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Full text of "Memórias do Instituto Oswaldo Cruz"



Ano 1916 
Tomo VIH 

Com 40 estampas 



MEMORIAS 

DO 

Instituto Oswaldo Cruz 



Rio de Janeiro -Manguinhos 



INDICE 



F^a,cicvilo I. 

I Estudos sobre os flajelados parásitos dos mamíferos do Brazil, pelo Dr. OLYMPIO OLIVEIRA RIBEI- 

RO DA FONSECA, (com as estampas 1 e 2 e 4 figuras no texto) 5 

II Sobre alguns Curculionidas que vivem nos bambus pelo Dr. A. DA COSTA LIMA 41 

III Contribuição para o estudo da biolojia dos culícidas. Observações sobre a respiração nas larvas pelo 

Dr. A. DA COSTA LIMA (Com 3 figuras no texto) 44 

IV Estudos sobre liquido cefalo raquiano. Reações de NONNE— Dosajem da reeção de Wassermann, de 

WEIL-KAFKA. pelo Dr. ARTHUR MOSES 50 

V Contribuição para o conhecimento da fauna de protozoários do Brazil. iV. pelo Dr. ARISTIDES MARQUES 

DA CUNHA (Com a estampa 3) 66 

F'a.oicvilo II 

I Processos patojenicos da tripanozomiase americana pelo Dr. CARLOS CHAGAS, chefe de serviço. (Com 

as estampas 4 e 5) 5 

II Tripanozomiase americana, forma aguda da doença pelo Dr. CARLOS CHAGAS, chefe de serviço, (Com 

as estampas 6, 7, 8, 9 e 10) 37 

III Sobre uma hemogregarina da gambá. Hemogregarina didelphydls n. sp. pelos Drs. OSCAR d'UTRA e 

SILVA e J. B. ARANTES (Com a estampa 11) 61 

IV Pesquizas sobre o Copromastix prowíazeki n. g. v. sp. pelo Dr. HENRIQUE de BEAUREPAIRE ARAGÃO, 

Assistente (Com a estampa 12) 64 

V Fixação de complemento na blastomicose pelo Dr. ARTHUR MOSES (Assistente interino) 68 

VI Nota sobre Agchylostoma brasiliense G. de Faria, 1910, pelo Dr. GOMES de FARIA 71 

F^a,ciculo III. 

I Viajem cientifica pelo Norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauhí e de norte a sul de Goiaz, 
pelos Drs. ARTHUR NEIVA e BELISARIO PENNA. (Estudos feitos á requisição da Inspeto- 
ria de Obras contra a seca. Direção: Dr. Arrojado Lisboa.) 74 



Ano 1916 
Tomo VIH 
Faciculo I 



MEMORIAS 

^V/4 i^J^ilÂ, DO 

Instituto Oswaldo Cruz 



Rio de Janeiro - Manguinhos 



1/2 



à!k 



•J \} i U ï s f 6 



MAR 2 1919 

^^^ <* Anthor 



>>x 



Svimfvfio: 

I Estudos sobre os flajelados parásitos dos mamiferos do Brazil, pelo Dr. OLYMPIO OLIVEIRA RIBEI- 
RO DA FONSECA, (com as estampas 1 e 2 e 4 figuras no texto) 5 

I! Sobre alguns Curculionidas que vivem nos bambus pelo Dr. A. DA COSTA LIMA 41 

III Contribuição para o estudo da biolojia dos culícidas. Observações sobre a respiração nas larvas pelo 

Dr. A. DA COSTA LIMA (Com 3 figuras no texto) • . 44 

IV Estudos sobre liquido cefalo raquiano. Reações de NONNE-Dosajem da reação de Wassermann, de 

WEIL-KAFKA. pelo Dr. ARTHUR MOSES 50 

V Contribuição para o conhecimento da fauna de protozoários do Brazil. IV. pelo Dr. ARISTIDES 

MARQUES DA CUNHA (Com a estampa 3) 66 



W /ÍQ^/^ As «MEMORIAS' serão publicadas em faciculos, que não aparecerão em 
fWf l0v_y datas fixas. No minimo, aparecerá um volume por ano. 

Na parte escrita em português foi adotada a grafia aconselhada pela Academia de Letras 
do Rio de Janeiro. 

Toda correspodencia relativa ás «MEMORIAS» deverá ser dirijida ao «Diretor do Ins- 
tituto Oswaldo Cruz - Caixa postal 926 - Manguinhos - Rio de Janeiro». Endereço telegráfico: 
«Manguinhos». 



Estudos sobre os ílajelados parásitos dos mamiferos do Brazil 

pelo 
Dr. Olympic Oliveira Ribeiro da Fonseca 

(Com as estampas 1 e 2 e 4 figuras no texto.) 



Introdução. 

Ha algum tempo que empreendemos o 
estudo dos ílajelados parásitos dos mamífe- 
ros, indijenas ou importados, existentes no 
Brazil. O resultado de nossas pesquizas con- 
stituiu assunto de duas notas prévias e de 
uma memoria já publicadas, esta ultima acom- 
panhada de estudo geral dos ílajelados. 

A presente contribuição compreende tudo 
aquilo que de orijinal resultou de nosso tra- 
balho sobre o assunto. Só nos ocupámos das 
protomonadinas parasitarias, porquanto os 
binucleados têm sido muito pesquizados e 
as rizomastijinas parasitarias não foram por 
nós encontradas. 

Tornamos a descrever alguns parásitos, 
tendo utilizado para essa nova descrição ape- 
nas os elementos fornecidos pelos nossos pre- 
parados, do que resulta algumas delas pare- 
cerem deficientes, por não nos termos queri- 
do utilizar dos dados obtidos por outros au- 
tores; isso aconteceu, por exemplo, com as 
diversas especies de Giardia e de Trichomo- 
nas do homem, ílajelados, aliaz, sobre cuja 
morfolojia ou distinção especifica reinam 
ainda muitas duvidas ou diverjencias. Também 
quanto aos hospedadores dos diversos pará- 



sitos, só citamos observações por nós veri- 
ficadas. 

Parte geral. 
Histórico. 

Os ílajelados do intestino humano foram 
pela primeira vez verificados no Brazil em 
1904, pelo Dr. OLYNTHO DE OLIVEIRA 
que encontrou no Rio Grande do Sul casos 
de disenteria com Giardia intestinalis 
(LAMBL ) e Trichomonas hominis (DAVA IN E). 
Os mesmos ílajelados foram estudados, mais 
sob o ponto de vista medico que zoolojico. 
em 1912, pelo Dr. MELLO LEITÃO, no Rio 
de Janeiro. 

BRUMPT, em 1913, em São Paulo, en- 
contra Giardia intestinalis (LAMBL) que lhe 
parece rara naquela cidade. 

Em l'^14, os Drs. ARISTIDES MARQUES 
DA CUNHA e MAGARINOS TORRES 
observam em Lassance, estado de Minas 
Geraes, os primeiros casos brazileiros de 
colite com Chilomastix mesnili (WENYON). 

Em 1915, o professor FICKER publica 
dados estatísticos sobre as disenterias reinantes 
emS. Paulo; refere ele ter observado 22 casos 



devidos flajelados intestinaes dos quaes 7 com 
ocorrência simultanea de amebas. 

No mesmo ano, verificámos no Rio de 
Janeiro a presença de Trichomonas hominis 
(DA VAINE), T. vajinalis (LAMBL), Chilo- 
mastix mesnili (WENYON) e de um novo 
flajelado intestinal, Enteromonas hominis mihi, 
1915. 

Além dos flajelados intestinaes do homem, 
só nos constam sobre o assunto pesquizas 
recentes e ainda inéditas de CHAGAS sobre 
Cerodon rupestris WIED, o mocó. 

Em 1915, publicámos a descrição de 
nova especie de Chilomastix, parasito do Mus 
(Epiniys) nonvegicus ERXL. , o rato de esgoto. 

Material e técnica. 

Realizámos 252 autopsias em diversos 
mamíferos ou observações in anima nobili. 
Foram por nós exanimadas 36 especies e 2 
formas albinas de mamíferos pertencentes a 
faunas muito diversas; além deste material 
uíilisámos, a título de comparação, o que 
obtivemos em muitas autopsias de aves, repteis, 
batraquios e insetos. 

O material hnmano era constituído por 
urina ou fezes disentéricas emitidas e levadas 
logo, contidas em vaso limpo e seco, a exa- 
me no laboratorio; o muco vajínal da mulher 
era colhido aseticamente e imediatamente 
examinado. 

O material de outros mamíferos era 
obtido por autopsia em animal morto aciden- 
tal ou propositadamente, ou atnda pela visita 
aos matadouros da cidade. 

Após o imprecindivel exame a fresco, 
fixávamos pelo sublimado alcoo! de SCHAU- 
DINN o material ainda húmido, distendido 
emlaminulas que, depois, eram coradas pelos 
proessos de HEIDENHAIN e de DOBELL. 
A's vezes, logo após a fixação, o preparado 
adquiria a côr rosea devida a reação do 
sublimado do fixador com derivados dos 
pigmentos biliares das fezes; outras vezes, 
após coloração a laminula se apresentava, em 
vez de intensamente ':orada em azul ou 
negro, com côr vermelha de barro; em 
um caso a imersão rápida e em outro pro- 



longada em alcool a 70, bastava geralmente 
para corrijir aqueles defeitos do preparado. 

Lista dos maniiíeros por nós 

examinados e das respetivas proíomo- 

nadinas parasitarias. 

Ordo I.-BIMANA. (') 

I. Homo sapiens LINNEU, 1758. - Homem 

Chilomastix mesnili (WENYON, 
1910). 

Enteromonas hominis mihi, 1915. 
Giardia intestinalis (LAMBL. , 
1859). 

Trichomonas hominis (DA VAI- 
NE, 1837. 

Ordo II. -PRIMATES. 

II. • Cebus carayá (HUMBOLDT, ISll). 

Macaco. 

Giardia intestinalis (LAMBL., 

1859) 

III. Colli thrix jacchus LINNEU, 1776.- 

Sagui. 
VI. Midas {Leontopithicus) rosália LIN- 
NEU, 1776- Sagui vermelho. 

Ordo IV.- CHIROPTERA. 

V. * Molossus obscnrus GEOFFROY, 

1805. -Morcego. 
VI.* Nyctinomas gracilis (NATTERER) 

WAGNER, 1843. -Morcego. 
VIL * Hcmiderma perspicillatum (LINNEU, 

1758). Morcego. 

VIII. * Glossophagasoricina (PALLAS, 

1766). -Morcego. 

IX. * Desmodiis rufus WIED., 1826.- 

Morcego. 



(') Seguimos na lista dos hospedadores o Catalogam 
Mammalium de Trouessart, tanto no que respeita á 
ordem seguida, como quanto aos nomes adotadcs. 
Excetuam-se desta regra, os nomes que estiverem 
assinalados por asterisco, os quaes correspondem aos 
mamíferos, a nosso pedido determinados pelo Prof. Au- 
pio de Miranda Ribeiro, a quem deixamos aqui con- 
signado nosío reconhecimento. 



Ordo VI. -carnívora. 

X. Ursas {¡ielarctos) malayanus RAFLES, 

1822. -Urso malaio. 
XI Nasua rufa DESMAREST, 1820.- 

Coati. 

XII. Gallictis vittata SCHREBER, 1775.— 

Furão. 

XIII. Canis (Canis) familiarís LINNEU, 

1758. -Cão. 

XIV. Felis (Felis) domestica LINNEU, 

1758. -Gato. 

Ordo Vin.-RODENTIA. 

XV a. Mus (Epimy^) norwegicus ERXLE- 
BEN 1777. -Rato dos esgotos. 
Chilomastix bittencourti mih\, 1915 
G/ûA-ûf/a m«r/s (BENSEN, 1908). 
O do mitas mur is (GRASSI, 1881). 
Trichomonas maris G ALLÍ- VA- 
LERIO, 1907. 

XV b. Mas {Epimys) norwegicus ERXLE- 
BEN, \m, forma albina. -Raio 
branco. 

Chilomastix bittencoarti mihi, 1915 
Octomitas maris (GRASSI, 1881) 
Trichomonas maris GALLI-VA- 
LERIO, 1907. 

XVL Mus (Epimys) rattus LINNEU, 
1766 -Rato dos tetos. 
Octomitas maris (GRASSI, 1881). 

XVII a. Mus (Mas) mnsailus LINNEU, 
1776. — Camondongo cinzento. 
Trichomonas maris GALLI-VA- 
LERIO, 1907. 

XVII Mus (Mus) musculas LINNEU, 
1766, forma albina. -Camon- 
dongo branco. 
Octomitas maris (GRASSI, 1881), 

XVIII. Coendú prehensiles LINNEU, 
1766. -Ouriço. 

XIX Coendú villosus F. CUVIER, 1822.- 
Ouriço. 

Giardia cuniculi (BENSEN, 
1908). 

XX. Dasiprocta agutí LINNEU, 1776.- 
Cotia. 

Trichomastix caviœ (GRASSI, 
1881). 



XXI. Agouti paca LINNEU, 1766. 
XXn. Cavia porcellus LINNEU, 1766.- 

Cobaio. 

Chilomatix intestinalis KUCZYN- 

SKl, 1914. 

Chilomitus caviœ, nov. gen., nov. 

sp. 

Sphœromonas communis LIEBE- 

TANZ, 1910. 

Trichomastix caviœ (GRASSI, 

1881). 

Trichomonas caviœ DAVAINE, 

1875. 
XXIIL Cavia aperea ERXLEBEN, 1777.- 

Preá. 

Chilomitus caviœ, nov. gen., nov 

sp. 

Trichomastix caviœ (GRASSI, 

1881). 

XXIV. Hydrochœrus capybara LINNEU, 

1766. -Capivara. 

XXV. Oryctolagus cuniculus LINNEU, 

1766.- Coelho. 

Chilomastix cuniculi, nov. sp. 

G/az-rf/flCtt/z/íTu/í (BENSEN, 1908) 

Ordo X.-UNGULATA. 

XXVI. Equus (Equas) caballas LINNEU - 

Cavalo. 

XXVII. Sus (Sus) scrofa LINNEU, 1766.- 

Porco. 

XXVIII. Tayassus (Tayassus) tajacu 
LINNEU, 1756.- Cai letú. 

XXIX. * Cervas elaphas LINNEU, 1766.— 

Veado europeu. 

XXX. * Antilope cervicapra LINNEU.- 

Antilope. 

XXXI. Capra (Capra) hircus LINNEU, 

1766. -Cabra. 

Callimastix frontalis BRAUNE, 

1914. 

Chilomastix caprœ, nov. sp. 

Sphœromonas communis LIEBE- 

TANZ, 1910. 

XXXII. Ovis arles LINNEU, 1766.- 
Carneiro. 

Callimastix frontalis BRAUNE, 
1914. 

XXXIII. Bos lauras L'ÍNNEU, 1766.- 
Boi. 



Callimastix frontalis BR AUN E, 

1914. 

Sphœromonas communis LIEBE- 

TANZ, 1910. 

Sphœromonas Uebetanzi, nov. 

nom. 

Ordo XIII. -EDENTATA. 

XXXIV. Tatus (Tatus) novem-cindus 
LINNEU, 1766. -Tatú. 
Trichomonas tatusi, nov. sp. 

Ordo XIV.-MARSUPIALIA. 

XXXV. Macropus (Macropus) robustns 
GOULD, 1840. -Canguru. 

XXXVI. Didelphys (Didelphys) marsupialis 
LINNEU, 1760.-Qambá. 

Biolojia geral. 

Pouca cousa de novo temos a dizer sobre 
a biolojia geral das protomonadinas parasi- 
tarias. 

No estudo morfolojico, dous fatos se 
mostraram interessantes. 

Encontrámos, não raro, em certos Tricho- 
monas (T. caviae, T. mûris), um corpúsculo 
Ovoide, esférico ou com a forma de hexágo- 
no regular com ángulos arredondados; nos 
preparados a fresco, no flajelado vivo, eles 
se mostravam refrinjentes ; nos preparados 
tratados pela hematoxilina, esses corpúsculos 
se mostraram intensamente corados em azul, 
nunca, porém, tão escuros quanto as forma- 
ções cromaticas da célula; uma ou outra vez, 
pudemos vel-os livres no conteúdo intestinal, 
provavelmente após destruição do parasito; 
não parece que seja substancia injerida porque 
no ponto em que ele existe é frequentemen- 
te substituido por um vacuolo na aparência 
vasio. Talvez devamos colocar esse corpús- 
culo no grupo das substancias cromatoides, 
com. a volatína dos Trypanosoma. 

Outro fato interessante, é a solução do 
problema da orijem e da natureza do axos- 
tilo. A nosso ver, a questão foi levantada 
sobre bases bastante falhas: foram compara- 
das conclusões diversas de autores que pes- 
quizaram objetos diferentes. 

No Trichomonas e nos tipos morfolo- 



jicos próximos desse genero (Trichomastix, 
tiexamastix), se encontra um bastonete espes- 
so, rijido na aparência tubular, vasio ou con- 
tendo granulações siderofilas esparsas, corta- 
do muitas vezes em bisel numa ponta salien- 
te para o exterior; a outra extremidade é 
interna e, ou se perde na massa plasmática, 
ou se continua mais ou menos diretamente 
com o citostoma. Nunca vimos uma dessas 
formações apresentar conexão morfolojica com 
parte alguma do aparelho nucleo-flajelar. A's 
vezes, entretanto, este bastonete apresenta 
seus bordos limitados por duas linhas mais 
escuras em um ponto das quaes, junto ao 
biselamento terminal, podem existir duas gra- 
nulações também escuras; é possível que 
essas linhas e granulações sejam de natureza 
cromatica. Não nos julgamos, entretanto, nem 
pelas nossas pequizas, nem pelos resultados 
discordantes obtidos por outros autores, au- 
torizado a emitir qualquer hipótese sobre a 
natureza e a orijem desta formação, certamen- 
te de função esquelética e a qual deve caber 
a designação de axostilo. 

Em outros flajelados (Octomitus^ Giardia), 
existem dois filamentos paralelos e indepen- 
dentes entre si, delgados, flexíveis, compactos, 
intensamente cromofilos, que partem de cor- 
púsculos basaes ligados aos núcleos por meio 
de rizoplastos, e, de outro lado, se continu- 
am diretamente para o exterior com os fla- 
jelos. Sempre, nesses diplozoarios, a conexão 
morfolojica dos filamentos em questão com 
o aparelho nucleo-flajelar é patente, não 
deixando a menor duvida a qualquer obser- 
vador atento. Muitos autores, entretanto, dão 
a esses filamentos a mesma designação de 
aXostilo que deve caber a formações total- 
mente diversas ; daí a confusão reinante. De 
acordo com as conclusões Uradas por HAR- 
TMANN e CHAQAS, no estudo do filamen- 
to axial de Cercomonas parva, formação aná- 
loga aos filamentos da Giardia e do Ocío- 
mitus, nos julgamos perfeitamente autorisa- 
do a atribuir a estes últimos natureza 
cromatica e orijem nuclear indiscutíveis. 
ALEXEIEFF, estudando os Rhizomastix, en- 
controu um filamento análogo que denomi- 
nou Rhizostylo e que caraterisou muito bem 



por esta frase já citada por KUCZYNSKI : 
«La fonction n'est pas analogue à celle de 
l'axostyle. En effet, ce dernier est surtout des- 
tiné à maintenir constante la forme du corps 
et représente ainsi une formation squelletique^ 
tandis que Rhizostyle fait partie intégiante 
de l'appareil flagéllairey. . 

O caso da Gi ardia e do Octomitus é 
perfeitamente idéntico e, a admitirem-se esses 
dous diplozoarios como orijinados da fusão 
de dois Trichomastix, deve-se admitir que 
os flajelos posterior es destes forneceram 
os rizostilos e que seus axostilos devem ter 
desaparecido, por não existir formação a eles 
análoga em nenhum diplozoario parasito. 

No ponto de vista da ecolojia geral, ve- 
rificámos que tem muito maior importancia 
na escolha do habitat a localisação do flaje- 
lado no hospedador, do que a posição siste- 
mática deste ultimo na escala zoolojica, assim 
encontrámos Giardia dos mamiferos só 
no intestino delgado, onde não existem 
Trichomonas, ao passo que estes abundam 
no intestino grosso o qual é privado de Giar- 
dia. A coabitação e a identidade de rejime 
alimentar favorecem a infeção, como tivemos 
ocasião de observar com cobaios que vieram 
a se infetar com Sphœromonas, parasito de 
ruminantes. Nenhum carnívoro se mostrou 
frequentemente infetado e, dos herbívoros, 
eram os ruminantes e os roedores os que, 
quasi certamente, se mostravam parasitados. 

Desse parasitismo, para os mamiferos 
em geral, não parece resultar ação patoje- 
nica; a inocuidade é a regra e, talvez, em 
certos casos o flajeíado seja realmente util 
ao seu hospedador. 

Os flajelados intestinaes do homem pare- 
cem constituir infeções secundarias consecuti- 
vas a quaesquer processos disenteriformes. 

Classificação das Protomonadinas. 
Géneros parásitos. 

No sistema de HARTMAM e CHAGAS 
as protomonadinas são distribuidas em dous 
grupos, um deles compreende individuos asi- 
métricos, tendo numero simples de organelas, 
e outro é constituido por flajelados providos de 



simetria bilateral e quasi sempre com numero 
duplo de todas as suas formações. 

O primeiro grupo, Monozoa, inclue toda 
a antiga ordem das protomonadinas, com ex- 
clusão apenas dos binucleados, com os quaes 
HARTMANN constitue uma o.dem á parte. 

O segundo grupo, Diplozoa, corresponde 
ao antigo grupo dos Diplozoarios da 
DANGEARD e ás Distomata de KLEBS. 

Embora isto não tenha sido expresso por 
HARTMANN e CHAGAS, julgamos dever 
considerar esses dous grupos com a categoria 
de sub-ordens. 

Na sub-ordem Monozoa, HARTMANN 
inclue oito familias, numero este que aumen- 
támos pela criação de uma nova familia. 

A primeira familia, HARTMANN designa 
pelo nome de Cerco mo nada cœ; é caraterisada 
pela presença de um flajelo anterior que se 
continua com um filamento de orijem nuclear 
que atravessa o corpo e termina na extre- 
midade posterior da célula, onde existe 
prolongamento caudal. Nesta familia, estaria 
incluido o genero Cercomonas. que outros 
julgam ser antes rÍ7omastijina; foi por 
isso que LEMMERMANN propoz em 1913, 
a creação do genero Ctrcomastix, para incluir 
os protozoários que HARTMANN e 
CHAGAS julgam Cercomonas; neste caso o 
nome da familia deveria ser mudado, de 
acordo com o nome do novo genero que 
lhe serviria de tipo. Não julgando, entretanto, 
que esteja resolvida a questão, preferimos 
seguir a opinião dos dous autores citados, 
conservando a designação por eles dada á 
famiha, nmdando apenas a desinencia, que, 
de acordo com as regras de nomenclatura 
zoolojica deve ser idœ e não acece, terminação 
esta adotada para os nomes de familias na 
nomenclatura botânica; esta mudança de 
desinencia será feita também para as outras 
familias da mesma ordem. 

Colocamos na familia Cercomonadidœ, 
devido á presença de rizostilo, o genero 
Rhizomastix, creado por ALEXEIEFF em 
1911, apezar de opiniões em contrario de 
ouiros, que preferem estudal-o na familia 



10 



seguinte. A espede tipo deste genero é R. 
gracilis ALEXEIEFF, IQll. 

A segunda familia, Oicomonadidce se 
caraterisa por corpo globoso com flajelo 
único e longo; encerra um só genero 
parasito, Sphœromonas, creado por LIEBE- 
TANZ em 1910 e cuja especie tipo é 5. 
communis LIEBETANZ, 1910, 

A' terceira familia, HARTMANN denomi- 
na Craspcdomonadareœ, designação que não 
pode prevalecer por não incluir ela nenhum 
genero de cujo nome pudesse este seorijinar; 
designaremos, por isso, a familia pelo nome 
adotado por POCHE, em 1913, de Codosi- 
gidœ. Esta familia, caraterisada pela presença 
de um colarinho membranoso que cerca a 
base do flajelo, não encerra representante pa- 
rasito. 

A quarta familia que consideramos é a 
quinta de HARTMANN, Monadidœ, caraterisa- 
da pela presença de dous flajelos anteriores 
dos quaes um grandee um pei^ueno (Neben- 
geissel); nenhum representante parasito. 

A nossa quinta familia é a sexta de 
HARTMANN, Amphimonadidœ, caraterisada 
pela presença de dous flajelos anteriores de 
egnal comprimento; nenhum representante 
parasito. 

A sexta familia, na seriação que esta- 
belecemos, é a quarta de HARTMANN, 
Bodonidœ, sobre cuja significação reinam as 
maiores d!verjencias. O genero que serve de 
tipo á familia é o genero Bodo, creado por 
EHRENBERG, em 1838, e cuja especie tipo 
por sua vez é B. saltans, descrita na mesma 
ocasião por aquele autor; até 1910 nenhuma 
duvida existia quanto aos protozoários que 
deviam ser colocados no genero Bodo; 
naquele ano, porém, HARTMANN e CHAGAS 
descrevem novo genero de binucleados 
com o nome de Prowazekia e que difere do 
genero Bodo apenas por ter dous núcleos; 
tempos depois ALEXEIEFF verificou que 
B. saltans também tinha dous núcleos e era, 
portanto, binucleado, o que fazia cair 
em sinonimia o nome de Prowazekia. 
HARTMANN, porém, continua convencido 
da existencia autónoma do genero Prowazekia, 
por ter visto aqui no Brazil uma especie 



aquática de Bodo, que ele não determinou e 
que não era binucleado. Para as especies 
parásitos, por alguns colocadas no genero 
Bodo, fora creado o genero Heteromita, nome 
que não pode prevalecer por já ter sido 
anteriormente empregado com significação 
diferente; por esse motivo, em 1912, 
ALEXEIEFF creou o genero Prowazekella, 
para a especie conhecida com o nome átBodo 
lacertœ. Os representantes mononuclear! os 
do antigo genero Bodo, uma vez verificada 
a duplicidf.de nuclear da especie tipo deste 
genero, devem ser colocadas em novo 
genero que para tal fim ainda não foi creado. 

A sétima familia é Trimastigidœ, cara- 
terisada pela presença de um flajelo anterior 
e de dous flajelos recorrentes; nenhum repre- 
sentante parasito. 

, A oitava familia é Tetramitidoe, cuja 
caraterisação era feita antigamente pela 
presença de quatro flajelos; hoje, depois de 
conhecidos muitos flajelarios próximos a 
tetramitidas tipleas, tendo numero diverso de 
flajelos, somos levado a caraterisar esta 
familia como: protomonadinas com quatro 
flajelos em dous grupos ou em um só grupo, 
podendo, então, um ser recorrente, ou ainda, 
com flajelos em numero diverso, mas tendo, ou 
membrana ondulante, ou flajelo recorrente 
livre, ou axostilo, ou varias destas formações, 
simultaneamente. Esta familia compreende 
muitos géneros e sub-generos de flajelados 
parásitos, segundo consta da lista seguinte: 

Genero Chilomastix ALEXEIEFF, 1910. 
Citnstoma com borda cromofi'a e per- 
corrida por membrana ondulante, trez 
flajelos livres anteriores; não ha axostilo. 
Especie tipo: C. caulleryi (ALEXEIEFF, 1909/ 

Sub-genero Tetrachilomastix, nov. sub- 
gen. Difere do tipo precedente pela presença 
de quatro flajelos anteriores, em vez de trez. 
Especie tipo: Chilomastix (Tretrachilomastix) 
gallinarum MARTIN et ROBERTSON, 1911. 

Genero Fanapepea PROWAZEK, 1911. 
Difere da Chilomastix por ter dous flajelos 
anteriores, em vez de trez; sua existencia é 
duvidosa, por motivos que mais tarde estu- 
daremos. Especie tipo: F. intestinalis PRO- 
WAZEK, 1911. 



11 



Genero Cyathomastix PROWAZEK, 1914. 
Difere de Chiloniastix pela presença de 
axostilo; existencia também duvidosa. Especie 
lipo: C. hominis, PROWAZEK, 1914. 

Genero Difamas GÀBEL, 1914. Difere 
de Chiloinastix pela ausencia de membrana 
ondulante; existencia duvidosa. Especie tipo: 
D. tunensis GÀBEL, 1914. 

Genero Embadomonas MACKINNON, 
1912. Difere de ChUomaUix por ter apenas um 
flajelo anterior; encontrámos um representante 
deste genero em Stylopyga americana, a batata. 
Especie tipo: E. agilis MACKINNON, 1912. 

Genero Protrichomonas ALEXEIEFF, 
1911. Trez flajelos anteriores, costa cro- 
moíila, axostilo não saliente para o exterior ; 
não ha membrana ondulante, nem flajelo 
livre recorrente. Especie tipo: P. legerí 
ALEXEIEFF, 1911. 

Genero Hexamastix ALEXEIEFF, 1912. 
Seis flajelos anteriores deseguaes, dos quaes 
um esboça membrana ondulante em seu 
inicio ; axostilo saliente para o exterior; não 
existe costa. Especie tipo: H. batraciiorum 
(ALEXEIEFF, 1911). 

Genero Trichomonas DONNÉ, 1837. 
A membrana ondulante repousa sobre costa; 
irez flajelos anteriores, axostilo saliente para 
o exterior. Especie tipo: T. uaginaiis DONNÉ, 
1837. 

Sub-genero 7 retra trichomonas ALE- 
XEIEFF, 1911. Difere do precedente por ter 
quatro flajelos anteriores, em vez de trez. 
Especie tipo : Tricho.-nonas ( Tetratrichomoaas) 
prowazeki ALEXEIEFF, 1909. 

Sub-genero Pentatríchomonas CHATTER- 
JEE, 1915. Difere de Trichomonas pela 
presença de cinco flajelos anteriores. Especie 
tipo: Trichomonas (Pentatrichomonas) ardin 
delteili (DERIEU et RAYNAUD, 1914). 

Genero Enteromonas, mihi, 1915. Um 
flajelo posterior e dous anteriores eguaes e 
mais curtos que o primeiro. Especie tipo: 
E. hominis, mihi, 1915. 

Genero Trimitus ALEXEIEFF, 1910. 
Um flajelo posterior que atravessa o corpo e 
dous anteriores deseguaes e livres; existencia 
duvidosa, mesmo para o autor, que creou 



o genero com muitas reservas. Especie tipo : 
T. moteílce ALEXEIEFF, 1910. 

Genero Trichomastix BLOCHMANN, 
1S84. Um flajelo recorrente livre, trez flajelos 
anteriores eguaes entre si, axostilo saliente 
para o exterior. Especie tipo : T. lacerta; 
(BÜTSCHLI, 1884). 

Sub-genero Tetratrichomastix PARISI. 
Distingue-se do precedente por ter quatro 
flajelos anteriores em vez de trez. Especie 
tipo Trichomastix (Tetratrichomastix) orthopte- 
rornm PARISI, 1910. 

Genero Chilomitus, mihi, 1915. Quatro fla- 
jelos anteriores eguaes, citostoma anterior, 
não ha axostilo. Especie tipo : C caviœ, mihi, 
1915. 

Genero Costia LECLERQ, 1890. Quatro 
flajelos anteriores, dous maiores e dous 
menores, corpo asimétrico. Especie tipo: 
C. necatrix (IlENNEGUY, 1884). 

Genero Polymastix BÜTSCHLI, 1884. 
Quatro flajelos anteriores eguaes, em dous 
grupos de dous cada um, axostilo não 
saliente para o exterior, periplasta rijido e 
estriado. Especie tipo: P. melolonthae 
BÜTSCHLI, 1884. 

Genero Monocercomonas GRASSI, 1881. 
Quatro flajelos anteriores em dous grupos 
cada um deles com dous flajelos, dos quaes 
um ás vezes maior que o outro. Especie 
tipo: M. melolontœ (GRASSI, 1879). 

A familia que estabelecemos é Calli- 
mastigidœ, mihi, 1915, cujo único genero 
foi creado por WEISSENBERG, em 1912, para 
a especie que denominou Callimastix cyclopis; 
julgava este autor que o parasito era proximo 
da familia Lophomonadidœ na qual, entretanto, 
não o fazia incluir ; como veremos pela discrição 
de C. frontalis, a qual concorda em suas linhas 
geraes, com a que WEISSENBERG fornece 
de C. cyclopis, o genero representa tipo perfeito 
de protomonadina, segundo a acepção atribuida 
a esse termo pelos atuaes representantes da 
escola de SCHAUDINN. No quadro das fami- 
lias da ordem Protomonadinar\Qn\\um3.tx\%\.isi 
em que licitamente se pudesse incluir o genero 
Callimastix; foram essas considerações que 
nos levaram a abandonar a insinuação de 
WEISSENBERG e a crear nova família para 



12 



este genero. A nova familia ficou assim cara- 
terisada: protoinonadinas arredondadas com 
flajelos numerosos em seu pólo anterior. 

Genero CaWmastix WEISSENBERQ, 
1912. Muilos flajelos delgados, longos, eguaes, 
anteriores e paralelos entre sí, corpo globoso 
com periplasta muito rijido. Especie tipo: C. 
cyclopis WEISSENBERQ, 1912. 

Na sub-ordem Diplozoa, HARTMANN 
inclue uma única familia a que denomina 
Distomatidœ, nome que não pôde prevalecer 
por não encerrar ela nenhum genero de cujo 
nome este possa provir; deve ser adotada a 
des'gnaçao de Hexamitidœ, creada em 1880- 
82, por KENT ; esta familia encerra dous 
géneros de fiajelados parásitos : 

Genero Ocíomitus PROWAZEK, 1904. 
Trez flajelos anteriores de cada lado, dous 
flajelos caudaes, dous núcleos anteriores, 
Jous corpúsculos basaes, também anteriores 
de onde saem os flajelos; os flajelos caudaes 
antes de se libertarem percorrem o corpo de 
uma a outra extremidade. HARTMANN e 
CHAGAS consideram os fiajelados deste ge- 
nero como formados pela fusão de dous Tricho- 
masíix; para admitir esta hipótese, é neces- 
sário que se admita o desaparecimento do 
axostilo, carateristico deste ultimo genero e 
que não tem similar em nenhum diplozoario 
parasito. Especie tipo: O. intestinalis PRO- 
WAZEK, 1904. 

Genero Giardia KUNSTLER, 1882. 
Dous núcleos anteriores, dous flajelos ante- 
riores, dous lateraes, dous medianos, dous 
caudaes, um cromidioe uma ventosa anterior. 
Especie tipo; Giardia agi/is KUNSTLER, 
1882. A hipótese de HARTMANN e CHAGAS 
sobre a orijem de Octomitus ainda pôde ser 
aplicada ao caso deste genero, havendo 
necessidade da restrição estabelecida no caso 
precedente e, mais ainda, de que se levem 
em conta as dificuldades decorrentes da 
presença de uma só ventosa e de um único 
cromidio e da disposição complicada do 
aparelho nucleo-flajelar. 

FAMILIA Oîçomonadîdae KENT, 1880—82, 

SINONIMIA. Cercomonadidœ KENT, 
1880-82, paj. 249, pro parte; Cercomonadina 



BÜTSCHLI, 1884, paj. 812, pro parte; 
Oicomonadacece SENN, 1900, paj. 117; Oico- 
monadidœ KENT, 1880-82, paj. 250. 

Geuero SPH.-EROMONAS (i) LIEBETANZ 
1910. 

Sinonimia — Cercomonas DUJARDIN, 
1841, in LIEBETANZ, 1910, paj. 35; Monas 
MULLER, 1786, m BRAUNE, 1914, paj. 
122-123; Oicomonas KENT, 1880-82, in 
LIEBETANZ, 1910, paj. 33; Piromonas 
LIEBETANZ, 1910, paj. 37; BRAUNE, 1914, 
paj. 124-125; Sphœromonas LIEBETANZ, 
1910, paj. 25-26. 

Histórico — Reina grande confusão na 
sistemática dos fiajelados do estomago dos 
ruminantes. Foram eles, até hoje, objeto de 
dous trabalho. O primeiro de LIEBETANZ 
que, em 1910, distinguiu, na familia que 
denomina Cercomonadina, onze especies, dis- 
tribuidas em quatro géneros que parasitam 
ruminantes ; servem de criterio, para distinção 
genérica, variações pequenas de forma e, para 
caracteres específicos, diferenças de tamanho 
arbitrariamente consideradas. BRAUNE, em 
1914, reduziu, a nosso ver com razão, todas 
essas formas a duas especies que, entretanto, 
ainda coloca em géneros diferentes, e para 
isso se basea em diferença de forma, constante 
mas pouco acentuada. Procurando resolver a 
questão, preferimos admitir as duas especies 
aceitas por BRAUNE, colocando, porém, ambas 
no genero Sphœromonas, o primeiro descrito 
por LIEBETANZ, visto como a nenhum gene- 
ro anterior podem elas ser referidas. As especies 
admitidas por BRAUNE são Sphœromonas 
communis e Piromonas communis. Passando 
esta ultima para o primeiro genero, tem que 
mudar de designação especifica, por estar esta 
preocupada no genero Sphœromonas; pro- 
puzemos sua substituição pelo nome de 
Sphceromonas liebetanzi, em homenajem ao 
autor que pela primeira vez a descreveu. 

Diagnose - Corpo arredondado esférico 
ou piriforme, metabólico ; núcleo cariosomico, 
esférico, ligado a um corpúsculo basal por 



(1) De ocpaToa, globo -l-/<oj'«ç, unidade. 



13 



um rizoplasto ; do corpúsculo basal, colocado 
no polo anterior da célula, sae um longo 
fiajelo encurvado para traz. 

Morfolojía- Plasma distinto em endo 
e etoplasma; este é limitado externamente 
de maneira nitida por camada periplastica 
que permite ao parasito executar amplos 
movimentos metamórficos; o restante do 
etoplasma é hialino, desprovido de granulações 
e envolve completamente o endoplasma. 
Este é alveolado ; esta estrutura quasi 
sempre é mascarada pelo grande numero de 
granulações siderofilas volumosas e esféricas 
de que está repleto o parasito. 

Núcleo esférico, mais ou menos excên- 
trico, ás vezes central; cariosoma volumoso, 
cercado da zona do suco nuclear vasia; 
não existe membrana nuclear que pode ser 
simulada por uma coroa de granulações 
siderofilas. 

Corpúsculo basal pequeno, anterior, sub- 
marjinal e ligado ao núcleo por meio de um 
rizoplasto. Desse corpúsculo basal parte um 
flajelo recorrente, longo e espesso que sevae 
afilando pouco a pouco para a extremidade 
livre. 

Especies conhecidas: 

5. communis LIEBETANZ. 

5. liebetanzi, mihi, 1915. 

Sphœromonas communis LIEBETANZ, 1910. 

Sinonimia. — Monas communis LIEBE- 
TANZ, /« BRAUNE, 1914 pajs. 122-123; 
Oikomonas cí7/7zwm«/5 LIEBETANZ, 1910, paj. 
33-34; O. minima LIEBETANZ, 1910, paj. 
34; Sphœromonas communis LIEBETANZ, 
\9U; S. maxima LIEBETANZ, 1910, pajs. 
32-33; S. mw/V/m LIEBETANZ, pajs. 31-32. 

Redescrição. — Corpo arredondado e 
muito metamórfico. Desse metamorfismo 
resultam aspetos variáveis nos preparados 
corados, frequentemente coincidindo com 
posições particulares do flajelo; dessas 
coincidencias resultou, provavelmente, a 
suposição errónea de multiplicidade de 
especies. Dimensões, habitualmente, 10 n de 
diâmetro, ás vezes baixa até 7 /í ou sobe 
a 12/^. 



Plasma diferenciado em endoe etoplasma; 
este é nitidamente limitado para fora e se 
continua para dentro com o endoplasma 
alveolado; o etoplasma é hialino, desprovido 
de granulações e muito flexivel, o que permite 
os movimentos metamórficos do protozoário ; 
a estrutura alveolar do endoplasma é muitas 
vezes imperceptível, por causa do grande 
numero de granulações siderofilas que a 
encobrem ; essas granulações são esféricas, 
volumosas e invisíveis a fresco. 

Núcleo mais ou menos excêntrico, esférico, 
cariosomico, com cerca de 2 /* de diâmetro; 
zona do suco nuclear vasia, membrana nuclear 
ausente, mas ás vezes simulada por um colar 
de granulações siderofilas; cariosoma central, 
esférico, volumoso, que atinje ás vezes 1,5 /< 
de diâmetro; zona do suco nuclear vasia e 
de coloração idêntica á do endoplasma com 
o qual se continua; não foi ainda visto 
centrioio. 

Corpúsculo basal sub-marjinal, esférico, 
pequeno e ligado ao núcleo por um rizoplasto; 
muitas vezes a zona do suco nuclear se extende 
na direção desse corpúsculo. 

Do granulo basal parte um flajelo espesso 
e muito longo, que tem cerca de 30j£tde com- 
primento. Não estamos convencido da 
existencia do movimento que BRAUNE 
descreve para esse flajelo, não sendo, 
entretanto, improvável que, como refere esse 
autor, muitas vezes o parasito execute movi- 
mento giratorio em torno do eixo antero- 
posterior. O flajelo é, então, dirijido para 
frente e parte de ponto um tanto lateral. 
Outro movimento giratorio, foi por nós 
observado não parecendo, porém, ser 
normal ao flajelado; é em torno de seu centro 
que o protista gira e o flajelo, a principio 
colocado em relação á célula como si fora 
o prolongamento de um raio, de reto que 
era, vae-se encurvando á propor«;ão qut- 
aument.2 a velocidade de rotação; em breve 
o protozoário e seu flajelo tomam o aspeto 
que LIEBETANZ representa na figura 1 da 
estampa 1, do trabalho citado. 

O protozoário se reproduz por divisão 
binaria e por divisão múltipla. 



14 



Habitat. — Rumen de Bos taurus e 
céco de Cavia porcellus. 

Sphœronionas liebetanzi, mi hi, 1915. 

Sinonimia. — Cercomonas rhizoidea com- 
munis LIEBETANZ, 1910, pajs. 35-36; 
C. r. maxima LIEBETANZ, 1910, pajs. 36- 
37 C. /'. minima LIEBETANZ, 1910, paj. 36; 
Piromonas communis LIEBETANZ, 1910, pajs. 
37-38; BRAUNE, 1914, pajs. 124-125, 
P. maxima LIEBETANZ, 1910, pajs. 38-39; 
P. minima LIEBETANZ, 1910, paj. 38. 

Redcscrição. - Corpo alongado, muitas 
vezes ovoide, outras vezes sub-cilindrico ou 
piriforme; metamorfismo menos acentuado 
que na especie precedente. Dimensões 
habituaes a 11 /^ de comprimento por 5 a 6 
de largura; ás vezes o corpo atinje 15 a 16 
," de comprimento, por 5 a 6 /( de largura. 

Plasma diferenciado em endo e etopiasma; 
endopiasma cheio de granulações siderofilas 
menores e mais visíveis a fresco que na 
especie precedente ; o etopiasma é nitidamente 
¡imitado para fora e se continua insensi- 
velmente para dentro com o endopiasma. 

Núcleo, um pouco anteriormente colo- 
cado, cariosomico, muito refrinjente e, ao 
inverso do que acontece com a especie pre- 
cedente, bem vi'îivei. a fresco ; cariosoma 
central, esférico e volumoso; zona do suco 
nuclear vasia; não existe membrana nuclear. 

Flajelo espesso e muito longo, geral- 
mente com mais de 30 /*; este flajelo parte 
de porção antero-lateral do corpo e se dirije 
em linha mais ou menos reta para traz. 
Durante o movimento, o flajelo é arrastado 
pelo protozoário que vae executando movi- 
mento rápido de rotação, em torno do eixo 
lonjitudinal do corpo. 

O protozoário se multiplica por divisão 
binaria e por divisão muljtipla. 

Habitat. — Rumen de Bos taurus. 

Familia Callimasttgidae, mihi, 1915. 

Genero CALLIMASTIX (i) WEISSEN- 
BERG, 1912. 

Diagnose. — Corpo esférico, envolto por 



(O De xòArC. envoIucro+^íáaríC, chicote; 
a etimolojia e a ortografia deste nome genérico 
não estão de acordo uma com a outra; as 
regras de nomenclatura zoolojica nos 
impedem, porém, aqui qualquer correção. 



delgada capsula, numerosos flajelos anteriores 
mais ou menos paralelos, longos, partindo 
de corpúsculos basaes, colocados lado a lado 
e ligados entre si por meio de rizoplastos. 

Especies conhecidas: 

C. cyclopis WEISSENBERQ, 1912. 

C. frontalis BRAUNE, 1914. 

Callimasfix frontalis BRAUNE, 1914, 

Redcscrição. — Corpo geralmente esférico, 
raramente ovoide, não metamórfico. Dimensões 
médias, quando esférico, 9 a 10 /í; quando 
alongado, cerca de 11 jw de comprimento, por 
7 a 8 jM de largura. 

Plasma distinto em endo e eíoplasma; 
este ultimo é externamente limitado por 
periplasta rijido e um tanto isolado do resto 
do corpo; o restante do etopiasma é pouco 
coravel e constitue camada continua, espessa, 
hialina e desprovida de granulações, envol- 
vendo o endopiasma do qual é pouco nitida- 
mente separada; o endopiasma tem estrutura 
alveolar pouco nitida, por causa do acumulo 
de granulações siderofilas volumosas e esfé- 
ricas que ocupa todo o endopiasma. 

Núcleo esférico, quasi sempre central, 
volumoso e cariosomico; membrana nuclear 
nem sempre visivel, separada do cariosoma 
por zona da suco nuclear vasia; cariosoma 
volumoso com 1 a 1,5^ de diâmetro, intensa- 
mente corado; no centro do carisoma existe 
centriolo um tanto volumoso e cromófilo. 

Da superficie da rejião anterior do pro- 
tozoário, saem para frente, ao que parece, em 
grupos, numerosos flajelos finíssimos e 
muitos longos, que atinjem 30 e mesmo 40 fi de 
comprimento; eles têm sua orijem em cor- 
púsculos basaes pequenos, sub-marjinaes, 
ligados entre si por meio de finos rizoplastos; 
só cuidadosa diferenciação do preparado 
permite distinguir esses corpúsculos das gra- 
nulações siderofilas do endopiasma. Um 
desses corpúsculos, pelo menos, pode estar 
ligado ao cariosoma do núcleo por meio de 
um rizoplasto. 

Pela estrutura do plasma e pela presença 
de granulações siderofilas, este flajelado muito 
se assemelha ás S )hœromonas de que se 
distingue pelo numero, posição e dimensões 



15 



dos flajelos e pela presença de envoltorio 
rijido. 

Habitat. — Rumen de Bos taurus, de 
Capra hiráis e de Ovis aries. 

y=fl/«///û! Tetramitidae KENT, 1889-82. 

Sinonimia. - Tetramitaceœ SENN, 1910, 
paj. 118; Tetramitidœ KENT, 1880-82, paj. 
312; 7"^//-flw/í«fl BÜTSCHLI, 1884, paj, 841; 
Trimastigidoe KENT, 1880-82, paj. 307, 
pro parte. 

Genero CHILOMASTIX (») ALEXEIEFF, 
1910. 

Sinonimia. - Cercomonas DUJARDIN, 
1841, paj. 287, m DA VAINE, 1884, pro parte; 
Cyathomastix PROWAZEK, 1914, paj. 162. 
Difœmus GÀBEL, 1914, paj. 18; Fanapepea 
PROWAZEK, 19il, paj. 97; Macrostoma 
ALEXEIEFF, 1909 (n. preoc. peixes); Aío/zo- 
cercomonas GRASSI, 1881, paj. 11, pro parte; 
'Tetramitus PERTY, 1852, paj. 110, pro parte; 
Trichomonas DONNÉ, 1837, in ROOS, 1893. 

Diagnose. — Corpo mais ou menos piri- 
forme, não metamórfico ; o núcleo anterior 
tem, ás vezes, um cariosoma unido por um 
rizoplasto a corpúsculo basal também ante- 
rior, donde partem: trez flajelos anteriores 
eguaes, o labio cromofilo do citostoma e uma 
membrana ondulante que percorre lonjítudi- 
nalmente esse citostoma. 

Morfolojia. — Plasma distinto em endo e 
etoplasma. Este é constituido, quasi exclusiva- 
mente, por periplasta continuo, impedindo os 
movimentos metamórficos do protozoário; 
logo abaixo dele existe muitas vezes de'gada 
camada de plasma finamente granuloso. O 
endoplasma é bastante alveolado, principal- 
mente na porção media do corpo e contém 
poucas inclusões. Nunca existe axostilo, que, 
entretanto, é, ás vezes grosseiramente simulado 
por uma faixa de plasma correspondente ao 
eixo lonjitudinal do protozoário a qual, ás 
vezes, por estar situada entre fileiras de 
alveolos, se mostra constituida por uma linha 
mais intensamente corada ou por duas linhas 



(*) De xeIXoç, labio + |Wa<Trí^, chicote. 



paralelas mais coradas, que limitam um espaço 
mais chro. 

O núcleo é anterior, um pouco lateral, 
marjinal, vesiculoso. Raramente existe cari- 
osoma central que pode estar reunido ao 
corpúsculo basal por meio de um rizoplasto; 
nesse caso a zonado suco nuclear évasiaou, 
então apresenta esboço de retículo de linina, 
constituido por filamentos acromáticos, que, 
partem do cariosoma, a modo de raios e vão 
terminar na membrana nuclear. Outras vezes, 
o que é mais frequente, não existe cariosoma: 
a cromatina do núcleo, neste caso, é repre- 
sentada por granulações lenticulares ou 
bacilares, aderentes á face interna da membrana 
nuclear. Esta membrana é espessa e muito 
cromófila. 

O corpúsculo basal, ora é único, ora 
duplo; do corpúsculo basal único ou da 
granulação anterior, quando ele duplo, partem, 
para frente, os tre: flajelos eguaes entre si; 
do corpúsculo basal único, ou da granulação 
posterior do corpúsculo duplo, parte o labio 
cromofilo e fortemente recurvado do citos- 
toma, bem como uma membrana ondulante 
que percorre lonjitudinalmente esse citostoma. 

O citostoma é bem visivel, tanto a fresco, 
como após coloração. A membrana ondulante, 
ao conliario, um tanto dificil de se perceber 
a fresco, é, geralmente, invisível, após colo- 
ração; é muito provável que tenha sido a 
pouco visibilidade da membrana o fato que 
levou GÃBEL a crear o genero Difœmus, o 
qual se distinguiria de Chilomastix, só pela 
ausencia da membrana ondulante. 

Sub-genero TETRACHILOMASTIX, mihi, 
1915. 

O numero de flajelos do Chilomastix é 
passível de oscilações. PROWAZEK descreveu 
um genero, Fanapepea que se distinguiria de 
Chilomastix só por ter, apenas, dois flajelos 
anteriores; entretanto, ele mesmo, ora repre- 
senta o protozoário com dous, ora com trez 
flajelos anteriores, o que faz crer num erro de 
observação. 

O mesmo não sucede com as pesquizas 
de MARTIN e ROBERTSON, que descreve- 



16 



ram o Chilomastix galUnarum, como tendo 
quatro flajelos anteriores, e comas pesquizas 
de MACKINNON, que estabeleceu o genero 
E'vbadomonas, que se distingue de Chilo- 
maitix pela presença de um só fl tjelo ante- 
rior. No primeiro caso, a diterença não é 
bastante para formação de novo genero, mas 
nos parece justificar a creação de sub-ge- 
ñero, para o qual propuzemos o nome de 
Tetrachilomastix; desse modo procedendo, 
adoptámos o modo de ver daqueles que 
estabeleceram os sub-generos Tetralrichomonas 
e Tetratrichomastix. Quanto ao genero Embado- 
monas, além da diferença numérica de flajelos 
mais acentuada, existem também outras 
pequenas diferenças morfolojicas que justifi- 
cam a separação desses flajelados em gene- 
ro distinto. 

A especie única deste sub-genero será 
Chilomastix (Tetrachilonia'itix) galUnaruin 
MARTIN et ROBERTSON, 1911. 

Especies descritas: 

C bittencoiiríi, tnihi, 1915. 

C bocis BRUMPT, 1912. 

C. caprce, mihi, 1915. 

C. caiilleryi (A LEX El E FF, 1909). 

C. cuniculi, mihi, 1915. 

C. gallinarum MARTIN et ROBERTSON, 
1911. 

C intestinalis KUCZYNSKI, 1914. 

C. mesnili (WEN YON, 1910). 

C. motellœ ALEXEIEFF, 1912. 

Chilomastix bittencourti, mihi, 1915. 

Redescrição. — Corpo alongado, ovoïde, 
de contornos geralmente menos regulares 
que nas outras especies degenero; dimensões ; 
lonjitudinalmente, 13 a 16^, excecionalmente 
até 11 jm; transversalmente 9-11 ^, excecio- 
nalmente até 7 ;M. E' a maior especie do ge- 
nero que parasita mamiferos. 

Extremidade anterior arredondada e 
romba; extremidade posterior afilada em 
ponta ou, ás vezes, também arredondada, 
sempre, porém, mais delgada que a anterior. 
Na extremidade anterior existe citostoma com 
labio fortemente cromofilo, de 4 a 5 // de 
comprimento, por 2 a 3/t de largura. Frequen- 



temente parece este, nos preparados corados, se 
enrolar em torno do núcleo. 

De um corpúsculo basal, colocado ade- 
aiite e a um dos lados do núcleo, sae para 
traz uma membrana ondulante bem visivel, 
a fresco, percorrendo o citostoma, cujo labio 
tem a mesma orijem. Do mesmo corpúsculo 
basal, ou de outro colocado a seu lado, saem, 
para deante, trez delgados flajelos, mais ou 
menos do tamanho do corpo. 

Protoplasma distinto emendo e etoplas- 
ma. O etoplasma é constituido somente 
pelo periplasta, cuja camada continua e 
finamente granulosa apresenta rijidez bastante 
para impedir movimentos metamórficos do 
corpo. O endoplasma é alveolado e nas 
paredes dos alveolos existem finas granulações. 
A fresco, parece que este flajelado se apresen- 
ta com aspeto mais granuloso que o Chilo- 
mastix intestinalis. 

Núcleo anteriormente colocado, ás vezes, 
um tanto lateral, com 3 a 4/* de diâmetro; 
membrana nuclear espessa e nela se pren- 
dem massas cromaticas, de forma mais ou 
menos lenticular, em numero de uma a duas, 
sendo então, uma delas, por vezes, maior que 
a outra. Zona do suco nuclear vasia. Rara- 
mente aparece cariosoma central volumoso. 
Não coexiste essa formação, de modo fre- 
quente, com as massas cromaticas da periferia. 

Habitat. — Ceco de Mus \Epimys) 
nonvegiciis. 

Nota. — A designação especifica foi dada 
em homenajem ao Prof. Dr. NASCIMENTO 
BITTENCOURT, catedrático de Historia Na- 
tural Medica e iniciador do ensino oficial da 
Parasitolojia na Faculdade de Medicina do 
Rio de Janeiro. 

Chilomastix caprce, mihi, 1915. 

Redescrição. — Corpo alongado, mais ou 
menos piriforme, largo anteriormente e 
se estreitando, ás vezes bruscamente, a partir 
dos dous terços posteriores. Corpo não 
metamórfico, raramente deformavel, com cerca 
de 9 a 12 /^ de comprimento por 5 a 6 ^w de 
largura, 

A extremidade anterior arredondada, apre- 



17 



senta uma depressão lateral, quasi paralela 
á borda lateral do corpo. Extremidade pos- 
terior afilada em cauda, geralmente curta ; 
raramente a extremidade posterior é arredon- 
dada. 

Protoplasma distinto em endo e etoplas- 
ma ; este constituido só pelo periplasta rijido, 
cuja existencia impede os movimentos meta- 
mórficos do protista; endoplasma alveolado 
com poucas inclusões; nos dous terços ante- 
riores os alveolos são grosseiros e volumosos 
e se tornam delicados e pequenos no terço 
posterior. 

Na extremidade anterior existe o citos- 
toma bem visivel, a fresco, com labio cromofilo 
ni tido nos preparados cotados; citostoma 
geralmente pouco encurvado, com cerca de 3 
a 4 ^ de comprimento por 1 a 2 ^ de largura. 
E' percorrido por membrana ondulante cuja 
orla não cromofila é constituida por flajelo 
aderente que parte de um corpúsculo basal 
sub-marjinal colocado anteriormente em 
relação ao núcleo e donde sae também o 
labio do citostoma. 

Este núcleo é anterior, sub-marjinal, 
esférico, pobre em cromatina; ás vezes 
parece sub-jacente ao citostoma, ou vice- 
versa; frequentemente é um tanto lateral; 
cariosoma muitas vezes visivel, ligado ao 
corpúsculo basal por um rizoplasto ; cromatina 
nuclear grupada sob a forma de massas em 
bastonete recurvado, aderentes á face interna 
da membrana nuclear e, geralmente, em numere» 
superior a duas; frequentes vezes essas gra- 
nulações estão reunidas ao cariosoma por 
filamentos de linina que formam raios que 
partem do centro para a periferia do núcleo. 

Flajelos anteriores trez, de egual compri- 
mento, partindo do mesmo corpúsculo basal 
único que dá orijem ao labio cromofilo do 
citostoma eá orla não cromofila da membrana 
ondulante. 

Habitai. - Rumen de Capra hircus. 

Nota. - BRAUNE descreve na pansa 
dos ruminantes dous flajelados sobre cuja 
posição sistemática fornece dados positiva- 
mente erróneos. Um deles é um Tricho- 
mastix que não tivemos ocasião de observar 
e que o autor coloca no genero Trichorncnas. 



O outro, é um flajelado com trez flajelos 
anteriores, sem flajelo recorrente, sem mem- 
brana ondulante e sem citostoma; não o 
pudemos identificar ao nosso Chilomastix, do 
qual difere por muitos caracteres; BRAUNE o 
julga Trichomastix. 

Chilomastix cunicuH, mihi, 1915. 

Redescrição. - Flajelado piriforme, geral- 
mente estreito e alongado, raramente largo e 
mais arredondado e curto. Dimensões medias: 
7 a 9 ^ de comprimento, por 4 a 7 /w de 
largura. 

Extremidade anterior arredondada e larga 
junto á qual, ao lado do citostoma, existe uma 
depressão mais ou menos acentuada. Extre- 
midade posterior afilada em longa cauda que 
pode, por vezes, atinjir tamanho egual á metade 
do comprimento do corpo; raramente, a cauda 
é curta ou não existe, sendo, então, a extre- 
midade posterior do corpo arredondada. 

Plasma, em geral, delicadamente alveola- 
do. Periplasta rijido que impede os movimentos 
metamórficos do corpo; limite externo nitido, 
constituindo o periplasta só, todo o etoplasma. 

Na extremidade anteiior existe citostoma 
com labio cromofilo; o citostoma tem 5 a 3 
fji de comprimento, por 1 a 2 ^ de largura, 
sendo frequentemente encurvado. 

Núcleo esférico, colocado na extremidade 
anterior do parasito, ás vezes um tanto lateral, 
geialmente sub-marjinal, c-om 1,5 [í de diâ- 
metro. JV\embrana nuclear espessa; o carioso- 
ma, quando existe, é muito pequeno; neste 
caso a zona do suco nuclear frequentemente 
apresenta filamentos acromáticos, geralmente 
um numero de trez, ligando o pequeno carioso- 
ma á membrana nuclear. Nesta existem fre- 
quentemente, aderentes a sua face interna, 
trez a quatro granulações de cromatina, 
irregulares e alongadas. 

Flajelos menores que o corpo, em numero 
de trez anteriores e eguaes em conyjrimento 
e espessura, p^^rtindo de corpúsculo basal 
colocado anteriormente, em relação ao núcleo. 
Do mesmo corpúsculo basal, parte para traz 
o flajelo aderente á membrana ondulante. 



Il 



Esta é bem visível a fresco, e percorre o 
citoitoma. 

Habitat. - Céco de Orydolagus cuni- 
cuius. 

Nota. - Nenhuma referencia encontrámos 
na bibliografia, a flajelados do céco do 
coelho ; o parasito que descrevemos não é o 
único que ai se encontra, não sendo também 
rara sua ocorrência. 

Chilomaslix intestinalis KUCZYNSKI, 1914. 

Sinonimia. — Trichomonas caviœ DA VAI- 
NE, 1854, pro parte, auctorum. 

Histórico. — Este protozoário foi desco- 
berto, representado e classificado em 1914 
por KUCZYNSKI, que o cita em seu traba- 
lho sobre os Trichomonas; a primeira descri- 
ção desta especie foi por nós publicada em 
1915 e é a que abaixo transcrevemos. 

Descrição. — Corpo alongado, piriforme, 
de 13 a 16 // de comprimento, por 7 a 9 ;W 
de largura ; extremidade anterior muito mais 
larga que a posterior, na qual, ás vezes, existe 
expansão caudal. Corpo não metabólico, ás 
vezes, entretanto, deformado nos preparados, 
nunca porém, tanto quanto os individuos do 
genero Trichomonas. 

Na extremidade anterior existe citostoma 
de labio facilmente coravel, com 4 a 6 ^ de 
comprimento, largamente aberto para diante 
depois estreitado, vindo se alargar em saco 
na porção posterior em que atinje 3 ^w de 
largura. Dentro dele existe membrana ondu- 
lante, que parte do corpúsculo basal; essa 
membrana é visivel a fresco e muito dificil- 
mente coravel. Não ha flajelo livre posterior. 

Do mesmo corpúsculo basal anterior, 
partem, para diante e um tanto para um lado, 
trez flajelos finos e de egual comprimento. 

Protoplasma mais ou menos grosseira- 
mente alveolado nos ^Is medios do corpo; 
ha diferenciação nitida entre endo e etopias- 
ma; os limites externos do corpo são clara- 
mente assinalados pelo periplasta que, só 
ele, constitue todo o etoplasma e cuja 
consistencia impede os movimentos metamór- 
ficos do protozoário; endoplasma alveolado 
contendo geralmente poucas inclusões. 



Núcleo anterior, colocado junto ao 
citostoma ; membrana nuclear espessa, carioso- 
ma, em geral, ausente, cromatina quasi sempre 
disposta em massas aderentes á face interna 
da membrana nuclear; ás vezes, essas massas 
são duas e estão colocadas em poios opostos 
do núcleo. 

Habitat. - Céco de Cavia porcellus. 

Chilomastix mesnili (WENYON, 1910). 

Sinonimia. - Cercomonas hominis DA- 
VAINE, 1854, pro parte. Cyathomostix hominis 
PROWAZEK, 1914, paj. 162. Difcemus tunen- 
sis GÀBEL, 1914, paj. 18; Fanapepea intes- 
tinalis PROWAZEK, 1911, paj. 97; Macros- 
toma mesnili WENYON, 1910 b; Tetramitus 
mesnili, (WENYON, 1910) auctorum. 

Histórico. - Este parasito foi visto e 
confundido com outros por quasi todos os 
autores que estudaram flajelados intestinaes 
do homem ; QRASSI, EPSTEIN e MAR- 
CHAND o representam e descrevem, ora no 
ge•^ew Mónocercorronas, ora. no genero Cerco- 
monas ; WENYON o estuda corretamente 
e o descreve no genero Macrostoma, depois 
mudada por ALEXElEFF esta denominação 
para a de Chilomastix; PROWAZEK, em 
1911, descreve um novo genero Fanapepea, 
com a especie F. intestinalis que se distin- 
guiria de Chilomastix por ter apenas dous 
flajelos; o mesmo autor, entretanto, a repre- 
senta, ora com dous, ora com trez flajelos, o 
que nos faz colocar esse genero na sinonimia; 
GÀBEL descreve Difœmus tanensis que diiere 
do parasito em questão pela ausencia de 
membrana ondulante cuja dificil visibilidade, 
faz crer em fácil erro de observação; 
RODENWALDT confunde o Chilomastix com 
o Trichomonas do homem e representa esque- 
maticamente aquele com um axostilo deste, 
o que, certamente, não existia; para esta 
ultima forma, PROWAZEK creou, em 1914, 
o Cyathomastix hominis, diíicUmente aceitável. 

Encontrado pela primeira vez no Brazil, 
pelos Drs. ARISTIDES MARQUES da 
CUNHA e MAGARINOS TORRES, em casos 
de disenteria verificados no ano de 1914 em 
Lassance, Estado Minas Geraes, foi por nós 
observado em tezes disentéricas provenientes 



19 



dos serviços de pediatria do Hospital da 
Santa Casa da Misericordia do Rio de Janeiro. 

Rede&crição. — Flajelado mais ou menos 
piriforme raramente uni tanto arredondado, 
com 10 a 15 ^ de comprimento, raras vezes 
menos, e cerca de 4 a 7 /t de largura. 

Extremidade anterior larga e arredondada ; 
a extremidade posterior se afila em cauda, 
a partir do pósito de união do terço médio 
com o terço posterior do parasito; ás vezes, a 
caiada é longa e termina ponteaguda; mais 
raramente é ela arredondada. 

Plasma distinto em endo e etoplasma ; 
aquele é alveolado e contém poucas inclusões; 
este é em geral constituido quasi exclusiva- 
mente pelo periplasta. 

Na extremidade anterior está o núcleo 
esférico, sub-marjinal, com 1 a 3 ju de diá- 
metro, raramente com cariosoma central; 
zona do suco nuclear em geral vasia ; uma a 
duas granulações de cromatina presas á 
membrana nuclear. 

Na mesma extremidade está o citosto- 
ma com labio cromófilo e com 3 a. A n de 
comprimento por 1 a 2 ,m de largura .O labio 
do cilostoma parte de corpúsculo basal único, 
anterior ao núcleo, pequeno, que também é 
o ponto de orijem da membrana ondulante. 
Esta percorre o citostoma lonjitudinalmente, 
é bfem visivel a fresco e pouco coravel. 

Flajelos anteriores em numero de trez, 
com igual comprimento e partindo do mesmo 
corpúsculo donde 'saem a membrana ondulante 
e o labio do citostoma. 

Habitat. — Intestino de Homo sapiens. 

Genero Trichomonas (») DONNÉ, 1837. 

Sinonimia. - Bodo EHRENBERO, 1838 
î«KENT, 1880-82; Ow;«o«û5 DUJARDIN, 
1841, paj. 287, in DA VAINE, 1834; Cimœno- 
monas GRASSI, 1881, paj. 11, pro parte; 
Entamœba LEIDY, 1879, in CASTELLAN I, 
1905; Exechlyga STOKES, 1884; Lôschia 
CHATTON ^i LALUNG-BONNAIRE, 1912; 
Monocerconionas GRASSI, 1881, paj. 11, pro 



(') De &QÍ^,xQixóç,o ca.ht\o-\-nováç, uni- 



dade. 



parte; Schedaocercomonas GRASSI, 1879, pro 
parte. 

Diagnose. - Corpo ovoide, muito meta- 
bólico; dum corpúsculo basal anterior partem 
trez flagelos livres, para deante, e para traz, 
um flajelo aderente a uma membitana 
ondulante que percorre extensão variável da ^ 
superficie do corpo; núcleo anterior, rara- 
mente cariosomico; axostilo saliente pana o 
exterior, ás vezes se continuando com o citos- 
toma; este é juxta-nuclear e não tem labio 
cromófilo. 

Especies conhecidas: 

T. ardin delteili (DER\E\} ^/RAYNAUD, 
1914.). 

T. augusta ALEXEIEFF, 1911. 

T. batrachorum HERTY, 1852. 

T. brumpti ALEXEIEFF, 1912. 

r. cavice DAVAINE, 1875. 

r. columbarum PROWAZEK e ARAGÃO, 
1909. 

r. eberthi MARTIN et ROBERTSON, 
1911. 

T. gallinarum MARTIN et ROBERTSON, 
1911. 

T. granulosa ALEXEIEFF, 1914. 

T. hominis DAVAINE, 1854. 

T. lacertœ PROWAZEK. 1904. 

T. mabuice DOBELL, 1910. 

T. muris QALLI-VALERIO, 1907. 

T. parva ALEXEIEFF, 1911. 

r. yrj/'owflz^yfe/" ALEXEIEFF, 1909. 

T. tatusi^ mihi, 1915. 

T. tntonis ALEXEIEFF, 1911. 

T. vaginalis DONNÉ, 1837. 

Morfolojia. — Protoplasma mais ou 
menos nitidamente alveolado; periplasta 
delgadíssimo, constituindo, só ele, todo o 
etoplasma, permitindo os movimentos meta- 
mórficos intensos do protozoário. No polo 
anterior o plasma é mais intensamente corado 
pelo acumulo maior, que ai se verifica, de 
granulações siderofilas e diversos derivados 
nucleares. Num dos bordos se prende a 
membrana ondulante, delgadissitna lamina 
etoplasmatica, em relação direta com o 
aparelho flajelar. 

No interior do plasma existe frequente- 
mente um vacuolo, ás vezes vasio e incolor, 



20 



outras vezes ocupado por um corpúsculo que 
se cora em azul mais ou menos intenso pelo 
processo de HEIDENHAIN; ás vezes, esse 
corpúsculo é esférico, ovoide ou mais ou 
menos alongado; outras vezes, ele tem a 
forma de hexágono regular de ângulos 
arredondados ; esta formação foi por nós 
encontrada em Trichomonas cavice t T. maris, 
e foi vista algumas vezes fora do corpo de 
qualquer protozoário, livre no materia! exa- 
minado; nenhuma referencia encontrámos na 
bibliografia, sobre os corpúsculos em questão, 
julgamol-os entretanto, de natureza cro- 
matoide; fácil é diferencial-os da cromatina 
pelo colorabilidade análoga mas sempre 
menor, que apresentam; esta formação 
persiste nos protozoários em divisão. 

Granulações siderofilas em numero e de 
volume variáveis existem, ocupando, ás vezes, 
posições carateristicas das diferentes especies 
de Trichomonas. Atravessando o corpo de 
um a outro lado, existe um bastonete 
espesso que, ás vezes, parece se continuar por 
uma de suas extremidades com um citostoma 
em forma de fenda colocado anteriormente 
ao lado do núcleo ; o outro extremo ponte- 
agudo e frequentemente cortado em bisel 
faz saliência para o exterior. Os limites entre 
o plasma e o axostilo são sempre nitidos, 
talvez pela maior refrinjencia deste, talvez, 
o que parece ocorrer em algumas formas, 
pela existencia de uma linha limitante mais 
intensamente corada que aquelas duas 
formações; o interior do axostilo é sempre 
incolor, podendo, entretanto, conter granu- 
lações siderofilas, o que se torna carater 
importante. No ponto em que o axostilo se 
desprende do plasma para fazer saliência, 
para o exterior, em varias especies, se nota 
a presença de duas granulações cromaticas 
baciliformes nos dous bordos do axostilo. A 
orijem do axostilo é extremamente con- 
trovertida; para alguns, DOBELL, por exem- 
plo, é derivado da centrodesmose dos 
corpúsculos basaes, para outros deriva do 
núcleo e, para outros, emfim, MARTIN e 
ROBERTSON, por exemplo, nada tem que 
ver com o aparelho nuclear ; a confusão é 
muito aumentada por julgarem quasi todos 



os autores como homologas as formações 
esqueléticas dos Trichomonas e Trichomastix 
e as das Cercomonas (HARTMANN e 
CHAGAS), Hexamitus, etc.; a nosso ver se 
trata de duas formações completamente 
distintas; sobre a natureza e orijem da 
primeira, nada podemos de seguro adiantar; 
quanto á segunda, esta é indubitavelmente 
derivada do núcleo, e suas relações mor- 
folojicas e funcionaes com o aparelho flaje- 
lar são indiscutiveis. Voltaremos ao assunto 
quando estudai mos os diploioarios. 

O citostoma, em forma de fenda, é 
juxta-nucleare colocado na base dos flajelos; 
ele frequentemente se continua de modo 
completo com o axostilo. 

Núcleo anterior, raramente cariosomico 
e com centriolo; mais frequentemente o 
núcleo é constituido por um grupo de 
granulações cromaticas esparsas no pólo 
anterior do parasito. Zona do suco nuclear 
é vasia e coexiste com o cariosorna o qual 
é ás vezes muito volumoso. Adeante do 
núcleo, junto á borda do protista, existe 
corpúsculo basal único ou duplo; desse 
corpúsculo ou de sua granulação anterior 
partem os flajelos anteriores em numero de 
trez para as formas tipicas do genero, em 
numero de quatro, no sub-genero Tetratricho- 
monas, e de cinco no sub-genero Fentatricho- 
monas ; do mesmo corpúsculo, ou de sua 
granulação posterior, parte o flajelo recor- 
rente que adere em toda ou quasi toda sua 
extensão á membrana ondulante; esta assenta 
sobre uma barra cromófila, a cosia, que parte 
da mesma granulação donde sae o flajelo 
aderente, que se denomina í'/'/c da membrana; 
o flajelo aderente, ás vezes, se continua além 
da membrana ondulante, e essa porção ece- 
dente se denomina flajelo livre; a costa é 
flexivel, reta ou encurvada, conforme o corpo 
do protozoário está escirado ou arredondado ; 
ás vezes a costa é dupla, o que pode suceder 
quando ocorre duplicidade dos corpúsculos 
basaes. 

Como anexo do aparelho nuclear, ás 
vezes parte do corpúsculo basal, um bas- 
tonete cromatico, morfolojicamente variável, 



21 



que recebeu de JANICKI o nome de 
aparelho pa m- basal. 

Trichomonas caviœ DAVAINE, 1875. 

Sinonimia. — Cercomonas ovalis PERRON- 
CITO, 1888; C. pisiformis PERRONCITO, 
1888. Trichomonas intestinalis LEUCKART, 
1879, auctorum. 

Descrição. — Corpo de forma variável e 
muito metabólico; quando não deformado, 
mais ou menos ovoide, de 10 a 15 /í de 
comprimento. 

Na parte anterior do corpo existe 
citostoma sem labio cromófilo, em forma de 
fenda, mais ou menos triangular e encurvada, 
pequena e que se continua para traz com o 
oxostilo, pouco coravel e saliente para a 
parte posterior do corpo; axostilo tem a 
extremidade posterior cortada em bisel, ponta 
afilada e longa e mede cerca de 10 ii de 
comprimento por 0,5 a 1,0 /* de largura. 
Frequente é a presença do vacuolo e da 
granularão cromatoide que já descrevemos. 

Na extremidade anterior existe um 
corpúsculo basal donde partem, para frente 
trez finos flajelos mais ou menos longos que 
o corpo e, para traz, o flajelo recorrente 
muito espesso e preso, em certa extensão, 
á membrana ondulante ; o flajelo recorrente é 
longo e atinje ás vezes 30 ,« de compri- 
mento. Membrana ondulante com cinco a 
oito. em geral seis, ondulações muito acen- 
tuadas, percorrendo pouco mais de metade 
da circumferencia do corpo. Costa espessa 
e flexível, muito refrinjente e bem visivel a 
fresco, fortemente encurvada nas formas 
arredondadas e quasi reta nas formas alon- 
gadas, ás vezes, em sua extremidade posterior 
mais ou menos ondulada; a costa é acom- 
panhada por uma fileira de granulações 
cromófilas. 

Protoplasma diferenciado em etoplasma, 
constituido somente pela delgadíssima 
camada periplastíca e endoplasma mais ou 
menos delicadamente alveolado. 

Núcleo colocado anteriormente entre o 
citostoma e a costa da membrana ondulante; 
ás vezes,- com cariosonia volumoso e, ás 



vezes, centriolo e aspetos assimiláveis á 
evolução cíclica do cariosoma. 

Formas de divisão com dous corpúsculos 
basaes e duas costas reunidas pela parte 
anterior e, ás ve7:es, também pela parte 
posterior, estas formas são, em geral, muito 
maiores e atinjem 18 a24 ¿m de comprimento 
por 14 a 17 ,« de largura; ha casos, porém, 
em que formas dessas dimensões não têm 
costa e corpúsculo basal duplos. 

Habitat. — Ceco de Cavia porcellus 
e C. aperea. 

Trichomonas hominis (DAVAINE, 1854). 

Sinonimia. — Bodo hominis DAVAINE 
in KENT, 1880-82, paj. 256; Cercomonas 
hominis DAVAINE, \%5^,pro parte\ Cimceno- 
monas hominis GRASSI, 1882, paj. 11; 
Monocercomonas hominis GRASSI, 1881, pajs. 
\2 -23, pro parte; Trichomonas intestinalis 
LEUCKART, 1879; Trichomonas buccalis, 
auctorum; T. dysenteriœ BIl.LET, 1907; T. 
pulmonalis SCHMIDT, 1895. 

Redescrição. — FlajeUdo muitíssimo 
metamórfico, em geral piriforme ou arredon- 
dado, com 5 a 10 /< de comprimento por 2 
a 3 /« de largura ou mais, quando arredon- 
dado. 

Plasma mal distinto em endo e etoplas- 
ma, representado este apenas pela delgada 
camada etoplasmatíca, cuja flexibilidade 
permite os intensos movimentos metamórficos 
do protozoário ; endoplasma delicadamente 
alveolado e contendo poucas inclusões. 

Citostoma em fó;ma de fenda larga, 
parecendo muitas vezes se continuar direta- 
mente com o axostilo ; este é muito nítido, 
calibroso, longo, ponte-agudo e saliente em 
sua extremidade posterior, não sendo acom- 
panhado por granulações siderofilas que 
também não existem em seu interior. 

Ao lado do citostoma, está o núcleo 
esférico ou ovoide, muitas vezes cariosomico, 
outras vezes constituído por granulações 
cromaticas esparsas; o núcleo atinje cerca de 
1,5 /< de diâmetro e, quando existe cariosoma, 
tem zona do suco nuclear vasia. 

Dum corpúsculo basal anterior, ligado 
ao cariosoma do núcleo por um rizoplasto, 



22 



saem para frente tre/ flajelos geralmente 
maiores que o corpo e não raro reunidos 
em feixes junto a seu ponto de emerjencia. 
Do mesmo corpúsculo basal, parte, para traz, 
o flajeio aderente preso ao corpo por uma 
membrana ondulante que tem cerca de cinco 
ondulações pouco profundas; este flajeio 
recorrente é maior e mais espesso que os 
anteriores e, ás vezes, constitue em sua 
porção terminal flajeio livre. A membrana 
ondulante percorre lonjitudinalmente cerca 
de metade da circumferencia do corpo. 

THchomonas maris QALLI-VALERIO, 1907. 

Sinonimia. - Trichomonas intestinalis 
LEUCKART, 1879, anctoram. 

Histórico. - Foi visto em 1885 por 
KUNSTLER que não verificou a especie a 
que pertencia o parasito, nem lhe estudou a 
morfolojia. 

Descrição. - Corpo de forma quasi 
sempre ovoide, ou mais ou menoa alongado; 
em geral de aspeto mais regular e de forma 
mais alongada que o Trichomonas caviœ; 
dimensões , lonjitudinalmente, 13 a 18 /*, 
transversalmente 6 a 9 /<. 

Na extremidade anterior, está o citostoma 
aberto anteriormente e que se continua quasi 
sempre posteriormente com o axo-4ilo vasio 
de granulações; este é geralmente encurvado, 
estando a convexidade da curva voltada para 
a membrana ondulante; o axostilo é muito 
visível, saliente para o exterior, com a ponta 
biselada, provido de duas granulações baci- 
lares no ponto em que se desprende do 
plasma para fazer saliência para o exterior; 
este axostilo atinje 12 ¡i de comprimento, por 
0,5 ," de largura. 

No polo anterior do corpo está um 
corpúsculo basal, sub-marjinal, donde partem 
trez flajelos anteriores relativamente curtos; 
para traz sae o flajeio recorrente espesso, 
servindo de orla á membrana ondulante e se 
tornando depois flajeio livre em pequena 
extensão; a membrana ondulante tem cerca 
de oito ondulações muito profundas e 
percorre bastante exatamente metade da 
circumferencia do corpo do flajelado; ela se 
apoia sobre uma costa espessa, ás vezes 



dupla, partindo do mesmo corpúsculo que 
a orla. 

Protoplasma alveolar mal diferenciado 
emendo e etoplasma; granulações siderofilas 
esparsas no plasma, havendo constantemente 
uma fileira delas que acompanha a costa da 
membrana ondulante, do lado do núcleo; 
outras granulações siderofilas formam uma 
figura cónica e encurvada na parte 
anterior do parasito, indo da rejião peri-nuciear 
até a parte meiia ou posterior da célula. 
Outras granulações siderofilas formam 
curta fileira de cada lado da porção anterior 
do axostilo. 

O citostoma anterior tem a ferma de 
fenda larga que parece continuar com o 
axostilo. 

Entre o citostoma e a costa está o núcleo, 
ás vezes com um grande cariosoma e a zona 
do suco nuclear vasia, outras vezes não indi- 
vidualizado e constituido por granulações cro- 
maticas mais ou menos esparsas; estas gra- 
nulações, ás vezes, se apresentam em camadas 
circulares concêntricas ás vezes em redor de 
um pequeno granulo ; dá esse aspeto impres- 
são dos fenómenos de evolução ciclica do ca. 
riosoma. 

Habitat. - Ceco de Mus norwegicus e 
sua forma albina, de Mus rattas e de Mus 
musculas e sua forma albina. 

Trichomonas tatusi, mihi, 1915. 

Descrição. — Corpo ovoide ou mais ou 
menos arredondado, com cerca 10 /« de 
comprimento por 6 /n de largura, muito 
metamórfico. 

Plasma delicadamente alveolar, mal 
distinto em etoplasma, constituido apenas 
pela delgadíssima camada periplastica e em 
endoplasnia que encerra poucas inclusões. 

Citostoma anterior, juxta-nuclear, em 
forma de estreita fenda. Axostilo saliente 
para o exterior e visivel a fresco. 

Na rejião correspondente ao núcleo, o 
qual não vimos individualizado, se encontram 
granulações cromaticas mais ou menos 
irregulares situadas entre o citostoma e a 
membrana ondulante. 

De um corpúsculo basal anterior, partem 



23 



para frente irez flajelos livres, eguaes, del- 
gadíssimos e maiores que o corpo. Do mesmo 
corpúsculo basal parte o flajelo recorrente 
pouco espesso, preso ao corpo por uma del- 
gadíssima membrana ondulante, cujas ondu- 
lações são largas, pouco profundas e geral- 
mente em numero de duas ou trez , a 
membrana ondulante percorre cerca de 
metade da círcumferencia do corpo e, quando 
termina, sua orla vae em geral constituir uri 
longo flajelo livre. Do mesmo corpúsculo 
basal, parte a costa sobre a qual repousa a 
membrana ondulante; é uma barra cromatica 
pouco espessa que acompanha a superficie 
do corpo em toda a extensão da membrana 
ondulante. 

Assistimos á divisão transversal no pro- 
tozoário vivo. 

Habitat. - Parte terminal do intestino 
de Tatus novetncinctiis. 

Trichomonas vaginalis DONNÉ, 1837. 

Sinonimia. — T. irregularis S hL\'$>h\JRY , 
1868. 

Redescrição. — Flajelado muito maior e 
menos metamórfico que o Trichomonas 
hcminis com cerca de 12 a 16 /< de diâmetro, 
geralmente arredondado ou ovoide. 

Endoplasma alveolado, contendo poucas 
inclusões, limitado externamente pela delgada 
camada periplastica que, só ela, constitue 
todo o etoplasma e cuja delgadêza permite 
os movimentos mntamorficos do protozoário. 
Axostilo saliente e pouco visivel. Citostoma 
anterior, em forma de fenda. 

Núcleo anterior e, adeante dele, o 
corpúsculo basal simples ou duplo dcnde 
partem para frente trez flajelos livres, 
delgados, eguaes e mais ou menos do tamanho 
do corpo: para traz, sae do mesmo corpúsculo 
basal o flajelo aderente espesso, preso ao 
corpo por uma membrana ondulante; esta 
percorre cerca de um terço da superfície do 
corpo, é muito estreita e tem cerca de seis 
ondulações bem nítidas e acentuadas. 

Habitat. - E' parasito inofensivo da 
vajina da mulher, da qual pode emigrar para 
o aparelho urinado e peneirar mesmo na 



bexiga onde, segundo alguns, pode concorrer, 
para a persistencia de certas cistites. Tivemos 
ocasião de ver flajelados desse genero na urina 
dum homem internado, ha muito, no Hospital 
da Misericordia, do Rio de Janeiro. 

Genero Trichomastix (') BLOCHMANN 

1884. 

Sinonimia. - Ccrcomonas DUJARDIN, 
1841 in PERRONCITO, 1888, pajs. 220- 
221 ; Heteromita GRASS!, 1881, paj. 12, 
Monas (?) MULLER, 1786, in DAVAINE, 
1875; Trichomonas DONNÉ, 1837, in 
DOFLEIN. 

Especies descritas : 

Trichomastix coviœ (GRASSI, 1882). 

7". lacertœ (BÜTSCHLI, 1884). 

T. mabuiœ DOBELL, 1910. 

T. motellœ ALEXEIEFF, 1910. 

7". orthopteroium (PARISI, 1910). 

T. salpœ ALEXl-IEFF, 1914. 

T. serpentis DOBELL, 1907. 

T. trichopterœ MACKINNON, 1910. 

Trichomastix caviœ (GRASSI, 1881) 

Sinonimia. — Ccrcomonas globosas 
PERRONCITO, 1888; Heteromita caviœ 
GRASSI, 1882, paj. 35; Monas caviœ (?) 
DAVAINE, 1875. 

Redescrição. — Corpo geralmente pirifor- 
me, mais raramente arredondado; extremidade 
anterior arredondada, a extremidade posterior 
gradualmente se afilando até terminar em 
ponta que corresponde, quasi sempre, á 
parte terminal do axostilo. As dimensões 
medias ocilam entre 7 a 9 jW de comprimento, 
por 4 a 7 /< de largura. 

O axostilo tem o aspeto de um tubo 
completamente vasio, mais ou menos retilineo 
de que uma extremidade faz saliência para 
o exterior ao passo que a outra se perde na 
massa plasmática, parecendo, ás vezes, se 
continuar com o citostoma. Este aparece, 
como fenda mais ou menos cónica e encur- 
vada, num ponto antero-'ateral da célula, 



(1) De Q QÍC, TQiy.üc, o cabelo 4-^<áarí^, o 
chicote. 



24 



junto á base dos flajelos; não existe labio 
cromófilo. 

O plasma não é nitidamente distinto em 
ende e etoplasma; este é representado, apenas, 
por delgadíssima camada periplastica, cuja 
flexibilidade permite ao protozoário realisar 
intensos movimentos metamórficos; o endo- 
plasma é delicadamente alveolado e contém 
poucas inclusões ; não existem granulações 
siderofilas. 

O núcleo é cariosomico, anterior, sub- 
marjinal, esférico ou, ás vezes, de forma 
irregular ; o cariosoma tem volume variável e 
pode atinjir 2 a 3 /t de diâmetro; zona 
do suco nuclear vasia; parece existir mem- 
brana nuclear. 

Um corpúsculo basal, ligado ao núcleo 
por um rizoplasto dá orijem a trez flajelos 
anteriores, menores que o corpo do flajelado 
e a um flajelo recorrente livre maior do que 
ele. 

Habitat. — Ceco de Cavia aperea, C. 
ponelliis e Dasyproda aguti. 

Genero Enteromonas (') mihi, 1915. 

Diagnose. — Protomonadinas com um 
flajelo maior recorrente e livre e dous 
menores anteriores, eguaes; corpo globoso 
sem axostilo, sem citostoma e sem mem- 
brana ondulante. 

Enteromonas horninis, mihi, 1915. 

Redescrição. — Flajelado de corpo quasi 
sempre regularmente esférico, ás vezes com 
a extremidade posierior afilada em cauda 
muito curta. Dimensões médias 5 a 6 jM de 
diâmetro. 

Periplasta delgado, porém, suficiente- 
mente rijido para impedir movimentos m.eta- 
morficos do protozoário e, só ele, constitue 
todo o etoplasma. Endoplasma alveolado, 
contendo frequentemente inclusões muitas 
vezes constituidas por bacterios. A disposição 
dos alveolos, não raro, é regular, sendo que, 
então, nos preparados corados, um deles 
aparece proximo ao centro do parasito, 



(1) De EviEQov, intestino "orá,-, -[-unidade. 



emquanto os outros formam uma coroa em 
torno dele. Não existem axostilo, nem 
citostoma. 

Núcleo anterior, esférico, sub-marjinal 
ou, ás vezes, central, com 1 ^ de diâmetro. O 
núcleo é de tipo y7n7/í7caní7/z, isto é vesiculosa, 
com cariosoma e zona do suco nuclear vasia, 
sem membrana nuclear. Cariosoma central, 
volumoso e esférico, raramente irregular ou 
pequeno. Zona do suco nuclear vasia e 
muito estreita. Não foi visto centriolo. 

Flajelos em numero de trez, sendo um 
recorrente e maior que o corpo e os outros 
anteriores menores que ele. Os flajelos 
p?rtem de corpúsculo basal único, muito 
pequeno sub-marjinal, colocado anterior- 
mente em relação ao núcleo, ao qual está 
unido por meio de rizoplasto. 

O flajelado se reproduz por divisão 
lonjitudinal ; nas primeiras fazes desta, 
aparecem duas placas cromaticas, em que 
parece haver distinção de cromosomas ; dous 
corpúsculos basaes dão, nessas formas, 
orijem a dous grupos di: flajelos; não raro, 
entre as placas cromaticas se observa cen- 
trodesmose que pode ser bastante espessa. 

Raramente são encontradas formas gran- 
des com numerosos flajelos irregularmenta 
dispostos ; talvez possam essas formas ser 
interpretadas de acordo com a opinião de 
HARTMANN e CHAGAS, sobre dissociação 
dejenerativa das fibrilas constituintes do 
filamento axial de cada flajelo. 

Habitat. — Intestino de Homo sapiens ; o 
flajelado foi observado em fezes emitidas, 
menos de cinco minutos antes de exame, por 
uma doente do Hospital Nacional de 
Alienados, acometida- de disenteria, cuja 
etiolojia permanecia obscura; antes desse 
primeiro exame, a doente fora improficua- 
ment-í tratada pelo sulfato de sodio, pós de 
DOWER, calomelanos, electrargol em lavajens 
intestinaes e injeções de oleo canforado. No 
fim de 12 dias de molestia a doente veiu a fale- 
cer. A sintomatolojia era constituida principal- 
mente por abatimento, evacuações dolorosas, 
feres sanguinolentas, lingua saburrosa, ventre 
timpánico e doloroso; nos dous primeiros 



25 



dias de molestia, houve lijeira hipertermia 
(máximo de 37o,6 C). nos días seguintes a 
temperatura atinjiu a 38° a 39° C á tarde e 
37o a 370,6 C. pela manhã ; nos dous últimos 
dias de molestia, a temperatura caiu e se 
manteve a 36o C. O primeiro exame que 
fizemos das fezes desta doente foi realizado 
na véspera de sua morte, o que não nos 
permitiu fazer o exame bateriolojico das 
fezes, o qual decidiria do papel etilojico do 
flajelado. 

Genero Chilomitus (') mihi, 1915. 

Chilomittis cavice, mihi^ 1915 

Descrição. - O flajelado apresenta um 
dimorfismo muito acentuado, havendo, porém, 
entre as duas formas extremas, muitos aspetos 
intermediarios. 

Esquema da morfolojia 



primento, por cerca de 4 /< de largura; o 
corpo é nitidamente deprimido no sentido 
lonjitudinal ; a extremidade anterior é arre- 
dondada e larga, a extremidade posterior é 
afilada, mas não constitue cauda ; um dos 
dous bordos do corpo é mais espesso 
e mais convexo que o outro ; o citostoma 
é dirijido obliqua ou quasi paralelamente, 
em relação ao eixo lonjitudinal do corpo, 
vindo terminar no limite entre a borda 
mais delgada e a extremidade anterior. 

Sob outra forma, o flajelado é curto, 
tendo cerca de 8 a 10 fi de comprimento, 
por 4 a 5 /í de largura ; as extremidades 
são egualmente arredondadas e muito largas ; 
o corpo é fortemente deprimido no sentido 
lonjitudinal ; uma das bordas é muito espessa, 
arredondada e ap-^senta grande convexidade ; 
a outra borda é muito delgada, quasi, 

de Chilomitus caviœ 





(Il 



IV 



I— Forma larga, de perfil. 
II — Forma larga, de face. 

Sob uma das formas, o flajelado se 
apresenta alongado, com 12 al 7 (a de com- 



(>) De xeXXog, \ab\0-\- f^hog, fio. 



III— Forma longa, de perfil. 
IV— Forma longa, de face. 

laminar e tem convexidade muito pouco 
acentuada ; o citostoma perpendicularmente 
dirijido, em relação ao eixo lonjitudinal do 
corpo, vem terminar na parte mais anterior 



- 26 



da borda delgada. O limite entre a parte 
laminar e a parte espessa do corpo, forma 
urna curva nítida, com a concavidade dirijida 
para a borda delgada, e, ás vezes, parece 
se continuar com a linha limitante do 
citostoma ; é ao lado da concavidade dessa 
curva que, frequentemente, os flajelos se 
acham escondidos formando um feixe. 

O citostoma tem quasi sempre o aspeto 
de saco, que ás vezes se estreita junto á 
abertura; tem 1, a 2 ," no máximo de 
largura, por cerca de3a 4 /< de comprimento. 

Plasma distinto em endo e etoplasma. 
Este apresenta uma camada periplastica 
espessa, verdadeira capsula, cuja rijidez 
impede o menor movimento metamórfico, o 
resto do etcplasma é hialino e se continua 
com o endoplasma cujas granulações sidero- 
filas, irregulares e numerosas se acumulam, 
principalmente, nas rejiões centraes do pro- 
tozoário. 

Núcleo dificil de distinguir dentre as 
numerosas granulações siderofilas; está 
disposto anteriormente, tem cariosoma volu- 
moso e zona do suco nuclear vasia. 

Corpúsculo basal também dificilmente 
perceptível situado proximo ao citostoma, e 
ligado ao cariosoma do núcleo por meio de 
um rizoplasto. Deste corpúsculo basal, saem 
para frente, pelo citostoma, quatro flajelos 
anteriores, todos mais ou menos do tamanho 
do corpo; nas formas largas, ás vezes, eles 
formam um feixe cuja extremidade livre se 
vem ocultar na concavidade limitante da 
borda delgada do parasito. 

Habitat. — Ceco de Cavia aperen e de 
C. porcellus. 

Familia Hexamitîdae KENT, 1880-82. 

Sinonimia. - Distomata KLEBS, 1892, 
paj. 329; Distomataceœ SENN, 1900, paj. 
147; Distomatidœ HARTMANN e CHAGAS, 
1910, paj. 118. 

Genero Octomitus (>) PROWAZEK, 1904. 

Sinonimia. - Dicerccmoras GRASSI, 
1882 ; Hexamita DUJARDIN, 1838, pro parte; 



(2) De ¿«Toj, oito-|-/<i'Toç, fio. 



Urophagits MOROFF, 1903, pro parte. 
Especies conhecidas: 
O. intestinalis (DUJARDIN, 1841). 
O. mans (GRASSI, 1882). 

Octomitus mûris (GRASSI, 1882). 

Sinonimia. - Dicercomonas maris GR/KSSl 
1882; Hexamitus mûris (GRASSI, 1881) auc- 
torum. 

Redescrição. - Corpo em forma de 
massa ou de bastão alongado, ás vezes mais 
ou menos encurvado, de 9 a 10 // de com- 
primento por 2 e 4 « de largura. Extremidade 
anterior arredondada, romba e mais larga 
que a posterior que é afilada, mas não ponte- 
aguda. 

Plasma distinto em etoplasma, cons- 
tituido só pela delgada camada periplastica, 
e endoplasma pouco distintamente alveolado 
e contendo poucas inclusões; a zona lonji- 
tudinal situada na parte media do corpo é 
mais clara e acompanhada em seus dous 
lados por duas linhas cromófilas, dependentes 
do aparelho locomotor do flajelado e con- 
fundidas quasi sempre com os axostilos de 
varios Tetramitidœ; é para essa formação 
cromatica, idéntica á de Giardia e. Cercomonas 
que propomos conservar o nome de rizostilo^ 
reservado por ALEXEIEFF, para formação 
análoga dos Rhizomastix ; esse ultimo autor 
justifica a distinção entre axostilo e rizostilo 
dizendo ; « Sa fonction n'est pas analogue à 
celle de l'axostyle. En effet, ce dernier est 
surtout destiné à maintenir constante la forme 
du corps et représente ainsi une formation squel- 
letiqne, tandis que le rhizostyle fait partie 
intégrante de l'appareil flagéllaire. » Esses 
dous rizostilos são paralelos e separam, para 
fora, duas zonas mais escuras afiladas pos- 
teriormente ; nestas 7onas existem muitas 
vezes granulos cromófilos, mais ou menos 
volumosos e esparsos. 

Em continuação aos rizostilos, saem da 
extremidade posterior do parasito dous fla- 
jelos caudaes delgados e menores que o 
corpo. 

