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Full text of "Memorias históricas brazileiras, 1500-1837"

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MKMOKIAS HISTÓRICAS BRAZILHIRAS 



(Tia 



CAPITULO XXII 



Guerra da independência da Bahia. Assalto ao convento 

DA Lapa. Junta de defesa na Cachoeira. General V. Lahatut. 

Combate do Cabrito. 

João das Bottas. Maria Quitéria. Combates em Itaparica. 

Entrada do exercito libertador na Bahia. 

A CoLUMNA 2 de Julho. O ultimo veterano — 1822-1823 



a 



fe^ABE-NOS agora a tarefa de relatar a guerra que os 
bahianos travaram em favor da independência de sua pro- 
vincia, e com prazer a desempenhamos, porque recordar os 
acontecimentos de tão agitada epocha equivale offerecer ás 
novas gerações exemplos de coragem patriótica. 

É seguindo as licções civicas legadas por seus grandes 
homens — na dignidade moral, na altivez de principios, na 
comprehensào e defesa de seus direitos, na lucta sem tréguas 
contra a prepotência e contra o servilismo — que um povo 
aflirma, de modo digno, a sua existência, honrando a civili- 
sação. 

Reler paginas palpitantes ainda doesse enthusiasmo sa- 
grado que levantou a Bahia, como um só liomem, para 
constituir-se livre; trazer a publico, á serena luz da verdade. 



MEMORIAS BRAZILEIRAS 



tantas e tão porfiadas luctas, cantadas de modo eloquente por 
seus poetas inspirados; apontar á mocidade os logares que 
foram salpicados de generoso sangue e por onde passaram, 
sobranceiros aos soflfrimentos, bravos que sabiam desenvolver, 
como os beróes de Homero, valor quasi sobrehumano em 
seus combates ; procurar no estylo tintas capazes de restaurar 
o vasto e movimentado scenario, tornando-o digno da publica 
apreciação pela fidelidade descri ptiva: eis o attraliente estudo 
que n'este momento captiva toda a nossa curiosidade histórica. 
No espontâneo apostolado de que se investiu, sem outra 
preoccupação que a de prestar um pequeno serviço á pátria, 
o escriptor doestas Memorias^ ao tratar da guerra bahiana, 
experimenta legitima satisfação sob todas as grandes diffi- 
culdades do trabalho, como aquelle tritão venturoso que 
ao conduzir triumphahnente sobre os hombros a fascinadora 
deusa da belleza e das graças, não lhe sentia o peso. 

De soberbo com carga tão formosa ( » ). 

A 15 de Fevereiro de 1822 o navio Leopoldina^ que servia 
de correio, trouxe de Lisboa a carta regia de 9 de Dezembro 
do anno anterior, que nomeava o general Ignacio Luiz Ma- 
deira de Mello para o cargo de governador das armas da 
Bahia, logar occupado pelo brigadeiro Manoel Pedro de 
Freitas Guimarães. 

A 16 mandou Madeira apresentar o seu titulo ao corpo 



( I ) I^uiz DE Camões : Os Luziadas^ cant. II, est. XXI. 



CAPITUIX> XXII 



municipal, para lhe ser dada a posse; na sala das sessões 
achavain-se presentes só um vereador e o procurador, que 
deitaram o Cumpra-se na carta e o não assignaram, por 
advertência do escrivão, visto não terem comparecido os 
demais membros da camará. 

Maguado com esta desconsideração, o general portuguez 
convocou logo um conselho militar dos commandantes dos 
corpos de i.* e 2.* linha, a titulo de serviço publico; pergun- 
tando a cada um si lhe reconhecia o caracter de governador 
das armas e obtendo resposta aíRnnativa, fez com que todos 
assignassení um termo de obediência ás suas ordens. 

Esta attitude determinou a divisão das tropas em duas 
facções ou partidos: pronunciaram-se a favor do brigadeiro 
Manoel Pedro o i.° regimento de infanteria, artilheria e 
legião de caçadores, e de Madeira a tropa luzitana e o esqua- 
drão de cavallaria da cidade. 

Nas noites de i6 e 17 de Fevereiro conservaram-se de 
promptidão as forças de ambas as partes, dispostas a lançar-se 
uma contra outra. 

No dia 18 a junta governativa officiou ao brigadeiro 
Manoel Pedro que mantivesse em obediência a tropa, e á 
camará para que nada decidisse acerca das faltas contidas 
no diploma do novo governador, sem que primeiro lh'as 
apresentasse, para que, submettido o caso a um conselho 
composto das corporações e cidadãos mais respeitáveis da 
cidade, fossem tomadas medidas asseguradoras da salvação 
da província. 



MEMORIAS BRAZILEIRAS 



A i8 de Fevereiro uma grande representação, assignada 
por 421 pessoas, subiu, nos seguintes termos, á consideração 
da camará: « Illustrissimo senado da camará. — Os habitantes 
d*esta cidade abaixo assignados, e, por meio doestes, os habi- 
tantes de toda a provincia, cujos sentimentos patrióticos têm 
sido sobejamente declarados na presente epocha, tomando 
por base d'elles a causa da constituição e firmissima união 
de Portuga], Brazil e Algarves, em uma só familia, julgam 
de seu dever levar a V. S. o seguinte. T)e ninguém foram 
desconhecidos os denodados esforços do muito digno senhor 
brigadeiro Manoel Pedro de Freitas Guimarães, no memo- 
rando dia 10 de Fevereiro, devendo-se-lhe com justiça attri- 
buir, e inteiramente, a regeneração doesta provincia. De 
ninguém são, pelo mesmo modo, desconhecidas as virtudes 
militares e civis doeste homem extraordinário: pelo que, certos 
nós de que do commando das armas depende em grande 
parte o goso da liberdade civil ou a escravidão, segundo 
forem liberaes ou despóticas as instruções d^aquelle a quem fôr 
confiado, principalmente havendo-se estabelecido no decreto 
do i.° de Outubro do anuo passado que o governador das 
armas só seria responsável ás cortes e a El-Rei, ficando pòr 
isso mesmo senhor absoluto em s!ias deliberações: não duvi- 
damos, amparados com o art. XIV das bases juradas, recla- 
mar e pedir a V. S. haja de não conferir, por ora, a posse 
do governo das armas ao brigadeiro Ignacio Luiz Madeira 
de Mello, e sim fazer patente este negocio a todas as camarás 
da provincia, a fim de que estas, conformando-se com o pare- 



CAPITULO XXÍI 



cer e vontade dos povos, dêem os seus accordos, os quaes 
V. S. levará ao conlieciínento do soberano congresso, para 
que, novamente, tomando em sua alta e profunda conside- 
ração, delibere o que for melhor. E offerecem esta por 
embargos, como fica ponderado, para serem decididos pelas 
soberanas cortes, e receberão mercê. » 

Para não dar execução á carta regia, a camará representou 
á junta sobre o não ter sido esse documento registado em 
Lisboa na contadoria geral. 

Sob tal pretexto, convocou a junta um conselho de 
auctoridades, corporações e vários cidadãos. Depois de largo 
debate, decidiu a maioria que, para se evitar a guerra, fosse 
o governo militar entregue a uma junta, composta de sete 
membros, de que fizessem parte as duas auctoridades litigantes, 
quatro cidadãos por ellas escolhidos e um tirado á sorte. 
A junta militar, assim constituida, funccionaria até que de 
Portugal viessem novas decisões. Com esta deliberação não 
se conformaram numerosos portuguezes presentes á reunião. 

Começou a cidade a apresentar aspecto bellicoso: senti- 
nellas, guardas-avançadas, vedetas occupavam as ruas. 

No mesmo dia i8 sahiram da fortaleza de S. Pedro e do 
quartel da legião de caça,dores em Santo António da Mouraria 
grandes piquetes que se postaram com duas peças de artilheria 
nas immediações do quartel do 12.^ batalhão, cm S. Bento; 
para impedir a hostilidade doestas forças, determinou o gene- 
ral Madeira que outros piquetes marchassem d^aquelle quartel, 
conscrvando-se fronteiras as sentinellas avançadas de ambos; 



MHMOkIAS BRAZILEIRAS 



n'essa occasião um dos piquetes da fortaleza de S. Pedro 
disparou dois tiros, que foram correspoudidos por outros do 
I2.° batalhão. 

 vista doestas hostilidades, o general ordenou ao capitão 
de engenheiros José Feliciano da Silva Costa fosse levar ao 
conhecimento da junta os factos occorridos e a declaração 
de que se não responsabilizava pelas consequências da revo- 
lução que começava. Para chegar a uma conciliação ofl&ciou 
a junta ao general Madeira, convidando-o e a seus officiaes 
a reunirem-se em palácio; porém o official portuguez, sem 
attender á solicitação, preferiu fazer-se acompanhar de seus 
ajudantes de ordens, soldados, marinheiros, uma guarda do 
esquadrão de cavallaria, e foi visitar os quartéis dos corpos 
sujeitos ás suas ordens; pelo caminho a plebe que o seguia, 
ao passar pela praça de palácio, deu gritos àt/ora a camará ! 
morra Manoel Pedro ! 

No dia 19 ouviram-se tiros de fuzil na rua do Rosário 
do João Pereira (hoje do conselheiro Pedro Luiz): formou-se 
logo o 12.° batalhão e sabendo-se que as guardas avançadas 
do regimento de artilheria haviam rompido fogo, marchou 
para a praça da Piedade o tenente-coronel Francisco José 
Pereira, com parte d'aquelle batalhão, conseguindo depois 
apoderar-se de duas peças, uma collocada defronte da egrqja 
do Rosário e a outra em frente do convento das Mercês. Ahi 
postou-se, obrigando, pela fuzilaria, os seus contrários a reco- 
Iherem-se á fortaleza de S. Pedro. Pouco tempo manteve-se 
em tal posição: viu-se desalojado pelo nutrido fogo de 



CAPITULO XXII 



mosquetaria e artilheria, partido do trem dos Afflictos. 
O tenente-coronel fez avançar para este ponto uma peça de 
artilheria, e atacou o trem, que foi desoccupado, indo a guar- 
nição pára a fortaleza, tendo abandonado três peças; conti- 
nuou forte tiroteio pelo lado do Passeio Publico. 

Ordenou o general Madeira ao coronel João de Gouvêa 
Osório puzesse em movimento a legião constitucional luzitana: 
em virtude d'esta ordem, marchou para o largo da Piedade 
o. i.° batalhão commandado pelo tenente-coronel Joaquim 
António de Almeida, reimindo-se egualmente grande força 
de artilheria e sendo reforçadas as guarnições dos fortes de 
Santo António e Barbalho. 

Para proteger a tropa reunida na fortaleza de S. Pedro 
sahiu de seu quartel a legião de caçadores, e, encontrando 
em caminho uma companhia da legião luzitana e grande 
parte do esquadrão de cavallaria, travou renhido combate. 
Marchou logo o i.° batalhão para aquelle logar, e quando 
chegava ao quartel da legião, encontrou ahi tão viva resis- 
tência, que só depois de muitas perdas conseguiu occupal-o. 

Na manhã do dia 19 havia também o i.° regimento, 
comihandado pelo tenente-coronel Rodrigo de Argollo Vargas 
Cime de Menezes, sabido de seu quartel a incorporar-se ás 
forças do brigadeiro Manoel Pedro, mas, desamparado por 
aquelle chefe no campo da Pólvora, retmiu-se a maior parte 
dos soldados aos da fortaleza de S. Pedro, regressando para 
•o quartel apenas 32 praças, que mantiveram forte tiroteio 
com 02.** batalhão luzitáno e foram vencidas pela superio- 



MEMORIAS BRAZILEIRAS 



ridade das forças contrarias. Então entregaram-se a excessos 
os soldados do general Madeira: roubaram o cofre do regi- 
mento; rasgaram os livros-mestres; despedaçaram as bandei- 
ras; sahiram a invadir casas particulares, a pretexto de 
represálias contra vários tiros, e a exercer depredações, insul- 
tando as famílias. Não satisfeitos com a pratica de tantos 
attentados, violaram o convento das freiras da Lapa e, depois 
de as offenderem com impropérios, assassinaram á baioneta 
a abbadessa Joanna Angélica, quando esta religiosa lhes 
abria a porta que pretendiam arrombar (*). Na fúria d'este 



( I ) No salão nobre do Lyceu de Artes e Officios da Bahia existe um bcllo 
quadro do pintor brazilciro Firmino Monteiro, em que S2 acha representado 
o assassinato de Joanna Angélica. 

A inspirada poetisa bahiana D. Amélia Rodrigues escreveu sobre o pungente 
assumpto este expressivo soneto, publicado no Jornal de Noticias da Bahia de 
19 de Fevereiro d.* igoD : 

A ABBADKSSA DA LAPA 

A soldadesca infrene, allucinada, 
Sedenta de oiro, horrível de furor, 
Como um tufíio de ódio e de terror. 
Corre pela cidade consternada, 

E rouba, e mata, e vai desenfreada 
Contra as portas da casa do Senhor, 
Onde viceja da pureza a flor 
Pelos anjos do céo custodiada. . . 

V^ôa a madeira aos golpes da alavanca 
Da turba vil. . . mas á segunda porta. 
Uma figura surge, doce e branca. . . 

K soror Joanna, que a passagem corta ! 

« Mate-se a freira ! » K logo a entrada franca 

Faz-se por cima da abbadessa morta !. . . 



CAPITULO XXII 



crime não respeitaram a vida do velho capellão do convento, 
padre Daniel da Silva Lisboa, morto a conces de espin- 
gardas. 

Aterradas com esta horrorosa scena de sangue, as freiras 
abandonaram o convento e se foram recolher ao do Des- 
terro. 

Convém assignalar, como prova da nulla força moral 
do general Madeira, a proclamação que na manhã d'esse 
fatal dia 19 havia elle feito ao povo bahiano: «Habitantes da 
Bahia! A desordem desde ante-hontem reina desgraçadamente 
entre nós, e os meus esforços e sacrifícios não foram suffici- 
entes para embaraçar um tão grande mal : vós tendes paten- 
teado a vossa moderação; eu vol-o agradeço em nome da 
nação e do Rei; e eu devo assegurar-vos que vão tomar-se 
todas as medidas para restabelecer o socego publico. Entes 
malvados vos intimidam com a idéa de um saque ás casas 
dos cidadãos; porém eu vos certifico, da parte da pátria e do 
Rei, que a casa do cidadão será um logar inviolável. Conser- 
vai-vos em vossas casas ; não ateeis mais os males da pátria ; 
não vos intromettais nos negócios públicos, e vós gosareis de 
vossa segurança e propriedade. Quartel-general da Bahia, 
19 de Fevereiro de 1822. — Ignacio Luiz Madeira de Mello^ 
general das armas. » 

Como os factos contradiziam de modo lamentável as 
promessas do general Madeira, a maior parte da população 
bahiana abandonou, por falta de garantias, a capital anarchi- 
zada e passou-se para as povoações do Recôncavo. 



IO MEMORIAS BRAZILEIRAS 



As ruas tomaram-se desertas. 

Na tarde doesse dia ordenou o governador das armas que se 
reunissem as tropas no largo da Piedade e d'ahi expediu 
ordem ao commandante da fortaleza de S. Pedro para que se 
rendesse, e, obtendo resposta negativa, determinou proceder 
a bombardeio no dia seguinte. 

Temendo assaltos da soldadesca e para coUocar-se fora 
do alcance das balas, as religiosas do convento das Mercês 
obtiveram permissão do general para mudar de asylo, e, de 
cruz alçada, se foram recolher ao convento da Soledade. 

Não se effectuou, porém, o ataque á fortaleza. 

A junta provisória, por meio de enérgico officio, conseguiu 
que o brigadeiro Manoel Pedro capitulasse, evitando inútil 
perda de vidas. No dia 2 1 amanheceu aberta a fortaleza, que 
foi logo occupada pelas tropas luzitana?, achando-se ahi 
somente o brigadeiro Manoel Pedro, o tenente-coronel Ber- 
nardino Alvares de Araújo, commandante do regimento de 
artilheria, o capitão Ignacio Corrêa, o capitão quartel-mestre 
João Simões Onovo e alguns cadetes, os quaes, com excepção 
dos cadetes, ficaram presos com senti nellas á vista. 

Os portuguezes retiraram da fortaleza as bandeiras e as 
conduziram em triumpho pelas ruas da cidade. 

A 23 de Fevereiro escrevia o general Madeira um longo 
oflScio a D. João VI dando conta dos acontecimentos occor- 
ridos por motivo de sua nomeação ; n'esse documento 
queixa va-se de continuas deserções em suas tropas e pedia 
reforços de soldados das três armas, porque, no estado em que 



CAPITULO XXII II 



se achava, não podia acudir a qualquer parte do Recôncavo 
para suffocar algum levantamento que os revolucionários 
infallivelmente haviam de emprehender. 

Este officio, pedindo remessa de tropas para continuar a 
guerra civil na Bahia, foi levado ao conhecimento das cortes 
de Lisboa e lido em sessão de 30 de Abril. 

Submettido o assumpto a debate, sobre si competia ao 
governo ou ás cortes satisfazer á requisição, o deputado 
bahiano, dr. Lino Coutinho, externou-se favoravelmente á 
causa de Manoel Pedro, sustentando ter sido extemporânea a 
nomeação dó general Madeira para governador das armas de 
uma provincia. cujos habitantes ainda estavam resentidos de 
seu procedimento, quando proclamaram a constituição; que 
elle então se unira ao conde da Palma e a outros de eguaes 
sentimentos, para transtornarem o andamento da causa da 
liberdade, ao passo que o brigadeiro Manoel Pedro apre- 
sentou-se á frente de toda a tropa constitucional; que este 
official era o mimo da provincia, emquanto que o outro havia 
attrahido sobre si a execração dos povos ; que era o general 
Madeira causador de todas as desordens, porque até indispu- 
zera portuguezes contra portuguezes; que os bahianos, inte- 
ressando-se pela causa constitucional, tinham-se distinguido 
por seu caracter e eram dignos de toda a consideração por 
seus sentimentos heróicos. 

António Carlos opinou que as cortes não deviam ligar 
importância alguma ao pedido, porque não era justo exercer 
perseguição contra victimas, sem serem ouvidas, só pela 



12 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



carga que lhes fazia o seu oppressor, que uão passava de um 
ignorante e inconsiderado. 

Domingos Borges de Baftos taxou de extravagante e 
exótica a lembrança do general Madeira em pedir tropas e foi 
de parecer que de modo algum deveriam ser enviadas. 

Outros deputados apoiaram a nomeação e attitude do 
general Madeira, vencendo em votos a opinião de que com- 
petia ao governo satisfazer ao pedido. 

Encerrada a sessão, fortemente agitada por opiniões pró 
e contra a requisição de tropas, nova discussão estabeleceu-se 
nos corredores do edifício das cortes. Dois deputados pela 
Bahia, marechal Luiz Paulino Pinto da França c dr. Cypriano 
José Barata de Almeida — aquelle madeirista e este anti- 
madeirista — travaram-se de razões e chegaram a vias de 
facto. Azedada a polemica no meio de uma escada, o 
dr. Barata, no auge da indignação, impelliu por ella abaixo 
ao marechal Luiz Paulino, que se recolheu ao domicilio 
bastante machucado. N'esse mesmo dia dirigiu o marechal 
uma carta de desafio a seu. aggressor. O dr. Barata acceitou, 
a seu modo, o repto, porém o encontro dos dois deputados 
não chegou a realizar-se ( ' ). 



( I ) Como confirmação de que o estylo é o homem, damos a interessante 
carta com que o dr. Birata respondeu ao desafio. K um documento forte, que per- 
feitamente define a rigidi franqueza de caracter do g^rande patriota bahiano. 

« Sr. I^uiz Paulino Pinto da França. — lyisboa e casa, 4 de Maio de 1822. 

« Recebi a sua carta de desafio a 30 do passado mez pelas 5 Jí da tarde, e 
agora Uie respondo. 

« Pouco pede V. S. a quem o pôde servir táo bem como eu ; mas antes de 



CAPITULO XXII 13 



Receoso de que o governo portugiiez o considerasse 
parcial e vingativo, o general Madeira não se animava 
a remetter preso para Lisboa o seu rival brigadeiro Manoel 



satisfazer ao que me propõe, quero provar-llic que não sou nem pérfido, nem 
covarde, porque o sacudi pela escada abaixo, e que nâo fui eu que o provoquei, 
e sim V. S. a mim; isto quero explicar para justificar-me no publico ( * ). 

• Quando cheguei ao corredor d\s cortes, vciu logo V. S. aggr;ivar a magua 
que eu sentia com as novas de guerra civil no meu paiz, approvando o procedi- 
mento do Madeira e atacando com a injuria de bêbado o meu muito amigo e 
honrado brigadeiro Manoel Pedro de Freitas, um dos heróes da Bahia: ao que lhe 
respondi com muito azedume. Largou-me V. S. e, acintemente, para fartar o seu 
génio adulador e mordaz, metteu-se na roda de cinco ou seis illustres deputados 
e foi continuar nos mesmos insultos. Havendo eu dado um pequeno passeio, na 
volta achei V. S. na mesma declamação ; entáo cheguei e lhe disse que nào 
offendesse a um homem táo honrado ; que todos se embebedavam em funcções ; 
que náo devia injuriar assim a um varão illustre, que o tinha livTado da morte no 
dia 10 de Fevereiro, etc, e sahi ( De parte d'estes factos é testemunha o illustre 
deputado Sr. Alexandre Gomes Ferrão ). 

•Tendo eu cumprido com aquelle dever para com o meu amigo Manoel 
Pedro, e exprobrado a insolente conducta de V. S., segui para deante, e d'ahi a 
dois minutos, pouco mais ou menos, voltei para ir entrar pela porta da direita, 
como é meu costume ; a este tempo marchou V. S. para mim, e disse as seguintes 
palavras em tom picado : •• Sr. Barata, o dito, dito. » Não me faltou vontade de 
responder como o caso pedia; mas, respeitando os sagrados paços das cortes, 
respondi acerba e duramente e andei para deante ( isto foi ouvido pelo illustre 
deputado o sr. Sarmento ), e caminhando V'. S. a par de mim, foi continuando 
com a mesma ladainha, talvez suppondo que me offuscava com os seus crachás 
e galões c com as suissas á russiana ; mudei logo de direcção para me desemba- 
raçar de V. S.. e disse com palavras e semblante de um homem que ardia em 
cólera : «Eu vou para baixo», e V. S., em vez de seguir para as cortes, respondeu: 
• E eu também. « 

« Desde esse momento devia V. S. conhecer que tinha um inimigo ao pé de 
si, e inimigo de quem tem mui certas noticias ; e como as nossas armas eram as 
mãos, assim que sahissemos dos paços da^ cortes era tempo de usar d'ellas. 
Diga-me : para que 6 pateta? Si nós já andávamos mal, como era possivel que eu 
sofTresse táo repetidos ataques ? 

■Com que auctoridade me mmdoa V'. S. calar, quando descíamos a segunda 
escada? Era eu seu filho ou seu fâmulo para me olhar com desdém? Quem lhe 
mandou campar de chibante, tomando-me a deauteira e perdendo a vantagem 

( * ) O marechal Luiz Paulino havia publicado em Lisboa a carta de desafio 
9,Q dr. Barata, 



14 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Pedro: para conseguir este desejo, fez com que lhe fossem 
dirigidas duas representações, uma assignada pelos officiaes 
de seu commando e a outra por luzitanos que lhe eram 



de sua mào direita, á borda de ura precipício, no meio de uma escada? Que 
queria? Que eu o deixasse melhorar? Então foi que eu o peguei, e luctando 
V. S. com os braços um pouco, liâo poude suster-sc, porque eu fui mais destro'; 
portanto, queixe-se de seu mau caracter em atacar a Manoel Pedro, estimando 
os males da Bahia na minha presença; queixe-se de sua imprudência em me 
atacar e me seguir, e da sua ignorância em nfto saber o que deve obrar- em uma 
briga singular de corpo ede mãos, e da sua philaucia cm suppor que eu o não 
batia. Pergunto : onde está a covardia ? 

« Agora quero dizer alguma coisa sobre o me chamar traidor, e serei conciso. 
Eu nunca fui traidor. Traidor é V. S., pois que seguiu o partido dos francezes, 
crime pelo qual escapou de ser enforcado no Porto, estando preso por isso na 
cadeia chamada Postigo do Sol n'aquella cidade ; traidor é V. S., que, depois de 
jurar a constituição no dia lo de.Fevereiro do ánno passado, tomou a excitar os 
soldados para a contra-revolução, seguindo-se d'ahi ser acommettido pelo povo, 
de sorte que si lhe não acudira Manoel Pedro, seria feito em pedaços ( para agora 
V. S. o tratar de debochado, bêbado e indigno ) ; traidor é V. S. que, fingindo-se 
patriota, alcançou, á força de rogpos e de cabalas, ser deputado pela Bahia. 

• Agora tocarei no terceiro objecto importante da sua carta. Diz V. S. que 
seria coisa imprópria de seu espirito nobre e elevado castigar-me corporalmente. 
Ora, sempre V. S. é bem atrevido ! Que quer dizer por isso ? Miserável besta ! 
Qual é a nobreza de V. S. ? Seu pae foi um barbeiro ou cirurgião de navio, 
e V. S. nada tem feito para que mereça ser chamado nobre, salvo si é nobreza 
andar de joelhos pelas portas dos grandes, fazendo humilhações, adulando e 
chorando. V. S. na minha presença é um bicho, pois que a natureza me dotpu 
com mais relevantes qualidades — alma grande, cheia de sublimes pensamentos 
e de brio, amizade para os meus amigos, patriotismo para a minha pátria, 
heroísmo para o género humano. Ser grande é ter grandeza d'alma, é pensar fora 
do commum dos homens : ser nobre é sentir nobremente. Todas estas idéas só 
podem cahir para a minha banda e não para a de V. S., que, além de ser um ente 
negativo do verdadeiro merecimento, ainda hoje é um grande corcunda dis- 
farçado, etc. 

«Do que acabo de dizer, fica bem claro que não tém logar aquellas suas 
palavras cheias de orgulho e insolência : « Quero ainda fazer-lhe esta honra ! » 
Desgraçado ! Como ha de dar quem não tem ? Si V. S. soubera que coisa é honra, 
não soltaria taes palavras a um deputado em cortes geraes. Honrado sou eu, 
pois que o povo inteiro de uma província poderosa me respeita entre applausos» 



CAPITULO XXII 15 



sympathicps. Dizia a segunda representação: «Nós abaixo 
assignados, reconhecendo quanto pôde ser prejudicial á causa 
que abraçámos e ao socego publico, o conservar-se n'esta 
cidade o brigadeiro Manoel Pedro de Freitas Guimarães, que 
foi o auctor e principal chefe dos desastrosos acontecimentos 
do dia 19 de Fevereiro, por ter não só desobedecido ás ordens 
de S. M., não querendo entregar o governo das armas, mas 
até mesmo por ter mandado reunir no forte de S. Pedro 
a maior parte do 3.° e 4.° regimentos de milicias, e expedido 
ordem para egual reunião no mesmo forte ás milicias de fora. 



•^ 



e me ama e me adora, quando V. S. é tratado na razão inversa ; honrado sou eu, 
que me uni para combater o despotismo, livrando a minha pátria dos embustes 
de V. S., factor do pérfida systema aristocrático ; honrado sou eu, que ainda 
depois de lhe bater com oi ossos no chão . . . honrado sou cu, que ainda respeito 
seus filhos e parentes, e não passo adeante . . . 

• Parece, pois, que tenho brevemente demonstrado que não sou pérfido nem 
covarde ; que V. S. foi que me excitou ; que eu não sou traidor, pois até defendo 
a honra dos meus amigos ausentes ; que V. S. não é verdadeiramente livre, antes 
um petulante audacioso, que novamente me provoca. 

• Em consequência do exposto, acceito a proposição : use V. S. das suas 
armas, que eu me servirei das minhas ; em qualquer sitio, dia e hora que lhe 
parecer, acommetta-me, que farei o meu dever, pois sempre ando prompto para 
castigar petulâncias de corcundas. — Cypriano José Barata de Almeida. « 

O dr. Cypriano Barata nasceu na Bahia a 26 de Setembro de 1762 e falleceu 
na capital do Rio Grande do Norte a i.° de Junho de 1838. Era formado em medi- 
cina pela universidade de Coimbra. Professava abertamente idéas republicanas e 
as propagava nos vários periódicos de sua creaçào : Senti nella da Liberdade na 
guarita de Pernambuco ( 1823 ) ; Senti nella da Liberdade á beira do mar da Praia 
Grande ( Nictheroy, 1823 ) ; Nova Sentinella da Liberdade na guarita do forte de 
S. Pedro da Bahia de Todos os Santos ( 1831 ) ; Sentinella da Liberdade no Rio 
de Janeiro (1833). Perseguido pelo desassombro com que pregava doutrinas 
dicmocraticas, foi preso varias vezes, mas em opúsculos protestava contra as 
violências que sofTria e conseguia libertar-se por seus grandes merecimentos 
pessoaes. Foi o dr. Cypriano Barata um dos homens politicos de mais popula- 
ridade no Brazil. 



l6 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



chegando ao excesso de mandar atacar os nossos innãos de 
armas de Portugal aqui destacados: rogamos a V. Ex. que, 
quanto antes, o faça enviar para Portugal, para alli responder 
perante El-Rei pela insubordinada conducta e responsabi- 
lidade em que se acha, do sangue que fez verter entre irmãos 
e amigos. » 

Baseado em taes documentos adrede preparados, o general 
Madeira fez com que o brigadeiro Manoel Pedro embarcasse 
no navio S. Gualter e seguisse preso para Portugal. 

Não consta de dados officiaes qual o numero de cidadãos 
mortos em ambas as parcialidades; foram, porém, calculados 
em 200. ^ 

Compungidos com estes luctuosos acontecimentos, os 
bahianos residentes no Rio de Janeiro mandaram celebrar por 
ahna das victimas solemnes exéquias na egreja de S. Francisco 
de Paula, pregando o celebre orador sagrado, illustre patriota, 
frei Francisco de Santa Thereza de Jesus Sampaio (^). 



( I ) No sumptuoso catafalco levantado no templo liam-se muitos versos 
ungidos de piedade e de patriotismo. Citemos alguns : 

O Brazil te dedica incenso e pranto, 
O' sagrada porçào da x>atría afflicta ! 
Gosai, 6 manes, do descanço eterno ! 

Morrestes pela pátria e a vossa sorte 
Vai vos fazer viver além da morte. 

Manes illustrcs, que girais vagando 
Sobre o funéreo altar que alçou Mavortc, 
Si inda ouvis os que a vida vAo gosando, 
Nào vos pene o azar da cruel sorte, 
Porque da pátria á liberdade exangue 
Iv maior animantc o próprio sangue. 



CAPITUI.O XXII 17 



Em data de 25 de Junho D. Pedro expedia ordem termi- 
nante ao general Madeira para que immediatamente voltasse 
para Portugal com a tropa que d'alli viera. « Os desastrosos 
acontecimentos que cobriram de lucto essa cidade nos infaus- 
tos dias 19, 20 e 21 de Fevereiro, magoaram profundamente 
o meu coração. Verteu-se o sangue de meus filhos, que eu 
amo como os que me deu a natureza, e não podendo restabe- 
lecer a paz, o bem e alegria dos habitantes d'essa provincia, 
nem a minha própria alegria, emquauto não se praticar na 
Bahia o mesmo que felizmente se executou n'esta corte e 
em Pernambuco; sendo até necessário, para a tranquillidade 
de todas as provincias, e para se apertarem de novo os rela- 
xados vinculos de amizade entre os dois reinos, que o Brazil 
fique só entregue ao amor e fidelidade dos seus naturaes 
defensores: por tão ponderosos motivos, ordeno-vos, como 
principe regente doeste reino, do qual jurei ser defensor 
perpetuo, e depois de ouvir o meu conselho doestado, que, 
logo que receberdes esta, embarqueis para Portugal com a 
tropa, que tão impoliticamente d'alli foi mandada, na certeza 
de que fico responsável a meu augusto pae pela falta de suas 
reaes ordens, as quaes elle certamente vos teria dirigido, 
si pudesse ver de tão longe e no meio das escuras nuvens 
que rodeam o seu throno, a urgente e absoluta necessidade 
doesta providencia. Espero que assim o executeis; e á junta 
provisória d'esse governo escrevo também, para que aprompte 
embarcações e o que fôr .necessário para o immcdiato e 
commodo regresso; quando não, ficareis responsável a Deus, 



l8 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



a El-Rei, a mim, e ao antigo e novo mundo pelos deploráveis 
resultados e funestíssimas consequências da vossa desobe- 
diência. » 

Anteriormente havia o príncipe dirigido á provincia da 
Bahia uma forte proclamação: 

« Amigos bahianos ! O meu amor ao Brazil e o desejo de 
vos felicitar me chamam e a vós convidam a seguirdes o 
mesmo trilho de vossos irmãos brazileiros. 

«Os sacrifícios por miín de bom grado feitos, em honra do 
grande Brazil, e a verdade que rege o meu coração, me 
instam a dizer-vos: Bahianos, é tempo... sim, é tempo de 
seguir entre nós a honra (divisa do Brazil), desterrar o medo, 
e fazer apparecer o valor, a intrepidez dos invictos e immor- 
taes Camarões. Vós sois dóceis, cândidos e francos ; a prova é 
terdes-vos entregado nas mãos de facciosos, sectários de 
outros, no dia lo de Fevereiro de 1821, em que os estragos e 
insultos que hoje soffreis começaram (lancemos sobre isto 
um véo, fomos todos enganados). Nós já conhecemos o erro 
e nos emendámos; vós o conheceis agora; cumpre, para não 
serdes traidores á pátria, fazer o mesmo. Vós vedes a marcha 
gloriosa das províncias colHgadas; vós quereis tomar parte 
n'ella, mas estais aterrados pelos invasores: recobrai animo. 
Sabei que as tropas commandadas pelo infame Madeira são 
susceptíveis de egual terror; haja coragem, haja valor. 

«Os honrados brazileiros preferem a morte á escravidão; 
vós não sois menos; também o* deveis fazer, para comnosco 
entoardes vivas á independência moderada do Brazil^ ao 



CAPITULO XXII 19 



nosso bom e amável mouarcha, El-Rei o Sr. D. João VI e á 
nossa assembléa geral constituinte e legislativa do reino do 
Brazil. Rio de Janeiro, 17 de Junho de 1822. — Príncipe 
regente. » 

Tendo sido expulso do Rio de Janeiro o general Jorge de 
Avilez, parte das tropas portuguezas, sob o cominando do 
brigadeiro Francisco Joaquim Carretti, embarcada no navio 
6". José Americano^ arribou ao porto da Bahia, a pretexto de 
falta de mantimentos. Alegraram-se com este facto os luzi- 
tanos e logo uma representação partida do commercio e 
assignada por 219 pessoas subiu á consideração da junta de 
governo, solicitando licença para que desembarcassem as 
tropas. Não se julgou o governo competente para decidir a 
grave occòrrencia e a submetteu ao critério do general das 
annas. Este official, em longo officio datado de 25 de Março, 
expoz a necessidade de se attender ao pedido do respeitável 
corpo commercial, de quem a proyincia auferia grandes 
vantagens, e assumiu a responsabilidade do desembarque, 
considerando-o medida militar que tinha por objecto «poder 
conservar-se mui fielmente a tranquilHdade publica, pertur- 
bada pof malvados que ilhidiam o povo.» 

Desembarcadas as tropas, continuaram os habitantes da 
Bahia a emigrar para o interior e para o Recôncavo — tal a 
falta de confiança no governo militar do general portuguez, 
o qual, baldadamente, em proclamação de 31 de Março, 
concitou o povo a que regressasse a seus lares: «Habitantes 
da Bahia ! Recobrai o vosso socego ; vós achareis a segurança 



20 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



em vossas próprias casas; ellas serão respeitadas, e vossas 
pessoas resguardadas de qualquer insulto. O intento dos 
perversos é fazer-vos desconfiar da estabilidade d'aquelles 
sagrados direitos e, debaixo d'este principio, attraliir partido, 
para organizarem o plano de desunião em que trabalham; 
fingem-se possuídos de medo para se retirarem da cidade, 
dando- vos exemplo, para que os imiteis, quando elles só têm 
em seus corações a perversidade que pretendem grassar nos 
povos do Recôncavo. Eu só desejo a vossa ventura e não sei 
f alar-vos senão a verdade. » 

Como estivessem ainda quentes os horrores praticados 
pelas tropas luzitanas no dia 19 de Fevereiro, em que eguaes 
promessas foram feitas e deixaram de ser cumpridas, ninguém 
pensou em regressar á capital bahiana, que ficou toda entre- 
gue ao general Madeira e á junta provisória manifestada em 
seu favor. 

A compressora paz ^ que a cidade do Salvador gosava sob 
o dominio do militarismo portuguez foi perturbada de modo 
escandaloso por occasião de effectuar-se a procissão de S. José, 
que a 19 de Março sahiu da capella do Corpo Santo, fre- 
guezia da Conceição da Praia, e percorreu varias ruas da 
cidade alta. 

Grande numero de moleques havia reunido montes de 
pedras no largo do theatro e em outros pontos por onde iria 
passar o préstito religioso, na criminosa intenção de hostilizar 
os luzitanos: e, com eífeito, ao subir a procissão aquelle largo, 
foram lançadas sobre os portuguezes innumeras pedradas 



CAPITULO XXII 21 



que feriram a muitas pessoas, quebraram algumas imageus 
e debandaram o povo. Acompanhava a procissão uma guarda 
da legião constitucional luzitana, alvejada de preferencia 
pela plebe. A noite reuniram-se em diversos logares grandes 
magotes de negros e apedrejaram soldados e paizanos portu- 
guezes: tiros foram dados na ladeira do Taboão contra a 
guarda que se recolhia ao quartel. No dia 21 foi tal a agglo- 
meração de apedrejadores na Baixa dos Sapateiros, que ficou 
por muitas horas impedido o transito publico. Não consta 
que o governo procedesse contra os amotinadores, segundo se 
lê no officio do general Madeira dirigido á junta provisória, 
relatando os factos: «Doeste modo têm sido insultados os 
soldados, seus officiaes e outras pessoas nas ruas doesta cidade, 
e não sei que de modo algum se procedesse contra os pertur- 
badores. Dignem-se Vv. Exas., pois, dè empregar de sua parte 
todos os modos que lhes parecerem convenientes para evitar 
que tomem a repetir-se semelhantes insultos, pois que tal 
repetição me porá nas circumstancias de usar, contra os 
perturbadores do socego publico, de meios violentos que 
sempre me foram odiosos. » 

Para que uma opposição regular fosse feita contra o 
general, patriotas do Recôncavo, em numero de cem, 
ánnaram-se e postaram-se no sitio de Belém, ou povoação 
de S. Félix, fronteira a Cachoeira, e á margem esquerda do 
rio Paraguassú; no dia 25 de Junho de 1822 passaram-se 
para a Cachoeira e ahi officiaram ás auctoridades declarando 



22 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



a intenção que os movia — de acclamarem regente do Brazil 
ao grineipe D. Pedro. 

Tal communicação fora egualmente expedida a uma 
escuna de guerra que o general Madeira mandara, por pre- 
venção, estacionar n'aquelle ponto estratégico. Todas as 
auctoridades, inclusive o commandante do na\'io — que por 
duas vezes empenhou palavra de honra de que nenhuma 
opposição faria ao movimento— manifestaram-se concordes 
com a homenagem, que Se ia prestar ao príncipe. 

A villa presenceou o espectáculo sensibilizador de ver 
muitos anciãos, como que rejuvenescidos pela idéa de contri- 
buir para a independência da pátria, unirem-se aos moços, 
arrastados pelo mesmo impulso febril. 

Âs 9 horas da manhã d^aquelle dia, reunidos na casa da 
camará todos os fuiiccionarios civis e militares, convocados 
por officio do coronel de cavallaria miliciana José Garcia 
Pacheco de Moura Pimentel e Aragão, realizou-se a sessão 
solemne presidida pelo juiz de fora António de Cerqueira 
Lima, com assistência de 250 cidadãos, d'entre os quaes citam- 
se os nomes do tenente-coronel Jeronymo José Albeniaz, 
capitão António de Castro Lima, Joaquim Pedreira do Couto 
Ferraz, coronel Rodrigo António Falcão Brandão, capitão- 
mór de ordenanças José António Fiúza de .\lmeida. Para 
saber qual a vontade do povo que enchia a praça, o procurador 
do senado da camará, alçando um estandarte, falou de uma 
das janellas, perguntando si concordavam que se acclamasse 
Sua Alteza Real como regente constitucional e defensor per- 



CAPITULO XXII 23 



petuo do Brazil, da mesma forma que o havia sido na cidade 
do Rio de Janeiro. Povo e tropa responderam com grande 
enthusiasmo sim! 

Doesta unanime acclamação lavrou-se acta e findas as 
assignaturas ás 3 horas da tarde, foram os patriotas ouvir o 
Te-Deiim consagrado ao grande acontecimento ( ' ). 

Por essa occasião orou o vigário Francisco Gomes dos 
Santos e Almeida que com muita felicidade tomou por thema 
as palavras do evangelho ^Tu es Petrus (Pedro ou pedra) 
e sobre esta pedra edificarei a minha egreja. » 

As cinco horas da tarde, quando militares e povo regres- 
savam a seus lares, na rua principal da villa foram dispa- 
rados tiros de fuzilaria da casa do portuguez Manoel Machado 
Nunes, um dos quaes varou a barretina do major Joaquim 
José dé Bacellar e Castro. A esses tiros juntaram-se descargas 
de metralha de três peças de artilheria da escuna de guerra, 



( I ) Como sflorífícaçâo a este beUo movimento revolucionário, o poeta 
Agrário de Souza Menezes fez á cidade da Cachoeira uma levantada apologia: 

Tu, Cachoeira, viverás eterna, 

Eterna como o sol que hoje desponta ! 

Teu dia fulgirá no céo da pátria ! 

Nem sou eu quem t*o diz ; tu mesma o sentes ! 

Tu mesma, 6 gran cidade, nos arroubos 

Do santo enthusiasmo, 
Attestas grandemente esta verdade ! 

Tu mesma hoje me ensinas 
Que quem pelo Brazil o gladio empunha, 
Transcende os evos, e immortal perdura, 

Porque defende a causa 
Da razão, da justiça e liberdade ! 



24 MEMORIAS fiRAZttEIkAS 



cujas balas, por se achar a maré muito baixa, foram empre- 
gar-se no cães. 

Para reprimir os ataques da escuna contra Cachoeira 
e São Félix e dos portuguezes Manoel Machado Nunes e 
António Pinto de Lemos Bastos, organizou-se uma Junta 
Conciliatória de Defesa^ que ficou composta de António 
Teixeira de Freitas Barbosa, presidente; António Pereira 
Rebouças, secretario; padre Manoel José de Freitas (que 
se chamou depois Manoel Dendê Bus); José Paes Cardoso da 
Silva e António José Alves Bastos. 

Depois de um combate de três horas, a escuna aggies- 
sora foi batida e tomada perto da meia noite de 28 de Junho 
de 1822, aprisionando-se a tripulação composta de 28 pessoas, 
tendo sido feridos 6 homens, inclusive o commandante. 
Como por encanto, a villa resplandeceu de luminárias, em 
regosijo á victoria dos brazileiros. 

A camará da villa dirigiu ao príncipe a participação 
seguinte: 

«Senhor. — O leal e brioso povo do districto da Cachoeira, 
de quem temos a honra de ser órgão, acaba de proclamar 
e de reconhecer a V. A. R. como regente constitucional 
e defensor perpetuo do reino do Brazil. Debalde o verdugo 
da Bahia, o oppressor Madeira, quiz renovar n'esta villa 
as sanguinolentas catastrophes do dia 19 de Fevereiro e 
seguintes na capital da provincia. Debalde tentou ainda 
augmental-as, destacando n^este rio uma escuna artilhada, 
para bombardear, como com efleito bombardeou, por alguns 



CAPITULO XXII 25 

dias com balas e metralha, não só os honrados cachoeirenses 
(cujo crime todo consistia em quererem ser brazileiros e 
súbditos de V. A. R.), mx^ até seus innocentes edifícios. 
Semelhante aflfronta, Senhor, foi dignamente repellida pelo 
denodo e patriotismo doeste povo; e o commandante da refe- 
rida escuna, com mais vinte e seis pessoas que se achavam 
a bordo, ficam presos á, ordem de V. A. R., tendo-se rendido 
á discripção na noite do dia 28 de Junho, depois de um 
renhido combate de três horas. 

«Altamente penetrado da mais viva gratidão para com 
V. A. R., este povo brioso almejava repetir o grito rege- 
nerador dos mais felizes fluminenses, paulistas, mineiros, 
continentistas e pernambucanos; almejava por apagar a feia 
nódoa do schisma que a seu bel prazer sete homens levan- 
taram entre esta e as mais províncias brazilienses. 

«Mas, Senhor, os cachoeirenses são bahianos; elles não 
queriam roubar a seus irmãos da capital uma gloria que lhes 
tocava com tanta maior justiça, quanta é a intima convicção 
que em todos reina, da perfeita egualdade de sentimentos 
que os liga. Cresceu o tempo ; cresceram os grilhões e algemas 
que cada vez sopeavam mais a soberania inauferivel de seus 
illustres habitantes. E aquelles mesmos, Senhor, que outr^ora 
com denodado esforço arrancaram da poderosa França e da 
terrivel Hollanda as províncias brazilienses, lioje não podem 
unir a sua a essas que defenderam ! ! ! 

«Os cachoeirenses. Senhor, não puderam mais contem- 
porizar: porção a mais brilhante da illustre descendência da 



26 MEMORIAS BRAZII^EIRAS 



primogénita do Brazil, elles fizeram repercutir em todos os 
pontos do globo o valente grito de oitenta mil brazileiros, 
proclamando sua liberdade e gritaram de improviso os gene- 
rosos povos de Inhambupe, Santo Amaro, Sergipe do Conde, 
e Maragogipe; e, attentos á voz da pátria, lavraram como 
nós o augusto titulp de sua verdadeira regeneração. Perto 
está o feliz momento de ser V. A. R. proclamado em todos 
os pontos do solo bahiano: assim pudessem as nossas forças 
inferiores esmagar as do tyranno com o massiço aríete do 
nosso patriotismo. 

«V. A. R. é nosso defensor perpetuo. Nós somos oppri- 
midos e soffremos cruéis hostilidades. Cada dia augmenta 
mais o tyranno suas forças: cada dia maneja novas armas. 
Do torpe charco de veiíaes jornalistas surgem, á voz do 
infame, execráveis monstros de tyrannias: e, ora enxova- 
lhando o respeito devido á junta do governo e ao senado da 
camará da capital, ora espalhando falsas noticias aterradoras 
fazendo-nos pelo tyranno a mais encarniçada guerra, redu- 
zindo á inteira nullidade aquellas principaes auctoridades 
da provincia. » 

No dia 29 eflectuou-se na villa de Santo Amaro e na de 
S. Francisco de Sergipe do Conde o juramento de adhesão 
á regência do principe. N^esta segunda villa, desde o romper 
da aurora viram-se as estradas cheias de povo e de tropa 
miliciana, a que se reuniram os dois regimentos de cavallaria 
e ínfanteria. As duas horas da tarde, ao toque do sino da 
cadeia, foi convocada a camará e, sciente, por uma depu- 



CAPITULO XX ÍI 27 



tacão, de qual era a vontade popular, aunuiii iininediatamente 
á proclamação por entre as maiores manifestações de enthu- 
siasmo, celebrando-se, em acção de graças, um solemne 
Te-Deum, 

Na festa religiosa pregou, de improviso, um eloquente 
sermão o inspirado frade franciscano frei Francisco Xavier 
de Santa Rita Bastos Baraúna, poeta e grande orador sa- 
grado (»). 



( I ^ Frei Bastos nasceu na Bahia no anno de 1785 e falleceu em 1846. Mais 
amante dos folguedos do mundo profano do que dos mysticisnios do claustro, 
consagrou o melhor de sua existência á paixão do jogo, do vinho e das mulheres, 
pelo que soffreu muitas prisões no cárcere de seu convento. 

■ Um facto, diz o bibliographo Sacramento Blake ( * ), valcu-lhe o titulo de 
pregador régio. Em uma festa solemne, já presentes na capella real do Rio de 
Janeiro o Rei, toda a corte e nobreza, faltou o orador por doente e foi frei Bastos 
lembrado para remediar a falta. I^m alto personagem foi encontral-o u'uma botica 
á rua do Canuo, e cUc improvisou, como costumava, um sermáo em que a elo- 
quência sagrada tocou ao sublime, arrancando geraes applausos. » 

Compungido de sua vida irreprimivelmente dissoluta, outro frade, outro 
poeta, outro bahiano illustre, Junqueira Freire, dirigiu a frei Bastos bellos versos 
de saudação e de censura : 

Salve, poeta, que teus vicios cantas. 
Que a noite, a plebe, a crápula desejam ! 
Salve, orador, que os púlpitos respeitam, 
Que anáthemas irónicos desferes ! 
Mescla atrevida do sublime e baixo, 
— Bussuet com V^oltaire — três vezes salve ! 
Salve por mim, ó malfadado génio, 
Onde as cidades nem os claustros cabem ! 
Tu, poeta, orador, porque te afogas 
No immundo pego da lascivia impura? 

Arrastado, uma occasiào, da mesa do jogo para o púlpito, mal tivera tempo 
de esconder o baralho na manga do habito. Ao persignar-se, cahiram-lhe 
algumas cartas no cliAo. Sem perturbar-se. frei Bastos mandou a um menino que 

(<2») Dicc. Bibl. Braz., tomo III, pag. 141. 



28 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Achava-se a Cachoeira sufficientemente guarnecida pelos 
esforços dos coronéis Garcia Pacheco e Falcão Brandão, 
quando alli appareceu, evadido da capital, o major José 
Joaquim Salustiano Ferreira, que organiza ^novo batalhão 
composto de 300 praças, destinado a ir fortificar a ilha de 



as apanhasse e lhe dissesse que cartas eram ; a creança obedeceu, mostrando 
conhecer os naipes ; o frade ordenou-lhe em seguida que resasse o credo, e como 
o menino declarasse náo saber a resa, frei Bastos servi u-se d 'este facto para 
improvisar um sermão eloquentíssimo sobre os vicios e a educação religiosa da 
mocidade, merecendo calorosos applausos pelo encanto de sua palavra fluente 
e luminosa. 

Conta-se que indo uma vez assistir á festa de S. Francisco no respectivo 
conventc», o arcebispo D. Romualdo de Seixas recebera recado de frei Bastos 
para que fosse ouvil--o em seu cárcere. Molestado com os continuos escândalos 
do frade, não quiz o prelado ir vel-o na prisão, onde sofTria castigo de sui paixão 
por mulheres. Ao sahir do convento, recebia D. Romualdo um soneto escripto 
ás pressas, a lápis, em^que o poeta implorava a protecção de D. Romualdo, que 
era também um homem de lettras : 

Soccorrei-me, Senhor ! Quebrai piedoso 
Minhas algemas cheias de dureza ! 
Si meu crime provem da natureza, 
Quem de ser deixará réo criminoso? 

David, que foi tão justo e virtuoso, 
Por Bethsabé cahiu na vil fraqueza ; 
Samsão, perdendo o brio e fortaleza, 
Ao orbe deu exemplo lastimoso. 

Vede Jacob, detido em captiveiro, 
Pela gentil Rachel ; vede Suzana, 
Vede, a final, Senhor, o mundo inteiro ! 

Desculpa tenho na paixão insana ; 

Que ou mandasse-me o céo ser o primeiro, 

Ou fizesse de ferro a carne humana. 

I^agrimas de piedade assomaram aos olhos do indulgente arcebispo • frei 
Bastos foi immediatamentc posto cm liberdade. 



CAPITULO XXII 29 



Itaparica, de que foi commaiidante de regimento António 
de Souza Lima, portuguez nacionalizado. 

Fortificados todos os pontos da ilha e havendo necessi- 
dade de impedir que do Recôncavo fossem trazidos para a 
capital géneros alimenticios, ordenou Lima que doze homens 
se coUocassem no Funil^ logar situado na parte meridional 
da ilha, assim chamado pela configuração do canal. Eram 
também incumbidos de impedir a passagem de presos que 
o capitáo-mór de Nazareth, Manoel Bento (*), ia remetter 
á capital como criminosos revolucionários. 

Sabendo o general Madeira que o Funil se achava blo- 
queado, para alli mandou o capitão Taborda com 80 praças 
e duas canhoneiras na madrugada de 29 de Julho. Com o 
vento contrario não puderam as barcas acommetter a entrada, 
e seus tripulantes foram alvo dos tiros certeiramente dispara- 
dos pelos insulares. 

Cinco horas durou o combate, e já se achavam exgottadas 
as patronas dos bravos, quando em seu auxilio chegou da 
Cachoeira João Baptista Massa; depois de forte tiroteio 
recuaram as embarcações luzitanas e retiraram-se com grandes 
prejuizos para a capital. 

Desorientados com as continuas derrotas, vingavam-se 



í I ) Triumphante a causa revolucionaria. Manoel Bento, para fugir á perse- 
guição dos patriotas, escondeu-se em sua residência, onde foi encontrado dentro 
de uma commoda — facto que lhe valeu o appellido de Rato de gaveta. 
Por troça, os populares de Nazareth cantavam : 
Seu capilAo-niór, 
Rato de gaveta^ 
Mas deu-lhe a formiga, 
Sahiu pela greta. 



30 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



OS portuguezes em dar força e prestigio a dois periódicos 
recolonizadores, Idade de Ouro e Semanário CivicOy os quaes 
eram com vantagem combatidos pelo Constitucional^ redigido 
por Francisco José Corte Real e Francisco Gê Acaiaba de 
Montezuma; doeste conflicto de idéas, resultou ser o ultimo 
periódico assaltado e completamente destruido pelo tenente» 
coronel Victorino José de Almeida Serrão, por antonomásia 
o Ruivo^ genro do general fiadeira. 

O primeiro official bahiano que juntou forças em Pirajá 
foi o tenente-coronel de milicias Joaquim Pires de Carvalho 
e Aragão, conhecido por Santinho^ agraciado mais tarde, 
com toda justiça, com o titulo de visconde de Pirajá. Reunindo 
ahi os batalhões da Torre, organizados na Feira de Capuame, 
e chamando ao serviço da liberdade grande numero de indi- 
genas armados de arco e flecha, muitas vezes offereceu combate 
ás tropas do general Madeira, perseguindo-as até á Lapinha, 
vendo sempre coroadas de successo as suas patrióticas audá- 
cias. A estas forças juntou-se um batalhão de tropa de linha, 
que havia desertado da capital e se organizara na villa da 
Cachoeira, sob o commando do coronel Rodrigo António 
Falcão Brandão, mais tarde barão de Belém. 

Formaram-se na mesma villa corpos dè voluntários: 
o Periquitos^ com 800 soldados, sob o commando de José 
António da Silva Castro; o Bcllona^ de 400, commandado 
pelo capitão Ignacio Joaquim Pitombo; o Mavorte^ de 300, 
sob o connnando do capitão Verissimo Cassiano de Souza, 
e finalmente 500 milicianos da villa de Santo Amaro. Outros 



CAPITULO XXII 31 



batalhões, com mandados- por António de Bittencourt Beren- 
giier César e capitão de caçadores Manoel Marques Pitanga, 
aquelle de 300 voluntários e este de 600, foram incorporar-se 
ás demais forças estacionadas em Pirajá, três léguas distante 
da capital. Ahi o patriotismo fez dos peitos bahianos um 
baluarte inexpugnável. 

Tornou-se merecedora de elogios a joven Maria Quitéria de * 
Jesus Medeiros, residente em uma fazenda do Rio do Peixe; 
assentou praça em um regimento de artilheria, d'onde 
passou-se para o batalhão de infanteria Voluntários do 
Príncipe^ batalhão posteriormente chamado dos Periquitos 
pelo facto de as fardas terem golas e canhões de panno verde. 

Maria Quitéria adoptava em seu fardamento um saiote >\ 
escossez, que a differençava dos demais soldados. 

Com tanta coragem e bravura empenhou-se em diversos 
combates, que D. Pedro I, por decreto de 20 de Agosto de 
1823 concedeu-lhe a patente e o soldo de alferes do exercito 
e o uso da insignia de cavalleiro da imperial ordem do Cru- 
zeiro, sendo elle próprio quem lhe collocou ao peito a gloriosa 
condecoração ( * ). 



( I ) o illustre poeta bahiano, dr. Franklin Dória fez, em seus Enlevos^ 
referencia á denodada guerreira babiana : 

Vede-a lào joven, coraçào virgin^ío, 
O amor da pátria vehcmente o alaga ; 
Klla agora só cuida do exterminio 
Dos que tomaram-lhe a risonha plaga. 

Deixa de parte fascinantes galas : 
Os doces seios lhe comprime a farda ; 
E, perfilada ante as imigas alas, 
Jífto sabe trepidar, nào se acobarda ! 



32 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



O decreto concedendo a esta heroina o soldo de alferes de 
linha é concebido n'estes termos: 

«Fazendo constar na minha imperial presença o comman- 
dante em chefe do exercito pacificador da provincia da Bahia 
o decidido valor, denodo e intrepidez com que Maria Quitéria 
de Jesus, natural d'aquella provincia, se alistara nas fileiras 
do exercito, para debellar os inimigos da pátria, e se distin- 
guira em occasiões as mais arriscadas de combate, em que 
sempre se portara heroicamente; e por quanto feitos taes 
mereceram um logar distincto na minha imperial consi- 
deração: hei por bem de conceder á referida Maria Quitéria 
de Jesus o soldo de alferes de linha, pago na sua respectiva 
provincia. Manoel Jacintho Nogueira da Gama, do meu 
conselho de estado, ministro e secretario de estado, dos 
negócios da fazenda e presidente do thesouro publico, o 
tenha assim entendido e faça executar com os despachos 
necessários. PaçD, em 20 de Agosto de 1823, 2.^ da indepen- 
dência e do império. Com a rubrica de S. M. I. — Joào 
l ^ieira de Carvalho, » 

Como escasseasse a p3lvora, o tenente-coronel José 
Joaquim de Lima e Silva, por um rasgo de audácia, illudindo 
a vigilância das embarcações portuguezas, foi ao Morro de 
S. Paulo e d^alli retirou cem barris do necessário explosivo e 
os entregou na Cachoeira ao coronel Garcia Pacheco, o qual 
os distribuiu por todo o exercito. A divisão de Pirajá, a da 
direita, era supprida de gid^ pelos senhores de engenhos e 
por lavradores, sendo a farinha trazida de Camamú e de 



CAPITULO XXII 33 

outros logares do sul ; a divisão da Itapoan, a da esquerda, 
obtinha os mesmos supprimentos mandados pelo coronel 
António Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, poste- 
riormente visconde da Torre de Garcia d*Avila. 

Como reforço, o principe mandou para a Bahia uma 
esquadrilha commandada pelo chefe de divisão Rodrigo 
António de Laniare, com 300 praças, confiadas ao mando do 
general francez Pedro Labatut, que desembarcou no porto 
de Maceió (Alagoas) em 21 de Agosto de 1822. 

Ahi, recebendo de Pernambuco o forte contingente de 
uma brigada e marchando a pé para a Bahia, conseguiu, em 
caminho, que Sargipe se submettesse ao governo brazileiro. 
Pedro Labatut dirigi u-se com as suas forças para a Feira do 
Capuame, fez seu quartel general no Engenho Novo, e, no 
sentido de circumscrever as forças do general Madeira, 
mandou reforçar as melhores posições, que eram Pirajá, 
Cabrito e Coqueiro, ficando assim estabelecido cerco regular. 

Da Parahyba do Norte veiu também um batalhão de 
400 homens a engrossar as fileiras patriotas. 

Um frade egresso do convento do Carmo, frei José Maria 
Brunier, formou um batalhão intitulado Voluntários dos 
redroes ou Encoiirados ou Couraças^ por trajarem os soldados 
vestimentas de couro, como usam os vaqueiros no sertão. 

Organizou Labatut as duas citadas divisões: a da direita, 
em Pirajá, sob o commando de José de Barros Falcão de 
Lacerda e a da esquerda, em Itapoan, commandada pelo 
coronel Felisberto Gomes Caldeira, 

5 TOM. l\ 



34 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



As tropas que desertavam da capital iam pela costa 
do mar incorporar-se ás milícias da Torre, excedentes de 
3.000 praças, commandadas pelo coronel Joaquim Pires de 
Carvalho é Albuquerque. 

Pormou-se um batalhão de negros (creoulos) com a deno- 
minação de Henriques Dias^ com i.ioo praças, comman- 
dadas pelo creoulo tenente-coronel Manoel Gonçalves da 
Silva, um bravo que pedia sempre collocação nos mais 
arriscados pontos. 

A 7 de Setembro pretenderam os luzitanos eíFectuar 
desembarque no engenho de S. João, porém foram batidos 
pelas tropas estacionadas em Pirajá; a 19 do mesmo mez, 
no Cabrito, sofFreram a perda de 11 soldados e do official Tou- 
rinho, sendo ferido o official Averge ; no mesmo dia, na Cruz 
do Cosine, perderam egualmente 30 soldados e foi ferido 
o coronel Osório. 

Como um forte estimulo aos bahianos, veiu do Rio de 
Janeiro o batalhão do Imperador ('), com 800 praças, 
sob o commando do coronel José Joaquim de Lima e Silva, 
servindo como ajudante o tenente Luiz Alves de Lima e 



* í I ) o grande patriota fluminense Evaristo Ferreira da Veiga compoz para 
este batalhão um hymno em que se faz bella referencia á Bahia : 

Hoje a pátria é quem vos chama 
O' valentes brazileiros, 
E do ferro dos guerreiros 
Vossos braços vem armar. 

Bravos filhos de Mavcrte, 
Já no campo estais da gloria ; 
Vamos, vamos á victoria ! 
Combater e tríumphar ! 



CAPITUI.O XXII 35 



Silva, gloria nacional conhecida depois pelo titulo de Duque 
de Caxias. 

Pouco depois creou Labatut a divisão do centro, comman- 
dada pelo coronel José Joaquim de Lima e Silva. 

Sem liberdade alguma de acção, inteiramente subordi- 
nada ao despotismo do general Madeira, a junta provisória 
da Bahia prestava-se deploravelmente a todos os caprichos 
doeste official, sem possuir ao menos a hombridade de 
exonerar-se de uma posição subalterna e aviltante. Em sua 
falta de patriotismo, procurava até adivinhar os desejos do 
déspota. Um facto caracterizou esta degradação moral. No dia 
25 de Setembro de 1822 aportou á Bahia, vindo de Pernam- 
buco, um paquete inglez, trazendo a seu bordo o eminente 
patriota Gervásio Pires Ferreira (presidente da junta provi- 



Do Brazil a mãe primeira, 

Formosissima Bahia, 

Da feroz aleivosia 

Quer os vis g^lhões quebrar. 

Bravos filhos de Mivorte, etc. 

Do Janeiro sobre as margens 
Seus clamores escutastes : 
Desde logo alli jurastes 
Os seus muros libertar. 

Bravos filhos de Mavorte, etc. 

Kis da guerra o clarim sòa 
K a tríumphos mil nos chama ; 
Negra furia, que rebrama, 
Náo nos pôde intimidar. 

Bravos filhos de Mavorte, etc. 



Seguem-se mais seis cantos. 



36 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



soria pernambucana), que se dirigia ao Rio de Janeiro. Logo 
que na capital se propalou esta noticia, a junta, para lisonjear 
a tyrannia do general Madeira, deu-se pressa em dirigir officio 
ao cônsul de S. M. Britannica, Williani Pennel, requisitando 
o desembarque de Gervásio Ferreira, a pretexto de se evitar 
qualquer sinistro acontecimento: «Ulmo. Sr. — De ordem da 
junta provisória do governo, transmitto a V. S. a copia 
inclusa do requerimento de 16 emigrados de Pernambuco, 
os quaes pedem, em grande alvoroto, o desembarque do 
presidente da junta provisória do governo d^aquella provincia, 
que àffirmam achar-se à bordo do paquete inglez, ora chegado, 
com o fim de manterem seus direitos e evitarem os damnos 
que receiam do proseguimento de sua viagem; para que 
V. S., tomando-o em consideração, e o quanto convém evitar 
qualquer sinistro acontecimento, á vista da effervescencia em 
que se acham os ânimos dos que exigem esta medida, dê 
a competente providencia para se effectuar o desembarque 
requerido. Ulmo. Sr. Guilherme Pennel, cônsul da nação 
britannica. — Francisco Carneiro de Campos^ secretario. — 
Bahia, 25 de Setembro de 1822.» 

E o cônsul inglez, consciente da ignominia que praticava 
— a exemplo da traição de seus compatriotas para com 
Napoleão I, quando este heroe, vencido em Watterloo, volun- 
tariamente se acolhera sob a bandeira da poderosa nação — 
sem reflectir na deshonra de seu procedimento, ordenou ao 
commandante do vapor fizesse desembarcar, como preso, 
Gervásio Ferreira e o entregasse ás auctoridades da capitai 



CAPITUI.O xxií 37 



bahiana — facto que para o brioso revolucionário importou 
em ver impudentemente rasgado o pavilhão a que se havia 
abrigado confiante. 

Em meio de numerosa escolta, effectuou-se odesembarque 
á noite; multidão de taverneiros e de caixeiros portuguezes, 
munidos de archotes, acompanharam o patriota, desde o cães 
da ribeira ao forte de S. Pedro, dirigi udo-lhe em caminho 
apupadas e insultos ; não o apedrejaram, porque a este excesso 
oppoz-se energicamente o commaudante de policia, tenente- 
coronel António José Soares, a quem se deve o não consum- 
mar-5é mais um crime. Algemado, foi o digno brazileiro 
lançado a um dos cárceres do forte. 

Este attentado ultrajante não attingiu á alma elevada do 
devotado propugnador da independência do Brazil: recahiu 
sobre o prepotente paiz bretão, que, n'esse momento, perante 
a justiça e perante a posteridade, sentou-se em banco de réo. 

Em substituição ajunta provisória da Bahia — corporação 
subserviente e degenerada porque procedia contra brazileiros 
— o heróico povo da Cachoeira, constituido coração e cérebro 
da grande provincia, elegeu um conselho de governo, que 
começou a funccionar, no salão do hospital de S. João de 
Deus, a 22 de Setembro, e foi composto do capitão-mór 
Francisco Elesbão Pires de Carvalho e Albuquerque, presi- 
dente; Francisco Gomes Brandão Montezuma, secretario; o 
desembargador corregedor da comarca, António José Duarte 
de Araújo Gondin, deputado pela villa de S. Francisco; o 



3^ MEMÓRIAS BRAZILEIRAS 

capitão-mór Manoel da Silva e Souza Coimbra, por Marago- 
gipe; o capitão Manoel Gonçalves Maia Bittencourt, por 
Jaguaripe, e o padre Manoel Dendê Bus, pela villa de Pedra 
Branca, Este conselho, que augmentou com os deputados 
que foram chegando de outros pontos da provincia, imprimiu 
marcha regular á revolução, dirigindo-a convenientemente. 
Reformou as commissões das caixas militares, creadas nas 
differentes villas, tirando-lhes as attribuições governativas e 
reduzindo-as a simples commissariados de guerra;" para 
facilitar communicações, estabeleceu correio terrestre, desde 
a villa de S. Francisco de Sergipe do Conde até á de 
S. Jorge de Ilhéos, e assumiu o commando da força militar. 
Esta ultima medida occasionou forte conflicto de auctoridade, 
entre o mesmo governo e o general Labatut, molestado pela 
indébita invasão do poder civil em serv^iços exclusivamente 
confiados á sua alta competência militar, de que deu as mais 
exuberantes provas. 

Para vingar continuas derrotas, resolveu o general Madeira 
atacar definitivamente o acampamento de Pirajá. Na madru- 
gada de 8 de Novembro fez desembarcar nas praias de Itaca- 
ranhas e Plataforma 250 soldados escolhidos, e ao romper 
do dia, emquanto estes avançavam para o centro, outros iam, 
por terra, surprehender as posições occupadas por brazileiros. 
Descobertos, porém, pelas avançadas de Coqueiro e Bate- 
folha, na estrada de Pirajá, travou-se renhido combate, sem 
se poder avaliar quem dispunha de maiores forças — tal a 
bravura desenvolvida entre uns e outros. 



CAPITULO XXII 39 



Depois de cinco horas de fogo, avançando os portiiguezes 
pelo lado de Itacaranhas, tratavam de cortar a rectaguarda 
de nossos soldados, quando o major José de Barros Falcão, 
para evitar o imminente perigo, mandou tocar a retirada. 
Em vez de cumprir a ordem, o corneta portuguez Luiz Lopes, 
servindo-se de um clarim que usava para os toques da orde- 
nança de caçadores, tocou avançar a cavallaria e carregar. 
Atemorizados com este'signal, os portuguezes, persuadidos de 
que os nacionaes haviam recebido reforço de cavallaria, deban- 
daram desordenadamente, proporcionando completa victoria 
aos bahianos. 

N*este grande feito d^armas distinguiram-se os soldados 
da tropa expedicionária de Pernambuco e, entre os officiaes, 
o major da mesma provincia Joaquim José da Silva S. 
Thiago, o capitão ajudante de campo António Henri- 
ques Totta e o tenente ajudante Alexandre Gomes de 
ArgoUo Ferrão. 

De nossa parte morreram dois bravos — o capitão de arti- 
Iheria Cypriano Justino de Sequeira e tenente Pedro Jácome 
Ferreira ('). 



(1)0 dramaturgo e poeta bahiano dr. Agrário de Souza Menezes con.sagrou 
ao combate de Pírajá uma poesia, de que transcrevemos estes versos, reveladores 
de patriótico enthusiasmo : 

Falcão a valente espada 
Jamais empunhou assim ! 
I/)pes — nunca a retirada 
Soube tocar no clarim ! 



40 MEMORIAS BRAZILKIRAS 

Não havendo em Pirajá uma só praça de cavallaria, o 
capitáo-mór de Itapicurú, João Dantas dos Imperiaes Itapi- 
curú, organizou um esquadrão de 500 soldados, que fez 
marchar para aquella localidade. 

D. Braz Balthazar da Silveira formou das milicias que 
policiavam a Cachoeira um batalhão de 300 praças que se 
foi unir á divisão da direita. 

Outras forças levantaram-se em diversos pontos e concen- 
traram-se em Pirajá: 300 praças das milicias de Santo 
Amaro, sob o commando do coronel Luiz Manoel de Oliveira 
Mendes; um batalhão de 600 voluntários da villa de Itapi- 
curú ; na villa de S. Francisco o coronel Bento Lopes Villas 
Boas organiza um esquadrão de cavallaria e o entrega ao 
capitão Pedro Ribeiro, 

O general Pedro Labatut organiza um batalhão de 



Labatut — com o gladio fala ; 
Ferrão — sorri-se da bala ; 
Totta e Thiago — a bater ! 
Sequeira, Jácome," ousados, 
Queriam — que eram soldados - 
Como soldados morrer ! 

Morrer — a pátria salvando 
Das suas cadeias vis, 
K um feito memorando, 
K uma sina feli* ! 
Morrer no campo da guerra, 
P'ra libertar sua terra, 
H ditosa condição ! 
Antes morrer co*a victoria, 
Que o estandarte da gloria 
Ver atirado no chào I 



Capitlxo xxíí 4t 



libertos e o confia ao tenente José Joaquim Exposto, a quem 
promo\'e a major. 

O amor á causa da pátria inspira sentimentos de genero- 
sidade e de abnegação. António Joaquim de Oliveira e 
Almeida, como exemplo de civismo, fonna esquadrão de 
cavallaria com 600 voluntários e depois de os fardar, equipar 
e sustentar, os envia ao exercito. Egual procedimento teve 
Ignacio Pires de Carvalho e Albuquerque, organizando outro 
esquadrão de cavallaria, de 400 praças, concorrendo com 
todas as despezas de equipamento e depois de o mandar 
apresentar a Labatut, regressa para seus engenhos. 

Outro esquadrão de cavallaria de linha é formado pelo 
capitão João António dos Reis. 

O major de artilheria Satyro foge da capital e comparece 
entre os patriotas com quasi todo o seu batalhão, composto 
de 400 praças. 

O major Leite Pacheco, portuguez, companheiro de 
viagem de Labatut, organiza também um batalhão de 500 
homens, distinctos por sua coragem e bravura. 

Com a pericia que lhe era própria, o general comman- 
dante em chefe do exercito tratou de sitiar a cidade, estabele- 
cendo uma grande linha de trincheiras, e fortificando as 
ilhas Maré, Bom Jesus, Loreto, das Vaccas, dos Frades e 
muitas outras. 

Em Cabrito e Plataforma foram collocadas peças de 
grosso calibre. Arrazada a fortaleza de Itapagipe, mudaram 
os luzitanos o seu quartel para a praia do Papagaio. 



4^ MÊMORIAâ brazileiraS 



Em S. Braz, montanha que fica sobranceira á enseada de 
Itapagipe, foi estabelecido um reducto, ]com duas grandes 
peças e guarnecido por 300 homens, com o fim de obstar a 
passagem pela enseada. 

O padre Bernardo, vigário da Saubara, homem bastante 
rico e bastante patriota, creou á sua custa um batalhão de 
400 voluntários, de que elle próprio foi o instructor, e com 
a sua artilheria hostilizava aos navios do general Madeira 
quando se approximavam d^aquelle ponto. 

Reconhecida a necessidade de se organizar uma flotilha 
regular em Itaparica — ilha considerada chave do Recôn- 
cavo — não só para offerecer forte resistência aos navios 
inimigos, como para impedir a conducção de mantimentos 
á capital, foi esta idéa promptamente convertida em reali- 
dade, começando-se por se armar em guerra uma embarcação 
que te\'e a denominação de Pedro /, sendo o seu commando 
confiado ao 2.° tenente d'armada João Francisco de Oliveira 
Bottas (conhecido por João das Bottas), portuguez, mas 
fervorosamente dedicado á causa dos brazileiros. 

No dia 8 de Dezembro de 1822 deu este official de 
marinha brilhante prova de arrojo e de valentia. Tendo 
sabido de Itaparica escoltando 18 barcos e lanchas carregados 
de mantimentos destinados a seguir pelo rio Cotegipe, encon- 
trou em seu caminho a esquadrilha luzitana, composta dos 
brigues Audaz e Promptidào^ escuna Emília^ dois grandes 
barcos, oito canhoneiras e alguns lanchões. Debaixo de 
vivissimo fogo, a que elle correspondia com denodo verda- 



CAHTULO XXli 43 



deiraméute heróico, ponde livrar-se de seus perseguidores e 
levar os mantimentos ao porto de seu destino. A noitç, 
voltou o tenente Bottas á Itaparica, sendo recebido com 
grande manifestação de entlmsiasmo. Táo exaltado ficou este 
militar com os applausos recebidos, que sentiu-se com aniino 
de ir atacar a esquadrilha portugueza, e no dia 23 de Dezem- 
bro travou combate com ella desde as 8 ás 11 }4 horas da 
manha; vendo-se, porém, cercado por forças muito superiores, 
em risco imminente de ser aprisionado com sua embarcação, 
conseguiu romper a linha de fogo e abriga,r-se ao porto das 
. Amoreiras^ onde a artilheria do commandante Galvão o livrou 
do perigo. 

Novas embarcações armaram-se em guerra com os nomes 
de D. I^opoldina^ 2^ de Jiinho^ canhoneira D. Maria da 
Gloria^ barcos D, Januaria^ D, Paiila^ Villa de S. Fran- 
cisco^ Prezay escuna Cachoeira^ lanchas baleeiras de aborda- 
gem e bombardeiras, com uma tripulação de 710 homens, 
sendo 514 itapari canos e 196 de outros logares. Eram 
commandantes, além de João das Bottas, Francisco da 
Silva Castro, Philippe Alvares de Oliveira, que havia sido 
patrão-mór da Cotinguiba, José António Gonçalves, André 
Avelino, Plácido José da Maia, Manoel Pereira e Fortunato 
Alvares de Souza, que substituiu ao tenente da armada 
Balthazar Victor Moreira Boisson, quando este seguiu para 
o Rio dè Janeiro com officios de I^abatut, em uma escuna 
americana comprada para servir de correio. Entre força naval 
e terrestre dispmiham os insulares de 3.257 homens, compre- 



44 MEMORIAS BRA2SlLãlkA!^ 



heudidos soldados do batalhão da Cachoeira e dos regimentos 
de Valença, Lage e Nazareth. 

Pretendendo a todo transe apossar-se da ilha de Itaparica, 
o general Madeira preparou tropas de desembarque, em 41 
lanchões de vários tamanhos, os quaes na tarde de 6 de Janeiro 
de 1823 dirigi ram-se á ilha, que deveria ser tomada na manhã 
do dia seguinte. Muitos escaleres conduziam pessoas curiosas, 
que iam presencear o assalto, certas de que os insulares não, 
poderiam ofFerecer prolongada resistência a tão grande 
numero de gente armada. 

Ao amanhecer de 7 de Janeiro appareceu a. flotilha portu- 
gueza, formando duas linhas, uma pelo norte da praia das 
Amoreiras e outra em direcção ao Mocambo, coUocando assim, 
entre dois fogos, a fortaleza de São Lourenço, commandada 
pelo major de artilheria Luiz Corrêa de Moraes. 

As 9 horas da manhã avançaram para a terra os navios 
luzitanos, mas foram recebidos sob intenso e continuado fogo, 
tanto da fortaleza como dos pontos fortificados ao longo da 
costa até á ponta das Amoreiras, S. Pedro, Isidoro, Amoreiras 
pequenas, praia e ponta das Amoreiras, bem assim dos pontos 
collocados ao longo da contra costa. Quitanda, Ponte da Bica^ 
Engenho da Bôa-Vista e outros. 

A barca portugueza Constituição (chamada Vbvb pelo 
tamanho) foi a primeira a sentir estragos causados pelos 
tiros da fortaleza e pelas descargas de fuzilaria e (ias peças 
do barco Pedro /, dirigido pelo valoroso João das Bottas: 
desmantelada, retirou-se das linhas de fogo. 



CAPITULO XXII 45 



O chefe de divisão, luzitano, João Félix Pereira de Cam- 
pos, que vinha dirigir a acção, prevendo a derrota, fez voltar 
o seu escaler e regressou para a capital. 

Muitos soldados e marinheiros passaram-se para navios 
menores e ás 3 horas da tarde conseguiram saltar junto aos 
presidios do Mocambo e Amoreiras; surprehendidos, porém, 
por fortes descargas de fuzilaria foram forçados a reembarcar 
precipitadamente. 

Novo desembarque foi intentado com reforços de outras 
embarcações; durou o combate até ás 6 horas da tarde, com 
a derrota completa dos portuguezes, cuja perda se avalia em 
200 homens entre mortos e feridos. 

Não desanimados com estes desastres successivos, tentaram 
os navios luzitanos, nos dias 8 e 9 de Janeiro, assaltar Itapa- 
rica; viram-se, porém, obrigados a retroceder a tiros de fuzi- 
laria, e a regressar á capital, contando consideráveis perdas. 
Cahiram de todo por terra os grandes planos do general 
Madeira de conquistar a ilha e por meio d'ella dominar o 
Recôncavo. 

Logo que teve noticia d'esta estrondosa victoria dos 
itaparicanos, o general Pedro Labatut brindou-os com uma 
bandeira nacional, que foi arvorada na fortaleza de S. Lou- 
renço; promoveu a lenente-coronel de i." linha o major Antó- 
nio de Souza Lima, governador da ilha; a i.^ tenente da 
armada brazileira o 2.° t-^nente João das Bottas, e fez 
distribuir pelos soldados um conto de réis como gratificação 
concedida pelo imperador. 



46 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Empenhado em romper o cerco, o general Madeira travou 
combates na Conceição e em Itapoan em 15 de Fevereiro; 
porém successivas derrotas o faziam sempre retroceder e 
recolher-se á cidade. 

Pouco depois recebia elle de Portugal um reforço de 
2.500 homens; mas netn assim anima va-se a assaltar os pontos 
fortificados pelos brazileiros. A sorte lhe era adversa. Para 
aggravar a afflicti va situação, entrou elle em desaccordo com 
João PVlix Pereira de Campos, commandante da esquadra 
portugueza, e d'esta divergência entre os dois chefes resultou 
enfraquecimento de animo por parte dos luzitanos. 

Apertado pelo sitio, desgostoso pelo insuccesso de suas 
annas, a ouvir 'queixumes da capital que sentia fome, o 
general Madeira experimentou ainda a magna de ver uma 
esquadra trazer fortes recursos a seus inimigos. 

Em i.° de Maio de 1823 surgiu nas costas da Bahia a 
esquadra brazileira, composta de oito navios: nau Pedro I^ 
fragatas Ypiranga e Nicthcro\\ corvetas Liberal^ Carolina e 
Maria da Gloria e brigues Real e Giiarany^ sob o com- 
maiido do ahnirante inglez, lord Cochrane. 

A esquadra portugueza era mais poderosa, pois com- 
punhase de treze navios — uma nau, cinco fragatas, cinco 
corvetas e dois brigues. 

Nio convinha aos brazileiros uma batalha naval. Man- 
tendo tiroteios com algumas fragatas, lord Cochrane conseguiu 
ancorar defronte de Itapoan e pôr-se em communicação com 
as forças de terra. A nau Pedro / e a corveta Maria da 



CAPITULO XXII 47 



Gloria postaram-se defronte da cidade do Salvador, servindo 
de bloqueio ao porto. 

Preparava-se o general Pedro Labatut para dar um ataque 
decisivo á capital, pois dispunha de muitos petrechos de 
guerra recebidos do Rio de Janeiro com a vinda da esquadra 
imperial e de uma força de 250 praças chegadas de Pernam- 
buco, esperando-se ainda um batalhão que por terra deveria 
vir de Minas Geraes, quando deu-se grande discórdia entre a 
divisão da esquerda, conimandada pelo coronel Felisberto 
Gomes Caldeira, e o próprio general. 

Para suffocar a conspiração mandou Labatut .prender ao 
coronel Caldeira e o remetteu para a fortaleza de S. Lou- 
renço, em Itaparica; ao coronel José Joaquim de Lima 
e Silva, commandante da brigada do centro, expediu a 
seguinte ordem : 

«Constando-me que alguns officiaes de cabeças esquen- 
tadas fazem alguns motins e alliciam soldados á revolta, 
ordeno a V. S. que marche já immediatamente com o seu 
batalhão ás Armações, e eu com a cavallaria marcho á 
Itapoan. E caso tenham (segundo se me diz) marchado 
alguns d^elles á Itapoan, V. S. das Armações seguirá atraz 
d'elles até encontral-os. Deus Guarde a V. S. Quartel general 
.em Cangurungú, 21 de Maio de 1823. — iMbatut^ general.» 

Esta ordem não foi cumprida; pelo contrario, apressou a 
deposição do valente general, que n'aquelle mesmo dia foi 
preso, bem como seu secretario José Maria Cambuci do Valle, 
paulista de grande instnicyão, e o official maior José Mendes 



48 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



da Costa Coelho. Assumiu o cominando em chefe do exercito 
libertador o coronel José Joaquim de Lima e Silva. 

Profundamente ferido em seus brios de militar cheie de 
relevantes serviços á causa da independência, o general, 
antes de seguir para o Rio de Janeiro, a responder a 
conselho de guerra, dirigiu á Bahia uma despedida tocante, 
por onde ix)der-se-á avaliar a sinceridade de seus senti- 
mentos : 

« Pátria de Catharina, magestosa Bahia ! Eu vos deixo 
liberta dos vossos inimigos externos. Aquelles que pelo 
manejo da vil e manhosa intriga me roubaram a gloria de 
concluir trabalhos tão felizmente avançados, indo erguer em 
vosso seio a bandeira imperial como, vencendo mil difficul- 
dades, fiz no Recôncavo, proclamando o augusto nome do 
imperador, nunca me poderão disputar a honra de ter obstado 
a marcha de vossos ir^imigos, desviando -suas armas de todos 
esses logares, onde appareciam os bravos defensores de vossa 
segurança no interior. 

«Não, não criminarei como cúmplices da negra traição, 
que me deu a recompensa dos Themistocles e Scipiões, aos 
illustres bahianos, que á sombra das armas vencedoras do 
império, vinham encontrar as delicias, que não achavam no 
seio da capital. Os auctores da perfídia apparecerão algum dia 
aos olhos da posteridade, e esta, justa avaliadora do mere- 
cimento obscurecido, os privará da honra de serem con- 
siderados como brazileiros, vossos fílhos. Por elles preso, 
çalumniado, exposto a suas invectivas, eu lhes poderia dizev 



CAPITULO XXII 49 



como o lieróe vencedor de Carthago: «Vamos solemnizar a 
memoria dos dias, em que eu, á testa do brioso exercito do 
meu commando, fiz reconhecer ao imperador nas provincias 
de Alagoas e Piauhy, etc», mas a idéa de triumphos tão 
celebres accenderia o furor de meus inimigos, e o menor acto 
de resistência de minha parte me constituiria indigno do 
nome de soldado brazileiro; a honra e minha consciência 
invulnerável me dictaram que entregasse a espada; eu a 
entreguei, e a mesma honra, a minha consciência serão as 
unicás égides de minha defesa. Homens exaltados no mais 
cego e infundamentado egoisnio, não podiam ver um extran- 
geiro á frente da heróica terra brazileira: eis o meu crime, 
bárbaros ! Elles bem conheciam que o Brazil era por adopção 
minha pátria; que eu, fugindo de uma terra vulcanizada por 
uma grande revolução, horrorizado de ser testemunha dos 
males da anarchia, e dos ferozes democráticos, viera procurar 
o solo virginal do Brazil, lisonjeando-me de poder cooperar 
no edifício politico de sua regeneração. 

«Não esperava que me fosse entregue o commando da 
tropa ; esta confiança accendeu contra mim, desde a corte do 
Rio de Janeiro, os fachos do ciúme e da rivalidade, e eu 
fiquei designado como victima de certos génios ambiciosos, 
que viam a fortuna e seus interesses particulares unidos com 
a gloria do commando. Promettam embora sahir á luz com 
as provas do seu brazileirismo e de seus desejos pelo bem da 
pátria ; uns já vos são conhecidos, outros o serão ; a verdade 
combatida chega emfim a apparecer sobre as mesmas ondas 



50 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



revolucionarias, si a opinião publica, verdadeira soberana 
dos povos constituídos, hoje apparece divergindo pelo impulso 
des*:)rganizador dos partidos, e levando debaixo o homem de 
merecimento e incontaminado, amanha, illuminada, ella se 
concentra e se volta embravecida contra os seus malvados 
directores. N'estas epochas as grandes reacções se succedem 
mui de perto ás grandes e violentas acções: os povos cançam 
de obedecerem a caprichos, desprezam facilmente os mesmos 
Ídolos que um momento antes respeitavam, e nas mesmas 
praças em que os applaudiam, assoalham depois os seus 
crimes. 

«Generosa Bahia! O dia 21 de Maio em Cangurungú 
nunca vos cobrirá de vergonha ; não tardará muito que vós 
conheçais os motivos dos desacatos que então se praticaram : 
appéllo para a luz da razão, ella mostrará a inteireza de minha 
conducta. Aquelle que desviou de minha bocca o veneno 
preparado em Maragogipe, quando meus inimigos viram que 
eu sahia triumphante das duas devassas tiradas contra mim, 
será ainda meu protector, porque a innocencia dos crimes 
imputados me garante a presença de seu escudo. 

«Eli apparecerei deante das leis tal como sempre fuir 
elles appareceráo de um modo bem diverso do que esperam. 
Acceitai, entretanto, as minhas saudosas despedidas; depois 
de vos haver conhecido tão de perto, eu seria indigno da 
nobreza do ser d'homem, si me esquecesse de vós. Si a minha 
ingrata fortuna me forçar a sahir' doeste império, levarei 
çommigo a lembrança do que vi e do que admirei em vosso 



CAPITULO XXII 51 



seio, e de longe vos pagarei o tributo de minha affectuosa 
gratidão. — A bordo da charrua Luconia^ fundeada na barra 
da Bahia, em 19 de Setembro de 1823. — Labatut. 

O general apresentou ao conselho de guerra longa e 
circumstanciada defesa, destruindo todas as accusações que 
lhe fizeram seus invejosos inimigos, e indicando 38 testemu- 
nhas em seu abono. Por ser longo o documento, damos d'elle 
somente o periodo final: «Apezar de me serem arrancados 
os papeis da secretaria, contra o que solemnemente protestei 
e me náo responderam, existem em meu podçr os inclusos 
documentos, em numero de 6, que verificam esta minha 
resposta, além de testemunhas que apresentarei, de todo 
credito e confiança publica, que farão ver a este Exmo. Con- 
selho que não foi sem justiça que S. M. I. sempre approvou 
a minha conducta, como me foi participado pelos differentes 
secretários de estado (documento n. 7), e que em logar de 
ignominia, peior que a mesma morte, que me quizeram dar 
os meus inimigos (ducumento n. 8), me compete a honra de 
ser de S. M. I. e da nação brazileira fiel súbdito, e servidor. 
— Pedro Labatui^ brigadeiro. » 

A sentença do conselho de guerra diz, em resumo: (íVendo- 
se n'este conselho de guerra o processo verbal do réo, o bri- 
gadeiro Pedro Labatut, auto de corpo de delicto, devassas e 
mais papeis que lhe fazem culpa, interrogatórios que lhe 
foram feitos, sua defeza e allegações, testemunhas sobre as 
mesmas perguntadas e documentos que apresentou : 

f ponderando ç combinando o conselho os pontos dç 



X23fi-:a:ii:5 islê: 



vogal -./í/í/ J faria Píxío fcíx:'^^^ bcígaásrrx vogal 

O ooaselbo s::pçrmo militar de J3=ôçi caccrrc?a o pto- 
cesíio com csU; despacho: « Oxiâmum a sentrnça Rio, iS de 
Março de i%24. — /^Vr/ií? Guedes^ Oirzzira^ Pcrtf'IL FarimiA^ 
O! n eira Alies, Moreira^ TelUs. Sampaio^ S^mza^ Fidreira^ 

I> jc^rridos muitos annos. veiu o geaeral domiciliar-se em 
liiia fiw^iã Bahia, onde falleceu a 24 de Setembro de 1S49, 
htnáo sepultado no convento da Piedade. A 4 de Setembro 
de J853 foram trasladados seus ossos, segundo desejo seu ( ^), 



' I / Atiudtndo ao *i*i*i^jfj qut o general L^bitm manifestou, antes de morrer. 
áf f^n^ wtxs 'p^^htts {ffiif^zrsí levados para Pírajá. a jnntar-se com os restos de tantos 
\/rzv(fit á'i índependi^ncía. o inspirado poeta bahiano dr. Lmz Alvares dos 
Smt//*, íompfrz b-rilíbsimi/s versos : 

O nosso bravo 
Qtit allí vai é Libatut . . . 

é o guerreiro 
(Jut: preferiu morrer na terra amada 
Tanto do peito seu. que no momento 
U'agfmia fatal, pediu gemendo 



CAPITULO XXII 53 



para a capella de Pirajá e depositados em uma urna de 
mármore mandada vir da Europa por seu testamenteiro e 
dedicado amigo José Marcellino dos Santos, velho soldado 
da independência. 

A remoção dos restos mortaes de Labatut effectnou-se 
com grande solemnidade: formo u-se procissão de todas as 
auctorídades e numerosa massa popular, trajando todos 
rigoroso lucto; foi a urna transportada da egreja da Piedade 
para o Arsenal de Marinha e d'ahi conduzido em vapor até 
ao Cabrito e d'este ponto á matriz de Pirajá, onde se acha 
depositada. 

A posteridade curva-se reverente e agradecida ante a 
memoria do benemérito official francez; o povo bahiauo não 



Que seus ossos p'ra sempre descançassem 
AUi, em Pirajá, entre os amigos 
D'armas, no campo nú ! 

Oh ! como é grande 
Essa unifto de sentimentos nobres ! 
O general que jaz entre as relíquias 
De seus caros soldados — os soldados 
Que assim das sepulturas vão sahindo 
P*ra obedecer de novo á voz querida 
Do general, na noite do sepulcro ! 

No canto intitulado ('m brado nas selvas, commemorativo do 2 de Julho de 
185S, transcripto no Jornal de Xoticias da Bahia de i.** de Julho de 1901, fez este 
poeta um levantado appello a seus conterrâneos : 

O' povo ! no porvir, no dia de hoje, 

Marcha ovante p'ra lá ! 
Um monumento aos manes de teus bravos 

Levanta em Pirajá ! 

Cumpriu-se em parte o desejo do bardo, erguendo-se a Columna 2 de Julho 
na mais bella praça da Bahia. 



54 MEMÓklAS BRASILEIRAS 



esquece os serviços por elle prestados á causa da indepen- 
dência, e, todos os annos, como encerramento das festas popu- 
lares consagradas a 2 de Julho, vai, em numerosa cavalgata, 
render-lhe homenagem em Pirajá. 

Na madrugada do dia 22 áe Maio de 1823 apresentaram-se 
em Itaparica três officiaes que se diziam representantes, em 
commissão, das três brigadas e reclamaram do governador da 
ilha a soltura do coronel Felisberto Caldeira — requisição 
que foi inimediatainente satisfeita. 

Regressavam os officiaes a bordo do barco Ijl/a de 
S, Francisco^ commandado pelo piloto Fortunato Alvares de 
Souza, e acompanhado pelos barcos 25 de Junho^ de que era 
commandante o destemido João das Bottas, e D. Januaria^ 
commandado pelo tenente Philippe Alves dos Santos, quando 
o general Madeira expediu sete canhoneiras para aprisionar 
aquellas embarcações. 

O Villa de S, Francisco^ a pedido de Felisberto Caldeira, 
fel-o desembarcar no engenho Olaria, em quanto os dois 
barcos empenharam-se em fortissimo combate com as 
canhoneiras, e pouco tempo depois veiu envolver-se na luta. 

Estava o barco D, Januaria a ponto de ser tomado por 
abordagem, quando o livrou do perigo um tiro disparado 
contra a melhor das canhoneiras inimigas, que teve partido o 
mastro grande e foi em seguida apresada pelo tenente João 
das Bottas. 

Tão activo desenvolveu-se o fogo dirigido por este valente 



CAMfULÒ XXIÍ 55 



official, que as seis canhoneiras viram-se forçadas a voltar 
apressadamente para a capital. 

A embarcação aprisionada, guarnecida por 25 praças, 
deu como despojo 5 peças de artilheria, 25 espingardas, 
90 saccos de pólvora, 80 balas de diversos calibres, 100 lanter- 
netas e outros petrechos. 

Como galardão á inexcedivel bravura do tenente João das 
Bottas, o almirante Cochrane o promoveu a capitão-tenente. 

Baldo de todos os recursos, resolveu o general Madeira, 
depois de uma convocação de officiaes, retirar-se com suas 
tropas, a bordo da esquadra luzitana e de navios mercantes. 

Para o seu transporte achavam-se promptas 86 embar- 
cações; temendo, porém, ser acommettido pelas forças revo- 
lucionarias, na occasião do embarque, recorreu ao coronel 
Manoel Ignacio da Cunha Menezes, mais tarde visconde do 
Rio Vermelho, para que empregasse seus bons officios junto 
ao coronel commandante Lima e Silva, a fim de qué lhe não 
fosse combatida a retirada. 

Cunha Menezes só conseguiu, como solução, palavras 
seccas e ameaçadoras: «Responde o commandante em chefe 
do exercito pacificador que tem todas as noticias da cidade 
marcadas até por horas, de todos os passos da tropa inimiga, 
e que, logo que saiba que esta principia a embarcar, pretende 
atacal-a, é n'esse momento romperá o fogo no mar: que se o 
general inimigo deseja retirar-se tranquillamente, proponha 
uma capitulação, que será concertada entre os commandantes 
de mar e terra, d'uma e outra parte contractante. » 



56 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Atemorizado com esta attitude e com a idéa de novo e 
e maior desastre, o general Madeira expediu ordem ás suas 
tropas qne se reunissem em determinados pontos, e ás 4 horas 
da madrugada de 2 de Julho de 1823, ^^ signal ajustado de 
um tiro de peça disparado do forte de Santo Alberto,. effe- 
ctuou-se o embarque nos portos da Gamboa, arsenal de 
marinha e Noviciado, actualmente capella e collegio dos 
orphãos de S. Joaquim. 

Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva, em suas Memorias 
históricas e politicas da Provinda da Bahia (tom. III, 
pag. 66), assim descreve a entrada do exercito libertador na 
capital bahiana : 

(í Ao romper do dia achava-se a cidade quasi deserta ; um 
morno silencio se divisava nas suas ruas e praças; as diffe- 
rentes guardas estavam abandonadas, e o coronel António 
José Soares tratou consecutivamente de guamecel-as com 
alg^ins milicianos e paizanos; poucas horas depois, chegou 
ao acampamento de Pirajá um transfuga do general Madeira 
communicando achar-se a mesma cidade livre das tropas 
luzitanas, noticia esta que immediatamente foi confirmada 
pelo coronel João de Souza Moura Girão, chegado áquelle 
acampamento, e é fácil ajuizar do prazer que ella infundiria 
no coração d'aquelles, que por mais de anno supportavam 
os maiores incommodos e privações pela liberdade da 
pátria. 

<rjá estava detalhada de antemão a entrada do exercito 
na capital, e, por ordem do commandante em chefe, se 



CAPITULO XXII 57 

formaram logo todos os corpos, que anciosameute esperavam 
o momento de ver seus lares e famílias. Convidava o dia 
a augmeutar o prazer, por isso que a atmosphera, limpa 
e serena, apresentava brilhante a natureza, e, á voz de 
niarclia, começaram a desfilar aquelles corpos para a mesma 
capital, precedidos por um corpo de exploradores, comman- 
dado pelo coronel Antero José Ferreira de Britto, que passou 
a occupar os pontos e trincheiras abandonados pelos luzitanos. 

«Seguia-se a este corpo o coronel Lima, commandante 
ein chefe, com o seu estado maior, e o tenente-coronel José 
de Barros Falcão, commandante da divisão da direita, e logo 
o batalhão do imperador, commandado pelo major Lima; 
este batalhão, que em oito dias se apromptou no Rio de 
Janeiro, e embarcou para esta provincia: immediatamente o 
acompanhava o batalhão de Pernambuco, tendo por seu 
commandante o major Thomaz Pereira de Mello e Silva, 
divisando-se nos que o compunham o aspecto da bravura, 
característica dos pernambucanos, e da qual tantas provas 
deram nos diversos ataques durante a lucta; mas um quadro 
certamente mais tocante e pathetico se offerecia n'um grande 
grupo, que marchava na rectaguarda doesse batalhão, com- 
posto de defensores da pátria, quasi no estado de nudez 
e descalços, apresentando gravado em si o cunho das privações 
soffridas na constância da campanha, contra as quaes tantas 
vezes exigiu providencias o general Labatut. 

« Após este grande grupo, que mais desafiava as attenções 
e a sensibilidade publica, marchava a columna commandada 



5Ô MEMÓRIAS BkA^ILÊIItAS 



pelo bravo tenente-coronel Manoel Gonçalves da Silva, 
composta do seu batalhão e dos libertos alistados, cujo valor 
muitas vezes reconheceu .o mencionado Labatut, em seus 
officios; offerecia esta columna aos conhecedores da historia 
brasilica, uma perfeita scena das antigas proezas do celebrado 
Henrique Dias, ficando o restante da mesma divisão guarne- 
cendo os pontos e abarracamentos, sem que, porém, murmu- 
rassem de se verem precedidos, na entrada da cidade, por 
aquelles que nunca os deixaram na retagiiarda, na occasião 
dos combates. 

«Pelo mesmo tempo, marchava pela estrada do Rio Ver- 
melho a divisão da esquerda, commandada pelo coronel 
Felisberto Gomes Caldeira, precedida, bem como a primeira, 
por uma partida de exploradores tirada do 4.° batalhão ('), 
e commandada pelo tenente Manoel Rocha Galvão, menos, 
porém, o batalhão n. i, do com mando do major José Leite 
Pacheco, que, pelo lado das Brotas, passou a occupar os 
entrincheiramentos da roça de Joaquim José de Oliveira, 
onde se conservou até o dia 3, em que foi abarracar-se no 
quartel do convento do Carmo; n'esta divisão não se mostrava 
a uniformidade militar, porque pela maior parte era composta 
de paizanos emigrados da cidade, mas via-se n'ella a firmeza 
da marcha, o conhecimento das evoluções e o bom anna- 
mento, fechando a sua retaguarda o batalhão n. 4, de que 
era commandante o distincto capitão Manoel Marques 



( I ) Este batalhão era chamado do Piianga. 



CAI^rfULO xxií 59 



Pitanga, que passou a occupar a fortaleza de S. Pedro, 
apenas entrou na cidade. 

«Tinham as religiosas do convento da Soledade mandado 
preparar um arco triumphal defronte do mesmo convento, 
e logo que a esta posição chegou a divisão da direita, ellas, 
abrindo as portas da sua clausura, sahiram a adornar com 
coroas marciaes os defensores da pátria; avançou d'alli a 
mesma divisão até confrontar com a fortaleza do Barbalhò, 
onde foi logo arvorado o pavilhão nacional pelo alferes José 
Adrião, creado do imperador, firmando-o com dois tiros de 
outras tantas peças que nellas se achavam encravadas, e 
fazendo alto no largo do Terreiro, teve aqui logar a grande 
parada, a qual se seguiu a distribuição de policia, occupação 
dos fortes e corpos de guarda da guarnição, retirando-se a 
quartéis, debaixo da maior ordem, os que folgaram doesse 
serviço. O resto do dia foi consagrado ao desenvolvimento de 
todas as emoções do maior regosijo, pelos que se viam resti- 
tuídos a seus lares, parentes e amigos, sem que entre os 
transportes do jubilo excessivo fosse posta em pratica a menor 
acção, que tendesse a demonstrar qualquer acto de resenti- 
mento. 

«Ainda hoje se observa a mesma ordem n'esse dia, em que 
aunualmente se rememora a entrada do exercito pacificador, 
reunindo-se para isto o povo e tropa na praça da Lapinha, 
d'onde proseguem, como em triumpho, para a cidade. O 
decurso de tempo não tem podido apagar as idéas do enthu- 
siasmo patriótico, e, importando aquella recordação uma pura 



6o MEMORIAS BRAZILEIRAS 



ficção da realidade, comttido o povo experimenta então as 
mais doces sensações de prazer. » 

No memorável dia, o heróico João das Bottas entrou no 
Forte do Mar ou Fortaleza de S. Marcello com a tripulação 
de suá barca e arvorou a bandeira nacional, que tinha sido 
feita, a occultas, pelos ofRciaes e cadetes presos no Forte de 
S. Pedro e para alli removidos. O bicolor pavilhão foi firmado 
por uma salva de 21 tiros, acontecimento que produziu na 
capital vivissimo enthusiasmo. 

A frota do general Madeira não sahiu incólume da Bahia: 
o almirante Cochrane apresou-lhe muitas embarcações — 
o bergantim Promptidão^ que transportava 70 praças do 
12.^ batalhão; a galera Leal Poriugucza^ com 244 do 
5.° batalhão; um navio russo com 233 do 2.° batalhão; o 
navio Pizarro^ capturado pela fragata Carolina^ com 164 sol- 
dados da legião luzitana; a charrua Conde de Peniche^ com 
135 praças do 3.° batalhão; algumas sumacas que transpor- 
tavam familias e outras presas. 

Todos annos, festeja a Bahia o 2 de Julho, fazendo 
desfilar dois carros conduzindo duas bellas estatuas de 
madeira que representam uma cabocla, empunhando na 
dextra o pavilhão nacional e na esquerda um papel com a 
legenda Indepcndcncia ou morte ( * ), e um caboclo, na posição 
em que se acha o indio no alto da Columna. 



( I ) Inspirado por esta imagem da pátria, Junqueira Freire escreveu a 
poesia: 



CAPITULO XXII 6l 



A rua de Santo Aiilonio Além do Canno, por onde passa 
a procissão civica, enfeita-se com extraordinário capricho. 
O préstito vem do largo da Lapinha (') para o largo de 
S. António. Cavalleiros, em trajos brancos e adornados de 
topes e de flores, formam a guarda de honra dos carros. 
Batalhões patrióticos e muitas bandas de musica militares e 
particulares abrilhantam a festa; poesias em avulsos sáo 
profusamente espalhadas entre o povo. Uma commissão vai 



o HVMNO X>\ CABOCLA 

Sou Índia, sou virfi^em, sou linda, sou débil, 
É quanto vós outros, oh tapes, dizeis ! 
Sabei, bravos tapes, que eu sei com destreza 
Cravar minhas settas no peito dos reis ! 



As minhas façanhas espantam aos tapes, 
In vejam -me todos as altas façanhas : 
86 ellas são como penhascos gigantes, 
Só ellas são como brazileas montanhas ! 

Só ellas náo curvam-se ao mando dos homens, 
Só ellas conculcam despóticas leis : 
Só ellas humilham a fronte aos tyrannos, 
Só ellas abalam o throno dos reis ! 

Meus membros sfto débeis qual junco flexivel, 
Meu pé tão mimoso, dizeis, tâo maneiro I 
Meu pé tâo mimo<H) sabei que elle esmaga 
O coUo possante do vil extrangeiro ! 

( I ) Uma sociedade patriótica. Dois de Julho, instituida na Bahia no anno 
<lc 1^55' niindou edificar no largo da Lapinha um elegante pavilhão onde são 
guardados estes emblemas da independência bahiana. 

O carro do caboclo, fabricado em 1828, tem as rodas feitas das carretas das 
peças tomadas ao inimigo. A estatua é devida ao talento do csculptor Bento 
Sabino. O outro carro, de gosto moderno, representando a cabocla, foi construído 
çm 1840. 



62 MEMORIAS BRA;ZILEIRAS 



á praça Duque de Caxias e deposita no monumento valiosa 
coroa. 

Os carros symbolicos cia victoria bahiana são levados para 
um arco triumphal armado no largo de Santo António e ahi 
permanecem expostos ao publico durante três dias, em que 
se realizam variados divertimentos. 

Por pastoral datada de 26 de Junho de 1830, o arcebispo 
D. Romualdo António de Seixas, deferindo requerimento 
que lhe foi dirigido em nome dos habitantes da Bahia, 
considerou a de Julho como dia santo dispensado. 

A victoria dos bahianos, felizmente não assignalada pelo 
sangue, acha-se perpetuada em um padrão glorioso, inaugu- 
rado brilhantemente a 2 de Julho de 1895 — a Columna 2 de 
Julho. 

Este monumento — o mais bello que no género possue o 
Brazil — acha-se levantado ao centro da praça Duque de 
Caxias, antigo Campo Grande, districto da Victoria, e com- 
põe-se de uma formosa columna de bronze de ordem coryn- 
thia, medindo 25^,86 de altura total e assente sobre um 
ped^tal de mármore de Carrara formado de dois corpos, 
sobre-posto um ao outro, d'oude partem para os quatro lados 
escadarias do mesmo mármore. 

No alto da columna ostenta-se a vigorosa figura de um 
Índio armado de arco e flecha, como emblema do Brazil, na 
attitude de ferir com lança a cabeça de um dragão, symbolo 
do governo portuguez que a Bahia expelliu a 2 de Julho 
de 1823. 



CAPITUI.O XXII 63 



O capitel da columna é constituído de folhagens de car- 
valho e louro com ornatos allegoricos, tudo de bronze 
dourado, com um i™,65. O fuste e a base da columna medem 
ç^^jSi, tendo o primeiro terço inferior octogonal, em que se 
destacam quatro grinaldas com inscripções; na frente: 
Entrada das tropas libertadoras^ 2 de Julho de 1S2J; no 
fundo: Reunião das cortes^ 26 de Agosto de i82i\ ao lado 
direito: Batalha contra a frota lusitana^ 4 de Maio de 18 2 j^ 
e ao lado esquerdo: Organisação da Junta na Cachoeira^ 2^ 
de Junho de 1822. 

Os dois terces da columna são estriados, tendo, de espaço 
em espaço, faixas contendo os nomes dos 24 beróes que mais 
combateram em prol da independência do Brazil e da liber- 
dade da terra bahiana: 

Borges db Barros. 

Lino Coutinho. Cypriano Barata. 

Gomes Ferrão. Pedro Bandeira. Montezuma. 

VISCONDE de PiRAJX. C ARNEIRO DE CaMPOS. 

Garcia Pacheco. Rodrigo Brandão. 

Sequeira Bulcão. 

Pereira Rebouças. brigadeiro Manoel Pedro. 

GENERAL PEDRO LaBATUT. 

tenhnte-coronel Souza Lima. 

CORONEL Lima e Silva. 

major Silva Castro, corneta Luiz Lopes. 

tenente João das Bottas. 

TENENTE JOSÊ PlNHEIRO DE LEMOS. 
TENENTE JaCOME DoRKA. TENENTE SlLVA LiSBOA. 

CAPITÃO Cypriano Sequeira. 

ALMIRANTE COCIIRANE. 

Entre essa parte da columna e o capitel notam-se festões 
^ourados. 



64 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



O pedestal superior, de mármore, em forma quadran- 
gular, tem no meio da face da frente as armas da Republica, 
encimando a divisa: Liberdade^ egttaldadt\ fraternidade. 

Xa face opposta. as annas da cidade com a legenda: 
Sic illa ad arcam rez'€rsa est. 

Ao lado direito, encostado ao pede5tal, figura sobre um 
plintho a estatua de uma mulher envolta cm uma bandeira 
fortemente empunhada: representa a Bahia. 

Do lado opposto, outra estatua de mulher de cabellos 
soltos, coroada de louros; em uma das mãos uma arma em 
posição de defesa, na outra um escudo com a legenda : Inde- 
pendência ou morte: representa Catharina Paraguassú. 

O pedestal inferior, ainda de forma quadrangular e em 
maiores proporções, tem nos quatro cantos columnas de 
ordem toscana, no meio de cujos fustes se lêem, em escudos 
de bronze e lettras douradas datas memoráveis: Chegada de^ 
Cabral a Porto Seguro^ 22 de Abril de i^oo; Fufida^ào da 
Bahia ^ 6 de Agosto de 1^49; Proclamarão da Independência^ 
7 de Setembro de 1822; Entrada do Exercito Libertador^ 
2 de Julho de 18 2 j. 

Sobre essas columnas elevam-se trophéos de anuas e 
objectos indígenas artisticamente combinados. 

Xas almofadas da frente e do fundo doesse pedestal exis- 
tem quadros de bronze, em relevo, onde o artista com perícia 
e arte soube, n^aquelle, mostrar os actos de heroismo prati- 
cados pelos itaparicanos na tomada da barca luzitana a 7 de 
Janeiro de 1823, ^j n'este, o denodo dos cachoeirenses a 28 



CAPITULO XXII 65 



de Juulio de 1822 ; figurando, aqui, uma barca no rio Para- 
guassú, qu2 é invadida por pessoas armadas, e alli, outra 
barca defronte do forte de S. Lourenço, em Itaparica, onde 
sobem soldados c gente do povo. 

Nas outras duas almofadas lêem-se inscripções; em uma 

face : 

An NO DK 1895 

Aos HKRÓFS DA InDUPKNDKNCIA 
A PÁTRIA AGRADF.CIDA 

In iMCRPicrriM vivkrk iNTKUjc.iTrR 

Qn PRO PÁTRIA CI%CIDICRL'NT 

Na face opposta: 

Anno VII da Republica 

Oovernador do Estado, Dr. J. M. Rodrigues Lima 

Intendente Munieipa\ I)r. J. L. Almeida Couto 

Presidente do Conselho, Dr. J. E. Freire de Carvalho 

Conimissão Executiva: 

Dr. Augusto A. Guimaríles, P. 

Dr. M. V. Pereira, vS. 

Coronel Manoel h. Pontes, T. 

Dr. J. L. Almeida Couto 

Dr. Cincinnato P. Silva 

Dr. Frederico A. S. Lisboa 

Dr. A. M(»nteiro de Carvalho 

Coronel Ari.stide.s Novis 

Dr. A. E. Maia Bittencourt, ICngenheiro Fiscal 

Dr. A. Augusto Machado, Ivngenheiro das obra.s 

Capitão Thomaz P. Palma. Auxiliar. 

No plano de que jxirtcm as e.<icadarias estão col locadas, 
em soccos de trinta centimetros de alto, na frente e fundo, 
duas grandes águias de azas abertas, pousando esta sobre 
canhões, ancora, estandarte da metrópole com um escudo 



66 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



circulado por uma grinalda de folhas de café com a 
data de 25 de Junho de 1822, e aquella sobre a proa de 
uma barca em destroços, com a data de 7 de Janeiro de 1823 
escripta em uma fita orlada de ramo de café, correspondendo 
aos quadros já descriptos. 

Dos outros dois lados, estatuas recostadas, de formas 
colossaes, representam os dois principaes rios da Bahia: o 
►S*. Francisco e o Paraguassú. O primeiro é um velho de 
longas barbas, cercado de indigenas e pirogas, tendo na dextra 
um remo e deixando ver próxima a cachoeira de Pattlo 
Affonso, O segundo descança o braço direito em um rochedo 
e mergulha os pés no oceano, cercado de peças allegoricas. 
Em freute aos dois rios, grandes pias em forma de caramujos 
para receber as aguas que correm das allegorias de bronze 
dos mesmos rios. Ainda n'esse plano, nos quatro ângulos, 
existem dados de mármore branco sobre os quaes descançam 
quatro gigantescos leões, tendo, debaixo das patas, allegorias : 
um, quebra uma corrente; outros pisam armas e escudos. 

Das bases d'esses leões jorra agua para pequenas pias de 
mármore vermelho, em forma de conchas, presas aos dados. 
Ainda n'essas bases, em fitas com lettras douradas, lêem-seas 
seguintes datas: Cabrito^ 8 de Novembro de 1822; Fiinil^ 2ç 
de Julho 1822 ; Firajá^ 8 de Novembro de 1822 e Engenho 
da Conceição^ 2ç de Novembro de 1822, 

O monumento é cercado de um passeio de mármore com 
2'",50 de largura, formado de mosaico de varias cores e com 
os seguintes Icttreiros de mármore negro no meio de cada 



CAPITULO XXII 67 



lado; na frente: Dais de Julho de 18 2 j^ ao fundo o lemina 
da bandeira republicana brazileira: Ordem e Progresso ; diO 
lado direito : Estado da Bahia e ao lado esquerdo : Indepen- 
dência ou morte. 

Esse passeio com altura de o^^jas é fechado por um gradil 
de ferro fundido decorado com folhagens e escudos, onde 
figuram, em baixo relevo, as armas da republica e da cidade, 
representadas estas ]X)r uma pomba com um ramo de oliveira 
no bico. 

Um segundo passeio de 3"\5o de largura e 0^,40 de 
altura, com orla de cantaria de Santo António das Queimadas 
e ladrilho de mármore preto, branco e cinzento, bem combi- 
nados, circula aquelle outro. 

N'esse passeio, sobre plinthos de cantaria das Queimadas 
e da serra da Itiíiba, com altura de o"*,65, foram montados 
oito bem trabalhados candelabros com quatro grandes 
globos, para illuminação a gaz, dos quaes três nos braços 
e um acima da cabeça de uma figura, todos ornamentados de 
anjos, folhagens, grinaldas, festões e outras peças deco- 
rativas. 

A delineação do projecto coube em grande parte ao 
secretario da connnissão, dr. Manoel Victorino Pereira, e a 
confecção ao esculptor Carlos Nicoli, vice-consul brazileiro 
em Garrara. 

O contracto para execução dos trabalhos foi celebrado 



68 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



com a firma Pitombo, Pedestá & C. pela quantia de trezentos 

e noventa mil francos ( ^ ). 

Toda esta descripção foi extrahida do importante trabalho 

intitulado O Monumento^ do dr. Alexandre Freire Maia 

Bittencourt, publicado no Rcv, do Insi. Geog. e Hisí. da 

Bahia, tom. II, pags. 231 a 236. 

A acta da inauguração do monumento foi lavrada n^estes 
termos : 

«Gloria ao Dois de Julho de 1823. Cidade do Salvador, 
Bahia de Todos os Santos. Aos dois dias do mez de Julho do 
anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil 
oitocentos noventa e cinco, LXXIII da Independência e VII 
da Republica, ás duas horas da tarde, sendo Governador do 
Estado o cidadão dr. Joaquim Manoel Rodrigues Lima; 
intendente do municipio o cidadão dr. José Luiz de Almeida 
Couto, e presidente do Conselho Municipal o cidadão dr. José 
Eduardo Freire de Carvalho Filho, depois de celebrada 
a Missa Campal pelo revmo. cónego pro visor, Clarindo de 
Souza Aranha, e lançada a benção pelo Sr. D. Manoel 
dos Santos Pereira, bispo de Olinda, e após o discurso profe- 
rido pelo senador Augusto Alvares Guimarães, presidente da 



( I ) Para occorrer á despeza do monumento, obliveram-se as seguintes 
quantias : 

Contribuiçào do listado nos exercicios de 1892 a 1894. . 3oo:ooo$ooo 

Subscripçfto popular 43:8065788 

Subvcnçáo da camará, saldo de loterias, etc 45:171 $255 

.V^^:97Í^So43 



CAPITULO XXII 69 



commissão executiva, foi declarado inaugurado pelo cidadão 
Governador do Estado, eutre ruidosas acclamações, com 
maxiuia solemnidade, na praça Duque de Caxias, antigo 
Campo Grande, o Monumento destinado a perpetuar, no 
bronze, os feitos gloriosos das grandes luctas que tiveram 
por brilhantissimo desfecho a entrada triumphal do valoroso 
exercito pacificador n'esta briosa capital no dia 2 de Julho 
de 1823. 

«A inauguração, que despertou legitimas expansões de 
verdadeiro enthusiasmo, condigno do patriotismo do povo 
bahiano, effectuou-se perante alguns Veteranos da Indepen- 
dência, preciosas reliquias de nossa emancipação politica, 
principaes auctoridades civis, militares e ecclesiasticas, corpo 
consular, representantes da imprensa, officiaes do exercito, 
da armada e honorários, da guarda nacional e do regimento 
policial, funccionalismo federal, estadual e municipal, corpo- 
rações politicas, scientificas, litterarias, commerciaes e artis- 
ticas, representantes do clero e confrarias religiosas, associações 
beneficentes e recreativas, representantes do commercio, da 
lavoura e das industrias, batalhões patrióticos, alumnos dos 
diversos estabelecimentos de instrucção e a generosa mocidade 
das Academias de Direito, de Medicina e Pharmacia, do 
Instituto Official, das Escolas Normacs e de Bellas Artes, do 
Lyceu de Artes e Officios, do Centro Operário, e, finalmente, 
de immeroso concurso de cidadãos de todas as classes. 

«Por essa occasião, foi cantado pelos alumnos e alumnas 
do intelligente professor Ludgero José de Souza, e sob a sua 



70 MEMOkIAS BkA2lLElkAS 

direcção, o tradicional hymno ao Dois de Julho. Em seguida, 
saudou a Bahia, em nome do Estado de Pernambuco, o 
cidadão Silva e Oliveira, recitando depois o cidadão Costa 
e Silva uma poesia ao Dois de Julho, 

«E, para constar, eu, Cincinnato Pinto da Silva, secretario 
interino da commissão executiva, fiz escrever esta acta, que 
assigno » 

Das 175 assignaturas salienta vam-se as seguintes: T^r. Joa- 
quim Manoel Rodrigues Lima^ Governador do Estado; 
dr. António Pacijico Pereira^ representando o dr. Prudente 
de Moraes, Presidente da Republica; f Manoel^ bispo de 
Olinda; Cincinnato Pinto da Silva^ representando o dr. Ma- 
noel Victorino Pereira, Vice-Presidente da Republica, e o 
senador dr. Virgilio C. Damazio; dr. José Luiz de Almeida 
Couto^ intendente municipal ; dr. José Eduardo Freire de • 
Carvalho Filho^ presidente do conselho municipal ; António 
José Machado^ secretario do conselho mimicipal; Ernesto 
Pereira Coelho da Cunha ^ membro do conselho municipal ; 
Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque^ idem; Leopol- 
dino António de Freitas Tantít^ idem ; João Manoel de Seixas^ 
idem ; dr.y. Agrippino Dorea^ idem ; João de Teive e Argollo^ 
idem; dr. Frederico Lisboa^ representante do presidente do 
senado e do senador Virgilio Damazio; dr. Francisco Moniz^ 
presidente da camará dos deputados; barão de Camaçari^ 
presidente do senado; dr. Manoel António Melgaço^ senador 
estadual; dr. Horácio César \ ^r, José de Aquino Tanajura\ 
Américo Barretto Filho^ da commissão da camará dos depu- 



Capítulo xxíí ^t 



tados; Francisco de Araújo Aragão Bulcão] Augusto Fer- 
reira França^ membro da commissão do senado; António 
Pedro de Mello^ secretario do governo; M, Adalberto de Oli- 
veira Guimarães^ i.® secretario da camará; Miguel Ribeiro 
de Oliveira^ 2.° secretario da camará dos deputados; Pedro 
Afoniz Leão Velloso\ vigário Hermelino Marques de Leão^ 
deputado estadual; António Barbosa de Souza^ chefe de 
policia ; Manoel Pedro de Rezende ; Rogociano Pires Teixeira ; 
dr. Manoel Bonifácio da Costa^ do Instituto Geographico e 
Histórico; António Alexandre Borges dos Reis^ idem; ba- 
charel José Octacilio dos Santos^ advogado do municipio ; 
barão de S. Francisco^ presidente do Instituto Bahiano de 
Agricultura; Francisco Alvares dos Santos Souza\ dr. Gly- 
cerio Velloso^ representante da Gazeta de Noticias \ Arlindo 
Fragoso^ engenheiro civil; dr. Satyro de Oliveira Dias^ 
director da instrucção publica; Severino dos. Santos Vieira; 
Cassiano da França Gomes^ director da escola normal ; 
Aloysio de Carvalho^ representando o Jornal de Noticias e o 
Instituto Geographico e Hisrtorico da ^2\\\2i\ Alfredo Requião^ 
do Jornal de Noticias; Maximiano dos Santos Marques ; 
Pedro Eustáquio de Oliveira Porto; o cônsul de Portugal, 
Joaquim Baptista Moreira; o vice-consul da Itália e da 
Áustria, Stefano Podestá; o cônsul da Venezuela, barão de 
S. Raymundo ; o cônsul da Rússia, Duryer; Tranquilino 
A. Torres; João N, Torres; Augusto A. Guimarães^ presi- 
dente da commissão do monumento; Aristides Novis; 
Manoel Lopes Pontes ; Cincinnato Pinto da Silva^ secretario 



MEMORIAS BRAZILEIRAS 



interino da conimissáo; Ignacio Alves Nazaré th; Francisco 
de Assis Gomes; Constantino Nunes Mucugê, 

Depois da inauguração da Columna, foi rendida tocante 
homenagem a três velhos batalhadores de 1823, que ^e acha- 
vam presentes á glorificação da bravura e do patriotismo e 
tiveram a ventura de ouvir palavras solenmizadas pela justiça 
da historia : 

SAUDAÇÃO DO POVO AOS VETERANOS DA INDEPENDÊNCIA 

«Si a mudez do mármore e do bronze do monumento, 
destinado a commemorar os feitos gloriosos de nossa 
emancipação politica, fala com maior eloquência do que tudo 
quanto poderia dizer a linguagem humana; a presença 
veneranda dos beneméritos cidadãos Francisco de Assis 
Gomes, Ignacio Alves Nazarethc Constantino Nunes 
MucuGÍv, nas festas d'cstc anuo ao immortal Dois de Julho, 
constitue para nós, que somos o povo, que somos a Pátria 
agradecida, a resurreição luminosa dos heróes e martyres da 
independcncia da Bahia. Sombras augustas de um passado 
de glorias! E de joelhos que saudamos os Veteranos da 
liberdade ! « 

Ê-nos grato apresentar agora uma pequena anthologia 
bahiaua — grinalda de flores litterarias enlaçada em espiral 
na magestosa Columna, como em espiral se elevam ao céo as 
nuvens de incenso de corações transformados em oscillantes 
e ardentes thuribulos. 



