que a acçaó do natural íe acha 
alterada com o q^ue he effeito da cultura. Aílim todos os 
cuidados da conlervaçaõ da vida , e fua defefa , do def- 
canço , e liberdade : os féntimentos do bem , e do mal , o 
retorno da alfeiçatí , e do ódio , os vincules do fangue , e 
do amor ; a beoelicencia , compaixão, inveja, vingança; 
a repugnância de obedecer , o defejo de dominar, e ou- 
tros íemelhantes movime^itos fendo em fi livres e natu- 
raes, apparecem n'uma infinita variedade de gráoa, fe- 
.gundo a educarão, o habito » a cultura, as leis, a diP- 
clplioa do paiz, ufos , e' opiniões j de forma que por 
caula deflas differenças apparecerá o homem mais ou me- 
nos natural , ínais pu meuos fa<íticio. 

Daqui he que o Poeta tira as cores para retratar 
aquelle que 

Reprovando as vontades inconjlantes , 

Jtqvellas àuvidofas gentes dijfe , 

Cem palavras mais duras , que elegantes ^ 

A maÕ na e/pada irado e naS facundo , 

Jmeaçando a terra , o mar , *■ o mundo. Luíiad. C. IV. 

, Eft. 14. 
Ndõ he da Natureza limples que fe tira a. idéa da ex- 
traordinária fidelidade Portugueza e heroifmo daquelle 
Fidalgo, que 

Jjetermina . de dar a doce vida 

A troao da palavra mal comprida. C. III. Efti 37. 
Que dirá , que penfará , que fará Egas Moniz eíle vaf- 
fallo de huma tal fidelidade ^ 

Refpicere eitemptar vtta merumque jubeho 

DoSium imitatorem , et veras bine ducere veces. Hor. 
de Art. Poet. v. 317. A 

DigitizedbyGoOglC 



to M B M o 1 I A' S 

.A ficçatS he a fonte da Foeiia , mas a ficçaCi natfheott» 
tra coufa mars que hum râíultado defta idea unirerfal da 
Natureza , lie huma combinação de diãèrentes moiéilot 
particulares ; n'uma palavra , be a Natureza compofta , 
yéa rica , e abundante da locuçatí e eftyío poético. 

O mundo Fyfico também como o mundo Moral fe 
diride em dout ramos; porque também no F;rfico ha Na- 
tureza íimplei, e Natureza modificada. A primeira noa 
offerece o Teu e^peií^aculo, o feu mecanifmo , os fcus &c 
tiotnenos , as luas maquinas. E que parte tem nifto a Poe<- 
fia? Tudo eftá na fua jurifdicçjõ, e fomente rejeitará tu^ 
do o que Bãó he capaz de receber as fuás iltuminaçóes. (tf) 
Ella he huma efpecic de Filofofia , mas Filofofia efcolhi- 
tla. Nad fe occupa com as meditardes Fyficas , nem com 
os cálculos Aftronomicos , mas vagueando por eíTe vafta 
campo da Natureza , desfrudla aqui e alli tudo o que ha 
de mais belio e preciofo. As caufas fa6 para ella ordi- 
nariamente raízes amargofas , que dejpreza ; o que he de 
feu maior intereíTe faõ os eíFeiíos. Ta6 pouco fe occu* 
pa com as particularidade , ou miúdas Individuações * 
excepto as que mais cooduzem ao feu fím : e as mef- 
mas, que ellaapprova n'um género, naõ as admittirá em 
qualquer outra indiftinAa mente. Na6 ha differença entre 
o Filolõfo e o Poeta , fena6 que aquetlo contempla a Na- 
tureza para a Conhecer , efte para a imitar ; hum a per- 
tende explicar , outro pintar. 

O Filofofo morofaraente hirá analyfando o fom ,. e a 
luz , em quanto o Poeta rapidamente em trez linhas fa- 
rá ouvir a noíTa alma a explofaÕ dos trovões. 

Feros trovões , ^ue vem reprejèntanão 

Cayr o Cco dos eyxos fuhre a terra , 

Comjiga os elementos terem guerra. Cant. VI. Eft. 84. 
O Filofofo largamente explicará o ef^aço de tempo , que 

Et quX 

(d) Derperac tra£tjica nitífccre [i*>íre, fella^it. Hor. de Art. 
Poct. V, IJ, 

oSol 



DigitizedbyCoOglc 



DE LiTTEJtX-ETIíRi PORTUaUEZA. M 

O Sol gafta até ai^a:reccr íobre o noíTo horizonte , quan- 
do o Poeta fómcnie fe contenta de nos fazer fenfivel o 
fenómeno da fua appariçaã : 

Mas affim conta 03 rayos ejpalhades 
Do Sol foreS nc. mmídú , e a^um memento 
Apparec£0 no ruhido horizente 

Da moça de Titaõ a roxa fronte. Cant. II. Eft. 13. 
Aquelle ínveftigador da Natureza esaminará como as plan-* 
ias fe nutrem e 'vigoratí mediante a agitação doar; po- 
rém efte imitador da Natureza nos repelentará fem tno# 
lefta efpeculaçaõ, e com maior deleite da ifnagioaçaõ ef- 
fes agradáveis objeiflcs , ouando : 

O gra«âe calor de ^ Eavonio ,enfrêe 
Co fopro , que hw tanques naturats 
Encreffa a agua ferena , e defferta-ve 
Os imos e Jafmins , f^i/e a-caímaMgraíua. Cant. X. 
Ett. I. 
Mas quando as circunftancias pazticulares de alffun fenó- 
meno faó de fl intereíTatites , « capazes dejuftre, e.con- 
-eoirem á pcffeiçaõ .do -quadro 'da Natureza , que Filofo- 
(o :iia fua theoria auftera as Teprefentarávcomo aquelle 

. — I — >- ■ — -.-. Je,vantfir-/e 

No ar bum xaporzinbo.^ie.fubtil fuma i 

£ do sento .trazido rodear- fe : 

De a^ui levado bumicano mo -fidU fumv*» 

Servia tão -delgado ,-^e tenxergar^e 

Dos olèos .facilmente n^o podia y 

Da matéria das nuvens ifarec ia. 

Hta-i/è pevra e pouco Mccrejèentande , 
:E -nmis .-que -iam iargo imafixo ^engroffavai 
■jlt^iife tfireita , .ofui fi. alarga ,^aando 
4)s .golpes jgthimles de .agua em 'fi ■-. casava t 
'S^ama-fe.co'' ^as ondas ondeando y 
.£m cima de bama nuvem fe ef^ffaiia , 
Ekzendõ~{e .major, f maisyotmfgada, 

-. " Mas 



CgilzccbyVjl. '».''■ 



11 MfiHOKIAg 

Mas ãefots que de têãe Je farto» , 

O pé j que tem 00 mar a Ji recolhe , 

£ pelo Ceo chovendo em fim voou , 

Porque €0" a agua a jacente agua molhe , 

As ondas torna ás ondas y que tomou , 

Mas <f fabor do fal lhe tira e . tolhe. C. V. Eft. 19. 
20. Í2. 
O Filofofo demonflrará <;onio o angulo da incidência da 
luz be igual ao angulo da fua reflexão , mas o Poeta t6, 
e pinta como vê. 
■ ■■ o refiexo lume do polida ? ■ 

Ejpelbo de afo ou de cryjlal fermofo , 

Que do rayo folar fendo ferido 

Vay ferir n^outra parte luminofo : 

"E fendo da ociofa mao movido 

Feia cafa do maço euriofo , 

Anda pelas paredes , e telhado 

Tremulo aqui , e alli dejfocegado. Cant. VIIL Eft. 87. 

A natureza modificada pela indu(trÍ3 humana, iftohe, 
a Agricultura , a Mecânica, a Náutica , e outras muitas 
artes aflim úteis, como deleitáveis fafi. outra mina aíTás ri- 
ca para a Poelia, principalmente em tudo o que nellas fe 
QÍFerece de mais nobre e agradável ; e lá vai o Poeta , 

3 liando lhe mats convém-, cavar eíTes diamantes fotterra- 
os das mais betlas imagens, xomparaçdes,, e ainda def- 
cripçòes. Por meio deftes adornos faz parecer novo o que 
parecia trivial , e as coufas mais communs-e^rdiDarias, 
com efta induftria , deixaõ de fer feccas , e . eítiéreis. 

Eís-aqui pois , porque no primeiro artigo dizíamos , 
que o exercício da Poeíia foi fempre em todos os povos 
e nações a caufa de.fe augmentarem, e polirem as línguas, 
que devendo a fua primitiva origem a mera necellidade 
de exprimir as coufas ordinárias , e mais necelTarias ao ufo 
da vida , naô podiaô deixar de fer aífás pobres e eftereis. 
E do que agpra temos obfervado fobre a multiplicidade 
deobjeclos, que a P.iefia pode abraçar, claramente fe vê, 
quanta variedade, eabundancia de.exprefsóes e ett/io naã 

ajuiH 



zedbyCoOglC 



DE LlTT E» AT17B A- POBTVOUEZA. ÍJ 

ajtmw á Foelia para pintar ta6 diffèrentM partes do fca 
MJefto univeríàl. Mas ifto conheceremos mais diftiníta- 
meote reduziado-os aos geaeros , em que eUa fe exercita. 

A R T I C U L O UL 

CoíMff cada bum dos géneros 4^ . Poefifi cnHcorre para » 
augmentOf e. perfeição das línguas, 

SB huma língua be aflas ríca^ e aíTás, imitativa para piti> 
tar em todos os géneros de Poefia^ efla ferá.Pafto^ 
rii, Lyrica , Trágica ,. ComJea , ^ica, .Epigramniatica 
&C..; e precifamente cada hum deíles -diíFereiítes géneros 
lhe contribuio feu auginento , e perfeição particular- por 
meio de varias modifícaçdes do eAyio, a rerpcito" do ob- 
je^Q, que cada hum defles geoeros abraça. 

t ■ P A s T o R I t. 

E a principiarmos pelo género de Poefia i que fe cré 
fer o mais antigo , quero dizer , pela Poefia Paftoril, ef- 
la ' fe extende multo mais , do que vMlgarn^ente cuidafi 
os que decermioao a natureza deite género peks obras 
dos antigos Poetas, aíTeotando que o ponto até onde el- 
la chegou dirigida pelos primeiros Ãrtii^Rs , be o meí- 
ino até onde ella pôde chegar. 

Os Paftoreg ^Õos. adores nefta efpecie de Drama. 
Eftes podeie confidêtar-feou n'um eftado. da maior finp 

Íilicidade da.. Naturcaa f n'uma vida abundante, delicio-, 
a > . e jnãtam^tte mnoQ^nte , gozando de huma nobre lir 
herdade, taes como oa defcrev.êraíi ps antigo.? Poetas., g 
alguns doa modernos; ou no. eftadp commum da natUf' 
reza humana capaMS' de .penas , e- pezares. Cpnfideradog 
no primeiro eftadó, M flores , efruâos etn grande copi^ 
c variedade, todo a efpeftEvculo do, ca.ipp^.ftô otyeítq, 
dos íéus .émrjetenimeiHos , eo cuidado dqs rebanhos a 
fiia occupaçatS; a emulação nos .f««s jogps»..()s„att;^á<li- 
2tfWl. r. . c V08 

Dg.lizcJbyCoOglc 



14 Mehoriaí 

tos da- foriilofurB , e do amor he o que lhes rouba És dr- 
tençÕCí. Nòs feue difcurlbs fe defcobre a fuá imagina- 
çi6 airofa , mas tirtilda j fcnrimentos deficadoB , mâs com 
fingeleza. Tudo o que moftra efperteza nafcida de re- 
flexaá , rudo o que Iic refinado be álhéo do íeu cara- 
íler ; groíTcria, e agudeza faÔ dous extremos incompati- 
teis com a fimpiicidade pafto/il, eeft'ado"de felicidade, 
que lhe he anneJco. 

Aiéc|ui o eflado de felicidade imaginaria , donde os 
Authores fundatí íegra para excluir deite genaro ludò ^.o 
qtítí he imferis e -groíTeria-. Mas fe nós podemos ftiíinir 
a vida dos Paftorês f)'ura citado, que fai irfvejé ■, por- 
que- -o naò pintaremos n'ii[ii ídado digno tte coiíipaixaS"? 
porque na6 defcreveremos os feus coíhiiries giofieiros, 
os oEmçíIos das fuás magoas, e afflicçSes , fazcndo-os 
lemclíiantes a nós , de maoeira quo entrem nO' interèlle 
geral da humanidade? As imagens criíles deitas perfona- 
gens naÔ nos commoveriáÕ ? Nâó tcriaõ fua bclleza , feu 
pathetico , feu intereíTe moral, fc as exprimiíTemos viva- 
iVienté ? -Por certo que nada Ihee feria indigno, lênaõ o 
que -hé indigno de toda a Poefia , ifto he , o que be vií 
e defagradaveí. E tomo poderia ler defagradavel huraa 
certa familiaridade lUÍlica , que faz efté genepo- mais co- 
pioíb , mais vafto, mais fecundo >, e nsoi-to ^mais- natural 
tem dsmparaçaíJ , e mais moral do que o da gata fita- 
ria campeftre ? ir; 

O que particularmente caracleriaa eftegenei-ó de^oe- 
lia ,- he , que os Paftoí-es nosfcii* Jifouríos ;íiia^ analyEàÔ 
aíf fuás idéas , nem as compõem , rod» a fua^ftàfe: pel^ 
maior pane cortfla de imagens, e fentiiner>tOS'dt aâitno. 
O feu penfar he pouco , e fó quanto baÃa para homens 
bem organizados , ifto he, para honrwnsáie perfeipo juí- 
iú''m^élle geríèro de/váda V mas^ it*S dojiiiB*' eultiva- 
ãií' è;' apttfádò i nem ÍVaèifuado a rtííleíHr , b fRÚiontiqrQH 
tbafas.- Dò' ufo di?)'3 iVftridos , maife' qiie uí*: i eftBisiÔ , líies 
Aalbtí ò qifc dizem , elles faô os -qw 'Iheg dióbiS ^ a* p*- 
lãv^rãsj a~fua looi4$a:&-deve exprimir ae ioi^íelsde» <l4B 

í ■ ' ■ ■ ioí- 



lizcJbyCoOglC 



DE LiTTaR/ASTff RA' Portuguesa. í> 
feotidos : cònfegnintemchte o feu efiylo fera o mais íl- 
gurado , que pode ÍIt. 1'al iie a linguagem da nacuii..- 
za , pobre de vocábulos , abundante de imagens ; e tal 
he a que convém nelle género de Foeíia. 

P o E S-l A L X R I C A. 

Ou«ro gensfo pela fua origem rrui vizini o do Paf- 
torU il«"a foefia Lyrica , a qual niuités veies ■ faz parte 
dos Foeoias faftoris , ■ pois que os diitlogos dos Paltores 
comnauninMate-fe -terminai em Camicos^^que laõ peças 
de&e gwftero ds Poeiia. . ^ . ■ .' , v , 

 mareria e-iobjedlo eífeaoial-de tods a Ode fa6ds 
lentimentos ou affetflos do animo , que r«fulta6 da idâi 
de alguoi obje(5lo , que vivamente agita a imaginação do 
Poe-ta i 'OU' fqa o enthufiafmo da sdmiraça6 , cu o de- 
lírio dti alegria, ou a embriaguez do amor, ou- o fuave 
defacQrdo da alma,- qué íe deixa Itivar do leve movi- 
mento dos fentidos; Por efta caufa o eílylo Jyrico íxclue 
penfamentos analyfados fy tematicamente j as connex6es 
das frales, traníiçôes , e tudo o que fuppoem o animo oc- 
elipado em difcorrer, A fublimidade , que he a alma 
xlefte género dePoefía , coplifte na magnificência das ima- 
gens , e vivacidade dos fcíitimenios ; e quatido efta vivz- 
cidade fóbe a htim alto gráo , toda a expreífaò vulgar 
4é rejeita , e porque , ou faltaó termos para a exprimir , 
ou os que fe ofterecem ■, faò fracos para iíTo , os fenei- 
mentos mais-fe explicaô petas coufas , do que pelas pa- 
lavras. Por iíTo o eftyio Lyrico he oeftylõdas metáforas, 
atkgorias, e comparações. : ■ ; 

Tragedia. 

A Tragedia a >na* a^ confiderarn^os , fenaô pelo que 
p(írrcncef''ao-efty!o , ht -õ mge' ds3-pbi:t6ei Q'alina. Nrvo 

cuçaõj mas .iic^ccoil^ linnniapie-fitc diiticulUifla anslyfal- 
C ii las. 



l,zcJbyCA>Oglc 



i6 Memoxias 

lâs , e diftingúir õs princípios elementares, de que dias 
fe compõem. Seria precifo eftudalias no coraçaó humano j 
SMS elle he hum labirinto iturincadiflimo de infinitas vc 
redas > e innumeraveis eícondrijoa , e he para admirar , 
que naõ ha coufa mais elcondida , e encuberta e ignora- 
da do homem como o coraçaõ: do. homem. Com tudo 
os Poetas tem trabalhado em nos reprefentar as paixões 
humanas nas fuás obras , com mais profundidade do que 
os Fitoroíos analyfando-as nas faas feccas diíTertaçôes. 

Para de algum modo as reduzirmos Ás ilias claíTes 
geracs , fupporemos primeiro , que ellas - faõ outras untas 
acçâes d^alma. Ora eftas acções, ou movimentos .podem 
íer confideradas debaixO de direcções Temelhantes á^. que 
fegue o movimento do corpo, conforme a idéa de. hum 
grave Filofoíô. (a) ,- , 

Por tamo a nofla alma, quando k- more , ou feJe- 
vanta , ou fe abaixa, ou fe lança .para diante , ou: retro- 
cede VQJtando-íe -para íl mefnía , ou ignorando , qual 
dos kns movimentos deva feguir, pende de todos os la- 
dos perplexa , e irreibluta , ou pofta em agitação mais 
violenta , e de todo reprimida pelos obilaculps , gira em 
redemoinho , como huma rôda de fogo Tobre , o feu eixp. 

I. Qyando a alma íe mqve Uvantando-fe , a ^e mo- 
vimento correfpondem rodos ostranfportes de admira- 
ÇaÕ , de arrebatamento , de entliuriafmo , e a fua voz he 
a exclamação , a imprecação , as íupplicas ardente; e apai- 
xonadas , a ira contra o Ceo, a indignação contra 4 fra- 
queza , e contra os vicios da ooiTa natureza^ 

II. Quando a alma fe abattç, a efte movimento corref- 
pondem os queixumes, as fuppHcas, o defalento, o pe- 
zar, tudo o que ferve para implorar graça ou compai- 
xão. 

III. Oleando a alma fe lança para diante , fahindo 
fòi'a de fi mefma , a efte movimento correfpondem o de- 
zejo impaciente ,. as ioftaocias vjvas e duplicadas , tepre^ 

(a) Mr. Mârmontsl Poí/».?. Tom, i, chap. 4. . . .. . . 

hea- 



zedbyGoOglC 



BE LlTTBUATlTRA POBTTJOUEZA. I7 

henslSes, ameaças, infultos, ira e índignaçati, refoluçatf 
e Dufadia, todos os aiflos de huma vontade firme e de- 
terminada , impetuofa e violenta , ou fe ache luâando 
cojitra os obftaculos , que fe lheoppoem> ou fazendo ella 
por íi mefma obdaculo aos feus movimentos encontrados. 

IV. Quando a alma fe volta para fí meíma , a efle 
movimento correfpondem a admiração mifturada de ter- 
ror , a repugnância , e o pejo , o efpanto , e os remorfos , 
tudo o que reprime , ou perturba a refolu$a6 , inclinação, 
ou impulfo da vontade. 

. V. Ceando a alma fe acha vacillante, a efta íituaçatf 
correfpondem a duvida, a irrefolucaâ, a inquietação e 
perplexidade , os balanços das ídeas , e o conâí^o dos 
ièntimentos. 

VL As revoluções arrebatadas , que experimenta a al- 
ma dentro de li mefma, quando fermenta e ferve, faã 
hum compofto de todos eftes vários movimentos a cada 
pa0b . ímerrompidos. 

Vli. Muitas vezes achando-fe a alma mais defembara- 
çada e focegada , ao menos em apparencia , examina os 
ieus paflbs , compoem-fe, e modera os feus movimentos. 
A efta fituBçaõ da alma pertencem os fubterfugios com 
que fe explica , as allusões , as reticencias do eitylo fino , 
jdelicado, irónico, o artificio, e induftria da eloquência 
inJinuante , os movimentos moderados de huma alma, 
qiK fe doma a fi mefma , e de huma paixa6 violenta , 
que ainda JiaÕ facodio o frêo. 

E)is-aqui temos pois a caufa Fyíica do eftylo vehe- 
menre, paiheiico, e animado, o fundamento de todos os 
modos de fallar , que os Rhetoricos chamatí Fiaras de 
.peofamentos : tudo depende dos vários movimentos d'al- 
;ma t que fe exprimem no eftylo trágico mais que em ne- 
jihum outro. Do que facilmente fe comprehendç , quanto 
jcfte género de Poelta conduz ao exercício da jingua , mo- 
.dificando diverfii&mamente as fuás frafes conforme as ac- 
ções , as intrigas, os cara^eres dos adores 6cc. 

Dgilizc-JbyCoOglc 



iS M E u o n I A s 

C o H B D 1 A. 

Ourro] campo aíTás amplo e fecundo otFereCe a nata* 
reza para exercício da Poefía , quando aos homens dá 
em elpeílaculo os mefmos homens , reprefentando-lhes 
as acções reprehenfiveis em tai gráo , que fazem rir ot 
que as obfervaõ , e juritamente envergonhar-fe de &. mef- 
mos. Ifto faz a PocUa Cómica. 

A fociedade liumana a!Ilm como he huma collecça^ 
de homens , aflim he huma collecça6 de virmdcs e ví- 
cios ; e eftes quando chegaô a ponto de extravagância t 
hô hum efpeítáculo ridieulo , ou por fi mefmos , ou con- 
tratados com as virtudes oppoftas. Alfim fa6 todos 08 
pcnfamentos , projeiílos , fentimentos , acçSes » e geftos 
de qualquer pcrfonagem , que fe apartaô da lei eftabele- 
cida' , fegundo á fituaçaõ do fugeito. 

Ha infinidade de caraíteres diverfiflímos nos feus 
gráos , fegundo o eftado, condição, idade, fitua^afi &c. 
dos viciolos. Daqui nafce também a variedade de intri- 
gas nas fuás extravagantes emprezas. 

CbnfeguintemeBíe a Comedia na6 he outra coufa ■, 
fenaõ a Moial pofta em èfpcftaculo , e efpèálaculo rifi- 
vel. Mas como efta Moral fe ti-ansforma ■ era Poema de-, 
ve fer huma imitaçaÔ, e como imitação tirar o feu mo 
dello da naiiireza ampliando-o, e fupprindo-lhe p. que 
falta na natureza commum : como quaodo , por exemplo, 
hum' avarento , como figura Cómica ,' fe repréfenta na6 
avarbnto do commum, mas avarento extraordihario , e 
fórà da regra ordinária, dos homens defte cai^fter. Nifto 
confifte o verdadeiro Cómico, que fe communica dascoii- 
fas á locuçaS, e eítylo , quando difcurfos , caraíleres , e 
acçdès , que le" attribuem aos fugeitos do aífaifipto re- 
preíenhS àb tliefmo tempo a verdade, ^e a imagem da. 
verdade, cbrlcorrendo juntamente a naturalidade , e ò ãr^:. , 
tificio. 

. Por tanto aflim como he necei&rio viveza de enge-^ 
' ' nho, 

DigitizedbyCoOglC 



DE LlTTERA/TU»A PORTTrOWBZA. I9 

ntiD , e. grande delicadeza para exprimir tudo Ifto , alTim 
nae he menos neceffario buma locução natural e fecun- 
da , a que fe commjiiiiquem as imprefs6es do animo do 
Poeta, para as reprefentar fielmente, e pintar com for- 
ça e energia, reveAindo o feu e&yio dasaliu^Ôes, equí- 
vocos opporrunos , rcfpoftas de vivacidade , cJiiíles , ditos 
engraçados , e coufas femelhantes , que fíippQflo naõ faó 
o Cómico eflencial , laó.com tudo num ar Cómico j que 
ajuda a fufteotar o tom do eftylo de ponto a ponto. 

Quando pois o 1*06» tenta com deAieza accommo- 
dar a lingua nacional a tudo iftp , manejando-a com a 
variedade , e decência , que pedem os objedlos da Aia 
obra j quero dizer , quando o Po^ta íabe faliar na.fua 
hngua a iingoagem de tcdos os ellados de pelloas , e no 
tom que convém ao CortezaÒ , ao pajzanu , ao fabio , e 
ao igharante.: qvem duvida, <]ue parecendo entaÕ exliau- 
rir a fua lingaa, aiaugmenta indizivelméate P 

F o E,s 1 A Épica. 

A Epopéa. he bim efpeiílaculo para a imaginação , 
como a Tragedia o he para os olhos j mas efte eXpeíla- 
culo Épico he de maior grandeza , maior apparato, e ma- 
gnificência. Por quanta'!.*! a acçafi heroSci,, que lhe fer- 
ve de objeiílc, he mais prolongada e mais durável: 2.° 
eUe admitEâ maier mimero. , e -variedade de incidentes « 
do- qiffi .-cabe jia ;e^rQÍteza, «feveúdadedosoutros-Poemas 
de acçaõ : 3.° nas pinturas têm elle huma ampliíUma li- 
berdtile; pcffqoÉ ^larai^lb; Ifee eftaS aborto» c pate8tes-*os 
limites 'làal osauroxa ;.> oeeitro idgljef.^póde bukm todo .0 
gatifB- ࣠i^seizrais , -xtànii. qnftodo Uie -parecer, cila 
tÍBÍajv -féát adtargar eíTfs. tntílin&s. limites : « iquapdo a 
j^bHtaípcia ida.acçaó!» iptrveàiK, ao ^ePoiema pedirá 
t«i}rwf»r « í^eo^:» iofismo,, itítáa a ÈfeíereMi t tttdo 
que pôde contribuir maior grandréxa.., w>RÍat Mtereífe ^ -e 
np-iic fnrn» a^fr^iu p Ap. iil^l^ ;l g i nas CQufas , que rípTriv- 
ve, tem Uigar no la^Q.^tiÍRq,4eíie^ne^ .^c Eç^lia. 



Dg.lizcJbyCoOglC 



2o M E H O It I A 1 

4.° A acçaò poftoqiie menos animada , que na Tia-- 
gedia , ierá com tudo capaz de excitar nos aoínios a 
pertui^ajaâ , o terror > a compaixão, e confeguíatemente 
lerá alfas theatral ; poraue feoi fer taã apertada , oem ta6 
rápida como na Tragedia , elta nos reprefeotará as pai- 
sfies humanas , e os feus fiineftos effèitos , as períeguí- 
^Ões da innocencia , as calamidades, que fofiVe a virtu« 
de, as fraquezas da humanidade &c. 

E defte modo o fogo da narração, a força das pin- 
turas , o interelfe da intriga, o contrafte dos cara^eres , 
o conãidlo das paíxães , a verdade, e nobreza na ezpref- 
fa5 dos coltumes, tudo ifto terá hum eftjlo dramático 
menos fevero , que na Tragedia , predominando o éftj- 
lo E'pÍco paro nas paixões mais brandas , e nas litaaçães 
mais tranquillas , onde a infpiraçaõ prefumida perinitte 
ao Poeta ufar de maior pompa , e tomar hum tom mais 
elevado, admittindo as imagens de todos os tempos, de 
todos os climas , de todas as condições da vida huma- 
na. Do que fe collige , que ainda quando hum Poema 
E'pico naíS feja efcrito fenaôem profa Poética e harmo- 
niofa , neceflariameme ha de enriquecer, e polir muito a 
lingua. 

A R T I C U L O IV. 

Dfií Poetas , em cujas obnts spparete a pUres&a , e tie- 
gancia da Lii^ua Portuguâza em todo â Jeu líigvr. 

APBLiz reroluçaõ que tem produzido era todas as 
linguas a cultura da Foelta , checou . também á Lin^ 
fua Portugueza y a qual a tal auge foi elevada , que fa«m 
e feus mais difvelados Cultores , (a) entre huma srande 
multidão de varões illuftres mui'douCos,..muÍ.pafKloa:« 
porém mais devotos das MuCas eftrangeiras , que dupa* 
rrias , afoitamente dizia : ■ . .,- 

C<i) Ferr. PWm. Lêtfit. lly. I. Can. í- ., ■ 

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DB LlTTERATW» A Po R TUGTI EZ A. 2l 

ílereça , falle , cante j ouça-fe , í u/Víí 

jí Pertugueza Hmua , í ^<í onde for 

Senhora vá àe ji foberba e altiva , 

Se atéqui efieve baixa e Jim louvor , 

Culpa %e dos que a mal exercitdraÕ , 

Efquecimento nojjo e defamor. 
Suppondo pois, que os Poetas Ía6 os melhores meítres da 
LÍDgua , e aquelles , a quem ella he mais devedora , nelles 
a devemos bufcar como em fonte pura. Todos fabem , que 
Camões, Ferreira, Bernardes , Miranda , e Caminha, fô- 
raõ os efpiritos mais raros que as boas Mufas tiohaé refer- 
vado para a gloria de Portugal, n'um feculo, que foi a 
Época mais feliz da Língua , e da Litreratura Foitugueza. 
Todos eftes Authorcs Já6 verdadeiramente hum ihefouro- 
da nolTalingua, e prefcindindo da diveríidade deeftyto, 
que pedem dífièrentes a0umptos^ que tratáraôj pondo de 
parte hum' carader particular de frafe e locuçaC! , que fe 
diviía em cada hum dos engenhos da primeira ordem \ 
em quanto ao que chamamos eftylo da lingua precifa- 
mente, podemos dizer, que a nolTa fe acha toda intei- 
ra neftes infígnes Poetas j toda no mefmo vigor, no mef- 
mo génio e caradter nacional , com que hoje a falíamos : 
a meíma âesibilidade em reprefeniar as idéas do enten- 
dimento , os voos da imaginarão , os fentimentos ou af- 
feétos do animo : a melina copia , variedade , ingenui- 
dade, graça, energia, rapidez, vehemencia , íublimida- 
de; n'uma palavra, todas as modifícaçScs da locução e 
eftylo , queiaÓ ncceílarias n'uma língua , naÔ fó para ana- 
lyjar as idéas , ou para o ezercicio da converfaçad ordi- 
nária , mas para pintar a» idé^s , e as fazer fenfiveis. 

DeUa forma lo a iLçaÔ deftes varât;s infignes nos po- 
de fervir de regra para fixar huma Analogia exada da 
nolla Língua, e difcerniros íeus idÍotifn-,os , e anomalias. 
Por quanto , como adverte o grande Condillac (a) , affim, 
como fe na6 podem eftabelecer boas regras na Arte de. 

Ça) Cours d'£titd. Tom. 15. lib. XIX. chap. it. 

Top. K D Dif- 



Dg.lizJjbyCoOglc 



Í^S- ■ M E:M'0, » ,1 M t . 

Difcorrer , km fe exai«Iii»rcti) as. «ty-u ie. Raciccinío 
bem feiías ; zíTiat, luô íe- podem iorinaf boas Gcamoiati- 
Ç3E para as línguas , íçm fe ^aoúnaiem ^ e. comparar em os 
boas Autiiore^ , <^ tem cfcriKX cm pro& , e cm vej-fo. 
Mas para i'e coobecer quawa a Língua Portugueza 
abunda em todo o geneta de bellezas y parece qtie na5 
bafla. fó- esaJDÍflar em geral a locuçad , e^ ettyla de cada 
hum dos robredi<ras Foetaa-; mas: he neceílãrío difcorcer 
peÍo£.pfi^jpa,es. gçusros de £t>eiifl » vat que ellcs efene- 
véraâ,, €: HMQ^ come ditTeoiiKWv oodicortem mais. paia o 
ex8ri:)cia da; lineuas , modiScatido os feut oermos a fnt- 
ff) , legbwdo as< HifFeireiít^, aflÍ3£iflçÕes de idéas , de que 
ffi Qov^em cadfii hum dos, genero& de Boeãa maia co>- 
nbiSQtdtw;, (#) que a4miLCt)im maior ntmMro- de qualida- 
cl)3s de efpifitio , ou as maisi notáveis. IÂq be. o i^ue nos 
obriga> a-. eX)amÍQaf o- eftylct. Cémifo ,. Tm^co , Épico » 
Faíboril , e Lyrii:o> dos no^^s^Qetaa , profundando^ mais o 
qus' perteooe ao eftylo, da: Lingua , da que a que be -mais 
prop/iwi^tt- eftyld dia- Àu^KR*.. Éib) feri » ma»eria> dn : 

S-EGUlíiDA PARTE 
CAPITULO T. 

Exíimt: da Itaufaõ. , , e ejiyia- Cámcat ãe Ferrainx , Mirati- 

51. 

. Da- ejlylo Cómim de Ânfími» Ferreira'.- 

A COMEDIU, be hum; genera de Poefia., como mtes 
diUèmos., que:pteíuppoem'diíFercntes qualidades de 
eí^irito., e por ilTo o feiteftyla;iiinpl«s e familiar encer- 
ra por- juntO' ai fagaddade , ap penetração-, a- força , a 

(<^ V. M*. UsáxUj- Exfiitat, Pi>yji^-. dn Smt Tom: li. cíiap; 
}. §. I. & chaf. 4.. J)e. lit^ Porfie. 

ptor 



zedbyGoOglC 



DE LiTTERATVRA PôRTVGUEZA. 23 

profundidade , a ligeireza , a vivacidade , a aeudcza , 
porque todas eftas qualidades , fcgundo o caracter dos 
Authores , a fua íituaçaô , e intereílè da acçafi entraô no 
contexto dos ditos fentimentos , de que confta o Dia- 
logo Cómico. Tal iie o eltylo do noflb Ferreira nas duas 
Comedias , que nos deixou ^ mas fatiaremos fó da que fe 
intitula : O Ciojò. 

A familiaridade da dicçaÕ he a linguagem própria 
dos caradleres , das fituações , he a bafe do verdadeiro 
Cómico tanto da fituaçaÕ, como do fentlmento: e cada 
lincua tem fuás familiaridades de inítituto ou de conven- 
ção , allinaladas , já por certos ellipfes , ji por vários idio>- 
tifmos , que pela maior parte faô nas línguas como fe- 
gredos de gabinete ^ c naÒ paífaõ de humas a outras , e 
no eftjlo Cómico (n6 de tanta força ás vezes , qire tal 
idéa , ou fentimento, que faz rir fo pela exprefíaó finge- 
la , e familiar j fe efta fe muda, perdeo-fe o rifo; Mas 
eu naÔ quero dizer, que tudO' o que he familiar, he 
precifamente Cómico ; mas fem o familiar na6 pódc paf*- 
lar, nem o Cómico accidental dos ditos engraçados , nem 
o Cómico fixo das fituaçôes e caraderes. 

Scewa I. 

A Scena I. traz Bromia fallando perfeitamente nefte 
tom familiar, com que vai dando aos efpcdladores todos 
os indícios em fummario dos cara^eres das pcríonagens, 
que haó de figurar, e ede familiar tem força como : 

* Como naõ entende a Julliça nos Ciofos , como noi 
yt doidos ? Que doidos ha que naÒ fazem tanto maj. » 

O primeiro cemo eftá em lug;ir de porque ; o fegun- 
do em lugar de a^ffim como, A addiçaò do penfamenro , 
Que iioiaÕf ia &c. he hum vóo da imaginaçatí pailando 
ligeiramente de hum obje<ílo a outro , omittindo algumai 
ideai entremedia», e fe» a ellipfe de huma frafeou pro- 
po£ça6 inteira «}mo alli : 

Cmw iu$ entende a Jufiiça ms chfos ^ tomo mw 
D ii doi- 



l,c.byCA>Oglc 



14 Mehokias. 

doidos ? ( attfes naquetiei be que mait devia entender , 
do qu£ nos doidos ) que doidos ha Í3'c. 

Na (nefnaa fcena temos hum idiotifmo aíTis vulgar, 
quando diz : 

sQuant^eu, nati fèí como p<Sdefcr, naícer de amor 
» obras de odÍo e.de crueza. > 

Onde no vocábulo Quanto y entende- fe â ijfo:,.^ va- 
le por huma frafe inteira : Quanto a ijfo pertence , to- 
ca , ref peita, 

» Elles Mgros cafamentos quem os acertará ? » 

Difgraçados , tufelices cafamentos diríamos cm efty- 
lo grave ^ negros he metáfora famijiar, e a linguagem 
familiar he.a mais figurada, princípalmeate no exprimir 
paixaÕ. 

» C^e preítaò as riquezas Tem homem , que naÓ fe- 
» ja melhor o homem fem ellas ? x 

O noíTo Ferreira devía de faber que o dogmatizar de 
fangue frio he coufa muiia alhéa da iltuaça6 apaixonada ■■, 
por ilTo mudou a forma fimples da fentença : Msis vale 
hom:m fem riquezas , do que as riquezas fem bomem : 
o que naÔ convinha a Bromia , que acabava de dizer : 
Mal ajad as Juas riquezas e os feus tratos. 

Scena II. 

A II. Scena tem o verdadeiro Cánico da fituaçaíí , 
o qual fe vai deíinvolvendo por gráos , e Bromia o con- 
traíla : de huma e outra parte ha grande propriedade de 
cxpreisdes. Júlio defcobre primeiro o feu caracter por meio 
de agaftamento : » Veremos quem pôde mais : fe hey es 
» de viver comvofco , fe vós comigo. » ■ 

Fiver por condrfcender , he noífo : donde vem a 
i&afe , faber viver , viver com todot ^ ifto be , d vonta- 
de de todos. 

Mas a : mefma manãdaõ com qus a mulher foffre fi- 
lenciofa hum ciofo , ilTo mefmo move a fua bile , e por 
ílTo Júlio defcobre cada vez mais o íeu caraâer > dizeo- 

do 



zedbyCoOglC 



EE LiTTEBATURÀ POjfVGUEZA. 2f 

íSó depois de outras coafas impertinentes: x Parece, 
» qíie Ibu páo ou pedra : » queixando-fe de o defpreza- 
xem pòr eíta metáfora , que lie ufediflima em taes per- 
fonagens , e em taes íitua^oee. E por iflò taes exprefs6es 
quanto mais familiares, tanto mais claras TaÕ, tanto mais 
engraçadas no Djalogo , tanto mais Cómicas faÒ. 

SaÕ huns ingredientes mui ordinários dcílc eflylo as 
•bázes trocadas , a que chamsô Paronomalia , como quan- 
do Bromia diz no principio : Ji Hei-lo vem , coutada 
ucançott na mulher, e virá defcãnçar em mim. 

Oigo ingredientes, porque concorrem para o Cómi- 
co eíTencial , ainda que por ii fós naã baftaó , e fe nalí 
caem fobre penfamentos cómicos, coíhimaÔ nefte eftylo 
fer ta6 frios , como ridículos no eftylo grave. 

O meímo valor tem as propofições convertidas ás 
aveíTas ( vulgo Epunalypfe) como quando Bromia diz 
mitigando outras réplicas trocadas , que efiavaô pronun- 
ciando em voz baixa:» Tal marido llie foíTes tu, como 
-X te ella he mulher. » £ Júlio refponde : » Tal mulher 
ume foíTe ella , como lhe en fou marido. » 

O mefmo lie , quando, volta contra o adverfario a 
íua propofiçaõ , mudando-lhe os predicados , como : 

Júlio. » I' ^ 



\ NaÕ tinha elle mulher , a que fofle necefla- 
» rio mais guarda , que íua vontade. » 

Bromis. > Naã tens tu mulher , de que ella , e to- 
Ji diis as outras nafi poflaô aprender muita honra , e mui- 
» ta virtude e horteftidade ? » 

O dito de Júlio exprime fortemente a extravagância 
das fuás idéas : e v«m k força da energia vontade , guaf- 
4a* O dito de Bromia he agudo refolvendo o fundo do 
penfamento de JuIio, ifto he , a enfafe , he vivo jjcla 
ititerrogaçaõ ; he picante , tirando hum pouco a inve- 
iliva. 

A Ironia tem de feu próprio fundo o ar Cómico ; 
por iífo tanto he , fegiindo as lsis da Critica infuppor- 
tavel no eftylo Trágico, quanto no Cómico he bem re- 
cebida , como natural : ás vexes traz comiigo delicadeza. 
, O 



zedbyGoOglC 



Z6 M E H o A I A S 

O forte io fcu efleito edi em faher o Poeta approveí» 
tar a oocaíiad , couk) fe coftuma dizer. E créo qae i 
nati podia harer melhor , do que a que occorre oefU par* 
te do Dialogo : 

Bromia, » De quantas janellas tu vês diertas por ef- 
» fas ruas , de todas tu furpeitas mal ? » 

Júlio. „ De todas. „ 

Bramia. „ E das mulheres honradas , que vatf oa Wm 
„ das. Igrejas , e d« vifitaç(ies de íuas amigas ^ „ 

JuliiK „ Deftas mais a duvida. „ 
Bromia temata efta índuc^alS Socrática com aqueUa betla 
ironia ; 

„ Que Juiz de nirtudes? „ 
A qual ironia bem fe vè , que devia aqui &zer hum 
promptlíTinio eíFeiío , vifto que refulta de forjas accumula- 
das , i." da natureza da figura, a.** da preparaçaít ante^ 
cedente , vifto que a ironia na<$ cae unicamente febre a 
refpafta immediata , mas fobre toda a gradação das idéas, 
que vad reduzindo q adrerfarío a hum ponto de ridí- 
culo extremo. 

Ha agudeza e fagacidade no modo fino com que 
Bromia faz apparecer a inconfequencia das idéas , e acçées 
de JuIio , que he o ridiculo real , e mais fòlido do el^ 
tylo Cómico, como: 

X E fe a tu deixas fechada n'um antrefcrilio efeuroj 
•» e fem frefta , e fem janella , que te tecnes das jaael- 
X las ? » 

Em tudo o mais em que o Ãuthor faltando pinta o 
.feu caraéler, a efcolha dos termos próprios, umples , 
ao mefmo tempo ekgantes e forces, Ifto he , convenien- 
tes 3 fundar mais o retrato , ( que he no que coafifte a, 
ficça6 da Comedi» como Poema > iffi> , digo , hc o C^ 
mico fundamental defte eft/lo , qual o moftra o noflb Fer- 
reira em JuIio » quandft élle depois dos ièus ralhos vol- 
ta is. queixas , ditendo : 

» Voti-me de cafa , deis» as janellas &cfca<!Bs , as fívC- 
a tas upadasj, » portw , que fe aaâ abra$ : fe^ek», f»> 

» fio , 

DgitizedbyCoOglC 



DE LlTTKRATURA PoKTVaBEZA. 17 

> go , mando , e ameaço , que fe na6 bulia com cilas até 

> que eu lorne ; que aproveita ? » 

Bromia contralla eue caratíler , e de pancada o toca 
como com o dedo , e diz o que cada hum dos efpe^a- 
dores tacitamente eftá dizendo comfigo , de forte que 
ouvindo depois o Diefmo que o cora^aÔ lhe diâava, natf 
pôde deixar de fe rir. £ que he iflo ? huma £mples 
ezprefiaâ de fentimento : 

„ Vedes alli todos feus males. „ 
E quanto mais força tem Ífto ? Qiiaoto mais fal do que 
fe alguém diíTeOe de fangue frio, como no eftylo ferio 
e grave ? Tuda aqusJla fiS quimeras , e qveixa-fe eomo , 
de huns graaJes dejajires. 

Ailim vai cm progreíTo a analrfe das extravagâncias 
do Ciofo > de forte que os efpeuadores fe veraè com- 
pellidios a ridiculizar o Ciofo ,■ tirando por confequen- 
cia o que Bromia diHe no principio: Que àoidvs ha que 
nàS fajum tanta mal, 

Ê quando trile paílà a nova acçã5 , que dirá? 

x Lembrou-me agora, que fe me efcufou aquella Se- 
>-Jil^ra com a vifita^íí de fua ina^r : digo que na(Í que- 
X ro , que pay , nem may , netu irraafi , nem parente , 
»iiem vizíano , nem amigo , neoi amiga , nem conipa- 
V dre , nem comadre, nem Rey , nem Rajnhft, iieBi 
mquc venhaú do Parailo, entrem nefta cafa. i 

Neâa forma da ordem que dá o Ciofo fe vè o feu 
«araiEler impellido pela paixaâ. Nefles termos o appdli- 
d9 de Stnèsra tem o Jàl da iituacaô prefent» : a' eaume- 
»gad., que £^ de todoa os bÍ4uIos àe amigarei corref- 
pondencia , nem pay;, h^h. way &c. fazem aqui o que 
QsFEancezfs chámaè sojs caradlereo- d» Comedia La char- 
le ,. que hs. a amplia^ati do «aratflef além do ordina- 
FÍo.i mas fobre tudo aqtiella exiaggerafaô ,. ifuando diz, 
«£20. Uey. f fi£fH, Bsypka ítc. he hum yetniz do rjdicu- 
Jo, fazendo lembrar aos efpç^adoses, que fò faltou na 
conta o Ponúâ(;«. 

„^n) Q^ey«flh^í;„«íWylíf ipor «WÃaiíí pvticu- 
ki. i|ue ainda fe uía na únguàgem làmiUar. £s- 



.byCooglc 



2t MS^HOKIAS 

Entrem nejla cafa : he a jdéa principal , e d)jeAò 
da extravagância de JuIío; por ifTo opportunamente o ver- 
bo entrem íe refervou para o fím de toda a frafe. 

Na amplilicaçatí defta ordem o noflb Poeta imitou 
peregrinamente a Flauto. ^ porque o naÚ manifeftaremos» 
le as Mufas Portuguezas naõ íe envergonhaõ das boas 
imitardes dos engenhos raroí ? Nada diminuem o mere- 
cimento de Terêncio os Críticos, que dizem, que e]le 
pela maior parte fora traduííor dos Authorcs Gregos. O 
avarento de Flauto deo ao noíTo Poeta o modéllo do féu 
Ciofo : he de Imma apparenda veroíimil , que no formar 
o caraiíler , e coltumes dos feus heroes ridículos fe en- 
coritraíTem ta6 peno os penfamentoí de hum e outro Poe- 
ta > que pareçaít communicados da Scena da Ãulularia; 
mas he hum indivilirel em comparação do que he pró- 
prio do noíTo Ferreira , %lém da liberdade com que imita. 

. Bramia, x Má ora venhaó a cafa do diabo. » 

Mã ora fónna familiar de aífeverar huma negkçaíS ; 
ifto he , má hora fera , em que veabaõ , cm lugar de por 
certo que nunca virdõ. 

Júlio. » A boa ventura , que te venha bater á pòr- 
» ta , naõ quero que lhe abras, i / 

A vivacidade á* imagioaçaâ tem na noifa lingua mi- 
lhares de conftrucções femelhantes na locuçaã familiar , 
como quando fe diz: Mil anitos que eu viva ^ nunca 
tal afronta me efquecerd. Em lugar de fe eu viver mil 
annos : Se a ventura vier. Ou por ainda que : v. g. ain- 
da que eu viva , ainda que venha a ventura &c. (<i) 

Bromia. » DelTa eftis tu feguro : eu te proraetto , que 
» primeiro botarás a má ventura fora. » 

Elte contrafte de má ventura , e de - boa ventura faz 
huma imigem , que tem baftante de fino, E a npf- 
fa LíBgua nas exprefsões enfáticas , cuja nota he a dif- 

"(d),PÍaut. Euclio et Stapbyla 

Eiul . . . Si. bona fortuna vtniat , ne íntromiferit 
Stíipb. Poí ta ipfat fftdo» ne intromitiatur j çdvrt...; 

■"..■. P9^'. 



Dyilizc()byCt.H)C^lc 



DE LittEbatusa Portvgueza. 39 
poliçaó das palavras. Dejfa efids tu feguro ; diz o pen- 
iamento principal, e o acceíTorío do penfamento, iílo 
he as imprersÓeG da imaginação : „ Tu eftas feguro deíTa \ „ 
exprime o penfamento , e natí exprime a alma- £ de 
taes delicadezas naÕ podem os Eurangeiros fei' melhor 
inftruidos , do que pela leitura deite género de obias , ou 
fcitiethantes. 

Vejamos agora fe ha razatí para crer, que Ferreira 
era eaÕ menos original nas íuas imitações , que nas pro<- 
ducçSes de Teu próprio fundo. Obfervaremos que a efcra-- 
va do avarento Eucliaó em Flauto refponde com delica- 
deza , lembrando-fe de hum templo ou eAatua da Deofa 
Fortuna , que ficava perto de fua cafa : 

Fo/ ea ipfã, credo ^ ne introniittatur y cavet. 

Nam ad adeis nitras nufquaín adiit , quamquam 
prope eft. 
Ferreira lòtibe fupprir a falta defia alluíatí com aquelle 
género de agudeza , fazendo dizer á criada de JuIío Ciofo : 

„ DeíTa eftás tu feguro ; eu te prometto , que primeiro 
„ botarás a má ventura fora. „ 

Vejaô os Efpiriros aíFeiçoados ou preoccupados da 
idéa de compofiçÔe^ originaes , e que fazem timbre de 
defprezar toda a imitação dos antigos , fe imitadores taes 
como Ferreira poderiaC com fua licença caber no Par- 
naífo. Proíigamos. 

Bramia. » Agora quero eu eftar á razaõ comtigo : 
» na6 queres ter pfeftança , nem vizinhança , como fe cof- 
» tuma antre gente ? » 

Jufío. s Na5. » 

Eis alli huma bella frafe , íjiar d razaõ comtigo, por 
convencer com a razão; Ífto he , quero que tu e eu va- 
mos ejiar diante ãa razaÕ : ella (eja o JufZ , que deci' 
da a pendência , e verds o que be jufto ou itijujio. Oxa- 
lá qOe efta e femelliances frafes fe confervaíTem na nof- 
fa Lingua. Eítas faã o Atticifmo Portuguez. 

Bromia. » Se nefta cafa. for precifo fogo , ou agua , 
X ou outra coufa , ou a vierem pedir de fóra « naõ queres P » 
Tom. V. E >- 



Cg.lzc.byCoOglC 



JO MEMO^tlAS 

JuliO' X N36 : digo , que oaô quero eíTe fo^ ; e Ic 
> em cafa o houver, matao logo, porque naó haja razaô 
X de o rirem bufcar: a água diga5 que fugio ; pineira, 
«joeira, gral, caldeira, e rudo mais que as importunas 
11 vizinhas Toem pedir , dizelhes , que o naó ha hi , e 
» que vieraô os ladráes , e que o leváraíS. 

Bremia. B quem me crerá iflb ? 

Júlio. • Se 10 na6 crerem , que fe enforquem , que 
-» naõ ^uero que em minha cafa entre ninguém , íendo 
» eu fora. > {a) 

Naó be menos generofa outra imítaçaó de Terêncio 
na Scena 3.» do Aílo y." , onde Júlio em monologo de- 
clara os Teus arrependimentos, e deíenganos, como De- 
mcas na Scena 1** do A^o 5.'' dos Adelfos ^ no Cómico 
Latino. 

Ju/io. B Nunca ningucm também ordenou fua vida j 
X que o tempo e as mudanças delle lhe naó trouxeííem 
X alguma novidade , e enfínaflem , que aquillo , que tijiha 
X por melhor experiítientado o houvelFe por peor , como 
„ a mim agora acconteceo. „ (í) 

He ceno , que íendo efta huma máxima geral , pô- 
de admittir, como as demais differentes applicaçóes ^ e 
accomm'odar-fe igualmente ao propofito de Terêncio , e 

(a) Euct. Cave qtumquãm aHenum in adeis intromiferis. , 

Quod qmfquãm ignttn qnxrat , extingui vola, 

Ne cauJfíC quid fit , quod te quifquam qiuritet. 

Nam fi igms vivet , í» extingucre extempulo 

Tum aquam anfugiffè diciío, Siquis petet 

Cullrum , íecMrim , pijiitlmn ^ moitarÍnm , 

Qiu Htenda vafa femptr vicirti rogãnt , 

Fures venijfe , atque 'abjlulijfe dieito. 

ProfeUo in xdsis meãs , me abfeme , neminem 

Fofo intromitti. 
(b") Nunquam ita qui/quam bene ftfbdaãa rationt ad yitam fuiti 

Qttin res j £taSi ufus femptr aliquid ad porttt novi , 

Ãiiquid moneat : ui tila , fMC te fiire credas , ntfcias , 

£t qua tibi ptuaris prima , in txperitindo ut rtfHAie* 

Qjfod nunc mi evetiit. 

de 



zedbyCoOglC 



DB LlTTERATCHA POKTUGVEZA. ' JT 

de Ferreira^ pois que,ii*um e D'outro lugar díz com a 
cór do panno. 

Na cominuaçafi do monologo a ÍmÍtaça(S hc toda vi- 
gorofa : Júlio faz parallelo da lua antecedente extravagân- 
cia com o feu novo propolíto, aílim como Demeas de 
Terêncio compara a Aia dureza com a facilidade , e in- 
dolência de feu irmaõ. A aniithefe hz hum bello eifei- 
to na pintura que faz Júlio de li mefmo. 

„ Agora conheço que todos aquelles meus fundamen- 
„ tos e boas razões eraõ cegueiras e doidices i e todas 
„ aquellas minhas concas , em que eu cuidara , que mais 
„ que todos acertara , era6 erradas e bclliaes . . . Os 
„ confelhos ... de cego , que era » me abríratí a, olhos ^ 
„ de danado e determinado de matar minha mulher, e 
3, pór fogo ás cafas , me tornáraS taõ manfo 6cc. „ 

$ II. 

Do ejlylo Cómico de Miranda. 

Nao foi menos feliz o Sá de Miranda em duas Co- 
medias , que nos deixou, a dos ElVrangeiros, digo, e 
dos Vilhalpandos. Nem no feu eftylo Cómico ha me- 
nos , que admirar pela cópia de palavras , propriedade , 
e fal Aitico de expreíTaÒ com que juntamente enri^ue- 
ceo a noflà Lingua , e ornou efte género de Poeíia pou- 
co cultivado naquelles tempos na6 fò entre nós , ma% 
ainda entre os noíTos vizinhos. Âcha-fe no feu eftylo mui- 
ta gracio£dade libeial fazonada com penfamentos agii- 
dos, e grande multídatí de metáforas e allegorias , adá- 
gios , e axiomas, que faÒ como antigos monumcnios do 
génio da Lingua , variado com o génio do Author. Ha , 
como Quioftiliano eníina, {a) tantos modos differentes de 
exprimir huma coufa gracejando, como os de a declarar 
fallando ferio ; e efta variedade acharemos em Miranda 



(tf) Quina. Inft. Orator. lib. VI. cap. ?. 
E ii 



ic.byCooglc 



32 Memorias 

junta com aquella , que os antigos chamavaíS Vis Cómi- 
ca , que Ãugufto fentia naÕ achar no feu Terêncio, a 
qual coníifte em derramar hum ar jbcolò por todo o dif- 
curfo, tal como apparece logo na i.' Scena e i." Atflo 
dos Éftrangeiros. 

Amenre moftrando-le agaftado ao feu Aio delle fem- 
pre o feguir, depois de vários queixumes lhe diz: „ De 
„ que me has de guardar P „ £ CalTiano Aio reíponde 
com viveza : „ Da tua doidice, pois queres, que to di- 
„ ga. „ Efte repente , que os Latinos chamavaõ dicad- 
tas, havendo de doer muito ao mancebo libertino, de- 
via caufar rifo aos cfpeAadores , como pancada impre- 
vifta, ainda que em li mefma , ç na ordem do Dialogo 
parece Teria. Afllm faô naô menos vivas , que engraça- 
das as feguintes : 

Amente. Cuidas , que te ey de fugir ? 

Ceffiano, De Palermo naÕ fugirás lu , mas de mim 
li 

Amente, Que defaventura tamanha foi a minha! 

Cantano. Naó fufpires , que le ey de feguir , como 
a tua Tombra. 

A ukima parte dafrafehe dita concifamente ^ cnten- 
de-fe , como a tua fombra te fegue. 

Amente. EíTa naõ me fegue pelo efcuro , e tu fi . . . . 

As comparações extravagantes que em difcurfo gra- 
ve feriatí difparates, iio Cómico tem graça e força de 
mover rifo , como no Monologo de Caíliano. 

A tanto fa6 chegados , que graceja6, e dizem, que 
já fe nao coftumaõ aios , como je fofjem trajar curtos , 
eu longos. 

AÍum tem o eftylo Cómico fuás metáforas, iftohe, 
as que aproximaô objeiílos de diverfa ordem , como nefte 
meimo lugar : 

„ Ora da outra parte cotejai o canto chaò dos noflbs ve- 
„ lhos i o feu li pollo ft , pollo naõ naÕ ; o feu rego vay , 
„ rego vem ; o feu dizer e fazer : qual aveis por melhor 
„ mufica ? „ 

. A 



zedbyGoOglC 



DE LiTTBBATORA PORTUGUEZA. 3^ 

A fcena dé Alda abunda de.graciofidade com agudeza , 
como quando ella diz para Ambrofia ; „ Andemos mais.„ E 
9 velha :„ Bem dizes, Alda iilha, fe eu podeifej mas vou 
muito carregada»,, 

Alda. De que , Tia ? 

Ambros. De oitenta annos , que trago ás coftas , e 
peza6 muito. 

Que graça naÔ ha na contradição tirada de huma cir- 
cunílancia naõ previfta , como quando Aida admirada diz : 

„ He o Doiítor Pctronio taíS rico ! „ E Ambrofia : 

„ Bem o fey , mas tu dizes taô rico , e naõ dizes taá 
„ calvo. „ 

Que delicadeza na aprehenfaã opportuna de huma 
acçaô de fimplicidade, tendo-fe Dória queiíado de hum 
que ameaçara de o matar; 

L Cãjfiano.'^ a efle teu matador, que lhe vay nillo ? 
Que has ? Purque cofpes ?: 

ihriê. A longe vá máo agouro. 

CaJJiano. Porque lhe chamey teu matador ? callaíe , 
que naõ te ha por iíTo de matar. 

No Aílo 2." na Scena de Briobriz e Devorante lia 
hum contraíte admirável dos coftumes de hum faniãrra6 
bem femelbante ao Miles gloriofus de Plauto ,. e dos de 
huni adulador miferavel j e do íal , que .o'um e noutro 
miltura o noJTo Poeta , cuido que naõ diria Horácio, cch 
mo diíTe de Flauto ^ naÕ obftante o efpirito Cómico def- 
te Poeta. 

Jt nojlri froavi Plautinos et. números , et 

Lauãavere fales : , nimium patienter utrutnque 

Ne àicam Jiulte mirati. 
. _ Briobris. Arrenego deftas voíTas branduras : tenhome 
co^ a guerra , onde tudo fe faz por força. 

Teaho-me cõ' a guerra; entende-fe, tenbú-me a£im 
cojiumado cem a guerra. Onde vemos, que a nofla lin- 
guagem velha tinha hum grande numero de frafes mui 
Atticas-, que hoje nos parecem duras pelo. defcoíhime. 
£m muitas naÕ ficamos de melhor partido j trocaodo-as 

pe- 



ic.byCooglc 



^ Mehosia< 

pelas qae hoje correm mvs redundantes fêm ferem mais 
fortes. 

Devorante* Ó que da outra parte és mats gracioíò , 
que a mefina graça ! 

Efta forma de exaggeraçatí , que foi antigamente mui- 
to míúioTa entre os Hefpanhaes , como o Excedeo-fe s 
ji mefina, e outras femelhantes, vêo a corromper-fe com 
otempo, é como abuío dos pedantes, de rorma., que 
coitimtimmente já natí tem graça , e paflaó por affeâa- 
Ça6. Tanto pôde o coftume , e a opiniaS f 

Ao Cómico baixo , como llie chamaâ y pertence aquel- 
la pancada mui Cómica , quando o Fanfarrão llie repe- 
te numa das fuás frias empõllas por primores de enge^ 
nho 1 ao dizer ; Outra , Devorante á parte , torna : 

,; Dará cento, como relógio mal concertado.,, 

Defte mefmo Cómico de Farfa abunda a Scena de 
Calíidio e Deyoranre, como: 

Devorante. Todos fartos e chios enta6 querem gra- 
cejar : qúe me anda o diabo atentando para iàzer iiu- 
ma doidice : entâõ vereis como logo me daS 9 corro , 
como dizem do touro. 

Calíidio. Pois quanto i mingoa da boa cornadura 
naã fique. 

No Aílo ^.^ o caraíler de pedantcria do velho Dou- 
tor Petronio íe pinta nos feus dífcurfos com exquilito 
gofto , allegando a cada pafTo feus textos e apophthegmas 
&c. e fobre tudo delirando com a tontíce dos feus n»* 
moramentos , como no monologo , em que elle fe aplau- 
de dos feus cuidados defte modo ; 

,, Des que homem oafce té que morre, natt trata cou- 
jy fa de mór pezo , que a do leu cafamento , que cada 
„ dia rematamos uô levemente. Grande fdito ! Q^e fe R 
,, rendem hum rocím manco , ou huma mula maliciofa, 
„ logo hi fa0 mil Jejs até ajudar, e tom procuradores 
„ tanto que dizer , e atlegar, e na tua mulher, por quem 
„ deixamos os pafs e as mays, alU aos defampara tudo^ 
>, ç fó a morte pôde íer boa &c. „ 

Do 

DgitizedbyGoOglC 



CE LiTTIK ATUKA Po KT Vat) E Z A. v^jT 
§ III. 

D» tfiyh Cémico àe Luiz de Camões 

Hum Poeta taõ famigerado como o noffo Camães n*oo- 
tros gejieros de Poelia , nafi podia efquecer , quando fal- 
íamos do eítylo Cómico , pois que delle temos algumas 
Comedias. Porém he bem que íe declare , que fó o amor 
da verdade he a que nos obriga na Litteratura a eftimar 
as obras por ellas mefmas , e naô pelos ièus Âuthores. 
E quem íe efpantará le diíTermos que CamÒes naÕ he 
Poeta Qímico , ao menos para íe comparar com os dous 
precedentes , nao obftante , que compoz algumas Come- 
dias > A verdade be que quem conhece o Author dos 
Luíiados, naã o conhece nas fuás Comedias; mas Vir* 
gilio na6 foi Terêncio, nem eíte foi Virgílio, e aflhn 
loi bem para o credito de cada hum. NaÒ deo a Natu- 
reza atégora todos os feus dons a hum Só homem. Por 
iíTo tanto mais precavidos deyiaò fer os Poetas contra 
o feu amor próprio , lendo a lábia máxima de Horácio: 

Sumite materiam vejlris y qul firihitts aquam 

Viribtts , et verjate diu quid jerre recufent , 

Quid veleani bumeri. 

Como o Cómica elfencial do eflylo na Comedia de- 
pende dos caraAeres e £tuaç6es , aquellas compofiç^es 
Dramáticas > onde nem ha caradlefss, nem íituaçòes, neih 
ie obfervaô as leis da verofimilhança , na6 podem ter ef- 
te Cómico, de que falíamos, e em va6 ^ellas o bufca- 
fiaoios. Quem o acharia na Comedia d'£lR£Í Selcuco , 
óa ita dos Amphiiryães ? Como definiremos logo eftas 
Coaiedias do noíTo Camões, e as de outros Poetas da- 
quelle tempo } Conimummente aao fa6 feoaò faumas col- 
iccções de trovas, de que fe tece o dialogo de galan- 
taria , ciitrefàchado de equívocos , allus^Óes , jogos de pa- 
lavras , e coufas fèmelhantcs , taes em numero e quali- 
dade j f*guiKÍo o golío pTopcio dqsÂuihofCS, ou ogo^ 



zedbyGoOglC 



$6 Mbhosix.as 

to público , a cjue elUs fe accommodatf. 

NaÕ digo iHo , porque entenda , que as Comedias de 
Camões faõ abfolutamente defprezireis em quanto á lo- 
cução ou eftylo da língua em geral ; mas o que fó en- 
tendo he , que fegundo o eftado de perfeição , que hoje 
Te requer na Poeua Cómica, na6 ha nellas perfeito ef- 
tvlo Cómico : e aié a. locuça5 naó he fempre aliás corre- 
aa. O Cómico burlefco ou de Farfa , he o que pela 
maior parte caraéleriza elbs Comedias , e poderia no feu 
género valer alguma coufa por delicadeza , agudeza, ener- 
gia &c. , fe foíTe natural, e reroílmíl , e em linguagem 
lingeJa. Porém commummente damas , lacaios , e lacaias 
faliaõ com cal difcriçaó , e fubtíleza , que tudo parece 
mais hum tecido de Epi^rammas em matéria de galann- 
ria , do que dialogo familiar graciolb. 

Alllm tendo moftrado nos Poetas precedentes , o que 
ha de mais recommendarel no eflylo , e linguagem própria 
d^e género de Poelia , inútil feria moftrar alguma ex- 
prelíaõ, ou penfamento mais feliz aqui ou alli nas Co- 
medias deite Poeta, fendo de gofto muito differente. 

CAPITULOU. 

Exame do eftyh Heróico Trágico do ikjigne Poeta Aa^, 
tonio Ferreira. 

EH O mefmo feculo > e quali a hum mefmo tempo , 
em trez differentes partes da Europa appareceo hu- 
ma Tragedia , noro fructo da nova planta da Litteiatu- 
ra. Itália deo a Sofonisba de TriíGno, que foi a pri- 
meira, e a mais bella Tragedia, que os Italianos tireraá 
por efíes tempos.- França produzio no Reinado de Hen- 
rtq^ue II. huma Cleópatra de Eftevad Jodelle , a qiié de- 
pois fe feguio huma Dido , obra do mefmo Author. Ao 
mefmo tempo fahio em Portugal a Caftro, primor da 
erudição, e raro engenho do noífo inligne Ferreira. Eu 
oaõ perteado, nem aqui rae pertence £izer parallelo def- 

■ ta- 



lizcJbyCoOglC 



DE LlTT BB ATOR A PORTUGU-EZA. ^7 

ta «celleníe proáucçaó de Ferreira com as dos Authc- 
res , que acabo de nomear j porém o- que de paíTagem 
. podemos afHrmar he , que neíu Tragedia appareceo lo- 
go huma luz mui viva, quando as outras nao moftriraÕ 
mais qve huma íombra duvidofa entre a noite- e o dia. 
Mas deixemos aos Criticos julgar deAa preferencia , e 
das muitas fin guiar idades , que diftinguem FOtav.clmcme 
-^Cafiro de Ferreira das outras ccmpofições Dramáticas 
daquelle tempo. Quando nos naõ fícaííe outro monumen- 
to do fingular talento defte Poeta , efte íú bailaria para 
conhecermos , que elle foube imitar es antigos como ef- 
pirito original , e naÔ deve /er comprehendido naquel- 
Ia propoliçaò ta6 abíoluia como falia j com que alguns 
modernos corrompem a Hiíl;orÍa Litteraria , dizendo ()ue 
os imitadores dos antigos no feculo XVI. fôraõ cauià 
da retardaçatí dos engenlios. Pelo bello cílylo dcfta Tra- 
gedia podemos ajuizar a que gráo de perfeição chegou 
a noíTa Lingua no tempo defte Poela , e quanto elle con- 
corre para a fua perfeiçaã , fendo cerlQ,-que as lingius 
recebem tanto de elegância , delicadeza , elevação , quan- 
to eftá no génio dos bons Efcritores , e quanto eftes 
]hes imprime \ e que por outra parte ( coiso já declara- 
mos ) o eftylo Trágico he hum dos mais capazes de lhes 
fornecer aquellas e outras mais qualidades, que fe reque- 
rem em diíferentes géneros de Litteratura , quando ia lin- 
gua exprime a efFum6 do coração' ; quando a aima pare- 
ce difFerenie de fi mefma nos feus vários movimentos. 

Baila lançar os olhos ao primeiro Aií^o. Caftro abre 
a Scena , ex-halando o fentimento da fua alegria. O feu 
dífcurfo he de hum emhuíiafmo doce , e o eftylo eftá 
perfeitamente no tom lyríco , qual convinha a eífa doce 
embriaguez. Que nobre Hmplicidade naô refplia aquelle 

Colbey , colbey aleures 
DoHZellas tninhas , mtl cbeirofas flores 

Tecey frefcas cape-las 
De lyrias e dê roles ; coroay todas 

As douradas caheças, 
%>m. r. F Ef- 



lizcJbyCoOglc 



jS Meuohias 

Spirem fuaves cheirof , 
Ue que s^encha efte ar toÂQ' 
Soem doces tangeres , daces cantot. 
A repetição fuccelllva exprime admiravelmente a vi' 
veza do íenámento ; as expreísões Ja6 propriilTiaDas i os 
epitlietOE ercolliidosj oaiuraes e frequentes faô as t^o- 
raçães , com que a ímaginaçaã, oelle delirío tranquillo or- 
na os objedlos de prazer , que fe ihe offèrecem : çbei- 
rofas flores , frefcas capellas &c. 

£ que ternura naô exprime eífoutra repetirão ! 
Honrai o dar» dia , 
ídeu dia ta5 ditafo 
Aqui ciaro dia , ^a ditojo ^ abaixo aho dia » para va< 
liar a fiaiè* 

 Ama interrompe Caftro neíU iltufa5 , e ella en- 
tra a narrar-Ihè a caufa do íeu contentamento : muda-fe 
o efljrlo: a narraçaÕ hs grave, jucunda, e animada to- 
da 3 vez» que toca no objetflo intereíTante. Huma alma 
íenfivel conaeceri a íenlibilidade de Caítro j quaadodíz: 
Oos olbts lhe accendi na peitp fog» , . . _ 
Fogo , que fempre ardeo , e indo. ar^e agtra, . . 
Como também : 

Por mim lhe aborr^ciaS. altos ejiados , - 

Por mim os nomes de Princezas grgades , 
■E depois : , . ... ... 

Deo a Confiança a maS j Confiança aquella^ 
Por tantos armas e furor tra&ida ..... 

Deo a Confiança a ntaS : mas alma livre 
Amor y defejv , e fé me guardou fempre. 
AIII ie achaó as outras illuminafôes do eftylo., qtie 
cara>flerizaã as narrações íublimes , reprefeiitanao paÔ fó 
tas. acçíjes externas , mas também as acções d'aima , o Xey 
cftado, e fituaçao , como nefte lugar: 

, entes mais vivo 

Co tempo , e fo defejif ardia o fogP' 

Que fará } Se o encobre entaS .mais , queimt> . 

Defeobrilo naÕ quer , nem Ibç be_ bj^Hfi^' ■ 

Mas 



zedbyCoOglC 



DE LlTT»* AÍU'* A TOSTVOUEZA.- ^^ 

Mai quem o fogo guaYãarã no fio ? 

Quem ejconáerà amor , que em feus Jinaes 

A pezer da vontade fe ãefcobre. 
NafÔ ha coufa que tnàis caraaerize o eftylo Trágico , 
como as metáforas ; por íflb nelle fa6 taÔ frequentes , c 
commummente ellas fe põem em lugar de comparações , 
pois que eftas fa6 mais propriamente a eipreflaii das re- 
flexões do entendimento , aquellas a mais verdadeira ex- 
preflaíí das acçtSes d'alm3 , ou das paixões. Ás vezesfe 
contrapõem o objeéto i. fua imagem , como fed efpdfao, 
como acima : Quem o fogo guardará no fio ? Quem ef 
conderá amor &c. i que he comparação diffimulada ,' d 
Tal O mefmo que , Affim como fe naS pede guardar s 
fago no fia , taÕ pouca fe pede efcênder o amor. 

Ao mefmò effeito dá lúblimidade' Trágica cóncOTreoi 
ag Hypotypofes como: 

Nos olhos., e no rofto ehantmejava ^ 

Nos meus olhos os Jeus o defcobriam. 

Sufpira , e geme , e chora a afma cativa ... 

'■ '■ a furta crtfce 

Lãvra- a doce pefonha-nas entranhas , 

Os homens foge, foge a lua e o dia. 

Só pajpia i jtTfaHa ^ trifte cuida, 
£ aquellas formas da dicçáó coociza , que fervam i gra- 
_ vidade do eft/!o , ligando hum fò verbo diverfos inci- 
zos, como: 

Cãflro na haco', Caftro yt*a!ma , Cajtro ■ 

Em toda a parte ante fi tem prefente. 
Ou deixando na mente o nexo, que une as relâçÔes d<i 
frafe , como : 

Etle d mulher cuidado , eu ódio e ira. 
NaÔ omittiremos aquraquella artiíicicfa difpcítçaÕ da fra- 
fe, principiando pelos cafos oblíquos para ter os ânimos 
fulpenfos, como : 
'* lyantiga cafa Caftro em toda a Efpanha ^ 

^d dantes do Real fcetro àefle Reyno 

Por grande conhecida , inda meu Jaugue 

F ii D* 



DqHizc-ObvCoGglC 



^ M S «. 1> * .1 A 9 

Do Real fangue Jeu titíba gram parte. 

Como no principio da Narração: 

Daquelle grande Âffúnjh forte e fant^ 

Por pederofa meS de D«m âl^ad» 
. Entre armas , aiie'imigos o Real eetrV 

Do grande Portugal^ que inda ejiã tmt» 

Do fangue de infiéis por feu bem braço , 

Per legitima herança rege e manda 
. Q bom iielko gloriofo da viêtoria , 
...E-.mme dj Salado Affbnjo Quarto. 
CoiKorrein também as cooltiucçôes ^tfaordinqrias dos ca- 
fos, como acima, /tfgtf os homens , ffge a Jua, eialu*. 
gar de. f/>ge dos homens , da iuz, ou aos homens ^ d 
tuz: mas.n^uina : e ii'ouíra forma de dicçaõ ha %ura ^ 
porque foge. os homens he Hypallagc em lu^p .de foge 
o ineommodo, om enfado , que caufa ^companhia dos Bo- 
mens ; e he EIJipre foge dos homens , entcndendo-fe o 
iaconimodo ou enfado dçs homens ; iAo lie > queelléscau- 
laô na occafiaÓ de triftcza Ôcò. 

Naã he menos notável aquelle palTo veidadeíramen- 
te delicado, quando Caibro falia ao feu V>.- Bedno para 
olKer fegnrança contra- o^ íleu- recêo ; . |. 

—^ — • — ■ — Je medeves-. .» ■. 

Amor igual ao meu , ou Je aJgu^hora 

Fui a teus olhes vifia alegre e do^e ; 

Me fegures. 
Que muUidaíí de coufas nos -deix^ «Mtíodec «fta* dua» 
linhas, que hum miferavel Verlèjador naô deiaaria àe re- 
prefentar com frívola elegaçcia , feítejando-íe daoecafiaõ 
de eftender em muitos verfos enfadonhamente rail reipie- 
Iffos , choros f rifas » cersuras âcc- ? 2|tas íferreir:* judi- 
ciofu' e d€itis.ida fabia apreciar , soma Virgijip^^ qj^em 
imita , .lium,|fU9Ric:ia;, que em i^s opçaíi^e^ ^'^i^- elo- 
quente , mais force, mais expreílivo , (^n^tçà.^ & Ello^ 
queucia. '^ o Poeta Latino tamj)em is coíiccntoU' de fa- 
zer dizer a Dido , queÍxaado<ie ao feu ^^éas : 

Si 



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DE LiTTBBATURA PoBTtJGUEZA. 4I 

Si bene qaid de te merui , futt aut tièi quUquam 

Dulce meum. lib. IV. ^n. v. 517. 
tocando ligeiramente o que outros Poetas eochemô de 
miferaveis e importunas amplificações. 

Toda efta falia de Caltro he hum modéllo de bom 
gofto, e juntamente liuma perfeitiUima imicaçaõ de Vir-r 
gilio , onde a Mocidade Portugueza pôde formar idéa da 
arte de imitar com liberdade nolire os Efcritores elo- 
quentes; pofto que .0 bom gofto nafce, e naó fe eníina, 
e como já diflemoa , a. delicadeza, e outras femelliantes 
qualidades , que paíTaÓ da alma ao eAylo , ninguém as pô- 
de imitar dos Authores , fena$ os elpiritOG , ane as poí^ 
fuem em li , e as fentem nos outros , e que imitando os 
outros, [ém o advertirem, íe imitaõ a fi mefoios. 

O ellylo grav-e e auftero , jiime o' lacónico » taá bel- 
lo na fua melma negligencia, taÕ decente a tuima alma 
toda occupada em obje<ílos de mui grande importância; 
efte eftyio, cuja força eífencial eftá em exprimir as idéas 
e fentimentos com as menos palavra^ , que pódefer, he 
o que o noíTo Ferreira particularmente emprega nos pou- 
Goa monólogos , e nas cotiferencia£ do Rei com. a genta 
do feu conielho. Por ilTo vemos as írafes eilipticas tatí 
firequentes j como na Scena fegund^: 

Quem ajuntar poder com agua o fogç , . 

Quem wi/iurar fV dia a nnite efcura. , 

£ quem o máo peccado cò' a. virtude , 

Efte. ao anu/r ajuntará rfizaS > ■ 
, , Efie em faifa tifoaja a lealdade. 

Hum o amor naõ. Joffre , outra a virtual' 
C^m:o efte dialogo do Infante com o Secretario he vi- 
vo e fortç na pratica de hum, xanto he gfpero e picante 
da..]^rt« dç. OiUtro , e..o fogo da pertinapia ilo fc^nte 
ie Vai levantando por degráos , correrpondeodo adroira- 
velmente á. força da expreUaÕ, i força do ísatinieirto. 
■ jkrãncamme as entranhai. Que me querem ? 

Sfia gettie que quer , que a^ í«tf mata i 
E a pçuco efpaçp : 

Tam- 



IzcJbyCoOglC 



4>' Memorias 

Tampem tu me perjigues ? Tamèem vens 

Afiado cortarme eftas rmaer 

Que no meu peito jd taÕ firmes tenho > 
Já paliando mais avante : monttoribus afper'. 

Qurm tuS livre te faz e taB oufado ? 
E depois de fe entrincheirar nas razões , que lifongead 
a fua paixaã : 

.. — olha o que mando i 

Tu Jd mait me naS faltes em tal cmfa. 

— Primeit» 

A terra Jubtrd onde os Ceos gndafy 

O mar abrazard os Ceos e terra , 

O fogo ferd frio , Sol efcuro , 

A Lm» dard dia ^ e todo o Mundo 

Andard ao contrario da fua ordem j 

Que eu , ó Cajiro , te deixe , ou nr£õ cuide. 
E já mais fobrefaltado, exclamando-: ' - 

O' perjiguiçaõ forte\ ó odto eftranho- 

O' duros fades todos conjurados 

Oos Ceos , e f tf' as efirellas a perderme. 
E com maior 'acceleraçaõ, foltando-fe o vulcão da fua 
fiiria :' ... 

Fai-te diante de mim , J-uge minba ira. 

Na pratica do Secretario , he notarei , entre outros , 
aquelle penfamento fino , e de grande força : 

' em -quanto homem naS vime - 

Com fu'alma própria , pôde a tal fer vida ? 
Onde fe vé o ufo particular, que o Poeta faz ds ex- 
prelTaÕ homem fem o artigo , como coíhima em toda a 
propofiçaô indefinida , e vai o mefmo , que o artigo ia- 
definido hum homem , iíto he , qualquer homem. 

Ao mefmo eftylo lacónico , que dííl^os ; pertence 
neíla mefma Scena a réplica do Secretario : 

Se te naõ eonfelbar , meus faS teus erros. 
Vô-fe no principio a prudência, e gofto do Poeta, transferin- 
do (como a Critica hoje recommenda) as máximas geracs, 
OU fcnten^s em feotimentos > como quaodo o Infante diz : 



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DE LlTTEBATDJlA POSTTJGUEZA. 4Í 

Quantas, vezes mal he o que btm parece} 

Quantas vezes o mal cauja bens gratiães ? 

Dir-oie-hflÔ, que iíTo naÕ íc acha fempre obfervado , 
vifto que a pratica do Secretario he acHindant emente 
Jentenciofa. Mas he preciío diílinguir no eílylo l'ragíco 
o {;ar3^er da perfonagem fatal , e dos Authoies princi- 
paes, e o dos Authpres fubalternos: onde devem reinar 
mais íentimenios , que os difcuríbs \ onde o difcurío fer- 
ve de preludio aos fentimeiuos , e em feu lugar pode 
ler ta6 natural , como os fentimentos , eritando-fe a de- 
maGa , que aiFe^a o tom dogmático do Séneca. Atteo- 
dido ifto , podem paíTar a falvo algumas íentenças, que 
miftura o Secretario na conferencia com o Infante , e os 
jConfelheiros na caoferencia com o Rei, como coQve- 
nientes ao feu cara^er; e femelbauemente aquelies do- 
cumentos políticos: 

[ Hum Príncipe antes 

Ha de ter Jeu ejhrito taõ alçado 

Da terra , que delia erga o penjmtunto 

Ao baixo p^e feu , para que a figa. 

Efprito ba de fer puro: hum ouro limpo ^7v. 
O Poeta relaxa hum pouco a feveridade do eftylo Laco-' 
nico nos lugares etn que entra a Eloquência infinuante> 
e por ilTo ainda que a Critica exclue em geral do eftylo 
Trágico as comparações direiflas , naÕ nos parece fára 
de lugar aquella fublime de Ferreira no dilcurfo do Se- 
cretario : 

l^aõ vês i Senhor, que o Sol fe efcurecejfe , 

Quanto cobrfi e dejíobre , ficaria 

_ Ta^ trifie e_ efcuro , como agora claro ? 

Pois tal he, o bom Príncipe, Sol nojfo , 

Cam^ cuja lua nos vemos , e feguimos 

A jufiiça , queaas Ceos nos vai levando. 
O Secretario conclue fortemente huma pratica, dizendo: 

— • ■ — Senhor , vete , 

Conbecete melbçr ; entra em ti ntefmo. 
Qnde yeajOE.quaõ própria he eftaexpreíTNÕ : Entra em ti 

mef- 



Izc.byCoOglC 



44 2IC s u ó n I A s 

mefmo , que alguns importunos Ptiriftas por demafíado 
efcrupulo etrtaS, como modemamtnte trazida do Fran- 
cez , ReTttrer en foi même , como tkís dizemos no ufo 
familiar , Cahtr em Ji. He huma efpecie de mania def- 
confiar de tuio o que ha de bom femelhante ao da»Jin- 
gnas cítranhas , como fe nada houTelTe de commum en- 
tre as línguas das nações , que mumaraent* fe comaiu- 
nlca5 j mas ntm por ilfo pertendemos aplaudir o Anatif- 
nio , que em muitos reina de transformarem a Linguagem 
Portugueza , (iftohe de a corromperem ) adoptando fem 
lei nem termo mil idiotifmos Francezes , contra o cof- 
tame , contra a authoridade dos noiTos bons Efcritores , 
e contra o génio da raefma Língua , que mais que todos 
deviaó eftudar os que tem proíiílaõ de fallar em públi- 
co , e os que traduzem os livros eflraageíros. 

ASio 11. 

à ftmplicidade nobre fe deftobre de «ponta a ponta 
no effiylo defta Tragedia ; mas agora fe ofíèrece parti- 
cular occafiaô de a reconhecer nos difcarfbs -do Rei , e 
dos feus interlocutores, por -íflb mefmo que as peífoas, 
a iituaçafi , o intereífe da acçatí poderáO a hum Poeta 
menos judiciofo fervir de illafaô para empoUar o efty- 
lo , ou dar occafíaS a hum engenho fraco a defcahir do 
ponto jufto até dar no eílylo rafteiro. 

Os fentimentos de D. Áffonfo luítando corafigo mef- 
mo na confufaõ e perplexidade em que fe achava , pa- 
rece , que fe na6 podiaã exprimir nem nóais natural e 
limplefmente, nem com mais nobreza, como naquelle 
Apoftrofe em que defaífoga o feu efpírito opprimido : 
Ob /cetro rica , a quem te naS conhece 
Como és fermafa , e bello ! e quem faubeffe 
Bem , quam differente és do que prometies , 
Nejle chaÕ , que te achaffe , quereria 
Pizarte antes c'or pés , que levantarte. 
A Í[to fe feguem os penlamentos, que yiâ preparando 
oj caminho áquellas grandes imagens. De 



Uí LiTTSRATUÍA PORTUGUBIA. 4J 

De òf/vta alta fortaleza ejlamos fimpre 

Poftos por atalayas à fortuna : 

Por ejcudos do povo oferecidos 

A receber feus golpes. 
De muitas idéas érandes da dignidade Real Te fúrma a 
liiblimidade daqueíla expreíTaÓ do difcurfo de Pgcheco.: 

£ tal Rei como tu , Senhor , he Rei ? 
Mas efte he iium fubUnie rápido como hum relâmpago: 
a defcrip^Õ que fe legue tem a fublimidade que reful- 
ta do fucceffivo progreuo das ídéas : 

00 faz os Reis grandes , dignos fempre 

De memoria immortal ; foffrer trabalhos 

Pela público bem^ quebrar a força 

Do fangue e próprio amor \ fazer-fe exemplo 

De todo o bem ao povo ; atalhar prejies 

O mal em feu começo , antes que empeça. 

Muitos talvez eítaráã bem longe de conceberem as 
bcUezas do eíljlo defte Drama , preocupados da impref- 
I4Ô defagradavel , que lhes fazem algumas exprefsfSes def- 
te Poeta, que pelo decurfo dos tempos caducarão , e 
que já naÕ tem ufo fenaô na linguagem da pUbe, ou 
dos rufticos } parecendo-nos hoje expreffâes builefcas cu 
groffeiísa , taes como no verfo antecedente , começo , e 
mais abaixo aquella forma de interjeição: 

— — ■ Forte íoufa 

Endurecer-}e ajji aquella vontade ! 
Trabalhado por penalizado , afflitflo naquelle verfo : ' 

Atalhando a efie mal, que t''ajji agora 

Trabalhado traz. 
£- outras femelhantes : mas efias taes exprefs6es naqueUe 
tempo eraô taó novas e mimoiãs , como as que hoje o 
íad. Pelo que fe o capricho da moda taô poderofo noj 
vocábulos das linguas, como no trage dos homens prof- 
creveo algumas exprefsÕeG , a que attribue vulgaridade ou 
baixeza , oem por iflb fe deve eftimar em menos o an- 
tigo eftylo dos ooíTos bons Authores ; pois que tal fado 
teria algum dia muitas exprefsôes das que prefeatemen* 
Tom. r. G te 



.byCoOglC 



4^ M E H Ò B l'Á S 

te mais lifongêaÔ os noiros ouvidos : Multa rettafcen- 
tur . . cadentque , auae nunc in honore funt vecabula. 
Ora as eipreísões Trabalhado , Forte covja &c. fó naâ 
fao hoje aíTás graves no cftylo Poerico, porque as te- 
mos no tifo vulgar : outras até da ufo vulgar fe perde- 
rão y e yad efquecendo. Huma notável (Ingularidade , que 
íè refere dos povos do JapaS , he que conftando o feu 
vaflo Império de feíTenta e leis reinos , e fallando-fe em 
todos elies iiutna fò, e a mefma língua , efta com tu- 
do he taó variada em eftjrlo , e exprefsdes « que as que 
fervem nas praticas ferias e graves fa(í hum as ; outras 
as que empregaÕ nos difoirfos jocolòs , ou converlações 
de paflatepipoj outras as de que ufaõ fallando com o? 
gr^ndesj outras mui differentes, quando trataó com gen* 
te ordinária \ outras para fallar com os velhos e anciãos ; 
outras para tratar com os moços \ outras finalmente de 
que uíaô as muUieres , porque a eftasnaôhe decente 
fallar como os homens, declarando as mefmas coufas pe^ 
los mefmos termos de que elles ufaíl. O que prova que 
aquelíes povos na6 faá fáceis em mudar as palavras in- 
ventadas e eftabelecidas ; de outra forte a foa língua fe- 
ria impraticável entre elles , fendo-Ihes prcciíá tant» va- 
riedade de palavras para huma mefma coufa ou idéa ^ 
fe eífa variedade eftireíTe fugeita ás mudanças do capri- 
cho, como accomece entre os povos da Europa. 

Mas eita he a caufa bem notória da pobreza da nof- 
lã Lingua, cómodas dosnoíTos vizinhos, que bem pu- 
deramoii emendar , fe houvelTe cuidado de aproveitar an- 
tes , e reílabelecer muitos vocábulos bons dos noflbs an- 
tigos , do que mendigar os Eftrangeiros , que na& fórafi. 
'feitos para a noíFa linguagem. 

A^o III. 

O Aílo 3*. todo he chéó de variedade ; tudo con- 
'corre a prepar.ir a Cataftrõfe j e os dífcurfos de Caftro 

faô 

DgitizedbyCoOglC 






DE LltTERATUEA. PORTUGUEZA. 47 

feô a verdadeira linguagem da alma ; verfos , forma de 
locuçaã , tudo exprime ao saturai a maior ternura do co- 
ração , qw fe podéra imaginar na lituaçaó da perfona- 
gem Trágica. Mas efta feminina ternura , e funeftas im- 
prefsães do terror, fe fazem conjet^uras pelos accídentes 
nos fentimentos de Caftro- 

Nunca mais tarde fera mim , que agora 

Jlmanbeeeo. 
O Poeta podia dizer : Nunca pêra mim mais tardx 
amanheceo , que agora. Seria acafo o deixar o vprbo 
amanbeceo para o fegundo verfo ; mas ou ac^fo , ou 
efcolba foi infpiraça6 feliz da fua Mufa Trágica , mof- 
trando a iUfpenfaã da frafe , como hyperbato, a tar- 
dan^ do objecfio defejado amanheceo. E tudo o que 
de novo IÍie apparece lhe aviva os Tcftigios da fua ímar 
;inaçaã fune^da : Trijiia moejlum vultum vfròa decetit. 
Todos os apofi:rofes , que fe feguem fa6 fublimes e déli^ 
cados : 

: O* Sol claro e fermojh 

Como alegras os olhos , qtíe efta noite 

CutddramnaS te ver\ O' noite trijie\ 
Inliftindo com reduplicaçaõ na caufa da m^ior magoa.: 

O* noite efcura quam comprida fojié ! 

Como canfafte e^ alma em fombras vans I. 
Tornando-fe já aos objedlos prefentes mais queridos da 
fi» alma por apoftrofè : 

— ■■ — : — : — ■ r-r e VÓS meus fiÚios y 

Meus filhos taS fermofos , em qtte eu vejo 

Aqttelle rofto e olhos do pay voj^o ^ 

De mim ficawis cd dejemparaâos 
Nomeaodo ultimamente com expreíTaã de íentimento a 
caufa de todos os fentimentos ^ de que eftava chéa a fua 
alma : 

Ob fonbo trifte y. que ajji.me ajfombraftel 

Tremo ind'agora , tremo. 
Quadro fublime de grande ternura: 

Cref cereis vás primeiro .y filhos meus, 

G ii Q^e 



zedbyCoOglC 



4S Mehouias 

Que choraes àe me ver ftar-vos cboranda j 
Meus filbot taõ pequenos ! ay meus filhos 
Quem em vida vos ama , e teme tanta 
Na morte que fará ? 
Eíle ultimo he penfamento enthymematíco fetnelhante ao 
de Pacheco no Aílo i." 

S^em tua viáa nos tememos tanto , 
Que faremos defpois de tua morte ? 
Aqui o verbo faremos fcgue a concordância regular* , 
reíèríndo-fe ao Uigeito cominum nos. No uío vulgar ha 
anomalia dizendo-fe Que jard , ou Que fera ? mas ha 
ellipfe , enrendendo-fe na frafe nominativo cognato do 
verbo da frafe antecedente , ifto he , Que fará o temer- 
mos , DU Que fará o noff^ temor iyc. Pertender degra- 
dar femelhantes conftrucçóes ellipticas como erros da lo- 
cujaó , Jègundo querem alguns melindrofos , feria degra- 
dar do commercio humano a linguagem familiar, e obri- 
gar os homens a and.ir fempre no circulo apertado das 
leis Grammattcaes ; feria pertender , que oaó bouveífe fe- 
nafí huma lingua do entendimento , e iiaS a da imagi- 
nação , que fó naô deve fer barbara , mas he mais li- 
vre, e mais rápida na fua carreira. 

■■ 0$ imigoí 

Vos temaÕ àe taS longe , que na0 oufem 
Nomearvos fomente. 
Aqui fémente naâ tem a Íignificaça6 commum , mas põem 
ad minuetrãum em lugar do adverbio perifraftico, «fm 
ainda , nem fe quer , nem ao menos. 

As hyperboles fazem buma grande pane do eftylo 
Trágico , por ílTo mefmo que U apartaò do cotomum 
modo de conceber as coufas , e fa6 a mefma exprtITaâ 
da natureza quando a alma pinta a» coufas como as vé , 
e a paixaõ lti'as faz ver de huma maneira extraordiíraria. 
Tal he a expcefíal} 4e Calho , fatÍEÍàzetido á pergunta 
da Ama; 

-■, , ;.,. ■ ■ (í ama miaha í 

Via a morte ejia noitç crua e íej-a. 



zedbyGoOglC 



r)S LiTTBBATUÍA POR V 06tr EZ A. \^ 
Tive efta noite hum fonht , que me enebeo de horror , 
ieria frio, e iem nenhum efieito lia íiiuaçatí prefente : 
Vi a morte he mui Trágico > he imagem agigantada , 
qual convinha. O* ama minha , como invocaçaã da pef- 
iòa prefente, he natural na occaliaâ de efpanto, e. aju- 
da a &zer o objeiflo prefente. 

Semelhantemente peiifa a Ama tornando-lhe : 
, Entre fonbos t''ouvi tbtrar t«Õ glío. 

Que se meão e ■ d'efpanta fiquei fria. 
Segue-fe a defcripçatí do fonho , que contém huraa hf:- 
potypofe maraviiliofa em allegoría : 

ÈíítaS fimbei , que ejlàndo eu fé n^mn hofyue 

Efeuro t trijie , de huma fombra negra 

Coberto todo y ouvia ao longe buns brados 

De jeras ejpantofas , cujo medo 

M* arrepiava toda ^ e me impedia 

Ahngua : e os pés : eu ío'' a alma ^U*fi morta 

Sem me mover , Tneus filhos abraçava. 

:Na pintura do animo affli<ílo , e conílemado com o 
fonho mnefto , nada ie pôde dizer mais fimples j. com 
mais ligeireza e delicadeza juotameóte. 

_-_ — — , — >— — _ EntaS alçava 

• Vozes, aos- Ceos-, ebanwva meu Seiujer ; ■ r 

Oaviame e tardava: e .eu tAorria 
- - ■ Com tanta fauáade ^ ^e iad'agota 

Parece , que a ed tenho. 
Se o Poeta entremetceífe òs clamores de Caftro com as mais 
elegantes exprefsões, fazendo pompofos verfos , em vaé 
isfpecaríaiBias y que CaAro noâ enternecefie. Taato pôde 
«liiatufeza, .quando a Isfcutamos.l ^ ... 

Projkiit ampuUas et fefquipedalia verba 

JV curaf íor fptfíttniij.tetigi^e quereila. ■ ■ 
E.efti>:i)e .a,'»-te ladimi^nel idie FerteiíU ^ ! 9ue todas «a» 
fua? perfonagiõt di^ém .^o^ x|Uâ «ílas fót dtriaôvde íi mef- 
mas em tal fitua$a&,.e\n«Ô- a{^ar.ece^nem , fombra do 
Poeta. ^'^ ..' .■ ■ 'V.. - •■ :■ r. ' 

Avlzinha-fe ji.Gataftrofe pela iateríor delà0O£ego de 
Çt&so. £ como o declara ellà. ? ' veos 



Cg.lzccbyCoOglC 



yo '-'■' ■■•-M-« « 0'H I A í . • : ■ • 

-*- — ^. - . ^ : — Dms a guarde: 

Deos te guarde i Senhor, que me parece 
Qt/e algum mal te detêm: algum mal grande. . . 
Arranca'fe a minha alma. de mim mejma , 
Parece que voar quer aonde efidr ^c. 
Deos o guarde he o kntimeato' : Deos te guarde ^ be 
a illu&6 da imagina^ad excitada, do fentimento , que Ibe 
faz ver oobjedlo, e coramunicar-^fe. Dai^uí náfcem aqQcl- 
las imagens CuUiaiçs : Jrranca^fe a minha alma. rare- 
■cr; quer voar ; % Ampliflcarioailuis extollec orationem y et 
» 7i fuperlationum queque eriget. » , . 

Mas huma exprenad UngoUrmcate notarei , de humâ 
fumma ílmplicidade, e ao mefmo tempo, de huma ex- 
traordinária ruhltmidade , e grande dolicadeza.^ fae aquel- 
le lance em que rompe toda ídirefaltada :> 

He morto o meu Senhor í o. meu Infante} 
O Corifeo acabara de Iht anounciaF a faa jnorte ,. oa- 
ve-o , e ímmediatameDte o penfamento liie vóa ao to- 
'famOi e efquecida de ii tnefma , nati fe lembra deimais 
ttada ^ [ó do perigo delle fe eftremece: He morto » mait 

Senhor Scc. 

Aqui he onde £e conhecem os Poetas Filofofos^- eC- 
ta he a praxe da fciencia do>coraça6 humano: . efta a 
dedreza que a Mufa Trágica infpira aos alumuos < feus 
queridos , que fabem . mais que ninguém apreciar feme- 
Ihantçs myfterios. 
r . "■.-..- Mo IF. 

O eítylò nefteâiílo ^^ Iwtodo vivo, animado e tntii 
pathetico i mas por fua gradaçaã, que he/hum fcgredo 
particular na arte da Tragedia. Caftro pofto que coaflei^ 
nada com a -nova antecedente da ^ morte; aprefeotan- 
do-fe diante do Rei, principia por huineítylo monuo: 

EJia^be a mayãe teus' netos. -Bfiãs faS. ..>.-.-. .; 

Filho r ' àaqueíle jUbo , qú9- . tmntO' Ofnas, . - . ' ' 
Bajiava teu mandado 



Pêra eu Jegura * livre fefperar . 






''■ È qftanãò meus peccaâos me accvfaram 

A ti fâra bufcar : a ti tomara 

Por vida em minha morte 

Beijo efias maÕs 

Reaes taÕ pieàofas : pois qaizejle 

Por ti virte informar de minhas culpas ,. , , 
Porém a conclufaã do difcurfo he dirigida a mover laf- 
tima : .. 

— . porém poffam ■ 

EJles moços teus netos defenderme 

Efles fatiem por mim ; elles fój ouve, 
,Real^a o peoíamento a Carrec;a6 bem empregada > e 
Repetição iymmetrica do verbo ; 

Mas naS te fallardm. Senhor, com lixgua y .'" 

Que inda naõ podem : fallaate co' as almas 

Com fuás idades tenras ,■ com [eu Jànguo 

Qae he teu te f aliaram ........ 

Doan-te n'uma eftrofe do Coro do Aão 3.° por Doam- 
té , e aqui VaUante por Fallam-te , he boa prova contra 
os ol^inadOs reftauradores da Orthografia antiga am por 
-170.. Devendo advertir qu« aquejle antigo modo de efcre- 
ver tinha fen fundamento j]'uiiia pronuncia que entafi fe 
ufava , e entre nés já fe nad pratica ; quero dizer ,' a 
^núnunCia Gattizianna de louvam , faliam , notam &c. co- 
mo fe foíTe ' louvan , fallan , netan , que he próprio, do 
Hefpanhot. Enta6 a efcrita conformava-fe com a pronun-r 
ciá , e mudando fó o n em m. iè diffèxençava hum indi- 
viiivel do dialetflo de Galliza j hoje anoíTa pronuncia he 
inuito .di^rente , e era fenrethantes dicçtícs defcobre. fen- 
fivelmente a vogal o ligada coai o a , iuo he , o dichon- 
go tf^ , e já a. vogal ulrima fe fcre mais de «ue a pre- 
cedente ; de fòmia que quaíi pronunciamos /iZMltf^ , como 
fe fofle faliam : a ciija pronuncia fe naÓ accommoda a 
«ífcriptBra de faliam , ta5 diilèrente como he em Titm- 
iem e taõbem. Mas ijto aveFÍguareaiOEn'oun:o lugar mais 
«pportuno. ■ 1 ■ : ■ .: :. 

, Nefte ado occorre também o que naÕ poucas .vazes 

fe 



zedbyGoOglC 



fi Mbhoiia» 

fe acha nos efcrícos defte Poeta » iãx) he , a frafe iiitil , 
que pela fórma da conftrucç^fi une ii'uin mefino fio or 
extremos de diferentes prapofiçôes : o que ferve muitas 
vezes á agudeza e delicadeza da locufaó , e he aflas Trá- 
gico como quando o R.eÍ.diz: 

Tua. morte m'ejla5 outras muitas vid*t 

Pedinda com clamores, 
O que em frafe folta feria : Outros muitos , que naS po- 
dem confervar as fuás vidas > viveado tu , me ejlaõ pe- 
dindo a tua morte &c. 

Semelhante he no Aâo 3.° o que diz Caftro : 

■ ■ ■ ■- — ejia noite 

Perdia ejles enganos -xom a vida. 
Tal he a forma de frafe » que fe ufa nos Enthjmeinas , 
como y 

• - ■■' — Se />w Jimor me matas , 

Que farás ao. imiga.}. Jmey teu filho , 

NaÕ o matey : amor amor merece, 
O vulgo diz : Amar, com amor fe pagã ; mae aqui ve- 
mos , como a mudança da fnife vulgar pôde dar huma 
apparente novidade , . e gravidade a huni peafamento , Sc 
elle em fi mefino he folido ^ como no ultimo verfo ^ 
Amar amor merece. A lim[^«f mudança do geral ao par- 
ticular bafta para eximir a ezpreífad da nota de baixe- 
za , ou trivialidade , como quando a mefma Caftro diz: 

Pagueilhe aquelle amor com outro amor. 
Agora Cs quizermos admirar hum quadro da mais emi- 
nente arte , e o mais pathetíco ,. que fe podéra imagi- 
nar, iie a ultima prática^ que a ioreliz faz ao Rei, aca- 
bando . de ouvir a Coelho : 

_— , pgis fé mouro , 

Ouveme , Rsi Senhor : ouve primeiro 

A derradeira voz âeft^abna trifle,. 
Eftes dois balanços arrgmcçaò o feu cora^aã com gran- 
de Ímpeto. : ouve-me ,, ouve. O derradeiro verfo imiw a 
grolTa onda, que defpeuhaodo-fe vai quebrar ff^we a 
praia. 

O 



zedbyGoOglC 



DE LiTTEB ATO» A POR^UGUEZ A. St' 

■ O' Rei ihe pergunta. Que nu queres í A refpófta di- 
reâa pedia : iííaõ me mates , Senhor , que morr.9 irnts- 
ceaí>e. Mais artificíofo era : Plis bem JaSeis , e ^« vçt: 
quero. Mas a dor, a fítuaçatí « a linguagem Trágica re- 
quer coufa mais viva , mais forre , fendo juntamente na-, 
tural: Efert (natura ) animi metas , interprete Imgu^. 
Qtte te pojfo querer , que tu naS vejas ? 
PergUHtate a ti mefino , a que me faací : 
A eaufa ,, que te move a tal rigor : 
Dúu tua confciencia em minha prova. 
Que grande maíTa de idéas em termos .ta6 concífos ! tal 
he a força do eftylo Lacónico. £ bem fabido he , <}ue 
eíta energia durarei junta á gradaçaã das idéaa cxn qua- 
dros femelhaiites naâ he huma fublimidade píTageira , cor 
mo o claraã de hum relâmpago j mas gera numa charana 
viva, que fe atêa de hum a outro lado ; em, tudo pren- 
de -y a tudo fe còmmunica. Efta he a fublimidade conf- 
tante do eftylo Trágico , qual fe vé Jiefte lugar. Tudo 
▼ai conduzindo inleonvel mente á maior força dos alFe- 
Aos y que faô na Tragedia o centro da fublimidade. 

Qac maior ternura íe podia exprimir na ultima. def- 
pedida aos filhos! i,'. Apoftçofe : 

Èay. meus filhos ! 

Chorày , pedi jufli^a aos altos Ceos ; 
Pedi mifericordia a vojffo avo 
Contra vás taõ cruel , meus innecentes^ ■ 
Ficareis c4 fim mim , fem vejfo pay , 
C^ laÕ poãerá vervos Jem me ver 
:■ Ahraçay-me , meus jUhos , ahraçaywe, 
Defpeàivos dos peitos y que mammajles : j 

EJles fós foraÕ fempre : já vos deixaõ. - ■ 

As línguas tem fua delicadeza em apartar certoi to- 
cabulos y que facrificaó 4 modfiílía j mas efta delicadeza ^ 
quando thes vem da mera opíniaÕ ou da fantalia nacior 
nat nao he fempre admittida. A dor tem os olhos mui 
limples i naõ fe lhe faria aqui grande reverencia em lhe 
transfigurar aquella expreíTaÕ Afawwtf/íf í : « circumftancias 
Tom. F. H da 



Cg.lzccbyCoOglC 



5*4 Memokias 

da perlbnagem , do efpeAaculo &c. reclamai a finiples 

npreíTaÕ da natureza : os véos das perifrafes Ía6 em 
nes occafiães mais extravagantes , que decentes. 

Que ternura outra réz reveftida de feotimentoa lie- 
roicos ! Apoftrbfe 2.» 
■" Ablvejote, Senhor morrer per mim. 

Meu Senhor, jã que eu morro ^ vivt tu, 

IJio te peço e ro^o : vive , vive. 

ReUa o ultimo ponto o mais delicado > porque he o 
mais perigofo de paíTar no patherico; rem a fer as ul- 
timas vozes do coraçaã laftimado. A ultima fetta ou ha 
de traípaíTar o adverlarío ^ e deixallo proftrado , ou fe fc 
errou o tiro , elle çonvatefce , e tudo foi fruftrado : ^jf- 
biljacihtts , qaam lacrymas inarefcere. Como acabará 
Caítro hum tal difcurfo ? Eis-a-hi levanta a ília voz en- 
fraquecida : 

— ■ — '■ Rey Senhor t 

Pois podes foccorrer a tantos males > 

Soccorreme ., perdoame '. 

Lá vai o ultimo golpe , que deve decidir a fua fortuna í 

: — — — : Naõ pojfo 

Fallar mais. NaÕ me mates , naõ me mates , 

Senhor , naõ to mereço^ 
Que coufa maís ftmplet ! e com tudo que coufa mais pa- 
tJietica ! Para ifto he que pedira a attençaò : ifto o que 
ella no principio chamava ; A derradeira voz defia ahna 
trijie. Ouvido tfto , o cfpeílador , que fe inierefla por 
Caftro, interpreta fevoravel mente o coraça6 de Âffbnfo, 
previne o feu alTombro , e antes que elle pronuncie , ca- 
da hum fe acha dizendo em fi mefmo: Oh mu&er for- 
te vencefie-me. 

' Nó eft^Io da Tragedia , onde mais domina a raza6, 
que o fentimento , entra o eft/Io da Eloquência , mais 
que o da Poeíia ; e difto he perfeito modêllo a fcena fe- 
guinte nos difcurfos de Pacheco e Coelho , onde tudo 
parece- natural como dialogo ou-imitaça6 de pelToas, que 
íalJa6; nada ha oue cheire a Declamação , ou defcubrat 

-. . . OÍM- 



Dgilizc(;byCAH)l^lc 



1)B LlTTERATORA PoUTUGUEZA. jf 

D Poeta. Naõ menos o gofto .interno , que as luzes de 
Ferreira lhe deviaô ter perfuadido , que taô depreílà ceflà 
a illufaõ do efpedaculo , quanto que apparece no Poeta 
a intento de £azer illufaò. Mas duas coufas ha nefta fce- 
na de raaior confíderaçaã em ordem ao eítylo Trágico , 
e que moílraô > que Ferreira tinha no feu eípirito as leis 
do bom gollo antes de ninguém as publicar. Â i.' he 
aquella parte da fcena , onde fe apertaã fortemente as 
razões, e ha huma inftancia viva entre o Rei, e os Çon- 
feiheiros , qual convinha. a augmentar o interelíe da acçatí, 
e cerrar o nó da Fabula. Coelho chega a dizer : 

NaÕ fe confinte ao Rey peccar em nada. 
O Rei lhe torna ; Sou bomem^ 
CoeliíO replica : Porém Rey. 

Todo p mundo intelligente conhecerá fem dependen* 
cia de recommendações a loberania , e Aiblimidade deftes 
fentiinentos. Só alguns homens de goíto eítragado defe- 
jariaõ aqui a pompa de palavras, que em taes occafiões 
íò ferve de desfigurar a natureza , quando huma fò ex- 
prej&6 liquida > que os pinta , lhes bailava , poílo qus 
ella foífe aHás fimples. 

C^e coufa mUs fem imagem , que o dizer , Sou èo^ 
mem } e com tudo nada nos podia reprefentar ta6 viva- 
mente a inxagem da clemência de D. Aâbnfo } como tam- 
bém nada raõ vivainente a imagem da crueldade de Pa- 
checo , como aqueiie Porém Rey j referidos os ditos á fi- 
tuaçaô das pefloas ; nefta idéa fe conformaô o Ferreira , 
e o Camões, porque efte. no Canto III. refere; . 

TraziaÕna os horríficos algozes 

Ante o Rey já movido d piedade -^ 
í , Mas o povo com f alfas e ferozes 

KazÕes d morte crua o perfuaâe. 
À outra coufa que dá a conhecer o goflo fólido defte 
Poeta , he a Recapitulaçaã que fivz Coelho , o que fò 
nefte lugar emprega o Poeta., fegjindo as obfervações da 
Crítica ; fendo hoje fabido , que taes RecapitulacÓes na6 
podem legitimamente feradmittidasi^ feaaã iias - Delíbera- 
-«.. " ' ' H ii jfiea 



zedbyGoOglC 



S6 Memobias 

çôes pi^iticas , quando os Authores efta6 fenhores de fi , 
Qomo nefla fcena , onde , como fe vé > domina mais o 
wçiocinio , aue a paixati : 

aás vida a teu filhe , falvadií alma » 

Pacificas teu Reym , a ti figuras. 

Keftituesms honra , paz , âejcençt- . 

Defirues a traidores ; cortas quanta 

Sobre ti^ e teu netofe tecia à^c. 

JSie K 

Se no Aílo 3." vimos a alma de Caftro nos movi- 
mentos da maior condernaçaâ , agora o Aifto 5.° nos re- 
prefenta a alma de D. Pedro revolvendo-fe na maior vio- 
lência da dor , como huma roda de logo íbbre o feu ei- 
xo com. a mais rápida accelerajaô, de maneira que fe 
B^algum momento quebra hum pouco a fua força , de 
repente íe- facode com vibrajáes fortiíiimas. 

Para. efte fim o Poeta fuppoem o Principe » mais qite 
nunca occupado todo da objedo dos feus difvellos y e 
faboreando-fe nos mais lifongeiros pentãmentos da fua 
felicidade , ifto he , para que feja mais leniivela Catalh-ofe. 
L O delírio da fua alma. le pinta com x fublimidadff 
daquella iicçaó taÕ natural em eftylo Trágico : 

Outra Ceo , outro Sol me parece tfie- 

Diferente daquelk , que id deixa 

Donde parti , mais clara e mais jtrmofo^ 



Tuda alli he taí clara, que té a noite 
Me parece mais dia , que ejhe dia. 
ZI. A imaginarão vaguéa a ícu prazer pelas imagens 
mais agradáveis : 

A terra alli s'ahgra e reverdece ^c 

O Ceo fi ri f e fe doura dijferente 

Do que nefte Orizoate fe me moftra.. 

O foberbo Mondego com tal vifia 

fís-ece que ao gram. mar vay fazer guerra^ 

Pto- 



zedbyGoOglC 



DE LlTTERATUBA PoFTUaUEzA. 57 

lU. Prometre-fe longa vida : donde o efpeíUdor ta- 
citamente agoura á próxima Catallrofe : 

■ — ■ viveremos 

Muitos annas e miiitffs: viveremos &c. 

Raynha te verey dejie meu Reyno Í3'c. 

Nefta fituagati qaaes feraò 06 íentimentos de D. Pe- 
dro ao ouvir, mie Caftro he morta? Tudo o que ha de 
mais forte do eíljlo puthetico , como fe vê defta curta 
analyfe : 

I. Na fua aima repentinamente fe accende hum vul- 
cão formidável , e faem da primeira eruppâ exclama- 
ções de pafmo , e de incerteza : 

Q Deos ! ó Ceos ! Que contas ^Q^f me dizes ? 
Eis-qtie a defcrip^aò » que faz o mellagéiro da morte de 
Caftro , curta e viva , minlftra pafto para maior ioceadio : 
a alma o fermenta. 

II. Solta-£e a defefpera^aâ , . vacillando o entendi- 
mento : 

Que- ãirey ? que farey ? que tlamarey ? 

III. A dor e efpanto refleAindo fobre o objcíto da 
âudade : 

<y fortuna \ O* erue&a ! O' mal tamanha 
P^ miféa "Dma Igaez ! O* alma minha ! 
Morta m*es t» , 

IV. Nova defefpo^jaõ mais a<ítiva com ín)precft< 
$6es : 

i ouçoo e viva ? ^ 

Eu vivo e tu es morta ! , 

E na5 me veja morto i Mra-fe a terra : 
Sorvame n^um momento : rompas^alma , 
Aparte-fe ãe hum corpo- taõ pezado. 

V. Ternura , e íaudade com a memoria da Aia ama- 
da , que a imagínaça6 lhe eftá retratando : 

Ah minha Doua Ignez 

Matàramte í matdramte ? ..... 
VL Ind^açad contra o F<ii , e contra os matadores 
por apoftrofe -. . . 

■ ■ -. . G>' 



.|,lzc.byCA>Oglc 



^ MSMOUIAS 

- Como tal cenfeittijie Rfy cruel ? 
Imiga meu , naS pay ; tmi^t nuu ! 

O' LtSes àrawt I 

C Tygres ! O* ferpentes ! 

Vn. vingança com imprecaçdes: 
.. ■ . — — . — (y Ce»s j que viftet 
Tamanha crueldade , ctmo hgo 
NaS cahiJlesA O' moiftes d» Caimbrx 
Como naS fovertejles taes Minifiros ! 

- Com^ naõ treme a terra , e s'abre toèU ! 
Dobratí-fe outra vezos movimentos defta,roda viva, mas 
com variedade, quando o meílageiro lhe lembra as hon- 
ras fiineraes ; principiando pela dor: Trijies honras ! el- 
le mefmo fe retrata o cadáver defuniílo; ana lufando a 
iiia antiga belleza , e conclue com en:lanM{6es da maior 
ternura : 

Já mr naS ouves ? jd te naS ey de ver f 

Já te naâ pojfo achar em toda a terra ? : 

O Poeta Épico com differente lamemaçafi dirá : 
Âs filhas do Mondego a morte e/cura , 
Longo tempo ehoranth memordram. Cant. III. Eft. 13;. 

hum Trágico diz : 

Chorem meu mal commigo quantos itCouvem. 

r- E tu Coimbra 

Cobreie de trijleza para fempre, 

— ^ emfangue 

_ Se converta àquella agoa. do Mondego. 

Levantada a fummo ponto a dor , defcaoça finalmente fo- 

bre a ira , e vingança^ e ameaças contra os matadores , 

contra o pai : 

: ou tu me mataí^ 

■ . Ou fuge de minhUra j que jd agora 
Te naõ conhecia por pay. Imigo 
Me chamo teu : imigo teu me chama : 
Naff rtíes pay : na6 fou filho : imigo fou^ 

Aqui quereriao os idolatias das Mufas antigas, que-ex- 

claraaíTeraos : Ah bom Ferreira, que chéo. citava- o. teji 



Dgilizc(;byCAH)l^lc 



DE LiTTEIC ATtTR A PORTUGWEIA. f^ 

peito do enthu&afmo daquella bella fcena do Édipo de 
Sofocles ! Mas os que ella& livres defta fupeiAiçatí ,LÍtte- 
raria, hoje crém e profeflaâ , que a imitação dos anti- 
gos nutre fó hum tal enthufíafmo, mas naÕ o pôde dar: 
os ânimos ãegmattcos prefumem , que o imitaS quando 
ió o raílejaõ : como fe folTe mais verdadeira', que fabu- 
loíà a Metempfycofe de Pithágoras. 

Tendo fallado do eftylo lírico do nolTo Poeta nas 
fuás Odes , defnecelTario he fallar aqui feparadameote dos 
Cdros deQa Tragedia, onde fe delcobre quanto ha de 
bello , de grande , c fublime nos mais perfeitos modéUóa 
da antiguidade oelta parte da PoeUa Ljrrica ou Trágica* 

§ IV. . 

Da verjijicafaõ defle Drama. 

Huma das couíiis , que nos moftrafi quanto Ferreira 
era fupertor ao feu feculo> e ás mefmas opiniões rec&t 
bidas , foi a Dobre liberdade « e ao mefmo tempo pruden* 
te moderação , com que delias fe- apartava , fem fe em- 
baraçar com o commum fequito. O que fe vío partku-' 
lanneate em duas coufas : i.' em, declarar o feu zelo pa- 
ra o augmento da Lingua patría em tal tempo , que os 
engenhos mais brilhantes mais prezavaÕ o poetar nas lín- 
guas eítrangeiras, que na materna: a ^.'^ em fer o pri- 
meiro em Portugal , que introduzío o verfo folto , õ que 
fó TrilHno poucos annos antes ãzera em Italía. Hum e 
outro abandonou o jugo das Rimas , que vulgarmente 
iè chamaÕ confaantes , no que Ferreira le moíírou na€ 
fd Poeta infigne , mas FUoíofo illuílrado , e dado. para 
illuílrar o leu Século , e a fua Naçaâ. , - . 

Elle foi o primeiro entre nós > que levantou a voz 

Íiara nos defãbuíar da errada. idéa, que conunummente 
is fazia da Rima, ou coufoante na verlifícaçaõ vulgar^ 
de^raodo-DOs enérgica , e elegantemente os léus inconve- 
alentes, como, ie yé da caita X, do livro JI* y 

O' 

Dg,l,zcJbyC00glC 



tfo Mbhosias 

o* doce Rima ! mas inda ata e dana 

lada do ver/o a liberdade eftreita , 

Em quanto c^o fom leve o Juizo engana. 
ÉaÔ foi a cotíjinancia fempre eeceita 

Tam repetida , ajjitn como a doçura 

Continua a appctttte cbêo engeita. 

Mas fúfframola em quanto éuma iigura 
■ líJaS vemos , que mais viva reprefente 

Daquella Mufa antiga a boa feitura. 

Quanto a fervidaõ da Rima prejudique á energia, e 
ainda á verdadeira elegância mil vezes fe tem dito > a ca- 
da paíTo Te eftá experimentando , e com tudo a preoccu- 
paçaó dura , ç nada bafta para a deftruir. Tanto pôde o 
couume ! £ efte fe ateou deídeos tempos barbares, com 
tal força , e prevalece como fe fe tivera convertido em 
natureza. Alguns Filoíòfos tem havido tafi encantados 
com a belleza fantafiica dos Confoantes Rythmicos , que 
até para os canonizarem, na Poefia vulgar, tentaráfi mil di- 
ligencias vanG para lhes acharem huma origem fagrada; 
e entendéraC , que tinhaõ defcuberto huma mina prodi- 

Í;iofa no encontro fortuito de algumas timas, ou clau- 
iilas Rythmicas, que apparecem aqui ou alli na Poeíia 
dos Hebreos , donde afoitamente concluem , que os He- 
breosj como quali todos os povos do mundo , exceptuan- 
do os Latinos , e os Gregos , na6 podiafi ter outra Poe- 
£a j fenaÕ limplcs, que confte de Rimas, {a) 

Semelhantemente poderamos argumentar aos devotos 
do verfo rimado , que na Poeíia Grega , e Latina fe achaâ 
as boas Rimas : pois que algumas vezes uibu Homero de 
verfos , que acabaÕ em vozes confoantes , ou Omoioteku- 
tãi como obfervou Plutarco , apontando exemplos \ e bem 
me lembra ter achado alguns nos Poetas Latinos j e fé 
a lei do coítume Gothico na6 tiveife obrigado os noíTos 
Poetas a rimar todos os verfos de hum Poema, quan- 
tos verfos rimados naõ acharíamos hoje por entre os 

. ; — — ^-^ 

(tf) Lamy Rhtiw. Via. XIL cap. Ut^pag. 17}. 

ver- 

DigitizedbyGoOglC 



DE Littebatvha Poutvoueza- 6i 
verfos foltos , que eíTes Poetas ínadrertiddmente deixarialí 
correr , e fem petiíàr em Rimas ? 

Oppoem-fe a eftes Crítico? vários Salmos , e Cân- 
ticos, onde por mais que íe cancem, nati poderátí mof- 
trar nem fombra de Rimas , e com tudo íaõ Poelia li- 
quida e ÍDteira , como o que Poeíia hc. Até agora naÒ fei , 
que fahida llie da6 ; fá lei , que erafi obrigados a con- 
fcíTar, que taes veifos deviafi conftar de mui diíFerenie 
medida , que os curiolos bufcaò a ap2lpar , fahindo ti6 
ignorantes na matéria, como entrarão. 

A eftas Rimas Eícriturarias , que da6 por coufa ave- 
riguada , nada favorece a refpeitavel authoridade de Jo- 
íé FJavio, nafcido no cora^afi de Je ru falem , querido, 
éftimado , e confultado como oráculo dos mefmoG Pon- 
tiãces da Synagoga , e o maior ornamento- da Seita dofi 
Farizeos , que vivia , e efcrevia no tempo de Vefpalia- 
no : a de. Filo Judeo de Alexandria , que vivia no tem- 
po de Caligula , cujos efcrítos íóraó fingutarmente efti- 
mados do Senado Romano : a do grande S. Jeronymo , 
que paílà fem conteftaçad por hum Eicriíor do Século 
iV. o mais intelligente na Língua Hebraica , e mais vaf- 
to em erudiçaâ varia. Todos eftes decidem , que a Poe- 
Ra Hebraica tinha fua medida de pés, como a Poefia 
Grega. 

Porém feja o que fór , os reftauradores da Rima 
facilmente fe tiraó de cuidados, dizendo, que naõ fe 
fabe , fe eftes Authores examinarão capafmente a medi- 
da defta Poefía ^ que ha quem fufpeíte , que Filo e Jo- 
fé naã fabíaô muito bem o Hcbreo , e que pôde fer , 
que S- Jeronymo fe fiaífe neftes Authores fem mais fun- 
oameoto , que o que toma da fua authoridade. 

Sem embargo difto conccdem-nos os Críticos Fran- 
cezes, que natí he neceflario concluir fempre o verfo ein 
confoante^ para lhe dar a cadencia, e carafter de verfo; 
Do que ( dizem elles ) temos exemplos nas Línguas Hef- 
panholas , Italiana , e Ingleza , nas quaes fe fazem bons 
verfos fem Rimas. JulgaÓ por bem fundada a íiia opi- 
Xem, F. I niaõ , 

Cg.lzccbyCoOglC 



6i .' M £'M o B I A S 

nuô, obferrando que a fua língua tem rarios inconTC^ 
pientes , que a fazem incompatível com a harmonia do 
verlb , e que aquelloutras tem muitas dirpoíiçães fa'vora- 
veis á Poefia , de íorte que fem o fragU auxiJio das Ri'' 
mns poUàmos ter muitos verfos bons , e harmoniofos. O 
que dizem da Hefpaniiola entendem da Jioíla , que na 
Hefpanhola incluem pela raza6 da TÍzinhança , e de mui- 
tas femelhanps. 

MaS' fuppofto ido , que díráó , ou que entenderá6 dos 
nolTos , que íem neceílidade , e fá peta gloria inlignitt- 
cante de fazer verfos Portuguezes á Franceza , fazem Poe- 
mas inteiros em rimas feguidas , o que fó até agora fe cof-' 
tuma nas Eftaacias maiores para variar o jogo, ou def- 
tribiiifad dos confoantes , e diltinguir a claufuía da £f- 
tancia ? Verdadeiramente a maior parte deftas leís meca~ 
nicas da verfificaçaã vulgar, nad fendo fundadas em cou- 
ia eíTencial á Poefia, naõ faõ fenaó meras difficuldades > 
inventadas para fubftituir hutna fombra de Poefia á Poe^ 
{\2i real. Com tudo eu conlidero entre outras huma gran- 
de utilnjade naquelle jogo de Rimas emparelhadas > como 
ufaô os Francezes , e ne que a Poefia das coufas , ou Poe- 
fia eífencial fica mais livre das pensâes de epitlietos lan- 
guidos , e inúteis, de circum locuções vans, e addicçtíes 
impertinentes , que tantas vezes piejudícaÕ a força , ener- 
gia , fublimidade , e até muitas vezes a harmonia fun- 
damental do verfo , quando o Poeta fe obriga a Terce-^ 
tos , Quartetos , Oitavas &c. 