Na extremidade anterior das zonas late- 
raes escuras do corpo, estão os dous núcleos 
alongados, simetricaniente dispostos e for- 



27 



mados de granulações cromaticas irregulares. 

Estes núcleos estão ligados a dous cor- 
púsculos basaes marjinaes, colocados sime- 
tricamente na extremidade anterior do 
protozoário. De cada corpúsculo basal, saem, 
para frente e para um lado, trez flajelos do 
tamanho dos posteriores. 

Habitat. — Intestino de Mns mnsculus, 
forma cinzenta e ferma albina; de Mus 
nonvegiciis, forma cinzenta e albina, e de 
Mus rattus. 

Genero Giardia KUNSTLER, 1882. 

Sinonimia. — Cerco/nonas DUJARDIN, 
1841, in LAMBL, 1859; Dimorphus GR\SSl, 
1S79 (nom. preoc. por aracnideos); Mexa- 
m/tus DUJARDIN, 1841, in DAVAINE, 
1875; Lamblia BLANCHARD, 1S38; Megas- 
tonia GRASSI, 1881 (nom. creado por 
BLAINVILLE, para moluscos; por COSTA, 
em 1850, para peixes; por SWAINSON, em 
1837, para aves; por MEQERLE e MÜHL- 
FELD, para moluscos). 

Especies conhecidas: 

Giardia agilis KUNSTLER 1882. 

G. alata KUNSTLER ^/QINESTE, 1907. 

a cw/z/cü// (BENSEN, 190S). 

G. intestinalis (LAMBL, 1859). 

G. microtiYSòYO\V> ^í CHRISTIANSEN, 
1915. 

G. mûris (BENSEN, 1907). 

Morplojia. - Flajelados em geral pirifor- 
mes ou claviformes, providos de ventosa 
discoide que ocupa toda a parte anterior da 
célula, cuja porção restante se vae progressi- 
vamente afilando, até terminar em um prolon- 
gamento caudal fiexivel. 

Plasma constituido de periplasta resis- 
tente que sósinho representa todo o etoplas- 
ma, e endoplasma de estrutura mais ou menos 
granular, desprovido de granulações e de 
alveolos. Nao ha movimentos metamórficos. 

O plasma é separado por filamentos 
cromófilos em rejiões diferentes pela espes- 
sura e colorabilidade que apresentam. 

Dous núcleos com cariosoma central 
cercado de zona do suco nuclear vasia; mem- 
brana nuclear espessa e fortemente cr mó- 
fila. No centro do cariosoma existe, ás vezes, 



centriolo cromatico; outras vezes, se observam 
duas a quatro pequenas granulações de 
cromalina. No polo anterior de cada núcleo, 
existe uma granulação cromatica baciliforme, 
aderente á membrana nuclear e ligada ao 
cariosoma por meio de fino rizopiasto. 

Adeante do espaço intermediario entre 
os dous núcleos, existe, formando um arco de 
concavidade anterior, um grupo de quatro 
granulos cromaticos perfeitamente idênticos 
aos corpúsculos basaes ; esses granulos estão 
ligados entre si e ás granulações bacilares da 
membrana nuclear, por meio de rizopiasto. 
Dos dous granulos externos desse grupo, 
saem dous filamentos que se encurvam para 
deante de modo a virem se cruzar na linha 
média; a curvatura continua até que o fila- 
mento encontra a superficie da célula, no 
ponto mais lateral da extremidade anterior ; 
nessa ocasião, os dous filamentos soltam-se 
para o exterior, como flajelos livres. Dos 
dous granulos internos do grupo, saem dous 
filamentos cromaticos que caminham retins e 
paralelos até a extremidade posterior, donde 
também se continuam como dous flajelos 
caudaes ; toram esses dous filamentos axiaes 
do parasito que, como os dos Octomitus, 
varios autores confundiram com o axostilo 
tipico dos Trichomonas e Trichomastix ; a 
esses do'is filamentos, pelas mesmas razões 
que expuzemos para o caso dos Octomitus, 
deve caber a denominição de nzostiios. Dos 
mesmos granulos donde partem os rizostilos 
saem, para cada lado, dous outros filamentos; 
de cada lado um deles se encurva para 
fora e depois para deante, de modo a descre- 
verem um ovoide em torno de cada núcleo 
e se terminarem no ponto de emerjencia 
dos flajelos anteriores ; os outros dous fila- 
mentos caminham lijeiramente encurvados 
para fora e para traz e terminam na super- 
ficie do parasito, ao nivel da união do terço 
médio com o terço posterior, ponto em que 
se continuam livres no exterior como fla- 
jelos lateraes. Na parte média de cada rizos- 
tilo existe uma granulação, cromatica bacili- 
forme, donde emerjem dous flajelos medi- 
anos e livres que, quasi sempre, caminham 
paralelos para um lado. descrevendo duas 



28 



curvaturas que dão a cada um deles a confor- 
mação de um S itálico. 

Pouco para traz do ponto de emerjencia 
dos flajelos, existe um corpo cromófilo de 
natureza cromidiai, cuja forma serve de carater 
especifico e cujo papel fisiolojico é total- 
mente ignorado. 

Giardia cuniculi (BENSEN, 1908). 

Sinonimia. — Cercomonas intestinalis 
LAMBL, \859, pro parie; Hexamitus duode- 
nalis DAVA 1 NE, 1879, pro parte; Lamblia 
intestinalis BLANCHARD, 1880, pro parte; 
Lamblia cuniculi BENSEN, 1908; Megastoma 
entericum QRASSI, 1881 ; Megastoma intes- 
tinalis BLANCHARD, 1886. 

Descrição. - Corpo com 10 a 20 ¿u de 
comprimento por 6 a 12 /< de largura, for- 
mado de grande parte anterior discoide que se 
continua para traz pelo prolongamento 
caudal que começa meio bruscamente ao nivel 
do equador do disco anterior. 

Núcleos ovoides e cariosomicos; cario- 
somas frequentes vezes com diversas granu- 
lações cromaticas em seu interior. Corpus- 
culos basaes do grupo quádruplo anterior, 
bastante afastados uns dos outros, formando 
arco de curvatura pouco pronunciada. 

Cromidio alongado, perpendicular ou 
obliquo em relação ao eixo do animal ; ás 
vezes é triangular, outras vezes é constituido 
por duas barras cromaticas mais ou menos 
encurv^adas e ligadas entre si por uma extre- 
midade; geralmente lateral ; esse cromidio se 
distingue por esse fato dos das especies 
seguintes. 

Flajelos eguaes, delgados, mais ou menos 
com comprimento egual a metade do tamanho 
do corpo. 

Habitat. — Intestino delgado de Coendú 
villosus e de Otyctolagus cuniculus. 

Giardia intestinalis (LAMBL, 1859). 

Sinonimia. — Cercomonas intestinalis 
LAMBL, 1859, pro parte; Hexamitus duode- 
nalis DA VAINE, 1875, pro parte; Lamblia 
intestinalis, BLANCHARD, 1888, pro parte; 
Megastoma entencum GRASSI, 1881, pro 



parte; Megastoma intestinale BLANCHARD, 
1886, pro parte. 

Descrição. - Dimensões variáveis e 
idênticas ás da especie precedente ; forma 
do corpo análoga ; apenas o afilamento do 
parasito para a parte posterior se faz menos 
bruscamente ; extremidade caudal menos 
afilada. 

Núcleos ovoides, cariosomicos ; carioso- 
mas frequentemente ligados por meio de 
rizopiastos aos corpúsculos basaes ; estes estão 
no grupo quádruplo, formando arco de conca- 
vidade posterior e de curvatura pouco acen- 
tuada. A's vezes, não existe cariosoma e a 
cromatina se acha aderente á membrana 
nuclear, geralmente no pólo posterior do 
núcleo, onde constitue uma barra em crecente. 

Cromidio em bastonete, perpendicular- 
mente disposto em relação ao rizostilo, geral- 
mente mediano, raramente um tanto lateral, 
o que faz confundir ás vezes este flajelado 
com o precedente. 

Flajelos mais ou menos do tamanho de 
metade do comprimento do corpo. 

Habitat. — Intestino de Homo sapiens 
e de Cebus caraiá. 

Giardia muris (BENSEN, 1908). 

Sinonimia. - Cercomonas intestinalis 
LAMBL, 1859, pro parte; Dimorphus muris 
QRASSI, 1879; Hexamitus duodenalis DAVAI- 
NE, \81S; Lamblia intestinalis BLANCHARD, 
1888; Lamblia muris BENSEN, 1908; Megas- 
toma entericum QRASSI, 1881 ; Megastoma 
intestinale BLANCHARD 1886. 

Descrição. — Dimensões variam como 
nas especies precedentes, sendo, porém, o 
corpo mais largo e mais curto na G. muris 
que nas outras especies do genero. Ventosa 
anterior relativamente maior, afilamento pos- 
terior mais brusco, extremidade caudal quasi 
ponteaguda e mais bruscamente formada. 

Núcleos mais arredondados quenas espe- 
cies precedentes, ora cariosomicos, ora com 
cromatina aderente a um dos poios. 

Os corpúsculos basaes formam um grupo 
em linha fortemente encurvada, de conca- 
vidade posterior. 



2Q 



Flajelos curtos como nas especies prece- 
dentes. 

Habitat. ~ Intestino delgado de Miis 
norwegicus. 

Anexo 

Genero Selenomonas (i) PROWAZEK, 1913. 

Sinonimia. - /l/z/jro/wo/zûs KENT, 1880 — 
82. Selenomastix WOODCOCK et LAPAGE, 
1913. 

Selenomonas mminantiiim (CERTES, 1S89). 

Sinonimia. - A ncy tomonas ruminantium 
CERTES, 1889; Selenomastix ruminantium 
WOODCOCK et LAPAGE, 1913. 

Histórico. - Em 1889, CERTES colocou 
no genero Ancyromonas de KENT um interes- 
sante protista que ulteriorinente PROWAZEK 
verificou dever ser separado do genero Ancy- 
romonas para constituir novo genero, 
cujas relações de semelhança com Spirillum 
sputigunum o mesmo autor verificou. 

Descrição. — Parasito em forma de cre- 
cente com dimensões muitíssimo variáveis, 
frequentemente entre Ba 20 ^ de compri- 
mento, por cerca de 3 /^ de largura. 

Espessa e rijida membrana celular, com 
caracteres fisicos da celulose, envolve toda a 
célula. Plasma de estrutura alveolar dificilmente 
verificável. 

Cromatina ás vezes esparsa pelo plasma, 
outras vezes condensada em uma granulação 
cromatica, ás vezes dupla, disposta junto á 
membrana celular, na concavidade do crecente. 



(1) De ae/.rivt}, \m.-\- fiováç, Unidade. 



Dessa granulação cromatica, parte um 
espesso flaielo mais ou menos do compri- 
mento do corpo. 

A's vezes o flajelo é duplo ou múltiplo 
no primeiro caso a mterpretação verosímil é 
de estar o fato relacionado com a divisão 
transversa habitual no protista. No segundo 
caso parece traíar-se de fenomenf)S dejene- 
rativos. 

Habitat. - Ceco de Cavia aperea, C. 
porcellus e Dasyprocta agutí. 

Nota. - O parasito é descrito como 
encontrado no estomago dos ruminantes 
domésticos e selvajens (CERTES, KERAN- 
DEL, DOMIZIO, PROWAZEK) nos glanglios 
linfáticos de cobaio (SPLENDORE), no 
sangue de falcão, etc. Foi ele pela primeira 
vez encontrado nos trez roedores que citá- 
mos pelo Dr. ARISTIDES MARQUES DA 
CUNHA o qual sobre o asunto havia publi- 
c^ido, em 1915, uma nota prévia. Alguns 
autores descreveram como fase evolutiva de 
Selenomonas outros protistas do estomago 
de ruminantes: pequenas células redondas, 
sem organs locomotores aparentes e de ex- 
trema mobilidade. Parece não dever prevalecer 
esta opinião. 

Nenhuma certeza existe si o parasito 
em questão é ou não um flajelado; o núcleo 
individualizado, o flajelo espesso parecem 
corroborar essa conclusão ; a presença, porém, 
de membrana celular tão semelhante á dos 
vejetaes, a divisão transversa do protista 
deixam muitas duvidas, sobre a conclusão a 
tirar. No caso de ser um flajelado, a que 
ordem deveiia pertencer? Só por grande 
concessão poderia ser incluido, no sistema de 
HARTMANN, entre as rizomastijinas. 



30 



Biloliogf a.fia^ 

ALEXEIEFF, A. 1908 Sur la division de Hexamitus intestinalis Duj. Compt. rend. 

de la Soc. de Biol. An. 60, pp. 402-404, 1 fig. 
Paris. 

ALEXEIEFF, A. ÎQ09 Les flagellés parasites des batradens indigènes. Compt. rend 

de la Soc. de Biol. An. 61, t. 2, pp. 199-201 
Paris. 

ALEXEIEFF, A. 1909 Un nouveau Trichomonas à quatre flagelles antérieurs. Compt. 

rend, de la Soc. de Biol. An. 61, pp. 712-714. 
Paris. 

ALEXEIEFF, A. 1910 Sur les flagellés intestinaux des poissons marins (note préli- 

minaire). Arch. Zool. expér. et générale. 5^ série. 
Vol. 6. Notes et revue, pp. I-XX, 12 fig. Pans. 

ALEXEIEFF, A. 1911 Haplomitose chez les Eugleniens et dans d'autres groupes 

de Protozoaires. Compt. rend, de la Soc. de Biol. 
An. 63, t. 2, pp. 614-617, 8 fig. Paris. 

ALEXEIEFF, A. 1911 Quelques flagellés intestinaux nouveaux ou peu connus. Arch. 

Zool. expér. et générale. 5e série. Vol. 6, pp. 491- 
527 Paris 

ALEXEIEFF, A. 1911 Sur la famille Cercomonadina Bütschli emend, (non Cercomo- 

nndida Kent). Compt. rend, de la Soc. de Biol. 
An. 63, t. 2, pp. 506-508, 6 fig. Paris. 

ALEXEIEFF, A. 1911 Sur la nature des formations dites Kistes de Trichomonas 

intestinalisi). Compt. rend, de la Soc. de Biol. 
An. 63, t. 2, pp. 296-298, 1 fig. Paris. 

ALEXEIEFF, A. 1911 Sur la position des Monadidés dans la systématique des fla- 

gellés. Quelques observations sur le Monas vul- 
garis. Signification des blépharoplastes. Bul. de la 
Soc. Zool. France. Vol. 36 pp. 96-103. 

ALEXEIEFF, A. 1911 Sur la spécification dans le genre Trichomonas Donné. Compt. 

rend, de la Soc. de Biol. An. 63, t. 2, pp. 539- 
541. Paris. 

ALEXEIEFF, A. 1911 Sur les "Kystes de Trichomonas intestinalis" dans l'intestin 

des Batraciens. Bul. Scient, de France et Belg. 
7e série. Vol. 44, pp. 333-355, 1 est. , 2 fig. Paris. 

ALEXEIEFF, A. 1912 Sur quelques noms de genres des flagellés qui doivent dis- 

paraître de la nomenclature pour cause de syno- 
nimie ou pour toute autre raison. Diagnoses de 
quelques genres récemment étudiés. Zool. Anzei- 
ger. Vol. 39, pp. 674-680, 2 fig. Paris. 

ALEXEIEFF, A. 19^2 Sur quelques protistes parasites d'une tortue de Ceylan (Ni- 

coria trijuga). Zool. Anzeiger. Vol. 40, pp. 97- 
^105, 2 fig. Cf. pp. 97-102. 

ALEXEIEFF, A. 1913 Systématisaiion de mitose dite "primitive". Sur la question 

du centriole (A propos de la division nucléaire 
chez Malpighiella sp.) Arch. f. Protistenkunde. 
Vol. 29, pp. 344-363, 7 fig. 



il 



ALEXEIEFF, A. 
APSTEIN, C. 



1914 
1915 



ARTAULT, STEPHEN 1898 



ASSMY 


1914 


BENSEN, W. 


1908 


BENSEN, W. 


1909 


BENSEN, W. 


1910 


BERLINER, E. 


1909 


BILAND, I. 


1905 



BLANCHARD, R. 



1888 



BLOCHMANN, F. 1884 

BOHNE, A. und PRO- 

WAZEK, S. VON 1908 

BRAUN, M. 1908 

BRAUNE, ROBERT 1913 



BROWN, W.CARNEGIE 1910 
BRUMPT, E. 1909 



BRUMPT, E. 



BRUMPT, E. 
BRUMPT, E. 

BÜTSCHLI, O. 



1912 



1913 
1913 

1878 



Notes protistologiques. Zool. Anzeiger. Vol. 44, pp. 193-213, 

5 fig. Cf. pp. 197-200 e 203-213. 
Nomina conservanda. Sitzungsber. d. Gesellsch. Nat. Freunde 

zu Berlin. N. 5, de 5-1915, pp. 119-202. Cf. pag. 

19Z 
Flore et faune des cavernes pulmonaires. Arch, de parasitolo- 
gic. Vol. 1, pp. 217-307. Cf. pp. 277-281, 3 fig. 

Paris. 
Zur Frage der Emctinbehandlung der Lamblienruhr. Munch. 

med. Wochenschr. Vol. 61, pag. 1393. 
Bau und arten der Gattuüg Lainblia. Zeitschr. f. Hyg. und 

Infectionskr. Vol. 61, pp. 109-114, 6 fig. 
Die Darmprotozoen des Menschen. Arch. f. Schiffs und Trop. 

Hyg. Vol. 12, pp. 661-676, 7 fig. 
Unlersuchungen iibcr Tnchcmonas intestinalis und vaginalis 

des Menschen. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 18, 

pp. 115-127, 3 est. Berlin. 
Flagellatenstudien. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 15, pp. 297- 

325, 2 est. 
Beitrag zur Frage der Pathogenitât der Flagellaten. Deutsch. 

Arch. f. klin. Medizin. Vol. 86, pp. 275-293, 2 

est. Leipzig. 
Remarques sur le Mégastome intestinal (Lamblia iniesti/iclis, 

nom. nov.) Bul. de la Soc. Zool. France. Vol 

13, pp. 18-19. Paris. 
Bemerkungen iiber einige Flagellaten. Zeitschr. î. wiss. Zoolo- 
gie. Vol. 40, pp. 42-49, 1 est. Heidelberg. 
Zur Frage der Flagellatendysenterie. Arch. f. Protistenkunde 

Vol. 12, pp. 1-8, 1 est. , 3 iig. 
Die thierischen Parasiten des Menschen. 4^ éd. Wiirzburg. 

■ Cf. pp. 51-60, 8 fig. 
Untersuchungen iiber die im Wiederkâuermagen, vorkom- 

menden Protozoen. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 

32, pp. 111-170. Cf. pp. 119-130, 1 est. 
Amebic or tropical Dysentery, its complications and treatment. 

London. Cf. pp. 82-84, 1 fig. 
Bul. de la Soc. Path. éxot. Vol. 2. pag. 20 (Nota sobre casos 

de infeção de macacos por Trichomonas e 

Amoeba). 
Colite à Tetromitus Mcsnili (Wenyon, 1910) et colite à Tri- 
chomonas intestinalis Leuckart, 1879. Blastocystis 

hominis, n. sp. et formes voisines. Bul. de la 

Soc. Path. éxot. Vol. 5, pp. 725-730. 
Précis de Parasitologic. 2a éd. Paris. Cf. pp. 191-200, iilustr. 
Um caso de enterite á Lamblia intestinalis. An. paul. Med. e 

Cirurgia. Vol. 1, pp. 67-69, 3 fig. S. Paulo. 
Beitrâge zur Kenntniss der Flagellaten und verwandte Orga- 

nismen Zeitschr. f. wiss. Zoologie. Vol. 30, pp. 

205-281, 5 est. Carlsruhe. 



32 



BÜTSCHLI, O. 1883-1887 

CAHEN, EUGEN 1891 

CASTELLANI, ALDO 1905 
CÂSTELLANI, ALDO 1905 
CASTELLANI, ALDO 1905 



CASTELLAN!, ALDO 

and CHALMERS, 

ALBERT G. 1910 

CASTELLANI, ALDO 

and CHALMERS, 

ALBERT F. 1913 



CHATTERJEE, F. C. 1915 
CHATTERJEE, F. C. 1915 
CHATTON. 1912 



CONHEIM, P. 



CONHEIM, P. 



1909 



1909 



CUNHA, Dr. ARISTIDES 
MARQUES DA 1915 

CUNHA, Drs. ARISTI- 
DES MARQUES DA 
e TORRES, MAGARi- 
NOS 1914 

CUNNINGHAM, D. D. 1881 



DARLING 



DAVAINE, C. 



1909 



1845 



Protozoa. In Bronn, Klassen und Ordnung des Thier Reichs 
Vol. 1, T. 2. Cf. Flagellata, pp. 620-876, 9 est. 

Ueber Protozoan im kindlichen Stuhle. Deutsch. ined. Wo- 
chenschr. An. 17, pp. 853-854, 1 fig. 

Diarrhœa from Flagellates. Brit. med. Journal. An. 1905, t. 2, 
pp. 1285-1287, 2 fig. Colombo, Ceylon. 

Diarrhoea from Flagellates. Lancet, Vol. 169, pag. 540. Colom- 
bo. 

Observations on some protozoa found in human foeces. Cbl. 
f. Bakteriologie, 1. Orig., Vol. 38, pp. 66-69, 5 fig. 
Cf. pp. 67-69. 

Note on an intestinal flagellate in man. The Pnilippine J. of 
Science. Vol. 5, pp. 211-212, 1 est. 



Manual of Tropical Medicine. 2a ed. London. Cf. pp. 280- 

416. Illustr. 
On a five flagellate Trichomonas (n. sp.\ parasitic in man. 

Ind. med. Gazette. Vol. 50, pp. 57, 1 est. 
On a Macrcstoma found in human intestinal contents. Ind. 

med. Gazette. Vol. 5o, pp. 135-136, 1 est. 
Bui. de la Soc. Path. éxot. Vol. 5, pag. 499. Paris (Nota á 

comunicação de M. Nattan Larier sobre Tetrami- 

tiis mcsni'.i). 
Ueber Infusorien in Magen und im Darmcanale des Menschen 

und ihre klinische Bedeutung. Deuisch. med. 

Wochenschr. Vol 29, pp. 206-203, 230-232 e 245- 

248, 1 fig. 
Infusorien bei gut. u. bõsartigen Magenlcden nebst Bemer- 

kungen iiber sogenannte Infusorienenteritides. 

Deutsch. med. Wochenschr. An. 1909, pp. 92-95. 
Sobre a presença de Selenoinonas no coecum dos roedores. 

Braz. medico, N. 5 de 1915. (1 de Fevereiro). 

Rio de Janeiro. 
Sobre alguns casos de colite produzida pelo Chiloniastix mes- 

nili (Wenyon, 19i0). Braz. medico. N. 28 de 1914 

(22 de Julho), Rio de Janeiro. 

On the development of certain microscopical organisms oc- 
curring in the intestinal canal. Quart. J. oí 
microsc. Science. Vol. 21, pp. 234-290, 1 est. 

An infection by Lamblia ¿ntestinalis in an American child. 
Pfoc. of the Canal Zone Med, Assoc. Fase. 44, 
pag. 120. 

Sur les animalcules infusoires trouvés dans les selles de ma- 
lades atteints du choléra et d'autres maladies. 



33 



DAVAINE, C. 



1875 



DAVAINE, C. 1877 

DAVISON, ANDREW 1909 

DÉLAGE, YVES et HÉ- 

ROUARD, EDQARD 1896 
DERIEU et RAYNAUD 1914 

DOBELL, C. CLIFFORD 1907 

DOBELL, C. CLIFFORD 1909 

DOBELL, C. CLIFFORD 1910 

DOFLEIN, F. 1Q02 

DOFLEIN, F. 1911 

DUJARDIN, F. 1838 

DUJARDIN, F. 1841 

EHRENBERG, CRIS- 
TIAN GOTTFRIED 1S38 
ELLERMANN, V. 1Q07 



ESCOMÇL, P. 

FAIRISE, C. et 
JANNIN, L. 



1913 



1913 



FICKER, MARTIN 1915 



FISCHER, C. 



1885 



FLU, P. C. 1908 

FOA, ANNA 1904 



Compt. rend, de la Soc. de Biol. 2e série. Vol. 1, 

pp. 129-130. 
Monadiens. In Déchambre, Diet, encyclopédique des sciences 

médicales. 2a série. Vol. 9. 
Traité des entozoaires. 2a ed. Paris. Cf. pp. XXIII-XXV, 1 fig. 
Dysentery. In Albutt and Rolleston, A system of medicine. Vol. 

2, p. 2, pp. 477-545. Cf. pag. 545. 
Traité de Zoologie concrète. Paris. Vol. 1. Cf. pp. 303-400. 

Illustr. 
Dysenterie chronique à flagellé nouveau. Bul. de la Soc. Path. 

éxot. Vol. 7, pp. 571-574. 
Trichotnastix serpentis, n. sp. Quart. J. of microsc. Science. 

Vol. 51, pp. 449-458, 1 est. 2 fig. 
Researches on the intestinal protozoa of frogs and toads. 

Quart. J. of microsc. Science. Vol. 53, pp. 201- 

279. Cf. pp. 206-245. 
On some parasitic protozoa from Ceylon. Spolia Zeylanica. 

Vol. 3, pp. 65-87, 1 est. Colombo, Ceylon. 
Das System der Protozoen. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 1, 

pp. 159-192. Miinchen. 
Lehrbuch der Protozoenkunde. Jena. Cf. pp. 382-386 e 471- 

505. 
Sur les Monades à filament multiple. Ann. Sei. naturelles. Vol. 

10, pp. 17-20. 
Histoire naturelle des Zoophytes Infusoires. Paris. 
Die Infusionsthierchen aïs volkommene Organismen. Berlin 

und Leipzig. 
Über kleinste Mikroorganismen im menschlichen Speichel. 

Cbl. f. Bakteriologie. P. 1. Orig. Vol. 44, pp. 160- 

164, 3 fig. Kopenhagen. 
Sur la dysenterie à Arequipa (Pérou). Bul. de la Soc. Path. 

éxot. Vol. 6, pp. 120-122. 
Dysenterie chronique à «Lamblia>. Etude parasitologique et 

anatomo-pathologique. Arch, de Méd. expér. et 

d'Anat. pathologique. Vol. 25, pp. 525-551, 5 fig. 

Nancy. 
Sobre a dysenteria em São Paulo. Ann. paul. Med. e Cirurgia. 

Vol. 5 (Livro do Jubileu do Dr. Luiz Pereira 

Barreto) 
Untersuchungen über einige Flagellaten und verwandte Or- 
ganismen. Zeitschr. f. wriss. Zoologie. Vol. 42, 

pp. 47-125, 4 est. Erlenger. 
Uber die Flagellaten in Darm von Melophagus ovinas. Arch. 

f. Protistenkunde. Vol. 12, ^p. 147-153. 
Ricerche intorno a due specie (Dicercomonas maris Grassi e 

D. intestinalis Duj.) di flagellati parassiti. Rendi- 

conti Acad. dei Lincei. Serie 5. Vol. 13, 1° sem. 

de 1904, pp. 121-130. Roma. 



34 



FONSECA, OLYMPIO 
OLIVEIRA RIBEI- 
RO DA 1915 

FONSECA, OLYMPIO 
OLIVEIRA RIBEI- 
RO DA 1915 

FONSECA, OLYMPIO 
OLIVEIRA RIBEI- 
RO DA 1915 

FROMENTEL, E. DE 1874 



GÀBEL, MAX 



GINESTE, CH. 



1914 



GALLI, VALERIO, B. 1900 
GALLI, VALERIO, B. 1907 



1911 



GINESTE, CH. 1913 

GINESTE, CH. 1913 

GONDER, RICHARD 1911 

GRASSI, BATTISTA 1881 

GRASSl, BATTISTA 1888 

GRASSI, BATTISTA 1888 

GRASSI, BATTISTA 1888 



GRASSI, B. und SCHE- 

WIAKOFF, W. 1888 

GRUBY et DELAFOND 1843 



HARTMANN, MAX 1907 



Estudos sobre os íiageliados parasites dos mamíferos do 

Brazil. Trabalho do Instituto Oswaido Cruz. 

These da Faculdade de Medicina do Rio de Ja- 
neiro. 
Sobre os flagellados dos mamiferos do Brazil. (Nota prévia) 

Braz. medico. N. 16 de 1915 (22 de Abril). Rio 

de Janeiro 
Sobre os flagellados dos mamiferos do Brazil. (2a nota prévia) 

Um novo parasito do homem. Braz. medico. N. 

36 de 1915 (22 de Setembro). Rio de Janeiro. 
Etudes sur les Microzoaires ou Infusoires proprement dits. 

Paris. 
Zur Pathogenitât der Flagellaten. Ein Fall von Tetramitiden- 

diarrhœe. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 34, pp. 1- 

34, 2 est. 
Notes de parasitologie, Cbl. f. Bakteriologie. Vol. 27, pp. 305- 

309. 
Notes de parasitologie. B. Parasites animaux. Cbl. f. Bakte- 
riologie. P. 1. Orig. Vol. 44, pp. 523-532. Cf. pp. 

528-529, 1 fig. Lausanne. 
Mouvements amiboides et ondulatoires chez les infusoires 

flagellés. Compt. rend, de la Soc. de Biol. An. 

63, t. 1, pp. 1014-1016. Bordeaux. 
Chromidies et dualité nucléaire chez les flagellés. Compt. rend. 

de la Soc. de Biol. An. 65, pp. 405-40S. 
L' « appareil nucléaire» de quelques Cercomonades. Compt. 

rend, de la Soc. de Biol. An. 65, pp. 408-410. 
Lamblia sanguinis, n. sp. (Gonder). Arch. f. Protistenkunde. 

Vol. 21, pp. 208-212, 1 fig. Transvaal. 
Ad alcuni protisti endoparassitici et appartenenti aile classi 

dei Flagellati, Lobosi, Sporozoi e Ciliati. Cf. pp. 

10-47, 2 est. Rovellasca. 
Les protozoaires parasites de l'homme. Arch. ital. de Biol. Vol. 

9, pp. 4-6. 
Morfologia e sistemática di alcuni protozoi parassiti. Rendi- 

conti Acad. dei Lincei. 4» serie, losem. de 18S8, 

pp. 5-12 Roma. 
Significato patológico dei protozoi parassiti dell'uomo. Ren- 

diconti Acad. dei Lincei. 4a serie. 1° sem. de 

1888, pp. 83-89. 
Bcitrag znr Kenntniss des Megastoma entericunu Zeitschr. f. 

w^iss. Zoologie. Vol. 46, pp. 143-154, 1 est. 
Recherches sur les animalcules se développant dans l'estomac 

et dans les intestins des animaux herbivores et 

carnivores. Compt. rend, de l'Acad. de Se. Vol. 

17, pp. 1304-1308. 
System der Protozoen. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 10, pp. 

139-158, 3 fig. 



35 



HARTMANN, MAX 1912 

HARTMANN, MAX e 

CHAGAS, CARLOS 1910 
JANICKI 1910 



JANICKI 


1911 


JOLLOS, VICTOR 


1911 


KANNENBERQ 


1879 


KENT, SAVILLE 


1880-82 


KERANDEL, J. 


1909 


KLEBS, G. 


1892 



KOFOID, CHARLES 

ATWOOD and 

CHRISTIANSEN, 

ELIZABETH B. 1915 

KUCZYNSKl, MAX H. 1914 



KUNSTLER, 


J. 


1882 


KUNSTLER, 


J. 


1883 


KUNSTLER, 


J- 


1896 



KUNSTLER, J. et GI- 

NESTE, CH. 1896 

KUNSTLER, J. et GI- 

NESTE, CH. 1907 

LAVERAN et MESNIL 1901 



LEITÃO, Dr. MELLO 1912 



System der Protozoen . In Prowazek, Handbuch der Pathoge- 

nen Protozoen. Cf. pp. 41-49. 
Estudos sobre flagellados. Mem. do Inst. Osw. Cruz, Vol. 

2, fase. 1, pp. 64-125, 6 est. 3 fig. Rio de Janeiro. 
Untersuchungen an parasitischen Flagellaten. Teil I. Zeitschr. 

f. wiss. Zoologie. Vol. 95, pp. 243-315, 16 fig., 

4 est. Base!. 
Zur Kenntnis der Parabasalapparates bei parasitischen Flagel- 
laten. Biol. Cbl. Vol. 31, pp. 321-330, 8 fig. 
Studien iiber parasitische Flagellaten I. Monocercomonas ce- 

toniae^ n. sp. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 23. 

pp. 311-318, 1 est. München. 
Ueber Infusorien im Sputum. Arch. f. pathol. Anat. u. Physio- 
logie. Vol. 65, pp. 471-474, 2 fig. 
A manual of Infusoria. London. 
Sur quelques hématozoaires observés au Congo (Haute Sangha- 

Logone) Bul. de la Soc. Path. éxot. Vol. 2, pp. 

204-209. Cf. pag. 208. 
Flagellatenstudien. Theil I. Zeitschr. f. wiss. Zoologie. Vol. 55, 

pp. 265-351, 4 est. 
Theil II. Zeitschr. f. wiss. Zoologie. Vol. 55, pp. 353-445, 2 

est. Basel. 
On the life history of Giardia. Proc. of the National Acad. 

of Sciences. Vol. 1, pp. 547-552, 1 fig. 



Untersuchungen an Trichomonaden . Arch. f. Protistenkunde. 
Vol. 33, pp. 119-204, 6 est. , 4 fig. Rostock. 

Sur cinq Protozoaires parasites nouveaux. Compt. rend, de 
I'Acad. des Sc. Vol. 95, pp. 347-349. Paris. 

Recherches sur les infusoires parasites. Sur quinze Protozoai- 
res nouveaux. Compt. rend, de l'Acad. des Se. 
Vol. 97, pp. 755-757. Paris. 

Recherches sur la morphologie du Trichomonas intestinalis. 
Compt. rend, de l'Acad. des Se. Vol. 123, pp. 
839-842. Paris. 

Contribution à la morphologie des Protozoaires supérieurs. 
Compt. rend, de l'Acad. des Se. Vol. 142, pp. 
294-296. Paris. 

Giardia alata (nov. spec). Compt. rend, de l'Acad. des Se. 
Vol. 144, pp. 441-443, 1 fig. Paris. 

Sur la morphologie et la systématique des flagellés à membra- 
ne ondulante (genres Trypanosoma Gruby et 
Trichomonas Donné). Compt. rend, de l'Acad. 
des Se. Vol. 133, pp. 131-137, 5 fig. Paris. 

Importancia dos flagellados nas dysenterias da infância. Arch, 
brasileiros de Med. An. 2, n. 5, pp. 582-590. Rio 
de Janeiro. 



36 



LEMMERMANN, E. 1910 
LEMMERMANN, E. 1913 

LEMMERMANN, E. 1914 



LEUCKART 1879-89 

LIEBETANZ, ERWIN 1910 



LINNŒUS, CAROLUS 1758 
MACKINNON, DORIS L. 1910 

MACKINNON, DORIS L. 1912 

MACKINNON, DORIS L. 1913 

MACKINNON, DORiS L. 1913 

MACKINNON, DORIS L. 1914 

MARCHAND, F. 1875 

MARCHAND, F. 1894 

MARCHAND, F. 1893 



MARTIN, C. H. and 

ROBERTSON, M. 1911 
MATHIS, C. 1913 



MATHIS, C. 



1914 



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MAYER, MARTIN 1914 



METZNER, R. 



MEYER, H. 



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Flagellatae In Kryptogamenflora der Mark Brandenburg. Vol. 

3 (Algen I) pp. 257-562. lllustr. Leipzig. 
Notizen iiber Flagellaten. Arch. f. Hydrobiol. und Plankton- 

kunde. Vol. 8, pp. 555-574 Cf. 559-561 e 566-571. 

Bremen. 
Flagellate In Pascher, Süsswasserflora Deutschiands, Oster- 

reichs u. d. Schweiz. P. 1, fase. 1: Pantostoma- 

tinae, Protomastiginae, Distomatinae. Cf. pp. 28- 

138. lllustr. 

Die Parasiten des Mcnschen. 2a éd. Leipzig. Cf. pag. 319. 

Die parasitischen Protozoen des Wiederkauermagens. Arch. f. 
Protistenkunde. Vol. 19, pp. 19-80, 2 est. 1 fig. 
Bern. 
Systema Natuiae. 10a cd. Vol. 1. Cf. pp. 820-821. 

New protist parasites from intestine of Trichoptera. Parasi- 
tology. Vol. 3, pp. 245-254, 1 est. 

Protists parasitic in lhe larva of the crane fly, Tipiila sp. Pa- 
rasitology. Vol. 5, pp. 175-189, 27 figs. 

Studies on parasitic Protozoa. I. Quart. J. ('f microsc. Science. 
Vol. 59. pp. 297-308, 1 est., 1 fig. London. 

Studies on parasitic Protozoa II. Quart. J. of microsc. Science. 
Vol. ^, pp. 459-470, 2 est. London. 

Studies on parasitic Protozoa. Ill Quart. J. of microsc. Science. 
Vol. 61, pp. 105-118, 1 est. London. 

Ein Fall von Infusorien im Typhustuhl. Arch. f. pathol. Anato- 
mic. Vol. 64, pp. 293-294, 1 est., 1 fig. 

Bemerkung zu der Arbeit, v. Dr. Miura. Cbl f. Bakteriologie. 
Vol. 16, pag. 74. Marburg. 

Ueber das Vorkommen von Trichomonas im Harne eines Man- 
nes, nebst. Bemerkungen über Trichomonas va- 
ginalis. Cbl. Bakteriologie. Vol. 15, pp. 709-720, 
1 est. Marburg. 

Cœcal parasites of fowls, etc. Quart. J. of microsc. Science. 
Vol. 57, pp. 53-81, 5 est. 

Récherche des Kystes d'amibes dans les selles de l'homme. 
Bul. de la Soc Méd. Ghirurg. de l'Indochine. 
Vol. 4, pp. 334-350, 4 est. Hanoi. 

Troubles intestinaux dus au protozoaire flagellé Lamblia in- 
testinalis (Lambl, 1859). Bul. de la Soc. Med. 
Chirurg. de l'Indochine. Vol. 5, pp. 55-62, 2 est. 

Uber Cerconionas coli hominis. Deutsch. Arch. f. Klin. Medi- 
zin. Vol. 49, pp. 51-55, 1 fig. 

Beitrag zur Emetinbehandlung der Ruhr. Die Wirkung des 
Emetins bei der Laniblienruhr. Munch, med. 
Wochenschr. An. 61, pp. 241-242. Hamburg. 

Untersuchungen au Megastoma entericam Qrassi aus dem 
Kaninchendarm. Zeitschr. f. wiss. Zoologie. Vol. 
70, pp. 299-320, 1 est. Basel. 

Untersuchungen iiber einige FlagelUten. Rév. Suisse Zool. 
Vol. 5, pp. 43-89, 2 est. 



37 



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MINCHIN, E. A. 


1912 


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1894 


MORISON, J. 


1915 


MORITZ, F. u. 




HOLZL, H. 


1893 


MOROFF, THEODOR 


1904 


NATTAN-LARIER, L. 


1912 


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1909 


OLIVEIRA, Dr. 




OLINTHO 


1904 


PARISI, BRUNO 


1910 


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1887 


PERRONCITO, E. 


1888 


PERRONCITO, E. 


1888 


PERRONCITO, E. 


1888 


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1901 


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1902 


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Remarques sur des cas de Dysenterie à Thanh hoa, en 1912. 

Bul. de la Soc. Med. Chirurg. de l'Indochine. 

Vol. 4, pp. 7-13. 
Protozoa In Allbut a. Roileston, A system of medicine. Vol. 

2, p. 2, pp. 9-122. Cf. pp. 55-56. 
Introduction to the study of Protozoa, with special reference 

to the parasitic forms. London. Cf. pp. 257-322. 
Trichomonas vaginalis im freschgelassenen Urin eines Mannes. 

Cbl. f. Bakteriologie. Vol. 16, pp. 63-73, 2 fig. 

Tokio. 
The causes of Monsoon diarrhea and dysentery in Poona. 

Second report. The Ind. J. of Med. Research. 

Vol. 2, pp. 950-976. Cf. pag. 953. 
Uber Haufigkeit u. Bedeutung des Vorkommens von Megas- 

toma entericiim im Darmcanal des Menschen. 

Munch, med. Wochenschr. Vol. 39, pag. 76. 
Beitrage zur Kenntniss einiger Flagellaten. Arch. f. Protisten- 

kunde. Vol. 3, pp. 69-100, 1 fig., 2 est. Miinchen. 
Infection humaine due à Tetramitus Mesnili. Bui. de la Soc. 

Path. éxot. Vol. 5, pp. 495-499, 1 est. Paris. 
Le cycle évolutif de Lamblia intesUnalis. Bui. de la Soc. de 

Path. éxot. Vol. 2, pp. 93-97, 1 fig. Saigon e 

Paris. 
A dysenteria amebica na infancia. Braz. med. An. XVIII, nos 

32-35, pp. 321-323, 331-334, 341-345. Cf. pag. 332. 
Su alcuni flagellati endoparassitici. Arch. f. Protistenkunde. 

Vol. 19, pp. 232-239, 1 est. Milano. 
Deber die Einkapselung des Megastoma intesUnalis. Cbl. f. 

Bakteriologie. Vol. 2, pp. 738-739. Turin. 
Encapsiilement du Megastoma intestinal. Arch. ital. de Biol. 

Vol. 9, pp. 165-167. 
Note sur Tenkystement du Megastoma intestinal. Bui. de la 

Soc. Zoo!. France. Vol. 13, pp. 16-18. Turin. 
Ueber die Art der Verbreitung des Cercomonas intestinalis. 

Cbl. f. Bakteriologie. Vol. 4, pp. 220-221. Turin. 
I parassiti dell'uomo e degli animali utili e la piu comuni 

mallatie da essi prodotte. Milano. 
Une maladie mortelle du Lapin produite par la Lamblia in- 
testinalis de l'homme et du rat. Bul. de la Soc. 

Zool. France. Vol. 27, pp, 151-155, 1 fig. 
Zur Kenntniss kleinter Lebensformen nach Bau, Functionen, 

Sistematik, etc. Bern. 
Sur un flagellé rencontré dans une éruption vulvo-vaginale 

pustulo-ulcereuse, chez une bufflessc. Compt. rend. 

de la Soc. de Biol. An. 63, t. 1, pp. 624-625. 

Paris. ^ 
Kleine Protozoenbeobachtung. Zool. Anzeiger. Vol. 22, pp. 

339-345, 1 fig. Cf. pag. 335. Karisdorf. 



38 



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PROWAZEK, S. V. 1903 

PROWAZEK, S. V. 1904 

PROWAZEK, S. V. 1911 

PROWAZEK, S. V. 1912 



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1913 



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WERNER, H. 1914 

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ROOS, ERNST 
ROOS, ERNST 



1893 
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1908 



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et KÔLLIKER, A. 1855 



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Notiz über Trichomonas hominis. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 
1, pp. 166-168, 4 fig. Frankfurt a. M. 

Flagellatenstudien. Arch. f. Protistenkunde. Vol. 2, pp. 195-212. 
Wien. 

Untersuchungen iiber einige parasitische Flagellaten. Arb. aus 
d. Kaiser!. Oesundheitsamte. Vol. 21, pp. 1-41, 
4 est. 

Zur Kenntniss der Flagellaten des Darmtraktus. Arch. f. Pro- 
tistenkunde. Vol. 23, pp. 96-100, 16 fig. Hamburg. 

Beitrâge zur Kenntniss der Protozoen und verwandte Orga- 
nismen von Sumatra (Deli). VII. Arch. f. Protis- 
tenkunde. Vol. 26, pp. 250-274, 3 est. , 1 fig. Cf. 
pp. 253-255. 

Zur Parasitologie von Westafrica. Cbl. f. Bakteriologie. Grig. 
P. 1. Vol. 70, pp. 32-36, 1 est. Cf. pp. 35-36. 

Zur Kenntniss der sog. Flagellaten. Arch. f. Schiffs u. Trop. 
Hyg. Vol. 18, Beiheft 1, pp. 155-170, 1 fig. 1 est. 

Trichomonas aus der Leber der Tauben. Cbl. f. Bakteriolo- 
gie. Orig. P. 1. Vol. 71, pp. 184-189. Budapest. 

Ueber Infusoriendiarrhoe. Deutsch. Arch. f. Klin. Medizin 
Vol. 51, pp. 505-526. 

Die im menschlichen Darme vorkommenden Protozoen u. ihre 
Bedentung. Med. Klinik. T. 1 de 1905, pp. 1328- 
1331, 6 fig. Berlin. 

Ueber die Bedeutung der Flagellaten im Magen u. Darm des 
Menschen. Deutsch. med. Wochenschr. Vol. 30, 
pp. 1717-1720 Leipzig. 

Sur un nouveau flagellé parasite de l'intestin des muscides 
au Congo Français. Compt. rend, de la Soc. de 
Biol. An. 60, t. Í, pp. 1106-1108, 1 fig. 

Traité pratique des maladies des organes sexuels de la femme. 
Trad, franc, par les Drs. H. Dor et A. Socin. 
Paris. Cf. pp. 451-452. 

Quelques remarques sur le Trichomonas vaginal de Donné. 
Compt. rend, de l'Acad. des Se. Vol. 40, pp. 1076- 
1077. Paris, 
parasitâre Proto/o-în {Trichomonas piilmonalis) im 
Ausvi^urf. Munch, med. Wochenschr. N. 51 de 
1895, pp. 1181-1182, 1 fig. Bonn. 

Ueber den Schleim u. seine biologische Bedeutung. Biol. Cbl. 
Vol. 23, pp. 457-468. 

Ueber des Vorkommen von Flagellaten im Darmkanal des 
Menschen. Cbl. f. Bakteriologie. Vol. 18, pp. 324- 
327, 9 fig. Hannover. 

Flagellata In Engler u. Prantl, Naturlichen P/lanzenîamilien P. 
I, T. I Fase. 1, pp. 93-192. 

Der Organismus der Infusionsthiere. Ill Der Organismus der 
Flagellaten oder Geisselinîusorien. Leipzig. 



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39 



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UCKE, A. 1907 

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Notices of some new parasitic protozoa. American naturalist, 
N. 18, pp. 1081-1086. Cf. 1082-1085. Philadelphia. 

Two cases of chronic diarrhea with Trichomonas intestinaUs 
in the stoals. Trans, of the Chicago path. See. 
Vol. 6, pp. 328-331. 

Trichomonaden u. Megastomen im Menschendarm. Cbl. f. 
Bakteriologie. Vol. 45, pp. 231-232, 6 fig. St. Pe- 
tersburg. 

Callimastix, gen. n. (perharps near Lophomonadina) cyclopis, 
sp. n. Ocurrence a morphology. Sitzungsber. der 
Geselsch. Naturforsch. Freunde. N. 5, pp. 299- 
305, 1 fig. 

Observations on the protozoa in the intestine of mice. Arch, 
f. Protistenkunde. Suplem. 1, pp. 169-201 Cf. pp. 
184-195,3 est., 1 fig. 

A flagellate of the genus Cercomonas. Quart. J. of microsc 
Science. Vol. 55, pp. 241-260, 19 fig. 

A new flagellate (Macrostoma Mesnili, n. sp.) from the human 
intestine with some remarks on the supposed 
cysts of Trichomonas. Parasitology. Vol. 3, pp. 
210-216, 1 est., 2 fig. 

Ueber Flagellaten (Trichomonas) in der Lunge eines Schwei- 
nes bei lobularen Pneumonie. Cbl. f. Bakteriolo- 
gie. Orig. P. 1. Vol.2 1. pp. 721-725. Marburg. 

On a remarkable new tipe of protistan parasite. Quart. J. of 
microsc. Science. Vol. 59, pp. 431-457, 2 est. 

Eiteriiberschwemmung des Magendarmkanals aus Nasennebe- 
nhohlenempiemem, nebst einer Bedeutung des 
Flagellaten befundes im Magen. Deutsch. med. 
Wochenschr. An. 36, pp. 798-800. 



40 



Esplícacño das estampas 1 e 2. 

Figura 1 Sphaeromonas communis. 

2 Sphaeromonas iibetanzi. 

3 CaUimastix frontalis. 

4 Chilomastix bittencourti. 

5 Forma atipica de Chilomastix 

caprae. 

6 Forma habitual de C. caprae. 

7 Estadio muito adiantado de 

divisão binaria de C. caprae. 

8 Chilomastix intestinalis. 

9 Chilomastix cuniculi. 

10 Chilomastix mesnili. 

11 Chilomitus caviae; núcleo não 

visivel. 

12 C. caviae \ núcleo visivel, fla- 

jelos não visiveis. 

13 Enteromonas hominis\ flajelos 

em sua posição habitual. 

14 E. hominis; aparelho núcleo- 

fiajelar completo; flajelos em 
posição anormal, 

15 e 16 Formas de E. hominis 

sem flajelos visiveis. 

17 Trichomastix caviae; axostilo 

não visivel. 

18 Trichomonas caviae\x\\ic\zo sob 

a forma de granulações chro- 
mofilas, das quaes uma maior 
parece representar o carioso- 
ma. 

19 Trichomonas maris; núcleo in- 



dividualizado ; corpúsculo 
chromatoide presente. 
Figura 20 Trichomonas hominis; costa da 
membrana ondulante não dis- 
tinta das granulações chroma- 
ticas próximas. 

21 Trichomonas tatusi; axostilo 

não visivel. 

22 Octomitns muris. 

23 Giardia cunicuH; cariosomas 

contendo tres granulações 
chromaticas cada um e liga- 
dos aos corpúsculos basaes 
por meio de rhizoplastos. 

24 Giardia intestinalis; carioso- 

mas pequenos; chromidio 
alongado, um pouco lateral 
e obliquamente dirigido ; 
borda posterior chromofila 
da ventosa, visivel . 

25 G. intestinalis, de perfil; ri- 

zostilo e rizoplastos repre- 
sentados por duas linhas chro- 
maticas paralelas; vê-se um 
dos núcleos com seu cario- 
soma. 

26 Giardia muris; núcleos sem 

cariosoma e com uma granu- 
lação em crescente em seu 
polo posterior. 

27 Fornia multiflajelada de Sele- 

nomonas ruminantium ; forma 
do corpo e disposição da 
chromatina normaes. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO VIII-1916 



ESTAMPA 1 




MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 

TOMO VI II- 191 6 



ESTAMPA 2 




RUD. FISCHER, del. 



Sobre alguns Curculionidas que vivem nos bambus 



pelo 
Dr. A. da, Costa. L/ima- 



Alem das especies que foram citadas em 
trabalhos anteriores temos a acrecentar, na 
lista dos colideos que se criam em bambus, 
majs as seguintes: 

Rhinsstus pertusus DALMAN. 

Rhinastiis pertusus, DALM. SCHH. Gen. 
Curcul. Ill, p. 557(1836). 

Rhinastus pertusus, LACORD. Gen. Col. 
VII, p. 35 nota 2 (1866). 

Rhinastus elephas, DUPONT. DEJ. Catal. 
Col. 3 edit. , p. 308 (1837) 

Os Srs. RUDOLPH FISCHER e AR- 
NALDO LUCE, examinando taquarussús 
(Chasquea gaudichaudii KUNTH), em Hansa 
Humboldt (Estado de Santa Catharina), a 27 
de Julho de 1915, deram com esta especie 
dentro dos internodios, em estado larvario e 
de imajem ainda incluida no casulo. 

Larva, bem desenvolvida, com 70 a 
80 milímetros de comprimento por 15 a 20 
de largura, no meio do corpo. Branca, exceto 
o segmento cefálico que é pardo e uma 
placa cornea transversal sobre o dorso do 
tórax parda clara. Cabeça mais comprida 
que larga e mais estreita que o resto do 
corpo, com algumas cerdas na face superior. 
Clipeo e labio pequenos, este de cor parda 
mais escura, com pêlos pequenos na borda 



anterior e alguns maiores sobre a face supe- 
rior. Antenas rudimentares, constituidas por 
dois pequinissimos artículos, situadas na 
marjem anterior da cabeça, nos extremos 
da sutura clipeal. 

Mandíbulas robustas, pardo escuras, com 
os apices negros. 

As maxilas apresentam uma peça basal 
(cardo) e um estipe desenvolvido, com alguns 
pêlos, na extremidade do qual se articula, 
do lado externo um palpo rudimentar com 
dois pequenos artículos e, do lado interno, 
uma peça mais curta que o palpo (galea) 
guarnecida de alguns pêlos curtos na extre- 
midade. Mento espesso, labio desenvolvido 
com um par de palpos rudimentares de dois 
artículos, semelhantes aos palpos maxilares. 

Tórax com uma placa cornea transver- 
sal no dorso, cobrindo os segmentos proto- 
racico e mesotoracico. Esternites torácicos 
com trez pares de tubérculos segmentados 
com cerdas na extremidade. 

Segmentos abdominaes gradativamente 
aumentando do 1° ao 8°; extremidade pos- 
terior do ultimo achatada e deprimida no 
meio. Nove pares de estigmas; um torácico 
e oito abdominaes. 

O macho desta especie, encontrado no 
mesmo logar, difere da fêmea pelo tamanho 



42 



menor, pelo rostro não serrado em baixo 
e pela saliência cónica e curta do prosterno. 

Desmosomus longipes PERTY. 

Destnosomus longipes^ PERTY, Del. Anim. 

Art. p. 82, t. XVI, f. II (1830). 
Desmosomus longipes, LACORD. Oen. 

Col. VII, p. 48 (1866). 
Desmosomus longipes, TASCHENB. Die 
exot. Kâfer, p. 231, t. XXXI, f. 39 
(1908). 
Litomerus Uneatus, BHN. SCHH. Gen. 

Cure. III, p. 574(1836). 
Litomerus Uneatus, SCHH. Qen. Cure. 

VIII, p. 17 (1844). 
Litomerus trivittatus, DEJ. Catal. Col. 2. 

ed p. 285; 3 éd. p. 309 (1837). 
Litomerus vittatus STURM. Cat., p. 97 

(1826). 
O Snr. FISCHER, numa excursão que 
fez á Gavea (Rio de Janeiro) em fins de 
Junho, observou uma especie de taquara com 
internodios furados e abrindo outros inteiros 
encontrou imajens deste colideo já saidas 
do casulo. 

Astyage punctulata n. sp. 

Esta especie, que julgo não ter sido ainda 
descrita, foi gentilmente enviada pelo Sr. R. 
VON IHERINO que a encontrou em S. Ber- 
nardo (Estado de São Paulo) em Outubro de 
1914, dentro de internodios de um bambú, 
vulgarmente conhecido pelo nome de taqua- 
ra póra (Merostachys clausseni MANSO, var. 
mollior DOELL). 

Emquanto que no Astyage lineigera PASC, 
o ápice do escapo das antenas excede um 
pouco a borda inferior do olho, nesta espe- 
cie ele não excede distintamente; como o A. 
lineigera tem o 1° articulo dos tarsos maior 
do que o segundo. 

Especie oblongo-ovoide, negra, com es- 
camas ocraceo-claras e ferrujinosas, uma estria 
lonjitudinal no meio do pronoto, de côr fer- 
rujinosa ou alaranjada e duas cintas de côr 
creme sobre as elitras; a primeira situada 
entre o terço medio e posterior e formada, 
de cada lado, por uma mancha externa, duas 



vezes mais comprida que a outra interna 
(entre a margem exterior da elitra e a mancha 
mais larga ha um intervalo de trez sulcos 
lonjitudinaes; entre a mancha interna e a 
sutura fica apenas um sulco); a segunda 
sobre os extremos das elitras, acompanhando 
paralelamente a borda até perto da sutura. 

Rostro pouco arqueado, negro; marjem 
orbital com escamas ocráceas. 

Antenas insertas perto do meio do rostro, 
castanhas, com a clava um tanto enegrecida; 
primeiro articulo do funículo um pouco mais 
longo que os dois seguintes reunidos. Olhos 
aredondados e um pouco salientes. 

Protorax cónico, com a base lijeiramen- 
te bisinuada, a largura na base maior que o 
comprimento no meio ; apresenta, de cada 
lado, uma larga faixa de côr creme, acima 
da coxa anterior, constituida por escamas 
largas e imbricadas, continuando-se sobre o 
mesoepisterno, o mesoepimero e o me- 
taepisterno. 

Escutelo pequeno. 

Elitras com as cintas já descritas, forma- 
das por escamas iguaes ás que constituem 
as faixas lateraes do tórax, com series pa- 
ralelas e lonjitudinaes de granulos e, entre 
estes, depressões com escamas pequenas e 
finas de côr creme e algumas mais largas 
ocráceas e ferujinosas. 

Face inferior do corpo revestida de es- 
camas largas e imbricadas; a côr predomi- 
nante nestas escamas é a ferrujinosa ou ala- 
ranjada; ha, comtudo, escamas de côr creme 
principalmente na parte posterior dos segmen- 
tos abdominaes 

Fémures (principalmente os posteriores) 
com escamas de côr creme e ferrujinosa na 
metade basal e com um pequeno dente agudo 
em baixo. O ápice dos posteriores atinje a 
extremidade do abdome sem excedel-a. 

Comprimento: 14,5 mm. 

Nem todos os colideos atacam bambus. 
Ha bem pouco tempo BONDAR, em São 
Paulo, verificou que o coqueiro (Cocos nucí- 
fera L) e outras especies de palmeiras são 
atacadas pelo Amerhinus ynca SAHLBERQ. 
(Pela figura e pela descrição que o autor dá 



43 



jnlgo tratar-se da A. ynca e não do A. pan- 
therinus OLIV.) 

Verificou também o mesmo autor que o 
Homalonotus coriáceas OYLLENHAL, o H. 
deplanatus SAHLBERG e o Cholas parcas 



FAHRAEUS parasitam também algumas das 
nossas palmeiras indijenas. 

Manguinhos, Outubro de 1915. 



Contribuição para o estudo da biolojia dos culicidas. 

Observações sobre a respiração nas larvas 

pelo 

Dr*. A. da. Oosta I^ima. 

(Com 3 figuras no texto. 



No numero de Janeiro de 1915 do "The 
Indian Journal of Medical Research" veiu 
um artigo do Snr. S. K. SEN sobre a respi- 
ração dos culicidas. Em um addendum ao 
citado artigo o autor faz algumas considera- 
ções a respeito do meu trabalho: "Observa- 
tions on the respiratoiy process of mosquito 
larvae" que fora anteriormente publicado 
nestas Memorias (Mem. do Inst. Oswaldo 
Cruz. VI, 1, 1914. pj. 18) 

Criticando o dispositivo que empreguei 
(Fig. ]) para conservar as'arvassem respirar 
o ar livre, o autor faz algumas considerações 
a respeito das bolhas de ar que, ás vezes, 
apareciam em minhas experiencias. Quando 
tal acontecia eu dava a experiencia como 
interrompida e, depois de retirai-as, recomeçava 
a contar o tempo, tratando-se assim de 
nova experiencia. O aparecimento de taes 
bolhas era devido ao seguinte fato: eu enchia 
os dois vasos, quer o externo, quer o interno, 
com agua bem arejada da torneira do enca- 
namento e deixava o dispositivo ficar em um 
lugar em que a temperatura do ambiente era, 
ás vezes, relativamente elevada; nestas 
condições, uma parte do ar, que se achava 
em dissolução, desprendia-se da agua e vinha 



formar pequenas bolhas sob a placa obturadora 
do frasco interno. 








Fig I. 

O autor diz mais, que fiz apenas,uma expe- 
riencia empregando agua fervida, para mostrar 
como as larvas pouco tempo duram nesse meio, 
entretanto em meu trabalho ha duas experi- 
encias em que empreguei agua recentemente 
fervida. 

Ele acha também que o efeito da remo- 



45 



ção dos foliólos foi seguido de resultados 
muito discordantes, nas 6 larvas observadas. Os 
resultados que o Snr. SEN taxa de discor- 
dantes indicam claramente que a larva, mesmo 
privada dos foliólos branquiaes, ainda vive 
durante algum tempo debaixo dagua; tal fato 
só pode ser explicado pelas trocas gazosas 
atravez do tegumento da larva. Por outro lado, 
larvas com os foliólos branquiaes demoram 
muito mais tempo, mostrando assim o papel 
importante que desempenham esses organs 
na respiração das larvas. Si o Snr. SEN tivesse 
feito a ablação dos foliólos de uma larva, 
como a de Lima tus Durhami THEOB., 
isto é, dotada de foliólos que apresentam 
abundante ramificação traqueal, o que per- 
mite, mesmo em normaes condições de 
existencia, manter-se a larva durante muito 
tempo sem vir á tona dagua, certamente não 
diria que a eliminação dos foliólos parece 
não ter senão pequeno efeito sobre a respi- 
ração larvaria. 

A terceira objeção feita pelo Snr. SEN é 
de todas a mais extranha; é ela a seguinte: 
"Thirdly, the introduction of 
food might possibly have brought 
in air particles entangled in 
the stuff, and if the food was 
principally vegetable it must pre- 
sumably have evolved oxygen in 
confinement and may thereby 
have kept the larvae alive." 
Ainda não pude verificar em que trecho 
do meu trabalho do Snr. SEN foi descobrir 
que eu introduzia alimento para as larvas. 
Talvez ele tenha chegado a essa conclusão 
pela leitura do trecho em que eu digo : 

'Small larvae having enough 

food in the vessel used for the 

experiment, etc, etc." 

É evidente que eu dizendo "enough jood 

for the small larvae" em uma agua limpa e 

arejada, refiro-me simplesmente á flora e á 

fauna microscópicas que sempre existem em 

qualquer agua potável. Assim, eu não me 

referi á introdução de particulas de materia 

orgânica na agua das minhas experiencias, 

cousa que nunca fiz, mesmo porque, si o 

fizesse, teria como resultado a morte das 



larvas que estivessem nesse meio, muito 
antes de outras que estivessem em condições 
idênticas, porem vivendo em agua limpa; a 
morte das primeiras seria devida ao gaz 
carbónico desprendido pela materia orgânica, 
logo que esta entrasse em decomposição. 
Ele diz mais: 

"Fourthly, when the water 
was being changed, was suffici- 
ent precaution taken to prevent 
lhe formation of air bubbles 
which often occur as a conse- 
quence of general agitation of the 
water?". 
A simples inspeção do meu dispositivo 
(Fig. 2) para o renovamento da agua 




Fig. 2. 

prova que essa objeção não tem a menor 
razão de ser. A agua, saindo devagar, por 
sifonajem, do vaso interno, era lentamente 
substituida pela que se achava, desde o dia 
anterior, no vaso externo; nestas condições, 
como poderia haver a formação de bolhas 



46 



de ar, uma vez que não se produzia amener 
ajitação da agua. 

Finalmente o Snr. SEN descreve e figura 
um dispositivo pelo qual ele verificou que as 
larvas, mergulhadas, raramente viviam mais 
de 7 horas. 

Embora ele não dê as dimensões do 
tubo em que colocava as larvas, vê-se, no 
desenho, pela comparação das dimensões da 
larva com as do tubo, que devia ter este mais ou 
menos uns 9 centímetros de comprimento 
por 1 de diámetro. Ora, compreende-se 
que, com um frasco destas dimensões, e 
talvez com agua pouco arejada ou pouco 
limpa, ele obtivesse os resultados descritos' 
uma vez que a agua do vaso externo pouca ou 
nenhuma influencia podia exercer sobre a 
larva que estava na agua do tubo. 

A duração da vida da larva depende não 
só da maior ou menor quantidade de agua 
contida no frasco, em que ela se acha, como 
também da qualidade dessa agua. 

Eu acredito que o insucesso das expe- 
riencias do Snr. SEN foi em grande parte 
devido ao emprego de agua pouco 
arejada, quando eu sempre me utilisai de 
uma agua clara, sei» nela colocar nenhuma 
particula de materia orgânica. 

A agua potável do Rio de Janeiro é 
excelente agua para experiencias, porque é 
naturalmente pura e bastante arejada. 

Não obstante ter certeza absoluta das 
conclusões, externadas no trabalho anterior, 
fiz novas experiencias, na presença do Dr. 
LUTZ, que agora publico e que servem para 
mais uma vez corroborar o que eu ja dissera; 
istoé: 

As larvas dos culicidas, em normaes 
condições de existencia, respiram ar livre 
pelo sifão respiratorio; nem por isso, espe- 
cialmente nas primeiras fases da evolução, 
deixam de absorver oxijenio dissolvido n'agua, 
realisando-se as trocas gazosas principal- 
mente ao nivel dos foliólos branquiaes. 

Privadas do ar livre, as larras podem 
manter-se vivas durante tempo mais ou 
menos longo, vivendo então exclusivamente 
á custa do ar disolvido n'agua. 



A duração da vida das larvas sem res- 
pirar ar livre varía: 

lo conforme a idade da larva; as mais 
novas resistem muito mais que as velhas, 
prestes a se transformar. 2° conforme a es- 
pecie da /orra; as com foliólos de ramificação 
traqueal abundante lesistem mais que as que 
têm pequeno numero de ramificações traque- 
aes nos foliólos; 

3° conforme a qualidade da agua em que 
ela fica mergulhada; na agua impura, ou 
recentemente fervida, como também em agua 
impregnada de gaz carbónico elas morrem na 
maioria muito antes de larvas da mesma 
idade e procedencia mergulhadas em agua 
limpa e arejada. 

Esperíencias: 

Experiencia 1. 

12 de Abril. Em um tubo de ensaio, de 
15 cm. por 2 cm, introduzi 2 larvas: uma de 
Culex cingulatus. FABR., ouixa^át Stegomyia 
calopus MEIO . , (3,5 mm). O tubo foi fechado a 
tela de arame, conforme fez SEN e mergu- 
lhado em cuba, com agua. A' 14 ainda 
estavam vivas. Morreram a 15 pela manhã. 

Experiencia 2. 

13 de Abril. Em um tubo de ensaio das 
mesmas dimensões com agua recentemente 
fervida introduzi 2 larvas da mesma especie e 
das mesmas dimensões que as da experiencia 
nol.O tubo, fechado com tela de arame, foi 
mergulhado numa cuba com agua também 
recentemente fervida, ás 19,50: 

Ás 20 horas ambas as larvas >/ivas. 

No dia seguinte, ás 8 horas da manhã, 
achei as larvas mortas. 

Experiencia 3. 

12 de Abril. 3 larvas de Stegomyia com 
as seguintes dimensões: 6mm, 5mme 4, 5mm. 

A lo e a ultima foram introduzidas em uma 
cuba de vidro (Om, 20 de altura por 0,m 15 de 
diam.) com agua limpa e arejada. Esta cuba 
foi mergulhada em outra (O, m 40 de altura 
por 0,m 30 e dim.) contendo agua, ás 20 
horas. 

Fechei a abertura da cuba interna com 
uma placa de vidro. A larva de tamanho 



47 



medio, colocada na agua da cuba externa, de 
modo que não foi impedida de respirar o ar 
livre, transformou-se em ninfa a 15 da qual 
saiu uma imajem a 19 peia manhã. 

As duas larvas que ficaram na cuba 
interna, respirando unicamente o ar dissolvido 
nagua, viveram até o dia 22 de Abril. 

Experiencia 4. 

14 de Abril. Em um capsula de ferro esmal- 
tado, de 2 litros de capacidade, coloquei no 
fundo: um tubo de ensaio de 1 cent, por 2 
cent, e um pedaço de algodão. Enchi-a de 
agua Levei-a depois ao fogo e deixei a agua 
ferver durante 4 minutos. 

Resfriei depois rapidamente a agua, 
cercando a capsula com fragmentos de gelo ; 
quando a temperatura da agua contida na 
capsula abaixou á do ambiente, introduzi no 
(ubo de ensaio uma larva de C cingulatus 
de 3,mm e uma de Stegomyia com 4mrn, 
^19, h 20). Por meio de uma pinça obliterei o 
tubo de ensaio com o fragmento de algodão. 

Ás 20h. morta a lí*rva de Culex. 

Áí 20h. e 40 morta a larva de Stegomyia 

Experiencia 5. 

14 de Abril. Em um tubo de ensaio de 15 por 
2 com agua limpa e arejada introduzi 2 larvas da 
mesma especie e com as mesmas dimensões 
das da experiencia precedente. O tubo foi 
fechado a tela de arame e introdizido ás 20, 
horas e 5 minutos numa cuba com agua 
limpa e arejada. 

15. A larva de Culex \\\\a. pela manhã; 
encontrada morta ás 12 horas. 

18. Ainda vive a larva de Stegomyia 
(noite). 

19. As 8 horas encontrei-a morta. 
Experiencia 6. 

19 de Abril. 3 tubos de ensaio de 15 x 2- 

Tubo I. Contendo agua recentemente 
fervida e 2 larvas de Stegomyia (dimensões : 
5mm e 3,m 1), fechado a tela de arame e 
mergulhado em agua também recentemente 
fervida, ás 21 horas. 

Tubo II. Contendo agua arejada e 2 
larvas de Stegomyia (dimensões: 5mm e 4 
mm) fechado a tela de arame e mergulhado 
em agua arejada, ás 21 horas e 5. 

Tubo III. Contendo agua filtrada em vela 



Berkfeld, e 2 larvas de Stegomyia (dimensões : 
5mm e 3 mm,). 

Este tubo não foi mergulhado em agua 
de sorte que as larvas vinham respirar o ar 
livre, a tona dagua. 

20 de Abril, ás 8 horas, mortas as larvas 
do tubo I. As dos outros tubos vivas. 

22 de Abril, ás 8 horas morta a larva 
maior do tubo II. 

23 de Abril, ás 8 horas morta a larva 
menor do tubo II. 

27 de Abril. Ainda vivem as larvas do 
tubo III. Estas larvas morreram entre os 
dias 28 e 30. 

Experiencia 7. 

18 de Abril. 3 larvas de Stegomyia (dimen- 
sõtís ; 3,35, 4mm, introduzidas numa cuba de 
20 cent 15, com agua bem arejada e esta 
mergulhada em um^ cuba de 40 x 30 com 
agua arejada, ás 15,45. A cuba interna é 
fechada com placa de vidro. 

Estas larvas viveram bem até principios 
de Junho sem renovamento da agua da cuba 
interna. A 4 de Junho, pela manhã, encontrei 
2 larvas mortas. 

Á 19 de Junho ainda vivia a outra larva. 
Nesta data parti para o interior. Voltei a 26, 
encontrando então a larva morta. 

A morte das larvas depois de tanto 
tempo, talvez fosse mais devida á insuficiencia 
da alimentação do que á falta de ar. 

Experiencia 8. 

7 de Julho. JVlesmo dispositivo da expe- 
riencia anterior; introduzi 1 larva á& Stegomyia, 
ás 17 horas. 

Esta laiva vUtn ate o dia 21, sem que 
tivesse sido feito o renovamento da agua da 
cuba interna. 

A figura 3 representa um novo disposi- 
tivo para a observação da respiração aquática 
das larvas. Num cilindro de vidro de 1 1 ceiíti- 
metros de comprimento por 4 de diâmetro, 
fechada uma das aberturas com tela de seda, 
introduzem-se as larvas e fecha-se depois a 
outra abertura do mesmo modo. O tubo fica 
mergulhado numa grande cuba com agua 
arejada. Com o sifão de vidro e borracha, que 
se vê desenhado ao lado, pode-se renovar a 
agua do tubo, bastsndo para isso encostar a 



48 



extremidade do tubo de vidro á tela, que 
fecha uma das extremidades do cilindro 
de vidro que contem a« larvas e fazer a sifona- 
jem, aspirando a agua. 

Experiencia 9. 

26 de Julho. Introduzi uma larva de 
Stegomyia com 3 dias de idade, dentro do 
cilindro de vidro. 

Renovamento da agua do cilinaro de 2 
em 2 dias. 

18 de Agosto: Quasi morta. 

19. Morta. 

Experiencia 10. ' 

8 de Outubro. 3 pequenos tubos de 8 
cent. alt. por 3 diámetro. 

Tubo 1. Agua arejada com uma larva 
de C. imitator. THEO.; uma grandee uma 
pequena de C. cingulatus. Introduzi no tubo 
um disco de tela de arame de modo a im- 
pedir que as larvas viessem á tona da agua. 
O disco ficou a um centímetro abaixo da 
supe ficie da agua e esta foi coberta com uma 
camada de petróleo despejada cuidadosamente 
pelas paredes do tubo. Nestas condições as 
larvas não podiam atinjir a camada de petró- 
leo por causa do disco de tela. 



de azeite doce na superficie. 

Larvas semelhantes ás do tubo I (19 horas 
pouco mais ou menos). 

Tubo III. Agua arejada com uma camada 
de petróleo na superficie. 

Larvas semelhantes ás do tubo I. (19 
horas pouco mais ou menos) 

Ás 20-35 mortas as larvas grandes dos 
tubos I e III. 

Ás 20-45, morta a larva menor de C. 
cingulatus, no tubo III. 

Ás 21-15 No tubo I vivas a larva menor 
C. cingulatus e a de C imitator. 

No tubo II. A larva de C. cingulatus 




Fig. 3. 

As larvas foram introduzidas ás 19 horas. 
Tubo II. Agua arejada, com uma camada 




grande morta ; à de C. imi- 
tator quasi morta e a peque- 



49 



na de C. cingulafus, viva. 

No tubo III. Todas mortas. 

9 de Outubro, 8 horas: Tubo I. vivem 
ainda as 2 larvas. 

Tubo II. Vive ainda o exemplar pequeno 
de C. dngulaíns. 

A' noite todas mortas. 

Experiencia 11. 

25 de Outubro. Experiencia realisada com 
o novo dispositivo. 

3 larvas de Gualtería fluviatilis LUTZ, 
introduzidas no cilindro de vidro e mergu- 
lhadas em agua arejada, ás 18 horas e 45 
minutos. Renovamento da agua de 2 em 2 
dias. 

27 de Outubro. Umas das larvas pequenas 
foi devorada pela maior. 

12 de Novembro, Morta a larva menor. 

16 de Novembro. Ainda vive a larva maior. 

17 de Novembro. Encontrei a larva morta. 
As larvas de Mansonia apresentam na 

extremidade do sifão 2 pequenos ganchos 
m0\eis, que podem ser introduzidos nas 
partes submersas de plantas aquatii'as; uma 
vez fixado o sifão, a larva aspira o ar dos 
canalículos aeriferos, muito desenvolvidos 
nestas plantas. 

(As larvas de Mansonia titillons (WAL- 
KER) BLANCHARD e de Mansonia fasrio- 
lata (LYNCH ARRl BALZAC A) DYAR & 
KNAB, foram descobertas por LUTZ, em 



aguas contendo plantas flutuantes, ha já 
muitos anos. 

Ele notou que elas, na agua limpa de 
vejetação, morreram quando não são supot- 
tadas perto da superficie. Obteve a metamor- 
fose sustentando as larvas por meio de 
algodão hidrófilo formando uma camada 
pouco abaixo da superficie. Mais tarde foi 
observado por H. W. B. MOORE, na Guiana 
Ingleza o habito que têm as larvas de Man- 
sonia titillans de fixar-se principalmente na 
Pistia stratiotes. 

Por experiencias feitas ultimamente veri- 
ficámos, LUTZ e eu, que a larva de Manso- 
nia titillans não pode manter-se exclusiva- 
mente á custa do ar dissolvido n'agua. Convém 
notar que os foliólos branquiaes desta larva 
apresentam uma ramificação traqueal muito 
reduzida. 

Prendendo larvas de Mansonia titillans 
no cilindro de vidro do meu dispositivo (Fig. 
3) verificámos que morrem no fim de poucas 
horas. 

Introduzindo no mesmo tubo alguns 
exemplares de Pistia stratiotes, com larvas 
de Mansonia, elas ficam presas ás folhas e 
ás raizes e assim se mantêm vivas durante 
3 a 4 dias. 

Manguinhos, Fevereiro de 1916. 



Estudos sobre líquido cefalo raquiano. 

Reações de NONNE-Dosajem da reação de Wassermann-Reação de WEIL-KAFKA. 

pelo 



Tanto se tem escrito sobre reação de 
WASSERMANN que pareceria inteiramente 
dispensável mais um artigo a respeito, e 
assim seria, se não fosse tão grande a diver- 
jencia de opiniões sobre o valor pratico da 
reação, quer em neurolojia, quer em psiqui- 
atria. Nenhum outro método biolojico foi 
tão combatido, e, no emtanto, outro método 
sorodiagnostico não ha que tenha conseguido 
suplantai-o. E' hoje indispensável ao neuro- 
lojista, assim como ao psiquiatra para quem 
constitue um dos métodos de diagnostico de 
maior confiança. 

De quando em vez, aparecem trabalhos, 
acusando resultados positivos no liquido 
cefalo raquiano ou soro em molestias até 
então não consideradas de orijem sifilítica, 
assim, por exemplo, NEWMARK cita dois 
casos de tumor do sistema nervoso central 
com reação de WASSERMANN positiva no 
sangue e no liquido e o que é mais de 
extranhar com 0,2 cc. Tudo isto se deve pro- 
vavelmente, em grande parte, á diversidade 
de técnica empregada e á falta de fainilia- 
risação com todas as nugas de técnica e as 
muitas causas de erro. 

"Autores ha que se preocupam com a 
ação que sobre o resultado exercem o alcoo!, 



hipnóticos e sedativos. Embora não tivésse- 
mos observado ação manifesta na maioria dos 
casos estudados, em que individuos fizeram 
uso de alcool antes da retirada de sangue, 
conforme tivemos ocasião de referií em tra- 
balho ant'-rior, sempre tomamos em conside- 
ração a advertencia destes autores por ser 
fácil de atender a esta cautela e assim evitar 
duvidas sobre o resultado. 

Na necessidade de inativar o soro não 
nos cansamos de insistir para evitar resulta- 
dos positivos, que não correspondam a in- 
feção especifica. 

Deve-se ainda tomar a precaução de evi- 
tar resultados positivos que corram por conta 
de impedimento dehemolisee que não tradu- 
zem infeção luética e que se tem verificado na 
arterio esclerose, demencia precoce, psicose 
alcoólica, idiotia e em raros casos de lou- 
cura maniaco depressiva. Esta ação impedien- 
te, que não raro se apresenta, constitue um 
dos fatores de maior discredito nas mãos 
dos que não tem a precaução de afastar esta 
causa de erro. Além disto, existem os soros 
que por si exercem ação impediente, inde- 
pendente de extrato e ha ainda os soros pa- 
radoxaes, que, não raramente se rejistam em 
psiquiatria e, que, no nosso entender, são na 



51 



maioria dos casos consequência de falha de 
técnica. 

Além dos extratos alcoólico e aquoso 
recomendamos o de F. LESSER, que 
faz extrato etéreo de coração, evapora o éter 
suspende o produto de evaporação em solu- 
to fisiolojico. Em alguns casos este extrato 
permite resultados positivos que não pude- 
ram ser apurados com os demais. 

A presença de amboceptor e comple- 
mento no liquido, embora seja fato verifica- 
do na paralisia geral, meninjite sifilitica agu- 
da e em raros casos de sifilis cerebral com 
fenómenos de meninjite é, regra geral, tão di- 
minuta no liquido cefalo raquiano emprega- 
do, que se pode dispensar a inativação. 

A reação de WASSERMANN positiva 
no soro permite apenas dizer que em algum 
ponto do organismo existe processo sifilítico 
mas não fornece diagnostico tópico ou orgâ- 
nico. Quem procura diagnostico desta 
natureza deve examinar o liquido orgânico, 
encontrado no referido orgam, por exemplo, 
o liquido da camará anterior, em lesão 
ocular, ou o liquido cefalo raquiano, quando 
se suspeita de sifilis do sistema nervoso 
central. 

Em 1906, WASSERMANN e PLAUT, fa- 
zendo estudos sistemáticos em grande nu- 
mero de casos de paralisia geral observaram 
que a reação é positiva com regularidade no 
liquido. 

A técnica de PLAUT durante muitos 
anos seguida sem alteração só teve aplica- 
ção vantajosa na paralisia geral, mas na tabes 
dorsiialis e sifilis cerebral ou cerebro espinhal 
são tantos os casos negativos que se chega 
a acreditar na raridade destas afeções ner- 
vosas, o que não traduz a verdade. WAS- 
SERMANN e LANGE aconselham um tubo 
com 0,5 cc. de liquido além dos que contem 
0,1 e 0,2 e isto se pode fazer quando a 
quantidade de liquido retirada é pequena, 
mas assim não se consegue tirar da reação 
de WASSERMANN todas as vantajens que 
dela se pode esperar. A colheita deve ser 
maior e não ha inconveniente em retirar até 



10 cc. ; empregam-se 0,2, 0,4, 0,6, 0,8, e 1 cc, 
de liquido, completando os volumes com so- 
luto fisiolojico. 

Feita esta dosajem, conseguem-se diagnos- 
ticar casos incipientes de paralisia geral, em 
que os sintomas somáticos epsiquicos não per- 
mitem conclusão; consegue-se o dia- 
gnostico diferencial entre processos sifilíticos 
do sistema nervoso central e outros processos 
orgânicos e funcionaes, quer cerebraes, quer 
medulares. 

Recomendamos ainda empregar 0,1 cc, 
porquanto em muitos casos de paralisia geral 
é n".anifesto o impedimento de hemolise com 
esta quantidade de liquido. 

Embora não haja vantajem na pratica, 
podemos aqui citar resultados positivos na 
paralisia geral com 0,2 cc. de liquido o 0,05 
cc. de extrato. Convém dizer que estes casos 
constituem exceção. 

A dosajem da reação autorisa a separar 
da sifilis cetebral e cerebroespinhal a arterio- 
esclerose cerebral, mesmo nos casos em que 
a anamnese acusa antecedentes sifilíticos. 

Se a reação for positiva com qualquer 
das quantidades mencionadas, pode-se afir- 
mar que se trata de endarterite sifilitica 
e se positiva no sangue e negativo no liqui- 
do, ainda com 1 cc, o diagnostico se voltará 
para a arterioesclerose cerebral num caso de 
sifilis. 

Nos casos de tumores, abcessos, encefa- 
lon.alacia de base arterioesclerotica, epilepsia, 
neurastenia não especifica, a reação se mani- 
festa negativa com a maior quantidade de 
liquido empregada. 

Não se diga que não ha vantajem nesta 
técnica, porquanto na paralisia incipiente, nos 
casos de tumor ou abcesso cerebral, na sifi- 
lis cerebroespinhal e na esclerose em placas, 
sintomas ha que são comuns e que se pres- 
tam a confusão e a reação de WASSERMANN 
praticada segundo a técnica de HAUPT- 
MANN pode facilmente deslindar a duvida. 

O emprego da técnica primitiva levou 
mais de um pesquisador a afirmar que nos 
processos localisados de goma ou endarterite 
do sistema nervoso, assim como na tabes 
dorsualis simplex não complicada de paralisia 



52 



geral, a reação de WASSERMANN no liqui- 
do é sempre ou quasi sempre negativa. 

Entre o alcoolismo crónico e as afeções 
nervosas de orijem sifilítica, paralisia e tabes 
pode haver confusão e, neste caso a reação 
de WASSERMAN no sangue pouco adianta 
porque, se negativa não exclue a hipótese de 
sífilis e se pjsitiva, somente prova que o 
doente se infeclonou com sífilis sem explicar 
a natureza do mal. Se positiva com 0,2 cc. de 
liquido, consegue se estabelecer a etiolojia da 
molestia e se negativa com esta quantidade, 
a maior aconselhada pela antiga técnica, não 
se pode firmar diagnostico, porque, não raro, 
na tabes só com 0,4 cc. de liquido é positiva 
a reação. 

A meninjite tuberculosa de evolução atí- 
pica ou de marcha muito crónica pode simu- 
lar o quadro de lues cerebral ou mesmo 
de paralisia incipiente de modo a se tornar 
indispensável a dosajem para diagnostico di- 
ferencial no liquido. KRONFELD rejista, sem 
confirmação posterior, que na meninjite tuber- 
culosa pode ser positiva a reação de WAS- 
SERMANN. Para bem avaliar da vantajem 
da técnica que advogamos, lembramos ainda 
que a sífilis se pode confundir com a paqui- 
meninjite hemorrajica e encefalite e com a 
meninjite crónica serosa e sob a rubrica de 
lues cerebri têm se reunido as mais diversas 
lesões do sistema nervoso central . 

Casos ha em que o treponema já se en- 
contra no sistema nervoso central, as lesões 
não são irreparáveis e a ausencia de sintomas 
deixa passar despercebidos doentes que, tra- 
tados a tempo, tirariam o máximo proveito. 
Aconselhamos por isto a todo sifilitico que 
faça anualmente a punção lombar e mande 
examinar o liquido segundo a técnica de do- 
sajem; logo que a infeção invadir o sistema 
nervoso a reação assim praticada o acusará. 

E' certo que nos casos acima citados de 
confusão de diagnostico, a pratica da reação 
da fase I de NONNE seria de vantajem mas 
seria temerario basear nesta única prova o 
diagnostico de sífilis; primeira, porque é hoje 
regra estabelecida que não se deve concluir 
de uma só reação biolojica pela natureza sifilíti- 
ca da afeção nervosa; segundo, porque já tem 



sido rejistados casos de tumor medular em 
que a reação da fase I se apresenta intensa- 
mente positiva, ao lado de pequena linfocí- 
tose e somente a reação negativa, praticada 
de acordo com a dosajem recomendada, ao 
lado das outras provas, pode estabelecer o 
diagnostico de tumor de orijem não sifilítica, 
comprimindo a medula. 

A fase I apenas indica que se está tra- 
tando com afeção orgânica e não com 
psicose e a linfocitose, embora intensa 
e mais comum na sífilis, também se rejista 
na ausencia desta infeção. 

Referem se a 74 casos nossas observa- 
ções, assim distribuídas, 21 de paralisia 
geral, 3 de tabes dorsualis, 6 de sífilis cere- 
bral segura, 4 de sífilis cerebral duvidosa, I 
de loucura maníaco depressiva, 1 de loucura 
maníaco depressiva, diagnostico interrogado, 
2 de demencia precoce, um da forma simples 
e outra aa catatoníca, 2 de parafrenia, 1 de 
lipemanía, 1 de imbecilidade,! de alcoolismo, 
I de alcoolismo, diagnostico interrogado, I 
de polinevrite, 1 de mielite, 1 de epilepsia, 4 de 
hemiplejía, I de tumor de hipófise, I de 
meninjite pneumococica, 2 de meninjite sifi- 
lítica, 12 de meninjite cerebro espinha!, e 10 
líquidos normais. 

Da leitura das observações, verificámos 
que no sangue foi positiva ou fracamente 
positiva a reação em 18 ou 87,5 o/o dos casos 
de paralisia geral, nos 3 tábidos, em 3 ou 
50o/o dos casos de sífilis cerebral, em 3 ou 
75o/o de casos de sífilis cerebral duvidosa, 
nos 2 casos de demencia precoce, em um 
de loucura maníaco depressiva, um de poli- 
nevrite, um de mielite, dois de meninjite, e 
dois ou 50o/o de hemiplejía e negativa em 3 
ou 14,3o/ode paralíticos gerais, em3, ouSOo/o 
de sifilíticos cerebrais, em um ou 25 o/o de 
sifilíticos cerebraes duvidosos, na arterioescle- 
rose cerebral, parafrenia, imbecilidade, alco- 
olismo, epilepsia, meninjite pneumococica e 
cerebroespinhal, tumor de hipófise, e em 2 
ou 50ü/o dos casos de hemiplejia. 

No liquido dos paralíticos geraes a reação 
foi positiva com 0,2 cc. em 13 ou 61 ,9 o/o, 
com 0,1 em 7 ou 33 o/o e só em um deles a 
reação não foi de lodo nitida com 0,2, só se 



53 



afirmando como tal com 0,3. Na tabes foi 
positiva com 0,4 em 5 ou 80 o/o e negativa 
em um deles com 1 ce; nos casos de sífilis 
cerebral duvidosa, foi positiva com 0,6 em 
50 o/o casos e negativa com 1 ce. nos outros 
50o/o; na anterioesclerose cerebral foi positiva 
com 0,4 e negativo com 1 ce. no caso duvi- 
doso de arterioesclerose cerebral, nos casos de 
demencia precoce, loucura maniaco depres- 
siva, epilepsia, alcoolismo, parafrenia, imbe- 
cilidade, meninjite cerebroespinhal e pneu- 
mococica e tumor de hipófise e positivo com 
0,3 no caso de polinevrite, 0,2 no de mie- 
nte, 0,3 e 0,4 nos de meninjite sifilítica, e 
0,4 na hemiplejía sifilítica. 

Com maior ou menor intensidade verifi- 
cámos linfocitose em todos os casos de para- 
lisia geral, tabes, e sífilis cerebral segura; 
entre os 4 de sífilis cerebral duvi losa só um 
acusou linfocitose, o que equivale a 25o/o. 
Aumento de linfocitos foi ainda rcjistadoem 
um caso certo e dois interrogados de arte- 
líoesclerose cerebral e em um caso de menin- 
jite sifilítica. Na demencia precoce, para- 
frenia, alcoolismo, loucura maníaco depressiva, 
epilepsia, imbecilidade, hemiplejía, polinevrite, 
mielite, e em um dos casos de meninjite 
sifilítica não verificámos aumento df lin- 
focitos. Na meninijite pneumococica e 
cerebroespinhal, o exame citolojico acusou 
polínucleose. 

Quanto á fase I de NONNE, foi sempre 
positiva na paralisia geral (15 casos de opa- 
lecencía e 6 de turvação), positiva em 3 casos 
de tabes (opalecencia), em quatro de sífilis 
cerebral (2 de opalecencia e dois de turvação), 
em um de sífilis cerebral interrogado (opa- 
lecencia), em um de arterioesclerose cerebral 
(opalecencia), em dois de arterioesclerose 
cerebral, diagnostico interrogado (opalecencia), 
dois de meninjite sifilittca (opalecencia), um 
de mielite (opalecencia), 3 de hemiplejía, um 
de tumor de hipófise, um de meninjite pneu- 
mococica, e nos casos examinados de menin- 
jite cerebroespinhal, e negativa na demencia 
precoce, loucura maníaco depressiva, alco- 
olismo, imbecilidade, parafrenia e lipemanía. 

A observação feita por JAKOB e KAFKA 
de casos atípicos de paralisia geral, clinica- 



mente diagnosticados de modo diverso em 
que negativas as outras provas, a reação de 
hemolisina indicou o caminho posteriormente 
confirmado pelo anaíomo patolojísta, levou 
nos a estudar este asunto, reunindo em um 
só artigo observações das duas reações 
biolojícas no liquido de uma serie de obser- 
vandos de diversas molestias nervosas. 

Embora ainda não inteiramente expli- 
cado, o aparecimento de ímunicorpos no 
líquido cefalo raquiano tem alto interesse 
para a pesquiza de substancias fixadoras de 
complemento no liquido e principalmente para 
a reação de WASSERMANN. PlAUT teve 
a idea de verificar se os ímunicorpos se 
formam no liquido ou no sangue e, de acordo 
com WASSERMANN, concluiu pela formação 
local . 

Antes de WEIL e KAFKA, sabía-se que, 
quando em abundancia no soro, passavam, 
ás vezes, para o líquido, cítotoxinas especi- 
ficas em casos de infeção tífica e paratifica. 
Estes pesquisadores, ao fazer verificações 
quantitativas, como o tinham feito SALUS e 
MIYASHITA para o liquido da camará ante- 
rior do olho, p jderam mostrar que ambo- 
ceptor hemolítico normalmente existente em 
quantidade pequena no soro aparece no 
líquido em casos de paralisia geral e de 
meninjite aguda, devido, provavelmente, á 
maior concentração no soro e á permeabili- 
dade meninjea que nestas duas afeções com 
constancia se encontra. Não se trata de 
reação especifica de imunidade e sim de pes- 
quiza de elemento verificável no organismo 
normal. A presença de amboceptor hemolí- 
tico no liquido apenas traduz alteração 
dos vasos, para oque podem concorrer causas 
diversas, o que explica o seu aparecimtn.o na 
meninjite e paralisia geral, procesos inteira- 
mente diversos. 

Antes destas pesquizas, LEWANDOWSKY 
.'ifirmava que liquido colhido por punção 
cuidadosa e sem glóbulos não continha comple- 
mento e, ao contrario do que se observava 
em outros líquidos do organismo, o liquido 
cefalo raquiano não posuia amboceptor 
hemolítico, nem mesmo para glóbulos de 
carneiro. 



54 



PLAUT afirmava egualmente a ausencia 
completa de amboceptor no liquido ^ 
CiUCA com ele concordava. DANIELO- 
POLU deles discorda, dizendo que no liquido 
normal e patolojico (tabes, paralisia, menin- 
jite, mielite, uremia) só se encontram hemo- 
lisinas para glóbulos de cão e coelho e não 
para glóbulos de carneiro. 

Assinala que o taurocolato de sodio exerce 
ação impediente sobre esta hemolise. 

A principio, acreditavam WElLe KAFKA 
que só o amboceptor hemolítico se encon- 
trava no liquido em casos de paraÜfia geral, 
ao passo que na meninjite aguda seria egual- 
mente verificado em maior ou meiíor quan- 
tidade o complemento; posteriormente, con- 
seguiram assinalar a presença de complemento 
em 2 casos, entre 53 de paralisia geral e em 
7 entre 37 outros casos de demencia para- 
litica. Na maioria destes casos, a quantidade 
de complemento verificada foi extremamente 
pequena. O complemento passa para o liquido 
somente quando a irritação inflamatoria 
meninjea for muito forte, hipótese esta con- 
firmada pela mais frequente presença na 
meninjite aguda e pelo fato de, com a su a 
presença coincidir sempre maior aumento no 
numero de células. 

E' certo que todo liquido que não pro- 
venha de caso de meninjite aguda e que 
sem adição de complemento exerça ação 
hemolítica, por mais reduzida que seja, 
sobre glóbulos vermelhos de carr.eiro, ás 
ve7es apenas verificável pela cor amarela do 
liquido, será de paralitico geral. 

Recomendam WEIL e KAFKA na pri- 
mitiva técnica empregar para pesquiza de 
amboceptor hemolítico 10 cc. de liquido, 1 cc. 
de glóbulos de carneiro (suspensão a 5 o/o) 
e, após duas horas de permanencia em banho 
maria a 37, centrifugar e ao sedimento de 
glóbulos adicionar soluto fisiolojico a 0,85 
o/o de modo a completar o volume de 1 cc. 
que se divide em dois tubos, a cada um dos 
quaes se acrecenta dose anteriormente titu- 
lada de complemento isto é, a quantidade 
que, em contato com 0,5 cc de suspensão de 
glóbulos a 5o'o, não determina, em 2 horas, 
traço de hemolise. Estas quantidades são, em 
geral, 0,1 e 0,05 ou 0,05 e 0,03. 



Quando de todo for impossível colher 
10 cc. de liquido, pode-se tentar o ensaio com 
5 cc, sendo que, se com esta quantidade for 
positiva a reação, pode-se desde logo afirmar 
o diagnostico de paralisia geral. Se nos dois 
tubos fôr nitida a hemolise em 20 a 25 
minutos e completa em 1 hora, diz se que 
foi fortemente positivo o resultado e, se a 
hemolise se iniciar em 45 a 60 minutos e 
foi nitida em 2 horas no primeiro tubo e 
pouco clara no segundo, será fracamente 
positivo o resultado. 

A principio faziam a leitura 1 hora após 
o adicionar do complemento, porem a pra- 
tica veiu mostrar que, após duas horas de 
banho maria ou 3 horas de estufa, ainda se 
manifesta a hemolise e que o resultado co- 
lhido nesta ocasião podia ser incluido na 
rubrica fracamente positiva, de modo que é 
recomendável 1er o resultado no fim de 3 
horas e, quando negativo nesta ocasião, co- 
locar na geleira os tubos para posterior 
leitura . 

Para pesquiza de complemento são 
necessários 5 cc. de liquido e 0,5 cc. de sus- 
pensão de glóbulos (5 ol^); quando não for 
suficiente o amboceptor normal presente, 
deve se acrecentar imunoamboceptor, e, para 
maior rigor de técnica é aconselhável retirar 
do soro de cobaia as hemolisinas, aprovei- 
tando para isto a baixa temperatura. 

Em nossos trabalhos seguimos cuidadosa- 
mente a técnica aconselhada para pesquiza de 
complemento; quanto á pesquiza de ambo- 
ceptor, quando positiva a reação nos dois 
tubos, procedíamos á dosajem, empregando 
doses decrecentes de liquido; 5 cc, 2, 5, 1, 
O, 5, O, 25 e O, 1. 

O liquido deve ser de recente colheita e 
sem glóbulos sanguíneos, recomenda se 
extremo cuidado com os líquidos xanto- 
cromos e de fácil coagulação e os glóbulos 
devem provir de recente sangria, pois que, 
quanto mais antigos são, mais facilmente serão 
hemolisados e de modo mais irregular. 

Pesquisámos egualmente amboceptor e 
complemento no sangue, procedendo á dosa- 
jem, porque em alguns casos em que é negativa 
a pesquiza no liquido, decorre isto da dimi- 



55 



nuição destes elementos normaes no sangue; 
alem disto, ELIASBERQ rejistou a diminuição 
ou desaparecimento de complemento nosôio 
de paralíticos geracs e em outros casos, 
devido talvez ás substancias impedientes veri- 
ficadas por SACHS, faltam no soro ambo- 
ceptor e complemento. 