CAPITULO XXII 73 



Tópicos do discurso do dr. Satyro de Oliveira Dias : 
«Aquillo não é uma ficção, nem uma vaidade; é a 
prodigiosa realidade da fé e do amor ; da fé no dia de amanhã, 
a cuja santa alvorada cantarão as novas gerações melodias de 
paz e de liberdade; de amor e reconhecimento aos que já 
foram caminho da eternidade, marcando com o próprio 
sangue, no chão da pátria, o sulco para o alicerce d^aquella 
columna monumental. 

« Alli não está somente a Rahia, soberba da sua fama de 
mãe fecunda de heróes e engenhos peregrinos. Aquelle 
bronze não está somente cantando ao futuro a sua invejável 
historia, desde o formoso idyllio 

« Onde geiíieu Paragiiassú de ainores • 
K os cchos falam de Moenia ainda, » 'j 

até á patriótica tragedia, em que se nos afigura, cada vez 
mais luminoso, a túnica de soror Joanna Angélica. Não. Mais 
do que a Bahia, e por condão doesta a/ma mater brazileira, 
aquelle monumento, todo da inspiração e do esforço bahiano, 
é a synthese homérica do sentimento nacional, no momento 
genésico da nossa pujante nacionalidade. 

«O symbolo do génio do Brazil lá está de pé sobre o 
capitel da columna gigantesca. Sobranceiro ao primoroso 
trophéo, que a arte creou para perpetuar a memoria dos 
heróes de 23, parece que elle immerge a cabeça no infinito 
azul, pedindo inspirações ao céo para o vasto caminho aberto 
ao nosso progresso e á nossa felicidade, á sombra da paz e da 
liberdade de todos os direitos e de todas as consciências. » 

lU TOM. II 



74 MÉMÔklAâ BkA^ILÉlRAS 



Do discurso do dr. Augusto Alvares Guimarães : 

« As acções gloriosas que n'aquelle mouuiuento se consa- 
gram á veneração publica não são assim as de uma parte do 
território do Brazil: são as de toda a nação, que viu n'aquelle 
dia abrirem-se-lhe as portas da historia, como vê n'aquelle 
monumento a solidificação da memoria egrégia de todos os 
seus heróes, a consagração de todos os seus feitos de patrio- 
tismo e de valor. 

« Monumentos d'essa ordem não são, porém, unicamente 
preitos de gratidão a acções nobilitadoras, padrões da immor- 
talidade de homens illustres, que derramaram seu sangue por 
uma idéa: são também ensinamento aos vindouros. Aqui, 
reflectindo sobre os destinos humanos, embevecidos ao con- 
templar os echos longinquos de nossa historia e de nossas 
tradições, as gerações futuras aprenderão a ser patrióticas, 
altivas, e buscarão beber na instrucção e no trabalho forças 
que consigam fazer que o progresso e a civilisação penetrem 
n'este solo, por todas as suas mil formas e acharão lenitivo 
para as dores excruciantes de presente maligno, certas na 
chegada próxima de um futuro melhor e mais duradouro, e 
quando os cataclysmos nos ameacem, encontrarão aqui, 
n'estas pedras symbolicas de nosso patriotismo e de nossa 
hombridade, resistência feroz a todas as oppressões. 

« Felizes os que puderem dizer, á claridade esplendida 
dos arrebóes doesse dia de nosso ideal, ouvindo o hymno 



Capitulo xxíí 75 



perenne entoado pelas exuberancias de nossa natureza junfo 
ao tabernáculo augusto das glorias nacionaes : Somos dignos 
de vós e do vosso heroísmo, geração máscula da indepen- 
dência ! » 

Do estro sempre inflammado do poeta João de Britto 
colhemos alguns versos, notáveis pelo arrojo das hyperboles : 



O inspirado cinzel da antiga estatuária 
Revive e fulge ahi nos traços mais distinctos ; 
Accendem-nos a fé, no peito, extraordinária, 
Estatuas varonis firmadas em seus plinthos. 

No largo pedestal de mármore transparente 
As águias, os leões de jubas desgrenhadas, 
N'essa attitude hostil, que infunde medo á gente, 
Os sitios deixam ver das luctas empenhadas. 

Este — é a Cachoeira, o baluarte invicto ; 
Aquelle — Itaparica, a terra dos denodos. 
Ninho d 'águias do mar; seguem-se após Cabrito, 
Funil. . . e Pirajá, que em si resume todos. 

Jamais poude um trophéo, na praça levantado, 
Falar de tradições, de heróes, de feitos grandes. 
Como este que assignala em luz nosso passado, 
Cravando o cimo além dos coruchéos dos Andes! 

Somente um filho teu, oh terra do prodigio, 
Itália ! que dos céos houveste o génio em dote. 
Devia aqui deixar, olympico prodigio 
D 'arte que eternizou o nome a Buonarotti, 



76 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Este poema em pedra, esta memoria immensa, 
Que assume as proporções titânicas de um monte, 
Onde da nossa historia o brilho se condensa 
E em face á qual o tempo ha de curvar a fronte. 



Si um dia, sacudido o chão n'um cataclysmo, 
Com medonho fragor tombar esta cidade, 
E tudo se engolfar em negro, hiante abysmo. 
Do qual sjmente Deus sonde a profundidade. 

Erecto ha de ficar na vastidão do espaço, 
Tal qual se mostra aqui, este trophéo brilhante, 
Tendo para o suster as azas rijas, de aço, 
Das agtiias que elle traz no pedestal gigante. 

Do poeta João Baptista Guimarães Cerne: 

ANTE O MONUMENTO DE DOIS DE JULHO 

Graças, ó Pátria, p5des orgulhosa 
Levantar a cerviz, fitar a historia : 
No carrára, no bronze escreve a gloria 
A estrophe que alli vês maravilhosa. 

Já não temes que a pena opprobriosa 
De ingrata e vil te lancem na memoria ; 
Alli, grande qual és, alta e marmórea, 
Tua imagem, ó mãe, surge garbosa. 

Agora, sim : quando no céo bahiano 
T^Q Julho 2 o sol gentil desponta, 
Beija primeiro o indio americano. 

Dois monumentos este dia conta : 
A carta que o sagrou republicano 
E o capitel que os séculos affronta ! 



CAPlTUtO XXII T] 



SÓ em livro especial poderiamos reunir composições poé- 
ticas de illustres bahíanos consagradas febrilmente a 2 de 
Julho. 

Em nossas investigações encontramos uma poesia que, 
apezar de extensa, devemos citar, pelo arrojo da concepção e 
pelo grande effeito causado. 

Foi na Bahia, no anuo de 1846. 

O theatro S. João, enfeitado externa e internamente, 
encheu-se na noite de 2 de Julho para a realização de impo- 
nente espectáculo de gala. 

Sobe o panno e em scena aberta os artistas, ladeando o 
retrato do imperador D. Pedro II, cantam um hymno, a que 
pertence esta quadra bellamente enérgica: 

Nunca mais o despotismo . 

Regerá nossas acções: í 

Com tyrannos náo combinam 
Brazileiros corações. 

N'essa occasião, em um camarote da ordem nobre, jimto 
á tribuna occupada pelo presidente e commandante das 
arma.s, general portuguez Francisco José de Souza Soares 
d'Andréa, barão de Caçapava, surge o poeta satyrico Manoel 
Pessoa da Silva, e, repetindo aquelles versos como um mote, 
recitou a seguinte glosa, dirigindo fortes accionados ao 
general : 



78 MEMORIAS BRAZILEJRAS 



Pela marcha lisonjeira 
Que leva o género humano, 
Hoje tentar ser tyranno 
É inaudita cegueira. 
Ver-se-á frustrado o que queira 
Renovar o terrorismo ; 
Uma vez com heroísmo 
Conquistada a liberdade, 
Reger, dominar nào ha de 
Nunca mais o despotismo/ 

Etra o que amanimentado 
Por leite do captiveiro, 
Queira o povo brazileiro 
Dominar pelo passado. 
Vai caminho desviado 
Nutrindo taes intenções ; 
Varie de opiniões, 
Pense melhor e conclua 
Que nunca vontade sua 
Regerá nossas acções! 

Escoria da humanidade. 

Quem seu berço renegou 

N 'outra terra nunca amou 

Lealmente a liberdade ! 

Porém calcai -a não ha de 

Nos que d'ella heróes se assignam ; 

Entre si elles se ensinam 

De gosal-a eterno jus ! 

São filhos de Santa Cruz ! 

Com iyrannos não combinam / 

Este, que heróicos bahianos 
]Memoram, tão nobre feito, 
Seja profícuo preceito 
 correcção dos tyrannos ; 
Escarmente-os, p'ra que insanos 
Nào manchem nossos brazões ; 



CAPITULO XXII 79 



Vejam n'elle seus mandões 
Que, livres, em peitos bravos. 
Jamais podem ser escravos 
Brazikiros corações ! 



Esta allusão directa á primeira auctoridade da provinda, 
atrozmente injuriada nos versos candentes dà terceira decima 
como portuguez renegado^ acccndeii os brios do ajudante de 
ordens, filho do general: ás ultimas palavras do poeta, o 
ajudante dirigi u-se ao camarote em que elle se achava e a 
chicote vingou as cruéis offensas jogadas contra seu pae. 
Uma das senhoras ahi presentes, indignada contra esta aífronta 
praticada em seu camarote, adeantou-se ao official e, n'um 
Ímpeto de cólera, partiu-lhe o leque nas faces. Curvando-se 
á justa vingança feminina, o ajudante limitou-se a dizer: 
— V. Exa. pôde fazer em mim o que quizer. 

Levantou-se a platéa em favor do poeta bahiano, e o offi- 
cial teria pago com a vida o seu attentado publico, si o pre- 
sidente o não mandasse recolher preso ao quartel general, 
como satisfacção dada aos espectadores. 

As opiniões dividiram-se pró e contra Manoel Pessoa, que 
d^aquelle modo escandaloso desabafara enorme despeito, por 
ter sido dispensado de seu emprego na repartição de obras 
publicas, que havia sido extincta. 

Innegavel mente essa glosa, com todas as suas inconve- 
niências de occasião, é um raio brilhante e fulminador como 
aquellas immortaes chispas que nos Chaiimcnts de Victor 
Hugo esmagaram Napoleão III perante a posteridade. 



Ro MKMOKIAS URAZIIJCIRAS 



No atuio (Ic 1862 installou-sc na Bahia a Sociedade dos 
I \'(ernnos dit Indcpcndeitcia do Brazil^ associação de bene- 
fuviUMa, lendo por fim soccoircr, na vida e na morte, a 
loJos (inatitos tomaram p.irte nas gloriosas lactas, ou propor- 
cionanilo pcnsiVs aos inválidos ou enterro decente aos que 
SC finavam. Ungida de ii. christã, a sociedade mandava celebrar 
missas cm determinados dias do anno: a 24 de Setembro por 
alma de 1>. Pedro I, fnndador do império do Rrazil ; a 8 de 
Novembro, annivers.irio do combate de Piraja, por alma do 
I^eneral Kabatut e do seus companheiros d'armas fallecidos 
na j;nerra; a6 do Abril ix>r alma do patriarcha José Bonifácio 
do Andrada c Silva, o instigador da idéa da independência; 
a i<) de Abril por alma do general José Joaquim de Lima e 
Silva, ci>mmandaute do exercito libertador, e, finalmente, a 25 
de Junho — data do movimento revolucionário na Cachoeira 
— j>or alma das iwtriolas que fizeram a indei^endencia e falle- 
ceram dejv^is do celebrado dia 2 dt Julho de 1S23, 

A Sv>eioil;tde tinha, como brazào d\iniias, uma espada e 
uma jvUma OtMoadas e sob a c\^n\\ as hnoiaes P 1 ! Pedro 
Pvimciro\ cironmdando esie embleuu ,"*s ]\uavr,^> Wu-rn^iosí 
dã /v,7VA';;.?Vvr,\7 ,v<? l^.ihi.7 i w ,^,'',\ 

Xas grandes dias de fotas jwniviioas ^:: de J;:^,:.^ e 7 de 
Setenibn^'^ desfraldava •x'^ na íivnte di^ ]\r;as.v:e v!.> ^^resiv^cTiie 
da >xvio<íade. Ja^qnim Auionú> d;; SiS','i Oar\',^':::,:\ :::::,": 'lun- 
deira logvudana, uc-^Wiada e c:-i\,ida do rv^\u> — rc^i-icr::.-. 
^\mK^noa, rejvvscutando a br,:;\ ir,u de -iinia gcr.tÇ,::- .u \,s- 
IculON in\'Ouoivcis. 



CAPITULO XXII 8l 



A 2 de Julho de 1873, ao passar a procissão cívica 
defronte d'esse pavilhão nacional, a ondular no espaço como 
si o agitasse a alma heróica da revolução redemptora, o 
grande repentista Francisco Moniz Barretto ('), em um surto 



( I ) o poeta Francisco Moniz Barretto nasceu na viUa de Jaguarípe a lo de 
Março de 1804 e falleceu ni Bahia a a de Juiiho de 1868. Publicou em 1855 dois 
vMumes de poesias, sob o titulo Clássicos c Românticos. Grande improvisador, 
foi elle o Bocage brazileiro pelos elevadissimos voos da inspiração a irromper ' 
espontânea e resplandecente em suas odes patrióticas e pela extravagância de, 
na velhice, offerecer á rapaziada versos obscenos reunidos em álbum. 

Como exemplo áz seu finissimo humorismo citamos um facto. Desejando 
o poeta bahiano visconde di Pedra Branca ( Domingos Borges de Barros ) ter á 
sua mesa o notável repentista, dirígiu-lhe o seguinte 

CONVITE 

Si de mascar um peru 
Tem hoje gana o seu dente, 
Venha trínchal-o em familia 
Com seu amigo e parente. 

Mas saiba que sobre a mesa 
Verá peru, nada mais ; 
Nem mesmo si a gulosina 
Soltar suspiros e ais. 
23 de Dezembro de 1851. 

Visconde da Pedra Branca. 

Não poude Moniz Barretto satisfazer ao convite, por havel-o recebido tarde, 
mas enviou immediatamente ao visconde estes espirituosos versos : 

RESPOSTA 

N&o quiz, meu visconde, a sorte. 
Que para mim nunca presta. 
Que eu comesse peru gordo 
Sem ser eqi dia de festa. 

o sen convite a trinchal-o 
Recebi qnasi ao sol posto, 
Quando para a casa entrava 
Cheio de afan e desgosto, 
n TOM. ji 



82 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

de eiithusiasmo patriótico — como tantos que lhe occorriam 
á mente sempre inspirada — apontou á nmltidào a veneranda 
insignia, exclamando: 

Olhai a sua bandeira 
Que quasi dez lustros tem : 
Nunca abateu-se a ninguém 
Esse estandarte ancião ! 
Guiou ao combate, á gloria 
E deu renome na historia 
A valente batalhão ! 
Signal de um povo guerreiro 
Na presença do extrangeiro 
Nunca rojou pelo chão ! 

O delirio que este improviso provocou justificou-se não só 
por seu rasgo oratório, mas ainda pelo facto de também ter 



Sendo já passada a hora 
D'ir á pitança ezcellente, 
Na caseira carne magra 
MeUi sem vontade o dente. 

Xào pude engulir boccado 
Da costumeira panella, 
Tendo o perd-nâo-comido 
Atravessado na guela. 

Um de seus melhores improvisos foi feito no theatro S. João por occasiâo de 
festejar a Bahia a coroação de D. Pedro II. Ahi, sendo-lhe dado o mote 

O seu Rei^ seu irmão ^ seu pae^ seu nume, 

o poeta, depois de breve concentração de espirito, fez ouvir, perante um silencio 
quasi religioso, este bello soneto : 

Do thesouro que é meu, d'esse thesouro 
Que a ninguém usurpei, hoje despendo ; 
O tributo, Brazil, que a Pedro rendo. 
Como elle, nobre, não custou teu ouro ! 



CAPITULO XXII 83 

sido o poeta iini bravo da independência, combatendo, aos 
18 annos, pela causa que electrizava a multidão. 



Levar seu nom? ao século vindouro, 
Após a gloria nossa, eu só pretendo I 
Ao nada a van grandeza irá descendo ! . 
Ku irei de immortal colhendo o louro ! 

fiàse qu? hoje elevado á mór altura ( * ) 
I)»nis talvez sobre a terra se presume, 
Ha de crafim conhecer sua loucura I 

Grande é o vate quando a láurea assume, 

Quindo canta ao Brazil sua ventura, 

O St' ti Ret\ \t'u irmão, sen pae^ seu nume! 

Testemunhi presencial d'cstc litterario successo, o venerando octogenário 
bahiano dr. Luiz Rodrigues DuUra Rocha teve a gentileza de nos enviar a 
seguinte informação : 

• O presidente da província, dr. Paulo José de Mello de Azevedo e Britto, 
po2ta eximio e companheiro das lid2s bocagiauas em Lisboa, cnthustasmado, 
sahiu de seu camarote, foi abraçar o poeta e trouxe-o em sua companhia. « 

Applausos unanimes da platéa festejaram o amplexo dos dois litteratos 
bahianos. 

O notável repentista brazíleiro deixou dois filhos ( hoje fallecidos ) dotados 
díi talento poético : Rosendo Moniz Barretto e Francisco Moniz Barretto Júnior, 
concorrendo n'este a qualidade de violinista de raro merecimento. 

Após a morte do eximio improvisador, publicou-sc um folheto de 60 paginas, 
sob o titulo Suspiros e goivos lançados sobre o ataúde do primeiro poeta repen- 
tista da língua porlugucza Francisco Moniz Barretto, por alguns de seus 
discipulos, amigos e admiradores ( Bahia, 186S \. Ahi foram colleccionadas as 
homenagens que á sua memoria prestou a imprensa bahiana e sentimcntaes 
poesias, assignadas por Domingos Joaquim da Fonseca. A. A. de Mendonça, J. A. 
dl Cunha. A. Lopes Cardoso, Adelina Josephina de Castro Fonseca, A. P. 
Chichorro da Gama, António Plustaquio Moniz Birrctto, D., Salles Guimarães, 
Maria Leopoldina Rib?iro Sanches, Francisco Moniz Barretto Júnior, Manoel 
Pessoa dl Silva c Sylvio Mauro Moniz Barretto. 

( • ) Allust^o ao ministro da fazLMida Miguel Calmon du Pin e Almeida, 
raarquez de Abrantes, que demitlira o pojta do cargo de primeiro cscriplurario 
da alfandega da Bahia, onde foi depois reintegrado. 



84 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



O arrojado poeta Castro Alves ('), o genial combatente 
pela causa dos escravos, em sua Ode ao Dois de Julho^ reci- 
tada no theatro da cidade de S. Paulo, definiu — de modo 
febricitante como a sua mocidade, vehemente e arrebatado 
como o seu patriotismo — a guerra bahiana: 

Não ! Não eram dois povos que abalavam 
N'aquelle instante o solo ensanguentado . . . 
Era o por\'ir — em frente do passado, 
A liberdade — em frente á escravidão! 
Era a lucta das águias — e um abutre, 
A revolta dos pulsos — contra os ferros, 
Q pugilato da razão — com os erros, 
O duello da treva — e do clarão! 



( I ) O poeta António de Castro Alves nasceu a 14 de Março de 1847, 
na fazenda Cabaceiras, situada a sete leg^uas da cidade de Curralinho, hoje 
denominada Cidade de Castro Alves, e falleceu na Bahia a 6 de Julho de 1871. 
Foram seus pães o dr. António José Alves, lente da faculdade de medicina, e 
d. Clelia Brazilia da Silva Castro. Frequentou às faculdades de direito do Recife 
e de S. Paulo, porém nfto chegou a formar-se, porque a moléstia interrompeu- 
Ihe 03 estudos. Em S. Paulo, ao effectuar uma caçada, succ^deu-lhe a fatalidade 
de disparara arma, indo a carga empregar-se em um pé, que teve de ser amputado. 
Após este desastre, sobreveiu-lhe a tuberculose pulmonar de que falleceu. 

Sáo d'este auctor: Espumas Flucttiinies, poesias (Bahia, 1870) ; Gonzaga 
ou a revolução de Minas, drama ( Bahia, 1870 ) ; A cachoeira de Paulo Affonso, 
poema ( Bihia, 1876 ) ; Fragmento dos Escravos, manuscripto de Stenio (Bahia, 
1876) ; O navio negreiro, tragedia no mar, a mais bella e mais valente de suas 
producçõirs po2ticis. Deixou inéditos os poemas Escravos e Calhau, o drama 
D. Juan e uma traducção do El Diablo Mundo, de Espronceda. 

Rival do posta sergipano Tobias Barretto de Menezes, excedeu a este era 
hyperboles á Victor Hugo. 

No decennario de sua morte ( 1881 ) o grémio litterario Castro Alzrs 
instituido no Rio de Janeiro celebrou sessào magna como homenagem á sua 
memoria e fez imprimir um livro, em que coUaboraram 53 litterato.s nacionacs 
e exlrangeiros. 

O cscriptor portuguez José Palniella. o imaginoso auctor d ^-í Aristocracia 



CAPITULO XXII 85 



A 7 de Janeiro de 1900, a ilha de Itaparica festejou de 
modo extraordinário o 77.° anniversario do grande combate 
naval travado entre os insulares e as forças do general Madeira, 

Houve pela manhã missa campal no largo da Piedade, 
em frente á capellinha histórica de N. S. da Piedade, sendo 
celebrante o revd. cónego Bem vindo Teixeira, vigário de 



do génio e da belleza feminil na antiguidade, ao votar-lhe o preito de sua 
admiração, fez & Bahia uma poética referencia : « Nascido na primogénita filha 
de Cabral, na terra de Rocha Pitta, de Moniz Rarretto, Dantas, Paranhos, Dciró, 
Chagas Rosa e tantos outros talentos que fulguram «o céo da poesia, das bellas- 
artes, lettras e sciencias, e d'onde surgem os maiores estadistas e oradores do 
império. Castro Alves nào podia deixar de revelar que efa um abençoado filho 
d'aquella luxuosa terra, onde a natureza ergue-sc em deslumbrantes thronos de 
esmeralda, coroados de perfumosas grinaldas, que ao lançal-as para os céos, 
fazem cahir para a terra, como inebriados de amor e poesia, os próprio.* deu«%es I •» 

A Bahia consagfrou-lhe também n'essa occasiào uma festa glorificadora, 
cm que se fez ouvir a palavra demosthenica de Ruy Barbosa em uma oraçáo 
que lembra marmóreo monumento grego. Destaquemos para esti pagina uma 
columna corinthia : « O que faz a sua grandeza são essas qualidades, superiores 
a todas as escholas, que, em todo.s os estados da cívilisação, constituiram e hâo 
de constituir o poela, aquelle que, como o pae di tragedia grega, possa dedicar 
as suas obras ao Tempo: sentiu a natureza ; teve a inspiração universal c humana ; 
encimou artisticamente nos seu.^ cintos o grande pensamento da sua epocha. 

• Que não cantou elle, e que não cantou como poeta, desde os primeiros 
ensaios do seu génio? Dir-sc-hia que a sua musa roçara os lábios no mel de 
todas as doçuras e na essência amarga de todas as agonias do nosso destino 
passageiro pela face da creação ; que por azas escolhera dois raios amorosos do 
sol, para afagar todas as harmonias do universo, e, como o épico do t:éo e do 
inferno, na extrema visão do empyreo, molhara as pálpebras no rio de luz em 
que Dante humedeceu os olhos para a contemplação da suprema belleza ( * ) ». 

A faculdade de direito de S. Paulo mandou embutir na frente de seu edifício 
três mármores contendo os nomes dos três poetas de mais vulto que frequen- 
taram o estabelecimento : castro alves, alvares de azkvedo, FAorxDES 

VARELLA. 

(•) RiTV Barbosa: Decennario de Castro Alves — Elogio do poeta 
( Bahia, 1 881 ), pag. 9. 



86 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Itaparica. Assistiu á cerimonia ò veterano Francisco das 
Chagas, de iii annos de edade, nltimo representante dos 
heróes qtie combateram na ilha, nos dias 7, 8 e 9 de Janeiro 
de 1823. 

Âs três horas da tarde — depois de percorrer as principaes 
ruas o carro allegorico, triumphal, commemorativo do 7 de 
Janeiro — Francisco das Chagas, carregado em braços, foi 
conduzido ao coreto levantado na praça da Quitanda e ahi 
recebido com enthusiasticos applausos; um coro de . meninas 
cantou o hymno da independência. 

A enorme multidão que se premia em torno do coreto 
o distincto poeta bahiano João de Britto apresentou o 
veterano, recitando em seguida uma vibrante poesia, como 
glorificação ao patriota. Transcrevamos três estrophes : 



Sob os auspícios da Kxma. Sra. D. Adelaide de Castro Alves Guimarães, 
irnià do poeta e viuva do dr. Augusto Alvares Guimarães, proprietário do Diário 
da Bahiiiy o poeta rio-grandense Mucio Teixeira publicou uni voluiue de 338 
paginas, sob o titulo / 'ida c obras de Castro Alves { Bahia, 1896 ). 

Um joven escriptor contemporâneo, armado cavalleiro pelo próprio talento, 
a terçar com g.ilhardia em d?fesa d:i justa critica littcraria, fez sobre o vate 
bahiano excellente apreciação : 

« Castro Alves, poeta, condoreiro, não teve rival no fogo do estro. A sua 
imaginação foi como um insofreavel corcel. Brilho, fulgor de imagens, arrojo de 
antitheses, entliusiasmo de doutrinário, tudo clle teve no seu verso poderoso e 
arrebatado. A par de seus formidáveis poemas da escravidão, como O navio 
nefrreiro e As vozes d" Africa^ compoz poesias que o não deixam mal na com- 
panhia dos nossos mais celebrados românticos. Na Cachoeira de Paulo Affonso^ 
respigando-se com Iwm g<»slo, encontram-se paginas admiráveis, e, entre as suas 
poesias avulsas, uma das que passaram, p6de-.se dizer, para o cancioneiro popu- 
lar 6 essa languida e lasciva Boa Noite. >» 

Frota Pessoa : Critica e polemica (Rio de Janeiro, 1902), pags. 60 e 61. 



CAPITULO XXII 87 



Filha da vaga, esplendida cidade, 
Que és como altar erguido á liberdade, 

Que o tempo não destróe, 
Por mais que te enfeitasse a natureza, 
Deixa que o mundo inveje-te a grandeza, 

Honrando o teu heróe. 



Venham beijar-lhe a mào essas creanças 
Que sâo da pátria as vivas esperanças, 

Cidadãos do porvir ; 
Prestem-lhe todos civica homenagem, 
Como si vissem n 'elle a própria imagem 

Da gloria a nos sorrir ! 

Tu não podes morrer, velho guerreiro. 
Que realças o Sete de Janeiro, 

O grande festival ! 
Na coroa que o povo te dedica 
Recebe o coração de Itaparica, 

Que te sagra im mortal ! 

Francisco das Chagas nasceu no anno de 1789 e falleceu 
a 29 de Setembro de 1900. 

A data 2 de Julho ficou assignalada como a da maior 
gloria bahiana, porque recorda a expulsão de um poder 
ignorante, violento e bárbaro que durante o seu doniinio só 
traçou paginas luctuosas; porque exprime a tranquillidade 
do lar, que havia sido perturbada pela força ao serviço do 
despotismo; porque representa aos olhos do historiador um 
conjunctode feitos memoráveis — rasgos de abnegação, luctas 
pertinazes e sempre victoriosas — com que a Bahia pagou 
largo tributo de precioso sangue á sagrada independência 
da pátria. 



CAPITULO XXIII 



Manifesto de D. Pedro às nações amigas contra as cortes 

DE Lisboa. Proclamação da independência do Brazil 

A 7 DE Setembro de 1822. Motins de tropas na Bahia. Morte 

do Coronel Felisberto (íomes Caldeira. Vinda de D. Pedro 

À Bahia. Desordens nas cortes portuguezas — 1822-1824 



^i^OMO prolegomenos da independência, surgiu a 6 de 
Agosto de 1822 o Manifesto de D, Pedro de Alcântara ás 
nações e governos amigos e alliados^ documento que é um 
libello accusatorio contra as cortes de Lisboa em preten- 
derem, calcando as leis do evolucionismo social, recolouizar 
o Brazil. O Manifesto ofFerece-nos duplo valor: o de ter sido 
escripto por um portuguez compenetrado da felicidade doesta 
terra, e o de ter sido inspirado pela energia patriótica de 
José Bonifácio. O espirito ardente, bellicoso, altivo de D. Pedro 
adaptou-se ao estylo violento do velho paulista e da fusão 
doestes dois bellos elementos de força resultou o protesto 
fulminador contra o congresso luzitano — paginas que repre- 
sentam um brado de revolta partido de um povo inteiro, um 
grito de vingança da victima contra as oppressões do algoz. 

Inventario feito cora justiça, expõe o que era o Brazil 

\l TOM. II 



90 MEMORIAS fiRAZILEIRAS 



colonial, humilhado ante as prepotências da metrópole, e de 
modo evidente elucida que foi o próprio Portugal quem, por 
meio de medidas de exaggerado rigor, apressou a indepen- 
dência do opulento reino que fundou na America. A aspira- 
ção dos brazileiros teve prompto desenlace, porque para elle 
cooperaram as exigências anti-liberaes dos deputados portu- 
guezes. 

Apresentar á publica apreciação documento de tal ordem 
é offerecer um vibrante retrospecto de nossa vida politica 
durante o decorrer dos três primeiros séculos. 

Eis o Manifesto: 

V Desejando eu e os povos que me reconhecem como seu 
Príncipe Regente, conservar as relações politicas ecommer- 
ciaes com os governos e nações amigas d'este reino, e conti- 
nuar a merecer-lhes a approvaçáo e estima de que se faz 
credor o caracter brazileiro, curapre-me expôr-llies succinta, 
mas verdadeiramente, a serie dos factos e motivos que me 
têm obrigado a annuir á vontade geral do Brazil, que 
proclama á face do universo a sua independência politica e 
quer como reino irmão e como nação grande e poderosa 
conservar illesos e firmes seus imprescriptiveis direitos, contra 
03 quaes Portugal sempre atteutou, e agora mais do que 
nunca, depois da decantada regeneração politica da monar- 
chia pelas cortes de Lisboa ( ' ). » 



( I ) Seguem-se os tópicos Iranscriptos a pags. 172 e 173 d'estas Memorias. 



CAPITULO XXIII 91 



« Si a actividade de algum colono ofíerecia a seus conci- 
dadãos, de quando em quando, algum novo ramo de riqueza 
rural, naturalizando vegetaes exóticos, úteis e preciosos — . 
impostos onerosos vinham logo dar cabo de tão felizes 
começos. Si homens emprehendedores ousavam mudar o 
curso de caudalosos ribeirões para arrancarem de seus alveos 
os diamantes, eram logo impedidos pelos agentes cnieis do 
monopólio e punidos por leis inexoráveis. Si o supérfluo de 
suas producções convidava e reclamava a troca de outras 
producções extranhas, privado o Brazil do mercado geral dás 
nações e por conseguinte da sua concorrência, que encareceria 
as compras e abarataria as vendas — nenhum outro recurso 
lhe restava senão mandal-as aos portos da metrópole e 
estimular assim, cada vez mais, a sórdida cobiça e prepotên- 
cia de seus tyrannos. Si, finalmente, o brazileiro, a quem 
a provida natureza deu talentos não vulgares, anhelava 
instruir-se nas sciencias e nas artes, para melhor conhecer os 
seus direitos 011 saber aproveitar as preciosidades naturaes 
com que a Providencia dotara o seu paiz, mister lhe era ir 
mendigal-as a Portugal, que pouco as possuia, e de onde 
muitas vezes lhe não era permittido regressar. 

«Tal foi a sorte do Brazil por quasi três séculos, tal a 
mesquinha politica que Portugal, sempre acanhado em suas 
vistas, sempre faminto e tyranuico, imaginou, para cimentar 
o seu dominio e manter o seu ficticio esplendor. Colonos e 
indigenas, conquistadores, seus filhos e os filhos de seus 
filhos, tudo foi confundido, tudo ficou sujeito a um anathema 



92 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



geral. E porquanto a ambiçáo do poder e a sede de ouro são 
sempre insaciáveis e sem freio, não se esqueceu Portugal de 
mandar continuamente bachás desapiedados, magistrados 
corruptos, e enxames de agentes fiscaes de toda a espécie, 
que, no delirio de suas paixões e avareza, despedaçavam os 
laços da moral assim publica como domestica, devoravam os 
mesquinhos restos dos suores e fadigas dos habitantes e 
dilaceravam as entranhas do Brazil, que os sustentava e 
enriquecia, para que, reduzidos á ultima desesperação, seus 
povos, quaes submissos musulmanos, fossem em romarias á 
nova Meca, comprar com ricos dons e offerendas uma vida, 
bem que obscura e languida, ao menos mais supportavel e 
folgada. Si o Brazil resistiu a esta terrente de males, si 
medrou no meio de tão vil oppressão, deveu-o a seus filhos 
fortes e animosos que a natureza tinha talhado para gigantes; 
deveu-o aos benefícios d*essa boa mãe, que lhe dava forças 
sempre renascentes, para zombarem dos obstáculos physicos 
e moraes, que seus ingratos pães e irmãos oppunhain acinte- 
mente ao seu crescimento e prosperidade. 

«Porém o Brazil, ainda que ulcerado com a lembrança 
de seus passados infortúnios, sendo naturalmente bom e 
honrado, não deixou de receber com inexplicável jubilo a 
Augusta Pessoa do Senhor D. João VI e a toda a Real 
Familia. Fez mais ainda: acolheu com braços hospedeiros a 
nobreza e povo, que emigrara, acossados pela invasão do 
déspota 'da Europa; tomou contente sobre seus hombros o 
peso do throno de meu Augusto Pae; conservou com esplen- 



CAPITULO XXIII Ç3 



dor o diadema que lhe cingia a fronte; suppriu com genero- 
sidade e profusão as despezas de uma nova corte desregrada, 
e, o que mais é, em gYandissima distancia, sem interesse 
algum seu particular, mas só pelos simples laços da fraterni- 
dade, contribuiu também para as despezas da guerra, que 
Portugal tão gloriosamente tentara contra os seus invasores. 

«E que ganhou o Brazil em paga de tantos sacrifícios? 

«A continuação dos velhos abusos e o accrescimo de 
novos, introduzidos, parte pela impericia, parte pela immora- 
lidade e pelo crime. 

«Taes desgraças clamavam altamente por uma prompta 
reforma de governo, para a qual o habilitavam o accrescimo 
de luzes, os seus inauferíveis direitos, como homens que 
formavam a porção maior e mais rica da nação portugueza, 
favorecidos pela natureza na sua posição géographica e 
central no meio do globo, nos seus vastos portos e enseadas, 
e nas vastas riquezas de seu solo; porém sentimentos de 
lealdade excessiva e um extremado amor para com seus 
irmãos de Portugal embargaram seus queixumes, sopearam 
sua vontade e fizeram ceder esta palma gloriosa a seus pães 
e irmãos da Europa. 

ff Quando em Portugal se levantou o grito da regeneração 
politica da monarchia, confiados os povos do Brazil na 
inviolabilidade dos seus direitos e incapazes de julgar 
aquelles seus innàos differentes em sentimentos e generosi- 
dade, abandonaram a estes ingratos a defeza de seus mais 
sagrados interesses e o cuidado da sua completa reconsti- 



94 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



tuição, e na melhor fé do inundo adormeceram tranquillos á 
borda do mais terrível precipício. Confiando tudo da sabe- 
doria e justiça do Congresso Lisbonense, esperava o Brazil 
receber d'elle tudo o que lhe pertencia por direito. Quão 
longe estava então de presumir que esse mesmo Congresso 
fosse capaz de tão vilmente atraiçoar suas esperanças e 
interesses — interesses que estão estreitamente enlaçados com 
os geraes da nação ! 

tf Agora já conhece o Brazil o erro em que cahira; e si os 
brazileiros não fossem dotados d'aquelle generoso enthu- 
siasmo que tantas vezes confunde phosphoros passageiros 
com a verdadeira luz da razão, veriam, desde o primeiro 
manifesto que Portugal dirigira aos povos da Europa, que 
um dos fins occultos de sua apregoada regeneração consistia 
em restabelecer astutamente o velho systema colonial, sem o 
qual crêo sempre Portugal, e ainda hoje o crê, que não 
pôde existir rico e poderoso. 

«Não previu o Brazil que seus deputados, tendo de passar 
a um paiz extranho e arredado, tendo de luctar contra 
preoccupações e caprichos inveterados da metrópole, faltos 
de todo o apoio prompto de amigos e parentes, de certo 
haviam de cahir na nullidade em que ora os vemos; mas 
foi-lhe necessário passar pelas duras licçóes da experiência 
para reconhecer a illusão das suas erradas esperanças. 

«Mas merecem desculpa os brazileiros, porque, almas 
cândidas e generosas, muita diflSculdade teriam de capacitar-se 
que a gabada regeneração da monarchia houvesse de começar 



CAPITULO XXIII 95 



pelo restabelecimento do odioso systema colonial. Era mui 
difficil, quasi incrivel, conciliar este plano absurdo e tyran- 
nico com as luzes e liberalismo que altauiente apregoava o 
Congresso protuguez ! E ainda mais incrivel eia que houvesse 
homens tão atrevidos e insensatos, que ousassem, como 
depois direi, attribuirá vontade e ordens de Meu Augusto Pae 
El-Rei o Senhor D. João VI, a quem o Brazil deveu a sua 
categoria de reino, querer derribar de um golpe o mais bello 
padrão que o ha de eternizar na Historia do universo. 
É incrivel por certo tão grande allucinação; porém falam os 
factos e contra a verdade manifesta não pôde haver 
sophismas. 

« Emquanto Meu Augusto Pae não abandonou, arrastado 
por occultas e pérfidas manobras, as praias do Janeiro para ir 
desgraçadamente habitar de novo as do velho Tejo, affectava 
o Congresso de Lisboa sentimentos de fraternal egualdade 
para com o Brazil e principios luminosos de reciproca 
justiça, declarando formalmente (art. 26 das bases da Consti- 
tuição) que a lei fundamental que se ia organizar e promulgar 
s6 teria applicação a este reino si os deputados d'elle, depois 
de reunidos, declarassem ser esta a vontade dos povos que 
representavam. Mas qual foi o espanto d^esses mesmos povos, 
quando viram, em contradicção d'aquelle artigo, e com 
desprezo de seus inalienáveis direitos, uma fracção do 
Congresso geral decidir dos seus mais caros interesses, quando 
viram legislar o partido dominante d'aquelle Congresso 
incompleto e imperfeito sobre objectos de transcendente 



96 MEMORIAS B&AZILHIRAS 



importância e privativa competência do Brazil, sem a 
audiência sequer de dois terços de seus representantes! 

«Este partido dominador, que ainda hoje insulta sem pejo 
as luzes e probidade dos homens sensatos e probos que nas 
cortes existem, tenta todos os meios infernaes e tenebrosos 
da politica para continuar a enganar o crédulo Brazil com 
apparente fraternidade, que nunca morara em seus corações 
e aproveita astutamente os desvarios da junta governativa 
da Bahia (que occultamente promovera) para despedaçar 
o sagrado nó que ligava todas as provincias do Brazil á minha 
legitima e paternal Regência. Como ousou reconhecer o 
Congresso, n'aquella junta facciosa, legitima auctoridade 
para cortar os vinculos politicos da sua provincia e apartar-se 
do centro do systema a que estava ligada, e isto ainda depois 
do juramento de meu Augusto Pae á Constituição promettida 
a toda a monarchia? Com que direito, pois, sanccioncu esse 
Congresso, cuja representação nacional só se limitava á de 
Portugal, actos tão illegaes, criminosos, e das mais funestas 
consequências para todo o Reino Unido? E quaes foram 
as utilidades que d'ahi vieram á Bahia? O vão e ridiculo 
nome de provincia de Portugal — e o peor é, os males da 
guerra civil e da anarchia em que hoje se acha submergida 
por culpa do seu primeiro governo, vendido aos demagogos 
lisbonenses e de alguns outros homens deslumbrados com 
idéas anarchicas e republicanas. 

«(Porventura ser a Bahia provincia do pobre e acanhado 
reino de Portugal, quando assim podesse conservar-se, era 



CAPITULO XXIII 97 

mais do que ser urna das primeiras do vasto e grandioso 
Império do Brazil? Mas eram outras as vistas do Congresso. 
O Brazil não devia mais ser reino: devia descer do throno 
de siia categoria ; despojar-se do manto real de sua magestade, 
depor a coroa e o sceptro e retroceder na ordem politica 
do universo, para receber novos ferros e humilhar-se como 
escravo perante Portugal. 

«Não paremos aqui: examinemos a marcha progressiva 
do Congresso. Auctorizam e estabelecem governos provin- 
ciaes anarchicos e independentes uns dos outros, mas sujeitos 
a Portugal. Rompem a responsabilidade e harmonia nmtua 
entre os poderes civil, militar e financeiro, sem deixarem aos 
povos outro recurso a seus males inevitáveis senão atravez 
do vasto oceano — recurso inútil e ludibrioso. Bem via o 
Congresso que despedaçava a architectura magestosa do 
império brazileiro; que ia separar e pôr em continua lucta 
suas partes; annihilar suas forças e até converter as provín- 
cias em outras tantas republicas inimigas. Mas pouco lhe 
importavam as desgraças do Brazil; basta va-lhe por então 
proveitos momentâneos, e nada se lhe dava de cortar a arvore 
pela raiz, comtanto que, á semelhança dos selvagens da Loui- 
siana, colhesse logo seus fructos, sequer uma vez somente. 

«As representações e esforços da junta governativa e dos 
deputados de Pernambuco, para se verem livres das baionetas 
europeas, ás quaes aquella provincia devia as tristes dissen- 
sões intestinas que a dilaceravam, foram baldadas. Então 
o Brazil começou a rasgar o denso véo que cobria seus olhos, 

J3 TOM. II 



98 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



e foi conhecendo o para que se destinavam essas tropas; 
examinou as causas do mau acolhimento que recebiam as 
propostas dos poucos deputados que já tinha em Portugal 
e foi perdendo cada vez mais a esperança de melhoramento 
e refonna nas deliberações do Congresso, pois via que uáo 
valia a justiça de seus direitos, nem as vozes e patriotismo 
de seus deputados. 

« Ainda não é tudo. Bem conheciam as cortes de Lisboa 
que o Brazil estava esmagado pela immensa divida do The- 
souro ao seu Banco Nacional, e que, si este viesse a fallir, de 
certo innumeraveis familias ficariam arruinadas ou reduzidas 
a total indigência. Este objecto era da maior urgência : todavia 
nunca o credito doeste Banco lhes deveu a menor attenção ; 
antes parece que se empenhavam com todo o esmero em 
dar-lhe o ultimo golpe, tirando ao Brazil as sobras das rendas 
provinciaes que deviam entrar no Thesouro Publico e Cen- 
tral, e até esbulharam o Banco da administração dos contra- 
ctos que El-Rei Meu Augusto Pae lhe havia concedido, para 
amortização d'esta divida sagrada. 

«Chegam emfim ao Brazil os fataes decretos de minha 
retirada para a Europa e da extincção total dos Tribunaes do 
Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que ficavam subsistindo os 
de Portugal. 

« Desvaneceram-se encão em um momento todas as espe- 
ranças, até mesmo de conservar uma Delegação do Poder 
Executivo, que fosse o centro commum de união e de força 
entre todas provincias doeste vastíssimo paiz, pois que, sem 



CAPITULO XXIII 99 



este centro coinmum, que dê regularidade e impulso a todos 
os movimentos de sua machina social, debalde a natureza 
teria feito tudo o que d'ella profusamente dependia para o 
rápido desenvolvimento das suas forças e futura prosperidade. 
Um governo forte e constitucional era só quem podia descra- 
peçar o caminho para o augmento da civilização e riqueza 
progressiva do Brazil ; quem podia defendel-o de seus inimi- 
gos externos e coliibir as facções internas de homens ambi- 
ciosos e malvados que ousassem attentar contra a liberdade e 
propriedade individual e contra o socego c segurança publioa 
do Estado em geral e de cada uma de suas provincias em 
particular. Sem este centro commum, torno a dizer, todas as 
relações de amizade e commercio mutuo entre este reino e o 
de Portugal e paizes extrangeiros, teriam mil colHsões e 
embates ; e em vez de se augmentar a nossa riqueza debaixo 
de um systema solido e adequado de economia publica, a 
veríamos pelo contrario entorpecer, definhar e acabar talvez 
de todo. Sem este centro de força e iniiào, finalmente, não 
poderiam os brazileiros conservar as suas fronteiras e limites 
naturaes e perderiam, como agora machina o Congresso, tudo 
o que ganharam á custa de tanto sangue e cabedaes, e o que 
é peor, com menoscabo da honra e brio nacional e dos seus 
grandes e legítimos interesses politicos e commerciaes. Mas, 
felizmente para nós, a justiça ultrajada e a sã politica levan- 
taram um brado universal, e ficou suspensa a execução de 
tão maléficos decretos. 

« Resentiram-se de novo os povos doeste reino, vendo o 



lOO MEMORIAS BRAZILHIRAS 



desprezo com que foram tratados os cidadãos beneméritos 
do Brazíl, pois na numerosa lista de diplomáticos, ministros 
de estado, conselheiros e governadores militares não apparecen 
o nome de um só brazileiro. 

1 0s fins sinistros por que se nomearam estes novos bacbás, 
com o titulo doirado de Goz^ernadores d\4rnttis estão hoje 
manifestos; basta attender ao comportamento uniforme que 
háo tido em nossas provincias, oppondo-se á dignidade e 
liberdade do Brazil, e basta a consideração com que as cortes 
ouvem seus officios e a ingerência que tomam em matérias 
civis e politicas, muito alheias de qualquer mando militar. 

* A condescendência com que as cortes receberam as 
felicitações da tropa fratricida expulsa de Pernambuco e, ha 
pouco, as approvações dadas pelo partido dominante do Con- 
gresso aos revoltosos procedimentos do general Avilez, que, 
para cumulo de males c sofirimento, até deu causa á prematura 
morte de meu querido Filho o Príncipe D. João; o pouco 
caso c escarneo coui que foram ultimamente ouvidas as 
sanguinosas scenas da Bahia, perpetradas pelo infame Madeira, 
a quem vão reforçar com novas tropas, apezar dos protestos 
dos deputados do Brazil: tudo isto evidencia que depois de 
subjugada a liberdade das províncias, suffocados os gritos de 
suas justas reclamações, denuncisdos como anti-constitucio- 
naes o patriotismo e honra dos cidadãos, só pretendem esses 
desorganizadores estabelecer debaixo das palavras enganosas 
de união e fraternidade, um completo despotismo militar, 
com que esperam esmagar-nos. 



CAPITULO XXIII lOI 



«c Nenhum governo justo, nenhuma nação civilizada deixará 
de comprehender que, privado o Brazil de um Poder Execu- 
tivo; que extinctos os Tribunaes necessários e obrigado a ir 
mendigar a Portugal, atra vez de delongas e perigos, as graças 
e a justiça; que chamadas a Lisboa as sobras das rendas das 
suas provincias; que anniquilada a sua categoria dé reino, 
e que dominado este pelas baionetas que de Portugal man- 
dassem — só restava ao Brazil ser riscado para sempre do 
numero das nações e povos livres, ficando outra vez reduzido 
ao antigo estado colonial e de commercio* exclusivo. 

«Mas não convinha ao Congresso patentear, á face do 
mundo civilizado, seus occultos e abomináveis projectos: 
procurou portanto rebuçal-os de novo, nomeando commissões 
encarregadas de tratar dos negócios politicos e mercantis d'este 
reino. 

ff Os pareceres doestas commissões correm pelo universo, 
e mostram terminantemente todo o machiavelismo e hypo- 
crisia das cortes de Lisboa, que só podem illudir a homens 
ignorantes, e dar novas armas aos inimigos solapados que 
vivem entre nós. 

« Dizem agora esses falsos e maus politicos que o Congresso 
deseja ser instruido dos votos do Brazil e que sempre quiz 
acertar em suas deliberações: si isto é verdade, porque ainda 
agora rejeitam as cortes de Lisboa tudo quanto propõem os 
poucos deputados que lá temos ? 

«Essa commissão especial, encarregada dos negócios poli- 
ticos doeste reino, já lá tinha em seu poder as representações 



I02 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



de muitas de nossas províncias e camarás, em que pediam a 
derogação do decreto sobre a organização dos governos pro- 
vinciaes e a minha conservação n'este reino como Príncipe 
Regente. 

«Que fez, poréni, a commissão? A nada d'isso attendeu, - 
e apenas propoz a minha estada temporária no Rio de Janeiro, 
sem entrar nas attribuições que me deviam pertencer, como 
delegado do Poder Executivo. Reclamavam os povos um 
centro único d'aquelle poder, para se evitar a desmembração 
do Brazil em partes isoladas e rivaes. Que fez a commissão? 
Foi tão machiavelica, que propoz se concedesse ao Brazil 
dois ou mais centros, e até que se correspondessem directa- 
mente com Portugal as provincias que assim o desejassem. 

«Muitas vezes levantaram seus brados a favor do Brazil 
os nossos deputados, mas suas vozes expiraram sufiFocadas 
pelos insultos da gentalha assalariada das galerias. 

«A todas as suas reclamações responderam sempre que 
eram ou contra os artigos decretados na constituição ou 
contra o regulamento interior das cortes, ou que não podiam 
derogar o que já estava decidido, ou finalmente respondiam 
orgulhosos: «Aqui não ha deputados de provincias, todos são 
deputados da nação, e só deve valer a pluralidade. » Falso e 
inaudito principio de direito publico, porém muito útil aos 
dominadores, porque, escudados pela maioria dos votos euro- 
peus, tornavam nuUos os dos brazileiros, podendo assim 
escravizar o Brazil a seu sabor. 

«Foi presente ao Congresso a carta que me dirigiu o 



CAPITULO XXIII 103 



governo de S. Paulo» e logo depois o voto unanime da depu- 
tação que me foi enviada pelo governo, camará e clero de 
sua capitfil. Tudo foi baldado. A junta d'aquelle governo foi 
insultada, taxada de rebelde e digna de ser criminalmente 
processada ('). Emfim pelo órgão da imprensa livre os escri- 



í I ) Em sessão de 17 de Junho, o deputado portugruez Ferreira de Moura, 
depois de faz;r acerbas censuras ao príncipe e invectivar a junta de governo 
c auctoridades de S, Paulo, o senado da camará do Rio de Janeiro e os ministros, 
a quem taxava de maus conselheiros de Ti. Pedro, disse violentamente : « NAo 
quero insistir mais ! Observarei somente as insolentes palavras com que ousaram 
insultar a naçAo inteira, representada n'este soberano Congresso. Chama aquella 
rebelde junta um roubo. . . um roubo! o haverem as cortes tirado a logar- 
tenencia ao Principe Real ! Dizem que é um despotismo inaudito, um perjúrio 
politico o legislarem as cortes para o Hrozil! Mas deixemos isto, que mais 
nao é senão uma rapsódia de tudo quanto ha de mais baixo e de mais pueril. 
Eu me proponho a buscar o crime, está perto, vai a ser presente. 

• Proscriptos sejam sempre da terra homens tão malvados e perversos, mas 
que por desgraça ainda existem, e, por cumulo de calamidades, existem ainda 
governando! Tal é o enorme crime d'aquella rebeldissima junta! Senhores! 
O Principe Real na sua conducta politica tem feito por merecer as censuras das 
cArtes. Ora, si elle tem feito tudo isto sendo Principe, que fará quando fôr Rei? 
I)2ve-3e mandar já proceder contra a rebelde junta de S. Paulo, contra o bispo, 
contra todos o:s culpados de haverem assignado representações ao Príncipe Real, 
innigando-o a d;ísobedecer ao Congresso. Venha desde já elle para Lisboa. 
Venha apprender a ser constitucional : ou dentro dos muros da quinta de Queluz, 
ouvindo diariamente 03 dictames de seu Augusto Pae e diligenciando imital-o 
para ser como elle amado de todos os seus súbditos portuguezes, ou n'esta 
capital, ouvindo as discussões e deliberações das cortes. Deixe a quinta de 
S. Christovão, aonde respira somente o empestado hálito de vis e aduladores 
conselheiros. Venha o Principe para a Kuropa c Kl-Rei seu Pae nonièe uma dele- 
gação de seu poder, como melhor entender, c dé-se-lhe as attríbuiçòes mais 
amplas. • 

O deputado Ferreira Borge.« accusou fortemente a José Bonifácio como 
tendo praticado crimes e horrores cm Portugal, quando intendente interino da 
policia do Porto, pelo facto de julgar isentos do crime de conspiradores alguns 
ministroj que acceitaram cnii)regos no governo francez do general Junot. Antó- 
nio Cirlo* d;ífendju com energia a sim irmão, affirmindo que oi ministros 
de D. Pedro eram tão honrados como os mais honrados deputados portuguezes ; 



I04 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



ptores brazileiros manifestaram ao mundo as injustiças e erros 
do Congresso, e em paga da sua lealdade e patriotismo foram 
invectivados de venaes e só inspirados pelo génio do mal, no 
machiavelico parecer da commissáo. 

« A vista de tudo isto, já náo é mais possivel que o Brazil 
lance um véo de eterno esquecimento sobre tantos insultos e 
atrocidades; nem é egualmente possivel que elle possa jamais 
ter confiança nas cortes de I<isboa, veudo-se a cada passo 
ludibriado, já dilacerado i>or uma guerra civil começada por 
essa iniqua gente, è até ameaçado çom as scenas horrorosas 
de Haiti, que nossos furiosos inimigos muito desejam reviver. 

« Por ventura não é um começo real de hostilidades pro- 
hibir aquelle governo que as nações extrangeiras, com quem 
livremente commerciavamos, nos exportem petrechos mili- 
tares e navaes? 

«Deveremos egualmente soffrer que Portugal offereça 
ceder á França uma parte da provincia do Pará, si aquella 
potencia lhe quizer subministrar tropas e navios com que 
possa melhor algemar nossos pulsos e suffocar nossa justiça? 

ff Poderão esquecer-se os briosos brazileiros de que eguaes 
propostas e para o mesmo fim foram feitas á Inglaterra, com 



declarou que ás representações das auctoridades e do povo eram Icg^itimos 
direitos garantidos pela constituição, e com voz trovejante perorou dizendo que 
o Brazil exijçia ser livre e havia de selo em breve, apezar de toda a opposiçâo 
das corte >. 

X'essa sessão falaram tanibcm em defesa da pátria o dr. Cypriano Barata, 
padre Marcos de Souza, Lino Coutinho, Moniz Tavares e Villela Barbosa, 



CAPITULO XXIII 105 



offerecimento de se perpetuar o tratado de comniercio dç 
i8io e ainda com maiores vantagens? 

ifA quanto chega a má vontade, a impolitica d'essas 
cortes! 

« De mais, o Congresso de Lisboa, não poupando a menor 
tentativa de opprimir-nos e escravizar-nos, tem espalhado 
uma cohorte de emissários occultos, que empregam todos 
os recursos da astúcia e da perfídia, para desorientarem o 
espirito publico, perturbarem a boa ordem e fomentarem 
a desunião e anarchia»do Brazil. 

« Certificados do justo rancor que têm estes povos ao des- 
potismo, não cessam esses pérfidos emissários, para perver- 
terem a opinião publica, de envenenar as acções mais justas e 
puras de meu governo, ousando temerarianiente imputar-me 
o desejo de separar inteiramente o Brazil de Portugal e de 
reviver a antiga arbitrariedade. Debalde tentam, porém, des- 
unir os habitantes d*este reino; os honrados europeus, nossos 
conterrâneos, não serão ingratos ao paiz, que os adoptou por 
filhos, e os tem honrado e enriquecido. 

«Ainda não contentes os facciosos das cortes com toda 
e3ta serie de perfidias e atrocidades, ousam insinuar que grande 
parte d 'estas medidas desastrosas são emanações do Poder 
Executivo, como si o caracter d'El-Rei, do Bemfeitor do 
Brazil, fosse capaz de tão machiavelica perfídia, como si o 
Brazil e o mundo inteiro não conhecessem que o Senhor 
D. João VI, Meu Augusto Pae, está realmente prisioneiro 
d^Estado, debaixo dç completa coacção c sem vontade 

U TOM, u 



Io6 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



livre, como a deveria ter um verdadeiro Monarcha que 
gosasse d^aquellas- attribuições que qualquer legitima consti- 
tuição, por mais estreita e suspeitosa que seja, lhe não deve 
denegar; sabe toda a Europa e o mundo inteiro que dos seus 
ministros, uns se acham nas mesmas circumstancias, e outros 
são creaturas e partidistas da facção dominadora. 

« Sem duvida as provocações e as injustiças do Congresso 
para com o Brazil são filhas dos partidos contrários entre si, 
mas ligados contra nós: querem uns forçar o Brazil a se sepa- 
rar de Portugal para melhor darem alli garrote ao systema 
constitucional; outros querem o mesmo, porque desejam 
unir-se á Hespanha : por isso não admira em Portugal escre- 
ver-se e assoalhar-se descaradamente que aquelle reino utiliza 
com a perda do Brazil. 

« Cegas, pois, de orgulho ou arrastadas pela vingança e o 
egoismo, decidiram as cortes com dois rasgos de penna uma 
questão da maior importância para a grande familia luzitana, 
estabelecendo, sem consultar a vontade geral dos portu- 
guezes de ambos os hemispherios, o assento da monarchia em 
Portugal, como si essa minima parte do território portuguez 
e a sua povoação estacionaria e acanhada devesse ser o centro 
politico e commercial da nação inteira. 

« Com efleito, si convém a estados espalhados, mas reu- 
nidos debaixo de um só chefe, que o principio vital de seus 
movimentos e energia exista na parte a mais central e pode- 
rosa da grande machina social, para que o impulso se com- 
munique a toda a peripheria com a maior presteza e vigor, 



CAPITULO XXIII 107 



de certo o Brazil tinha o incontrastavel direito de ter dentro 
de si o assento do Poder Executivo. 

«Com efiFeito: este rico e vasto paiz, cujas alongadas 
castas se extcndem desde dois graus além do Eqiiador até ao 
Rio da Prata e são banhadas* pelo Atlântico, fica quasi no 
centro do globo, á borda do grande canal por onde se faz o 
cpmmercio das nações, que é o liame que une as quatro 
partes do mundo. 

* A esquerda tem o Brazil a Europa e a parte mais con- 
siderável da America; em frente a Africa; á direita o resto 
da America e a Ásia, com o immenso archipelago da Aus- 
trália, e nas costas o Mar Pacifico ou o Máximo Oceano, com 
o estreito de Magalhães e o cabo de Horn quasi á porta ( ' ). 



( I ) Seria talvez correcta, em 1822, esta determinação geofi^raphica, dando-se 

• Europa á esquerda do Brazil, e o resto d 'America, a Ásia, com o immenso 
archipelago da Austrália, á direita. Hoje é elementar que á esquerda, ou oeste, 
do Brazil ficam as republicas Argentina, Paraguay, Bolivla e Peru ; e á direita, 
ou leste, o Oceano Atlântico. Nosso paiz, infelizmente, nAo vô nas costas o 
Oceano Pacifico. 

Historiadores brazileiros tém claudicado na designação de nossos limites. 
o circumspecto Rocha Pitta di/, á pag. 6 de sua Historia da America Portu-, 
gueza (Bahia, 187S), que ao occidente do Brazil estão situados os reinos do 
Congo e Angola ! Um escriptor moderno, dr. Unas A. da Silveiía, em sua Gale- 
ria histórica da rei^o/ução hrazi leira dt 75 de Xoveuè&ro de iSSç ( Rio de Ja- 
neiro, 1890), pag. 112, dá estes limites pira o Estado do Rio Grande do Sul: 

• É limitado ao norte por Santa Catharina, ao sul pelo Uruguay, ao oeste pelo 
mar oceano e a leste pelo Paraguay e Republica Argentina. » 

A verdade geographica é que o Rio (iraiidc do Sul tem por limites : ao norte 
09 Estados de Sinta Catharini e do Paraní e Republici Argentina ; ao sul o 
Bstado Oriental do Uruguay ; a oeste as Republicas Aiigentina e do Uruguay, 
e a leste o Oceano Atlântico. 

A vista d'estas erradas definições de escriptorcs brazileiros, está desculpada 
a inexactidão do principe regente, que não era historiador nem geographo. 



108 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



uQuem ignora, cgiialmente, que é qiiasi impossível dar 
nova força e energia a povos envelhecidos e defecados? Quem 
ignora hoje que os bellos dias de Portugal estão passados, e 
que só do Brazil pôde esta pequena porção da monarchia 
esperar seguro arrimo e novas forças para adquirir outra vez 
a sua virilidade antiga? Mas de certo não poderá o Brazil 
prestar-lhe estes soccorros, si alcançarem esses insensatos 
decepar-lhe as forças, desuni I-o e arruinal-o. 

« Em tamanha e tão systematica serie de desatinos e atro- 
cidades, qual deveria ser o comportamento do Brazil ? Deveria 
suppor, acaso, as cortes de Lisboa ignorantes de nossos direi- 
tos e conveniências? Não, por certo, porque alli ha homens, 
ainda mesmo entre os facciosos, bem que malvados, não 
de todo ignorantes. Deveria o Brazil soífrer e contentar-se 
somente com pedir humildemente o remédio de seus males a 
corações desapiedados e egoistas ? Não vê elle que, mudados 
os déspotas, continua o despotismo? Tal comportamento, 
além de inepto e deshonroso, precipitaria o Brazil em um 
pélago insondável de desgraças, e, perdido o Brazil, está 
perdida a monarchia. 

«Collocado pela Providencia no meio doeste vastíssimo e 
abençoado paiz, como herdeiro e legitimo Delegado d'El-Rei 
Meu Augusto Pae, é a primeira de minhas obrigações não só 
zelar o bem dos povos brazileiros, mas egualmente os de 
toda a nação que um dia devo governar. Para cumprir estes 
deveres sagrados, annui aos votos das provincias que me 
pediram não as abandonasse; desejando acertar em todas ^s 



CAPITULO XXIII 109 



iiiiulias resoluções, consultei a opinião publica dos meus 
súbditos e fiz nomear e convocar procuradores geraes de 
todas as províncias, para me aconselharem nos negócios 
d'Estado e da sua commum utilidade ( ' ). Depois, para lhes dar 
iimi nova prova da minha sinceridade e amor, acceitei o 
titulo e encargos de Defensor Perpetuo doeste reino que os 
povos me conferiram (^): e, finalmente, vendo a urgência dos 
acontecimentos e ouvindo os votos geraes do Brazil, que 
queria ser salvo, mandei convocar uma Assembléa Consti- 
tuinte c Legislativa, que trabal liasse a bem da sua solida 
liberdade. Assim requeriam os povos, que consideram a Meu 
Augusto Pae e Rei privado de sua liberdade e sujeito aos 
caprichos doesse bando de facciosos, que domina nas cortes 
de Lisboa, das quaes seria absurdo esperar medidas justas e 
úteis aos destinos do Brazil e ao verdadeiro bem de toda a 
nação portugueza. 

«Eu seria ingrato aos brazileiros, seria perjuro ás minhas 
promessas, e indigno do nome de Principe Real do Reino 



( I ) Kui carta confidencial de 21 de Maio, havia o principe escriplo a 
D. João declarando lhe « que se generalizava a idéa de que era necessário que o 
Brazil tivesse cortes, porque as leis feitas tão longe por homens que nào eram 
brazileiros nem conheciam as necessidades do Bra/.il. nAo po<liam ser boas. ■> 

( 2 ) A 13 dí Maio de 1S22, por occasiilo de se festejar o anniversario de 
I). JoAo VI, no acto de desfilarem as tropas no largo do Paço. foi I). Pedro 
acclamado pelo povo como firo/<r/or r dt/ciisor perpetuo do lirazil, titulo que 
lhe foi levado por intermédio do senado da camará, de que era presidente José 
Clemente Pereira. O principe modeslamente recusou o nome de protector, 
dizendo que o Brazil se protegia a si mesmo, e acceitou o de defensor perpetuo 
como prova de amor c dedicaçAo que lhe consagrava o paiz. 



lio MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Unido de Portugal, Brazil e Algarves, si obrasse de outro 
modo. Mas protesto ao mesmo tempo, perante Deus e á face 
de todas as nações amigas e alliadas, que não desejo cortar 
os laços de união e fraternidade que devem fazer de toda a 
nação portugueza um s6 todo politico bem organizado; pro- 
testo egualmente que, salva a devida e justa reunião de 
todas as partes da monarchia debaixo de um Rei, como chefe 
supremo do Poder Executivo de toda a nação, hei de defen- 
der os legitimos direitos e a constituição futura do Brazil — 
que espero seja boa e prudente — com todas as minhas forças 
e á custa do rtieu próprio sangue, si assim fôr necessário. 

«Tenho exposto com sinceridade e concisão aos governos 
e nações, a quem me dirijo n'este manifesto, as causas da 
final resolução dos povos doeste Reino. 

«Si El-Rei o Sr. D. João VI, Meu Augusto Pae, estivesse 
ainda no seio do Brazil, gosando da sua liberdade e legitima 
auctoridade, de certo se comprazeria com os votos d*este 
povo leal e generoso ; e o immortal fundador doeste reino, 
que já em Fevereiro de 1821 chamara ao Rio de Janeiro as 
cortes brazileiras, não poderia deixar n'este momento de 
convocal-as, do mesmo modo que eu agora fiz ; mas achando-se 
o nosso Rei prisioneiro e captivo, a mim me compete 
salval-o do affrontoso estado a que o reduziram os facciosos 
de Lisboa. A mim pertence, como seu delegado e herdeiro, 
salvar não só o Brazil, mas com elle toda a nação portugueza. 

<iA minha firme resolução e a dos povos que governo, 
estão legitimamente promulgadas. 



CAPITULO XXIII III 



« Espero, pois, que os homens sábios e iiiiparciaes de todo 
o inundo e que os governos e nações amigas do Brazil hajam 
de fazer justiça a tão justos e nobres, sentimentos. 

•r Eu os conx-ido a continuarem com o reino do Brazil as 
mesmas relações de mutuo interesse e amizade. Estarei 
prompto a receber os seus ministros e agentes diplomáticos, 
e a enviar-lhes os meus, emquanto durar o captiveiro 
d'El-Rei Meu Augusto Pae. 

«Os portos do Brazil continuarão a estar abertos a todas 
as nações pacificas e amigas, para o commercio licito, que as 
leis não prohibem: os colonos europeus que para aqui 
emigrarem poderão contar com a mais justa protecção n'este 
paiz rico e hospitaleiro. 

«Os sábios, os artistas, os capitalistas e os emprehendedo- 
res encontrarão também amizade e acolhimento. 

«E como o Brazil sabe respeitar os direitos dos outros 
povos e governos legitimos, espera egualmente, por justa 
retribuição, que seus inalienáveis direitos sejam também por. 
elles respeitados e reconhecidos, para se não ver, cm caso 
contrario, na dura necessidade de obrar contra os desejos de 
seu generoso coração. Palácio do Rio de Janeiro, 6 de Agosto 
de 1822. Principe Regente.^ 

Briosamente sedenta de liberdade, a junta provisória 
governativa de S. Paulo começava a inquietar-se, vendo a 
irresolução de D. Pedro em face das hostilidades provindas 
de Portugal, e ameaçava rebellar-se. 



112 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Aconselhado pelo paulista José Bonifácio de Audrada e 
Silva, tomou o principe a deliberação de ir com a sua pre- 
sença acalmar os espiritos e garantir a sinceridade de suas 
idéas de separação. Chegando a S. Paulo a 25 de Agosto, 
ahi conseguiu, por sua energia e franqueza, aquietar os 
ânimos desconfiados e angariar sympathias enthusiasticas. 

De S. Paulo foi a 5 de Setembro visitar a cidade de 
Santos, com o fim de prover o melhoramento das fortalezas 
que defendiam o porto principal e o canal da Bertioga e 
augmentar a guarnição da cidade. 

Na madrugada de 7 de Setembro sahiu de Santos e 
regressou para S. Paulo: ás quatro c meia horas da tarde 
doesse dia, ao chegar ao alto da collina próxima ao regato 
Ypiranga — três quartos de légua distante da cidade — encon- 
trou o principe o sargento-mór de milicias António Ramos 
Cordeiro e o official da secretaria do supremo tribunal militar 
Paulo Emilio Bregaro (*). Das mãos doestes dois emissários 



( I ) Sobre a incumbência desempenhada por Bregaro, diz o conselheiro 
António dí Menezes VasconcL^llo.^ de Drummond nas .-l;i;/<>/af5í*j á sua biogra- 
phia ( Rio de Janeiro, 1890 ), pag. 40 : « Umquinto o conselho trabalhava, já Paulo 
Bregaro estava na varandi pronipto a partir em toda a diligencia para levar 
os despachos ao principe rebente. Jo3é Bonifácio, ao sahir, lhe disso : « Si nâo 
arrebentar uma dúzia de cavallo.i no caminho, nunca mais será correio : veja o 
que faz. »» Náo sei si Bregaro arrebentou muitos cavallos, o que sei é que elle deu 
boa conta de sua commissâo, e que fez a viagem em menos tempo do que até 
entáo se fazia muito á pressa. » 

O illustre historiador Pereira da Silva narra a proclamaçilo da independência 
de diverso modo, dizendo que o regente, achando-se em S. Paulo a 7 de Setem- 
bro, resolvera n*esSv: dia dar um passeio pelos arredores da cidade. «Copiosa 
comitiva seguiu os passos do principe. O bispo diocesano com os principaes 



CAPITULO XXIII 113 



recebeu cartas do ministro José Bonifácio e da princeza 
D. Leopoldina e quatro decretos das cortes de Lisboa datados 
de i.° de Agosto de 1822: o i.° annullando a convocação de 
procuradores das provincias; 02.° mandando responsabilizar 
03 ministros do principe, os membros da junta de S. Paulo 
e os signatários das representações de Janeiro; 03.® orde- 
nando a mais completa obediência ás deliberações e leis das 
cortes; 04.° nomeando novos ministros para o governo do 
regente, privando-o assim de escolher seus conselheiros. 
Os novos ministros escolhidos pelo governo de Lisboa 
eram : do reino e justiça, o desembargador Luiz José Tinoco 
da Silva; da fazenda, Mariano José Pereira da Fonseca; da 



officiaes da egrreja, os membros da extincta junta, as auctoridades que governavam 
já a província, os militares de mais elevada patente, os funccionaríos civis e 
cidadftos de todas as classes acompanha vam-n 'o respeitosamente, chegando-sc 
para perto d'elle este ou aquelle que D. Pedro convidava para honral-o com 
o seu entretenimento. Desejava visitar o sitio da c*flebrizada povoação de Pira- 
tininga, cuja historia primitiva lhe accendia a curiosidade. Ao appropinquar-se 
do ribeirão do Ypiranga, assentou em descançar, descendo do cavallo, e aco- 
Ihendo-se á sombra das arvores que adornam as margens da agua estrepitosa 
e crystallina do pequeno riacho, rolando por cima de pedrinhas miúdas e mur- 
murando com ineffavel doçura. >• 

K certamente poética esta descripção, porém não de inteiro accordo com 
a realidade, a começar pelo Ypiranga, agua amarella, que nunca pôde ser crys- 
tallina. Diz depois, em nota, que se chamava Oabizzo o official portador dos 
despachos vindos do Rio de Janeiro {*). A nossa descripção nada tem de imagi- 
nosa : está de inteiro accordo com a exposição feita por uma testemunha pre- 
sencial do acontecimento, major Francisco de Castro Canto e Mello em seu 
Episodio da historia pairia ( Rcz'. do ínsi. Hisi., tom. XLI, 2.» part., pags. 539 
c seguintes ). 

( • ) Pereira da Silva : Historia da fundação do império brazileiro^ 
tom. VI, pags. 213 a 215. 

13 TOM. II 



114 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



guerra, o tenente-general Manoel Martins do Couto Reis, e 
da marinha, o vice-almirante José Maria de Almeida. 

Acompanhava os decretos uma carta particular do Rei : 
«Meu filho. Não tenho respondido ás tuas cartas por se 
terem demorado as ordens das cortes. Agora receberás os 
seus decretos, e te recommendo a sua observância, e obe- 
diência ás ordens que recebes, porque assim ganharás a esti- 
mação dos portuguezes, que um dia has de governar, e é 
necessário que lhes dês decididas provas de amor pela nação. 

ff Quando escreveres, lembra-te que és um Principe e que 
os teus escriptos são vistos por todo o mundo, e deves ter 
cautela, não s6 no que dizes, mas também no modo de te 
explicares. Toda a familia real estamos bons. Resta-me 
abençoar-te como pae que muito te ama — João. 

Paço de Queluz, 3 de Agosto de 1822. » 

Lidos os decretos e as cartas, communicou D. Pedro aos 
que o rodeavam quaes as intenções das cortes portuguezas, e, 
depois de reflexionar um momento, bradou, possuido de justa 
indignação: — E tempo! Independência ou morte! Estamos 
separados de Portugal! Acto continuo, arrancando do chapéo 
o laço portuguez e desembainhando a espada, prestou, com 
as pessoas presentes, juramento de honra pela defesa do 
Brazil. 

Assistiram á proclamação da independência os seguintes 
cidadãos : 

Da guarda dk honra: Commandante, coronel António 
Leite Pereira da Gama Lobo, veador. 



CAPITULO XXIII 115 



De Pindanionhangaba: segundo commandante, o capi- 
tão-mór Manoel Marcondes de Oliveira Mello, veador, depois 
barão de Pindamonliangaba ; sargento-mór Domingos Mar- 
condes de Andrade ; tenente Francisco Bueno Garcia Leme, 
depois moço da imperial camará; Miguel de Godoy Moreira e 
Costa; Manoel de Godoy Moreira; Adriano Gomes Vieira de 
Almeida; Manoel Ribeiro do Amaral; António Marcondes 
Homem de Mello; Benedicto Corrêa Salgado. 

De Taubaté: Francisco Xavier de Almeida; Vicente da 
Costa Braga; Fernando Gomes Nogueira; João José Lopes; 
Rodrigo Gomes Vieira ; Bento Vieira de Moura. 
Da Parahybuna: Flávio António de Andrade. 
De Mogy das Cruzes: Salvador Leite Ferraz. 
De Guaratingiietá: José Monteiro dos Santos; Custodio 
Leme Barbosa. 

De Ar ias: sargento-mór João Ferreira de Souza. 
De S.João Marcos: Cassiano Gomes Nogueira; Floriano 
de Sá Rios; Joaquim José de Souza Breves. 

De Rezende: António Pereira Leite, depois moço da 
imperial camará; sargento-mór António Ramos Cordeiro; 
José da Rocha Corrêa ; David Gomes Jardim. 

Do Rio de Janeiro: Eleutlierio Velho Bezerra; António 
Luiz da Cunha. 

Sem fazerem parte da guarda de honra os cidadãos: 
D. Luiz de Saldanha da Gama, depois marquez de Taubaté; 
official de gabinete Joaquim Floriano de Toledo; padre 
gelchior Pinheiro de Oliveira; guarda-roupa João Maria 



Il6 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Berquó, depois marquez de Cantagallo; os creados particu- 
lares João Carlota e João de Carvalho Raposo; ajudante 
Francisco Gomes da Silva, appellidado Chalaça; o briga- 
deiro Manoel Rodrigues Jordão; Francisco de Castro do 
Canto e Mello, depois moço da imperial camará; e Paulo 
Emilio Bregaro. 

Em seguida, D. Pedro e sua comitiva, a galope, dirigí- 
ram-se para a cidade, entre saudações enthusiasticas dos 
que foram recolhendo a agradabilissima nova. Chegado a 
palácio, compoz o príncipe a musica do Hymno da inde- 
pendência para ser executado, á noite, no theatro, em 
espectáculo de gala. Ahi apresentou-se levando no braço 
esquerdo uma placa de ouro com a legenda Independência 
ou morte. Logo que chegou ao camarim, foram corridas as 
cortinas pelo gentil-homem Francisco de Castro Canto e 
Mello, e, ao mesmo tempo, o alferes Thomaz de Aquino 
e Castro e o padre Ildefonso Xavier Ferreira bradaram: 
Independência ou morte! Viva a independência do Brazil! 

Delirante foi a manifestação popular feita ao principe 
regente. Profundamente gratos á idéa de ser proclamada 
a independência em sua terra natal — facto histórico de 
summa relevância como justo premio áquelles brazileiros que 
por sua tenacidade de exploradores ampliaram valentemente 
o perimetro de nossa pátria, do Amazonas ao Rio Grande do 
Sul; desvanecidos por verem surgir d'esse acontecimento a 
formosa e veneranda figura de José Bonifácio como d'entre 
um nimbo de gloria, os paulistas transformaram o theatro 



CAPITULO XXill 117 



mais do que em arco de triumpho, em templo, e ahi fizeram, 
de seus corações, thuribulos, para entre nuvens de invisível 
incenso cantar grandioso Ave^ Libertas! Sim! O enthusiasmo 
attingiu a seu auge quando se fez ouvir o hymno cantado 
por duas jovens, Maria Egypciaca Alvim e Joaquina Luz, 
tomando parte no coro o próprio D. Pedro. 

HYMNO DA INDEPENDÊNCIA 

CANTO 

Já podeis, da pátria filhos, 
Ver contente a mãe gentil : 
Já raiou a liberdade 
No horisonte do Brazil. 

CORO 

Brava gente brazi leira, 
l,onge vá temor servil : 
Ou ficar a pátria livre, 
Ou morrer pelo Brazil ! 

CANTO 

Os grilhões que nos forjava 
Da perfidia astuto ardil . . . 
Houve mão mais poderosa . . . 
Zombou d'elles o Brazil . . . 

CORO 

Brava gente brazileira, etc. 

CANTO 

O real herdeiro augusto, 
Conhecendo o engano vil. 
Em despeito dos tyrannos, 
Quiz ficar no seu Brazil. 

CORO 

Brava gente brazileira, etc. 



Il8 MEMOkIAÔ BkAZILEtRAS 



CANTO 

Revoavam sombras tristes 
Da cruel guerra civil ; 
Mas fugiram apressadas 
Vendo o anjo no Brazil. 

CORO 

Brava gente brazileira, etc. 

CANTO 

Mal soou na serra, ao longe, 
Nosso grito varonil. 
No» inimensos hombros, logo, 
A cabeça erg^e o Brazil. 

CÔRO 

Brava gente brazilerra, etc. 

CANTO 

Filhos, clama, caros filhos, 
É depois de affrontas mil. 
Que a vingar a negra injuria 
Vem chamar- vos o Brazil. 

CÔRO 

Brava gente brazileira, etc. 

CANTO 

Náo temais ímpias phalanges 
Que apresentam face hostil ; 
Vossos peitos, vossos braços 
São muralhas do Brazil. 

CÔRO 

Brava gente brazileira, etc. 



CAPITUtO XXllI 119 



CANTO 

Mostra Pedro, á vossa frente, 
Alma intrépida e viril ; 
Tendes n 'elle o digno chefe 
D 'este império do Brazil. 

CORO 

Brava gente brazileira, etc. 

CANTO 

Parabéns, 6 brazileiros ! 
Já com garbo varonil 
Do universo entre as nações 
Resplandece a do Brazil. 

CORO 

Brava gente brazileira, etc. 

CANTO 

Parabéns ! Já somos livres ! 
Já brilhante e varonil 
Vai juntar-se em nossos lares 
A assembléa do Brazil. 

CORO 

Brava gente brazileira, etc. 

A lettra doeste hymno é producção do grande jornalista 
flaminense Evaristo Ferreira da Veiga, que o compoz a 
16 de Agosto de 1822 e o offereceu ao príncipe. 

Freneticamente applaudido foi o soneto que o alferes 
Thomaz de Aquino e Castro recitou, concluindo por acclatnar 



Í20 M^MOklÂâ BkAZÍLEIkAÔ 



D. Pedro como imperador do Brazil. Eis a producção sensa- 
cional : 

Seni receio, Senhor, e sem suspeita • 
De anarchia, má fé ou de vil trama, 
Vinde honrar o paulista que vos ama. 
Que vos busca, vos quer e vos respeita. 

Si ao longe o nome vosso liga e estreita 
Adhesáo, que gera amor, só pela fama (*), 
Fiel povo vos pede e por vós chama 
Para a fé confirmar, que a vós sujeita. 

A grandeza do Brazil é já um axioma (**); 
Lembrar que foi colónia causa horror ! 
Cabral o descobriu e Lysia o toma. 

E si é Pedro seu peq)etuo defensor, 
Será logo o Brazil mais que foi Roma, 
Sendo Pedro seu primeiro Imperador! (***) 

Na manhã de 8 de Setembro D. Pedro fez espalhar pela 
cidade de S. Paulo uma proclamação de despedida : 

« Honrados paulistas. O amor que consagrei ao Brazil em 
geral e á vossa provincia em particular, por ser aquella que 
perante mim e o mundo inteiro fez conhecer, primeiro que 
todos, o systema macliiavelico, desorganizador e faccioso das 
cortes de Lisboa, me obrigou a vir entre vós fazer consolidar 



( ♦ ) Verso excedente da medida de decasyllabo. 

( »♦ ) Idem. 

(»») Idem. 

Vê-se que Thomaz de Aquino era um patriota exaltado, mas incorrecto poeta. 



CAPIYULO XXni 121 



a fraternal união e tranquillidade que vacillava, e era amea- 
çada por desorganizadores, que em breve conhecereis. 

«Qnando eu mais que contente estava junto de vós, 
chegam noticias de Lisboa que os traidores da nação, os 
infames deputados, pretendem fazer atacar o Brazil e tirar-lhe 
do seio o seu defensor. Cumpre-me como tal tomar as medidas 
que minha imaginação me suggerir, e para que estas sejam 
tomadas com aquella madureza que em taes crises se requer, 
sou obrigado, para servir ao meu idolo — o Brazil — a 
separar-me de vós, o que muito sinto, indo para o Rio, 
ouvir meus conselheiros, e providenciar sobre negócios de 
tão 9lta monta. 

«Eu vos asseguro que nenhuma coisa me poderia ser 
mais sensivel que o golpe que minha alma soffre, separan- 
do-me dos meus amigos paulistanos, a quem o Brazil e eu 
devemos os bens que gosamos e esperamos gosar de uma 
constituição liberal e judiciosa. 

«Agora, paulistanos, só vos resta conservardes união entre 
vós, não só por ser esse o dever de todos os bons brazileiros, 
mas também porque a nossa pátria está ameaçada de soffrer 
uma guerra que não só nos ha de ser feita pelas tropas que 
de Portugal forem mandadas, mas egualmente pelos seus 
servis partidistas e vis emissários que .entre nós existem, 
atraiçoando-nos. 

« Quando as auctoridades vos não administrarem aquella 
justiça imparcial que d^ellas deve ser inseparável, represen- 
tai-me, que eu providenciarei. 

10 TOM. XZ 



122 MEMORIAS BRAZILBIRAS 



« A divisa do Brazil deve ser independência ou morte. 

«Sabei que quando trato da causa publica não tenho 
amigos e validos em occasião alguma. Existi tranquillos. 
Acautelai-vos dos facciosos sectários das cortes de Lisboa e 
contai em toda a occasião com o vosso defensor perpetuo. 
— Príncipe regente.» 

Partiu no dia seguinte para o Rio de Janeiro, onde che- 
gou a 15 de Setembro. 

Effectuada a independência da Bahia, foi licenciado o 
exercito libertador, e o coronel José Joaquim de Lima e Silva, 
|X)r já haver cumprido a sua patriótica tarefa, pediu e obteve 
dispensa do cargo de connnandante das annas, sendo substi- 
tuido pelo coronel Felisberto Gomes Caldeira. 

Pouco depois amotinaram-se as tropas, commettendo gra- 
víssimos actos de insubordinação, nos quaes tiveram saliente 
|x\|K^l o 3.° e 4.^ batalhão de infanteria e o corpo de arti- 
Iheria. Os soldadas do 3.^ batalhão, appellidados Periquitos^ 
levaram tão longe os seus excessos de indisciplina, a ponto 
de na manhã de 25 de Outubro de 1S24 cercarem o quartel- 
general ( * "> e ass4issinarem o coronel Caldeira, 

Segundo lemas em valioso documento escripto por um con- 
tem}H)raneo do facti>» commendudor Agostinho Dias Lima e 



V i ) o quattcl grntral e ttísivWttcia do cv»rv>ael WUsbtrrto Caldeira era á 
Udfiia dv» IWrviUÓ, uudvisvxuidc df l tapar iodn í^; cdifick> occupadv> actualmente 
peW C*yfHHa>ix* S. Saliadi.*>\ diii^ido y^Xo dr. Adolpho Frederico Toariaho. 



CAPITULO XXIII 123 



publicado pelo illustrado dr. José Francisco da Silva Lima (') 
o assassinato deu-se do seguinte modo : 

ff No dia 25 de Outubro de 1824, ^^^ destacamento de sol- 
dados e officiaes do batalhão 3.°, em numero de 60 a 80, 
cercaram o quartel-general e intimaram ao general Caldeira 
que se entregasse á prisão; mandasse pôr em liberdade o 
major João António da Silva Castro, e se considerasse preso. 
O general recusou assentir a esta ousada e insubordinada 
tropa, mas lhe fez ver que para a socegar ia fazer o que lhe 
pedia, apezar de ser contra a disciplina militar, e, por conse- 
quência, contra as ordens de S. M. I. ; e que confiassem em 
sua palavra. 

«Isto era dito das janellas da frente de seu palácio. Logo 
que acabou de falar (ainda teve tempo de se fardar com 
quasi todo o seu unifonne), ouviu-se uma voz que foi accusada 
por quasi toda a tropa sediciosa: Aforra Felisberto! e in-con- 
tinenti lhe desfecharam quatro tiros, um dos quaes lhe acertou 
no peito. Nas janellas immediatas achavam-se sua mulher e 
filhos com a imagem do Redemptor, pedindo por elle, que 
o respeitassem. Foi invadido o palácio e se lhe apresentaram 
os alferes Gurgel e Jacintho, uns cadetes e quatro ou seis sol- 
dados batendo na porta que dá para a secretaria. Felisberto, 
com animo incrível, já ferido mortalmente e atacado por 
todas as partes por seus cruéis inimigos, vem ensanguentado 
e com valor abrir a porta a seus assassinos . . . 



( I ) Vide ÂVz'. do Insi. Geog. e Hisi. da Bahia, vol. II, pag. 300. 



124 MEMORIAS BkA2ItmJkAS 



«Continuando na rua as vozes de Morra o general! é 
pelos officiaes intimada a ordem de prisão e já elle se enca- 
minhava para descer as escadas quando no patamar quatro 
soldados, que traçoeiramente o esperavam, dispararam contra 
elle as armas que o conduziram á sepultura ('). 

«Dizem algumas pessoas que elle ainda resistiu por algum 
tempo com a espada e duas pistolas, mas isso de nada valeu. 
Comtudo não morreu covardemente ás mãos de tantos assas- 
sinos . . . 

«N'esse mesmo desastrado dia foi a casa do velho Fran- 
cisco Vicente Vianna também cercada de tropas, mas não 
consta que o offendessem. De sorte que depois de terem satis- 
feito a sua damnada ferocidade no corpo do desgraçado 
Felisberto, o 3.° e 4.^ batalhões, com pólvora e bala, mar- 
charam para o campo de S. Pedro, para repellir o i.° e 2.° 
de linha e todos os corpos de milicias que tratavam de vingar 
tão horroroso attentado. 

«Tudo se moveu, e n'um momento se transformou a 
cidade em uma Babel. 

«O povo correu por toda a parte a refugiar-se; as lojas, que 
principiaram a abrir no começo do dia, n'um momento se 
fecharam ; e sabendo do horrivel assassinato, não se conside- 
rando seguros, brazileiros e portuguezes moradores na Praia, 



( I ) «Quatro dos accusados d'este attentado perderam a vida em virtude de 
Aentença do conselho de gruerra que os julgou ; outros expatriaram-se voluntaria- 
mente, e o 3.® batalhão, chamado dos Periquitos, foi remettido para Matto 
Grosso.» Noia da Redacção, á pag. 301, vol. II, da Rev, citada. 



CAPITULO XXIII 125 



fugiram para bordo das embarcações com o cabedal que 
puderam levar em taes circumstancias. 

«Os revoltosos ficaram dentro do forte de S. Pedro.» 

Sedentos de pequenas vinganças, pretenderam os insu- 
bordinados praticar mais actos de selvageria; foram, porém, 
contidos pelos coronéis Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, 
José Leite Pacheco e António de Souza Lima, da ilha de 
Itaparica. O batalhão dos Periquitos foi obrigado a embarcar 
para Pernambuco em i.° de Dezembro de 1824. 

Em consequência d'estes distúrbios, resolveu D. Pedro 
ir com a sua presença congraçar os ânimos exaltados e para 
a^Bahia transportou-se a 3 de Fevereiro de 1826. Conseguiu 
com o seu prestigio chamar á ordem os descontentes e a 1.° 
de Abril do mesmo anno regressou tranquillizado para o Rio 
de Janeiro. 

Minas Geraes não adheriu desde logo ao partido do 
Regente. Ainda lembrados do modo como Portugal puniu os 
patriotas da Conjuração^ os mineiros confiaram pouco na 
sinceridade do neto de D. Maria I ; foi mister que o principe 
para lá seguisse a 25 de Março e de viva voz lhes incutisse 
no animo as disposições em que se achava sobre a reforma 
que pretendia dar á governança do paiz. Quando voltou, a 
25 de Abril, tinha deixado em sua passagem pelas cidades 
mineiras fervorosos adeptos. 

Que occorrencias se passaram nas cortes de Lisboa quando 
ahi chegou a noticia de que o Regente desobedecia ás 



126 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



ordens de Portugal e declarara de modo peremptório ficar 
no Brazil ? 

Ouçamos uma testemimha ocular, o illustre deputado 
brazileiro visconde de S. Leopoldo, que se achava presente á 
sessão : 

(( A sessão de 15 de Abril 1822 foi uma das mais tempes- 
tuosas do congresso de Lisboa. Rompeu n'esse dia entre 
deputados grande explosão de cólera com a noticia commu- 
nicada em cartas do general Avilez, da resolução ultima do 
principe de ficar no Brazil. 

«... Propoz Borges Carneiro o recurso extraordinário 
de se chamarem as tropas de Montevideo sobre o Rio de 
Janeiro, para castigar e obrigar o prinàpe a cumprir ^o 
decreto das cortes^ que ordoíára a sua retirada do Brazil. 

(f Passou a combater esta moção o deputado dr. António 
Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, impugnando 
com vehemencia a proposição do precedente orador — de que 
o principe vivia enganado pelos que* o rodeavam nò Brazil. 
Respondiendo com a arrogância e impetuosidade de seu génio, 
o animoso deputado paulista declarou que os empregados a 
que se alludia eram tão honrados e dignos como os que 
estavam n^aquelle recinto. 

(f Levantou-se grande vozeria e tumulto nas galerias; o 
orador foi chamado á ordem, proferindo-se contra elle diver- 
sos insultos. 

(f As deputações de S. Paulo e Pernambuco deram-se por 
aggravadas por esse facto, e deixaram de comparecer á sessão 



CAPITULO XXIII 127 



seguinte. Havendo eu apresentado o meu diploma á commis- 
são de poderes, no intuito de tomar assento na sessão de 16, 
julguei dever retiral-o, duvidando fazer parte de um congresso 
que injuriava a um membro seu, como o havia sido o meu 
collega por S. Paulo. 

ff A 30 de Abril abriu-se a sessão com grande expectação, 
acliando-se as galerias apinhadas de povo. Na tribuna do 
corpo diplomático notava-se a presença do embaixador da 
Hespanha. Havia curiosidade de saber-se noticias da Bahia, 
que tinham chegado por via de Gibraltar; mas o grande 
interesse da sessão concentrava-se na grave questão que 
prendia a at tenção de todos : a evacuação de Montevideo. 

«Não pude conter-me sobre um asssumpto de tanto alcance 
para o Brazil, e por elle estreei no congresso, oppondo-me ao 
proposto abandono d'aquella praça á Hespanha. 

«Seguiu-se, na mesma sessão, renhido debate, motivado 
pDr participações recebidas de guerra civil e derramamento 
de sangue na Bahia: cuja discussão ficou ainda adiada. 

« Esta questão trouxe exaltamento de animo, e por amor 
d'ella deu-se a lamentável occorrencia de correr sangue no 
mesmo palácio das cortes. 

« Passando o deputado pela Bahia Cypriano José Barata 
de Almeida por um dos corredores em que se achava o 
marechal Luiz Paulino Pinto da França, deputado pela 
mesma provincia, falando em um circulo contra o brigadeiro 
(Freitas Guimarães) que tinha recusado entregar o commando 
ao general Madeira, nomeado pelas cortes, rompeu aquelle 



128 MEMORIAS BRÀZILEIRAS 

em maltratar ao referido marechal com palavras violentas e 
aggressivas, do que resultou desafiarem-se ambos ( ' ). Refere o 
mesmo marechal que Barata atraiçoadamente o empurrara (^), 
fazendo-lhe uma brecha sobre a sobrancelha e ferindo-o gra- 
vemente. Divulgou-se logo o facto com grande escândalo, o 
que muito me magoou, por se ter passado esse triste aconte- 
cimento entre deputados brazileiros, sobre os quaes, em razão 
das rivalidades e exaltação do momento, todos têm a vista 
attenta. 

« Em 20 de Maio, apresentaram os deputados pela Bahia 
uma indicação, para que se suspendesse a remessa de tropas 
para aquella provincia. 

« Na sessão seguinte debateu-se com animação a questão, 
a qual ficou adiada para o dia seguinte. A maior parte dos 
deputados adheriu á indicação dos deputados bahianos, e 
a subscreveu com as suas assignaturas. 

ff A final a indicação foi rejeitada, tendo a favor 44 votos. 

«No correr da discussão patenteou-se que as tropas iam 
para a Bahia com o fim de embaraçar a propagação das idéas 
pelo norte do Brazil. Já os facciosos do Rio têm vistas sacri- 
legas sobre a costa d^ Africa! exclamaram os deputados 
sustentadores do projecto; e Borges Carneiro ameaçou com 
violência o Brazil, promettendo fazer seguir contra o mesmo 
uma expedição de dez mil homens. 



( I ) o dr. Cypríano Barata, era carta que publicou em Lisboa, narrou o 

conflicto de modo differente. Veja-se a nota que vai de pags. 12 a 15 d'este tomo. 

( 2 ) Por uma escada abaixo, esqueceu-se de dizer o visconde de S. Leopoldo. 



CAPITULO XXIII 129 



ff Magoandome profundamente a longa e diária repetição 
de impropérios e sarcasmos contra a junta provisória de 
S. Paulo, levantei-me, e pedi a minha demissão de membro 
da com missão dos negócios do ultramar, visto não poder eu, 
deputado por essa provincia, ouvir sem indignação as 
expressões com que constantemente nos doestavam, e declarei 
sem rebuço que não tinha liberdade alguma para o bom 
desempenho de minhas funcções. 

«No fim da sessão de 10 de Julho, transmittiu El-Rei ao 
congresso duas cartas do principe real : em uma d'ellas exigia 
que se creassem cortes no Brazil, e declarava que ellas alli se 
organizariam, ainda quando o congresso não quizesse assentir 
a esse voto dos povos. Egual requisição fez a Bahia por 
intermédio de seus deputados. » 

Pela transcripção que acabamos de fazer, vê-se que as 
cortes portuguezas, ao terem noticia da rebellião de D. Pedro, 
ficaram tomadas de terror pânico. Surprehendidos, assustados 
com a revolta, os portuguezes imaginavam até que os brazi- 
leiros pretendiam ir sacrilegameníe desapossal-os de suas 
colónias na costa d' Africa! S6 o medo poderia crear 
phantasma tão extravagante. 

Deliberaram as cortes fossem chamados todos os depu- 
tados a jurar e assignar a constituição, antes de ser apre- 
sentada a D. João VI. O deputado por S. Paulo, Fernandes 
Pinheiro, formulou uma indicação, declarando que, achando-se 
os seus constituintes em desaccordo com o governo de 
Lisboa, não podia elle jurar e assignar um documento 



130 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



hostil a direitos brazileiros. Eguaes protestos foram feitos por 
António Carlos de Andrada, padre Diogo Feijó, José Ricardo 
da Costa Aguiar, António Manoel da Silva Bueno, Francisco 
Villela Barbosa, Pedro de Araújo Lima, Domingos Borges de 
Barros, padre José Martiniano de Alencar e cerca de 16 depu- 
tados mais das provincias do Brazil. 

Nomeada uma commissão para elucidar o grave assumpto, 
foi ella de parecer que « nenhum deputado podia, sob qualquer 
pretexto, deixar de jurar e assignar o pacto fundamental 
da monarchia, porque era obrigação rigorosa de todos, que 
concorreram para a sua confecção, dar-lhe o primeiro exemplo 
de adhesão e obediência, convindo até infligir penas aos que 
se não quizessem sujeitar á deliberação das cortes. » 

Em vão opinaram contra este parecer o padre Marcos 
António de Souza, Villela Barbosa, Borges de Barros e Fer- 
nandes Pinheiro : venceram os votos da maioria, approvando 
a idéa. Foi fixado o dia 23 de Setembro de 1822 para o 
juramento da constituição. Compareceram, n^essa occasião, 
35 deputados do Brazil, sendo, pela Bahia: Gomes Ferrão, 
padre Marcos, Pedro Rodrigues Bandeira, Lino Coutinho e 
Borges de Barros; por Alagoas: Assis Barbosa, Martins Ramos 
e Marques Grangeiro; pelo Rio de Janeiro: Gonçalves Ledo, 
Villela Barbosa, Soares Brandão, Martins Bastos e Luiz Va- 
rclla; por S. Paulo: unicamente Fernandes Pinheiro; por 
Pernambuco: Araújo Lima, Moniz Tavares, Félix de Veras, 
Ahneida e Castro, Domingos Malaquias, Tavares Lyra, Zefe- 
rino dos Santos e Ferreira da Silva ; pelo Ceará : padre 



CAPITULO XXIII 131 



Alencar, António Moreira e Philippe Gonçalves ; por Santa 
Catharina : Lourenço de Andrade; por Goyaz: Segurado; j)elo 
Maranhão: Vieira Belford e Beckman Caldas; pela Paraliyba: 
Monteiro da França e Costa Cirne; pelo Pará: o bispo 
D. Roínualdo Coelho, Souza Moreira e Lopes da Cunha; 
pelo Piauhy: Manoel Borges. 

António Carlos officiou ao congresso, declarando que lhe 
repugnava a consciência jurar e assignar a constituição 
portugueza e assim resignava o seu logar de deputado ás 
cortes. Os outros deputados brazileiros nenhuma satisfação 
deram de sua ausência ao solenine congresso. Todos quantos 
se acharam presentes ás cortes juraram e assignaram a 
constituição, em meio de applausos dos portuguezes. 

Incompatibilizados com o governo e cortes de Lisboa e 
receosos de serem assassinados, sete deputados brazileiros — 
António Carlos, Costa Aguiar, Silva Bueno, padre Feijó, 
Francisco Agostinho Gomes, Cypriano Barata ( ' ) e Lino Couti- 



( I ) Tendo este deputado pedido ás cortes portuguezas a fundação de acade- 
mias no Brazil, ouviu um aparte irónico, aconselhando-o a que, de preferencia, 
pedisse a creaçào de escolas primarias. 

— D'estai», rebateu o dr. Cypriano Birata, doestas ainda mais precisa Porfugal, 
cujos filho3 vAo para o Brazil aprender a ler com as mulheres brazileiras que 
desposam. • 

Km carta publicada no /orna/ de Xo/iitas da Bahia de 26 de Junho de 1900, 
o cidadão Gabriel Zuth dá sobre este revolucionário bahiano muitos esclare- 
cimentos : 

•• D2 Palmouth. vciu o dr. Barata para esta capital, onde desembarcou de 
chapéo de couro, trajando vestes de tecido grosso, de algod&o. 

" Foi recebido debaixo de pallio c conduzido triumphante pelas ruíis da 
cidade. 



132 MBMORIAS BRAZILEIRAS 



nho — a occultas, tomaram passagem no paquete inglez 
Malbourough e passaram-se para a Inglaterra. Em Falmouth, 



• «Durante os sete annos de prisAo no Rio de Janeiro, foi-lhe vedado aparar a 
barba e o cabello e assim os conservou até sua morte. 

• Nos cárceres da fortalezi da Lage e depois nos da de Santa Cruz, recebia o 
dr. Barata uma pens&o, que lhe concediam a maçonaria e os seus parentes, por 
intermédio do revm. padre José Custodio Dias. 

■ Mesmo da prisão, diriflria á regência do seu correligionário padre Diogo 
Peijó apostrophes d'e8te quilate : 

< De soberbos rochedos rodeado. 
Onde bramem mil ondas furiosas, 
Dos males nunca gemo sossobrado. 
Nem me assustam as parcas pressurosas. 
Inda.mesmo nos pulsos arrochado. 
Desprezando desgraças sanguinosas, 
Mordo os ferros, e altivo ranjo os dentes. 
Desafio os tyrannos mais potentes. » 

« Obtida a liberdade, voltou o 'dr. Barata para esta capital, onde continuou a 
campanha pelo seu ideal, nas columnas da Sentinelta da Liberdade, 

• Da Bahia transferíu-se para o Recife, e ahi, em successivas eleições sena- 
toriaes, o seu nome fez parte da lista tríplice, mas a sua escolha só dependia de 
uma circumstancia ~ repudiar os seus ataques ao governo. 

■ Eleito deputado provincial por Pernambuco, combateu da tribuna a admi ' 
nistraçfto do presidente d 'essa entfto provinda, dr. Thomaz Xavier Garcia de 
Almeida, a quem chamava ■ curioso em leis >. 

«Padecendo de. grave enfermidade — o diabetes — dirigiu-se para o Rio 
Grande do Norte, em cuja capital fixou residência, em fins de 1836 ou princípios 
de 1837, installando alli a primeira loja maçónica. 

■ Na cidade do Natal procurou \nver de sua profissão. 

■O dr. Cypriano Barata falleceu na casa que n'aquella capital tem hoje o 
n. 39 da rua Corrêa Telles, do bairro da Ribeira, sendo seus restos mortaes inhu- 
mados, em sepultura rasa, na egreja do Bom Jesus, do referido bairro. 

O mes^mo Jornal de 5 de Julho de 1900 publicou outra carta, de um neto do 
patriota, António Pedro da Silva Barata. D'ella extrahimos tópicos : 

• Quando Cypriano Barata voltou de Coimbra, foi portador nâo só da carta de 
cirurgião como também das de bacharel em philosophia e mathematicas. 

■ KUe era filho legitimo do tenente Raymundo Nunes Barata e d. AnnaLuiza 
Xavier. 

• Chegando á Bahia, consorciou-se com a sra. d. Anna Joaquina de Olivtrira. 



CAPITULO XXIII 133 



António Carlos e Costa Aguiar dirigiram ao congresso enér- 
gico e patriótico protesto, de que damos os trechos de mais 
interesse: 

«Os abaixo assignados, representantes da província de 
S. Paulo nas cortes de Portugal, forçados pelos mais ponde- 
rosos motivos a abandonar a commissão com que os honraram 
os seus constituintes, julgam de seu dever expor ao mundo, e 
mormente ao Brazil, um resumo de sua vida parlamentar e 

as causas da resolução que tomaram. 

# 
« Os abaixo assignados guardariam o mais profundo silen- 
cio e não teriam a presumpção de chamar sobre si a attenção 



« D 'esse consorcio, além de um filho varão, teve quatro filhas : d. Iria, mfte 
de Cypriano, actualmente no Rio de Janeiro, e do humilde signatário d'estas 
linhas ; d. Laura, d. Veridiana, da qual ainda existem dois filhos— o dr. Cândido 
Barata, lente cathedratico da escola de medicina e senador federal, e o dr. Atha- 
nagildo Barata, engenheiro naval ; d. Sibylla, da qual ainda existe um filho — o 
dr. Silvino José de Moura. 

■ K preciso que se tome bem accentuado que Barata não era inimigo dos por- 
tugueses. Brazileiro, elle queria livrar a pátria da tyrannia da metrópole. 

«Ha prova do que digo está não só na circumstancia de ter possuído muitos 
amigos, filhos de Portugal, como no facto bastante significativo, que é assim 
narrado no Resumo Chronologico e Noticioso da Bahia: ij de abril — iSji — 
n. 151 — "Foi a Bahia theatro de scenas luctuosas e aterradoras, em que a morte de 
um brazileiro de nome Victor Pinto de Castro, na cidade baixa, bairro do com 
mercio, abriu espaço a horríveis aggressões contra portugueses ; e muito maiores 
seriam as calamidades, si não interviessem o visconde de Pirajá, então comman- 
dante das armas, e o dr. Cypriano José Barata d 'Almeida, pattiota muito popular.* 

«José Alvares do Amaral, auctor do Resumo^ não sabia mentir. 

•• A popularidade do honrado velho não se limitava á sua terra natal : em 
Pernambuco recebeu, como no Rio de Janeiro, innumeras provas de apreço. 

■ No Pará, o enthusiasmo pele grande patriota chegou a tal ponto, que a 
classe mais abastada usava, como distinctivo, uma baratinha de ouro ; a media — 
uma de prata, e a plebe — uma de cobre. » 

O dr. Barata era de baixa estatura e franzino : pequeno envolucro em que se 
agitava uma alma de gigante. 



134 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

da Europa, si, na siia qualidade de homens públicos, não 
teniesscin que, sendo a sua conducta attribuida a motivos 
menos puros pelo partido que nas cortes tem pretendido 
escravizar o Brazil, houvesse de reflectir algum desar sobre 
a provincia que os elegeu. 

« Quando o Brazil repetia sôfrego o grito de liberdade que 
em Portugal se erguera, jamais cuidou que palavras meigas 
e convites assucarados de fraternidade e egualdade cobrissem 
as mais sinistras c dolosas intenções. Julgando Portugal por 
si, adheriu de coração á nova ordem apregoada com tanta 
êinpliase, e, na escolha de seus deputados, deu o maior teste- 
munho de sua bôa fé e afinco aos principios liberaes. 

«O primeiro dos abaixo assignados não dévcu seguramente 
a confiança de sua provincia senão ao seu paiz, pelo qual 
tantos trabalhos acabara de sofFrer, lançado por espaço de 
quatro annos em lobregas prisões e por mais de dois e meio 
conservado no mais estreito segredo, privado da luz, do ar e 
de toda connnunicação humana. 

« Da escolha do segundo dos abaixo assignados foi egual- 
mente o único titulo o conhecido teor de suas opiniões 
j)oliticas. Com que altas esperanças chegaram os abaixo 
assignados ás cortes de Lisboa é fácil de conhecer, atten- 
taudcKsc nas insidiosas expressões das ditas cortes, tantas 
vezes rejx^tidas, e tantas vezes vergonhosamente desmentidas 
pelas suas obras. » 

líni seguida, fizeram franca exposição do modo como 
as cortes se manifestaram, sempre contrarias á felicidade do 



CAPITULO XXIII 135 



Brazil, que pretendiam recolonizar a todo transe, e da forma 
por que devia ser considerado o reino americano — egual, por 
todos os princípios, ao reino de Portugal. Alludindo ao facto 
de recusarem jurar e assignar a constituição, escreveram os 
dois dignos paulistas : 

«Com a franqueza própria de seu caracter publico e 
particular, declararam os abaixo assignados a firme resolução 
em que estavam de jamais assignarem e menos jurarem uma 
constituição contraria á sua dignidade, porque o não deviam 
fazer sem offenderem a sua consciência, e sem se deshonrarem 
a seus próprios olhos; e persistiram em sua declaração, 
desprezando os sophismas e subterfúgios de seus oppressores 
Choviam as ameaças anonymas, repetiam-se os avisos de 
alguns poucos, bem intencionados, que lhes pregavam cautelas 
e avisavam do resolvido projecto de assassinal-os, adoptado 
pelas sociedades secretas, a que pertence a maior parte dos 
deputados influentes do congresso. 

«Si os abaixo assignados não tivessem dado o saudável 
passo de baldarem, com a sua retirada^ os intentos dos can- 
nibaes, teriam perecido, victimas de sua cega fúria, como se 
deprehende de uma denuncia feita ao intendente geral da 
policia. Todavia, si os abaixo assignados pudessem enxergar 
ainda o mais pequeno bem que de sua morte viesse ao Brazil ; 
si mesmo não devessem obedecer á voz do chefe de seu 
governo, offerecer-se-iam, em voluntário sacrifício, á bruta- 
lidade dos portuguezes. Mas nem a pnidencia nem o patrio- 
tismo lhes apontava esse verdadeiro suicidio. 



136 MBMORIAS BRAZILBIRAS 



« Seguros os abaixo assignados com o testemunho de sua 
consciência, apresentam-se sem medo ao tribunal da geração 
presente, e não declinara o severo escrutínio da posteridade, 
cuja imparcial decisão esperam favorável. — Falmouth, 20 
de Outubro de 1822.» 

Na mesma occasiáo publicou António Carlos um mani- 
festo em que, pessoalmente, destruia as accusações feitas a seu 
caracter por alguns periódicos de Lisboa. 

« Quando me achei no Rio de Janeiro, dizia elle, ninguém 
ainda pensava em independência ou em legislaturas separadas. 
Foi mister toda a cegueira, precipitação e despejado annuncio 
de planos de escravização para accordar do somno de boa fé 
oamadornado Brazil, e fazel-o encarar a independência como 
o único antidoto contra a violência portugueza. 

«Não pretendo com isto incluir-me no numero dos que 
não sonhavain com este desejado futuro. Não por certo. Não 
tenho tão curta vista que me escapassem as vantagens de só 
pertencermos ao pacifico systenia americano, e nos despren- 
dennos dos laços da revolta Europa. » 

Como conclusão, declarou «ter procurado sempre evitar 
que as cortes portuguezas adoptassem resoluções que irri- 
tassem o Brazil e o precipitassem nas anciãs ardentes e nos 
perigos manifestos de romper os laços de união dos dois reinos 
e de proclamar uma independência extemporânea; não conse- 
guindo, porém, conter a maioria exaltada dos portuguezes, 
tranquilla sentia a sua consciência, e acompanhava a sua 
pátria na marcha a que ella fora arrastada pelas cortes e 



CAPITULO XXIII 137 



governo de Lisboa, com tanto maior prazer quanto, em vez 
de uma nova republica que se devia mais tarde installar na 
America (^), uma monarchia livre lhe garantia no seu paiz 
um princip2 generoso, a qual daria de certo todos os benefícios 
que buscara como republicano de outr^ora, posto a sua 
cooperação no levante de Pernambuco de 181 7 não houvesse 
passado de passiva tolerância. » 

A 22 de Outubro os outros cinco deputados fugidos de 
Lisboa publicaram seu manifesto, protestando contra os 
insultos quotidianos de que eram alvo nas ruas e praças de 
Lisboa e denunciando planos de attentados a suas pessoas 
e vidas. 

No dia i.^ de Outubro, D. João VI acompanhado de seus 
ministros e côite, dirigiu-se ao palácio do congresso e ahi 
leu á assembléa este pequeno discurso : 

«Fiel aos meus princípios (^), lisonjeio-me de haver 
offerecido á nação, ainda nas mais difficeis circumstancias, 
provas decisivas do amor que lhe consagro e da lealdade que 
convém á minha própria dignidade. Os portuguezes o reco- 
nhecem, e é esta a recompensa mais digna dos meus desvelos, 
assim como o único termo da minha ambição. Sendo, pois, o 
novo pacto social a expressão da vontade geral e o producto 



( I ) Essa aspirayão do ardente democrata paulista só »c realizou a 15 de 
Novembro de 1ÍW9. 

( 2 ) Com que difficuld ide nào proferiria o Rei essas palavras ! Elle, fçenuino 
representante do absolutismo ! . . . 

1^ TOM. II 



138 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



das vossas sabias meditações, accommodado á illustração do 
século, e cimentado sobre a reciprocidade de interesses e 
sentimentos, inseparável da causa da nação, eu venho hoje 
ao seio da representação nacional acceitar a constituição que 
acabais de fazer, e firmar com o mais solemne juramento a 
inviolável promessa de a guardar e fazer guardar. » 

Antes de se dissolverem, as cortes extraordinárias e 
constituintes elegeram uma deputação especial, incumbida 
de fiscalizar e superintender o governo, até á reunião de nova 
asscmbléa: a eleição recahiu nos portuguezes Trigoso de 
Aragão Morato^ Ferreira de Moura, Braancamp de Sobral, e 
nos brazileiros José Feliciano Fernandes Pinheiro, Villela 
Barbosa, bispo do Pará D. Romualdo Coellio e Vieira 
Belford, e como supplente, Domingos Borges de Barros. 

Sj em Outubro de 1822 — quando no mez anterior havia 
sido proclamada a independência do Brazil — lembrou-se 
Portugal, pela primeira vez, de conceder posições elevadas 
e honrosas a brazileiros. Pretendeu dar aos americanos um 
exemplo de cortezia, mas tão intempestivamente o fez, que 
lhes não aproveitou c só conseguiu attrahir o ridiculo sobre 
taes actos. 



CAPITULO XXIV 



ACCLAMAÇÃO K coroação DR d. PKORO I, IMPKRADOR DO BrAZIL. 
LUCTAS DK PARTIDOS POLÍTICOS. RRVOLTAS 

NO MaranhÃoj?. Para. Barbaridade de Grkexfell. 

A PROVÍNCIA ClSPL.ATINA. — 1823 



e^çji 



!çÓDK-SE bem imaginar que manifestações de apreço 
acompanharam o principe regente em sen regresso ao Rio de 
Janeiro, depois de ter inaugurado em S. Paulo o feito glorioso 
de nossa independência. Ao chegar a S. Christovão fez expedir 
três decretos em data de i8 de Setembro: o i.° adoptando 
escudo de armas sobre as cores verde e amarella; 02.° deter- 
minando aos adherentes á independência o uso de um tope 
nacional no chapéo e no braço a divisa independência ou 
morte\ 03.° concedendo amnistia geral aos cidadãos envolvi- 
dos em motins politicos ('), acolhendo os portuguezes que* 
espo.sa.ssem a idéa do principe e o quizessem defender e 



( I ^ Por decreto particular mandou D. Pedro nulli ficar o processo instau- 
rado em S. Paulo contra os auctores do levante havido a 23 de Maio de 1822, 
conhecido pelo nome de bei narda Francisco ígnacio, motim que tçve por obje- 
ctivo a deposiçfto de dois prestantes membros do governo provisório, coronel 
Martim Francisco Ribeiro de Andrada e brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão. 



I40 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

marcando aos não adherentes o prazo de trinta dias para 
deixar o domicilio e de quatro mezes para se retirarem do 
território brazileiro. 

O illustre portnguez José Clemente Pereira reuniu a 21 de 
Setembro o senado da camará, a cuja sessão compareceram 
João Soares de Bulhões, José Pereira da Silva Manoel, 
Domingos Vianna Gurgel do Amaral e o procurador José 
António dos Santos Xavier. Designou-se o dia 12 de Outubro, 
24.^ anniversario natalicio de D. Pedro e 330.° anniversario 
do descobrimento da America, para.o acto solemne da accla- 
mação de D. Pedro; para o que, foi expedido o seguinte 
edital : 

«O senado da camará faz saber ao povo e tropa d'esta 
cidade que, tendo previsto que era vontade unanime de todos 
acclamar imperador constitucional do Brazil a sua Alteza 
Real, o Principe Regente; desejando acautelar que. algum 
passo precipitado apresentasse com as cores de partido fac- 
cioso um acto que a vontade de todo o Brazil requer e que 
por esta razão e pela importância de suas consequências deve 
apparecer á face do mundo inteiro revestido das formulas 
'solemnes que estão reconhecidas por enunciativas da vontade 
unanime dos povos, tem principiado a dar as providencias 
necessárias para que a acclamação de Sua Alteza Real se faça 
solemnemente no dia 12 de Outubro, natalicio do mesmo 
senhor, não só n'esta capital, mas em todas as villas d'esta 
provincia* e tem justos motivos para esperar que a maior 
parte das proviucias colligadas pratiquem outro tanto no 



CAPITULO XXIV 141 



mesmo fausto dia. E porque será muito importante á causa 
do Brazil, muito glorioso ao acerto com que este vai dirigindo 
a grande obra da sua independência, e de muita admiração 
finalmente para os povos espectadores, si no mesmo dia 12 
de Outubro fôr Sua Alteza Real acclamado imperador con- 
stitucional do Brazil solemnemente em todas ou quasi todas 
as suas provi ncias, roga o mesmo senado ao povo e tropa 
doesta cidade que suspendam os transportes do seu entliu- 
siasmo até ao expressado dia, e ao mesmo tempo os convida 
para que, imindo-se a elle, o acompanhem a fazer solemne, 
grande e glorioso tão importante acto. » 

No dia designado amanheceu a cidade do Rio de Janeiro 
sob ridente aspecto: fluctiiava a nova bandeira nos mastros 
das embarcações, nas fortalezas, á frente dos edifícios públicos 
e das casas particulares;* salvaram as fortalezas e os navios 
ancorados na bahia; adornavam-se as janellas de colchas de 
seda; tapeta vam-se as ruas principaes de folhas de laranjeira; 
de distancia em distancia arcos de ramagens imprimiam á 
formosa capital a idéa de grandioso triumpho. Todo o 
contentamento de um povo, que ia entrar na posse de seus 
direitos de nação livfe, transluzia nos semblantes. 

Ao campo de SanfAnna convergia a multidão arrebatada 
de patriótico impulso: ahi, junto ao palacete imperial ('), 
aggiomerou-se, para assistir de perto ao magno acontecimento. 



( I ) Ksse palacftt', construído de madt* ira, fora levantado por occasiào da 
coroação de D. João VI em Fevereiro de iMS, para que a família real assistisse 



142 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Numerosos populares acompanharam o príncipe e a 
princeza, que se transportaram em seus coches da quinta de 
S. Christovão ao campo, ao som de saudações enthusiasticas. 

Chegado ao palacete, D. Pedro recebeu o senado da 
camará bem como os procuradores ou deputados das villas do 
Rio de Janeiro e de Minas, 

Por essa occasião falou José Clemente Pereira rememo- 
rando as oppressões e violências exercidas pelas cortes portu- 
guezas contra o governo de D. Pedro; exaltou o acto da 
independência, tenninando com estas palavras: «O dia 
anniversario do feliz nascimento de, Vossa Alteza Real è o 
designado para o solemnissimo acto de sua acclamação e 
exaltação ao supremo titulo e sublimado emprego de impe- 
rador constitucional do Brazil, titulo de que ha muito gosaria 
si tivesse querido e só dependia de sua soberana vontade. » 

D. Pedro respondeu: «Acceito o titulo de imperador 
constitucional e defensor perpetuo do Brazil,. porque tendo 
ouvido o meu conselho de estado e procuradores geraes, e 



aos festejos. Circumdâvam-no varandas constituídas por arcos entre columnas 
unidas por unii balaustrada : a da frente, saliente mais ds dois metros, era susten- 
tada por cinco arcos, três na parte anterior e dois menores, lateraes, formando 
um vcstibulo ; a escada ficava fronteira ao arco central. Havia no palacete um 
salão e três quartos forrados de damasco e velludo. O edifício foi depois cons- 
truído de pedra c cal. 

A 22 de Julho de 1S41, quando o artista pyrotechnico Francisco de Assis Pere- 
jfrino preparava ahi g^rande fogo de artificio para as festas da sagração e coroação 
de I). Pedro II, houve msdonha explosào que destruiu o palacete, perecendo na 
calastrophc os artistas José da Costa Velho, seu filho Cândido José da Costa e 
l*rancisco Peregrino : este, ao saltar um.i jancUa, foi apanhado pehi desal>amento 
de uma parede. 



CAPITULO XXIV 143 



examinado as representações das camarás das differentes 
províncias, estou inteiramente convencido de que tal é a 
vontade geral de todas as outras, que só por falta de tempo 
não têm ainda chegado. » 

Da varanda da frente do edifício o presidente do senado 
ergueu vivas ao imperador constitucional e defensor perpetuo 
do Brazil o .Senhor D. Pedro I, á imperatriz do Brazil, á 
assembléa geral e legislativa e ao povo constitucional. 
Soaram por todo o campo de Sant^Anna prolongados vivas, 
delirantes acclamações, como si a multidão desejasse que 
as expansões de seu extraordinário prazer fossem ouvidas 
nas plagas luzitanas. 

A acta foi lavrada pelo escrivão do senado da camará 
José Martins Rocha e assignada: pelo imperador; José 
Clemente Pereira, Juiz de Fora; João Soares de Bulhões, 
vereador; José Pereira da Silva Manoel, vereador; Domingos 
Vianna Gurgel do Amaral, vereador; José António dos 
Santos Xavier, procurador; Ignacio d' Assis Saraiva e Fonseca, 
procurador da villa Nova Friburgo ; o vigário Jacob Joye, 
procurador da mesma villa; José Joaquim Soares, procurador 
da villa de São Pedro de Cantagallo; o padre António João 
de Lessa, procurador pela mesma villa; José Pereira Peixoto, 
procurador da camará da ilha Grande; Leandro António de 
Marins Rangel, procurador da cidade de Cabo Frio; Francisco 
Antune:? Suzano, procurador da villa de S. P^rancisco Xavier 
de Itaguahy ; João Francisco de Azeredo Coutinho, procurador 
da v-illa de Santo António de Sá; António José Pereira da 



144 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



Silva, prQcurador da camará de Rezende ; Francisco Peixoto 
de Lacerda, procurador pela villa do Paty do Alferes; José 
Joaquim Ferreira Duque Estrada, procurador pela villa de 
Maricá; Manoel Joaquim de Figueiredo, procurador pela 
villa de Macahé; Miguel Gonçalves dos Santos, procurador 
pela villa real da Praia Grande; Agostinho Nunes Montes, 
procurador pela villa de S. Jq^é d*El-Rei; José Ayres da 
Gama, procurador pela villa de Paraty, etc. 

Chovia torrencialmente. A imperatriz, findo o acto, seguiu 
em coche para o paço da cidade; D. Pedro preferiu ir a pé, e, 
debaixo de pallio, sob uma nova chuva, de flores, que das 
janellas lhe eram lançadas pelo sexo gentil associado á 
patriótica manifestação, seguiu para a capella inperial onde, 
em companhia de sua esposa, assistiu ao Te-Deum^ celebrado 
em acção de graças pelo grande e memorável acontecimento. 

Feita a independência e acçlamado o imperador, quando 
necessitava o paiz de que todos os fortes elementos politicos 
se congregassem para firmar em bases solidas o inicio da 
nacionalidade, levantoú-se grande lucta entre o partido libe- 
ral, com aspirações republicanas, chefiado pelo jornalista 
Joaquim Gonçalves Ledo e o partido dos irmãos Andradas — 
José Bonifácio e Martim Francisco — ministros de D. Pedro. 
O Grande Oriente da Maçonaria protegia os liberaes, que 
pelo jornal Reverbero faziam enérgica opposição ao governo: 
os ministros, pelas coluninas do Regulador^ davam combate 
aos adversários. 

Conscientes de sua popularidade c para, por meio d'ella, 



CAPITULO XXIV 145 



tirarem partido contra os opposicionistas, os Andradas pedi- 
ram demissão de seus cargos, antevendo reclamações popu- 
lares que este facto provocaria : acompanliou-os o ministro da 
justiça Caetano Pinto de Miranda Montenegro (marquez da 
Praia Grande). Acceitando a demissão, nomeou D. Pedro: 
para a pasta do império, João Ignacio da Cunha; para a da 
fazenda e justiça, Sebastião Luiz Tinoco da Silva; para a da 
guerra, João Vieira de Car\-alho, marquez de Lage ; para a da 
marinha, Luiz da Cunha Moreira, posteriormente visconde de 
Cabo Frio. 