Mas naõ haverá quem oaó conheça a verdade ou ver- 
dades , que o noíTo Ferreira doutamente encerra a refpei- 
to da Rima cin geral , quando diz , que eHa c'b fmn h' 
ve o juiíío engana ^ nem pôde fufpeitar nefta matéria a 
decifad de hum homem , que fallava com luzes de Fi- 
Jofofo , e experiência de Poeta. Por iflb noe deo a fii» 
Caílro em verfo folto , como quem fabia , que em affum- 
pto ta6 nobre e elevado , e em Dialogo Dramático naã 
Jia coufa mais contrária ao natural , nem mais ridícula , 
do que a miferavel affeflaça6 das cpoionancias ijúinácas 

4o 



zedbyCoOglC 



DB LlTT&KATVRA Po KTV G V BZ A. S^ 

do Tcrfo, ainda quando na6 concorreíTein os eoftutnados 
inconvenientes. Que homem de juizo fofireria hoje Caf- 
tro afflitfla , aterrada , confternada y gemendo , fufpiran- 
do , exclamando , íuppHcando ao Rei perdaO em confoan- 
tes ? Onde eftava a verdade da expreílaõ , que a Foelia 
imita da natureza nos affeAos verdadeiros, fe D. Pedro 
exprimifle a lua dor , a iua defefperaçaã , e a fua ira 
em verfos rimados ? Onde eftara o decoro da locoçaã 
Poética , fe fe na6 permitte ao Poeta no t&jla Dra^ 
matico coufa alguma , que fenriyelmente inculque por 
Poetas 03 interlocutores í 

, CAPITULO IIL 

Exame de ejlylo Heróica Épico ás nejfo infigne Luim 
de Camães. 

OUTRA efpecie de locuçaâ heróica mui differenté da 
Trágica , he a que os Poetas emprega6 na Narra- 
Saâ Épica. Nos outros géneros de Poeíia o eAylo Poé- 
tico he mais ou monos coardlado , conforme já declara- 
mos, fegundo o género do Poema , e o género do af* 
fumpto : no Poema Épico o eftylo Poético apparece em 
toda a fua extenfaõ , e com todas as difierenças , que 
o podem ctra<^erizar. Mas carecendo nós de tantas van? 
tagens', que fe acha6 nas linguas antigas, temos por 
ventura hum eftylo verdadeiramente poético, e tal co*' 
mo .0 requer a grandeza de hum Poema Épico? Para 
£ôluçi6 defte problema baíb a analyfe das bellezas de 
Gamtíes nos feus Lufiados. O que fea ( diz hum Filo- 
íofo de grande nome ■) o que fez Homero , Virgilio ^ 
Horácio fuperiores aos outros Efcritores , foi a expref- 
faõ, e as imagens. (<i) Outro tanto podemos nós dizer 
tío grande Camões. 



(a) Mr. de U Bruyere Charsâeres, ou Mceurs &:. cbap. }. 
Des (Suvrages áp VMfút. T.oni..i.^ 

DigitizedbyCoOglc 



lii 



64 Memorias 

A grandeza e excellencú do feu tâjlo moftr^ á 
vifta de todo o homem intelligente t <\^^ 3s jiregulari' 
dades do feu Poema y parte bem, parte mal cenfuradas ^ 
tanto dos noíTos , como dos Críticos eítrangeiros , com- 
mummente fóraô mais defeitos do feu iéculo, (jue do ta- 
lento do Poeta ; e o titulo eftrondofo de Príncipe àae 
Poetas de Hejpanba naS merece hoje efpanto, fenaõ de 
ter naicido da admiração cega de huns Juizes incompe- 
tentes } nem pôde parecer extravagante , achando-fe alTás 
authorizado pela voz univeríal dos Críticos de todas as 
ua^Ôes polidas. 

£ com efieico fe examinarmos , livres de paixají , qual 
feja a caufa porque o Poema dos Lufiados > a pelar da 
AcçaÕ abfurda , e da falfa admirabilidade y a pefar de mui- 
x^ ínveroíimílbancas , e ( o que he o maior defeito def- 
te Poema ) a pelar da pouca connexatí das partes , com 
tudo elle encanta , e o Poeta he admirado de todos 
08 bons Críticos ; fe examinarmos , digo , a cau& dif- 
to , acharemos , que tudo procede do admirarei arti- 
ficio de eftjflo, de huma exprclTaÕ de imaginação TÍva, 
forte y florida y fecunda , que he o eíTencial do que íe 
chama Poejia de ejiyh ; artiiicio , que he todo de Ca- 
mSes , e que elle naã deveo ao Talfb , que ainda naó 
tinha publicado a lua Jerufalém Liberata , quando em 
Portugal já fe lia o Poema dos LuHados ; (a) nem a 
Tri/fmo , que obfervando na fua Itália Liberata a maior 
regularidade do plano , he languido na PoeUa de eftjlo; 
nem aos Poetas Francezes daquçlle tempo i pois que (co- 
mo o confciraã os mefoios nacionaes ) ainda no fim do 
reinado de Luiz XIII. A trombeta heróica dava por to-^ 
da a França fons mui afperos, e mui roucos. (^) 

(a) TafTo dizia em Ronoa, qoe naõ tinha medo a nenhum 
Poeta , fenaõ a Camões ; e naõ na rjzaõ para crer que efte me- 
do naõ fode laõ fincera y como bem fundado , principalmente 
a rerpciíQ da PoeGa de eftylo. 

{b) E*cgle de U LtneiaiHic cbap. 2. anic. 4* 

NeP- 



zedbyGoOglC 



BBLlTTSJlATliaAPoilTUOPEZA. 6^ 

,:.: Ncfta Poeiia de, eftylo reina fem duvida o noíTo Vir- 
gílio Portuguez : efte he o forte do feu Poema , e o que 
merecidamente tem fuítentado a Aia fama pelo eipaço de 
duzentos annos a efia parte. No feu eílylo íe acbaÔ to* 
das as riquezas da noíTa língua , e fe defcobrem os fó- 
lidos meios de as podermos multiplicar. Do que pode- 
mos concluir , que de todos os noílbs Efcritores nenhum 
ha , a quem a Língua Portugueza feja mais devedora , 
do que a CamCesj e quando nella oaã tiveíTemos outrQ 
algum monumento , mais que os Luliadcs , efte fó bafia* 
ria para moftrar ás aaçòes cultas as bellezas, de que a 
Aoflà liflgua he capaz , como agora veremos. 

A R T I C U L O I. 

iMvçaS fymhtíca , oudo Jyjlema Poético. 

O ESTILO Poético tem feus elementos , huns próprios, 
que a linguagem commum naÕ admitte fenao com 
alguma difpenfa , outros communs , que a Poefia fe ap- 
propria y (undo-lhes varias modificações. Á primeira claf- 
íe pertencem as exprefsies , e frafei do fyftema ^oett- 
eoi ifto he, certas exprefstíes particulares, que fervem 
para reprefeatar as idéas communs , com variedade , no- 
vidade, e maravilha, formando imagens , ora vivas, ora 
engraçadas , ora terríveis &c. Defte modo a Mufa Épi- 
ca fem lâeftruir a linguagem dos humanos, fe appropría 
h uma linguagem extraordinária, e remota do uío huma- 
no. E ninguém já mais fez maior ufo defta forma de lo- 
cução , como o noífo Poeta : os feus Luiiados fa6 para 
os Poeus Portuguezes o melhor Dicçionarío , que felhes 
pôde aconíelhar. 

Marte por guerra , batalhas , he aífás frequente , co- 
jno : 



■ esforço i e arte 



Vemêraõ a ferfana , e o próprio Marte. Cant. X. 
Eft. 42. 

Se 



zedby Google 



6é MBMOBIA5 

Se em ti vijle abatido o bravo Mtrte^ Caat. X. ES. tU 
l^unca com Marte inJiraSío e furiofo 

Se vio ferver Leucate. Cant. lí Eft. yj. 
£ Vukam por fogo , como no Caac< IL Élt. 69. 

— nas maSs vai cabir do Lufitano 
Sem o rigor de Marte furiojò 

E Jèm a fúria horrenda d« Vulcano. . 
O5 jogos de Bellona faô as brjgas , d«ía£o8 , como no 
Cant. VIII. Eft. 17. 

o prefo J9s levdraS 

- Dos jogos de Bellona verdadeiros. 

Tèetis occorre multas vezei , quando ie ^lla da mar « 

como no Cant. IV. Eft. 49. 

Eis mil nadante4 aves pelo argento. 

Dafuriofa Tbeíis inquieta. 
Neptuno á cada paíTo defigna a. mefma idéa ■ como no 
Cant. II. Eft. 47. 

- Vereis . ^ ............<.... 

. - Tremer delk Neptuno ds modrojò. 
E ne Cant. I. Eft. y8i 

Da Lua os claros raios rutilavaS 

Pelas argênteas ondas Neptuninas. 
O Ceo na Linguagem Poética íe chama ora Polo, como 
no Cánt. II. Eft. loy. 

Em quanto apajceittar o largo Polo 

As ejlrellas. 
Ora he o Olympo , como no Cant. VI. Eft. 7. 

Do Olympo defce em fim defejperado. 
E no Cant. I. Eft. 42. 

Em quavto ijlo fe fãjfa na fenHoJa 

Gafa Etberea do Olympo Omnipotente : 
como em Virgílio : 

Panditur interea domus Omaipótetftis- Olympi. 
. Por inferno põem humas vezes Acheronte. Cant. L Eft> $i' 

— naõ no làrgò mar com leda fronte , 
Mas no lago entraremos ^AcberontCi 

Outras vezes pocm Cocytoi 

tau- 

DgitizedbyGOOglC 



DE LiTTEÍATVRA PoRíVGUEZA. iy 

■ tantas ahnas fó podejle 



-' Mandarão Reyna efcuro de Cocytó. Cant. III.Eft. 117. 
Outras vezes o lago Éftygio. 

A muitos mandão ver & EJlygio iãgo. Cant. IV. Eft* 40* 
O Sol he Pbaetm: 

A gente de còr era verdadeira 

Que Pbaetott nas terras accendidas 

Ao mundo deo Cant. 1. Eft. 4^. 

Outras vezes fe diz Phebo : 

Nijio Phebo nas aguas encerrou 

Oo carro de cryftal a claro dia. Cant. I. Eft, y6. 
^ra no temp» alegre , quando entrava 

No rouèador de Europa a lazpbehca. Cant. II. Eft. 71.- 
Otrtras vezes Apoílo : 

aquellas rtgiÕes , 

Por onde duas' vezes pajfa ApoUo. Canr. V. Eft. ly.^ 
^á o rayo ApoUineo vijitava 

Os montes ...,..., Cant. I. Elft. 84. 
Hymeneo jjor efpoforiõs : 

Do fegunâo HymeneQ naS fe dejpressa. Cant. IH^ 

Eft. 29. ; 

Na5'he neceflarío iaccumular' mais exemplos defta efpe^ 
cie de locuções.. Eftes baftad para moftrar, coroo ej]as> 
concorrem para foTmzr huma Linguagem Poética j e-pa- 
r^ coiíhecermos a ítngular iaduftria do Épico Forcuguez. 



' Reflexões fobre o vjh de femelkaatej: exprefsSes. 

Porém a inaior difiiculdadé he fidirc o efçrupulo de 
alguns Críticos modernos > a refpeito do ufo deftasex- 
prefeâes, que chamaó , gentiJicas. Digo fobre^as eipref- 
s^es ; porque em quanto aos faiAos , todos os Humanif- 
tais hoje convêm , qae a rntcrvençaõ das Divindades geU" 
tilicas , representando como ÀutWres-, ou invocadas cO" 
mo.cauías inâueotes .ias, ac^ães-hiiaianas,. ^ hum ab^ 
: ■ ; ' ' fur-i 



. byCoOglc 



£S Memobias 

furdo taã enorme, que apenas podia tolerar-fe no Iccn^ 
lo da erudição indigefta , pior > que a mefma iguoran- 
cia. 

Ido fuppoilò , digo i.", que naâ lie o mermo fazer 
os Deofes gentilicos Authores nSjm Poema , que uíar 
dos feus nomes , quando os pomos pelos nomes communs 
das coufas naturaes , fazendo precizad dos antigos myfte- 
rios da Religião paga, e os tomamos como &mp\Qs/y- 
noftymos dos termos mais conhecidos. Allim quando os 
antigos Poetas ufavaã defles nomes , como próprios , por 
ncceflidade , fazendo-os fervír ao fyllema da Religiaâ , 
conforme ás idéas populares , entatS ílgniScaratí as idéas^ 
que os homens tinhaõ ^ hoje para os que proívíTamos 
outros dogmas , feríaó inlignlficantes '■ e nati fo feria pc- 
danteria ufar delles, mas indigniíltmo abfurdo. Porém 
(guando os antigos ufava6 delles figurados , nós fem in- 
juria alguma , antes com beneplácito das Mufas os po- 
demos empregar, como fjrnonjrmos , e nada intereíTa , 
nem ao fenfo commum , nem á Religiaã , qtie fe diga 
Marte acefo , ou guerra acefa j Mareio jogo ^'q^ cxer- 
cicio de guerra Scc. • 

Digo 2.°, que os rocabulos efUti debaixo da juríí^ 
diçaã do ufo , e conrençad humana. Confeguintemente 
podem os homens adoptar qaaefquer termos de diverfos 

Íiaizes , ritos, e coftumes com fuás reftricçdes> ilto he, 
em lhes attribuir as idéas primitiras. E quantas vozes 
ha na Lingua Portugueza derivadas das Latinas , que per- 
derão as fignificajSes primitivas ? Quem diz apprebender 
em Portuguez no fcntido rigorofo de a^prehenáere do La- 
tim ? Quem entende a palavra penjar como os Latinos 
eiitendiaõ penfare &c. ? Aí&m la(S hojeaquelles vocábu- 
los , que fendo antigamente figurados , e tendo além da 
lignifícaçaã principal outra acceflbria , para nós na6 tem 
fenaÕ acceíPoria , e. naÓ fad mais que iiuns fynonjrmos , 
que a Poefia tem .confagrado ao lea ufo, para fupprir 
os termos communs. Apollo nada mais lignrlica na Poe- 
fia moderaa , do que hum planeta , qaando delíe & fat* 

la: 



Cgilzccby VjI.'».í'^I1. 



DE LlTTERATVKA POBTUGtTEIA. 69 

Ia: Mane oada mats fenaó guerra , e aflim. 01 demais ; 
de fórma que huma víz adoptados na Linguagem Poéti- 
ca , fafi íinaes taô arbitrários , como os outros, de que 
ufamos na linguagem ordinária , e feria delicade2a fupcr- 
Aíciofa rejeiraUos a titulo de decoro. 

Que perde a Poefia , diri alguém , em fe deixar a 
frívola belleza da nomenclatura pagã ? Eu na6 digo , quâ 
niflb confífta o eftylo Poético ; poraue em fim ninguém 
he Poeta fó pelas palavras: as idéas ne o principal. Mas 
o eftylo Poético he coufa de tal importância em Foeíia , 
que lem elle , o que he Poefia , naõ o feria. Ora o ef- 
tylo Poético no fupremo gráo , qual he o da Poefia Épi- 
ca , he hum aggregado ou collecça6 de todas as efpecies 
de modificações de locuçaâ , conducentes ao intento do 
Poeta , e fim que íe propõem : de fone que qualquer 
parte minima da locuçaÔ , que he indifferenie n*outro gfri 
nero de obras , pôde naS íer indiíFerente no eftylo Épi- 
co. 

Eítas exprefsães fymbolicas fad mais hum auilio d< 
que fe ajuda 3 Poefia vulgar: e quando menos bafta l.°, 
que ellas fejaÒ exprefsões armoniofas i 2° que como aa 
metáforas tenhaó hum fcntido differente, do fcntido pró- 
prio » que antigamente tinhaó na fabula ; ^.' que fejaá 
vozes feparadas do uíb vulgar j e tonfeguintemente ca* 
pazes deformar huma linguagem differente da lingua- 
gem prqfaica ; 4." que pelos accclTorios das idéas myfte- 
riofas da fabula cauíem hum duplicado deleite á imagi- 
níLÇiÔ dos eruditos. 

Bem íèi que eftas razíes na6 ferátí baftantes para con- 
vencer os devotos da opinia6 de Rollin , o qual , fe me 
na6 engano, nimiamente efcrupulofo, con^baitendo hum 
prejuizo com outro prejuízo , faz huma declamação tatf 
íbrte, como fe faria para combatter es Incrédulos ou ou- 
tra hereda. Diz pois efte iUoftre e domo Efcriíor fobre 
a. prefente queftao : (tf) Ewtrt ejlet dtis extremos de en* 

(a) Traitc dcs Etudes. Tom. i . Ur. 11. art. 4. 

Tm, r. K ten- 



Cg.lzccbyCoOglC 



70 MCMOltlAS ' 

tender por efiis nonies os falfos Deofes , ou o verda- 
deiro Ut:o.s , ha bum meio , que a fallar a terâade , 
naS he taõ irreltgiofo ; maj ( feja-me licito dizelh ) 
be abfalutamente fora de raz-aÕ , e eictravagante , que 
he o ttaÕ entender nada. Eíle meio de oue talU o Aa- 
ihor, ainda que expreíTatuente o natí declara y na6 pôde 
fer outro, fenaã 'o das palavras fymbolicas tomadas co- 
mo fynonyiQos dos nomes das coufas naiuraes : e nifto 
lie que eu aclio Roltin nimiamente efcrupuloro. Eíte 
-meio , que em todas as couías he racionarei , porque o 
naÔ fera nefta ? Porque naÕ ficáraõ livres aos twíTos Poe- 
tas eftes defpojos intiocentes das antigas Mufas ? Forque 
naó Terá concedida aos Poetas a melma licença que to- 
marão os Aflronomos , os quaes fem a pedirem aos Poe- 
tas , aa6 duvidarão collocar no fcu Ceo f/fico Jufiter , 
Vénus y Marte i Mercúrio &c. Mas que -digo eu dos 
Attronomos ? Se até os Oradores Evangélicos , naÕ ob- 
ílante a maior feveridade do feu augudo Mínilierio, naÕ 
ie difpeofaÕ de ufar algumas vezes deites termos , para 
cubrir com véo decente certas idéas ? £ com raza6 , por- 
que os Ídolos de Vénus , as lifonjas de Cupido &c. faÔ 
exprefsâes redondas , que muitas vezes dizem o que baf- 
la para a ínielligencia de huma verdade, que nao preci- 
fa de íe cftender muito , e a fentença abreviada dá hum 
golpe ligeiro e fundo.- 

Alargando hum pouco ncfta parte a opiniaã rigida 
dos efcrupulofos , naÕ queremos com tudo chegar a tan- 
to, como o noííb Cândido Luficauo, o qual refutando 
oa fua Arte Fuetica (a) com raztíes e authoridades , o 
abufo da introducçaÕ das divindades gentílicas , confun- 
de a matéria , acrefcentando , que fe pôde dizer fallando 
de huma guerra , que Marte accenderà os ânimos dos 
combatentes -f tratando de huma tempeftade, (\Mt Neptu- 
no agitard os mares , e Eolo foltard es ventos fariofos 
&:c. ; e iflo depois de ter louvado o Taifo de naô ter 

(a) Tora. 2. liv. III. cap. 4. 



Cg.lzccbyCoOglC 



DB LlTTERATVRA PoUTUfiUEZA. 7I 

iotroduzidú no feu Poema femelhantes divindades-, fenaó 
Anjos bons e máos , Magos &c. 

Nem taô pouco perrendemos efcufar o nolTo Poeta 
do abufo , que naquelle tempo era coinmum a todas as 
lUçâes y e que os feus pobres Commeutadores lhes def- 
culpaõ com a quimera das allegorias , que delle mefmo, 
aprenderão. Porque nunca nos perfuadiremos , que 

afanta providencia 

— em Júpiter aqui fe reprefenta. Cant. X. Eft. 8^« 
Nem lhe ferre de abono o que o mefmo Foeu faz di- 
zer as fuás divindades : 

eu y Saturno , e Jaao , 

Júpiter , Jaao f ornas fabahfosy 

Fingidos de mortal e cego engano. 

Sá para fazer verfos deleitojos 

Servimos Cant. X. Eft. 82. {d) 

Pois que fó para cabeias occas podem ler deleito&s os 
que Horácio chama : 

— Verfus inopes rerum , nugaque canora. 

Mas continuemos já as outras propiiedades do eítylo 
Poético de~ Camões. 



(d) Efla idéa de Camões podia contentar a SoUcau , o ^ual 
attribue lann vinude a cftas fabulas , coiro fe a Pocfia nunca 
podcfle fer Poelia fcm Ter pagã , dizendo: 

Sans tous eti omemens U vtrs tombe tn langutur , 
La foeÇu eji morte , cu r/tmpe fatis vi^utur : 
Le potte nefi plm, quun oratíur titntde, 
í^un fimd bijtorien d'une fablt infipide, Art. Poetiq. Cant. 
III. V- 189. 



Dg.lizcJbyCoOglC 



,71 MsMoaiAS^ 

A R T I C UL O II. 

Da i»HOV(iÇ0.S. 4ts palavraíf f primdt^mewte àat idiO' 

- mes, 

OUTSA coufa , que concorre roA popco para formar 
huma Ltneuagem Poética Iw a inaovaçtih das pa^ 
lavras y a qual fe faa de vários ntodos. O pnmeiro fe 
dá oas vozes conhaçidas e ufiiaec. A Lin^ Grcea ti- 
nha iiuma vantagem mui conGderavei para a Poena na 
variedade de dialectos , que os Poetas ppdiaÚ empregar 
na fua locuçaÔ , o que mararill)ofa[neiite enriqiucia, e 
variava o leu efty-lo, ufaodo dos tcroios cooimons com 
diverfas modifícaçòes , de maneira, que parecia5 novos; 
C aí&m .huma fó palavra fe convertia em nvukas. Tal 
rccurfo náô tirêraã os Latinos , ^ menos fe periBitte ho- 
je nas linguas modernas , e muito menos na Pranceza , 
cujos fábios y mas fevéros legisladores teimaã em nalí que- 
reram conceder ao feifs Poetas o piivilegio, quetirihaõ 
os Gregos de allongar ou abreviar as paUvt^s. (a) Mas 
feja o que fôr dos Poetas Francezes , o noíTo Çamíícs 
nus abrio Caminho, paia que podelTemos milhor ornar 
a FoBÍta Portuguesa, imitandOfO com a moderaçad- e cir- 
cunfpecçaô devida nefta efpecie de innovaçad de pala- 
vras , que confifte n'algijma aova configuração dg! vozef 
conhecidas y conforme a analogia , mas diffeientí; do ufo, 
que nefta parte cede das fuás rígidas IçÍSj paia ççnfer- 
var falvos os privilégios das l^ufas. 

Com efta refalva paífa louvavelmente no eftylo do 
íioífo Épico i." a liberdade, de fupprir numero fingu- 
lar aos nomes que fó tem plural , como treva por tre- 
vas: Cant. II. Gil. 64. 



(i3) Mr. Kacine Dífcoars fur le Poeme Efi<]uc no fim da fua 
.^Triducçaó de Milton, pag. jjjz. 

Acer- 



DE LlTTB»A.TUIlA PoRTUGUEZA. 73 

Jctrda , e vé ferida a efinra treva 

De èunta ful/ita Iiai ......... 

E no Caat. V. Eft. ^ 

Mas teg» ao &utro dia Jtnr fareèrns 

.Toàos nús ^ e da cÂr da ejcura treva. 
O mefmo no Canr. IX. Eft. ly. 

O* ^tajà J0rican9 , que a ehmtntia 

Diviíta affi tirou da tfiura treva. ' 
■ . a°. Mudar a. termiiia$a6 paiticalar de aígunt nomos 
na terminaçatí mais cominum; como FiKppv anPilippg, 
Canc L £&. 75^ Aitxandze em Jlexandra. Càau X. 
Eft. is6, 

líd Jòrtjt , i^ j/Htxanérv em vés fe veja* 
Ríídt dizemos- aòs boje nlaxoA íá fórais para ambos o& 

£LB«ras -f «m. Camúes hò doM formas do nome , Rudo > 
uda , Giniio> Rude martubtér». Cant. IL Eft; 35. Rudos 
féár lefiadãs. Cante. X. ^EOl 78^ Efts era o uft) daquel- 
le tempo , oatí fó na locução éos Poeias^, mas tambsm 
dos. Qttlroa Efcritores; pele qse naA créo , que nifto hou- 
TelTs aríificio Poctico-: mas nafi hs diívida, que aos Poe- 
tas modernos fera Ur» ad^ar , quando quizercm ^ o ad- 
jtâtvQ de duas fórmas ao ufb somgo-i como adiante vfr- 
remos. 

-. O meímo fe dsré eatcnder- do antigo idkuna nos 
VQrboB , cuja vogal figurativa do prefente na6 fe mud»- 
V4 antigameme , e por iíTo temos uo' Cam. X. Eít. 7Ò* 

Siguorme jmnuy tjmte cmn prudência. 
E no Cant. 11. Eft. 61. 

■ /agr , Jvge^ Lttfitam 

E Bju Cant. III, Eft. 105. 

— r.— ' — —^ -^ — »~ < — oívde crdn . 

Jí rmfmtandk gente de. €a/iella .... 

Açude e corre pay 

Allim conju^avad aníi^DjçnEe outros v:etboa feirelhanKs ^ 
como Conjumoy cenfúmes &c. Dejirao-, íiry?r«« ácc. cu- 
j^a vqgjij- fíguTaiivA; fe muciou em- Ò , como íe íabe. 

A efta claffe pertence 3." o »ií^» as patavrasy 

ajuil- 



zedbyGoOglC 



74 MlMORIAS 

ajunta ndo-Ihes algumas fyllabas , como Joanne por Joa($, 
Caot. IV. Eft< IZ' e ^^..Sonorefo por fonoro. 

Com fonorofo aplaujh vozes davaS. Cant. X. £fl. 7^* 
Sonorofas trombetaí incitavãS 
Os ânimos alegres rejònanda. Cant. II. Eft. 100. 
Fugace por fugaz : 

Jqm a fugace lebre fe levanta. Cant. IX. Eft. 65, 
No mermo Poeta achamos também Feiice , que alguns 
afleAadamente uíà6 em profa , pofto que o plural admit- 
te, por ufo felices e jilizes. 

G também 4." o abreviar as vecabMÍos , quando ow 
a neceflidade do metro, ou a melodia o pede. Vulgar 
he no noflb Poeta ejprito , ou Jprito , por efpirito , con- 
fino por contínuo. E no Cant. X. Eít. 41. temos perlas 
por perglas j noãa por nódoa no Cant. lU. Eft. 17. Br»' 
fio. Cant. III. Eft. lo. a modo do Latim por Prujia , ou 
Prufiano, como em Virgílio Sicbaus em lugar de Sichar- 
bas y e outras femelhantes. 

Elta efpecie de mudanças nas paUrras, he o que cha- 
mamos Idiomas , fuppondo que o que na profa feria 
barbarifmo , na Poeua , e principalmente Épica , ou he 
defcuipado pela neceifidade, ou aprovado por milho- 
ria. (<j) 

Racine naã faria grande cafo deftes artificios do nof- 
fo Poeta, pois que nem o Tafib approva por femelhante 
principio , accreicentando , que efte Poeta logo ,ao pri- 
meiro verío o efpanta, em chamar piedofas as armas, 
que canta, 

Canto Parme pietofe eH Capitano. 
E a mim me efpanta, que hum Crítico, que Judiciofa- 
mente penfa , que .£» jait de Langue , // ne faut point 
raifonnsr , (í) difcorra defta maneira fobre o pietofe do 

Scriptores carmínum aur vénia digna, aut etiam 
liv. I. cap, 4. 

fur le Poeme Epi'q. no fim da faa Tiaducçaô 
lUton. pag. íí)3. 

Poc- 



zedbyGoOglC 



DE LlTTERATTTB aPOrVuGVEZA. 7? 

Poeta Italiano. ChamatS-fe fantas (diz elle ) as guerras, 
que tem por objetflo a Religiatí ; mas as amias nafi fe 
podem chamar lantas , e muito menos pietofe chéas de 
mifeiicordia , e de compairaõ. (a) 

Kfta Crítica natí neceffita de refuraçafi , nem aqui me 

• pertence fazella; mas por aqui fe pódc ver a juftiça , 
com que o mefmo Crítico cenfura Camáes , (^) dizen- 
do , que naò conta entre os Poemas Épicos hum Poema 

fem acçaS , que he a mera narraçaO de huma viagcmi 
Natí digo ido, por na6 fazer huma grande cílima^aõ do 
raizo , e erudição defte e oatros grandes homens daquelia 
Nação, que tem dado muitas e grandes lãzes á Europa; 
mas a experiência me tem enllnado , que nas mefmas Crí- 
ticas dos homens celebres naÒ ha que fiar, fem que examine- 
mos as coufas com os noíTos próprios oUios. Vamos adiante. 

A R T I C U L O m. 

Vozes ãerivadãs, 

AiHHOVAçAtt pertencem também as palavras àeriva- 
àas , as quaes como novas tem gravidade , e gra- 
ça no eftylo Poético. A Língua Latina he para rós , xo-' 
mo a Grega para os Latinos , a fonte donde os Poetas 
podem tirar grande cópia de vozes, api^icando-fe á re- 
gra de Horácio : 

Et nova fiSiaqtie tmper habebunt •utrha fiàem , fi 
Graco fonte caàant ^ parce áetorta . . . . (c) 
Ef com effêito o noiío Poeta em muitos vocábulos a ob- 
fervou felizmente , ims em outros muitos eicedeo a de- 
vida moderação da licença , que Horácio concede , Sum- 
pta puãenter i nem fempre attendeo ao modo prudente 
de as naturalizar , parce âetorta. 

Cf) Ibi pag. íM, - ~~ ~ 

C*) Diíconrs fur Ic Paradís Petdu Tom. l. da Tiaducçaó. 
Franceza do A. pag. 64. 
CO i^a. Poec veif. 4t. 

Def. 



i,db,G(5oglc 



fé Mbmokias 

Dejiender por defcer. Cant. I. Eft> 77< tntrodizio O 
Poeta belamente, tirando-o do Latino àefeendere , áw^ 
do remos dtfcer , por abreviatura , e iefceitder em figui* 
fícaçaó figurada por originem dãcert* 

Saõ também louváveis alguns termo» compoftos, que 
tomou do Laiún , como aurifero levante. Cant. U. £(!• 4* 
naÔ de íemelhante de mortífera engano , na Eft. 2 : plton- 
beã pela oa EU. 89. L*niger»s carneiros , Eli' 76 : Sa-. 

Sitttferas aljavas , Cant. 1. Efl. 6y. : òetíiger» appue- 
10, Cant. ÚL Eft. 7S- &c. 

EflrJdar do fogo no Cant. IIL EA. 49. optimamen- 
te - adoptado j e oiui próprio pela armoaia , e energia ,. 
mui natural pela analogia facil; por quanto íe temos 
efpiender , b«rr»r , ardor &c. , pccque aaõ ganharíamos 
mais efte ? À cneúna vaota^m tem o epit^cto efiride»- 

Já peh ejpe^o ar os efiriãtntts 

Farpões Cant. IV. Eft. 31. 

Âlli verám as Jèttas tftridentet. Cant. X. Eft. 40. 
Galero , no Cant. II. Eft. $7. precizo era para diftinguir 
o-objeifto , íeg^ndo o caraâer dt períonagem. Pois qae 
nome havia de dar o Poeta it^ella inania de Mercu-i 
rio í 

Sífira mati , Cant. IV. Eftv ij. 
.D3S gentes vai regeodo a feftra nuô bem derivado 
dt Jinijira , e naíS admira , tendo oòs já de cafa fifi^' 
i maneira de fubftantivo , cámo quando dizeoraa , naS' 
tem outro feftro \ ca^io na fiftro , 4$9 .»'«w fejir»y on- 
de fe entende o nome cafiumt Ou vicio, como fe 4i^ 
ienemos coftume ou vicio llniftro » ifto. ke , máo. 

Confocios muito bem trazido m> Cam. VI. Eâ. S^f 
e fiS tem de' naro a particula áa cooi^lifai^ , Êuendàt 
analogia com os nomes condi fcipvh- y cenetdladaf &Cp 

^ar do Latim arare , donde nos véo o nome do 
inílrumento mítico > -^ue fe chatna arado f, he ezpreflòã 
aílís Poética : . 

Depois de ter taS httga mar arado. Caat» VUL Eít 4. 

Tu- 



Izc.byCoOglc 



DE LlVTBBATVBA POSTITCUEIA. 77 

Tuba poT trombeta na6 tem difHculdade^ porém Trotn- 
b€ta vale mais na noílà Poella , que o termo Latino > a 
refpeito dos elementos fylicos , e íom imitativo ; e he 
hum dos nolTos vocábulos em que achamos grande cor- 
refpondencia com os das outras Línguas modernas , como 
quali fempre, accontece nas vozes de fom imitativo ; 
pois que como nós dizemos Trombeta , o Italiano diz; 
Tromba j o Francez Trompette , o Alemaâ Trominent , o 
Hefpaohol Trompeta, tirando-lhe o fynonymo Anafil^ 
que tomáraS dos Árabes. 

Noto , Immoto , e outros fcmelhantes participios fa- 
cilmente fe tranfportaÔ para o eftylo Poético , pela corre- 
lação que tem ordinariamente as vozes defta natureza , 
com outras já recebidas. Exicio fcffre bem a licença , 
fendo femelhãnte a iífdicio , fupplkio , e outras da mef- 
ma terminação : Jignatum prajènte nota. 

Porém EJianbo por mar naã he abufo da licença 
Poética ? 

Rampendo a f&rça ão liquida ejlanhe. Cant. VIII. 
Eft. 7í. 
Naô eftá niíTo o feu Commentador Manoel Corrêa ; diz , 
que he imitação de Virgílio , e de outros Poetas. Bella 
razaÕ ! Mais barato era dizer , que o Poeta faria huma 
maravilha fe efcreveffe todo o ícu Poema em Latim ma- 
carroaicOf para fer todo o feu Portuguez huma imitação 
completa de Virgílio. 

Que melhor Tie ebumbrar-fi , que affombrar-fe? 

Súbito ú Ceo fereno fe ebum&rava. Cant. VI. Eft. 97. 
Bem lè vé , que o verfo naô ganhou mais fuavidade. 

Que diremos de Murice , Cant. II. Eft. 98 ? Meta. 
Gant. III. Eft. 6. Me/ia. Cant. IV. Eft. 19., e de outros fc- 
melhantes que valem tanto em Portuguez , como em Lingija 
Flamenga? Pandas azas, Canr. IV. Eft. 49. faz nojo. E 
quem poderá tragar argento da furiofa Thetis , por cla- 
ras ondas , e fobre tudo tantas veies repetido por díffe- 
rentes modos em todo o corpo do Poema , como aguas 
nitidas de argemo , Cant. III. Eft. 65. vias húmidas de 
■To^. F, h ar- 



, Dg.lizcJbyCoOglC 



Ê 



78 M E M o H I A-S- 

argento , Catu. II. Eít. 67. Salft argento y Cant. !.' Eft^ 
1%. &c. ? Mas os Gommentadores daqucile tempo acha6- 
Ihç Draga ^ e com razaó ; porque íctn eftcs vocábulos 
inyAeriofos naõ teriaó occaliaó de oftentar a íiia enidiçaá 
pedantefca. (d) Quanto a mim aquelLe eflranbe vir de 

C<z) Com tudo naõ f^ilta ainda hoje ^uem defenda o teimo 
argento contra Garcez, que com fcu receio o nota, como me-, 
tárora' vícíor^. Dizem , que naó fe aflignará juflo motivo con- 
fornieos R'Fiecoricos , porque aquella meei fora íc meu na con^ 
ra das vídofas ; muico bom argumento « íie a auihorídade dos 
Rhetorícos por G fó fc^e infallivel em matéria , qup le deve 
decidir pelo goftoi e lazaõ. 

Oizem mais para abonarem a dita metáfora, que os Poe- 
tas , que fuccedãrao a Camões , ufáraã todos delia ; outre argn- 
mento bem piauiivel , que nada mais prova , fenaÕ , que naÕ foi 
CamóeS' fó , o que errou ; que houve muiio quem o imitaíTe fcm 
efcolha, e fem juízo. 

Itambem naó faz ao cafo dizerem > que a metáfora ar' 

'ento corre o mefmo paiailcio, que argênteas ondas no. Cant. I.. 

í&. $8. He falfo , porque atgtnto he duto, c o cpiíhetQ oT' 
genteas nãõ o he. Como allim ' 1". O ufo permitie numas vo- 
zes, e exclue outras naó obítante a. fua analogia ; por \[fo di- 
zemos invencível y e ninguém diz ínvenfrr, invertcido dcc, o que 
vale cm tod.is as linguas. Logb ^Qtr\\ie argênteas he boa expref* 
flõ em Poelia , naó fe íegue que o íeja argento, 

2° O epicheto argênteas he. tomado do Utino arg/tnttWiy que 
também figiiiíica couta que he femelhanic a prata : ( v^. Ro- 
berto Ellevaõ, c outios ) Argento por prata he, voZ; deíçonhe- 
cidi no Portuguez para Fazei imagem como no Ifvtim : quanto 
mais que por argento entender piacá , por prata efcurna, bran- 
cnra , e pot tudo entender ondas ou agua do mar , he fazer mui 
longa viagem, e as imagens deíle caraéler, faó as queos-Rhe- 
loiicos chamaÓ » longínqua fimilitudine duclas , e poi iflb^vicio- 
fas. Com que fe briíwíTe ícmbiar qualquer termo latiinQ.peiz fe- 
zer huma imagem na Poelia Portugueza, que naó tçria]i)qs nòs. 
de imagens , ou melhor, de enigmas. 

Em quanto as outras imagens , que Garcez argue, naÕ tem 
razaó i nem entendeo bem o P. Colónia, nem Quin£lilíano , 
lib. yill. c. 6, de quem efte tiiou o juizo, que faz do voltares 
fennis remjgare de Viigilio, ; porque ambos aprovaÓeftas metáfo- 
ras na Poeíia, e fó condeoao o leu afo na profa. 



i,db,G(5oglc 



DE LiTTEILATWRA PoRtUGUEZA. 79 

■pellè preta doCint. y. Eft. 27. , he monftro muito feio 
em jDcu^aã Poctica para os nGlTos dias. 

Eis*ahi ( diráã agora ) o voífo Pbera taõ gabado : 
eis-alii a eicdlencia do lèu e^lo Poético i e «s^ maraTi- 
Ilias do Virgílio Português. Já diile 110 principio , -que 
os defeitos do noflb Poeta a rerpeit'0 dais fuás betlezas, 
faô defeitos mais do feculo em que efcreveo , do que 
do feu. taleiuo , e nifto temos baftantemenie refpondido 
á delicadeaa dos. Críticos, que nada relevaó pela iodui' 
'genoia dos temposi Mas nino oiefnío |XHdem ver, 'que 
quando louvamos o que he mereãidiímeiítè Iburavd em 
Camões y oafi nos bega a parxati para na6 reconhecer os 
feus defeitos , ou para dimntúlár os que a boa Critica 
-défapprova. Quantas e quaès bellezas nao eem o noílb Poe- 
ta , para que natí mereça aqueJU fábia indulgência. ,, com 
que Longino excufa os defeitos de Homero , Demoftbe- 
nes , PiataÓ , e outros iníignesErcritores, dizendo, que 
bum vjtica pajfa bello t fublime , ^e Je acha nas obrar 
dejies injignes Auth&res , bajla para remir tedos os feus 
defeitos juntos, (b) 

Maior louvor ftm dúvid» merece o Poeta. dás pala- 
vras , que derivou das mefmas Portuguezas , como Gra- 
nadÚ no Cant. lII. Eft. 114- Sedento derivado de fede 
poí fequiofo, he mui Poético , e todo de Cafliáes : 

Quando as aguas c'o fangue do adverfario 

tez beber ao exercito fedeftto. Cant. III. Eft. 116. 

Mas em tanto que cegos e fedentos 

Andais de voffo fangue ..... Cant, VÍI. Eft. 14. 
Significando o mefmo , que no Cant. IV. Eft. 44. expri- 
me pela ^ilivn Sitibundo: 

tetros a fede dura vaÕ culpando 

Do peito cubifofo e Jitibunâè. 
InJUfiçaõ por influencia : 

{a) Qnemlibet illorum fcriptbrum omnes íríores fape uno fu- 
btimi et praeclaro loco redlmere. Longin. De Sublimitaie^ cap. 
j$. £x lecenítone Fearcii, }4 mado. 
' ■ L ii S^e 



Cg,lzcc;byCA>Oglc 



.8o . Memorias 

Qat inpfiçaõ de Jignos e de ejlrelías. Caot. V. Eft. 23. 
Cujo tsrnio muda em influxo no Caor. X. Eft. 146. - 

E nao fei , por que influxo d* d'Jii*e. 
Nefte numero pomos abuttdofis por abuodantcB , avcnti^ 
rofa por aventureiro , e íemelhantes : 

com virtude fehre humana 

Os deíídraS dos campos abuttdofos. Cant. VII. Eft. 70. 
E morre o defiuberto aventurofo. Cant. I. Eíl. 89. 
Porém mais que todas he engenlioíá e Foctica a nova 
denominação do Cabo de Boa-Eíperança , a que chama 
Cabo Tonruntorio , ou foíTe o termo inventado pelo Poe- 
ta, ou pofto, como diz o Commentador, pelo feu de^ 
cubridor Bartholomeu Dias, e adoptado pelo Poeta, co- 
mo fe vé no Cant. V. Eft. yo. , e no Cant. X. Eft. 37. 



ARTICULO IV. 
Palavras antigas* 



O. 



SSCU%Jlt'A diu populo bottus eruet , atque 
Preferet in lucem Jpecioja vocabula rerum , 
Oua prifcis memorala Catonibus atque Cetbetis ^ 
Nane fitus informis premit , et deferia vetufias. 
Horat. lib. II. Epift. IL 
Failemos já de outra riqueza e ornato do eftylo Poéti- 
co , que confifte em fazer rânafcer algumas palavras, que 
já eftavaô efquecidas. Quiniíliliano o recommenda no ef- 
tylo oratório , porque alBm iica mais grave e mageftofo 
com expreís6es , que fe apartaó da communicacaó vul- 
gar \ (a) quanto mais recommendaveis devem íer logo 
na Linguagem Poética ? Oxalá que os noíTos Efcritores 
antes fe inclinalTem a refufciíar muitos vocábulos aíTás 

(d) ttita et fanâiorem ec magís admírabilem Faciíint oratio- 
nem , quibus non quilibet fiíetit aforas. Quinâil. lib. VXIL 
cap. V 

ener- 



DigitizedbyGoOglC 



DB LlTTÍRíATiniA ' PORTUGUEIA. >I 

-energicoidos nbíTos bons Auihor«:do. feculo XV; e XVI. , 
do que a mendigar das línguas eftrangeiías tantos ou- 
-tros , que nati daB maior credito i atm Lingua , neqt 
lhe conciliaò mais graça , uem mais harmonia. 

He. Terdade , que nòs na6 ornaremos hoje a noflà 
Poefia com Aprougue , abilbamento ^ de fufe , evd^/ido 
&c. , nem feria agradave] ceita por afíic^aéy .treètli!ar 
-por brincar, advr por apenas, hu por onde, emprir 
por encher , e outras do feculo Gothico. Porém le Cõitfi 
le naõ foffre , coitado ainda tem fua venera^afi na Lin- 
guagem Poética. Cant. V. Eft. 70. hedõ ainda dura, le- 
Mce he muito velho , e rançofo. Afan trabalho > he pa- 
ra os Fortuguezes de Galliza. Para concluirmos , a ver- 
dade he , que da noíTa linguagem velha ha palavras , que 
ainda confervaõ a fua antiga graça; mas na applicaça6 
delias fempre fe deve evitar a aãèdlaça6, e para ilío 
importa muito ufar de parcimonia e circunfpec^fi. (17) 

Ora ninguém, créo eu, terá razalS de cenfurar em 
-CamÓes Enfejo por occaiiafi : 

Depois obedecendo ao duro enfejo, Cant. X. Eft. 42. 
■Vfança por coftume. Cant. III. Eft. 68. e Cânt. Vil. Eft.. 10. 
Grandura por tamanho , grandeza : 

A pequena grandura i? hum^ batel. Cant. VL Eft. 75:. 
Jbolar por desfazer. Cant. IH. Eft- 51. 

Rompe , corta, desfaz, abola , e talba^ 
Ser na fignificaçaô' de haver, como:' 

Wmi Rey por nome Jffoafo foi na Hefpanba , 

SJae fez aos Sarraceitos tanta guerra. Caat. 111. 
Eft. aj. 
I£s por hides : 

Porque bis aventurar ao mar irofo 

EJfa vida Cant. IV. Eft. 91. 

Efteis por eftejaís : 

(it) Mdiu . . . audientibus giata infeii polTuni, fed ita de- 
mum, fi non apparear aftcítatio . . . Utendum m«do, nec ex 
ulcinús tcncbrit lepetendsc. Quinflil. ut íupra. 



Dgilizc-JbyCoOglc 



8i MeU0«IA8 

Anttí que ejleh nuis perí» do perigo, Caot. VIIL 
Eft. 4S. 
AlguBs refòrem eftas fórmat- rerima :iê ãgaias -djt Jícen- 
ça Poética, mas -«u tenho por dmíb provável , <}ii£ os 
noíTos Poetas as tdmáraS da antiga profa, em ooe & achad 
muitos veítigios -de femelhanteí modoc de fallar , fem {e 
'lembrarem pela maior parte deíTas íiguras Poéticas, a. que 
os Graminaticos as attribueffl. Porém mA difputiraos ef- 
fe ponto : bafta para o noílb propolito , que eftu.e oo- 
tras femelhantes expreísòss , de ^tialqaér modo ^ que & 
conllderem , tenhaô htim camiíler de éíAincjfaâ y que as 
fepáraó da linguagem comitiura. 

A R T I C U L O V. 

Termos Tecbmcos, ■ ■ . 

ENTtta os termos da lecuçati Po«tica contamnios tam- 
bém 08 vocábulos technicos , em quanto peU »rr- 
Sízá^j ou ufo particular fe d^inguem das roz«- cwnmuos 
c vulgares. Taes faô os que fe twaiè dos ufos ou cof- 
tumes de dífferentes paizes, de certas pfofifs<tes oa attes> 
com que- o Poeta illuftrou o fcu eftyk» , e «nriqueceo a 
Língua Portugueza. ■ 

A primeira- efpecíe pertence Cab^ti efpecíe de co- 
lete , de que ufavaò os Mouros de Melínde. 

Jnafiiu^ huma efpecie de flsutas retorcidas, de qoe 
u&wô os Mouros. 

Fota, huma touca de varias cores, de que ttía6 o« 
Momos em lugar de chapéo. 

Crifest armas de que ufavatf os Malacos. 

^agaya , lanço pequena de atirar. 

Almadias , barcas de Melinde : 
e outros femelhantes , que -fazem no «ftyJo- Epíco de Ca- 
mões huns matizes , a meu ver, mais engraçados do que 
as palavras Gregas e Hebraicas, que Ai/^nmifturou-no 
feu admirável Foema do Pvraiss» Ferdfdo* 

A 

Dqilizc-JbyCoOglc 



DE LlTTElfllATfWllA -PoftTtJGCEZ A. Sj 

A «ft«s podemos ajuntar vários termos náuticos , co- 
mo ; 

Amainar por colher as velas do navio. Cant. I. Eft. -(i» 

Abalrmr por accoiuewtfer. Cast. X. £ft. r,8. e ^h, 

Cekuma , Cant. U. Eft. ly. : termo Grego , que ex- 
prima o mefmo , «que e Poeta n^eutro lugM (Eft. J8. ) 
chama naiaica grifa-. 

GaJennç , por vento maoío. Gant. IL Eft. 67. 

Desfraldar a. valia , por f/iitar : Canç. V. Eft. , i. 

A veiia dvsfi^aídavâo o Ge« ferimos. 
Entre os termos belIicQs temos Enrefiar ,_ ou Enriftar 
por; eniilroitaj: a. ponta. da< lançai oontra^. alguém. 

For axefíkW' Mafamcde enrejia a- la»^a. Cantk VHI. 
Eft. 19. 

Também: lie. affis frequente o^e Poema fubftituir os 
termos da Geogrt^ antiga ás denominações rulgueS' 
de Regiães e paizes ^ como : 
; Ampeiufa por, Arícacer . 

Tinge por Tangerc . . 

Byzancio por Conflaniioopla 

Vandalia por. Andaluzia ... ... 

Ibero por Ebro 

Betis por Guadalmiibir &c. 
Masinafi louvái-a. e» l!ÍV'WfÂ/Vl^r>^ por Sairtar^ , 7ap^ 
brana por CeilaÒ , e femelhantes , cuja rudeza fyllabicft 
parece inimiga das. Mofas Partuguezas j e fenriria- para 
BoileM/ fazer toais hum verí» íatyrico, (a) fc fidlaftè 
da Poelia Portugueza. 

— n — " — >i, .1 II — , — . — rv 

(«) BoileanEpit. IV. 



AR- 

Dq,l,zc-JbyC(>OgIC 



84 M X H o 8 1 A t 

A R T I C U L o VI. 
Outra férma ãe exprefsSes Poetiess. 

Na6 fó ha innoraçatí de palavras nos elementos ff- 
ficos , mas também no ufo e particular applicafafi , 
que os Poetas fazem das expreísíSes communs , e conh»* 
cidasj para darem á Tua frafe naó fò novidade , mai gra- 
ja ou energia. Tal íie no noíTo Poeta o Verbo Penaer, 
de que já filiamos n'outro lugar : 

J4 ia jòbre os Jàalios montes pende. Cant. IX. Eft. 2f. 
Onde o Poeta pinta agradavelmente a acp6 de Vénus 
por termo que hum Efcritor de profa naÔ poderá em- 
pregar na merma Iignific3(a6 } á tmitaçatf de Virgiiio » 
que dilTe : 

lÚ fummo in fiuSia penient . . ÍE^\. liK i. t. iio. 
Do melmo modo ne expreíTaÔ Poética Liquor por agua : 
Cant. I. Eft. 8. 

Vós , que efperamos jugo e vitupério 

Do Turco Oriental j e do Gentio ^ 

Que inda hélte o licor do Janto rio. 
Fronte por tefta-, ou cabeça ninguém o diz , fenalf hum 
Poeta: 

Que gloriofas pabnas tecer veja^ 

Com que FiSioria afronte lhe corâa. Cant. X, Eft. 41- 
Appareceo no rúbido Harissonte 

Da moça de Titan a roxa fronte. Cant. II. Eft. i^. 
Ninho por pátria , morada , fó a Poefia admitte : 

— grande império , que te arre as 

Ds feres de Candace e Sabd ninho. Cant, X. Eft. $i. 
O* gente , quea natura 

Vizinha fez do meu paterno ninho. Cant. VIL Eft. 30. 
Alumno por filho, he do mefmo privilegio: 

Mas antes pay ( da pátria ) que . . . 

Sempre fujptrarã por tal alumno, Cant. VIIL Eft. 32. 

Aqui 

DigitizedbyCoOglC 



DB LiTTPKBATWlA PourtJSU El A. ^ 

Aqui pertencem outras feinelhantes exprefsòes muito 
ordinárias na -Pociia antiga, por ferem Bccommodadas ás 
idéas populares ; as quaes na nofla Foefia fervem cotno 
nomes appellarivosdefpidos das antigas idèis acceíTorias. 
Taes ião: Ldr,.por caía, domicilio: 

Deàxamlo a pátria amada , e próprios lares, Caat< 
. ^., lU. Eft..i4.- • 

Fulo por .Ceo:.. ■ 
r Em quant» tapajiintar o larga PoU 

jIs ejireffaj Cant. 11. Eft. lOf. 

Olympo na mefma lignificaçad : 

Quand» os Decfts no Olympo luminofi. Cant, L Eft. 20. 
Outros .muitos lia: femelhantes a eftes , os quaes aponta- 
remos em outros lugares , principaloKQte quando faUa»> 
mos das ftaíes Poéticas. 



O. 



ARTICULO VII. 
Porfia do Verfoy ou harmonia. 



M^XA fed numtris vocum c&ncorãibfis aptant , 
Âtque fono quaevmque canunt , imítantur et apta 
Verborum facie , et. qusfito carminii ore. Vida Poe- 
tic. lib.' m. V. ^67. 
Na6 chamamos aqui Poe/ta de ver/a aquella cadencia coiB- 
mum -e, ordinária , que faz os »erfos correntes e fuaves, 
9 qtfe reina, cooftantemeote em todo o corpo do Poema, 
obfervadas as regras da Terfificaçatf. O que entendemos 
por Poeíla do verfo particularmente , he huma harmonia ou 
cadencia de efcolhfl e de gofto, que csra^eriza certos 
verfos de huma maneira particular, ediftingúe o Poeta 
Êivorecido das Alufas do Hmples veriiíiçador. Efta hitrmo^ 
Jiia, digo, he mais notável, e mais fenfivel nas imagens ^ 
e affeAos. Humas vezes he grave e magedofa , como ít 
vê no Cant. I. Eft. 19. 

Jd no largo Oceano navegavam , " , ' 

Ar inquietas ondas apartando-. . 
2om. r,- U. Os 



DqHizcObvCoGglC 



96 Meuokias 

Os ventús brandamente rejpiravam , 

Das ndos as vellas concavas tncbande. 
Efte he o eífeito, que reiulta da vogal a clara v ibno- 
ra, que taõ frequentemente fe inculca no primeiro ver- 
fo, e faz que o pronuncierpos com huina BiaÍE fenfivel 
diftincça6 dai paulaa , qyantOibe poflivel , fem deíbubrir 
afiedlaçaõ. Sobre tudo Conca-vas incbAndo titíih^imotá^ 
imitativa admirável pela efcolha de fons ,. que 6gúraâ 
a ídéa do objedlo , o que taõ propriainmte Da6 faria 
eoaeavas enchendo^ prefcindindo da neceflidade da rima. 

Outras vezes conftlle eíta harmonia no íom chéo , fot' 
jte e vibrado, que refolta dos elementos fyjícfis, de que 
fe compõem as dicções efcolliidas , como oo Caot. IL 
Eib loo. 

Sanorofas trombetas incitaram 
. Os animas alegres refinando , , , 

As bombardas Borrif mas bramavam 

Com as nuvens de fumo o Sol tomando. 
Eis itii fanerofas com S, que tem^hum íom fibílante» 
três vezes repetido no mefmo vocábulo, mifturando-fe 
ostras tantas a vogal O , que o erudito VoíTIo ctiama 
voluminofa. Bombardas ^ borri fonas , bramavaS-, fa6 to- 
das vozes de fom aCpero pela coDc;irrencía dit anicula- 
jaõ R i e além difto Trombeta , Bombarda , .vozes de 
tal caradler , que a primeira fyilaba cKprinae natuialmeR^ 
te o fom no primeiro momento da fu^expbifad, Tfw», 
Bom , como os meninos o coilumaõ arremedar , e a fe- 
gunda fyilaba o requebro do fem no ponto de fe extin- 
guir , barda , beta. 

O mefmo eãeito , ç fécnélhaotea califas fe podem ob« 
fervar na bcfUiiTutia defcripçaõ , que faz o Poeta de hu- 
mu tempeftade , que naô cede na. verdade i& de Vii^ílio 
em naturalidade , delicadeza , e imaginação Poética , quan» 
to na lyingua Portugueza fe podia dezejar : 

jígora febre as ondas os fubiam , 

jíj ondas de Neptuno furibundo i 

Agora e ver parece , gflí defeiam 



zedbyCoOglC 



DE LlTTEFATUHA PoRTUGVEZA. tf 

As intimas entranhas do profundo. Cant. VI. Eft. 77. 

os ventos f que lu£íaz'am , 

Como touros indómitos bramando , 

Mais e mais a tormenta acrefientavam ■ 

Pela miúda enxárcia ajfeviandu : 

Relâmpagos medonbor nao ceffavam , 

Feros trovões , que vem rtprefentando 

Cayr o Ceo dos eyxos fohre a terra , 

Cam figo es elementos terem guerra. Cant. VL Eft. 84* 
Os ventos ^ que luSíavaÕ &c. nos dá o effeito equivalen- 
te idaquella. cadencia : 

LuSiantcs ventos , tempejlatesque Jonoras. Virg. Ma* 
I. V. 57. 
O mefmo fazem os epiíhetos , e palavras compridai , 
furibundo , accrefceniaxaS &c. Mas fobre tudc» he notá- 
vel a cadencia acceierada , que vai a defpejihar-fe em pa- 
lavras curtas , e de fyllabas mui froixas naquelle veilb , 
íto. cjae inos defcreve o effeito fyíico dos trovões, que 
aós ânimos aíTuílados fazem vir á imaginarão 

Cayr o Ces dos eyxos Jobre a terra. 
No que o FoeU' imita os Latinos, quando terminava^ 
os feus verfos por bum monofyllabo j traruptus aqua 
ntons : mole fiia ftat : proeambit bumi oos &c. 

à cadencia* proporcionada , e fyllabas mui fornidas 
nos annunciaâ o mais remoto efcondrijo , onde hãbitaó ás 
divindades marinas , Ííto he , lá .1 

No mais interno fundo das prtfundas 

Cavernas altas, onde e mar fe efcondey 

IA donde as ondas faem furibundas , 
■ , Quando ds iras do vento o mar ref ponde, Cant. Vf. 
Eft. 8. 

A doçura e melodia , lie aJTás ienfivel pela miítura 
da liquida L naquelle vetfo, 
... Í}ã-. Lue.os claros: rayts futilanam - 
.- -P^Jas argênteas ondas Neptuninas, CftflC. I. Eft. ;S. 
E no Cant. VI. m.,6t* ■ 

:. -l -M u Ef- 

DgitizedbyCoOglC 



88 M £ u o R I A s 

EJlava o Sol lun armas rutilanâo 
Como em cryjlal , ou rigido diamante. 

Outra efpecie de cadencia interrompida e ajpera , moftra 

a acçaÕ de olhar terrível iiatjuellcs verfos ; 
Com lorva víjia os vê : mas a natura 
Ferina , e a ira naS lhe compadecem . . . Cant. IV. 

A letra R íe multiplica n'um mefmo verío em dicçdes 
conformes á natureza dos objedlos JiEnificados.: (<t) 
, Corre raivo/a e freme , e com irantides 
Os montes fete irmãos atroa, e abala. Ca»t.'lV. 
Eft. 37- 
Cadencia fufpenfa , moftrando differentes movimentos e 
acjóes , he naquelles verfos: . ' 

Levantam nijia os perros o alarido 
Dos gritos ^ tocam arma , ferve a gente : . ■. r, 
uis lanças e arcos tomam , tahas Joam » 
Injirumentes de guerra tudo atroam. Cadu III.' £ft. 4S.- 
Defte mefmo caraâer íàô os últimos verfos da Eftancia 
63. do Canto 6. 

, Jd daS final , e. e fom.dm^tul^a imptUe 
Os bellicofos ^nimos, qae-.injUinma : . ' 

Picam de efpéras , largam- rédeas. le^o,. 
Abaixam lanças , fere a terra fogo. ■ 
Quem nao vê, que a cadencia lúbrica -dcH. verfos imi'^ 
ta admiravelmente a agua de hum regato y. rolaiido>fe 
por entre os feiios no Cant. IXk. £ft.- ;^<,?t. . 

Por entre pedras alvas fe -deriva '. ■ > 

 fanorofa . lympba fugitiva, ' .'.i ■ 

Belleza , que Camões engenhotàmeate imitou -de Horá- 
cio na mefma imagem : 

• — r : :- obji^iío laboraf.. '■ • » •- 

Lympba fugax trepidare\rivo.:Xb) .^ . ..lii-j. i ■-.'^ 
Muitos outros lugarts .p^çramos aqui.\ajuBCar',^ fe'.!Dadi 

^— i ■ — r- ■■ '■ .• '■■• - ■■ \. • \l < '. t< i 'ii' . i> I.I....W..Í ' . I V . ) . u\t\ 

Vej. Mecânica das palavras ãcc pag. uJc-BS'-^ "'= ' 
Hoiat, lib, II. Od. V. 

; 4'. mais 



rè 



i,db,G(5oglc 



DB LlTTKRAT UBA PORTÚGOEZA* S9 

thais tiveianios que íazer , do que nioftrar a excellencia 
do Poema' de Camòes nefta parte. Alguns Críticos, tem 
feito iuas liflas de vsitios verJbs languidos e diflonantes , 
que fegundo elles crém , de$ligura6 a fua.obra. Seja: 
porém oaô faÕ' eties. em tanta uiultidafi , que desluftrem 
o oierecimeBto delia- na eftimaçaã. dos Juizes moderados : 
e natí íei fe aquelle delicado Crítico da Foefia Latina 
poderia com bafiaott razafi paia efcufar o noíTo Épico 
aliegar ó feu 1 ■ . 

Indig*9r t qMOJidoqàé k«iÍMS.'dsrmitat. Homfrits, \ 
Ferum opere in. Unge '.fai gft obreptre farnnum, (a) 
O que eu cfeio, nafi &vem imitar os ncflbs novQs Poe- 
tas , he aquella fòitna de veriificaçaõ rimada» de que ufou 
o noíTo Camtíes» e. outros naquelle tempo > em que a 
Rina. éra por atoda as deliicias dòs.Foeta», fem íe con- 
fiifiar ^ tiamiieza. das couias.. A dkc. rel^peim fÁ ^'iííemoa 
alguma coufa , fallando da verfificaçaã de António '■Feri' 
retra na. íixz.CdJirot' Aqui fá diremos de paíTagem , que 
natí. há coura Mús imprópria > .nem. medos, natural na 
Foelia Épica , do que àoraem de. véríòst..que chamaÕ» 
Oitava . 'KTaM.;) c^uc.iw .' a- t^e, pTopmmente\,duiKKi .con- 
sir.aieífc.gBncratitíev.Eflefiav. O (qjo^ía-ppdift .provar icoin 
baftantes raz6es invenciveis, íeiíTo nos naôidiilrahiíTe do 
principal obje(floi^,!que. tçmos diante dos olhos* C^Aiioue- 
tBOs. i^is}JD.qttf>pei:teiice ao efiylo Poético dos Luil^das. 

N'AtS^ .hit.>aUvnia ( ou fejx£ con£deradas £afplef- 
meote como foWyi.^9tí.,Qwoo.-.Jia$s Jig»^atÍvos') 
qúe ajjingw^ofi 'itoie^K%,fa «ifue^nia.} ^como teútOà di- 
to ^ mas também ha certas fnijes, e' modo» de. fòllar, 
^(e ft: efttvâteriza6 . « id^ifUngucm. 4av locu^â .prbfaica > 

-■; - e que 



Ic.byCoOglc 



9ÒÍ ■ A ■> -M- l'MO.-lt' D A S- .1 

b que concorrem para a graça, e riqtMZi ia Poefiá : jMÚt 
pOT meio deftas frafes pôde o Poeta veÂir o fini dilctn*- 
fo com buma infinita variedade^ moftrar qualquer obje- 
Ao fempr« 'com novidade, voltando^ prtr mil difiçceo* 
te9 fates ; aprefentar em qualquer maceria imagem mui 
figradareis ;; n'uiiila palavra , foliar a línguageoi da ima* 
ginaçaó, e do* fenttdos , qne he -propriatneate.a Jiogua- 
gem das Mufas. E de tudo ifto temos exeniplos mui fre- 
quentes no Poema dos Lufiadas : apontaremoi alguns. 

I. Navegar , iie iMina dav-idéas ({Off na. profà & na6 
pdde exprimir com muita variedade,, mas agora veremos 
a grande diverfidade de írafe ,. com :que- CàúnScs a. ex-^ 
plica , íegundo at differtntes rela^tin da mefma idéa , 
ou diíFer-entee pontos de vifta , em que a podamos osn- 
íiderar^ ¥fto lie, «ritncionando- iiafralè.ara:o<^ isiflruaian- 
tos , ora '6 oiõdíi da ao^ati, •&ra'as^circDoftancias'j e&i*- 

tÒS "ÔCG. ■ .,■..,:.;.'-■'..: . ;-, 

Cortam d&\ mar do Ntrtt at «ndas fríss . ... . - 
Para Londres jd.fiiztm fffdof wjrvCant. VI. Eft. 57. 

' yijies aquella infaiu foMtaJut i ■ 

De teMãPtm â mar a^rwvpla-erttmí^iQMitiy^.'^,'!.^^ 
'Efí vem ^e/pBÍJ> o-fpy^, qve^^o»dapxorat.X^tía. jL 

Eítv 7IW ...-:. i , --.-^^v-nn í,;,./i -V.-. .. . 

Mai jd as agudas orSas apnrtjmdv' > ■'■■'■ 
Hiam as vfasèamiaas'dtargeni9.'-Cattt,ll?^.-67^ 
O* maldita o primeiro , que no mundo 
Nas andas -veia péõ etk ftces ife»*ifl«JGÉnt.IV.Eft. loj. 
Afflm fomos abrindo aquelles mares 
Que gerafãÕ al^nrtanaS abrfoí Cant. V. Eft. 5. 
vê outro , que do Téja a te.rra piza , 
Depois' de ter taS longo mar dr^wL-Cant. VIII.- ER;. 4. 
■ Varrendo triunfantes ■ eftamdaft*^ • i-"^ ■■■■■■■ 
'.' Pelas imias.^ ip/e carta • a- aguda i^n)60,':<laitt.''X. 

, ■-■■ -'Eíl. ry ■' ■' .^^ ■-■'■^ .-;; ni.:. ... . ; - 

Cerrúir ondas., tÉtitar «'tnar^com 'tcíii , apoT-ti» » ^as 
húmidas, pâr vela no íenbo, abrir mares y' arar omaTf 
a quilha corta as mdas ^ faÕ dij&ftHtce' inaáéii4£;' dé «x- 

\':-\> ■- prir 

DgitizedbyGoOglC 



DE LlTTE%*THIBA PoBtTíGDElA. ^ 

prímir o tnefnío objet^o, reprefentando-o com novidade 
debaixo de imagens agradaveííí.' 

IL Nafi ha coufa mais frequente entre os fucceíTos hu- 
manos , que o morrtr y e matar , hum effeito da náturt- 
za , Dutte da liokDcia. Nd Poema Épico pois em. que . 
feri preciíb a cada paflb referir eftcs taes fucceffos , que 
diverfidade de frafes oáâ Terá neceíTaria } Mas queãbun- 
dancút:. nié', adaoii o nofib- Poeia ?< 

Matar i 

A mUhet :fen feràer a vida e a tzrra^ Cant. III, 

— — tantas- abnas fá poÀefte 

Mandar ao Reyno ejcuro àe Gacyte. Cant. III. Eft. 1 17, 

A morte fabes dar com ferra e Joga. Cant. IIL 
. . Eft. 118. 

Mais ladrões ca_fiigaad« d -vurM dea ib. Eft. 1^7. 

Tal ejid o eavailsyra ,'. ^íca vêr^tra 
.■ Ti»§ffcVJ)ingue atí>eiff\,:\ ;:.. . Ganfc IV> Eft. ^f. 

( Sancho ) — faz correr ^xrmfHré 
. O ria t que Sevilha vay. regando. Caor. Ill* Eft. 75*. 

A muitos mandaS ver o EJiygia íagúi Ciot. IV. Eft. 4Ó4 

Muitos tofnbem do vulgo vil fem nmu 

VaÕ , e tombem dos neere^ ao pr^jodoi Ib.EH. 4U 
••'■> PonqMà ........;........ .... ,. . ■ ■ 

. . Nos puderem mandar ao reysoef cura. Cant. V. Eft. ^6.' 

No mar também, aos Mouros dandç a marte* Cant. 

. -rVIII. Eft. ,16. ■ 
- •rr' Outro' pf/ourv. queèra-oi. laeo^.^' ■■. - •■ 
:: .•Comfueicom:aMhta.èTerpB,JrMdra,C3iax..^ Eft.-^r;' 
■ ' ('O cabo Hsrinent. )■ . .: .■ oav ttré pejo 

JJe tirar d^e muada aqueJlf efpnut. Ib. 37. 

Sá por dar aos de Lufo trtjtê morte^-Caat. VI. Eft; 26,^ 
IIL Também ha baftante novidade para exprimir o 
gerai tributo da humanidade : 



Mar- 

.lizcJbyCoOglC 



^t M B k o X I & I I i - 

Morrer. : 

Mmitos lançaras o ultimo fii^r9.Ctnt.lV.S&. A 

O fprito deu a quem lho -ttttbs dada. Odc. III. 
Eft.i8. 

Porque de my te vãs , O* filho earo^ 

A fa%er o funéreo euterrameiuei Cint. IV.E^^^ya 

jífrã fados as almas Jeltardõ 

Da fermofa e miferrima prifaS. Caot. V. Eft. 48. 

— ■ — — defemparãraS . 

Muytos avida,.e em terra çflranha ealheyu.lh.ESIi.Si, 

Algum dalli tomou perpetuo fino. Canu :VL Eft. 6y. 

Mas aquella fatal neceffiditde t' '■ ■ ■ 

De que ninguém fe exime dos humsMtf , 

Ulufifada co" a regia dignidade 

Te tirará do mundo e feus enganos. Caot. X. Eft. 5*4.' 
IV. Da fama de hum iienw diz : . 

i — ^. nunca extiu£Í9 

. Será õ feu nome em íod» o mar. . . Cant; X. Eft. 39. 
£ de AfFonfo de Albuquerque : 

Pafio que a fama fua o mundo cerque* Ib. Eft. 45*. 
E. de Duarte Pacheco: 

Nenhum claro varaS m Mareio jogo , 

Que nas asias da fama fe fujicuba ■ 

CBega a ejie , que a palma a todos. toma.lh, Eft. 19: 
Eftes exemplos baftafi ; porque nos feria precifo iàzer huai 
immenro voluioe , fe a cada hum deftes lugares communs 
de locuçad Poética , que ramos tocando, . nauveflemos de 
reduzir todos os lugares dos Lufiadas, que. lhes pertcn- 
cem. Além. de que harerá ainda occafiaCí de encontrar 
grande cópia e variedade de. frafes Poéticas , quando £al- 
larmos das Deícripçães , e Perifra£» , que fati . huma fon- 
te riquiUima do eífylo Foctico. 



AR.- 

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DE LlttEllAtTIRA PoRfUQUEZA. JJ 

ARTICULO IX. 
ConJlrucçÕes extraordinárias. . 

Os Poetas he verdade , que cftaõ fugeitos ás leis da 
lingua , como os outros Efcritores ; mas cilas leis 
naó Os obrigaã com taota fcverídade , que naÕ poíTaÕ mui- 
tas vezes franquear os feus limites , como Elcriíores 
infpirados. A liberdade, que lhes he permittida pelo pri- 
vilegio das Mufas , de le apropriarem novas e fingula- 
íes exprefstíes , ou de modificarem as vozes communs 
com novidade infoUta , naó tem tanta extenfaô da fua 
conftnicçafi ou contextura. Por quanio em todas as lín- 
guas , e em todo' o género de locuçaÕ , vale , e a tu- 
do prevalece a hi geral , que prefcreve a exaUa ordem 
das idéas , e a fua mais efireita e natural cannexaÕ : 
de forma que efta máxima fundamental he como o pri- 
meiro movei em todo o difcurfo bem formado de icda 
a fólida belleza em Eloquência , e Poeíia. ia) Po ém as 
leis arbitrarias , que as linguas tomáraG com fubcrdina- 
Çaõ á lei fundamental fobredita , naÕ ha dúvida, que 
muitas vezes podem racionavelmente fer commutadas nWr 
trás equivalentes por eftes Elcriíores acreditados, que fa6 
çs únicos, que âxaÕ a pública authoridade, e apoíaõ o 
ufo , fuprçmo arbitro , e legislador das linguas. (í) Por 
iífo , o que alguns tem dito , que os Grammaticos de- 
raõ o nome de figuras a muitos erros dos infignes Ef- 
critores, creio eu, que fe naÕ deve entender tanto ao pé 
^a tetra , nem taô univcrfalmenle , como vulgarmente fe 
entende; (í) antes mais racionavel feria, que imiiafíe- 

' (d) Mr. Condillac C<ms d'£'tíides. Tom. II. Jrl. dTcnre liv. 
I. chap^ I. Item liv. II. Procm. 

C*) Quem penes arbitrium eft et jns et rorm.i loqucndi. Hbr. 
it An. Poet. T. 72. Confuetudincm fermonis vocabo confenlwm 
«tuditOTum. Quin^il. lib. I. cap, 4- 

(O Non . . ex his utiquc improbenmr pocia j «juibus . . . 

■- llm. F> N nios 

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^4 Memorias 

mos tudo o que he poíTivel da fua locuça6, pots qtie , 
como bem adverte o douto Meftre du Eloquência Ro- 
mana, O voto dos excellentes Efiritores no que toca d 
Eloquência y vale tanto como bum fundamento \ e no ea- 
fo que elles errein , fera o erro ^orlofo aos que feguem 
tav grandes mejires. (a") - 

Naâ devemos pois imitar a exceílira delicadeza dos 
Francezes , que fendo em tudo taõ apaixonados pela li- 
berdade, fó 3 fua língua quizeraó ter efcrara , e fugeita 
a huma multidati de leis , que elles mefmofi s^ímpoze- 
T»6.-f de maneira que , como eties meímos confeíTaÓ , qua- 
li naô tem Linguagem Poética. Vejamos a nobre oufadia 
com que o noUo Poeta defempenha o privilegio das Mu* 
ias. 

I. Pondo partes de direrfa natureza humas por outras , 
como huma circumlocucaô do adjeiíliro negativo , em 
lugar do adjeiElivo ufado: 

Prefo da Egypcta linda , e naS pudica. Caot. II. 
Eft. 5^ 
Huma voz adverbial pela fua raiz , como : 

Nem tanto o graõ Tonante arremedou 

Relâmpagos ao mundo fulminantes. Canr. VI. Eft. 79. 
Acima poz naõ pudica por impudica ; aqút tanto arre- 
meíTou , em lugar de tantos relâmpagos arremeiíou. 

O infinitivo por fubftanttvo , adoptando o greeifmo ^ 
que na linguagem profaica tem Teu ufo raro : 

'■' quaÕ coitados ' 

jíndariamas todos , quaS perdidos 



E do efperar cotufrído taÕ canjidos . , . Cant. V. 
Eft. 70. 

adeo ignoft^iciir, uc vítiii ipf» aliis m carmine appeliaijotiíbus 
nominentur. Quiadíl. Infi, Orat. lib. I. cap, 5. 

(a") Cum. tummotujii ia eloiJuenu.i viromm |u(Íícíuiq pio ni- 
líunc , ec vcl eicoí honeftus eil , i^agoos duce« feijusBtibus* 
Idem lib. I, cap, 4. , 

• D<( 

D„K,db,G(X1glC 



l 



DB LlTTEKATURA FORTVGVKZA. ^f 

Do ejperar comprido^ ifto he , da prolongada efpe- 
rança. 
O partkipio por Supino , como: 

E por<^ue como vijles tem paffados 

Na viagem iaS afpercs perigos , 

Tantos climas e ceos exprintentados. 
Onde .paffados referindo-fe a perigos j experimentadas 
leferindo-fe a climas , eftaã em lugar dos Supinos , de 
ue coftumamos ufar nos tempos compoftos, tem pajja- 
, tem experimentado , os quaes fe referem ao verbo 
a/itecedente , a que fe ajuntai , deixando livre o com- 
plemento do verbo, (a) O mefmo fe vé no Canr. IL 
Eli. 76. 

— que õ Rey manda aos nobres cavalleiros 
Que tanto mar , e terras tem pajfadas. 

E também no Cant. III. Eft. 27. 

E do Jorâaõ a arca tinha vijia : 
Aqui pertence também o Participio palfivo por aílivo , 
como no Cant- III. Eft, 105. 

— Cabido das msÕs o rapo infando , 
Tudo o clemente Padre lhe concede. 

Cabido o raio; ifto lie , o Padre deixando cahir o raio 
&c. 

II. Nova cooftnic^aã he também pôr como continua- 
dos o nome appellativo e o próprio , que fegundo o 
ufo recebido , devia fer complemento , ou ( como dizem ) 
regime; 

Quando cbegava a frota áquella parte 

Onde o Reyno Melinde já fe via. Canr. II. Eft. 73. 

NaS lonee o porto jaz da nomeada 

. Cidade Meca .' 

Reino Melinde , Cidade Meca , he coEftrucçatí infólita 
em lugar de Reino de Melinde , Cidade de Meca. 

Ça) Chamanios aqui Supino á<^uella vo7 verbal , que os nof- 
fos Grammatícos chamaó Panicípio indeclinável. Diíio dsrerr.os 
nzaõ na Gtammatica Filofofica. 

N ii ■ . Tam- 



ç6 Memorias 

III. Também a coacordaacía figunida do adje(flÍvo 
com o fubltanrivo. 

Mas já o Planeta , que no Ceo primeira 

Habita , cinco vezes apreffada . . Cant. V. Eft. 24, 
Onde o adjeiílivo primeiro fe refere ao nome commum 
planeta, e aprejfada refere-fe ao nome particular Lua^ 
que o Poeta tinna na menie , e allí fe fubentende. 

O exemplo feguinte moítra na mefma frafe concor- 
dância de diverfos números no verbo, e no predicado: 

Logo todo o reliante fe partia 

Da Lujitania pojios em fugida. Cant. III. Eft. 82. 
Partia efta no fingular , referindo-fe ao íugeiío rejíante , 
nome ilngular na forma ; pojios concorda em plural com 
rejiante , atienta a íignifícaçaÕ coUediva , que he a idéa , 
que o Poeta tem na mente , ifto he , homens , que eraò 
o reftanre pojios &c. 

Outra conftrucçaó extraordinária , fazendo concordar 
o verbo com o predicado , em lugar de concordar com 
o fugeito , quando na íubíVancia da propoUçaÓ he in- 
diferente tomar-fe qualquer dos extremos por fugeito ou 
predicado ; prefcindindo do ufo da lingua : 

Fazer nos mais cruezas fero , iroja , 

Eram as feus mais certos refrigérios. Cant. IH. 
Eft. 137- 
EraÕ por era , referindo a fazer ■■, mas tomando por fu- 
geito feus refrigérios , vale a concordância poeticamen- 
te ; fendo no rigor da profa , éramos obrigados a dizer : 
O fazer cruezas era os feus refrigérios ; ou tranfpondo : 
Os feus refrigérios era fazer cruezas. 

Affim como dizemos na Efcriptura : 
jís minbaj delicias be ejiar com os filhos dos homens &c. 

IV. Algumas vezes muda o modo de iignificar dos 
verbos , dando fignificaçaÕ aítiva aos que tem fignifica- 
jaõ neutra , como no Cant. I. Eft. 6c. 

do Ceo d terra em fim aefceo 

Por fabir os mortaes da terra ao Ceo. 

Ifto he , por fazer fubir os mortaes , ou melhor , para. 

í[ue 0$ mortaes ful/ijfem. £ 

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DE LlTf Eli ATTT» A PORTUGUEXA. 97 

E no Caat. II. Eft. S7- > defcrevendo Mercúrio : 

Sua vara fatal aa maõ levava 

Com que os olhos cangados adormece. 
Adormece -j ifto he, com que faz adormecer os olhos &c. 

He aíTás notável , e natí menos extraordinária aquel- 
la differente concordância de verbos na propofiçatí prin- 
cipal , e nas incidentes. Cant. V. Eft. 26. 

Parem com os Pilotos na arenofa 

Praya , por vermos em que parte eftou 

Me detenho 

Vermos y referindo-fe a toda a companhia j efiou , me de- 
tenho , referindo-fe ao fugeito principal. 

E quando o Poeta faz complemento do verbo, o que 
na regra da língua devia ièr complemento de propoíiçatf. 
Cant. V. Eft. 72. 

Crês tu , que jà naõ fâram levantadof 

Contra feu CapitaÕ ^ fe os rejijlíra. 
Se refiftira aos , iíto he ^ fe lhes refifiira , he a conftruo- 
•$a6' que a' linguagem exatfla requeria. 

Poderá talvez parecer a alguns conftruc$a6 irregular 
aquelia do Cant. VIU. Eft. 18. 

Olha Henrique famofo Cavalleiro 

A palma , que lhe nafce junto á cova. 
Onde a ordem regular pedia , Olha a fahna , que naf- 
ce a Henrique junto d fua cova , Aibordinando ao ob" 
jeito principal Henrique o fecundario palma. Mjs fe 
bem refieílirmos efte ne hum idiotijmo da noffa lii^a , 
com o qiial dividimos em propo£$6es diftjntflas , o que 
he objeao de efpanto, ou admiração , e vale o mefmo, 
que forma de exclamar, como fefofle dito: Olha Hen- 
rique &c. ; que palma lhe nafce &c. 

à efta conftrucçaò fe alTemellia a que temos no Cant. 
II. Eft. ^7. , quando Júpiter diz : 

Vereis efte , que agora prefurofo 

Por taatos medos e Indo vai bufcanda , 

Tfemer delk Neptuno de meàrofi. 
Onde também eftaõ leparadas duas propoliftíes , que por 



Dgilizc-JbyCoOglC 



'5»8 M s M o ■ 1 A s 

caalà do Tugeito prlncipAl áfivh$ kt íubordínaáas : Pe* 
remos ^epíuna . . Premtr àefie , que à htd» làti buf^ 
cando. Mas na conftrucsafi Poética o rcrbo Vereit íaz 
duas oraçôw: ytreis eji^ ^ qus nnti bvfcãwàe &c. Vereis 
Neptuno tremer delie. 

Tarobcm ^o titulo de couftniccâes PgeticM podera- 
mos referir var-ias frafes luícidAB debwna particular com- 
binação de idéas , parte creada pela íantàiU do iPoeta y 
pane imitada. Taes faò aquellas &af«c : 

A trifte. aJma revacavg. Caji^ IL Eft. ffi. 

Faças Jm a teu dej€}9- Cut. II. Eft. 4. 
E no Cant. III, Eft. iqy. 

Bam^e toda a demora : 
que he imitaçaâ de Vjrgilia: Rmnpt imras. iEnetd* 
lib. IX. V. 13. E no Cant, II. Eft. 9f. 

Onde a matéria da abra be fuperado' 
Como Ovídio difle : Materiam fu^rabat apus ; quando 
gaba o. palflcíp do Sol, Metamocpb. Ub. II. t. $* 

Taes palavra) de fabio peif abria* Caoi. , Vm. 
Eft. 64. 

Eftas palavras taes ckirando ej^aiba. Cant. XIL 
Eft. 102. 

Varrendo trivnfavtes eft^ndartes 

Pelai ondas Cant. X. Eft. 75. 

Q^e he H/pallage » oti aiudaoça d« cafbs., em lugar de 
Varrendo as amas com, os ^andartes. 

Dar d vela íe diz em profa por elipfe, o que Ca- 
soães fez Poético addlcionando o Kirno occulto : 

ao meftre feu mandava 

Que as velas deffe ao ve«to, . . Cant. II. Eft. 64. 
Muitas deftas occorrem a cada poíTo , das quaes humas 
pertencem a alguns dos artigos antecedentes-, outras fc 
acharão nos feguintes. Nòs tocamos ligeiramente os pon- 
tos eíTencíaes , que podem coaftituir hum fyfteoia de ef- 
rylo Poético , veríScado com os lugares do ooAb Poeta , 
para que a mocidade Portusueza por meio dos lugares 
«poncidos poílà melhor conHccer e ièntir , que naÓ fa6 

Dgilizc-JbyCoOglc 



DS LlTTKltATIIItA FoiTUâVEZl. ^ 

fé asbcllezas cftrangeiras de Virgílio, ou Homero, ou al- 
gum dos Poetas mais celebrados oas Naç6es modernas^ 
as que devem occupar as horas , t levar as admiraçòei 
dos noíTos Filólogos. E pela mefma raza6 dos julgamos 
difpenfados de fiiiaiar as fobrcditas mudanças de lingua- 
gem , com os nomes das figuras , de que abundaó os tra- 
tados Grammaticaes. £ a que fim vinha aqui eHà techttíca 
pedantefca de termos gregos , de que nao neceffica o prc- 
fente alTumpto } 

CAPITULO IV. 

Exame do efiylo Pí^flaril , e loctiçaS àt Miranda , Ber~ 
narMS , CamSts , Caminha , Ferreira. 

S I- 

Eftyh Pajioril de Fraacifio Sd dt Miranda. 

PRiNCiPiAiiBMOs pelo famofo Sá de Miranda, do qual 
diz bum Crítico Francez , (a) que foi o primeiro 
Poeta da tuíTa NaçaÕ , . que teve ncnie ; e acnfcenta , nad 
l£i fe bém ou mal fiindado ,:í]ue elle pozers o feu maior 
cuidado em reformar 09 vicios do coraçaÕ humano , maítf - 
do que em procurar deleite lo entendimento; ná{S fa- 
zendo mais, do que pôr em wrfo as máximas da Mo- 
r;il , que nem fempre ajuda6 romto 4 Pooâai Eíte jaizo , 
creio, que dife reipeito ás Cartas Poéticas do noilb Sá':' 
DO*, que entendo , que efie- Crítico ruati ^evia de fâzei" 
grande Olfo de Horaci&nas Tuas Sátyras e Cartas , nas 
quaes ulà de eftylo' puro e auftero , e ( como o meímo 
Poeta- declara ) o- mais chegado i proía, tal como o 
de aue ulà o .doIGd Poeta i faz-lhe com tudo a mercê de 
CQnfe0.r » que. a rua..MuXá Qfferece.U^Ôes úteis j aias 
quando diz , que Mitandít nafí et^ dos nofííis Poetas , 

(d) Noveau Diccion. HíQori^. Verb. S4 » e Miranda. 

nem 

Cg.lzccbyCoOglc 



lOO ' M EM OKI Aí 

nem o mais correílo , nem o mais elegante, natfaSrepí 
tio , que a noíl^ lingua naõ Te governa pelas leis fevé- 
ras , que aqucUa Naça6 impoz á fua, e que na nofla ha 
muitas coufas , que nad onendem a correcção e elegân- 
cia , que na Lingua Franceza, por culpa de nímia deli- 
cadeza da Naçati fati reprehenfiveis. Porque em fim que 
diremos de huma língua , onde faõ taõ fáceis , e ta6 
frequentes ás profcripções das palavras , onde o gc^o he 
taô melindrofo , que naõ foíFre n*uma Écloga os iono- 
ceates vocábulos Bauf , Bouvier , Vache , Vacbtr &c. ? 
E ifto em tal altura, qufe fe julga, quetftas vozes baf- 
tariaõ para corromper hum bello Poema ? (a) Onde nem 
n*uma Ode heróica fe permitte a hum Poeta Commn». 
trepas , por fer hum latinifmo , e antes -querem aquelU 
circumlocuçaó mais fria, que os Alpes: Le trepas^ dont 
perfonne n^efi exempt ? (í) e coufas femelhantcs ? Dizem- 
nos , que em matéria de línguas na6 ha difputa : feja : 
mas concordemos de parte. a parte, 

Scimus: et hanc vemam petimusque damusque vieijffim. 
Poucos ,aanos ha , qui; , fegundo dizem , os Alemães abri- 
rão nova eftrada na Poelia Paftoril , pela introducçaÕ do 
género . Moral , . de que falíamos' np artigo III. da pri- 
meira parte. Eu na6 deciderei , fe elles fóra6 origisaes , 
o que .fei :he , qne na6 idrati os primeiros, vifto que o 
noiTo Miranda tomou femelhante empreza em diftancia 
de .quafi doas feculos fem' exemplo , nem dos antigos ,- 
n.em dos modernos , os' quaes todos, como já dilTemos, 

Suafi Í6 reduziaã a Poefia Piftoril i liniples defcrjpçaii 
a vida. ruílica , n'uma imaginaria felicidade. Agora ve-' 
remos ( o:qlie he igualmente gloria do líoíTo Poeta, e 
ventagem da noíTa língua ) que ainda attendendo tz6 fo- 
mente á locuçad e eftylo , eíle novo género de Paftoril, 
he mais vafto , mais copiofo , e incomparavelmente mais 

U) Mr. Geiieft de la Poefie Paflorale. 

(*) Mr. Bíiccux Cours dts Bel, Lrttr* U. Pan. Ilf. Seft. 



zedbyGoOglC 



Dí LlTVESATVHA PoBTtTGtTEZ A. lOl 
.natural do que o antigo Faftoril , que fò conftava das 
.pinturas fyficas da Natureza , e fobre tudo da galantaria ^^ 
campeftre. Seja a proya a Écloga VIII. onde o Poeta no ^ '" 
Prologo nos convida para que 

Em quanto bum jega , outro caça .... 

Cò' a natureza entretanto 

Fallemos palas fiorejlai. 
&fto Faftor abre a fcena , manífeftando o fcu fentimen- 
.to fobre os defconcertos , a que induz os homens o ap- 
petite defenfreado , e principia pelas imagens , que of- 
ferece a vida ccmmum dos Paílores : 

Gomo corre , cento atura 

Quem vai após o feu gejlo ? 
Se ifto nad he elegância , he huma elegante fimplicida- 
de : daqui veremos , que nada ha em que fe conlieça 
o Poeta : os feus Paftores faâ fempre , e em tudo Pai* 
tores, ifto lie, homens capazes de fentimento , poftoque 
naã verfados em difcurfos profundos. Como atura : ez- 
prelíaõ elíptica » entende-fe o caminho : efta expreflad am- 
plifica a primeira , e vai o mefmo que j coma corre fem 
cançar. 

Quer por frioy quer quentura , 

£ no fuor do feu rojfo 

Bufca ds vezes md ventura. 

Sem guia , e Jèm e/conjuro 

Oes medos fe ãefafia ; 

Só vai afouto e feguro ,, . 

De noite polo efcuro , 

Por montes hermos de dia. 
A brevidade e concizafi da frafe , he a nota da gravi- 
dade de eHylo. Em todos os bons Âuthores ha mais ou 
menos defte Atticifmo , em feus lugares : mas os homens 
intelligentes fabem diftinguir nas obras de Litteratura o 
eftylo da Eloquência , o eílylo da Língua , o eílylo do 
Author, que he huma certa forma de frafe predominan- 
te , que fe miftura em varias outras modificagóes , e a 
tudo communica huma mefma tintura. E efte Attidfmo 
Tm. V. O de 

Dq,l,zc-JbyC00g[c 



lOl M E H o 1t 1 A S 

di eftylo he o caraíler individual do eftylo do noíTo Mi- 
randa , caraifter apreciável de hum eílylo grave, fòlido, 
raa-ílifo. Efta quaudade tem íeus elementos na noíTa lín- 
gua: no eíl/Ia familiar, quanto mais vivo elle tie , tai>- 
to mais frequentes iaó as elipfes, de forma que a maior 
extenfaõ de Iiuma frafe moldeada , fegundo o rigor gram- 
luatical , muitas vezes prejudica a energia ; o que he 
-irregularidade n'uaia linsua , he elegância n*outra. Os 
-Francezcs na continuação de incitbs repetem os artigos , 
-as partículas &c. ; na nofla lingua feria hum pleonafmo 
viciofo : Quer per frio, quer por quentura y excepto, 
quando ha enfaie. C'os mcdgt Je dejafia : que forja de 
eipreíTaÔ ! Que de idéas naõ encerra ! 

Jífte appetit» , que digo , 

Quem o deffe d md maierta ! 
Ah y e quanto he para detejiar femelhante appetite \ If- 
to feria mais polido , mas hum pouco fora do tom paf- 
-toril. Os Paftores íem huma modificação panicular de 
idéas, que fe communica á frafe, e refpira a ilngeleza , 
candura , e ingenuidade. No familiar nobre nada fe ex- 
clue , fenaõ o que tem vileza intrinfeca , e denota grolr 
feria de coftumes ; e aquella fórma de imprecação he 
do ufo paftoril. À baixeza faílicia da opiniaÓ , he nas 
línguas num cruel dragai, que nos faz perder milhares 
de exprefsâes lindas , redonda^- , enérgicas. ,Fâlices os Poe- 
tas, que tem na fua rica imaginação hum Diccionario 
efcolhido , e pronto das exprefsfies naturaes , e próprias 
de cada género ! Efte poderá primorofamente : Deferi- 
ptas fervare vices , operumque cokres. Diftingamos pois 
•a vileza real das imagens , e as imageos , que fomente 
:faÓ âmiiiáres. 

O mefmo Paftor ccHitimia moralizando fobre o feo. 
propoiíto : 

Guarte delk,Mie te efjpreita 

Por dar daniejfi cign tigo. 

Rafiro ao fi t e rojlro ao na/n , 

afortuna be feita ojji^ 

;. -Hàt 

, DgitizedbyCoOglC^ 



DE LiTTEB ATURA PoBTVSUEZA. )0) 

Mal a conhece o vUlam : 

Cuidas , que a tens na mam \ 

Eftdje rindo de ti. 
O eftyio familiar tem feus Apoftrofes , e outras figura» 
do eA/Io elevado, mas a feu modo. Os que cbTcrvaâ 
cilas coufas no trato ccnimuni dos honiens , tem a" ex- 
periência por mil argumentos. Âílím toda a vez qtíe- o 
ílilcurfo he hum pouco vivo e animado , naô ha cotifà 
tnais frequente do que imagínar-fe quem falia , que lem 
diante de li o fo^eito, a quem dizem re-açaÕ as fuás 
palavras , como elqiiecendo-íe dos que eftsiS prefentes : 
tal he aquelle Apoftrofe : Guarte delle. Cuidas ^ que a 
tens na maÕ. 

Guarte por guarda-te, efpecie de abreviatura , como 
em varias outras dics6es , o que prova , que o ouvido 
attento , e exercitado pela Poelia , confultando a mtlo- 
dia dos fons , fez introduzir nas linguas differentes modi-" 
fícaçôes dos vocábulos , que muitas vezes na ncfla , além 
da graça e variedade, que teni , luppre o efFeito dos 
Dialetftos da Língua Grega : efla he huma particular de- 
licadeza da Língua Fortugueza e Italiana. Kós" devera- > 
mos protegelia , e confervalla na fua poíTe , para í\»6 fer- '; 
mos, coHKi 08 ' Francezes , que naó conhecem quafí ou-' 
tra Unguaguem , fenati a do ufo , dizendo -no vcrJb , co- 
mo dizem na profa. Refoimar nifto a Lingua Pcrtugue- 
za , feria deítruilla ; e por disgrs^a , illo hc o que va- 
mos fazendo. 

Rojlro ão Ji ^ e rcftro ao nam : na linguagem dos 
Paftores quali tudo faíS iiragens : commun-.mcnie ellas fe 
fubftituem aos termos abftraaos. A fortuna be incsnjian- 
te , be huma metafyiíca , que naó diz nada para a ima-, 
ginaçaô ; a dos Paftores pinta com as cores da Natureza , 
e falia , como diflemos antes , a linguagem dos fentidosj 

Temos nefta expreflafi- outro Atticiíino Grammaticai • 
na elipfe defta frafe , em lugar de ^izer por -inteiro : Eis- 
aqui como he afortuna , taê vdria que Jjora mofira hum 
rufio eo^ fim , iiwa- outro ao naS^ 

O ii Em 



104 ^ EM o It I A-S 

Em difcurfo grave de outra natureza» nós díriattios: 
Em qualquer parte fi encontra bum laço armado debai" 
Ko dos pes , ou torpeço , que nai precipita ; ou coula fe- 
nielhdnte : a limplicidade paftoríl diz francamente : 

Onde quer o demo jaz 

Para aver de embicar nelle. 
As provas de que ulaõ os Paftores nas fuás moralidades , 
iàã ordinariamente cn Apologos , ou exemplos dos ani- 
maes : 

Topey c^um lobo roaz ; 

Fuime c^os meus cães traz elle , 

T/Df íif fadiga ajfaz : 

Eisque trafpoem , eisque ajfoma ; 

Desfaziame correndo : 

Toma aqui caõ, alli toma : 

Cego da porfia j em foma 

Fuyme trafpondo , e perdendo. 
A graça e naturalidade deftã Hypotypofe ^ he a0ãz íen- 
ilvel no todo, e nas iuas partes. Â forma da frafe rápi- 
da , fem connexôes , nem traufiçâes , que imita a coo- 
veriàça6 das mulheres , e ferve no enthufiafmo da Ode , 
quadra admiravelmente ao génio paftoril , e fobre tudo 
o. paflar repentinamente dos &<ítos aos difcurfos , ;BÍf- 
turando tudo no mefmo theor. Que me dígaó fe-as pa- 
lavras modernas feríati aqui mais próprias , maia fortes , 
mais expreífivas» que o embicar , topar ^ raaz, trafpor^ 
ãjfomar ? He laftimai que parte por iacuria , parte pelo- 
capricho da moda fe tenna perdido tanta cópia de expref- 
sfies bellas , em que fe euribava a delicadeza da noíDt) 
língua. 

Affim profegue defcrevendo as vans^ emprefa» eta 
que os homens fe mettem , obedecendo á cega cubica » 
Q fempre o n^recimento particular do nolTo Poeta , he 
a efcolha das ezprefsAes familiares mais propmB e- na- 
turaes. 

Depois daEftancia XIV. começa o Dialoga dosPaí^ 
tores i que o Poeta intcoduz » traiftodo o problema , jf» 



zedbyCoOglC 



DB LiTTEa ATURA POB^-ITaVEZA. IC^ 

cMvem mais para o fecego e fueviâade id vida con^ 
viver cem todos , ou pajffar no retiro e fo/idaÕ. Vê-fe 
hum' aíHimpto ; qiie feria matéria da diíTertaçaÕ de ho- 
nieas Filofofbs, mais profunda c^ue agradável ; mas 09 
Paftores em' feu modo Ía6 Filolòfos tia experiência da- 
Tida humana , como os Fílofofos o faÕ nas efpeculasões 
do feu gabinete ; eftes fallaò a linguagem das abftrac$6es , 
aquelles a do» fentídos ; mais engraçada , e mais viva pa- 
ra a imaginação. O e&ylo de Miranda he aíTaz vivo , e. 
cheio de réôexóes fólidas , . e íàzonadas dà galantaria paf- 
toril. . 

Bieito eftranha a novidade da conduta do feu ami- 
go; o feu penfamento liquido he ; Cmna he ijlo , G/7? 
como te fizejie taõ trifte ; mas a expreflisô paftoril fe ti- 
ra da circunAancia do tempci : 

Que be iJlo ^ Gil 3 que aM trifte 

Te nos fez efte anno .Jípril ? 
O Poeta íiz reflorecer os termos antigos , que Íz6 a0ax 
graves na locuçaÕ paftoril, 

17/0 aquelle grande amigo : ' 

XJlos os b<ifes lavados 
( ■■ Haqtielles do tempo antigt , 

Oi/í e fegredOi e o perigo 

Na0 nos trasiia entubados. 
XJlo f XJlos y comp.abaixo apraz , ãprottgaer , fa6 termos> 
que }á no, feu tempo erao antiquados, e hoje de todo. 
eftariaô em efquecimento , fe naÕ ficaíTem como em depp-. 
fito neftes efcritps. Na6 nos trazia , por naÕ os , jun- 
tando ao. proncune hum n por eufonia a imitação da Lín- 
gua Gfega. ■ / 

■,-. Que engrada maneira de- conciliar o feu aínigo , que*- 
reado djzet:. Ef fii eom quem f alio 3 e por i^o ainda 
que eftejas mudado , naõ tenho medo , gffc as minhas pa- 
lavras te excitem indignação l 

Tu , olbasme de travez. , 

Varece , que a mal o tomas -y 
^ Mas fe tu j Gil ,. inda ejle és ^ 

Nam 



to6 MEMORIAI 

Nam. be^ medo , que nu cornai 

PííT tnatí mudado , que ejiês. 
Onde fe vê, que o mylterío da ficçati poética oa locui 
çaâ coníifte em o Poeta adivinhar , para alHm o dizer ^ 
raes combinações de idéas, e taes imagens , e fórmas de 
exprelTaÓ , que convenhaã ás pcflbat , que introduz , e ao- 
generò de Poella em que trabalha : que he formalmente 
o Defcriptas fervare vices , operumque calores de Hora- 
cio< 

Que naturalidade de idéas->< de exprefslSes ! quanda 
o Pãftor paíTa á conJe(flura das caufas da trifteza , que 
pertende defraneccr no feu amigo ! 

Morreote o vado meudo ? 

Foi hum anaaçõ geral: 

Nam fe pôde lograr tudo , 

Virá bem após o mal : 

Soffre , que foffre o fefudt» 

J&retiega das ajfanbot 



Se efie Março naS foi ^.anbts 

Outros virdm melhoradas. 
Nella contradÍcça6 , que faz Bieito ao noro fyftema do 
Paítor folitario na fua fuppofta melancolia, a fórma da 
frafe nos dá idéa da gravidade de eftylo , fuCcedendo- 
fe os penfamentos baftos , como laraiva , com ex^reflaÕ' 
veloz, deixando vários penfamentos intermédios , queim-- 
pediriaô o curfo , e fluidez de eft/Io. Na6 era aqui o iu- • 
gar para fazer a quellàs pinturas fyficas , de que abun-- 
daõ as Éclogas dos antigos , e dos modernos ; pois que- 
mudando a Écloga de objeílo j bem pòdc também mu- 
dar de género , e nefte, que he ferio e grave , nafi he 
menos agradável a ingenuidade paftoril, do que nos ou-- 
tros géneros de aífumpto» 

E porqus havia de rejeitar o Poeta^ o termo Anda- 
ço ta6 próprio, que fignifica a caufa , e o efFeito , ifto 
he , o cantagio, e a doença , que fe vai ateando delmns 
a outros i* Qiem ha de reprovar o. vocábulo Jffanbos , 

que 



DE LiTTrsAtr-B-A VoKfvav EzA. T07 
^ne fignifrca huma ira vehementiâima , què defconcerta 
-os. liomens. Pôde fer que a hum eftrangeiro pareça ,ex- 
preíTaÓ irregular: EJie Março naõ foi ^aishof. e outras 
íemelhantes j in^s fera em quanto naÔ fouber a força , e 
ás vezes a graça , e fobie tudo o grande ulo , que tem 
na noíTa linguagem familiar as elipíes de muitas frafes. 
£ fe algum naõ tem huma língua pailoril , por ícr mui- 
to uniforme, porque a natí teremos nós, lendo a nof- 
fa muito mais variada , e flexível nos eftylos análogos ás 
obras de Eloquência, e de Poefia ? Tem-fe vifto Eclo- 

tas exccUentes de muitos infignea Poetas, e naã he facit 
e fe explicar, que lie o que lhes falta para exprimirenk 
a ingenuidade de eítjrlo pailoril ; mas bem fe conhece y 
que lhes falta eíla qualidade, e diílo me parece, que hê 
caufa em parte , a que temos tocado. 

Gil defende-fe do feu adverfario : as imagens , ali©- 
gorias , e comparações > concorrem com vaiiedade : 

yês'ine fardel e cajado. 

Bom final be .tjue ds ferdiaes 

Naõ vou armando boyzes : 

Jbidv ãfás efte meu gado, 
lAs he, como já diffemos exprimir as. coufas mais peks 
coufas , do que pelas palavras. Gam -que delicadeza atra- 
velTa pelo meio das idéas} QuecírcunUaBCias taS opor- 
tunamente aproveitadas nefté rebatte. Naã he a trífteza, 
oa puro defcontentameiuo , que induz a huma vida moK. 
le .e Jnerte , o que levou o raítoraquelle retiro : o coo'^ 
trario moftrafi as íntignias pa&oiís , que traz ,, e o reba- 
nho , que conduz *> 

Naõ vou armando èsyzes , 

Âado após efie meu gado. 
Em lugar de feotença , c^ maximá geral > ferve aqnel- 
la imagem natural : 

Quando a víbora na,. ar morde ^^ 

Por mais pefonèa , que traga , 

Nam ísmaSy qae incie , âu/que :eii^dry 

Nam hajas medo , que acorde 

iSradanao peia triaga.. Be{- 

Dg,l,zcJbyCA>O^IC 



IdS - M B M o H I A S ■ / 

fiellii allegoría para exprimir as mudanfai', que traz com 
figo a idade nos cuidados, goítos, e entretimeiítos hu- 
manos, na pintura do bezerrinho: 
Do fiingtte e leite empollado^ 
O besierrinha viçofo 
Corre e falta pe-lo prado , 
Dqpois lavra preguiçofo í 
Tjra o feu carro cançado. , 

Oâs dias , e c'o trabalho , 

O brincar dantes Ibe efquece , 

Nem be já o que era ao ntâlbo ; 

Corteje , levefe ao talho 

O boy velho , que enfraquece. 
Viçofo t Empolado y faã imagens naturaUilInus : e delta 
fegunda dicça6 fe fórmaó varias ; bezerrinho empolladoj 
por gordo , nutrido : homem empollado , por augmentado 
em bens , rico ; mar empollado , por embravecido , levao- 
tado. Por ifto fe vê , que naô ha melhor Diccionario pa- 
ra os Poetas , e Oradores , do que a liçaÔ dos boas Èf- 
critos. 

Algumas vezes no Paftoríl entraã Apologos hum pou- 
co mais extenfos, e faã como humas narraçâes epifòdi- 
eas , mas com relagaô ao propofíto da Écloga , fazendo 
e Dialogo raaís ornado ; e com tudo fendo extenfos os 
Ucs Apologos , ferrem de abreviar muitos difcurfos , e 
razâes. Tal he o Apologo , que o Poeta põem na boca 
ée Bieito , para declarar o perigo em que fe achara , hín- 
do hum dia á Villa : 

Hum bacorote oreulbofa 

Deo -vijla ao gado ovelhum , 

De quexiquer efpantefo , - 

- Trombejava elle bum , e hum , 

Andava todo bravojò. 

Vem hum dia o lobo e apanha 

Pela cabeça o doudete : 

Abrandeulbe aquelia fiinha , 

. . . Bra^_ 



Dl LiTTERATUBA PORTUGUEZA. IO9 

Brada : Âb âês meus ! Em tamanha 
^rejfa ninguém arremete. 

Vinham es porcos ã'jtídea 

Mais atrás , grunhir ouviram , 

Hum efcuma , outro esbravêa : 

IJles fi , que lhe acudiram ; 

Ptrdeo o lobo a fua cea. 

Elle folto vioy que o gado 

Da lãa branca eftava olhando 

De longe , indo amedrentado : 

Antes ( diffe ) fer mandado. 

Que em tal perigo tal mando. 
Bacorote orgulholb i epithcto , que carafteriza : Ffpanto- 
fo adjeílivo pelo participio EJpantado. Apanha pela ca- 
beia o doujete : Nefla imagem que graça nafi tem o di- 
minutivo Doudete ? Perãeo o lobo a Jua cêa : que ener- 
gia ! Que delicadeza ! Cêa , ifto he , a prefa do tracoro- 
te , que o lobo tinha já entre dentes paia o devorar. 

Nada faltava ao noflb Miranda para fer hum Fe- 
dro , ou hum la Foniaine dos Portuguezes na giaja na- 
tural do Apologo , fenaõ o entregar-i'e a efte género de 
Poelía , que cita os homens para o tribunal dos aniir.aes. 
Qye maravilhofa arte de pintar a verdade a travez do véo 
transparente , e fimples da allegoria ! 

Seria coufa mui prolongada , apontar tudo o que ha 
no eftylo defte Poeta de facilidade, naturalidade, inge- 
nuidade , energia , delicadeza , e outras qualidades recom- 
mendaveis. Muitos haverá a quem pareça obfcuro o cfty- 
lo deite Poeta , tanto pela falta de connexôes , como pe- 
las frequentes elipfcs , comparações , e allegorias lem 
applicaçaôcxprelTa &c. NaÕ ha coufa mais ordinária , do. 
que taixar hum Author de obfcuridade , achando ás ve- 
zes obfcuro , o que outros entendem claramente. O juílo 
feria diftinguir a obfcuridade abfoiuta, da obfcuridade 
refpeíliva. Os Paftores igualmente , como a gente do vul- 
go,' fad faltos de palavras, e os feus conhecimentos fe 
Zem. V. P cin- 

Cg.lzccbyCoOglC 



lio Mehokias 

cingem fomente áquella pequena porçaò de objeAos , 
que tem diaiue dos olhos : daqui o ufo frequentiflimo 
das perifrafes , das imagens, provérbios, allegorias , em 
lugar de vocábulos próprios ; e fe ifto fe ha de chamar 
obfcuridade , que he o que naó feráobrcuro em qualquer 
eftylo dos melhores ? 

Outros acharáô , que efte eftylo declina hum pouco 
para burlefco , pelas mifturas de exprefs6es baixas , e raf- 
teiras , fem -advertirem i.° que muitas vezes na6 fa6 as 
palavras em íl mefmas , as que mcreccDi tal nota , mas 
o lugar onde fe emprégaõ , o deílino , e applicaçaS del- 
ias ; que cada eftylo tem feus grãos de fubir, e de def- 
cer , e que no familiar , o que na6 he nobre , nem grof- 
feiro , peide ter feu lugar decente ■ Qua ( verba ) bumi- 
iia circa res magnas , apta circa minores videníur . . . 
Pim rebus aliquanão et ipfa verborum humiíitas ed- 
fert : (a) i," que riaõ confifte a delicadeza de huma lín- 
gua em efmerilhar as palavras , fobre a fàntaftica Opi- 
nião de baixeza , que muitas vezes deftroe as verdadei- 
ras delicadezas da mefma língua, fem por iífo a í^zer 
mais polida j no que com nolfo damno vamos imitando' 
os Francezes , em lugar de confervarmos as boas expref- 
síSes dos noflos infignrs Efcritores. 

Nefte numero conto aquelías exprefsôes :' Contos bal- 
dios ^ ifto he , conros , que fervem fò de paíFatempó. 
Eft. I. da Dedicatória defta Eddga VIII. 

Trasfegar , por lidar , ou tratar da fua vidff na Eft. 2. . 

Dar ítavejfo com tÍgo , por illudir. 

Embicar , por tropeçar. 

TrafpSr y por deíàpparecer. 

Affimar , por apparecer pouco a pouco , OU comejar 
» apparecer. 

(^e farte : achou qae farte, por baftanté"; expréíTaÕ 
que naá tem de repreheníivei , fenaò o abufo ou coiru- 
tella do vulgo , que diz cofarte. 

(a) Qainílii. Infiit, Orator, iiv. VIU. cap-j. 

EJl. 

I Dgilizc(;byCAH)l^lc 



DE LlTTEKATVlA ?0 » TU O U E z A. 111 

Eftt-utr , por extinguir , cotoo : A fattáade naSfe ef- 
truí-f e outras femelhantes. 

§ II. 
EJiyh Fafieril de Diogo Bernardes. 

Bernardes merece , a jufto titulo das bcUezas de- lo- 
cução , e eftylo Paftoril , o titulo de Príncipe dos Poe- 
tas ncfte. género. As fuás Éclogas faÔ de diverlos géne- 
ros , e por iíTo de differentes caraíteres íyialogos ao Paf- 
toril. Para conhecermos as forças deíle Poeta , baíbria 
examinar a iua Écloga XV. , que he no género terno. 

Ncfte eftyto entraó as forças de diívida , c incerteza 
com que os Faftores fòliaó, principalmente em matérias, 
que tranfcendem as fuás luzes, e conhecimentos ordina- 
rioF. Tal he aquella comparação com que Limiano con- 
clue o feu propofito : 

Viaem , que quando o mar bonança nega y 

Que corre aquella não mater perigo ^ 

Que ã desejada terra mais fe chega. 
Affim rtíacconteeeo a mim commigo : 

Seguro fempre ó longe , ftmpre ledo , 

Trijie , e tratado ó perto amo imigo. 
A fegunda parte defta comparação he engraçada com o 
pleonafmo a mim commigo., que ferve á aflèveraçafí , c 
com a antithefe ó longe , é perto \ ledo , trifte , fegu- 
ro, tratado &c. Bernardes he flórido n?s fuás Éclogas, 
quanto o género da matéria lhe permitie, fem lãh ir fo- 
ra do caradler paftoril. . 

As imagens das coufas naturaes entrai em qualquer 
parle, em lugar das propoliçôes direitas. Qualquer di-_ 
ria : Sempre em mim acharás Jincera^ e igual "oentade j 
□MB a expreíTaÓ paftoril diz : 

Prejiando para couja^ de teu gqfio , 

Cõmê CameleaS aaõ mudo' cores -y 

Qualh^ mtu*c^»ca&t talhe meu- roflc, 

P ii - Nas 



Cgilzcí:byV.jl.'».l'- 



ti2 Memorias 

Nas defcripç6c8 fe obferva a brevidade , e concifaô jú- 
ri iciofa , bem diiFerente da ambiçaÓ pueril de outros. Poe- 
tas , cujas dercripções ao menos por longuiflimas fe ià- 
2em faltidiofds. Nefta concorre duplicada graça pela re- 
petição , e vive2a da imagem : 

Fermofa vijla ( dará ) o monte , o vaUe , ff rw ; 

O rio , que verás tam focegado , 

Que te parecerá', que s" arrepende 

De Jevar agua doce ao mar falgado. 
Vê-fe a energia deftj imagem , para exprimir a grande 
ferenidade do rÍo Mondego , conforme a idéa de Ca- 
niííes, Cant. II. 

Vam as ferenas aguas 
. Do Mondego defcenão 
7am manjamente .... 
Como efte género abunda mais em pinturas fyíicas , tam- 
isem o Poeta lhe ajunta inaior colorido , coQio nefta def- 
cripçaô de hum lítio amciiu : 

N''uma fecreta lapa crijlal pura 

Verds ejiar caindo em gotas frias 

Por antre bum mufgo antigo verde-efiuro. 
Peregrino continua a defcripjaõ do íitio , onde o deixa 
Liaiiano (artificio que ferve á variedade, e dá ao Dia- 
logo hum ar Dramático ) e toma occaíÍa6 de enxerir as 
fuás admirações , fobre a amenidade da Kibeira do Mon- 
dego ; 

Que murthas ? que medronhos ? q^e áveileiras t 

Que freixos ? Como ejlaõ (fera- cingidos ? 

Quantas voltas lhes dd de mH maneiras f 
■ Os lyrios junto tfagua bem nafcidos , 

^anta graça que tem entre boninas 

Sem ordem com mais graça entremetidos ! 
Quanta graça que tem : frafe elíptica em lugar de, Quan- 
ta be a graça que tem ! Hoje dizemos mais breve , Quan- 
ta graça tem ! ou por negaçaÕ, que he mais enfático, 
(Carita graca naÕ tem , ou , Que graça naõ tem ? 

No que'fe vá a elegante cQQçiíaÓ, com que, o Poe- 



zedbyGoOglC 



HE LlTTBRATVBA PblfítratlEZA. fjlj 

ta reúne os incidentes n'uma meíma frafe , em líigar de 
ÍÍ3 eftender , o que feria languido: Quanta graça, qne 
tem os iyrios mifturados entre as boninas; e eftas quan- 
to maior graça tem entrefachadas , por eptre elles fem 
ordem, do que teriaõ fe eftiveíTem concertados por' or- . 
dem ? O que prova, que a noíTa ]ingua naS obítanie a 
falta da innexaô dos cafos , muitas vezes fe accommoda 
bem á concifaõ da frafe. As interrogações juntamente va* 
riaÕ i e animaã a defcrípçad. 

É continuando a tnefma' defcripçaã : 
yim encfefpando as aeaas cryjlalllnas 

Huma viraçam branda ; a filha treme ; 

O movimento apenas determinas. 
Vem encref pando , circumloquio de verbo inchoativo , mui. 
próprio para denotar a primeira acçaõ, e leve movitnen- 
to da viração branda fobre a agua.- O movimento ape- 
nas determinas , formula de extenuaçatí bem imaginada' 
para declarar aquelle buUir da foUia taô imperceptível , 
que quaíl mais o Ínculca6 as palavras , do que o perce- 
bem os olhos , que he a maior delicadeza de qualquer 
expreífaÕ , como Virgílio dífle em occafiaõ femelhapte r 

Vix offibuj harent. Ecl. II. v. 102. 

Que bello quadro , onde k nos pinta huma rocha em 
acçaÔ de cahir, e o efpeftador fufpenfo ! 

Efpantafe quem elba , vendo aquelía 

Rocha, por cima 4'agua pendurada , 

Como Jd Jè naÕ deiíta cabir nella, 
Pendurada, imagem do mefmo effeíto', que o penâere 
de Virgílio Ecl. I. v. 75". 

^0» e^Q vos poftbac virtdi projefíuj in antro 

Vumoja pendere procul de rupe videho 
A diãèrença tle que o quadro do Poeta Latino he mais 
delicado , o de Bernardes mais completo. Efpanta-fe quem 
olha^ moítra o efpe^adw actonito cOm a íliufat} dos feus 
olhos.: . nos verlos Latinos ehtende-fe o cuidado do ef- 
peclador, fem fe declarar expreífamente. No Poeta Lati- 
no o fentiraento hç mais patheticò , no fo£iuguez mais 
agradarei. A 

Cg.lzccbyCoOglc 



s 



XI4 K E M o K 1 A S 

A narração , que faz Peregriao d^s, fuás areoturas., he. 
hum modêilo de todas as narrações íntcreíTintes, e hu- 
ma cpUecçao, de betlezas Poéticas. O triíte Paílor nos fuf* 

Í)<ènde defde o' principip, no progretTo, nps inteKjQà, OA 
.iia^ Caiaftrofe nos laliíma. A fua hUlaúa he huma Tr»'- 
;eáia. 
íeu preludio he natural, e fimples : 

Mas par tprnar d pratica primeira , 
E dar te , como pedes , de mim canta , 
Sentemonos ao pé defta, avefíeira: ^c. 
RepararáÔ talvez. os inimigos dos equívocos, que oFaftor 
principie por hutn a fua narraçaCÍ: 

Na gram ferra da ejirella , que nai^ tive , 
Fui Anzino cbaniado , e. fui Parira. 
Mas quem naô vá , que aquelle dito he já huma como 
faifca de feniimento y que fahe do cora(^6' abafado , e 
naÕ huma diftracçaã } £lle . efiá^ ti.6 unido com o feiKÍ7 
inento , que . parece naturalmente d^via lembrar. 

Q^e de reflexões graves fe naô acha6 temeadas pelo 
corpo defta narrajaâ ! Que delicadeza , quando fendo-lhe 
declarado , que, eíle era. eAanlio em cafa de UlesA diz : 
Ctm efte defengano^ que de/ga^a 
Doutro pgdera Jèr , veatura rrfittba 
Servilo me fez mais cam Tnaier gafio,. 
Que imagens ! com que exprime a rara formolura d> 
Ulina , exaggerando quanto permitce a iUufad da paLuti : 

XJlina em cujos othos 

O Amor accender feu fogo vinha.. 
Por quem duras ehinbasy mil ehrolhot 
Sumia dentro em fi a tçrra dura , 
Criando em Jiu lugar flores a malbis. 
Npfla expoH^aÕ , que &z o Paftor das fsus difrellos ; 
podiaã aprender todos os Poetaa.a pintar o amor fyfico . 
innocente , como os antigos , fem os enlaos e cont;or- . 
soes , que os homens inventarão para feu tormento.» e 
que os Poetas enfeitaõ de miferaveis agudezas. Aqui que 
admirarei fingelcza, quaodo .d;z . Pe«S"°*' • 



Cgilzccby VjI.'».í'^I1. 



DE LiTTÈITAVÔIÍ A PoUTtTQUBZA. lljr 

Vivos OS manjos corfis Ibe tt-azia 

Vil^as as manjas lebres fugitivas. 
Atè'qi]i graça na repetição da mefiiia palavra no prin- 
cipio dos membros : fegue-fe outra nos cpithetòs , que 
^iritâO : 

E iaõftòs às que 1/ia áhâar ãrmaâòs 

Ho ãeHte cWtddòr , tttinhas efquivas. 
A interrogação para dar variedade ; 

Que aVes , òu com outras enganadas , 

0« ieoUt- nodõfô tede , òU Inõllè ijífcò ^ \ 

Lhe naõ foram por mim apr-efintadas ? . ' . _ 
A interrupção da nãrraçaiS , arguindo à ííía inadvertência 
para renovar o affeifto , e cauTar éipeítaçáô :" 

Mas fe cõM Máyof dor rninb''alma paga 

Eftas coujas , que ja tive par gloria , 

Porque voi/ renovando à inortal 'cbaga_ ? 
A íingeleza de eftylo nâi3 eicluê a delicadeza , como fe 
yê quando Peregrino' tocando òs geftos de fáudade d« 
huofi pequenino cervo dpméfticóy pela aufencia de UU-' 
na, dii francamente, e com coincidência de vozes en- 
graçãdas , èompàrando-fe com' aquelle ahimatzi|i];to ,: . . 

ÍQjf' Wemí fdtd trijle o t¥0ê Anzino.' . , 
Outra cõineidéiicià de' vOzés ãnàidgaá paqiiellja réflexáô;. 
CoT^migà algumas qtíebras defias teve ^ , 

Cujas fâr^ài amor _quel>ravà logo ..'.."- 

Nliuíra cohverfaçam niais ^rànàa e leve, . , 

Obíervartiriòs, eih quahrp á lécuç^'6 , huma, cHpfe muito 
lífíidà há noíiá llhgúii ,, e muí -famiíia,r ètR Bernarae^,' 
Camtíes , e outros dáqúêfle tenípo , tal coniQ : , ^ ." . 

Ficava éti de Medrojo^ ffiç è mudo. . 

^dm pude dizer mais. dé yergón^ofS. ; 
Onde De medrofõ y,Dé vergonhojo y lá^, eipreísáes atce-; 
viada^ erri lugar dé le dizer, por^ caujLde.n^eao,^^or 
cdufà de' vef-gojíha , tCímãndo os teriijóç Concretos 'pe^Oí/; 
AhJtraÈlos , quê hé também ciirra' figura.; _ _ . . 

B que" força'! Que energia «a6 tem aquella brevi4a- 
de. lacónica , medida a fituaçaô dé Peregrino , e de UIl- 
^a ',' «quando elie dix : En~ 



Jt6 M B U o B IA f 

Entende que fou t(U , naS teu irmaÕ. 

Ifto prova , que ha occaíiões > etn que do tneímo modo 
falia o Filofofo, e o ruftlco , oHeroe, e oPaftor; por- 
que em occafiaÕ de paixões Filofofos , e Heroes faí 
povo , na razaó » que oofervou outro Filofofo e Poeta : (<) 

Format enim natura, prius ms intut ad omnem 

Fortunarum babitum 

Mas os Paílores faõ Hinples e crédulos, e por iíTo os 
feus rentímentos e frafe ha6 de tomar a tintura dos feus 
coftumes > como quando Peregrino, defaffbgando a íiu- 
dor diz : 

Na porta o novo efpofo tropeçou , 

Na cafa naõ entrou c'o pé direito j 

Gritâtt foboh teito a noite inteira 

A ave mejfageira de Jins trifies : 

O mefmo vós fintijies , ca^s d^Jldêa , 

Quando por mi ejlrêa juntos todos , 

Com differentes modos ouviajles. 
Soboh y por fobre o, prepofiçao com artigo ligado por 
eufonia. Teito por tetto fc dizia antigamente , como 
n'outras dicç6es , pela lei que naturalmente preícrevia o 
ouvido. Os Gramraaticos , e Etymoloeiftas , pugnando pe- 
las origens Latinas , nem fempre reformarão a noffa lín- 
gua em rhelhor ; e por fer filha da Latina a reduzirão 
a fer efcrava. As articulações complicadas, como//, £Í 
&c. tem hum naõ fei , que de dureza na noíTa língua , 
que he mais afFeiçoada a vogaes : dahi veio ,, que o 
^ftò natural do ouvido tinha feito regra de converter a 
coiífoanté mais vizinha n'outra vogal , que melhor Ugaf- 
fe com a vogal antecedente. As verdadeiras regra? de nu- 
ma língua , principalmente neíte particular, nalcem do inf- 
tinílo nacional , e nenhuma língua nafceo de regras. O 
que na noITa fe chima corrupção do Latim, ifto ne, al- 
guma pequena diverfidade da. antiga origem , verdadei- 
ramente foi elciçaõ riafcida daquelle inftinílo, que he o 

C«í) Horat. di 4rt. pQtt. v.' io8, 

.. _ ~ ' que « 

Dyilizc()byCt.H)^lc . 



BB LlTTEU AT TRA POBTUQTTltA, II7 

<pK fórmziSiTcgTas próprias, e particulares de cada lín- 
gua , Tem depenidencia das outras. 

Tal he o artificio do noíTo Poeta nefta Écloga admi- 
rável ; e n-AÔ o he menos o talento do Poeta n'ouira8 
dp'^ÍÍfèrentc aíTumpto. Por exemplo na 16.' reina hum 
cftylo familiar, chafi , íingelo , hora picante, hora engra- 
çado , e hom pouco cómico , conveniente ao Dialogo de 
dous Paftores , que fe commuoicatí fem aflumpto mais in- 
terelTante , do que a fimples communicaçaô , fiipponfio-fe 
Paftores da fegunda ordem , ifto he , Paftores ■ de maior 
iimplicidade. Defte caraíter he aquella expreflàfi no en- 
contro dos Paftores , 

Hu te levam os pés tam apreffaio ? 

£ que levas nas maõs , Diego amigo , 

Que parece , que vãs âellas pejado ? 
Hu y por onde , vocábulo antigo : taes exprefslíes faíJ mais 
familiare9:a Paftores^ nos quaes é linguagem he mais du- 
rável. LevaS-te os pés , he expreíTaÔ das mais familia- 
res , e ^ue moftra hum certo ar de defenftdo , de quem 
filia mais em graça, do que em- ferio. Pejado das weõs , 
pw occupado, embaraçado, como na Carta II. do Li" 
vroll. ao Cardeal Infante: 

■ Conttarto ao àem commam ferei , fe tente 

Com meus verfos , Senhor , pejarte bum^hora. 
Aos Paftores, fallando em graça, fa6 naturars os chif- 
tes , daqui nafce aquelle equivoco com que rcfponde o 
companheiro : 

• Levo pés nas maÕs 

entendendo para íi pés de trova, ifto he, verfos, que 
levava. 