HIERONYMUS assinala, pelo contrario, 
aumento de ambocptor hemolitico no sangue 
de esquizofrenos e epilépticos e assim também 
na lues e metalues e ROESSLE pensa qvie 
nos esquizofrenos o complemento se acha 
aumentado e diminuido ni esclerose em 
placas e paralisia geral . 

Entre os sifilíticos, compreendendo lué- 
ticos e metalueticos, divisão desnecessária após 
os modernos estudos de NOGUCHl, verifi- 
cou KAFKA ausencia de complemento em 
51% e de amboceptor em 33o/o dos soros exa- 
minados. Não é só na sífilis que se verifica 
ausencia de amboceptor, mas ainda nos para- 
noicos, em casos de tumor cerebral, esclerose 
em placas, loucura traumatica e, em um caso 
de delirium tremens, HIERONYMUS nos fala 
de ausencia completa de amboceptor e com- 
p'emento, e, se outro motivo não houvesse 
para cuidar do sangue, haveria a opinião de 
alguns pesquisadores, entre eles KAFKA, 
que acreditam no paralelismo entre o ambo- 
ceptor do liquido e do sangue, o que, no 
dizer de BOAS e NEVE, nem sempre é 
fato. 

Para pesquiza de complemento no soro, 
empregam-se doses decrecentes de soro 
ativo. O, 5 cc de suspensão de glóbulos de 
carneiro (5o/o) e, quando falta amboceptor 
normal, acrecenta-se ímuno amboceptor. 

A pesquiza de amboceptor exije a se- 
guinte técnica : á quantidade fixa de 
complemento, 0,05 cc. de soro de cobaia 
adicionam-se doses decrecentes de soro 
inatívado e 0,5 cc. de suspensão de glóbu- 
los e completam se os volumes com solu- 
to fisiolojico. O resultado é lido após duas 
horas de permanencia no banho maria a 37. 
De quarto em quarto de hora, examinam-se 
e ajitam-se os tubos. No soro existem nor- 
malmente pelo menos 0,25 de amboceptor 
hemolitico e 0,1 de complemento, o sufi- 



ciente para produzir hem.oiise nas condições 
de técnica mencionadas 

Quer quando a pesquiza se refere ao 
h'quido, quer quando ao soro, recomendamos 
a contrifugação f verificação colorimetrica, 
segundo MADSEN 

Constante na meninjite aguda e parali- 
sia gerai, a reação de WEIL-KAFKA aparece 
raramente na sífilis cerebral. E mesmo de 
extranhar que não seja mais comum na lues 
cerebri, que pelo menos na forma que se faz 
acompanhar de meninjite basal, representa 
clinícameme o traço de união entre meninji- 
te de etiolojia diversa e a paralisia geral. 

De mais fácil tenica que a reação de 
WASSERMANN, é, com exceçãoda reação 
do ouro coloidal, a mais util para o diagnos- 
tico da paralisia geral. NONNE, BOAS e 
NEVE, BRAUN e HUSSLER, HAUPTMANN 
e EICHELBERQ confirmam a reação e assi- 
nalam sua vantajem nos casos incipientes. 
KAFKA E RAUTENBERQ rejistam 8So/o de 
casos positivos, WIECKOWSKI 62o/o. BOAS 
e NEVE 660/0, NONNE 50%, KAFKA 87o/o 
na paralisia geral e a presença de comple- 
mento foi assinalada em 10% dos casos exa- 
minados. 

Na meninjite aguda a verificação de am- 
boceptor no liquido é positiva segundo os pes- 
quisadores em 100% dos casos e de comple- 
mento em 90% e entre as testemunhas, quer 
provenha o líquido de caso de demencia pre- 
coce, demencia alcoólica, demencia senil, epi- 
lepsia, idiotia, loucura maníaco depressiva o 
resultado é sempre negatiivo. 

ZALOZIECKl nega qualquer valor prati- 
co á reação baseado no fato de ser positiva 
na sífilis cerebral, em casos de tumor cere- 
bral, e nas hemorrajias do sistema nervoso. 
Na verdade, na sífilis cerebral acompanhada 
de meninjite sifilítica o resultado é positivo, 
o que aliás admitem os autores da reação 
mas, é preciso lembrar que, alem de raros, 
estes casos, em que se encontra o ambocep- 
tor no liquido, ha ainda outras alterações do 
líquido que permitem o diagnostico diferen- 
cial entre sífilis cerebral e paralisia geral, por 
exemplo, presen-ra de complemento, polinu- 
cleose, formação de coagulo etc. Além disto, 



- 56 



é passajeira a meninjite na lues cerebri e de- 
saparece quando não é mortal o caso, ao con- 
trario do que se observa na paralisia geral. 
Na hemorrajia cerebral não se pode falar 
em permeabilidade meninjéa ou passajem do 
amboceptor do sangue para o liquido, porque 
o que se dá é a passajem direta do sangue 
para o liquido, devida a rutura de vaso. Em 
alguns casos de tumor cerebral ou medular, 
póde-se encontrar amboceptor hemolítico e 
são aqueles em que o liquido fica amarelo, 
coagula facilmente, apresenta aumento de al- 
bumina e assucar e o microscopio apenas re- 
jisía poucos glóbulos vermelhos. O aumento 
de fibrinojeno faz pensar em meninjite que 
muito bem pode existir nos casos de tumor 
do sistema nervoso central. Em casos de ab- 
cesso acompanhado de meninjite, pode ser 
positiva e na tabes, exceção de alguns casos 
de BOAS e NEVE tem sido sempre negativa. 
Não ha paralelism.o entre a reação da 
hemolisina e demais reações clinicas empre- 
gadas no estudo do liquido cefalo raquiano, 
nem mesmo da globulina, como querZALO- 
ZlECKl, contestado por KAFKA e RAUTEN- 
BERG, BOAS e NEVE, BRUECKNER, 
SCHLEISNER, WEIL e muitos outros. A única 
reação comum aos dois processos é o aumen- 
to da albumina total, porem não ha relação 
quantitativa entre a albumina e hemolisina do 
sangue e do liquido, o que prova que não ha 
relação estrita entre as duas reações. 

Cita-se como desvantajem, a necessidade 
de retirar grande quantidade de liquido; mas, 
convém lembrar que para um citodiagnostico 
conciencioso e reação de WASSERA'IANN 
dosada, necessitam-se 6a 8cc. e o liquido que 
serviu para reação de hemolisina presta-se, 
após centrifugação, para reação de WASSER- 
MANN e verificação da fase I de NONNE e 
APPELT. 

Conseguimos verificar o amboceptor he- 
molítico em 17 ou 80 o/o dos paralíticos geraes, 
devendo-se saHentar que entre os quatro em 
que não foi verificado amboceptor, um deles 
não o acusou egualmenteno soro; em 3 ou 
50 o/o dos casos de sifilis cerebral e nos 6 
casos examinados de meninjite cerebroespi- 
nhal. 



Pelo sinal -f queremos indicar os casos em 
que, guardados os tubos na geleira, verificá- 
mos no dia imediato, pequena zona de hemo- 
lise junto aos glóbulos depositados, pelo sinal 
-| — \- hemolise incompleta e pelo sinal +++ 
hemolise total. 

São de fato poucas as observações que 
nos permitem escrever este artigo, porém a 
grande harmonia entre a maior parte dos 
diagnósticos clínicos e exames biolojicos au- 
torisa a aconselhar a dosajem da reação de 
WASSERMANN e o emprego de quantidades 
mais elevadas de liquido, assim como a pes- 
quisa de amboceptor hemolítico e complemen- 
to, ás vezes unicamente como exame com- 
plementar, outras como subsidio valioso para 
diagnostico duvidoso. 

Ao Prof. JULIANO MOREIRA diretor 
da Assistência a Alienados e aos Drs. ULYS- 
SES VIANNA e F. E5POSEL, alienistas 
agredecemos o auxilio prestado, pondo á 
nossa disposição doentes da seção Pinei e 
concorrendo com os valiosos conhecim.entos 
de neurolojia e psiquiatria para a feitura 
deste trabalho. 



M. S. Brasileiro. Pardo. Trabalhador. 40 
anos de edade. Hospício de Alienados. Seção 
Pinei. Dia^ostico: Demencia paralítica. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido positiva com 0,2. Linfocitose pouco 
acentuada. Fase 1 de NONNE, opalecencia. 
Complemento no sangue ++• Amboceptor 
hemolítico no sangue +. Complemento no 
liquido ausente. Amboceptor no liquido +. 

F. R. Brasileiro. Pardo. Solteiro. Traba- 
lhador. 26 anos de edade. Hospício de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico: demencia 
paralítica. 

R. de WASSERMANN no sangue negati- 
va. R. de WASSERMANN no liquido positi- 
va com 0,2. Linfocitose discreta. Fase 1 opa- 
lecencia. Complemento no sangue ++. Am- 
boceptor no sangue +++• Complemento no 
liquido ausente. Amboceptor hemolítico no 
liquido -! — 1— 

A. A. Brasileiro. Pardo. Lavrador. Casa- 



— 57 



do. 50 anos de edade. Hospicio de Alienados. 
Seção Pinei. Diagnostico: Paralisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva, R. de WASSERMANN no li- 
quido positiva com 0,2. Linfocitose franca. 
Fase 1 opalecencia. Complemento no sangue 
ausente. Amboceptor no sangue -)-. Comple- 
mento no liquido ausente. Amboceptor no li- 
quido ausente. 

J. B. S. A. Brasileiro. Pardo. Solteiro. 
Pedreiro. 45 anos de edade. Hospicio de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico: Paralisia 
geral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,1. Linfocitose pouco acentuada. 
Fase 1 turvação. Complemento no sangue 
+-|-. Ambocetor no sangue +++. Comple- 
mento no liquido ausente. Ambocetor no li- 
quido ++• 

A. P. B. Brasileiro. Branco. Solteiro. 37 
anos de edade. Hospicto de Alienados. Seção. 
Pinei. Diagnostico: Demencia paralitica. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva corn 0,1. Linfocitose franca. Fase 1 opa- 
lecencia. Complemento no sangue +• Ambo- 
ceptor no sangue ausente. Complemento no 
liquido ausente. Amboceptor no liquido au- 
sente. 

M. C. J. Brasileiro. Branco. Solteiro. 36 
anos de edade. Hospicio de Alienados. Seção 
Pinei. Diagnostico: Demencia paralitica. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,1. Linfocitose discreta. Fase 1 tur- 
vação. Complemento no sangue +. Ambocep- 
tor no sangue -| — | — j-. Complemento no liqui- 
do ausente. Amboceptor no liquido -f-, 

A. S. Hespanhol. Branco, Casado. 40 
anos de edade. Hospicio de Alienados. Seção. 
Pinei. Diagnostico : Paralisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose discreta, Fase 1 
opalecencia. Complemento no sangue -f . Am- 
boceptor no sangue -\ — | — |— Complemento no 
liquido ausente. Amboceptor no liquido +• 



S. V. U. Brasileiro Pardo. Solicitador 
Solteiro. 28 anos de edade. Hospicio de Ali- 
enados. Seção Pinei. Diagnostico : Demencia 
paralitica. 

R. deWASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,1 Linfocitose discreta. Fase 1 
opalecencia. Complemento no sangue-] — 1-. Am- 
boceptor no sangue. -| — |- Complemento no li- 
quido ausente. Amboceptor no liquido -| — |-. 

S. S. Brasileiro Pardo. Solteiro 47 anos 
de edade. Hospicio de Alienados. Seção 
Pinei. Diagnostico : Paralisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose franca. Fase 1 tur- 
vação. Complemento no sangue -| — |-. Ambo- 
ceptor no sangue. -| — \- Complemento no li- 
quido ausente. Amboceptor no liquido +. 

J. F, A. Brasileiro. Preto. Militar. Hos- 
picio de Alienados. Seção Pinei. Diagnostico: 
Paralisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com, 0,1 Linfocitose franca. Fase 1 
opalecencia. Complemento no sangue -f. 
Amboceptor no sangue +. Complemento no 
liquido ausente. Amboceptor no liquido -)-• 

S. S. P. Brasileiro Pardo. Casado. Ma- 
quinista. 50 anos de edade. Hospicio de 
Alienados. Seção Pinei. Diagnostico : Demen- 
cia paralitica. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose discreta. Fase 1 
opalecencia. Complemento no sangue -| — | — [-. 
Amboceptor no sangue -| — j — ¡-. Complemento 
no liquido ausente. Amboceptor no liquido -| — |-. 

F. S. G. Brasileiro. Branco, Casado. 34 
anos de edade. Hospicio de Alienados. Seção 
Pinei. Diagnostico : Paralisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido positiva com 0,2. Linfocitose franca. 
Fase 1 turvação. Complemento no sangue 
-] — [-. Amboceptor no sangue -j — | — ¡-. Comple- 
mento no liquido ausente. Amboceptor no 
liquido -| — h- 

O. M. B. Brasileiro. Preto. Trabalhador. 



58 



43 anos de edade. Hospicio de Alienados, 
Seção Pinei. Diagnostico: Paralisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose. Fase 1 turvação. 
Complemento no sangue -|-. Amboceptor no 
sangue -| — | — |-. Complemento no liquido au- 
sente. Amboceptor no liquido +. 

O, Q. Brasileiro Pardo. Trabalhador. 
Casado. 38 anos de edade. Hospicio de 
Alienados. Seção Pinei. Diagnostico: Para- 
lisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,1. Linfocitose. Fase 1 opalecencia. 
Complemento no sangue -| — |-. Amboceptor 
no sangue -] — [-. Complemento no liquido 
ausente. Amboceptor no liquido +. 

J. T. Hespanhol. Branco. Casado. Sapa- 
teiro 28 anos de edade. Hospicio de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico : Demencia 
paralitica. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose. Fase 1 opalecencia. 
Complemento no sangue +. Amboceptor no 
sangue -J — |-. Complemento no liquido au- 
sente. Amboceptor no liquido +. 

A. S. Brasileiro. Pardo. Solteiro. Traba- 
lhador. 25 anos de edade. Hospicio de 
Alienados. Seção Pinei. Diagnostico: Para- 
lisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,1. Linfocitose franca. Fase 1 
opalecencia. Complemento no sangue -j — [-. 
Amboceptor no sangue -\ — |-. Complemento 
no liquido ausente. Amboceptor no liquido 

++. 

O. L. Brasileiro. Pardo. Casado Cigarreiro. 
39 anos de edade. Hospicio de Alienados- 
Seção Pinei. Diagnostico : Paralisia geral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose discreta. Fase 1 
opalecencia. Complemento no sangue -j — \-. 
Amboceptor no sangue ++. Complemento 
no liquido ausente. Amboceptor no liquido 
++. 



M. S. Brasileiro. Pardo. Trabalhador. 40 
anos de edade. Hospicio de Alienados Seção 
Pinei. Diagnostico: paralisia geral. R. de 
WASSERMANN no sangue fracamente posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose pequena. Fase 1 
Opalecencia. Complemento no sangue -) — }-. 
Amboceptor no sangue +. Complemento no 
liquido ausente. Amboceptor no liquido au- 
sente. 

M. F. A. Brasileiro. Branco. Operario. 
Casado. 37 anos de edade. Hospicio de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico: Demencia 
paralitica. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose. Fase 1 opalecencia. 
Complemento no sangue -}— Amboceptor no 
sangue +. Complemento no liquido ausente. 
Ambocetor no liquido +. 

J. J. A. Brasileiro. Preto. Pedreiro. Ca" 
sado. 48 anos de edade. Hospicio de Aliena- 
dos. Seção Pinei. Diagnostico: Paralisia geral. 
R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2 e 0,3. Linfocitose franca. Fase 
1 turvação. Complemento no sangue -| — | — ¡-. 
Amboceptor no sangue -\ — j-. Complemento 
no liquido ausente. Amboceptor no liquido 
ausente. 

L. F. S. Doente avulso do Hospicio de 
Alienados. Diagnostico: Demencia paralitica- 
R. de V/ASSERMANN no sangue positiva' 
R. de WASSERMANN no liquido positiva 
com 0,2. Linfocitosose. Fase 1 opalecencia. 
Complemento no sangue ++• Amboceptor no 
sangue -¡ — \-. Complemento no liquido au- 
sente. Amboceptor no liquido -| — |— 

A. M. S. Brasileiro. Pardo. Viuvo. Bom- 
beiro. 45 anos de edade. Hospicio de Aliena- 
dos Seção Pinei. Diagnostico: Tobes cíor- 
sualis. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva fracamente. R. de WASSERMANN no 
liquido positiva com 0,3; hemolise parcial 
com 0,2. Linfocitose franca. Fase 1 opalecen- 
cia. Complemento no sangue -f +. Ambocep- 
tor no sangue +• Complemento no liquido 
ausente. Amboceptor no liquido ausente. 



59 



J. B. Brasileiro. Branco. Trabalhador. 40 
anos de edade. Hospital de S. Casa de Mi- 
sericordia. Diagnostico: Tabes dorsualis. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,4. Linfocitose. Fase 1 opalecencia. 
Complemento no sangue +• Amboceptor no 
sangue +. Complemento no liquido ausente. 
Amboceptor no liquido ausente. 

A. D. Portuguez. Branco. Comercio. 38 
anos de edade. Hospital de S. Casa de Mi- 
sericordia. Diagnostico: Tabes dorsualis. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido positiva com 0,3 e 0,4. Linfocitose. 
Fase 1 opalecencia. Complemento no sangue 
-\ — |-. Amboceptor no sangue -| — \-. Comple- 
mento no liquido ausente. Amboceptor no li- 
quido ausente. 

J. B. Brasileiro. Preto. Trabalhador. 28 
anos de edade. S. Casa de Misericordia Dia- 
nostico: Polinevrite. Sifilis. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,3. Fase 1 negativa. Complemento 
no sangue -\ — [-. Amboceptor no sangue -| — |-. 
Complemento no liquido e amboceptor no li- 
quido ausentes. 

R. M. Portuguez. Branco. Comercio. 34 
anos de edade. Clinica civil. Diagnostico: 
Mielite sifilítica. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,2. Linfocitose, limite normal. Fase 
1 opalecencia. Complemento no sangue +. 
Amboceptor no sangue -\-. Complemento e 
amboceptor no sangue ausentes. 

M. C. Portuguez. Branco. 36 anos de 
edade. S. Casa de Misericordia. Diagnostico: 
Meninjiíe sifilítica. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva cem 0,3 e 0,4. Linfocitose. Fase 1 opa- 
lecencia. Complemento no sangue +• Ambo- 
cetor no sangue ausente. Complemento e 
amboceptor no liquido ausentes. 

A. V. Brasileiro. Branco. Trabalhador. 35 
anos de edade. S. Casa de Misericordia Diag- 
nostico: Meninjite sifilítica. 



R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no li- 
quido positiva com 0,4. Alguns linfocitos. 
Fase 1 opalecencia. Complemento no sangue 
-f. Amboceptor no sangue -f-. Complemento 
e amboceptor no liquido ausentes. 

J. S. Hespanhol. Branco. 36 anos de edade. 
S. Casa de Misericordia. Diagnostico : Hemi- 
plejía sifilítica. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva corn 0,3. Fase 1 opalecencia. Raros lin- 
focitos Complemento no sangue +-j — [-. Am- 
boceptor no sangue -j — |-. Complemento e am- 
boceptor no liquido ausentes. 

J. V. Portuguez. Branco. Trabalhador. 
Casado. 42 anos de edade. S. Casa de Mi- 
sericordia. Diagnostico: Hemiplejía sifilítica. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido positi- 
va com 0,4. Linfocitos poucos. Fase 1 opa- 
lecencia. Complemento no sangue -\ — \-. Am- 
boceptor no sangue +. Complemento e am- 
boceptor no liquido ausentes. 

M. S. Brasileiro. Pardo. Operario. Soltei- 
ro. 33 anos de edade. S. Casa de Misericor- 
dia. Diagnostico: Hemiplejía sifilítica. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi. 
tiva com 0,4. Linfocitos, limite normal. Fase Î 
opalecencia. Complemento no sangue -| — |-. 
Amboceptor no sangue +- 1-. Complemento e 
amboceptor no liquido ausentes. 

V. S. Brasileiro. Pardo. Trabalhador. 35 
anos de edade. S. Casa de Misericordia. 
Diagnostico: Hemiplejía sifilítica. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido positiva com 0,3 e 0,4. Ausencia de 
linfocitos. Fase 1 negativa. Complemento no 
sangue -|-. Amboceptor no sangue +. Com- 
plemento e amboceptor no liquido ausentes. 

G. M. J. Brasileiro. Pardo. Militar. 28 
anos de edade. Hospicio de Alienados. 
Seção Pinei. Diagnostico: sífilis cerebral. 

Reação de WASSERMANN no sangue 
negativa. R. de WASSERMANN no liquido 
positiva com 0,4. Linfocitos no limite do 
normal. Fase 1 opalecencia. Complemento no 



60 



sangue -\ — | — j-. Amboceptor no sangue -| — | — |-. 
Complemento no liquido ausente. Amboceptor 
no liquido ausente. 

V. O. Brasileiro Pardo. Sapateiro 39 
anos de edade. Hospício de Alienados. 
Seção Pinei. Diagnostico : Sifilis cerebral. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido : impedimento pequeno de hemolise 
com 0,2 e total com 0,4. Linfocitose pouco 
acentuada. Fase 1 turvação. Complemento no 
sangue -)-. Amboceptor no sangue -\ — [-. Com- 
plemento no liquido ausente. Amboceptor no 
liquido ausente. 

M. J. A. F. Portuguez. Branco. Casado. 
Trabalhador. 52 anos de edade. Hospicio de 
Alienados. Seção Pinei. Diagnostico: Sifilis 
cerebral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,3 e. 0,4 Linfocitose franca. Fase 1 
turvação. Complemento no sangue +. Ambo- 
ceptor no sangue -j — | — (-. Complemento no 
liquido ausente. Amboceptor no liquido -\-. 

J. S. C. Brasileiro, Branco. Solteiro. Traba- 
lhador. 20 anos de edade. Hospicio de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico: Sifilis 
cerebral. 

R, de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R- de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0.4. Linfocitose. Fase 1 turvação. 
Complemento no sangue +• Amboceptor no 
sangue -\ — |-. Complemento no liquido ausente. 
Amboceptor no liquido -|-. 

J. B. Brasileiro. Branco. 32 anos de 
edade. Hospicio de Alienados. Seção Pinei. 
Diagnostico : Sifilis cerebral. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,4. Linfocitose discreta. Fase 1 
negativa. Complemento no sangue -) — | — [-. 
Amboceptor no sangue -\ — \ — [-. Complemento, 
no liquido ausente. Amboceptor no liquido -\-. 

J. L. Portuguez. Branco Casado, 32 anos 
de edade. Hospicio de Alienados. Seção 
Pinei. Diagnostico: Sifilis cerebral. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,4. Linfocitose franca. -Fase 1 



lijeira opalecencia. Complemento no sangue 
-j — |-. Amboceptor no sangue -| — | — \-. Comple- 
mento no liquido ausente. Amboceptor no 
liquido ausente. 

P. L. Hospicio de Alienados. Seção 
Pinei. Diagnostico: Sifilis cerebral. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 cc. Ausencia de linfocitos. Fase 
1 negativa. Complemento no sangue -\ — [-. 
Amboceptor no sangue -j — \-. Complemento 
no liquido ausente. Amboceptor no liquido 
ausente. 

F. A. N. Brasileiro. Pardo. Empregado 
de lavoura. Solteiro. 44 anos de edade- Hos- 
picio de Alienados. Seção Pinei. Dignostico: 
Sifilis cerebral ou Loucura maniaco depres- 
siva. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0.5. Ausencia de linfocitose. Fase 1 
negativa. Complemento no sangue -f. Am- 
boceptor no sangue -|— Complemento no li- 
quido ausente. Amboceptor no liquido auseute. 

A. N. M. Portuguez. Branco. Proprie- 
tário. 40 anos de edade. Hospicio de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico: Sifilis cere- 
bral ou alcoolismo. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido positiva com 0,6. Ausencia de lin- 
focitose. Fase 1 negativa. Complemento no 
sangue +• Amboceptor no sangue -] — [-. 
Complemento no liquido ausente. Amboceptor 
no liquido ausente. 

A. F. R. Brasileiro. Preto. Pedreiro. 
Casado. 52 anos de edade. Hospicio de 
Alienados. Diagnostico: Sifilis cerebral ou 
arterioesclerose cerebral. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido negativa com 1 cc. Linfocitose franca. 
Fase 1 opalecencia. Complemento no sangue 
-\-. Amboceptor no sangue ++. Complemento 
e amboceptor no líquido ausentes. 

A. G. Portuguez Branco. 50 anos de 
edade. Hospicio de Alienados. Seção Pinei. 
Diagnostico: Arterio esclerose cerebral? 



61 



R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 ce. Linfocitos raros. Fase 1 opa- 
lecencia. Complemento no sangue ++. Am- 
boceptor no sangue +. Complemento e am- 
boceptor no liquido ausentes. 

A. L. F. Brasileiro. Branco. Solteiro. 55 
anos de edade. Hospicio de Alienados. 
Seção Pinei. Diagnostico: Arterio esclerose 
cerebral. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido posi- 
tiva com 0,4. Linfocitose muito discreta. Fase 
1 opalecencia. Complemento no sangue +. 
Amboceptor no sangue +. Complemento e 
amboceptor no liquido ausentes. 

A, S. Brasileiro. Branco. Profissão igno- 
rada. 20 anos de edade. Hospicio de Ali- 
enados. Seção Pinei. Diagnostico: Demencia 
precoce, forma simples. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido negativa com 1 cc. Ausencia de lin- 
focitos. Fase 1 negativa. Complemento no 
sangue +• Amboceptor no sangue -j — [-. Com- 
plemento e amboceptor no liquido ausentes. 

A. M. C. B. Brasileiro. Branco. Carpin- 
teiro. Solteiro. 31 anos de edade. Hospicio 
de Alienados. Seção Pinei. Diagnostico 
Demencia precoce forma catatonica. 

R. de WASSERMANN no sangue posi- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido negativa 
com 1 cc. Raros linfocitos. Fase 1 negativa. Coni- 
plemento no sangue +. Amboceptor no 
sangue +. Complemento e amboceptor no 
liquido ausentes. 

A. V. C. Portuguez. Branco. Lavrador. 
Casado. 54 anos de edade. Hospício de 
Alienados. Seção Pinei. Diagnostico: Lou- 
cura maniaco depressiva. 

R. de WASSERMANN no sangue fraca- 
mente positiva. R. de WASSERMANN no 
liquido negativa com 1 cc. Poucos linfocitos. 
Fase 1 negativa. Complemento no sangue -f. 
Amboceptor no sangue -|— Complemento e 
amboceptor no liquido ausentes. 

M. V. B. Portuguez. Branco. Cocheiro. 
Solteiro. 37 anos de edade. Hospicio de Ali- 
enados. Seção Pinei. Diagnostico: Parafrenia. 



R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 cc. Ausencia de linfocitos. Fase 1 
negativa. Complemento no sangue +-1-. Am- 
boceptor no sangue ++• Complemento no 
liquido ausente. Amboceptor no liquido au- 
sente. 

J. G. Brasileiro, Branco. Copeiro. Sol- 
teiro. 23 anos de edade. Hospicio de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico: Epilepsia. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 cc. Ausencia de linfocitos. Fase 1 
negativa. Complemento no sangue +. Ambo- 
ceptor no sangue -j— Complemento e ambo- 
ceptor no liquido ausentes. 

L. B. Italiano. Branco, Operario. Sol- 
teiro. 19 anos de edade. Hospicio de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico: Lipemanía. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 cc. Poucos linfocitos. Fase 1 nega- 
tiva. Complemento no sangue +. Amboceptor 
no sangue +. Complemento e amboceptor no 
liquido ausentes. 

A. M. N. Brasileiro. Preto. Pedreiro. 
Solteiro. 21 anos de edade. Hospicio de Ali- 
enados. Seção Pinei. Diagnostico: Alco- 
olismo. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 cc. Ausencia de linfocitos. Fase 1 
negativa. Complemento no sangue -j — |-. 
Amboceptor no sangue -\ — [-. Complemento e 
amboceptor no sangue ausentes. 

Z. H. S. Brasileiro. Preto. Trabalhador. 
Viuvo. 33 anos de edade. Hospicio de Alie- 
nados. Seção Pinei. Diagnostico : Parafrenia. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 cc. Linfocitos poucos. Fase 1 
negativa, Complemento no sangue -|-. Ambo- 
ceptor no sangue -\-, Complemento e ambo- 
ceptor no liquido ausentes. 

E. P. S. Brasileiro. Preto. Trabalhador. 
Solteiro. 39 anos de edade. Hospicio de 
Alienados. Seção Pinei. Diagnostico : Imbe- 
cilidade. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 



62 



Uva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 ce. Raros linfocitos. Fase 1 nega- 
tiva. Complemento no sangue -| — |-. Ambo- 
ceptor no sangue +. Complemento e ambo- 
ceptor no liquido ausentes. 

J. P. S. Casa de Misericordia, Serviço 
clinico do Prof. Austregesilo. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 ce. Ausencia de linfocitos. Fase 1 
opalecencia. Complemento no sangue -\ — |-. 
Amboceptor no sangue -j — \-. Complemento e 
amboceptor no liquido ausentes . 

J O. Brasileiro. Preto. 31 anos de edade 
S. Casa de Misericordia. Serviço clinico do 
Dr. SYLVIO MONIZ. Diagnostico: Menin- 
jite pneumococica. 

R. de WASSERMANN no sangue nega- 
tiva. R. de WASSERMANN no liquido nega- 
tiva com 1 cc. Fase 1 opalecencia. Polinucleose. 



Complemento no sangue ++. Amboceptor 
no sangue -j — | — |-. Complemento no liquido 
+ . Amboceptor no liquido ++ . 

Tivemos ainda ocasião de observar 12 
casos de meninjite cerebro espinhal epidémica, 
alguns em serviço hospitalar e outros na 
clinica civil. Em todos eles, na reação de 
WASSERMANN praticada com o liquido 
cuidadosamente centrifugado foi sempre nega- 
tiva com 1 cc. , o exame citolojico acusou 
polinucleose e a fase 1 foi, regra geral, positiva. 
Em 6 deles pesquisámos complemento e 
amboceptor no liquido sendo sempre positivo 
o resultado 

Escolhemos ainda 10 pacientes com rea- 
ção de WASSERMANN negativa no sangue 
e sem a mais leve suspeita de afeção sifi- 
lítica do sistema nervoso. Em todos eles, 
como era de esperar, as reações de NONNE 
assim como a de WEIL-KAFKA foram nega- 
tivas. 



63 

l3it>liogi'a.fîa.. 

BERTELSEN. E u. BISGAARD. A, 1911 Resultate objektiver Ausmessung der biologischen 

und chemischen Reaktionen in der 
Cerebrospinalfluessigkeit, besonders 
bei Paralitikern, sowie Beschreibung 
einer neuen chemischen Reaktion 
in der Spinaifluesigkeit. Zeit. F. 
die ges, Neur. u. Psych. Bd. 4. S. 
327-353, 

BOAS. H. u. NEVE. G. 1912 Untersuchungen ueber die Weil-Kafkasche Hae- 

molysinreaktion in der Spinalflues- 
sigkeit. Zeit. f. die ges. Neur. u. 
Pysch. Orig. Bd. 10 H. Vs S. 67. 

BOAS, H. u, NEVE G. 1913 Weitere Untersuchungen ueber die Weil-Kafkas- 

che Haemolysinreaktion in der Spi- 
nalfluessigkeit. Zeit. f. die ges. Neur. 
u. Psych. Orig. Bd. 15 S. 528. 

BRUECKNER 1914 Ueber die diagnostische Bedeutung der Weil- 

Kafkaschen Haemolysinreaktion fuer 
die Psychiatrie Deut. Verein f. Psych. 
Strassburg. 

DANIELOPOLU 1913 Sur la fragilité des hématies du chien et sur 

l'action hemolytique du sérum et 
du liquide cephalo rachidien. Compt. 
rend. d. 1. Soc. de Biol. Vol. 73 
Pg. 113. 

FRAENKEL MAX 1912 Weitere Beitraege zur Bedeutung der Auswer- 

tungsmethode der WASSERMANN 
Reaktion im Liquor cerebrospinalis. 
Ueber das Vorkommen der WAS- 
SERMANN Reaktion im Liquorspi- 
nalis bei Faellen von frischer pri- 
maerer und sekundaerer Syphilis. 
Zeit. f. die ges. Neur. u. Psych. 
Orig. Bd. 28 S. 1-24. 

FROEDERSTROEM H, u, 1910 Ueber das Verhaeltniss der WASSERMANN 

WEIQERT V. schen Reaktion zu den cytologischen 

und chemischen Untersuchungsme- 
thoden der Spinalfluessigkeit. Mo- 
nats. f. Psych. U. Neur. Bd, 28 
S. 95-109. 

HAUPTMANN ALFRED 1911 Die Vorteile der Verwendung groessere Liquor- 

mengen ("Auswertungsmethode") 
bei der WASSERMANN, schen 
Reaktion fuer die neurologische 



64 

Diagnostik. Deut. Zeit. f. Nerve- 
nheilk Bd. 42 H 3/4 S. 240-292. 

HIERONYMUS W. 1914 Ueber die haemolytische Wirkung des Blutserums 

von Geisteskranken. Zeit. f. die 
ges. Neur. u. Psych. Bd. 22 H. 
4/5 S. 506-518. 

KAFKA V. 1911 Die Bedeutung der WASSERMANN, schen Rea- 

ktion fuer die Psychiatrie Zeit. fuer 
die ges. Neur. u. Psych. Orig. 
Bd, 4 S. 33-47. 

KAFKA V. 1912 Ueber die Bedingungen und die praktische und 

theoretische Bedeutung des Vorkom- 
mens hammelblutloesender Nor- 
malambozeptoren und des Komple- 
ments im Liquorcerebrospinalis. 
Zeit. f. die ges. Neur. u. Psych. 
Orig, Bd. 9 S. 132-153. 

KAFKA V. u, RAUTENBERO H 1914 Ueber neue Eiweissreaktionen der Spinalflues- 

sigkeit, ihrer praktische und theore- 
tische Bedeutung mit besonderer 
Beruecksichtigung ihrer Beziehungen 
zum Antikoerpergehalt des Liquor- 
cerebrospinalis Zeit. f. die ges, 
Neur. u. Psych. Bd. 22 H . "/s S. 
353-397. 

KRONFELD 1913 Der klinische Wert der serologischen u.Liquor- 

diagnostik Sitzung des psych. Ve- 
reins in Berlin 13 Dez. 

NONNE M. 1910 Ueber das Vorkomenn von starker Phase 1 Reak- 

tion bei fehlender Lymphocytose 
bei 6 Fallen von Rueckenmarkstu- 
mor. Deut. Zeit. f. Nervenh. Bd, 
40 S. 161-167. 

NONNE M. u. HOLZMANN W. 1910 Ueber WASSERMANN Reaktion im Liquorspi- 

nalis bei Tabes dorsalis sowie 
ueber quantitative Auswertung von 
Staerkegraden der VX/ASSERMANN 
Reaktion bei syphilogener Krank- 
heiten des Zentralnervensystems 
Monat. f. Psjch. u. Neur. Bd. 
27 S. 128-152. 

PLAUT. F. 1911 Die Bedeutung der WASSERMANN schen Reak- 

tion fuer die Psychiatric. Zeit. f. 
die ges. Neur. u. Psych. Orig Bd. 
4 S. 39-47. 



65 



SZECSI STEPHAN 



ZALOZIECKI A 



ZALOZIECKI A. 



ZALOZIECKI A. 



ZALOZIECKI A. 



1909 Beitrag zur Differentialdiagnose der Dementia 
paralytica, Sclerosis múltipla und 
Lues cerebrospinalis auf Grund der 
zytologischen und chemischen Un- 
tersuchung der Lumbalfluessigkeit. 
Monat. f. Psych, u. Neur. Bd. 
26 S. 352-383. 

1909 Zur klinischen Bewertung der serodiagnostischen 
Lues-Reaktion nach WASSERMANN 
In der Psychiatrie nebst Bemerkun- 
gen zu den Untersuchungsmethoden 
der Liquorcerebrospinalis . Monat. 
f. Psych, u. Neur. Bd. 26 S. 
196-212. 

1913 Ueber den Antikoerpernachweis im Liquor ce- 
rebrospinalis, seine theoretische und 
praktische Bedeutung. Arch, f, Hyg. 
Bd. 80 S. 196. 

1913 Zur Frage der "PermeabilHaet" der Meningen 
insbesondere Immunstoffe gegenue- 
ber. Deut. Zeit. f. Nerv. Bd. 46 
H. 3 S. 195-221. 

1913 Zur Frage der Permeabilitaet der Meningen 
(Ewiderung auf die Bemerkungen 
von Weil-Kaf!<a.) Deut. Zeit. f, Nerv. 
Bd. 46 S. 409. 



Contribuição para o conhecimento da fauna de pro- 
tozoários do Brazil 

IV 

pelo 

Df. AF^ISTIDES IV1A.FÍQUES DA CUIVHA 

(Com a estampa 3). 



O atual trabalho representa nova con- 
tribuição para o conhecimento da fauna 
de protozoários do Brazil, assunto que ha 
tempos prende a nossa atenção e que já tem 
sido objeto de notas anteriores. 

Neste trabalho nos ocuparemos com 
os protozoários de agua doce e salobra ; 
os protozoários marinhos são presentemente 
objeto de estudo em colaboração com o Dr- 
GOMES DE FARIA e o resultado dessas 
pesquizas será opurtunamente publicado em 
memoria especial. 

Em nossa primeira contribuição, fizemos 
a resenha dos trabalhos existentes sobre 
o assunto. Após a publicação de nosso traba- 
balho, apareceu um artigo de WAILES sobre 
os rizopodes da America do Norte e do 
Sul no qual vêm mencionadas 51 especies 
encontradas no Rio de Janeiro, 38 das quaes 
ainda não haviam sido assinaladas no Brazil. 
O autor pesquizou os rizopodes testáceos 
encontrados em musgo e esfagno de forma 
que seu trabalho vem completar um ponto 
que havia sido descurado no nosso. 



Dos arredores de Manguinhos temos 
examinado grande numero de amostras de 
agua doce e salobra e, ás especies mencio- 
nadas em nosso primeiro trabalho pudemos 
acrecentar mais 22 que constam da lista que 
adiante transcrevemos: 

1. Mastigamoeba áspera SCHULTZE 

1875. 

2. Hexamitus crassas KLEBS, 1892. 

3. Petalomonas angusta KLEBS, 1892. 

4. Petalomonas sexlobata KLEBS, 1892. 

5. Dinema gnseolum PERTY, 1852. 

6. Tropidotnonas rotans CUNHA, 1915. 

7. Coccomonas orbicularis STEIN, 1878. 

8. Volvulina steinii PLAYFAIR, 1915. 

9. Hemidiniam nasutum STEIN, 1883. 

10. Chilodon dúbias M AUPAS, 1883, 

11. Leptopharynx costatus MERMOD, 

1914, 

12. Epalxis mirabilis ROUX, 1899, 

13. Saprodinium dentatum LAUTER- 

BORN, 1908. 

14. Plagiopyla nasata STEIN, 1860, 

15. Metopus nasutus CUNHA, 1915. 

16. Metopus caudatas CUNHA, 1915. 



67 



17. Tropidoactratus accuminatus LEV, 

1894. 

18. Spirorhynchus verrucosus CUNHA, 

1915. 

19. Strombidiiim stylifer LEVANDER, 

1894. 

20. Stichochaeta pediculiforme COHN, 

1866. 

21. Diophrys appendiculatus COHN, 

1866. 

22. Uronychia transfuga O. F. MUELLER, 

1777. 

Em excursão que em companhia do 
Dr. L. TRAVASSOS, fizemos nos arredores 
de Angra dos Reis, tivemos oportunidade de 
observar numerosas amostras de agua doce 
e pudemos verificar a presença de 64 espe- 
cies de protozoários, algumas das quaes 
ainda não havíamos observado, sendo uma, 
Euglypha cristata, LEIDY 1874, ainda não 
assinalada na nossa fauna. 

Damos em seguida a lista das especies 
encontradas : 

1. Amoeba proteus PALL. 1766. 

2. Arcella vulgaris EH RB, 1830. 

3. Arcella brasiliensis CUNHA, 1913. 

4. Difflugia accuminata EH RB, 1830. 

5. Difflugia oblonga EH RB. 1831. 

Esta especie já havia sido assinalada em 
trabalho anterior sob o nome de Difflugia 
piriformis PERTY 1849. Esse nome deve 
porém ser substituido por Difflugia oblonga 
EHRB, em virtude da lei de prioridade, ficando 
aquele como sinonimo. 

6. Difflugia constricta EHRB, 1841. 

7. Difflugia urceolata CARTER, 18^4. 

8. Difflugia curvicaulis PENA RD, 1899. 

9. Centropyxis aculeata (EHRB, 1830). 

10. Centropyxis impressa (DA DAY, 1 905). 

11. Lecquereusia spiralis (EHRB, 1830). 

12. Nebela collaris (EHRB. 1848). 

13. Quadrula symetrica (WALLICH, 1863). 

14. Euglypha alveolata DUJ. 1841. 

15. Euglypha brachiata LEIDY, 1878. 

16. Euglypha cristata LEIDY, 1874. 

17. Trinema euchelys (EHRB, 1838). 

18. Trinema lineare (RENARD, 1890). 

19. Cyphoderia ampulla (EHRB, 1840). 

20. ClathruUna elegans (CI EN K, 1867). 



21. Dendromonas laxa (KENT, 1881). 

22. Euglena n>/i//5 SCHRANK. 1780. 

23. Euglena deses EHRB, 1833. 

24. Euglena tripteris (DUJ, 1841). 

25. Crumenula ovum (EHRB, 1840). 

26. Crumenula globosa (FRANCE, 1893). 

27. Phacuspleuronectes{0. F.MUELLER, 

1773). 

28. Phacus párvula KLEBS, 1883. 

29. Trachelomonas I'o/i'cmm EHRB, 1831. 

30. Trachelomonas cilindrica, EHRB 1833. 

31. Trachelomonas obtusa, PALMER, 

1905. 

32. Astasia curvata (KLEBS, 1883). 

33. Peramena trichophorum (EHRB, 1830). 

34. Entosyphon sulcatum (DUJ, 1841). 

35. Anisonema acinus (DUJ, 1841). 
36 Heteronema acus (EHRB, 1840). 

37. Cryptomonas ovata EHRB, 1831. 

38. Chito mo nas Paramecium EHRB, 1831. 

39. Chilomonas prcMOzeki CUNHA, 1913. 

40. Gymnodinium fuscuni (EHRB, 1833). 

41. Glenodinium cinctum EHRB, 1835. 

42. Lacrymaria olor (O. F. MUELLER, 

1786. 

43. Prorodon teres EHRB, 1833. 

44. Coleps hiiius (O. F. MUELLER, 

1786). 

45. Mesodinium acarus STEIN, 1862. 

46. Lionotus fasciola (O. F. MUELLER, 

1786). 

47. Loxodes rostrum (O. F. MUELLER, 

1786). 

48. Dileptus anser (O. F. MUELLER, 

1786). 

49. Loxocephalus granulosus KENT, 1881. 

50. Colpoda cucullus O. F. MUELLER, 

1786. 

51. Frontonia leucas (EHRB, 1833. 

52. Frontonia accuminata (EHRB, 1831). 

53. Cinetochilum margaritaceum (EHRB, 

1831). 

54. Drepanomonas dentata (FRES, 1858). 

55. Ureocentrum turbo (O. F. MUELLER, 

1786). 

56. Lembodion bullinum (O. F. MUELLER, 

1786). 

57. Cyclidiu.n glaucoma (O. F. MUELLER, 

1786). 



68 



58. Spirostomum ambiguum (EH RB, 

1830). 

59. Spirostomum teres CL. & LACH. 1858. 

60. Halteria grandinella (O. F. MUELLER, 

1786). 

61. Strombilidiumgyrans (STOKES, 1887). 

62. Oxytricha platystoma EHRB, 1831. 

63. Euplotes patella (O. F. MUELLER, 

1773). 

64. Vorticella citrina (O. F. MUELLER, 

1773). 

Em material colecionado pelo Dr. A. 
NEIVA durante uma viajem pelo Brazil 
central, encontrámos as especies que constam 
da lista abaixo: 

Peixe, Bahia (Municipio de Remanso) ; 

1. Centropyxis acuíeata (EHRB, 1830) 

2. Trinema enche'ys (EHRB, 1833). 

3. Phacus pleuronedes (O. F. MUELLER, 

1773). 
Lagoa de Parnaguá, Piauhy (Municipio 
de Parnaguá) ; 

1. Difflugia limnetica LEVANDER 1900. 

2. Centropyxis acuíeata (EHRB, 1830). 

3. Euglypha alveolata DUJ, 1841. 

4. Euglena fusca KLEBS, 1883. 

5. Phacus longicauda (EHRB, 1830). 

6. Entosyphon sulcatum (DUJ, 1841). 

7. Chilomonas paramœcium EHRB, 1831. 

8. Coleps hirtus (O. F. MUELLER 1786). 

Tropidomonas CUNHA 1915. 

Flajelado de corpo rijido, provido de 
saliências lonjitudinaes em forma de cristas 
enroladas em espiral. Com um flajelo. 

Esse genero, cuja diagnose já foi dada 
em nota previa, deve ser incluido na familia 
Peranematidae. E representado até agora pela 
especie única que passamos a descrever. 

Tropidomonas rotans CUNHA 1915. 

Corpo rijido, elipsoide, possuindo em 
sua superficie 10 saliências lonjitudinaes em 
forma de cristas, levemente enroladas em 
espiral. O corpo é incolor, hialino e apresenta 
grande quantidade de corpúsculos de para- 
milo, sobretudo na parte anterior. O flajelo 
que é único, acha-se situado na extremidade 



anterior do corpo e tem mais ou menos o 
comprimento deste. 

O flajelado move-se, descrevendo uma 
linha sinuosa e é então animado de movi- 
mento de rotação em torno do eixo lonji- 
tudinal. Em preparados corados, observa-se 
que o núcleo, situado na parte posterior do 
corpo, apresenta um cariosoma redondo 
central, cercado de abundante cromatina 
periférica, disposta em granulações. 

Dimensões: comprimente 30 j«, largura 
20 fi. 

Habitat: Encontrada em agua doce, 
proveniente dos arredores de Manguinhos. 

Metopus CL. e LACH. 1858. 

O genero Metopus, criado por CL A PA- 
REDE e LACHMANN com uma única espe- 
cie, Metopus signwidis, foi mais tarde enri- 
quecido com especies novas principalmente 
por LEVANDER. Nem todos os autores, 
porém admitem as especies posteriormente 
incluídas nesse genero e consideram taes 
especies como formas de Metopus sigmoidis 
nas quaes, a maior ou menor torção do corpo 
fez com que alguns autores as tomassem 
como especies independentes. 

Essa opinião não nos parece livre de 
objeção, pois algumas das especies em 
questão, além do maior ou menor gráo de 
torção do corpo, apresentam outros caracteres 
diferenciaes, como se dá com o Metopus piri- 
formis que apresenta a extremidade posterior 
acuminada, ao passo que ela é arredondada 
no Metopus sigmoidis. 

No decorrer de nossas pesquizas, tive- 
mos ocasião de observar duas especies desse 
2[enero, contra as quaes não se aplica a 
objeção levantada por esses autores, pois 
essas especies não se diferenciam át Metopus 
sigmoidis pela torção do corpo e sim por 
caracteres morfolojicos considerados por 
todos como especificóse largamente aplicados 
na distinção das especies de outros géneros, 
Essas especies, de que já demos a diag- 
nose em nota previa, são encontradas, unia 
em agua doce e outra em agua salobra. 



69 



Metopus nasutus CUNHA, 1915. 

Corpo alongado, e mais ou menos acha- 
tado no sentido dorso-ventral. Parte anterior 
torcido sobre a face ventral da direita para a 
esquerda. Parte posterior arredondada. O 
peristoma, levemente obliquo de cima para 
baixo e da esquerda para a direita, prolonga- 
se da extremidade anterior ao meio do corpo. 
Boca situada na extremidade posterior do 
peristoma. O corpo é revestido de cüios 
finos dispostos em linhas lonjitudinaes. Na 
borda esquerda do peristoma, constituindo a 
zona adorai, existe uma fileira de cilios mais 
longos e mais espessos que os demais. Na 
extremidade posterior do corpo, existem 
cílios longos e finos. 

Da extremidade anterior do corpo, parte 
um prolongamento cilindrico, flexível, des- 
provido de de cílios, com cerca de 1/3 do 
comprimento do corpo. Este prolongamento 
dirijido geralmente para traz mantem-se pen- 
dente ao longo do corpo. Macronucleo elip- 
soide, junto ao qual ha um micronucleo. 
Vacuolo contratil único situado na extre- 
midade posterior do corpo. 

Dimensões: comprimento 100 ,«, largura 
30 /<, comprimento do prolongamento anterior 
30-40 ^l. 

Pela forma e dimensões do corpo esta 
especie se aproxima de Meíopus sigmoidis da 
qual facilmente se diferencia pelo prolonga- 
mento anterior. 

Habitot: Encontrado em agua doce nos 
arredores de Manguinhos. 

Metopus caudatas CUNHA 1915. 

Corpo alongado e achatado no sentido 
dorso-ventral. Parte anterior torcida sobre a 
face ventral da direita para a esquerda. Parte 
posterior gradualmente estreitada e termi 
nada em um prolongamento caudal. O- 
peristoma obliquo de cima para baixo e da 
esquerda para a direita, prolonga-se da 
extremidade anterior ao meio do corpo. O 
peristoma é mais obliquo que na especie 
anterior e é lijeiramente curvo com a conca- 
vidade %^oItada para baixo e para a esquerda. 

O corpo é revestido de cílios finos, 



dispostos em linhas lonjitudinaes, sendo que 
no prolongamento caudal os cílios se tornam 
mais espaçados, á medida que se aproximam 
da extremidade. Na borda esquerda do 
peristoma, constituindo a zona adorai, existe 
uma fileira de cílios mais longos e mais 
espessos que os demais. 

Macronucleo elipsoide junto ao qual ha 
um micronucleo. 

Vacuolo contratil, único, situado na parte 
posterior, na base de prolongamento caudal. 

Dimensões: comprimento 90-100 ^, com- 
primento do prolongamento caudal 30 /<, 
largura 30 /w. 

Esta especie também se aproxima do 
Metopus sigmoidis, da qual se diferencia pelo 
prolongamento caudal. 

Habitat: Encontrado em agua salobra, 
nos arredores de Manguinhos. 

Spirorhynchus CUNHA 1915. 

Heterotricha provide^ de um prolongamento 
anterior em forma de tromba. Peristoma 
constituído por um sulco enrolado em espiral 
em torno desse prolongamento. Zona adorai 
formada por uma fileira de cilios mais 
espessos que os que revestem o corpo, 
também enrolados em espiral, em torno da 
tromba, acompanhando a borda esquerda 
do peristoma. Boca situada na base da 
tromba na extremidade posterior do peris- 
toma. Corpo, com exceção da zona adorai, 
uniformemente ciliado. 

Este genero, do qual já demos'descriçao 
em nota previa, deve ser incluido na família 
Plagiotomidae, ; distingue-se dos demais 
pela situação do peristoma em um prolonga- 
mento anterior. É representado até agora 
pela especie única que passamos a descrever. 

Spirorhynchus verrucosus CUNHA 1915. 

Corpo fusiforme, terminado anterior- 
mente em um prolongamento em forma de 
tromba e posteriormente em um prolonga- 
mento caudal longo e ponteagudo. Peristoma 
em forma de sulco, enrolado em espiral em 
torno da tromba. Zona adorai constituída 
por uma fileira de cílios mais espessos que 



70 



os que revestem o corpo, também enrolado 
em espiral em redor da tromba, acompanhando 
a borda esquerda do peristoma. Boca situada 
na extremidade posterior do peristoma. O 
corpo é uniformemente revestido de cilios 
finos e longos, dispostos um tanto espaçada- 
mente, em linhas lonjitudinaes. 

A superficie do corpo é coberta de 
saliências, análogas ás observadas na Vorti- 
cclla monilata TATEM e dispostas em linhas 
lonjitudinaes. Essas saliências só se encon- 
tram na parte media do corpo, faltando 
tanto na tromba como no prolongamento 
caudal. Nío foi possível observar o macro e 
micro-nucleo. 

Vacudo contratil único, situado na base 
do prolongamento caudal. 



Dimensões: comprimento 140 jW, largura 
20 /<. 

Habitat: Encontrada em agua salobra, 
nos arredores de Manguinhos. Muito raro. 

Resumindo os resultados das pesquisas 
até agora efetuadas sobre a fauna de pro- 
tozoários do Brazil temos de acrecentar ás 
251 especies assinaladas em nossa tese, 8 
mencionadas em trabalho anterior, 23 na 
presente contribuição, sendo 22 dos arredores 
de Manguinhos e 1 de Angra dos Reis, 38 
rejisíadas por WAILES o que eleva a 320 o 
numero de protozoários de vida livre até 
agora conhecidos no Brazil. 



71 



BLOCHMANN, F. 1895 
BUETSCHLI, O. 1887/9 



CLAPAREDE & 


1859/61 


LACHMANN 




CUNHA, A. M. 


1915 


CUNHA, A. M. 


1915 


CUNHA, A. M. 


1915 


DADAY, E. 


1904 



QOLDSCHMIDT, R. 1907 



HAMMBURQER, C. 
& BUDDEN- 
BROCK 1911 

KLEBS, G. 1892 



LAUTERBORN, R. 1908 

LEMMERMANN,.E. 1910 

LEVANDER, R. M. 1894 

MERMOD, O. 1914 

PLAYFAIR, J. l. 1915 



ROUX, J. 



1899 



^ilDliogr-a-íÍEi.. 

Mikroskopische Tierwelt des Suesswassers. 1. Abt. Protozoa. 
(2. Afl.) Hamburg. 

Protozoa. In Bronn's Klassen u. Ordnungen des Tierreichs 
Bd. I. Lpz. 

Etudes sur les ínfusoires et les rhizopodes. Genève. 

Tropidomonas rotans n. g. n. sp. (Nota prévia). 
Brazii-Medico-Anno XXIX, No 15, p. 113. 

Sobre duas novas especies de ciliados (Nota prévia). 
Brazil-Medico, Anno XXIX, No 17, p. 129. 

Spirorhynchus verrucosus n. g. n. sp. (Nota prévia). 
Brazil-Medico, Anno XXIX, No 19, p. 145. 

Suesswasser-Mikrofauna Paraguays. Protozoa. 
Bibliotheca zoológica Heft 44 pp. 4-46, Taf. I. Stuttgart. 

Lebensgeschichte der Mastigamoeben, Mastigella vitrea n. sp. 

und Mastigina setosa n. sp. 
Arch. f. Protistenkunde, Supl. I. pp. 83-168, Taf. V-IX. 

Nordische Ciliata mit Ausschluss der Tritinnoidea. 
Nordisches Plankton hrsg. von Dr. Prof. K. BRANDT & 
Prof. Dr. APSTEIN in Kiel. XIII. 

Flagellaten-Studien. 

Zeits. f. wiss. Zool. Bd. 55, pp. 265-351 ; 352-445. Taf. XIIÎ- 

XVIII Lpz. 

Protozoen-Studien v. Teil. Zur Kenntnis einiger Rhizopoden 
u. Infusorien aus dem Gebiete des Oberrheins. 
Zeits. f. wiss. Zoologie Bd. 90 pp. 645-669, Taf. 
41-45 Lpz. 

Algen I, (Schizophyten, Flagellaten u. Peridineen) Krypto- 
gamenflora der Mark Brandenburg, Bd. III. 

Beitrage zur Kenntnis einiger Ciliaten. Helsingfors. 
Recherches sur Ia faune infusorienne des tourbières et des 

eaux voisines de Sainte Croix (Jura vaudois). 
Revue Suisse de Zoologie Vol. 22 u. 3. pp. 31-114. Pi. 2-3. 

Freshwater Algae of the Lismore District. The Proc. of the 
Linn. Soc. of New South Wales. Vol. XL n. 
158. pp. 310-362 PI. XL I-XLVI, Sydney. 

Observations sur quelques infusoires ciliés des environs de 
Genève avec la description de nouvelles espèces 
Revue suisse de Zoologie Tome 6, pp. 557-635, 
pi. 13 & 14 Geneve. 



72 



ROUX, J. 1901 

SCHEWIAKOFF, W. 1896 

SCHOUTEDEN, FR. 1906 

SCHOUTEDEN, FR. 1906 



STEIN, FR 
WAILES, O. H. 



1859-83 
1913 



Faune infusorienne des eaux stagnantes des environs de Genè- 
ve, Genève. 

Infusoria aspirotricha (Holotricha auctorum). 
Mém. de l'Acad. des Se. de S. Pétersbourg, Sér. VIII, T. IV 
No 1 p. l-395Taf. I-Vll. S. Pétersbourg. 

Les Rhizopodes testacés d'eau douce d'après la monographie 

du Prof. A. AWERINZEW. 
Annales de Biologie lacustre Tome I. pp. 327-382. Bruxelles. 

Les infusoires aspirotriches d'eau douce. 

Annales de Biologie lacustre Tome I. pp. 383-468. 

Der Organismus der Infusionstiere. Lpz. 

Freshwater Rhizopoda from North and South America. 
Journ. of the Linnean Soc. Zoology. Vol. XXXII pp. 201 
218 pi. 15- London. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALD© CRUZ 
TOMO VIII— 1916 



ESTAAÍPA 3 





73 



Esplicação das figuras. 

Todas as figuras foram desenhadas com 
camará clara á altura da mesa, sendo o 
comprimento do tubo do microscopio de 
16 C"., Ob. imersão homojenea 1/12, Oc. 2 



de Zeiss. 

Fig.l. 

« 2. 

« 3. 

« 4. 



Tropidomonas rotans CUNHA 1915. 
Metopus nasutus CUNHA 1915. 
Metopus caudaíiisC\JN\\k 1915. 
Spirorhynchus verrucosus CUNHA 
1915. 



Ano 1916 
Tomo VIII 
Faciculo II 



MEMORIAS 

DO 

Instituto Oswaldo Cruz 



Rio de Janeiro ■ Manguinhos 



MAR 20 1919 



4^n^ 



I -Processos patojtnicos da tripanozomiase americana pelo Dr. CARLOS CHAGAS, chefe de serviço (Com 

as estampas 4 e 5) 5 

II -Tripanozomiase americana, forma aguda da doença pelo Dr. CARLOS CHAGAS, chefe de serviço, 

(Com as estampas 6, 7, 8, 9 e 10) 37 

III Sobre uma hemogregarina da gambá. Hemogregarina didelphydis n. sp. pelos Drs. OSCAR d'UTRA c 

SILSA e J. B. ARANTES (Com a estampa 11.) 61 

iV-Pesquizas sobre o Copromastix prowazeki n. g. v. sp. pelo Dr, HENRIQUE de BEAUREPAIRE ARA- 
GÃO, Assistente (Com a estampa 12) 64 

V Fixação de complemento na blastomicose pelo Dr. ARTHUR MOSES (Assistente interino) 68 

IV -Nota sobre Agcliyiostoma brasiliense G. de Faria, 1910, pelo Dr. GOMES de PARIA 71 



4^ /lO/^ As MEMORIAS serão publicadas em faciculos, que não aparecerão em 
/W lOV-^ datas fixas. No mínimo, aparecerá um volume por ano. 

Na parte escrita em português foi adotada a grafia aconselhada pela Academia de Letras 
do Rio de Janeiro. 

Toda correspodencia relativa ás «MEMORIAS^ deverá ser dirijida ao Diretor do Ins- 
tituto Oswaido Cruz Caixa postal 926 Manguinhos Rio de Janeiro . Endereço telegráfico: 
«Manguinhos . 




Oswalòo Cru3 

Fundador da medicina experimental no Brasil 



OSWALDO CRUZ 



Quando regressámos a nossa casa de trabalho,' após haver dei- 
xado na paz definitiva de um sepulchro o querido mestre, traziamos 
na alma, com a inagoa infinita de uma saudade, o desalento de uma 
incerteza e a previsão de difficuldades nunca experimentadas. 

Annos dilatados aqui vivemos bem felizes, sob a orientação de 
seu luminoso espirito, na segurança e tranquilidade de objectivos pro- 
fissionaes que emanavam de seus elevados designios de sciencia e de 
patriotismo. Delle nos vinham, na ascendencia de uma vontade sobe- 
rana, o acerto nas decisões, a resolução nas incertezas, o animo no de- 
salento ! E nem custava proseguir assim, guiados pela sabedoria de con. 
selhos valiosos, sempre confiantes naquellas normas de trabalho aqui 
instituidas pelo exemplo do próprio mestre e mantidas pela efficiencia 
de resultados compensadores. 

No optimismo de suas doutrinas neutralisavam-se as decepções 
de nossa jornada, e ao contacto de sua fé inabalável, sob a inspiração 
de seus nobres ideaes de bondade e de altruismo, adquiríamos novo 
animo e energias novas, que sempre bastaram ás contingencias menos 
felizes de nossa vida collectiva. 

Nem um dia esmoreceu o querido mestre, e, na perseverança de 
seu esforço, na convicção absoluta de seus principios, encontravam os 
discípulos o nobre incentivo, que lhes foi a razão essendal de todo 
êxito. 

Como lidar agora e proseguir na mesma directriz, privados do 
espirito bemfazejo, que nos era o manancial inexgotavel de todas 
as iniciativas de trabalho, a alma de nossos intuitos, a garantia de nosso 
aceno ? E poderíamos acaso desalentar, quando delle herdámos a res- 
ponsabilidade de uma obra de sciencia que synthétisa suas melhores 
aspirações e perpetua a maior gloria de seus dias ? 

Fiamos na evocação permanente de seu espirito suavíssimo, e 
saberemos aproveitar o valioso ensinamento de fé, de abnegação e de 



altruismo, lucrado do mestre, em beneficio da missão de trabalho que 
elle legou a seus discipulos. 

Quando para aqui vein, Oswaldo Cruz era quasi um adolescen- 
te, aos 28 annos de edade, em plena exuberancia de todas as prero- 
gativas de intelligencia e de caracter que o fadaram a elevados destinos. 
Pouco sabia da vida e dos homens e nenhuma desillusão experimeu- 
tára ainda aquella alma de optimismo e de puros ideaes. Vivera num 
recesso intimo de alegrias infinitas, onde os encantos de sua natureza 
singela e expansiva, as ternuras de seu coração aniantissimo, expargiam 
flores de amor e orientavam para o bello pequeninas creaturas, que 
vieram á existencia afim de constituírem mais tarde, em compensações 
de sentimento, o melhor premio á bemaventurança de seus dias. Os 
privilegios de sua mocidade, soube elle aproveital-os no convivio dos 
livros e no labor de pesquizas, sempre retirado á actividade silenciosa 
dos laboratorios, lucrando da experiencia o cabedal scientifico que o 
habilitou á missão de mestre e de organisador de escola. Em nosso 
Paiz, quando perlustrava os bancos académicos, vaieu-lhe os primeiros 
passos, na experimentação medica, a carinhosa acolhida de Rocha Faria^ 
que soube reconhecer as aptidões do joven discípulo e poude facilitar- 
Ihe os elementos da aprendizagem technica inicial. Nos laboratorios de 
hygiene da Faculdade do Rio de Janeiro, sob a orientação e os valio- 
sos ensinamentos do professor dacjuella época, Oswaldo Cruz revelou- 
se, desde logo, um experimentador de alto senso, e, em trabalhos ori- 
ginaes dignos de apreço, demonstrou a proficuidade de seu labor apenas 
iniciado. De Rocha Faria nunca mais se deslembrou o discípulo agra- 
decido, e durante toda evolução propicia de sua carreira, ao nome do 
mestre, a quem dcveu a felicidade de uma directriz, Oswaldo Cruz sempre 
dispensou carinho e reverencia, que bem traduziam a nobreza de senti- 
mentos reconhecidos. 

Aos Institutos de experimentação medica da Europa, apt^nas con- 
cluído o tirocinio académico, foi o querido mestre procurar o comple- 
mento necessário a sua educação de experimentador. Aprendeu, então, 
de excellentes mestres, as melhores doutrinas, e no Instituto Pasteur 
de Paris, onde foi mais demorada sua permanencia, bem depressa 
foram apreciadas, com justiça, as aptidões do joven pesquizador brazi- 
leiro, cujo nome perdura nas melhores tradicções do ensino daqueile 
grande Instituto e no apreço dos maiores vultos da experimentação 
medica de França. 

De regresso a nossa Patria Oswaldo Cruz trazia valiosas aspi- 
rações de trabalho, agora amparadas pelos conhecimentos technicos 
adquiridos e pela solida educação scientifica realizada. Nem tardou fosse 
opportune o aproveitamento da capacidade do jovem sabio: O Instituto 



sôro-therapico federal, fundado pelo Barão de Pedro Affonso e 
destinado ao preparo do soro contra a peste indiana, foi o inicio da 
grande missão de sciencia, que deveria immortalizar seu nome aben- 
çoado. AlU, como director technico, Oswaido Cruz organizou os me- 
thodos de trabalhos sôro-therapicos, iniciou os auxiliares nos proces- 
sos necessários e chegou muito depressa, com a maior felicidade, a 
resultados altamente vantajosos, que se traduziram num soro de valor 
curatico comparável ao dos melhores soros anti-pestosos, até então co- 
nhecidos. 

Ao tempo, eram bem parcos os elementos de que podia dispor 
o mestre, para a obra de sciencia que elle idealizara : apenas tres os 
discipulos de então, Figueiredo de Vasconcellos, Cardoso Fontes e 
Ezequiel Dias, os primeiros da escola actual, solidarios com o nobre 
intento e possuidos de energias novas que dispensaram, annos 
seguidos, sempre com abnegação e alto proveito, á grandeza da obra 
e ao renome do mestre. 

Nada importava, entretanto, ás aspirações de Osv^^aldo Cruz a 
deficiencia do inicio, que constituiu, no caso, um elemento favorável 
á grandeza futura. Maior, dahi, o estimulo de quem possuia a sereni- 
dade e a firmeza de um predestinado, de quem trazia a consciência 
nobilitante de uma alta missão. Tudo por fazer? Tudo seria feito sob 
moldes lormulados pelo genio scientifico e pelo altruismo do mestre, 
que poderia, deste modo, fundamentar a obra imaginada na solidez 
de alicerces mabalaveis, constituidos pela excellencia de normas que 
foram a garantia de toda majestade futura. 

E assim foi: a aprendizagem dos primeiros discipulos a outros 
indicou as vantagens da nova escola e aos poucos vieram chegando, 
áquelle recanto modesto de Manguinhos, levados pela curiosidade do 
desconhecido e animados pelos echos de um carinho incomparável e 
de uma sabedoria sem artificios, outros trabalhadores esforçados, que 
souberam comprehender e secundar o mestre, no enthusiasmo pela 
causa e numa actividade de longos annos. 

Foi a epocha da educação scientifica em Manguinhos, quando 
de Osvvaldo Cruz os companheiros de então aprenderam os primordios 
da medicina experimental e lucraram methodos de trabalho e normas 
de probidade scientifica, que foram um dia a razão maior do pres- 
tigio da nossa escola. 

Aos que trabalhavam naquelles dias, ao lado do querido mestre, 
não sobravam condições propicias, de ordem material : duas ou tres peque- 
nas salas, apenas fornecidas do indispensável á pesquizas elementares ; 
havia, porém, naquelle ambiente de fé, para garantir a evolução pos- 
terior, a supremacia de uma vontade soberana, que soube unificar es- 



forços, fundir energias e identificar objectivos. E assim, sob os me- 
lhores auspicios, começava a formar-se a escola de Osvvaldo Cruz, 
quando feliz incidente veiu em auxilio das aspirações do mestre: Do 
programma benemérito de um governo daquella epocha foi parte es- 
sencial o saneamento da capital do Brazil, e, para reaiizal-o, mereceu 
preferencia o nome do jovem experimentador de Manguinhos. Era um 
chucro, segundo a ironia do tempo, em assumptos de administração 
publica; possuia, porém, a convicção de principios e levava para o 
cargo de director geral de sai'ide publica a intuição segura de altas res- 
ponsabilidades. 

O jovem inexperiente, que até então vivera distanciado de 
funcções publicas, soube haver-se com firmeza, justiça e sabedoria que 
nobilitaram as funcções do hygienista no Brazil. Trabalhou com inten- 
sidade excepcional, em prejuizo de sua vida physica, visando satisfa- 
zer um compromisso de patriotismo, assumido no inicio de sua tarefa. 
E venceu. De sua actividade lucrou o Paiz beneficios que não se 
medem e ao nome do mestre adveiu justo e compensador prestigio, 
todo aproveitado na realização de elevados intuitos de sciencia. 

As vantagens, de ordem pessoal, consequentes do êxito na cam- 
panha de saneamento do Rio de Janeiro, reverteram para Manguinhos, 
que constituia, na sua grandeza futura, a finalidade de todos os de- 
signios profissionaes de Oswaldo Cruz. 

Ampliados agora os elementos de trabalho da nova escola, 
occupou-se o querido mestre, com zelo e sabedoria, da sua organisa- 
ção scientifica. Foi ahi que de modo amplo se revelou a intuição do 
creador da medicina experimental em nossa Patria, no aproveitamento 
dos melhores elementos de trabalho e na selecção da capacidade 
technica e das aptidões especiaes de seus discípulos. Oswaldo Cruz 
fez de Manguinhos, antes de tudo, uma escola de adaptação scienti- 
fica, na qual foi possível discriminar inclinações e aproveitar intelli- 
gencias, orientando-as no sentido da maior efficacia. Conhecedor de 
todos os assumptos da experimentação medica, e principalmente pos- 
suidor de uma technica perfeita e de conhecimentos exactos relativos 
á bacteriologia, foi elle quem iniciou todos os discípulos nos processos 
elementares de pesquizas e quem os orientou de acordo com as habi- 
lidades de cada um. Ponde ainda, nos trabalhos da sua escola, impri- 
mir a feição de methodos individuaes valiosos, caractensados pela mi- 
nudência de uma observação demorada e pelo rigor máximo nas con- 
clusões possíveis. 

Único nessa phase de organisaçâo, sua incomparável actividade 
attendia á aprendizagem de todos os discípulos, a quem levava, com 
os melhores ensinamentos, iniciativas de trabalho e ideas novas, feliz- 



meiite bem aproveitadas pelo esforço e intelligencia dos jovens pesqui- 
sadores, cujos nomes hoje referimos com justa ufania. 

Reconheceu ainda Osvvaldo Cruz os beneficios de associar á or- 
ganisação de sua escola a capacidade de outros pesqui/adores, que 
haviam conquistado justa fama em alguns assumptos da experimenta- 
ção medica e da bioiojia geral. Seria este o meio efficaz de crear no 
seu Instituto, sobre os melhores fundamentos, as diversas especialida- 
des. E assim o fez: Adolpho Lutz havia estabelecido as bases da zoolo- 
gia medica no Brazil, em trabalhos de valor incalculável, relativos aos 
assumptos mais importantes da nossa entomologia e da nossa^parazi- 
tologia. Proseguía o giande sabio, com as vantagens de uma activida- 
de rara e de uma cultura adquirida em longos annos de esforço per- 
severante, a enriquecer a litteratura medica nacional e a realizar estu- 
dos que aproveitaram, desde logo, ao conhecimento exacto das nossas 
principaes doenças, no ponto de vista etio-pathogenico, epidemiológico 
e prophylactico. 

Faltavam, porém, á Adolpho Lutz, condições propicias de uma 
fscola organizada, onde os beneficios de seu vasto saber pudessem 
aproveitar á habilitação de novos pesquizadores. Isso o comprehendeu 
Oswaido Cruz, e bem depressa avaliou quanto representaria, na vida 
scientifica de seu Instituto, a capacidade de Lutz, cujas normas de 
vida profissional constituíam um symbolo de alta abnegação e raro 
desprendimento. Os intuitos e a cordialidade do fundador de Mangui- 
nhos facilmente conseguiram seduzir o sabio zoologo, que nos veiu 
trazer o valioso contingente de seu esforço e vasta competencia, mais 
prestigiando aqui os trabalhos de sua especialidade, já ¡Ilustrada neste 
Instituto, desde a phase inicial, pelo enthuziasmo e notáveis aptidões 
de alguns dos melhores discípulos de Oswaido Cruz. 

Para crear e desenvolver a secção de protozoologia, loram pre- 
feridos dois dos maiores entre os experimentadores da escola da Schau- 
dinn. A protozoologia, agora orientada pelas vistas geníaes do grande 
biólogo, constituía uma sciencia de largos horizontes e offerecia farta 
messe de noções valiosas á actividade dos pesquizadores modernos. 
Como sciencia abstracta, os seus problemas encerravam as glandes 
incógnitas da biologia geral e guardavam a idea directriz que deve- 
ria aproveitar á interpretação exacta dos phenomenos vitaes e ao certo 
das melhores doutrinas relativas á vida universal. E como sciencia de 
applicação, delia dependia o esclarecimento de importantes assumptos 
que interessavam á pathologia humana, á veterinaria, á zootechnia, á 
agricultura, etc. Maxime no Brazil, pela natureza tropical e intertropi- 
cal de nossas doenças, era bem vasto o campo em que se deveria 
exercitar a habilidade de experimentadores, apparelhados pelo estudo 



da protozoologia. Havia ahi que adquirir noções exactas sobre entida- 
des mórbidas peculiares a nossa Terra e havia ainda que determinar 
modalidades etio-pathogenicas e epidemiológicas de doenças conhecidas 
em outras regiões, aqui modificadas pelas influencias mesologicas. 

Altos interesses da nossa cultura medica indicavam, por isso, a 
formação, entre nós, de uma bôa escola de protozoologia, ramo de ex- 
perimentação que nmito deveria aproveitar ao esclarecimento de nossa 
pathologia. 

S. von Prowazek e Max Hartmann accederam ás instancias de 
Oswaido Cruz e vieram trazer a nosso Instituto ensinamentos valiosos, 
que aqui perpetuam |toda a grandeza daquelles espirites geniaes e 
fazem parte das melhores tradições de nossa vida scientifica. 

Com proveito relevante para nossa escola, também permanece- 
ram neste Instituto G. Oiemsa, chimico de reconhecido valor, e 
Hermann Duerck, anatomo-pathologista de fama mundial. 

Os ensinamentos de Duerck aproveitaram a um dos melhores 
discipulos de Oswaido Cruz, a Gaspar Vianna, gloria legitinm da_me- 
dicina brazileira em plena juventude, e cuja vida consütue, ¡nas recor- 
dações dos que aqui lastunamos sua ausencia, um exemplo salutar de 
grandeza moral e de trabalho abnegado e productivo. 

Soube Oswaido Cruz comprehender as exccllencias de carac.er 
e os primores de intelligencia de Gaspar Vianna, a quem dispensou 
profundo affecto e a quem facultou os melhores elementos de acção 
efficiente e de prestigio profissional. 

Assim agia o querido mestre na organização desta escola ex- 
perimental. E visava proseguir nos inesmos intuito=, systhematizando 
nossos estudos de mycologia, de chimica biológica, de physiologia, de 
phyto-pathologia, etc., afim de mais ampliar as funcções deste instituto 
e delle constituir um dos grandes factores da prosperidade económica 
e da cultura de nossa Patria. 

Organizada a vida scientifica de Manguinhos, e systemati- 
zados nossos trabalhos nas especialidades que mais interessam á expe- 
rimentação medica e á biologia geral, não diminuiram os esforços de 
Oswaido Cruz, agora tendentes a manter, enire os discipulos, o espirito 
de harmonia e a solidariedade de objectivos, que representaram a 
grande força inicial de nossa escola. 

Além de que, sua ^actividade incomparável e valiosa, as van- 
tagens de seu vasto saber e rara competencia em estudos de labo- 
ratorio beneficiavam ás pesquizas de todos os jovens experimentadores 
de Manguinhos, que delle lucravam, nas emergencias difficeis de uma 
interpretação duvidosa ou nas deficiencias individuaes, a palavra de 
acerto e os ensinamentos necessários á conquista da verdade exacta. 



E é de salientar, nesse ponto, a abneijação do mestre, qne ao interesse 
colleciivo e ;í {Grandeza da nova escola, na missão absorvente de educar 
e orientar discípulos, sempre dispensou o melhor de seu esforço, em 
prejuzo, ás vezes, de sua fama de pesquizador. Poderia elle, de pre- 
ferencia, aproveitar em beneficio do próprio nome, ainda mais o enal- 
tecendo, os superiores privilet^ios de sua rara mentalidade; julgou, 
porém, melhor servir a altos designios, na acção impessoal de orga- 
nizar esforços, crear iniciativas, orientar intelligencias, designar me- 
thodos scientiricos, proporcionar, eiiifim, aos experimentadores da sua 
escola, todos os elementos seguros tie êxito. E procurava occultar-se 
na obra realizada, ahi sempre exaltando a vaba exclusiva do discí- 
pulo, de cujo successo aproveitava as mais puras e compensadoras ale- 
grias. 

Aliás esse desprendimento foi o traço mais característico e 
nobilitante na direcção de Oswaldo Cruz, quc aos companhei- 
ros de Manguinhos cedia as melhores opportunidades de efficiencia e 
brilho profissionacs, nos trabalhos technicos de maior relevancia e 
mais fácil repercussão. 

Muito haveria ainda que referir, nos fastos desta escola, relativo 
á feição scientifica de Oswaldo Cruz; quanto de melhor ahi existe, 
neste Instituto, nobilitante da cultura medica de nossa Patria e expres- 
sivo das energias de nossa raça, extériorisa as abundancias de seu 
genio c synthétisa os elevados desígnios de sua vida profissional. De- 
vemos, entretanto, nessa affirmação de um culto imperecível, dizer do 
mestre o que lhe fora o coração e aqui evocar aquellas valiosas con- 
fidencias de amizade, que sempre traduziram intuitos de justiça, con- 
ceitos de altruísmo, aspirações de amor e de virtude, os mais puros 
¡deães, emfim, de uma alma voltada para o bello! 

Regressaremos, desse modo, ás alegrias e ás esperanças infini- 
tas que se foram, e vamos relembrar o querido mestre, na serenidade 
majestosa de quem sabia ao espirito allíar o sentimento e de quem 
poude retirar da bondade a grande força para as normas de justiça. 

Nas reminiscencias affectuosas desta casa, bem fixados no sen- 
timento de quantos aqui recebemos os benefícios de seu affecto, per- 
duram os melhores traços da individualidade moral de Oswaldo Cruz. 
Possuía elle o raro privilegio de se fazer, ao mesmo tempo, amado e 
obedecido, desse modo fnndamentando a ascendencia de sua vontade 
soberana, em garantias de lealdade e de affeições pessoaes decisivas. 
Todos os funccionarios de Manguinhos, não importava a hierarchia de 
posição, sabiam reconhecer no mestre o melhor dos amigos e o mais 
segur o amparo de todos os reveses e infortunios. E compensavam pelo 
esforço no trabalho e pela dedicação á obra collectiva, o conforto 



moi al tie unia direcção carinhosa e tolerante, tíarantidora de lodos os 
direitos, e merecedora, por isso mesmo, da observancia exacta de todos 
os deveres. 

Nunca houve mister, ao mestre, abandonar, em defesa de prin- 
cipios discipHnares, o criterio de generosidade "maxima e de cordura, 
nas funcções de Director deste Instituto. A firmeza nas decisões e as 
energias necessárias á normahdade de nossos trabalhos, vinham de 
Osvvaldo Cruz sob as roupagens de conselhos amistosos e eram assim 
recebidas sem constrangimento, e melhor aproveitadas em seus nobres 
intuitos. 

Bem reconhecia elle, iisychologo de largo tino, os nossos defeitos, 
contingencia humana inevitável ; sabia, porém, neutralizal-os pelo 
computo cem as virtudes simultaneas, e sempre concluii em beneficio 
do valimento máximo de seus companheiros de missão scientifica, a 
quem estimulava pelo apreço ao mérito e pela recompensa ao esforço. 
Aos que vivíamos a seu lado, associados no mesmo objectivo de tra- 
balho, dispensava o melhor de sua affeicção, e desta casa, dos seus 
discípulos, constituiu uma segunda familia, cujos destinos vigiava com 
o mesmo zelo que lhe merecia o venturoso lar. 

O seu convivio, ouvil-o exterloiizar todas as excellencias de uma 
organização moral de rara belleza, delle aprender as melhores dou- 
trinas de optimismo e receber o influxo de sua alma enaltecida pelas 
maiores perfeições do sentimento humano; lucrar tudo isso em largos 
annos de uma existencia de trabalho, sempre bonançosa pela influencia 
de seu espirito protector, foi o supremo beneficio de seu atfecto e 
constituiu a maior ventura de possos dias. 

E quantos de seus discípulos lhe devemos, de modo exclusivo, 
a felicidade do próprio destino profissional ? Quantos para aqui viemos, 
numa phase de incertezas e vagas aspirações, encontrar na longani- 
midade de Osvvaldo Cruz a directriz exacta de um futuro propicio? 

E quantos delle lucrámos, naquelles dias de uma mocidade 
exhuberante e passível de orientações diversas, o apoio decisivo e 
opportuno, que nos foi o grande bem e nos desviou, talvez, de todo 
o mal ? 

Não só incalculáveis beneficios de trabalho devemos ao carinho 
do querido mestre; muitos dos que hoje veneramos sua memoria, 
tivemos a rara ventura de completar nossa formação moral sob a in- 
fluencia decisiva daquelle espirito magnânimo, que poude modificar, 
sempre aperfeiçoando, o caracter e o sentimento de alguns dos seus 
melhores discípulos. E nada resistia á grande força de seu exemplo e 
á segurança de seus principios ; além de que, educava pelo coração. 



fallando ás consciências aquella linguagem sempre singela e de bel- 
lezas infinitas, que fascinava e convencia, orientando para o bem. 

E foi assim annos sesruidos de nossa vida collectiva, durante 
os quaes todos os primores que enalteciam o sentimento do querido 
mestre, todos 05 encantos que exaltavam sua alma majestosa, vale- 
ram- nos, a seus discípulos, as nossas melhores alegrias, e constituíram 
o grande patrimonio moral de nossa escola. 

Nem findaram, com a vida do mestre, os beneficios de sua 
acção: sobre esta casa, hoje confiada a seus manes protectores, poude 
Oswaldo Cruz, ao morrer, projectar a grande sombra de seu prestigio, 
e garantir assim a perpetuidade de sua obra meritoria. E, aliás, foram 
sempre esses os augurios de seu optimismo, quando affirmava, em 
contradícção com o sentir de todos nós, ser possível proseguirmos 
na mesma jornada de trabalho, embora delia ausente, um dia, o grande 
espirito que a guiava. Tal a confiança do mestre no animo resoluto 
e na solidariedade dos discípulos bem-amados! Taes as esperanças de 
uma alma que a outras almas procurou communicar nobres desígnios! 

E cumpre que assim seja; cumpre que elle, morto, continu» a 
dirigir os que vivemos, na permanencia daquellas normas de trabalho, 
que fizeram o renome de nossa escola, e daquelles elevados ideaes 
de sciencia, que fizeram a gloria imperecível de Oswaldo Cruz. 

Aqui o nosso adeus ao melhor dos amigos e ao maior dos 
mestres! Quiz elle, bem inopinadamente, abandonar a casa onde 
viveu e apostolou. E daqui se foi para muito longe, para o futuro de 
uma nacionalidade, enaltecendo-a, symbolisar o heroísmo do trabalho, 
a força e a proficuídade de princípios inabaláveis, a maior grandeza 
das acções humanas. Levam-no, para honra de nossa épocha, os echos 
de uma redempção profissional e as bênçãos de uma Patria agra- 
decida ! 

Instituto Oswaldo Cruz, Julho de 1917. 



C. C. 



Processos patojenicos da tripanozomiase americana. 

pelo 
DFt. CAFÓLOS CHAOAS 

(Chefe de Serviço) 
(Com as estampas 4 e 5) 

Sinonimia da molestia: Tripanozomiase brazileíra 

Tireoidite parasitaria (MIGUEL PEREIRA) 
Coreotripanose (ADOLPHO LUTZ) 
Molestia de Chagas (MIGUEL COUTO) 
Molestia de Carios Chagas (AUSTREGESILO) 
Molestia de Cruz e Chagas (CLEMENTINO FRAGA) 

Nome popular: molestia do barbeiro 



Ao iniciar o estudo das formas clinicas 
em que sistematizamos a tripanozomiase 
americana, julgamos vantajoso, num con- 
ceito elio-patojenico dos grandes sintomas, 
definir exatamente a doença. Será oportuno, 
deste modo, fundamentar o aspeto multiforme 
daquela tripanozomiase e também salientar a 
importancia excepcional de seu estudo, no 
ponto de vista da patolojia geral e especial- 
mente da fisiolojia patolojica. 

Aqui, aproveitando os elementos de 
prova colhidos em demoradas pesquizas, 
vamos procurar delimitar a tripanozomiase, 
estabelecendo seus fundamentos patojenicos 
irrefutáveis. Os pontos indecis(*s ou aqueles 
julgados duvidosos na historia da doença 
serão apreciados á luz de argumentos que 
nos pareçam de valia e sobre eles emitiremos • 
juizo de convição bem baseada. 



Desejamos, especialmente, nesse capitulo, 
eliminar do criterio clinico toda confusão, 
acaso trazida pela deficiencia de publicações 
anteriores. Nestas, embora realizadas após 
noções exatas sobre a expressão clinica geral 
da tripanozomiase, é possível tenham faltado 
a algumas interpretações elementos aemons- 
tratrivos convincentes. Agora não ; o acervo 
de fatos adquiridos autoriza considerar defi- 
nitivas as principais conclusões, a que vamos 
chegar, ficando assim nitidamente individua- 
lizada a molestia, no conjunto de síndromes 
que a observação e o estudo experimental 
evidenciaram. 

Estabelecidas as noções que agora 
pairam acima das controversias, caraterízada, 
deste modo, a tripanozomiase em sua etío- 
patojenia verdadeira e em todas as modali- 
dades de seu quadro sintomático, os pontos 
duvidosos, aqui descutidos, não podem mais 



imporiar ein dificuldades á concepção clinica 
da doença. 

As primeiras publicações clinicas sobre a 
tripanozomiase foram realizadas quando 
adquirimos da molestia noções precisas que 
a podiam individualizar. Em demorados 
trabalhos posteriores proairámos completar 
os conhecimentos ali adquiridos, melhor 
fundamentando nossas conclusões, ou modi- 
ficando-as quando necessário. Foi na mesma 
zona onde verificámos a existencia da doença 
e onde realizámos os primeiros trabalhos 
clínicos e experimentais, que proseguimos 
nossos estudos. Tivenic^s, desta feita, a cola- 
boração de colegas esforçados, clínicos e 
experimentadores, que se incumbiram de 
esclarecer capítulos especiais, devendo, cada 
um deles, em publicações distintas, apresen- 
tar os resultados adquiridos. Os drs. EURICO 
VILLELA, LEOCADIO CHAVES, ASTRO- 
GILDO MACHADO e CARLOS TORRES 
trab.'dharam com empenho neste asunto e 
dele vão tratar c mti autoridade. 

Perdemos inopinadamente a valiosíssima 
colaboração de GASPAR VIANNA, o pes- 
ou izador incomparável, cuja descoberta das 
localizações do parasito nos tecidos foi alta- 
mente elucidativa da patojenia dessa tripano- 
zomiase. Aqui deixamos sentida homcnajem 
á memoria daquele companheiro, cuja breve 
existencia vale como exemplo de trabailio 
e de integridade moral, cuja obra cicnhíica 
representa um patrimonio inestimável para 
nosso Paiz. 

Em permanente assistência hospitalar e 
em demorada e abundante observação de 
doentes ambulatorios, colhemos dados cii- 
nicos e experimentais que constituem a mais 
faria documentação destes estudos. De todos 
os aspetos da doença, de todas as modali- 
dades clinicas nela verificadas, possuímos hoje 
exemplos numerosos, o que, nestes trabalhos, 
constitue solida garantia das conclusões. 

Terminadas, que o sejam, as considera- 
ções prévias deste capitulo, entraremos no 
estudo das formas clinicas agora admitidas 
na doença. Devemos, mais uma vez, salientar 
que a divisão da tripanozomiase em formas 
clinicas distintas expressa exclusivamente uma 



exijencia didatica. Não existem entre as 
diversas modalidades sintomáticas com que 
se apresenta a infeção, diferenças essenciais; 
nem essas seriam compreensíveis numa mo- 
lestia geral, inicialmente septiceinica, senão 
septicemica no correr de toda sua evolução, 
cujo parasito localiza-se, posteriormente, 
sempre nos mesmos tecidos e sistemas orgâ- 
nicos dele preferidos. De serem comuns a 
todos os doentes os mesmos processos 
patojenicos, resulta uniformidade de síndro- 
mes observadas na molestia ; como, porém, 
sobre determinados organs e aparelhos orgâ- 
nicos, muitas vezes naqueles de função essen- 
cial ao equilibrio vital, a ação do parasito é 
mais intensa, ha predominancia, na condição 
geral do enfermo, de determinados sintomas. 
Daí a possibilidade de distinguir na molestia 
fisionomias clinicas diversas, que usamos, em 
nosografía, sistematizar como formas autó- 
nomas. Quando, descrevendo essa doença, 
falamos cm forma cardiaca, forma nervosa, 
forma pluriglandular, etc., indicamos apenas 
o predomínio de alterações funcionais nos 
respetivos sistemas, sendo inconteste que 
nenhuma de tais formas nitidamente se 
separa das outras, pelo exclusivismo de 
alguma síndrome. É assim que na forma 
nervosa vamos encontrar, além dos sinais 
maiores que a caraterizam, outros indicando 
lesões do miocardio ; e nas formas cardíacas 
mais acentuadas, pequenas alterações funcio- 
nais denunciam, muitas vezes, a ação atenuada 
do parasito sobre o sistema nervoso. Vemos, 
deste modo, que algumas síndromes são 
constantes, reproduzindo-se em todos os 
casos da doença, estabelecendo, entre as 
diversas fisionomias clinicas, reconhecível 
uniformidade. Nem haverá excerões para 
invalidar essa doutrina? E certo que a pesqui- 
za semiótica terá muita oportunidade de ve- 
rificar no doente a ausencia de cínaís denun- 
ciantes da participação atual, no quadro mór- 
bido, de apaielhos e sistemas habitualmente 
afetados. Numerosos doentes, em que pre- 
dominam alterações funcionais do miocardio 
nada apresentam para o lado do sistema ner- 
voso; e também podemos encontrar doentes 
das formas cardiaca ou nervosa, agora em 



menor numero, com ausencia aparente de 
sinais indicando anomalias do sistema glandu- 
lar. A reciproca, porém, não se verifica, isto é, 
nos doente da forma nervosa ou naqueles 
da forma pluriglandular, a pcsquiza minuciosa 
revela sempre alterações cardiacas, o que 
salva a verdade de nossa tese e demonstra 
a inexistencia de autonomia nas formas ner- 
vosas e pluriglandulares, por ex;, nas quais 
existem síndromes que caraíerizam a fornia 
cardíaca. Só essa seria autónoma, raramente: 
poderemos, porém, nos doentes com altera- 
ções predominantes, ou aparentemente exclu- 
sivas, do mucuslo cardíaco, afirmar a inte- 
gridade do sistema nervoso e do pluriglan- 
dular? Na ausencia de necropsias não pode- 
riam furtar-se aos processos da semiótica 
física essas menores alterações de sistemas 
orgânicos funcionalmente tão complexos 
quanto os dois exemplificados ? Poder-se-á ar- 
gumentar de outro modo, afirmando apenas 
que na molestia síndromes existem cons- 
tantes e outros que não o são ; mas, mesmo 
assim, a autonomia das formas clinicas 
desapareceria pela constancia de algumas 
síndromes. Concluindo nosso raciocínio ; 
Aspetos clínicos diversos, trazidos pela maior 
intensidade de processo patojenicos em deter- 
minados organs ou sistemas orgânicos, é o 
que existe na tripanozomiase; e destes 
aspetos, por conveniencia de exposição, faze- 
mos formas clinicas distintas. Nestas é 
sempre verificado um conjunto de sintomas 
comuns, ocasionados pela constancia de 
algumas síndromes que devemos considerar 
fundamentais. 

Dos processos patojenicos na tripano- 
zomiase alguns correspondem á localizações 
verificadas do parasito na intimidade de sis- 
temas orgânicos; outros são atribuíveis á 
ação de toxinas, auja existencia bem se evi- 
dencia em alterações orgânicas e funcionais 
que permaneceriam, de outro modo, inex- 
plicáveis. 

Vamos, primeiro, interpretar os sin- 
tomas das formas agudas da molestia. Estas 
formas se caraterizam pela presença, facil- 
mente verificável, de flajelados no sangue 
circulante, e apresentam, na sintomatolojia. 



elementos mórbidos agudos, reveladores da 
molestia na sua fase inicial. São casos de 
infeção sempre recente; nem de outro modo 
seria possível verificar o parasito na periferia, 
onde sua presença é transitoria, conforme 
observações demoradas que pv_ssuimos. 

Temos acompanhado, com pesquizas pa- 
rasitarias constantes, a evolução de varios 
casos agudos; neles temos verificado relação 
bastante exata entre o numero de flajelados 
no sangue e a intensidade dos elementos 
mórbidos. 

Sempre mais graves são os casos clíni- 
cos que apresentam maior numero de pará- 
sitos; e da constancia deste fato resulta pos- 
sível a previsão do desenlace letal, quando 
numerosos os tripanozomos no sangue exa- 
minado. Naqueles doentes com parásitos 
raros, ao contrario, pode-se seguramente 
prever a atenuação progressiva dos elementos 
mórbidos e a evolução crónica posterior da 
doença. 

Os flajelados, as mais das vezes, per- 
manecem no sangue circulante em quanto per- 
duram os sínaes agudos da molestia, sendo 
ainda verdadeira a reciproca desta regra. Ve- 
rificámos ainda, acompanhando com pesqui- 
zas microscópicas diarias grande numero de 
casos agudos, que os parasilos vão em au- 
mento progressivo, atinjindo certo máximo; 
diminuem depois, do mesmo modo, até de- 
saparecimento completo ao exame direto. 
E pouco frequente, porém verificável, é o 
fato de ausencias periódicas do protozoário 
da periferia, durante alguns dias, com reapa- 
recimento posterior. 

De nossa observação resulta que, na 
grande maioria dos casos clínicos, só pode- 
mos verificar flajelados no sangue, pela pes- 
quiza direta, durante período de tempo menor 
de 30 dias ; e em alguns doentes, no fim de 8 
ou 10 dias, os mais demorados exames á 
fresco são negativos. A permanencia mais 
longa, até 90 dias, só a verificámos em 2 fatos 
de infeção pequena, havendo neles, emquan- 
to foram observados parásitos ao microcopio, 
rcação térmica mais ou menos permanente. 

Uma vez desaparecidos os flajelados do 
sangue periférico, ou melhor, quando as pes- 



quizas microscópicas diietas já não conse- 
guem mais verifical-o, o diagnostico parasi- 
tario da molestia é possivel, durante prazo 
indeterminado de tempo, pela inoculação de 
alguns centimetros cúbicos de sangue em 
animaes sensiveis; isso porque, embora em 
numero muito diminuto, os fiajelados ainda 
se encontram no sangue circulante. Deste fato 
possuímos diversos exemplos, nos quaes, no 
correr de 6 a 8 mezas que se seguiram á fase 
aguda da molestia, conseguimos transmitir o 
parasito a cobaias, por inoculação de 5 ou 
10 cc^ de sangue. Mais tarde, especialmente 
nos casos de infeção inicial remofa, repetidas 
tentativas de transmissão da molestia a 
animaes de laboratorio são, ás mais das 
vezes, negativas ; e isso se verifica mesmo 
naqueles enfermos cuja necropsia vem revelar 
o parasito em relativa abundancia na intimi- 
dade dos tecidos. 

Conseguimos, é certo, em raras formas 
crónicas, resultados positivos de algumas ino- 
culações. Taes casos, de ocurrencia pouco 
frequente, indicam talvez periodos transitorios 
de presença do fiajelado no sangue. E esse 
fato está muito de acordo com a verificação 
do Dr. MARGARINOS TORRES, nosso estu- 
dioso colaborador, que tem conseguido algu- 
mas vezes infetar larvas de triatoma, criadas 
no laboratorio, alimentando-as em doentes 
crónicos. Nas observações do nosso colega 
os resultados positivos constituem minoria; 
isso, porém, não invalida a conclusão que 
estabelece como orijem habitual da infeção 
do hematófago os doentes crónicos: não inva- 
lida porque o inseto vem desde os estádios 
larvarios iniciais fazendo refeições repetidas 
nos casos crónicos de tripanozomiase e daí 
resulta oportunidade de injerir, com o sangue, 
formas parasitarias. 