Como se previa, esta mudança ministerial levantou adhe- 
sões em favor dos Andradas, e tão poderosas foram as 
representações levadas áo imperador, que este se viu obrigado 
a reintegral-os em suas pastas e a Montenegro, conservando, 
porém, em seus logares os ministros da guerra e da marinha. 
Voltando ao governo, desenvolveram os Andradas perse- 
guição cruel contra seus adversários politicos e promoveram 
grande numero de prisões e processos, em vista dos quaes 
foram deportados Luiz Pereira da Nóbrega de Azeredo 
Coutinho, que havia pouco occupára a pasta da guerra; o 
benemérito José Clemente Pereira, que tanto havia contri- 
buido para a independência do Brazil, como presidente do 
senado da camará do Rio de Janeiro, e o cónego Januário da 
Cunha Barbosa ( * ). 



( 1 ) Al6m d'essi's cidadãos noUivcis, foram processados : o marechal de 
campo r>omiti)(os Alves Hranco Moni/. Biirrello. JoAo da Rocha Pinto, Luiz Manoel 
Alves dj Aziívedo, Thunia/. José Tinoco de Almeid.1, Jos<J Joaquim Gouv^a» 

VJ TOM. II 



146 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Para fugir á perseguição dos Andradas, o grande jorna- 
lista Joaquim Gonçalves Ledo (segundo conta Mello Moraes) 
ffoccultou-se em diversas partes, até que uma noite, com o 
rosto, peito e braços pintados de preto, vestido de mulher e 



Joaquim Valério Tavares, Joào Soai es Lisboa, Pedro José da Costa Barros, Joào 
Fernandes Lopes e padre António Joào Lessa. No Brazil Histórico do' dr. McUo 
Moraes acha-se publicado todo o processo. 

O cónego Januário da Cunha Barbosa nasceu no Rio de Janeiro a 10 de Julho 
de 1780 e falleceu na mesma capital a 22 de Fevereiro de 1846. Com o marechal 
de campo Raymundo José da Cunha Mattos fundou o Instituto Histórico e Geo- 
graphico do Brazil, installado a 25 de Novembro de 1838, sob a presidência do 
visconde de S. Leopoldo. 

Referindo-sc ao cónego Januário Barbosa, diz o dr. Sacramento Blake em 
seu Diccionario Bibliographico ( tom. IH, pag. 291 ) : 

« N'um discurso que na occasião de baixar seu corpo á sepultura proferiu 
o orador do Instituto, assim se exprime este : « Vinte e seis titulos honrosos 
adornam a sua memoria ! Em dezoito corporações illustres foi seu nome procla- 
mado como de um sábio nos paizes extranhos, pois que no nosso de ha muito 
havia conquistado os inalteráveis direitos que lhe asseguravam os grandes feitos 
de sua vida, a sua eloquência como orador sagrado, os seus vastos conhecimentos 
e sobretudo os padrões de gloria que levantara á nossa pátria. » 

A 6 de Abril de 1848 foi solemnemente coUocado o seu busto com o do 
marechal Raymundo de Mattos na sala das sessões do Instituto : ahi prestaram- 
lhe homenagens o presidente Cândido José de Araújo Vianna. ( marquez de 
Sapucahy ) o orador poeta Manoel de Araújo Porto Alegre, Joaquim Norl>erto de 
Souza Silva, 2.° secretario dr. Francisco de Paula Menezes e Gonçalves Dias. 

Do Canto inaugural d 'este poeta trasladamos duas bellas estrophes : 

Porfioso e tenaz no duro empenho, 
No manto do porvir bordava ufano. 
Sob os trophéos da liberdade sacra, 
Os destinos da pátria ! 



Dorme, ó luctador, teu som no eterno ; 
Mas sobre a lousa do sepulcro humilde, 
Como na vida foi, surja o teu busto 
Austero e glorioso ! 

Rcv. do ínsi., tom, XI, pags.285 c 287. 



CAPITULO XXIV 147 



com iini balaio á cabeça, acompanhado por alguns amigos 
qne o seguiam dispersos, embarcou em uma falíia para a 
fazenda de S. Gonçalo em Nictheroy, onde hospedou-se em 
casa de um seu amigo, Bellarmino (depois barão de S. Gon- 
çalo), que muita parte tomou na independência de sua 
pátria. Permaneceu Ledo occulto, e d'alii, por intermédio e 
protecção de Lourenço Westin, cônsul da Suécia, embarcou 
em um navio d^essa nação, que se dirigia para Buenos Aires, 
onde refugiou-se até que a influencia dos Andradas se desva- 
. neceu pela dissolução da constituinte a 12 de Novembro 
de 1823, sendo elles deportados no mesmo mez por accórdão 
do conselho de estado. » 

A i.° de Dezembro de 1822 effectuou-se com grande 
apparato a cerimonia da coroação do imperador. 

Na mesma occasião publicaram-se decretos creando a 
Imperial Ordem do Cruzeiro e a Guarda de Honra ('), 
composta de três esquadrões de cavallaria, tirados das três 
provincias Rio de Janeiro, S. Paulo e Minas. 

Nas vésperas da coroação, organizou-se em palácio uma 
lista de cidadãos beneméritos que por seus serviços á causa 
da independência deveriam ser distinguidos com a ordem do 
Cruzeiro. Desejou o imperador que Martim Francisco e, 
especialmente, José Bonifácio — a quem tão grandes benefícios 
devia a pátria — fossem contemplados com a gran-cruz da 



( I ) Essa (iuarda, fiiic se achava de posse de privilégios sobre os dctnaisi 
corpos do exercito, foi extincta pela lei de ^5 de Outubro de 1832. 



148 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



ordem. Os illustres paulistas, porém, recusaram terminante- 
mente a mercê. Pezaroso com a recusa, lembrou-se D. Pedro 
do papel saliente que António Carlos ha\na desempenhado 
perante as cortes portuguezas. • Quero, disse elle, que esta 
distincção fique em um membro da familia de José Bonifá- 
cio. * E sem opposiçâo dos irmãos, conferiu ao enérgico orador 
democrata, que se achava ausente, a gran-cniz do Cruzeiro. 
Xão satisfeito com este premio, e desejoso de galardoar publi- 
camente os relevantissimos ser\'iços de José Bonifácio, o 
imperador, aconselhado pelo camarista António Telles da 
Sih^a, mais tarde marquez de Rezende, resolveu causar ao 
velho patriarcha uma surpresa: na egreja, após o acto da 
coroação, tiraria a sua gran-cruz e por suas próprias mãos a 
collocaria ao pescoço de José Bonifácio. Conhecendo, porém, 
o génio altivo de seu primeiro ministro, preveniu-o na vés- 
pera, á noite, do que se ia dar por occasião da solemnidade. 

— Não faça tall exclamou o ministro contrariadissimo. 
Não me obrigue a perturbar o acto, declarando que V. M. está 
fora de seu juizo! E um paulista que lhe fala; faça agora o 
que quizer e verá o resultado. 

A vista de tão formal protesto, não foi dada a José Boni- 
fácio a gran-cruz da ordem do Cnizeiro ( ^ ). 



^ I ; Hm um bello volume adornado de estampas, intitulado Resumo da 
Historia do lirazil para uso das escolas primarias brazileiras < Boston. 1S94 ), 
trabalho da professora Maria G. l,. de Andrade, figura, defronte da pag. 169, o 
retrato de José Bonifácio com gran-cruz ao pescoço. H preciso que se tome bem 



CAPITULO XXIV 149 

D. Pedro não se deu por vencido. Sem consultar ao 
grande amigo e conselheiro, nomeou-o seu mordomo-mór. 
Assim deu-se o facto: 

No dia da coroação de D. Pedro, extraordinário prazer 
apossou-se de José Bonifácio. Parecia ter conseguido o mais 
bello ideal de toda a sua existência. Jantava-se no paço; 
o imperador compareceu no meio do jantar á mesa de estado 
e disse que ia fazer uma saúde e um pedido a José Bonifácio 
e esperava que lhe não faltasse. No excesso de contentamento 
em que se achava, o ministro collocou a mão direita sobre o 
hombro de D. Pedro e disse: «Peça V. M. o que quizer; hoje 
não lhe recuso nada. » 

O imperador bebeu á saúde de José Bonifácio, seu mor- 
domo-mór. Como era de ver, o brinde foi enthusiasticamente 
applaudido por todos os assistentes. 

O austero ministro respondeu seccamente: «Sim, Senhor, 
sou mordomo-mór; sou tudo que V. M. quizer que eu seja.» 

No dia seguinte, o digno paulista declarou francamente ao 
imperador que este havia procedido incorrectamente, prevale- 
cendo-se de um momento de alegria para surprehendel-o 
deante de muitas pessoas e extorquir-lhe um sim, que aliás 
nunca lhe daria. Seguiu-se uma questão de razões de parte á 



patente que o immortat patríarcha de tiôdâa independência nunCa acceitott 
distincçáo algruma honorífica, nem titulo alg^im de nobresa que lhe substituísse 
o glorioso nome. 

Quiz ser e foi unicamente José Bonifácio, 



150 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



parte, sendo necessíirio todo esforço de D. Pedro para que 
José Bonifácio não sahisse do ministério ('). 

A participação ofBcial da independência do Brazil foi 
levada á- Europa por embaixadas commettidas a Manoel 
Rodrigues Gameiro Pessoa, visconde de Itabaiana; a António 
Telles da Silva, marquez de Rezende e Felisberto Caldeira 
Brant Pontes, marquez de Barbacena, perante os governos da 
França, Áustria e Inglaterra. 

No sentido de cortar todas as relações com os luzitanos, o 
governo, por decreto de 30 de Dezembro de 1822, concedeu 
cartas de corso para que fossem appreliendidos todos os 
navios portuguezes que demandassem os portos do Brazil. 

Necessitava D. Pedro tirar do próprio paiz os reforços 
necessários para enfrentar a guerra que Portugal lhe faria 
por todos os meios a seu alcance. Para ampliar o quadro das 
forças brazileiras concedeu perdão a desertores e a presos 
prestes a preencher o tempo de sentença ; favoreceu a liber- 
tação dos escravos para que fossem alistados no serviço do 
exercito; consentiu no engajamento de extrangeiros ; e por 
estes e outros meios viu-se em breve rodeado de elementos 
fortes, próprios para fazer com que o acto da independência 
fosse respeitado pelos portuguezes. 

Voltando aos successos que occorriam na Bahia depois da 
chegada da esquadra commandada por lord Cochrane — que 



( I ) António de Menezes Vasconckllos de Drummond : Aunotações d 
sua biographia, pag. 57. 



CAPITULO XXIV 151 



havia sido chamado do Chile para o desempenho da impor- 
tante incumbência — repetimos que este ahnirante, após os 
successos de 2 de Julho, mandou perseguir a esquadra portu- 
gueza, aprisionando-lhe navios, para escarmento dos que 
ainda nutriam pretenções auctoritarias sobre o Brazil. 

O commandante da fragata brazileira Nictheroy^ João 
Taylor, depois de apresar pequenos navios á barra do Tejo, 
tocou em seu regresso em uma das ilhas dos Açores, onde 
fez constar que o navio pertencia á Inglaterra e regressava 
de uma viagem á índia; conseguiu das auctoridades manti- 
mentos e armas de que tinha necessidade; depois de rece- 
ber o que havia pedido, offereceu ao governador da ilha um 
jantar a bordo, como prova de reconhecimento ; mas ao pôr-se 
ao largo a fragata, mandou hastear a bandeira brazileira e 
firmal-a com uma salva de 21 tiros. 

Recolhidos á Bahia e Pernambuco os navios aprisionados, 
seguiu o almirante Cochrane em a nau ledro I para o Mara- 
nhão, em cujo porto entrou com bandeira portugueza. Por meio 
d'este ardil effectuou a captura do brigue de guerra .S*. Miguel 
e conseguiu com facilidade que a praça lhe fosse entregue a 
27 de Julho de 1823. 

Depois de alguma reluctancia por parte do governador de 
Piauhy, major João José da Cunha Fidié, reconheceu esta 
provincia o governo de D. Pedro por meio da capitulação de 
31 de Julho. 

Por ordem de Cochrane, seguiu no brigue Maranhão 
(ex-^*. Miguel) para a provincia do Pará o capitão inglez 



15a MEMORIAS BRAZILEIRAS 



João Pascoe Greenfell, que, sevindó-se egualmente da bandeira 
portugueza para illudir os revoltosos, conseguiu, a 11 de 
Agosto, que a provi ncia reconhecesse, como auctoridade 
suprema, o imperador. Fez prender o governador, general 
José Maria de Moura, e outras auctoridades e as enviou para 
Portugal em navios mercantes. 

Reconhecendo, porém, os portuguezes que haviam sido 
enganados, resolveram exercer vingança contra o comman- 
dante do brigue, e na noite de 21, quando este official se 
dirigia para bordo, foi traiçoeiramente ferido por um mari- 
nheiro do brigue mercante General Noronha, 

Dias antes, Greenfell mandara formar no largo do Palácio 
o parque de artilheria e, sem forma alguma de processo, 
fuzilar dois sargentos, dois soldados e o porteiro do arsenal 
de marinha, Custodio. Por intervenção e rogos da junta de 
governo deixou de ser justiçado horrorosamente o cónego Ba- 
ptista Campos, amarrado já á bocca de uma peça de artilheria. 

Foram depois presos 256 revoltosos, e, a pedido da junta, 
conduzidos para bordo de um pontão, Diligente^ depois 
denominado Palhaço. 

Horrivel, monstruoso o castigo infligido a tantos cida- 
dãos indefesos e expostos á sanha de desenfreada paixão 
partidária. 

No porão do velho navio, agglomerados em um espaço 
que media 7 metros de comprimento, por 5 de largura e 3 de 
altura, foram acommettidos os presos de violentas dores de 
cabeça e sede abrazadora. Em gritos reclamaram agua e os 



CAPITULO XXIV 153 



guardas lhes derain agua do rio, salgada e turva, lançada em 
uma grande tina existente no porão: arrojaram-se a ella, 
bebendo-a, ou de bruços, ou nas mãos ou nos chapéos, amon- 
toando-se desordenadamente e pisando-se no atropello e 
sofreguidão. Abafados pelo calor, quasi todos puzeram-se 
nús e agitavam o ar com as roupas e com os chapéos. Uns 
lançavam-se á tina d'agua; outros, possuidos de vertigens, 
cahiam desfallecidos. Logo que a agua se tomou immunda^ 
pediram renovação do liquido, e, sendo satisfeitos, travaram 
desesperada lucta a punhadas, a disputar a preferencia em 
beber. Parecia que a loucura tinha-se apoderado d'aquelles 
infelizes: entre pragas e maldições, arrojavam-se uns contra 
os outros e dilacerAvam-se com as unhas, com os dentes, 
luctando corpo a corpo, ensanguentados e febris, em accessos 
de raiva. A feroz guarnição do brigue, para aplacar aquella 
scenà horrorosa — só comparável ás do Inferno de Dante — 
deu uma descarga de fuzilaria para dentro do porão; em 
seguida, derramou sobre os miseros grande porção de cal, e, 
para que a barbaridade fosse completa, cobriu a escotilha, 
ficando o porão hermeticamente fechado. Por espaço de 
duas horas ouviram-se gritos abafados, gemidos, estertores de 
agonizantes, brados de misericórdia; mas o surdo rumor foi 
pouco e pouco se extinguindo . . . Três horas depois do encer- 
ramento, ao escurecer, viu-se que no porão reinava socego, 
tranquillidade própria de cemitério. No dia seguinte, ás 7 horas 
da manhã, corrida a escotilha, vcrificou-se a existência de 
252 cadáveres e 4 presos sobreviventes, dos quaes 3 morreram 

ao TOM. II 



154 MEMORIAS BBAZILEIRAS 



pouco depois e só um poude salvar-se para narrar a pavorosa 
tragedia que presenceou e de que demos pallido resumo. Era 
commandante do pontão o 2." tenente Joaquim Lndo de 
Araújo ('j. 

Esta barbara acção, que eimegrece a memoria de Green- 
fell, faz lembrar o monstruoso procedimento do revolucionário 
francez Carrier, que, em Nantes, no anno de 1794, encerrava 
centenas de victimas em barcos preparados com válvulas, 
que no mar se abriam para que se afogassem os miseros 
vencidos j>elo governo do Terror. Os ferozes demagc^os cha- 
mavam a esta execravel execução baptismo repuhlúano. 

Em recompensa dos sen-iços prestados á causa da inde- 
pendência do Brazil foi lord Cochrane agradado, a 3 de 
Novembro de 1823, com o titulo de marquez do Maranhão. 

Pacificado o Norte, convergiram as vistas para o extremo 
Sul, para a pro\*inda Cisplatina, cujo governador, D. Álvaro 
da Costa de Souza de Macedo, entrincheirado em Montex-idéo 
com 4.000 homens, resistiu por espaço de dezesete mezes ao 
sitio que lhe poz o general Lecór, xâsconde da Laguna, e só 
capitulou a 18 de Novembro de 1S23 e com a Divisão de 
l 'oluniarios Reaes regressou para Portugal. 

Foram essas as ultimas forças portugnezas expellidas do 
Brazil, para que o novo império se constituísse com solidez, 
argamassado pelo esforço dos nacionaes. 



(I) I>r. DoMiNV.os Antonu» Rayol ; M^^tins poliiicos oh historia dos 
f>ri»uipat% aiontt\imentcs Pi*!i/iios </«• I\irJ. d€sdt 1S21 aU jSj^. 



CAPITULO XXIV 155 



Depois de tantas vicissitudes, a formosa banda oriental, 
que serve de clegantissinio pórtico de mármore ao Rio da 
Prata, passou a exclusivo dominio brazileiro, offerecendo ao 
paiz a mais bella e natural delimitação ao sul e ao mesmo 
tempo importante empório de nosso commercio com a 
Republica Argentina e com o Paraguay. 

Era a Cisplatina uma das jóias do império, não só pela 
magnifica situação topograpliica, como pela riqueza do solo, 
pela originalidade dos costumes, pela suavidade da lingua 
( liespanliola ), pelo bom gosto das edificações — sem paridade 
alguma com as desgraciosas e tristes construcções luzitanas 
— e, especialmente, pelo forte espirito de iniciativa que 
impelle os orientaes á realização de grandes empresas. 

Conserval-a e imprimir-lhe o máximo desenvolvimento 
seria uma gloria para o Brazil. 



CAPITULO XXV 



ASSEMBLÊA GKRAL LEGISLATIVA E CONSTITUINTE. OpPOSIÇAO. 

Dissolução. Prisão dos chkfks opposicionistas. A Confederação 

DO Equ.\dor em Pernambuco. Supplicio de Frei Caneca 

K DE Ratcliff — 182^-1825 



I^onvocada a assembléa geral legislativa e constituinte 
por decreto de 3 de Junho de 1822, effectuou-se a primeira 
sessão preparatória a 17 de Abril de 1823, sob a presidência do 
bispo, D. José Joaquim Coutinho da Silva, e só a 3 de Maio 
seguinte foi ella solemnemente aberta, pronimciando D. Pedro 
a fala do throno. A opposição na camará era representada por 
cidadãos de grande influencia politica — Joaquim Gonçalves 
Ledo (que no exilio havia sido lembrado pelas umas), 
Pedro José da Costa Barros, Pedro de Araújo Lima e José da 
Costa Carvalho. 

Precisamos explicar a razão por que incorria D. Pedro na 
antipathia publica. 

Coroado imperador, outra ambição começou a preoccu- 
par-lhe o espirito: a idéa de unir o Brazil a Portugal. 

Herdeiro prcsumptivo da coroa portugueza, reservava-lhç 



158 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



a sorte a dupla gloria de ser imperador na America e rei na 
Europa. 

O paço imperial achava-se constantemente cheio de por- 
tuguezes — militares e civis — desejosos de ver outra vez a 
nossa pátria incorporada á antiga metrópole. 

Percebendo a surda machi nação, que tinha por fim 
destruir a obra da independência, José Bonifácio experimen- 
tava em seu coração patriota profundissimo desgosto. 

Para que mais afflictiva lhe fosse a situação, o imperador 
mandara vir de S. Paulo uma mulher mundana, Domitilia, 
conhecida posteriormente pelo titulo de marqueza de Santos. 

Tendo succedido a D. Pedro o desastre de cahir de um 
cavallo, quebrado duas costellas e machucado uma coxa, onde 
se lhe formou um abcesso, foi Domitilia admittida n^alcova 
imperial, e desde ahi começou escandalosamente a exercer 
influencia no paço ('). 

Empregou o patriarcha os maiores esforços para cohibir 
o concubinato indecoroso: só conseguiu ver agrupados em 
torno da cortezã impudica maior numero de portug^iezes 
combinados em hostilizal-o. 

Para fugir ao contacto da immoralidade, com toda a sua 
degradante serie de baixezas, José Bonifácio, que prezava a 



í I ) Das illicitas relações de D. Pedro I com Domitilia nasceram três 
filhas c um filho. A filha mais velha, Isabel Maria Brazileira, foi legfitimada a 4 
de Julho de 1S26 e n'cssa occ.isiâo concedeu-lhe o imperador o titulo de duqueza 
de Ctoyaz. mercCMjue ella. perdeu ao casar-se com o conde I^ischer de Flcuberj?. 
Os demais filhos fallcceram na infância, 



CAPITUI.O XXV 159 



D. Pecíro como a um filho, declaroii-se demittido do cargo de 
ministro do império e extrangeiros a 15 de Julho de 1823; 
no dia 16 Martim Francisco dispensou-se de ministro da 
fazenda, e sua irmã, D. Maria Flora de Andrada, das f uncções 
de camareira-mór. 

Foram os dois irmãos substituidos por José Joaquim 
Carneiro de Campos e Manoel Jacintho Nogueira da Gama, 
os quaes só contribuiram para tornar mais acirrada a oppo- 
sição. 

Logo que os Andradas sahiram do ministério, surgiram 
duas gazetas de opposição ao governo: A Sentinella e o 
Tamoyo. 

Fundado por António de Menez:s Vasconcellos de Drum- 
mond, o Tamoyo teve como redactores effectivos Dmmmond 
e o desembargador Francisco da França Miranda e como colla- 
boradores os três Andradas. Mais tarde incorporou-se á folha 
António José de Paiva Guedes, que D. Pedro havia demittido 
de redactor do Diário do Cozrrno por ter, em artigo de 
fundo, applicado a José Bonifácio um qualificativo honroso 
e affirmado que elle havia bem servido a seu paiz. 

O Tamoyo teve no dia de seu apparecimcnto duas edições; 
a primeira, com a seguinte epigraphe acintosa ao monarcha : 

Pour qu^on 'Cous obiisst\ ohnssez atíx his. 

Na segunda edição, a epigraphe adoptada para todos os 
números appareccu mais frisautc n^estcs dois alexandrinos, 
suggeridos por José Bonifácio : 



l6o MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Tu vois de ces tyrans la fureur despotique ; 
lis pensent que pour eux le cielfit rAmêrique. 

A voz mais poderosa e auctorizada que se levantou n^esse 
primeiro congresso brazileiro foi a do arrojado paulista 
António Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, já 
conhecido nas cortes portuguezas pela forma enérgica e 
brilhante por que defendeu os direitos do Brazil ao elabo- 
rar-se a constituição portugueza. 

Homem de idéas elevadas e superiores ao meio em que 
agia, avantajou-se aos demais deputados pelo modo como 
considerou o pacto fundamental da nação. 

Foi elle o relator da commissão incumbida do projecto da 
constituição. Trabalho revelador de aceudrado patriotismo, 
o projecto reconhecia três poderes: o judiciário, o legislativo 
e o executivo. Não admittia o poder moderador — a attri- 
buição suprema concedida ao monarcha, como ultima instan- 
cia. Não facultava ao chefe da nação o poder de dissolver a 
camará : só poderia adial-a ou prorogal-a, em caso de neces- 
sidade publica ; não lhe era permittido conceder perdão total 
a seus ministros, a quem só podia perdoar a pena capital; 
a todos podia conceder perdão, mas não amnistia. Não preci- 
savam de sancção a constituição formulada pela assembléa 
constituinte, as modificações que soffresse essa lei, nem as 
deliberações da assembléa geral sobre o resultado do exame 
do emprego da força armada pelo poder executivo. 

A assembléa geral legislativa seria composta de duas 
camarás: uma vitalicia, o senado, e outra temporária, a 



CAPITULO XXV l6l 



camará dos deputados, com duração de 4 annos; para a 
formação do senado, eram eleitos os cidadãos por meio de 
voto popular: as vagas seriam preenchidas por designação 
do imperador em listas tríplices organizadas pelos deputados. 
Taes eram, em resumo, as idéas primordiaes sobre que 
assentava o projecto da constituição brazileira. 

N'esse tempo, apresentaram-se no Rio de Janeiro, como 
emissários de D. João VI, o conde do Rio Maior, o gene- 
ral Luiz Paulino Pinto da França e o desembargador Fran- 
cisco José Vieira. Com geral contentamento soube-se que o 
imperador recusou recebel-os pelo facto de não terem trazido 
instrucções que reconhecessem a independência do Brazil: 
foram forçados a regressar para Portugal, á excepção de Luiz 
Paulino, que falleceu na capital fluminense. 

Continuava na assembléa a lucta dos Andradas contra 
o governo e tornou-se esta n:ais violenta quando o deputado 
Montezuma apresentou moção declarando nulla a concessão 
do titulo de marquez do Maranhão feita a lord Cochrane, 
como reconhecimento aos serviços prestados nas provincias 
do Norte. 

O chefe da opposição, o eloquente António Carlos, com a 
impetuosidade própria de seu temperamento, offereceu a 
seguinte emenda: «Que se diga ao governo de Sua Magestade 
que emquanto a assembléa não decretar a existência de 
distincções nobiliárias e dç titulos, não se dêem mais titulos 
e distincções. » 

Na tribuna e na imprensa era continuamente hostilizado 



l62 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



D. Pedro, sobresahindo d'entre os jornaes A Sentmella^ que 
empregava aspereza de linguagem, atacando-o, pela protecção 
decidida que dispensava a officiaes portuguezes, com prete- 
rição de brazileiros. 

A tal ponto accenderam-se as rivalidades, que a officiali- 
dade portugueza em guarnição na capital para, de vez, pôr 
termo a taes ataques, organizou uma representação ao 
imperador para que fossem expulsos do seio da assembléa os 
três innãos Andradas, anctores das censuras. 

Como os ministros se não prestassem a commetter tamanha 
violência, D. Pedro organizou novo ministério assim com- 
posto: marquez de Paranaguá, Francisco Villela Barbosa, 
com a pasta do império eextrangeiros; marquez de Nazareth, 
Clemente. Ferreira França, com a da justiça; Sebastião Luiz 
Tinoco da Silva, com a da fazenda; visconde do Rio 
Comprido, José de Oliveira Barbosa, com a da guerra; e 
continuando o visconde do Cabo Frio, Luiz da Cunha 
Moreira, com a da marinha. 

Um facto particular deu ganho de causa ao partido 
luzitano. 

Cartas sob a assignatura Um brazileiro resoluto foram 
publicadas na Sentinella estigmatizando a protecção dispen- 
sada a officiaes portuguezes. Um doestes, capitão José Joaquim 
Januário Lapa, melindrado com taes publicações, ao passar 
pelo largo da Carioca na noite de 5 de Novembro de 1823, 
defrontando uma pharmacia, lhe foi mostrado o boticário 
David Pamplona Corte Real como auctor das cartas aggres- 



CAPITULO XXV 163 



sivas. o official penetrou na botica e ahi, a bengaladas, 
feriu a cabeça do indigitado auctor das missivas, o qual 
protestava não ser o brasileiro resoluto^ procurado pelo 
capitão. Gonsummado o attentado, reconheceu-se, com effeito, 
a innocencia de David Pamplona e soube-se que o incógnito 
articulista cliamava-se Francisco António Soares ('). 

Em vez de apresentar queixa ás auctoridades judiciaes, 
David Pamplona representou contra o facto á assembléa, que 
tomou conhecimento do delicto, como si elle affectasse a honra 
nacional, e nos dias 8, 9 e 10 de Novembro discutiu com calor 
o assumpto, sob manifestações de agrado e de hostilidade por 
parte das galerias. 

A assembléa constituiu-se em sessão permanente e requi- 
sitou o comparecimento do ministro do império, Villela 
Barbosa, para explicações. 

Este funccionario apresentou-se á assembléa ás 11 horas 
da manhã do dia 12. Interrogado sobre a representação dos 
officiaes, deu a seguinte explicação: 

« Segundo ouvi a Sua Magestade, foram motivos da 
representação os insultos feitos aos officiaes em alguns perió- 
dicos e especiahnente á sua augusta pessoa, chegando até a 
ser ameaçada a sua existência physica e politica no Tamoyo; 
pediu-se que sendo redactores doeste os illustres deputados 
— os Srs. Andradas — fossem expulsos da assembléa, o que 
Sua Magestade declarou logo inadmissivel. » 



( I ) Annota(;òcs de Drunimotid. pag. 137. 



l64 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Pouco depois da sahida do ministro, o general Manoel 
José de Moraes entregava á assembléa o decreto pelo qual o 
imperador dissolvia a representação nacional. Era assim 
concebido: 

« Havendo eu convocado, como tinha o direito de convo- 
car, a assembléa geral constituinte e legislativa, por decreto 
de 3 de Junho do anno próximo passado, a fim de salvar o 
Brazil dos perigos que lhe estavam imminentes, e havendo 
esta assembléa perjurado ao tão solemne juramento que 
prestou á nação, de defender a integridade do império, sua 
indtípendencia e a minha dynastia: Hei por bem, como 
imperador e defensor perpetuo do Brazil, dissolver a mesma 
assembléa, e convocar já uma outra, na fónna das instnicções 
feitas para convocação d'esta, que agora aeaba, a qual deverá 

' trabalhar sobre o projecto de constituição que eu lhe hei de 

j I 

j , em breve apresentar e que será duplicadamente mais liberal 

! do que a que a extincta assembléa acabou de fazer. Os meus 

' ' ministros e secretários de estado de todas as differentes 

repartições o tenham assim entendido e façam executar, a 

1 bem da salvação do império. Paço, i2 de Novembro de 1823, 

' segundo da independência e do império. Pedro L» 

I Na mesma occasião foram presos José Bonifácio, que se 

ij ■ achava em sua residência, Martim Francisco, António Carlos, 

.í . o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, José Joaquim da 

: ' Rocha e Francisco Gê Acayaba de Montezuma. 

í ! Ao sahir da assembléa, preso e acompanhado de soldados, 

; António Carlos olhou para uma peça de artilheria apontada 



^ ! 



CAPITUI.O XXV 165 

para a porta, e, tirando o chapéo, disse-lhe : « Respeito muito 
o teu poder ! » 

Declarou-se officialniente que os canhões alli se achavam 
postados para garantir os deputados contra aggressões do 
povo . . . 

Os presos foram levados para o arsenal de marinha e ahi 
vaiados com assobios e gritos de Viva o imperador e abaixo 
os anarchistas! sem que a escolta puzesse cobro á vozeria da 
garotagem. 

O sábio José Bonifácio, calmo, deante do alarido enorme, 
teve uma phrase de espirito: «Hoje é o dia dos moleques.» 

Dirigi u-se depois ao general Moraes e proferiu estas 
palavras: «Diga aó imperador que me sinto com o coração 
maguado, não por mim, que estou velho, e, morrer hoje 
fuzilado ou amanhã de qualquer moléstia, é para mim cousa 
indifferente ; mas é por seus filhos innocentes que eu choro 
hoje ; que trate de salvar a coroa para elles, porque para si 
está perdida; o imperador mesmo lavrou a sentença, e já não 
pôde subtrahir-se a seus effeitos, porque si o castigo de Deus 
é tardio, esse castigo nunca falta (*).>» 



( I ) No exílio, José Bonifácio vingava-se de seus perseguidores escrevendo 
cartas em estylo mordente e versos satyricos. Chegou a compor um poema 
humorkuico, Snnho^ a que pertencem estes versos : 

No mesmo dia em que se dissolvera, 
Com autómatos azues postos em fila, 
A assembléa geral inepta e fraca, 
Ku vi sobre um andor, que fatigava 
Hccas e fardas e os toutiços gordos 



l66 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Do arsenal passaram os presos para o pavimento subter- 
râneo da fortaleza da Lage; quatro dias depois era José 
Bonifácio mudado para a fortaleza de Santa Cruz. No dia 24 
de Novembro de 1823 foram os presos transportados para 
bordo de uma velha charrua, de nome Luconia^ que os levou 
exilados para a França. 

Para elaborar outra constituição, foi nomeada uma 
commissão sob o titulo de Conselho d*Estado, que prompti- 
ficou o trabalho com a necessária rapidez. 

A 25 de Março de 1824, ^ imperador, a imperatriz, 
ministério, bispo e camará municipal prestaram publica e 
solemnemente juramento de fidelidade á nova constituição. 

Dissolvida a assembléa geral por um acto despótico de 
D. Pedro I, exaltaram-se os ânimos dos patriotas, e rebentou 
uma revolução em Pernambuco, instigada por Cypriano José 
Barata de Almeida, frei Caneca, João Soares Lisboa (ex-reda- 
ctor do Correio do Rio\ Francisco de Souza Rangel, José 
Gomes do Rego {Casnmbá) e outros espíritos adeantados e 
insubmissos a humilhações. 

Manoel de Carvalho Paes de Andrade, eleito presidente 
de uma junta governativa, recusou dar posse a Francisco 



I)c parvos fradalliões, o Despotismo 

Carrejfado de faixas e veneras 

Iv das ventas fumando orguUio e sanha, 

Para fazer alarde ás Domitílias 

1% ás fendingas reles. . . 



CAPITULO XXV 167 



Paes Barreto ( * ), depois marquez do Recife, nomeado presi- 
dente da provincia, e proclamou a Confederação do Equador 
a 2 de Julho de 1824. 

A Confederação abrangia as provincias da Parahyba, 
Rio Grande do Norte e Ceará, e pretendeu alliciar também 
o Pará. 

Os seguintes trechos do Manifesto de Manoel de Carvalho 
darão idéa do protesto dos pernambucanos contra a prepo- 
tência do imperador : 

«Reuniu-se a soberana assembléa, e quando nos parecia 
que haviamos entrado no goso de nossos inauferíveis direitos, 
e apenas tinha ella dado principio á organização de nosso 
pacto social, vimos que o imperador, postergando os mais 
solemnes juramentos e os mesmos princípios que lhe deram 
nascimento politico, auctoridade e força, insultou calumnio- 
samente o respeitável corpo que representava a nova sobera- 
nia, e desembainhando a homicida espada, de um golpe fez 
em pedaços aquelle soberano corpo e dilacerou seus membros. 

« Não é preciso, brazileiros, n'este momento fazer a enu- 
meração dos nefandos procedimentos do imperador, nem das 
desgraças que acarretámos sobre nossas cabeças por havermos 
escolhido, enganados, ou preoccupados, tal systema de governo 
e tal chefe do poder executivo. Vós todos e todo o mundo 
que os tem observado, os conhecem e enumeram; porém, 
comquanto estivessem prevenidos na espectativa de males. 



( I ) Vulíçarmentc conhecido por morgado do Cabo. 



l68 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



nunca a ningiiem podia passar pela idéa, talvez nem como 
possibilidade, que o imperador havia de trahir-nos e abando- 
nar-nos ao capricho de nossos sangrentos e implacáveis 
inimigos luzitanos ...» 

A provincia da Parahyba sentiu-se egual mente revoltada 
contra o acto dictatorial de D. Pedro e tomou armas contra 
o governo de Philippe Xery Ferreira, representante da facção 
européa, e filiado ao plano de absolutismo que se pretendia 
implantar em nossa pátria. 

Impotente para debellar a rebelliáo e suppondo propósito 
de D. Pedro a repulsão dos portuguezes adversos á causa do 
Brazil, Philippe Ner\' renunciou o cargo de presidente da 
provincia. 

Por parte dos revolucionários havia sido nomeado presi- 
dente temporário o sargento-mór Félix António Ferreira de 
Albuquerque. 

A Philippe Ner\- devia succeder o conselheiro Joaquim 
Manoel Carneiro da Cunha, porém não chegou a assumir o 
cargo pela opposição que lhe moveu o cidadão Alexandre 
Francisco de Seixas Machado, que se empossara da presi- 
dência. 

Enérgicas providencias postas em acção em Agosto 
de 1824 pelo governo imperial conseguiram dispersar os 
gnipos revolucionários da Parahyba. 

Submettido a processo por haver abandonado o governo, 
Philippe Xery justificou-se e obteve plena absolvição por 
acconlào da relação de 13 de Janeiro de 1825. 



CAPITULO XXV 169 



O Rio Grande do Norte acompanhou Pernambuco em 
suas idéas separatistas. 

Em Março de 1824 enviou Manoel de Carvalho um 
emissário, Januário Alexandrino, adjunto de cirurgia de um 
dos batalhões pernambucanos, á cidade de Natal com a 
incumbência de levantar o espirito publico, por meio do 
Manifesto impresso. 

Seguira Januário na escuna de guerra Maria Zef crina: 
chegado ao ponto de seu destino, foi intimado pelo vice- 
presidente Manoel Teixeira Barbosa a deixar o porto da 
capital. 

Succedeu, porém, que fosse nomeado presidente da 
provincia o sexagenário Thomaz de Araújo Pereira, enfermo, 
quasi cego, e incapaz de conter a provi ucia nos limites da 
legalidade. 

Sem saber que providencias devera tomar na difficil 
conjunctura, Thomaz Pereira negava-sc a remetter tropas 
para combater a rebelliáo da Parahyba c inconscientemente 
fornecia elemento armado ao presidente d'aquella provincia, 
Félix de Albuquerque. 

Só depois de estabelecido forte bloqueio no porto e de 
haver recebido contingente de tropas imperiaes, realizou-se a 
pacificação do Rio Orande do Norte. 

Na Fortaleza, capital do Ceará, reuniu-se, a 26 de 
Agosto de 1824, no palácio do governo, enorme multidão de 
cidadãos graduados, c sob a presidência de Tristão Gonçalves 



170 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



d^Alencar Araripe, celebrou-se sessão extraordinária e grande 
conselho provincial. 

Pelo presidente revolucionário foi dito: 

«Que á vista dos perjúrios de D. Pedro, principe de 
Portugal (chamado imperador do Brazil), estava roto nosso 
pacto social, tantas vezes assegurado por elle e outras tantas 
violado publicamente á face das nações, em affronta 
d^aquelles mesmos povos, dos quaes elle de motu-proprio 
havia tomado o titulo de defensor perpetuo (*), não lhes 
tendo sido até agora senão um oppressor encarniçado, não 
respeitando os foros de liberdade do Brazil, quando despoti- 
camente e á força de armas, aboliu a assembléa geral 
constituinte da nação inteira, prendendo, degradando, ainda 
para reinos extrangeiros, e despedindo com ignominia os 
seus representantes, arrogando a si o direito absoluto de 
legislar e constituir por si, como se viu do infame projecto de 
constituição, que não só deu, mas também mandou arbitra- 
riamente jurar por todas as camarás das provincias do Brazil, 
reputaudo-nos escravos ou propriedade sua, contra suas 
promessas e juramentos; 

(íQue além de todos estes motivos do mais descarado des- 
potismo, accresciam mil traições visivelmente apparecidas 
nos seus decretos, alvarás, avisos, manifestos e proclamações, 



( 1 ) K' inexacta esta asscrçfto. D. Pedro nâo tomou de motu-proprio o 
titulo de defensor iK*ri)etuo. Ksta honrosa designaçào foi-lhe dada por acclama- 
VAo popular, eonio se acha explicado A paf?. 109 d'este tomo, nota n. 2. 



CAPITUUO XXV 171 



com que pretendia sujeitar-nos novamente ao domínio portu- 
guez, não cumprindo assim com as condições essenciaes, 
pelas quaes havia subido ao tlirono; 

«Attentas, pois, tantas circumstancias de justos resenti- 
mentos dos povos, a pátria estava no maior perigo, e era 
necessário salval-a do captiveiro, apezar de todos os sacri- 
fícios de seus filhos; pelo que, o conselho deliberasse, lançando 
mão dos meios mais promptos e enérgicos e mais plausiveis 
da sua segurança. » 

E, em seguida, leu um plano de nova forma de governo, 
constante de doze artigos, leitura feita sob vivas manifes- 
tações de applausos. 

Approvado o plano, propoz o presidente que o popular 
congresso elegesse presidente e secretario para as suas 
sessões; foram eleitos: presidente, Tristão Gonçalves de 
Alencar "Araripe, e secretario, padre Gonçalo Ignacio de 
Albuquerque Mororó. 

D^ palácio, seguiu o presidente, acompanhado do com- 
mandante das armas e compacta multidão, para os quartéis 
da i.^ linha: ahi encontraram o senado da camará, com 
o novo estandarte da liberdade, egual ao arvorado pelo presi- 
dente do congresso; a immensa massa popular encaminhou-se 
para a egreja. Benzeram-se as bandeiras, uma das quaes foi 
dep3Ís entregue pelo commandante das armas á tropa reunida. 
Sobre este5 acontecimentos pregou sermão congratulatorio, 
cm phrases repassadas de patriotismo, o vigário da villa de 
Arronches. 



172 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



O juramento que todos prestaram á Confederação do 
Equador foi cx)ncebido n'estes termos: -«Juro aos Santos Evan- 
gelhos dar a ultima gotta de sangue para manter e ser fiel 
á Confederação do Eqoador, que é a união das quatro pro- 
víncias ao norte do cabo de Santo Agostinho, e das demais 
que para o futuro se forem unindo, debaixo do governo que 
estabelecer a assembléa constituinte. Juro fezer crua guerra 
ao despotismo imperial, que pretende usurpar nossos direitos, 
escravizar-uos e obrigar-nos a fazer união do Brazil com 
Portugal, a qual jamais admittiremos* por nenhum titulo que 
seja. Juro, emfiuu fazer guerra eterna a todo o despotismo 
ipic se oppuzcr á liberdade de nossa pátria» e egualmente 
juro obcilicucia ao governo supremo salvador. Assim Deus 
me <yude. * 

A 28 do mesmo mez procedeu-se á eleição dos deputados 
ú nova v.\>ustituiute. Antes da votação, proferiram eloquentes. 
V iKUiioti^wi discursos frei Alexandre da Purificação e o reve- 
vv»uK> Kstcvâo da Porciuucula Pereira. 

Ajnuudvvi u< votvvs forauí eleitos deputados: padre José 
Muliuiauo dv Alencar, vigário Manoel Pacheco Pimentel, 
l,ui/. lV<ho de Mello e César, padre José da Costa Barros 
.|4>»uauU\ leuculv^*.\>iouel Francisco Miguel Pereira Ibia- 
jiiua, Maiiauuo Oouics via Silva, vigário António José Mo- 
u U.i» lvuvulv^<\»u>uel JvKio da C^>sta Alecrim: e supplentes: 
\\*\\\w l''vauoixa> r%v>«çalves Ferreira Magalhães, major José 
Im.uu^iu» ií\»uvOa Fcna/., v\vpit;\o José Ferreira Lima Sucu- 
\i\\*\, is Ui ut\ ^^*»v»Uk l l^aucisvv Alves Pontes^ reverendo Joa- 



CAPITULO XXV 173 



quim de Paula Galvão, vigário Francisco António da Cunha 
Pereira, vigário Francisco Gomes Parente, ouvidor interino 
Miguel António da Rocha Lima. 

Punham-se em movimento as tropas, com o fim de unir-se 
ás de Pernambuco e da Parahyba, quando ao presidente 
Tristão Araripe foram levadas noticias do Aracaty de que 
o seu companheiro de idéa, Luiz Rodrigues Chaves, se havia 
bandeado para as forças imperiaes e operava uma contra- 
revolução em Mossoró. 

Immediatamente passou o presidente o governo ao conse- 
lheiro José Félix de Azevedo c Sá e marchou ao encontro 
do traidor, a quem derrotou, fazendo-o evacuar Aracaty ; em 
seguida, dirigiu-se ao Crato, para juntar-se ás forças do com- 
mandante das armas José Pereira Filgueiras; no caminho, 
porém, foi encontrado, a 31 de Outubro, pouco adeante da 
villa das Russas, com forças legaes chefiadas pelo comman- 
dante geral das fronteiras, Manoel António de Amorim. Ahi, 
abandonado pelo commandante de artilheria, António Roberto 
Borges da Fonseca, viu o denodado presidente debandar-se 
a tropa republicana, ao soffrer destroço no logar chamado 
Santa Rosa. Sem elementos de defesa, Tristão Araripe 
achou-se na emergência de retirar-se, atravessando o rio Jagua- 
ribe, porém foi alcançado e barbaramente morto. 

Chronista contemporâneo dos factos e citado por António 
Pereira Pinto consagra a este mallogrado republicano justo 
elogio : 

«Os padecimentos de Tristão Gonçalves e de sua familií^ 



174 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



em 1817, a firmeza e resignação com que supportou, já nas 
prisões do Ceará, já nas da Bahia, os rigores do despotismo 
real, a dedicação com que trabalhou em prol da indepen- 
dência nacional, sendo o principal promotor e director da 
expedição do Piauhy e Maranhão, mostrando n'ella caracter 
decidido, resolução prompta e perseverante, tinham-lhe gran- 
geado na provincia geral estimação, que elle por suas maneiras 
lhanas e cavalheirosas augmentava no animo d'aquelles com 
quem tratava. Nascido no Crato, não tivera superior instrucção 
scientifica, applicando-se cedo á agricultura; mas na cadeia 
da Bahia, onde o conselheiro António Carlos estabelecera 
uma espécie de lyceu para o estudo de humanidades, elle se 
applicára a uma leitura proveitosa, com que em breve enri- 
queceu o seu espirito. Era humano e generoso, e a sua mora- 
lidade, sem mancha alguma, jamais foi arguida, mesmo no 
furor dos ódios politicos (*). » 

Desejara Manoel de Carvalho unir a provincia do Pará 
á Confederação do Equador, generalizando, em todo o norte 
do paiz, a idéa da republica, única accçitavel e capaz de 
derrocar o absolutismo do filho de D. João VI. 

Em Abril de 1824 mandou a Belém a escuna Camarão^ 
commandada por José Caetano de Mendonça, com emissários 
incumbidos de distribuir o Manifesto e fazer populares con- 
citações á revolta. Distinguiam-se entre os exaltados, José 



( I ) Rcv. do Insi.y tom. XXIX, 2a part., pag. ii8. 



CAPITULO XXV 175 



Baptista da Silva (o Camecran) e Marcos António Rodrigues 
da Silva (o Paiquicê). 

Chegados ao Pará, os revolucionários prenderam, a 27 de 
Abril, os membros da junta governativa, coronel Geraldo 
José de Abreu e arcediago Romualdo António de Seixas 
(mais tarde arcebispo da Bahia e marquez de Santa Cruz); 
instituiram um governo provisório e destinavam o dia i.° de 
Maio para ser alli proclamada a Confederação do Equador, 
quando a chegada do novo presidente da provi ncia, coro- 
nel José de Araújo Roso, mudou a face dos acontecimentos, 
restabelecendo o governo legal. 

Voltando aos successos occorridos em Pernambuco, deve- 
mos, d'entre as peripécias do grande drama da revolução, 
mencionar os principaes encontros. 

As forças revolucionarias reuniu-se no Poço Cofnprido 
um contingente parahybano, sob o commando do capitão João 
da França Camará : ahi effectuou-se grande conselho em que 
tomaram parte o presidente faccioso da Parahyba, governador 
das armas José Victoriano Delgado de Borba e Albuquerque 
e muitos tridadãos respeitáveis: foi deliberado que nenhuma 
capitulação se acceitasse, proposta pelo coronel Francisco de 
Lima c Silva senão sob as clausulas de retirar-se do Recife 
com suas forças; installar-se a assembléa constituinte em um 
ponto central do Brazil, fora da influencia das tropas do 
Rio de Janeiro; não se respeitar outra constituição que não 
fosse elaborada pela referida assembléa. 



176 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Com taes intuitos, tiveram a? tropas a denominação de 
Divisão Constitucional da Confederação do Equador. 

Empenhada a liicta, deu-se mortífero encontro no sitio 
chamado Couro d^Anta^ morrendo era combate o enérgico 
patriota João Soares Lisboa, que antes de expirar concitou 
seus correligionários a que proseguissem com denodo em fazer 
triumphar a causa da honra e da liberdade brazileira. 

Do sitk) passaram á povoação do Agreste, onde se deu 
outro sanguinolento combate; d'ahi seguiu a divisão para 
iMvras; n'esse ponto começou cila infelizmente a enfraque- 
cer, pelo desanimo, falta de recursoi e deserções. 

No Engenho do /uÍ3, fazenda do.s frades benedictinos de 
Olinda, preparava-se a divisão commandada por José Gomes 
do Rego para ir á Missão I e/Zi-i, com direcção ao Crato, 
quando, ás 4 horas da tarde de 28 de X^)veinbro, foram os 
revolucionários surprehendido.s pela retaguarda por numero- 
sas forças impeiiaes. Postos immediatamente em linha de 
combate, iam travar a lucta, embora dt.segu.1I. quando appa- 
receu por parte dos imperiaes uma bandeira parlam .mi :aria: 
recebido o emissário, foi lido um officio d > major Bento José 
Lamenha Lins convidando os repnblicanos a capitular. 

Reunidos em conselho os ofliciaes, acccitaram a proposta. 

Effectuada a capitulação, foram immediatamente presos e 
conduzidos para a villa de Lavras os con-^iderado^ cabeças da 
revolução: frei Joaquim do Amor Divino Cancci, o presidente 
da Parahyba Félix António, c.ipitão França, major José 
Maria Ildefonso, frei António Joaquim das Mercês, m.ijor 



CAPITULO XXV 177 



Agostinho Bezerra Cavalcanti de Souza, padre Ignacio Bento 
de Ávila, major Joaquim José Alves, Francisco de Souza 
Rangel, capitães António do Monte e Oliveira e Lazaro de 
Souza Fontes, tenente José Gonçalves, frei João de Santa 
Miquelina. De Lavras seguiram para o Recife, onde chegaram 
a 17 de Dezembro de 1824. 

Sufíocada a Confederação do Equador, pela capitulação 
do Engenho do Juiz, constituiu-se uma commissão militar 
para julgar os réos, composta do coronel Francisco de Lima 
e Silva, presidente; Thoniaz Xavier Garcia de Almeida, juiz 
relator; coronel de engenheiros Salvador José Maciel, tenente- 
coronel de caçadores Francisco Vicente Souto e coronel do 
mesmo batalhão Manoel António Leitão Bandeira como 
vogaes, e o conde de Escragnolle como interrogante. 

D'entre os cidadãos que soffreram o supplicio, salien- 
tava-se pelas suas funcções, pelo seu patriotismo e pelos seus 
talentos de orador e de publicista, frei Joaquim do Amor 
Divino Caneca. Este heróe pernambucano nasceu no Recife 
em Julho de 1779. Tomou parte activa na revolução de Per- 
nambuco de 181 7, exercendo o cargo de conselheiro do 
governo republicano. Preso n^essa occasião, foi obrigado pelo 
governo a percorrer as principaes ruas de sua terra natal, 
descalço, de cabeça descoberta e de corrente de ferro ao 
pescoço. 

Remettido para a cadeia da Bahia, n'ella permaneceu por 
espaço de quatro annos: ahi compoz um compendio de 
grammatica portugueza. Em attenção á sua capacidade 



•23 



IjS HEHORLâS BRAZrUEIRAS 



intellectual, foi-Ihe concedido perdão. Logo que sahin da 
cadeia^ regresfion a Pernambuco, a envolver-se na politica, 
sua paixão dominante. 

O crime de frei Caneca na re\-oIução de 1824 era servir-se 
da imprensa e do púlpito para instigar os patriotas contra a 
nova constituição imposta por D. Pedro e pregar a excellen- 
cia da republica sobre a oppressão férrea da monarchia ( ' ). 

Logo que teve conhecimento da pena de morte, escreveu 
da prisão á mulher que lhe fora companheira na existência 
e que d'elle tivera três filhos, a seguinte copla, conhecida 
popularmente sob o titulo de Hymno de frei Caneca: 

Entre Marília e a Patría 
Colloqnei meu coração. 
A Pátria Toabon-me a vida ; 
Marília qne chore em vão. 

Marília, dá a teus filhos. 
Por minha propría, a benção. 
Morram como en pela Patría : 
Marília que chore em vão. 

Apenas forem crescendo. 
Cresçam com as armas na mão. 
Saibam morrer como eu morro ; 
Marília que chore em vão. 



í I ) Frei Caneca advofi^ava a causa da republica no periódico Typhis Per- 
nambucano, gazeta politica. Escreveu também Dissería^õo soòrr o çue str dez'e 
entender por pátria do cidadão: Cartas de Pythias a seu amigo Damão: o Caça- 
dor atira fido á arara pernambucana e um Itinerário, descriptivo da marcha 
das forças republicanas desde Pernambuco ao Ceará. 



CAPITULO XXV 179 



Defender os pátrios lares 
Ê dever do cidadão, 
Quando exhalem pela Pátria, 
Marília que chore em vão. 

Para defender a Pátria, 
O menino homem se faz ; 
Eu dando a vida por ella, 
Morrendo não peno mais. 

De que me serve viver 
Entre suspiros e ais ? 
Si vivo, vivo penando, 
Morrendo não peno mais. 

Inda que eu queira, não posso 
Existir entre os mortaes ; 
A morte serve de allivio. 
Morrendo não peno mais. 

O morte, porque não vens 
Findar meus dias fataes ? 
Si vivo, vivo penando, 
Morrendo não peno mais. 

A sentença que o condemnou á pena ultima lhe foi lida 
a 10 de Janeiro de 1825. Conduzido ao oratório, dirigiu uma 
eloquente pratica ás pessoas que o ouviam commovidas, 
perseverando sempre em suas idéas democráticas. 

Pediu que o acompanhasse na agonia o seu prelado, 
provincial da ordem dos carmelitas, padre-mestre frei Carlos 
de S. José, com o qual fez confissão geral e commungou no 
dia 12. 

Tpodo o clero peman^buçano, compadecido da sortç de 



l8o MEMORIAS BRAZILEIRAS 



frei Caneca, juntou-se ao cabido e incorporado, de cruz 
alçada, dirigiu-se ao palácio, a supplicar ao coronel Francisco 
de Lima e Silva sustivesse a execução da sentença, até que 
viesse resposta da petição de graça que o mesmo cabido ia 
dirigir ao imperador; porém os religiosos intercessores foram 
desattendidos e ameaçados de cadeia, como cúmplices da 
rebellião. 

Designado carrasco o pardo preso Agostinho Vieira, recu- 
sou terminantemente ser o executor da sentença. Castigado 
com açoites por sua desobediência, persistiu em não servir 
de algoz. 

Foram, em seguida, chamados dois negios, também presos, 
para servirem de executores : egualmente recusaram cumprir 
a lei. Não houve remédio senão fuzilar o réo, e, para isso, 
o penduraram á haste horisontal da forca. 

Antes de lhe ser enrolada ao pescoço a corda, o martyr 
pernambucano, tão grande como Tiradentes, quiz fazer aos 
soldados uma predica, explicando-lhes qual a natureza de 
seu crime; frei Carlos de S. José pediu-lhe que se calasse; o 
frade obedeceu e recebeu a descarga, serenamente, como 
aquelles christãos que no tempo de Nero eram, em amphi- 
theatro, martyrizados por animaes ferozes. 

Deu-se este acontecimento ás 9 horas da manhã do dia 13 
de Janeiro de 1825. 

Tão revoltante manifestou-se o crime imperial, que 
nenhum juiz togado quiz, como era de uso, comparecer á 
morte do illustrado frade. 



CAPITULO XXV l8l 



É do teor seguinte a certidão passada sobre o luctuoso 
acontecimento : 

«Certifico que o réo frei Joaquim do Amor Divino Caneca 
foi conduzido ao logar da forca das Cinco Pontas e ahi, pelas 
nove horas da manhã, padeceu morte natural, em cumpri- 
mento da sentença da commissão militar que o julgou, 
depois de ser desautorado das ordens da egreja do Terço, na 
forma dos sagrados cânones; sendo atado a uma das hastes 
da referida forca, foi fuzilado, á ordem do exmo. sr. general e 
mais membros da dita commissão, visto não poder ser enfor- 
cado pela desobediência dos carrascos; do que tudo dou fé, 
sendo este acto presidido pelo vereador mais velho do senado 
d'esta cidade, dr. António José Alves Ferreira, arvorado em 
juiz de fora. Recife de Pernambuco, em 13 de Janeiro 
de 1825. O escrivão do crime da relação, Miguel Archanjo 
Pòsthumo do Nascimento. 

Soffreu também o supplicio da forca o prestigioso major 
Agostinho Bezerra Cavalcanti de Souza, homem de côr preta, 
dotado de nobres sentimentos e de acrisolado amor á pátria. 
Foi um dos implicados no movimento revolucionário de 181 7. 

Este digno brazileiro por muitas vezes obstara o desen- 
volvimento de motins no Recife, promovidos pela plebe 
contra inoffensivos extrangeiros. 

Logo que se soube que elle tinha sido condemnado á 
morte, subiram representações ao governo provincial, pedindo 
commutação da pena; baldados, porém, foram todos os 
esforços para salval-o: subiu ao patibulo no dia 21 de Março, 



l82 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



assistido por frei Carlos de S. José. Antes de morrer declarou 
á multidão, com voz forte, que seu crime fora desejar o 
governo do povo pelo povo e votar adoração á liberdade. 

Indignado por se effectuar este supplicio quando a egreja 
celebrava os actos da semana santa, o revolucionário frei 
António Joaquim das Mercês escreveu, como protesto, este 
enérgico soneto: 

Tenebroso amanhece o fatal dia 
Que vinte e u?n de Março se contava, 
Quando a paixão de Christo se chorava, 
Quando o povo christào mais se affligia ; 

N'um tempo de perdões, oh ! sorte impía ! 
Tempo que a religião santificava 
E que o rei mais cruel s6 costumava 
Da morte perdoar quem delinquia: 

Ao contrario o tyranno, alçando o braço 
Sacrílego, raivoso, encarniçado. 
Aperta ao collo de Agostinho o laço ! 

Que é da clemência d 'este bruto irado ? 
E inda chamam christão um tal devasso. 
Que de sangue enluctou templo sagrado ! ( i ) 

Foram também enforcados Lazaro de Souza Fontes, 
a 20 de Janeiro; António Macário de Moraes, a 3 de Fevereiro; 
Francisco António Fragoso, capitães António do Monte e 
Oliveira, Nicolau Martins Pereira e o norte-americano James 
Heide Rodgers, a 12 de Abril de 1825. 



( i ) Major CoDECEiKA : A idéa republicana no Brazil^ obra citada pelo 
general Bezeria Cavalcanti em seu Calendário Perpetuo^ pag. 32. 



CAPITULO XXV 183 



Nicolau Martins Pereira merece menção especial, por 
serviços relevantes prestados á pátria. 

Nasceu este revolucionário na provincia da Parahyba a 31 
de Maio de 1800; no anno de 181 7 assentou praça no regi- 
mento de primeira linha de Pernambuco. Transferido para o 
Rio de Janeiro, matriculou-se na escola militar, cujas aulas 
cursou até ao terceiro anno. Teve occasião de se distinguir no 
motim promovido pelo general portuguez Jorge de Avilez. 
Reunidos na praça da Constituição povo e tropa brazileira, 
sentia-se falta de munições, quando o joven Nicolau Martins 
offereceu-se a ir buscal-as ao arsenal de guerra. Para illudir a 
vigilância dos luzitanos, dis£arçou-se em soldado preso, ao 
serviço do mesmo arsenal, e d'ahi, de combinação com o 
director, conduzia dentro de uma pipa, que simulava conter 
agua, armamento e petrechos necessários para supprir a 
tropa. 

Na guerra que a Bahia travou contra o general Madeira, 
Nicolau Martins poz á prova o seu valor em muitos com- 
bates e fez parte do Exercito Libertador, que victoriosamente 
penetrou na capital bahiana a 2 de Julho de 1823. Promovido 
a capitão por actos de bravura, regressou a Pernambuco 
a assumir o commando da fortaleza do Bruni. Quando as 
forças imperiaes penetraram no Recife e que soldados exal- 
tados tencionavam perpetrar depredações no bairro commer- 
cial, o brioso official conseguiu contel-os e chamal-os á ordem. 
Livrou da morte ao tenente da legalidade João Maria de 



l84 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Sampaio, que já se achava com os olhos vendados para ser 
fuzilado. 

Por todos estes honrosos precedentes, grande numero 
de cidadãos conceituados intercederam pelo revolucionário, 
apresentando como attenuante o exaltado amor que elle 
consagrava á pátria. O próprio coronel Lima e Silva prestou 
favorável informação á petição de graça enviada a D. Pedro. 
Quando chegou do Rio de Janeiro o vapor que conduzia 
o indeferimento da supplica, achava-se o capitão Nicolau em 
casa, de sua familia, pois lhe havia sido concedida licença 
de conviver entre os seus. Propalada a recusa do perdão, 
o official que o guardava correu apressadamente á residência 
do joven patriota, temendo que este se occultasse ou fugisse. 
Nicolau Martins tranquillizou-o, dizendo-lhe que havia sahido 
da prisão sob palavra de honra de para alli voltar e o seu 
compromisso era sagrado. Despediu-se da familia e dos 
amigos, tornou para o cárcere e pouco depois a justiça de 
I). Pedro I contava mais um martyr. 

Para castigar os revolucionários do Ceará, foi creada, por 
decreto de 5 de Outubro de 1824, ^ commissão militar que 
teve como presidente o coronel Conrado Jacob de Niemeyer, 
relator o ouvidor ^lanoel Pedro de Moraes Meyer, vogaes 
o major José (lervasio de Queiroz Carreira e os capitães Luiz 
Maria Cabral do Teive, João Sabino Monteiro e João Bloem: 
inslalluu-se no paço da camará municipal da Fortaleza a 
AJt de Abril tie 1S25. 

l'\»iani i'í)iulennia(los íí morte e executados o padre Gon- 



CAPITULO XXV 185 



çalo Igiiacio de Albuquerque Maranhão Loyola Mororó, 
secretario do governo revolucionário, coronel João de Andrade 
Pessoa Anta, Francisco Miguel Pereira Ibiapina, major Luiz 
Ignacio de Azevedo ( Bolão) e Feliciano José da Silva Carapi- 
nima, secretario militar do governador das armas Filgiieiras. 

O illustre padre Gonçalo Mororó, homem de talento 
e profundamente republicano, recebeu a morte com o maior 
sangue frio, cantando em voz alta a oração e o memento 
consagrado aos mortos ( ^ ). 

Outro revolucionário distincto, João Guilherme RatclifF, 
assumiu papel preponderante por sua aversão á tyrannia, por 
seus grandes dotes intellectuaes e pelo alcance de seus conheci- 
mentos. 

Ratcliff era portuguez de nascimento e de origem 
polaca. Nascera no Porto, a 8 de Setembro de 1783. Havia 
um anno apenas que se achava no Brazil. Homem de idéas 
liberaes, sentia prazer em ser um dos directores da corrente 
revolucionaria. Alto, reforçado, faces incendidas de calor, 
cabellos louros e olhos azues, e, além dos bellos predicados 
physicos, illustrado, conhecedor de varias lingiias, tendo já 
feito viagens á Ásia, era elle um forte, um sympathico insti- 
gador das massas. 

Expliquemos em que occasião viera elle para o Brazil. 

Quando, por occasião da revolução promovida pelo 



( I ) o coronel Pessoa Anta e o padre Mororó foram fuzilados a 30 de Abril e 
Carapinima a 28 de Maio de 1825. 

24 TOM. II 



l86 ICEHORIAS B&AZILEIRâS 



príncipe D. Miguel para apossar-se do throno portuguez, 
D. João VI fez sua entrada em Lisboa como rei absoluto; 
quando, para recebel-o, foi o povo ao seu encontro a 
muitas léguas de distancia da capital, e desatrelou-lhe 
o carro, disputando todos a honra insigne de puxal-o 
até á cidade, renovando as postas para que maior numero de 
portuguezes gosasse tamanha ventura; quando se cunharam 
commemorativas medalhas de ouro e de prata representando 
a eífigie do tyranno, e metade de Lisboa sentiu-se orgulhosa 
com semelhante condecoração — que o motejo dos sensatos 
appellidou Ordem da Poeira^ por ter sido conquistada em um 
cálido e poeirento dia de Junho (*); quando a liberdade, 
envergonhada, foragida, asylada em peitos patriotas, ia pedir 
garantias a navios extrangeiros, ou procurava novo campo de 
acção na America, o illustre Ratcliff, ameaçado de prisão 
pela franqueza de suas opiniões altivamente expostas, viu-se 
compellido a abandonar o lar precipitadamente e emigrar 
para o Brazil. 

Conhecendo as tradições democráticas de Pernambuco, 
escolhera-o para ponto de exílio e grande scenario apropriado 
ao desenvolvimento de suas idéas. 

No interesse de attraliir Alagoas á causa revolucionaria, 
Manoel de Carvalho incumbira a Ratcliff a tarefa de revolu- 
cionar aquella província por meio de concitações verbaes. 



( I ) Ai.'<;i'STO BuciiOT : Historia de Portugal e suas colónias^ trad. de 
1«. V. da Silva Vieira ( Hahia, 1S84 ), pag. 445. 



CAPITULO XXV 187 



Embarcou este patriota no caracter de 2.° coininandante 
do brigue Constituição ou Mortc^ sendo o i.° o mal tez João 
Metrowich, e fazendo-se acompanhar pela escuna Maria da 
Gloria^ commandada pelo pernambucano Joaquim da Silva 
Loureiro, dirigi u-se, a 17 de Julho de 1824, ^ Tamandaré, 
onde este "segundo navio desembarcou trinta contos de reis 
em quinze caixões, quantia entregue ás tropas revolu- 
cionadas. 

De Tamandaré dirigiram-se os navios para a Barra 
Grande (província de Alagoas), a fim de bloqueal-a, impe- 
dindo a passagem de mantimentos ás tropas imperiaes. No 
Porto das Pedras aprisionaram e saquearam o brigue Bomjim 
(ou Bandurra^ e varias sumacas carregadas de farinha e de 
outros géneros alimentícios. N'isso occupavam-se quando 
foram surprehendidos com a chegada de dois fortes navios 
imperiaes, corv-eta Maria da Gloria^ commandada pelo 
capitão de fragata Theodoro de Beaurepaire, e brigue 
Guarany, 

Para evitar a entrega. Ratei iff mandou que se lançasse 
fogo ao paiol da pólvora da embarcação que commandava; 
esta ordem, porém, não foi obedecida pela tripulação, com- 
posta de portuguezes retirados de cárceres. 

Ao entrar preso pelo portaló da corveta, Ratcliff excla- 
mou com firmeza de animo: 

«Sei que vou morrer; porém Pernambuco ha de florescer 
um dia! D 



l88 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Os tres cominandantes foram reinettidos para o Rio de 
Janeiro e ahi submettidos a processo ( ' ). 

Recolhido com seus companheiros á fortaleza de Santa 
Cruz, Ratcliff, emquanto aguardava a fatal decisão, preoccu- 
pou-se, como distracção de seu alto espirito, em escrever notas 
de summa importância á margem da obra Príncipes éternels 
de politique constiluiiofielle ou Manuel des peupies et des 
rois^ por A. T. Desquiron de Saint-Agnan. 

Essas annotações, que revelam fundo critério philosophico 
e vasta enidição, foram lançadas «rpara doutrinação moral de 
seus filhos, visto não ter tempo para escrever uma obra 
destinada a esse fim ( ^ ). * 

Como documentos Íntimos, destinados a reconstruir e 
retratar fielmente a feição moral d'este illustre portuguez 
revolucionário, apresentamos duas notas, que tradiusimos do 
f rancez em que foram escriptas : 

«João Guilherme Ratcliff Júnior nasceu a 31 de Janeiro 
de 1822. Ignoro o sexo e a edade do outro, que não tinha 
ainda nascido, quando fui forçado a me separar d'elle e talvez 
para sempre! Digo-o com a mais profunda dôr: 31 me fosse 
dada a ventura de me reunir a meus filhos, bons, sensíveis. 



( I ) No folheio in-32, sob os títulos Mariyres da Liberdade — João 
Guilherme Ratcliff { Rio de Janeiro, 1889) por Esquiros, pseudonyino do infa- 
tifi^avcl investigador histórico e geographico, dr. Alfredo Moreira Pinto, encon- 
tra-sc o processo de Ratcliff e de seus dois companheiros de infortúnio. 

( 2 ) Conselheiro Tristão de Alencar Araripe : Notas de João Guilherme 
Ratcliff ( Rev. do Inst. Hist.^ tom. I^X, 2. a part., pag. 235 ). 



CAPITULO XXV 189 



virtuosos, oh ! depois da liberdade de minha pátria, seria esse 
o voto mais ardente de meu coração! Mas, distante d'elles 
1.490 léguas, sem noticia alguma de sua sorte e de sua mãe, 
desde o dia 18 de Novembro de 1823, ^^^^ ^» desde quasi um 
anno, que me vi obrigado pela mais ferrenha tyrannia a 
abandonal-os, sem meio algum de subsistência; quando eu 
próprio estou encerrado em uma fortaleza, como preso de 
estado, á disposição de um déspota joven e vingativo, 
poderei acaso consolar-me com a idéa de que esse voto possa 
realizar-se um dia? Não o espero. Porém minha alma não 
succumbe! Não, não, ella nunca succumbirá! Quando eu 
cahir, victima do despotismo e da tyranuia, ao descer á sepul- 
tura levarei aos mortos a consoladora esperança de que 
minhas cinzas hão de ser vingadas! 

«Santa Cruz, 30 de Outubro de 1824. J^^^ Guilherme 
Ratdiff, Data de meu nascimento: 8 de Setembro de 1783.» 

«Os homens probos e esclarecidos, que honram sua 
pátria, illustrando-a, e que, tendo consciência de seus direitos 
e dos deveres do governo, podem mostrar ao povo as machina- 
ções de seus oppressores, são diffamados perante elle, até do 
púlpito, como conspiradores e impios, com o fim de que se 
tornem odiosos e se possa exercer contra elles, impunemente, 
as mais horriveis perseguições. O Portugal! ó minha pátria! 
Tu apresentas uma cruel e terrivel prova doeste systema 
infernal de iniquidade e de tyrannia! Teus melhores filhos, 
aquelles que só aspiram a doce satisfação de te verem 



IÇO MEMORIAS BRAZILEIRAS 



florescer ê prosperar, erram aqui e além, em solo extrangeiro, 
longe de ti, longe de siias lacrimosas familias sujeitas á 
mjseria, longe de seus amigos e de todos os objectos emfim 
que lhes são caros; cercados de privações — alguns exilados 
para os climas pestiferos da costa d' Africa têem acabado 
com a vida os seus soffrimentos atrozes — emquanto que tu 
gemes, opprimida sob o peso de cadeias e de misérias, e os 
perjuros, os traidores, os scelerados, que te reduziram a este 
deplorável estado, saciam-se em teu sangue!» 
Na parede da prisão escreveu : 

Qnid mihi mors noadt? Virlus post /ata vircscit. 
Ncc soevi gladio perii illa tyranni. 

Doestes versos foram feitas as seguintes traducções: 

A morte em que me offende? Além da campa 
Reverdece a virtude e não se extingue 
Sob o cutello do feroz tyranno. 

Que mal terrível traz comsigo a morte 
Si a virtude com ella mais se eleva ? 
Si esta da espada náo receia o corte, 
Que importa do tyranno a fúria seva? (') 

Que mal me faz a morte ? É sonho, é nada ; 
Vive depois dos fados a virtude ; 
Nem a pôde extinguir a vil e rude 
Do tyranno cruel sangrenta espada. 



( I ) General Bkzerra Cavalcanti : Calendário Perpetuo ( Rio de Janeiro 
189.5 ), 3* ed., pag. 53. 



CAPITULO XXV Í91 



Impávido como tim heróe, ouviu ler a sua sentença de 
morte, e na véspera da execução escreveu uma carta em 
quatro linguas a seu advogado, Ovidio Saraiva de Carvalho, 
agradecendo-lhe os esforços que havia empregado para 
salval-o. No dia fatal, quando o quizeram revestir da alva, 
repelliu-a com repugnância; só mediante exhortação de seu 
confessor cumpriu a lúgubre formalidade. «Pois bem; vamos 
ornar a victima para o sacrificio», disse elle, recordando 
usança barbara. Em caminho para a forca, um frade atirou-lhe 
uma covarde injuria: «Vai receber o teu castigo, rebelde!» 
O martyr encarou-o sereno e exclamou: «Deus me dê paciên- 
cia! Um ministro do altar calumniando-me ! ...» 

Ao despedir-se de seus companheiros de supplicio, 
disse-lhes: «Sinto que sejais arrastados ao supplicio por meu 
respeito, porque só eu sou o alvo a quem se dirige a 
tyrannia. » 

A frente do préstito, o pregoeiro lia em voz alta: 

«Justiça que manda fazer o imperador constitucional e 
defensor perpetuo do Brazil aos réos João Guilherme Ratcliff , 
João Metrowich e Joaquim da Silva Loureiro, pelos crimes de 
rebellião e alta traição, commettidos como agentes do infame 
e pérfido Manoel de Carvalho Paes de Andrade, fazendo 
hostilidades contra embarcações e súbditos do império, e 
attentando contra a união e integridade do mesmo império ; 
que com baraço e pregão sejam levados pelas mas publicas 
ao logar da forca, onde morrerão de morte natural para 
sempre. >» 



trj0: KSLyOTjVtXXé R^JtZnUiCaLJÍá: 



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píiídíiau-ító: f^-nK «íe S. C&rwtíOváko-, otait reãíiit «o- ínjrperjdar^ 
Tws«ft ««i petííárit A .ísJcíerEaífe en geraJL 

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t^^lhabt^em^ poc na-jrarerrCiWv í pixti «i-:)' teiiiEpíOv crrjio' •síiino» 
lí&fjfyr;*^-!» a fcnaííiOrtv e prrjrtífcÇTiírainií (íepoís ;k uluxíell. Urtnnàí» 

w ró^j^ í>m caanratícr» .'%g^r<2iV3»nai i pixitLa <i-3& t»£raj®i>v prés*»? 
cm w> €'jr/artfiify a»» pes<DOçp> da* vrctlnmaâw 

KmfiwmZf> mantlcaí^-a o> prestrtrx a nsaçocsaríi ecuviii^ii driía 
CKi^tnnsi-^í^áo aio^ ímpera/ioc. íariíc^ ooínf> presiáente o EneÍLCi> do 
^Skt/K áz, r>>ffniiiiig<oft Ribeiro do^ Gaírnarães Peixotioi. Cocl5<£- 
gnín-Ae eiioo»ntrar o ÍEnoeradoí-, náo eni S. ChrÍ5to\-3o, nem 
no paço da cidade, mas no palacete de stia amasia, ao largo 
do Rfjcío. Ahí. Domituia cnrapriti a promessa de interceder 
peíf^fsretxíídes: dírígíu^se ao aposento imperial e pedia perdão 
fiara ellcs. IX^poL»» de afflíctiva demora, recebeu de D. Pedio 
um papelinho com duas paIa\Ta5: r E tarde! i 

Seguiu a grande procissão até ao largo da Prainha. 

Ratcliflf subiu com firmeza a escada da forca e ao chegar 
úf) sctímo degrau voltou-se para o povo que enchia a praça 
e proferiu em alta voz: •BrazileirosI Eu morro innocentel 
Morro pela cattsa da razão, da justiça e da liberdade I Praza 
ao céo que meu sangue seja o ultimo que se derrame no Brazil 
c no mundo por motivos politicosl* 



CAPITULO XXV 193 



. E como o sacerdote que o acompanhava lhe observasse 
que não devia proseguir, tenninou : 

«Eu me resigno e morro pela causa da liberdade!» 

Perdida a esperança de perdão, foram enforcados no Rio 
de Janeiro, no centro do largo da Prainha ('), ao meio 
dia de 17 de Março de 1825, J^^Lo Guilherme Ratcliff (^), João 
Metrowich e Joaquim da Silva lyoureiro. 

Os desembargadores da casa da supplicação que assigna- 
ram com rubrica os accordãos condemnatorios, foram : João 
Ignacio da Citnha^ depois visconde de Alcântara, regedor; 
António Garcez Pinto de Madureira; Joaquim Ignacio Sil- 
veira da Moita; Francisco Carneiro de Campos; José 
Bernardo de Figueiredo; José Francisco Leai; João Evange- 
lista de Faria Lobato e João Gomes de Campos, 

Tão tumultuariamente eram processadas, enforcadas ou 
fuziladas as victimas da imperial prepotência, e tão grande 



( I ) KSQriROS (dr. Alfredo Moreira Pinto) diz, á pag. 104 dos Marlyrci 
da liberdade: «... occiípenio-nos de Joáo Guilherme Ratcliff, de Joào Metro- 
wich, de Loureiro, traiçoeira e cobardemente decapitados no logar em que se 
ergue a estatua de José Bonifácio. •» Com a devida vénia ao emérito pesquisador 
histórico, devemos declarar que os três cidadãos foram enforcados, nào no largo 
de S. Francisco de Paula, onde se levantou a estatua ao promotor de nossa inde- 
pendência, mas no largo da Prainha. 

( 2 ) Bm relação ao infeliz Ratcliff diz IvStíriRO.s ( pag. 109): «Seria, porém, 
seu corpo entregue á sepultura como os de seus dois companheiros? XAo! Infâ- 
mia I Ratcliff (. ■ ) havia copiado em Portugal o decreto de expulsào da rainha 
Carlota. Iv D. Pedro I salgou a cabeça de Ratcliff e remetteu-a á sua màe I «• 

Segundo informação verbal que recebemos do mesmo auctor, foi decepada 
a cabeça d'este rovoluciímirio pelo dr. Francisco Júlio Xavier, como c<msta de 
jomaes da epocha, i)ublicados em Minas Geraes. 

( * ) Ratcliff era cximio em calligraphia. 

'2-> TOM. II 



J94 MEMORIAS BRAZILHIRAS 



O seu numero, que o povo pernambucano e cearense, pelos 
seus representantes Immediatos, reclamou contra as vinga- 
tivas execuções que produziam indignação geral. 

O coronel Lima e Silva attendeu ás vozes da própria 
consciência e dirigiu ao gabinete imperial, em data de 13 de 
Fevereiro de 1825, criterioso officio, pedindo a suppressão 
do execrando tribunal militar. Dizia este official : 

«E na actual crise, o systema de terrorismo, bem longe 
de firmar a integridade do império e consolidar a paz, pro- 
moverá o ódio e accenderá de novo o facho da discórdia. 
É debaixo doestes incontestáveis princípios que eu, com a 
franqueza com que sempre hei falado a Sua Magestade, 
asseguro que a continuação da commissão militar, depois 
dos exemplos já feitos, produzirá resultados oppostos áquelles 
que se desejam para o bem do Brazil. » 

O imperador impressionou-se com tantos clamores e por 
decreto de 7 de Março extinguiu as ferozes commissões, orde- 
nando que os réos pronunciados respondessem perante 
o foro civil e amnistiando a todos os outros isentos de 
pronuncia. 

Foram absolvidos e postos em liberdade, entre outros, 
o democrático padre José Martiníano de Alencar e Luiz 
Borges da Fonseca Primavera. 

O chefe da revolução, Manoel de Carvalho Paes de Andrade, 
que se havia refugiado a bordo da fragata ingleza Ticeed^ 
fugira para os Estados Unidos; amnistiado, regressou ao 
Brazil em 1831 ; foi eleito e escolhido senador pela provincia 



CAPITULO XXV 195 



da Parahyba em 1834; occupou cadeira no senado até 
1855, anno de seu fallecimento. 

E assim foi anniquilada a primeira idéa de federação 
levantada no Brazil. Percebiam os espiritos cultos coUocados 
á frente do movimento que deviam reagir contra D. Pedro, 
libertino como particular, autocrata como imperador. O facto 
de dissolver, pela força armada commandada por elle próprio, 
a assembléa geral constituinte (^) e organizar, a seu talante, 



( i) o imperador poz-se á frente da tropa e fez alto no campo de SanfAnna, 
d'onde destacou uma brigada, commandada pelo general I«azaro, portuguez, 
que marchou sobre a assembléa. D. Pedro, officiaes e soldados achavam-se 
com os chapéos adornados de folhas de café. Domitilia ( ♦ ) tomou parte n'este 
tríumpho estrondoso, exhibindo-se com^exaggerado ramo de café ao peito. 
A victoria que havia conseguido sobre seus conterrâneos Andradas fora esplen- 
dida! 

( * ) Sobre a amante de D. Pedro I dá o dr. J. A. Teixeira de Mello em suas 
Ephemerides nacionacs ( Rio de Janeiro, 1881 ), tom. II, pag. 226, os seguintes 
apontamentos : 

"3 de Novembro de 1867. — Fallece em S. Paulo a marqueza de Santos, 
d. Demithildes de Castro Canto e Mello, filha do visconde e viscondessa de Cas- 
tro, nascida n'aquella cidade a 27 de Dezembro de 1797. Pela sua extraordinária 
belleza, mais do que pelo cultivo do espirito, í;xcrceu a marqueza de Santos, 
como se sabe, a mais poderosa influencia no animo e no coraçfto do i.» impera- 
dor, que a tinha visto pela primeira vez em S. Paulo, separada de seu primeiro 
marido, quando I). Pedro, então ainda principe regente, visitara em Agosto 
de 1822 aquella provincia. Chamada para o Rio de Janeiro, admittida na corte 
como dama de honor da i.« imperatriz e feita successivamente viscondessa e 
marqueza de Santos, nào disfarçou nunca o imperador as suas relações com a 
formosa paulista. Viveu ella na capital do império reconhecidamente, aberta- 
mente como sua am<inte e com principesco tratamento. 

■ D'ella nasceram três filhas : Isabel Maria, duqueza de Goyaz, que se casou 
em 1843 com o conde Feichler de Freiberg, fidalgo da Baviera ; Maria Isabel, 
duqueza do Ceará, que falleceu em Outubro de 1828 com pouco mais de um anno 
de edade. e Maria Isabel, nascida em S. Paulo a 27 de Fevereiro de 1830 c casada 
a 2 de Setembro de 1848 com o sr. conde de Iguassú. 

«Casando-se 2.' vez o imperador, rctirou-se a marqueza de Santos para 



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\hthf\Hí\\í -4 f^fit^i^tt^v^ áff 4f-^f^i^^ (y/mo na pavorosa 
l/«ít///)|.» íStHfhrlh. ^fffAn/uU jft'lH ítwf/íraçáo genial do 
fH«H'M /loi? poifttí* ffí<í/í/'/«!, /l^-vííi jK^tfirtiar-lhe os sonhos de 



.^ \\m\\*, i|> ttiiili Miiih rt iMiiia s mIIiiii li ( i%\i\\n\ <1ti impctio, HinAo annos depois da 
vOttUv.(\i^«t Nm at u i»IImi ninti- ( niiltaliliii m Kiiudtm nupcinH ( com o ct^ronel 
W.^dwu \ V»tl*l.».-' sU AmiiiH > »• oi Muiidi» v»v cMviíiVitni, ftii aló A morte o exemplo 
,U %.\nd,^«U N.\u U»mM. lulMili» d«»imMW'»i «Ir que llvense noticia que nAo procu- 
.v»--v >n»u>%»Um u<\»> U»»u\e \«damitladr putdtca a que wiio levasse o seu c\>ntifi~ 

t-,^,% .Iv^u m%Hlo «\ louw.ut^ r am)«\lad.i a lu^la que e\ATim*vs á |»ifr. i5> 



CAPITULO XXVI 



A FSQrADRA IMPERIAL NA CONFEDERAÇÃO DO EQVADOR. 

I/)RD COCHRANE. PAGAMENTO DA INDEPENDÊNCIA 

DO BrAZII. a PORTrí.AL. ClSPLATINA. BATALHA DE ITIZAINGO. 

Insubordinação de corpos allemâes e irlandezes 
NO Rio de Janeiro — 1824-1828 



^SíOMO complemento aos successos iiarfados no capitulo 
precedente, devemos mencionar qual o movimento marítimo 
que D. Pedro poz em acção para combater a Confederação 
do Equador. 

Logo que foi levada ao Rio de Janeiro a noticia do que 
occorria em Pernambuco, seguiu para esta provincia uma 
divisão composta das fragatas Nictheroy e Piranga^ brigue 
Bahia e cliarríia Gentil Americana^ sob o commando do 
capitão de mar e guerra João Taylor, divisão posteriormente 
augmentada com os brigues Cacique e (ruarany e escuna 
Leopoldina^ commandados estes navios pelo capitão-tenente 
Francisco Bibiano de Castro, i.° tenente Rodrigo Theodoro 
de Freitas e i.^ tenente James Nicols. 

Interessado cm extinguir a revolução por meios brandos» 
Taylor dirigiu officios a Manoel de Carvalho, ao comman- 



198 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



dante das armas Barros Falcão e á camará de Olinda, no 
sentido de tomar posse da presidência o morgado do Cabo, 
Paes Barretto, respeitando-se assim o decreto imperial. Só 
conseguiu que se nomeasse uma commissão de três membros, 
incumbida de ir levar a D. Pedro representação contra a 
nomeação doeste funccionario, «que (dizia a acta) tinha 
perdido a opinião publica e contraliido o ódio e execração 
geral da provincia, que de nenhum modo podia ser senão 
desgraçada com o seu governo ( ' ). « Foi composta a commis- 
são dos cidadãos: vigário João Evangelista Leal Periquito, 
como representante do clero; Basilio Quaresma Torreão, por 
parte da milicia e Joaquim Francisco Bastos Júnior, em 
nome dos civis. 

Em vez de acceitar a designação de Manoel de Carvalho, 
o imperador nomeou presidente da provincia João Carlos 
Mayrink da Silva Ferrão e este facto occasionou o geral 
rompimento. Propalava-se que a politica de D. Pedro era 
reconduzir o Brazil a estado de colónia. 

Aprisionados os navios revolucionários, brigue Constitiiu 
ção ou Morte e escuna Maria da Gloria^ presos os seus 
commandantes e remettidos para o Rio de Janeiro onde foram 
enforcados; constando a D. Pedro que de Portugal partira 
uma forte esquadra trazendo tropas de desembarque para 



( I ) Vide A marinha de guerra do Brazil na lucta da independência — 
Apontamentos para a historia ( Rio de Janeiro, 1880), pag. 65. 1'^ste interessante 
foUieto in-8.°, de 80 pags., nào apresenta o nome do anctor. 



CAPITULO XXVI 199 



combater a independência do Brazil, ordenou, por portaria 
de II de Junho de 1824, V^^ todos os vasos de guerra esta- 
cionados nas provi ncias se recolhessem á capital do império 
e que, n'esta emergência, cada vil la ou cidade se defendesse 
com seus próprios recursos. 

Verificando-se, porém, não ser exacta a noticia da expe- 
dição da esquadra luzitana, foi mandado lord Cochrane 
(marquez do Maranhão) para as provincias do Norte, com 
uma força marítima, composta da nau Pedro /, commandante 
Crosbie; charrua Carioca^ commandante capitão de fragata 
António Joaquim do Couto; brigue Marajihão^ commandante 
i.^ tenente Jorge Manson e transportes Harmonia e Cari- 
dade^ commandantes os capitães de fragata graduados Antó- 
nio Gomes de Moura e José António dos Santos. 

Esta expedição partira do Rio de Janeiro a 2 de Agosto 
de 1824 com 1.200 soldados ao mando do coronel Francisco 
de Lima e Silva. O desembarque das tropas effectuou-se no 
porto de Jaraguá (perto de Maceió), a 13 d*aquelle mez, e 
a 14 aportou a esquadra a Pernambuco. 

Lima e Silva marchou com suas tropas para Pernam- 
buco; fez juncção com as de Paes Barretto e conseguiu entrar 
no Recife a 12 de Setembro de 1824. 

Em meio d'estes acontecimentos, lord Cochrane, sob 
pretexto de abrigar-se contra um temporal, dirigiu-se em a 
nau Pedro I para a Bahia. 

Porém o bloqueio da capital pernambucana continuou a 
ser feito e reforçado pela fragata Paraguassú^ com mandada 



200 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



pelo capitão de fragata Matheus Welsh e as corvetas Maceió 
e Maria da Gloria^ sob o mando de José Pedro de Carvalho 
e Tlieodoro de Beaiirepaire. 

O desembarque, porém, só ponde effectuar-se depois que 
ás forças existentes juntou-se a divisão commandada por 
David Jewett e composta das fragatas Pyranga e Nictheroy^ 
aquella sob o commando do mesmo chefe e esta de James 
Norton. A 17 de Setembro o coronel Lima e Silva, auxiliado 
pela divisão de Jewett, conseguiu apoderar-se de Olinda. 

Pacificado Pernambuco, seguiu lord Cochrane da Bahia 
para o Ceará e ahi conseguiu que José Félix de Azevedo e 
Sá, que substituirá no governo republicano a Tristão Gon- 
çalves de Alencar Araripe, acceitasse a contra-revolução e 
arvorasse a bandeira imperial na Fortaleza a 18 de Outubro 
de 1824. 

Acalmado o Ceará, partiu lord Cochrane para o Maranhão, 
que se achava anarchisado. 

Ahi substituiu o presidente Miguel Bruce por Manoel 
Telles da Silva Lobo, creatura malleavel e submissa ás 
imposições do almirante inglez. Apresentando conta das 
indemnizações a que se julgava com direito, lord Cochrane 
exhauriu os cofres da thesouraria de fazenda e, ainda não 
satisfeito, embolsava o rendimento da alfandega, quando 
chegou ao Maranhão o novo presidente da provincia, Pedro 
José da Costa Barros, que ia disposto a oppôr embargos á 
espoliação. Sabedor das intenções legaes de Costa Barros, o 
ambicioso lord não ixTUiittiu que clle tomasse conta do 



CAPITULO XXVI 20I 



cargo: prendeu-o; metteu-o a bordo do brigue Cacique e o 
fez seguir para a província do Pará. 

Logo que recebeu a ultima prestação das centenas de 
contos de réis que para si próprio liavia arbitrado, o pouco 
escrupuloso almirante passou o commando da nau Pedro I 
ao chefe de divisão Jewett, e, sem offerecer ao governo 
impei ial a minima explicação, retirou-se para a Inglaterra na 
fragata brazileira Piranga, Pagou-se por suas próprias mãos 
e levou comsigo inn vaso de guerra ! 

A arbitrariedade de tal procedimento depreciou, perante 
a historia, os serviços prestados por este official em favor da 
independência do Brazil. 

Ainda não desanimado com a attitude assumida pelos 
brazileiros, quiz Portugal, a todo transe, fazer reviver na 
America a sua antiga colónia. N'esse sentido pediu auxilio 
ás cortes de Hespanha, França, Prússia e Rússia. A Ingla- 
terra, porém, intcrpoz-se, fazendo-lhe reconhecer a imprati- 
òabilidade da idéa. 

Quando a nação britannica mandDU ao Brazil o embai- 
xador Carlos Stuart, este, ao passar em Lisboa, recebeu de 
D. João VI a incumbência de em nome de Portugal acceitar 
e reconhecer a nossa independência. O embaixador entendeu- 
se n'este sentido com o ministro de extrangeiros, Luiz José de 
Carvalho e Mello, com o do império, Francisco Villela 
Barbosa, e com o conselheiro doestado, barão de Santo Amaro. 
Connivcutc com as exigências de Portugal — quando a indc- 



202 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



pendência já se achava feita — D. Pedro I, em vista de um 
tratado que se engendrou, comprometteu-se a remetter para o 
governo de Inglaterra, por conta da divida portuguezá, dois 
milhões de libras esterlinas, a titulo de indemnização a pre- 
juisos soffridos pelo governo luzitano. . . 

Este illegal procedimento só é comparável ao que em 
menor escala teve lord Cochrane antes de regressar para os 
nevoeiros de Albion. O nosso thesouro nacional soffreu 
durante annos mais este formidável e escandaloso assalto. 

Perigava no extremo sul a Provincia Cisplatina. As 
nunca extinctas rivalidades entre hespanhóes e portuguezes 
ou descendentes de portuguezes aproveitaram a occasião para 
accenderem de novo ódios a custo sopitados. 

Inopinadamente, 32 orientaes ás ordens de João António 
Lavalleja, vindos da Republica Argentina, desembarcaram no 
porto das Vaccas, na Agraciada (Estado Oriental), a 19 de 
Abril de 1825. Aos 33 heroes juntaram-se dois batalhões de 
Fructuoso Rivera e numerosos patriotas anciosos de conquis- 
tar a liberdade. A 25 de Agosto do mesmo anno reuniram-se 
na villa de Florida os revolucionários e ahi proclamaram a 
independência do Estado Oriental ( ^ ). 



( I ) o documento declaratório da independência da Provincia Cisplatina foi 
ORcripto nos Hef^^uintes termos : 

« I/i Haia de Representantes de la Provincia Oriental dei Rio de la Plata, en 
uso de la soberania ordinária y extraordinária que legalmente invistc, para 
construir la existência politica de los pueblos que la componen, y estabelecer su 



CAPITULO XXVI 203 



O governo de Montevideo achava-se entregue ao general 
Carlos Frederico Lecór, visconde da Laguna. 

A 24 de Setembro travou-se o primeiro combate no 
Rincão de Haedo ou das Gallinhas. Ahi foram derrotadas as 
forças brazileiras, mais de 400 praças, commandadas pelos 
coronéis rio-grandenses Jeronymo Gomes Jardim e José Luiz 
Menna Barretto, os quaes, por mal entendida rivalidade, não 
marcharam juntos, mas em denodada porfia, sobre qual 



independência y felicidad, satisfaciendo el constante, universal y decidido voto 
de sus representados ; — despues de consagrar á tan alto fin su más profunda 
consideracion ; obedcciendo la reclitud de su intima conciencia, en el nombre y 
por la voluntad de ellos, sanciona con valor y fuerza de ley fundamental lo 
seguiente : 

i.o — Declara irritos, nulos, disueltos y de ningun valor para siempre, todos 
los actos de incorporacion, rcconociniientos, aclamaciones y juramentos arranca- 
dos á los pucblos de la Provincia Oriental, por la violência de la fuerza unida á 
la perfídia de los intrusos poderes de Portugal y el Brazil, que la han tiranizado, 
hollado y usurpado sus inalienables dereclios, sujetádole ai j'Ugo de un absoluto 
despotismo desde el aiío de 1817 hasta el presente de 1825. Y porcuanto el pueblo 
oriental aborrece y detesta hasta el recuerdo de los documentos que comprendem 
tan ominosos actos, los Magistrados Civiles de los pueblos em cuyos archivos se 
hallan depositados aqucllos, luego que reciban la presente disposicion, concur- 
riran ai primer dia festivo en union dei Párroco y vecindario y con asistencia 
dei Kscribano, Secretario, ó quien haga sus veces, á la casa de Justicia, y antece- 
dida la lectura de este Decreto se testará y borrará desde la primera linea hasta 
la ultima firma de dichos documentos, extendiendo en seguida un certificado 
que haga constar haberlo verificado, con el que deberá darse cuenta oportuna- 
mente ai gobiemo de la Provincia. 

i.o — Kn consecuencia de la antecedente declaracion, rcasumiendo la Pro- 
vincia Oriental la plenitud de los dereclios, libertades y prerrogativas inherentes 
á los demás pucblos de la ticrra, se declara hecho y de derecho libre é indepen- 
diente dei Rey de Portugal, dei Kmperador dei Brazil y de cualquier otro dei 
universo, y con amplio y pleno poder para darse las formas que en el uso 
y ejcrcicio de su soberania estime convenientes. 

« Dado en la sala de sesioncs de la Representacion Provincial en la Villa 
de San Fernando de la Florida, á lofi 25 dias dei mes de Agosto dei aiío 1825, • 



204 MEMORL\S BRAZILEI&AS 

chcjçaría primeiro ao ponto de combate. Fnictuoso Rivera os 
destroçou, cada um por sua vez. 

!klenna Barretto, valente official de 27 annos de edade, 
morreu na acção. 

^ApezãT de ouvir os repetidos gritos do inimigo, intiman- 
do-llie que se rendesse, combateu, como um verdadeiro 
hcróe, morrendo afinal com mais de dez honrosos ferimentos 
e conquistando a admiração de seus próprios adversários (*).» 

Victorioso, Rivera apoderou-se da cavalhada que existia 
no Rincão e foi leval-a a Lavalleja, que se achava em 
preparo para atacar Bento Manoel Ribeiro. Este valente 
paulista sahira, com uma brigada, de Montevideo, incumbido 
pelo visconde da Laguna de ir reconhecer o inimigo ; partiu 
com i.ioo homens e incorporou-se no dia 10 de Setembro, 
nas nascentes do rio Yi, ao coronel Bento Gonçalves da • 
Silva, que conimandava um regimento de cavallaria de 400 
homens. 

Confiante em seu valor. Bento Manoel, cm vez de fazer o 
reconhecimento, resolveu ir atacar o inimigo em seu próprio 
campo. 

No dia 12 de Outubro — quando no Brazil se festejava o 
annivcrsario natalício de D. Pedro I — avistou elle o inimigo 



( I ) Vide a opiisculo Lilwllo arf^eniino e a verdade histórica por R. DE 
Sknna Tkrfira ( Rio de Janeiro, 1S57 ) i.° vol. e a lUographia do coronel José 
Luiz Menua Jiarrviio ( Mtmtcvidéo, 1S25), obras citadas por Josk Maria da 
SiiA'A Paranhos Júnior ( actual barão do Rio Branco ) em seu estudo Esboço 
/n'in;ni/>/iico do íieneral fost^ de Abreu, barão do Serro Largo \ Rev. do íust. 
//is/., itini. XXXI. 2.^ part., pajc. 107, nota 49). 



CAPITULO XXVI 205 



collocado junto ao arroio Sarandy, confluente do arroio 
Castro, sendo este affluente do Yi. 

Lavalleja com 2.500 homens das três armas, perfeita- 
mente descançados, disciplinados, e palpitantes do ardoroso 
entliusíasmo que a idéa republicana desperta em todos os 
corações amantes da liberdade da pátria, tendo além d'isso 
terreno escolhido e próprio para as evoluções de seus 
soldados, esperou tranquillo a temerária aggressão. A pri- 
meira carga de seus gaúchos dispersou-se a infanteria 
guarany e o desbarato de Bento Manoel foi completo. 
Para náo sacrificar de todo sua cohmína, viu-se este official 
obrigado a operar a retirada para a fronteira de SanfAnna; o 
regimento de dragões retrocedeu para Montevideo e Bento 
Gonçalves, cujo regimento não chegara a entrar em fogo, 
seguiu para a fronteira de Jaguarão. 

As duas victorias, do Rincão e de Sarandy, foram de 
extraordinário alcance para a causa justa e nobre dos orien- 
taes revolucionados, pois não só serviram de ardoroso incita- 
mento a toda a provincia uruguaya, como attrahiram a forte 
sympathia da Republica Argentina para pelejar em favor da 
grande idéa libertadora. Arrancar a Cisplatina ao dominio 
militar e ao poder pessoal c tyrannico do imperador do 
Brazil impunha-se, como um dever, aos povos confederados 
do Rio da Prata. 

Fortemente interessada no desenlace da questão, favo- 
rável aos republicanos, a Republica Argentina deu sciencia 
ao Brazil, cm data de 24 de Novembro de 1S25, de que a Pro- 



2o6 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



vincia Cisplatina passava a pertencer ás Províncias Unidas 
do Rio da Prata — o que importava em declaração de guerra, 
acceita pelo governo imperial em lo de Dezembro seguinte. 

Tomaram-se medidas urgentes, exigidas pela nova face 
dos acontecimentos. A força marítima de Montevideo foi 
in-continenti reforçada, e o commandante da esquadrilha, 
vice-almirante Rodrigo Lobo, teve ordem de bloquear os 
portos do kio da Prata. 

A frente das Provincias Unidas collocou-se um homem 
de merecimento, Bernardino Rivadavia, e para commandar 
os navios de guerra argentinos o almirante inglez Jorge 
Guilherme Brown. 

A 9 de Fevereiro de 1826 deu-se o combate naval de 
Corales, em que as nossas forças conseguiram estrondosa 
victoria. 

A esquadra argentina, commandada por Brown, com- 
punha-se de 19 navios: corveta ^f de MaiOy brigues Bclgrano^ 
Congresso^ Republica e Balcarce^ escunas Sarandi e Pepa 
e 12 canhoneiras; e a nossa esquadra, de 11 embarcações: 
corvetas Liberal {q.q\xí a insigniado vice-almirante), liaparica 
(com a insignia do chefe de divisão Diogo Jorge de Britto) 
e Maceió; brigues 2ç de Agosto^ Caboclo^ Real Pedro^ Rio 
da Praia; brigue-escuna Pará; canhoneira Leal Paulista^ 
escunas Liberdade do Sul e Conceição, 

Geral foi o destroço dos argentinos: fugiram quasi todos 
os seus navios — a corveta ^5 de Maio e 12 canhoneiras — 
abandonando o seu almirante. 



CAPITULO XXVI 207 



N'esse grande combate lamentamos a morte do comman- 
dante do brigue. 2ç de Agosto^ capitão-tenente Glidders. 

O vice-almirante Rodrigo Lobo perseguiu os navios fugi- 
tivos até defronte da cidade de Buenos-Ayres. 

Foi necessário á Republica Argentina mandar comprar 
navios ao Chile e emquanto estes não chegavam, concedia 
cartas de corso contra os nossos navios mercantes. 

Preparou-se, porém, o inimigo para tirar desforra da derrota 
maritima que havia soffrido, e, exactamente no anniversario 
do feito de Corales, a 9 de Fevereiro de 1827, deu-se o com- 
bate do Juncal, em que foi destruida a nossa chamada y?í?//7Aa 
do Uriiguay^ commandada pelo capitão de fragata Jacintho 
Roque de Senna Pereira. 

Compunha-se a flotilha de 19 navios, porém de tal forma 
occorreu o nosso desastre, que 1 1 foram aprisionados, 3 incen- 
diados por seus commandantes e apenas 2 conseguiram 
salvar-se, a canhoneira Viciaria da Colónia e a escuna 
D. Paula. 

O almirante Brown reivindicou de modo brilhante os seus 
créditos. 

Convém declarar que só mereciam o nome de navios de 
guerra as escunas Oriental e Bertioga e o brigue-escuna 
D. /afinaria: os outros eram pequenos liiates do Rio Grande 
e saveiros do Rio de Janeiro arvorados em canhoneiras. 

Como continuação de nossos insuccessos, uma expedição 
mandada á Patagonia, no sentido de tomar a jíovoação de 
Cármen, valhacouto de corsários, cahiu toda em poder do 



2o8 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



inimigo: só 244 prisioneiros puderam salvar-se. Era comman- 
dada pelo capitão Sliepperd, que morreu combatendo. 

A má fortuna ainda nos perseguiu, acompanhando as 
evoluções de nosso exercito e favorecendo a legitima aspi- 
ração dos povos platinos em conseguir a independência dos 
orientaeè. 

Para substituir áo visconde da Laguna (Carlos Frederico 
Lecór), cuja inactividade em Montevideo permittiu o desen- 
volvimento revolucionário da Cisplatina, D. Pedro I nomeou 
general commandante em chefe das forças brazileiras o 
marquez de Barbacena (Felisberto Caldeira Brant Pontes), 
homem notável por grandes serviços prestados á pátria (^). 



( I ) o marquez de Barbacena nasceu a 19 de Setembro de 1772, no arraial de 
S. Sebastião, perto da cidade de Marianna, estado de Minas Geraes, e faUece^i 
no Rio de Janeiro a 13 de Junho de 1843. Foi senador do império, conselheiro de 
Estado, marechal de exercito, gentil-homem da imperial camará, mordomo-mór 
da imperatriz D. Amélia ( dcípois duqueza de Bragança ), alcaide-mór da villa de 
Jaguaripe na Bihia, cavalleiro da ordem de D. Pedro I, gran-cruz das do 
Cruzeiro e Rosa, commendador di de Christo, caN^alleiro da ordem da Torre 
e Kspada, gran-cruz da Coroa de Fjrro da Áustria. 

Durante o tempo em que exerceu o cargo de inspector dos corpos na Bahia, 
promoveu ahi melhoramentos de alta importância : introduziu a primeira michina 
a vapor applicida aos engenhos de moer canna, melhorando assim a fabricaçílo 
de assucar e aguardente; deu desenvolvimento á plantação de canna íVZ ir ////«/ 
a expensas suas, introduziu a canna rajada denominada imperial, mandou appa- 
relhar uma estrada de rodagem na extensão de 42 léguas para o interior e fez 
levantar a carta hydrographica da Bahia ; em 1819 estabeleceu a primeira nave- 
gação a vapor entre a capital bahiana e a cidade da Cachoeira : estabeleceu 
uma fabrica de espingardas ; para facilitar as transacções co.nmerciaes, fundou 
na Bahia a caixa dos descontos, filial ao banco do Brazil. 

Minuciosos apontamentos sobre este grande brazileiro foram publicados 
em grosso volume de 974 pags. por AxroNio Air^-usTo dk Aíítiar, sob o titulo 
Vida do marquez de Barbacena ( Rio de Janeiro, i8c^ ). 



CAPITULO XXVI 209 

Partiu este titular para o Rio Grande do Sul, a 3 de 
Novembro de 1826, levando como ajudante-general o briga- 
deiro Francisco José de Souza Soares de Andréa (depois 
barão de Caçapava) ; deputado do ajudante-general o sargento- 
mór João Pedro da Silva F^erreira; quartel-mestre general o 
brigadeiro Raymundo José da Cunha Mattos; ajudante de 
ordens o sargento-mór Ponsadilha; commandante de artilhc- 
ria o coronel Thomé Fernandes Madeira. 

Acompanharam-no o marechal Gustavo Henrique Brown 
e brigadeiro Sebastião Barretto Pereira Pinto. 

Um ou outro combate se havia travado na fronteira do 
Uruguay, com o fim de fazer cessar as continuas correrias 
em estancias brazileiras, d'onde os republicanos arrebatavam 
gado e cavalhada e praticavam outras depredações. O encon- 
tro mais notável fora o combate na barra de Toro Passo, 
perto do rio Quarahy. Uma columna de 500 cavalleiros 
rio-grandenses, commandada pelo coronel José António Mar- 
tins, destroçou uma força de orientaes que deixou no 
campo 120 mortos. 

Fazia-se mister cessar os tiroteios esparsos e sem resul- 
tado apreciável e reunir elementos para uma batalha decisiva 
que conduzisse nossas armas a fim determinado. 

Era plano de Barbacena: i.° expulsar o inimigo além do 
Uruguay; 2.° occupar em seguida a provincia de Entre-Rios; 
3.® obrigar a Confederação Argentina a solicitar paz, sem 
possibilidade de renovar hostilidades. Para a realização 
d'estes dcsignios solicitou do governo um effectivo de 15.000 

•J7 • TOM. II 



2 IO MEMORIAS BRAZILEIRAS 



homens das três armas, uma reserva de 4.000, o indispensável 
armamento e .seis milhões de cnizados para as despesas da 
guerra durante um anno. 

As forças seriam assim distribuídas: 2.500 homens de 
guarnição nas fronteiras do Rio Grande do Sul; 7.500 para 
combater o inimigo; 3.700 para defender Montevideo; 200 em 
Serrito e 1. 100 na Colónia do Sacramento. 

Esta requisição não foi satisfeita, por mais que se prati- 
casse com rigor e violência o recrutamento nas provincias 
do Ceará e Minas Geraes. 

Por esse tempo resolveu D. Pedro partir para o theatro 
dos acontecimentos, como um forte incentivo ás tropas brazi- 
leiras. Infelizmente esta viagem não teve o êxito que se 
esperava: apenas o monarcha chegou a Porto Alegre, recebeu 
noticia de que sua esposa, a imperatriz Leopoldina ('), havia 



( I ) A imperatriz Maria I«eopoldina Josepha Carolina, archiduqueza 
d'Austria, era irmã de Maria l,uiza, imperatriz da França e se^nda mulher de 
Napoleão I. 

Falleceu em consequência de um aborto, succedido a 2 de Dezembro de 1826, 
sendo o feto do sexo masculino. 

O escriptor allemão Carlos Seidler, contemporâneo dos factos, fez as 
seguintes apreciações sobre o fúnebre acontecimento : 

« lycopoldina d'Austria tinha fallecido subitamente. I^vantaram-se mil 
su.Hpeitas, cada uma sobrepujando a outra em exaggeração, loucura e despeito, 
mas, entre todas, algumas talvez tenham suas razões de ser. Assevcrava-se que 
D. Pedro I, ao sahir do Rio de Janeiro, deixou ordens para o envenenamanto da 
imperatriz durante sua ausência, o que fez enorme sensação ; todos os negócios 
paraly saram -se ; uma revolução geral, que primeiro sahiu da terra como um 
verme, foi successivamente levantando sua cabeça de hydra. Os inimigos do 
imperador aproveitaram com avidez esta occasião para conseguirem seus fins 
particulares e tomar Sua Magestade sempre mais odioso ao povo ; aventuraram-se 



CAPITULO XXVI 211 



fallecido a ii de Dezembro — facto que o obrigou a regressar 
immediatamente para o Rio de Janeiro, a 15 de Janeiro 
de 1827. 

Ao chegar a SanfAnna do Livramento, reconheceu o 
raarquez que as forças foram mal acampadas alli, em terreno 
mau, arenoso, desarborizado, regado por pequenos regatos 
afluentes do Ibicuhy, os quaes, seccando no verão, tomavam 
insalubre a localidade, que os soldados denominavam mata^ 
douro do exercito. Para esse ponto havia o brigadeiro Fran- 
cisco de Paula Damasceno Rosado convergido as tropas, 
retirando-as d'outros logares da fronteira onde as collocára 
seu antecessor, o general José de Abreu, barão do Serro Largo. 

Para dar ás forças organização regular o general em chefe 
formou duas divisões compostas de quatro brigadas, dividin- 
do-as em três linhas de batalha, commandadas estas pelo 
ajudante-general Soares de Andréa, o quartel-mestre general 
Cunha Mattos e o coronel Jeronymo Gomes Jardim. 

Soube-se que o inimigo partira de Durasuo, sob o com- 
mando de Carlos de Alvear, no intento de invadir o Rio Grande 



até a nomear o medico que, na qualidade de verdugo secreto, teve parte n*esta 
scena de a<vsombro. Infelizmente, poucos dias depois, o mesmo homem foi 
nomeado Enviado Extraordinário perante a corte de França e com isto a 
desconfiança geral obteve nova segurança. Outro boato, talvez melhor fundado, 
dizia que D. Pedro, em um momento de cólera, havia maltratado sua esposa, que 
se achava gravida, calcando-a aos pés, e que isto foi a origem da morte d*ella. • 

Henri Raffard : Apontamentos acerca de pessoas e cousas do Brazil 
{Rev, do Itist. Hist., tom. L,XI, 2.» part.. pags. 212 e 213 ). 



212 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



do Sul por Bagé. Deu-se com effeito a invasão, e chegou a 
attingir a cidade de S. Gabriel, que foi saqueada. 

A 17 de Fevereiro a vanguarda do barão do Serro Largo 
chegou a S. Gabriel e livrou esta povoação do incêndio que 
já havia destruído três edifícios. 

Convencido o general Barbacena de que Alvear, por temer 
as nossas forças, fugira de S. Gabriel e procurara o Passo do 
Rosário no rio Santa Maria; crente o marquez de que o exer- 
cito brazileiro augmentaria, de forma a não só subjugar a 
Banda Oriental, como a invadir a Republica Argentina, em 
cuja capital hastearia triumphante o pavilhão imperial, fez 
ás tropas uma proclamação transbordante de arrojadas pro- 
messas: 

tr Soldados ! Quando o inimigo se apresentou n'esta fron- 
teira, estava o centro do exercito imperial a mais de 80 léguas 
de distancia das divisões da esquerda; estáveis sem transportes 
e até com faltas de armamento e munições de guerra. Vosso 
valor, vosso patriotismo venceu todas as diflSculdades, e por 
marchas forçadas e atrevidas, quasi á \âsta do inimigo, e 
estando os postos avançados em constante tiroteio, conseguis- 
tes fazer a juncção com a maior parte das tropas da esquerda 
no dia 5 do corrente; as outras se reuniram nos dias 11 e 13. 
«Então fazia o inimigo todas as demonstrações de atacar- 
nos, è posto que, por sua superioridade numérica e pela 
linguagem de suas proclamações, o ataque parecia provável, 
não passou de demonstrações, e, deixando as margens do Cama- 
cuan, colorou aquelle principio de retirada, dizendo que nos 



CAPITULO XXVI 213 



esperava nos campos de S. Gabriel ou que seguiria para 
Porto Alegre. 

« Por novas marchas forçadas aqui chegastes esta manhã, 
e, longe de encontrarmos o inimigo, achámos a certeza de 
sua vergonhosa e precipitada fugida, havendo a retaguarda, 
cominandada por Lavalleja, deixado a povoação de S. Gabriel 
hontem pelas 4 Y^ horas da tarde, entretanto que Alvear 
adeantou de quatro marchas a infanteria e artilheria. 

« Bem quizera eu dar-vos algum descanço, depois de tantos 
centos de léguas de marcha, com um sol abrazador, e até 
alguns dias sem agua e muitos sem pão ou farinha ; mas um 
instante de demora nos privaria de colher os fructos de nossos 
trabalhos e de terminar a guerra para sempre, como o exigem 
a honra e a gloria do exercito imperial. 

«Soldados! Redobremos de esforços, e em poucos dias 
alcançaremos o inimigo: a victoria é certa, e na cidade de 
Buenos-Ayres vingaremos as hostilidades commettidas nas 
pequenas povoações de Bagé e S. Gabriel ! 

« Quartel-general em S. Gabriel, 17 de Fevereiro de 1827. 
— Marquez de Barbacena^ tenente-general, commandante 
em chefe ( ^ ). » 

Continuou o general em chefe a forçar as marchas, em 
perseguição do inimigo, que rapidamente abandonava o 
terreno: a 19, depois de reforçar a vanguarda, acampou a 



( i ) António ArorsTo de Aguiar : Vida do marquez de Barbacena^ 
paga. 264 e 265. 



214 XEXO&IAS BRAZnjEXRAS 



3 Yj ítgttsa de S. Gabriel, no campo dos Salsos, depois de 
atravessar o banhado de Inhatitim qne se achava qnasí secco 
em ccmseqnencia do rigor do ^-erão. Ahi consegxxin a nossa 
vanguarda alcançar o inimigo, manter com elle um tiroteio 
forte e pol^ em fnga precipitada. 

Satisfeito com estas lisonjeiras escaramuças, Barbocena 
tfansferin o acampamento para nns banhados seccos da 
estancia de António Francisco, três legnas adeante do local 
anterior. 

Ahi foi elle avisado por soldados desertores, mandados 
propositalmente por Alvear, de que este chefe argentino 
passava o rio Santa Maria. Barbacena quiz snrprehender os 
oríentaes n^essa operação, e, tendo dado ao exercito três horas 
apenas de descanço, ordenou que a cavallaria e a infanteria se 
mantivessem de promptidão ao primeiro signal. 

Alta noite, ao apparecimento da lua, o marquez deu 
ordem de marcha. 

A vanguarda do barão do Serro Largo, augmentada 
com a brigada do coronel Bento Gonçalves da Silva, com- 
posta de 590 praças, perfazia o numero de 1.150 cavalleiros. 

Quando começou a despontar o dia, nossa vanguarda 
avistou o inimigo. Persuadido o general Barbacena de que o 
grosso do exercito oriental-argentino se havia com effeito 
passado para a margem esquerda do Santa Maria, deu ordem 
de atacar o que se lhe apresentava deaute e que só poderia ser 
fracção do mesmo exercito. 

Alvear, porém, havia retrocedido velozmente do Cacequy 



CAPITULO XXVI 215 



pela margem direita do Santa Maria e fora occupar posição 
escolhida e de garantido êxito. 

Ao amanhecer do dia 20 de Fevereiro, recpnheceu o 
marquez de Barbacena, com grande e dolorosa surpresa, que 
tinha deante de si, em linha de batalha, um exercito duas 
vezes maior do que o seu e dispondo de quadruplicada força 
de cavallaria (8.379 praças). 

Surtia effeito o premeditado plano do general argentino. 

Barbacena viu-se, portanto, constrangido a ácceitar com- 
bate em terreno onde o inimigo escolhera a melhor posição, 
coUocando-se na coxilha de Santa Rosa ; ahi travou-se a memo- 
rável batalha de Ituzaingo ( ' ). 

Variam as opiniões si houve intenção da parte do general 
Alvear em attrahir para o indicado local o exercito brazileiro, 
ou si, forçado pela perseguição que soffria, viu-se obrigado 
a fazer ahi campo de batalha. 

Interrogado officialmente sobre este assumpto pelo Insti- 
tuto Histórico e Geographico Brazileiro, o duque de Caxias 
declarou que a marcha do exercito argentino, retrocedendo 
de S. Gabriel com direcção ao Passo do Rosário, no rio 
Santa Maria, foi um movimento estratégico, que poderia ser 
previsto e o não foi pelo marquez de Barbacena; não attendeu 
este official ás circumstancias de que um exercito invasor 
e superior não podia fugir á perseguição de outro inferior, 



( I ) Os platinos pronunciam liussaingô. 



2l6 MEMORIAS BRÂZILEIRAS 



nem abandonar os pontos que occupára, sem ter conseguido o 
fim a que viera; o campo em que elle esperou as tropas 
brazileiras, que marchavam ás cegas e sem do inimigo ter 
noticias certas, foi escolhidopor Alvear, que n'elle exercitou 
suas tropas durante dois ou três dias. Perplexo o exercito 
brazileiro com a presença do argentino, viu-se obrigado a 
acceitar a batalha no terreno a que fora attrahido proposital- 
mente. A surpresa não permittiu reflexão. Deu-se deplorável 
confusão ao avistar-se o inimigo em logar onde não era espe- 
rado. O terreno occupado pelos argentinos era mais apropriado 
ás operações de sua cavallaria que ás de iufanteria, e domi- 
nava o q!ie era occupado por nosso exercito, oflFerecendo, além 
dMsso, vantagem á sua artilheria, superior á nossa em numero 
e qualidade. Kntre ambos existia uma sanga enxuta, que s6 
em poucos logares dava passagem á cavallaria ; aquelle dos dois 
exércitos que a transpuzesse para ir atacar o inimigo, oflFe- 
receria o perigo de desfilar á vista de seu contrario, sob risco 
de ser dizimado. Barbacena, porém, não attendeu á superio- 
ridade de forças nem á vantagem da posição dos argentinos, 
e ordenou o ataque, em vez de gxiardar a defensiva, esperando 
o inimigo na posição que fora obrigado a occupar e compellin- 
do-o a deixar aquella em que se collocára, para vir combatel-o. 
De todas estas imprevidencias resultou o insuccesso de nossas 
armas ('). 



(i ) Resposta do duque de Caxias {,Rev. do Inst, Hist., tom. XX III, pags. 
571 e 572). 



CAPITULO XXVI 217 



O illustrado tenente-coronel José Joaquim Machado 
de Oliveira, que, no caracter de secretario do exercito, foi 
testemunha ocular da batalha de Ituzaingo, em suas Recor- 
dações históricas^ é de opinião que o inimigo viu-se forçado 
pelos brazileiros a combater alli, onde a irregularidade do 
terreno offerecia obstáculos e desfiladeiros impróprios para as 
livres manobras da grande cavallaria argentina. 

Nosso pequeno exercito, que não tivera descanço desde 
a madnigada do dia 19 e quasi nada se alimentara, viu-se 
compellido a acceitar combate com tropas descançadas havia 
dois dias e superiores em numero e em qualidade de armas. 

No atropelamento com que tomou posição o nosso exer- 
cito, ficaram a grande distancia uma da outra ai.® divisão, 
do brigadeiro Sebastião Barretto, e a 2.", do brigadeiro Cal- 
lado, sem se puderem auxiliar durante a acção. 

Defronte da i.® havia-se collocado o barão do Serro Largo 
com seus voluntários, a brigada ligeira de Bento Gonçalves 
e uma peça de artilheria, mantendo nutrido fogo com o 
i.^ corpo do exercito argentino. 

Ouvido o signal de ataque, a divisão do general Sebastião 
Barretto, composta de 2.635 homens, avançou contra a 
esquerda e centro do exercito republicano e n'este movimento 
foi acompanhada pela brigada de Bento Gonçalves. 

Em nosso flanco esquerdo permaneceu o barão do Serro 
Largo com a peça que no começo lhe entregara o briga- 
deiro Callado. 

Ao ver o movimento de nossa i.* divisão, ordenou Alvear 



2l8 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



que a cavallaria do general Laguna a atacasse, e a do 
general Lavalleja se lançasse contra as forças de nossa 
esquerda. 

Sebastião Barretto repelliu com denodo as duas cargas 
que lhe foram feitas e continuou a avançar contra o inimigo, 
para desalojal-o da posição eminente. 

A 2.® divisão mantinlia-se immovel, quando Lavalleja, 
com a sua cavallaria de vanguarda, forte de 3.690 homens, 
foi atacal-a, tendo, porém, de passar pela pequena columna 
do barão do Serro Largo, postada em nosso flanco esquerdo 
como vanguarda d'aquella divisão. 

Foi sobre esta columna de 560 homens pessimamente 
montados que se precipitou a cavallaria republicana. Vendo 
o barão do Serro Largo que seria louca temeridade resistir a 
força seis vezes superior á sua, tratava de recuar para 
abrigar-se junto á divisão do brigadeiro Callado, quando 
subitamente appareceu uma columna de cerca de 700 
homens que o atacou de flanco, ao passo que Lavalleja vinha 
sobre elle de frente. Aggredida por dois lados, não ponde 
sustentar-se em forma a columna de paizanos rio-grandenses, 
e, possuida de insuperável terror, pela certeza da derrota, 
precipitou-se desordenadamente, perseguida pelo inimigo, 
sobre a 2.** divisão, que immediatamente formou quadrado. 

Debalde quiz o barão impedir a retirada de seus cavai- 
leiros e gritou que fizessem frente ao inimigo; porém elle 
próprio sentiu-se arrastado no tumulto vertiginoso, de impe- 
riaes e de republicanos, que em confusão se lançaram sobre 



CAPITULO XXVI 219 



O quadrado da divisão. Esta, não podendo distinguir, pela 
semelhança dos vestuários, quaes os inimigos, rompeu fogo 
sobre a massa informe de assaltantes, e n'essa occasião cahiu 
mortalmente ferido o barão do Serro Largo — o heróe que 
tantas vezes conquistara victoria nas campanhas do sul. 

Momentos depois expirava o bravo soldado rio-grandense, 
o invicto veterano, a quem o illustre brazileira barão do Rio 
Branco, em elevado preito, consagrou estas palavras: 
<f A posteridade ha de destinar a tão eximio cidadão e a tão 
illustre victima um logar distincto entre os mais gloriosos e 
prestantes filhos da terra de Santa Cruz!» 

Antes da batalha, o barão dó Serro Largo insistira com o 
general em chefe para que lhe fossem dados novos cavallos, 
visto que os seus se achavam cançados pelas continuas 
marchas. Para Ç3se efFeito expedi u-se ordem ao general 
Sebastião Barretto, encarregado da distribuição da cavalhada 
que devia entrar em acção. Ajusta exigência do barão foi 
desprezada sob a evasiva de que não havia cavallos dispo- 
niveis. A inimizade do general Barretto permittiu esta 
recusa. 

«O general barão do Serro Largo, diz Machado de 
Oliveira em suas Recordações históricas^ sujeitou-se silencioso 
a esta acintosa negativa, e, resignado, marchou para seu 
posto d^honra, como empuxado pela dura mão de um 
destino, que si tão adverso lhe fora na ultima quadra de sua 
vida, outr'ora lhe soube inspirar esses gloriosos feitos d'armas 



tio MEMORIAS BRA2ILEI11A5 



de qtie sua pátria tanto se ufana e a historia, commemo- 
rando-os, os tem apreciado e applandido (^). 