Á mefina familiaridade e íingeleza pertence , 

Pois eu , inda que tu mal me efireas 

Ejpero dejia feita melhorança , 

Que o mel vaife bufcar , bu ha colmeas. 
Mal ejirêas.y por agouras mal , ou pronoftícas mio fuc- 
ceflb. DeJla feita , por defta vez ; Melborança por pro- 
veito , ou aproveitamento ,: que o Poeta judicicísmente 
Tom. V. . Q. fou- 

Cg.lzccbyCoOglc 



ii8 Memokiaí 

-foube variar pelos fynoD^mos , quando Bieito perguon 
fobre o referido 

Qvatí fam effes amigas , em qtte ej^és 

X)e tornar àejla vez avante jado } 
£ quando Diego gava a boa memoria do £eu amigo , 

Bafe , que tens mui gram maginativa 
Com propriedade , porque os rufticos coftamad dar o nO' 
me de imaginativa quaÁ a todae as operações d'alii)a. ' 

Picante iie aquelle dito, com que Bieito mofa do 
amigo por ironia, quando elle lb« -declara , que faõ ver- 
Sos , o que no principio lhe diílèra , que lerava nas iaaAs* 

Eu te juro , amigo , que fe foubera , 

jO»ff tu ttu ^ca-pé fazàas fujfiy 

Que pçr menos fifuào te tivera. 

Ora vai ; que vás U som bom ferviço. 

 Écloga XVIL he féria , e de aiflumpto extraordi- 
nário: he o Dialogo de dous Paftores , lamentando-fe das 
calamidades da guerra: he agradável íingulamiente pe- 
la propriedade e jiovidade de exprefsfies paílorís , pelo 
■deleite das imagens com que fe explica6. 

 falta dos termos próprios , que os Paftores igfio- 
JS.6 nas coufas alhéas da fua experiência, faa que hum 
ufe da Onomatopéa , para declarar o eftrondo dos tiros, 
explicando afllm o feu efpanto : 

Nam ouves nefies montes ejcalvados 

Hum continuo bum , bum , bum fero eftrendo 

Que nos a todos Id traz ourijados. 
Que energia ^ quando hum declara a crueldade dos Sol- 
dados com a gente montanheza t 

Aqu;lle que mais pôde , uaÕ eJUma 
■ Entrar por onde quer j faí(uea tud« : 

^ fogo i^az na mam , a maça , e a lima. 
O dona d» curral ba de Jer mudo , 

^e nam quer em foliando buma fé falia 

Provar com damno Jèu , feu ap agudo* 
O feu rouca metal nunca Je ealla 

Parece , que diz fempri : Mata , mata : 

Defpede o ferro Quc$ a mortal baila. Do 



DE LlTTBSATUKA POBTUGVBZA. XIÇ 

S III. 

Do ejiylo Paftortl àe CamSes. 

Eotre oa noíTos Poetas Paftorís fe díftingue também 
Camões , ainda que poucas Éclogas nos deixou ; mas os 
&11S Paftores pela maior parte faõ Poaas em realidade,- 
e Padores fó em figura. As fuás Eclcgai rem aqui e at- 
li algumas decorações paftorís , que faõ como lugares 
communs nefte género '• os íeus verfos faÒ de grande 
fuavidade, e doçura, e o eftylo faz huma illufafi agra- 
dável pela propriedade das exprefaões, pela elegância; 
fdire tudo ne admiraTcl nas pinturas fyiicas ; nada lhe 
falta fenad a ingenuidade » o tom paítoril , e aquelle tnol- 
le atque facetvm ^ que a Mufa Latina concedco a Vir- 
gílio , e a Portugueza a Bernardes. Ninguém melhor, do 
que Camões teria efta ventagem , fe como outro Ovi- 
dio , fe naõ entregaíTe á natural facilidade , e fecundidade 
do feu engenho : com mais juízo , e menos de viveza 
feria Príncipe nefte género de Poeíia , como he oos ou- 
tros. 

Na Écloga I. eftá bem dito , que as horas dos dias 

— quãS conformes JaÔ na quantidade 

TaS ^ifferentes fào na calidade. 
Mas hum Paftor , que aaõ conhece comparações de ter- 
mos abíh-a^os naÕ fallaria aíEm. 

E muito menos he crivei , que hum Paftor diga , que 
08 trages dos Paftores eraÕ 

Os trages de abra tanta , e taÕ fobeja , 

Que fe a rica matéria naõ faltava , 

A obra de mais ric^i fabejava. 
Também he muíto fino para a esfera de hum Paftor , o 
dizer, que 

o •avtBT de Ji mejmo fe temia ; 

Mas mais temia, o penfamento falto 

Uà na& fer para ter temor taõ aJto. ' ■ 

-:., (Xii Nem 



DgitizedbyGoOglC 



I20 Memobias 

Nem os Paítores conhecem as máximas da FUofofia pa- 
ra Te lembrarem , qae 

— Se ba coufa , que falba ter firmeza 
He fomente efta /et áa Natureza. 

Hum Paílor de Camões diz optimamente : 

NaÕ vês que mora afirpe venenofa 

Entre as fivres do frefco , e verde pradd. 
Ifto. he huma bella Imagem, e muito natural^ mas naft 
lie aillm a reflexão feguinte : 

^ naÕ te engane algum contentamento , 

Que mais injtavel be que o penfamento. 
A comparação do contentamento, com o penfamento , lie 
idéa hum pouco fubtil e mctafyiica , e por iíTo melhor 
para hum Filofofo coítumado a abflracçóes. 

Em eftylo llmples e natural , qual deve fer o pafto- 
ril , naõ tem lugar exprefsôes audazes , e Cam6es faz di- 
3er ao Fallor Frondelio : 

Toda a alegria grande e Jumptuofa , 

Abrindo a porta vem ao trijte ejlado. 
Ainda n'ourro género de Poefia mais livre podÍa-fe per- 
guntar y que quer dizer, alegria fumptuofa , quanto mais - 
no Paftonl. É como pôde fallar taõ exquiutamentc o 
mefmo Paltor , que logo díz : 

— Fejo ejle carvalbo , que queimado 
Tam gravemente foi do rayo ardente. 
NaS Jeja hora prodigio , que declare , 
Oue o bárbaro cultor meus campos are. 

Elte receio he muito do caraÃer dos Paftores, e tem 
fua delicadeza. AíTim he que a Poelia palloril he rufii- 
ca , fem fer grofleira > engraçada , fem fer eiquiíita.- 

Aqui pôde o Poeta lingir agradavelmente aquella ima- 
gem , que Umbrano vê na fua imaginação: 

— hi nas altas ferras , onde nace 

O facro Tejo d fembra recojlado , ; 

Cor feus olhos no chaÕ , a maS na face 
Eftd para te ouvir apparelhado ; 
Mas ^». locuçaú paílorU a Ucença Poética natf piMe fer 

fe- 



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DB LlTTÍR.AirW» A PokTVfiTIEZA. lil 

fcna6 muito moderada > e naó fei fe ella falvaráo íe* 
guiiite : 

E com Jilencio trijle ejiaõ as Nympbas 
Dos elhoj deflillando claras lympbas 
Porque lymphas a rerpeito de ojnos, e fobre tudo na 
bocca de hum Faftor > he linguagem' Flamenga. 

Quando a Écloga he narrativa , e o Poeta he o que 
narra, enta(i o feu eftylo admltte maior elegaocia e pom- 
pa > do que a Écloga Dialogioa , pofto que ainda alllm 
deve o Poeta tirar os ornamentos dos.obje^os campei* 
três. Por iíTo neila parre liema'is regular a. Écloga II. 
de Camóes , ondeio Poeta, narra >por iitnefmo, antes 
de introduzii' a Dialogo Almeno , c .Agrário. O feu ef- 
tylo he grave, e inageftofot principiando a frafe oUi'. 
quamente , como fe vé : , 

Âo hngo ãú fereno 

Tejo fuavf e brando ^ ' " , ■■ 

lipum valle de altas ar&rres ffonbriOy ■ 

Ejiava o trtfte Almem -'■■ . ■ ^ 

Sufpirss tjpalhando 
Ao venta , e doces lagrimas ao rio. ■ 
Logo levanta hum pouco mais o eftylà com imagem fu- 
hlime ■■.:>.■ 

No derradeiro Jio - i ..■;.. i ; " 

O tinba^ a èfperan^a., 



Que cem ■ doces enganos 
ejufl ■ 



LSeJufiântdra a vida tantos ânncs. ^ . . , 

l^uma amorafa\e, branda canfiança: . '■ 
Na6 lhe he prohibido entrefachar fentenças, e reflexões 
agudas , . ' \_ 

Que quem tanto queria 

Parece ^ que naS trrà., fe confia. 
As imagens e pintuias campeftres , fafí aqui de hum ef- 
malte engraçadiflimoy e com loques delicados, quemar- 
eeiiíos com' cfte Çmtl * -..'-■ r 

-' - ■ Jl noite éfcuwa dava 
Repaufo aos cangados 

Jjii' 

Pq,l,zc-JbyCA>Oglc 



ttt M BUO K I A S. 

JÍãimaes * efqiíícidçs . 44 verdura'. 
O valle trijle ejlava 
Cuns remos carregadús , 
* Que indtt a neite figàem mais ef€urã : 
Jigrtciã a efpeffurã 
Hum temerif/à ejpaníp : 
jís roucas rani. foavam 
liPbmn charco de agua ne^a , * f ajudavam 
D0 peffaro noBurno a trtjle camtt. 
Imageui lublime-, 

O Tejo com Jhm grave 
Corria- mais medonho , que fuave. 
Outra imagem fablime, mitigada , que de oufin fónu fe-. 
ria extravagante-, e peofamento falio: 
Como toda a triftesM , 
No Jiiencio conjifie , 
Parecia , que o valle ejlava mudo ; 
E com </?rf caverna 
Ejlava tudo trtjle ^ ... 

Porém o trijle Almeno mds quf tuda , 
Tomando por efcuda 

-;' Dá jua^ doce pona^ . 

Para poder joffrella 
EJlar imaginando a caufa delki''; . 
NaÔ he preciío mais: quando trabalha no ièu natural, 
ninguém he Poeta como Gam^ev \ mas o &u entfauliafmo 
1136 fofFria Jugo, e o íbgo da. Tua viva imaginação neoi 
fenipre lhe dei](a.va ver. O camiobo,>poK oade aodsFa* 

§ IV. 

EJlylo Pajloril di Pedro de /bidradt Caminb*, 

Ao zelo. e diligencia da Academia.Rcal das Scieaoias 
devemos as obras Poéticas do ílluftfe var«&,,e infignePo»" 
ta Pedro de Andrade Caminha, BUaa laú> como o pú- 
blico tem vifto, lium dos psecioíos. monumeiuos.^ daquel- 

te 



zedbyGoOglC 



DK LiTTBKATOR A POITVQVEZA. 12$ 

le íeculo' áureo da Litreratura Portugucza , em que a No^ 
breza o Fidalguia tanto hohravaA o commercio das Mu* 
fas , quanto dell^ fc prezsviú. Feio que pertence «o ef- 
trlo paftoril , fomente temos defte Fidalgo Poeta quatro 
£ck)ga8 , a« quaes todas fa6 de inTen^aÔ fimples , ina« 
hata modello de propriedade -, c eieganeía de linguagem 
( entendido cfte termo elegância na reftricça^, em que al- 
guns o tomatí ) : c como a ingenuidade e fingeleza natS 
exclue a delicadeza de fentimentos , efta fe acba de tjuan- 
do. em (^ado nasEcIogaE de Caminha. TalJi« âidài, 
que nos dá a i.* Écloga intitulada FUis. 

A íocnçad hè fnira e .HmplcB , como fe vê , defcre- 
rendo o encontro dos Paftores, qac íèrve de proemíoc 
Acafo dmj Paftars fe juntaram , 

^aaãs mais feu ardor o Sol mofirava 

N^jtma fimbrm , ande 9 gado refrejcaram. 
No colloqoio dos Áiftores fe vê £n^eleza , coano : 

Se poda .( AsííM ) refoufar , Sertano , 

JÍqiti afiarás quiete e 'ref<mJado. 
Já hum pouco mais engradada com aquella repetit^aã: 

Docemente alternados o tocavam^ (opaâoril iajlruinento) 

£ áquelle fom.ftíavè docemente 

Alternados de Filis fi cantavam. 
Nefta EclojEa lemos ; v . . 

AJperiffime FiHs a meus dakos 
Onde o Superlativo afperijjimo , a. pôde authorizar-fe bem 
com efte Poeta , e paífer ao afo , melhor que afptrtimQ 
do Latim, «ineUiorque o ctrcomioquio muito ajpero. 

Vé-fd o ufo, que tem oajioíla língua o verbo Abor- 
Kcer : 

Vejo , que , quanto pddes , te avorreco. 
Ifto iie^ que me aborreces, porque peio mefmo rerbo 
explicamos duas relações o^^tmza , Jctltcet ^ da ac$a6> e 
da paixaã. Dizemos 

Aherreço-te por, tenho aborrecimento a ti. 

Aborreço-te j por, tu me teiis aborrecimemc. 
A eqaÍTOCa{áÕ deClpparece na sppiica^aã do propo£to , 

aliás 



;il4 . '■ ■ ■ :í -' ■' 'M ■ ÍM o 1 ■« 'ft; « ■■ i : í .; . ; 
airá's toda; 3"mçtifora ^ íroaia. &c. fòria> «fafiiundad&) E 
de íèmétliáiite obfcuridadc de termos , dsfde-t^nti o ufo os 
tem abraçado , fe pôde dizer o quie difle hum Filofo- 
£o {a) em outro própoíito , vem a fer, que ha ok lia- 
guas hum certo gráo de obícliridàde , -que Je ha conver- 
tido em betkza.> e como Jie.oblcwidáde pafla^ira., fal- 
làndo propriamente , he coído a diflbnantía , que. íe in- 
troduzio na Mufica. Que hiim Grammaiico fevero decre- 
te, que tal, ou tal expreíTaÕ he obfcura : que importa? 
Eu entendo., ê .entèndem-me : bafta , falto a mloka lín- 
gua. , -■ I ■ ■ ' -.1 :. ■ ' 
-. He humai conílmcfaã dura, que. íó- a Foefia pôde 
dsfculpaf, quando din :.■.■■ 

Si ã voz -teu canto ás vezes fi m^ejlrova. 
Em lugar de Se a voz fe me' ejlrvea ão teu casto ^ if- 
to he. Se a voz enrouquecend^fe , .me impede o cau~ 
tar-te : género de Hypallage, quevaPoefia oa ooíla lín- 
gua naó admitte , fenad com- muita fobriedade. EJlrovm 
por Eítorva , fe naõ he por figura da dícjaíJ , era aíHm 
o ufo vu]gar daquelle tempo. . . 

Pofto que a delicadeza da locuçaÒ , depende mais da 
delicadeza do penfamento ou\afièiuo ,. que das palavras , 
lie com tudo huma.efpecte de delicadeza , quando a fra- 
fe contém a comparação , e relacaÒ de duas idéas , paf- 
fando ligeiramente de huma para outra, fem moftrar a 
idéa', que as une , como : 

Dam teus olhos d pena, Filis , termo : 
Sem eiles quant» vejo he efcuro e ermo.. ■ 
Que. vaie. , o mefmo que: A pena he para mim, como 
a efcuridade para as coufas vifiveis : e os olhos de Fi- 
lis faã para mim , como o Sol para a .efcuridade &c. 
A/fim faõ outras femelhantes eiprefsfies defte Poeta. 

.Na Écloga IV. Androgeo, realça a delicadeza dos 
penfamentos aquella repetição em contrapoftos : 



(a) Ut. Harriey Pbyf. des Sm. Tom- 11. ãi la Poefií* 

Âs 



Cgilzcí:byV.jl.'».í'^ll. 



BE LlTTBR^rvRA PoBTVGUEIA. I2J 

As Ninfas áejies bifques apartados 
. Te defejam e efperam co' ai maõs chêas 

De doens a ti yo', ¥ilis , dedicados, 
. Para -ti mais copio/as fuás vêas 

Soltam as claras fontes e os ribeiros. 

Mas tu 14 fó com tigo te recrêas. 
Para ti os frefcos valks , e os outeiros 

Se vam cuhrindo de mil varias jiores , 

Mas tu em ti fó tens goftos verdadeiros. 
Para ti cantam fempre mil Pajiores 

Em amor apurando a voz , e a canna i 

Mas tu tens fé cem tigo teus amoles. 
Como falíamos a primeira vez defte Poeta , de paílâgem 
notaremos o feu dialeiílo particular nas formas dos ver- 
bos , e outras dicçóes , taes como fe vem na fua ortho- 
grafia , ílr , / do verbo Ser fem H i as vozes do preté- 
rito terminadas em om , ferom , juntaram èíc. tirando á 
pronuncia Heipanholla , como também nem por naô : as 
vozes do preíente terminadas em;í»i,,como oujam y re- 
ceam -j da mefma forma nas do imperfeito, como ef- 
tavam ; e no conjunílivo , como fejam. No futuro ló 
ufa dodithongo, como verdÕ ^ benrardÕ Sx.c. Cujas diíTe- 
renças fe naÕ achaó , nem no Cam6es , nem nos outros 
Poetas da fua communicaça6. Donde fe vê , que cfle 
Fidalgo tinha feu fyftema particular de pronuncia, e or- 
thograíía , como em pane pertendeo inutilmente intro- 
duzir o celebre Author do Verdadeiro Methoào de Ef- 
tudar &c. , ■« como ainda pertendem alguas éccos deftc 
crítico. 

5 V. 

Tio ejiylo do injigne António Ferreira no género Paftoril, 

Mais fértil , mais jucunda , e graciofa , he a Mufa 

do noflb Ferreira nefle género de Poelia. Bafta olharmos 

para a I. Écloga intitulada Arcbigamia , que he lium 

Epilogo das beU«zd(s defte eftylo paftoril. Nella fe vâ 

Tom. V, R hum 



t1l6 M E M o K I A S 

hum pouco maie de nobreza e ornato ^ quanto pede a 
nobreza do argumento j a fingularídade do defenhoj e a 
lituaçaò dos interlocutores eitaiicos; e fobre tudo na i.« 
parte » onde o Poeta í^z a íntroduc^aô dcfte Drama Paf- 
rll. 

A magnifícencia fe mollra na extraordinária compo- 
liçaã das palavras , que em Longino faz huma parte da 
fubliinidade de eftyio , no ufo das circumlocuçfies fubfii- 
tuidas ás palavras valgares , na energia , e grandeza das 
imagens , e defcrjpçtíes , como : 
No tempo , que o cruel i furiofe 
Imigo aos Pajiores , e dos gados , 
Da terra , e das fementes , bellkofo 
Marte , Jègundo contam , por petcados 
Do mundo, contra o mundo tam irofo 
Defeco j que té os lugares mais fagrados , 
JÍ^ com ferro e fogo commetteo , 
Que tudo de ira , cinza , e fangue eneheo. 
Onde faz hum effeita admirável a tranfpofiçaô de belli- 
cofo Marte. Outra circumlocuçaÕ de Portugal , com ima- 
gem , que defcreve o fitio: 

Nas derradeiras partes do Occideníe 
Onde a Sol de canfaâo fe refaz 
De nova luz , pêra a tomar á gente 
Donde fe parte , que as efiuras jaz : 
E pola que alli deixa, outra excellente 
Leva , e muito mais clara da que traz , 
O pacifico Jaam , e piadojb , ' 

Reinava entam no mundo gloriofo. 
Neílas duas bellas oitavas fe contém elle- penfamento ; 
no tempo em que ardia por toda a parte a guer- 
ra , reinava D. JoaÕ era Portugal. O Sol de canfado ft 
refaz de nova luz, imagem fublime. De canfado, conf- 
irucçaõ eliptica , como jáobfervamos n'outro lugar, por, 
por caufa de ejiar canfado. Muito mais clara dâ que 
traz , eiipfe do comparativo , em lugar de , de que he 
^aquella que traz j como na Elcioga Protheo de Camt- 

ofaa: 

DgitizedbyCoOglC 



DE LlTTE-H ATUB Á FoBTVSVEZA. XIJ 

oha : Os teus louvores de tedo o engenho mores \ ifto he , 
maiores , do que he todo o engenho^ 

Tal he a liberdade , e elevação , que fe concede aos 
Poetas nefta efpecie de Éclogas allegoricas , quando o 
Poeta claramente falU , tazendo as vezes deiíuin Pallor , 
ou fuppondo-fe narrar o que ouvio , ou introduzindo Faf- 
tores Iium pouco mais polidos, e de maior esfera. Çréo, 
que o DotTo Ferreira tinha na Tua fantalla as efpecies da 
çxcellente Écloga de Virgílio , feia ao nafcimento de 
hum filho , que nafcéra á Fotlio , que Mr. Fomenelle eji- 
eenhofamente , mas fem razaâ critica , como deftltuida 
jaaquella llmplicidade camponeza , que conítítue o toiQ 
palloril. 

Daqui nafcem as antonomaíias mais exquijltas , co- 
mo : 

Filho daquelle que no mar vereis 
Em Balêa fentado , ou Crocodilo , 
Em lugar de Neptuno , e feu tridente 
Na mam , como feu Rey , e de fua gente* 
/is imagens mais Poéticas, ifto he, mais livres, comp 
quando diz de J ano, que 

4^ f^f" "« cadêas teve a guerra , 
Que fÓ paz reinou fempre em fua terra. 
Daqui vem , que ainda as ideas paftorís admittem o maior 
colorido, como quando defcreve os eSeitos da paz: 
Cantavam os Pajlores defcanfados 
Pelos valles , e campos tam feguros , 
He fi^ede feus rebanhos defcuidados , 
Como quem naS temia os máos , e duros 



Jmigos , de que foffem (alteados , 
Suas choupanas eram fartes muri 
Seus ver/os e cantigas todas eram , 



Louvar o feu bom Rey , que os Ceos lhes deram. 
Fortes muros : que energia ! Na6 he iiuma imagem figu- 
j-ativa de choupanas , mas figurativa da fumma liberda- 
de, de que gozavaõ ps Paftores ; expreíTaÓ , que reúne 
guitas idéas , p,ara dizer , que ■ naô ines craõ nectflarios 
. ,. * R ii " "' ou- 



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ii8 'Memorias 

outi;os muros , mais c^ue as fuás choupanas , <]iic as fuás 
choupanas fóseraô para elles baftante defeza , como faó 
os muros de huma Cidade ; que nao tiniiaâ inimigos , 
que temer &c. Efte Poeta tem muitas deftas eipreTsões 
íòrtes , femeadas pelas fuás obras , que podiaC encher 
hum bom catalogo : prova da d«licaaeza do feu enge- 
nho, e efpirito de fublimidade , como veremos na Tua 
Tragedia. 

■ Seus verfos e cantigas todas eraÕ =3 Louvar &c. ex- 
preíTaÔ concifa , e redonda , que pitita admiravelmente o 
Jentimento dos Paftores. He efte hum idiotifmo , e delica- 
deza da nolTa lingua em muitas frafes femelhantes , quan- 
do queremos exprimir huma como identidade de duas 
coufas , como aqui , das cantigas , e dos louvores. Seme- 
lhantes frafes parecem truncadas , mas verdadeiramente 
faS humas exprefsâes lacónicas , defpidas fó de huma 
folhagem de palavras , que declaraõ as idéas vizinhas 
do objedlo , mas idéas , que fa6 defneceffarias , quando 
he precifo exprimir effe objeíto defcarnado , e fazer mais 
fenlivel hiuna idéa , ou huma imagem , ou hum affeílo. 
Alfim objeíio era aqui huma idéa vizinha de cantigas , 
e louvores , e feria a frafe mais chêa , fe alguém diflef- 
fe, que o único ohjeêío dos verfos, e cantigas dos Paf 
teres ^ era o louvar a feu Rei i mas tal expiefíaÕ no ca- 
fo prefente feria mais fraca. 
Outro bello quadro; 

Crefcta a groffa efpiga , e fe Cegava , 

Dejpois que já quebrava de maaura , 

Daquella mefma mam , que a femeava : 

Pafcia o gado gordo da verdura 

Da ferra , que royda fe queimava , 

Para lhe renovar fua pojiura. 

As aguas claras tam livres corriam j 

Quam livres caminhantes as Miam, 
NaÕ faÕ eíles huns ornamentos adventícios , chamados 
fó pela ambição, e pobreza do Poeta, taes como aquel- 
les , de que Horácio diz : Purpurem late , qui fpif^ 

deat 



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DE LlTTEUATUSA PORTOGUEZA. I29 

deat . . Affuitur pannus . . . Sed nunc non erat bis 
locus. 

Groffa efpiga : gãào gordo : asues claras , faõ epi- 
thetos, que os Francezes chamati Pittorefcos. 

Groffa efpiga . . fe Jègava- Maõ . . que a ftmea- 
va. Elpiga naõ fe feméa, na6 k fega. Eíta illuraõ da 
expreíTaã figurada, aproximaRdo idéas acceflorías, be af- 
fás agradável quando fe pinta. 

Para lèe renovar fua pojlura. Metáfora propriiillíiia 
pda analogia de poílura do roílo , ou feiçatí ^ com poítu- 
ra da ferra , monte &c. , que renovando-íe tem nova 
face, ou moftra nova apparencia com a verdura. 

He bem fenfivel a graja daquella Antithefe , Aguas 
tam livres , . quam livres camivbavtes . . corriam li- 
vres 1 bebiam livres j em lugar de livres corriaÕ as cla- 
ras aguas , e livres as bebia6 os caminhantes. Mas e&a. ' 
figura he mal-aventurada com a crítica de alguns moder- 
nos. 

Que novo penfamento , alludíndo aos eftudos das Sei- 
encias da Uníverlidade de Coimba , nova planta d'El- 
Rei D. Joaô IIÍ. 

Aqui Pattas e Phebo 

" amiefdram 

-. Aos homens kvantátr os penfamentos 

A coufas , que té H nunca cuidaram í 
Qie delicadeza f 

Cegos fi de Jeus cegos movimentos , 

Os Ceos t e as EJlrellas , que naS viffm 

Já agora as fabem ver , dantes as criam. 
Em narração lad grave o efpirito fublime do noíTo Poe»- 
ta, longe de fe cativar de huma tímida imitaçatí dos ef- 
piritos íegmaticos , ufurpa com generoía liberdade os' 
,vóos-da Poelia Lyrica na interrupção da frafe , quando 
entra a defcrever a fonte , onde fe recolherão as Deo- 
fas , deite modo : 

Aquella fonte antiga, que bum Serrano 

Fez- de lagrimas fuás ( que antes era 

Hum 



1^0 M B II o » 1 A í 

Him gram penedo duro ) Lujitano 

Pajlor , que tfuma ferra fe perdera ; 

( Segundo contam ) festoe tal eagã»o 

Amgr , que nejia fonte o convertera. 
Os fencimencos .de compaixão de OtlUío fe exprimem 
delicadamente , queixaado-fe contra o Amor. 

Amor cruell 

EJie corpo , que tens lançado ahi 

Menos te ha de fervir morto , 41W viv» : 

Dalhe alma , e vida , ao pteaos para ti* 
Que nexo natural de idéas e ÍsnúmtaX9^i .naquella ea- 
genhofa correcção ! 

Mas ah ! que digo eu trijle} Também firvo 

A quemtaes pagas dd: tombem mas d^m : 

Hai \ àoefe d^hum cativo outro cativo. 
Que de exprefsões enérgicas , quando Setrano declara a 
-íua aliena$a6 ! 

A memoria de mim trago perdida. 

Muitas vezes me bufco , naS Pte vejo ; 

Minha alma de mim mefmo anda fugida* 
Chame quem quizer a i(to penfameotos refinados á Ita- 
liana y com tanto que fe .emenda ^ que dtes nunca me- 
lhor fe empregai, do que quando íe defcreve o eftado 
de delírio » como aqui : onde também cabem as IocH;ães> 
ou frafes extraordinárias , como aquelle latinitmp : 

Eu a mim mejmo ds vezes me fou pejo. 
Em quanto ás antithefes, na6 fel como poíTa^ enojar aos 
Críticos feveros aqueilas , que nafcem doa mefmos penfa- 
mentos, e reúnem aatuj-alidade , força, ,e graça, como 
-aquella : 

Hai I doefe .d^bum cativo outro cativa, 
'Nafi paílàrei em claro huma forma de -comparaçaJÍ .HQ^a, 
■e aífás palloril , disfarçada Jia .apparencia de digrcflaQ» 
-ajuntando as femelhanças de vários objeílos , que fe pin- 
taô, fyficos e moraes , e fufpcndendo par muito .te;ilpO 
a actençao, até que .feutcitre o -fugeito da compAraçã'}' 

f^ês tu ejfa.bema fiam revgr^te^ -^.c 
, . E 

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DE LlTTEIlATU^X Pt) R T II G V I Z A. Ijl 

E aquclla imagem de tanta força : 

Ves o ri» , qv€ vai de monte a monte 
Carregado de roubos e queixumes , 
Que hora ameaça , bora nam foffre a ponte ? 
E depois de paíTar em revifta os objectos, que efcolhea 
A que dizes bora ijfo i me demanda : 
Digo , Cajlilio , que eu fé vivo firme 
Em minha dura eftrella^ que me manda* 
Me demanda y Ífto he, pergunta-oie. Efte lugar do Poe- 
ta authoma efta paTticular Jignilicaçaâ do verbo Deman^ 
dar , c\\xt alguna dos hoJTos Puritanos oaô- oufariaô' hoje 
empregar > pela fufpeita de fer tomada do Francez De- 
fnanáer ; mas ilém por iflb. com efte exemplo fe pôde 
âuchorizar huma defenfreada licença , ou , melhor dilTe-^ 
ra , pedanteria , que ha em muitos de aportuguezar innu- 
itieraveis exprefsoes Francezas ,. e até certos idiotirmos- 
defla língua , com naã fei que vaidade. 

Naõ efaueceo aqui ao Poeta de fazer as noticias de 
algumas raridades , que os^ Faftores allegaO , dependenteS' 
da tradição , como quando Caftilio diz : 

. Jd ouvi dizer 

lybama ave , que naõ morre ^ fem que cante. 
IToutra também , que quando quer morrer 
Ajunta os pdos , com as az-as fere fogo , 
Queimafe afli , e dalli torna a nafcer.. 
Cuja tórma , como noutro lugar diíTemos, exprime o ca- 
rader dos Paílores , a fua limplicidade , hora na credií- 
Hdade , hora também, na. defconfiança , como fe vé noi 
feguinte ; 

Tomrvtt eu ifto ^ quando ff cuvia logo 
Por fabula , e por grafa : fenam guando 
Eu mtfmo hum dia vim caBir no jogo. 
SeJUiÕ quando , partícula connet^iva , por eisque , deno- 
tando a coincidência na6 cfperada do que a propoílça6> 
aiBrniBi- Cahir na jogo , frale altegorica ,_ por experimen- 
tar a mefma fortuna. 

Vâ-fe como. efte eftylo admitm as £gura& Oratórias y 

quan- 



ic.byCooglc 



i^a Memorias 

quando os Fdílores Ce piuta6 em /ituaç5es pathedcas.' 
EJle meu figo ( dízia eu ) em que and;) , 

Quem mo fa& hora ? eu mejmo : quem me infiatmna ? 

Eu : eu o atiço , cu me vou queimando. 
Daqui vem o inuliiplicar as exprefsões do fentimento, 
como quando o Paítor para declarar , que a Ji mefmo 
era delconhecído , á\z : 

eu meJmo me pergunta 

Quem fou , que bufco , ou quero aqui , que faço } 
Nefta Écloga , como nas mais deite Poeta le vé , quan- 
to elle tral»lliou , á imitaçad de Virgilio , a conciliar na 
fua locução e eftylo , a pureza , propriedade , e nobre- 
za das exprefsães , com a Jlmpliciaade e ingenuidade do 
género paftoril > que he huma das grandes difficuldadcs 
nefta matéria. 

CAPITULO V. 

Exame do ejiyh Lyrico , de Ferreira , Camões ^ Cami- 
nha. 

S I- 

Da locução e efiyh Lyrico de jíntonio Ferreira* 

SENDO tatS grande o merecimento de António Ferrei- 
ra nos feus Poemas Paítorís , na6 he menos admirá- 
vel nos Lyricos , em que o conhecemos tal imitador de 
Horácio, como efte foi de Pindaro c de Anacreonte; 
pois, como doutamente obferva o infigne Crítico no Pre- 
facio das Obras do noíTo Poeta ^ a namreza iia6 limitou, 
como de ordinário coftuma , o feu promptillimo génio , 
e fubllme imaginaçaã a nenhum determinado género de 
Poefia j e coin e^as ventagens da natureza , afinando. 
eHe Poeta a fua Lyra pela do Poeta Latino , que fua- 
ves e delicadas vozes naÕ podemos efperar ? Âo menos 

naã 



zedby Google 



DE LiTTBRATUSA PoilT U GUEZ A. I^^ 

■naíi parecerá cxaggeraçafi o que delle diífe Andrade : (_a) 

A imitação tem fua autbortdade 

Em feguir o antigo ejcolhtào.. 
Verdade iie , que alguns Críticos defta era , mais conten- 
tes das Tuas riquezas , que reconhecidos aos primeiros 
-Authores delias, haõ dito , que os fabiosdo feculo decií- 
molexco , entregando-fe á liçaã dos antigos , íeni' enten- 
derem as fuás bellezas , retardarão os progreíTos da Lit- 
teraiura ; {b) mas efte juíbo naõ fe deve tomar ao pé ■ 
da -letra , e fc hei de dizer tudo o que finto , ijifto de 
críticas ha hoje mais de exceíTo , , que mode/açaô. A ver- 
dade mais conhecida , e reconhecida de todos os bons' 
juizes de Litterarura , he que os noflbs antçpaflados de- 
pois que fe communicáraâ com os Authores > que penfá* 
raÕ ben* , e efcrevèrao polidamente, quero dizer, cora 
os Latinos e Gregos, coítumáraô-re pouco a pouco a 
penfar , e efcrever j)oIidaraente como elles. E fe hoje ef- 
fas cópias das obras excellenies em todos os géneros de 
Litteratura nos fazem mais independentes dos antigos ori- 
ginais , graças devemos aos que . primeiro tiveraÕ talento, 
e trabalho de os imitar. Como todo o ponto elTencial 
confifte em peofar e efcrever bem , a cpnícquencia maia 
jufta para dirimir a controveriía dos Idolatras da. antiga 
Litteratura, e dos prefumidos efpiritos originaes dos mo- 
dernos , he , que tudo o que ha de moderno , que he 
bom, he antiga, como também, o que era bom noç an- 
tigos , he moderno : tudo iguslmente louvável , naô por 
antigo , nem por moderno , mas por bom. . 

Concede-Ie com tudo , que nem todos os que lêraô 
os antigos , os imitarão bem , e diíTo mefmo fe collige, 
que he tanto mais para admirar , que n'um feculo em 
que commummente fe imitava o peor, quando na Itá- 
lia as cabeias dos Poetas adoeciaô do almilcar dos.con- 

(u) Poí^as Epigr. iff^." 

(A) Mr. CondUIac , Cowí ff EtuAti. Tom. 15. Hiftoir. Mo- 
dem, liy. derniei , chap. r. 

-Jfftf;. F, S ■ ■ ■ cei- 



t%4 Mbhorias 

ceiíos e agudezas ; fe achairem entre os nolTos hum gor- 
ro fólldo , e delicada percepção das verdadeiras bellezas , 
tal co.no o vemos nas obws do nolTo Ferreira , e dos 
outros Poetas , cujo eft/io examinamos. 

Como na^ versõea- as línguas parece , oue trabalJiatf 
á competência , e fe difputatí a naturalidade e facilida- 
de, em reprefentar os penfamentos , affeiílos , e imagens 
de origem , principiaremos pela Ode VI. do livro I. , 
onde o Poeta adopta a fórma , e tom lyrico do Poeta 
Latino, em outra femelhante emprefa , excluindo com 
grande juízo e (elecçaõ , tuio o que nad conviaha ao ob- 
jeiflo da Aia idéa , e enxerindo o que mais convinha ao 
feu propoítto , como íe verá comparando^fe a Ode Por- 
tugueza com a Latina : 
jÍ^ a poderofa 

Desja de Cbtpre , e os d»us irmaõr de Helena , 

Claras eftrellas , e o gram Rey dos -aentos , 
Segura nás e ditofa 

Te levem , e tragam femfre ctm pequena 

Tardança ats oíltos , que te efperam at tentos \ 
Que meu irmaÕ ^ metade 

Da minha alma , que como encommendaãa 

A ti deves , nos tornes vivo e fam 
Do jogo e tempfftade , 

A que fe av:Hturou 0*0 ff rito oufado ; 

Vençh d dura fortuna a boa tençam. 

Quem íommetteo primeiro . 
Aa bravo mar rium fraco pão a vida , 
De ditro eazittòo , ou trefdobrado firro 

Tinha o peito , ou ligeiro 
Juis/ , ou fua alma Ih^era aborrecida ; 
Digno às morte cruel na feu mefhto erro^ 

Sprito furiofo 
Que naS íemío e pego alto revolvido 
^^nt regue aos ventos , pajlo todo fiw JÕrte ) 

Do femfre temipejiuafa 

AJri: 

DigitizedbyGoOglC 



DE LiTTEBATUBA Po R T U GB E Z A. l^f 

Africo , nem es vdos cegos , e e temido 
Scylla , infamado jd cem tanta morte ! 

A que mal houve medo 
Quem os monjlros no mar , que vaS nadando 
Com feccos olhos vio ? quem o Ceo cuétrto 

De trijle noite , e qf/edo 
Sem defenjam , fV corpo fó efperando 
EJld a morte cruel , que tem tam perto ? 

Se Deos ajffi apartou 
Com fumma providencia o mar da terra , 
Que a nós os homens deo por natureza. 

Como houve homem , que oufou 
Abrir por mar caminho mais d guerra 
Que á paz } e d morte mais roubo ^ e crueza ? 

Que coufa naS commettes ^ 
Oufado fprito humano em mar ^ e em foge. 
Contra ti fó diligente e engenho/o} 

Que 'jd te naÕ promettes 
Des que o meão perdejle d mortt. , e em jogo 
Tens o que de Ji foi fempre ejpantofo ? 

Hum o Ceo commetteo ; 
Outro o ar vaõ exprimentou com pennas 
NaÕ dadas ao homem : outra o mar reparte 

Qus por força rompeo. 
Senhor ., que tudo vês , ^e tudo ordenas , 
íara a ti fó chegamos , ddnos arte. 



Sic te diva potens Cypri , 

Sic freires Helena lúcida fydera ^ . . 

Ventorumque regat pat£r ^ 

QbJiritUs aiiis prater Jtrpyga , 
Navtj , qu4S tH>i creàitum 

S ii JDí- 



lizcJbyCoOglc 



Deies Virgilimn , finibus Anicis 
'Reãdai incolumsm^ precor., 

Et ferves amm£ dimidium mea. 

lUi rohur ^ et as tripkx 

Circa peclus erat , q.ui fragilem truci' 
Commifit pélago ratem, 

Primus , nec timuit practpltefn J^ricum 
Decertãtitem Âqvilonibus , 

Nec trlfies Hyadas , nec rabiem Noti ; 
Quo ms arbiter Aártíe, ■ 

M^ior-y toUerty feu pornrt nittit jreta^ 

Quem morth tinutit gradum , 

Qui fhcis. ocuHs tnonjlra natantia ^ 

Qui vidit maré turgidum , f / 

Infames fcopulos Acrocerattnia ?. 

Nequkqà^m Deus ab/cidit 

Pruãens Oceano dijfociabilf 
Terras , fi tamen impite 

J^oíi tangendo, rates tranfiliunt vada^. 

Audax omnia perpett 

Gens humana ruit per vetiíum mfar. 

Neíli' uliima Eftrofc, como em parte das outras fe^ 
vé, que naõ foi o intento do< noflo Poeta fazer Jiuma 
fiinples traducçaâ,' itias liuma imitação, e defb pude a 
mocidade Pcrtugueza aprender, quanta differença vai de. 
huma imitação jiidicíofa a huma pueril ; o que feja imi- 
tar com. gollo, e imitar ferviimente. 

Os primeiros verfos detta Ode moííra6 , como nòXa-- 
tim , o caratfler de^ternura., mas o afFeéto de fraternida- 
de , como mais delicado e de mais. Saudade ^ do. que o 
da amizade, podia, bem aquãtles- requebros, que-Ferreira 
d i/creta mente fupprio te traga £fim. pequena íarda«çii- 
aes ~çIbos , que te eJperaÕ 0t!vtos., Os 



Cgilzccby VjI.'».í'^I1. 



BE LiTTE» ATURA PoRfUGUEZA. I^J 

Os que fe feguem , exprimem a gravidade e grande- 
za das ioéas. Tal he a exprefraÕ fraco pdo ^ que Camões^ 
também emprega nO feu Poema , e {erve aqui naõ me- 
nos de termo poético equivalente ao vocábulo Ratem ^ 
que he poético , que de fuftentar a imagem fragilem. 

Em bravo «lar, aquelle epitheto naÕ rem, por fer 
imagem frequente , a graça úa novidade , que tem no La- 
tim truci pe/ago , dt que íb Catullo ufára antes de Ho- 
rácio. Mas ido mó eitá na ma6 do Poeta , que fó rem 
o recurfo das commutaçôes de vozes autfiorizadas , que 
Uie compenfem a falta das necelTdrias. O que Ferreira, e 
Horácio aqui exprintem com feiítimento de admiração , Jie 
e mefmo que CamÕ£S declara com fentimento. de ira pe- 
la bocca de hum velho , que na praia de Lisboa via par- 
tir a armada Portagueza de Vafco da G^ima : 

O' maldito o primeiro, que no mundo 

Nas ondas vela poz em Jecco lenho. Cant. IV. 
Eft. loi. 
O Poeta Latino attribue á infenfíb ilida de aquella teme* 
raria emprefa \ o noífo Poeta com mais exacta Filofofia 
refere três caufas j infenfibilidade, loucuw, e dcfefpera- 
Çaô , que he : 

ou fea alma liPera aborrecida. 

Enzinèo he palavra daq^uaile tempo por Azinho , ou 
Azinheira. 

Diráâ que no Poeta Latino ^ além de outros , fe achad 
dous verfos de grajide energia e delicadeza , Auãax om— 
nia perpeti- &c. , e que no Portuguez ha mais verboíi- 
dade. Refpondo i." que Ferreira nad traduz , imita: con- 
fegiii a temente o feu enthufiafmo devia fazer difFerente 
fermentação de idéas , fendo, difFerente o objeiSo da fúa- 
Ode , e diíTírentes as circunílancias do. Poeta : 1° que em 
cada lingua ha aiTá^ concifaÒ , quando cm tal peniàmen-- 
to , ou afFedto dado fe diz, quantum opus eft , quantum^ 
fatis eft , naÓ fendo precifa a correfpondcncia material 
de palavras a palavras , mas conveniência dos njareriaes;; 

4e iiuoja Usgua coqi 3; cotjfap ilgniiicad^s ; porque o 

-. At-.. 



DgilizcJbyCoOglc 



1^8 Memorias 

Articifmo dos Latinos natí era materialmente o mefmo 
dos Gregos , mas formalmente o mefmo. Hofacio j diga- 
mos aíTim , em pouca maíTa de palavras encerra grande 
numero de idéas , e pefo de fenrenças : quem o duvi- 
da > Mas qual lie no noffo Poeta a expreíTad vazia , ou 
ílemafiada r Qual o epicheto inútil ? Que termo , que naÓ 
ajunte nova torça á fentcnja e mageftofa harmonia i 
corrente do verfo ? Que n'um lugar l'c diga maré turgi- 
dum , e n'outra parte , o Ceo cuberto ãe trijle noiíe , 
he imagem por imagem , e fervem ao mefmo intento. Se 
hum por Oceano di^ociabili quer dizer , que naô foi 
feito o mar para nelle viverem e andarem os homens ; 
outro porque naÔ dtrá , terras que a nós os homens áeo 
por natureza ? Affim a Lógica das línguas fempre he juf- 
ta , quando fegue a lógica das idéas do entendimento. 
Mais livre ainda, e nad menos bella he a Ode IV. 
do livro L , correfpondendo tanto na femelhança do af- 
ftimpto , como no artificio do eíhflo, cheio de bom en- 
thufiafmo á Ode VII. do livro I. de Horácio : Quo que 
fcelejii ruitij ? 

Onde , onde affim cruéis 

Correis tam jurtofos , 

"Nam contra os infiéis 

'Bárbaros poderofos 

Turcos de nojfos roubos ghriofos ? 
Onde y onde: repetiçafi , para exprimir a primeira acçaS 
do enthufiafmo , e accelerajaô do afFufto : Onde por aon- 
de , poeticamente , como inda pDr ainda &c. Correis 
furiojõs imagem , qus correfponde a ruitis de Horácio. 
. No reftante defta OJe fe vê , que o noíTo Poeta nafi 
affe<íla, como muitos Poetas, hum enthuílarmo va6 , que 
como fogo fátuo , apenas apparece , naõ fe vio mais ■' tal 
como aquejles formulários , Que ouço eu ? que vejo ? 6 
outros femelhantes , em que muitos ridiculamente fezetil 
conítftir o enthufiafmo Lyrico de humas poucas de Èf- 
tanças frias e feccas. 

De verdadeiro eachuíiafmo iiafcem aquellas fublime» 
irtiagens : ^a- 

DgitizedbyGoOglC 



1 DE LlTTBRATVKA PORTVaOEZA. I39 

para em fogo arder 

Defàe o cbam té as amêas 
Meca e Cayro j c fe ver 
Trazido em mil cadêas 
Em triunfo o feu Rey com nojfas prêas. 
£ que extraordinária maneira de penfar e fentlr ! Que 
for^ , quando em lugar de dizer , que os noíTos inimi- 
gos fe conlblavad de nos ver voltar as armas contra nós 
mednos , exclama : 

Ab ! que fartando em nós , 
£ em voffo Jangue o arder , 
Que o imigo tem , fazeilo vencedor. 
Hum tal enthufiafmo na6 o imita , fenaó quem o tem : 
efta força e aiftividade de eipirito naã a podia dar-Pin- 
daro a Horácio , nem efie ao Horácio Portuguez : da al- 
ma nafce y e quetn o imita j imita-fe a fi mefmo. 

Mas huma das coufas , que moftra admirável faó os 
Trerfos , que fervem de conclufaô a efta Ode : 
Tornai , tornai , ó Reys 
^ paz y tendevos hora i 
Olhai vós y e vereis 
Com quanta razam chora 
A Crijiandade a paz , que lançais fora. 
Eftes verlòs fá6 de lutnma brandura , e o Poeta Tem ex- 
tinguir o feu enthuliafmo , quebra fò hum pouco a fua 
violência , ou para melhor dizer , o commuta n'um en- 
thufiafmo doce , como fe coftuma no eftjrlo da perfua- 
faõ. NaÔ fe podia imaginar êxito mais feliz, nem mais 
adequado de femelhante aífumpto. 

Tende-vâs hora, por, parai, ou efperai. 
Ifyra partícula emfatica a modo de interjeiçaã, que 
OS noflbs antigos ufavaÕ y com graça e força, quando fal- 
lavaÔ com ar de ãrmeza , e refoluçaã; e que nós perde- 
mos fÓ por c^ediencia cega ao coftume. 
Olhai vós y por vede, refleélí. 
NaÓ he menos feliz o noíTo Horácio nas' fuas^Odes Fi- 
lofçficas , que faõ hum geoero de Poeíla Lyiica mais tem- 

pc- 



izc.byCooglc 



140 Memorias 

pcrado , n rcfpeito da Ode Heróica , ou que chaitlaS Pín- 
darica. A locução e eftylo fegue a razão da grandeza, 
ou importância do objetlo, Ífto lie, da máxima, ou li- 
ça6 moral , que o Poeta fe propõem , tal como na Ode 
V. do livro I. a D. Affoafo de Caftelio-Branco. 

Fuge , à vulgo profano. 
-O Poeta nefte género , feiro Meftre da Moral , recoin- 
menda o que loura, dilUmulando com liberdade Filofo- 
fica a lifonja do elogio, e como Poeta louva o que re- 
<:oinmenda, díflimuiando o toai Dogmático da Moral. Por 
iflb deixando a analyfe fecca das idéas, fe cinge á ex- 
preíTaã do fantimento, que produ? a máxima moral, na 
Ibrça em que ao Poeta Te reprefenta. A exclamação hê 
a voz natural do fentimento , e tal merecia a liçaã mo- 
rais que Ferreira oíFerece 

Qíiam baixamente f/tgana 

A ignorância cega ! 
As provas moracs fao os exemplos , e eftes fe aprefen- 
taò reveftidos de imagens , cujo artiftclo apparece naquel- 
les beJlos verfos de Ferreira ; 

A Joberba coroa 
Dos Reys , que medo e efpant-ff 
Põem ao jugeito povo, que os adora} 
Mas quanto império , tanto ' 
Em md fortuna, ou boa 
Mal feguro f tremendo ejid cada hora. 
Povo adora . . os Reis : imperiti mal feguro : ejlar 6 tm- 
pírio tremendo , imagens laô aflas fubliines. Quanto im- 
pério , tanto mal feguro , que idéa nos naó faz conceber ! 
lendo a medida da ruína de hum império a fua mefma 
grandeza, e medida , que abraça os dòus extremos, boa 
e má fortuna. Que penfamenio .digno de Horácio ! 

A Ode II. do livro II. principia por hum tommats 
fimplés , reprefentando aquelle defeiigano , eoi que õ Poe- 
ta eítriba ^ coniblaçaõ , que perceade daj* a feu amigo : 

pesem , fogem ligeiros 

Jsoffos dias i e annos, 

Li- 



zedbyGoOglC 



DB LiTTEBATURA PoETUGUEzA. I4I 

Ligeiros natí he aqui hum epiíheto plconaftico depois de 
fogem; he amplificaiivo , e cxprlnie o que Horácio de- 
Jicadamente declara pela \oz Fi/gáces, que diz mais que 
Fugientes 

Eheu \ fugaces , Poflhume , Pojlbume , 

Labu»tur anni :...', 

Mas depois difto, aue exprcífaõ enérgica! < 

Iguaes aos vens os tianifios 
Todos vaÕ dar em trijle fepulíura. 
A frafe he redonda e cerrada , como no Poeta Latino : 
Mqaa lege necejfitas 
Sortitur injignes et imos. 
A/Iim he que o noiTo Poeta imita, naõ o material das 
palavras , mas a figura do eftyto, e ninguém teve mais 
arte de accommodar á Língua Portugueza ( independen- 
te das variações de cafos , que tanto ajudafi a foJidez da 
Lingua Latina ) aquelle fio fuiil , e concifaÔ da frafe , 
que ferve de condenfai; muitas idéas , dentro de huma 
pequena mole de palavras , o que conduz , principalmen- 
te no eftylo l/rico , para a energia , e para a fublimída- 
de das imagens , e dos afFefHiOs. 

Até aqui os verfos de Ferreira inculcatí hum naíí 
fei que de lúgubre. Ninguém principia a confblar hum 
trifle, fem femblante de trifleza. Mas como quem vedou 
já o fangue , e poz balfamo na ferida ,' o mefmo Poeta ' 
conclue mais alrofo , e os últimos verfos defla Ode ref- 
piraíS hum pouco de alegria. 

Muito havia, que refleflir fobre as outras Odes déf- 
te Poeta , e fobre os Coros da fua Tragedia Caftro , que 
no Lyrico fa6 obra de grande primor, mas naíS permit* 
te o projedo deila obra tanta demora. 



Cg.lzccbyCoOglc 



1^1 Meuori&s 

§ U. 
Exame do ejiyh iyrieo de Luizi de Camões. 

Nas OJes, principalraenre nas Anacreonticas , tem 
Camões fingular naturalidade. AíEm efte Poeta foubefle 
temi)erar o ka engenho , e natural abundância > como fe 
diz de Ovídio. Porém de dous inales nefte género , me- 
nos he perder o rumo , do que dar em calmaria. A Mu- 
ia Lyrica de Camões abunda de bellezas de locuçaÕ , e 
eftylo nefte género ^ e á excepção de algum peoíamento 
mais refinado acjui ou alli , nao ha couTa mais corren- 
te, mais íàcil , e de huma fingeleza» que faz ver » que 
a linguaguem fahe do animo , que o l4>eta pinta os ol)- 
jeélos , como os vê , apparecendo debaixo de huma ap- 
parenie negligencia imagens mais vivas , que o fcu ob- 
jeÃo i que he cnufa eiíencial ao género Anacreonttco. 

Ifto he o que fe obferva nas Odes de Camões , e 
principalmente oa Ode I- debaixo da metáfora da. Lua: 

Detém bum pouco , Mufa , o larga pranta 

Que amor te abre do peito , 

f" veftida de rico e ledo tnant» 

Jkmps honr^t e refpeit» ' 

^quella , (uh afpeita 

Tqdo a innn.^ alumia ^ 

Trocanda a uaite efeura em ctaro dia. 
Nft$ li^ íe vem nas palavras as coufas ^gniãcadas , tnar 
o njermo c^ratfler da locução neftes verios , defcdbre hum 
uaõ Tei que de moUe e languido , qi,ie fahe do ankoa 
do Poeta. 

Perdoe^fe a Camões a prolixidade de algumas eftro- 
fes y que feciaõ mais bellas y e de maior energia aaquel- 
la contifaô da frafc , que lie hum talcDto particular de 
Ft-Tteira. Verdade he , que efta concifaÕ regularmente 
convÀii mais á Ode Heróica ; na Anacreontica o fio da 
oraçaÕ de ordinário he mais foUo j poi^D elU monoto- 
sii, Daõ' coQYéQi fe;n^re^ JCU 

■ ' DgitizedbyCoOglC 



DB LlTTESATVHA Po Ri VG tTBZl. I^J 

Na V. Eftrofe : 
J4 veio Endimiãm por ejiet montes .... 
Em vaÕ fvnipre ibamando , 
Pedindo ( jufpiranâo ) 
Mercês à tua beldade . . . 
A voz Sujpirando ferve de Gerúndio , c iia6 de Partict- 
pio. Sufptrando , iflo he , com furpirar , ou com fufpí- 
ros. 

Beldade ;iqui naÔ desliza da jufta licença poética , 
fendo vocábulo tomado do Heípaohol , em lugar 4e bei- 
leza. 

Nas fehas filitarias , 
Sâ de feu penjamento acompanhado , 
Converja as alimárias 
De todo amor contrarias , 
Mas nam como ti duras .... 
Acompanhado Jó de feu penfamenht imagem muitQ 
|>oetica para exprimir a total folidaõ do Paílor. 

Converfa as alimárias , conftrucçaã poética j por , 
com as alimárias, 

Naõ conu ti duras , em lugar de eomo tu. Os nof- 
^s antigos no ufo vulgar diziaõ como mim , como ti , e 
mais vulgarmente com'a mim , com'a ti : onde Te vé l," 
(ftxc faziaã lynakfa na vogal ultima do adverbio : 2." que 
ajuntavaó a prepofiçaã a ao pronome, a qual ás vezes 
íimittiaô por ellipfe , como aqui , aaô como ti duras , 
que vale o mefnío que , oaÓ taÕ duras como a refpeiro 
4e ti. ProcedíO eftc ufo, como penfo, de no principio 
dã lingua fe imitar a conftrucçao Latina deíles pronrmes 
juntos aos comparativos , v.g. „ Me Upieniior,,: wiíí/V^,'^- 
í/tf que mim, cu qu'a mim. Tendo-fe ^obfervado , c,ue 
eftes rodeios de elliplès reduplicadas faS duros, e fazem as 
frafes irregulares, ninguém polida e corrcílamente diz: 
Mais fabio , que mim , mas : Mais fabio , que eu , ou 
do qu£ eu : nem diz : Duras como ti , nr.as , Duras c$- 
mo tu; naó obftante , que Cam6es , Miranda, e outros 
bons Authores ufalTem de taes losujôes. 

- T ii Ei&- 



zedbyGoOglC 



t44 M EM o R I A á -: 

Eis-aqui agora outra bella imagem, e erpreíTatf írém 
lyrica , com a allufaô ás idéas da fiibula , entendendo 
Diana pela Lua : 

De qual Panthera , ou Tigre , 00 Leopardo 
As afperas entranhas 

Nam Umêram teu firo , e a^udo dardo , 
Quando por as montanhas 
Mais remotas e eflranbas 
Ligeira atraveffavas , 

Tam jermofa , que Amor de amor matavas. 
Parece , que naâ faria Horácio na Lingua Portugueza 
huma mais bella , e mais delicada defcripçaO de Diana. 

Entranhas naÕ temêraõ ; propriamente , porque nos 
fentimentos humanos coftuma-fe mais ordinariamente no- 
mear o coragaã , como parte mais nobre e principal dos 
inteftinos j nas feras porém , e feras bravias naÔ fe cof- 
tuma nomear o coraçaá, mas fel ia- fe (em quanto a fen- 
timento ) de todos os inteftinos , geralmente com o n(>- 
«ne de entranhas, como para difcernir o femimento bru- 
tal ou irracional , do íentimento raciona] e humano. 

Afperas entranhas: epitheto mui juíto, que prepara 
a amplificação do verbo íemirao , o quaí do cpiíheto 
tira a fua forja , augmeotando a idéa por illaçaô; por- 
■que quando as entranhas afperas temem , grande e ei- 
■iraordinariatnente deve fer o objei5lo do feU- temor : e 
iíTo he o que fe peitende com efíe artificio- fezer enten- 
'der, fcm i^preílàmente o declarar. 

Na Ode III. yeremos hum período de- grande doçu^ 
ra , que Jhe ferve de exórdio : 

Se de m€u penfamento 

Tanta razam tivera de aíegrarme , 

Quanto de meu tormento 

A tenho de queixerme , 

Fede'ras , trifte Lyra , cenjolarme. 
He lobre rudo notável aquella digreifaÔ de Grfeo:- 

Oh- bemaventuraào , 

Tu , que aleançajie com lyra toante 
'■ Orf'ee,Jcr ejcutado * Cu- 

DgitizedbyGoOglC 



DE LrTTlR-ATWH aPoIiYVGUEZA. '14/f 

-Cuja digreíTati hejium primor de Poefía , e vale' por bu- 
mn Ode inteira pelo tecido das ídéas , e íio da locu^aÔ-, 
pela variedade das imagens, e medida dos verfos. 

Naô confiíle fempre a belleza eííencial da Poefia , im 
belleza fyfica dos objedos j mas fim ao relevo , nos to- 
ques com que fe reprefeniaO ; de forma que fera igual- 
mente belleza a Poeíla rib objecto mais hórrido e me- 
donho , como no mais jucundo e agradável. Tal he a 
idéa , que nos dá a Cançaõ XIII. de Camões. Como por 
entre as nuvens eícuras rompe ás vezes alegre o raio do 
Sol, afUm por entre huma tenebrofa elegância de bel-' 
las, enaturaes exprefsães de objetílos funeftos entra a 
linguagem alegre da galantaria , com peníameotos fínos 
e delicados , quaes íe obtervaõ nefia CançaÔ. 

E que exprefsóes mais naturaes nos podia^ pintar 
:aquelíe lugar , . 

Junto de bum feceo , duro , ejleril tmuíe 

Inútil, e defpido , caho ^ é informe , 

Da natureza em tudo aborrecida j. 

Onde nem ave voa , ou fera dorme , 

Nem corre elaro rio , du ferve fonte , 

Nem verde ramo faz doce . ruidt. j 

Nafi lia huma fó deitas palawras , que fe na6 conferve ,-, 
e dure na noíTa lingua ; nem imagem , a q*ie fe poíTa 
accrefcentar , tirar, ou mudar. Ate a fituaçaô do lugar^ 
fe defcreve , de maneira , que realça a deíormidadc : 
Ficando d parte donde 

O Saíy'qtfè nfiJa ferve ; Jè Ibe efconde. .1 

Accrefce novo colorido da amithéfe , com a reflesatí 
delicada 

Aqui . . 

Minha fera ventura 

quiz , qut a vida breve 

Também de Ji deix^jfe hum breve ejpap ; 
Porque ficaffe a vida 

Por o mundo em pedaps repartida. 
Dirád j que he peniàmeiíto refinado, que na^ condiz 

com. 



zedbyGoOglC 



t^ti M « H o K I A S 

ttotn a inuigein tríftoaha ddte quadra : mas olbemos pa- 
M. a íiFuaçad do Poeta. 

Aquella gradaçatí de palavras , que ajunta tanta for- 
. ça ao penfamento , 

Aqui me achei gaflando buns trijles diaSj 
Trifies , forçados , máos , t Joitiariot , 
como mais abaixo , ' 

Aqui a alma cativa .... 
Defamparada , e defcoèerta ats tiret 

Da foberba Fortuna ^ 
Soberba , inexorável , e ànfôrtuna. 
Que energia para exprimir a ternura e faudade ! 

( os penfamentos ) Trazendome á memoria 
Alguma já pajfada e breve gloria , 
Qu< eu já no mundo vi, quando vivi. 
Vi > vivi : padeça > pereça , moítraã aqui ^ ■quejjs jogos 
de palavras na6 faõ coulà taò vil na eloquência , quan- 
do , como QiunAiliano adverte , coincidem oom peola- 
mentos íólidos , como efte: 

*rudo dor lhe era , e caufa que padeça 

Mai que pereça naÕ « . . 

Que grande imagem ! . 

( penfamentos ) os tpiaes iam alto 
Me fubiam nas azas , que cabia 
( Qb vede ji feria leve o falto ! 
He fonbttdos e vaõs contentamentos , 
Em dejefpsraçam de ver bum dia. 
Mulriplica6'íe eftas imagens , e mais fe elevati .quanto 
mais o Poeta ie vai prendendo da illufafi, como: 
Oh ! que ejle irado mar gemendo amanfo j 
Efies ventos da voz importunados 
Parece , que/fe enfream : 
Sãmente o Ceo fevero 
As ejlrellas , e o Fado fempre fero , 
Com meu perpetuo damna fc recream j 
Moftrandofe potsntei e indignados 
Contra bum corpo terreno 

^ Bi- 



DgitizídbyGoOglC 



DB LiTTElATURA PoK TU G TTBZ A. 1^7- 

Sicbt da terra vil > e tam pequeno* 
Delle nublado tríftonho defce o Pueta á linguagem jucun- 
da da galantaria , chéa de exprefsóes elegantes , finas j 
e delicadas , mas taô naturaes , que parece naÕ cuitira^ 
ao Posta hum inKante de reflexão : 

^h Senhora ! aò Senhora ! * que tam rics 

EJlais , que cã tam longe de alegria 

Me fufientaes com doce fingimento ! 

Logo que vos figura o penfament-o , 

Foge todo o trabalho e toda a pena : 

So com vojfas lembranças 

Me acho Jeguro e forte , 

Contra o rofto feroz da fera Morte ; 

£ logo fe me ajuntam efperanças ^ 

Com que afronte tornada mats ferena^ ■ 
Torna os tormentos graves 

Em faudades brandas e fuaves ; 

Jqui com ellas fico perguntando 

Jos ventos amorofos , que refpiram 

Da parte donde efiaes , por vós Senhora : 

As aves , que alli voam , fe vos viram , 

Que fazàeis , / que efiavt is praticando . . . 
S^ria longo trabalho referir as. bellezas poéticas de to- 
das as Odes , e Can.çâes defte infigoe Poeta' 

§ ni. 

Do eftyh lírico de Pedro de Andrade Caminha, 

Caminha tem fi>u merecimento 09 eft]rlo' Ijrico , pof- 
to que com muita diflferença de Ferreira , e de Cainèâs, . 
aos quaes. apparece mais de iujvginaçaà, iUo he , ma'ior 
cópia, viveza , e grandeza de imagens , maior força de 
expreísâes , n'uma palavra mais do entfauiiaímo. ,,c{ue he 
a alma oefte gçnere de Poefia. Mas n£m por iflb Ca- 
núoJu dei» de íer luua fiíciitor- cílipiivel na. noíTa iin- . 

fiua, 



zedbyCoOglC 



X48 MzíáÕtlAt 

gua , e pelo que toca ao cftylo lyrico , o dcfte Poeta tem 
atjuella elegância e ingenuidade , que caraílcrizatí as Odes 
da fegunda clafle : e fe quizerem que as defte Poeta mais 
dçprelTa fe devaó chamar bellas EUancias , do que bel- 
las Odes, que vejaõ que nome havemos de dar a algiH 
mas de Horácio, de compoíiçaÕ e artificio íimples co- 
mo as de Caminha. 

Hum e outro Poeta fe podia defender com o afTum- 
pto limples , e pouco fufceptircl' dos ornatos e magoíã- 
cencia das Odes fublimes. Defte modo he a Ode I. de 
Caminha, cuja bafe he cíle único penfamenco : Sendo 
varias as inclinações de vários homens , o meu único 
contentamento he louvar-te. A primeira parte faz o cor- 
po defta Ode, pela analyfe com que fe amplifíca o pen- 
famento , de forte , que podíamos cortar ou accrefcentar 
o numero das Eftancias , fem alterar o fundamental da 
Ode. 

Na I.» Eftancia defta Ode fe achaiS os termos ciegai». 
tes de varias idéas. Qualquer diria , que alguns gofta6 
de ouvir novidades dos negócios eftrangeiros , e cada hum 
difcorre fobre elles como lhes parece: o Poeta diz: 

líuaf tem par feu màr gojte eftar ouvindo 

Quanto em Flandres (è pajfa , quanto em França , 

Quanto no mundo todo, e eftar medindo 
Tudo o que s^accontece 

Como elles querem , eomo lhes parece. 
Tudo o que s^accontece , he forma de locuçatf aífás fre- 
quente nefte Posta. 

Outra expreíTaé elegante dos que fomente culdaò nos 
feus tratos e ofHcios : 

Em fiia occupaçam tem feus amores. 
E defcrevendo o divertimento da caça 

hora em Jilencio , hora com brados , 

Com huns e outros enganos , a medrofa 
Caça andar levantando , 

Inda que os corpos nijfo andem quebrando.- 
A Eftancia fegulnte £e hwn quadro mais variado de pin-' 



zedbyGoOglC 



DE LiTTERA Í0S A PORTtIGUEZA. I49 

ttiras agradáveis , e hum pouco mais poético", onde em 
lugar de dizer, que outros le applicaÒ-á agricultura, 
deícreve-a aífim : 

Na planta o efprito huns tem , ^»f com. cuidado 

Puzerom , e crecer virom , 
No ramo jd da fruita carregado , 
Na clara fonte , que com gojio abriram 
Na terra , que abre o curvo e duro arado , 
No gram , que lhe femeam &c. 
He também notável a variedade de termos : Huns tem 
por feu mar goJlo. Outros tem fèus amores na fua occu~ 
pacaÕ. A outrôs nenhuma coufa he mais gcflofa. Huns 
ttm o efpirito na planta. O meu contentamento he &c. 

A Ode II. principia com hum ar fcftivo e gra- 
ciofo : 

Pierides fagraãas , 
J5w vindo o claro dia 
Que com jujia alegria 
Cekhress , d'hera e louro coroadas , 
E em danças covcertadas 
Moftreis mil Jentimentos 

Alegres 

Que celebreis . . moftreis : Conjuntivo por Imperativo , 
o qual ferve naft lõ para o m^ndido , mas para o de- 
fejo, rogo &c. .Que celebreis tem elipfe, entendendo-fe, 
rogo, que celebreis &c. e aflim he mais próprio do ef- 
tilo lyrico , do que celebrai , ou rogo-vos , que celebreis. 
Mil jentimentos alegres , por , atFeclos de alegria : cu- 
jo lugar aiithoriza o ulb da palavra Sentimento por afFj- 
ílo , que alguns elcrupulofos hoje julgaO imprópria to- 
mada do Frjncez, por na5 terem confultado os noíTo» 
bons Authores. 

Igualmente authoriza o noíTo Poeta aquelh metáfo- 
ra Luz por dia , comi^ ufaã os Latinos : 
EJia he aquella dttofa. 
Luz clara .... 
No reftante deftá Ode fe vê a pureza, naturalidade, fin- 
T-em. V, V gele-. 



i;'0 Memokiaí 

gelezá e elegância de exprefsães convenientes aos peafa- 
Bientos. 

 meAna elegância, e ar natural de locuçaã appare- 
ce na Ode V. principiando pela exprelTafido featimen- 
to de faudade : 

Que forças , que palavras averia , 

j^ntonio Rojjo , quf te àetivejfem f 

Que os teus a£y te amamos ; 

Que fempre àefejamos , 

V' ríe entre nos , fe tanto valeria 

B.fte defejo , que ajjy os Ceos qutzeffem. 
■ Se tatito valeria , por valelTe : efta liberdade na6 he para 
fe imitar. Como a noíTa lingoa atégora naò tem íido ezamt- 
nuda ex3iflrimente , talvez le imaginou , que eftas vozes 
d fferentes dos nolTos verbos , Louvara , louvaria , louvajfe , 
tem ufo irdifferente , porque correfpondem a fiuma for- 
ma fó da Lingoa Latina Lauãarem. O contrario fe moí^ 
traii na Graiiiinatica Filolõfica da Lingoa^ortugueza. 
E na .Eftancia V. 

Mas ah ! que ejld por ti fempre tirando 

O teu doce repoufo d'alma e vida . . . 
Tirando por ti exprelTaõ elegante para declarar o alvo- 
foço do defejo , em lugar do termo vulgar , pvxandg 
por ti. O mefmo fe declara na Eftancía feguinte , va- 
Mando a expreíTaá : 

Chamate aqueik teu alto fojfego 

De toih' ejprtío livre dejejado. 

A OJe Vli. lambem he de hum tora lyríco moderado, 
«feita febre a idéa da Ode de<Horacio: Laudabunt alii 
etttram Rboâon, (]ue lie a VIL do Livro 1. Mas a do 
fuetâ Latino he hom pouco mais fimples , a de Cami- 
nha hum tanto mais ornada , poUoque o aflumpto tam- 
pem he limples , e tods a Ode fe une naquelles dous 
V<rlbs : i 

Louvaram muitos ejla grám cidadt 

Mas tu . , , o fanto ócio efcolbejie, 
■ Aii Odes a jpilis tem hum eíUlo i^ual convém á g»* 
• iaa- 



Cgilzccby VjI.'«.í'^I1. 



Dí LlTTUKATVSA FoSTVOtfBZA. IJI 

Jantaria, Sobw tudo he engraçada^ pela invenja6| e dç* 
licadeia a Ode XV. . - ' 

£» w/tf 9 Amor armáâo 

Nom de ferro , nem de f^0 ... 

Em teus olhos o vejo , 

Filis femPre fermofa , 

Armado fortemente. 



Dg,l,zcJbyC00glc 



CONTINUAÇÃO 

DO ENSAIO CRITICO, (*) 

Sohre qual feja o tifo prudefite àas palavras , de que 
Je ferviraS os noffos bons Efcritores do Século XV j 
e XVI \ e àcixdraS efquecer os que depois fe fe' 
guírao até ao prefente. 

porAntoniodasNeves. 



C A P I T U L O IV. 

Dos Authores da Lingoa Portugueza : ultima caufa da 
decadência dejla Lingoa. 

NA (5 julgaríamos completo efte Tratado , oroittin- 
do numa parte tao eflencial da Filologia Portu- 
gueza j como ]ie o conhecimento dos Efcritores 
nacionaes j o exame do Teu merecimento ^e o valor da 
lua auilioiidade no que refpeita á lingoagem : e muito 
mais confiderando-fe como caufa original de todas as 
mais , que temos tratado , o efquecimento , em que fe 
lein deixado os Efcritores Portuguezes , ainda os mai» 
recommendijveis. Ailim , fuppofto , que fallando das pre- 
rogativas do Ufo nas Lingoas j de paíTagem tocamos al- 
guma coufa, a relpeito dos Autliores Portuguezes , parece 
indifpenfavel dar-llies hum capitulo feparado , antes de 
paflarmos á terceira parte do nolTo Eniaio. 

(*) A coniinuaçaõ delle Enfjio Critico, vem do fim do Tom. 
IV. das Memorias de Littetatura pag. 466, ? 






DE LlTTEBATURA VoIlTU HlíZZA. IJJ 



Do valor da Autboriãaãe em iodas as Lingoas, 

Excutienàum omne auãorum genus , non propter bifto- 
rias modoyftd verba , quae frei^uenter jus ab au£io- 
ribus Júmunt. (*) 

. I. A Ãuthoridade pelo que refpeita ás lingoas, en* 
volve a idéa do ufo, que ãzerao os efcfitores, dos vo< 
cabules e frafes da lingoa , em que efcrevéraó j e mais 
huma ídía do credito e acceita^aÔ , que fe deve ao me- 
recimento dos mefmos Efcritores a tefpeito da efcojha 
e applicaçaõ, que fízeraâ dos termos nacionaes, fegundo 
a fua propriedade. 

II. Por quanto , os Anthores nacionaes , fallando em 
commum , faâ os mais verdadeiros depoiícarios dos tltefou* 
ros da Lingoa, fegundo o antigo axioma: DÍ£ia volant , 
- fi^ipi^ manent. Mas cliama9-fe authores ciaíGcos aquel- 
les , que por coníentí mento univerfal dos prudentes jul- 
gadores obttveraõ maior efliinaçao e fequito ; aquelles , 
cujas obras ■, como nota huin bom Filofofo , {a) naô en- 
íra5 no numero das que , fe liies tirarmos o avifo ao 
Leitor !, a carta dedicatória , o prefacio , o index , e as 
approvaçóes, apenas fícaó paginas baítantes para merecer 
o nome de livro. 

IIL Os autliores claíTicos laÔ aquelles , de quem diz 
Condillac , (ã) que vem e fentem de buma maneira ,• 
que lhes he própria , e que para exprimirem ejfe Jeu 
modo M ver e de fetttir , faõ obrigados a imaginar novos 
modos de f aliar nar regras da analogia , ou ao menos 
em fe apartar delias o menos , que Be pojjivel ; e dejle 

.(•) Fabius de InftitHt. Qrat. L. i. cap. 4. Cappctoneri. 
(a) M.r de la Bruvere Caraíl. tom. i. p. 1^6. 
ií>) Conã\lsic £/aiJar iorigmdisCotittoiJfançfs. II.paH.cap. ij. 

mo- 



lizcJbyCoOglc 



t^4 Memorias 

modo fe conformas ao gemo da Lingoa , e ao meJhtA 
tempo lhe daS o feu. 

iV. Geralmente fallando ninguém duvida , que fejalí 
Portuguezas quaesquer exprefsões , de que ufou em léus 
elcritos lium Autiior ctaãico. Mas , como ji diílemos 
fallando do Ufo , ha huaias palarras, que fatí commuas 
aos difcretos e ao povo ; ha outras, que fafi particula- 
res aos homens difcretos : o ufo das primeiras qualífica- 
fe com a authoridade dos efcritores, que as acceitáraâi 
o foro de nobreza e privilégios das fegundas dos efcri- 
tores dependem unicamente y e acreditadas com a fua 
authoridade pouco e pouco fe vafi infinuaodo na lingoa* 
gem do povo. Donde vem , que os que frequenta6 a 
Jiçaâ dos livros clalTtcos nacionaec , ou o trato de peí^ 
foas dadas a efla leitura , vetn a contrahir habito de lo- 
cu^6 mais pura j correda , mais polida , que a do vul- 
go jnfimo. Ãllim fuccedeo entre os Romanos , depois 
que aquella Republica fe fez timbre de unir ao talen- 
to a cultura da fua lingoa ; porque até a gente ordinária 
fallava pura e elegantemente Latim , tanto por fe famt> 
liarizarem com os iníignes efcritores, que ftoreciaò , co» 
pio pelo exercício continuo de tratarem com homens elo- 
quentes , já fobre os intereíTes domeftícos , já fobre os 
negócios públicos , e coufas do Ellado. 

V. Mas fempre a erudição da lingoa adquirida pela 
kitura das obras, que os Auihores puUicáraã infpira hum 
naÕ fei que de maior confiança , que njps afoita a empre* 
gar as fuás exprefsões, certos de que, ou dizemos bem, 
ou ao menos nafi feremos defacreditados errando com 
huns meftres refpeitados. (a) 

VI. O que he de maior delicadeza no eftilo , e o 
mais diificil, he a efcolha principalmente nos vocábulo» 
ordinários ; e os que fó fabem a lingoa pelo ufo do- 

C-») Cim fitmmorum in ehq$imtia vironan judicíttm pro ratíone 
/'i tt vei trror bonefins efi magnos ducts Jeqitentibm. Fab. de 
imu Oiai. L. I. cap. 6. 

melU- 

DigitizedbyGoOglC 



DE LlTTEB ATVB A PORT VaUEIA. IjTJ 

tiieftico « ou trato de pefToas familiares , pofloque difcr»- 
tas , naõ ellaâ longe de em matéria mais grave y que fe 
ofiereça, miAurar o fingelo , ou familiar com o burlefcò 
e grolfeiro i de cujo perigo porém eftaráò mais feguros 
os que forem mais verfados nas ot>ras dos antigos elcri- 
tores. (a) 

VII. Como as palavras de &a natureza naã faô boas 
nem más, íó a boa ou má applicaçafí delias, a. fua pro- 
priedade, ou impropriedade he oobjcdo da fua crifej (i) 
a .lutlioridade he quem a decide , e fegundo a applica- 
çãô j que os authores mais polidos fízeraã dos termos ^ 
íègundo a propriedade , que lhes conlliiuíraõ ^ e valor 
que lhes aliignáraõ nos Teus devidos lugares , aflrm os 
julgamos naturaes , graves , enérgicos , fLbíimes Scc. 

Quem fenaõ a authoridade dos bons efcritores dí 
noíTa Lingoa pôde hoje vingar do efquecimento, ou dos 
capríxos da plebe dos Críticos, hum grande numero de 
ciceilentes vocábulos, que íem razaò iè tem degradado? 
Quem melhor me abonará o ufo do verbo ejlreccr , do 
que o noSb elegante Sá de Miranda , dizeudo D'hu[iia 
faella Écloga ; (f) 

A faudade nom fe efirete ^ 

Mas cahiome hum coraram 

Em fone, que muito empece, i 

Que outro fenhor nom conhece 

Salvo juftiça , e razam. 
Quem me defenderá de tantos paladares enojados as boas 
«iprefsôes ejiremar , ejlremsr-fe , fenaô o mefmo infi- 
gne Poeta? 

Tam mãos de contentar , tam Tavinhofos , 

Nom fabem eftremar o mal do bem. ^4) 

(íi) ( Vfitatis ) pottrit m U^j^ts , « matur Us , qui i» ve- 
Uribus irit firipiit Jindiofe et muitunt Volutaíus. Crc, de Orat. 

ip) CMtn verba . . non fua natura fmt hmt am matti ( mm 
per fe foni tanrum jtmt ) fed prout ofortunt proprie^ , atttfscus 
túllata futtt. Fab. L. X. cap. i. 

(í) Sá £do£. VIII. C4) O mefmo Eclog. IV. . 

Q^eiB 



■lyfi Memorias' 

•Quem fe opporá ao noflb copiofo Barros , que efcrevia 
ja em bom feculo : „ Eftavauí todos partidos em dous ban- 
„dos, e £lRei*dç Btntain elpcrandu , em qito aviam de 
,, parar as fuás comperencias pêra os vir cjireniar com to- 
■„ do o leu poder. „ (tf) E n'outro lugar : „ Todos pe- 
,, Jejam em magotes de Capitanias, tudo de upiníam por 
„ fe ejlremar , a que os vejam.,, (h) 

Naõ me lerá Oiftante a preoccupaçaá de Duarte Nu-, 
nes , (f) para que eu deixe i plebe efcarmentar , efcar-i 
mèntado , fendo Barros fiador do ulo polido dt-ft^s ex- 
prefsOes : „ {d) Ficarom as. tuftjs tam efcarmentadas dO 
„ primeiro cometimento , que nam lornarom aly mais. „ 

Se as autlioridades modernas pugnaõ em defcza da 
verbo Fabulizar , porque naâ fuftentaremos a boa porte 
de Fabular, lendo auihor Barros? (f) „ E tambê por 
„ ferem do lertam diquellas terras, dos ardores das quaes 
„a gente izntc* fabulava. „ E n'outro lu-^ar; „ (/) Hum 
3, Rey muy prudente, de que slhs fabulam grandes cou- 
j, fas. „ É naquella retíexaõ , dizendo:,, Se fora em 
3, tempo dos Poetas Gregos e Latinos, elles teriam mais 
„ qae fabular delles , que das ilhas Gorgonas. „ (g) Era 
concerto de bja paz fícariaõ ambos os dous termos , 
igualmente favorecidos, e na5 nos ganhariaõ os Italianos, 
tad generofos era enriquecer a fua lingoa com vozes de 
varia delinencia. 

Em conciufaõ , a authorídade dos efcritores claíficos 
he a que fixa as regras da Analogia em todas as lii*goas. 
Os Gregos e Romanos já tinhaô b -m numero de elcri- 
tores nacionaes , antes que tiveífem formado artes dç 
Grammatica , Rhetorica , Poética, e Logíca. A auihori- 
dade dos efcritores deo caula a fe fazerem obfervações, 
principalmente na lingoagem j a authoridade as apuroa 
e reílifikTou , o ufo as confirmou, Aíllm aconteceria n^, 

(o) UI. II. 6. m 11. VI.. I. (O Orig. da Ling. Portug.- 
cap. i8. (rf) Dec. III. VI. 8. (ODec. I.I.7. Q) 111. IV. u 
(£) líi. V. 5. . . . . 

' , ftoíla 

Dg,l,zcJbyC00gIC 



DE LlTTEBATVKA PoRTUGUEZA. l$7 

lingoa, cuja analogia he ta6 vaga, c incerta, fe para a 
regular, tiveíTemos coníultado os noíTos efcritcres-, mais 
do <]uc as Grammattcas feitas para outras Hngoas. 

A authoridade preferva dai frivolas , e inúteis mu- 
danças de palavras, nafcidaa fó da ociola con'empÍa5^ó 
de quiméricas etymologias : ella cohibe as alterações in- 
duzidas , muitas vezes pelo iimples caprixo do ufo va- 
§0 : flifpende igualmente as impertinentes , ou defenfrea-- 
as criticas dos fcniidoutos : ella nos ptefcreve o juizo , 
que devemos formar do fado dos vocaoulos abandonados 
pela mal entendida infâmia de Plebeifmo , e nos esforça 
a reflituillos no feu antigo efplendor : ella reprime a ma- 
nia de afrancezar a Lingoa Fortugueza , enfmando-nos a 
reconhecer a fua sã antiguidade , e moftrando-nos ca- 
minho e meios , por onde poíTamos trabalhar na fua per- 
feição , continuando defde o ponto em que a deixaraiS 
os flOÍTos antepaflados. 

§. II. 

Caufa âa antiga indiferença e àejcuido para com os 
Autbores Portugueses, 

Se houvéramos de combater preoccupaçOes antigas 
com nova preoccupaçaô , iàcilmente acreditaríamos o di- 
to do noíTo Poeta , havendo com eWc , que 

• . . . por natureza 

E conjiellafam do clima 

EJia naçam Fortugueza 

O nada eftrangeiro eftima^ 

O muito dos jeus defpreza, (a) 
Mas deixemos a aprehenfaõ do Poeta , que ou por me- 
lhor arranjar as fuás rimas , ou por feguir as idéas do 
vulgo fe defgarrou por vereda differente. A verdade he, 
que nem o clima do paiz , nem o cara^er nacional , tem 

(a) Mach. Cerf. l. 73. 

%om. V. X tido 



>;8 M B M o K I A S 

tido influxo algum fobre taes extravagâncias , que tendo 
principio no erro e na ignorância , faã comniuas a todos 
os homens em qualquer naçaâ ; fe huns olhafi com def- 
dein pai-a o bom que lhes nafce na pátria, adorando até 
a fombra do que he cftrangeiro ; outros ao contrario faô 
ta5 enlevados nos noflbs fruiítos domefticos *, que tudo 
o. que he de fora lhes parece filveftre , e mal fazonado: 
huns nao íentem íbrça nem energia , nem grandiloquen- 
cia fenaó nos antigos ; os modernos lhes parecera , huns 
feccos , e raefquinhos , outros froixos e languidos , outros 
aiFet^ados : peto contrario , para outros os antigos faõ huns 
ranjolos e inlipidos, fò nos modernos acliaõ gollo fa6 , 
puro elimado. Todos eftes prejuízos andaô de miftun» 
n'iiuma meíma naçaó , fegundo a variedade dos palada- 
res. Em França PoíTevino , e o Preíidente de Thou , faÔ 
os maiores panegyriftas do noflb Barros , e lá mefmo hum 
Boulaye le Goux acha nos efcritos de Barros huma obra 
feita mais para encher papel , do que obra digna de fe 
ler: outros por maior equidade contenta6-fe de dizer, 
que nem aquelles elogios , nem efta critica fe devem to- 
mar ao pé da letra y mas que fe Barros foífe menos af^ 
feiçoado á hyperbole , e mais amante da verdade , teria 
merecido lugar entre os bons hiíloriadores. (a) Que dif- 
ferente gofl-o n'huma naqaõ toda cheia de Filoforia? I e 
ta6 delicada em pontos de verdade , que fe ella referva 
as hyperboles da Sagrada Efcrirura por motivo de Re- 
ligião , e fe perdoa algumas dos antigos efcritores por 
credito da litteratura, poucas fera6 abfolvidas da fua cri- 
tica ! 

Mas , para fallarmos de nofla cafa , que pródigos 
elogios naõ deraô aos noiTos efcritores os feus contempo- 
râneos ? Baíta por rodos hum íá Vieira , idolo , que tent 
levado os maiores cultos. Tal houve (í) que na6 lia os 

C'*) Diítion. Hiftor, Poriaiif, verbo Sarros. 

(p) Fr. Filippe Honis , Religiofo Mercenário de Hatftid , 
mencionado por D. Alexandre Ferreira na apurovaçaõ do I. lonu 
íla» Cate do P. Vieira. 

. -Ser- 

Dgilizc(;byCAH)l^lc 



DE LlTTERATUBA PORTUGUEZA. f^lf 

Sermfies defte Orador fenaô de joelhos , e para juftificíf 
a fua idulatria confeíTou , que naqucllii reverente attcn- 
çaõ mojlrava os elogios^ que naõ fabiaõ explicar as 
vozes. Outros á competência eftudáraO os tiuilns tnaií 
eftrondofos ; qua! o appdlida Prhcipe de iodos os Ora- 
dores , qual o denomina Mefire univerfal de todos oS 
Declamadores Evangélicos ; qual lhe chama o maior Ora- 
dor de todas as idades ; ourro ãffírma , fcr elle refpettaié 
■por oráculo do púlpito entre as t/afSes do mundo : e co- 
mo eftcs títulos e outros femelhantes. vieraõ a fer luga''- 
res coinmuns , até houve quem diíle ', que Vieira foi 
quaji outro SalomaS\ apenas algum homem de tantojui- 
20, e taõ inimigo de mentiras como o P. Manoel Ber^ 
nardes da Congregação do Oratório, fe contentou de Ihé 
dar os títulos inodeftos de difcrete , de Brande Pregador, 
Kos elogios das fuás Cartas temos outra Farfalhada , quan- 
do o Conde de Ericeira (•) diz , que o P. Vieira, ou 
excedia a Cicci)o na fácil locuçaÕ das fuás epiftolas fami- 
liares , ou ao fegundo Plínio na frafe adornada das fuás 
Cartas. Ainda lhe fazia muita mercê , fe dicelTe , que os 
igualava , mas eniaô er^ moda , para fazer, o P. Vieira 
grande, abaixar todos os homens grandes , em qualquer 
género de litteratura. O que aconteceo a Vieira , acoa- 
lecep á vários outros efcntores com mais ou menos li- 
mitáçóes. (**) ' 

Que confequencia tiraremos do referido ? Diremos , 
qt» os Portuguezes tem de fua condição eftimar o nada 
e^angeiro , e defprezar o muito dos- feus nacionaes ? Se 
aiãenaemos a eftes generofos elogios, parece que em ne- 
nEuma naçaó fe fari maior eíltma ; mas fe lallamos da 
eftímaçaô radical , que conUlte em confultar os efcrítos 
e obras elogiadas , em frequentar a fua leitura , em fe fa- 
míliarísar com o feu ellilo , em o imitar , ou exceder ^ 

(*) Na approvaçaó do II. tom. das Can. do P. Amonitt 
Vieira, 

" (**) Vci. oAuthor do verdadeiro Meth. de Eftudar. C«t. Vf. 
^ X ii ib 



Cg,lzccbyCA>Oglc 



l6o MEMOItl&S 

fe he poiCvel i iflo be coafa rara; apenis fe íalie, quê 
o Grande Camães era mui verfado do doíTo Barros ^ a- 
quem chamara o feu Ennio , e que na leitura das Dé- 
cadas concebera muito dos altos éccos da fua tuba épica : 
tarab::m confta que a frequente leitura das meímas Dé- 
cadas fornecco ao F. Vieira o grande conhecimento > qae 
tinha da Lingoa Portuguesa , a atfluencia , energia , e for^a , 
de expreísães em direrfos aÕumptos , que tratou. A melma 
applicaçaó aos authores nacionacs, tinha Brito, e Souza, 
e ]M}ucas mais daquella idade. 

Eís-aqui pois o que me inclina a confiderar , qne a* 
quelles demafiados elogios , que fe derafi a muitos dos 
eícritores INortuguezes , fôrad cauia da pouca cftimaçad , e 
indi^eoça , que tem havido para com eiles. £ com ef- 
feito , quem fe tirer ( por exemplo ) aos elogios com 
que engrandecera^ as obras de Vieira, lendo-o efmorece, 
e na6 acha o Vieira ; crè logo , que , ou mentio , oa oaS 
iãbia o que approvava o Paoegjrritta j e ai£m infenfirel- 
mente Tem a conceber tédio e arerfalí ao aiitbor, quan- 
do fó p devia ao approvador. E talrez fe os contempo- 
râneos defte , e de outros noJTca efcrítores foffem mais 
circumfpeAos nos feus louvores ; fe nos naÓ figutaOem 
08 authores do íeu tempo como buns gigantes de def- 
tnarcada grandeza , poderá fer , que elles nos aa.6 pare- 
cellèm hoje taó pigmec». * 

Mas en qaanto ao P. Vieira , na6 po0b difllmular 
linma perverfa opiníaã, que tenho achado arraigada em 
muitos aliis doutos, e que até delles tem dimanado pa- 
ra a mocidade com bem prejuízo da Litteratura Porto* 
gueza : e nafce efte erro de muitos confundirem o eftilo 
da lingoa com o eflilo da eloquência, ou eftilo dos af- 
fumptos. Vieira he rerdade ccHTompeo.a eloquência For* 
tugueza , mas naã corrompeo a Lingoa , affim como o Sé- 
neca dos Romanos corrompeo a eloquência Romana, e£* 
crereiido puramente Latim * de outra forte nem o Ora- 
dor Portnguez nem o Filofofo Romano dominarláti tan- 
to o gofio dos homens até os levar em £éu fequíto, i^ 



Cg.lizcJbyCoO^lc 



dbLitteuatusaPortcgueza. t5l 

iià6 foíTe a pura e bclla locuçaâ , com que os illodíraâ. 
Huma maneira de penfar extraordinária, commua a am- 
bos eftes authores , que tanto prejudicou o bom goílo e a 
eloquência, foi de aígum proveito á lingoagem, coníide- 
Tada em li meíma. 

E na verdade nós na6 temos author , a quem deva 
mais obrigações á Lingoa Porrucueza , do que a efte ho- 
mem raro , ló digno de melhor feculo. O beneficio , 
que faz ás Itngoas a violência , que fe fazem os Poetas 
na metrificaçaã , eíTe mefmo teve em parte a Lingoa Por- 
tugeza por meio do efpirito fabtil e agudo do grande 
Vieira. Elie a enriqueceo tanto , como muitos efcrítores 
juntos, e em longo efpaço de annos, e em muita vari&> 
dade de elcritos naã poaeriad confeguir , ufando de en- 
genho mais moderado : de modo que o que foi grande 
prejuizo para a eloquência Portugueza^ ceoeo em provei'- 
to da lingoagem. 

Ainda mais : em quanto huma lingoa he efcfava da 
authoridade , natí fe pôde efperar , qae engrofle muito os 
feus thefouros. Que progreflos ? que perfeição ? que rique- 
za poderia ter huma lingoa ^ que nunca dífcrepafle nem 
lium ápice das auihorídades de hum, ou outro feculo? 
Os efcritores da primeira ordem , effes engenhos raros, 
que apparecem de feculo em fectilo , fa6 os que ampliafi 
os apertados limites da Analogia , e como Legisladores fe 
elevaò acima do Ufo e da authoridade ; e ifto fez o P. 
-Vieira naÒ poucas vezes. Elle com grande deílreza deo á j 
noíTa Lingoa huma maravilhora fiexibilidade , qual pedia a 
Jiovidade , variedade , vivacidade e força de feus penfamen- 
tos , de forma , que , fem a fubtileza de efpirito defte au- 
thor , ainda hoje na6 faberiamos fe fe podia dizer em Por- 
tuguez muita coufa , qne Hle diíTe , e muitas vezes pe- 
diríamos licença aos Críticos para ufar de engenhofos tef^ 
mos , e priírorofas frafes com que elle exprimio, o que 
antes fe na(( bavia efcrito. He admirável a cópia da íua 
dicçaé, e variedade da frafe , a efcolha e propriedade das 
iuas exprefs6es , a elegância de fuás metáforas j evoque 

de- 



^Ic 



z6z Ms&tOBi&s 

deviaó ainda hoje imirar os efcritores judicJofos, a dif- 
criçaõ em aproveitar em lugar conveniente as vozes e 
frales anrigns. Nem Te deve deixar era filencío que a 
eftj iníigne elcritor devemos o ter a lingoagem mais ex- 
purgada das an'ig.is fezes do dialeílo Galiziano , que a 
cada paíTo fe aclia de raiftura nos auihorcs, que lhe pre- 
cederão. De ruJo ifto daráíS teftimunbo às fuás obras ^ 
mas fobre tudo as luas Cartas , que temos pela peça melhor 
e mais faâ , que faliio da penna defte elcritor , áexcepcatí 
de algumas menos naturaes , e em que domina o feu efpi- 
rito feito ás fubtilezas nimias, de que fuperabundaÓ os 
feus Sermoeos. Huma CollecçaÕ das luas melhores Cartas 
-feria doS' livros elementares da nofla Lingoa o mais prò- 
ciofo , que fe podia ineter nas maõ> da mocidade. 

Suppofto por^m que a indulgência exceíliva dos an^ 
tigos em dilTimuIar os defeitos dos noífos authores , co- 
mo também a Critica indifcreta dos modernos em os rcr 
provar, tem concorrido muito para a indiíFercnça , c ain- 
oa para o defprezo , em que muitos os tem ; com tudo naâ 
íoi iífo a caufa única , nem a principal , que nos offerece 
a Hiftoria da Littcratura Pprtugueza. 

E para levarmos as coufas defde a fua ralz^^anof- 
ia Litteratura correo a mefma forre, que a das outras na- 
Ç8cs da Europa. Defde aquelle ténue crepufculo da reftau- 
ráçaÕ das Letras, que coili efcaffa luz deixava difcerniras 
trevas da ignorância, aflentou-fe , que para bafe dos conhe- 
cimentos humanos fe devia começar ^elo efttido das an- 
tigas lingoas, e principalmente da Latina. Favorecia efta 
opinião o exemplo dos Romanos, que principiavaõ os 
íeus elludos pela Lingoa Grega , mas ninguém advertio 
i.°, que entaõ a Lingoa Grega fe fallava em Roma pe- 
los mefmos nacíonaes da Grécia , que ahi vinhaó nego* 
ciar , e que os que a enfinavatt eraô os mefmos Gre- 
gos , que em Roma eftabeleçêraô efcolas publicas ; i." 
que nunca: os Romanos confentíraó , que fe trataíTem os 
negócios públicos fenaò na Lingoa Latina > ficando a Lifl- 
£oa Greg9 referrada íó para os eíhidoii elemeniarea} e 



,C~AH)i^lc 



DE LlTTEB A TUR A PORTUGUEZA. 163 

exercícios da lítteratura. Ninguém efcrevia em Grego: íó 
fizeraÔ algumas traducções das obras , a que fe rinhaô ap- 
plicado ; mas a emulação logo lhes infpirou o fazereni 
compoíições originaes , fegundo o que Horácio declara: 
Nibíl htetitatum noflri liquere poetae , 
iíec minimum meruere decus zejiieia Graeca 
Ãufi dejerere , et celehrare àomefttca faBa. 
3." Que fendo verdadeiramente lium erro de methodo 
principiarem os eíludos pela lingoa Grega, alTaz o reme* 
diavaO , difpondo , que ao eíludo da Lingoa Grega fe fe- 
guilTe logo a pulTo igual o da lingoa materna, t li^aÕ dos 
Authoies Latinos, {a) Aliás Quiniiliano "prévio , e pon- 
derou bera os prejuízos , que fe deviaÕ feguir , como 
faô i." a pronuncia do Latim corrupta : i° os vícios do 
idiotifmo eftiangeiro , participados pela nimia familiari- 
dade de hum idiuiiia díffèrente , vicies mui dífiicultofos 
de fe arrancar, concebidos em tenros annos com o pri- 
meiro leite dos eftudos. (í) Nós mefmos, ainda fora de 
circumftanclas taô apertadas, temos vifto na Lingoa Por- 
tugueza a corrupção , que tem induzido a miftura do 
idioma Francez , e os mefmos Francezes acháraã na fua 
lingoa «M^ro tanto, quando por condefcendencia com as 
duas Rainhas Italianas , CatharJna e: Maria de Medíeis 
proftituíraíí o pátrio idioma ao gofto dos Florentinos. (*) 

(a) A fermone Graeco ptarum incipere mallo . . non tamtn boe 
adeo fuperjiiticfe vtHm jterí ^ nt dintamunt ioquMut Graect, tíaf 
difiíit j ftcut phrhqut moris ejl... Non longe itaqtu latina fub- 
fiqui aebcnt f et cito pariter ire. Fab. dt Infiimt. Orat. lib. 1. 
cap. I. 

(t) Hif\c enlm accidunt et oris flurima^ vitia in ptrígrimtm fo- 
num conupti , et fermoms : eui cum Graec/u Jigurae fijftdtia tort- 
fmtiudine baeferint , in diverfa qnoque lo^Mtnat ratione pertina- 
tiffimt durant. Idem ib. 

.(*) Dizem que eflas duas RaínfiãS , e principrl mente a pri- 
meira, fõraó c^iufa de fe coirottiper a Lingoa Pranceza , e de 
fe excitar entre os IraJianos e Francezes 3 erhulaçaó lineftria, 
c«m que cAas duas naçóea tínhaõ íldo rctrpre«rpoílãá crtrt'<e â* 

Po- 



1^4 Mb u ò it I a ■ 

Porém fendo entre nós as clrcumftancias muí difTeren^ 
tes ã rerp;.'ito da Lingoa Purrugueza , e da Laiína ; pois 
que, CO no já declaiainos noutro lugar, nem efta le hilla 
coino lÍQgoa viva em parcu alguma , nem delia podemcs 
chegar a ter feiíaõ limitado conhecimento ; fegue-fe que 
naó nos poJemos promett^r taõ vantajofas elperaocasj 
como tinhaO os Latinos da Lingoa Giega. 

Com tudo menos mal feria , fe á niiiiaçatí dos Ro- 
manos } eftudalTeinos ao meímo tempo a Latina e a Por- 
tuguezaj mas primeiramente eltudamos a Latina fem ter- 

fu Porqae ambas as Soberanas trouxeraó á fua Corte hum gran- 
de numero de Cavalheiros Florentinos , pclToas de muita litte- 
raxura, e que fabiaó peitdEilIimamente a Iga lingoa, e como 
ellás fe moftravaó cxceflivamenre apaixonadas pelas peíToas da 
fu4 naçaó , c as preferiaó fempre aos feus próprios valTallos , 
huns deftes por condcfcendencía íe namorarão do Italiano, oo- 
ttos por zelo da Lingoa Pátria, vendo a edranha taõ eftima-* 
da, e taõ vulgarizada , defafogávaó em mvedivas , como fe vè 
no Livro de Henrique Eftcvao , Du langage Fratijois Italtani' 
féfC outros. JSendo efta a origem da rixa dedas duas nações 
cemos fundamento para naõ crer de leve todas as Criticas do 
F, Bouhours contra a Lingoa Italiana , e conrra os fens eftiiiores : 
veremos, que faó bem miferaveis os Francezes , que trazendo na 
ponta da lingoa a cantilena do feu Boileau, 

; ^ Et le Oin^ant Au Tajfe a tout for de VirgUi 
naõ fe lembrao , gue quando hum Iraliano compoz a yen^a- 
Itm Libertada , nao tinhaó elles poema algum , que fe compa- 
ralTe aaquelle, allim como naõ tiveraó hum femelhante ao Í>»-< 
irin de Boileau , quando elle appareceo. 

.^Qcheo-lhes as medida) elle Poeta com o feu. 
Lai/fons à Pftalie 
Dt tous ces faitx bríllans fíclatante folit. 
ètn&e o feu Bouhours. tomou arrojo para dizer, que a lingoa' 
Italiana e a fua Poefía naõ conlifte fenaõ cm argucias e em' 
conceitos , ifto he , em jogos de palavras , em penlamentos 
brilhiLHTcs , mas falfos Scc. Que repjicaríaõ , fc alguém diccnc,, 
que a lingoa e Poefia Franceza he ridícula , - porque faõ ri- 
dículos os conceitos , e argucias ^ e jogos de palavras , de que eftá 
cheio O feuPoffloa da Magdalena! «cc. 

mòs 

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Í)E LlTrURA-TUSà PotTÚQtíKZA. itf^" 

mos aÍDda mais coahecimento da Portu^ueza^ do que o 
dos, abecês da eícola ; e demais diftb efttidando o Latim, 
daÕ'-nps por difpen fados do Portuguez ; quaít na6 fe co-. 
nhecem nem Autiiores , nem regras da Lingoa. Por iflú leni' 
íldo taô lenros os feus progreflos : por iíTo ella confer- 
vou tanto tempo os rêAos informes dos idiomas i que a 
gerára6 com as mifturas do Galiziaiio Arábico , de íóx- 
ma que atnda hoje podemos dizer do Portuguez » come 
Horácio difl'e do Latim: (a) 

J» longum tattten aevum 

Manjerunt , hoâieque manent vejligia ruris. 
T;ies houve , a quem faltava mais o conhecimento da 
lingoa , que o talento de efcrever , que fe perfuadiaS , 
que quaesquer aíTumptos graves , como Hiftoria , Chroni- 
cas , Poemas &c. perdiam muito em ferem elcritos na 
lingoa vulgar : huns preferia6 a Lingoa Latina , outros por 
goíto , ou por moda rcquerlaÒ a Lingoa Caílelhaoa : aos 
quaes fcismaticos com razaÓ accufa o noiTo Ferreira do 
de/prezo em que punhaÔ a noíTa Lingoa : 
Se. atequí ejleve baixa e fem louvor ^ 
Culpa he dos que a mal exercitarão : 
EJquecimento «ojfo e defamor. (í) 
Se o defejo de fcr erudito nas Lingoas fabias , e rer- 
fado nos antigas eícritores, alienou os noílbs do efiudo ' 
da própria Lingo^ e dos Auifaores nacionaes , como em 
fua proporção Tuccedeo ás outias nações d;i Eurapa ; (*) 
o eftudo da FiJofofia Peripatetica , ou da chamada Efco- 
lafiica na6 foi menos prejudicial: vira6-fe os ânimos de 
tal forte embriagados daquella íciencia frívola , que def- 
prezavaã geralmente todos os eftudos das Bellas Letras pa- 
ra le entranharem nos vaftos , e intrincados recintos do 
templo imaginário da Filoíofia. Ninguém quafi já efttt-; 
dava Latim fenaõ para ler as poíliltas, entender a Infti- 

(a) Epift. Lib. II. Ep. i. v. ijp. et fcq. 



m Ferr. Liv. 11. Cart. 



) Vei. CondiUac. C<mrt ^Etud. tom. is. it. i<; 



zedbyGoOglC 



itftír M B -Bt' o I I A/ 5- . ■■ ' . t 

tuea , ou íó para o Breviário e Coociito. Só os Filofo"- 
fui « DoiutoEes erad a íua gente : Ungoa Portugueza , e 
escritoras jjacionaes era no feu prefuppoâo curioiidade 
de pedantes. 

Hum erro acrefcentou mais outro ^ porque das me f- 
mas &ibttlezas efcolaíticas naícéraõ huns methodos da 
Lingoa Latina taQ emmaraahados , que depois de fe gaf- 
arem annos nos rudimentos deita lingoa , as Mufas do- 
antigo Lacio erafi quafi taõ defconhecldas., oomo os-mo-^ 
radores da Lua* Cborros, Cartapacios , Commentsrios ,. 
Explicações de todos os- myfterios gramniaticaes erafí a 
riide e penofa fabrica» em que os engenhos da mocida-!-' 
4e eraó condemnadcs a trabalhar, fem outra culpa, Te- 
BaÕ a dè quererem, fahir da ignorância; donde la^ pou- 
co gofto colhia^ da bella liiteratura^ quanto era maior a 
lierror^ que concebiaô ao. feu cativeiro. 

Com eíbs prelúdios naô hc de admirar, que os noí- 
íbs Âuthores tenhao íido ia6 defconhecidos » e que por- 
efta cauía tenha a Lingoa Portuguesa perdido muito da 
,fua antiga riqueza, gala, e TÍgor, fogeica is inconíún* 
cias de lium uío vago , e de gofios euragados. 

Na6 coníderemos por ilTo, (o que rtuitostem per- 
tendido perfuadir ) que a naçaâ Portuguesa feja inimi- 
^ da leitura. Que coufa mais incompativel com' os cara*^ 
^eres , que os eftrangeiros nos attribuem ? Os prejuiaos Co* 
.Iweditos , fim , effes e íó eíTes tem fido càufa de nos fe-^- 
-rem os noiTos Âuthores mais que ellranhos defconhecidos^ 

E. fe. á alguém pareceHe temerária , ou calumniofa 
efta confiOaO da negligencia domellica y poderiamos aliei' 
T^pir-lhe em confirmaçaíS da verdade, faftos jnnegaveis. Pois 
■donde vem, que tendo fido eíTes preciofos eícritos- dos 
.jpouos aniepalTados taâ diligentemenie procuiados , e re-- 
-cebidos com gfande approvaçaô dos poTOS. maisinftrui- 
dosd.a. Europa ,_e ornando as ricas hihliotlificas. ileEípa»- 
nha , França , Itália ,.HolJarida,, Inglaterra -..e tendo-fe 
paliado mais de duzentos anoos , ai[ida agora naã he 
mui dii£i;ukofa achanoi-re exemplaces4as primeiras ím- 
- .: ' *. - • * pfef- 

■ Dqilizc-JbyCoOglc ■ 



DB LiTTEllÀTU* A POStVguEZA. Hf 

yi*efstíes-? Sinal he do pouco confumo , què tem tidoen^ 
tre nós. ApparecéraÔ aquelles bons engenhos n*hum fò- 
culo, em que reinava a preoccupaça6 , que fò ÂuChtires 
latinos, ou Gregos erafi modellos dignos de fe lerem , 
fontes de erudiçatí, e eloquência : e efta metáfora fenter 
queria dizer mitito. Quem d4zia : os Latinos Íz6 as fon- - 
tes , julgava-fe fallar como fabto , e dizer hum axioma.' 
Daqui nafceo Certamente a índiffercnça , e á indifferença 
fe leguio o defprezo dos Auiliores páirios, fem embargo, 
que muitos os igualarão , e aré «'alguns lugares excedê- 
fad aquelles , que venerava^ com cega credulidade, co^ 
mo fontes. 

Hoje porém naÒ reina tanto aquella antiga {bperfií- 
^6 para com a Litteratura Romana , mas conrerteo-fe 
èm Critica, e jóga-fe á imitaçafi dos Francezes, o êfpi- 
rito filofofico , como efpada de- dous gumes , com que 
fe defpedaçãO os bons efcriíores de fangue frio por huns 
engenhos mais ociofos , que elevados. Porque naô efcre- 
■yeis vós j oh Cfhicos , em competência deíTes efcritores , 
que cenfuraes ? NaÓeftaÕnilTo. Porque? Quinílilianodáa 
TazaÓ verdadeira: razaÓ, qUe nunca foi maia própria d« 
oucro'fi!culo , do que defte enf que viremos ; PbíUfophi* 
ftmulari poteji , mfuentia rnn potefi: {a) 

5. III. 

■Decadènàa, qae tem tiã» a Lingoa Porfvgtteisaiporjk 
deixarem em efquecimento os Autbores pátrios. 

j, As circtimftancias favoráveis para fe defcobrírem ■ 
■j, os engenhos (diz CondiUac ) feachafi n'huii]a naçaÔ áo 
■„ meímo- tempo, cm que a fúa lingoa cotrieça a tef prih'- 
j, dpios ftxos , e hum caraílér decidido. He logo efte 
j, tempo a época dos homens grandes. „ (h) Podemos lo- 

id) Infiiim. Órat. Uh. XII. cap. 4'. ' 
■ (*5'íjfi« fitr Vmgin. Ars <:onn(np P. H. c 14/ ••.•■•■■■^ 

"-■'■ Y ú go 



go inferir delia prudente reflexão, que Qa& íè perjeoé» 
de viíla os «rcritores infígnes deíÍA época, os priueipios 
da iingoa fe corroboraó, e ella. chiará áfua ii^ior per- 
feição; Qu pelo contrario, perdida, a curiofidade de con- 
Ãiltar eíTes grandes liomens , que a iliuftrárnã , os feus 
princípios íicaráã fogeitos á variabilidade dos caprixos , 
e.ella padecerá decadência. 

Com eiFeito fe ha tanto teoipo fe tem ignorado a 
verdadeira , e própria analogia da Lingoa Fortugueza ; 
íe tanto fe tem confundido com a analogia Latina , como 
o iiiculcaá elTas poucas Grammaticas Portuguezas , que fe 
tem vido; fe tanto le tem abufado das etymologias, buf- 
cando a material femelhança da Lingoa Latina , como 
perfeição erquifiia; fe o pedantifmo tem introduzido ail 
alterações frivolas , ufurpando o poder do legitimo ufo i 
íe tantas palavras puras , e próprias fe tem. profcrevido 
com o pretexta de baixa groífaria i fe tantos vocahiloB 
fe tem mendigado da Lingoa Latina , e Franceza , que 
nem era6 tieceíTarios , nem melhores , <^e os nolTos ; fir 
oalmente fe temos perdido tantas expreis5es bellas f que 
«fáraÔ os noífos inlignes efcritores : .donde refultiraô to- 
-^os eítes accidentes , feaaã da ittcuria .de revolvei <^es 
meltres , e depositários da- noíla Lingoa ? 

Os Italianos çabaõ a fua lingoa de fer tsS invariá- 
vel, tanto nas palavras, qi|e fatí fempre as mefmas , co- 
mo nas fuás regras quad todas conltantes; que os mais 
antigos livros delia naçaã fad ainda iioje lidos eentendidos., 
de fárma que depois de tantos feculos» os CriU.ços mais 
delicados, quafi nao achaõ nelles coufa que fe deva mu^ 
dar , 'OU refofmaT. PodeFemos nds conrar outra Demellian- 
te invariabilidade na nolT^ Lingoa entre as escellejiçias , 
.de que alguns fu^erfícíalmente declamarão í nj^,^quequa* 
fi a cada paiío precilamos de commenurioy oujde ihugi 
.efpfcial Díccionario dos vocábulos > e fraíes do» nolfos 
fe^ns. efcritores f . ^ . ._ . ._ 

Dir-me-haô , que iffo eftá no poder do Ufo ,. que 
ftiDgoeai p<í4e)Vedar-^ que a^Him teui.acQatqçidp j auisou 

Dyilizc()byCt.H)^lc 



DE LiTTERATtrSA POBTUa0E2A. 1*6^ 

itfenos em todas as língoas vivas , e que até a Lingote 
Latina foffréo tanta muaança , que , fegundo narra Fo- 
lybio', Tó defde a primeira guerra Funiea até a fegun* 
da, ]à tieda fc naò entendiad os primeiros tratad<Hy 
tjue os Romanos tinhad feito com os Carthagine:íes , naé 
chegando bem a cíticoenia annos a di^ren^a do tam- 
po. Concedemos, que o Ufo em todas as lingoas iiuro 
du2 foas mudanças , nem de outra forte poderiad aper- 
feiçoarfe as lingoas, como n*outro lugirdiffemov } mas 
acrefcentemos , que efte Ufo he mais difcreto , e znais 
moderado , e menos inconLtante nas fuss mud'anças , quaiH 
do os Âuthores claíHcos nos faã familiares ; mas oait 
acontece ailim , quando a.ltngoa aioda na6 tem efcriuH 
res , ou quando deixados eftes de parte, nos familiariza' 
mos com Âuthores. eAranliQs de quem comamos os Ídiotif> 
mos ; porque encaô fe origina a .corrupção de huma lingoa: 
caufa, porque Qj^in^liaao , como acima obfervamos » nz6 
foífria , que c» Romanos perfifliOem muito tempo na lei" 
íura dos efcriíores Gregos, nem que ,fe largaiTem de 
maó os Àutbores Latinos , quaAdo elludavaã a . ita^M 
Crega.' . . ■ ,,.:■■. :i 

Para conhecermos , quanto he nociva a. caríabilída* 
4e do ufo imperito , e quanto pódegraflar a conlipçatf 
de humaltngoa, ceifando o conhecimento dos feus Au» 
thores,ot}fervaremo5, que ha muitos termos ao.-uã>.popuilar 
desfigurados , e pervertidos , cujos exemplares purot cr* 
iftem noS;AitíhQres clalHcos i^.mas aot eftes ferem ji ta« 
- defconhecidos como os mefmos Autnores , prevalecem . os 
eorniptos , dâftianeíra, que ainda. as. peQeas bem educa- 
■das , 08 tomaõ por palavras do ufo , cuidando queaf^ 
■Gm faõ , como foa6 , e porque Ba6 {em imié. as pala? 
-Viasfans, para as combioa/., edifçernirj aíBm: asempces- 

ÊaÕ como as ouvem , e fallaÒ , ou efcrevem ás vezes bem 
irbaramente áqtfelles mefmos , que deviab fcrexemplò 
de lingoagem purai, e correiíia. . 

., - Pon exemplo , mó prejudipa.a,htim homem veda- 
do nos livros do tempo , ou que trata com gente poliá»^ 
í,:. .. na6 



IfO MSHORIAS 

naã o prejadica , digo , o barbarifmo do poro ; mianda 
diz : Suputo , ou Supita povSuhito , Samos por SotMSt 
Sondes por Sth , Gevtemos por Jantamos , Snhe por 
Soabe , Truxe por Trouxe^, ou Trouffe , Oavijio por Ouvi- 
do , Bxdadeiro por Derradeiro , Triano por Triennio , 5V- 
mejuga por Sanguefuga^ Engonia, Engomado por jígonia, 
■Agoniado , Enguinaçaõ e Enguinaa& por Indignarão e 
Indignado , Paroubélas por Parábolas , PerUngas por 
Proiongas , e nraitos outros ; a razaô he > porqbe logo ao 
ouvir efias vozes corruptas llie occorrem na fua mente o» 
termos píiros , que tem adquirido pela liçafi dos livros 
óbvios, ou pela converfaçati polida. Mas fè naõ tem fre- 
quentado os Authores claílicos , quem lhe ha de dizer quQ 
fa6 pialavras barbaras , EJiremunhado por EJirovinbaao > 
EJlrocer (a dôr) por EJirecer ; Atrapalhado por Atrabo' 
ibaáo-, Efiabalboadô por Atabalhoado , Eftrompado por 
^ftropiado i Engaranhado ou Engorinbado por Êsgor»- 
vinèade , e outras femelhantes ? Toma-as por pala- 
vras do ufo , e ignora que faò do ufo corrupto, e fe 
aconisce ouvir as palavras íáas , igualmente as igno* 
ta , ou as tem por corruptas , pois lhe naõ confta a au- 
thoridade ,' que as abona. 

Daqui vem , que os que eílaó habituados aos termos , 
e modos de fàllar , que vagamente lhes occorrem , igno- 
Tatido os que eítavatS determinados nos Authores , Jracíl- 
mente fe enoja6 da lingoaeem dos antigos , e fe aSéi' 
çoad a inventar novos vocaoulos. Alfím foi a decadên- 
cia da Lingoa Latina, (i) 

Outras vozes , fuppoíto fe^ conrervátf incorruptas no 
fiim , fe pervertem na íignificaçaô , extendendo-fe a ílgni- 
ficaçoens arbitrarias , que nunca tivera^ ; porque os que 
jgnoraô a própria Íigniâca$a6 , que ellas tinhaó f as ém- 



(a) Et ( poftera aetas ) vehut ãifciplinam priJUní fateuU^i 
ita Jirmomm fajliàin (otfit , e( nova velut partMrire vtrba, 
Díemed. Giam. 



pregati 

DigitizedbyCoOglc 



DE LlTTKBllTUBfA POÍTUGUEZA. 17^ 

pTtga5 (ó pelo tino do ouTÍdo , fem correrponder na íba' 
mçnte a ídéa juíla do que os termos fignifícaò. E per- 
iflo vemoe > nao fá em traducçoens , mas em qualquer ou- 
tro género de efcritos , que deciarafí os feus Authores,' 
naÕ o que qiieriaã, e devtaó declarar, mas humasvezes' 
huma idéa circumvizinha , ou remota , ou talvez contra- 
ria , augmentando com o termo imp4'oprÍo , ou dimina-- 
indo , o que deviaõ exprimir fimpleímcntc, ifto he , fen» 
augmento uem> diminuição i que he o que acontecéo- na 
decadência da Eloquência Romana, (i) 

Daqui vem o tomarem por fynonymos taes vocábu- 
los que fati contrários ao ufo da Lingoa , pofto que ap» 
parentemenie ílgnifiquem o mefmo. Por eiemplo , Tf- 
par , e TiBieza iafi íynonymos , mas de forma que o píi-^ 
metro (ignifica eni commum o eftado de qualquer cor-' 
po entre quente, e frío^ oíègpndo dis-fe do eftado do 
animo pouo entre a acçaõ y e ioacçaò. Gida hum teul 
leu Ju^ar. ■ 

TeporAz agoa , do corpo depois de efpirar a aí-" 
ma-, &c. e r\z6- Tibieíia. Pelo contrario Tihieza do co-^ 
raçaâ , da alma ou do efpiritp , e natí Tspor. Por iffi} àxf, 
Tepor dizemos com mais propriedade agoa tépida j, do 
que agoa tíbia. 

ÂlIIm também por ignoraticia da propriedade dos^ 
termos fe ecprimem vil , e groíTeiramentc idéas nobres ,. 
como quem diceffe : curar mazelas por achaques ou en- 
fermidades ; ou áicéíTé , que anda mormofo y o que pa- 
-dece diâuxo ; termos próprios para iove^iva-oudircurro* 
buricfco ,. mas indignos eni difcurfo grave , e ferio ^ ou 
ÈmFe peíToas cuja authoridade, ê refpeito naõ permítto 
Igrofíarias. E líto acontecç mais vezes do i^ue fe cuida i 

(il)_ Animadvirtere tfi pleraque verbonm lotinorum ex eajig-' 
MÍftcatione , in qui nata fítnt aecejjiffé , ve! m aliam longe ^ vel 
in prpximantt eainquí decejjir^nem faãam effe conjuetitdiní etinp 
titia temert diçeutium : q»ae çujujmodi JÍBí, nop Áidicemnt^ 

A.GeíÍus» ■■■ * 

' ■ ■ - e nafii 



172 Mbuorias 

e nátf fó 110 âifcurfo vocal , mais ainda em efcritos pú- 
blicos j porque fe nos termos que acima noiamos he íen- 
£vel a baixeza , ha muitos outros em que facilmenie na6 
repara quem naÕ fabe betn a fua lingoa , nem he verfa- 
do nos livros dos Authores. 

NaÕ baila ló para a perfèiçaã das obras que as pa- 
lavras íejaÓ Portuguezas , he ptecifo, que fejaÕ elcolhi- 
das. A eícoltia he a bafe da eloquência , e a proprieda- 
de das expreíToens o ponto mais eflencial em delicade- 
za de eftilo. (*) Donde vem logo, que hajaÕ efcrítores 
taô indulgentes nefta parte , fenaõ porque fe contentatí 
de íe explicar como querem iem cuidado de fallar como 
outros tem filiado ? Como fe podeíTemos livremente fer 
authores da lingoa tanio como das opinioens , e dos fyf- 
temas, fem dependência de outra alguma authoridade. 
Mas he temeridade , e vãa prefumpçaS ; porque he Ímpof> 
fivel fem. muito ufo de lér os Âucnores claiucos conhecer 
toda a propriedade ,' os gráos de conveniência das pala- 
vras, as fuás varias coníiguraçoens &c. (a) donde na fce 
a pureza , a correcção, a elegância da lingoagem , e a 
clareza do eftíjo. 



(*) Entre touUí hs diferentes expredions , qui pmvrtit rendre 
tmt feule de nos petifées , il n' y a qu^ une , qui Joit la bonne : 
cn ne la remontre pas toujours en parlant , o» rn éertvant. Il cfi 
Vrai neatimoins , qu elle exifte ; qae tont ce que ne l' eli pointj 
tfi foible , et ne fatisfait point l homme d' efprit , qm veut Je 
faire enundrt. La Bniyere Charad. tom, i. tit, des Oeuvragi 
d- efpr- 



A' efpnt. 

(a) Haecut feiamus,, atque eorum tion fignijicatiQnem modo ,~ 
fed formas etiam mtnfurajque norimus , «r suricunaue erunt pojita 
convmiant i nifi multa Itãíottt, , . ajfeqtá non pojfumus. Qaiaã, 

S- r 

DigitizedbyCoC^C^lL 



hb. X. cap. I , 



DE LlTTEUATVRA PORTVGUEZA. . tyi 
§. IV. 

Sf tem ahfoltíta authoridaàe na Limoa Portuguezs oS 
mffòs Autberes cíaffices. 

Pela continuação deite tratado fe verá, que na6 he 
mera queftaÔ de nome examinar , fe havemos de fuppôr 
nos ÃutlioreE claiUcos huma authoridade abfoluta no què 
reípeíta á lingoagem , ou fó authoridade re/peííiva , ifto 
he, com Atas iimicaçoeas. O certo he , que por falta de 
redexaô nefta matéria muitos Filólogos íê tem deixado 
dominar de hum reípeito taÕ fuperiticiofo para com os 
Amhores claíHcoG 1 e de tal forte juratí nas palavras def- 
les Ãuthores da fua veneração , que tem por herezia , fe- 
alguém lhes impugna huma ou outra : tàó amarrados á- 
lervíi ímitaçaíS , que fe lifongeaô como de ter feito ma- 
ravilhas , quai>do mefcláraô o feu difcurfo de certas pa-' 
lavras tiradas de Barros , Lucena, Souza, ou outro de. 
reputação clalTica: (<?) femelhantés áquelles , que .Quin- 
tiliano diz , fe jat^avaõ de eftllo Ciceroniano , toda a vez 
que rematavaô hum período cohi o decantado : rohis effe 
videatar. (b) Pois quej* Na6 fad aquelles os melhores 
Ãuthores da nofla Lingoa ? NaCi he mui Portogueza a fua 
fi'afe ? . . Quem o nega ? . . Porém ha mais do que iíTo : 
porque a mefma circunftancia , que nos faz- a- nds -que^ 
os feguiipos , o exercício da Lingoa mais facil , do que el- 
les o acháraÔ , quando efcrevêraíS, fem terem autròs 
Ãuthores taes como eites , a quem feguinem ; eíTa mefma_ 
círcúnftancia , fe oaó for acompanhada de prudente cau- 



(fi) Plerique » cum verba quaeãam ex orationibus exctrpje- 
T^nt,..mire a fe ^quoe^elegenita , e^gi «rírittatltur ^ Qaiaã. 
íib. X. cap. t. ... 

(h) Idem paulo infra, 

Tm, U. Z tella. 



174 M K M o B I A í 

lella , e diícrifad vem a fer danofa , (d) como depois 
«remos. 

Diílinguindo pois , como deve fer , língoas mortas , 
e lingo» vivas, [Danifeftamente fe collige a differeoça áè 
auihoridade nos . efcritores de humai , e outras. Nas lin- 
goas mortas , coníiderados os differetites períodos da fua 
origem, progreílo , perfeijaÔ , e decadência, tem-fe por 
Authores clasicos. i"- aquelles em que fe terminou o com- 
plemento , e perfeijatí da Lingoa refpeiíli vãmente aos pe- 
ríodos anteriores , e pofteriores : i°* todos os Ãutliores 
mais próximos a elles« que mais ou menos fuftentáraõ a 
Lingoa no feu primeiro vigor , ainda que com Tua diSèr 
rença no que relpeita ao theor da frafe , e dtílo do dtf- 
curfo. Como falirmos da Lingoa, e frafe unicamente , e 
naódeeftílo, e eloquência ,. eu ajuntara ^''* aindaosAu- 
thores da que chamad idade ou época da infuna Latioida- 
de. Quantos vocábulos , e frafes achamosi neftes Author- 
res , que faô bem neceffarias para nos explicarmos ? 
■_ Confeguintemente a authoridade dos fobreditos ef- 
critores he abfoluca para n6$ , ifto he , niaguem pòenr 
contrõveríia , íe os termos , e frafes , de que uurati aquel- 
les Atithores , faõ os da mais pura Latiuidade > cm quan- 
to a Lingoa Latina fe fallou ; nem fe difputa fe outras pa« 
lavras ou frafes fa6 melhores ,. ou maia polidas > pela 
prefumpçaã em que citamos , de que naqueles Authores ie 
terminou tudo o que foi mais perfeito naqueUa lingoa,. 
em que o ufo já naÕ exercita o feu poder , e jurísdic- 



(d) fioí ípfum , /i$toii tanto faeiUorem nobis rattoaem. remm 
omúiunt fitcic , quam fuit iit , ^ nibil quod fequaentnr > ba-- 
b:t.'riftt , nifi caule , et çum jttdkia apprebenditMr , nocet^ 
là. poft inltiam. 