Em pesquizas recentes tem sido verifi- 
cada grande frnquencia da infeção dos gatos, 
nos domicilios onde existem triatomas. Já 
uma vez, no inicio de nossos estudos, assi- 
nalámos o fato, tendo então observado 
tripanozomas num único gato, em domicilio 
onde havia uma criança com a forma aguda 
da molestia. Atualmente a observação foi 
repetida em habitações de doentas crónicos, 



sem parásitos na periferia, tendo sido encon- 
trados diversos gatos com fiajelados no 
sangue. E assim muito provável, senão quasi 
certo, que o gato constitua, também, orijem 
frequente de infeção das triatomas. 

De especial interesse patojenico é saber 
do momento em que o parasito vai localizar- 
se na intimidade dos tecidos. Essa localiza- 
Vão será contemporânea da presença de fia- 
jelados no sangue circulante? Certo que sim; 
nem de outro modo poderíamos compreen- 
der o aumento numérico do tripanozomo, 
quando está demonstrada a ?usencia de di- 
visão binaria dele no sangue. Os corpúsculos 
leishmaniformes dos tecidos, descobertos por 
VIANNA, evolvem para a formação de fia- 
jelados, o que se denuncia, aliás, na presença 
de formas de transição e de organismos já 
munidos de flajeio entre os parásitos afla- 
jelados deis organs: e, por outro lado, é 
ainda possivel encontrar nos tecidos agíome- 
raçôes parasitarias constituidas de tripanozo- 
mos completamente desenvolvidos. 

Si assim é, si as formas localizadas na 
intimidade dos elementos anatómicos veeni 
para o. sangue circulante sob o aspeto de 
tripanozomos tipi-^os, como explicar essa 
ausencia, nas formas crónicas da molestia, 
de parásitos no sangue periférico? Como 
explicar esse fato, quando as autopsias têm 
revelado, em bom numero de doentes 
daquela natureza, abundancia de organismos 
nos tecidos? Compreensível si nos apresenta 
esse aspeto das infeções crónicas admitindo 
nelas immunidade sanguínea relativa; desta 
resulta o aparecimento de anticorpos qutf 
impossibilitam, ou pelo menos dificultam, a 
vida do tripanozomo no sangue, sendo os 
parásitos que ai chegam rápido destruídos 
pelos elementos de dcfeza orgânica; ou então 
regressam eles á intimidade dos tecidos. 

Nem se furtará, talvez, a essa razão o 
desaparecimento dos fiajelados do sangue 
circulante, nas infeções agudas. Nestas, con- 
sequência dos processos reacionarios do 
oiganismo infetado, depressa se estabelece a 
condição nociva à vida do parasito no 
sangue; e, então, como continjencia biolojica 
favorável á perpetuação especifica, o parasito 



vai localizar-se nos tecidos e ai permanece 
em atividade, multiplicando-se e ajindo no 
sentido patojenico, por tempo indefinido. 

Desde as primeiras fases da infeção, o 
parasito pode ser verificado na intimidade 
dos sistemas orgânicos. Autopsias de alguns 
casos graves, quando em grande numero os 
parásitos no sangue periférico, têm revelado 
os corpúsculos leishmaniformes, abundantes, 
em diversos organs ; e, aliás, a experimenta- 
ção em animais confirma amplamente esse 
fato da patojenia humana, demostrando em 
cobaias, logo ao surjir das primeiras formas 
flajeladas na periferia, parásitos nos tecidos. 
Sendo assim, na patojenia das formas agudas 
devemos encontrar processos atribuíveis a 
localizações parasitarias nos organs; tais 
processos, porém, ai figuram ao lado de 
outros, mais tumultosos, que expressam a 
ação do protozoário no sangue circulante e 
que caraterizam a fase por excelencia septi- 
cemica da infeção. 

Entre os elementos mórbidos das formas 
agudas a febre é dos mais notáveis, pela sua 
constancia e pela intensidade das reações 
térmicas. Diretamente relacionado com a 
presença de flajelados no sangue circulante, 
esse elemento denuncia a ação predominante, 
neste periodo septicemico da tripanozomiase, 
de toxinas elaboradas no sangue. Sempre 
que a observação microscópica revela pará- 
sitos na periferia, o termómetro denuncia 
reação térmica; e, por outro lado, é cons- 
tante a relação entre a intensidade da febre 
e o numero de flajelados observados. Nas 
infeções com abundancia de parásitos as 
reações térmicas são sempre consideráveis, 
atinjindo ou excedendo mesmo 40° ; nas 
infecções pequenas, em que encontrámos ás 
vezes dificuldade na verificação parasitaria, a 
temperatura não vai muito alto, conservándo- 
se o doente apenas sub-febril. Isso é assim 
nas fases iniciais da molestia; nos casos 
agudos de extrema gravidade, nos periodos 
preairsores da morte, aquela relação poderá 
desaparecer, conforme temos verificado. É 
continua a reação térmica nas formas graves 
e não apresenta, ás mais das vezes, nem 
simples remissões ; e, enquanto observamos 



parásitos no sangue, o doente permanece 
febril. Quando os flajelados desaparecem da 
periferia, a temperatura poderá manter-se 
ainda elevada durante pequeno prazo, mas 
depressa volta ao normal; ou então, 
quando acontece o fato referido, de apareci- 
mentos e desaparecimentos sucessivos do 
parasito no sangre, a temperatura obedece á 
mesma periodicidade. 

A intermitencia febril pôde ser verificada 
nas formas agudas mais benignas ; não o é, 
porém, de modo frequente e nem apresenta 
carateristica especial da molestia ; é apenas 
determinada por fases, mais ou menos pro- 
longadas, de apirexia. Não existe aqui, como 
na malaria, qualquer relação exata entre os 
momentos de reação térmica e os processos 
biolojicos do protozoário; este, sempre, pre- 
sente na circulação, raultiplica-se de modo 
continuo e não mostra, por isso mesmo, em 
sua ação patojenica, aquelas alternativas de 
exacerbações e de remissões carateristicas de 
algumas parasitoses sanguineas. 

Passnda a fase aguda da molestia, em- 
bora permaneçam mais ou menos atenuados 
alguns dos elementos mórbidos, a febre desa- 
parece. Os doentes crónicos, que não apre- 
sentam flajelados na periferia, são apireticos; 
e esse fato, ligado ao grande numero de ne- 
cropsias que têm demonstrado, em taes casos, 
o parasito nos tecidos, indica ser a febre, 
nesta molestia, resultante da condição septi- 
cemica. Aliás, em outras infeções crónicas, 
de germes localizados, parece certo que os 
incidentes febris resultam da invasão do 
sangue pelo ájente etiolojico; em taes casos, 
os periodos de reação térmica representam 
momentos transitorios de septicemia. 

E também na tripanozomiase, que se 
torna, depois da fase aguda, infeção de pará- 
sitos localizados, é possivel observar doentes 
crónicos com acidentes febris de pequena 
duração; essa ocorrência, porém, é bastante 
rara e depende, sem duvida, da condição pa- 
tojenica referida. 

Um dos sinaes mais frequentes, senão 
constante, nas formas agudas da doença, 
é o mixedema. De regra, na anamnese 
dos casos dessa natureza, colhemos a 



10 



referencia bem presica de que o doente, 
alguns dias depois do inicio da febre, come- 
çou a inchar, tornando-se túmido, de rosto 
cheio, de pálpebras tumecentes, de labios 
espessados, lingua grossa, pastosa, etc. Esta 
inchação, ÚQ principio mais acentuada na face, 
depressa se généralisa a todo o corpo e se 
denuncia, no quadro clinico, como condição 
predominante. A's mais das vezes, temos ve- 
rificado iniciar-se a inchação de 10 a 15 dias 
após os primeiros sinaes da molestia e temos 
ainda observado seu aumento progressivo, 
no correr da fase aguda. Desaparecida a febre 
e os outros elementos agudos, desapaiecidos 
também os flajelados do sangue periférico, 
a inchação vai se atenuando, até certo grau, 
em que apenas notamos túmidas as feições 
do enfermo. E' essa a regra geral, verificável 
nos casos agudos, mais frequentes, que passam 
á condição crónica no fim de 20 ou 30 dias; 
devemos, porém, referir a ocorrência de ex- 
ceções, nas quais a maior intensidade do pro- 
cesso patojen.ico respetivo determina perma- 
necencia de mixedema acentuado por tempo 
mais ou menos demorado, senão definitivo. 

Neninmia duvida pode existir sobre a na- 
tureza dessa inchação: o exame minucioso 
revela tratar-se de edema duro, de conèisten- 
cia elástica, não deixando a impressão do 
dedo que oprime, crepitando pela compressão 
das rejiões favoráveis. O exame da urina 
vem também, subsidiariamente, excluir a hi- 
pótese de edema renal, o que seria dispen- 
sável pela evidencia dos outros sinaes. 

Trata-se, assim, de infiltração mixcdema- 
tosa; e esse sinal é aqui de tal modo cara- 
teristico que autoriza desde logo, antes mesmo 
da pesquiza parasitaria, o diagnostico da mo- 
lestia. Na maioria das formas agudas, obser- 
vadas em nossos estudos, podíamos prever 
o resultado positivo do exame do sangue, 
pelo simples aspeto mixedematoso dos febri- 
citantes. O mixedema, de fato, constitue sinal 
tão saliente que torna possível o diagnOííico 
clir.íco á distancia, pelo aspeto exterior do 
doente. E' de importancia referir a absoluta 
ausencia de infiltração mixedematosa, antes 
dos sinaes agudos da tripanozomiasf, nas 
observações que possuímos: ausencia de in- 



filtração mixedematosa ou de qualquer outra 
com ela confundivel. Trata-se, na grande 
maioria de nossos casos clínicos, de crianças 
anteriormente hijidas, sem o menor sinal de 
morbidez, nas quaes essa infiltração repre- 
senta, sem a menor duvida, sinal constitutivo 
da molestia. Conforme é referido nas obser- 
vações clinicas, que apresentamos adiante, 
encontrámos ás mais das vezes, ao lado 
dessa infiltração sub-cutanea, outros elemen- 
tos que caraterizam o mixedema: pelos que- 
bradiços, queda de cabelos, pele seca, exfo- 
'iação da epiderme, perturbações para o lado 
das secreções cutâneas, etc. . Não ha aí esse 
outro sinal, constante nos mixedematosos, a 
temperatura baixa, porque o fator etiolojico 
do mixedema atua simultaneamente sobre a 
termojenesfc, determinando elevação de tem- 
peratura. 

O mixedema das formas agudas, com 
esse aspeto de intensidade, aparecendo dias 
após o inicie dos primeiros elementos da 
infeção e evolvendo rapidamente até atinjir 
grau elevado, constitue sinal peculiar dessa 
molestia ; e, que nos conste, em nenhuma 
cu tra entidade mórbida é dado observar a 
síndrome com as caraleristicas especiais aqui 
referidas. Certo outras infeções podem deter- 
minar insuficiencia tireoidiana e levar o do- 
ente á condição próxima da que discutimos; 
ai, porém, o processo é sempre lento, demo- 
rado na sua evolução e a síndrome não 
atinje o gráo de intensidade observado na 
tripanozomiase. Nesta dir-se-ia mixedema 
agudo, comparável, em sua evolução e, ás 
vezes, em su.a intensidade, a esse conse- 
quente ás tireoidetomias totais. Como inter- 
pretar esta síndrome peculiar da doença? O 
mixedema é equivalente patolojico de perturba- 
ção funcionl da glândula tireóide e sua pre- 
sença frequente na tripanozomiase indica, 
por certo, ação especifica do parasito ou de 
suas toxinas sobre aquele organ, levando-o 
á deficiencia. Si quizernios, indo além, deter- 
minar o mecanismo daquela ação, temos que 
parar no teireno da hipótese, porque mais 
não nos facultam os fatos adquiridos. Veri- 
ficámos a localização do parasito na glân- 
dula, onde é ele encontrado no parenquima 



11 



vesicular com o aspeto leishmaniforme ob- 
servado ein outros teddos (Est. 5, fig. 2). . 
Será, então, um processo irritative direto, de 
lócaiização parasitaria, esse que determina o 
hipo-tireoidismo? E nesse caso qual a pato- 
jenia exala do fenómeno? Cumpre salienlar 
que, mesmo nos casos agudos com relativa 
abundancia de parásitos no sangue periférico, 
na glândula tireóide os corpúsculos leishma- 
niformes são observados em pequeno nu- 
mero, sendo nescessario, ás vezes, examinar 
diversos cortes da glândula para verifical-os; 
quando nada, aqui são eles incomparavel- 
mente menos frequentes do que no coração, 
nos músculos estriados em geral, e em 
outros sistemas, sedes predíletas do proto- 
zoário. Será causa do processo a toxina, 
acaso proveniente do parasito? Temos, como 
fato similar, a intensa esteatose do figado, 
dejenerado no mais alto grau, transformado 
quasi em grande massa de gordura, e, onde, 
;ipe2ar disso, nunca nos foi dado verificar 
localizações parasitarias. E, sem admitirmos 
a interferencia de substancias toxicas, não 
poderíamos compreender essa esteatose hepá- 
tica, comparável aquela observada nos pro- 
cessos patojenicos que atuam mais intensa- 
mente sobre o figado. É certo que, dadas as 
condições especiais de estrutura da tireóide, 
constituida de numerosas vesículas, a veri- 
ficação do parasito poderia ser difícil ; e 
ainda poder-se-á conceber localizações para- 
sitarias transitorias na glândula que, sendo 
um orgam fortemente vascuiarisado, não 
constituiria sede favorável para nela perma- 
necer, demoradamente, o protozoário. Seja 
como for, ou por ação direta, ou por suas 
toxinas, o tripanozomo atua sobre a tireóide, 
levando-a á deficiencia funcional ; em 
qualquer das hipóteses, porém, o mecanismo 
intimo do processo é para nós obscuro, não 
tendo sido, até agora, esclarecido por estudos 
histo-patolojicos convincentes. 

Temos verificado, nos estudos anató- 
micos realizados, hiperplasia evidente das 
vesículas tireoidianas, com hiperplasia simul- 
tanea do tecido conjuntivo intersticial ; e 
temos ainda, em algumas autopsias, podido 
notar retenção notável do coloide no interio 



das vesículas, o que parece indicar aproveita- 
mento deficiente deste ou talvez a impossi- 
bilidade anatómica de sua passajem para a 
corrente circulatoria. Será essa ultima a 
razão dominante dos sinais de deficiencia fun- 
cional da glândula? Podemos, neste momento 
de nossos trabalhos, afirmar, de modo deci- 
sivo, que o parasito se localiza no paren- 
quima da glândula tireóide ; localiza-se neste, 
como em outros organs afetados, sob o 
áspelo de corpúsculos leishmaniformes. 

No ponto de vista clinico é muito maio^ 
a evidencia dos fatos : O mixedema das 
formas agudas não constitue fenómeno iso- 
lado ; ao contrario, figura em todos os casos 
clínicos e positivamente é parte integrante da 
sintomatoiojia nesta primeira fase da moles- 
tia. E poderemos, no estado atua! dos conhe- 
ci-nentos de fiso-patolojla geral, compreender 
a síndrome nestes casos, sem admitir ação 
especifica do parasito sobre a glândula tire- 
óide? Este hipo-tireoidismo das formas 
agudas, de grande constancia, indica, de 
modo decisivo, a participação da glândula 
tireóide nos processos patojenicos da tripano- 
zomiase ; sinão, como interpretar os fatos? 
Poder-se-á apresentar o argumento seguinte: 
existe, na zona onde grassa a tripanozomíase, 
certa condição de mioprajia tíreoidiana here- 
ditaria; esta, na ocorrência da molestia, seria 
apenas agravada, e dai resultaria evidenciar-se 
o mixedema. Contra esse raciocínio, pura- 
mente teórico, devemos alegar a ausencia de 
agravação daquela mioprajia glandular por 
outras molestias que grassam na zona : ma- 
laria, ancilostomose, pneumonia, febres exan- 
temáticas, etc.. Só a tripanozomíase é capaz 
de despertar aquele hipotíreoidismo latente? 
Nesse caso a tripanozomíase tem sobre a glân- 
dula a ação especifica que admitimos e então, 
em bôa lojica, dispensando a hipótese 
arbitraria e ficando no domínio exclusivo 
dos fatos, nos parece mais rezoavel compre- 
ender o hipotíreoidismo como função exclu- 
siva da tripanozomíase. É a isso que nos 
força a apreciação razoável dos casos mór- 
bidos. 

Nas formas agudas da tripanozomíase 
figma, portanto, como síndrome frequente, 



12 



senão constante, o mixedema. A ilação natural 
desse fato de ordem clinica é que ha inter- 
ferencia da glândula tireóide, pela deficiencia 
funcional, no quadro mórbido. Eis o que 
nos ensina a observação clinica: Isso, porém, 
não impoita em confusão da tripanozomiase, 
em sua modalidade aguda, com os sintomas 
caraleristicos do mixedema e do bocio endé- 
mico. Observámos o mixedema na quasi 
totalidade dos casos clinicos agudos da mo- 
lestia e o referimos na sintomatolojia ; além 
dessa sindrome, porém, outras ai figuram 
para caraterizar a molestia e para diferencial- 
a, com absoluta nitidez, de qualquer outra 
entidade nosolojica. Mesmo para aqueles 
que, colocados no ponto de vista de doutri- 
nas, possam recusar a ação especifica do 
tripanozomo sobre a glândula tireóide e 
queiram fazer do mixedema, nas formas 
agudas, uma condição simultanea, mesmo 
para os que considerem a infiltração mixede- 
matosa de nossos doentes consequência 
duma mioprajia glandular apenas agravada; 
mesmo assim, outros elementos existem para 
individualizar a tripanozomiase em sua pri- 
meira fase evolutiva. 

De modo que, referindo o mixedema 
nas formas agudss, nós nos colocamos no 
ponto de vista clinico exclusivo, sem prejul- 
gar de concepções teóricas relativas á etiolo- 
jia do bocio endémico. Estivéssemos em erro, 
quando concluimos sobre a etioiojia do bocio, 
e ainda assim teríamos de referir, na descri- 
ção dos casos clinicos agudos, o mixedema 
como sinal dos mais predominantes. 

Porque a atenuação do mixedema quando 
desaparecem os elementos agudos da infeção? 
É possível, para interpretar este fato de obser- 
vação quasi constante, admitir varias hipóteses: 
reação do próprio tecido glandular, compen- 
sando, pelo desenvolvimento de novas vesí- 
culas, a deficiencia funcional doorgam; ou 
então os processos inflamatorios agudos, li- 
gados principalmente á fenómenos para o 
lado da circulação da tireóide, constituiriam 
a razão capital da retenção do coloide, e, 
atenuados aqueles processos, o coloide teria 
livre curso, indo assim exercer seu papel no 
metabolismo orgânico. E, si quizessemos ir 



além no terreno de conjeturas, poderíamos 
ainda referir a possibilidade de processos 
compensadores, atribuíveis a outros aparelhos 
do sistema endocrinico; devemos, porém, 
confessar, analizando esses fatos clinicos, que 
a interpretação depende de novos e mais mi- 
nuciosos estudos relativos á histo-patolojia 
da tireóide, 

A esteatose, mais ou menos intensa, lo- 
calizada em diversos organs, constitue proces- 
so dos mais acentuados nas formas agudas 
da tripanozomiase. No figado, principalmente, 
esse processo assume proporções de maior 
intensidade, comparável á que se observa 
nas molestias por exselencia esteatosantes; 
e, como paralelo bastante exato, podemos 
adoptar o figado na febre amarela, cuja de- 
jeneração gordurosa em nada excede a que 
temos verificado em casos agudos da tripa- 
nozomiase. E' um verdadeiro figado camurça, 
no qual todo o tecido se apresenta atinjido 
pela mais intensa esteatose. Apesar disso, 
dessa dejeneração considerável do orgam, 
nele, em casos humanos pelo menos, nunca 
verificámos as localizações paraziíarias encon- 
tradas em cuíros tecidos; e, dada a ausencia 
de parásitos, a intensidade do processo dejene- 
rativo só pode ser explicada pela ação de 
toxinas, que aí tenhpm atuada de modo ex- 
cecionalmente enerjico. 

Na expressão clinica da molestia os 
sinaes reveladores dessa esteatose hepática, 
que se deveriam salientar, vêem confundidos 
na sintomatolojia geral das formas agudas, 
não sendo possível, muitas vezes, especifícal- 
os nitidamente. 

Entre as localizações do Trypanozoma 
cruzi nos organs e sistemas, figura, como da- 
quelas de maior importancia patojenica, a 
verificada na fibra cardiaca. 

Penetrando na célula do miocardio, o 
protozoário ai se multiplica, e constitue deste 
modo as grandes aglomerações parasitarias 
difundidas por todo o musculo cardiaco. Na 
patojenia da molestia é este um dos pro- 
cessos de maior relevancia: dele resultam 
modalidades clinicas bem determinadas, nas 
quais predomina a sindrome cardiaca, È esta 
uma das localizações constantes do ílajelado; 



13 



pelo menos, sempre a verificamos em todas 
as autopsias de casos agudos e em grande 
numero de formas crónicas. (Est. 4, fig. 1). E, 
per outro lado, na experimentação em ani- 
mais, desde as fases mais recentes da inte- 
ção, o musculo cardiaco se apresenta para- 
sitado. Assim sendo, é bem de compreen- 
der a presença de sinais para o lado do 
miocardio, em todos, ou na grande maioria 
dos casos da molestia, não importa a forma 
clinica em que os tenhamos classificado. 

Nesse aspeto excecional da tripanozo- 
miase, caraterizado pelo ataque do protozoá- 
rio ao próprio elemento anatómico que no 
orgam constitue o substratum essencial da 
função, vamos encontrar vasto cabedal de 
indicações aproveitáveis para o esclarecimento 
da fisio-patolojia cardiaca. Reconhecida 
a natureza exata da alteração de função, 
estudada a semiótica do fenómeno cardiaco, 
poderemos, desde logo, referir sua patojenia 
á condições anatómicas constantes, facil- 
mente verificáveis nas necropsias desta mo- 
lestia; e, deste modo, poderemos estabelecer 
a relação immediata entre o fenómeno mór- 
bido e sua causa, o que virá trazer grande 
luz, na generalização possível, a muitos pro- 
blemas obscuros da fisioiojia patolojica do 
coração. Acrece ainda a alta hierarquia biolo- 
jica do parasito, com a relativa facilidade da 
técnica aplicável a seu estudo, para melhor 
fundamentar a relevancia desse capitulo da 
molestia, onde o interesse da ciencia abs- 
traía só se mede pelo alcance pratico das 
noções que ai podem ser adquiridas. Nas 
necropsias de formas agudas da tripanozo- 
miase o dr. GASPAR VIANNA verificou a 
destruição da célula cardiaca, que fica muitas 
vezes reduzida á membrana, em cujo interior 
permanecem retidos os parásitos; ou então a 
membrana da fibra pode romper-se, esca- 
pando os corpúsculos leishmaniformes para 
o tecido intersticial. Neste são observados 
processos inflamatorios intensos, difundidos 
por toda a espessura do miocardio. Em al- 
gumas de nossas necropsias a miocardite tem 
sido verificada nos graus de maior intensi- 
dade e traduz-se não só por alterações da 
célula cardiaca, mas principalmente por pro- 



cessos para o lado do tecido conjuntivo, com 
hiperjenese das células fixas, infiltração de 
células redondas, etc.. : As modificações do 
tecido intersticial se apresentam, ás vezes, 
tão intensas nesta miocardite que a estrutura 
geral do musculo fica inteiramente modifi- 
cada. Temos ainda, na maioria dos casos 
agudos de terminação letal, observado peri- 
cardite, mais ou menos acentuada, algumas 
vezes com derrame abundante na cavidade 
serosa. Esta pericardite, em grau variável, 
constitue tam'-em processo patolojico quasi 
constante da tripanozomiase, e faz parte da 
poliorrominite que é umas das carate- 
risticas anatómicas da molestia. O liquido do 
pericardio, ás mais das vezes amarelo citri- 
no, apresenta-se, ás reações, como verda- 
deiro exsudato. 

Na sintomatolojia das formas agudas, 
essas alterações do musculo cardiaco se ex- 
pressam em fenómenos intensos e sempre 
progressivos de insuficiencia do orgam. A 
tensão arterial é sempre muito baixa, o nu- 
mero de pulsações elevado e não obedece, 
nos casos gnives, a qualquer relação com a 
curva térmica. Não raro, o óbito se verifica 
em condições que fazem lembrar o colapso 
cardiaco: o doente, neste aspeto, parece 
morrer pela fraqueza do musculo, devido ás 
alterações anatómicas nele ocasionadas pelo 
parasito. E será essa, na maioria dos casos 
letaes, a razão imediata da morte? 

Pouco provável acreditamos essa ultima 
hipótese: as formas agudas da molestia re- 
presentam septicemias de alta virulencia, com 
processos patojenicos diversos, localizados em 
sistemas e organs distintos, muitos deles de 
função essencial á vida; e, deste modo, quando 
verificamos, simultaneas com as alterações 
cardiacas, aquela dejeneração profunda do fí- 
gado e processos inflamatorios intensos para 
o lado das meninjes e do sistema nervoso 
central; quando as autopsias demonstram 
grandes alterações de diversas glândulas 
de secreção interna, como sejam as capsulas 
suprarenaes, a tireóide, etc.; quando assim 
é, seria dificil determinar, com segurança, a 
causa immedióta da morte. Mais lojico, nesse 
caso, é admitir, na maioria das vezes, a con- 



14 



correncia de varios processos patojenicos, 
conducentes ao aniquilamento de funções 
imprecindiveis á vida. E si existe, como deve 
existir, na razão immediata do óbito um pro- 
cesso dominante, nem sempre este poderá 
ser reconhecido no conjunto de graves alte- 
rações funcionaes que constituem o quadro 
clinico final. 

Como expressão clinica da miocardite, 
nas formas agudas, observamos o enfraque- 
cimento progressivo e rápido do miocardio, 
não raro conduzindo ao colapso cardiaco; 
faltam aí, porém, aquelas perturbações nota- 
veis do ritmo que caraterizam as formas cró- 
nicas da molestia. Nestas, como veremos, os 
fenómenos de aritmia cardiaca dominam 
muitas vezes a sintomatolojia. Entretanto, para 
o lado da fibra cardiaca, o processo histopa- 
tolojico, nas formas agudas e crónicas, é 
idêntico, sendo também idênticas as condições 
parasitarias. O que varia, nos dois casos, é 
a reação inflamatoria do tecido intersticial, que 
nas formas recentes da molestia se apresen- 
ta aguda, constituida de infiltração de células 
redondas e grande hiperjenese das células 
fixas; ao passo que, nos doentes crónicos, 
predomina uma esclerose difusa do miocar- 
dio, que carateriza a miocardite crónica. 

Aí a razão da ausencia de extrasistoles e 
de outras alterações do ritmo nos casos agu- 
dos da tripanozomiase ? Ou melhor será, de 
acordo com dados valiosos, compreender 
a ausencia de aritmias nas formas agudas 
como consequência da alteração profunda do 
musculo, com esgotamento de algumas das 
funções essenciaes da célula, daí resultando 
o único sinal semiótico possível, a taquicardia 
progressiva, com a queda notável da tensão 
arterial ? Isso bem se harmoniza com fatos 
repetidos de observação clinica, nos quais as 
alterações do ritmo, antes muitas vezes veri- 
ficadas, desaparecem nas formas crónicas 
quando ocorrem incidentes de asistolia, seja 
esta transitoria ou terminal. 

Vamos acompanhando doentes com pro- 
fundas alterações do ritmo, durante anos; 
muitos deles apresentam fases de hipo ou de 
asistolia periódicas e, na ocorrência destas, 
os fenómenos de aritmia desaparecem, pas- 



sando a dominar a cena sinaes expressivos 
do enfraquecimento profundo do miocardio, 
em eminencia de esgotamento terminal: ta- 
quicardia, tensão arterial baixa, pulso mise- 
rável, etc. , constituem então os sinaes domi- 
nantes para o lado do aparelho circulatorio. 
Aliás, não é exclusivo da tripanozomiase 
essa variante de aspeto da síndrome cardia- 
ca, nas crises de asistolia: em casos de arit- 
mias atribuíveis a processos etiopatojenicos 
diversos a mesma alteração da síndrome se 
verifica. Quando, pelo crecido numero de sis- 
toles cardiacas, não importa a razão que as 
determine, aumenta de modo considerável a 
velocidade da corrente circulatoria, as extra- 
sistoles, antes frequentes, se mostram raras 
ou desaparecem. 

Ha, no caso da síndrome cardíaca na 
tripanozomiase, outro ponto que acentuar: 
as formas agudas são, na maioria das vezes, 
verificadas em crianças ; ora, na infancia as 
aritmias em geral, e especialmente as extra- 
sístoles ou sístoles prematuras constituem 
sinal bastante raro nas alterações do miocar- 
dio. Essa dependencia entre a idade do in- 
dividuo e as variantes da alteração do ritmo, 
talvez existente em outros processos, não 
pode ser admitida aqui e não pode ser admi' 
tida porque, em p:imeiro lugar, temos obser- 
vado na infancia, em crianças de 6 e 8 anos 
de idade, todas as alterações do ritmo, inclusive 
sístoles prematuras e extrasistoles e até pulso 
lento permanente; além disso, já referimos 
que nos adultos, com extrasistoles abundan" 
tes, estas desaparecem nos momentos de agra- 
vação maior da síndrome cardíaca, quando 
a força de reserva do orgãm vae prestes a 
se esgotar. 

Sendo assim, julgamos que a diversida- 
de de expressão semiótica da síndrome car- 
díaca, nas formas agudas e nas crónicas, é 
função exclusiva da diferença nos processos 
anatómicos dos dois casos. Esta conclusão, 
aliás, é corroborada pela frequência, nos 
doentes crónicos adultos, de alterações do 
ritmo, com raridade do sinal nas formas cró- 
nicas em crianças. 

As ultimas constituiriam, no ponto de 
vista do processo histopatolojico do miocar- 



15 



dio, fases de passajem entre as formas agu- 
das e as crónicas definitivas. 

Nos adultos os processos anatómicos do 
musculo cardiaco, estabelecidos em esclerose 
intersticial mais ou menos progressiva, ofe- 
recem substratum propicio ás alterações do 
ritmo; ao passo que, nas formas agudas e 
nas crónicas recentes, a reação inflamatoria 
aguda ou, no 2o caso, essa reação atenuada, 
se espressa antes pelos sinaes de enfraque- 
cimento do orgam. 

Nem significa esse raciocinio que nas 
fases de hipo ou de asistolia dos doentes 
crónicos o miocardio, onde permanecem os 
parásitos, apresente processos inflamatorios 
agudos. Os doentes crónicos da forma car- 
diaca que temos autopsiado, todos aprttsen- 
tam esclerose difusa do miocardio, processo 
inflamatorio crónico que bem se distingue 
dos observados nos casos agudos; pelo que 
devemos atribuir o desaparecimento aí das 
extrasistoles e de outras alterações do ritmo 
á mesma causa do fenómeno em miocardites 
de outra natureza. E' ainda o esgotamento 
do musculo cardiaco, de cujas células tenham 
desaparecido, talvez, algumas das funções 
essenciaes, causa dessa variante na fspressão 
semiótica da sindrome cardiaca; aqui, porém, 
o processo histo-patolojico é de natureza cró- 
nica e a intensidade de reações muito menor 
do que a verificada nos casos agudos. 

O sistema nervoso central, nas formas 
agudas da tripanozomiase, é muitas vezes 
sede de processos patojenicos de grande in- 
tensidade. Nas meninjes e na substancia ner- 
vosa central, encefálica ou medular, verificam- 
se então reações inflamatorias agudas, das 
quaes resulta uma sindrome nervosa, predo- 
minante no quadro sintomático. Os casos 
agudos dessa natureza apresentam gravidade 
excecional, morrendo quasi sempre os doentes; 
pelo que, dada a constancia aí do prognosti- 
co letal, julgámos acertado distinguir, nas 
formas agudas da molestia, dois grupos de 
fatos clínicos : num deles incluímos os doentes 
com manifestações meningo-encefalicas, o 
outro compreende os casos agudos nos quaes 
o sistema nervoso escapou á ação do para- 
sito. 



A sindrome nervosa é aqui constituida 
principalmente, como veremos estudando as 
formas agudas, pelos elementos de menínji- 
te aguda cerebral ou, talvez melhor, menin- 
go-encefalite. Os sinaes de processos infla- 
matorios meninjeanos, ora se apresentam em 
sua totalidade, ora são observados parcial- 
mente; e também os fenómenos expressivos 
de reação do cortex cerebral mostram-se 
muito variáveis nos diversos casos clinícos. 
Algumas necropsias têm trazido o esclareci- 
mento patojenico da síndrome nervosa nas 
formas agudas da tripanozomiase: Resulta 
esta sindrome, de um lado, das localizações 
parasitarias na propria substancia nervosa; 
quanto á reação inflamatoria das meninjes, 
onde não temos conseguido verificar o pro- 
tozoário, devemos consider^l-a determinada 
pela ação de toxinas. 

E' de importancia acentuar que os pro- 
cessos inflamatorios das meninjes e da subs- 
tancia nervosa são independentes. 

A encefajíte não se constitue aquí, como 
de regra nas flegmasías meningo-encefalicas, 
por continuidade do processo meninjeano ao 
encéfalo. Meninjes e substancia nervosa rea- 
jem á parte, de modo independente, prova- 
velmente á irritações de natureza diversas. E 
de fato, na substancia nervosa a flegmasía 
resulta de localizações bem determinadas do 
parasito; nas meninjes, porém, as pesquizas 
até agora realizadas têm sido negativas 
quanto á verificação de focos parasitarios. 
Em algumas formas agudas, nas quaes a sín- 
drome nervosa mostra-se bem acentuada, os 
parasiios têm sido observados em abundan- 
cia na substancia nervosa, havendo, naqueles 
casos, facilidade relativa em verificar focos 
do protozoário ; nas formas agudas, porém, 
em que a síndrome nervosa é apenas apre- 
ciável, os focos parasitarios no sistema ner- 
voso central mostram-se raros, exijindo, ás 
vezes, demorada pesquiza sua verificação, E, 
finalmente, possuímos autopsias de casos 
agudos, em que não nos foi dado encontrar 
o parasito na substancia nervosa; nestes 
casos, aliás, não havíamos surpreendido, em 
vida, perturbações de grande monta para o 
lado do sistema nervoso. Assim, de acordo com 



16 



as observações até agora realizadas, parece 
razoável admitir que a substancia nervosa 
não constitue, de modo constante, ou pelo 
menos, com a constancia do miocardio, sede 
de multiplicação do tripanozomo; ou então o 
ataque ao sistema nervoso poderá ser de tal 
modo atenuado, a quantidade de parásitos, 
ai localizados, de tal modo pequena, que não 
figure na expressão clinica síndrome nervo- 
sa apreciável e que não seja possivel verifi- 
car a existencia do germe patojenico. De 
regra, como dissemos, terminam pela morte 
os casos agudos em que o sistema nervoso é 
fortemente atinjido; nas formas agudas, porém, 
em que a síndrome nervosa se mostra ate- 
nuada, verifica-se a passajem do doente ao 
estado crónico, modificando-se a síndrome 
nervosa e dela resultando alterações mais ou 
menos definitivas, que serão estudadas opor- 
tunamente. 

Devemos concluir, em ultima analíze, 
pela existencia de casos agudos da tripano- 
zomiase com absoluta integridade do siste- 
ma nervoso central, integridade funcional e 
anatómica? E da ausencia de síndrome ner- 
vosa podemos afirmar não haver localiza- 
ções do protozoário no respetivo sistema 
orgânico? Na maioria de nossas observações 
da forma aguda, nenhuma anomalia de 
função, pelo menos apreciável ás pesquizas 
da semiótica, verifica-se para o lado do sis- 
tema nervoso ; pelo que, podemos estabelecer 
a inconstancia da síndrome nervosa nas 
formas agudas da molestia, apenas admitida 
e verificada sua grande frequência. Os casos 
dessa natureza, com ausencia de perturbações 
nervosas, são justamente os de infeções mais 
benignas e que sempre evolvem para o estado 
crónico. Deles possuímos exemplos em 
grande numero, que todos contrastam, no 
ponto de vista da gravidade, com as formas 
agudas apresentando fenómenos meningo- 
encefalicos. 

Agora, si isso indica não ser o sistema 
nervosa central sede de multiplicação do 
protozoário, não o podemos afirmar. De fato 
não será ilojico adimitir que raros focos 
parasitarios, esparsos na subtancia nervosa, 
em rejiões de baixa hierarquia funcional, 



passem silenciosos, não ocasionando sinal 
clinico de valia. Além de que, a reação 
inflamatoria provocada por aqueles focos 
poderá ser, desde o inicio, de natureza cró- 
nica, de marcha lenta, só vindo a determinar 
alterações funcionais posteriormente, em fases 
tardias da molestia. 

Em todas as rejiões do sistema nervoso 
central, na substancia cinzenta quanto na 
substancia branca, temos verificado focos 
parasitarios e processos inflamatorios agudos 
deles consequentes. Nenhuma dependencia 
^ntre as localizações do proiozoario e o sis- 
tema vascular; e deste fato, como veremos, 
resultam caracteres diferenciaes muilo valio- 
sos para a diagnose entre as alterações ner- 
vosas da tripanozoniiase e as de outros fato- 
res etiolojicos. 

A célula da nevroglia, segundo múltiplas 
verificações, constitue a sede inicial do pro- 
tozoário; nela, provavelmente ainda flajela- 
do, penetra o parasito e multiplica-se, sob a 
forma de corpúsculos arredondados, no inte- 
rior do plasma (Est. n» 4, figs. 3 e 4). Deste 
modo, pela multiplicação do parasito, a célu- 
la é destruida, ficando livres os corpúsculos 
leishmaniformes. Estes, por divisões binarias 
sucessivas, continuam a crecer em numero, 
constituindo aglomerações de muitas unidades 
(Est. no 4, fig. 2), isoladas na substancia ner- 
vosa. A infiltração leucocitaria inicia-se, muitas 
vezes, quando os parásitos ainda se encontram 
no plasma da célula de nevroglia, e, neste caso, 
a célula parasitada é observada entre os ele- 
mentos redondos que constituem o foco de 
infiltração; não raro, porém, só depois de li- 
bertados os parásitos, de destruida a célula 
de nevroglia, verifica-se a infiltração de leu- 
cocitos. 

Nos focos leucocitarios assim constituidos, 
quando recentes, encontrani-se ainda parási- 
tos; estes, porém, vão desaparecer, 
restando em seu lugar os elem.entos anatómi- 
cos da infiltração. E' curioso referir que, até 
agora, mesmo em casos agudos, cujo siste- 
ma nervoso mostrava-se abundantemente pa- 
rasitado, não temos conseguido observar o 
protozoário no interior das células nervosas. 
A célula da nevroglia é sempre o elemento 



17 



anatómico preferido pelo flajelado. E expli- 
cará esse fato a situação de tal célula no te- 
cido conjuntivo intersticial, mais próxima, por 
isso, dos vasos sanguineos ? Escapando da 
corrente circulatoria, os tripanosomas, peia 
tendencia biolojica neles dominante, abrigam- 
se ao primeiro elemento anatómico, a célula 
de nevroglia, que lhes oferece condições pro- 
picias de vida. 

Na medula, tanto quanto em todas as 
rejiões do encéfalo, temos verificado locali- 
zações do protozoário, na substancia branca 
periférica e na cinzenta central. O processo 
histo-patùlojico inicial é aqui o mesmo; a ce- 
lula de nevroglia constitue o elemento para- 
sitado em primeiro lugar, organizando-se os 
focos de infiltração leucocitaria de modo 
idéntico ao observado no encéfalo. Apesar 
disso, das localizações parasitarias na medu- 
la, não temos conseguido caraterizar urna 
síndrome medular distinta, na expressão cli- 
nica das formas agudas ; e, aliás, é razoável 
que assim seja, porquanto a mais elevada 
hierarquia funcional do encéfalo determina 
predominancia, no quadro clinico, dos sinto- 
mas que expressam as profundas alterações 
inflamatorias nele verificadas. 

As meninjes, encefálicas e medulares, 
em que não temos conseguido verificar loca- 
lizações do protozoário, nem por isso esca- 
pam á ação de processos paíojenicos. Em di- 
versas autopsias temos observado reação in- 
flamatoria intensa na aracnoide e na pia-mater, 
e uma lepto-meninjite serosa, ás vezes muito 
acentuada, constitue fato constante nas formas 
agudas com manifestações nervosas. 

O sistema muscular estriado é sede de 
localizações prediletas do tripanosoma. Em 
animaes de laboratorio GASPAR VIANNA 
evidenciou este fato, e estabeleceu ser a fibra 
muscular um dos elementos anatómicos pre- 
feridos pelo flajelado, quando na condição de 
histo-parasito. No homem, os músculos es- 
triados constituem sistema orgânico dos mais 
parasitados ; neles, em todas as autopsias, 
não importa a forma clinica da molestia, 
temos verificado o protozoário, sempte em 
relativa abundancia. Aí, nas grandes massas 
que representam os músculos da vida de re- 



lação, o protozoário encontra abrigo dos 
mais propicios, podendo permanecer durante 
longos anos, sempre localizado no interior 
da fibra estriada. 

Temos praticado autopsias de doentes, 
cuja infeção inicial datava seguramente de 
20 ou mais anos anteriores, encontrando 
músculos estriados, de diversas rejiões, com 
grande numero de protozoários leishmanifor- 
mes. E podemos mesmo estabelecer como 
constante esta sede de localização do flaje- 
lado ; como constante e como daquelas em 
que mais abundam os parásitos, ai muitas 
vezes verificados, mesmo quando negativas 
as pesquizas em outros sistemas, inclusive o 
miocardio. E, entretanto, dessa localização 
do protozoário nada resulla de importancia 
como anomalia funcional: nenhum sinal 
mórbido é verificado para o lado dos mús- 
culos, nem mesmo qualquer grau de atrofia 
que poderia resultar da destruição de fibras 
parasitadas. A razão desse fato estará, talvez 
na immensa quantidade de elementos anató- 
micos idênticos, de modo que a função do 
órgão não á atinjida pelo desaparecimento 
daquelas fibras em que se localizou o para- 
sito ; ou ainda, da propria natureza desse 
sistema orgânico resulta fraqueza de reações 
mórbidas, passando estas mais ou menos 
silenciosas, inapreciáveis no conjunto de 
outros sinais de maior relevancia. Seja como 
for, uma síndrome muscular não se evidencia 
na tripanosomiase, apezar de serem os mús- 
culos estriados constantemente parasitados. 

Entre os sinais clínicos das formas 
agudas figuram, com alguma frequência, 
reações inflamatorias para o lado dos olhos. 
As conjuntivites podem ser observadas ; mais 
carateristica, porém, reproduzindo sinal veri- 
ficado nas infeções experimentais, é a que- 
ratite, uni ou bilateral. Desta, pela ocorrência 
de panoftalmias secundarias, pode resultar a 
perda do globo ocular, conforme tivemos 
oportunidade de observar. Muito frequente 
na sintomatolojia dos casos agudos é também 
a fotofobia, não raro persistente e trazendo 
grande sofrimento ao doente. Qual o funda- 
mento destas alterações oculares? Não pos- 
suímos, até agora, estudos minuciosos que 



18 



esclareçam os fatos aqui referidos ; e nem 
mesmo as localizaõçes do parasito no globo 
ocular, muito prováveis, foram verificadas. 
Desse assunto daremos, mais oportunamente, 
as noções que forem adquiridas. 

Outra localização bem verificada do pro- 
tozoário é a que tem lugar nos órgãos geni- 
tais, do homem e da mulher. Nos testículos 
temos encontrado focos parasitarios em 
abundancia variável, tanto nas formas agudas 
quanto nas crónicas da molestia. Do mesmo 
modo nos ovarios, em casos agudos, já 
tivemos oportunidade de verificar a existencia 
de corpúsculos leishmaniformes. Aliás também 
nos animais de laboratorio essas localizações 
nos órgãos genitais são constantes, não sendo 
raros os casos em que é notável a quanti- 
dade de parásitos nos testículos de cobaias, 
coelhos, etc.. 

No homem, consequência do ataque do 
testículo pelo parasito, é observada, orquite 
na formas agudas. Essa orquite constitue fato 
mórbido ás ve/es de grandes duração, per- 
sistindo depois de atenuados os outros ele- 
mentos agudos da molestia. 

Expressando reações inflamatorias dos 
ovarios, nas formas agudas, nada possuímos 
em nossas observações clinicas ; convém, 
porém, acentuar que no sexo feminino, só 
em crianças de baixa edade, antes da puber- 
dade, temos verificado ínfeções agudas. Pelo 
que, não poderiam ser de grande monta, ou 
pelo menos, não se poderiam exhibir com 
evidencia, as alterações funcionais dos órgãos 
genitais. 

Como fato de observação rara podemos 
aqui rejisírar processos cutâneos nas infe- 
ções agudas. Em um de nossos doentes 
tratava-se de maculas escuras, de aspeto bas- 
tante orijinal, intercaladas de pequenas vesí- 
culas eritematosas, chcas de serosidade. Em 
outro fato havia na pele placas gangrenosas, 
que se destacaram deixando á descoberto os 
tecidos sub-adjacentes. O doente desta obser- 
vação ultima faleceu, não tendo sido possível 
praticar a autopsia. 

Destas deteriwinações cutâneas do para- 
sito, respeito á patojenia, nada podemos 
adiantar : só constatámos os fatos, sem que 



pudéssemos chegara resultados em pesquízas 
executadas com o fim de os esclarecer. 

Referimos, como ai ficam, em traços 
gerais, os processos patojenicos nas formas 
agudas da tripanosomiase ; vamos proceder 
de modo idêntico na analize das formas 
crónicas. 

Atenuados ou modificados os elementos 
mórbidos que caraterizam as ínfeções agudas 
pelo tripanosoma, desaparecida a reação tér- 
mica e não mais verificáveis flajelados no 
sangue circulante, nem por isso terá cessado 
a ação dos processos patojenicos. A cura 
espontanea, limitando-se a evolução mórbida, 
dos casos que escapam á morte, ao período 
agudo, não se verifica; pelo que todos os 
infetados sobreviventes pasam á condição 
de doentes crónicos. Além disso, a tripano- 
zomiase segundo observações bem demons- 
trativas, que possuímos, pode apresentar-se, 
desde o inicio, com o áspelo de infeção cró- 
nica, sem os grandes sintomas tumultuosos 
das fases agudas. Isso acontece, ás mais das 
vezes, nos adultos, recemchegados em zonas 
contaminadas. Neles a primeira fase da mo- 
lestia poderá ser revelada apenas por eleva- 
ções térmicas transitorias, por estado sub- 
febril que muitas vezes escapa á apreciação 
clinica; ou mesmo nenhum elemento agudo 
é observado, vindo, aos poucos, aparecendo 
os sinais que denunciam as ínfeções cró- 
nicas. 

Na expressão clinica da tripanosomiase 
crónica melhor se evidenciam e se definem 
as grandes síndromes, que traduzem lesões 
anatómicas e localizações parasitarias nos 
diversos sistemas orgânicos. Daquelas sín- 
dromes algumas predominam de tal modo 
na sintomatolojia geral da molestia que 
lhe dão fisionomia especial e bem funda- 
mentam a distinção de formas clinicas diver- 
sas. Foi esse o criterio que nos aprovei- 
tou, quando, nas primeiras publicações, siste- 
matizamos a doença crónica nas seguintes 
formas : pseudo-mixedematosa, cardíaca, 
nervosa, supra-renal, formas crónicas com 
incidentes agudos e manifestações para- 
tripanosomicas. Devemos hoje, pelos ensina- 
mentos duma observação mais demorada e 



i 9 



pela analize minuciosa de grande numero de 
casos, interpretar de modo diverso as vari- 
antes da molestia, cu, pelo menos, sistema- 
tiai-a com outros fundamentos. É deste 
modo que conservaremos as formas cardia- 
ca, nervosa e suprarenal, definidas pela 
existencia de síndromes clinicas bem salien- 
tes. 

As formas pseudo-míxedematosa e 
mixedematosa devdem esaparecer. Na primeira 
ficavam incluidos aqueles doentes com sinais 
leves de hipo-tireoidismo e a segunda com- 
preendia os enfermos em que n insuficiencia 
glandular era mais acentuada. Representam 
os casos do primeiro grupo infeções 
relativamente recentes, nos quais os grandes 
processos patojenicos apenas se iniciaram, 
não tendo ainda ocasionado as alterações 
anatómicas profundas, determinantes de sín- 
dromes clinicas definitivas; de modo que, 
no ponto de vista evolutivo, podemos consi- 
derar os casos desta natureza como formas 
de passajem, indeterminadas portanto em sua 
fisionomia clinica. Apenas atenuados, nas 
formas agudas, os elementos que as carate- 
rizam, passam os doentes para uma condição 
crónica em que faltam ainda as grandes sin- 
dromes dos casos antigos. Só predominam 
ai sinais leves de insuficiencia tireóide. No 
ponto de vista de alterações funcionais, essa 
condição, porém, que representa a continui- 
dade de elementos mórbidos acentuados na 
fase aguda, vai aos poucos experimentando 
modificações sensiveis, de modo a quasi 
desaparecer, no fim de algum tempo. Por 
outro lado, algumas das síndromes notáveis 
na molestia, como a cardiaca e a nervosa, 
já esboçadas neste periodo das formas cró- 
nicas, vae melhor se acentuando e acabam por 
dominar a feição clinica do doentf. Assim, 
porque representam os pseudo-mixedemato- 
sos formas clinicas de passajem, devidas a 
processos patojenicos ainda em evolução e, 
sobretudo, sendo ai transitoria essa hipo- 
função glandular que nos servia para carate- 
rizar o aspeto clinico, pensamos acertado 
abandonar a denominação anterior. Melhor 
definindo os casos dessa natureza deles 
faremos a.fónna crónica indeterminada^ para 



indicar a ausencia de síndrome clinica pre- 
dominante. 

Defeituosa julgamos também a denomi- 
nação de mixedematosa para uma forma cli- 
nica da molestia. Não têm, é certo, o valor 
decisivo das anteriores as objeções que 
devemos agora apresentar contra a existencia 
dessa forma crónica : não têm o mesmo valor 
porque o mixedema, ás vezes bem acentuado 
em alguns raros doentes, constitue condição 
permanente, quando não seja modificado 
pela opoterapia especifica. Apesar disso, a 
denominação é má, em primeiro lugar porque 
só difine um elemento variável ; e depois, a 
expressão mixedema tem em patolojia um 
valor bem determinado, traduzindo, ás mais 
das vezes, uma condição mórbida total, em 
que a patojenia exclusiva se resume na ati- 
reoidia ou no hipo-tireoidismo. Ora, na tri- 
panosomiase a insuficiencia tireoidiana é 
somente um dos elementos da molestia e 
não constitue, por si só, a entidade nosolo- 
jica. Agora, si ao em vez de mixedematosa 
denominarmos /(?/7/m hipo-tircoidiana o grupo 
de fatos clínicos com insuficiencia acentuada 
da tireóide, teremos definido um elemento 
durável e evitaremos o inconveniente de 
interpretações arbitrarias. Claro está que nos 
colocamos, admitindo essa forma clinica, no 
ponto de vista de nossa opinião pessoal re'a- 
tiva á afeção da tireóide na tripanosomiase. 
Seria inexistente esta fisionomia da doença 
para aqueles que, na insuficiencia daquela 
glândula, possam ver elemento apenas simul- 
taneo. 

Não julgamos persistente, como grupo 
clinico distinto, a forma crónica com exacer- 
bações agudas. Temos, no continuar de 
nossos trabalhos, verificado a incidencia de 
fenómenos agudos, especialmente de reações 
térmicas, em todas as formas crónicas. Sendo 
assim, parece mais acertado interpretar os 
casos desse grupo sob o criterio fundamen- 
tal das grandes síndromes, apenas referindo 
a ocorrência transitoria de manifestações 
agudas. Estas, aliás, devem traduzir aqui, 
como em outias doenças crónicas, crises 
passajeiras, em que o parasito, invadindo a 
corrente circulatoria, leva o doente ao estado 



20 



septicemico, sempre atenuado, comparável 
ao da fase inicial da infeção. 

Dos casos de infantilismo, de bocio 
antigo, de cretinismo e de outras condições 
mórbidas mais ou menos indeterminadas, 
haviamos constituido um grupo clinico sob a 
denominação de fenómenos rncta-tripanoso- 
micos. Hoje preferimos excluir da sistemática 
qualquer assunto passivel de objeção; e 
tudo quanto oferece campo a diverjencias de 
doutrinas ficará á parte, discutido como pro- 
blemas anexos á historia clinica da molestia. 
Sob este aspeto passamos agora a considerar 
o bo''io, o infantilismo, o cretinismo e outras 
condições mórbidas consequentes de proces- 
sos distroficos determinados pelo tripano- 
soma. 

Nas formas crónicas da doença, atenua- 
das ou modificadas em seu mecanismo 
essencial, vamos encontrar os mesmos pro- 
cessos patojenicos das formas agudas ; peio 
que, na sintomatolojia não poderemos veri- 
ficar alterações funcionais inteiramente novas, 
senão modalidades daquelas que carateri- 
zaram a primeira fase da infeção. As grandes 
sindromes das formas agudas aqui se conti- 
nuam, agora fixadas em elementos defini- 
tivos, que caraterizam fisionomias clinicas 
bem definidas. 

Vamos referir os processos patojenicos 
mais importantes na doença crónica : os sis- 
temas orgânicos aqui afetados, ou seja pelas 
localizações do protozoário ou pela ação de 
toxinas, são os mesmos atinjidos nas formas 
agudas. 

As alterações do miocárdio constituem, 
também nas formas crónicas, processo histo- 
patojenico dos mais predominantes. Nas 
necropsias de casos crónicos os parásitos 
são observados com muita frequência no 
musculo cardiaco ; ai, porém, o numero deles 
nem sempre é grande, o que ás vezes difi- 
culta a verificação, autorizando considerar de 
pouco valor os resultados negativos. Acredi- 
tamos mesmo que as localizações no miocar- 
dio sejam constantes nos doentes crónicos, 
não importa a fisionomia clinica do caso, e 
pensamos deste modo em vista da predi- 
leção notável do protozoário pelo musculo 



cardíaco, no homem e nos animais. E o nu- 
mero diminuto de parásitos constitue a razão 
única de não ser ele, algumas vezes, verifi- 
ficado em cortes histolojicos. Nos doentes 
crónicos em que os sinais cardiacos predo- 
minam, neles, ás mais das vezes, o protozo- 
ario é observado em quantidade maior no 
miocardio e são ai também mais intensas as 
reações inflamatorias do órgão. Estas, aliás, 
são verificáveis ainda nas autopsias das 
formas crónicas em que a síndrome cardiaca 
se mostrava, em vida, das mais salientes. 

Os parásitos ficam localizados, nas fibras 
cardiacas, em grandes aglomerações encerra- 
das no interior do elemento anatómico e 
limitadas pela sua membrana ; quando esta 
se rompe, o que frequentemente acontece, 
os protozoários caem no tecido intersticial. 
Apreciáveis são alterações da célula cardiaca, 
ás vezes destmida em totalidade, dela res- 
tando apenas a membrana externa e não raro 
o núcleo ou núcleos, estes comprimidos pelos 
parásitos contra a face interna da capsula 
celular; mais notáveis, porém, se apresentam 
aqui os processos reacionaes no tecido in- 
tersticial, onde uma esclerose difusa é sempre 
verificável, com hiperplasia ás vezes conside- 
rável dos elementos conjuntivos. 

Os processos histo-patolojicos são cons- 
tantes e sempre mais intensos para o lado 
do miocardio ; não raras, entretanto, são as 
reações do pericardio, onde temos verificado 
placas inflamatorias localizadas e, de outras 
vezes, uma pericardite difusa. Também frquen- 
te é a presença de liquido, com as reações 
de exsudato, em quantidade ás vezes grande, 
na cavidade da serosa. Este liquido, em 
nossas autopsias, tem apresentado a colora- 
ção amarelo-citrina, nunca hemorrajico ou 
purulento. 

O volume total do coração mostra-se 
sempre aumentado, ás vezes de modo consi- 
derável, especialmente nos casos clínicos de 
síndrome cardiaca acentuada. Em casos de 
asistolia mais ou menos rápida temos verifi- 
cado, algumas vezes, dilatação considerável 
do ventrículo direito. Como fatos isolados 
devemos referir a verificação, na autopsia 
dum caso de morte súbita, da ruptura do 



21 



ventrículo direito, cuja parede apresentava 
uma pequena fenda de 2 ou 3 centímetros de 
comprimento; e, em autopsias da forma car- 
diaca, algumas nas quaes a parede do ventrí- 
culo direito apresentava-se, em 2 ou 3 rejiões, 
adelgaçada de tal modo que era possível 
comparar a espessura do musculo aí á duma 
folha de papel. Estas ultimas verificações, rea- 
lizadas antes que houvesse sido observada a 
rutuia do ventrículo, deixavam, desde logo, 
admitir a possibilidade do ultimo fenómeno. 
Pela ação do parasito dá-se verdadeira cliva- 
je do musculo, e, sendo assim, as ruturas 
do órgão talvez constituam incidente frequen- 
te na doença, o que não nos autoriza afirmar 
a ausencia de observações em maior numero. 
Relacionadas com as profundas alterações 
do miocardio, nelas encontrando fundamento 
anatómico imediato, as anomalias do cora- 
ção constituem uma das carateristícas mais 
notáveis das formas crónicas da trípanosomía- 
se. A síndrome respetiva é aí de grande com- 
plexidade e dela faremos analize minuciosa, 
quando estudarmos a forma cardíaca; deve- 
mos, porém, desde agora, salientar o exclu- 
sivismo de sinaes semióticos expressando al- 
teração do musculo, nada existindo que faça 
suspeitar, na grande maioria dos casos clíni- 
cos, lesões para o lado do endocardio ou das 
válvulas do coração. São cardiopatias essen- 
cialmente musculares as da molestia; nelas 
as funções atinjidas tem para substratum a 
célula do miocardio, alterada pela localij'-açao 
do protozoário ou desviada de seu mecanis- 
mo físíolojíco pelas reações do tecido inters- 
ticial, que lhes serve de sustentáculo. Esse é 
um dos aspetos de maior interesse no ponto 
de vista da cardiopatolojía: da perturbação 
funcional eucontrámos a causa immediata 
em processos anatómicos salientes, podendo 
assim concluir para o caso concreto e para 
outros similares, cuja etio-patolojia constitua 
ainda objeto de duvida. E deste modo a fi- 
sio-patolojia do coração poderá encontrar, 
na farta messe de noções fornecidas pela se- 
miotia cardiaca na tripanosomiase, o esclare- 
cimento de problemas ainda discutidos, prin- 
cipalmente daqueles relativos a anomolias do 
ritmo. 



Frequentes as alterações do miocardio, 
constituem elas o fator preponderante da ele- 
vada letalidade que observamos na tripano 
somiase. A morte é determinada, ás mais das 
vezes, pela falencia do miocardio, traduzindo- 
se o esgotamento do órgão ora em aistolia 
progressiva mais ou menos demorada, ora 
em crises rápidas de asistolia aguda, mortais 
em curto prazo: de qualquer modo, porém, 
ou seja asistolia crónica ou aguda, a condi- 
ção terminal, a causa única, ou, pelo menos, 
a causa inicial da síndrome circulatoria, é en- 
contrada no próprio musculo cardíaco, nas 
lesões aí ocasionadas pelo protozoário. 

De grande frequência é também a morte 
súbita nas formas cardíacas da molestia. Este 
fato constitue mesmo uma das notas mais 
curiosas na historia clinica dessa tripanoso- 
miase, em cuja letalidade a cifra de mortes 
súbitas é realmente de surpreender. Raras fa- 
mílias, nas zonas infestadas, deixam de refe- 
rir a perda de algum ou de alguns de seus 
membros por esse modo. Morrem eles ás 
vezes ainda moços, em plena atividade, 
quando em estado de satisfatória saúde apa- 
rente. Ouvimos, de pessoas dignas de fé, ma- 
nifestada a surpreza pela ocurrencia frequente 
dessas mortes súbitas, verificadas em indivídu- 
os de media idade, em pleno trabalho ; e em 
nossos serviços de hospital, possuímos obser- 
vações de alguns enfermos que faleceram 
de modo quasi instantâneo. Estes, aliás, apre- 
sentavam síndrome cardíaca acentuada. 

Qual a razão ímmediata da morte súbita ? 
Dilatação aguda do ventrículo direito, pelo es. 
gotaniento da tonicidade da fibra cardíaca, ou 
parada em diastole do órgão pela perda da- 
quela função ? Sincope de natureza reflexa, 
ligada ás condições do miocardio, ou rutura 
do musculo, conforme observação que possuí- 
mos ? Esta ultima causa, uma única vez veri- 
ficada em nossos estudos, deve constituir 
processo de exceção; e nem acreditámos na 
hipótese de sincopes reflexas, cuja patojenia 
exata teria que permanecer discutível. Mais 
provável e mais de acordo com as condições 
anatómicas do musculo nos parece o esgota- 
mento da tonicidade, determinando a parada 
súbita do órgão. Com maiores minucias, em 



22 



tempo oportuno, discutiremos esse fenómeno 
paíojenico ; aqui devemos acentuar as rela- 
ções bem definidas entre a intensidade de 
lesões histo-patolojicas do musculo cardiaco 
e a gravidade da síndrome clinica respetiva. 

Vimos, nas formas agudas, expressar-se 
a ação do tripanosoma sobre o sistema ner- 
voso pela ocurrencia de reações inflamatorias 
intensas das meninjes e da substancia ner- 
vosa. Os casos clínicos em que tais reações 
se verificam constituem um grupo á parte, 
em vista da gravidade extrema do prognos- 
tico; e foi por isso que fizemos, nos primeiros 
estudos, uma modalidade clinica rneningo- 
encefalica, para os casos em que predominam 
sinaes reveladores de fenómenos inflamato- 
rios das meninjes e do encéfalo. 

Verificámos na substancia nervosa, em 
diversas autopsias, as localizações do proto- 
zoário; destas, indiscutivelmente, e de acor- 
do com verificações histo-patolojicas exube- 
rantes, constituem resultante os processos 
inflamatorios, cuja expressão em síndrome 
clinica tem sido muitas vazes observada. Em 
formas crónicas da tripanosomiase, o sistema 
nervoso é também a sede, com muita fre- 
quência, de processos histo-patolojicos que se 
evidenciam em profundas alterações funcio- 
naes. Destas, em todos os aspetos de sua 
complexidade extrema, faremos oportunamen- 
te estudo minucioso. Veremos então atinji- 
das as funções da motilidade, da intelijencia, 
da linguajem, etc., constituindo-se, deste 
modo, fisionomias diversas da forma clinica, 
em que predomina uma síndrome nervosa. 

Que represantam, no ponto de vista evo- 
lutivo, os processos patojenicos do sistema 
nervoso central, nas formas clinicas da doença ? 
Sempre residuos histo-patolojicos daquelas 
reações inflamatorias intensas verificadas na 
fase aguda ? Ou resultam de localizações 
posteriores do parasito, com processos rea- 
cionarios crónicos desde inicio, sem aqueles 
sinaes tumultuosos que expressam inflama- 
ções das meninjes e da substancia nervosa ? 
De principio chegamos a interpretar as 
formas nervosas de acordo com a primeira 
hipótese; estudos mais demorados, porém, 
vieram demonstrar que os casos cabíveis 



nesse julgamento devem constituir minoria. 
De fato, o prognostico das formas agudas, 
com manifestações meningo-encefalicas, é de 
extrema gravidade, sendo muito limitado o 
numero de doentes dessa condição, que con- 
seguem escapar á morte. Quando assim é, 
vemos, por outro lado, serem de grande fre- 
quência os casos crónicos apresentando afe- 
ção do sistema nervoso, fato em desacordo 
com o anterior e que permaneceria obscuro 
si admitíssemos iossem os processos infla- 
matorios crónicos do sistema nervoso sempre 
continuidade de fenómenos similares nas 
formas agudas. 

Além de que, possuímos observações 
decisivas que demonstram o aparecimento 
tardio, em época muito posterior á fase aguda 
da infeção, de alterações para o lado do sis- 
tema nervoso. Doentes estudámos dessa na- 
tureza, ás mais das vezes crianças, cujas al- 
terações da motilidade vieram surjindo de 
modo lento, agravando-se progressivamente, 
até se estabelecerem em diplejias definitivas. 

Em alguns desses doentes, a fase aguda, 
da molestia havia ocorrido anos antes, 
quando a criança contava apenas mezes de 
existencia extra-uterina ; de outros o inicio 
da infeção fora mais proximo, datando de 
um ou dois anos, e, não raro, de mezes. Em 
qualquer dos casos os enfermos atravessaram 
um periodo mais ou menos longo, com sinais 
diversos da molestia, sem manifestações que 
traduzissem processos histo-patolojicos do 
sistema nervoso; e nem houve, no periodo 
agudo, os sinais reveladores de processos 
inflamatorios meningo-encefalicos- Isso indica, 
á tívidencia, que o tripanosoma pode locali- 
zar-se nos centros nervosos em época tardia 
quando ausentes todos os sinais do periodo 
agudo; e, neste caso, o parasito, ajindo 
como causa irritativa permanente, determina 
a formação de escleroses cerebrais crónicas, 
clinicamente traduzidas em alterações da 
motilidade, da intelijencia, etc.. 

Fica, deste modo, bem estabelecido que 
os processos inflamatorios do sistema nervo- 
so ou representam a continuação daqueles 
verificados na fase aguda, o que deverá ser 
de ocurrencia menos frequente, ou resultam 



23 



de localização posterior do protozoário, du- 
rante a fase crónica da molestia, quando talvez 
as condições de immunidade relativa consti- 
tuem obstáculo ás reações agudas do perio- 
do inicial. E, aliás, nem é exclusiva da tripa- 
nosomiase essa condição patojenica da sindro- 
me nervosa : verificamol-a também na sífilis, 
molestia cuja patojenia apresenta muitos as- 
petos similares aos da que estudamos. Na infe- 
ção luética as grandes síndromes nervosas, 
expressivas igualmente de localizações do 
Treponema pallidum na substancia nervosa, ás 
mais das vezes são fenómenos tardios, inicia- 
dos em época romota da infeção primitiva- 
Como dos melhores exemplos desse faio 
temos a paralisia geral, consequência da 
sífilis, cuja etio-patojenia ficou bem deter- 
minada após os trabalhos exatos de NOGU- 
CHI. Nesta síndrome tardia do luetísmo 
vamos encontrar o Ireponetna localizado na 
substancia nervosa, em época remota, quando 
no correr de anos consecutivos nenhum sinal 
indicava alterações para o lado dos centros 
nervosos. 

Só muito tarde o treponenia vai afetar 
o tecido nervoso ; e aí, a modo do que faz 
o tripanosoma, provoca aquelas reações 
histo-patolojicas de marcha crónica, que 
constituem as carateristica anatómicas da 
síndrome. E si nos casos de paralisia geral a 
verificação do treponenia tem vindo muitas 
vezes evidenciar a razão etiolojica do pro- 
cesso, o mesmo acontece em relação á tri- 
panosomíase, sendo aqui de menor dificul- 
dade a pesquiza do protozoário, dadas suas 
dimensões e fácil colorabilidade de contraste. 
Temos realmente, em diversas autopsias, 
conseguido fundamentar síndromes nervosas 
de casos crónicos, e temos verificado focos 
parasitarios e processos inflamatorios dos 
centros nervosos; e, deste modo, difinitiva- 
mente eliminámos qualquer objeção sob;e a 
raconhecída etiolojía das alterações funcionais 
do sistema nervoso na tripanosomiase. 

E certo que nas formas nervosas antigas, 
cujo óbito tenha ocorrido em virtude da evo- 
lução de processos patojenicos de outros 
órgãos, nem sempre os parásitos abundam 
nos centros nervosos, o que torna, não raro, 



sua verificação impossível ; os processos 
histo-paiolojícds, porém, são constantes e, si 
não conseguimos observar o tripanosoma no 
tecido nervoso, vamos encontral-o no sistema 
muscular, com maior frequência no miocardio, 
ou em outros sistemas. De qualquer modo, 
embora ausente do sistema nervoso num 
dado momento da molestia, e presente em 
outras rejiões orgânicas, o tripanosoma é o 
fator etíolojico incontestável das alterações 
nervosas observadas. 

Insistindo em melhor fundamentar a 
existencia de alterações nervosas crónicas, 
exclusivamente ocasionadas peio ataque do 
protozoário ao sistema nervoso central, aten- 
demos á objeção de alguns pesquí/adores 
que apreciam de modo diverso esse aspeto 
clinico da tripanosomiase. Assim é que, em 
recentes trabalhos sobre a etiolojía do bocio 
endémico, cretinismo, etc., MAC CARRÍS- 
SON refere a existencia de alterações da 
motilidade em cretinos e créa, por isso, uma 
modalidade nervosa para essa síndrome de 
hipo-tireoidísmo. Não duvidamos, nem o 
poderíamos fazer, do rigor de observação 
daquele pesquizador ; e nem podemos con- 
testar a interpretação de MAC CARRlSSON 
aos fenómenos nervosos por ele verificados 
nos casos de cretinismo, que fazem assunto 
de suas pesquizas. Agora, o que não pode- 
mos compreender é a identificação daquele 
cretinisno nervoso aos casos de diplejia, 
idiotia, etc., dos quais fazemos a forma ner- 
vosa da tripanosomiase. 

Como argumento inicial, e por si mesmo 
decisivo, devemos salientar que muitas de 
nessas observações, tanto de diplejias quanto 
de outras afeções orgânicas do sistema ner- 
voso, não foram realizadas em indivíduos 
com sintomas, nem mesmo atenuados, de 
cretinismo. São doentes que, apresentando 
muitas vezes hipertrofia da glândula tireóide, 
não raro conservando a glândula com aspeto 
anatómico exterior normal, nada revelam que 
autorize neles admitir deficiencia funcional 
profunda daquele órgão ; e muito menos, a 
casos tais, poderia caber a classificação de 
cretinismo. Algumas vezes aparentemente 
lesada, a glândula tireóide não se mostra 



24 



deficiente a ponto de constituir a sindrome 
de iiipo-tireoidismo que seria o cretinismo- 
e, em muitos diplejicos, nem mesmo leves 
sinais de hipofunção daquela glândula podem 
ser reconhecidos. O que observamos nos 
casos clínicos é a existencia de alterações 
motoras ligadas a processos histo-patolojicos 
dos centros nervosos. Estes processos são 
determinados pelo mesmo fator eíiolojico do 
cretinismo ? iVlas aqui não existe cretinismo 
em primeiro lugar; e depois, si nestes doen- 
tes temos verificado a infeção por um para- 
sito que se localiza nos centros nervosos, ai 
ocasionando processos inflamatorios muitas 
vezes observados, porque ir procurar além, na 
indecisão de hipóteses patojenicas, interpreta- 
ção da sintomatolojia? Não podemos com- 
preender, nesse caso, nem mesmo incerteza 
de opiniões. Sobre a idiotia poderemos apre- 
sentar argumentos similares. Os casos de 
profunda idiotia que temos estudado, repre- 
sentam, em sua grande maioria, consequên- 
cia de localizações do parasito nos centros 
nervosos e de alterações anatómicas por ele 
ai ocasionadas. Não encontrámos nestes do- 
entes, ás mais das vezes, sinais de cretinis- 
mo e nem a função glandular se mostra em 
apreciável deficiencia. Essa idiotia é pura- 
mente orgânica, bem distinta daquela que, 
acompanhando sinais profundos de hipo- 
tireoidismo, ou melhor, de atireoidia, mereceu 
de BOURNEVILLE a denominação de idiotia 
mixede matosa. 

Ha, em nossas observações, simultaneas 
com as alterações da intelijencia que carate- 
rizam a idiotia, outras para o lado da motili- 
dade, da sensibilidade, etc. Nossos idiotas 
são, ás mais das vezes, também diplejicos ; 
e essa coexistencia de fenómenos motores, 
sensitivos, mentaes; etc. , constitue outro ar- 
gumento em favor da natureza orgânica, de- 
vido a processos histo-patolojicos no sistema 
nervoso, da idiotia. Sem duvida em enfermos 
da tripanosomiase podemos encontrar graus 
diversos de deficiencia mental ligada á hipo- 
função da tireóide ; nestes, porém, outros 
sinaes existem denunciando o hipo-tireoidis- 
mo e as alterações da intelijencia nunca atin- 
jem a intensidade que apresenta, nesta moles- 



tia, ás mais das vezes, a idiotia orgânica. 
Além de que, nos simples débeis mentaes, 
ou retardados da intelijencia por hipo-tireoi- 
dismo, a ausencia de anomalias motoras cons- 
titue, em nossa observação, elemento precio- 
so de diagnose diferencial, tornando bem re- 
conhecível a natureza da deficiencia mental. 

O eminente professor KRAUSS, em re- 
cente publicação, emite opinião duvidosa 
sobre a existencia duma forma nervosa da 
tripanosomiase do barbeiro. Os fundamentos 
da indecisão daquele ilustrado pesquizador 
coincidem, em seus traços geraes, com aque- 
les apresentados nos trabalhos de JVIAC-CAR- 
RISSON: existencia de alterações nervosas 
no cretinismo, onde não só a intelijencia, 
também a motilidade, a sensibilidade, e outras 
funções ligadas ao mecanismo nervoso podem 
ser comprometidas. E' essa a verificação apro- 
ximada dos estudos de SHOLZ sobre o cre- 
tinismo e não podemos conlestestal-a. Exa- 
minemos agora nosso caso: localizando-se 
nas meninjes e nos centros nervosos o tripa- 
nosoma aí provoca, nas formas agudas da 
molestia, reações inflamatorias que se expres- 
sam clinicamente em sinaes de meninjite ou 
de meningo-encefalite aguda. As necropsias 
de taes doentes têm demonstrado, amplamen- 
te, os focos parasitarios na substancia nervo- 
sa e os processos histo-patolojicos por eles 
ai ocasionados. 

Nas formas crónicas idênticas verificações 
têm sido realizadas : nos centros nervosos, de 
casos clínicos em que predominavam síndro- 
mes nervosas, as necropsias mostram focos 
de parásitos e processos anatómicos deles 
resultantes, em completa harmonia com os 
sintomas revelados pela semiótica. Poderemos, 
mesmo assim, julgar pouco fundamentadas 
as relações de cau=a e efeito referidas como 
existentes entre o tripanosoma e as alterações 
nervosas que caíarerizam a forma clinica res- 
petiva? Apezar de nossas verificações respei- 
to ao parasito dos centros nervosos e aos 
processos inflamatorios por ele determinados, 
restará possível a duvida sobre a etio-patoje- 
nia das grandes síndromes nervosas que assi- 
nalamos na molestia ? Si assim fôr, não sa- 
bemos onde a evidencia e nem atinamos 



25 



com o criterio exato para interpretação dos 
fatos em patolojia. 

Cumpre ainda acentuar que nem ao 
menos constituem os pontos discutidos 
anomalias patojenicas, inaceitáveis pela au- 
sencia de fenómenos similares. Não; na 
sífilis vamos encontrar aspetos perfeitamente 
comparáveis, em grandes síndromes nervosas 
resultantes da ação do treponema nos centros 
nervosos. Outras molestias infetuosas, de evo- 
lução aguda, podem também provocar reações 
inflamatorias para o lado do sistema nervo- 
so central, dai resultando residuos anatómi- 
cos que se expressam em alterações da mo- 
tilidade, da sensibilidade, da intelijencia, etc. 
Podemos mesmo avaliar como maioria aque- 
les processos inflamatorios do sistema ner- 
voso, agudos ou crónicos, atribuíveis á ação 
patojenica dum micro-organismo, bacteria ou 
protozoário. E porque duvidar dessa proprie- 
dade patojenica, tantas vezes verificada, do 
Trypanosoma Cruzil Porque duvidar, quando 
justamente este protozoário apresenta a cara- 
teristica biolojica essencial de completar seu 
ciclo evolutivo na intimidade dos tecidos, 
onde provoca reações intensas ? 

É de toda conveniencia delimitar os 
fatos e bem determinar o conceito clinico e 
patojenico que possuímos sobre ás formas 
nervosas da trípanosomiase. Descrevendo na 
molestia alterações nervosas, de nenhum 
modo incidimos no erro, de considerar como 
tais, simples feições clinicas do cretinismo ; 
nem poderia acontecer assim, quando verifi- 
camos ausentes, de miiitas observações, os 
sinais daquela síndrome de hipo-tireoidís- 
mo. Reconhecemos como formas nervosas 
aqueles casos com perturbações evidentes 
da motilidade, da intelijencia, da linguajem, 
etc., expressivas dos processos patojenicos 
nos centros nervosos. E destes a etio-pato- 
jenia vem esclarecida em diversas necropsias 
que justificam amplamente nossas conclusões. 

Na sintomatolojia geral da trípanoso- 
miase figuram sinais que denunciam, á evi- 
dencia, processos patojenicos nas glândulas 
de secreção interna. Insuficiencias endocrini- 
cas acentuadas podem, deste modo, consti- 
tuir a feição predominante de casos crónicos 



da molestia, e nestes é possível, não raro, 
determinar o órgão mais especialmente atin- 
jido ; ás mais das vezes, porém, o aparelho 
endocrinico foi simultaneamente afetado em 
diversas de suas unidades funcionais, dai 
resultando síndromes mixtas, cuja interpre- 
tação exata oferece real dificuldade. Acrece 
ainda, tornando mais complexos os fenóme- 
nos patolojicos, a existencia de correlações 
funcionais entre os órgãos de secreção in- 
terna. Resulta, de tais correlações, que pro- 
cessos patojenicos limitados á determinada 
glândula, constituem orijem de alterações 
correlativas á distancia, em virtude dessa 
solidariedade de função entre os departamentos 
do aparelho endocrinico. Quando verificámos 
na sintomatolojia sinais patognomonicos de 
processos numa glândula única, bem deter- 
minada, ficamos desde logo esclarecidos 
sobre o substratum anatómico das anomalias 
predominantes; si, porém, encontramos no 
doente, como acontece ás mais das vezes, 
síndromes pluriglandulares, nesse caso per- 
manecemos indecisos quanto ao órgão inici- 
almente atinjido ou quanto àqueles em que 
evolvem atualmente processos patojenicos. 

Em glândulas de secreção interna temos 
verificado localizações do tripanosoma, sob 
aspetos que lhe são habituais, na intimidade 
dos tecidos ; e assim a razão anatómica de 
algumas síndromes glandulares têm sido 
demonstrada. Daquelas localizações uma de 
grande interesse é a que tem lugar nas 
capsulas snpra-renaís. Nestes órgãos, em 
formas agudas e crónicas da trípanosomiase, 
temos verificado a existencia do parasito e, 
o que mais significa, temos encontrado lesões 
histolojicas intensas. As alterações de maior 
monta, até agora observadas, têm constado 
de processos inflamatorios, agudos ou cró- 
nicos, conforme o estadio da molestia. Em 
doentes agudos verificámos focos de infiita- 
ção leucocitaria e outros de hemorrajia, mais 
frequentes na zona cortical; e em formas 
crónicas já tivemos oportunidade de verificar 
num caso de asistolia, focos hemorrajicos 
esparsos na zona cortical, esclerose difusa 
nesta rejião e também alguns focos aí de 
infiltração leucocitaria. Estas verificações serão 



26 



referidas, com melhores minucias, em estudo 
especial. 

Tanto no homem quanto nos animais de 
laboratorio, os parásitos são encontrados nas 
capsulas supra-rennis em aglomerações, ás 
vezes de grande numero de unidades, sob o 
aspeto de corpúsculos leishmaniformes. Só os 
temos observado na zona cortical ; e aliás a 
zona medular das capsulas tem sido encon- 
trada, no homem e nos animais, com redução 
de volume considerável. 

Nas formas agudas da molestia não 
distinguimos sinais, acaso existentes, que 
traduzam as lesões do parenquima supra- 
renal ; e talvez assim seja porque aqueles 
sinais ficam obscurecidos pelos elementos 
predominantes duma sintomatolojia mais ou 
menos tumultuosa. Ao em vez disso, em 
formas crónicas encontramos bem carateri- 
zada uma sindrome supra-renal, de modo a 
autorizar sejam reunidos numa forma clinica, 
a supra-renal, os casos em que sinais daquela 
sindrome melhor se evidenciam. E nesse 
ponto temos sancionado nosso criterio pela 
opinião valiosa do professor MIGUEL 
PEREIRA, de quem nos veiu, para esse 
aspeto da tripanosomiase, a interpretação 
clinica inicial, posteriormente confirmada 
pelas verificações histo-patolojicas e pelas 
pesquizas do parasito nos órgãos supra-renais. 
Como justa homenajem e grande reconheci- 
mento devemos aqui afirmar que não só de- 
vemos ao saber do professor MIGUEL 
PEREIRA a orientação de trabalhos clinicos; 
dele nos vieram também facilidades e com- 
pensações que avaliamos muito alto. 

A sindrome supra-renal se expressa aqui 
em sinaes de insuficiencia glandular; de 
hiper-função nada existe, que tenhamos veri- 
ficado, em doentes dessa natureza. 

Atribuíveis seguramente á lesões dos 
órgãos supra-renais consideramos a melano- 
dermia acentuada das mucosas e da pele, 
assim como uma coloração bronseada espe- 
cial de muitos doentes, expressiva de altera- 
ção do pigmento cutâneo. Em alguns casos 
tem sido possivel verificar essa astenia gene- 
ralizada e especialmente muscular, a sono- 
lência exajerada, o emagrecimento rápido. 



que podem também constituir, na molestia, 
expressão clinica de hipo-função das supra- 
renaes; devemos, porém, acentuar a dificul- 
dade, ás vezes encontrada, na interpretação 
dos últimos sinaes, que bem poderiam corres- 
ponder a processos patojenicos de outros 
aparelhos orgânicos. E essa dificuldade maior 
se apresenta quando sindicamos da astenia 
cardio-vascular, um dos elementos de maior 
relevo na sindrome de insuficiencia suprare- 
nal. Nos doentes, objeto de nossos estudos, 
formas crónicas com alterações que fazem 
admitir lesões das supra-renaes, a cardio-as- 
tenia é sempre observada; poderemos, porém, 
incluil-a entre os elementos da sindrome su- 
prarenal, quando sabemos ser ela constante 
em todas formas crónicas da tripanosomiase 
e quando a temos reconhecido como devida 
ás alterações que o parasito determina no 
musculo cardiaco? Acreditamos mais na con- 
currencia dos dois fatores, constituindo a in- 
suficiencia suprarenal uma condição agravan- 
te da astenia circulatoria determinada pela 
fraqueza do miocardio. 

Seja como fôr das dificuldades na inter- 
pretação de casos isolados, não podemos re- 
cusar a existencia duma feição clinica da mo- 
lestia em que predomina a sindrome supra- 
renal ; e assim é porque possuímos numero 
de observações que fundamentam e bem 
exemplificam a forma supra-renal da tripano- 
somiase. Deste aspeto da molestia será feito 
estudo minucioso pelo Dr. LEOCADIO 
CHAVES, que para o assunto voltou mais 
demorada atenção. 

Os órgãos genitais, do homem e da 
mulher, especialmente os testículos, ovarios, 
e utero, têm sido verificados como sede de 
localização do Trypanosoma Cnizi. Em formas 
agudas tivemos observação de orquite, que 
perdurou algum temqo, depois de desapareci- 
dos os outros elementos agudos e justamente 
nos testículos temos encontrado, em necrop- 
sias, parásitos ás vezes abundantes. Nem por 
isso temos podido caraterizar sinais mórbidos 
referiveis a alterações testiculares ; e mesmo 
a orquite, observada num caso agudo, cons- 
titue fato isolado, que não autoriza incluir 
sinais testiculares na sintomatolnjia, senão 



27 



consideral-os como de ocurrencia possivel. 

Essa IocaIi?ação do parasito nos testicu- 
los, verificada no homem e em animais de 
laboratorio, poderá ocasionar lesões condu- 
centes á esterilidade ? Era de admitir que 
assim fosse, que a esterilização no homem 
pudesse resultar de processos histo-patolo- 
jicos provocados pelo tripanosoma nos testí- 
culos; até agora, porém, nossas observações 
parecem contrariar essa indução, e, si acaso 
a função geradora pode ser prejudicada na 
molestia, sel-o-á raramente. Isso pode indi- 
car que as reações iuflamatorias dos testícu- 
los, ás mais das vezes, são bastante atenua- 
das ; quando, ao contrario, houver no órgão 
maior intensidade de lesões, resultantes de 
abundancia do protozoário, nesse caso a 
esterilização poderá constituir consequência 
da orquite, como soe acontecer em outras 
molestias infetuosas. 

Também a impotencia genital não figura 
com frequência na sintomatolojia, o que 
ainda demonstra a pouca intensidade ou a 
raridade de processos patojenicos uos testí- 
culos. 

Nos ovarios humanos só ume vez foi 
possivel verificar a presença do parasito ; e 
as reações inflamatorias, desse caso único, 
eram de pequena monta. Em animais de la- 
boratorio, os ovarios tem sido encontrados 
parasitados com maior frequência e também 
mais acentuados se mostram os processos 
inflamatorios. Quanto aos dados fornecidos 
pela clinica, estes indicam a existencia de 
alterações ovarianas, muito frequentes, senão 
constantes, nos doentes que apresentam 
outros sinais da íripanosomiase. Estudos 
demorados das alterações genitais na mulher 
foram realizados por especialista de autori- 
dade reconhecida, o dr. HERMENEGIL- 
DO VILLAÇA, a quem devemos noções 
interessantes sobre o assunto. Aquele gine- 
colojista, após haver excluido de suas obser- 
vações todas as causas de erro, afastando os 
casos clínicos em que outros fatores pode- 
riam figurar na patojenia das alterações veri- 
ficadas, conseguiu formular um conjunto de 
sinais que traduzem a síndrome ovariana 
dos doentes de tripanosomiase. 



Ao contrario do que se passa em outros 
órgãos de secreção interna, nos quais pre- 
dominam sinais de insuficiencia funcionai, 
aqui, ás mais das vezes, as anomalias obser- 
vadas traduzem hiper-função glandular. Entre 
os sinais mais salientes de hiper-ovarismo 
figuram a frequência da puberdade precoce, 
o exajero de catamenios e a grande prolifi- 
cidade nas mulheres infetadas. O inicio das 
menstruações aos 10 ou 12 anos é muitas 
vezes observado, constituindo ocurrencia, 
talvez mais frequente, nas donzelas com sinais 
da molestia ; e menstruações ainda mais 
precoces, aos 5 anos num caso e aos 6 anos 
em dois outros, tivemos ensejo de observar. 
Mais notável é a abundancia de catamenios, 
em donzelas e em mulheres após uma ou 
múltiplas concepções. As regras são em 
quantidade excessiva e muito prolongadas, 
perdurando não raro por 8 ou 15 dias; e 
também frequentemente é observada a ocur- 
rencia de 2 periodos menstruais no mez. Ao 
lado desse exajero existe a maior irregula- 
ridade nas menstruações relativamente á 
duração, etc.. Em casos nos quais essas 
anomalias eram mais notáveis, o dr. VILLAÇA 
poude excluir, com muito rigor, a interfe- 
rencia de processos inflamatorios dos órgãos 
genitais, capazes de as justificar. Sendo 
assim, na ausencia de lesões apreciáveis, se- 
riam aquelas alterações de natureza pura- 
mente funcional? 

Ainda expressivo de hiper- fundão dos 
ovarios é, talvez, o numero relativamente 
elevado de concepções. Sem duvida nos 
campos a fecundidade é sempre maior do 
que nos centros populosos, devido a fatores 
varios e discutíveis, entre eles figurando as 
condições de vida sadia; aqui, porém, existe 
uma inferioridade orgânica das mais acentua- 
das determinada pela infeção, E, apesar 
disso, temos observação extensa que nos 
demonstra a frequência de concepções múlti- 
plas nas infetadas, mesmo naquelas cujo 
estado de saúde é dos mais precarios. A 
polinatalidade é deste modo a regra nas 
familias das zonas infestadas; infelizmente, 
porém, ai existe um fator endémico que faz 
da poliletalidade famihar uma condição 



2S 



também frequente, mais frequente talvez do 
que a primeira e neutralizando o benefício 
social dela resultante. Essa fecundidade ele- 
vada das mulheres ligar-se-á á hiper-função 
ovariana, que tem, por outro lado, como 
expressão irrecusável as alterações menstruais 
referidas ? Não possuimos elementos para 
afirmação decisiva, pelo que apenas admiti- 
mos como possivel a relação entre os dois 
fatos. 

Das anomalias genitaes, em mulheres 
com outros sinaes da tripanosomiase, pode- 
remos constituir sindrome ovariana de hiper- 
função. Devemos, todavia, incluir esta sindro- 
me na expressão clinica da tripanosomiase, 
isto é, possuímos elementos que nos autori- 
zam encarar as perturbações ovarianas como 
determinadas pela ação patojenica do para- 
sito ? 

E' um ponto esse da patojenia que não 
se apresenta, a nosso conceito, com a mesma 
clareza de outros discutidos. Nos ovarios as 
pesquizas do parasito têm proporcionado ele- 
mentos de demonstração deficientes, o mesmo 
acontecendo quanto aos processos inflama- 
torios daqueles órgãos. Pelo que, não existem 
aqui, como acontece relativamente ás anoma- 
lias nervosas e cardiacas, ligação immediata 
verificável entre a perturbação funcional e as 
lesões do órgão respetivo. 

Mais aceitável nos parece interpretar os 
fenómenos ovarianos como devidos ás corre- 
lações existentes entre os ovarios e outras 
glândulas de secreção interna, especialmente 
a tireóide. Nos doentes em questão as alte- 
rações da tireóide foram sempre observadas: 
eram casos que apresentavam hipertrofia da 
glândula, com anomalias funcionaes mais ou 
menos intensas, quasi sempre traduzidas em 
hipo-tireoidismo; e muitos dos doentes estu- 
dados, talvez a maioria, mostravam bócios 
antigos, com dejenerações profundas do órgão. 
Conhecidas as relações de antagonismo fun- 
cional entre tireóide e ovarios, poderemos 
interpretar as alterações gemtaes de acordo 
com esta doutrina fisiolojica ? Resultariam 
simplesmente das perturbarções tireoidianas, 
como anomalia fisio-patolojica correlata, a 
sindrome ovariana discutida? Si assim for, 



ficará ao arbitrio das opiniões relativas á 
etiolojia do bocio endémico a interpretação 
dos fenómenos genitais dos doentes crónicos 
de tripanosomiase. Como, porém, sobre o 
assunto temos convição bem estabelecida, 
incluimos a sindrome ovariatia no quadro 
sintomático da molestia, deixando sua inter- 
preí?ção patojenica indecisa, até que estudos 
mais minuciosos possam esclarecel-a. 

No utero, como tem acontecido em 
outros órgãos de fibras musculares lisas, o 
parasito foi observado em 2 autopsias, de 
casos agudos ; nenhum sinal clinico, porém, 
conseguimos determinar como atribuível se- 
guramente a essa localização e nem possui- 
mos conhecimentos definitivos sobre os pro- 
cessos histo-patolojicos ocasionados no órgão 
pela ação do parasito. 

Á historia clinica da tripanosomiase 
Hgam-se estados mórbidos que representam 
consequências mais ou menos remotas dos 
processos patojenicos daquela molestia. 
Localizando-se o parasito em órgãos de 
função morfojenetica bem demonstrada, e 
ajindo sobre sistemas orgânicos importantes 
na fase do desenvolvimento, não surpreende 
que a tripanosomiase, no seu quadro clinico, 
apresente síndromes distroficos acentuados, 
de feição variave! com a natureza dos pro- 
cessos qve lhes constituem orijeni. 

Em unidades do aparelho endocrinico 
referimos a ocurrencia de processos histo- 
patolojicos, ora diretamente ligados á pre- 
sença do parasito, ora á ação de suas toxinas. 
Além das síndromes glandulares immediatas, 
dali resultantes e já referidas, outras existem 
tardias que traduzem, de algum modo, resí- 
duos anatómicos ou funcionais dos processos 
admitidos. É sob aspeto de grandes distrofias 
que se apresentam, ás mais das vezes, tais 
síndromes ; e é assim devido á influencia 
predominante do sistema endocrinico sobre 
o equilibrio trófico e sobre o desenvolvi- 
mento orgánico. 

Como distrofias glandulares, ligadas á 
tripanosomiase, consideramos o infantilismo, 
o hipo-tireoidismo infantil adquirido e outros 
estados, nem sempre facilmente classificáveis, 
que se traduzem numa inferioridade fisica e 



29 



numa deficiencia mental apreciáveis. O infan- 
tilismo é, desse grupo, a condição melhor 
caraterizada. De grande frequência nas zonas 
infestadas, este infantilismo endémico apre- 
senta feições clinicas variáveis e graus também 
diversos, sendo observado, ás mais das vezes, 
em individuos que revelam ontros sinaes da 
tripanosomiase. 

Como ciassifical-o, no ponto de vista 
etio-patojenico ? Será uma distrofia puramen- 
te tireoidiana ou será pluriglandular? E en- 
contramos, na analize dos processos patoje- 
nicos, elementos que autorizem incluir o in- 
fantilismo entre as síndromes tardias da mo- 
lestia ? 

O aspeto evolutivo da infeção e as loca- 
lizações principaes do protozoário fundamen- 
tam, desde logo, a ocurrencia de condições 
distroficas, entre elas a do infantilismo. Ini- 
ciada, ás mais das vezes, nos primeiros tempos 
de vida extra-uterina, a iníeção afeta os sis- 
temas na fase de sua organização e, perma- 
nente através todo o desenvolvimento, não 
poderá deixar de ocasionar alterações morfo- 
lojicas de importancia ; tanto mais quanto dos 
órgãos principalmente atinjidos alguns exer- 
cem função preponderante nos processos 
geraes de niorfojenia: vimos alterações da 
glândula tireóide, das capsulas suprarenaes 
e verificámos também localizações do proto- 
zoário nos órgãos genitaes. 

De taes processos não devem resultar, 
dada sua longa permanencia, perturbações 
intensas do desenvolvimento ? Na etiopatoje- 
nia do infantilismo figuram processos infe- 
tuosos nem sempre de ação patojenica tão 
intensa quanto o é a da tripanosomiase. A 
sifilis, adquirida ou hereditaria, é uma causa 
irrecusável daquela síndrome ; e, pela melhor 
doutrina, no infantilismo luético hereditario 
constituem razão predominante as alterações 
do aparelho endocrinico. Do mesmo modo o 
impaludismo, adquirido nos primeiros tempos 
de existencia e perdurando por largos anos, 
conduz a um estado de infantilismo cuja mor- 
folojia é de todo ponto comparável á do in- 
fantilismo hipo-tireoidiano. E também a tu- 
berculose infantil, quanto outras infeções de 
marcha crónica, atuando na fase do desen- 



volvimento, podem figurar na etioiojia daque- 
la síndrome. Si assim é, sobram razões para 
admitir o infantilismo como ocurrencia fre- 
quente na tripanosomiase, cujos processos 
patojenicos mostram intensidade pelo menos 
igual, senão maior, á das infeções referidas. 

Além de que, a tripanosomiase, em sua 
fase crónica, quando o parasito definitivamen- 
te se localiza nos tecidos, atua sobre o me- 
tabolismo orgânico de modo permanente, 
sem reações tumultuosas, por tempo indefi- 
nido ; e aliados estes aspetos patojenicos ás 
localizações do protozoário nas glândulas de 
secreção interna, nos centros nervosos, consi- 
derando ainda o inicio da molestia, ás mais 
das vezes, nos primeiros mezes de vida, não 
pode surpreender, senão constituir fato de 
lojica irrecusável, que alterações distroficas 
figurem entre as consequências da tripano- 
zomiase. Nem argumentamos por hipóteses : 
a observação clinica vem confirmar nosso 
ponto de vista, quando demonstra o carater 
endémico do infantilismo nas zonas de bar- 
beiros, e quando verifica, simultaneamente 
com a síndrome morfolojica, outros sinaes 
da tripanosomiase. 

iVlais ainda: entre nossos doentes alguns 
existem que foram acompanhados desde a 
fase aguda da molestia, ocorrida nos primei- 
ros mezes da vida, durante alguns anos ; pois 
bem, nestes, ao lado da evolução de outros 
sintomas, foi possível verificar alterações mor- 
folojicas que deles fizeram individuos retarda- 
dos, no desenvolvimento fisico e mental. A 
síndrome completa dependerá da maior in- 
tensidade do ataque infetuoso ? Ou traduzem 
os casos de infantilismo total a ação do pa- 
rasito na vida intra-uterina? Esse ¡jonto ul- 
timo se relaciona com a herança da moles- 
tia, problema ainda em estudo e, até agora, 
sem solução decisiva. Temos, é certo, ele- 
mentos que nos levam a admitir a transmi- 
são hei editaria da tripanosomiase, o que 
aliás bem se acorda com a presença do pro- 
tozoário nos órgãos geradores; da experi- 
mentação, porém, não tivemos ainda a neces- 
sária prova definitiva. E dada a probabilida- 
de da infeção intra-uterina, do embrião ou 
do feto, seria muito de aceitar, para os casos 



30 



mais acentuados de infantilismo, essa genesis 
hereditaria. 