«Não se deve sináo mui se\'eramente extianhar que, em 
momento táo critico, em que se ia empenhar o pundonor da 
nação, se antepuzessem antigas e mesquinhas animosidades, 
odienta rivalidade, ao bom proveito que se de\Ta esperar do 
emprego d^aquella força commandada por táo distincto chefe, 
si fora para isso convenientemente preparada. « 

Segundo documento que temos á vista, quando se deslocou 
a ala direita da linha primitiva abriu-se um largo intervallo 
entre as duas alas, espaço que deveria ser defendido pelo 
coronel Thomé Fernandes Madeira, commandante de uma 
bateria; porém as peças ahi collocadas não se fizeram ou\4r. 
Extranhando este facto, o marquez de Barbacena corre ao 
ponto indicado a reconhecer o motivo do silencio da artilheria 
e encontra o coronel Madeira escondido debaixo de um carro 
de mimições, deitado de bruços, como si quizesse sumir-se 
pela terra. Indignado deante de tanta cobardia, o marquez 



(1)0 (i^eneral José de Abreu, barão do Serro I,argo, nasceu na povoação do 
Povo Novo, situada entre as cidades do Rio Grande e Pelotas ( Estado do Rio 
Grande do Sul ). Por duas vezes livrara sua terra natal da invasão inimiga ; 
dezcnove foram os combates era que provara sua heróica valentia. Achava-se 
o general retirado, esquecido, em ura arrabalde de Porto Alegre, quando Pedro I 
chegara a esta capital, a estimular os brios rio-grandenses contra as pretenções 
uruguayas. Apezar de sua avançada edade, o general Abreu apresentou-se ; 
reuniu um corpo de paizanos, 560 homens, seus amigos e seus admiradores, e foi 
como d'antes collocar-se intrepidamente na vanguarda do exercito. Como si pre- 
víhsc o seu tristÍ8.simo fim, dizia aos que o felicitavam e applaudiam por vel-o de 
novo cm armas que ia restituir á guerra o que só d'ella tinha recebido. 



Ci^PITULO XXVI 221 



fez levantar-se o coronel e travando-lhe do braço o conduziu 
á bateria, lançando-lhe em rosto a pusillanimidade de seu 
procedimento. A cada tiro de canhão o misero official cahia 
por terra, allegando tropeçar em pedras ( ^ ). 

Esta escandalosa fraqueza, de effeito desmoralizador pelo 
exemplo que offerecia aos soldados, foi motivo de parai ysação 
da ala esquerda commandada pelo brigadeiro Callado. 

Durante o combate, vendo Lavalleja que a nossa divisão 
da direita ganhava terreno cada vez mais, atacando os argen- 
tinos que occupavam as coxilhas, e receando da sorte de 
suas armas, tomou um alvitre desesperado: mandou atear 
fogo ao macegal do campo. Era seu fim servir-se do elemento 
destruidor para estabelecer confusão entre os nossos, disper- 
sando-os, e assim confundir os da direita, sobre os quaes iam 
as chammas precipitar-se. 

Executado este plano, começou o campo a arder em gran- 
des labaredas, impellidas pelo vento que rijamente soprava 
de leste para oeste, ficando os argentinos a barlavento do 



( I ) Foi submettido a conselho de guerra o coronel Thomé Madeira, tendo 
contra si os testemunhos do marquez de Barbacena, marechal Brown, tenente- 
coronel Machado de Oliveira, coronel Seweloh e outros officiaes de patente supe- 
rior. Os membros do conselho o absolveram, fazendo ouvir testemunhas que 
mencionaram occasiões em que o coronel revelara valor e presença de espirito. 

Protestando contra esta parcialissima decisão, Barbacena, em oflficio de 15 
de Maio de 1827, dirigido ao conde de Lages, ministro da guerra, disse : 

• V^. Kxa., tomando em consideração as consequências d'este processo, quer 
seja pela impunidade do crime, quer pelo desprezo de testemunhos dos generaes 
contra os súbditos, dará a providencia que fôr própria para corrigir tanta immo- 
ralidade, tanta indisciplina c tanta cobardis^. * 



222 MEMORIAS BRAZII^IRAS 



incêndio. Espesso fumo, uma atmosphera pesada e suffocante, 
calor insupportavel, densa escuridão, tudo isto envolveu os 
nossos combatentes, a ponto de não avistarem o inimigo. 

O incêndio, de que lançaram mão os argentinos como 
recurso, foi um evidente signal de fraqueza. 

Um exercito que tem em seu favor as vantagens resul- 
tantes do numero, da qualidade das armas e da posição, não 
se soccorre do fogo para envolver o inimigo: combate a peito 
descoberto, consciente de seu valor e seguro da victoria; não 
colloca a sua valentia por traz de labaredas. 

O ardil foi suggerido como um meio efficaz de salvação. 
Temiam os republicanos que a chegada de Bento Manoel 
Ribeiro, com a reserva de 1.200 homens de cavallaria, deci- 
disse a sorte da batalha, conseguindo o nosso triumpho. 

Deram ao incêndio o papel de concluir a batalha, sem 
riscos de suas vidas. 

Quando occorria este imprevisto incidente que a todos 
encheu de surpresa, soube o general em chefe que haviam 
sido tomadas as carretas de bagagens e de munições. Um des- 
tacamento de cavallaria inimiga, atacando esses trens que mal 
defendidos haviam ficado á retaguarda do exercito, apprehen- 
deu, sem disparar um tiro, duas caixas, encontrando, em uma 
d^ellas, duas velhas bandeiras brazileiras, que foram depois 
figurar jactanciosamente na cathedral de Buenos-Ayres como 
esplendidos trophéos conquistados em combate! Com ellas 
festejavam os argentinos o anniversario da batalha de Itu- 
zaingo, como si a tivessem ganho realmente ! 



CAPITULO XXVI 223 



Vendo que a falta de munições tornava . impossível a 
continuação da batalha; que o incêndio ameaçava contornar 
o exercito; que a brigada ligeira de Bento Manoel Ribeiro 
não vinha em auxilio de seus companheiros (O, o general 
marquez de Barbaceua, obrigado |por força maior, mandou 
tocar a retirada, a qual se effectuou em ordem, sem que os 
argentinos perseguissem as nossas forças. A batalha durara 
II horas. 



( I ) Bento Manoel, que dispunha de excellente cavallaría, fora incumbido 
de observar e hostilizar os flancos do inimigo, mas com ordem de manter-se a 
uma légua de distancia, para, aos primeiros tiros, reunir-se ao exercito. 

Ouviu, com effeito, os tiros, das 6 para as 7 horas da manhã de 20 de 
Fevereiro. Vários officiaes instaram com elle para que marchasse para o logar do 
combate ; Bento Manoel mandou montar e seguiu, náo cm direcção ao Passo do 
Rosário, mas para ponto opposto : foi acampar tranquillamente na estancia do 
Pau Fincado, pertencente ao coronel Manoel Carneiro, a 10 leg^uas de distancia 
de Ituzaingo I Como explicar tào impatriotico procedimento? Parece que. escar- 
mentado com a derrota soffrida em Sarandy, nào quizera expor a sua reputação 
a novo e inevitável desastre. 

O coronel allemào A. A. F. de Seweloh, em suas Reminiscências da cam- 
panha de 1S2/, escreveu sobre Bento Manoel curiosas observações : 

« Bento Manoel devia assumir gloriosamente o papel de uma reserva activa, 
si nós chegássemos a alcançar o inimigo e o fizéssemos parar. 

•Que occasiáo esplendida para conquistar uma reputação immorredoura, 
para colher louros eternos, para tirar uma desforra da ignominia de Sarandy, 
para gravar o nome de heróe nos fastos da gloria brazileira ! Bento Manoel tem 
de dar estricta conta de seu inexplicável comportamento. Era gordo de mais, 
amigo dos commodos. muito inclinado ao do/ce /ar nienie, querendo todos 
os deleites em torno de si e no acampamento ; nenhum cavallo podia supportar 
tão pesada massa : uma grande alma não podia habitar em tamanho corpo. • 

A esta ultima asserção oppomos um pensamento do latinista, grammatico 
c poeta satyrico rio-grandense, Bibiano Francisco de Almeida : 

Annibal, carthaginez, 
De grande e robusto porte. 
Foi lambem de uma alma forte 
\\ grandes façanhas fez. 



224 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



<r A retirada, diz o insuspeito coronel allemão Seweloh, 
foi executada á custa de muitos esforços, na melhor ordem 
e com uma tal serenidade e sangue frio dos soldados, como 
eu nunca esperara no Brazil; e si Buenos-A>Tes era muito 
superior em patriotismo, táctica, organização, equipamento 
e meios de ataque, nós não nos mostrámos inferiores na 
brilhante disposição de nossa retirada, para a qual muito 
concorreu a tranquillidade e coragem inexcedivel do general 
em chefe. » 

Estudada hoje, á luz serena dos factos documentados, a 
batalha de Ituzaingo apresenta o caracter de uma acção 
indecisa; não houve derrota de nosso exercito, mas uma inter- 
rupção de combate, uma retirada honrosa, determinada por 
imperiosas circumstancias occasionaes. 

O próprio commandante em chefe do exercito republi- 
cano, Carlos de Alvear, submettido a conselho de guerra 
pelo governo de seu paiz, pretendeu justificar-se, em sua 
Exposicion^ de não ter podido conseguir victoria, allegando 
que só dispunha de 6.200. homens, ao passo que as forças 
brazileiras subiam a 10.000! 

Os algarismos apresentados por Alvear desapparecem 
deante de provas que foram exhibidas por meio de mappas 
authenticos da qualidade e numero das forças em acção. De 
taes documentos colhemos os seguintes dados estatisticos, por 
meio dos quaes vamos demonstrar detalhadamente a impor- 
tância dos dois exércitos: 



CAPITULO XXVI 



225 



Estatística da batalha de itaiaiago travada a ZO de Tcvcreiro 
de 1827 

EXERCITO ARGENTINO 

Armas, Corpos b Commandí>s. Praças 

Olvallaria: 1.° Corpo — Coronel Frederico Brandsen 460 

■ 2.° • » José Maria Paz ( morreu 02.° com- 

tnandante Bizary) 444 

» 3.° » •> Angelo Pacheco 466 

» 4.° »• •» Juan Lavalle 509 

» 8.° » » Juan Zufríategui 52a 

■ 9.° » • Manoel Oribe 560 

• 16 » » José Olavarria 475 

» Couraceiros — Coronel Anacleto Mediua 495 

» Colorados — Coronel José Mana Villela 500 

» Alleniáes — Barão Hein 260 

« Vangruarda — General Juan António I«avalleja .... 3.690 8.379 

Artilheria : i.° Corpo — Coronel Zuarte com 24 peças 600 

Infanteria: i.° Batalhão — Manoel Corrêa 400 

» 2.*^ •• Vicente Alegre 470 

» 3.° » P^ugenio Garzon 300 

» 5.° » António Dias ou Olazabal 408 1.578 

Total do exercito argentino 10.557 



EXERCITO BRAZILEIRO 



Forças em combate 



Corpos e Commandos 
i.a DivisAo: Brigadeiro Sebastião BirrettoP. Pinto 
2.a » » JoáoChrysostomoCallado 

Artilheria : Coronel Thonié Fernandes Madeira, 

com 10 peças 

1 .0 Brigada ligeira . Coronel Bento Manoel Ribeiro 
2.n » n » Bento (ionçalves. . . 



Cavai. lufant. Artil. Total 



1.496 
645 



590 



897 



Soninias parciaos 2.731 2.036 



240 



240 



2.6,V) 
1542 

240 

590 
5.007 



226 3fEMORIAS BRAZILEIRAS 



Fonças fora de coatbste 

CoRPOft B CoMMANOos Cavai. Iníknt. Artil. Total 

i.a Divisão: Brigadeiro Sebastião BarrettoP. Pinto 197 95—292 

2.a ». • Joáo Chrysostomo Callado 170 58 — 228 
Aitilhería : Coronel Thomé Fernandes 3Cadeira. 

com 10 peças — — — — 

i.aBrigadaligeira: Coronel Bento >Canoel Ribeiro 1.200 — — 1.200 

2.a • » • Bento Gonçalves . . . — — — — 

Sommas parciaes 1.567 153 — 1.720 



Forças em combate 5.007 

» fora de combate 1.720 

Total do exercito brasileiro 6.727 



N<iTA — Não foi comprehendida n*esta estatística a colnmna de 560 paizanos 
de cavallaría, commandada pelo general José de Abren, barão do Serro Laxgo, 
que fazia a vanguarda, porque debandou no começo da acção. 

Por estes dados estatísticos vê-se que a força numérica do 
exercito argentino era de 10.557 praças contra 5-007, de que 
se compunha o exercito brazileiro. 

Confrontando-se dois mappas do inimigo: um organizado 
no dia da batalha e o outro a 22 de Abril seguinte, verificou-se 
1.7 10 homens de diÉFerença para menos — o que demonstra, 
na opinião do duque de Caxias, que a perda dos republicanos 
subiu a mais de i.ooo soldados (M; outros, porém, redu- 
zem-n'a a 250 homens. 

Os brazileiros tiveram 242 mortos, segundo consta de 
documentos officiaes. 



( I ) Vide a resposta do marquez ( depois duque ) de Caxias ás perguntas do 
Instituto Histórico sobre a batalha de Ituzaingo. 



CAPITULO XXVI 227 



Quasi todos os historiadores têem commettido a injustiça 
de acoimar de inepto o niarquçz de Barbacena e de recrimi- 
nal-o pelo facto de não vencer a batalha, como si fosse 
possível a qualquer general obter victoria com um exercito 
pequeno, mal armado, pessimamente mantido, indisciplinado, 
tendo já soffrido os desastres do Rincão das Gallinhas e do 
Sarandy, contra um exercito superior em numero, em orga- 
nização, em disciplina, e, além de tudo, exaltado pelo grande 
sentimento do amor da pátria, que produz em todos os ânimos 
uma espécie de fervoroso fanatismo. Taes escriptores seguem 
erroneamente a tradição, impressionados, pelas accusações 
tremendas que n'aquella epocha de effervescencia politica 
foram levantadas contra o tnarquez, accusações que tinham 
por objectivo magoar profundamente a D. Pedro I, amigo 
intimo do illustre titular. 

Contra Rarbacena ergueu-se no parlamento a voz poderosa 
do deputado mineiro Bernardo Pereira de Vasconcellos, o 
mais possante antagonista do poder pessoal do monarcha ('). 
De todos os revezes da batalha apontou como responsável o 
general, sem lhe levar em conta o deplorável estado das tropas 
confiadas á sua direcção. Desprestigiando-o, Bernardo de 
Vasconcellos attrahia sobre o imperador a odiosidade popular 
— empenho para o qual todas as armas lhe pareciam boas. 



(1)0 ífrandc estadista Bernardo Pereira de Vasconcellos, o mestre do 
parlamentarisnu) brazileiro, o orf^^anizador de nosso Codiffo criminal no primeiro 
reinado, nasi^cu cm Villa Rica, hoje Ouro Preto ( Minas Oeraes ), a 27 dé Agosto 
de 1795 e fallcccu no Rio de Janeiro a 1." de Maio de 1S50. 



228 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Como confirmação valiosa doestes assertos, fazemos nossas 
as pala\Tas que sobre o assumpto escreveu o emérito publi- 
cista bahiano Eunapio Deiró : 

«Bernardo de Vasconcellos analysou todos os erros da 
campanha ; encareceu todos os sacrifícios do sangue do povo. 
Não poupou em seu rigor o general que, \nctima da ineptidão 
do governo, se comportara dignamente no campo de batalha. 
Nos seus intuitos convinha expor a direcção da guerra aos 
ódios populares para ferir, desprestigiar e abater o imperador, 
que teimava em ser senhor absoluto. As accusações que o 
deputado mineiro accumulou contra o general marquez de 
Barbacena, da intima confiança do imperador, foram tão 
graves e calaram tanto no animo nacional, que, transmittidas 
ás gerações successivas, ainda são repetidas. O marquez de 
Barbacena passou aos olhos de seus contemporâneos como o 
responsável de erros que não commetteu e ainda é \nctima 
dos supersticiosos da tradição ( ' ). » 

Mas a posteridade não pôde, não deve constituir-se echo 
inconsciente de paixões p^irtidarias, porém formar friamente 
o seu critério pelo estudo dos documentos que instruem os 
factos. Releva dizer que mesmo n'aquelle tempo outros 
parlamentares preponderantes, como Hollanda Cavalcanti e 



( I ) ErNAPio Deiró: Estudos de hisloria politica — O senador Bernardo 
Pereira de raseoneeitos. Rez'isía da 1'nião Académica ( Rio de Janeiro, 1897), 
fase. I, pags. iTt e 14. 



CAPITULO XXVI 229 



Nicolau Pereira de Campos Vergueiro ('), imputaram os 
desacertos da campanha á incapacidade do ministro da guerra, 
de quem amargamente se queixava o marquez em sua corres- 
pondência official. 

Obedecendo ao progresso da sciencia histórica, que deter- 
mina inquirições novas e impafciaes para a instauração de 
novos processos de analyse e de julgamento, ciunprimos o 
dever de rehabilitar a memoria do marquez de Barbacena, 
collocando-o no logar de honra condigno de sua dedicação 
e de seu patriotismo. A retirada por elle effectuada de 
Ituzaingo ao Passo de S. I^urenço, isento de perseguição do 
inimigo, foi um bello feito de armas, pois equivaleu a uma 
victoria: tal o juizo dos profissionaes. 

Accusado ainda por seus companheiros de armas, briga- 
deiro Cunha Mattos e marechal Gustavo Brown, que, opinando 
contra a retirada, admittiram a possibilidade de nossa victoria, 
foi o marquez de Barbacena dispensado do cargo de general 



( I ) - António Francisco de Paula Hollanda Cavalcanti asseverou que o 
culpado de todas as derrotas que o exercito brazileiro soffria era o ministro 
da guerra, Joào Vieira de Carvalho ( barão de Lages ), pela incapacidade reco- 
nhecida e constante de qu*! dava abonos claros no exercício da repartição 
que lhe estava confiada. Vergueiro, alargando o circulo estabelecido pelos orado- 
res que o tinham precedido na tribuna, combateu o systema politico e adminis- 
trativo inaugurado e seguido pelo governo desde 1823 : quacsquer que tivessem 
sido as mudanças de ministros, perseverava sempre a mesma direcção — o que 
provava a existência do governo pessoal e não de regimen representativo ; de 
secretários de estado e não de ministros responsáveis ; não havia liberdade 
consignada na constituição que não houvesse sido violada ; não se apontava 
direito de que o governo não tivesse zombado. • 

J. M. Pkrkira I).\ Sii.va : Sff^undo período do reinado de Dom Pedro I no 
Brazil — Narrai iva hisiorica ( Rio de Janeiro, 1871 ), pags. 210 e 211. 



230 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



em chefe do exercito em operações no sul. Reassumiu taes 
funcções o general Carlos Frederico Lecór, visconde da 
Lagima. Porém o marquez não decaliiu do grande conceito em 
que o tinha o imperador : este chamou-o a si para confiar-lhe 
missões da alta relevância ( ^ ). 



(1)0 marquez de Barbacena foi incumbido de desempenhar duas impor- 
tantes commissões na Europa : acompanhar ás cortes de Vienna e de Inglaterra a 
prínceza D. Maria da Gloria, advogando para ella a causa do throno portuguez 
usurpado por seu tio D. Miguel, e conseguir nova esposa para o imperador. 

Para o segundo empenho, dirigiu-se D. Pedro a seu sogro, o imperador 
d'Austria, solicitando-lhe a mílo de uma cunhada. É natural que este monarcha, 
sabendo quanto soffrêra sua filha, a prínceza Leopoldina, recebesse ^om extra- 
nheza semelhante pedido. A recusa foi delicada, mas formal. 

Pretendeu D. Pedro casar com uma prínceza da Baviera, porém alguns 
jomaes allemãeso denunciaram como mau esposo, e nada se conseguiu. 

Escolhida uma princeza da Sardenha, nova recusa correspondeu aos empe- 
nhos de Francisco I, interessado em contentar a seu genro. I>mbraram-se de três 
príncezas da casa de Wurtenberg, iodas lindas e mui bem educadas, Paulina, 
Isabel e Antoinette : nenhuma acccitou o pedido. 

Depois da recusa de oito príncezas, foi o marquez de Barbacena visitar o 
duque de Orleans e sondou-lhe a opinião sobre o casamento com uma princeza 
de sua casa. O duque apresentou-lhe esta objecção : — E a marqueza de Santos? 
— Oh ! meu príncipe, atalhou o marquez, com rapidez e destreza, c'esl une affaire 
finte! E accrqscentou logo, para se não comprometter em tão melindroso 
negocio : A questão é que não tenho auctorização alguma a este respeito, pois o 
casamento foi confiado ao imperador d' Áustria e não a mim — e passou ligeira- 
mente a conversação para outro assumpto. 

Em carta dirigida ao marquez a 27 de Junho de 1828 dizia-lhe D. Pedro : 
■ O meu desejo e grande fim é obter uma princeza que por seu nascimento, 
formosura, virtudes e instrucção, venha a fazsr a minha felicidade e a do imperío. 
Quando não seja possivel reunir as quatro condições, podereis admittir alguma 
diminuição na prímeira e quarta, comtanto que a segunda e terceira sejam 
constantes. Todos os meios que a vossa sagacidade e zelo empregar para conse- 
guir este fim, serão por mim approvados, e por isso vos incluo três assignaturas 
em branco e ponho á vossa disposição a minha legitima. Estou certo que desempe- 
nhareis as funcções de fiel creado, tanto acompanhando minha filha e rainha de 
Portugal para Vienna, como minha augusta noiva para o Brazil. » 

Atravez de mil difficuldades e intrigas politicas de Mctlemich, celebre 
ministro de Francisco I, conseguiu o marquez de Barbacena celebrar contracto 



CAPITULO XXVI _ 231 



Descontente o governo argentino pelo facto d^ não ter 
o general Carlos de Alvear conquistado a victoria que se 
esperava da superioridade de suas forças, que nem foram 
empregadas em perseguir os brazileiros, quando estes, suspen- 
dendo o fogo, se recolheram para o Rio Grande do Sul, 



matrímonial, a 30 de Maio de 1829, entre D. Pedro e a prínceza Amélia Augusta 
Eugenia, filha da duqueza de Leuchtenberg e sobrinha da imperatriz d'Atts- 
tria. ( * ) Este satisfactorio resultado foi obtido por interferência do visconde 
da Pedra Branca. Para obstar se o casamento propalou -se, ora que a marqueza de 
Santos iria á Europa, ora que Pedro I havia tratado casamento com ella. 

Na opinião dos ministros austríacos, o imperador do Brazil fora assassino de 
sua esposa. 

Logo que teve noticia de que se tratava de segundas núpcias, a marqueza de 
Santos pretendeu impedir que o casamento se effectuasse e exigiu a destituição 
do marquez de Barbacena : este foi substituido pelo marquez de S. João da 
Palma. Era obediência á amante, escreveu D.. Pedro a Barbacena desistindo do 
casamento ; porém chegou tarde esta deliberação, pois que o contracto já havia 
sido effectuado. Mallogrou-se a victoria de Domitilia. Findou o escandaloso 
romance. Após fortíssima altercação com D. Pedro, retirou-se ella do paço. 

A 20 de Julho de 1829 mandou D. Pedro o ministro do império á residência 
da marqueza declarar-lhe que, estando justo o seu casamento, era necessarío ao 
decoro imperial que ella sahisse do Brazil ; que se lhe daría Tfxtxxxl^ooo por seus 
prédios. A marqueza respondeu que por coisa alguma abandonaria o paiz ; que 
nào se julgava críminosa para ser desterrada. Como apezar de todos os empe- 
nhos, persistisse em ficar, o imperador expediu ordem para que lhe fossem reti- 
rados os creados e escravos que a serviam e que ella só recebesse a pensão de 
iioooSooo mensal, garantida por decreto. Assim findaram definitivamente as 
relações que durante 7 annos manteve D. Pedro com a celebre Domitilia ou 
Domitilia ou Demithildcs, marqueza de Santos. 

A 2 de Agosto de 1829 celebrou-sc oíficialmente em Munich o casamento do 
imperador com a princcza D. Amélia de I^uchtenberg. 

A 27 de Agosto reunirara-se a bordo da fragata brazileira Ipnperairiz, surta no 
porto de Portsmouth, a imperatriz D. Amélia, seu irmào o príncipe Augusto, a 
rainha de Portugal D. María da (»loria, D. I«eonor da Camará, preceptora da 
rainha, e os marquezes de Barbacena e de S. Jofto da Palma. 

( • ) I). Amélia nasceu em Munich a 31 de Julho de 1812. Casou, portanto, 
aos 17 annos. Kallcceu em Lisboa, no Palácio das Janellas Verdes, a 26 de 
Janeiro de 1S73. 



232 MEMORIAS BRÂZILEIRAS 

demittiu o referido official de seu elevado cargo e o substituiu 
pelo general Dorrego. 

Por intervenção da Inglaterra firmou-se no Rio de Janeiro, 
a 27 de Agosto de 1828, o tratado de paz, figurando por 
parte da Republica Argentina os generaes Balcarce e Guido. 



A 16 de Outubro de 1829 cheg^avam ao Rio de Janeiro as duas soberanas. 

Effectuou-se no dia seg^uinte o casamento religioso. 

Para solemnizar este acontecimento, II Pedro creou a ordem da Rosa, 
inspirado na côr do vestido com que desembarcara a imperatriz. 

Plenamente sati.sfeito com as commissões desempenhadas pelomarquez de 
Barbacena, o imperador agraciou-o com agran-cruz da ordem da Rosa; concedeu 
o titulo de visconde de Uarbacena, com grandeza, a seu filho primogénito, 
Felisberto Caldeira Brant e nomeou camarista a seu filho segundo, Pedro Caldeira 
Brant. 

»0 marquez de Barbacena, diz o seu biographo, foi ó primeiro súbdito a 
quem o imperador deu o habito da ordtrm de Pedro I, concorrendo a circum- 
stancia de, indo um dia o marquez ao paço receber as ordens de D. Pedro, ter a 
imperatriz segurado na fita do habito, cniquanto o imperador com um alfinete 
prendia-a na casaca do marquez (*).>• 

Como publico testemunho da maisalti consideração, dirigiu-lhe o monarcha 
a seguinte carta-alvará : 

• Honrado marquez de Barbacena, amigo. Eu, o imperador constitucional e 
defensor perpetuo do Brazil, vos envio muito saudar, como aquelle que muito 
amo. 

" Havendo-vos encarregado não s6 de acompanhar á Europa minha muito 
amada e prezada filha, a rainha de Portugal e Algarves, D. Maria II, que hoje por 
ordem minha c zelo vosso se acha n'esta muito heróica e leal cidade do Rio de 
Janeiro ; mas também de tratar do meu casamento, já felizmente eflfectuado : 
E tendo muito a meu contento e com o vosso costumado desinteresse desempe- 
nhado commissões tão delicadas : Hei por bem hourar-vos por estes singulares 
serviços, e para que todos os meus sulxlitos conheçam o apreço que faço de vossa 
pessoa, vos mando esta. 

" Nosso Senhor vos tenha em sua santa guarda. 

" E-icripta no Palácio do Rio de Janeiro em 2 de Dezembro de 1829, 8.f> da 
independência e do império. Impkr.\ih)R. — Jos<^ Clemcníc Pereira. — Snr. mar- 
quez de liarbacena. » 

( ■• ) \ ordem de Pedro I, creada a 16 de Abril de 1826, distinguiu, além de 
alguns membros da faniilia imperial, somente a dois brazileiros : o marquez de 
Barbacena e o du<iue de Caxias, quando voltou d.i guorra do Paraguay. 



CAPITULO XXVI 233 



N'esse documento o Bmzil reconhecia a independência da 
Provincia Cisplatina, que passou a chaniar-se Estado Oriental 
do Uruguay, 

Em virtude do tratado, a 24 de Abril de 1829 o general 
Francisco José de Souza Soares de Andréa retirou as forças 
brazilèiras que occupavam a cidade de Montevideo. 

No decorrer dos annos de 1827 ^ ^828 grande numero de 
tratados commerciaes foram estabelecidos com as principaes 
potencias européas e com os Estados Unidos da America do 
Norte; inaugurou-se a Faculdade de Direito de S. Paulo a 
i.° de Março de 1828 e a de Olinda a 15 de Maio do mesmo 
anuo; por lei de 15 de Outubro de 1827, fbram estabelecidas 
muitas escolas de primeiras lettras em todas as cidades, villas 
e povoações, e doeste modo satisfeitas as reclamações do 
commercio c da instrucção popular. 

Desejoso de combater a impopularidade em que o seu 
governo demasiadamente pessoal cahia cada vez mais, 
D. Pedro, attendendo ás reclamações feitas contra os vexames 
do recrutamento, mandou engajar na Europa colonos, sob 
promessa de empregal-os no serviço da agricultura, mas 
destinados a reforçar os corpos de soldados allemães existen- 
tes no paiz. 

Doesta commissão foi incumbido o coronel inglez Cotter, 
por cuja influencia vieram para o Brazil cerca de 3.000 
homens, irlandezes c allemães, attrahidos \k>x um contracto 



234 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

que lhes oíferecia as vantagens seguintes: passagens, salários 
de um shilling diário ( vigésima parte de uma libra esterlina) ; 
alimentação; vestuário por determinado tempo; concessão 
gratuita de quarenta geiras de terras férteis a quantos 
servissem no exercito por espaço de 5 annos e faculdade de 
regressar á pátria, caso não quizessem permanecer no Brazil. 
Pelo contracto eram obrigados a apprender exercicios mili- 
tares durante 4 horas por dia. Acceitas estas bases, chegaram 
ao Rio de Janeiro os colonos, e como o governo lhes não 
tivesse mandado preparar alojamentos, foram recolhidos aos 
quartéis de S. Christovão, da rua dos Barbonos e .da Praia 
Vermelha. 

Pungente desengano os esperava. 

Snppunham vir encontrar collocação immediata em 
terras devolutas e instrumentos de trabalho que lhes garan- 
tissem bem estar e relativo conforto; infelizmente, a impre- 
vidência do governo os deixou em cruel abandono. Quando 
sabiam a percorrer as ruas, fugindo ao ar insalubre dos aloja- 
mentos, e expunham em espectáculo a sua desoladora 
miséria, desfigurados, andrajosos, semi-nús, descalços em sua 
maior parte, a garotagem os perseguia com apupos, levando 
ás vezes a sua selvajaria a ponto de os aggredir a pedradas. 

Protestaram os infelizes contra a barbaridade de tal 
acolhimento, e, queixando-se de que haviam sido illudidos, 
pediram ao governo os fizesse regressar a seus paizes. 

Como solução a tão justificado descontentamento, viram-se 
obrigados a assentar praça, formando assim três batalhões. 



CAPITULO XXVI 235 



No quartel do campo da Acclaniação, hoje Campo de 
SanfAuna, estacionou um corpo de irlandezes e em S. Chris- 
tovão e Praia Vermelha dois corpos de allemães, com as 
denominações: aquelle, 3.^ de granadeiros, e estes, 2.° de 
granadeiros e 28.° de caçadores. 

Os allemáes que guarneciam S. Christovão (2.° de grana- 
deiros) levantaram-se, pelo facto de ser castigado um soldado 
pertencente ao referido corpo: insubordinaram-se também os 
outros dois corpos, a ponto de na Praia Vermelha assassinarem 
o major Benedicto Theola, accusado de lhes roubar o soldo. 

Deu-se o primeiro conflicto do seguinte modo: A um sol- 
dado allemão, que deixara de fazer a continência devida a 
um official, fora applicado certo numero de chibatadas, e no 
dia seguinte, recusando elle despir-se para continuar o castigo, 
ia-se-lhe duplicar a flagellação, quando sobre o facto inter- 
vieram seus camaradas, indignados pela severidade brutal: 
conseguiram pela força arrancar a victima a seus verdugos, 
declarando que a continência não era obrigada depois das 
Ave-Marias. Alguns irlandezes reuniram-se aos allemães de 
S. Christovão e dois batalhões allemães chegados, havia pouco, 
de Pernambuco, juntaram-se aos irlandezes do Campo de 
SantWnna. Por ordem do ministro da guerra, commandou as 
forças brazileiras o conde do Rio Pardo. Durante os dias 10 
e II de Junho de 1828 esteve o Rio de Janeiro em alarme. 

No conflicto morreram 60 extrangeiros, ficando feridos 
cerca de kx). 

O soldado allemão Stcinhausen, chefe dos que intercederam 



236 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



ein favor de seu compatriota deshumanamente pnnido, foi 
fuzilado, recebendo a descarga com o sangue frio próprio de 
heroe que se sacrifica por uma causa justa. 

Ordenou o governo fossem dissolvidos os três batalhões 
e se retirassem do Rio de Janeiro; 1.400 irlandezes regressa- 
ram para a sua pátria ; 600 allemães seguiram paia as colónias 
do Rio Grande do Sul e loi familias irlandezas, compostas 
de 222 pessoas, patrocinadas pelo visconde de Camamá, pre- 
sidente da provincia da Bahia, foram estabelecer um núcleo 
colonial no sitio do Rio do Engenho, comarca de Ilhéos. 

Para restabelecer a ordem, o imperador demittiu do cargo 
o ministro da guerra Francisco Cordeiro da Silva Torres e o 
substituiu por Joaquim de Oliveira Alvares, mais tarde vis- 
conde de Jerumirim. Solidários com seu collega, pediram 
demissão o ministro do império Pedro de Araújo Lima, depois 
marquez de Olinda ; o da justiça Lúcio Soares Teixeira de 
Gouvêa e o da fazenda Miguel Calmou du Pin e Almeida, 
depois marquez de Abrantes. 



CAPITULO XXVII 



A IMPRENSA BRAZILKIRA KM 1828. I^EVANTAMKNTO Dlv PRETOS 

NA Bahia. O contra-almirantk kranckz Rovssin. 

Motim no Recife. Attitudk da Camará contra as commissões 

militares. Ministros accusados. 

A FALA DE encerramento DA CaMARA — 1828 E 1829. 



XfO anuo de 1827 ^"^ cleante começou D. Pedro a sentir 
em sen tlirono fortíssimos abalos. Como as trombetas que, 
segundo a tradição lendária, derrocaram os muros de Jerichó, 
outra tuba mais sonorosa e mais potente convulsionava de sul 
a norte as velhas instituições, proclamando as garantias 
e os direitos do povo e reclamando o serio cumprimento das 
praticas constitucionaes e representativas, abertamente fal- 
seadas pelo imperador. Surgia a imprensa livre, a imprensa 
flagelladora, erguida contra humilhações e opprobrios; na 
phra.se hugoana, «^o clarim vivo da humanidade, a tocar a 
alvorada dos povos, anniniciando em voz alta o reinado do 
direito. » 

Km 1S2S existiam no paiz 37 jornaes, discriminados 
do seguinte modo, por províncias, ix)r partidos — /irres 



238 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



OU opposicionistas e ministeriaes ou govemistas — e neu- 
tros: 

Para — TeUgrapho /\i roeu se. neutro. 

Maranhão — Pharol Marapihense, Observador ConstitucionaL livres; 
A Minerva, ministerial. 

Ckara — O Cearense . neutro. 

Pernambuco — Abelha Pernambucana^ Constitucional, Diário de Per- 
nambucOy livres; Cruzeiro, --/w/^c; </t? /Vív, ministeriaes. 

Uahia — O Bahiano. livre: O Pkarol, A Gazeta da Bahia, Correio 
da Bahia, ministeriaes. 

Rio dk Jankiro — A Malagueta, A Astréa, Luz Brazileira, A Aurora 
Fluminense, livres; Diário Fluminense. Jornal do Commeriio, 
Analvsta. Courrier du BrrsiL ministeriaes; Diário do Rio (só 
ilc annuncios)» neutro; em Nictheroy — Echo da Praia Grande. 
neutro. 

Minas (íkraks — Omv /Veto. O Cniztrsal, S.Joâod^ElRei, O Astro, 
TejuciK O Echo do Serro, livres; 5. João d^ El- Rei, Amigo da 
l enfade. Oun> /Wto. TeUgrapho, ministeriaes. 

S. Vwi.o — J^and J\tulista. livre. 

Rio (iRANHK po Si'i. — Constitucional Rio Grandense. O Amigo do 
Homem e da Pitria, livres. 

Antes de assignalar a decidida influencia que A Aurora 
Fluminense e.xerceu nos destinos de nossa pátria, temos prazer 
em apresentar, como homenagem de homem de imprensa, 
rápida noticia sobre a mais antiga e a maior das gazetas que 
presentemente honram o continente sul-americano. 

O francez Emilio Seignot Plancher, dono de uma typo- 
graphia situada á rua do Ouvidor n. 203, encetou no anno 



CAPITULO XXVII 239 



de 1824 a publicação do Spectador Brasileiro^ periódico 
publicado três vezes por semana e diariamente quando func- 
cionava a assembléa legislativa. Pela abundância de noticias e 
pelo critério de sua redacção, mereceu a gazeta accei tacão do 
publico fluminense, o que animou Emilio Plancher a melhorar 
as condições materiaes de sua empreza. No anuo de 1827 
mudou o proprietário o titulo da folha para Jornal do Com- 
mercio, 

O primeiro numero d'este jornal appareceu a i.° de 
Outubro de 1827: era de tamanho de uma folha de papel 
almasso, commum, a duas columnas, fonnato em quatro 
paginas de 20X30^'". 

Abaixo do cabeçalho lia-se: 

« De hoje por deante continuar-se-ha a publicação doeste 
Jornal do Commercio. 

«Esta folha exclusivamente dedicada aos senhores nego- 
ciantes conterá diariamente tudo o que diz respeito ao com- 
mercio, tanto em annuncios, como em preços correntes 
exactos de importação e exportação, entrada e sabida de 
embarcações, etc, etc. 

«Os proprietários bem ao facto de todos os ramos mer- 
cantis doesta capital não pouparão nem despezas nem zelo 
para tornar esta empreza digna de acceitação publica, e 
rogam para melhor desempenho dos seus deveres a protecção 
e assistência do honrado corpo do commercio. 

ff As assignaturas se fazem na rua d' Alfandega n. 47, onde 
igualmente se recebem, antes do meio dia, todos os annun- 



XEXOftlAS gl \7TI.Frtt IS 



»0 prep> da aásfgaatiKa c de 640 réis px* mcz. pagos 

A 21 de Dezembro de 1527 stirgic di t\-p»3grapfeLi do 
Diário d/> Rio dejant^irj a f->Iba pjlitica e Iittenrii intiitiLida 
-'I Aurora Fiumin^mir:, fcndada p>r José Apo-Iiiaario de 
Moraes, cstniante do iíetnínario de S. José e natural de Porto 
Alegre, Ar. José Francisco Srgand, Fiaiicisc3 Chrispiniano 
y^látULTo e Evaríàto Ferreira da Veiga. Trazia como epigra- 
pbe esta quadra de ama poesia de D. Pedro I : 

Pelo Brazxl dar a \'ida 
3fanter a constituição. 
Sostentar a independência 
H a nossa obrigação. 



• I . ActoAlineTite ojornnl dtj C:'^m^r^ /..* apresenta o fonnaro de 5^ 7>^«". 
a iK»ve cotoninaA pf>r pagina, tjpo corpo 7. .\ media das paginis diárias ^ de i<x 
ttndff já publicado yi em occasiôe* e*peciae*. 

A a%4Í|niatara é de 6rj$rjrjo por aano. 

Em K/-*! *eu pe^v-jal effectivo companha-se de 4><> pessoa*. 

K «en fferente e redactor-chefe o dr. Jopé Carlos Rodrigues, qne o adquiriu 
pí/T compra, a 17 de Outubro de iV>i. com 2; associado*, pela quantia de 
5.yr>/^r^^xio, v>b a firma Rodrij^es Ac C- 

Pela aucVirídade de suas opiniões e por seu brilhante des€n\T>lvimcnto — 
testemunho diarío e eloquente de nf>ssa civilisaçào — é esta gazeta uma das mais 
imprjrtantes da .\meríca latina. 

I.'m de seus redactores e chsfe di reportagem. Ernesto Senn.a. publicou em 
K^íi um opúsculo de 17 pigínas í^»h o titulo /<.>/// j/ Jo Li>mnj€rci'>. com aponta- 
mentíis minuci'>sr^ s/>bre e«ta illustre empreza. 



CAPITULO XXVII 241 

Em fins do anno de 1828 assumiu Evaristo Ferreira da 
Veiga {^) a exclusiva redacção da Aurora^ imprimindo-lhe 
caracter fortemente politico e contrario ao governo do impe- 
rador. Pela elevação e brilhantismo das idéas, moderação da 
linguagem e sisudez dos conceitos, tornou-se esta notável 
gazeta órgão do partido liberal vwderado e impulsionou o 
espirito publico, orientando-o na apreciação dos factos poli- 
ticos. Todas as grandes qualidades que distinguem um jor- 
nalista possuia-as o fluminense patriota, tomando-o distincto 
entre seus collegas. 

Em seu artigo Progresso do jornalismo no Brazil^ ofFere- 
cido no anno de 1846 ao Instituto Histórico e Geographico 
do Brazil, Francisco de Souza Martins consagrou á folha 
liberal este elogio: 

« Entre os jornaes que subsequentemente se publicaram, 
faremos especial menção da Aurora Fluminense^ periódico 
politico, que começou a sahir á luz em Dezembro de 1827 
e que em todo o tempo de sua existência de 8 annos gosou 
de uma voga extraordinária, porque parecia dirigir a opinião 
publica das principaes classes da população, pela justeza de 
sua crítica, pela polidez de suas expressões^ e jovial ironia 



( I ) Evaristo Ferreira da Veiga, que exercia a profissáo de livreiro, nasceu 
no Rio de Janeiro a 8 de Outubro de 1799 e faUeceu a 12 de Maio de 1837. Foi 
eleito deputado por Minas Geraes em três legislaturas, de 1830 a 1837, sendo 
n'esta ultima também eleito pelo Rio de Janeiro. Kra sócio benemérito da socie- 
dade Amante da instrução, sócio do Instituto Histórico da França e da Arcádia 
Romana (Vide Blake). 

31 TOM. II 



coca irn»^ rrart-rx seus jcr^rsancft. ± grrniTTnai nrenn^ peias 
n iT'*-".>T>g jirtp^-H^ 5ir:Ês5!uias jonr ^r<:t*TTu;fHT e bem àeoso 
p^íErâr::. : rie K^irssn. lo parriio íe itce -iin. or^õo a deixo» 

Dtí A^rfrrx cEz o ín Miim^^eL Diiarts MjiJEHra ie Azevedo 
eat «a escufo Orz^^m d Á:st!7tzrfn'::iJnér:tr.j mi imprensa na 
Riu dé J'jjt£ir}'. « Exn vez ie divagações imiíscre&is e hrs^ri.saSii 
qoe pecavam as pai^ínos dos :xrijDCÍC3s da. ;^ocicu lior^ie 
n^aonelle •ornai tttizt 'fTT^nijT pnT ex^resâva, ooran. ccnxxme^ 
dífia* TTTin ironia frisante. oorén branda* T^reciísão e Jnidez 
30 esc/lo» beíleza e riqneza ie idéas - . » Em ien Dicdonariú 
Bzbíiâigrdphico, o dr. Sacramerti: Bíake àz de Evaristo da 
Vei;ça esta landatoria apreciação : ■ Foi aa. Aar-tra qne 
Evaristo elevon-fie i altara a *:^ae nenham -ornalista nosso 
fem sabido: esta íblSa pôde áer consulmiia com âegriTTmça 
omio am thesonro da histeria ia. epoclia. » 

Com am. contendor doesta ordem, serenamence Djrmidor 
veL e com a opposição ciienada aa camará por Bernardo 
Pereira de Vasconcelli^s, nosso ^lirabean peia enerva das 
ji:casaç'3es. o poder aactontario de D. Pedrrj senda-se desom^ 
parado de rodi?s es paírj^cas e rendia a desapparecer rapida- 
mente de nosso -nienario politico. 

r.'m le\^nm mento de escravos apparecen na Bailia cm 
ilarço ie i^::S. Na madragada lio dia > grande maldiiào de 



R^v. iu Sn:. :-í'^:. !Dni. VTII, paiç joj., 
1 R." in S-i::!. .Y:./.. :um. XXV IIL z. » part. pag 



CAPITULO XXVII 243 



africanos abandonaram os engenhos em que serviam e foram 
reunir-se em Pirajá, dispostos a reagir contra a oppressão 
isemi-barbara de seu captiveiro. 

Logo que o presidente da provincia José Egydio Gordilho 
de Barbuda, visconde de Camamú, teve conhecimento d*esta 
rebellião, antes que os pretos, por vingança, praticassem 
correrias e attentados, fez apromptar um corpo de policia e 
um batalhão de milicianos, visto que as tropas de linha 
haviam marchado para as guerras no Rio Grande do Sul e 
na Cisplatina, e expediu aquellas forças contra os negros 
sublevados. 

Deu-se o encontro nas immediações de Pirajá: mais de 
600 pretos foram mortos a tiro e a espada ; 350 presos, acor- 
rentados e conduzidos á capital, calculando-se em 200 os que 
conseguiram escapar á perseguição, internando-se nas mattas. 

A 5 de Julho de 1828 partiram para a Europa a fragata 
Imperatriz e a corveta Z>. Francisca^ levando a princeza 
D. Maria da Gloria, rainha de Portugal, acompanhada do 
marquez de Barbacena, incumbido por D. Pedro de inter- 
ceder, junto ás cortes clWustria ou de Inglaterra em favor 
d*aquella soberana, cujo throno havia sido usurpado por 
D. Miguel de Bragança. 

N'este mesmo dia 5 entrou a barra do Rio de Janeiro o 
contra-almirante francez barão de Roussin com a nau Jèan 
Bart e as fragatas Im Terpsichore e IJ Arethuse e o brigue La 
Railleusc, Juntarani-se estes navios aos existentes no porto 



244 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



— corvetas LVsis e Lésbia e brigue Llris^ pertencentes á 
divisão naval fr^nceza do Brazil e do Rio da Prata. A esta 
força incorporarani-se o brigue Le Cygne^ chegado de Mon- 
tevideo a 8 e a fragata La Magicicnne no dia 1 7. 

Encarregado por seu governo de empregar meios violen- 
tos, Roussin reclamou de nosso governo a prompta entrega 
dos navios de sua nacionalidade que foram apresados no 
bloqueio do Rio da Prata. 

Não era possivel resistir a esta formal intimação, porque 
a capital do império só tinha em seu porto a nau Pedro /, 
a fragata Fhrincipe Imperial^ a corveta Carioca^ os brigues 
Pampeiro e Pirajá e a canhoneira Despique Paulistano, 

Dizem alguns historiadores que dispunha-se Roussin a 
bombardear o Rio de Janeiro e já tinha para isso mandado 
accender morrões ( ' ), quando o governo imperial ordenou a 
entrega dos navios questionados. Exigiu este official o paga- 
mento immediato de imdemnização por prejuisos e damnos 
sofFridos pelas embarcações. Convencionou-se que tal paga- 
mento se effectuaria no decorrer do anno de 1829 ^ assim 
apaziguou-se o conflicto internacional (-)• 



( I ) o iUustrado pesquisador btazileiro, baráo do Rio Branco, nega este facto, 
dizendo á pajç. 174, i.o vol., de suas Ephemèrides Brazileiras ( Rio de Janeiro, 
1892 ) : « K inexacto que Roussin houvesse apresentado de morrões accesos a sua 
reclamação e que as duas camarás estivessem dispostas a resistir. » 

( 2 ) « A convenção para pagamento das indemnizações reclamadas pelo 
barão Roussin foi celebrada a 21 de Agosto de 1S28, e encontra-sc (não tendo sido 
publicada na collecção das leis ) á pag. 64 do vol. II dos Apontamentos pata o 
direito internacional pelo conselheiro António Pereira Pinto. » 

I,uiz Francisco da Veiga : O primeiro reinado estudado á luz da 



CAPITULO XXVII 245 



Em principio do anuo de 1829 ^^"-se um motim popular 
no Recife, conseguindo os sediciosos arrombar a cadeia e soltar 
os presos, para auxilial-os no intento de se depor o governo 
legal e inaugurar-se de vez a republica. Suffocada a revolta, 
D. Pedro, por decreto de 27 de Fevereiro de 1829, declarou a 
provincia em estado de sitio, isto é, foram suspensas todas as 
garantias constitucionaes, para que uma commissão militar, 
presidida pelo governador das armas, brigadeiro Antero José 
Ferreira de Britto, pudesse verbal c siimmarissimamentc 
julgar os implicados em crime de rebellião. 

Por um só decreto viram-se doze provincias privadas 
da liberdade individual, entregues a verdadeiros tribunaes 
inquisitoriaes, sem terem para quem appellar, porque o crime 
de lesa-constituição partia do próprio monarcha. 

O execravel decreto, com que D. Pedro, ainda uma vez, 
feriu os brios de nossa pátria, foi concebido n*estes termos: 

«Tendo apparecido na provincia de Pernambuco uma re- 
bellião que pretende destniir a forma do Governo Monar- 
chico Constitucional, estabelecido e jurado n^este império ( ' ) ; 
e sendo possível que se desenvolvam algumas ramificações 
doesta rebellião na provincia do Pará: Hei por bem, tendo 
ouvido o meu Conselho de Estado, fazer ostensivo a essa 
provincia o decreto da data de hoje que crêa uma commissão 



SC iene ia ou a Hevolução de 7 de Abril de jSjí justificada pelo direito e pela 
historia ( Rio de Janeiro, 1877 ) pag. 126, nota n. i. 

( I ) li perjurado pelo chefe da naçfto . . . 



246 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



militar na província de Pernambuco ; a qual será semelhan- 
temente composta do governador das armas como presidente; 
de iim juiz relator, que será o ouvidor da comarca ou magis- 
trado da terra mais visinha, e de três vogaes, nomeados pelo 
dito . governador das armas, logo que na mesma provincia 
se suspendam as formalidades que garantem a liberdade 
individual. As auctoridades, a quem o conhecimento d'este 
pertencer, o tenham assim entendido e o façam executar. 
Paço, em 27 de Fevereiro de 1829, 8.° da independência 
e do império. Com a rubrica de sua magestade imperial e 
constitiicionaL Referendado pelo ministro da guerra Joaquim 
de Oliveira Alvares. » 

De egual teor foram expedidos decretos- para as provincias 
do Maranhão, Piauhy, Ceará, Rio Grande do Norte, Para- 
hyba, Alagoas, Sergipe, Bahia, Matto-Grosso e Rio Grande 
do Sul (^), com differença, porém, que para esta ultima 
provincia foi em data de 16 de Março do mesmo anno, e para 
as provincias do Ceará, Piauhy, Rio Grande do Norte, Para- 
hyba, Alagoas e Sergipe, se declarou — Commandante das 
armas como presidente. E para as de Maranhão e Bahia 
se dizia, quanto ao juiz relator: que será o ouvidor do crime, 
segui ndo-se logo: e de três vogaes, etc. 

Interprete dos clamores e protestos que se «erguiam de 
norte a sul do império, abriu-se a assembléa geral, extraor- 
dinária, a 2 de Abril de 1829. 



( I ) Apavorado com a sua própria sombra, D. Pedro I via conspiradores em 
toda a parte do Brazil. 



CAPITULO XXVII 247 



Em vez de procurar diminuir os effeitos causados pelas 
medidas de extremo rigor com que affrontára todo o paiz, 
D. Pedro empregou na fala do throno expressões de ameaça, 
como si fora o czar de todas as Russias, ou como si, em 
pleno parlamento, quizesse, de botas e chicote, caricaturar 
Luiz XIV e aíErmar perante a America: «O Estado sou eu.» 

Fazendo referencia ao motim popular occorrido em 
Pernambuco, disse D. Podro no documento ofEcial apresen- 
tado á nação : 

«A ordem e o socego interior das nossas províncias que 
se acham em perfeita tranquillidade foi alterada somente na 
de Pernambuco, onde //;;/ partido desorganisador ousou, a 
despeito de todas as considerações, levantar a voz da rebel- 
lião, contra a qual o governo foi obrigado a tomar medidas 
extraordinárias, por ser de meu rigoroso dever alçar^ em casos 
taes, a espada da justiça^ como sempre farei com egual 
energia contra qualquer partido que se arrojar a ofíender a 
forma do governo monarchico, constitucional, represen- 
tativo. « 

A espada da justiça alçada pelo imperador era a suspensão 
de garantias individuaes e o julgamento por militares, sem 
forma alguma de processo. 

Discursos enérgicos foram proferidos na camará dos 
deputados, a estigmatizar o deshumano procedimento do 
monarcha e de seus ministros da guerra e da justiça. Os 
decretos de 27 de Fevereiro de 1829, espalhados no paiz como 
pregões de tremendos castigos a todos os brazileiros patriotas, 



248 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



constituirain o assumpto de discussões calorosas, de qtie 
devemos dar idéa n'esta obra, por meio de tópicos de 
sensação. 

Em sessão de 11 de Abril, disse o deputado Xavier de 
Carvalho: 

«Srs. A provinda de Pernambuco soffre hoje o maior dos 
flagellos; entregue á commissão militar, que obrará conforme 
a vontade de seu commandante das annas, está sendo devas- 
tada! E poderá a camará ser indifferente a tão grande 
calamidade publica?» 

Em sessão de 14 do mesmo mez, o deputado Hollanda 
Cavalcanti : 

tf A pátria, srs., está em perigo, como se deduz da fala do 
throno; e quem nos diz que o poder moderador reconhece 
que devemos lançar mão de um expediente forte para reme- 
diarmos os nossos males? Deverão os ministros ficar como 
Nero, rindo-se á vista do incêndio de Roma? É preciso, srs., 
que façamos sentir aos ministros o peso de seus crimes ; nada 
de contemporização ; o negocio é urgente, seja prompto o 
remédio. » 

O sr. Ferreira França : 

«Que é isto, sr. presidente? A camará pede ao governo 
informações sobre decretos que entregam á morte cidadãos 
brazileiros, sem a menor formalidade, e o governo diz que 
não quer mandar taes infonnações? A camará deve fazer um 
acto pelo qual declare que ninguém cumpra nem obedeça a 



CAPITULO XXVII 249 

taes decretos ! Violou o governo a constituição e havemos de 
ser mudos espectadores doestes acontecimentos?» 

Em sessão de 24, o sr. Custodio Dias: 

« Ousou o ministério suspender todas as garantias indivi- 
duaes do cidadão, creou um tribunal horroroso, para, sem a 
menor das formalidades, entregar á morte os paciíicos cida- 
dãos brazileiros, e ha de esta camará demorar a punição de 
tanto crime?» 

O sr. Hollanda Cavalcanti : 

« Chegaram noticias de Pernambuco e sabe-se a tranquíl- 
lidade de que gosa aquella provincia. O ministério, que tão 
prompto fora em lavrar esses decretos de sangue^ fica esque- 
cido de os suspender, como lhe cumpria ! Ignora alguém que 
o ministro da guerra lavrou um decreto, creando uma 
commissão militar n^aquella provincia, facto este que é 
sufficiente para o cobrir de ignominia eterna? Desenganem-se 
os déspotas e seus satellites: a liberdade é actualmente 
partillia da America! O génio da liberdade adeja sobre o 
continente americano, desde o estreito de Behring até ao 
cabo d^Horn!» 

Após estas vehementes palavras, o digno deputado por 
Pernambuco apresentou duas denimcias formaes contra o 
ministro da guerra, Joaquim de Oliveira Alvares, e contra o 
ministro da justiça. Lúcio Soares Teixeira de Gouvêa, por 
terem violado a constituição. 

O sr. Xavier de Carvalho : 

« Pernambuco, uma das principaes provincias do império, 

M TOM. II 



250 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



não parece hoje província de um estado constitucional, parece 
antes pertencer á Turquia do que ao Brazil. Ahi não impera 
a lei, não ha garantias; só domina uma commissão militar, 
flagello da humanidade e corpo de delicto dos crimes dos 
actuaes ministros. Ahi só governa a vontade de um comman- 
dante das armas, a cujo aceno corre o sangue brazileiro. . . 
quis taliafando temperei à lacrimisfi» 

Em sessão de 6 de Maio apresentou Bernardo de Vascon- 
cellos requerimento, exigindo do governo esclarecimentos 
sobre os successos de Pernambuco. « Havemos de consentir, 
exclamou, que continue a executar-se um decreto sanguinário^ 
um decreto tão bárbaro como ainda o mundo não viu ? » 

Em sessão de 11 de Maio, o sr. Limpo de Abreu: 

« É indispensável que n'esta occasião, a mais própria que 
se offerece, a camará dos deputados dê á provincia de Pernam- 
buco, á nação brazileira e a todo o mundo uma prova 
irrefragavel de que jamais approvará medidas que forem 
oppostas á constituição politica do império. . . » 

O sr. Bernardo de Vasconcellos : 

« E como ousaram estes ministros chamar no discurso do 
throno espada da justiça o que é realmente espada da iniqui- 
dade, do crime e do horror? Pôde haver justiça no paiz em 
que não ha garantias? Ah! saiba o mundo que o Brazil todo 
abomina ministros que desembainham taes espadas ! 

«Pouco ha que se leu o officio do ministro da guerra, 
declarando que as commissões militares não têem regimento! 
Oh! meu Deus! Sem regimento uma auctoridade, um juizo 



CAPITULO XXVII 251 



que decide da vida de brazileiros ! Horrores sobre horrores ! 
A França revolucionaria deu regimento ás suas coinmis- 
sões ('); e o Brazil, monarchico, constitucional e represen- 
tativo, vê julgar seus filhos por semelhante maneira ! » 

O sr. Cunha Mattos : 

«Não acho este tribunal estabelecido em nossa legislação; 
o mesmo ministro o reconhece pelo oflScio que ha pouco se leu, 
em que elle diz que não existe regimento para as commissões 
militares. Estes juizos, entre nós, são novos e abusivos; a 
primeira vez que se crearam foi no anno de i8i7.em 
Pernambuco e nos de 1824 ^ ^^25 nas províncias do sul. 
Eu estou ainda nos mesmos principios que emitti nas sessões 
de 1826 e 1827: as commissões militares são instrumentos do 
inferno. » 

Em sessão de 12 de Maio, sr. Lino Coutinho: 

«A humanidade que n^esses decretos ha é egual á da 
inquisição em Hespanha, que, esmagando os homens sobre o 
potro, dizia-lhes ao mesmo tempo: «Soffra, irmão, que isto é 
em honra do Altissimo!» Por maior pena que uma lei im- 
ponha ao salteador, ao ladrão, etc, nunca ella será egual a 
decretos que mandam suspender todas as formas de processo 
e entregar os cidadãos ao arbitrio de um militar, destro sim 
em bater-se com o inimigo, mas hospede na sciencia de 
julgar.» 



( I ) Houve aqui exaggcraçào da parte do iUustre deputado mineiro. A feroa 
com missão de sa/7'ação publica^ que inundou de sangue a França, nâo obedecia 
a regimento algum. 



252 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



A commissão de constituição, composta do general Ray- 
mundo José da Cunha Mattos, José António da Silva Maia e 
José Carlos Pereira de Almeida Torres, apresentou, em sessão 
de 29 de Maio de 1829, parecer isentando de responsabilidade 
o ministro da justiça, porém denunciando o da guerra, 
como culpado da creação da commissão militar. 

Foi nomeada uma commissão especial incumbida de 
examinar a denuncia: seu relator, Bernardo Pereira de Vas- 
concellos, em sessão de 2 de Junho de 1829, apresentou pare- 
cer, considerando o denunciado incurso nas penas do art. 3.° 
§ 2.^ e dos arts. 4.° e 5.° da lei de 15 de Outubro de 1827. 

Depois de vehementes discussões, foi exonerado de res- 
ponsabilidade o ministro da justiça. 

Em sessão de 22 de Junho foi eleita outra commissão 
especial, composta dos deputados L. P. de Araújo Bastos, 
João Medeiros Gomes e José da Cruz Ferreira, incumbida de 
examinar a denuncia contra o ministro da guerra : opinou 
que este funccionario estava egualmente isento de responsa- 
bilidade. 

Na discussão do parecer, falaram : 

O sr. Odorico Mendes ( ^ ). 



(i) Manoel Odorico Mendes, o eminente patriota, nasceu na cidade de 
S. lyUiz do Maranhão a 24 de Janeiro de 1799 e falleceu em I^ndres, cm um carro 
de estrada de ferro, acommettido de um accesso de asthma complicado de lesào 
cardiaca, a 17 de Agosto de 1864. 

Traduziu em versos portuguezes as tragedias Mérope e Tancredo de 
Voltaire ; a Eneida, As bucólicas e As Georgicas^ de Virgílio ; A Iliada de 
de Homero, versão do grego. A todas estas obras enriqueceu de eruditas annota- 
ções. 



CAPITULO XXVII 253 



«Como é, srs., que uma commissão doesta casa, tendo 
contra si a lettra da constituição, defende a um ministro que 
mandou entregar ao rigor de um tribunal de sangue^ d*onde 
se não appella, todos os jpernambucanos que não aprouvessem 
aos membros do mesmo tribunal?» 

O sr. Limpo de Abreu : 

tf Si a responsabilidade dos ministros e conselheiros de 
estado é uma lei inútil e illusoria, então queime-se desde já, 
para que d'ella não exista mais noticia, nem memoria alguma, 
ou, pelo menos, como costumava praticar-se no tempo do 
imperador Caligula, mande escrever-se em caracteres tão 
miúdos e affixar-se em um poste tão alto, que ninguém d'ora 
em deante a possa ler, nem entender!» 

Submettida a questão a votos — havendo precedido com- 
pressão por parte do imperador sobre muitos deputados a 
quçm se ameaçou de exilio — pronunciaram-se, a favor do 
ministro, 39 deputados, e, contra, 32. 

Por diminuta maioria, deixou de ser processado quem 
affrontosamente havia apunhalado a constituição do império^ 
segundo a phrase da epocha. 

Apresentou-se como razão preponderante o facto de ter 
ficado inactiva a commissão militar de Pernambuco. 

Conta o conselheiro Pereira da Silva que D. Pedro I 
tomara tanto a peito a questão de seu secretario Joaquim 
de Oliveira Alvares, a ponto de falar a muitos deputados 
para o absolverem e «diariamente se collocava ás janellas do 
paço fronteiras á camará dos deputados, sem o menor receio 



254 MExMORIAS BRAZILEIRAS 



de insultos das bastas massas de povo, derramadas por todas 
aquellas visinhanças, animando amigos, por meio de emissá- 
rios que transitavam constantemente entre o paço e a camará, 
recebendo a todos os momentos noticias do que se passava ( ^ ).» 

É certo que nenhum dos dois ministros — obrigados a 
comparecer á camará para defender-se de seus actos — foi 
processado, porque ambos tiveram em seu favor o empenho 
imperial; porém a opinião publica, sobranceira á politica 
machiavelica de D. Pedro, deu ao gabinete a denominação de 
ministério liberticida^ e o considerou animado do propósito 
anti-nacional de menosprezar a constituição e inaugurar o 
regimen de puro absolutismo. 

Os senadores — cidadãos escolhidos, de intimidade do 
imperador — as gazetas govemistas, o mundo official, a mul- 
tidão de portuguezes que a revolução miguelista impellira 
para o Brazil, as tropas em que predominava o elemento 
extrangeiro, tudo isto constituia a força em que o monarcha 
se sentia encastellado para governar arbitrariamente. Faltava- 
Ihe, porém, uma base de resistência : as sympathias do povo. 

Entre a prepotência do imperante e as energias de brazi- 
leiros patriotas que contra elle se rebellavam, travava-se 
renhida lucta, para reconhecer quem merecia exemplar cas- 
tigo por se achar fora da lei. 

Toda a sessão da camará de 1829 ^^^ ^^ inquietações 



( I ) J. M. Pkreira da Silva : Scíj^undo pciiodo do reinado de D. Pedro / 
no Brazil, pag. 367. 



CAPITULO XXVII 255 

para o espirito do imperador, que não podia tolerar discussões 
sobre actos de seus ministros, de que era elle o único 
responsável. 

Antes mesmo de serem votadas as leis de orçamento, 
escolheu D. Pedro o paço da própria camará dos deputados, 
para, a 3 de Setembro de 1829, fechar, brusca e insolita- 
mente, os trabalhos legislativos com esta lacónica fala de 
encerramento : 

<r Augustos e dignissimos senhores representantes da nação. 
Está fechada a sessão. » 

D'esta forma, desusada e contraria a todas as praticas 
parlamentares, em desaccordo até com simples elementos de 
civilidade particular, pretendeu o monarcha dar a toda a 
nação brazileira testemunho official de seu despeito e de sua 
vingança. 

Devia o imperador cumprir a fónnula consagrada, refe- 
rindo á representação nacional os factos governativos e sociaes 
de mais importância, occorridos desde a sessão de abertura ; 
agradecer as medidas votadas e assegurar o exacto c^impri- 
mento das leis, estabelecendo assim, entre a coroa e a camará, 
laços de sympathica harmonia, congraçadores dos poderes 
legislativo e executivo. Fogoso, indomável em seus caprichos, 
suggestionado pela creadagem luzitana," que lhe servia de 
conselheira nas graves deliberações, D. Pedro revelou a iras- 
cibilidade de sua desordenada educação, violando aquella 
fórmula admittida pelo uso. 

Está fechada a sessão foi a plirase desabrida e rude que 



256 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



a sua soberba entendeu lançar contra cidadãos de alta impor- 
tância social porque representavam o Brazil. 

No conceito imperial, que mais merecia uma camará que 
ousara trazer á barra de seu tribunal o ministro da justiça e 
e o ministro da guerra — instrumentos passivos da vontade 
do chefe da nação ? 

A que considerações tinham^direito, deputados que haviam 
commettido a audácia de condemnar as commissões mili- 
tares, tribunaes a quem elle ordenava — como prova de 
paternal clemência — que as execuções fossem feitas de modo 
verbal e summario ? 

Em sua opinião, a camará compunha-se de demagogos 
incontentaveis, atrabiliários, violentos, indignos de attenções 
respeitosas. 

Está fechada a sessão foi a affrouta que o irritado dés- 
pota jogou á face do paiz, na pessoa de seus illustres e 
enérgicos representantes. 

Não lhe foi dada immediata resposta, a que fazia jus: só 
a 7 de Abril de 1831 recebeu elle, sob a pressão das armas, 
o primeiro e ultimo correctivo de seus desmandos. 



CAPITULO XXVIII 



Usurpação do throno de Portugal, por D. Miguei*. 

Evaristo da Veiga, José Bonifácio, marquez de Barbacena. 

Assassinato de Libero Badaró. Noites das 

garrafadas. Representação a D. Pedro I — 1829-1831. 



^^OR fallecimento de D. JoáQ VI, a 10 de Março de 
1826 ('), coube o throno portuguez a seu filho primogénito, 
D. Pedro I no Brazil e D. Pedro IV em Portugal. Sendo 
impossível a este monarcha dirigir simullaneamente os dois 
paizes, D. Pedro outorgou a Portugal, a 29 de Abril, uma 
carta constitucional e a 2 de Maio de 1826 (') abdicou a coroa 



( I ) D. Joáo VI falleceu na edadc de 57 annos, depois de 24 de regência 
e 10 de reinado. Táo rápida foi sua morte, precedida de vómitos, convulsões 
e syncopes, que se suppõc causada por veneno. 

( 2 ) Pela carta reg^a de 2 de Maio de 1826, a abdicação da coroa portugueza 
em D. Maria II ficava dependente de duas clausulas: i.a — acccitaçfto ou 
juramento por parte dos portuguezes á carta constitucional que D. Pedro lhes 
outorgara : 2. a — realização do casamento de D. Miguel com aquella princeza. Só 
SC tendo cíTcctuado a i.a clausula, ficava sem efTeito a referida abdicação e o 
monarcha exercia cumulativamente os cargos do imperador do Brazil e de rei de 
Portugal, investiduras que gosou até 7 de Abril de 1831. 

'^ TOM. IX 



::-^ MEilORIAS 3R.\ZTT.>TrRAS 



[XjrtTiíçneza. ^m -^iia .illia, D. Muna ia Viona )ii D. ilaiia. EL 
r.ie ratão jontava ipenas " innos ie rdade 

wjmbmou-.se iiie D. Mii^.ei le Brasçança, irmão 'ie 
D. ?-idro, iccKtaria -xjr rsposa D. Mana ia rlona, e. até â 
-.naiondade ia rainha, ^n-emana ?^rnisíai -.lO jaracte: «ie 
'.Oíçar— :eiiente. 

Mas •x)rnue ista ;^7«jsicâo -iibaitema -íui^-nzesse vx>uco as 
litas .unbicõei: ie D. Mii^^riei. jiit -rra anr.cnciatio e insòg^ach} 
'\^T 'Ua inãe. rainiia -uva D. Ijxitjta 'oauiuna, > prxucipe 
iissoiveu L :amara ios lepTiuid-js, :'jnv()COTi Tjova viamara e 
•;i^r iecisão-Los rres .-tfcadus Lo :ei:io ^:icr«'.\ lobreza e w\-o i, 
:omaáa i :a :eJi:iIio ie :^■2^. :g: ^r^-^ciamado rci — íisurpa- 
:âo i::e jaLrec7>ii ?"»rni:^ los lonnrtrs ia fieira zivil - \ 
.-ntre fiz^ruZ/sras : r/ti:/iacTi.-i -.ii vnrr/nfs izT-rs, assim. 
ienominados 7ora:;e D. ?^-irn 7 .ra nacjn. 

Xo i.-inrenho de -usEtniar «.'5 iireiíos ie -ua ilha .u> :hioiio 
!:-j:iLino. • mrerador 'ei-i -etr::! 'ara 1 Z'an?ixu im Jom- 
-^anina :o :zarn-.:rz ir larbac-mj.. "Tn itM:a«j i Aicstria^ 



. 'irnc"-.:! ' lãii'i :a ■'■;r'.i "u-L-rii :•■ *.: ■ .l- incj-" : . ie ^,bni 

•nrr.ici:v:.- an .. : 'ia ". r--".n. :im i .'uiillt— i iir i 'riz:' ■ m • 'iiMUcraviri . 
■. -Tciír-i :'■": -. . inumi -« .y lai" -i: " :. aui a ■rp tm». «^ .s^iuimtia ^m 



CAPITULO XXVIII 259 



cujo imperador era avô materno d'aquella princeza- Em via- 
gem, resolveu Barbacena conduzir a rainha á Inglaterra para 
que esta nação intercedesse em prol da justíssima causa. 

Como a Inglaterra, pelas estreitas relações que mantinha 
com a nação portugueza, de quem se constituia fiel alliada^ 
recusasse ir, pelas armas, obrigar D. Miguel a desapossar-se 
do thfono, voltou D. Maria para o Rio de Janeiro, trazendo 
em sua companhia a princeza D. Amélia de Leuchtenherg, 
destinada a ser esposa do imperador. 

Realizou-se o casamento a 17 de Outubro de 1829, e por 
decreto de egual data, em signal de regosijo nacional, foi 
creada a Imperial Ordem da Rosa. 

Como demonstração de contentamento, galardoar a seus 
amigos e attrahir sympathias, D. Pedro concedeu graus e 
insignias d*essa ordem a grande numero de pessoas, bem 
como títulos de barões, viscondes, condes e marquezes, actos 
que significavam apenas lisonjas á vaidade, ostentações acin- 
tosas ao espirito democrático da epocha. 

Criticando esta profusão de honrarias, concedidas ás vezes 
a individuos sem credito publico e destituídos de merecimento 
pessoal, Evaristo da Veiga perguntou a D. Pedro, pelas 
columnas de sua Aurora Fluminense^ si não era preferivel 
que se realizasse o regimen representativo; que se observasse 
á risca a constituição; que se desse praticamente incentivo 
ás industrias, ás artes, ao commercio, á agricultura; que 
fossem escolhidos, para ministros, representantes do povo, 
homens indigitados pela opinião como abalisados e de pro- 



26o MEMORIAS BRAZILEIRAS 



vada competência, e não auHcos, de idéas absolutistas, 
imbuidos em máximas do direito divino. 

Irritado contra estas sensatas observações, mandou 
D. Pedro processar a Aurora Fluminense e bem assim a 
Asiréa; foram, porém, despronunciadas as duas gazetas, 
como prova do quanto se desprestigiara o governo do impe- 
rador. 

Por essa occasião voltava do desterro José Bonifácio 
de Andrada e Silva, ausente da pátria desde 1823. R^ce- 
beu-o o imperador com a sympathia que os grandes homens 
despertam, sentindo reviver gi antiga amizade e consideração 
que lhe consagrava. Decretou-lhe uma pensão annual de 
4:ooo$ooo conio gratidão da pátria aos seus relevantissimos 
serviços. Ou por indicação de José Bonifácio ou — o que é 
mais acceitavel — por suggestões do marquez de Barbacena, 
D. Pedro, no mez de Dezembro de 1829, demittiu o minis- 
tério, composto de cidadãos antipatbizados por suas idéas 
anti-liberaes, e nomeou para substituil-os: o marquez de 
Barbacena, com a pasta da fazenda ; o visconde de Alcântara 
com a da justiça; o marquez de Paranaguá, com a da marinha ; 
o marquez de Caravellas, com a do império ; o conde do Rio 
Pardo, com a da guerra; o marquez de Abrantes, único 
representante do ministério anterior, passou para a pasta de 
extrangeiros. 

Teve o marquez de Barbacena a hombridade de declarar 
ao imperador que o povo acreditava em um gabinete secreto. 



CAPITULO xxvin 261 



formado no paço pelos creados elevados a conselheiros — 
caniarilha de portuguezes aferrados ao regimen absoluto e 
chefiados por Francisco Gomes da Silva (o Chalaça) — e 
convinha afastar de junto de si taes Íntimos, prejudiciaes á 
marcha regular dos negócios públicos, continuamente per- 
turbados pela intriga de baixa proveniência. Foi preciso que 
empregasse o marquez todo o seu valimento para que 
D. Pedro, fazendo violência a seus sentimentos de gratidão, 
se resolvesse ao penoso sacrificio de ordenar embarcassem 
para a Europa seus prestigiosos creados Francisco Gomes da 
Silva, secretario particular, e João da Rocha Pinto, confi- 
dentes de influencia no animo volúvel do monarcha (^). 
Ficou, desde esse momento, desopprimido o ministério de 
interferência subalterna em suas deliberações. 

De longe mesmo, actuou no espirito do imperador a 
perniciosa influencia de Francisco Gomes da Silva e de 
Rocha Pinto: dirigiram de Londres a seu augusto amo cartas 
denunciadoras de grandes extravios de dinheiros, de contas 
em duplicata, que haviam encontrado na capital ingleza, 
documentos comprobatórios de que o marquez de Barbacena 



V I ) " o serviço do paço era feito por portuguezes. Os mais Íntimos do 
imperador eram: Francisco Gomes da Silva ( o Chalaça ), Joáo Carlota e Plácido, 
liste era um barl>eiro, que o foi de José Egr>'dio Alvares ( * ) ; o outro tinha sido 
moço de carregar as caixas da cosinha e o primeiro mau official de ourives. • 

António dk Menkzes Va.sconckllos de jyKvyiyuysii: Annotaçàes d sua 
biofiraphia, pag. 59. 

( ' ) José Hgydio Alvares de Almeida, barão, visconde, depois marquez de 
Santo Amaro. 



202 MEMORIAS BRAZII^IRAS 



txãggeTársL as despezas feitas com as duas commissões 
desempenhadas na Europa. O despeito, a inveja e a intriga 
abalaram a confiança que o monarcha depositava no marquez, 
a ponto de inspirar-lhe este deprimente decreto: 

«Convindo liquidar-se, quanto antes, a divida de Portugal 
contrahida pelo tratado de 29 de Agosto de 1825 V)j^ sendo 



( I ) A 39 de As^osto de 1825 foi assignado no Rio de Janeiro o tratado de 
reconhecimento do império do Brazil pelo rei de Portugal, ajustado por media- 
ção da Inglaterra, entre D. Pedro I e sen pae, D. João VI. Foi asstgnado, por 
parte do Brazil, pelo ministro dos negócios extrangeiros, conselheiro Luiz José 
de Carvalho e Mello, depois visconde da Cachoeira ; José Egydio Alvares de 
Almeida, barão de Santo Amaro, e Francisco ViUela Barbosa, depois marques 
de Paranaguá ; e, por parte de Portugal, pelo conselheiro privado de sua mages- 
tade brítannica, o cavalheiro Carlos Stuart, que chegara á capital a 18 de Julho. 
Quando os brasileiros haviam expellido o ultimo soldado luzitano e a indepen- 
dência se achava firmada e reconhecida por todos os paizes, D. Pedro firmou 
esse tratado, em vista do qual offereceu, de mão beijada, a seu pae, a somma de 
dois milhões de libras esterlinas, a titulo de indemnização dos prejuizos que a 
nossa independência acarretara a Portugal ! Para maior affronta, a 15 de Novem- 
bro do mesmo anuo, publicou D. João VI uma carta regia, declarando aos brasi- 
leiros çue cedia a seu filho D. Pedro seus direilos sobre o Brazil^ mas reservava 
para si o titulo de imperador ! 

O escriptor francez Pedro Chapuis, residente no Rio de Janeiro, publicou no 
anno de 1826 um folheto Reflexões sobre o tratado da independência e a caria de 
lei de D. João ^V, em que demonstrou quanto era vergonhoso para o Brazil 
semelhante tratado, pois, em virtude d'elle, comprávamos por dois milhões de 
libras esterlinas o que já haviamos obtido pelas armas ; que concedíamos o titulo 
de imperador do Brazil a D. João VI ; que n'esse documento se mencionava a não 
desistência de D. Pedro da qualidade e direitos de príncipe real e herdeiro 
presumptivo da coroa de Portugal — declaração reveladora da intenção de reunir 
mais tarde as duas coroas debaixo de um só sccptro. 

I/)go que appareceu esse folheto elucidador do revoltante escândalo, foi o 
auctor procurado pela policia com si se tratasse de um grande críminoso ; depois 
de muitas diligencias, conseguiu-se encontral-o, e, infríngindo-se a constituição 
que garantia a liberdade de imprensa, ordenou-se a deportação de Pedro 
Chapuis para fora do imperío. 

O reconhecimento de nossa independência foi, em ultima analyse, um 
indecoroso arranjo de família. 



CAPITULO XXVIII 263 



necessário para esse fim tomarem-se primeiramente as confas 
da caixa de Londres (*), examinando-se as grandes despezas 
feitas pelo marquez de Barbacena, do meu conselho de estado, 
tanto com sua magestade íidelissima, minha augusta filha, 
como com os emigrados portuguezes em Inglaterra, e espe- 
cialmente com o meu casamento; e não podendo estas 
verificarem-se legalmente exercendo ao mesmo tempo o 
mencionado marquez o logar de ministro e secretario de 
estado dos negócios da fazenda : Hei por bem demittil-o do 
dito cargo de ministro e secretario de estado dos negócios 
da fazenda. 

« Palácio do governo do Rio de Janeiro, em 30 de Setem- 
bro de 1830, 9.° da independência e do império. P. — yts- 
conde de Alcântara. » 

Não medrou a calumnia. 

O marquez de Barbacena justificou-se cabalmente, des- 
truindo pela base o castello que a maledicência havia erguido 
contra a sua illibada reputação (^). 

Em uma carta datada de 15 de Dezembro de 1830, cheia 
de ensinamentos, recriminações e justo desabafo, documento 
em que se revela inquebrantável força de dignidade, disse 
o marquez ao imperador: 



( 1 ) A caixa filial que o thesouro mantinha em I^ondres para passamen- 
tos á Ing^laterra, era conhecida por vários nomes, dados pelos deputados opposi- 
cionistas : Caixa magica^ Sorvedouro das rendas do império^ Cancro do Tamisa. 

( 2 ) Consulte-se a importante obra, já citada, Vida do marquez de Bar- 
bacena^ por António Augusto de Aguiar. 



264 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



íf Estamos em vésperas de uma revolução; mas V. M. 
ainda pôde sustar semelhante calamidade, suspendendo sua 
viagem a Minas e tomando já outra actividade e outro norte. 
Mude de systema; identifique-se com os brazileiros; separe de 
junto de sua pessoa e de sua casa essa quadrilha de portti- 
guezes, que o tomam inimigo da nação. . . Si, porém, V. M., 
proseguindo na carreira que actualmente trilha, hostil á nação 
e instrumento cego de uma facção inimiga do Brazil, persistir 
em realizar a viagem a Minas, talvez nunca mais volte ao 
Rio de Janeiro, e é esse o menor mal que prevejo. 

« Um dós tios-av6s de V. M. acabou seus dias em uma 
prisão em Cintra (^). V. M. poderá acabar os seus em alguma 
prisão de Minas, a titulo de doido, e realmente só um doido 
sacrifica os interesses de uma nação, da sua familia e da rea- 
leza em geral, aos caprichos e seducções de creados caixeiros 
portuguezes, que aliás constituem a escoria do que ha de 
mais vil e ignorante na Europa civilisada (^).» 

Quando irritadas se achavam as auctoridades com as 
continuas censuras que ao governo fazia a imprensa de norte 
a sul do império, deu-se na cidade de S. Paulo o assassinato 
do jornalista dr. João Baptista Libero Badaró, redactor do 



( 1 ) D. Afíonso VI, a quem seu irniálo D. Pedro II, depois de Uie haver 
usurpado o throno, mpndou conduzir preso para a ilha Terceira e depois para 
Cintra, onde morreu. 

( 2 ) rida do niarquez de Rarbacena^ pags. 808 e 809. 



CAPITULO XXVIII 265 



Observador Constitucional^ attentado succedido na noite de 
20 de Novembro de 1830. 

Libero Badaró nascera na Itália, na cidade marítima 
de Laigueglia (provincia de Génova), no anno de 1798. Era 
formado em medicina pelas universidades de Pavia e Turim. 

Viera para o Brazil em 1826. Depois de dois annos de 
estada no Rio de Janeiro, onde se applicon com vantagem 
ao estudo de nossa flora, partiu para S. Paulo e encetou ahi 
a sua carreira medica. 

Collocado em um meio agitado de idéas politicas, de que 
a academia paulistana inaugurada a i.° de Março de 1828 
se fazia um dos centros de propaganda, o dr. Badaró, que 
tinha em seus appellidos um symbolo de liberdade, sentiu-se 
com prazer arrastado na onda reaccionária, de opposição a um 
governo deploravelmente retrógrado. 

Moço e enthusiasta pelos grandes ideaes que constituiam 
as aspirações de um povo recém liberto da cadeia colonial, 
o joven medico italiano frateniizou com os patriotas os exal- 
tados sentimentos de seu coração e as fulgurações de seu 
cultivadissimo talento. 

«Suas virtudes e sua instnicçáo, disse a gazeta Astrèa^ 
o tinham disposto a prestar-se naturalmente para tudo que 
fosse dirigido a beneficiar a espécie humana; e a esperança 
de lhe ser útil com seus conhecimentos, unida aos convites 
de uma grande multiplicidade de vozes que se erguiam de 
toda a parte contra os inimigos do systema politico estabe- 
lecido e jurado, o determinaram a desposar a causa d'este 



u 



266 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



mesmo systema e a levantar como escriptor publico a espada 
sobre as indignidades e as machinações dos perversos, 
fazendo-se para com os povos o interprete da razão e da lei 
e o órgão geral da gente livre e cordata. » 

Durante quasi um anno leccionou elle gratuitamente 
geometria no curso (depois faculdade) de sciencias sociaes 
e jurídicas, e a convivência mantida com os estudantes 
facilitou-lhe o rápido conhecimento da lingua portugueza 
e o fez interessar-se vivamente por nossas questões politicas. 

Desejoso de prestar aos brazileiros um serviço relevante, 
como era o seu apoio intellectual á justa causa que defendiam, 
Ivibero Badaró fundou o Observador Constitucional^ desti- 
nado, de accordo com seu titulo, a chamar os homens de 
governo ao cumprimento dos deveres constitucionaes. 

No desempenho de sua missão, como jornalista de idéas 
adeantadas e dignas de applausos pela coragem com que eram 
emittidas, Badaró escreveu fortes accusações contra o vice- 
presidente da provincia de S. Paulo, bispo diocesano D. Ma- 
noel Joaquim Gonçalves. de Andrade e contra o ouvidor, 
desembargador Cândido Ladislau Japiassú, por ter esta aucto- 
ridade mandado prender estudantes na occasião em que feste- 
javam o estrondoso desthronamento do rei absoluto Carlos X, 
facto occorrido em Pariz nos memoráveis dias 27, 28 e 29 
de Julho de 1830. 

Como testemunho insuspeito de que o ouvidor era um 
espirito violento, atrazado, hostil a todas as manifestações 
liberaes, instrumento de ferro do absolutismo, damos os 



CAPITULO XXVIII 267 



seguintes tópicos da representação que contra elle dirigiu a 
camará municipal de S. Paulo ao conselho do governo da 
provincia, em data de 8 de Outubro de 1830: 

«O procedimento anti-constitucional, arbitrário e tyran- 
nico do ouvidor tem posto em perigo a tranquillidade publica. 
Cidadãos pacificos, obedientes ás leis, amantes da consti- 
tuição, que por felicidade nossa rege este império, são 
ameaçados de prisão e quem sabe de que outros castigos, só 
pelo facto de terem illuminado suas janellas na noite de 5 do 
corrente e de se terem alegrado porque o governo tyrannico 
que pesava sobre a França fora destruido. Consta que 
uma devassa geral está aberta. Cada um, olhando para as 
consequências que pôde n'isto trazer o desenvolvimento das 
vinganças particulares, receia por si; a indignação é uni- 
versal, e quem é que nos pôde afiançar que n'este estado se 
não perca a prudência e não se lance mão de medidas vio- 
lentas? Quem nos pôde afiançar que uma sublevação contra 
este ouvidor não se realize? Senhores, a camará ponderou 
tudo isso e se reuniu extraordinariamente só para este fim 
e vem requerer a V.V. EExas. a suspensão d'esse magis- 
trado, porque de sua conservação, ao menos na crise actual, 
podem, e é quasi certo que resultarão males incalculáveis. » 

Esta representação nenhum efFeito produziu: o ouvidor 
continuou em pleno uso de perseguições illegaes e vexatórias. 

Indignado contra a critica acerada, mas justa, de Libero 
Badaró, o ouvidor Japiassíí exerceu contra o illustre jornalista 
uma vingança barbara. 



268 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Segundo lemos em Alguns apontamentos biographicos de 
Libero Badarô e Chrontca de sen assassinato perpetrado na 
cidade de S, Paulo a 20 de Novembro de 18 jo^ memoria escri- 
pta por Argimiro da Silveira (0) o facto criminoso deii-se 
do seguinte modo, exposto pelo periódico de propaganda 
republicana, Rebate^ em seu numero de 26 de Junho de 1888: 

« No correr de Novembro de 1830, apeou-se na freguezia 
do Braz, em a chácara do dr. Justiniano de Mello Franco, 
o tenente de caçadores Carlos José da Costa, vindo por terra 
do Rio a S. Paulo para executar a sentença^ sob promessa 
de ser promovido ao posto de capitão. 

«Não conhecendo o condemnado, pediu a Mello Franco 
um seu filho que lh'o fosse mostrar: foi-lhe negado o concurso 
do menino, dando-se-lhe como substituto o allemão Henrique 
Stock, que de boa vontade se prestou. 

íí Na noite de 20 de Novembro, apercebidos de armas e 
disfarçados, foram os dois sicários postar-se junto á casa em 
que morava Badaró e que ficava na rua de S. José (^), ao 
lado esquerdo de quem ia para o largo de S. Francisco, em 
frente A i)r()pricdadc que é hoje do sr. Proost Rodovalho. 

« Majfnifico, soberbo, claro como o dia, era o luar d^essa 
noite* nt*fan(Ia. 

«A niii fHtíiva clicia de transeuntes; familias, innocentes 



' < / Ntf> tf>i /utf ///»/ . tom. I.III, a.a pari., pags. 309 a 384. 

/ ' / h'*)^- Miil l,tÍH Ml llililitM^. 



CAPITULO XXVIII 269 



meninas passeavam por junto dos vultos que, fingindo-se 
ébrios, aguardavam a victima. 

«Por essas mesmas horas, em casa do dr. Cândido 
Ladislau Japiassú jogavam com elle ao voltarete Thomaz 
José Pinto de Siqueira (vulgo Siqueira Moleque\ João 
Caldas Vianna e Pedro Rodrigues Fernandes Chaves, depois 
barão do Quarahy (^ ). No correr da conversação, com que 
entre-sachavam o jogo, escaparam ao dr. Japiassú estas 
palavras : « Não tardará muito que pague Badaró as injurias 
que tem vomitado. » 

«Após breve lapso de tempo, o tenente Costa e o allemão 
Stock avistaram Badaró que, dobrando a rua Direita, vinha 
apressado para a casa. Puzeram-se de promptidão e foram ao 
encontro do benemérito popular. 

«Stock reconheceu-o, acercou-se-lhe, travou conversação 
com elle nos seguintes termos : 

« — Sr. dr. Badaró, quero que V. S. ponha na sua foi ha 'o 
ouvidor Japiassú, que me lesou em um negocio de farinha de 
trigo.. 

« — Amigo, é um pouco tarde para tratarmos d'isso; 
venha depois de amanhã, segunda-feira, e então arranjaremos. 

« — Pois virei. 

« — Bem ; então, boa noite. 



( I ) o dr. Pedro Rodiigucs Fernandes Chaves, natural do Rio Grande do 
Sul, mais tarde senador do império e chefe do partido conservador em sua 
provincia natal, fallcccu cm Pisa, na Itália, a 23 de Junho de 1866, com 56 annos 
de edade. 



270 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



ff Este dialogo, verdadeiro beijo de Judas, tinha por fim 
dar a conhecer o infeliz democrata ao matador, que, levan- 
tando por baixo da japona uma pistola previamente enga- 
tilhada, disparou um tiro de bala, que se foi empregar no 
baixo ventre da victima. 

«Cahir Badaró ferida de morte, gritando por soccorro, 
evadirem-se assassino e cúmplice e acudir o estudante 
Varella, foi obra de um momento só. 

«Badaró declarou logo que os assassinos eram dois alle- 
mães, que o procuraram dizendo quererem fazer no Obser- 
vador Constitucional uma publicação contra o ouvidor, 
desembargador Japiassú. 

«Contam pessoas antigas que no final do dialogo o 
tenente dissera : « A correspondência contra o dr. Japiassú é 
esta . . . » e disparou a arma. 

Narra uma testemunha presencial da morte de Badaró ( " ) : 

«Aos amigos que o cercavam, aos collegas que o procu- 
ravam illudir acerca da gravidade do ferimento (ruptura por 
bala em um ramo importante da artéria iliaca), elle respon- 
dia tranquillo: 

«Não me illudem; eu sei que vou morrer; não importa! 

MORRE UM LIBERAL, MAS NÃO MORRE A LIBERDADE!» 

«Palavras memorandas que a tradição conserva ainda 
cheias de vida e que as successivas gerações levarão á mais 



( I ) Dr. Joaquim António Pinto Júnior : Assassinato do dr. João Baptista 
Libero Badaró. 



CAPITULO XXVIII 271 

remota posteridade, para que todos conheçam com quanta 
resignação morre aquelle que se sacrifica por uma causa 
santa. » 

Libero Badaró falleceu 24 horas depois do attentado, ás 
10 horas da noite de 21 de Novembro. 

O assassinato d'este enérgico homem de imprensa produziu 
dolorosa impressão em todos os espiritos patriotas : o próprio 
monarcha não foi isento da pecha de cúmplice no horroroso 
crime, divulgada a noticia de que o tenente Carlos José da 
Costa partira do Rio de Janeiro. 

Para sustentar os direitos de sua filha á coroa portugueza, 
via-se D. Pedro I em circumstancias difficeis, que o obrigaram 
a um meio extremo : a illegalmente lançar mão dos cofres pú- 
blicos brazileiros para manter guerra contra D. Miguel, 
auxiliando com fortes sommas a todos os portuguezes que 
se revelavam anti-miguelistas e se dispunham a contra- 
revolucionar Portugal. O procedimento do imperador foi 
fortemente censurado tanto na assembléa como pela imprensa, 
a cuja frente se achava Evaristo Ferreira da Veiga. Dia a dia 
avultavam desconfianças contra o monarcha, que se paten- 
teava mais sympathico a interesses portuguezes do que a 
brazileiros. As manifestações populares de que elle era alvo 
transformara m-se em indiíFerença, senão em hostilidade. 
O povo começava a consideral-o um traidor ao Brazil, ao 
qual officialmente chamava elle de pátria. 

Para acalmar os mineiros que lhe contrariavam a politica. 



272 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



propagando idéas republicanas, de federação das províncias, 
e para fazer com que fosse re-eleito deputado o ministro 
do império José António da Silva Maia, D. Pedro partiu para 
Ouro Preto em Fevereiro de 1831, encontrando por toda 
parte desanimadora frieza. 

Quando passou por Barbacena, viu o povo revestido de 
lucto celebrar exéquias á memoria de Libero Badaró, demons- 
tração evidente de que os mineiros eram solidários com as 
idéas do adeantado jornalista. 

A 22 de Fevereiro de 183 1 publicou D. Pedro na cidade 
de Ouro Preto a seguinte Proclamação aos mineiros^ documento 
de grave inconveniência politica, pois-acirrou ainda mais os 
ódios levantados contra sua pessoa : 

«É esta a segunda vez que tenho o prazer de me achar 
entre vós. E esta a segunda vez que o amor que eu consagro 
ao Br^zil aqui me conduz. 

«Mineiros, não me dirigirei somente a vós; o interesse é 
geral ; eu falo, pois, com todos os brazileiros. 

ff Existe um partido desorganisador, que, aprovei tando-se 
das circumstancias puramente peculiares da França, pretende 
illudir-vos com invectivas contra a minha inviolável e sagrada 
pessoa e contra o governo, afim de representar no Brazil 
secenas de horror, cobrindo-o de lucto; com o intento de 
empolgarem empregos e saciarem sua vingança e paixões 
particulares, a despeito do bem da Pátria, que não attendem, 
aquelles que têem traçado o plano revolucionário. 

« Escrevem sem rebuço e concitam os povos á federação ; 



CAPITULO XXVIII 273 



e cuidam salvar-se doeste crime com o art. 174 da lei funda- 
mental que nos rege. Este artigo não permitte alteração 
alguma ao essencial da mesma lei. 

«Haverá um attentado maior contra a constituição que 
jurámos defender e sustentar, do que pretender alteral-a na 
sua essência? Não será isto um ataque manifesto ao sagrado 
juramento que perante Deus todos nós mui voluntariamente 
prestámos? Oh! Caros brazileiros, eu não vos falo agora como 
vosso inperador e sim como vosso cordial amigo. 

ff Não vos deixeis illudir por doutrinas que tanto têem de 
seductoras^ quanto de perniciosas ; ellas só podem concorrer 
para a vossa perdição e do Brazil e nunca para a vossa felici- 
dade e da Pátria. Ajudai-me a sustentar a constituição, tal 
qual existe e nós jurámos. Conto comvosco, contai commigo. » 

Tal proclamação foi tida pelos mineiros, solidários com 
o marquez de Barbacena e com Bernardo Vasconcellos, como 
um desafio revolucionário. 

Desilludido, regressou o monarcha ao Rio de Janeiro, 
chegando incognitamente ao paço da Boa Vista ás 3 horas 
da madrugada do dia 1 1 de Março. 

Como acinte a brazileiros, resolveram os portuguezes 
realizar, em regosijo á volta do imperador, vistosas festas, em 
três noites consecutivas, a 12, 13 e 14, com illuminação e 
fogueiras nas ruas principaes. 

Na primeira noite, deram-se provocações e insultos por 
parte dos luzitanos contra os brazileiros, porque nenhum 
doestes havia deitado luminárias. 

:)Ô TOM. II 



274 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Na noite de 13, alguns brazileiros foram assistir aos 
festejos, e, chegando á nia da Quitanda, onde havia um coreto 
de musica, depois de erguerem vivas á constituição e ao 
imperador, correspondidos pelos portuguezes, deram vivas á 
nação brazileira, A esta manifestação correspondeu, como 
signal, um tiro de pistola e em seguida foram os nacionaes 
acommettidos de paus, espadas, e fundos de garrafas arre- 
messados das janellas ; a rua tomou-se uma praça fechada e 
ahi acutilados e espancados os brazileiros, aos gritos de 
morram os caibras^ morra o Republico ( ^ ), morra a federação^ 
viva o imperador absoluto! Os brazileiros foram perseguidos 
pelas ruas até ao largo da Constituição. 

Teve este conflicto o nome popular de noite das gar-- 
rafadas. 

Na noite de 14, mais de 400 portuguezes atacaram varias 
casas de brazileiros, como a loja de encadernação de Silvino 
José de Almeida, a qual pretenderam incendiar, a botica de 
Juvencio Pereira Ferreira, e espancaram os nacionaes que 
encontravam. 

Certos de impunidade, pois contavam com a protecção 
dimanada desde o monarcha até ao commandante da policia, 
os luzitanos foram, em grande algazarra, apedrejar a casa do 
eminente jornalista e deputado liberal Evaristo Ferreira da 



( I ) Além do Republico, appareceram no Rio de Janeiro, no anno de 1830, 
os periódicos: Sagiííario, Tribuno do Povo, jyHlampo Popular, Campeão 
Brazileiro, Observador das Galerias da Assemblia Geral, Verdadeiro Patriota, 
Brazileiro Imparcial, Espelho da Justiça. 



CAPITULO XXVIII 275 



Veiga, residente á rua da Quitanda. Travoií-se combate, 
sendo necessária a força policial para dar fim ao sangrento 
conflicto, de que resultou a prisão de 13 brazileiros e de três 
officiaes também brazileiros, capitão Marianno Joaquim de 
Siqueira, e dois alferes, Faustino dos Reis e Francisco Joa- 
quim Bacellar, estes últimos enviados para a fortaleza de 
Santa Cruz e da Lage ('). 

Orgulhosos de suas façanhas^ campeavam impunes os 
portuguezes. 

Em vista de factos tão revoltantes, deputados e o senador 
Nicolau Pereira de Campos Vergueiro reuniram-se na resi- 
dência do deputado mineiro padre José Custodio Dias, á rua 
da Ajuda, e depois de calorosa discussão, resolveram reclamar 
officialmente providencias do governo. 

Foi incumbido Evaristo da Veiga de redigir a represen- 
tação em termos enérgicos, porém dignos, próprios dos brios 
nacionaes ultrajados. 

A pundonorosa representação datada de 17 de Março 
de 1831, que decidiu da sorte de D. Pedro I no Brazil e á qual 
o príncipe, por mal aconselhado, não ligou importância, é 
um documento histórico de alto valor pelas consequências 
decisivas que d'elle se originaram. Foi concebido nos 
seguintes termos: 



( I ) Silvério Cândido de Faria : Breve historia dos felizes acontecimen- 
tos politicos no Rio de Janeifv^ em os sempre memoráveis dias 6 c 7 de Abril de 
iSji ( Rio de Janeiro, 1831 ), pags. 28 e 29. 



276 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



«Senhor. — Os representantes da nação abaixo assignados, 
doídos profundamente dos acontecimentos que tiveram logar 
n'esta capital, especialmente no dia 13 do corrente mez, por 
occasião dos festejos que se dispiizeram, não tanto para 
solemnizar o feliz regresso de V. M. I. e C, como principal- 
mente para ludibriar e maltratar os brazileiros amigos da 
liberdade e da pátria, que foram de facto cobertos de oppro- 
brios pelo partido luzitano,*que se insurgiu de novo no meio 
de nós, entre gritos de vivam os portugueses e de morram os 
sediciosos e anarchicos^ e violências de todos os géneros, de que 
têem sido victimas alguns patriotas, cujo sangue foi derra- 
mado era uma aggressão pérfida, e já de antemão premeditada 
por homens que no delirio de seus crimes eram claramente 
protegidos pelo governo e pelas auctoridades subalternas, 
como elles mesmos blasonavam, compromettendo até com 
incrivel audácia o nome augusto e respeitável de V. M. I. e C, 
julgam de seu dever, como cidadãos, em quem recahiram os 
votos de seus compatriotas^ como bons brazileiros, muito 
de perto interessados na conser\'ação da honra e dignidade 
da nação, e na estabilidade do throno constitucional, elevar 
a sua voz até á augusta presença de V. M. I. e C, pintando- 
Ihe, n'este breve quadro, a cuja mesquinhez supprirá a alta 
concepção de S. M. I. e C, a triste situação em que se acham 
os negócios da pátria e pedindo instantemente as providencias 
necessárias, já para o restabelecimento da ordem e do socego 
publico, já para a desaffronta do Brazil, vilipendiado e pun- 
gido no mais delicado e sensivel do brio e pundonor nacional; 



CAPITULO XXVIII 277 



providencias estas que não devem, todavia, exorbitar do 
circulo ordinário da fiel execução das leis, punindo-sé na 
conformidade d^ellas os auctores e cúmplices dos attentados 
commettidos, e responsabilizando-se as auctoridades que, por 
notória connivencia ou apathica indifferença, deixaram o 
campo livre aos assassinos e perturbadores da paz e tranquil- 
lidade commum. 

«Senhor, os sediciosos, á sombra do augusto nome de 
V. M. I. e C, continuam na execução de seus planos tene- 
brosos; os ultrages crescem, a nacionalidade soffre, e nenhum 
povo tolera, sem resistir, que o extrangeiro venha impôr-lhe 
no seu próprio paiz um jugo ignominioso. De extrangeiros 
que se honram de ser vassallos de D. Miguel e de outros, 
súbditos da Sra. D. Maria II, se compunham, em gjande parte, 
esses grupos que, nas noites de 13 e de 14, nós vimos e ouvimos • 
encher de impropérios e baldões o nome brazileiro, espancar 
e ferir a muitos de nossos compatriotas, a pretexto de fede- 
ralistas, de uma questão politica cuja decisão pende do juizo 
e deliberação do poder legislativo, e nunca do furor insensato 
e sanguinário de homens grosseiros, cujo entendimento é 
demais alienado por suggestões traidoras. 

ff Os brazileiros, tão cruelmente offendidos, os brazileiros 
que se ameaçam ainda com prisões parciaes e injustas, nutrem 
em seu peito a indignação mais bem fundada e mais profunda, 
não sendo possivel calcular até onde chegarão os seus resul- 
tados, si acaso o governo não cohibir desde já semelhantes 



278 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



desordens, si não tomar medidas para que a affronta feita á 
nação seja quanto antes reparada. 

ff Os representantes abaixo assignados assim o esperam, 
confiados na sabedoria e patriotismo de V. M. I. e C. , a des- 
peito dos traidores que possam rodear o throno de V. M. I. 
e C. , os quaes não terão força bastante para suffocar ahi estes 
clamores que saem de corações ulcerados, mas amigos de seu 
paiz e da justiça. As circumstancias são as mais urgentes, 
e a menor demora pôde em taes casos ser funestíssima. 

. « A confiança que convinha ter no governo está quasi de 
todo perdida, e si por ventura ficarem impunes os attentados 
contra os quaes os abaixo assignados representam, importará 
isso uma declaração ao povo brazileiro de que lhe cumpre 
vingar, elle mesmo, por todos os meios, a sua honra e brio, 
tão indignamente maculados. 

<í Esta linguagem. Senhor, é franca e leal : ouça-a V. M. 
I. e C. , persuadido de que não são os aduladores que salvam 
os impérios, sim aquelles que têem bastante força d'alma 
para dizerem aos príncipes a verdade, ainda que esta os não 
lisonjeie. A ordem publica, o repouso do estado, o throno 
mesmo, tudo está ameaçado, si a representação que os abaixo 
; assignados respeitosamente dirigem a V. M. I. e C. não fôr 

, attendida e os seus votos completamente satisfeitos. » 

j Assignaram esta representação o senador Nicolau Pereira 

• de Campos Vergueiro e 23 deputados: Evaristo Ferreira da 

* Veiga, António Paulino Limpo de Abreu (visconde de 

i Abaete), Honório Hermeto Carneiro Leão (marquez de 



CAPITULO XXVIII 279 



Paraná), padre José Martiiiiano de Alencar, Manoel Odorico 
Mendes, Cândido Baptista de Oliveira, José Joaquim Vieira 
Souto, Venâncio Henriques de Rezende, António João de 
Lessa, José Maria Pinto Peixoto, Augusto Xavier de Carva- 
lho, padre José Custodio Dias, Joaquim Manoel Carneiro da 
Cunha, Francisco de Paula Barros, Baptista Caetano de 
Almeida, Manoel Pacheco Pimentel, António de Castro 
Alvares, João Fernandes de Vasconcellos, António José da 
Veiga, Manoel do Nascimento Castro e Silva, Vicente Ferreira 
de Castro e Silva, Honorato José de Barros Paim e Joaquim 
Francisco Alves Branco Moniz Barretto. 

A representação foi entregue ao ministro da justiça, vis- 
conde de Alcântara, a 17 de Março; no dia seguinte, o mesmo 
ministro enviou esta lacónica e banal resposta aos represen- 
tantes:. 

«O governo tem tomado as medidas necessárias e dado 
as convenientes providencias para manter o socego e tranquil- 
lidade publica e continuará a empregar esforços conducentes 
ao mesmo fim. » 

Nenhumas providencias, porém, foram dadas para a 
punição dos criminosos. 

A 25 de Março realizaram os patriotas uma solemnidade 
religiosa na egreja de S. Francisco de Paula, em comme- 
moração do 7.° anniversario do juramento da constituição 
e para suffragar a alma de Libero Badaró. Compareceu o 
imperador á egreja, sendo recebido com vivas a D. Pedro 
emqtíanto constitucional^ ao que elle respondeu : « Fui e 



28o MEMORIAS BRAZILEIRAS 



serei sempre constitucional.» Muitos exaltados ergueram 
vivas a D. Pedro II. Elle retorquiu: «Ainda é muito 
creança. » 

Molestado com estas hostilidades continuas, desejoso de 
operar uma reacção enérgica, própria de seu temperamento 
bellicoso, resolveu D. Pedro, a 5 de Abril de 1831, mudar o 
ministério, escolhendo para seus secretários, titulares não 
tirados da camará, mas frequentadores do paço. Designou 
para o novo gabinete: ministro da fazenda, marquez de 
Baependy (Manoel Jacintho Nogueira da Gama); ministro da 
marinha, marquez de Paranaguá (Francisco Villela Barbosa) ; 
ministro do império, marquez de Inhambupe ( António Luiz 
Pereira da Cunha); ministro da guerra, marquez de Lages 
(João Vieira de Carvalho) ; ministro de extrangeiros, marquez 
de Aracaty (João Carlos Augusto de Oyenhausen Greven- 
burg) e ministro da justiça, visconde de Alcântara (João 
Ignacio da Cunha), homens já conhecidos e detestados 
pelo povo, em consequência de seu aferro a idéas de 
absolutismo. 

Doeste modo atirava D. Pedro novo repto aos liberaes 
exaltados e aos federalistas. 



CAPITULO XXIX 



ASS;VSSINATO DO VISCONDE DE CaMAMU NA BaHIA. A REVOLUÇÃO 

DE 6 E 7 DE Abril de 1831. A abdicação 
DE D. Pedro I. Partida para Portugal. — 1830-1831. 



i,NTKS de citaniios os gravíssimos acontecimentos 
succedidos no Rio de Janeiro, após a inauguração do gabinete 
de 5 de Abril, devemos mencionar um attentado connnettido 
na Bahia. 

A 28 de Fevereiro de 1830, o presidente d'essa provincia 
e commandante das armas, José Eg>'dio Gordilho de Barbuda, 
visconde de Cainamíi, recolhendo-se de um passeio, ao 
apear-se de seu carro no largo do theatro, foi aggredido por 
um cavalleiro desconhecido, que o matou com um tiro 
de bacamarte. O crime foi praticado ao escurecer. Acto con- 
tinuo, o assassino evadiu-se a todo o galope. Nenhuns outros 
esclarecimentos pudemos encontrar sobre este facto, que ficou 
para sempre envolto em mysterioso véo. 

Publicada a 6 de Abril a nova organisação ministerial, 
composta de cidadãos impopulares, fidalgos prepotentes 
e só mallcaveis á vontade do imperador, grande nmltidão 

:Ui TOM. II 



282 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



começou a affliiir ao campo da Acclamação, chamado Campo 
da Honra^ calculando-se, ás 5 horas da tarde, em 4.000 o 
numero dos populares. 

O commercio havia fechado suas portas, bem como grande 
numero de casas particulares. A revolução estava na rua. 

Oradores inflammados protestavam contra a formação do 
novo ministério e reclamavam o restabelecimento do anterior; 
os mais enthusiastas concitavam as massas para que se pro- 
clamasse desde logo a republica. 

Os deputados liberaes reuniram-se na residência do 
padre José Custodio Dias e ahi discutiram o que lhes 
cumpria fazer em tão perigosa emergência. 

Odorico Mendes e o padre Custodio Dias opinaram que 
se desse curso á revolução. 

Triumphou a idéa de que deviam os deputados coUocar-se 
á frente do movimento para encaminhal-o de modo a que 
não cahisse em lamentável anarchia. 

Uniram-se ao povo os que assignaram a representação 
de 17 de Março, tornando-se salientes por sua actividade 
Evaristo da Veiga, Carneiro Leão, Henriques de Rezende, 
Limpo de Abreu e padre Alencar. 

Foram convocados os juizes de paz, três dos quaes se 
reuniram no quartel do campo de Sant^Anna. 

Ao ver que o levantamento era geral, o general comman- 
dante das armas Francisco de Lima e Silva (^) expediu 



( I ) Pae de Luiz Alves de Uma e Silva, duque de Caxias. 



CAPITULO XXIX 283 



O major Miguel de Frias e Vasconcellos ao paço de S. Chris- 
tovão a participar a D. Pedro a origem do tmnulto. 

O monarcha respondeu qíie de bom grado ouviria os 
juizes de paz que lhe fossem falar em nome do povo. Pelo 
mesmo official remetteu elle uma. proclamação que foi lida 
aos patriotas amotinados. 

Sem prestar attenção alguma ao documento imperial, ^ 
a nmltidão prorompeu em brados de abaixo o minis- 
tério / 

As oito horas da noite, três juizes de paz, da freguezia 
de S. José, do Sacramento e de Sant^Anna, foram em com- 
missão a S. Christovão pedir, em nome do povo, demissão 
do ministério de 5 de Abril e restabelecimento do de 18 de 
Março, que se compunha do visconde de Goyanna, Bernardo 
José da Gama, ministro do império; Manoel José de Souza 
França, ministro da justiça ; Francisco Carneiro de Campos, 
ministro de extrangeiros ; José Manoel de Almeida, ministro 
da marinha; brigadeiro José Manoel de Moraes, ministro 
da guerra e visconde de Albuquerque, António Francisco de 
Paula Hollanda Cavalcanti, ministro da fazenda. 

Rodeado de seus ministros e do intendente geral de 
policia, D. Pedro ouviu, de muito mau humor, a exposição 
que sobre o acontecimento lhe fizeram os juizes de paz, e 
deu-lhes esta resposta, em tom de cólera: 

— Digam ao povo que procedi constitucionalmente, por- 
que a constituição me dá o direito de nomear e demittir 
livremente os ministros. Hei de defender os meus direitos, 



284 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



garantidos pela constituição, á custa de todos os meus bens e 
sacrííido de minha pessoa. 

K como prova de que seu 'procedimento era I^al^ abriu 
o volume da constituição e leu em voz alta o artigo que lhe 
garantia a livre escolha de seus ministros. 

Iam retirar-se os juizes, quando D. Pedro lhes perguntou: 

— Quantas pessoas estão no campo de SantWnna? 

— Três a quatro mil pessoas. 

— Nem duas mil! disse elle com desdém. Em fim, já 
respondi. Procurem socegar o povo. Tudo farei para o povo ; 
nada pelo povo. Podem retirar-se. 

Levada esta resposta ao campo de SanfAnna, subiu a 
indignação a seu auge; gritos insultantes revelaram que a 
multidão dispunha-se a reagir, por todos os meios, contra a 
deliberação imperial. 

Generalizou-se o movimento revolucionário, communi- 
cando-se com rapidez aos quartéis: para o Campo da Honra 
começaram a affluir ardorosamente os corpos de artilhe- 
ria, i.° batalhão de granadeiros, batalhão de artilheria.de 
marinha, o próprio batalhão do imperador ou Guarda de 
Honra, estacionada em S. Christovão e commandada pelo 
coronel Manoel da Fonseca Lima e Silva. O comparecimento 
dVsta ultima força, de confiança do monarcha, foi saudado 
com patrióticos vivas. 

Vendo que a revolução havia perfeitamente unido povo e 
tropas e pela superexci tacão dos ânimos era capaz de com- 
mcttcr attentados, muitos deputados moderados incumbiram 



CAPITULO XXIX 285 



a Odorico Mendes e a Vieira Souto irem pedir ao general 
commandante das armas fosse elle em pessoa relatar a 
D. Pedro a gravissima situação em que o governo se achava, 
pois já não podia contar com apoio algum da tropa. 

As dez horas da noite partiu para S. Christovão o general 
Francisco de Lima e Silva que acceitára a delegação popular. 
O imperador respondeu-lhe da mesma forma por que o fizera 
aos juizes de paz. 

Logo que a multidão teve sciencia da pertinaz resposta de 
D. Pedro, predispoz-se a marchar sobre S. Christovão, para, 
por sua vez, falar ao imperador, mas de modo mais positivo: 
pela bocca dos canhões. 

Lima e Silva interpoz-se a este movimento desesperado, 
e, por segunda vez, como enérgico tiltimaium^ expediu para 
S. Christovão o major Miguel de Frias para saber si com 
effeito estava proferida a ultima palavra sobre a questão, que 
ia ser immediatamente resolvida pelas armas. 

Em caminho, o major Frias encontrou a artilheria ligeira 
que havia sido chamada para reforçar S. Christovão, pois que 
a guarda do paço o abandonara; a artilheria vinha também 
incorporar-se ás forças reunidas no campo de SanfAnna, 
tendo, porém, obtido do imperador licença para este proce- 
dimento. 

— Vão, dissera D. Pedro. Não quero sacrifício de pessoa 
alguma. 

O paço da Boa Vista ficara quasi abandonado. 

O major Frias contou em voz alta ao imperador, com 



286 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



todos OS fortes detalhes, que a revolução havia assumido 
caracter perigoso; todas as tropas achavam-sç reunidas ao 
povo ; a multidão só acalmaria com a substituição do minis- 
tério . . . 

— Não! Isso nunca! exclamou D. Pedro com voz arreba- 
tada. Voltar o mesmo ministério, de fónna alguma ! É contra 
a minha honra e contra a constituição. Antes abdicar! Antes 
a morte ! 

E passeava, de braços cruzados, os cabellos em desordem, 
pallido e febril. 

Como nada resolvesse, o major ia sahir, quando D. Pedro 
lhe disse que se demorasse um pouco mais, para levar a res- 
posta ao commandante das annas. Deu então ordem ao 
intendente geral da policia para que fosse procurar o senador 
Vergueiro e o incumbisse de organisar novo ministério. 

A penosa e afflictiva situação obrigou aquelle caracter 
violento e altivo a transigir com a vontade do povo. O 
prestigio do senador Vergueiro (*) apparecia-lhe como taboa 
de salvação no imminente naufrágio — ultima esperança de 
continuar a reinar n'esta terra. 

Na manhã do dia 6 correra o boato de que havia sido 



( I ) Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, o grande patriota, um dos mais 
valentes cooperadores da independência do Rrazil, senador por Minas Geraes, 
nasceu cm Valporto, termo da cidade ds Bragança, em Portugal, a 20 de 
Dezembro de 1779. Bacharel pela universidade de Coimbra, veiu para o Brazil em 
1S05, estabelecendo banca de advogado em S. Paulo. Por esta província foi 
deputado ás cortes portuguezis em 1822. Palleceu no Rio de Janeiro a 17 de 
Setembro de 1839. 



CAPITULO XXIX 287 



expedida ordem de prisão contra o senador lembrado por 
D. Pedro: teve de occultar-se o enérgico representante de 
Minas Geraes. 

Emquanto o intendente procura encontrar-se com o 
dr. Vergueiro, D. Pedro passeia no paço da Bôa Vista, agitado, 
nervoso, proferindo palavras desconnexas, ora ao ministro 
francez, ora ao ministro inglez ; algumas vezes chega á sacada, 
imaginando ouvir ao long^ rumores da tempestade popular. 

— Não ha nem mais um soldado no paço? perguntou elle 
a um creado. 

— Ha poucos, mas fieis e leaes. 

— Estes não são como muitos a quem enchi de benefícios 
e que estão agora no campo a apregoar-se de patriotas, disse 
elle com desprezo. 

ks 2 ]A horas da madrugada chegou o desembargador 
Lopes Gama, banhado em suor e fatigadissimo. Informou ao 
imperador de que baldados haviam sido todos os esforços e 
diligencias na procura do senador Vergueiro : não foi encon- 
trado em parte alguma. 

A inquietação do imperador pareceu acalmar, com este 
resultado infructifero : convidou os dois ministros extrangeiros 
a que o acompanhassem ao seu gabinete. 

Dez minutos depois, voltava elle, com os olhos injectados, 
ruborizadas as faces. Não poude reprimir a commoção que 
o assoberbava: com voz tremula, soluçante, disse ao major 
Frias, ao entrega r-lhe um papel : 

— Aqui tem a minha abdicação. Estimarei que sejam 



288 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



felizes. Eu ine retiro para a Europa, e deixo um paiz que 
muito amei e amo ainda. 

O papel continha as seguintes palavras: 

« Usando do direito que a Constituição me concede, declaro 
que hei mui voluntariamente abdicado na pessoa do meu 
muito amado e prezado filho, o Sr. D. Pedro de Alcântara. 
Bôa Vista, 7 de Abril de 1831. Pedro» 

O official partiu a todo o galope, levando aos revolucio- 
nários mais do que elles pediam — a abdicação, o retirar-se 
o monarcha, d'este paiz, deixando a coroa a uma creança 
brazileira de 6 annos de edade. 

Indescriptível contentamento atroou de vivas a D. Pedro 11 
o vasto campo, em que se revolvia, em agitadas ondas, o 
povo, plenamente vingado de tantos ultrages ultimamente 
soffridos. 

A faustosa noticia da abdicação chegou ao Campo da 
Honra ás quatro horas da madrugada de 7 de Abril. 

Emquanto a multidão expandia de modo delirante o seu 
regosijo, proveniente de victoria tão completa quanto inespe- 
rada, no palácio da Boa Vista procedia D. Pedro a seus 
preparativos de viagem. 

Fundamente impressionado com tamanhos acontecimentos 
occorridos em tempo tão breve, o desthronizado monarcha 
ora abraçava a esposa, que chorava copiosamente, ora debru- 
çava-se sobre o berço de seus pequenos filhos D. Jannaria 
Maria, de 9 annos de edade; D. Paula Marianna, de 8; 



CAPITULO XXIX 289 



D. Francisca Carolina, de 7, e D. Pedro de Alcântara, 
de 5 annos e 4 mezes ( ' ). 

Aos primeiros alvores da madrugada de 7 de Abril, os 
ex-imperadores beijaram com lagrimas as creanças ador- 
mecidas, e, acompanhados pela rainha D. Maria II, pelo 
duque de Leuchtenberg, pelos marquezes de Loulé e outros 
titulares, seguiram para bordo da fragata Warspite^ onde se 
demoraram 5 dias. 

Antedatando uma carta, que appareceu como escripta 
a 6 de Abril, pediu D. Pedro a José Bonifácio aceitasse a 
tutoria de seus filhos e especialmente do herdeiro da coroa: 

rf Amicus certiis in re incerta cerniiur, 

« E chegada a occasião de me dar mais uma prova de 
amizade, tomando conta da educação de meu muito amado 
e prezado filho, seu Imperador. 

« Eu delego em tão patriótico cidadão a tutoria de meu 
querido filho, e espero que, educando-o n'aquelles sentimentos 
de honra e de patriotismo com que devem ser educados todos 
os soberanos para serem dignos de reinar, elle venha um dia 
a fazer a fortuna do Brazil, de quem me retiro saudoso. 

«Eu espero que me faça este obsequio, acreditando que 
a não m'o fazer, eu viverei sempre atormentado. 

« Seu amigo constante, Pedro. » 



( I ) A princeza I). Januaria nasceu a 1 1 de Março de 1822 ; D. Paula a 17 de 
Fevereiro de 1823 ; D. Francisca a 2 de Agosto de 1824 e D. Pedro de Alcântara a 
2 de Dezembro de 1825. 

37 TOM. u 



290 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



O decreto de nomeação foi assim concebido: 

«Tendo maduramente reflectido sobre a posição politica 
doeste império, conhecendo quanto se faz necessária a minha 
abdicação e não desejando mais nada n'este mundo senão 
gloria para mim e felicidade para a minha pátria: Hei por 
bem, usando do direito que a Constituição me concede no 
cap. V, art 130, nomear, como por este imperial decreto 
nomeio, tutor de meus amados e prezados filhos ao muito 
probo, honrado e patriótico cidadão José Bonifácio de 
Andrada e Silva, meu verdadeiro amigo. Boa Vista, aos 6 
de Abril de 1831, io.° da independência e do império. — 
D. Pedro, imperador constitucional e defensor perpetuo 
do Brazil. » 

No dia 8 dirigiu á camará dos deputados esta attenciosa 
communicação: 

w Augustos e Dignissimos Senhores Representantes da 
Nação: 

« Participo-vos, Senhores, que no dia 6 do corrente Abril, 
usando do direito que a Constituição me concede no cap. V, 
art. 130, nomeei tutor de meus amados filhos ao muito probo, 
honrado e patriótico cidadão, o meu verdadeiro amigo José 
Bonifácio de Andrada e Silva. 

«Não vos hei, Senhores, feito esta participação logo que 
a Augusta Assembléa Geral principiou seus importantissimos 
trabalhos, porque era mister que o meu amigo fosse primei- 
ramente consultado e que me respondesse favoravelmente, 
como acaba de fazer, dando-me doeste modo mais uma prova 



CAPITULO XXIX 291 



de sua amizade; resta-me agora como pae, como amigo de 
minha Pátria adoptiva e de todos os brazileiros, por cujo 
amor abdiquei duas coroas, uma offerecida e outra herdada, 
pedir á Augusta Assembléa Geral que se digne confirmar 
esta minha nomeação. 

«Eu assim o espero, confiado nos serviços que de todo 
o meu coração fiz ao Brazil, e em que a Augusta Assembléa 
não deixará de querer alliviar-me doesta maneira um pouco 
as saudades que me atormentam, motivadas pela separação 
de meus caros filhos e da Pátria que adoro. 

«Bordo da nau ingleza Warspite^ surta n'este porto, aos 
8 de Abril de 1831, 10.*^ da independência e do império. — 
Pedro. » 

Poucos dias depois do embarque do imperador, a mãe de 
creação de D. Pedro II, D. Marianua Carlota de Verna Maga- 
lhães Coutinho (*), auxiliou o menino imperador a escrever 
algumas linhas de despedida a seu pae. Este respondeu do 
seguinte modo: 

«Meu querido filho e meu Imperador. — Muito lhe agra- 
deço a carta que me escreveu; mal a pude ler, porque as 



( I ) D. Marianna Carlota de Verna Magalhães Coutinho era esposa de Joa- 
quim José de Magalhães Coutinho, ambos portuguezcs ; chegaram ao Brazil em 
1808, fazendo parte do acompanhamento de D. Maria I. Era tia em segundo grau 
de Ernesto Frederico de Verna e Bilstcin, que, de seu casamento com D. Maria 
do Carmo de Castro Canto e Mello, deixou dois filhos : Miguel de Castro de 
Verna e Bilstein e Jo^^é de Castro de Verna e Bilstein. Miguel de Vema manteve, 
com muito espirito, em Porto Alegre, um periódico O ^eculo, dedicado especial- 
mente á critica individual. 