C) Deixemos agoia aos Critico* o 'problema mais ciiriero, 
que incerefíinte i fe a Lingoa Latuifi poJeria tertnaíor perfei- 
ção , fe no feculo dos Antoninos niIctfCem outros Cicecos , 
Lírios, Cefares > N:potes , &c. q^iie conEinuaírem a cultora del- 
r -. Po- 



DE LlTTE"* ATURA PORTUGUEZA. IJ^ 

Porém nas lingoas vivas, e confeguintcmcnfe ini 
Portugucza a amhoridade dos efcritores r.ag fe extrnde 
a tanto, pofoue naó ha Authores clafficos , que c nftitu- 
iflem termo ae píifeiçaÕ , ou noH flus ultra na Lingos 



ta defde o ponio , em que a deixarão os paffados. De paSTagem 
óbferv aremos t° que ha eiro cm confundir , coir.oordinari.-.tnen* 
Ce fe tem feito , ,a doc^dencia da Eloquência Kcmaha com i 
Lingoaj O que os Authores dizem da Ljngoa Latina, durante o Im- 
pério RoCDapo , hepor figura , entendendo por Lingoa a Elo- 
^oncia, A corrupfaó da Eloquência foi hum novo ^ofto , hu- 
qia extraordinária maneira de petilai, que índuzio cíiilo dific: 
lente Ao coftumado , e appiovadoi e íuppotio que o eltílo in- 
Aaa. alguma coila na lingoagein , com tudo o eftilo da lin- 
^Oa , c eftíIo dtis difcurfos fao coifa e(renci.ilir.ente divetfa. A« 
propriedades do cftílo , e da Eloquência em commum fió de 
t&das ac Lin^oáft , as propriedades do eftilo da^ tingoas faõ cf- 
pccracs em cada huma, e dcpesdentes de analogia , c ufo pe- 
culiar. Séneca com o latim de Cícero tomou hum eftilo divet- 
stlGn:» de Cícero , ifto he , com hum latim mui puro , elegan- 
te } é polido arruinou o bom gofto antigo , e ccrtotr.peo a £Ío- 
quCnda Rstfiana. 

Outro erro (2") , vizinho do antecedente he o chamar 
barbara a frafe , e os termos inventados pelos Authores. pofte- 
ríores ao feculo de Augufto ; fendo que cdas palavras nova- 
mente adquiridas para a Lingoa Latina , poAo que naó conhe:' 
cidas de Ciíero } e de outros cfctitores coevos, naõ fdraó for- 
mados de bttro , nem de matéria heterogénea ; faíraó da' mef- 
ma fonte donde vieraõ ot termos Latinos tnats Ciceronia^os , 
iftohe, da analogia Latina, e foraÓ necelTarias tiaquelle tempo 
em que o augfflenro do Itnperío , e da Cidade de Roma , e z 
nOltidaõ de gente que fnllavaó , e tfcreviaó latim , pediaó 
maior extenfao da analogia , e mais abundância de termos 
[Ara fe explicarem. Aflíhi as palavras, víríMo/wi , miracuhfus ^ 
e eottas femelhantes faó t«õ Latinas, tendo nafcído depois, 
como vkiofus , prethfus , frobrofus t>t. , que fôraó daquellc 
fécAlo áureo, e muitas delias pimeiro fe ufar?ó na Lingoa La- 
tina , do que entralfem na» Lingoas 'irrodernas , qui; fe geráraô' 
da ruitia do Tmperio, e do feu idioma; fó o'que lhes falta 
he a authoiidade do feculo Auguftano , attendida a opkiiaó «f- ' 
' '*■-' , Z ii Por- 



tyS Memorias 

Fortugaeza , nem iiTo podia fer, durando o ufo, e ez- 
ercicia nacional delia Lingoa. Os que temos porÃutho* 
res claJIicos , fa6 íá aquelles , que com o feu taioito 
contribuiria mais para o progrejb da LJngoa , e íun maior 

fierfei^a5, a:npliando os limites da analogia ; e a me- 
lioráraõ emendando alguma coifa da fua antiga rudeza, 
e irregularidade. Cujo beneticio refulta de que. qualquec 
efcritor inúgne > além do cara(5ter predominante do idio- 
ma, em que efcreve as Tuas obras, exprime o feu cara- 
ifler próprio , que fíca fendo fubalterno ao da Lingoa , e 
nella íe miíhira como huma efpecie de tintura; de maineí- 
ra que os termos , e frafes da Lingoa debaixo da pena 
do Author , tomaâ tanto de modificafoens novas, e va- 
rias , quanto o feu efpírito he menos rulgar , e mais ori- 
ginai. Tal foi o de Barros , Britto , Camoens , e outros a 
quem a Lingoa Portugueza deve infinito. 

Nenhuma das Lingoas modemai , nem ta6 pouco a 
Portugueza tem chegado a hum ponto de perfeição cicltH; 
fivo de qualquer gráo de perfeiçatí maior i pois que 
( como obferva hum Filofofo agudo (*) ) « perfeiçaíí das 
Lnigois he obra do tempo, e de reâexoens fucceíEvas , de- 
pendentes das luzes , e conhecimentos dos povos , da po- 

tãbelecidi , cjue nos efciitore» daquelU «poça fe decifra lado » 
que houve de melhoi Latinld^de. Temos logo , que íó rig»- 
loraraente faó barbaras , íQo he , eítranhas naLíngoa Latina as 
palavras ,^ que nunca fe ufáraõ nella , nem tem origem Latina , 
mas fó foraó introduzidas , fegundo o g.ovemo , e coftumes mo- 
dernos das naçoens vencedoras, com huma forma alacinida; 
taça como f^affallm . Feudum , Bargus , Scabinus , ínfanfones , 
feire per exquifam , donde nos veio o termo Porcugucz Pefqui- 
za y 6 PeJquizUr , e outros muitos , «jue mais pertenceo» a hum- 
piccionario do qi*e a efta obia. Dsíla matéria fe podem infor- 
mar os que tiverem adáz de tempo, e paciência para levtdve- 
rem as guerras littcrarias dos FiloJogos do íecttloIÍVL fobre a 
Liitinidade pura , efpmia , e furpcita, 

(•) Gondillac Effai fur i origine, des. cotmaijanc. Scc. IL p.. 
chap, 15. 

UcÍ3» 

DgitizedbyCoOglc 



deLittkratítba Portugueza. "^77 
licia , commercio , é forma de governo ^ e as rèvoltiçoens 
ftiã mais tardias nellas Liogoas do que nas antigas , por 
terem fido formadas dos reftos de muitas cutras de di« 
verfos caracteres : antes podem occorrer muitas cau fas, 
que obftem , ou intcrrompaõ os feus progreíTos , como 
ia6 as que temos apontado na decadência da Lingoa 
Fortugueza. 

Huma authoridade pôde fer derogada ]:or outra aii' 
thoridade, e as leis de bum ufo pelas leis do ufo fu- 
perveniente , como já declarámos n'outro lugar. E defte 
modo, fe efta nofla idade dér Authores infigoes, aquel- 
les feraâ Catoens , e Graccos para os vindouros , e os Au- 
thores defte tempo feraõ Authores claíficos para o futuro-. 

Conlèguin te mente nas Língoas vivas , e poriíTo na 
Lingoa Fortugueza os Authores clafficos na6 podem ter f&r 
naÕ authoridade limitada , ifto he > fubordinada em mui- 
tas particularidades ao gofto, ejuizo dos bons Authores, 
que tem florecido depois delles , e dos que anualmente 
fiorecem. Antes porém que fallemos em particular dos li- 
mites de Authoridade, que fe devem conftituír a efles Au- 
thores , parece , que para dar mais luz a eâa matetia 
fera conveniente dar huma revifta is varias épocas da 
iioff'a Lingoa > e Authores , que mais fe Jinalárao em ca- 
da huma. 

5. V. 

Rejlextens fohre as épocas da Lingoa Fortugueza , e 
-dos feus Jutbores. 

Inútil curió/idade feria , antes necedade , bufcar e& 
eritores Portuguezes nos principios da Monarquia para 
confultar o eftado da Lingoa Fortugueza naquelles tem- 
pos rudes j e incultos , e bárbaros. Já fabemos , diz hum 
Author, (*) baftantemente a hifíoria dos fecuíos barba- 



C*) CotidiUac Comi d' £'fud€S tom. XV. chap. 2. 



íca , 



l,c.byCA>Ogk' 



«7? A£ B HO RIAS 

ros, quando fabemos, que fórad bárbaros , com mdo al- 
guns veftigios ha , que natí tem efcapado á curiondade^ 
e perfpicícia dos doutos indagadores , a pezar das tre* 
yas de taã remota antiguidade , por onde le póds entre:- 
ver a lingoagem de homens , de quem diz o infígne Fer- 
reira , (*) que 

DeixaraS boa matéria a altos efcritos ■ 
Noff'ox pajfadoí : naõ lhes tiro a fama , 
Mais aadçs a hons feitos , que a bons dties. 
que he o mefmo conceito , que íez Salluftio dos feus «n* 
tigos RoíTianos : Optimus quifque f acere , qttam dicere ; 
fua ab aliis benefaíla latfdari , quam ipjè aliorum nar- 
rare mallebat..(^*) 

Nem he crível ■, que tiveíTe a Lingoa maiores venta- 
tagens no Reinado de D. DinÍ2 , em que as Mulas rufti* 
tas , podoque favorecidas defte grande Monarca, ape^ 
nas moftravaò hum pequenino crepuícuto , mais proxikBO 
ás trevas do que à luz, íegundo a tdóa do mencionado 
Poeta : (*••) 

Inda naquella idade inculta , efera 
■^ •■-. As forças toda dada , hum fprito raro • 

Piedefo 'templo ao brando ApoUo erguera , 
Santo Diniz na Fé , nas armas clara , 
Da pátria pay , da fua Lingoa amigo. 
Nem he de admirar a penúria de efcritos em tem- 

EOS taÕ miferaveis , nem iflo foi condiçaã particular da 
ingoa Portueueza ; pois bem íabldo he , que ainda quaíi- 
no meio do íeculo XII. , oâõ fó em Portugal , mas geral- 
mente em toda a Europa tudo era bárbaro em extremo. 
NaÒ havia outra lingoagem , fenaó o que chamavatí Ro- 
mance , que era Lingoa Romana corrupta , e fe tinha por 
lingoa vulgar em lugar da Latina já defconhecidâ. Na5 



£•) Põem. Lu^t. liv. II. Cart. lo. 

i**) Selliin Catilin. §. VIII. 
(•*•) Pqífl. iaji;. no mefm. lug. «ima. , ' ^ 

í ■ ■: havia 



Cgilzccby VjI.'».í'^I1. 






DE L I T T 1 RA T V RrA P o R t U G U E Z A. I79 

havia em parte nenhuma efcrítos , nem obras deengenho 
«m profa , ou em verro , que mereçaÓ eíiimaçaS : tudo 
eraã partos informes dignes do ^oíio baibaro daquelles 
tempos. Os únicos efcritos mais ordinários eraõ obras 
de cavallaria , em que Ce narravaô feitos de armas , e 
aventuras de Cavalieiros amantes , e tudo JÍTo le efcre- 
via no dito Romance , porque aquella gente nada enten- 
dia de Latim : e daqui he y que os Francezes , tirando o 
termo da Lingoa para os afTumptos , vierafi a chamar J^ 
mances o mefmo , que nós chamamos Noveiieis. (*) Ifio 
era enta6 commum á Itália , França , Efpanha , e Por- 
tugal. E pelo que refpeita á lingoagem naó poderiamoi 
eíperar, que ella foíTe hoje mais bem entendida entre 
nos f do que feria entre os Romanos na Corte de Au- 
;ufto a Lingoa ,dos Ofcos , e dos Sabinos » dos Anoaet 
los Pontífices , a frafe das Leis das Doze Tabcas , ou 
dosHymnos dos Salios , que. nem os mefmos Sacerdo- 
tes já fabiatt entender capafmente. (*•) 

Tal he a idéa , que podemos formar daquella noíTa 
Telha, e rançofa Lingoagem no Forma da alquimia ef- 
crito por ElRei D. ASfonlb , e no P»epta febre a perda Ài'^X^k.í, 
de Ejpanba , os primeiros fobre aíTumpto grave , que ' 
fe virais naquelles tempos. Sirva de moftra o feguinte 
retalho do Poema fobre a perda de Efpanha : 

O Roucom da Ceva emprio ãe tal fanba 

A Juliatini , e Orpas a fea grey daninhes. 

Que em fembra cos netos de jíear Jornezinhs 

Hfiúa atimarçn prafmada façanha : 

Cd Muza e Zaripb com bafia companha , 

Dejufo dafitta do Miramolino , 

Cé falfo Infançom e Prefies malino ■> 

l)e Cepta aduxerom fo foiar de Efpanba. 



(•) Fleury Difcourt V. /w /* hífi. Ecclt^fifi. £. 5. CfindilÍM 
Çonrs á* L'tHÍss tom. XII. 1. 8. Cíiap. 7, 
C**) Qniníl. lib. i. «ap. 6. 

A meí- 



Dg,l,zcJbyC00g[c 



i8o MeuoRiAs 

A mefma rudeza appareceo no feguinte extraiflo' de 
Hiftoria: (•) onde fe defcrevc , como os Difcipulos de 
Sint' lago fe embarcarão em Joppe comocorpodo Apof" 
tolo, e com elle viera6 á Elpanha. 

» Logo lhes fez hum vento moy manfo , e moito 
» bom , que os íez corrf r pelo alto , moito em paz e 
X em bem : e auando chegarom direito de Portugal a hum 
X lugar , que lia nome Bouças , aveo aííy , que hum ri- 
X comcii , que tinha da outra parte do Douro a terra 
;i da Amaya , e faziom bodas em Bouças , que jaz na 
* Amaya , donde era natural o cavaleiro : e a fefta e Alè 
» dize era moy grande, e a cavalaria e a gente moita, 
» e cada hum fazia o que íabia , que pertencia a boda, 
» e os huns lançavom ao taboado , e os outros baforda- 
31 bom, mas entre eftes , que bafordabom , bafbrdava hi 
» o noivo : E aveo afly pêra moftrar Deos as fuás mara- 
■» vilhas 303 que elle quer pêra ly : que o noivo indo 
» bafordando, o cava lio em que iva , tirou peio freo , e 
> meteufe com el no mar , e fe fonegou per fo agoa ataa 
X direito da nave hu andava o corpo de Santiago: eali 
X. faheo o cavaleiro a par da nave , e catoufe , e vio o 
1 cavalo t a íella , e o peitoral , e a Allamia , e os pa- 



(•) He de hum Fios Sanftorum antiquiffimo , do qual faz 
mençaó D. Rodrigo da Cunha no Catalogo dos Birpos do Pot-- 
to I, Part. Gap. 2°* , e diz , que fe confervava na Lívraiia do 
Molleiro de Alcobaç t ; c fora mandado trasladar de orif;inaes 
antiquilEmos no anno de I44}< Ft>r mandado do D. Abliade 
D. Fernando de Aguiar , Elmoler Mór dEiRei D. AfFonfo V. 
He crivei que efta obia fofle compofta depois da Hijioria da 
Conquifia de Conjtantinopla por Vúlt^bardouin , que foi a. fc- 
gunda obra hiílorica que os rraucezes tiveraó na fua Lingoa , 
quafí ^o. annos depois que foi efcrlta a. Hiftoria dos Duques de 
Xíoauandia » por bum Clérigo de Caena em iióo. Mas tambcm 
fe pôde inferir , que fe a trasladação do Corpo de Sant' lago 
para Comoodella naõ tem monumentos mais authorizados do 
que femetnances efcriíos , podemos contalla entre as fabulas 
fias ) ^ue manáTaõ na^uella época. . . ^ 

•'■ . \ » nos. 



Dgilizc(;byCAH)l^lc 



DE LiTTERATDRA POBT tí G U E Z A. igl 

>' nos todos cheios de vieiras , e por íabet- mais daquil- 
X Io tirou' o fombreiro , e catouo , e vÍo em el outro 
» taí , e foi efpantado todo, quando aíli fe vio cheio 
» de vieiras , e que viera per To agoa fem dano nenhum 
» que-houvelfe, e que emva lobre o mar e bem como 
» em terra cham. » 

Para evitarmos o tédio da narração prolixa , è tof- 
ca , ajuntaremos agora fó alguns lugares de fiafe mais 
Dotavel neíle contexto : 

» Quando vio hi os homens houve ende grande 
» prazer. . . . e perguntouthes , que lhes feoielhavom.da- 
M quetlas coufas. 

» Pelo nome de Jefu Chrifto , que todos eHes miU- 
» grés fez, caa fei fem falha , que por el me beo todo 
» eíte bem , bos rogo que me enfmedes eíTa çreença , caa 
» moito ey gratn, fabor de a ouvir, e de a aprender , e 
> elles lha eniinarom entom bem em tal guifa Santiago 
D a eníinou a eiles. ... 

X Caa certamente fem graça de gram final de mara^ 
» vilha nom he taÓ eftranha coufa como efta. . . 

X E tanto que efto foy aífi feito , firio o vento em 
» a vella, e partio a nave dei, e foife afll per fobre 
y o mar contra a moita gente, que o atteadia na riba , 
7t que. da primeira cuídabom de o haver perdido... 

» Pergunraronno que fora aquello, ou como podo 
» efcapar occ. x 

Paífemos agora a examinar as diferentes épocas da 
Lingoa Portugueza , e o que ha mais particular em cada 
huma. 

I. É P O C A. 

A primeira fe conta defde a fundação do Reino 
até o tempo d' ElRei D. Afibnfo V. , que íaz dilFarença 
de 400. annos. Pelos exemplos , que temos moftrado , 
e outros que os curiofcs naÔ defprezaS para oblervaros 
ufos , a propriedade , e -íignificaçaO das palavras le yé 
1°' a variedade de orihografia das palavras , ç nefta a pro* 
Tem y. Aa cuacia , \ 



lizcJbyCoOglC 



iti MBHtÒRtAS 

-nuncia , que Indicad que -nada ou pouco maU de ttádft 
havia de regras fiias ; i"' varias dicçoens, qae hoje íc 
julgaS formadas por fyncope ou contracção , e iferda* 
-deiramente eraõ mal derivadas do Latim, de modo que 
a refpeito das originaes maÍ! parecem vocábulos trunca* 
dos , ou melas paUvras , do que termos regulares : taes 
como, jíffam por afflicça6 ; ^"^ na conjugaçafi dos 
Verbos alguma irregularidade , coflfervando n'aígun8 A 
propriedade do dialeiílo Galiiziaho , como iva , enjine- 
des i^c. 4V a conftrucçaÔ das frazes pouco uniforme , 
■e 'inuiras vezes o nexo, e dllpofiçafi delias confufa. 

Além difto obfervaremos , que fuppofto no decurfo 
deftá época fez a Lingoa Portugueza varias mudanças , 
que a diftínguem , com tudo muitas coizas pafTáraÕ ás ou- 
tras épocas , como faô i"* a terminaçad de nomes , e 
verbos em <m , comO perdom , forom , lerom ^c. , de 
que ufou ainda na fua idade Fedro de Andrade Camt* 
nha. ^°' Vários termos cerados nefta primeira época, eo- 
ilio Alfsqueque , redemptor de catÍTos : Barragafn , con- 
cubina } e outros , que fe achstí no Código Manoelino ; 
Cdita j pena, paiiaò , donde veio a palavra coitado, 
l^ae ainda hoje dura lagt/fa, preíTa , ardideza , a&ach y 
mas drdíi da mefma origem ainda hoje vale: ãe>inha 
logo ,■ cedo ifivsiã , conSanja ; favoreza favor , c outros 
femâlhantes. 

K naõ fá eftes termos , mas ainda muito do pri- 
fneiro dialeiSo fe conferva em Fernatt Lopes , e Azura- 
t« , como fe vê nas vidas de D. JoaÒ I. , D. Duarte , D. 
Afibnfo V. principalmente a forma neutra ejío , tilo y 
equello , algo ^ ai ^ e ullo ^ ulla, por qual > unbo, unha 
por hum t numa Scc. , e também èi por ahi , btt por 
onde. &c. 

n. É P O C A. 

Fazem a fegunda época defde o tempo d' EIRei D. 
^Koè IL até D. SebaftiaQ > poltoque em quantos efcrevé- 

ra6 



uc.bvc;. 



D- E L I T T E R A T U 8 1 F O R T U G U E Z A. 183 

raã por efte tempo até Joa6 de Barros , qqafl nati iè 
conhece notável. diSereaç^ da antiga Lingoagem. Mas 
eíle ínligne Efciitor deo hum como novo tom á Lingoa 
Fonugueza , naâ tanto nas palavra^ por ii fò , porqus 
ajnda nelle íe aj:had muitas da idade aatec^dente ; mas 
pelo theor , e organização da fua frafe: de fdrm% qu« 
elle foi o que criou , e nutriq a feriilidade , e riqueza 
dos Àuthores da feguinte época , e ainda hoje he conful- 
tado pelos homens , i^ue tem goítq faõ , como hum dos 
melhores oráculos da noílã Lingoa. Além do feu enge- 
nho fuperior naâ fe pôde duvidar , que coiicorreo muito 
a grande «rudifaò da Lingpa Lafjji^, e Grega qw Qs feus 
aniece^res naÕ tinhaÕ, ou de que fe naã aprovekára6 j 
como ^m, para adiantar os progreíTos da nolía- Tajiir 
bem, he crivei , que a difièrente communica^aâ , que teve 
pa Cof^a de Guiné , onde foi Governador , feria caufa 
para que vieífe a deixar grande parte doç vocábulos ior 
Jbrtnes , e menos apurados , que fe achaõ nos outros KO- 
critores antes delie : como também , que a grande eilir 
maçaô , que âzera^ de feus efcritos os Authpres , que fe 
lhe leguíraãj devia de fer caufa, que perfeveraíTe ainda 
,até Vieira o ufo de alguns vcçabulqs, .que ejle çQipregou 
jias fuás péçadits. Há çom tudo ainda oelle baftant& da 
antiga Lingoagem , confequencia dos pequenos, e vag»- 
rozps progreflbs , que a Lingoa teve na primeira época. 

£íaã nos admira a cpnjunqatí Cd em lugar de por- 
que., que parece viria em direitura da Franceza Car , for- 
nada do l^tim Quare ; da qual ufou Duarte Nupes , ef- 
crevendo 50. annos depois de Barros , e ainda q P. Lu- 
cena , que efcreveo jkIo m_efmo tempo. 

No género dos nomes fe obferva , que dá os no- 
mes de naçoens acabados cm ts a ambos os géneros , 
dizendo no feminino Gente Portuguez , Mulher Portu- 
guez &c. : o mefmo ufa nos nomes verbaes acabados 
em or , como , Cidade competidor : Mulher inventor , 
Noíta defenfor. &c. 

Outras vezes feguindo a termina^ati dos nomes , faz 
Aa ii fémi- 



l-c.byCoOglC 



tÔ4 MEMORIAS 

femininos os que nós hoje faiemos mafctiUnos , feguin- 
do o ufo do latim : Hôa Cometa , C/ima hUmiãa , btt- 
ma^Paradoxa. Cifma , queentie nós figniúc2nào fepara' 
fao àa obediência á Igreja lie mafculino , e fipnigcando 
imaginação, i. h. , pcnfamento inquieto, he Feminino, 
em Barros tem fempre efte fegundo género. O meíino 
ufa do nome Fim ora mafculino , ora feminino. 

III. ÉPOCA. 

A terceira Época entende-fe defde o Reinado de D. 
SebaftiaÔ até os noflbs tempos , que faz de differença 
mais de duzentos , e vinte annos. A particular proprie- 
dade defta época he hum idiotifmo , e forma de frafe 
tal como o que hoje praticaó os bons efcritores. Fallo do 
idiotifmo , porque fe attendermos is palavras por fi íó , 

Íiodia-fe defde o P. Vieira para cá conlUtuir huma dif- 
erente época. Os que fetem por Authores claflicosnef^ 
ta idade faô -• Fr. Luiz de Souza , Fr. Bernardo de Brita ^ 
o P. JoaÕde Lucena , Jacintbo Freire de Andrade , Ama' 
dor J^raes , o.P. Vieira : efte , e Jacintho Freire faô os 
que menos ufárafi dos antigos vocábulos. Dos Poetas os 
mais celebres faiS :. Francifco Sá de Miranda , Ferreira , 
Bernardes^ Pedro ^ Andrade Caminha , Camoens. Hou- 
ve nefta idade o que coftuma fer a coifa de maior van- 
tagem para a perfeição das Lingoas , Ífto he , a cultura da 
P«'ezia , porque , íegundo o Author da vida de António 
Ferreira, o melhor daquella idade, ou eratí Poetas, ou 
os linhaO em grande apreço. 



§. VL 



,C~AH)i^lc 



DB LiTTBs ATVRA Fort VaUEZA. l8j 
§. VI. 

Da Critica dos Authorts nacionais , eu dos Hmiter, 

que fe devem eoT{ftituÍr d Jua autboridede a re/pei" 

to da LíPgoagem. 

Si veteres ita miratur , laudatque Poetas , 
Xlt nibil anteferat , nihil iliis cemparet errat : 
Si quaedam nimis anti que , Jipkraque dure 
Dicere credit eos , igtiave multa , fatetur ; 
Et fapit , et mecum facit , et Jove Judtcat aequo. 
Hoiat. £p. I. iib. II, V. £4. et fe<]. 

Se he bem fundaía anofla antecedente propofiçaS , 

Íjue os Âuchores clalEcos nas Lingoas vivas y e. porconr 
equencia na Portugueza na6 podem ter fenalS huma au- 
jthoridade limitada i natí parecerá fóra de raza6 tratarmos 
outra qucftaâ j que naturalmente fe offerece, vem a ferj 
quaes fejaÒ os limites , em que deve conítítir a fua au- 
tQOrídade , ou até que' ponto fe deve extender a noÚ« 
condefpeiidcncia em os feguir. 

Duas feitas ha entre nós de Filólogos , a quem a pre- 
fente theoría fará contradicçafi ; huma he dos que rejeir 
taodo toda a authoridade , fe fazem Authores : para Os 
ouaes natí há Portuguez brilhante lem bum fuícit ar , iU 
laquear , reportar , repatriar , tranfitar , ãijluir , in- 
cutir terror , equiparancia t exultancia :, jaBulaçoens ^ e 
outras femelhantes exprelfoens da fua nova fabrica ; ajun- 
tando a itlo as francezias , com que tudo tem rranílornã- 
do do modo que ironicamente exprime hum Poeta: («). 
Tem hoje a nolfa Língoa tal decência ., 

Que nada fem decoro pronuncia...... ^ 



(o) Abb.e de Jazente Potras. Sonet. 12. 



Dos 

Cg.lzccIJyCoOglc 



Dos commodos maridos a paciência 

Logra a nobre expreflaõ de galhardia; 

Em vez de amor nos diz galantaria 

Em tudo o mais com termos rebuçados 

Brilha ua locuçaO a urbanidade. 
Outra feita coqtraría á antecedente he a de cer- 
tos Filólogos, zelófos fim do augmenro da Lingoa Por- 
tugueza j mas de huni zelo taÓ iijperll.iciofo para çpm os 
noflbs antigos Efcritores , que parece aflemao , que lòo 
que clles çícrevêraChç Portuguez, e o que ha de fde en- 
tali para cá , que he heregia -, de forma que na6 fó vene- 
raO as caos , mas aié a cairá da nolFa relha Lingo^gem. 

Para eftés naõ ha Pai , nem Mái , porque íó Padre , 
e Madre faã Fortuguez Canónico authorízado pelos mais 
antigos Patriarcas da noíTa Lingoa. Poriífo » Ouri de Fí- 
» lippe fa4re de Alexandre , que tinha hum pagem &:c. r 
E ^mbém : •» Ãcodlndo logo com a promefla do Re* 
» demptor , que havia de nãfcer daquella mulher , que 
» havia de efmagar a cabeça da Serpente , que enganara 
> noffa madre E^a. * 

Em todas as Lingoas ha nas preces comtnuas , pala* 
Tras que fe confervad de tempo immemorial , izentas do 
defpotifmo do Ufo ; como também algumas do ufo eiril : 
affim Padre , titulo , que fe dá aos Ecclefiafticos , Padre 
noffia , Padre Eterno , CreÍ9 em Dees Padre , o Padre 
Santo , a Santa Madre Igreja , Caufa Cível , £/£«/ , 
fa6 termos confagrados : fóra difto naÒ lhes vai pFtvilç- 
gio. Refpondem : Mas fe Barros, e outros efcritores ufi- 
X9l6 delles , quem os ha de iúipugnar ? 

Seja embora precifo cotnmentario; mas lêa-fe » Eííà- 
» qui porque os Santos Patriarcas bradavatí fem ceílãr, e 
» com mui grande affeito de feus coraçoens pediaÔ4 
» Deos , que fe amerceajfe já dos degradados filhos de 
» Eva; dizendo aos Ceos , que íq fasMtinaJfem Siíç. Naô 
valiaõ outro tanto palavras dojapaõ? He Portuguez de 
que ufou Barros : bafta. 

£ donde reBi' humá prociílad- de termos rog^dçs , 

Hous f 



DigitizedbyCoOglC 



. DE LlTTEÍArultA toBTVCXÍKZA. 187^ 

âous , edous, levando como pela ma6 hum ao outro, 
numa diíTenaçafi filofofica , onde fe trata dos progreíTos 
do entendimento? » Se tendes voíTos pezos ^ e balattçaS 
« affi correntes , e afferidos , que podeis f/ÍHiar , e leal- 
» dar ao terto e jufto o pezo , e valor de todos oi grá- 
ii os da conjeálura : e tendes já ganliado tal tino , qufc 
% asm. errais , nem embicais nejie fragofo^ è alcantila-^ 
X ^íj caminho-, animaÍ-vos , <\\xç '}i ferrajles Xwxmz áa,$ ba- 
i bias de volto falvamento. 

Outro paragrafo antecedente conclue: » Se tendes a S 
» lanternas da Evidencia, e Probabilidade aíTt /fro-y/í/àr, 
X accezas , e atiçadas (efqueceo-lhe efpivitadas^nut tam- 
it bem he de Barros) que na 6 receais vos deixem aas eí^ 
» curas , e aas apalpàdelias em qualquer bufça , e exa- 
X me de importância. » Léáibra ã eíle propoíito o que 
refpondeo o douto Pafleracio , perguntando-Ihe hum leu 
amigo , que lhe parecia o modo de efcrever de certos 
Authores , que naô fallavaS como a outra gente , mas 
pàfeciaS homens , que vicfaô do Ctío. Iflb (diz elle) he oi 
velho Teltamento : tudo he Bgúràdo : querendo dizer , 
que tanta djffêrença vai daquelle modo de éfcrevér ao. 
lAodo regular , e racionavel , como das lòitibras da aa- 
tiga Lei á liiz do Evangelho, (a) 

Irtigo por hirto , ou irto , jàm firáet : ;ficou cpíh 
ellc a gente do campo , e ás regateiras da praça :' ipas 
que importa , fe aíTim o traz Barros ? 

Pro/he hum termo aflaz velho, e fobre ííTo tem poit- 
co decoro , fegundo a fua primhiva inftituiçaó : (*) mas, 

(ji) Gilícrt, ^u^emeus dv Savans &c. lom. II. p. ^líi. 

(*) Prol he voz derivada do latim pro/ei : cntrfi os nofTos ati- 
tigâs fervia nos comprimentos , <]ue faziaÓ fó aos noivos , como* 
dando-lhes parabéns , de forma , que dizendo frol fa^a , valia 
tanto como dizei : Oxalá que renhi o frudto defta uníaõ , ifto 
he » filhos: e o meímo nfo antigo eftendeo a fiarmula praí fa- 
§« , a todo o género de parabéns , "TOj fe davuó a qbalquei^ 
pelToa í de forte que aindi no teit^o .dT.lB.ei D. joaóIlL eta 
ter-no corrente , e fe dizia em commum pr prol ^ fer dt prol ^ 
fai&r prol , pot fer « ou feivir de utilidade. que 



l,c.byCA>Oglc 



i88 Memorias 

■que lhe havemos de. fazer, fe Barros ufou delle ? Porque 
naô diíerpos n'uina dífiertaçaõ filofçfica , fjllando da in- 
fuf^ciencia das torças humanas : » £ porem nós outrgs 
»- fracos . . .;. que' poderemos fazer de prol ? 

» Oh aprouveffe áquelle que nos deo a immortaiida- 
» de . . . que fe amerceajfe . de nós : fem o que em vam , 
x e defaproveií^idas fe quedam todas as humanas forças » 
Qje diremos deftas palavras ? bem podemos dizer , naô 
que faã folhas > mas folhagem ; e fe parecem ilores , fa<> 
taes , que levemenie defmaiaÕ , e murclias caem por eíTe 
cha6. É que diremos (outra vez) defla carregação de pa- 
lavras ? He godo da antiguidade , mas femeIJiante ao dos 
que hoje fízelTem gala de veílir á febaftianiUa, e appar&- 
cer na rua com muito boa feiçad , podendo-fe-ihes bera 
accomodar , o que di0e Tácito; Vetera extolliíHus ^ re~ 
centium tncuriofi. 

Se hoje corre a palavra Pejiilencia , de que ferve a 
palavra velha, e mal cavacada Pejlenen^a} Só fe hepara 
què faibaâ huns , que eu tenho lido Barros , e outros pa- 
ra que nad eiitcndad nada. 

Naâ he feio hojç comefto por comido, relâmpado 
por relâmpago &c. ? Oh ! faõ palavras niuito Portuguezns. 
Quem o nega ? Mas que necedidade temos hoje de fallar 
com a mãi , ou avó de Egaz Moniz ? (a) 

Mas neftes Filólogos antiquários tem íèlto tal efpecie, 
iiTo que elles chamaíí^^^ da antiguidade ^ que pcrderi6 
a paciência fe alguém lhes desbotar alguma exprelTaó de 
Barros , ou outro Àuthor dos feus queridos ; e fe lhes de- 
clararmos , que he contra elles humas vezes a razaÕ , ou- 
tfas o ufo, ifto he , o confentimento uniforme dos ho- 
mens doutos , Clament peritffe pvdarem. (Jt) E defta for- 
ma o ufo dos noífos antigos Elcritores taõ neceflarío , c 



C<j) Vej. Vemeiiíe JfZo^. lib. VI. Mp. j. De Pedaiitifmo g. 
8. Q*iid illt , qui vetMJiiffimàm Scc. 
(fi) Hàrat. £p. i. tíir.UU. 60. 

tàó 



Dg.lizcJbyCoOglC 



DE LlTTEU AfUBA PORTUGOEZA. l8$ 

taS Útil para o conhecimento, e perfeição danoíTaLin- 
goa , ihè vem a fer prejudicial , e os melmos , que cuidaô 
trabalhar para oTeu acrercentattietiTO*, por delbrdenado 
gollo , ^u atrazaÕ o íeu progreíTo , ou maqulnaõ a fua 
ruina. K que acertadamente fallou aquelle Filofofo , que, 
diíTc , que á vllta de hutna tal contrariedade de goftos , po- 
diamos aíTentar , que em todo o género de obras naoha 
rifco em meter o bom , o máo , e até o peor ; porquanto 
o bom agrada a huns , a outros o máo , e o peor naõ falta 
quem o defenda. Ç_a) 

Nós porém prezando , fenaô a conduta , ao menos 
a boa ten^aò deíles reftauradores da velha Lingoagem , 
diftinguiremos o gàjlo da antiguidade , do eníhuziajmo 
da antiguidade , Ííto he , hum gofto folido , e Uvre , de. 
lium gofto extravagante, e cativado á authoridade dos, 
antigos : hum gofto , que a olhos fechados vai a p^tó de . 
hum Author nomeado , de hum gofto , que difcerne , e ef- 
colhe oquepi^e fervír de ludre á Lingoagem prâíeate, 
expurgando as fezes do feculo ran^ofo : (i') finalmente ,, 
huin goíto que ama o bom , e o bcUo da Lingoagem , feoi 
idolatrar PS Âuthore^, nem deliuentir a época do fpunaf- 
citnento. 

Suppolla efta diítincçaâ eílabeleceremos as leis racio- 
náveis dos limites , que fe devem prefcrever á autfaorida- 
de na matéria de Lingoagem j e eíTas feraó. aç mefoias 
do gofto da antiguidade , iAo he , da Critica dos noíTos 
^thoues. 



(a') La Bmyere Charãã. tom. 11. chap. ii. dtt ^ugimtns. 

(á) Suaferím et atiMMos Itgere ; ex ^utbuí fi niianatut foli4a 
ae virilis wgtnti vis , ãeterfo rudis faeculi fqualort » tum nofier 
biç cuitus tiariui etiitefcet. Quiníl. De ItJjiitHt. Orat. lib.ll. cap.6' 

^m. r. ■ Bb : M A- 



zcJbyCoOglC 



%gO UE1AOI.IAS 

M A X 1 MAL 

St. n^um jimtbar grMvrfc ãcbê , mt movã forma Je ãl- 
-. gum termgi cu turva appMcã^sõ delle ^ «v ãlgmmMj:oiif- 
tmcfoS extraardinarim ^ naõ difirepãnd» emn tudo 
das regras cornmuas da^anaiogia , f^drn diffk jrrd rt~ 
frtbtnfivei , ainda qme /èe falte a aatoaridade d»i 
Efcritoret çoubecidos. 



Pbrqae I." fem efe- heróica liberdade , que fe ant>- 
^A de tempos em tempos os engenhos da primeira or- 
dem ,' teríamos lempre numa Líogoagem rràriAa , e ni- 
miamente fjftemattca: pelo contrario e& liberdade doa 
Editores infigoes concorre aa augmeflto , e perfeição da 
Lingoa , como já dilTemos « exiendendo os eftreitos li- 
mites da analogia. 

U." Fofto qife (coffio diíTemos^ n^oatm logar) o ar- 
trirrio de hma fó Efcrítor na6 fsnda logo ufo , cmn todo 
elie o principia. Porque o qne hoje diflè hum Auihor 
^cm exemplo claffico , pôde fer que á manháa teja fe- 
guldo deoutros , authõrizado com o primeiro inventor , 
deites pafl^iaoatros a novidade*, o-ulo prevalecerá ate 
que quaíi cfqueça o primeiro inventor , e os Gramioati- 
cos , com injuria da lua pedantaria, veráA-correr com ap- 
ptauTo muitos termos, efrafes, que a fua Critica tinha 
1'eprovado. Por quanto a Critica dos Gramraaticos , quan- 
do pugnafS pelas authoridades , ordinariamente fe funda 
nefte difcurfo : Tal vocábulo, ou tal frare naã fe acha 
ngs Authprês cia filcos ;,. logo naÕ fe deve admitiir. Sa- 
bem a Lingoa dos Autíioresclaflicos: í3'o quê naoTalierà 
hç , que lt4 muitas coifas , que os Auihores clalHcòs na6 
díflferad , e com tudo fe podem dizer> B na verdade em 
qoB eílado teriamoç hoje a nofla Lingoa , fe 05 Efcrito- 
res dos feculos (>aflãdo8 afientaífem que nada podÍa6 di- 

ãer-. 



zedbyCoOglC 



DE LlTTTSlíATUIlA PoUTUQUEZA. T9I 

zer , CenaÔ o que ji fe tinha dito antes detles ? (^) 
Amargoz y amarguez* , por amargor , ^Mur^irr^ era6 
palavras cio antigo ufo : o primeiro que depois tentou 
amargofidade , foi taO bem recebido como Cicero quan- 
do na LingoaLaiina mttGà\xz'\o beatitas •, btMintdoScc, 

hífici 4 paiavra , fsetimente a-^nfgaita-; petyuro 4 

Religião , quehrava « feus ja^aios fárt. (i) 
Oh <dirá lium Granimatico) taes fraíe» nall fs6' regulares 
na nofíà Lingoa: «fta ooncifaò naCí «ftáno com nacional : 
eftíis etlipfes faã dur?s , e parecem fragmentos de - ora|fatí 
mat acabada. Que! Tudo na Lingoa Portugueza lia de 
fer periódico por molde ? Mileraveis Criticas ! Mas 
tal rem údo a forte áos melhores Escritores. Racine 
láiffe hnma vez : ! . 

Je t* aimoh ineonfianí , 51»* aitrúis ^ fitit jiá^le. 
Hum Grammatico Francez quiz moftrar a lua habilidade 
em cenfurar efta frafe. Que tal fafaio a cenfura ? Hum 
pouco mais ridícula , que o parto dos irontes , de que 
falia Horácio. Podc-fe (diz elle) perdoar efta frafe a hum 
Poeta da idade de Racine, mas naò aconfeJbaria cu a 
hum mancebo afoitar-fe a femelbante modo de f^lar. Já 
fe vé que he circunftancia mui relevante» o fer hum faio» 
mem velho para ouiar efcreverbem. He efla huota razad 
mui parecida com as que certo Author noflb C^) chat- 
mnra razoens de Cabo-efquadra. Continuemoa o núSú 
propofiio. 'i ' 

lU." Na pequeno circulo dos Authores claúícos , 
que chamaõ da idade áurea da%iofia Lingoa,. . natí etlatf 
iflcittidas todaf.as formas polCveis de exprimir as-noâas 



- (í») Qfid futurum trat temporibus illis , quae- fim- (Otetmlé 
fiumm , Jt bòmnts nihil , nj^ quod jam ce^aovijftnt , ffKifníum 
fibi f aiét togitandum pHtajftnti Nempt nihil fuijfet inventum. 
Cw igitur nèfas tft reperiri aHquid a nohis , quod ántt mn fut- 
rit» Qpinétil. lib. X. cap. H. ■- ■ - ' " 



-W ^fi^ fndtptnd.^ lív. VI. nnin._u. 



O Aiithoc do Ferdad. Metbod. de -^Mm^^-i^' ■ ''' "'■> 
Bb ii idéas 



.byCA>ogle 



1^1 ■ . . M E' M o • 1 AS 

idéas , as fuás rariasi combioaçoeni » o feu colorido., <» 
&US grios^ a.ftta lIinpUi:idad<;', oucooipoCçaÕ » -de.fórma 
,que poll«no5 ter por íniltcis outras novas fíirriias anrfo- 
gas >o caraâer :àa noil^ Lingoa. Depois dgs Auihorés do 
.leculomais Sarente da ,Língoa Latina , acitat^fe <eiD Ta~. 
■xito^ ■Seneea:^ Valério Máximo^ & oucrosi v^úz^i expref- 
foent , que- em vaã buícariamos nos feus antepaíTados, e 
qUB ewo affaz neceíTarias. (*) 

AfGm fc a frafe he clara , pofto que 'Oella icwcorrâó 

Êalavras , que ainda fo naâ tem vjílo juncas, pôde fer 
:m recebida , ainda que naâ aiuhonzada pelo ufo j baf- 
ta que o feja pela razaó, e para iflo» qtte a analogia 
oola facilite. Antes frequentemente acontece , que faum 
Efcritor covarde , e demalladaniente Gbfervante da au- 
thoridade, por naâ querer dizer feiíalí o que os Authores 
da Lingoa tem dito , emenda , oa. paia melhor dizer , 



(*) Sobie a neceílidade , ou abundância da Ungoa Latina ^ 

?uem poderá conciliar a contraria opioiaó de dons grandes Juizej, 
, Hcero , e Quinãitiano ? O primeiro n'um de fcus livros Filofofi- 
cox naó duvida alHrmar , que a faa Lingoa naô fõ vai a par , mas 
ainJa que excede a Grega /(>. i.dcfÍH.^. ). O fegundo pelo 
contrario iiaõ aíiigna , qvte a Lingoa Latina façavaniagem á Cir&> 
f 3 ,. e depois. de difcoirer pçloíí elementos acrcfceo» : His iltis 
fOtentioTã t quod res pi»rimae çareat apfeUationibus, ut easnKtJe 

• Jic transferre , aut chcumire : ctiain in lis , qnãe denomindta.funtf 
Juinma paupertas , ín eadem nos freau^mijpmí rcvolvit : at títís 
C Oraecis } nen verborkm Jtiodo , fed liftguarnm etiam inter fe 
iigertntismtopia eji. Qfi^ qm a Latinis exigh it hm grat fim 
fimonii Attici , i^íí mihi in loqinndo tandem jucmtditatem et pt- 
remeopiam. A piíxaó fentivel que tinh» Cícero pela íua Lingoa o 
féz ríiÕ defencenííT , mas efquecer as diiTcrenças , que tanto 
rile íomo Qainililiano conheciaó , e tinhaó laFgaraente experi- 
mentado.. MiS DU)g.uem pergunta fe ,os homens doutos , .ejjt ta- 
lentos pjd2ni rer pFcoccupaçoens ? Quem efperava aqueiía abfo- 
Ibu de hara Cícero , que varias vezes íe torce , e revolve para 

rexpiimir no fea Latim hnm termo , huma frafe Grega ,*e mui 
timitjo apiaundo o faívo coaduéto , i>(MMMi quatnodo foffn* 
nms , e feioílHanccs ! - 



zedbyCoOglC 



DE LiTTBRATtmA- PotrrUGWEZA. J^J 

«orPompe o que. linha-efcrerido- bera pelatTua pro|>rÍ4 
àaSpÍT3Ç3i6 ,^áe mflncÍT3 que pov querer «ícrerer lu^llior, 
efcrevei' peor ^'rejcitaodO' '3» Mutás 3 dicça6 (ervít;, que 
os Authures -apraraâ , e os> Graoihnaiícos' ubençoaò. ' 

Furem as liinita-çoetis' deita nol^ máxima faé aflàz 
fenfiVLis > e'Crc)irsdQ pareC4 lembrar, que por ella ie nsi6 
.fiQdem abfolver os Corruptores Ài noíTa Lingoa na li- 
berdade , ou mais deprefla leveza das fuás inven^oens , 
jieqiR largamente -temps fallado- n05''CQpitut05 antece- 
dentes. Também he claro, nada fe derroga da legiiioia 
amhoridade dos Efcritoces claíTicDs em commum , quan- 
■ào íó Qos eziíuimos da adhefad fervíK 



MÁXIMA n. 



\ 



■Qualquer que feja a merecida autboridaãe àos olha- 
ras dajpcos , uaÕ nús- obriga a ter como regra- àa 
Lingea , tudo o que Jk acba nos fcus efcritos , ou a 

' entender ^ que nada fe podia disser melhor, {a) 

Erafmo a pelar tia Aia grande critica foi bmii 4os 
que fe perfuadio , que toda a vex que aa-expteffoentf , 
-quaefquèr , que fíjffem , fe achavaS em Author idóneo, 
bailava iflb , para qae as aproveiraflemos fem excepçãC 
'(h) A mefiiía razaâ , que refuta efte prejuízo j prova, a 
noíTa propoílçad. - . " 

'FoFquanio-> fèria -grande innocencia , ou Hmplícida- 
de crer , que tuido o que fe acha nos infignes efcrítores, 
naÕ fó no eftylo em commum, mas ainda na lingo^gem , 
^'he 8 ■uhitna perfèiÇaS, a que fe podia chegar. FôraCHò- 
■ ' mens de* grande talento, e muita iiteratufã , ajTim flé^j 

, (a) Si poteft viderinibil ptceare, qut utitut bis verbir, mae 

fummi anãorts. ttadidtmnt , vwltumtamen imtrtfi j non filton 

,^id Ahur-im t, fid.etiamjuidper/uafmttt. Qxúaã. lili-Iícap. Vi. 

(h) 'Tuincb. apud. Qj^nSil. ib. i 



Cgilzcí;byV.Jl.'»-Wlc- 



ip4 M E M o R r A s ■'•-'. 

mas em fim homen?. (a) Tem feus defeitos , que os íotí- 
tòs cenfuraO: (í) Os penfaraentos talvez Tialcíra'^ com á 
medida .dá esfera dó ícti talento, niás as cxpreíToensnetá 
fempre tem medida correfpondente aos pénfumentos ; às 
palavras raS acompanhando os penfamentos taeã como 
fe offèrccem , mas o habito particular que tem o efcri- 
tor com certas expreífoens , a lijaíS dé certos livros da 
■ fua preferencia , o ufo particular do paiz , ò trato quo- 
tidiano , outros prejuízos podem caufar varias defpíopor- 
çoens na lingoagem , romando-fe o vocábulo da idéa ac- 
ceíToria pelo da idéa principal , da íimples pelo dá 
compofta , ou vice verfa , ^as cõllateraes pelo da idéa 
roedia : já quaoto maior he a prerrogativa de facilidade 
no efcritor, tanto maior a^fua illufao , tomando por fy- 
nony mos os vocábulos , que em realidade tem feu valor 
taxado : acrefccntethos ora a dillracfatJ , a inadvertência , 
a preguiça de combinar i e calcular com paciência., va- 
gar , e exadlidatí as coufas , caufa de muitas negligen- 
cias, que Horácio achava nos feus Poetas; (c) em ter- 
mos que ás vezes de íeis > ou oito modos deexpreíTar, - 
hum io era b udÍco ; mas eHe mefmo ^ ou fe naó procu- 
ra , ou fe defpreza, ou eftá efcondido , e na6 fe acha, 
e lá rãi fubUítuido no contexto por huma palavra de ou- 
tra claíTe , e differente valor, diverfo colorido. 

'Saberáos , que os infignes efcritores da àmiguidade 

Íraftavaã naõ fò dias, mas annos enl lim^r, e polir a^ 
uas obras , e grande parte defte tfabalho coiiMiâ tia 



(a) Neíjue íd ftatim legenti ptrfttafitmfitt omniãi ^uatmagni 
aimorés 4ixerim t «ti/iHe effe perfeSa . . . SHmni tnim funt -, hotni- 
minei tamen i acciditque tis , tjni ^uidqtád apuã UIos rtpertrunt , 
áieendiltgempHtant. là.L.X. cíp.í. 

(h) In maznis quoque auãortbw incidunt aUqxA yttiúja , tt M 
Hollis inter ipjos mtituo reprehetifa. lii. L. X. ap. i. 

• .(O «í"' "<"* offenderet untm 

'Qtttmqm pàttamm limae lahor tttttora.' . ; . . ■"■''■ 
De Art. JPoer. ■-..<■••:<■. 



zedbyCoOglc 



deLittrr.atu,baPohtuouêía. líjy 
correcçaâ de eílilo , e lingoagem ; fignaí cjuç as pala- 
vras > que primeiro fe lhes offereccraó , a que ijn ha 6 li- 
gadas as idéas naâ tinbáâ taã jufta- corre rpondeac ia , oi} 
eom asidéas, ou com as regras da lingoa , ou com as 
leis douro, quanto elles delejávao. 

Tito Ovio era tido entre os Romanos por homem 
de eloquência admirável , e' Pollio uaõ deixou de lhe no-, 
tar Jium pouco do dialeôo de Pádua. De Plauto dizia 
Varra Ô , queie as Mulas quizeíTem fallar emlaiim , naÔ 
tomariaÒ outra lingoag'em, fenao a defte Poeta ; com tu- 
do acha-fe a íua frafe muitas vezes _pouco Caftigada, 
muitas palavras antigas , muitas fabricadas livremente 
pelo Poeta para mover rifo. Salluftio hum dos hiilorícos 
de maior eftimajaS , e efcrevendo no tempo de Cefar , e 
de Cicero , naÕ fe lava de ter affcílado muitos termos , 
e. modos de fallar antigos. O mefmo VarraÔ, oráculo de 
erudição entre osKomanos, carregou os feus efcritos .de 
baltanies expreíloens velhas , e coiiArucçoens extraordiná- 
rias , que os Críticos lhe na6 perdpao. Finalmente dos 
mais excelleotes , que tem havido , ainda fe naõ ac^ou 
bum taõ coilipleto , em que nada fe defejaífe ,_ nada fet 
cenfuraflè^ (a) 

Porém alCm como eítas reiléxoens nos devem preve- 
nir contra huma condefcendencia crédula , e enil'uziaíirb 
daauihorldade , aíliiu deverá moderara infolencia critica-, 
e o pedantifmp dos que rejeitaâ as melhores, coifas do; 
noUosAuthores , çonfuadindoas com^s imperfei^oensd^' 
linguagem mais próprias do tempo , que dos Auihorei',; 
ou , o que naÒponcM vezes, acontece , notando por defeir 
V>3 asmefmaa coifas, que naÔ entendem ;($) defde- 

(á) In iis , ^uos maxme'aâbuc' novirniis . himo fuH inyentus\. 
fll qtto nihil anc defideretur , aut reprebendatur. (^inâil. lib. 

X. cap. II. . ■-" ■■ ■;■■- 

, (^3 Modejtttamenet cÍreumQ>eSo judicio de tatitis virisj^ro- 
ttimtiandím gli , neQijiiod vleriJqHe açcidit } damnctit ^ (^ee mn: 
inteliigum. Id.iib. X. cír.!. . i4 "" ^ 

-c. :. miarid o 



Izc.kyCoOglC 



t^ MKúeitiAs 

nhando em gerat da faa frafe, que em muita parte nafl 
parece Vude , TenaÕ por nos ler de&onhecida } devendo- 
advertir^ que effas que hoje fafi par» nós erprefloens ve- 
lh3í , noutro tempo fâraã novas , e taO florentes como 
as que agora temos mais frefcas. (a) 

Ifto fuppoftõ, paliemos já aos CoroUarios , que na- 
turalmedte fe deduzem da precedenre máxima. 

. ^ C O R O L L A R I O I. 

jí àutboriâade , que hsjia para termos por Pcrtugiteza 
huma palavra oufrafe , naS bafia para afazer accei- 
tavel no ufg prefente. 

O Ufo , aHim he , que tem feus capríxos , como ji 
diíTenios j mas naô he ta6 difpotico, como fe tem ima-* 
gioado; as fuás razoens naÕ faõ menos fundadas porfe* 
rem o mais das vezes occultas aos que obedecem as fuás 
leií, lem as examinar. QGeni aproveitaria hoje Conjtrar 
por confiderar , pofto , que o tenlia Azurara? Cd em 
lagar de^ porque eftá entre nós no meftno nivel, quepAtf 
por gauãium do Poeta Ennio entre os Latinos da idade 
Aagufta- Qiem duvida que relâmpado , ejlrallo , ejiral- 
lar y fàraÕ tatí Portuguezas como hoje fa6 relâmpago, 
eftallo , eftallar ? Mas as primeiras para o ufo prefente 
iaâ da -mefma rufticidade , que tinna6 para os Latinos 
Duellmn por hellum , Burrus por Pyrrus , Bruges por 
Pbryges^ NaÕ falta dos apaixonados da authorídade , quem 
pertenda refgatar o Perennal ,t humanai , Dimital , o 
feineíh^ntes^ íntroduzindo-os na6 em hum largo Poema, 
ou.extenfa Chrpnica, mas num difcurfo Filofofico de 
ppuca^ paginas: n*outro lugar, faltando das qualidade^ 
da alma : He fpirttual , he immortal , he divina : creio , 
que eftrugia os ouvidos aol Ãuthor hum pandeiro de três 



Cf>) , Qi*ne vettramife Juni ^ fiurfatt àlim nwa.M.: ■ -r~^- 



l.lzccbyCoOglc 



DE LlTf ERATURA POBITUGIÍEZA. í^-f 

chocalhos em ai, efpiritual , hnmwtal^ divinal \ atai 

fika, (kfie lugar , oa6 lhe perdoa. 

Dizem , que os noilos antigos attendia6 á eufonia , 
Mando efcreviaõ , Toãalos Mouros ^ toialas toufãs , To- 
aolos Malavares. Scc. Seja: mas era eíta attençaó igual» 
e cojiereme , quando Barros efereve (címuo os mais Au- 
thorcs daquelle tempo) Letxaram os de todo : Tem as 
for mui figuras , e (o que he mais duro) Metem o tm 
Aítm vajò &c. i Ames he crível , que aquelles Efcrito- 
res nada menos cuidavaõ , que na eufonia. Hoje ha squél- 
la dureza do concurfo do artigo», a, os, as ^ com as 
Btefmas finais antecedentes , todos os ^ todas as ; porém 
pareceo jufto defprezarce efta pequena deformidade para 
is eritar a aíFe<n:ãçaó da compofiçafi , e pronuncia Cafte- 
Ihana, que hattatMolas , todalas; e mais vai fofiier-íe 
B'uma lingoa huma , ou Outra lefaõ femelhante , do que 
corromper-le o idioma com idíotifmo eftrangeiro na fe-f 
úielhança dós fons. Porém corrijio-fe a dureza nos de-, 
mais cazos , ou antepondo o artigo , quando fe junta a 
verbos , ou interpondo L nas vozes do infínílo , mata" 
iosi e nos outros modos N, matam-no^ me/em-no &ci 
Que concluiremos difto? Que a elegância , e perfeição 
de huma Lingoa he obra do tempo , e da rcfleiafi. Ãf- 
fim quando ouvimos nomear a feculo áureo dos «ojfoi 
Irons Efiritores , entendamos , que eílas voz):s gcfaes 
naô fe devem entender fem fuás devidas reftricçoens : fe- 
culo áureo lim na abundância de bons efcriíos , que pro* 
duzio a naça6 na aurora dos bons eftudos da literatura ; 
fecujo áureo na copia , e riqueza , e força da dicção , e 
ainda naqueJlã gala , que naicia de hum certo intrinfeco 
TÍgor , mas ainda nao n'uma inteira çorrecçatí da frãft , . 
nem n'uraa abfoluta perfeição : antes aquelles Efcrítores 
feriad hoje os noíTos Catoens, eGracchos , (*) fe tJvêií^ 



(•) Multum autem vtteres etí4m Latitti eonferunt ,. ma. 

^amfltriquephisingeniOi fÚMH artivatueiíint i imprímlt tepiA 

Tffflí. r. Ce axot 



lizcJbyCoOglC 



1^ JA E MO: B I A S * . " » i 

DK» tido O trabalho de os eftudar , e cpotimur a perfei- 
%i0 ia. Liagoa delUe o termo j em que eUes a deuáfaí>>> 

co:r. OLL AR lò n. ' 

NetibHma autboriàade pódt jtijiificár certas confirma 
fWKf extraorãíatrias i que os w^ot JMthtrts fe 
. permittiaB evm àemafiai^ licença y quando tétfs (otk- 
:: Jirucftgpf conmodamente fe WM.fódem ireduzir a SjfM^ 
, taifg regalar. 

Louvaremos, por ventura toda a forte de hyferbúT 
/0J' , (}ue fe achaã no noflb Barros ? Digo hyperbatos pof 
me conformar com ^ lingoagem commua dos Graminati- 
cos, que a^m chaniaã o .<uie naã 'devia ter Autro □<>• 
me, Íena6 o de Ellipfes. Veiamos alguns exemplos : 
» A priraeira coufa , em que entendeo, foi em dar or- 

> dem 3 que todalas nãos e navios > que haviam mi^ 
» ter corregimemo , fe trabalhafle nelles. » He tolerá- 
vel ,poi^qu3«i«x, e navias ^ que parecem eíbr indepen- 
dentes das. palavras feguinres , fe trabalhafe nelles ^ teiq 
correlação com o pronome nelles > que he relativo , e os 
{rae ao feu regime : fe trabalhaíTe nelles náos , e navi(»^ 
que haviaõ.&c. nelles , ifto be , naquetles : aliás o an- 
tecedente , ni^os e navios y pod&-fe reduzir a elUpfe y ^ua»- 
to ds nãos e navios ^ ou n9 que tocava ds ndos e na- 
vioT. &c. 

O mefmo fe entende naquella conftrucçalí » E aíiy 
it-eíles como oe Outros , que os noffos acharom per as 
«ruas da cidade, todo o feu intento delles era ijccolher- 

> íè a hum monte. » 



vfrborHíti , quorum in Tragoediis gravitas , in Comoediis ekgan- 
tia tt findam vzíut attkifmts invtniri poteã. Otcowmta ^qut 
in bis dtligeatiw > . ■. Sanmtas etrn, a utp Meam , virUttoi ab 
bis patfiãa .... Qiunâ. De /nfiim. Qrat. Lib. L cap. 8. 



nCkH)^lc 



DE LiTTÉRATVR A POBTTTGUEZA. IJÍJt 

Nad milita porém a mefíiia razatS nefte * Poftoque 

* em feu reino nam hourelTe mais que pintmta e gengi* 

» vre e algumas drogas de botica , e o mars lhe vir dt 
» fora : a a Syntaxe pedia , e a mãis Ibe viejfe áe f^a. 
Na6 creio , que devamos dizer em obfequio de Barros , 
que aquillo lie efcrerer como fe falia , lò íe alguma vet 
iíecOHfa bonita efcrcver , oa fatiar irregolarnteftte. Todoí 
queremos antes fallar corrente do que eftudado •, mas ftlp- 

{tóodo , que eíTe melitno hllar xorreiite feja coflforiHe as 
eis inftiiuidas para clareza do difcurfo, e utilidade do 
género humano. Receio, que os noíTos vindouros, leudO 
as aprovaçoens de femelhantes defeitos , na6 nos apliquem 
õque dizia Horácio dos admii^dores de Flauto : (a) 
' At noftri prêavi Plamtijios tt números et 
Laudavere falei : mmiam fattenter ãtrumqite 

Ne' dicam ftulte mirati -..■.■'■- 

Mais me agrada a elle propofito o que diz o-cel^rfr 
Aathordo Métliodo do FonoReal: qóe fe achamos aK 
gunias Tezes' nos Authores taes fraíes , que |ior nenhudt 
modo fe podem reduzir aoe limpfes proeedimeiítos dá 
COtiftrucçaÔ analjrtiCil , digamOs claramente j que ellas fa$ 
ticiofas , e naô teimemos a confervar hum termo efpe^ 
QíjQÒxi^a ly^perbato') para defculpar nos Authores coifas^ 
que mais parece , lhes efcapáratS por inadvertência \ do qiié 
com reflexão. (í) 

Ném acho boa Fiíofofia em dizfirem, que- íftô bé 
^faculdahe , que em todas as Lingoas le permitte aos gran- 
des Efcritores } porque fendo eftes verdadeiros erros , ou 
defeitos, fe por elles nalS deixaô os Efcritores de feí 
grandes, naô^faõellesos que os fazem grandes Efcnto^ 
res ; fe merecem defculpa , naO níerecem loirvcír j ntrt 
fe podem propor como eiemplos de imitaqatí. , _ 

Acrefcentafi , que difto fe achati muitos exemplos de 
Latinos, e Gregos. Talvez fe em varioS cazOs fóíTe&ios 



(<i) iWttô, Z^Ú tb4p. 6. iis Fig, Í« Conjir, 
'■■■-■'' Ce u 



l,c.byCA>Oglc 



103 Memo» IAS 

«comparar «templos com exemplos , haveria grande dif- 
ferença. Porém prefcindindo diffo , os exemplos dos Au* 
thores Gregos , e Latinos nada nos &vOreeem ; porque 
fuppofto que as Li ngoas antigas authorizem feoielhantes 
tranrpofi^oens , nad autborizaó igualmente as das Lin- 

foas modernas, e o que nas antigas era ' elegância , oti 
^ura , nos nolTos Autkores faií verdadeiras faltas de exa- 
lítidaô , como obfervou hum Grammatico Filofofo. C*) 

Huma elpecie de tiyberbato acho eu no Couto , de 
que fe poderiaã allegar alguns exemplos nos clalicoa Gre- 
gos a e . Latinos \ he o íeguime : » '(h) A gente da arma* 
» da , que eratí mil , e duzentos homens , tendo recebi- 
» do em Goa dareutagem de quatro mil j (aqui fic^ a 
X propoíiçaâ inierrompida com a feguinte reSexaõ , e 
» íem conclufaô ) porque nefte tempo , quando hun» Vi- 
X fo-Rei hia/óra, pagava-fe geralmente a todos os cafa- 
X dos até 05 mecânicos , e com efta largueza , e liberalí- 
% dade fe ganhou , e fuftentou a índia , e depois qoc 
» houve tacanheza » e eftceiteza , que tiraraò «s foldos 
» aos homens , e que nad venceria6 , fenaÕ quando em~ 
a barcaSem, logo tudo foy para pcor. > 

Mas nem os exemplos Latinos , ou Gregos » que lè 
podem allegar , valem para defender eftas coaftrucçoens» 
porque os que fe achaõ fa9 em Oratória , onde a vafti- 
aaõ , e multiplicidade das idéas , e o afibéto de quem 
falia , lhe inípiraõ grande fogo , e o íàzem Airrer pre- 
cipitado, Tem attender a ordem , e liame dos membror 
do período; o que feaaã pôde luppôr no hlftoriador 
jrânquillo. 

. A efte I^peKuto do Gm^^ juntaremos (Hitro doi*. 
Lucena ^ que conãiie em tenninar o-periodo com huma 
conclufaâ indireda: » Como com a hoa opiniam e cr«di- 
» to do Padre creceífe a devaçam da gence, era tantaa 

■ (<») Mr.MarTai Trí»í/d« Tropel. íl.part. §. t&. 

.. ■.. . í que 

ng,lzc.byCõ(.1^lc 



deLittebatuba Pobtvgueza. ?íif 

"» que ie queHa coiife0ar , que asÒ f^ndo pofCvel. fatíf- 
> tazerra todo»: -Muitos, efcrevia^ elle, eftavam mal 
» commigo.J» Qiidea concluíaõ dire^a , quepedJaa ctmCo 
• micçaô amecedejite era : Muitos , como o mefma Paàre 
ejcrtvia, eftavaS mal com elle. Efta efpecie de conftrac- 
(aò he m(> digo defculpavel , mas elegantiffima j e digna 
de imitação. 

• . ■ 

CORO L L A R I O ni. 



iâ, autboridade naÔ he bajianíe fiador para mitartnos 
- fem rifco certos pleonajmos ^ ou contrarias d analo^ 
: gU , ou tomados 4o ufo vu^ar por gojio particuíat 
do Autbor, 

Em Barros acharemos Tarias Tezes o pronome í"//f 
junta aos nomes dos Togeitos , de t^ue fe trata : pop «»• 
emplo , E ainda a rjíe jeu animo fàlleceo bea in- 
Àuflria àelie Nuno í^s.. Noutro lugar: » E por efla 
» caufa lhe ficava a elk Çamorim a cofta deJpejada. x E 

> também : x Vendo elle Affonfo Dalbumierque a gen*- 

> te mui cangada, x En'outro lugar: x Ene foi ofunda- 

> mento,- com que elle Lopo Soares mandou D. JoaÒd^ 

> Silveira. » He ufo frequentilSmo neile Auikor. 

í Na6 ba coufa mais ordinária do que ÍTirpirados-^e 
preoccupaçao por hum Author, attribuirmos a dareza, 
«u elegância os vicios do mefmo Author , ou melhor do 
ièculo em que elle efcreveo : allim os que íe namorafi de 
Barros verátí naquelle modo de fallar , ou clareza , ou 
.elegância i- porém os que amaô a verdade confeíTariâ, 
ique em lugar de clareza , nafi ba fena6 redundância ; em i 
iugac de elegância o que fe vé he irregularidade. Cou* 
iuhemos a analogia: efte Elle he naqiMllas frafes hum 
mero adjefliyo? He pronome? He artigo ? Seadjeílivo 
■que attributo lígnifica ? Se he pronome", eflá fem cfficio. 
Se he artigo, ht forafteire. Natí fe confcnte na Lingoa 
Fortagueza o artigo Efpa£Íu>l El, Í9ia6 p6r antiguid^e 

conr 

Dqilizc-JbyCoOglc 



ibi M B u o it I Ã s 

confagrada na palavt-a ElRei em lugar de O Rei. Só fe 
Barros adoptou efta clareza impertinente dos Cartórios 
dos Tabelhaens , onde a trapaça, e a injuftiça fez ne- 
ceíTarioa para fegunnça das Efcripturas pubi:cas mui- 
tos .EZ/^j* , quando naÓ fa6 mera formula. N*uma Carta , 
eu hiftoria , ou coufa femelhante natí entrará elle fiilano , 
elle ficrano , aífim como naÓ enrra elie réo , eile au- 
thor, elle teftamenteiro,. clle ouiorgínte, fenaô perfar- 
ia. N*uma linijoa he grave defeito fer verbofa. 

Será coufà mui reieranie na noíTa Lingoagem m»/ , 
OD muita junto a nomes fuperlativos , porque o grare, 6 
polido Ãufhor Barros diíTe : Ingraterra muy agtiqaiffi- 
ma-f e , pyramides muy ãltiffimos , e, cuftame entre et* 
ler muy antiquijjimo &c. ; e , tam petfeitijftma coufa 
&C. ? Sqa o que for , fe alguém dilFer , que he erro 
popular na converfaçaô , caufs muito rarijjima Sx.c.y é 
sas cartas j muito reverendijjimo -y lapa-fe-lhe a boca com 
dizer > que aflim ufou o grave , c polido Barros , fem fe 
«tender, que cfte Author na dicçaÕ hamasvezeí rafte* 
jtt pelos portaes das officinas, outras atirando comfigtf 
ás esferas poéticas, como veremos , nul?es et i^ama 
faptat. (<»)■■ 

^ Açrefcentart , que ifto he ao modo, que os Lati- 
nos díziaô , hnge familiariffimus , hnge doEiiJJimus &Cí 
Forte argumento ! Mas rtaò nos 'dizem em qiie efcriíura 
jliftituíraô Os Latinos a Lingoa Portugueza por hei-dci- 
ra, e pòíFuidora de todas as propriedades d^ Lingoa- 
Eâtina; e em quanto ifto naâ confia, tia6 a fkçamos cahir 
ita iflíamia deafurpadora. Também os Italianos antigos 
cahíra6 na parvoíce de encaixar na fua Lingoa varibd 
Lariaifmos , e aproveitando os rêínendõsi dos fuperlari- 
tQi dízia6 , affai tHolto , pià doHi0ittíoi porém depois 
os que tiveraí melhor gofto , e efcoíha botâraô ilTo fóra > 
« laingiteo) hoje lá ulk daquella pedantaria. 

.y^-r-r". ^. ■■ — ■ ^- . . ' • ■ . ■ .. "" " • . . '.'. 3i 

DgitizedbyCoOglC 



f Dè LiTTEJiAr.uRA Poutugiteza; âOJf 

C o R o L L A R I o IV, 

Tamíem ifos .naS deve cegar a autboriàeàe dos mjfcs 
EJiritores do meiéor feeulo fará feguirmos qitaef~ 
quer invençoens introduzidas centra a analogia ^ c<^ 
muita factlidadf. 

EJiaHíej fez Banos panícipio do rerbo <V?*p, de 
que varias vezes ufa > como : Êfcandalizêria alguns 
mercadores ejlantes aly i €, Alguns Mouros alj ^a^- 
tes. Linguagem nova: equemap? (Dizem os venerador 
re; de Barros) naÔ he beni derivado ? Kafi he efte-hum 
termo quafi neeelTiirio ? Tudo iíío : fó lhe falta fer Por- 
tUguez , ejignaíum praefentemte. Mas que feJla de fa- 
zer i A Lingoa Fortugueza tem feus pariicipio« y mu em 
ante , ente &c. uaõ ha cá diíTo. Tudo o qu^e ha de vcze* 
femeíhantes fati meros adjeâivos- verbaes^ ccmo re/flen- 
decente y palpitante &c. , e alguns até fervem de fubfian-r 
tivos, como amante y ouvinte, requerente , eircunjlante 
&.C, Ora neila claíTe nati pôde entrar a voz FJIante^ Lo- 
go nem he parti^pio , nem adjediivo veibal. O Métho* 
fio da Grammatica. Latina conãrma ifto mefmo , inter- 
pretando os participios Latinos , T. g. Laudans , por rela- 
tivo, o que ou a que louva, ou louvava, louvando ; e 
ninguém diífe atégora o Imvante , o amoe/lantet kc. È 
íe naÕ , metamos os taes participios novos à cotio , e ve? 
jamós, que bella harmonia , fe alguém diíTeíTe , EJiante en 
em miaba caza ouvi o mtu vizinhe gritante } e outras 
femeíhantes. ■ 

Pelo qus na6 fe deve eftar pela authoridade , e íòbcQ 
tudo pela authoridade particular de hum Elcrltor em feme-* 
Ihaote matéria , fem examinar bem as coifas. A analogi» 
he regra ; a authoridade he confirmação delia , e a regra 
authorizada he regra do ufo» tegra da Lingos. Mas nad 
be aíHin a authoridade , quando por gc&o particular ou 
caprizo fegue coifas contrarias. á. analogia ,.e: uíp da 



zedbyCoOglC 



204 Meiíokias 

COROLLARIOV, 

A auíbariãade naS nos póãe rejlituir fem rifeo o uf$ 
ãe certas exprejfoens , que por ntotiv9S prudentes fe 
abandonaras. 

Ha muitos bons termos, e bem authorizados , que, 
como n'outro lugar diiremos, fem caufa , nem fuodãtnen- 
to íe defprezáraO , e efles devemos nós aproveitar dos 
bons Efcritorcs , e com a fua authoridade reíiftir ao car 
prixo cego , á ignorância , ou pedaotaria , que os prof- 
creveo ; Que mofo tinha a palavra Efiapolir , para que 
Duarte Nunes de Lead a degradalTe para as tabernas Í 
NíngueQi o diri. Defte verbo ufa Barros \ mas eu na6 di- 
rei , que a frequência com que elle o emprega- nos feus 
efcritos feja por 11 fó razaã baftanté para o reftabelecer- 
mos , ou para aos forrarmos contra a cenfura dos que o 

Íirofcrevem. Mal de nós , fe havemos de efcrever , ou 
álUr, para dar íatisfacçoens-, ou fazer notas apologéti- 
cas das noITis exprelToens , moftrando que o que eíçre- 
Temos, ou falíamos, he o que no melHor feculo da nof- 
ia Lingoa era corrente , em tal , ou tal EfcrJcor ! .Efte 
verbo he derivado do verbo efcapar , como os Itália nosj 
tem Scapolare derivado de Scappare , do qual Scapolure 
com mudança da vogal figurativa nos veio Efiapolir. 
O termo em ambas as Ltngoas he recommendavel pela 
eoergia do lignilicado : naõ ha equivoco , nem idéa ac- 
cefTorta disforme , ou defagradavel , que enjoe os per- 
tendidos polidos , ou efcnipuloros , cocno fe pôde vér nos 
exemplos de Barros, o qual huma vez diz: » Os que 
» podiam efcapulirfe , punham em falvo, quanto po- 
» diam. y Outra v^ : » Os outros arrenegados , quaar 
»'do fouberam o concerto, quw.nó efcepuJir. * Eq'ou« 
tro lugar : k Teve Martim Affonfo modo de efiapulir 
■» daquella multidam. 1 Logo o plebeifmo defte vocábulo 
lie quimera , e a profcrip^aB huma iojuftiça contra 9 Liitf 
Ç04 Poriugueza. Po-. 

Dq,l,zc-JbyC00glc 



DE LrTTEUiTTTRA fOtVVQVEZA. jOSf 
Porém ha outros termos , gue fa6 fim Po rtugtiezes , 
e ^uthorizados , mas o ufo fubíequente por obfervancia 
de modeftia , e decoro da lingoagem os coarítou. E guan- 
do o ufo por femeihantes motivos coarfta , ou prolcreve 
as palavras he ufo polido , e atteiidi?el, fem embargo de 
qualquer antecedente authorídade. 

Por exemplo. Pejar ^ Pejaão nafigaificaçafi de en- 
cher , occupar, eraâ expreffoens aliás polidas em Barros, 
e ouiros Authores de grande credito. De Barros be > 
Tt Por nom pejar as nãos , nom conleutio D. Fiancifco , 
> que fe embarcaífem. x No melino ha tamíb^n a palavra 
Pí^^fl por occupajafi , embaraço, como: > Vindo .aa prajra 
» metiamfe Jiagoa, e dentro nos bateis queriam pelejar 
J» com elles : de maneira que naquella primeira chegada^ 
» efte fo7 o mayor pejo , que os noíTos tiverem. » 
E Bernardes na Écloga XVI. 

E que levas nas mãos , Diego amtgv , 
Que parece que vas delias pe<jaào ? 
O melino Poeta variando os termos diz abaixo: 
Vejo que vas e vens , ranças , perfias , 
£ que fenipre de ca levas mãos cheas 
E com ellas de la tornas vazias. 
Onde poz mãos cheas por pejadas , e vazias por d«fpe- 
)adas. 
O mefmo ufa Ferreira no livro II. cart. z. 

Contrario ao~.bem £ommum ferei fe tente 
Com meus ver/os , Senhor , pejarte húa hora. 
Deita ílgnificaçaõ própria fe tirou a metafórica com que 
n'oulro tempo decentemente fe àiziz mulher pejada por 
prenhe, por fer a metáfora menos vulgar; mas depois 
ie2-fe a metáfora commua , (como aconteceo a outros mui- 
tos termos) e paliou como denominaçEtí própria ; de mcdo 
qae quem hoje diceíTe, que tinha as n-ãos pejadas , ou 
que na8 queria ter a fua cafa pejada &c. daria cccsliatí 
a equívocos ridículos. Por ilTofe perdco o ufo deflas pa- 
lavras na antip figníficaçafi , e fó feconfervaôos coro- 
poftos , DefpejOj JJeJpejar Scc. como defpejar o navio > 
. . ■ Tm. r. Dd a caf« 



'ió6 M » M D » r A « 

Q cafa &c. O meffno acontece na palavra Nojo por da- 
jiO , prejuízo, obftaculo; item por pena ,. paixaè j que 
hoje nad fe entende ÇenaÔ na iignifícaçaó de afco , podo 
Que de todas as ditas íigniScaçoens le achaõ. a cada paf- 
ío exemplos nos bons Auttiores. 

For eda caufa , e por outras quehíreiuos ob/ervan- 
ào me parece vâa a renexali , qtie faz hum Critico Fran- 
cez dizendo , que tjuando n'Um feculo houve hum fuf- 
ficienté numero de Authores, que fe tem por clafficos , 
já naÓ be permíttido empregar outras expreíToens fora. 
das que elles uíáraÓ-, e a eftas fe deve dar o mefmo fen~ 
tido, que eltes ilies derad , fe iia6 em breve tempo o 
feculo prefente naÓ entenderá o fecuto paflado^ (*') 

Anim he que as mudanças que de tempo em tem- 
po acontecem nas Lingoas tem feus inconvenientes;, mas' 
também ha maior utilidade^ fe as mudanças fe fazeob 
n'um feculo illuftrado. Seja beneficio oa prejuizo para 
as Lingoas , feria hum fenómeno novo , e prodigiofo ,, 
fe eíle Ãuthor zelofo da aurhoridade claflica , para nos 
iníinuar a fua lei de naõ ufar- jamais kmô. dos mefmos- 
vocábulos dos Efcrítores claflicos >- e naa mefmas fignifi- 
caçoens j em que os temárad ,. nos a^gnaílè huma íá- 
Lingoa viva<> smque-iíto' fe tenha veriãcado^. Entre as- 
maravilhas ,, que fe contaô da Lingoa dos Japoens ,, 
huma he , que a confervaO fem alteração, naô obftantfc 
a grande diverftdade da l^eini» , que ba nas fuás Ubás ». 
e o fer a-mefma Lingoa taô larga , e varia- em li-,, que ,, 
cdmo refere hum noOo Efcritor , melhor diríamos de to- 
dos (» Jápoens , que cada hum falia muitas Lingoas , do 
que dizemos,, que he huma a Lingoa. commum de todos 



(*) 7/' me Jimhle, que lorfqu' on a eu- dant nu fiecle un nont- 
ire fitfifant de bons écrivaíns devenus clajíJiques^ Íl ií tfi plus^uere 
permis d' employer d' autres exprejjiottt , que hs leurs , et qu it 
jaut leur donner les mêrms [em , ou bim dãns peu de tems le fiecle- 
préjem n' emmdra Ic fticle pajfé. Queíl. fur 1' Encyclop.Fa^ix^. 
\l. ntàcU Langue Fran^oifç. p. ui., , 

elle3 *. 



Dqilizc-JbyCoOglc 



D B L I T T fi RÃ T tr R À P o R T U G V E 2 A. 207 

<clles. (a) Mas os MiHionaríos do Japa6 nad tinhad tem* 
po de fazer obfervajoens exatSas do eftado dacpiella Linr 
goa , e os outros , cjue a na6 conheciaõ , informaria^ 
mais fegundo a fua imaginação , do que íeguíido a reali- 
. dade , como aconteceo em outas coifas. Em cujos ter- 
mos , naõ lia coifa mais conftante em todas as Lingoas 
(contra o que pretende o Critico Francez) do que aquella 
matablidade , que Horácio obfervou côm luz de Filofofoi 
e exprimio com graça, e elegância de Poeta; (é) 
Ut JylvaefilUs pronoj mittantur in annas 
Prima caãunt , ita- verborum vetus interít aetas', 

C O R O L L A R I O VI. 

 grande autboridade dos nojfos Efcritores , Mí p^e* 
' Jervard da cenfura da judictofa Crttka j nem a ãe^ 
majlada liberdade , nem a fuperfiuidade d^f metafo* 
Tas f e byperboles i que elíes Je permiitíra^. 

Barros havemos de confeíTar , que abunda de «preP- 
Ibens belliffimaE ; mas tem também baftantes , que a nalS 
élhrmoE preoccupados do chamado gofto da antiguidade, 
naS fe podem relevar. 

Entre as belliílimas , e valeritíflímas iranslaçoens de 
Barros na6 contara eu a Cúwada , quando diz, » Nas 
> quaes náos vinham muicos Fidalgos, e CavalItJros da 
» camada delle Vilorey, x E 11 'outro lugar: k AÍTy veo 
» hâa boa caynada- de Fidalgos, x Onde lè o Âuthoi diflè 
camada por abreviaturadeí-dwíiiíítf', que me digad fe he 
bonita imagem cambada de peixes ou àe fajfares (que 
he o ufo do termo) para cambada de Fidalgos ? aliás M- 
mada , qaaíí acamada he o que Te laiiça por Cima de al- 
guma coufa , como camada de cãl com areia. Item : ca- 



~ Ca) Lucena Fida do P. Francifco Xavkr &c.'Liv. VH.cap. j; 
(*> Dg An. Poet. v. 60. et feq. 

Dd li tnada 



.|,lzc.byCA>Oglc 



adi M ? « o » ,1 jC i : ~ . 

mada diz-fe o ajuatamento de enfermos , qu& va^ ao ha& 

|>ital em tempo hsbil para fe curarem do que cbama6 mal 

de França. Se ha mais que agrade no ufo defta metáfora , 

diz-fe huma camada de fama ^ e coifas femelhaotes. A* 

. vida difto fera gentil metáfora huma camada de Fidal- 

fos > Era termo corrente no tem.po de Barros : feria, 
.gora naõ fei fe difto fe p<klc tirar confequencia , que 
tuHo o que entaCS era corrente , era foiidamente bom , e 
perpetiiameme irreprehenfivel i e que todo a que appare- 
cer efcrito neíte Author grave , e polido, he por confif- 
{t6 de todos polido , e em todo o tempo. 

Quem me gabará o feito em falada , por defped»- 

Íado ? Dirafi que he termo popalar, mas naó plebeo* 
)em-Íhe os gettos que quizerem , eu entendo por termot 
plebeos nad lo os burlefcos de caradVer , mas os termos 
fia cozinha , e os q.ue fe chegatf a eftes j <^uando fe âppLi- 
está a afliimptos graves. 

Fundir por a-proveitar , render , crero , que he meta-, 
fora inventada por Barros, da qual ufa varias vezes, co- 
mo : » Vendo que (as palavras)- na6 lhe fundiam para feus 
> requerimentos , foiie para Cochim. x^ E » Ã qual ida 
X nao Ibe ^undio mais que palavras geraes. * Outra vez-» 
» Todo efte feu trabalho lhe fundip pouco, i Nafi fei que- 
mais nenhum ufaH^ de tal expredaô. Eu naÔ lhe chama- 
rei metáfora belllíllma., neceáltando de commanto ; fei 
que he tirada do latim , mas tirada pelos cabellos : quenk 
naã fabe Latim , naó entende iílo ; e quem entende o que 
he Terra fttndit fruElus , flores écn. „ crê. q,ue falíamos 
Latim, ou Gregp em PorCuguez , pois o termo- /««íiir >. 
^fundir-Je na noíTa Lingoa tem.ugntfica{oens fabidas :- 
prima virtus perfpicuicas. Se ifto faz huma bizarra lin-^ 
. goagem , e eítilo polido ,. naã tuverá. collà mais facll ,, 
i^ue virar todo o Latim para Portuguez.^ 

Verter a vida he catachrefe muito arremeçada : es-' 
prefftti' raô-poctica-como a de Virgilto-: F v àit itt ah acoM 
fenguine vitan. AEncid. IL v.$-^i. taS latina , como a de 
Cícero : Prefundere vitam. Cie. lib. V. Famil. 4* ; f(^ D- 

qi» 

DgitizedbyCoOglC 



DB LlTT«*AT1J1l A Pô» T V GU KZ A. iô^ 

que lhe fjilta be fer Portugueza ; porque mnguem , (que' 
eu faiba). atégora , a naó fer Poeta , fe lembrou de derra' 
mar a vida , quanto mais de verttr a vida, £m Ca- 
âioeas o que temos , he ; 

Muitos lançaram o uhtma fuffiro. {a) 

Jlgum $aly tornou perpetuo Jono^ (Jf) 

Forçado da fatal necejjidade 

O efprito deu a quem lho tinba dado. (r) 

as almas Joltaram 

Da fenmfa , e nUferrima prifam. (dy 

dejampararam 

Muitos a vida em terra ejlranha e alèea (e} 
£ algumas outras circumXocuçoens femelhantes. 

Que direi de cofpiam * firro de fy (os couros crasj 
E y traziam húas adargas de vasa crua ^ ejae cofpiam 
« ferr» de fy. » Horácio diria , que Barros cofpio ferro 
de , como tinha dito zombando > que. o Poeca Furto- 
eojpira neve nos Alpes <J ) 

Couto ufa da mefcna exprefláô ma^ ft propoílto \ 
porque teodo dito em- termos naturais , > Deo o vento 
,A SufueQe taÕ rijo , q\ie logo aleyautõu os mares de fei- 
■m çaé , que indo correndo a náo i voiítade do vento , ; 
% com o trapear , que fez abrio pela pc^a pela bpteladu?- 
3» ra , por Ond-e lanhando fora a eflopa &c. » Logo mais 
abaixo diz y variando a frafe : i Derom com a agoa , que 
31 era muito groflà por cofpir as eflopas , e as paftas de 
3» chumbo &c.» (g) Qualquer pôde vér a diffètença que 

U) Lufiad. Cant. IV". EO. j8. ... 

(t) Cant. VI. Efi. «5- 

(e) Cant. III. Eft. 28. 

m Cant. V. Eft. 48. 

íej Cam. Cant. V. Eft. ffr. 

(/) Furio Bibaculo efcrfivèo r ^apiíer hyhertias eana nive tofl' 
fputt Aifss :■ Horácio cfcamecendo-fe da extravagante itietafor» 
Je Poeta, fez parodia do feu verfo dizendo: Furim hybtTnat- 
iana nive tonftnit Ahts: Vej._(iuíníl. Lib. VIII. 

(^ Vida de D. raulo de Liii\a, pas;. ;o8, e )ost> 



Cg.lzccbyCoOglc 



aio ''■'-■"'■■ M I u Q s r A I 
Iiá n« nicçii dos coufos cofpir o ferro ,' e nà acçiaS 
da agoa das ondas cofpir as ellopas do nario. 

Dalli vinha aquella regiaS heber tf 9 mar, e^ cu- 
jos ejladox vem beber ao mar , feí que faô das gabadas 
em Barros. CliamaÕ a ifto MeEonymia, ou fegundo ou- 
tros Metalepfe de antecedente por confequente. O fenti- 
do he tirado da fundo de hum poço, e quad adivinha : 
interpreta-fe que aquelles povos eraS marítimos ^ conclu- 
faií defte difcurfo : Quem vai beber ao mar , mora perto 
do mar ; Quem mora perto do mar he gente marítima : 
Logo o mefmo h« dizer , que vaô beber ao mar , que di- 
zer, Ía6 marítimos. Aflim fe fazem as adivinhas. Nos 
Poetas tem fua defculpa femelhantes modos defallar, e 
com tudo alguns tem lido cenlurados com menos raza6 
do que os mencionados. 

TaÔ pouco gabara- eu aquelle Omfffl» o mar a fer 
lavrado das náos. Camoens dilTe no leu grande Poema : 

Depois de ter taS longo mar arado, {a) 
E bem : porque o que no enthuzíafmo dos Poetas dè ima- 
gens fublimes, ou novas, ou engraçadas, no fogo dos 
profadores fad tolices , ou pelo menos expreíToens frias , 
e enxáridas.. NaÇi acharemos deíla fazenda, no naâ- menos 
polido , que grave , e ferio Souza. 

A noífa Lin^oa natí he taõ inimiga das hyperbo;. 
les , como a Franceza. Affim , Picos altos , e fragefes , 
que demandam as nuvens^ naó tem que fe lhe diga; 
porém , Grandes e afperas picos , qife pediam as nu- 
vens- com, Jaa altura , fendo igualmente nobre c^mo .r 
primeira , tem o defdouro do Latinífmo , pois que Pete- 
re nubes , aêra &c naõ he em Portuguez pedir as nu- 
vens , os ares. Mas faz pafmar , como fa6 os goftos 
ainda nos homens eruditos ! .Porque as mefmas razOéns 
que fervera, a huns para- cepfurár certos defeitos , eíTas 
mermas; fervem a outros para os applaudir como bellezas j. 



O) Canc. Vni. Eft. 4. 

'■ mo 

Dig,t,z,dbyG00gIC 



DH LlTTE^ATURA PORTtTGVEZA. ZIl. 

(a) motivo porque fe faz neceíTario prerenir com tem- 
po a mocidade contra as impreíToeDS nocivas dos pre- 
juízos. 

COROLLARIO VII. 

NaS vale a authoridaàe para Jazer prevaUcer as pa- 
lavras antigas , que no prefente ufa fe acbaÕ «- 
formadas. 

Muitas palavras temos ,. que faô as mefmas de que 
ufáraã os noíTos Ercritores , mas reformadas : n^umas fe 
fez mudança attendendo a melodia , como na palavra 
Frol y da qual por anagramma , ou por quererem apro»- 
ximalla mais á origem iatina ,. fe fez Flor. 

Outras fe addicionáratí , acrefcentando-fe-lhes íy\- 
lábas , ou letras que antes na6 tinhaõ : como cabre , e 
falia de Barros ^ pelos quaes fediz^ hoje , calabre ^ e af- 
falío. Outras tlveraõ vários géneros de mudanças : Por 
tredor , e tredoro ,. e treiçaÕ de que ufaíS Barros , Lu- 
jcena^ Souza , dizemos traidor y traição ^ Em lugar de 
arrincar de Barros temos arrancar y em lugar de imigo ,. 
inimigo. 

Ainda hoje terramos dívaçaS, caltdade , cantidade , 
contia , de Barros , Lucena , Souza ; mas os noflbs anti- 
gos fizeraõ eíbs palavras Fortuguezas das Latinas con- 
tentando-fe de liies deixar alguns veftigios da origem ^ 
os Latiniftas , como n'outro lugar diíTcmos , pela mania 
«tymologica ,. entenderão que as^ziaô mais, e melhor 



. Ça) Ne id quidem fuertt tnutile , .. . ojiendi qitam multa int' 
jinpriat obfcura, túmida ^ bHmilia ^ fordida , lajiiva ^ ej^ina- 
ta Rnt i quae non laudaniur modo a pltrifque , fed ( qued tejus 
f/íj) propter boc ipfrnn t quodfant prava , laudantur. Nam firmo 
reítus , tt fecundHm naturàt* tnumiatus nibil babtre ex ingenio 
videtur, ília varo , quae utcumqut dtfitxa futtt 3 tatiquam txqui^ 
£tiora miramuT. Quina. Ub. 11. ca^. s. 



IzcJbyCoOglC 



Pomiguezas , tornando-as mais Latinas. Ainda hcje ja- 
zem muita bulha fobre Caderno , ou Quaderna , os que 
lem no feu Madureira , que os que efcrevem com C ei- 
ra6 a origem das palavras , que lie de quatuor , e er- 
raã a prononciagaÔ; porque le az6 dizem Cairo ^ tam- 
bém na5 deremos dizer caderno. Mas pela efcravidao 
da origem querem quatorze , quatorzada , quatarsuno^ 
écom tudo fubíifte a pronuncia Áe catorze y catorzada , 
cãtorzeno. Miferavel pedantaria ! Quem perguntafle aos 
Latinos com que juizo confentiaó Ch/i^j , ersf, do pro- 
úome Qui^ Pois que os feus antepaí&dos ufarad à^ Qu- 
jtts , e Qui no dativo ; e quando efcrupuUzáraÕ na fe- 
melhança com o nominativo, mudáraO a vogal, dizen- 
do Quoi. A mefma difierença fe obferva em Loquor , 
Lociítus i Jèquor , fecutus Scc. , o que nafceo da affini- 
dade das articula joens Q_, e C ^ que fe podem íàcilmen- 
te trocar fauma pela outra , como acontece em algumas 
mais. Logo nas palavras Cantia, Cantidade, Calidade, 
de que ainda ufou Vieira , Caderno &c. ainda faa de ref- 
to baílante da origem Latina ; mas ha ufo fuperior áau- 
thoridade. 

Outros vocábulos ha que parecem ta6 defriados , 
que naã íó fe contatí por antigos , mas até por barba- 
rifmos : e muito era, fe a authoridade de Barros folie 
baflante para naA fe ter por bárbaro Relâmpado por Re- 
lâmpago ; como também Igar ou leuar por úualar , 
Geolbos , Ageolbar , por joelhos , ajoelhar , Efteriles , 
Fertiks de Barros » Lucena , Souza , Comejio por Comi- 
do ^ que também edá em Couto, Manencoria ^ por Me- 
lancolia , Afortunado por afFrontado , ambos fienificando 
anciado, affliélo, G^/f apor cozido , Crar idade , Difci- 
prinffy e outros , que ufa ainda a cada paflb a gente cam- 
poneza : e naíí he de admirar , que depois de tantos /e- 
culos fe confervem entre elles femelhantes vocábulos , 
pois a vida , e trato fimples , a frequência quotidiana 
dos mefmqs c^jeiílos , e das mefmas idéas, a pouca ou 
rara coinmunica$a6 com gente de diãèrente proflíTaQ , e 

de 

DgitizedbyCoOglC 



0B LlTT ERATÍ S A PORTUQUEZ A. 113^ 

4t áiviiíoi pftités, oenhluH commtrcio do livros, tudo 
ifltf cauíàs , que ab6 varie âcilmente a Aia frale : aúim 
iie que k confcrroti a Lingon Hebraica innpre a mef- 
nu , e feai direifidade de diajeâa entre os ilVaeliuiB. 

Outras mudanças racronanis fez a noíla Liogoa , 
contra as quaes aati deve fer attendida s aatborídade > 
tomo foi principalmente o dar a varias palavras eftran*- 
geiras trama forma particular , due as apropria ae aollo 
idioma. Si por fim , JJy t Ay^fqut per affícn , aíSm*^ 
que, A mi , por a mim , porque tiraÒ a Caftclhano^ 
nad lhes vale a authoridade de Barros , ou outros fe^ 
melKantes Ãuthores i wtmTLrrores por erros \ Teria por 
pérola ; EJié t E^m /.por efteja , eft^aó , poflo que di- 
gi6 que affim ercrevia Sarros , nad faraâ hoje a íingoa- 
gem pura , e limpa. Só Ce houver algum dotado de lal 
golto, como ò do Orador VeciO,.de quem Lucilío ef- 
carneceo nas Salyras , por elle querer introduzir a an- 
tiga lingoagcm dos Tulcoí , Sabinos, e Preneftinos. (a) 
Mas ifto prefuppoem , fegundo o conceito de hum gran- 
de Critico. í (í) hum naõ fei quede carater iem vergo- 
nha , e Tem fizo. « 

. Eis-aqui as refiez^es , que me parecçraS convenico- 
fcí para .atafliar' as duas efpeciés de prejitisros , qae taii" 
{o danaS a litterátutâ Portligue:£a ; hutta do» qile <iâ^ 

Í'ftéUÒ ús noíTos Authorés totalmente; outra âoè que ido- 
airando o que Êháthaâ vetitrãfida antiguidade , rada 
indiítiniflatiiente eitimaó atWeè , e cbitio relíquia^ fagrft- 
das , crem que naã he licito toCSf-lhes \ ceAt llmpar- 
ihes o pó. 

Côflfeffo qde ttie tenho féfitído indiffiiar , ( poif 
íAais que por prudência ò diíllmule) quanâo pr&feflciãl 
O- àtSà»m-,o CAe|o cota gua- al gun s ■ r e je t i a v aij a caadif 



(ay Quina. lib. I,«ap. ^ 

nJae in parvis iaãantiat, Id. líb- I. «(>. fl. - ' 
■,r«fcF. Ee da 



zedbyGoOglC 



214 ■■■■■■■ ''llt »"m o ti t AS:';.! 
da e genuina frafe do noíTovfiãrvos, Xjtfccna ^Soiizaí'c 
outros defte lote, e preferir-Ibes o cilflo corruptiffimo ^ 
que hoje reina com a míftura das fraacezias .cm Jivros 
innumeraveifi , que fe vaiS imprimbdo , c até. na mçãiu 
locução. ordinária. Mas por outra parte que lanjentavel 
naô feria aquella feita de. antiquários , de que :acÍB)a 
faliamos ! Inda mal, que delia nos ficou .para> hocror 
aquolle parto .monftmofo , a tradução do Telemaco . . 
mas paítemos deita digreíTiiá a..cooànuar &. noJib aí? 

ftlinpRh : ..■., -. , . • .; :; :. ;. , ' k: i, ,■:■■. 



TERCEIRA PARTE. -- 

Do modo ãc ufar ias palavra í\ ir que fe femiraS os 
■ nojfos hons EfcriÁres-ão ftcuh XF,\ e XVI: 

' piffennça âaS paíãvr'as antigas , r 'antí^^iar. ' 

• .- ■ i .. ■ . . I 

O Mesmo Prograrania ída Academia Reat das' Sçieni 
ciasVque nQ,PrQyema foBi* a.XitteratHrai Edrtugue^ 
za me infpífóu' à ínvettigaçaÕ dasCaiif^s.da decar 
deucia da Lin^oa Portugueza , (*) me excjta a fazer algu- 
mas conllderaçoens , que dqvern ferifir de bafo para a 
demonftrajao do "mo.do de reftabèlecer os' yocãbiílos' dos 
nollbs'boi)s' Efcritores ríò íèu''antlgo"uro : matéria' tijnto 
mais própria defle lugar pela aataral coni^ezàã ,. e de- 
pendência ,, que tem, com as réflexoens , que p.roiiEqa-: 



. (*) O thPQf <3p Pfpblema dado para Qjmna-dg.J7pí JU-: 
Qftaffeja o ufo fmiente das palavras , de que fe ferviaõ os tiof- 
faí bons Efcritores do feeulo Xy. , jt d^ Xf^/.;t áeixdraS efyue- 
tir os que depois fe fégmrã^ aU 4o.frefettit í.ao Frograinma de 
17. de Janeiro de .1.7^*1.. 



DE LlTTEUATUIl A POBI-UGUEZA. 21^ 

mente acabamos de fazer fobre ss liisítaçoene da autho- 
Tídade chiHca , e cricica dos Efciítores oaciunaes. 

Vifto pois que o ufo varia os vocábulos , e fraJeSj 
e que a fua irutabílidade he conAante em todas «s Ltn- 
goas, que Te falia ô ; he confequeticia certa t que neliai 
devem de hatei- vozes , e expreíToens que mais , ou me- 
nos fe allongaõ do ufo corrente , fegundo as difíèreides 
épocas dai meímas Lingoas , e circumllancias , que indu-^ 
eiraõ as luas revoluçoeiís. 

Por tamo devemos diftinguir entre todos os vocábu- 
los , e frazes , que formaõ o corpo da Livgoa Portugue- 
za , defde a fuá iníància até o tempo prefecte., huns , 
que podemos chamar aatigoi , outros , que fe devem ter 
por antiquados. Por amigos entenderemos os vocabuhs , 
que corrêraS antes ãe nos. Chamaremos porém antiqua- / 
dos gqu^e^cs , que já vaõ taÕ longe àos nejhs tempos » 
^t quafi fe peràêraÕ ^ nem ha memoria ae/ies : f,WiT~ 
d»da a mtfma differen^a , que os Latinos obíêivavw na 
fua Filologia. (*) 

Também naõ devemos confundir as palavas , que re- 
almente Taó antiquadas , com as que fallãmente Ía6 re- 
f lutadas taes , como fazem ainda hoje os^ que depois de 
erem algumas paginas das miferavcis traducçoens Fran- 
cezas, Kjii]ga6 huas Ari&rrcos capazes de decidir tcda 
a qoeftatí de Lingoa Poriugueza. Nefte erro cahio tam- 
bém o celebre Duarte Nunes de Leatí , o qual no capitijlo 
do feu Tratado da Origem da Lingoa Poitugueza, priíir 
cípiando , Quanto os homens polidos deiaõ efcufar de 



C*5 Anriqua, iã eji j ^uãt ante nos fuére ; atitiquau W j/f,* 
inufitata ; nam aniiauari tjl objclefiere et i mmtoria tolli , ut fcri- 
bitNoniui: unde yimiquarii hcmtites diãi fum , ijui vcces fnffOJ 
■t jam diu defltas curiofe conffBãfítur. Eadctn dicvtitur priíca , ^nae 
---'■- '- n-í-í-i--- J- :--! — , tffitm — 



periere, unde et tx rtitnteíiodplpbi ^ertcolat romcn i 

fi pcrifca , aaepere. Vid. Voff. InJltt.Orat- â\b,iy.. csf. i.% 7. 

ííRob. .Stephan. Thefaur, L.L. 



Ee ii fallap 

Dg,l,zc-JbyÇt>OJ^Ii: 



ii6 Mbmouias ; 

f aliar palavras ittf^entes , e ^n^eiras &c. (*) confuhi'' 
de naã fó as palavras antigas , e antiquadas , mas até as 
palavras plebeas , e groíTetras , fem embargo que muitas 
fe achaô em Barros , Sá de Miranda , e outros Âutbo* 
res , para os quaes DaÕ eraó antiquadas , nem merecem 
del^rezarfe , como plebéas , como já declaramos em 
feu lugar. 

Nenhanvas palavras fe devem chamar antiquadas» ou 
defufadas » fe fe achaã nos Efcritores do feculo mais flo» 
reme da Lingoa * ainda que talvez fe nad encontrem 
com mutta frequência; (a) mas fejad mais, ou menos 
antigas, mais, ou menos ufadas nos inítgnes Efcritores ^ 
feráõ examinadas fegundo as Umitaçoens , de que acima 
£iUJmos na Critica dos Authores. Por quanto a differen* 
fiide termos antigos, ou antiquados na& nafce pcecifa^ 
ineiue do>-tecnpa em. que principiarão a fervir» ma& fim 
do ' temjjo , em que le principio» a largar maã delias. 
Taes pahvraa ha , qu& fendo na origem «ttíamllimas , 
ainda tem feu ufo, e noufofua formofura : (i) Outr» 
ficáraã na plebe , e na gente das províncias, e muitas 
ainda confervaâ feu foro no ufo familiar: o que nafcea 
de doufi principios ; 1°. Do eofto,. e eícolha dos £fcã- 
tores, que notas conferváraC : IP» Do povo , e princi- 
palmente dos rufticoe » de quem. podamos dizer o que 
Cícero affirinava dâs mulheres Romanas ,. que coníèrraã 
muito a lingoagem amiga , e que por iCo mefmo que Ihet 



(*) Cap, XVIír. Onde palavroj infolentes he mat traduíido. 
JbLatim, infalentia verba ^ que qaei àizer palavras âefujadasi. 
aliás pjlavras inlolentes , fegundo o ufo d» Lingoa Pormgu«za , 
quer dizer, palavras atrevidas , c de desprezo contra al^em* 
e por iíTo no lugar prcfente he exprcfTaõ imprópria. 

(*) Scioli i/Ii mak obfoteta appellant , qme raríús fortaffi 
eccia-tunt , attamen óptimo aevo ab optinús fcriptoribus ufurpata 
fiim. Voa. Infiit. Orat.lÍh.lV. 

(*) Quagiam adbnc vetera vetuflate ipfaxratius nitent; qmt* 
dametiam mejario mtTmfmmntm* Quíníl, lib. VIU, cap. j 



zedbyGoOglC 



DE LiTTE KATÍJ» A. POSTUGITEZ**. 217 

falta a díveríidade de commaiiJcaçoens , na6 largaS nun- 
ca as vozes que primeiro aprendéraO. (a) Do que con- 
cluiremos , que as palavras antigas ainda fe podem uíar, 
as antiquadas por nenhuni modo. 



MoJlrê-fe a necejjiiaàe , e utilidade de reftifcitar OJ 
palavras antigas. 

As Lingoas ( diz hum Filofofo ) fa& siaís , oa 
menos perfeitas à proporção que faõ mais , ou irenos 
próprias para as analyfes. (b') Mas dado qve huira Lin- 

fofl feia aíTaz própria para as anaj^fés , naÕ ccncluiria 
um rilofofa » que ella feja igualmente própria , e abun- 
dante Bo exercício da imaginação , que reina na vida 
inimana , e he quali a alma da Eloquência , e da Foe£a , 
c taò vafto , e variado, que já mais fe achou Lingoa taã 
copiofa , que o poífa faiisfazer completamente. Todos 
os homens em commum no trato da vida humana, ifte 
he , fora das efpecula^oens dos fabios , nafi fe cançatf 
com analyfes % as fuás operaçoens lomati hum diíferente 
tom , e ieguem mais a vivacidade , e os impulfos da 
imaginaçaS , do que os movimentos ccmpaflados de huma 
reflexatf , que tudo combina , e tudo calcula ; e nefta par- 
te até os Filofofos faò povo. Logo a lingoagem da ima- 
ginação deve fer mui variada , e por ccnfeguinte necef- 
Bta de grande variedade de termos , naÔ digo (ò àtís 
que cbamaé íimplefmente fynonymos ,. mas dos que fí- 
nalafi os gráos , e modificaçoeos das idéas , e fentimen- 
tos procedidos do diverfo modo com que a alma vê 
os objeílos. 

(tf) Pacilim mulieres tiuorrttftam antiijuitattm ffvant , ^uoi 
mtdtomm ftrmonis. txptrtts, ea tenent femper y ^uat prima dtHite- 
nmt. Lib.IIt. de Orat. 

(i) CondiUac /»f l origin. i<s Connaif. Scc. 

Pará 



zedbyCoOglC 



StS M fi MOVIAS 

Para a perfeita pintura do» Teus quadrot íerwtm 
«quellas qualidades da locaçaâ, que os Rhetoricos r^ 
coaiQienda6 , ou luima fò por todas , quero dizer* t 
propriedade , a que fe refere tudo o qite Ciccro chama 
apte cangruenterque dicere , e tudo o que fe chama ar- 
tt: de e^rever. Porqua.ito nefta propriedade fe encerra 
I. A propriedade dos termos refpe<5li vãmente ao ufo da 
Lingoa, e regras eftabclecidas , e he o que cliamafi /«r 
reza : II. À propriedade dos termos por ordem ás idéas 
do entendimento , e fentimentos do animo a que chamaõ 
clareza : III. A propriedade da frafe , e cftilo com os 
obje^os da^ idèas , a que outros cliamaÓ conveniência 
do bftito com o tom da obra , ou com o género da me- 
teria , r. g. ferio, ou jucundo , grave, nu jocofo , &m- 
rles, e natural , ou lieroico , Aiblime , e pachetico &c. 
V.. A propriedade do colorido , ou conveniência do cf- 
tilo com o ol^eiíts particular , que le reprelenta , doos , 
ou agradável , terrível , ou atroz. &c. V. A proprieda- 
.dc , òu conveniência do eftilo com o mi^vnnento da 
acçaõ } que faz a que chamaõ harmonia imitativa , uaã 
menos oecelTaria á Eloquência, que i Poefia. 

He claro, que todas etlas qualidades prefuppoem 
na Lingoa hum niado de termos , e esprelloens de di- 
yerfas ordens. Na falta delias emráraã as traitsíaçaens \ 
mas éCTas nad chegaã a tudo-, e as que há n*uuia Lingoa , 
íaltaÔ -em outra , como experimentaã os que traduzem 
■obras de Eloquência , e fobre tudo as de Poefia. A eíta 
jienuria foccorrem também os termos fuppletorios , ou 
Cireumheuçoéns , mas eftas o mais das vezes naá repre- 
Xental as idéas por inteiro, e muitas ve^es mais as desfi- 
guraô do que as reprelentaÔ. Finalmente concedeo-fe ada- 
ptar palavras de outros idiomas, e annorar algumas das 
raízes d^a Li^igoa Aacioul j -mas pela múor parte eâaa 

Í)adecem grande violência. Qaanto mais oportuno fera 
ogo refufcitar as palavras Purcuguezas , que já tiveraô 
ferventia, e pofto que tem fido apofentadas , natí perde* 
raõ a autboridaâe ^ ant^ pela mefma iuerrtipçaô do Teu 

ufo 

Dqilizc-JbyCoOglc 



CE LlTTEBATtlHA PQRTnniíEZA. ítp 

tifo adquirira^ huma cert» fidalguia da fua ancianídadey 
<|ue concilia Á frafe huma certa gravidade ntag«ftoJ/t , ao 
mermo tempo t^ue pela novidade cauíaò (/f/»'/f. («) < 
A'lem difto ellas podem ter alenmas vezes linina 
particular propriedade , quando íc lalla de coiJas ', ou 
peíToas , ou collumes antigos ; quem fizer rcfiexad co- 
nheceni, quaõ bem afTentada heaexpreflàâ intigz Soèer, 
nefte Soneto de hum Poeta moderno : (*) 
Portugal i que era rufttco aJgum dia , 
Incivil , trapalhão , mal amanhado , 
EJtd ( grafar d França ) taÕ mudado y 
Que e mejmo jâ naÔ he , que »fer foiíia. 
A mefina induÁria teve, o noifo Bernardes , ufando em 
lugar oportuno do verbo Betar , que já no feu tempo 
era aíTaz antigo ^ (**) 

Hum âefie't dias ly hum J^refcrtto 

Em que fe fez illujlre a btàa pff^ta , 

0»í venãe na Betefga peixe frit». 

Notai f. Senhor y agora como tieta 

Illtiftre n'uma cerva frigideira 

Quí foi tamada d gayta , ou com tromíetã, 

§. III. 

He pfe medaje deve ufar das palavras fihreáitar. 

Ido fuppofto, vejamos )á qual feja o modo pruden- 
te de renovar o antigo ufo dos termos da noíla Língoa , 

(tf) Propriis dignitarem iat antíqtàtas. Nam et fiinãorem tt 
magis aimirahiltm faâunt orationem , qutbMS mu quitibet JHerat 
ufurus. Quinét. lib. VlII. cap. í. IA. lib. I. cap. 6. yífferunt 
erationi majejtatem aliqnam non fine dtkãatione. I^ãm tt anSà' 
ritatem antíquitatis babem ; et quia fra<termi£'a funt , gratiÁm 
novitatifímilem paráutt, 

(•) raulino Cabfal Sontto 17. 

(••) Diogo Bernardea <:«*. XXUI. 



zedbyCoOglC 



MO Mbhokias 

qtí9 p^Iaa caufas , de que já tratámos, fe deizarad es- 
quecer. Os antigos , que nos deixáraâ exemplo nos Caia 
bellos efcritos do que praticara^ na Lingoa Latina , tam- 
bém nas fuás rcSexosns nos deratí regras , do que hoje judí- 
ciofamente fepóie praticar nas Lingoas modernas. Opus 
efi modo , diz Qiiiníítiiiano , ut neque crebra fint baec , ne- 
que manifsjia , nec utiqu; ab ullimis et jam obUteratis 
repelita temporibus : (a) cifaqui a que fe reduz tudo o 
que fe d^>vj obferrar fobre o ulb das palavras dos doÍTos 
iníignes Efcritores ; mod;:ra;alí a refpeito da quantidade , 
moderajaQ na applica;aõ delias , e attençad a íua quali- 
dade. 

REGRAI. 

Neque crebra fint : NaS ufaremos deftas palavras dos 
tempos anteriores amiudadas. 

Subftituindo-fea cada paílo os termos antigos ^ por 
bons que fejaô ^ aos que hoje eftaS recebidos , feria 
como fallar duas Lingoas em Portuguez, pois que eftad 
no mefmo parallelo as palavras Portuguezas já defufadas , 
que as..eftrangeiras, que nos faô defconhccidas. Se faô 
com tudo raras , ou repartidas com boa economia , e 
boa efcolha , nao fe defconfia delias , e alem da energia 
*3a? niiJitas delias tem, fervera de hum certo efmalte ao 
eíczlo pelo mado ,que acima dilTemos ; mas. fe fe aju.n- 
taâ muitas, ou amiudadas, forma-fe huroa frafe parte 
m/fteriofa , parte rançofa , e ridícula , como de quem 
arremeda a lingoa dos paifanos , enjoa de morte; effèi- 
tos inteiramente contrários aos que os Efcritores judí- 
clofos procuraâ nas Aias obras. E fe a Critica com razaô 
condena até o ufo frequente das metáforas , por mais 
brilhantes que fejaÔ ; quanto mais reprehçnfivel fera a 
frequência de palavras , que o ufo prefente na6 reconhe- 
ce ? Louva-fe em Elomero a prudente induftria com que 
ligou , e reunio a diverfidade de dialectos com tal parei- 

(/) JnfiitHt. Orat. t-lb. I. cap. 6. 

monU) 

■ CgilizcObvCoGglC 



DE LlTTERATUHA POUTUQUEZA. iit 

mohla , que parece ludo fe confunde com o diafcílo pre- 
dominame , lem o perverter. Louva-fe em Virgílio (a 
quem Quinifliliano por ifto mefmo chama homem de de- 
licado goíto) (*) a artiãciofa temperança , com que or- 
nou a lua poefia ^ refuicitando as vozes da amiga Lati- 
nidade; A mefma liberdade louva ÃddiíTon no ku Mil- 
ton : (**X * mefma lomárafi louvavelmente alguns dos 
BoíTos Poetas , e os de. outras naçoens modernas , pcfto 
que nem todos ímitáraÓ mui feveramenie a difcriçaõ do 
Poeta Latino. E íe ainda nos Poetas le culpa a nimia 
profufaõ , quanto niais reprehenfivel fera nos Efcritores 
ae inferior ordem ? 

Quem foffrerâ fem naufea n'um difcurfo inftruítivo, 
e ferio , e de poucas paginas de meio quarto de papel , 
aqui : » gé-raçoens de inílrumenros , cem que ella ( a ver~ 

> dade ) Te pode defabafar deíTa eivei camada de erros : » 
e iogo a poucas Unhas : x Se tendes vejfos pezos , e ba- 

> lanças affi correntes , e afferidos , que podeis efmar , 

> e lealdar ao certo &c. E mais abaixo : x Enfaialles o 

> voíFo entendimento , fazendo-o agudo . . . e mui ãza'-. 

> do para toda outra fciencia. » E logo : k Se . . affentados 

> em joelhos veneraftes a fuave , e fantiíEma Providencia » 

> que toca defde hum cabo a outro todas as coufas &c. E 
no mefmo aíTumpto ; » Se a vofla confideraçam . .. bateo 
]■ as azas , e arripiou a carreira , e tranfpendo aa vifta 
» de todos os mortaes &cc. Logo depois : x Se a voíTa ta^ 
» zaã . . . tendo desbaratado , e metiido em vergonhofa fu- 

> gida a todos os que feguiam fuás ftnas , e lua voz : e 
» correndo-Ihe o encalço vingou por huma vez tantos ag- 
» gravos . . . contra a fanifla , e celelliat Filofofia. t E fem 
demora : » Se ella mefma ( a vofiá alma ) da fua alcáçova 
"» mandou efiuitas e vellas, . . Se fazendo aliança com a 
» invencível virtude, tem forças, e provifoens tm ahaf- 
■» tança &c. • 

(•) Aterrimi judicii vir. Quínfl. lib. VIIL cap. ?. 
(•*) Remar^. d' Adútjfon fur le Paradis Ptrdu. Difcours 4. 
Tom. V. Ff Quem 



.Dqilizc-JbyCoOglC 



323 MEnORIAS 

(í^em natf rê , qiK^ cflàs exprelIbeRS , (fie Ta5 niiíhf* 
radas nas frafes precedentes , c outras , que podíamos 
ajuntar, poftaqtie algum dia Sòraó palavras de boa £»r 
riaha , agora , e principalmente pela demazia com que Te 
empregaój faiem toJa ztaafíz da dicça6 Portugaeza aziu- 
mada , e corrupta ? Q^ie neceíGdade pôde excuíàr o tra- 
zer á coilaçaó aqui , o Paire das luzet , alli , a madre 
Eva : ora o humanai entendimento , ora a revelaçam di- 
vinal y ora foccarro divinal : outras vezes , o pajjamento 
do homem, arreceias ^ peftenfnça , e até afora ^ a^m^ e 
outras femelhantes aatigualhas} 

Q^iem ler aquellas raras expreíToens : trafiquem^ 
»9s preceitos . . . as definiçoens devem ftr mui claras , e 
tfpilbadas , naõ as embacetnas , eu ejcureçamoj ctm ai-* 
teraçoens febejas : naô dirá que tantas palavras fobejãs 
por íarem fuperfiaas , naÕ fó embafaõ , mas efcurecem , 
e nag fó efcurecem- , mas enojai i Dêfe a doutrina aot 
principiantes mui liza , e aceptlhada^ que êS naS arranhe t 
bella máxima con palavras acepilbadas , mas nad fei f* 
tovias as metáforas íaâ bem cavacadas para o intento , quan- 
do os principiantes ouvem , ou lôm , Entendimentos ei' 
vados de fandeas opiHtoens \ e, naõ façamos iaveãivM 
contra as homens , que embaídos de faber mais que ot 
eutras Scc. ; e , J^ nos deixamos embahir defias- jforesi- 
nhas ; e , v-hf-eis- irtigos , cadavéricos &c. ; e , Deixai 
aos avarentos abadada , e eanfadamente figífir , e em- 
polgar a fitx reté &c. OnJe fe íem crprtjflbeBs , iqu« 
para ferem mui acepilhadas , arranhão a« orelha*, eaatí 
podem paUàr para dentro. 

Nió lè culpao com tudo algumas expreflbens , qus 
poAas em Teu lugar , feriaã boa^ \ aqui rtparamoG fomeiH 
te no eidelfo , quando a razaÓ pedia niuita moderQ^aâ-, 
quanto miis, «ff crebra Jint. Horácio com ler Poèía ^ 
nas fuás Satyras , e E3Ífto|as , que faâ vCTdadeifa^nentí 
huns DiÍ£urfo5 ,. ou- di^caloens febrs a M«>a4 ) e eoif» 
de erudição, njd entendeo , que era biiaffia ífo feu ra- 
leiHO v*f«r todo o-Utiiu do íecul» das priílieifas guerras 



IzcJbyCpOglC 



DK LlTTEEâTURA PoiT UQUEZA. 233 

Púnicas, (^ajito jnais , q.iie Ce Pina , fiarros , Pain &c. 
«aóíahinò do c^ae née fâlbníos , deque nos ièivene 06 
termos , ii^acellcf tcinárjtí para diâêreme ipropcíito j 

Se Juaireâemus necrããriaircnte de incorrer ii'>uin de 
íJois prejuizos , ru de perderas pabrias PortuguEzas ao- 
tigas, ou 4e peidfT as jnodcrnat , fuMimindc-Jlies ami- 
-gas , quem duvidaria decidir pela confervaçaO àts rcioàer- 
nas , que eítaõ de paíTc? Mas a quefiafi he rcAtluir as 
■boas exprríToens antigas -, qoe íe deíxira efquecer ; e 
naA áibftirair Jingoa^em vielba i r.Dva Jitigosgem : e leAe 
■montatí indigefto de termos , e locupoens dos EícrÍMjres 
pai&doB , (em cfcolha nem modo , qiie x^uer úguificar fe- 
naã Inisn graTilSino abfurdo P Porque .deite trcdo , Tem 
expreilãmente o declararem , dizem , que tudo Of^tie ho- 
je fe falia, faô v rborum faetores ^ e que íó o que í*e 
fallou, £ elcreveo amda no feculo de D. A-fifurfo Iienri- 
ques era almifcaT .0 mais fubido. (<}) £ fe ií!o naâ heaí*- 
\\m , appello p^íra a Filoíbfia \ iiaíS para a Filofofia de 
lyftemas , <jiie de ordinário csjnibate buns prejuízos com 
novo preJQizo, mas fim para ai^iiella ÍFiiolofia , «}ue 'he 
tad antiga como o homem. 

REGRA II. 

Neque maniYefta : Vfar ãos vocábulos antigos de manei- 
ra , que naõ af pareça affè£ia^aõ. 

A affe<5taça6 he a coifa mais odioCi que Ka no fal- 
]ar , oufejarocal^ ou efcrito: (/>) e nad fó na reputa- 
rão dos eruditos , mas aiada no juiao-da gente do vulgo. 

(d) ^m faliare Nionae catmtn , íjui laudat , et Uliid 
Quod mecttm ignorai , .foim vttlt feire , videri 
Ittgemis non iflt favet , ■ftaudktfue fcpuitis 
Nofifa feA iimugnat. Howt, líb.ll. Epíft. I. verf. 86. " 

(«) Nm *ft odiojim ttgeSiationt. QmaSt. lib. VIII. ca^». f. 

Ff u ^ 

Dqilizc-JbyCoOglc 



124 Memorias 

Por muitos modos Te commette eíle vicio ; mas o prit^ 
cipio mais geral a que todos va6 parar , he quando pa- 
rece fe dizem as coifas por amor das palavras , e aao as 
palavras por amor das coifas; que he fegundo o pref- 
. crito da natureza o único fim para que derem íervir ; 
(d) de maaeira que toda a bslleza das palavras, que naé 
nafce da fua uniaò com as coifas , he fantaftica, he aí- 
feftaÇaS ; prefuppoem gofto eftragado. (í) 

Ifto fuppoíto , naquella mefma indigefta multidão de 
palavras « de que acabamos de fallar » fe acha a aSèt^a- 
çaô ; pois que niíto vem a parar aquelU &lfa abuodaq- 
cia , que naô he iènaã mera verbofídade. (c) Mas alem 
deíú na outras caafas mais particulares deaSeâaçad no 
uib das palavras do tempo anterior , que propriamente 
pertencem a efte lugar. 

A verdade he , que eíbs amantes da antiguidade ^ tem 
í?ito feus pecúlios deíTes termos , que era6 familiares 
aos Efcritores da fua veneração , como próprios do í&i 
tempo : o gofto da antiguidade naõ ÍÔ os amarrou aos 
Aurnores ^ mas fez , que todas as fuás palavras , e locu- 
çoens fejaó as fuás mimofas., e queridas l eíUidáraÕ-nas 
pelas (uas coUecçoens , e a patxaõ pela venerável anti- 
guidade lhas pinta fempre ao cérebro com hum género ds 



jlfectatio per omne 4icendi gtnm f^ccat. Nàm tt tumiâa tt txi- 
lia , cí praedulcia , eí abunáantia et arcejfita et exultamia ftA, 
idemnomen peccanc. Ib, 

Ça) Quibuí (yerbis) fóliim a nantra fit o^cúrn attributtm fer- 
vire /enfibus. Id. lib. XII. cap. lo. 

C&) Qttlbus [ordem omtiia , quae natura diãavit ; . . quafi ve- 
ro (it utia veriorum, nift rei cobaerentium , viVíkí, Id.lib. VIII. 
iii Proaem, 

(c) E^ in quibusdam turba inamim< verborum , qui dum eoitt' 
munem lofuendi morem reformidant , ditãi fpeck nitoris , eircum- 
tunt omnia eopiofa loquaeitate , quae dicere volunt. Id. Ub. VIU. 
capL 2. Nobís autem co^ia eum juáicio, paranda efi , vim orandi y 
tiun cirmlaioriam vol$4biliiatem Jpeãantiius, Id. lib. S. cap. t. 



n gilizcJbyC OO^ík 



DE LlTTEBATt/BA POBTUGCEZA. llj 

ÍtredilecçaÔ , e preferencia as expreíloens do ufo , e lhes 
ècha os olhos para conhecerem , que o feu trabalho, ç 
ellu^o deíTas coljecçoens de palavras he pueril , e infeliz, 
alem de ter pouca utilidade, (a) Ã luz da Critica ferÍ4 
baflante para lhes fazer conhecer , que naÔ confifte a 
abundância de huma Lingoa , nem a fertilidade do dif* 
curfoj e gravidade de eloquência na cíleril lorrciue d< 
palavras. Mas a Critica ainda naÓ tem fido bem deiini- 
da , e muitos ha , que fe perfuadcm , que ella he tudo 
o que fe contém nas breves máximas ^ que es mcdernos 
inferirão nas fuás Lógicas para fe differençarem dos Pe- 
ripateiicos , (*) e polluindo-as , cuidaô muitos , que tem 



(<j) Equidem fcioqmfdam colleíia , quat id(m fgiti^ficarettt vo- 
taètía fotitos edijcert . . . quod cnm ejt puertle , tt lujujdem in- 
jelicis operae , tum etiam utile parum. Quinfl. Jib. X. cap. r. 