Levada em conta A frequência e a inten- 
sidade das alterações tireoidianas, poder-se» 
ia querer ligar esse infantilismo exclusiva- 
mente á deficiencia daquela glândula; cumpre 
porém, salientar que outros órgãos de papel 
verificado na evolução morfolojica, entre eles 
principalmente os testiculos, os ovarios, as 
capsulas supra-reuais, apresentam-se atinjidos, 
ás vezes profundamente. E sendo assim, 
não podemos compreender a síndrome senão 
como resultante da ação converjente de 
diversos processos, todos capazes de pertur- 
bar evolução normal do organismo. Será, 
pois, um infantilismo pluriglandular e, aliás, 
esta interpretação se nos apresenta como a 
única perfeitamente harmonica com os fatos 
clínicos, nos quais verificámos tipos morfolo- 
jicos, que se furtam á classificação de infan- 
tilismo tireoidiano puro. Pelo que, o infan- 
tilismo deverá figurar entre as consequências 
da tripanosomiase, como resultante de lesões 
do aparelho endocrinico, mesmo para aqueles 
que das alterações tireoidianas quizerem 
fazer um capitulo independente da molestia. 
Condição distrofica representa também o 
hipo-tireoidismo infantil adquirido, de grande 
frequência nas rejiões assoladas pela moles- 
tia. Neste grupo figuram crianças com sinais 
evidentes de deficiencia funcional da tireóide. 
Apresentam tais doentes, ás mais das vezes, 
infiltração mixedematosa diminuta, generali- 
zada ou linntada a dadas rejiões, especial- 
mente á face. Neles o desenvolvimento fisico 
é retardado, em desproporção com a idade» 
a intelijencia rudimentar, havendo em alguns 
absoluta parada da evolução mental; e, por 
outro lado, não raro encontrámos, limitadas 
a determinados sistemas, anomalias morfolo- 
jicas que bem atestam processos distroficos. 
Esses retartados (arriérés) experimentam 
muitas vezes, com o tempo, melhoras apre- 
ciáveis; nunca, porém, atinjem condição 
orgânica normal, sempre permanecendo, 
quando nada, num estado de inferioridade 
fisica e mental durante toda a existencia. 
Embora comparáveis, sob certos aspetos, aos 
cretinos, a classificação de cretinos seria ina^ 



plicavel aos doentes desta natureza, que nâo 
apresentam os carateres essenciais daquela 
síndrome. Ficam, considerado o grau de 
hipo*tireoidismo, muito aquém dos cretinos 
típicos, o que justamente constitue, pela ge- 
neralidade do fato, a melhor carateristica 
dessa condição na molestia- 
Sobre a etiolojia do bocio endémico nas 
rejiões do Brazil assoladas pela tripanoso- 
miase, pairam ainda indecisões no conceito 
de alguns pesquizadores. Constitue a hiper- 
trofia endémica da glândula tireóide, nas 
zonas infestadas pela triatoma, uma conse- 
quência da infeção ? Ou representa o bocio 
endémico simples condição simultanea, atri- 
buível a outro fator etio-patojeníco? É essa 
a questão discutível e que absolutamente 
independe da concepção adquirida e formu- 
lada sobre a fisionomia clinica geral da tripa- 
nosomiase. Insistimos nesse ponto: a etio- 
lojia do bocio endémico, nas zonas de bar- 
beiro, poderá ser discutida e nossa opinião 
recusada, de acordo com a orientação de 
doutrinas; a expressão clinica da tripanoso- 
miase, porém, o conceito que temos emitido 
sobre suas diversas modalidades sintomáticas, 
isso não oferece marjem a duvidas, porque 
vem fundamentado nos melhores elementos 
de experimentação, de observação clinica e 
de verificação anatómica. 

Vamos referir os principais argumentos 
que nos levam a constituir do bocio endé- 
mico, nas rejiões onde grassa a tripanosomia- 
se, uma consequência da infeção: 

No ponto de vista patojenico o argu- 
mento dominante, que, a nosso ver, tem quasi 
o valor duma demonstração experimental, 
é oferecido pelo niixedema dos casos agudos 
da molestia. Este mixedema, caraterizado 
não só pela infiltração mucóide do teddo 
sub-cutaneo, mas ainda pela queda de pelos, 
descamação epidérmica, etc, é demonstrativo 
do ataque do protozoário á glândula tireói- 
de. Nem constitue ele, nas formas agudas, 
uma síndrome de exceção ; é, ao contrario, 
um fenómeno constante, talvez muito atenu- 
ado em alguns casos, porém sempre verifi- 
cável, o que lhe dá valor máximo no ponto 
de visia da interpretação patojenica qMç 



31 



procuramos justificar. O mixedema é equi- 
valente patolojico de lesão anatómica ou de 
alteração funcional da tireóide ; além de que, 
aquela lesão tem sido demonstrada em au- 
topsias, assim como a localização do parasito 
que a pode determinar. Não podemos com- 
preender razoavelmente os fenómenos fisio- 
patolojicos dos casos agudos, senão admitin- 
do ação especifica da infeção sobre a glân- 
dula tireóide. E si assim é, si em sua fase 
aguda a infeção atinje, de modo mais ou 
menos intenso, o parenquima glandular, não 
nos devem surpreender as alterações conse- 
cutivas, que se traduzem em esclerose e 
processos dejenerativos diversos, observados 
nos bócios crónicos. Cumpre ainda salientar 
que a tripanosomiase constitue uma infe- 
ção crónica de longa duração, atuando de 
modo permanente sobre o organismo, pro- 
vocando dos sistemas orgânicos afetados 
processos reacíonais e dejenerativos diver- 
sos, conforme a natureza do tecido atinjido. 
Nem diferem essencialmente das da tireó- 
ide as reação que se passam em outros 
órgãos; no fígado, na fase aguda da infeção, 
verifica-se esteatose intensa. Quando a mo- 
lestia se cronifica e vamos, anos depois, 
conhecer as condições anatómicas daquele 
órgão, ai verificamos escleroses intersticiais 
que traduzem justamente reações demoradas 
contra uma causa irritante permanente. O 
mesmo raciocinio é aplicável ás miocardites 
crónicas, resultantes de fenómenos agudos 
para o lado do miocardio, ocorridos na 
primeira fase da infeção e duma ação per- 
manente do protozoário sobre o musculo 
cardiaco. Também comparáveis ás referidas 
são os processos histopatolojicos do sistema 
nervoso. 

Poder-se-ia alegar que o mixedema dos 
casos agudos apenas significa uma condição 
de mioprajia tireoidiana hereditaria. Já res- 
pondemos a esta objeção, que atráz nos pro- 
puzemos. Depois, si exclusivamente á infe- 
ção pelo tripanozoma coubesse aquele papel, 
de revelar a mioprajia preexistente da glân- 
dula, então seriamos levados, por isso mesmo, 
a reconhecer uma ação especifica do parasi- 
to sobre a tireóide. Argumento patojenico 



também de incontestável valor é o fornecido 
pela presença simultanea de sinaes tireoidia- 
nos na grande maioria dos doentes de tri- 
panosomiase, não importa a forma clinica 
sob que se apresentam. 

Ao lado de síndromes nervosas e cardia- 
cas, podemos sempre verificar sinaes, muito 
atenuados ás vezes, outras bem evidentes, 
que denunciam alterações da glândula tireói- 
de. A hipertrofia do órgão é observada na 
quasi totalidade dos doentes; não raro, porém, 
o aumento de volume é diminuto, tornándo- 
se necessário pesquizal-o pela apalpação ou 
determinando ao doente movimentos de de- 
glutinação. 

E nos casos em que hipertrofia aparen- 
te não existe, seriam ainda de suspeitar alte- 
rações leves do parenquima, sem exibição 
anatómica suficiente. Isso não importa em 
afirmar que a hipertrofia ou que lesões da 
tireóide constituam elemento constante na 
molestia; apenas referimos, diante de nume- 
rosos fatos de observação, a grande frequên- 
cia da afeção do órgão, não excluindo a possi- 
bilidade de casos clínicos em que a tireói- 
de tenha escapado a processos patojenicos. 
E aliás, em doentes adultos, numa relação 
porcentual mínima, temos verificado ausencia 
de hipertrofia da tireóide, apesar de eviden- 
ciar-se a infeção por outros sinaes. 

Nas condições epídemiolojicas e geográ- 
ficas do bocio e da tripanosomiase encontramos 
outros fundamentos para nossa convicção: Nas 
rejiões em que temos estudado a tripanoso- 
miase, o bocio é sempre verificado, com a 
constancia referida, nos indivíduos que habi- 
tam domicilios infestados pelo inseto trans- 
missor. 

Esta regra, em nossas pesquizas, não 
sofreu até agora uma única exceção. Mais 
significativo é o fato de não apresentarem 
hipertrofia da glândula tireóide, em zonas 
onde o bocio e a tripanosomiase grassam 
intensamente, aquelas pessoas que residem 
em casas bem tratadas, livres da infestação 
pela triatoma. Em Lassance, sede de nossos 
estudos, temos desse ponto exemplos de 
sobra: crianças e adultos da rejião, habitan- 
do cafúas onde abundam os barbeiros, todos 



32 



mostram a glándula hipertrofiada. E mesmo 
em recem-chegados, vindos de zonas indenes, 
foi-nos possível verificar aumento de volume 
da tireóide, quando habitavam domicilios in- 
vadidos pelo inseto. Ao contrario, grande 
numero de crianças que permaneceram em 
Lassance, 4,5 ou mais anos, sempre residindo 
em casas confortáveis, nas quaes não era en- 
conlrado o barbeiro, nunca mostraram a tire- 
óide lesada; e o mesmo em relação a pes- 
soas adultas, vindas de zonas livres da mo- 
lestia. 

Entretanto, a agua de serventia era uma 
única, a dum pequeno rio em cujo vale exis- 
te grande numero de habitações rejionaes, todas 
infestadas e onde o bocio é constante. As 
condições geraes de vida, e especialmente 
de alimentação, eram idênticas, nenhum outro 
fator existindo, senão o barbeiro, para expli- 
car a ocurrencia do bocio em determinados 
domicilios, com sua exclusão de outros. Nem 
se poderá alegar ser necessária longa perma- 
nencia na zona, para que a hipertrofia glan- 
dular tenha lugar; não se poderá alegar isso 
porque as crianças de um e dois anos, 
dos domicilios com barbeiros, já mostram 
aumento apreciável da tireóide e aquelas que 
escapam ao bocio, devido a condições favo- 
ráveis de habitabilidade, permaneceram na 
rejião até 4 ou mais anos. Não poderemos, 
tão pouco, admitir a herança como fator ex- 
clusivo do bocio endémico : em individuos 
recem-chegados, vindos de rejiões não boci- 
jenicas, e até mesmo em europeus, verifica- 
se, quando possível a infeção pela triatoma, 
o aparecimento do bocio ; e o mesmo obser- 
vamos em crianças, cujos projenitores não 
apresentam bocio. 

De alta valia são os fatos que concer- 
nem a distribuição da molestia nos campos 
e nas cidades. Em zonas infestadas, de alto 
indice endémico, temos realizado observações 
que demonstram ser o bocio relativamente 
raro nos centros populosos, onde as casas, 
melhor construidas, não oferecem abrigo ao 
inseto ; e também rara é ai a molestia, tradu- 
zida em outros sinais. Ao contratio nos 
campos, onde os domicilios humanos consti- 
tuem ninhos abundantes de barbeiros, o 



bocio é frequentíssimo, tanto quanto as ex- 
pressões cimicas da tripanosoniiase. Como 
dos melhores exemplos desse fato temos, 
em Minas Qeraes, entre outras, as cidades 
de Curvello, Diamantina, Sete Lagoas e 
Pirapora, situadas em zonas assoladas pela 
Triatoma megista. Estas cidades seriam gran- 
des focos da molestia, si nelas as residencias 
humanas pudessem ser invadidas pelo hema- 
tófago; isso, porém, não acontece e, no pe- 
rímetro urbano, só nos domicilios de cons- 
trução primitiva vamos encontrar o inseto. 
Nas populações rurais, ao contrario, mesmo 
nas cafuas mais próximas das cidades, o bar- 
beiro existe em abundancia. O mesmo se 
verifica, nos lugares citados, relativamente 
ao bocio e aos outros sinais da tripanoso- 
miase, abundantes entre os habitantes das 
cafuas, na população rural sobretudo, e de 
pequena frequência nas populações urbanas. 
Porque assim é? Nas cidades e nos campos 
a organização geolojica é a mesma e idên- 
tica a constituição química da agua. Também 
a natureza da alimentação, os hábitos gerais 
de existencia não apresentam variantes entre 
as populações pobres dos campos e a das 
cidades. O que ai existe, como fator apreci- 
ável, é a presença do inseto em abundancia 
nas habitações rurais, ao passo que das 
vilas e das cidades, de casas menos primi- 
tivas, vai ele desaparecendo. E quando obser- 
vamos o que se passa em pequenas povoa- 
ções do interior, nas quais muitas vezes a 
totalidade dos domicilios é constituída de 
cafuas, verificamos aspeto epidemiolojico 
idêntico ao dos campos: são ai infestadas 
todas as habitações pelo barbeiro e apresen- 
tam os habitantes sinais da tripanosomiase 
com a presença simultanea de hipertrofia 
tireoidiana. 

Nos dados, até agora adquiridos, sobre 
a distribuição geográfica do barbeiro e do 
bocio endémico vamos encontrar novos ele- 
mentos falando em favor das relações de 
causa e efeito que discutimos. O bocio en- 
démico não constitue, no Brazil, uma ano- 
malia subordinada a aspetos topográficos es- 
peciais, nem a condições necessárias de alti- 
y tude. É ele verificado em rejiões montanho- 



33 



sas quanto nos vales de grandes e pequenos 
rios, sendo ainda encontrado em pequenas 
altitudes, até mesmo proximo das costas do 
mar. Mais frequente, como intensa endemia, 
nas zonas do interior do Paiz, ai é o bocio 
observado mesmo em lugares baixos, inde- 
pendente da constituição do sólo, da natu- 
reza das aguas e de qualquer outro fator 
cuja influencia possa ser determinada. O que 
ha de mais saliente, nesse ponto, é a difusão 
extrema do bocio, cuja endemia não apre- 
senta focos limitados, mas é observada em 
vastas extensões territoriais, mais ou menos 
intensa nas diversas rejiões. Com a distribui- 
ção da tripanosomiase, e mais especialmente, 
da Triatoma megista, fatos idênticos se veri- 
ficam. O hematófago é encontrado, mais 
abundante, em rejiões do interior do Paiz, 
dominando sobretudo nas populações, rurais; 
e nenhuma dependencia existe também aqui 
entre condições de altitude, de topografia e a 
endemia da molestia. 

Esta, quanto ao bocio, nunca é verificada 
em determinados focos, limitados a pequenas 
rejiões ; difunde-se, ao contrario, nas zonas 
infestadas, por toda a parte, e atinje, ás 
mais das vezes, vastas extensões geográficas. 
Nas rejiões do interior onde tem('S verifica- 
do a existencia do bocic endémico, nunca 
deixamos de encontrar o hematófago, trans- 
missor da tripanosomiase e de constatar, 
nos habitantes, sinais da infeção. Isso lem 
acontecido especialmente no Estado de Minas 
Geraes, onde mais demoradas têm sido 
nossas observações desse assunto. For outro 
lado, nos dados até agora fornecidos pelas 
excursões cientificas do Instituto Oswaldo 
Cruz e por informações mais ou menos 
dignas de fé, em todas as rejiões observa-se 
a existencia simultanea da endemia de bocio 
e da triatoma transmissora da tripanosomiase. 
Dizem assim as observações do dr ASTRO- 
GÍLDO MACHADO nos Estados de Goyaz, 
e Matto-Grosso, as dos drs. ARTHUR 
NEIVA e BELISARIO PENNA na Bahia, 
Piauhy e Goyaz, as dos drs. ADOLPHO 
LUTZ e ASTROGILDO MACHADO nos 
Estados de Minas e Bahia. Estes últimos 
pesquizadores, no bem elaborado relatório 



sobre a excursão realizada, ao lado de outras 
importantes noções sobre a epidemiolojia, 
das zonas percorridas, rejistram a diminuição 
da tripanosomiase e da Triatoma megista, á 
medida que se caminha para as fronteiras 
de Minas Geraes, com o Estado da Bahia ; e 
rejistram também, com toda nitidez, a dimi- 
nuição do bocio quando se dece o rio S. 
Francisco, isto é, nas mesmas rejiões em 
que verificaram fato idêntico para a Triatoma 
megista. Numa certa zona, segundo aqueles 
observadores, o bocio desaparece pratica- 
mente, nas pessoas que não sairam do lugar. 
Fica bem claro o perfeito acordo ai existente 
entre a distribuição geográfica do bocio e a 
da triatoma, especialmente da Triatoma me- 
gista, que aqueles experimentadores reputam, 
com toda razão, o principal transmissor da 
molestia. 

E' questão ainda indecisa, que depende 
de novas observações, saber si o bocio, ob- 
servado em diversas rejiões do Brazil, depen- 
de sempre do mesmo fator etio-patojenico e 
determina idênticas alterações fisio-patoloji- 
cas. Desse assunto, até agora, não temos 
cuiaado com a necessária extensão; e, por 
isso mesmo, julgamos possível a diversidade 
etiolojica do bocio em diversas zonas do Paiz. 

Aliás não se relaciona essencialmente 
esse problema com nossos trabalhos: procu- 
ramos concluir de observações diretas, de 
argumentos patojenicos e epidemiolojicos que 
se referem ao bocio endémico em determi- 
nadas rejiões onde grassa a tripanosomiase. 
Si outro fator etio-patojenico figura nas en- 
demias de bocio, em rejiões diversas das que 
conhecemos, é um ponto a esclarecer, sobre 
o qual não podemos emitir juizo pela ausen- 
cia de observações necessárias. Podemos, 
por outro lado, identificar ao da Europa o 
bocio de algumas zonas do Brazil, especial- 
mente o observado nas rejiões mais próxi- 
mas das costas marítimas? E também possí- 
vel que sim. Quanto ao bocio endémico que 
reputamos consequência da infeção pelo tri- 
panosoma, entre este e o bocio europeu não 
ha negar diferenças apreciáveis, sobretudo 
no ponto de vista das consequências fisio-pa- 
tolojicas. 



34 



Sem duvida, aspetos similares aí existem, 
maxime nas condições anatómicas e histo-pa- 
tolojicas, o que bem se compreende, porquan- 
to um mesmo orgào não poderá reajir por 
processos essencialmente distintos á diversas 
causas irritantes. A hepatite, a miocardite, a 
encefalite, representam reações inflamatórias, 
cujo processo histo-patolojico geral não pode 
variar em sua essência, senão apresentar mo- 
dalidades comparáveis, com o fator etioloji- 
co. O mesmo deveremos admitir para a tireoi- 
dite e para as dejenerações dela resultantes. 

Nos aspetos fisio-patolojicos do bocio 
europeu encontrámos carateristicas que faltam 
ao bocio endémico, ligado á tripanosomiase. 
Assim, aqueles estados de atireoidia conjeni- 
ta, que se expressam na idiotia mixedemato- 
sa de BOURNEVILLE, condição mórbida em 
que se verifica ausencia de toda vida de re- 
lação, em que a intelijencia permanece ini- 
cial, sem qualquer evolução, em que a infil- 
tração mucóide do tecido subcutâneo atinje 
grau máximo; esse estado, que expressa in- 
suficiencia profunda, ou melhor, ausencia de 
função da glândula tireóide, é observado com 
frequência relativa nas rejiões bocijenicas da 
Europa, ao passo que entre nós, apesar das 
endemias de bocio serem de excecional in- 
tensidade, nunca o verificamos assim tão 
acentuado. Possuímos observações de hipo- 
tireoidismo, ás veses em grau bastante in- 
tenso; nunca chegam, porém, nossos doentes 
á deficiencia tireoidiana que transforma o in- 
dividuo num organismo apenas vejetativo, 
que o leva ao estado comparável á hiberna- 
ção. E entretanto, a endemia do bocio, nas 
rejiões estudadas, é também secular, perpe- 
tuando-se em gerações sucessivas, o que de- 
veria determinar, caso houvesse identidade do 
fator etiolojico, condições de insuficiencia 
glandular profunda comparáveis ás que se 
observam no bocio europeu. 

A idiotia, conforme referimos, é muito 
frequente nas rejiões infestadas pela moles- 
tia; tal idiotia, porém, é de natureza orgânica, 
determinada pelas localizações do tripanosoma 
no sistema nervoso central. Os idiotas desta 
categoria são ao mesmo tempo, ás mais das 
vezes, diplejicos, ou apresentam monoplejias 



denunciando a afecção dos centros motores. 
Nenhuma relação existe, entre essa idiotia e 
aquela determinada pela deficiencia funcional 
profunda da tireóide, a idiotia mixedematora, 
cuja patojenia é perfeitamente distinta da que 
atua na idiotia orgânica, Pelo que, quando 
afirmamos, baseados em grande numero de 
observações clinicas, a grande frequência da 
idiotia orgânica e a raridade da idiotia mixe- 
dematosa, falamos de síndromes distintas e 
não incidimos em contradição. Poder-se-á, 
sem duvida, verificar sinais de hipo-tireoidis- 
mo nos doentes afetados de idiotia orgânica ; 
a insuficiencia glandular, porém, mostra-se 
demasiado atenuada para explicar a profunda 
alteração da intelijencia; e além disso, na au- 
sencia de sinais expressando ataque ao sis- 
tema nervoso central, os hipo-tireoidianos 
apenas revelam pequenos graus de deficien- 
cia mental, que não poderiam merecer a clas- 
sificação de idiotia. 

O cretinismo que constitue, ás mais das 
vezes, no conceito dos melhores observadores, 
um hipo-tireoidismo hereditario, ou pode tra- 
duzir um estado de insuficiencia tireoidiana 
adquirida, não se apresenta entre nós, nas 
zonas de bocio endémico e de tripanoso- 
miase, com as carateristicas acentuadas com 
que os descrevem os pesquizadores europeus; 
e nem o verificámos com a frequência habi- 
tual nas rejiões bocijenicas da Europa. Tipos 
verdadeiros de cretinismo apareceram muito 
raramente em nossas observações, a menos 
que pudéssemos dar aquela classificação a 
simples retardados da intelijencia e do de- 
senvolvimento fisico, a estados cretinoides 
atribuíveis não só á hipo-função tireoidiana, 
mas á ação converjente de diveisos fatores. 

Poderíamos encontrar ainda, no estudo 
das alterações fisio-patolojicas ocasionadas 
pelo bocio endémico das rejiões de barbeiros, 
outros elementos que o diferenciam do bocio 
europeu e que, desse modo, denunciam di- 
versidade de fatores etio-patojenicos ; desse 
assunto, porém, maiores minudencias vêem 
referidas em publicações dum outro colabo- 
rador destes trabalhos. 

Aqui, finalizando este capitulo, queremos 
insistir na concepção clinica adquirida sobre 



35 



a tripanosomîase e especialmente nas relações 
que admitimos entre o bocio endémico e a 
infeção pelo tripanosoma: 

A tripanosomiase é uma molestia autó- 
noma, de evolução ora aguda ora crónica, 
caraterizada por sintomatolojia bem determi- 
nada e bem fundamentada em lesões histo- 
patolojicas. 

As lesões da tireóide são denunciadas, 
de modo quasi constante, nas formas agudas 
da molestia pelo mixedema; e nas formas 
crónicas a hipertrofia daquela glândula cons- 
titue fato de observação também muito fre- 
quente. O bocio endémico, nas zonas infes- 
tadas pela tripanomiase, é '.-ondição simulta- 
nea ou um elemento da infeção, segundo 
nosso conceito? Seja como fôr, a concepção 
clinica da molestia não depende desse ponto, 
que será, quando muito, um problema dis- 
cutível, anexo á historia clinica da tripanoso- 



miase. A nosso ver, o bocio endémico tem 
esclarecida sua etio-patojenia, conforme aí 
deixámos argumentado. 

Em publicações que se seguem vamos 
estudar, de modo mais minucioso, as formas 
clinicas da tripanosomiase, aproveitando o 
material de demonstração adquirido em zona 
de elevado índice endémico. 

Aqui, ao concluir este capitulo introdu- 
tivo, devemos salientar a orientação, nestes 
trabalhos, de nosso mestre dr. OSWALDO 
CRUZ, de quem nos vieram todos os ensi- 
namentos e a quem coube organizar e guiar 
os serviços de pesquizas clinicas e experi- 
mentais, instilados em Lassance. 

Obtivemos recursos materiais para a 
realização de nossos estudos, graças princi- 
palmente á ação patriótica de nosso eminente 
patrício, o Snr. deputado GAMILLO PRATES, 
a quem deixamos afirmado nosso reconheci- 
mento e a quem rendemos justa homenajem. 



36 



Explicação das estampas 4 e 5. 
Estampa 4. 

Fig. 1- Corte de musculo cardiaco de 
um caso crónico de tripanosomiase, cujo 
óbito teve logar numa crize de asistoHa. 
Grandes aglomerações de corpúsculos leish- 
maniformes, no interior de fibras cardíacas. 

Fig. 2 -Corte de cerebro de um caso 
agudo, com manifestações meningo-encefa- 
licas. Mostra uma aglomeração de parásitos e 
um foco de infiltração. 

Fig. 3 -Corte de cerebro de uma caso 
falecido com meningo-encefalite aguda. 
Mostra uma célula da nevroglia em cujo 
plasma são vistos diversos parazitos. 



Fig. 4 -Corte de cerebro de um caso 
agudo com fenómenos nervosos. Foco de 
infiltração, em torno de uma célula da nevro- 
glia parasitada. 

Estampa 5. 

Fig. 1 - Corte de coração de um caso 
agudo da tripanosomiase. Mostra fenómenos 
intensos de miocardite. 

Fig. 2— Corte da glândula tireóide de 
um caso agudo de tripanosomiase. Parásitos 
no epitelio vesicular. Uma das células da 
vesícula da glândula tireóide foi destruida 
pelos parásitos que se multiplicaram no seu 
interior, escapando-se posteriormente. 



IVota. 



Estampa 5. 

Fig. 3. "Corte da glándula tireóide (outro 
ponto do mesmo órgão representado na Fig. 
2, Est. 5) de um caso agudo de tripanoso- 
miase. 



Nodulos constituidos por células de 
núcleo rico de cromatina e densamente agru- 
padas. Em torno de alguns, o septo conjun- 
tivo mostra-se espessado. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO VIH 1916 



ESTAMPA 4 



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MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO VIII -1916 



ESTAMPA 5 









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Trîpanosomîase americana 

FORMA AGUDA DA MOLESTIA 

pelo 
DFÎ. CAI-LOS OHAGAS 

(Chefe de Serviço) 
(Com as estampas 6, 7, 8, 9 e 10). 



Possuímos, para fundamentar a sintoma- 
tolojia das infeções agudas pelo Trypanoso- 
ma Cnizi, observações clinicas onde encon- 
trámos, além dos sinais constantes carateris- 
ticos desta fase inicial da molestia, outros de 
exceção, verificados em raros doentes. De 
algumas autopsias resultaram, por outro 
lado, noções exatas relativas aos processos 
anatomo-patolojicos essenciaes das formas 
agudas e ás localizações parasitarias nos sis- 
temas orgánicos, o que faculta reconhecer, 
com segurança, o mecanismo patojenico dos 
sintomas e estabelecer relações imediatas 
entre a alteração funcional e seu substratum 
anatómico. 

A grande maioria de infeções agudas 
tem sido verificada em crianças, ás mais das 
vezes no primeiro ano de existencia. Alguns 
doentes encontrámos com idade maior, até 
8 anos, e, possuímos, finalmente, uma obser- 
vação única da forma aguda em adulto- 
Falámos, anteriormente, das razões que 



justificam esse aspeto epidemiolojico da tri- 
panosomiase, cuja infeção inicial tem lugar, 
quasi sempre, nos primeiros tempos de vida 
extra-uterina. Nos domicilios infestados pela 
Triatoma megista as crianças, desde o nacer, 
ficam sujeitas á molestia e dela dificilmente 
podem escapar, dada a abundancia de hema- 
tófagos transmissores e o alto coeficiente de 
infeção nelas verificado. Adquirida assim, a 
tripanosomiase, quasi sempre nos primeiros 
mezes de vida, permanece o organismo sob 
a ação parasitaria durante longos anos; 
agora, porém, atravessada a fase inicial, o 
protozoário torna-se um histo-parasito quasi 
exclusivo, não sendo mais verificável, senão 
excecionalmente, no sangue circulante. Os 
adultos, deste modo, nas zonas onde a mo- 
lestia é endémica, constituem infeções cróni- 
cas vindas das primeiras idades e neles, por 
isso mesmo, não podemos observar os tu- 
multuosos sinais das formas agudas. 

Será sempre assim ou poderemos admi- 



38 



tir a ocorrência de reinfeções sucessivas, 
relacionadas com o alto indice endémico e 
principalmente com a condição domiciliaria 
da tripanosomiase? A verdade dessa hipóte- 
se indicaria a cura espontanea e também 
ausencia de imunidade na molestia. Ora, em 
primeiro lugar, temos verificado a continui- 
dade dos sintomas desde a fase aguda inici- 
al até periodos tardios em que a doença se 
carateriza por síndromes crónicas difinitivas ; 
cura espontanea, ao contrario, nunca foi 
apreciada entre numerosos doentes, obser- 
vados durante alguns anos. Depois, a imu- 
nidade, pelo menos imunidade sanguínea 
relativa, vem demonstrada no desapareci- 
mento rápido de flajelados do sangue cir- 
culante nas formas agudas. Além disso, em 
autopsias de individuos, cujo inicio de mor- 
bidez poude ser referido, com muita segu- 
rança, aos priírieiros tempos de vida, verifi- 
cámos parásitos na intimidade dos tecidos, 
o que evidencia a longa permanencia da in- 
feção. Uma de nossas autopsias, sobretudo, 
é desse ponto muito elucidativa: um caso 
de diplejia cerebral, datando de 23 anos, 
faleceu vitimado por queimadura extensa de 
2o grau. Nesta doente os fenómenos para- 
líticos, que foram consecutivos a sintomas 
agidos e a ataques convulsivos, datavam dos 
2 anos de idade. A autopsia, ao lado de 
processos histo-patolojicos crónicos dos 
centros nervosos, nestes e nos músculos re- 
velou a existencia de tripanosotnos. Sem du- 
vida a infeção inicial teve lugar aqui aos 2 
anos, quando ocorreram sinais agudos da 
molestia, permanecendo o protozoário, abri- 
gado nos teddos, por mais de 23 anos. E 
como esta, tudo nos indica, será a maioria 
das infeções crónicas. 

Os adultos, de zonas indenes, recem-che- 
gados nas rejiões contaminadas, poderiam 
sofrer ataque agudo da molestia e apresen- 
tar sintomatolojia comparável á das crianças. 
Deverá ser assim; as observações, porém, 
nesse sentido, têm sido deficientes, principal- 
mente devido á dificuldade de surpreender 
aí as fases iniciaes da infeção, quando seria 
demonstrável a presença do parasito. No adul- 
to as infeções recentes não se apresentam 



com a sintomatolojia alarmante observada 
nas crianças; traduzem-se, ás mais das vezes, 
em reações térmicas, de pequena elevação, 
quasi sempre irregulares, com outros sinaes 
também pouco intensos, o que leva o doente 
a interpretar de modo favorável a propria 
condição mórbida, deste modo prejudicando 
seu esclarecimento. 

E mesmo acreditamos que a fase aguda 
possa ocorrer despercebida nos adultos, ou 
não determinando sintomas subjetivos e obje- 
tivos apreciáveis, vindo revelar-se depois 
pelas alterações tardias mais graves; ou ape- 
nas ocasionando leves sensações de mau 
estar, reações térmicas atenuadas atribuíveis 
a causas banais, furtando-se assim, na maioria 
dos casos, á observação clinica. Aliás possuí- 
mos exemplos desse aspeto, principalmente 
em sirios, chegados havia mezes, nas zonas 
de nossos trabalhos. Entre eles observámos 
formas crónicas da tripanosomiase, expressan- 
do-se em alterações do ritmo cardiaco e em 
outros sinaes. Duma anamnese rigorosa co- 
lhemos apenas referencias a leves perturba- 
ções da saúde, experimentadas nos primeiros 
tempos de permanencia nas zonas infestadas 
pela triatoma. 

Uma outra observação de adulto com a 
forma aguda da molestia, esta com a verifi- 
cação de flajelados no sangue periférico, 
lambem demonstra a menor intensidade dos 
elementos nestes casos. Realmente, as rea- 
ções térmicas não foram tão elevadas quanto 
nas crianças e a febre teve aqui cari.ter 
francamente intermitente, com periodos longos 
de apirexia. Também os parásitos foram 
sempre verificados em numero muito dimi- 
nuto, só uma oportunidade tendo havido de 
observar tripanosomo, um único, na periferia, 
o que foi confirmado pela inoculação de 
sangue em cobaias. A febre, neste doente, 
sempre com intermitencias e de reações 
pouco elevadas, perdurou por alguns mezes; 
os parásitos, porém, não foram mais encon- 
trados no sangue circulante. 

Julgamos, das considerações emitidas e 
dos fatos observados, que os adultos são 
mais resistentes ao tripanosomo, dai resul- 
tando, as mais das vezes, a ausencia neles 



39 



de sinais reveladores da fase inicial da ¡nfe- 
ç?.o. Verifica-se de novo aqui, como em 
outros processos da tripanosomiase, feição 
similar á da sifilis, cuja infeção, sem duvida, 
poderá passar despercebida, só vindo a re- 
velar-se posteriormente, ás vezes em época 
tardia, pelas lesões ja realizadas. E também 
nesta molestia, mesmo quando verificámos o 
sifiloma primitivo, as reações da primeira 
fase podem ser silenciosas, de intensidade 
minima, escapando muitas vezes á aprecia- 
ção do doente. 

Assim, ou não apresenta a tripanosomi- 
ase fase aguda em individuos adultos, ou os 
sinais da infeção ai se mostram de tal modo 
atenuados que escapam ao diagnostico etio- 
lojico ; e mesmo em crianças, especialmente 
naquelas com alguns anos de idade, a sinto- 
matolojia do periodo agudo mostra-se ás 
vezes de tal modo benigna que pode furtar- 
se á atenção da familia e passar inobservada 
do medico. Desse aspeto benigno temos 
alguns exemplos, nos quais foi possivel ex- 
perimentar a dificuldade do diagnostico, pela 
raridade de flajelados no sangue. Dai, talvez, 
a proporção diminuta das formas agudas, 
relativamente ao elevado indice endémico, 
em que predominam formas crónicas. 

Sintomatolojia. 

Baseado na diversidade de prognostico, 
distinguimos dois grupos de fatos nas formas 
agudas da tripanosomiase : num deles fi- 
guram os casos benignos, que ás mais das 
vezes escapam á morte, passando a infeção 
ao estado crónico; no outro ficam incluidos 
os doentes com sinais de processos inflama- 
torios dos centros nervosos, sendo nestes de 
grande freuqencia a terminação letal. Assim, 
subdividimos a fornia aguda em benigna e 
grave ou meningo-encefalica. Na sintomatolo- 
jia vamos encontrar elementos comuns, pelo 
que faremos descrição conjunta. 

Podemos admitir, no quadro sintomático, 
sinais constantes e sinais de exceção. Dos 
primeiros, observados na quasi totalidade 
dos doentes, constituiremos fundamento do 
diagnostico clinico; quanto aos outros, raro 



verificados, representam ocorrências patoje- 
nicas adicionais, que modificam a feição 
habitual dos casos agudos da tripanosomiase. 

De pouca valia, ou de nenhuma, são 
aqui os sinais colhidos na anamnese do pró- 
prio doente. Ás mais das vezes lidámos com 
crianças de baixa idade, que ainda não falam, e 
quando maiores, de alguns anos, aos sinais 
subjetivos acusados falta qualquer precisão, 
nenhum valor merecendo, de indecisos e 
quasi sempre inconsequentes. 

Os projenitores referem, para todos os 
doentes, fatos similares como denunciado- 
res da molestia. A criança tornou-se febril, 
abatida ou ajitada, faltou-lhe o apetite, ficou im- 
pertinente, nervosa, sempre chorando. A febre 
persistiu intensa, com temperaturas mais ou 
menos elevadas, durante alguns dias, quando 
notaram inchação, a principio mais acentua- 
da na face, depois propagada a todo corpo. 
Este ultimo sinal figura de modo quasi cons- 
tante na anamnese e constitue, por ser mais 
impressionante, a razão principal que leva o 
doente ao medico. De regra, referem a in- 
chação como iniciada dias depois de come- 
çados os outros sinais : ás mais das vezes 
10 ou 15 dias posteriores «o inicio da ele- 
vação térmica é que a criança se mostra 
infiltrada. A isso, mais ou menos, ficam redu- 
zidos os dados do interrogatorio. É bem 
pouco, como se vê, só havendo aí de cara- 
teristico a inchação, pela sua constancia e 
precocidade. 

Exame físico. 

A fácies de um caso agudo da tripano- 
somiase é, quasi sempre, carateristica : feição 
vultuosa, túmida; infiltração subcutânea 
em todo o rosto, mostrando-se as pálpebras 
empapuçadas, os olhos semi-cerrados, os 
labios espessados e a língua, algumas vezes, 
grossa e pastosa. Pela compressão das boche- 
chas notámos, de regra, um crepitar especi- 
al que denuncia a natureza mucóide da in- 
filtração. E também oprimindo os lecidos 
na testa, nas fontes, etc., reconhecemos a 
natureza dura e elástica do edema, que não 
guarda a impressão do dedo. Não se limita 



40 



á face a infiltração observada; é ela, ao con- 
trario, verificada em todo o corpo, formando 
paniculos em algumas rejiões, evidenciándo- 
se sobretudo nos membros inferiores. Ai, na 
rejião pretibial, poderá ser facilmente dife- 
renciada do edema renal, pela sua natureza 
elástica. 

Trata-se de infiltração mixedematosa, o 
que é bem evidenciado pela natureza fisica 
do edema e o que é confirmado pelo exame 
da urina, negativo relativamente á presença 
de albumina. Aliás, outros sinaes simultâneos, 
de patojenia similar, valem ainda para demons- 
trar a natureza mucóide da infiltração sub- 
cutânea. Assim é que observámos na grande 
maioria dos casos, para o lado da pele, des- 
camação epidérmica, mais ou menos intensa, 
mostrando-se a cutis seca, rugosa, sujeita a 
processos inflamatorios e a infeções parasita- 
rias. Os cabelos sofrem queda abundante, 
mostrando-se ao mesmo tempo secos e que- 
bradiços. Esta perda de cabelos, na fase agu- 
da da tripanosomiase, é, ás vezes, considerável, 
rarefazendo, de modo apreciável, os pelos no 
couro cabeludo dos pequenos doentes. 

As pesquizas semióticas para o lado das 
viceras revelam : baço aumentado de volume, 
de modo constante, sendo quasi sempre apal- 
pavel sob o rebordo costal. Esta esplenome- 
galia, desse modo acentuada, leva muitas 
vezes á suspeita de infeção palúdica, tornan- 
do-se necessário o exame do sangue para a 
diagnose diferencial. 

O figado mostra-se também aumentado 
de volume na totalidade dos casos agudos. 
O aumento dessa vicera é não raro conside- 
rável, excedendo a macicez hepática de varios 
centímetros o rebordo costal direito, sobre a 
linha mamilar. E também, com frequência 
a pressão do orgam provoca dôr, especialmen- 
te em rejiões do lobo esquerdo. 

Nas plêiades ganglionares periféricas, 
acessíveis á observação, verifica-se engurjita- 
mento ganglionar não raro considerável. Deste 
modo no pescoço, nas axilas, nas rejiões in- 
guinais, e crurais, os ganglios limfaticos 
se mostram abundantes ou volumosos. No 
pescoço, ao lado de ganglios volumosos, 
outros existem miliares, quasi sempre em 



grande numero. Os ganglios, especialmente 
os mais volumosos, são ás vezes dolorosos. 

Esta hipertrofia ganglionar, não obstan- 
te constituir anomalia frequentíssima na in- 
fancia, atribuível a fatores varios, assume 
aqui proporções excepcionaes e serve como 
sinal da tripanosomiase aguda. Aliás, as ne- 
cropsias dessa forma da molestia têm demons- 
trado o ataque generalizado ao sistema lim- 
fatico, verificando-se nos cadáveres o engurji- 
tamento dos ganglios nas plêiades periféricas 
e em todas as centrais, como no mesenterio 
e no mediastino. 

A glândula tireóide nem sempre extério- 
risa, por aumento de volume, sua participa- 
ção no quadro mórbido. Em muitos casos 
clínicos não verificamos aumento daquela 
glândula, o que de nenhum modo exclue 
processos patojenícos nela ocorrentes e que 
se traduzem pela infiltração mixedematosa. 
Em outros doentes, ao contrario, maxime 
quando o inicio da infeção é relativamente 
remoto, a tireóide mostra-se de volume 
acentuadamente aumentado. Não raro, 
mesmo sem hipertrofia apreciável, a apalpa- 
ção da glândula provocador, o que denun- 
cia processos conjestivos nela ocorridos. 

As pesquizas para o lado do aparelho 
circulatorio demonstram, desde as fases ini- 
ciais da molestia, considerável queda da 
tensão arterial. O pulso é frequente, pequeno, 
filiforme nos casos mais graves, nenhuma 
relação existindo, ás mais das vezes, entre o 
numero de batimentos arteriais e a reação 
térmica. Esta hipotensão indica o ataque 
precoce do protozoário ao miocardio; per- 
cutindo, porém, a area de macicez cardíaca, 
não encontrámos, de regra, neste periodo, 
apreciável aumento de volume do orgam. 
Em alguns casos, não frequentes, observam- 
se sinais de pericardite. Esta pode ser acom- 
panhada de derrame na serosa, em quan- 
tidade apreciável pelas pesquizas físicas; 
mais vezes, porém, o liquido do pericardio 
é muito diminuto, só verificável pela necrop- 
sia. 

O aparelho dijestivo mostra frequentes 
alterações nesta fase iniciai da molestia. A 
diarrea é muitas vezes observada, quasi 



41 — 



sempre abundante, exíjindo medicação sin- 
tomática afim de evitar maiores consequências 
de sua ação expoliativa. Em alguns casos a 
intolerancia gástrica, revelando-se em vómi- 
tos alimentares, é observada desde o inicio; 
os vómitos, porém mostram-se constantes, 
incoercíveis, especialmente nas formas cli- 
nicas em que é atinjido o sistema nervoso 
centrai. 

O aparelho respiratorio não constitue 
sede de processos patojenicos dignos de 
nota, sendo observados, ás vezes, bronquites 
secundarias, como soe acontecer em infe- 
ções agudas mais ou menos prolongadas. 
Quanto á função respiratoria, esta se ressente 
do ataque ao musculo cardiaco, havendo, 
nos casos graves, dispnéa acentuada, conti- 
nua ou intermitente e cuja intensidade depen- 
de das condições de maior ou de menor 
decadencia do miocardio. 

Vejamos, agora, quais as modalidades da 
febre na tripanosomiase aguda. 

De modo constante todos os doentes, 
em cujo sangue periférico verificamos, pelo 
exame a fresco, presença de flajelados, 
mostram reação febril mais ou menos acen- 
tuada. Deste modo os casos agudos da mo- 
lestia são sempre febricitantes, variando com 
a intensidade da infeção os aspetos da 
reação térmica. Nos casos mais graves as 
temperaturas mostram-se elevadas, atinjindo 
•40° desde os primeiros dias, e, a reação 
térmica é continua, não havendo aí periodo 
de apirexia. Mais benigna a infeção, obser- 
varemos fases de apirexia, ás vezes prolon- 
gada, apresentando-se a febre, não raro, de 
carater intermitente irregular. É frequente, 
nessa condição, haver quedas acentuadas de 
temperatura pela manhã e elevações térmi- 
cas vespertinas. E também alguns doentes 
desse grupo, sempre com flajelados no 
sangue circulante, costumam permanecer 
apireticos durante dias sucessivos, voltando 
depois a febre. Nos casos de média intensidade, 
os doentes apresentam reação térmica con- 
tinua; as temperaturas, porém, nunca se 
mostram demasiado elevadas, permanecendo 
a curva térmica, ás mais das vezes, entre 



37° e 38,5o, com pequenas remissões pela 
manhã. 

Resulta evidente, do que ai referimos, 
não haver uniformidade e nem carateristicas 
nos aspetos da curva térmica na tripanoso- 
miase aguda. As reações térmicas, quasi 
sempre continuas, podem ás vezes apresen- 
tar intermitencias; estas, porém, são irregu- 
lares e variáveis, não oferecendo aspetos com- 
paráveis nos diversos doentes. De constante 
só podemos reconhecer a relação entre o 
numero de flajelados no sangue e a eleva- 
ção de temperatura : as temperaturas mais 
altas verificam-se nos doentes com infeções 
mais intensas. E também, de regra, maior 
gravidade é a dos casos clínicos em que a 
curva térmica atinje grau mais elevado. 

Corforme dissemos anteriormente, as 
reações térmicas permanecem emquanto são 
verificados parásitos na periferia; casos de 
infeção leve, porém, estudámos em que os 
flajelados não foram vistos no sangue, apesar 
de prolongar-se durante 2 ou 3 mezes a 
condição sub-febril, com temperaturas entre 
37o e 38o. Em tais doentes, ás mais das 
vezes, a inoculação de sangue em cobaias 
reproduz o protozoário. 

A incidencia, nada rara, de procesos pa- 
tojenicos nos centros nervosos expressa-se 
pelos sinais habituais da meningo-encefalite. 
Entretanto, nos casos até agora estudados, 
não temos verificado em seu conjunto, sinão 
parcialmente, os elementos da síndrome 
nieninjitica, o que atribuimos á brevidade 
evolutiva do processo. De fato, uma vez evi- 
denciados os sinais de flegmasía dos centros 
nervosos, é bem curto o prazo de sobre- 
vida, morrendo os doentes, ás mais das 
vezes, em nossa observação, 2 ou 3 dias 
depois de reconhecido o ataque ao sistenia 
nervoso. 

Na sindrome meningo-encefalica predo- 
minam aqui as convulsões, quasi sempre 
generalisadas, em crises frequentes ou espa- 
çadas, mais raramente convulsões parciais. 
Em doentes, cuja molestia parece evolver 
sem localizações nos centros nervosos surjem, 
num dado momento, convulsões generalizadas, 
lembrando crises de epilepsia e denunciando 



42 



processos flegmasícos das meninjes e do 
cerebro. Aparecem nestes casos, algumas 
vezes, os vómitos carateristicos, sem esforços, 
nauseosos, fáceis, continuos ou espaçados. 

A criança, ás mais das ve7es, ajita a 
extremidade cefálica de modo continuo, para 
um e outro lado, deste modo denunciando 
talvez a cefalea, sintoma objetivo que, como 
muitos outros, não pode ser reconhecido 
com segurança devido á baixa idade dos 
doentes. Além disso, o sofrimento é tradu- 
zido, quasi sempre, em pequenos gritos es- 
tridentes e num fraco gemido constante, 
expressivos de processos para o lado das 
meninjes e do cerebro. 

Contraturas e tamoem paralisias nem 
sempre chegam a ocorrer nos casos de evo- 
lução rápida, quando os doentes morrem 
pouco depois que aparecem as primeiras 
convulsões. Nos casos mais prolongados, as 
contraturas se revelam pelos sinais habituais 
localizados em d'versos grupos musculares. 
E também paralisias, nos últimos estádios 
da molestia, foram verificadas. 

Para o lado dos olhos as contraturas se 
manifestam em movimentos anómalos dos 
globos oculares e, não raro, em estrabismo. 
Strabismo acentuado, verificamos uma vez, 
na doente que faz objeto da observação 23, 
cuja .afeção meningo-encefalica prolongou- 
se durante alguns dias, facultando por isso 
mesmo o aparecimento deste e de outros 
elementos da síndrome. Mais apreciável era, 
neste caso, a contratura dos músculos da 
nuca, bem revelada pelos meios habituais de 
pesquiza. Nos membros inferiores a con- 
tratura era denunciada pelo sinal de Kernig, 
único doente em que este sinal foi bem veri- 
ficado. Si bem que um tanto deficientes em 
sua expressão sintomática, pela ausencia de 
alguns elementos e pela dificil apreciação 
de outros, a sindrome de meningo-encefa- 
lite é reconhecível pelos dados semióticos, 
na tripanosomiase aguda. Mais decisivos, 
porém, têm sido os resultados das necro- 
psias, evidenciando processos inflamatori- 
os intensos nas meninjes e na substancia 
nervosa e fundamentando a patojenia dos 
fenómenos observados, em localizações para- 



sitarias muitas vezes verificadas. 

Consideramos sinais de exceção, na sín- 
tomatolojia dos casos agudos, aqueles obser- 
vados em alguns ou em raros doentes e se- 
guramente referiveis á ação do Trypanosoma 
Cruzi. Figuram nesse grupo de sinais: 

Para o lado do aparelho ocular temos 
verificado, em alguns doentes, qneratite 
aguda, uni ou bilateral. Alguns dias decorri- 
dos após o inicio da febre, os doentes apre- 
sentam inflamação dos olhos, grande fotofo- 
bia, caraterizando-se finalmente a queratite. 
Aliás nas formas crónicas, denunciadoras 
desses processos oculares dos casos agudos, 
encontram-se frequentemente cicatrizes es- 
branquiçadas na cornea. Nas zonas de tripa- 
nosomiase endémica são em elevado numero 
os individuos com manchas brancas na 
cornea, o que indica, em qualquer fase da 
molestia, a ocurrencia de processos inflama- 
torios oculares. 

Consequência desse ataque aos olhos, 
não são raros os casos, ainda no periodo 
agudo, de panoftalmias secundarias, com su- 
puração e perda total do globo ocular. Vimos 
uma criança em que esse fato ocorreu e ti- 
vemos oportunidade de observar 2 ou 3 
casos crónicos de tripanosomiase, em que a 
perda de um dos olhos não poderia ser re- 
ferida senão àquele processo. 

Processos cutâneos muito carateristicos 
figuram na sintomatulojia das infeções agu- 
das. Tivemos oportunidade de constatar, em 
3 observações, placas de necrose da pele con- 
secutivamente á formação de vesicula e ao 
processo inflamatorio intenso dos tecidos 
circumvizinhos. A necrose atinjia pequenas 
rejiões de forma mais ou menos circular, 
mostrando-se aí a pele negra, evidentemente 
gangrenada. Os tecidos necrosados destaca- 
ram-se depois, dando como resultante peque- 
nas ulceras redondas. 

Nos doentes, em que esse piocesso foi 
observado, a necrose limitava-se a 2 ou 3 
rejiões do revestimento cutâneo; fomos, porém, 
informados de que, num dos casos, novas 
placas de necrose vieram a aparecer em zonas 
diversas. 

Este processo cutâneo é bastante carate- 



43 



rîstico e sut generis, seguramenfe interpretá- 
vel como resultante da ação do tripanosoma. 

Outra modalidade de sindrome cutanea 
verificada em um caso de infeção aguda e 
num outro de infeção relativamente recente, 
apresentava-se sob o aspeto de pequenas 
manchas negras, circulares ou irregulares, di- 
fundidas em todas as rejioes do corpo, mais 
confluentes no rosto, nos membros e no 
tronco. Entre as manchas existiam pequenas 
vesículas cheias de serosidade, apresentando- 
se o conjunto do processo como um eritema 
exsudativo generalizado, intercolado de manchas 
negras esparsas. Nos dois doentes, em que 
verificámos este aspeto de afeção cutanea, 
nenhum fator etiolojico foi descoberto que a 
fundamentasse; além disso, no caso agudo, 
em que o processo cutâneo era mais intenso, 
foi ele se atenuando á medida que os outros 
elementos da infeção decreciam, com eles 
desaparecendo afinal. 

O testículo constitue sede de localização 
do protozoário, nas formas agudas e cróni- 
cas da tripanosomiase ; por isso mesmo, no 
quadro sintomático das infeções agudas 
figura algumas vezes a orquite, mais ou 
menos intensa, acompanhada quasi sempre 
de epididimite. Numa observação que fize- 
mos de forma aguda em adulto, houve, ás 
primeiras fases da molestia, a ocurrencia de 
orcho-epididimite, a qual perdurou por mais 
de dois mezes, de intensidade media. Em 
crianças nunca foi oportuna observação idên- 
tica, sendo de acreditar que o processo infla- 
matorio dos testículos, pelo menos em grau 
de exteriorização apreciável, constitua sinal 
raro na molestia, só verificav/el em individu- 
os adultos. 

Outro sinal que nos foi revelado por 
infeção aguda em aduUo, é o que se expres- 
sa em acentuada disfajia, para os alimentos 
solidos e também para os líquidos. A injes- 
tão de substancias solidas exije, para se 
completar, o auxilio de agua, referindo os 
doentes que o alimento fica retido no esófa- 
go, trazendo sensações penosíssimas. Mesmo 
a injestão de substancias liquidas, e, da pro- 
pria agua, pode apresentar dificuldade, não 



raro invencíveis, necessitando o artificio de 
deglutições cuidadosas e de pequenas parce- 
las do liquido. 

Este sinal, de patojenia ainda mal escla- 
recida, relaciona-se talvez com a condição 
de disfajia conhecida pelo nome de mal de 
engasgo, endemia extensa em rejiões do in- 
terior do Brazil e, segundo nossas obser- 
vações, verificada principalmente naquelas 
zonas, onde é encontrada a tripanosomiase. 
Será o mal de engasgo um elemento mais 
da tripanosomiase brazileira e essa disfajia 
das formas agudas traduzirá a fase inicial 
da sindrome? Observámos, no correr de 
nossos estudos em Lassance, numero bem 
elevado de doentes com mal de engasgo, 
havendo, em todos eles, outros sinais simul- 
tâneos da tripanosomiase. Apesar disso, 
tornam-se precisas novas pesquizas que auto- 
rirem, de modo irrecussvei, incluir o mal de 
engasgo na sintoniatolojia multiforme da in- 
feção pelo Trypanosoma Cruzi. 

Possuímos, de pesquizas realizadas pelo 
Dr. LEOCADIO CHAVES, alguns dados 
interessantes e definitivos sobre o mal de 
engasgo. Em doentes que apresentavam a 
sindrome muito acentuada, o Dr. L. CHAVES 
verificou, pela radiograma, a existencia de 
considerável ectasia do esófago, situada 
logo acima do cardia. Poude ainda constatar 
a ocurrencia de fenómenos spasmodicos do 
cardia, ficando deste modo explicada a dis- 
fajia respetiva, no caso que foi objeto de 
pesquizas. Devemos salientar que os doentes 
referem a diversas alturas do esófago o 
ponto em que as substancias injeridas ficam 
retidas, parecendo que o spasmo não se ve- 
rifica sempre no cardia, podendo ocorrer 
acima dele, em qualquer rejião. Quanto á 
patojenia exata do fenómeno, não podemos 
adiantar, por emquanto, interpretação digna 
de fé. 

Entre os aspetos de exceção, com que 
se apjesenta a tripanosomiase aguda deve- 
mos referir ainda a caquexia dos casos de 
infeção aguda prolongada. Verificada a infil- 
tração mixedematosa das fases iniciais, si os 
tripanosomas permanecem no sangue circu- 
lante e si os elementos agudos não sofrem 



- 44 



atenuação apreciável, a criança vai experi- 
mentando decadencia nutritiva progressiva, 
chegando ás vezes, a emagrecimento consi- 
derável, que contrasta com a inchação e 
com o estado túmido anter'or. Nesse aspeto 
a tripanosomiase aguda é confundível com o 
luetismo hereditário e com outras condições 
patolojicas conducentes á atrepsia. E, dada 
a precedencia da infiltração mixedematosa, 
com a permanencia, nesta fase, de alguns 
sinais de hipo-tireoidismo, poderíamos com- 
parar este estadio da infeção com o mixederna 
magro, consecutivo ao mixederna gordo ante- 
rior. Exemplifica esta evolução das formas 
agudas, a doente da observação 23^ fotogra- 
fia no 9, de uma infeção prolongada, onde o 
estado atrepsico atual é dos mais acentuados 
sem a interferencia de qualquer outro fator 
além da tripanosomiase. 

Referida, em seus traços essenciaes, a 
síntomatolojía das formas agudas da tripano- 
somiase brazileíra, poderemos, em capítulos 
que vão seguir, estudar as modalidades cró- 
nicas multiformes da doença. 

Façamos, ainda aqui, exposição resumi- 
da das princípaes lesões anatómicas verifica- 
das em diversas autopsias de casos agudos, 
deixando o complemento necessário deste 
assunto para trabalhos posteriores. 

Alterações anatomo— patolojicas encon- 
tradas em autopsias da fornia aguda da 
tripanosomiase americana. Localisações 
parasitarias. 

Lezões macroscópicas: 

Tecido celular sub- cutâneo : A infiltração 
mixedematosa denuncia-se em todas as au- 
topsias dos casos agudos pela verificação de 
substancia mucóide, generalizada a todas as 
rejíões. No tecido sub-cutaneo observa-se 
substancia gelatinosa. Nos casos em que a 
infiltração do tecido celular sub-cutaneo é 
mais acentuada, a pele incisada deixa escapar 
grande quantidade de liquido; lembra isso o 
que se observa nas necropsias dos casos de 
grandes edemas renaes. 

Pleiades ganglionares periféricas : Mais ou 
menos conjesíionadas, as plêiades ganglio- 



naes periféricas mostram os ganglios aumen- 
tados de volume. No pescoço observam-se, 
ao lado de ganglios volumosos, outros pe- 
quenos, miliares, dispostos em cordões ou es- 
parsos em todas as lejiões. 

Glândula tireóide'. A tireóide, nas auto- 
psias até agora praticadas, mostrou-se sempre 
a*.:mentada de volume e conjestionada. O au- 
mento de volume é uniforme, atinjindo igual- 
mente os lobos lateraes e o istmo do órgão. 
A's vezes, quando nenhuma alteração da 
glândula se exterioriza em vida, a necropsia 
demonstra hipertrofia dos lobos lateraes, cujo 
aumento é acentuado principalmente para 
a face posterior da traquea. 

Músculos do esqueleto: Ao exame gros- 
seiro, nada revelam de anormal. 

Cavidade torácica: Ganglios do medias- 
tino hipertrofiados e conjestionados. A cavida- 
de pleural mostra, de modo inconstante, pe- 
quena quantidade de liquido amarelo-citrino. 
Pulmões inteiramente livres, nada oferecendo 
de anormal ao exame macroscópico. A cavi- 
dade do pericardio contem constantemente li- 
quido, que é amarelo-citrino, nunca hemorra- 
jico, revelando-se ás reações especiaes como 
exsudato. A quantidade desse liquido é quasi 
sempre pequena, atinjindo apenas algumas 
gramas ; em alguns doentes, porém, a quan- 
tidade de liquido era mais considerável, achan- 
do-se a serosa distendida. Mostra o coração au- 
mento de volume pouco considerável, sendo 
de consistencia mole, achatando-se sobre a 
superficie. Gordura sub-epicardial bem con- 
servada, traduzindo-se por grandes depósitos 
de gordura nos sulcos periféricos. Muscula- 
tura dos ventrículos flácida, de coloração aver- 
melhada. Ao exame grosseiro não se pode afir- 
mar a existencia da dejeneração gordurosa; 
aquela que se apresenta sob a forma de pe- 
quenas manchas amarelas {aspeto de pele de 
tigre) existentes na musculatura, não foi en- 
contrada. Endocardio liso em toda a extensão. 

Válvulas pulmonar e aórtica livres, sem 
depósitos nem espesamentos. Tunica interna 
liza, brilhante, sem manchas. Válvulas mitral 
e tricúspide bem moveis. 

Apresenta o coração, assim, sinais de in- 
tensa miocardite. Pericardite foi vista em 
alguns casos. 



45 



Cavidade abdominal: Contem, de modo 
constante, alguns cm. c. de liquido amarelo- 
citrino; em certos casos, a quantidade de li- 
quido é mais considerável. 

Baço aumentado de volume, conjestiona- 
do. 

Fígado aumentado de volume, pálido, 
amarelo côr de camurça, de consistencia bas- 
tante diminuida, observando-se ao corte, o 
aspeto clássico do figado com dejeneração 
gordurosa. A esteatose, bastante intensa, 
atinje todo o tecido hepático. O aspeto da 
viscera aqui lembra muito aquele constatado 
na febre amarela. 

Rins: conjestionados, sem lesão macros- 
cópica apreciável. 

Capsulas supra-renais: em algumas au- 
topsias foram verificadas com grande conjes- 
tão, parecendo ainda haver grande redução 
da zona medular. 

Pancreas: sem lesão apreciável. 

Numerosos ganglios do mesenterio au- 
mentados de volume e conjestionados. 

Intestino: conjestão da mucosa intestinal, 
e ás vezes descamação epitelial mais ou 
menos acentuada. 

Nada de apreciável para o lado do aparelho 
genital, nos cadáveres do sexo feminino. 
Nos do sexo masculino foi observado, em 
ambas as vajinaes, derramamento seroso, não 
havendo lesões macroscópicas apreciáveis dos 
testículos. 

Cavidade craneana (casos de meningo-ence- 
falite) : aderência da dura-mater á caixa óssea - 
intensa conjestão das meninjes internas -pa- 
quimeninjite serosa bem acentuada -pontua- 
do hemorrajico da massa cerebral. Conjestão 
meningo-encefalica bem evidente e espessa- 
mento apreciável da aracnoide e da pia mater. 

Medula : conjestão das meninjes e, em 
alguns casos, da substancia medular. 

Nervos periféricos : ausencia de lesões 
macroscópicas nos cordões nervosos perifé- 
ricos. 

Exame microscópico: 

O estudo feito em cortes histolojicos, 
dos diferentes órgãos colhidos nas autopsias 
dos casos agudos, mostrou em muitos deles. 



a presença do Trypanosoma Cruzi com a mor- 
folojia de corpúsculos leishmaniformes reuni- 
dos em grandes aglomerados. 

No miocardio, a abundancia desses aglo- 
merados é particularmente notável; em quasi 
todos os campos microscópicos dos cortes de 
coração, são encontradas fibras parasitadas. 

No sistema nervoso central foram vistos 
focos parasitarios e outros de infiltração leu- 
cocitaria tanto no cerebro, como no cerebe- 
lo, nos núcleos centraes, na protuberancia, 
nos pedúnculos, e bem assim no bulbo e na 
medula. 

Músculos do esqueleto de diferentes 
rejiões mostraram abundancia de parasitas. 

Também aglomerados de parasitas foram 
vistos na fibra muscular lisa, em diversos 
órgãos. Em uma autopsia de criança, o utero 
mostrou focos parasitarios nas fibras lisas. 

Tireóide : focos parasitarios situados no 
epitelio vesicular e focos de infiltração leu- 
cocitaria esparsos. 

Testículos : localizações parasitarias ás 
vezes abundantes. 

Ovarios : focos parasitarios nos folículos. 

Capsulas supra-renais : localizações para- 
sitarias na substancia cortical. 

São estas as principais localizações do 
parasita até agora verificadas. 

É possivei que outros órgãos, nos quais 
temos observado processos histo-patolojicos 
intensos, constituam sede do parasita apenas 
durante curto periodo, rareando mais tarde 
as formas parasitarias de modo a se tornar 
dificil sua constatação. E, realmente, é de sur- 
preender que no figado e no baço, por exem- 
plo, órgãos intensamente lesados, os parasi- 
tas não tenham sido verificados, parecendo 
que aí, na patojenia dessas alterações, tenham 
importancia preponderante, toxinas do tripa- 
nosoma. 

Observações clinicas de casos agudos 
da tripanosomiase brazileira 

OBSERVAÇÃO 1. 

Berenice, 2 anos de idade, residente em 
Santa Rita, distante 3 leguas de Lassanee, 
em casa infestada pela Triatoma megista. 



46 



Foi o primeiro caso verificado da tripa- 
nosomiase hiumana. Veiu á consulta em 
abril de 1909, apresentando reação térmica 
elevada e monstrando-se infiltrada. Referem 
os projenitores que a febre teve inicio ha 8 
dias. Desde 2 dias que a doente começou a 
inchar de modo sensivel, o que despertou a 
atenção da familia. 

Exame: Fácies bouffi, com as pálpebras 
tumefatas, infiltração sub-cutanea no rosto. 
Glanglios engurjitados em diversas plêiades 
periféricas. Baço e fígado crecidos. Sensação 
de crepitar pela opressão das bochechas. 
Temperatura axilar 39o4. Trypanosoma Cruzi 
no sangue periférico. Numero regular, de 
flajelados. Ausencia de albumina na urina. 

Evolução: A doente retirou-se para o do- 
nu"cilio. Observada 8 dias depois, mostrava 
ainda parasitas no sangue e permanecia in- 
filtrada. Informações posteriores referiram a 
evolução benigna dos elementos agudos, 
passando a molestia ao estado crónico. 

OBSERVAÇÃO 2. 

ALBERTA, 4 me/es e 9 dias de idade, 
parda, residente a 2 quilómetros de Lassan- 
ce, em cafúa onde abundam triatomas, na 
sua grande maioria, infetadas. 

Projenitores com bocio e apresentando 
também sinaes cardiacos da tripanosomiase. 
Um único irmão, SEBASTIÃO, com a forma 
nervosa da molestia, tendo falecido um mez 
depois da doente desta observação, revelando 
os estudos histo-patoiojicos, parasitas nos te- 
cidos. Antes da molestia atual, era a criança 
sadia, nunca havendo sofrido qualquer altera- 
ção patolojica. 

Febre ha 15 dias. Desde 6 dias os pães 
notam que a doente começou a inchar, pelo 
que foi ela trazida á consulta. 

Exame; Aspeto túmido generalizado, apre- 
sentando a creança infiltração por todo corpo, 
mais acentuada na face. Pálpebras empapu- 
çadas e semi-cerradas. Labios espessos. 
Língua grossa e pastosa. A compressão das 
bochechas deixa apreciar um crepitar carate- 
ristico de infiltração mucóide. A pressão do 
dedo, em qualquer rejião infiltrada, não deixa 
sinal, deste modo revelando a natureza dura. 



mixedematosa, da infiltração sub-cutanea. 
Queda abundante dos cabelos. Baço crecido, 
excedendo um pouco o rebordo costal esquer- 
do. Figado aumentado de volume, excedendo 
também o rebordo costal direito, na linha 
mamilar, de 4 centímetros. Temperatura axi- 
lar, no momento do exame, 38o4. 

Trypanosoma Cruzi no sangue periférico. 
Tripanosomas em grande numero na circula- 
ção. 

Evolução: Esta doente foi acompanhada, 
com observações diarias, durante 4 dias. A 
temperatura pela manhã foi sempre de 38" 
ou 3So e tanto, permanecendo continuada- 
mente esta reação térmica. O numero de tri- 
panosomas na periferia foi sempre em au- 
mento progressivo, até o dia da morte. A 
7-V1-910, quatro dias depois do nosso exame, 
a criança faleceu. Segundo referencia dos 
projenitores, a morte foi precedida, na noite 
anterior, de convulsões repetidas e de vómi- 
tos. 

Desta doente praticámos a autopsia, 
sendo a primeira da molestia. 

Segue-se o protocolo da necropsia resu- 
mido: 

Sub-itericia das conjuntivas e de algumas 
zonas da pele, infiltração sub-cutanea genera- 
lizada {mixedematosa). Liquido citrino, abun- 
dante, na cavidade peritoneal. Figado muito 
aumentado, excedendo de 4 centimetres o rebor- 
do costal na linha mamilar. Dejeneração gor- 
durosa em massa do figado, apresenta ndo-sc 
o órgão com a coloração amarela carateristica 
e revelando-se a gordura pela reação corante. 
Comparável o figado, na intensidade da deje- 
neração, ao da febre amarela: vesícula biliar 
cheia de bile. Baço muito aumentado, exceden- 
do o rebordo costal, de coloração vermelho-es- 
cura. Ganglios mcsentericos numerosos e aumen- 
tados de volume, alguns de modo bem apre- 
ciável. Grande derramamento no pericardio, 
liquido de cor citrina idêntica á do derramamento 
peritoneal. Pericardio conjestionado. Coração 
sensivelmente aumentado de volume. Glândula 
tireóide aumentada de volume e muito conjes- 
tionada. 

Timus de graudes dimensões, prolongán- 
dose para baixo até o 2o terço do esterno. 



47 



Mucosa do estomago e do intcstiuo conjestio- 
nada. Ganglios engurjitados no mediastino, 
nas axilas e no pescoço, alguns deles bem vo- 
lumosos. Meninjes cerebrais conjesiionadas — 
leptomeninjite serosa intensa.— Cortex cerebral 
muito conjestionada, apresentando aos cortes, 
em algumas zonas, pontilhado heniorrajico. 

O estudo histolojico do material desta 
doente foi o ponto de partida de todas as 
verificações posteriores relativas ás localiza- 
ções do protozoário nos tecidos. 

O coração tnostrou-se, ao exame, com 
notável quantidade de parasitas. O mesmo 
aconteceu com os músculos de todas as re- 
jiões — No cerebro foram vrificadas localiza- 
ções parasitarias, em diversas zonas da subs- 
tancia nervosa. 

OBSERVAÇÃO 3. 

Menino GERALDO, com 2 mezes e 
meio de idade, residente em Lassance. no 
povoado, em cafúa infestada pela triatoma. 

Notou a projenitora que a febre teve 
inicio quando a criança contava apenas 9 dias 
de idade. Depois disso as reações térmicas 
têm sido de pequena intensidade. Projenitora 
com hipertrofia da glândula tireóide, não 
referindo antecedentes de luetismo. 

Exame: Infiltração sub-cutanea pequena, 
melhor apreciável em algumas rejiões, espe- 
cialmente na face. Baço e figado «recidos. 
Na pele, uma erupção generalizada, de 
aspeto curioso, constituida de pequenas vesi- 
culas com serosidade e, entre elas, regular- 
mente espaçadas, manchas escuras, formadas 
de tecido resistente, que faz pequena saliên- 
cia. 

Não ha sinaes de heredo-luetismo. Tem- 
peratura, no momento do exame 37o6. 

Trypanosoma Cruzi no sangue periféri- 
co. Pequeno numero de flajelados. 

Evolução: acompanhamos este doente 
durante 15 a 20 dias. Conservou-se ele sempre 
sub-febril, nunca elevando-se a temperatura 
além de 37o6, havendo dias de apirexia. A 
afeção cutanea não variou de aspeto durante 
o tempo de nossa observação e os tripano- 
somas do sangue periférico aí foram obser- 
vados em numero muito diminuto. Perdemos 



o doente de observação e não sabemos como 
evoluiu posteriormente a molestia. 

OBSERVAÇÃO 4. 

MARIA, de 13 mezes de idade, residen- 
te em Jaboticabas, 3 leguas distante de Las- 
sance. Ausencia de molestia febril anterior. 
Projenitores relativamente sadios, apresentan- 
do ambos hipertrofia pequena da glândula 
tireóide. Residencia infestada pela Triatoma 
megista — Quando veiu á consulta, fazia 5 
dias que adoecera. 

Exame: Aspeto de infiltração atenuada, 
apreciável sobretudo na face. Edema duro 
dos membros inferiores, não deixando a im- 
pressão do dedo que oprime. 

Baço crecido, apalpavel sob o rebordo 
costal. Figado com aumento de volume apre- 
ciável. Ganglios engurjitados em diversas 
plêiades periféricas, sobretudo no pescoço e 
nas axilas -A tireóide parece mostrar peque- 
no aumento de volume, o que não podemos 
afirmar com segurança. Trypanoso/na Cruzi 
no sangue periférico. 

Evolução: seguimos esta doente desde 
o dia 14-V-910 até 22-V-910. A 
temperatura apresentou a seguinte curva: 
Dia 14 m, 40o t. 39° 8 

« 15 m. 3903 t. 3708 

« 16 m. 3706 t. 390 

« 17 m. 38o t. 390 

« 18 m. 38o 6 t. 38o 7 

« 19 m. 370 t. 37o 2 

« 20 m. 370 t. 370 

« 21 m. 370 t. 37o 

« 22 m. 37o t. 37o 

O numero de parasitas foi diminuindo 
da circulação periférica, até observação final 
á 22, quando dificilmente era observado um 
flagelado pelo exame a fresco. Os outros 
sinaes mórbidos foram também se atenuan- 
do, retirando-se a doentinha do hospital api- 
retica e com a infiltração muito diminuida. 
Dois anos depois tivemos ensejo de 
rever esta doente. Notamos a tireóide sensi- 
velmente aumentada de volume, o baço ainda 
crecido e também o figado. Não encontrámos, 
nessa época, alterações do ritmo cardiaco. 
Trata-se, nesta observação, de uma forma 



48 



aguda, com reações térmicas pouco elevadas 
e ausencia de ataque ao sistema nervoso 
central. 

OBSERVAÇÃO 5. 
Estampa 6 fot. n. I. 

Menina JERSINA, de 1 ano e 6 mezes 
de idade, residente proximo de Lassence, 
em Santa Rita. Casa infestada pela Triatoma 
megista. Projenitores com hipertrofia da ti- 
reóide e com alterações do ritmo cardiaco. 
Nunca adoeceu até a presente molestia. Ha 
um mez começou a ter febre elevada, apre- 
sentando também fenómenos inflamatorios 
para o lado dos olhos. Desde 15 dias, segun- 
do referem os pais, a doente mostra-se in- 
chada, contrastando este estado com a ma- 
greza anterior. A inchação tem-se agravado 
progressivamente e a temperatura mantem-se 
sempre elevada. 

Exame: Infiltração generalizada das mais 
acentuadas que temos observado. 

Fácies bouffi, com pálpebras empapuça- 
das, labios grossos, fenda intra-labial semi- 
aberta, lingua grossa e pastosa. Edema duro, 
não conservando a impressão do dedo e 
crepitando pela compressão de algumas re- 
jiões, especialmente das bochechas. Trata-se 
de mixedema generalizado, mais acentuado 
na face, porém bem apreciável em todas as 
rejiões. Parece haver aumento de volume da 
glândula tireóide. Numerosos ganglios em 
sua maioria miliares, no pescoço, ganglios 
volumosos nas axilas e nas rejiões inguino- 
crurais. Hepato-megalia considerável, medin- 
do c figado 11 centímetros sobre a linha 
mamilar direita e excedendo de 6 centíme- 
tros o rebordo costal - Baço também crecido, 
apalpavel sob o rebordo costal esquerdo. 
Ausencia de fenómenos para o lado do siste- 
ma nervoso — Diarrea não sanguinolenta, 
desde o inicio da molestia, tendo sido nega- 
tivo o exame das fezes, relativamenta a para- 
sitas intestinais. 

Temperatura no momento do exame 
40°. Trypanosoma Cruzi no sangue periférico. 
Numero regular de tripanosomas, sendo 
observados flajelados, um ou 2 em todos os 



campos do microscopio, pela pesquiza a 
fresco. 

Evolução: Não foi possível acompanhar 
de perto a marcha da molestia, visto ter se 
retirado a doente para domicilio. Dez dias 
depois do primeiro exame, voltou a criança 
ao consultorio, conservando integrais os sin- 
tomas referidos, inclusive o mixedema gene- 
ralizado. Ao exame do sangue verificámos 
ainda flajelados na periferia, em numero 
menor do que nas pesquizas anteriores In- 
formações posteriores noticiaram a melho- 
ra da doente, isto é, a passajem da moles- 
tia ao estado crónico. 

Esta doente foi novamente observada 3 
anos mais tarde (Estampa 6 fot. No 2). 
Nessa época estava apiretica e não mostrava 
parasitas no sangue periférico. O mixedema 
no grau de intensidade anterior, havia desa- 
parecido, restando apenas leve infiltração da 
face. A tireóide mostrava-se aumentada de 
volume, sem hipertrofia considerável. O baço 
ainda estava crecido e assim o figado. 

Especialmente notámos um desenvolvi- 
mento fisico retardado e uma condição or- ■ 
ganica geral inferior. Não havia ainda alte- 
rações apreciáveis do ritmo cardiaco. 

Nesta observação trata-se ainda duma 
forma aguda comum, de evolução benigna. 
Ha de mais notável, aí, a intensidade do mi- 
xedema, bem revelada na fotografia, e sua 
atenuação posterior, ausente qualquer inter- 
venção opoterapica. Devemos também salien- 
tar o retardamento do desenvolvimento fisico. 
Nenhum sinal observamos, nessa fase da 
molestia, para o lado do sistema nervoso. 

OBSERVAÇÃO 6. 

Estampa 6 fot. n. 3. 

Menina RITA, de 3 mezes de idade, re- 
sidente proximo de Lassance, em cafúa de 
triatomas muito infetadas. Projenitores com 
bocio, e apresentando alterações do ritmo 
cardiaco. Seis irmãos, todos de aspeto doen- 
tio, de desenvolvimento retardado,sendo 
possível em alguns apreciar aumento de vo- 
lume evidente da tireóide. 

Inicio da reação térmica ha 10 dias. 
Gritos estridentes, com ajitação apreciável, 



49 



notando-se sobretudo movimentos repetidos 
da extr>.midade cef."lica. 

Infiltração mixedematosa muito acentua- 
da na face e em outras rejiões. Edema duro 
(mixedema) não deixando a impressão do 
dedo. Figado e baço muito crecidos. Queratite 
de um dos olhos. Tripanosoma Cruzi no sangue 
periférico. Parasitas em grande numero, 
havendo campos do microscopio, ao exame 
a fresco, em que eram notados 3 e 4 flaje- 
lados. 

Evolução: não tivemos nova oportunida- 
de de observar esta doente, que faleceu 3 
dias depois da primeira consulta, em domi- 
cilio, não tendo sido possivel colher infor- 
mações de valor, relativas ás condições em que 
se deu o óbito. 

Pela abundancia de parasitas na periferia 
já podíamos ajuizar mal do prognostico deste 
caso agudo. Havia também aí, indicando 
talvez fenómenos para o lado das meninjes, 
a grande ajitação e gritos estridentes que 
chamaram nossa atenção. 

Como fato de importancia, devemos 
ainda salientar a queratite, pela primeira vez 
verificada neste caso agudo da tripanoso- 
miase. 

OBSERVAÇÃO 7. 

HERCULANO, de 1 ano e 8 me/es de 
idade, branco — residente em Santa Rita, pro- 
ximo de Lassance. Pais com hipertrofia 
apenas apreciável da glândula tireóide. 

Saúde anterior referida como bôa. Grande 
elevação térmica desde 16 dias. 

Aspeto infiltrado bem apreciável. Mixe- 
dema generalizado, não deixando a impressão 
do dedo e crepitando em algumas rejiões. 
Numerosos ganglios no pescoço, nas axilas 
e nas rejiões inguino-cruraes. Tireóide com 
aumento de volume evidente. Baço muito 
crecido, excedendo o rebordo costal e fazen- 
do suspeitar do impaludismo. Figado com 
aumento também muito considerável, exce- 
dendo de 4 centímetros o rebordo costal 
sobre a linha mamilar direita. Trypanosoma 
Cruzi no sangue periférico. Parasitas em nu- 
mero regular na circulação. Exame negativo 



relativamente ao impaludismo. Ausencia de 
albuminuria. 

Evolução: não vimos mais o doente, sa- 
bendo posteriormente que os sinaes da infe- 
ção aguda desapareceram. Foi esse um caso 
de infeção benigna, sem qualquer sinal para 
o lado do sistema nervoso central. 

OBSERVAÇÃO 8. 

DEOLINDO-3 mezes de idade, preto, 
residente a 2 quilómetros de Lassance, em 
cafúa de triatomas na grande maioria 
infetadas. Mãe com boc'o e forma cardiaca 
da tripanosomiase. Tem 3 irmãos, todos com 
hipertrofia da glândula tireóide, apresentando 
um deles, adulto, alterações do ritmo. 

Doente desde 8 dias, com elevação tér- 
mica considerável. 

Exame: infiltração mixedematosa gene- 
ralizada, acusando a mãe o fato, que se traduz 
na inchação do doente. O edema é duro, não 
deixa a impressão do dedo, crepita á pressão 
das bochechas, tudo indicando a natureza 
mucóide da infiltração sub-cutanea. Ganglios 
miliares numerosos no pescoço, nas axilas e 
nas rejiões inguino-cruraes. Notável hepato- 
megalia. Baço também crecido, apalpavel sob 
o rebordo costal. Temperatura, no momento 
do exame, 38o. Trypanosoma Cruzi no sangue 
periférico. Parasitas em grande numero no 
sangue circulante, sendo mesmo este um dos 
casos agudos com infeção mais intensa. 

Evolução: A temperatura esteve sempre 
elevada, durante toda a molestia, que evoluiu 
em 14 dias. Vimos o doente apenas duas 
vezes: na primeira consulta e na véspera da 
morte. -No ultimo exame, isto é, 24 horas 
at tes do óbito, notámos rijidez apreciável 
dos músculos da nuca, grande ajitação e vó- 
mitos continuos. A pesquiza do sinal de 
Kering foi negativa. O numero de parasitas 
era então muito elevado, maior do que na 
primeira pesquiza. O doente, segundo referem 
os pais, apresentou convulsões repetidas na 
noite que precedeu a morte. 

Autopsia: 

Lesões macroscópicas mais imporia nf es : 
derramamento citrino abundante na cavidade 
peritoneal. Ganglios volumosos e numerosos 



- 50 



no mesenterío. Figado intensamente gorduro- 
so, com esteatose total, atinjíndo toda a massa 
do órgão - Baço crecido e muito conjestionado, 
de coloração vermelho escara. Capsulas snpra- 
renais muito friáveis. Rins setn lesões macros- 
cópicas apreciáveis. Mucosa intestinal conjes- 
tionado. 

Cavidade torácica : grande derramamento 
citrino no pericardio. 

Ganglios volumosos no mediastino. Pul- 
mões sem lesão aprecia 'el; ausencia de derra- 
mamento na pleura. 

Tireóide com sensível aumento de volume 
e evidente conjestão. 

Cavidade craniana: meninjes conjestiona- 
das intensamente e aderentes. Paquimeninjite 
serosa muito intensa. Cortex cerebral conjestio- 
nado e com pontilhado hemorrajico esparso. 

Pericardite. Miocardite intensa. 

OBSERVAÇÃO 9. 

Menino RAYMUNDO, com um ano e 
meio de idade, residente em Santa Rita, a 6 
leguas de Lassance, em cafúa de triatomas. 
Projenitores com a forma cardiaca da tripa- 
nosomiase. Febril ha um mez. Saúde perfei- 
ta até o presente ataque mórbido. 

Exame: Infiltração mixedematosa notá- 
vel, dando á distancia a segurança do diag- 
nostico. Ganglios engurjitados nas principais 
plêiades periféricas. Figado consideravelmen- 
te crecido. Baço apalpavel sob o rebordo 
costal, lembrando a esplenomegalia palustre. 
Temperatura axilar 38o5. Trypanosoma Cruzi 
no sangue periférico. Parasitas em numero 
regular, facilmente verificáveis. 

Evolução-, não continuamos a observa- 
ção, visto retirar-se o doente para lugar 
distante. Não soubemos da evolução poste- 
rior. 

OBSERVAÇÃO 10. 

JOSÉ, de Santa Rita, proximo á Lassan- 
ce, residente em cafúa de triatomas. 

Infiltração generalizada apreciável. Gan- 
glios cervicais e axilares volumosos. 

Figado e baço crecidos. Aumento de vo- 
lume pequeno da glândula tireóide. Tempe- 



ratura axilar, no momento do exame, 38°. Try- 
panosoma Cruzi no sangue periférico. Para- 
sitas raros. 

Evolução: Quando observámos este do- 
ente, pela primeira vez. a febre datava dum 
mez e o estado geral era relativamente be- 
nigno, nenhum elemento existindo de gravi- 
dade. Posteriormente tivemos ainda 4 ou 5 
oportunidades de observar ocaso, verificando 
assim a permanencia de flajelados em circu- 
lação durante 3 mezes, sempre em numero 
muito diminuto, tornando-se necessários de- 
morados exames a fresco para encontral-os. 
De acordo com essa intensidade minima da 
infeção, a sintomatolojia foi sempre atenua- 
da, conservando-se o doente, ás vezes, sub- 
febril, com temperaturas de 37o5 á 38°, outras 
vezes, apresentando-se apiretico. Decorridos 
3 mezes os parasitas desapareceram da peri- 
feria e também não foi mais observada ele- 
vação térmica. Vimos ainda o doente algu- 
mas vezes, sempre apiretico, não mais sendo 
vistos flajelados no sangue. A glândula tire- 
óide, mezes depois, mostrava pequeno au- 
mento de volume. 

OBSERVAÇÃO 11. 

Estampa O fot. n. 15. 

MARINHA SOARES DE ALMEIDA, 18 
mezes de idade, parda, residente proximo de 
Lassance, em cafúa de triatomas. Pai, mãe e 
3 irmãs vivos, aparentemente sadios. Naci- 
mento a termo, tendo a criança, até a presen- 
te data, desenvolvimento normal. Bem cons- 
tituida e de aspeto robusto. 

Ha 8 dias adoeceu, apresentando diar- 
rea, forte timpanismo abdominal e saliência 
do ventre. Apareceu então a febre e uma 
erupção urticariforme no tronco e nos 
membros. 

Exame: Temperatura axilar 37o 5. a ti- 
reóide não mostra aumento apreciável de vo- 
lume. Fácies bouffi, mostrando edema duro, 
apreciável também nos membros. Baço e fi- 
gado muito crecidos. Hipertrofia ganglionar 
generalizada. Alguns elementos urticariformes, 
em via de regressão, no tórax, no abdome e 
nas extremidades, Trypanosoma Cruzi no 



51 



sangue periférico. Tripanosomas em peque- 
no numero. 

Exame de urina negativo relativamente 
á albumina e a outros elementos que indi- 
cassem lesão renal. 

Evolução: Foi tratado em domicilio, tendo 
recebido medicação apenas sintomática. No 
fim de 8 dias voltou á consulta aplretica, sendo 
o estado geral bastante melhor. No sangue pe- 
riférico havia ainda raros tripanosomas e o 
mixedema persistia, mais ou menos no 
mesmo grau. Informações posteriores referem 
a cura dos fenómenos agudos. 

OBSERVAÇÃO 12. 
Estampa 6 fot. n. 5. 

CARLOTA, de 5 mezes de idade, branca, 
residente em Muquem, 5 leguas de Lassan- 
ce, em cafúa de triatomas. 

Nacida a termo, gozou sempre bôa 
saúde e é de aspeto robusto. Mãi portadora 
de bocio e com sinais de hipotireoidismo. 
Adoeceu ha 20 dias, com febre de carater re- 
mitente acompanhada de vómitos e de dia- 
rrea. Continuando a febre, a criança começou 
a aumentar de volume, tornando-se extraor- 
dinariamente gorda, na expressão das pes- 
soas de sua familia. Simultanea com a febre 
manifestou-se em uma das coxas uma placa 
arredondada, de cor violácea e endurecida 
(Estampa 6 fotografia n. 5) atribuida pela 
familia á picada da triatoma. 

Exame; Abatida e febril -temperatura 
38°. Edema generalizado, muito consistente, 
não se deixando deprimir pela pressão diji- 
tal. A tireóide não mostrava aumento de vo- 
lume apreciável á vista. Baço e figado muito 
aumentados. Para o lado da pele, além do 
mixedema, era observado um leve eritema 
serpijinoso, mais acentuado no tronco e nos 
membros, dando aspeto marmóreo ás super- 
ficies dessas rejiões. Na coxa esquerda, pro- 
ximo do joelho, persistia a placa acima re- 
ferida e que era constituida por um endure- 
cimento da pele e tecido celular sub-adjacen- 
te, com mortificação superficial dos mesmos 
tecidos, medindo cerca de 20 cm. de diâmetro, 
cercada de uma orla esbranquiçada. Ausen- 
cia de albumina nas urinas. Trypanosoma 



Cruzi no sangue periférico. Tripanosomas 
em numero bem regular. Em cortes do tecido 
sub-cutaneo, de fragmentos obtidos por biop- 
sia, verificou-se a presença da mucina, confir- 
mando-se deste modo a natureza mixedema- 
tosa do entumescimento. 

Evolução: permaneceu apenas 2 dias 
sob assistência hospitalar. O mixedema per- 
sistia. A temperetura manteve-se entre 37o6 e 
3805. 

Mais tarde vieram informações, que re- 
feriram o falecimento da criança, considera- 
velmente inchada, alguns dias depois de sua 
retirada do hospital. 

Ha nesta observação, de mais notável, a 
placa do tecido mortificado, observada na 
coxa, acompanhada de outros fenómenos cu- 
tâneos traduzidos num eritema serpijinoso. 
O mixedema era também aqui dos mais acen- 
tuados e bem caraterizado em sua natureza 
exata. Não sabendo da evolução completa do 
caso, ignoramos se houve ataque aos centros 
nervosos, determinando o óbito, ou se este 
se verificou independente da afeção daqueles 
centros. 

OBSERVAÇÃO 13. 
Estampa 6 fot. n. 4. 

SOLEDADE, de 5 mezes e meio de 
idade, parda, residente proximo de Lassance, 
em cafúa de triatomas. Nacimento a termo - 
Desenvolvimento fisico normal, Intelijencia 
viva. 

E' a primeira vez que adoece. Ha um 
mez mostra-se febril, sendo os acessos ora 
de reação térmica elevada, ora mais atenua- 
dos. Períodos transitorios de apirexia. Edema 
generalizado, não muito acentuado (mixede- 
ma), elástico, não deixando a impressão do 
dedo. Figado aumentado e doloroso á pressão 
Baço crecido. Tireóide um pouco aumentada, 
sendo dificil de ser apreciada peia abundan- 
cia da infiltração. Ganglios cervicaes, axilares 
e inguinaes engurjitados. Temperatura 38o 5. 
Ausencia de albumina nas urinas. Tripanoso- 
rna Cruzi no sangue periférico. Numero re- 
gular de parasitas. 

Evolução', esta doente foi examinada 
pela primeira vez a 16 de Setembro de 1912. 



52 



A 24 de Novembro voltou ao consultorio, 
apresentando-se menos infiltrada, com a tem- 
peratura de 38o 2. Apresentou-se prostrada e 
sonolenta. O numero de tripanosomas era 
menor do que no primeiro exame. Deixou no- 
vamente o hospital. Foi vista novamente a 
18 de Dezembro: -Infiltração diminuida. Fí- 
gado e baço mais aumentados do que ante- 
riormente. Apatia. Pouca vivacidade. Tempe- 
ratura 38o. Tripanosomas no sangue periféri- 
co. Reação térmica pouco elevada. A 20X11- 

1912 tamperatura 37o 3. A 2 de Fevereiro de 

1913 voltando a criança ao consultorio, obser- 
vamos : Bem disposta, com atenuação de todos 
os elementos mórbidos. Figado e baço ainda 
aumentados. Ausencia de tripanosomas do 
sangue periférico. A 20 de Março de 1913 
notámos: desenvolvimento retardado, não 
consegue ainda sentar-se, o que deveria fazer 
pela idade. Emagrecida. Completamente de- 
sinfiltrada. Figado aumentado. Baço apalpavel 
sob o rebordo costal. Queda de pelos. Au- 
sencia de tripanosomas no sangue periférico. 

Ha que salientar, nessa observação, a 
longa permanencia da reação térmica, de ca- 
rater intermitente irregular. Também os fla- 
jelados permaneceram na circulação por tempo 
demasiado longo, relativamente á regra geral 
nas formas agudas. A infiltração foi sofrendo 
atenuação progressiva, até desaparecer, tor- 
nando-se emagrecida a criança, o que pode 
ser interpretado como a fase magra do mixe- 
dema. E' de interesse referir o retardamento 
evidente do desenvolvimento fisico, exibindo- 
se depois de alguns mezes da infeção. 

OBSERVAÇÃO 14. 
Estampa 10 fot. n. ¡7. 

FLORENCIO -9 mezes de idade, pardo- 
residente nas Telhas a 6 quilómetros de Las- 
sance. Ha 15 ou 20 dias que se mostra febril. 
Reação térmica diaria, dimir.uindo pela manhã 
e mais elevada á tarde e á noite. Nos últi- 
mos 4 dias a familia notou que a criança in- 
chava, pelo que trouxeram-n^ á consulta. 
Diarrea forte no principio, agora diminuida. 
Bem desenvolvido e bem proporcionado para 
a idade que tem. 

Exame; infiltração generalizada. Tempe- 



ratura 3908, 150 pulsações por minuto. Figa- 
do aumentado, excedendo de 2 dedos o 
rebordo costal, na linha mamilar. Borda do 
figado dura e fina. Baço aumentado, apalpa- 
vel sob o lebordo costal esquerdo. Ganglios 
das plêiades periféricas aumentados Mixede- 
ma não muito acentuado. Ulceração pro- 
funda, de fundo sanioso na dobra do joelho 
direito, de bordas arredondadas e talhadas a 
pique. Pústula com necrose na dobra do 
cotovelo esquerdo. Trypanosoma Cruzi no 
sangue periférico. 

Evolução: este doente, que não perma- 
neceu no hospital, veiu a falecer 8 a 10 dias 
depois do primeiro exame, informando a fa- 
milia, que as manifestações cutâneas aumen- 
taram consideravelmente, aparecendo zonas 
de necrose em outras rejiões do corpo. 

Ha que salientar, aí, o processo cutâneo, 
de natureza necrótica, e a gravidade do caso 
mesmo na ausencia de sinais nervosos. 

OBSERVAÇÃO 15. 

LAURINDA FERREIRA -11 mezes de 
idade - branca — residente proximo de Lassan- 
ce. Pai e mãe vivos, em boas condições de 
saúde, não apresentando bodo. Um único 
irmão falecido na primeira infancia. Naci- 
mento a termo — desenvolvimento regular até 
a presente data. Dentição, marcha e articula- 
ção das palavras já iniciadas. Domicilio in- 
festado pela Triatoma megista, em zona 
não paludosa. Ha 15 dias adoeceu de febre, 
acompanhada esta de diarrea e vómitos. Os 
dois últimos sinais cessaram no fim de alguns 
dias, continuando a febre com exacerbações ' 
vesperais. Dias depois da febre iniciada ve- 
rificou-se infiltração geral, informando os 
projenitores que a doente engordara de re- 
pente. 

Exame: infiltração generalizada, de cara- 
ter mixedematoso, apreciável sobretudo na 
face e nos membros. Acentuada palidez do 
tegumento. Temperatura 37o6. Prostração 
geral, com momentos de ajitação. Hipertrofia 
ganglionar sensivel no pescoço, nas axilas e 
rejiões inguino-crurais. Baço e figado creci- 
dos e um pouco dolorosos á pressão. Ausen- 



53 



cia de albuminuria. Tfypanosoma Cruzi no 
sangue periférico. 

Evolução: O estado da doente agravou- 
se nos dias seguintes, persistindo a febre e 
o mixedema, aquela com exacerbações ves- 
perais minimas de 38o5. A ajitação acentuou-se, 
impedindo o sono. O apetite desapareceu e 
vieram vómitos rebeldes. Catarro brônquico, 
com dificuldade de respiração. 

Marcha da temperatura. 
Dia Manhã Meio dia Tarde 
5 - 37,6 37,4 

« 6 37,2 39,4 38,8 

« 7 37,4 38,8 38,4 

« 8 37,2 38,4 38,4 

« 9 36,8 37,2 alta 

No 5° dia de permanencia hospitalar a 
criança retirou-se ainda febril e com todos 
os elementos mórbidos no mesmo grau de 
intensidade. Faleceu poucos dias depois, 
ignorando-se conio teve lugar o óbito. 

OBSERVAÇÃO 16. 
Estampa 7 fot n. 6. 

MANOEL SOARES DE MACEDO - 
branco, 11 mezes de idade, residente em 
Santa Rita, a 5 leguas de Lassance, em 
cafúa de triatomas. Projenilores adoentados 
e apresentando hipertrofia da glândula tire- 
óide. Tem 4 irmãos vivos e 4 outros falece- 
ram, todos nas primeiras idades. Nacimento 
a termo. Dentição, palavra e marcha já ini- 
ciadas. 

Ha 10 dias apareceu a febre, de marcha re- 
mitente. Simultaneamente foi observada pe- 
quena papula avermelhada em uma das. pál- 
pebras, com entumecimento edematoso da 
mesma e do rebordo orbitario corresponden- 
te. Poucos dias depois manifestou aumento 
de volume da glândula tireóide, notado pela 
familia e começou a engrossar no rosto, nos 
membros superiores e inferiores. 