292 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



lagrimas eram tantas que me impediram o ver; agora qae 
me acho, apezar de tudo, um pouco mais descançado, faço 
esta para lhe agradecer a sua e certificar-lhe que, emquanto 
\'ida tiver, as saudades jamais se extinguirão em meu dila- 
cerado coração. 

«Deixar filhos, pátria e amigos, não pôde haver maior 
sacrifício; mas levar a honra illibada não pôde haver maior 
gloria. Lembre-se sempre de seu pae; ame a sua e a minha 
pátria ; siga os conselhos que lhe derem aquelles que cuidarem 
de sua educação e conte que o mundo o ha de admirar e que 
eu me hei de encher de ufania por ter um filho digno da 
pátria. Eu me retiro para a Europa; assim é necessário, para 
que o Brazil socegue, o que Deus permitta, e possa para o 
futuro chegar áquelle grau de prosperidade de que é capaz. 
Adeus, meu amado filho; receba a benção de seu pae, que se 
retira saudoso e sem mais esperança de o ver. 

« Bordo da nau Warspite^ 12 de Abril de 1831. — Pedro.» 

Também a ex-imperatriz D. Amélia despediu-se de seu 
enteado em uma carta poética, emocionante, orvalhada de 
lagrimas, bello documento que prova a extrema sensibilidade 
de que era dotado seu coração. 

Dizia assim : 

«f Adeus, menino querido, delicias de minha alma, alegria 
de meus olhos, filho que meu coração tinha adoptado ! Adeus, 
para sempre, adeus ! 

«í Quanto és fonnoso n'este teu repouso ! Meus olhos cho- 
rosos não se podem fartar de te contemplar ! A magestade de 



CAPITULO XXIX 293 



uma corda, a debilidade da infância, a innocencia dos anjos 
cingem tua engraçadissima fronte de um resplandòr myste- 
ríoso que fascina a mente. 

« Eis o espectáculo mais tocante que a terra pôde off erecer ! 
Quanta grandeza e quanta fraqueza a humanidade encerra, 
representadas em uma creança ! Uma corda e um brinco, um 
throno e um berço ! 

«rA purpura ainda não serve senão de estofo, e aqjielle 
que commanda exércitos e rege um Império, carece de todos 
os desvelos de uma mãe ! 

«Ah! querido menino, si eu fosse tua verdadeira mãe; si 
minhas entranhas te tivessem concebido, nenhum poder 
conseguiria separar-me de ti! Nenhuma força te arrancaria 
de meus braços ! Prostrada aos pés d'aquelles mesmos que 
abandonaram meu esposo, eu lhes diria entre lagrimas: «Não 
vedes mais em mim a Imperatriz ; mas uma mãe desesperada ! 
Permitti que eu vigie o nosso thesouro! Vós o quereis seguro 
e bem tratado ; e quem o haveria de guardar e cuidar com 
maior devoção? Si não posso ficar a titulo de mãe, eu serei 
a sua creada ou a sua escrava ! » 

« Mas tu, anjo de innocencia e de formosura, não me per- 
tences senão pelo amor que dediquei a teu augusto pae; um 
dever sagrado me obriga a acompanhal-o em seu exilio, 
atravez dos mares, a terras extranhas! Adeus, pois, para 
sempre, adeus ! 

«Mães brazileiras, vós que sois meigas e afagadoras dos 
vossos filhinhos, a par das rolas dos bosques e dos beija-flôres 



294 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



das campinas floridas, suppri minhas vezes; adoptai oorphão 
coroado ; dai-lhe todas um logar na vossa familia e no vosso 
coração. 

«Ornai o seu leito com as folhas do arbusto constitucio- 
nal; embalsamai-o com as mais ricas flores de vossa eterna 
primavera; entrançai o jasmim, a baunilha, a rosa, a angélica, 
o cinnamomo, para coroar a mimosa testa quando o pesado 
diadema de ouro a tiver machucado ! 

« Alimentai-o com a ambrósia das mais saborosas fructas : 
a ata, o ananaz, a canna melliflua; acalentai-o á suave toada 
das vossas maviosas modinhas ! 

«Afugentai para longe de seu berço as aves de rapina, as 
subtis viboras, as cruéis jararacas, e também os vis adulado- 
res, que envenenam o ar que se respira nas cortes. 

«Si a maldade e a traição lhe prepararem ciladas, vós 
mesmas armai em sua defesa vossos esposos com as espadas, 
os mosquetes e as baionetas. 

«Ensinai á sua voz terna as palavras de misericórdia que 
consolam o infortúnio, as palavras de patriotismo que 
exaltam as almas generosas, e, de vez em quando, sussurrai 
ao seu ouvido o nome de sua mãe de adopção ! 

« Mães brazileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor 
da felicidade de vosso paiz e de vosso povo. Eil-o, tão bello e 
puro como o primogénito de Eva no paraiso. Eu vol-o 
entrego. Agora sinto minhas lagrimas correr com menos 
amargura. 

« Eil-o adonnecido. 



CAPITULO XXIX 295 



«Brazileiros! Eu vos suppHco que o não accordeis antes 
que me retire. A boquinha molhada de meu pranto ri-se, á 
semelhança do botão de rosa ensopado do orvalho matutino. 
Elle sorri, e o pae e a mãe o abandonam para sempre! 

«Adeus, orphão imperador, victima de tua grandeza 
antes que a saibas conhecer ! Adeus, anjo de innocencia e de 
formosura ! Adeus ! Toma este beijo! e este. . . e este ultimo! 
Adeus ! Adeus para sempre, adeus ! . . . » 

A 12 de Abril D. Pedro fazia publicar uma despedida 
geral, em francez, a seus amigos de todas as nacionalidades, 
pedindo-lhes perdão dos aggravos e injurias que, sem intenção 
de ofFendel-os, houvesse para com elles praticado. Este docu- 
mento é um de tantos rasgos de nobreza d'alma do príncipe : 

«Commeil est impossible que je m'adresse eu particulier 
à chacun de mes vrais amis pour prendre congé et les 
remercier de toutes les preuves d'attachement qu'ils m^ont 
données, ainsi que pour les prier de me pardonner les griefs 
qu'ils pourraient avoir, les assurant que si j'ai pu les ofienser 
en quelque chose je Pai fait sans aucune intention de les 
injurier, j^écris cette lettre pour qu'étant impriínée elle 
remplisse le but que je me propose, qui est de leur faire à 
tons mes adieux. 

«Je me retire en Europe, oò j'emporte d'amers regrets de 
la Patrie, de mes enfants et de tons mes vrais amis; 
abandonner de si chers objects est cruel, même pour le cceur 
le plus dur; mais les abandonner pour conserver son honneur 
intact devient ainsi le comble de la gloire. 



296 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



«r Adieu, Patrie, ainis, adieu pour toujours! 

irBord du vaissau anglais le IVarspiie^ 12 Avril 1831. — 
D. Pedro d' Alcântara Bragança et Bourbon (').» 

No dia 13 de Abril passaram para bordo da fragata ingleza 
Volage D. Pedro, D. Amélia, o duque de Leuchtenberg, acom- 
panhados pelo marquez de Cantagallo, barões da Saúde e 
Inhomirim, Mr. Plasson, redactor do Moderado^ dr. Tavares, 
e para a fragata franceza La Seine a rainha D. Maria II, 
Mr. Pezerat, seu secretario, o duque de Loulé e sua esposa 
(tia da rainha) e o conde de Sabugal. 

N*esse mesmo dia fizeram-se de vela os dois navios, que 
foram acompanhados pela corveta brazileira D, Amélia^ até 
abandonarem aguas do Brazil. 

Depois de coUocar sobre a cabeça de seu filho a coroa do 
Brazil, seguiu D. Pedro (^) para a Europa, no interesse de 



( I ) « Como é impossível dirigir-me particularmente a cada um de meus 
verdadeiros amig^os para me despedir d'elles e lhes aurradecer todas as provas de 
aíTecto que me deram, bem como para lhes pedir perdão de aggravos que poderiam 
ter de mim, assegurando-os de que, si os offendi em alguma cousa, o fiz sem inten- 
ção alguma de os injuriar, escrevo esta carta, para que, impressa, preencha o fim 
a que me proponho, que é o de dirigir a todos os meus adeuses. 

" Retiro-me para a Europa, para onde levo amargas saudades da Pátria, de 
meus filhos e de todos os meus verdadeiros amigos ; abandonar táo caros objectos 
é cruel, mesmo para o coração mais duro ; porém abandonal-os para conservar 
intacta a sua honra passa a ser o cumulo da gloria. 

« Adeus, Pátria, amigos, adeus para sempre ! 

"Bordo do navio inglez Warspite, a 12 de Abril de 1831. — D. Pedro 
d'Ai/:antara de Bragança e Bourbon.» 

( 2 ) D. Pedro I nasceu em I«isboa, no paço de Queluz, a 12 de Outubro de 1798 
e falleceu no mesmo paço e no mesmo aposento, a 24 de Setembro de 1834. Era 
de figura altiva e insinuante, olhos grandes, pretos e vivos, cabellos castanhos, 
ÇBCuros, annelados, nariz levemente aquilino, bocca regular, lábios grossos, testa 



CAPITULO XXIX 297 

combater a usurpação feita por seu irmão D. Miguel e 
entregar o throno de Portugal a sua filha, D. Maria II, 
cobrindo-se assim de immorredoura gloria. 

Temperamento talhado mais para guerrear do que para 
governar, foi o duque de Bragança ou D. Pedro IV praticar 
prodigios de valor em sua terra natal, desopprimindo-a do 
dominio do terror, alli implantado pela ambição e pela abso- 
luta falta de educação civica. 

Para resgatar os erros do imperante, é dever de grati- 
dão (^) reconhecer que elle inaugurou n'este paiz muitas 



larga, barba cerrada, rosto oval, pallido e bexigoso, côr morena, estatura mediana, 
voz forte e sonora. Excellente musico, hábil torneiro e toureiro destro. Gabava-se 
de dispor de grande força physica. 

( I ) Como grratidào nacional, inaugurou-se, a 30 de Março de 1862, no Rio de, 
Janeiro, na praça da Constituição ou largo do Rocio, imponente estatua equestre 
consagrada á memoria de D. P.edro I. O pedestal octogono é de bronze como todo 
o monumento e assenta sobre uma base de granito. Nas faces principaes, quatro 
grupos representam os rios Amazonas, Madeira, S. Francisco e Faraná. 

A Índia do Amazonas apresenta nas co.stas uma creança a dormir, trabalho 
de perfeição admirável: formam o grupo um jacaré de rara perfeição, uma 
giboia, um tigre, um ouriço cacheiro e uma ave. 

O Madeira é figurado por um selvagem armado de arco, em attitude de 
despedir a flecha : compõem o grupo alguns peixes, uma tartaruga e uma ave. 

K mage.stoso o indígena que representa o S. Francisco ; está sentado e tem 
junto de si um tamanduá bandeira e uma capivara. 

K bello o symbolo do Paraná : a um grupo de Índios juntam-se duas grandes 
aves, um tatá e uma anta. 

Pela correcção e arrojo dos trabalhos cada um d'estes grupos constitue um 
monumento. 

Na face principal do pedestal Ic-se a inscripçào : 

A 

P. Pedro Primkiro 

Gratidão 

DO.S Brazilkiros 

38 TOM. II 



açS MEMORIAS BRAZILEIRAS 



instituições liberaes, que fortemente impulsionaram o nosso 
progresso; e, depois de prestar assignalados serviços ao Brazil, 
foi ser em Portugal o primeiro príncipe que, por amor á 
liberdade dos povos, deitou por terra o absolutismo dos reis 
luzitanos. 

É sobre este duplo pedestal que a sua figura de luctador 
impõe-se, atravez de todas as paixões politicas, ao respeito da 
posterídade. 



Sobre o pedestal ergue-se a íig^ura de D. Pedro em uniforme de general, 
montado em grande e garboso ginete ; o braço direito levantado apresenta a 
declaração da independência do Brazil. 

Altura do monumento 1501, 70cm ; peso do bronze 55.000 kilogrammas. 

Esta grandiosa obra foi executada em Pariz pelo estatuário Luiz Rochet : 
importou na quantia de 3347io$375. 

Por occasiào da inauguração, d*entre muitas poesias, appareceram heróicos 
versos do dr. José Bonifácio de Andrada e Silva, neto do velho José Bonifácio ; 
d'essa producçáo colhemos duas estrophes : 

Que vida foi a tua, heróe valente, 

De povos dois libertador soldado ! . . . 

Quem pôde erguer um hymno alevantado, 

Egual a tanta gloria e táo ingente ? 

Teu nome é um sec'lo ! Nào precisa um hymno ! 

Nfto morrem sec*los, nào ! K teu destino ! 

Roma — fundou-a o braço do bandido ! 
A Grécia surge annuviada e triste ; 
Mas no brazileo céo onde luziste 
O rei foi povo, e o povo rei tem sido ! 
Salve, heróe, que na c'roa tens illesa 
A gloria, a liberdade, a realeza ! 



CAPITULO XXX 



Governo regencial do Brazil. Consequências da abdicação 

DE D. Pedro. 
Sedições militares em varias províncias — 183 i 



^^ARA a montagem do novo governo que deveria sub- 
stituir o de D. Pedro, reuniram-se no paço do senado, na 
manhã do mesmo dia 7 de Abril de 1831, vinte e seis sena- 
dores e trinta e seis deputados ; constituiram-se em assembléa 
e receberam do general commandante das armas, Francisco 
de Lima e Silva, o acto da abdicação. Coiílo as circum- 
stancias urgiam, investiram-se de poderes extraordinários 
e elegeram uma regência provisória^ destinada a governar 
o paiz, até á próxima eleição de uma regência permanente 
que funccionaria durante a menoridade de D. Pedro II. 

Para a regência provisória foram eleitos três membros : o 
marquez de Caravellas, o general Francisco de Lima e Silva 
e o senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, os quaes 
prestaram juramento nas mãos do senador bispo, capellão- 
mór D. José Caetano da Silva Coutinho, presidente acclamado 



3CXD MEMORIAS BRAZILEIRAS 

na occasião, em substituição d^aquelle marquez, que até então 
exercera o cargo. 

Assumiu o supremo governo o partido liberal moderado. 
A Evaristo da Veiga foi commettida a elevada tarefa de 
redigir o manifesto explicador dos acontecimentos. Como a 
multidão se agglomerasse em frente ao senado, o illustre 
jornalista pronunciou eloquente discurso, expondo qual o 
programma do partido que tomava a si a responsabilidade de 
dirigir os destinos da pátria. Concluiu com estas palavras 
exhortadoras : «Moderação, compatriotas, moderação!» 

Depois de applaudir com ardor o homem que pelo 
critério e honradez era segura garantia da firmeza do novo 
regimen, dispersou-se o povo, plenamente satisfeito com a 
victoria extraordinária que havia alcançado n*aquelle memo- 
rável dia. 

A 8 de Abril foi restabelecido o ministério de 20 de 
Março, sendo substituído o ministro da fazenda António 
Francisco de Paula Hollanda Cavalcanti de Albuquerque 
pelo deputado José Ignacio Borges. 

I/>go que o novo governo teve noticia de que o ex- 
iniperador deixara o porto do Rio de Janeiro, fez publicar 
uma proclamação assim concebida : 

«A regência provisória em nome do imperador D. Pedro II 
aos brazileiros. 

«Compatriotas. Está ultimado o primeiro e mais perigoso 
período de nossa tão necessária como gloriosa revolução. 
O ex-imperador acaba de sahir do porto doesta capital, reti- 



CAPITULO XXX 301 

rando-se para a Europa ; uma embarcação de guerra nacional 
o acompanha até largar as aguas do Brazil. Os nossos inimigos 
sáo tão poucos e tão fracos, que não merecem consideração; 
comtudo o governo vela sobre elles, como si fossem muitos 
e fortes. Mas si nada temos a temer de nossos inimigos, 
devemos temer de nós mesmos, do enthusiasmo sagrado do 
nosso patriotismo, do amor pela liberdade e pela honra 
nacional que nos poz as armas na mão. Vossa nobre conducta, 
vossa moderação depois da victoria pôde servir de modelo 
a todos os povos do mundo; não lanceis n^elle a mais pequena 
mancha; e continuai a dar-vos reciprocos conselhos de sabe- 
doria e generosidade; a pátria vos abençoará nas gerações 
futuras e os povos extranhos reconhecerão a v^ossa dignidade 
até agora deprimida por quem devia levantal-a. O Brazil, 
hoje livre, vai mostrar o que é, muito differente do que parecia 
ser. A lei começa a reinar entre nós: respeitai o seu poder 
e as auctoridades que a exercem. Contra os abusos e contra 
os crimes tendes o direito de petição: exercitai-o, deixando 
ás auctoridades o prover de remédio legal. Somos livres: 
sejamos justos. Viva a nação brazileira, viva a constituição, 
viva o imperador constitucional Pedro II. — Palácio do go- 
verno, 13 de Abril de 1831. — Marquez de Caravellas, — 
Francisco de Lima e Silva. — Nicolau Pereira de Campos 
Vergueiro, » 

O governo da regência foi todo de agitações nas províncias 
brazileiras : anceavam os povos libertar-se do dominio portu- 
guez que os opprimia, e contra o qual tinham o dever de 



302 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



rebellar-se para que a nossa independência não fosse uma 
ficção. 

As perseguições exercidas pelos militares reclamavam 
medidas que reprimissem os seus continuos abusos, de 
maneira a garantir os cidadãos contra a livre pratica de 
violências. A força annada parecia subjugar o paiz sob punho 
de ferro, provocando justa reacção da parte dos civis, ciosos 
de seus direitos. 

Apreciando este afflictivo período de transição, e criti- 
cando o militarismo, que exorbitava de suas altas e nobilís- 
simas funcções, diz o illustrado historiador Moreira de 
Azevedo: 

«Indisciplinada, arrogante, tendo a espada como sceptro 
da lei, crendo que tudo deveria decidir-se pelas armas, pela 
vontade dos soldados, orgulhosa por ver que desde 1821 
satisfizera suas exigências, e conspícuo papel representara 
nos negócios públicos, deixara a força militar de ser a 
depositaria da ordem, da tranqui 11 idade publica. Debellava 
os cidadãos em vez de garantil-os ; não era um elemento de 
ordem, nem sustentáculo da lei, mas um corpo anarchico, 
que alçava a cabeça logo que havia um motim, quando não 
era o prímeiro a atear o facho da rebelliáo (^). » 

A 18 de Junho de 1831 reuniu-se a assenibléa geral 
legislativa composta de 35 senadores e 88 deputados e 



( I ) Dr. Moreira de Azevedo : Historia Pátria, O Brazil de iSji a iS^ 
( Rio de Janeiro, 1884 ), pag. 23. 



CAPITULO XXX 303 



prcK^eu-se á eleição da regência trína permanente ; obtive- 
ram maioria de votos e foram proclamados regentes do 
império: o brigadeiro Francisco de Lima e Silva, José da 
Costa Carvalho (marquez de Monte Alegre) e João Braiilio 
Moniz. 

Em começo de seu governo tiveram os regentes de luctar 
com uma sedição militar occorrida no Rio de Janeiro e 
instigada pelo partido exaltado, A 12 de Julho revoltou-se o 
26.° batalhão de infanteria; o ministro da justiça, enérgico 
paulista, padre Diogo António Feijó, conseguiu, por acertadas 
providencias, suffocar a rebellião e ordenar o embarque 
d^aquelle batalhão para a Bahia; porém na noite de 14 
levantaram-se de novo os militares — a maior parte dos 
batalhões de linha e o corpo de policia — e, rebeldes ás ordens 
do commandante das armas, general José Joaquim de Lima 
e Silva, foram occupar o campo de Sant^Anna. Indagada a 
causa do motim, soube-se quc^ tropa exigia fossem deporta- 
dos 89 cidadãos do partido governista. 

O ministro da justiça desenvolveu a máxima energia para 
se não deixar vencer deante do apparato bellico: reuniu a 
familia imperial no paço da cidade, e bem assim os membros 
da regência, do ministério e das duas camarás que se conser- 
varam em sessão permanente desde a manhã de 15 até 20. 

Em um altivo discurso, disse Bernardo Pereira de Vas- 
concellos, criticando o movimento revolucionário : 

ífAs nossas deliberações não podem ser reconhecidas 
livres, desde que se tem violado o artigo da constituição, que 



304 3Ci.TG':ai.'ii:*: TJtJíZZZ^tZll&é 



âe «r «ijTi"'^' .. - - MíAtTíSDiíi- siçif!' icfsing^cif âa -croeiíi TnfrSca 
^t <w r-t^ííW3rt«x*-t?»r -ái así.jác;' aáo -w: arfaram "! » 

Tf-idv»- rA ^tcmaõvi»^ -ót :rf ateeis. 'Ccoo' E-rariCiC» *fia 
V-fájgíL OtTEktír'> I-^fcáO' -t itó>-;OSSLf.. GK"caraz!: c- g^-rrí^naci» -55» 

C0533 tetrvidaidt. f.<»"j> i-Sáaásce^ tsn armasu -qT» íe rc-zuiiraaii ;&s 
íoTÇ&h jítsfaíw- — 9 5.' haãàihàrj et infaTiigna- a arrillaeTia <âc 
aaíuriDlaa ^ <> 3/' (ooprpo» ^it arifjbtiria 5e pCfsiçãoL 

O/sjy/ «: rt^/tlaL^ttíJB lí5i:í3íiHr e dÍ5oordanie> das íccaes 
j^</\-id«X'iafc> Uímaidatí peJo padre Feiíóu í:*? minisírcí? Joífíé -de 
S^/Qza Fraiaça t ;*>*<& ilas^je* ^e M-orae? ívram siEltótaidas 
y/T cidadàr/i capazc* 'íe tníreniai a sílnação : as>iiai:rain. a 
16 dt Julho- Bsrmardo Pereira áe Vasco^ncellos a pasta da 
fazenda. Lino Coutinho a do império e Manoel da Fonseca 
Lima e Silva a da gtaerra. A 170 deputado Sebastião do Rego 
Barros tomoa posse do commando do corpo mnnicipal. Tão 
promptas e efficazes íoram as ordens emanadas do go\"emo, 
que no dia 22 poude o pa'íre Feijó declarar ás câmaras 
achar-se inteiramente restabelecida a tranqiiiilidade publica. 

Necessitando premunir-se contra novos levantamentos 
militares, creou o governo a guarda nacional por decreto de 
iS de Agosto, e da tropa de linha apenas conservou na 
capital o corpo de artilheria de marinha. Este mesmo bata- 
lhão, aquartellado na ilha das Cobra*^, rebellon-se a 7 de 
Outubro, 



CAPITULO XXX 305 



Foram instigadores doesta sedição o capitão José Custodio, 
alferes Camillo José Ribeiro e notadamente o dr. Cypriano 
José Barata de Almeida, detido na ilha ém consequência da 
violência de seus artigos na Scntinella da Liberdade ( * ). 

Contra a ilha seguiu numerosa força dividida em três 
columnas. 

Não sendo" possível, no primeiro encontro, arrombar o 
portão, o tenente-coronel Jacintho Pinto de Araújo Corrêa 
subiu a muralha, sem auxilio de escada, firmando-se nas 
anfractuosidades das pedras e assim galgou o parapeito. 

Muitos officiaes seguiram este exemplo de bravura, e 
outros, por meio de escadas, attingiram ao espaldão da forta- 



( I ) A revolução de 7 de de Abril conflagrou es espiritos, exacerbou riva- 
lidades, expandiu sentimentos de odio.e de vingança. Desvirtuada de sua missão 
elevada e doutrinaria, esquecida d,p que deve pairar acima das paixões com a 
serenidade do pharol — irradiante e sobranceira ao raivar espumante das ondas — 
a imprensa da epocha perdeu a compostura que lhe é própria, despiu a sagrada 
roupagem e converteu-se na estatua mutilada em que outros Pasquinps affixavam 
nào só a satyra mordente, mas o insulto sem peias, que ás vezes commettia o 
sacrilégio de rasgar o reposteiro da vida privada. 

Km 1831 publicavam-se no Rio de Janeiro os periódicos: Sete de Abrily 
O Grilo da Pátria contra os anarchistas, Clarim da Liberdade, Defensor da 
Liberdade, fíussola da Liberdade, foz da Liberdade^ l'oz da Razão, l'oz Flu- 
minense, Medico dos Aíalncos, Enfermeiro dos Doidos, Dois compadres liberaes. 
Exaltado, Matraca dos Farroupilhas, furujuba dos Farroupilhas, fírazileiro 
Offendido, Filho da Terra, Doutor Tira-teimas, Americano, fírazileiro l'igi- 
lante. Espelho da fustiça. Espelho dos fírazileiros, l'igilante, Lyceu Liberal, 
Moderador, Ref^enerador do fírazil, Recopilador, Xovo fírazileiro Imparcial, 
Novo Conciliador, Novo Censor, Cartas ao Poz'o, Simplício, Filho do Simplício, 
Simplício Rigorista, A Verdadeira Mãe do Simplício, Semanário Politico, 
fíuscap/". Patriota fírazileiro, l'elho Casamenteiro, Mensageiro, Constitucio- 
nal, fcterano, Regente, \arciso, Correio da Camará dos Deputados, O Homem 
c a America c Independente. 

3U TOM. u 



3o6 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



leza e intimaram a rendição da praça. Na mesma occasião 
penetrava uma columna pelo ponto opposto, tendo derribado 
o portão. Foram aprisionados 200 sediciosos e os presos por 
elles soltos recolhidos ao navio Presiganga, 

Na tomada da ilha das Cobras distinguiram-se os chefes 
das colunmas de ataque, coronel João Paulo dos Santos Bar- 
retto, major Luiz Alves de Lima e Silva e cidadão Manoel 
António Airosa. O commando geral foi confiado ao general 
José Maria Pinto Peixoto. Da força legal morreu o guarda 
municipal Estevão de Almeida Chaves, cujo enterramento 
se fez com apparato official. 

O governo dissolveu o corpo de artilheria de marinha, e 
o ministro d'essa repartição, José Manoel de Almeida, foi 
substituido por Joaquim José Rodrigues Torres (depois vis- 
conde de Itaborahy.) 

Emquanto estes acontecimentos succediam no Rio de 
Janeiro, outras desordens, egualmente graves, occorriam 
em algumas provincias, de que daremos rápidos aponta- 
mentos. 

Sem entrar em apreciações sobre cada um d'esses movi- 
mentos, apenas os assignalamos de modo summario em seus 
delineamentos principaes e na ordem geographica, de norte 
a sul do paiz. 

Quando, a 22 de Maio de 1831, chegou ao Pará a noticia 
da abdicação de D. Pedro, alarmou-se a população, extreniau- 
do-se os partidos. Para contel-os, o presidente da provincia, 



CAPITULO XXX 307 



barão de Itapicurú-mirim (José Félix Pereira de Burgos), 
fez publicar uma proclamação, aconselhando paz. Amotinado 
o povo, acoroçoado pelo partido liberal, exigiu a deposição 
do brigadeiro portuguez Francisco José de Souza Soares de 
Andréa, commandante das armas. 

Com difficuldade conseguiu o partido legal que tanto o 
commandante como o presidente fossem conservados em seus 
cargos, até que do Rio de Janeiro chegassem novas auctori- 
dades para substituil-os. 

De facto, a 16 de Julho alli aportaram o visconde de. 
Goyanna (Bernardo José da Gama) como presidente e José 
Maria da Silva Bittencourt como commandante das armas. 
Envolvidos em facções, estes funccionarios collocaram-se 
desde logo em serio antagonismo de idéas, e de tal sorte se 
desharmonizaram, que, em menos de um mez, a 7 de Agpsto, 
uma sedição militar depoz o barão de Goyanna e o obrigou a 
regressar para o Rio de Janeiro. Seis cidadãos e entre elles o 
revolucionário cónego Baptista foram remettidos para vários 
presidios da provincia. 

A 23 de Fevereiro de 1832 chegaram ao Pará os tenentes- 
coroneis José Joaquim Machado de Oliveira e António Corrêa 
Seara, presidente e commandante das armas. 

Tendo o cónego Baptista ccínseguido evadir-se, em 
caminho da prisão, ao saber que novas auctoridades acha- 
vam-se á frente da administração do Pará, poz em armas o 
interior da provincia. Doeste movimento de reacção resul- 
tou a morte do coronel Joaquim Philippe dos Reis, comman- 



3o8 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



daute militar da barra do Rio Negro, attentado occorrido a 
12 de Abril. Exaltados os ânimos contra o governo legal, os 
revoltosos, por acto de 23 de Junho, declararam a comarca do 
Rio Negro independente da provincia paraense. Foi neces- 
sário, para a conciliação, que o presidente Machado de 
Oliveira se ligasse ao partido do cónego e o attrahisse á 
capital, satisfazendo-lhe varias exigências. 

P^m Abril de 1833 os partidários do padre impediram que 
desembarcassem o novo presidente, desembargador José 
Mariani, e o commandante das armas, tenente-coronel Ignacio 
Corrêa de Vasconcellos. 

No anno de 1835 foram nomeados, presidente o depu- 
tado Bernardo Lobo de Souza e commandante das armas o 
tenente-coronel Joaquim José da Silva Santiago. 

Ciosos de sua independência, agitaram-se os revolucio- 
nários contra estas duas auctoridades ; na manhã de 7 de 
Janeiro de 1835 foram ambas assassinadas: os cadáveres, 
inteiramente nús, permaneceram, até á tarde, expostos ao 
escarneo da plebe; foram depois levados ao cemitério e lan- 
çados á mesma cova. 

A revolução paraense collocou na presidência o tenente- 
coronel de milicias Félix António Clemente Malcher, que se 
achava preso na fortaleza da Barra, e no commando das armas 
um negociante de borracha, traficante de seringas^ Francisco 
Pedro Vinagre, homem turbulento e rancoroso. 

Por occasião da posse do presidente, lavrou-se uma acta 
popular, em que se declarava que o governo de Malcher não 



CAPITULO XXX 309 



reconhecia o governo da regência durante a menoridade de 
D. Pedro 11. 

Poucos dias depois, entraram em lucta o presidente e o 
commandante das annas ; vencendo este, foi preso e fuzilado 
o presidente Malcher a 26 de Fevereiro ( ^ ). 

Senhor da situação. Vinagre investiu-se do supremo cargo 
civil e militar, até que em Julho do mesmo anno chegou ao 
Pará o marechal Manoel Jorge Rodrigues (depois barão de 
Taquary), novo presidente nomeado. 

Fingindo obedecer ás ordens da regência, Vinagre entre- 
gou o governo ao marechal, porém foi ao interior alliciar 
tropas para combatel-o. 

Perseguido por forças superiores ás de que dispunha, 
Manoel Jorge viu-se compellido a abandonar a capital e a 
refugiar-se na ilha de Tatuóca, onde se conservou, até que 
em fins de Abril de 1836 passou o governo ao brigadeiro 
Soares de Andréa, e regressou para a capital do império. 

Com um reforço de mais de i.ooo homens de infanteria, 
dispostos e disciplinados, Soares de Andréa, auxiliado pelas 
forças navaes do capitão de mar e guerra Frederico Mariath, 



( I ) o dr. Américo Braziliense, em suas Limões de f/isíoria Pátria 
(S. Paulo, 1877), 2.a ed., pag. 179, dá sobre a morte de Malcher as seguintes 
particularidades : 

« Foi derrotado o partido de Malcher e este, do arseual de guerra, onde se 
havia refugiado, dirigiu-se para bordo de um vaso de guerra brazileiro. de que 
era commandante Wandenkolk. Este entregou Malcher aos vencedores, que logo 
o assassinaram á vista da tripulação. Seu corpo foi arrastado pelas ruas, ao som 
de musica, em signal de triumpho. » 



3IO MEMORIAS BRAZILEIRAS 



tomou posse da presidência a ii de Abril de 1836, investindo- 
se ao mesmo tempo do cargo de commandante das armas: 
n'esse duplo caracter fez entrada solemne em Belém do Pará 
a 13 de Maio. Perseguidos e desbaratados os bandos sediciosos 
de Vinagre, de Eduardo Francisco Nogueira Argelim e de 
outros revolucionários, conseguiu o brigadeiro Andréa paci- 
ficar o Pará no anuo de 1837. 

O Maranhão experimentou forte abalo com a abdicação 
de D. Pedro: baldadamente o presidente da provincia, 
Cândido José de Araújo Vianna (niarquez de Sapucahy), 
empregou esforços para reprimir explosão de ódios de nacio- 
naes contra luzitanos; não poude impedir que a tropa 
se reunisse no campo de Ourique, a 13 de Setembro de 1831, 
e ahi fizesse descabidas e arbitrarias exigências — como 
expulsão de brazileiros adoptivos ou portuguezes do ser\âço " 
do exercito; suspensão de vários magistrados; eliminação de 
brazileiros adoptivos dos empregos de fazenda e de justiça ; 
deportação de cidadãos antipathicos á causa nacional; pro- 
liibição de entrada de portuguezes na provincia, com 
excepção de artistas e iudustriacs, e outras imposições 
inconvenientes. 

Não contando com elementos para enfrentar a attitude 
bellicosa dos insurgentes, Araújo Vianna concordou na 
deposição do comniandante das armas, tenente-coronel 
Ignacio Corrêa de Vasconcellos, e bem assim que fossem 
deportados vários magistrados suspeitos de abso/uiisias e 



CAPITULO XXX 311 



frades franciscanos, remettidos para a província do Pará, 
d'onde pouco depois regressaram. 

Audacioso pelas vinganças exercidas, o partido brasileiro 
quiz levar mais longe as suas insólitas pretenções, e a 19 de 
Setembro concitou a soldadesca contra o próprio presidente; 
este, porém, poude reagir contra os anarchistas, mandando 
estacionar defronte de palácio um regimento de artilheria. 
Pretenderam os sediciosos tomar de assalto o quartel do 
15.** batalhão de infanteria, porém foram repellidos; a policia 
fez causa commum com os rebeldes, reunindo-se a elles 
no campo de Ourique. Felizmente, por bem combinadas 
medidas, conseguiu aquelle batalhão attrahir o corpo de 
policia ao grémio da legalidade, e restabeleceu-se a paz na 
capital, sem que se desse derramamento de sangue. Recon- 
centraram-se os revolucionários no interior da provincia, e, 
chefiados por um ourives cearense, António João Damasceno, 
commetteram roubos e assassinatos em diversos pontos, e 
invadiram a villa de Itapicurú-mirim, Icatú e freguezia do 
Rosário. 

Vencido o chefe dos insurgentes perto de Caxias, refu- 
giou-se na povoação do Estanhado e d'ahi marchou para o 
Boqueirão. Dispondo de uma força de 400 homens atacou 
esta villa; porém foi derrotado e morto em Julho de 1832. 
Só assim pacificou-se completamente o Maranhão, contri- 
buindo para tal effeito a energia desenvolvida pelo comman- 
dante das armas Corrêa de Vasconcellos. 



^12 MKMOkIAS BRAZILEIRAS 



Tremenda foi a repercussão catisada no Ceará pela noticia 
da aWícaçâo de l), Pedro: a província, palpitante ainda do 
san$fue derramada» [>ela tmculenta commissão militar, ardia 
em desejí^s de vingança contra seus oppressores e concen- 
trou oílíí>í5 no coronel de milicias Joaquim Pinto Madeira, 
realista exaltado e adepto da restauração do ex-imperador. 
Obrigado a abandonar a capital, onde se x-ia perseguido^ 
retirou-se para a villa do Jardim, e ahi, allegando ter sido 
IVlro I forçado pelos liberaes a abdicar, declarou-se aber- 
tamente contra o governo regencial. Procedeu a rigoroso 
recrutamento, e, á frente de numeroso bando, deu combate^ 
no engenho Burity, a forças do governo, alcançando victoria. 
Orgulhí^so com este triumpho, penetrou na villa do Crato, 
onde fez espalhar uma proclamação em termos violentos e 
insultuosos contra os promotores da revolução de 7 de Abril: 

"Krazileiros! lí chegada a epocha de nossa regeneração 
|yjlítica, epocha eni que os malvados liberaes vão ser punidos 
de tão horrorosos crimes por elles perpetrados! Brazileiros! 
líu estou em campo! Reuni-vos a mim, e vamos desafírontar 
a nossa honra, honra tão manchada por essa vil escoria de 
sevandijas, (jue, com o titulo de liberaes^ tem feito vi\^ 
guerra á religião e ao throno do melhor dos soberanos. 

«Brazileiros! Nem mais um dia devemos esperar e mostra- 
remos ao mundo inteiro o nosso resentimento quanto ao 
extraordinário insulto feito ao nosso adorado imperador, o 
Senhor D. Pedro I, no sempre execra vel dia 7 de Abril! dia 
que cobriu de lucto e de vergonha a todos os bons brazileiros! 



CAPITULO XXX 313 



dia que sepultará para sempre a honra brazileira uo tumulo 
infernal da ingratidão e do opprobrio, si um rompimento 
inesperado, si uma vingança terrivel contra os malvados não 
apparecer n'esta occasião para nos separar do numero d'elles! 

«Brazileiros! O Senhor D. Pedro I, nosso adorado Defensor 
Perpetuo, foi insultado e esbulhado de nosso solo e d^entre 
nós; porém ha de ser vingado em o nosso solo e por nós! 

«Brazileiros! As armas! Vamos dar fim a essa obra glo- 
riosa já por nós encetada! Os malvados não nos resistem, pois 
os seus mesmos crimes os fazem cobardes, emquanto que 
a nossa virtude e a santidade de nossa causa redobra nossos 
esforços, o que praticamente já foi demonstrado no campo 
da honra de Burity ! 

«Brazileiros! Estou á vossa frente com 3.800 heróes bem 
armados e municiados e jamais retrogradarei meus passos, 
sem que no mais remoto sertão do Brazil se respeite a reli- 
gião de nossos pães e o tlirono do Senhor D. Pedro I. E em 
abono d'isso que vos acabo de dizer, só vos recommendo que 
si eu avançar, segui-me; si fugir, matai-me; si morrer, 
vingai -me com a vossa honra! 

«Brazileiros! Viva a religião catholica e apostólica de 
N. S. Jesus Christo! Viva o nosso adorado imperador o 
Senhor D. Pedro I e sua augusta dynastia! Vivam os bons 
e, fieis brazileiros em geral e em particular os habitantes do 
Jardim ! » 

«Villa do Crato, em 2 de Janeiro de 1832. — Joaquim 
Pinto Madeira, » 

iO TOM. II 



314 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

Em Abril do mesmo anno, travou em Icó sanguinolento 
combate com os legalistas; teve ahi completa derrota, 
vendo-se obrigado a fugir, deixando no campo de batalha 
loo mortos, 200 feridos e prisioneiros. 

Cançado de tantas luctas improfícuas e sabendo quanto o 
general Pedro Labatut era humano, Pinto Madeira, acom- 
panhado de 1.590 dissidentes, rendeu-se a 13 de Outubro 
de 1832, no acampamento do Correntinho, sob promessa de ser 
enviado para Pernambuco com seu companheiro de luctas, q 
vigário do Jardim, cónego António Manoel de Souza (appel- 
lidado Benze-cacete)^ a fim de seguirem ambos para o Rio de 
Janeiro, onde pretendiam justificar-se. Iam embarcar com 
direcção á corte, quando houve ordem em contrario, visto 
não terem ainda culpa formada, nem haverem sido interro- 
gados nem ouvidos. 

Depois de vagar de prisão em prisão, em varias provín- 
cias, Pinto Madeira voltou ao Ceará para ser julgado no 
local de seu domicilio, a villa do Crato. 

A 22 de Outubro de 1834 seguiu para ahi o criminoso, 
escoltado por uma força de 60 praças commandada pelo 
ajudante de ordens da presidência da provincia, tenente João 
da Rocha Moreira. 

Era presidente do Ceará o padre José Martiniano de 
Alencar, senador do império. 

Nos officios que esta auctoridade dirigiu ao juiz de direito 
interino, José Victoriano Maciel, e ao promotor publico, 
António Rayniundo Brigido dos Santos, recommendou que, 



CAPITULO XXX 315 



na fornia do art. 319 do código do processo criminal, se 
convocasse o jury extraordinariamente, para que o réo fosse 
julgado com brevidade e reconduzido á capital, no caso de, 
sendo condemnado, appellar para o jurj- da capital, como 
lhe permittia a lei. 

A 23 de Novembro chegou Pinto Madeira ao Crato, per- 
cebendo feroz contentamento por parte de seus inimigos, 
dominadores da situação. Convocado extraordinariamente o 
jur}', no edifício da camará, compareceram todos os jurados, 
combinados todos em cavar-lhe prompta ruina. 

O crime escolhido para o julgamento não foi o de rebel- 
lião, como parecia razoável, mas de homicidio. 

Disse a accusação que no combate de Bnrity, tendo sido 
preso o portuguez Joaquim Pinto Cidade pelos sequazes de 
Pinto Madeira, este o mandara fuzilar, usando da expressão: 
« Prendam e desbaratem. » 

Por não ter defensor. Pinto Madeira só poude apresentiir 
uma pequena defesa escripta, reportando-se ao depoimento 
de suas testemunhas. 

Pessoas que assistiram á morte do moço portuguez 
affinnaram que o assassinato fora perpetrado pela tropa de 
Francisco Xavier Veneno, guarda avançada de Pinto 
Madeira. 

As -pessoas independentes que, apezar de toda a pressão 
politica, se animaram a depor cm defesa do réo, foram, ao 
sahir a porta do tribunal, espancadas deante da própria tropa 
de linha. 



3X6 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



A 26 de Novembro leve o réo condemuação á pena de 
morte, grau máximo do art 192 do código criminal. 

Acto continuo á leitura da sentença, Pinto Madeira 
levantou-se e disse repeitosamente : « Appéllo.» 

Indignado porque o criminoso* usava de recurso garantido 
por lei, o presidente do tribunal, tenente- coronel José Victo- 
riano Maciel, proferiu estas violentas palavras: «Não tem 
appellação nem aggravo, senhor coronel; aprompte-se para 
morrer!» 

E sem que lhe fosse permittido appellar para novo jury 
nem impetrar perdão ao poder moderador, o réo passou no 
dia seguinte para o oratório. 

Âs 8 horas da manhã de 28 de Novembro de 1834, foi 
Pinto Madeira retirado da cadeia, e, seguido de enonne 
acompanhamento, conduzido ao alto do Barro Vennelho^ 
logar da forca. A frente do préstito, o official de justiça 
António Alves lia em alta voz a sentença; seguia-se-lhe Pinto 
Madeira em trajo militar, de corda ao pescoço, cujas pontas 
segurava o carrasco — o sentenciado á pena ultima, Cosme 
Pereira (o Cavaco); ladeavam o réo os padres que o haviam 
assistido no oratório, reverendos José Joaquim de Oliveira 
Bastos e José Félix dos Santos ; compunham o grupo o juiz 
de direito interino, capitão António Ferreira Lima (a quem 
Victoriano Maciel passara o exercicio), o juiz de paz António 
Vicente de Moura e o escrivão António Duarte Pinheiro; 
fechavam o préstito a tropa e o povo. 

Ao chegar ao patibulo, pediu o réo que o não enforcassem, 



CAPITULO XXX 317 

mas o fuzilassem, como militar. Concordando na commutação 
da pena, collocaram junto á forca uma cadeira de pau, em 
que sentou-se Pinto Madeira, com desembaraço e sangue frio. 
Cobriu a cabeça com um lenço, como era de praxe ; collo- 
cou em seguida a dextra sobre o coração, como indicando 
o alvo; após a descarga, tombou de bruços exclamando: 
«Valha-me o Sacramento!» 

Para acabar de matal-o, pois cahira com um braço partido 
e o tronco atravessado por uma bala, o cabo de esquadra que 
commandava a escolta disparou-lhe no ouvido o tiro de 
misericórdia ou de honra ( * ). * 

O cadáver foi sepultado no corpo da matriz do Crato. 

Pinto Madeira nasceu na fazenda Silvério^ da cidade da 
Barbalha; contava cerca de 50 annos de edade; era casado 
e sem filhos. 

Dando conta doestes aconteciment<fe ao presidente da pro- 
vincia, em officios de 27 de Novembro, i.^ e 10 de Dezembro 
de 1834, assim se externou, em resumo, o juiz de direito 
interino José Victoriano Maciel : 



( I ) Pouco tempo depoí%, compadecido da sorte de Pinto Madeira, o povo o 
considerou um martyr. Quando alguém perdia um objecto, nutria esperança de 
achal-o, resando um Padre Nosso e uma Ave Maria pòr alma d'este revolucioná- 
rio cearense. 

« Os últimos momentos do condemnado fizeram calar no animo do povo 
tamanho sentimento de veneração por elle, que ficou, muitos annos, como um 
intercessor para os infelizes. Resavam-lhe para obter favores do céo. ■ 

Major João Brigido dos Santos: Estudos biographicos de cearenses 
illusíres. 



3l8 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



«Tenho de participar a V. Exa. que apezar de ser o réo 
odiado de todas as pessoas beneméritas doesta \nlla, nem por 
isso soffreii o mais pequeno insulto, nem se lhe fez injustiça; 
não se lhe faltou com um só requisito da lei ; os juizes que 
o julgaram foram escolhidos, desinteressados, despidos de 
paixões e vinganças; foi-lhe concedida a escolha dos juizes; 
deu testemimhas em sua defesa: finalmente, encheram-se 
todos os recursos da lei . . . 

ffO réo Joaquim Pinto Madeira, sendo julgado pelo jury 
d'esta villa, foi sentenciado á pena ultima, não havendo, 
na conformidade da* lei, motivo para appellar da sentença; 
o recurso que lhe competia era fazer a petição de graça, 
a qual deixou de fazer por saber que a conspiração dos povos 
que se reuniram n'esta villa, requisitavam a justa punição 
de seus crimes e o cumprimento da sentença, e temendo 
algum rompimento qu? lhe seria peor, dispoz-se a sofFrer 
a sorte que lhe marcava a sua sentença, e, depois de execu- 
tados os recursos da lei, no dia 28 de Novembro expiou os 
seus crimes com a vida; não foi enforcado por não haver 
carrasco, foi fuzilado, exemplo que segui de outras auctori- 
dades que o têem praticado em eguaes condições ... 

«Com o réo Joaquim Pinto Madeira preencherani-se todas 
as formalidades da lei ; não foram acceitos os recursos que 
a mesma lei concede aos réos sentenciados á pena ultima, 
porque o mesmo réo, á vista de seus horrorosos crimes, não 
qiiiz recorrer^ nem a petição de graça, c mesmo declarou aos 
sacerdotes que o assistiram que a não fazia, » 



CAPITULO XXX 319 

A estes embustes officiaes respondeu de modo severo, 
reprehensivo, o presidente do Ceará, padre Alencar: 

<f Assaz desagradável foi a esta presidência e creio que o 
será a todo brazileiro sensivel e amigo da ordem e da legali- 
dade em seu paiz, a leitura do officio de Vmc. de 27 do 
passado mez, em que, relatando o julgamento de Joaquim 
Pinto Madeira, diz que elle fora entregue ao 2.° conselho de 
jurados no dia 26, sentenciado á pena ultima, subira no dia 
27 para o oratório, a fim de expiar no dia immediato seus 
horrorosos crimes ! 

«Por mais coberto de crimes que fosse esse réo, elle era 
um cidadão brazileiro, com quem se devia guardar todos os 
recursos que a constituição e as leis prescrevem; e de mais 
elle era homem e como tal não se lhe devia negar a defesa 
que a humanidade, a natureza e a razão, em um paiz livre, • 
sempre afiançam aos homens, ainda os mais desgraçados. 

« E como se atreve Vmc. a aflSrmar, em seu dito oflScio, 
que se não negou ao réo requisito algum da lei, quando 
confessa que elle ia morrer 48 horas depois do julgamento? 

(í Deixaria elle de lançar mão do recurso do art. 308 do 
código penal, protestando para um novo jury na capital da 
província? Mas como usaria doesse recurso, si Vmc. lhe não 
permittiu os 8 dias marcados no art. 310 do mesmo código? 

ffAlém d^isso, poderia Vmc. ignorar a lei de 11 de Setem- 
bro de 1825, onde se acha a expressa determinação de que 
nenhuma sentença de morte, proferida cm qualquer parte do 
império, seja executada sem que primeiro suba á presença 



320 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

do imperador, lei que já por precaução se havia mandado 
reimprimir no periódico da provincia Recopilador Cearense^ 
desde 24 de Maio, periódico que Vmc. não deixaria de ler, e 
lei de que eu já o havia prevenido em circular aos juizes de 
direito d'esta provincia, datada de 6 de Novembro ultimo, a 
qual Vmc. infallivel mente recebeu, pois foi d'aqui no correio 
de 10 de Novembro que chegou a essa villa a 26, isto é, no 
mesmo dia em que o réo estava sendo julgado, e, accusando 
Vmc. o recebimento de um officio meu, de 7 de Novembro 
que havia ido pelo mesmo correio, claro está haver recebido 
a mencionada circular. 

<fA vÍ3ta, pois, do expendido, é evidente que nem ao 
menos com a ignorância pôde Vmc. desculpar-se de haver 
commettido uma infracção manifesta de tantos e tão claros 
artigos de lei e até da constituição, e isto em um caso em que 
todos os principies de direito e de humanidade exigiam que 
pendesse para a parte mais favorável ao infeliz, ainda quando 
qualquer duvida se suscitasse. 

ff Baldou Vmc. todas as diligencias d'esta presidência, que 
não sem grave peso á fazenda publica havia mandado escol- 
tar este réo com uma força que fizesse a sua perfeita segu- 
rança, livrando-o de algum resentimento popular. Não foram 
pessoas do povo, foi Vmc, foram as auctoridades do Crato 
quem o mataram anarchica e illegalmente, compromettendo 
assim a própria reputação da provincia, que, por estes e outros 
eguaes factos sanguinolentos, vai talv^ez adquirindo a nota de 
estupidez e ferocidade. 



CAPITULO XXX 321 



«Não é por certo praticando doesta maneira que nós 
poderemos firmar a paz, a liberdade e a ordem em nos«;a 
provincia: pelo contrario, si as auctoridades são as mesmas 
que dão o exemplo de transgressão das leis, mesmo d'aquellas 
que a humanidade e a razão mais requerem na sociedade ; si 
ellas, calcando os sentimentos da natureza, são as primeiras 
que se distinguem em actos de ferocidade, derramando 
illegalmente o sangue dos infelizes, que não fará o povo, 
sempre guiado por seus maiores? 

(íD'este modo ficaram baldadas todas as diligencias que 
esta presidência começou a pôr em pratica para fazer parar a 
torrente de bárbaros assassinatos que todos os dias vão succe- 
dendo por toda a provincia. Como conseguir este fim, quando 
as auctoridades se não querem convencer que só na prompta 
e fácil execução das leis é que existem liberdade e segurança 
publica ? 

«Cumpre, pois, que se faça a responsabilidade de quem 
tão ás claras aberra de seus deveres ; por conseguinte ordeno 
a Vmc. que, quanto antes, responda a esta presidência, com 
os motivos que teve para mandar executar o réo Pinto 
Madeira, sem esperar pelos recursos que as leis e a constitui- 
ção lhe garantiam, a fim de que, satisfeito este requisito 
constitucional, se possa deliberar em conselho, conforme fôr 
de direito, contra Vmc. e as mais auctoridades que se julgar 
terem tomado parte em tão tristç acontecimento. 

«Deus Guarde a Vmc. Palácio do governo do Ceará, 15 
de Dezembro de 1834. — Josb Mart imano de Alencar. — 



322 MEMORIAS BRAZII.EIRAS 



Sr. José Victoriauo Maciel, juiz de direito interino do 
Crato. » 

Não foi levada a effeito a responsabilidade do juiz, talvez 
por se ter Alencar convencido de que elle apenas fora instru- 
mento do dictador da comarca do Crato, José Francisco 
Pereira Maia (o Mainha\ homem sagaz, que, da penumbra 
em que se collocára, preparou contra seu rival essa lúgubre 
tragedia. 

Para compensar o acto mau. Pereira Maia prDporcionou 
a absolvição do cónego António Manoel de Souza, ex-depu- 
tado á assembléa constituinte. 

Com a retirada de D. Pedro I e inauguração de novo 
governo, amotinaram-se as tropas em guarnição na capital 
de Pernambuco, a 5 de Maio de 1831. D'ahi sahiram revo- 
lucionadas para Olinda, d'onde regressaram para depor o 
commandante das armas, coronel Lamenha Lins. 

Acalmado este movimento, surgiu na noite de 14 de 
Setembro do mesmo anuo outra sedição militar, que tomou 
espantosas proporções. Em deplorável anarcliia, os soldados 
tomam conta da cidade e coiumettem verdadeiros desatinos, 
arrombando portas a golpes de machado, saqueando armazéns 
e lojas. Em todo o dia 15 reinou terror na capital pernambu- 
cana. No dia 16, cançadas de correrias e ébrias, foram 
as tropas batidas por milicianos e grande numero de cida- 
dãos armados, que as acommetteram pelos bairros da Boa 
Vista e do Recife. Cerca de 300 soldados morreram ás mãos 



CAPITULO XXX 323 

do povo e mais de 8cx) seguiram presos para a ilha de Fer- 
nando Noronha. 

Tal sedição ficou vulgarmente conhecida por Setembri- 
zada. 

Outro tumulto deu-se a 15 de Novembro do mesmo 
anuo, sendo escolhida a fortaleza das Cinco Pontas para sede 
da acção. Felizmente, dentro de poucas horas suffocou-se o 
movimento pelas enérgicas providencias tomadas pelo presi- 
dente da provincia Francisco de Carvalho Paes de Andrade. 

Ainda outra commoção revolucionaria poz em sobresalto 
a capital de Pernambuco a 14 de Abril de 1832. 

O tenente-coronel Francisco José Martins e major José 
Gabriel de Moraes Meyer, á frente de um batalhão de mili- 
cianos, apoderaram-se do bairro do Recife, tendo a seu favor 
o pronunciamento da fortaleza do Bruni. 

Para dominar a revolta, o presidente da provincia reuniu 
as milícias de outros .bairros e attrahiu a si a força naval, e 
com estes contingentes conseguiu impedir que os rebeldes 
passassem a ponte do Recife ; sitiando-os, fez abortar a revo- 
lução fora da cidade, d'onde os chefes, sediciosos esperavam 
recursos bellicos. Depois de 40 horas de indecisões, dissolveu- 
se o batalhão rebelde: deante da debandada, o povo atra- 
vessou em tropel a ponte do Recife, em perseguição dos que 
haviam recusado combater, e, por vingança partidária, com- 
metteu muitos assassinatos que encheram de lucto a capital. 

Pouco depois, em Panellas de Miranda^ ateava-se a 
grande guerra civil, chamada dos Cabanos^ contra a qual o 



324 MHlfO&IAS BRAZII.ETBAS 

gcA-erao legal poz em armas 6.000 soldados. Depcds de encar- 
niçada lucta de quatro annos approximadamente, conseguiu 
o major Joaquim José de Souza aplacar inveterados ódios, 
e auxiliado por uma edificante pastoral do bispo, D. João 
da Purificação Marques Perdigão, attrahiu ao grémio da 
religião e da sociedade, em Novembro de 1835, os povos 
rebellados. 

•A 4 de Abril de 1831, deu-se na Bahia um grande tumulto 
em que tomaram parte povo e tropas, que se reuniram na 
fortaleza e no largo do Barbai ho, revoltados pela prisão de 
dois officiaes brazileiros, e d'ahi foram a palácio pedir ao 
presidente da provinda Luiz Paulo de Araújo Bastos, visconde 
dos Píaes, a demissão do commandante das armas, marechal 
João Chrysóstomo Callado. A demissão foi conseguida, embar- 
cando este official para o Rio de Janeiro a 6 do mesmo mez. 

A 13 de Abril, novas desordens alarmaram a cidade do 
Salvador. Para vingarem a morte do brazileiro Victor Pinto 
de Castro, occorrida na cidade baixa, bairro do commercio, 
morte attribuida a luzitauos, grupos de turbulentos e malfei- 
tores percorreram as ruas, arrombando e saqueando lojas e 
tavernas de portuguezes. 

Deu-se n'essa occasião uni facto lamentável. 

Perseguido por um grupo de amotinadores, o portuguez 
João Teixeira de Carvalho lançou-se do cães ao mar, no 
intento de recolher-se a bordo de alguma embarcação. Com a 
rapidez própria do desespero, nadou na direcção de uma 



CAPITULO XXX 325 



canoa que passava, tripulada apenas por um preto. Persua- 
dido de que ia encontrar humanitário refugio, Teixeira de 
Carvalho approximou-se da canoa, suppondo-se salvo. Infe- 
lizmente, não houve generosidade da parte do rude homem 
do mar. Este barbaramente o matou a pancadas de remo, 
causando este facto profunda indignação aos próprios perse- 
guidores. 

O assassino conseguiu fugir para o sertão da provincia, 
onde, pouco tempo depois, foi preso e condemnado a galés 
perpetuas. Palleceu na prisão. 

Os turbulentos foram, afinal, contidos pelas enérgicas 
providencias tomadas pelo dr. Cypriano Barata de Almeida 
e pelo visconde de Pirajá (Joaquim Pires de Carvalho e 
Aragão), que exercia interinamente o cargo de commandante 
das annas. 

A povoação, hoje cidade, de S. Félix acclamou a repu- 
blica em Fevereiro de 1832; porém este movimento, sem 
recursos para prolongar-se, teve de cessar deante de medidas 
enérgicas tomadas pelo presidente da provincia. Cerca de cem 
presos politicos foram conduzidos para a capital bahiana e 
recolhidos á fortaleza de S. Marcello ou forte do Mar. Ahi 
revoltaram-se a 26 de Abril, hasteando a bandeira da Fede- 
ração^ formada de uma listra branca e duas azues. Na véspera 
haviam alliciado parte do destacamento, ferido ao comman- 
dante e ao irmão d'este, prendendo a ambos. Senhores da 
fortaleza, assestaram as peças de artilheria contra a cidade e 
começaram a bombardeal-a. 



326 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Immediatamente convocou o presidente as auctoridades 
civis e militares; foram postas de promptidão a força de linha 
e a guarda nacional; contra a fortaleza postaram-se cinco 
peças de artilheria no adro da Sé, três no arsenal de marinha 
e na cor\'eta Regeneração. Apossaram-se os sediciosos de 
uma barca ao serviço da fortaleza e de quatro embarcações 
chegadas do Recôncavo com mantimentos. Durante quatro 
dias travou-se forte tiroteio; cessou, quando desmontadas 
algumas peças da fortaleza, tiveram os revoltosos de ceder, 
por ser materialmente impossivel a resistência. 

Também a provincia de Minas Geraes sentiu os effeitos 
da exaltação dos partidos; uma sedição militar explodiu, em 
Ouro Preto, a 22 de Março de 1833, e conseguiu depor o 
vice-presidente Bernardo Pereira de Vasconcellos ; esta aucto- 
ridade installou governo em S. João d'El-Rei, onde preparou 
reacção. Logo que d'estes factos teve conhecimento, a regên- 
cia enviou a Minas o marechal José Maria Pinto Peixoto, o 
qual apenas com quatro officiaes e sem tropa alguma, seguiu 
para as immediações de Ouro Preto e collocou-se á frente de 
um corpo de guardas nacionaes. Depois de um pequeno asse- 
dio, conseguiu o marechal tomar couta da capital, a 19 de 
Maio, sendo presos e processados os rebeldes, á excepção de 
alguns que puderam evadir-se e de outros que se mantiveram 
occultos, até que no anuo seguinte uma amnistia geral 
absolveu-os a todos. 



CAPITULO XXX 327 



Em S. Paulo a noticia da abdicação de D. Pedro foi 
recebida com grandes manifestações de alegria popular: 
bandas de musica percorreram as ruas ao som de hymnos e de 
vivas ; a capital poz luminárias durante três noites consecuti- 
vas; a mocidade académica proporcionou espectáculo gratuito 
ao povo. Com a victoria da causa liberal transbordaram de 
jubilo todos os corações patriotas. 

Na capital do Espirito Santo o 26.° batalhão de infan teria 
sublevou-se, depoz o commandante e o substituiu por outro. 

Vangloriosos com este triumpho, acommetteram os sol- 
dados diversas casas, forçando os moradores a fugir aterro- 
rizados; puzeram a saque vários estabelecimentos; só se 
contiveram ante força regular de milicianos e de cidadãos 
armados. 

Em Santa Gatliarina revoltaram-se os soldados contra o 
presidente e o commandante das armas, nomeados pelo 
governo de Pedro I. Convocado o conselho da provincia, 
deliberou-se, para evitar effusáo de sangue, que aquellas 
auctoridades fossem substituidas por funccionarios immedia- 
tos; assim satisfeitas, voltaram as tropas a seus quartéis. 

Até a longinqua provincia de Matto Grosso sentiu os 
estragos da guerra civil, que assolava as provincias maríti- 
mas. A capital, Cuyabá, viu-se entregue, por falta de força 
moral das auctoridades, a desenfreada carnificina, sem fim 



328 MEMORIAS BRAZILHIRAS 



algitm politico, desde 30 de Maio a 5 de Julho de 1834, pere- 
cendo ás mãos da populaça muitos pães de familia, muitas 
pessoas ricas e de consideração, 
í A attitude enérgica de um official valente, coronel João 

j Propino Chagas, dominou a anarchia e poude restabelecer a 

tranquillidade na capital e no interior. 

Feita esta rápida resenha dos motins que por motivo da 
abdicação convulsionaram o paiz, occupemo-nos das difficul- 
dades com que o governo regencial teve de luctar, para 
salvar o Brazil da anarchia em que parecia querer preci- 
pitar-se. 



CAPITULO XXXI 



Sedição militar dr 3 de Abril dk 1832 no Rio de Janeiro. 

Tentativas de restaurar D. Pedro I no throno do Brazil. 

Suspensão de José Bonifácio do cargo de tutor. 

1832-1834 



J^M meio dos contínuos movimentos sediciosos que entor- 
peciam a marcha do paiz, poude a regência attender a muitas 
necessidades publicas de vital interesse. Com a creação da 
guarda nacional, extinguiu os corpos de milicias e ordenanças 
e a guarda de honra por lei de 18 de Agosto de 1831 ; fundou 
o Thesouro Nacional e Thesourarias de Fazenda nas provín- 
cias, fazendo cessar o Conselho de Fazenda, por lei de 4 de 
Outubro, e a 31 de Dezembro do mesmo anno deu definitiva 
organização á academia de Bellas Artes. 

No anno de 1832 accentuaram-se fortemente os partidos 
que aspiravam preponderar no paiz e que se reduziam a 
três (^): o restaurador^ que impatrioticamente desejava o 



( I ) Como em todas as epochas revolucionarias, os partidários trocavam 
entre si appeUidos escarninhos : os restauradores eram alcunhados de earamu- 
rús; os cvaltados, de farroupilhas ou jurujubas, e os moderados^ de chi- 
mangos. Chimango é no Rio Grande do Sul uma espécie de gavião, ave sem 

4^ TOM. II 



330 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



regresso do ex- imperador e de que eram indigitados chefes 
José Bonifácio, António Carlos, Martim Francisco, viscondes 
de Santo Amaro e de Cayríi e marquez de Paranaguá; o mode- 
rado^ representado pelos três regentes, ministério e uma parte 
da camará, Evaristo da Veiga, Paula e Souza, Honório Her- 
meto Carneiro Leáo (marquez do Paraná) e António Paulino 
Limpo de Abreu (visconde de Abaete); e o exaltado^ com- 
posto de alguns deputados bahianos, de Paes de Andrade 
e major Miguel de Farias e Vasconcellos. 

Tendo sido lida na camará uma proposta, embora rejei- 
tada, para que fossem aposentados ou reformados empregados 
públicos, civis e militares, adeptos do antigo regimen, esta 
idéa, por intolerante, causou indignação a muitos espiritos e 
deu causa a que se ligassem ostensivamente os partidários de 
D. Pedro. 

Trataram os restauradores de fundar uma Sociedade Con- 
serradora da Constituição Brazileira^ que foi installada no 
Rio de Janeiro em uma casa do morro do Castello. Como 
órgão do partido surgiu o jornal Caramunt^ a estabelecer 
confronto entre o governo do ex-imperador e o dá regência, a 
salientar a superioridade d^aquelle sobre este, a criticar 
fortemente as medidas postas em execução e a desejar o 
regresso do duque de Bragança, quer como monarcha, quer 
como regente. 



valor como caça. Os gaúchos, quando querem mostrar que não ligam importância 
alguma a certa pessoa, empregam ás vezes esta fígiira : » Nào costumo gastar 
pólvora com chimango. >• 



CAPITULO XXXI 331 



Por excesso de linguagem, foi processado o redactor da 
Matraca e desappareceu este periódico; declarou-se, porém 
immediata reacção, de caracter forte. Fundiram-se os dois 
partidos, exaltado e restaurador, com o fim commum de 
combater o governo regencial, effectuando-se a liga em sessão 
secreta de uma loja maçónica estabelecida ao valle do Passeio 
Publico. Correram boatos de que a revolução explodiria na 
noite de 2 para 3 de Abril de 1832 ; que seriam assassinados 
membros da regência e do ministério; que, reunidos no 
Campo da Honra, a um signal convencionado, saliiriam 
diversos grupos a impedir o comparecimento da guarda 
nacional, com cujo apoio contavam os insurgentes. 

Logo que teve conhecimento doestas murmurações, o 
ministro da justiça ofBciou ao intendente e juizes de paz nos 
seguintes termos: 

«Tendo-se ha dias espalhado o rumor de que dois partidos, 
com o fim ou pretexto de salvar a pátria, tendem abysmal-a 
nos horrores da anarchia, pois que pretende um proclamar a 
federação já e já, e outro preparar a entrada do ex-imperador, 
collocandq na regência e administração pessoas affectas ao 
antigo governo, cumpre que sejam pesquisados os auctores e 
cúmplices de taes crimes, para que sejam punidos com toda a 
severidade da lei. » 

Foram immediatamente dadas as providencias para suffo- 
car a projectada rebellião ; poz-se de promptidão a tropa de 
linha; reuniu-se a guarda nacional; reforçaram-se as guardas 
nos edificios públicos ; na residência do ministro da justiça 



332 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

houve conferencia de auctoridades civis e militares, accordes 
todas em destruir as preteuções dos partidos colligados. 

Na noite de 2 de Abril espalharam os exaltados uma 
proclamação em que diziam, em nome do exercito e do povo, 
que os membros da regência e do ministério deviam ser 
substituídos, porque haviam, por seus actos, perdido de todo 
a confiança publica; que a continuação d^elles no governo 
importava em abalar os fundamentos constitucionaes do 
paiz; que especialmente os ministros da fazenda (Bernardo 
Pereira de Vasconcellos) e da justiça (padre Diogo António 
Feijó) não podiam mais governar, porque haviam incorrido 
no ódio de todas as classes. Era accusada a regência de não 
impedir que se tramasse na Europa o regresso do ex-impera- 
dor; não mandar fortificar as fortalezas; não contribuir para 
que se desenvolvesse a renda publica. 

Depois de outras increpações fúteis, a proclamação apre- 
sentava como capazes de salvar o império três cidadãos, três 
novos regentes: António Carlos, Pedro Maynard e Paes de 
Andrade. 

Amanheceu o dia 3 de Abril sem que se manifestasse 
a grande perturbação apregoada pelos terroristas : abortara a 
revolução. Não tendo noticia d'este mallogro e cumprindo o 
plano anteriormente combinado, o major Miguel de Frias e 
Vasconcellos levantou os presos militares da fortaleza de 
Villegaignon, apossou-se de duas peças de artilheria ahí 
existentes, desembarcou na praia de Botafogo e com perto 



CAPITUI.O XXXI 333 



de 200 companheiros marchou para o Campo da Honra, 
logar consagrado ás imposições. 

Debalde amigos intentaram demovel-o da temeridade, 
antevendo o desastre da empreza; elle limitou-se a responder- 
Ihes: «Agora é tarde; já dei o primeiro passo.» 

Em caminho, os facciosos concitaram o povo á que os 
auxiliasse na deposição da regência, na mudança do minis- 
tério, na proclamação da republica e na convocação de outra 
assembléa constituinte. 

Por ordem do ministro da justiça, marchou para o Campo 
da Honra o corpo de permanentes reforçado por alguns 
batalhões da guarda nacional. 

Ao penetrar no campo, deu a infantaria uma descarga, a 
que os rebeldes corresponderam com um disparo de artilheria 
que matou a um pobre homem que da rua dos Ciganos (hoje 
da Constituição) observava a lucta. 

Uma carga de vinte cavalleiros bastou para pôr em 
debandada os revoltosos que fugiram, refugiando-se nas casas 
que encontraram abertas: mais de 70 renderam-se e 10 mor- 
reram na acção. 

Perseguido pelo major Luiz Alves de Lima e Silva 
(depois duque de Caxias), Miguel de Frias asylou-se em uma 
casa da rua do Sabão (hoje do visconde de Itaúna) e deveu 
o não ser preso á generosidade d^aquelle official, que, encon- 
trando-o occulto em um aposento, fingiu não vcl-o. 

Este chefe da sedição embarcou pouco depois para os 
Estados Unidos. 



334 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



Tratando da fusão dos exaltados e restauradores, Evaristo 
da Veiga traçou na Aurora Fluminense o destino dos dois 
partidos : 

«Por mais que os cararaurús genuinos trabalhem para 
fingir sympathia com os exaltados, que por vergonhosa aber- 
ração dais leis moraes se lhes uniram, impossivel é que não 
descubram seus sentimentos para com elles e o destino que 
lhes reservam logo que venham a obter o triumpho. E liga 
de matérias repugnantes, cuja solda única está na aversão 
que todos votam ao poder actual. Caso o poder actual suc- 
cumbisse na lucta, os dois corpos extranhos separar-se-iam, e, 
sahindo da metaphora, rijamente se bateriam até á extenni- 
nação. » 

Fracassada a revolução de 3 de Abril, resolveu o partido 
restaurador enfrentar, elle só, as forças do governo para 
derribal-o. 

Na tarde de 16 de Abril alliciou praças de marinha, 
incumbidas de tomar de assalto o arsenal de guerra. 

No dia 17 reuniram-se no paço de S. Christovão ou 
Quinta da Boa Vista 250 conspiradores, entre elles creados 
do paço, guardas nacionaes do Engenho Velho, officiaes bra- 
zileiros e extrangeiros, commandados pelo general, barão de 
Bulow, allemão, cujo verdadeiro nome era Augusto Hugo 
auf Honser, e, arrastando duas peças de artilheria, marcharam 
para o Rocio da cidade nova, a dar vivas a D. Pedro I e a 
clamar abaixo a regência ! 

Innnediatamente mandou o governo formar a tropa de 



CAPITULO XXXI 335 



linha na praça da Acclamação e vir do quartel de Matapor- 
cos, hoje Estacio de Sá, o corpo de cavallaria de Minas. 

A vista doestes aprestos bellicos, retrocederam os insiir- 
gentes e foram postar-se junto a uma chácara em caminho 
de S. Christovão. Para esse ponto seguiram as forças do 
governo, mandando o major Luiz Alves de Lima e Silva 
avançar o batalhão da guarda nacional e fazer fogo. 

Depois de rápido tiroteio, debandaram os sediciosos, 
fugindo em differentes direcções, protegidos pelas sombras 
da noite. 

Dispersos os iiisurgentes, preso o baráo de.Bulow, volta- 
ram os legaes ao paço da cidade, sob enthusiasticas accla- 
mações a D. Pedro II e á regência. 

Deu-se busca no paço de S. Christovão e ahi foram 
encontradas armas e munições — facto que muito depoz 
contra José Bonifácio, tutor do joven monarcha. 

O padre Diogo Feijó accusou-o perante a camará como 
connivente nos motins do partido restaurador. 

Dividiu-se a camará em dois partidos, pró e contra José 
Bonifácio. Uns apregoavam-lhe os grandes serviços prestados 
á pátria e profligavam as calumnias de seus inimigos; brada- 
vam outros, á vista dos acontecimentos, que o paço de 
S. Christovão era asylo de conspiradores, criminosos, gente 
armada, castello feudal em que tremulava a bandeira dos 
caramurús . . . 

Desconfiada do velho patriarcha, resolveu a camará dos 



336 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



deputados suspeiidel-o do cargo de tutor — idéa não appro- 
vada pelo senado por maioria de um voto. 

Ou desgostoso com tantas e tão profundas luctas, ou 
porque desejasse provocar uma moção de confiança, o governo 
— regência e ministério — recorreu a um Golpe de Estado 
e a 30 de Julho de 1832 pediu ás camarás demissão colle- 
ctiva de seus cargos. 

Comprehendendo a camará o perigo enorme que resul- 
taria da immediata substituição de todos os membros do 
governo, abalo que produziria serias conflagrações, manteve- 
se em sessão « permanente, até que fosse resolvida a crise. 

Depois de forte debate, prevaleceu a orientação calma 
e criteriosa.de Evaristo da Veiga, Carneiro Leão e Miguel 
Calmou: resolveu-se enviar á regência uma mensagem, 
convidando-a a que permanecesse no governo, correspon- 
dendo assim á confiança que n^ella depositara a assembléa 
geral, disposta a sustental-a em todos os terrenos. 

O governo regencial acquiesceu ao pedido da camará, 
conservando-se no poder, e a 3 de Agosto de 1832 chamou 
para fazer parte do ministério Pedro de Araújo Lima (mais 
tarde marquez de Olinda) com a pasta da justiça e extran- 
geiros; Hollanda Cavalcanti com as do império e da fazenda 
(esta interinamente) e Bento Barroso de Lima com as da 
marinha e guerra. Este ministério de transição foi substituido 
a 13 de Setembro por outro, composto de njembros prepon- 
derantes do partido moderado. 

Debellada a crise, continuaram os deputados a decretar 



CAPITULO XXXI 337 



necessárias reformas constitucionaes, como a redacção da 
regência a um só membro, e a conversão dos conselhos 
geraes das provincias em assembléas provinciaes. 

Por lei de 3 de Outubro houve reforma das academias 
medicas, que passaram a denominar-se escolas medicas ou 
faculdades de medicina e de cirurgia, sendo uma no Rio 
de Janeiro e outra na Bahia. 

A 29 de Novembro foi sanccionado o código do processo 
criminal, reformando-se as Ordenações; instituiu-se o jury; 
deu-se nova organização ao poder judiciário, egiialando-se 
os tribunaes de relação, supprimindo-se a casa de supplicação 
e incluindo-se no código civil novas disposições. 

No anno de 1833, convocou-se extraordinariamente a 
ássembléa geral a i.® de Abril para se providenciar sobre 
a superabundância das moedas de cobre, falsificadas em 
grande quantidade; sobre a maneira de melhorar o meio circu- 
lante; sobre a reforma de pesos e medidas: encerrou-se a 
3 de Maio, sem que nada se deliberasse acerca d^aquelles 
assumptos. 

Em começo da sessão ordinária, compareceu na camará 
dos deputados o ministro dos negócios extrangeiros, e ahi leu 
uma extensa mensagem denunciando que, segundo informa- 
ções enviadas por diversos diplomatas, tratava-se na Europa 
da restauração do duque de Bragança ao throno do Brazil; 
que para a realização d'este projecto preparavam-se graves 
sedições militares em varias provincias; que o partido restau- 
rador ousava congregar elementos na própria capital do 



43 



338 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



império, propagando a idéa por meio de periódicos de lingua- 
gem violenta e incendiaria; que muitos individuos estavam 
sendo engajados em Portugal, em nome de uma associação 
que se dizia colonial e commerciante, dando-se preferencia 
a officiaes desempregados do serviço do exercito; que existiam 
no Rio de Janeiro requerimentos cobertos de assignaturas, 
pedindo a volta do ex-imperador; que, reconhecendo a regên- 
cia o perigo imminente de uma guerra civil, si em algum 
ponto do Brazil se effectuasse a restauração, vinha procurar 
no seio da representação nacional meios enérgicos e efficazes 
para garantir a uionarchia constitucional ameaçada, 

Discutiu-se o assumpto em dez sessões consecutivas para 
se adoptar o Voto do deputado Costa Ferreira: 

*Responda-se que a camará dos deputados, firme em 
sustentar a honra brazileira, o systema monarchico constitu- 
cional, o throno de D. Pedro II e a revolução de 7 de Abril, 
coadjuvará efíicazmente o governo em tudo que for constitu- 
cional e justo, para se evitar o opprobrio de uma restauração 
e que tomará em consideração as suas propostas. » 

Para precaver-se contra perigosas emergências, pediu o 
governo á assembléa auctorização para proceder a recruta- 
mento ; para conceder o premio de 4o$ooo aos engajados por 
mais de dois annos; para fixar a força do exercito em 12.000 
baionetas; para chamar ao serviço da guerra corpos da 
guarda nacional, e, finalmente, para despender a quantia de 
30o:ooo$ooo em reforçar as fortalezas. 

No patriótico interesse de inutilizar a attitude dos restau- 



CAPITULO XXXI 339 



radores, apresentou o deputado Venâncio Henriques de Re- 
zende o seguinte projecto : 

«O ex-imperador do Brazil D. Pedro I fica para sempre 
inhibido de entrar no território do Brazil e de residir em 
qualquer parte d^elle, ainda que seja como extrangeiro e 
individuo particular ; si o contrario fizer, de qualquer forma 
que seja, será tido e tratado como inimigo e aggressor da 
nação brazileira. » 

Contra os insultos da imprensa decretou-se a responsabi- 
lidade immediata de editores dos diários e periódicos; o 
impressor era obrigado a prestar uma caução de 400$ooo; 
nenhuma gazeta podia sahir á rua sem declarar no cabeçalho 
o nome do responsável, sob pena de incorrer na multa de 
ioo$ooo, paga pelo impressor. 

Um facto occasional attrahiu sobre os Andradas vehe- 
nientes suspeitas de restauração. Tendo partido para a Europa 
António Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, pro- 
palou-se, em jornaes da França e da Inglaterra, que elle ia 
investido da missão especial de proporcionar ao duque de 
Bragança a volta para o Brazil. 

O periódico Albion^ de Liverpool, em seu numero de 12 
de Agosto de 1833, publicou esta noticia alarmante: 

« Occupam-se os ministros em um accôrdo para a volta de 
D. Pedro para o Brazil. Têem já havido varias conferencias 
entre Mr. Talleyrand e lord Palmerston a este respeito. 

«F^oi enviado um agente particular influente no Brazil, 
onde tudo se acha em confusão, e chegou já a este paiz, de 



340 MEMORIAS BRÀZILKIRAS 



caminho para Portugal, encarregado de tratar com D. Pedro 
seu regresso para o Brazil, para que assuma alli sua imperial 
auctoridade. » 

A Sociedade Conservadora da Constituição fundada em ' 
começo de 1832 tomou novo impulso e a 11 de Agosto 
de 1833 passou a intitular-se Sociedade Militar^ para reves- 
tir-se do prestigio próprio de uma classe respeitável. Estabe- 
leceu-se em um prédio do largo de S. Francisco de Paula. 
Fazia propalar que tinha como programma zelar pelo cum- 
primento da constituição, pelos direitos de D. Pedro II e 
I>ela disciplina do exercito. Era seu presidente o tenente- 
general Nóbrega Botelho. 

No interesse de agremiar o maior numero possivel de 
partidários, a Sociedade Militar admittia empregados civis 
das repartições da guerra, officiaes da segunda linha, os de 
ordenanças, os honorários da guarda de honra, os cavalheiros 
de ordens honorificas e em geral todos os cidadãos capazes 
de robustecel-a. 

Corriam boatos de que no paço de S. Christovão conspi- 
ra va-se abertamente; que ao partido restaurador estavam 
sendo alliciados corpos de linha e da guarda nacional, aos 
quaesjá se havia distribuído cartuchame embalado ; alarma va- 
se o povo com a perspectiva de uma revolução, quando a 2 de 
Dezembro de 1833 deu-se um tumulto de más consequências 
para aquelle partido. 

Festejava-se 08.^ anniversario natalicio de D. Pedro II. 
Após o espectáculo de gala no theatro Constitucional Flumi- 



CAPITULO XXXI 341 



nense^ agglomerou-se o povo no largo de S. Francisco de Paula, 
defronte do edifício da Sociedade Militar e em altos brados 
denunciou que alli existia, entre figuras de oflBciaes, o retrato 
do duque de Bragança, bem como grande quantidade de 
annas. Chamado um juiz de paz para verificar o fundamento 
das accusações, penetrou no edificio, acompanhado de popu- 
lares. Verificadas falsas as informações sobre o retrato e sobre 
o armamento, os que acompanharam a auctoridade, arrebata- 
dos por um movimento irreflectido, arrojaram á rua os 
móveis e o distico da sociedade. Applaudindo o escândalo, 
a multidão que enchia o largo exigiu da regência dissolvesse, 
por perigosa, a Sociedade Militar e demittisse José Bonifácio 
do cargo de tutor de D. Pedro 11. 

Exacerbadas as iras populares contra jornaes restaurado- 
res, muitos individuos assaltaram dois estabelecimentos 
typographicos. Diário do Rio^ na rua da Ajuda, e Paraguassú^ 
na do Senhor dos Passos, e lhes causaram grandes prejuizos, 
rasgando collecções, despedaçando prelos e caixas, empaste- 
lando typos ( ' ). 



( I ) No anno de 1833 publicavam-se no Rio de Janeiro os períodiccs : Burro 
Magro, Andradisia, Limão de Cheiro, Brazileiro Pardo, Homem de Còr, 
Brazil Affliclo, Par de 'Htas, Babosa, Marmota, Meia Cara, Mineiro no Rio 
de Janeiro, Caolho, Hospital Fluminense, Esbarra, Verdadeiro Caramurá, 
Paquete de Portugal, Torre de Babel, Inferno, Guarda Nacional, Grito dos 
Opprimidos, Cidadão Soldado, Carioca, Restaurador, Rusguentinho, Cabrito, 
Iman, Torto da Artilharia, Militar, Mestre José, Loja de Belchior, Idade de 
Pau, Adoptivo, Tamoyo Constitucional, Obras de Santa Engracia, Arca de Xoé, 
Formiga, Bemtevi, Pedro II, Liberdade Legal e I*apeleta. 

Hram chamados papeletas os portuguezes que se muniam de certificados ou 



342 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Casas de chefes caramurús foram apedrejadas. 

Cessaram os desmandos com a proclamação que a regên- 
cia dirigiu ao povo, aconselhando prudência, confiança no 
governo, respeito á lei e ás auctoridades constituidas, e obe- 
diência ás suas ordens. 

«E ao governo, dizia o documento official, que, sciente 
das verdadeiras necessidades da pátria, cumpre tomar medidas 
justas e prudentes para manter a segurança individual e fazer 
respeitar a Constituição, o throno de nosso Augusto Monar- 
cha Brazileiro, o Sr. D. Pedro II, e as leis; o governo está 
vigilante; descançai sobre elle e não- vos. mancheis com actos 
que nos podem desdourar e dar razão e força aos inimigos 
da prosperidade do Brazil. Confiai no governo; recolhei-vos 
ás vossas casas e estai tranquillos: assim vol-o ordena a regên- 
cia em nome do Imperador, o Sr. D. Pedro II. » 

Com a data de 14 de Dezembro de 1833 appareceram 
os decretos de suspensão de José Bonifácio do cargo de, tutor 
do joven monarcha e de nomeação interina do marquez de 
Itanhaen (Manoel Ignacio de Andrade Souto Maior Pinto 
Coelho) para aquelle cargo. 

No dia seguinte, acompanhados de mais de cem soldados 
de infanteria e de egual numero de cavallaria, foram os 



I>apeletas do cônsul, com o fim de se eximirem do serviço do exercito ou da 
S^arda nacional. 

Pelos títulos expostos, alguns de espirituosa extravagância, poderá o leitor 
imaginar a Índole das facções de que aquellas gazetas se constituíam epliemeros 
OTgAos. 



CAPITULO XXXI 343 



juizes de paz á quinta da Boa Vista entregar ao tutor o decreto 
de suspensão. 

O velho patriarcha indignou-se com a violenta delibe- 
ração da regência e declarou aos portadores do deprimente 
decreto que se não conformava com elle, nem se dava por 
suspenso de um cargo que recebera directamente de D. Pedro I 
e que só deixaria pela força. E, acto continuo, officiou ao 
ministro do império communicando-lhe a firme deliberação 
adoptada : 

«Tendo de responder ao officiode V. Exa., que acompa- 
nhava o decreto da Regência de 14 do corrente, digo que não 
reconheço na mesma o direito de suspender-me de tutor de 
Sua Magestade e de suas Augustas Irmãs. 

« Cederei á força, porque a não tenho, mas estou capaci- 
tado que n^isto obro conforme a lei e a razão,, pois que nunca 
cedi a injustiças e a despotismos, ha longo tempo premeditados 
para vergonha doeste Império. Os juizes de paz fizeram tudo 
para me commoverem, porém a tudo resisti, e torno a dizer 
que só cederei á força. » 

A vista doesta inabalável attitude, resolveu a regência 
enviar ao paço de S. Christovão os generaes Lima e Silva 
e Cunha Mattos e o marquez de Itanhaen, incumbidos de 
pedir ao imperador a sua mudança para o paço da cidade, 
e de intimar a José Bonifácio a sua suspensão de tutor. 
Tiveram ordem os juizes de eíTectuar a prisão do ex-tutor, 
que, acompanhado de um capitão, foi conduzido a seu domi- 
cilio, na ilha de Paquetá. 



344 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Sendolhe instaurado processo por crime de conspiração, 
viu-se compellido a comparecer perante o tribunal do jurj' 
da corte a 6 de Março de 1834; foi, porém, absolvido por 
absoluta falta de provas. 

Seus três advogadas, Montezuma, Japiassú e Pantoja, 
evidenciaram falsas as cinco testemunhas que, de ordem da 
policia, foram jurar contra o illustre brazileiro. 

Da ilha de Paquetá passou José Bonifácio a residir no 
bairro de S. Domingos da cidade de Nictheroy, e ahi falleceu 
a 6 de Abril de 1838, contando 75 annos de edade. 

O cadáver só levou, pendente ao peito, como galardão 
de seus memoráveis ser\'iços á sciencia, ás lettras e á pátria, 
o habito de Christo, com que em Portugal o mimoseára 
D. Maria I (^). 



( I ) José Bonifácio de Andrada e Silva, filho do coronel Bonifácio José de 
Andrada e D. Maria Barbara da Silva, nasceu na cidade de Santos, Estado de 
S. Paulo, a 13 de Junho de 1763. Fez os seus primeiros estudos com o bispo, 
D. frei Manoel da Resurreiçáo. Formou-se bacharel pela Universidade de Coimbra. 

Sócio da Academia Real de Sciencias de Lisboa, deixou Portugal em Junho 
de 1790 e foi ouvir as lições de Werner, Jussieu, I^voisier e varias summidades 
consagradas ás sciencias naturaes ; quiz depois estudar a sciencia visitando nfto 
s6 estabelecimentos metallurgico^^ como as mais importantes minas, e n'este 
duplo empenho percorreu a França, Inglaterra, Kscossia, Allemanha. Dina- 
marca, Suécia, Noruega, Bélgica, Hollanda, Bohemia, Hungria. Ualia e Turquia. 
Km uma revista scientifíca de Genebra publicou estudos que fez sobre as minas 
da Suécia e da Noruega ; em jomaes alleniAes deu a conhecer doze novos mine- 
raes. que descobriu n 'estes dois paizes. 

A memoria que sobre estas descobertas publicou em allenião, dirigida ao 
engenheiro Beyer. inspector d.is minas em Schneeberg, mereceu ser traduzida 
n.is gazetas scientificas da França e Inglaterra — gloria bastante para lhe immor- 
talizar o nome. Outra memoria, sobre as minas de Salha, na peninsula scandinava, 
foi egualmente publicada em allemâo na gazeta das Minas de Freiberg. 



CAPITULO XXXI 345 



A volta de D. Pedro e de suas irniãs para o paço da cidade 
foi motivo de regosijo geral ; á noite, edificios públicos e casas 
particulares illuminaram-se, e a multidão percorreu as ruas 
ao som de euthusiasticos vivas, como um protesto vehemente, 
nacional, contra a infeliz idéa dos restauradores. 



Bm digressão pela Itália, escreveu a memoria Viagem geognostica aos 
montes Euganeos no território de Pádua ; outra sobre o fluido eléctrico. 

Amigo do grande barão de Huraboldt, mantinha honrosa correspondência 
com o immortal scientista allemão. 

Era membro das sociedades scienti ficas de Stockolmo, de Copenhague e de 
Turim ; da geológica de Londres, da mineralógica de lena e de Edimburgo e da 
dos naturalistas de Genebra, de Berlim e de Pariz. N'esta capital da França leu 
perante a Sociedade de Historia Natural um trabalho histórico e scientifico 
sobre a descoberta dos diamantes do Brazil, estudo que lhe grang^ou o titulo 
de membro da mesma sociedade ; uma memoria sobre pedras preciosas brazi- 
leiras foi impressa nos Annaes de Chimica de Fourcroy. 

Recolheu-se a Portugal em Setembro de 1800. Para galardoar o sábio natu- 
ralista, o governo portuguez nomeou-o intendente geral das minas, desembar- 
gador da relação do Porto, creou para elle na universidade de Coimbra uma 
cadeira de geognesia e metallurgia, e a faculdade de sciencias da universidade 
laureou-o com o diploma de doutor em philosophia natural. 

Em Portugal apresentou á Academia de SciencW varias memorias : / 'iagem 
mineralógica pela provinda de Estremadura até Coimbra, Memoria sobre o 
íarvão de pedra de Portugal, Memoria sobre a nova mina de ouro, da outra 
banda do Tejo, chamada Principe Regente. 

Por occasião da invasão franceza em Portugal (1807), o sábio José Bonifácio, 
embora festejado pelos generaes francezes, foi um dos primeiros a collocar-se 
á frente da reacção contra o inimigo, auxiliando os portuguezes, com todo o ardor 
de seu patriotismo, a pôr fora do território o extrangeiro audaz. Como tenente- 
coronel do batalhão de estudantes, bateu-se valentemente em defesa da causa 
luzitana. 

Depois da expulsão dos francezes, occupou o cargo de intendente de policia 
do Porto, tendo então ensejo de praticar bellos rasgos de humanidade, livrando 
da morte a muitos cidadãos perseguidos como amigos dos invasores. 

Em 181 2 foi eleito secretario perpetuo da Academia Real das Sciencias de 
Lisboa. Residiu em Portugal até o anno de 1819. 

Regressando ao Brazil, foi residir em um sitio que possuia nos Outeirinhos, 
junto á cidade de Santos, onde se entregou ao preparo das seguintes obras : 

44 TOM. II 



346 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



A 12 de Agosto de 1834 obtinha a constituição notável 
melhoramento com a lei do Acio Addicional^ que substituiu 
os conselhos geraes das provincias pelas assembléas provin- 



I — Jornal de viagens pela Europa. 

II — Tratado de mineralogia. 

III — Traducçào das poesias de Virgílio, acompanhadas de commentaríos. 

IV — Compendio de monlanislica, geometria subterrânea e docimasia 
melallurgica, serie de licções proferidas em sua cadeira de g^eognesia e metal- 
lurg^ia da Universidade de Coimbra. 

V — Memoria sobre o trabalho e manipulação das minas de ouro em geral. 

VI — O testamento metallurgico, obra de que appareceram em I^isboa as 
primeiras folhas, sendo interrompida a publicação porque o trabalho apresentava 
idéas contrarias á crença catholica. 

VII —Ensaio de historia contemporânea. 

VIII — Elogios a personagens h is to ri cos. 

IX — Estudos e observações sobre diversas mi fias da Europa. 

X — Apontamentos sobre o Brazil, colhidos nas bibliothecas de Lisboa. 
Infelizmente para a sciencia brazileira e para a sciencia universal, náo foram 

publicadas estas obras de José Bonifácio. Os manuscríptos acham-se condemnados 
ao esquecimento em bibliothecas e em màos particulares. 

Em 1820 effectuou com seu irmào Martim Francisco uma viagrem de explo- 
ração pela provincia de S. Paulo, com o fim de determinar terrenos auríferos, 
abundantes e ricas minas de ferro, publicando suas importantes investigações 
no Journal des Afines. 

Entregava-se aos variados labores de sciencia, de historia e de litteratura, 
quando foi distrahido de suas graves preoccupações pelo perigo que corria a pátria, 
ameaçada pelas cortes portuguezas, que entendiam dever o Brazil voltar a ser 
colónia, repartida em feudos por fidalgos privilegiados. 

Tendo José Bonifácio ido ao Rio de Janeiro como vice-presidente da Junta 
Governativa de S. Paulo, foi logo aproveitado pelo príncipe, que o nomeou 
ministro do reino e extrangeiros e a seu irmão, Martim Francisco, ministro da 
fazenda, no Ministério de i6 de Janeiro de 1822. 

Sobre a simplicidade e honradez d 'estes dois irmãos quando ministros, men- 
cionemos um facto curioso, relatado por testemunha presencial : 

« Os ministros da Regência de D. Pedro reduziram seus ordenados á metade 
do que eram no tempo de D. João VI. Ficaram com 4-.8oo$ooo annuaes, pagos 
mensalmente. 

« José Bonifácio, recebendo 4oo$ooo em bilhetes do Banco, de um mez de seu 
ordenado, os metteu no fundo do chapéo. No theatro lhe roubaram o chapéo e o 
conteúdo. 



CAPITULO XXXI 347 



ciaes, extinguiu o conselho de Estado e determinou a eleição 
de um só regente. 

N'esse mesmo anno desappareceu o partido restaurador 



«o primeiro ministro do Império do Brazil achou-se no dia seguinte sem 
ter com que mandar comprar o jantar. NAo possuia nem um vintém mais, e seu 
sobrinho Belchior Fernandes Pinheiro foi quem pagou as despesas do dia. 

« Em conselho, José Bonifácio referiu esta occorrencia e a extrema neces- 
sidade a que eUa o reduzira e á sua familia. 

• O Imperador entendeu que o ministro, visto a penúria em que se achava, 
devia ser indemnizado, pagando-se-lhe outro mez de ordenado, e n'este sentido 
deu alli as suas ordens ao ministro da Fazenda. Martim Francisco não obedeceu. 
Disse ao Imperador que não havia lei que puzesse a cargo do Estado os descuidos 
dos empregados públicos ; que o anno tinha para todos 12 mezes, e nâo 13 para 
03 piotegidos ; e finalmente pedia a S. Magestade retirasse a sua ordem, porque 
nào era exequivel. Que elle, Martim Francisco, repartiria com seu irmão o seu 
ordenado, e que viveriam ambos cora mais parcimonia n'aquelle mez, o que era 
melhor do que dar ao paiz o funesto exemplo de se pagar ao ministro duas 
vezes o ordenado de um só mez. Este incidente não foi mais adeante. Martim 
Francisco repartiu com seu irmão o dinheiro que tinha, e José Bonifácio d'ahi 
por deante tomou mais cuidado no chapéo e no dinheiro que recebia ( ^ ). » 

Com a dissolução da primeira assembléa constituinte, foi preso José Boni- 
fácio e deportado para fora do paiz. Preferiu residir em Bordeaux. Ahi publicou, 
no anno de 1825, um livro de verso.->. Poesias A2'ulsas de Américo JK/ysto, col- 
lecçào de odes horacianas c de cantatas, traducções de Pindaro, Hesiodo, Virgilio, 
Ossian, Young. 

Quando se achava no exilio, procedeu-.se por duas vezes no Brazilá eleição 
de deputados ; a Bahia lembrou-sc do velho patriarcha, e em ambas as occasiòe» 
o elegeu seu representante, sem que o digno brazileiro pudesse vir satisfazer 
a subida honra. 

O benemérito pro.-icripto correspondeu á prova de alta distincção com uma 
Ode aos fíafiianos, de que transcrevemos as seguintes estrophes : 

Embora nos degraus de excelso throno 
Ra.steje a lesma, para ver si abate 
A virtude que odeia ; a mim me alenta 
Do que valho a certeza. 

(*) António ok Mknfzks V.xsco.vckli.o.s de DRrMMONi) : Annotaçòes 
á sua bto/^rap/iia, pag. S7. 



348 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



OU carainuríi, com a morte do duque de Bragança, a 24 de 
Setembro de 1834. D. Pedro succumbiu a uma febre hectica, 
aos 36 annos de edade. 



E vós também, Bahianos, desprezastes 
Ameaças, carinhos ; desfizestes 
As cabalas que pérfidos urdiam 
Inda no meu desterro. 

Duas vezes, Bahianos, me escoUiestes 
Para a voz levantar a pró da pátria 
Na assembléa g^ral ; mas duas vezes 
Foram baldados votos. 

Porém, emquanto me animar o peito 
Este sopro de vida que inda dura, 
O nome da Bahia, ag^radecido, 
Repetirei com jubilo. 

Amei a liberdade, a independência 
Da doce cara pátria, a quem o luso 
Opprímia sem dó, com riso e mofa : 
— Eis o meu crime todo ! 

José Bonifácio viveu desterrado seis annos. Regressando de Portugal no 
anno de 1829, abandonou as luctas politicas, que tantos desgostos lhe causaram, 
e foi repousar de suas atribulações em Paquctá, na mais formosa e mais poética 
das ilhas da bahia Guanabara. 

Só voltou ao paço imperial em Abril de 1831, chamado a exercer as funcções 
de tutor e de mestre dos filhos de D. Pedro I. 

Por decreto de 14 de Dezembro de 1833 foi elle violentamente suspenso do 
nobilissimo encargo e obrigado a regressar preso para a sua ilha predilecta. 

Após o seu fallecimento na cidade de S. Domingos de Nictheroy, foi embal- 
samado o cadáver e conduzido para a terra natal, a cidade de Santos, em cuja 
egreja do Carmo se acha depositado como sagrada reliquia. 

A gratidáo nacional, que nfto conhece partidos quando trata de glorificar 
os grandes homens, perpetuou-lhe a memoria, erigindo-lhe estatua de bronze, 
levantada no Rio de Janeiro, no largo de S. Francisco de Paula, a 7 de Setembro 
de 1872. 

Na grande e importante obra do dr. Alfredo Moreira Pinto, intitulada Apon- 
tam fn tos para o diccionario ^çeographico do Ihazil ( tomo III, pags. 493 e 495 ) 



CAPITULO XXXI 349 



Logo que teve noticia do fallecimento, José Bonifácio 
escreveu a D. Pedro II esta carta de pezames: 

«Senhor. — Depois do fatal dia 15 de Dezembro do anno 



encontrara-se as segruintes homenagens prestadas aos manes do sabio-poeta, na 
cidade de seu nascimento : 

«A commissão encarregada de erigir um mausoléo a José Bonifácio, depois 
da acquiescencia do cónego dr. Eduardo Duarte da Silva, a 7 de Dezembro de 1889, 
reuniu-se na capeUa-mór do convento do Carmo e procedeu á exhumação dos 
ossos do grande morto. Erguendo-se a pedra mármore que existia sobre a sepul- 
tura, mandada collocar pelo paulista, artista e director de uma companhia 
equestre, António Carlos do Carmo, estavam os ossos do finado dentro de um 
caixão de zinco, tendo por fora do mesmo taboas de outro caixão. Recolhidos em 
uma unia ficaram depositados na capella-mór até ao dia 12 do mesmo mez 
de Dezembro, em que foram conduzidos para o mausoléo, no centro do claustro 
do convento, onde ainda descançam. O mausoléo é de muito gosto artístico 
e obra de Bernardelli. Ha sobre elle o corpo do patriarcha, de mármore, sobre 
um caixão sem tampa, repousando a cabeça sobre o travesseiro e coberto com 
um manto de bronze. Está resguardado por um alpendre de vidro c cercado por 
um gradil de mármore. Aos pés foi collocada a pedra ofTerecida por aquelle 
artista, na qual lé-se : 

Aqui jaz 

o patriarcha da independência 

DO Brazil 

Grande e desinteressado 

Patriota, distincto cidadão 

José Bonifácio de Andrada e Silva 

Tributo á virtude 

Honra e mérito 

Pelo artista A. C. do Carmo 

«Na casa n. 29, da rua 15 de Novembro ( Santos ) nasceu José Bonifácio. 
N'ella acha-se collocada, por iniciativa de Silva Jardim, uma placa de mármore 
com a seguinte inscripção : 

Esta é a casa em que nasceu e morou José Bonifácio de Andrada 
E Silva, patriarcha da independência do Brazil. A cidade dk Santos 

RECONHECIDA MANDOU AQUI COLLOCAR ESTA LAPIDE NO DIA I3 DE JUNHO 
DE 18.H8, ANNIVERSARIO DE SEU NASCIMENTO. 

•• Dos lados estão a data de ii de Abril de 1888 e a seguinte inscripção : f'm 
grupo de abolicionistas. 

* Na parte superior existe representado um livro com o distico A Lei. • 



350 MKMORIAS BRAZILEIRAS 



passado, deixei de escrever pessoalmente a Vossa Magestade 
e ás suas Augustas Irmãs, a quem um só momento não tenho 
cessado de fazer ardentes votos pela sua prosperidade ; hoje, 
porém, não ha razão, por mais poderosa que seja, que possa 
vedar meu coração de ir á presença de V. M. e Altezas. 

«Carregado de pezares e de profunda amargura, venho dar 
pezames pela irreparável perda de seu Augusto Pae e meu 
Amigo. Não disse bem; D. Pedro não morreu. Só morrem os 
homens vulgares e não os heróes: elles vivem eternamente 
na memoria, ao menos dos homens de bem, presentes e 
vindouros. Sua alma immortal vive no céo, para fazer a 
felicidade do Brazil e servir de modelo de magnanimidade e 
virtudes a V. M. Imperial, que o ha de imitar, e ás suas 
Augustas Irmãs, que nunca o perderão da saudade. 

«Deus Guarde a preciosa vida de V. M. Imperial, como 
de coração lhe deseja este que sempre foi e será. Senhor, 

«De V. Magestade 

" súbdito amante e fiel, 

njosé Bonifácio de And rada c Silva. 
«Paquetá, 4 de Dezembro de 1834.» 



Ao concluir estes lipreiros apontamentos sobre o illustre paulista, devemos 
uma rectificavào á nota exarada a pags. 148 e 149 d'este tomo. Dissemos ahi que 
ellc nunca acccitára distincçào alguma honorifica ; deviamos ter accrescentado : 
"de I). Pedro I,»» porque de D. Maria I, rainha de Portugal, não recusara o habito 
da ordem de Christo. Explicado assim o facto, é acceitavel a estampa com que a 
professora I). Maria de Andrade adornou seu interessante livro de historia bra- 
zileira, figurando o patriota revestido de insig^ia. 



CAPITULO XXXI 351 



Procedendo-se a 7 de Abril de 1835 á eleição do regente, 
feita a apuração de votos em sessão da assembléa geral legis- 
lativa de 9 de Outubro do mesmo anno, foi proclamado 
regente o padre Diogo António Feijó. 

Por esse tempo, achava-se a regência trina do Brazil 
reduzida a um só membro, o general Francisco de Lima 
e Silva: os outros, José da Costa Carvalho, doente e desgostoso, 
se havia retirado para S. Paulo, e João Braulio Moniz falle- 
cêra a 21 de Setembro de 1835. 

Foi na regência do padre Feijó que a provincia do Rio 
Grande do Sul, travou com o governo instituido a grande e 
prolongada lucta, conhecida sob a denominação de Guerra 
cios Farrapos, 



CAPITULO XXXII 



A Revolução Rio-Grandense de 1835. Principaes causas. 

Presidentes Manoel António Galvão, José Mariani, 

António Rodrigues Fernandes Braga, José de Araújo Ribeiro. 

Bento Gonçalves da Silva, Bento Manoel Ribeiro. 

De 1833 A 4 DE Outubro de 1836. 



iISko momento em que vamos expor os principaes factos 
que constituem o movimento revolucionário do Rio Grande 
do Sul em 1835 — guerra mais duradoura e mais desastrosa 
que quantas sedições militares e motins civis foram levantados 
em outras provincias — devemos, como objecto de meditação 
e de estudo, indicar algumas das causas que, a nosso ver, 
determinaram a conflagração rio-grandense. 

Apresenta-se-nos, como primeiro factor, o exemplo, offere- 
cido pelo .Estado Oriental do Uruguay, nossa antiga Provincia 
Cisplatina, com a qual os rio-grandenses mantinham relações 
immediatas, oriundas da intima visinhança, do entrelaça- 
mento dos negócios, das propriedades ruraes situadas nos 
dois paizes limitroplies, da semelhança de usos e costumes 
campestres e da lingua, legitima irmã da portugueza. 

4;» TOM. II 



354 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Constituída a republica do Uruguay desde 1828, a idéa 
de gosar a mesma liberdade actuava no espirito rio-grandense, 
propenso como o dos orientaes a gosar os fructos da demo- 
cracia. Essa foi a causa latente. 

Diversas, porém, as causas efficientes: vexatória absorpção 
de suas rendas pelo poder central, que parecia querer extin- 
guir as fontes de riqueza provincial; exaggerados impostos 
sobre a carne secca {charque\ sobre couros cavallares e 
vaccuns, sujeitos ao quinto^ sobre o sebo, a graxa, a herva- 
matte, e o trigo, único género de exportação e riqueza princi- 
pal do Rio Grande. Do definhamento de todas estas industrias 
apontava-se como responsável o governo geral, que só se 
lembrava dos sulistas quando §e fazia mister a lucta pelas 
armas contra a invasão do inimigo e então os concitava a 
inspirar-se no sentimento do patriotismo. Farto de ser larga- 
mente explorado, o povo, consciente de sua força e valor, 
usou do direito de revolucionar-se. 

Foram também causas da guerra as renhidas luctas 
entre os dois partidos em que se dividia a nação, o dos 
exaltados e o dos retrógrados ( * ), combates que começaram 



( I ) Os exaltados eram alcunhados íXfi farrapos, farroupilhas, anarchistaSy 
pês de cabra ( allusão aos mulatos ). Contra o nosso hymno, cujo estribilho é 
Brava gente brazi leira, appareceu a seg^uinte parodia, attribuida a portuguez : 

Cabra-gente brazileira, 
Descendente de Guiné ! 
Trocaram as cinco chagas 
Pelo fumo e o café ! 



CAPITULO XXXII 355 



pela palavra na sessão da primeira assembléa legislativa pro- 
vincial, installada a 20 de Abril de 1835, e se desenvolveram 
pelas armas em campos de batalha, ensanguentando, por 
mais de nove annos, aquella varonil provincia. 



Os retrog^dos eram chamados caratnurús^ absoluíis/as, camfllos^ corcun- 
das^ e especialmente os portugueses appellidados de galUgos^ pés de chumbo^ 
marotos. Troca vam-se de parte á parte sarcasmos em versos : 

O maroto, pé de chumbo, 
Calcanhar de frigideira, 
Quem te deu a confiança 
De casar com brazileira? 

Fora, marotos, fora ! 
Viagem podem seguir, 
Que os brasileiros n&o querem 
Marotos mais no Brazil ! 

A veia poética dos gaúchos rio-grandenses achava na revolução incentivos 
para grande numero de satyras, de que só poderemos dar algumas, como 
curiosidades históricas. 

PERSIGNAÇÃO CONTRA OS FARRAPOS 

Tristes tempos malfadados! 
Nunca vistas maravilhas ! 
Distinguem-se o& farroupilhas 
Pelo signal 

De pistola e de punhal ! 
Divaga a raivosa gente. 
Assolando o continente 
Da Sania Cruz. 

Chamam-nos caramurús ; 
Nos ameaçam de saque ; 
Mas de semelhante ataque 
Livrai-nos Deus, 



356 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Assim como appareceu em S. Paulo um italiauo de idéas 
livres, espirito adeantado e enérgico, Libero Badaró, também 
o Rio Grande do Sul viu comprehendído em suas agitações 
politicas outro italiano, devotado patriota, grande incitador 



Ah lei» andam aos boléos : 
O povo, tremendo, foge ; 
Bento Gonçalves é hoje 
A'osso senhor! 

O» que furtam nem pudor, 
Kspancam os seus patrícios, 
Clianiam-sc, sem artifícios. 
Dos nossos! . . . 

Os que, temendo destroços. 
Querem viver retirados, 
I^)jço sAo appellidados 
Inifnií^os ! 

Dizem inda taes amij^os 
yue ha de Caldas ( ■* ) governar, 
Iv que a lei se ha de dictar 
Km nomr do padre. 

K no enitanto, anda o compadre 
Do compadre dividido : 
l'ojçe da esposa o marido 
/; do filho ! 

O prande Deus! liu me humilho 
Ante a vossa divindade I 
Mandai -nos a claridade 

Ihi Kspiriio Sanio ! 

ICnxuíçai o nosso pranto. 

Acalmai nossa discórdia. 

Por vossa misericórdia I 

.Inten. Jesus ! 

^ "^^ ) Na fala do presidente l'\'rnandes Braga proferida a 20 de Abril de 1S35, 



CAPITULO XXXII 357 



das massas, quer na loja maçónica porto-alegrense Conti- 
nentinos^ de que foi fundador, quer no jornalismo, pregando 
em uma e outra parte idéas francamente republicanas. Refe- 
rimo-nos ao intitulado conde Tito Livio de Zambicari. 
Compromettido na revolução européa de 1830 e condemnado 
á morte, procurara refugio na America e fora levar ao Rio 
Grande do Sul o concurso de sua illustração e de seu amor á 
causa da liberdade. 

Sobre este notável cidadão fez nosso illustrc conterrâneo 
Assis Brazil honrosa referencia : 

«Levado por esse sentimento quasi fanático de cosmopo- 
litismo que foi tão commum aos homens d'aquella epocha e 
que também dominava Garibaldi, Rosseti, Griggs e tantos 
outros extrangeiros que serviram a Republica Rio-Grandense, 
Zambicari fez-se amar de todos os patriotas do Rio Grande e 
pôle ser considerado o seu verdadeiro e real mentor mental. 



peraiite a assenihléi provincial, denunciando conspiração, lê-se o tópico seguinte 
sobre o padre Caldas : 

« Consta-nie que João António Livalleja ainda nào deixou o nosso território 
e que jmtimcnte cooi os2u ni?ntor, o indi^^nopidrejos^ António Cildis, trabilha 
de ni<io^ didas com difFerente.^ ambiciosos para perturbar o socífço da provincia 
e levar avante seus pUnos de sopiraçào do império e federação com a Cispla- 
tini. " 

O pidre C ildas, deputado á asseniblé;i constituinte por sua provincia natal. 
AlaK<i:is, fora preso, por haver tom ido pirtc na revolução pernambucana de 1S24, 
e encarcerado na fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, d'oijde consejoiitt 
evadir-se e fugir pira a Republica Argentina ; ahi obteve o logar de capellão do 
exercito. Passou-se depois pira a republici Oriental e conseguiu nomeação de 
vigário no djpirtim:nto do Cerro Lirgo. Arrastado por seu espirito irrequieto. 
Caldas, unido a Livalleja, em largas conferencias eflfectuadas em Jaguarão, insti- 
gava Bento Gonçalves a proclamar a republica, separada do império. 



358 MEMORIAS BRAZILETHAS 



Assim explica-se o influxo que exerciam no Rio Grande as 
doutrinas da Joven Itália^ de Mazzini: appareciam alli 
atra vez de Zambicari ( ^ ). * 

Lançadas estas preliminares, exponhamos antecedentes 
da revolução. 

Já no governo do desembargador Manoel António Galvão, 
cm 1833, corriam nimores de que a província projectava 
revolucionar-se, e, presentindo o facto, aquelle funccionario 
e o com mandante das armas, marechal Sebastião Barretto 
Pereira Pinto, denunciaram reservadamente ao governo o 
plano que se formava e de que era cabeça dirigente o coronel 
Bento Gonçalves da Silva, commandante superior de toda a 
guarda nacional da pro\-incia e também commandante da 
^ fronteira de Jaguarào. Para justificar-se, foi Bento Gonçalves 
chamado ao Rio de Janeiro, onde cultivou relações com 
espíritos adeantados d'aquella epocha, Evaristo da Veiga, 
padre Feijó e outros liberaes. Conseguiu do governo a pensão 
de i:200$ooD annuaes por ser\-iços relevantes prestados ao 
paiz ; prohibição do estabelecimento da Sociedade Militar na 
provincia e a nomeação do bacharel António Rodrigues Fer- 
nandes Braga para presidente do Rio Grande do Sul. ' 

Demittido Galvão, foi nomeado para substituil-o José 
Mariani, tendo para este facto precedido accordo com Bento 



( I ) Assis Brazil : Historia da Republica Rio-Grandensc ( Rio de Janeiro, 
1HS2 ) vol. I, pags. 55 e 56. 



CAPITULO XXXII 359 



Gonçalves. O novo presidente assumiu o exercicio do cargo 
a 22 de Outubro de 1833. 

Pretendeu o partido restaurador ou caramurú, tendo á sua 
frente o marechal Sebastião Barretto, installar em Porto 
Alegre uma succursal da Sociedade Militar^ destinada, como 
a do Rio de Janeiro, a congregar adeptos de D. Pedro I. 
Tratava-se de inaugurar a associação, a 24 de Outubro, 
quando os liberaes recorreram á camará municipal para que 
interviesse, junto ao presidente da provincia, no sentido de 
obstar a installação. Em vez de corresponder á geral especta- 
tiva, José Mariani reprehendeu a camará por envolver-se em 
assumpto alheio á sua competência. Melindrado com esta 
altitude da primeira auctoridade provincial, tomou armas o 
partido exaltado, disposto a impedir pela força o estabeleci- 
mento da Sociedade ('). Dois officiaes de prestigio incum- 
biram-se de dirigir o movimento, o major José Marianno de 
Mattos, commandante do corpo de artilheria, e o major João 
Manoel de Lima e Silva, ambos fluminenses, sendo o ultimo 
tio do major Luiz Alves de Lima e Silva e irmão de um 
dos regentes, general Francisco de Linia e Silva. Não se 
effcctuou a projectada inauguração, pela certeza que tinham 
os retrógrados de que seriam vencidos na lucta, si esta se 
empenhasse. 

Para acalmar os ânimos, resolveu o governo regencial 



( I ) Para ridicularízal-a, o povo alcunhara a Sociedade Militar de Espada- 
china. 



360 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



cumprir a promessa feita a Bento Gonçalves, nomeando Fer- 
nandes Braga presidente do Rio Grande do Sul. Nomeado 
por decreto de 14 de Fevereiro de 1834, Braga enipossou-se 
do cargo a 2 de Maio. Na noite d'esse dia foi elle alvo de 
uma grande manifestação popular. 

Restabelecida a tranquillidade publica, houve necessidade 
de remover de Porto Alegre os majores José Marianno e Uma 
e Silva, com seus corpos, sendo aquelle para Rio Pardo e este 
para S. Borja. 

Dotado de boa indole e honesto, Fernandes Braga inau- 
gurou seu governo cercado de sympathias e inspirando con- 
fiança pelo empenho que mostrava em conciliar os partidos. 
Os meios brandos que empregav/i para com os adversários 
políticos acabaram por irritar os exaltados : começou a 
imprensa a critical-o com aspereza de linguagem, servindo-se 
ás vezes de allusões insultuosas. 

Um facto despertou e fez recrudescer velhas hostilidades 
de partidos. 

Em Outubro de 1834 recebia-se em Porto Alegre a noticia 
das reformas liberaes realizadas pela assembléa constituinte 
em Agosto, e na noite de 24 immensa massa compacta de 
povo percorria as ruas, com os juizes de paz á frente, ao som 
de hymnos musicaes e enthusiasticos vivas. U como essa noite 
recordasse o primeiro anniversario do movimento |X)pular 
que impedira a installaçáo da Sociedade Militar^ conside- 
raram os retrógrados a manifestação como um acinte affron- 
toso ás suas idéas. 



CAPITULO XXXII 361 



Acliava-se u'essa occasião o presidente na cidade do Rio 
Grande, e occupava-lhe o logar, interinamente, seu irmão, o 
juiz de direito dr. Pedro Rodrigues Fernandes Chaves. 

Este politico, dotado de génio irascivel, concebendo a 
infeliz idéa de oppor-se ás festas publicas, mandou occupar 
militannente o arsenal de guerra, e, por não confiar na guarda 
nacional, engajou extrangeiros mercenários. A prudência de 
muitos liberaes sensatos se deve o não ter havido em Porto 
Alegre graves conflictos n'essa noite memorável. Revoltou-se 
a multidão especialmante contra dois retrógrados intransigen- 
tes — o visconde de Castro e o brigadeiro Manoel Carneiro 
da Silva Fontoura, accusados de haverem disparado tiros 
sobre o povo. Tumultuariamente preso o brigadeiro, foi 
apresentado ao juiz nmnicipal Vicente Ferreira Gomes, reda- 
ctor do Constitucional Rio-Grandense ( * ). 

Nada, porém, se poude conseguir, como desaffronta do 
povo, em consequência das estreitas relações mantidas entre 
o presidente interino e o official. 

Logo que no Rio Grande Fernandes Braga teve noticia 
do que succedia em Porto Alegre, mandou chamar seu 
parente, o coronel Bento Gonçalveç — um dos rio-grandenses 
de mais prestigio na occasião — e depois de rápida conferen- 



( I ) Vicente Ferreira Oomes era pae <lo iUuslre cducacionista rio-grandensc, 
UI111 das glorias do m^isterio particular, Ktmindo Ferreira Gomes, que nasceu 
em Porto Alegre a 30 de Maio de iS^o e ahi falleceu a 2S de de Dezembro de i8g6. 
A biographia d'estc grande professor foi traçada por nosso conterrâneo Carlos 
Maximiliano e publicada, acompanhada de perfeito retrato, no Annuario do 
Estado do Rio (irande do Sul para o anno de 1898, pags. 193 a 201. 

40 TOM. II 



362 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



cia, em que fez appello ao seu patriotismo, deu-lhe cartas 
brancas para que na capital da provincia puzesse em pratica 
as medidas que entendesse convenientes para garantir a 
tranquillidade publica. 

Foi valiosa a interferência do coronel nos distiirbios em 
que se agitava a capital. Com sua presença, com seus conse- 
lhos conseguiu o restabelecimento da ordem. 

De volta a Porto Alegre e períeitamente inteirado da 
situação precária em que o governo se via — antipathizado 
geralmente em vista de perseguições exercidas pelo dr. Pedro 
Chaves — o presidente, baldo de recursos para conjurar os 
adversários, representou ao governo regencial, denunciando 
a existência de um partido separatista. Tramava-se, dizia 
elle, annexar o Rio Grande do Sul ás republicas do Prata, e, 
para que se não effectuasse este desmembramento, fazia-se 
mister que o governo central expedisse para o sul tropas das 
três armas e em grande numero; si lhe fossem negados os 
recursos pedidos, solicitaria sua demissão, para não acarretar 
com a responsabilidade dos males que adviessem á sua terra 
natal. 

Impossibilitado materialmente de acudir a este appello, 
o governo, a braços com forte opposição no Rio de Janeiro e 
em varias provincias do norte, respondeu-lhc que defendesse 
as instituições com os elementos reunidos na provincia e 
aguardasse substituto. 

Deu-se mezes depois uma lamentável occorrencia na 
provincia. 



CAPITULO XXXII 363 



Portuguezes residentes na cidade de Rio Pardo lembra- 
ram*se de exhibir, no sabbado de alleluia do anno de 1835, 
alguns judas adornados de cornos e de pés de cabra, como 
escameo a nacionaes. 

Indignado contra estes objectos de zombaria e vilipendio, 
um mulato escravo clamou em altas vozes, accusando os 
auctores das ridiculas figuras e prorompia em impropérios, 
quando foi morto por um tiro de espingarda disparado do 
interior de uma casa fronteira. Alarmou-se a população rio- 
pardense com este attentado. 

O governo provincial agitou ainda mais a situação, orde- 
nando o proseguimento de anteriores processos politicos, 
acção a que se não prestaram os juizes de paz, com excepção 
única do retrogrado Casimiro de Vasconcellos Cirne. A casa 
d'esta auctoridade foi assaltada por mascarados, que exigiram 
do funccionario entrega dos autos. Cirne resistiu á intimação 
e com um tiro de pistola mutilou um dedo ao chefe, ao passo 
que sua filha, n*um assomo de heroina, arranca va-lhe a mas- 
cara,- reconhecendo n'esse assaltante Simeão Gomes Bar- 
retto. Depois de lucta desesperada, Cirne cedeu ao numero 
e cahiu morto. 

Os attentados commettidos em Rio Pardo apressaram 
a revolução. Com estes factos coincidiu a inauguração da 
assembléa legislativa provincial a 20 de Abril de 1835. ^ 

Apezar da pressão exercida pelo governo, conseguiu o 
partido nacional collocar na assembléa seus homens de maior 
proeminência, como Bento Gonçalves da Silva, Bento Manoel 



364 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Ribeiro, o distincto medico dr. Marciano Pereira Ribeiro, o 
escriptor António José Gonçalves Chaves, José de Paiva' 
Magalhães Calvet, Domingos José de Almeida ; por sua parte, 
os retrógrados tinham alli como seus representantes homens 
de apaixonada energia como o dr. Pedro Chaves, o juiz de 
direito Rodrigues Pontes e o chicanista Manoel Felizardo de 
Souza e Mello, fortemente antipathizado pelos exaltados. 

Na abertura da assembléa, o presidente, instigado pelo 
espirito atrabiliário e vingativo de seu irmão Pedro Chaves, 
denunciou aos representantes da provincia um plano de 
separal-a da communhão brazileira para confederal-a ás 
republicas platinas, levando a sua imprudência a ponto de 
designar quaes os chefes revolucionários. 

E certo que os exaltados pensavam em federação, mas no 
próprio paiz — autonomia das provincias, sem, comtudo, 
desobrigar-se da obediência a um poder central, a que esta 
riam subordinadas por meio de leis geraes. Republica federal 
como a dos Estados Unidos era a idéa dos patriotas, desde 
a conjuração mineira á Confederação do Equador e doesta á 
republica dos farrapos. 

A injusta accusação formtilada pelo presidente contra 
homens pundonorosos acirrou ainda mais os ódios políticos. 

Como não chegassem tropas do Rio de Janeiro, para darem 
força á auctoridade, a assembléa creou um corpo de policia, 
de 7CX3 soldados, aos quaes Bento (ronçalves denominou /V////- 
caros. Cercava-se o presidente de apparato l)ellico, e na 
necessidade de occorrer a novas despesas, decretou a assem- 



CAPITULO XXXII 365 



bléa tributos vexatórios, taes como de io$ooo por légua 
quadrada, imposto sobre chapeados, esporas e estribos de 
cavalleiros, e outras coutribuições rigorosas. 

A tal pouto chegaram as luctas partidárias, que os oppo- 
sicionistas reconheceram não haver outro alvitre a tomar 
senáo depor o presidente. 

Na manhã de 19 de Setembro espalhou-se a noticia de 
que a cidade de Porto Alegre ia ser tomada pelos revolucio- 
nários. Ante a imminencia do perigo, o presidente Fernandes 
Braga reuniu as forças de que podia dispor na occasião e que 
se limitavam a 270 praças, mercenárias na maior parte. Muitos 
portuguezes foram alliciados ao serviço militar, exemplo não 
seguido pelos allemães, cujo vice-consul de Hamburgo, António 
Gonçalves Pereira Duarte, aconselhou completa neutralidade 
aos hamburguezes. Revoltado contra este procedimento, 
Braga representou ao governo e conseguiu fosse cassado 
o exequatur da auctoridade consular, ao passo que Portugal, 
avisadamente, demittia seu representante, Victorino José Ri- 
beiro, por se não ter opposto ao alistamento de luzitanos. 