(*) O5 Filofofos modernos excluindo da Lógica as quime- 
ras meiafylicas , e erpeculaçoens impertinentes , cie que tratáraÓ 
os Peripateticos , e que os Efcolaííicos refinarão ; para que naõ 
ficafTe a Lógica reduzida a hum cominho , cncherjj.õ aquelle 
vaó com Fraemcnios de varias artes , e fcicncias. Huma parte 
de que tratao hc a Critica ; mas cfta naó he pane da Lógica , 
lie huma Tciencía vaftillima , ou huma GoUecçaó de vários co- 
nhecimentos j ou melhor , hc o truiflo de lotjos os elludos ex- 
trahido da combinação de obrcrvaçoens na leitura, compofi- 
Çaó , e meditação. Defta fciencia cieio , que ainda naó faõ aliás 
conhecidos , e por iíTo nem deteiminados , os limites. Creio que 
o noflb Fernei attendendo á infulíiciencla^ por naó dizer ino- 
tilidEtde , dos feccoí axiomas , que andavao nos Authores ante- 
cedentes com nome de ^rte Critica, para encher mais efle tí- 
tulo ajunrou hum rratado de Pedt:ntí}wo Âbeloricv com huma 
noticia previa dos eftilos ; mas tudo ífío , kr.io unicamente 
princibios vagos, e Tem o miolo Jas artes a cpe pertencem, 
tem feito mais Pedantes do que Criricos. ^íc]^or fizera . fe 
dividifFc i Critica em Litttraria ,e Scietitifiea , e deíTe fcuma bíe- 
ve idía dos eíludos , e modo de adquirir , e exercitar ^l:ma , 
e outra. Veja-fe o que a refpeito da Critica Liitcraria dilícmos 
no Difatrfo fobre o Poema Épica * anntxo ao Feliz Indefttidm' 
te : tom. L 

vefti- 



zedbyCoOglC 



ii6 Memorias 

Vcftido as armas de F<il{as , com que fé podem T>dr em 
campo, e efgrimir em todo o género de lirterarura. 

Moítra-íe pois aquella affèctaçatí i^. <:ra legujc eia 
certos vocábulos até a (bcnbra da antiguidade , íènao eh 
Hs radicalmente os mefmos , que agora temos , refor- 
mados fomente os feus accídentes. Que nos gaobaõ aqiKÍ- 
Ub antigas formas m mt , de mi ^ Ji , ajfy , por « wtim , 
' de mim , fiyn , ãJJUm ? E bumildofantente (que he "já dos 
Afronfiiilijs) por humtld.-mente ; affeito por afiWlo y aas^ 
por dí i ãaa por di ; av&rrece por akorrece , e outros 
defta feiçaô ? 

' Hl aiFc*claçj6 ( i°. ) em certas formulas de con- 
ftrucco:;iis com ímica^aõ fervíl já do Latim , já do Frao" 
cez Scz. Por exe.nplo : 

Ostros ha bi , que trocam os nomes 6çc. 

NaÕ ha bi quem oufe apuntar qual deftas acçoens he 
a tinica em que efteja a vida do homem &c. 

Demos também que naõ haja ahi nenhum contrario 
da alma &c. Ifto , como já n'ouiro tugar tocamos , cor- 
ref|jonde ao idiorifno Francez U y a, que os noíTus 
antigos imitár-io , e depois com razaó fc rejeitou. 

Os mortas , que em Cbrijlo fam , rejfargirdm pri- 
fneiros : tatinifmo da fignificaçaÓ no verbo yàí», e oa 
"mefm,i compofiçaÕ da frafe. 

Que diremos daquella gailegada , Qjfíi^ buvor , e fs- 
zimento de graças paã^remos nós outros darvos oh Deos 
■ Óptimo Máximo ? Mas naó he fó o fazimente de gra- 

ÍaJ.como bazimiento de gradas., o que mais -admira 
e , que fendo nós Ghriftaos pda graça de Deos , orire- 
mos a frafe Portuguezi com os tratamentíK da Religiaá 
pagã, Deos Óptimo Máximo, quando cada liffBoa tem 
luas palavras de ritual commum , que fa6 de oorerfaO' 
cia, alEm como a technica das artes , e fciencías. 

Com quanto , por ainda que , pofto que : com quanto 
foffe jufla , util , e .fanSUJJima a Ley da natureza êcc. 
E , com quanto vos rodeam , e ^ertam as cordas ■dos 
peccadores , naS vos pôde efquecer ejia fanãi£ima Ley; 

que 



DE LiTTESATUBà POBTVQUEZA. 3Í7 

qtié he verfaô de Fanes peccaUrum circumplexi ftint me : 
et krem ti/am non fum cbHtus. 

ror tal que , por de fone , de modo que : > Qtie 
V fera fe tem lempre accezos , e providts os dois lumes 
> da Evidencia , e Probabilidade for lêl ^ que Ibe nad 
* efcape &c. » Affim air.ou Ceos ao mundo, c;ue lhe 
» deu leu unigénito Filbo : pçr iúlqut icdo o que txlW 
« crer , naõ pereça &c. 

Temos mais affeiíliiçaÔ ( 3°> ) (guando fe alitrafi os 
termos da propriedade , que lhes eílá aflinada ; ccmo : 
He mui ligeiro 9 entendimento , e mui delgado. Centi- 
nuarám dizendo , que a razaõ he mais Juíil , e de/ga-r 
és do que os fenttdos. Hoje ha dtlgedo ^ e delicado ^ 
com a oiefma differença que tem ter.ro , e terno , e ou- 
tros voe ibulos femellianres. Dizemos entendimento delita- 
da , naõ delgado , manjar delicado , na6 delgado : pelo 
■ contrario, panno delgado , fio delgado , e naÔ delicado. Af- 
fim como tenra planta , e naÕ tema \ tenros annos , e 
naÔ ternos : pelo contrario , coração terno , raÕ icnro j 
palavras temas , naõ tenras. O mefmo vale nos íi;bftan- 
tivos derivados tenrura , e ternura ; delgadcza , e deli- 
eadeza ; antigamente porém, porque naó havia ainda cs^ 
termos delicado^ e terno ^ os outros ferviaÔ fem dit 
tincçaõ para todos os ufos ; por líTo diflemos pouco antes, 
q|ue naÔ valia a authoridade dos Efcrítores para alterar 
a propriedade, que çuÇo pofterior pelo decurfo do tera<- 
po conftítuio a certas expreílbens : e conit-guiiilemente 
fiaò podem eltas empregar-fe fem sfièf^açaõ com toda a 
cxtenfad antiga. 

Outra afteiflaçaâ (4"')» quando para moftrar curiofi- 
dade, e gofto exiiuellro , ou íe deiS;.6 as i:a!avias boes, 
que eftavaíí á maÔ , reccorrendo ás antigas , (a) 00 em- 
parelhando humas , e outra« re'faz a fiale recheada, }i 



(a) Cnm óptima fint reverta , ^aaertmt ali^nid , oncdfit mogU 
aMtiquum > temotum , inopinatum. Qa\tii\. lib. Vlli. m PreatKK 

expli- 



izcjbyCooglc 



3i8 Memorias 

-«xplicanio com longo roJeio o que íe podia dizer Cm- 
plefmence , ja repetindo com o termo feguinte , o que 
eltá baftintemente declarado no antecedente ; já juntan- 
do muitos para dizer , o que com hum fò k explicara ; 
já ufando de termos m^íteriofos > que mais fígnifícaã os 
índicios das coifas , do que exprimem as coifas clara- 
mente, (a) Tal he a que ha pouco chamamos abundân- 
cia eíleril : Eloquência ordinária dos adoradores da an- 
tiguidade , cuja fuperdiçad nem lhes deixa luz para a 
boa efcollia , ne;n lhes dá focego para poderem aqui , 
ou alli perder qualquer palavra do feu Barros , ou Azura- 
ra , ou outros da lua eftima. (í) Vejamos : 

» Fallidas ia5 fuás forças , e mui quebradas ja^rz atu- 
» rar batalha taÔ bain pelejada fem auxilie , e refrefco das 
» extraordinárias, e divinas. » A que fim (pornaâ levar- 
mos a pezo tudo o mais) a que fim vem aqui aquelles ter- 
mos dobrados, o próprio , e o metafórico , auxilio ^ e 
refrefco ? NaiS era baftante o primeiro ? Naõ : que o 
termo próprio , e commum do ufo prefente , eíTe quem 
quer o diz , naõ tem graça : ao menos vai refrefco adi- 
ante , que he .meta&>ra da guerra ufada dos nofTos Âu- 
thores. E fendo alfim , gente de refrefco nas tropas , e 
graça do Ceo de refrefco , como quer que vá , vai bem , 
com tanto que refrefco com auxilio façaS maravilhas. 
Viva o bom gofto , do qual refulta que Nihil jam pro- 
prium placet ^ dum parum difertum creditur ^ quod et 
alius dixijfet. (r) Mis pode-fe pela maior parte applicar 
a eftes termos dobrados, o que Qutniíliliano diz dos 
cpithetos fuperfluos , que he como n'um exercito , fe ca- 



(a) Nam quod rtHe dict potefi , tinumimus amore verbomm ; 
tt tfuod fatis 4Íãum efi , repetimus : et quod uno vtrbo patet , plu- 
ribus omramus : et plera^fue fignijitare magit volumus , ^««1» ãice- 
re. td, ib. 

(A) Mifer. . . et («í fie dicam) pauper orator tji ^ qm tUtllum 
(y^rbum) ae/juo animo perdere patefi. td. ib. 

(ç) Quinfl. ut fupra. 

da 



zedbyGoOglC 



DE l-lTTrR AÍU» A PORTUGWEZA. lí^ 

3a 'Soldado tiveflè feu pagem; porque haveria gente do 
brada } mas naõ dobradas forças. W J^ ie fôreoi ambos 
termos do mefmo lote , como em Podeis ejmar , e Uai' 
dar , que faremos ? Naã vejo outro remédio , fenaô tra- 
zer hum DiccioDario na algibeira ; porque iíTo he que he 
primor de engenho jogar eíles vocábulos da guiza antiga 
de modo, que feja precifo fer mui efperto » quem nos 
houver de entender. (í) 

Mas que penfará difto quem tiver engenho , e jui- 
so P Q^ie dirá , quando lér : a E at fím . . , . toda a£f- 
» criptura Santa lie huma continuada revelaçam de vida 

> futura: de Bemaventurança eterna aparelhada , e oetor- 

> gada aos bons .... Toda ella nos amoelU á pratica 
x das virtudes, .. . mandanos na^ apegar ás coufas do 

> mundo, .... e por naO fer infinito, qjíe nos trigtí€~ 
X mas de entrar naquelle repouzo , e deícan^o, que pata 
'% todos os bons eltá apparelhado : que nos acheguemos 

> cotH fittza ao tlíiono da graça , para que preceiçando 
«3 milèricordía lio auxilio o\iortuvtQ , Jiliiemes a corça, 
X que fe na6 murcha. » O que fe trata he coilà fama j 

'agora aquellas palavras aefpas , que lá vem , eíTas (fe- 
ja-me licito ufar.do termo vmgar) parece^ queempulhaó. 
£u fonhei hum dia , que me adiei n'uma allemblea onde 
eftarà hum homem venerando &llando rás inaterias de 
Heligiad i e como agora fe defconiia dos libertinos , que 
Êoftumaíí neftas matérias fallar por meia lingoa, ou co- 
brír-fecom palavras equivocas, e extraordifiarias j aquel- 
le varaô prudente, (mas que na6 tinha conhecin^ento deP- 
tas lingoagens velhas, ) ao ouvir a omró difcreio o díf- 
turlb (£) tneor antecedente, 4efconfiado, e ioquieto rcm- 



(fl) Fit (oratio) longa tt htpedita , «í . . . eam juAices jmiiltm 
agminí totidem lixas habenti , quod mHiteí Vtootu' in ffto et hm* 
wtnts eJidupteXi me ãmplum virium. Id. lib. VlH. cap. 6. 

(b) Tum demum iagetticfifeilicet , fi aã inttíligenáos tios , opus 
fit wgatio. Qcrnâ, lib. VIIL in Proatm, 

. Tom. K Gg . pêra : 



zedbyCoOglC 



pêra : Ah qoe d'ElRei , que temo herefia : querem-mé 
enlaçar! Q:ie he ifto ? Oje mt triguema dr entrar fta' 
quelte repou%9 : naó intendo. Q_ie nos acbeynmos , fim : 
ainda m; le nbri , qj.-eri pa!a»ria Je miiilii avó, mas ; Cfcje 
nos achegw^itQT cott fitzi a.) rhrono da graça : íorte 
boa ! Preealjatda a miíericordia .... letihu mi^do difto» 
Filòemyi a coroa , y«í fs naó murcha : peor , e mais 
que peor. 

M:i3 deixstnos 0'a fnnhos > nos quaes commuromen- 
te Te julgi entrar de .nill.ira alguma extravagância : paf^ 
íemos á ourra regra, que nos djxár^Ó os antigos mef- 
três da cioqusricij onde fe verá, qje no abufo da autho* 
ridade, e dos termo» , que fe ufáraô. nos fecuJos anterio- 
res, fobre aãfídaçaó ha confequencia mais nociva, que 
eo^n mjiio cuidido deve a mocidade Poriugueza preca* 
rer , tomando por princípio , que degradar os termasi 
nacianaes do nofo u(ò , para adoptar termos ejirangei^ 
ros , OH parare(libeiec?r os atttifuados , he querer faU. 
lar n^uma mefma Ihgoa diverfat lingoas , e indujir a í«é*- 
fazaS da- torre de BabeL 

REGRA lEL 

Nec ah ulrimis , et jam> oblltteratis repetíta temporíbus s 
regul ir-neate naS podem fervir as palavras trazia 
das (br pri neiros feculos da Monarquia y de ^itfji 
quaji naõ ba memoria* 

Pomos a clauCjIa regulamente , porque como a nof- 
fa Lingoa teve varias origens , iflb foi c-aufa , como j4 
diíTeinas , qoe fe coarervalTem dos primeiros Efcritores,, 
e do antigo ufo varias expreffoens , que ainda fe achai 
nos Aatliorcs proxinns aonolFo tempo.: o que naO acon- 
teceo taíito na Lingoi Gregi , ne.n na La-tina ,. quetive- 
raó origens mais firas. PorilTa diiTeims anC«s , que havia 
vocâbilosj que co n ferem antiquiffimoí na5 páflivaS' 
por antiquados, e outros mais itcenKs, -qite já «ftaô th 
quçcidos.. Sogr 

Cg.lzccbyCoOglC 



DE LlTTeiA-TVR A PoRTUGUKZA. IJt 

Suppofta pok a fobredita reftricçaã , 'O que dizemos 
«a regra £c deve entender nao íé dí^s palavras <ccii)lide- 
radas Hmplefinente , mas também confideradíis coUetfti- 
vãmente , ifto ke , das frafes , e modos de íallar do oíb 
-antigo. 

Quses fe^aã fts palarrae mais antigas , 1116 perten- 
ce a eile lug^rj fómente advertiremos, que humas (ò 
^nudáraõ a antiga figníBcaçaÕ, tomando autras análogas 
-á primeira como Lifl^9 , u , que os antigos entendiaâ por 
■Jimpo i ou ffiro ; Jioje fe tila na ilgntfi£sp6 de bmito , 
J-Qrmofo t ainda que íè naõ diz lindo , nem bonito em * 
-ÍJifcurfbs :gnaves , nem de coílas , ou peflbas ref peitáveis. 

Do imeíino modo afartunado , tf , íe tomava pix 
utnciadú , oppfimido de^íiflicçafi: hoje porém naí fe ufa 
tfeniÕ na £gn.âcaçaã de feiíz. Eflado dizi^-(e n'outro 
•tempo em toda a occrnluiÕ em que hoje íe diz pompa-, 
-apparxto : mas hoje Iti figitifica (^pelo que- relpeíca i ana>- 
■tegia da primeira lignificaçafi) a gente que leva em fua 
momitiva o.Pnacipe, e, os Giandes , e. ió na invedíiva, 
«a zombaria íc diz das pclíoas ordinárias ^ fallando do 
íeu traiamento elplendido. 

Confâriar le dizia amplaneme por eovfoUr : hoje 
Sàkuià reílriíftamence , e com propriedade na confola- 
çào , (fue íe dá às pcíToas conftertutdfls de afflicçaÔ; 
■<juando 'fe diz limplelinenteido piazer , que fe dá a ai— ' 
■guem , -ou que aJguem teiri , ferve o verbo cúnfolar. 

Outras palavras perdéraá-fe Je todo , porque as C0Í- 
■íãs vieraiô a ter novas denomina çoens. Aflim 'Sina por 
bandeira , cinto , -ou time por fiin j cimar , e enciwar 
•Í)or acabar , .coijcluir ; /r^rfr/> por apreffarfe , e os de- 
j-ivados tringanfa , prçífa , trigejb apreflaílG ; filhar ; 
tomar ; britar , quebrar , e outros , hoje naó il5nij1ca.fi 
jiadá ; perderão o foro, perdéraíj o ferviço, faõ defco- 
Jihecidas. 

Outras mudárafí a fómia Çó , como frennfura maia 

■antigo ; firmofura pofterior ; formtijura , ' moderno. E nos 

yetoo3 t Jartdes per fois ; aveder , por ha\eis , Jèredeí 

Gg ii por 

Cg.lzccbyCbOglc 



53Í Memorias 

por fereís , que hoje faó lingoagem barbara; 

Ifto fuppofto , de que rale hoje aquelle nos trr-t 
guerttJS de entrar no repouzo dos bons > e nos achegue- 
mos com tíuza ao throno da graça , e o precalçando a 
mifericordia .... filhemos a coroa í i De que ferre , £ 
X por eftss contas rem tambsot a c(riher-fe todo o fru- 
» tilo , e encimarfe o trabalho , e caoceira do eftudo da 
» FiloroSa &c. « Eítudadas, e fabidas a primeira , e fe- 
» gunda parte .... naÕ ha mais que &zer , eftá encimado 
» o trabalho : &c. » Talrez que fe o homem naô írí/^ 
» paffaje a l:y Scc, » Por naJi perderem o tempo .... 
» foem abraçar a ourem- pela Deofa. x Nem fejatt doS- 
\ tas ( as idéas adequadas ) na mefma çlaíTe daquellas ; 
A em qjje fe foem dividir ou repartir as idéas. Âífim 
n refhurou o Senhor zs falhas ^ e quebrantamentos , que 
> nós fízeinos á fanta Le^ da natureza, i Efta rinda mi- 
•M fericordiofa do Erpirito Santo rera remediar , e cum^ 
j». prir a outra faUia da Ley natural. CMi apraveJTe áquel-^ 
y je que nos ^u a immortal idade .. . . que .... Te amer^ 
». ceajfe de nós : fem o- que em ram , e defaprovetta^ 
» das fi quedam todas as humanas forças, x É poréa» 
4. nós outros fracos > e enfermos . .. que poderemos forr 
% zer de prol ? x 

De que ferre , torno-a dizer , toda efta fabrica de 
■palarras tiradas do Cartapacio , que fe extrahio dos au- 
tigos Efcritores ? de eclipfar os penfamentos ,. e aturdix 
totíí confufoens a quem lê , ou oure eítas , e femelhan- 
tes vozes iniuiditas, e naã praticadas na aclual liogoar 
gem-; p^ís que a obrcuridade he confequencia neceíUria 
de toda a lingoagem , que he eftranha , ou defconhechí 
da: (a) c que miferarel he o gofto de hum- homem; 



(a) At obfcaritas fit etiam ín verbis ah ufit remota : m$ fi 
tommentarios quis Pontificum et vttufiijjima fotdera-t et exoletot 
ferutatHs «aSorej , id ipfum petat ex eis , ttí quae indt toittraxe: 
ritynon intelligmm. Qui£i. lib. VUL cag. 2.. 

qUft 



Cg.lzccbyCoOglc 



tos LlTTERATURA P OR ¥ tT GD E Z A. l^^j 

que fe preza de huma fciencia íingular , qti« ferre parx 
naÕ fer entendido, e qae tem por coufa engraçada, e 
exquiCta , o que neceífita de intreprete ! (a) 

NaÕ metteremos porém na meíma nota o verbo af- 
f afiar t boa eipreílaõ , fendo antiga, e bem emprega- 
da, quando fe diz : » Se vós, vendo toda a linhagem 
> humana precipitada , e derrubada da altura de fua 
x houra , e dignidade, e attafcada no lodo de fuama- 
4 Ucia &c. X Éíta palavra diz mais que atoUaJa , e fé 
em todos os termos femelhantes houveífe igual efcolha, 
teríamos o goílo- de ajuntar aqui mafs exemplos de imi- 
tação , que de cenfura. Dirme-hatS y que gofto tenho eu 
ajuntando tantos com cenfura ? Faço-o livremente , por- 
que naô he diredlamente o meu aíTumpto a cenfura de 
huma obra » nem de hum Âutbo|- determinado , mas (6 
a cenfura da lingoagem- , venhad oS ciemplos donde vie- 
rem. Sigo a verdade, e naiS tenho nada com Ffatoens. 
E voltando ao propoãtot- 

Já n'outro lugar , fizemos mençatf de <7írtf«r , que 
iignifíca apertar, ou chegar huma coifa a outra com liga., 
ou correa &c. derivado do verbo Francez atacher ; e tam- 
bém de atacar , por acometter , de outro verbo Francez 
ãitaquer : agora atafcarfe y por iicar pegado , ou entala^ 
do em lugar donde íe naS páde tirar , perece fcr deri- 
vado de attacher no tempo em que os Francezes tinha9 
atajcber , e empefiher , Depefcher , e outras palavras de 
iealelhante forma j de. maneira que concorrem etymofo^ 
gia , authoridade> e ufa igualmente >, . 



(<^ Hine} tnim aliqui famam eruãitionis affeãant , m ijuae- 
dam /o/í fiire videantur • , , Pervafit- ^uidímjam muitos ifia per- 
Jitafio , ut íií jam demtim elegameK atque exijuifue diSum putetiP, 

guod imerprttandum Jit Id'. ib. Oratio vero , cujus Junimà 

virtMS efi perfpimitas , ^Min fit vitiofa ,j^ tgeat interprete. Id, Uh. 
Lcapitf4 



Cg.lzccbyCoOglC 



ft)4 Me-HõRiAS 

rAttacàr de Attacber 
em ^ .^ãcar de Aniquer 

CAttafigr-fe S' attafcher amigo 
Se atãfcã mais na atoiriro , dilTe o P. Bernardes n'u(n 
de feuE opufciilos^ e ombsm j)'ii(ni p^rie dae Florefias^ 
atafcãrfe no loáafal efpejfo , e oad íei oode mais traz 
«■mefuia expreíTaÔ. 

Â' vida do <íoe fica dito , quaee feráS dos Tocabir- 
los antigos os 'qne podemos feguir, quaes os que deve- 
mos rgeitar P Regras particulares nafta matéria ferririftã 
de.gavermir a difcriçaã , ou prudência humana , cuja inl- 
piraçao Te falta , -oe.ihuLnas regrjs a fuprem. Porém como 
app3niix da regra Ibbredica, po.le.n(ís ajuntar aqui aqucl- 
la excellente maxi-m do grande M.'flre da Eloquência 
A.omana ; v«n a ler , que como das vocábulos modernos 
yij meíbo-rss ar mais antigos , a^m ãos' vocabuias anti- 
gos :8S msis mjdíTfíOS feraÕ os, ' melhores, (a) Por vo- 
cábulos aatigos mais moiernos entend^-mos geralmente 
«quelles de qus Ufánâ os Eicritores m^is pruxiioos á 
noíTa idade. 

Mas íiaã bi^ri fómetite attender i (DoderaçaO na 
«ItiUiliidade , o&n a evitar a affbétiçaÕ , 'nem i qualida- 
-<k dos itermoa a Tsfpsito da fua antiguidade, por i£S} 
-áJQh:aremfi8< 

R E G «. A IV. 

•Nbn folum :noiniaa ípfa rerum coenofcemiK . . , Ted cui 
quodqne loco ricaptiffimum : (f) Os V0íabuliys <antí- 
^QS devem- fe empregar , feganda a necejfidade da Wíj- 
teriã , da obra , da JituaçaS das pejfoas. 

Por quanto affim no ufo das palavras antigas , como 
'na invenf i6 das palavras novas mais liberdii4.9 íe con- 

(<j) Ergb ut novorum óptima errnit maximt veterd , ita vtuttmt 
maxine nova. Id. íbid. 
(ft> Qiiina. lib. X. cap. i. 

cede 

DgilizccbyCAlOl^lc 



í 



DE LiTTEÍAtUKA PORTUGUIZA. 135? 

cede ao Poeta, menos ao Hiftcriador, menos aq Otin 
dor , e ^tenos que a eftf s , aos dcaiais^ A necefiidade julV 
tificã o ufo de tacs expre0bens , e efta decrcfcc por àe*^ 
grios, feguado os difftfreotvft géneros de tnaieriaE , e ex— 
Ceiità6 do ditcurío. 

Por iíTo aa PneJia , geralmente fallando , os vocabun 
tos amigos tem fcu decoro, e gravidade , oueras vezea' 
íraça pela nuvidade , ou raridade , princi| almente em af^ 
Funipto extenfo , onde naO conv:nhaâ os termos ordimi-^ 
rios ]i empregados. Já vimos o bello cffeitc do verbo an- 
tigo Soer naquellc Sonero onde liiun Poeta n^otíerno diif« 
£e com iconia de Poitugal , 

^«í o jnejm« jd naS ht , que fer Jeti^. 
E fe ifto por occafiaíí dada pode fer louvavef até «o Sõ*' 
neto , apezar das regras apertadas da locuçatí , que cto^ 
gem o Poeta ; auanto o lerá era Poemas mais dilatados? 
Por iHb aaõ foi inconíideraçaã eoi Ovídio ^ qaando diíle :■ 

mortemqu? timefiJ y cpfiduJipteJiurirL (rf) 

nem em Vi-^gilio, 

liquitíove potejlur eleSlre , 

fóra outras muitas mais antiguidades , que fe acbaCS nas 
boas fdijoens defte Poeta. Cert» por certamente , porqne 
oad feria inda hoje tad bem recebido na noíTa Poeíia còa 
ino foi na do Poeta Latino Forjit por Forfitan no livrq 
XI. da Eneida 

Ferjit vota facit» 
E na Comedia quem duvida , que o prndente ufo éc taes 
exprellbens contribua muito , já pisra a graciclidade , }4 
para a pintura dos crrsAeres das peJToas , que o Poeta ín» 
troduz y fe íaÔ peãba^ dqs fetulos i^ntigos , e principalf 
mente véllios , ou ruftjcos , que cuflumaô fer ra6 tena- 
zes das antigualbas do fallar , que , fotm) etksde fi di- 
zem , perra velho naÕ toma Ihgoa. Aílim ircwve porque 
naõ alfentaria bem na boca. 4e, Jjpffl ejeravo , leico vo- 



ta;) Metam. Ub. XIV. Fab. 5. 

cabulo >■ 



Cg.lzccbyCoOglC 



t^S M B U o R [ A S 

cabulo^ que fe na5 t«m por bárbaro, fenaá a refpeíco 
da fua antiguidade? Tereacio , e , mais que efte; Pl^uco 
feraã bons fiadores delia liberdade. 

Neoi ella deslizaria o com paUoril da Écloga , ou 
Idylio. Antes (por nad fer eu o primeiro me afoito a 
dizêllo) os PaÀores de Virgílio nas Tuas Éclogas íeriad 
mais Palores , iilo he , ferian mais naturaes , e fallaríaó 
mais ao paftoril , fe Virgílio lhes accommodaíTe hum pou- 
co da lingoageoi do velho CataÒ , ou dos Gracos em lu- 
gar da fralè mui grave , e polida dos Cidadads de Ro- 
ma do tempo de Àugufto. 

Na9 ficaria mal no noíTo Paftoril entejo , que os 
noíTos antigos formiraã de taefum do rerbo taed.re \ 
ncmettfeja^ que Camoens naô duvidou de empregar do 
fcu grande Poema : (a) 

Depois obedecendo ao duro eiijèjâ. 
Para o meímo intenta ferviriaõ bem as antigas formas 
dos rerbos : mido por meço como, 

NaS midai o pajfado eo prejente : (í) 
E bis por hídes , como 

P9rqve bis aventurar ao mar iro/h (c) 

Effa vida-' — : — ^^- — — - 

£ outras muitas coifas lemelhantes , que fazem muita 
parte da Teroílinilhanfa, e ingenuidade nos Paftores do 
noífij Bernardes , e Sá de Miranda, como já moftrámos 
ii'outra Memoria. 

■ A Hiftoria tem entre -as coropofiçoens de profa iinm 
iggar próximo á Poeíia , e por iflb naã he de admirar , que 
nefta parte , como no demais que pertenc» á locuçafi fe 
permitta ao Hiftoriador mais , que a nenhnm outro Ef- 



(tf) Lufiad. CMt. X. Eft. 42; 

(A) Id, Eleg. ,. 

(O Lufiad. Cant. IV. Eft. 91. 



zedbyGoOglC 



DB LlTTSSÍTVRA PoíYUGUEZA. Jjf 
icritor ■ fiToiaico : (a) pois que a Hiftoria he huma efpe- 
cie de eípeiftaciílo-, e na íua antiga origem foi fempre 
allunipto de Poefia , e ainda tem feus prÍTÍlegÍos , àe que 
iè naã podem aproveitar os Oradores , por iflb nada -ihè 
he taã neceílarioeni lingoagem, como a gravidade , e va- 
riedade, de eipreíTaâ. Tipo Livio o moítrou na abundân- 
cia , e riqueza do feu eftilo ; Saluftio emulo de Thucj- 
didefi na lua foncifaó ; e ainda Taciío efcrevendo n*iim 
tempo em que os engenhos refinados apenas confentiaQ 
coifa, que ctieiraífe a antiguidade, diíTe-com muito juí- 
zo ^ í«fe///gf»ífíK A;/ihí7«í divini^ue júris mentem dtt' 
ÍHt : onde duinl cahe bem na peílba de Tibetio , que era 
apaixonado pela língoagem antiga, (^) ' ■ 

AíHrn , eaderefanao as .(qualidades fdo homem) a» 
fim da fua creaçam, que em difcurfo efcoUftico moftra 
velhice defprezivel , n'um corpo -de Hiftoria refpeita-íe 
como aatiguidãde veneranda, (r) 

E aquelje metafórico de alterojos , e affotuarvas^y 
que he humá peíle de aflètflaçaí^ naquelíe * Oh fe hum 
> dia vos fofle dsdo entrar ds Paços altersfos da Filo- 
1 foíia , e .ajffomarvoi a 'qualqu.:r de fuás guaridas , ve- 
:> rieis &c. ■» mudado para o ufo próprio , quadraria be^' 
lamente na Hiftoria , ou em Poefia. 

. Tamhem alií feria mais próprio , e mais grave aguar- 
dar , jdo que onde fe dii ; Quem nos ejlarl aguardando 
ao poço ^ para nos dar a agoa faudavel da vida , qué- 
ejlanca , e mata para fempre a fede &c. , c pouco de-' 
pois no.meÚQo diícurfo, x Mandalhes, que depois fua 



ia) Súarmt plerafqu^ tjus virtttíes oratori ejfe vitandas. £ft' 
enim próxima poeti$ et qttodammoão tarmen Jolntum . . . lâeoque et 
verbis liherioribus et rtmotioribm (liuris nanandi tatdmm -ívíMí. ■ 
Quina. lib. X.cap. i. ■ ■ , ■ . . 

C*) Tacit. lib. IV. jinnal. • 

(Õ Propriis disnitattm datantí^uitat,- NéUiufue et JanXortm 
tt magis admirabilèm faeiunt orationem , quibris non quilibet fue- 
rat ufurus. Ooinfl. lib. VUI.cap. l. ■ .; 

Tom. V. rib Af- 

DgitizedbyGoOglC 



9 Àfcenfam etociofa k oatf fabam de Jerudlem, ma» 
% que aguardem ahí a promeíla do Pai &c. 

A Outoria pede nifto muito maior moderaçafi , eC- 
colha , e difcriçad ; e lòbre tudo a Oratória fagrada , 
porque * comov os Medres eníina6 , he huma Eloquência , 
que efti ligada a aOiíaípco , lugares do aiTumpto , e ou- 
vintes. Aqui^/Aar a coroa da bemarenturança , precaU 
far a misericórdia y acbegarfe com fiúza ao throno da 
graça , trigarfe de entrar naquelle repouzo » e coifas fe- 
ineUiantes, iatí , naó digo íó palavras defperdiqadas , mas 
monítroe de palavras. He como fe na liogoagero civil, 
e polida de Cícero entre poze0emos aqui , e ailí Nenum , 
ou Henu , ou Nem por oon ; Tâper por cito , Jntigeria 
por valde: vitum animo fa por ílio: perfecit ja pace 
por fua ou et : qui per rirtutem perèitaí, por perjt : Mulie- 
rçiQ fpras hffre julTit, e feoielhanteB expreflbens da ran^CH 
fa antiguidade , que Augufto chamava verbomm faet^ 
ref, (a) 

Nad enjoaria porém a palavra nv/ , fe íe fallaíTe do 
povo Chriftaô de que fe compun^ a primiiiva igreja ; 
neqi <Hti:rD3 vocábulos defte lote , poftos em lugar opor- 
tuno ; antes teriaó graça , e gravidade. 

No eftllo faíiiiliar da coover&çaõ, ou das cartas; 
que ped« os termos correntes , e naturaes \ e no eftilo 
iblido, e feréro doi traíflados inftnuf^ivos , cujo ponto 
eíL-ocial he dareza > e conciíaó ^ efcufado hc declarar o 
e^ico da vi, diligencia dos curíofos , que fe apoftaíTera 
^ íncukar espreOoens antigas , ou ainda menos conhe- 
cidas : porque he de crer , que feriaô nagos de huns com 
rifo , de ourrbs com defprezo. lílo fallando do ordina- 
tio: porquo páde dar-fe cizo em que a seceffid»de> ou 
HCilidAde de aleuma expreÕaâ a íàça defculpavel , ou ain- 
da piaufivei i íobre tudo quando fe efcrêve a homens dou- 
tos, e inteUigentes na lingoa., £ ainda enxalí , quando 



Ca) Suet. in yita Jitg, cap. W, 



DigitizedbyGoOglC 



jdguma palavra parece mais dura, fe lhe coíhinía' janrar 
ftu coitÊÍlivo , V. g. p»ra affim áister , a falhr térttó ef- 
nojfús antigof , ou , fija-me licito »far ãa frafk ia noffè 
Barros , ou coila femelbaote : no que íe vê , que ufa- 
jnos de taea expreíToens , não por kreza , ou jaélancía , 
mas com juizo , e bfa advertência. Cícero tad exaílo co- 
mo iie nas Cartas ctlamadas Familiares , cm- naÔ fcguif 
fenaô a lingoagem do ofo mais polido \ nafr que efcferefr 
a Attico natí elcrupulízou de ufar As NoS^uabundus ^ Rau- 
dufcttlum , Averntncare' , Muginari , Tricari , e alguns 
outros termos , que eraÔ do Latim velho ,, mas que fe- 
gundo as cireuiiftancias do (ogéto a quetn ''efcrevia , fa- 
ziaõ hum eítilo ameno, e defenfaftiado. 

§• IL 

De a^mat palavras Pertuguezas , fw falfameftív fe 

tem por énti^tadas , e àe owras injofiament* 

reproVMãat. 

Quaedam aãbuc vetere vetujlate i^fâ gratius 0ttn^\ 
quaeàam etiam neceffariú ijtíerm Jumuntur. ifiy 

Quem lêr o Capitulo XVII. da Origem da Lingpa 
Portugueza, dizendo o titulo de alguns vocábulos an- 
tigos y que fe achaS em Scripturas , e jua interpreta^ 
(aõ y facilmente fe perfuadirá , que todos os que o Au* 
tlior comprehendeo najmefma Lilta , faõ da mefma nota 
de antiguidade ; e com effeito tenho achado alguns Au- 
thores modernos, que a credito de Duarte !fvmues , ou 
deixaô os vocábulos, que quizeraÕ empregar» oo ufa6 
defles a medo, e com efcrupulo , como declaraé as re- 
falvas , que lhes ajuntaÕ. O meímo acontece a refpeito 
dos que efte Author pÔem no Capitulo feguinte em tittt- 
lò de vocábulos pUbêos de ^ue ninguém deve ufar. Po- 
i^ em ambos os dois lugares ha engano : .no prioieiro, 
porque o Auihor confunde algumas palavras , que na 

(ííj Quínél. Infiit, Orflíor. ÍBpra. 

Hh ii ver- 



;C(>ogIc 



340 MEHOltfA^ 

verdade Saè antiquilTunas , que natf fe achaS fenaS- em 
Efcripturas , ifto- Jie> Doa^óens., e Tiíulos aotigos, com 
outras, qu'j fe acbaõ nos bons Eícritoies : e tambej-a 
no fegundo , oode miílura algumas palavras de boa nota 
com outras , q,:ie juftamente merecem o lituln de p]e- 
béas , ecomoutras^,. que nem faCi plebéas , mas íó aati.~ 
quadas. Para. tirarmos pois huma , e outta confuJaÔ. , ú-r 
xemos da primeira Liíta as feguioies.. 

A R T I c r. 

Palavras antigas de. ham ufa,. 

Aquecer : teve duas Itjgnilicafoení : i.* adiva de aquen^ 
tar , ifto he , dar calef: 2.* neutra , de receber ca- 
lor: na^ ^FÍmeira ainda fe ufa no eftílb Bintíliar,. mas 
naS em efcritos maís graves ; na í^nda he bem ufa- 
do , e neceíTario , e .diz-fe do que vai recebendo ca- 
lor poucQ , e pouco : por iíTo dizemos a agoa aquer 
" f í , e naô , aquema-fé &c. De calcnte vor do verbo- 
calère k formou o adj.Wfffff, e defte o verbo Por- 
ta^.. aquentar : àe.calejcere fe íez aquecer. Na6 ha 
lògo razaÕ para fe ter eftfe verbo por amiquado , ou 
taõ defconhecidô , que neceífiíe de inrerpretaçafi. 

Arrefecer , perder o calor , ou , como traz DUarte Nur 
nes , abatxar'fe afervará^ Creio, que foi" derivado- 
do latim irregular aerfàcere^ Ná6 fel donde veio ao 
fobredita Authoc pôr efte verbo entre os antiquados,, 
toa que neceditaá de interpretação ; fó' fé fé equivocou 

■ com arrefentar y que fem duvida he antiquado, mas 
necelíàrio, fe quizcrmos ter mais hum verbo de. fignir 
ficaçaó' aíliva fára do verbo esfriar. 

'Aturar , quem duvida que he, verbo bem ufado , e. na. 
lignificaçaô aeliva o temos no.mefmo Duarte Nunes ,_ 

■ qiiáfidodiz: (Chron. de D'. Férn. 213..) Ê slli efpe- 
rou^ or feas , porque o naÕ' aturar a5 mais que féis dè 

'cãvalio. Pois lu iignificafaíS. de.jtír/íiíírdr em que dle 

opõem 

Dgilizc-JbyCoOglC 



deLittksaturaPobtugueza. 141 
o ipòem na lllla dos vocábulos antigos , natí he me- 
nos ufa do. ' 

atroar r que neceflidade tem de interpretaçoens ? A raíz 
donde le deriva he trem palavra imitativa , que foi na 
noíTa Lingoa ufada antes que vielTe a palavra tiro ^ 
. e que exprime pelo fom o mefmo obje^o , que expri- 
me a palavra tiro , deiignando íimplefmente o movi- 
mento. Por tempo foi addicionado efte vocábulo , que 

. parecia mais elemento do que palavra inteira ; delle 
& formou a palavra efirondo nome, c atroar verbo. 

. £ onde vai aqui o horror de antiguidade ? Onde efta6 
as trevas de hum termo taâ aíHftído de boas autho- 

. ridades , e de laâ natural etymologia ^ 

» Temos em Barros : » j^azilanão fogo , vaporatr- 
■% do fumo , c atroando os ares. (a) E « Sahiram com 
» hum alarido > que atroou o rio: (^) >. &ra outros^ 
lugares. 

De Camoens he : (e) 
Erpedaçam-fe as landas , e as fretpientes' 
Quedas co' as duras landas tudo atrOam> 

E também : {d) 
Fazem os bombardeiros feus officioT 
OCeOfO terra., as ont/^M' atroando. 

Confortar ^ verix? de que acima falíamos. Seja o auc 
for da fua antiguidade , he freqiientíírimo- o feu ufo , 
como também de conforto fubftantivo , donde foi de- 
rivado , fc naõ foi ímmediatameDte do Latino- confor- 
tare , que he de Laâancio , de S. Cypriano , e do 

- interprete da Vulgata.. Ã diverfa propriedade de con- 
fortar^ e confolar , deque já falíamos, o £az taôufa^ 
do como necelTario j e he para admirar, que Duar-, 



(íi) I. VII. 64 

'"^ Lufiad. Cu 

Cahc II. £ft..jtQ. 



,fô X«/íMíV^Ca^l^,IV. Eft;?n 



zedbyGoOglC 



«4* ■ MxK&RIU "• 

te Nunes o fuppozeãia tsA remoto do coahccimeato 
commura. 

E/mirar , efmtrarfe , ejkuraio , efmeradamente , e a 
fubllamivo efmero , quafi exmero, CxkIo veio dá. raiz 

. Ladnz )»;r»j adjeél. , e parece ter o figniíkrado fua 
analogia com o Latim antigo atíqaid ad merumprr- 
ducere , ou melhor ex mer» alia^uid ízcexz , que vadia 
pelo latim puro acçurate aliqutd fa^ert ^ ou ^t^t- 

Fagueiro , por meigo ; menos ulado he do qae afegos , 
atFagat , mas raè tanto , que fe exclua do \xío familiar. 

Finado , no fentido figurado be aílàz. uíada exprcílàâ , 
e digna de qualquer eftilo da Eloqtiencia. 

Grei , de grege , como Lei de íege , Rei de Rege , 
principal mente no fentido figurado be termo de ve- 
neranda antiguidade j eagra^do ao &aiiliar, grare 
no oratório , niftorico , poético. 

Liado , já pouco antes diiTemos , que na fua primeira 
Íignificaça6 eítá defufado , tnas nas íignifícaçoeiís fe- 
cundarias lic hem conhecido. 

Oufano f ou, como hc^e dizeraos , Ufava^ cftima-o co- 
mo palavra Portugueza , quem naâ qaer dizer íem- 
pre vaidofo , jai5bancÍoib. 

Quebrantar por quebrar , fe no tempo de Doatte Nu- 
nes fe nsÔ scliava fenafi nas efcripcacaa amigas , e 
neceffitava de interpreta^, naÔ lie beje aíTim v eos 
que fe nad atém a efcrupulos vãos, reconhecem íer 
jiqueza na lingoa , que faaja quebrar mais para (os 
objc^^oe Riaíeriaes , e queifrantar pars as idéas no- 
raes , como cjuebrantar a ira , o juramento , os man- 

- datnentos Divinos, as leis do Soberana âcc. 

Sattha f ira, indignaça6; vocábulo, de qnc já &llaitios 
n'outro lugar , derivado do cafo latino fanie \ huma 
' das melhores metáforas , qiíe nos deu a língoageih La- 
tina. Saubuão , adj. derivado menos ufado \\s. Mas 
Nunes devia faber , que fe alguns vocabuios laÔ mais 
raros nos efcrítos dos AotJiofes daLiirgea, na6 po- 
, demos logo inferir, que íe ticiraã- fechados rtasefo-H 

pturas , 



DE LiTTBRATVRA PORtUGUEZA. 34<t 

. ptitras y doaçoeos , e regimentos antigos. Lucena ne- 
nhum bafio achou nefte termo , efcrévenÓQ : n A fa- 
» nha lha tinha foffreada o rerpeíto da authorida- 
» de. » (a) 

A R T I C. 11. 

De algumas palavras fans , e limpas , que fe jul- 
gaõ plebéas. 

O outro reportório de Duarte Nunes , <m que ajfi- 
nala as palavras plebéas, que (como elje diz) os ho- 
mens polidos naó devem ufar , nafi he menos fslíb , que 
o antecedente. Naó argumentaremos contra a errada ídéa 
de plebeiuno , e vileza fai^icia das palavras, viílo que 

Í'á aiflo faliantos em feu Jugar devido , íbppondo efta 
luma das caufas de decadência na Lirgca Fonugueza : 

fónienre faremos revifta de algumas expreíTóens , que 

por fcntença defte Author tem padecido a injulU infa* 

mia. Taes faã : 

Jljfente , focegado , repoufado , do termo latino aJftAiTite , 
como Rente de raãente ; he adje^. de iiLma ló f^ima* 
NaÔ me efcapou obfervar, que apontando o Diccionario 
da Academia Keai a cenfura de Duarte Nunes acerca de 
outros vocábulos , nefte naâ faz menjafi delle : Jinal , 
que naC! aprovou o feu juízo ■, e cem razaô. A analogia 
confta i a etymoiogia na6 he disforme ; o ufo he jnani- 
fefto. Dizem ter a maÕ ajfente : ejlar ajjtvte , cu , A 
animo ajfente. E Soufa Coutinho {b) elcreveo; lt Eu o 
» vi huma vez tir commvita prtjffí ^ mitii^o ímkam 
» pequeno , í trijle barco ãe Fejcedores , e o mar , que 
» fiaS aadav muito zQente, » AlEm fe diz j á hoje (•yfijr 



(a") Fida de S. Fianc. Xav. iiv. V. cap. i j. 
\V) Cere. I. I. 



Dgilizc-JbyCoOglC 



i44 MekohiAs 

(ír levante , illo he , Tem foccego : abreriaturá , em ÍU" 
gar de aaimo ievantaáú. 

jítahafar , outro vocábulo, em que o Diccíonario -da 
Academia deixou a cenfura do nolTo Critico. Efte ver- 
bo he compofto da particula antiga atá por até ; figoi- 
fica abafar até.^naís jiaâ poder, ifto he , com muita 
força, ou com fumnia cautela ; diz-fe das peíToas , e 
das coifas , e Nunes interpreta , encobrir com eti^ano , 
porque algumas vezes fe ufa em má pane. Bernar- 
des , que naõ lie qualquer dos bons Efcritores da nof- 
fa Liogoa , duas vezes, pelo menos, ufou defte ver- 
bo nos feus Opufculos afceticos. Numa pane di2 : 
» Naã ha coufa, que mais depreíTa atabafe a cliamma 
» do fogo , que hum celto de terra lançado em cima.» 
(a) E noutro lugar : i A mulher atabafando dentro 
1» em fcu coraçafi o fobrelalfo lhe dilfe &c. t (í) 

Definharfe , compofto do verbo finar-fe , ficai^defunfo ,■ 
donde veio o xermo finado por defunto , interpreta o 
Aiíthor por gailar-fe , ou acafaar-fe ; verdadeiramente 

-' he hir-fe emmagrecendò lentamente , e cada vez mais 
até finar-fe. Já fe vê a importância defte vocábulo pelo 
modo com que lignifica , e força , que naã tem o termo 
vAgo emmagrecer. Pelo que, eó^era-fe que as Mufas 
Portuguezas abençoando efta , e íemelhantes expreíFoes, 
as tirem do máo fado, em que as metára6 eftes Tittera- 
rios calumniadores : aliás pode-fe pelo reportório de Nu- 
nes pronofticar , que paupertate firmonis laborabi- 
mus , \ .quòd iniqui judices adverftts nos fumus. (c) 
E porque natí entrará nefte refgate o verbo : 

Atermar , aflinar termo, fc. de tempo , ou aprazar, pôr 
tempo certo ? Porque naó teremos hum verbo deriva- 
do da palavra Portugueza termo} Se eíla nafí he bar- 

C<i) Medh. Paraiz. i., 2. 

(Jf) Luzy e ca}. -2^, .1, i->6.. .. ■ . 

(e) Quina. Iib. VIU. cap. ^ 

bara , 



Cg,l,zcJbyC00glc 



deLittebatuha Poetugueza; 14^ 
bara , nem tofça , nem disforme , porque o ferá p de- 
rivado, fendo laô regular ? NaÔ vejo que ferrtigetn 
lhe podefle defcobrir Nunes , nem porque o na& deva6 
ulàr homens polidos. Que lêja termo antigo, embo- 
ra : por tal o reconhece o Diccionario da Accademia 
'Real, e cora razaõ ; mas na6 o dá por termo baixo, 
ou incivil pois lhe junta huma authoridade aífaz gra- 
ve no texto feguinre ; » E chegou fe o tempo do dito 
i Concilio , que o dito Papa Clemente V. aierraou 
» aos Rex , e Príncipes Chriftãos para determinaçam 
•» da ordem do T<.mpJo , e de fuás coufas. » Mas fe 
he termo antigo; he tal, que fe o naÓ houveífe deve- 
ríamos muitas obrigaçoens a quem o iniiovaíTe. 

ii»/««iír-7f no fentido próprio he termo náutico ; no me- 
tafórico he [ermo moral por enfobcibecer-fe , ou mof- 
trar arrogância : o mefmo ufo tem o pardcipio enfuna- 
do , e apezar do nojo , ou efcrupulo de Nunes , he ter- 
mo aíTaz corrente , fe naó no eftílo grave , ao menos 
Jio familiar. Se naÔ , veja' quem eíliver livre de preoc- 

^ cupaçaô , donde vem aqui a baixeza , ou indignidade 
a efte termo ? 

EJmerar , e (fmerar-Jè , íad os mefmor termos , de que 
Jia pouto falíamos : mas o noffo Filólogo naô fó os 
confiderou por huma parte como vocábulos antigos , 
mas também por outra os dá por vozes plebéas, im-- 
pondo-Ihes feu interdidto , para que os homens poji- 
dos na6 peguem delias. Do que dilTemos da fua anti- 
guidade , le pôde colligir o que devemos crer da fua 
baixeza , fem fer preciío rogar mais fundamentos. 

"Efcarmentar , aprender da experiência do mal , ou do 
caítigo paíTado , e em fentído figurado fer experimen- 
tado nos males , ou perigos , ido he , acautelado : na 
mefma fignificajaÔ temos o feu participio efcarmen- 
taão , e o fubftantivo efcarmento , que he no latim Do- 
cumentum, O noíFo Joafi de Barros efcreveo : (a) n Fi- 



(a) Barr. 

Tom. K 



m. VI. 8. 

li 



Ic.byCoOglC 



14^ Memorias 

» carom as Fuftas tam efiarmentaias do primeiro co- 
> metimento , que nam rornarom aly mais. » Eeifaqui 
hum termo taô proprio , talí Portoguez , taô afleado , 
que o Nunes rifca do numero dos vocábulos polidos. 
Talvez fe equivocou com ejcaldaâo , ejlar efcaldado , 
metáfora , que fe diz por efcarmentado ; mas nem eíTe 
he termo baixo : ou lhe veio á cabeja que efcarmen- 
tar era termo corrupto de experimentar : outra illufaô. 
Outiva, vocábulo contrafto de auditiva: muiio pró- 
prio, e familiar, mas naÕ indigno de homens poli- 
dos : aíTaz frequente nas frafes , 

andar ~í 

fallar > de outiva 

efcrever&c. j 
Tnlc o mefmo que inconfideradamente. 
Rechaçar, repulíar, repellere, propellere , derivado do 
Francez Rechajfer. Quem nos dirá , que razaô teve 
Nunes para profcrever efte vocábulo ? Seria , por na3 
fer amigo dos vocábulos Franceses , que a nolfa Lin- 
goa adoptou ? Eile fabia pelas Chronicas da nolla Mo- 
narquia, que a França fempre nos deu muito boas 
palavras , ainda quando na realidade mais fe defviou 
dos effeitos delias. Mas fe eflas palavras fôraÕ vazias 
para osjioífos intereíTes na lingoagem Fratíceza , encor- 
poradas na Língoa Portugueza moflráraõ melhor efi- 
cácia , e romárafi o tom conveniente de conftancía, 
própria do caraétér Portuguez. Aííim nad vejo moti- 
vo , por que efie verbo fe exclua do nnmero das pala- 
vras polidas , admittidas , tantas como fe contém do 
Capitnlo XVI. , e ainda mais. 



Dg,l,zcJbyCA>Oglc 



DK LlTVE» ATURA PoRtUGUEZA. J47 
5. III. 

23í algumas palavras , que fe vaõ efquecenda , e Je âe- 
viao confervar. 

Qiiae vetera nunc funt , fuerunt olim nova. (a) 

Outros vocábulos ha , que durárad muito tempo de- 
pois de Duarie Nunes de Lca6 > e fendo perfeitos cm 
todo o fentidò , quafi já fe naÔ ufaÔ ; Tem fe conhecer 
outra caufa mais que , como jà poderámoa, o perder-fe 
a familiaridade com os bons Eicritores , e bufcar-fe a 
elegância , e energia da Lingoa > ou no ufo vago , ou 
fora da mefma Lingoa. 

Se alguém hoje dilTer com Lucena , baflantijjima ra- 
zaÕ , diraB , naâ fe ufa. Humildiíllmo, faciliflimo, dó- 
cil iffimo , miferabillífimo &c. fazem nojo aos fuperfticío- 
fos, que eftao atados aos fuperlativos particulares dos 
Latinos, e ni6 tem orelhas fenaõ para miferrimo , hu- 
milimo &c : os outros eílranha6-fe , porque fenaÓufaS; 
irias porque deixáraõ de fe ufar ? Porque houve rempo, 
em que fe na6 lêraQ livros Portuguezes. E defte nume- 
ro faÕ muitas palavras Pormguezas , de que já falíamos 
em diverfos lugares , cuja falta he aíTaz fenfivel aos que 
fabem o que valem as expreíToens finas , enérgicas , vi- 
vas , e agudas em feus lugares. 
Atafcar y de que ha pouco faltámos he huma das que 

devêramos livrar do efquecimemo. 
Agricultar , boa exprelTaÕ de Barros no fentido pró- 
prio , e elegantiílimo , ainda que hum pouca dura 
no figurado , quando diz do commercio de Guíaé : 
í Se o foubermos agricultar ^ e grangear. % 
Afracar y naó era máo que andaíTe junta com fraquear: 
palavra de Barros , e de outros bons Authores , de 
quem a tirou o P. Vieira. 
Cumprir , ufando-fe impeíToal , por convém , he obrÍ- 

________^ li ii gaga6 y 

íd) Quina. lib. yni. cap. j. 

Cg.lzccbyCoOglC 



-348 MBMOItlAS 

gaçaõ, já hoje o aclio refuícitado em alguns Efcritos 
modernos , mas ainda fe efcreve a medo ; termo , de 
'' que ufa frequentemente Barros , Lucena, e outros da- 
quellc tempo. 

Defender^ lie termo muito commum nas ordinárias fí- 
gniíicaçoens , que adinitte o verbo latino ãefendere ; 
mas na rignificaçaÕ de proliibir , tomou-fe do Francez 
ãéfenãre. Por iilo alguns o recufatí , ignorando , fer 
lerino recebido na faa antiguidade da nolFa Lingoa, e 
authorizado dos bons Eícritores. Barros deliu uía mui- 
tas vezes. Ccmprova-o o ufo vulgarilfimo que ha em 
dizcr-fe armas defejds , terras defefas , e ainda do 
fubftantivo defefa , fignificando prohibiçaÔ. 

Demandar ^ por bufcar , ifto he , hir para alguma par- 
te , também nos veio do Francez demander nefta lig- 
nificaçaõ \ mas eftá de poffe antiga , abonado com a 
authoridade de Barros , Souza, e ouiros. 

DeJUnto , ou (fe quizerraos) Dijiinto , era algum dia 
hutna palavra muiio Portugueza , muito exprelíiva , 
para íignificdr o conhecimento que os animaes tem das 
coilas, Perdeo-ie efla palavra, e ha hoje quem a jul- 
ga barbara , e ptebéa : e porque ? Porque a Filofo- 
fia Efcolaftica com outros termos das fuás cathegorias 
meteo-nos em caza mais o vocábulo injltníio , e co- 
mo era palavra de Filofofos todos fôraõ atraz delia ; 
mas deJliníU dilTe Barros , como bom Portuguez , e 
outros Efciitores daquelle tempo. Efte he derivado do 
verbo dijlíngujr\ e vai o mefmo que tino , difcerni- 
menro i aquellá naò vem de íHjlièir , como alguns 
diíTeraÕ , mas do nome injiinílus , derivado do verbo 
■ wjiinguo , na fignificaçaô de inftigar ; defufado entre 
os Latinos , os quaes' le ferviraõ fó dt injiinítuj adj. , 
, e de injlincíus fubftant. , lignificando Impulíò , inlli- 
gaçaÕ, infpiraÇaô , mas naÔ ufava6 deite termo para 
ászhxzr a(\\ié[\^ fagacidade natural, com que os ant- 
niaes conhecem , e bufcao o que lhes convém ; aliás no- 
íitia , vel cogmtio rerum a natura infita animantibm. 

Em- 



zedbyCoOglC 



deLittkraívra PobTugoeza. 149 

Embeber , tem nos noflbs Authores excellentes metáfo- 
ras, que naã faÕ para fe perder: taes como , Embe- 
ber a frecha no arco : Evweber por gaftar , confumir 
os bens, fazenda &c. Embeber ^ por envolver, con- 
fundir, efcondercom dilfimulaçaÕ. 

Enverdecer , de evirefcere , e Reverdecer de revirejce- 
re , tinha cada hum fua peculiar propriedade , cq- 
mo ha nos Latinos , fignifícando o primeiro fazer- 
fe verde , o fegundo tornar a fer , ou afazer-Je ver~ 
de. Hoje quafi fempre fe ufa de reverdecer indifFe- 
renteiiiente no fentido abloluto , e no reftrifto , con- 
tra o ufo dos Efcritores da Lingoa. Cuja mudanqa 
creio nad teve outra caufa lenaõ o elquecimento do 
primeiro termo. ' , 

E^ixergar ^ diria Nunes fe víveíTe no noíTo tempo, co- 
ma dizem os muitos , que efte he termo efdruxolo. 
Quem fabe mais , e melhor da Lingoa Portugueza co^ 
nhecerá , i". que era huma expreíTaõ mui própria, e^ 
enérgica , fignificando vêr bum ebjeSío naÔ. de todo ^ 
mas confufa , e imperfeitamente , e quanto bafta pa- 
ra ter delh conhecimento.: z". Que era aíTaz authori- 
zado de João de Barros , de Lucena , de Fr. Luiz de 
Souza , e até do P. Vieira : 3°. Que verdadeiramente 
natí temos outro termo com que o fupprir ; porque avij- 
tar , he chegar a vêr, ou alcançar com a villa , pro- 
cul profpicerE-j-^oiía differente ; divifar , lá íè chega 
alguma coifa, raasjnaó diz o meímo. 

E/correr , tem a prppriedade do latino excurrere , que 
he extra currere , hjr de paíTagéin por alguma parte , 
ou (como o tomou Barros) paíTar navegando, fem to- 
mat terra ; como Pareceulhe ter efiorrido as Ilhas 
de Maluco. 
Enfrear , refrear , foffrear , defenfrear : deftes quatro 
verbos , que ferviao de riqueza á noffa Lingoa , enfre- 
, ar , efoff'rear'c^& quãfi em efquecítnento. E iiaÕ ha- 
veria dimculd;ide em os reftabelecer : mas como ? .apli- 
cando-os nas obras úteis , e bem eícritas , onde a fo- 

lidesi, 

Dg,l,zc-JbyC00g[c 



2jr0 M B K o K I A 9 

lidez , e intereí^ da miterU accredítarU igualmenn 
os Autliores , e os rocabiilos oponunam«iite appljca- 
- dos ás idéas , poito que chamados do ufo deícrto : 
onvle pela leitura íe coinmunicariaâ á imaginação dos 
curiofos , nccorcndo-llies com as mefmas idéas , e dahi 
palTariaã á conrerfiifaÕ na occorreacia das mefinas 
. idéas. Eu diria enfrear nas occafiocns , em que ió fe 
requer prudência > ou cautela, como, enfrear s tín- 
gea. Diria refrear , quajido iie precito maior TÍolen- 
cia contra as paixoens , como refrear a ira , o ani- 
mo f os appetites. Diria foffrear , quando nad fe re- 
freia de todo a pa)xa6, mas fó fe ufa de algum come- 
dimento , como no exemplo de Lucena , que acima 
pozemos. 
Fmnàiar , fundir-fe , ou hiríe ao fundo, "t 

Montear y andar ao monte. 

■Marifcar y andar ao marifco. ( 

, Ornamentar , ornar, í" 

Voltimar , fazer rolume. j 

V&ltear , andar is voltas. J 

Sa6 expreíToens , que fe deviaã confervar para va- 
riedade de ellillo^ e concifaâ de frafe. &c. Delias acha- 
r«DOS em Barros vários exemplos do feu ufo. 
ihemnportavel , bella exprelfaâ , e barmoniofa , muito 
Ordinária em Barros , Lucena, Souza, e outros bons 
Efcritores , quem diria que he fuperítua tendo nòs 
infoffrivel, mfupportavel} 
Leda , alegre , de laetus \ 
Ledice , alegria , de laetitia } 

Madureira contenta-fe com dizer, que faô palavras pou- 
co ufadas , e lica-fe : he de admirar como nad as quiz 
revendicar o Grammatico mais parcial das palavras aia- 
linadas. Podia dizer ao menos ^ que as deixalTemos 
aos Poetas ; fem embargo , que Barros , e outros Au- 
thores píofaicos delia uiárad. Maa bem poderáó ain- 
da refgataltas do poder dos Poetas os Èfcritores da 
piofa i fi vtlet ujus. 

Mef- 

DgitizedbyCoOglC 



DE LiTTBS ATURA PoBTVGVEZA. ijl 

Mtjquinho y a por núferavel , ou deípraÍTel , oa aind* 
naô efpirou de todo , ou prmcipia a reíufcitar-fe , ^ 
ainda parece efta palavra ratí bem aJTeiçoada como 
quando Lucena efcreveo : » N»5 era/S os tjue fe con- 
> vertiam fós Mouros mefquiíthos , antes muitos da 
» melhor nobreza &c. » 

Mijier adj. neceíTario 1 

Mijler fubft. neceffidade j" 

Como os Latinos tinhaÕ o feu Opus e vecejfarius \ efus 
e necejjitas : a (fim mi» tinhamoí tnijhr e nueffarh ^ 
mifter , e neceffidade em ufo correfpondente j porque 

fie mifitr , ~\ adj. r op>cs eft 

Hà mtfier , S^ fubft. ^ opuS babct 

ítfs wi//?ír, i fubft- C íacit opus (*) _ ^ 

Era6 frazes tnuí frequentes ^nda em Vieira \ que 
viveo tad vizinho do no^To tempo; « nas fuás Cartas 
a Marquezes , e outras f>efl<)a6 da fua correr|>en des- 
cia he taõ ordinário eíl:« termo, que mudando dle ' 
muitas vezes de penna , nunca Aioda á claufula coftu- 
mada , Deos guarde a V. Ex. coou ãefejo , e os €rea' 
dos de F. Ex. bãvewos mifter. 

Talvez haveria alguma imperceptível di&rtnça en- 
tre be pretif» , he necejfari» , Q\èe mifter , oâ ès tmf- 
■ ter, oví faz mijier y como havia nasfraíès \Si.\a^«pUf 
eft y e necejfe eft, como fe vê naqaelJe lugBrdeGi- 
cero , Legem curiatam Confuli ferre opus effe , ne- 
cejfe non ejfe. {a) 

Mas efte termo , que no íignificado correfponde a 
Opus , na derivação formou-íe da palavra minifte- 



(*) Ceno he , que naô diziaô os Latinos facxt opus para o 
que nós á.Íz'^mos Jaz mijier , ou ba mifler &c. ; m.is muita p^r- 
te da noífa Lingoa nao foi derivada da propdedade latina , ou 
do latim puro ; mas da femelhança material dos fons , e de 
novas lisnifícaçoens arbitrarias dos termos latinos. 

^a) Familiar, lib. I. Epift. ç. 



liz^JbyCoOglc 



zfi Memorias 

rivm com contracção de fylUbas ; fe he que naâ veio 
já enfaiado de outras lingoas : porque os Francezes 
tinhiió antigamente mejlier , e hoje mêtier na tígnili- 
ca$aô de neceílidadei os Italianos ufatS de mejiiere , 
e mejiiero na meíma íignificaçaâ. 

Com tudo efte vocábulo taõ' recente , taôfaô, ta6 
próprio, e ta6 apparentado com o latim, e com as 
lingoas vizinhas , infenfivelmente fe foi defappare- 
cendo. 
Remidor ; fendo a palavra Redentor laó fagrada pela 
memoria da Religia6 : porque naÕ acceitatiamosaquel- 
le vocábulo laõ Portuguez de Barros para o uío civil 
da Lingoa Portugueza ? 
Sovar i e (ovado em latim fuèaãus , palavra própria 
da fabrica de paô, donde Barros tirou a metáfora 
fovado por calcado, quando diz, cbaB Jovado dos pés 
dos Lobos. E creio y que entaõ havia também í'«/ííí'tfr, 
eu/ovado , donde fe derivou enfovalhar , que no dito 
Author he enxovalhar. 

Outros mais pudéramos ajuntar , que na Liogoa 
Portugueza eftafi efquecidos , ou fe va6 efquecendo , e 
feriaõ de grande proveito \ mas bailará apontar eftes , 
para que os curiofos fe lembrem de examinar outros 
muitos , que a cada paíTo fe encontrai nos bons Efcri- 
torea da nofla Lingoa. 



ME. 

Dg,l,zccbyCA>Oglc 



líS 



OBSE(\UIOS D EVIDO S 

■^ Memoria ãe bum refpeitavel Múnarca , e aos cre . 
ditos àf bum VaJjâUo o mais benemérito. 

Por Joze Joaqui h Soa a es de Bakbos. 

HUha porçatf de gloria de bum grande Monar* 
ca , o mais Tenturolb , que fubio ao Throno da Na- 
-çaé Portugueza, apparece agora nefte papel com 
aquelle luftre, que parecia ter perdido i e também ao 
mefmo tetnpo muito honoríHcaroente , e de mui diver- 
fa forma , do que até hoje íe penfava , fe tnoíha aqui 
bem recordada a efclarecida memoria d*aquel1e famofo 
Fortuguez , que nas nofías grandes guerras do Oriente 

Í)OZ aos mais poderofos Príncipes , oóílos inimigos , na 
ituaçatí mais arrífcada , e nos feus mais terríveis cuida- 
dos , -em quanto lhe durou a vida : e que por Aia mor- 
te lá neflas RegíQès taõ remotas da Pátria , deixou a 
todas as Nações amigas , na^ m^s 'íèníirel dor , e ein 
hum luto nunca vifto. 

Já fe entende , que falio do grande Albuquerque , 
d*aquelles faftoa^ heróicos , com que elle por toda a Alia 
poz o nome da fua Na^aã no mais memorável ruído ; 
mas nada fe pôde tratar fobre ifto , nem dizer huma fiS 
palarracm hum tal aíTnmpto, fem que para logo, e ao 
mefmo tempo fe naã excitem na noíía memoria aquel- 
las eftranhas idéas , que no lugar mais fublime da Pátria 
fe formarão d*eíres mefmos eftrondofos ferviços , tanto 
d*aquelles, que já fe achavaã tatí tuflrofamente conheci- 
dos , como dos que ainda naÓ eftavaÕ, mais que traçados 
com as primeiras linhas d'aquellas viftas magnificas , que 
tirava^ toda a fua força , e grandeza d'aquella alma da 
ordem mais elevada. Todos os Efcritores da noífa ce- 
lebrada Hiftoria do Ori^ite páraô aqui, logo que chegad 
Tom. F. Kt a efte 



Ic.byCoOglC 



a:5'4 Mekokias 

a efte lugar ta6 ootavel. Elles natí nos dizem nada def- 
fes grandes intentos de Albuquerque , e do que elle ef- 
tava ainda para emprehender de mais árduo , já com- 
fflunicado ao feu Soberano ^e em tudo plena , e magna- 
nimamente approvado. ' 

Nenhum deíTes Authores jbube o que fobre tao 
grandes couzas fe tinha paíTado : todos- elles ignoráraâ 
o que o Monarca tinha determinado fazer em novas 
formas de governos , e os motivos por que aflim obra- 
va : e jamais elles penfira6 y que a maior reputação do 
grande Albuquerque dependeria muito tempa depois da 
fua morte , do que agora aqui nelle papel fe declara. Aqui 
veremos pois nefta Memoria tudo luccedido peto con- 
trario , do que até hoje fe tem penfado : veremos como 
Sor falta de hutna ta6 importante noticia apparece o 
lonarca venturofo com riftas menos brilhantes bo pai- 
nel da grande Híftoria , com -femblaate «enos propicio 
para o grande vulto de Albuqueraue , ejá naâ monran- 
do para elle os coftumados agraaos nos finais efpaços 
da vida , neíTesviI timos momentos , em que o Heroe naã 
articula mais que eftas palavras : Mal eont os bonuns por 
atnor de ElRei , e mal cem EíRei par amor ã$s ho- 
mens. Golpe infauíto da imaginação , e terrealmente adi- 
' antãdo aos éBettos da verdade. Certamente tudo teria 
em poucos dias mudado na expreíTaâ de huma ta6'fbr- 
te magoa , fe as ultimas ordens da Corte' tive0em tido 
menor demora no caminho , ou fe huma mais prompta 
refoluqaõ le tivera anticipado iquelles momentos taÔ 
trilles. 

Já dócil tatí fomente ás ídêas da fua Augufta gran- 
deza , e ás obras da fua poderofa fortuna y para outra 
nenhuma parte fe Uiovia o Régio c<M-açaâ do Monarca , 
que para as grandes vitbs de Albuquerque , e para as luf- 
trofas hooras de hom tal Vallallo. Já enta& naô che- 
gavaõ ao pé do Throno as inquietas fufpeitas, nem os 
zelofos reparos y e tudo o filencio encobria iem anS- 
bologias ,. nem duvidas » nem vacillames . cuidados fi^re 



zedbyCoOglC 



CE LlTTlBATURA POBTUGVBIA. 5ysr 

as heróicas emprezas de Albuquerque , fobre a fórma do 
arrojo nunca |)recipitado , mas feinpre em fiel compa- 
nhia da fua prudência , e valor. 

Novas formas de governos prepafavaO mais largas 
jcenas .na Ilidia, terríveis golpes em outras partes da 
Afia, e tremendas mudanças na Africa, e em tudo Al- 
buquerque era a primeira figura , naó íó em difpór , e 
ordenar, mas também no que ent preciíò fazer para def- 
truir , e edificar. 

. Os mais opulentos Empórios do Oriente TÍera6 pe» 
lo feu braço ao noflo dQminio , naò obftantc a multi- 
dão dos defenlbres , e a fua nutperofa artelhariii. 

Nu/Ka o nofío nome fe ouvío mais refpeitado nas 
Coílas da Arábia , e da Ferfia , e já mais o noflo com» 
mercio fe vio como no feu tempo dáquem , e dilera 
4o Ganges taÔ dilatado, e ta6 feguro. £m que fur- 
tos naíõ fífteve entaÓ o Egypro temendo a fua total ruí- 
np. na qiudança do curfo do Nilo ? E com mais alguns 
dia^ de' vida , que efpetflaculo naô daria o Grande Al- 
buquerque a todo o mundo ? Quaes feriaó entaO os cla- 
piores, e os gemidos deíTas turbas de viventes, queado- 
raâ a Caía 4e Meca , vendo arruinadas as íiias pare- 
des -, e confundidas com o pó da. terra as famofas 
cinzas de Mahomet } 

Mas que fundamentos temos nós para tratarmos ei^ 
t9 matéria com tanta iiovidade , e para referirmos aqui 
^aes anecdotas ? Com que certeza podemos moftrar nefte 
«fcrito çouzas taõ diferentes do que até agora fe fabe,? 
Quaes faò elías provas , e qpal he a força , com que el- 
las podem mudar tudo em circumít^ncias ta6 graves ; 
^is que he precifo que alTim as vejamos bem fegura- 
mente autheniicadas , para as podermos lançar fobre eile 
brilhante lugar da noíTa Hiftoria com infallivel certeza , 
$ to(jo. o vigor da verdade i Certamente naõ he outro o 
deítino deíle papel, nem fa6 outros os noflbs cuidados, 
4^\xe ò fazelias agora aSxm bem conhecidas. Na Torre do 
-'Í!cKiibo fe acháraó os feguros tcílemunhos defia verdade , 
'Kk ii • ' " que 



zedJ.yC(>OgIC 



35^ M a k o R r A s 

(]ue os noll^s Hiíloriadores allf deixsratS - em litencio ;- e- 

jamais interrogada. Nefte Arquiro geral da Naça6 deve 
eítar liuma Carta d'£lR.ei D. Manoel para ASbnfo de Al- 
buquerque, efcrita em Almeirim a ii. de Março de 
I5'ió. , cuja íubftancia referida com as palavras da meC- 
ma Carta , he elta : 

' Oiz EtRei , que tivera noras dobradas por via* de 
Frandes, que fouMra por parte de Veneza, como Af- 
fonfo de Albuquerque tinha tomado Adem , e eftara tí- 
tnwriolb no Eítreito da Arábia com a fua Armada- 

Manda-lhe ElReí dizer > que a caufa de lhe ter 
eicrito , que fe retjraile, e ter mandado por fucceíTor a 
Lopo Soares, foi para que viede defcançar, e para 
que o vielTe advertir, doque lá na índia era mais ne^ 
ceífario , e para que elle mefmo viíTe, quaâ contente ef- 
tava ElRei dos feus ferviçost Com tudo como mais 
convinha ao fervíço de Deos , que elle fícaíre na índia , 
lhe manda coLnmilTaã, para que fi^^ Governador defde 
a Coita de Cambaya , até Moçambique , e por toda a 
terra firme, e que feja ifento de Lopo S(âres , e que 
iodos lhe obedeçaÓ , e que o feu- aífento feja em Adem 
fe etliver tomado , ou em alguma terra no Eftreito da 
Arábia : e manda, que toda a geme , que aquelle aooo 
hia na Armada da índia, vá fervir ao dito Âftbnfo de 
Albuquerque. Ordena , que tenha as preeminências , e 
Pdges , e Soldados , que havia antes de Lopo Soares che- 
gar á Ilidia^ £ncommenda-Ihe a amizade do Preíle JoaO ; 
nunda-llic-, que- vá a Suez deftruir, e queimar a Arma- 
da do-^SoldaÕ do-Egypto. Item, que vá deftruir o por- 
to de Judá : E acerca das caifas de Meca , e do /í- 
gar onde jaz o maíVado Mafamede , Nojfa Senhor abri- 
rá por fua Divina mifertcordia os eamiabofy e alumie- 
rd da fua Graça , e ajudará noffò bom deaejo , e voti- 
tade , y;áe tendes , para neftas coifas o- fervirdes , e a 
aàs ctíntent ardes. ' '■ < 

Ultimamente lhe roga , que nad tenha a mal a dí- 
«ifaÕ; do governo, que m j, pois vê quanto importa f*- 

gurari 



zedbyCoOglC 



DE LlTTERATURA PoRtUGUEZA. 2? 7 

gurar-fe o Mar roxo para a confervaçaâ da índia , e 
que ifto ninguém o podia fazer íenab elle ; forque fe 
já cd nefie Reino ejiivereis , diz EIRei , naÕ poderíamos 
efcolber outro para lá enviar , Jalvo vós , quanto mats 
ejlando lá , e quaji por obrigação de vojfos trabalhos , 
e por cumprimento do louvor delles o deveis fazer. 

Efta noticia , que deo aíTumpto para eíla MEmoria , 
ellá fíelmenie copiada com a própria Orthograíia, e as 
xneíinas palavras , com que fe acha efcrita em huma 
CollecjaÓ de manufcritos , em oito volumes em quarto , 
no Cartório de Alcobaça , e a que fe poz título , fegun- 
do me lembro : Tbefouro ãe varias antiguidades : cuja 
CollecçaÓ fe compõem de vários efcritos origioaes, e 
de muitas copias de mui curiofos papéis dos principaes 
Arquivos d'eues Reinos , e particularmente da Torre db 
Tombo , donde y como alli mefmo k adverte ,. efia noúr 
cia foi tranfcrita.- 



DgitizedbyCoOglc 



2í8 



MEMORIA 



S$bre ai ruínas do Mofieiro de Cafiro de Avelaãs , 

e do Monumento , e InfcripçaÕ Lapidar , que fs 

acha na Capília môr áa antiga Igreja do 

mejino Mojleiro. 

ofperegidav academia 

Por Francisco Xavier Ribeiro de S. Pato. 



FAciLiTOu-SE-MB a occafiaô de obfervar as ruínas do 
antigo Mofteiro de S. Salvador de Caftro de Ave- 
laãs, e naã a perdi j porque o inYençivel amor que 
profeíTo ás Antiguidades pelo fruéto , que fe tíra da lua 
obferraçaÒ , me attrahia irrefiflivel mente. 

Diz-fe, que fora efte Mofteiro fundado porS. Fni- 
ãuozo no anno de 66-j \ porém o Author da Hiftoria Ec- 
clefiaftica de Braga, Parte J.Gr/'. 90. , duvida que efte 
Santflo foíTe o feu fiindador. Era de Monges Benediííli- 
nos. ElRei D. AfFonío Henritjues lhe fez varias doaço- 
'és. Pertenciaã ao dito Mofteiro Coutos, e terras , de 
que eraO fenhores , em que entrava Bragança , que de- 
pois permutára6 com ElRei D. Sancho í. 

He efte Mofteiro famofo pela hofpedagem , que nel- 
Ic fez D. Alam á filha de ElRei de Arménia , que hia 
em Romaria a SantMago , a qual raptou, e delia pro- 
cedem illuftres famílias defte Reino. Livro vélbo das 
Linbages , nas Provas da Hijioria Genealog. da CaJ. 
Pi£al. Tom. I.pag. zoi. 

Caftro de Avelaãs fica ao Poente de Bragança em 
meia legoa de diftancia , fituado em hum vaile amenif- 
limo na margem do Rio Fervença, que vai depois ba- 
nhar os muros d'aquella Cidade. 
•1" .* Nin- 



zedbyGoOglC 



DE LlTTE BATVR A PORTVGUEZA. 2^9 

Ninguém ignora a extinçaB d'efte Mofteiro por EI- 
B.ei D. Joa6 III. , e que com as fuás pinguiflimas ren- 
das fe dotou por aquelle Monarca fabio a Sé de Miran- 
da fundada no anno de i;4f. 

Deixo de tratar das caufas défta extínjatf ; huns 
querem , que foíTem politicas , outros moraes : fobre as 
tnoraes ha fomente tradições vulgares ; quanto ás., po- 
liticas diícorra-fe fobre as riquezas , e poder daquelle 
Mofteiro. 

As ruinai , que hoje fe obfervatí > faS parede» , por-» 
tas , e algumas janellas da parte do Mofteiro, em que ef- 
tava6 as Officínas , que fervem de Cafa de reiidencia 
Parrochial ; por quanto fe erigio Farrochia com o titulo 
de Reitoria , cujo Padroado ficou ao Cabido de Miran- 
da , ao qual fe applicáraõ as rendas. Exifte a torre de 
elevada arquite<ílura , e a Capella tnár , com huma Capei- 
la Collateral , que ferve de Sachí-illia. He toda a obra 
de abobeda, e as paredes de tijolo. Para fervir de Igre- 
ja á Freguezia do pequeno Lugar de Caftro de Àvelaas , 
fe unío corpo de Igreja á dita Capella mòr , e no fron- 
tefpício le pozeraã os ornamentos da antiga Igreja do 
Morteiro, que he hum efcudo de armas , ea feguinte 
infcrjpçaô em Lingoa Portucueza : EJIa obra mattáou fa- 
zer D. Dio£a Pifiheiro , Bifpo Primaz das índias , 
Adminijirãdlr dejle Mojieira. As letras porém da Era 
fe na6 podem bem lér ; mas elta he fabida. O que eftft 
Infcripçatí tem de notável , he o achar-fe. efcrita em or- 
dem inverfa , para o fim de illudir a attença6 dos Leitoref* 

Acha-fe na parede do corpo da Igreja .hum tumu- 
lo de pedra , que necelfariamente foi para alli irasladado 
da antiga Igreja ; porém neJle fe na6 vê maís do que a- 
era efcrita na forma feguinte : 



Era de mil 

e [ [ [ G- 



Cana- 

Dgilizc-JbyÇoOglC 



Confta-QOs , que efte tumulo he do Conde Árias 
Anaes , e a era fer de líoo pelo que aíTevera o Me- 
dico António Pires da Silva , que era natural de Bra- 
gança > na Obra intitulada: Chronçgrajta Medicinal àas 
Caàas de Ãlafots. O Autfaor da BenediBina hujita- 
na , tratando do Molleiro de Caftro de Arelaãs , clia- 
ma ao dito Conde O Conde de Ariaés \ mas iílo cer^ 
tameate he cornipçaã do" nome Árias Annes , e do 
Autlior da Benedihina. Lufitana he falta de inítruo 
;3&, que Jhe motivou eíte erro» aílim como o de da- 
tar o Diploma da troca de Bragança pelo Couto , 
que fe deo ao Mofteíro por aquella Cidade , 4. I^o- 
nas Mayas iiif , tempo em que Reinava ÉlReí D. 
Sancho II. , fendo que a troca foi feita com ElIKei 
D. Sancho I. o Povoador d'efta Cidade , e o que lhe 
deo o foral. 

Paífo já ao principal objeifto d'efta Memoria y á qual 
o que fica dito ferve unicamente de iniroducçaõ. Que 
admiratjaõ foi a minha , quando ao lado da Epiftola 
do Altar raór v! hum marmore_de quatro palmos de 
\ altura , e dois e meio dê~t^ura em quadro , no alto 
I huma abermra , ou buraco , de ineio palmo de com- 
; primento , e quatro dedos de largura: e á roda d'efte 
; buraco huma rafgadura , que moltra , que era para allí 
, fe encaixar outra peça ? Dá tudo iíto indícios , de que 
\ aquelle mármore era huma Ara , e que aquelle buraco 
era aonde fe introduzia a pe^a de metal , em que fe 
accendía o fogo para o Sacrifício. Mas ramos ao gran- 
de objeiflo , que he a Infcripçaã , que em letras mai- 
/ufculas Romanas fe acha em huma face d'aquella pe- 
dra , concebida na forma feguinte : 



DEO 

Cg,l,zcJbyC(>Oglc 



DE LlTTBRAtiTB A PORTUQUEZA. SÍI 

' DEO 

AERNO 

ORDO 

ZOEl,ARVM 

EX VOTO 

Dar o fentido verdadeiro a efta InfcripçaO , he o que 
eu ignoro i pois fe ine offerecem mil duvidas , e que 
fi6 o principal motivo de efcrever efta Memoria , para 
as propor aos mais íabios , e eruditos, i{ue haja6 de 
diíTolvellas. 

Nad podemos duvidar , que feja huma Dedicató- 
ria d'aqueHa Ara ADeos Eterno ; pois AERNO naó pô- 
de deixar de fer abreviatura de AETERNO. Porém que 
fe emende por ORDO ZOELARUM ? A InfcripçaO he 
Romana ; mas a que propoiíto foi trazida para a Igreja 
do Mofteiro, e allí conlervada ? Aonde achada, e em 
que tempo para eile trazida f Augmenta a duvida oaã 
fer efta a única pedra com Infcripçad quafi femelhan- 
te ; pois na parede de fauma cala p^irticular do dito 
Lugar de Caftro de Avelaas fe acha outra pedra , que me 
conduzíraâ a obfervar , a qual tem palmo, e meio de 
altura , e hum de largura : moflra fer remate de pedr» 
maior, e tem á roda alguns lavores, e buma Inícrip- 
ÇaÔ mutilada, na qual íe deixa unicamente perceber O 
léguiníe : 

DEOAR 
NOM 
ACIDI 

O dono da cafa * étn cuja parede fe vé efta InfcrípçaS ,' 
me informou > que elle a achara em huma parede velha 
do Mofteiro , e que fazendo a fua cafa de novo a tranfr 

Êortára para a dita parede para a confervar; e quetam- 
em conftava , que fe tinha achado outra igual em huma 
. Tom. F. LI antfga 



3£k MlMOKfAf 

antiga Igreja de S. Sebaíliaíí , que fica «n^ fiam oítefro 
junto ácjuelle Lugar. O citado Author da ÇbroHOgrafia 
Medicinal dá notick da primeira InIcripçaÒ ; naõ de- 
cifra porém o feu lèntido. Ignoro , que outros Antiqua- 
lios Portuguezes façaã meti^afi- da referida Infcripçad. 

Agora referirei as coj:jei5luras de hum homecn dou- 
to d'efl:a Província , com quem tratei a matéria d'efta Inf- 
cripçaõ-A palaTra ORDO , difcorre 9 referido douto,, 
•uer tanto ài-ics como Qtria , Senadg , Us^ublita ,. &c. 
X)ti.-Cange^ 

Z(&LARUM be nome nacional ^ dr qiíe fè;len>> 
brad 09 Autliore» d» Geografia Antiga na QKifaõ dac 
Hefpanbas. OAbbode Bauâran àiz n»í^i Lexicon Gea- 
gveficoi-. Zoela populi Hif ponta Tarrãeêvenjh àt ora 
jiufiurum qiMrtttii Urhs Zoela. 

O Âbbtda Lsngkt ,. tratando da Geagr^a jíãti- 
ga^ » na^ primeira diviiaã da Hefpaalia em tJltetior » ft 
Citerior , fubdÍTÍd« efb , que cambem fe denonúnaTa- 
Tarraconenfe , em. via» e oito. Povos , ou Naçoens,. 
das c^e£ afegunda era a dos- Aftures :. es quaeinora* 
HKBte fubdivide em Aftures Tranfmontanos ,. que faS a» 
Afturias -de Oviedo , e em Alhines AagulVanos , cuja Cl-- 
dade principal era Aftorga , e a efta Regiaâ pertenci» 
Sragajiça , cotiv o nome de Brigaeciam Srigaesiorum. 

Aqui vemcs. Bragança incluída na Hefpanha Cite- 
»io« Tarraconente , lituada no Pajz dos Aftures , aon- 
de os Geogra&s fuppoem os PÓvos Zoetae : e maL fe po* 
deria duvidar , que eftes Zoelae folTem os habitadores de- 
Caítro de Ãvelâas á. viQa. da laTcrípçaã,. que allí appa- 
Kce. 

Plinh Livro IV. Cap.. 3. , e Lirfo XIX. Gap. i- 
fez mcnjaõ dos PÓvos Zoelae, declarando, que no íeit 
território fe produzia^ e íàbricáva e melhor linho> ' 

Com efta» poucas ref)«xeen« me parece, conúntb » 

Siefnfb' (Huio , fe poderia averiguar it^-vfpdadeira kitelti' 

gencia do- ORiX) ^OELARUM , quo no MonuttieiítQ 

Kjipidar expaíTa. a dedicarão ,, ou voto % £>eo6 Etemft 

■ ■ ' ■ ■ ^im. 



llzccbyCoO^ík 



BE LlTTEíATlTRA PORTVGtTBíA. tjÇj 
feitQ pela CurJa , Senado , Magiílrsdos , ou Chefes dos 
^ò y o s Zoriar. E talvez qoe aíHda fedefcubra, que Caf- 
tro de Avelâas foi n Cidade Zoeli. He o que difcor- 
reo o Jbbrediío douto irefte ponto. 

Suppofta a verod.mUidade das referidas conjeâu- 
ras , devemos difcorrei* , que fendo atpjelíe Mõiíámento 
Romano ; ifto he , Latino , foi feito por Fòvos da domi- 
nação Ronuna, ou fbfíem de Mutiicipiò , oa Colónia; 
3ue ftindando-fe o Moíleiro de Caftro de Avelâas' , aon- 
e o Monuítieííto fe acha, no aniio de 667", *empo «a 
Í|ue aqueUes tetrttorios eraô occupados peloR Godos , 
eria naquelle íitio achado o mrimó Monumento , e con- 
servado pelos Monges como hania antiguidade , e para 
maior recato pofto na Igreja , como vemos praticadoeni 
Braga , e outras panes d'e{le Reino. 

Porém todo efte dífcurfo ceifa , fe' fíiltar a verdade 
do l«u íundatnaito, ifto he , fe f^ outra a iiitelligencia dá 
Infcripçatí , fe as palavras ORDO ZOELÂRUM tiVe-' 
rem diverfo fentido , do que fica expofto. Quem fabe fe 
ferad relativas a algum objedo do inefaio Mofteiro^ 



Uii ME- 

Cg.lzccbyCoOglC 



aí4 . 

MEMORIA 

Sohtf a Hijiaria das Marinhai de Portugal. 
For Cokstaktmo Botblho db Lacerda Lobo. 

TOdo ,a niett fim nefta Memoria be reíerir algu- 
mas fK>tic»s liiftofícas içAxc as Marii>ha« fituadas 
nas diãèreiKes Provi ncias de Pbrtugal , fazendo jun- 
tamente vér o eftadoatfluai d^ellas , e a fua produeçatS^ 
A efcacez dos fubiidios necefrarios para efte alfumpto , » 
filencio dos nolTos Elcritores > que fobre Marielias , ou 
iiaik faJIaâ , ou b«rn pouco a propo&to , fazr m muko dif- 
fictritofa a emprega y a que me propuz. ^ porém fiz tudo 
quaato coube nas mmbas forcas. («) 

PARTE L 

Marinhas da Previntia da Beira* 

$.1. 

A(S fera fàcil determinar o tearoo y em que príocí- 
pUraã a haver MarinKas em Portugal. Plini» fàz 



N 



(*) o Senhor Joaó Pedro Ribeiro Oppofitor Ononifta , e a 
Senhor Fr. Joiquãm de S. Agt^inho, Èrenuta de S. Agoflinho- , 
qoe com tanto irjl>;ilh&', e selo tem. ambos multlpiicadb os 
necelTarios fubdiíes da nolTa HiCloria, e Le>islapaô^ me com- 
mnntcáraõ miKtis noeiciaí para efte aíTumpto : outras m: íò- 
aió participadas das Alfandegas: alguns particulares confiarão 
de mim feus Títulos relativos x afonmentos de Meirinhas. Os 
Marroteiros mais práticos , intclligentes , e antigos me infor- 
MÚraó da fua proauc^aõ. Todos eftes ÚKCOiios j easobfcrv»- 

.. . ; mcDgaè 



lizt-JbyCoOC^Il. 



DK LlTTE» A-ÍUB A Po » T^U GU El A. "'iSf 

nien;a6 (d) de (]Ue na Heíbanhq em a Província Tarra- 
conenfe, e na Cidade de EgelaíU (è) havia Sal marinho 
foísíl mui eftimado naquelle lempo. (r) 

«. 11. 

Refere S. líidoro Hirpalenre ( morreo no aono de 
-^36) , que na Hefpanha iiaviaó também po(os d'agoa 

-falgada , a qual lançavaO era rerervatorios de madeira , 
aonide fe evaporava , e fe crjftallizava o Sal marinho no 
«empo de trinta dias j porém naô coofta , que o S^ 
fofle formado pela evaporação d'agoa do Mar. ^</) 



5:oens > que 4z em todas as Marinhas , me deraô maicría para 
fcfta Memoria. 

(a) Iir Hijpatãa qtiinjue cútriort Egelafiã ^tbis ftne trátrf- 
■taetntihus , tm jsm pridem pahita a pierifyme MtAku intn vm- 
mia Salii gtnirã ptrhibitur.' Liv. XXL Càp. 7. §. )j. 

(h) Egtiafia na Lingoa Ccluca , que era a que fe faltava 
aniigamenie na Europa « quer dizei do Sal Ciaadt ; porque 
Egti (igniâca Sal » e afta Cidade : he hoje chamada Inisfta 
liuma pequena aldeia na Caftella Neva y fítuadii em huma lep- 
«a , que nca entre o Rio Xucar , e o Gabriel. 
- (O A efleSal altadindo J'iWoffío no Liv. IX. EpiB; XH. Ic 
exprime do modafcguinte: ftnit in nojiras a tt proftãa pafina 
manas , quae trabit rMtitam [tmlitudintm de Salt Hifpano in Ji^u 
ratio Tarraconenfihus. Jn Hijpaniam tjuoaue non ço^nunt ibi Sales » 
fia effodiwit. Sãiniis Cap. i\.p^g. 4í. de Hifpania. Elles Efcii- 
tores , que referem haver fomente na Hefpanha oSalfofsU, e 
•<]ueUe que fe exrrahia àís fontes dagea falgada , anaunciaó 
haver graiKle abundância de Sal marinho formado pela evapor 
raçaõ o agoa do inar em outros Ing»es , como no Egypto na 
stitiga Cidade de Utica no Reino de Tunis , (de qoe fomente 
heje Ce obfervaó as minai.) Na Sícilia> na Ilha de Creta , (hoje 
Cândia) na Capadócia &c. Plinio H. íí. IJv. XXL p^. 5^9. 
, (if) Fit àmemminc hmuhii rtglanibus i tlim in íufpaniae 
vmm t v«t Jlagnis id genm aqttat babentOui , ífuam dectqiw 
l>ant éf pifctnai Ugntas fundtbani apprndtntes fuper tas rtfitt 
Ufillu atrntaí ^ qwlmi lirmu in ^ilíttidiagm vitui acini 44- 



Dg.lizcJbyCoOglc 



fS< . . . AC B M o R I. A « 

$. HL 

"ríe!"" ^° Reino de Portugal podemos conjeaurar, qoe 
'já hariaS Marinhas no Jèculo decimo ; porque da Geo- 
grafia de Lima (a) confta , que a Condessa Mumadona 
<toára entali ao Mofteiro -de Guimaraens ', que elta fundá- 
ja , as fuás Marinhas d'ÀTeÍro : e do t^aneiiío da iae£- 
oia. (fe he verdadeiro) ditado no atino de 9^0 fe çon^ 
due. que já oelle Kinpo haviaíS Marinhas e« Fortu^^ 
jc Jie muito proraTei , que foflem em Aveiro (&) , m 
Figueira. .... 

$. IV. .-..--. 

He fem duvida, que eftas Marinhas ji exíftii6 no 
reiít&do dos priíaeiros. Reis d'efta Monarquia : e be de 
crer , que clkis produziíTem quali todo o Sal , que St 
confumja nas ires Provindas do Narre , muito princi* 
palmente depois que acabáratí as Marinhas , que havia 
nas margens dos Rios Douro , Leça , e Ave. É de vari- 
As artigos de Cones , Provirnens , e Cartas B.egiAs , què 
fe* achao no Caftorio da Cafriera do Porto , confta que 
•feílÈt tempos entrava' ncfta Cidade htuna grande quanti- 
dade de Sal daa- Marinhas d^Areiro , e daqui era trpOf- 
tadopara as Provindas do Minho , e Trás os Montes, (c) 



hãtnbm : -p^ne tjeSum fwnhiaur dieim mgittta. S. Ifidom 
Hifpa!cnff .Uivio XVI. /m Etym. Cap. 20. §. 10. 

Ca) Geografia Mifteríca do Uma tom. 11. fag. ^po. 

<*) No Teftatnemo da CoTfde«.i Mumadona, qaefejaaidt 
Ho Liv.l do mermó titulo na Collegiada de Gttini*r»t:ns, ^ 
he dntadó .na Era de 997. fe lè «ntre -outfái (loaçwfls.lt 
fè^nínce : /» tirrkorh CÓlUmhUéè cOTittdo Ttnw in Alatmoy 
«>• Sãiinài ^ ^uâe-eopiparMfimtn , m eomttmnitathtíihir de PvímI^ 
ÃivAr pn Jms ttnnims , aim fuos Jnmints. 

CO âun -Capiralo -eípeoUl -dO' Csacelhq óo-Potto-^M-Cdl^ 

. §. V. 



DgllizcJbyCoOglC 



0E LlTTZVATUR A Fo* ttT G VEZ A. ll$<r 

§. V. 

No Reinado do Senhor Re! D. ÂHonfoIV. as Ma- 
rinlias d^Aveiroproduziaft Sal «D tanta qiianndade * que 
a-pezar da extrac^afi, que tinha para Ó Reino, eféiA-ácl* 
he , vandeo-fe por hum preço taõ módico , que hum mo- 
io valia quarenta , até cincocitta reis. (tf) Talm por 
«fta caufa etn Aveiro fe fez hnmâ Poftura , pasa que fó^ 
mente te ãzefle Sal nos mexes de Julbo^ e Agofto , m 
qijal foi çoafifmada pelo SenliQr D. Affonfo IV. ^ e de- 
pois nas Cortes d^Elvãs no anno de iB^i- no Art. 54. 
rogara© os d' Aveiro ao Senhor Rei D. Pedro I. , que 
i:'evogaire a dita Poftura , e que cada hum tisede liyre- 
meote o Sal» que pudeíle , ao que ^Rei promeUe«i4e'' 



ces, que hemoraó em Ceimbra no atmc ée ijftf. na Reiate 
do do Senhc» Rei D. ]oaõ I> era, p»a que íe ebfeivaâe a 
Fitvilegio ác naó pagar Pizima da Sal ,- que exponalTe de Avcit 
10 ai^uelle , que moflíralTe ter importado para o Pa/to íguat vsr. 
lor em pannos , ou outras fazendas de fora , o qoc )á antiga- 
mente fSra concedido. Com AatA da 8. de Jbril do dito aimiu. 
ÍÀv. A. da Csmtra do Port9 foi, 14.. 

Nas Cânes de Lisboa da 17. de Março do aitno de i ^89; 
ftouve hum Capitulo' erpecial do Concelho da Poito para ]oaá 
Rodrigues Pereira , e fcn Almoxarife em Aveiro naó tsvax 
E>í24ma do $2! , que »Kí carrcgavaó es Navje» do Feno, fe* 
gondo o 3nn}(o Privilegio da mcrma Cidade. 

Dat^i fie cendue , que nefles tempo» enrrava ira Ctd^ 
<te da PoTM o Sal de Aveiro em çrande quantidade : e lain^ 
bem d^eftes Capítulos , e de oiltros , que adinntc veremos , po» 
democ conje^rar , que já nos principias d^èft^ Moucisquia na- 
TJa muitas Marinhas am Aveiro. 

< («) Ne anno de Méf. » 14. db Março foi feita a taoca 
4o Mofteito- de Pedrafa por ordem do- Senhor Rei D. Pedtq» 
I. , e pelo Corregedor d* Além Douro , « fe arbirráraó par* 
dois moioí de Sal cinco libras (^loo. teis^. Cartar, da ^netidit 
ia Uiiiver^dade,- 



lizcJbyCoOglc 



tSB M « lí o s í A í * 

ferir informando-ie da caufa ; por que Ce fez a Pollura. (!«) 

§i VL 

Eftas Marinhas * como todas as mais , eftarafi em de- 
cadência no Reinado do Senhor D. Duanc ; porque os 
FiSvos nas Cortes de Santarém do anno de I434< pro- 

Íuzeraâ, que a imuoíiçaâ pofta pelo Senhor Rei D. 
oaQ I. feu Pai , tinha fido a caufa de naó fe Êizerem 
muitas Marinhas , e reparado outras. (^) 



(4) „ Item , ao que dizem no Artigo 54. * que bem fabia- 
^ moi como o frusto Sal he comprijouro , e nccedario ao4 do 
j, noITo Senhorio ; porque por el recudiam ao3 da nofTa tens 
yy maiios mantimenios , e a nói muita prol , e a muitos de 
. ^ maltas panes de tora dos nofToi Regnos , quando bi ha avon* 
,', damento dei, carregam Naves, e outros Navios para on-* 
,, trás cerras , de que Noos tiramos grandei Dizim» , e os d* 
,^ Aveiro confidcrando mais a Ta prot prcvida , que lhes valefle 
j, mais o Sal por pouco , que fízeiíe , que o avondamcnto , que 
,,0 da noITa terra poderia aver nem a prol , que fe a Nos íe- 
„ guia das Dizimas , e polTerom ames foy Puáura , que o nom 
„ nzetTem fenon em no Julho , e no Agoflo , e foy lhes confii- 
„ mada per noITo Padre , daqual fe leguem muito dapno aos 
g, da Nona terra ; porque o milheiro , que foya de valer quatro» 
fy OU cinco libras (80, ,'ou loo. teis ) vai ora trinta , ecmcoli- 
„ bras ( 700 reis ) e nom fe faz ora dízima do Sal , que foya de 
^ fazer antei da dita Puftnra; e que foffe nolTa mercee , que 
^, mandaíTemos , que quebraffem a diia Puftura , e qoe livremeo- 
í, te fizefíe cada hum o Sal , que podefTe fazer. ,, A efie Art, 
ftfpondtmoi , que Noot faheremos a razom , qut os moveo a fã' 
lEíf tM Pofiura , í oibartmos oque bt mais nogo ftrvtço , € prol 
^a Mjfã terra. Corres d*£Ivas do anno de \^6i. 

fè) „ Outro fy bem fabe vofTa mcrcec como por ElRey voí-» 
k» fo Padre foi polia a impofiçom do Sal , com grande perda da 
^, tetra , eque Te leixa de fazer, e repaírar muitas Marinhas, 
., e ifto he porquanto muitas vezes acontece , que o Sal vali a 
j, trinta , e a quarenta reis o moio , e tirada a dita impoziçom, 
,} e carreto do dito Sal naó fica ao dono delle de bum moio 
ufete reis, ou pouco mais, e poteem vos pedem. Senhor pof 



,,i.c.bvc;. 



DELrrTiRATvaA PoRTvauE z-A. 169 
§. VII. 

As Marinhas d' Aveiro (a) achaô-fe anualmente 
na maior decadência, que he poíllvel ; porcjue haveiH 
do antigamente mais de quinhentas , lioje apenas che- 
ga6 acento, e fetenta , eoito, como me conftou do Re- 
eiftro d' Alfandega da dita Cidade : e delde o tempo, que 
K entupio 3 Barra relha , tem crefcido progremvám en- 
te a decadência das ditas Marinhas , e muito mais coat 
a abertura d'aquella> que inutilmente íe fez. 

§. VIIL 

Osftado a^ual da Barra difficulta muito a eotradA 
de vafos maiores no Rio dVAveiro , e aqqelles., queeiM 
trafi , que apenas faõ alguns Hyates , precifati demorar- 
fe muito tempo pela pouca eftabilidade da Burra. Por ef* 
ta caufa o Sal na5 pôde ter outro confumo Te naô o 
pouco, quelhe daíSas Pefcarias.d'eftá-cÔfta , c paried'el- 
|e he também exportado para alguns Lugares .vizinhos'; 
porém em pequeiu quantidade , e fóiUCTce aquelle, que 
podem acarretar os Almocreves. 

§. IX. * 

Como -a ;Barra.d' Aveiro aada vez mais he redti* 
2Ída a peior ejiado , diminue tanto a extracçafi do Sal 4 
que vaõ ficando todos os annos muitas Marinhas por 

,i merece-, (]u« /adita Impof^çom nom haja hy poi tazp'do que. 
,,dito he ,epor.«{la guifa fe corrcgeroiri as Marinhas, que jazem 
j, em monorio , e fe faroqi ostras muitas , (jue fera honra, e 
aproveito da teria. „ Càrtés de Santarém ao aitno de 1414* 

Cap. tu. - 

. (<t) Çaiía Maripija .çonspciem-íe ^e trinta JiiJci!)» ;4ebaÍxo , 
que faó aquelies reíervatoii^s aç^d^ fe ciyJJalii^ 9, S/d. 
Tom. y. Min cuj. 



%fo .Memoria» ~:t 

cultivar» e d^efte moio crefce a Aia decadência, e com 
ella a miferU dos habitantes 4' Aveiro, e naâ havendo 
alguma providencia publica acabaráó de todo , como acon- 
teceo ás que em oiicro tempo houróraã úaá margelis dos 
Rios Doufo , Leça , e Ave. : 

§. X. 

As fobreditas Marinhas » Tuppofto fejaQ as de ma- 
ior tratuliio d'eíle B-eino , com tudo o feu produiflo aii- 
nual lie menat do (fue nas outras. E íem erro muita 
fenlivel , c por hum calculo formado pêlos mais práti- 
cos, e ititelligentcs Mirrcweiros , cada meio debaixo pro- 
duz annuilmcnte hum conto (a) de Sal , e por confe- 
t}be[icia cada Marinha trinta comos, e todas cÍaC:t> mil 
trezemos., e quareota, àazóyijyxxk razas. '^ 

§. XI. 

Com o producilo annual das Marinhas pagaô-fe as 
defpezas , que ellas fazem ; porque cada Marroteiro , 
WK fe occupa defde o. principio de Maio até ao iím de 
Setembro na manipulação do Sal , e preparação da Ma; 
rinha, recebe em paga do feu trabalho metade do Sal, 
que elU produz , e o proprietário lhe dá mais alguns 
alqueires de milho, que ordinariamente faã vinte, va- 
riando éfla' quantidade fegutida o eftadO} e circuhftan- 
^ias da Marinha. 

§' xn. 

«»■ As Marinhas chamadas da Figueira faíí todas aquel- 
ías , que fe obfervaâ perto da foz do Mondego , íitua- 
das na Morraceira y Couto de Lavos, e nos diltriâos 

'- (^a) Ó Conto «Knponn-re de cincoenta lau» , efó cm 
Aveiro ftf mede o. Sal por contos» 
. • . . ... de 



zedbyCoOglC 



DB LlTTEUatlTRA Po R iTlÍG « E Z A. l^t í 

de Viila Verde , e Figueira. No termo d^eíla Villa , pet^ 
to de Tavarede já exiftiaã algumas Marinhas no Reina- 
do do Senhor Rei D. AfTonfo Henriques , como confta 
de hum contrato, que houve no anno de 1178'eDtre o 
Prelado da Igreja de S. Salvador com os feus ClerieoB J ■_ 
e o Prior , e Cónegos do Mofteiro de S. Jorge , k)bre 
huma Marinha íituada em Tavarede perto da foz do - 
Mondego : {a) e também já exiftiaS algumas no Cou- 
to de Laros no Reinado do Senhor D. Sancho II , .como -. 
iè conclúe de huma E>oaça6, que o MoReiro de S- Jor- ; 
ge, e a Collegiada de S. Bariliulomeu fizeraõ no anno. 
de 1236 de humas Marinhas do Couto de Lavos , com 
obrigação de fazerem mais trinta , e féis talhos. (í) Con-' 
tinuáraô nos feculos futuros * como conlla ^e vários afo- 
ramentos feitos no fetulo decimo quinto pela. CoUegía-, 
da de S. Fedro de Coimbn. (c) . . . / ■ 



(a) De quddam Marina quae efi Sanai Salvatons in f^e- 
Afondeci verfus Tavarede de qua qtiatdam pãrstfi faítay catterã\ 
rumpettda Navembr, Er, 1216. Cart. de S. Jorge. 
~ C^) Doaçaó Feita a Domingos Petr.de pra^o iJcLavoi : Ma-' 
rinat , quas bahemus in termino de Lavos tali paíto , qitod tu^ 
fatias iéi '^6 talios , é>- bonitm vivarium , «^ athes Jacert ^ftot; 
talios mque quaíuor annot. Abr. Er. iijA--C,itt. áe. S. Jor^e. 

(f) „ Emprazavam huma Marinha parte do Soaaom com a Ma- 
yf rinha do Infante D. Henrique : De pcnfaai dois moios de boom, 
„ Sal recebendo de Mercador a Mercador pofto na Marinha por 
i,dia de S.MigucI de Setembro. Anno de 1457. Julho 22.,, Curí. 
da Collegiada de S. Pedro de Coimbra. ,, Emprazavam huma Ma- 
„ rinha : De penfaó vinte e duas dúzias de Pcfcado fecco, e doÍ^ 
^, milheiros de Sardinha, quaiorze dúzias de Peícadas, e de 
), Kaias duas dúzias , de Ruivos ttes dúzias , de Caçoens outras 
j, três dúzias, doze por dúzia bem curado ,-e recebendo. Anno 
,, de 148». Agofto 17.,, Cart. daCollegiada de S.Pedro de Cq~ 
imbra. „ Emprazavam huma Matinha de fazer Sal com a pcp- 
9> faõ em cada hum anno por dia de S. Miguel de Setembro de 
}, dois moios de Sal boom , c recebendo de Meicadot a JVLrca. 
4) dor poflo ria M;\.iinha. Anno.de i4;7i. 18. de Abril. 
...._■■ ■ Min ii ~ '§. XIÍl/ 



Ic.byCoOglC 



2ft iM E M.O R r « 9 ' - 

§. XIIL 

■ O Campo da Morraceira > que lie hama Infua no 

Mondego perto da. embocadura d^eíb: Rio , qsc terá de 
fifperficie meia legOJ quadrada, ji no anuo de 1520.. 
tinha algumas Atarinlias i poféot. em pequeaia quaotida»- 
de'^ porcfue' quall todo a Campo pcoduoia mitho , cau- 
tifos rruuí:o8 no tempo , que hú aforado, pelo Prior , e: 
mais Pidres do Moíbíro' di Santa Oiiz de: Goinilira ac 
António Fúrn<indtis da Qiiadros. (d) 



Ç<a) No ar>no de içio. aos H- de Ahril fó! feito Inrm afi»- 
ránrsnto pilo-Prior , Cmornío^i ^ miís Padres do MoAeiro der 
Saiui Cruz de Coimbra djiv íateozimpara fetnpre -do -Ganw 
po da Morraceira a Anconio Fcrn:indes de Quadcos , com li- 
ccnçi d* EtKet O: Wsiiori , por urrematayttõ-, q » g do - d ite Gain- 
|)o lhes foi feita por nund^Jo do dito Senhor , com o foro , e 
jfenfaô em cada hum aimo de ^to em. dinheiro., e na mef- 
lão aíbr4mena> Te declant , ^«- querendo os ditos afAiadtaes 
arrendai , e emprazar a dita Liziria- por partes a Lavradore«^> 
jfélo (jue lhes bem vier , que o poíTaõ f«fir\ fera. mais aotho- 
ridade > e licença do diro Mofteiro , e que Kavoráó para (t 
todo O proveito, e ufo, que Díoe \hcs deíTe r»a dica Lizíria 
aflim de paÕ , como de Sal , ou críaçaõ , ou de- 4ual(}aer oo- 
rra couza, que d*elU fe polTà apro/eiear. Efte aforarnsnEo foi 
apprefentado a ly. <fí Fevereiro do anuo de 1597. no Lng^ 
de Tavarede a Pedra de Msndanha Figueiredo, Ju-iz' d* Tom- 
bo, e dem^rcaçoens das rendas, e fazendas da UniTCiâdade 
de Coirór.i, Do me f mo Tombo conda ter fido-demandada Ato» 
lonia Fernandes de Q«idros pelos Padres Cruziw p»r fer afo- 
iada adita Infua por menos foro , do que devia fct : havendo 
huma amigavicl compoíifaõ , fico» daqui- eti» £ante- obrigad» 
a pag*r ao dito Mofteiro, alem dos trezeftto* rets , de nove 
alqueires hum', ficanio oito para o dito- António Fernandes Je 
Qiadros ; e que e!le , e todos os mais Lavradbres , qae fome^ 
irem , pagariaõ a dita noveia al1imd»9 terras ctritivadae, com» 
das que daqui em diante fe cultivarem, e álcm difto' meifrdi-' 
liíiV). ludo pua o dito Moíteitgi, £ftes bens hoje pertencem » 



ng,l,zc(;byCAH)l^lc 



BB LlTTERATUR* PQRttGWEZA. ^TJ: 
§. XIV. 

Os AicceíTores do primeiro Einfiteuta António Fer- 
nandes dé Quadros r fbraô; fubémfiiéuticanâo- Vari«í por- 
(oeDS >do dico oampo. a-- ài&ereaics foreiros.,. lltuDit^ pftr 
ia fe cultivarom 1' e- outras parai nellas fe fazerem Ma* 
únhas',,aB c^uacs fe tein mulriplicado de. maocira , Que 
toda» as temaE ^que em: oucro' tempo produaiaã diSe^. 
Kntes; eípcciea de. graÕs,.hoje. eftad reduzidas . a Mârt-' 
fthss., por tirarem d^eftis-os propriéiapíos maíor ^.proveií- 
W ' e frefenreanraite acliftr>fe: dUlxibuido o'Ginipei.eiD oin 
tocejuasi. Maxiobas. (a). 

"§. XV. 

O melhoramento da Barra da Figueira em Compa- 
xaçâ.ã dai d'Av«irD >- e s' moderação dos JXireiíoe dé wãr 
da , tem facilitado muito a extracção do Sal. Por efla 
caufa tem-fe multiplicaiki a& Marinhas no termo da Fi- 
gueira , Coutos de Lavos > Villa Verde , e muito mais 
»fl'Monaceia3 , liavendò naqiielles trez> diftriólos trezor- 
i^s , e cincoenta Marinhas ; porém o maior aiigmcnto 



Univcilidade como cUreíVo Senhorio, (]ue Ke, de codos os bcns^ 
rae fôtãõ do Priorado Mór de Sarna Ccnz. Cart. Ãa Fazenda 



í 



la Univerjiíiade naTômho Ha Morrattira , t oMiras terras per^ 
ttncentes 4 Univerfidade., 

(a) Defde os princípios do fecctlo pafTado até ao anno 3e 
175$; os rucceíTores de AntOnio Fernandes de Quadros , Fer- 
não Gomes de Qnadroa, Pedro Lopes de Quadros , e Fernan- 
do Gomes <de Quadros (oraó aforando por pnrces o Campo 
^a Motraceir.). Òs primeiros, forciros cultivávaó as diffcrentcs 
porçoens emtiteuticadas femeando-Ifresdíffereritcs efpecies de 
graõs:.' dcpoJs em todas eílas fe fízeraõ IVÍarinhas, Eftes afo- 
ramentos achaÕ-fe nos Livras das Notas da Villa de Redon- 
áos do Couto de ViUi V«lde> e. de Tavacede , «jae hoje hc 
do xeuno da. Figueira* 



Cg,lzcc;byCA>Oglc 



jy^" ■ ' -M E áí o » J A" 8 . , * r: t 

d*efUs tem fido defde os princi^iios d'efte feculo até ao 
prefente. 

§. XVI. 

As fobreditss Marinhas íituadas nos diftriâos aci-- 
ma referidos , que faã mil cento , e cincoenta (a) (re- 
gulando-fe por hum calculo prudente o produAo annu-i 
ai da cada talho , fer hum moio de Sal ) produzem to--' 
das regularmente 34t2)foo moios ; porém a qualidade do 
Sal varia fegundo as circunftancías locaes das Mari-- 
nhãs, e a ítiduítria dos Marroteiros , os quaes emre-- 
compenía.do feu tr^^lbo- ficaó ordinariamente com a: 
terça parte do Sal , que produz a I^rioha , e em cada^ 
huma fe occupa hum Marroieíro. 

P A k T E II. 

Í3as Marinhas da Provinda ã'E«tre- Douro , e Minho: 

§. XVII. 

NAti me foi polTiTel determinar a Época certa , em. 
que começjrati a havçr Marinhas .nefta Prorjnçia , 
porém confta de huma DoaçaO feita ao Mofteiro 
de Pendurada no anno de 1090, tempo em que go- 
vernava Portugal o Senhor Conde D. Henrique , o have- 
rem Marinhas nas margens do Rio Leja , (b) as quaes 



' (ã) Cada Marinha compocm-fe áe trinta talhoi , e d efté 
modo fe contaÓ as Marinhas tanto em Aveiro, como m vv' 
gueira. Em Riba-Tejo , e Setúbal cada Marinha nao tem hum 
cerco , e determinado numero de talhos , mas ordinarta mente 
tem por oito , ou dez das da Figueira. 

■ (bS Três 1 altos in Leza iv /oco. pr^diao Lavandeira. £r. 
iizZ. 17. Kal. Jugufti. Cart. dó Mçftciro de Pendurada. Htf 
Inuito provável, que ]i cxiftiífcm eftas Marinhas no anno de 
107OÍ por^iue na Éia de 1108, 6. K. Mart. vendeo^PedroGut* 



tànãk eíilHafi' no anno de 1119 , coino confta de huma* 
Carta de renda feira atíke anno ao Moíleiro de Morei- 
ra , tempo em que reinava em Portugal o Senhor Kei 
D. Aâbnfo Henriques. Ça) 

§. XVIIL 

Ainda exiftia6 eftàs Marinhas no anno de 1139^ 
como fe conclue de huma Carta de venda feita ao Mot 
teiro de Moreira nelle;' mefmò anno: e be de crer, 
que as fobreditas Marinhas contlnuaíTem no anno de 114;) 
e que fejaó âquelías , de que faz meh^afi a DôaçalS fei- 
ta ao Mofteiro de VairaÔ no íobredito anno. {l) 7 

§. XIX. 

- Eftas Marinhas julgo , que já nátf exiftiati no an-i 
no de 1431, ou 1433 no Reinado do Senhor D. Joa6 
I ; porque nas Cartes de Coimbra feitas no dito anna 
mandou-(e cumprir a Sentença entre o Concelho do Por- 
to, Leça da Palmeira , e Mattozinhos , pela qual na6 
podia entrar Sal de fora para os ditos Lugares, fenatii 
para o feu confumo : e que todos os mais , que o qut- 

fifonlis a FniíteCndo Gatierrizi , e fiia mulher Goncroda hu- 
tna herdade ín marina noba fubtm Kaftro QHJfionis difcurrtntt 
ribnlo Leza território portugalenf. Cart. do Moffeiro de Moreíia. 
(a) Na Era de Cezar 1 157. 4> K. Januar. Vcndeo Juliano a 
D, ^endo , Prior do Convento de Moreira , e Pelegio To- 
lipo , hum talho de Marinha m Lagona fub Kajtro Quijionís 
ãtfcHrrtntt ribulo Lezã propt litore maris intrante m iiau^as , o 

Suai herdara de Teus Pais. Na era de Cezar de 1 177. u. K. 
lart. doou ao Mofteiro de Moreira Gon calvo Ederonici fMj- 
tuor talios Íntegros de ilU marina de Lavandeira fubtm Mons 
Quifionis iiifiurrente ribulo Ltza prope litore maris território por- 
Ufgalenfe. Cart. do Mofteire de Moreira. 

C^) Dt mias Salinas quatuor talios atm fua vita< Era 4t 
X16}. j. J^onat Jmii. Caiior. do Mofteiro de Vaiiaó. 

'- ■ ': zcf- 



Izc.byCoOglc 



aeflem comprar , vieflèm ao Porto ; porque nífto ihté* 
reíTara a Cidade, por lhe trazerem mantimentos os que 
qu«ria6 levar Sal. Daqui podemos concluir , que já nef- 
te tempo tinhafi acabado as Marinhas ,. que exiltiatí nas 
margens do R.io Le(;a -, porque ainda que produzilTeni 
pouco Sal , Tempre íeriã .bananté para o confumo dos 
ditos Povos , fem que houvefle preclfaó de fer impor- 
tado de fora. 

5. X3C 

Confta fors ferem extiniflas as fòbreditas Marinha* 
por tninfacçafi-, que houve entre a Cidade do Porto,. -0 
o Btfpo da mefma Cidade ; porém depois Joa6 Rodri- 
gues de Sá obteve licença do Senhor Rei D. ÀSonfo 
y , para fazer Marinhas na lua terra de Matlozinhos , 
fem embargo da oppdlisa6 do Concelho db >Fbrio , e 
fentença , que tinha contra os moradores .de M^ttoei- 
nho< sobre .a importação, e exporcjf^ã .do :Sal,' na 
qudi fe dedara , que fomente poderia.carregar x>.âal das 
ditas íMari abas em Navios dlnUa bordo, ^e.iíendello pa* 
ra o ulb idaterra , e fua vizinha Leça, e queiO,r;efto 
o favia veivder no'PorLo, obrervajido as. fioAuras. da 
Cidade : confta tudo ifto de huma fentença dada no Rei^ 
nado do Senhor D. Affbnfo V em Alemquer , a 13. de 
Outubro do anno de 1461., regiftrada no Livro A. dá 
Camerá do Porto foi. 142. 

§. XXI. 

NalS pude faber fe o dito JoaÔ Rodrigues deSá» 
tendo confeguido a licença Regia do Senhor fteiD. A^ 
fonfo V, fez as Marinhas , ou o rempo, que durara^. 
Talvez nafi feriaô feitas, ou fe fefizeraõ, acabarão in- 
teiramente; deforma que prerentcmenre naõ «xiftçm AU- 
rinhas alguioas nas margeas do E.io Leça. 

§. xxn,* 



0B LlTfERATe» A PòRÍVGUIZA. 177- 

§. XXII. 

■ Além das Marinhas lituadas nas vizinhanças do ""p^" 
Xxça, também houveraó algumas nas margens doRioM. 
Douro em Miragaia , e Majarelos , as quaes paga- 
vaO o disimo do Sal á Igreja de Cedofeln , co-^ 
ino confta de hama ProvifaG dirigida ao Alcaide , e 
Juizes de Gaia de ^ de Julho do anno de 1363 no 
Reinado do Senhor Rei D. Oiniz , e de huma Inquirí- 
çaíí Tirada por Joaíí Vicente , TabelHati d' EIRei , fe- 
bre as rendas da Igreja do Porto , e feu valor a zZ 
de Agofto do anno de 1377 no Reinado do Senhor 
Rei D. Affbnfo V. Acha{(-íe efteis documentos no Lírra 
gramle da Camera do Porto Foi. ii , c 31. 

§. XXIII ' 

He muito provaTcI , que ainda cxiftiílem algumas das 
ftibreditas Marinhas no Reinado do Senhor Rei D.Joaô 
I", porque a 28 de Novembro do anno de 1428 houve 
hum ÃccordaÔ do Concelho do Porto ,. para ie nomea-. 
rem Guardas das portas da Cidade^ que tiveíTem a cargo 
de naô deixar fahir Sal lem Alvará dos Vereadores. 

§. XXIV. 

Na() pude defcubrir q tempo , em que (òràó feitas 
as referidas Marinhas ; porém he muito provável', que- 
ainda naô exiftiffem no anno de 1293» tempo em que 
foi dado á Villa de Gaia foral pelo &mhor Rei D. Af- 
fonfo III ; porque nefte naõ fe faz meoçaó do quanto 
haviaíS de pagar do Sal , como fe faz de todos os fru- 
ítos nataraes , e indufiíias pertencentes á dita Villa. 



Tm, r, Nn §. XXV. 

ng.lc.byCoOglC 



278 M E ffl o B I A & 

§, XXV. 

Nad e:£lílciii anualmente Marialias algumas nas mar-> 
gsaSf e vizinhanças do Rio Douro , nem pude faber 
o tempo, ecauzas.^ por que acabarão : muitas das Leis 
municipaes áo Concelho do Porto, e omonopolio pode- 
riaõ Ter baftances. Como também nos lugares, aonde ain- 
da iioje poderiaõ exiílir aã íbbreditas Marinhas ^ fe ob- 
fervaã prédios de maior valor, poderia acontecer, que 
tirando os Proprietários d'eftes maior proveito os fumti- 
tailTem ás Marinhas. 

§. XXVI. 

Marinijai ' j^gg fomente houveraõ Marinhas nas margens dos 
ào Con-Kios Leça, e Douro, mas também nas do Rio Ave» 
d«i perto de VÍIIa do Conde. Naâ pude defcubrir quando 
principiarão eftas Marinhas , o tempo que duráraã , e 
que ficn tiv^raã , mas fomente que exiftiaÕ no anno de 
1100, tempo em que o Senhor Conde D.Henrique go- 
vernava efte Reino, (a) 

$. xxvu. 

Em toda a Cofta da Província d'Entre Douro e Mi- 
nho naã fe obferraã iioje Marinhas algumas; fomente 
me conlta teremrfe feito ha poucos annos duas perto 
de Caminha. 



(a) Na era ãe Cezar iiíp. y. K. Nòvembris vende© Po- 
lagio Codíci a Gondifalbo Gotierrizi , c fua mulher Gelvira 
Gundizalbizi mecade de hum talho ín filia dt Comité ín illa 
Corte grande Jnjla illa de D. Fradegundia Juhtus Kafiro d. íl 
Joanne in foce dt Ave território bragarenfi. Cart. do Moftei- 
10 de Moreiía. 

. . PAR- 



zedbyCoOglc 



DE LiTTEB ATTT8A Po R T U Q UEZ A. 179 

P A a T E IIL 
Das Marinhar da Província da lEJlremaáura. 

§. xxvin. 