Exame: Temperatura 38o 6. Palidez, pros- 
tração, de quando em vez crises de ajitação, 
grande impertinência. Infiltração mixedemato- 
sa no rosto e nos membros. Tireóide visivel- 
mente aumentada. Baço e figado crecidos, 
sendo o primeiro apalpavel .sob o rebordo 



costal, que é excedido de 3 dedos. Ganglios 
engurjitados nas plêiades periféricas. Nenhu- 
ma perturbação dijestiva ou nervosa. Trypa- 
nosoma Cnizi no sangue periférico. 

Evolução: No dia seguinte ao do primei- 
ro exame o mixedema era mais acentuado e 
a temperatura que, pela manhã, era de 37o, 
acendeu á tarde a 3So. Ausentou-se no 3o 
dia para o domicilio- vindo a restabelecer-se 
do estado agudo. 

OBSERVAÇÃO 17. 

EVA DO NASCIMENTO, côr branca, 4 
anos de idade, lesidente em Santa Maria, a 
3 leguas de Lassance. Projenitores de saúde 
regular, ambos com hipertrofia pequena da 
tireóide e sinaes da tripanosomiase. Tem 3 
irmãos vivos e perdeu 6 outros, dos quais 2 
natimortos, 3 falecidos na primeira infancia 
de febre prolongada e 1 na idade de S anos 
com paralisia aparecida depois duma molestia 
febril prolongada. Dos irmãos vivos, um é 
infantil e apresenta a tireóide aumentada de 
volume e também o baço crecido. 

Nacida a termo, tendo desenvolvimento 
regular até a presente data. Não acusa mo- 
lestia anterior a não ser sarampãoha 2anos 
Adoeceu ha 6 dias com febre de marcha re- 
mitente e exacerbações vesperaes, acompanha- 
da de prostração e anorexia. 

Exame : temperatura 38o 5. Figado creci- 
do e doloroso á pressão. Baço apalpavel sob 
o rebordo costal. Infiltração mixedematosa, 
acentuada nas pálpebras, nas bochechas e nos 
labios, mais atenuada nos membros e no 
tronco. Glândula tireóide aumentada de volu- 
me. Hipertrofia ganglionar discreta. Nenhuma 
perturbação nervosa aparente. Estado geral 
relativamente bom. Trypanosoma Cruzi em 
pequeno numero, no sangue periférico. Au- 
sencia de albumina na urma. 

Evolução: no dia seguinte, a temperatu- 
ra, pela manhã, era de 37o 8, retirando-se a 
doente para domicilio. Quatro mezes mais 
tarde, quando era considerada pela familia 
como restabelecida da infeção aguda, foi a 
criança de novo observada, sendo encontra- 
dos tripanosomas raros no sangue periférico 



54 



e leve reação térmica. Nessa época apresen- 
tava ainda infiltração mixede matosa, mostran- 
do-se a tireóide aumentada de volume, O fi- 
gado e o baço estavam crecidos e a pele 
mostrava-se áspera e seca, com leve hiper- 
queratose ictiosiforme nas pernas. Mais tarde, 
2 mezes depois, verificámos ausencia dos 
sinaes agudos e de tripanosomas no sangue, 
não sendo depois vista a doente. 

Ha que salientar, nessa observação, 
a longa permanencia de tripanosomas na cir- 
cuação, em pequeno numero, com evolução 
benigna dos elementos patojenicos. 

OBSERVAÇÃO 18. 

Estampa 7 fot. 7. 

MARIA FERREIRA DA SILVA, branca 
15 mezes de idade, residente nas marjens do 
Rio das Velhas, a 4 quilómetros de Lassan- 
ce. Mãe portadora de pequeno bocio e com 
sinais de hipotireoidismo. Pai com pequena 
hipertrofia da tireóide e com sinais cardiacos 
da molestia. Quatro irmãos, dos quais 2 fale- 
cidos. Nenhum antect;dente de sifilis, nem de 
impaludismo. Desenvolvimento normal. Habita 
cafúa infestada pela Triatoma megista. De 
7 dias para cá tem apresentado febre conti- 
nua, informando a projenitora que nos úl- 
timos dias engordara rapidamente. 

Exame: Temperatura 38o2. Olhar amor- 
tecido- Abatimento ou ajitação, alternada- 
mente. Palidez dos tegumentos. Infiltração 
nnxedematosa, bastante acentuada, contras- 
tando com o aspeto anterior da doente. A 
infiltração apresenta-se mais sensivel nos 
membros e na face, onde se notaram as pál- 
pebras empapuçadas, com estreitamento das 
fendas palpebrals e turjecencia das bochechas, 
assim como espessamento da mucosa labial. 
No dorso dos pés, a infiltração forma verda- 
deiro coxim de consistencia firme, não dei- 
xando depressão o dedo que comprime. 
Baço e figado muito crecidos. Hipertrofia 
ganglionar generalizada, tireóide apenas sen- 
sivel á apalpação. O exame do sangue peri- 
férico revela a presança do Trypanosoma 
Cruzi. Ausencia de albumina pela analise das 
urinas. 



Evolução: no dia seguinte ausentou-se 
para domicilio, sem alteração no estado 
geral, com a temperatura de 37o4, pela 
manhã. Dois dias depois foi trazida nova- 
mente á consulta, verificando-se a persistencia 
dos mesmos sintomas, sendo então de 38° a 
elevação térmica. 

Faleceu 10 dias depois, não tendo volta- 
do á consulta e ficando, por isso, desconhe- 
cidas as condições em que se deu o óbito. 
Ignoramos também se houve ocurrencia de 
sintomas nervosos. 

OBSERVAÇÃO 19. 

Estampa 10 fot. n. 14. 

ANNA DE MATTOS, 3 anos de idade, 
parda, residente em Lassance, em cafúa de 
barbeiros. 

Nacida a termo, parto normal, desenvol- 
vimento bom. Dentição regular. Febre ha 17 
dias. Desde 5 dias começou a inchar, sendo 
trazida por isso á consulta. 

Exame: Infiltração generalizada, especial- 
mente da face e das pálpebras. Crepitação 
das bochechas. Baço aumentado e doloroso 
á pressão. Figado pouco aumentado. Ventre 
proeminente e timpánico. Tireóide com au- 
mento apenas apreciável. Ganglios das plêia- 
des periféricas aumentados. Grande prostra- 
ção, negando-se aos movimentos. Temperatu- 
ra 38o 8 ás 3 horas da tarde, momento do 
exame. A' noite a temperatura deceu a 36° 8. 
Trypanosoma Cruzi no sangue periférico. 
Raros parasitas. Pesquisa de hematozoario 
da malaria negativa. Ausencia de albumina 
nas urinas. 

Evolução ; 

Òia 27— VII- 1913 ( dia seguinte ao pri- 
meiro exame) numero de tripanosomas au- 
mentado. A infiltração e outros elementos 
permanecem inalterados. 

Dia 28- VII- 1913 Temperatura 37o 2. 
Pulso 100 pulsações por minuto. Infiltração 
aumentada. 

Dia 2 -VIII -1913 Estado mais ou menos 
o mesmo. 

Esta doente foi vista um mez depois, 
completamente desinfiltrada e sem tripanoso- 
mas no sangne periférico. O baço e o figado 



55 



permaneciam aumentados. Ausencia então 
de reação febril. 

OBSERVAÇÃO 20. 

Estampa 7 fot 8. 

MANOEL, 19 mezfs de idade, residente 
em Beltrão, proximo de Lassance, em cafúa 
infestada pela triatoma. Nacimento a termo, 
parto natural. Ha 3 mezes veiu á consulta 
por uma otite supurada. Ha 2 semanas come- 
çou a inchar e por isso voltou ao consultorio. 

Exame : Infiltração dura generalizada, 
mais acentuada na face, com estreitamento 
das fendas palpebraes. Ganglios das plêiades 
periféricas muito aumentados. Figado e 
baço sensivelmente crecidos. Tireóide sem 
aumento apreciável á vista. Ausencia de per- 
turbações dijestivas. Temperatura 37o4. Try- 
panosoma Cruzi no sangue periférico. Raros 
parasitas 

Evolução: no dia seguinte ao exame: 
Dia 16 Temperatura m. 36,8 tarde 37,8 

« 17 « « 37,6 « 37,4 

« 18 « « 37 « 37 

« 19 « « 37 

Estado geral sem modificação apreciável. 
Infiltração permanente. 

Dia 22 -Infiltração diminuida. Estado 
geral melhor. Temperatura 37». 

Ausencia de tripanosomas no sangue 
periférico. Restabelecimento do estado agudo. 

OBSERVAÇÃO 21. 

MANOEL SOARES, 11 mezes de idade, 
febril desde 15 dias. 

Exame: Infiltração mixedematosa. Gan- 
glios engurjitados nas plêiades periféricas. 
Baço e figado muito aumentados. Temperatu- 
ra 37o8. Trypanosoma Cruzi no sangue peri- 
férico; raros flajelados. 

Evolução posterior desconhecida. 

OBSERVAÇÃO 22. 
Estampa S fot. n. 11 

'' PAULO, 7 mezes de idade -pardo, 
natural de Cordesburgo, residente ha 2 mezes 
em Lassance. Avó portadora de bocio volu- 
moso e cretinoide. Mãe falecida. Pai apre- 
sentando bocio e sinais cardiacos da tripa- 



nosomiase. Nacimento a termo. Ha 2 mezes 
foi trazido ao consultorio, sofrendo de diar- 
rea crónica, muito enfraquecido, com ema- 
grecimento considerável e apresentando hi- 
pertrofia ganglionar generalizada. Era então 
bem evidente o aspeto atrepsico. Deste es- 
tado melhorou o doente com o tratamento 
mercurial. Ha 10 dias apresentou-se febril, 
com diarrea e grande ajitação. Agravando-se 
este estado, trouxeram o doente á Lassance, 
onde ficou em tratamento desde 12 de Feve- 
reiro de 1914. 

Exame: Temperatura 37o 5. Grande pros- 
tração. Infiltração geral, fazendo notável con- 
traste com a magreza anterior de heredo-sifi- 
litico. A infiltração, de natureza francamente 
mixedematosa, era mais acentuada na face, 
sobretudo nas pálpebras e nos labios, sendo 
também sensivel nos membros e no tronco. 
Nas bochechas percebia-se um crepitar mu- 
cóide. Diarrea intensa. Baço e figado muito 
aumentados. Ventre timpánico. Hipertrofia 
ganglionar generalizada. Tireóide de aprecia- 
ção dificil, devido á infiltração. Trypanosoma 
Cruzi no sangue periférico em grande numero. 

Evolução: K medicação sintomática poude 
atenuar a diarrea. Persistiam a prostração e 
a febre, cuja marcha se fez com remissões 
irregulares, vindo o doente a falecer á 19 do 
mesmo mez, isto é, 7 dias após a primeira 
consulta. 

Neste periodo o doente apresentou crises 
intensas de dispnéa com sinaes evidentes de 
colapso cardiaco, parecendo ter sido esse a 
causa da morte. Ausencia de convulsões. 
Marcha da temperatura: 

Manhã Meio dia Tarde 

Dia 12 37,5 38,0 38,0 

« 13 37,5 38,4 38,0 

« 14 38,0 37,3 37,0 

« 15 37,8 37,4 37,6 

« 16 37,4 37,0 39,2 

« 18 37,4 37,8 37,8 

« 19 37,4 37,7 

O óbito teve lugar à tarde do dia 19. 

O numero de parasitas no sangue peri- 
férico foi sempre em aumento progressivo, 
atinjindo a infeção grande intensidade. 



56 



Dados geraes da autopsia: Infiltração | 
mucóide do tecido sub-cutaneo. 

Aumento apreciável de volume da glándu- 
la tireóide, que estava conjestionada e cajos 
lobos prolangavam-se posteriormente, forman- 
do anel quasi completo em tornd da traquea 
e do esófago. Coração com sinaes de miocar- 
dite intensa. 

Derramamento de liquido citrino, em abun- 
dancia, no pericardio. Ausencia de lesões apre- 
ciáveis a olho nú, nos foliólos do pericardio. 
Pulmões sem alterações macroscópicas. Figado 
com intensa esteatose, verdadeiro figado camur- 
ça, tão dejenerado quanto se apresenta o figa- 
do na febre amarela. Capsulas supra-renaes e 
rins, sem alterações macroscópicas apreciáveis. 
Baço volumoso e conjes tio nado. Ganglios me- 
sentericos aumentados de volume, o mesmo 
acontecendo aos ganglios de todas as outras 
plêiades. Cavidade peritoneal com derramamen- 
to citrino abundante. Ausencia de lesões macros- 
cópicas no sistema nervoso central. 

O exame histo- patolojico deste caso re- 
velou grande qup.ntidade de parasitas no mio- 
cardio, onde eram dos mais intensos os pro- 
cessos inflamatorios. Foram verificadas ainda 
localizações parasitarias na glândula tireóide, 
nos músculos estriados e nos testículos. 

Este caso apresenta, como fato de maior 
relevancia, a quantidade excecional de parasi- 
tas no sangue periférico e o aumento progres- 
sivo dos flajelados até o desfecho da moles- 
tia. Ha ainda que referir a morte rápida, sem 
alterações apreciáveis do sistema nervoso, 
sendo atribuível aqui a gravidade extrema da 
infeção aos processos de miocardite aguda, 
de excecional intensidade. Devemos também 
salientar o contraste entre o aspeto atrepsico 
anterior, devido á sifilis hereditaria, e a infil- 
tração consecutiva ao processo infetuoso, desta 
resultando o aspeto inchado com que se apre- 
sentou o doente á consulta. 

OBSERVAÇÃO 23. 
Estampa 7 fot. n. 9. 

PHILOMENA, cor parda, 20 mezes de 
idade, residente em Larangeiras, proximo de 
Lassance. A mãe é papuda e cretinoide. O 



pai tem a glândula tireóide aumentada de 
volume. De 10 irmãos vivos, 2 são portado- 
res de bocio. Faleceram 4 irmãos nos pri- 
meiros tempos de existencia. A mãe teve um 
aborto. Não ha antecedentes de sifilis na fa- 
milia. Nacimento a termo. Dentição e marcha 
iniciadas antes de um ano de idade. A fala 
teve inicio mais tardio, articulando algumas 
palavras na ocasião em que adoeceu. Resi- 
dencia em cafúa de triatomas. Ha 3 mezes, 
manifestaram-se febre e diarrea que ainda 
persistem. A diarrea teve, durante algum 
tempo, carater sanguinolento. Poucos dias 
após o inicio desses sinais, a doente come- 
çou a inchar, mantendo-se essa inchação 
durante um mez, findo o qual foi gradual- 
mente diminuindo até desaparecer de modo 
completo. 

Exame: profundamente emagrecida, de 
olhar encovado, ossos descobertos, massas 
musculares atrofiadas. Verdadeiro estado 
atrepsico lembrando a caquexia luética. Pele 
frouxa, esfoliação da epiderme. Ausencia 
atual de infiltração mixedematosa. Rijidez 
acentuada dos músculos da nuca e dos mem- 
bros inferiores. Sinal de Kernig apreciável. 
Tireóide sensivelmente aumentada. 

Ganglios das plêiades periféricas hiper- 
trofiados. Baço e figado crecidos. 

Escara na rejião sacra. Vulvite. Varias 
lesões de impetigo no couro cabeludo e na 
face. Queda de cabelos acentuada. Jazia 
em decubito dorsal forçado, não podendo 
manter-se sentada. Qemidos fracos e conti- 
nuados, com movimentos da cabeça. Ausencia 
de movimentos voluntarios nos membros 
inferiores. Emissão involuntaria de fezes e 
de urina. O exame do sangue revelou a 
presença do Tripanosoma Cruzi; numero re- 
gular de flajelados. 

Evolução: Posteriormente apareceram 
convulsões crónicas, de curta duração, em 
acessos repetidos. Os sintomas indicados 
persistiram, agravando-se progressivamente, 
exetuando a diarrea que cedeu á medicação 
sintomática. Faleceu a doente 5 dias após 
o primeiro exame. 

Curva térmica : 



)ias 


Manhã 


Tarde 


5 


38,2 


38,0 


7 


36,2 


38,0 


8 


38,0 


38,0 


9 


38,0 


36,3 


10 


36,0 


36,0 


11 


36,0 


óbito 



57 



Autopsia : Resumo das principais verifi- 
cações macroscópicas : 

O cadaver, notavelmente emagrecido, apre- 
sentava escara na rejião sacra. Ausencia com- 
pleta de panículo adiposo sub-cutaneo. Abdo- 
me : ausencia de derramamento no peritoneo. 
Figaao com intensa dejeneração gordurosa. 
Baço crecido e conj estio nado. Ganglios mesen- 
tericos abundantes e muito hipertrofiados. Mu- 
cosa intestinal conjestionada e descamada em 
grande extensão. 

Tórax : pequeno derramamento citrino na 
cavidade do pericardio. Placas esparsas de 
pericardite. Coração aumentado de volume, fri- 
ável, com deposito de gordura nos sulcos e 
nas bordas e apresentando sinais de miocardi- 
te. Ganglios do mediastino hipertrofiados. Au- 
sencia de lesões macroscópicas apreciáveis para 
o lado das pleuras e dos pulmões. 

Tireóide: conjestionada e com aumento de 
volume apreciarei. 

Cavidade craneana- Dura-mater aderente 
á caixa óssea. Meninjes internas com hiperemia 
e aderentes d cortex cerebral. Sinais intensos 
de paquimeninjite serosa. Massa cerebral con- 
jestionada, com pontilhado hemorrajico esparso. 

Ao exame microscópico foram verificadas 
localizações do tripanosoma nos músculos 
estriados, no miocardio, nos ovarios, no 
utero e no sistema nervoso central. O cere- 
bro desta doente, assim como a medula, 
apresentava processos inflamatorios agudos 
com infiltrações leucocitarias esparsas e 
grande abundancia de parasitas, em aglome- 
rações distribuidas por todas as rejiões. (Veja 
fig. n. 2 estampa n. 4). 

Trata-se, nesta doente, duma infeção 
aguda de marcha lenta, permanecendo os 
flajelados na circulação durante 3 mezes e 
meio, com simultaneidade de reações térmi- 
cas e outros elementos agudos. O sistema 
nervoso central foi gravemente atinjido, reve- 



lando-se em convulsões e outros sinais os 
processos inflamatorios daquele sistema, veri- 
ficados na autopsia e em estudos histo-pato- 
lojicos. 

É de interesse salientar a presença de 
infiltração mixedematosa intensa na fase 
inicial da molestia, cedendo depois o mixede- 
ma e permanecendo sinais de hipotireoidis- 
mo. A doente, nas fases ultimas, poderia ser 
considerada um caso de mixedema magro, 
caraterisado pela queda de pelos, descamação 
da epiderme, etc.. O aspeto desta doente, 
quando a examinamos pela primeira vez, 
fazia lembrar o luetismo hereditario e foi a 
nossa impressão inicial, destruidas pelas 
verificações posteriores. Nem encontrámos 
sinal algum de luetismo, sendo negativas 
todas as pesquizas relativas á infeção pelo 
treponema de Schaudinn. Salientamos este 
aspeto de caquexia tripanosomica, compará- 
vel á caquexia luética, para ainda uma vez 
reconhecer os pontos similares de patojenia 
das duas molestias. 

OBSERVAÇÃO 24. 
Estampa 8 fot. n. 9. 

AUGUSTA, 7 mezes de idade, residente 
em Santa Rita, proximo de Lassance, em cafúa 
detriatomas. Apresenta reação térmica, ora 
mais, ora menos elevada, ha 25 dias. Decor- 
ridos 15 dias depois de começar a febre, a 
criança mostrou-se inchada, o que impressio- 
nou fundamente as pessoas da familia, sendo 
por isso trazida á consulta. 

Exame-. Temperatura axilar 38o 4. Figa- 
do muito crecido e doloroso á pressão. 
Baço também aumentado, excedendo de dous 
dedos o rebordo costal. 

Infiltração mixedematosa generalizada 
muito evidente, dando a sensação de crepi- 
tar nas bochechas. Leve tumefação da tireói- 
de. Ausencia de sinaes para o lado do siste- 
ma nervoso central. Trypanosoma Cruzí no 
sangue periférico. Numero regular de para- 
sitas. Ausencia de albumina, pelo exame das 
urinas. 

Evolução: Esta doente só foi examinada 
uma vez, sendo desconhecida a evolução pos- 
terior da molestia. 



58 



OBSERVAÇÃO 25. 
Estampa 8 fot. n. 10, 

CALIXTO, 6 mezes de idade, residente 
em Ataleiro, distante 10 leguas de Lassance, 
em cafíia de triatomas. Doente ha 22 dias, 
tendo, inicialmente, apresentado febre e gran- 
de diarrea. Desde 4 dias vai inchando de 
modo apreciável, segundo informa a familia. 

Exame: Infiltração mixedematosa leve. 
Baço e figado muito aumentados. 

Tireóide com tumefação apreciável. Gan- 
glios engurjitados em todas as plêiadas pe- 
riféricas. Fenómenos iniciaes de queratite 
num dos olhos. Trypanosoma Cruzi no 
sangue perifcrico. Abundancia de flajelados. 
Ausencia de albumina nas urinas. Tempera- 
tura 38o 6. 

Evolução: Esta doente retirou-se para 
domicilio, não tendo sido observada poste- 
riormente ao primeiro e único exame. 

OBSERVAÇÃO 26. 
Estampa 9 fot. n. 12. 

ROMÃO, de 1 1 mezes de idade, residen- 
te proximo de Lassance. Doente desde um 
mez, com reação térmica continua. Diarrea 
desde a fase inicial e permanente no momen- 
to atual. Refere a projenitora que o doente 
começou a inchar, desde 20 dias, apresentando 
ao mesmo tempo forte inflamação de ambos 
os olhos. 

Exame: Infiltração mixedematosa gene- 
ralizada. Queratite com conjuntivite dupla, 
havendo grande supuração ocular. Figado e 
baço muito crecidos, excedendo o baço de 2 
a 3 centímetros, o rebordo costal. Queda abun- 
dante de pelos no couro cabeludo. Infeções 
secundarias de algumas zonas da pele. O 
sangue periférico mostra raros tripanosonias 
{Trypanosoma Cruzi). . 

Evolução: este doente faleceu no dia se- 
guinte ao de nosso primeiro exame, não tendo 
sido praticada a autopsia. 

OBSERVAÇÃO 27. 
Estcmpa 9 fot. n. 13. 

PETROLINA, 4 mezes de idade, residen- 
te á marjem do Rio São Gonçalo, a 2 qui- 



lómetros de Lassance. Ausencia de antece- 
dentes mórbidos pessoaes que mereçam refe- 
rencia. Ausencia de qualquer molestia febril 
anterior. Pai com pequena hipertrofia da ti- 
reóide. Mãe sadia, com pequeno aumento de 
volume da tireóide. 

Anamnese: doente desde 6 dias, com 
elevação térmica continua e leve diarrea. 
Grande irritabilidade nervosa. 

Exame, Baço e figado muito crecidos — 
Temperatura 39o. Ausencia de infiltrição apre- 
ciável. Ausencia atual de sinaes nervosos. 
Trypanosoma Cruzi no sangue periférico, em 
numero regular. 

Evolução: esta doente permaneceu no 
hospital durante 20 dias, evoluindo a moles- 
tia de modo benigno, com reações teimicas 
de pequena intensidade, nunca excedendo a 
temperatura 38o 5. No fim de 10 dias de hos- 
pitalização, era apreciável pequena infiltração 
mixedematosa, sobretudo acentuada no rosto. 

Esta infiltração permaneceu até o final 
da fase aguda. Os parasitas, relativamente 
abundantes nos primeiros dias, foram em di- 
minuição progressiva e desapareceram do 
sangue circulante, ao exame a fresco, 2 ou 
3 dias depois que a doente se tornara apire- 
tica. A marcha da temperatura, neste caso, foi 
bastante irregular. Havia, de regra, remissões 
térmicas acentuadas pela manhã, quando a 
criança se tornava apiretica, elevando-se de 
novo a temperatura nas ultimas horas do 
dia. Durante 2 ou 3 dias, mesmo com a pre- 
sença de flajelados na circulação, a doente 
esteve apiretica, voltando depois a reação 
térmica, sempre atenuada. 

Este caso passou á condição crónica, após 
completo desaparecimento da febre. Dois 
mezes mais tarde, a inoculação de sangue, 
5 c. c. em cobaia, determinou nesta o apare- 
cimento de tripanosomas. Nesta época, os 
exames de sangue a fresco, mesmo demora- 
dos, foram negativos. 

OBSERVAÇÃO 28. 

Menina GERALDINA, 22 mezes de ida- 
de, residente em Lassance, em cafúa não in- 
festada pela triatoma. 

Anamnese: a criança, dias antes de apa- 



59 



recer febril, passou uma noite em Santa Maria, 
dernoitando numa cafúa, onde havia grande 
quantidade d? triatomas, na sua totalidade 
infetadas. Febre ha 8 dias. Segundo refere a 
projenitora, quando apareceu a febre, a criança 
apresentou também os olhos vermelhos, in- 
flamados. Antecedentes luéticos ausentes. 

Exame: 2 de Janeiro de 1915. Tempera- 
tura axilar 39» 2. Não ha infiltração apreciá- 
vel. Baço muito crecido, doloroso á apalpação. 
Fígado também aumentado. Ganglios nume- 
rosos e volumosos nas rejiões sub-maxilar, 
axilar e inguino-cruraes. Conjuntivite acen- 
tuada do olho esquerdo, com corrimento de 
liquido não purulento. Eritema em torno da 
orbita esquerda. Pálpebras do olho esquerdo 
sempre cerradas. Trypanosoma Cruzi raros no 
sangue periférico. 

Dia 4 de Janeiro de 1915. Temperatura 
axilar 38o6. Os tripanosomas aumentaram 
apreciavelmente no sangue circulante. Não ha 
ainda mixedema evidente. 

Dia 5 de Janeir de 1915. Temperatura 
axilar 39o2. Agravação dos fenómenos ocula- 
res. Conjuntivite também do olho direito, 
eom eritema das pálpebras. 

Ausencia ainda de mixedema. 

Dia 6 de Janeiro de 1915. Temperatura 
axilar 39o8. Nota-se, com toda evidencia, a 
infiltração sub-cutanea, sobretudo nítida na 
face e nos membros inferiores. Esta infiltra- 
ção é dura e elástica, não guardando a im- 



pressão do dedo, A inchação da criança de 
hontem para hoie, foi bastante notável para 
ser assinalada até pelas pessoas leigas que 
lidam com a doente. Os tripanosomas au- 
mentaram, de modo apreciável, no sangue 
periférico. 

Dia 7 de Janeiro. A doente faleceu, não 
tendo havido referencias aproveitáveis sobre 
sinais mórbidos das ultimas 24 horas. Não 
foi praticada a autopsia devido á oposição 
da família. 

OBSERVAÇÃO 29. 
Estampa 10 fot n. 16. 

Menino SILVESTRE, 15 mezes de idade, 
residente proximo de Lassance, em cafúa de 
triatomas. Doente desde 15 dias, com ele- 
vações térmicas irregulares. Ausencia de an- 
tecedentes mórbidos, tendo sido, até a pre- 
sente molestia, bastante «adio. 

Exame : Temperatura axilar 38o6. Baço 
muito crecido, apalpavel sob o rebordo costal. 
Fígado aumentado de volume, excedendo de 
4 centímetros o rebordo costal sobre a linha 
mamilar direita. Ganglios límfaticos entume- 
cidos no pescoço, nas axilas, nas rejiões in- 
guino-crurais. Mixedema generalizado bem 
apreciável e caraterizando-se como tal. Tri- 
panosomas {Trypanosoma Cruzi) raros no 
sangue periférico. 

Evolução: Esta criança não foi vista pos- 
teriormente e nem dela houve informação. 



60 



Explicação das estampas 

Estampas de 6 a 10 -Fotografias de 



casos agudos da tripanozomiase brazileira, 
conforme as observações clinicas. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 

TOMO VIH— 1916 



ESTAMPA 6 







^ I 



I . 





I 



Fot. n. 3. 



Fot. n. í. 



Fot. n. 2. 







Fot, n. 5. 

Fot. n. 1. — Caso agudo de trypaiiOEOiniaSL- Mixedema acentuad/. 

Fot. n. 2. — O mesmo caso, 3 aiinos depois da iníeção aguda - Mixedema muito atenuado. 

Fot. 11. 3. — Caso ayudo — Mixcdcina acentuado Kératite. 

Fot. n. 4.— Caso agudo — Placa de necrose na coxa esquerda. 

Fot. 11. 5. — Caso agudo Infiltração mixedematosa acentuada. 



Fot. n. 4. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO VIII -1916 



ESTAMPA 7 




^ \ 




Fot. n. 6. 





-^n^ 



Fot. n. 7. 





/> 



i^JÜfci 



Fot. n. 9. 



//)' 



Fot. n. 8. 

Fot. n. 6.— Caso agudo — Infiltração acentuada. 

Fot. n. 7. — Caso agudo— Infiltração. 

Fot. n. 8. — Caso agudo — Leve infiltração mixœdematosa. 

Fot. n. 9. — Cachexia trypanozoniica extrema— Meningo-encefalite. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO VIII 1916 



ESTAMPA S 




Fot. n. 9-A. 




Fot. n. !ü 




^i 



Fot. n. II. 



Fot. n. 9-A. — Caso agudo— liifiltrat,ão inixcedeinaloía. 
Fot. n. 10.— Caso agudo Infiltrarão inixocdeinatos.;. 
Fot. n.-ll. — Caso agudo Infiltração niixœdcmatosa. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO VIH -1916 



ESTAMPA 9 





•'.èlimi 




Fot. n. 12 - Caso agudo Kératite e conjuntivitc Infiltração generalizada. 
Fot. n. 13. Caso agudo benigno. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO Vm 1916 



ESTAMPA 10 




i \ 



^ Uií- 



Fot. n. 14. 




•O 




j 



^ 




Fot. n. 15. 



i 






k. 



Mm. 



Fot n. 17. 

Fot. n. 14.— Caso agudo benigno. 
Fot. n. 15. — Caso agudo benigno. 
Fot. n. 16— Caso agudo benigno. 
Fot. n, 17. — Caso a^udo benieno — Leve infiltração mixredemato'sa 



Fot. n. Ifr. 



Sobre uma hemogregarîna da gambá. 

Haemogregarína didelphydis n. sp. 

pelos 

DRS. OSCAR d'UTF^A. e SILVA e J. B. AFCANTES. 

(Com a estampa 11.). 



No decurso de estudos histolojicos en- 
contrámos em Maio de 1914 uma hemogre- 
garîna no sangue de um macho adulto da 
gambá comum (Didelphys didelphys aurita). 

Não conhecendo referencia sobre a ob- 
servação de hemogregarinas em marsupiaes 
resolvemos rejistrar o fato nesta breve noti- 
cia. 

Examinámos cerca de cincoenta gambás, 
sendo o único infetado procedente de Meri- 
ty, perto da Capital Federal. 

O nosso parasito foi encontrado somen- 
te nos glóbulos vermelhos ao passo que 
as outras especies de hemogregarinas des- 
cri ptas foram observadas de preferencia nos 
leucocitos. 

Para o exame a fresco retirámos sangue 
da cauda, cuidadosamente limpa com éter. 
Os parásitos apresentavam-se em forma de 
corpúsculos hialinos, imóveis, esféricos ou 
ovoides, tendo na parte média um núcleo 
arredondado e de maior refrinjencia que o 
protoplasma. Não verificámos a presença de 
pigmento. Raras vezes encontravam-se livres 
no sangue, geralmente ocupavam parte ou 
quasi a totalidade de um eritrocito. 

Preparações de sangue fixadas pelo al- 
cool metilico e coradas pelo método de OI- 



EMSA tam bem mostravam os parásitos, livres 
ou no interior de eritrocitos, esféricos ou 
ovoides tendo 8-10 iU de comprimento e lar- 
gura de 4-6 //. O protoplasma é finamente 
alveolar, de côr azul clara e contendo, as 
vezes a'gumas granulações vermelhas. 

O núcleo ocupa diversos pontos do para- 
sito, geralmente a rejião central ; é constitui- 
do por massas de cromatina irregularmente 
dispostas, mais raramente por granulações. 
Tem forma esférica, ovoide ou alongada em 
faixas, sem membrana nuclear distinta. A cro- 
matina, pelo processo de coloração indicado, 
toma a côr vermelha escura arroxeada. 

Não observámos mais de um parasito 
em um mesmo glóbulo. Não havia alteração 
na côr dos glóbulos infetados. 

Tendo o animal morrido alguns dias 
depois, tivemos ensejo de examinar os ór- 
gãos em esfragaços e em cortes. Estes foram 
feitos em fragmentos fixados em sublimado 
alcool de SCHAUDINN, liquido de GILSON, 
formol a IQo/o, liquido de MÜLLER e cora- 
dos pela hematoxilina de DELAFIELD e 
pelos métodos de HEIDENHAIN, VAN 
GIESON e QIEMSA. 

Nos esfregaços os parásitos eram pouco 
abundantes, com o aspeto já descrito, e. 



62 



formas de reprodução foram reveladas em 
cortes do pancreas. Tratava-se de formas 
schÍ70gonicas incluidas nas células dos acinos 
onde recalcavam os núcleos quando atingiam 
maior volume. 

O tamanho destas variava e com ele o 
numero dos núcleos que vimos atinjir a 18. 
Ocupam, a principio, o centro, espalhando- 
se depois por toda a massa. Nas ultimas 
fases aparecem parásitos isolados em forma 
de crescentes com 6-9 fi de comprimento por 
2 a 2,5 de largura. 

O protoplasma do parasito é finamente 
alveolar, o núcleo sem membrana apreciável, 
arredondado e situado na parte mediana, é 
formado por massas de cromatina em torno 
de um cariosoma pequeno. 



Os kistos, em diversas fases, encontrados 
no tecido glandular do pancreas permitem 
reconstruira evolução do modo seguinte: o 
germe depois de penetrar na célula, torna- 
se redondo, cresce substituindo quasi por 
completo o plasma celular e recalcando o 
núcleo para um lado ; o núcleo do parasito 
durante este processo entra em divisão e os 
núcleos filhos formam o centro de massas 
protoplasmaticas que acabam constituindo os 
merozoitos. O kisto então pode atinjir 22 fi 
de comprimento e 12 de largura. 

Com o material do animal infetado 
(sangue e suco de órgãos) inoculámos por 
via intraperitoneal gambás, coelhos, cobaias, e 
ratos brancos, sem obter nova infeção. 

Demos a esta nova especie o nome de 
Hemogregarina didelphydis. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO VIII— 1916 



ESTAMPA 11 















12 




13 



CñSTRO SILVA, del. 



63 



Explicação da estampa 11: | . 2-8 Formas do sangue periférico, 

p. , ^, ^ , „ I * 9-13 Fases de evolução nas células 

Fig. 1 Glóbulo vermeluo normal. I dos acinos pancreáticos. 



Pesquîzas sobre o Copromastîx prowazeki n. g. n. sp. 

pelo 
DFi. HEIVRIQUE DE :BEAUFîEF»AIFtE A.KA.CiAO 

Assistente. 
(Com a estampa 12). 



Considerações gerais 

Motiva o presente trabalho a descrição 
dum interessante flajelado, por nós duas 
vezes observado em culturas de fezes de rã 
e humana. Da primeira vez desenvolveu-se 
o protozoário em uma solução de albumina 
de ovo a 1/2 %, na qual semeáramos fezes da- 
quele batracio, com o fim de cultivar Nycto- 
therus; depois o encontrámos, mais uma 
vez, em uma cultura de ancilostomos huma- 
nos feita pelo Dr. GOMES DE FARIA, com 
fezes diluidas, colocadas sobre carvão ani- 
mal e na qui se desenvolveu o flajelado ao 
lado duma ameba de vida livre. 

Embora destas duas vezes o flajelado 
tenha sido encontrado em culturas feiías com 
fezes, não se pode, por isso, inferir que ele 
seja um parasita intestinal, porquanto um tal 
parasitismo até agora não foi observado. 
Mais .aceitável nos parece, consideral-o como 
uma forma rara de vida livre que, enquista- 
da, tivesse atravessado intacta o tubo intesti- 
nal e assim se encontrasse nas fezes do 
homem e da rã em condições de perfeita 
vitalidade, proliferando, por isso, facilmente 
desde que o material fôi colocado nos meios 
propicios a seu desenvolvimento. 



Trata-se, em todo o caso, dum flajelado 
bastante raro na natureza, porquanto até 
agora só essas duas ve/es tivemos ocasião 
de observal-o, máu grado numerosas e varia- 
das tentativas para cultival-o quer de fezes de 
diversos animais, quer de aguas. 

Nas soluções de albumina a 1/2 ^lo, o 
flajelado se desenvolve bem e multiplica-se 
com facilidade, sem, comtudo, se tornar 
nmito abundante; porém, ao cabo de 15 a 20 
dias começa a morrer nas culturas, tornándo- 
se então necessário transportal-o para solu- 
ções novas, nas quais readquire as condições 
primitivas de proliferação. Nas culturas, á 
proporção que vão envelhecendo, observa-se 
que os protozoários cada vez mais se tornam 
menores devido á insuficiencia sempre maior 
de alimentos e outras alterações do meio. 

O encistamento não foi observado nas 
culturas, nem tão pouco qualquer outra forma 
de resistencia do flajelado. A alimentação do 
Copromastix se faz por osmose. O estudo do 
Copromastix foi feito a fresco e, mais frequen- 
temente, em preparações fixadas pelo subli- 
mado alcool e coradas pela hematoxilin^ 
férrea segundo processo clássico de HEIDE- 
NHAIN. 



65 



Morfolojîa 

O corpo do Copromastix prowazeki tem 
a forma sub-triangular muito alongada, ter- 
minando posteriormente em ponta aguda. A 
parte anterior do corpo do flajelado é cons- 
tituida pelo pequeno lado do triangulo iso- 
cèle com que o protozoário é comparável. 
As bordas são geralmente lijeiramente curvili- 
neas, mais frequentemente convexas do que 
concavas. O angulo posterior é, como já foi 
assinalado, sempre muito agudo, os anterio- 
res são largos, obtusos e não raro, curvilí- 
neos. Em um dos ângulos antero-externos 
do flajelado se encontra uma fenda bucal 
que abranje um terço da borda anterior do 
corpo do protozoário e um quarto da lateral 
que lhe fica próxima. A boca é representada 
por um simples entalhe no corpo do parasi- 
ta, sem nenhuma organização especial, e 
apresenta-se constituida por duas laminas 
muito delgadas e quasi hialinas, do proto- 
plasma do protozoário. Não raro, o angu- 
lo externo dessas laminas protoplasmicase 
torna muito saliente e com o aspeto duma 
ponta aguda. 

Da parle média da porção anterior do 
corpo do flajelado, logo abaixo da borda, se 
orijinam, num bastonete basal de cerca de 2 
a 3 ^í de comprimento, 4 flajelos finos 
eguais, anteriormente dirijidos e de tamanho 
correspondente a 4/5 de comprimento da cé- 
lula. O corpúsculo basal parece ser múltiplo 
e constituido pela reunião de 4 formações 
idênticas correspondendo uma a cada flajelo, 
pois, frequente ele aparece desdobrado. (Est. 
12, figs. 2, 7, 13). 

Não raro se vê, no Copromastix, um 
rizostilo partindo desses corpúsculos basais, 
e penetrando pelo protoplasma em direção 
ao núcleo que contorna em parte e, as 
vezes excede, aprofundando-se no corpo celu- 
lar. Esse rizostilo é evidentemente um residuo 
da divisão dos corpúsculos basaes, e nenhu- 
ma relação genética apresenta com o núcleo 
celular. (Est. 12. figs. 1, 3, 7, 9, 11). Em 
muitas células o rizostilo desaparece comple- 
tamente, em outras permanece ainda mesmo 
após a completa divisão celular e inteira re- 
constituição celular. 



O protoplasma do Copromastix é pouco 
refrinjente e finalmente alveolar, com malhas 
mais delicadas junto ao núcleo. Não apre- 
senta membrana nem vacuolos nutritivos 
e pulsáteis. 

O núcleo sé acha colocado no limite 
entre os 2 3 anteriores do corpo; é vesiculo- 
so e limitado externamente por uma delgada 
membrana. 

No centro dele se vè um cariosoma volu- 
moso, sem centriolo perceptível, cercado duma 
zona de suco nuclear, clara nos limites ex- 
ternos, da qual, encostadas á membrana nu- 
clear, se notam granulações de cromatina pe- 
riférica. Esta cromatina, a meu ver, nunca 
falta nos núcleos vesiculosos, podendo ser 
sempre neles evidenciada por um rigoroso 
exame a fresco ou com colorações apropria- 
das, cuidadosamente feitas, além de que sua 
presença aparece claramente demonstrada nas 
diferentes fases da divisão nuclear. É muito 
comum, porém, que os observadores não a 
pesquizem cuidadosamente e, por isso, a 
dêm como inexistente. 

Examinado a fresco, o flajelado, que es- 
tamos estudando, apresenta a forma duma cé- 
lula sub-triangular muito achatada, com pro- 
toplasma refrinjente e finamente granuloso. 
Geralmente melhor a fresco do que quando 
em preparações coradas e fixadas, se vê a 
saliência, em forma, de ponta do angulo an- 
tero-externo da célula correspondente á 
fenda bucal que possue o protozoário. 

Quando vivo, o protozoário apresenta, 
graças a seus flajelos anteriores, lentos e 
compassados movimentos giratorios em torno 
de seu grande eixo. 

Não se observam deformações da célula 
quer quando em repouso, quer quando em 
movimento. 

O comprimento do Copromastix é, em 
média, nas formas bem desenvolvidas, de 16 
a 18 ^ e a largura de 7 a 9 ju. As formas 
menores podem atinjir a 6 /^ de comprimen- 
to e 3 de largura. O diâmetro nuclear é de 
cerca de 1/5 do comprimento do corpo. Est. 
12. figs. 1 e 15. 



66 



Divisão 

Não fazendo exceção aos demais flajela. 
dos, o Coproinastix se divide lonjitudinal- 
niente. Os fenómenos de divisão tem inicio 
no núcleo e só quando neste as fases vão 
adiantadas é que começa a divisão proto- 
plasmica. 

Os primeiros fenómenos observados 
se iTianifestam pelo desaparecimento da 
membrana nuclear, tomando o cariosoma a 
forma dum bastonete espesso, de cujas extre- 
midades partem filamentos dum delgado fuso 
acromático, em cujo equador se observam 
já massas de cromatina periférica regular- 
mente disposta (Est. 12, fig. 2). 

Em seguida, o bastonete cariosomico se 
estreita na parte média, correndo a substan- 
cia dele para as extremidades, conservándo- 
se o fuso acromático com o mesmo aspeto 
(Est. 12, fig. 3). Em fases ulteriores do pro- 
cesso, o cariosoma se vem colocar, por com- 
pleto, nos poios do fuso de divisão sob a 
forma de placas polares, ao mesmo tempo 
que a cromatina periférica, então mais visivel, 
toma o aspeto tipico de placa equatorial. O 
fuso de divisão se alonga. Est. 12, figs. 4, 
5, 6, 7.). O corpo celular começa a se arre- 
dondar. 

Continuando a divisão, da-se o desdo- 
bramento das placas equatoriais, o afasta- 
mento dos placas polares, permanecendo, 
porém, ainda os novos núcleos presos pela 
centrodesmose. A célula do flajelado começa 
a se alongar no sentido transversal e totia 
o aspeto duma elipse larga (Est. 12, figs. 8 
e 9). Rompe-se afinal, em fase mais 
avançada da divisão, a centrodesmose que 
é reabsorvida ; os núcleos se individualizam 
e começam a se reconstituir. Por sua vez, o 
protoplasma do flajelado começa a se estrei- 
tar na parte central e as novas células vão 
se separando uma da outra (Est. 12, figs, 10 
e 11). 

Finalmente se dá a separação completa dos 
dois flajelados recemformados e começam a 
tomar a forma primitiva; o núcleo já apre- 
senta o cariosoma condensado e redondo 
como normalmente é; a cromatina periférica 



porém, ainda se apresenta sob a forma duma 
massa granulosa aglomerada junto do cario- 
soma (Est, 12, fig. 14.) Os flajelos se 
reconstituem. Por ultimo a célula readquire 
o seu aspeto tipico. 

Durante as fases, acima mencionadas 
de divisão nuclear e protoplasmica, ocor- 
re egualmente a divisão dos corpúsculos 
basais, que é direta e que deixa como re- 
siduo mais ou menos constante, no protoplas- 
ma do flajelado, um rizostilo orijinado 
dessas divisão (Est, 12, figs. 2, 3, 7, 10, U, 
13 e 14\ 

Além das fases de mitose acima descri- 
ta, parece também ocorrer, no Copromastix, 
um processo mais abreviado e rápido de di- 
visão nuclear tal qual ocorre nas amebas e 
foi por nós assinalado na Amoeba diplomito- 
tica. Deste processo abreviado da divisão do 
flajelado, dão uma idea bastante clara as fi- 
guras 12 e 13 da estampa 12, dispensándo- 
nos por isso, de entrar em maiores detalhes, 
bastando ficar dito que nele ocorre a divi- 
são do cariosoma e rápida reconstituição dos 
novos núcleos, independente das fases com- 
plicadas anteriormente assinaladas. 

Classificação 

Para o flajelado, que acabamos de des- 
crever, não o podendo incluir entre os represen- 
tantes dos grupamentos já conhecidos, cria- 
mos o genero Copromastix e lhe damos a 
denominação especifica de prowazeki, em 
homenajem á memoria de nosso pranteado 
mestre e amigo Dr. S. von PROWAZEK. O 
genero Copromastix deve ser incluido entre 
os que formam a familia Tetramitidae da 
ordem dos Protomonadina. 

O novo genero Copromastix deve ser 
caraterizado do seguinte modo : Tetramitidae, 
com 4 flajelos anteriores e iguais, de corpo 
subtriangular, com fenda bucal, desprovida 
de qualquer organela ; não possuindo nem 
membrana ondulante nem axostilo. 

Manguinhos, Janeiro de 1916. 



MEMORIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ 
TOMO VIII— 1916 



ESTAMPA 12 




12 



13 



14 



CñSTRO SILVM, del 



Explicação da estampa 12 

Materia! fixado em laminulas pelo subli- 
mado alcool e corado pela hematoxylina 
férrea de Heidenhain. 

Todos os desenhos foram feitos com a 
camará clara, a altura da mesa, com a ob- 
jectiva apochromatica de 2 mm e ocular com- 
pensadora 12, Zeiss. 



Fig. 1 Copromastîx prowazeki, individuo 
normal. 

Figs. 2 a 13 Copromastix prowazeki em 
différentes estadios de divisão. 

Fig. 14 Copromastix prowazeki recente- 
mente dividido com núcleo ainda incomple- 
tamente reconstituido. 

Fig. 15 Forma pequena da Copromastix 
prowazeki. 



Fixação de complemento na blastomicose. 

pelo 
(Assistente interino). 



Auxiliares preciosos da clinica, os méto- 
dos biolojicos de diagnostico tem utilidade 
muito maior nas infeções, em que constitu- 
em o único caminho que possue o laborato- 
rio para elucidação do diagnostico; não são, 
entretanto, poucas as vantajens que deles 
advém, quando, embora conhecido o causa- 
dor da infeção, é difícil a pesquiza do germe, 
quer pela técnica exijida, quer pelo fato de 
não ser o germe acessível ao pesquizador 
em algum dos estadios da molestia, como 
acontece na sifilis. 

Mesmo nos casos, que escapam ás con- 
dições mencionadas, são sempre necessários, 
como instrumento complementar de prope- 
dêutica. 

Datam os primeiros estudos de imunida- 
de nas infeções determinadas por levedos e 
cogumelos, de 1884, quando METSCHNI- 
KOFF se ocupou da defesa da daphnia 
contra a monospora bicuspidata. São muito 
mais recentes os estudos de RIBBERT, 
CHARRIN, OSTROWSKY e ROGER e so- 
mente depois das pesquisas de WIDAL e 
ABRAMl, que examinaram doentes diversos, 
acometidos de afeções micosicas, reconhe- 
cendo que o soro adquire propriedades aná- 
logas ás determinadas pelas infeções bacteri- 
anas, é que se lançaram as bases do soro- 



diagnostico nas infeções causadas por cogu- 
melos. 

A ação aglutinante do soro de animais 
inoculados com oidiutn albicans e a presença 
de aglutininas e anticorpos fixadores de com- 
plemento no soro de esporotricoticos são 
fatos verificados e aceitos. 

Nos ensaios de fixação de complemento 
na esporotricose, WIDAL e ABRAMl empre- 
garam a seguinte técnica: A 0,5cc de emul- 
são de esporotrico adicionavam Ice de soro 
de paciente, 0,2cc de soro de cobaia, diluido 
com egual volume de solução fisiolojica e 
finalmente 1 2cc de solução fisiolojica, man- 
tendo os tubos em banho maria na tempera- 
tura de 37 gráos durante 4 horas, para depois 
acrecentar 0,3 de soro heniolitico e 0,1 de 
glóbulos lavados em suspensão em 0,5 de 
solução sah'na a 0,6o/o. 

Conseguiram assim resultados positivos 
de fixação de complemento mesmo nos 
casos, em que era negativa a aglutinação 

Embora fácil a pesquiza do esporotrico, 
tem vantajem pratica estes ensaios nos casos 
atípicos e para o diagnostico retrospelivo, 
quando o paciente apresenta cicatrizes espo- 
rotricoticas. 

Em 1902 MALVOZ se lembrou de ensai- 
ar a reacão de Bordet na blastomicose e 



69 



mais tarde, RICKETTS, fa7endo estudos 
sobre esta infeção, pesquisou em cobaias 
inoculadas, precipitinas e anticorpos de Bor- 
det. 

Para isto empregou culturas de 3 anos, 
em agar glicosado a 1° o, caldo glicosado a 
lo/o, agar acido e caldo acido a lo/o. Alem 
deste material empregou ainda um extrato 
de oidiomicelo, usando de cultura de tres 
semanas a um mez, que depois de retirada 
do meio de cultura era levada ao secador. 
Pesado o material seco. ajitava com egual 
volume de areia esterilisada e com bolas de 
porcelana, para depois preparar emulsão com 
lOcc de solução salina a 0,85o;o. 

Aos poucos adicionava solução salina 
até completar o volume de 50cc, centrifugava 
e retirava o liquido que era conservado em 
vidro esterilisado e de novo ajitava o sedi- 
mento com outra solução salina ate que não 
existisse célula que não estivesse destruida. 
Nesta ocasião emulsionada cada grama de 
germe morto em 100 cc de veiculo, garantida 
a esterilidade do produto, que é amarelado 
e opalecente, com 0,5 o o de acido fénico e 
0,3% de clorofórmio, estava preparado o 
antijeno. 

As pesquisas de aglutininas, substancias 
liticas, e anticorpos fixadores de complemen- 
to resultaram sempre negativas mesmo em 
cobaias de recente imunisação. 

Na pesquisa de precipitinas verificou, 
após 24 a 96 horas de permanencia na ge- 
leira, dos tubos, que passaram antes 2 horas 
na estufa a 37 gráos, resultados, que consi- 
derou positivos, porque os testemunhas conti- 
nuavam claros. Encontrou o maior numero 
de resultados positivos entre os animais ino- 
culados exclusivamente com extrato, sendo 
raro, este resultado nos inoculados unica- 
mente com germe. Estes resultados são en- 
tretanto prejudicados por um ensaio positivo 
verificado em 96 horas com soro de cobaia 
normal diluido a 1/10. 

Nos ensaios de fixação de complemento 
RICKETTS empregou 0,1 de emulsão de 
oidiomiceto, moderadamente turva, 0,1 de 
extrato recente ou 0,15 cc de precipitado 



alcoólico de extrato, depois diluido com so- 
lução fisiolojica. 

Para ilustração propria, fizemos verifica- 
ções de aglutinação e de fixação de comple- 
mento com soro de cães e coelhos, inocula- 
dos no laboratorio com diversos escantilhões 
de esporotrico, com blastomyces e outros co- 
gumelos e de que talvez falaremos em outra 
publicação mais detalhada; pois o que nos 
leva a publicar o presente artigo é a serie de 
resultados positivos em ensaios de fixação 
de complemento em diversos doentes, em que 
a pesquiza clinica e o exame microscópico 
firmaram o diagnostico de biastomicose. 

Não são simples verificações, e sim, os 
primeiros resultados neste sentido publicados 
em casos de infeção humana e, por isto, não 
deixam de ter interesse e merecer rejisto. 

Logo ao iniciar, e mais tarde, no correr 
dos trabalhos, preparamos quantidade sufi- 
ciente de antijeno, que conservado na gelei- 
ra, permitiu nos realisar durante muito tempo 
as pesquizas e, se assim não procedêssemos, 
veríamos tolhidos nossos esforços, porque 
perdemos a cultura, que nos prestou exce- 
lentes serviços e que foi isolado por OASPAR 
VIANNA de um doente que observou em 
companhia do Prof. MIGUEL PEREIRA. E' 
verdade que, depois disto, recebemos do Dr. 
A. PEDROSO, de S. Paulo, escantilhões de 
blastomyces, por ele isolados, e que manti- 
dos durante algum tempo no laboratorio, ti- 
veram egual aplicação em nossas pesquizas. 

Aproveitamos a ocasião para agradecer a 
gentileza com que atendeu a nosso pedido. 

Para preparo do extraio empregámos 
culturas bem desenvolvidas, que nunca eram 
de menos de seis mezes, em agar de Sabou- 
rad, contendo maltose umas, e glicose outras 
e, em gral esterilisado, triturámos longamente 
a cultura em suspensão em solução fisioloji- 
ca a 0,85 o/o. Depois disto, ajitámos a emul- 
são com bolas de porcelana em vidro esteri- 
lisado durante 24 horas e em seguida filtrá- 
mos em papel Chardin e, ás vezes, em vela 
Berkefeld, adicionando ao filtrado 0,5 o/o de 
acido fénico. Para preparo da emulsão em- 
pregámos a mesma técnica quanto á tritura- 
ção, excluimos a ajitação e filtramos em algo- 



70 



dão, diluindo a emulsão até que não exer- 
cesse ação impediente sobre o poder comple- 
mentar do soro de cobaia. 

Refere se o presente trabalho a 10 obser- 
vações, estudadas nos anos de 1912, 1913, 
1914 e 1915. Destes morreram 7: dois tive- 
ram alta melhorados após tratamento por ino- 
culações intravenosas de iodeto de sodio e 
um teve desfecho ignorado. 

9 dos observandos estiveram hospitalisa- 
dos na enfermaria do Prof. TERRA, a cuja 
gentileza elevemos a liberdade com que co- 
lhemos material de estudo em seu serviço 
clinico e o decimo era doente da enfermaria 
do, Prof. MIGUEL PEREIR.A a cuja benevo- 
lencia e interesse cientifico devemos a per- 
missão que mais de uma vez merecemos para 
acompanhar doentes de seu serviço. 

Em 8 dos doentes foi positiva a reação 
e nos outros dois negativa, mesmo quando 
elevada a quantidade de soro empregada. A 
substituição do antijeno blastomicetico ou do 
soro do paciente por antijeno esporotricotico 
e soro de individuo normal ou tuberculoso 
dava sempre logar a resultado negativo. 

A quantidade de emulsão ou de extrato 
empregada dependia de ensaio previo para 



evitar a ação impedidora dos mesmos : 
a quantidade de soro variava de 0,1 a 1 cc: 
0,1 de soro de cobaia era quantidade fixa. 
Após 2 horas de incubação adicionávamos 
soro hemolítico de acordo com o tifulo do 
mesmo e 0,5 de suspensão de glóbulos a 5o/o. 

Nestas condições podemos asseverar que 
em doentes de blastomicose com diagnostico 
confirmado pelo exame microscópico foram 
positivos os resultados de fixação de comple- 
mento, quando o antijeno empregado era 
emulsão ou extrato de blastomiceto. Não po- 
demos garantir a rigorosa especificidade da 
reação; para isto precisaríamos trabalhar com 
diversos cogumelos, que pela classificação se 
aproximassem dos blastomyces ; podemos, no 
emtanto, assegurar que constitue mais um 
meio a nosso alcance para confirmar ou elu- 
cidar o diagnostico de blastomicose, quando, 
por qualquer motivo, este se tomar dificil. 

Antes de terminar queremos assinalar 
que foram negativas todas as pesquizas de 
precipitinas no soro dos doentes com blasto- 
micose. 

iUanguinhos, 3 de Fevereiro de 1916. 



Nota sobre Agchylostoma brasiliense G. DE FARIA, 1910 

pelo 



Em 1910 descrevi sob o nome de Agchy- 
lostoma brasiliense um parasito dos cães e 
gatos do Fio de Janeiro. 

O Prof. LOOSS tinha descrito em 1911, 
um parasito da Vivciricula malaccensis sob o 
nome de Agchylostoma ceylanicum. Esta espe- 
cie foi mais tarde verificada como sendo pa- 
rasito humano, razão pela qual adquiriu 
grande importancia. 

LEIPER sujestinou, em um artigo, a 
identidade destas 2 especies, já em 1914 pu- 
bliquei no "Brazil -Medico" uma nota de- 
monstrando a não identidade da especie, 
porém, parece não ter sido suficentemente 
divulgada, visto que em alguns trabalhos me- 
dicos tem reaparecido a mesma confusão, 
razão pela qual resolvi a voltar sobre o as- 
sunto. 

Em 1914 enviei o meu material ao Prof. 
LOOSS, que teve a bondade de examinal-o 
e comparal-o com seu A. ceylanicum, comu- 
nicando-me os resultados. 

Em 1915 tive ocasião de receber um ex- 
celente material da especie A. ceylanicum, en- 
viado pelo Dr. CLAYTON LANE de Berham- 
pore, Bengala, que submeti a um estudo com- 
parativo. 

As principaes diferenças se encontram 
na capsula bucal e na bolsa caudal dos 
machos. 



A. brasilienses possue um grande dente 
de cada lado da capsula bucal de forma trian- 
gular. No angulo superior e interno encon- 
tra-se um pequeno dente acessório, porém 
sempre pequeno e ás vezes dificilmente visi- 
vel. O Prof. LOOSS, na comunicação que 
me fez, não se refere a esse dente, talvez 
porque fosse muito pequeno ou faltasse 
mesmo no material que lhe enviei (apenas 
um par). LOOSS afirmou então que o A. 
brasiliense tinha só um dente que correspon- 
de ao dente medio de A. duodenale, sendo 
que o externo e o interno faltam completa- 
mente, e que o A, ceylanicum tem ao contra- 
rio um dente interno frequentemente ainda 
maior do que figurou na fig. Ill de seu tra- 
balho. 

Pelo exame de abundante material de 
A. brasiliense pude verificar a existencia 
dum dente interno, porém comparativamente 
muito menor que no A. ceylanicum. Este ca- 
rater tem todo valor para separar as duas 
especies, e neste sentido basta comparar o 
desenho que publiquei com os de LOOSS 
ou de CLAYTON LANE. 

A diferença na bolsa caudal dos machos 
é constituida principalmente pelo longo com- 
primento, finura e elegancia dos raios prin- 
cipalmente do externo dorsal, no A. brasili- 
ense, emquanto que no A. ceylanicum são 



72 



mais curtos e grossos, b'.m sua comunicação 
o Prof. LOOSS chama a atenção para est€S 
caracteres, que considera excelentes para a 
diferenciação de especies próximas e que 
não têm sido usados por outros autores. 
Estes caracteres distintivos levaram o prof. 
LOOSS a afirmar que A. bmsiliense ç. A. cey- 
lanicum são duas especies absolutamente dis- 
tintas e fáceis de diferenciar. 

Com o exame do material de CLAYTON 
LANE, proveniente de cães da Indio, desa- 
parece completamente a pretensa e aparente 
identidade, proposta por LEIPER. 

Conforme já mencionei em meu traba- 



lho anterior, tive ocasião de examinar núme- 
ros ancilostomas, que haviam sido encontra- 
dos em crianças residindo nos mesmos bairros 
do Rio de Janeiro, em que cães e gatos 
foram encontrados parasitados por A. brasi- 
liense, nunca tendo encontrado os mesmos 
parasitando seres humanos, como CLAYTON 
LANE teve ocasião de observar em Berham- 
pore. Bengala com A. ceyUinicum. 

Para terminar consigno meus melhores 
agradecimentos ao Prof. LOOSS pela bon- 
dade que teve em estudar e comunicar-me 
os resultados do exame de meu material e 
ao Dr. CLAYTON LANE pelo material que 
teve a bondade de enviar-me. 



73 

:bi^liooi«af^ia 

FARIA, QOMES DE; 1910 Ancylostomum brasiliense, n. sp. parasito de rãis o g;atos. 

Mem. Inst. Oswaido Cruz, T. II. Fac II 

FARIA, GOMES DE: 1914 Aínda sobre o Agchylostoma brasiliense. 

Brazil - Medico, 22 de Março 

FARIA, GOMES DE: 1914 Morphologia, systematica e biologia dos Ancylostomos 

& TRAVASSOS, LAURO Archivos bras. Med. Ano 4. No 1-3 

LANE, CLAYTON 1913 Agchylostoma ceylanicum, a new human parasite 

LEIPER 1913 The apparent identity of "Agchylostoma ceylanicum" LOOSS, 

1911, and A. brasiliense Q. DE FARIA, 1910 
Journ. of trop. M d. Vol. 16 p. 334 

LOOSS 1911 The anatomy and life history of Ag[c»^ylostoma duodenale etc. 

Records of the Egypt. School of Med. Vol. IV 




Ano 1916 
Tomo VIII 
Facículo III 



MEMORIAS 

DO 

Instituto Oswaldo Cruz 



Rio de Janeiro -Manguinhos 



S^ll1l fvrio : 

I— Viajem científica pelo Norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauhí e de norte a su! de Goiaz, 
pelos Dis. ARTHUR NEIVA E BELISARIO PENNA. (Estudos feitos á requisição da Inspetoria de Obras 
contra a seca. Direção: Dr. Arrojado Lisboa.) 74 



\\ /l^/'^ As MEMORIAS» serão publicadas em faciculos, que não aparecerão em 
r\\ lOV-/ datas fixas. No minimo, aparecerá um volume por ano. 

Na parte escrita em português foi adotada a grafia aconselhada pela Academia de Letras 
do Rio de Janeiro. 

Toda correspodencia relativa ás MEMORIAS > deverá ser dirijida ao Diretor do Ins- 
tituto Oswaldo Cruz - Caixa postal 926 - Manguinhos - Rio de Janeiro. Endereço telegráfico: 
«Manguinhos». 






miiûi 



Viajem cientifica peio Norte da Baliia, sudoeste de 

Pernambuco, 
sul do Piauiií e de norte a sul de Goiaz. 

pelos 
Drs. ARTHUR NEIVA E BELISARIO PENNA 



(Estudos feitos á requisição da Inspetoria de Obras contra a seca. Direção: Dr. 

Arrojado Lisboa.) 



As notas de viajem, abaixo transcritas se 
referem a pesquízas de medicina, hijiene e 
historia natural feitas em 1912 numa das 
zonas do Brazil flajeladas pela seca. As re- 
jiões percorridas se acham compreendidas 
nos Estados da Bahia, Piauhy e Goyaz. 

Em excursões de natureza da que reali- 
zámos, os dados a este respeito são certa- 
mente deficientes e, a não ser em Joazeiro, 
onde existe pequeno posto meteorolojico per- 
tencente ao Horto Florestal, que a Inspeto- 
ria de obras contra as secas ali possue, poucas 
informações conseguimos colher que nos ilus- 
trassem a respeito da climatolojia da zona 
percorrida. Mesmo em Joazeiro, os dados 
concernentes á humidade, evaporação, nebu- 
losidade etc. , não estavam rejistados e o 
rejisto diario de temperatura, apresentava 
falhas de dias e até de mezes: como, porém, 
são os dados mais completos e os que abran- 
jam maior espaço de tempo, vamos reprodu- 
zil-os, citando apenas as máximas e mínimas 
mensaes : 



Minima 

. 20o 

. 150 

. 18o8 

. 19o 

. 1802 



1911 

Maxima 

Agosto 36o 

Setembro 38o,5 

Outubro 38o 

Novembro 39o 

Dezembro 37",S 

-1912- 



Janeiro 39o,2 18o5 

Fevereiro ? 18o 

Março 36o 20o 

Em Novembro de 1911 houve dia em 
que a temperatura atinjiu a 39o e em Janei- 
ro de 1912 a temperatura acendeu a 39o 2 
máximo observado para aquela cidade. A 
minima rejistada foi de 15o em Setembro. 
Estes dados, embora incompletos, dão idéa 
da temperatura á niarjem do S. Francisco, em 
grande zona dos Estados da Bahia e Per- 
nambuco; praticamente, os dados meteoro- 
lojicos colhidos em Joazeiro, podem ser apli- 
cados á cidade pernambucana de Petrolina 



que lhe é fronteira. Joazeiro está situado a 
372 metros de altitude. 

De Abril até Setembro, as observações 
eram por nós tomadas, quando pousados, 3 
vezes ao dia, ás 6,12 e 18 horas; as tempe- 
raturas noturnas rejistadas por um termo- 
metro de maxima e minima tipo RUTHER- 
FORD. Em viajem, somente a temperatura 
noturna era tomada rigorosamente, apenas 
as minimas ficaram bem rejistadas porquan- 
to, sem exceção de um só dia, a temperatu- 
ra noturna era observada. As médias obtidas, 
embora não sejam perfeitamente rigorosas, 
pois em todos os mezes houve faltas no re- 
jistar as temperaturas máximas, não devem 
comtudo estar longe da verdade. Os dados 
sobre a nebulosidade foram tomados com o 
possivel rigor. Ha sem duvida um erro es- 
sencial qual o de reunir resultados obtidos 
pela manhan em determinado local com outros 
tomados pela manhan seguinte em ponto bas- 
tante afastado e onde as condições climaté- 
ricas já não são idênticas. 

Em Abril a media foi de 26o; a minima 
atinjiu 14o, em S. José da Canastra, povoa- 
ção baiana do municipio de Remanso e si- 
tuada a cerca de 500 metros de altitude; a 
maxima de 36o foi rejistada no sitio de Coité 
a 3 quilómetros da cidade de Petrolina. Ne- 
bulosidade=3. Durante a noite de 15 choveu 
pouco; no dia seguinte choveu copiosamen- 
te á noite; no dia 30 em lugar denominado 
Onça, Municipio de S. Raymundo Nonato, 
rejistámos rápido aguaceiro e que os natu- 
rais chamam de ^'neblitiá'\ 

Em Maio, a media deceu 24o4; o máximo 
atinjiu a 32o nos dias 13, 25 e30; a minima 
foi de 19, observada a 23 no lugar denomi- 
nado Caracol . Estas observações referem-se 
principalmente ás localidades do Municipio 
de S. Raymundo Nonato, onde, segundo 
informações ministradas pelo Coronel 
MANOEL ANTUNES DE MACEDO 
JUNIOR, na sua fazenda Tanque, a maxima 
anual atinje a 36°. 

A media de nebulosidade subiu, atinjindo 
6,8. Apenas choveu no dia 29. 

Nestes dados, estão também incluidas 
observações rejistadas em algumas locali- 



dades pertencentes aos municipios de Re- 
manso. Riacho da Casa Nova e Santa Rita 
do Rio Preto no Estado da Bahia. 

Durante o mez de Junho a media foi 
exatamente a do mez anterior 2404 ; a minima 
absoluta atinjiu a Ho no pouzo "Ipuêras" no 
dia 9; na vila Parnaguá rejistámos a maxima 
absoluta de 30 ■ : nos dias 11 e 16 choveu copio- 
samente, fenómeno raríssimo nesta quadra do 
ano, seguindo as informações obtidas. Pelas 
informações ministradas pelo Juiz de Direito, 
a maxima até hoje observada na vila de 
Parnaguá foi de 37o. 

Nebulosidade media: 6,8. 

No mez de Julho as observações com- 
preendem os municipios Parnaguá, Corrente 
(Piauhy), Sta. Rita (Bahia) e Duro (Ooyaz) 
É o mez de média mais baixa facilmente 
explicável não só pela época, como ainda 
pela altitude, cada dia mais elevada, pois 
caminhávamos com rumo ás cabeceiras do 
Rio Preto em demanda do divortium aguaram 
das bacias de S. Francisco e Tocantins; a 
média observada foi de 20o ; a maxima de 
310 no dia 4, proximo á vila de Parnaguá; a 
minima absoluta foi de 7o5 rejistada na loca- 
lidade baiana de Perypery, municipio de 
Sta. Rita do Rio Preto, Bahia. Do dia 5 ao 
dia 29 a minima absoluta ocilou entre 7o5 e 
120; esta temperatura foi observada em loca- 
lidades do municipio de Sta. Rita, Estado da 
Bahia e nos "geraes" (campos extensos e 
desabitados) do mesmo Estado que se esten- 
dem da confluencia do Rio Sapão no Rio 
Preto, até o grande chapadão situado cere? 
de 850 metros de altitude e existente nas 
proximidades de Goyaz. Os referidos geraes 
que evidentemente gosam de excelente clima, 
são formados por magnificas terras comple- 
tamente desaproveitadas, pois são desabi- 
tados por completo e ainda hoje se encon- 
tram nas mesmas condições descritas por 
GARDNER, ha 80 anos. 

Devido ás queimadas já frequentes nesta 
época, deixámos de tomar deste mez em 
diante as observações concernentes á nebu- 
losidade. 

Os últimos dias de Julho foram passados 
em Goyaz e logo ao atravesar a serra do 



76 



Duro, sente o viajante que o calor aumenta 
No mez de Agosto a média de tempe- 
ratura é representada por 25o, a mínima não 
vai além de 14,5,; em compensação, a maxima 
alcança a 34o. As observações efetuadas 
pelo Dr. FRANCISCO AYRES da SILVA 
tta cidade do Porto Nacional durante 10 
ni«zes do ano de 1901 rejistain as seguintes 
temperaturas máximas para cada mez : 

Janeiro 33o 

Fevereiro 32o 

Março 32o 

Abril 33o 

Maio 32o 

Junho 32o 

Julho 34o 

Agosto 35o5 

Setembro 36o 

Outubro 34o 

36o continua a ser a temperatura mais 
elevada, observada naquela cidade goiana 
Em Ooyaz, chove geralmente de Setembro ou 
Outubro a Dezembro ; deste mez em diante, 
i. é, em espaço de cerca de 20 dias, ha 
interrupção que dizem nunca faltar e que é 
conhecida por ^''veranico de Janeiro" ;\i2iS%Siào 
este praso, chove então copiosamente até 
Março. Em Julho ou Agosto, acontece 
cairem aguaceiros conhecidos sob a deno- 
minação de "chuva dos cajueiros". Naquelas 
zonas, só ha duas estações no ano, a "seca", 
que vai de Maio a Setembro e o "verde" de 
Outubro a Abril ; as designações de verão e 
inverno são mais raramente usadas ; algumas 
vezes a seca vai de Maio a Dezembro e 
mesmo a Janeiro, quando ocorre a primeira 
chuva; nos anos favoráveis começa a chover 
em fins de Setembro Isto é o que ocorre 
normalmente: periodicamente, porém, a 
chuva deixa de cair e sobrevem a seca com 
o clássico cortejo de horrores . 

O vento reinante na zona percorrida foi 
sempre o de leste ou sueste ; durante os 
dias em que permanecemos emParnaguá foi 
este o vento reinante (12 de Junho a 2 de 
julho) 

A marcha da seca se opera de leste 
para oeste. O caminho que efetu- 



avamos levava este rumo, o que nos per- 
mitiu observar o fenómeno, porquanto, já 
havendo seca completa nas zonas de leste, 
á medida que avançávamos, iamos sorpre- 
endendo o resto do "verde" ; Ao chegarmos 
a Parnaguá, depois de travessia por zonas já 
completamente secas, ainda encontrámos este 
municipio no fim do "verde" ; ao sairmos já 
a seca ali era completa no emtanto, muito 
mais adiante, ainda alcançámos zonas onde 
a seca apenas começava. A verificação era 
fácil de se fazer, pois sempre tomávamos 
como referenda 2 vejetaes muito comuns em 
toda a zona e pertencentes, um ao genero 
Crotón (marmeleiro) e o outro é o maia pasto 
(Cassia) e que se desfolham por completo. 

Em alguns logares de Goyaz, caem 
geadas e sobre esta tivemos varias informa- 
ções e pudemos mesmo observar os seus 
efeitos em algumas bananeiras. Na capital 
desse Estado, tivemos ocasião de presenciar 
intensa chuva de pedra de curta duração, 
porém. 

Diminuição das aguas. 

Não ha duvida que a agua diminue sempre 
no Brazil Central; o morador das marjens 
dos grandes rios não percebe o fenómeno, 
mas o depoimento dos habitantes das proxi- 
midades dos pequenos cursos e de coleções 
d'agua pouco volumosas é unanime em con- 
firmar este fato. 

De Petrollna até a vila de Parnaguá, não 
se encontra um único curso perene; o rio 
Piauhy, encontramol-o "cortado" (com o 
curso interrompido) na vila S. Raymundo 
Nonato; o Curimatá completamente seco; 
apenas para citar os maiores. A grande 
massa d'agua formada pela lagoa de Parna- 
guá, está seriamente ameaçada, tendo de- 
crecido cerca de 3 quilómetros e, se o rio 
Fundo vol, ar a lançar-se nela, o desecamen- 
to será apressado; este curso d'agua foi a 
principal causa do aterramento da lagoa; ha 
alguns anos que o rio mudou de curso e a 
lagoa, atualmente, é atravessada pelo rio Pa- 
raliim o qual acarreta grande quantidade de 
lama; as lagoas da Missão, Ibiraba, Ipuêra 
ou Jatobá, já por vezes têm secado nas grandes 



// 



secas. Depois do S. Francisco, o primeiro 
rio corrente que encontrámos foi o Parahim 
o qual, pelas informações, estava "cortado'^ 
mais adiante. Ao atravessarmos o rio Corren- 
te, que aflue ao Parahim, soubemos que 
durante a seca de 1898 teve o seu curso in- 
terrompido e o atravessámos em local onde 
media 5 metros de largura com 30 centíme- 
tros, apenas, de profundidade. Este é, aliás, 
um rio citado como de curso perene. 

Onde, porém, as informações são mais 
abundantes é em Goyaz , é proverbial a abun- 
dancia dos cursos d'agua deste Estado. Com 
tudo, é voz corrente, no emtanto, que a agua 
diminue paulatinamente, porém incessante- 
mente; qualquer antigo morador, a quem se 
interrogue sobre o assunto, logo narrará os 
brejos que existiam nas imediações e já des- 
aparecidos, e os ribeirões que antigamente 
não "cor/omm" ou rios como o Canabrava 
e o Santa Thereza que já começam a "cortó/". 
Qualquer habitante que resida pelo espaço 
de 20 anos em qualquer zona goiana, saberá 
dizer quantos buritizaes desapareceram neste 
espaço de tempo (a presença dos grupamen- 
tos de buritis {Mauritia vinifera MART.) é 
considerada com indicio da existencia de agua). 
Em muitos povoados goianos,a escassez d'agua 
é verdadeiramente notável; em Almas a ex- 
ploração do ouro não poude ir adiante por 
falta deste elemento ; no Descoberto, a zona 
é tão seca que ha necessidade de se abrirem 
grandes e profundas cacimbas á procura 
d'agua, tal qual, como fazem nas zonas con- 
sideradas secas ; o próprio Rio Vermelho que 
banha a Capital de Goyaz antigamente dava 
acesso a grandes embarcações. 

Acrece que, em toda a zona, o homem 
procura apressar por todos os meios a for- 
mação do deserto, pela destruição criminosa 
e estupida da vejetação. 

Da Alagoinhas (Bahia) em diante, a zona 
é evidentemente semi-arida e revolta ao mais 
alto ponto, a destruição da pouca vejetação 
existente ;■ os principaes responsáveis aí são 
a E. de F. S. Francisco e a Companhia 
Viação Fluvial; a primeira possue 4 grandes 
depósitos de lenha que consomem 500 metros 
cúbicos de lenha cada um, mensalmente ; além 



destes ha outros depósitos menores. Pelo novo 
contrato, a estrada só é obrigada a queimar 
carvão até Aramaty, no quilómetro 120; a 
estrada, no emtanto, tem 575 quilómetros até 
Joazeiro! A companhia de navegação fluvial só 
usa lenha como combustível. O carvão veje- 
tal utilisado na cidade da Bahia, provem ainda, 
em grande parte, da zona em questão. É 
fácil supor-se quaes as consequências de 
taes devastações adicionadas ás causadas 
peias queimadas, que têm inicio em Ou- 
tubro. Somente quem atravesou as cam- 
pinas baianas e goianas durante este peri- 
odo, poderá imajinar em que escala as quei- 
madas são efetuadas. Nas localidades situ- 
adas nos vales, a fumaça se acumula durante 
mezes, até que são varridas pelas chuvas; 
desola a ausencia quasi total de aves que 
nidificam no solo e que são destruidas; são 
centenas de quilómetros por zonas parca- 
mente habitadas, onde, no emtanto, a vida 
animal existe esscassamente representada, 
devido a ação do fogo. Mesmo nos"geraes" 
apenas viajados de quando em quando, o 
viajante lança o fogo a pretexto de preparar 
melhor pasto para as caravanas que lhe suce- 
derem, pois o ''agreste'''' depois de queimado, 
ao repontar serve de melhor alimentação 
aos animaes. 

Nem isto é sempre verdade, pois, por expe- 
riencia sabemos as dificuldades que tivemos de 
vencer, para alimentar a "■tropa" vitima de 
tal solicitude, que destruía por completo 
pastajens, talvez ainda aproveitáveis. Rara- 
mente, porém, ainda existe a defeza da boa 
intenção ; em geral, o fogo é lançado no 
meiado de Outubro quasi que simultaneamente 
e propaga-se por imensas extensões, até 
que algum curso d'agua ou buritizal o de- 
tenha; principalmente em Goyaz, as queimadas 
assumem proporções incríveis. 

Sem exceção, em toda a zona, as roças 
são plantadas nas chamadas calvaras; isto é, 
porção de mata destruida pelo fogo, onde se 
semeiam alguns litros de milho e feijão. 

A area semi-arida do Brazil, terá forçosa- 
mente de aumentar gradativamente ; naquelas 
parajens só se planta algum milho, feijão e 
nas "vasantes'" fumo e cana; certamente 



tb 



este pouco não substituirá o muito que rapi- 
damente se faz, destruindo a vejetação já 
naturalmente enfezeda e que protejia a agua 
escassa daquelas zonas. 

Já na Historia natmalis Brasiliae de 
PISO e MARCGRAVIUS se encontram re- 
ferencias á grande quantidade de plantas das 
rejiões secas e, á paj. 262 da edição de 
1648, acham-se alusões aos rios secos, em 
contraste com o "Flumen nnicuni nobile est 
in hisce regionibiis, vulgo Rio S. Francisco" 
etc., o que talvez constitua o primeiro docu- 
mento alusivo á "seca". MARTIUS nas 
Tabulae physionomicae explicatae, ocupa todo 
o capitula X com a "Silva Aestu Aphylla, 
quant dicunt Caa-tinga, in Provinciae Bahi- 
ensis deserto australi" ; aí encontram-se 
bosquejadas as linhas geraes do aspeto da 
vejetação da zona seca do Brazil. Pratica- 
mente quasi nada se fez depois da publica- 
ção da Flora Brasiliensis" . 

ULE e LOEFGREN escreveram sobre a 
questão varias publicações. Em Joazeiro, encon- 
trámos ') Horto Florestal apai^lhado por 
LOEFGREN para o estudo das plantas 
locaes e reunidos em um canteiro todos os 
representantes das cactáceas, alguns dos quae s 
constituem especies novas ; contámos 18 
especies ali representadas, todas determinadas 
cientificamete. Os géneros dendricolas não 
estavam presentes; aliás, em toda a zona seca» 
só encontrámos entre S. Raymundo e Re- 
manso uma denominada ''chicha", perten- 
cente, provavelmente, ao genero Phyllocactus 
LINK, e representantes do genero Rhipsalis 
GAERT. em alguns logares onde havia ainda 
mata. Apezar das pesquizas feitas sobre a 
vejetação da zona seca, sente-se imediata- 
mente pela simples leitura dos autores que 
dela se ocupam, que é campo onde ha 
muito que realizar e no material já estudado 
reina grande confusão, sendo indispensável 
uma revisão. Nas zonas por nós percorridas, 
não encontrámos um só exemplar de Cava- 
nillesia RUIZ e PAR., rejistada como presen- 
te por varios autores. Se nos fosse permitido 
dar a carateristica da caatinga pernambucana 
e piauiense, nós afirniariamos que a planta 
esencial é sem duvida a ''/aveleira'^ determi- 



nada por LOEFGREN como Pachystroma acan- 
thophylla. Mais que o imbuzeiro (Spondias tube- 
rosa A. GAMARA), do que a iniburana 
(Bursera letophoeos MART.), o joazeiro (Zizy- 
phiis joazeiro MART.) e o Pilocereus setosus 
GUERKE (xiqiiexique), a faveleira carateriza 
a caatinga. 

A imburana vai até Goyaz, o joazeiro e o 
imbuzeiro estendcm-se bastante para Oeste e 
Norte, a faveleira, no emtanto, termina pouco 
adiante de S. Ra^'inundo Nonato. Logo que 
a silva hórrida de MARTIUS melhora de 
aspeto e as Mimosas diminuem de numero 
e o marmeleiro {Crotón L.) se torna mais 
abundante, a faveleira vai diminuindo. 

De Petrolina a S. Raymundo, pratica- 
mente o aspeto da vejetação é o mesmo ; 
por toda a parte o Céreas catingicola GUERKE 
e varias especies de Neoglaziovia MEZ., 
além da A^. variegata ARRUDA GAMARA, 
e pelo menos 4 especies do genero Bromelia- 
represeníantes de Opuntia MILL., Echinoca, 
etas LINK e OTTO, Melocactus LINK e 
OTTO ; nenhuma bromeiiacea dendricola e 
apenas um exemplar de orchidacea foi encon- 
trado, o qual nos pareceu ser pertencente ao 
genero Cyrtopodi'irn R. BR. Por toda a parte 
a ''macanibira" (Bromclia laciniosa MART.), 
bromeiiacea terrestre de caule, extremamente 
abundante e em certos logares, formando 
por isso o ''macambiraV^ de grande utilidade 
nas secas, pois os rizomas servem de alimen- 
tação para homem eanimaes. De quando eni 
vez, o viajante tem a atenção despertada 
pela coloração venneUio-viva das flores do 
''mulunga'' {Erythrina L.) ou pelas vajens 
encuivadas e rubras de outra arvore de 
menor porte, o Pitliecolobiuin diversifolium 
BENTH. A Ipomea fistulosa MART., tão 
comum ás niarjens do S. Francisco, desa- 
parece logo depois de Petrolina para reapa- 
recer somente á marjem da lagoa de Parna= 
guá. Em toda aparte o marmeleiro {Crotón 
L.), sem estar aliado ao mofumo, como LOEF- 
GREN observou no Ceará, e o mata-pasto 
{Cassia sericea SWAR.) e outras especies do 
mesmo genero incluidas sob idêntica designa 
ção vulgar, ocupando ás vezes enormes exten- 
sões. Nenhum exemplar de palmeira; as 



79 



primeiras observadas foram a Copeniicia 
cerífe/aMAín . (carnaubeira) e isto na Fazen- 
da da Cruz nas imediações da Vila Parnaguá. 

Em alguns logares á marjem do S . Francis- 
co e do municipio piauiense de Parnaguá e 
inesmo na vila do Duro (Qoyaz), encontrámos 
algtins pés de Cocos nucífera L. Nas rcjiões 
sertanejas o "coqueiro da Bahia" não encon- 
trou as condições que favorecem o seu creci- 
mento e frutificação como no litoral . A 
escassez com que é encontrado já e uma prova ; 
além do que, pelas informações que colhemos 
os coqueiros ali, só começam a frutificar ao 
cabo de 7 anos e o exemplar que se desen- 
volveu na vila do Duro, só deu os primeiros 
frutos no fim 1 1 anos . 

A vejetação é pequena ; baraúna 
(Mfianoxylon braúna, SCHOTT), Joazeiro e 
umburana são os maiores representantes 
vejetaes até as proximidades de S. Raymundo 
e nunca excedem de 8 metros de altura. Em 
toda a zona, os terrenos são designados 
pelo aspeto da vejetação; assim, '"tabcleiro" 
designa terreno descampado e mais ou menos 
plano onde predomina vejetação rasteira ; o 
'^agreste" e o "mimoso" designam o terreno 
pela qualidade de gramínea que nace; o 
agreste (Eragrostis BEAUV . ) é forrajem de que 
o gado só se utiliza depois de queimada, 
alimentando-se os animais dos rebentos; 
o mimoso (Panirum capillaceum LANK.) 
é a forrajem melhor utilisada pelo gado sem 
a ação do fogo. 

Pouco adiante de Petrolina, as a.vores 
da caatinga são mais desenvolvidas do que 
nos arredores de Joazeiro e no lugar deno- 
minado "Caldeirão" (Pernambuco) as arvores 
de espinho diminuiram e as umburanas, 
juremas {Mimosas.) atinjem grandes propor- 
ções. Na época em que atravessámos 
essa zona (Abril) tudo estava virente; mais 
tarde verificámos que somente as cactáceas se 
conservam verdes e, se a seca se prolonga 
até o "xiqui-xique emagrece", segundo nos 
informaram. 

A' medida, porém, que o viajante se apro- 
xima de S . Raymundo, a vejetação vai mu- 
dando para melhor e entre esta vila e a 
cidade de Remanso enconfra-se vejetação 



mais robusta ; todavia, a umburana de cheiro 
ou brava (Torresia cearensis FREIRE ALLE- 
MÃO.) chega a dar taboas de 3 palmos, 
disputando com a Hymenaea courbaril L. 
(jatobá), o que bem mostra como a vejeta- 
ção se desenvolve pouco e como as dimen- 
sões das arvores estão lonje das proporções 
alcançadas no sul do Paiz. O anjico (Pipta. 
denia moniliformis BENTH.) e a aroeira 
(Asironium JACQ.) completam as grandes 
arvores de toda a zona até chegar á vila de 
Parnaguá, onde as mesmas especies vejetaes 
assumem proporções maiores. Nos arredo- 
res de Parnaguá ha ainda uma outra especie 
de anjico, a Pipíadenia biuncifera BENTH que, 
aiém de outros caracteres diferenciaes, possue 
vajem muito maior. Ai, encontrámos a 
única arvore gigantesca de todo o percurso, que 
é um exemplar de certa qualidade de gameleira, 
Urosfigma gardnerianum MIQ . Entre os gran- 
des representantes aparece pela primeira 
vez o tamburil {Entcrolobium tamburil MART.) 
Em Parnaguá, a faveleira já não existe e 
poderíamos dizer com toda a verdade, imi- 
tando o falar local, que a faveleira éa divisa 
entre a caatinga e o agreste. As juremas em 6 
de Junho aqui ainda floreciam, no emtanto 
já estavam completamente desfolhadas de 
Caracol até esta vila. Sob a denominação de 
jurema, o povo reúne pelo menos 3 especies 
perfeitamente definidas ; uma de flor rosea e 
duas outras de flores brancas de tamanhos 
diversos, além da diferença existente na 
coloração do cortex. A maniçoba existe 
abundantemente na zona senii-arida da Bahia e 
Piauhy, estendendo-se muito mais para leste 
do que a faveleira, invadindo o "agreste" e 
desaparecendo antes de atmjir os "geraes" 
existentes entre S. Marcelo e Duro. As es- 
pecies do genero Manihot, produtoras de 
borracha e conhecidas vulgarmente sob as 
denominações de "maniçoba" e "maniçoba 
rasteira", até ha pouco tempo apenas consi- 
deradas como sendo uma única especie, a 
Manihot glaziovi MUELL. ARQ. descrita 
do Ceará, hoje se elevam a mais ou menos 
20 especies perfeitamente determinadas. 
Ainda muito receremente, E. ULE em tra- 
balho intitulado "Beitraege zur Kenntuis der 



80 



braziUanischen Manihot-Arten publicou no 
Vol. 50, faciculo 5, No 114, pp. 1-12 do 
" Botan ische Jahrbuecher" de ENGLER, saído 
em Maio de 1914, os resultados das 
pesquizas efetuadas no material colecionado 
na Bahia pelo Snr. L. ZEHNTER, onde 
foram encontradas 11 novas especies e duas 
variedades novas, sendo que 6 especies ou 
variedades fornecem borracha. 

Posteriormente a esse trabalho, ULE 
ainda publicou sob o titulo de Die Kautschuk- 
pflanzen Suedamenkas" um trabalho no "Ve- 
getationsbilder" de KARSTEN & SCHENCK 
{cf. op. cit. 12. Reihe, Heft 6, Taf. 31-36, 
Jena, 1914), onde se encontram interessantes 
informações sobre a maniçoba e a manga- 
beira. 

Na lagoa de Pamaguá, a Eichornia aza- 
rea KUNTH é bastante abundante sem toda- 
via formar grandes camalotes e em alguns 
lugares da Ibiraba encontrámos o Hedychium 
coronariam KOEN No municipio de Parna- 
guá fica uma celebrada "vêrêda" (vocábulo 
cuja significação, segundo a nossa interpreta- 
ção, indica, naquelas parajens, 'local fértil e 
com vejetação abundante ») "vêrêda do Ciiri- 
matâ" ; não se imajinem matas cerradas ; lonje 
disto, é um trecho de terra de maior fertili- 
dade, verdadeiramente uma mancha de ver- 
dura formada por vejetação mais viçosa e 
condensada. Nesta rejião as pastajens são 
excelentes e o Andropogon rufiis KTH . , o 
jaraguá do Sul, mas ali denominado de pro- 
visorio, crece espontaneamente. 

Sob a denominação de croatá-assú en- 
contra-se na rejião seca, porém não abundan- 
temente, a Fourcraea gigantea VENT .=(Four' 
croya SCHM.), amarilidacea atualmente dis- 
seminada em toda a America tropical e em 
alguns pontos do \elho mundo. Trata-se da 
piteira ou pita do Sul do Brazil, planta apro- 
veitada em toda parte para extração de fibras; 
em Mauricia as fibras deste vejetal são co- 
nhecidas pelo nome de pitt ou pitte, prová- 
vel corruptela da expressão brazileira. 

Na rejião do nordeste, DRUMMOND re- 
jista ainda como presente a F. agavephvlla 
BROTERO, acreditando que esta seja sino- 
nima da especie descrita ás pp. 23-26 na 



"Dissertação sobre as plantas que podem dar 
linho" de ARRUDA CAMARÁ, sob a deno- 
minação de Agave vivipara. A identificação 
que fizemos do croatá-assá com a F. gigan- 
tea, é apenas provável, pois, sobre o genero 
Fourcraea e como muitíssimos outros que pos- 
suem representantes no Brazil, ha muita con- 
fusão. J. R. DRUMMOND publicou no 18 /// 
Annual Report of the Missouri Botanical Gar- 
den pp. 25-75, PI. 1-4, S. Louis, 1907, sob o ti- 
tulo " The littérature of Fourcraea with a sy- 
nopsis of the known species ' trabalho exaustivo 
sobre o assunto e onde são estudadas, por- 
menorisadamente, varias questões concernen- 
tes ás especies do genero Fourcraea que 
occorrem no Brazil e que os interessados po- 
derão consultar, com todo o proveito, assim 
como as "Observations on Fourcraea^'' de W. 
TRELEASE publicadas nos: Annales du Jar- 
din Botanique de Buitenzorg, - 2e Ser . Suppl 
III-pp. 905-916, Taf. XXV - XLVMl, Lei- 
de, 1900. 

Neste trabalho o autor, além de informa- 
ções sobre a piteira no Brazil e que de algum 
modo contrariam o ponto de vista de DRUM- 
MOND, pois o "Caraguatáguaçú de PISO é 
uma evidente Fourcraea para TRELEASE e 
somente pro parte para o outro, traz novos 
dados para o estudo da questão das especies 
brazileiras; TRELEASE identifica como sendo 
a F. agavephylla BROT. a planta que forne- 
ce fibras no Ceará e Pernambuco. 

Um dia antes de chegarmos a Caracol, 
atravessámos grande trecho revestido quasi 
que exclusivamente de anjico e, 4 dias após 
a nossa saida da vila de Parnaguá, entre os 
pousos de Brejo e Sitio, passámos por zona 
de grande verdura, com arvores frondosas, 
representadas na sua maioria por carahibei- 
ras. No Brazil, só por exceção as especies ve- 
jetaes de certo vulto vivem em sociedade c, 
a não ser a Araucaria no Sul, a Laguncula- 
ria racemosa GAERTN. e a Rhizophora 
mangle L. no litoral e poucas outras mais, 
em geral crecem e se desenvolvem dissemi- 
nadas entre centenas de outras. Isto muito 
concorre para dificultar a extração das ma- 
deiras em todo o paiz, contribuindo podero- 
samente para incrementar a calamitosa devas- 



81 



tacão das nossas florestas. O grande anjical 
iíor nós atravessado no Piauhy, represen- 
ta seguramente exceção digna de rejisto, 
tanto mais quando nem remotamente se pode 
suspeitar que o fato represente planta- 
ção efetuada intencionalmente. 

Depois de abandonarmos os municipios 
de Pamaguá e Corrente (Piauhy) entrámos 
no municipio de S<í>. Rita do Rio Preto (Bahia) 
e então viajámos por "veredas" de vejetação 
pujante rica e variada; aparecem pela primei- 
ra vez as tabocas {Guadua KTH.), a Copai- 
fera langsdorffii, DESF. e varios exemplares 
do genero Clwrisia HUMB. e BOMP. e 
KTH. ; surje ainda e em abundancia, uma 
palmeira anã denominada de piassava, sem 
ser porem a Altaica funifera MART. 

Trata-se de palmeira provavelmente do 
genero Attalea HUMB. BOMP. e KTH., 
mas talvez ainda desconhecida da ciencia; 
BARBOSA RODRIGUES no Sertuin palina- 
rum, apenas a ela se refere rapidamente 
quando se ocupa da distribuição das pal- 
meiras no Brazil; este autor rejista o fenóme- 
no da fosforecencia das flores; por varias 
vezes ouvimos referencias ao fato e, pelas 
informações do Sur. JOSE DOS REIS, nego- 
ciante em S. Marcello, Bahia, por mais de 
uma vez houve venda deste produto. GARD- 
NER observou fato análogo em outra pal- 
meira do riauhy e o fenómeno era devido á 
presença de um Aguricus. Aparecem também 
representantes do genero Bowdichia HUMB, 
BOMP. e KTH. As plantas dos géneros Cereus 
HAW. e Opuntia MILL, desapareceram, 
assim como o joazeiro, imbuzeiro, carnaú- 
ba; persistem ainda as umburanas e baraú- 
nas. Começaram a aparecer os cajueiros 
(Anacardium humile ST. HILAIRE) e o piqui 
{Caryccar brasiliense CAMB.), a Mauritia vi- 
uifera MART, (buriti), a macaúba {Acrocomia 
intumcscens DR.). Nas arvores já aparece ve- 
jetação dendricola, além da Tillandsia usneoi- 
des SCHULT. , uma das raras bromeliaceas 
epífitas da zona seniiarida, vêrn-se exemplares 
provavelmente de Vriesia LINDL. e os Philo- 
dendron SCHOTT são bastante numerosos. 
Entrámos, por fim, nos "geraes'' e os percor- 
ridos por nós são, a principio, ricos d'agua; 



logo depois de S. Marcello ela vai escasse- 
ando; 60 quilómetros depois, começaram a 
aparecer os representantes do genero VW- 
losia VAN D. e, mais adiante, a Hancor- 
nia GOMES; frequentemente se vê um buri- 
tizal que é um grande capão de verdura e 
que denuncia sempre a presença d'agua. O 
buritizal contem quasi todas as especies que 
se acham na zona com exceção das cactáceas 
terrestres e forma aspeto cirateristico de veje- 
tação; nele encontram-sc mais especies reuni- 
das do que existem cm centenas de quilóme- 
tros de percursos; deparámos pela primeira 
vez com exemplares de filicíneas, não só do 
genero Polypodium L. como as epífitas Ophio- 
glossum L. e Ligodium SCHW. , apar com os 
representantes do genero Cecropia L. e Tibou- 
china AUBL. Todas as palmeiras da zona aí 
se reúnem, predominando porém os buritis e 
buritiranas {Mauritia L.) e {Bactris JACQ.) e 
ainda as arvores de grande porte ; no sólo 
crecem exemplares de Caladiuni VENf,. 5a- 
gittaria L, e Heliconia L. e a parte central é 
muito pantanosa e de cima a baixo a Scleria 
reflexa HUMB. e BOMP. e KTH. {tiririca) se 
desenvolve pujantemente. O buritizal em 
Goyaz, não só é mais frequente, como é maior 
e mais rico em especies vejetaes do que na 
Bahia e Piauhy; nos buritizaes goianos, entre 
as arvores de grande porte, existe uma guti- 
fera denominada landi {Calophyllum brasilien- 
se CAMB.) e que é muito frequente; ainda 
se encontra a palmeira denominada de "cabe- 
çudo", Cocos capitata MART. Em algumas 
zonas baianas, nos buritizaes ou mesmo fora, 
existe conhecido sob o nome de "caraiba" 
(sem que se trate da "'claraíba", Cordia in- 
signis CHAM, que possiie nome muito se- 
melhante), grande arvore cuja determina- 
ção não conseguimos fazer. 