Para promover o assalto á capital, haviam-se collocado 
a frente do movimento dois prestigiosos revolucionários, o 
capitão de milicias José Gomes de Vasconcellos Jardim, rico 
estancieiro, residente na visinha povoação das Pedras Brancas, 
á margem direita do Guahyba, cidadão grandemente consi- 
derado, e o coronel de legião, Onofre Pires da Silveira Canto, 
homem de proporções athleticas e de reconhecida bravura. 

Reunidos na capella de Viamão, distante quatro léguas 



366 MEMORIAS BRAZILBIRAS 



a leste da cidade, os dois chefes, com uma força de mais de 
200 homens, d^alli marcharam e vieram acampar na Azenha, 
arrabalde de Porto Alegre. 

Quizeram os legaes, com uma força de 200 homens, com- 
mandada pelo major Gordilho, yisconde de Camamú ('), 
surprehender na Azenha os rebeldes, os quaes, avisados pelo 
medico dr. Manoel António de Magalhães Calvet, prepa- 
raram-se para a resistência. 

Defendida a ponte da Azenha pelo capitão Manoel da 
Rocha Vieira {cabo Rocha) com 30 homens apenas, coUo- 
cados de emboscada, foram os legaes rechassados, perseguidos 
e obrigados a recolher-se desordenadamente á capital. Attin- 
gido por uma lançada em uma coxa e desmontado, o visconde 
de Camamú conseguiu salvar-se, graças á escuridão da noite 
e ás cercas de espinho (//«A^j degato\ onde ponde refugiar-se. 

N'esse primeiro encontro, foi morto o legalista António 
José da Silva Monteiro, redactor da folha retrograda O Perió- 
dico dos Pobres e poeta satyrico, vulgarmente conhecido, pelo 
appellido de Prosódia, 

Alta noite, chegou a palácio o visconde de Camamú, 
banhado em sangue, declarando ter sido atacado por 400 
homens bem armados. 



( 1 ) Assis Brasil, em sua Historia da Revolução Rio-Grandensé^ menciona 
em muitos pontos o visconde de Camamú, partidário legal. Que relaçào ha entre 
este personagem e José Kgydio Gordilho de Barbuda, visconde de Camamú, 
presidente da Bahia, assassinado a 28 de Fevereiro de iS.yj, facto de que tratámos 
á pag. 281 d 'este tomo? 



CAPITULO XXXII 367 



 vista d'esta occorrencia, Fernandes Braga fez remover 
sua família para bordo de uma canhoneira, onde reuniu obje- 
ctos de valor e dinheiro pertencente á província. 

A 20 de Setembro Onofre Pires e Gomes Jardim appro- 
xímaram-se da cidade, para effectuar a entrada. No largo do 
Portão, como si pretendesse obstar a marcha dos revolucio- 
nários, achava-se postado um corpo de permanentes, o qual 
fez logo causa commum com elles, ao som de acclamações 
enthusiasticas. 

Achava-se o presidente no arsenal de guerra, onde fazia 
ponto de resistência; sabendo, porém, que se haviam bandeado 
os permanentes evendo-se completamente desamparado de 
recursos, embarcou na escuna de guerra Rio-Grandense e, 
seguido de outra escuna Dezenove de Dezembro^ fez-se de 
vela para a cidade do Rio Grande. 

Penetraram as forças revolucionarias em Porto Alegre 
na melhor ordem, garantindo a todos o respeito ás leis. 

Bento Gonçalves, que havia abandonado a guarnição de 
Jaguarão, apresentou-se nas Pedras Brancas a 21 de Setembro 
e n'esse mesmo dia fez entrada solemne na capital; consti- 
tuindo-se chefe da revolução, proclamou á província, expondo 
e justificando o movimento de rebeldia. 

No mesmo dia a camará municipal deu posse ao 4.° vice- 
presidente, dr. Marciano Pereira Ribeiro, visto se acharem 
ausentes os três cidadãos que o precediam na ordem dos vice- 
presidentes e eram os bacharéis Joaquim Vieira da Cunha, 
Rodrigo de Souza Silva Pontes e Américo Cabral de Mello. 



368 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Dias depois, preseuceou a capital factos escandalosos. 

Uin sacerdote catholico, o padre Pedro, já conhecido por 
seu génio violento ná revolução de 7 de Abril no Rio de 
Janeiro, e desterrado para o Rio Grande, entendeu dever 
maltratar de modo cruel e affrontoso os portuguezes que 
haviam adherido ao partido legalista. Munido de uma pal- 
matória, castigou a bolos muitos luzitanos, obrigando-os 
depois a passar recibo^ «em pagamento das oflFensas que 
haviam praticado contra o partido nacional. » 

Um individuo, José Ignacio da Silva {Jucá Oitrives\ 
corredor de carreiras e soldado de Gomes Jardim, acompa- 
nhado de meia dúzia de ladrões, dirigia-se ás casas de nego- 
cio e as espoliava a seu salvo. O presidente Marciano conteve 
a selvajaria do padre, e o capitão Gomes Jardim mandou 
prender por algum tempo o famigerado Jucá Ourives. 

Uma partida de revolucionários foi ao valle do rio 
Gravatahy convidar a vir a Porto Alegre o estancieiro Vicente 
Ferrer da Silva Freire, influente legalista, a fim de expor 
quaes os seus intentos. Por falta de garantias, o venerando 
chefe de numerosa familia, ancião por todos os titulos respei- 
tável, recusou acompanhar a escolta, pelo que foi barbara- 
mente assassinado, bem como seu filho menor Diogo Ferrer. 

A revolução manchou-se com estes actos de cobardia e 
malvadez. 

A 25 de Setembro foi publicado o manifesto de Bento 
Gonçalves; expunha os profundos desgostos que a passada 
administração havia causado á classe militar e principalmente 



CAPITUIX) XXXII 369 



a Bento Mauoel, acintosamente exonerado do cominando da 
fronteira de Rio Pardo; declarava que o fim revolucionário 
era depor o presidente e o commandante das armas, auctori- 
dades incompativeis com o espirito liberal rio-grandense ; 
aconselhava o respeito á constituição, ao throno constitucio- 
nal e á integridade do império. 

Chegando ao Rio Grande, o presidente Braga proclamou 
mudada para essa cidade a sede do governo provincial, sendo 
reconhecida a sua auctoridade pelas villas de Pelotas e de 
S. José do Norte. Enviou ao Rio de Janeiro o cidadão 
Manoel Vaz Pinto, incumbido de expor os acontecimentos e 
reclamar soccorros bellicos. Solicitando apoio a vários 
officiaes, teve a adhesão do major Manoel Marques de Souza 
(depois conde de Porto Alegre) e do tenente-coronel da 
guarda nacional João da Silva Tavares (mais tarde barão do 
Cerro Formoso). 

Para que o não hostilizasse a imprensa adversa, suspendeu 
a publicação do periódico Noticiador^ órgão dos exaltados. 

Emquanto estes factos occorriam ao sul da provincia, o 
presidente interino dr. Marciano Pereira suspendia do com- 
mando das armas o marechal Sebastião Barretto e por acto de 
12 de Outubro nomeava Bento Manoel para substittiil-o. Como 
se achasse ausente este official, occupou o cargo interinamente 
o major João Manoel de Lima e Silva. 

Tendo os legalistas Marques de Souza e Silva Tavares 
reunido alguma força em Pelotas, cahiram inesperadamente 
sobre uma partida de revolucionários que a 13 de Outubro 

47 TOM. U 



370 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

transitava pelo Arroio Grande, sob o commando de Manoel 
Antunes da Porciuncula, cunhado de Bento Gonçalves. 
Antunes foi derrotado, quando suppunlia que os legalistas 
respeitassem o pacto, firmado entre aquelles officiaes e o 
capitão Domingos Crescencio, de temporária suspensão de 
armas. A traição dos legaes deu brado de revolta em toda a 
provincia. 

Depois da victoria do Arroio Grande, tratou Manoel 
Marques de retirar-se, para reunir-se ao presidente na cidade 
do Rio Grande, o que conseguiu por meio de cautelosa marcha. 
Não teve egual êxito o tenente-coronel Silva Tavares. 
Encontrando, no dia i6 de Outubro, no passo do Retiro, sobre 
o arroio Pelotas, um corpo de mais de 400 praças de cavallaria 
commandado pelo coronel António de Souza Netto, auxiliado 
pelo oriental Raphael Verdum, viu assaltada e debandada 
a sua tropa e elle próprio obrigado, com 8 soldados, a 
refugiar-se no Estado Oriental. 

Reconhecida a necessidade de ser posto fora da provincia 
o presidente Braga, determinou Marciano que Onofre Pires, 
com uma força de 100 praças, fosse tomar a villa de S. José 
do Norte, emquanto Bento Gonçalves iria apossar-se da 
cidade do Rio Grande, fechando assim toda a communicação 
com o exterior. 

No dia 21 de Outubro apresentou-se Onofre, já com 300 
homens, deante de S. José do Norte, que repelliu com 
admirável denodo os assaltantes, facto que, unido a poste- 
riores rasgos de bravura, deu á villa o titulo de heróica. 



CAPITULO XXXII 371 

No mesmo dia Bento Gonçalves intimava a cidade do 
Rio Grande a que se rendesse. 

Vendo-se completamente desamparado de forças, Fernan- 
des Braga transportou-se para um vaso de guerra e no dia 23 
seguiu para o Rio de Janeiro, levando comsigo grande 
quantidade de papeis públicos, setenta contos de réis dos 
cofres nacionaes, muitos funccionarios e familias. 

Em virtude da reforma constitucional de 12 de Agosto 
de 1834 (^), procedeu-se á eleição de um regente único para 
o império, obtendo maioria de votos o padre Diogo António 
Feijó, o qual, perante a assembléa geral, tomou posse do 
cargo a 12 de Outubro de 1835. 

Empenhado em tranquillizar o Rio Grande do Sul, o 
padre Feijó nomeou novo presidente da provincia, o dr. José 
de Araújo Ribeiro, illustrado rio-grandense, aparentado com 
os chefes Bento Gonçalves e Bento Manoel, e homem crite- 
rioso, capaz de congraçar seus patrícios (^). 



( I ) Art. 26. Si o Imperador não tiver parente algum que reúna as quali- 
dades exigidas no art. 122 da Constituiç&o, será o Império governado, durante a 
sua menoridade, por um Regente electivo e temporário, cujo cargo durará 4 
annos, renovando-se para este fim a eleição de 4 em 4 annos. 

( 2 ) o dr. José de Araújo Ribeiro, visconde do Rio Grande, nasceu a 20 de 
Julho de 1800 no distrícto da Barra, municipio de Porto Alegre, no logar deno- 
minado Estancia Velha. Doutorou-se em direito na universidade de Coimbra no 
anno de 1823. Encetou depois carreira diplomática, exercendo o cargo de secre- 
tario de nossa legação em Nápoles e em Pariz, e o de encarregado de negócios 
nos Estados Unidos e na Inglaterra. Foi aposentado como ministro plenipoten- 
ciário. Representou sua provincia como deputado á assembléa geral legislativa e 
como senador. Era commendador das ordens de Christo e do Cruzeiro, official 



372 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Embarcou Araújo Ribeiro no brigue-barca Sete de Setem- 
bro^ sem força armada alguma e apenas munido de uma 
proclamação, em que o regente chamava os rio-grandenses á 
concórdia. 

Confiava o governo que o nomeado, ex-deputado geral 
por sua terra, cidadão acatado por virtudes e conhecimentos 
superiores, e fortemente relacionado, por si só bastasse para 
aplacar a lamentável conflagração. 

Chegou Araújo Ribeiro á cidade do Rio Grande a 6 de 



da LegiÃo de Honra e de Henrique IV da França, c membro do Instituto Histó- 
rico e Geographico Brazileiro. Falleceu no Rio de Janeiro a 25 de Julho de 1879. 

Aos 75 annos de edade, publicou na capital do paiz um fçrosso volume in-8.^, 
de mais de 650 paginas, sob o titulo O Fim da Creação ou a Natureza interpretada 
pelo senso commum^ obra que appareceu sem designaç&o de auctor. Em largo 
estudo, o visconde do Rio Grande trata ahi de demonstrar que a terra é dotada 
de vida própria, nutre-se como os seres organizados e cresce constantemente. 
• Náo é rigorosamente uma hypothese, diz elle, que vou offerecer á consideração 
do leitor ; é antes uma serie de factos que me parecem dever conduzir-nos á 
crença de que aterra se apropria, nos seus giros, de substancias que existem fora 
d'ella, e, como consequência natural d*essas apropriações, ella deve ter um 
crescimento. ■ 

Critico brazileiro de grande illustração emittiu sobre o trabalho do visconde 
do Rio Grande estes commentarios : 

« Nosso auctor revela, em todo o seu escripto, uma grande tençáo de espirito 
e um elevado senso critico. Grandes méritos deixa ver em seu livro ; os princi- 
paes sâo : o ser franco sectário do darwinismo, como nol-o mostra no cap. XIV, 
pags- 532 e seg^iintes; o delucidar com vantagem muitos pontos obscuros da 
geologia brazileira ; o demonstrar sufficientemente o fim principal que se propoz. 
A tudo isto junta-se ainda a clareza da exposição; o trabalho é methodico e o 
estylo do escriptor simples e chão. Estas qualidades são bons predicados e raros 
n*este paiz. Quem supporía, por exemplo, que no senado brazileiro, cla.sse que 
não brilha muito pela sua illustração, tinhamos um sectário intelligcnte e 
adeantado das idéas de Dan;v'in, nome que muitos alli não pronunciam sem 
primeiro se benzerem ? » 

Sylvio Romkro : A PHilosophia no Brazil ( Porto Alegre, 1878 ), pag. 99. 



CAPITULO XXXII 373 



Novembro <k 1835, d'onde seguiu para Pelotas a confereuciar 
com o coronel Bento Gonçalves, então em Jaguarão : combi- 
naram em encontrar-se em Porto Alegre, indo o ofBcial por 
terra concitar os povos á paz. 

A 5 de Dezembro aportava Araújo Ribeiro á capital 
da provincia e immediatamente enviou á assembléa seu 
titulo de nomeação, acompanhado de ofBcio em que pedia 
fosse marcado dia e hora para a prestação do juramento e 
tomada da posse. A 8 do mesmo mez, reuniu-se a assembléa 
em sessão secreta para deliberar sobre si devia ou não investil-o 
do cargo. Levantaram-se duvidas. Propalou-se que pertencia 
elle ao partido retrogrado e por esse facto achava-se em 
desaccordo de idéas com a assembléa e com a provincia 
em geral. 

Com a chegada de Araújo Ribeiro coincidiu a publicação 
da ordem do governo — em satisf acção á representação de 
Fernandes Braga — de mandar submetter a processo o vice- 
consul de Hamburgo, Pereira Duarte, pelo facto de haver 
com prudência aconselhado aos hamburguezes neutralidade na 
lucta dos partidos. Esta medida poz de sobreaviso os revolu- 
cionários, revoltados deante de perseguição tão impolitica e 
injusta, e mais antipathica tornou a posição de Araújo Ribeiro, 
como representante da vontade do regente. 

Toda a assembléa, composta, em sua maior parte, de 
supplentes, seguia o partido revolucionário. Eram então 
deputados provinciaes os seguintes cidadãos : 

Francisco Xavier Ferreira, presidente; cónego Thomé 



374 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Luiz de Souza, vice-presidente; António Alvares Pereira 
Coruja, i.° secretario ('); Bento Gonçalves da Silva, Bento 
Manoel Ribeiro, José Pinheiro de Ulhôa Cintra, Domingos 
José de Almeida, Pedro José de Almeida, vulgo Pedro 
Boticário^ redactor da Idade de Pau; padre Juliano de 
Faria Lobato, major José Marianno de Mattos, tenente- 
coronel Silvano José Monteiro de Araújo e Paula, editor 
d' O Echo PortcH Alegrense ; Seraphim dos Anjos França, 
Vicente Ferreira Gomes, José de Paiva Magalhães Calvet, 
dr. Américo Cabral de Mello, Vicente José da Silva França, 
padre Francisco das Chagas Martins Ávila e Souza, padre 



( I ) António Alvares Pereira Coruja nasceu em Porto Alegre a 31 de Agosto 
de 1806 e falleceu no Rio de Janeiro a 4 de Agosto de 18S9. Foi um de nossos mais 
dedicados propugnadores da instrucção popular. 

Publicou : 

Compendio da grani matica da língua nacional ( Porto Alegre, 1835 ), obra 
que obteve muitas edições e foi vulgarizada em todo o paiz. 

Manual dos estudantes de latim ( Rio de Janeiro, 1838 ). 

Compendio de orthographia da lingua nacional ( Rio de Janeiro, 1848 ). 

Arithmetica para meninos. 

Licçôes de historia do Brazil ( Rio de Janeiro, 1855 ). 

A vida de José Bernardino de Sá depois de sua morte ( Rio de Janeiro, 1856 ). 

Algumas annotaçõ^s ás Memorias históricas de monsenhor Pizarro na 
parte relativa ao Rio Grande do Sul. Rev. do Inst., anno de 1858, tom. XXI, 
pafifs. 303 a 315. 

Notas á memoria do tenente-coronel José dos Santos fiegas. Re:: do Inst.^ 
anno de 1860, tom. XXIII, pags. 585 a 602. 

Collecção de vocábulos e phrases usados na provinda de S. Pedro do Rio 
Grande do Sul ( Rio de Janeiro, 1861 ). Foi anteriormente publicada em 1852 
na Rev. do Inst., tom. XV, 2. a ed., pags. 205 a 238. 

Antigualhas e reminiscências de Porto Alegre ( Rio de Janeiro, 1881 ). 

Publicava o Anno histórico sul-rio-grandense, em pequenos fascículos, 
quando a morte o colheu aos 83 annos de edade. 



CAPITULO XXXII 375 



Fidencio José Ortiz, coronel Oliverio José Ortiz e Gabriel 
Martins Bastos. 

Opinaram os representantes da provincia que se retardasse 
a posse do novo presidente. 

Contra semelhante falta de confiança oppoz-se o coronel 
Bento Manoel, dizendo que este facto acarretaria renovação 
da guerra; que elle, paulista, não desejava contribuir para o 
derramamento do sangue rio-grandense ; garantiu sinceras as 
intenções de Araújo Ribeiro e do regente, padre Feijó; 
declarou que respeitaria a deliberação da maioria e no cara- 



o professor Coruja foi por muitos annos thesoureiro do Instituto Histórico 
e Geographico Brazileiro. 

O Annuarío do Rio Grande do Sul, dirigido pelo dr. Graciano Alves de 
Azambuja c destinado ao anno de 1890, consagrou, a pags. 209 e 210, tocantes 
palavras á memoria d*este utilíssimo escriptor: 

• Foi uma perda lamentável, especialmente para esta provincia, a quem 

o finado adorava com ardor juvenil e para cuja historia reunia sem cessar aponta- 

' mentos e documentos interessantes. O Annuario perde no commendador Coruja 

um incançavel collaborador, cujas chronicas de Anligualhas rio-grandenses 

e yolas históricas têem sido uma das secções mais apreciadas do publico. 

« O amor que Coruja dedicava a esta provincia, o interesse com que acompa- 
nhava, dia por dia, todos os factos do Rio Grande do Sul, eram extraordinários 
e dignos de sincera admiração. De Porto Alegre, onde residiu, até á sua retirada 
para o Rio de Janeiro, elle tudo sabia, as casas velhas e as novas, as que se demo- 
liam e as que se construiam, os números de umas e outras, nenhuma minudência 
emfim lhe escapava. Era sobretudo um chronista fiel dos homens c dos aconteci- 
mentos de sua mocidade, que sua memoria guardava com fidelidade rara. » 

O inditoso poeta rio-grandense Pedro António de Miranda assim disse, 
em final de carta dirigida ao director do Annuario : 

« Homenagem seja prestada ao cidadão benemérito ! Indelével recordação 
fique na memoria publica dos serviços que prestou a bem da instrucçào nacional, 
como da nossa historia e chronologia ! Estes e o seu entranhado amor a esta pro- 
vincia exigem que o veneremos agora e que transmittamos o seu nome, rodeado 
de respeitosa admiração, ás gerações futuras ! » 



376 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



cter de revolucionário acompanharia seus amigos na sorte 
das armas, com quanto lhe fosse penoso ir arrancar de seus 
esconderijos aquelles que só sabiam insuflar a guerra e não 
luctar francamente. Após esta. defesa na assembléa, Bento 
Manoel conferenciou secretamente com Araújo Ribeiro, 
promettendo prestar-lhe apoio e abandonar a revolução. 
Infelizmente a firmeza de caracter não era um de tantos 
predicados doeste bravo guerrilheiro. 

No dia 9 de Dezsembro, em sessão publica, acceitou a assem- 
bléa uma representação dos juizes de paz de Porto Alegre 
e das Pedras Brancas para que a posse fosse adiada ; approvou 
esta indicação, allegando a conveniência de dirigir-se ao 
governo geral a fim de que resolvesse o conflicto. 

Como era de dever, a assembléa explicou seu procedi- 
mento em proclamação dirigida ao povo. 

Bento Manoel, que havia assumido o com mando das 
armas, cargo occupado interinamente por João Manoel de 
Lima e Silva, partiu para a campanha, allegando necessidade 
de ir em pessoa acalmar os espíritos e vulgarizar aquella pro- 
clamação. Procedeu, porém, de forma inteiramente diversa. 

Foi tornar conhecida uma proclamação assignada por 
Araújo Ribeiro e operar contra-revolução, erguendo armas 
contra seus companheiros da véspera. 

Em S. Gabriel publicou a seguinte ordem do dia, datada 
de 30 de Dezembro de 1835, concitando os rio-grandenses a 
reconhecer o dr. José de Araújo Ribeiro como presidente da 
provincia: 



CAPITULO XXXII 377 



« Tendo as camarás municipaes àas cidades do Rio Grande 
e Pelotas e da vi lia de S. José do Norte se dirigido official- 
mente ao commandante das armas, conjurando-o a que, em 
cumprimento das promessas emittidas em suas proclamações, 
salve a província dos males da anarchia, em que a pretende 
envolver um partido republicano, o qual tem chegado a 
dominar a assembléa legislativa provincial, conseguindo 
obstar que se desse posse ao dr. José de Araújo Ribeiro da 
presidência da provi ncia, para que fora legalmente nomeado 
pelo Regente em nome do Imperador o Sr. D. Pedro II, 
dando com este proceder o primeiro passo a desmembrar a 
província da associação brazileira; declarando ao mesmo 
tempo aquellas mesmas camarás a justa indignação que 
semelhante repulsa causara nos ânimos dos cidadãos de 
seus municípios, por conhecerem evidentemente os males 
que se seguirão á pátria, e desejosos todos de prevenil-os, 
tinham resolvido, como o fizeram, reconhecer ao dr. José de 
Araújo Ribeiro, nosso compatriota, como presidente da 
província. 

« O commandante das armas está demasiadamente ao facto 
dos manejos do partido republicano e dos meios que emprega, 
e mais certo ainda das desgraças que acompanharão a 
separação da provincia, firme nos princípios que proclamou 
depois do memorável dia 20 de Setembro, em desempenho 
da sua palavra, de accordo com aquellas illustres e patrióticas 
camarás e com a totalidade dos cidadãos bons da província, 
solemnemente reconhece a legitima auctoridade do Illm. 



48 



378 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Exm. Sr. presidente dr. José de Araújo Ribeiro, desconhe- 
cendo outra qualquer que o partido republicano da capital 
intente levantar ou sustentar; e.em consequência ordena a 
todos os militares da provincia, sujeitos ao seu cominando, 
que reconheçam ao mesmo Exm. Sr. dr. José de Araújo 
Ribeiro como nosso legitimo presidente. 

« Camaradas ! Nós manifestámos, quando tomámos as armas 
para libertar a pátria da oppressão, que o nosso fim era sermos 
sempre brazileiros, mantendo a constituição reformada, o 
throno imperial do Sr. D. Pedro II; e hoje não faltaremos 
aos nossos empenhos, pois seriamos perjuros e inimigos da 
pátria — procederes que por indignos não cabem em corações 
animados pela aura e pelo sagrado lume do patriotismo. 

«E mais glorioso, camaradas, conservarmos a pátria isenta 
de anarchia, que ganhar batalhas sobre inimigos externos. 
Mantenhanio-nos firmes na associação brazileira, do que 
provirão á provincia prosperidades e grandeza, quando de uma 
separação extemporânea somente teremos a ruina e as des- 
graças. Não sejamos submissos escravos do pequeno partido 
republicano, que desvairadamente assim o pretende. 

«O commandante das armas conta com os seus camaradas 
e a pluralidade da provincia, e todos devem contar com elle 
a favor da ordem e do bem publico. Viva a nação brazileira! 
Viva a constituição reformada! Viva o Sr. D. Pedro II, nosso 
Imperador constitucional, c o Regente em seu nome ! Vivam 
os militares da provincia ! » 

Assim garantido por Bento Manoel, o dr. Araújo Ribeiro, 



CAPITULO XXXII 379 



de volta ao Rio Grande, accedeu ao convite que lhe fez a 
municipalidade d'esta cidade pára tomar posse do cargo de 
presidente, e perante ella prestou juramento e entrou em 
exercido de suas funcções a 15 de Janeiro de 1836. 

Communicou sua posse á assembléa provincial, porém 
esta não se confonnou com o facto, por illegal, á vista da 
incompetência da camará, e convidou Araújo Ribeiro a 
empossar-se do cargo perante ella própria. Recusado, com 
razão, o convite, a assembléa, a 25 de Fevereiro, proclamou 
á provincia para que não reconhecesse a auctoridade do presi- 
dente Araújo Ribeiro e só prestasse obediência ao vice- 
presidente, dr. Américo Cabral de Mello. 

Começou a provincia a ser governada por duas auctori- 
dades distinctas, que trataram de alliciar soldados para que 
uma supplantasse a outra. 

Estava de novo travada a guerra. 

Por acto de 16 de Fevereiro a assembléa provincial sus- 
pendeu de suas funcções o commandante das armas Bento 
Manoel Ribeiro, por estar promovendo a guerra civil na 
provincia, e de egual modo suspendeu os vereadores da camará 
municipal do Rio Grande por se terem arrogado attribuições 
que lhes não competiam, dando posse a Araújo Ribeiro. 

O Mercantil^ do Rio Grande, de 24 de Fevereiro, publicava 
actos doesta auctoridade, suspendendo de suas funções o coro- 
nel chefe da legião de guardas nacionaes, António de Souza 
Netto, e o coronel commandante superior da guarda nacional 
Bento Gonçalves da Silva, por andarem reunindo guardas 



380 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



contra expressa determinação de lei e manifesto perigo da 
segurança publica. 

O Mensageiro^ "de Porto Alegre, de 26 de Fevereiro, 
publicava o officio do vice-presidente dr. Cabral de Mello 
á camará municipal do Rio Grande, participando a suspensão 
de Bento Manoel Ribeiro do commando das armas; nomeação 
de seu substituto interino, major João Manoel de Lima e 
Silva, e designação do coronel Bento Gonçalves da Silva 
para pacificar o sul da provincia. 

A 28 de Fevereiro, Bento Gonçalves expedia um officio, 
de que foi portador o capitão Joaquim Teixeira Nunes, diri- 
gido ao dr. Araújo Ribeiro, intimando-o a dissolver as reu- 
niões armadas e a sahir im mediatamente da provincia, a fim 
de poder pacifical-a, garantindo a sustentação da constituição 
reformada, a integridade do império, o governo de D. Pedro 
II e a gloriosa revolução de 20 de Setembro (^). 

Na mesma data commuuicou á camará municipal do 
Rio Grande a posse do vice-presidente dr. Cabral de Mello, 
intimando-a que o reconhecesse como tal, para não obrigar 
a elle coronel fazer uso das armas e dispersar todos os rebeldes 
e desordeiros existentes no Rio Grande, S. José do Norte 
e Pelotas. 

A camará respondeu que tinha reconhecido como legitimo 
presidente ao dr. José de Araújo Ribeiro, declarando não 



( I ) Liberal Rio-Grandcnsc n. 26, de .^i de Mirço d*j i^j-í. 



CAPITULO XXXII 381 



desesperar de que Bento Gonçalves se afastasse da estrada 
do crime (*). 

Eniqiianto Bento Manoel reunia na campanha elementos 
de ataque, Araújo Ribeiro fortificava-se no Rio Grande para 
guardar a defensiva, obtendo para este efleito um contin- 
gente de 500 homens engajados nas três povoações maritimas 
pelo capitão Procopio Gomes de Mello. 

Contra o commandante das armas, que dispunha de uma 
força de 200 praças, partiu de Porto Alegre uma columna 
de cerca de 8cx) homens, ao mando do coronel Affonso José 
de Almeida Corte Real: ia effectuar-se o encontro no logar 
denominado Irapuã^ onde seria certa a derrota de Bento 
Manoel, quando este lembrou-se de recorrer a um expediente. 
Mandou a seu adversário iim emissário, o capitão Demétrio 
Ribeiro, com a declaração de que ia no dia seguinte 
licenciar sua tropa e retirar-se para a provincia de S. Paulo, 
d'onde era filho, pois não desejava que por sua causa corresse 
o sangue rio-grandense. Corte Real, moço dotado de caracter 
sincero e magnânimo, permittiu que elle acampasse em 
paz e também acampou a distancia. Bento Manoel trahiu 



( I ) Correio Official n. 66, de 23 de Março de 1836. 

Durante a revolução appareceram em Porto Alegre muitos periódicos de 
pequeno formato, órgãos das paixões violentas que tumultuavam. Gram do par- 
tido dos farrapos o Recopiladot Liberal, redigido por D. Manoel Roedas, emis- 
sário do dictador argentino D. Juan Manuel de Rosas ; a Idade de I\iit, de Pedro 
Boticário; o Inexorável, o Sete de Abril, o Democrata Rit.>-Grandense^ o 
Federal. Pertenciam aos caramurús a Senti nella da Liberdade, o Inflexível ^ 
a Idade de Ouro e a líellona. 



382 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



a siia palavra e fugiu, a procurar melhores elementos de 
ataque. 

Satxrndo que havia sido enganado e ignorando o rumo 
tomado pelo inimigo, seguiu Corte Real em marchas vaga- 
rosas e foi acampar no passo do Rosário, á margem esquerda 
do rio Santa Maria. 

Sem perda de tempo tratou Bento Manoel de fazer juncção 
com as forças de Vidal José do Pilar, Manoel dos Santos 
I^Mireiro e Silva Tavares, elevando a 700 o numero dos 
legalistas, e assim forte, marchou á procura da columna 
revolucionaria. 

Qtiasi eguaes em numero, avançaram os combatentes uns 
contra outros, no dia 17 de Março, resultando grande derrota 
para Corte Real, que levado por seu ardor guerreiro não quiz 
esperar o reforço de 600 homens de excellente cavai laria 
commaiulados por Bento Gonçalves, quando este lhe ficava 
a trcs dias de marcha. Os homens da campanha, mais destros 
que os dos arredores de Porto Alegre, colheram logo as van- 
tagens resultantes da disciplina e levaram de vencida os 
rebeldes, que soíFreram a mortandade de 172 praças. Corte 
Real foi feito prisioneiro com 153 soldados (^). 

Para compensar esta enorme perda os revolucionários 
conseguiram no mez de Abril duas victorias. 

Chegando a Pelotas o commandante das armas, farrapo, 



V I ^ InfonnaçAo prestada por JoAo da Silva Tavares e publicada no 
J\ii/ii€'/€- liit /Cio n. uxi, de 5 de Maio de 1836. 



CAPITULO XXXII 383 



João Manoel de Lima e Silva, que havia reunido suas forças 
ás de António Netto e Domingos Crescencio, deu combate, 
a 7 doesse niez, ao major Manoel Marques de Souza, alli 
destacado com 80 homens de infanteria, obrigando-o a entrin- 
cheirar-se em um sobrado que servia de quartel ( ' ). Marques 
esperava prompto soccorro de uma força de 120 homens 
acampada no passo dos Negros (^), e commandada pelo 
coronel de milicias Albano de Oliveira Bueno ; porém viu-se 
obrigado a capitular. Lima Silva correu no dia 8 a dar 
combate a Albano. Tencionava este official atravessar o rio 
S. Gonçalo no passo dos Negros e seguir para o Rio Grande, 
sob a protecção da canhoneira Oceano^ alli estacionada. Come- 
çava a transportar bagagem e cavalhada, quando chegou João 
Manoel a impedir-lhe o intento. Durante 8 horas, resistiu 
valentemente o coronel Albano, auxiliado ao principio pela 
canhoneira. Vendo-se, afinal, perdido, arrojou-se ao rio, de 
botas e poncho como se achava. Perseguido por algumas 
canoas, foi preso e seria morto, si João Manoel não bradasse 
que lhe respeitassem a vida. 

O major Manoel Marques foi conduzido para Porto Alegre 
e ahi recolhido ao velho brigue-barca ar\'orado em Presiganga. 

Acompanhado de uma escolta commandada pelo capitão 



( I ) Esse edifício fica situado na esquina da ma Félix da Cunha e praça da 
Republica. Ahi estiveram successivamentc a typog^raphia do Diário de Pelotas^ 
o Club Liberaly o quartel da guarda municipal e a União Republicana. 

( 2 ) Passo no rio S. Gonçalo, perto da foz do arroio Pelotas. 



384 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Martiniano Teixeira Pinto e com outros prisioneiros, seguiu 
também para Porto Alegre o coronel Albano; infelizmente 
iam entre os soldados dois inimigos seus, Fileno e Vidal, 
naturaes de Piratiny, os quaes, nas immediações do arroio 
Velhaco, o mataram a tiros, com o fim, allegaram, de lhe 
impedir a fuga ('). 

Este cobarde assassinato causou desgosto aos chefes revo- 
lucionários, especialmente a Bento Gonçalves, de quem 
Albano era amigo e compadre duas vezes. 



( I ) Sobre a morte d'este legalista encontramos diveiig^encias entre historia- 
dores. 

O auctor da Mf morta sobre a rez^o/uçõo de 20 de Setembro^ major João da 
Cunha I«obo Barretto. escreveu que o referido official foi assassinado por ordem 
de Bento Gonçalves da Silva. 

Em sua Guerra Civil do Rio Grande do Sul diz o conselheiro Tristão de 
Alencar Araripe : « O coronel da guarda nacional Albano d*01iveira Bueno é 
assassinado em viagem para Porto Alegre, dando-se por motivo d'esse acto de 
cobardia e deslealdade o ser elle paizano e bater-se por espontânea deliberação 
e náo por obrigação como official de linha. » 

Assis Brazil ( Historia da Republica Rio-Grandense, pag. ijs ) dá que Albano 
foi fuzilado na frente da tropa, em cumprimento de ordem do commandante das 
armas João Manoel de Lima e Silva. 

O dr. l*cmando Osório, cm sua Historia do General Osório ( Rio de Janeiro, 
i^ ) pag. 309, nota 5, conta que João Manoel fez seguir o coronel Albano escol- 
tado para Porto Alegrrc, porém com ordem de ser assassinado em caminho pelo 
commandante de uma segunda escolta que permanecia junto ao arroio Velhaco ; 
esse commandante passou recibo do preso ao capitão Martiniano Teixeira Pinto 
e cumpriu a ordem. 

Nenhuma d'estas quatro versões funda-se em documentos de inteira fé. 

O facto acha-sc hoje perfeitamente elucidado pela forma que deixamos 
exposta no texto, á vista das minuciosas pesquisas procedidas por um incançavel 
historiador rio-grandense, Alfredo Ferreira Rodrigues, e publicadas, sob o titulo 
Utn episodio da revolução, combates de 7 e S de Abril de iSjó e morte do coronel 
Albano, no A Imana/t Li Iterar io e Estatístico do Rio Grande do Sul para o aiino 
de 1898, pags. 252 a 274. 



CAPITULO XXXII 385 



Com a derrota do major Manoel Marques, ficou Pelotas 
em poder dos revolucionários e o governo legal circum- 
scripto ao Rio Grande e S. José do Norte; longe, porém, 
de desalentar-se com este facto, Araújo Ribeiro determinou 
a mudança da tliesouraria e da alfandega de Porto Alegre 
para a cidade do Rio Grande, privando a capital de entreter 
commercio directo com o exterior e interceptando-lhe a cor- 
respondência pelo correio. 

A 9 de Abril o legalista capitão Francisco Pinto Bandeira 
conseguiu tomar de surpresa a guarnição das Torres, ao 
norte da provincia, apoderando-se de todo o armamento e 
munições. 

Regressando a Porto Alegre, João Manoel de Lima e Silva 
chegou a tempo de impedir fosse a cidade tomada por Jucá 
Ourives, que Se havia bandeado para os legalistas e á frente 
de 300 homens chegara até ao arsenal de guerra, no dia 12 
de Abril. 

Repellido este chefe, reprimida a anarchia em que se 
revolvia a cidade, marchou João Manoel ao Fachinal, onde 
dispersou forças legalistas; engajou em S. Leopoldo 200 alle- 
mães e regressou para Pelotas, em companhia do major José 
Marianno de Mattos, com o corpo de artilheria a cavallo, 
conduzindo 6 boccas de fogo. 

Depois do brilhante feito das Torres, Pinto Bandeira, 
fazendo juncção com as forças de Jucá Ourives, desceu ao sul 
pela costa do Atlântico a fim de ir defender a villa de S. José 
do Norte, sitiada pelo revolucionário Onofre Pires. 



386 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Avisado da approximação, foi Onofre esperar os legaes 
nas immediações de Mostardas, onde tomou posição vanta 
josa: dispunha de 350 praças e os contrários de mais de 400. 

Empenhado o combate, a 22 de Abril, coube a victoria 
aos revolucionários ; soffreram os legaes a perda de 30 homens, 
que foram mortos; dos prisioneiros ordenou Onofre o fuzila- 
mento de 12, entre os quaes o capitão Francisco Pinto 
Bandeira, que debalde implorou misericórdia, allegando ser 
casado e possuir 11 filhos. Dos revolucionários só ficaram 
mortos 4. 

Entre os prisioneiros achavam-se dois coronéis do exer- 
cito, António e Jacintho Pinto de Araújo Corrêa, sob as 
ordens do paizano Jucá Ourives. Este conseguiu fugir com 
os restos da tropa. 

Alimentando a gloria de restaurar Porto Alegre, Bento 
Manoel marchou, em fins de Maio, certo de conseguir o seu 
fim, quando a i.° de Junho encontrou-se ás 8 horas da noite, 
em uma sanga, junto ao arroio dos Ratos, com forças do 
revolucionário Bento Gonçalves e sob vivíssimo tiroteio viu-se 
obrigado a retroceder precipitadamente. 

Chegando a Pelotas, a i.® de Junho, João Manoel fez 
juncção com as forças de António Netto, na intenção de dar 
combate ás canhoneiras que lhe interceptavam a passagem 
do rio S. Gonçalo, e para tal designio marchou com toda a 
columna para o passo dos Negros, fazendo embarcar a infan- 
teria e cavallaria em 3 hiates que encontrara no porto. 

Durante toda a npite trabalhou na construcção de dois 



CAPITULO XXXII 387 



reductos, firmados na barra do arroio Pelotas, o da esquerda 
ao mando do major Mattos e o da direita dirigido por José 
Ferreira Villaça. 

Começou o ataque ás 5 horas da madrugada do dia 2 e 
prolongou-se até meio dia. Tão certeiros foram os tiros dispa- 
rados contra os navios legaes, que estes debandaram, grande- 
mente damnificados : a barca Liberal^ commandada pelo chefe 
da esquadrilha Joaquim Raymundo de Lamare, afastou-se 
para a barra do S. Gonçalo, conduzindo a reboque a Oceano^ 
commandada por Luiz Alves dos Santos Marques; a S. Pedro 
Duarte^ de que era commandante Manoel Joaquim Junqueira, 
ficou inutilizada e abandonada. 

Com um pedaço de metralha foi João Maiioel ferido no 
rosto e impossibilitado de acompanhar a infanteria e arti- 
Iheria que atravessaram o rio: banhado em sangue, o condu- 
ziram em rede para a cidade de Pelotas ( ' ). 



( I ) Como no combate do arroio dos Ratos, Bento Manoel, na rapidez da 
fuga, deixara uma bota no campo da acção e este facto motivara versos chistosos 
por parte dos republicanos, os legalistas, em represália, publicaram no Liberal 
Rio-Gf andcnse esta satyra : 

« Fogo e mais fogo ! » grita o estulto Uma ; 
« Ao saque ! ao saque ! 6 cáfilas rusguentas ! » 
ICis nossos bravos súbditos respondem : 
« Vôa, metralha, e dá-lhe pelas ventas ! » 

Lá vai na rede o general das pilhas, 
Assaz bem convidado d 'esta vez ! 
Folga a justiça ; as fúrias se esguedelham ; 
Faz a metralha o que o algoz nfto fez. 



388 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Recolhido a bordo da Presiganga^ em Porto Alegre, o 
major Manoel Marques de Souza, reconhecendo que o meio 
único de pôr termo ás desordens que flagellavam a capital, 
era libertal-a da oppressão revolucionaria, por meio de 
uma reacção, entrou em communicação com os legalistas, e, 
fortemente auxiliado pelo marechal João de Deus Menna 
Barretto e seu filho general Gaspar Francisco Menna Barretto, 
conseguiu a restauração da cidade a 15 de Junho de 1836. 

Na mesma data o marechal João de Deus proclamou aos 
porto-alegrenses : 

cc Habitantes de Porto Alegre ! Foi para minorar vossos 
males, para defender a causa da justiça e da humanidade, 
que me puz á frente do presente movimento, annuncio feliz 
de que as armas da legalidade hão de triumphar doesse 
partido infame, que tantos horrores tem espalhado sobre a 
nossa cara pátria. 

(íAcha-se, pois, esta capital livre do perigo que a 
opprimia, sem que se derramasse uma s6 gotta de sangue; 
mas para que continue a manter-se a boa ordem, única 
divisa dos defensores do governo legal, eu vos rogo, caros 
patricios, que me coadjuveis, pondo em pratica vossa pru- 
dência e todas as mais virtudes de que sois dotados, não 
permittindo que se commetta o mais pequeno insulto, pois 
s6 ao governo compete castigar os criminosos. 

«Habitantes de Porto Alegre! Vivei tranquillos em vossas 
casas, e tende confiança nas minhas disposições, que todas se 
dirigem a prol do vosso socego e do vosso bem estar. Viva o 



CAPITULO XXXII • 389 



sr. D. Pedro II! Viva a constituição! Viva a assembléa legis- 
lativa! Viva o exmo. sr. presidente dr. José de Araújo 
Ribeiro! Viva o exmo. sr. general das armas Bento Manoel 
Ribeiro! Vivam os rio-grandense& amantes da legalidade!» 

Restaurada a cidade de Porto Alegre, foram immediata- 
mente postos em liberdade os seguintes cidadãos, prisioneiros 
dos farrapos : brigadeiros Manoel Carneiro da Silva Fontoura 
e Thomaz José da Silva ; coronel visconde de Castro ; major 
Manoel Marques de Souza ; capitães José Pinto de Carvalho, 
João da Costa, João Machadar da Silveira, António Manoel 
de Souza, Francisco José d' Amorim e Henrique Maucier; 
alferes Victor d'01iveira Pinto, * Luiz António da Silva e 
padre Francisco de Paula Macedo. 

Foram presos e remettidos para o Rio de Janeiro, a bordo 
do patacho Pojuca^ os revolucionorios: dr. Marciano Pereira 
Ribeiro, ex-presidente ; Francisco Xavier Ferreira, ex-presi- 
dente da assembléa; José de Paiva Magalhães Calvet, 
ex-conselheiro; teuente-coronel da guarda nacional Silvano 
José Monteiro de Araújo, capitão João José Pimentel, 
ajudante Alexandre Ferreira Ramos, tenente de artilheria 
Luiz José dos Reis Alpoim, cadete Pedro Carlos da Gama 
Pitta, tenente Pedro Joaquim dos Reis, António Gonçalves 
da Silva Sobrinho e Vicente Xavier de Carvalho. 

Poucos dias depois da restauração de Porto Alegre, o 
marechal João de Deus, bastante alquebrado de forças por sua 
avançada edade, passou o commando ao general Francisco das 
Chagas Santos. 



390 MEMORIAS BRAZII^EIRAS 

A 27 de Junho Bento Gonçalves intima a cidade a 
render-se n'aquelle mesmo dia, antes do pôr do sol, e não 
sendo obedecido ataca-a no dia 30 por terra com uma força 
de 1.500 homens e pelo Guahyba com uma esquadrilha 
chefiada por José Pereira da Silva e composta do brigue 
Bento Gonçalves^ commandante o chefe ; patacho Herval^ 
commandante Miguel Pratico; escuna Farroupilha^ com- 
mandante Jucá Mulatinho e um palhabote, commandante 
Joaquim Gonçalves do Saibro. 

Depois de três horas de sanguinolento combate, foram 
completamente desbaratados os farrapos. 

« Não ganharam um palmo de terra, diz o general Fran- 
cisco das Chagas em sua proclamação de 7 de Julho (')> ^ 
sua voz de avançar e ao saque, intrépidos lhes respondestes : 
«Legalidade! Victoria!» Vencedores generosos e compassivos, 
apenas cessou o fogo, ainda por entre o fumo das descargas, 
correstes a buscar, por entre os cadáveres, os inimigos feridos 
para salvar-lhes as vidas — perfeito contraste aos ferozes que 
a sangue frio mutilaram e assassinaram seus contrários 
rendidos. » 

Os revolucionários tiveram 14 mortos, ao passo que foi 
quasi nuUa a perda dos legalistas. 

Derrotado, Bento Gonçalves recolheu-se com suas forças 
á capella de Viamão, conservando, porém, impedidas todas 
as sabidas da capital. Era também impraticável a commu- 



( I ) Paquete do Rio n. 184, de 22 de Agosto de 1836. 



CAPITULO XXXII 391 



nicação pela lagoa dos Patos: á sua entrada, na ponta de 
Itapuan, levantaram uma pequena fortaleza, cuja bateria era 
commandada pelo portuguez Simeão Barretto, partidário 
ardoroso dos farrapos. Defronte, na ilha do Junco, haviam 
erguido um fortim, destinado a cruzar fogos com aquella 
fortaleza. 

Animadas pela victoria, convergiram as forçs^ legaes para 
estes pontos. A 26 de Agosto desembarcava na Itapuan o bra- 
zileiro adoptivo, brigadeiro Francisco Xavier da Cunha ('), 
á frente de 320 soldados de linha e sob o auxilio de uma 
esquadrilha, ao mando do capitão-tenente Guilherme Parker, 



( I ) Pae do poeta, dramatnrgo e inspirado orador politico Feliz Xavier da 
Cunha, uma das glorias rio-grandenses. 

É de Feliz da Cunha este valentissimo soneto : 

7 DE Setembro 

Silencio ! Nfto turbeis na paz da morte 
Os manes que o Brazil quaai esquecia ! 
É tarde ! Eis que espedaça a lousa fria 
De um vulto venerando o braço forte ! 

Surgiu ! A magestade traz no porte 
Onde o astro da gloria se irradia ! 
Vem, grande Andrada, adivinhaste o dia ! 
Vem juntar ao da Pátria o teu transporte ! 

Recda ! Náo se apressa em vir saudal-a ! 
Cobre a fronte brilhante de heroismo 
H soluça ! . . . Que tem ? Bil-o que fala : 

•> O' Pátria que eu salvei do depotismo ! 
•> 14 vejo a comipçfto que te avassalla ! 
■ Nfto te conheço ! • 

B se afundou no abysmo! 



392 MEMORIAS BRAZII.EIRAS 

que obedecia a ordem do vice-almirante João Pascoe Green- 
fell. Mortífero e rápido realizou-se o ataque. Cerca de 30 
homens da guarnição foram mortos, e, no desespero de causa, 
o chefe Simeão Barretto, cançado de luctar, arrojou-se ao rio 
e afogou-se. Tomado egualmente o fortim do Junco, ficou 
restabelecida a navegação da lagoa dos Patos, facilitada a 
communicação marítima entre Porto Alegre, Pelotas e Rio 
Grande. 

Quando o domínio legal ia ganhando terreno, entendeu 
o governo do padre Feijó dar substituto a Araújo Ribeiro, 
nomeando presidente o marechal António Elisiarío de Mi- 
randa Britto. 

Desgostosa com a nomeação do novo presidente, quando 
nenhum motivo havia para a demissão de Araújo Ribeiro, 
a camará municipal do Rio Grande entregou, em data de 
3 de Julho, uma representação ao marechal António Elisiario, 
pedindo retardasse a sua posse, até que o governo central 
decidisse a petição que n^este sentido lhe dirigira, e fora levada 
á corte em mão do dr. Joaquim Vieira da Cunha. 

Como era de seu dever, o marechal não annuiu ao pedido 
e deu á camará conveniente resposta : 

«Acabo de receber a carta que VV. SS. me dirigiram 
n'esta data, á qual só me cumpre responder que, sendo eu 
obediente ao governo de S. M. o Imperador, devo executar 
os seus mandados, e que seria criminoso, si, em contravenção 
d'elles, annuisse a quaesquer observações que fossem de 
encontro ás attribuições dos poderes politicos marcados na 



CAPITULO XXXII 393 



Constituição do Império do Brazil, que jurei e que estou firme 
em sustentar (^). » 

No dia seguinte, empossou-se do cargo perante a muni- 
cipalidade rio-grandense e publicou proclamação, concitando 
o povo a restabelecer a legalidade. 

Foi, porém, ephemera a sua administração, pois findou 
a 20 do mesmo mez. O regente attendeu á reclamação dos 
vereadores; nomeou de novo Araújo Ribeiro presidente da 
provincia, cargo de que este entrou em exercício a 24 de Julho. 
Pouco depois transferia-se para Porto Alegre a sede do governo 
da provincia. 

Sabendo que na capella de Viamão fazia Bento Gonçalves 
seu quartel general, saliiu de Porto Alegre, a 7 de Setembro 
de 1836, uma força de legalistas, desejosos de desalojar 
d^aquelle ponto os farrapos; foram, porém, recliassados e 
obrigados a retroceder. Portou-se alii com singular valentia 
o paizano legalista José Joaquim de Andrade Neves, logo após 
promovido, por actos <le bravura, a alferes da guarda nacional. 

Emquanto este successo occorria nos arredores de Porto 
Alegre, realizavam-se na campanha feitos de valor. 

Uma partida de revolucionários, em que iam os chefes 
João António, David Canabarro e Jacintho Guedes da Luz, 
conseguiu debandar uma brigada que se preparava para 
entrar em acção, ao mando dos coronéis José dos Santos 
Loureiro e José Maria de Almeida Gama Lolx) Coelho d^Eça. 



( I ) Jornal do Comffiercio de 26 de Julho de 1836. 
00 



394 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



A 7 de Setembro, David Canabarro deu combate ao lega- 
lista Albemaz, a quem encontrou nas vertentes do Ibicuhy. 
Soube-se, pela correspondência appretiendida, que outro lega- 
lista, o major Terêncio, occupava-se no Estado Oriental em 
comprar boa cavalhada para o governo e tencionava entrar na 
provincia, transpondo o Quarahy, para reunir-se, no logar 
chamado Cerca de Fedra^ a seu correligionário, major Lopes, 
alli acampado com 300 homens d'aquella brigada. 

Ao encontro de Terêncio, marchou Jacintho Guedes, 
acompanhado apenas de 40 companheiros valentes. Brilhante 
êxito coroou a empreza do ousado revolucionário. No dia 10 
encontraram-se os inimigos. Em um feito de armas feliz, 
conseguiu Guedes dispersar a gente de seu contrario e tomar 
conta da excellente cavalhada, em numero de 800 animaes. 

Jubilosos com semelhante despojo de guerra, deliberaram 
os três chefes João António, Canabarro e Guedes atacar no 
dia 1 1 o acampamento de Lopes, para o que dividiram as for- 
ças: 65 homens ao mando dos dois últimos e 80 ás ordens de 
João António, os quaes ficaram occultos em uma quebrada, 
como necessário reforço. 

Com tanta violência cahiram os 65 revolucionários sobre 
os 300 legalistas, que estes, persuadidos de que iam luctar 
com forças muito superiores ás suas, abandonaram o terreno. 
Quando, ao cahir da noite, chegou João António ao campo, 
encontrou somente vestigios do acampamento inimigo. 

Guedes, que havia sido aggredido a lança, deveu a vida 
ao facto de trazer enrolado á cintura um poncho; foi, porém, 



CAPITULO XXXII 395 



alcançado nas costas por um golpe de bolas que o fez deitar 
sangue pela bocca. 

As forças legalistas dispersas nos dias 7, 10 e 15 de Setem- 
bro iam juntar-se ás de Silva Tavares, que, como dissemos, 
fora derrotado no Sei vai. 

No dia 1 1 do mesmo mez travava-se na villa de Rio Pardo 
renhido combate entre forças legaes, commandadas pelo 
tenente-coronel António de Medeiros Costa, e farrapos, che- 
fiados pelo temido Menino Diabo. 

Achava-se a cidade entregue a festas commemorativas da 
restauração de Porto Alegre, quando alli appareceu, a 21 de 
Agosto, este chefe revolucionário, cujo appellido, por si só, 
infundia terror. 

A frente de tropas que conduzira em lanchões, o Menino 
Diabo havia tomado conta da villa, pelo abandono em que a 
deixaratn os poucos soldados que a guarneciam; depois de 
saqueal-a, officiou ao juiz de paz José Ignacio da Silveira, 
intimando-o a convocar todos cidadãos validos capazes de 
engrossar as fileiras revolucionarias. Prepara va-se para prose- 
guir em suas excursões depredadoras pela campanha, quando 
a II de Setembro o surprehenderam forças do tenente- 
coronel Medeiros, compostas da 3.' brigada, companhias 
de Taquary e Santo Amaro e partidas do Cerro do Roque 
e Pederneiras. 

Em numero de 270 homens das três armas, os farrapos 
haviam occupado posição vantajosa na ponte do Couto, .mas 
foram destroçados, deixando no campo, mortos 2 officiaes e 



396 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



35 soldados, e prisioneiros 4 officiaes, 32 soldados e 10 escra- 
vos, e bem assim grande quantidade de munições de guerra 
e de bocca. 

Dos legalistas sahiram feridos os capitães Severo, Jardim 
e Marianno, 2 cabos e 12 soldados. 

Commovente foi a entrada da força libertadora em Rio 
Pardo. Com lagrimas de reconhecimento festejaram as famí- 
lias este facto, que as desopprimia das violências do Menino 
Diabo- 

N'esse mez de Setembro de 1836 a causa revolucionaria 
assumiu novo e gravíssimo caracter. Um dos chefes, coronel 
António de Souza Netto, para dar ao movimento feição 
inteiramente democrática, resolveu fazer a separação da pro- 
víncia do Rio Grande do Sul, e, á margem esquerda do rio 
Jaguarão, em frente ao Estado Oriental do Uruguay, dirigiu 
a seus commandados esta solemne proclamação: 

« Bravos companheiros da i.* brigada de cavallaria ! 
Hontem obti vestes o mais completo triumpho sobre os escra- 
vos da corte do Rio de Janeiro, a qual, invejosa das vantagens 
locaes de nossa província, faz derramar sem piedade o sangue 
de nossos compatriotas, para doeste modo fazel-a presa de suas 
vistas ambiciosas. Miseráveis! Todas as vezes que seus vis 
satellites se teem apresentado deante das forças livres, teem 
succumbido, sem que este fatal desengano os faça desistir 
de seus planos infernaes. São sem numero as injustiças feitas 
pelo governo. Seu despotismo é o mais atroz. E soffreremos 
calados tanta infâmia? Não; nossos compatriotas, os rio- 



CAPITULO XXXII 397 



grandenses, estão dispostos como nós a não soffrer por mais 
tempo a prepotência de um governo tyranno, arbitrário e 
cruel, como o actual. 

«Em todos os ângulos da provincia não soa outro echo 
que o de Independência^ Republica^ Liberdade ou Morte. 

«Este echo magestoso que tão constantemente repetis, 
como uma parte d'este solo de homens livres, me faz declarar 
que proclamemos a nossa Independência Provincial, para 
o que nos dão bastante direito nossos trabalhos pela Liber- 
dade e o triumpho que liontem obtivemos sobre estes mise- 
ráveis escravos do poder absoluto. 

«Camaradas! Nós que compomos a i.** brigada do exercito 
liberal, devemos ser os primeiros a proclamar, como procla- 
mamos, a Independência d'esta Provincia, a qual fica desligada 
das demais do Império, e forma um Estado livre e indepen- 
dente com o titulo de Republica Rio-Grandense e cujo 
manifesto ás Nações civilisadas se fará competentemente. 

«Camaradas! Gritemos pela primeira vez: 

«Viva a Republica Rio-Grandense ! Viva a Independência! 
Viva o Exercito Republicano Rio-Grandense ! 

«Campo de Menezes, ii de Setembro de 1836. 

^António de Souza NeiiOy Coronel commandante da 
i.^ brigada.» 

A acta da proclamação da republica foi lavrada no dia 12, 
nos seguintes termos : 

« Aos doze dias do mez de Setembro do anno de mil oito- 
centos e trinta c seis, no acampamento volante da costa do 



398 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



rio Jagiiarão, achando-se a primeira brigada de cavallaria em 
grande parada, estando presente o coronel commandante da 
mesma, António de Sonza Netto e officiaes e officiaes infe- 
riores que subscrevem, por unanime vontade doestes e tropa 
da dita, foi declarado que: a provincia do Rio-Grande do Sul, 
d'ora em deante, se constituia Nação livre e independente, 
com o titulo de Republica Rio-Grandense^ não só por ter 
todas as faculdades para representar entre as demais Nações 
livres do Universo, se não também obrigada pela prepotência 
do Rio de Janeiro, que por tantas vezes tem destruido seus 
filhos, ora deprimindo sua honra, ora derramando seu sangue 
e finalmente desfalcando-a de suas rendas publicas. 

« Por todos os motivos que se declararão em a primeira 
reunião da Assembléa Nacional Constituinte e Legislativa, 
protestam ante o Ser Supremo do Universo não embainhar 
suas espadas, e derramar todo o seu sangue, antes que retro- 
ceder de seus principios politicos, proclamados em a presente 
declaração. » 

Assignaram a acta o coronel António de Souza Netto e 
52 officiaes, superiores e inferiores. 

Acceitando este acto, a camará municipal da villa de 
Jaguarão reuniu-se a 20 de Setembro, primeiro anniversario 
da revolução, e declarou ao município separada a provincia 
do Rio Grande das demais do império; ofliciou ao coronel 
Bento Gonçalves da Silva, convidando-o a dirigir o governo 
da republica e a designar dia para a eleição da assembléa 
constituinte. 



CAPITULO XXXII 399 



o officio da camará de Jaguarão deveria chegar ás mãos 
de Bento Gonçalves, por intermédio de João Manoel de Lima 
e Silva, que se achava ainda em Pelotas: não seguiu seu 
destino em consequência do revez soffrido por aquelle 
coronel na ilha do Fanfa, com passamos a expor. 

Convencido Bento Gonçalves de que sua estada em 
Viamão já lhe não offerecia probabilidades de retomar Porto 
Alegre, ponto que mais s^ havia fortificado com a recente 
chegada de Bento Manoel, e tendo noticias dos factos occor- 
ridos na fronteira do Jaguarão, onde lhe reclamavam a 
presença, resolveu abandonar o inútil sitio do Porto Alegre e 
seguir para o sul, transpondo os rios tributários do Guahyba. 

Logo que soube doeste movimento, o commandante das 
armas, legal. Bento Manoel, deliberou ir interceptar-lhe a 
passagem no rio Jacuhy. 

Por meio de espiões mandados ao encalço dos farrapos, 
ficou perfeitamente orientado da marcha e sabedor do local 
em que pretendiam elles pasSar o rio para ganhar a margem 
direita, onde os esperava Domingos Crescendo com um 
reforço de 400 homens, nas immediações das Charqueadas. 

Reuniu o chefe legalista mais de i.ooo homens que embar- 
cou nas canhoneiras (hiates artilhados), sob as ordens de 
Greenfell, e, subindo o rio, foi esperar os farrapos no. ponto 
escolhido. 

Bento Manoel fez desembarcar as tropas no dia 2 de Outu- 
bro, á frente dos revolucionários, á distancia de pouco mais 



400 MEMORIAS BR AZI LEIRAS 



de um tiro de canhão; guarneceu todas as passagens que 
conduziam para a campanha, deixando somente livre a 
coxilha ( ^ ) existente ao fundo de um rincão ou recanto 
formado por uma pronunciada curva do rio Jacuhy. N^esse 
local, á margem esquerda, ha um bom porto, que apezar 
de não ter correspondente na margem opposta, offerece pas- 
sagem fácil por meio de balsas, impellidas a vara. 

Suppuzeram os farrapos que, transposto o braço de rio 
e transferida a columna para a ilha do Fanfa, poderiam fuzilar 
as forças legaes que se approximassem da barranca, ao passo 
que iriam, pelo lado opposto, atravessando o outro braço, 
para ganhar a margem direita. Moveu-se Bento Gonçalves 
na noite de 2 de Outubro para a barranca; fez construir 
balsas para o transporte; montou uma bateria composta de 
3 peças e um obuz sobre uma eminência que domina o rincão 
e é a única por onde se pôde transitar, e guarneceu-a com 
200 soldados de infanteria. 

Appareceram na manhã do dia 3 as canhoneiras de Green- 
fell, em numero de cinco; hostilizadas vivamente pela bateria 
da barranca, retiraram-se pouco depois. 

Para entreter a attenção dos farrapos, Bento Manoel 
occupou-se durante esse dia em manter intervallados disparos 
de artilheria contra a bateria collocada na eminência, e 
mandou occultamente, para a ponta da ilha, 400 homens, 



( 1 ) Co.vilha, extensa collina de pouca elevação, com paf^tagens. Chama-se 
campo dobrado, no Rio Grande do Sul, o que apresenta coxilhas parallelamente 
dispostas. 



CAPITULO XXXII 401 



que deveriam, em dado momento, atacar os revolucionários 
pela retaguarda, collocando-os entre dois fogos. 

Durante a noite grande parte da tropa de Bento Gonçalves 
passou-se para a ilha do Fanfa. 

Na madrugada do dia 4 de Outiibro travou-se o grande 
e sanguinolento combate. 

• Commandada pelo coronel de legião Gabriel Gomes 
Lisboa, a cavallaria legal, apeando-se e servindo- se de armas 
de fogo, marchou a passo de carga, a fim de tomar a bateria 
da eminência, e atravez de cerradas descargas apoderou-se 
d'ella, destroçando os infantes que a defendiam. 

No desespero de salvar-se, muitos rebeldes arrojaram-se a 
uma balsa para transportar-se á ilha. Com o demasiado peso 
afundou-se a embarcação e alguns farrapos morreram afoga- 
dos ; outros foram mortos a bala e poucos puderam livrar-se 
do perigo, fugindo. 

Sobre a barranca as peças de artilheria começaram a 
varrer a ilha a metralha, ao mesmo tempo que as canhoneiras 
de Greenfell, em repetidos disparos, punham os insulados 
em situação afflictissima. Serviam- lhes de trincheiras as 
arvores e os barrancos da ilha. De repente, cessou o fogo dos 
.canhões e ouviu-se espantosa e inesperada descarga de fuzi- 
laria. Kram os 400 infantes legaes que por um dos flancos 
atacavam as forças rebeldes. 

Em face de tamanha audácia, os farrapos repelliram a 
aggressão a arma branca, desenvolvendo indómita bravura, 
e obrigando os contrários a recuar com grandes perdas. 



402 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Mortalmente ferido, o coinmandante legal, tenente-coronel 
Carlos José Ribeiro da Costa, mandou retirar a sua força. 

Cercados os revolucionários por todos os lados; impossi- 
bilitados de receber soccorro da força de Domingos Crescendo, 
que se achava á vista, na outra margem; reconhecendo que 
a sua resistência só daria como resultado alastrar de cadáveres 
a ilha ; extenuados da porfiada lucta e exgottadas as munições, 
capitularam. 

Os farrapos tiveram 120 mortos, grande numero de feri- 
dos e entregaram 15 boccas de fogo. Muitos, envergonhados 
porque não puderam vencer e eram obrigados a depor suas 
armas nas mãos do vencedor, ou as inutilizaram ou as 
lançaram ao rio. 

Tiveram os legalistas 40 mortos, entre elles o tenente 
José Egydio Rodarte, commandante do 3.° corpo de cavallaría 
de linha. 

Permittiu Bento Manoel que se retirassem muitos prisio- 
neiros, concedendo até salvo-conductos a alguns, e remetteu 
no dia 5 para Porto Alegre 12 officiaes presos — Bento Gon- 
çalves, Onofre Pires, Affonso Corte Real, Tito Lívio de Zam- 
bicari e outros. 

Como garantia de que não seriam perseguidos os chefes, 
revolucionários que depuzessem as armas. Bento Manoel deu 
a seu adversário Bento Gonçalves este importante documento, 
prova de que houve capitulação: 

w Recebo como irmãos e afianço serem livres de persegui- 
ções, conforme as ordens do governo do Brazil, os individuQS 



CAPITULO XXXII 403 



que se apresentarem e reconhecerem o governo legal do mesmo 
Brazil e da província: os que se acham n^esta ilha, hoje mesmo; 
os que estáo na Charqueada, dentro de quatro dias, e os de 
Jaguarão e Pelotas no praso de quinze dias, inclusos n^estes 
todos os chefes que têem acompanhado o coronel Bento Gon- 
çalves da Silva e o mesmo coronel, entregando todo o parque 
de artilheria, annamentos e munições na occasiáo de se 
apresentarem. 

«Campo no porto do Fanfa, 4 de Outubro de 1836. — 
Bento Manoel Ribeiro^ commandante das armas ( ' ). » 

Tal documento nenhum effeito produziu em favor do 
chefe da revolução: Bento Gonçalves e seus companheiros 
foram mettidos na Presiganga de Porto Alegre e mais tarde 
transferidos para as fortalezas Santa Cruz e Lage, do Rio 
de Janeiro. 

Entre os presos políticos mandados para o Rio de Janeiro 
é digno de especial menção Pedro José de Almeida, vulga- 
mente conhecido por Pedro Boticário. 



( I ) D'este documento extrahiu copia na Presifranga o popular grammatico 
e deputado revolucionário António Alvares Pereira Coruja, que a deu ao dr. Assis 
Hr.izil ( Historia da Rtvolução Rio-Grandfnse, pag. i8o). 

O original foi encontrado entre os papeis do revolucionário Domingos José 
de Alnieidi e publicado cm 1886 na gazeta Discussão, de Pelotas. 

Não se achava cabalni?nte informado nosso distincto consócio de Instituto, 
conselheiro TristAo dií Alencar Araripi-, quando escreveu no final do g 17, capitulo 
IV de sua (iut-rra Civil do Rio (wrande do Sul: 

" A capitulação, jamais provada por documento, foi argumento dos vencidos 
p.ir.i encobrir o desastre* e attenuar na opinião da província os naturaes efiteitos 
delle em descrédito do movimento revolucionário. •» 



404 MEMORIAS BRAZILEIRÂS 



Quando em Porto Alegre se tratou da fundação da 
Sociedade Militar^ grémio de restauradores, portuguezes em 
sua maior parte, Pedro Boticário, como acinte á Sociedade^ 
creou um periódico, tão diminuto no tamanho quanto 
violento na linguagem, e lhe deu o significativo nome de 
Idade de Pau, A folha jacobina apresentava, abaixo do titulo, 
uma gravura tosca, representando um enorme cacete: tanto 
bastava para indicar a Índole do redactor. 

Exercia elle, uma occasião, o cargo de juiz de paz, quando 
lhe foi presente o requerimento em que um portuguez pedia 
exclusão do alistamento para o serviço da guarda nacional, 
allegando ser extrangeiro, como provava com a papeleta 
annexa ao requerimento. O Boticário deitou na petição este 
despacho: 

«Como requer, á vista do documento junto, e nem a 
nação brazileira precisa de aventureiros para o seu serviço, 
pois que tem em seus filhos a força precisa para sustentar a 
gloriosa revolução de 7 de Abril.» 

Na presidência do dr. António Rodrigues Fernandes 
Braga deu-se um facto demonstrativo da coragem de Pedro 
Boticário, quando se tratava do cumprimento da lei. 

O visconde de Camamú, atnigo intimo do presidente, 
julgou-se por esse facto acoberto de responsabilidades, e em 
um folha retrograda injuriou atrozmente o major João 
Manoel de Lima e Silva, commandaute do 8.° batalhão de 
caçadores. O official offendido instaurou-lhe processo, de que 
resultou ser o aggressor condemnado a quatro mezes de cadeia 



CAPITULO XXXII 405 



e multa correspondente á metade do tempo. A sentença fora 
lavrada por Pedro José de almeida, juiz de paz. O visconde 
appellou da sentença, porém esta foi confirmada. Para pro- 
teger ao seu amigo, evitando-lhe vexame, o presidente deter- 
minou que o titular fosse cumprir a sentença no quartel do 
corpo de permanentes. Boticário officiou immediatamente a 
Fernandes Braga, citando-lhe disposições de lei e requisitando 
o preso, para que cumprisse a sentença na cadeia, pois do 
contrario a lei se tornaria inútil e o crime triutnphante^ por 
falta de verdadeira punição, 

A contra-gosto officiou o presidente ao commandante do 
corpo de permanentes mandando pôr o visconde .4 disposição 
do juiz; porém, acto continuo, ordenou se recolhesse o titular 
ao hospital da santa casa de misericórdia, por achar-se doente, 
conforme lhe havia representado. 

Na lucta com o presidente, o Boticário não se deu por 
vencido. Compenetrou-se de seu papel como homem da lei e 
dirigiu á primeira auctoridade da provincia este áspero officio: 

(í Prescindindo da promptidão com que V. Exa. concebeu 
a inopinada enfermidade do réo, cuja manha é assaz patente 
a V. Exa., sem se lembrar das artimanhas e ardis que se 
costumam empregar para illudir a lei e ficar impune o crime, 
por isso declaro a V. Exa. que jamais julgarei o réo visconde 
de Camamú á minha disposição, sem o haver recebido, e 
muito principalmente havendoo V. Exa. mandado recolher 
ao hospital, sem eu ser ouvido, estando elle já á minha 
disposição. 



CAPITULO XXXIII 



Attitude de António Netto. Instituição da republica 

em piratiny. eleição do presidente e vice-presi dentes. 

Proposta de paz. Demissão de Araújo Ribeiro. 

Nomeação DO marechal Antero de Britto. Defecção 

DE Bento Manoel. — 1836-1839. 



grande derrota soffrida pelos farrapos na ilha do 
Fanfa incutiu extraordinário alento ás forças legaes, que 
viram n'esse facto a próxima conclusão da guerra. 

O presidente Araújo Ribeiro aproveitou o ensejo para, 
ainda uma vez, chamar á conciliação seus patricios e espe- 
cialmente os habitantes do Rio Grande e da villa de Pira- 
tiny, ponto este em que se congregavam, em avultado numero, 
os revolucionários. 

Em proclamação datada do Rio Grande, em 22 de Outu- 
bro de 1836, dizia elle: 

«O triumpho que acaba de adquirir a lei na completa 
derrota das forças em que mais se escorava o chefe dos 
rebeldes, a captura doeste e sua seguida ao logar aonde ha 
muito o chamavam seus crimes, já vos não podem ser desco- 



;>2 



4IO MEMORIAS BRAZILEIRAS 



nhecidos, assim como a generosa conducta praticada. ii'esse 
acto com vossos companheiros no erro. 

«É tempo de ouvirdes os dictames da razão tranquilla, 
não vos deixando mais illudir por essas cavillosas e mal 
intencionadas influencias que com ultrage ao céo e ao mundo 
infelizmente ainda vos dominam. Vede que elles tocaram ao 
cumulo da maldade, extorquindo e inutilizando a propriedade 
alheia, abusando a tal ponto de vossa bôa fé, que se não 
pejam de incorporar-vos a hombros de africanos! Que exe- 
cração á posteridade rio-grandense ! 

«Desviai-vos do precipicio, a que ainda vos arrastam, e 
vinde ao abrigo da lei reparar os males da pátria e chorar a 
perda de irmãos sacrificados ao capricho da ambição e á 
hypocrisia de um chefe que ainda na queda deixou satellites 
que, tendo de o acompanhar a ella, empenham-se por ensur- 
decer-vos aos gritos da honra, do dever e do verdadeiro 
interesse. 

«Eis o que vos aconselha o presidente da provincia, vosso 
patrício e amigo (^). » 

Logo que teve conhecimento do espantoso desastre occor- 
rido a 4 de Outubro, o coronel António de Souza Netto, em 
uma proclamação vigorosa, concitou de novo os rio-granden- 
ses á lucta, garantindo-lhes victoria. 

"Sim, patrícios, dizia elle, si um dia ousarem nossos 



( I ) Jornal do Commcrcio do 15 de Novembro de i}^36. 



i 
CAPITULO XXXIII 411 



antagonistas disputar a contenda, formados em batalha, conto 
repetireis a terrivel licção do Seival. 

« Preparai-vos, amigos, disponde-vos, resignai-vos, que 
ides ouvir de minha bocca um revez que soffremos, revez 
ingente, que, em vez de vos desalentar, vos deve animar. 

«Hoje, sabei, soldados, que nosso Ínclito commandante, 
o exmo. Bento Gonçalves da Silva, na passagem do Jaculiy, 
sendo atacado por todas as tropas inimigas, resistiu com 
denodo, mas, concluidas as munições de guerra, capitulou 
dignamente, entregando sua pessoa aos algozes e livrando aos 
bravos que o acompanhavam e que marcham já em tropel a 
unir-se ao veterano Domingos Crescencio. 

« Concidadãos ! Nosso chefe está preso entre os seus e 
vossos verdugos, e é força arrostar perigos para libertal-o. 

(' Nós marcharemos ao fim, carregando, envolvendo-nos 
em meio das phalanges contrarias, com a espada ení mão, 
e o heroe será restituidò aos nossos braços. Não o duvideis, 
camaradas ; as grandes emprezas são dignas de vós e da magna 
causa que imos defender. Nós, dominantes das amenas cam- 
pinas do Rio Grande, senhores dos melhores recursos para a 
guerra, quem nos roubará a victoria? Quem duvidará do êxito 
de nossas armas ? 

«Ninguém, que conheça nossa firmeza e posição. 

« O revez que soffremos é grande; mas c um só, no circulo 
de tantos triumphos; por isso, redobrai vosso valor, e vence- 
remos. 

« Os Orientaes trabalharam também como vós c contra o 



412 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



mesmo Império contra quem lutamos : elles conseguiram sua 
liberdade e é fácil que, protegendo a nossa causa, a victoria 
em breve se decida por nossa parte. 

«Mas eu não conto sinão comvosco, com os vossos braços 
fortes e armados. 

«Valor, pois, e perseverança, concidadãos, e nossa causa 
triumphará de quantos obstáculos e resistências o Brazil todo 
descarregue sobre nós. 

« O homem que trabalha por sua independência e liberdade, 
jamais contramarchará, tendo constância, união e virtuosa 
conducta. 

« Eia, pois, ao proposto fim, o qual é sustentar a guerra, 
a independência e liberdade de nossa pátria. » 

Resolveram os revolucionários reunir-se na villa de Pira- 
tiny e lançar as bases da constituição republicana. Ahi che- 
gado a i.° de Novembro, o commandante das armas interino, 
João Manoel de Lima e Silva, foi eleito commandante em 
chefe das forças revolucionarias, durante o impedimento de 
Bento Gonçalves da Silva. 

De toda a parte da provincia affluiam cidadãos a Piratiny, 
arrastados pela curiosidade de assistir á inauguração solemne 
e definitiva da republica e á eleição dos membros que a deve- 
riam compor. 

A 5 de Novembro reuniu-se a camará municipal em 
sessão preparatória, em que tomaram parte os vereadores 
Vicente Lucas de Oliveira, presidente, Seraphim José da 



CAPITULO XXXIII 413 



Silveira, José Pereira da Silva Cacorio, João António de 
Moraes, António Corrêa da Silva e Francisco Moreira da 
Silva Verde. 

Declarou o presidente que a sessão tinha por exclusivo 
objecto proclamar n'aquelle municipio a independência e a 
republica, acto necessário não só por estar de accordo com a 
maioria do povo rio-^andense, como porque era o único 
recurso que tinham os patriotas, deanteda perseguição desen- 
volvida pelo governo brazileiro; propoz a independência e a 
republica, com a clausula de poder o novo Estado ligar-se 
pelos laços da federação ás provincias do Brazil que ado- 
ptassem o mesmo systema de governo; propoz mais que se 
tratasse immediatamente da eleição do pessoal administrativo, 
e que n'este sentido se consultasse a opinião do commandante 
em chefe do exercito, e fosse elle convidado a vir perante 
a camará prestar juramento á republica. Approvadas estas 
medidas, foi uma commissãd composta de três membros 
transmittir o convite a João Manoel, que por doente não 
poude cumprir a formalidade, mas indicou para presidente 
da republica o cidadão Ignacio José de Oliveira Guimarães. 

Foi designado o dia 6 de Novembro para a definitiva 
installação da republica e eleição de seus primeiros magis- 
trados. 

O popular comicio attrahiu grande multidão ao edifício 
da camará municipal de Piratiny: viam-se alli os cidadãos 
preponderantes da situação: coronel António de Souza Netto, 
formosa physiònomia, que sabia reunir a graça do cavalheiro 



414 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



á energia do soldado; José Gomes de Vascoiicellos Jardim, 
descnidoso do peso dos annos e da fortuna com que a sorte 
o quinhoára; Domingos José de Almeida, o ardoroso mineiro, 
uma das mais sisudas cabeças da revolução; Joaquim Pedro 
Soares, tenente-coronel, ajudante general e comniandante do 
i.^ corpo de lanceiros, formado de escravos arrebatados pelos 
farrapos; major Joaquim Teixeira Nunes, typo de destemido 
gaúcho, cuja valentia mereceu elogios de Garibaldi; padre 
^liguei Justino Garcez Moncada, tenente-coronel José Alves de 
Moraes, António Vicente da Fontoura, dr. António Pereira 
de Sequeira I^eitão, major José Marianno de Mattos, capitão 
Manoel de Macedo Bruni da Silveira, advogado José Pinheiro 
de Ulhoa Cintra. 

Procedida a eleição, obteve maioria de votos, para presi- 
dente da republica rio-grandense, o coronel Bento Gonçalves 
da vSilva. 

Foram eleitos em seguida quatro vicc-prcsidentes : Antó- 
nio Paulo da Fontoura, conhecido por António Paulino, José 
Marianno de Mattos, Domingos José de Almeida e Ignacio 
José de Oliveira (iuimaráes. 

Como não fosse conveniente que durante a ausência de 
Bento Gonçalves se mantivesse interino o supremo governo 
da republica, resolveu-se eleger um substituto effectivo: 
para o novo cargo foi eleito José (lomes de Vasconcellos 
Jardim. Todas estas auctoridades prestaram logo juramento e 
entraram em exercício de suas funcções, C()ni])roniettcndo-se 
a resignal-as no seio da assembléa geral constituinte, que 



CAPITULO XXXIII 415 



seria convocada quando bs eventualidades da guerra o 
permittissem. 

Estava installada a Republica Rio-Grandense (*). 

Ao assumir a presidência, Vasconcellos Jardim nomeou 
seus auxiliares de administração: Domingos José de Almeida, 
ministro do interior e interino da fazenda; José Marianno de 
Mattos, ministro da guerra e interino da marinha, e dr. José 
Pinheiro de Ulhoa Cintra, ministro da justiça e interino de 
extrangeiros. 

Por decreto de 8 de Novembro, aboliram-se os postos de 
brigadeiro, marechal de campo, tenente-general e marechal de 
exercito: foram substituídos pela patente única à^ general. 

A 12 do mesmo mez decretou-se o seguinte escudo de 
armas : 

« O escudo de armas do estado rio-grandense será em forma 
de um quadrado, dividido em três cores, assim dispostas : 

« A parte superior, junto á haste, verde, formada por um 
triangulo isósceles, cuja hypotenusa é parallela á diagonal do 
quadrado. 

ff A parte central, escarlate, formada por um exágono 



( I ) Quando a Porto Alegre chegou a noticia da proclamação da republica, 
O/i imperiaes a alcunharam, por desprezo, republica de Piraiiny e deram á nova 
administração o nome de ^overnicho. A Gazeta yfercantil, da capital, em seu 
numero de 31 de Dezembro de 1836. fez a respeito do presidente republicano o 
seguinte commentario > 

" Koi este pobre velho José Gomes, junto com o quadrúpede Onofre Pires, 
quem os sediciosos acharam com mais aptidAo para encarregal-os da abertura da 
revoltante scena di sua rcbclliílo, quindo em Set*.'mbro do anno passado, sob 
pretexto de expulsarem o presidente Fernandes Braga, se apoderaram d'elle, 
para depois irem gradatim conduzindo agua ao seu moinho, « 



4l6 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



determinado pela liypoteiiusa d'aquelle triangulo e pela de 
outro egual, symetricamente disposto, côr de ouro, que 
formará a parte inferior ( * ). » 

Foram logo promovidos a generaes os chefes Bento 
Gonçalves da Silva, David Canabarro, João António e Antó- 
nio de Souza Netto. 

Dos ministros nomeados foi Domingos José de Almeida 
o que mais trabalhou e se distinguiu na organisação interna 
dos serviços públicos, em relação a finanças, conseguindo um 
regular systema fiscal, com o estabelecimento de impostos 
destinados a manter as despezas da guerra. 

Dotado de grande tino administrativo, fundou uma 
repartição com o titulo de Thesouro Publico, dirigido por 
elle, ministro da fazenda, auxiliado por um contador e 
escripturarios, e tendo como subordinados collectores muni- 
cipaes incumbidos da arrecadação das rendas. 

Muitas medidas de elevado alcance foram postas em 
pratica por este homem superior, em quem concorriam raras 
qualidades para óptimo governo. A elle deveu a republica a 



( I ) Para maior clareza, representamos typographicamente o escudo revo- 
lucionário n'csta figura : 



CAPITULO XXXIII 417 



conversão da moeda de cobre, operação realizada com exíto 
e não conseguida pelos imperiaes; a lei da nacionalização 
dos extrangeiros ; o regular serviço da exportação de gado; 
estabelecimento de colónias no Alto Uruguay ; protecção ás 
industrias de cortume e fabricas de arreios; levantamentos de 
empréstimos internos; cunhagem de moeda de cobre; emissão 
de moeda papel ; a mudança da sede do governo, de Piratiny 
para a villa de Caçapava, local mçnos exposto a assaltos do 
inimigo; direcção da imprensa official; regularização do ser- 
viço de correios; austera distribuição de justiça; installação 
de escolas de instrucção primaria; arrendamento dos bens 
abandonados pelos legaes; redacção do pacto constitucional 
e muitos outros trabalhos, reveladores de levantadas vistas. 

Instituida a republica, recobraram novo animo os farrapos, 
dispostos a vingar a derrota do Fanfa, pondo em evidencia 
o valor de suas armas. 0*anno de 1836 não deveria findar 
sem uma satisfactoria desforra. 

E, com effeito, a 17 de Dezembro, forças commandadas 
pelo legalista coronel João da Silva Tavares, em marcha para 
Jaguarào, viram-se perseguidas tenazmente pelos soldados do 
bravo David Canabarro; travado o combate, soffreram a perda 
de 8 soldados, mortos, e aprisionados 5 officiaes e 30 praças 
de pret. Para não sacrificar sem resultado a sua gente, Silva 
Tavares capitulou^ de modo honroso (*). 

Não era o presidente da republica homem de guerra. 



( I ) Jornal do Commcnio de i6 de Janeiro de 1837. 

53 TOM. u 



4l8 SfEMORIAS BRAZILEIRAS 

Itnpelliâo á causa dos farrapos pela necessidade que reconhecia 
de se dar ao Rio Grande do Sul governo consentâneo com as 
suas aspirações, \'asconcellos Jardim, ao occupar o supremo 
cargo, imaginou poder conseguir, por sua influencia pessoal, 
a pacificação do Rio Grande, sem quebra de dignidade para 
os companheiros de luctas. O sangue derramado em tantos 
combates, sem uma solução definitiva, reclama\-a dos chefes 
um movimento generoso. Só uma condição exigia o sincero 
democrata, para que a concórdia reatasse os vinculos da fami- 
lia rio-grandense : o reconhecimento da republica. Admittida 
a extranha possibilidade — pretenção de todo ponto ingénua 
e insubsistente — enviou dois emissários ao commandante 
das armas, brigadeiro Bento Manoel Ribeiro, incumbidos de 
entrar em negociações de paz. 

Como era de esperar, não poude eflfectuar-se a conciliação. 
Xo officio dirigido ao presidente fegal, Bento Manoel expõe 
o melindroso assumpto do seguinte modo: 

«Ulmo. e Exmo. Sr. — Conforme me havia assegurado o 
anarchista António de Souza Netto e eu participei a V. Exa. 
no meu officio de 30 de Dezembro, vieram hontem António 
Paulo da Fontoura e Joaquim Pedro Soares, auctorizados por 
José Gomes de Vasconcellos Jardim, que se intitula presidente 
da republica do Rio Grande, para fazer as proposições ten- 
dentes a se terminar a guerra. 

» Foram, porém, tão exorbitantes as proposições que me 
fizeram e todas ellas tendentes a um explicito reconheci- 
mento da phantastica republica, que tive de desprezar, e 



CAPITULO XXXIII 419 



hoje me puz em marcha sobre os rebeldes com o desígnio de 
os bater. 

cElles seguem com direcção ao Velleda e acredito que 
d'ahi farão a mesma volta que da viagem passada e com o 
fim de nos cançar e estragar a cavalhada, e esta columna 
necessariamente tem de seguir na retaguarda d^elles. 

«Asseguro, porém, a V. Exa. que, conseguindo appro- 
ximar-me a elles, o menor descuido que tiverem farei apro- 
veitar. — Deus Guarde a V. Exa. — Campo em marcha no 
Seival, i/" de Janeiro de 1837. — Ulmo. e Exmo. Sr. José de 
Araújo Ribeiro. — Ben/o Maiioel Ribeiro (^). 

Interessado em manter entre os rio-grandenses os princí- 
pios religiosos, o governo republicano investiu o venerando 
padre Francisco das Chagas Martins Ávila do cargo de 
vigário apostólico, com prerogativas de bispo, encarregado 
de superintender todos os assumptos religiosos e ao qual 
deviam os sacerdotes da província inteira obediência. 

Reconhecendo o governo rebelde a necessidade de manter 
estreitas relações de amizade com as republicas sul-amerí- 
canas, commissionou o cidadão António Manoel Corrêa da 
Camará para ir ao Paraguay entabular tratado de mutua 
protecção; porém o dictador Francia, ou porque desconfiasse 
da estabilidade do novo regímen ou porque não desejasse 
indisi>ôr-se com o Brazíl, recusou annuír ás propostas da 
embaixada. 



\ I ) Jornal do Commcrcio de i8 de Fevereiro de 1837. 



420 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Desprezadas as negociações de paz, o general Bento 
Manoel, para vingar-se da derrota soffrida pelo coronel Silva 
Tavares, marchou contra os farrapos e em Velleda, a 3 de 
Janeiro de 1837 e na Candiota, a 4 do mesmo mez, conseguiu 
derrotar forças de António de Souza Netto, tomando-lhes 
5 peças de artilheria. 

Prolongava-se a lucta, sem gloria para os contendores, 
quando a assembléa legislativa imperial auctorizou o presi- 
dente da provincia a pôr em execução medidas violentas 
contra os farrapos, as quaes foram outros tantos motivos para 
accentuar ainda mais os ódios entre os belligerantes. 

Foi o presidente auctorizado : 

I — A prender e conservar em prisão, sem sujeitar a 
forma alguma de processo, os individuos complicados em 
crimes de resistência, conspiração, sedição ou homicidio. 

II — A expellir do Rio Grande do Sul os perturbadores 
da ordem. 

III — A mandar varejar as casas, de dia ou de noite, para 
a prisão dos criminosos, apprehensão de armas e munições. 

IV — A prohibir o funccionamento de sociedades secretas. 

V — A mandar dissolver pela força reuniões publicas 
suspeitas. 

VI — A marcar praso aos ofEciaes do exercito e da armada 
para se apresentarem a serviço, sob pena de perderem seus 
postos em caso de desobediência. 

VII — A mandar recrutar os guardas nacionaes que se 
recusassem ao serviço. 



CAPITULO XXXIII 421 



Vendo o governo imperial que a guerra civil continuava, 
a despeito de todas as providencias postas em acção, e persua- 
dido de que só um official superior, hábil em assumptos bel- 
licos, poderia, sob o prestigio da espada, pacificar a provincia, 
nomeou o marechal Antero José Ferreira de Britto para 
exercer os cargos de presidente e commandante em chefe 
do exercito. Este official entrou em exercício de suas funcções, 
em Porto Alegre, a 5 de Fevereiro de 1837. 

Conío um acinte ao novo presidente, os farrapos, em 
numero superior a 400, sob o mando de Agostinho de Mello, 
foram, a 10 do mesmo mez, atacar a villa de Rio Pardo, 
defendida por 140 praças legaes. 

Logo que a força republicana se approximou da villa, 
metade dos defensores fez juncção com os assaltantes; no 
combate morreram 70 soldados imperiaes, sendo insignifi- 
cante a perda dos rebeldes. 

Bento Manoel desgostou-se profundamente com a demis- 
são de Araújo Ribeiro e nomeação do marechal Antero 
de Britto, e, desejoso de dar áquelle illustrado rio-grandense 
uma prova de alto apreço, resolveu regressar aos antigos 
arraiaes, passar-se para os farrapos, incorrendo embora na 
pecha de transfuga duas vezes. Fazia pasmar a dubiedade 
de caracter doeste homem valente. A historia rio-grandense 
não teve traidor de mais nomeada. 

Por esse tempo, achava-se internado na provincia o cau- 
dilho oriental Fructuoso Rivera, rival de Manoel Oribe. 
Este havia assumido o cargo de presidente da republica dp 



422 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

Uruguay, facto devido á protecção emanada do dictador 
argentino, João Manoel de Rosas. 

O brigadeiro Bento Manoel entendeu-se com Rivera, 
e prometteram ambos proteger-se mutuamente. 

Tanto Rivera como o general João Lavale foram obrigados 
a seguir para Porto Alegre e ahi permaneciam sob a vigilân- 
cia das auctoridades. 

Para inutilizar os tramas do conspirador oriental, o mare- 
chal Antero de Britto aconselhou-o a ir ao Rio de Janeiro 
valer-se de influencias officiaes e conseguir voltar para seu 
estado natal, onde Oribe dar-lhe-ia conveniente posição. 

Rivera, porém, que se não satisfazia com collocação subal- 
terna, mas aspirava o cargo de presidente de seu paiz, recusou 
a proposta do marechal, pelo que foi considerado prisioneiro. 

Dando conta doesta prisão que cautelosamente havia effe- 
ctuado, Antero de Britto pediu ao governo imperial desti-. 
tuição de Bento Manoel do cargo de comniandante das armas, 
por ser voz corrente que o brigadeiro premeditava depol-o da 
presidência. 

No duplo intuito de fazer abortar o plano de Bento Manoel 
e de destruir a republica de Piratiny, infligindo aos rebeldes 
a mais completa das derrotas, o marechal seguiu para o inte- 
rior da provincia, acompanhado de uma guarda de poucas 
praças. 

Havia expedido ordens para que o coronel Gabriel Gomes 
Lisboa, que se achava em Rio Pardo com 600 homens, se 
fosse juntar ao tenente-coronel João Chr\^sostomo da Silva, 



CAPITUI<0 XXXIII 423 



estacionado em Caçapava com 900 soldados das três armas: 
reunidas as duas forças, marchariam contra os rebeldes 
collocados em Jaguarão e Piratiny. 

Encaminhava-se o presidente Antero de Britto para 
Caçapava, quando, a 23 de Março de 1837, viu-se acommet- 
tido no passo de Itapevy e aprisionado por uma força de 
100 homens, commandada pelo próprio Bento Manoel. A des- 
lealdade doeste militar causou justa indignação na provín- 
cia. Muitas satyras foram cantadas e publicadas contra a sua 
absoluta falta de caracter politico (^). 



( I ) D'entre as muitas satyras, arrojadas como lanças de arremesso contra 
Bento Manoel, apresentamos as seguintes : 

Pôde um altivo humilhar-se, 

Pôde um teimoso ceder, 

Pôde um pobre enriquecer, • 

Pôde um pagão baptizar-se. 

Pôde um avaro prestar-se, 

t^m lascivo confessar-se, 

Pôde um mouro ser christâo, 

O arrependido salvar-se ; 

Tudo pôde ter perdão : 

Só o Bento Manoel — não ! 

Quando elle, de revolucionário que era, passou-se para os legalistas, os 
farrapos vingavam-sc de sua perfidia, cantando: 

Quem é do inferno instrumento? 

O Bento. 
Quem da traição é painel? 

Manoel. 
Quem ao inferno vai primeiro ? 

Ribeiro. 
Para soffrer no brazeiro ? 
O Bento Manoel Ribeiro. 



424 XEXORIAS gRAZTT.KTRAS 



Xa occasião de ser preso, Antero de Britto trazia comsigo 
quantia superior a sete contos de réis, pertencente aos cofres 
da pro^-incia : tal importância passou ao poder dos fiinapos. 
Xo processo instaurado em Porto Al^^re contra Bento 
Manoel, seu filho dr. Sebastião Ribeiro e mais quatro cida- 
dãos, por crime de sedição e de rebellião, figurou também o 
crime de roubo. Este processo foi posteriormente annollado 
pela geral amnistia. 

Xa mesma data de 23 e na de 24 de ilarço dirigiu 
Bento Manoel oflicios aos generaes Bento Corrêa da Camará, 
Manoel Carneiro da Silva Fontoura, Gaspar Francisco Menna 
Barretto, João de Deus Menna Barretto e Francisco das 
Chagas Santos, convidando-os a acompanhal-o na traição. 
Serv'ia-se dos seguintes termos : 

«r Conhecendo os infinitos males que o despotismo e arbi- 
trariedade do brigadeiro Antero José Ferreira de Britto faziam 
pesar sobre os mais distiuctos e leaes rio-grandenses e bem 
assim os que por sua péssima administração ameaçavam sub- 
mergir para sempre em um pélago de desgraças esta infeliz 
província, prendi-o, para evitar, emquanto é tempo, o preci- 
pício a que, em tão curto espaço, nos ia elle arrojando. 



Tma corajosa republicana rio-grandens*, D. Joaquina Borges, mnlher de 
pfkíf Borjçes Pereira, morador em S. José do Hortensio, ao saber que Bento 
Mamx:! «m: t^andeára para os imperialistas, mandou comprar um copo com doas 
caraH. Algum tempo depois, succedeu passar por alli Bento Manoel e pedir agua 
áquella sincera farrapa. Ao ser\il-o, D. Joaquina apontou para o vaso. dizendo : 

— K«»te copo está muito a propósito para V. Exa I 

Ik-nto Manoel riu-se e bebeu. 



CAPITULO XXXIII 425 



« Posso assegurar a V. Exa. que com este passo se extin- 
guirá entre nós a guerra civil, si V. Exa. lhe prestar coadju- 
vação, como espero de seus serviços e patriotismo. 

« Tudo se harmonizará : os republicanos desistem de seus 
projectos e se submettem ao governo imperial, si quanto 
antes vier occupar a vice-presidencia o dr. Joaquim Vieira 
da Cunha, e si fôr entregue ao brigadeiro Gaspar Francisco 
Menna Barretto o commándo da guarnição d'essa cidade (^). 

« Adoptadas estas medidas, eu respondo ao governo impe- 
rial pela detenção do brigadeiro Antero de Britto. 

«E ainda necessário que se faça, quanto antes, partir para 
entre seus companheiros o general D. Fructuoso Rivera ; na 
certeza de que o dito brigadeiro responderá com a vida a toda 
a omissão que haja a este respeito. 

« Espero que V. Exa. aproveitará esta occasião para fazer 
mesmo um distincto serviço á nossa pátria, promovendo 
efficazmente a conclusão doeste assumpto. » 

Preso o presidente da provincia e por este facto desmora- 
lizadas as forças legaes, toniou-se fácil aos farrapos a tomada 
de Caçapava: para esta villa dirigi u-se o general António 
de Souza Netto e a 7 de Abril de 1837 occupou-a, sem se 
disparar um tiro. Entregàram-se os 900 homens das forças 
de João Chrysostomo, passando ao poder dos farrapos 15 peças 
de artilheria e mais de 4.000 armas de infanteria. 

De posse de Caçapava, reuni ram-se os chefes republi- 



( I ) Porto Alegrre. 



426 MEMORIAS BRAZILBIRAS 



canos, inclusive Bento Manoel e Fructuoso Rivera, evadido 
de Porto Alegre, e a 14 de Abril nomearam o general António 
Netto commandante em chefe das forças revolucionarias, o 
qual d'alli marcharia á villa de Rio Pardo e, em seguida, 
poria em sitio a capital da provincia. 

Com efíeito, António Netto chegou a Rio Pardo com 
300 homens, ao Triumpho com 400, passou os rios Cahy 
e Gravatahy a 6 de Maio ; no dia 1 1 intimou Porto Alegre 
a render-se e a 13 montou uma bateria em uma collina pró- 
xima á cidade. Por maiores, porém, que fossem os esforços 
empregados em assaltar a capital, não conseguiu seu intento 
o valente commandante farrapo. Foi-lhe impossivel vencer 
a resistência opposta pela guarnição da cidade ( * ). 

Porto Alegre dispunha então de 700 praças de infanteria, 
250 de cavallaria e muitos paizanos armados. Todo o lado 
de terra achava-se entrincheirado e forte de 22 peças de arti- 
Iheria. 

No impedimento de Antero de Britto, governava a pro- 
vincia o vice-presidente Américo Cabral de Mello. 

Em proclamação de 5 de Abril, feita em Pelotas, dizia o 
commandante superior dos guardas nacionaes, coronel João 
da Silva Tavares : 



( I ) Como zombaria ao projecto do general António Netto de tomar a capital 
da provincia, os imperialistas cantavam : 

Senhor Netto, vá-se embora, 
Nilo se metta a capadócio : 
Vá cuidar dos parclhciros, 
Que fará melhor negocio. 



CAPITULO XXXIII 427 

« Bravos defensores da legalidade ! A todos vós é patente 
o facto mais horroroso e só próprio d'esse traidor que pela 
segunda vez é perjuro ao Imperador e ingrato á sua pátria. 

« Sim, o Exmo. Sr. presidente, o brigadeiro Antero José 
Ferreira de Britto, foi traiçoeiramente arrancado do seio dos 
legalistas e entregue aos anarcliistas pelo ex-commandante 
das armas Bento Manoel Ribeiro. 

« Este horroroso attentado, só digno de um monstro com 
figura humana, prova exuberantemente que este pérfido se 
desligou da communhão brazileira. 

«Os bravos defensores da legalidade, Gabriel Gomes, 
Gama Lobo, Bonifácio Calderon e João Chrysostomo mar- 
cham a bater os anarchistas e a resgatar o presidente legal. 

«Não trepideis, pois, na escolha do dever ou da indifíe- 
rença; quem vos fala é vosso patricio e fiel companheiro (*).» 

A 14 do mesmo Abril era Bento Manoel exonerado do 
commando das armas da provincia, por assim o haver reque- 
rido^ dizia o decreto (^). 

Para substituir o presidente e o commandante das armas, 
nomeou o governo o tenente-general Francisco das Chagas 
Santos, que assumiu o exercicio dos dois cargos a 16 de Maio 
de 1837, e logo depois, a 6 de Junho seguinte, era substituido 
pelo cidadão Feliciano Nunes Pires, que nada fez em favor 
de sua terra natal. 



( 1 ) Jornal do Commercio de 21 de Abril de 1837. 
( 2 ) Jornal do Commercio de 2 de Maio de 1837. 



428 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



No governo do general Chagas houve idéa de ser paci- 
ficada a província. O commandante da esquadrilha, João 
Pascoe Greenfell, e coronel Silva Tavares chegaram a enta- 
bolar um armistício com o coronel farrapo Domingos 
Crescendo, que occupava Pelotas. Greenfell incumbiu-se de 
levar a Porto Alegre dois parlamentarios para entender-se 
com António Netto, na capella de Viamão ou Setembrina 
e com o general presidente da provincia, sobre as condições 
em que deveria ser firmada a paz. 

Chagas não concordou com o armistício, e mallogrou-se 
a generosa conciliação. 

A continua mudança de presidentes prejudicava a causa 
legal, pois era considerada pelos farrapos como evidente signal 
de fraqueza. 

Em proclamação datada de 25 de JunhD, o commandante 
republicano António Netto concitava os legaes á paz. 

Assim dizia elle do campo em marcha dos Palmares aos 
habitantes do Curral Alto : 

«Compatriotas ! O orgulhoso grito dos déspotas que então 
vos opprimia, hoje succumbe ante esta pequena cohorte de 
homens livres que vedes acompanhar-me. Elles empunham 
a cortadora espada, não para vos escravizar, mas para vingar 
ultrages que haveis feito; não para seguir o terrível direito de 
conquista; não para exigir tributos do innocente sangue por 
vós e vossos cúmplices derramado, e sim para dar-vos a liber- 
dade, para restituir cidadãos á republica, filhos a uma pátria, 
hontem património do Brazil e hoje nação independente. . . 



CAPITULO XXXIII 429 



«Abjurai o dominio braziliense, dominação injusta e 
oppressora; attentai somente que chegou o praso, a epocha 
feliz que marcada estava pela mão superior para a regenera- 
ção do Rio Grande, e que defendeis hoje aquelle mesmo 
direito que defendeu o Brazil, quando se desligou de Portugal 
ingrato. 

«Amados concidadãos! Extincta a vossa illusão, extincta 
está a guerra em nossa pátria. Abandonai a venda do engano 
e vinde com firmeza a nossos braços. 

«Vossas pessoas, vossas familias e vossas propriedades 
serão religiosamente respeitadas. Uma constituição, que 
jurámos no dia de nossa emancipação, vos afiança o infallivel 
goso de taes direitos ...» 

Na infeliz administração de Feliciano Pires sofíreram os 
legaes completa derrota em combate havido na freguezia do 
Triumpho. Ahi se achava o coronel Gabriel Gomes com uma 
guarnição de 352 praças, quando foi aggredido por forças em 
numero de 700 sob o mando de António Netto. Travou-se 
renhidíssima lucta a 12 de Agosto de 1837. Os imperiaes 
viram-se obrigados a ceder ao numero; tiveram 14 mortos, 
30 prisioneiros e 100 extraviados. Ahi morreu combatendo 
como um heróe o valente chefe Gabriel Gomes Lisboa. 

Emquanto occorriam estes graves acontecimentos no Rio 
Grande do Sul, sofFria o governo do paiz profunda alteração. 
Cançado de arcar contra a perseguição tenaz e violenta que 
lhe moviam adversários politicos, o regente padre Diogo 



430 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



António Feijó entregou o supremo cargo que exercia ao 
ministro do império Pedro de Araújo .Lima (^). 

Deu-se esta mudança a 19 de Setembro de 1837. 

No dia 20, constava do programma governamental estes 
tópicos em relação á guerra do sul : 

<fA ninguém se esconde que debellar e escarmentar a 
rel^ellião é um dever de todos os brasileiros; é o interesse 
vital da verdadeira Uberdade, essencialmente ligado á união 
e integridade do Brazil. O governo não perderá instantes, 
não poupará esforços para restaurar alli o império da lei. » 

Designado interinamente regente do império, Pedro de 
Araújo Lima, reconhecendo que o Rio Grande do Sul neces^ 
sitava de um official experimentado, que por meio de bem 
combinadas operações conseguisse pôr termo á anarcliia, 
nomeou presidente o já conhecido marechal portuguez 
António Klisiario dé Miranda Britto. 

A 3 de Novembro de 1837 tomou elle posse, em Porto 
Alegre, dos cargos de presidente e conímandante em chefe 
do exercito imperial. 

Ouanto ao marechal Antero de Britto, preso por Bento 
Manoel, foi por este conduzido para Alegrete; d*ahi para a 



( I ) S»l>r«* i"sU* facto nolavil na politica brazileira escreveu o conseUieiro 
AiaiíiH' ciii hiia citada obra : 

"AiKin«io poi haver «lado »» poder ao partido adverso, respondia o regente 
d« inin^innaiio . "iMi.inici os ainijços, pi'dind<) lhes Címsellui, e como nâo consul- 
tava hi dtviíi abdicai ])oi(iue isso estava por mim resolvido, mas sim a quem 
drvi.i ( iitii-Kai ii gnvcMio, r Paula Souza dissesse na ultima conferencia que o 
1*1 dl o dl- Araújo podia mi um bom rei constitucional, a elle entreguei a regência.» 



CAPITULO XXXIII 431 



costa do Quarahy, d'onde o fizeram vir a Piratiuy; d'este 
ponto segiiiu para a Setembrina. Chegado ao quartel 
general dos farrapos, foi ajustada troca de prisioneiros: a 
liberdade do marechal, efíectuada -a 9 de Janeiro de 1838, 
importou na liberdade do revolucionário coronel Francisco 
de Paula do Amaral Sarmento Menna, preso dos legaes. 

Passou-se o marechal immediatamente para Porto Alegre ; 
pouco depois, seguia para o Rio de Janeiro. 

E agora de opportunidade relatar o que occorreu aos 
chefes revolucionários, aprisionados por Bento Manoel no 
combate do Fanfa. 

Após alguns dias de prisão a bordo da Presiganga^ 
fundeada defronte de Porto Alegre, foram transferidos para 
a fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, Bento Gonçal- 
ves, Onofre Pires, AfTonso Corte Real, Zambicari, Pedro 
Boticário e outros rio-grandenses. 

Conseguiu Zambicari expor seu estado ao cônsul ou 
ministro italiano, e, por interferência d'esta auctoridade, 
ponde livrar-se da prisão, com a condição imposta de 
abandonar in-continenti o Brazil. Teve deportação para a 
Europa. 

Bento Gonçalves e Pedro Boticário foram nmdados para 
a fortaleza da Lage. 

l^ma noite, proporcionou-se a ambos excellente opportu- 
nidade para fugirem. Achava-se a pequena distancia a embar- 
cação que os deveria receber ; atravessaram estreito corredor 



4$Z MEMORIAS BRAZILEIRAS 



subterrâneo: forçavam uma grade de ferro, quando, após 
enormes difficuldades, reconheceram que só Bento Gonçalves 
ipíAeriã passar por entre o< varões deslocados. Pedro Boticário 
viu com tristeza que era demasiadamente gordo para fugir 
por alli. Conformou-se em 6car. Beuto Gonçalves, porém, 
comprehendendo a grave responsabilidade que sua evasão 
acarretaria ao leal amigo e correligionário, cedeu ao impulso 
de se«i coração generoso. . . e voltarauí ambos para o cárcere. 

Affonsí^ Corte Real e Onofre Pires conseguiram fugir da 
fortaleza de Santa Cruz na noite de lo para ii de Março 
de 1837, e regressar ao Rio Grande do Sul, onde reassumi- 
ram suas posições entre as forças republicanas. 

Cinco mezes depois d*este facto, ordenou o governo que 
fosse mudado Pedro Boticário para uma fortaleza de Pernam- 
buco c transferido Bento Gonçalves para o forte do Mar ou 
fortaleza de S. Marcello, na Bahia. 

O illustre bahiano Francisco Gê Acayaba de Montezuma, 
então ministro da justiça, expediu, em data de 9 de Agosto 
de 1H37, officio reservado ao presidente da provincia da Bahia, 
r^rancisco de Souza Paraíso, recommendando toda vigilância 
para com o chefe revolucionário : 

« I^^go que ahi chegue o brigue de guerra Consiaftça^ 
\. Kxa. expeça as ordens que forem convenientes para que 
o preso Bento Gonçalves da Silva seja recolhido á prisão 
mais scjj^ura, quer civil, quer militar, ficando V. Exa. por 
i-lk- cstrictamente responsável.» 

Julgou o presidente que a prisão mais segura para Bento 



CAPITULO XXXIII 433 



Gonçalves era a fortaleza de S. Marcello e para ahi o çnviou, 
a 26 de Agosto, com muitas recommendações ao comnian-* 
dante. 

A despeito, porém, de todas as cautelas, poude o republi- 
cano rio-grandense entrar em relações com muitos bahianos 
sympathicos á sua causa e especialmente com a maçonaria. 
Em poucos dias concertou-se um plano de evasão, que 
deveria surtir o mais completo resultado. 

Bento Gonçalves conseguiu do commandante permissão 
para tomar banhos de mar, e, ás 10 horas da manhã de 10 
de Setembro de 1837, evadiu-se, nadando valentemente ao 
encontro de uma canoa de 8 remos, que o esperava. 

Conduzido com rapidez á ilha de Itaparica e ahi recebido 
por amigos dedicados, pouco depois passava para a cidade 
do Salvador, onde, após um mez de esconderijo, embarcou 
a 7 de Outubro para o Desterro, capital da província de 
Santa Catharina. Proporcionou-lhe conducção o rio-gran- 
dense, ex-consul de Hamburgo, António Gonçalves Pereira 
Duarte, proprietário do patacho Estrella do Sul. 

De Santa Catharina transportou-se, por terra, ao Rio 
Grande do Sul e foi, entre acclamações de enthusiasmo, 
reassumir o commando em chefe das forças revolucionarias 
e empossar-se do cargo de presidente da republica. 

Ê de conveniência histórica mencionar-se aqui a partici- 
pação official da evasão de Bento Gonçalves, documento 
existente no archivo publico do estado da Bahia : 

«Ulmo. e Exmo. Sr. — Logo que aqui chegou o preso 



434 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Bento Gonçalves da Silva, mandei-o recolher á prisão mais 
segura, qual a Fortaleza do Mar, responsabilizando por elle 
o respectivo commandante, como se vê da copia n. i, e expe- 
dindo a ordem da copia n. 2, para ir um ófficial de patente 
commandar o destacamento estacionado n'aquella Fortaleza, 
além de outras recommendações verbaes, que fiz no dia 
seguinte ao dito commandante da mesma Fortaleza, fazendo- 
Ihe então ver que tinha mandado fundear, na proximidade 
d'ella, a barca de guerra n. i, para lhe prestar qualquer 
auxilio que fosse necessário, pelo que se deveria entender 
com o commandante da dita barca ; e tendo recebido na noite 
do dia 2 d'este mez uma carta anonyma, communicando-me 
que tentava fugir aquelle preso, ordenei n'essa mesma noite 
que mandassem á mencionada Fortaleza os escaleres do 
brigue-barca 2ç de Agosto^ que depois rendeu aquella barca, 
a fim de vedar que se pudesse realizar a denunciada fuga, 
segundo o mostrara as copias ns. 3 e 4; e no dia seguinte, 
mandando chamar o commandante da Fortaleza, lhe fiz ver 
aquella carta, recommendando-lhe toda cautela e vigilância, 
e recordando-lhe a sua responsabilidade e que se prevenisse 
de qualquer illusão que lhe pudesse ser tramada, e porque 
me dissesse o mesmo commandante ter alguma suspeita 
d'um sargento e um soldado, dos que compunham o destaca- 
mento da Fortaleza, immediatamente os mandei substituir 
por outras eguaes praças e continuar em todas as noites as 
rondas já ditas dos escaleres. 

« Km resultado de tantas recommendações minhas, recebi, 



CAPITULO XXXIII 435 



antes de liontem, d^aquelle commandante da Fortaleza, o 
officio de copia n. 5, e quando contava com a boa guarda 
do preso, aconteceu que hontem, pelas dez horas da manhã, 
se evadisse elle pela maneira que se deixa colher das partes 
também juntas por copias ns. 6 e 7, occorreiído a circum- 
stancia mencionada no meu officio de copia n. 8, dirigido ao 
commandante das armas para a prisão e julgamento, tanto 
do commandante da Fortaleza como do do destacamento ( * ). 
« Immediatamente que foi percebido este acontecimento, 
nem eu, nem o intendente da marinha poupámos uma só 
diligencia que pudesse ser empregada, fazendo partir em 
seguimento da canoa que conduziu o preso quantos escaleres 
se puderam expedir do arsenal, bem como de bordo do brigue- 
barca, logo que o respectivo commandante poude perceber 
a referida fuga, e assim também foi expedido um official 
acompanhado da ordem n. 9 e outro da mesma forma acom- 
panhado da de n. 10, e de algumas praças, além da circular 
por copia n. 11, que n'essa occasião dirigi ás auctoridades 
policiaes mais próximas, com especialidade ás do littoral, 
não se tendo até ao presente conseguido a captura do referido 
preso, constando apenas que elle saltara no logar denominado 
Ponta do Manguinho^ onde foi achada a canoa, em que se 
evadira, pela gente de um dos escaleres que a conduziu para 



( I ) SubmeUidos a conselho de guerra, o commandante da fortaleza foi 
privado de qualquer conimando durante dois annos, e o do destacamento con- 
dcmnado a cxpulsAo do serviço do exercito e á pena de lo annos de prisAo. 



436 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



esta cidade, aonde se acha, ficando lá os outros escaleres, 
praças e officiaes, pelos quaes logo que receber as ultimas 
noticias, resultado das diligencias ordenadas, as communi- 
carei a V. Exa., pois que continuo a dar outras providencias. 
— Deus Guarde a V. Exa. — Ulmo. e Exmo. Sr. Francisco 
Gê Acayaba de Montezuma. — Fraticisco de Sousa Paraíso, v» 
Maguado e doente com a extraordinária incúria ou 
connivencia dos commandantes, a cuja guarda fora confiado 
Bento Gonçalves, o honrado e pundonoroso presidente 
bahiano pediu na mesma data demissão de seu cargo, em 
officio dirigido ao ministro do império, Manoel Alves Branco, 
depois visconde de Caravellas : 

«Ulmo. e Exmo. §r. — Tendo-se gravemente deteriorado 
meu estado de saúde, a ponto de ser-me hoje impossivel 
continuar no exercicio em que me acho e que tão pesado se 
tem ultimamente tornado, ao que tudo accresce, além de 
outros, o incomportável desgosto que acabo de experimentar 
com o successo da fuga do preso Bento Gonçalves da Silva, 
de que n^csta data dou conta ao Exmo. Sr. Ministro da 
Justiça, vou por isto pedir a V. Exa. instantemente haja de 
obtcr-me do Regente em Nome do Imperador a minha 
demissão, para que de todo se não arruine a pouca saúde 
que me resta, por cuja Graça serei sempre grato ao mesmo 
Regente e a V. Exa. — Palácio do Governo da Bahia, 11 de 
Setembro de 1837. — Ulmo. e Exmo. Sr. Manoel Alves 
Branco. — Francisco de Souza Paraíso, 

Uma carta firmada pelo próprio Bento (ronçalves e 



CAPITULO XXXIII 437 



publicada na Aurora Fluminense^ n. 12, de 28 de Maio de 
1838, apresenta outros pormenores sobre a audaciosa evasão, 
realizada em pleno dia. 

Diz o importante documento : 

«Bahia, 7 de Outubro de 1837. — Já saberá que no dia 10 
do pp. logrei evadir-nie do Forte do Mar, ás 10 horas da 
manhã, deitando-me a nado, por um descuido que tiveram, e 
ganhando uma canoa de pescadores, na qual fiz levarem-me 
para Itaparica; e, ainda que fui logo perseguido, consegui pôr 
pé em terra n^aiquella ilha, onde, cercado e perseguido por 
muitos dias, nada conseguiram os tyrannes. 

«D^alli passei para esta, e, fazendo espalhar a voz de que 
havia embarcado para o Norte America, em uma corveta de 
guerra que sahiu no dia 19 do pp., Ipgrei fazer o governo 
acreditar e cessaram as perseguições. 

«Hoje, porém, embarco para Buenos Aires em um buque 
extrangeiro (O, e conto ir livre. 

«Os malvados procuraram envenenar-me no forte, e, por 
acaso raro, me livrei, .sendo victimas dois pobres animaes, 
um gato e um cachorro (-). Porém, como livrar-me de outra 



( I ) ICiiib.ircou no p.ilaclu» nacional EstrcUa do Sul, como ficou dilo. 

( 2 ) Uni filho do chefe rcvolucioniirio. Joaquim (^mçalves da Silva, assim 
relata a lenlaliva de envenenamento : 

" Succedeu (lue n'esse dia ( i<» de Setembro ) o commandante da fortaleza 
man<lasse de prese-nte a meu pae um pastelfto, em nome de sua filhinha. .\t» 
almov<» "icu pae quir comer o tal pastelÃo. e, tirando uma talhada, viu que tinha 
jcrande (iuanti<lade de cebola, tempero que desde menino nunca pudíra comer. 
Meu pae deu essa talhada a um cAosinho que quasi sempre, á hora de comida, 



438 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



cilada, sem o meu escravo {^) e servido pelos escravos dos 
tyrannos? Só arrostando a morte, como fiz, e, sem plano 
algum (^), consegui livrar-me.» 



lie lhe apresentava. O cãosinho comeu-a e logo depois entrou em convulsões 
e morreu. Meu pae, vendo tâo .extraordinário facto, escondeu o cáosinho. 

■ Communtcando-lhe o commandante da fortaleza que ia á cidade, meu pae 
disse-lhe haver comido um pedaço do pastelão e que sentia como um fogo nas 
entranhas, pelo que lhe pedia deixa.Hse ordem a seu immediato para permtt- 
tir-lhe o costumado banho. O commandante affirmou que deixaria a ordem e 
que poderia tomar os banhos que quizesse. Por esse modo de exprímir-se, parece 
que o commandante sabia o conteúdo do pasteláo e que os banhos não evitariam 
o seu efFeito. • 

( 1 ) Referencia ao amigo fiel, africano, do Congo, a quem chamavam João 
do Congo ou Cotigninho, inseparável companheiro nos combates e nas prisões 
de Bento Gonçalves. Estiveram juntos na fortaleza da I^agc. 

( 2 ) Para nào comprometter a amigos. Bento Gonçalves allegava nào ter 
seguido plano algum. 

Seu filho Joaquim Gonçalves explica o plano de modo concludente : 
« Depois da sahida do commandante, fundeou perto da fortaleza uma bale- 
eira, a qual, pelos signaes, meu pae conheceu ser a que esperava e por isso foi. 
logo para o banho, acompanhado, como sempre, por um soldado. Costumava 
meu pae nadar em roda da fortaleza, desapparecendo assim da vista do soldado 
e demorando seu regresso, a fim de que, na çccasi&o da fuga, o guarda não 
pudesse desconfiar de seu desapparecimento. 

« Chegando ao logar do banho, despiu-se e disse ao soldado : 
« — Cuide de minha roupa ; no bolso do collete tem uma onça de ouro. » 
•• E com efFeito tinha. Lançou-se n*agua, e, desapparecendo, nadou a toda 
força na direcção da baleeira. Esta veiu logo a seu encontro, e, apenas o recebeu, 
fez-se de vela. Ahi encontrou meu pae nào só a precisa roupa, como ura espelho 
e uma tesoura, com que na viagem cortou a barba que propositalmente deixara 
crescer. 

•lO soldado, vcndo-o embarcar na baleeira, foi dar parte ao 2.° commandante. 
Este quiz falar por meio de uma busina a um brigue de guerra que estava não 
hmge, mas nào poude, porque meu pae, n'esse dia, muito cedo, a tinha que- 
brado, e também tinha molhado as escor\'as de todas as peças de artilheria. Não 
podendo, por meio de tiros, fazer signal algum, o iinniediato içou a bandeira a 
meio pau. Com este signal, do brigue partiu logo um escaler, que pouco se 
demorando junto da fortaleza, regressou para o brigue, d*onde sahiu com um 



CAPITULO XXXIII 439 



Arrebatados de indizível contentamento pelo acto de 
coragem e de admirável denodo praticado por Bento Gon- 
çalves, todos os officiaes inferiores e guardas nacionaes da 
I.** brigada dirigiram-lhe calorosa felicitação: 

« Heróe do continente ! 

«Com que jubilo empunhamos a penna para vos saudar e 
bendizer o momento feliz que nos annuncia vossa chegada! 

« Nós careciamos da eloquência de um Cicero, para traçar- 
vos com expressivas cores o solemne encómio ; porém os bons 
desejos supprirão a escassez das. luzes. 

« Sim, benemérito da pátria ! Imcomparavel foi a dor que 
soff remos com a triste, lúgubre e acerba nova da vossa prisão, 
e mais se renovou o desgosto e a pena, quando cruéis verdugos 
da humanidade decretaram a barbara sentença da vossa 
deportação, carregado de pesados ferros, como o maior 
criminoso. 

«Porém hoje a Providencia Divina satisfez os nossos 
desejos, ouviu nossos votos, e nós vos vemos apparecer alegre 
e triumphador ! 

«Oh! prazer! oh! jubilo! oh! gloria para os amigos da 
pátria ! 

« Cruel remorso do crime fará prestes succumbir essa horda 



oíTicial e escolta em perseguição da baleeira. Esta, navegando á vela e tocada a 
8 remos, chegou a Itaparica muito antes do escaler. Meu pae, desembarcando, 
foi devidamente acoutado, ou melhor recebido em casa de um commandante de 
corpo de guarda nacional. » 

Bento Gonçalves esteve preso no forte de S. Marcello 15 dias apenas. 



440 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



sanguinária e inerme ante vossos fieis amigos, os livres 
republicanos. 

«A vossa obra, primeiro chefe do Estado, os livres a 
depositam em vossas mãos, illesa e sem mancha; premiai a 
virtude, puni o delicto e o crime, e ella será brevemente 
consutnmada. 

«Nas sabias mãos a tendes; aperfeiçoai-a, fazendo justiça. 

«Firmai, em justas leis, que proclamamos simplices e 
apropriadas ás circumstancias presentes, a futura sorte do 
Rio Grande, e immortalizareis vosso nome provendo a nossa 
prosperidade. » 

O heróe revolucionário correspondeu a esta manifestação 
de apreço, proclamando : 

«Beneméritos cidadãos, ofTiciaes inferiores e guardas 
nacionaes da i.® brigada! Bravos sustentáculos da liberdade 
do continente ! 

«Extasiado de prazer, li a honrosa felicitação que me 
dirigistes; jamais riscarei de minha memoria tão distincto . 
obsequio, agradecendo vossas lisonjeiras expressões na mesma 
exarados. 

«Longo tempo cppresso, victima dos verdugos de nossa 
pátria, eu encarava contente minha acerba sorte, a par dos 
triumphos e louros que ornavam vossas frontes. 

«Trabalhei incessantemente por vir secundar vossos 
esforços e felizmente não foram improfícuas minhas diligen- 
cias: eis-me, pois, entre vós! 

«Oh! que prazer desfructo n'este delicioso momento! 



CAPITULO XXXIII 441 

«Si a pátria, si os virtuosos rio-grandenses de mim confiam 
a alta missão de dirigir seus futuros destinos, ouso afiançar- 
vos que me não pouparei a sacrificios para consolidar no 
continente o único systema que lhes garante a paz e verdadeira 
felicidade, firmadas nas solidas bases da justiça e equidade, 
punindo o crime e alentando a virtude, forte égide das 
democracias. 

«Mister é, pois, ora esforçar-vos por exterminar nossos 
inimigos.; para o que, devereis em tudo contar com o vosso 
antigo companheiro. 

«O throno do Brazil se acha por toda parte convulso, e 
prestes se antolha sua queda e nosso triumpho, ficando-nos a 
gloria immortal de haver orientado as demais provincias na 
senda de sua felicidade. 

(í A virtude, constância e união que haveis manifestado, é 
sufficiente garante de nosso prestes triumpho, dç que extasiado 
vos dirijo parabéns. » 

No principio do anuo de 1838 contavam os revolucionários 
cerca de 3.100 homens, assim distribuídos: 1.600 sob o 
commando de Bento Cxonçalves, estacionado na Setembrina 
e occupado em manter o assedio de Porto Alegre; 400, em 
Bagé, com António Netto; 600 em Piratiny, com Domingos 
Crescencio; 500 em movimento por diversos pontos da 
campanha, chefiados por Bento Manoel e David Canabarro. 