POb tradição , e de algumas poftura» fe conclue fe- "«""h»» 
rem mui antigas as Marinhas de Rio Maior ; po- jíaior!" 
rém igíiora-fe , quando principiarão , e o progreíto , 
que tireraõ : fomente conlla de hum Tombo feito ha 
poucos annos , que ellas fôraò fempre da Sereniifima 
Cafa de Bragança. , até á feliz acclamaçaâ do Senhor 
Rei D.JoafílV. No Reinado d'efte Soberano vcndéraó-fe 
ao Conde de Vimieiro, de quem hoje faó , e fe Jhe pa- 
ga a quarta parte do Sal ^ que ellas produzem, (a) 

§. XXIX. - 

Conferra-fe na tradiçafi d'aquelles povos, que pou- 



(_a) Nas faldas da Serra de Rio Maior ao Norte d'efte , e 
Nafcente d'aquella., íeis Jegoas de diftancia do Mar da Peder- 
neira, otfervaõ-fe humas Marinhas, que tem 150 talhos, e 
fazem parte da riqueza d^efte paiz. Saó cftas foíinadas em 
hum plano , que reprcfenta fei quafí hum paialellogramo cer- 
cado de comaros de huma terra folta : quali em huma das 
extremidades d'cfte plano da parte do Poente obferva-fe hum 
poço, que tem d'altura, contando do fundo ate onde coftuma 
encher-fe no tempo de Inverno , trinta palmos. He o fundo d'ef- 
te poço de httm barro vermelho muito endurecido. Tem duas 
naícences d*agoa falgada fempre pcrennes , huma do None, 
outra do Nalcente , e lançao agora huma maior quantidade 
de agoa , do que antes do Terremoto. Empregaó-fe continua- 
mente dois homens em tirar a agoa do Poço com muito tra- 
balho , e pouca vantagem ; porque he tirada por dois baldes. 
Nada ha aqui d'atti&cio , pelo qual fe podia defpejar a agoa 
com menos trabaihO} e em maior quantidade. 

. Kn U CO 



Dqilizc-JbyCoOglc 



%So ^_ Mehokias 

CO diftaote do lítio , onde hoje extftem as fobredíras Ma- 
rinhas , ao Norte das inefmas » perto de huoia Aldeia cha- 
mada Ao pé da Serra , liouverati antigameote alguma» 
Marintus \, porém naó pode ddcubrir ai cauzas, por que 
acabiraé. No fitío d^eftas obferrei no mez de Julho de 
1790 huma fojite de ag,oa alhada , a qual de Inverno fe 
coiifunde com hum pequeno regato , que corre perto d*el- 
la , e por todas as vizinhanças da dita fonte obTerra-fè 
huíoa grande florefcencii falina. Perfuado-me » que fe po- 
derljã. reíbbeiecer as autigas farinhas , e talvez feriaá 
mais. vancapzas ^ que as aauaes > porque fe podia fazer 
luuo maior nuniero de talhos » e as agoas de Inverno 
lhes fÂruS menor damao. 

5. XXX. 

o Sal das Marinhas de Rio Maior prefere na bon- 
dade ao de todas aí d'efte Reino >. muito principalmen- 
te para a falgaçaã , por fer mifturado com huma menor 
quantidade de faes muriatícos terreoG. Q proíluAo an- 
nu3l dVílas Marinhas he ordinariamente de ^pD moios > 
e d'aquí he exportado para o termo de Cadaral , Óbi- 
dos y Alcobaça , Leiria » e outros ; porém naÓ pôde fer 
Tendido no termo de Samarcm, exceptuando a fregue- 
zia de Rio Maioc. 

XXXT. 

rjnfcu Naíí tive noticia até ao prefènte de documento al- 
lúS' gum^ pelo (pia! fe poffa determinar a época certa , em 

Sue principiárafta haver Marinhas em Rioa-Tejoi fd pe- 
emos affirmar ,. que as do To)al já exiftiatí muito an* 
teg do anno de 1411 , tempo em que reinava o Senhor 
Rei EK Joa6 I ; porque entaõ o Mofteiro de S. Vicen- 
te de fora emprazou a Senhorinha Annes , Camareira da 
Kainha D. Leonor, humas Marinhas no Tojal > aonde 
chamaõ a Carvalha , por três vidas , pagandq de peníká 



zedbyCoOglc 



DB LlTTlRATUHA PoStUQVEZA. sSl 

'a primeira féis moios de Sal , a íegonda fete ,.e a ter- 
ceira oito. (aí 

XXXH. 

He porém fem duvida » que já no Reinado do Se- 
• nhor Rei D. JoaÔ I liaviaã Marinhas em Riba-Tejo (i) 



(jí)- Eftc Prazo acha-fe no Carc. de S. Vicente de Fora. 
■ Annario 27. Maço 3. n. 18. 

{h) „ Outro fy. Senhor, o« voíTosKdalgos, e voíTos Na- 
'■, turaes dos vodbs Regnos fazem faber aa VolTa Merece , Cfi^ 
u elles recebem grande agravo dos voíTos Rendeiros das volTas 
3, Impoftçooês , (]uevos poedes pela guifa , <]ue VolTa Mercee 
9, he : antre IS i]uaaes poíeftes hum artigo , que qaalquer , qne 
j, tirar Sal de huúTermo paraoutro, que pagaíTe de Impofiçom 
9, trez libras de c.\ài huú moyo , e muitas vezes acontece , qp* 
9, nom vai eJIe tantu : e cada huú dos ít^redircs voflbs Va^auos 
), íom moradores na Cidade de Lisboa » e teem fuás Marinhas 
j, em Riba Tejo, e mandam trazei do Sal peia defpeza de fua 
9, caza , ou pêra falgar fua azeitona , ou pêra falgai fnas fardi- 
„ nhãs , ou pêra o vender na dita Cidade em Aias lojas com medo 
9, dos inimigos , e os Rendeiros lhes demandam as ditas três li- 
fy bras de Tmpofíçom, e os voflbs Juizes afíy lhas julgam ; no que 
g, recebem grande agravamento : porque vos pedem Senhor , por 
',, mercee , ^e taaes Impofiçoocs , conio cilas , nora fe entendam 
3, em feu Sal , nem em Teus averes ,eos fianqueedes pela guifa, 
M que o fempre forom pelos Reyx , que forom ante vos< 

), Item , Senhor , vos fazem faber , que já aconteceo. a ciiai 
'„ huú dos fobredítos vofTos Valíalios vender o moyo de Sal a vin- 
„ te libras íingrante tirado de todos cuftos , e os vofTes Rendei- 
9, ros da ImpoAçem de Riba Tejo levam logo ties libcas de Im- 
9, poifiçom , e os Rendeiros de Lixboa outro tanto ; e o Ren- 
» deiro de Riba Tejo diz, que o tiram de hum Termo para ou* 
^, tro, e o Rendeiro de Lisboa diz, que o levaB> da Vilia pcra fora 
.^, do Regno, e ainda pedemnos esi Lisboa ameetade da Sifa , 
'3, porque diz, que hyhe Feita a venda ,. e es de Riba Tejo ou- 
',, tra metade , jwrque dizem , que allaa he íeita a entrega ^ e afly 
„ nos levam a Sifa de vinre libtas por moyo y e nom querem def- 
„ contaras féis , qne levam pola Impofiçom , nem querem deíV 
-9> contar tiez.^btas por cada moyo > que dam aa Sarça ,.que tuz. 



2ti Meuosias 

em ti6 grande quantidade , que natí fomente davaS Sal 
para o confumo de Lisboa , roas também era exportado 
para fora do Reino , o que fe prova por hum dos Ar- 
tigos, que fòra6 requeridos em Coimbra ao Senhor Rei 
D. JoaÕ I por parte dos Fidalgos y referidos na Orde- 
narão do Seuhor Rei D. AlFonío V. Liv. 11. tit.$'9. §. jz* 

§. XXXIII. 

Continuarão eflas Marinhas nos Reinados dos Se- 
nhores Reis D. Duarte, e D. ASbnfo V, produzindo 
naô fomente o Sal neceflarió para o coníumo do Paiz , 
mas também era exportada grande parte para os Rei- 
nos eftraogeiros j {a) porém he muito provável, que as 



'„ o dito Sal aa Naao ; nem querem descontar quarenta foldos^ 
„ que dam ao moyador í outro ly aas molheres, que o deitam 
,, na Barca : pêro eíle agravo foi moftrado a Álvaro Gonçalves 
„ Veedor da roíTa Fazenda, e elle deu em refpofta, que vifleo 
j, vofTo Juiz os artigos , e os julgaíle pela giiila, que em cU«s 
i) he contheudo , e o voOb Juiz díne , que alTy entendia os di- 
„ tos artigos , como os Rendeiros demandavam , e que afly os 
„ julgava, e alTy poderees entender , Senhor, que eftes Fidal- 
',, gos y a que cSto ioi feito , e fazem cm cada huú dia , non 
„ lhes fica a terça pane defeushens: ea muiios d^cftes, Se- 
„ nhor , acharedes , que mais levam , e levarom perelb guifa, 
„ do que elles ham , nem averam da conthía , nem dasjnercees, 
„ que lhes vos fazedes , fc VolTa Mercee nom for de o tempe- 
„ rar doutra guifa ; porque , Senhor , vos pedem por mercee , 

' » S^e vos lemhredes delleB , ca elles nom tem outro ProcuradoFj 
„ nem outro Defenfor, ca bem fabedes voos , Senhor , que os 
„ Prelados dos vofTos Regnos , e cíTe medes os Povoos , e os 
„ Letrados , e os Privados todos fom contra elles. 

Diz El Rei , que tfta Impofi^om foi cofia ao Sal porfei' 

■ to de Guerra , e que agora elit com feu Povoo por feito da di- 
ta GHtrra Ihis pos outra , e qtu portem nom fe devem dtllo f»r- 
rW/ííT , pois be pofia por bem comunal. 

(a) Confta de huma Carta de Privilegio do Senhor Rei 
D, Ãffijnfg y dada no fono a 20 de Jaqeiío de 14^5 á mefr 

fobre- 



CE LlTTEBATUBA FOB^TtJGUEZ A. 2% 
fobreditas Mariohas tiveflem grande decadência defde o 
Reinado do Senhor Rei D. JcaÒ I , até o de D. Filip- 
pe II; porque oo tempo , qu^ efte Soberano governava 
Portugal, íahío hum Alvará fobre o modo como fe ha- 
via de vender o Sal , que entraíTe no Rio de Lisboa. 
Ca) D'aciuí podemos conjeiílurar , que as Marinhas de 
Riba-Tejo > ou eftavaó inteiramente arruinadas, ou em 
tal decadência , que nad davaõ o Sal , que era precifo pa- 
ra o confumo de Lisboa , mas que era neceíTario , que 
cntraíTe nelta Cidade Sal de outras Marinhas do Reino. 

§. XXXIV. 

Defde o tempo da feliz acclamaçati do Senhor Rei 
D. Joafi IV , até ao prefente confta por iradiçaô terem- 
fe adiantado as Marinhas de Lisboa deforma, que pre- 
íentemcnte exiftem d'iquem , e álem do Tejo duzentas , 
e-quarenta> e cinco Mariohas , 38 da parte do Norte, 
e 207 da parte do Sul ; porém muitas d'eftas eftaó ar- 
ruinadas. O produélo annual de todas ellas he regular- 
mente de cento , e quatro mil > e novecentos moios 
de Sal. 

$. XXXV. 

Nada poíTo decidir com certeza fobre a origem , Marinhu 
e antiguidade das Marinhas de Setúbal ; porem he mui- ^^i^^"" 
to provável , que tanto nas margens do Sado , como 
do Tejo , ellas já exiftiirem no Reinado do Senhor Rei 
D. Pedro I ; porque do Artigo 54 das Cones feitas cm 

jna Cidade , para que nenhum Eflrangeiro polTa comprar nas 
Províncias d' Ênrce Douro e Minho , Trás os Montes , e Ef- 
tremaduta excepto Sal , Vinho , e Pefcado. 

(fl) Efie Alvará fobre o modo de vender o Sal , que en- 
Itaffe no Rio de Lisboa, he de 18 de Outubro de 1597, * 
acha-fe na Torre do Tombo Liv. 11. das Leis do anno de 
fSííS «é i^l^. foi. íl. veif. 

El- 

Dgilizc-JbyCoOglc 



1Í4 III E K o » I A S 

Eliras 00 aano de ij6i conlla carregarem-fe Nav!<^^ 
de Sal , que era exportado para fora do Reino. NaO ex- 
iftíndo as íobreditas Marinhas , todas as outras , que ea- 
t«d fe obferravad , naâ podiaS dar Sal em tanta quan- 
tidade , que chegaíTe para o confumo de Portugal , e 
fiara fer exportado para os Reiaos eftrangeiros (d ) : 
ogo he muito provarei , que já houreiTem alguoias Ala- 
riahas em Setúbal no aano de 1361. 

§. XXXVL 

Se attendermos porém ás círcunlhncias locaes , da- 
das pela Natureza , ettas nos fòzero Jul^r , que as Ma- 
rinhas das margens do Sado , e Tejo Teriaò talrez as 
primeiras de Portugal ; porque i." as enchentes das ma- 
rés neftes Reinos faó mais conáderayeis > do que no 
Mondego» e Rio de Aveiro: 2.° o terreno hemaisap- 
propriado para nelle fe fazerem as Marinhas : 3.** A ex- 
cracçaQ do Sal he mais faciI pela bondade das barras de 
Lisboa y e Setúbal. Eítas ventagens » que a natureza nun- 
ca negou a eftes fítios , faâ motivos fortes , para nos 
perfuadirmos , aue os nofTos maiores talvez fariaó aqui • 
prinaeiro Marinnas, que em outra. qualquer parte. 



(a) No anno de i$;i eraò mui poucas as Marinhas da 
Figueira; porque ncfte feculo fe tem feito a maior parte del- 
ias. No Reino do Algarve naõ haviaó Marinhas em Caftro 
Mirim , Tavira , e Porrimaó. At do Douro , Leça , e Ave fe 
aitiJi exiftiaó , niõ poJiaó fer muitas pela pequena extenfaó 
do terreno, qie borda eftes Rios nos lugares aonde ellas po- 
diaó fer faitis. L050 as Marinhas d" Aveiro ncfte tempo, ai 
poucas da Figueira , Província d'Entre Douro e Minho, e 
Reino do Algarve , naó podlaõ dar Sal em tanta qoanridade , 
que chegilfe pjra o eonfumo Jo Reino , e pira fer exporta- 
do piTi oi Reinos eílrangeiros , cazo de naó haverem ainda 
aIS«.Tiis Marinhas nas mirgens do Tejo, e SaJo. „„,, 

§> AAAVil* 



DE LlTTEUÁTUllA POBYTJO VEZ A. i8y 

§. XXXVII. 

A pezar dos fundamentos acima referidos , pelo» 
<jazes podemos fazer hum juizo prudente de que fa6 
mui antinas as Marinhas de Setúbal , com tudo no Car- 
tório d'eáa Villa na5 apparecêraó noticias relativas a Ma- 
rinhas antes do anno de 1544 no Reinado do Senhor 
Rei D. J026 III. Nefte tempo confta áe alguns Capítu- 
los de Cortes feitas em Almeirim , fahirem de Setú- 
bal Navios carregados de Sal j continuando a mefina ex- 
cracçati no Reinado do Senhor Rei D. Sebaftjaõ, cfeut 
Succeífores. (,a) 

i. xxxvni. 

No Reinado do Senhor Rei D. Sebaftiatf , as M-arí- 
nhãs da Eftremadura , e das outras Províncias , na6 fo- 
mente produziaõ o Sal neceíTario para o confumo da 



(a) Requei^raó os Procuradores <Íe Setúbal , nas Cones 
feitas em Almeirini no anno de 1544 j que dos Alvarás con- 
cedidos por £lReI a pelToas poderofas , e Fidalgos , para po- 
derem ODiigar as Barcas a que carregafTem o feu Sal para os 
Navios, Jeguia-fe, que os outros donos das Marinhas naó po- 
diaõ vender o feu Sal por naó haverem Barcas para o carre- 
■gar. Por tanto pedirão a ElRei , <jnc rcvogalTe aquelles. Al- 
varás > e allim toL concedido. Igualmente concedeu á inftancia 
do Procurador de Seiubal , que ninguém entregue o Sal a 
XIrqua , ou liio, íem primeito ter ajuftado a venda d'elle. 
Achaõ-fe eftzs Cortes no Cartório de Setúbal no Livro Lan- 
drobe a foi. 22 , e a foi. ;z. 

No anno de 1575- houve huma Provifaô do Senhor 
Biei D. Sebafiiaó , que determinava , que fe carregaflem pri- 
meiro de Sal os Navios que tivefTem trazido pao para Lis- 
boa , e SetubaL Foi pafTada em Erora a 6 de Abril do dito 
anno. Acka-fe ng Cartgrio de Setúbal no Livro Mathozo a 
lôlhas i3. 

Tm* r. Oo Rei- 



Ic.byCoOglC 



l8* M B M o * r A í 

Reino y mas crefciaS ao menos duas terceiras partes , 
que era6 exportadas para os ReÍDos ellrangeiros , co- 
mo conlla de hum Alvará d'efte Soberano de 6 de De- 
zembro de IJ96. (a) 

§. XXXIX. • 1 

No tempo que efte Reino etteve fojeito aot Reii 
de Hefpanha , como eftes por fins políticos o reduzíraâ 
i ultima ín i feria , tireraS as Marinhas a mefoia ibrte » 
que a Agricultura , e Induftria Nacional ; porém íem em- 
Dargo de haver efta decadência , ainda o Sal era expor- 
tado para os Reinos eílrangeiros em grande quiiDCida- 
de , nafS fá dits Marinhas de Setúbal , mas das outras 
do Reino , como fe conclue de algnmas Cartas Regias » 
Alvarás , e Provifoens j paliadas jio Reinado cl''eftes Piin- 
cipes. ( í ) 

(íí) O Alvará do Senhor Rei D. Sebaftíaó de 1576 de- 
terminava , que todo o Sal , que Te fízelTe cada hum anno no 
Reino , e Senhorios fe compraffc a terça parte para a Fazen- 
da Real, ou aquella porj:aó, que aíTentaffem os Olficiaes oara 
efte fim nomeados , nao excedendo a teiça parte , fendo o 
Sal pago pelo preço que em cada hum anno for taxado i e 
que todo o Sal necefTario para o confamo do Reino , feji 
vendido por conta da Fazenda Real , fem que outra pefiba 
o pofTa vender por fua conta ; dando algumas providencias p^ 
ra que houvefTe na Meza da Coniraftaçaó do Sal , que fe ti- 
nha crcado , dinheiro baftante para fe fazerem as ditas com- 
pras. Jteal jírcbivo da Torre ao Tombe Liv, I das Leis d» 
antio de i^ft, até \6ii. ; 

Çh) Alvará de i de Abril de 1601 , que deretmina, que 
^cad.1 moip de Sal, que fahir por msr para fera do.Rein» 
'pí:;ue á Fazenda Real 110 reis , além dos Direitos^ antigos» 

Íorcm era exceptuado d'cfta nova Impòfiçaó todo o Sal , que 
i: exportava para Bíefpanha. JTw/ ÀrtbivO da Torre do Tot»- 
*o Liv. II dàs Leis de 1595 até f6^é. foi. íjí. V. Ach*- 
fe também efte Alvará no Gart6río de Setúbal 110 Liv. d» 
Regifto a foi. 77 , e foi feito em Madrid no i^" de Abril de 
*-■ ■ . '5. XI, 



SE LiTTERArUílA PORtUQUEZA. iS/ 

$. XL. 

No Reinado do Senhor Rei D. Jpaí IV faliií de 
Setúbal para fora do Reino grande quantidade de Sal , 
de forma que fó com çE Direitos do Sal , que era ex- 
portado para Hollanda fe pagávatí os pecrexos , ar- 
mas , f ^upiçoens , que viiihaô para efte Reino , (d) e 
na menoridade do Senljor Rei D. AfFonjo VI no an-r 
|]o 4^ 1^59 mapdou a Rainha a Senhora D. Luiza aq 
jyií , e Vereadores de Setúbal , para que lhe vendeíTem 
trinta iniJ moios de Sal , que fe haviao de mandar pa- 
ta HolUiida, para promover o ajuílamento da Faz. (J>) 

§. XLI. 

Quando governava efte Reino como Regente o 
Senhor D. Fedro > as Marinhas de Setúbal produziaõ Sal 

1601. No anno de léri, houve huma ordem d'£IRei Filip- 
fc III de Caftella, e II de Portugal, para fe dcvaflar dos 
airavelTadores , i^ue compravaó Sal para o tornarem a vcndet 
aos Navios. Acha-fe no Cartório de Setúbal no Livio do Re- 
£iftro a foi. 65. 

(a) Alvará, em que o Senhor Rei D. Joaõ IV manja, que 
fem embargo da Provifaõ fobre a repartição do Sal, osfíol- 
landezes o carreguem livremente fem ferem obrigados a com- 
jprallo na conformidade da repartição , por fe cer feito hum Af- 
lento em Flandres para que os petrechos, armas, c muni- 
joens atli compradas fe pagaíTem nos Direitos do Sal, que os 
niefmos Hollandezes imp orranem de Forrugal ; e por ifio lhe» 
Teja livre a compra , e venda do Sal , até que eitcjaõ pagos 
os Direitos das Letras , que fe tirarem de Hollanda em paga* 
mento das armas , e municoens , que de Portugal alli fe man- 
darão comprar. Efte Alvará he de 9 de Setembro ; e acha-fe 
no Cart. de Setúbal no Livro Mouzinho a foi. 

(b') Efta Carta Regia da Rainha a Senhora D. Luiza he 
de 20 de Março de 1659. Acha-fc no Cartono de Setúbal no 
Livro Mouzinho a foi, 102. 

Oo ii em 



Cg.lzccbyCoOglC 



3S9 M B H d R I A ft : "-- :- : 

em tanta quantidade, que fómente com os Direitos do 
Sal expartado para Holkõda (^ pagáraÕ em poucos aa- 
sos fetecemos , e cUicoenta mil cruzados ,, t^ue k de-> 
vUÔ aos Hollandesee. (a} 

§. XLIL 

As Martnbas , que aftualmente cTtítein nas mar- 
gens do Rio Sado da parte do Norte faít cento ,^ e fe- 
tenta , e íeis ^ e onze psrdidas , e da pane do Sul , íaã 
outras tantas úteis , e dezefeJs perdídjs , de fóroia , que 
do numero total das Marinhas andaé em roda 352 , 
e 27 eftaõ' imei-ratncnte arruinadas ^ e aqueUas produzem 
em annos regalares duzentos , e vinte féis nul moiot 
de Sal. (í J 



(a) Doií Alvarás de i ^e 1^ de Novembro de iâ68, nos 
^^es fe regula o modo por que em fugar do lançnmeato , pelo 
q^al Setúbal ;. c AlcJcer havia.ó de concorrer para o pagamento 
Se fetecentos mil ciuzãdos , Ce pjtgi^em eSias quantias em remeflíag 
de Sal para Hollanda ^ o qual fe obriga a pagar o Príncipe aos 
Lavradorci; potémquer, que pag,anda-feantes de Direitos 580 
por moyo , fe pigoe 700 reis em quanto durar a extracção 
3o S3I paca Htdlanda , e que ifio também fe entenda a ref- 
peito do Sat, que fór vendido ás ourras Naçoens i e manda 
que o preço, do Sal , qne eta de 1480 o moio » fe naó levaní 
te. ExJrcem efces Alvaiáj no Cauorio de Setúbal do Lívio 
Mouzinho 3 foL 

■0>\ O numero das Marinhas de Setúbal, qu^prefcnteraente 
andao ern coda ,, e os moios que regiriaimcnteproJuzem., conf- 
lon-nw por Cectidaó , que Joaó Eíteves» Bfciivaó da Junta dã 
xepartiçaó do Sal da Villa de Setúbal , pafTou por ordem do Def- 
Cinb.irgíc!or Snpcrirrtendenie do Sal D. Fiancilco Manoel áa 
Aj\<Ít,idc em 7 dff Feveieiíft de i79í» 

PAR' 



PE LlTTEKAVVXA FOBTtrOUBZA. «8$ 

PARTE IV. 

J>as Marinhas ào R£Ítto do Algarve, 

$. XLIIX. 

A Abundância dos Sapaes , que fe obíenraõ na Cof- 
ta do Algarve , a facii exportaçati do Sal , po- 
dia dar oecaíiaà a conjeéhirar-íe , que feriati mui 
antigas as Marinhas nefte Reino ; porém na6 pude àeí- 
cebrir , que etias exiftiâem aates do Reinado do Se- 
fiJwr ikú D. Diniz. 

$. XLIV. 

Como confia de hutna Carta de Deíàggravo , que 
t Senhor Rei D. Diniz Biandou paílàr ao Concelho de 
Tavira em Lisboa no i de Setembro do anão de 1^14, 
que houve no Algarve ta6 grande falta de Sal , que 
vendiaâ o ^queire a quatro Soldos > e lançava6 no palí 
tgoa falgada.^(<r) Daqui podemos concluir, que no Al- 
garve, ou ainda naô naviaó Marinhas , ou eraôtaõ pou- 
cas , que hum anno de elkrilidade , caufou huma talta 
£&â canlideravel no fobredito Reino. 

$. XLV. 

No cafb de exiftirem já algumas Marinhas no Rei- 
no do Algarve no anno de 1314, naô poderemos deter- 
minar o progreíTo , que ellas fôraô tendo pela fucceflaS 
dos tempos. He porém fero duvida , que no Reinado 
do Senhor ReiD.JoaÓ I as Marinhas do Algarve pró* 
dozia6 Sal em tanta quantidade , que fe facilitara aos 

{a) Efta Carta Regia daiaja na Era de Cezar 1552 acha- 
it na Canotio da Camera de Tavira. 

Eftraa- 



l,c.byCA>Oglc 



199 M B M o X I A j; 

Eftraageiros a exportaçaã d*eUe para fóra do Reiao. (a^ 

§. XLVI. 

Hirínhu A abundância de Sal , que entalS harta no Algarve» 
de fmo gj.j| jjgj Marinhas de Faro ; porque as outras d'efte Rei- 
no confta ferem feitas defde o anno de lyp até aos 
fins do Reinado do Senhor Rei D. José. (í) Logo he mui- 
to provarei , que as fobreditas Marinhas, fbíícm as pri- 
meiras do Ãigarre » e em maior numero do que hoje 
Jè obferraô , e todas eraô de hum fó Proprietário j por- 
que no anno de. 1429 nas Cortes dç Vizeu fe mandou , 
ror hutna Carta Regia requerida ao penhor Rei Q. Joa4 
y que André Gonçalves , a quem ElRei tinha dado as 
Marinhas de Faro , vejideã'e o Sal para a dita Cidade , 
e vizinhanças com abundância , quanto lhe foJe pedi- 
do a dois reis o alqueire íegundo o feu foral, (c) 

(á) „ Dom loham per graça de Oeos Rey de Portugal , e 
„ Algarve. A quantos efta Carta virem fazemos fater, que con- 
„ tenda era-peranie noos antre o Concelho da nofla mat nobre , 
j, e leal C»aa4e de Lixboa per Ruy Garcia Mercador motiáot 
,,cm a dita Cidade Cea Procurador paia cHo , e os MercàdotcB 
3, PrazentÍBs eílando em a dita Cidade por Antom Bogerj e 
^ Pedra de Gatnaao ourro fy mercadores Prazcncins em íeu no- 
„ me , e dos oucros Prazeniins como fcas Procuradores , per 
„ razom dos Privilegros , que pelos Reyx dance noos, e per noos 
,,forom didoí aos ditos Mercadores Prnzentins , e ilTo mefnío 
,, em razaõ das Ordenaçoocns , e dçfezas, que Tom poílas eni 
„ noITos Rcgnos , per que os ditos Mercadores Eftrangeiros nom 
>, podem teralhar pantios , nem comprar nenhUuí averes fora da 
„ dita Cidade de Líxboa , falvo Eruica , ou vinhos , oQ Sal ^ que 
), poieram comprar no Regno do Algarve , e em todolos outros 
j, Lug.ues do noITo Senhorio. ,, Ordenação do ^tnhor Rei D. jif- 
Jotiço y. tiv. IV. %. 10. ^ag. yo. 

(%) Ignoro, que em algum lugar da Cotia do Algarve, á 
exceçaõ de Paro, Kouvenem Marinhas atites do anno ^e i;)t-j 
e [e exiâíraõ alguns talvez acabariaõ inteiramente, 
. (O Eft» Carta Regia acha-fe ng Tom. 1 do Regimento 
da Camera de I:''arí)< 

xLva 



ngilizccbyCDO^Ic 



»B LiTTBÍATWRA PORTVaUEZA. 4^r- 
§. XLVIL 

Na6 pude defcubrir , que até ao anno de 15'ji 
liouveíTein nu Algarve outras Marinhas fena6 as de 
Faro i fomente , que íe concederão na venda do Sal prí- 
TÍlegíos exclulivos a alguns Particulares , como feccmclue 
da Carta Regia do Senhor Rei D. Joa6 I paíPida nas 
Cortes de Vizeu no anno 1429; dado Senhor Rei D. Af- 
foníb V , paíTadi em Évora a 17 de Dezembro de 1476; 
e da 'do Senhor Rei D. JoaÕ II paíTada nas Cortes de 
Evqra a 12 de Junho de 1.490. (a) 

- §. XLvm, 

Exiftem atftualmeme dezefeis Marinhas nos fubur^ 
bios de Faro , doze ao Poente d'erta Cidade no litio aoiH 
de cbamaO o Cercal , que fórad talvez as primeiras « 
que fe £zera6 no Algarve , tem 247 Talhos , e o pro- 
dutflo-annual, Jegundo ine informarão, he ordinariamente 
de 741 moios de Sal. FicaÓ as outras ao Nafcente da 
dita Cidade no íitio aonde chamaõ aPedrogoza feitas 
no principio dVfte leculo por hum Particular, que alcan- 
çou licença Regia para as fazer tendo o ufo fruído 
d'ellas , por hum certo numero de annos , preenchidos 
cts quaes, fícáraõ para a Coroa > e produzem regularmente 
%20 moios de Sal por anno. 

§• XLIX, 

Huinas e outras íaS hoje do Governador de Setu* 



{à) As frequentes queixas, que os moraáores do Algarve 
faziaõ aos Senhores Reis de Portugal pelo pfcço exorbitante 
Çor que fe vendia o Sal no Algarve , talvez feriaó occafionadai 
pelos PfivtJegioc excli^vos coqcsdidoa fobre a venda do Sal. 

--., bal 



í;^%- M V Vo t t A « 

bal (a) a quem fóraó dadas por Sua Mageftade áo aiH 
no de 1791 em recomfeníà de Serviços Militares : tea- 
doas eu obrerrado no anno de 1790 , quando ainda 
erad da CorÂa , achei , que «(brad em grande decadên- 
cia occafionad!] pela pouca extracção , que tinha o Sal i 
e admíniftraçaõ , que entaÔ havia quando pertenciaâ í 
Coroa, 

S. L. 

As Marinhas fítuadas na ribeira do Almarge , TeN 
BH3 de Tavrra> fórati mandadas fazer pelo Senhor Rei 
D. Joa6 III , como coafta do Regimento d*ellas , dada 
em Alvito a 2J de Fevereiro do anno de lyji, enefte 
tempo fizera6-fe 28 Marinhas, que tinhaó 1^60 Ta- 
lhos, e hoje tem i^cOy féis d^eítas as obfervei incultas 
em Dezen^ro do anno de 1790, e as outras totalmente 
arruinadas, de forma, que produzindo em outro tempoC 
dois mil moios de Sal , agora apenas da6 quatrocentos , 
ou pouco mais , e na6 tem outro confump fena6 aquel- 
le , que lhe daÔ as Fefcarias da Coita de Tavira. 

§. LI. 

Kléai d*eftas Marinhas , que mandou fazer o Se- 
iihor Rei D. Joa6 III , eriftem outras de alguns Particu- 
lares pela Uberdade que para ilTo lhes deu o Senhor Rei 
D. José no anno de 1773, com tanto que os Proprieta* 
rios foflem obrigadf» a vender o Sal para ãs Pefcarias a 
novecentos reis o moio , e ap Povo a trinta reis o al- 
queite, naS pagando outros T)ireitos mais do que <co, 
reis por cada moio , pagos pêlo Comprador. Daqui fe- 
guio-fe multiplicarem-fe as Marinhas no Termo de Ta- 
vira , e fó o Defembargador do Paço Jozé Bernardo da 

ia) Todas as maisi qae exiftiaó nefte Reino {>enenceniet 
á Coroa fôraõ ancmataoas por determinação de S. Maget^ 
ude no anno dç f7pt> eooi eípeta de dinheiro a quaneis. 



deLitteratvra Pobvvgueza. Z95 
Gama mandou fazer cinco , que tem 420 talhos , e pro- - 
duzem regularmente íeifcemos moios de Sal. 

§. LU. 

As Marinhas do Termo de Tavira , e aquellas que Marinha 
fe oblervaõ nas vizinhanças de Faro , eraô as únicas , f port[.* 
que provavelmente exiftiaè no Reino do Algarve antes mftS. 
do anno de 1720, tempo em que o Senhor Infante D. 
Francifco mandou fazer as d'Aivor , e Viila Nova de 
Portimão, por JoaÔ Marques Ratinho, Meftre de Ma- 
rinhas , e natural de Alcoxece. SuccedêraÔ-lhe no mefmo 
modo de vida feus filhos Francifco Marques, Louren- 
ço Marques , e Manoel Marques , e hum filho d'efte 
era o Meftre aéiual das dicas Marinhas no anno de 1790. 

§. LIIL 

Sao eftas Marinhas em quanto á ordem dos refer- 
vatorios , e manipulação do Sal , em tudo femelhantes 
íls d'Alcoieie. Em VilIa Nova de Portimão exiftem fo- 
mente duas , huma das- quaes chamada a do PeleirinbQ 
tem 115* talhos j e a outra chamada dos Fumeiros tem 
165', e produzem regularmente em cada hum anno mU 
duzentos , e feílenta moios de Sal. 

§. LIV. 

As Marinhas fituadas perto de huma Aldeia chama- 
da Mmtes d'' Alvor fart trez , que tem 610 talhos, e 
o feu produílo annual he ordinariamente de 1560 moios 
de Sal. Tanto as fobreditas Marinhas , como as de 
Portimão obferva6-fe em grande decadência , porém mais 
aquellas, do que eftas. Da parte do Sul do Rio d'Al- 
vor exiftem as ruínas de outras I^rinhas , ás quaes ain- 
da chamaõ Marinhas Velhas. 

Tom. V. Yç % LV. 

ng.lc.byCoOglC 



294 Mbhokiac 

$. LV, 

MarmiiM As Marinhas de Caflra Mirún , aílíin da Coroa co- 
trô II*.' mo dos particulares» fóra6 mandadas fazer no Reina- 
ria do do Senhor Key D, José. TodM eUas faõ cenoto e 
npventa e cinco; por^m d^eftas ^y , que penencía6 Á, 
Corâa, as obfervei incultas no anno de 1790.: tem 31760 
talhos capazes de produzir por pmco 7^20 moios de 
Sal. Sa<t de díverfos particulares 9S, asquaes. Temem' 
bargQ de eíbtrem cultivadas , achaã-fe em muita decadên- 
cia. Tem 31 20 talhos, cujo produ<flo em alguns annos 
apenas chega a 6240 moios de Sal. 

g. LVI. 

A fàlta de extracção, que tem o Sal das Marinhas 
de Caílro Marim, he a caufa da fua total ruína; por- 
que a mais obvia era aquella, que lhe davaã as Pefca- 
rias de Manta Gordo. A muita íardinha , que fe pef- 
cava nefta Coita , a falgaçaã , que na mefma então fe 
fazia , era biftante para dir confumo i maior parte do 
Sal das fohreditas. Marinl»t. Cultivavaó-Ce todas neíTe 
tempo , e ticava5 d'iquí muitos a fua riqueza , e fublU- 
teocia. 

§. LVII. 

, Reduzindo-fe á ultima decadência a pefcaría de 
2\dDAte Gurdo, tivera6 a mefma forte as Marinhas de 
Gadro Marim. > de fòrm^ que fendo em outro tempo 
o. preço ordinário de cada moio de Sal novecentos réis , 
fegundo as Regias Determinações do Senhor. Re^ Dom 
Jesé do anno de 1774* hoje vende-fe muitas vezes a 
íeis vinténs o moio , e o maior preço, que ordinariamen- 
te tem, he de4oaréÍ2., que mil pòie chegar para as 
deípezas , que le fazem nas Marinhas. 

S LVIII. 

Dig,tiz.dbyC,lH.S;i^ 



'\ 



DE LlTTEKATVRA Foft^UCIVBZA. Í^f 
§ LVIII. 

Ainda que faltoa com a decadência da pefcaría 
âe Monte Gordo a maior extracção , que tinha o Sal 
das Marinhas de Callro Marim , com tudo podia efta 
facilitar-íè para as Povoações do Alem-Tejo , que ficaS 
próximas ao Guadiana , e ter o Sal huma maior repu- 
tação , fe naô foíTe o Privilegio exclufivo , que ha na 
Tenda do Sal exportado para Mertola , pccaíioiiada por 
huma Prorifatf do Oefembargo do Paço , requerida pe- 
la Camará da dita Vi lia com o fim de augmeutar o ' 
rendimeuto do Concelho (a) . 

.§ UX. 

Como os compradores do Sal das Marinhas der 
Caftro Marim , além dos Direitos de S. Mageftade , pa^ 
gaó, com o titulo de ancoragem , aos Governadores de 
Caftro Marim, e Mertola trezentos e vinte réis, e cen- 
to e fenenta , íe tem precifaS de ancorar em Alcou- 

(«) Certos Negociante» de Menola oflèrecêraó á Camará 
deíca VilU cena «quantia caiJa hum anno , com tanto que el- 
les foíTem os únicos compradcrcs de todo o Sal , que defcm' 
barcafíe em Mertola. A Gamara requerendo ao Defetr^batgo 
do Paço , que naô tinha rendimento para as defpezas du Con- 
celho , confeguio Provifaõ , para concederem hum Frivílegiò 
exelufívo na compra , e venda do Sal , qlie defembarCalTe 
cm Mertola, ãquellas pcffoas , que delTem huma maior contri- 
buição ao Concelho. Carlos Rodrigues Brabo > e Franclfco de 
Arnedo Valafco Negociantes , e moradores em Mertola arre- 
matarão o Sal por dez annos em primeiro arierd.imenio , o 
qual já findou j e logo fizeraó fegnndo j que ainda fubfifte : 
«G ditos Negociantes vendem por preço mui modko todo o 
Sal , que fe faz tniftcr em Menola , e o mais o mandaó pa- 
ra Pomar de Malpique , íende o vendem aos Hefpanhoes , e 
faõ os fobreditos os únicos > que fazem eAa Negociação. 

Pp ii tim 



Cg.lzccbyCoOglc 



it^S Memorias 

tim (a) , e rendem o Sal pelo preço , que querem 
os Negociantes de Msrtola , ncceíTa ria mente o haÕ de 
comprar por han preço mui módico aos Proprietários 
das fobreditas Marinhas , e por iíTo em muitos aonos 
fe vende o moio de Sal a fcis vinténs > e o preço mais 
ordinário he de 400 réis. 

§. LX. 

A fituaçatí das Mariahas de Caftro Marim perto 
da Foz do Guadiana , a proximidade da Cofta de. Mon- 
te Gordo,eona6 pagaremos Proprietários Direitos al- 
guns , poiíia fegurar para femprc o feu eftabeleci mento 
pela muita extracção , que o Sal podia ter para os Rei- 
nos eftrangeiros , Província de Alem- Tejo , e pefcarias 
de Monte Gordo; porém a decadência d'eftas , e o pri- 
vilegio exclufivo concedido á Camará de Mertola di- 
minuindo, e difEcultando os meios da exiracçaõ, fizeiaÕ 
cahir de íi meímas as Ibbreditas Marinhas. 

§. LXI. 

Naíí fomente eftaíS em decadência as Marinhas de 
Caftro Marim, mas cambem' todas as outras d' eíle Rei- 
no ; e além de lyx , que no mefmo fe djfervao , po- 
diaó fazer-fe outras muitas nos dilatados Sapaes , que bor- 
dai quaíi toda a Coita, e muito principalmente naquel- 
les íitios, aonde ha maior dtfSculdade de poderem a.lo- 
çar-fe , e fazerem-fe appropriados para a cultura dos 
grãos. 

(d) No anno de 17^4 coníla mandar o Senhor Key Dom 
]osé hum Alvará darado do i." de julho do mífmo anno, no 
qual derermína ao Cipiíaõ Geticfal do Algarve D. José Fran- 
cifco da CoUa ) '<]ue avize aos Governadores das Fortalezas 
do dito Reino do muito ^ que 5. Magellade thes tem ellra- 
nhado , que levem das Embarcações cofteíras Direitos , ou 
EmoIumeiKos com o ticulo de ançoraxem, 

ME- 



c»i.,cdb,G(xiglc 



DH LiTTEKATVBA POUTUQUEZA. 297 



MEMORIA 

Sohre es Códices Manuscritos , e Cartório do Real 
Mosteiro de Alcobaça. 

For Fr. Joaquim de S. Agostinho. 

O Arquivo do Real Moíleíro de Alcobaça, que ve- 
nho de examinar , affim como he hum dos mais 
antigos, aíTim he taitibem hum dos mais ricos, 
e inrereflantes do Reino. Coevo aos primeiros tempos 
da Monarquia : liberalmente dotado , fegundo as piedo- 
fas intenções d'aquelles dias: protegido em todas as épo- 
cas pelos Reys , c Senhores de Portugal : elle confervl 
ainda hoje hum incalculável numero de Documentos em 
muito boa ordem , e arrecadação. Mas efte grande nu- 
mero', porque fó diz refpeito na maior parte a negó- 
cios de fazenda, e economia, lie bem inftgniãcante, fe 
exceptuarmos os Diplomas Régios , e Foniificios , e o 
Direito Municipal das Villas , e Povoações , de que os 
Keliciofos de Alcobaça íaõ Donatários. FoÍ fobre eftes 
objeiftos ,que eu trabalhei , quanto pude, recolhendo o 
que julguei digno de fer confervado em qualquer d'a- 
quelles ramos, como mais importante para a noíTa Hif- 
toria , e Legislação. Seria agora inútil dar conta do 
meu trabalho nefta parte , e até impoflivel : as Cópias 
dos Documentos , e os Extraílos dos que fe me repre- 
fentáraõ de menor im portancia , e que já apprejeniei 
o daraQ melhor a conhecer. 

Do Arquivo paíTei á Bibliotbeca dos MíT. El!a he 
talvez a mais abundante de Portugal , e bem conhe- 
cida nas H'.'fpanhas pelo Index dos Códices de Alco- 
baça , impreflb em 177?. Lembrava íicilmente , que 
eu me poderia utilizar do trabalho alheio, e rcgulando- 



ic.byCooglc 



198 MlHOlIAS 

me pelo Index, procurar íómente o que elle nos indi- 
cava. Porém naO fei alGm : e a experiência de htnna 
hora me fez perfuadir do contrario , e deíraoeceu as 
minhas efperan^as. Confrontando os Códices com o In- 
dex , vim logo no conhecimento de duas couías igual- 
mente notáveis: i.*, que o Author do Index procedeo, 
a diverfús refpeítos , com algum defcuido , muita ligei- 
reza, e pouca linceridade : i." que alguns Códices ofie- 
reciaò matérias para novas Reflexfies, e úteis defcuber- 
tas. Entati com o Index a hum lado , e os MH. a ou- 
tro t reformei aquelle , e extrahí dVftes o que julguei 
mais notável , e incereííante ; efcapando fò is minhas 
vifiasj e exame os que na6 exiftia6 na Bibliotheca- , ou 
porque já naS havia memoria d'elle8 , quando o Index 
le formou , ou porque pofteriormente fe perdéraÔ. Da- 
rei pois a ler nefta Memoria, o mais precilamente, que 
me for polUvel , as Correcções , e Ãdditamentos ,' que 
fiz ao Catalogo dos MtT. de Alcobaça , feguodo a ordem 
doe Códices , a que refpeitaõ ; e produzirei as Refie- 
x6es , que me occorréraÓ á vifta d'elles , e que julguei 
dignas pela matéria de ferem publicadas. 

£ primeiro que tudo : Eu dlfle , que fe perdéra6 
alguns Códices MIT. -de Alcobaça; mas he necelTario con- 
felTar , que as caufas particulares d^efta perda oa6 tera 
aquelle gráo de cetreza , com qui parece as inculca o 
Author da Prefação (a). Se Filippe II fez conduzir 
de Alcobaça alguns MH. para o Elcurial , e fe devemo< 
crer , que elle efcolheu os de maior edima , como efca- 
páraõ a fua avareza tantos Documentos verdadeiramen- 
te importantes, e íó lhe agradáraã a Hijiaria de Fii4S 
IRsupnbe , a Vida d'E/Ríy D. RâJrigo em Nazareth , 
a Htjioria , e Concilio de Braga , hum Laynmndo , hum Pe- 
dra Alladio t o M.* Metugaão , Angelo Pacenfe , e outros 
d*eíb lote ? Huma aílerfaõ ta6 arbitraria , pois Ibe fahaô os 
teftemurihos de ÂA, Coevos , ou vizinitos iqudlas ida- 

(4) Jnitu Codic. £iU. dtfoi* OliúpM. 1775. Pnuf. ib %. 

des 



DE LlTTERATUBA PORTOQUEIA. I99 

des '(a) , ainda ne menos provável , fe nós lembrarmos , 
que , fazendo Baytr o Catalogo dos Mfl*. do £,jcuri.il , 
e exlrahindo d^elles o S.' Joaquim Jojé Ferrara Cor- 
ão (è) quanto nclies' liavia , e huma grande parte tios 

3ue íc coníervayaõ na Kcal Bibliotlieca de Madrid, tu- 
o relativo a noilãs coutas , natí encontrou hum íó d'a- 
quelles Códices , nem alguns outros , que por qualquer 
titulo razoável fe podeíTeiu julgar tiiados do Real Mor- 
teiro de Alcobaça para o de S. Lourenço. 

A fegunda L-aufa oaÓ he por certo mais bem fun- 
dada. NaO podia Àngeh Manrique ter á tnaÕ na Hefpa- 
nha os MlF. de Alcobaça , quando ellc , íuppondc-os 
em Portugal > cita os apograplios , que lhe eraô remet- 
tidos em Certidões authenticas , paliadas em Alcobaça á 
vifta dos MÍT. ^ produz as Relações > que o Ciftercien- 



(<l) Sei, que alguns Hifioriador» affiimaõ , coir.o faéto.in- 
jiegaycl , que Fiiippc II levou as Cortes de Lamego confer- 
vaaas no Uvco Porca E/pim do Senado de Lisboa , e que 
também ás havia em Alcobaça , onde hoje naó cxiftem , ulvez 
pela mefma razaô. Vej. Motl. Luf. Lív. X. cap. i J. Liv. XXltl. 
tap. 29. Fismir. na Cart. a rcfpci[o da Heroin. rfe Aljubaitor. 
Cmb. de Ptimat. Brac. Eccl. cap. 14. n. 14. Girí/s/b- Ag. Luf. 
T. I. P. íj)0 , cicado pelo Senh. Bilpo de Beja no Cemmcnt. 
6. as Mem. Hift. dps írogrgíT. e Reftabel. das Lei. na Ord. 
Tcrc. de S. Franc. de Portug. pag. íoy , dá fundamento cara 
conjeiflurai femelh antes , relativanienre a outros. Documentos. 
Porém embora fe coriccda , que naquelles 60 amos paffáraó a 
mios alheias imiitas Memorias MÍT, deftes Reinos : talvez o 
concedamos facilmente ^e teremos provas para o fuppôr .veç 
JãcTéiio ; a queftaó he ouira : fé os Documentos , que faltaó 
no ArquLT» de Alcóbaç» , fendo "por fua naráreza fuipeitos , c 
4e tieplíiím .ioíerelK: para Herpanhí , podem fuppSr-fe «xiften- 
MS; no Cartório d*aqueIlo Mofteiro ; e Icvp.dos d'aHí para a 
t-ivíaria do-EfciMial. Ift»; he o que tenh» por improvavíl, 
fm qaanio d^efta fuppofifaó naõ apparecerem provas mais de> 
cifivas ,, quacs o- A. do Indeii deveria «r pioaozido.^ ■ ■ 
. CO^ Vcj*^Mem^ da Liaerac. Portog. da Acad. B. dafciScienci^ 
Tom. m. Mem. I. pag. 17. (>}...■ 



zedbyCoOglC 



^oo Mehosiai 

fe Hefpanhol Fr. Antonh GafcaS lhe levou d'efte Reino ; 
c allega frequentemente com as Obras dos ChroniAas Por* 
tuguezes hrho , e BranâaÕ Ç<í). 

Talvez motivos particulares obrigáratf algumas pef- 
foas .1 cfpalhareLn efte vento : motivos , que facilmento 
fe deíxau perceber por todos os que conhecetn de mais 
perto o genío , e fyftema do Chronifta Mór Fr. 'Ber- 
nardo de Brito , e que naÔ podérafi occultar-fe á pene- 
tração do labió , e erudito Bayer (Jf). Diga-fe antes , 
quí parte dos MlH de Alcobaça , citados por Sr/ío , 
fó riverad exiftencia por aquellc tempo , que foi conve- 
nieiue , para Te verificar , que exidírafi hum dia : fendo 
mais louvável a prudência de quem os occultou, do que 
digna de perda 6 a temeridade do feu Author : e que ou- 
tra parte fe defeticaminhou por varias, maneiras em di- 
vcrfas épocas , experimentando a forte commum a foda 
a clalTe de monumentos , por mais fieis , e avarentas que ■ 
íeJ36 as mãos dos Teus depofitarios. 

Seja porém qualquer que for a caufa de fe ha- 
verem perdido alguns dos MíT. de Alcobaça , á vifta 
do que continhaõ , náÕ he para muito lauimar a fua 
perda : hum utiico iotereSe os faria fempre recommen- 
dáveis aos olhos da pofteridade imparcial , darem por 
ii mefmos em todo o tempo huma prova menos raui- 
voca do eJpirito de importara , com que fôrafi febri- 
cados. ■ ^ 

Ç^icm foíTe o Efcritor famofo , que ideou aquel- 
les Doi^umentos , nós o ignoramos ; mas pode dizer-fe , 

Cd) Manriq. Aa!».il. Cift. Tk. II. foi. 180. 4í?. «oc. 

(t) Nas Not. Á Bibl, Vci. Hifp. de N, Cím. verb. Lai' 
muiid. Liv, yi. cap, 4> pag. 4y4-'onde conjeétura, (jue o Oy- 
dex,, <^ue BrítO: çicõQ debaixo ào nome de Laymundo f nnó ht 
o mefino, <)uc o Cod. l<f , e quê efte fctia sdultetado cotd 
aquellc titulo , para vedhcar , que' exiftíra no Arquiv. de At* 
am» hxiíD.. L^mÍ4ado , {a.pfnimdo o qns QrÍM citou : tcama^ 
de que produz motivos muito criveis.' • •-- ■ 

fem 

Cg.lzccbyCoOglC 



UE LrTTEB AftniA P011TV.GTTEZA. 301^ 

fêm nota de temeridade , que de alguns parece ter !!• 
do Author aquelle mefmo , de quem ainda hoje fe 
qucixaã muitos dos Códices exiítentes pelas memorias 
apocrjfas , com que fórad adulterados ; e que algumas 
d''eftas memorias ie poderiaÕ attributr fem e^rupulo ao 
Ghronifta Briío , homem benemérito a tantos outros ref- 
peitos , e que em todas as idades feria digno de vene-. 
raçad , e melhor cortejo , fe huma critica mais exaifla 
conduzifle a lua penna. 

A falta defta critica apurada , e de que a íua alma 
era capaz , fe os exemplos , e o caraãer dominante do. 
feu feculo, fe a fua curta idade, fe raz6es ainda maia 
particulares tanto permittiíTem , lhe grangeou afpersí' 
cenfuras de contemporâneos , e de vindouros ^ porque 
ella o fez cahir em defcuidos, e erros , com vifos taô 
íèDiiveis de voluntários , que , parecendo por iíTo pou- 
co dignos de defculpa, natí poderiao em tempo algum, 
dar muito luftre á fua reputação (a). As memorias , que 
vou produzir em correcjaõ , e fupplemento ao Inder 
dos Códices de Alcobaça , evidenciaráô ao mefmo tem- 
po quanto venho de dizer. 



(d) Com effieito , he em confeqnencia defta falu , taó ee^ 
ral nas Hefpjnhas , J]ue a memoris defte Efcriror tem aei- 
toerecido muico aos nacionacs , e aos eftrangelros 3 e <juc mui- 
tos dos dotes enenciaes á hum Hiftoriador , lhe foraõ dispu- 
tados pelos feus mefntos contemporâneos. Sabe-fe o que fc 
tem elcrito a efte alTumpto , e por quem. EfcoEhcrci agon 
entre tantos o Ghroniílii Figueiredo , homem de luzes , c fa- 
digas , digiKí por certo de mais larga vida , e melhor fotcu- 
ní, pela imparcialidade do feu caraíter. Em muiios lugares 
das fuás Obras, e principalmente nas duas Differc. fobre a 
vida d'ElRey Rodrigo , fem faltar ao rcfpeito , qce fe deve 
á Peffoa, e trabalhos do fcu CoUega j que eu fempre leípei- 
tarçi igualmenie , o M." Figueiredo fe explicou de huma nu- 
neira a mais enérgica , e imparcial : na í. DilT. por ex. pag. 
■2Í ; omro Itinerário figurou Fr. Ecrnardo de Biito . . .0 
mefmo grande Cbronijla nao utiio -aos J(us tmiios taltntos , e 
• Tom. V, Qá ^O- 



Ic.byCoOglC 



301: Mb M'o ma- " ■ ' 

C o D E X VI. 

OCodei VI. principia pelo R-oIogo de S. HieroDT"- 
mo, e no alto da primeira pagina , em letras ma- 
jnsculas cora arremedo de Gothicas tem efta Nota : Bi- 
blia ganhada aos Caftelbanos. Na folha antecedente a 



»aialhos aí criticas- refexoes , qia femfre áewm efiar d vijlít 
de hum Hijhriador . . . a virtude , e ^uceridade dt Brito /è. 
ííeáo» etMbu/iear das patraíéas do P, Higuera , e feus alliadtís ã 
participadas a Gafpar jíivez de Loteada Machado , depofitíiria 
dê muitas fábulas fabricadas na o^cina Higueriana . . . pag. 
a4 : ficaria o Cljronijía Brito quafi na fituaçalf de defcuJpa , fe 
na tragedia , em ane reprefentoti tantas acções de Rodrigo de- 
fois da batalha , atjfejpe quem lhas participou ^eu o A. em ^wr 
ãs Itu . . . ellt franqueou aes Criacçs as meiot papa mais /«• 
àlmeute coubecerem o feu fincero caraãer . . . pag. \6 : os prettmt 
ImSos , conr que o Hifiorioãor Brito fe difpoz a inttsduzir aja* 
buJa Fuás Rojtpinha . . . pag. jo : o Cbronijia Brito fetn efcru* 
pulo de fe contradizer . . . pag. 66_ : fticcejfa figurado pelo Cbro~ 
nijia Brito em nutitas partes dos feus Selatorios , e na Efcrit» 
rs-t qite proditúo de lA.de Set. de 1182 . . . pag. 69 : em Bri- 
to bchérao as irríicionadas noticias , que os alliaaos das mentiraí 
íèí fiTxraÕ acreiiitar como verdades . . . pag. 82 ; depois de Fr. 
S. de Brito publicar muitos fucceffos , t hum milagre , que nu»- 
td exijHiatí pa^. 84 : por Brito adaptar o que os AuiifiMS dá- 
vinjfe das mentiras ihe quizeraõ ferfuadrr . . . pag. 1 1 1 : àoa~ 
f^Õ fd víjia por bum Chronifia , e alçada pela fita amberi- 
Uade , que o conbecifíanto do ftt* animo fincero tem feita abater 
tas Academias , t tribunaes dos fainas . . . &c. 

Em o Arquivo d» Mofteiro de S. Pedra d^ Jtgutas vi» 
<m 179O o S'. Fr. Joaquim de S. Bofa de Viterbo hum pre- 
«io(o Mil. trabalhado no mefiiio rcmpo , em qire fe publicou 
« Chronica de Cífter , no cfOal fe nisftr» «vidcntemenie a 
poucA critica do D.*" StÍto. NelJe fe prova a l^lfidade de at- 
mbuif a fundação da<^ellc Moõeiro a D. Fedro Ramires , e 
D. Jwó Ramires, defcendemes de D, Thcdon , e D. Ranfen- 
â^e : <]tte edc Mofieiro era rnairo ntais antigo : (juc em 106; 
aiaila o Conde D. Hean^pe naÓ eftava «ta Pomg«l : qoe •& 

. cfla 



zedbyCoOglC 



DE LlTTERKrvilA FOB Tt^QVBZ A. JOJ 
«ft» , e qae efti em branco, fe lê em curiíTO dó mef* 
XBO fecuio : Biiiia canhada na Batalha de Aliuhãrr»' 
ta for elRey Dom Joem o primeiro da ghrioza me- 
moria , a quai era do próprio Rey de Caftells , e ffi 
Íaahada dentro da fua própria tenda , como confia de 
uma memoria , que efià no fim defte pranto iivra. Na 
ultima folha do MíT. col. I. íe diz em letra GothicA 
contrafeita por raaõ pofterior : Alteram partem huju$ 
iihri taUit illuftris dfis comefiabilis nonias aivrez pr.» 
sd memoriam honoris et gloria fua , quia primui ten- 
torium regij Cãjiells intravit et omnta fua dno regi 
adquijivit. Ã memoria porém da II. col. oa mefma to- 
lha contém algoma coufa maij íntcreirante. Hunc iikram, 
diz ella , danavit Dns Rex Joannes namitte primus buic 
monajlerto de alcobatia pofi deviãum regem Cajlella ai 
mliubam rotam , librum hunc , crucemque argenteam et 
fryjlallinam et alia pretiofa quaque reperta in papel* 
tíone re^is Cafielhanorum fanáa Patri Bernardo pro u* - 
in confiíElu voverat dedtcavit , quo die fefiivitatem ejut 
eelebraturns , qaintum pejl viBoriam diem ad bane da^ 
mum pervenit pubfíceqae pro carona regni fui juravit. 
fefJlffe fe miram divini adjutorii prafentiam dam ia 
máxima pericula psfitus divi Patris noftri Bernardi «s- 
meit et auxiliam implorarei , et fuper tentorium KegiS 

Tavoías nonca fôraõ Padroeiros do dÍio KJofteiro : que fegun* 
to as Canas de D. Affon/b V. c D. Filippe I. efte Padroi- 
áo fempre foi da CorÔJ : e eucras muitas coufas provadas conj 
Docnmenios irrefrfkgaveis. Em fim Bnto naõ exifninou os Ar- 
<]alvos do Reino , e o que mais he , nem os da fua Congíc- 
gaçaô ; pois omittio huns y Mofteiíos de Cifter , cuja exií* 
tencia as mefmas Doações Regias nos perfuadem ; e de Tarou- 
ca , Saizedas , AlafÕes , Arouca, MaíTeiradam , e Ceifa, ef- 
creveu com a maior inconfequcncia , com mil fábulas , infup- 
portaveii atiaclironi fmos , e nenhatn Critério. Ate parece lei 
ôccirltado , ou perdido alguns Documentos , c viciado outroá ■ 
íom addiçóes írbltrarias , c fabftanciaes. Efta Memoria o evi-» 
dcoclats, 

Qa li Cafi^ 



ic.byCooglc 



'304 Mkmokias 

Cajielbanorum vtJiffi ereElum íh eere bacMlam cmn rò- 
hro palludanuatõ. Denã-uit etiam ad firvitium bmjus 
mcnajierii multa iiaja £nea et grandem caldeiram in 
^a Cajlclbani de femuUtu Regis faciebant fmts taJu- 
taques et pulmentaria fi/fficientia ad àucentoi nonagin' 
ta três. novem etiam maios captas tu bello Ds0 Ath»-- 
ti et monacbis dedit et in turri Japra infirmariam po- 
fuít multas bejlas qua dieuntur darmatojle cum Juis 
polleatibus , et viretmibas , pofait etiam corpora fér- 
rea cum baeinetis de duobus rojiris qaa ornara confêr- 
•set Deus ad gloriam Chriftianorum fuorum et timo- 
rem Cajielbanorum quorum fuperbiam mamts Dni dij^ 
perdat per merita fanSli Patris Bernardi et dnm Re- 
gem in fuo Regno velit Jiabillire ad éamm pejarem. 
ameií. 

Eftas memorias fatt apocirfas , ao menos pelo que 
rerpeita a íer efte Codex da S. Bíblia canhado aos CaA- 
telhaoos , e dado por ElRei ao Mofteiro de Alcobaça r 
e juftamente reconnece o A. do Index , qtie efte Mff.. 
item cboro injerviebat , ejufdem maaus , grapbii , et 
iisdem druifionibffs , quibus IF ( Codex ) Jignatur. Rc« 
conhece o mefmo ainda aiais claramente o A. de outra 
memoria cfcrita no forio da capa defte Codex encu- 
berta algum tanto pelo pergaminho ^ que Vefte a dica 
capa pela parte de dentro : Hoc volamea , diz ella , 
erat cborale et iatroduHus ' callide . futt pro verg 
avulfa , ut conjiat ex tatituàine pallii , et ex fittis ^ 
quibus ligantur pagelta > et ex charaBerièas germa- 
vis 4 , j , íX 7 codicis in àtramtnto , pigmento ,- gra- 
pbio , menfura &c. et eonfiituunt totam Bibliam. Men- 
Je Junii X Kal. Ju-lii an, 1774. Fr, Jofepbus à ZK 
haurentio. 

Depois defta Nota taô bem formada , fá refta di- 
zer y que ella defpertou a minha curiofldade , e paíTei a 
, examinar o Codex íègundo aquellas indicações. Aches 
cflm effeito , que elLe. com o 4.° $.° e y." completava, 
toda- a Biblia defllnada ao ufo do Coro , e que niaii< 

ciolà* 

D grtizedby Google 



DE LlTTÉBA rVtA VoVVVSVtZÀ. "^Cy 
tiioramentc foi introduzido na capa , que hoje lem , cha^ 
peada de bronze com as Armas de Caftella : i." porque 
a capa pelo feu maior comprimento , e largura moára 
ter lervido a maior volume naquellas duas dimensões j 
e o mefmo fe verifica pela fua maior altura : 2.° por- 
que os cordéis , com os quaes o Codex eftá unido á 
capa , faÔ muito mais novos y e modernos nas duas exr 
tremidades da longiiude , do que os do meio: 3." por- 
(]ue a capa e&i demaliadamente, carregada de colla pa- 
ra melhor fe ajuntar ao Codex , fora do coftume , com 
que entaÓ fe encadernavaÔ es livros ; O que natí feria 
neceíTario fe a capa fofle defde o. feu principio feita 
■para eile ; 4.** porque efte Cod« fó contém 03 Livros 
da EJcritura , conforme a diftríbuiçad , que delia i^- 
zia o Breviário Giftercienfe no Officio Divino : 5.° por- 
"que as tintas, miniaturas , coloridos, pennas , pincéis, 
e compalTos , ea dimensões na aliurft das letras , longir 
tude , e intervallo das regr:^ , faõ em tudo femelhantes 
is dos Códices 4*? 5'.° e 7.° em que fe contém as outras 
três partes da Bíblia. 

Julguem agora os liomens de juizo , qual motivo 
obrigaria ò Aiithor das duas ultimas memorias ; e ain- 
da o da primeira , a claramente atraiçoarem a verdade 
em matéria de taõ diminuta importância, e.que fe de- 
-veria efpérar deites Anõnymos em coufas de outro inte* 
íeíTe. 

CODEX XVIL 

ESte Codex naõ mereceu grande cuidada ao A. do 
Index, por iffo diz que o efcrevêra Fr. Affonfo ãe 
EJIrtmoz , Monge de Alcobaça , no fecuio XH. He 
iverdade , que pela mefina letra , e maõ do "fecuio XVIII. 
por que fe acha pofto o titulo do Codes , fe lê efcrito : 
'Fr. Mpboitfus âe Ejiremoz , alias àe tente Arcada , 
'Mwachus Alcobacenfis fcrJ0t.. Mas ifto que prova ? 
feTalvcz fae; Tcrdade,. que efte Monge cfcreveu no fe- 
cuio 



iizcObvCoGgic 



culo XII. as doas falhas , ou Appendíz , que làS em 
lecra muito diverlV da do Codioe ; mas naõ he ifto 
efcrever elle o Códice inteiro , nem parte delle : he 
ãm efcrever algumas coufas n*hum O^dex mais anti* 
£0. O A. do Index devera reâeâir na Rubrica , que 
elle mefmo vÍo ^ e que offérece a ultima folha doCod. 
col. II.. em letra coeva ao MC : Emendavi itt ^tut 
imperatore Mo jujtiniatn aano XXX. III. inâicUone 
yiL VI' Kãlendas iunii in província campania ~/ír- 
titsrio Cuman» in pojfeffioae tnftra acbenejto: E falta 
o refto , fe o havia ; porque naquella palavra termiaa 
a ultima regra MIT. e fem reclamo. Na5 diítiogulr hu- 
tna letra do feculo XII. da do feculo VL , e fuppôf 
efcríto no feculo XIL hnm Codex , que foi correâo pe> 
los anooÈ de y6o , a que correfpoodc o 33.° do Em* 
perador Juftiniano > iie naÔ entenoer da matéria , de que 
tiatamos , ou natí cuidar da própria reputado. 

CODEX CXIIL 

MAd do Jècnlo 16. em letra redonda , conno a ãt 
memoria no fícn do Cod. VI. efcrereu nefte Cod« 
CXIII. o celabre fragafento do antt-primciro Caacítia 
9ra«liarenfe $ e a Carta de Aldeberto a- Sameri», Depoit 
das primeiras 7 folhas efcritas em letra do feculo XIV4 
fegue-fe huma lauda em branco , a qual expofta contra 
a luz fe conhece ter fido noutro tempo rafpada, e po- 
lida de novo com raateriaes heterogéneos , de que ain- 
tâa eftaj^ emprcgnados os poros do pergsminlio , e bai- 
S:«s das faperíicies , peia diver& condiçaft que eicperi- 
inenta » l(a allí teccbida. Na 1/ col. defta lauda fe coi>- 
ferva o fragmento do Concilio , e na i.* a Epift. a Sa* 
nterio ; iando-fe no alto defta lauda a breve Nota : De^ 
ficir Órthograpbia Latina , à qua mifere aierravit 
fcriptOT. Kotre efta folha , e a 7,» eslíteítt- ainda boje 
Aaaií^ftofr iadirâos de iarerent âdp óoctadas-^ foUus^ 

ç . ■ 

DigitizedbyCoOglC 



fcf na "Epift. de Jiâehef-ta a Samerh fc lè indubitável-- 
«ente {a) : Dole» Juptr te frater mi à$leo fuper Âr* 
cbiepifcopum et caput nefirum Fanch^tium j. ( e naô P^íh 
gratiam ou Panchratianum ). A palavra Architpijco-. 
ptim em c(ue tanto reparou o fabio PreJado da Igreja 
de Braga ir. Agojlinbo de Cajira , quando Fr. Beraar-r 
do de^ Brito lhe communicou efia Carta > dizendo por 
fim haver fido erro de quem tirou a copia per fer a le- 
tra muito má , e ique no Original naÕ exifiia aquella. 
palavra (#), mas fim Epifcopum ^ít naÕ faz prova baf- 



. ( tf > Concorda cem iAo a Certidão do 1.° de Set. de ijix 
remettida de Alcobaça á R. Academia da Hiftoita Porcug. n» 
Appendix a° $." dos Documentos , <)ue cita o Beneí. Frane, 
LeiM» Ferreira na Dilí. íobre e&e Concilio, que vem «a Colr 
lecc. dos Docuin. e Alem. da dita Acad. do anne de lyzfi 
Kotaiei CómeQte , «jae o Inftrumento paffado a IJ de Jtilh* 
de i6o§ naó merece ié ; vaio que Helle íe diz, que na Car- 
ta de Aldehert» aSamtrio íe lií : DoUoJiiper Fpifcopum et captt 
xojirum PaHcrMtum : falfidade manifeila , e que nos obriga a 
iufpeícar infidelidade no leAo da Certidão fobre o que relpei- 
Ka ao. CoQcilio C9piad« do outro Códice hoje naõ ezlftetucu 
O mefino íe deve dizer da Cetiidaó , e InftrumenKi de l| 
Ae ]tínho de 1605 pois no Códice prefente leu Epifeí^tim 
■por Atéiffifcopum. Vej. a Certidão de il de Junho de 17^1, 
i^e fe MÍkm em Braga dos ditos Inftrumentos , reniettidos 
Aq Arcebi^o , tirada do Tom, I. Rer. Metnorsbil. do Arch. 
■áa Sc de Bfag4 , foi. 1. e feg. e vem na DiíT. cit. do Benef. 
JPerrtlra Append. n.° t." A Cenidaó do 1.° de Set. de 1711. 
- ioi paflada na prefença do D. Abbade Geral de Alcobaça , 
ido P. D. Raphaei Bluteaw , e do D.°' Fr. Manoel da Rocha. 
-As fo!h»3-, <^e faltaõ no. Cod. faó 5, e naó ? , como fe diz 
■nas Ceicidões de i^ de }unb. e il de ]ulh. de í6o$. 
■ (i>) Ve;. a Cart. de Brito de 29 de Out^ às 1C06. DiíT. 
«it. App. n°. ^.° Por ventura feria a letra do ral Cod, anti- 
■quiflimo fcmelhanie á do Cod. Uí í Naquelle leu o Co- 
■^fta Archiepifcopum per fer a letra muito tua de Ur : e ncfte 
-God. 115 «nde a ietia , qtte eo mefmo vi, he grada, fe^i 
-ligações , e taõ legiyel como a de imprenfa, leu Éfifcopum 
^t Arfbiefifiopmi : tudo, Ik ao ccnwatio 1 
■ - - ' tãnte 



Cg.lzccbyCoOglC 



$0^ ' M B » o 11 I- A f ■ " 

tante contra a genuidade do monumento , offendérá en( 
todas as idades a reputação do feu Inventor. No fim 
defta Epift. fe encontra a Rubrica feguinte : H<ec omnia 
tranfcrtpu funt a Cadica vatufliffimo , jubente III,'»' 
D. Cardi, henrrico per mauui frj Mauri moa. Alcuba- 
iia y annô Domini i^^. Efte Cod^ Original , que em' 
1J40 («) fe chama ?eiuftiffimo , diz o A. do Index fe 
perdera , e eu creio , que nunca exiftío. 



C<í) Todos fabem , que o Sr. D. Henrique foi nomeado 
Cardeal multo depois de i$40 ; e quaíi lodoí concordaó , prin- 
cipalmemc os Hiuoriadores Italianos, em que fora cm i$ÃS, 
a 16 de Dezemh. , e fc Cunha data efta nomeação do ann. 
de 1546} feria porque fó nefte anno íe fez publica em Por- 
tugal a promoção do Inf. áquella dignidade. Mas como des- 
culparia Lufitano Pbilopatrio efte anachronifmo 'i DiíTe, guo 
fe devia ler 1546 , e que a bafti do algarifmo 6 com o ttm- 
''O fe apagaria dt forte , que pareceffe aos Copifias buma cifra. 
j,is-aqui o que efte Apologilla chama conjeãura bem funda- 
da, e verofimil. Se elle entcndeíTe de Diplomática , e Criti- 
ca , fe_ vilfe a Rubrica e o Codex , nunca avançaria conje£hi- 
ras laõ dcftituidas de verofimilidade , e taó alheias do bom 
fenro, Daquclle modo tudo fe ajufta ; e arrifca-fe toda a Chro- 
nologia. Vej. a DifT. Crit. e Apolog. da aothent. do I. Ctm- 
cil. Bracar. [77;. pag. 74. O meJmo A. I. c. pag. 24. pro- 
rcrio a fentença contra o Rco , que defendia : Se Brito be 
impofior em buma çoufa ; com muito fundamento fe pode jul- 
gar qu! o he em todas ( devia dizer : em todas as que fe 
fundaÕ puramente na fga Auchoridade &c. ) : c ái Regras da 
boa critica mandão , que naS fe lhe dê credito tm faão ai- 



I" 



gum, que affirmur ; porque, qmm buma vez he mdo ftmpre fe 
prefume mdo na mefma género de mai. Concedido ijto Jegue' 
fe , que devemos coílocar a Monarquia Lnjitana entre os fal- 
fos ChronicSes ^ t a Fr. Bernardo de Brito no número dos im- 
pojiores Hejpanhoes , í o fett Retrato entre os de Higuera , e 
dos fetts Sócios. Porque nao ba maior caufa para que Fr. Ser- 
nardo dé Brito, Jingijfe o monumento do primeiro Concilio Broca- 
renft, e naS fngijfe todos os cutrosjem que funda a fua Hifio- 
ria. Ora todos os Portuguezes comprebendem muito bem os abfuf- 
doi , que fe fegftem dt admitdr , que Fr. Btrnatdo. d' Bntojii 

DgitizedbyCoOglC 



DE LlTTEÍATURA PoBTUQUEZA. 3O9 

CODEX CXUI. 

OCodex 142, fendo importante pelos Documentos 4 
que nelie fe achaô lançados , he toda via bum dos 
3ue menos eiaílamente fôraõ defcriptos pelo A. do In- 
ex. EUe nao contén.1 117 folh. mas fim 1$^: a Char- 
ta Cbaritãtis he a folh. 171 , e na6 a 77, como Gí»- 
fuetudines Cijlercii a folh. 173 , e naÕ 78. Seguem-fe 
os feguint» Documentos , que no Index além de vários , 
erros , na6 tem datas,, nem alTumptos. 

Bdla de Urbano III. Quia pkrumque veritatis in~ . 
tegritas ( fem as palavras : fe confpeElui reprefentant \ 
como fe lê no Index ) Verona , lII. Id. Jan, fem outra 
data. Nella determina fe guarde ao Mofteiro de Alco- 
baça o privilegio de naò pa^ar dízimos das terras, quas 
dsauxerunt vel deducunt aã cultum , e daquellas , quat 
fropriis manibus vet fumpttbus excolunt. Ib. foi. 211. 

Bulia de Honório III. Contigit interdum : Lateran. 
III. No». Febr. Fontificatus an. X ; (ou XV i ao que pa- 
rece ) . He hum privilegio geral concedido aos Cifter- 
cieufes para que nuUus f ab eis ) de ntyvalibus * tem- 
pore cojtcilii excuitis vel in pojlerum proprtis manibus , 
aut fumptibus excolenàis , decimas exigere , ff/ extor^ 
^uere prajumat. Ib. foi. 112. 

Bulia do mefmo: Conjlituti in verbum: Lateran, 
IIL Non. Febr. Fontificatus an. undécimo. He outro 
privilegio gerah concedido aos diios , ut liberas perfi- 
nas aã vos è Jeculo fugientes libere recipere valeatis , 
íem que os íêus Parochos , antes delles entrarem na Re- 
ligião, pecuniamj qua mortuarium nuncupatur-, extor- 
^ueant y prout a parrocbianis juis decedentibus confue- 
veruat accipere : coftume aquelle , que fe havia úitro» 
duzido n'a>guraa8 partes. Ib. foi. ^12, 

Jwn Impoftor. Que abfurdos feraô eAes ! Veja o Leitot o qae di<- 
^emos aos Cod. a,°í.°i iii; 207: t88: J54: i5í' «6: ^59*. 



l,c.byCA>Og[c 



5iõ Memorias. 

Bulia do mefmo : Btnefachns Dominus. Laíera». 
III. No». Fehr. Fttu. ã». uniectmo ; ^wra que os Or- 
dinários guardem > e façaÕ guardar os privilégios , e 
Indulgências concedidas peia S. Sé Komai» aoe Cifter- 
ciénfes \ e paírticulârmeiíie o de nad pagarem dizúnos. 
IIJ. foi. 115. 

Bulia do nteímo : Sacrofantia HjnHa/ta Ecclejiã : 
hatetan. VI, Kaí. Decembr. Pomif. a». undedrHo. Net- 
lá recebe delxiixo da protecção da Sé Rom&na o Mof- 
tdro' <Xt ÀIcotMca , f(i3s PeíToas , e B^a» j e em efpecial 
o Direito do Padfoado das Igrejas de paternaria et 
aiiatfiarot ã i granyz de contrafia c»m pertherniis futs 
de petía Regí/i.€ , de ripa de Se ti» .... ncf Veinaranen- 
Ji et de afuis belUs , concedido ■ pelos Reys de Pôrtu- 
toga). Ibi foi. 214. 

Bulia do me (mo : Cum a nobis petttnr: Lateratt. 
X Kah Marc. P&titif. an. undécimo., na qual recebe de- 
baixo da pròtecçaS da Sé Apoftolica o Mofteíro de Al- 
cobaça y luas Pefíoas , e Bens ,. conârmaiido-llie todos > 
€ em erpecial 05 que tem em Âviz ,. e feus termos. Ib. 
foi. 215-. 

Baila do mefmo : JuJIíS petfntium : Lateram III. 
KaI. Decethb. Pontif. ait. mrtdecimo : na qual recebe de- 
baixo da protecçati da S. Sé o Mofbiro de Alcobaça» 
fuás Pefíoas, e Bens, e eiA particular w/um , domos , 
poffeffiõnes\, et aRa bona y qua in cinitate Ulixl>»neaJÍ 
pajjeditis. B). foi. 215'. 

Butia do mefxno : Cvtrt a nohis , Later. 

na qual recebe debaixo dft protecção da^ Sé RoOiana o 
Moftetro de Alcdraça , fuás Peflbas e Bens , e em ef- 
pecial ertvm , domos , vineas , molendika , pojjeffiones , 
ff ãUa btna , qu£ m Vtlla de Leireno pajidetis. Ib.. 
Ibl. aiy. 

BuUa da mefino : Cííwí a nghh : . . . . Í)rf. fontif. 
Jnt. MHilti'i}fi9t zTírníi recebe debaixo in' proTecçSDus S. 
6é o Moâeiio de Alcobaça liiasP^Sus , e &ns, eein 
fiãrticdàr taíó , quanto poffijiaõ ná Gid*ie de Gohnbra^- 
Ib. foi. «6. ' ■ * Bolr 

DgitizedbyCoOglC 



Bullfl dòrticíino: Solet Rommã Ecdefib : Laieran. 
V7. Kal, Decemh. Pontif. an. undecitae<. Por ella rec*- 
±>e ns protecção da Sé Apoíiolica o Moftciro de Al- 
;ooba$a , fuás PeíToas , t Ben£ , coofiFmando-lhe todo^ji 
•e eoí efp«ciai os que poíluiaô em Qbidos. Ib- foi. ii^ 

Bulia domefmo: Jujlis peíentiuw \ Ijtíerart. Xlí* 
■KaJ. Marc. Pontif. an. undécimo., Nella toma na pro- 
tecça6 da Sé Apcáolica o Molteiro de Alcobaça , ftiáí 
Fefíbas , e Bens , erpecialmentc os que lhe dera ÉlKejr 
D. Aãbnfo em Miranda. Ib. kA. ii6. 

Bulia de Innoecncià JII. Otm ã m^sperítur, La- 
ierax. V. U. Jan. P»níif. attn. XIIUx «n que confir- 
ma ao Mofteiro de Alcoba^ tudo o que Ibe havia da- 
Âo EIRe^ de JPortugal , e o recebe na protecção da S. 
Sé coin Aus PeíToas, e Bens. Ib. foj. 117. 

Bulia de Honório III: Non absque dolere : Xtffe- 
ran. XV. Kai. Jaw. Pentif. an. undécimo: cm que.re- 
commeoda aos Ordinários defenda^} o Mofteiro de Al- 
-cobaça , fuás PefToas , e Beos , e lhe fa$a6 guardar os 
■feus privilégios. Ib. foi. 117. 

Bulia de Gregório yiÚI: Quanto amplias \ Âna.- 
•guÍM Non. Anguft. Pontific. an. h para que 01 Ordi- 
■narios fe abftenhtó de proferir .fenienças de «comniu- 
-nhaó contra os Religioros de Alcobaça , ou os que 91 
■fljuda6 nos feus trabalhos ; com .fraude , e ilUifaô dos 
privilégios Apoftolicos. lU. foi. 117. 

Bulia do méfmo : Cum ca ; Latcran. V. Jd. De- 
scemi. Pontif. an. I. para que os Religujlòs de Alcoba- 
ça iu6 fejaã obrigados a repartir com os Pjirocos dos 
«ens. moveis , ou immoveiâ t que os feus Farochiaoos de- 
rem ao dito Mofteiro , devotionis obtentu. Ib. foi. 219. 

Bulia de Ibuoria IIL Em parte tua i Later. III. 
2^01$, Decemàr. Pontif. an. undteimo ; para que Jiingucm 
obrigue o Afafaade de ÂlcobaçB a fer Juiz Apoftolico. 

Jb. p\. 120. 

Bulia do melino : Ex parte t»a\..,, em que 

^Dcede aç Prior 4o J^fteiro de Alcobaça o mefmo 

Rr ii pri- 



l,c.byCA>Oglc 



311 M E M o B I A 8. 

privilegio de nalS poder fer nomeado Juíz Apoftolico 
contra fua rootade. Ib. foi. 120. 

Bulia de Alexandre III. Reiigiõfam vitam ; fem 
data : na qual confirma ao Moãeiro de Alcobaça todas 
as Doafòes R.eaes , que tinha , e Prírilegios ApoftoU- 
cos. Ib. foi. 220. 

Bulia de Gregório FIIII. Cum ex officio pajlora» 
li ; Perujii .... Naâ fei o feu conteúdo , por fe naã 
poder ler de modo algum. He dirigida a toda a Or> 
dem de Cifter. Ib. foi. 220. 

Bulia de Lúcio III. Reiigiõfam vilam-y fem data: 
na qual confirma as Doações Reaes, e Privilégios Apof*' 
tolices, do Moíleiro de Alcobaça. Ib. foi- aii. 

Bulia de Clemente III. Reiigiõfam vitam ( e na(i 
Ea propter t como diz o Indei) fem data. Nella fa6 
confirmadas ao dito Mofteiro as fuás Doações Reaes, 
e Privilégios Apoítolicos. Ib. foi. 222. 

Bulia do mefmo : Reiigiõfam vitam ; fem data : na 
qual tomando na protecção da S. Sé o Mofteiro de At- 
cobaça , lhe confirma as fuás Doações Reaes , e Frivi> 
legios Apoftolicos- Ib. foi. 123. 

Bulia de Honório III. Reiigiõfam vitam; fem da- 
ta : nella confirma a Ordem de Cifter os feus Privile* 
gios y e a recebe na protecção da Sé Romana. He di- 
rigida a Melendo > Abbade de Alcobaça , e na6 Melin^ 
do ; como diz o Index. Ib. foi. 227. 

Bulia de Gregório VIIII. cujo principio fe naO pô- 
de lerj Lateran. K Kal. Jul. Pontif. an. II. para 
que os Monges de Alcobaça naõ paguem dízimos do 

?ue cultivarem propriis manibut , aut Jkmptièas. Ibb 
òl 235-. 

raiUa de Jnajlafio IIII. SaeroftnSla Romana Ec- 

Id. Dee. Pontif. an. 1, para que os 

iler , entre outros privilégios , i>aÕ poíTa^ 

, nem obrigados a comparecer em Juízo. 

Alexandre IIL latimatum efi auribta 
Ce 



DB I-ITLEIATUH A PostUGUEÍA. jrj 

i(e ni6 Indidirmt como leu o A. do Index); í«m da- 
ta : na qual manda aos Ordinários , que naõ levein , 
nem permittaõ levar alguém dizimos do que os Ciíler- 
cteofes cultivarem proprtis maaibus , aut fumptibus, 
Va, foi. 336. 

Bulia de Lúcio III, Jttendentes commendabikm ; 
Anaguiiie Kal. Marc. para que os Àbbades de Cifter 
pofiaÕ abfolver de quaesquer cenfuras os que entrarem 
para a dita Ordem, impondo-lhes a devida penitencia, 
e que pofíaÕ ter Procurador , que dé por elles juramen- 
to em Juízo, requeira, e refpoada em nome dos mef» 
mos Monges. Ib. foi. 240. 

Bulia de Gregório yJIII. Dévotítnis veflra pre- 
cihusi Reata XVI. Kal. Jul. Pontif, an. F. Nella 
concede aos Monges de Alcobaça , que no tempo de 
Interdiâo pofTaã celebrar, os Officios Divinos nas fuás 
Cafas , e Granjas , em que fe acharem iielTe (empo , 
tlaufis jaauis , excommunicatis exclufis , non pulfatts 
eampants , fubnuJTa você. He notável a clauAila : Cum 
fspe cMíingat H^gnum Portugália , ac Epifcopaiam 
Ulixbenenfem fupponi Jenteníia interdiSli , ãcc. lo. . foi. 
140. ■ 

Bulia de Hoftorio III. Ne a vebis viãegttir j Z,â^- 
teran. VIL Id. Decemb. para que os Monges de Alco- 
baça re(ti[ua6 aos Templários hum por nome L. Joatf, 
o qual cum in partibtts Í/Jis ( de Porrugai ) pracepta^ 
ris õfficio fungeretur a maf^firo licentia n»n pettta 
tum fruSlibus auannn annorum et fere itmmum arme»' 
torum et aiiorum animaliam precio ad menafterium vef- 
trum fe transferre prafumpjít , quem detinetis^ in eorum 
gravem injuriam , et jaSiuram. Manda pois que o en- 
treguem Jirie difficttltate qualibet cum omnibus banis qui 
tahter ajportavit ; aliás efcreve ao Arcebifpo de Bra- 

§a para os obrigar á dita entrega appellatione remota : 
7on ebjiante Conjiitutione Cmctíii Generalis , qua cave- 
tur ne qiis ultra yo dietas extra fuam dimeefim per 
Utteras apofioUcas àd jwdicium trabi pojfit, Ib. foi. 044. 
•= ■ Car- 



ic.byCooglc 



•^4 MuM o H T Jtl ■ T 

Carta d'EIRCT^ D. Sambo I. Scͫth , qiu^ mffs 
.cMcfdimus ; ApuJ Alpeàris ttlt. Me Meii : Ut rx ^m> 
ãiiquis in iodem Mofta/ierto ( Alcobaeise) prof^ffit^cm 
fecerit , bal/ctí hva patris fui , Jid non iaheat potej- 
tatem Jive (it in ipfo Monafierio Jive inãe reetdaí.i M.' 
•ntahãi ttut vendendi òerediíatem aut sJiMJd de honií 
fBtrJsjHft niji mandafo et benepitcitu Jbhatií et Ctr 
pitu/i ejmdem ioci : de outro modo quem comprar , 
«u reAber os diiot bens , os perderá , com obrigação 
^e os reftituir adpttejiatem Abiatis tíCapituli» Ao- 
-crefcttDia : Sdendmn efi , qvod nes mamlevimiis jíèáa- 
ti qued biijusmodi bereditates parentihus ilUnvm ^a- 
-nint fi/erimt tt ris in earum venditioKe ma modicim 
smorem faetat-, Ib. foL 144. 

Bulia executorial de Monerie IIL Ne â dtlcBisji' 
Mis (enaó. deitais) i Imuran. FU. tí> Decemi. iW. 
, tif. an. .PllTI. para ^que o Arcehifpo , Chantre ,. Th»- 
foureiro da Sé de firaga ( e naS o Chantre Í6 , como 
■Ai a Jnteader o Index ) Saçi6 reftituír o Teoiplano^ 
4)ue £e achara refugiado em Âlcc^^a , fegundo a Bul< 
-la ■■ referida. Ib. .foi. 245*. 

As folhas 246 a e 347 faltaâ no Codex ^ e pv 
■iSãi laitrn õati eiiftem álU as dius Bulias de Honório 
'III. fobre os Abbades, e Priores de Alcobaça na6 po* 
.deretn.Jêr nomeados Juizes Apoftolicos contra fua von* 
-tadej nem a de Gregório Fllll. cum adbuc. 

A Carta de Doajafi , que fez D. Afibofo Henri- 
-ijaes «o Mofteiro de Alcobaça vem neAe Cod. a pag. 
141 datada: Er* M.C. t. XI (iim) Jixío Id. Jprifís. 

A Carta , por que Afibnfo II. confirmou aotiolfa 
;Doaçad vem a foi. 242 datada em Coimbra ^. Id, 
ApriVn Era M. CC. SniII. <i249) . 



, DigitizedbyGoOglC 



DE LlTÍTÍBAÍimA Po»tWiS0ElA. 3IJ 

CODEX CCVil. 

APromeffa feita por EIRey D. AiFonfo Henriqúei 
de «difícar , e dotar o Mofteiro de Alcobai^a , pu- 
blicada por BriU , e lançada' nefte Godex foU 146 r.'* 
foi efcrita nelle muito depois do fatflo , pois a lecra ,- 
além de fer diverfa da do Códice, naft pôde remoncar 
acima do fecuto XVI. O mefmo fc deve entender dos 
outros Documentos , que fe lhe leguem : e fafi a folk 
147 buma OraçaÕ fobre a Cdnqulfta de Santarém , mais 
em eftylo de Romance , que dC' Hiftoria ; e principia : 
Cantemus Domino Frates Kariffhni ■&c. : e a foi. 148 
T." a Elegia («s) de Suetrs Gofuino fobrea Conquifta de 
Alcácer do Sal.. ; - ^ ,■ .. 



( tf ) Foi publicada rio IV, Toin. à\ Uon, l>u£., ConwinVu- 
tro tempo obferveí a imprefla taÓ errada pot muitos princL- 
{UQ3.»_^ilP _djlRc.qltQÍ|jinicnEfi fe enteadiaó alguos- peofamencat^ 
tive agora commodidade de a conferir com a MA". , e adverrí 
<;oni efíieitp yMjçguiAtes'. «tratas , <jue aindt '4na proíft feciaó 
attendiveis. 



Verf. 



Erratas da Impfeffa. 

5. Ou»; 

y. Talem ; 

6. Seà; • 
10. V<tjae i ' 

14. Toia ; 

15. Ac i 
lí. Noftra ; 
28» Qttoque; 
^o. Damna ;- 
17. Ratem ; 
4^ EteDim; 

47. Quaevij; 

48, Giiratur ; 
78. j£ausi 



CorfTfífeí fegúttdo * Aíff. 



^S°'- 




Si; 




Wsqne.' 




Tua. ■ 




Ad. 




Me». , 




< ' Qjlasqup. 




Dampna, 




Rate. 




""EniAi; 




Qíiíls. 
tfuramut. 




■E«i>. ■ ' 






Pof 




r..i.,i,C(X1gl 



pi _.■ Meu o » IA • ■ :: 

Porque a Memoria , ou Oraçad fobre a Conquiffa 
de Santarém , de ' q^ae . venho de fallar enlaça com os 
fuL^os, e circumftancias do voto ^ fundação, e doações 
prioaocdlaes de Ãlcoliaça » e delia íe ajudárad em'; pane 
ús que; iigurára& as mararlllias , e portentos de revela- 
ções , proíeaiM t visôea , e outras graçaç , que encaâ fe 
dizem acontecidas a beneScio daquelle Moueiir& ^ direi 
agora o que me occorre para moUrar a impoftura do 
&u Author^ ou quando, menos a improbabilidade do que 
qos conta em- ar t^6 decidido- 

Eíta Memoria data a ; Conquifta de Santarém Jdi- 
A*y Marcii illufcente die Sabbatf in era M.C.LXXXy. 
Mas a pezar deila ,. e- feondlHtDtes relações duvídou-fe 
a*outra umpa r e feo^pre fe poderá djlfiutar a verda- 
deira época da Conquifta de Santarém >.e iUodaçaÕ de 
Alcobaça. NoíTos primeiros Hidoriadores , como os da 
ulilma idacTe , ria5"coricordaõ BeIfè"a'rtigo."Huns daraá 
a'Coj»qiwfta * iy de Março (tf) : eutro* a 7 (^ i 8 (c) » 



EKralai.àa ^fV/A,- 


■t$* 


SpícdU i 
Wdec 1 


'■*?■•, 


150. 


Qoodi 


15S. 


Híci , 


■6f. 


Dii; ■ 


>«!. 


Jacinn j 


■69. 


Cúilíjai fc 


ISJ. 


Kibet; 


20é. 


Hic ec op«i 


JOJ. 


Concefíít ; 


a'5- 


Ylíxbonc ; 



216. Ar. 



Specuta. 

;■ Yideai; ■ 
iQoi. 

Ljuce,; '■! 

lacínâh/ 

Galyas» < i 

Ha^et. 

His CF opeí«- 

CoBÇfiflirque-- , 

VUxbonenfe.. 

Aá. 



(/»> dod. Alco&- ÍO7. Jartorio CiReaitun bis-ttrtitim Scç, 
17DO pag. 7^4, e.feg. Fr. ^nt. Br jifKi. M.. Lu f. &<l* 
( í 3 Í)«íirí, iV.. ^f ifaff, t Paria t Souf. &c.. 

Cf) Ft.jir, doi tantos ÂiíQÍ>. UluSíi.-Sti^ , ., 



l,-t.byCt.H)^lc 



SX LlTTBKA"TUIt A" PoSTWGUEZA. yij 
íí if de Maio (*) r e outros a 19 de Setembro (í). 
Dizem huns (c) , que ella fora no anno de iisj; ou- 
tros (d) em 1144; e alguns em 1147 (í). A fundação 
de Alcobaça , que he hum fa^o próximo áConquiílade 
Sanearem , apparece datada por diverfos AA. em 1 142 (/); 
em 1144 (g)i em 1148 (é); e aré em nyi (i). 

Sobre os faftos ha fem duvida maior variedade 
DOS meânos Efcritóres Cillercienfes. Fr. Bernahé de 
Mcntalvo , que certamente fe nati fervio das Memorias 
de Brito ^ porque faltando dos Efcritóres de Cifter Qi)' 
diz ; Vn monge de Alcobaça de nacion Pertt/gueZ ha 
facado a ora la biftoria hufitana eu Ju língua vulgar 
jf me dizen eftá efcri-viendo de cofas de la Orden : 
Montalvo ibbre a fé dos AA. que eira , fem fazer men- 
ção das Cartas de S. Bernardo , conta (/) , que elle 
Santo em huma noite, quando D. Ai&ofo fe difpunha 



(d) Brito Chron. de Cift. Liv. III. cap. 20. 8cc. 

(i) Fr. Sernabé de Montalvo Chr. de Cift. P. I. Liv. III. 
cap. 68. &c. 

{e) Segundo a Mem. que fe lia no Cod. Alcob. 37; , <^ue 
hoje naó exifte. 

(ã) Montalvo i. c. alleganáo os Leccionar, de AJcob. as 
Hift. de Port. D. Afanf. o Sábio , D. Lucas Bifpo de Tui , 
Garivay Zamalloa , e o Arceb. D. Rodrigo , &c. 
- (í) Os Cod. Alcob. 207 , e Í69 , Sartorio , Santos , e Brait' 
ãaS II. cc. 

(f) O Livro das Fundações do Mofteiro de Claraval , im- 
JM-cflo nas Obras de S. Bernardo da EdiçaÕ de Aíabillon y e 
alguiTfts Mcmor. MfT. de Alcobaça 8ec. 

(g) Montalvo 1. c. 9 àe Jnlho 8.? dia da Vilitaçaó : confo^ 
■ tne o Liv. das Fundações , e Definições de Ciftet &c. 

(fc) Brito l. c. Jongelino Notit. Abbatiar. Ordin. Ciftert. 
L. VI. pag. ip, in /íjlo Purijicatiottis : e algumas Mem. MlT. 
de Alcob. &c. 

(i) Liv. da Noa de S. Cniz de Coimbra an, dit. e huma 
Infcripçaó em Alcob. 8cc. 
(*) Chr. de Gift. impreíTa em i6oí P. I. Líy. II. cap. U. 

* (O L. e. Lív. lU. cap. £8 

Jífll. f^ ' ' 5j pa- 



Izc.byCoOglC 



ji9 Al K «t o S IA s 

para marchat cou. o feu exercito bbre Saitarea» , Ilie 
apparecéfa em fonhos , anímaodo-o i batalha > e fe^u- 
rando-o da viftom: que na pafiàeeia por Âlcoha^ fi- 
zera ElR.ey o voto de ahi cdíficarliuin Mofteiro : que, 
toiraada Santarém em dia de S. Miguel, retiraado-íe o 
Rey para as vizinhanças de Alcf^ca , renorára o vo- 
to , e promettéra de mais dotar o MoAciro coa> quan- 
ta terra ganhaíTe naquelle día : que S. Bernardo , achan* 
do-fe em Claraval , tivera revelação d*efte voto , e da 
viAoria > o que tudo participara aos feus Monges i « 
quaes chamara no dia feguinte i Batalha ^e fizera lo- 
go partir alguns afundar o Mofteiro de Alcobaça, que 
foraO conhecidos do Rey uélta rér com o meímo Ha- 
bito » em que o Santo lhe aj^arecêra oaquella noite 
referida. 

Tal he a narraça/í de Mtntahú : e porque talvez 
ainda era diminuta , o Chronifta Brito, e depois d'el- 
lé Manrique , BrandaS , Sanétor , Sartoria , e Jongt- 
litto, a ornáraâ de mais algumas cireunftancias notáveis: 

fior exemplo : Que Pedro Affbnfo , irmaÕ do Rey , 
embrado do que ouríra , e prefenciàra on França í 
cerca de S. Bernardo , quanao por ordem do mefoio 
Rey o fora íntereíTar para coftftíxuir do Papa a coii£r- 
maçaó do titulo Real , agora iSe recordara o mereci* ' 
mento de S. Bernardo, e inftára pela «zecuçaO do vo> j 
to , a que elle dera caufa , ou motivo : que na Con- i 
quifta de Santarém , fendo o Santo trazido por Anjos 
tnilagrofa mente da França a Portugal , animara em pef- 
foa , e esforçara o Rey vifivelmente , aiCítindo aos Sol* 
dados em quanto, tomara ó a praça ; ^ue «queUç^ Pedro 
ÂãTonro fâra mandado a Claraval oMiciar a S. Bernar* 
do por Cartas d'EIRe7 o feu voto , e os defe}os de que 
mandalle algiins Religiofos para a nova ProvitKÍa, que 
fe hja eftabelecer em Fortggal : que o Santo , quando 
recebeu as Cartas , já entendia mandar oe Moages , c» 
mo de faflo mandou» e cbegára<5 em 34 de Dezembro 
de J147 -f partindo de Claiaval eam.a ^laott do futu- 



DX LlTrB«ATO«-A POBlftíeUEZA. 319 
ro Mofteira; ibbre a qual introduzem imii feriamente 
S. -Bernardo fxtírfazeDdo ás reflexòes de Gerardo , íeu 
Irmaò , que efirantiava naquelle o cttidado tninuciofo , 
e «actraordÍDRrio de tirar a Planta de Clanysl , para íe 
&zer por ella o Mefteíro de Alcoba^. E&i Hiftoria 
lie tecida de círçunftmicias ÍBreroUmeis » e milagrofas : 
2niin3s« e outras neceffitati de melhores provas : de cir- 
cunftanctas manifèftameiíte contradií^orias : e cilas poi 
■fi mefoias fe ideftrohem : de oatras oppoAas a faAos , 
ile cuja certeza ninguém duvida hoje: e iie Aibre eftas, 
qne ea devo formar algumas re&çxóes. 

Se Monges enviados de Claraval por S* Bernardo 
iundáraó em 11 30 o Mofieiro de Tarouca (tf): íe o 
mermo Santo na I. Carta, que fe diz eíciita por elle 
4 ElRe/ D. A-fibitfo <Henriques em 1 143 , fuppfie a exií- 
concia de CiUerdettfes em Forti^i ^j&) : fe o M. Fi- 
gtfeirfdff reconhece (r) por cftes , e outros fundamen- 
tos, que ■mftitú entes d^E^e^ D. Aflbnfo Henriques 
^mprebender reftaurar SantãTtm , conhecia , e benefi- 
viãva ai Cifterctem/es ^abekciths n«s ftuf Domínios \ 
«ra na veidade coufa fuperflua macdM noros Monges 
< de que cm Claraval tz6 ha memoria {d) ^) e fuppór 



. Cd) V. Montalvo , Brito , SrandaS 8cc. M. L. Liv. IX. cap.9. 

Cfr) Fratres mfiros ( diz S. Bernardo na dita Cana ) vobif- 

Tum degentes ^ et me Íf]nm tornmendatoí bufete. 



(O Prov. da Votiva acçaô Scc. LísTj. 1788. pag. f. 

(d) Efcrevetido ^j Senhor Abbade ^até Luiren^ rfo Vàlli 
cm 178 1 ao Abbade de Clarival le Blqy Cohie efte afliimpto, 
efte lhe lerpoodeu em Caita de 2t de Abril do meímo anno , 
« oDil en VI , que fenaó podiaó fabcr com ceiteza quaes fo- 
laô os Difcipul» de S. Bernardo» que çrimeiío vieraó a Al- 
cobaça; boíto que por tradi$aõ coritavao fer Mart)nKo o I. 
Abbade: que em Caanival, naó havia Mpmorias do principio, 
< progreiros do Mofteiro de Alcobaça : que cm nenhuma .par- 
te do mando lhe Confiava cxifttffe cfcriíura «erra do próprio 
fwiho de S. Bcmaido , e por iflb duvidava exiUilTe Cana Toa 
«rieinal para El&ey D> Afibnfa : qus om C^naval íó exi(- 
Ss U que 



.byCA>Oglc 



310 ■ 'M ■ k OTC 1 A r •■ ■ "' ■ ' 

que o Rejr nunca tinha riftò os de Tarouca ; poís ago^ 
ra tem de conhecer os que fe lhe enviaâ pelo habito j 
com que lhe apparecéra S. Bernardo. 

Se Gerardo era morto em 1 147 , havia fete aonos» 
como podia eile dtfputar em ClaraTal com feo Irmaã 
S. Bernardo fobre a Planta do futuro Mofteiro de Al- 
cobaça? Q^c Gerardo falleceu fete annos antes de 1147, 
naÔ fó he evidente pela Chronologia Bernardiná , e De* 
monftraçdes de D. Mabillon^ mas até verdade confeí* 
fada por Manriqite (a) nos feus Annaes de Cifter , 
onde, para defculpar o Chromfta Brita j concede, que 
as Memorias , de que efte fe fervio ,ut non JuJpeSiay 
corrupta e^e apparem y atque additis quibusáam de* 
fravata. 

Os faiflos, e círcunftancías ^ que fuppoem S. Be» 
nardo , habitando em Claraval em 1147 nos mezes de 
Março, ou Maio, ainda fa6 menos- provareis , ou pa- 
ra melhor dizer, tad palpavelmente íalfos , que o met 
me Manrique {b) coníeíía , nafi fe poder fáivar a Chro» 
noiogta fem intervenção de pradigioB. Nds tabemoi 
por Memorias coevas (r) , q«e Si Bernardo nos prin* 
ci pios do anng dé 1147 fe recolhera de Alemanha , on< 
de acabica. de tratar olDegoàg. das. Cníjadasi. aufira dç 
alTidir .ao Concilio , ou CongfeíTo de £tamps , onde ie 
refolveu a Cruzada de França y e que nelte fe achou 
prefeate defde q primeiro ate o ultimo dia l que efte 
Consrello. foi convocado para os princípios de 1147» 
e' cãjebrado eâediramente . nos primeiros mezes d*efte 



tUõ Cópias das Cartas Áe hum paia oouiro-j mas oaõ asa» 
tografas , fe as houve : &c. 

(<<) V. Mabilt. Oper. S. Bera. na Chraiiol. Bemacd. e 
Manriq. 1. c. T. I. ad an. 1147. eap. 10. 

- (e) V. Ghron. S. Dionyf. T. II. SpicH. Libi miracnlor. 
S. Btrnardini cap. 16. 04o de Díogilç C, 1. de Ludtv. VIL 
Reg. pcofeitiga, in Oríeat. ft«. . . . . , . j 



i,-tcbvCAH)i^lc 



ai{ào''i principiando na Dominga da Septuagefima. Sa- 
bemos , que no mefmo fe indicou o Concilio de Pariz 
fobre a caufa de Gilberto: que para elle nartio S. Ber- 
nardo de Etamps , e neUe alHílio por todo o tempo, 
que. durou: que o Concílio principiara na Fafcoa de 
1147 ,, e durara por tempo conlideravcl (a). Sabemos, 
que de Pariz veio S. Bernardo , em eftado de doença , 
f)arã'a Província ' de Toloía , por occafíaã da Herezia 
dos Petrobuzianos , onde o mandou o Papa Eugénio III 
com o Cardeal Birpo de Oftia (h), e aue allí efteve 
quali todo o reílo ao anno de ii47> N'Jiuma palavra: 
as Cruzadas de Alemanha , e França , as caufas pef- 
foaes, e erros de Gilberto > e Henrique, obrígáraã a 
6. Bernardo a paHar de Alemanha i Ètamps ; daqui a 
Pariz; de Pariz a Tolofa ^ fem que appareça depois de 
6 de Fevereiro hum ló dia , em que fe poíTa dizer 
com probabilidade , hoje rendia S. Bernardo em Cia- 
-íaraL 

CODEX CCLXXXVm. 

A Foi. 8. d*efte Codex , col. 1. fe efcreveu em ca- 
rafberes do feculo XVI a Epift. de Âldeherto a 
■^étuerh , diveffa da que vem no Cod. 113. Princl- 
■fia : Per mijèricorãiam Dei-i e acaba De eventu eritis 
fertiores. A Epiftola do melmo Mdeberto a Pameria 
Tem a foi. 8. verf. col. I , e II efcriía no mefmo tem- 
yo. ,Priocipia : Quarith de fiatti mjiro ; acaba : Tu 
ora fro Ecck/tif Dei , et pro me. Vale. Eftas duas Car- 
tas la^ da mefma letra, e ma6 , que a do Ceder 113, 
e que a da Meftioria do Codex 6. foi. ultima col. I. , 
e II. Pelo que fe pôde julgar , que o Auihor d'ellas, 
xomo o d*eftas duas Cactas de Mdeberto , foi oMon- 

(tf) V. Otto FríSng. de Geft. Fríderici I. L. í. cap. $0. 
e os que cita D, Mabill. na Prcf. ás Otr. de S. Bemaid. 

(b) V. Difp. CtilL ílmr. &c. íobre a CLioroIogia , e fa- 
-âot de que uatamos. 



civCoOglc 



fl. 



U21 M B M to 11 I A «■ -"'■• 

e de Alcobaça Fr. PefaMdd ; f>or que no fim kíè: 
Jaí epijiolas rransáuKt ego Perdtnafidus menacbus Ãl- 
cubatí£ ex Codke perenttqu» et f»ne áeleto jvjf» R.'»' 
Jbhatis D. Georgii ãe Meilo fit g4m* Cbrijla Dfm 
noflro. amcn. He íuperfluo dizer fobre efta iOibrica o 
■mefmo, que deixo efcriío fobre a do Cod. 113, e -fo- 
melliantcs. 

A foi. 140. terf. era letra cnríva-do feailo XVII , fe 
léafeguinre Memoria: P/yrinumm tmitU peroeme nd 
omnium aures vitam miraemlis elurij^num fiutBi ilHus 
'J^ri Piremavdi abbMtis fanEHJvafíis de Turmufms diece* 
Jis lamacenfis quem dtminin pater Bffrmtrdtis a Oaravo' 
le niifit ut fundarei domam illam. Rej autemjic etoenit, 
Aimo dHi M. C KXX. dum pater venerabilii -eff^t infua 
monaflerio de Claravalle et in vigitia fimBifíiim prtcuT' 
firis dHi contemplaretur de jiatu fut ordmií •nifiinH- 
ter apparuit ti JànSluf Joannes qtti mt et -diíe&e M9 
emite fagitas tuas verfus oecidentem et ego parako ii- 
lis pharetram acutas retinentem íkgitar ^ quibus vul- 
nerentur bominum corda. His diais difparuit et fan- 
Siuf pater intelIeSla vi/iotte cepit parare nomadlos fi- 
liou cordis Jifi quos miteret in occídtias plagas -K uw- 
najieriam eri^erent , -quod fub nomine pbaretre intel- 
lexerat et elíigens quatuor prepofuit illis dominum i^e- 
remundum natioae Burgundum. Parece que a Hiftoria 
deveria continuar para naò 6car imperreíta. Mas em 
rodo o cafo he fácil determinar a authorídade , que 
merecem as Memorias d'efta natureza. 

CODEX ccai. 

AEpiftoIa do Papa hnecencio , de que o lodex ape- 
nas k lembra no num. 37, he dirigida a todos os 
fieis da Igreja Uaiverfal , e a todos fa* faber, que ef- 
te €odex a dHo pa^a Califto prmitm edJtum ^i£ia- 
venfis aymerieus pteaudsis de partiniaco vetert gui 
etiam Oliverus de ifi0ni vií/a Jaa^ mrriíe .tntigdci^ 



- DB LlTTElATOll POBTUGUEZA. Jlj 

Mjê de Vf%Hié£o dieitur et girhrga fiandrea/is focta 
ejus ^ a/Hmaram fuarum redemptiane fanélc têcobo 
gíflietioMen/i dederunt , . . . verbis veraeiffimum eHione 
pftlcberrimwn ah herética et apocripba pravitate alie- 
ftum et inter ecclejiajiicts Códices autettticum et ca- 
rt»m ( eâe ) : e por &m excommunga iilos qui ejus /a- 
teres in itiutre farnSH laeohi ferte inquietaverint vel 
qui ab ejusdem apojloii bajUica pejlquam ihi oblatus 
futrit inji0e illum abtulerint , vel fraudaverint, 
Affiaa5 oito Cardeaes , e naõ tem data. Com ella Bul- 
ia termina o Codex, 

Na ultima foJ. por letra, como a do Codez ii3> e 
1$, fe lé a Hilloria da Appari$a6 d'£lRei D. ASonfo 



Henriques aos Cónegos Regulares de S. Cruz de Coimbra, 
publicada com huma Antirona , e Oraça6 ao mefmo Rey , 
«a Monarquia Lufitana (a): Efle buem iíf:ií (diz elle) 
dam Jflffpnfê a noite pie fe filhou Ceyta aos pagõspelh 
mradff Sihr Rey Domjoam o primeyro appareceo «o Con- 
vento de Santa Cruz todo armado Jendo os frades Có- 
negos emfçmhra no cb^ro aas matinas lhes dixe que eU 
per querer de Dees fe fora cem dom Sancho jeu filh» 
ajudar a colmar Ceyta aos mayros a logo trafportale- 
eeu qujs nao foy evde ( ou enel ) mati vijlo quedandt 
cafleyros todos pajmados de ^ue ^om vijlo, 

CODEX CCCXXIII. 

ESte Codex contém os mefmos 2)2 títulos da Ordena-: 
çill Affonfínff , que Tçai no Codex do Porto. O feu 
Index acaba na I. foi. numerada , e he imperfeito pe- 
k fàita do algpns títulos. Segue-fe depois o Codex até 
foi. 169. vei^. Tudo o mais , que o Index dos Cod^ 
de Alcobaça refere fobre efte Códice , raerece huma no- 
Ta defcripçaS , nad fó porque lhe &]taS as datas, ma» 
ainda porque omitte alguns títulos, ecopeía outros cora 

O») Twi. IJI. Ffr 2% 

ma- 

Cg.lzc.byCoOglC 



3Í4 M « rt o » f A « ~ • 

niLinifefto engano. Acabados pois õs titulei , e Leis do Lír. 
II, feguem-íc osfeguintes, copiados fegundo o Codex: 

Alvard por parte dos Rendeiraí das Rendas de 
ElRey Afonfo y\ (e oatí 11, como diz* o Ind. ) Ibi. 
foi. 170 { a) . 

. Qaaes fom os Jutues , de cujas potenças , qut 
jentenceam , levaram diurnas ou tam. 'Évora , z6 de 
Julho an. 145:3.10. foi. 171 (i) . 

DojçaS de D. J^onfa ao Tio '•Ittfante D. Henrique 
de Guinéa. Lisboa 7 de Junh. an. 145" 4. Ib. foi. 172 v." (c) . 

Conto remetam os moradores das Ilhas achados y e 
demandados &c. ( e na6 , fegulTdo o índice : De como 
fe baõ de tratar judicialmente os moradores das Ter- 
ras lujeitaj ao dito Infante ) Lisb. 14 de Juoh. an. 
I45'4. Ib. foi. 173 V.» (í/) . 

Titulo da Determinacdm que ElRey N. S. fes em 
Leiria , a/fÍg»ado capitulo e outhorgado á Clerejia Za- 
ire os Refiduos e Capellas e Efcrivaes ( aliás £/pri- 
taes ) e Albergarias. Ley de D. Affonfo V em Lei- 
ria , 2f de Março de 145-8. Ib. foi. ty$ (e) . 

Titolo que nom levem achadouro dos Mouros c Mou- 
ras ( aliás : que fé levem 300 reis de acbadego de Ef- 
cravo Negro. ) Ley de D. Atfonfo V em Erora , 3 de 
Març. de 14^9. Ib. foi. 176 (/) . 

Que Judeo nom tenha Jervo Cbrijlam. Satttar. ly 
de Dez. de i4í'7. Ib. foi. 17o v.t ig") . 

Ley mental de D. Duarte declarada. Santar. 8 de 
Abr. de 1434. Ib. foi. 177 (h). 

Ca) V. Tu. CXXIII. ou Extravag. I. do Cod. Port. 
(b) V. Ord. Man. L. I, Tit. XXXIII. §. 1 1. e Tit. XXXV. §. S- 
(O V. Hift. Gen. da Caf, R. Prov. T. I. pag. 44í. 
(íí) V. Ord. Man. L. I. Tit. VIII. 

(O t^iv- d*Exiras foi. i;;. Acch. R. comdaiade gdejan. 
Õ) V. Ord. Aff. U II. Tit. CXIV. Man. L. V. Tit. XLI. 
S, I. v.° fe o dito efcraTO for negro. 
Cg) V. Ord. Aff. L. IV. Tit. LI. 
(*) V. Hift. Gen. Prov. T, UIv pag. 487. n. i^- 

Pra-, 



BE LlTTERAVVf 4 PolltVGUBZA: ^If 

Provi^aont de D. Affúnfo V áirieida a Jffonfo Gil^ 
Corregedor da Comarca Ja Beira. Êvor. 12 de Març. 
íle 144S' Ib. foi. 178 T.* (a) . 

, Provizom a rejpeito de pagarem jugadí-t os fue 
4tom tiverem tavaUos, Sintr. S de Julh. de 1461. Ib. 
foi. 179 (*) N . 

Segue-fe em letra curCva do Sec. XVI. 

Des agravas que lhe fazem os Corregedores e 
^vjiifas aa VreJezia e firmados anPre EíRe% D.Pédro 
€ Creiefia (f). Ib. foi. 180. 

Dos aggravos que Jhe fazem os Senhores e fidalgos 
€ tottcelbos. Ib. foi. 181. Falta no Indez^ 

Artigos que forom feitos entre EiRey D. Joam e 
S Creiefia. Santar. 30 d'Ag. de 1417. Ib. foi. 1Z1 y.« (d) . 

Carta de ElSíy D. Dinis fobre Artigos ( e naO , 
fohre Ritos y como diz o lad. ) Ib. foi. 180 (e). 

Ouando fe poâeraa apelar dos auttos que fe fg^ 
Bem fora 4e Juizo ( e naÔ , Jhbre fazerem Procura" 
fÕes , como leu 'o Á. do Index) (f). Ib. foi. 187. 

Soére os direitos que pagaram os Ju4eos a ElRey, 
Ib. fòl. 189 V;* Eftá errado aqui o Index (g') . 

Ley de Z>. Joam de tomo fe devem entender as 
Cartas que dij^ençam os Jvdeos de pagarem no Jêrvtfo 
reall. Ib. foi. 190 r.* 

Ley de D. Fernando de como fe bam de arreca- 
dar, as rendas do Jirvifo reall impqflo aos ^udeoS. 
1àA>. 7 d'Ag. da era de 1407. Ib. foi. 191 v.* 

Sentença fobre o mefmo. Ib. foi. 193 v.» 

Carta d*ÉiRey D, Duarte aa cerca dos vinhos ven- 
didos nas Judiarias ( e naÔ , fobre a entrada nas jFv- 

0£) V. Oíd. Aff. L. II. Tit. LXIV. e Tit. XL. $, u. 
- (A) V. Ord. Man. L. II. Tit. XVI. %. li». 20. 
CO V. Concord. de D. Pedro. 
ia) V. Concotd. de D. Joaô I. 
(o V. a III. Concord. 
ÍO V. OrJ. Aff. L. III. Tit. LXXX. 
Gr) He diyctfe ^9 Tir. LXXV. do L. JI. d'cflc Ccd. 
pm. r* ^ Tt ' ■ àia- 



IccbyCoOglc 



^l6 M^MORtâ» 

diárias) Síntr. 16 de Set. de 1433. Ib. f. 194. 

T." da ordena^om e áeclaraÇom ã cerca das AfiS 
las. Lavradio 6 de Not. de 1492. Ib. foi. 195' ?.« Fal- 
ta no Index (j) . 

Carta de ElRxy D. Manoel a refpeito das cm* 
pras que fizerem os Ecclefiajikús Lisk 37 de Not- de 
1499 (í) . Ib. foi. 196 V.» 

D*ellas Leys copiei as que era6 inéditas : Finda o 
Codex a foi. 197 v.* e a foi. 198 v." tem a DeclarafaÓ 
feguinte: Efie íyvro be de amtonyo R<rfZ mata merador 
que foy em ba cidade de llatneguo qae Ibe cuftou fi^ 
d." em efta cidade de Uix.' aos outo de fr.» de 156a. 
anitos bomde hora ejld de camynbo pêra ha ymda emdi 
D.' ho Ueve be tragua a fallvam.'' baos olhos de fm 
molber he filhos que faÕ quatro. Aniea. FrãcifquoRop 
bo efireveo no fobre dito dia be mes be era de i^ód- 
Frãcifqua Royz maia, 

CODEX CCCXXVI. 

HE injpollivel fazer conceito do que fe acha la* 
çado nefte Codex pela defcripçaô , que d'ei]e fof 
inou o A. do Index. Eis-aquí o feu conteúdo. 

Regra de S, Bento vertida em linguagem. Heitt- 
ma verlaô digna de fer conhecida do Publico. Ib- foi* 
1 até 78. 

Collecçaõ das Definições de Cifier. Tem 18 «pt- 
tulos, e he também em linguagem. Ib. foi. 81 até <)\- 

Começa a compilação das Definições feita f« iji^' 
ou 1317 , como fe diz a pag. ziz vcrf. que he onde 
acaba. He em linguagem. Ib. foi. 94. 

Definições novas de Cifier. No Prologo pag. *'f 

(a) V. L. X. de Dez. 1520, e CÔrt. àc Sant. de M3*- 
Arr. 117. 

^Ái) Talvez e a&no dera fer IA91. ». HanoéL L. H- "^^^ 
VlII. S5. 8.*, e jí.? 

ès 

DigitizedbyGoOglC ■ 



t)E LlTTESATU^A Po RTUGtJEZÀ. 527 

fe diz, í\tiz ai Defini ÇúÕes^ da Ordem do Capiíub Geral 
4o anm de inil trezentos e dezafeis em que o lihlÍ9 
das DefiniçoÕcs jotcopillado atua o anm de finquoenta 
fom recolhidas nas feguintes. Ib. foU zij até 267. 

Letra ApoJioHca em que fe conteem os Matutos ■ 
4o Papa BenediSlo fobre a Reformaram da Ord^m de 
Cijler : dada aa cerca da pente /orgia da diocefe de avi- 
»bam III. Id* dejunbo anno i." do Pontificado. Ib. foi. 
a68 até 29?. 

Outra Bulia domefrno dada em avinham a 1^ das 
K. de Junbo no i." anno do feu Pontificado. Acaba a 
foi. 301 V.* com o titulo Defpenfaçom , dos apojlatas 
de qualquer erd^m : e he propriamente fd^re as provi- 
dencias , que fe devem tomar acerca dos Apoílatas de 
direrfas Ordens, e em certas hypothefes. Ib. foi. 298. 

Outra Bulia do ntefrno , fem data , para que or 
Mendicantes nom poffaâ pajfar para_ as. duas Ordens 
dos Monges Negros , e de Cifier. Ib. foi. 501 v.* até 
30a V.* 

Letra Apofiolíca ( do P. Joannc ) de como a Or- 
dem de Cbrijto novamente foi ordenada e a efta Ordem 
{ de Cifter ) encorporada e como pertence a» abbade 
dalcobaça affy como a Padre Abbade. T>ada em avi- 
nbam prid. íd. Martii no an, 3 do feu Pontificado. Ib. 
foi. líoz r.a até 314. 

Efiormento ae canto a Ordem de Cbrifio novamen- 
te foi creada em Santarém nopaço de/Rey dom Difiss 
anno da nacença do S.f de i-^i^ a iZ de "Nev. aa cer- 
ca do Cajiello de Santarém no pap do grande príncipe 
V' Diniz : Tabaliaâ , DamingueaHs. Acaba : t. em et 
meu final acuftumado puze que tal he, Gil Miz foi o 
Meftre da Ordem de Clirifto , que deu o Juramento nas 
mãos de Fr. Martinho Prior de Alcobaça , por fer va- 
go de Abbade. Forom prcfentes G/r (?/<íffBilpo (£EvQra(«í), 

. (d) Quem copiou efte Inftramento inKrprctou provavelmen- 
te a abbiCTiacuia G. poi Gonçalo , pois al&m 4 efcreveu no 
Tt ii Mar- 



ic.byCooglc 



32S Msuoitiit 

Martiitbff Bifpo da Guarda , Martinh Bifpo de Ví" 
zea t e Rodrigo Btfpo de Lamego. Ib. foi. 314 até ji/. 

Stormenío da Ordena^mn Jobr^ofiaào ^ e regimento 
da orãê de XpSs : fendo Mj dã Ordem D. yoam 
L/itreaço. Começa. : Em mme de dJ *mh Stnham ^ntos: 
Acaba a foi. 32^. //. otit.'* aja a- ComJêda áe pr^emfa cS 
o temporat £á.* 16 d' Ag. er^ 1364 : Xabalíam, Z<«»< 
rí»p Mis. Ih. foi. 317. I 

Stormento de como buum maefire de XpSir fey 
elegido , e como foy confirmado pelh abbade tCalc^ba^a, 
Principia: Em nome de D.* amen^ Saybam Sntos.. Aca- 
ba a foi. 3^ : Em el meu final fis fue tal be. Feito 



na feria y.* ame hora de terça 9 de Nor. ep. ijity em 
Thomar pelo Tabaliam Voasq^ans. O AUade d'Alcoba- 
f a y cjue fez o Capitulo , e bleiçam , foi D. Pr. Vicen- 
te Giralães j e a M.« de Chrifto eleito , D. Fr. iV«-. 
no Rodrigues. Ib. foi. sij. 

Eftormento em publica forma , da- fe^nte clauj»' 
la : Oat' fy fabeãe aue eu ey de feer primey^ dia de 
dezrnbro em tomar d,f frendo e vos- fede by entom ca 
eu madey meu recado ao meeftre de Xpâs que feia by , 
entom ■ com feus freyres para fazerdes by •oàxita- i 
^om : padòdo o eftormento pelo TabaliaiK. EJlevem dop 1 
mafara a Fequercmento de Fr. Vicente Mon-ge da Al- ; 
cobaça em torres Vedras no alpendre da albergaria & ' 
S. Braz. g X de Dez. da era de 13Ó6. A clauTula era i 
tirada de hum» Carta Regia para o AE^de de AÍco- 
baça , efcrira em Coimbra a ^6 de Nov-> dt meíma era. 
Ib. foi. 327 até 328. 

EJlatutos da Ordem de Calatraw. AeabaÔ d'efte 
modo : Por Frey alberto de Cijler e frey bugo de mori- 
mãdo abbades foromfeãos e hordenados degrerdot ftri- 
ptus per maam de frey p." de Cabiliom Cantor de CiJ- 

CõJice i mat fabemos com toda a certeza híftoríca , que o Pre- 
lado d'£vora naquelle an. era Giraído, Eftes enganos faó roais 
feeiaeatea de que fe jul^a. 

- ter 



tos LlTTBXATUXÂ PollYUGUE Z A. 319 

'ter í a Viila de àeviom e àaàos anno do fenhor mil 
€ tra%eatos « ^nze annei. Ib. foi. 318 até 335 v.* 

Privilégios e Ordenações do P. Innocenti» III. pa- 
rm a Ordem de Calatrava, Lateran. 4.^ Kal. May. la- 
ditfl. z.« da lacarn. do Seah. an. 1199* ao* 1 do feii 
Pontiiicado. Ib. foJ. 336 até 340. 

Carta de regulamento temporal e efpiritual fobre 
o edijicamento e regimento do mofteira de Odivellas , 
feita a prazimento da Bifpc de Lisboa D. Joam , £/- 
Rey D. Deniz , Fr. Domingos Abbade de Alcobaça , 
e llvira Fria Jbbadeça d'ôdivellas. Principia : Á'ajy- 
òam todos que noos Jobane per mi/ericordia divina bij- 
■po de Lixboa; acaba : Fe£Ía a Carta do àitto m." d» 
t/ivellas era de mil III. e XXX. IIL XXFII. dias de 
fevereyro. Ib. foi. 340 até 349. 