Nesses "geraes" existem certamente duas 
especies de cajueiros : {Anacardium humile e A, 
pumiluni ST, HILAIRE), que se encontravam 
carregac^os de frutos maduros em meados 
de Julho; por toda a parte, domina um capim 
que crece em touceiras sempre altas, perten- 
cente, provavelmente, ao genero Eragrosli^ 
BEAUR. Os "geraes'" que se estendem de S 
Marcello ao Duro são ponto de tran- 



82 



sição entre a 2a provinda de MARTIUS, das 
plantas Haniadriadas (regio extra-tropica et 
calida sicca) e a 3a provincia formada por 
Goyaz a das plantas Oreadas (regio montano- 
campestris). 

Em todo o trajeto é muito abundante 
a dileniacea Curatella americana L. e, 
desde o municipio de Sta Rita começa 
a aparecer a fruta de lobo (Solanum grandí- 
florum RUIZ e PAR.) ; nos límites de Goyaz, 
em principio de Julho, encontrámos varias 
arvores cobertas por lindo cipó de brateas 
vermelhas que as revestem por completo. 

A glande campina entre os geraes bai- 
anos e a vila do Duro é revestida quasi 
completamente de graminaceas ; não exis- 
te em toda a enorme extensão arvore 
a'gnma ou arvoredo que dê sombra. Dissemi- 
nados aqui, ali e acolá, vêm-se pés de Cura- 
tella americana e dos representantes dos 
géneros Kielmeyera MART, e Plumería 
TOURN. Em todas as parajens goianas dai 
por diante, logo que o viajante se afasta das 
marjens dos rios, as especies destes 2 géneros, 
pertencentes a familias diferentes, mas que 
á primeira vista apresentam flagrantes anajo- 
jias, dão a nota predominante da paizajem. 

Em toda a zona percorrida, não conse- 
guimos encontrar a Selaginella convoluta 
SPRiNG, planta que tínhamos grande curio- 
sidade em conhecer, pois na nossa juven- 
tude, tivemos a atenção despertada para o 
assunto, em consequência de artigo publi- 
cado na Revista Brazileira, pp. 176-181. T. 
Vni-1896 e da lavra do Dr. GARCIA 
REDONDO e que assim o epigrafara:" A 
planta da Resurreição" o que, naquela época 
imenso interesse nos despertara. 

Apezar de HEJVISLEY rejistar na Biol. 
Centr. Am. Vol. Ill paj. 705 a sua presença 
em Nicaragua, Colombia, e Guyana, e das 
informações de MARTIUS que lhe assinala 
ainda como habitat, os sertões da Bahia e 
Pernambuco, afirmações que servem para 
demonàirar como a referida planta é comum 
na America do Sul, não conseguimos encon- 
tral-a no nosso percurso. O ilustre Snr. A. 
LOEFGREN, grande autoridade em questões 
atinentes á flora brazileira, a cujo estudo 



tem dedicado tamas anos, verificou em 
Pernambuco a especie em questão, em grande 
profusão, a ponto de formar uma sociedade 
vejetativa que ele chama de Cactus-Selagi- 
nella fCf." Contribuições para a questão 
florestal da rejião do nordeste do Brazil" 
paj. 37, Dez de 1912). 

Em 1891-92, SPENCER LE MOORE per- 
correu parte de Matto-Grosso a estudar 
fanerógamos ; pois bem, neste curto espaço 
de tempo o ilustre botânico encontrou 8 
géneros e 211 especies completamente novas. 

ALBERTO SAMPAIO, já por vezes tem 
dado á publicidade varios trabalhos demons- 
trando o atrazo em que se acha a Flora de 
MARTIUS. Mister se faz estudar detidamen- 
te a flora ainda nuiito ignorada da zona 
semi-arida, e instituir museu fitolojico, onde 
serão reservados os exemplares estudados e 
principalmente os tipos das novas especies 
encontradas. 

Com a especialização atual, consequên- 
cia do desenvolvimento cientifico, é impos- 
sível a qualquer individuo, rotular-se de bo- 
tânico, zoólogo, químico, etc. etc., de ma- 
neira que 1 só botánico é incapaz de conhe- 
cer perfeitamente a flora brazileira a qual já 
no monumental trabalho de MARTIUS, en- 
cerra a descrição de vinte mil especies; 
portanto, só alguns botânicos, trabalhando e 
coleuonando intensamente, poderão empre- 
ender a revisão e o estudo da flora das zonas 
secas. 

Citemos um fato sem duvida interessante 
e que deve ser referido em abono do que 
dizemos ; em toda a rejião seca existe uma 
arvore denominada ^'umbú" ou ''imbú", já 
descrita e figurada por MARCGRAV á paj. 
108 do Livr. III e por PISO no capitulo 
XXX 11-77-78 do livr. IV, e no emtanto deter, 
minada por MARTIUS no capitulo "De 
Anacardiacearum Brasiliensium Usu" paj. 
415 do Vol. 12, Pars II, como sendo a 
Spondias ourpurea L., cuja descrição, no 
emtanto, não corresponde ao verdadeiro 
"umbú"; bastando lembrar que MARTIUS 
dá para a especie 10-13 metros de altura, 
crecimento nunca verificado para o umbuzeiro 
do nordeste o qual, além de tudo, parece 



83 



ser planta exclusiva de alguns Estados da- 
quela zona, porquanto, já em Qoy<)z não 
é mais encontrada. MARTIUS, no emtanto, 
dá a distribuição geográfica da especie alguns 
logares das Antilhas e varios Estados brazi- 
leiros, onde, certamente, a especie do nor- 
deste não é encontrada e ENQLER e PRANTL 
in Natuerliche Pflanzenfamilien III. Teil 5, 
Abth. pp. 150-151 1896, dizem ser a Spon- 
dias purpuren L. autóctone das Antilhas e 
existe expontaneaniente no Mexico, Perú 
e Colombia. HEMSLEY, B. W., quando 
se ocupa das anacardiaceas na Biologia 
Centrali-Americana {Botany) Vol. I, paj. 
222, diz, a proposito da Spondias purpu- 
rea: "True S. purpurea occurs in Jamaica 
Cuba, and Colombia", não considerando por- 
tanto o Brazil como sendo também habitat 
desta especie. ULE, em 1908, no faciculo 3o 
da 6a serie dos "Vegetationsbildet^* de KAR- 
STEN & SCHENCK, no capitulo intitulado 
"Das Innere von NORDOST-BRAZILIEN" 
identificou o umbuzeiro dali com a Spondias 
lútea L. que é o vulgar cajá, já disseminada 
em toda a America tropical. Africa Ocidental 
e Java segundo se lê em ENQLER e PR.A- 
NTL, op. cit. E verdade que alguns autores 
brazileiros determinam a especie como sendo 
a Spondias tuberosa ARRUDA CAMARÁ, 
nome que não figura nas especies do genero 
Spondias de que MARTIUS se ocupa. Como 
é sabido, ARRUDA CAMARÁ determinou 
varias especies, que, apezar de nunca terem 
sido publicadas, tiveram o nome divulgado 
pela leitura dos seus manuscritos e não 
sabemos se o imbuzeiro está neste caso, e se 
foi descrito nas "Centúrias", trabalho apenas 
em parte vindo á publicidade e cujos ori- 
jinaes supomos se encontrarem na Biblioteca 
Nacional e que ainda não tivemos oportu- 
nidade de consultar. Se isto não aconteceu, 
o imbuzeiro do nordeste constituirá especie 
nova para a ciencia por não ter sido conve- 
nientemente descrita e publicada, segundo as 
regras da nomenclatura botânica. Acrece 
ainda ser possível que, sob a denominação 
de imbuzeiro, estejam incluidas diversas 
especies perfeitamente definidas. Pelo menos 
uma variedade existo, pela certa, pois além 



do tipo comum das caatingas baianas, existe 
outro, maior e mais copado, que possue as 
folhas pubecentes e que é bastante conuiin 
no Piauhy. 

Este exemplo é bem eloquente para 
mostrar, não só a necessidade da revisão 
da Flora de MARTIUS, como ainda vem 
provar como a flora daquela rejião preciza 
ser estudada. Em condições quasi análogas 
encontrámos a ^^faveleira^\ arvore das mais 
carateristicas da caatinga, desconhecida de 
MARTIUS e que LOEFQREN determinou, 
ora como latropha acanthoptiylla ou Pacliys- 
troma acanthophylla, nome êpecifico que terá 
de prevalecer embora restem duvidas quanto 
á colocação genérica. 

O problema das secas é poliédrico e, 
parece-nos, deverá ser encarado sob varios 
prismas e atacado simultaneamente por todo 
os lados; para nós, a abertura de açudes 
grandes ou pequenos só atende á necessidade 
premente atual e como medida única resolve 
o problema da irrigação no momento pre- 
sente, em nada influindo contra as verdadei- 
ras causas ocasionadoras das secas periódicas ; 
é paliativo indispensável, mas não remedio. 
A'queles que cotno nós, conhecem as zonas 
secas em pleno periodo de estiajem, acode 
a idea de que a reflorestação do nordeste 
brazileiro é o complemento indispensável 
da açudajeni, que, com o e3tancar progre - 
sivo dos mananciaes não terá senão efei o 
transitorio. 

Quando o Brazil foi descoberto, certa- 
mente aquelas zonas vinham sofrendo já a 
influencia das forças naturaes da desecação 
progressiva ; a civilisação invadiu aqueles 
sertões, abrazando as matas. Hoje a destrui- 
ção continúa sempre em maior escala; o 
sertanejo inconciente está preparando o 
deserto; é esta a verdade. — Os aborijenes que 
habitavam no Brazil antes do descobrimento 
só conheciam um único meio de amanhar a 
terra e que era o fogo; deles, os invasores não 
só herdaram a técnica, como ainda perpe- 
tuaram a tecnolojia absorvida pelo vernáculo, 
como se verifica pelos vocábulos "capueira, 
caiçava e coivara" . Quem 1er a "Dissertação 
histórica, ethnographica e politica^'' de I. A. 



84 



CERQUEIRA e SILVA, aparecida ás pp. 
143-195 da Rev. do Int. Hist, e Qeogr. Bra- 
sileiro, Vol. XII -Rio, 1849, verá o apelo que 
o ouvidor F. NUNES D.\ COSTA lançou á 
metrópole, em 20 de Junho oe 1784, a propo- 
sito da devastação das matas do Jequiriçá e 
Rio de Contas, na Bahia. Da sua leitura, 
verifica-se que, desde 1652, o alarma já se 
fizera escutar, obtendo com resultado pra- 
tico o rejimento de 13 de Outubro de 1751, 
o qual tomava providencias sobre o corte de 
madeiras de lei. Em virtude de novas repre- 
sentações levadas á decisão aa iVletropole, 
esta fez baixar a carta rejia de 13 de Março 
de 1797, determinando que se organisasse 
plano para impedir a destruição das 
matas. Tudo porém, foi baldado e a devasta- 
t,ão que atualmente se assiste em todo terri- 
torio nacional, assume proporções verdadei- 
ramente assustadoras. 

Uma das tribus de índios mais numerosas 
do Brazil, a dos cayapas, tirou esse nome, 
segundo os entendidos, do fato de fazer 
queimadas. 

A reflorestação portanto, será o único 
meio de combater o deserto em formação. 
Para isto, torna-se necessário o estudo previo 
da flora, afim de se aproveitar os núcleos 
de vejetação, onde existentes e, aos poucos, 
ir vencendo a natureza . 

Não atravessámos matas em toda a re- 
jião percorrida, a não ser uma larga faixa 
que mede cerca de 12 quilómetros proximo á 



Capital de Goyaz. Para nós, a vejetação deste 
Estado causou-nos enorme surpreza porquan- 
to pelas narrativas e descrições estávamos 
convencidos de ser uma das zonas mais ricas 
em florestas do paiz. A nossa observação 
refere-se á toda zona compreendida entre a 
vila de Duro á cidade de Porto Nacional e 
daí até a Capital do Estado. Pela leitura do 
relatório de ULE, sobre o Planalto Central, 
sabíamos já da existencia de campos cuja 
flora é extraordinariamente rica em especies 
e achávamos estranho a falta de referencias 
ás florestas e supúnhamos tratar-se de fato 
localizado ao planalto. 

Agora, podemos afirmar que o quadro tra- 
çado por aquele botânico pode, nas linhas 
geraes, ser generalizado á zona de Goyaz por 
nós percorrida. O que se chama de mata 
nas rejiões do Nordeste é a estreita faixa 
de vejetação que crece ás marjens dos rios, 
ribeirões e lagoas; no Rio Tocantins, a orla 
de mata é mais larga e mais pujante que a 
observada nos rios S. Francisco, Preto, Cor- 
rente etc. ; todavia, nunca tem a largura e a 
pujan<,a da vejetação das marjens do curso 
d'agua do Sul e do extremo Norte do Brazil. 

Quanto á fertilidade do solo goiano, só 
existe verdadeiramente no Sul do Estado de 
Curralinho a Anhanguera ; o norte é muito 
pobre até de pastajens o que é fácil de ve- 
rificar pelo tamanho do gado, em contraste 
com o que se verifica em certas zonas do 
Píauhy. 



CEZAR, DIOGO J. & SAM- 
PAIO, A. J. DE 

LOEFGREN, A. 



LOEFGREN, A. 



Oi l3l iogi^iifiiJ- 
Apontamentos para a revisão da Flora de MARTIUS. 
1913 A lavoura- Ano 17, Nos. 7 e 8 p.p. 140-15Ó- Rio de Ja- 
neiro. 

1910 Notas Botânicas -(Ceará) 

Publ. No 2 -Ser. 1, A (investigações botânicas) da Ins- 
petoria De Obras contra a Seca -Rio de Ja- 
neiro. 

1912 Contribuições para a questão florestal da região do 
Nordeste do Brazil. 
Idem -Ibidem. Publ. No 18, Rio de Janeiro. 



PISONIS, G. & .^\ARCGRAVI 1648 Historia Naturalis Brasiliae. Amsíeiodami. 
DE LIFBSTAD, G. 



85 



SAMPAIO, A. J. DE 

SAMPAIO, A. J. DE 

ULE, E. 

ULE, E. 
ZIMMERMANN, A. 



1912 



1913 



1908 



1909 



1913 



Considerações sobre a Flora Brasiliensis de MARTIUS, 
quanto á necessidade de sua revisão e de 
sua continuação - Rio de Janeiro. 

Apontamentos para a revisão da Flora de MARTIUS. 

Primeira lista alphabetica de trabalhos. A Lavoura, 

Ano 17, Nos. 1-6, pp. 19-53 Rio de Janeiro. 

Das innere von Nordost-Brasiliens in Vegetationsbilder 
de KARSTEN & SCHENCK 6. Reihe. Heft 
3-Tafel 13-15 -Jena 1908. 

Extracção e commercio da borracha da Bahia. Trad, de 
CARLOS MOREI RA -Rio de Janeiro. 

Manthot-Kautschuk - Jena. 



Plantas venenosas. 



Nas marjens dos rios e lagoas, é muito 
comum a presença duma convolvulácea que 
florece de março a junho e denominada vul- 
garmente "canudo" (¡pomoea fistulosa MART). 
Dizem os habitantes, ser planta altamente 
venenosa para o gado que dela se alimenta, 
quando as pastajens vão rareando; na verda- 
de, podemos pessoalmente observar este fato 
ás marjens da lagoa de Parnaguá (Piauhy) e 
também a sua consequência no aparecimento 
de animaes ali denominados de "encai!iidados'\ 
isto é, inloxicados pelo ''canudo'", cujo primei- 
ro sintoma é fazer o gado ''tontejat". Por 
varias vezes tivemos oportunidade de ver 
chegar á tarde, o gado pertencente ao Snr. 
Coronel O'DONNELL DE ALENCAR, fazen- 
deiro residente á vila de Parnaguá, e verificar 
a presença de animaes de marcha trôpega, 
cabeça voltada para o chão visivelmente doen- 
tes e que, pelo referido criador, nos eram 
apontados como animaes "encanndados" . 

Pelas informações, quando o gado se 
alimenta em demasia com a folhajem do 
"canudo", podem-se rejistar casos de morte; 
em geral, porem, passada a especie de embri- 
aguez o animal se restabelece. 

Procurámos obter sementes da planta em 
questão, que plantámos no horto destinado ás 
plantas venenosas, mantido em Manguinhos ; 
facilmente obtivemos excelentes exemplares 
e, em companhia do Dr. ANTONIO FONTES 
iniciámos as pesquizas tendentes a verificar 



a natureza do toxico. Todas as experiencias 
por nós realizadas em ratos, cobaias, cães e 
coelhos resultaram negativas, mesmo empre- 
gando doses enormes de suco extraído por 
expressão. 

E' sabido que certas plantas só se apre- 
sentam toxicas por ocasião da floração e, 
falta-nos eliminar esta hipótese antes de 
declarar o ''canudo^' inocente, pois, na oca- 
sião em que observámos os animaes "enca- 
nndados", grande numero da convolvulácea 
em questão se encontrava em florecencia e 
as nossas experiencias foram efetuadas em 
período anterior. Ha ainda a eliminar a 
hipótese possível do "m;z«rf.>" por si só ser 
inocuo, mas que injerido com outra planta 
possa haver a formação de composto novo 
que seja toxico. Por fim, a explicação poderá 
residir ainda no fato de observação mal 
feita, escapando o verdadeiro responsável, o 
qual creça nas mesmas parajens onde se 
acha a Iponwea fistulosa e esta hipótese não 
é de todo improvável porquanto, a especie 
em questão, já foi rejistada cientificamente 
como existindo no Espirito Santo (NEUWIED) 
Goyaz (POHL), Pará (varios autores) e até 
em Guatemala (FRIEDRICHSTAL), Perú 
(HEMSLEY), sem que ninguém a acuse 
como tal ; todavia, análoga acusação sofre 
uma planta chamada "canudo" no Ceará 
como se vê do trabalho de CAMINHOÁ: 
«Das Plantas Toxicas do Brazil «paj. 172 -Río- 
1871 e pelo autor determinada como per- 
tencente ao genero Calonyction e que, coni 



8Õ 



toda a probabilidade deve ser identificada á 
Ipomoea fistulosa MART. HUBER, J. no 
^'Arboretum Amazonicum paj. 30-Est. 29 
ocupa-se do ^'algodão bravo^^ nome por que 
é balizada no Pará a Ipomoea fistulosa. A 
magnifica fotografia, reproduz o ''canudo^' 
em plena floração : o texto nada refere á 
toxidez da planta. Em trabalho postumo de 
V. CHERMONT DE MIRANDA, publicado 
no Vol. V-No 1 pp. 96-1 51 -(cf. paj. 129) do 
Boletim do Museu Goeldi-Pará em 1907-1908 
e que tem por titulo "Os campos de Marajó 
e a sua flora "ao tratar do algodão bravo 
nada diz da sua toxidez, embora dê noticia 
desenvolvida do referido vejetal . SPEQAZ- 
ZINI-Entregas III-IV. T. LXXVII pp. 159- 
164-Abril-I9l4 publicou sob o titulo "Notas y 
Apuntes sobre Plantas Venenosas Para Los 
Ganados^\ um trabalho, onde verificou ao lado 
de algumas observações populares verdadeiras 
sobre plantas venenosas, varias outras com- 
pletamente falsas. O curioso é que alguns 
dos vejetaes tidos pelo povo daquele paiz 
como venenosos, por exemplo a Chlorís dis- 
tichophylla LAO., é cultivada entre nós para 
forrajem. Comtudo o contrario também se 
observa, pois o Enterolobium timbouva 
MART., conhecido na Arjentina pela deno- 
minação de ^^timbó" e entre nós também por 
esse nome e ainda os de "timbanva,tamboril, 
"timbó-áva" e outros, como se vêm no 
trabalho citado de CAMINHOÁ que afirma 
ser a casca ictiotoxica, não constitue no 
emtanto para SPEOAZZINI especie venenosa, 
apezar das afirmações em contrario das 
pessoas do povo dos 2 paizes . Posterior- 
mente, o autor arjentino leve ocasião de veri- 
ficar que para algumas plantas o povo tinha 
razão quando as considerava venenosas, por- 
quanto experimentando com os brotos e re- 
bentos poude vorificar que somente estes 
eram tóxicos. O assunto, aliás, só por si 
oferece grande complexidade, bastando rela- 
tar que o Bureau of Plant Industry em 1908 
publicava com a autoridade de CRAWFORD, 
A. C. o boletim 129 intitulado "Barium a 
cause of the loco-weed Disease" para demons- 
trar que o envenenamento ocasionado no 
gado do Colorado pela injestão de certas 



plantas do genero Astragalus, era devido á 
presença de saes de bario no tecido vejetal. 
Em Julho de 1912, o mesmo Bureau publica 
sob o titulo: "The relation of Barium, to the 
loco-weed disease" o boletim No 246, onde 
MARSH, D. C, ALSBERQ, L. C. & BLACK, 
F. O. estudam e demonstram a existencia 
de bario em certas especies forrajeiras per- 
tencentes ao genero Panicum e Andropogon 
que se desenvolvem na Virginia, mas, que 
nem por isso, são tóxicos, porquanto, o bario 
é encontrado sob forma quasi insolúvel. As 
experiencias realizadas pelos 2 últimos auto- 
res com diferentes especies de Astragalus, 
provam que a grande toxidez de algumas, 
nada tem que ver com o bario e seus compos- 
tos, sendo o envenenamento ocasionado por 
causa completamente diferente. 

Entre as papilionaceas existe urna muito 
mal afamada e sobre a qual varios autores 
que se têm ocupado da alimentação em 
época de seca já têm tratado; queremos nos 
referir á "mucunan", cujo nome encerra pelo 
menos duas especies cientificas: a Mucuna 
altíssima D. C. e a Mucuna rostrata BENTH. 

A idéa da toxidez da planta é oriji- 
naria dos indijenas, pois PISON, á paj. 48, 
livro IV, diz a este proposito o seguinte da 
Mucuna guacu como a chamava: "K/ effracta, 
pulcherriwi globuli, interstitiiis divisi, exinde 
prodeunf, tres quatuorve, punicei et rubri colo- 
ris, rotundi, laeves, magno hylo, qui si in 
aqua macerantur vim noxiam ex parte deponunt, 
et cum Tipioca de Mandioca praeparati Bar- 
baris edules sunt." MARCGRAV torna a 
falar á paj. 18 do livro primeiro da mucuna 
determinada como Mucuna urens D. C. ou 
M. prunens D. C. . Com o tempo a idea da 
toxidez da mucunan foi crecendo, pois, en- 
contra-se escrito em varios autores cearenses 
a necessidade de lavar a fécula das sementes 
em 9 aguas; esta afirmação ouvimos também 
de varias pessoas no Piauhy. 

Trouxemos abundante material de semen- 
tes e em companhia do nosso colega DR. 
ANTONIO FONTES fizemos, por varios 
modos, experiencias com os animaes mais 
em uso em laboratorio e isto sem o menor 
resultado. 



87 



Pelo menos uma das especies a Mucntia 
altíssima D. C. é largamente disseminada, não 
só no Brazil como até nas Antilhas e não 
nos consta que, a não ser na rejião do nor- 
deste, nenhum morador de outra zona acuse 
a mucunan de ser venenosa. O Coronel 
MANOEL ANTUNES DE MACEDO 
JUNIOR informou-nos de que, durante as 
secas de 1877-79. e 1889-90, as sementes da 
mucunan eram muito procuradas pelos habi- 
tantes do municipio de S. Raynnindo Nonato 
para fins alimenticios; antes de ser injeridas 
eram lavadas varias vezes ou postas a "pubar", 
pois os que faziam sem estas cautelas enve- 
nenavam-se. A crença da toxide/. é sem 
duvida vulgarisada em todo o nordeste, com- 
tudo as experiencias efetuacias destroem-na, 
permanecendo a possibilidade de que o uso 
imode ado e duradouro da fécula da mucu- 
nan, acarrete perturbações em organismos já 
muito depauperados. 

Sob o nome de '■'babeira'^ referiram-nos 
em varios lugares uma planta muito venenosa 
que causa a morte do gado cavalar; trata-se 
de uma leguminosa. A ''golda" das raspas 
do tronco da f aveleira {Pacliystroma acanto- 
phylla LOEFG.) é utilizada para envenenar 
pássaros; referem que cabritos também 
morrem, se por acaso dela bebem; no emtanto 
por varias vezes observei caprinos, se alimen- 
tando das cascas e porcos e procurando ali- 
mentar-se das raizes. As sementes são comi- 
das pelas crianças sem grandes inconvenientes. 
Em toda a zona, existem varias rubiáceas 
denominadas vulgarmente "heiya de rato''' e 
já conhecidas de PISON e MARCQRAV, 
que rejisíavam seu verdadeiro nome indi- 
jena de "tangaratcû^ (Vide Op. cit. edição de 
1648 paj. 47, Lib. Ill e Hist. Plant. Lib. II, 
paj. 80), sendo que uma delas foi denomi- 
nada de Psychotna marcgravii SPRENQ., 
havendo ainda outra conhecida cientifica- 
mente por Hamelia fatens JACQ. 

Ha ainda que rejistar o ''tingtd", nome 
vulgar de varias especies de malpighiaceas 
pertencentes ao genero Mascagn/n BERT, e 
Tetropteryx CAV. ou ainda de uma sapin- 
dacea do genero PnuUinia. A Simniouba 
versicolor ST. HILAIRE {páo parahyba e em 



alguns lugares do Piauhy "páo mata cachorro") 
é tida como sendo muito venenosa. Esta 
planta, aliás, já é utilizada na medicina. Outra 
planta venenosa da rejião e que serve para 
^Hinguijar'^ (matar os peixes envenenando a 
agua em que vivem) é um arbusto muito 
comum em certas zonas do Piauhy onde 
é conhecido pelo nome de "timbó" \ aliás 
esta designação, como a de "tiiigi/i'\ com- 
preende no Brazil grande numero de plantas 
pertencentes a géneros diversos e a di- 
ferentes familias. Além disso, certa especie 
vejetal denominada em certa zona tingui, é 
conhecida pelo nome de timbó ou vice-versa, 
em outra localidade do paiz. O vejetal, a que 
aludimos, é arvore de 5-6 metros de altura, 
possue grande fruto drupáceo e lenhoso, 
com sementes subaladas ; separadas por 
septos, nos parecem pertencer a sapindacea 
Mahonia glabrata IS. ST. HIL. As sementes 
são ricas de substancia que os naturaes se 
aproveitam para o fabrico de sabão. A 
referida planta é encontrada também em 
Goyaz. E extremamente abundante nas 
proximidades de Caracol (Piauhy) e inexis- 
tente por completo nos geraes baianos, e 
isto, provavelmente, devido á grande humida- 
de dessas rejiões; neste particular, a nossa 
observação concoida com as verificações 
efetuadas por WARMING na Lagoa Santa, 
quando, estudando "A natureza xerofiia" do 
campo daquela localidade, rejista a Aíagonia 
glabrata como arvore campestre. (Cf." Lagoa 
Santa. Contribuição para a geographia phyto- 
biolojica" por E. WARMING, pp. 71 e 206, 
Bello Horizonte 1909. Tradução do dinamar- 
quez de A. LOEFGREN.) 

Na fazenda Tanque, a 32 quilómetros da 
vila de S. Raymundo Nonato, falaram-me 
pela primeira vez de certa agua que mata 
muito rapidamente o gado que dela se 
utiliza. Muitas vezes o fenómeno só é perce- 
bido depois que o numero de rezes mortas 
chama a atenção para a agua, pois a trans- 
formação se opera inesperadamente, passando 
a fonte a fornecer agua venenosa. Os fazen- 
deiros acreditam que o fato se dê em conse- 
quência das enxurradas arrasíaiem para a 



aguada da fazenda principios tóxicos, exis- 
tentes nos c'Jiraes de ovelhas e cabras. 

Tivemos oportunidade de verificar, no 
referido municipio, varias aguadas, cercadas, 
afim de impedir o acesso ao gado de qual- 
quer natureza, pois, todo ele, é sensível á 
agua envenenada. Quando hospedados na 
fazenda de propriedade do Coronel M. 
ANTUNES DE MACEDO, procuramos 
experimentar a veracidade do fato ; para ¡sso 
tomámos um cabrito, levando-o a injerir 400 
ce. da referida agua; ao cabo de 3 horas o 
animal falecia, salvando-se o cabrito menor 
que injerirá a mesma quantidade de agua 
potável. 

Varias garrafas contendo agua da mesma 
localidade, onde foi apanhado o liquidí^ que 
se mostrara toxico para o cabrito, ao chegar 
ao Instituto, depois de 6 mezes de colhida, per- 
deram a toxidez, porquanto nenhum dos aní- 
maes experimentados veiu a falecer. Na refe- 
rida fazenda, em um só dia morreram 5 vacas 
que se abeberaram no local. Na fazenda Si- 
tio, distante 12 quilómetros de S. Raymundo, 
existe também aguada, tornada venenosa su- 
bitamente ha cerca de 10 anos, não tendo 
mais perdido a toxidez. 

O Snr. RODERIC CRANDALL, em seu 
trabalho sobre "Geografia, Geologia, Supri- 
mento d'agua etc.." 1910, á paj. 35, relata 
fato análogo, por ele observado no arraial 
Pojuca, onde, tendo aberto os moradores uma 
cacimba de 50 palmos de profundidade, me- 
tade em terra dura e a outra metade em 
rocha semi-decomposta, poude verificar o se- 
guinte: "A principio, esteve secca, porém 
gradativamente se encheu até 14 palmos da 
abertura com agua perfeitamente clara, mas 
tão carregada de saes mineraes que o gado 
que dela bebeu morreu aos poucos, lenta- 
mente envenenado". 

A rocha semi-decomposta é chamada no 
Piauhy de "sabão" e alguns moradores admi- 
tem a possibilidade da agua tornar-se vene- 
nosa, ao se filtrar lentamente através do 
"sabão" até que aos poucos encha a cacimba. 
A nossa observação concorda perfeitamente 
com a do Snr. R. CRANDALL, embora 
'enham sido efetuada em lugares e épocas 



diferentes; na velocidade da intoxicação 
porém, existe diverjencia, pois na experiencia 
a que submetemos o cabrito, o toxico ajiu 
rapidamente, o que estava aliás de acordo 
com a observação dos fazendeiros locaes. 

Protozoários. 

O plankton por nós colecionado, foi de- 
terminado pelo Dr. A. MARQUES DA 
CUNHA, encarregado desses estudos no Ins- 
timto OSWALDO CRUZ; infelizmente grande 
parte do material perdeu-se por se terem que- 
brado os recipientes em viajem. 

O material veiu fixado em liquido de 
SCHAUDINN e em geral não prima pela 
riqueza, apesar de deixarmos em repouso 
nlguns dias, afim de obter multiplicação das 
especies. Comtudo, como nada existe até 
hoje sobre o plankton no Brazil Central, 
a contribuição, que segue, não deixa de apre- 
sentar interesse para a ciencia. O material, 
colhido na lagoa de Parnagná, foi o que 
melhor resultado ofereceu; esta massa d'agua 
atinje cerca de 6 quilómetros de largura por 
8 de comprimento e a maior profundidade 
por nós encontrada, mediu 4m20; o material 
foi colhido não só em todo o percurso da 
"ilha do Meio" ao "Porto" por meio de rede 
de MULLER, como também em varios pontos 
da marjem. 

O lininoplankton das localidades Peixe 
(Bahia) e Tanque (Piauhy) é proveniente de 
pequenas coleções d'agua, hclcoplankton de 
VOLK. 

Especies encontradas no plankton de 
varias localidades da zona seca.: 

Peixe, Bahia (Municipio de Remanso) 

Pachas pleura nectes (O. F. MULLER 1773), 

Trinem a encheiys (EH RB. 1833). 

Centropyxís amleaía (EHRB. 1830). 

Conjugadas (varias especies). 

Staurastruni gracile RALES 

Tanque, Piauhy (Município de S. 
Raymundo Nonato). 

Spirogyra sp. ? 

Ciaste rium sp.? 

Lagoa de Parnaguá (Município de 
Parnaguá). 

Centropyxís acaleata (EHRB. 1830). 



89 



Euglypha alveolota (DUJ. 1841). 

Eiiglena fusca (KLEBS 1883). 

Phaciis longicniido, (EHRB. 1830). 

Entosyphon sulcatum, (DUJ. 1841). 

Chilomonas paraniaecium, (EHRB. 1831). 

Coleps hirtas, (O. F. MULLER 1786). 

Difflugia liinnetica, LEVAN DER. 

Copépodos em grande numero. 

Dos protozoários patojenicos encontrámos 
os Plasmodium falciparum e vivax, parásitos 
das terçans maligna e benigna; Trypanosoma 
equinum VOGES e Trypanosoma cmzi 
CHAGAS; na '^alma de gato''' {Piaya) t"rola 
cascavel" {Scardafella squamosa) foram en- 
contrados representantes do genero Halte- 
ridium e alguns Belonopterus cayennensis 
achavam-se parasitados por leucocitogrega- 
rinas. Causou-nos extranheza não encontrar- 
mos cobras parasitadas, o que é tão comum 
no Sul do Brazil. 

Vermes. 

O material de vermes foi determinado 
pelo Dr. LAURO TRAVASSOS, encarregado 
dessa seção no Instituto Osvvaldo Cruz ; 
existem ainda 4 trematudes e 3 cestodes 
em pesquizas. 

Infelizmente a maior parte do material 
chegou ao Instituto em condições improprias 
ao estudo, devido á perda do liquido fixador 
por se terem quebrado os recipientes; neste 
caso estão os exemplares de Giganthorynchus 
e Physcdoptera, encontrados no cangambá. 

Do material ainda em estudo merece ser 
rejistada uma Anoplocephalina de anta que 
provavelmente é nova ; o Physocephahis 
nitiáalans, que parasita o intestino delgado 
do mesmo maniiíero, ocasiona nodulos bas- 
tante desenvolvidos onde se aglomera grande 
numero de exemplares. 

A Filaria hórrida DIES., encontrada em 
grande numero no tecido sub-cutaneo da 
ema, fato este que já chegou ao conheci- 
mento das pessoas do povo, passou a fazer 
parte do genero Dicheilonema. 

O Amphistonia, encontrado na capivara, 
é certamente especie nova e que oportuna- 
mente será descrita; apenas foi encontrado 1 



exemplar, o que talvez, se explique pelo fato 
do animal ser erado quando em regra são 
menos parasitados. 

O método de LGOSS mostrou-se exce- 
lente para a conservação de ovos de hel- 
mintos, encontrados nas fezes, permitindo, 
muitos mezes depois, diagnosticar os ovos de 
Necator americanas STIL. , Schistosomum man- 
soni SAMBON e Trichuris trichurus L. , encon- 
trados parasitando o homem. 

Máo grado o grande numero de animaes 
de todas as classes, cujo sangue foi exami- 
nado, muito poucos foram os resultados 
positivos sendo microfilarias, apenas encon- 
tradas no Alonata belzebat (guariba) e na la- 
vadeira Fluvicola climazura. 

Os parásitos do sangue são, sem a menor 
duvida, menos frequentes que no sul do 
Brazil. 

Lista dos vermes encontrados. 

Acanthocephala : 

Gigantorhynchas compressas (RU D. 1802). 

Cariama cristata (L.). Intest. 

Ooyaz-Duro, VII-912. 
Gigantorhynchas aarae n. sp. 913. Cathar- 

tes aura L. Piauhy-Tanque-912. 
Gigantorhynchas sp.. Conepatus suffocans 

S. Raymundo Nonato, 8-V-912, 
Nematoides. 
Ascaris sp? Tigrisoma linea fum{BODD.). 

Piauhy-Parnaguá, 6-V11-912. 
Aspidodera fasciata (SCHNEIDER, 1866). 

Dasypus no\emcinctus L, Intest. 

Piauhy-Tanque, lO-V-912. 
Aspidodera scoleciformis, (DIES. 1851). 

Dasypus novemcinctus L. Intest. 

Piauhy-Tanque. lO-V-912. 
Dicheilonema horridum (DIES. 1851.). 

Rhea americana LATH. Sab cuti. 

Piauhy-Caracol. VII.912. 
Filaria gracilis DUD. 1809. Macaco (Ce- 
bus), Goyaz, VII-912. 
Oxyuris minuta SCHNEIDER 1866. Gua- 
riba (Alonata belzebai). Intestine. 

Piauhy, 3-VII-912. 
Onzolaimus megatyphlon (RUD. 1819) 

Cameleão (Iguana sp.). Intes 



CO 



tino. Plauhy S. Ray mundo, V- 

912. 
Oxyuris obesa DIESING, 1819. Hydro- 

choerus capibara ERX. Intest. 

gross. Goyaz-Parnaguá, VI-912. 
Physocephalas nitidulans (SCHNEIDER, 

1866), Tapiras americanas Goyaz, 

Peixe XlI-912-(Bahia). 
Physaloptera sp . ? Conepatus suffocans S. 

Raymundo, 8-V-912. 
Subulura strongylina (RU D, 1819)? Gallas 

domesticas L. Inte«t. 
Strongylus sp.? Tapiras americanas 

Goyaz-Peixe, XII-912, 
Trichocephalas s p.? Dasypus novemcinctas 

L. Intestino. Piauhy-Tanque, 10- 

V-912. 
Trrmatodes. 
Schisiosomum tnansoni SAiVlBON, 1907. 

(Ovos). Homo sapiens L. Fezes. 
Paramphistoinidœ sp. n.?. Hydrochoerus 

capibara. Grosso intestino. 
Cotylotrctns grandis (BRAUN, 1901). 

Ajaja ajaja. 
Cestcdca 
Ochorísto surinamensis COHN, 1902- 

Dasypas no nncinctns L. Piauhy. 

Tanque, S. Raymundo. 10, V-913. 
Chapinania taariccllis (CHAPMAN,) 

1S76?. (O material estava maec- 

rado). Em Piauhy, Caracol. 

Lista dos carrapatos coíecionados. 

Lole 1. 82 J, 9 9 e 9 ninfas de Ambly- 
omnia cayennense FABRIC. 
1 9 de Ambly omnia parvuni 
ARAG. 

colhidos em capivara {Hydro- 
choerus capybara) Parnaguá-Es- 
tado do Piauhy a 23-6-12. 

Lote 2. 12 d" e 19 de Amblyomma 
concolor NN. , apanhados sobre 
tatu bola (Tolypentes tricinctus) 
em Parnaguá, Estado do Piauhy 
a 9-5-12. 

Lote 3. 5 cT e 3 9 de Amblyomma 
concolor Nn. , apanhados sobre 
tatu bola {Tolypentes tricinctus) 



em Duro, Estado de Goyaz em 
Julho de 1912. 

Lote 4. 1 d", 1 9 de Amblyomma longi- 
rostre KOCH e 1 ? de Ambly- 
omma cayennense, apanhados 
sobre porco espinho {Cercolabes 
vellosas) no Estado de Goyaz. 

Lote 5. 3 cT 1 9 e 1 ninfa de Ambly- 
omma con color Nn. e 1 9 de 
Amblyomma cayennensef k'QRXC, 
apanhados sobre tatú (Dasypus 
novemcinctas) no Estado de 
Goyaz. 

Lote 6. 2 Ninfas de Amblyomma cayen- 
nense FABRIC. , colhidas sobre 
cão no Estado de Goyaz. 

Lote 7. 1 d" de Amblyomma fossam Nn., 
1 9 de Margaropus microplus 
CAN. e 1 ninfa dç Amblyomma 
cayennense FABR. 

Lote 8. 19 cT 52 9 e 1 ninfa de A. 
cayennense FABRIC, 1 9 de 
Amblyo/nma parvum ARAG. , 
colhidos sobre anta (Tapiras 
anuricanus) em S. J('Sé, no Es- 
tado de Goyaz em Agosto de 
1912. 

Lote 9. 1 d" I 9 e 1 m\ú-AÁt Amblyomma 
concolor Nn. , colhidas sobre 
Cangambá ( Conepatus suffocans) 
em Caracol no Estado do 
Piauhy. 

Lote 10. 47 cT, 73 9 e 4 ninfas át Am- 
blyomma cayennense FABRIC, 
1 cT e 9 9 de Margaropus micro- 
plus CAN., apanhados sobre 
cavalo em Parnaguá, no Estado 
do Piauhy a 29-6-11. 

Lote 11.10 9 de Aíargaropus microplus 
CAN. , apanhadas sobre veado 
mateiro {Canacus rufas) em 
Duro, no Estado de Goyaz. 

Lote 12. 6 9 de Margaropus microplns 
CAN. , apanhadas sobre veado 
mateiro no Duro, Estado de 
Goyaz, em Julho de 1912. 

Lote 13. 4 d", 1 9 ninfa de Amblyomma 
concolor Nn. , apanhadas sobre 



91 



tatu bola (Tolypeutes tricinctus) 
em Parnaj^uá, Estado de Piauhy 
a 8 de Julho de 1912. 

Lote 14. 10 Ninfas e 2 larvas de Ambly- 
omnia cayennense F-BRIC. , 
apanhadas sobic Guariba {Alon- 
ato helzebiil) em Angico, no Es- 
tado do Piauhy a 3 de Julho de 
1912. 

Lote 15. 8 9 de Margaropus microplus 
CAN., apani.adas sobre veado 
(Canaciis sp.?) no Estado do 
Piauhy a 21-6-12. 

Lote 16. 8 2 de Margaropus microplus 
CAN., 2 ninfas de Amblyomma 
cayennense FABR. , apanhadas 
sobre boi em Parnaguá, no Es- 
tado do Piauhy a 30-6-12. 

Lote 17. 21 ?, 55 ninfas e 9 larvas de Am- 
blyomma ccvennense FABRIC, 
1 9 de Margaropus microolus 
CAN. , apanhadas sobre cavalo 
em Parnaguá, Estado do Piauhy. 

Lote 18. 14 9 de Margaropus microplus 
CAN. , trazidas de Formosa no 
Estado da Bahia. 

Lote 19. 37 Exemplares de Omithodoros 
talaje GUERIN -MENEVILLE, 
apanhados em tocas de Mocó 
(Cerodon rupestris), no Estado do 
Piauhy. 

Lote 20. 5 cT e 18 9 de Amblyomma 
cayennense FABRIC, apanhadas 
sobre cavalo em Parnaguá, no 
Estado do Piauhy. 

Lote 21. 17 d", 4 9, 9 larvas de Amblyom- 
ma concolor NN., colhidas sobre 
tatú peba (Dasypus novemcinc- 
tus)tm Tigre, no Estado de Per- 
nambuco. 

Lote 22. 5 c?, 5 9 e 1 larva de Amblyom- 
ma concolor Nn., apanhados sobre 
tatú bola (Tolypeutes tricinctus) 
em Onça, no Estado do Piauhy. 

A coleção de ixódidas, foi classificada 
pelo Dr. H. ARAGÃO, encarregado do 
estudo deste grupo no Instituto Oswaldo 
Cruz. 



Já nos arredores de Joazeiro (Perypery c 
circumvizinhancas) verificámos ser os carra- 
patos pouco abundantes e neste local come- 
çámos a ouvir referencias aos carrapatos que 
habitam as locas do mocó {Kerodon rupestris 
WIED.) e que pelas informações trata-se de 
ixódida diferente do ^^ rodeleiro''' e ^^estrelà'\ 
nomes pelos quaes a gente do povo batiza 
toda e qualquer especie de ixódida. 

Em vão naquela localidade procurámos, 
nas locas daquele roedor, colecionar os car- 
rapatos que os infetavam; de Petrolina até 
as proximidades de S. Raymundo Nonato os 
carrapatos são muito pouco numerosos; no 
lugar chamado Santa Anna, sou'^emos da 
existencia de mocós nas proximidades e de 
presença nas suas locas não só de carrapatos 
diferentes dos comuns, como ainda de bichos 
de paredes (Triatoma) 

De joazeiro até este local, as referencias 
sobre a existencia dos mocós, quando eram 
positivas, mostravam ficar muito fora do 
nosso percurso. Desta vez fomos mais fe- 
lizes, porquanto conseguimos apanhar cerca 
de 40 exemplares do Ornithodoriis talaje^ es- 
pecie já por nós apanhada em estado ninfai 
no Xerem, parasitando a Ceologynes paa 
RENGG. 

O mocó ainda não era conhecido como 
hospedeiro e, apezar do O. talaje possuir 
enorme area de destribuição, ainda não se 
achava incluido o Piauhy; as larvas apinham- 
se i:as orelhas dos mocós, que delas ficam 
inçadas ; como são de viva côr vermelha, á 
primeira vista lembram acarianos do genero 
Trombidium. FABR. Deste achado, pode-se 
com toda a probabilidade afirmar que os 
Carrapatos existentes nas locas de mocós das 
proximidades de Joazeiro são os O. talaje. 
Adiante, em lugar chamado Caracol, debalde 
procurámos nas locas do mesmo roedor os 
referidos ixódidas,os quaes só em Santa Anna 
foram encontrados. De S. Raymundo até as 
proximidades da vila de Caracol, os carrapa- 
tos são relativamente abundantes para aque- 
las parajens; mas de Caracol em diante vão 
escasseando até faltar por completo, segundo 
nossas verificações e informações, em largo 
trecho do municipio de Parnaguá. Reaparc- 



Q2 



cem então em maior abundancia que a ob- i 
servada atrás, á medida que nos aproxi- 
mávamos da vila de Parnaguá. 

Pode-se imajinar o alcance da existencia 
de lugares onde o carrapato não se encon- 
tre; o problema da nossa industria pas- 
toril, em grande parte, se prende ao carra- 
pato; será completamente inutil, falar-se em 
aperfeiçoamento de raças bovinas e equinas 
cjuando as nossas terras em geral vivem 
inçadas de hemotozoarios patojenicos para 
o boi e cavalo e que são transmitidos exclu- 
sivamente pelos carrapatos. 

No sul do paiz, atualmente, o Snr. 
FARQUHAR procura fa?er criação de gado 
em grande escala e, apezar do serviço ser di- 
rijido por parasitolojista de universal renome, 
como é o Snr. MAC NE AL, a tristeza tem 
ocasionado verdadeiras devastações. O local 
a que nos referimos, fica mais ou menos á 
distancia de tOO quilómetros da cidade de 
Remanso, á marjern de R. Francisco ou da 
vila de Santa Rita do Rio Preto, á marjern 
do mesmo rio. 

De Parnaguá em diante, os carrapatos 
vão crecendo sempre de quantidade e, como 
nos achávamos no mez de Julho, as formas 
larvaes preponderavam ; ao sairmos do muni- 
cipio piauiense de Corrente, visitámos o local 
denominado Pery-pery, pertencente ao muni- 
cipio Sta. Rita (Bahia). Aí já os moradores 
queixavam-se amargamente dos carrapatos e 
costumavam queimar as pastajens afim de 
combater a praga. Porém onde os carrapatos 
flajelam de verdade, é do norte ao centro de 
Qoyaz; toda esta zona está condenada, por 
isso principalmente, a não ser pastoreiada 
com proveito. Em quasi todo o percurso os 
fazendeiros referiam-nos á "'canapatajem'\ i. 
é, enorme abundancia de carrapatos atacando 
as rezes doentes e que, sem exceção, é inter- 
pretada como um mal interno, provocando a 
transformação direta do sangue em carrapatos. 
Os mais instruidos e intelijentes compreendiam 
facilmente a explicação que faziamos, de que 
o gado era atfcado por males transmitidos 
pelos carrapatos, cuja evolução explicávamos; 
a maioria, porém, não compreendia asimples 
verdade e continua convencida de que, em 



determinadas condições, o sangue se trans- 
forma diretamente em carrapatos. 

A fauna não se mostrou rica em espe- 
cies, pois de 14 hospedeiros somente 6 espe- 
cies de ixódidas foram identificadas ; o 
Amblyomma cayennetise FABR. foi verificado 
presente em quasi todos os hospedeiros ; 
nenhuma especie nova foi rejistada. 

Na capital de Goyaz começámos a ouvir 
referencias ao "carrapato do chão'" , o qual 
era acusado de ocasionar feridas, difíceis de 
sarar ; pelas descrições e hábitos julgámos 
logo tratar-se de algum Ornithodorus, pois 
ataca á noite e esconde-se na areia do chão; 
já é muito frequente no lugar, denominado 
Areias, proximo á capital do Estado; ocorre 
em todo o sul do Goyaz e os informantes 
afirmam ser a introdução do referido ixódida 
relativamente recente, pois foi trazido pelos 
tropeiros vindos do Estado de iVlatto Grosso. 
As feridas rebeldes correm mais por conta 
de infeções secundarias do que propriamente 
devidas á especificidade do referido Ornitho- 
dorus. Por informações de varias pessoas, os 
'■'■carrapatos do chão''' já infestaram as cidades 
e vilas goianas de Areia, Alemão, Caiapó, 
Jatahy, Mineiros, Corrente. Um tropeiro inte- 
lijente que via]a entre Goyaz e Matto-Qrosso, 
garantiu-nos a existencia do ixódida em 
questão nas povoações mato-grossenses de 
Santanna de Parnahyba, Aquidauna, Nioac, 
Miranda. Nos lugares onde abunda torna-se 
imprecindivel dormir-se em redes e "sapecar" 
(chamuscar) o chão. 

O Dr. H. ARAGÃO descreveu, sob o 
nome de Ornithodonis rostratas, exemplares 
duma especie enviada de Matto-Grosso; com 
toda a probabilidade o "carrapato do chão'\ 
tão frequente no sul de Goyaz, é a especie 
em questão. 

A. PENTHER publicou no Vol. XXVIl, 
No 3, pp. 239-252 dos '^Annalcii des K K 
Natnrhistorisches Hofmiiseums de Vienna,» em 
1913 um trabalho intitulado: "Btitrag zur 
Kenntnis amenkanischer Skorpione'\ onde são 
estudadas varias especies que ocorrem nas 
rejiões secas da Bahia ao Piauhy. 

No Piauhy não são raros, os casos de 
ferroadas por escorpiões, ali denominados 



93 



lacraus, ocasionando fenómenos de envenena- 
mento, acompanhados de vómitos, tremor 
da iingua, cefalaljia etc., sendo a especie 
responsável provavelmente o Rhopalurus 
agamemnon (KOCH), a qual atinje em alguns 
individuos 90 mm.de comprimento; as 
aranhas venenosas são representadas pela 
Avicularía avicularia L. e outras especies, 
vulgarmente conhecidas pelo nome de 
^'aranha caranguejeira". Os exemplares, trazi- 
dos de Parnaguá, são provavelmente da especie 
acima assinalada. O genero Avicularia, pelo 
catalago de PETRUNKEVITCH (A synonymic 
indexcatalngue of spiders of North, Central 
and South America, with all adjacent islands, 
Greenland, Bermuda, West-Indies, Terra del 
Fuego, Galapagos, etc. publicado no Bul- 
letin of the Amer. A^us. of Natur Hist. Vol. 
XXIX, Nev,/ York 1911), é representado no 
Brazil por 5 especies e uma variedade. 

Sob aquela designação vulgar, o povo 
no Brazil denomina representantes dos se- 
guintes géneros : Acanthoscurria AUSSERER, 
Avicularia LAM., Ephebopas SIMON Eury- 
pehna POf.OCK, Psalmopoeus POCK. e 
Tiíeraphosa THORELL, caso a grande T. 
blondi seja de fato encontrada no Brazil. As 
Avicuiariidae, apezar de tão aparentes, pos- 
uicm hábitos ainda desconhecidos. Sobre 
elas correm as mais variadas versões, não 
só quanto ao genero de alimentação, como 
ainda sobre os acidentes, ocasionados pela 
sua picada. 

Não conhecemos nenhuma observação, 
que se possa garantir, sem a menor 
suspeita de duvida, de acidente, ocasiona- 
do por uma ''aranha carangueijeira", nem 
qur.es sejam suas consequências. 

Qi'.anto ao genero de alimentação são 
as mesmas incertezas; alguns naturalistas 
dizem ter observado o seu modo de alimen- 
tar que não rejeita nem mesmo passarinho; 
essa aliás é a crença mais vulgarizada entre 
leigos e profanos. Nós durante bastante 
tempo tivemos em cativeiro um grande exem- 
plar de Avicularia avicularia, o qual, até morrer, 
se recusou a alimentar-se de qualquer modo 
e embora tivéssemos variado por todas as 
maneiras a alimentação oferecida. De fato 



sabemos, que o cativeiro falseia inteiramen- 
te os resultados esperados, como se observa 
facilmente com as cobras; todavia PICKARD, 
CAMBRIDGE que foi ao Amazonas exclu- 
sivamente para estudar as nossas aranhas, con- 
fessa não ter podido de nenhum modo saber, 
qual de fato seja o genero de alimentação 
das nossas "aranhas ca rangueij eiras". (Cf. 
CAMBRIDGE, P. O. ''On the Theraphosidae 
of the lower Amazonas, being an account of 
the new genera and species of this group oj 
spiders discovered during the expedition of the 
steamship "FARADA V" up the river Amazo- 
nas" Proc. zool. Soc. pp. 716-766 Londres - 
1896). 

Os escorpiões ocasionam casos de morte 
em crianças segundo nos referiram, o que é 
muito provável, porquanto em Minas Geraes 
o Tityus bahiensis e outras especies afins e 
de dimensões muito menores que o Rhopalu- 
rus agamemnon, são responsáveis por varios 
óbitos em Bello-Horizonte e outras localida- 
des mineiras. 

Parece que o veneno da especie do nor- 
deste é muito diferente do das especies do 
Sul do Brazil, pois a sintomatolojia do en- 
venenamento é inteiramente diversa. 

Lisia de insetos hematófagos encontra- 
dos no percurso. 

Simui idae. 

1. S. amazonicum GOELDI (Piúm) 

2. S. simplicicolor LUTZ 

3. S. orbitale LUTZ 

4. 5. pruinosum LUTZ 

Ceratopogonidae. 

1. Cotocripus spec. 

Tabanidae. 
Pangoninae. 

1 . Erephopsis xanthopogon MACQ. 

2. Erephopsis leucopogon WIED. 

3. Erephopsis pubescens LUTZ 

4. Esenbeckia ferruginea MACQ. 



g4 



Chrysopinae. 

5. Chrvsops costatus FA BR. 

6. Chrysops leiicospilus WIED. 

7. Chrysops fiisciapex LUTZ 

8. Chrysops motestiis WIED. 

9. Chrysops paiy ¡fascia LUTZ 

Diachlorinae. 

10. Diachlorus Neivai LUTZ 

11. Diachlorus vitripenms LUTZ 

12. Diachlorus catyipes FA BR. 

13. Diachlorus nigristigma n. sp. 

Lepidoselaginae. 

14. Lepidoselaga paradoxa LUTZ 

Tabaninae. 

15. Acanthocera anacantha LUTZ & 

NEIVA 
10. Dichelacera januarii n. sp. 

17. Dichelacera leucomelas n. sp. 

18. Dicladocera simulans n. sp. 

19. Dicladocera relicta n. sp. 

20. Cryptotylus unicolor WIED. 

21. Chlorotabanus mexicanus L. 

22. Poecilosoina quadripunctatum FA BR. 

23. Tabanas cinéreas WIED. 

24. Tabanas importunas WIED. 

25. Tabanas Valterii MACQ. 

26. Tabanas mucronatas LUTZ d)í NEIVA 

27. Tabanas trigonostichas LUTZ. 

28. Tabanas cayennensis WIED. 

29. Tabanas rubrithorax MACQ. 

30. Tabanas fascofasciatus MACQ. 

31. Neotabanas modestas WIED. 

32. Neotabanas dorsiger WIED. 

33. Neotabanas comitaiis WIED. 

34. Tabanas pseadocinereus n. sp. 

35. Tabanas cinéreas WIED. 

36. Dichelacera varia WIED. 

Culicidae. 



BAHIA. 



Joazeiro. 



Janthinosonia discrucians WALK. 
Melanocvnion atratum THEO. . . 
Cellia argyrotarsis ROB.-DESV. . 



35 

4 

IÓ 



Stegomyia calopus MEIG 

Culex fatigans WIED., frequente nos 

domicilios. 
Pery-Pery. 

Janthinosonia discrucians WALK. . . 11 

Culex scanilaris RDN 4 

Cellia argyrotarsis ROB.-DESV. . . 2 
Municipios de Sta. Rita do Rio Preto, 
Remanso, Riacho de Casa Nova, Varias loca- 
lidades: Formosa, Váu, S. Marcello, Pedra 
do Fog<;, Veados, Pery-Pery, Pouso-Alegre, 
Carahybas, Jatobá, Peixe, S. José da Canas- 
tra. 

Monguinhosia lutzi CRUZ 85 

Stethomyia nimba, THEO 31 

Cellia brasiliensis, CHAGAS ... . 18 

Cellia tarsimaculata GOELDI. ... 9 

Myzorhynchella lutzi, CRUZ 12 

Chagasia fajardoi, LUTZ 2 

C scapularis RDN 1 

T. juxta-mansonia, CHAGAS 4 

Sabethes albiprivatus LUTZ 1 

PERNAMBUCO. 

Municipio de Petrolina. 

Localidades: 
Petrolina. 

Janfhinosoma discrucians WALK. . 8 
Cellia argyrotarsis. ROB.-DESV. . 6 
Stegomyia calopus MEIG. e Culex fati- 
gans WIED. presentes nos domi- 
cilios da cidade. 
Tigre-Térra Nova, Caldeirão, Cachoeira 
do Roberto: 

Janthinosonia discrucians W ALK. . 12 
Cellia argyrotarsis ROB.-DESV. . 14 

Culex scapularis, RDN 3 

PIAUHY. 

Municipio de S. João do Piauhy. 

Localidades: 

Ponta da Serra, Rosilho-Salgadinha: 
Cellia argyrotarsis ROB.-DESV. . . 16 
Taeniorhynchus titillans WALK. ... 21 



95 



Municipio de S. Raymiindo Nonato 

Localidades: 

S. RaymunJo Nonato: 

CclUa orgy rota rsis ROB.-DESV. . . 80 

TaciiiorliMichiis titillans WALK. . . 13 

C. scapiilarís RDN 3 

Sta. Anna, Boa Vista, Cavaileiros, Lage, 
Caracol. 

Cellia arg)roíarsis ROB.-DESV. . 50 

Taeniorhynchns titillant WALK. . . 20 
Taeniorhxnchus jiixto mansoniu 

CHAGAS 6 

Municipio de Parnaguá e Corrente 

Localidades: 

í'aruagiiá 

Crllia argyrof arsis, ROfl-DESV. . 38 

Cellia albinia na WIED 4 

Myzorliynrhella liitzi, CRUZ 3 

lamíorhynchus titillans WALK. . 30 
Ta e n io r h y n chus juxia-inuiLsoiiia 

CHAGAS 12 

Culi'x n. sp 

Cm/, Ibirab:!, I|)iiern, An^icat: 

O'ilia aroy rot arsis ROB. DESV. . 30 

Cf Ilia albimuna WIED 2 

Tucniorhynchiis íitillans WALK. . . 20 
Taeniorhynchns jnxfa - tnaitsoiiia 

CHAGAS 6 

GOV AZ 

Municipio do Duro. 

Localidades : 
Duro. 

Myzorhynchella liiizi, CRUZ 20 

C. argyrotarsis ROB.-DESV 12 

Ch agasta fajardoi. 13 

Almas, Boqueirão. 

Myzorhynchella littzi CRUZ 15 

Cellia argyrotasris ROB.-DESV. . 8 



Município de Natividade, 
Localidades : 
Baião, Extrema: 

Cellia tarsimaculata GOELDI ... 6 
Cy cl o te PP te ron mediopu net atam 

THEO 2 

Cellia argyrotarsis, ROB.-DESV . 3 

Cnlex scapularís RDN 

Melauoconion spissipes THEO. . . 
Phoniomyia pallidiventer THEO. . . 

Sabethes albiprívatus, LUTZ 

Sabethoides piirpurens THEO 

Municipio do Porto NacionaL 

Localidades: 
Porto Nacional. 

Myzorliyn chelín pan'a CHAGAS . 10 
Barreiros, Brcjiiiho, Crixás, Jacaré, E.'^trcma: 

Chagasia fajardoi LUTZ 1 

Aíyzorhynchella parva CHAGAS. . 7 

Mangiiinhosia liitzi CRUZ 8 

Stcthoniyia nimba THEO 1 

Alelanoconion spissipes, THEO. ... 1 

Taeniorhynchns Jasciolatus ARRI B . 1 

Município de Pilar. 

Lucalidades: 
Burity Grande, Burity Feciíado, Ma hadic.lia: 

Cellia brasiliensis CHAGAS 42 

Cellia tarsimaculata GOELDI. ... 4 

Chagasia fajardoi LUTZ ! 

Alelanoconion h n mile THEO 3 

Sabethes longipes MACQ 2 

Sabethes albiprivatus LUTZ 4 

Phoniomyia longin stris T\iE.O. . . 2 

Sabethoides coiifn sus THEO. ... 1 

Municipio de Goyaz. 

Localidades : 

Goyaz, Varjão, Matto-Grosso. 

Cyclo leppteron mediopunctatnm 

THEO 3 

A nopheUs eiseni COQ 1 



^56 



CelUa argyrotarsis, ROB.-DESV... 9 

Chagasia fajardoi LUTZ i 

Cellia brasiliensis CHAGAS 70 

Cellia torsimaculata GOELDL... 4 
Ciilex fatigans WIED. (nos domicilios 
da Capital). 

Melanoconion atratiim THEO 15 

Taeniorhynchus fasciohtus kRÏ(. . 

Dendromyia personata LUTZ 3 

Dendromyia paraensis THEO 3 

Dendromyia oblita LUTZ 1 

Sabethes albiprivatus LUTZ 11 

Trichoprosopon compressum 

LUTZ I 

Sabethoides purpureas THEO 2 

Triatomae 

BAHIA 

Municipio de Remanso: 

Tria toma sórdida STAL l 

Triatoma brasiliensis NEIVA 3 

Joazeiro: 

Triatoma sórdida STAL 20 

PERNAMBUCO 

Municipio de Petrolina: 

Triatoma maculata ERIC H SON . . I 

PIAUHY 

Municipio de S. Raymundo Nonato: 

T. megista BURM 65 

T. brasiliensis NEIVA 20 

T. maculata ERICH 3 

T. sórdida STA L 8 

Painaguá e Corrente: 

T. megista BURM 70 

T. brasiliensis NEIVA 2 

GOYAZ 

Municipio de Duro : 

T. megista BURM 50 

T. sórdida STAL 10 



Porto Nacional : 

T. megista BURM 5 

T. sórdida STAL 10 

Municipios de Natividade, Descoberto, Amaro Leite, 
Pilar, Goyaz, Curralinlio, Caldas Novas. 

T. megista BURM 160 

T. sórdida STAL 1 1 

Maruins e borrachudos. A determinação 
dos maruins, borrachudos e mutucas foi feít.i 
pelo Dr. ADOLPHO LUTZ, encarregado 
desses estudos no Instituto Oswaldo Cruz e 
os restantes insetos hematófagos por NEIVA. 
Os maruins por nós observados tinham as 
azas manchadas e por isso pertenciam ao 
genero Culicoides LATR.; colecionámos alguns 
exemplares em Pery-Pery (Joazeiro) e muitos 
em Formosa á marjem do Rio Preto. A 
especie é Culicoides guttalus COQ., especial- 
mente abundante pela manhã; ataca em 
pleno soi; á tarde aparece, porém, coni 
frequência menor. Em todas as povoações 
do Rio Preto o povo o denomina de ''muruim"; 
no Tocantins e afluentes existe, com alguma 
abundancia, o Culicoides paraensis GOELDl \ 
neste Estado as designações populares para 
as ceratopogoninas são : "maruim", '•mosquito- 
mole'\ "-mosquito-polvord!' e ''bembé". 

Sob a denominação de borrachudo 
conhecem-se, no sul, dípteros hematófagos, que 
na rejião amazonense são denominados de 
piúm e que são representantes do genero 
Simulium LATR. 

Nas zonas por nós percorridas o povo 
denomina os simulidas de mosquitos; no 
lugar chamado Veríssimo, proximo ao Desco- 
berto, dão aos simulidas a estranha deno- 
minação de "promotor", dando aos culícidas 
designação de muriçoca. Em algumas locali- 
dades o nome de borrachudo é reservado 
para as ninfas e larvas crecidas de triatomas. 
Apenas encontrámos 4 especies de Simulidae 
e, devido á época, geralmente apareciam 
escassamente ; nos arredores de Joazeiro 
ainda conseguimos colecionar alguns exem- 
plares ; em lugares, porém, de agua corren- 
te, como nas proximidades de Parnaguá, já 
não existiam nos fins de Junho, nem mesmo 
em estádio larval ou ninfal, pois, foram ¡n- 



97 



frutíferas todas as pesquízas que fizemos. 
Entre Duro e Perlo Nacional, em alguns 
lugares, existiam em enorme abundancia os 
S. pniinosuni LUTZt o mazonicum QOELDl, 
sendo que este atacava o homem e ambos 
os animaes em todas as partes do corpo, com 
exceção das orelhas. No lugar, denominado 
Tabocas, pudemos observar as duas especies 
antes do sol nacer, formando verdadeiros 
enxames ; este fato se produziu nas ime- 
diações do pouso, denominado Chupé, pro- 
ximo á marjem esquerda do Tocantins. 
Mesmo em lugares, afastados, seguramente, 
mais de 6 quilómetros de qualquer agua 
corrente, fomos assaltados pelos simulidas, 
como se deu em Pery-Pery (arredores de 
Joazeiro). 

A lista de Tabanidas rejista 35 especies, 
incluindo 10 novas. Até Parnaguá, estes díp- 
teros quasi não apareciam e, somente, via-se 
o Neotabanus modes fus WIED. ou a Esen- 
beckia fermginea MACQ., a qual começou a 
ser abundante em Formosa; o Chrysops ino- 
ãesíus também era encontrado em quasi todo 
o trajeto. A seca já se encontrava acentuada 
e isto explica a escassez de tabanidas ; no 
Tanque (S. Raymundo Nonato) falaram-nos 
duma *^miitttca-nwle", a qual pela descrição 
deve ser a Selasoma tibíale WIED., já por 
nós verificada presente no í^iauhy em 
exemplares trazidos de Umssahy pelo Dr. 
GAVIÃO PEIXOTO. Nos ''gemes" as 
mutucas começaram a apa ecer em maiot 
abundancia e entre elas um Diachlonis que 
ataca o homem ; pela primeira vez surje o 
Chloivtabanus wexicamis L. A nossa expe- 
riencia, em relação a esta especie, nas dife- 
rentes partes do Brazil, em que a temos 
encontrado, fala em favor da hipótese, de que 
as larvas se desenvolvam nos pantanos ou 
lugares encharcados e, na excursão agora 
relatada, o fato se confirmou inteiramente. 
Nas cabeceiras do Rio Preto encontrámos a 
Lepidoselaga paradoxa em grande numero; 
ataca em pleno sol, desaparecendo ao cair 
da tarde ; á primeira vista, este tabanida se 
assemelha á abelha do genero Mclipona 
ILL. 

Ha nos geraes rejiões secas, denominadas 



vulgarmente de chapadões; em varios deles 
fomos atacados por nuvens de Clu'ysops 
parvifascia LUTZ, em numero jamais por nós 
observado; esta crisopina ali se acumulava, 
afim de se alimentar no gado ou animaes 
selvajens; num destes chapadões, que media 42 
quilómetros de largura, conseguimos verificar 
que as crisopinas só se acham presentes á 
distancia maxima de 8 quilómetros da 
entrada; dai em diante ausentavam-se por 
completo, para reaparecerem na mesma 
abundancia á igual distancia da saída. 

Em Ooyaz a fauna destes dípteros é 
mais abundante e em alguns lugares o T. 
mncronatus é muito comum; esta especie 
tem a particularidade de deixar sangrando 
abundantemente a parte onde sugou ; prova- 
velmente com a picada inoculam algum 
liquido anticoagulante, a exemplo das san- 
guesugas ; esta mutuca ataca o homem. A 
Esenbeckia feiruginea, emquaiito suga, bate 
as a^as com enorme rapidez, talvez para 
auxiliar a sução. Nunca conseguimos verificar 
a presença do Poecilosoma citureuni (WIED.) 
atacando animaes ou pessoas e o único 
exemplar capturado, o foi sobre a cabeça 
dum jabiru {Myeteria L.), morto a tiro; ao 
cair esta ave, vimos que 3 mutucas da mesma 
especie p:ocuravam-na sugar no pescoço, 
apenas conseguindo apanhar uma delas. 

Em alguns lugares as pessoas do povo 
denominavam as pangoninas de "mutuca de 
ferrão^' ; as crisopinas são mais conhecidas 
e as denominações variam, conforme o Es- 
tado e mesmo as localidades. Assim ouvimos 
denominar aos representantes do genero 
Chrysops MEIO. de ''mutuca rajada", ''mutu- 
quinhc¿\ "■mutuca maringá" "mutuca carijó''' 
^'mutuca de veado'" e até ''cabo verde", desig- 
nação que no sul é aplicada á Lepidoselaga 
lepidota WIED.; em alguns lugares do Ooyaz 
C/pysops costatiis F A BR. é conhecido pelo 
nome de "mutuca de iiatar'. 

O estudo destes dípteros tem grande im- 
portancia, pois, com toda a probabiíidade, são 
os transmissores do mal de cadeiras, presen" 
te em toda a zona percorrida. 

A fauna culicideana da zona seca é cer- 
tamente representada por poucas especies e, 



9é r- 



embora as pesquizas fossem empreendidas 
em tempo improprio, a afirmação é exata. 

Nos arredores de Joazeiro, além da C. 
árgyrotarsis ROB. DESV., só encontrámos os 
clássicos mosquitos domésticos: St. la'opus 
MEIO. e C. fatigaos WIED. ; nas caatingas 
apenas o Janthinosoma discrucians WALK. 

Até Parnaguá a nossa coleção só foi 
aumentada de alguns exemplares de C albi- 
mana e Culex scapularís; nas marjens das 
lagoas deste municipio encontrámos abun- 
dantemente representantes do genero Taenio- 
rhynchus A RR. 

Pudemos mais uma vez verificar a influ- 
encia da luminosidade sobre o aparecimento 
das anofelinas ; ao crepúsculo apareciam 
abundantes representantes do genero CelUa 
THEO, e Taenia rhynchus ; durante o dia, 
porém ,nas moitas sombrias da lagoa, podiam- 
se facilmente apanhar Celliae, nunca Taenia- 
rhvnc/ius, os quaes exijem maior obscuridade. 
As larvas de anofelinas foram colecionadas 
em grande abundancia e estamos incli- 
nados a supor que, nestas parajens, o feno- 
nienq estiaçãa se deve dar em gráo muito 
acentuado. 

Provavelmente os mosquitos estavam em 
estádio larval e fenómenos desta natureza já 
se tem observado em rejiões semi-desertas 
do Mexico. 

A Cellia albimana, quando se encontrava 
presente, era sempre em pequeno numero; 
os focos são constituídos por qualquer cole- 
ção de agua, mesmo em impressões, deixadas 
pelas patas do gado, nos terrenos alagadiços, 
ás marjens das lagoas, fato, aliás, já rejista- 
do na Algeria pelos irmãos SERGENT. Criá- 
mos de larvas, encontradas na lagoa de Par- 
naguá, um Culex não hematófago cuja 
determinação exata ainda não fizemos. 

Em certas zonas da Bahia e Piauhy as 
anofelinas são denominadas pelo povo de 
*'sovela" para diferençar dos culícidas em 
gfral que são conhecidos pelo nome de "mu- 
nçacas^\ A abundancia das anofelinas facil- 
mente explica o desenvolvimento que toma 
a malaria, principalmente ás marjens dos rios 
e lagoas daquelas parajens. 



Nos "geraes"^ onde a agua é mais abun- 
dante e a vejetação mais espessa, começaram 
a aparecer outras especies e, pela primeira 
vez, pudemos observar a Stethamyia THEO, 
em liberdade e estudar os seus hábitos. Esta 
anofelina se assemelha, á primeira vista, pelo 
modo de voar e pousar, aos representan- 
tes do genero Wyeomyia THEO.; voam com 
as pernas posteriores voltadas para a cabeça 
e aparecem para sugar antes de qualquer 
outra anofelina; nunca pousam no abdome dos 
animaes como a Manguinhasia CRUZ, também 
muito abundante nos buritizaes; preferem 
pousar sobre as ancas e pernas. Continuamos 
a pensar ser esta especie não transmissora 
de impaludismo. A Mangtunhosia aumenta de 
numero ao escurecer, hora em que a Stetho- 
niyia nimba desaparece. 

Os geraes são praticamente desabitados 
e neles a Cellia árgyrotarsis e albimana são 
escassas ; este fato está de acordo com a 
observação de alguns autores norte-americâ- 
nos, os quaes afirmam que estas especies são 
praticamente quasi as únicas transmissoras da 
malaria nas rejiões intertropicaes da America, 
por se achar somente presentes nos lugares 
povoados. 

Nos buritizaes, existentes a 80 quilo- 
metros das marjens do Rio Preto, encontrá- 
mos pela primeira vez a Chagasia fajardoi, 
especie que não se afasta muito do cria- 
doiro, tal como acontece com a Stethamyia ; 
isto contitue mais um elemento em favor da 
crença, que temos, não serem estas anofeli- 
nas transmissoras de malaria. 

Mais adiante, fomos assaltados em pleno 
dia por enxames de anofelinas; este habito 
denuncia logo a Cellia brasiliensis, única 
especie brazileira que ataca em pleno sol ; 
o terreno apresentava muita analojia com os 
campos de Avanliadava (S. Paulo), onde 
pela primeira vez observámos esta especie. 
Se ficar demonstrada a possibilidade da C 
brasiliensisivzr\sm\\\v o impaludismo , constitu- 
irá, pelo habito de atacar de dia, serio obstáculo 
ao futuro povoamento das rejiões onde 
existir. Aqui também verificámos o fato, já 
por nós rejistado em outro trabalho, da 
presença constante e simultanea da Mangai- 



99 



nhosia lutzi e Cellia braziliensis. 

A Myzorhynchella lutzi fomos encon- 
tral-a pouco antes das niarjens do Rio das 
Areias proximo ao Duro, em Goyaz ; nos 
arredores desta vila, os únicos culicidas 
encontrados são a Chagasia fajardoi, Mangiii- 
nhosia lutzi, C. argyrotarsis e albiniana, 
porem em pequeno numero, o que está de 
acordo com a observação dos moradores, os 
quaes afirmam ser a malaria quasi desco- 
nhecida. 

Em fins de Agosto, na Pedra Furada, 
apanhámos o primeiro exemplar de Cyclole- 
pteroti mediopundatum. Aliás ficamos surpre- 
endidos pela pobreza da fauna culicidiana 
de Goyaz, pois, nem apareciam especies banaes, 
como o Culex scapalaris, abundante 
do Mexico á Argentina. Passávamos 
varios dias sem poder aumentar as nossas 
coleções com especies, diferentes das C. argy- 
rotarsis e albitnana; esta, á medida que nos 
deslocávamos para o sul, ia substituindo 
aquela, já rara nas proximidades do Desco- 
berto, onde, em lugar denominado Lagoa 
Grande, fomos atormentados durante toda a 
noite pela C. albitnana e Myzorhynchella 
Intzi. O fato da perseguição se prolongar 
por tantas horas, tem a sua explicação por 
ser noite de lua, o que vem confirmar a 
nossa observação, feita em Xerém a este pro- 
posito; aliás a agressão se torna maior, 
quando o luar é encoberto por nuvens, dimi- 
nuindo a claridade e aproximando da lumi- 
nosidade crepuscular, cuja intensidade lumi- 
nosa representa o otimo para algumas ano- 
felinas. 

De Descoberto para o sul, desaparece a 
Cellin argyrotarsis, sendo substituida exclu- 
sivamente peia C albimana, que provavel- 
mente será a transmissora da malaria no 
Araguaya, pois era especie predominante num 
pouso a cerca de 100 quilómetros deste rio. 
Colecionámos alguns Sabethes DESV. e uma 
Chagasia e continuámos a estranhar a au- 
sencia dos C. scapalaris ROND, e serratas 
THEO., tão comuns em todo o Brazil. 

Já nas proximidades da «^apitai de 
Qoyaz, na única mata, que verdadeiramente 
merece este nome, em toda a rejião percorrida, 



apanhámos 2 exemplares do Anopheles eiseni, 
especie pela primeira vez por nós observada 
em liberdade; até então o único Estado 
brazileiros, onde se sabia existir, era o de 
Minas; este fato é bastante curioso pela 
circumstancia de ser especie, encontrada em 
algumas republicas da America Central; alem 
dessa especie capturámos ainda exemplares 
de Cycloleppteron, Sabethinae, Dendromyinae 
etc.; nenhum exemplar de Culicinae foi visto, 
o qiie achamos bastante estranhavel. 

Em 3500 quilómetros de percurso apenas 
30 especies de culicidas foram observadas ; 
destas 10 são anophelinae, faltando apenas 5 
para completar o total das especies brazileiras 
desta subfamilia. 

Para a Myzomyia lutzi a ausencia é 
facilmente explicável, pela inexistencia de 
bromeliaceas dendricolas que retêm agua e 
cuja presença só foi verificada em pequeno 
trecho do trajeto; a larva desta anofelina só 
se desenvolve naquelas plantas. Para a 
ausencia das Arribalzagaia niaculipes e 
pseudomaculipes e do Cycloleppteron interme- 
dium, sempre presentes nas localidades 
onde vive o Cycloleppteron mediopunctatum, 
não encontrámos explicação. A especie res- 
tante, o Anopheles mattogrossensis, até agora 
só foi encontrada no Estado que lhe deu o 
nome. Todo o interior do Brazil, excetuadas 
as povoações á marjem dos rios S. Francis- 
co e Preto, não possue a Stegomyia calopus 
e Culex fatigans. A cidade do Porto Nacio- 
nal e Goyaz, por emquanto, continuam isentas 
destes culicidas. 

Triatomas -De Joazeiro ás proximidades 
de S. Raymundo Nonato, debalde procurá- 
mos a T. megista (BURM.), transmissora da 
molestia de CHAGAS ; naquela cidade só 
pudemos obter a T. surdida (STAHl), oque 
já era de suspeitar pela grande afinidade 
existente entre esta especie e os cursos d'agua. 
A este respeito, a excursão em questão foi 
muito instrutiva para o estudo da biolojia 
da T. sórdida, especie de larga distribuição 
na America do Sul e já provada transmissora 
da molestia de CHAGAS. 

Logo que nos internámos em rejiões 
áridas, a T. sórdida desaparecia, surjindo ¡me- 



100 



diatamente nas pioximîdades dos cursos 
d'agua e em alguns lugares, onde a molestia 
de CHAGAS se achava presente, como Porto 
Nacional, a T. sórdida foi a única especie 
observada. Além desta especie, de Joazeiro 
até as proximidades da vila S. Raymundo 
Nonato, só encontrávamos a T. inaculata 
<ERICH.), denominada em alguns lugares de 
"'bicho de parede pretd'\ para distinguir do 
nome genérico áo^^bicho de parede", dado em 
quasi toda a zona, aos representantes do ge- 
nero TV/a/owa; em Joazeiro, ainda ha a deno- 
minação de ^'chupa" e em algumas localidades 
de Pernambuco, Piauhy e Bahia de "bicudo" 
e ''procotó'\ 

Nas proximidades de S. Raymundo No- 
nato, na Fazenda denominada Santa Anna, 
verificámos a presença da Triatoma brasilien- 
sis NEIVA, infestando as locas dos mocós 
(Cérodon rupestris WIED.) e mais adiante, 
em mais de um lugar, soubemos que com a 
T. inegista acontece o mesmo. Comtudo não 
tivemos a oportunidadt' de resolver esta im- 
portante questão, aliás fácil de admitir, pois 
certamente a domesticidade de algumas tria- 
lomas é posterior ao descobrimento do Brazil. 

Na vila de S. Raymundo Nonato encon- 
trámos as seguintes especies que infestam os 
domicilios: T. brasiliensis, maculata, sórdida 
e inegista, a primeira em grande numero, a 
ultima muito escassamente. 

Os exames repetidos com o fim de se 
verificar, se existia infeção por Iripanosomo, 
ateai foram completamente negativos ; cerca de 
12 quilómetros para oeste da vila de S. 
Raymundo, cnconlrámos, no lugar denominado 
LagfS, a Triatoma inegista, representada 
exclusivamente em numero extraordinario ; 
não sabendo explicar a causa do subito 
desaparecimento das outras especies. Dai 
para diante, esta especie preponderou, com 
exclusão de qualquer outra, até, que chegá- 
mos á vila de Parnaguá, quando reaparece 
a T. sórdida, a qual, associada á T. megista 
ou só, foi encontrada em quasi todq o terri- 
torio goiano até atinjirraos os limites com 
Minas. 

Em Parnaguá encontrámos as primeiras T. 
megista, infetadas com o Trypanosoma cruzi 



CHAGAS, e este fato veiu confirmar as 
suspeitas clinicamente baseadas, que a moles- 
tia de CH.\OAS já ''pintava", isto é, já apa- 
recia esporadicamente, no dizer daquelas 
zonas. 

O nome vulgar das triatomas possue 
larga sinonimia, variando dum lugar para 
outro; além das citadas, a ninfa ou larva é 
designada de cascudo e borrachudo, denomina- 
ções que, no sul, correspondem aos simuli- 
das e certos coleópteros ; o adulto ainda é 
chamada de ''fincão'\ dos geraes em diante ; 
inclusive todo o Goyaz, a triatoma é desig- 
nada de ''percevejo^', "■percevejão'", ''percevejo 
gauderio" e "vum-vutrí\ nome empregado 
somente na Capital de Goyaz ; no sul deste 
Estado é conhecido pelas denominações de 
"chupão" e "chupança" e nas proximidades 
de Minas de "barbeiro^'. 

Nas zonas em questão, o Ciincx lectula- 
rius (FABR.) é designado de varias maneiras: 
"percevejo da Bahia, percevejo do comercio", 
fim-fim". Nunca observámos triatomas habi- 
tando a mata, apesar das numerosaS afirma- 
ções em contrario ; sempre que nos traziam 
da mata hemipteros, considerados pelas pes- 
soas que os colecionavam como sendo leji- 
timos "bichos de parede", verificávamos 
tratar-se de representantes dos gtntxos Apio- 
menis HALN., Hammatocerus BURM., Pachylis 
LEP. SENV. etc. Nos curraes, sob a casca 
dos moirões das cercas, é relativamente 
comum, encontrarem-se as mesmas triatomas 
que frequentam a casa. 

Nos lugares onde ha a presença simul- 
tanea de mocós e gado caprino, este procura 
dormir nas proximidades das tocas daqueles 
roedores, servindo portanto de pasto para a 
Triatoma brasiliensis. 

A T. maculata não parece se internar 
muito, porquanto não foi verificada além da 
vila de S. Raymundo; a T. bra si/ iensis iníestci 
os domicilios da vila de Parnaguá, conjunta- 
mente com a T. sórdida e megista, sendo 
encontrada até as proximidades de S. Mar- 
cello. 

Quasi todos os domicilios, em todo o 
trajeto, ofereciam todas as condições para 
permitir a reprodução das triaiomas ; a 



101 



maioria é constituida por casas de adobe 
não rebocadas ou então apenas em alguns 
compartimentos; em lugar denominado 
''Tumbador", divisa do Piauhy com o muni- 
cipio de Sta. Rita, encontrámos uma habita- 
ção toda revestida de palha, mas tão densa- 
mente que permitia a existencia de triato- 
mas; em geral, nas casas mal cobertas de 
palha e de paredes por elas revestidas de 
modo incompleto, as triatomas, quando nelas 
penetram acarretadas nas cargas, não acham 
comludo condições para reprodução. 

Do Duro em dianie, só foi verificada a 
presença da T. megista e sórdida ; em alguns 
lugares os habitantes informaram que os 
ratos davam incessante caça a estes hemip- 
teros, a ponto de extinguil-os; em geral o 
morador procura negar a existencia de tria- 
tomas no domicilio, em que reside, e, quando 
reconhece a presença do reduvida hematófago 
na localidade onde mora, nunca é na pro- 
pria casa, porém na de alheios. 

No emtanto, basta muitas vezes rápida 
investigação pelas frinchas das paredes, para 
se |ulgar da existencias das triatomas pelas 
manchas, que as dejeções deixam á entrada 
líos lugares onde se abrigam. 

Os ofidios, como em toda parte, gozam 
de enorme pre.-tijio f são muito temidos; 
praticamente o pOvo não conhece cobras e 
qualquer destes répteis passa por ser vene- 
noso; na nossa excursão conseguimos trazer 
a seguinte coleção, determinada pelo Dr. J. 
FLORENCIO GOMES do Instituto de Bu- 
tantan: 

Crotalus terrificus (LAUR ) (cascavel) 
Lachesis lanceolufus (LACEP.) (Jararaca) 
Xenodon merremii (WAGL) (Salamanta) 
Oxyrhopus trigeminus D. & B. . 
Oxyrhopus cloelia (DAUD.) (mussurana) 
Spilotes pullatiis (L.) (caninana). 
Sob esta designação ainda é conhecida 
no Brazil a Phrynonax snlphiireus (WAGL.); 
ambas as especies não são venenosas. 

Além destas, encontrámos a Elaps marc- 
gravii WIED. , Hcrpetodryas carina tu s (L.) 
Drymobins hifossatus (RAD.) e Philodryas ol- 
fersi (LIGHT.); pela provável determinação 



que fi/.enios com elementos que dispúnhamos 
em viajem. A maioria dessas especies foi 
colecionada no Piauhy, podendo-se acrecentar 
á lista outras especies, que ali ocorrem, se- 
gundo informações do Dr. FLORENCIO 
GOMES, ao estudar material recentemente 
colecionado naquele Estado pelo Snr. F. 
IGLESIAS: 

VIPERIDAE: 

Lachesis neuxiedii (WAGL.) 

COLU^RlDAEr 

Aglypha: 

Leptophis ahaetulla (L.) 

Liophis poecilogvrus (WIED.) 

Liophis viridis GTHR. 

Rhadinaea occipitalis JAN. 

Rh adi naca geni macula ia BOETTGER 

Helicops angulatus (L.), cobra d'agua- 

Opisthoglypha: 

Leptodira albifnsca (LACEP.) 

Oxyrhopus guerini DUM. & BI BR. 

Oxybelis acuminatns (WIED) 

Homalocraniíim melanocephahim (L.) 

A Lachesis neuwiedii piauiense, pelo 
que nos comunicou o Dr. F. GOMES, diver- 
je lijeiramente dos exemplares do Brazil me- 
ridional, mas não especificamente, segundo 
parece ao nosso informante. Acreditamos 
que a especie em questão só seja encontra- 
da no norte do Estado, porquanto na parle 
Sul, que foi a unica por nos percorrida, ne- 
nhuma informação obtivemos sobre a exis- 
tencia de cobra tão carateristica. Em todo o nor- 
deste ouvem-se, a cada passo, referencias ter- 
ríveis sobre o poder do veneno da "salaman- 
ta", ofídio que dizem viver nos ocos dos 
paus c cujo nome é evidentemente corrutela 
de salamandra. Sob este nome o povo con- 
funde duas especies muito diferentes: Coral- 
lus hortulanus (L.) e Xenodon mareniii 
(WAGL.) 

A salamanta, no entanto, não é cobra 
venenosa e o terror inspirado deve provir 
do aspeto que a cobra toma, achatando-se 
contra o solo ao avistar qualquer inimigo, o 
que lhe valeu o nome indijena de boipeva 
como é ainda conhecido no sul do Brazil; o 
exemplar que trouxemos foi colecionado nos 
arredores da vila de Parnaguá, onde também 



102 



apanhamos o Elaps coralUnus WIED. Por 
informações soubemos da existencia duma das 
¡Mchesis denominadas pelo povo de ^'■jaram- 
c:issú'\ a qual parece ser mais rara ali que 
no resto do pai/. Fat o bastante digno de 
nota é a inexistencia da Lachesis mutus{L.), 
a vulgar surucucú, comum e frequente no 
norte do Brazil ; todas as indagações que 
fizemos resultaram inúteis, não havendo 
probabilidade de haver engano, pois se trata 
de ofidio dos mais carateiisticos e já rejis- 
lado, como presente, em alguns Estados por 
nós percorridos, como o da Bahia. É possivel 
que a L. mutus não encontre condições de 
vida favoráveis nas zonas secas, existindo 
apenas nas zonas de matas ; a nossa expe- 
riencia a este respeito fala em favor desta 
asserção, pois o único exemplar vivo desta 
especie, que tivemos oportunidade de ver, foi 
por nós capturado em Xerém (E. do Rio) 
em zona muito húmida e revestida de floresta. 

A "mussuraná" de tanta utilidade é, em 
alguns lugares do Piauhy e Bahia, chamada 
de ^'cobra preta" e temida pela maioria das 
pessoas que a julga feroz jararacussá. Em 
Pamaguá tivemos oportunidade de deparar 
com um grande exemplar da Coluber corais 
BÓIE, a vulgar '^papa-pinto" de certos Es- 
tados brazileiros, cobra de grande utilidade, 
jior ser ofiofaga, fato este porém ainda igno- 
rado por quasi toda a gente. O nosso compa- 
nheiro de excursão, filho de fazendeiro da 
localidade, ao avistar o reptil, antes de 
podermos advertil-o, atirou-lhe mortalmente, 
convencido de que se tratava de cobra muito 
venenosa. As informações fornecidas sobre 
cobras venenosas são infelizmente muito 
suspeitas ; todavia devemos rejistar as que 
ouvimos em lugar chamado Jatobá (Municipio 
de Remanso, Bahia), referentes a pequena 
cobra verde, dendrofila, que dizem ser ve- 
nenosa. 

A ciencia já rejista a Lachesis bilineaíus 
(WIED), vulgarmente conhecida pelo nome 
de surucucú patioba, como cobra venenosa 
de côr verde, habitando o norte do Brazil; 
não é impossível que o fato narrado pelos 
habitantes de Jatobá se relacione com esta 
especie. 



Deve-se, porém, ao Crotalus terrificus 
(LAUR.) a generalidade dos casos de ofidis- 
mo em homens e animaes; no sul do Brazil cabe 
este papel ao Lachesis lanceolatus LACEP. ; 
neste ponto as informações populares são ver- 
dadeiras : é enorme a abundancia de casca- 
veis no nordeste brazileiro, sendo que a 
frequência aumenta nas zonas secas. E neces- 
sário a quem tenha de percorrer zonas des- 
habitadas daquelas parajens, munir-se princi- 
palmente de soro anticrotalico, preparado pelo 
Instituto de Butantan, 

Em todo municipio de Formosa (Bahia) 
o viajante ouve frequentemente referencias a 
uma pequena cobra mais venenosa, segundo 
as informações, que a cascavel, é denomi- 
nada "tira-peia" ; habita nas fendas da terra 
e parece comumente no "verde" ; tem a 
aparência de cascavel, não crecendo porém 
pouco mais de palmo, O nomeé dado, devido 
á violencia do veneno ; como é sabido, no 
norte os animaes são pelados, afim de não 
fujirem, e a expressão "tira-peia'^ vem desi- 
gnar a inutilidade desse instrumento de 
contensão para o animal picado. Talvez se 
trate duma confusão com algum representante 
da inofensiva familia Amphisbaenidac e que 
passa em todo o Brazil por ser cobra e, 
mais ainda, muito venenosa. 

Sinceramente, não damos nenhum credi- 
to ao que ouvimos em Formosa, apezar de 
nos ter sido repetido por varias pessoas e 
em varias localidades; relatamos apenas pelo 
dever de rejistar informações sempre úteis 
á cienda que as destroe ou as confirma. 
Nessa rejião os habitantes também se refe- 
rem ás cobras denominadas "malhà'^ ou ^'maUia 
de cascavel" ç. ''jararaca de cabo branco", quf 
dizem ser venenosas; algumas destas desig- 
nações no Sul, designam a vulgar jararaca. 

Em todo o Goyaz já se não fala mais 
no minhocão, reptil lendário que tem sido 
tratado por varios naturalistas; algumas pes- 
soas ouviram referencias ao animal, mas, 
sem duvida, a lenda vae desaparecendo; em 
compensação, porém, está sendo provavel- 
mente substituida por outra, pois em Ouro- 
Fino ouvimos a referencia a um ofidio que 
marcha como os oligoqnetas em geral ("ca- 



103 



minha como minhoca" diz o povo) e é cha- 
mado de ''surucucu", atingindo pouco mais 
de metro, de cor cinzenta e com o corpo re- 
vestido de escamas chatas, sendo extrema- 
mente rara. 

A ema {Rhea americanan L.) e seriema 
(Microdactylus crístatus L.) passam por ser 
destruidoras de cobras e em Caracol (Piauhy). 
O Coronel AURELIANO AUGUSTO DIAS, 
impede a caça ás emas nas fazendas de sua 
propriedade, pois acredita na destruição das 
serpentes por aquelas aves. Nas autopsias 
duma ema e de va' ias seriemas, mortas du- 
rante a excursão, nunca verificamos a presen- 
ça de ofidios no tubo dijestivo. Animal, que 
também gosa a fama de destniidor de ser- 
pentes, é o teiú {Tnpinnmbis teguixin L.); nós 
nunca tivemos oportunidade de presenciar 
qualquer dos combates tão comuns no dizer do 
povo. Pelas observações do Dr. VITAL 
BRAZIL e seus auxiliares, a seriema, jabim, 
pavão e certos gaviões só devoram as cobras 
não venenosas e não agressivas ou veneno- 
sas quando muito pequenas; estes fatos foram 
observados experimentalmente após jejuns 
de 2-3 dias. O teiú ou lagarto, segundo in- 
formações dos mesmos observadores, nunca 
ataca as cobras venenosas, atacando e de- 
vorando porém as cobras não venenosas. 

Fato a rejistar entre os repteis, é a de- 
nominação que dão no Piauhy aos represen- 
tantes do genero Iguana DAUD, ali conhe- 
cidos pelo nome de "preguiça"; aliás os 
representantes do genero Bradypus L., 
universalmente conhecido por este nome, ali 
não existem. 

Nem sempre estas notas obedecem á 
seriação zoolojica; são escritas á medida da 
leitura do nosso diario e notas efetuadas 
durante a viajem; mas a reunião das dife- 
rentes partes poderá dar idéa da fauna das 
zonas percorridas. Na zona seca, como era de 
prever, são raros os hydrosaurios ; apenas 
conseguimos atirar na lagoa de Ibiraba, no 
municipio de Parnaguá, em um jacaré. 
Entre os batraquios só é comum o Leptodac- 
tylus ocellatus (L.), ali vulgarmente denonii- 
ado de "gia'^; os Bufonidae são bem repre- 
sentados; não encontrámos porém em toda 



rejião semi-arida qualqm;r representante das 
Hylidae. 

Assim como o buritizal reúne quasi todas 
as especies de flora local, lagoas, açudes e 
ipueiras atraem avifauna de muitas leguas 
em torno; grande numero de especies exclu- 
sivamente se encontra nestes sitios. 

As garças, irerês, marrecos e patos são 
relativamente comuns nas massas d'agua de 
maior volume; a abundancia só raramente é 
grande e isto, de alguma forma, nos surpre- 
endeu, pelas constantes informações em con- 
trario. 

Elemento constante junto a qualquer 
coleção d'agua é o '■Héu-tcn" {Belonoptenis 
caycnnensis (GM.) ; a denominação de lagoa 
no nordeste designa reunião d'agua de 
qualquer profundidade e de extensão acima 
de 20 metros; quando ha profundidade e a 
extensão excede de muito a largura, deno- 
mina-se de ipaeira ou iptiêra; os açudes em 
geral são denominados de tanques. Nas la- 
goas maiores, além do téu-téu, são frequentes 
o Theristicus caudatas (BODD.) e nas ipuêras 
aparece ainda, sob a denominação local de 
socó-boi, o Tigrisoma lineatum (BODD.). 
Somente um exemplar da Florida caerulea 
L. foi visto durante todo o trajeto; mas se 
a garça azul é assim rara, o mesmo não 
acontece com a Herodias egretta (GM.), a 
qual conseguimos observar, nas proximida- 
des de qualquer porção dagua e, em grandes 
bandos, na ¡lha Pequena da lagoa de Parna- 
guá, local onde vimos o maior numero de 
aves durante todo o trajeto, pois, aos bandos, 
também se encontravam a Ajaja ajaja (L.), 
o colhereiro e a Cancroma cochlearia L., o ara- 
papá, naquela zona denominada de socó de 
bico largo. 

Depois do municipio de Corrente (Pi- 
auhy) as lagoas são frequentadas ainda mais 
pela carauna, Harpiprion cayeiinensis (QM.) 

No sudoeste do Piauhy começaram a 
aparecer as araras azues; até então só tin ha- 
mos encontrado a canindé (Ara araraunu 
(L.). A medida que caminhávamos para oeste, 
a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthiuus 
(LATH.), tornava-se mais abundante; na re- 
jião em questão a arara-azul:; ainda é feliz- 



104 



mente muito comum e, cotno â biolojia desta 
especie é falha, daremos os resultados das 
nossas observações e das informações co- 
lhidas. 