Todo o armamento e munições de que necessitavam lhes 
eram fornecidos pelo Estado Oriental. 

As forças imperiaes occupavam Porto Alegre, Rio Grande 



442 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



e S. José do Norte, e, comprehendida a esquadrilha, eram 
calculadas em 6.000 homens. 

Reconhecendo a conveniência de serem os farrapos desa- 
lojados da Setembrina, p marechal Elisiario, a 31 de Janeiro 
de 1838, moveu as forças de que dispunha em Porto Alegre 
e dirigiu-se para aquelle ponto, disposto a dispersar os 
rebeldes, sem derramar sangue em batalha campal. 

Ao perceber este movimento. Bento Gonçalves abandonou 
seu quartel-general e com suas tropas atravessou o Cahy, em 
marcha para a campanha. 

Satisfeito por haver eflectuado a dispersão, o marechal 
dirigiu-se no mez de Março á villa de Rio Pardo, d'onde 
conseguiu desalojar Bento Manoel, no dia 17. 

Não lhe sendo possivel proseguir a excursão militar pela 
campanha, em consequência do mau estado da cavalhada, 
regressou o presidente para a capital, deixando, porém, em 
Rio Pardo, como commandante geral das forças o marechal 
Sebastião Barretto Pereira Pinto; como commandante da 
infanteria o brigadeiro Francisco Xavier da Cunha e como 
commandante da cavallaria o brigadeiro Bonifácio Isás 
Calderon. 

Não conformado com sua expulsão da villa, Bento Manoel 
fez juncção com forças de David Canabarro, João António e 
António Netto, perfazendo um total de 2.500 homens, dos 
quaes 800 de cavallaria: assim robustecido, regressou a Rio 
Pardo e a 30 de Abril travou sanguinolento combate com os 
imperialistas, a quem infligiu completa. derrota. 



CAPITULO XXXIII 443 



Por parfe do governo legal, morreram 2 coronéis, 4 capitães, 
5 alferes e 60 soldados e cahiram prisioneiros 30 officiaes e 
mais de 100 praças. 

Os commandantes lograram escapar, desordenadamente. 

A perda dos revolucionários foi insignificante. 

Bento Gonçalves aproveitou o magnifico eiísejo para 
estimular suas tropas a novos triumphos. A força máscula do 
estylo define bem a rija tempera do bravo revolucionário: 

«O general presidente da republica ao exercito de opera- 
ções em Rio Pardo. 

«Guerreiros e companheiros d^annas! 

«Vossas recentes operações militares cobrem de gloria a 
republica ; acabam de immortalizar-vos. 

(( O dia 30 de Abril levará a memoria de vosso estrondoso 
triumpho á mais remota posteridade ; e a vossa descendência, 
orgulhosa de pertencer-vos, dirá, cheia de ufania, assignalando, 
sobre a carta do novo continente, a famosa posição do Rio 
Pardo: — «Aqui fizeram morder a terra a seus inimigos nossos 
briosos antepassados; aqui deram golpe mortal ao despotismo, 
que pretendia devorar-nos; aqui plantaram os pendões da 
republica sobre montões de cadáveres; aqui, passado o 
conflicto, ainda cobertos de sangue de seus cnieis verdugos, 
alargaram-lhes a mão protectora da clemência e ensinaram 
ao i)erfido feroz aristocrata a não manchar a espada dos 
valentes no sangue de um inimigo desarmado!» 

«Não o duvideis, camaradas: os altos destinos da Repu- 
blica Rio-Grandense serão completos. 



444 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



« Bein depressa purgareis o solo sagrado da pátria da 
presença injuriosa d'esses restos fugitivos que em vão preten- 
dem escapar-vos; bem depressa, forçados em seus últimos 
entrincheiramentos, arrojados para sempre de nossas praias, 
irão levar ao despótico governo, que os envia, a confusão e a 
vergonha de tão assignaladas derrotas e a convicção irresis- 
tivel de vossa sujxírioridade. 

«Defensores da republica, confiai no governo; uni-vos em 
annel firme aos generaes e chefes encarregados de vos guiar; 
repelli para longe a feia intriga, quando intente supplautar- 
vos. Eis o vosso mais temivel inimigo ; só ella poderá trocar 
em funéreo manto e em ferros da escravidão e de opprobrios 
tantos triumphos, tantos louros tão custosamente adquiridos, 
tantos titulos á gloria, á admiração do universo... vossa 
liberdade e independência a preço de tantos sacrifícios 
conquistadas. 

«Republicanos! Mais um esforço ainda ; mais um momento 
de constância, de circumspecção e de prudência: a pátria será 
livre e nossa independência para sempre firmada. 

«Do meu quartel general no Herval, em frente do inimigo, 
aos 6 de Maio de 1838. — Bento (rouçalvcs da Silra, 

A derrota soffrida pelas forças legaes em Rio Pardo 
causou inquietadora impressão ao governo imperial: foram 
immediatamente submettidos a conselho de guerra os 
generaes Sebastião Harretto, Francisco Xavier da Cunha e 
Honifacio Calderon, os quaes, em sua defesa, allegaram a 



CAPITULO XXXIII 445 



superioridade da força inimiga e a surpresa do assalto: o 
conselho julgou-os isentos de responsabilidade. 

A frente de suas tropas victoriosas, Bento Gonçalves 
regressou á villa Setembrina e continuou o sitio de Porto 
Alegre. 

Por esse tempo, mudaram os farrapos a sede da republica, 
de Piratiny para Caçapava, onde se estabeleceu o governo 
sob vice-presidencia. 

As ordens e decretos partiam de Setembrina, residência 
habitual de Bento Gonçalves. 

A 21 de Janeiro de 1839 tentou o marechal António 
Elisiario levantar o assedio em que se via a capital e com 
1.600 homens marchou sobre a villa farrapa: os rebeldes a 
abandonaram, partindo para diversos pontos, a fim de que 
suas forças não fossem inutilmente sacrificadas. 

Em soccorro dos revolucionários veiu de Missões o general 
Bento Manoel, e, a i.° de Fevereiro, tomando posição 
conveniente á margem do rio Cahy, dirigiu certeiros tiros 
contra canhoneiras legaes e um lanchão : matou o comman- 
dante de uma das canhoneiras e o mestre do lanchão e 
apoderou-se das embarcações artilhadas. 

Para obstar os effeitos doesta surpresa. e evitar a tomada 
de Porto Alegre, já cercada por 4.000 homens e ameaçada 
por 7 boccas de fogo, o marechal regressou á capital e 
defendeu-a contra o projectado assalto. 

Levada ao Rio de Janeiro a noticia de mais um desastre, 
acompanhado do boato de que o presidente, \yoT suas sympa- 



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' lí*^('u '|*í< -4 5//fi/ 'U^/ífT^'. N <r^ta.*: c-V.^iim-lancias, pois, 
;-AMlii,ít?. * ;iHmi(;i ;í ' ;il;iiiMt//*>a t- dtsgraçadissíina situação 



CAPITULO XXXIII 447 



em que se acham os bandos rebeldes, indisciplinados, nús, 
discordes e desmoralizados, é- evidente que a duração da 
guerra não pôde ser longa e que a victoria da coilstituição e 
do throno não está distante. » 

Mas o exercito legal não realizou as façanhas imaginadas 
pelo ministro, nem mesmo impediu que os farrapos dessem 
ás suas forças a direcção que entendessem. 

Itnpossibilitados de occupar a villa de S. José do Norte ou 
a cidade do Rio Grande, e tendo necessidade de um porto, por 
onde estabelecessem communicação com o exterior, lançaram 
os revolucionários as vistas sobre a Laguna, porto da provincia 
de Santa Catharina. 

Esta idéa, partida de Bento Manoel, tomou corpo ; uma 
expedição de 150 homens organizou-se na Setembrina sob o 
commando de David Canabarro e marchou para o ponto 
indicado. 

A villa da Laguna era guarnecida por forças legaes 
. dirigidas pelo tenente-coronel Vicente de Paulo de Oliveira 
Villas Boas. Suppoz este official que ia ser atacado por grande 
numero de farrapos e, receoso de completa derrota, achou de 
bom aviso abandonar seu posto e retirar-se para lognr distante 
e abrigado, o Morro dos Cavallos. As forças de seu commando 
sustentaram combate desegual com os revolucionários: tiveram 
15 mortos e 77 prisioneiros, ao passso que os farrapos só 
perderam um homem. 

A Laguna foi tomada a 22 de Julho de 1839, deixando 
como opulento despojo ao general Canabarro 4 escunas de 



jf\rMvni*^ iA.^iz::ja3íiâS: 



J-ttíiJ:i*it ^i^^ ímiilv^ f,.ixirô*j!»v íiuif 'jiiíTí* iuQaõãi)&. João 
X-idvuiv <i* U:n*tKii ^'irrvr.^ * //iiiuiái' Cianârni' dtr Sonxia 

44í/i*-AKUi. ;uH^áyii. iiLíV^.i'x ♦: *rrlrani^»5TOfc. 

O j;;v\*-!uv í*-puv".i'-Sí.tio d*: Saula CaLhamia jirannilgon 
^:!*•^ 4*/*J*-v^i : «-l»'\Kaav {í *Aáixô*: h \':usl da Lagfrma, sei) a 
<U-íi'/ií;i;jui<^áv <!<• ^AÒkA*- Juliana c-^i^iao r^coràh^o do mcz de 
Jullio d<- J^.3V'" ^^^^^^^^-f 'J t6]x- t ptmdáo narioaa] com as 
«•/^♦*5í. \t-íd' , braiJíJii <" amardla e nf/meaudo l>a\Sd Canabarro 
;/<*>i**fiil «*i;j < h<-í^r do <rK.tTdto catharinense- 

<> <vuiniai)do da?^ quatro canhoneiras de guerra foi 
íí/DÍiado ;í<> < <-]<'br<r deniíXTala italiano José Garibaldi, o 
ÍJiujíorlal hcroe a qneni a Itália deve a gloria de sua 
iinifka<;ão ( ' j. 



' I ; Na I^q^uiia eticoulroa-se José Garibaldi cora a formosa jo\*en Anna de 
Ji-^iM Apaixonaram st- um pelo outro. Filha dt um legalista intransigente, Bento 
ilii Silva, que oiliava (iarib.ildi, por ter este o duplo defeito de s^x farrapo e 
í^tiníít,, Annita, para unir-se ao dilecto de seu coração, consentiu em fugir com 



CAPITULO XXXIII 449 



Algumas palavras sobre este valoroso revolucionário. 

Por achar-se envolvido em crime de conspiração, fora 
Garibaldi obrigado a abandonar a pátria e a refugiar-se na 
America. Chegado ao Rio de Janeiro, travou relações com seu 
compatriota Rossetti e por meio d'este ponde falar com 
Zambecari, Onofre e Bento Gonçalves, presos nas fortalezas 
fluminenses. 

Para defender a causa republicana, arvorou-se em corsário, 
e, ao saliir do Rio de Janeiro, aprisionou uma escuna brazi- 
leira; passou-se para ella; deu-lhe o nome de Farroupilha e 
levou-a para Maldonado. Perseguido por navios orientaes, 
conseguiu pôr-se fora do alcance d'elles. 

Pouco depois penetrava no Rio Grande do Sul; ahi, 
munido de carta de corso que lhe dera João Manoel de Lima 
e Silva e com dois lanchões annados em guerra, o Rio Pardo 
e o Republicano^ dava caça a navios mercantes, recolhendo 
provisões para os farrapos. 



elle para bordo da canhoneira Itaparica. Pouco tempo depois uniam-se cm 
matrimonio. Annita foi uma mulher dig^a de Garibaldi. 

Em um combate naval travado em Santa Catharína occorreu um episodio 
que deu á nossa compatriota as proporções de verdadeira heroina. 

Relata-o José Garibaldi em suas Memorias : 

« Eu senti n*esta lucta uma das mais vivas e cruéis commoções de minha vida. 
Como Anniu, sobre a coberta da goleta, animava os homens com o sabre na m&o, 
uni.i bala de artilheria arrastou-a com dois d'ellcs. Eu corri para ella, julgando 
nào encontrar mais do que um cadáver, porém levantou-se san e salva : os dois 
homens tinliam morrido. Pedi-lhe entào que descesse para a segunda coberta. 

« — Sim, respondeu cUa, vou descer para fazer sahir de lá os cobardes que 
estAo escondidos ! 

« Desceu, com eíTeito, e voltou bem depressa, trazendo deante de si dois ou 
três marinheiros, envergonhados de serem menos valentes do que uma mulher. » 
07 TOM. n 



\ 



450 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Com O posto de capitão-tenente, commandante da esqua- 
drilha republicana, Garibaldi fazia centro de suas operações 
á foz do rio Camaquam, tributário da lagoa dos Patos, e 
tinha como quartel um galpão de charqueada da estancia da 
Barra, pertencente a D. Antónia Gonçalves, irmã de Bento 
Gonçalves. 

Ahi, na manhã de 17 de Abril de 1839, viu-se elle inespe- 
radamente atacado por uma força de mais de 100 homens, 
commandada pelo coronel Francisco Pedro de Abreu, conhe- 
cido por Chico Pedro ou vulgarmente Chico -Moringue ('), 
distinguido mais tarde com o titulo de barão de Jaculiy. 

Existiam no galpão somente 11 farrapos, porém foi 
numero sufficiente para resistir á força legal. Depois de algu- 
mas horas de forte tiroteio, Chico Pedro, ferido no peito e em 
uma liião, mandou tocar a retirada, deixando no campo 
6 mortos e levando muitos feridos; tiveram os rebeldes 
6 homens levemente feridos e um morto (^). 

Por occasião da expedição á Laguna, não podendo 
Garibaldi passar seus lanchões pela barra no Rio Grande, 
interceptada pela esquadrilha legal, tomou o alvitre de fazel-os 
transportar por terra, da lagoa dos Patos ao Oceano Atlântico. 



( 1 ) o appellido Moringue provinha de seu pae, Pedro José Gomes de 
Abreu, porque sendo este cidadão possuidor de uma grande cabeça, adornada de 
orelhas muito salientes e assente sobre pescoço íino, parecia trazer sobre os 
hombros um moringue. 

( 2) Officio de José Garibaldi dirigido ao commandante de policia Seraphim 
Ignacio e publicado no n. 68 do Povo de 22 de Maio de 1839. 



CAPITULO XXXIII 451 



Com esse arrojado intento, collocou-os á margem esquerda 
da lagoa ; ahi montou-os cada um em quatro rodas, e puxados 
um a um por 50 juntas de bois, penosamente, atravessando 
extenso areal, conseguiu leval-os ao rio Tramandahy, e, por 
elle descendo, chegou á costa do Atlântico. 

Infelizmente no encapellado mar, a que se afoutou, nau- 
fragou o lanchão Rio Pardo^ entre Torres e o cabo de Santa 
Martha, perdendo-se 16 homens dos 30 de que se compunha 
a tripulação. 

Garibaldi viu-se obrigado a continuar a viagem, a pé, até 
á Laguna. 

Ahi chegado, deu-lhe o general Canabarro o commando 
da esquadrilha, composta das 4 canhoneiras, de que a Itaparica 
era o navio chefe. 

Em ordem do dia de 29 de Julho o presidente da provincia 
de Santa Catharina, João Carlos Pardal, chamou ao serviço 
de guerra todos os guardas nacionaes da capital (Desterro), 
os da reserva e os fimccionarios públicos ; incumbiu o chefe 
de esquadra, Miguel de Souza Mello Alvim, da defesa marí- 
tima, o brigadeiro Francisco de Mello Albuquerque do 
commando geral das forças reunidas na capital e na ilha, e a 
coronel Joaquim de Almeida Coelho do commando de todos 
os cidadãos que não fossem guardas nacionaes do serviço 
activo ('). 

A 18 de Agosto assumiu o marechal Soares de Andréa 



( I ) Correio Official, n. 44, de 22 de Agosto de 1859. 



[^2 MEMORIAS BRAZILfiXRAS 



• )s cargos de presidente da provinda e de comxnaiidaiite das 
armas, e de tal forma soube combinar as forças de terra^ 
i ommandadas ]>elo tenente-coronel José Fernandes dos Santos 
1'ereíra. com as marítimas, sob as ordens do capitão de mar 
c* ^j^ierr?í í^rederior) \fariiitb, que dentro de três mezes conr 
'^eorinn c-xpellir da í^agima <)s invasores. 

Devido n sna rara actividade, a republica de Santa Cathar 
rina leve curta duração: proclamada a Z5 de JnlliD, extm* 
^uiti-se a 15 tJe Novembro de 1H39, dia em que alli chegon 
;i esquadrilha imperial composta de 13 na\'ios cora 300 praças 
de oriiarnição. 600 de abordagem e fortalecida de ^^ peças de 
arti Ibéria. 

Dispunham í>s farrapos de 5 navios, armados em gueana, 
com \6 peças e commandados por José (^iaribaldi. Em tsBna, 
David Canabarro achava-se á frente de 1.200 hamen& 

Pretenderam os farrapos fechar a barra da Laguna, atra?- 
vessando-lhe grossa corrente de ferro; esta idéa, porém, nâo 
teve execução pela impossibilidade de fixar-se uma das estre^ 
midades da corrente no ponto arenoso e movediço, fionteír o 
ao forte. 

5>em esse obstáculo, a flotilha imperial penetrou no porto da 
í/agnna, sustentando vivissimo tiroteio com as 7 peças de 
artilheria f)ostadas no forte e com as descargas partidas da 
iFiargí TU es/|nerda. Encarniçada foi a lucta, resultando para 
'»s le^afs (f desl/arato de íHo homens entre mortos e feridos e 
jffifa (r=i TffMíblicauffS (} de 2^x^>. Dos que commandavam os 
navi'^ rebeldes .só escapou Garibaldi, que, ao abandonar 



CAPITUU) XXXIII 453 



a sua canhoneira Itaparica^ viu sobre a tolda mortos todos 
os seus companheiros de luctas. 

Ao retirar-se, os farrapos incendiaram as canhoneiras 
Itaparica e Libertadora e abandonaram as demais embarca- 
ções, escuna Caçapava^ canhoneiras SanVAnna e Làgunense^ 
palhabote Seival^ 4 sumacas, 7 hiates, 4 escunas, i patacho 
e 3 lanchões ( ' ). 

David Canabarro cedeu ao numero e regressou para o 
Rio Grande do Sul. Em caminho, o coronel Joaquim Teixeira 
com 400 homens encontra, no dia 14 de Dezembro de 1839, 
no passo de Santa Victoria, do rio Pelotas, o brigadeiro legal 
Francisco Xavier da Cunha: travam combate e é morto este 
bravo ofEcial com 30 de seus commandados. 

Experimentaram os legaes o revez de perderem um 
oflScial valente como era o brigadeiro Xavier da Cunha; 
também, mezes antes, os farrapos sentiram a falta de um 
velho camarada, um brigadeiro de comprovada bravura: 
Bento Manoel Ribeiro, que, a 18 de Julho, desertara, por 
segunda vez, das fileiras republicanas, despeitado por haver 
sido nomeado tenente-coronel commandante do 2.° batalhão 
de caçadores Francisco José da Rocha, a quem elle havia 
asperamente reprehendido. 

Xavier da Cunha era eliminado das fileiras legaes pela 



( I ) Relação das embarcaçães apresadas, publicada pelo capitão de mar e 
^erra, chefe de divisão, Frederico Mariath, no Correio Oj^cíal n. 141 de 17 de 
Dezembro de 1839. 



454 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

morte, a que o conduzira o sagrado amor da pátria; Bento 
Manoel abandonava o ideal republicano, porque, acima dos 
principios, coUocava sempre o seu amor próprio, o seu detes- 
tável egoismo. 

Confrontando o procedimento dos dois vultos, diremos 
que a morte é mil vezes preferível á absoluta ausência de 
dignidade. 

Quando regressou para a Itália, Garibaldi, como recor- 
dação da guerra civil rio-grandense, seihpre usou camisa 
vermelha e poncho, á moda dos lanceiros farroupilhas, e, no 
final de sua brilhante carreira militar, pediu que o sepultas- 
sem com essas vestes históricas. 

Envolvido em guerras européas de mais vulto, nunca 
esqueceu a terra em que fez as suas primeiras armas em 
favor da liberdade e onde a sua bravura encontrou exemplos 
a seguir. 

Como saudosa homenagem aos chefes farrapos, seus 
companheiros de luctas, o immortal heroe italiano escreveu a 
Domingos José de Almeida uma honrosa carta: 

«Modena, lo de Setembro de 1859. ^^^^ prezado amigo 
Almeida. — Quando penso no Rio Grande, n^essa bella e cara 
provincia ; quando penso no acolhimento com que fui rece- 
bido no grémio de suas familias, onde fui considerado filho ; 
quando me lembro de minhas primeiras campanhas entre 
vossos valorosos concidadãos e os sublimes exemplos de amor 
pátrio e abnegação que d^elles recebi, fico verdadeiramente 



CAPiTuix) xxxin 455 



commovido ! E esse passado de mmha vida se imprime em 
minha memoria como alguma cousa de sobrenatural, de 
magico, de verdadeiramente romântico. 

«Vi corpos de tropas mais numerosos, batalhas mais 
disputadas; mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais 
valentes, nem cavalleiros mais brilhantes que os da bella 
cavallaria rio-grandense, em cujas filas comecei a desprezar o 
perigo e a combater dignamente pela causa sagrada das 
nações. 

«Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os 
feitos assombrosos que vi realizar por essa viril e destemida 
gente, que sustentou por mais de 9 annos, contra um pode- 
roso império, a mais encarniçada e gloriosa lucta! 

«Náo tenho escripto semelhantes prodígios por falta de 
habilitações; porém a meus companheiros de armas, por 
mais de uma vez, tenho rememorado tanta bravura nos com- 
bates, quanta generosidade na victoria, tanta hospitalidade 
quanto afago aos extrangeiros, e a emoção que minha alma 
ainda joven (*) sentia na presença e na majestade de vossas 
florestas, da formosura de vossas campinas, dos \âris e cava- 
lheirescos exercícios de vossa juventude corajosa; e, repas- 
sando pela memoria as vicissitudes de minha vida entre vós, 
em 6 annos de activissima guerra e da pratica constante de 
acções magnânimas, como em delírio brado: « — Onde estarão 
agora esses bellícosos filhos do Continente, tão mejestosa- 



( • ) Km 1837 contava Garibaldi y> annos. 



45^ MÊMOkiAS BRA^itElkAS 



mente terríveis nos combates? Onde Bento Gonçalves, Netto, 
Canabarro, Teixeira e tantos valorosos que não lembro? 

«Oh! quantas vezes tenho desejado, n'estes campos 
italianos, um só esquadrão de vossos centauros avezados a 
carregar uma massa de infanteria com o mesmo desembaraço 
como si fosse uma ponta de gado? 

«Que o Rio Grande atteste com uma modesta lapida o 
sitio em que descançam seus ossos. E que vossas bellissimas 
patrícias cubram de flores esses sanctuarios de vossas glorias, 
é o que ardentemente desejo. 

«Eu muito me lembro, meu digno e caro amigo, da 
bondade generosa com que fui honrado por vós, no tempo em 
que tão dignamente occupastes uma das pastas do ministério 
da republica, e tenho verdadeira saudade como gratidão dos 
benefícios recebidos de vós e de vossos companheiros e conci- 
dadãos na minha estada no Rio Grande. Por mim abraçai a 
todos esses amigos e mandai em toda a occasião ao vosso 
verdadeiro amigo— yi75^ Garibaldi. 

No anno de 1838 conseguiram os farrapos algumas 
victorias parciaes sobre os legalistas: a 30 de Julho o coronel 
Francisco Pedro de Abreu era batido por forças do repu- 
blicano Amaral Ferrador; a 25 de Agosto o farrapo Agos- 
tinho de Mello punha em debandada outro grupo legalista, 
nas immediações do Ijuhy-Grande; a 30 de Agosto, Francisco 
Pedro soffreu derrota infligida pelo tenente-coronel Raphael 
Fortunato de Abreu, perto de Camaquam, e em Setembro 
seguinte, novo desastre occasiouado por Amaral Ferrador; 



CAí>iYui.o xkxiil 457 



em Cima da Serra, o farrapo Aranha alcançou victoria sobre 
as forças legaes de Jucá Grande e de João Lourenço e Oli- 
veira. 

As victorias dos farrapos eram festejadas por meio de 
cantos que vibravam a fibra patriótica. A vastidão do pampa 
incutia-lhes no largo peito o fervoroso sentimento da liberdade. 

Com que- prazer enthusiastico não entoavam o Hymno 
Nacional Republicano ('), cuja lettra dizia: 

CANTO 

Como a aurora, precursora 
Do pharol da Divindade, 
Foi o vinte de Setembro 
Precursor da Liberdade ! 

CÔRO 

Mostremos valor, constância, 
N*esta Ímpia e injusta guerra; 
Sirvam as nossas façanhas 
De modelo a toda a terra ! 

CAIÍTO 

Entre nós reviva Athenas 
Para assombro dos tyrannos ; 
Sejamos Gregos na gloria 
E na virtude Romanos ! 

CÔRO 

Mostremos valor, constância, etc. 



( I ) Musica do compositor bahiano Joaquim José de Mendanha e lettra do 
poeta Francisco Pinto da Fontoura ( Chiquinho da Vovó ). 

M TOM. u 



458 MEMORIAS B&AZILKI&AS 



CANTO 

Mas nâo basta p*ra ser iivre 
Ser forte, aguerrido e bravo; 
Povo que nâo tem virtude. 
Acaba por ser escravo ! 

CORO 

Mostremos valor, constância, etc. 

Outra canção patriótica, o Hymno Rio-Pardense ('), 
lembra va-lhes as victoríosas datas de 20 de Setembro de 1835 
e de 30 de Abril de 1838. 

CANTO 

No horísonte rio-grandense 
Se divisa a Divindade, 
Extasiada, em prazer. 
Dando viva á Liberdade ! 

CORO 

Da gostosa Liberdade 
Brilha entre nós o clarão ; 
Da constância e da coragem 
Eis ahi o galardão. 

CANTO 

Avante, 6 povo brioso ! 
Nunca mais retrogradar, 
Porque atraz fica o abysmo 
Que ameaça nos tragar ! 

CORO 

Da gostosa Liberdade, etc. 



( I ) I^ttra do capitão Seraphim Joaquim de Alencastro. 



CAPITULO XXXIII 459 



CANTO 

Salve, 6 vinte de Setembro, 
Dia grato e soberano 
Aos livres cont^nentistas, 
Ao povo republicano ! 

CORO 

Da gostosa Liberdade, etc. 

CANTO 

Salve, ó dia venturoso. 
Risonho trinta de Abril, 
Que aos corações patriotas 
Encheste de gostos mil ! 

CORO 

Da gostosa Liberdade, etc. 

O grande triumpho obtido iio Seival, a lo de Setembro 
de 1836, era egiialmente cantado em suas festas cívicas: 

Parabéns, Continentinos ! 
Eis o dia soberano 
Era que no Seival soou 
O grito republicano ! 

No angulo do Continente 
O pavilhão tricolor 
Se divisa sustentado 
Por liberdade e valor ! ( » ) 



( I } Esta quadra via-se lambem impressa em grandes e finos lenços de seda, 
usados pelos farrapos e especialmente por suas mulheres e filhas, que os traziam 
atados ao pescoço. 

Esses lenços eram fabricados e impressos na França : apresentavam as armas 
da republica, bem como as datas de combates memoráveis. 

SAo hoje conservados pelos rio-grandenses como relíquias preciosas. 



454 MEMORIAS BRAZII^EIRAS 

morte, a que o conduzira o sagrado amor da pátria; Bento 
Manoel abandonava o ideal republicano, porque, acima dos 
principios, coUocava sempre o seu amor próprio, o seu detes- 
tável egoísmo. 

Confrontando o procedimento dos dois vultos, diremos 
que a morte é mil wtzes preferível á absoluta ausência de 
dignidade. 

Quando regressou para a Itália, Garibaldi, como recor- 
dação da guerra civil rio-grandense, seihpre usou camisa 
vermelha e poncho, á moda dos lanceiros farroupillias, e, no 
final de sua brilhante carreira militar, pediu que o sepultas- 
sem com essas vestes históricas. 

Envolvido em guerras européas de mais vulto, nunca 
esqueceu a terra em que fez as suas primeiras armas em 
favor da liberdade e onde a sua bravura encontrou exemplos 
a seguir. 

Como saudosa homenagem aos chefes farrapos, seus 
companheiros de luctas, o immortal heroe italiano escreveu a 
Domingos José de Almeida uma honrosa carta: 

ffModena, lo de Setembro de 1859. Meu prezado amigo 
Almeida. — Quando penso no Rio Grande, n^essa bella e cara 
provincia ; quando penso no acolhimento com que fui rece- 
bido no grémio de suas familias, onde fui considerado filho ; 
quando me lembro de minhas primeiras campanhas entre 
vossos valorosos concidadãos e os sublimes exemplos de amor 
pátrio e abnegação que d^elles recebi, fico verdadeiramente 



CAPiTuiX) XXXIII 455 



cominovido ! E esse passado de iiimha vida se imprime em 
minha memoria como alguma cousa de sobrenatural, de 
magico, de verdadeiramente romântico. 

«rVi corpos de tropas mais numerosos, batalhas mais 
disputadas; mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais 
valentes, nem cavalleiros mais brilhantes que os da bella 
cavallaria rio-grandense, em cujas filas comecei a desprezar o 
perigo e a combater dignamente pela causa sagrada das 
nações. 

«Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os 
feitos assombrosos que vi realizar por essa viril e destemida 
gente, que sustentou por mais de 9 annos, contra um pode- 
roso império, a mais encarniçada e gloriosa lucta! 

«Não tenho escripto semelhantes prodigios por falta de 
habilitações; porém a meus companheiros de armas, por 
'mais de uma vez, tenho rememorado tanta bravura nos com- 
bates, quanta generosidade na victoria, tanta hospitalidade 
quanto afago aos extrangeiros, e a emoção que minha alma 
ainda joven (*) sentia na presença e na majestade de vossas 
florestas, da formosura de vossas campinas, dos viris e cava- 
lheirescos exercícios de vossa juventude corajosa; e, repas- 
sando pela memoria as vicissitudes de minha vida entre vós, 
em 6 annos de activissima guerra e da pratica constante de 
acções magnânimas, como em delírio brado: « — Onde estarão 
agora esses bellicosos filhos do Continente, tão mejestosa- 



( • ) Em 1837 contava Garibaldi 30 annos. 



45^ MÉMOkiAS BRA2SítElkAS 



mente terríveis nos combates? Onde Bento Gonçalves, Netto, 
Canabarro, Teixeira e tantos valorosos que não lembro? 

«Oh! quantas vezes tenho desejado, n^estes campos 
italianos, um só esquadrão de vossos centauros avezados a 
carregar uma massa de infanteria com o mesmo desembaraço 
como si fosse uma ponta de gado? 

«Que o Rio Grande atteste com uma modesta lapida o 
sitio em que descançam seus ossos. E que vossas bellissimas 
patricias cubram de flores esses sanctuarios de vossas glorias, 
é o que ardentemente desejo. 

«Eu muito me lembro, meu digno e caro amigo, da 
bondade generosa com que fui honrado por vós, no tempo em 
que tão dignamente occupastes uma das pastas do ministério 
da republica, e tenho verdadeira saudade como gratidão dos 
benefícios recebidos de vós e de vossos companheiros e conci- 
dadãos na minha estada no Rio Grande. Por mim abraçai a 
todos esses amigos e mandai em toda a occasião ao vosso 
verdadeiro amigo -^/osé Garibaldi. 

No anno de 1838 conseguiram os farrapos algumas 
victorias parciaes sobre os legalistas: a 30 de Julho o coronel 
Francisco Pedro de Abreu era batido por forças do repu- 
blicano Amaral Ferrador; a 25 de Agosto o farrapo Agos- 
tinho de Mello punha em debandada outro grupo legalista, 
nas immediações do Ijuhy-Grande; a 30 de Agosto, Francisco 
Pedro soffreu derrota infligida pelo tenente-coronel Raphael 
Fortunato de Abreu, perto de Camaquam, e em Setembro 
seguinte, novo desastre occasionado por Amaral Ferrador; 



CAHYuLO xkxiil 457 

em Cima da Serra, o farrapo Aranha alcançou victoria sobre 
as forças legaes de Jucá Grande e de João Lourenço e Oli- 
veira. 

As victorias dos farrapos eram festejadas por meio de 
cantos que vibravam a fibra patriótica, A vastidão do pampa 
incutia-Uies no largo peito o fervoroso sentimento da liberdade. 

Com que. prazer enthusiastico não entoavam o Hymno 
Nacional Republicano ('), cuja lettra dizia: 

CANTO 

Como a aurora, precursora 
Do pharol da Divindade. 
Foi o vinte de Setembro 
Precursor da Liberdade ! 

CÔRO 

Mostremos valor, constância, 
N^esta Ímpia e injusta guerra; 
Sirvam as nossas façanhas 
De modelo a toda a terra ! 

CANTÒ 

Entre nós reviva Athenas 
Para assombro dos tyrannos ; 
Sejamos Gregos na gloria 
E na virtude Romanos ! 

CÔRO 

Mostremos valor, constância, etc. 



( I ) Musica do compositor bahiano Joaquim José de Mendanha e lettra do 
poeta Francisco Pinto da Fontoura ( Chiquinho da Vovô ). 



458 MEMORIAS BRÂZILEIRAS 



CANTO 

Mas não basta p*ra ser livre 
Ser forte, aguerrido e bravo ; 
Povo que não tem virtude, 
Acaba por ser escravo ! 

CORO 

Mostremos valor, constância, etc. 

Outra canção patriótica, o Hymno Rio-Pardense ('), 
lembra va-lhes as victoriosas datas de 20 de Setembro de 1835 
e de 30 de Abril de 1838. 

CANTO 

No horisonte rio-grandense 
Se divisa a Divindade, 
Extasiada, em prazer. 
Dando viva á I^iberdade ! 

CORO 

Da gostosa I^iberdade 
Brilha entre nós o clarão ; 
Da constância e da coragem 
Eis ahi o galardão. 

CANTO 

Avante, 6 povo brioso ! 
Nunca mais retrogradar, 
Porque atraz fica o abysmo 
Que ameaça nos tragar ! 

CORO 

Da gostosa I^iberdade, etc. 



( I ) I^ettra do capitão Seraphim Joaquim de Alencastro. 



CAPITULO XXXIII 459 



CANTO 

Salve, 6 vinte de Setembro, 
Dia grato e soberano 
Aos livres continentistas, 
Ao povo republicano ! 

CORO 

Da gostosa Liberdade, etc. 

CANTO 

Salve, 6 dia venturoso. 
Risonho trinta de Abril, 
Que aos corações patriotas 
Encheste de gostos mil ! 

CORO 

Da gostosa Liberdade, etc. 

O grande triumpho obtido no Seival, a lo de Setembro 
de 1836, era egualmente cantado em suas festas cívicas: 

Parabéns, Continentinos ! 
Eis o dia soberano 
Em que no Seival soou 
O grito republicano ! 

No angulo do Continente 
O pavilhão tricolor 
Se divisa sustentado 
Por liberdade e valor ! ( » ) 



( I ) Esta quadra via-se também impressa cm gfrandes e finos lenços de seda, 
usados pelos farrapos c especialmente por suas mulheres e filhas, que os traziam 
atados ao pescoço. 

Esses lenços eram fabricados c impressos na França : apresentavam as armas 
da republica, bem como as datas de combates memoráveis. 

SAo hoje conservados pelos rio-grandenses como reliquias preciosas. 



4ÓO MEMORIAS BkAZILEUtAâ 



Doloroso desastre para os esforçados revolucionários foi a 
morte do valente João Manoel de Lima e Silva, uma das 
dedicações mais fortes e mais apaixonadas pela grande causa. 

Proclamada a republica e elevado João Manoel ao posto 
de general, deixou este revolucionário a xâlla de Piratiny e 
partiu para a campanha, no intento de continuar as operações 
militares; tendo-se-lhe, porém, aggravado o ferimento rece- 
bido no rosto, viu-se obrigado a ir a Montevideo restabelecer-se. 

Mas não permaneceu inactivo no Estado Oriental. Com 
a sancção tacita do presidente Oribe, fez acquisição de arma- 
mento e reunia soldados, tanto brazileiros como orientaes, 
para de novo entrar em lucta, quando sua volta foi apressada 
pelo recebimento de oflicios do ministro Domingos José de 
Almeida, participando-lhe a defecção de Bento Manoel para 
a causa revolucionaria e a tomada de Caçapava. Immediata- 
mente regressou o general ao Rio Grande e apresentou-se ao 
governo republicano a 20 de Maio de 1837. 

Combinados novos planos de ataque, partiu para Alegrete 
e d'ahi para Missões, d'onde conseguiu desalojar o coronel 
legal Manoel dos Santos Loureiro, conhecido por Manduca 
Loureiro. 

Foi, porém, preso na povoação de S. Luiz, na manhã de 
18 de Agosto, quando sahia de uma casa em que se festejara 
com baile um baptizado. D^elle apoderou-se uma partida de 
Loureiro, commandada pelo indio Roque Faustino. 

 tarde, a partida passou o Piratiny, affluente do Uruguay, 
e, na distancia de dez quadras. Roque ordenou o assassinato 



CAPITULO XXXIli 461 



do heróico chefe revolucionário. Amarrado sobre o cavallo, 
viu-se o general cobardemente varado por lanças, e, como 
protestasse contra a vileza da acção, o indio descarregou-lhe 
na nuca o tiro de misericórdia. 

Doeste modo morreu, ás mãos de obscuros e miseráveis 
assassinos, o valente guerrilheiro que tão importante papel 
representara na revolução rio-grandense. 

Pertencente a uma illustre familia de marechaes, João 
Manoel abandonara as altas posições que a legalidade lhe 
poderia proporcionar e em plena força da edade, aos 32 annos, 
succumbiu, martyrizado ante as aras da republica — o seu 
constante ideal ( * ). 

Grande e profunda foi a consternação causada entre os 
farrapos pela noticia do bárbaro attentado. Recolhido piedo- 



( I ) Jofto Manoel de Lima e Silva nasceu no Rio de Janeiro no anno de 1805. 
Era filho do marechal de campo José Joaquim de Lima e Silva, natural de Lagos, 
no Algarve, e fidalgo portuguez, chegado ao Brazil em 1784. 

Eram seus irmãos : 

O marechal de campo Francisco de Lima e Silva, um dos regentes do impé- 
rio no período de 1831 a 1855, agraciado com o titulo de barão da Barra Grande, 
distincção que não acceitou. Este marechal foi pae do duque de Caxias. 

O marechal de campo Manoel da Fonseca Lima e Silva, barão de Suruhy, 
ministro da guerra em 1835, .sob a regência do padre Diogo Feijó. 

O marechal José Joaquim de Lima e Silva, visconde de Magé : commandou 
exercito libertador da Bahia, em substituição do general Pedro Labatut. 

K o marechal Luiz Manoel de Lima e Silva. 

João Manoel era casado com D. Mana José Corte Real, irmã do revolucio- 
nário AflFonso José de Almeida Corte Real. Teve dois filhos : Francisco e João 
Manoel. O primeiro morreu na guerra do Paraguay, na batalha de Avahy, cortado 
a golpes de espada, como um verdadeiro heróe. O segundo falleceu no Rio de 
Janeiro, em 1899, no posto de general. 



462 MEMORIAS BRÂZILEIRÂS 



sãmente o cadáver, prestaram-lhe a ultima homenagem, 
dando-lhe sepultura no cemitério de S. Borja, a 19 de 
Setembro. 

Pouco tempo depois, conseguiram aprisionar o capitão 
Roque, e o encontraram ainda revestido da roupa do general, 
inclusive o poncho, e a ostentar no cavallo os arreios de prata 
pertencentes ao assassinado. 

Prevendo a morte, pediu o indio que lhe poupassem a 
vida, porque, garantia, havia de ser tão bom farrapo, quanto 
fora bom legalista. 

Alheia, porém, a seus rogos, a força revolucionaria só 
pensou em vingar a memoria de João Manoel, e immediata- 
mente fuzilou a quem havia dado ao heroe tão cruciante 
morte. 

Dois annos depois, o governo republicano, para honrar a 
memoria do bravo companheiro de luctas," incumbiu o coronel 
José Ribeiro de Almeida de ir buscar os ossos do general. 
A exhumação verificou-se a 17 de Junho de 1839. Um esqua- 
drão de cavallaria acompanhou os preciosos despojos em seu 
transporte de S. Borja a Caçapava, capital da republica. 

A identidade do cadáver foi reconhecida por uma com- 
missão composta do cirurgião-mór do exercito José Carlos 
Pinto, António José Caetano da Silva e Finnino Maria 
Martins. 

Com apparato celebraram-se-lhe as exéquias na egreja 
matriz da villa a 17 de Outubro. A uma que lhe continha 
os restos foi collocada em grande catafalco, rodeado de 30 



CAPITULO XXXIII 463 



creanças, representando as parochias do Estado, e de 5 virgens 
de vestes brancas e faixas negras a tiracollo, symbolizando 
virtudes christãs. 

Officiou o vigário da Cachoeira, o mais antigo parqcho 
rio-grandense, padre Xavier dos Santos. 

Após a cerimotiia religiosa, foi a uma conduzida ao cemi- 
tério, entre alas de soldados e seguida de enorme acompa- 
nhamento. Antes de ser encerrada no mausoléo que o governo 
mandara erigir, o tenente-coronel Firmino Maria Martins 
apresentou ao ministro da fazenda Domingos José de Almeida 
uma salva com uma coroa de louros. Este cidadão entregou 
a. coroa á joven que alli representava a Republica do Rio 
Grande e disse-lhe : 

— Em nome da nação rio-grandense, coroai as preciosas 
reliquias de um dos seus mais caros cidadãos. 

A tocante solemnidade encerrou-se com uma salva de 
artilheria e uma descarga de fuzilaria — ultimas expressões de 
alto apreço que o Rio Grande soube prestar á memoria do 
valoroso e jamais olvidado fluminense. 



CAPITULO XXXIV 



Presidente Saturnino Oliveira. Marechal Manoel Jorge ' 
Rodrigues. Marechal Soares de Andréa. 
General Pedrc» Labatut. Dr. Francisco Alvares Machado. 

General João Paulo. Conde de Rio Pardo. 
Barão de Caxias. A Constituição Rio Gr andense — 1840-1842. 



AMPACiENTAVA-SE O governo imperial com o prolonga- 
mento da guerra no Rio Grande do Sul, e, attribuindo-o a 
imperícia ou impopularidade do marechal António Elisiario, 
resolveu substituir este oflicial por um cidadão civil : nomeou 
para o cargo de presidente o dr. Saturnino de Souza Oliveira, 
irmão do ministro de extrangeiros, Aureliano de Souza e 
Oliveira Coutinho, mais tarde visconde de Sepetiba, e para 
commandante em chefe do exercito o marechal Manoel Jorge 
Rodrigues, posteriormente barão de Taquary. 

Estes funccionarios assumiram o exercicio de seus cargos 
a 24 de Julho de 1839. 

Não possuiam, em relação aos rebeldes, a mesma harmo- 
nia de vistas, e do desencontro de opiniões resultou incerteza 
em seus planos ç morosidade no movimento das tropas. 

ÔP TOV. »i 



466 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



SÓ em Março de 1840 expediu o presidente ordem para 
que as forças legaes — parte das quaes tinha ido á Laguna 
bater os revolucionários — transpuzessem o S. Gonçalo e 
fossem readquirir Caçapava. 

Doeste feito foi incumbido o general Bonifácio Isás Cal- 
deron, que conseguiu realizar o plano, desalojando d^aquella 
cidade os farrapos, os quaes se transferiram para Alegrete. 

A força que penetrou em Caçapava a 22 de Março e era 
commandada pelo coronel Manduca Loureiro, inutilizou ahi 
objectos que ainda pudessem aproveitar aos contrários e 
seguiu com o general Calderon em direcção ao Jacuhy e 
Cahy, a juntar-se ao marechal Manoel Jorge. 

Tendo ficado desguarnecida a cidade de Caçapava, para 
ella regressaram os republicanos. 

Consideradas diminutas as forças legaes existentes na 
provincia, deliberou o governo que o general Soares de 
Andréa, então em Santa Catharína, fosse ao Rio Grande com 
uma divisão auxiliadora ; impossibilitada a marcha por terra 
pela interposição dos farrapos, detenninou-se a expedição de 
dois batalhões por mar. Logo que doestes factos teve sciencia, 
Bento Gonçalves apressou-se a ir ao encontro do marechal 
Manoel Jorge: abandonou Setembrina e no dia 3 de Maio, 
á margem esquerda do rio Taquary, empenhou fortíssimo 
combate com as forças imperiaes. 

Foi o marechal auxiliado pela esquadrilha de Greenfell ; 
entretanto, não lhe coube a victoria: teve 53 mortos, 125 feri- 



CAPITULO XXXIV 467 



dos e 4 prisioneiros, ao passo que os rebeldes contaram 
35 mortos, 114 feridos e 8 prisioneiros. 

Empenharam-se na lucta 4.626 soldados imperialistas e 
cerca de 6.000 farrapos. 

O combate de Taquary foi um dos maiores que se trava- 
ram durante a guerra do sul. Não se podendo enterrar os 
cadáveres, em vista da má condição do terreno (paludoso), 
foram amontoados e queimados. 

Após a tremenda refrega, seguiu o marechal com a infan- 
teria e artilheria para Santo Amaro, á margem esquerda do 
Jacuhy, tendo deixado parte da cavallaria a fazer frente ás 
forças de Domingos Crescencio, collocado em Monte Alegre, 
no Cahy, marchando a outra parte, sob o mando de Manduca 
Loureiro, para Missões. 

Bento Gonçalves regressou com sua gente para a Setem- 
brina, a manter o sitio em que se achava Porto Alegre. 

Em caminho de S. Gabriel, no passo do Salso, encon- 
trou-se o coronel Loureiro com o. republicano Fileno dos 
Santos, a quem deu combate e o matou bem como a três 
soldados: proseguiu a marcha e a 12 de Junho de 1840 
penetrou em S. Gabriel. 

No mesmo mez de Junho, o general Netto, abandonando 
Setembrina, seguiu com uma força para a ponta da Itapuam. 
D^alii passou-se da margem esquerda para a direita do Gua- 
hyba, no logar denominado Barba Negra. 

Tendo noticia d'este movimento, o coronel Chico Pedro 



468 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



foi esperal-o no município de S. João Baptista de Camaquain, 
e no arroio Velhaco dispersou aquella força. Netto viu-se 
obrigado a retrogradar, atravessando a nado, em seu cavallo, 
o arroio Araçá, e deveu a vida á ligeireza com que poude 
livrar-se dos legalistas. 

No dia 17 de Junho, alguns de sua gente — coronel Affonso 
José de Almeida Corte Real, capitão Jeronymo Meyrelles, 
Francisco de Oliveira Figueiredo {Chtquinho da Boa Vista) 
e poucos soldados — sob a inclemência de uma chuva tempes- 
tuosa, de inverno, foram abrigar-se na Estancia de Santa 
Barbara^ pertencente ao farrapo Marcos Alves Pereira Sal- 
gado, ponto em que Netto iria com elles encontrar-se. 

No dia seguinte, ás 7 horas da manhã, approximou-se da 
casa uma força de 7 homens, que Marcos .\lves suppoz serem 
amigos. 

Ao avistal-os. Corte Real tomou-os pelo piquete do gene- 
ral Netto, apezar de os não distinguir bem, pois traziam 
lenços atados ao queixo e chapéos desabados. 

Desconfiado, Marcos Alves recolheu-se á casa, no que foi 
imitado por seus hospedes. Ao passar a porta, Corte Real 
recebeu, de flanco, um tiro que lhe atravessou os pulmões 
e o fez cahir morto. 

Era chefe doesta partida o sargento João Patrício de 
Azambuja, auctor da morte do bravo revolucionário (^). 



( I ) Testemunhou este facto o cidadão João Baptista Pereira Salgado, filho 
de Marcos Alves Pereira Salgado í Annuario do Estado do Rio Gratide do Sul 
para o anno de looi, pags. 209 a 211 ). João Patricip de Azambuja n&o nc^u s^ 



CAPITULO XXXIV 469 



. Penetraram os legalistas na casa e aprisionaram somente 
a Francisco Figueiredo: os outros, inclusive Marcos Alves, 
esconderam-se no sótão e debaixo do assoalho. Figueiredo 
tinha-se occultado de modo original: pediu que sobre elle se 
extendesse um colchão e uma senhora ahi se deitasse ; denun- 
ciou-o, porém, a demasiada gordura e foi immediatamente 
descoberto. 

Quando a partida incorporou-se a Chico Pedro, no passo 
de Sant' A nna, este chefe perguntou: 

— Então, que é dos homens? 

Responderam-lhe : 

— Escaparam-se. Affonso Corte Real morreu. 

O chefe, que só tinha dado ordem para prendel-o, indagou 
zangado : 

— Mataram? 

João Patrício de Azambuja explicou : 

— Sim, porque resistiu. 

Assim morreu o bravo Corte Real, um dos mais bellos e 
mais famosos guerrilheiros rio-grandenses. 

Como o seu cunhado e amigo general João Manoel, não 
lhe coube o glorioso prazer de cahir no meio do inílammado 
e formidando estrépito de uma batalha, luctando e comba-^ 
tendo como um heróe. 

Succumbiu em pleno vigor da vida, aos 30 annos de edade. 



auctoría da morte de Corte Real ; mas declarou ter praticado o crime em sua le^- 
tima defesa {Almanak Litterario e Estatístico do Rio Grande do Sul ixara 1902, 

pagfs. 87a9o). 



470 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Foi sepultado no cemitério das Dores de Camaquain (')• 

Sentiam os farrapos necessidade de apoderar-se a todo 
custo da villa de S. José do Norte — o que lhes facilitaria 
communicação com o interior da provincia. 

Para este ponto marchou um batalhão de 1.200 praças, 
sob o commando do próprio Bento Gonçalves, tendo como 
auxiliares José Garibaldi, Domingos Crescencio e Joaquim 
Teixeira Nunes. Em uma noite de temporal, de 15 para 16 de 
Julho de 1840, encobertos os assaltantes pelos cômoros de areia 
que cercavam a villa, approximaram-se d'ella, a uma hora da 
madrugada, e, sem serem presentidos, lograram escalar as 
trincheiras e invadir a praça. 

Durante 9 horas travou-se renhido combate, sendo 
commandados os legaes. pelo coronel de legião António 
Soares de Paiva, cuja força guarnecia a villa. 

Apezar da tempestade, poude vir algum soccorro da visi- 
nha cidade do Rio Grande, para auxiliar a expulsão dos 
rebeldes, a qual se effectuou com grande sacrifício de parte 
á parte. 

Entre os legaes, distinguiu-se por sua bravura o official 
Francisco Luiz da Gama Rosa, que ânuos depois se reformou 
no posto de capitão de mar e guerra. 



( I ) Segfundo apontamentos que temos á vista, AfTonso Corte Real era um 
bonito homem, dotado de educação finíssima. Trajava sempre com elegância. 
Os arreios de seu cavaUo eram adornados a prata e a ouro. Fazia o encanto de 
uma reunião por seu humor sempre alegre e pelas prendas de habilissimo toca- 
dor de viola e cantor. 



CAPITUI.O XXXIV 47^ 



Coinpunha-se a força imperial de 599 praças, que puderam 
repellir o dobro dos assaltantes. 

Tiveram os farrapos 181 mortos, 150 feridos e 18 prisio- 
neiros e os legaes 72 mortos, 87 feridos e 84 prisioneiros: por 
estes algarismos avalia-se quanto foi porfiada a lucta. 

Vendo frustrado seu plano, voltou Bento Gonçalves para 
a Setembrina a continuar o assedio da capital. 

Chegou ao conhecimento do governo imperial o lamen- 
tável desaccordo entre o presidente, dr. Saturnino Oliveira, 
e o marechal Manoel Jorge, e, para obviar attritos entre 
auctoridades, resolveu, ainda uma vez, investir os dois cargos 
em um militar de provada competência. 

Para tão árdua missão foi nomeado o marechal Francisco 
José de Souza Soares de Andréa, portuguez, notável pelos 
relevantes serviços prestados á pátria adoptiva, especialmente 
no Pará — onde conseguiu jugular a revolta de Vinagre e de 
Argelim e pacificar a provincia no anno de 1837 — e na 
Laguna, por elle restaurada recentemente. 

Andréa assumiu o exercicio de presidente e de comman- 
dante em chefe do exercito a 27 de Julho de 1840. 
Militar enérgico, altivo, disciplinador, prompto em suas 
deliberações, de original franqueza em seus despachos (*), 



( I ) Como curiosidades históricas, apresentamos alguns despachos do maré • 
chal Andréa em requerimentos : 

— Não tem logar a dispensa do supplicante emquanto tiver braços para pegar 
em uma arma. 

— Pôde receber o requerimento e náo lhe prometto coisa nenhuma. 

— Desde que o suppl. deu baixa, não me importo com a sua vida. 



473 MEMORIAS BRÂZILEIRAS 



dispunha de todos os predicados para realizar a almejada 
pacificação. 

Quatro dias antes de sua posse, rompia no Rio de Janeiro 
um movimento parlamentar contra o governo do regente 
Pedro de Araújo Lima, marquez de Olinda; a opposição, sem 
esperar que D. Pedro II completasse i8 annos (a 2 de De- 
zembro de 1843), considerou-o maior a 23 de Julho de 1840, 
quando o príncipe contava, apenas, pouco mais de quatorze 
e meio annos de edade. 

Inaugurava-se no paiz uma nova situação politica; subia 



— É muita coisa para as necessidades de uma familia. 

— Indeferido, e si o suppl. tomar a mudar o nome, terá o castigo que merece. 
— Pague-se ao suppl. somente o soldo simples e fardamento do tempo que 

requer, não tendo logar outra gratificação, pois que não está em serviço da nação; 
e quanto ás etapes, tendo o suppl. já vivido todo esse temi>o, não precisa tomar 
a comer o tempo passado. 

— Indeferido. Tão bons ares tem Porto Alegre como o Rio Grande. 

—A licença que o suppl. agora precisava era a de ir para a cadeia, pela 
esperteza, ainda que muito visível, de augmentar a quantidade de sal. 

— Indeferido, e trate o suppl. de restituir a seus donos as terras que lhe não 
pertencem. 

— Pessoa tão habil, como se diz o suppl., não precisa mendigar emprego: 
descance, que quem o precisar, lá o ha de ir procurar. Nas obras publicas não 6 
preciso. 

—Tendo fallecido, ha mais de seis annos, não podia ter feito o presente 
requerimento. 

— O suppl. não foi attendido pelas más informações que tive, e não tenho 
obrigação de lhe dizer de quem. 

— Indeferido. O suppl. tem de pagar os impostos estabelecidos por lei; 
quando não, será obrigado a fazel-o por meio da força. 

— Si os supplicantes (colonos do Campo Bom) depositam confiança na pes- 
soa pretendida, não a deposita esta presidência, e indeferirá quantos requeri- 
mentos queiram fazer n'este sentido. Supponham que é fallecida e procurem 
outra. 



CAPITULO XXXIV 473 



ao poder o partido liberal. O ministério da Maioridade ou 
Gabinete de 24 de Julho de 1840^ compunha-se das maiores 
influencias parlamentares: António Carlos Ribeiro de An- 
drada Machado e Silva, ministro do império ; Martim Fran- 
cisco Ribeiro de Andrada, ministro da fazenda; António 
Paulino Limpo de Abreu, ministro da justiça; Aureliano de 
Souza e Oliveira Coutinho, ministro de extrangeiros; António 
Francisco de Paula de Hollanda Cavalcanti de Albuquerque, 
ministro da marinha, e Francisco de Paula Cavalcanti de 
Albuquerque, ministro da guerra. 

Tendo sido nomeado pelo partido conservador e achando- 
se em face de novo governo, que de certo adoptaria novo 
programma em todos os ramos administrativos, o marechal 
Andréa comprehendeu que a sua ingerência nos graves 
negócios do Rio Grande seria de pouco tempo: quiz, portanto, 
aproveital-o, conseguindo, por meio suasório, a pacificação da 
provincia. N'este nobilitante empenho, entabolou correspon- 
dência com o presidente republicano Bento Gonçalves da 
Silva. Muitas cartas foram trocadas no mez de Agosto, sem 
que a§ pretendidas negociações chegassem a accordo conve- 
niente para ambas as partes. 

O chefe revolucionário exigia, como primeira condição 
de paz, o reconhecimento da republica rio-grandense — idéa 
inacceitavel pelo governo imperial, pois que importava em 
desmembramento do território. 

Vendo o governo que o general Andréa nenhum resul- 
tado colhia em seu projecto pacificador, por ser portuguez e 

CO TOM. U 



474 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

pertencer ao partido retrógrado, resolveu mandar um emissá- 
rio, negociador da paz: commetteu a tarefa ao deputado 
paulista e medico, dr. Francisco Alvares Machado, que 
iniciou seus trabalhos na campanha, acceitando affectuosos 
jantares de seus contrários. Prestou-se este facto a motejos, e 
o espirito gaúcho ridicularizou o meio conciliador, dizendo 
que o doutor pretendia pacificar a provincia por meio de mar- 
melada. 

O procedimento do governo em nomear commissario 
especial para tratar da paz, foi classificado de indecente pelo 
general Andréa, que desde logo se considerou destituído de 
seus cargos. 

Com effeito, pouco depois, era nomeado commandante 
das armas o general João Paulo dos Santos Barretto, que 
levou a nomeação de Alvares Machado para presidente. 

Estes funccionarios tomaram posse em Porto Alegre a 30 
de Novembro de 1840. 

Desejoso de obter o êxito que Andréa não havia conse- 
guido. Alvares Machado, em correspondência official com 
Bento Gonçalves, offereceu-lhe amnistia plena, para que fosse 
negociada a pacificação. O republicano, em carta de 7 de 
Dezembro, fez ao presidente as seguintes propostas : 

I.* Que fossem pagas pelo governo imperial as dividas 
contrahidas pela republica ; 

2." Que se considerassem livres todos os escravos que 
haviam sido alistados como soldados republicanos ; 

3.* Que os officiaes revolucionários fossem garantidos em 



CAPITULO XXXIV 475 



seus postos, quando aproveitados em serviço da guarda 
nacional. 

Para melhor firmar o tratado, Bento Gonçalves solicitou 
uma conferencia com o presidente, porém Alvares Machado 
negou-a por saber que na campanha António Netto tentava 
alliciar á causa dos farrapos o legalista, coronel João da 
Silva Tavares. Também fora convidado em Missões o 
coronel Manduca Loureiro, por meio de um plenipotenciário, 
Agostinho de Mello, para adherir á revolução, sob promessa 
de lhe ser concedido o posto de general, com o commando 
da fronteira, e de se lhe indemnizar os prejuizos causados 
pela guerra. 

A recusa da conferencia importou em suspensão da 
amnistia e consequente continuação da lucta. 

Por esse tempo, dispunha o governo imperial de 9.201 
soldados, assim distribuidos: 

Em Porto Alegre i-i47 

Na cidade do Rio Grande 408 

Na villa de S. José do Norte 331 

EmTaquar>^ 3.155 

Em Pelotas 571 

Na Cachoeira 579 

Em S. Borja 1.198 

Em Rio Pardo 212 

Em Cima da Serra . 600 

Divisão de Labatut em Cima da Serra .... i.ooo 

9.201 



476 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



 Trente das i.ooo praças que trouxera de S. Paulo, força 
deuomiuada Divisão Paulistana^ o general Pedro Labatut, 
obedecendo á estratégia combinada entre o general João Paulo 
e o presidente Alvares Machado, coUocotl-se em Cima da 
Serra, no intento de sitiar e bater os farrapos estacionados em 
Setembrina. 

Vendo os revolucionários que os imperiaes recebiam 
contingentes não só pela barra do Rio Grande como pela 
fronteira de S. Catharina e S. Paulo e receando apertado cerco, 
pois seus contrários achavam-se de posse da cidade do Rio 
Grande, de S. José do Norte, da lagoa dos Patos, dos rios 
Guahyba e Jaculiy e da villa de Rio Pardo, guarnecida pelo 
general João Paulo e do Taquary defendido pelo brigadeiro 
Felippe Nery, resolveram abandonar, de vez, o quartel gene- 
ral de suas forças e desafogar-se pela campanha. 

Ficava Porto Alegre, afinal, desopprimido do assedio em 
que se vira durante três annos. 

De Setembrina sahiu David Canabarro levando cerca de 
1.800 homens, sob o commando dos sub-chefes Domingos 
Crescencio de Carvalho, Joaquim Pedro Soares e Ismael 
Soares da Silva. Fez-se esta arriscada sortida em principio de 
Novembro de 1840. Tinha por fim dar combate a Labatut e 
abrir caminho, par^ o, interior da província. 

Emquanto. Canabarro, vencendo quasi insuperáveis difi- 
culdades provenientes da aspereza das serras e da força das 
correntes d'agua que teve de atravessar, executava a retirada. 
Bento Gonçalves, apparentando tranquillidade, ficava em 



CAPITULO XXXIV 477 

Setembrina com 500 homens, a fim de que aquella marcha 
proseguisse isenta de perseguições. 

A 8 de Dezembro, partia também de Setembrina o chefe 
republicano e a 27 do mesmo mez reunia-se na Vaccaria a 
Canabarro, sem que a juncçáo fosse, como se esperava, obstada 
pelos imperialistas. 

Entretanto, havia o general Labatut recebido um reforço 
de 1.600 soldados, elevando assim a sua força a 2.600 praças; 
receoso, porém, de offerecer combate aos farrapos, cujo numero 
se exaggerava, dirigiu-se ao Passo Fundo, d'onde seguiu para 
a Cruz Alta em busca de cavalhada, que não poude obter. 
Da Cruz Alta desceu a Rio Pardo, deixando em caminho as 
suas tropas, e d'ahi partiu para Porto Alegre, onde chegou a 
6 de Janeiro de 1841, alquebrado de forças e doente. 

Em vista de sua falta de plano, evitando encontro com 
os farrapos, incorreu em censura o general Labatut : submet- 
tido a conselho de guerra, foi julgado isento de responsabili- 
dade por ter provado não dispor de bons cavallos. 

Livre de estorvos. Bento Gonçalves atravessou o Passo 
Fundo com a sua gente e internou-se na campanha, em Janeiro 
de 1841. 

Quando se effectuavam estes movimentos, sofíriam os 
legaes derrotas em dois combates. Em S. Philippe, a 16 de 
Novembro de 1840, o farrapo João António destroçou forças 
do coronel Jeronymo Jacintho; e na estancia de S. José, em 
MÍSSÕ33, a 21 de Dízembro seguinte, o revolucionário Jacin- 
tho Guedes desbaratou o tenente-coronel José Loureiro, a 



478 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



quem depois aprisionou, a 17 de Janeiro, nas margens do 
Ibicuhy, com mais de 100 combatentes. 

Transposta a linha de Passo Fundo, Bento Gonçalves 
seguiu para S. Gabriel e ahi, a 14 de Março de 1841, reassu- 
miu a presidência da republica, a qual até então era exercida 
pelo vice-presidente José Marianno de Mattos — desde 23 
de Novembro de 1839, data em que Bento Gonçalves se invés, 
tira do commando geral das forças revolucionarias. 

Quando soube que os rebeldes se achavam na campanha, 
o general João Paulo reuniu forças em Rio Pardo, 5.200 
homens, e no dia i.° de Março de 1841 seguiu no encalço 
d'elles, persuadido de que os anniquilaria por um brilhante 
feito d'armas. No rincão da Formiga fez juncção com 1.200 
praças que do Rio Grande vieram commandadas por Silva 
Tavares. Suppoz poder empenhar grande batalha cam- 
pal, cuja sorte com certeza ser-lhe-ia favorável. Os farrapos 
não lhe satisfizeram o desejo e o deixaram cançar-se inutil- 
mente. Sem lhe ser possivel alcançar o inimigo, o general 
acampou com cerca de 7.000 homens ás margens do arroio 
S. Vicente. N'esse ponto, em Agosto do mesmo anuo, entre- 
gou o commando do exercito ao general António Corrêa 
Seara, por ordem do conde do Rio Pardo, que em 17 de 
Abril havia assumido em Porto Alegre o cargo de comman- 
dante em chefe das forças iniperiaes. 

O general João Paulo, como vimos, não teve ensejo de 
travar combate algum e só praticou o feito notável de atra- 



CAPITULO XXXI V 479 



vessar a campanha, domínio dos. farrapos, sem que estes se 
animassem a impedir-llie a marcha. 

A alteração havida no governo da provincia originou-se 
na mudança do pessoal do ministério, que a 23 de Março, 
por causa da guerra, se recompoz dos seguintes politicos : 
Cândido José de Araújo Vianna (mafquez de Sapucahy), 
ministro do império; Paulino José Soares de Souza (visconde 
do Uruguay), ministro da justiça; Francisco Villela Barbosa 
(marquez de Paranaguá), ministro da marinha ; José Clemente 
Pereira, ministro da guerra ; Miguel Calmou du Pin e Almeida 
(marquez de Abrantes), ministro da fazenda, e Aureliano de 
Souza e Oliveira Coutinho, mantido na pasta de extrangeiros. 
Prevalecera a idéa de Aureliano de Souza: de ser substituído 
o general João Paulo. 

Empossado do cargo, a 17 de Abril de 1841, o conde do 
Rio Pardo só em Agosto recebeu de seu antecessor o exercito ; 
não partiu, porém, para a campanha a envolver-se em com- 
bates: permaneceu em Porto Alegre e d'ahi requisitou do 
governo central 12.000 soldados, para de todo anniquilar ^ 
revolução. 

No mesmo dia 1 7 de Abril assumiu a presidência da pro- 
vincia o dr. Saturnino de Souza Oliveira, nomeado pelo 
ministério anterior, e já conhecido por haver exercido em 
1839 egual funcção. 

No mez de Novembro seguinte deram-se encontros favo- 
ráveis á legalidade: o coronel Chico Pedro derrotou a guar- 
nição de S. Gabriel, fazendo 23 prisioneiros e apprehendendo 



4^) MEMORIAS BRAZILEIRAS 



4^^) cavallos; c João Propício Menna Barretto a 25, no Rincão 
Itonito, nas costas do Pequir>', bateu forças farrapas, matando 
1 20 homens e tomando 800 cavallos. 

Determinou o conde do Rio Pardo que o coronel Chico 
Pedro fosse a Píratiny combater António Netto que se achava 
nas immcdiações de Piratiny. No desempenho da incumbência, 
partiu de Porto Alej^re o valente legalista, com 560 homens, 
cm 2 vaiK)res e 4 hiates; dirigiu-se ao passo do Beca, no rio 
S. (fonçalo, próximo A Kstancia do Pavão; d'este ponto, seguiu 
para a cajHílla de Cangussú, onde acampava Bento Gonçalves 
com 300 soldados. Chico Pedro, por meio de emboscadas, em 
que era habilissimo, conseguiu destroçar o chefe revolucio- 
nário, matando-lhe 36 companheiros de annas, fazeudo-lhe 20 
prisioneiros, tomando-lhe 200 cavallos e toda a bagagem. 
I)eu-se este facto a 20 de Janeiro de 1841. 

Km Março, ainda outra victoria contaram as forças legaes. 
Sabendo Procopio Gomes de Mello que o farrapo Domingos 
de Oliveira {QtuTo-Quh-o) procedia cm Pelotas á cobrança 
de impostos e fazia alli reuniões politicas, dirigi u-se do Rio 
(irande áquclla cidade, e, conseguindo surprehender o revo- 
lucionário, matou-o, bem como a vários companheiros. 

listes continuos desastres obrigaram os farrapos a reunir 
mais fortes elementos de resistência e a adoptar alvitres que 
a situação iusjMrava. Mudou-se a sede da republica para 
Caçapava, como melhor ponto estratégico, central, onde 
jx^diam com vantagem desenvolver -se; correu uma subscri- 
j'H;ão entre os possuidores de escravos, no sentido de cedel-os 



CAPITULO "XXXIV 48 1 



ao serviço revolucionário, sob clausula de futura indemniza- 
ção, e, obrigado pelas circumstancias^ Bento Gonçalves 
entabolou accordo com Fructuoso Rivera, presidente da 
Republica Oriental de Uruguay, com o fim de se auxiliarem 
mutuamente. 

Entre ambos pactuaram-se convenções, uma a 5 de Julho 
e a outra a 28 de Dezembro de 1841. Pela ultima, concor- 
daram em que Bento Gonçalves, para auxiliar o partido 
riverista^ cederia 500 infantes e 200 cavalleiros a Rivera, e 
este, em troca, entregaria áquelle 2.000 cavallos, obrigando-se 
a não permittir que o Estado Oriental fizesse remessa de 
cavalhadas para o exercito imperial. 

Logo que foi fornecido aos farrapos o elemento de guerra 
convencionado, o governo brazileiro reclamou ao oriental 
contra a protecção dada aos revolucionários — facto que foi 
contestado por Fructuoso Rivera e por Bento Gonçalves, 
allegando ambos que a cavalhada havia sido violentamente 
arrebatada. 

Abusando d'este convénio, Rivera lançou uma finta vexa- 
tória sobre os estancieiros brazileiros domiciliados no Estado 
Oriental, seiido a contribuição extorquida pelo terror, sob 
ameaças, como succedeu ao tenente-coronel Annibal Antunes 
Maciel, que se viu forçado a pagar a somnia de 3.000 pesos 
exigida por uma quadrilha de orientaes armados. Em vista 
doestas depredações, muitos fazendeiros foram obrigados a 
refugiar-se no Rio Grande do Sul, a fim de acautelarem 
dinheiro, gado e escravos. Interpellado officialmente sobre 



4Sa MEMORIAS BRAZILEI&AS 



semelhantes expoliações, Rivera allegoa serem escoltas de 
argentinos os qne de assalto atacavam as estancias brazileiras. 

Secretamente recebiam os farrapos do governo de Mon- 
tevideo não só petrechos bellicos, mas Êizendas, necessárias 
ao fardamento e ao abrigo das forças republicanas. 

Suppunha o conde do Rio Pardo qne, collocando o exercito 
em excellentes posições estratégicas e determinando operações 
parciaes por meio de colnmnas volantes, conseguiria a 
conchisão da guerra: frustraram-se, porém, todos os seus 
planos, elaborados em Porto Alegre, d'onde jamais quiz sahir 
para expôr-se aos azares da campanha. 

 vista de tanta inacção e de tantos projectos sem resul- 
tado pratico, resolveu o governo dispensar da commissâo o 
conde do Rio Pardo e o fez interinamente substituir pelo 
1>rigadeiro José Maria da Silva Bittencourt, que tomou posse 
do cargo a 26 de Junho. 

Cumprindo instnicções officiaes, Silva Bittencourt seguiu 
logo, em Julho, para a campanha, a fim de dirigir em pessoa 
todo o movimento bellico: passou pela \*illa de Rio Pardo e 
em Agosto achou-se em Vaccacahy, onde estacionara o 
exercito. 

Apenas havia effectuado a mudança de acampamento 
para as margens do arroio do Sol, quando teve noticia de 
que outro general fora nomeado pelo governo para presidente 
e commandante em chefe do 'exercito: esse era o barão de 
Caxias, que, havia pouco, pacificara as duas provincias de 
S. Paulo e Minas, rebelladas contra a reforma decretada pela 



CAPITULO XXXIV 483 



lei de 3 de Dezembro de 1841 e considerada attentatoria aos 
direitos dos cidadãos brazileiros. 

O general Luiz Alves de Litna e Silva, barão de Caxias, 
tomou posse do governo e do comraando militar, na cidade 
de Porto Alegre, a 9 de Novembro de 1842. 

No dia da posse, fez publicar esta proclamação: 

« Rio Grandenses ! Sua Magestade o Imperador, con- 
iiando-me a presidência e commando em chefe do bravo 
exercito brazileiro, recommendou-me que restabelecesse a 
paz n'esta parte do Império, como a restabeleci no Maranhão, 
S. Paulo e em Minas. A Divina Providencia, que de mim tem 
feito um instrumento de paz para a terra em que nasci, fará 
com que eu possa satisfazer aos ardentes desejos do magnâ- 
nimo monarcha e do Brazil todo. Rio Grandenses! Segui-me, 
ajudai-me, e a paz coroará os nossos esforços ! » 

A 4 de Agosto de i842, na cidade de Alegrete, então 
capital da republica, o presidente Bento Gonçalves da Silva 
e o ministro da justiça e interinamente do interior, José 
Pedroso de Albuquerque, publicaram decreto mandando 
proceder ás eleições dos deputados á assembléa constituinte. 

Foram eleitos 54 representantes, sendo 36 deputados e 18 
supplentes. Aqui mencionamos os nomes e números de votos : 

1. Vigário apostólico Francisco das Chagas Mar- 
tins d' Ávila e Souza 3-^25 

2. Tenente- coronel Manoel Lucas de Oliveira . 2.987 

3. Tenente-coronel Serafim Joaquim de Alen- 

castro 2.892 



484 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



4. Coronel Silvano José Monteiro de Araújo e 

Paula ■ . 2.890 

5. Dr. Francisco de Sá Britto 2.874 

6. Serafim dos Anjos França, advogado .... 2.823 

7. Padre Hildebrando de Freitas Pedroso . . . 2.753 

8. Coronel José Marianno de Mattos, ministro da 
marinha 2.694 

9. Severiano António da Silveira, fazendeiro . . 2.643 

10. Luiz José Ribeiro Barretto, secretario do 
cidadão general em chefe 2.627 

11. Capitão José Gomes de Vasconcellos Jardim, 
ex-presidente interino da republica, fazendeiro. 2.534 

12. José Pedroso de Albuquerque, ministro da * 
justiça 2.522 

13. Padre João de Santa Barbara 2.481 

14. Major António Vicente da Fontoura, ministro 

da fazenda 2.474 

15. Dr. António José Martins Coelho 2.435 

16. General João António da Silveira 2.068 

17. José Pinheiro de Ulhôa Cintra, ministro ple- 
nipotenciário 1.964 

18. General Bento Gonçalves da Silva, presidente 
interino da republica ^-897 

19. Domingos José de Almeida, ministro do inte- 
rior, proprietário 1.842 

20. Tenente-coronel Sebastião Xavier do Amaral 
Sarmento Menna ^'^37 



CAPITULO XXXIV 485 

21. Ignacio José de Oliveira Guimarães, fazendeiro 1.812 

22. Cirurgião José Carlos Pinto . . . ..... '^•yTi 

23. Coronel Oliverio José Ortiz 1-765 

24. Joaquim dos Santos Prado Lima, negociante. i-747 

25. Manoel Martins da Silveira Lemos, inspector 

do thesouro , ... 1.626 

26. Coronel Onofre Pires da Silveira Canto . . . 1.607 

27. Major Ismael Soares da Silva 1451 

28. Major José Maria Pereira de Campos .... 1.442 

29. Capitão Fidelis Nepomuceno Prates, fazen- 
deiro ^-íT^ 

30. General António de Souza Netto 1-253 

3i. Padre Francisco Leite Ribeiro . ...... 1.221 

32. Luiz Ignacio Jacques, negociante 1.2 11 

7^2^. Vicente Lucas de Oliveira, fazendeiro . . . 1.185 

34. Coronel Joaquim Pedro Soares . ; 1.116 

35. Francisco Modesto Franco, negociante ... 1.106 

36. Tenente-coronel José Alves de Moraes . . . 1.072 
Supplentes, os immediatos em votos : 

1. Bento Xavier de Andrade 1.06 1 

2. Major Luiz José da Fontoura Palmeiro . • . . 1.038 

3. Primeiro-tenente Joaquim Gonçalves da Silva 1.030 

4. Francisco Ferreira Jardim Brazão, negociante 996 

5. Dr. António Vicente de Siqueira Pereira 

Leitão 986 

6. Manoel (ionçalves Rodrigues Jardim, fazen- 
deiro 977 



486 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



7. Major Bernardo Pires 955 

8. António Manoel Corrêa da Camará .... 946 

9. Manoel José Pereira da Silva, fazendeiro . . 924 

10. Tenente-coroneljoaquimjosé Ferreira Villaça 871 

11. General David Martins Canabarro 855 

12. Tristão de Araújo Nóbrega, fazendeiro . • . 839 

13. Tenente-coronel Felisberto Machado de Car- 
valho Ouriques 815 

14. António Paulo da Fontoura, proprietário . . 787 

15. José Ferreira Gomes Roque, negociante . . . 780 

16. Coronel António Manoel do Amaral Sar- 
mento Menna 637 

17. Marcos Alves Pereira Salgado, fazendeiro . . 612 

18. Capitão António Leite de Oliveira .... 584 
Este resultado do pleito eleitoral foi publicado no numero 

4 do Americano (^ ), de 5 de Outubro de 1842. 

A Assembléa Geral Constituinte effectuou a sua primeira 



(1)0 Americano, periódico official, politico e lilterario, publicava-se no 
Alegrete, na Typogtaphia Republicana Rio Grandense. Lia-se no cabeçalho: 
«• Este períodico é de propriedade nacional. Publica-sc quartas e sabbados de 
cada semana. Recebcm-se assignaturas na typographia. Preço — 4 patacões por 
semestre, pagos adiantados. Folha avulsa 8o réis. «> 

Trazia por epigraphe esta quadra : 

Pela Pátria viver, morrer por ella ; 
Guerra fazer ao despotismo insano ; 
A virtude seguir, calcar o vicio : 
Jiis o dever de lim livre Americano. 



CAPITULO XXXIV 487 



sessão preparatória a 29 de Novembro de 1842, sob a presi- 
dência do padre Francisco das Chagaâ Martins d' Ávila e 
Souza, servindo de secretários o coronel Silvano Monteiro e 
o dr. Francisco de Sá Britto. 

A sessão de installação realizou-se a i.° de Dezembro, 
pronunciando o presidente Bento Gonçalves a seguinte 
Fala: 

«Srs. Representantes da Nação Rio Grandense! Depois 
da heróica revolução que operamos contra os oppressores de 
nossa pátria; depois de uma lucta obstinada que por espaço 
de 7 ânuos absorveu nossos cuidados, chegou finalmente a 
epocha em que, sem grande risco, se verifica vossa reunião 
exigida altamente pelo voto publico. 

«Meu coração palpita de prazer, vendo hoje assentados, 
n'este venerando recinto, os representantes do povo, em 
quem estão fundadas as mais bellas esperanças de nosso paiz. 

«Eu me congratulo comvosco por tão plausivel successo. 

«Por decreto de 10 de Fevereiro de 1840 convoquei uma 
Assembléa Constituinte e Legislativa do Estado; mas acon- 
tecimentos imprevistos, originados pela guerra cm que esta- 
mos empenhados, cuja historia não vos é extranha, privaram 
que se fizesse a ultima apuração dos votos. 

«Um manifesto fiz publicar em 29 de Agosto de 1838, 
expondo amplamente os motivos de nossa resistência ao 
governo de Sua Magestade o Imperador do Brazil, motivos 
imperiosos que nos obrigam a separar da Familia Brazileira. 

('Si me não é dado annunciar-vos o solemne reconheci- 



488 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

mento de nossa independência politica, góso ao menos a satis- 
facçáo de poder afiançar-vos que não só as Republicas visinhas, 
como grande parte dos brazileiros, sympathizam com a nossa 
causa. 

« Mui doloroso me é o ter de manifestar-vos que o Governo 
Imperial, surdo á voz da humanidade, e com escandaloso 
desprezo dos mais sãos princípios da sciencia do Direito, 
nutre ainda a pertinaz intenção de reduzir-nos pela força; 
porém, meu profundo pezar se diminue com a grata recorda- 
ção de que a tyrannia aciutosa, exercida por elle nas provín- 
cias, tem despertado o innato brio dos brazileiros que já 
fizeram retumbar o grito da resistência em algims pontos do 
Império. E assim que seu poder se debilita e se approxima o 
dia em que, banida a realeza da Terra de Santa Cruz, nos 
havemos de unir por estreitos laços federaes á magnânima 
Nação Brazileira, a cujo grémio nos chama a natureza e 
nossos mais caros interesses ( ^ ). 

«Todavia, o que nos deve inspirar mais confiança, o que 
nos deve convencer de que alfim triumpharão nossos princi- 
pios políticos, é o valor, é a constância de nossos compa- 
triotas, é a firme resolução em que se acham de sustentar, a 
todo custo, a independência do paiz. 

«Debaixo de tão lisonjeiros auspícios começam os vossos 



( I ) Rcalizou-sc a prophecia (k* Bento Gonçalves a 15 de Novtrmbro 
de i8S<). 



CAPITULO XXXIV 489 



trabalhos e cessa desde já o poder discricionário de que fui 
investido pelas actas de miuha nomeação, cumprindo, pois, 
as condições com que fui eleito, eu o deponho nas vossas 
mãos. 

«A primeira necessidade do Estado é uma Constituição 
politica baseada sobre os principios proclamados no memorá- 
vel dia 6 de Novembro de 1836. A estabilidade da politica 
interior está ligada com esse grande acto que ha de neces- 
sariamente augmentar nossa força moral. 

«Bem penetrados da importância de vossa missão e das 
circumstancias excepcionaes em que nos achamos, a vós 
cimipre decretar os meios, recursos e elementos, com que deve 
contar o governo, para o bom desempenho de suas funcções. 

«Si julgardes conveniente legislar sobre outros objectos, 
lembrai-vos de que a moral publica, a segurança individual e 
de propriedade, exigem promptas reformas nas leis que pro- 
visoriamente adoptámos, pouco adequadas ás nossas actuaes 
circumstancias. 

«Srs. Representantes da Nação Rio Grandense! A felici- 
dade e a sorte da Republica estão hoje em vossas mãos. 
A prudência, a sabedoria e a moderação. com que vos condu- 
zirdes, durante vossa missão, acreditará sem duvida a nobre 
confiança que têem em vós depositado nossos concidadãos. 

cc Pelos differentes Secretários de Estado se vos darão todos 
aquelles esclarecimentos que tiverdes por bem exigir. 

« Está aberta a sessão. » 

A Assembléa Constituinte nomeou uma commissão de 

OJ TOM. U 



490 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



cinco membros para elaborar o projecto de Constituição, base 
para o fimccionamento legal da Republica. Acceitaram a 
incumbência Domingos José de Almeida, José Pinheiro de 
Ulhôa Cintra, Francisco de Sá Britto, José Marianno de Mat- 
tos e Serafim dos Anjos França, e no dia 8 de Fevereiro 
de 1843 submetteram o importante documento á discussão e 
approvaçáo d'aquella Assembléa. 

As bases da Constituição repousavam em princípios de 
larga democracia. 

Todos os cidadãos rio-grandenses fonnariam uma nação 
livre e independente, que não admittia laço de união com 
qualquer outra que lhe prejudicasse a integridade. 

Seu governo seria Republicano Constitucional Represen- 
tativo. 

Não podiam exercer o direito do voto os cidadãos que 
não soubessem ler e escrever. 

Era considerada religião do Estado a catholica, apostólica, 
romana. 

Como um signal de atrazo d'aquelle tempo, não podiam 
ser eleitos Deputados os acatholicos nem os naturalizados. 

Três poderes assumiriam a suprema governança: o Judi- 
ciário, o Legislativo e o Executivo. 

O Judiciário seria garantido em sua perfeita independên- 
cia, e exclusivamente excercido pelos Tribunaes, juizes e 
juradas. 

Seria creado em Porto Alegre um Supremo Tribunal de 
Justiça; na mesma capital, nas outras cidades e villas — Tri- 



CAPITULO XXXIV 491 



bunaes de Appcllação. Nas cabeças de comarca — Juizes de 
Direito e Juizes de Paz. Os Juizes de Direito eram vitalicios; 
podiam, porém, ser removidos ou suspensos pelo Presidente. 

O Legislativo dividia-se em Camará dos Deputados e 
Senado. Com approvação do Presidente da Republica, decre- 
tava a guerra, concedia amnistia e perdáo, creava empregos, 
approvava e desapprovava tratados com as nações extran- 
geiras. Cada deputado corresponderia a 5.000 habitantes, mas 
emquanto não se organizasse a estatistica da população, seriam 
eleitos os deputados em numero de 24. 

Os Senadores, em numero correspondente á metade dos 
deputados, exerceriam as suas funcções durante 12 annos, 
sendo, porém, substituído um terço do pessoal em cada legis- 
latura. A reforma do i.° e 2."^ terço deveria ser feita por 
meio de lista tríplice apresentada pela Camará dos Deputados 
ao Poder Executivo; e a reforma do 3.° terço por eleição 
indirecta do povo. 

Aos Senadores caberia o dobro do subsidio dos Deputados. 

Funccionaria a Camará de quatro em quatro annos, por 
meio de eleição directa do povo. 

Ao Senado cumpria julgar os funccionarios accusados 
pela Camará e convocar a Assembléa Geral em casos extra- 
ordinários, por abusos commettidos pelo Presidente da Repu- 
blica ou por urs^encia de medidas legislativas. 

O Poder Executivo era exercido pelo Presidente da 
Republica e seus delegados. Não podia amnistiar. Não 
nomeava magistrados, nem commandantes de forças de mar 



492 MEMORIAS BRAZILEIRÂS 



e terra, nem diplomatas, nem chefes de repartições de fazenda 
nem fazia promoção a coronéis e a generaes, sem prévia 
approvação do Senado. 

O Presidente da Republica seria também investido do 
cargo de Commandante em Chefe do exercito nacional, porém 
não podia commaudal-o pessoalmente sem licença do Senado. 
No caso de o Presidente marchar para a guerra, o Presidente 
do Senado o substituiria na governança do Estado. 

Seria permanente a força armada e o seu numero* fixado 
annualmente pela Assembléa Geral. 

Era facultado ao Presidente nomear livremente os seus 
Ministros, os quaçs não podiam eximir-se da responsabilidade 
de seus actos, perante a Camará dos Deputados. 

Para a policia local, o Presidente nomeava um Director 
Policial em cada municipio e em cada districto um Inten- 
dente subordinado áquella auctoridade. 

Todas as cidades e villas deveriam ter Camarás Municipàes. 

A Camará dos Deputados tinha competência para accusar, 
perante o Senado, ao próprio Presidente da Republica, aos 
membros das duas Camarás, aos Ministros, aos Conselheiros 
de Estado, aos Juizes do Supremo Tribunal de Justiça; cabia- 
lhe também propor, em lista tríplice, os Senadores que por 
terços deveriam ser substituídos. 

Era attribuição da Camará a creação de impostos, regular, 
o recrutamento, fiscalizar a administração do Presidente e 
ter preferencia na discussão das propostas apresentadas pelo 



CAPITULO XXXIV 493 



Executivo, visto que era ella considerada a representante 
immediata da vontade popular. 

Mandava a Constituição que vigorassem as leis do Império, 
não contrarias a ella. 

Podia-se reformar a Constituição, quando o deliberassem 
dois. terços de ambas as caniaras legislativas reunidas. 

Finalmente, garantia a Constituição plena liberdade de 
imprensa, de industria e de commercio; estabelecia ampla 
instrucção primaria gratuita; abolia titulos de nobreza; facul- 
tava a todos os cidadãos denunciar e accusar livremente em 
todos os crimes de responsabilidade. 

Taes, em resumo, as idéas sobre que assentava o pacto 
fundamental da Republica Rio Grandense. 

Consagraremos ó capitulo seguinte á exposição do impor- 
tante papel que a táctica militar e o tino administrativo do 
barão de Caxias desempenharam no Rio Grande, conseguindo 
a pacificação de modo humanitário e honroso para o império 
e para os valentes e briosos revolucionários. 



CAPITULO XXXV 



Operações miutariís do barão de Caxias. Assassinato de 

António Paulo da Fontoura. Morte de Onofre Pires em duello 

com Bento Gonçalves. Contínuos combates. Propostas 

DE Paz. a pacificação — 1842-1845. 



]WoGO que o barão de Caxias entrou em exercício de seus 
cargos, de presidente e de couimandante em chefe do exercito 
imperial no Rio Grande do Sul, teve noticia de que o coronel 
Raphael Tobias de Aguiar (*), chefe da rebellião paulistana, 
vinha por terra para o Rio Grande do Sul, no interesse de 
ligar-se aos revolucionários. Imniediatamente expediu o barão 



(1)0 coronel Raphael Tobias de Aguiar, opulento proprietário e capitalista 
de S. Paulo, um dos chefes do partido liberal, casou no anno de 1842 com D. De- 
mithildes de Castro Canto e Mello, marqueza de Santos. Sobre esta extraor- 
dinária mulher diz o dr. Joaquim Manoel de Macedo em seu SuppUmenlo do 
Anno Biographico (Rio de Janeiro, 1880), vol. I, pags. 215 e 216: «Em falta 
de apurado cultivo de intelligencia, D. Demithildes deveu á mais pródiga natu- 
reza dotes physicos allucinadores. Era alta, magestosa de estatura e de admirável 
harmonia e perfeição nas formas e contornos de seu corpo, e formosa de rosto a 
obrigar a contemplação de todos ; tinha no andar e nos modos enlevadora graça : 
maravilhava pela bellesa. » 



49^ MEMORIAS BRAZILEIRAS 



uina escolta ao encontro do coronel Tobias, a qual conseguiu 
aprisional-o na estrada da Palmeira, perto de Passo Fundo, 
e trazel-o a Porto Alegre, d'onde foi remettido para o Rio 
de Janeiro, a responder a processo. 

O bom êxito d'esta primeira diligencia foi de bom presa- 
gio para quem ia encetar uma serie de operações de elevado 
alcance. 

As principaes idéas que tinha em vista pôr em pratica 
o experimentado general, eram : 

T.* Interessar todos os rio-grandenses na necessidade 
urgente de se terminar a guerra ; 

2.* Conseguir do dictador da Republica Argentina, 
D. João Manoel de Rosas, e do presidente do Estado Oriental, 
D. Manoel Oribe, que os revolucionários não pudessem 
penetrar em qualquer das republicas nem d'ellas obter 
cavalhadas ; 

3.* Adquirir para o exercito o maior numero possivel de 
cavallos; pois eram esses os principaes elementos na guerra 
sulista. 

4.* Utilizar-se do brigadeiro Bento Manoel Ribeiro, cujos 
serviços reputava de grande valor, já pelas relações de 
amizade que mantinha na campanha, já pelo conhecimento 
que possuia do terreno, de que era grande vaqueano. 

Prevenido, porém, contra a falta de sinceridade de Bento 
Manoel, o barão, ao attrahil-o, escreveu, a 29 de Novem- 
bro de 1842, ao ministro da guerra, José Clemente Pereira: 
«Eu julgo, como V. Exa., impolitico o dar commandos a 



CAPITULO XXXV 497 

Bento Manoel e muito menos antes de elle ter dado provas 
de sua contricçào; porém creio também que elle me vai ser 
muito útil, supprindo-me n'aquillo que me falta, que é o 
conhecimento pratico do terreno, e, com as suas relações na 
campanha, espero obter mais alguma gente de cavallaria e 
cavallos. Descance V. Exa. que eu me hei de manejar com 
cautela com elle . . . Hei de me servir d'elle como de meu 
vaqueano-mór, fazendo-o escrever, como já fiz, para que todos 
os seus partidários da campanha se me reunam com gente e 
cavalhadas, e tenciono dar um golpe com essa gente pela 
retaguarda dos rebeldes, logo que me approxime á fronteira 
de Alegrete, para onde pretendo encostar os rebeldes. » 

Poucos dias depois de sua chegada a Porto Alegre, foi 
o barão ao rincão dos Touros verificar a quantidade e o 
estado da cavalhada, e reconheceu a necessidade urgente de 
remonta d'essa arma de guerra. 

No momento em que ia encetar as suas operações 
militares, havia a seguinte distribuição de forças: 

Na lagoa Mirim e no rio Jacuhy, lanchões annados em 
guerra. 

Na cidade do Rio Grande, dois batalhões de 666 praças 
cada um e 800 soldados de cavallaria. 

Na villa de S. José do Norte, um destacamento de 100 
soldados de infanteria e outro de cavallaria. 

A cidade de Porto Alegre ficava guarnecida por um bata- 
lhão de caçadores, corpo policial com 100 praças, e 3CX) 
soldados de cavallaria occupados em percorrer os districtos 

63 TOM II 



498 MEMORIAS fiRAZII<ElRAS 



visinhos — Santo António da Patrulha, Taquary, Santo 
Amaro, Setembrina (capella de Viamão), Aldeia dos Anjos e 
Belém. 

O exercito, com cerca de 7.000 homens, acampava junto 
ao passo de S. Lourenço, no rio Jacuhy. Subia a 12.000 sol- 
dados o total das forças imperialistas. 

A II de Janeiro de 1843, ^ barão de Caxias deu começo 
ás operações, atravessando o rio S. Gonçalo, no passo da 
Barra, com uma columna ligeira de i.ooo infantes e 800 
cavalleiros, a fim de conduzir 5.000 cavallos que havia 
conseguido reunir no rincão dos Touros. 

Realizou-se este arriscado movimento sem opposição dos 
farrapos porque o barão poude illudil-os; fez constar que 
passaria o S. Gonçalo nos Canudos e seguiria na direcção de 
Piratiny para fazer juncção com o exercito que n'esse sentido 
apparentou mover-se. António Netto, com 2.000 cavalleiros 
e 300 infantes, foi esperal-o nos Canudos, quando o barão 
passava por outro ponto e marchava para Rio Pardo, 
costeando a lagoa dos Patos, abrigado de flanco pela serra do 
Herval. 

A II de Fevereiro chegou ao acampamento de S. lyou- 
renço, sem ser inquietado pelas forças de David Canabarro, 
coUocadas no passo da Juliana, 6 a 8 léguas acima. 

Deu então nova organização ao exercito, que ficou assim 
constituido: 

/.** Divisão^ commandante, o brigadeiro Philippe Nery de 
Oliveira, composta das brigadas i.*, 7.^ e 8.*, commandadas 



CAPITULO XXXV 499 



pelos coronéis José Fernandes dos Santos Pereira, Manoel 
Marques de Souza e João Frederico Caldwell ; e de uma bateiia 
de artilheria a cavallo, commandada pelo tenente-coronel José 
Ferreira de Azevedo; 

2.*^ Divisão^ commandante, o coronel Jacintho Pinto de 
Araújo Corrêa, composta das brigadas 2.* , 4.^ e 6.* , com- 
mandadas pelos coronéis Francisco de Arruda Camera, Antó- 
nio de Medeiros Costa e Jeronymo Jacintho Pereira; 

j,^ Divisão^ commandante, o coronel João da Silva Tava- 
res, composta das brigadas 3.® , 5.* e 9.* (guarnição do Rio 
Pardo) e 10." (guarnição do Rio Grande), commandadas pelo 
tenente-coronel Manoel Pereira Vargas, coronel Manoel dos 
Santos Loureiro, coronel João Feliciano da Costa Ferreira e 
brigadeiro graduado lyuiz Manoel de Jesus. 

A guarnição de Porto Alegre tinha como commandante 
o marechal de campo Thomaz José da Silva. 

Bento Manoel passou a pertencer ao estado maior do gene- 
ral em chefe. 

David Canabarro moveu-se do passo da Juliana e foi 
reunir-se, a 19 de Fevereiro, ás forças de António Netto no 
passo do Rosário, no rio Santa Maria. As forças farrapas, 
enfraquecidas com a longa e improfícua lucta, achavam-si& 
reduzidas a 3.500 soldados. 

Antes de partir em busca dos revolucionários, Caxias 
mandou á Cima da Serra uma força de 500 cavalleiros com- 
mandada pelo coronel Jeronymo Jacintho Pereira, no intento 
de desalojar d'alli forças do tenente-coronel José Gomes 



500 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Portinho. Com eíFeito, a 4 de Março, na picada do Padilha, 
em Butucarahy, foi batida a vanguarda de Portinho, com- 
mandada pelo tenente Leme, que morreu em combate, e 
obrigados os revolucionários a abandonar a posição e pro- 
curar o Ijuhy; d'este ponto atravessaram o Ibicuhy, no passo 
do Marianno Pinto, e incorporaram-se em Alegrete ao exercito 
republicano. 

Assim ficou Cima da Serra desoccupada inteiramente de 
farrapos. 

Voltando a assumpto politico, diremos que a Assembléa 
Geral Constituinte elegeu como seu presidente permanente 
o padre Hildebrando de Freitas Pedroso. 

Depois de algumas deliberações de diminuta importância, 
encerrou seus trabalhos a 10 de Fevereiro de 1843. 

Três dias depois dava-se o assassinato do vice-presidente 
António Paulo da Fontoura, conhecido por António Paulino, 
chefe da opposição na Assembléa, partido que se havia 
levantado para contrariar muitas idéas do general presidente 
da republica, principalmente aquella que determinava confis- 
cação de bens dos legalistas. 

O proeminente revolucionário fora traiçoeiramente morto 
por um tiro de pistola disparado á noite para dentro de uma 
janella de sua casa. Onofre Pires, amigo intimo de António 
Paulino, considerou como mandante do attentado o próprio 
Bento Gonçalves e no dia 19 fez correr em Alegrete convites 
impressos, com estes dizeres : 

« Fazem amanhã 7 dias que deixou de existir n*este valle 



CAPITULO XXXV 501 

de lagrimas o vice-presidente António Paulo da Fontoura, 
victima do crime que o roubou á pátria, aoâ seus parentes, 
aos seus amigos e aos seus concidadãos. 

«A egreja costuma celebrar a missa do 7.° dia applicada 
a prol da vida futura que devem gosar os que souberam 
n'este mundo, á semelhança de Jesus Christo, perdoar os 
seus inimigos. 

«Rogo a V. S. e a toda sua familia, que se dignem, 
amanhã, ás 8 horas, concorrer á egreja matriz, a fim de 
ouvirem a referida missa, com o que honrarão a memoria de 
um mortal, e darão uma prova de seus sentimentos religiosos: 
favor que espera merecer da benevolência de V. S. seu amigo 
e venerador. » 

Do passo de S. lyourenço marchou o barão de Caxias a 
encontrar-se com os revolucionários no passo do Rosário; 
soube, porém, ao passar por S. Gabriel, que os farrapos haviam 
seguido em direcção a Alegrete; á vista doeste movimento, 
resolveu deixar em S. Gabriel a bagagem pesada, guardada 
por 3 batalhões de caçadores e 500 cavalleiros, formando um 
total de 2.000 soldados com 3 peças de artilheria, sob o 
commando do coronel Jacintho Pinto de Araújo Corrêa. 

Em perseguição dos rebeldes, atravessou o rio Santa Maria 
e dirigi u-se á capella de SanfAnna, hoje cidade de SanfAnna 
do Livramento. Approximou-se da povoação a 31 de Março 
de 1843 ^» impedido pela noite, resolveu ordenar o ataque 
no dia seguinte. 

Os revolucionários, porém, não esperaram pelo encontro 



502 MEMORIAS BRAZII<KIRAS 



e n'essa mesma noite, em numero de 2.500 homens das três 
armas, passaram-se para a Republica do Uruguay na altura de 
Cunhaperú. Aproveitando o ensejo de se achar na fronteira, o 
barão chegou á margem direita do rio Taquarembó, effectuou 
a compra de 3.000 cavallos e negociou com o general 
D. Manoel Oribe a acquisição de 6.000, que depois lhe foram 
entregues. 

Por uma evolução rápida, os revolucionários retrocederam 
para o Rio Grande do Sul, por Taquatiá, e apresentaram-se 
em frente de S. Gabriel, que encontraram sem a guaniição a 
postos, por descuido lamentável do coronel Jacintho Pinto: 
depois de praticar varias mortes e ferimentos em officiaes e 
soldados, retiraram-se os farrapos, levando comsigo cavallos 
e bois que conseguiram apprehender. 

Logo que teve noticia doeste inesperado assalto, o barão 
de Caxias partiu, a 16 de Abril, de SanfAnna do Livramento, 
e a 19 chegava a S. Gabriel, executando com velocidade, 
em 48 horas, uma marcha forçada de 24 léguas, com 4.000 
homens e 9.000 cavallos. 

Ahi conseguiu rehaver parte da cavalhada e submetteu a 
conselho de investigação o coronel Jacintho Pinto, pela desi- 
dia de não manter a guarnição em vigilância, prompta ao 
primeiro signal. 

Retiraram-se os farrapos para os lados de Bagé. 

Reconhecendo a impossibilidade de combatel-os com toda 
a força reunida, o barão dividiu o exercito em duas columnas, 
uma sob seu commando e outra sob a direcção de Bento 



CAPITULO XXXV 503 



Manoel, que viu afinal aproveitados os seus serviços em um 
cargo importante, e, lisonjeado, deixou de pretender deslustrar 
o prestigio do barão, no intento de o substituir ( ' ). 

Investido de cargo de confiança. Bento Manoel, satis- 
feito em suas ambições de mando, envidou os maiores esforços 



( I ) Sabendo o barão de Caxias que Bento Manoel tramava retiral-o do 
commando em chefe do exercito, intrigando-o com o ministro da guerra, escre- 
veu da Tapera do Trilho, em data de 22 de Abril de 1843, uma carta ao mesmo 
ministro, da qual transcrevemos os seguintes trechos, como elucidação histórica: 

« Bento Manoel, logo que viu mudado o. ministério, julgou que eu também 
o seria, na forma do costume, e visando o mando do exercito, principiou a rosnar 
pela bocca pequena que era de opinião haver duas auctorídades na provincia, 
e que estava muito descontente por eu o não ter empregado em commando de 
alguma divisão. Ora, até essa epocha elle não tinha cumprido nada do que tinha 
promettido ao governo ; nenhuma defecção tinha apparecido nos rebeldes, e por 
tudo isso e pela falta de confiança que elle gosava no exercito, eu não julguei 
politico empregal-o no commando de coisa nenhuma ; mas trazia-a sempre com- 
migo, consultava-o sobre qualquer movimento que pretendia fazer e dava-lhe 
muita consideração em publico, a fim de ir aos poucos dissuadindo alguns chefes 
que o detestavam, e muito já tinha conseguido, quando a sahida de V. Bxa. do 
ministério, quando eu menos o esperava, me veiu desconcertar e dar animo aos 
invejosos de minha fortuna. Bento Manoel mandou logo seu filho, o dr. Sebastião 
Ribeiro, para a corte, com ordem de escrever contra mim e exaggerar a capaci- 
dade do pae para o commando do exercito, apresentando a idéa de duas aucto- 
rídades para a provincia. O que elle por lá terá feito, não sei ; V. Bxa. que lá 
está, melhor o saberá. Continuou Bento Manoel comtudo a acompanhar-me e 
como visse que não achava echo contra mim no exercito, tem-se reprímido, 
muito mais depois que teve certeza de que o novo ministério me não era avesso 
e que mesmo n'elle havia alguns tão meus amigos como o sr. José Clemente. 
£u não me dei nunca por sabedor e antes o tratei sempre com a mesma aífabili- 
dade e franqueza, e isto o tem desconcertado tanto, que me consta que elle já diz 
que se tinha em conta de muito velhaco, porém que eu era mais do que elle, 
tendo metade da sua edade, e que estava disposto a me continuar a^judar em 
tudo e que não podia negar que eu ia marchando muito bem, etc. O caso é que 
vou tirando d'elle todo o partido. » Reinsia do ítisHtuto Histórico e Geographico 
de S. Paulo (S. Paulo, 1902), vol. VI, pags. 52 e 53. 



504 MEMORIAS BRÂZILEIRAS 



para que — de accordo com promessa feita ao governo — 
parentes e amigos republicanos viessem, nas fileiras legaes, fazer 
causa commum com elle : dos transf ugas que alliciou formou-se 
em fins de Abril um corpo intitulado Esquadrão de cavai- 
laria ligeira do municipio de Alegreie. D'esse esquadrão fez 
parte o ex-revolucionario tenente-coronel Demétrio Ribeiro, 
que a 16 d^aquelle mez se apresentou ao barão, com 80 homens 
e 600 cavallos subtrahidos aos farrapos. 

Dividido o exercito em duas columnas, devia a i.®, de 
Bento Manoel, operar áquem do rio Santa Maria e a 2.*, de 
Caxias, além do mesmo rio, percorrendo em toda sua extensão 
o districto e fronteira de Alegrete. 

De sua columna destacou o barão uma expedição para as 
immediações do arroio Pai Passo, confluente do Ibirapuitan. 
Encontrando-se ahi abandonado o arsenal dos revolucionários, 
fez-se arrecadação de grande numero de instrumentos bellicos : 
5 peças de artilheria, granadas carregadas, balas, couraças, 
lanças, armamento de infanteria e cavallaria e bem assim 
uma botica mandada vir de Montevideo por 7.000 patacões 
ou i4:ooo$ooo. O abandono de tantos materiaes preciosos 
demonstrou enfraquecimento e desanimo nas fileiras republi- 
canas. 

Mandou o barão que fosse occupada a villa de Alegrete 
por um batalhão de caçadores e um esquadrão de cavallaria, 
700 praças, sob o commando do brigadeiro Francisco de 
Arruda Camera, estancando doeste modo a fonte de recursos 
pecuniários de que lançavam mão os farrapos. 



CAPITULO XXXV 505 

Sabendo os revolucionários que o exercito se dividira em 
duas columnas, deliberaram atacar a de Bento Manoel, ofiFere- 
cendo-lhe grande combate. Com 2.500 homens, os chefes 
Bento Gonçalves, David Canabarro, António Netto, João 
António e Jacintho Guedes da Luz procuraram encontrar-se 
com as forças de Bento Manoel, orçadas em 1.200 infantes 
e mais de i.ooo cavalleiros, com duas peças de artilheria. 

A 26 de Maio, junto ao arroio Poncho Verde ('), foi ata- 
cado Bento Manoel, que na occasião se achava á frente de 
1.600 soldados. 

Depois de duas horas de renhido combate, retiraram-se 
os farrapos, deixando os legaes senhores do campo. 

Segundo lemos na participação official dirigida pelo barão 
de Caxias ao ministro da guerra Salvador José Maciel, houve 
no combate mais de 100 revolucionários mortos e de 200 
feridos, quando tiveram os legaes apenas 30 mortos e 50 feri- 
dos, entre estes o brigadeiro Bento Manoel, que recebeu feri- 
mento em um braço e no peito esquerdo {^\ 



( I ) o arroio Poncho \ ^erde nasce na Serrilhada, atravessa a lagoa do Pon- 
cho Verde e desajnia á margem esquerda do rio Santa Maria. 

( 2 ) Officio do general barão de Caxias, datado do quartel general nas pon~ 
tas de Santa Maria Chica, em marcha, rj de Maio de 1843, ^ publicado na Rev, 
do ínst. Hist. e Geog. do Braz.^ tom. XLVII, i.a part, pags. 93 c 94. 

Em ordem do dia passada em 3 de Junho de 1843, no passo de D. Pedríto, 
o barão de Caxias louvou a conducta de Bento Manoel no combate de Poncho 
Verde e o denodo com que se portaram o coronel António de Medeiros Costa, 
commandante da brigada de cavallaría, e tenentes-coroneis I^uiz Manoel de I«ima 
e Silva, commandante do 9.® batalhão de caçadores ; João Propicio Menna Bar- 
retto, commandante do 3.^ corpo de cavallaría ; Manoel Adolpho Charão, com- 

6-t TOM. II 



5o6 MEMORIAS BRAZILBIRAS 



Parece que Bento Manoel, no interesse pessoal de fazer 
brilhar a sua valentia no primeiro combate que foi obrigado 
a empenhar depois de nomeado commandante de di\nsão, 
exaggerou o feito. Contemporâneos do combate de Poncho 
Verde, testemunhas presenciaes do acontecimento, affirmaiam 
ter havido vantagem para os farrapos, que tomaram 2 estan- 
dartes, bagagens e cavalhadas. Atacado de surpresa, Bento 
Manoel viu atropelada, quasi dispersa, a sua ca\^laria, e, 
para resguardal-a, mandou formar quadrado. 

Livrou-o de completa derrota a superioridade de sua arma 
de infanteria. 

Além d'isso, um facto casual determinou a rápida retirada 
dos farrapos: appareceu-lhes pela retaguarda uma cavalhada 
vinda do Estado Oriental, e a polvadeira que os animaes em 
marcha levantaram os fez crer na approximação de novas 
forças legaes que os collocariam entre dois fogos : n'esta suppo- 
sição abandonaram o campo. 

Após o indeciso combate, dirigiu-se Canabarro a Alegrete, 
no interesse de sitiar e tomar a praça, e ahi chegando com cerca 
de i.ooo homens, a 5 de Junho, dirigiu ao brigadeiro Arruda 
intimação a que se rendesse, no praso de duas horas. 



mandante do 12.° corpo; José Joaquim de Andrade Neves, commandante do 
9.^ de cavallaria ; José Ig^nacio da Silva ( Jucá Ourives ), commandante do 8.® da 
mesma arma ; major Francisco de Lima e Silva, commandante do 3.° de fuzileiros; 
Agostinho Gomes Jardim e João António Severo. Elogiou o modo por que seu 
ajudante de ordens, major de divisão Pedro Maria Xavier Meirelles, se conduziu 
na acção, animando os soldados com repetidos vivas a Sua Magestade o impe- 
rador e bem assim a bravura do tenente-coronel Demétrio Ribeiro. 



CAPITULO XXXV 507 

Dizia um dos tópicos do oflScio : 

« Depois da victoria de 26 de Maio ultimo, contra a divisão 
de Bento Manoel, marchei sobre a força imperial que com- 
mandais e marcho hoje á vossa frente com centenares de 
bravos dispostos a debellar os soldados de D. Pedro II a todo 
custo. » 

Compenetrado de sua alta posição militar, o brigadeiro 
dirigiu a Canabarro esta desdenhosa resposta : 

« Dando a consideração que merece a patacoada que Vmc. 
acaba de me dirigir em uma folha de papel almasso, tenho a 
significar-lhe que estou prómpto a consideral-o como brioso 
brazileiro, quando Vmc. reconhecer e venerar a independência 
do Império, sua integridade e instituições politicas que reli- 
giosamente jurámos manter e observar, sob a obediência da 
sagrada pessoa do Sr. D. Pedro II, imperador brazileiro e 
perpetuo defensor d'este grande império. Com os bravos que 
se acham sob o meu commando para defesa de tão sagrados 
objectos e deveres, nada receio, e na defensiva mostrarei a 
Vmc. como saberei e meus subordinados sustentar o nosso 
posto, brio e honra militar, únicos motores presentemente 
doesta força e de meu honroso dever. 

« Tendo recebido o seu papel ao meio dia de hoje, desde 
já pôde Vmc. fazer o que lhe parecer, que eu farei o que devo. » 

Em face da enérgica attitude, o chefe revolucionário 
atacou Alegrete, porém foi repellido com vigor. Em seu 
auxilio reuniram-se Bento Gonçalves e António Netto, ele- 
vando as forças sitiantes a mais de 2.000 homens. Travaram-se 



508 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



fortes tiroteios de parte a parte, mas a villa não cedeu. Depois 
de 5 dias de inúteis esforços, retiraram-se os farrapos, ao 
terem noticia de que Bento Manoel vinha tomar parte na 
lucta. 

A 8 de Junho houve combate em Santa Maria Chica, provo- 
cado por uma partida commandada pelo tenente-coronel Cfaivo 
Pedro. Este, com i86 homens, foi ao encontro do general 
João António que dispunha de 500 soldados. Impossibilitados 
de vencer, entrincheiram-se os legaes em uma cerca de pedra, 
e ahi teriam sido suflocados si os não salvasse avultado 
soccorro mandado pelo barão de Caxias. 

Como a estação inyemosa se manifestasse demasiadamente 
cruel e impedisse, pelo intenso frio e continuadas chuvas, 
evoluções militares, o barão de Caxias resolveu acampar em 
ponto central da provincia, junto ao rio Jaguar}', afBuente 
da margem direita do Ibicuhy, na estancia do Carmo, aguar- 
dando melhor tempo. 

Estabelecia os seus abarracamentos quando soube que os 
farrapos, prevalecendo-se da distancia em que ficava o grosso 
do exercito, projectavam ir pela fronteira do Rio Grande ao 
rincão dos Touros e apoderar-se da cavalhada invernada ahi. 

Para obstar este assalto, Caxias levantou acampamento e 
atravez das difficuldades oppostas pelo rigor da estação, seguiu 
até á margem direita do rio Camaquam, d'onde expediu uma 
força de i.ooo homens, commandada pelo tenente-coronel 
Manoel Marques de Souza e incumbida de tomar Piratiny 
e ir depois occupar Pelotas. 



CAPITULO XXXV 509 



Immediatamente seguiu Manoel Marques ao detenninado 
ponto; penetrou em Piratiny, que encontrpu abandonado, 
e apprehendeu duas carretas com cerca de i.ooo peças de 
fardamento e poucas munições bellicas; marchou a Pelotas, 
que occupou com a sua força; reuniu ahi cavalhada para o 
exercito imperial e recebendo o contingente de Chico Pedro, 
percorreram ambos os districtos de Cangussú e visindario, 
dispersando as partidas de farrapos que por ahi vagavam. 
Uma d'ellas, commandada por Felicissimo Félix, apresentou- 
se ao barão pedindo amnistia que lhe foi concedida. 

N'essa occasião passaram-se 50 farrapos ao regimen legal. 

De Camaquam dirigiu-se Caxias a Caçapava, onde chegou 
a 3 de Agosto de 1843; seguiu depois a Jaguarão a reunir-se 
á brigada de Manoel Marques. Havia este oflScial reunido 
6.CXX) cavallos para a necessária remonta, ampliando os ele- 
mentos de força para o exercito. 

Perseguidos os farrapos ora pela columna de Caxias, ora 
pela de Bento Manoel, viram-se obrigados, como de costume, 
a emigrar para o Estado Oriental, asylo sempre disposto a 
acolhel-os. D'esta vez a protecção não se limitou a recebel-os 
bem: Fructuoso Rivera, grato aos favores dos republicanos 
rio-grandenses, presenteou-os com uma força de 400 orientaes, 
sob o mando do coronel Baldomero Sotelo, riveristas derro- 
tados pelos oribistas. Os orientaes penetraram no território 
rio-grandense em principios de Outubro de 1843. 

Rápidas, porém, foram as providencias tomadas pelo barão 
de Caxias para derrocar-lhes o intento : conseguiu cercal-os 



5IO MEMORIAS BRAZILEIRAS 



e desarmal-os, ouvindo de Baldomero a declaração de que, 
tendo sido derrotado em seu paiz, em que só reinava o systema 
despótico, deliberara offerecer seus serviços ao governo impe- 
rial brazileiro. 

O próprio Fructuoso Rivera mandou também offerecer 
ao barão cavalhada e soldados — presentes gregos que o nosso 
general recusou. 

Animado cada vez mais com as adhesões espontâneas que 
a causa da legalidade ia adquirindo, o barão de Caxias creou 
3.* divisão, composta de 500 cavalleiros e 500 infantes e 
confiou-a á reconhecida valentia e temeridade do tenente- 
coronel Francisco Pedro de Abreu, mais conhecido por Chico 
Pedro ou Moringue^ celebre por seus inesperados assaltos ou 
emboscadas. 

As três columnas tiveram determinados pontos de acção : 
a do barão, manobrava no município de Bagé até S. Gabriel ; 
a de Bento Manoel no município de Alegrete e a de Chico 
Pedro em todo o território comprehendido entre os rios 
Camaquam, S. Gonçalo e Jaguarão, isto é toda a parte sul da 
província. 

Achava-se Chico Pedro acampado em Cangussú quando 
soube que ia ser surprehendido por 300 homens, forças 
reunidas de Bento Gonçalves, António Netto e Camillo dos 
Santos. Immediatamente marchou o tenente-coronel ao encon- 
tro d'elles, com 310 soldados, e conseguiu surprehendel-os em 
marcha, a 25 de Outubro, e debandal-os, depois de lhes 



CAPITULO XXXV 511 

tomar um estandarte, toda a bagagem e 240 cavallos. Tiveram 
os farrapos 5 mortos e 10 prisioneiros. 

Desejosos de vingar-se da surpresa em que haviam cabido, 
reuniram os farrapos 400 cavalleiros e 200 infantes e foram 
procurar Cbico Pedro em seu acampamento de Cangussú e a 
6 de Novembro de 1843 travaram combate. Os revolucio- 
nários deixaram no campo 30 mortos e levaram perto de 
60 feridos, e os legaes contaram 50 mortos e 11 feridos. 

A 26 de Dezembro deu-se novo encontro nas margens do 
arroio Batovy, logar chamado Santa Rosa, Os legaes, tenente- 
coronel Demétrio Ribeiro e major António Fernandes Lima, 
atacaram de surpresa forças de João António e Onofre Pires, 
que intentavam unir-se ás de Canabarro, e as desbarataram, 
fazendo 80 mortos, mais de 100 feridos, 55 prisioneiros e 
apprehendendo-lhes bagagem e 700 cavallos. 

Sabendo o barão de Caxias que o farrapo João António 
buscava o Estado Oriental para livrar-se da perseguição, 
mandou 150 praças esperal-o na picada de S. Martinho e ahi 
foi elle ainda derrotado, deixando 15 mortos e 40 feridos. 
Entre os mortos contou-se o valente revolucionário Serafim 
Bravo e o legal Agostinho Gomes, .commandante da força, 

João António, na altura de S. Borja, poude passar-se a 
Corrientes, Republica Argentina, porém foi logo desarmado 
pelo governador Joaquim Madriaga, em obediência a convénio 
effectuado entre o Brazil e aquella republica. 

De melhor fortuna gosava David Canabarro que percorria 



512 MEMORIAS BRÂZILEIRAS 



O municipio de Alegrete e refugiava-se, as vezes que queria, 
no Estado Oriental, sem ser perturbado em suas incursões. 

No mez de Fevereiro de 1844 deu-se um lamentável inci- 
dente, que consternou os revoTucionario3. 

Ou por ambição de mando, ou por inveja, ou por mes- 
quinho desabafo, Onofre Pires attribuia injustamente a Bento 
Gonçalves a morte de António Paulino, e, sempre que se referia 
ao heróico general em chefe, empregava o epitheto insultuoso 
de ladrão, alludindo á medida vexatória de confiscar-se os 
bens dos legalistas. Tomaram vulto estas murmurações depri- 
mentes, espalhadas sem a minima reserva, como aff ronta feita 
á primeira auctoridade militar. A noticia do escândalo foi 
levada ao brioso general farrapo. Surprehendido e profunda- 
mente maguado. Bento Gonçalves dirigiu a Onofre Pires 
esta intimativa carta: 

«Ulmo. Sr. Onofre Pires da Silveira Canto. 

«Tendo chegado ao meu conhecimento que em principio 
do corrente mez, em presença de vários individuos do 
exercito, quando vinha este em marcha, V. S. avançara 
proposições offensivas á minha honra e ousara até chamar-me 
de ladrão; eu, suffocanda os impulsos de meu coração e 
aquelle brio que em minha longa carreira militar guiara 
sempre minhas acções, por amor de minha posição e mais 
que tudo pela crise em que se acha este paiz que me é tão 
caro, suffocando, repito, aquelle ardor com que em todos os 
tempos busquei o desaggravo de minha honra, recorri aos 
meios legaes, únicos exequiveis nas presentes circumstancias; 



CAPITULO XXXV 513 



como, porém, sua posição de deputado o põe a coberto 
d'esses meios, e deva eu, em tal caso, lançar mão do que me 
resta como homem de honra, quizera que com a honra própria 
doesse caracter um homem na posição de V. S. houvesse de 
dizer-me, com urgência, por escripto, si é verdade ou falso o 
que a respeito se me informou. 

«Deixo de fazer a V. S. qualquer outra reflexão a respeito, 
porque V. S. as deve perfeitamente comprehender. 

«Campo, 26 de Fevereiro de 1844 — Bento Gonçalves da 
Silva. 

Onofre Pires enviou ao chefe republicano esta resposta 
ultrajante: 

«Cidadão general Bento Gonçalves da Silva. 

«Ladrão da fortuna, ladrão da honra, e ladrão da liber- 
dade é o brado ingente que contra vós levanta a nação rio- 
grandense, ao qual, já sabeis que junto a minha convicção, 
não pela geral execração de que sois credor, o que lamento, 
mas sim pelos documentos justificativos que conservo. 

«Não deveis, pois, Sr. general, ter em duvida a conversa 
que a respeito tive e da qual- vos informou tão prompta- 
mente esse correio tão vosso . . . 

«Deixai de affligir-vos por haverdes exgottado os meios 
legaes, em desaffronta d'essa honra como dizeis; minha 
posição não tolhe que façais a escolha do mais conveniente, 
para o que sempre me encontrareis. 



(>> 



514 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

« Fica assim contestada vossa carta de hontem. 

«Campo, 27 de Fevereiro de 1844. 

«O vosso admirador! — Onofre Pires da Silveira Canto. » 

Logo que Bento Gonçalves recebeu esta insultuosa carta, 
montou a cavallo, sem permittir que o acompanhasse seu 
filho Marcos António, que a isso se offerecera, prevendo 
algum caso grave. Foi o general ao acampamento, dirigiu-se 
á barraca de Onofre Pires, o qual se achava em conversação 
com António Vicente da Fontoura e Manoel Lucas de 
Oliveira. 

Entre offendido e offensor trocaram-se estas palavras: 

— Já sabeis para que vos procuro. 

— Sim, senhor; por isso almejava eu. 

Entenderam-se. A questão deyia ser immediatamente 
resolvida por meio de duello. 

O ódio que os accendia e clamava por uma vingança 
prompta, lhes não permittiu revestir de formalidades o encon- 
tro pelas armas. 

Os amigos presentes não foram convidados para assistir 
ao duello, que se ia efFectuar sem apparato, em sitio ermo. 
Assim o quizeram esses dois accentuados typos de gaúchos. 

Chegados a um quarto de légua, apearam-se e desembai- 
nharam as espadas. 

Antes de começar a lucta, disse Bento Gonçalves : 

— Pelo facto de vos haver desafiado, deveis vos convencer 
de que o mesmo faria a António Paulino, cuja morte me 
imputam, si d^elle houvesse recebido offensa á minha honra. 



CAPITULO XXXV 515 

— Nunca vos fiz semelhante injustiça, respondeu o coronel. 

Onofre era um homem alto, corpulento, vigoroso, e Bento 
Gonçalves também alto, menos athletico do que seu adver- 
sário, mas dotado de extraordinária destreza e agilidade. 

Ao tomarem posição, Onofre mostrou-se receioso, e, aos 
saltos, mantinha-se na defensiva, sem animo de atacar. 

O general estimulou-o : 

— Sois um cobarde ! 

Ao ouvir este epitheto, o coronel, que não primava pela 
delicadeza da linguagem, dirigiu ao general palavras gros- 
seiras e affrontosas. 

— São expressões próprias de vosso caracter, disse Bento 
Gonçalves. 

A este incitamento, o gigantesco official, summamente 
irritado, atacou de modo desordenado a seu chefe: este feriu-o 
na mão direita. Vendo-o com a dextra ensanguentada, o gene- 
ral deu-se por satisfeito. Generosamente queria que o primeiro 
sangue lavasse a mancha irreflectidamente jogada á sua honra. 

Offendido em seu amor próprio, Onofre não concordou 
com este desenlace. 

— Não, meu caro ! Um de nós ha de ficar aqui ! 

E, ligando a ferida com um lenço, atacou de novo, impe- 
tuosamente, no intento de traspassar o adversário. Bento 

* 
Gonçalves feriu-o no antebraço direito, offendendo a artéria. 

Onofre deixou cahir a espada e fez o signal maçónico de 
soccorro. O general esforçou-se para que elle montasse a 
cavallo, e, não o conseguindo, correu a galope ao acampa- 



51 6 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



mento a prevenir do facto a Manoel Lucas e António Vicente. 
Trazido para a sua barraca, Onofre Pires narrou todas as 
particularidades do duello e s6 morreu três dias depois (*). 