Carta feita a prazimento d'ElRey D. Deniz , da 
Jléèade de Alcobaça Fr. Pedro ; e da Abbaàejfa de Odif 
'veilas Cçnjlança Lgurenço na qual fe mudam e corri- 
gem algnâs couzas da Carta próxima foi. 340 , qut 
eram tom graves e tam duras que per fua graveza e 
dureza fem perigo das almas nõ podiam fter conpri- 
damête guardadas. Principia : Porque do jabedor be 
mudar o cenfelbo; acaba: Dto gratias. amen. era 1344 
ma certa de Litboa , 14 de Juwa : Tabaiiam , Lourenço 
Anes. Para efta mudança deu confeminiento o Biípo 
de Lisboa D.yoal! , c o leu Cabido , como fe diz nefia 
mefma Carta : as quaes outorgas fe feguisô dçpois d'el- 
la ; porém o Copifta oatí as tranlcrcTcu no Codex , 
contentando-fe com dizer a pag. 35'3 , que as naõ co- 
piava por naÕ conterem outra couza JinaÔ a autho- 
ridade e confentimento para fe fazer ejle mudamento , 
t corregimento fobredito. Ib. foi. 349 aié 357* 

Doaçom d'ElRey D. Diniz oa Mofieita de Odi- 
vellas , de que era Abbadeça Orraca Paaez y de cer- 
tos cazaes , berdamentos , e pojfejsões no rtguevgg de 
algez de riba mar a par de Lisboa cem a tczdiçaS 
de terem fempre no dito Mofeiro cinco LapelJacs bra- 
des 



ic.byCooglc 



330 Meuoaias 

ães âe Akabaça , fendo Abbade d'efte Fr. Pedro JVisf* 
nes. Dada ecn . . . i de Outub. da era de 135*6. Ih. 
foi. 35'5 até 357 7.* Entre outras coufas notáveis fe lé 
nefta Carta , que fi dariam a todos ot y capeliacs 3 
arraies de cartts pello arrátel mourtfco de Lisboa. Efta 
Doaçaâ foi copiada nefte Codei por Fr. JoaS de lAs' 
boa á ordem de D. "Jorge de Mello a 18 de Janeiro 
de i5'48, fegundo parece ; e por iflb he em letra di* 
verfit , e tnais moderna , que a dos Documentos ante- 
cedentes. 

CODEX CCCLIII. 

TAlvez que para fe verífícar a exiftencia de Lai' 
mundo , e o que d'elle referio Fr. Bernardo de Bri- 
to , teve a lembrança de efcrever na frente d'eíle Co* 
dez o A. das Memorias do Cod. 6, 113 , e outros, 
i^uc até-agora demos por apocryfas , huma breve No- 
la , que diz : Laimundui de imperatoribus, O maU que 
o Index dos Códices de Alcobaça accrefcenta , chaman- 
do-o Capellaô dos Reys Godos Jfitisía e Rffdrigo , fe lé 
em huma outra Nota , que ainda exifte no meio do Có- 
dice. Todos porém fabem, que tal Laimunde nunca ex- 
iftio, e que a obra a elle attribuida he huma Chrcmí- 
ca dos Emperadores, e Pontífices desde 0<ílaviano> e 
Lino até o anno de 1270 compofta por D. Lucas ÍV- 
denfe. Na parte interior da primeira capa tem as pa- 
lavras : Antonius abreu -^ que feria talvez noutro tem- 
po o feu dono. 

CÓDICES CCCLim. e CCCLV. 

EStes dois Códices i&à autógrafos j e do próprio 
punho de Fr. Bernardo de Brito. O I. contém os 
três primeiros Livros da Chronica de Cífter , e no ti- 
tulo fe Jé: 1597. O II. tem o refto da ineftna Chro- 
nica , e na ultima pag. diz Brito, que o acabara de ef- 
crever em ^i de Junho de l^^^' 

No 



»E LtrrtYkVVKk PõRTUGUEzA. 3:31 
No Cod. 35'4 Liv. III. cap. 3. pagt 335- v.' ha hum 
período mui digno de reflexão. Vai firiío fallando da 
Appariçad de J. C. ao primeiío Monarca fortaguez no 
Campo de Ourique , e do Juramenro, que o meíino Prín- 
cipe deu fobre 3 dita Viia6, e diz , que elle achara p 
Juramento entre outros muitos papeis no Cartório- de 
Alcobaça tio anua de noventa e três féis fendo Jbba- 
ée da Caza e Geral de todas as mais da Ordem o 
Rm.' P. Frej Fr\ncifci> de S. Clara. O três eftá rif- 
cado com huma uníca linha hcrjzonia] , ccmo tsmbem 
defdç^a palarra eaza até Ordem , e fobre cilas huma 
entrelinha que diz ; Geral àejia Congregarão de ^OT' 
tugal. 

' Efcreria Brito em 97 , e naíí fe lembrou quando 
efcrevia hum faiílo , e defcobrimento tatí importante, 
que em 96 , e naÕ em 93, he que elle achara , ou fiti- 
fiíra efte Juramento. Tendo efcriío noventa e três , re- 
Seítio , fegundo julgo, que o feu lilencio por 4annos, 
f)u mais , podia motivar defconfianças fobre a verdade 
do faf^o , e corrigindo a dat» para noventa e féis , fi- 
cou mais próxima a defcuberta i e menos fenlivel a im- 
{oftura. Seja como for, na6 he crivei , que dentro de 
um anno Brito fe efquecelTe da verdadeira época da 
invenção do Juramenro ^ e como efpecie d*onlro feculo, 
íuíluaífe a fua memoria fobre o tempo certo da famo- 
fa defcuberta, Accrefce para confirmar aquella conjeftu- 
Ta , que peJo Codei 359 fe moftra, naó ter Brito acha- ' 
'do o Juramento até 22 de Setembro de 1593 : e para fe 
naí^ contradizer , foÍ. obrigado a emendar a data d'aquel- 
]a ínvençaO , que naô concordava também cem a época 
do Generalato de Fr. Francifco de S. Clara , eleito no 
i." de Maio de 15^94 , fuccelfor do D.' Fr. Gerardo das 
Cèagas {a). 

No Liv. Ill, cap. 20. d'efte Codíce produz o meP 
mo Chronifta a Carta de S. Beriiardo para D. Affonfò 

' C^ ) \^ Figueiredo Mipp. Nom. dos Abb. da Alcob. 

Hen- 



331 M E S o R I A » • 

Hcoridues ; a qual na6 diíFere (}a unçreiTa ; e pbrque 
traz ia a celebre claafula : Et in divifmne reàdituum 
éividetur a vohh corona vejira Scc. » que logo prorarei 
naÒ eziftia no Original , he ainda hum fundamento para 
conjeiflurarmos , por paridade de razait, que houve dor- 
lo ^ e mi fé oa data da inveoçai) do JuFaqieiito , como 
houve dolo » e oufadia para adaherar a Ca^ta de han^ 
Santo rerpeitavel para hum Rey com addiçãcs iiortoror 
Sas , indignas de hum , e outro. 

CODEX CCCLVI. 

NEfte Codex eiifte a' foi. 304 huma Carta de Fr, 
Bernarda de Brito para hum íeu Amigo , e nella 
a foi. 316, e 317 , fallando a refpeito de alguos Do» 
cumcntos , de que pertendia ajudar-fe acerca da fimar . 
.{aõ de Condexa a VeJha , nos deixou- alguns periodor^ 
que devo referir por conterem a razaõ fiifficienie do iy^ 
• tema , e procedimentos do Chronifta Mór ; Tenho ^an^ 
des fufpettas , diz elle , de fer ejfa povoaçam outra dif^ 
jerente da q fentem os que delia dijferam alguma £oUr 
za j e feria coufa mui gracieza aejfazer com fmf/cof 
anãos a opiniam. que fujtenta ó Snor Doutor fiu ami- 
guo confiada nos feus muitos , a quem quero me^flrar 
q frades de S. Bernardo merecem âifferente opiíU^m^ 
q a publicada delks eníre t.° povo , ^ fe alguns tei»' 
fos foram pouco curiofas nas letras , fuppriam com vir- 
tude o ^ lhes faltava tieliasy ajudando com fuás Orações 
continuas mais da que os letrados com fuás ktr-as x 
e já na tempo de aguara vemos may pouca gente avan- 
tajada a elles ., e elles yguaes com todos : ajjm ^ pa- 
desfazer efla opiniam iam errada por hUa tom frac^ 
mam como a minha ,dezejo tirar a limpo # que julgei 
for mais certo apontando da minha parte os AA. ^ 
dei alleguados em feus livros e Capituhs, 

Depois difto nada refleélirei : deixo falvo aos meus 
lifiitorçs o direito de bera analyfarem eftc f^gmentoV 



|,lz'c.byCA>Oglc 



DE LlTTEBAfURA Po» T ÚGU E2 A. 3^3 

e tirarem as confequencias á medida das fuás luzes. Di- 
rei fomente, que o Chronifta Mór foi modefto , e ver- 
dadeiro nos fentimeutos , que tínha á refpeito da' fua 
Congregação , da qual eu formaria o elogio , fe efte 
lugar o permittíra ; e que o feu empenho em desfazer 
a opinião contraria , e tantas vezes defmcntida , era glo- 
riofo y e digno de hum homem de bem. Mas elle teria 
confeguido mais feguramente o que pertendia , fe en- 
Gaminhalfe á eíte centro os feus trat>alhos in6 fomente, 
as fuás defcubertas , e as fuás compoíiçôes* 

CODEX CCCLIX. 

ESte Codet he autografo , e da própria maã do 
D'. Fr. Bernardo de Brito : he inédito , e contém 
5 livros da Monarquia Lulitana defde o Conde D. Hen- 
rique até D. Joaõ I. Nas coftas da folhj , que ferve 
de titulo ao Codex , fe lê o feguinte ; Advertência m- 
ceffaria para quem ler efie L° feita pelo D'. Fr, jin~ 
tòttio Brandão Monge 'de Alcobaça. O P. jy. Fr. Ber- 
nardo de Brito fes efie livro Jendo ainda muito moço : 
no fim do 4.° L." dis elle , que acabou a iz de Setem- 
hro de i5'93 fenda de idade de ly (tf) annes, Fello que 
naô pôde examinar muitas das coufas , que aqui ejcre- 
ve y antes em alguas partes dos L." , que deixou im- 
prejfos yfeguio o contrario do que aqui tinha efcrito, 
Pello que fe ha de advertir , que vao aqui muitos erros 
em matérias de Hijloria : e porque poderia fer levarme 
Deos pêra fy antes de acabar a bijioria de Portugal , 
que vou continuando da lugar , em que ficou a 2.' Par- 
te da Monarquia Lufitana , que compoz o P. H'. c vir 
depois algu intrépido , que fem fazer el/eifaõ fe per- 
fuadiffe 5 que fe podiaõ imprimir efies ej cri tos , me 

(íí^ As palavra» de 2írÍM faó : AcaM efte 4.° L." aos it 
dias de Setembro do próprio anno de i5pj annos bavendoj^ dias 
que aeabdra 25 da minha idade. 

Som. y. Vv pare* 



Dg,l,zcJbyC(>OgIC 



^34 Memorias 

fareceo fazer efta advertência , e deciarar , qae nitf^ 
guem foi mór amigo do P. !>. Fr. Bernardo em fué 
•vida que eu , nem ha quem iefpots da fua morte haja 
de tratar as couzas de Jua honra com mais refpeito. 
Feita em Lisboa a 28 de Fevereiro de 1626'. Dr.Fr. An- 
tónio Brandão. Efta Memoria he da mefma letra , e pu- 
nho do Chronifta BrandaB. 

Immediatamente a efta fe fegue outra declaração , 
da letra de Fr. Diogo de Cajiello Branco , que diz : 
Naõ fà me parece , fe naÕ deve imprimir , mas nem 
íelle dar noticias fe deve , falvo lhe rifcarem primei- 
ro a/gãas couzas principalmente a carta de N. P. pa- 
ra BlRey D. Affbnfo Henriques em agradecimento do 
•voto , que fez de fundar ejle mofteiro \ por que nejla naõ 
teca a profecia de j*." et in divifione reddituum &c. e 
foderfeía entrar em efcrupuh fe foraÕ diSíadas por ejie 
autbor , e naõ fá eflas palavras , mas outras aerecentou 
na que anda impreffa , e pelo perigo , que daqui pode 
resultar , o naõ defcuhri até agora a peffaa algúa , 
nem tenho tençaÕ. Alcobaça em 26 de Março de 1694. 
Fr, Diogo de Caftelbranco. 

Efte Religiofo era Meílre Graduado , eleito Chro- 
nifta dos Ciftercienfes de Portugal pelo Capitulo do i." 
de Maio de 1687 , e d'elle efcreve o M. Figueiredo (íí) : 
J^ós attejlamos os feus trabalhos hifioricos pelas notas , 
com que addicioneu muitos dos Mff'. dos feus antecef- 
fores. Da memoria pois de hum Sogeito taõ authoriza- 
do , taô fincero, ta6 zelofo da reputação da fua Ordem , 
fe tiratí eftes refultados : I. que Fr. Bernardo de Brit« 
introduzia em Documentos Originaes addiçóes arbitrarias, 
e importantes. II. que exiftio numa Carta verdadeira de 
S. Bfmardo em agradecimento do voto feito , que íi- 
2era D. Affonfo Henriques fobre a fundajaò de Alco- 



( â ) Mecoçr. MIT. dos Chronift. Mór. da Reino , e Congreg. 
1." 7.' 

biçai 



zedbyGoOglC 



DB LlTTE'*A'rUíA ÇOBTUGUEZA. 335" 

baça ; ou »> idcdos exiftia Carta , que fe julgava ver- 
dadeira : a qual hoje nad he pofliyel encontrar-fe no 
Cartório d*aqueUe Mofteiro : III. que algum motivo ha- 
veria , e uao qualquer motivo , ainda que íupponhamos 
ignorallo , ein razaÔ do qual Brito accreftentou na Car- 
ta , que fez imprimir , além de outras palavras , a ter- 
rível clatifiila : Et in divifione redâituum âividctur a 
•vobis -corona vejlra &c. : IV. que puerilmente efcreveu 
o Chronifta dos Ciftercienfes Heípanhoes Fr. Angelo Man- 
riqtte (<?), ter-le verificado no feu tempo efta profe- 
cia , porque em menos de dous annos , depois que dir 
vidio o Cardeal Rey as rendas de Alcobaça , dando al- 
gumas em Commenda , foi o Reino pa0ado j»ra Caílel- 
Ja : V. que com juftiça pedia Mabillon^b) hum fia- 
dor de genuidade d*elta Carta , e da outra do mefmff 
Santo para JoaÕ Cirita , hum fiador mais chaô , e abo- 
nado do que evz. Brito -^ porque, como elle accrefcenta, 
certe Bernardi genius , ftilus , mo^Jlta in tis defideror 
ri videniur : VT, que debalde fe cança o.M. Fi^veirc' 
Ao (c) em desfazer as fufpeitas de Mabillon : a decla- 
ração do Chronifta de Cifter moftra , ferem mui bem 
fundadas as fuás conjeifluras, e próprias de hum Critico 
judiciofo , e experimentado. 

Nefte mefmo Codex , quafi no fim do Cap. 8.° hif- 
toriando Brito a apparjçao de J. C. ao Monarca Por- 
tuguez no Campo de Ourique * dtz entre parenthefis 
fer verdadeira a Vifaô ( como elle próprio ( o Rey ) tef- 
- temunhou publicamente em Coimbra , fegunâo refere h&a 
Chranica fua , ^ue ejleve em Santa Cruz ) e á margem 
ciu : Cbronica de maS cap. 13. O OcivomVLSi BrandaÕ ^ 

(fl) Annal. Cift. an. 1 147. cap. 10. vid- o Doçura, de létí;, 
y de Julh. Lx/ E. 1642 , 4 de Fev, onde fe allude á meíma 
coufa. 

(^) Ediç: dasObr. de S. Bem. 1. 1. pa|. ío8. 419- 4»° j e 
nas Noc. refpeíl. e Duchefne t. IV. p. 480. 

(f )Ptov. da Vot. Acçaó &c. pag. 4. 

Vy "ii Ott' 



.byCoOglC 



^^6 Mehokias 

ou Fr. Dhgõ âe Cajlelh Branco , que notou , e corri- 
gio á margem das folhas muitos lugares d'e[le Codez , 
diz por baixo d'aquella citaçaõ marginal: Bem parece , 
que naÕ tinha achado ainda o Juramento d'ElRey ■ e 
com eifeito falta no MíT. o juramento : nem a refpeito 
dVllé fe faz alli outra alguma commemoraçaó. Por ou- 
tra parte , ainda que Brito efcreve ter acabado efta Obra 
em 15'93 > o Codex no froniifpicio tem 1609, data que 
he coera ao titulo; o qual ultimo algariímo 9 fe aclia 
muito mal emendado para j. Se pois em 1609 Brtto 
naÕ tinha noticia de que exíftiífe em Alcobaça aquellc 
Juramento , como aflirmiraÒ Brito , e BrendaS » c|ue 
fora delcuberto alli em 1596 ? Natí haveria incoheren^ 
cia mais vergonhofa , fe elle naÕ tiveffe publicado a 
Chronica de Cifter em 1602 : no meio porem de todos 
eftes embaraços monftruofos, podemos dizer coxa. Bayer , 
faltando a refpeito de igual aíTumpto : Plurimum btce 
mibi imnftri videntur alere. {a}. 

Embora porém «iftiíTe o faílo , e houveíTc ( ^ ) 



Cf 5 L.C. pag. 4?4. 

(p) Longe de impugnar a verdade Ja Appariçaô de J. C 
ao Grande , e Fio Monarca D. Affbnfo Henriques , eu pelo 
contrario me tenho encarregado de a defender maiu de huma 
vez. Direi pois breviflimamente o qnc penTo fobre hum Fa- 
&o taõ extraordinário. Podia 3<]uclle Príncipe imagíiur at^uel- 
la Vífaó , fem que a houveíTc real. liio naõ pôde nvctiguar- 
fe. Podia fingir efta appariçaó : o que fe naó deve prefu- 
mir. Podia umbem acontecer-ihe huma Vif^õ reaJ : c ne de 
que fe trata. Mas nefta ultima hypothefe , dilTe-le entaó , 
que á houvera i Continuou a tradição do Faíto í Authenti- 
cou-fe elle por algum Documento publico '■ Exiftio algum 
d'efta natureza em outro tempo ^ O que fe/modra em Alco- 
baça he autografo i £ís-aqui multas queflóes , e toda» di- 
vetfas. 

. Julgo depois difto , que temos todas as provas para af- 
nrmar com muita probabilidade , que exiftio Documento ; e 

Í>ara atfirmar com ceneza , que exiftio Tradição , e em co»- 
e^ucncia o Faâp: n»s temos também todas as provas para 

n'ai- 



DE LlTTERATtlSA PORTUGUEIA. 557 

ii*algutn dos Arquivos do Reino o decantado Juramen- 
to ; eu o naó perrendo impuguar : fó digo , que o Per- 
gaminho , exiftente cm Alcobaça , nunca foi , nem pó- 



dizer com fumma probabilidade , ou certeza , que o Diplo- 
ma , que exifte em Alcobaça , he apociyfo , ou apografo. 

I. MuJEo antes de Brito publicar o Jutamento, pelo tef- 
temutibo do Cónego D. Manoel Galvaó , exiftia Original d'cl- 
le , ou Copia em 1556, provavelmente no Art^uivo do Aíof- 
teiro de S. Cruz, de que era Cartorário: vej. O. Nic. de S. 
Aíaria Chron. dos Coneg. Regram. 1, x. cap. ^i. AIlí mef- 
mo vio o Ciitonifta Fr. Francifio SratidaÕ hum Tránfurrpto do 
dito Juramento , feito pelo Notário Manfo no Reinado de D. 
Joaó II j ifto he , antes de 14515 : vej. Figueiredo Append. I. 
á Vid. da Rainh. S. Therefa- No Cartório 'do Mofttiro de S. 
Vicente de Fora achei huma Copia de outro Tranfumpio , fei- 
to a 4 de Novembro de 1557 pelo Notário Thomé da Cruz ^ 
e pelas diiFerenças , que logo notarei , moftra naó fer tirffdo 
fobre o que hoje vamos em Alcobaça , e publicou Brito. Veja- 
íe Cartor. de S. Vic. Armar. 22. Maç. í- num. 19. He poii 
muito provável , quo exiftio Original , ou Orlginaes d'aqueUe 
Juramento. Vej. Ftgueir. L. c. 

II. A tradição do Failo. Ke marawlhorameDte deduzida 
D. jintonio Caetano de Soufa no IV. Tom. do Agiolog. 

uíit. Comm. ao dia 25 de Junh. pelo P. Pereira nos novos 
Teftemunhos da milagrofa Appariçao de Chrifto S. N. a ElRey 
D. Aff. Henr. 1786 , e ultimamente pelo Ex.""" S'. Bif^o de Béjà 
nos feus Cuidaoos Litterarios I7pt. pag. 565 , e fcg. que me- 
recem fer lidos. Aos teftemunhos , que produzem , fe poderiaÕ 
accrefcentar Fernão Alvares do Oriente , a Sentença de 5 de 
Maio de 1551 , que cita o P. Damafio na Thebaid. Portug. 
T. 1. p 84 , e talvez a Lei de 20 de Setembro de 1447 , que 
vem no T. VIU. da Mon. Luf. pag. i^z. Os teftemunhos ,que 
referem aquelles AA. provaó huma Tradição innegavcl , que 
vem defde os. princípios da Monarquia ^ alludindo fempre ao 
Fadio , e defcendo a circumftanci-is , que na fubftancia naÕ 
diveffificaó , do que fe refere naquelle Documento de Alcoba- 
ça , ailim como eíle naó diíFcre em coufa fubftancial dos Tran- 
furtiptoi anteriores , c coevos dos Mofteiros de S. Cruz ,e S. 
Vicente. ^ . 

lil. Mas de tudo íflo , qu< tanto authoríza a exiltencia 

de 



l 



i,i=i,C".OOglc 



338 Meiíosias 

de fer Original. A letra h« moderna , e contrafeita 
táõ fenlivelmente , que poflb fegunr de boa fé , fer 
quafi iinpoíHvel , que Díplomarifta entendido na fua 



da Vifaó , e Documento , que a referia , nada fe concluc a 
favor da authenticidade do que hoje fc conferva em Alcobaça. 
Elle certamente hc copia , coeva talvez ao D.' Brito i porem 
malicioramcnte lhe deraõ huns finaes de autografo infubfiften- 
tes com outros, que moftraÓ fer apografo, moderno , de maó 
pouco habíl , e de nenhuma aurfioridadc publica, A razaô mais 
decifiva he haó fer a letra natural , nem a do tempo , eni 
que fe diz efcrito o fXploma. Nem pareça difíiculioio con- 
ttafazer-fe a letra de maneira , que reprefente a de cerca ida- 
de : entre os rupitos Documentos apocryfos , que tenho en- 
contrado, hum era em hcn Franceza , ainda mais natural , que 
a do Diploma de Alcobaça , c tendo todas as notas externas 
de verdadeiro , quem o ángio era taõ ignorante , que neíle 
intitulou a D. Aftbnfo Henriques Rey de Portugal , edojlígar- 
ve , e ufou de nomes de dignidades muito pofteciores ao feu 
Reinado. 

A razaó de ter fellos pendentes , e tantos , he ainda hti- 
ma noia , por que elte Documento fe faz lufpeito de falfídade. 
Sabe-fe , que na Hefpanha fe naó conhece fello anterior ao 
feeulo XIÍ , e que os feitos pendentes começaó do meio do 
mefmo feculo. vej. D. ãe P^aines Diã . Kaif. de Diplom. vctb. 
Sceatix. Em Portugal naó fei , que haja algum do Reinado do 
S^ D. Aifbnfo Henriques , excepto elle, e o da Doaçaõ a S. 
Cruz do Couto de Quiayos , Lavao; , e Eymede , de que tam- 
bém fe pôde duvidar , ainda que o produz Souza no IV. Tom, 
da H. G. da Caf. R. Porque tendo eu examinado por Commif- 
faõ da Real Academia, cBensplaerto de S. Mageftade alguns 
dos noITos Cartórios , como os do Reino do Algarve , Alcm-Te- 
jo , Senado de Lisboa , Alcobaça , S. Vicente , e Mofteiros a 
elle anncxos, e ouiros muitos : tendo o S'. D.' JoaS Pciín 
Ribeiro , Sócio da Academia , e com igual CommilTaó , exa- 
minado do mefmo modo quaíi todos os Cartórios das nolTas 
Províncias do Norte , c muitos outros : nenhum de nós , pot 
cujas máos paíTárió milhares de Documentos defde o VIII fe- 
culo , e os muito'! , que ainda fe confervaó do I*. Reinado , 
encontrou hum fó Documento do V. Affonfo com fcllo pen- 
dente ( de Sancho I appareee algum ; mas de chumbo. ) e por 

Pro- 



DE LlTTERAfUBA POSTVGUEEA. 339 

ProfifTaS , apenas o Teja, naô o repute logo apocryfo , 
e fuppofto. 



ilTb pôde eAabelecer-fe por agora , como certo , ou ao menos 
como mais provável , ^ue fello de cera , pendente , e naó fò 
Sello Real, mas muito mais fellos de particulares, he coufa 
defconhecida em Portugal nos annos do 1°. Reinado. 

Que efte Diploma tinha cinco felios ate 1707 , porque 
ainda ncfTe anno os vio Souza ( Prov. da H. G. T, I, n. 5.) 
he innegavel : hoje tem fó o do meio , que fe pôde crer fe- 
ria o Real. Brito diz , que efte era de cera branca ; o Notá- 
rio Thomé da Cruz lhe chama amatella : fohre os outros qua- 
tro concordaõ todos, que eraó de cera vermelha, ou encarna- 
da. Porém fabemos , que geralmente para cá dos Montes o 
vCo de cera branca , e vermelha nos felios he poftcrior ao fe- 
culo XII , e que feriaó fulpeitos de iallidade os felios. d'efta 
matéria, e cor anteriores áquelle feculo. £u íeí ^ que o Ori- 
ginar vifto pelo Notário Thoitié da Cruz (Inha os mefmos fel- 
ios ; porém quem nos obriga a reputar verdadeiro aquelle Ori- 
ginal ? Ignoramos, fe o Tranfumpto do Notário ^^n/o os ti- 
nha : o Cónego Galvão naó falia neiles. Forque naó acontece- 
ria accrefceniar alguém os felios ás duas Copias , que fabe- 
mos os tinhaõ í Sc he verdade , que Fr. Lourenço tio Efpirito 
Santo deu efta Efcritura em Madrid ao Rey Filippe li-, fi- 
cando treslados autiienticos em Alcobaça, S. Cruz, e outras 
panes , como dizem ( Mon. Lufit. Tom. III. L. X. c. 5. e o 
Abb. Azevído no fen Epitom. da H. Port. pag. 190. ) perccbe- 
fe facilmente a probabilidade do que vamos conjecturando. Se- 
ja como fôr : era melhor , que efte Diploma naó tivefíe fel- 
ios , pendentes , tantos , e tfe cera. Vej. Damião António H. 
de Portug. T. III. pag. Éo. 

Quando o S'. Fr. "Joaquim de S. Jtofa de yiltrho exami- 
nou cj}e Documento , pode ainda obfervar no único fello , 
que ja entaó conservava , as Armas do Reino com os Caftel- 
los do Algarve : o que era baftanre para nos certiticar viílorio- 
famente da falfidadc do Documento. Quando examinei agora 
efte Cartório , naõ pude ver outro tanto , porque o fello ef- 
tava como que rafpado na íua fuperficie : a letra achava-fe 
muito apagada por eitcito de huma lavagem, que lhe deraó, 
naó fei com que fím ; mas pelas ultimas linhas fe conhece o 
cni£kzi da letra. A qualidade do pergaminho tambetn naó 

co- 



l,c.byCA>Oglc 



340 



O 



Mehosias 
CODEX CCCLXIX. 

Itinerário de Fr. António Soares de Albergaris 
na Paleftina merece huina delcripçaô mais eia- 
e circutiftanciada do que aquella , qae d'eUe nos 



me pareceu d'aquclle feculo : nttcndida a côr , e coníiftencía 
d'cl]e. He por ludo ifto , que eu julgo com grande probabili- 
dade por apoccyfo o Original de Alcobaça , ou quanao menoi 
apografo. 

Que o Tranfumpto , de que fe conferva Copia no Arqni- 
vo de S. Vicente de Fora , parece tirado fobre outro Oiígi- 
nal , he claro pela feguinte confrontação do exemplar impreA 
fo por Brito na Chroníca de Cifter , e Brandão na Mon. Luf. 
Tom. III. Sendo conforme em tu.ío , concluem as datas d eftt 
modo: Faãa Cbarui Calimb. in.Caknd. Novmb. era M.C.LIL 
e feguera-fe »s Allignaturas d'efte modo : 



Na Copia de S.Vicente : Segundo Brito : 



1 Ego Aldefonfus 
Rex portugalen. 

2 P. Colimb. Epf. 

) S. Bracharenf. Me- 

tropol, 
4 T. Prior. 
í Gundifalvus de Sou- 

ía Procur. Vimirien, 

6 Pelagíus Amenen. 
I)rocur. Brac. 

7 Sueti Mirtini pro- 
. cura. Colimb. 

8 Ferdin.indus petri 
curta dapifer. 

9 Pet. Pelaj. cúria fig- 
nifer. 

IO Vaiafc. Sanâii. 



I O mermo. 

X J. Colimb. Epús. 
% J. &c. 

4 O mefm, 

p Gondilalvu) &c. 
Imin. 

10 Pclagius Menen. 
procurar. Vifecn. 

1 1 Suer. Martin. &c. 

5 O mefm. 

6 Peirus Pela. curix 

7 Velafcus Sancii. 



1 1 Alfonf. Menen. pras. 
Vlix ^ 



8 Alfonfus Menen. 
prsf. &e. 

12 Mencndus Petri pro 12 -Alberto- cancela- 
magiftro Aldeberto rio. 

regií Cancellario. 



e Brandão : 
I' O meím. 

2 Epifcop. 

; Brachareeot 

4 O mefm. 
ç Imn. 

10 O mefm. 

1 1 O mefm. 
f O mefm. 

6 Petrus Pela. 
curix &c. 

7 Valafcus Sá- 
cit. 

8 prxf. &c. 

12 Cancellario. 

deixou 



.|,lzcc;byCt.H)^lc 



DE LlTT«aA Ttr*^ FcfltTUGVBZA, J^I 

deixoo p A. do Iiidei. Conftsi .de VIU Livros , além 
do Prologo, índice j Froteftaçaâ do -Author. He amo- 
£Rifp , e inédito. Começa : .Âam-. dç- Senhor de 15^2 

' A' viftt d*efte.paralIe[o he fácil coDvfr , em que a Copia do 
Tranfuinpio de S. Vicente dífteie da que publicou Brito , e 
SraHiaS 11'alganm abrrriattms -, -na ordem (tas affignaturaf, 
PO quetnais he,nos nomes dos Prelados <de Coimbra, e Braga ,.e 
DOS, nomes das tertai j de que craó Procuradores Gonçalo de 
Soufa, « Paio Mendes, A refpeito dos nomes dos Prelados., 
|ie. indubUavel , que ttaõ lèu bcia o Notário Thomé. da Cmt,^ 
pOTfjue fabemqs com ceneza, qpc nenhum Pedro,- oái;Paio, 
qem Sancho ) oy Eftevaõ eraõ o« Br^s de Coin^ia , e Bn< 
ga ; mga JoaóAnaia, c Joaõ Peculiar: razaó ^.por que naõ du* 
videi corrigira Copi», que fiz eztrahir para a Academia , nef- 
les dous artigos , notando femprç a differença da dita Copia-^, 
que naó era authentica; 01 nomes das Tçrras dos Procurado- 
les, julgo (We no menos , quanto a Gonçalo de Soufa-, tai- 
vez leu nwhor o Notaria Thomé da Cruz, do que Brito | 

Í ot^ne f^imirienfit (igniãca alguma coufai Imin. ou /mn. naó 
eí , quepofTa fignigcar Entre Donro e Minho. De tUdo ífto fc 
vfe com probabilidade , que os Origínaes eraó diverfos. 

Mas o que prova ifto mcfmo ainda com m^is clareza he 
«diffcjença, que naentreadeícripçaódos lèlloi feita por Brito >e 
a que fez o. Notário Thomé da Cruz. Eis-aqui o encerra- 
nento do Tranfumpto : Eu Thomé da Cna publico Notarii 
Apoftolico aprovado efirivaS da legacia defies Stinos líe Portu- 
gal trttladtt bem t fielmente tfta Carta de Juramento ,e eertida9 
la própria Original fw era tftripta em pergaminho de letra 
mtiga [tilada fineo fellos pendentes todos de cera ./. o do mn 
(meio) de cera amar tila (^Brito: Branca) o qual era das Art 
nas Jieaes de Portugal com fitas qmnas e letras Gothieas anti- 
g4s ao redor , que Te naS pediaS ler por efiarem apagadas e s 
partes gafiadai e faltas ^ t era o dito feilo pendente per correa) 
do m^^to pergaminho t e os outros quatro fellos pendentes eralt. 
ie cera vermelha ( Srtto : Encarnada ) dous de eotdois de rttráií 
ttarmefi , os outros dois de fitas vermelhas que partciaf dt ea- 
dar^ ( Brita : E os outros qtiatro de cera encarnada pendeiK 
tes de fios de leda vermelna) em os quaes pateciao armai 
imprtffas que dtviaií fir dos Prelados e dos Grandes, que ao di- 
te Juramento foraU mífntw , ^ue para vah firmeza e ícrro- 



^ 



Cíxiglc 



34» M i « 6» í A s 

Jèaio eMtnunãatari» &c j e acaba : CW taur , Bomor , 
rí in^erium nunc et per tmne ievum^ amen, pojui fi- 
9em curiStfpet^ et fortuna valete i$f)i. A I. Parte 
he dedicada ao Cardeal Infame O.Henrique x. a IL a El- 
Rey D. StbaJiiaS ^ e fe acha repetida defde foi. iii , 
principiando no Livro V. Em corpo feparado^ e como 

hora^aS^ ^llaràS a dite eana dt feos ftllos ftndtntes , tomo f» 
do tonfia da áit» cana original com- a ^ttat foi efh ttrlado eon- 
etrtado- * concorda com tile de vtrbá ad verlfmn , e- fior tanto- o 
fohftrevi I affignei oijkí com- o notarto ifne o comigo contertom t 
nat agmams aqui ambos Ã- no^i finaes publicoí coflttmadbt 
m Lx.o aoi 4 dias do Mee de- Novembro de i$p7 diinof. Cou- 
eeitado comigo Notário António Pereira. Tbomi da Cna. 

A à,\«tnn^a enne amartllo e- branco , vermelho e rfiMr* 
ttadif, voderá julgap-fe de pouco menientO';. e convenho em 
^e o leja, fii[^Aa- a pouca exaétidaã de- mctn.- defcreve ef- 
ces monumentos íem noções diplomáticas. Mai nad Ce póde 
dizer o mefmo , guando defere vendo- fe a matéria de <j^e pen- 
diaó os fetlos , Jirito (Chron. de Cift. L. Ilt. c. v) c 
irsndaS ( Mon. Luf. T. III. L. X, c. j. ) fe expltcaò- aí- 
ílm : O fttlo pendente del/tey D. A^nfo , e ot outros quatro , 
fendentes d^ fios de feda vermelha 9(c. e o Notário Thomé da 
Cni2' aífirnia- , OHe^ o dfr meio era pgnddnte pff correas da 
mejmo pergaminho dod» pendiao de cordoei de retroz eu- 
mefím y o dOBC de fitas vermelh» , que pafeci^ de eadãr- 
^. Naó he crível} que Brito ^ e- Brandão omittiffim dtcti- 
MF a matena , de que pendia o fello Real , fe eíte pendeflè 
de mareria diffèrente d^aqnella, de que pendiaô os entros qua- 
tro- fellos; ames pelo modo qae f^Uaà , daó a entender-j que 
todos pendía& de fíos de feda^ Soufa y me vio efte Doo- 
wenro em 1-ÍO7 ( Prev. da Hift, GcneaK T. I. n. ?. ) • So- 
tniaS Afiton'v C Hift. Ger. de Portag. L. IX. c. ). p. 52. J naõ 
fazem- do raefm* modoí dffferença- alguma 3 e o Abb. Azeve- 
do ( £p!rom, da H. Port. p. ip$. ) tiaó dbvtdbu dizer , que 
•s- cinco- felloíeJtavaS pendentes em fio de feda vermelha. Accref* 
ce> que o Mlb , que eu VT em- Alcobaça iielle prefence mcx 
de lulho de> 179^ , e que era e R«sf , pel» qne nelle obfcr- 
Tou ha poocos *nno« ^ iflo he , no de 179O , o Srtr. Fr. ^aquim 
de S. Kofa de Píterbo , pende de fios de feda veRnelna , e o 
Motaiio Thomi da Citi;^ di2 jque«>da ntfiVj o qiiai era da* 



OE LlTTÍRATUrBA POB¥tIGUBZA; J43 
Aprendiz , tem os feguintes Documentos \ qtie por ort 
reputo inéditos em pirte , fegundo o exame , que fiz 
nos fiuilarios Magno, e Romano. 

Carta de Paoío III a Pedre Patriarca dos Maro* 
nttas : principia , Máxima nos effecerunt. Kei». //. KaL 
XJíí". iS'4z , Pentif. aa. g. Ib. foJ. 536.. 

Carta domelmo ao Povo dos MarOnitas ( e nâÓ aa 
Matriarca , como diz o Index ) que principia : Etji rede- 
UHti. Ram. iHi. //. Kai. Dec. Pcatif. an. 9. Ib. foi. 337. 

Carta deLeaÕ X ã Igreja dos Maronitas. Prin- 
cipia : CBnSUrum orBis Ecclejiarum, Ran. XV. Kal. 
jhgi, lyoo, Fdntif. as. 3. Ib. foi. 537. 

Carta êfÀ-iia em Italiano ao Patriarca dos Ma. 
ronitas por Fr. Fe/is de Vene&a ( e naijf por Fr. An- 
tónio Soares) datada de Damafco ■, 28 (< na6 29) «íc 
uSèr. ée isA^t vej. o mefmo Itinsrar. pag. 168. ) Io. foi- 

Eneyclica de C/eMíHftf í^/. Gratam- Dea credt- 
ptus : em 'conãrii]a9a& da de heaB' X Ibbre a Igrejs 
dqa Maronitas. Viterb, 15:28 , ///. Id, Sept. Pentif, an- 
y. ib. fol„ 241. 

Bulia ao mefino : Cum nor hodit: Rdm.Xl!I. Kal, 
Aug. Pontif. an. 3. 15^36 , dirigida a Bernardim Cor^ 
tina de'Uttnè ,- feu. Núncio Apgftolico na Arménia , a 
Jorge Rey da mefma , c aos Patriarcas Orientaes 
dos iAaronitas, e Arménios Ib, foi. 343. 

Encydicafde LeaÔ X. Previjionis noftra ; Rom., 
X KaL Sept. an. Inçam. i^ij. íb- f<il. 344. 

à refpeitò. d^efies Documeiítoa. fe explica o Author 
diffuramente no Liv. VI. cap. 12 , e em extrai diz : 

Armas Seaes de Portuga!., ejlava pendente de cornas do mefmo 
pergaminho. Oê ludo ifto fe nra numa fuSiciente prova , pa- 
ta podermoí afirmar , que o Original vifto pçló ^3o^ario Tho- 
mé da Cruz em i^yy ne divcrfo do «jue eftá em Alcobaça'. 
Tudo o DKúi qúe fe pôde conje^urar por efta- analyfe , eu 
a deiso i cooudeiafio dos cniendedores. . 

Xx ii que- 



lyCooglc 



P^^t M K H D 1. t A--S 

qie a Otrta para o Patriarca era em nUa. . TtsírmMt 
ttmpofla par Fr. Felia , natural de Veama , e Camrmif- 
farh de Maitte Syon , que a eferrvea ao Patriarca , 
quando edavs pre%a em Damafea com outros Pa^ei ^ 
e?o Conjkí Veneziano > quandaa Rep. rompeu em gmerra 
com o Turco ; e foi efcrita de Úam. em jji Je Abril 
de i^4p. Bulia de Pauío III. ao mefmo Patrinrca^, em 
fue Ibè falia em Fr. Fá/ice. Outra do mefm» e/èri- 
ta aas Maronitae , na qual faa menfaã da qme efcro^ 
•oeu ao Patriarca , e faz memçaS de Fr. Felice. Ou- 
tr^de Leaã X. ao Patriarca Pedra , na ^mal o ad^ 
moejia que figa a Igreja de Romm , dejcobrínda-lbe to* 
do o efiado da mefma Igreja, Outra de Clemente VIL 
que confirma o favor , que LeaS X. outorgo» ao Podo 
dos Maronitas , animaawt todos os Fieis, que o a jade» 
eaw as mãos da caridade. Outra para Fr* BernarJinâ 
Cortino de Utino , Frade da Obfervancia , que manda 
for feu Kuncio Âpt^oUco ao Rey. da Ârímaia e Pa- 
triarcas do Oriente , mormente dqutlie Pedro. Outra 
de LeaÕ X ^jtte canipreiíende a de Eugànim IK feita , « 
publicada com fdemnidade na Igreja maior de Florete 
ça em' aqueHe.CathoJico Sywodo em 1439 mandada dar 
ao R.V" Card, ^nlio de Medíeis fobre. a úifiaS de ceri 
tos Orientaese» i^i^ aos 10 das KaJ..de Set. 'a aeo* 
ra efid ^eprapria Originai entre t^es:€atholiC9J Ma- 
ronitas. 

Hifloriiii do Dragafi de.S. Silrefttv, e Jinos verfoí 
da Migda)ena.. Zb. fiai, 35^. 

Hutn Milagre da (lita a beneficio d*£l!^iqr Carlos. 

Ih. foi. 3y4:' : ., i . 1 

Memoria do B. Maximino ^ Laza_rp ^ Maria Afag- 

dalcna , e Martija. Ib. foi. 3^y. 

Memoria dç p. JoaÕ' ík Portugal Rçy de, ChTpre 

■ç Príncipe is Á^t^òçbi4., «m ftCicfatiç de NicQiSa, 

ao. de 1457. II?, foi. 4jf, . 

Çtfrta, Prpfefiig àfl iwt» Csmuptíb Çifli(ai«e«f« w 

Mofleiro de S. Jaa& do Moníiui (bt Cidade de Kicof- 
' fia: 



SE llTTB1L'AT«llA!Fait?évaVEZA. J4$' 

la.: ^Àb^. tx^i^. E hom FmUegia concedido divi- 
nalmente ao Mofteiro de S. Aadré ApojJolQ por in» 
terceíTaã do F. S. Grcjgorio ( e natí S. Jorge ) . Ib. 
foi. 4^2. ' ■ . 

Últimamenre entre outras fe vé huma memoria , 
«lie diz : yirtude dar agmtts Dei fite mandei de Fál- 
ladatid ao Card. Infante. DoaçaÒ- feita a Alcobaça por 
D. A&níb Henriques , e huou oota de quem a copiou , 
aue refere ter EiRey feiío o voto de edificar aquelle 
Mofteiro em 1147. Bòr \s[im9:\R£lttça& da Terrafan-, 
ta cetififrme a via o P. Fr. Jntonio Soares &•€, ordc- 
ttada peh P. Fr. Bernardo de Brito Cbrcnijia gerai. 
Tem 21 foK e oaíS efti compkta. 

CODEX CCCLXXm, e CCCLXXIIIL 

JÂ. .n»6 cxifte na Bibtiotheca MíT. de Alcobaça o Co- 
dex, 373 ; ao meoos. na6 me fbi poffiveL defcubrillo 
a pezar das mais exa^s averiguacóes. Tenho poré.n 
tod^ a Certeea de que elle (^ fe guardava naquelk 
livraria , quando fe fes o Index dos Cod. de Alcob. 
«m.i77y. 

O Codex. 774 nalS cxiftki enra6 em Alcobaça , e fe 
havia matidado para o Moleiro de LorvaC. Ainda que 
^ocba copiou d*ejíê ajeumas Efcrituras, e extra^ou ou- 
tras , que publicou no feu Portugai Renajlido , com tu- 
do o Livro dos Teftaroentos de LorvaÕ devia fer no-^ 
vãmente copiado \ porque aquelle A. foi .muito infeliz 
«9 altura, das datas \ k natS £e que , pura fuftentar certas 

> O A perda <f efte Cod» he huma prova 4» qse efcrevemos 
bo pritiojpio d'efta Memoria , febre u cau^s ordinárias do 
defcátninha, que Ittiiiò em diverfai é^as os Mtf. de Al- 
cobaça. Eni' iyii « 171^ kcttou eSc GaiEOfío dos M<T. muito 
4imtnuiD, «extraídos ^«Ue muito» Códices ani^got, qne alli 
hSviaé eiâftide de ocrtO', o- EX» Si^a Leal , como elle msf- 
■Ma«OBfc<fo nas fua^Mam. paM «Hift. EccK do-Kfp. duGnai* 
lia Tom. I. no AppaMiv KiA, fag. XL 

ope- 



Ic.byCoOglc 



3'4â ;M- B Ti (MT t A^fc 1 T "T 

opinítfei domenicas , traoftoraou de propofito m iiii 
Cbroaologia (a) . 

CODEX CDLXVIL 

AS duas Cartas efcriras em Hefpaofaol por Mulei 
Ãbdald y Rey de Marrocos, a D. ÂMtaS âe Atai- 
de , Ãdail de Tangerc, lobre as perturbações, e hof- 
tilidades de Mulei Zidtn ^ íaD datadas a z dei nus de 
yumetd 1$ diar de i6oi ; e z% de Lmh Raie» eí oSUt' 
•00 de i6oi. 

CODEX CCLXXV. 

OAuthor do Index defcrerendo efte Codex , con- 
tenta-íe com dizer, que hç huma CollecçaÓ, em 
Linguagem, de Cartas, e outras Peças, cooipottas em 

Erola , e verfo. Jãlguei porém conveniente dar ac|uí 
uma informação mais exaifla d*efte Codex , pelo iate* 
relTe que o Publico pôde ter nalgumas das Peças, de 
que fe compde. 

Foi. r. até ii r.» AmJ* alta e mttypader<KSff.Rey 
áom Joam 3.' de 'Bortugual mja SAdr L.í» de Ctee- 

Ça) O Livro ios Teftamentos de Lonraõ incerelTa tanto á 
Hiftoiia Portugueza , como o Liher Fictei da Sc de Braga ^ o 
Livro de Mumadona de Guimarães , o Cttifual do Porro , o 
Livro Freto de Coimbra , e outros d'efta natureza ,- e antigut- 
ijade. Eia em confequencia d'Ífto que a Academia me orde- 
nara o fizeíTe copiar com a mais eicrupulora exaâidaõ, qual 
temos guardado nas Copias , e Extractos dos antigos Docu- 
mentos Até agora recolhidos. Quanto aos alTumptos , « data* 
das Efcriturasj copiadas nefte -Codex , achaÔ-fe extrafladc» 
pelo Snr. Fr. Joaquim de S. Jlosa d' Fiterba , quajido eka- 
minou o Cartório de Lorvaõ ; Extraâoi que iUujirou ,. e fe 
achaõ na Secretaria da Academia. Aviíla d^elies fe \h oaó fiEt a 
importância d*eftes.Documenios, mas também os erros chioniOi? 
lógicos , com que os. havia publicado, o Dt, Aoçba, 

ree 



iví Jh&re os trabalhos do Rey: cite he o tuulo do Fro- 
logbi e os doa Capítulos faÔ os feguínl». i." Gerai 
tpiniam da vida das Reys : 2." Repafta aa gerol ^- 
tfimn : g." S-.'gaêfe os trabalhos dos Reys , e primeiré 
por comparaçam doutros efiaâos : 4." Dos trabalhos fuc 
4s Reis tem nas eout^as pnbrtcas e leis ceiijõrias : 5:.* 
Zhs peajàmetttos , e cuidados dos Reis principalmente 
■ idos' da paz : b". Dos trabalhos que os Reys tem mas 
traições dos Grandes : 7". Dos trabalhos fue os Capi- 
tães dirm aos Reys: S." Dos trabalhos que os Embai^ 
xadores dam aos Reis : 9."*' Dos trabalhos que os Retr 
t^em nos officiàes da fua fazenda : 10." Dos trabalhos 
que es Reis tem nos ingratos-. 1^' Dos trabalhos que' 
vs Reis tem em praguejarem deites: 12.° Trabalhas 
de couKa-s diverjas : 13.* Dos trabalhos que os Reis 
tem nos preguadores : 14.* Trabalhos a^ãs propriof 
étlRei nojfo SHor. (4). 

Foi. 12 até 21. Doílrina de Lourenço de Cacerer 
to Infante dom Luis r efte he o titulo do Prologo^ 
ftj^ém-fe osCapitulos comos trtutos fegulnces. i." Da 
àtminuiçaÕ das idades : í,° Da cobiça da gloria , e tra-- 
ialho das virtudes : 3.* Dor cafos JbbJeSíos aos tempor 
e que na paz he mais difficil airirtude: 4." LoavoreS" 
da paz, e da guerra contra os Infiéis: y." A def.re»- 
fa da obrigação nos frincepes : 6," Do faber das cou- 
SUts divinas neeeffartas ao Princepe , e como amor 
^ecede o entendimento : 7." Do jaber bumifno e junta- 
mente de todo e como o fegue o poder : 8'\ QaaS ne~ 
aeffario bt o faber nos Prineepes e que- o verdadeiro- 
fàber he per obras r 9.* Como os Prineepes fao incer- 
tos dos amiguof : 10.° Do mexerico- : Hzonjaria : e 
anuzade : 11. Dos confelheiros : 12.° QaaÕ mce^ario 
he no Príncipe os bons cojlumes para- exemplo dos feus: 
íj.* Da fortaleza e origem dos Principados e que he 

' (a) D*cfta Obra aindi ftoje inédita- Kavrá exeinpfarcs nas. 
Lnrnnas.<los Ex.*»» &u.>Du<]iies de Lafocs^^ e Cadaval. 



.byCooglc 



34^ ' M K U O 9.1 AS. 

melbor a berênça que 4 eleifam: 14." Da Jtffiifi'. tjf 
JO^ liheraiidddt : 16°. Doi cuidadas 4m Prwepes i 
das paffatempos: 17." Do jogua : iS." L»uv9r. do extr^ 
cicio d» cgf a : 19. Repreujam da caÇa 20.** caucruZêMi 
e fim da tratada (<») . 

Foi. zi v.a Carta de Romida oficiai cm a ttrrt 
da Judea fobre as perfeições de Jezus, 

Oraçam da Obediência ««/ dioguo pacbeça deu â» S, 
Vadre rapa Liam por elRei dÕ Manuti naffoSnèr-.t 
por Jeu mandada a tirou em Hngoagem. fegutHdo quot 
to pçde as fentenças e ifrdetH do- Latinf. 

Foi. 14. Repojla que o Papa Liam deu. i^KO.m 
ptbrico aa Jbbredita ^ragani. 

Foi. 24 V.* Epigrama de Camilh em liuv» <^'^ 
Rei e da Oraçam : tirado verfo latino em port»t$e<í, 

Oraçam , que fes frandsquo de Mello qaaaio m 
ehneirim deitaram o Capello ao Infante dom J.' Cef 
deal.dia da trindade a xxij dabrill de lyifi. 

FoJ. 15' V.» Oraçam que a bijpo dai^ gt/arci/ k 
vienezes deu ao papa Sixto : indo por emiaixader f» 
mandado delRet aõ a.^ o quinto e por capiíaS m»w 
de fua armada contra os turcos que tinham tornai k 
tronto: fai dada no anno de 1481. 

Foi. 30 V.» Oraçam que fes fr." de Mfi^ "" 
cortes que fe fizerao na cidade devora nas varenatí 
aos XX dias de Junho de lyjf. 

Foi. 51. Repafta do doàor g.* vaz procurador i* 
cidade, de Lisboa ^ name de todos os outros, procaraàgrts, 

Foi. 33 Oraçam que fes fr," de Mello pa^ ^^'^ 
dado delRei noffo Sr dom Joam 3.° em as Cartei J« 
fez em a Villa de Torres novas aos xxviij. dias de í** 
tibro de igiS". 

Foi. ^y V.» Repofia que fez p doSíer g.» vasi p^ 
curador da Cidade de Lixboa em nome dos povos dept 
R'inos a elRei dom Joham 3.° 

U; Vej. Tom. II. da5P»v.«JaaGçn.(UCaí.ft.,i!«ftf'* 



Cg.lzccbyCoOglC 



DE LlTTÍRATVKA POIÍTUGWEZA. 



349 



Ohàiencia que eiRei dom ntanuel mattâvu ao pa- 
pa Jullto indo por embaixador dõ dioguo de Ssuza ar-- 
cehifpo dt; bragua , e» doutor dkguo pacbeco fes ejla 
ora^aS : ijoj. 

Fo]. :í6 V." Oraram que fez diogo pschccv a eU 
Rei dÕ manuei qaãão entrou <5 a R,» madama Lia- 
nor fua mulher em Lixboa. 

Foi. 37 V." Oracam que fez e dijfe o Là.o Lvp» 
Friz fia €atrada delRei dom manuel e da R.« dona 
m." em Coimbra dirigida ^ aa dita Sinbora. 

Foi. 38 -T.» ¥alla que o emperador fez ao papa 
qttãào veyo de tunes Joire a paz cõ elrei de franca. 

Foi. 39 T.' Repojia do papa. 

Foi. 40. Oraçam que fes fr,<^'' de Meliõ em a Cida- 
de de Vr.» nas varandas quãdo Juraram bo principe 
dõ manuel f. a delRei dom jobam 3.° aos xiij, dias de 
Junbo de 1535". 

Foi. 42. Repojia do doSítr g." vaz. 

Forma do Juramento. 

Foi. 41 V.» Procuraçam , qae fez elrei dÕ Joam 3.' 
ao Cardeal Infante e ao Infante dom amriqae arcebif- 
po de bragua para receberem ho juramento do princi- 
pe dom manuel feu filbo em evora. 

Foi. 43 v." Oraçam dada em pubrico por mÕfeor 
de Lajanca governador de vinham embaixador delRei 
de frança a elRei dom manuel afio de 15' 16. 

Foi. 45'. Carta confolatoria de Z,,?» de Cáceres a 
Jobam Roiz de Saa peita morte de fua molher. 

Foi. 49. Prologo de mejire bernardo perez ao fe- 
reniffimo e exclarecido S/ o princepe d^m felipe filha 
do felicíjjimo e bemaventarado emperador dom Carlos 
Rei de ejpanba quinto defte nome. 

Foi. yo. Gentil pratica que fes fernando de ava- 
los a toda a gente m exercito do emperador no cam- 
po depavia animandoos pêra a batalha. 

Fol.-yi. Prizam delRei de frança. 

Foi. í-s T« Carta que efcreveo o papa ao emperador. 
Tm.y: Xy Foi. 



.byCoOglC 



Foi. f^ *,■ í>t etmo fm t9mt4a Ram4 , e 40 fior- 
tji ân borboM, 

Das firitci/aes com/os fut move» #f tfpvk^s 4 
darem faço a Kóma. 

Foi. 5-4. SeitígKca dada ctntra Jakat» ffgo^Saf'" dâ 
Qamar," tmor da ít." d^na C." /w defi^ar a Luis 
da S ha /.' do Regedor d^ caz-a da fuf^ic^mÕ é 
poríuguaK 

Foi. y4 f.» Oraçam fw fes o Ld.' Iw fris^ « 
entrada de/ Rei dam Jobam ^.° cem 4 S,.'*Maa G* Jii$ 
molòer a primeira vee em Santarém (*). 

Foi. 5-6 Y»" Fala que fe^ dem airrifi/e ds Mene- 
Sfs a elRei dom Joi»im 3. fuãda fc dãtfrmino» • fá 
to de dom dttírte féu imtam^ 

Foi. 5-9 V.* Oraçam ^ feã e di^fo « d^^r to^ 
da fqnffequa a e{Rei dlfti Jokem, l-** fmda^ ^fttrtM em 
Lixboa a prim." ws e foi a grande cni-rada^ 

Foi. 6o. J/ts (èis dtaí d^ Fr.» de mil < tpthben' 
tos e vime e ãous veio o padre m.*- frei migMet vizi- 
tar a R.° madame Liamr da pM da Ji^anfe dâfta Cj- 
terina fua Jr^Hãa ptUo faUecirmntp èelRfi dgm itufnuti 
Jèu marido e tht deu hãa carta fu^ e /fí ç^ ora^WA 
que fe fegue. Oraçam. 

Foi. óí. Iijíruçam qae elRei dvm mamei deu es- 
tando em çaraguoça a dom R.-' de Cí^ftro- & a dom am- 
rique Coutinho que mandou por embaixadores' ma pt- 
pa alexandre. 

Fijl. óf v.« Regimtnts e fioder qife elBei dÕ a! 
o quinto leixou ao prinnepe dom Joèarn feu f.^ quã 
foi pcra cajlella. ( Portalegre , ly d' Abe de í475'- ) 
Foi. 66. A morte dos Xpaot mvets qtu Ji fes m 
Lix.« a defanove dajfril de mil e ^iftihntts^ e fets. 
Foi. 66 V.» Deterwmiçam e Jenteuça qm elRet 
deu contra a eidade de Lix." ptUa mmrtt. mt JífMl 
novos. { fecubai il de Majo de ifoó. ) . 

(a; ImpieOi nas Ptor. da H. G. iíi Cat &. X. lU. p. '• 

CgilizcObvCoGglc 



DE LlTTlíKATVHA' POliVvaUEZA, 35'! 

F(íí. ^7>'^ttr4iMetiÍ9 que fàs * %rám turco quãd» 
ipter afiruiar -^igíta grande cpi/ssa. 

Foi. 67 T.' Concertes que ferem feitos antre « 
ftpã f Reii é frimcepes Xpães etntra es tareis, 

A maneira que ecmperader teve pêra trazer eU 
Rey de frança prema a ejéanha'. 

Foi. ÍÍ8. Cart0 4eikei de jratf^a a» emperaãor 
perita de fut mam. 

Foi. 68 V.» CàntratM das patées pella éelihera^. 
fâtkdirlÊ^ei de frança. 

Foi. (59. Eflas palavras ai aix9 efctiptas fi acha' 
fam em biim trataS» que fes Joham de Barros feitor 
da Ca&a da índia , o quai introduzio o tempo , a von* 
tade , * entettdime»í9 centra a rasiêÕ i as qaaes pala- 
vras dizia 'a "veutade. 

- 'Pot^*9 até ff. Trat»d9 famõfifftmo de èiía pratt- 
em^qúe ènm iitv^adêt puffau cem ham Rei ãe perjta 
que fe cbatHova arfanio ftita por hum perjio per na* 
me Cwír* rtffa que naqueile tempe fe acheu : o qual foi 
freslãdadê de gregno em latim e reduzido de latim em 
pêrtugueU per frei Jerónimo monge de alcobaça qae 
e^anSe éni Paria ibe veoter aajua maS e elle'o trou- 
tee a elRei dom Sancho de Portugual ao qual pre--- 
hgué vai dirigido. Tal he o titulo do prologo. Se- 
gu#m-fe OB litulos dos capítulos poreíla ordem. CVí». !.• 
em que Codro rufo declara a tenfam da vinda ao la^ 
vràdor aa Corte delRéf arfanio, cap. 2.° Como o lava- 
dor fallou a elRei. cap. 3.° Como elRei maridon a hut» 
ih Jèu retrahimento que Ibe èufcáffe ho lavrador, cap. 
4,* Como ê page achou ha lavrai, cap. 5-.° Como ha 
lavrador fallou a elRei e das palavras que com etle 
paffeu. cap. 6.* Como o lavrador primeiro quis dar 
tonta de feo vivef' eom algSas reprenjoens. cap. 7.* 
Como elRei dijfe ao lavrador que naquella pratica 
-tom eHe mais efiiveffet e»p. Cama elRei mãdott aa la* 
vrador que fe /tlgua covaa fabia de juJUça lha diffef 
fe, càm 9." C#wí* # lavrador faiou a eíRei naj cou%as 
Yy ii àa 



Ic.byCoOglc 



jy* M E H Q B I A í 

ia jvjiiça. cap, lo.** Como o UvraÍ9r fah» a eJRet 
no modo das mereces e merecinuntos. cap. ii."* Com» • 
lavrador faJhu como fe aviam Âe guovemar as cida- 
des e vi/las. cap. jx. Como elRei acabada a pratica 
com o. lavrador Jttífdoa chamar os do Jèu cõceloái, Fal- 
ia do lavrador aos do Concelho, (a). 

FoU 77 V.' Caria do emperador maximifiano a 
elRei do manuell fobre a batalha dantre elRei de 
jraaça e elRei fèrxiafida de Queila. 

Foi. 78. Carta que mandou barraxa a elRei dam 
fern&ndo na era de i^n. 

Foi. 79.. Carta qaè o- Cardeal dS Jorge ejireve» 
a elRei dam Jobam i° Rom. 24 d^ Ottabr. de 148 1> 

Foi. 79 V.» Carla delR/i dS a.' a gtwttesieanej daza- 
rarafeu coronifta efcritaperfua mam 21 de Novemb. (^). 

Foi. 80 V.» Carta que dom mortinho Conde ãatou- 
guia enviou de caceres da Reino de Cajlella onde eflava^, 
com o duque de visieu ao duque de braguança fe.u fobri-^ 
vbo em repojia doutra f .' lhe $ dito duque- ejcrevtu^ 

Foi. 8j Curta que luis- alves d* proença âfirevea 
em. repefia doutra que Jirnam tavares ^>e efcreveo fuã~ 
do lhe derjm cargo de guarda roup^ dfi' QÍrdtal Iman- 
te em^ evora na era &■ \<^yf. 

Foi. 81 V..' Outra pua aguâfpar de brita em re- 
polia doufra que lhe ejcreveo ffibxe o me/mo cazo e 
^io dt guarda roupa. . 

Foi. 82. Outra Jua. a guafpar de brito em repoj- 
ta doutra. 

Foi. 82 T.* Carta me o areebifpo- de Lixboa dam 
martinhç efcreveo a elRii dõ manuel fobre a Morte 
da R,' doita M-' fua molhex. Lixif i d'Abrik- 

, ^ol. 8^. Otftra fua fobre a. morte. da. mejnta R** 
p." o princepe 4S Jobam feu filho, Lx.» 1 de jf-w». 
(ou Jan ?■)■ 

(a) Publicou fe efta obra em Coimbra em 1560, 
■ W ímpreíT» nas MnforL dt D. ^oaí I. T. IV. pag- ». 



bE LlTTB«ATU«4 EOR fÚOTTEZ A. Jfj 

* Tol., 83 V.» Ca^tÀ que. fói. efcritít-aa R.' dons 
m^ noffa Snr," pella mtríe delRii dom jtrnãdo feu pa- 
dre.. Camí" de jF. amt." 4 de Fcv. 

Foi. 8^. Carta que mJ' Simam ãe fam mateu* 
tferevta aa Infante mulher do Infante ■ dõ pedro. 

Foi. 85. Carta que hum mouro benbatwati mSdeit. 
a elRei dS p.' de Cajiela quãdo lanptu a eíRei dõ- 
enrique fe». irmaÕ j»ra do Reino. 

•: FòL.B?. Carta, de louvores fem euje*. ^ 

Pol. 87 V.' Carta .que . emviau hã por de fam. 
marcos a èlRei dvma.' ^.' efianáo para hir fora do Reino. 

Foi. 89. V" Carta que Vafca •ide pina ejireveo. «n 
tlRei dõ jiéam ^.^ fobre as demandas em que t« tra- 
XiiaÕ das. coazas dalcaiàça. de .que eiie tra alcaide 
moor. Alcob." 9 de Junb. iÇíi. 

'.^ Foi. Qi vA^Carta qme o Cardtai ■■ Infante efcre- 
IWA a9.Mari^esi-Je. Vtlla ReM quãdo bó midou vtsii- 
íar per dÕ Xpevamfiu tio pela morte dê Infante dom^ 
ftmando feu irmàmque merrtUk em abrãtés. Exora y 
yxde 'Dfz.. de ijijy.. 

Foi. 92. Carta, de- Infante dom* pedra a dom fer- 
matido-emée dareyales. Gairftkra , -^ode Déz. de 1468^ 

Foi. 06 v.« Caria delRet dom^ manuel de portu: 
guai a elRei dÕ fernãda de-t Gajlela- Joire o nacime*tto, 
do Infante dõ Luis bo qual naceihéUa terça fr." arnãf 
nbecent^ .três dias de marfo de 1^05.' 

Carta da Rainha nojfk Svr.^ aa cmperatriz. J^nar 
#■«; 20 dé Març.dt iy34. ,. - . . , . .: . 

Foi. 97. :Cart.a que •LÒer.enfo-'de Cáceres aeban^ 
ào-fe tta goleguuã eftanda abí a coza efcre-ueo- a fer- 
va brandam feu amigue, -■, 

Fok 97 v.« Carta.. de Jinguiof eonftlbo .qfie o In- 
fante dõ pedro. em.viou..^a'.:vlReidi>in duarie.jèutrmam 
ente de ho ver depois que foi hv^piado po r- Rei, (aj 
{_à) Achalfe iiBpfcfla: lia Chron. d^lRcy D. DuarcC, efcrira 

g)c Rdx dé Ei«a, e.inipiie(ra).MÍí Acidemia no i° Tom. 4a- 
ole£. de Liv, Incd. de Hift. Eorc 

FoL 



Cg.lzccbyCoOglC 



3jf4 Mv ■ • n r A s.: 

FoK ç9 r.' Òfeelbo rfpecisl ^e tiRei á$ iuar' 
te nojft S/ itu M9 Jttfaate aoammrtfmg fea irmãm quS* 

do l'e partia pêra tãvgere ^Õ é armad*. ^'incipia; 
Dtjlaj couxai vos difíe &c. 

Foi. ^g V.' Fãh qãe e/Rfi dõ JêbàÕ 5.« fer Mt 
áo fir concelho etnhiithaã no aum- de' j^^i .ped/ndo- 
Ibts fim parteeru ^Sâf fi perdem o CW^tf as Gaee» 
Parecer de Gonçalo mêdexi Çacoto adail tmr. 

Foi. loo v.« Parecer de dS.fettkmlio-arcebiJpoit 
Lrxha Capeiam moêr àelRty. ■•■ sO ' ■ 

Foi. 101 T.* Parecer de^dmn' .mmniqiu'. dt -vtemrsm 
$ dom ditartefe» irmami ■-■ : » "- ■ 

Pol. lo^ Carta «««< elRei\ dJf ferMaftd» efirti 
veo ao pvíMcepe dS Carhs.\ Maárígakja 2X de beaat 
de i$i6. 

Foi. 103 V.» Caria de 'wrvas fMjh tnidou aa Cth 
pitam ^oor da índia da prafpera e adaerfa firtairs 
delRei áõ mamaet 

Foi. tia. Carta fae mãdoa^o harhanei- ao C,sjUk 
de faraõ fobre a morte do Conde de mira fea Jogrt. 

Foi. Mi V.» Carta que fajardo, velha ejepeveo é 
elRti dém beinrique df Cajhla por^ ibe Momt/oú pet 
certo a fazer prerra per caúsca da ^lians deffêtyifos 
^e o fajardo tinha jeitsf aa Coroa TUaJ. Ptliás d» 
Crtt-x 10 ^Agoji. de v^-j. 

Foi. 112 V.' Carta St umas que HRai âam ma- 
mei emvioa ao papa da tomada dazamar. 

Foi. 113 y.* Carta que o Padre Jrei Jviaot SoO^ 
res preguador delRei efcreveo a J. A. df confola^am 
jòhre a morte do primepe dam manoel fea fi/òo. 

Foi. iij- V.* Carta de confilaçam do Papa Clfmemfí 
fetimo que ejlava em avinham qu&do fiupe da ^perdê 
delRei dom Joham de Camélia na hataíka de ^tmgud 
ãe que ouve pezar. Avinham,- 

Foi 1 16, Carta que o Con^ de Ftana dom âiu^rte 
mandou ao marim no cerco de lacere, Mcac, xa d' Ag. 
de 1459. 

Re- 



Fui. ii6 V.' Reprica de dom duãxtt, Akac,^ %% 
£Jg. df 145^. 

Ftil. 117. Catft4 ffte dãlfpf»9 pêdramsrfe/hemvi^ 
eu ao gffvernador da índia tirada de latim em íiit* 
gttageTt/ per o Uctucead» J^ei^b Áfirtta/des. Jiepío y 18 
íPjlg. de 1519. >-• 

Foi. 119. Repç/Ia da dita Carta feita per o 
Mtõ lecenciada ajonf» btrnaides, Urmus 16 de Julb. 

Foi. I iQ. Carta de Martim a.'' de Soiigsa g.'; da 
índia ao conde de Cajianbeira no anno de 1544. ( iVe jíí» 
M-Sex ij át Dez. da- 1543. > ■ 

FoL I2É> V.» Carta de dam «." de i^oronka Ceipi-\ 
fam de Cuptaa. elRj:i dam Jit&am ^J' àt p^rtugal pÁrr. 
buã entrada que fez em tutuam e,9m fw." carvajiw £0*^ 
fi-tam dakaset. Qepta , , 7 «A' Oíí. àe iJ4S"- 

Foi. 173. Carta, de dom ^âáanr d» Menezes ca^taiv^ 
daz-amor a elRei dom manoet. 

Carta, /aére «, ditv Capitam dam Joèam de Me- 
Mpes da peleja iim oftvf cttn tmitmaeèr rrmam de. el^. 
Rei de fez no anno de i$i^^ . -. . 

Foi. 11^ ¥.» Pro^tio ^e f$ fexí fohre as Qrde- 
UMfSes ^ue êlRei dom. d-^. 5:. píaaà/n^faAer. 

Foi. iiy. Tejlamento notável que jeSi hum htradé^. 
mefire a° de Cuêsa. 

Foi- I26v Orafom fue-fejv^.a elRei dS- jfo&«m jv*. 
por farte do ^eúu> em 4^ Cfil^teJ'- <fMe\fe ^zeraS em 
ãlmeirit^ aa fj/rar daprincãpe.dim Johâvn. '■ 

Foi. 127. OraeaS que fes tniaSfor Lopo Vat, pra^ 
. furador da- cidade 'de Lixioa ao jwar do princeft dÃ. 
Jobam em ahneirim. 

Foi. l,^l. QaTftít do- Cimde A pip^iia <fi«ft jf»***»» de 
Vajii*níálips^j^ra eíRgi Àíb j((>/w»->° Jo^re o MZa^. 
mento do Infante dom Duarte. 

Outra pêra S. Jlteaa. pf&a tluiito do. priatepe dom 
felipe I,° 

Foi. 



zedbyGoOglC 



3yS IA t ti ó fí 1 Á t ' ' ■ " 

Foi. izt r.' Outra p/a pêra a R.* Mafgrã 25 
^Abr. âe ly^Ã. ' 

Fo!. 1 19. Carta do Infante D. Lais pêra o mar- 
quês de Lofttbai caçador moor do emperaãar, Lxj* t^ 
dt Oit.. 

Carta que a SHria de Genua emvhu a elRei áJ 
yoham da boa memoria fobre dÕ lan^arotepaçanha. Jertua. 

Foi. 119 7.» Carta que' elRet ãS joèam o 1° em' 
viou a elRei defees em repojla doutra. 

Carta de jr.'* de frias preguador pêra a R." dona 
C.« noja S0ra fobre a morte ao Infante domfeíipe feu 
filho. 

Foi. ijy. Carta que dÕ fernando de Menesíes ef- 
ttrrtdo cativo em fees emviou a feu pay dom duarte ef- 
tando por capitam em tangere fobre o martiria que frei 
André recebeo em fees. 

Foi. 136. Carta que elRei àungria emviou ao papa 
Leo na era de lyii emtrando o turco em ungria, em 
3 de Julò. de ifii. 

Foi. 136 V.» Carta que elRei dungria emviou ao 
emperaãor efiando pêra dar a derradeira batalha a» 
turco. 23 de Ag. de i$z6. ■ 

Foi. 137. Carta que o Infante dS fernÕdo emviou 
ao emperader feu IrmaS depois do de/barato e morte 
de/Rei dungria. 

Foi. 1 37 V.» RenUciaçam de guerra que elRei ãingrã- 
terra mãdou fazer a elkei de frança por Jèu araute. 

Foi. 138. Repofla delRei de frança. 

Foi. 138 V.» Carta que mãdou bum home d Ingra- 
terra a bU SHor de portugual em que diz a maneira 
em que a R." e alguus gentis homens forom degolados. 
Londres y 10 de Junb. de i^^ó. 

Foi. 140. Carta da Snria de Veneza à elRei de 
frança fobre ai pazes que elle fazia com o emperador 
maximi/iano. 

Repoffa de/Rei de França. 

Certa de bua freira em repofla doutra. 

Foi. 



Cgilzcí:byVjl.'».í'^ll. 



Foi. 140 V.' Carta que obiffo de Vr.'^ dS gtíerdA^ 
kfcreveo ao Duque ■ de- braguanfa febre 'a prissam de 
jernS Âe, lemos. Jliramenha , 8 de yari, de 1481. 

Rep^a do Duque. Vidigueira , 19 de JaH. de 1481. 

Repojla de Sijps. 

A dejtreifam que foi na liba, de Som miguei da. 
tremor da tetra. ii de Oh, de ifii. 

Foi. 141. Cetrtit de dona Colaça' f.» de de Joka/S'- 
manoel a elRei dô a." de Cejlela feu prime em repofia - 
doutra que lhe elle mandou. 

Foi. 1,41. Geria- que elRei- dS a." d» f a liado em'. 
viou a elRei dõ a." de Cajiela. 

Foi. 142 T.' Carta qi/e o Reino dõ Alguarve em- 
viou aa cidade- de Uitbea agravando-fe delRei' dS a.*-^ 
porque lhe fazia adiantado, albofeira 29 de Jan, de. 
J444. («) 

Foi. 143 V.» Carta que es povos de Lixboa mãda^' 
rem a ^IRêi- âS Jobam 3.° fobre a bida de fua irmaã a 
Infante dona m.a j." da R." madama Lianer, > 

Foi. 144 V.' Carta qite fernam de pulguar cafte- 
Ibano emviou a elRei dõ a." e $° de portugual querenda , 
entrar com armas em caftella. 

Foi. 146 V." Carta de Roberto mõfyer de Carpe 
embaixador do Emperador eftando em Roma quando trif- • 
taõ da -cunha e dieguo pacbeco deraõ a embaixada au- 
papa. Roma 27 de Març. de 15" 14. 

Foi. 148. Carta que elRei do manuel emviou d elRei 
de Calecut per pedralves cabral capftaÕ da primeira ■ 
armada que foi aa Índia depois de fer defiuberta por 
Vafco àa Guama. Lx.' 1 de Marc. de rçoo. > 

Foi. 149 v.« Carta delRei dS a? de mantconguo 
da viãoria que lhe Deus deu depois que foi Xpão e 



(«»). V. Prov. da H. Gen. da Caf. R. Tom. ?. j>sg. 4,6^ ;" 
onde vem datada em I<fs4- Além d'efta, notei algúas outtas 



differenças entre hqâ e outra copia. 



doj, ■ 

Cg.lzccbyCoOglC 



\. ;FqI. ijQ v.?, Çar(a .fite #/R«4. í^Í ftrpã4« « ^ íf.« 

àfíp^VlHgtAi fokfe a ,iM àa ^iní9i*ê àaàfif 4ê ffileci- 
mento do princepe dom a."* Jrraii^ da í^tfgfk de grada 
^ ^ Oât. 4^ i4^-- ' 4 

For. lyi. Carta iU Qtw» SmÍ^íí ^.p/^fl J»lk 
rHaflxMó^je (fcà^dí^i^Mf d* que «r Xpãqí Jaísà^ «w 
nwtroí n» «««9 de (^04. E^a cartt ^Mm«» a ^^ 
^ff/fl wií/)»fl guardião aeiRei 4Í^ moMf/tf wik ani» ds rjoj 
í<W) Minú J^4,fm.^m. Ikf vtcmfini^ que. n^pomà^pi 
ella. - ; . 

-^ . KoK .xft,. Sicp»^'MR^Í 45 Vtatutei 40 tApa ã 
eirtada\jâií'tà!t»VjuttA-dA,S^áa€s iiX.* ii ae.JmiA. 
d» lyas;;. ,..,... . ^ . . 

Foi. 15' 4. Coroação do emperador Carlos f^ deiSii 
fàòpe.. T.. ■--. ' .— '■■■■-, -.i - - - ' : . 

í o FoU líf. Y.» CartÀ 4$ , hfavtt dS J." a^bu fem 
Ouvidor^ JVwjT 7,1 die M^o. de i4?8. , 

Foi. lyó. N9VS dia vitd» det tvKbahtadêP da frefit 

Carta do Rei prefit a, tiRti iUm.mamtel. 
poU if6 VA CvrHí ifve e/nviava a peefie .JoiíaÕí 
í/Rui dé mofiml tirada da livr» ^u- fex frJ' aivési 
capelsâ áxíRei do ^ame v» «mí torras d* me/mo parejie. 
Foi. 148 7." Carta da- mejma prefií Joihtm a elRei 
iff jí#Ãa5 j.' th^da tamhem d» JòkreMto. liv." dejrj* 
4tÍm)ç$s, ■■■'■'- éf- ■ 

-: ' F«J, lóo. 'Curta d» nKfma -prejie y^ioã a dfí^at 
hpes defequçira^ c^itaã meoF da- IhMã •■ ,« psr jer faiecid& 
JkdMít á ifipo -.Kds.- ds far»payc que enta^govsrmfua. 

; Foi, i6a. Carta da ^rpaat cardee-a ^ue efia-va «a 
mina ao duque de braguança. Mina. 

~- Foi. lái vJ" Outra fua "g f^ajco friz~camar^ dt 
du^ne ... . ., . .^ 
' FJt. if>i.'0'4iràj/áà a dS R,° 7^o, 

Foi 163 V.» Oiátrafua a^tes ^e jajfe ptra. a mina 
V '. i- ' - a-dio- 



DE LlTTffRATffRArPóBT-UGUEZ k. ^f9 

ia ^ogM de Segi meftre á«s Irmãos á» Duqiu. Lx." Sd 
de S. L." 

Foi. 164 v." Outra fna g dÕ benrrique Ât mene- 
zes quando veo àe Ronm. 

. Foi. i66l Omtra jvada mina -a' diogva de Segi 
mefirt-dos IrmAos *Íc Duque. Mina , 27 de Mayo de 153Í. 

Foi. 167 y.^ Outra tirada da hingoagem Rorna/iM 
•em portuguesa ■cujo autior fe naê f^ \a). 

Foi. 169 V.* Carta deiÉ^i trinarte da índia * 
EiRei dS mamisi. 1 4 ■ . . ■ •, 

Fdl. 16^ v.« Gatta do Cardeal de pertueeiat dom 
Jorge a elRti M manuú fobre a ida de marte gal* 
vaÕ que fei provocar bo papa , Reis e princepes Xpaãos 
pêra a Cont^aijla da caza Santa Rom. 10 de Mar^* 
de iyoó. 

. 'FoJ. 170. Cartii Áahnfo dalbuquerque capitão t 
governador da' índia ao Xeque Ismael Rei das carapu- 
ças raxas^ , ; 

Foi.* 171. O Regimento que deo a fernã guomes do 
Untas e a gU finitas que mSdou a» Xeque Ismael. 

Fot 171, V,4 Bo-ca/ninèo que fizeraS e bo que fizC" 
raÕ os embaixadores que foraS ao Xeque Ismael « * 
frezetfte que ihe lei}araS. ' ' ■ 

Foi. 17J. Carta do cardeal dõ Jorgo a elRey dS Jo^ 
haõ o 1." Jendo princepe fobre a guerra dos turcos em 
Itália, Rfim. 4. de Jau. de 1480. 

Foi. 174. Carta de amoejiacaõ e roguo de frei mi-^ 
guei pregador ao provedor e Irmãos da mizericordia. 

Foi. 175". Carta de duarte galvaõ pêra Jffonfo de 
iiálbuquerqi/e governador da índia, 

■ Foi. 17^ Carta de j^onfo de atkuquerque gover*'- 
nador da índia a duarte gaivaÕ. 

i ^- 1 "• ■ - . - ■ i.»^ 

(íi) "He a oração do Dcaõ de Vcrgi. Alguns outros Doeu- ■ 
menios copiados, nefte Codex , álcni dos que notei , fe acha»' 
fcublicados nas Pfov. .da H. ô. da Caf R. < aouttas Col- 
lecfoés Nacioiueia e Êsnangcífas. '- ' ' . ~~ 

2í ii FoU 



Ic.byCoOglC 



56^ 1 .M E* OM A-9 ' • 7 . " 

Foi. 279. /?tfrr« de friftgS.da Cunha per» affòji^ 
àalhuquerq^e governador da índia. 

Fo!. 179 V.» Garf* daffonfo ãalbuqverq* .governa- 
dor da índia a duarte galvaS, 

Foi. 181. Carta: do pnneepe dÕ Carhs d R." ger- 
mana moibur deíRei do fernando feu avd era reposte 
doutra. Brucellas f ii de .Fev. de i$o6. 

Foi. 182 Vâ Carta das eleitores do Império dala- 
ntanba ao princepe carias Rei de Castela quãdo ho ele- 
gera por emperador. Áustria ^ 14 de Junb, de is^ip. 

Foi. úi Carta das CÓmmttnidades de . CastelU 
aos grandes delia em repofta doutra ^ue lhes man- 
darão a falèadolid per bum trombeta. Vaihadolid 30 
de Jaji. de \^%i, 

FoJ. 184 V* Carta do Sacro Collegio dos Çardeacs 
ao Reverendtjimo Cardeal de tortofa fumo fõdfice per 
elei^aÕ de Roma. Rom. 19. Jan. de jjji 

Foi. i8f. Carta delRei de frança ao papa âdriaÕ. 
LiaÕ t 24 de Jun. de 1512. 

Foi. 1S6. Carta das Communidades de Çasíelia a 
elRei do manuel de Portugual fobre a guerra que avU 
epsre eflas- e. os Grandes. 

Foi. 1 87 V.» PreguaS que se deu em Castela no temp» 
das alevantamentos. 

; Foi. 188. Carta da almirante dõfradique de Cajlela 
ao emperador fobre alguÕs couzas que tocavaÕ d elk 
e.: aos Reiaoí de Castela. 

Foi. 190. Carta de do Joaõ Conde de penela a dif 
gjto lopes de toledo do confelba de emperador e comeda- 
dor de ferreira quãdo emviou ajeu f." dS ambrósia omi-_ 
Síiado pella moloer que fe tirou da jorca em lAxboa. 

Foi. 190 V.* Outra fua ao me/mo comendador. 

Carta de eaafola^aÕ que bã bam/m emviou a òUa 
fua comadre a quem matarão bum filho em dia. Guoa 17 
^an. 1539. 

Foi. 19^. jt/e^ Marta trovada por bam devoto, £m 
Hefpanhol; , . , . . 

DgitizedbyGoOglC ■ 



DK t.ITTEBXTVR A Po"k ítTÕuEZ AT 3'frt 

InvocajaS a noffa Snrã febre o hinno Ave Maris 
flella. em F»riuguez. 

Foi. 195". Trovas que foraS feitas a e/Rei áff fer- 
n^ttâo e aa R." dona Isabel de Cajiela. Em Hefpaniiol. 
Foi. i^è.Trovasde Guomes manriqUe, Em Hefpanhol. 
Foi. iDi. Trovas feitas a dõ guarda vifo Rei da 
Índia pelias de dÕ forge maHrique.Em Hefpanhol. 
.' Eol. 104. Trovas que fes guarda de refende ender?~ 
çadas aas damas , da morte ae dona Ines de Caflro que 
elRei dõ afanfo o 4." defie nome de portugual mãdou 
matar em Coymbra por o princepe dÕ p." Jeu /." ia ter 
por manceba e como molber , e por bem que Ibe queria na» 
queria cazar. Ecn Fortuguez. 

Foi. loy V.' Trovas de louvor a nojfa Snrã per hum 
devoto. Étn Portuguez. 

Foi. 206 V.» Trovas feitas aa morte de jr,"> de melo 
e manoel de melo Irmãos os quaes matou aa traiçom dio- 
guo peçanba que depois por ijfo foi prezo na cova do Caf- 
telo de Lixboa omae morreoEca Portugez. No fim dellag 
fe declara em verfo ferem feiSias Por António Dias de 
Crajlomarim. Eftas Trovas e as de Garda de Refende me 
parecerão as melhores de toda a coUecçaô. 

Foi. 208. Seguem-fe muitos e bons notados tirados 
de diverfos livros. Principia : Diz f abanes gerjon no li' 
vro de coníemptu mundi &c. 

Foi. 218. Carta de Nuno da cunba governador dm 
índia a dom Guarda de Noronba Vijo Rey delia.. 
Repofta do Vifo Rei do guarda. 
Carta que mãdou hu berne a outro feu amiguo que an^ 
dava pêra Jècafar por amores. Lx.a ult." de Mayo de 543; 

E acaba o Codex com eíles Tcrfos 

Hemrra e gloria e louvor mui perfeita 
em todo e per todo a Deusfeja dadfi 
■ pois teve por bem que vieffe a effeito 
O vivo dezejo geerado em meu peito 
ét vér ejie livro por mim acabado. 



Ejcrii 

Dqnizc-obvCoGgic 



3"fe ,' "- Mb h o 1 1 a f 

Ejtrif jMUunu cê g^mtie cuidai» 
por ver e guezar de couzas ttm ímx 
memoriâs palavras faíJsr mui «nada 
em profk e verfo mui hem ajjfentadv . 
pr«ce^9 de toes t tám ntiret ftjfoas. 

Foi lida efta Memoria m $eflaó de fO de }ulho de 17^ 



M E. 



MEMORIA 

' De quatro InJcripfÕes Nabiças cem/uas traduc^ffes. ' 
■■-'■.- Pelo P. Fr. Joa6 de Sousa. 

Jfífcripçalf AraMcã , que ejiâ gravada na "Peça vulgar* 
mente chamada de Dio , a qual pr efe at emente Jè 
acha no Fatia ita FundiçaS de cima m Campo de 
< S'anta Clara d'efia Cidade y e fua traducçaÕ. 

Bfta Inforip^aS tem hum piiVmo e trei qmrtot «n quidht. 






i, T\ o- (wfl* S o berano Rei dos ftrir <fo fcctrfo ; Pro- 
f, JL/ teiHlor dos fithoa de Setraltóíí C<í) í defcafor dos 
„ preceitos eTo Alcorão; íeftruídor dos Tanéos (í); Ei- 

(íl)Secfahán etaS fóis Ptoyincias independente! , protegi. 
^1 pelos EmpermJores Othomano;, e donde riravaò os ni.in< 
ccbos mais alentados para- 3 fua guarda , c Ao Seitaího. Vid.' 
Cdjitrll: Tom. rr. pag. i^áj i e Mitlhlè Tom. 11. pag^. ilp4, 
^ diz: Tní*»« ptr /è fnbjijhns , non ãtpendens ah dia StcJ 

{b) Os Tuiéoi erao os bzbitioia Ãe ituns ihar Tthas d^f 

„ pugnai 



l-c.byCoOglC 



j(f4 MíUaRIAS 

jj pugnidor dos Idolatras j Vencedor no dia da peleja ; 
„ Confidente em Djot ; herdeiro do Rei Soleiman ; Li- 
,, beral , e dotado de todas as excellencias -, Bahadar^ 
,, chab ((>)• Hfta Peça foi fundida a cinco do mez de 
„ Zicáde de 939 da Hégira. „ Correfpoade aos 4 de 
Ágofto de is'33 de Chrifto. " 

Como na fobredita lofcripçatí Cs na5 expreíTa o no- 
me do Soberano a quem foi dedicada , nem o lugar on* 
4e fora fundida aquella Peça , fòi-me precifo recorrer 
aos Hiíloriadores do tempo. Achei na Vida de D. Joaá 
de Caftro Liv. III, N." 28 a feguinte paíTagem : „ Re- 
ff colheo o Governador 03 deípojus , que foraõ os Reaes , 
„ muitas Bandeiras, «quarenta Pejas de Arcelharia grof- 
,y fa, em que entrou aquella , que hoje temos na Fortaleza 
„ de S. Giatf , que do lugar onde íc achou ainda con- 
„ ferva o home. 

Sendo efta nocícia porém muito íucciata para /àrif- 
fezer a minha curiofidade , recorri a outros Auihores , 
tanto noflos como ellranhos , e rim a alcançar, que naè 
fó aquella , mas a maior parte das Peças tomadas no Cer- 
co de Dio fôraÔ fundidas em Conítantinopla , e 'd*alU 
lemettidas para foccorro d^aquella Praça. Eis-aquí os fun- 
damentos que eu tenho para o crer.- Na Afia Portugue- ' 
za de Manoel de Faria « Soufa , Tom. I. Part. IV. 
Cap. I. fe diz : ,, No anno de i^-^i , Badur Rei de Cam- 
„ baya., mandou hum grande prcfente ao Gram Turco, 
„ a fim de obter d'elle hum foccorro contra os Portu- 
„ guezes , 'ai6 16 pára lhe reítítuirem as fuás terras , mas 

Nilo,, os <]uaes naó ecaó Ç^riftáos , ]udcos , nem Mahome- 
tanos. Vid. Geo»raph, Nubienf. Clima III. Part. III.», ou 
Hetbeloth Bibíioih. Oriental pag, tJSi. que diz : Le Géograpbt 
Pírfien émt dans fon troijiime Clim ; que c'ejt le mm dune des 
^ Jsles àu N\l , qui êtoie autrefois babitét., et adtivÉe ; mais qH'(lle 
étoit de fon tmps entieremenc rtUnée, 

(a) Bahadu-chah , hc .nome Turco compofto de Sahadar, 
t chah , qge por antononjaila fe deu a Soleiman Empcradoí 
^? Turcos. Significa , £mpêradQr yalerofo , e giurreiro. 

,j tam" 



lizcJbyCoOglC 



DE LlTTÍRXTlfllA PôrVvqUEZA. J^íf 
,-,tfimbeni para os lançarem fóra da índia. O Grara-Se- 
„ nhor logo mandou preparar huma armada de fecenta 
„ vélas j a maior parte delias eraô capaclíTimas. À gen- 
„ te de guerra eraã fcte mil efcoUiidos de varias qua- 
„ lidades , e condições , Turcos , Janizaros , Mamelucos , 
^ e outros. Algumas das fobiedilas embarcaqOes eraâ 
„ Galeras Veneziaoas, que neíle tempo reprefou o Sultaá 
„ do Egypto no porto d*Alexandria , havendo-fe pouco 
„ tempo antes rompido a paz , que haría celebrado aqueU 
„ la Republica com Bajazet Emperador dos Turcos no 
„ aono de 1503. A dita armada deii-fe ao commandõ 
„ de Solemán (tf) Baxá ; o qual follicitou efte cargo mais 
„ por ambição , que por valor , e merecimento- 

Na Biblioiheca Orienta'1 de Herbeloth , pag. z6f, 
faltando eíte Àuthor na Cidade de Dio, diz : La viU 
le de Deibul , que nous appelbm aujourd^bui Diu par 
abhreviatioH, eUeaété affiegéepar Parmée ãeSalintan (*> 
fecond , qui fitt eantratnt a'en lever le fiége d Í'arrhée 
du Jèeours. .... 

Combinados pois os annos cm que reinou Sofimart 
fegundo com a Éra da Infcripçatí da Peça , moflra-fe 
claratneate} que foi fundida no feu reinado, ea elle de- 
dicada f e por tanto he errada a tradição , que nali t^al> 

, (â) Soleman Baxà eta Grego 4* NaçaÕ> natural da Mtv 
rca. Abraçou o MahomccifinO' com efperanca. <1« alcançar pof- 
tos honroios. Era de- eftatura baixa « rofio feio , e bauig» 
grande, que o fazia mais baixo e feio. 

(•) Soleiman fegando do nome, eta filho de Selim , c 
"Neto de Bajazet. Conqulftou a Ilha deRhodes, Babyíonia , 
Noldavia, e Valachia : declarou a guerra a Luiz IT. Rei de- 
Hungria: demoUo a Fonaleza de Belerado : perfeguio forte- 
mente oa Flancos, eAlemSes, afelanao fuás terras: siandoir 
ftot fim chamar a celebre Pirata Barba-Roica paia Conftatiti- 
tiopla depoii de tet tomado .Aig«I , Tunes » e afolado o Mer 
diterraneo , e o fez Capitão Baxá C Almirante ydas fuás Ao- 
madai. As mais façanhas , c conquiftas de Soliman , legmido. 
fe podem vii na &bUotheca Oriental dHerbeloth pag. Soz-j, 
001 , e 804. 



izc.byCooglc 



3^6 M X i( O t I A s 

tou quem abraçaT: , de que fân fundida em DÍo |>ot 
ter uio alií ganhada , a qual de todo defranecem as 
auchoridaies apontadas , e melhor ainda os caraâeres da 
Infcripçaá por f.-rein Orientaes , o que oaã fertaã fe elli 
em Dio foíTe fundida. / 

Havia quafi três feculos , que a memoria da celebre 
Peça de Oio jazia nu mais profunda erquecímento» e 
depoittada na Fortaleza de S. Gia6 , coníiderada de pmi- 
CO, ou nenhum preUimoi de modo que na occaiiaã eni 
que fe fiindio a Eílatua Equeftre fe mandou vir para fe 
fundir no caio que o feu metal foífe neceflario para i 
obra; naÕ fendo porém preCifa âcou depolitada naquel- 
le Arcenal. Correu o tempo até o anno de 1778 , em 
que chegou a etta Corte hum Embaixador d'ElR.eí de 
Marrocos, que finha da parte de feu Soberano felicitar 
a Rainha NolTa Senhora da fua exaltaçad ao Throao)' 
e fendo o dito Embaixador convidado hum dia para rér 
o Arcenal da FundíçaÔ , oa fua paíTagem pelo Patea 
do mefmo Arcenal a vio com as outras que atii efiavaS, 
c que na<$ era6 menos formidáveis. Levado o Embaixa- 
dor da curioíidade, a quiz medir; e oellà acctâ eocon* 
crou a referida InfcripçaÒ : e como os caraueres eraã 
Orientaes, que elle ignorava, pedia ao P. Fr. Joa6 ds. 
Soufa , que por ordem de S* Mageftade o acorapanha- 
va , que lhos leífe , e eiplicaífe , o que o dito Padre fez. 

Como allí fe demoralTem por algum efpaço , fe che- 
gou o Excellentiífimo Martinho de Mello , Mituftro c 
Secretario de Eftado dos negócios da Marinha , e pet^ 
guntou 30 mefmo R.eligiofo a caufa daquella diemora : e 
referindo-lhe elle o que tinhaã encontrado, ordenou qoe 
lhe tiraífe huma Copia daquctie Monumento para elle 
pór na prefença de Suas Mageflades , ordem que o di- 
to Padre executou. Tirára6-fe depois varias Copias, que 
íe deratí a differentes pelToas ; e particÍpou-fe niima del- 
ias á Real Academia das Sciencias com as. de cuCras 
Lapides, que fe Bocontráraõ nefte nollb coqcúieatt- 

£íla Sociedade jn&tigarel em promover .todo» os- ra^ 



Cg.lzcclIyCoOglc 



t>B LlTTERATVRA POS TVGVBZA. ^£7 

nos de' litteratura , incumbio agora ao P. Fr. Joad de 

: Soufa a tnáacçaô , e eiplica$a6 de todas elUs , o que 

1 elie fez tanto mais voluntariamente pela difiin^alS que 

1 lhe reíulta de fer membro deita fabla Academia, e de 

poder ni6 o ler inútil. 

l COPIA, ETRADUCQAÕ 

. jOe htma Ceãula , ou Sinete , aue no anno 1772 /« ac6a^ 
\ do na Viila de Palmeila , cujo tamanho y 

, " e feitio be ofeguintei 




CKamon-nos (áfuaLeí) oManifeíEador dasmaravilhasy 
£m cujo foccorro conliíte o teu alívio nas adveríidade9>. 
Todas as coifas , e a mefma vida fe acabira > 
Se Vós naã foíTeis , 6 AltiíTimo , AltiUimo , AltiíSmo. 
Anno de 174 da Hégira : 

Correfppndé aos de 790 de Chrifto. 

Os caraíteres fa3 Orientaes, e bem feitos. A cot 
locaçatí he métrica , e elegante , fegundo o génio da* 

- ' Aaa u Tal^ 



Dgilizc-JbyCoOglC 



Talvez que fcaufc reparo o ferem os cara^eres di 
íobredita Cédula Oríentaes, e na6 Africanos, tendo os 
Keinos de Hefpanlia , e o de Portugal fido coaqniltadi» 
pelos Aloufos de. Africa > cujos cara«êres faã muito dif- 
ferentes dos Orientaes : porem efte reparo fe pôde def- 
vanecer com o que da hiftoria daquelle tempo íabe- 
Aos , que para a mefma primeira conquifta feita pel« 
Mouros de Africa , aíUrn como, para aa oetras concor- 
rerão ás Hefpanhas tropas de todo o Oriente j parte man- 
dados pelo Califa {a) ^alid, parte voluntanos coino 
intereíTe do faque, e parte finalmente para fe eftabelec^ 
rem nos paizes conquiílados, e eftes últimos eraõ de dií- 
ferentes nações, Turcos, Perfas, c Árabes. 



(d) O Califn Walid , era da familU ã^Ommidátí, aqnai' 
os Árabes chuníá' i- EfpttdAíU ^oi, e^.eiteío.dM, fteíonú- 
dos. Começou a reinar no anno de 91 da Hcgíi^ , te 710^^ 
Chrifro. Foi efte Califi hum dos maircrueia contra p Chnt- 
táos do Oriente. Tirou a famofa Igreja" 'dè Damalbo ,- qtu «t 
dedicada a S. Joaõ^ Baptirca, e a.rcútizio ahama-Merijaitii 
depois de fe fenhoTeai da abundante riqueza , jõias , e vii^aj 
com que 01 Etnpeiadares Gregoa » e OMcroa devotos' a tinliao 
enriquecido. Mandou 3Ççrercenta[„g tiTbutO- aoaiui' ^^ todoiM 
Cbriiláos , e que fe aliftan'cQv oe homens »>ejdiiientot. De- 
terminou ultimamente , qu^ os Chiiftãçs fofTem affignaladiX 
no braço direito com cautério , dá figura de hum Leaõ ■ c 
que todo o que naõ trouxeíTe efta marca fe lhe cortalft * 
maó. Vid. Marmol de rAfrig. ,cap. ij. 012.70. , «9maiii>'^ 
{« leUta deile em Hcxbelocb j>ag. 8^. 



CO- 



bs LlTlr«A»í»A Po»*»SVEXA. 3<í 

I «-.^ J...1.J zOil/fcIt-i 

vi£ ...dULoixcL .ftlaJL >j 
iil'-i>j4l]l inix dJ-olx V v» 

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• .i " ■' ' '" Em 



D,K,db,G(50glC 



370 



M B M O « 1 A « 



Em nome de Dec» Clemente , e Miíèrícordiofo* 
A beaçaõ de D«:os , e da íua Ezcelfa grandeza feja 
com os que Ibe obedecem. Mandou reedificar efta Forta- 
leza e feus adjuntos o Emperador Ahderrahman ( « ) Ben 
Eliiaquem para -os.,obediciices (os Mahometanos ) por 
feu feiíor Ãbdsllá Ben Caleib Ben Taliba , e Anafaã 
Ben Mecanes (b) feu meftre das obras (Engenheiro) 
no mcz de Rabie o ultimo ; anna duzentos ^ e vinte dá 
Hégira ( Correíponde aos 835- de Chrifto ) . 

ComoemHerpanha reinarão outros Reis Mouros com 
o nooie de Abderralimaii , natí me pareceu defacertado 
dizer aqui qual me parece fer efte, governando-me pelos 
Autliores que efcreveraÓ.a hiftoria dos Arabet , e os aonos 
em que reinou , e apontar algumas coifas mais memorá- 
veis de feu tempo. 

Efté Abderrahman era "o 2.* da nome , e "da famí- 
lia dos Ominiados y fegundo refere Marmol de VASrique 
Tom. i." xap. 17 pag. 190. ^e fem durida falia da 
niefmo Abderrahman por coincidir no tempo correfpon- 
denre á Era da fobredita InfcripçaÕ. Diz poiso fcguintc: 
„ Natí faíilfettos os Árabes com o governo de Joufef 
,( ( Rei entaõ- em Toledo ) mandáraÒ chamar a Abder- 
„ rabmao » q.uc. nelTe iemp o eftava^em Africa \ o qual 
„ fem demora paíTou á Hefpanha acompanhado de alguos 
„ Árabes e Africanos. Defembarçou em MaUga , e fem 
„ perda de tem ^ pTrlio p]jra *Cd!râòva , ondç foi bem 
„ recebido. . . 

^:TUlaLJiúre£jbbli4al^ «4»' -«fabgaãá- -bmhvIiou 

^ rnntra pl|f rnm hum niim>»rnfn ^Vfrr\^n ^ CIB CUja bs- 

„ talha foi derrotado o feu exercito, e elle morto. Voltoa 

( Á). Bbn Cthatjoen e» «apfwUícl^ ilévtrtoc Califa» èa Dy 
naflU ilos Qmpiiadcs, que o. adoptarão no reitvtdo dr Mamaó 
4"* CatK^a Jaqaefía fahúlia. V. HiOer. doa Saraacen. Cap. XI. 
pafi- «"i. .■■■-■: ■ 

(ft) Anafafi Bçn Mccanes. Pefta famiilà houye hum grande 
íeèta n« Gtjade de ÇfifièKo. Quja» «brM íe casfctrad na Biblir 
«eh, do £fcuhai, V( Goiin T(!m. !• fag, 8^ 

í. ia-AIi» 

DgitizedbyGoOglC 



DE LlTTffRàTWRl Pa llt VQ VEZ A. j7t 

jf AhàcwtihíBaa riíiòriofò para Córdova; e vendo- Te f^vot 
,, recido da forttma ,. e bem acceiro àoa Ãrabts , é Mouros 
,, de Hefpanha , íacodioojugo dos Olifae òeDamalco, e 
,, fe fez Senhor de ioda a Àndahrzii , c acdasrar Emir 
j,.EbJu/metiin , ( EmpendOT dos Creor» ) de coja def' 
,, cendencia houveraâ de pais a filhos oito Reis. „ No 
cap. 23. do meímo Marmol pag. 2Z4. fe diz : „ NelTe 
„ tempo reinava a paz em toda a Hefpanha, e Abder- 
,, rahman fe occupava em fortificar as Praças de feus Oo- 
jy minios ; aiFormofear as Cidades ; edifícar Mefquitas ; 
„ encaminhar agoas para as Povoações ; chamar Mi.ftres 
„ e officiaes do Oriente para o augmento dai fciencias , e 
,j manufatíluras no feu Reino : £ depois de 25* annos de 
„ governo feu filho Mahomed Elmondir lhe fuccedeu no 
„ Throno. „ Até aqui o Author. 

Na Hiftoria dos Sarracenos cap. 6." pag. 11;. fe 
fòz a mefma mençaó deite Abderrahman, e em tudo fe 
-conforma com Marmol. Dora Rodrigo Ximenes , Ârce- 
bifpo de Toledo , no feu Compepdio HiftoriM Arabum 
cap. 16, pag. 13. também trata delle mefmo Abderra- 
liman; porém da-lhe c annos de governo de mais. As pa- 
lavras defte Aifthor faã as feguintes : Abderrabman : An- . 
no Arabum aio , regni autem fui 30 , pratepit plateas 
Cordúba pavimento lapiâeo folidari , et aguam a monta- 
ms plumheis fistulis derivari , et fontes juxta Mejqai' 
tas y et juxta prajidium , et in aliis locis eâuhtone 
nobili emanare ... et Mabomet jilius ejus fuccejfit in 
regno. &•€. 

Na Biblioth. Efcuríalens. por D. GabrKl Gafíri, h% 
inençaã do fobredito Abderrahman no Tom. 2.° pag. 199, 
e lhe dá 32 annos de governoj porém efta incoherencia 
nada faz ao noíTo cafo ^ porque fendo a Era da Infct-t- 
pçaô de 220 daHegira , e 835* de Chriíto> temos toda a 
certeza de que a dita InfcripçaÔ fora collocada no íeu 
tempo ; foíTe no decimo anno , no decimo quinto ou 
decimo fetímo do feu reinado. 

Os caraAeres da fobf edita Infcríp^aã , e da que fe 



l,c.byCí>OgIC ' 



37» M B M O » f'A i 

íègue fa(S Cuficor. E pc^o que ot Árabes antiniameiítc 
UHTa6 deites , prefeotemeate aa(j fò lhes na(S £iõ ufo , 
mas totalmente os ignora{t, e os f^^us mermos fabios oi 
m6 fabem ler: pelo que para facUitarmos aos curiofos 
a fiu leitura os traaTcreTemos em caraiíleFes Oriennes. 



CO» 

zedbyGoOglC 



DE LlTTÍ!«*I»»A Po«»»aOEZA, .373, 

XoXUJ 



ZoJm/U^L^LJLULi. 



9 



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5 ±ajg j^ g ivUti^U 

o^\J:u>2j :i£i uL 4iJL 



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r |,i,ni,C".OOglc 



J74 



MenoitiAt 



Efta' InfcrípçaS foi achada Junto w Convento dos 
Rcllgiofos Frandfcaoos jpéaá dá^VilU d^Mçitpla > i]ue 
«in cáradlcrt-s Árabes vem A^íçr 

1 ■" "i riiii t'~"'>. 



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5? fSuj, lySI y-iilt \t!Íl. 



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^ tJMI íjp. i^âújií sií x_S=.' '- 

tS^Ajai jy^j ^M^ ^J*' .•*»*■ 3 

•j, ■ "■J t ' > ijõjl tíU ^ií iO<^ ^ 

I- , •\;a*í 1^ )Sri'i 1" 



^-1 .'. U 



s"^nineiras íresteg-asi,. e^aj dos doi^djos da Lapide 
[•■■'. "■■■ '««Htáflfc ^-ft^iijttf : -- ' t''- -í _?. 




, Magnifico. AkoraS, Cap.° 2.° t- ^^6, 



0«£r 



D,K,db,G(Xlgll^ 



o Teílo da mefcna Lapide contém o que fe fegue : 

. „ OJi vós homens ( os Crestes )' temei o roflb Deòs, 
',f e aqueile dia , do quii p pai oaâ paga pelo fiUio, nem 
„ efte por fetz progenitor. Por certo a prodieíla de Decw 
„ he verdadeira. Naã' vos engane a vida mundana , oein 
„ vos entregueis is pcrfuaToésdo tentador ( SatanáB); pois 
„ pretende feparar-vos da E^i do voílo Ocos , o qual Có 
j,:coiitiecea hora do dia (dojuizo). Elie he.que &z cahir ' 

„ a chura, e o que peiíetra o^ mais occitltò das entranhas, 
g, O homem ignora o que poderá, lucraiiio ^ia.deimanbaâ', 
„ nem fabe«m qiu terra feri fepultadpç^ois íó Deos be fa" 
„ bio, oplenamentis iaftrudo.,, Àlcoraã ,Cap.° 31 , y. 39. 

As Infcripçpés Lapidares, que^» Árabes flfífeHnatí eri- 
gir, conSatS pela maiof parte a« feiup^»; yOit fiifyg^ttf 
do Alcorão , e j-arifljawç vezas ^s w^em paríi dpisafpni 
memoria de feus flomes á poftèridade. Efte fo&\iaiç ea»- 
tre elles , naÕ he íçsn ftindíimçotg relati^vp á obfçrvaoçií 
âa fua Rpliglag ; ppfque ^ tal ^a vençtaíjõ ^j^e t(E# a^ 
feu AlcoraÕ, que com, í). mais prtrfundp .refp^ío JJiecha? 

^»f yo ^««M éí jparfl o jtoãírd tocar. O Í£ií ís^lefere pj- 
pofitor Xietidí f em huma pafla^em do feu livrp , diz: 
„Qye os Livros que Deos kz' -áefccv do Ceo , fôraí 
„ cento e quatro , cujas excellencias incluio em quatro 
j, Livros , a faber: No Pentateucho, no Pfalterio, nos 
«Evangelhos, e no AlcoraÕ; eque as excdlencias def- 
„ tes quatro as incluio no Akorad fó , que he Livro 
„ inimitável , indifputavel , de fumma elegância , de 
„ doutrina pura, e por efpecial graça do AítiUimo con- 
„ fervado. „ £ como efta matéria natí he o objei^o do . ~~ 
aíTumpto de que trato , deixo de moftrar que íó a igno- 
rância he que podia dar eftes louvores a hum Livro taâ 
cheio de contradic^oÊs. 

Bbbii NO- 

DgitizedbyGoOglC 



NOTA. 

AAltera;a6 que o Leitor-actiará na traducçaS da Inf- 
cripçaõ' da Feça de Dio , que a hz diiFerente da que 
publicou em Londres no anno de 1795' o viajor Murphy *, 
naé o deve admirar , pofto que áprimeíra vifta pareça 
efleticial. A mudança conftfte na iraducçaÕ do nome Set 
■S.abân que ao pé da letra íignifica , a Senhora Rahdn. 
Relleiflindo porém depois de ter feito á traducçaó publi- 
cada em Londres, que fempre íbi contra' o coftame dos 
JUahometanos publicarem os nomes de iuas Mulheres^ , 
i^aâ Senhoras , ou particulares, e muito menos gtavareia 
AS em Infcripçdes Metaíii(;a& , ou Lapidaras : o qae fe 
deixa ver bem do mefmo £gnificado do verbo ^^^ , 
donde deduzem o ncxne S;«j^ , Mulher \ BJpafa , pu 
Conforte , cjue fignifica Resfacra &• vemraada, qoam ta»- 
gere , nmtinare , ac vklare hefas eji : acliei , que a de- 
via corrigir nefta parte, para o que confultei os Elcri- 
tores do tetnpo , e os melhores Vocabulários , e com 
feffeito achei , que aquelle nome fe dava a feís Provincias 
■independériles , que a Cafa Othomana protegia , como fe 
Vé ha outra aota da mefma InfcfipçaO. 

; • THvth itt Portugal pag. ijj» 



MEr 



Dl LlTTl^AÍTBRA-PoilXOGUEZA. f^-j-: 

, M E M O R.I A. C*) 

Aq Programma: 

Qual feja a Epocha fixa da híroâuàçaS do Direitè 

Romano em Portugal., í o grão de aaílor idade quç " 

. ' í//f teve 'nos' diverjès/tettipós., ' . -l 

PúRTHbMAZ AmTONIO bé VíJLLA-NoVa PÒRTUdAL.', 

Stiphis bic gravídi mdis. 
■ ■ '^neid. 7.- 



Legish^Q^ foi iempre/em' t'odos ov paizes d cliefe 
d^óbra do- erpiruo iiumano , em que trabalhão ^ 
_. psíToes . mais illuflradài da Nação, e que dtrige o 
LçgisIwiQr i qtie de tudobe indepanderre , 'eiceptojd» 
Íli6 ■g^lprift .'í ■■ e - da felicidade i^tíb^ca. Por iffo .jamais ft 
pddQ^rw^r^.que iiuma Lesislaçaâ bemá , pois jámaíj 
qúetmx» pvofere pòde.teili teíto as cooibinaçtSes , ecDiihe- 
cído' o Syílettia , como quem a fez. 

Como eu devo fallar fobre a noíTa , que tem tido 
variarem diverfos tempos; devo principiar por 4ivtdi^ 
as Epocfhíis t para abrir o. plano, que me propuz íeguir. 

No. principio da nolTa Monarchia a legisUçaâ era 
perfeita , e a Jurisprudência lod» era Feudal ; e por 
tal conto todo o- tempo desde p principio até o Rein»- 
^O.de D. Joad-1. , que m. reputo a Epocha cerla da 
.<ntr4da .d(t:PiTeito Romano re nefta Epocba.conitdero 
o 'Reinado de. D. Diniz , .como o tempo media qafe 
preparou a mudança ; pois buma Legislação naÒ muaa , 

-.(*^ Premiada na jSeflãó Pública de. Mate 4e i7$t* 
-..-. . fem 



izc.byCooglc 



37? Mbhokias 

fem qu3 os coUuraes e a educaçatf tragaS clrcumftancíaf j 
que aepehdaâ de novas Leis. 

Desde o tempo de D. JoaS I. até ÉlRei D. Manoel 
conto a Segunda , «m que Aipponh.o o Direito Romant 
eftabelecido no Foro \ porém como huma Legislaçaâ nova, 
que fe entranhava com a Legislação nacional : e nefte 
tempo ainda que ha o .Codjgp de D. AlFonfo V. , eík 
naÓ he coufa nova , mas a publicado do que mandou 
fazer D. JoaÕ I. e D. Duarte. O carafíler defta Epocha 
hC: o de hum combate e -vapillaçatí , que fazia 0'cboi{ue 
das duas Legislações contrarias, a Romana e a Feudal, 
igualmente recebidas ; a Feudal cbmo primeira na Lei , 
a Romana como primeira na educaçaã dos executores 
da-Lei. - ■- -■■ •■- -■ — 

À Terceira Epodia principiando no tempo de EIRei 
D. Manoel deve durar até o Reinado do Senhor O. 
Jofé ;. mas neftcí efpaçó éiverfos cani-^eres fazem os 
diverfos tempos da preparaçatí para a pcálarior. Até 
-EIRei D. Sebaltiaã , o feu xaraâer he a vaci41a$a6 das 
opÍni6es, que íufcítou o combate; o que fez neceflaria a 
-'Èfcola de Bartboio, á qual fe deve « -apparecer daminho 
mais feguro para a. concórdia. O r«mltado he a JiiriP- 
prudência dos Arefios , que principiando em D. Sebaf- 
-tiaõ , durou muito tempo ; -e efta lie tud^hor qtie a 
antecedente, pois moflrandò aos .olhos a Qpíniaê adopta- 
da , fe lhe deve maior certeza. O ultimo he do tempo 
lio Senhor D. JoaÔV. , em que os trabalhos de huma 
Academia .protegida , fazendo cooimoçaõ nos efpiriros , 
-fizecaÕ buicar iÍTros dé <gofio para 2a queftôei de Hiílo< 
o-ia \, poráni que por hum iconfenfo natftral de toda a Lit- 
teratiira ., .f^raS 'achar entK elles a Moflttffquieu , 4 
■GrQoiú , a Natal. Alexandre , e a outiõs. 

Ifto prepar-ou a -Epocha aílaôi desde -o R e i n a d o do 
Senhor D. Jofé , «m.íqut; o BheUo £.iíMic9^ e a Eco' 



lizcJbyCoOglC 



UE LiTTES ATURA PORTUGUEIA. 37J 
Homia com os feus diverfos ramos fohre Indujlria , Fa- 
hcia &•€, fizeraô ao Direito Romano o mefmo choque, 
<]ue efte tioba íéito ao Feudal. Efta Legislarão naá 
podia repeniinam«nte entrar cm Syâema i cada Lei iie 
a pedra de hum bello edifício , que por melhores cortes 
que tcnba, naÔ pôde ter lugar , fem que o rifco interélTc 
ao . edifício inteifo. R.eputou-fe que o combate safcido 
deftâ choque efa caufado peio Direito Romano j e; elle 
foi profcrvto na Lei de 18 de Agpllo de 1769 : fecuio- 
fe-lhe outro ainda maior pelo immenfo vácuo que ficava 
■o Syftema , e die tornou a fer adoptado nos EJlãtuioa 
dft Univerfidaáe de Coimbra. 

Tses; fâã os cara^epes -defta Epocha , qae efpera- 
ncs- dè lugar a outra de ioda a -períèiçad no novo Có- 
digo V e as idéas {}De me proponho deíenrolver ttefta 
Memoria : para fatisfazer naÕ fd a achar a Epocha da- 
cntrada do Oireâo Romano , mas o ieu gráo de autbos 
ndade nos dnerfos tempos, 

P3.I MEIRA EPOCHA^ 

S. L 

MOntefquiea , que Indagoa eom tanta profundidade 
a origem da JxrisprudeKtia Feudal , faz^nos co- 
nheter bem , qtie a ootTa de toda efta Epocha foi na 
conformidade de hHra Syftetna , que a mefma origem , 
coftumes^ e quaJl iguaei çircumftaiiciae tinha feím geral- 
nente adoptar em toda a Europa. ^ 

fifte Sjâetna deu erigem ao Direito âa titãS marta i 
éa íêrvidaâ peíTofil : as ÊHnilias era6 fe^aradas , cení^ 
quentemente tiiihaÕ Chefes v os p^os aíSm tiiiha& Chefe» 
«m hum 4t&a ^ eftes outros e outros a^é o Soberano. 
Ckjoa Rcfie tempo iê TÍvia da cultura , km índuAria 
item ootnmcTcio , a. cuintra- be neceíTariameRte fogerta 
is acqsill^es dos grandes pn>]»ietBrÍ6s ; afim as^I^o» 
^ra .ikboftircm. úobaâ . de huiJàctu a Jmí liberdaite- á. 



IzcJbyCoOglC 



jgo -M B- % o R I A S r 

cultuia deflat terras , pois faltando os outros meios dt 
fubfiíbncia , naõ podia liaver liberdade peíToal, que fup-. 
p6e no arbítrio de cada hum < o meio de fubíiAir. Os 
grandes proprietários em compenfagaó , naâ podendo 
- cunfumír as fuás rendas. noa objeélos da induílria , que^ 
oíFerece o Commercio , as cmpregavaõ era fuftentar na 
íua comitiva grande numero de valíaUos , elcudeiros , e 
acoftado; i e de ter no feu férrico grande numero de 
peões. 

. . Naturalmente havia chegar hum timpo , em que 
augineatando-fe as precisões , le havia vender pelos Pro- 
prietários a liberdade aos povos; mas fc lhes havia de ven- 
der com referva de algumas preftações.asnuaes ; eliavlaâ 
de 6car muitos veftigios defta lérvidaô, fem que a Jurifpru-: 
dencia .eftraahalíe por injufto o que era menos que a 
fervidafi mefma. 

A precifaâ appareceu em rafaÕ das Cruzadas ; a 
liberdade fe deu nos Foraes , e nefte tempo he ipie prin- 
cipiou a noíTa Monarchía : por iHo nós achamos os 
Foraes nfl. principio dados por fiarcículãtiés , pois eraõ 
do Direito Dominial ; fe hoje faâ do Poder Legislativo, 
he porque hoje faô tributos , o que entatí eraó foros i 
fe então tinhaó Leis penaes , he porque o Chefe de' 
huma familia era o Juiz natural delia. 

£is-aquj porque n<&s achamos tantos reftos da fer*. 
Ttda6 peífoal nefta noíTa .primeira Jurifpmdenda.. Nos 
Reguengos houve obrigação de povoar e cultivar, como 
moltra a Ord. Liv. 2. tit. 17. No Foral de Santarém fe 
caticede a liberdade como Kuma. graça. No Foral de 
Leiria fe im^Õe a obrigação de morar hum ânuo. No 
de CaMIo Mendo, fe òbrigaã a slfiftir no alto do 
^oi)te , &c. .-,:,, 

St^ nos Foraes fe naã eílranhou , também fe naÓ eftra- 
nhou nos-.contraílos ;. o proprietário , que eraprazara 
^. luas terras a Jium Lavradorj,. eHipidara ferwidòes 
peíToaes , põ.is a Jiunfprudencia Feudal os reputava ca- 
g^zes da coodiçaõ fervíl :. nd. Foral dado aos Mouros 

de 



Dqilizc-tdbyCoOglc 



àe Lisboa por D. Aifonfo Henriques íe diz , qUe lhe 
cultivariaã as fuás oliveiras e vinhas , e venderiaó os 
íèus figos e moios de paõ. Nos prafos do Mofteiro 
de Santa Cruz k diz „ que daráõ tantos dias de ferviço , 
„ e trataráã dos taes ojivaes , e levem a azeitona que 
„ tiverem a tal lagar. „ 

Efte eftabelecimento dos Moinhos Bannaes era obri- 
gar os povos á fervidaô penbal de hirem levar os iéus 
frutos a taes engenhos. Até o tempo de Bartholo nem 
fe helitou que podia fazer-lè ; e Guido Papa , que efcre- 
veo por 12S0 y ainda que he o primeiro que declama 
contra tilo , dizendo , que he coufa ulurarla , na6 deixou 
de o praticar para li , fundando-fe em coÁume antigo. 
Difto procedeu também o ferviço peíToal , que 
ainda confervaò os Delembargadores dos feus príviie- 
eios , pois compilarão as Leis. D. AiFonfo IV. he que 
fez a célebre Lei contra os forçadores da liberdade „ que 
„ todo o homem livre podeffe viver com quem lhe pa- 
„ receíTe „ ; mas no art. 18. da Concórdia de D. Pe- 
dro \. ainda fe acha concedido aos Ecclefiafticos ; e D. 
Joa6 I. he que o tirou de todo , como refere o art. 7. 
da lua Concordata. 

Efta Jurifprudencia admittida a refpeito das peíToas , 
concordava com a Jurifprudencia a refpeito doB bens: 
aquelíe célebre Direito do Retraído com a diftincçaô dos 
bens herdados e adquiridos , que fez a Jurifprudencia 
Feudal , foi entre nós chamado Lei de avoenga , reduzida 
a efcrito por Affbnfo II., que ninguém os vendefle feitt 
convidar os irmãos , ou parentes próximos > e ezcintfta 
na Ord. de AíFonfo V. 

Pois a falta de liberdade nas peíFoas , e a feparaçafi 
das famílias , havia de fazer hum femeihante ufo contra o 
arbítrio fobre os bens; e affim como na6 havia liberdade 
de difpor , também naõ havia certeza de adquirir \ e naã 
havia preícripçfies , como diz a Lei de D. AíFonfo IL 
„ que IrmaÔ contra IrinaÔ naõ poffa prefcrever. „ 

Algemas vezes as. terras fe da\raõ livremente > a quQ 
Tm» y» Ccc. cha- 



Cg.lzccbyCoOglC 



^fi Meuokias 

diami& prejíamos -f o que os Concelhoi principalmente 
feziaÔ , repartindo entre os viiinhos as terras incultas > 
para o que davaó cartas de viCnhaaça aos validos^ 
para receberem porções delias , q que prohilwo D. Pe- 
dro I. ; e o mefino os Mofteiros ; mas commuinentç 
fe davaá á cultura por emprafamentos , debaixo de bum 
certo cenfo : afiim fe deraô os Reguengos , os bens dos 
Mofteiros , e 08 dos particulares ; como moflra o docu- 
mento da Fundaçad do Convento de Villa do Conde. 
Efte co&ume , que era da Lei Gothica , e deixava 
fiaíTar livremente o domínio > tinha analogia com o i^ue 
difle a refpeito do6 Foraes , e era iium meio fidipies e 
natural de dividir as terras : elle tinha analogia estrç 
£ f e com o ufo das jugaáai. 

As jugadas fe pagavaó pelas terras cultivadas , mai 
a terra n36 ficava tributária , o que na6 feria ctHiforme 
ao codume Godo j a peíToa , iiaõ fendo cavalleito , he 
que vinha a fer tributária ; o que fe conformava mais 
com a Jurisprndencia Feudal. È até D> Joaã 1. , <^ue 
lhe dfu huma forma de contribuição pi^Iica , Qa6 fe Ibe 
podiatí chamar terras tríburárias , ou jugadeiras. 

Nas incultas , como nas maninhas , ficárad os ren- 
dimentos pelos paítos e rendas : nos povos houve a 
prohibiçaõ Feudal de fe exciuiiem os viânbos de humas 
terras ás outras. No Foral de Terena que fe conforirott 
com o de Évora fe diz : Qt(i invetierit homines de 
aViis civitatibus in fuis ierminis takando aut revendt 
madeiras , prendant eu totttm. 

De humas terras 4s outras prohjbiaâ z paíTagem 
dos mantimentos pela mefma rafaÕ de feparaçaô Feudal: 
dós que fe vendiaÕ tiravaô os fenhores a terçj parte 
para li ; o que prohibio D. AfTonfo 11. ; mas ainda D. 
Diniz no i." art. da fua Concórdia prohíbe que lè tirem 
tos Ecclefiafticos j^ e D. Joatí L prohibe, que fe tirem 
SOS Lavradores , e aos Mofteiros ^ e manda,, que as 
comprem- por vontade dos feas donos , ou recorra^ 
ás Ji^U^as que lhas fagaõ vendei:^ \ 



zedbyCoOglC 



BI LlTTERÁTtUi PoRTtfGVII». jSJ- 
«. U. 

Bfta meíma oppreíTaã fe encontrava oo propor as 
acç6es ; principalmente ias de reivindicação ; era necef- 
fario Csrca ou ProvifaÕ de EiRei , para fe pedirem os 
bens alienados por Lei de avoenga fem confentimeiito 
de mulher , e femelhantes. 

O procelío tinha muiras vezes hunia fórma Militar 
tm rafad do ufo do Combate Judiciário ; pois os povos 
eraô Soldados e Cidadãos ao me&K} tempo , e o 
ièrviço Militar e JuriídicçaÔ Civil eraã confas unidas , 
como fe conlideraã em num dos Capitulares de 819. 
à origem deftes Juízos era a defeza publica, para emba- 
raçar a vtnganiça particular ; por iflb era natural ferem 
unidos eftes poderes. 

No pnrfteiro Foral de Santarém fe diz , que quando 
Ba6 poder averiguar-lè a verdade de hum bomicidío , 
f& o accufado quizer defender-fe pelas armas , o vencido 
nad feja panido de morte , fem fer remettido ao Rei : 
fio Foral de Leiria ha outro veftigio do Combate Ju- 
diciário : ^cAo que depois íó fe encontrafi como hum 
nfo , que fe confervou entre a Nobreza como privilegio, 
em quanto fe conlerváraó as Leis da Cavallaria. 