O conselheiro Tristão de Alencar Araripe, em sua obra 
Guerra Civil do Rio Grande do Sul (cap. XXIII, § 6), 
descreve de outro" modo o final do duello : 

«Onofre Pires, muito mais possante do que Bento Gon- 
çalves, porém menos ágil e menos destro no manejo das 
armas, recebeu dois ferimentos que o impossibilitaram de 
continuar o combate, O vencedor deixa o antagonista ferido, 
e vem ao acampamento buscar médicos; quando, porém, estes 
e outras pessoas chegaram ao logar do duello, o vencido 
esvaía-se em sangue e dentro de poucos momentos finava-se.» 

A desastrosa morte de António Paulino e de Onofre Pires 
demonstrou quão profunda era a dissidência que lavrava 
entre as primeiras figuras republicanas. 

Enfraquecida pela desunião e tenazmente perseguida pelo 
barão de Caxias, a revolução resvalava em rápido declive 
para, dentro em pouco, engolfar-se na communhão brazileira. 

A idéa democrática ia desapparecer : cumpria aos chefes 
prestigial-a para que ao menos soubesse cahir com honra. 



( I ) Esta narração é colhida de valioso apontamento de nosso distincto 
patricio Alfredo V. Rodrigues, mencionado na biographia que publicou sobre 
Hento Gonçalves da Silva no Almanak IJttcrario c Estatístico do Rio Grande 
do Sul para o anno de 1892. 



CAPITULO XXXV 517 



No começQ do anuo de 1844 elevavam-se as forças legaes 
a 11.387 homens, assim divididos: 

Estado maior ^^ 

Infanteria de linha 7.046 

Artilheria 317 

Cavallaria 366 

Guarda nacional 3*625 

11.387 

As três columnas abrangiam 6.200 soldados, sendo a 
do barão de Caxias, 2.000; do brigadeiro Bento Manoel, 
3.200, e a do tenente-coronel Chico Pedro, i.ooo. 

Achavam-se convenientemente guarnecidos Porto Alegre, 
Rio Grande, S. José do Norte e Pelotas e na campanha 
Caçapava, S. Gabriel, Rio Pardo, Cruz Alta, Alegrete e 
S. Borja. 

Para retirar as farrapos o recurso de se refugiarem no 
Estado Oriental ou na provincia de Corrientes, o barão insis- 
tiu pela nomeação de um ministro plenipotenciário que junto 
das republicas visinhas fizesse cessar o abuso: foi nomeado 
para o importante cargo o dr. João Lins Vieira Cansanção 
de Sinimbu. 

D. Manoel Oribe, por parte da republica do Uruguay, 
e D. Joaquim Madriaga, por parte da provincia de Corrientes, 
de que era governador, chegaram ao accordo de não permit- 
tirem ingresso em seus territórios aos revolucionários e sim 
ás forças iniperiaes, ás quaes venderiam as cavalhadas que 
necessárias fossem. 



5X8 BCBMOUAS SSLAZrLBXSUía 



Fortificado por este convénio, conseguiu o barão que a 
guerra civil chegasse com rapidez a seu termo. 

Joáo António, que a 26 de Dezembro de 1845 li^via sido 
derrotado por Demétrio Ribeiro em Batovv-, achava-se em 
Março de 1844 ^™ Corrientes e ahi espera\-a juntar-se 
ás forças de Canabarro que costeavam o rio Quarahy. O barão 
impediu-Ihe o intento, armando três lanchões e coUocando-os 
no rio Uruguay como defesa. 

Por força do tratado internacional, Joáo António foi desar- 
mado pelo governador Madriaga. 

Desenvolveu-se então perseguição tenaz, sem tréguas, 
contra os revolucionários, que não tiveram um momento de 
descanço. 

A 13 de Março de 1844 o tenente-coronel Chico Pedro 
atacou a povoação de Bagé, aprisionando o ministro da fazenda 
Domingos José de Almeida ('), os capitães Joaquim Pereira 
Fagundes e João Pereira da Silva e os tenentes Manoel Franco 
e Laurentino Menezes, bem como vários guardas nacionaes. 
N'esse mesmo dia, o coronel farrapo António Manoel do 
Amaral, que ha^-ia deixado o cerro de Bagé, marchara para 
o passo das Mortes, no Quebracho, e ahi fez juncçào com as 
forças do tenente-coronel Camillo Campello e dos majores 



' I i Domin^cM José de Almeida foi tratado por Chico Pedro o:>3i a máxima 
nrhcànidade. .Se^aia preso para Pelotas, mas evadia-se em caminho, no passo 
Real. Â direita do Candiota, na noite de 15 para 16 de Março. Rcfagiou-s< em 
atNí de André Sampaio. 



CAPITULO XXXV 519 



Marianno Gloria e João Marques, elevando a 210 o numero 
dos combatentes. 

Montavam a 260 os soldados de Chico Pedro, 

No dia 16 de Março travou-se o encontro, próximo ao 
cerro da Palma. O tenente-coronel da legalidade tomou excel- 
lente posição, entre o Candiota e o Candiotinha, em ponto 
elevado e circumdado por um banhado macegoso, coUocando 
á sua esquerda um esquadrão e alguns infantes commandados 
pelo major António Israel Ribeiro e á esquerda a linha des- 
tinada a fazer frente aos farrapos. 

Duas horas durou o combate. 

Chico Pedro recebeu de Camillo Campello dois ferimentos 
que o obrigaram a retirar-se da lucta, atropeladamente, com 
um grupo de 12 homens. 

Diz um official que tomou parte na acção : « Si não fora 
a resistência do bravo official Israel Ribeiro, Chico Pedro 
teria ficado prisioneiro, porquanto os republicanos, muito bem 
montados e conhecendo muito bem o tenente-coronel, n'uma 
estrada como essa (a que vai ao Bahú), sem o menor abrigo, 
tel-o-iam infallivelmente agarrado. » 

Os republicanos tiveram fora de combate 4 mortos, e 4 
officiaes feridos: o capitão Bento Gonçalves da Silva Júnior 
e os tenentes José Duarte Silveira Gomes (porta-estandarte), 
António Coelho Borges (secretario) e Germano Monteiro e 
17 soldados. Cahiram prisioneiros os officiaes imperialistas 
major Israel e os tenentes Manoel Patricio de Azambuja, 
Luiz Rangel e Alexandre. 



520 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Depois de ter alcançado esta victoria sobre Chico Pedro, 
António Amaral dirige-se á villa de Jaguarão que a 21 de 
Junho accommette com 280 homens; ahi foi-lhe a sorte 
adversa: morreu em combate em companhia de 13 repu- 
blicanos. 

Como desforra, Chico Ptãj^o conseguiu, no mez de Julho 
seguinte, aprisionar os coronéis José Mariano de Mattos, vice- 
presidente da republica e Joaquim Pedro Soares. 

Em Outubro deu-se um feito notável praticado pelos legaes. 

Sabendo Bento Manoel que o brazileiro Bernardino Pinto, 
ao serviço de Fructuoso Rivera, guardava uma cavalhada dos 
farrapos na margem esquerda do rio Quarahy (Estado Ori- 
ental), determinou ao major António Fernandes Lima fosse 
batel-o e apoderar-se dos animaes. 

Fernandes Lima desempenhou a commissáo com o melhor 
êxito: caliiu de surpresa sobre a força de Bernardino Pinto, 
matou-lhe 30 homens, aprisionou 9 e apprehendeu 1.800 
cavallos, que trouxe como óptimo recurso aos legaes. 

Occupavam-se os guerrilheiros, de parte a parte, em assal- 
toSy quando a 14 de Novembro de 1844 deu-se o grande 
combate ou surpresa de Porongos (^). 

Ao regressar do Estado Oriental, Canabarro, á frente de 



( I ) Poroní^o, cucurbitacea de que no Rio Grande do Sul se fazem cuias 
para mate, vasilhas para conduzir agua, bóias para redes de pescadores e para os 
que apprendcm a nadar. Ao norte do Brazil e em Portugal chamam cabaça. 



CAPITULO XXXV 521 



1.200 homens, acampara junto ao cerro dos Porongos, onde o 
exercito republicano esperou que, fixadas as condições de 
paz, cessasse a porfiada lucta de 9 annos. 

No dia 13 de Novembro, destacou o barão uma brigada 
commandada pelo tenente-coronel Francisco Félix da Fonseca 
Pereira Pinto para entreter tiroteio com a vanguarda de José 
Gomes Portinho, sem empenhar serio combate. Francisco 
Félix delegou o encargo em uma partida de Fidelis Paes, que 
travou no Quebracho pequeno tiroteio com as forças de 
Portinho, orçadas em 400 homens. Canabarro enviou como 
reforço á vanguarda 300 homens, sob o commando de Urbano 
Soares. 

Ao saber d'estes movimentos, Chico Pedro, emboscado na 
estancia da Conceição, perto da serra do Velleda, p6z-se em 
marcha com 1.170 soldados e na madrugada do dia 14 cahiu 
de surpresa sobre o acampamento farrapo. A desordem foi 
geral. O grito : É o Moringue ! É o Moringue I espalhou entre 
os revolucionários extraordinário pânico. 

Sem tempo de dar carga ás espingardas, os farrapos 
sustentam duro embate a espada e a lança, mas vêem-se 
forçados a abandonar o campo, deixando a Chico Pedro 
grandes trophéos de victoria: 333 prisioneiros, inclusive 35 
officiaes, toda a bagagem, abarracamento e armamento de 
infanteria, mais de 2.000 cartuchos, a ultima peça de arti- 
Iheria que possuíam, mais de i.ooo cavallos, muitos d^elles 
ensilhados, 5 estandartes e o archivo completo do general 

6G TOM. II 



522 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Canabarro. Os revolucionários tiveram 14 feridos e mais de 
100 mortos ('). Da parte legal, houve apenas 4 feridos. 

Depois da estrondosa victoria alcançada pelos imperialis- 
tas em Porongos, dirigiu-se o barão de Caxias a Bagé. 
Perguntou-lhe o vigário a que horas queria que se cantasse o 
Te Deum em acção de graças pelo memorável triumpho. 

Caxias deu ao sacerdote esta resposta singela e reveladora 
de seus altos Sentimentos de humanidade : 

— Reverendo. Precedeu a este triumpho derramamento 
de sangue brazileiro. Não conto como trophéos desgraças de 
concidadãos meus. Guerreio dissidentes, porém sinto as suas 
desditas e choro pelas victimas como um pae por seus filhos. 
Vá, reverendo, vá, e, em logar de Te Deum^ celebre missa de 
defuntos, que eu, com o meu estado maior e a tropa que 
na sua egreja couber, irei amanhã ouvir-lh'a, por alma dos 
nossos irmãos illudidos que morreram no combate (^). 

Para tratar Ja paz, António Vicente da Fontoura partiu 
a 16 para Bagé e d'ahi, a 19, para o Rio de Janeiro, 
acompanhado de seu ajudante Zeferino Martinho da Cunha; 



( 1 ) o desastre de Porongos é attribuido a grave descuido de Canabarro, 
que se deixara seduzir por uma mulher. Quando acampava, o general deixava 
muitas vezes a roda dos officiaes para entregar-se ás enervantes caricias de 
uma mundana, conhecida por Papagaia. 

( 2 ) Padre Joaquim Pinto de Campos : Vida do grande cidadão brasi- 
leiro Luiz Alves de Lima e Silva, barão, conde, marquez, duque de Caxias, 
desde o seu nascimento cm iSoj até 1S7S ( Lisboa, 1878 ) pag. 100. 



CAPITULO XXXV 523 



com elle seguiram os delegados de Caxias, coronel Manoel 
Marques de Souza e capitão Carlos Miguel de Lima e Silva. 

No mesmo dia em que se realizava a surpresa de 
Porongos, o tenente-coronel João Propicio, com 600 homens, 
derrotava, no passo do Leão, a Jacintho Guedes com força 
egual; a 28 de Novembro ainda Chico Pedro destroçava, 
junto ao Arroio Grande e próximo ao cerro dos Porongos, o 
coronel Joaquim Teixeira Nunes, que morreu combatendo 
heroicamente. 

Os extraviados foram a Pedra Sola reunir-se a Canabarro. 
Este general, illudindo a vigilância do coronel João Severo, 
fez juncção, no cerro Partido, com Bento Gonçalves e 
António Netto, e a 7 de Dezembro, com 800 homens, 
appareceu na Encruzilhada. Ahi, porém, viu-se repellido por 
forças do brigadeiro José Fernandes dos Santos Pereira e do 
tenente-coronel José Joaquim de Andrade Neves. 

A 29 de Dezembro, como ultimo golpe desfechado contra 
os farrapos, Vasco Alves, á frente de 100 homens, penetrou 
no território oriental á margem direita do rio Quaró, surpre- 
hendeu o coronel Bernardino Pinto, a quem feriu gravemente, 
matou 7 homens, aprisionou 4 officiaes e 13 soldados, e dis- 
persou a força revolucionaria. 

Sem elementos para combater, o general em chefe Cana- 
barro manteve-se nas proximidades da fronteira até que do 
Rio de Janeiro regressasse o emissário incumbido das propostas 
de paz. 

Varias tentativas de pacificação haviam sido feitas, sem 



524 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



resultado : a primeira, por José Pedroso de Albuquerque e 
Severino António da Silveira, em Setembro de 1843. Apre- 
sentava a clausula de ser o Rio Grande do Sul reconhecido 
como estado federado do Brazil. 

Fructuoso Rivera pretendeu ser o intermediário da paci- 
ficação: nada conseguiu pela desconfiança que inspirava ('). 

No dia 2 de Novembro de 1844, por deliberação dos che- 
fes republicanos, partiram dois emissários, padre Chagas e 
major António Vicente da Fontoura, a conferenciar com o 
barão de Caxias em Bagé, sobre as condições em que deveria 
ser firmada a paz. 

Depois de larga discussão, em que os farrapos obtiveram 
do barão concessões razoáveis, foi concordada a paz, a 6 de 
Novembro, anniversario da proclamação da republica em 
Piratiny. 

Os parlamentarios regressaram ao acampamento com a 
solução, acolhida com prazer pelos chefes reunidos em conse- 
lho — presidente da republica Gomes Jardim, ministro Manoel 
Lucas e generaes Canabarro, António Netto e João António. 

Receavam elles que, separado o Rio Grande da commu- 
nhão brazileira, fosse desde logo absorvido pela ambição de 



( I ) Km caria datada de 15 de Março de 1844 e dirigfida ao brigadeiro Bento 
Manoel, dizia o barão de Caxias em relaçio á interferência de Rivera : 

• Este velhaco crê que ainda nào está bera conhecido e que todavia poderá, 
como das outras vezes, tirar partido dos brazileiros, depois de os trahir, como 
tem por costume ; porém se engana d'esta vez. » 



CAPITULO XXXV 525 



Rosas e confederado á Republica Argentina: esta idéa sinistra 
feria-lhes os brios de brazileiros. 

Preferiam cessar as hostilidades a perderem a autonomia 
que conquistassem á custa de copioso sangue. 

Entre si deliberaram quem iria ao Rio de Janeiro ratificar 
as condições de paz e a escolha recahiu em António Vicente 
da Fontoura: este partiria a 13 de Novembro com destino ao 
quartel general do barão e d^ahi seguiria para a corte. 

Quando assim se tratava seriamente da pacificação, deu-se 
a 14 o combate de Porongos, facto que se não deve considerar 
uma traição de Caxias, porque elle havia sido franco em 
declarar na conferencia que em caso algum annuiria á sus- 
pensão de annas. 

Em Fevereiro de 1845 regressaram da corte Fontoura e 
seus companheiros de commissão. 

Reunidos os chefes e forças republicanas no acampamento 
da Carolina, em Poncho Verde, foL resolvido unanimemente, 
no dia 25 de Fevereiro de 1845, V-^^ se firmasse a paz, sob as 
seguintes condições : 

I.* Será approvada pelo governo imperial a designação, 
feita pelos republicanos, da pessoa que deverá presidir á 
provinda. 

2.* Serão pagas pelo governo imperial as dividas contra- 
hidas pela republica. 

3.* Os officiaes republicanos passarão para o exercito 
imperial no goso dos mesmos postos. Os que não quizerem 



526 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



servir não serão obrigados a alistamento na guarda nacional 
ou na I.* linha. 

4.* Serão considerados livres os escravos que serviram 
como soldados da republica. O governo indemnizará aos 
ex-senhores o prejuiza 

5.* Não serão reconhecidos em suas patentes os generaes, 
mas gosarão das immunidades concedidas aos outros officiaes. 

6.* Os soldados da republica ficarão isentos de recruta- 
mento. 

A esta reunião não compareceu, por doente, o presidente 
José Gomes de Vasconcellos Jardim, que se fez representar 
pelo ministro Manoel Lucas de Oliveira. Bento Gonçalves 
da Silva, também ausente, enviou carta de approvação. 

Em nome do presidente, pronunciou Manoel Lucas um 
discurso, de que transcrevemos os seguintes tópicos, allusivos 
ao ambicioso dictador de Buenos Ayres : 

« Briosos concidadãos e amigos ! Attentai para a nuvem 
carregada e medonha que ha tempo troveja para o lado Occi- 
dental d'este Império e que despedirá raios sobre nossas cabe- 
ças, si nos não apressurarmos a conjural-a, conhecendo que 
soffreremos primeiro que nenhiun outro povo. O Império do 
Brazil, por um rasgo de sua philantropia, nos vai hoje reunir 
ao grémio da Illustre Família de quem todos descendemos, 
acto nobre e magnânimo a que accedemos unanimemente, 
pelo bem que d'elle resulta ao interesse geral. » 

O general em chefe do exercito republicano, David Cana- 
barro, fez publicar, a 28 de Fevereiro, esta proclamação: 



CAPITUI<0 XXXV 527 



«Concidadãos! Competentemente auctorizado pelo magis- 
trado civil, a quem obedecíamos, e na qualidade decomman- 
dante em chefe, concordando com a unanime vontade de todos 
os officiaes da força de meu commando, vos declaro que a 
guerra civil, que por mais de 9 annos devasta este bello paiz, 
está acabada. 

w A cadeia de successos por que passam todas as revoluções 
tem transviado o fim politico a que nos dirigíamos, e, hoje, a 
continuação de uma guerra tal seria o tíllimattim da destrui- 
ção e do anniquilamento de nossa terra. Um poder extranho 
ameaça a integridade do Império, e tão insólita ousadia jamais 
deixaria de echoar em nossos corações brazileiros. 

« O Rio Grande não será theatro de suas iniquidades, e nós 
partilharemos da gloria de sacrificar os resentimentos creados 
no furor dos partidos, ao bem geral do Brazil. 

ff Concidadãos ! Ao desprender-me do grau que me havia 
confiado o poder que dirigia a revolução, cumpre assegurar- 
vos que podeis volver tranquillos ao seio de vossas famílias. 
Vossa segurança individual e de propriedade está garantida 
pela palavra sagrada do Monarcha, e o apreço de vossas vir- 
tudes confiado ao seu magnânimo coração. União, fraterni- 
dade, respeito ás leis, e eterna gratidão ao inclyto presidente 
da província, o Ulmo. e Exmo. Sr. Barão de Caxias, pelos 
afanosos esforços que ha feito pela pacificação da província. 

«Campo em Poncho Verde, 28 de Fevereiro de 1845. 
— David Canabarro, 

Logo que o barão de Caxias teve participação official das 



528 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



duas declarações de paz, enviou ao general David Canabarro, 
para que fosse lida ás tropas de seu commando, a procla- 
mação seguinte: 

• Rio GrandensesI E sem duvida para mim de inexpri- 
mivel prazer o ter de annunciar-vos que a guerra cÍNâl que, 
por mais de 9 annos, devastou esta bella provincia, está 
terminada. Os irmãos contra quem combatiamos estão hoje 
congratulados comnosco e já obedecem ao legitimo governo 
do Império Brazileiro. S. M. o Imperador ordenou, por 
decreto de 18 de Dezembro de 1844, ^ esquecimento do 
passado, e mui positivamente recommenda no mesmo decreto 
que taes brazileiros não sejam judicialmente, nem por qual- 
quer outra maneira, perseguidos ou inquietados pelos actos 
que tenham sido praticados durante o tempo da revolução. 
Esta magnânima resolução do Monarcha Brazileiro ha de ser 
religiosamente cumprida, eu o prometto sob minha palavra 
de honra. Uma só vontade nos una. Rio Graudenses! Mal— 
dicção eterna a quem ousar recordar-se das nossas passadas 
dissenções! União e tranquillidade sejam de hoje em deante 
a nosssa divisa I 

«Viva a Religião I 

"Viva o Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo 
do Brazil I 

«Viva a integridade do Império! 

«Qiiartel-general da Presidência e do Commando em Chefe 
do líxercito, no campo de Alexandre Simões, margem direita 
do Santa Maria, i.^ de Março de 1845. — Barão de Caxias. 



CAPITULO XXXV 529 



No mesmo dia, os revolucionários, em obediência á con- 
dição primeira do tratado de paz, indicavam para presidente 
da provincia o próprio barão de Caxias e dissolviam-se, 
entregando 120 escravos, uma typographia e dois canhões 
de bronze desmontados. 

Assim terminou a guerra civil rio-grandense, começada 
a 20 de Setembro de 1835 e concluida, por declaração dos 
farrapos, em Poncho Verde, a 28 de Fevereiro de 1845. 

Hoje, que nos achamos em pleno goso da Republica 
Federal — aspiração pela qual tanto combateram os farrapos 
— é occasião opportuna de se erguer um monumento á 
memoria de Bento Gonçalves da Silva, como um symbolo 
da bravura e da elevação de idéas do Rio Grande do Sul, 
É preciso que de modo honroso para o torrão sulista seja 
apontado á posteridade o vulto marcial do guerrilheiro rio- 
grandense ('), bellamente fundido em bronze ou cinzelado 



( I ) o clegrautc escriptor catharincnse Virgílio Várzea apresentou, em um 
trecho de seu livro Garibaldi na Anwrica, publicado no Jornal do Commercio 
do Rio de Janeiro, este retrato de B^nto Gonçalves : 

«Era uma bella figura de homem. Parecia-se extraordinariamente com o 
marechal Ney . . . Tinham ambos a mesma fronte ampla, expressiva, os mesmos 
olhos grandes c mcntaes, as mesmas suissas pequenas, mas cheias, descendo até 
quisi aos cantos do bigod3 irreprchcnsivelmentc escanhoado como as demais 
partes da barba, cal>elleira vagamente annellada e puchada para a testa nas têm- 
poras, bocca vigorosamente talhada em recta, de lábios delgados, significativos, 
externando vigor de animo inquebrantável, calma, vontade imperiosa, firmeza 
moral, den/Sdo, tenacidade. 

« Alto, cheio, espadaúdo, de pellc clara c rosada, olhar vivo e intelligcntc, 
os cabollos castanhos onde começavam já de alvejar os primeiros fios de prata, 

67 TOM. u 



530 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



em mármore, como testemunho de gratidão e homenagem 
de immorredouro apreço a um exemplo de rara dedicação 
pela causa republicana. 

Alguns preitos de admiração lhe têem sido tributados no 
Rio Grande do Sul e os registamos com prazer n'estas 
Memorias. 

A 23 de Setembro de 1899, na villa do Triumpho, 
collocou-se no frontispício da casa em que nasceu Bento 
Gonçalves uma placa de metal com a seguinte inscripção: • 

Homenagem prestada ao general Bento Gonçalves 
DA Silva, chefe da revolução rio-grandense, 

NASCIDO N'ESTA CASA A 23 DE SETEMBRO DE 1788. 

Esta placa foi mandada collocar pelo tenente-coronel 
Manoel António Pires, commandante do i.° batalhão da bri- 
gada militar, que residia na referida casa. 

• A 21 de Agosto de 1900 chegaram ao Rio Grande, 
trazidos pelo hiate Doca^ procedente de S. João Baptista de 
Camaquam, os ossos de Bento Gonçalves, que foram entregues 
por seu único filho sobrevivente, capitão Joaquim Gonçalves 
da Silva, ao infatigável historiador rio-grandense Alfredo 
Ferreira Rodrigues e por este cidadão confiados á intendência 



agradava e aUrahia a quantos se lhe approximavam. A este physico possante e 
rijo, juntavam -se, dando a todos a m?lhor impressão, a sua linha naturalmente 
erecta e o seu innato e despretencio.so garbo marcial, que o traziam em constante 
relevo nas rodas militares. , . » 



CAPITULO XXXV 531 

Municipal da cidade do Rio Grande, até que se levante um 
monumento em cuja base deverão ser depositados. 

A 20 de Setembro de 1900, 65.° anniversario do rompi- 
mento da revolução dos farrapos, a cidade do Rio Grande 
promoveu uma festa civica á memoria do heróico revolu- 
cionário. 

Segundo apontamentos colhidos de uma gazeta da locali- 
dade, o Rio Grandense^ a uma hora da tarde doesse dia, 
pôz-se em marcha da Intendência Municipal immenso préstito 
popular precedido pelo piquete do 6.° districto militar e pelo 
esquadrão de cavallaria da guarda municipal. D'elle fa^^iam 
parte todas as bandas de musica e associações existentes na 
cidade, com seus estandartes, corpo consular, imprensa, lojas 
maçónicas, auctoridades civis e militares, funccionarios 
públicos, coUegios, além dos representantes do presidente e 
auctoridades superiores do Estado, dos commandantes do 6.° 
districto militar e da flotilha, dos intendentes das diversas 
municipalidades. No centro da procissão civica ia um andor, 
vistosamente enfeitado para conduzir a urna de mármore 
com os despojos de Bento Gonçalves. Formavam-lhe guarda 
de honra diversos officiaes do exercito, marinha, brigada 
militar e guarda nacional. 

O préstito estacionou no cães, seguindo em escaler 
especial os membros da Commissão Glorificadora composta 
do intendente dr. Conrado Miller de Campos, dr. Arlindo 
Corrêa Leite e Alfredo Ferreira Rodrigues. Acompanhandoos, 



532 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

veiu O filho do heroe rio-grandense, capitão Joaquim Gonçal- 
ves da Silva, que pronunciou estas palavras : 

« Esta uma contem os ossos do general Bento Gonçah-es 
da Silva, meu respeitável Pae. Por mais de 50 annos 
conservei-os sob minha guarda, e n'este momento solemne, 
n'este grandioso e memorável dia, tão cheio de gloriosas 
recordações, eu vol-os entrego para que os entregueis ao 
patriota e digno dr. intendente, representante da municipali- 
dade d'esta heróica cidade. » 

Uma força do exercito fez, na passagem da urna, a conti- 
nência de apresentar armas. 

Pôz-se de novo em marcha o préstito e seguiu para o 
paço da intendência, onde o dr. Arlindo Corrêa Leite pro- 
nunciou discurso congratulatorio ao povo. Em seguida, 
muitas alumnas de aulas publicas cantaram o hymno revolu- 
cionário dos farrapos. 

A Commissão Glorificadora fez entrega dos venerandos 
despojos do general gaúcho ao Conselho Municipal, que se 
achava reunido. 

lUuminaram-se á noite os edifícios públicos, estabeleci- 
mentos commerciaes e casas particulares, constituindo-se alvo 
de applansos públicos o velho farroupilha capitão Joaquim 
(ionçalves da Silva. 

A 22 do mesmo mez, ás 3 horas da tarde, procede u-se á 
cerimonia da collocação da acta na urna de mármore, que foi 
sellada pelo capitão Joaquim Gonçalves, pelo intendente e 
por Alfredo Ferreira Rodrigues. 



CAPITULO XXXV 533 



Dizia a acta : 

«Aos vinte dias do mez de Setembro do anno de mil 
e novecentos, reunidos os membros da Commissão Glorifica- 
dora e demais pessoas, representantes da familia e membros 
do Conselho Municipal na casa do governo d'este municipio 
do Rio Grande, resolveram lavrar a presente acta com uma 
ligeira exposição previa e resumida. 

a Em i8 de Julho de 1847 falleceu Bento Gonçalves da 
Silva, em casa de José Gomes de Vasconcellos Jardim, nas 
Pedras Brancas, sendo sepultado na povoação, com assistência 
dos filhos e pessoas de familia. 

tf Em fins de 1850, o capitão Joaquim Gonçalves da Silva, 
filho mais velho do general, foi assistir á exhumação, tendo 
verificado cuidadosamente o local da sepultura e a authenti- 
cidade dos despojos encontrados. Levou-os em seguida para a 
casa da familia, na estancia do Crystal, em S. João do 
Camaquam, onde estiveram sob sua guarda até Setembro de 
1893, data em que se retirou para Bagé, ficando os despojos 
mortaes de seu pae confiados a seu innão Bento Gonçalves 
da Silva, até o dia de sua morte em 14 de Novembro de 
1897, e depois á sua cunhada Maria Thomazia de Azambuja 
Gonçalves, viuva d'aquelle coronel. 

«Em i.° de Agosto de 1900, foram por esta entregues, 
por deliberação do único filho sobrevivente, o capitão Joaquim 
Gonçalves da Silva, ao capitão Ignacio Azambuja, parente 
próximo e intimo amigo da familia, o qual se encarregou de 
transportal-os com toda a segurança para a cidade do Rio 



534 MEMORIAS BRAZILBIRAS 



Grande, onde chegaram no dia 21 de Agosto, a bordo do 
hiate Doca^ sendo logo recolhidos á residência do referido 
capitão Azambuja. 

if Em 18 de Setembro, foram entregues ao capitão Joaquim 
Gonçalves da Silva, que n'esse dia chegou de Bagé e que os 
reconheceu e guardou até o dia 20 de Setembro, em que 
foram encerrados na urna de mármore offerecida pela Inten- 
dência Municipal do Rio Grande, pelo próprio capitão 
Joaquim Gonçalves da Silva, na presença de Caetano Gon- 
çalves da Silva, neto do general, Nicanor Rodrigues Barbosa, 
capitão Ignacio Azambuja, João Alt, João King, que tirou 
uma photographia do acto, e de João Frant^isco Bueno, 
patrão do hiate Villeta^ para onde tinham sido levados pouco 
antes e d'onde foi a urna transportada para o escaler em que 
foi recebel-a a Commissão Promotora do Monumento Com- 
memorativo ao general rio-grandense, composta dos drs. Q>n- 
rado Miller de Campos, Arlindo Corrêa Leite e Alfredo 
Ferreira Rodrigues, acompanhados dos senhores capitão de 
fragata Gustavo António Gamier, capitão do porto, i.^ tenente 
Alberto Carlos da Cunha, representando o capitão de mar e 
guerra Joaquim Thomaz da Silva Coelho, commandante da 
flotilha, tenente-coronel Procopio Barretto Meirelles, represen- 
tando o general Cláudio do Amaral Savaget, commandante 
do 6.° districio militar, e, em outros escaleres, diversos 
officiaes do exercito, marinha, brigada militar do estado e 
guarda nacional. 

«Ao desembarcar na escada do cães, em frente á rua 



CAPITULO XXXV 535 



Benjamin Constant, o capitão Joaquim Gonçalves da Silva 
fez entrega dos despojos mortaes á Commissão Promotora do 
Monumento, como representante do povo do Rio Grande. 

«E para certificar em todo o tempo a identidade dos 
despojos mortaes, lavrou-se a presente acta, de que se fizeram 
sete exemplares, devendo ser remettido um ao sr. desembar- 
gador dr. António Augusto Borges de Medeiros, presidente 
do Estado, e entregue um a cada um dos membros da com- 
missão, outro guardado no archivo da Intendência Municipal 
e outro encerrado na urna, que foi depois fechada e lacrada 
com o sinete da Intendência. 

« E por estar tudo conforme com a verdade, vae a presente 
assignada pelas testemunhas presentes e pessoas interessadas. 

«Eu, João Bernardino dos Santos Conde, secretario do 
municipio, subscrevo a presente acta com a seguinte decla- 
ração complementar : 

« O sétimo exemplar doesta acta será entregue ao venerando 
capitão Joaquim Gonçalves da Silva. 

^Joào Bernardino dos Santos Conde^ secretario do muni- 
cipio, Joaquim Gonçalves da Silva^ Caetano Gonçalves da 
Silva^ Clara Gonçalves^ Ignacio Azambuja^ Nicanor Rodri- 
gues Barbosa^ João Alty Frederico Ernesto Boaventura 
Dias^ Lepnidio Pereira das Neves^ António B. PrimOy Ernesto 
Alves de Castro^ Theophilo C Lopes^ Carlos C Mattos^ 
Conrado Miller de Campos^ Arlindo da Costa Corrêa Leite^ 
Alfredo Ferreira Rodrigues, » 



536 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



A 27 de Setembro, ao retirar-se do Rio Grande, o capitão 
Joaquim Gonçalves da Silva fez publicar o seguinte, eui todos 
os jornaes da cidade : 

Ao Rio Grande 

«Rendo graças á Providencia Divina por me haver pei- 
mittido presenciar as magnificentes homenagens prestadas 
pela culta população do Rio Grande á memoria de meu 
respeitabilissimo Pae, o general Bento Gonçalves da Silva, 
a 20 de Setembro de 1900, 65.° anniversario do movimento 
revolucionário por elle chefiado. 

« Na qualidade de único filho sobrevivente do inesquecível 
varão, deixo n'estas linhas expressa a minha gratidão immor- 
redoura a todos quantos concorreram para a deslumbrante 
apotheose em honra de tão preclaros restos. 

« Em primeiro logar está o estimável cavalheiro, o Ulmo. 
Sr. Alfredo Ferreira Rodrigues, a quem a cidade do Rio 
Grande deve a preferencia de possuir hoje a sagrada relíquia 
que eu conservava, por ella velando com a veneração que 
dev^o áquelle que nunca deixou de povoar a minha alma com 
as mais doces recordações. Foi elle o escriptor interessado 
em reviver os factos do passado e a desentranhar dos velhos 
archivos a verdade sobre os homens de 35, e quem de mim 
conseguiu a entrega dos ossos de Bento Gonçalves a este 
municipio. 

«Cabe depois a vez aos Exmos. Srs. Dr. Conrado Miller 
de Campos, illustrado intendente municipal, e Dr. Arlindo 



CAPITUI^O XXXV 537 



Corrêa Leite, talentoso promotor publico da comarca, os 
qiiaes, coiii aquelle consciencioso historiador das glorias 
gaúchas, constituiram a Commissão Glorificadora,^ que com 
tanto critério dirigiu as cerimonias de 20 do corrente, até ás 
homenagens pessoaes que generosamente me foram tributadas. 
«Rio Grande, 26 de Setembro de 1900. — Joaquim Gon- 
çalves da Silva, » 

Ao concluir a exposição da guerra dos farrapos, em seus 
traços geraes, de accordo com o plano doesta obra, applaudimos 
o modo por que foi feita a paz, concedendo o governo imperial 
todas as garantias aos revolucionários, como testemunho de 
publico apreço á coragem e á rara valentia que desenvolveram 
em favor da causa da Republica, a mais alta aspiração da 
civilisação universal. 



^ 



CAPITULO XXXVI 



A Sabinada ou Guerra civil na Bahia a 7 de Novembro de 1837. 

Dr. Joaquim Sabino Alvares da Rocha Vieira. 

General JoAo Chrvsostomo Callado e tenente-coronel 

JosÊ Joaquim Coelho. Homenagem ao Dr. Sabino 

Vieira — 1837-1838-1896. 



^MQUANTO ardia a guerra civil 110 Rio Grande do Sul, 
a cidade do Salvador, capital da Bahia, representada por 
alguns homens de importância social, promoveu um grande 
motim a 7 de Novembro de 1837, com o fim de se proclamar 
o governo da provincia independente do governo regencial 
que interinamente dirigia os destinos de nossa pátria, sob a 
direcção do senador Pedro de Araújo Lima, depois marquez 
dé Olinda, empossado do cargo desde 19 de Setembro do 
mesmo anuo. 

Como no movimento sedicioso figurasse, no caracter de 
uma das principaes influencias, o estimado e popular medico 



540 MEMORIAS BRAZILEI&AS 



bahiano, dr. Francisco Sabino Ah^ares da Rocha Vieira, teve 
o motim a denominação de Sabinada (*). 

A anarchia, em que se debateu a capital, durou quatro 
mezes e nove dias (de 7 de Novembro de 1837 a 16 de Março 
de 1838), período angustioso para uma grande cidade que se 
viu entregue ás incertezas de politicos sem ideal, sem orien- 
tação, inspirados apenas por suas paixões partidárias. 

í)á sabinos ou raposas^ como os legaes lhes chama- 
vam (^), queriam a provincia independente só durante a 
menoridade de D. Pedro II ; attingida a maioridade do prin- 
cipe, voltariam os rebeldes a obedecer ao governo do Rio de 
Janeiro: a Sabinada foi, portanto, uma questão puramente 
pessoal, sem significação de ordem transcendente, e, em 
ultima analyse, uma revolta sem ponto de vista republicano. 

A esta convicção nos leva a simples exposição dos factos. 

Das 8 para as 9 horas da noite de 6 de Novembro de 1837, 
ouviram-se toques de rebate no quartel do forte de S. Pedro 
e para este local accorreram muitos cidadãos que foram fazer 



( I ) Hscreveram sobre a Sabinada: dr. Joiquim Pires Machado PorteHa 
( Ktv. dl) Inst. líisí. f Geog. do fíraz. tom. XLV, 2.-* part.. pag. 13); dr. 
Moreira de Azevedo '. mesma obra. tomo XLVII, 2.* part., pag. 283 e Historia 
Pairia, Rio de Janeiro. l^S4 ) ; dr. .\. V. A. Sacramento Blake {Rev. do Insl. 
I/isí. c Gcog. dit lira:, tom. XLVIII, 2.^ part., pag. 245 e tom. L, 2.» part., pag. 
177); Henrique Praguer i A Sabinada, Bihia, 1889); Urbano Neves { Rcz'. do 
ÍHst. (iroíT. € Hist. da Hafiia, vol. III, pag. 3S3 ) ; dr. Francisco Vicente Vianna 
^ mesmi obra, vol. IV. pag.s. 187 c 571 : vol. V, pag. 417; vol. VII, pag. 261 ). 

í 2 ) Os raposas (relxrldes) deram aos legaes o appellido de pfrus. 



CAPITULO XXXVI 541 



causa coiiiinuin Com a tropa amotinada — officiaes e soldados 
do 3.° corpo de artilheria de posição. Não tardou que a estes 
sediciosos se reunissem officiaes e soldados do 3." batallião 
de primeira linha, erguendo vivas á liberdade e á união 
brazileira. 

N'essa mesma noite, scientificado o presidente da provin- 
cia, dr. Francisco de Souza Paraíso, de que as tropas da cidade 
moviam-se em favor da rebelliáo, tratou de embarcar, no 
arsenal de marinha, em companhia do commandante das 
armas, tenente-coronel Luiz da França Pinto Garcez, e foi 
acolher-se a bordo do brigue de guerra Trcs de Maio; doeste 
navio officiou, no dia 7, ao tenente-coronel Alexandre Gomes 
de Argollo Ferrão, depois barão de Cajahyba ('), convi- 
dando-o a auxilial-o na reacção que se devia operar. 

No mesmo dia 7 de Novembro, ás 11 horas- da manhã, 
sahiram do forte de S. Pedro os revoltosos, dirigiram-se á 
Praça de Palácio e, por meio de toques do sino da Camará, 
reuniram os vereadores. Concordes com o movimento revo- 
lucionário, os representantes do municipio fizeram lavrar esta 
importante acta : 



( I ) Alexandre GomeB de Ar^rollo Ferrão nasceu na cidade du Saljrador da 
Bahia no principio de i8op e faUeccu na mesma cidade a lo de Maio de 1S70, no 
posto de marechal de campo. 



542 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



SESSÃO EXTRAORDINÁRIA DE ^ DE NOVEMBRO DE 1837 

<f Aos sete dias do inez de Novembro de mil oitocentos e 
trinta e sete, presentes o Sr. Presidente Souza Gomes e verea- 
dores Antunes, Villaça, Lúcio, Teixeira e Barbosa de Almeida, 
servindo este de secretario por grave impedimento de saúde do 
actual José de Barros Reis, concorreram aos paços da Camará 
Municipal doesta cidade as pessoas mais gradas da provincia, 
auctoridades militares e civis e grande numero ou concurso 
de povo de todas as classes e fizeram declarar que a opinião 
geral da provincia continlia-se nos seguintes artigos, que 
foram altamente lidos pelo advogado José Duarte da Silva. 

« Declaração: — A tropa, povo bahiano, guardas nacionaes 
e policiaes, reunidos no forte de S. Pedro, em vista das 
necessidades publicas e das bem conhecidas más intenções 
do governo central, que a todas as luzes procura enfraquecer 
as províncias do Brazil e tratai-as como colónias, com notável 
menoscabo de sua dignidade e categoria, têem deliberado os 
seguintes artigos : 

«Art. i.** A provincia da Bahia fica inteira e perfeita- 
mente desligada do governo denominado central do Rio de 
Janeiro, e considerado Estado livre e independente pela 
maneira por que for confeccionado o pacto fundamental, que 
organizar a Assembléa Constituinte, que deverá desde já ser 
convocada, precedida a eleição de eleitores na capital, e ao 
mesmo tempo proceder-se por toda a provincia á eleição de 
eleitores que elegerão nova assembléa para desenvolver as 



CAPITUI^O XXXVI 543 



bases apresentadas pela primeira. O numero de deputados 
será de trinta e seis. 

« Art. 2.** O sr. Innocencio da Rocha Galvão é nomeado 
para presidir o Estado, e, na sua ausência, aquelle que fôr de 
presente directamente eleito. O commandp.das annas fica ao 
cargo do sr. major do 3.*^ corpo de artilheria Sérgio José 
Velloso, elevado a coronel eflFectivo e brigadeiro graduado, 
em attençáo aos relevantes serviços por elle prestados. 

«Art. 3.*^ Os demais officiaes militares gosarão de dois 
postos de accesso, attentos os seus serviços e preterições que 
hão soffrido. 

«Art. 4.*^ O commando do brioso corpo de artilheria é 
confiado ao sr. major Innocencio Eustachio Ferreira de 
Araújo, no posto de tenente-coronel effectivo e coronel 
graduado. 

«Art. 5.** O governo executivo proverá a segurança da 
província com aquella tropa que fôr necessária, nomeando 
officiaes de sua confiança, e tendo sempre em vista aquelles 
das extinctas milícias que têem prestado importantes serviços 
á Pátria. 

«Art. 6.° Fica elevado ao posto de tenente-coronel o 
sr. i.° tenente Daniel Gomes de Freitas, e a major o sr. 2.® 
tenente José Nunes Bahiense, attentos os seus serviços. 
O soldo da tropa de linha fica egualado ao do corpo de 
policia.» 

« Depois d'esta leitura, que foi approvada por acclamação 
das pessoas que se achavam presentes, houve o sr. presidente. 



544 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



cni vista do art. a.", lembrar que se devia nomear, desde já, 
quem houvesse interinamente de tomar conta da presidência 
do Kstado, visto que a provincia se achava acephala ; razão 
por que a Camará se havia reunido, e sendo por um dos 
concorrentes apontado o sr. João Carneiro da Silva Rego, 
foi unanimemente eleito, e a Camará o convidou para tomar 
conta das rédeas do governo, depois de prestar o respectivo e 
necessário juramento de bem desempenhar o logar para que 
interinamente tinha sido eleito e acceitado; feito o que, e 
deix)is de dois discursos recitados pelo mesmo senhor eleito 
e pelo sr. Francisco Ribeiro Neves, retirou-se o povo, e o 
sr. presidente da Camará houve a sessão por levantada. 
Hahia, 5cte de Novembro de mil oitocentos e trinta e sete. 
K eu, Luiz António Barbosa de Almeida, vereador servindo 
de secretario, o escrevi e assignei». 

Sc*>uc-se grande numero de assignaturas ('). 



V I ) Para que se não repila que a Sabinada, na phrasc injusta do conse- 
lluito IVrcira da Silva, ft>i ;/;;/ partido rvcruiado uas in/iifias r/assrs da 
pitht ( * K oilanios. cnlre os siifUíilarios, alguns cidadAos distinctos: 

O dr. I.uiz António Ikirbosa do Almeida, que posteriormente foi na Bahia o 
chefe dos lilHTacs lnstt>ricos ; deputado em muitas leg^islaturas á assembléa 
Reral ; presidente <la Bahia por oocasiAo da ^erra do ParaífU-'»y : redactor do 
StYNÍo em iS|S e do .l/i);//A);em 1S7S; senador á assembléa constituinte bahtana ^ 
ilosemlwrjfador da RelaçA*» da Bahia e dei>ois ministro do Supremo Tribunal 
d»» Justiça, earjio em que se aposentou. 

Domingos fiuedos Cabral, natur.il do Rio (>rande do Sul ■ Pelotas^ que de 
is;(»a 1842 niAuteve umigi/^ta francAnunte rcpublic.inaintitulad.i O Guiivcurú, 
a qual ti azia no cabeçalho estes dois versos do Almeida Garrett: 
D.i liberdade a arvore náo cresce 
Si a nj\o regar dos déspotas o sangue ( ** ». 



CAPITULO XXXVI 545 



Vê-se, por esta acta, que a província da Bahia procla- 
mava-se livre . e independente, sem restricção de praso. 
Reconhecendo, porém, os chefes revolucionários que a idéa 
separatista nenhuma repercussão encontrava, tanto no Recôn- 
cavo (^) como nas demais partes, apressaram-se em alterar 
profundamente aquelle documento, mandando lavrar nova 
acta, a ir do mesmo mez, na qual se declarou que a 



o coronel commandante da guarda iiacioual, Ignacio Accioly de Cerqueira 
Silva, auctor das Memorias Históricas e Poíiticas da Provinda da Bahia 
e sócio do Inslitulo Histórico e Geographico do BrazU. 

Médicos, dr. Joào Antunes de Azevedo Chaves, dr. Sabino Vieira, dr. Fran- 
cisco Quirino Gomes, dr. Igrnacio da Silva Oliveira e dr. Silvino José de Moura. 

Pertencentes á jurisprudência, o citado dr. I,uiz António, dr. António Gomes 
Villaça, dr. Joào Carneiro da Silva Rego Filho, dr. António José Pereira dç 
Albuquerque, dr. Manoel Pinto Ribeiro de Bulhões e o advogado Lúcio Pereira 
de Azevedo. . 

Oi tabclliães Manoel Pinto da Cunha e Francisco Ribeiro Neves. 

O professor António Gentil Ibirapitanga, auctor de uma grammatica da lin- 
gu.i portugu eza. 

0:i funccionarios públicos Francisco Fausto da Silva Castro e José Pedro 
Bastos Varella. 

O^ commerciantes Luiz de Souza Gomes, Manoel Gomes Pereira, JoAo 
Carneiro d.i Silva Rego, Manoel Joaquim Coelho Travessa e Jo.sé Joaquim 
Florença. 

Capitalistas e fazendeiros Cláudio Tiburcio Moreira, Rodrigo Xavier de 
Figueiredo Ardignac, Manoel José Pereira, dr. Francisco Vicente Vianna 
( i.o barão do Rio de Contas). 

li os parentes <lo dr. Barata, Francisco J. Barata de Almeida e José Ray- 
mundo Barata de Almeida. 

( * ) J. M. PicRKiRA i).\ Silva : Historia do Brazil durante a menoridade 
de J). Pedro II ( Rio de Janeiro, 2.^ edic, sem data ), pag. 241. 

{ ** ) Tragedia Catão, acto IV, scena III (palavras de Marco-Bruto ) . 

( I ) Na Bahia denomina-se Recôncavo a zona de terra banhada pela bahia 
de Todos os Santos em sua ampliaçfto para o interior. 

CU TOM. II 



546 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



separação só vigoraria durante a menoridade do príncipe 
D. Pedro. 

Pelo confronto das duas actas reconhece-se o estado de 
vacillação em que se achavam os espirítos. 

SKSSÃO EXTRAORDINÁRIA EM II DE NOVEMBRO DE 1837 

«Presentes os srs. Luiz António Barbosa de Almeida, 
Lúcio Pereira de Azevedo, dr. João Antunes de Azevedo 
Chaves, Vicente José Teixeira e António Gomes Villaça, 
faltando com parte de doente o sr. Souza Gomes e sem ella 
os srs. Abreu, Angelo da Costa e Ponce de I^ão, tomou o 
logar de Presidente da Camará o sr. Luiz António Barbosa 
d'Almeida e declarou que o objecto da sessão de hoje era 
uma portaria do Vice-Presidente d'este Estado, que mandou 
convocar a Camará a fim de que, á vista da representação 
que remettia, assignada pela maioria dos cidadãos que 
assistiram ao acto da acclamação da independência d'esta 
provincia, pedindo declaração na acta de sete do corrente 
acerca de considerar-se a independência somente até á 
maioridade do Imperador sr. D. Pedro II, em conformidade 
do art. 121 da Constituição do Império, fizesse a Camará a 
referida declaração ; depois do que, o sr. Presidente mandou ler 
o predito officio e representação, que são do theor seguinte: 

•í Officio: — Recebendo este governo a inclusa representação 
assignada por mais da maioria dos cidadãos que assistiram 
ao acto (la acclamação da independência doeste Estado, ua 



CAPITULO XXXVI 547 



qual mostram ter havido omissão na acta que ante essa 
Camará foi lavrada em o memorável dia 7 do corrente mez, 
em que teve logar a dita acclamação, quanto a não se ter 
expressamente declarado que a separação da província em 
Estado independente era até á maioridade de S. M. o 
Imperador sr. D. Pedro II, como diz o artigo cento e vinte 
e um da Constituição para o Império do Brazil, transmitto 
a Vmcs. a mencionada representação, para que, mandando 
lavrar uina acta da declaração requerida, façam isso mesmo 
publicar por editaes, convidando ao mesmo tempo os cidadãos 
que quizerem assignar a referida declarado. — Deus Guarde 
a Vmcs. — Palácio do Governo da Bahia, onze de Novembro 
de mil oitocentos trinta e sete. — João Carneiro da Silva 
Rego, Srs. Presidente e Vereadores da Camará Municipal 
doesta cidade. 

a Representação: — Ulmo. eExnio. Sr. Os cidadãos abaixo- 
assignados, desejosos de que a tranquillidade publica por 
nenhuma maneira soíFra a mais leve alteração, por isso que 
se ha conhecido que o lapso de penna da acta que teve logar 
em o memorável dia sete do corrente, ante a Camará Muni- 
cipal, quanto a não se ter expressamente declarado que a 
.separação doeste Estado será até á maioridade de dezoito annos 
de S. M. o Imperador, o Sr. D. Pedro JI, como diz o artigo 
cento vinte e um da Constituição para o Império do Brazil, 
ha introduzido receios e desconfianças n'esta capital, em 
consequência de ter-se assentado n'esta medida, quando se 
tratou do glorioso feito promovido n^aquelle dia, e por aquella 



548 MEMdRIAS BRAZILEIRAS 



acta, vêm representar o expendido a V. Exa. para que se 
digue, com a brevidade possivel, convocar a Camará Municipal 
e as classes geraes doeste Estado, a fim de que, reunidas, se 
proceda em acta á mencionada declaração, pois que estão 
convencidos de que esta medida é tanto de summa vanta- 
gem, quanto a única capaz de fazer conseguir todos os âni- 
mos a abraçarem a causa proclamada, livrando o Estado 
do flagello que ordinariamente se experimenta, quando as 
mudanças politicas do governo não são unanimemente abra- 
çadas. — Bahia, nove de Novembro de mil oitocentos trinta 
e sete (seguiam-se^ assignaturas). 

« E resolveu-se que se mandasse publicar por editaes, não 
só a declaração feita, senão também o convite aos cidadãos 
para que comparecessem no paço d'esta Camará, a fim de 
assignarem a presente acta, que se mandou imprimir. Feito 
o que, passou-se á nomeação interina de Juiz Municipal para 
a cidade, em consequência do impedimento de moléstia do 
actual, e foi eleito o bacharel formado António José Pereira 
de Albuquerque, a quem se mandou fazer o competente aviso 
para vir prestar o juramento do estylo. Fecliou-se a sessão. 
Luiz António Barbosa de A/metday Presidentç. — /oão Car- 
neiro da Silva RegOy Vice-Presidente. — Francisco Sabino 
Alvares da Rocha Vieira^ Secretario (^). 

(Seguem-se mais 26 assignaturas). 



( I ) No anno de 1833 deu-se com o dr. Sabino Vieira um facto lamentável 
que precisa de ser esclarecido para que fique accentuado o pundonor do concei- 
tuado bahiano. 



CAPITULO XXXVI 549 

' Do brigue Três de Maio passaiido-se para o brigiie-barca 
Vinte e Nove de Agosto^ o presidente Francisco de Souza 
Paraíso expediu, no dia 9, esta enérgica proclamação: 

«Bahianos! Tendes testemunhado que a mais vergonhosa 

revolta permittiu que triumphasse ná capital o nefando 

plano de separar-se esta bella provincia da união do Império, 

projectado por pessoas só conhecidas por desfavoráveis cir- 

. cumstancias. 

«íE será possivel, bahianos, que, resfriado o vosso patrio- 
tismo, e o amor á sagrada pessoa do nosso joven Imperador, 
por muitos dias taes individuos, despidos de todos os prestí- 
gios e incapazes de fazerem a felicidade de alguém, se 
julguem victoriosos ? ! 

.. «Aonde a vossa nobreza? Aonde o vosso brio? Não, 
bahianos, não é possivel que sejamos mudos e inertes 
espectadores dos destinos que espera a nossa capital ! 



Redigia eUe a gazeta O Investigador Brazileiro, quindo soube que Vicente 
Ribeiro Moreira, editor do Jornal do Comntercio^ náo cessava de deprimil-o 
lias lojas e boticas que frequentava. O dr. Sabino chegou mesmo a surprehender 
o diffamador em umi de suas murmurações calumniosas, e ameaçou-o de que o 
espancaria si eUe proseguisse em sua aviltante missão. 

Considerando-se insultado, o intrigante levou este facto ao conhecimento 
de um irmilo, alfere.4 Moreira, que jurou vingil-o, e, pira ls=io, armou-se de um 
chicote. 

Umi occasiáo em que o dr. Sabino, vindo da Academia de Medicina, atra- 
vessava a praça de Palácio, surge-lhe ao encontro o alferes Moreira e o ofTende 
com o instrumento aviltante. Ripidimentc o aggredido tira de seu estojo de 
operações um bisturi e com elle fere a carótida do official, que cai e morre 
momentos depois. 

O dr. Sabino apresentou-se á prisáo, compareceu a jury e foi absolvido 
unanimemente. 



550 MEMORIAS BRAZILEIRAS 

«É tempo; corramos ás armas; a villa de S. Francisco é 
o ponto de reunião; o tenente-coronel Argollo é o vosso 
chefe; a cidade da Cachoeira é destinada para sede da 
Relação. 

«O bahiano que não procurar nos pontos marcados o 
governo legal, quer silenciosamente commetter um crime 
imperdoável; o empregado publico que geralmente não 
comparecer, não pôde ser- contemplado como empregado do 
governo imperial; o militar que dentro de 15 dias se não 
apresentar, será rigorosamente punido. 

«Escolhei, bahianos: ou supportar o jugo de um partido 
que só nos pôde offertar a anarchia, ou vingar a maior das 
affrontas que foi feita ao Imperador, á lei e a seus fieis 
súbditos. Viva a Religião! Viva o Imperador! Vivam os 
bahianos defensores da legalidade! 

«Bordo do brigue-barca Vinte e Nove de Agosto^ surto no 
porto da Bahia, aos 9 de Novembro de 1837. — Francisco de 
Sousa Paraiso (^). 

A 10 de Novembro, o tenente-coronel Argollo, de seu 
engenho Cajahyba, dirigiu ao presidente um officio, assignado 
também pelo chefe de policia dr. Francisco Gonçalves 
Martins, depois bar?o de S. Lourenço ('), concitando aquella 



( I ) Impresso a bordo do briguc-bíM-ca í 'inie e Nove de Af^osto, 

( 2 ) O dr. Francisco Gonçalves Martins nasceu na freguezia do Rio Fundo, 
termo de Santo Amaro (Bahia), a 12 de Março de 1807, e falleceu a 10 de 
Setembro de 1872. Deputado geral nas le.?islaturus de 1831 a 1850, foi n'este 
anno escolhido senador. Presidiu a Bahia nos annos de 1848 a 1852 e de i86íj 



CAPITULO XXXVI 551 



auctóridade a promover o bloqueio da capital, lembrando-lhe 
providencias acertadas que deveriam ser postas em execução 
immediatamente, como a chamada do arcebispo D. Romualdo 
António de Seixas ('), funccionarios civis e militares para o 
grémio dos legaes, e convidando-o para constituir sede do 
governo em Santo Amaro ou Cachoeira. 

Accedendo ao convite, o presidente seguiu para o engenho 
Cajahyba, onde, inspirado por seus amigos, tomou medidas 
enérgicas para sufíocar a revolta no ponto do nascedouro ; a 
13 de Novembro fez proclamação aos habitantes do Recôn- 
cavo; officiou ao coronel Ignacio Bulcão para que organi- 
zasse um esquadrão de cavallaria na villa de S. Francisco; 
ao coronel Rodrigo Brandão, nomeando-o commandante das 
forças que levantasse na Cachoeira e ao coronel António de 
Souza lyima, nomeando-o commandante das forças estaciona- 
das na ilha de Itaparica. 

De Santo Amaro officiou na mesma data ao juiz de 
direito António Simões da Silva, avisando-o de que o total 
das forças ia reunir-se em Pirajá, no sentido de pôr em sitio 
a capital. 

Sentindo, porém, aggravar-se os seus incommodos de 



a 1871. Exerceu o carg^o de ministro do império no gabinete de 11 de Maio 
de 1852, assignalando a sua passagem no governo pela inauguração da primeira 
estrada de ferro no Brazil e naveg^açáo a vapor no Amazonas. 

( I ) D. Romualdo António de Seixas, marquez de Santa Cruz, 17.*' arcebispo 
da Bahia e primaz do Brazil, nasceu em Canietá ( Kstado do Pará ), a 7 de Feve- 
reiro de 1787 e fallcceu na Bahia a 29 de Dezembro de 1860. 



552 MEMORIAS BRAZII.EIRAS 



saúde, o presidente Souza Paraíso — que por occasião da 
fuga de Bento Gonçalves da fortaleza de S. Marcello havia 
pedido demissão de seu cargo — passou a administração da 
província a Luiz Paulo de Araújo Bastos; este não a poude 
acceitar por doente. Aquella auctoridade teve de officiar, no 
dia 14, a Honorato Josi de Barros Paim, entregando-lhe a 
presidência, que foi acceita. 

Ao investir-se do poder, o vice-presidente Honorato Paim 
enviou da Cachoeira, em data de 15, uma forte proclamação 
aos habitantes da capital da Bahia, estimulaudo-os a abando- 
nar os tyrannos que os opprimiam^ os infames e perversos 
que assim haviam abusado da credulidade dos soldados da 
guarnição^ e convidando-os a se reunirem no Recôncavo. 

Emquanto occorriam estes acontecimentos, vejamos o que 
se passava na ilha de Itaparica. 

Um emissário dos revoltosos, Manoel Joaquim Tupinambá, 
natural da ilha, lavrador e morador na fazenda de S. João, 
prevalecendo-se do cargo de juiz de paz, conseguiu penetrar 
no edifício da camará municipal e ahi, no dia 1 1 de Novembro, 
fez lavrar uma acta de adhesão á causa dos rebeldes. 

Tupinambá remetteu, no dia 15, copia da acta ao vice- 
presidente intruso João Carneiro da Silva Rego, acompa- 
nhada de officio, dizendo que, em observância ao officio 
d^aquella auctoridade, de 10 de Novembro, havia a tropa 
e o povo da ilha elevado uossa palria A categoria de 
Estado livre e independente^ durante a menoridade do 
Sr. D, Pedro lí. 



CAPITUtÔ XXXVI 553 



r^o mesmo documento queixava-se de que Itaparica esti- 

de^armada absolutamente, pois o revolucionário s6 tinha 

II poder 20 armas ruins e desconcertadas; denunciava 

' íarâgogipe recusava commerciar em farinhas com a ilha 

•a um apparato de força e duas canhoneiras para influir 

limas e resolver vontades i^tdecisas. 

^^o mesmo dia 15, em que Tupinambá dava conta de sua 

^'dibencia, reunia-se a camará municipal de Itaparica 

£ia a seguinte proclamação: 

.<r Itapari canos! A camará municipal d'esta villa se congra- 

.a comvosco. Acaba de ir por terra o governo fratricida da 

capitaL O brio que bem como a vós anima a todos os amigos 

da lei, tem regenerado a ordem que havia sido perturbada 

e vai restituiudo a paz ás familias. 

« A aversão doesta camará á acta do tal dia 1 1 doeste mez 
vos foi bem manifesta e evidente. Nem uma s6 voz de adhesão 
partiu d'esta camará, nem uma publicação se fez, no muni- 
cipio, d'aquella fatal acta, nem de papel algum em que esta 
mesma camará mostrasse a menor S)'mpathia com a desordem 
da capital. 

«Eia! Uni-vos, abraçai- vos e sede fieis á Constituição; 1 
só d'ella pode emanar a felicidade dos brazileiros. Viva a i 
Religião ! Viva a Constituição ! Viva o Sr. D. Pedro II e o 
governo legal estacionado em Santo Amaro ! 

70 . TOM. II 



554 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



«Paço da camará municipal, 15 de Novembro de 1837. 
— Agostinho da Cosia Lima^ presidente. — Caetano Alvares 
de Souza^ vereador e secretario. — Luiz Gonzaga da Luz. — 
José Narciso de Carvalho, — Elias José Barbosa, — José Car- 
neiro Ribeiro, — Marcellino António Rodrigues^, 

Em seguida — a exemplo de que se praticou na capital — 
lavrou-se uma acta que destruiu completamente a talá^ 11 de 
Novembro e foi assignada por muitas pessoas de consideração, 
como o padre João Nepomuceno da Rocha; coronel do estado 
maior Manoel da Silva Daltro; coronel José Ricardo da Silva 
Horta; tenente-coronel Francisco Xavier de Barros Galvão; 
tenente-coronel João António de Souza Portugal; tenente, 
commandante da fortaleza, José Pedro de Menezes; juiz de 
orphãos, José Caetano da Costa; capitão do i.° batalhão da 
guarda nacional, António da Costa Chastinet; ajudante de 
ordens do commandante superior da guarda nacional da Bahia, 
Rodrigo Pereira de Menezes da Silva Daltro; capitão José 
Venâncio Tupinambá; tenente Ale^candre Xavier de Barros 
Galvão; José Thomaz de Aquino, escrivão da entrada da 
alfandega, e outros. 

Receosos de tropelias, abandonaram a capital quasi todos 
os funccionarios públicos, auctoridades, negociantes e clero 
e passaram-se para Santo Amaro, onde o illustrado arcebispo 
D. Romualdo publicou uma pastoral chamando á obediência 
os cidadãos rebellados. 

O thesoureiro geral Manoel José de Almeida Couto con— 



CAPITULO XXXVI 555 

seguiu reunir o dinheiro existente nos cofres a seu cargo e 
entregou-o, na importância de 46d:6oo#cx)0, ao vice-presidente 
Paini, a fim de fazer face ás despezas da guerra que se ia 
encetar. 

Reunidos os funccionarios em Santo Amaro, ahi formaram 
uma companhia que se incorporou ao batalhão da guarda 
nacional e tomou a si a defesa da cidade. 

Picou a cidade do Salvador completamente entregue aos 
sediciosos. 

Por achar-se ausente, nos Estados Unidos, o presidente 
acclamado Innocencio da Rocha Galvão, assumiu o supremo 
governo, como dissemos, o vice-presidente João Carneiro da 
Silva Rego, o qual nomeou seu secretario o dr. Sabino e 
commandante das armas o major Sérgio José Velloso. 

O chefe rebelde João Carneiro convidou o juiz de direito 
dr. António Simões da Silva para assumir o logar de chefe 
de policia, visto ter-se ausentado da cidade o dr. Francisco 
Gonçalves Martins, que exercia o cargo. 

O dr. Simões acceitou a. incumbência e á frente de um 
batalhão de policia atravessou as ruas da cidade dando vivas 
ao Imperador e á Constituição, e, marchando para o campo 
de Pirajá, ahi preparou-se para contraminar o plano revoltoso. 

 força do dr. Simões aggregaram-se diversos contingentes 
vindos do Recôncavo, de S. Francisco, de Santo Amaro, indios 
de Pedra Branca e o batalhão de voluntários da Cachoeira, 
enthusiasmados todos pela idéa de libertar a capital dos desas- 
tres da anarchia. 



556 MEMORIAS BRAZILKIRAS 



Como na guerra contra o general Madeira, Pirajá tomou-se 
o centro das operações, com a differença de que os patriotas 
não iam combater soldados portuguezes e obrigal-os a deixar 
este solo, porém preparavam-se para luctar contra irmãos, em 
bem da tranquilidade geral e victoria da lei. 

Assumiu o commando em chefe das forças legaes o tenente- 
coronel Alexandre Gomes de ArgoUo Ferrão, pae do bravo 
official do mesmo nome que tanto se distinguiu na guerra 
do Paraguay. 

O governo central nomeou para dirigir a provincia o 
cidadão António Pereira Barretto Pedroso. Ao chegar, o novo 
presidente incumbiu ao commandante do brigue Três de Maio 
estabelecer o bloqueio do porto e dirigiu-se para a cidade da 
Cachoeira, onde assumiu oexercicio do cargo a 19 de Novem- 
bro de 1837. 

Da Cachoeira Barretto Pedroso expediu ordens para que 
se estreitasse o bloqueio, collocando-se os vasos de guerra ém 
linha, para que a capital fosse, ao mesmo tempo, atacada por 
terra e por mar. ^ 

Para offerecer completa resistência, os revoltosos retiraram 
dos armazéns da alfandega quinhentas armas; trataram de 
fortificar a cidade por meio de trincheiras em diversos pon- 
tos e tentaram, rompendo o sitio, alHciar á sua causa os 
escravos dos engenhos. 

A 18 de Novembro saltaram no porto do Manguinho, 
na ilha de Itaparica, e em numero de cento e vinte preten- 
deram apossar-se da povoação e da fortaleza, porém foram 



CAPITULO XXXVI 557 



valentemente repellidos pela força commandada pelo coronel 
António de Souza Lima. A 30 do mesmo mez travaram novo 
combate, porém foram derrotados e obrigados a refugiar-se 
na capital. 

Convidado o presidente da provincia de Sergipe no sen- 
tido de auxiliar a revolta, deu como resposta enviar soldados 
em defesa da causa legal. 

O presidente de Pernambuco, Francisco do Rego Barros, 
enviou também uma columna de 500 praças ao mando do 
tenente-coronel José Joaquim Coelho, a qual chegou a 
Pirajá a 3 de Janeiro, elevando a 4,000 o numero de com- 
batentes. 

A 5 de Janeiro de 1838 o governo revoltoso publicou 
uma circular chamando ás armas todos os cidadãos residentes 
na cidade da Bahia, que deviam servir, ou voluntariamente 
ou compellidos pela força. 

Nos dias 6 e 8 de Janeiro foram de novo atacados alguns 
pontos guarnecidos pelas forças legaes, travando-se o princi- 
pal combate na Campina, onde os pernambucanos conquis- 
taram completa victoria. 

A vista d'estes revezes e da fome que já fazia sentir os 
seus desesperadores effeitos, começou a população a mostrar-se 
inquieta e impaciente para que a lucta findasse quanto antes. 

Escasseando cada vez mais os mantimentos, resolveu o 
governo permittir que sahissem da capital as mulheres, os 
meninos menores de 15 annos e cidadãos maiores de 50, com 
prohibiçáo de levarem escravos, considerados soldados da 



55^ MEMORIAS BRAZILEIBAS 



revolta. Conta-se que quando o na\no conductor doestes emi- 
grantes passou por deante do Forte do Mar ou de S. Marcello, 
partiram d'ahi descargas contra elle, occasionando ferimentos 
e mortes. 

A 17 e i8 de Janeiro, as forças legaes, sob o commando do 
tenente-coronel Argollo, travaram sanguinolentos combates 
com os revoltosos, cabendo o triumpho ao governo imperial, 
que contou entre os mortos os capitães Joaquim Marques de 
Carvalho e José de Cerqueira Sussuarana, alferes Silvério de 
Souza Pinheiro e dez soldados, e entre os feridos o capitão 
Solidonio que, baleado em uma perna, sustentou durante seis 
horas nutrido fogo. 

A 19 do mesmo mez, o presidente revoltoso creou Minis- 
tério, expedindo decretos das nomeações seguintes : 

Ministro da Fazenda e Presidente do Thesouro Publico 
— Joaquim da Silva Freire. 

Ministro da Justiça — Dr. João Carneiro da Silva Filho. 

Ministro da Marinha — Tenente-general Manoel Pedro de 
Freitas Guimarães. 

Ministro da Gueçra — Tenente-coronel Daniel Gomes de 
PVeitas. 

Ministro do Interior e interinamente de Extrangeiros — 
Dr. Francisco Sabino Alvares da Rocha Vieira. 

Foi designado Vice-Presideute o Dr. João Carneiro Filho, 
o qual, por edital de 22 de Janeiro, ordenou ao major Pedro 
Barbosa Leal, incumbido da policia da cidade, que procedesse 
ao recrutamento forçado. 



CAPITULO XXXVI 559 



Dispunham os revoltosos de uin navio, o brigue-escuua 
Trovão^ commandado por um official de appelHdo Malhado^ 
que só constrangidamente acceitára a perigosa incumbência. 

Na primeira opportunidade que se lhe offereceu, Malhado 
passou-se para os legalistas — procedimento que encheu de 
ódio aos revolucionários a ponto de queimarem dez casas 
pertencentes áquelle official. 

A 16 de Fevereiro decretou o governo de João Carneiro 
a confiscação de todos os prédios pertencentes a brazileiros e 
a portuguezes que estivessem em armas contra a sedição. 

Por esse tempo chegou ao porto da Bahia o brigue inglez 
Visard^ conduzindo mantimentos destinados a súbditos 
de sua nação : atormentado pela fome, o povo tomou conta 
de todos os viveres, apezar da viva reluctancia dos mari- 
nheiros. 

Também uma barca austríaca tentou trazer á capital um 
grande carregamento de farinha; mas, ao approximar-se do 
ancoradouro, foi obrígada a virar de bordo e afastar-se, em 
vista da perseguição que contra ella desenvolveu o brigue 
Constança^ do commando do capitão-tenente Joaquim José 
Ignacio, mais tarde visconde de Inhaúma ( * ). 

Affrontando os tiros que de terra lhe eram disparados, 
este bravo official expelliu do porto o navio extrangeiro, e, 
ao voltar ao ponto de ancoragem, mereceu enthusiasticos vivas 



( I ) Joaquim José Ignacio nasceu em Lisboa a 30 de Julho de 1808 e faUeceu 
no Rio de Janeiro a 8 de Março de 1869, no posto de almirante. 



560 MEMORIAS BRÂZILBIRAS 



das guarnições de uma corveta ingleza, de iim brigue francez 
e de uma escuna norte-americana. 

A 21 de Fevereiro chegava á Bahia o marechal João Chr>'- 
sostomo Callado, nomeado commandante em chefe das forças 
imperiaes. 

Em conferencia com o commandante da esquadrilha, deli- 
berou que se apertasse cada vez mais o cerco da capital, por 
terra e por mar, obrigando os rebeldes a reuder-se pela fome. 
N'este propósito conservava-se, preferindo a inacção ao derra- 
mamento de sangue. Baldadamente lhe officiava o presidente 
Barretto Pedroso: «Ataque V. S., quanto antes, os rebeldes 
da capital, o que lhe é mui positivamente ordenado por este 
governo». 

E em officio de 6 de Março: «Não resta, pois, senão que 
V. S. dê suas ordens a fim de que acabe a desgraçada revolta, 
que tantos males está causando a esta provincia. Comquanto 
tenha por varias vezes exposto a V. S. a urgentissima neces- 
sidade que ha de dar o ultimo golpe á rebeldia, não posso 
comtudo, por esta occasiào, deixar de inteirar a V. S. de varias 
noticias que obrigam ao governo da provincia a exigir de 
V. S. que seja quanto antes dado aquelle golpe». 

Como estimulo ao marechal, declarava o presidente que 
havia suspeitas de que a setiiçào tendia a espalhar-se pela 
Feira de SanfAnna, arrastando, talvez, uma insurreição de 
escravos. 

O commandante em chefe preferia prudenciar. 

Contra esta inactividade reclamou o tenente-coronel José 



CAPITULO XXXVI 561 



Joaquim Coelho, com mandante da força pernambucana, a 
qual, por se achar muito próxima da linha inimiga, soffria 
continuos tiroteios. 

Obtida do marechal permissão para atacar, este comman- 
dante, á frente de três companhias, investiu contra os revol- 
tosos no dia 13 de Março e desalojou-os dos pontos occupados. 
Ganhando cada vez mais terreno, conseguiu tomar-lhes uma 
peça de artilheria e approximar-se dos pontos Bate-Folha 
e S. Caetano, guarnecidos fortemente com sete canhões de 
grosso calibre; uniu-se depois a sua-columna á primeira bri- 
gada do exercito sob as ordens do coronel António Corrêa 
Seara e ambas fizeram recuar os rebeldes até á Lapinha ; 
d'ahi ao forte do Barbalho e d'este ponto ao forte de S. Pedro, 
onde se entrincheiraram. 

No mesmo dia 13, uma columna ao mando do major do 
7.° batalhão Carlos César Burlamaqui tomou os fortes da 
Lagartixa e Jequitaia, e foi occupado Itapagipe pelas forças 
estacionadas nos engenhos da Plataforma e Cabrito, auxiliadas 
pelas barcas commandadas pelo i.° tenente Benjamin Car- 
neiro de Campos. 

A 14 de Março, a terceira brigada, commandada pelo 
coronel José de Sá Bittencourt e Camará, que havia occupado 
os pontos de Itapoan ç Rio Vermelho, entrava pelo lado do 
Bom Gosto c ia reunir-se ás demais forças no largo de 
S. Pedro. 

Vendo os revoltosos que se achavam inteiramente perdidos, 
atearam fogo em mais de sessenta edifícios, no cães novo, no 



562 MEMORIAS BRAZII^EIRAS 



largo da Piedade, no Areal, na Ajuda e nas ruas do Paço 
e do Cabeça, pondo em alarme a população. 

O alarido produzido pelos incêndios e o continuo tanger 
dos sinos incutiram febre nos belligerantes e horrorosa foi a 
carnificina dos dias 14 e 15 de Março. 

As 6 horas da tarde do dia 15, o forte de S. Pedro içou 
bandeira branca e o commandante Sérgio José Velloso enviou 
ao marechal Callado uma' proposta de capitulação n'estes 
termos : 

«A força militar sob o commando do abaixo-assignado, 
desejando evitar de uma vez o derramamento do sangue 
brazileiro, propõe o seguinte: que se depõem desde já as 
armas, sob condição de liberdade a todos, que jamais devem 
ser tidos como criminosos pelo simples facto de dissentimento 
de opiniões politicas. — Sérgio José Velloso,^» 

O marechal respondeu á proposta : 

«O general do exercito brazileiro com forças sobre o forte 
S. Pedro, s6 convém que a guarnição rebelde se entregue á 
discrição. — Campo sobre o forte de S. Pedro, 15 de Março 
de 1838, ás 6 horas da tarde. — Joào Chrysostomo Callndo^ 
marechal de campo. » 

Submettidos á lei, desfilaram do forte 586 praças, 15 
músicos e cornetas, 8 officiaes e o chefe. Renderam-se em 
seguida a fortaleza da Gamboa e o Forte de S. Marcello. 

Segundo a participação official mandada pelo general 
Callado ao ministro da guerra em data de 17 de Março, 



CAPITULO XXXVI 563 



houve por parte dos revoltosos 600 mortos e mais de 1.700 
prisioneiros. 

Effectuou-se a prisão dos chefes revolucionários: o presi- 
dente João Carneiro, seu filho e o chefe de policia António 
José de Sá Freire e Mattos, que foram encontrados em uma 
casa para alugar, na Lapinha ; o medico Alexandre Gaulette, 
que se achava occulto em um quarto da casa do vice-consul 
francez Degrivel; o dr. Sabino, que foi encontrado occulto em 
um guarda-roupa do mesmo Degrivel; o ministro da marinha, 
tenente-general Manoel Pedro de Freitas Guimarães ; majores 
Innocencio Eustachio Ferreira de Araújo e José Joaquim 
Leite, que commandaram divisões, dr. Francisco Liberato- 
de Mattos, encarregado do expediente da justiça, e muitos 
outros. 

Conduzido para bordo da corveta SeUdeAónV^ o dr. Sabino 
teve de submetter-se a ferros e permanecer incommunicavel. 

Levados a jury os revoltosos civis e á Junta Militar 
de Justiça da Bahia os officiaes, foram condemnados. á 
morte o dr. Sabino, João Carneiro pae e filho, Sérgio 
Velloso, Innocencio Eustachio, José Leite e Alexandre Fer- 
reira do Carmo Sucupira ; a galés perpetuas Hermes Corrêa 
de Moraes; a prisão com trabalhos António de Sá Freire 
e Mattos e Alexandre Gaulette. 

Como um documento curioso, pela agglotneração de cri- 
mes imputados a um só homem, registamos a sentença pro- 
ferida contra o dr. Sabino: 



564 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



SENTENÇA DADA PELO JURY DA CAPITAL DA BAHIA CONTRA 
O DR. FRANCISCO SABINO ALVARES DA ROCHA VIEIRA 

 vista da decisão do jur}-, coiideinno o réo Francisco 
Sabino Alvares da Rocha Vieira nas penas seguintes: pelo 
crime do art. 201 — em um anno de prisão e multa corre- 
spondente á metade do tempo; pelo crime do art. 202 — em 
sete annos de prisão e multa correspondente á metade do 
tempo; pelo crime do art. 203 — em sete annos de prisão e 
multa correspondente á metade do tempo; pelo crime do 
art. 204 — em tfes annos e meio de prisão e multa correspon- 
dente á metade do tempo; pelo crime do art. 205 — em nove 
annos e quatro mezes de prisão e multa correspondente á 
metade do tempo; pelo crime do art. 89 — em vinte e três 
annos e quatro mezes de prisão; pelo crime dos arts. 68, 85 
e 87 — em prisão perpetua com trabalho, e, finalmente, pelos 
crimes dos arts. 113 e 192 — condemno o réo á morte. 
Guarde-se na imposição doestas penas o disposto no art. 61 
do código penal e condemno também o réo por todos estes 
crimes na indemnização que se liquidará em juizo competente. 
O escrivão faça as intimações da lei, pagas as custas pelos 
bens do réo. 

Bahia, 2 de Jiniho de 1838. — Victor de Oliveira, 

Por decreto de 22 de Agosto de 1840, houve por bem o 
Imperador conceder amnistia a todos os brazileiros envolvidos 
em crimes politicos, e, em conformidade com os S§ 2.° e 3.** 



CAPITULO XXXVI 565 



do art. i.° do mesmo decreto, foram obrigados a segitir 
diversos destinos os réos: 

Dr. Francisco Sabino Alvares da Rocha Vieira, para 
residir temporariamente na provincia de Goyaz. 

João Carneiro da Silva Rego, dr. João Carneiro da Silva 
Rego Filho e Daniel Gomes de Freitas, para a provincia de 
S. Paulo. 

vSergio José Velloso, José Joaquim Leite, Alexandre Fer- 
reira do Carmo Sucupira e Innocencio Eustachio Ferreira de 
Araújo, para Ouro Preto (Minas Geraes). 

Alexandre Gaulette, francez, deportado para fora do 
Brazil. 

O dr. Sabino Vieira chegou a Goyaz em 1840. 

Ahi casou em 1843 com d. Rosa, filha de Francisco Manoel 
Vieira. Nasceram doeste consorcio dois filhos, Fábio e Epo- 
nina, que fallcceram ainda jovens. 

Tendo-se tornado chefe do partido liberal em Goyaz e 
contrario á politica seguida pelo presidente conservador 
D. José de Assis Mascarenhas, o dr. Sabino foi remettido 
preso para Matto Grosso, em 1844. Passou a residir na fazenda 
de Santo António da Jacobina (municipio da cidade de S. Luiz 
de Cáceres), onde falleceu a 25 de Dezembro de 1846 e foi 
sepultado na capella da mesma fazenda. 

O Instituto Geographico e Histórico da Bahia incumbiu 
a três de seus sócios, dr. Thomaz Garcez Paranhos Montene- 
gro, dr. Francisco de Paula Oliveira Guimarães e Rogociano 



566 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



Pires Teixeira, a tarefa de promoverem a trasladação dos ossos 
do revolucionário para aquelle estabelecimento scientifico. 
O auto de exhumação foi concebido nos termos seguintes: 
«Aos vinte e seis dias do mez de Janeiro do anno de mil 
oitocentos noventa e seis, 8.° da Republica dos Estados Uni- 
dos do Brazil, n'esta fazenda de Santo António da Jacobina, 
municipio da cidade de S. Luiz de Cáceres, do Estado do 
Matto Grosso, presente o meretissimo subdelegado de policia 
do i.° dístricto, Honório Augusto Nunes da Cunha, commigo 
escrivão do seu cargo abaixo nomeado, bem como as testemu 
uhas tenente-coronel Diogo Nunes de Souza e Duarte Bastos, 
pelo mesmo subdelegado foi ordenado que se procedesse á 
exhumação dos restos mortaes de medico bahiano dr. Fran- 
cisco Sabino Alvares da Rocha Vieira, fallecido n'esta fazenda 
em 25 de Dezembro de 1846 e sepultado na capella da mesma 
fazenda. 

« Em acto continuo, e no centro da referida capella, quasi 
junto ao altar, deu-se começo ao trabalho da excavação de 
uma sepultura, em cuja tampa no assoalho da egreja se lia a 
seguinte inscripção: Tributo ao saber e â amizade. Aqui 

DORME o SOMNO DOS MORTOS O DR. F. SaBINO A. DA R. 

Vieira, nascido na província da Bahia. Falleceu aos 
25 DE Dezembro de 1846, deixando de sua morte sau- 
dosas RECORDAÇÕES AO SEU COMPADRE E AMICxO J. C. P. 
Leite ('), o que feito, foram n^ella encontrados os ossos do 



( I ) Joào Carlos Pereira I^eite. 



CAPITULO XXXVI 567 



referido dr. Sabino, os qiiaes o meretissimo subdelegado man- 
dou recolher u'uma urna de madeira, que, depois de fechada, 
tem de ser enviada ao Estado da Bahia, conforme a requisição 
do Instituto Geographico e Histórico do^mesmo Estado. 

<c E para constar, foi lavrado o presente auto, que lido e 
achado conforme, vai assignado pelo meretissimo subdelegado 
de policia e por duas testemunhas; do que dou fé. 

« Eu, Miguel Angelo Pinto de Arruda, escrivão de policia, 
o escrevi e subscrevi. — Honório Augusto Nunes da Cunha^ 
subdelegado de policia. — Miguel Angelo Pinto de Arruda^ 
escrivão. — Diogo Nunes de Souza^ Duarte Bastos^ teste- 
munhas. » 

O Instituto Geographico e Histórico da Bahia conserva, 
como relíquias preciosas, os venerandos restos do illustre 
bahiano. 

Como tributo á sua memoria, trasladamos para este livro 
as palavras que o illustrado dr. Augusto Victorino Alves 
Sacramento Blake ( ' ) proferiu no Instituto Histórico Geogra- 
phico do Brasil em referencia a seu distincto conterrâneo : 



( I ) o dr. Sicramcnto Blake nasceu na cidade do Salvador da Bahia a 2 de 
Novembro de 1827 e falleceu no Rio de Janeiro a 24 de Março de 1903. Fundou o 
Aihcncu, periódico scicntifico e literário dos estudantes da faculdade de medi- 
cina da Bahia, o qual floresceu nos annos de 1849 e 1850. Bra formado pela 
referida faculdade. CoUaborou nas gazetas Cuaj^curú, Mosaico, Crepúsculo, 
Noiiiiador CaihoUco, Borboleta e Marmota, da Bahia, assim como no Archii^ 
medico brasileiro, Annaes de Medicina, Gazeta dos hospitaes, Guaraciaba 
e fíeija-flòr, do Rio de Janeiro. Era sócio do Instituto Histórico e Geogra- 
phico do Brazil, do Instituto Geographico e Histórico da Bahia, do Instituto' 



568 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



«O dr. Sabino Vieira èra um dos afamados médicos da 
Bahia, de uma larga clientela, não só por seu vasto saber e 
illustração, como pela verdadeira caridade com que exercia a 
medicina. No leito da doença eram todos os homens eguaes 
para elle. Não sábia distinguir o que nas alturas da opulência 
fruia os gosos da vida, do que arrastava a existência em lucta 
com a miséria ; não sabia distinguir o rico, o que pagava gene- 
rosamente seus serviços, do pobre, do indigente, a quem muitas 
vezes deixava com a receita a moeda necessária para a 
comprado remédio ou de qualquer género de dieta. O gemido 
de dor echoava egualmente em seu coração bemfazejo, 
achav^a a mesma guarida em sua alma caridosa. 

«Era querido muito merecidamente de toda a grande 
corporação medica da Bahia, principalmente da congregação 
da Academia, de que era um dos ornamentos, dos estudantes 
pela elevação de seu espirito, pela pujança de seu talento, 
pela profundeza de seus conhecimentos, pela eloquência e ao 
mesmo tempo clareza de expressão que captivavam sempre 
seus aluinnos quando occupava a cadeira como lente substi- 
tuto da mesma Academia. N 'essas occasiões lhe podiam ser 



.tn/iro/oj^iío c Gcograpliito de Pernambuco, membro honorário do Athenen de 
I.ima c sócio da Academia do Ceará. 

Legou á pátria uma obra monumental, o Diecionario Bihliographico Bra- 
ziletpo, em 7 vols., o maior e o mais importante repositório que possuímos de 
preciosos ai)ontamcntos sobre escriptores nacionaes. Obra levada ao cabo após 
dezcnove annos de continuas luctas e de sacrifícios, que alteraram profunda- 
mente a saúde do auctor e o privaram da vista, ella compensou-lhe os gigan- 
tescos esforços, concedendc-lhe a immortalidade literária. 



CAPITULO XXXVI 569 



applicadas as palavras que escreveu Connenin em relação ao 
sábio da ^França, Arago: «Si, face a face com a scieucia, a 
contempla com profundeza para devassar seus arcanos e 
observar suas maravilhas, então sua admiração por ella 
começa a tomar uma linguagem magnifica, sua voz se 
inflamma, sua palavra adquire um certo colorido, sua elo- 
que ncia toma-se sublime, como é sublime o assumpto ( ^ ). » 

A 16 de Março de 1838, entrava na capital bahiana 
o presidente legal António Pereira Barretto Pedroso, que 
assim proclamou a victoria da lei : 

«Baliianosi A capital doesta importante provincia está 
arrancada ás garras da demagogia ; o denodo com que tantos 
heróes da pátria se distinguiram n^este successo eternizará 
seus nomes e encherá de espanto a posteridade. 

« O campo da gloria, esse Pirajá outr'ora assignalado com 
os trophéos da independência, acaba de radicar a constituição, 
o throno e o altar, tão ignominiosamente ultrajados por esse 
bando de perversos que vindes de debellar. 

« Bahianos ! Valentes Pernambucanos ! Honrados Sergi- 
panos, distincto corpo da armada, que com as vossas vidas 
e á custa do vosso sangue, esmagastes a hydra da anarchia, 
vossos feitos são outras tantas cohunnas em que acabais 
de firmar o throno augusto de nosso joven monarcha, e com 
elle a existência e prosperidade de vossas provincias. 



( I ) Riv. do Inst. Hist. c Geog. do Braz, tom. XLVIII, 2,a part., pag. 246. 

72 TOM^U 



570 MEMORIAS BRAZILEIRAS 



«VÓS acabais de testemunhar o incêndio, o roubo ('), 
e horrores de toda a casta de que foi victima esta cidade; 
certificai-vos por ahi quanto perigam nossas vidas e nossas 
fortunas com o bello ideal d'essas republicas que nos inculcam 
os inimigos da ordem. 

«O sempre memorável dia i6 de Março de 1838, que 
trouxe a paz á Bahia e ao Brazil, será estampado na historia 
em caracteres de ouro; seja elle para nossos vindouros dia 
sempre de gloria e de estimulo. 

«Eia, pois, voltai aos vossos lares a gosar da paz de que 
ha tanto estais privados; esse resto de bandidos que ainda 
infesta o interior da província, prestes a ser esmagado pelos 
nossos bravos que marcham sobre elles, acabará de sellar 
nossa gloria, nosso triumpho ; rendamos, pois, as devidas 
graças ao Altissimo, que tanto vela sobre os destinos da nossa 
pátria, e entoemos vivas á nossa santa religião, á Consti- 
tuição, ao nosso augusto e joven monarcha o Sr. D. Pedro II, 
ao regente interino e aos bravos defensores da integridade do 
império. 



( I ) Vinte e seis foram os cofres arrombados pelos rebeldes, na alfandega» 
na thesouraria de fazenda, na camará, cahindo, portanto, em poder d*elles toda 
a fortuna publica existente na Bahia. Apenas se conseguiu salvar 460 :6oo$ooo que 
o thesoureiro geral Manoel José de Almeida Couto poude conduzir ao governo 
legal e io:20(j$uoo que ao mesmo governo entregou no Recôncavo o pagador 
da intendência da marinha, Joào I^pes de I,eào. 

Vide Rev. do Inst. C7roj^. e Hisi. da Bahia, vol. VII, pags. 280 e 281. 



CAPITULO XXXVI 571 



«Palácio do governo da Bahia, 16 de l^arço de 1838. — 
Afitonio Pereira Barrei to Pedroso ( ' )». 

Como premio aos serviços prestados á pacificação da 
Bahia, o governo imperial promoveu o marechal Callado (^) 
a tenente-general effectivo e o tenente-coronel José Joaquim 
Coelho a brigadeiro, sendo mais tarde distinguido com o 
titulo de barão da Victoria. 

Em signal de reconhecimento, o povo da capital fez correr 
uma subscripção com o fim de offerecer valioso mimo ao 
marechal Callado; este, porém, oppoz-se á idéa, pedindo que 
a quantia angariada fosse distribuída entre as viuvas e os 
orphãos dos que succumbiram na lucta. 

Como retribuição a esta prova de generosidade, ofFertou-se 
um bello retrato de D. Pedro II á esposa d'aquelle official, 
com esta dedicatória: Os bahianos agradecidos ao mare- 
chal Callado. 

Ao presidente de Pernambuco, em testemunho de gratidão, 
os bahianos offereceram uma espada de honra, de ouro, crave- 
jada de pedras finas. 

De que modo tem a geração actual apreciado a Sabi- 
nada ? 



( I ) Barretto Pedroso fallcccu cm Vassouras ( Estado do Rio de Janeiro } a 6 
de Agosto de 18S3. 

(2)0 marechal JoAo Chrysostomo Callado nasceu a 24 de Março de 17S0 na 
cidade de Elvas ( Portugal ) e fallcccu na cidade do Rio de Janeiro a i.» de Abril 
de 1857. 



572 3IEMORIAS BRAZILEIRAS 

A constituição bahiana considerou Axai feriado ou de festa 
estadual o j de XovembrOy reconhecendo assim, na sedição, 
intuito republicano, o que é claramente impugnado pela 
historia. 

Porém uma lx:m redijfida e criteriosa gazeta bahiana, 
estudando o movimento á luz dos factos documentados, assim 
se externa : 

« Por uma disposição da Constituição do Estado, quando 
inaugurámos a era republicana, foi considerado no caso de 
merecer as honras do /í/vW/;, o dia commemorativo da ultima 
revolta havida n'esta capital, como sendo o facto revelação 
de anceios democráticos, synthetizados na forma do regimen 
adoptado. 

"Foi um erro histórico, e uma injustiça perpetrada 
contra os defensores da legalidade, que não fora alli atacada 
cm sua essência, mas tão somente no pessoal do Executivo. . . 

« A revolução de 7 de Xovembro foi o impulso de uma 
facção, auxiliada pela tropa de linha em más condições de 
disciplina. Queria-sc o dominio local, não para desenrolar um 
novo prograunna de liberdades, mas tão somente para mudar 
o pessoal da dominação na actualidade. 

ff Não se tratava de deposição do imperialismo, acceitando 
todos a fornia monarchica; visava-se apenas arredar os 
políticos cm evidencia para abrir caminho a novas ambições 
(jue fermentavam. Era a regência que desafiava os rancores, 
poniue a inquinaram de parcialidade manifesta no jogo 



CAPITULO XXXVI 573 



constitucional, quando a sua attitude deveria ser a da 
completa neutralidade. 

Cf O caracter, pois, de revolução provincial desappareceu 
para dar logar ao de revolta localizada. 

«Tanto a idéa dos revoltosos não fora plantar o regimen 
republicano, que os promotores do facto appellaram para a 
maioridade do Imperador, como salvaterio do paiz, prestando 
elles á forma monarchica pleno devotamento. O programma 
que exibiram não traz uma só idéa que justifique o conceito 
hoje dispensado ao lamentável acontecimento. 

« Foi um desconchavo e não um systema, uma iniquidade 
que reduziu a cinzas parte da cidade e fez correr rios de 
sangue, siem que os sacrificados soubessem por que se batiam. 

«A Republica não pôde ir buscar sua origem em tão 
monstniosos attentados. 

<f Abafado o parto da loucura, dois ânuos depois effectuou-se 
a maioridade, que foi saudada como a satisfacção dada aos 
resentimentos politicos accumulados. Basta ler-se os annaes 
do parlamento d'aquella data para se conhecer o alcance 
da intitulada — Sabinada, 

«Como irmãos, devemos passar uma esponja sobre essas 
aberrações tristissimas e esquecer os moveis que as determi- 
naram. 

«Já que o Estado entendeu que também deveria apresentar 
o seu titulo republicano, antedatado, e escolheu o y de 
Novembro para symbolizal-o, não podemos retroceder, e o 
remédio que ha é deixar correr o tempo, até que, restabele- 



574 UEUORIAS BRAZILEOLAS 

csda a calma nos espíritos e firmada a republica nos hábitos 
e nas aspirações conscientes, o bom senso descasque essa 
amêndoa assucarada, e dê o devido valor ao fragmento do 
fructo que os enfeites avolumam. 

« Náo é de taes tradições que o nosso regimen \nverá, 
nem por ella» lhe virá o menor prestigio (' ), ■ 

Cremos ter caracterizado, por meio de documentos \-alio- 
sos, o movimento sedicioso conhecido na historia por Saòt- 
fiar/a^ apresentando-o tal qual se deu, completamente alheio 
á idca de republica. 

Intencionalmente abrimos e encerramos este segundo e 
ultimo tomo de nossa obra com a narração minuciosa das 
duas guerras bahianas, porque desejamos, com estes fortes 
trabalhos investigadores, prestar homenagem -e ao mesmo 
temix) tributo de gratidão á terra em cujo seio fecundo, no 
próprio anno das solenmes festas votadas ao centenário e em 
meio de nossa ardente febre de estudos históricos, vimos, 
com justo desvanecimento, nascer um filho — flor de nosso 
coração brotada no alto da formosa e privilegiada montanha, 
pnxhictora de tantas notabilidades na Scieucia e na Litera- 
tura, semelhantes, em brilho e em duração perenne, ás 
estrellas da constellação que singulannente fulgura em nosso 
c6) e SC reflecte, como um syinbolo de honra, no pavilhão 
de nossa Pátria. 

FIM 



( i ) ,i liifiia de 7 de Novembro de 1901. 



I 



ÍNDICE ANALYTICO 



7ft 



ÍNDICE ANALYTICO 



TOMO SEGUNDO 



CAPITULO XXII 

Guerra da independência da Bahia em Fevereiro de 1822. — 
O general portuguez Ignacio Luiz Madeira de Mello e o 
brigadeiro bahiano Manoel Pedro de Freitas Guimarães. 

— Violências dos madeiristas. — Assalto ao convento da 
Lapa. — Concentração de forças brazileiras no Recôncavo. 
— Discussão nas cortes portuguezas sobre a guerra bahia- 
na. — Desforço pessoal do dr. Cypriano José Barata de 
Almeida contra o marechal Luiz Paulino de Oliveira Pinto 
da França. — Intimação de D. Pedro ao general Madeira. 

/ — Derrota de madeiristas na Cachoeira. — Victoria dos 
bahianos no Funil. — Maria Quitéria de Jesus Medeiros, 
alferes do exercito. — O general Pedro Labatut. — Perse- 
guição dos madeiristas contra o revolucionário pernam- 
bucano Gervásio Pires Ferreira. —Conselho governativo 
na Cachoeira. — Conflicto entre o governo civil e o militar 
do general Pedro Labatut. — Combate e victoria bahiana 
em Pirajá. — O corneta Luiz Lopes. — O official da armada 
João Francisco de Oliveira Bottas, vM\goJoão das Bottas, 

— Victoria dos bahianos na ilha de Itaparica. — Discórdia 
entre Labatut e o coronel Felisberto Gomes Caldeira. — 
Deposição de Labatut e sua substituição pelo coronel José 



Pags. 



570 índice ANALYl*ICO 



Joaquim de Lima e Silva. — ^Despedida de Labatut á Bahia. 
— Julgamento do conselho de gueira sobre este general, 
considerado innocen te. -Trasladação dos ossos de La- 
batut da egreja da Piedade á matriz de Pirajá. — Retirada 
do general Madeira para Portugal. — Entrada do exercito 
libertador na capital bahiana a 2 de Julho de 1823. — 
Festas commemorativas da victoria dos bahianos. — Des- 
• cripçào da Columna 2 de Julho. — Trechos de discursos dos 
drs. Satyro Dias e Augusto Alvares Guimarães. — Poesias 
de João de Britto, Guimarães Cerne, Manoel Pessoa da 
Silva. — Glorificação de um heróe da independência, Fran- 
cisco das Chagas, na ilha de Itaparica. 

EM NOTAS 

Referencia ao quadro do pintor brazileiro Firmino Monteiro, 
representando o assassinato da abbadéssa Joanna Angé- 
lica, e existente no Lyceu de Artes e Officios da Bahia. — 
Soneto de' D. Amélia Rodrigues sobre este assumpto. : — 
Carta do dr. Cypriano Barata em resposta ao desafio do 
marechal Luiz Paulino. — Biographia do dr. Barata. — 
Versos á memoria dos bahianos mortos na guerra da inde- 
pendência. — Versos de Agrário de Menezes á cidade da 
Cachoeira. —Biographia do poeta frei Bastos; versos de 
Junqueira Freire; soneto d*aquelle franciscano ao bispo 
D. Romualdo, pedindo soltura da prisão. — Referencia em 
verso ao capitão-mór de Nazareth, Manoel Bento. — Ver- 
sos de Franklin Dória á heroina Maria Quitéria. — Hymno 
á Bahia, por Evaristo da Veiga. — Versos de Agrário de 
Menezes aos heróes de Pirajá. — Versos do dr. Luiz Alva- 
res dos Santos ao general Labatut. — Hymno da Cabocla, 
versos de Junqueira Freire. — Referencia ao csculptor Bento 
Sabino. — Biographia do poeta repentista Francisco Moniz 
Barretto. — Biographia do poeta Castro Alves; decennario 
de sua morte ; opiniões de José Palmella, Ruy Barbosa e 
Frota Pessoa 



Pas^. 



índice ANAI.YTICX) 579 



Pags. 
CAPITULO XXIII 

Manifesto do príncipe D. Pedro ás nações amigas contra as 
cortes portjiguezas. — ^^ Visita de D. Pedro á cidade de 
S. Paulo. — Proclamação da independência do Brazil. — 
Hymno da independência, por Evaristo da Veiga. — Procla- 
mação aos paulistas.^ Revoltado 3.° batalhão na Bahia. 

— Assassinato do coronel Felisberto Gomes Caldeira. — 
Sessões violentas nas cortes de Lisboa. — Testemunho do 
visconde de S. Leopoldo. — Sete deputados brazileiros 
divergentes da politica portugueza.— Manifesto de Antó- 
nio Carlos e Costa Aguiar. 

EM NOTAS 

Trechos do áspero discurso do deputado portuguez Ferreira 
de Moura ; accusaçâo do deputado Ferreira Borges con- 
tra José Bonifácio ; defesa do patriarcaha por António 
Carlos. — Equivocos de limites do Brazil. — Trecho de 
carta de D. Pedro a D. João VI.— O titulo de Defensor 
Perpetuo do Brazil, dado a D. Pedro. — Devaneio do his- 
toriador Pereira da Silva, sobre o modo por que foi pro- 
clamada a independência. —-Onde era o antigo quartel 
general na Bahia. — Sobre os accusados do assassinato do 
coronel Felisberto Caldeira. — Apontamentos sobre o 
dr. Cypriano Barata 89 

CAPITULO XXIV 

Acclamação e coroação de D. Pedro I, imperador do Brazil. 

— Lucta entre o partido liberal, dirigido pelo jornalista Joa- 
quim Gonçalves Ledo, e o governista, patrocinado por 
José Bonifácio e Martim Francisco, ministros de D. Pedro. 
A ordem do Cruzeiro, — Recusa de José Bonifácio á gran- 
cruz da ordem. — Como José Bonifácio foi nomeado mor- 



580 índice analytico 



Pagrs. 
domo-mór. — O almirante Cochrane no Maranhão. — 
Barbaridade do capitão inglez João Pascoe Greenfell para 
com portuguezes residentes no Pará. — Retirada de forças 
luzitanas da província Cisplatina. 

EM NOTAS 

Annullação do processo relativo á bernarda Francisco Igna- 
cio. — O palacete imperial do Campo de SanfAnna. — Po- 
líticos perseguidos pelos Andradas. — Biographia do 
cónego Januário da Cunha Barbosa. — Sobre a gran-cruz 
de José Bonifácio . . . 139 

CAPITULO XXV 

A primeira assembléa geral legislativa e constituinte. — In- 
tuito de D. Pedro em unir o Brazil a Portugal. — A mar- 
queza de Santos e os Andradas. — Gazetas opposicionistas, 
A Sentinella e o Tamoyo. — Attitude dos deputados Antó- 
nio Carlos e Montezuma. — O partido luzitano. — O con- 
flicto Pamplona. — Dissolução da assembléa. — Prisão e 
deportação de José Bonifácio, Martim Francisco, António 
Carlos, padre Belchior, José Joaquim da Rocha e Monte- 
zuma. — A Confederação do Equador, em Pernambuco. — 
Manifesto do revolucionário Manoel de Carvalho Paes de 
Andrade. — Adhesões da Parahyba, Rio Grande do Norte 
e Ceará — Capitulação dos revolucionários. — Commissão 
militar julgadora. — Biographia de frei Joaquim do Amor 
Divino Caneca; seu julgamento em Pernambuco. — Sup- 
plicio, na forca, dos revolucionários Agostinho Bezerra 
(aquém frei António das Mercês dedicou um soneto de 
ódio ao imperador). Lazaro Fontes, António Macário, An- 
tónio do Monte ô Nicolau Martins: biographia d'este 
martyr da liberdade. — Execução do padre Gonçalo Mororó, 
coronel João de Andrade, Francisco Ibiapina, major Luiz 
de Azevedo, Feliciano Carapinima. — Biographia do revo- 



índice analytico 581 



Pags. 
lucionario portuguezjoào Guilherme RatclifF, enforcado, 
no Rio de Janeiro, com o maltez João Metrowich e o per- 
nambucano Joaquim da Silva Loureiro. 

EM NOTAS 

Filhos de Pedro I e Domitilia. — Satyra de José Bonifácio 
contra a dissolução da assembléa geral. — Trabalhos lite- 
rários de frei Caneca. — Data do fuzilamento do coronel 
Pessoa Anta, padre Mororó e Carapinima. — Publicação 
em que se encontra o processo Ratcíiff. — Onde foram en- 
forcados Ratcliff e seus companheiros : equivoco de Esqui- 
ros (dr. Alfredo Moreira Pinto). — D. Pedro I e Domitilia 
por occasião do encerramento da assembléa geral. — Bio- 
graphia de d. Demithildes de Castro Canto e Mello, mar- 
queza de, Santos 157 

CAPITULO XXVI 

A esquadra imperial na Confederação do Equador, — Lord 
Cochrane no Maranhão; o irregular pagamento de seus 
honorários; sua retirada para a Inglaterra. —O illegal 
pagamento da independência do Brazil a Portugal, por 
mediação da Inglaterra. — A proclamação da independência 
da Provinda Cisplatina, convertida em Província Oriental 
do Rio da Praia e, mais tarde, em Republica Oriental do 
Uruguay. — Combates do Rincão das Gallinhas e do 
Sarandy. — Combates navaes no Rio da Prata. — O general 
Felisberto Caldeira Brant Pontes (inarquez de Barbacena) ; 
plano d 'este commandante em chefe das forças brazileiras 
no Rio Grande do Sul. — A batalha de Ituzaingo. — 
O barão do Cerro Largo. — Altitude neutra de Bento 
Manoel Ribeiro. — Estatistica da batalha de Ituzaingo. — 
Opiniões pró e contra o marquez de Barbacena n^estií 
batalha : sua rehabilitaçâo histórica ; referencia de £una- 



582 índice analytico 



Pags. 
pio Deiró. — Tratados commerciaes.— Fundação de facul- 
dades de direito ; augmento das escolas primarias. — 
Revolta de corpos irlandezeg e allemães no Rio de Janeiro. 

EM NOTAS 

Acta da independência da Provincia Oriental do Rio da 
Prata. — Documentos sobre a morte heróica do coronel 
rio-grandense José Luiz Menna Barretto. —Biographia do 
marquez de Barbacena. — Opinião do escriptor allemâo 
Carlos Seidler sobre o fallecimento da imperatriz Maria 
Leopoldina. — Biographia do general José de Abreu, 
barão do Cerro Largo. — Conselho de guerra do coronel 
Thomé Madeira. — Commentarios sobre a ausência de 
Bento Manoel na batalha de Ituzaingo. — Opinião do 
coronel allemão Seweloch.— Apontamento sobre o esta- 
dista Bernardo Pereira de Vasconcellos. — Opiniões cita- 
das por Pereira da Silva sobre os desastres das tropas no 
sul. — As commissões do .marquez de Barbacena na 
Europa, em relação a D. Maria da Gloria, rainha de 
Portugal, e á segunda esposa do imperador, D. Amélia de 
Leuchtenberg. — Carta de apreço de D. Pedro I ao 
marquez de Barbacena. — Apontamento sobre a imperatriz 
D. Amélia. — Creaçào da Ordem de Pedro I. 197 

CAPITULO XXVII 

A imprensa brazileira em 1828. — Fundação áo Jornal do 
CommerciOy do Rio de Janeiro. — A Aurora Fluminense y de 
Evaristo Ferreira da Veiga. — Levantamento de escravos 
na Bahia; combate em Pirajá. — Partida de D. Maria da 
Gloria para a Europa. —A reclamação do contra-almirante 
francez barão de Roussin.— -Rebellião em Pernambuco. — 
Creaçào de Commissões Militares em doze provincias. — 
Protestos dos deputados Xavier de Carvalho, HoUanda 



índice analytico 583 



Pags. 
Cavalcanti, Ferreira França, padre Custodio Dias, Limpo 
de Abreu, Bernardo de Vasconcellos, Cunha Mattos, Lino 
Coutinho e Odorico Mendes contra as Commissões Mili- 
tares.— 'DennnQidi contra os ministros da justiça e da 
guerra. — O lacónico encerramento da Camará pelo impe- 
rador. 

EM NOTAS 

O Jornal do Commcrcio do Rio de Janeiro, actualmente. — 
Biographia de Evaristo Ferreira da Veiga. —Aponta- 
mento do barão do Rio Branco sobre a reclamação 
Roussin. — Onde se encontra a convenção para paga- 
mento da reclamação Roussin. — Biographia do illustre . 
maranhense Manoel Odorico Mendes 237 

CAPITULO XXVIII 

Usurpação do throno de Portugal por D. Miguel de 
Bragança, irmão de D. Pedro I. — Attitude do monarcha 
brazileiro. — Critica de Evaristo da Veiga contra a 
profusão de titulos de nobreza. — Volta de José Bonifácio 
do desterro. — D. Pedro e seus conselheiros privados. — 
Acintosa demissão do marquez de Barbacena do cargo de 
ministro da fazenda; justificação d'evSte illustre titular e 
sua carta de acres recriminações ao imperador. — Aponta- 
mentos sobre o jornalista italiano João Baptista Libero 
Badaró, assassinado em S. Paulo. —D. Pedro ea imprensa 
fluminense, dirigida por Evaristo da Veiga. — Visita do 
imperador a Minas Geraes. — Frieza dos mineiros. — Re- 
gresso do imperante a 11 de Março de 1831.— AW/r das 
garrafadas. — Representação enérgica, redigida por Eva- 
risto da Veiga, contra os distúrbios dos luzitanos. — 
Acintosa mudança do ministério. 

74 TOM. 11 



584 índice analytico 



EM NOTAS 



Pag». 



Apontamento sobre a morte de D. João VI. —D. Pedro I, rei 
de Portugal e imperador do Brazil. -—Apontamento extra- 
hido do Annuar Register, do anno de 1829, sobre os pre- 
juisos causados pela revolução absolutista de D. Miguel. 
Quando findou a guerra civil portugneza.— Apontamento 
do conselheiro Drummond sobre os creados do paço, 
Íntimos do imperador. — A compra da independência do 
Brazil por dois milhões de libras esterlinas. — O folheto 
do escriptor Pedro Chapuis sobre esta transacção : depor- 
tação de Chapuis. — Como era conhecida a caixa de paga- 
mentos effectuados em I/>ndres. — Sobre D. Aífonso VI.- 
Apontamento sobre o rio-grandense dr. Pedro Rodrigues 
Fernandes Chaves. — Periódicos fluminenses do anno 
de 1830 257 

V 

CAPITULO XXIX 

Assassinato do visconde de Camamá, na Bahia. — A revo-. 
lução no Rio de Janeiro a 6 e 7 de Abril de 1831 contra o 
novo ministério. — A abdicação de D. Pedro e sua partida 
para Portugal. — Cartas do ex-imperador D. Pedro a José 
Bonifácio e ao infante D. Pedro, e da ex-imperatriz 
D. Amélia ao mesmo infante. — Carta de despedida de 
D. Pedro a seus amigos. — Reconhecimento dos grandes 
serviços prestados por D. Pedro ao Brazil e a Portugal. 

EM NOTAS 

Biographia do senador Nicolau Vergueiro Pereira de 
Campos. — Apontamentos sobre os filhos de D. Pedro I — 
Apontamentos sobre a familia de D. Marianna Carlota de 
Vema Magalhães Coutinho, mãe de creação de D. Pedro II. 
— Biographia de D. Pedro I. --Descripçào da estatua 



índice analytico 585 



Pags. 
equestre consagrada á memoria do primeiro imperador. — 
Homenagem poética de José Bonifácio (sobrinho do patri- 
archa) a D. Pedro I 281 

CAPITULO XXX 

Governo regencial : marquez de Caravellas, general Fran- 
cisco de Lima e Silva e Nicolau Pereira de Campos Ver- 
#gueiro. — Regência trina permanente: general Francisco 
de Lima e Silva, marquez de Monte Alegre e João Braulio 
Moniz. — O ministro da justiça, padre Diogo António 
Feijó. — Revolta do corpo de artilheria de marinha, na 

. ilha das Cobras. — Consequências da abdicação de D. Pe- 
dro I. — Motim no Pará : o revolucionário cónego Baptista. 
Commandante das armas Pedro Vinagre: assassinato do 
presidente Félix Malcher. O marechal Manoel Jorge Ro- 
drigues e o brigadeiro Soares de Andréa. — Motim no 
Maranhão: marquez de Sapucahy, revolucionário António 
João Damasceno. — Motim no' Ceará : o revolucionário Joa- 
quim Pinto Madeira, o general Pedro Labatut, fuzilamento 
de Pinto Madeira. Reprehensào áç presidente, padre Alen- 
car, contra o juiz de direito José Victoriano Maciel. — 
Motim em Pernambuco: 2i Setembrizada, Os revolucioná- 
rios, tenente-coronel Francisco José Martins e major José 
Meyer. A guerra AosS^àatios. — Motim na Bahia: depo- 
sição do commandante das armas, marechal Callado, per- 
segtiição contra portuguezes. Revolta na cidade deS. Félix 
e no forte de S. Marcello.— Sedição militar em Minas- 
Geraes: deposição do vice-presidente Bernardo Pereira 
de Vasconcellos. — Motins no Kspirito-Santo, Santa Catha- 
rina e Matto-Grosso. 

KM NOTAS 

Periódicos fluminenses no anno de 183 r. — Apontamento do 
dr. Américo Braziliense sobre o assassinato de Malcher, no 



586 índice analytico 



Pa«8. 
Pará. — Apontamento do major Joáo Erigido dos Santos 
sobre a morte de Pinto Madeira, no Ceará 299 

CAPITULO XXXI 

Sedição militar no Rio de Janeiro a 3 de Abril de J832 : os 
partidos restaurador, moderado e exaltado. O major Miguel 
de Frias e Vasconcellos, O major Luiz Alves de Lima e 
Silva. — Accusação contra José Bonifácio, como restau- 
rador ; suspensão do patriarcha da independência de tutor 
do infante D. Pedro. — Dissolução violenta da Sociedade 
Militar. — Reacção contra os restauradores ou caramurús. 

— Fallecimento de José Bonifácio. —O Acto Addicional. — 
Fallecimento de D. Pedro I. — O regente, padre Feijó. 

EM NOTAS 

Alcunhas dos revolucionários. — Periódicos fluminenses no 
anno de 1833. — Biographia de José Bonifácio 329 

1 

CAPITULO XXXII 

A guerra dos Farrapos ou rio-grandense, de 1835. — Prin- 
cipaes causas. — Presidentes Manoel António Galvão, José 
Mariani, Fernandes Braga, Araújo Ribeiro. — O revolu- 
cionário italiano Tito l^ivio de Zambicari. — A Sociedade 
Militar. — Majores Joáo Manoel de Lima e Silva e José 
Marianno de Mattos. — Chefe revolucionário Bento Gon- 
çalves da Silva. — Dr. Pedro Rodrigues Fernandes Chaves. 

— Attentados em Rio Pardo. — Capitão José Gomes de 
Vasconcellos Jardim. — Coronel Onofre Pires. —-José Igna- 
cio da Silva (Jucá Ourives). — Assassinato de Vicente 
Ferrer. — Manifesto de Bento Gonçalves. — Os legaes Ma- 
noel Marques de Souza (depois conde de Porto Alegre) e 
tenente-coronel da guarda nacional João da Silva Tavares, 
mais tarde barão do Cerro Alegre. — Passagem do farrapo 



índice analytico 587 



Pags. 
Bento Manoel para a legalidade : sua ordem do dia contra 
os revolucionários. Divisão do Rio Grande do Sul em dois 
governos. — Prisão de Manoel Marques de Souza. — Assas- 
sinato do coronel de milicias Albano de Oliveira Bueno. 

— Diversos combates. — Restauração da cidade de Porto 
Alegre. — Proclamação da Republica Rio-Grandense,— 
Combate da ilha do Fanfa.— Prisão de Bento Gonçalves, 
Onofre Pires, Corte Real, Zambicari e outros. — A ttitude 
de Pedro Boticário perante a Sociedade Militar, — O coronel 
farrapo António de Souza Netto. 

EM NOTAS 

Versos populares contra brazileiros, contra portuguezes e 
contra farrapos. — Apontamento sobre o revolucionário, 
padre José António Caldas. — Sobre o eminente professor, 
gloria do magistério rio-grandense, Fernando Ferreira 
Gomes. — Sobre o visconde de Camamú.'-Art. 26 da re- 
forma constitucional sobre a eleição de um regente. — 
Biograpliia do dr. José de Araújo Ribeiro, visconde do 
Rio Gfande. — Opinião do dr. Sylvio Roméro sobre a obra 
intitulada O Fim da Creação, de Araújo Ribeiro. —Biogra- 
phia do professor António Alvares Pereira Coruja. — Perió- 
dicos yízrríi^^?^ e caramurús. — Opiniões do major Lobo 
Barretto, Alencar Araripe, Assis Brazil e Fernando Osório 
sobre a morte do coronel Albano de Oliveira Bueno. — 
Satyra contra o coronel João Manoel de Lima e Silva. — 
O soneto 7 de Setembro^ de Félix da Cunha.— Documento 
sobre a capitulação dos farrapos na ilha do Fanfa 353 

CAPITULO XXXIII 

Proclamação do presidente legal, dr. José de Araújo Ribeiro. 

— Proclamação do coronel revolucionário António de Souza 
Netto, após a derrota dos farrapos na ilha do Fanfa. — 
Inauguração da Republica Rio-Grandense em Piratiny.— 



588 índice analyticx) 



Pags. 
O ministro da fazenda Domingos José de Almeida. — Re- 
gresso de Bento Manoel para os farrapos. — Prisão do 
presidente legal Antero de Britto por Bento Manoel. — 
Projectos de paz. — Tomada de Caçapava pelos revolucio- 
nários. — Bento Gonçalves e Pedro Boticário na fortaleza 
da Lage. — Fuga de Onofre Pires e Affonso Corte Real da 
fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. — Fuga de 
Bento Gonçalves do forte de S. Marcello, na Bahia : officio 
do presidente Francisco de Souza Paraiso e carta de Bento 
Gonçalves sobre esta evasão. — Chegada do revolucionário 
ao Rio Grande do Sul. — A tomada da Laguna (Santa 
Catharina ) : José Garibaldi, marechal Soares de Andréa. 
Uma carta de José Garibaldi. — Victorias dos revolucio- 
nários. — Hymnos farrapos. —Assassinato de João Manoel 
de Lima e Silva : homenagem a seus restos. 

EM NOTAS 

Critica da Gazeta Mercantil de Porto Alegre a dois chefes 
revolucionários. — Forma do escudo republicano. — Saty.- 
ras contra Bento Manoel e contra António Netto. — Pala- 
vras do padre António Feijó sobre a entrega da regência 
ao ministro do império Pedro de Araújo Lima. — Penas 
aos commandantes da fortaleza de S. Marcello. — Aponta- 
mentos prestados por Joaquim Gonçalves da Silva sobre 
a evasão de seu pae Bento Gonçalves, da fortaleza de S. 
Marcello. — Apontamentos sobre o casamento e bravura 
da catharinense Annita Garibaldi. — Sobre o appellido 
Moringue, dado a Francisco Pedro de Abreu, chefe legal. 
— Lenços emblemáticos da Republica Rio-Grandense. — 
Biographia do revolucionário João Manoel de Lima e 
Silva 409 



índice analytico 589 



Pags. 
CAPITULO XXXI V 

Novo presidente, dr. Saturnino de Souza Oliveira. — Com- 
bate de Taquary. — Morte do coronel Affonso José de 
Almeida Corte Real. — Combate de S. José do Norte.— 
O presidente, marechal Francisco José de Souza Soares de 
Andréa. — Intervenção do dr. Francisco Alvares Machado, 
como pacificador. — O general Pedro Labatut. — David 
Canabarro. — O general João Paulo. — O coronel Fran- 
cisco Pedro de Abreu (vulgarmente Chico Pedro ou 
Moringue), — Proclamação do barão de Caxias aos rio- 
grandenses. — Os 54 deputados á assembléa geral consti- 
tuinte da Republica Rio-Grandense. -—Fala de Bento Gon- 
çalves. — Traços geraes da Constituição Rio-Grandense. 

EM NOTAS 

A morte de Corte Real : apontamentos sobre este heróe rio- 
grandense. — Curiosos despachos do general Soares de 
Andréa. — Noticia do periódico ^wrrto//(7 465 

CAPITULO XXXV 

Operações militares do barão de Caxias no Rio Grande do 
Sul — Assassinato do revolucionário António Paulo da 
Fontoura. — Combate de Poncho l^enie. — O brigadeiro 
Francisco de Arruda Camera. — Morte de Onofre Pires em 
duello com Bento Gonçalves. — Combate -do cerro da 
Palma. — Combate ou surpresa de Porongos. — As seis 
honrosas condições de paz. — Proclamações dos generaes 
David Canabarro e barão de Caxias. — Homenagens ao 
revolucionário Bento Gonçalves da Silva, na villa do 
Triumpho e na cidade do Rio Grande. 



590 índice analytico 



EM NOTAS 



PafiTB. 



O coronel Raphael Tobias de Aguiar e a marqueza de San- 
tos. —Carta do barão de Caxias ao ministro da guerra 
sobre Bento Manoel. — Onde fica o arroio Poncho Verde. 
Elogio de Caxias a vários ofHciaes que combateram em 
Poncho Verde. — Fuga do ministro farrapo Domingos José 
de Almeida. — Supposta causa do desastre da batalha de 
Porongos. — Opinião de Caxias sobre o caracter de Fru- 
ctuoso Rivera. — Apontamentos do escriptor Virgílio 
Várzea sobre os dotes physicos de Bento Gonçalves. . . . 495 

CAPITULO XXXVI 

A Sabinada ou guerra civil, bahiana, a 7 de Novembro de 
1837. — Chefes revolucionários: João Carneiro da Silva 
Rego, presidente; dr. Francisco Sabino Alvares da Rocha 
Vieira, secretario ; dr. Luiz António Barl)Osa de Almeida, 
vereador; major Sérgio José Velloso, commandante das 
forças. — Auctoridades legaes : dr. Francisco de Souza 
Paraíso, presidente ; tenente-coronel Luiz da Fraftça Pinto 
Garcez, commandante das armas e dr. Francisco Gonçal- 
ves Martins (depois barão de S. Lourenço), chefe de 
policia. — Actas das sessões de 7 e 11 de Novembro de 
1837. — Proclamação do presidente Francisco Paraiso aos 
bahianos. — Tenente-coronel Alexandre Gomes de Argollo 
Ferrão, posteriormente barão de Cajahyba. — Vice-presi- 
dente Honorato Paim. — O revoltoso Manoel Tupinambá 
na ilha de Itapariòa. — Proclamação legal em Itaparica. 
— Concentração de forças em Santo Amaro, Cachoeira e 
I Pirajá. — A honradez do thesoureiro Manoel José de Al- 
\ meida Couto. — A attitude do dr. António Simões da 
Silva, juiz de direito. — O presidente António Pereira Bar- 
retto Pedroso. — Tenente-coronel José Joaquim Coelho. — 
O ministério revolucionário. — O assedio da capital.— O 



' íl INDICK ANALYTICO 59I 



y 



Pags. 
capitáo-tenente Joaquim José Ignacio, depois visconde de 
Inhaúma. — O marechal Chtysostomo Callado. — Major 
Carlos César Burlamaqui, i.° tenente da armada Benja- 
min Carneiro. — Coronel José de Sá. — O incêndio na 
capital. — Capitulação dos revoltosos. — Prisão dos chefes 
revolucionários. — Sentença contra o dr. Sabino Vieira. — 
Auto de exhiimação dos ossos d 'este revolucionário para 
serem conservados no histUuto Geographico e Histórico da 
Bahia. — Elogio do dr. Sabino Vieira produzido pelo 
dr. Sacramento Blake no histituto Histórico e Geographico 
do Brazil. — Proclamação do presidente Barretto Pedroso 
aos bahianos. — Testemunho de reconhecimento da Bahia 
ao marechal Callado e ao presidente de Pernambuco. — 
Julgamento da Sabinada á luz dos documentos. 

KM NOTAS 

Cidadãos que escreveram sobre a Sabinada. — Alcunhas dos 
rebeldes e dos legaes. — Apontamento sobre o marechal 
de campo Alexandre Gomes de ArgoUo Ferrão. — Princi- 
paes promotores da Sabi fiada. — Assassinato do alferes 
Moreira pelo dr. Sabino: absolvição doeste illustre me- 
dico e democrata. — Apontamentos biographicos sobre o 
dr. Francisco Gonçalves Martins ; arcebispo D. Romualdo 
António de Seixas, marquez de Santa Cruz; Joaquim José 
Ignacio, visconde de Inhaúma e dr. Sacramento Blake. — 
Arrombamento de cofres públicos pelos rebeldes. — Apon- 
tamento biographico sobre o marechal Callado 539