Por iflto em todas as terras fe eftabelecêraõ Juizes , 
e também Alcaides Mores que eraô OSiciaes Militares» 
como explica bem o Foral de Leiria ; eftes , que fe clia- 
mavaô Pretvres , tinhaõ o Poder Militar , c tinliafi tam- 
bém a Jut^ifdicçaó Civil , pois julgavao com os Juizes 
e com os Homens Bons em Conceilio. 

CoHio codofi decidiaò em CoiKelho , todos ouviaâ 
CS teftemunhas , e eraô perguntadas <ie vi^a voz , e ao 
mefiBú tempo fem fegredo. Elte uSo Feudal he bem 
expreflo no proceíío da contenda- eoitre o Moíteiro de 
S. Cruz e Qs Povos de Montemor o Velho fobre- os 
Direitos do Caftello da Olaia , que traz a Monarchia 
Luiltana. 

Ccc ii D-, 



Dg,l,zcJbyC(>OgIC 



■ 5?4 ■ M E M 'o -R r A /» 7 • ' " 

D. Diniz he que principiou a feparar ifto : no pri* 
meiro Foral de Viila Real fe diz „ que o Pretor faja 
;,,'juftiça com os Juízes aos moradores da terra ,^ : no 
leguncfo , que dea D. DJoiz, fe díz , que a jalti^a fique 
aos juizes , e o Alcaide Más fó teolia a guarda d» 
Caftello. Mas nnò fe acabou de todo do feu tempo, 

Í Iorque em Lisboa fe cooferrou na tranfacçaõ , queelie 
éz com a Cainara , o julgar o Pretor como antes fazia. 

Ofi Tenentes » que governaMÔ as Províncias » erafi 
Ofliciaes Militares. » e que tinliaâ também o poder de 
julgar como Chefes. : eítes cargos era& temporários , cocw 
moftra a mudança, de governos com que oas doa^í» 
aiitigas ellcs alTinad em direrfas' Teneneias r mas julp- 
vaõ da meljua forma com hum Concelho. O Foral de 
Coimbra moftra bem. efta femeliianç» do Coitcclho dv 
Conde , e do Concelho das Terras ;, dizendo qne i to 
publicação fórao prefentes omnis Se:hola- Comitis , ^ 
emne CJoncilium Calimbria, Elias juIgaTafi os plfífo* 
das pefíoas mais poderofas, como mollraâ 06 documeoiM 
que traz a Monarchia Luíiiana: Et venerunt adúnc'- 
Hum in civitate S. Mari^ attte iilmn Imfersttre». 
Erugie Monis , et aiios homines hnos , qui iòtfuer»nt, 
et conveuerunt , et judUaveruat UiúS que partipnt pf 
médium illa bereãitate^ 

Na Corte era a. mefma f<Wma de julgar. Os OlK- 
eiaes da Corte , como era6 6 Mordome Mór , e ^^O"'' 
da Corte , e huns Juizes com o Alcaide » e Juii o* 
Moncemoi- he -que no tempo de D-, Affbnfo Hcnriquj' 
coniiecêraô do pleito fobre oe Direitos, do Gafldlo'^ 
Olaia. No tempo de Affbrvfo II. fe achatí dotis Jmj^ 
e o Cance/íaríO' : n& tempo' de Affbnfo HL eff« J^." 
chamados Sobre-Juizes : no tempo de D. Diniz faS '^" 
os Sobre-Juiz«s : mas effe fi^ma de julgar era tsnifaen' 
em Concelho , awiio' fe ficou conservando noS' Triw* 
Baes' ; o que- nas terras fó- fe conlèrvou nas inju^i*' 
Tcrbaes , ficando o- mais do- espediente. ' do' Juii P'*"- 
aava Legislação fobre os Juizes.. 



lizcJbyCoOglc 



DE LtTTÍ» ATUB A PonVtrGUEiA". jlfy 
' Montefquieu moftra o ufo Feudal de fe perguntar 
o negar na prefença do Juiz , a que fe feguia o Com- 
bate Judiciário , e a cujo ufo atiribue a origem do ponto 
de Jionra : no noflb antigo -proceflb fe Êizia o melhio.> 
a que fe ciiainou conteftat a lide , e depois he que.fe 
úiftruhia o Juízo fazendo o Aut£H' o feu Itbello j qup 
fe contrariava , replicava &c. 

Na formalidade das Appellaçíes , que ordenou D. 
AíFonfo III. fe vê muita analogia com o que Montef- 
quieu diz dos Eftabelecimenteí de S. Luiz : vê-fe o 
progreSb do ufo Feudal , até- em hírem os Juizes res- 
ponder peffoalmentc ás AppelíaçÔes das Sentenças que 
tinhaõ proferido ; e outros muitos ufos até ao novo 
proceífo da Ord. de AíFonfo V. 

As Leis penaes , qire fe impanhad nosJutzoS}. eralS 
nefte tempo todas Feudaes : o, Senhor pela Jurifpruden- 
cia Feudal recebift liuma contribuição do litigante , que 
o indemnizava da defpeza de apromptar o Jvizo d»s 
pares ; a(Gm entre nós havia a pena da calumnia que 
le pagava para EIRei , ou para o Senhor v alguma vez 
-fe pagava fauma parte delia: No Foral de Santarém 
•dado por Affonfo VI. de LeaÔ fe diz : Si contigerit 
inter "vefiros homines de veftras Filias , tmnis calumnia 
fit iiefira. 

A pena do homicídio era pecuniária : no Foral de 
teiria fe póe de pena 5'cx>. foldo? : o que arrancaffe 
arma na Villa pagaria 6o. foldos. Efte ufo he o que 
ainda cosferva a noíTa Qrd. do arrancamento de arm^ 
na Côcte ; mas- as outras pesas mudáiaõ com o Syftejna» 

5- IIL 

< Eis-aqui como as noflas primeiras Leis, e Syffenw 
de Governo he Feudal : e como eíte SyRenia dura até 

'D. JoaÔ I. , devemos dizer fem dúvida, que por toda 
cfta Epochajosiã entrou na DoUa Legislarão o Direito 
Komaoa. 

Tttdò 



zedbyCoOglC 



^95 M B tt A 1t I A t 

Tudo ifto he contrario aos princípios do Direito 
Romano : feria ínfoffrivel que hum particular podefTe 
fazer Leis nos Foraes , Ce fe confaecefle hum Direito 
no qual íó do Poder Supremo ellas podiad emanar 
L. 1. E de Cenjl. E D. ÁfFonfo III. reprovando ai 
Leis do F. Soeiro Gomes na<Í diria fomente fant coit- 
tra tllum Hbrum legum j qui dicit qu$d mn recipiamas 
wvãm Ugem ih Regna naftr» , que eu entendo referir-fe 
ás Cortes de Lamego. 

No Direito R-omano íim fe confceciait ferros , e 
■Colonos adfcripticios : mas o ufo Feudal de fcr Cida- 
dão e fervo , de poder eftipular fobre a liberdade en 
coufa impolTivel ; pois as eftipulaçCes fobre iflb eraà 
inúteis §. 2. Inft. de Inut. ftip. ; L. 103. de Verè. eíL 
Nem fe podÍa6 condderar eftas eftipuUçtfes Feudaes 
como toca^aõ de obras , pois efta he temporária , e na6 
perpetua L. 14. fF. Locati : nem entravaò na analogia 
das obras dos libertos , que fe reftríngíaõ pela Legi^açatf 
Romana até naó terem luear fenaó podendo-fe prettat 
X. 2. , L. 19. tf. de Oper. Itbert, 

Alfini o ferviço peffoal de nenhuma forma fe "po- 
dia impor a homens livres L. 3. ff. ãe Oper, Jirv. : t 
ss Servidões Bannaes -que tra6 nnmenfas eftavaS contra 
os princípios da Jurifprudencia Romana » que íó conhecia 
fervid6es vt ^ais ali^uid patiatar , aut non facial 
L. 15. fF. de Servir, , e oao para fervidôes peflbaes , ou 
jurisdiccionaes. 

O célebre direito da linhagem , e do retradlo , 
era reprovado na L. 14. Cod. de Cmtr, empt, , e cada 
hum podia difpor dos bens livremente : era huma con- 
fequencia daquelle direito d« linhagem o na6 haver 
prefcripçôes ; e effeílivamente tanto tratava a Jurifpru* 
'dencia Romana de tixar o dominio dos bens , ati pelo 
meio da ufucapiafi , como a jurisprudência Feudal era 
inceita íbbre o direito da propriedade \ -de fdrmii que 
tinha^ o ufo de conjurar o C«o nos coocraâos , para 
que natí fe atreveíFem a rompêlòs. 

He 



zedbyGoOglC 



DELlTTE»ATtrBA Po-sirrGiJiiA. 5?? 

He Qonhecid^ 3 differença quç «tn o Direitq 
Émph/ceuticQ Romano do Direito Cenfusria Gochico j 
quâ lomente conhecia ou a ceíTaÕ das terras debaixo àç 
bum certo Cenfo ; ov os arrendamentos delias : e diftq 
rdultava huma Juriíprudencta , que Eufta parte.era inuit9 
mais fimples , fem commíflos , fem devoluções , fem 
diftincçaâ de dominios , como depois houve pelos prin- 
cípios de Direito Romano , dejde D. JoaÓ L 

Os principies do Direito Romano aflim como davaô 
tmm domínio pleno ft^re os bens , igualmente o davaõ 
9 refpeito dos fruílos ; fem hum titulo , ou poífe , ou 
^ir^ito de percepção , ninguém fazia os fruelas íeus ; 
e huns femelhantes direitos eraõ ÍncompatÍveÍ5 com aquel* 
Us que íe arrogavaó os Foderofos , de tirarem para íí 
os fruâos das terras daquelles , a quem diziao , quç 
queriad proteger. E ppr i0b bc qlie tOo ie acabou quan- 
do «lies fe conhecerão. 

Quanto í liberdade de propor as acções em Juizo; 
á forma dçs juízos ; á diferença do exercício Militar , 
p Judicial ; ás penas ; á formalidade das appellações^ 
faã as di^renças ta6 conhecidas , que he efcufado demo^ 
rar a refpeito delias. Pôde ter'fe jullamente por huma 
propoUçad verdadeira , que a Jurilprudencia Fi;udal hç 
coda de principios contrários á Jurifprqdençia Romana. 
Nefta todos os princípios fobre as pelfoas , bens , p 
acções fe fundaÕ na fegurança d.05 direitos da Cidade, 
c de propriedade ; o direito particular tem por iflb tod» 
a fua força , pois ella pafíbu da authoridade particular 
para a authoridade pública unindo-fe as M»gíftraiuraa, 
Naquella o direito particular naÕ tem nenhuma força , 
pois a Legislação teve de o hir fírmando pouco a pouco 
.da irrupção , e dos çof^umes dos Bárbaros. Eoi quanto 
pois nós achamos nos noíTos coftumes e Legislação os 
llfos Feudaes , como fuccede até D. Joatí 1. ; naó po- 
-4emos fuppôr na nplla Legislação iiera nos noíTes coftii- 
mes a influencia do Direito Romano. 

Nas Hefpanhas íiip tinlja havido a Legislação R»- 



Cg.lzccbyCoOglC 



gSS "M E M o n j í § 

mana , mas no Código Wifigodo ella ficoa extinga í 
alguns cf^ílumes Romanos , que efte adoptou diverfos 
tios Bárbaros , como fôraS os ceftamentos , na6 fe po- 
dem já chamar coftumes Romanos ; mas fim coftumes 
Godos , que depois paíTáraÓ aos coftutnes Feadaes , até 
que o Direito Romano os fez elquecer no feu todo. 

«. IV. 

Com tudo nefta primeira Epocha ha modíficaçlSes , 
que fôrao , por aífím dizer , preparando o terreno , fobre 
que depois íe pôde fundar o edificio da mudança do 
Syftema, que fez D. JoaÕ I. . 

Ao Decreto de Gradam fe deve a primeira mudan- 
ça : Graciano introduzio na fua obra alguma coufa do 
Direito Romano ; como he „ fobre as Appellaçães i pro* 
curadoria ; confífco dos bens i accufações ; prazos ; 
tutellas ; prefcripçaó > e penas „ : e ainda que faá 
muito poucos eftes artigos , naô deixárafi de fer confí- 
deraveis. Ora o Decreto de Graciano teve logo desde o 
1)rincipio da nofla Monarchia muita authoridade , porque 
as continuas quedtíes com os Eccieliafticos o fizeraã 
eftudar ; e quando as luzes faâ poucas , os homens que 
fempre naturalmente procuraÒ o mais jufto , fazem valer 
facilmente o que apparece bom no feu tempo. Por jffo 
as indancias do Clero fãrâó tantas , e as concordias taã 
fáceis e frequentes. 

Mas efia Jurifprudencia , que vinha no Decreto de 
Graciano , era também Feudal ; íirva de exemplo o 
Can. 3. Caa/1 2, q. 6., qae áiz CoratH Patrício JecuJariã 
judicaatur negotia ia commune : a Cauf. i. q. 5. , aonde 
trata do juramento purgatório em lugar da prova do 
fogo , e da agoa : e outros muitos exemplos de Difciplina 
Eccleíiadíca , cuja rafaâ fe naô conheceria , fenaõ fe 
bufcafle- nas idéas entaô geralmente recebidas da Jurif- 
prudencia Feudal. 

AiGm a Legisla jati de D. Áâònfo III. ta6 faz 



zedbyGoOglC 



»K LlTTÉBATVIIA Poítí UQUEZ a; '^ÍJ» 
. Kitidatiça muito fenlivel ; com ludo na6 dtve deiíar dê 

<h[eryàT-ÍCt £ftc Monarcha legislou íobre três coulaa 
notareis ; Jòbre as Appellaçôes , em que apparecc algu- 
ma coufa do Direito Roiíiano , que Graciano tiolia 
^ito Caooníco , combinado com os uíos Feudaes : a 
refpeito das partilhas entre os herdeiros , na'<]ual natf 
ha veftigios de Direito Romaoo , pois nas coilaçfies fe 
Tê o ulo Feudal íem Pecúlios , que depois introduzia 
D. AiFonfo V. ; e fobre Cultura , e Commercio , clta- 
belecendo F«iras e Mercados , e fazendo que as Cama- 
rás fobre ilTo fizelíem pofturas ^ o que naó procedeit 
nada de Direito Romano , mas Hm do ufo geral da 
Europa, que neíTe tempo re(Ubeleceu o Commercio por 
xneio de Feiras .com privilégios , que íeguraíTeoi os 
Negocia ntes das oppreífêes e roubos , que lhes fazia a 
defordem Feudal. E eâe ufo foi o que influio nos 
coftumes , e que velo a mudalos , e a deftruir depoii 
com o tempo o Syftema , que podia iubliftir com a 
Cultura adXcripticia , e naõ com a franqueza do Com* 
SKrcio. 

Além delia Legislarão a nova forma da Adminif- 
traçatí , que fe vé no feu juramento , deu hum grande 
balanp ao S/ftema, ConfiAio „ que por todo o Reinv 
j, fc pozeíTem Juizes juftos , eleitos por modo lícito ; 
„ e naõ por dinheiro , por opprellaõ dos povos , ou por 
), valia de algum Poderofo ; e que todos os annos fc 
„ tiraria Deva^a do feu procedimento. „ 

Neftas três diípoílções ceve a fua bafe o Syftenia 
Municipal i os Juizes paíTáraÕ a fer annuos , é a lerem 
melhores , e os povos a viver mais defafcgada mente. 
A Coroa fempre depois favoreceu os povos , e exrendeti; 
o direito da Correijaâ contra os Poderofos , que abufa- 
vaó ; até que inconteftavcl mente fe conhecerão os Di- 
reitos Reaes. E efle bem deve-fe ás conteílaçóes com 
o Qero. 

O progreflb deftes princípios fez nafcer a outra 
Hiudança no Reinado de £IR!ei D. Diniz. Quanto ao ' 
2tfí». r. Ddii Syí- 



Cg.lzccbyCoOglC 



:^ M e » O It I A » 

Syftema f a X^i fobre as Honras , e Cout-êr poz tenno 
ao pragreíTo do- Feudal , e aflliii deu occaGao a que o 
Municipal fe euendeíle , e as Leis fobre as adquifiçoes 
dos Aiofteiros pofeiati termo a <fte ramo y que oaõ 
podia diraÍDuir-le pela mudança de coQumes ^ que era 
o. mcitf natural , por que havia, de acabar-fe o poder dos 
Senhorios Seculares. ConíequeRtemente naõ ficou extinélo 
neftas Leis o Senliorío Feudal » mas furpenlb com bar- 
«eiras : porém o que fez a mudança foi o íeparar nas 
terras o Poder Militar da Juritdk^aâ Civil » urando oi 
Juizot aos Alcaides Mióres- 

£íle poder Feudal era muito grande ; es Senhor» 
pouco fe diãerençaTaÔ de Serranos. Qliando o6s vemoi 
que a bum Omcial. de Juítiça , que entrava a fazer 
liuma citação , ou huma [;enliora no feu terriíorio » lhe 
cortavaâ ús pés y. e. o en&iccavaã \ naâ acabamos de 
pafmar da barbaridade de tal Syftema. No Municipal 
também houve o poder da Alta jaftifÇa ;. pois na hei de 
D. Affonfo V.- fe diz £er ufo antigo ^que era cafo de 
„ pena de morte , cortamento de membro , ou confifco^ 
), fe appelle dos Vereadores para ElRei. „. 

JE^ias a Jurifprudencia continuou a fer Feudal : na* 
preferencias eftabelece a prioridade das dividas ,. fendo o 
credor autènte > nas Ãppeilaçães impoz a gabe lia -^ ç3, 
peita de 500. foldos para a revifta- na Cêrte ^ dá 1 
appeflaçaO dos árbitros -, probibe os contratos de boa 
fé , em rafa& da. infâmia dos que ficavaÕ condemnados; 
d femelhaTitee. Âdmitte porém a- prefcripgaó das dividas 
•m IO., annos. 

D, Affonfo IV. adiaitiio também os Curadores até 
aos 25.^ annos^ , quando ante» a minoridade acabava aos 
74.. j e iíto por Elireito Romano: e D. Pedro I. adrait- 
tio a fucceflàô pelo EdiííVo XJnáe vir et uxor. Mas três 
ou quatro exemplos em huma LegislapÒ inteira , na& 
I)e nada : o todo da Legislaçatí ainda fói Feudal ; po!» 
©.. Afibnfo IV. ainda permitte o penhorar por authorif 
dade procria ,, podeado-&- provar j, que o .geiífaor lhe per> 
. . - ttft: 

DigitizedbyGoOglC 



bE LitvebatvíaTímittjiíueka^ ^ 
tftlcla ; t) pedir-fe que poiíhaíS os bens {ón de cafa , part 
fe penhorarem ; e femelhantes. 

Nada moftra míihor como grallàva por toda eíla 
£)poctia o Syfteina Feudal , que a Lei de D. Fernando 
iias malfeitorias que os Fidalgos e Peffòãs P-ederofat 
fazem feias terras aonde andaõ, Efte Monarclia nefta 
Lei cobibio muito; e na Lei íobre o ufo da Jurisdicçaâ 
dos Donatários » e direito de Correição também edabe^ 
ieceu excellentes regras : mas iAo foi cortar alguns 
ramos ; e naâ foi defte [^incipe o tocar o Syftema no 
tronco. Pôde fer que fem precederem eftes impulfosi 
cHe aa6 podeUe fer arrancado: mas para n<ís o contar 
a Epocha he do tempo que elle lê arrancou. 

Por tudo ifto tenho por certo , que o Direito , 
Romano naô entrou na noíta Legislação aré D. Fernan- 
do. Na6 duvido que houvefle Efcolas , depois que 
D. Diniz fundou as Efcolas Geraes ; que os Doutorei 
OccupaíTem grandes empregos ; que entre os Miniftro» 
Régios fe achem huns chamados Doutores ou Licenciados 
em Leis e em Degredos : mas ifto naÔ he Direito 
Romano, PaCTemos pois a .obfervar o tempo da"ttiudanja 
de SySema feito por D. JoaÓ L 

SEGUNDA BPOCHA* 

§. I. 

O .Reinado de D. JoaÕ L he a grande Epocha da 
mudança da nofla Legislação. A crife que foflfrea 
o Eftado peias guerras iníelices de D. Fernando , os 
trabalhos para a elevação de D. Joafi L , e as guerra» 
que fe lhe feguíraó , moftráraô á occafiaô de mudar 
hum Syftema , que já naÔ podia fervir em rafad doa 
coftumes : hum Syftema que fazia toda a naçaÔ guer- 
reira , allim como dava todas as virtudes militares na 
guerra , iiifundia também o feu caraifler violento na 
Ddd ii tem- 



ic.byCooglc 



^5»ft M ■ iro » I A í ' r 

tempo da paz. As célebres Leis da Cavallarla , qu* 
fuftentavaó os coftumes , cinhaõ afrouxado : tnanteve-os 
algum tempo a fevcridade de D. Pedro I. , que naÔ 
íeiía Jujiiceiro , fe os coftumes o naõ pedilTem ; mas 
a defordem rompeu por toda a parte fuccedendo D. Fer- 
nando , que até deixou o ufo em que os Monarchas 
eftavaâ de audar pelo Reino em Correição para em- 
mendala. 

Entre as Leis de D. Joa6 L fe encpntraõ as prohi- 
túções que fez aos. Poderofos^ de tomarem poíTe dos Be- 
niíicios , e das rendas dos Mofteiros , quando morna 
ç Prelada \ que fe lhes defíem Bairros lèparados nas 
terras por onde pallavaõ y mas que poufaíTem nas eita- 
lagensj e que tiralTem mantimentos contra a vontade de 
jfeos donos : íllo inoltra bem q.uaeB era6 os coftumes que 
xequeriaã femeliiantes LeÍ4. 

£is-aqui o que fez. neceífario mandar Corregedores 
|iara as Pcovincias fazer Correi^ães » e ainda para sigu- 
9)33 terias maodar Juizes com a Jurisdicçaõ de Correge- 
dores. Mas iHo dependia, de que fe leparaíte o Poder 
Militar da JuiisdicçaS Civil ;, pois a Jurisdicçaõ do 
Corregedor y ç do Governador faiiatí bum cboque , por 
nãô fer gradual. 

Como ella feparaçaõ pendia do modo áo íerviço 
da guerr% » qiie te fezia com Vaflãllps , a quem os 
VaíTalIos do Rei davaô comia ; fez neceíTana a outra 
tnudstiga de ticat aos Fidalgos o ter ValTallos , de lhes 
deixar as terras doadas (que até allí imitavaõ os Feudos) 
livres' de fecWço. ; e de dar contiai pela Coroa a todas 
os VaíTalIos que íervíaÓ na guerra. 

Como a Coroa tomou o ónus de pagar o ferviçp 
^a guerra , precifava fundos para eíTas defpcCas do Filan- 
do : elles conâílírajÕ eni- dinheiro, e bens da Coroa ; mas 
(> dinheiro ^ e doações da Coroa eraã dados a cada hum-, 
saã fegundi) a £ua nobreza ^ ou ferviço que fazia , ma^ 
fegundo a neccHidadc que ellc tinha para fe fuftentar: 
é^ielk que tinha meãos conda > íe lhe daviíõ terras ; 

aos" 



DgilizcJbyCoOglc 



•bt LlTTEUATirilA POITTTTGUEÍA; -j^J 
j«s que tinhaâ maior doaçad de terras ,. fe lhe dava 
.menos contia ou foldo i mas a todos fegundo os feia 
bens patrimoniaes. 

Eftes novos fundos, fizeraô neceíTario o tributo das 
Sizas , que desde entaÕ ficou perpetuamente na Corâa 
para as defpefas do Eftado ; fez neceíTaria a Lei Mental 
que fízelle reverter muitas vezes os bens doados , pois 
era precifo remunerar muitas vezes ; fez neçeíTarío ó 
augmento das jugadas ; a impofiçaô do fal ; as heranças 
dos Mouros > e alUgoar em Sm quaes era6 as Regalias. 

E(U mudança tocou também a direito particular por 
muitos modos : como o ferviço da guerra íicou fendo 
iminediato i Coroa , e pago pela Coroa ^ enircu a fer 
defneceílaria a Lei da avoenga que confervava os .bens 
herdados nas familias ; e entrou a íicsr em feu lugar 
o ufo dos Morgados: entrou a liberdade da dirpoliçaÒ; 
e ido precifou da fegurança maior dos centrados j iAo 
da maior facilidade de propor as acções : &c. 

For outro lado y a necelTidade da impofiça6 das 
Sizas ,. que diminuia na»-compras e vendas o Commercib 
.intrinleco , pedio que efte le piomovelTe : deu-fe-lhe 
favor para os bens de raiz , extinguindo-fe a Lei da 
avoenga ^ e para os géneros » tirando os embaraços , que 
cada terra pela antiga feparaça6 Feudal fe fazia mu- 
tuamente , para naÔ correrem os mantimentos de huir^ 
para outra. Efta liberdade deu hum impulfo ao Com- 
mercio intrinfeco ; e deu omro o eftabclecer-fe , qi^ff 
as mercadorias de fÕra do Reino » paga huma Dizima 
na primeira Alfandega > naâ pagaífem mais correndo as 
.outras terras^ 

A reverfaõ dos bens da Coroa , que no todo- 
diminuia o direito da propriedade , e prejudicava a 
cultura ,. fez preeifo promover eíb por meio da liberdade 
dos Cultivadores y que fizelTe hum equivalente j. tiráraÕ- 
-fe confequen temente as fervidôes peflbacs dos fiiRos -e 
filhas dos Lavradores. Eítabeleceu-fe a Lei das Sefma- 
siãs. , naã oiièndendo a. liberdade peíToal ,, como fizer» 



zedbyGoOglC 



394 MsMOUTXf 

"D. Fernando ; inai ferindo íó o domínio , íâlva a IIbef> 
dade ; fez fuppór neceflariamente a liberdade de direitos 
aoE trigos de tora ; e que era precífa a prohibiçafi de 
exportar os trigos do paiz : Leis que fôraõ entaô^geraes 
por toda a Europa. Nella mudança o Syílema Feudal 
prohibia a exportação de terra para terra ;- a mudança 
a prohibio ió de Naça6 para Naçafi ; novas luzei 
a limita6 fó de inimigos^para inimigos ; e á proporçaã 
fe acaba. 

O augmento das jugadas involvendo também a 
diminuição da cultura , mas intereíTando o augmento 
dos fundos para as doações e contias , fez que le com- 
binaiTem eftes diverfos ioterefles regulando-fe , ferem 
efcufos os EcclefíaHicos , Fidalgos , e Cavalleiros que 
tivelTem fazenda de igf). até ij). libras ; os homens de 
armas da mefma contia ; e os Befteiros tendo menos 
de ^(j). : e quanto aos Lavradores y foíTein efcufos as 
encabeçados que lavravaÕ para o Senhor privilegiado : 
mas os arrendatários por cota certa , os fubarrenda- 
tarios , e os que naò eraõ encabeçados , mas ou h\z6 
lavrar fora da nerdade , ou nella admittiaô outros La- 
vradores , deviaÔ pagar. E efte foi o Syftema das jugadas 
deffe tempo , quando o antecedente tinha lido entender 
por Cavalleiro para elle tributo , o mefmo que hoje fe 
entende ainda para a fucceíTalS dos itlegitimos. 

A alteraçaâ da moeda que fubio de i. a lo. , pan 
dar contias ou foldos de 4. até 8 j). libras ; as heranças 
dos Mouros para o Rei que entaá fe regularão ; e 
ultimamente as Regalias ou Direitos Reaes , que eniaS 
íe entráraC a conhecer , e que D. Duarie mandou col- 
ligir do Direito Romano a Ruy Fernandes , fundarão o 
novo Syftema. Efta Collecçaõ das Regalias he o ponto 
fixo , em que acaba a Jurifprudencia Feudal ; pois quando fé 
põem as balifas , he que fe fabe o que na6 pôde eiceder-I*e. 

He hum bem que fe deve ao Direito Romano i 
mas nelle naã podiaõ efhr prevenidos os golpes todoí 
dos abufos Feudaes , que lhe fóraâ poíteriores. 

Eis- 

DigitizedbyGoOgl». 



D-E t.ITT«*ATW»A VettTJGTTT^ K. 39^ 

EÍ9-aqui a. mudança da Lcgielacaâ , qce , feguind» 
es feus ramos y íe veria compreliender a Legislaçaâ 
toda : mas illo bafte a moftrar , que a nova Legisla^aá 
foi Sj^ftematica y e i<nfínitatiiente melhor que a aoiece- 
âente , que íó appreíencava os defeitos , depois que 
com as Leis da educa^aÓ tinha perdido os coftumes 
ijue a fuítenuva& 

Eíb he que deve ter-fe pela.Epocha fiia da entrada 
do Direito Romano y pois naÔ deve conrar-fe por tal 
a entrada dos livros , em que elle eftava efcrito , nem 
^os QolTadores , que o interpretarão : iíTo fòra6 at 
jèmentes , mas tinhaô de germinar, eftender-fe, goftac* 
£s j até chegarem a &zer o fuftemo commuoi. 

Os nouos Bifpos , que fempre andavaõ- no caminha 
de Roma , traziaã de Fr-ança ,. e de Itália as Compil- 
façâes principalmente de Graeiano ( que como era do> 
Concilios de Hefpanha , teve loeo entre nós muita 
authoridade) , a» obras de Durant cnamado o Speculator >. 
de Âlberico de Rofate ,. de Guido Papa , que todos 
efcrevêrafi por nSo. até 1300., e de outros. Ifto adqui- 
ria-fe com cufto ^ por naii haver ainda a eftampa ; e 
com tmiito mais íe adquiria a fciencia : eftimavatí-fe 
aíEm como huns thefouros ; e diffo vem oa privilegioa 
dos livros y- de que fe fícou. difpondo feparadjimente da 
Iierança , íem entrarem no cumulo dos bens , pata a 
Igreja ^ ou para collaçaã entre es filhos y fegundo os 
teftadores eraÓ- Eccleliafticos ou Seculares. Os que adqaí- 
ria6 a fciencia , adquiriaÕ tal reputação , que nas mer* 
mas Embaixadas apparecia fempre hum Doutor ,- cpic 
ailegava muitos 'textos para provar a juAiça de hutif 
negocio. Na elevaçatí do Senhor D. JoaÔ t fabe-fe- 
muito bem quanto fe 'deveu á doutrina de Joafi day 
Regrai. Dos negócios públicos palTou aos negócios par- 
ticulares ; paílou depois ao.s Juízos >, inâuio nos coftu*- 

mes,, 



Cg.lzc.byCoOglC 



'395 M 2 H o B I 1" t - 

lhes , e enti6 he que entrou na Legislação : e os antí^H 
coftumes cedéraÓ ás noras Leis , que laigame^te offerecia 
o Corpo do Direiío Romano. 

A Elcofa de Bartbolo que principiou por i35'o. , 
lioje taÕ arguida , foi entaÓ de grande utilidade ; pôde 
dizer-fe , que foi abfoluta mente necellarta , e que era 
impoíTivel deixar de a haver , e deixar de fe adoptar. 
Os coftumes > que tinhaó as Na^ães , eraã originariamente 
Bárbaros , e contrários ás Leic Romanas , o que Heinec- 
cio na fua Hiftoria moftra bem em muito pouco : eíles 
cõftumcs , que paffáraS a fer efcritos em Códigos pelos 
annos de 700. em diante , fdraó fuccedidos pela Jurif- 
pmdeacia Feudal desde 90a até iiyo. : nefte tempo, 
.apparecendo as Pande<flas Pifanas \ havendo o favor de 
Friderico L aos Jurilconfullos j e efcrevendo Graciano , 
e Pedro Lombardo , houve hum novo ramo de Doutri- 
na , que alguma coufa diveríiãcou da Júri (prudência 
Feudal , porque Graciano fez Canónico alguma par- 
te do Direito Romano , mas mutto pouco ; e com 
tudo as mudanças que houve procederão do Decreto , e 
nad das Pandeaas. 

Accurjio ^ e os GIoíTadores por 1220. , tratáraS fó 
de conciliar o que naó entendiad , ou fuppunhaô contrario 
nas Leis Romanas ; mas íem applicaçaõ nenhuma aos 
negócios. Suppunha-fe por efta Eicola de Irnerio ■, e de 
Accuríio eftar entfndido o novo Corpo da Legislação 
eftrangeira \ mas os coftumes , e a Juníprudencia era 
Feudal : por tanto eftas Efcolas de nada ferviao para o 
Foro ; porque a applicaçafi , que ainda hoje faz a dif- 
iculdade da Arte , e a combinação das duas Legislações , 
que fazia entaô o alto ponto da Doutrina , faltavaã 
netlas primeiras Efcolas. 

Nos negócios que occorriaô , confuItava6-íe os gran» 
des Meftres \ elles procuravaÔ na fua fciencia princípios, 
efpecies , paridades; e com.ifto,e fubtilizando fobre a 
applicaçaõ refpondiaõ fobre a juftiça delles. Neceiíar ia men- 
te Jiaviud de propor quefiães, decidir inanidade de .cafos , 
^ intio- 



zedbíGoOglC 



introduzir diftincçôes metafyCças , e contra d ízercm-fè 
muitas vezes ; que tie o caraiíter da Efcola de Bartholo : 
mas neceíTariamente haria de fucceder ifto > para combinar 
duas LegtelajÒet , que era6 contráiias, por alTim dizer, 
pelos ramos , e naft pelo tronco do Syftema. 

Eftai refpoftae , chamadas Confelhos , de Bartholo, 
Decio , e os outros , he que eotrára6 a feguir-fe , e he 
o que adoptára6 as Nações ; pois o Foro precifava da 
applicaçad feita aos negócios , e da combinação que fe 
hia fazendo ; que eraG paflos neceíTarios para fahir da 
contradicça6 : elles eraíS confultados de Heipanha , e de 
toda a parte , como Meftres daquella alta Sciencia , que 
íó enfinara o que era jufto : e efta neceífídade de os 
coofultar, e de imitar as fuás decisòes he que introduzio 
a fua Efcola. 

Os Legisladores admittiad facilmente ifto , porque 
tinhati niíTo o feu intereffe : como o antigo Srftema era 
Smpoffirel que continualTe , a mudança fo podia fazer-fe 
bem , fazendo fobre todos huma grande imprefTaô as 
idéas da juftiça : quando eftas dominaô , os homens Í26 
hceis de governar , alfim como he impolEvel conter 
aquelle , que na6 dá nenhum valor ás idéas do jufto^ 
Daqui procede o grande eiplendor que fe deti ao Dí* 
reito Romano : fez-fe delle o foco da juftiça , e a hutn 
Texto , « huma GIoíTa , a huma 0pinia6 de hum Dou* 
tor, ninguém fe atrevia : e ifto fez a bafe aos Thronos» 

O maior defeito do Direito PiSblico moderno he o 

Srande valor que dá ao intereíTe do Eftado , ou á rafa6 
a Caufa Piiblica: quando fe fòzem valer mais as rasães 
da utilidade que as da juftiça , eftas primeiro cedem i 
pública , depois á particular ; e dahi ao egoífmo. Naâ 
digo que na6 fejatf raspes folídas , como por exemplo 
a do dominio emminente fobre a rafa6 da certeza da 
propriedade j mas fa6 tz$6ei no extremo. O Direito 
Fitt>lico leria imperfeitilSmo , fe natí fe lhe tirelTe feguido 
n6 depreíTa a outra Sciencia da EcoQOmia > que elamin« 
qual ftia flfle TCrdadeiro intereffe, 
Tm, F: ^^ J. 111. 



Cg.lzccbyCoOglC 



39$ M E ■ o A X A » 

$. III. 

Baila abrir o Código de D. Âffbnfo V. ; que ídi 
principiado a ordenar ao tempo de O, Joa6 L por 
Joanne Mendes , para vêr por toda a parte o Direita 
' Ro nano ; e bafta vêr a ordem .chronologica que nelle 
fe fegue , pondo-fe as Leis antigas , e depois as decla- 
rações tiradas do Direito Romano , para vér que a com- 
binação das Legislações ainda nad eftava feita , e que 
ainda naõ fazia iium corpo de doutrina feguido ', mu 
huLiia coordinaçaó de diverfas Leis. 

Por exemplo ; a refpeito das ufuras , fe poz nelte 
Código a Lei de D. Affonfo III. „ que as uliiras mi 
„ podeflem exceder a forte principal „ : e fe poz taai* 
bera a Lei de D. Affonfo IV. , que prohibio abfoiuta-- 
mente as ufuras. Segundo a primeira Lei fe declarai a 
penas convencionaes } pela fegunda fe decUraÕ os juros > 
exceptuando o cafo de dote, ufuras recompenfativas, e 
outros. 

Sobre a Lei da avoenga ; põe-fe a Lei de Afiòih 
fo II. , que eftabeleceu efte direito : revoga-fe efta Lei 
dizendo-íe, que naÕ fe tinha ufado : exceptua-íè o csfo 
de difpofiçafi inter vhor ou teftamentaria : e deixa-fe 
iubfillindo o direito do retraSlo , que he a. mefmA I^ 
da avoenga. 

Sobre os prafos ; falla-fe no coílume do Reino dí 
comprcheader a nomeação legal a todos os herdeiros i 
lembra-íè cbaíra ifto o Direito Romano combinado pitf' 
Çartholo com & dos Feudos, que pq prafos fe naô podiaQ 
repartir j manda, que ou fe pague a eftimaçatí, ou » 
vendaS , trazendo em outra parte a Lei de . que ning*"* 
ÊDÍTe obrigado a vender o feu herdamento. 

Eftes e outros exemplos moftraô que nefta Epocn» 

oatí eftava a Legislação S^rftcmatica ; mas que igualmen" 

fe aproveitava a Lei Pátria , e o Direito Romano. A 

Legislação Pátria conííUa muiío «n Poftura», cmcoftuí 

■■',»<* 

Dgilizc-JbyCoOglc 



DE LlíTE^AtURA PORTUGUEZ A*. 39^ 

faiefi efcrítos nas Câmaras , como he o dos alugueres de 
cafas que fe diz na Ord. AfFonf. Livr, 4. tir. 72. ; e 
como moftra o julgado que vem no Relatório dos Mila- 
gres de S. Vicente , febre hum depofico , çiue fe tiniu 
furtado ao depofiiario qaia de próprio nihil amiferat^ 
ipfum reddere jufta terra confuetuâinem judicatur. He 
também certo que a Lei Pátria preferia na Lei , e a 
Romana era fublldiaria , naã fó etitre nós , mas geral- 
mente , como moftra o Livr. 2. cap. i. dos Feudos. 

Mas como' ncfte tempo os õiítumes fe ignorava^ 
3a na maior -parte , nos' cafos occorrentes fe recorria 
mais ao Direito Romano : e como os coftumes , e o Di- 
reito Romano er-aã na maior parte contrários , fe recor- 
ria de neceflidade ás doutrinas da Efcola de Bartholo 
i^ue os ' combiiMva. 

Quando eu fallei aflima dos Moinhos Bannaes , dif- 
fe , que na Jurifprudencia Feudal fe entendia jufto , e 
que Guido Papa foi o primeiro que fuppoz iuo ufura- 
Tio i ifto eraõ idéas da jurirprudencia do Decreto de 
Graciano : depois difto , como os princípios de Direito 
Romano era6 em contrario , Bartholo , Baldo , e Pedro 
de Anchar entráraâ a vacillar fobre a juftiça deftas feiv 
TÍd6es bannaes, c a contradizer-fe , e recorrerão a dizer, 
que aonde houveflTe prefcripçaó immemorial , era6 legí- 
timas. Balduíno dífle , que ifto era huma barbaridade ; 
e nafceu a opiniaÔ de Heringio , e de Boerio , que fó 
tendo havido contraílo he que fe podiaô reputar juftas. 
sDejrois entre nós fe reputou Regalia , como feguio Por- 
tugal i e nos outros Faizes aonde ha reftos de Feudos 
■íecooíervou, que podeíTem fer por contraílo , nws fendo 
elle fynallagmatico , ifto he , que fe veja tanto o ínte- 
VeíTe do Senhor que o eftipula , como do povo que o 
concede ; de outro modo o contraílo fe reputa extot^ 
quido e ínjufto. 

Eis-^qui pois o caraíler da Jurifprudencia nefta 
-Epocha y diias Legislações contrárias , a Feudal ou Pá- 
tria , e a RomanA : ambas em igual gráo eíFeílivo de 
-,,.:. l ]Eçe ii autho- 



■ Dg.lizcJbyCoOglC 



«uihoridade ; a Pátria , porque »Bka o dizia a Lei ; i 
Romana, porque aOím o pedia a neccíQdade de julgar os 
cafos occorrentes : e cftas.duat Legislações cm buin 
continuo choque ; porque fendo » como miarei , os feut 
principies contrários , cm cada cafo que occorria era 
necejario bufcar diítiocçâes , e iahidas para as conciliar. 
He certo que- por iflo o que pertencia a buoia 
cfpecie de Direito , pela diftincçaã adoptada fe pafiTara 
para outra : r. gr. neâa matéria doi Moinhos Banoaes , 
até Guido pertencia i eípccie das Direitos Docniniaes 
ou Senhoria» , até Bartholo aos co«r»ftoB urursrios , 
até Heriogio ás prefcripçòes ^ depois aos ccHitraâos 
bilateraes , e entre mSs as Regalias , ou Direitos da 
Co[ôa desde ElRei D- Manoel , que reíbrosou os Fo- 
raes. E lie certo também que iíto be huma confWâÔ 
eterna ■» mas como fe havia de íahir naquelle tempo do 
«perto , reaa5 por e0es meios ? Qiein hoje era luma caio 
occorreate apprefentafíe miihiradas eâas f>piaí6es de Bar- 
tholo , de Portueal , de Guido , e de Boerio , £aria hunu 
defordem inintelítgivel : mas ifto itafi feria a confu&Ó da 
Efcola de Bartholo , p<M<ém a ooítíutaó de fe ignorar a 
Eícola de Bartholo- NaÓ poflb deixar de repetir , que 
toda a Legislação he boa nti fev tempo ^ mas he pie: 
cifo conhecei», e entrar no íeu cfpirito. 

5. IV.' 

Entrou pois o Direita Komaao em qwtfi toda a 

X.egislaça& neSa Epocha : ^ torvei as mudanças iiii> 
mediatamente annexaa ao Sy&ema ;- e (bis. qm &ã me- 
diatamente análogas, Çe pôde lembrar: 

à Uberdade da difpo(içaí& dos bens, «tinâa s Lei 
da avoeuga ; o Direito Emphyuutk» excangitasdo^e a 
diílincça& db domínio util, e diredo; £ab«ê as compras 
« Tendas ; arreodamentos de 10. anixM ; kíaC^ «normif* 
£ijia y préicripicics de h/polhccas ; curadorias ,, e menõ- 
ndade» 



zedbyCoOglC 



DE LlTTBUATTTBA POBttTaVEZA. 4&I 

~ IntentareBHfe as ac(6« Tem Carta de EtRei ; cí* 
taçties i authorias i conteftaçaô da lJd« ^ reconvencdeB v 
ferias } featenças interlocuiorias ; appeltaçSes; pcnliorar 
fó com. feniença do Juiz ; celTaÕ de berw. 

Sf^e as fianças > Senatus-ConfuUo VdleiaDO ; ex- 
cepç6ei npH Mi/merata pecunitfy iníinuaçóffs ; revogação 
de doa;6es ; compeafa^Õcs ; querelU imfficiófi \ titrança 
dofi Pais \ teftamentos com 6. teflemunhas ; pecúlios. 

Sabre as penas , a madaoça para penas affiidlivas } 
as Deraças ; Cadeias } e Cartas de íeguro : e outras 
muitas. . I 

He certo que em algumas deftas efpecies na6 he 
ilmpleímente o Direito Romano que fe adoptou , mas 
huma miftura Já feita pelos DD. : como v. gr. as Cartas de 
ieguro, que efta Ord. de Affonfo V. attribõe aos Jurifcon- 
fultos, oad faâ origitiariamente de Direito Romaso , mas 
huma modificação: entre os Bárbaros os Juízos , como já 
di0e y sra a defeza pútáica para embaraçar a vingança 
particular; por ido o otFendido recebia huma compoííçaá 
ou peaa de tantos ibldos pofia pela Lei. Os DD. do 
íèculo IX. fizeraó , que áquelle que no Juízo tinha fido 
con<lemnado , e tinha pag5> a cõmpofiçaò , fe lhe delTe 
iiuma caru de feguraaça y para qve o ofièndido , ainda 
' ^ue naô tire0e vindo recebela , mais o naé podeíTe 
ofiender , nem ringar-fe partícula raie nte. Diílo pafibu a 
dar-fe efta. Carta ainda áquelles que haviaé de vir a Juízo > 
para nafi ferem prefos , desde que fe eftabeleceu a pena 
da prifatf. Afiim \& que o ufo das Cartas de feguro 
penence ao Direito RMiano : e be bem fabido , que as 
prisdes principíárBiã' , retetido-fe o Réo na audiência ; 
depois Modo cODdwrdo em griihali com a comitiva do 
Jmz ) o que Tem ainda no regimento dos Corregedores 
'dcfta Ord. de Aã(AÍò V. ; draeis eftando a grilna6 em. 
■ca^ de Cafcereico ; até que £e eftabelecéraô as Cadeias 
{HÍUicas : do qoe aiada aeite fccuio havia exemplos e(n 
algoia» pequenas tenras» 

Dqilizc-JbyCoOglc 



3(01 M E BC O S I A S 

E ifto he o que bafta para fe conhecer ; que nefta 

Epocha o Direito Romano entrou na nofla Legislação , 
depois de influir paru a mudança do S^ftema. E que 
fez na Jurifprudencia Feudal hum golpe mortal » desde 
que delle fe compilláraÔ os Direitos Reaes. Defte tempo 
em diante ná6 poderemos já coníiderar Syftema Feudal , 
Dem ainda Municipal i mas perfeitamente Monarchico, 
como devia fer pelas noflas Cortes de Lamego : obra 
que baftava para »zer grande a ElR.eí D. JoaÕ I. 

TERCEIRA E POCH A. 

§. I. 

FOrmo efta Epocha do Código de ElRei D. Ma- 
noel por maior clareza , mas-naó por necefOdade , 
pois 3 II. desde D. Joafi I. bem fe podia «tender até 
o Reinado do Senlior D. Jofé. Com tudo ncAa Epocha 
ha hum Código Syftematico , e a Jurifprudencia toma 
nova face i e iflo me incitou a dividir eíle efpaço em 
duas Epochas. 

A antiga educa^atí, que antes fazia huma parte da 
Legislação Feudal , já fe tinha erquecido no tempo defte 
Monarcha ; bafte para cohfaecer ifto , yér nas Cortes de 
Vianna no tempo de D. Joaâ II. o requerimento dos 
póvòs a refpeiío da Nobreza „ Que aprendaã , ( dizem 
. „ elks ) Grammatica , e jogar de efpada de ambas as 
,, mãos , dançar , e bálhar , e todas outras boas maahas 
„ e coftumes , que tiraã' os moços dos vícios , e os 
„ chegaõ a virtudes ; e criando-fe defta maneira alli os 
„ ordene V. A. aonde mais fe inclinarem. £ em quanto 
,j aflim moços forem , durmaÔ , e criem-fe em Volfe 
„ Camará , aonde fe criáraÔ aquelles de quem elles def- 
i, cendem . . . . e faça V. A. hum homem Fidalgo , que 
,, tenha carrego de Alcaide dos Donzees , que os caui' 
,j gue , e faça alimpar, e aprender as boas manhas.;, ■ 

Mudadas as Leia da educa^ad ; haviaô de mudar-fe os 

coP 

Cg.lzccbyCoOglC 



DE LlTTE«ATTTRA Pom-UGTTEZA. ^OJ. 
còlHimes ^ e eftes' muiio mais fe mudáraÒ em rafaõ do 
Commercio , que cm toda a parte extinguio os ccíluires 
Feudaes : e todos iàbem quamo o Reinado vigoroio de 
D. Joa6 II. adiantou o Commercio , cujas máximas ainda 
]i0Je poderiaÕ fervir de norma. As Riquezas, as Colo' 
nias ) a Litteratura , tudo iíto deu a perfeição ao roro 
Syftema ; e foi hum efeito da mudança delle , que tinha 
feito D. Joaã I. 

A flim a Jurifpriidencia tomou nefte Reinado de 
D. Manoel hgma.face mais coordenada , e Syílematica : 
pois ?emos fahir nelie o Código defte Principe já re- 
duzido a Syítema. ^ e- tal que ainda hoje j^overna com 
as pequenas alterações , que depois fez a Filippina : e 
vemos fazer a reforma dos Foraes ; obras que pozeraá 
a nofla Legislação no melhor ponto de perfeição , que 
entaÓ era poífivel,. 

Na Ordenação de D. Manoel. deixando as antigas 
Leis encontradas , fe fez em cada titulo hum corpo de 
doutrina , cujos princípios tiveíFera analogia huns com o» 
outros. Nos Foraes fe tiráraÓ as Leis penaes, e forenfes^ 
que eraÕ Feudaes ; e fe conferváraõ os Direitos Senho- 
Tiaes , fegundo os ufbs mais comuiuns , deixando de; 
todo os que eraó muito onerofos , injuílos , ou de fer- 
vidaã : com tudo na Ord. que fe compillou dos votos 
dos Defembargadores da Supp]icaça5 , e d'a Cafa da 
Civel fobre efta matéria fe vê bem , que efta grande- 
reforma fe djÇye fomente. ao Direito Romano. Elles fe 
guia6 por ;^m pies ras6es de jufto ^ e injuíto ; e nem- 
trata6 ou das máximas de D. Joaô IL a izyot do Com- 
mercio , ou das de D.- Duacte a favor da Agricultura» 
Votáraõ como Juriílas , e naÔ como Legisladores ; e^ 
perdeu-fe talvez a única occaíiad, que tinha havido desd& 
O principio da Monarchia , de dar franqueza Á Cultura >. 
-~e ao Commercio iiurinfecò , exonerando-os de encargos^ 
O que parece admittia bem o eiUdo de grandes riquezas 
em que a Monarchia eílava. 

A Juriff rudencia desde efte tem^o já naô. appafecei 



lizcJbyCoOglc 



404 MeKOIixI 

no antigo cira<fler de racillar entre a Legislação Fendil j 
e a LegLsiaç36 Romana , c de tratar d« as combÍDaT j 
elle Syllema já eílava feito : o que apparecehe vacil- 
lando entre opiniaâ e opíníaA , e tratando de combinar 
as opiniâís aoi DD. , bufcar a«' rai6eB de decidir na 
Lei Romana , e conciliar ai contradic(6e« , q«e os pri- 
meiros Meílrei Bartholo , Baído , Decio , e outros ti< 
nhatf commetttdo. Principia pois aqui o reino da Opinia6y 
que faz nefta Epocha a primeira cdr. 

Os Authores que pertencem ao Reinado de D. Jo&6 
IIL , como Jeronymo OJbric , Navarro , fea difciputo 
Pineilo y Cojla , Gouvéa ^ moftfa6 éfte gofto da Jurif- 
prudencia conciliar as Leis Romanas entre fi , e con- 
ciliar as opinides : Bartholo , Baldo , Alberíco , Anchar, 
e Decio , faã citados como Chefes ; e Paulo de Caf* 
tro y Tiraquello , AffliÃo , Gomes , Molineo , Chaf- 
iaaeo y Keguzancio , Alcíato y e Corasnivias , e alguns 
outros fatf os Doutores de mais conikleraçatf , em que 
procurad achar doutrinas para fe guiarem. 

Já eraã tantos os Authores , que Pinello dá &tÍ6- 
fiçtíes de fe roetter a efcrerer, e efcufa-fe em ter oo- 
cupado a fua vida no Foro , e na Univeriídade : porém 
ao depois ainda fe augmentou a con&fatí , e muito 
mais até o fim defta Epocha , em que efta Efc^a de Bar- 
tholo entre nós durou. A poder de fufcitar queft6es , e 
fazer diftincçties , ella chegou a hwn ponto incompre- 
Jieniivel ; porque entre infinidade de opiniões já fe nad 
podia atinar com o verdadeiro caminho. Os primeiros 
dividiaj$-fe fobre hum ponto , hum terceiro difiingnia , 
e apparecendo outro qae o contra diftava , ficavaíS quatro 
opioiíies ; outro para combinalos eicogitava outra dif- 
tincçaS -y negando outro , as opioitfes fe dobravaCí ^ e 
allim crefcéraS ao infinito. 

Caftiléõ que efcrcveu no ultimo tempo , e que íê 
bu tudo o que.di* , era ta(S adamantino como Origi- 
nes , a cada QpiniaÕ p6e hum immenfo n^ero de 
Doutores : efte lie hum dot melhores Anthciesr porque 

com-. 

DgitizedbyCoOglc' 



Wmbina' todos! as antecçdeiites ; mas he difHcil que 
depois de íe ler, fe oa6 fique em mais confuTad da em 
que ameS fe efiava. As opinÍ6es làõ hum labyrintho , em 
que o único iio Jie a Hiftoria : nefta Efcola ha tium- 
éo de opiniões ', -ffgunáo ás diftincçâes que íònó ap- 
parecendo , c que íôraãitendo mais fequiio : fera le 
obfer?ar,ifto » nada fe pôde conhecer , porque indagar 
O que todos dizem > todos de montaô , he fícar perplexo y 
porque he perder o carhiaho que elles feguiraã até to- 
carem a doutrina melhor : e o Juriíta fobre as ultimas ' 
doutrinas he que pòdé adiantai* as íuas , e fazer a ap- 
plicaçaô delias. 

: Eis-aqui porque a Efcola^ de Bartholo he hoje taá 
confundida, e ao mefmo tempo he ainda taã necefíaria:' 
agora que ella tem acabado , he o tempo de a coníi- 
derar hiftoricameiíie ; pois o feu refultado he hum da- 
do certo., e ponto nxo , que nòs agora temos de 
combinar , com outros ramos da fciencia : mas fobre ifto 
logo me explicarei mais ; daremos contíauar. por hora 
nas alterações delU Epocha. 

í . .5. ■ IL . " '. 

Quando as opiniões chegáralí a fazer confofaõi foi 
Soeceitirto o feguíute paflo da Jurífprudencia dos Arep 
tos ; eíbs he queentrárad a moítrar o caminho mai£^ 
feguroj porque moftraraõ qual era a opiniad adoptada.- - 

.Principiou iHo no Reinado de. D. Sdiaítiád , por 
cuja ordem António da Gama efcrereu as fuás Decisães.: 
£^ellas , que> làó huitt théfoiíro da nolTa antiga Jurífpru- 
dencia > íe vê bem. o carafter vaciliaote do uoflo Foro ;> 
entre os coíhia^es do Reino , e Direito Romano ; e depois 
catre opiniad , e opimáã. 

.As. Legislações todas tem princípios de analogia , 

aue fórmaó.a efpirito ddla , e regiilao nos cafos fem^- 
lantes: a Eeudal também. os linhay aflim como os tem 
« Légklaca6 B^oma&a.: He. a.graadeoinà dá fciencia, o 
Jm., r, Fff. achar 



Dg,l,zcJbyC(>OgIC 



jpS M K » o « IA S 

achar a Tardadeín analogia^ porque Ib conTisc^ 9 
tocar o erpirico da L^slaçalS : bus quando a arte ngA 
eftá na fua perfeiçatf > as paridades i'upprrai o hi^t da» 
analogias. 

No principio da Bfcola de Barthoto reimirad- o» 
argumentos de Paridade : e nefta noílà antiga Jurífpni- 
dencia fe acha concinuameote procurada a paridade ot» 
analogia do Direito Romano ; e nunca a paridade ou 
analogia da Jurifprndencia Feudal, ou Direito do fteino. 
For ifto devo dizer atrev-klamenre , que ncfte tentpo' 
de todo eíle efpa^o o IMreiío Romano teve a aÊsetH 
dencia , e elle teve -o maior gráo de authoridade. 

Desde Gama a Júrifprudeiíoia dos Ãreftos fçí a 
mais feguida » poroue' também era a' mais uoceflaria ; d 
tedos os bons Ãtunores que fe feguíraâ , a praticarão , 
á excep^aft dos Meftres da Umreríidade , que c&nti-" 
auára6 a feguir o u4b da Efcda de Barthok). Valtafeo , 
Caldar, Gabriet Pereira y Àgoftinbo Barb«fAt Cibedo « 
P^ia » Thomé Vast , Macedo , Pegax efcrevôraô cui- 
dadofamente Areftos, e voto» Foreníè» ^ e-fatf cpm eâPeít» 
os mais neceflarios no Foro , fetn os quaes fó pôde paf- 
far , quem quizer tornar ao principio , e fazer Leis era 
lugar de julgar por ellas. A huma Lei , que nalS he 
> Outra couw qoe adoptar-fe hont remimenRi entfe os 
diverfos c^ páde haver em hum caio , o <]ue ha ds 
mais próximo he o ufo de julgar qoe adopta entre variaa 
opiniões homa certa opiníao' : he pois a Juriíprudencia 
dos Areftbs a melhor para Lei itòiidiaiia > porque he 
a coufa mais próxima a Lei. 

He nuLto. máo que a Lei.nati £ga » apiniafi: voaòÀ 
análoga y «. oaÕ entre bem no Sjirâems: ma» be idiâaica* 
mente pcior (|ue na& £ga neiíbacna v e- (fue. deixa livra 
o arbicrio ao Jiúz. Tanta authoridacte aecrefce ao Juiz» 
^omo perde o Legiafòdor ;. e talvez cfta fe)a 2 rafaõ da 
grande authoridade. da MagjlbatDRt entits |íús : porém o 
jhiis deve &r fifc. executor da Leii j « o cidadão deve 
diÇ^euter- d» Ut ^ 'e xt^neUa «Lceitcail da iwi fonu? 



na f e na^ éíperala e depender do que pronuncia o Juin 
O Juiz iMC£Ílàrisnieat« ha de ter aiinirio fobre ai 
provds ; jieceâaria mente o ha de ter. também na appli* 
caçad da eípecie de Direito ao faAo , porx:]ue as Leíi 
«f ô podem fer ioftoitas : ora Xe a efte arlntno , que já 
|>or .ifí he- ta6 grande, íè une o arbítrio fobre eAa 
(J^ecie arraia ^ .e elle páde íeguir qual sfidiiaâ , on 
qual Lei íubfidiaria quizer , hs defarcanjar o Sjffema , 
e pãr DO Juiz o poder Legislatiio ; ainda que ellc 
jut^;e £affipee bem : pgrque a boa -raíaó do Juiz naã 
pude- íèrrir.de Lei > para elle oaâ lèrrir de Legislador. 
fifte he .0 grande merecimentp 49 Jurirprudencia 
dos AréAos, pojs £xa , e moflra aos olhos qual fda a 
cpiniaõ' adoptada ^ e como muitas vezes íe tem hido 
mudando as opiíyães , e a praxe de julgar , ella mof* 
trava qual era a aâualmeote recebida : guiava o Juiz , 
p daira xertoza ao iítigante : he neceflario que o litii- 
gante.eftcya cano do que o Juiz ha. de julgar ; a Jurjf* 
prudência, he para fazer feguros os Juízos , e os Juizos 
para fegurar o cidadão .da' fuá fortuna , e vida. 

O Reino da opiniaã chegou a confundir-fe tanto , 

Júe p Moral qutz acudir a dar regras que guiaíTem o 
uiz i di^ reluluu a Propoliça6 de Innoc. XL , que 
desde ,{676. regulou „ que o Juiz devia julgar pela opiníatf 
„ inais pforaveí. ^, Mas ainda ficou a dúvida como fe haria 
de conhecer .a probabilidade , fe pela TafaÓ ou pela aucho* 
ridade : pefar a probabilidade pela foc(a das ras((es , he 
«xeellepte thcorica } mas naó tis ifto querer ticar huma 
dúvida , cato outra, coufia 4uvido& í' '._ • 

A ifto pois .he que.fHpprÍa5 eotueinds os AreAos; e 
A praxe de julgar fez emie nós humá Lei i(ublfidiaria : e 
« tfta olaffé pertencem .os Jfemoi , que craâo ifixar a 
jicaxe de jukar. 

,Os noflos boas Traãadiítas deâe tsmpo , como Pe* 

^ro Baràofa^ Maooel> e AgQftiiiho BsAâfa , i^aldas, 

€Jé^a^ .Carvalho , Egidio , íÍ^mw , e Oiiva ; e desde 

©. Joa6 tV.. Bfirmal , Frag^rfii , Gutrreiri > « P«k« 

F£f ii outros. 



ic.byCooglc 



outros , efcrevendo no gofto de fiiiEfcoIa j Iíga(í-fe 
muito aos Ãreftos. Ordinariamente he neceí1PiirÍQ vir até 
os ulti^nos, para achar o rerultado da praxe de julgar; 
que fórma outro ponto fixo na nofla Icicacia.- ■■ 

Porém ao paíTo que crefce a amhoridade da praxe 
de julgar , a authoridade do Direito Rotmno , qãe lhe 
tinha fervido de bafe , fe dímínue : efta gradaçaé he quaft 
infenlivel , mas para o 6m defta Epocha , quando pode- 
mos dizer , que o boíTo Foro chegou ao maior grão de 
certeza , que nunca tinha tido , nem depois teve ; clara- 
mente íe conhece a afcendencta que tem fobre os votot 
a praxe de julgar ; fempre fe lembraõ Leis Romanas , 
muitos Doutores , e ras6es jurídicas , pois ^a era a 
erudição de que fe fazia pompa naquetle tempo , mas 
fempre fe conclue pela praxe de julgar , ainda que eftejad 
em contrario as Leis Romanas. He ifto contínua nos 
Âreftos y que coordenou Pegas em todas as fuás obras j 
que tem muito merecim«iuo , e da6 muito trabalho^ 

$. m. J 

Pôde l^zer-fe ifto mais* fenlird com htim exemploí 
No Direito Romano os contraiítos enKS firmiesáté^AqiHlio 
Gallo cootemporaneo de Cicero , que itivenfou ás For-' 
aulas' deDo/ff tnaJo- i e aOim continuou -faté Diocleciano 
que applicando ifto is compras c vendas'', -àifíè „ que 
„ era humanidade jirovidenciar o que tinha lido íefado 
„ com dolor e que ifto fe entendeíTe fendo a lefaA mai» 
,, de metade do jufto preço. „ Efta Lei era boa , porqa* 
tirava' o.'aíbitrario ao Juiz , e porque era análoga a& 
leflo da LegislaçaS : pois;teve a labdecaçad de ficar i 
tfcolhà jdõ. outro. inteirar a faita ^ « ficar firme''0 con- 
traiflo , poder renunciar-fe , e prefcrever-^fe èm 4. annos^' 
£ alfim na6 fémente &zia Syuema com as Leis fobre a 
jeguranfa. dos coatraAòs-, mas coài' ai Leis fo^ a ref^ 
tituiçaô do. meaof , com a acçáfí áe.dàío j cora. a OMod 
mgtm_ caafn .-, com. a .fUéHtl tnvieru.\ ó-o^ á of^àm 



' DE LlTTÈIfAttrWArPORT UGUEZA. 4C9 

'âo Juiz rofrjuiíos de boa fé , efíintliianies ; o ^«e 
fazia hum perfeito Syfteina. ' ■ 

Na maS doí DD. houve imoienfas dúvidas , de que 
fcafta tocar as principaes. Logo na priq eira Eícola fe 
duvidou do modo de contai- o preço para a lefaÔ ; 
Jiccurjio diíTc > que aquelle que deu mais de ly. por 
■aquillo que valia 10. , era lefado ; e o vendedor o era. 
dando por menos de 10. , o que valia 20. Durant o 
5pecol3tor feguio , que em ambos era reccíTario contar 
o dobro: poréui como aquella opiniad he que pa^cu á 
feguinte Efcola fendo féguida por Baldo , fe poz na 
Ord. -Manoel ina a mefma diíFerença entre vendedor , e 
«omprador ; quando na: Ord.' de AfFonfo V. fomente fe 
tinha poíto o cafo do comprador dai 1$. pelo que 
valia 10. 

Sobre a Renuncia ; tinha na primeira Efcola havido 
«íúvida , dizendo Cogffã;;^, a queni feguio Guido Pap»^ 
t]ue dedarando-fe que o exceflafe doaife, fendo grande 
■Oq pequeno, nadtiaha lugar a lefaíS; e jllberica àixenáo , 
gue bailava doar o excelfo , pois por pouco naô havia 
reftituiçafi , e fò para- o muito podia fer utít. Nefta 
Efcola também fe entendeu que efla ;icçaã durava 3Ó. 
ánnos'; porque pelas Conftituiçtíes. de Remam he que 
Sc conheceu' que prefcrevia em quatro. Por ifto na Ord. 
de AíFonfo V. fe admiiiio a renuncia , e doaçaô da 
lefa6 , e a^^prefcripçáô cm 30. annos , e de 8. dia* nas 
arrematações. . 

Entrando. a Efcob feguinte , Bartboh díífe y qi» 
fabendo-fe o preço }«ftp , 'ficawá deado , pprq*ie fe podia 
Tenunciat tacitamente ^ : mas i^oiando-fer-y na6 fe euten> 
deria doado , -éxcepnffeodo pouco o éxceífO' Baldo tor- 
nou a diftifflgair^ qiiefabehdo-íe o preço, arbitralTe o 
Juiz fe faca renunciado ' pó r f^ilidade-, ou por liberali- 
dade ; ei.que ■ por.'iira; ife 4Bvia declarar. no eomradlo 
duas rãz« i|ue::ft Áo^i^- ■ Barbacio\ diftinguio-emce » 
Tcndedot ricoroii' pcSircL: .èviaindo inefte-, têmpó s Ord.. 
Idãooeiiaa ^:ix&ávcul> s^-.k iiaÕ podeãiè ieaundar nen» 

doar» 



doar. Contioaando porim as dúvidas ^ DD^ j ím qtíè 
Boerio dilTe , que fendo a claultila da doaçatí .p(^ 
duas veze» , eotaó be que fe conbecia baver dolp ; e 
outras mais : fez a Ord. FUippiíu a excepçaã a refpeitu 
dos Medres do> OiScic» fobre o .preço das íuas obr^s. 

Sobre os mais coiitra<flos aitém da posepra e venda^ 
Alexjtndre , e outros da primeira, Efcpila os jfôraô sofo? 
pretiendendo todos : porém. Dech na Etèola íeguinte 
dilTe , que quando natí podia ^eftituir-íf a mefina coufa^ 
naã competia 3.cça6 j e daqui refultáratí queltôes :a j^ 
peito dos frutos y e a refpeito do teqaeiro polTuidor. 
Pinelh , que elcreveu a eília I^Í , S^Áo .8 oplníaó de 
Alexandre j e por tlTo o Fôro o fioi Xe^odp , deixanslfl 
a de VallaCco , .que na Queftatí ^. do Dirmo Erupby" 
teutico tinha feguido a Decio. Sobre os frutc» como 4S 
duas Ord. nada tinhatí dito, ificou ein queftaã^ ADtqnio 
da Gama na Decif. 94. iinoAra a ^aode ÍDcerteza de 
julgar a lefpçito dos frutos ; inas nells fe firmou a pcaxe 
de julgar de fe reftítuirem os irutos di^e a lidfi coop 
leftada. 

Porém como Decio tinha dito, que fendo o excefr 
fo muito grande, ife deveriáti reftituir lodos os frutos ; e 
Cavasruvias íeguio, que o juramento 'naôexduia:a-acça$ 
da lefaò : fez Gaiaa .paridade do juramento para a Lei^ 
e defta célebre paridade nafcsu eatre nda o.direito -da 
lefaõ enormiflima. >Exi£ndeu-fe a j^arem^fe os fnitos to 
dos , a tirar a alternativa ; e depois a tirar a preicrip$ad« 
-e a incluir as vendas .judiciaes. E defta pcaxe d£ julgar 
.procedeu , que na Ord. Fil^pploa fe pozeraó .as Áix^ 
■conclusões , que fe reftituiíTe prçcifamente a ooufa , « 
que £• deíTeni todos os frutos ; fem lembrar mais nada* 

Aiiida qnt illo nafi foi :Lei cota S^ma , os 
DD. o fizerafí , e figurarão buma nova efpccie de íeCii($ 
«normiffima , em que na^ quizoraô penhum. dps coo* 
Teifliros que as Leis ^em . rafa^ da íegunui^ dos con- 
.tradoG davatí á :Oatra 'efpecie da le^d.onocme. Apraae 
de julgar ;foi hindojcoawaue^ ,e ttlmiMwiCTtc a«.opinrfS<g 

cbçr 



..Vl^ 



•Iiôtó/aÔi taf laiidaô, qw Guerreira frguifr, que baf- 
tavaS dvw lefteinunhas i^ue diileíleiTii haver Icíaè, Centra 
fflif qns diflefleBi a na(t' haviai j peia djãincçafl de affir- 
xnativas- , ou negati-vas. Aflidi por liua-,a hmpks ralai} 
io JuAo , e injuuo perdêrafi » acalogia ; íuppondo que 
conhetfiad meíhoT do contraio dous Tiíinbos , que os 
doU8 intereíTados níUe ^^ e a eftiiiiaça& commua naâ de- 
pendia do que aíTentafle bum povo de mil peíToas, maa 
do i^ue contra elles dificífem dous homens. 

Na- EJcoía CuJMiaàa negou-fe que faoovefle tal ef- 
ftcie difere de laaó enornúílima ^ e já Se tinha dito 
lífo mefina na araxceàtme Wikoh de Lv4 a , e princi- 
palnKnte Garcia eíctcreaúo- de Etcpt^Jis. 

Por ilío temos aítualmente nova incerteza pelos ^ 
divcrfos refultados^ ddla Jurifprudencia. O reftiltado do 
Direiro^ Romano , da Éfceía Cvj-aciana ^ e de Irnerio 
he admittir fomente hum direito de letãã enorme coart^a-* ' 
do com aquelles corre^ivos. O refulcado da Efcola: 
Bàrthfflina ha adnúítli foimá^ di£Ferença da- lefaô enor- 
miflima y para a entrega precífa ^a coufa^.e reftituiçaií 
dos frutos todos ; e eíle mefi^o he o da noífa Lei. El 
o refuitado da Praxe de julgar hc o fazer duas diverfas 
«fpecies de lefafi enorme , e enbrtniffima , das quaes a 
j^rimeira tem todos os correâiros, ca fçganda nenhuns» 
■nas Jie de rodo .fora do Sjílesia da mais Legislap^. 
£ eftes' S&6 <» rciultãdòs qur hoje temos de combmar 
com os principies- d» mivasfcienci^ que abfolwamente 
requerem feguran^ de. contiaAos » e certeza de direito 
.de prt^iedade. ' i 

Dtílè excmfrlo' , « de. infiníior, que pedem ezami- 
nar-fe , iefulta> , qma entrada do Direita Romano he- 
em tenpe de D; Job£ I. ^ foe sté D. Manoel fe tratotD 
de o combinar cooii a L^islaçaA do B.eine ^ que desdff 
D. Manoel fe tratou de combinar 0pinia6 com opinia6 j, 
ave detde D. ScbaftibÚ: fe tn«ou diei cotnbinar a praxa- 
^8 Julgas f ioidoixegalada ficiQ» priocipíos do fuppofti» 



Ic.byC^OOglc 



'411 M B ta O K X X: ft 

Direito Commani ; e que agora ha noros princípios dft 
outras Sciencias , que tem oe fe combinar ainda. Fóde 
também conhecer-fe o bem ou mal , que o Direito Ro- 
mano nos fez* Até D. JoaS.L.era neceíTario Carta de 
EIRei , ou Provilatí para refcindir huma venda } i&a 
baítantemente feguraria os contraélos : o Direito. Rot 
mano deu entaõ eíta raíaã da lefad ', para í*e conceder 
nefte cafo ; e ifto natí deixou de fazer feu Syftema , 
porque admitcimos , além dos expedientes que tinha o 
Direito Romano , outro fegundo os noíTos coftumes de 
huma prefcrip^aâ de 8. dias para . as vendas judiciaes. 
Com a Efcola de Bartholo. foi a defordenar-fe pelo la-. 
byrintho de opiniões que fe lhe feguio ; a praxe de julgar 
veio fegurar as opiniões que entraraã a vacíilar i mas 
nefta já na6 houve Syftema nenhum , e fe chegou a hum 
ponto tad apartado do Direito Romano , como efte o era 
do Direito Feudal. 

U L T I M A E P O C H A. 

§. I. 

EM quanto a nofia Jurifprudencia tinha efte progreí^ 
fo , os trabalhas da Academia da Híiíona preparavaô 
huma mudança lítterarta, que a havia de combater, fem 
entad fe penfar , pela liçatí de livros de gofto , que 
fizeraõ ler Direito Pdblico' , Direito Natiiral , e depois 
as novas Sciencias .de Policia , .Commercio , Agricuitii-> 
ra , Economia , &c. Õ Senhor Rei D.' Jofé naõefpçroa 
o progreíTo lento deftas Sciencias para os coftumes , e 
Jurifprudencia , mas Jogo difpoz fegundo ejlas nova 
Legislaçati;' e iífo accelerou a mudança dá Jurifprudencia.- 
Para fazer difto verdadeira idéa he precifo refleflir, 
que todas eftas Sciencias tem princípios próprios , huma 
metafyfica que lhes he particular, e que coordena o.feii 
Syftema :. e que nifto, mefmo todos clles tem tido mu- 
dança^ O -Direito B.oqiano.,_tem hymaFUofo^a Jurídica 

: - - . j.^^ 

Cgilzc!:byCjl.H.Í'^H_ 



£ 



DE tl*TÍ?l4ir#l|-A PõnVvGOÍÍA. ^IJ 
Júblime (que tãmbem polTuia o noflb Meftre Alexandre 
de Abreu Ferreira , pois nad he licito fallar nos que 
vivem) a qual faz' a Tua folidez : ella que fó lhe conheceu 
a Efcoia' Cujaciana , - já naÕ ferve no Direito Juftinianco-, 
ãu« hfe já feito debaixo cIc' outros princípios, que fe 
devem defcobrir no Edado do Império oo feu feculo. 
O Direito Pdblico moderno tem certos principíos pró- 
prios ; e tem tido mudanças, pois o domínio emtninente 
que elle naíí tinha até Bohemero * paílbu depois a fer 
hum principio certo. A Legislação Rural tem máximas 
)articu!ares , e mudanças \ a diTÍfaÓ dos predíos que he 
-loje quâH geralmeote recebida , na6 o era no tempo da 
noíTa Lei das Encravaçfies , que Teguio a máxima da 
feuniad em grandes prédios. As Leis Mercantis tanto. 
do Ço;mmercio inirinfeco , corno da Marinha tem da 
mefmã' f<irma princípios que lhes faíS próprios , e que 
tem mudado , como nas eiportaçães , lios câmbios , e 
outros. A Jurifprudencia Fifcat, hoje cham&áa Fiaaaf as ^ 
tem mãximas 'ta6 direrfas como os nomes : e alTim as 
nais f pois todos os ramos da Economia efta6 erigidos 
em Scieodas ; e- efta que.comprehende a Filofona de 
todas ellas , adiania-fe continuamente a aperfeiçoar prin- 
cípios. 

Confequentememe a Jurifprudencia hoje nad pôde 
fer Syftematica , nem fazer Efcoia fem connbiuar eftes • 
princípios todos , e conhecer os refultados deUà combl-- 
vaçuó.- Ea na6 penfo por iflo que hoje falbamos mais 
Direito, que no fim da Efcoia de Bartholo ; penfo pelo 
contrario : no fim fabia-fe a <;ombinaçaô , e applicaça(í 
aos negócios que os primeiros tinhaô feito da Jurifpru- 
dencia Feudal , e Romana , e para fundar a Efcoia foraâ 
lieceílàrios grandeS' génios: e nós hoje eftamos outra vez 
fcm principio de Efcoía , e temos que combinar muittf 
inais do que elles, porque as novas Sciencias apprefentaS 
com as antigas hum campo ainda muito mais vaílo , que 
llqueMe, ao faber , e ao penfar> 

Ka-Jarifprudeoçia Feudal rud^^t Direito F^icoi 
. JTtfm. K Çgg «lue 



lizcJbyCoOglC 



414 Meu « « I a S 

Jue abforria em li ao particiilar : mai era hwn DíreilA 
liblico diverfiínmo do moderno , como dirçito nafeido 
da Conquifta , em que fe ufurpava ao Soberano , 9 
opprimia aos VaíTallos. Pela entraaa do Direito Romaooj. 
o Direito Público fe coarAou á» R,egalías ; e tev» % 
afceadencia o Direito Particular , de forma que até fobre- 
fahia ao Direito Publico ; como moftra a regra que p 
Fiíco fe regulava pelo direito dos particulares. Necef- 
fariamente havia de oafcer depois a Scièncijt. do Direito 
Público moderno , depois de fooegada a oppretTatí Feu^ ; 

3ue moftraíTe o erro das ufurpaçtíes , e áéSo aa Yenift» 
eiras idéas da Soberania, E como «fte Direito tcatavA 
do intereíTc público , neceflariametitc havia de o«íc$p 4 
Jurifprudencia Económica , que indagaíTe efTe isterepà 
nos diverfos ramos do Direito Particular. 

Por ilfo com ellas du» Scieticias he íocQQibÂfMtTel 
s Jurirprudencia Feudal j e fae também incpmbip^vejb 
squella por$a6 de Jurifprudencia Feudal f que a Síçoli^ 
de Bartholo , e a Praxa de julgar admittio na fita com» 
binaçaô que íe^ do Direito Eomano , e Jurifprudencia 
dos Feudos : mas tirados «ftoa refioa , o quê be pura^ 
mente Direito^ RomaAO he ftcUraeirte cooil^iíivsl coo* 
o Direito Fiiblico , e Jurifprudencia Económica i porqu^ 
eflas três Sclencias faõ prpprias para a Mona^eb^ 

A Legislaçaíí do SenW Rm D> J4Í^ foi fe^ndo 
os princípios deitas noras SciencÍM : ipa* corno fôi nai 
coufas principaes , q na^ em bvn cor^ d« ^yO^eipa , 
sem a mudança podia f«r repeotinA ; « cggiiJ ípi pqf 
diverfos aneos , fea Bo Foro hum eorbftte 'mmM¥>t 
porque as Leis feitas dQ iK>vo %íte«a ^ (g qnKrtaÒ «ntf ^ 
der pela Juriíprudwci* antiga. Por iflo fç pr4fcipv«« fl* 
Lei de 18, de Ag#9 o Õi»ij!0 Romana , 0« pm 
melhor diatr ft Efcola dCjfi«rt^oI«» 9 0^iqi)ímdBPp,i 
« enteodondorft outra vea eft» tai dq £>i^ito^9Bi«m> 
f na^ da (^mbipflgfliií qw àaUe ípfoíía<»inftFflu*»í, 
a que confuíameote fe chamava Dirdw Cownwn i * 
$^ei«Q J^suAii i ffú fi«cBiIariQ «itoU ou. fifatuto* 

■DqHizcObvCoGglC 



&B LtTTS|tA¥VRA FoRTVâVEZA. 4]^ 

ida' Uniferíidade ; eoi que fe mandava eftudar o verda> 
deiro Direito Romano fegundo a Efcda de Cujacio , 
com o Direito J^úblico , e com a Ecooomia , para daqui 
refultar o que fe deve chamar Direito Pátrio. 

A ifto fó he que podia fepiir-fe hum perfeito 
Corpo de Leis , como eíperamos : enta6 ficará menos 
precifo o Direito Romano ; mas até eataô elle vai 
confervando a fua authorídade : dí6 huma autltoridade 
igual ao Direito do Reino , como tere na fegunda 
Epocha , nem huma authorídade única , e immediata- 
mente fubiidiaria á Lei do Reiao , e á praxe de julgar, 
como teve na terceira; mas huma authoridadc lubfidiaria 
mediatamente depois do Direito Público , e da Jurif- 
prudeocia Económica ; tendo defcido por gradações até 
imm ponto , em que elle he accommcdavel, e em que 
he aiods abTolutamente neceilàrío. 

S. IL 

A Jurífpmdencía Syftematíca que a^»a principia 
em. eontequencia daquelles Eítatutos necemriamente ha 
de ter muito menos dependência do Direito Romano , 
do que ainda agora tem em quanto naô ha novo Corpo 
|]« Leis : pata ella fazer Syftema » preciía depender de 
todofl os outros ramos de Legislação erigidos em Scien»' 
cia ; confequentemeate a dependência de. cada hum dei* 
les ha de ler menor. 

O Srllema da Jurifprudencia tendo por principio 
liuai Eftaao perfeitamente Mooarchico coax> he o noíTo , 
fitecifa coDÍvaerar diverlÕB Claílies de Clero , Nobreza , 
s Povo i o Direito que regula ce interefles geraes fMi 
FiS^co ;. e o Particular que regula os interefles de cada 
bum delles entre fi ; os. meios da fubTidencia tanto pií- 
blicQS. quto faz o Direito Fifçal , como os pacticulara 
da Culttu^ * Commencip» e Induftria ; cònuderando o 
£flò ;da fegurança tanto exteroa ou Direito Militar , como 
iateoa^oa Dire;ito da.\Pi)Iicia.,.e.Lcis.£enaas. £. aHiia 
c- ' Ggg ii como 



. CAiOglc 



m6 M E M o Hl a' s 

como todas as Leis que naS h6 conformes a efte Syfl?^ 
nta no Teu todo , naá faõ S/ftematicas , mas fó tem o 
carai^er de providencias interinas : affim também as 
máximas de Jurifprudencia fò podem fer perfeitas , fe 
ellas tti6 contradiuerem nenhuns dos pontos doSjfteroa, 
nem os meios , nem o fim ; ■ fe favorecendo hum naõ 
dellruirem o outro j tendo huma relaçaS mediata ou im- 
mediata com todos elles. EÍTas he que fó podem fer 
máximas de - Jurifprudencia ; porque a verdadeira idéa 
da Juftiça na6 he o que figura a primeira rafaô de 
jufto ou injuíto que occorre « mas o que entra no todo 
do Syftema , que faz o intereíTe geraU 

For racemplo nds temos Leis Teftamentarias , de fuc- 
ceífaó legitima , de Morgados , de Prafos , de compra 
e venda &c. E quando nòs examinamos a analogia que, 
tem Jiuma delias Leis com a outra , ifto he a fua relaçaã^ 
com o todo do Syftema , necellariamente nos havemos 
de valer do Direito Romano , porque eíFe teve hum 
■ Syítema perfeito; mas também temos de nos vaLet das 
outras Scienci» Jurídicas. Eílas tern tido progreíTos ; o 
Direito Romano também os teve : alBm naâ podemos 
recorrer a qualquer tempo y mas áquellc qiie tem hum 
Syltema mais conforme ao aoífo. 

A Legislaçalí Romana fez a fua divifãã áetribus; 
de famílias , de terras i e cònílderou rios Pais de fami- 
Has hum domínio ampliífimo fobre as pelToas , e bens : 
o das peíToas inudou-íe desde que foi Monarchia ; natf 
o dos bens, porque Iheerâ conforme. Defta plenitude de 
domínio ,. procedeu huma aropta liberdade de vender i 
dar , trocar &c» , e procedeu também huma ampla liber- 
dade de teftar. O fazer os teítamentos algum tempo £ai 
como Lei » outro, como venda , e em fim como- difpofiçaS 
fblerone-í mas a Legislarão naõ confiderou fenaô aquel- 
les Gídadâos: que eiiftia&i e.iwá- figurou como Cidadâo^^ 
nem os qu^e já cinhafi 'mòrãdf}; ntta aquelles que ainda 
èaviaõ.de exiftir: e natuRalmenre a geração aÃual natí p^e 
tet iQfftos dilato is terra» ^ue ^ita . % ^ue cultixa.* 
í -■ "'.'.■ da 



izc.byCooglc 



DE LlTT«Il'AT«IlÀ FôKÍUQSEZA. '4>7 
tio qiie à gcfaçafi antecedente. DaquiprbcedéraÒ as regrat 
da facçali teftameataria aâiva , e paiOva. Os bens aditiit- 
tem propriedade , e ufofruto i íobre an-bos fe pôde diípor, 
AíHni o Pai de famílias que teflava , tratií^feria o 
domínio no outro que eícolhia ; mas de hum medo , que 
cfte ficava com igual direito para dirpor também : aíTim 
confervava o domínio nos Cidadãos , e tirava fempre as. 
jnermas vantagens do direito da propriedade , ou domt- 
hio Qjjiritario. Quando dava o ufofruto a huma Corpo- 
raçaÔ , durava fomente loo. annos , porque efte era o 
mais qiie podia coníiderar-fe que vivefle num CidadaÕ. 
Ceando depois teve ãdeicommilTos de família , já ido 
excedia o Syftema , mas extingula-fe com tudo no fim 
de quatro geraçtíes. 

Os Barbares tiveratf huma diftribuíçaò de famílias ,' 
c de terras para cada família , hiíma grande auihoridade 
noB Chefes delias , mas tomáraõ hum meio contrario : 
tiafceu entre elles o direito de na6 poderem dífpor por 
teftaôienro , nem alienai fora da familia , para que as 
iuas divisões naõ fcãrellem : aflim também a geração que 
ie feguia o£:cupava as terras que tinha occupado a ante- 
cedente : o que ainda que diverfo concorria ao mefmo 
£m.. O DIreiío Gothico admirtio os teUamentos > e a 
})Tohibi^a|6 de alienar : confequentemente firz dilFerença 
«ie- bens herdados a adquiridos. A Juriíprudencia Feudal 
-accrefcentou a íilo as pierogativas dos Chefes , e pri- 
mogénitos V haverem bens indivíduos para hum fó d^ 
família qjue ferviíTe de Chefe y e fazer-fe huma gredaçaS 
de VaíTallos mais e menos até á fervidatí. Aífim emba- 
Taçóu as vendas , fazendo-as. depender do confentimento 
da mulher , dos parentes , do Senhor -y reftringio-os á 
certas peflbas como EcclefislHeGS , Fidalgos, Poderofosj 
« feha a venda % o Monarcha dava licença para fe re- 
scindir , íé. achava jufta caufa. 

Da combinaçaã deftas Legisla$Ses , procedeu o Dí- 
Teito dosL Morgados , dos fírafos , da avoenga > a , fac- 
«dOfaÒ tefiameuuuia^ a leginm^ , a terga &C' 

A no£- 



.Cooglc 



: A nftflà Ord. nas Leis Teftameatariu atJouttío liunfi 
ampla faculdade de ceftar , mas feguindo Gtnpl^meate 
diU rafaã, fahio do Syftenia do mefoiD Direito Romano, 
porque pôde teítsr-fe para aquelles que nt6 «raÒ Cida- 
dáoi : aífiin eftas Leis perdéraã a analogia com as do 
dominio ; eftas com as vendas por conrratíaCBto da 
mulher , do Senhor do prafo , a Clérigos &c. 

Mas a Lsi dos Morgados reftabeleceu hum Sjrftema i 
Gonrervõu bena feparados do commercio , para rubfíftencia 
das ClaíTes de Nobreza , e dimiauio o feu niímero para 
chegar o total dos bens para os exiftentes om rinculo , 
na mefma proporção que tem a Nt^eza com o Povo : 
fe a relaçaã foíTe mais forte , a. Aibfiftencia das oiitras 
Claflles fe prejudicaria. O commercio dos bens j em que 
O Património Real faz hum fundo , fe dimioue com a 
multiplicidade : a Cultura fe abatia , porque os ufofrutot 
a abatem. O mefmo direito pleno da propriedade fc 
offendia : porque fe hum teftadar pôde livremente gravar 
03 feus bens para fempre , a feguinte geraçaÒ fe preju^ 
dica , e pôde chegar huma que oatf tenha mais que o 
ufufruto das terras : e confequeatemonte á hfi que lhe 

?erniitte eílà liberdade pela ^mples raíáó do Dinàts 
articular que cada hum pôde difpor do que he feo 
como quizer , favorece bum abufo deíTa proficicdade , 
porque deixa difpor mais do que depois pode difpor o 
outro Cidadaâ para quem palíaò. O Direito Público siflo 

Íâe huma barreira ao Direito Particular: pôde difpor-íe 
egundo o Direito Particular , mas de modo que na5 fc 
QOTflda o iqterelle geral. 

A Lei Teftamentaría , hoje íufpenlà , co«traiiizi« 
iflo : porque fe aquella dimiauio os ufofrutos , efta 
fazendo to.das as fucceffiíes legitimas ^ fazia todos ufor 
■frutuarios , porque oxú podia6 teftar dos feus bens ; . 9 
reítãbelecia a fuccelTaÕ legitima do ufo FeudaL SahJ« da 
«nalogia com as Leis fdbre as vendas que tivera(!i.entaè 
-<le prohibjr-fe depois áe 6o. mxoíos ; com a ^cílulade de 
commerciac os prédio^ > cogi a (ufafiAcooia » p«nit» 

augmcn- 



DE LiTTEtATVBA Foff GVEZ^. Jftf 

■u^entBÍid&'Oi nfofrutos díBistria' a Cultura í e tíralxla 
p eftíinulo de adquirir tbatia ^ Ittdvfirifl. A fucceílatf 
Icgtiupa tem aaalogia neceflaria com aÈ Leil da desfaenilar 
oSi • efta deixava hum vácuo oa XegúIaçttS ,. p«r naS 
Jiarcr desherdaçàtí por ingratidão. Eis-aqui porque ^qiwllg 
terminou mil queAões ; e ella fufcitou mil pleitos. 

Más cila Lei indicou huma boa analogia para a 
Lei dos prafos que admittio a nomeaçafi legal até o- 
quarto grâo : a oomeaçaò legal he análoga á fucceílaó legi- 
tima i e a nomeação própria á difpoíiçaõ teítamentaria. 
Os prafos fóraó tirados da fua natureza primitiva de 
colónias , e ceíTaÓ de terras > para fe confundirem nò 
Direito Romano , mas na Legíslap6 Senii-barbara que 
£ez Zenon e Juftiniano íbbre Einphyteufes : porque no 
Direito Romano os prédios das Frovincias que natí po- 
dia6 eftar no dominio Quiritario , eQavaÕ no Bonitario 
com huma detenta^aâ pleniUima , que , pago o veãjgal , 
equivalia ao dominio : e tirados aifim fícárati vacillandò 
eotre a propriedade , e os ufofrutos fegundo as íuas na- 
turezas. Ora o tirar as devoluções eitendendo a nomeaçali 
legal , era reduzilos mais' ao direito da propriedade, e 
confequentemente ao Syílema. 

Creio que ifto » ainda que breriiTimo , baRa a indicar 
B utilidade ao Direito Romano principalmente do tempo 
cm que elle efteve na perfeiçaí! do feu Syflema j por- 
que como foi extenfiffimo , nos 'detalhes , a que ainda 
naí! pôde chegar nem o Direito Público , nem as outra^ 
Sciencias da Legislação , a elle he que he precifo recor- 
rer , para poder coníervar analogia : mas recorrer de 
lium modo que os princípios das outras Sciencias ítp.^ 
, çoniiderados , pois deiles he que poderemos tirar as 
máximas jurídicas ; que fendo iguaes ás do Direito 
Komano y eífe entaõ he que pôde guiar nos detalhes 
mais particulares. 

Tal pois. tem íldo , t he ainda a dependência do 
pixeito Koiaaao \ e Jkrla bem de defejar q.ae elle fe 



ic.byCooglc 



^í M « MO » í A I ■ T . • 

acabaflb ; porque iOb moltrava que tinhflinot Inim Co^> 
po de Leis completo , : e perfeitamente STftematico ; 
donde a Jurífprudencia achalfe as maxiitias , e princio 
pios para exercitar a arte da fua appUcap a6 aos nct 
gocioi. 



-. .. ,- . I 

.idteCoOglc j 



BB Lii"rEiijsrr*ir9ií-Po'JiVTQuEzA; 4i'ii 



jdtei^ci^ãiÈ-Inf^ip^fdÕ Lápídat^ \"que fé 'acha no Mof'^ 
■'/«« '-'àd"^Síiivadot de VoyraÕ ', df Reíigiafas Bèhe-'- 

■ ãiSiiHaí ,''no Sífpado do- Poríf ', 'e da pèHeRdfda atitt~ 
•• %ú>i{íde d» mefm» Mojteirá- f' ^iie diniueila ' h/crip^aif 

■ fit^m-^-pr oVutadò^ deduzir. <■ '■■'■ '■ ' ■ 

■ 'Jt^ ■4)pinH6' recebida', jique firzía' datar' dos fins do 
J^\_ Se*.' Vi-a- fundação 'do M,díteiío''de- yayraíS , me 

- ' : excittíii ■ I -cilndlidádé dc^atcríguai- as pfovas «m 
Qúe^ a''ifleftm bpirtiaô fe éftaBelecia.- Q meu Patrício 
Antoflio Cérqoeira' Pinto ,' Académico^ Supranunterario da . 
ÁcftíeitiiaReal da Hiííoria PòrtugUeza , que a iiiftenta 
em ambas as Obras (a) que drá ao Põblico , nos refere 
mè&nõ ' a^ origem defta perfualfaô' ,' de t^e fe declaroil 
Dtííeníbr. ■■'■ ■, ■ ■ '■■■ ^* ■ ■ 

■■'■"R«formafido-*fe a^celteirt) daquelle Moílelro no prin- 
cipio do Século paflado , fc encontraria' nos alicerfes do 
»efmo pitíco pedras, qiie occtrpaTa huma infcrip^aíS La-' 
iina'i-eícrita em duas regras , tf por bàixo -das quais fe 
açliafva- infculpida-huma eípada. HoUve O cuidado de aj 
cóJIòcar !»■ parede do noVo çelleiro > e modernamente 
o-deJcuido de ocáuitar -com humá nora "parede as ulti- 
aiíre- letras da meftna InfcHpfaô.' O Abbaác- de Biráraena 
Jãr007R)ó da- Cunhft cotnpoz em' 16^8. hum Tratada 
exteníb fobre a mefma InfcrípçatS , o qual confcgiiio vér 
António Cerqueira Pinto. Â mefma tranfcreveu também » 

■•X'^y ^t/^i áas^-Sifpõs W}'Ptàrt.*'Ai!ticÍonaá. Córoíl. ao 
Cap. )." da Part I. p; 8i, fSftifr', 4* Sàibot' dt M*ttmnb<ii 

%^:^^-^^^%^^- --'■ — 

D„K,db,G(50glC 



antes de 1690. , meu Patrício Fr. Manoel Pereira ie 
Novaes , Religioío BenediAiao , nas fuás Obns Mfcr., 
que hoje pofru.e o Mofteiro de Tibaens , (<i) e Fr. Leaá 
de S. Thomaz (k) í^almente recOiihe.ce ter noticia da 
inefina Infcrip^aÕ i cuja copia fendo remettida defeituoía 
no anno de i7z$* para « Real Acad«nia>da Hiftori% 
Fortugueza , teve o c\iÍdado de fazer tirar outra o Aça- 
demlco Cerqueira Pinto , pelo Capsllatí do niefmo Mof' 
leiro , enviando também as copias , fe^ndo a leitura 
do AUiade de Bitaraens , e Fr. Manoel Feteira de 
Novaes. 

Todas eftu cqpías cotfT^m ^ em &^r datar a 
' Infcripçaé da Er. 5-23. e fó difcordaô na intelligencia 

âa Sigla , que fa fegue á palavra Templum > £»zendo- 
le diffictúdade que no Sec. V. foíTe poi&vel çabir-fe no 
barbarismo áç eícrever Templum hanc , eícnipulo , que , 
naã tiveraã acerca das palavras fioaes Regnante.S^ei^f-- 
fimo Keremudo Rex , qae antes lhe deviaô fazer- faÇ-. 
peitar huma d«a mais moderna á meíraa Inlcripçaã^ 
Deite efcrupulo fe falvou o AcadeinicQ Cerqueira Finto> 
iònhando na roefraa Çigla as. p.aúv;rag. hf/ffjíj^ vita , 
com que melhor conleguio eftabelecer a opinião, da fttn? 
daçaó do lyloítetro , naqoelk pertendid^ Bpecha. . Ignoro 
^ual era a Eftado da m^íma Infcripçaô. ,. quando foi 
outras vezes copiada j porém fujTpf ito \ que a pequenat 
&1[3 que tem hpje a mefau np. kigar ai^e prinpipi» 
a Era , foi caufadá d% incúria de qi|e«i a colíocpu n% 
iua mudança > e daquí nakeu t^bçiQ a equivoca;ad d« 
quem depois a copiou.. Etla fe a^jià «fcrita em. Letraa 
Romanas ioiciaes coi|] baAantes Siglas, e mal Êgoiadas.^ 
porém nella fe eoccyura.aii^da hpjie çl4rAiQeQte.o£^iijite£ 



Exfm, II. dtlat Jgkn tMon0ttÍQí pag. 5$}. 



zedbyCoOglC 



faK tlTmtAttfRA Pdtf troUElA. ^SJ 

JV ngmine Dêmini perfeSlum efi Temp/um bunc ftr 

'. MarifpãUãm Dee va fu& àie XIIll. K. Jp. 

En. iXXIlL Regnante SereniJ^s Vtremu 

O refto de humã e outra regra que fe nota com os pontos 
fe naS pôde ao prefente ler , por fe achar eocnberto coní 
huma parede , que fecha o mefifto celleiro para a parte 
do Clauftto ; mas nati he acerca delias que rerfa a 
dúvMa. Quem encontrou aquella InfcripçaS com a falta 
no prífièipio da Era, (como me perfuaoo já aflim efta* 
ria ) , nafi achou coufa mais obvia y que julgar falta ft 
hafte que completava hum D. ; fem reflèclir na linha 
faorizontal que acompanha a mefma figura duvídofa na 
parte inferior > e que junta ao femicirculo que fe defco- 
bre Havia de formar hum- L. defta fórma 1. e valendo 
líincoerita , kt a data 7^. nad havendo coufa maia obvia 
íto Sec. XL que exprímh^fe a data incompleta , e fem 
fe declarar y mil. Nada porém pôde tirar melhor a dúvida- 
due a Epocha do Reinado ae Veremudo IIL .0 qual 
Hibindo ao ThrOno de Leatf na Era de 1065*. morreu 
âá Er. 107;. vindo aflim a cahir juftamente no feu 
Reinado a Era de 1073. que na InfcrlpçaÓ fe diviza , e 
poupando-fe a frívola conjeiílura do Acadeihico Cerqueira 
Pinto , de que o Vermudo , de que faz piençaO efta 
InfcripçalS , he hum Rei Suevo Ariano , de que natf 
remos noticia , e a de Novaes que penfa fe deve ler : 
lUmifmtfnio. 

Entendida aflim efta Infcripçatf , nada mais fe pdde 
delia deduíir , que a íundaçaí de hum Templo no 
Sec. XI. feita por Marifpalla Deo Vota , e por tanto 
nafi fica improvável o teftemunho do Conde D. t*edro 
jío feu NoWÍiário, (j) que attribut á fundação do Mof- 
teiro de VájfraJí a D. Touriz Sarna , ou Sema , cuja 
epimaÒ^ íègaio o A. da Benediftin» Lufitana no lugaf 

Cii) Ediçaó de Lavan Titi IV. in ^r. fUw. »*8." 

'■, Hhh ii 1 cita- 



Izc.byCoOglC 



^H ■ ■ -W^S.VXíM A* ■. v • ■■■- 

citado: iem que prec^femos ,bufcar a.CQticíIla^tS.do Aca^ 
'demicò Cerqueira" Pinto , qúe alliicinaiiopefaTrircnpçaà , 
iUpppz aqufdlê Kidãlgo .reediiicador. do melbio Mofleiro. 
O que ainda £s -póde.cpipbinit com a data da Er. 'IJ48. 
que o inermó Fr. Leatí de S. Thomaz llie aflina , e 
com a Bulj^4«; Calixto.. IL.dç, An.;' J{20.^ '(«;) -píNs jí 
não rçfltigna,a,qiíe q ftldfteirò/^e^^fVri*»? , '.dé, quç.rew 
Íaz menç,aÕ PQ BiJ'p^do do .Porto .» .íéja^o méínip-;,dç 
"Vayiaó-, qMé.dã,de!^;an^Qs eftava fui^dada » iq^aI)do n<f; nieÍT 
IRO Breve. íe AaQ;dçclarí , feosiMofteiiW.ahí^riíoijieadpSL 
eraó fundadosia muito,,, ou pouco ,tetnpo , co^o errada- 
mente- a^firma rí> j.Açade(ni<;o,,P(ntg;. :„; o ; , , 1 
, -, C^; repetido? inçendiqsq^e t^tn foffriíioiaíjUçlleMiof-, 
teiro he taive^ .a ^Ç^uf?: de .^qçjle 'Fia6 lè. entontrarciQ. 
monunientos mais .^rpecifíco^ 4^ It^a. Futida^ád ,:,^ anú-, 
guidade. Poi?^ ainda qije nellg fc, qonfervem.treg Efcritu- 
ras dp S.ec. X, > (í) erq ncnhunift deUas ,fc ,&z. aiçdâ. 
mençaõ . dc^ mçjfiqv»- Morteiro. Send* a. mais aíifiga, » em^ 
que p ipefíiio' figura , datada ^aos.S.. das;Kai.,die Guwbro. 
da Ér. ipJ9,. ,. na qual íe ^paõ. .çerto$, ben^ iítiiadps j» 
vj/ia letiéii . . . . . acijierh, valeri Ju^iu;s cpjlr^- de j^svfi 
território pertugalenfis .dijcuff^^.ii.Tivulh.ave ..... Çt 
ad fratres, et, Jorere^ qfti U>i .hafiitu/ifef jjteiriitt, &'c. 
O tliepr defta- Efcriptura faz enfVar çm, duvida ,,.fe p, 
Molieiro .nefte tempo era. duple*:» oa ta0 fomente de 
Monges , e efta dúvida piais te, confirpia , pelo thepr dá, 
Éfcritura qiw no mefrao Ç^tprio^:fe;,IV ,i^&i^ H^ ami- 
guidade : data efia "de f. das Kalend. de Julh. da j$í. H02- 
feiído 0;fe« aíTumpto j.ljum.çofitraâo.^nçrs trep PrBsby- 
tsFos para partirem igualmçoíç, q$ reçjitos da l!gr?j^.de 
S.Martipho de^Ve/njudi', ç fupprireflj.mutuamtflte os 
ipipedimentos de cada hum , cuja Igreja dizem ter-Ihes 
dado D. .Palia , e Gonçalo Abbade ejsito no Molleird 
4e ValeiraiD fabjubfio Sifiaando Epifiopo - reconhecejido y 

'^(,a) .CataLdosàiffQsâíiJPj>no.P..l\.CtD,A. ' - 

gue 

DgitizedbyGotlglC 



DE LlTT*Il»A«'»Il'A:FoHf VGTTEIA. ^ij " 

^iiefaà'>affi!rta8 'da'TnéAiía igreja 'éoiCljr^fT^SSrMB úe-.Mõ* 
■nacos t '>e naÔ ie.&llanda em toda ella^de KeiigJoraF^ 
igualmente hunja 'Dosçafi datada dos ;.> dos Idos de> 
Dezenibro da Er. .ii48.'fe .diz feita ariJleriA 'Vale* 
ria ...i. et ad fratres et farores et ad. ckrich quf 
&r0«f jiíerint £t mta fanBa ferfeveravèrinr ^c, Hama- 
Carta de iVéndar; datada , de 'i6. .das KaL de Novembro 
da EniiJí64. ,he feita a D. -Lerira AbbádelTa ePadfue- 
íejfhrrs vtjlros frqtrer vel forores qiii in^ipfo monajlerh 
<& valeriane bãbitaverint Ò'c.' As- mefmasiicxpreflbes fe 
achad ein huma DoaçaÕ. de 3< das Non.de Julh. 
Er.Mi^ví;em. outra das Non,- .de'' Abr. Er. 11^7-^; e em 
ioiitrai do mè2).de Março .£r; 'I152.. "Forem em huma' 
Carta de. Veadâi feita pdahAbbadeíTa do mefino MoAeiro 
aos ^t: das £ãl. de. .Março da. Er. iiSo. , em que à 
jucfmájfe intitula 'Abbatiffm numafterii Vakiriavenjlrx- 
como iguàímfenw^na Dcaçaá -do: Senhor Ú.' -ÃSoTtío 
tJcoriaiieS' feita. ao. me fmo Mofteiròv, e á fua Abbadeíía 
£)• .GelrJra Toerei.>i ^enmetade da Igreja de -S. Eftevad 
)K)« 9.>das..Kali de Juuho-'da. Er.. 1J.S1. ; na Garta d«. 
Couto y. feita.ao merino .Mofteico ,pelò meímo .Senhor 
405 .5^. dàs^..Kal. 'de,AbriJ'd8.ETstii^9.-; na Carta dé^ 
Efuambo feUá: péJa ■ Abbadeflii. .D. Ermelinda Mendez 
aos 9. das Kál. d-e Fevereiro dá Er. 1191. de certos 
bens em que. e_ntcara , huma'' herdade ^tc^ j^<i»j7iuV dona 
^«f^^-I.OBtiodas.fe faS: fá meiíçaã de Ileligiofas^ e naã 
de Monges,: taiitò «^uenefta ultimá-fe àii : , Ege Brmejiftda 
mekendhi ahbatijla- mna pàriter ct/m fororitui méis et- 
h$redi^US Wfíf ..CTí^iDo; que. venho a conjeftúrar , quô- 
as^cIauAilas daqqelh doaçaS éraÓ de formulanio ^ e naÔ 
JiippÔem ncceluriamenteJMofteiro. duplex ■,' e antes julgára< 
ter fido .0 Moíteiror .pFÍaieii)aineiri» dé;:Mai)ges ,: e que" 
depois paíráia>a/er :dc'Eebgioías* 
.' ' Combinadas as datas de todas 'eftas Efbríturaa com 
a opinião de -Fr. LteaÔ- da Sj Tfeomaz', á<i£rca da. Ftin- 
daçag defte;Mofteifo na Er.. de 1148. ffe vê clarameme, 
gu« <eiU'-Xé a4(í.jp9Íde'fu%àtar',. viâo ^úe à^quelláfi já' 



.|,lzcc;byCA>Oglc 



42Í M I ta o 1 1 A t 

figura o mefmo Mofteiro , oa folTe duplex, oa frffflenti 
de Mouges pela Er. de 1059. e X102. : defcndo-fe por 
tanto attribuir a fua fuodajafi, aonietioB, ao principio do 
Sec. XI. , na6 repugnando , que a Fr. Lea6 de S. Thoinaz 
^ItafTci]] noticias itidiriduaes ao meOno reTpeito i porque 
achando-fe cotados naqueile Cartório todos os Pergami^ 
ohos pofteríores ao Sec. XL , com o refuoio do feu 
aíTumpto , achei íntaftoi os maia antigos , e juntos em 
iium Maço com o titulo de imiteis , colorando talrez 
afltm quem manejou aquelle Cartório a fua imperícia da 
Letra Gothica , e mais antiga. 

Quem fofle a Marirpalla , que da Infcrípçati fe 
moftra fer fundadora daquella Igreja, por &lta de Docu- 
mentos efpecificos devo confcíTar aue ignoro. Em humá 
Efcritura datada de 9. das Kai. de Março da Er. 
de 935'. que pertencia ao antigo Moâeiro de Pedrofo , 
e que ao prefente fe acha no Cartório da Fazenda d^ 
Unirerfídade de Coimbra , figura Enderquina Palia coiii 
feu Marido Gondeiindo , como fundadores dos Mofteíroé 
de S. Miguel de Acibeto , S. Eulália de Sar^aneto , e 
S. Pedro de Dldes > e fe diz fer a mefma Enderquina 
Fala > filha de Ditx Menenáus gutierisu , e de Brwejinâa 
Irman da Rainha D. Gelvira mulher d^ElRei Ordenho, 
e Mal do Príncipe D. Ramiro : fendo a mefma Enderquins 
Pala nad íó illuftre em Nobreza , mas até opulenta em 
bens , como moftra6 as amplas Doaçãei , que fizera^ 
aos Mofteiros que fundáraâ , fem prejuízo oa legitima 
de quatro filhos que tireratf , reftando por fua morte 
a feu marido , depois de dar partilha aos filhos , com- 
que o mefmo e fua filha Âdofinda fundaíTem , e dotafiem 
os Mofteiros de S. Maria de Abientes , e S. Salvador de 
Labra : o que tudo confta da mefma Efcritura.' Outraff 
da Er. 969. , aliás 999. e Er. 1014. em qiie outrs 
Enderquina Pala também foúra , tranfcreveu do LHfrdoa 
Teftamentos de LorvaA Fr. Manoel da Rocha no feiF 
Portugal ReMafeião pag. 39. e 41. No Âppendíc« 2.^ 
do T. XXU. da Bffanb, Sagrad. de, Ftorez figutt tcq^ 

huma 



DE LlTTXR,Ar*'llVV FORÍVQVEZA. ^27 

h\itáa Efcrínirá &11» filha ' dè Nono Suario ,- r Irmã dt 
Suario e Gelvira da Er. 115:0. j.** Non. Sepi. No 
Cartório da Untrerfidwle figura Indtrquina Rtta com 
fua filha Vivili em Carta dos 6. das KaI. d'Agofla 
Er. iioi. E Pala filha de Tru(flcfindo e Ibdonfa em 
outra de 7. das Kal. de Junh. Er. iiix. Delia família 
feria talvez a Marlspalla fundadora daquelle Templo , 
e da mefma feria também D. Pala , Confej/a , De» votm 

Sue figura em huma Efcrítura de Compra que fez em 
tutubro da Er. 1148. > a qual fe conferva no Cartor. 
^o Mofléiro , a mefma que fe diz ter dado com o 
Abbade Eleito de VayraÔ na Er. 1 102. a Igreja dft 
5. Martiaho de Vermudi aos três FreslT^iems-v e que fe 
affirma ter ganhado certa herdade que pofiuía o Mofteiro, 
c trocou ua £r< ''$'* 

Que efta. D. nila folTe Religiofa do mefmo MoC> 
tciro afláz o declara o titulo de Cmfeffà > com que a 
Qualifica a Efcríti^ra da Er.: 1148. ^ porém o mefmo 
Je m6 pode affirmar da. Marifpalla Fundadora do Templo , 
»oF fer bem ordinário naquelle Seculo' o intimiarem-fe 
J)eo Votas aquellás ^efmas ;, que ie acha^ fazenda 
Doaçâes., e outros comraiílos joAtamente com feus ma-- 
ridos : da que ofiérecem repetidas provas «s Cartório» 
defte Rejrno. ■ . 

He porém facíJ conyihfrar , quq á D. Palia relt< 
£Íofa deáe Mofteira fccia fita- da Fundadora^ do Tem* 
0IO , .o> que. concorda com. as^datas era que huma e etitrar 
figura na loícrip^atí , e nas Efcrituras do Cartório da 
liofteiro: ^ mas '.pceí/riíidindo da authorídade do Conde 
!>'. Fedro , fe nao ppd^erá dizer ao amo íè D^ Touriz 
Sarna ^ que elie di ippr Fundador defte Mofteiro , o fo/^ 
^a reatidade , oU. feia. Marif))alla Fundadora- do Xem-^ 
pio, o. fojr> também do. Mofteiro.^ 

Sendo certo » que os defcendentes dos Fundadores 
eonferyavaô certos direitos nos Mofteiros de que fe 
^itulavAlí natttrMsy jpela genealogia dos ^ue fe quali* 
-:. ;■) fica- 



.byCA>Oglc 



rãcehiió .MAcémeduras :y- ^peufadias'^ cjpvãíikrias ^ -eafui 

algumas luzeá neíbe affumpto.»:' ' u.. iíji/ :..'..'y\ \> 
> ' Os Docununtos ornais efpeciíficos 4 't\\xz. eziftâtn nsA 
quelle ^ Cartor. .a: rerpeito.dc^ fdusPiídnxtiros j''faâ"(w 
fegiuntes': Em; a. de Juih. da Er.' iijòS. ^r(ife«o'Sentençá> 
em Guimarães jpAÔ Eanes dé MarvaÕ ÍlDrt-e;gedori ontre 
Douro. e A.ve-,. contra D. Gaioraas filha deJoati.JVJJindes 
de. Briteiros ^ poi'ier íúto fi>bfjidom~cgntr*io':de'gredi^ 
no ^DÍteíro de Va/raã > eixu Couto, kia4a ahí polifar, 
e comera i: .r,;' ..' '■. r , lii. . . l '- f^:"- M .v.;.' 

Em jo i." de.DezembR):.da£r;'i^7>^piio&ík>-Sen- 
tfRfa:o Juiz da Maja, (,por-áaâ haver~«ata6 MeiriíUto 
mór , nem Corregedor na Comarca) cóiit» Joo^.^ie 
Saiidiy.e Goncàla .dè Saiidi Efcudêiros'^, que pedílido á 
Abbadeça.jde.Va7ra6 .as .fuás traujfaçdni- y « oando^JhaS 
de Ef£ud£Íros ,' e oaã de In£inçoens:j<!comD pertendiatfiy 
tinbaS .feito, tomadiai. de jugádaí',r,B dineítDs:ÁO'iCoutto 
do Maíl«iro.; Ekn 2z.jde;,0ezembnaida'.Er, i^74.irãcebea 
Gonçalo Anez^ ,-Jc feuifílho Dio^ GaiiMtves-'-4* livfas^ 
e Álvaro Gonçalves :^-.'iSoídos y^^a,.ít ihe (ieriaO-da 
hiA MOMjfaçaÕ^^ eorofí nxtaxast defio' Mofteipo. >'. : ■' 

Em 19. de Alayo da Er. 1404. receheiii'dd'-Abp£> 
t^ifo dé "Va^/aé João. Anel. ^' em nmnetde.iba^fliulber 
IX Margarbdd . de. Souza , .le ifoa. Fílfah-.XL Beatriz nJe 
Viila Real :, 3 trau/façem.àiA aomãdíánByi^e xuikaA no 
aacfmor .Moftetro. .■ -...'". ir.i : , h:\, ':,.:<- 2u ;n. . . 
■ .' . Do.-que.âcáiexpoflo.ife colhe. ^' que feiTdo;ii)òeita-4. 
Epoclin da Fundação defte.Molteiíbi/^eideinBtituiiQiiif&ma- 
a,-da iB.r''ji^- <iae Se. lihé.attrihueiy jisxom tudniaiiteiioc 
i.JEra de iJ48.-qiie Jhe:a0iha J'r,uLea6ule, Si^^homaz^ 
i vida dos Documentos, ^expendidos : ^ .ficasda.-. iempiie. 
incerto quem foíTe o Seu Primeiro Fundador. 
-■-f:'-- ' ^n ;Ií ■ :.,•.■;.;.. .-:'s -")■;";) , oí-./j ctr.'/Â 
;■. ;-(p -j ••.:-..^.-', ff-".! 8.!^:Ui Jir.' ui.vr,7i3::: ::^ 
•.■Í.-.> .',■ .■■-.'.. .j,í i ',,;Ú3ii. -. iiiJí ; -■i" «Ws ò.iVi-"'!''^^!- 

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fa£hira do aiAtte cm Forttfg^ remeittãiH á Acade- 
mia, poí ]oaé Afltmi* DaU»B«(Ia « Soc)« àt meí- 
ma í i.;yal, 4,'> **,-----«-_ ^ ^^ - 489 

IIL Memora fobrc 3 G»hará d» eliyciías em P6nu- 
gal lemeickla i A«a«kmia t«l« nicffno AufhM, u 
«1. ♦,* "..-*. í ... 4^0 

IV. Memoriai <le Agrícvltun ^drtiiaJas peli Ac«l«infa , 

I. yoK Ô/ -..-.-*.j4^-i- fitío 

V. Fechai» Jsfefhi MeUit Pieirií Híftdri* }aris C>*>- 

lis Liilitani Libw flngilUrís , l. t61. 4°. >.--•■ (40 

VI. E^usdsm inftitutmrtet htri» Ctvitít i ec C^MitlalEs ' 
LaGtáni » <. vol. 4.° - . -- - ..-- - - 1400 

ttí. Òfinta TngAlia etfròáda pela Acadfiirtíit , í<*h. 4." 240 

VIU. Vida d» InfaiiM D. I>iime per André de R.<^ 
2enáe|- fb/i. 8," .-_../-..-*-. tfio 

ZX. ye^j^ da LÃigu» AaKc* cm Poníigat « ev to- 
xicon ^ymologko daa palarra», tf nonMs PóftaeiM^ 
sn , qpe lem origem Arábica , eompofto -foi oraVM 
^a Academia p* F». Joa» de" Sob^ , i/vrt. 4/* - *- 4* 

X. DoHiiifici VaAdelIi Virídarimn GrfBtey Laíimiictim 
LintHMíii) nominibu» illàftibciMn V >■ vof. 8.' ■* - - '0° 

XIr Ephemerides Niiuiiea» » ou Diarte AArõAomíco' jM- 
rt o MA* de Í789 calduladik ^art a nveTidiaiM de 
Msboa, cfobtioado poi' oildei* dal AfCtldevnii ^ i. voK 

4.* \. .:..-'-*.. ^ .--•-- ^ 1^ 

o melm» fan todba d» attw^' fe^tú^n «^ »^. ía- 

cIaltvammRev^ 
XII- Sfemoriat Económicas da Academia Real das 

£àea«i« iJe Liitw pua a adianiamento da Agticul* 



.Cooglc 



quiftas , ;. V«!. V* '* '- -*— ^ -^ "- -< ' - - 3400 

XIIl. Collecçáo de Livros inéditos de Hiftoria Porragne- 
za dos B.einados dos Senlíoces' Reys D. Joaõ 1. , D, 
D>urte, a AflbnfoV;, c O. }oa« 1^. T.:vei M. 5400 

Xiy. Avlfos interedances fobre as mortes apparentes 
mandados recopilar por ordem da Academia .^ij/í,. 3-?, ^ ^r^ 

XV. Tratado de Educação Fylka pant lifo d* Nacaõ Por- ^ ' ■ 
tugueza publicado pot oraem da Academia .^eal ^%, :\ 
Scicncias por Francifco de Mello Franco i <;òtreqx)a- 
deiite da me/m*, i, vol. 4.° - - - - — ■— ?^' 

XV i. Documentos Arábicos da Híftoria Poiragaeza co- 
piados dos oríginaes da Torre do Tombo com. pemaír-f 
iaó de S. MazeOade ,■ e venidos em Pontíguez ■'pc*'-' ■'■ 
ordem da Academia pelo feu Corterpondínte Fr. "itíà^ ■ 
rdeSoufa, i-. vol. 4." --..-.- .^ ., _ ■ .. 1 .^-yi -^Qa 

XVÍI. Obírcvaçées Mtn m principaoí canfas da dee»-' ■ ' 
dencia dAs Pomigaezes na Afia efcriías per Diogo dè 
Coiito em forma de Dialogo, com o timlo de^JW-- 
dado Pratico f publicadas de ordem da Acaaemii'Réal/ ■ 
das Sciencias de Lisboa pór AniMuo Caetano do Ama-*'^ ■ • 
ral , Sócio EflciVivo da mefma , i. »m, íit R^Tíia?. 480 

■XVIír. Flora -CochinchinenfK fiftcns Plantas in Regno' ., 
Cocbinchjna nafccntes. Quibus aecedUm ali« òbTer- - 

- vai« in Sinenfi Império , Africa Orientali , índise- * 
que locis vaçiia. Laboire ac ftudio Joannig de Loureiro ■ ' 
Reeix Scientiarum Academí» Ulyflipôhetifis SociW ■ 
JulTu Aíad.;R. Scie«t. ia'liic«Ti e*ta; 2, Vol.7« i;*' ' ' 
irtai. ..... ■ r ■■--■'.'-.■ '^-.i^ 

XIX. SyrwpJis Chronologici de Sabfidios ainda' os tna^s * 
mos para a, Hiftoria , e Eftudo critico dá Legislação - ' 
Portugueza, mandada publicar pek Academia Real dai 
^aeoaasi, « ordenada por ]oft Anaftífid dt Fi^gudre-' ■ ■- 
do » Gorrefpõndcnce do Número dn meíma Àcat&mia'i- ' ■ 

í. yol. ■4.°-. -'.V,-^ .w ,■ ,_ -■ . V ■ i ■. .i. :_ , iBíx» 

ífeX. Tratado dfr Educação Fyfica para iffi>,'da Naçaé ■ * 
,, loriBgueza publicado por ordem da Acadeníia Real- ■ 
<.,í!as.Sactw:ias por Francifco Jofé de Almeidi , Cor- 

re)p*ndence da mefnaa, i, vol.. 4." - -- i - -- . " jtó 
XXt.Obm Poéticas de fedro .de Andraáe^ateiíilia^ ' 
v.vÇ!?.^**^" ''* **^"" da Academia, ». Volí^-ft*- ^ -' éoa 
*2>.n. Advertências fobre os «bafo», e- legicmioufo da* 
Agojs M.ineraes das Caldai d» Rainha , faublitãdaí dé 
«icitt da Acadeniia Real dai Scicncias" ^r-FunciÇ' ' 



Cg.lzccbyCioOglc 



vo Tivarea, Socio Lirte 9a tneTai Ãciàtíiattl foíb. 

4." ----- Ilò 

XXIII. Memorias ie Lineiatura Ponnsneza , 6. vol. 4." 4800 
XXiV. Fontes Próximas do Código Filippino por Joa- 
quim lofé Ferreira Gordo , Coirerpondente da Acade- 
mia , I. vol. 4."-...-------. 400 

XXV. Diccionario da Lingoa Poriugueza , i.** vol. Jel. 
mai. -" .--- 480Q 

XXVI. Compendio dá Theorica dos Limites , ou In- 
troducçáo ao Methodo das Fluxóes por Francisco de 
Boiia Garção Stockler> Sócio da Academia. - - - 340 

XXVII. Eniaio Económico fobre oCommercio de Por- 
tugal , e Aias Colónias , offerecido ao Piincipe do 
Brazil N. S. , e publicado de ordem da Academia 
RcjI das Sdencias pelo Teu Sócio Jozé Joaquim da Cu* 

nha de Azeredo Coutinho. --------- 480 

XXVIII. Tntido de Agrimenfnra por Eftevaó Cabral , 
Sócio da Academia , em 8,** ■------. 240 

XXIX. Analyfe Chímica da Agoa das Caldas por Gui- 
lherme Witheiing , cm Portuguez e Inglez - - - 240> 

£Jiao dthaixo do fréh as ftguinus: 

AíUs , e Memorias da Academia Real das Sciencias. i." p 

1." vol. 
Taboadas Perpéiuaa Aftroncnnicas paia ofo da Nave^afaÓ 

Portugueza. 
Memorias Económicas a-" vol. 
Memorias para feivif-á Hiftoría das Nações TTItramarinai , que 

vivem nos Domínios Portugne2Cs , eu lhes saô visínhas. 
Princípios de TafUca Naval. 

yendem-fe tm Lisboa na loja At Bermndj t et» Coinbca>» 
9 na Peno tamhtm feloi mefnws gue^as^ 



iizcJbiCooglc 



D,i.,i.db,CoOglc 



índice 

, D AS 

k EMO R I A Sj 

Qae fc côntóm nefte Quinto Tomo. 



E, 



í NSAIO Jòère a Filologia Portuguesa por meio tio 
exame e comparação da Locução e EJlHo dos noffos 
mais injignes Poetas , que florecêraÕ no feculo XV^I. 
por Antoííio das Nives Pereira . . - pag. i. 

CONTINUACJAO do ensaio critico Johre qual 
feja o ufo prudente das palavras , de que Je fervt- 
raS_ os noffos bons Efcritores do Século XJ^» e XVI\ 
e deixarão efqaecer os que depois fe Jeguíraõ até ao 
prefente , pelo mefmo ..--.--- lyi, 

OBSÉQUIOS Devidos d Memoria de bum refpei- 
tavel Monarca y e aos créditos de hum VajfaUo o 
mais benemérito , por José' Joaqvim Soares de Bak- 
Ros -------------- 253. 

MEMORIA febre as ruínas do Mojleiro de Ceftro de 
Avelããs , e do Monumento , e Infcripçaõ Lapidar , 
que fe acha na Capella mór da antiga Igreja do mef- 
mo Mojleiro , por Francisco Xavier Ribeiro de 
S. Paio - -,.. 258. 

MEM. fobre a Hijloria das Marinhas de Portugal , 
por Constantino Botelho de Lacerda Lobo 264. 

MEM. fobre os Códices Manufcritos , e Cartório do Real 
Mojleiro de Alcobaça , por Fb. Joaquim de Santo 
Agostinho ----.------- 297. 

MEM. de quatro InfcripçSes Arábicas com fuás íra~ 
ducçõesj pelo P. Fr. Joa6 de Sousa - - - 363. 

MEM. ao Programma y Qual feja aEpochajixa da in- 
troducçaÕ áo Direito Romano em Portugal ^ e o gr da 

de 



zedbyGoOglC 



I N D I C B. 

Ãe aatboriâaãe que elle teve nos diverfos tempes , por 
Thohaz Antowio de Villa-Nova Poktuqai. 377, 
21£M. acerca da InscripfaS Lapidar , que fe acba na 
Mefteiro da Sahador de VayraS de Refigiofas Be- 
neditinas no Bifpado do Porto , e da pertendids 
antiguidade do mejmo Mofteiro , que daqueUa Infirt- 
fgaSJè tem procurado deduzir y por Joa6 Pedro Ri- 
BIUO -----:-■!-*---- 411, 



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