Os bandos até 5 não são raros, em ge- 
ral porém voam aos casaes; o vôo é muito 
rápido e grasnam de modo diferente da ca- 
nindé. Depois de alguns dias de pratica, ao 
se ouvir o grasnar da arara, pode-se facil- 
mente saber-se de que especie se trata. Pou- 
sam nos buritizaes onde geralmente dor- 
mem ; houve dia de se abaterem até 3 exem- 
plares de «arara-azul ' ; são muito pouco 
parasitadas. Por varias vezes observámos a 
arara-azul» em trabalho de nidificação e para 
isto escolhe sempre uma palmeira-burití 
(Mauritia vinifcra MART.) sem folhas; du- 
rante o mez de Agosto, começa a abertura 
do ninho; em 2ô— 8 — 12 em logar, denomi- 
nado S. José (Municipio do Pilar, Estado 
de Goyaz), derrubamos um buriti já seco, 
mas que denunciava a presença de ninho de 
arara, pela cauda desta ; o ninho já estava 
preparado, porém não continha ovos. Pelas 
informações soubemos que os ovos são 3 e 
de cor branca; disseram-nos que estas belas 
aves são muito perseguidas \it\o gavião de pena- 
cho (Thrasactus harpya (L.^); cremos, comtu- 
do, que a perseguição não produza grande 
efeito, porquanto esta águia parece ser muito 
rara na zona, onde existe pelas informações. 
As primeiras referencias &o gavião de pe- 
nacho foram ouvidas somente em Goyaz; 
nunca conseguimos observal-o voando, porém 
a sua presença é indiscutível, pois vimos e 
trouxemos garras, guardadas como amuletos 
pelos caçadores. Em geral, os habitantes não 
sabem onde nidificam, apenas um individuo 
afirmou-nos que os ninhos são feitos sem 
nenhum cuidado na cachopa dos buritis, isto 
é, na porção da palmeira que carrega as fo- 
lhas ; põe 2 ovos entre os mezes de Setem- 
bro e Novembro. Varios fazendeiros asse- 
veram que o gavião de penacho chega a ata- 
car os bezerros '<minJolos , os quaes muitas 
vezes vem a falecer em consequência dos 
ferimentos recebidos ; filhotes de veados, 
mutuns, seriemas e tatus são prezas, facil- 
mente carregadas pela ave. Logo que a pre- 



sença do gavião de penacho é denunciada 
nas proximidades da moradia do fazendeiro,- 
este procura imediatamente dar-Ihe caça, com 
terror de que as crianças sejam vitimas de 
ferimentos; mais de uma vez ouvimos a 
narrativa de tentativas de agressão desse 
genero e o Dr. AYRES DA SILVA narrou- 
nos o episodio, passado com um seu parente, 
e em que este teve oportunidade de matar 
um gavião de penacho, na ocasião, em que 
a ave investia contra um menino que ia em 
sua companhia. 

Até Qoyaz só se encontram duas espe- 
cies de urubus, e Catliarista atraias brasili- 
ensis (BONAP.), o urubú comum e o "uru- 
bú de cabeça vermelha" {Cathartes aura (L.), 
predominando este na parte mais central do 
paiz; é muito fácil diferençar as duas espe- 
cies voando, pela majistral maestria do vôo 
da Cathartes aura, que se libra durante longo 
espaço de tempo, efetuando voos planadc>s 
maravilhosos. 

Em Goyaz, além das especies referidas, 
encontra-se com relativa frequência o {Gypa- 
gus papa L.) e a respeito desta ave verificá- 
mos uma observação popular verdadeira ; que- 
remos nos referir ao fato dos outros urubus 
fazerem carniça depois do urubú-rei saciado. 
Certa vez encontrámos uma rez morta e em 
volta enorme bando de urubus, pousados sobre 
as arvores próximas ; como o lugar era desha- 
bitado, causou-nos estranheza o fato do cada- 
ver não ser atacado, apezar de observarmos 
que alguns urubus passeiavam sobre o corpo 
do animal sem procurarem se alimentar; um 
camarada advertiu-nos que isto se passava 
por estar proximo algum urubú-rei, e, na ver- 
dade, logo depois verificámos a presença de 
5 destas aves pousadas na arvore mais ele- 
vada das cercanias e que impediam o ataque 
da rez por parte dos outros urubus. 

No lugar denominado Baião, municipio 
de Natividade, os fazendeiros garantem a 
existencia de uma outra especie de urubú 
chamada no local de 'urubú-pedrez e urubú- 
fidalgó" ; trata-se, segundo as informaçõs, 
de ave menor que o Gypagus papa poem 
maior que os outros urubus; tem o céro 
rajado de preto e branco, não sendo corpo 



105 



raro. Estamos inclinados a acreditar na 
veracidade desta informação, pelo fato de 
termos atirado sobre certo urubú que fazia 
carniça em um veado e cujo tamanho nos 
chamou a atenção. 

Por duas ve7es, em Goyaz, verificámos a 
presença da Myctería mycteria (LICHT), o 
grande jabiru ; a primeira voando e outra 
quando se alimentava numa lagoa; ao sentir 
a aproximação de pessoas procurou levantar 
o vôo, o que faz com dificuldade; o tiro al- 
cançou-o em uma das azas e caiu defenden- 
do-se valorosamente. O tubo dijestivo só con- 
tinha peixes. Ao contrario dos urubus que 
nos forneceram excelente material parasito- 
lojico, o jabiru nada apresentou. A' beira dos 
rios e lagoas de todo o percurso até a rejião 
central de Goyaz é comum encontrar-se o in- 
teressante Tyratinida, Fluvicola climazura 
(VIELL), conhecida desde a capital da Bahia 
pelo nome vulgar de "lavadeira". 

Aqueles que se interessarem pela avi- 
fauna das rejiões percorridas poderão con- 
sultar os seguintes trabalhos modernos: 
REISER, O.: "Liste der Vogelarten, welche 
auf der, von der Kaiserl. Akc demie der Wis- 
senschoften 1903 nack Nordostbrasilien entsen- 
deíen Expedition, miter Leitung des Hofratcs 
Dr. F. SJWi^DkCUKLR. gesammelt warden. 
Wien. Denkscliriften det K. Akademie der wis- 
senschaften, Vol. 470-1910 e HELLMAYR, 
C. E. : An account of tht< birds collected by 
Mons. G. A. BAER in the State of Goyaz, 
Brazil." Novitates Zoologicœ, Vol. XV, 1909 
London. 

Da lavra de HOLLAND, J. W. , HASE- 
MANN, D. J. e EIGENMANN, H. C. no 
Vol. VII de "Annals of the Cat negie Museum, 
1911, encontram-se 3 artigos que se estendem 
das pp. 283-328 e que se ocupam exclusiva- 
mente da fauna ictiolojica da rejião do 
Nordeste. HASEMANN qne foi o naturalis- 
ta que percorreu a rejião, estuda minuciosa- 
mente os varios modos de pescar, incluindo 
a tinguinajem empregados pelos naturaes. Os 
interessados poderão com todo o proveito 
consultar o trabalho indicado e que de modo 
exaustivo trata do assunto. 



Na lagoa de Parnaguá é muito abundante 
certa especie de pequeno camarão, provavel- 
mente pertencente ao genero Palaemon, mas 
cuja identificação especifica exala, deixou de 
ser feita, por não termos colecionado exem- 
plares Jd". 

Muito recentemente R. VON IHERINO 
publicou nos ''Annaes Paulistas de Medicina 
e Cir." interessante artigo. "As especies de 
ratos caseiros e a sua diferenciação dos ratos 
indigenas", com informações curiosas a 
respeito, ás quais poderão ser adidas 
algumas por nós colejidas a proposito do 
Mus (Epimys) norwegicus ERXL, que invadiu 
recentemente, não ha 8 anos, as habitações 
do Brazil Central, ocasionando as depreda- 
ções costumeiras. O nome de ratazana, porém, 
é desconhecido, sendo o roedor batisado de 
"rato rabo de couro" e em Pernambuco e 
certas zonas do Piauhí acreditam os mora- 
dores, ser a invasão proveniente do Carirí 
(Ceará). 

Trouxe apenas a vantajem de dar caça 
aos bichos de parede em compensação, esca- 
va galerias no sub-solo das habitações e 
<furuncham» (esburacam) toda a casa, no 
dizer local. No centro de Goiaz os habitan- 
tes queixam-se do rato-boiadeiro, também de 
invasão recente e que difere do rabo de 
couro por ter a cauda cabeluda. 

As casas dessas zonas são frequentadas 
por pequenos ratos autóctones, conhecidos 
sob a denominação de catita, pnnaré, tucu- 
naré, e provavelmente pertencentes a varios 
géneros. Nas divisas do Piauhí e Bahia, á 
noite, quando já estávamos acampados, ti- 
vemos oportunidade de matar um exemplar 
novo de Rhipidomys pyrrhorliinus (WIED.), 
segundo a identificação efetuada pelo Dr. A. 
DE MIRANDA RIBEIRO. 

O rato-boiadeiro do centro de Goiaz, pela 
descrição que dele nos fizeram, deve com 
muita probalidade ser o Trichomys apereoi- 
des (LUND.); por nós foi encontrado 
frequentando os domicilios da Vila de Parna- 
guá (Piauhí). MIRANDA RIBEIRO que iden- 
tificou o exemplar, que dali trouxemos, 
também já o encontrou em habitação, á 
marjem esquerda do Paraguay. A especie 



106 



em questão, possue immensa area de disse- 
minação no Brazil, tornando-se cada vez mais 
frequenteoos domicilios dos nossos sertões* 

O 'Vaéo de couro'\ como por abreviação 
também o chamam, ainda não invadiu o mu- 
nicipio de Parnaguá; as localidades, como 
Lages, Caracol, eyc. ainda pertencentes ao 
municipio de S. Raymundo Nonato, por em- 
quanto não conhecem a praga. 

A capivara (Hydrodioerus capybara ERX.) 
só existe dos arredores da vila de Parnaguá 
em diante; nem mesmo nas povoações das 
marjens do Rio S. Francisco, por nós visita- 
das, é encontrado este grande roedor, tendo 
existido antigamente segundo nos disseram. 
De Petrolina até a referida locahdade o ani- 
mal é completamente desconhecido e este 
fato, tem grande importancia, pois em toda 
a zona existe o "torce" (mal de cadeiras). 
Sendo portanto dispensável a capivara para 
depositario do virus deste tripanosomo. 

Na lagôa de Parnaguá a capivara existe 
em grande abundancia ; todavia os moradores 
nunca observaram mortandade de capivaras, 
o que faria suspeitar epizootia pelo Trypa- 
nosoma equinuiii VOGES, como já tem sido 
verificado no Biazil, Argentina e Paraguay. 
A carne da capivara é aproveitada para ali- 
mentação e ali também é aproveitado o oleo 
na cura da tuberculose. Nos lugares pedre- 
gosos da Bahia, Piauhy e mesmo Goyaz, 
nas proximidades de Natividade, enconíra-se 
o Kerodon rupestris WIED (mocó), cuja carne 
é tida como fina iguaria. Estes roedores 
procuram habitar as tocas de pedra nas pro- 
ximidades da agua. Bastante comum em toda 
a zona é a preá {Cavia aperea ERXL.). Em 
Caracol tivemos oportunidade de apanhar 
vivo o Conepatus suffocans AZARA, conhe- 
cida no nordeste pelo nome de cangambá. 
Nunca supuzemos ser a secreção anal, que o 
animal expele para se defender, de tal forma 
nauseabunda; o naturalista, que o determinou, 
nada exajerou dando-lhe aquela designação. 

O animal foi surpreendido durante o d'à, 
o que é raro, por ser de preferencia notur- 
no; ocultou-se no ôco duma umburana donde 
foi retirado aviva força, defendendo-se terri- 
velmente com as ejaculações esverdínhadas 



lançadas á distancia, o que afastava os cais 
e obrigava a mais de uma pessoa a aban- 
donar a luta; um camarada, que mais se afa- 
nara em arrancar o animal do abrigo, teve 
de deitar-se completamente nauseado. Dois 
dias depois foi o animal morto pelo cloro- 
roformio, sendo dele colhidos varios parási- 
tos raros e desconhecidos para a ciencia; da 
glândula retal foi retirada grande quantidade 
de liquido oleoso de côr amarela escura e 
guardada em ampolas fechadas á lampada. 
A substancia, que dá á secreção o repelente 
cheiro que a carateriza é o sulfidrato de etila, 
mais conhecido pelo nome de mercaptan. 
Quando as ejaculações são repetidas chega- 
se a perceber a formação de vapores. Já 
AYRES DE CAZAL, na Corografia Brazilica, 
T. I. 2a ed., paj. 50, Rio, 1833, refere-se do 
seguinte modo ao fato : "Algumas pessoas 
dizem ter observado huma pequena fumaça 
averdeada na parte posterior do canhoneiro 
quando ele dispara a peça"; o fato da emis- 
são de vapores esverdeados, podemos asse- 
gurar, é completamente verdadeiro. 

No fundo da glândula existe um depo- 
sito espesso, de côr esverdinhada, possuindo 
o repugnante odor de oleo. VON IHERING, 
H. propoz para a especie do norte do Brazil, 
o nome de Conepatus chilensis DESiVl. , var. 
bahiensis (vide Revista do Museu Paulista, 
Vol. VIll-**Os Mammiferos do Brazil Meri- 
dional" pp. 147-272 cj. paj. 357.) 

Os macacos são relativamente raros, 
mesmo os representantes das Hapalidae; 
em lugar, denominado Angico (Municipio de 
Parnaguá), deparamos com alguns bandos 
de guaribas pretos, mas com o dorso das 
mãos revestido de pêlos amarelados (Alónala 
belzebue L.) e em Goyaz com um grande 
bando de Cebus: os exemplares mortos for- 
neceram grande material de parásitos, princi- 
palmente de vermes, alguns dos quaes estão 
em estudo. Preferimos identificar a guariba 
encontrada no Município de Parnaguá como 
o Alonata belzebul (L.), para acompanhar a 
autoridade de TROUESSART, que, no seu 
"Catalogas Mammalium", considera a A. dis- 
color (SPIX) e A. rufimanus (KUHL) como 
sinonimas de Alonata belzebul (L.) 



107 



Comludo parece que a questão não está 
completamente resolvida, pois em Outubro de 
1<j10 foi publicado no The Annals d- Mag-, of 
na fura/ Histrry S. 8. Vol. VI. pp. 422-424 
um artigo intitulado "A note on Alonata dis- 
color of Spix'^ e assinado por Q. DOLLM/\NN, 
onde o autor, a proposito duma serie de 
ouaribas recebida do E. de Maranhão, procu- 
ra separar A. bclzcbul e o ^. discolor em 
duas especies distintas, baseado em dife- 
renças encontradas, não só na pele, como 
ainda nos ossos da cabeça. 

Já MARCQRAV a paj. 226 do Livr. VI 
()cupa-se da especie em questão como presente 
cm Pernambuco. 

Mezes depois de escritas estas linhas, 
apareceu em meiados de Outubro de 1914 
no Vol. IX, pp. 231-256 na "Revista do Museu 
Paulista" um artigo da lavra de H. von 
IHERING, epigrafado "Os Bugios do genero 
Alonata" onde o ilustre autor resolve as 
controversias sobre o assunto. IHERING 
icfuta o artigo de DOLLMANN e reconhece 
ijue o A. discolor (SPIX) e y\. stra minea 
(OEOFFR.) são sinonimas de A. belzcbul 
(L.). A estampa dá em cores a distribuição 
geográfica das especies do genero Alonata 
LAC. ; é com prazer que vemos a rejião 
piauliyiense habitada pelo A. bclzebul, confir- 
mando assim a identificação, por nós realiza- 
da, da especie ali encontrada. 

Em principio de 1915 veiu á publicidade 
o "Anexo N" 5" (Zoologia) da Commissão de 
Linhas Telegraphicas Estratégicas de Matto- 
Grosso ao Amazonas ; onde o mais auto- 
rizado dos zoólogos brazileiros, o Snr. A. 
MIRANDA RIBEIRO, dá conta dos mami- 
feros, encontrados na zona percorrida pela 
Comissão Rondou. Á paj. 5 desse t'-abalho, 
o ilustre naturalista coloca os bujios no 
genero Ccbus ERX., baseado no principio 
da estrita prioridade, pois, no seu dizer, as 
especies belzcbul e seniculus foram as pri- 
meiras citadas por ERXLEBEN, quando 
criou o «"U genero Ccbus. 

Somente em Ooyaz, podemos alcançar 
material proveniente de antas, que naquele 
Estado ainda são muito abundantes ; a carne 
só é aproveitada para os cais, sendo o couro 



muito procurado para varios misteres. Os 
naturais distinguem duas especies, uma 
denominada '^^ gameleira" é maior e mais clara, 
possuindo desde ao nacer a ponta da orelha 
branca em ambos os sexos; a outra, deno- 
minada de '\xarf' é menor, de côr mais 
escura, sendo mais valente; todavia as infor- 
mações nem sempre concordavam quanto á 
côr da "c«te xuré" que para alguns é de 
coloração mais amarela que a ''gameleira". 

A este tipo pertencia o exemplar que 
matamos, possuindo dimensões dignas de 
rejistro: comprimento lniS2, altura Im 05; 
circumferencia toracia lm25, peso 170 quilo- 
gramas. O peso deve ser tomada aproxima- 
damente, paramáis ou para menos, porquanto 
a balança, de que nos servimos, de proprie- 
dade dum fazendeiro tinha por peso pedaços 
de ferro não aferidos e que faziam suspeitar 
da sua exatidão. 

A ciencia até hoje só rejistrou uma es- 
pecie de anta para o Brazil, o Tapiras ame- 
ricanas BRISSON, mas na Colombia, Equa- 
dor e Perú existe o Tapiras pinchaque ROU- 
LlN e na America Central um subgénero 
com duas especies: Tapiras (Tapirclla) bairdi 
GILL e Tapirus (Tapirella) dowi GILL. Es- 
tudos mais pormenorizados a respeito, talvez 
venham dar razão á observação, já de ha 
muito tempo rejistrada pelos caçadores, da 
existencia de outra especie de anta em 
territorio braz'leiro. De Petrolina aos gerais 
bahiancs a anta é animal completamente des- 
conhecido. Dos gerais em diante é muito 
abundante. 

Entre os edentata são muito comuns o 
Tatus novemcinctus (L.) (tatú) e Tofypeutes 
tricinctus (L.) (tatú-bola) cuja carne insípida 
passa por ser ? melhor caça da zona seca. 
Em Goyaz falaram-nos muito frequentemente 
na abundancia do tatú-canastra (Prodontes 
giganteas E. GEOFFR.), mas, na nossa opi- 
nião, é especie já rara naquele Estado; no 
Baião, municipio de Natividade perguntámos 
ao fazendeiro, homem intelijente, se existia 
no local a especie em questão, "é demais" 
respondeu-nos, "Quantos tem matado ? in- 
quirimos" para falar verdade Dr., até hoje 
com 58 anos só vi 1. As informações f>opu- 



108 



îares têm que ser controladas, sem isto é 
ip.util aproveital-as; os tali'is gozam da fama 
de destruidores de serpentes e apesar desta 
crença estar muito vulgarizada, não lhe damos 
credito. 

Outra crença muito em voga ali, é a 
alimentação em cadáveres por parle dos tatus; 
na verdade por varias vezes, observá- 
mos covas com buracos, provavelmente 
cavados por estes mamiferos; o fato está tão 
generalizado que muitas pessoas abstêm-se 
de se utilisar deles como alimentação, por 
compreensivel repugnancia. A biolojia dos 
Dasypodidae ainda é pouco conhecida; 
comtudo pela publicação recente de NEW- 
MANN, H. H. , The natural History of the 
Nine-Banded Annadillo of Texas & no Ame- 
rican Naturalist Yol XLVil, No 561 pp. 513- 
39, Set. 1913), que constitue o trabalho 
mais completo realizado sobre uma especie 
daquela familia, não se deve repelir sem 
estudo da questão a acusação que lhe é 
imputada. NEWMANN não se refere ao fato, 
mas, quando se ocupa da alimentação, 
demonstra que o tatú possue voracidade 
enorme e ignorada por nós, antes da leitura 
do seu trabalho, e, como a especie de Texas, 
constitue apenas uma variedade do nosso 
Dasypus nóveme; netas, as veúncações a que o 
autor chegou, podem, com toda a probabili- 
dade, ser generalizadas ao tatú brazileiro. 

Entre os myrmecophagidae apenas conse- 
guimos capturar dois exemplares do pequeno 
Tamanduá tetradactyla L, no sul do Piauhy 
denominado ^^mixila" e em algims lugares de 
Goyaz de "meleta"; o grande tamanduá 
pelas informações não existe nas zonas 
percorridas. 

Os grandes felideos são raros, proximo 
ás povoações, mas, de Parnaguá em diante, 
aparece ¡n em grande abundancia, principal- 
inente em certos distritos do norte de Goyaz 
causando prejuiso ao gado; os couros já 
não possuem grande valor comercial, não 
só por serem mal cortidos em geral, como 
ainda pelos estragos ocasionados pelas armas 
primitivas, usadas pelos caçadores. 

Apesar de unanimes informações em 
contrario por parte dos moradores, temos 



ccrtesa que duas especies estão se tornand o 
raridades zoolojicas naquelas zonas ; que- 
remos nos referir aos \6bos ou guarás (Canis 
(Chrysoeyon) jubatus, DESM). e sussuaparas 
(Cariacus (Blastoeems) paludosas DESM,); 
esta especie é ainda mais comum em certas 
rejiões de Matío-Orosso. Máo grado todo o 
interesse que possuímos em adquirir exem- 
plares daqueles mamiferos, pela importancia 
do material parasitolojico de que são hospedei- 
ros, foram inúteis as reiteradas batidas 
nos lugares mais propicios, sendo que, de 
uma feita, um nosso auxiliar foi destacado 
durante 8 dias, acompanhado por um caçador 
experimentado, mais tudo em vão. 

iVlesmo nos gerais, deshabitados por 
completo, nada conseguimos a não ser veri- 
ficada a pista e pegadas de alguns exemplares 
destas especies, que devem ser consideradas 
raras para a ciencia nas parajens por nós 
percorridas. Nas campinas bahianas e goianas 
ainda são muito abundantes. O Cariacus (Blas- 
tóceras) campestris CUV. e presente em toda 
a parte o Cariacus (Blastóceras) nifus 
ILLIG. 

O felinos do Brazil não são perfeitamente 
determinados, reina certa confusão sobre as 
especies ; em Piauhy Bahia e p'-incipalmente 
Goyaz o naturalista encontrará excelente 
campo para pesquizas. A especie predomi- 
nante é a Fe'is (Leopardas) onssa L, a onça 
pintada; a Felis (Uncia) concolor L., a vulgar, 
çuçuarana é muito mais comum. A grafia por 
nós adotada de onssa para a designação 
sientifica, é para atendei á pronuncia do 
vocábulo tal qual é de fato feita ; grande 
numero de autores escreveu "/t//s onça", 
sem c cedilhado; isto é devido ás exijencias 
das regras da nomenclatura zoolojica, ar- 
quais não permitem sinais diacríticos inexis- 
tentes na lingua latina; de maneira que, o 
melhor meio de se combinar a fania com as 
regras é o de se grafar a palavra, pelo modo 
que fizemos, aliás já utilizado por varios 
zoologos). 

Entre os gatos é vulgar o Felis (Oncoi- 
des) wiedi SCHINZ (gato do mato) e uma 
especie um pouco maior que o gato 
domestico, de cór avermelhada e que não c 



10<) 



rara, pelos couros encontrados nas habita- 
ções ; desta vimos um exemplar vivo em 
Tigre (Pernambuco) talvez se trate daFelis 
(Catupuma) eyra FISCHER. 

Em 1910 H. von IHERING publicou no 
"Archivfuer Naturgeschichte", ano 76, Bd. 
I Heft 2, pp. 112-179, importante trabalho 
intitulado "Systematik, Verbreitung und Ge- 
schichte der suedameríkatiischen Raubtiere", 
onde varias questões são ventiladas e como 
em mamíferos, como em outros capítulos da 
zoolojia brazilica, varios pontos ainda são 
decididos pela autoridade pessoal, é incon- 
testável que as opiniões do ilustre diretor 
do Museu Paulista pela sua autoridade 
possuem grande valor para resolver os 
pontos contraversos ; todavia, neste grupo 
como em tantos outros, é necessário que se 
faça uma revisão. 

As rejiões percorridas, menos Goiaz, 
apresentam rico material de fosseis ; são 
frequentes as referencias a esqueletos de 
animais de grande porte, encontrados geral- 
mente pelos moradores quando, por ocasião 
das secas, efetuam escavações de cacimbas 
nas pequenas lagoas dessecadas e citam 
exemplos do aproveitamento de certos ossos, 
provavelmente omoplatas, utilizados para bater 
roupa. 

Em Joazeiro. nas proximidades de Perí- 
Perí, ouvimos pela primeira vez referencia ao 
fato; no municipio de S. Rayniundo Nonato 
tivemos oportunidade de encontrar fragmen- 
tos ósseos de grandes mamíferos retirados 
da lagoa de uma das fazendas, pertencentes 
aos irmãos ANTUNES DE MACEDO. Estes 
proprietários inforniaram-nos ainda, que da 
fazenda S. Victor, distante 30 quilómetros da 
vila de S. Raymundo, entre 18S0-1881 foiam 
retiradas grandes quantidades de material 
fossilizado, o qual foi conduzido pelo Snr. 
CHRISTOVAM BARRETO para o Rio de 
Janeiro. Na fazenda Gameleira, propriedade 
de MARIANO RIBEIRO SOARES e distan- 
te 50 quilómetros da referida vila, têm sido 
encontrados fosseis em grande abundancia. 
Proximo á povoação de Caracol distante 
7 quilómetros, na Lagoa do Sal e na Fazen- 
da Campo Alegre, a 10 quilómetros dali, 



idênticos achados têm sido feitos. 36 Quilo- 
metros adiante de Caracol, na lagoa do "Em- 
parte" pertencente á fazenda Serra do Meio 
e que dista 8 quilómetros de Jatobá, muni- 
cipio de Remanso (Bahia) por varias vezes 
os moradores têm descoberto fosseis. 

Os fragmentos por nós vistos na fazen- 
da Tanque (municipio de S. Raymundo No- 
nato) alguns pertenciam certamente aos re- 
presentantes dos Dasy podidae. Todas as 
nossas pesquizas sobre a presença de mo- 
luscos fosseis foram negativos, obtendo o 
mesmo resultado com as investigações feitas 
no sentido de verificar a presença do Psaro- 
nius brasiliensis BRONGNIART. Apenas 
soubemos por informações, que em Jurumen- 
na (Piauhí) têm sido encontradas palmeiras 
fossilizadas o que talvez se refira ao feto 
arborecente em questão, cuja estrutura, pode 
orijinar confusão para as pessoas do povo. 
Como a especie foi encontrada por GARD- 
NER em Amarante, não é improvável que 
as referencias concernentes ás palmeiras de 
Jurumenha se relacionem com o Psaronius 
em questão. 

No vol. XXXVII No 221 4 th Ser. pp. 
425-444 Ma'o 1914 áo "The American Journal 
of Science, Art. XXXVl, intitulado" "The 
Permian Geology of Northern Brazil" o 
ilustre Dr. M. ARROJADO LISBOA publica 
importante trabalho onde a questão do 
Psaronius e as localidades, onde até hoje 
tem sido encontrado no Brazil são assinala- 
das. Na zona de nossa travessia o autor e 
seu auxiliar BAUMANN, puderam verificar 
a presença do Psaronius na vizinhança da 
aldeia dos indios Crahós, entre os rios 
Manoel Alves Grande e Manoel Alves 
Pequeno e a 70 quilómetros do Porto Naci- 
onal na fazenda Buritizal, localidades goianas. 

O Dermatophilus penetrans (L), vulgar- 
mente conhecido pqr "bicho de pé" é raro na 
zona seca e nos arredores de S. Raymundo, 
não existe pelas informações. 

A raridade oeste parasito é devido ao 
pequeno numero de suinos e, ao fato, dos 
moradores da zona prepriamento da caatinga, 
andarem em grande parte calçados de alper- 
catas, afim de se protejerem dos espinhos, 



lio 



extremamente abundantes na vejetação da 

zona. 

Em Caracol, onde o habito de andar 
calçado não existe, pois a vejetação aí 
é de aspetocompletamenie diferente; o'^bicho 
de pé" já é muito comum e daí por diante 
é encontrado sempre, como era de prever. 
Durante os mezes secos, o numero de D. 
penetrans aumenta ; em lugares, porém, como 
Perí-Perí, onde a criação de suinos é mais 
intensa o "bicho de pé" existe de "Seca e 
Verde" isto é, durante todo o ano. Desta 
rejião em diante a designação tão conhecida 
de "bicho de pé" desaparece para ser subs- 
tituida pelo nome de "bicho de porco" . 

Em lugar denominado S. José, municipio 
do Porto Nacional, encontrámos em anta 
caçada, as patas crivadas pelo Dermatophilus 
GUER. MEN. que ainda não sabemos ser o 
penetrans, ou especie á parte. 

Todavia, no caso afirmativo, trata-se dum 
hospedeiro até agora desconhecido do para- 
sito em questão. Como, até hoje, não se 
resolveu completamente a questão se foi o 
Brazil que deu orijem aos D. penetrans afri- 
canos, ou se ao contrario, com o trafego 
dos negros esta praga aqui se implantou, o 
referido achado vem lançar alguma luz, pois 
talvez seja o Tapirus americanas o hospedeiro 
primitivo do ectoparasito, o qual, depois do 
descobrimento, encontrou nos suínos o meio 
excelente para se desenvolver e propagar. 

Por informações soubemos serem as 
/7«^/xflí/í?5 também atacadas. 

Quanto aos outros sifonapteros, além 
das especies comuns, como Pulex irritans L. 
Ctenocephalus felis. (BOUCHÉ), Ctenocepha- 
lus caris CURTIS aliás relativamente pouco 
abundantes, ha a rejistrar o achado da nova 
especie Culex conepati ALM. CUNHA, para- 
sitando o Conepatus siiffocans AZARA (can- 
gambá) e duma nova variedade: a Pulex irri- 
tans var. bahiensis ALM. CUNHA, encontrada 
nas rejiões próximas ao S. Francisco. Cf. 
"Contribuição para o estudo dos sifonapte- 
ros do Brazil" pelo Dr. R. DE ALMEIDA 
CUNHA pp. 146-149, Rio de Janeiro 1914. 

Entre os ectoparasitos que atacam o ca- 
valo, encontra-se comumente o Sarcoptes sca- 



biei- van equi GERLACH. Vulgarmente a es- 
cabiose é conhecida por aquelas parajens 
pelo nome de "piolho", sendo reservado o 
nome de sarna para mal completamente di- 
verso e que nos referiremos em outro lugar. 
A sarna humana é em alguns lugares conhe- 
cido pelo nome de "pira". A escabiose as- 
sume gravidade enorme como tivemos oca- 
sião de verificar e as informações dizem que 
os cavalos chegam a morrer. 

A Chrysomyiu niaceílaria (FAB.), é a res- 
ponsável quasi que exclusiva da miiase em 
homem e animais de toda a zona percorrida. 
Pela nossa observação verificamos que, os 
casos humanos sãò muito mais raros ali do 
que no Brazil meridional. 

O gado bovino, é muito mais atacado 
que o equino ou caprino; em alguns luga- 
res a mortandade dos bezerros novos, cogno- 
minados em grande parte do percurso de 
minjólos, chega a atinjir a 15 o/o devido a 
este flajelo. Vimos uma anta algumas horas 
depois de morta, ficar com a cara e cabeça 
completamente revestidas de ovos da "C. ma- 
cellaria"; e é de observação banal, o fato de 
carne posta ao sol, afim de se preparar a co- 
nhecida "carne de vento" ou "do sertão" ou 
simples "matalotajem" e que corresponde ao 
xarque dos sulistas, inçar-se de ovos do díp- 
tero em questão ou mesmo de larvas; comtu- 
do, isto de modo algum, impede que a carne 
deixe de ser utilizada para alimentação, limi- 
tando-se o consumidor a retirar com o auxi- 
lio de faca, os ovos e larvas, as quais ali 
são muito conhecidas também pela denomi- 
nação de "tapará". 

A Chrysonivia macelLaria é encontrada 
durante todo o ano, diminuindo apenas nos 
mezes mais frios. 

Sob o nome de "murinhanha" é conhe- 
cida em alguns lugares a Stonioxys calcitrans 
GEOF. , díptero hematófago muito semelhan- 
te á mosca domestica e suspeitada por varios 
autores de ser a transmissora eritre outras 
tripanosomoses, do "mal de cadeiras", epizoo- 
tia abundante em todo o percurso. A época 
em que atravessamos a zona seca já era des- 
favorável, pois a iniirxnlianha só é muito 
comum no "verdé'\ Em todos os municipios 



11 



cie Joazeiro, Petrolina, e grande parte de S. 
Raymundo Nonato, a criação caprina é inten- 
sa havendo proximo á casa do fazendeiro, 
geralmente fronteiro, o "chiqueiro", nome 
dado ao curral para bodes e cabras, e que 
constituem otimos criadeíros para as Stomo- 
xys; além destes ha ainda os currais para o 
gado bovino etc. etc. . 

A designação de murinhanha devia de- 
signar primilivamcnte, naquelas parajens, 
algum representante da familia das Tabani- 
dae, porquanto a Stonwxys calcitrans invadiu 
o Brazil por ocasião da introdução dos ca- 
valos. Apezar de 1er sido por mais de uma 
vez, assinalada a presença, na America do 
Sul, de especies autóctonas de Stomoxys, o 
fato não parece ser verdadeiro; provavelmen- 
te deve tratar-se de variedades melanoticas 
ou outras alterações parecidas e que pode- 
riam dar orijem ao engano. 

O Dr. A. MACHADO, em S. Lourenço 
e Cuiabá (Matto-Grosso), rejistrou o vocábu- 
lo beruhanlia para designar um representante 
das Chrysopinae e que pela descrição deve 
se referir ao Chrysops lactas F. . A expressão 
tupi, segundo TEOD. SAMPAIO, quer dizer 
exatamente "mosca de ferrão e as únicas exis- 
tentes no Brazil eram as Tabanidae. 

Aliás, pelas intormações obtidas naque- 
las parajens, o vocábulo murianho ou niiinia- 
nha como também pronunciam, servirá para 
designar, conforme a loc.'xlidade, ora as moscas 
do genero Stomoxys, ora dipteros do genero 
Chrysops. 

A Musca domestica, inseto cosmopolita, 
incriminada de ser disseminadora de varias 
enfermedades, encontra condições incompará- 
veis de proliferação nas caatingas pois os re- 
feridos chiqueiros sei-vem de excelentes 
criadouros. Dentro das casas o numero deste 
díptero é por vezes verdadeiramente incrível 
e em uma casa do lugar chamado Barrinha, 
municipio de S. Raymundo Nonato, a abun- 
dancia atinjiu a proporções inverosimeis, 
jamais por nós observadas; o requeijão, cuja 
fabricação é feita sem a menor proteção, cons- 
titue a principal fonte de alimentação das 
moscas. 

Entre os ectoparasitos encontrados, está 



a Mydnea piei MACQ., múscida de larga dis- 
tribuição geográfica pois existe das Antilhas 
á Argentina. Nada se sabia sobre a sua exis- 
tencia no Brazil Central c ali deparamos com 
hospedeiros ainda desconhecidos para a cien- 
cia como o Furnarius nf s (QM.) (João do 
Barro), Molothrus bonariensis (OM.), (virr.- 
bosta) ; varios representantes da familia Tw- 
didae, e a Paroana larvata EODD. (cardeal) ; 
especies do genero Amazona e Pionus (papa- 
gaios e maitacas). Em Pernambuco e Piauhí 
o nome dado vulgarmente ao ectoparasito, é 
c de "berro"; esta designação é lidimamen- 
te vernácula, pois sob este nome designa-se 
em Portugal a larva cutanea da Hypodcrmti 
LATR. e, como até hoje, a expressão beruc 
continua sendo de oiijem desconhecida, falo 
que tem despertado o interesse das pessoas 
que se ocuparam do assunto, não é desca- 
bida a vulgarisação do vocábulo de uso cor- 
rentio no Brazil Central e donde talvez, como 
corrutela, se derivasse a palavra berne. 

Havia já alguns anos que, pela primeira 
vez, ouviramos referencias a ¡nsetos vesicantes 
chamados potós, habitando os sertões do nor- 
deste brazileiro; as descrições ii"perfeitas for- 
necidas pelos informantes, impedia-nos de re- 
conhecer a que ordem pertenciam os insetos 
incriminados. 

Logo em Joazeiro, tivemos a oportuni- 
dade de examinar um individuo vitima da se- 
creção intensa do potó, o qual, ao passar-lhe 
pela nuca, expelira certa quantidade do liqui- 
do vesicante, acarretando como consf quencia 
grande irritação da pele e que, devido ao 
prurido, crcou a oporiímidade de infeção se- 
aindaria ocasionada pelas unhas desasseiadas 
do paciente. 

Inda desta ve?, não conseguimos verifi- 
car qual o inseto acusado, pois a descrição 
feita pelo referido individuo não permitia 
identifical-o; todavia soubemos tratar-se de 
insetos frequentes principalmente nos milha- 
rais, onde por ocasião da colheita, os aciden- 
tes são bastante comuns. Já em Pernambu- 
co em lugar denominado Terra Nova, con- 
seguimos identificar um dos ¡nsetos incrimi- 
nados ; tratava-se dum coleóptero do genero 
Epicauta REDT., cujos representantes são já 



112 



conhecidos da ciencia, por serem vesicantes ; 
a denominação vulgar é de '^potó-piiuenta'^ ; 
aliás MARTINS COSTA publicara ha muitos 
anos já, no "Progresso Medico" algumas 
notas a respeito duma cantárida encontrada 
no Rio de Janeiro. 

Pelos moradores soubemos da existencia 
de outras qualidades de potos, muito mais 
temidas que a Epicauta dias depois, conse- 
guimos resolver a questão e reconhecemos 
que os famijerados potós são estafiiínidas do 
genero Paedems FABR. 

A nossa coleção conipõe-se de varias es- 
pedes e posteriormente publicaremos algo a 
respeito, completando as informações minis- 
tradas em trabalho de PIRAJA' DA SILVA 
{cf. Le Poederus colimíbinus est vesicant. In. 
Archives de Parasitologic, T. XV N^ 3 paj. 
331, PI. 1, fig, 5- Paris 1912), o qual atribue 
os acidentes exclusivamente ao Poederus co- 
lumbinas CAST. , quando, na verdade, são 
varias especies responsáveis. 

Temos a impressão de que geralmente 
se exajeram as consequências da vcsicação, 
produzida pelos coleópteros em questão, 
sendo que os acidentes mais serios sobrevêm 
por infeções secundarias; os potós, além desta 
denominação são ainda conhecidos por "fogo 
selvajem", o Paedems, e "tucura" a Epicauta. 
Aliás a ultima designação vulgar é bastante 
impropria porquanto, tucura, significa na 
lingua tupí, donde procede, gafanhoto; ortó- 
ptero que nem de lonje pode ser contundido 
com nenhum coleóptero. 

Em Goiaz, os potós diminuem de nume- 
ro e não são tão conhecidos como na zona 
semi-arida. No municipio de Joazeiro (Bahia) 
e no de Porto Nacional (Goiaz), tivemos 
oportunidade de colecionar alguns exempla- 
res da Dinoponera grandis (QUER.). Naque- 
las parajens a celebre formiga, não parece 
ocasionar os incómodos tão conhecidos nem 
mesmo conseguimos rejistrar qualquer notne 
vulgar. Na Amazonia, a "tocandeira", kl foi 
assinalada por OSWALDO CRUZ, como in- 
seto "cuja picada é em extremo dolorosa"; 
Vid. Madeira-Ma moré Railvt^ay Company - 
Considerações Gerais sobre as condições sa- 
nitarias do Rio Madeira paj. 17 -Rio 1910. 



Posteriormente, ROQUETTE PINTO, pu- 
blicou interessante memoria sobre a tocandira 
e onde á paj. 25 declara que talvez a Dina- 
ponera grandis var. lucida possa constituir 
uma especie á parte porquanto, somente nc 
Brazil Central e na Amazonia dtam-se casos 
de envenenamento. Cf ROQUETTE PINTO 
Dinoponera grandis Rio de Janeiro- 1915. As 
fomugas por nós encontradas na parte do 
Brazil Central, constituido pelos sertões da 
Bahia-Goiaz, embora estivessem identificadas 
com a especie em questão, não são siquer 
conhecidas pelos habitantes, a não ser pelo 
tamanho, não tendo ouvido nenhuma refe- 
rencia aos seus maleficios. 

Coleóptero muito comum em todo o per- 
curso é o Dermestes cadaverinas L. , c 
ainda outras especies afins, cujas larvas 
conhecidas ali pelo nome de ''polia", prová- 
vel corrutela de polilha, ocasionam grandes 
prejuízos aos couros e peles. 

Entie os ectoparasites das aves, encon- 
tram-se os representantes da familia Hipohos- 
cidae os quais são transmissores de hemato- 
zoarios pertencentes do genero Haemoproteus 
KRUSE. A colheita que fizemos foi numero- 
sa não só em especies como também em 
exemplares; o estudo completo demandará 
mais lempo e só posteriormente será publi- 
cado; desde já, porém, podemos avançar que 
foram adquiridas novas especies além de ser 
aumentado o numero de hospedeiros, cuja 
lista damos: 

Theristicus caudatus (BODD) (Curicaca) 
Belonopterus cayenuensis (GM.) (Téo-téo) 
Nomonyx doniinicus (L.) (Paturi) 
Tigrisoma brasiliense (L.) (socó-boi) 
Leucopternis sp. ? 

Heterospizias meridionalis (LATIl.) (Ga- 
vião caboclo) 
Piava cayana (L.) (alma de gato) 
Plegadis guarauna (L.) (Garaúna) 
Cancroina cochlearia L. (socó do bico 

largo) 
Hemdias egrettn (GA1.) (garça) 
Ajaja ajaja (L.) colhereira) 
Gypagus papa (L.) furubú rei) 
Catharista atratus brasil iensis (BON AP.) 
(urubú) 



\\3 



Cathartes aura (L.) (urubú cabeça ver- 
melha, camiranga) 

Columba nifina TEMM. (pomba verda- 
deira) 

Em geral os hipobocídas das aves bra- 
zileíras são do genero Olfersia WIED e Pseu- 
dolfersia COQ. Raramente se reúnem muitos 
exemplares na mesma ave; todavia tivemos 
oportunidade de apanhar 16 exemplares sobre 
um Tigrísoma SWAINS, ainda novo, morlona 
Ilha do Meio da Lagoa de Parnaguá e 18 
exemplares sobre um Gypagns papa. 

A caraúna é comumente muito parasitada 
por estes dípteros ; os gaviões são portadores 
quasi constantes de mais de uma especie. Os 
columbideos frequentemente parasitados no 
sul, não o são no nordeste brazileiro, pelo 
menos nos mezes da seca. No municipio de 
Petrolina, no mez de Abril, percorremos certa 
vez, cerca de 20 quilómetros de caatingas 
onde abundavam de modo verdadeiramente 
notável, duas especies de Phasinidae que es- 
colhiam para pouzo as umburanas e manda- 
carus. Nas caatingas da Bahia, Pernambuco e 
em algumas zonas de Piauhí porém, já em 
menor abundancia, encontrámos com regular 
frequência um diptero extremamente inseti- 
voro e cuja determinação inda não tivemos 
oportunidade de fazer; o fato é interessante 
por se tratar de especie pertencente a outra 
familia que não a Asilidae, cujos represen- 
tantes são insetivoros. O referido diptero é 
encontrado principalmente sobre o tronco e 
galhos do imbuzeiro. Nos "gerais" bahianos 
e em certas partes do território goiano, pu- 
demos surpreender a provável explicação 
para um fato cientifico muito debatido: que- 
remos nos referir ao ''luminous termite hills'' 
referido pela primeira vez em 1879 por 
HERBET SMITH e afirmado e contestado 
por outros autores. 

No lugar denominado Lage, municipio 
de S. Raymundo Nonato, verificámos a pre- 
sença numerosa das ''lagartas defogo'\ isto é, 
varias larvas de diversos coleópteros e entre 
esses os representantes do grupo dos Phengo- 
des HOFFM. e cujas larvas e fêmeas são lu- 
minosas. Mais adiante encontrámos os co- 
leópteros em questão no pouzo denominado 



*^Pedra de Fogó'\ onde os Phengodes larvas e 
fêmeas ápteras e ainda larvas luminosas de 
Lampyridae e Elateridae se reuniam em quan- 
tidade Surpreendente; aí os montes de cupins 
eram muito frequentes e sobre eles tivemos 
oportunidade de colecionar numerosos 
exemplares desses ínsetos luminosos. 

No Estado de Goiaz tivemos que atia- 
vessar larga zona rica em construções de tér- 
mitas c, embora pessoalmente não tivéssemos 
ocasião de observar a reprodução do fenó- 
meno, soubemos por varias pessoas que o 
fato da fosforecencia das casas de aipins, é 
observado em certas épocas de ano e para 
alguns, a explicação residia na presença de 
grande numero de exemplares de "lagartas 
d^ fogo^\ designação que compreende todas 
as larvas e adultos larviformes de coleópteros 
luminosos. 

No sitio denominado Jatobá (Municipio 
de Remanso- Bahia) foi-nos mostrada certa 
porção de areia a qual se mostrava luminosa 
quando humedecida. O morador guardava 
como preciosidade o achado e, foi com certa 
dificuldade, que obtivemos certa porção. De 
regresso ao Instituto, procurámos fazer pes- 
quizas com o material trazido mais nada con- 
seguimos verificar. Com toda a probabilidade, 
a luminozidade seria devida a bacterios fos- 
forecentes, existentes no solo. Hoje o nume- 
ro desses bacterios já é bastante elevado, in- 
felizmente porém, todas as pcsquizas só têm 
sido executadas com material proveniente 
quasi que exclusivamente do mar, como 
peixes, crustáceos, etc. . 

HENNEQUY nos "Les insectes'' paj. 93 
Paris, 1904, refere-se ao grande numero de 
especies consideradas como luminosas, devi- 
da á presença acidental de bacterios fosfore- 
centes que se desenvolveram á superficie ou 
no interior do organismo. Comtudo, não en- 
contramos uma única verificação bacterioloji- 
ca a esse respeito, o que viria elucidar a 
questão de modo completo. No Vol. 9 do 
Centram, f. Bakt. Orio, paj. 561 -Jen a 1891, 
encontra-se um trabalho firmado por LUDWIO 
F. e intitulado Ueber die Phosphorescenz von 
Gryllotalpa vulgaris e onde esse autor dá 
testemunho de ter verificado pessoalmente 



114 



um fato já assinalado por outras pessoas mas, 
por outro lado, também contestado. Em 1726 
SYBILLA MERIAN denunciou a luminosida- 
de das nossas jequitiranaboias e que por isso 
foram batísadas pela designação genérica de 
Fulgora L. ; ninguém, depois disso, teve opor- 
tunidade de verificar o fato; quem sabe se a 
explicação não residirá em uma fosforecencia 
transitoria devido á presença de bacterios 
luminosos ?. No numero 543, Vol. XXXVI 
paj. 323 do ^' Knowledge' aparecido em Lon- 
dres, no mez de Setembro de 1913, vem pu- 
blicado um artigo da lavra do Conde L. DE 
SIBOUR, dando noticia dum trabalho publi- 
cado em revista ornitolojica franceza por L. 
TERNI ER a proposito da existencia de aves 
luminosas. DE SIBOUR acrecenta novos 
testemunhos de inglezes ilustres que têm ve- 
rificado o fato; todos são concordes em 
acreditar que a explicação do fenómeno, re- 
sida na presença de microorganismos fosfo- 
recentes. 

Parece portanto que o fato é muito mais 
generalizado do que geralmente se pensa; 
talvez a luminosidade dos monticules de 
cupins que nos afirmaram em Goiaz ser po- 
sitiva, encontre a sua explicação na circunstan- 
cia da presença numerosa de insetos luminosos 
na circumvi7inhança dos térmitas ou da pro- 
pria terra dos seus ninhos, serem portadores 
de bacterios fosforecen les; a favor dessa hi- 
pótese fala o achado naquelas rejiões, de 
areia fosforecente devido á presença muito 
provável de bacterios luminosos. 

Os himenopteros são dos insetos mais 
aparentes da rejião, não pela riqueza em nu- 
mero de especies, mas pela abundancia de 
algumas delas e pelo papel que as melipó- 
nidas representam na alimentação do povo. 
A pequena coleção que fizemos, foi determi- 
nada pelo Snr. A. DUCKE. Nos arredores 
de Joazeiro, eram muito comuns em Abril, 
pela manhan, exemplares de Bombas LATR., 
visitando as flores amarelas duma Cassia e 
nas principais ruas da cidade observava-se 
com extrema frequência representantes do 
genero Monédala LATR. e que ali são desi- 
gnados pelo incompreensível nome de ^^piolho 
de arubú". Onde, porem, a abundancia destes 



heminopteros atinjiu a proporções verdadeira- 
mente espantosas, foi na '7//?<7 do Meio" da 
Lagoa de Parnaguá ; aliás, durante as horas 
que ali passámos, não verificámos a presen- 
ça de um só exemplar de Tabanidae o que é 
explicável pela caça que estes dípteros sofrem 
por parte da Monédala. A especie encontra- 
da em tal abundancia é a Monédala signala 
(L.). 

Sob a denominação de "oncinha" o vulgo 
designa qualquer representante do genero 
Malilla L. ; o nome é dado provavelmente 
pela dôr que ocasiona a ferroada; os pró- 
prios pelos que revestem todo o corpo são 
muito cáusticos como tivemos oportunidade 
de verificar pessoalmente. 

Os representantes do genero Pepsis 
FABR. são muito conhecidos do povo dali 
pela designação de "cavalo do cão" e é 
crença muito vulgarizada, que voam sempre 
acompanhados por uma pequena mosca de 
cada lado das pernas, as quais se ocultam 
sob as azas logo que o inseto pouza; por 
mais esforços em observar tal fato, nunca 
logramos verificar. 

Vespa muito frequente em toda a zona e 
que pelos hábitos noturnos por vezes se torna 
incomoda ao viajante, é a Apoica pallida 
(OLIV.); ha uma outra, porém, cujo mel sa- 
boroso é muito procurado, referimos-nos á 
Nectarina lecheguana (LATR). em toda a 
zona denominada de "enxú". 

Além desta, conseguimos colecionar 13 
especies meliferas indijenas; em nenhuma 
parte, encontram-se cortiços da Apis mellifica 
L. , especie qne LINNEU em 1758 dava como 
presente em "Omnis orbis terrarum culta'". 
Tão pouco os naturais cultivam q'.:alquer das 
meliponidas de que se nutrem, apesar da fa- 
cilidade em manter os cortiços das nossas 
abelhas indijenas. O "melador'^ quando sai 
a "melar'^ no dizer local, extrae o mel derru- 
bando a arvore; por esse processo pode-sc 
imajinar que gráo de incapacidade possue o 
sertanejo. Não se pense que o mel faça parte 
da alimentação como cousa supérflua: ao 
contrario, nos "gerais" e em grande zona de 
Goyaz o mel, com um pouco de farinha e 
alguns cocos, constitue a refeição ordinaria, 



115 



fora disto é ^ exceção. Certa vez, espantados 
pela ausencia completa de qualquer cortiço 
junto ás moradias, perguntámos a um caboclo 
septnajenario e que nos guiava entre Salga- 
dinha e Santa Anna, se os cortiços naturais 
não eram mais abundantes na sua mocidade, 
pois pelo processo de derrubar o páu. cada 
vez que havia necessidade de se colher mel, 
acarretava na nossa opinião varios prejuízos, 
"Quem quer ''melar'" agora, tem que "loborar". 
respondeu-nos; "o homem derruba e não planta, 
assim nada resiste" e depois dum momento 
de reflexão, encerrou numa sentença fatalista 
e que bem traduzia a estranha psicolojia das 
yentes daquelas parajens: "neste mundo, o 
que é que não se acaba ? só a graça de Deus." 
Além das especies citadas colecionámos 
as seguintes: 

Pepsis decorata PERTY 

Monédala signala (L.) 

Scolia dorsata (FABR.) 

Apoica pallida (OLIV.) 

Cálleles mfipcs SMITH 

Centris minuta MOCS. 

Trígona nificrus fusripennis F R\ESE {sa- 

nharó). 
Trígona pallida (LATR.) 
Trígona jaty (SMITH) 
Trígona postica (LATR.) 
Trígona tnbiba (SMITH) 
Trígona nificnis (LATR.) 
Trígona varía (LF.P.) 
Trígona limao (SMITH) 
Trígona silvestríana VACHAL 
Trígona clavipcs FAB, {bord) 
Trígona pallida aipira SM. {''boca de 

sapo") 
Mdipona marginata LEP. 
Melipona intenupta LATR. 
Polybia occidentalis (OLIV.) 
Rhatynuis bicolor LEP. 
Em algumas localidades, fomos assalta- 
dos por enxames duma minúscula abelha que 
muito incomodo ocasiona pela predileção que 
tem pelos olhos. Provavelmente, trata-se da 
Trígona dtickei FRIESE. Os representantes 
da ordem Odcnatn são conhecidos conforme 
as localid.uics, pelos nomes de ''calunga" e 
"cambito" ; as inofensivas fulgóridas no sul 



conhecidas por "fequitiranaboia" têm naque- 
las rejiões o nome "cobra de aza" c "cobra 
do ar" s.endo temidas como portadora da 
morte. Sob o nome de '''cabeçote", em certos 
lugares, designam determinada especie de tér- 
mita muito abundante onde existe, ocasionan- 
do grandes devastações e que possue a par- 
ticularidade de produzir ruido perfeitamente 
perceptivel ao atacar o objecto. 

A Atta sexdens F. , a saúva dos sulistas, 
mas no norte conhecida pelas denominações 
de "formiga de mandioca'\ "cortadeira'^ e 
"carregadeira" é abundante por toda a parte 
causando as conhecidas depredações. 

Os moluscos são mais frequentes do 
que á primeira vista se poderia supor. Nos 
alagadiços, lagoas, ipueiras etc. é muito fre- 
quente ver-se envolvendo os caules duma 
especie de Typha, uma massa vermelha for- 
mada pelos aglomerados de ovos de repre- 
sentantes do género Paladina LAM. , conhe- 
cidos pela gente dali pelo nome de "aruá'\ 
BAKER, F. publicou no Vol. LXV- Part III 
dos Proc. of the Academy of natural Sciences 
of Philadelphia, pp.618 -672 Pits. XXl-XXVU 
1914 sob o titulo de "'The Land and fresh- 
water molhisks of the Stanford Expedition to 
Brazil, grande trabalho a respeito, trazendo 
copiosas informações sobre os moluscos da 
zona do nordeste e onde vêm descritas 
grande numero de especies novas. 

Antes de terminar o capitulo concernen- 
te á fauna, diremos algumas palavras sobre 
a etimolojia de 2 nomes e que tem sido 
objeto de estudo, por parte de varios estudio- 
zos. 

Diz MARCGRAVI in Histor. avium Lib. 
V. PP 206-2Ü7 o seguinte: 

"Ararauna Brasiliensihus. Figura alteré 
similis, sed alterius coloris. Rostrum nigrum, 
oculi caesii, pupilhi nigra. Cutis circa óculos 
alba nigrís pennulis variegatur quasi acupicta 
esset. Crura et pedes fusci colorís, Caput an- 
teritis supra rostrum mitellam habet viridibus 
pen n is; sub rostro inferiori ambiant guttur 
pennac nigrae: colli autem latera, reliqitum 
guttur, totum oecttis et infimum ventrem 
tegunt pennae flavi coloris: Extremam caput, 
colluni posterius versus, totum dorsum et alas 



116 



exterius coenilei. Exíremitatibus alarum pluniae 
flavae sunt admixtae: cauda constai longis 
pennis caendeis, quibus aliquot flavae inmis- 
centur. In genere autem caerulae pennae inte- 
fias sunt nigrae et quodarnmodo etiam nigra- 
dinem ad latera de se spargunf\ 

RODOLPHO GARCIA no seu trabalho: 
Noines de Aves em lingua Tupi-Contribui- 
<;ã.o para a lexicographia portugueza Rio de 
Janeiro 1913, determina a araraiina, descrita 
por MARCORAV como sendo a Anodorhyn- 
chus hyacinthinus (LATH.); pela descrição 
que transcrevemos, vê-se bem que, o naturalis- 
ta alemão, referia-se á especie hoje denomi- 
nada vulgarmente nas zonas bahianas, per- 
nambucanas e piauhienses que atravessamos, 
pelo nome de '^arara canindé''' ou simples- 
mente e mais comumente de ^^canindé" e 
atiia'mentc batizada em ciencia pelo nome de 
Ara araraana (L.) e desse modo descrita á 
paj. 153 do Vol. XX do catalogo de aves do 
Museu Británico: 

Adult, Upper parts and under tail-coverts 
blue, in some lights greenish; forehead and 
vertex olive-green; cfieeks naked, lores and 
upper parts of the cheeks with a few lines 
of dark green feathers; edge of the cheeks and 
chin black, the lower feathers of the chin gree- 
nish; ear-coverts, sides of the neck, breast, 
abdomen, and under wing-coverls yellow orange; 
quills and tail-feathers blue above, golden olive 
yellow below; naked skin of the cheeks, lores, 
and cere dusky flesh-colour ; iris geenish grev 
or pale yellow; bill black; feet blackish. Total 
length about 31 inches, wing 14. 3, tail about 
12, bill 1.6 1.3, tarsus 1. 1. 

Female Like the male, Hab. Tropical 
America from Panama to Bolivia and Guyana, 
and the a' hole valley of the Amazons. 

AZARA descreveu no Paraguai sob o 
nome de Ara canindc, uma arara muito pa- 
recida á Ara ararauna ''Very much like A. 
araranna, but the forehead with no greenish 
tinge" etc, como se lê da descrição feita por 
T. SALVADORI á paj. 154 do Cat. of the 
Psittaci, or Parrots in the Col. of the Brit. 
Museum 1891, nada lembrando ou sujerindo 
a "arara muito retinta"^ como a define R. 
GARCIA á paj. 17. 



Nada sabemos sobre lingua tupi e, é 
apenas para chamar a atenção dos compe- 
tentes, que lembramos que a expressão ca- 
ninde' dàdà á a\e, talvez não deva exprimir 
nada que lembre preto. Não ha duvida que 
não deixa de ser estranho ter MARCGRAV 
referido que os indios a chamavam de ara- 
rauna o que significa arara negra, cf. R. 
GARCIA, op. cit. paj. 15. 

A arara-azul é desconhecida nos Estados 
da Bahia, Pernambuco e Piauhí, sendo en- 
contrada na zona por nós percorrida, somen- 
te em Goiaz; se fosse especie existente na- 
queles Estados, não haveria duvida que a ela 
caberia a denominação de araraúna, como 
aliás já possue em varios lugares. A descri- 
ção minuciosa que MARCGRAV far de sua 
"ararauna", elimina a hipótese de se tratar 
de um engano devido a algum erro tipo- 
gráfico que, confundisse a descrição do Ano- 
dorhynrhus hyacinthinus (LATH.) com a Am 
ararauna (L.), pela simples razão do natura- 
lista alemão não se referir àquela especie, e 
isto, pela circumstancia de não ser represen- 
tante da omis pernambucana. MARCGRAV, 
só se ocupa de duas especies de arar?s; 
como se sabe, as observações do autor em 
questão, só se referem á fauna pernambuca- 
na, com especialidade, e á bahiana. 

As araras, descritas por MARCGRAV 
são a canindé já referida e a araracanga 
{Ara cloroptera GRAY), arara vermelha ; a 
outra especie desta côr, a Ara macao (L.) 
não ocorre naquelas rejiões. 

THEODORO SAMPAIO -nas duas edi- 
ções do "O Tupi na Geographia Nacional" 
S. Paulo -1901 e 1914 admite para a palavra 
canindé a acepção de anegrado tisnado, es- 
curo etc. . A nossa intenção é trazer á tona 
a quest^.o, afim de que os competentes a 
resolvam, pois, parece-nos muito estranho 
que os indijenas do Brazil e Paraguai, deno- 
minassem como anegrada ou escura, a uma 
grande ave que não apresenta a menor ca- 
rateristici para que assim fosse denominada. 
No "Vocabulario das Palavras Guaranis" etc. 
do MONTOVA ampliado e anotado por BAP- 
TISTA CAETANO e que constitue o volu- 
me VII -dos Annaes da Bibliotheca Nacional 



117 - 



do Rio de Janeiro" lé-se á paj. 67, o seguin- 
te a respeito da questão; '"caninde", nome 
de uma especie de ave ou guacamayo, talvez 
contr. de arara- caninde, ar aia muiio retincta, 
vê araracay Procurando este vocábulo, depa- 
ramos á paj. 48 *'Araraca" s, arara retincta? 
nome de um guacamayo ou psittaco grande". 
O trabalho de BAPTISTA CAETANO cons- 
titue o manancial, onde todos vão aprender; 
nele a significação do vocábulo canindé só 
é dada interrogadamente; que os competen- 
tes resolvam a questão. 

Aproveitando a oportunidade, trataremos 
da grafia a respeito da denominação indijena 
de certo mamifero brazileiro. 

No Dicionário da Fauna do Brazil de 
R.VON IHERINO-S. Paulo- 1914, o autor 
embora rejistrando a expressão sussuapára 
para o veado galheiro, lembra que a designa- 
ção correta é ^'suassú-apára" . Acreditamos, 
mas podemos afirmar que nos gerais bahia- 
nos e norte de Goiaz, os moradores só de- 
signam o referido veado pela palavra sus- 
suapára- Tão pouco ouviíTios, como quer 
HENRIQUE SILVA, á paj. 80 da "Caça e 
Caçadas", o nome sunssúapára servindo ape- 
nas para designar a fêmea. O vocábulo tal 
como o grafamos, designa, nas referidas pa- 
rajens, o veado-galheiro de qualquer sexo. 

Aliás, em trabalho anterior de H. SILVA 
e intitulado "Caça no Brazil Central - Rio - 
1898 - lé-se no prefacio escrito pelo genfral 
COUTO DE MAGALHÃES, uma lista de 
nomes tupis de varios animais e onde se 
encontra o vocábulo ''suçuapara" para de- 
signar o veado em questão. 

Molestia de Chagas 

Pela importancia que tem para a patolo- 
jia indijena, o estudo desta tripanosomose, 
cuja presença já foi denunciada na Argenti- 
na e posteriormente na Republica do Salva- 
dor, America Central ; havendo ainda toda a 
probabilidade de existir em outros paizes da 
America do Sul e que, em algumas zonas do 
paiz, flajela em proporções nem de lonje sus- 
peitadas peia Nação como de visu verificá- 
mos em localidades goianas. Damos a seguir 



pesquizas realizadas havia já algum tempo 
em laboratorio mas que, somente com os 
fatos adquiridos durante a excursão cientifica 
agora relatada, tiveram sua confirmação. 

Queremos nos referir á Triatonia sórdi- 
da STAL, novo ajenie transmissor da moles- 
tia de Chagas da qual daremos informações 
sobre sua biolojia e distribuição no Brazil 
Central, conjuntamente com os dados epide- 
miolojicos concernentes á referida tripanoso- 
mose no percurso efetuado. 

Em principios de 1911, iniciámos pesqui- 
zas concernentes á biolojia das T. infestans 
KLUG de procedencias argentina, chilena e 
brazileira e da T. sórdida STAL, hospede 
assiduo das habitações em varios paizes da 
America do Sul. 

Era nosso intuito verificar não só, dados 
concernentes á ecolojia daquelas especies, 
como também procurar encontrar elementos 
que demonstrassem a possibilidade da trans- 
missão do Typanosoma Cruzi CHAGAS pelos 
hemipteros em questão. 

A 23 e 28 de Março possuíamos 
exemplares de T. sórdida e infestans apre- 
sentando tripanosomas nas fezes pois, desde 
o inicio que os alimentávamos em cobaias 
infetadas. Desta data em diante, os exempla- 
res nestes condições só se nutriam em cobaias 
e gatos sãos, sem que conseguíssemos por 
este processo, infetar qualquer destas animais. 

As experiencias feitas com esta preocu- 
pação, só terminaram em 5 de Janeiro de 
1912, sem nenhum fato positivo a não ser a 
suspeita nacida quando estudávamos a biolo- 
jia da T. megista BURM. de que, a tripano- 
somose americana, se transmitia praticamen- 
te de maneira não completamente esclareci- 
da porquanto, em inúmeras experiencias por 
nós efetuadas ao alimentar cobaias, gatos e 
cais com exemplares de T. megista in fetados, 
em todos os estádios de evolução e proce- 
dentes de varios Estados do Brazil onde reina 
a molestia de Chagas, somente uma vez conse- 
guimos infetar por picada algumas cobaias que 
alimentavam um lote de "barbeiros" proceden- 
tes de Minas e encontrados pelo servente 
em casa havia bastante tempo deshabitada 
porém, cujo chiqueiro, era procurado para 



118 



abrigo de porcos que ali pernoitavam e que 
serviam de pasto aos exemplares em questão. 

Este fato, levamos ao conhecimento do 
Dr. CHAGAS a quem entregamos os exem- 
plares de T. megista seguramente infetantes 
por picada. A percentajem da transmissão di- 
reta permanecia nas nossas experiencias di- 
minuta; aliás, o trabalho orijinal de CHAGAS, 
deixava ver. que a raridade das infeções por 
picada não tinha passado despercebida ao 
seu autor pois, á paj. 192 do Tomo I, fac 
11 das "Memorias do Instituto Oswaido Cruz", 
assim se refere ao fato: "/Is outras duas 
obserx'açoes de flajelados nas glândulas saliva- 
res foram feitas em insetos colhido uas habita- 
ções infetadas. Em tal cazo, a maior quantida- 
de de hemipteros, embora apresentando flajela- 
dos no intestino posterior, nada mostram nas 
glândulas salivares ; certo numero délies, porem^ 
em relação centezimal não determinada, acha- 
se infetado e são infetantes, sendo vistos nas 
glândulas salivares os parazitos com a morfo- 
lojia descrita. Esta observação, aliaz, é confir- 
mada nas tentativas de infcção por picada de 
conorrinos colhidos em rezidencias humanas, 
nas quais só pequena proporção de insetos é 
infetante". 

Ora, em Março de 1912, tivemos oportu- 
nidade de percorrer os sertões da Bahia, 
Pernambuco, Piauhí e a quasi totalidade de 
parte habitada de Goíaz onde se nos depara- 
ram fatos que julgamos de monta para a epi- 
demiolojia da tripanosomose americana e 
que nos levaram a reincetar as experiencias 
interrompidas, sobre o papel da Triatoma sór- 
dida, na transmissão da molestia de Chagas. 

Desde a cidade de Joazeiro, á marjem 
esquerda do S. Francisco que, notávamos a 
predominancia da T. sórdida sobre outra 
qualquer especie de redúvida hematófago. 
Nos povoados e povoações pernambucanas 
como Petrolina, Morrinhos, Cacimbas, Melan- 
cias, Terra Nova, Barreiras, Tigre, Cachoeira 
do Roberto, Floresta, Conquista e Outeiro, 
até penetrarmos no territorio piauhiense com 
destino a S. Raymundo Nonato, a especie 
em questão seria a única presente se não 
fora o achado dum exemplar da Triatoma 
macúlala ERICH. 



No territorio piauhense porém, encontra- 
mos os primeiros exemplares de T. brastlien- 
sis, especie que começou a predominar entre 
os hemipteros domésticos e, aproveitando a 
estadia de alguns dias em S. Raymundo No- 
nato, vila com uma população aproximada 
de 2 mil habitantes, podemos estudar com 
mais minucia a fauna de red lívidas hematófa- 
gos que parasitam os domicilios no Brazil 
Central e a sua relação com a molestia de 
Chagas. 

Quanto aos casos de tripanosomose, as 
pesquizas efetuadas na zona percorrida até 
esta vila, foram completamente negativas e 
de acordo com esta verificação se achava o 
fato de não termos encontrado um só exem- 
plar de Triatoma megista. As informações 
porém, deixavam suspeitar a existencia nos 
arredores, desta Triatoma e indicações de en- 
fermos do mal de Chagas em povoações do 
municipio de Remanso. 

Alguns dias depois da nossa permanen- 
cia em S. Raymundo Nonato, tínhamos po- 
dido obter conhecimento perfeito da fauna he- 
mipterolojica que nos interessava e verificá- 
mos que, os '^bichos de parede", denominação 
dada para designar os redúvidas hematófagos 
domésticos naquelas parajens, eram naquela 
porção do Piauhí constituidas pelas seguintes 
especies citadas em ordem de frequência : 
Triatoma brasiliensis NEIVA, T. macúlala 
ERICH, T. megista BU RM. e T. sórdida 
STAL. Destas duas especies, durante 17 dias 
de permanencia na vila de S. Raymundo, não 
conseguimos obter uma dúzia de exemplares. 

Pouco adiante, em lugar denominado 
Lages, subitamente pode-se dizer, começou a 
aparecer a T. megista com a abundancia que 
lhe é peculiar e, o que não é comum, sem 
estar acompanhada da T. sórdida. As pesqui- 
zas efetuadas no conteúdo intestinal de nu- 
merosos exemplares da T. megista, não re- 
velavam a presença do tripanosomo e de 
acordo com este fato, se encontrava a ausen 
cia de tripanosomiados, sendo que, as inda- 
gações só revelavam a presença mais próxi- 
ma da molestia de Chagas, para o sul da 
rejião em que nos encontrávamos. As inda- 
gações para obter informações, visavam prin- 



119 



cipalineníe saber da existencia ou não do 
papo e da presença de '^bichou de parede", 
afim de nos guiarmos sobre a relação de 
causa e efeito entre o bocio e os redúvidas 
hematófagos. 

Nesta localidade, portanto, estávamos 
diante de grande abundancia de transmisso- 
res sem que existisse no entanto a molestia, 
máo grado as informações da sua proximi- 
liade. Esta condição, assim se conservou até 
a vila de Pa>naguá, onde foram encontradas 
as primeiras triatomas e habitantes locais in- 
fetados, aliás em proporção diminuta em re- 
lação á abundancia de transmissores. 

Alguns dias aquém desta vila, na povoa- 
ção de nome Caracol, começamos a perceber 
que a molestia de Chagas "pintava", isto é, 
dava esporadicamente no pitoresco dizer da- 
quelas zonas e, apesar da grande abundancia 
de barbeiros poder permitir enormes devas- 
tações, isto se não dava e a grande quanti- 
dade de hemipteros examinada, totalmente se 
revelou não infestada. Não existindo cobaias 
Tia locah'dade, inoculamos o conteúdo intes- 
tinal de varias triatomas em duas preás (Ca- 
via aperea, ERXL.) que nada apresentaram. 

E' obvio, que existe nestas parajens uma 
causa impedidora das infeções nos hennpte- 
ros; qual seja com segurança não podemos 
afirmar, propendendo comtudo a crer que, a 
escassez da agua, talvez, explique o fato ainda 
obscuro. 

Pela circunstancia dos primeiros hemipte- 
ros encontrados infetados, somente o fossem 
em Parnaguá situada á marjem da maior 
massa d'agua encontrada ao cabo dum percur. 
so du 300 quilómetros por zona árida ; o fato 
da existencia da molestia ora mais ao sul 
ou norte da zona que percorríamos e onde 
as condições de humidade eram mais eleva- 
das; a verificação patente de casos da moles- 
tia já em maior numero em Formoza, á 
marjem esquerda do Rio Preto no Estado da 
Bahia, e, mais do que tudo, a imiversalidade 
da tripanosomose em todo o Estado de 
Goíaz, onde a abundancia de cursos d'agua 
é deveras notável, são verificações que coin- 
cidem de forma a permitir a suposição de 
que o Trypanosonia Cruzi, exija certas condi- 



ções mesoiojicas para evolver nos hemipteros. 

A' medida, porém, que nos aproximáva- 
mos de Goíaz, os casos iam-se tornando mais 
frequentes e nas habitações começavam a 
aparecer conjuntamente com a T. megista a 
T. sórdida, porém em pequena quantidade. 

Essa zona comtudo não permitia grande 
cópia de observações porquanto os povoados 
eram de formação recente como o de S. Mar- 
cello, na confluencia do Rio Sapão, com o 
Rio Preto. Daí por diante, até se chegar á 
vila do Duro o viajante atravessa 192 quilo- 
metros em rejião totalmente deshabitada. 

Esta vila nos permitia melhor observação 
porquanto, achando-se separada por largo e 
deserto trecho de terra da Bahia, poderia for- 
necer um indice patolojico da rejião goiana 
Trata-se duma povoação antigamente rica 
em ouro aluvial, o qual foi esgotado pelos 
antigos exploradores e cujos vestijios a nda 
perduram. O impaludismo não existe ou em 
pequena proporção, tanto quanto podemos 
verificar e pelas informações unanimes obti- 
das. Máo grado o comercio se efetuar com 
a povoação de Barreiras, onde muitos habi- 
tantes se infetam, a malaria não se propaga: 
as únicas anofelinas capturadas durante 11 
dias de pesquizas foram: Chagasia fajardoi, 
Cellia albimana e argyrotarsis estas duas es- 
pecies, porém, em numero muito pequeno e 
fora do povoado. O numero de '^papudos" 
porém é enorme e o bocio alcança proporções 
não vistas até então por nós; a frequência 
da T. sórdida é muito grande; o numero da 
T. nipgista muito reduzido ; estas foram as 
únicas especies de redúvidas hematófagos en- 
contradas. Proximo á vila do Duro existia, 
até pouco tempo, um aldeiamenlo de indios 
os quais desapareceram ou se cruzaram com os 
elementos recemvindos, nunca porém entre eles 
foi obseriado o papo, o mesmo se não der.i 
com os seus decendentes que se fundiram 
com outras raças. 

Este fato despertou-nos a atenção e pro- 
curámos observal-o daí em diante, em todo 
o territorio goiano, o qua! apresenta condições 
incomparáveis para observações deste genero. 

A notável predominancia da T. sórdida 
sobre a T. megista em zona grandemente in- 



120 



festada pela molestia de Chagas, vieram des- 
pertar novamente as suspeitas que desde 1911 
mantínhamos. 

Durante os 11 dias que nos demorámos 
no Duro, podemos verificar mais uma vez, a 
relação que a T. sórdida apresenta com os 
cursos d'agua. No Brazil pelo menos, todas 
as localidades donde possuimos esta especie, 
acham-se nas proximidades de rios ou ribei- 
rões e a zona agora percorrida era particular- 
mente instrutiva a respeito desta relação com 
a T. sórdida. 

Achamol-a presente na= cidades de Joa- 
zeiro, Petrolina e pequenas povoações banha- 
das pelo São Francisco; á medida que dele 
nos afastávamos, a especie em questão tor- 
nava-se crecentemente escassa até desapare- 
cer completamente, á proporção que nos in- 
ternávamos nas zonas onde a agua vai ra- 
reando. 

Em S. Raymundo Nonato a T. sórdida 
reaparece, embora em pequeno numero ; pro- 
ximo a esta vila corre o rio Piauhí cujo curso 
é interrompido nos mezes calidos. Daí em 
diante, até as proximidades de Parnaguá, atra- 
vessámos a zona talvez a mais flajelada pelas 
secas, em todo o paiz; trata-se dum percur- 
so de 240 quilómetros atravez de rejião adus- 
ta e onde não existia a T. sórdida. 

Ao nos aproximarmos da zona conheci- 
da no Piauhí pela denominação de ''Vêrêda 
do Ciirimatú", a agua começou a aparecer 
em maior abundancia e mesmo em profusão, 
como nos lugares chamados Ipuêras, Ibi- 
raba e a vila de Parnaguá. 

Reaparece a T. sórdida, cuja presença 
daí em diante, já nas zonas piaiihiensis e 
bahianas que tivemos de atravessar para atin- 
jir o Estado de Goiaz e, neste Estado, de 
norte a sul, até Anhanguera proximidades de 
Minas Geraes, podemos sempre verificar em 
area compreendida entre 11°- 19o de Lat. 
Sul e 6o -57 -4o Long. W, representando 
um percurso superior a 1500 quilómetros, a 
presença constante desta especie em todas as 
localidades visitadas. 

Na cidade de Porto Nacional onde per- 
manecemos 8 dias, o Dr. FRANCISCO 
AYRES DA SILVA, chamou-nos a atenção 



para a ausencia da Triaíoma megista, apesar 
da presença de grande numero de portadores 
de bocio. 

De falo, todas as pesquizas que fizemos 
afim de encontrar esta especie foram infrutí- 
feras, aliás anteriormente á nossa passajem 
por ali o Dr. A. MACHADO, que lá perma- 
necera 15 dias, conseguiu obter apenas 1 exem- 
plar e isto bem mostra a sua raridade ; em 
compensação obtivemos bastantes exemplares 
da T. sórdida que, em Porto Nacional, é sem 
a menor duvida o principal transmissor da 
molestia de Chagas ; comtudo não encontrá- 
mos nenhum exemplar infetado. Recentemen- 
te o Dr. MACHADO referiu-nos que em Ja- 
nuaria, cidade mineira á marjem do S. Fran- 
cisco e onde abundantemente grassa a tripa- 
nosomose, não lhe foi possível encontrar 
nenhum exemplar de T. megista o contra- 
rio do que poude observar com a T. sórdida. 

As experiencias que efetuámos, esclarecem 
agora os pontos que pareciam obscuros e a 
7. sórdida, passa a exercer um papel de im- 
portancia na transmissão do T. Cnizi. Em 
Goiaz o Estado do Brazil, certamente o mais 
flajelado pela molestia de Chagas, o redúvi- 
da em questão será sem duvida o principal 
transmissor, pois em todas as localidades, ex- 
ceção feita das mais afastadas do Tocantin?, 
como Descoberto e Amaro Leite, principal- 
mente a primeira, onde agua é extremamente 
escassa, a T. megista ou não se achava pre- 
sente ou se encontrava em notável minoria 
comparada á 7". sórdida. 

Em nota previa publicada em numero 
do "Brazil - Medico" de Agosto de 1913 no- 
ticiamos os resultados obtidos com a T. sór- 
dida, cujas fezes, portadoras de T. Cruzi co- 
locadas em contato com a conjuntiva de 
cobaia infeiaram-na ao cabo de 8 dias. 

Esta verificação, veiu nos dará explicação 
das duvidas acima apontadas, e aumentar a 
nossa propensão sobre o modo pelo qual se 
opera a transmissão do T Cruzi em condi- 
ções naturais e, pelo que até hoje temos po- 
dido observar, transmite-se mais comu menté 
através da pele e das mucosas. Neste ponto 
somos da opinião de BRUMPT o habito 
tantas ve/es por nós verificado, nas criações 



121 



que realizámos de varias especies de Triato- 
mae, da eliminação de fezes por ocasião da 
hematofajia, acrecido á circunstancia já muito 
conhecida de que as triatomas embora con- 
sigam picar quasi indolormente a quem dorme, 
não suprimem comtudo, a comichão conse- 
quente á picada e, portanto, a possibilidade 
de soluções de continuidade na pele e possi- 
vel poria de entrada dos tripanosomos pre- 
sentes nas fezes. 

Deve-se ponderar ainda que, os redúvi. 
das hematófagos, como é sabido, preferem 
sugar o rosto; esta preferencia, porém, não 
indica nenhum tropismo especial por esta 
parte ; a explicação é simples, reside na 
circunstancia de não se acharem protejidos 
pelas vestes durante o sono, o antibraço e 
principalmente a mão; devido a este fato, 
são sedes preferidas pzra picadas e é obvio 
que, se os dedos contaminados pelas fezes 
depositados sobre estas partes, entrarem em 
contato com as mucosas d.i boca ou do nariz 
ou o que é mais comum, chegarem até os 
olhos, a infeção é provável senão certa, por- 
quanto, pela conjuntiva a contaminação dá-se, 
pelo menos em cobaia, tão rapidamente como 
&e fizéssemos uma inoculação peritonial. 

Voltemos porém ao fato da presença con- 
comitante do bocio e das triatomas nos do- 
micílios ; para isso, é necessário chamar a 
atenção para certos depoimentos de outros 
observadores nacionais e estranjeiros que cer- 
tamente trarão alguma luz sobre o bocio no 
Brazil e, que de algum modo, auxiliarão o 
esclarecimento do debatido problema da pa- 
(olojia indijena. As zonas, por nós percorridas 
no Brazil Central ou são totalmente desco- 
nhecidas dos naturalistas estranjeiros e na- 
cionais, como as de Pernambuco, ou o são 
por muito poucos como acontece com as do 
Piauhi e Goiaz. Recentemente á zona sul-pi- 
auhiense foi percorrida por uma comissão 
austríaca dirijida por STEINDACHNER e 
pelo norte-americano HASEMANN a serviço 
do Instituto Carnegie. Os resultados das obser- 
vações destes naturalistas nada adiantam á 
nossa questão, pelo simples fato destes pes- 
quizadores somente cojitarem de pesquizas 
de historia natural, principalmente de ictio- 



lojia e os resM liados até agora publicados 
destas explorações, nada se referem ao assun- 
to do presente capitulo. Temos que remontar 
a 1836, para encontrar o único naturalista 
que até hoje percorreu a mesma zona que 
nós, entre a vila de Parnaguá no liauhi e 
Natividade em Qoiaz; queremos nos referir 
a GEORGE GARDNER o qual de 1836-41 
percorreu o Brazil principalmente as provin- 
cias do nordeste. 

As observações deste autor, são de 
grande importancia para a questão, porquan- 
to as suas pesquizas trouxeram grandes re- 
sultados á ciencia não só na botânica onde 
elas avultaram, como ainda na geologia com 
a descoberta duma especie de Psaronius, 
descobrimento este, que permitiu determinar- 
se com segurança a formação geológica de 
certa rejião do Piauhi e que até hoje con- 
tinua a servir de padrão para identificação 
do terreno onde é encontrado. Intencional- 
mente lembramos estes fatos, com o fim de 
chamar a atenção para a circunstancia de ter 
sido GARDNER também medico e por 
isso, as observações concernentes á sua pro- 
fissão, devem ser tomadas em toda a consi- 
deração pois, sem duvida, foram efetuadas 
com a mesma perfeição das outras e que 
tanto mereceram dos competentes. 

De Parnaguá á Santa Maria, fizemos 
trajetos diferentes; daí em diante até Nati- 
vidade o percurso por nós realizado quasi 
80 anos depois, foi exat amenté o mesmo e 
"The desolate tract of country, upwards of forty 
leagues in breath, which, we were now about 
to cross, in order to reach the province of Goiaz, 
is called by the people of the country os 
Geraes". Naquela época GARDNER apenas 
encontrou um morador, o qual se queixava 
das depredações ocasionadas pelos índios 
Chereutes; nós fomos encontrar os últimos 
moradores em numero de 8, no logar de- 
nominado *^Barra dos Veados'^ apenas a 
16 quilómetros de Santa Maria; essa gente 
acossada pela seca de 1898 foi para ali resi- 
dir depois de expulsarem os indios '*gaviões^^ 
como nos informaram, que ainda ali vivi- 
am naquele ano. Pelas inforruaçòes daqueles 
moradores, os quaes entretiveram relações 



122 



com os referidos indios durante bastante 
íempo, o bocio entre eles era desconhecido. 
Os indios gaviões ou caracatís são considera- 
dos por EHRENREICH como pertencentes 
aos Caypós. Pelas informações do Snr. JOÃO 
DA MATTA, morador na localidade, eles se 
retiraram para local por ele ignorado. Entre 
as informações dadas por este fazendeiro, re- 
cordamos-nos da circunstancia dos referidos 
indios dormirem no chão por não usaram 
rede. Este fato constitue uma das caracterís- 
ticas dadas por EHRENREICH para o grande 
grupo gé. Ao qual pertence também os Che- 
rentes encontrados anteriormente pdr GARD- 
NER nos mesmos gerais. Vid. Divisão C Dis- 
tribuição das Tribus do Brazil, segundo o 
estado actual dos nossos conhecimentos por 
P. EHRENREICH. Tradução de CAPISTRA- 
NO DE ABREU in Rev. da Soc, de Geogra- 
phia do Rio de Janeiro -T. VU! -pp. 3-55 
10 Boletim 1892. 

Em 1913, a Revista do Instituto Histó- 
rico e Geographico Brazileiío T. LXXV- 
Parte 1 - pp. 143 -205 -Rio de Janeiro, pu- 
Dlicou sob o titulo de "Os Kraôs do Rio 
Pieto no Estado da Bahia" uma monografia 
de T. SAMPAIO e cuja leitura nos trouxe a 
convição de que os indios que infestavam a 
Barra dos Veados, justamente á cabeceira do 
Rio Preto, deviam ser os Kraôs. Além da 
rejião ser a mesma, os costumes condizem 
com as informações do Snr. JOÃO DA 
MATTA e com toda a probabilidade o ai- 
de. amento da Gameleira, a que se refere o 
autor, deve ter sido fundado apóz a expul- 
são dos Kraôs da Barra dos Veados. 

Esta foi a primeira informação que tive- 
mos sobre a presença ou ausencia do bocio 
entre os indios; a segunda nos foi referida 
pelos habitantes da vila do Duro a qual 
acima ja referimos. GARDNER, porem, 
quando esteve nessa vila, visilou o nuoleo 
de individuos, ainda ali existentes em nume- 
ro de 250 ocupando 4 pajinas sobre o que 
observou entre eles. Nada diz sobre a pre- 
sença do bocio não só entre estes indios, 
como também tias pajinas dedicadas á descri- 
ção do Duro e suas habitantes, localidade 
onde permaneceu 15 dias. 



Ao descrever as habitações dos índios 
assim se expressa GARDNER "The Aldea 
itself contains about twenty houses, all of 
which are of the most miserable description the 
greater part of them are entirely made of n 
framework of poles covered over with palm-lea- 
ves, and many of them are so much decayed 
from the united effects of the Vme and weather, 
'hat they no longer form a barrier against 
wind or rain'\ 

A paj. 252 referindo-se a um lugar cha- 
mado Mato-Virgem diz o autor: 

" The place in which it was prepared, 
was the apartment where we were allowed to 
put up, the persons engaged in it being the 
mistress of the house, who was a young niu- 
latta, and eight slaves, four men and four 
women; I was astonished to find all of them, 
except one man and one woman, affected 
with goitre; the swelling ont he neck of on,- of 
the women was much larger than her head. 
They assured me it was a very general com- 
plaint in this part of the province of Goyaz, 
particularly in the Villas Natividade and Arra- 
yas; in the Aldea of Duro, I saw only our 
woman affected by it, and another in the arra- 
ial of Almas". 

Ora, atualmente, as condições são com- 
pletamente outras, pois o bocio é extrema- 
mente comum no Duro, Almas e Natividade 
e, não será precipitado afirmar-se que o 
ájente eficiente do bocio, achou condições 
para o seu desenvolvimento fora dos fatores 
agua e alimentação que, nestes 80 anos, não 
variaram naquelas localidades. 

Ao atinjirmos a Capital de Goyaz depois 
de tão longo percurso e, sempre com atenção 
voltada principalmente para a observação do 
bocio, um fato se destacava como constante, 
não só apoiado pela observação pessoal c 
direta, corr.o ainda das informações obtidas 
todas concordes cm afirmar que o bocio, 
quasi sem exceção, exije para o seu desen- 
volvimento e propagação duma codição social 
intermediaria entre a civilização primitivados 
indijenas e as atuaes condições das cidades 
e vilas sertanejas atrazadas. Se estas progri- 
dem o mal desaparece, o contrario se obser- 
vando com alguns indios que se aproximam 



123 



do tipo de civilização intermediaria, os quais 
podem tornar-se portadores de bocios como 
pudemos observar em uma india caiapó ai- 
deiada desde criança e vivendo entre habi- 
tantes portadores de bocio; foi o único caso 
que observamos em indios, tendo sido infor- 
mado pelos frades dominicanos residentes 
na cidade de Porto Nacional que, os indios 
somente nestas condições, são portadores do 
bocio e as verificações deste genero são 
raras mesmo para eles, incontestavelmente 
os melhores conhecedores do territorio goia- 
no e que o têm percorrido em todas as dire- 
ções ha mais de 20 anos. O Dr. A. MACHA- 
DO que também percorreu grande zona de 
Goiaz, referiu-nos que apenas observou 3 
Cherentes portadores de bocio no arraial 
Piabanha; estes indios já tinham abandona- 
do a vida primitiva. 

Para contraste os depoimentos são abun- 
dantes e, A. DE SAINT HILAIRE, no seu tra- 
balho *' Voyage aux scarccs du Rio de S. Fran- 
cisco et dans la Province de Goyaz" das pp. 
87-119 ocupa um capitulo inteiro tratando dos 
indios caipós que estudou minuciosamente e, 
ao se ocupar das molestias que os atacavam, 
diz á paj. 113; ''D'ailleurs, je n'en ai pas vu 
un seul qui eût un goitre, difformité' qui défi- 
gure tous les pedestres, leurs surveillants, et 
qui, comme on Va vu, est presque genérale à 
Villa Boa". Esta informação refere-se ao ano 
1819 e desta data em diante até os nossos 
dits, não existe uma só informação em con- 
trario. POHL, GARDNER, KRAUZE, os 
frades dominicanos, todos os habitantes de 
Goiaz, informam sem discrepancia a veraci- 
dade do fato e ainda recentemente, o Dr. 
A\ANDACARÚ DE ARAÚJO que por força 
do cargo que ocupava no serviço da Inspeção 
dos Índios, cuja superintendencia em Goiaz 
lhe pertencia, e, que visitou demoradamente 
todos os aldeianientos de varios tribus goia- 
nas, incluindo os carajás e os tapirapés das 
marjens do Araguaia e afluentes, e os Javaés 
da Ilha do Bananal, onde permaneceu cerca 
de 1 ano em convivio com esta tribu, teve a 
ocasião de nos afirmar que o bocio é total- 
mente desconhecido entre os aborijenes. 



Por isso, a afirmação que se possa fazer 
de que o papo no Brazil ou pelo menos em 
Goiaz, é um mal posterior ao seu descobri- 
mento, não nos parece injustifics^a. O pri- 
meiro livro de PISO sobre a Medicina Brazi- 
lietise na Historia naturalis Draziliae ocupa-se 
inteiramente das molestias existentes em 1648 
no Brazil e assim como, rejistra serem a lepra 
e a sarna até então desconhecidas, ao se re- 
ferir ao bocio diz ser mal existente no Chile : 
"In Chili caeteris malis praedominantur, tan- 
quani endemia, strumae quidem in parentum 
semine latentes, sed orta potissimum ex aqua 
nivali, quae itlis ex altissimis montium jugis 
aUabitur" cf. paj. op. cit. ANCHIETA, em 
carta escrita de S. Vicente, em Miio de 15Ó0- 
assim se exprime a proposito das deformida- 
des por ele observados entre os indios: "Direi 
em ultimo logar d'estes Brazis, que nenhun! 
encontrase d'eles afectado de deformidade 
alguma natural; acha-se raramente entre eles 
um cego, um surdo, um imperfeito ou um 
coxo, nenhum nascido fora de tempo" ¡f. 
Cartas de J. de Anchieta. An. da Bibl. Nac. 
T. I. PP. 304-305, Rio 1876. O Estado de 
Goiaz que foi o ultimo a ser descoberto, é 
no entanto o mais flajelado pelo bocio, que 
ali se propagou á medida que uma civilisação 
atrazada ia substituindo uma condição social 
primitiva. 

Não valerá a pena entrarmos a procurar 
provar que a agua ou a alimentação, nada 
têm que ver com o bocio em Goiaz; para 
nós o bocio apresenta uma relação qualquer 
entre o homem e o domicilio e se este é 
constituido á moda dos indios como se vê 
da transcrição feita acima, de GARDNER ou 
da que SAINT-HILAIRE faz á paj. 104 do 
op. cit. das habitações dos cayapós ou, justa- 
mente o oposto, tratar-se de residências bem 
construidas de civilizados, os moradores não 
apresentam o bocio no primeiro caso nunca, 
e, raras vezes, no segundo exemplo. Ora 
qualquer que queira achar uma relação de 
causa e efeito entre a presença dos barbeiros 
e o bocio, não deixará de encontrar bons 
argumentos em favor desta hipótese. Nas ha- 
bitações mal aparelhadas dos indijenas, as 
triatomas de modo nenhum podem proliferar; 



124 



poderão penetrar e viver entre as palhas dos 
colmados mas, as posturas sendo efetuadas 
parccladamente e não havendo a aglutinação 
dos ovos como se observa entre os outros 
redúvidas, os ovos terão fatalmente que cair 
ao solo, onde facilmente serão destruidos prin- 
cipalmente pelas formigas. O mesmo se dará 
com os domicilios em boas condições e, onde 
os hemipteros, devido á circumstancia das 
paredes rebocadas, tão pouco poderão proli- 
ferar. Para desenvolvimento sucessivo de ge- 
rações, somente a cabana, choupana, cafúa, 
ou palhoça de adobos ou a casa de taipa, 
possuem os elementos para que tal se dê. 

O Dr. MORILLO DE CAMPOS, em 
varios artigos narra a sua experiencia sobre 
o que observou em povoações goianas e 
matogrossenses que teve ocasião de visitar 
quando trabalhava na comissão RONDÓN e, 
mais uma vez, confirma a ausencia de bar- 
beiros nas malocas dos indios bororós da 
colonia de S. Lourenço e ausencia do papo 
nesta tribu e na dos parecís, mundurucús e 
apiacás ; constratando com isto, o autor se 
rofere á abundancia dos barbeiros e do bocio 
cm todas as povoações do sul de Goiaz, 
lato que também verificámos. 

A Capital de Goiaz apresenta excelente 
exemplo da influencia do casario e a presen- 
ça do bocio; SAINT HILAIRE que a visi- 
tou em 1819 a ela assim se refere : á paj. 
72. T. 2.: ^'Presque tous les habitantes de 
cette ville et ceux des environs ont un goitre, 
et souvent cette diforniité, devenue énorme em- 
pêche de parler ceux qui en sont affligés." 
Hoje as condições mudaram por completo, 
os habitantes da parte centra! da cidade a 
qual é constituida por casas modernas, não 
possuem o bocio, somente presente em al- 
gumas pessoas idosas: a geração nova e as 
crianças têm bom aspeto e durante a nossa 
permanencia de 12 dias, não conseguimos 
observar o bocio nestes habitantes ; as infor- 
mações dos moradores e os de 2 medicos 
ali residentes, são unanimes em afirmar que 
o bocio dali desapareceu ; todavia o Dr. 
JERONYMO RODRIGUES DE MORAES, 
afirniou-me que ainda hoje se observam de 
vez em quando, casos de hipertrofia da ti- 



reóide pouco acentuados e denominados 
pelo povo de ^'■pescoço grosso'" e ''papo df 
vento" facilmente debelados pelas aplicações 
iodadas. 

Nos suburbios, porém, observa-se com- 
pletamente o oposto ; o bocio é abundante e 
presente, em todas as idades; as habitações 
são quasi semexceção de taipa. Em todas as 
cidades e vilas goianas até se chegar e 
Anhanguera o mesmo fato se repete. 

Pelas nossas observações o bocio, só 
existe em uma condição semi-civiUzada ; é 
um mal ligado de qualquer modo á habita- 
ção; inexistente entre os indios, propagándo- 
se nestes últimos 89 anos no extremo norte 
de Goiaz, segundo a citação que fizemos de 
GARDNER e pelo que de visu observámos; 
geralmente ausente das zonas onde ha escas- 
sez d'agua, mas, podend<'>-se encontrar em 
povoações como Almas, Amaro Leite, e Des- 
coberto onde aquele elemento é naturalmen- 
te escasso. 

Á medida que a civilização penetra o 
bocio vai desaparecendo, pelo menos a ob- 
servação do que se tem passado no Brazil, 
é sem exreção favorável a essa teoria ; em 1824 
o bocio existia no Rio Grande do Sul e 20 
anos mais tarde invadia Rio Pardo, «cachoei- 
ra e Caçapava segundo nos informa SIGAUD. 
Em 1844 o bocio era universal nas cidades 
paulistas de Jundiahí, Jacaréhí e Mogí-Mirim 
e com a penetração do progresso, o mal foi 
continuamente desaparecendo; era tão ccmum 
o bocio na Provincia de S. Paulo que MAR- 
TI US ao figurar uma paulista, desenha-na 
com o bocio e mais recentemente ainda, 
vemol-o desaparecer com a transformação 
operada na villa Curral dei Rey para dar lugar 
á cidade de Bello Horizonte. 

Para fujir á conclusão que o bocio está 
ligado á molestia de Chagas, seria preciso 
admitir a existencia de outras entidades 
mórbidas, também transmitidas pelos barbei- 
ros ou ainda, duma causa eficiente existindo 
nas mesmas condições nosolojicas favoráveis 
ao desenvolvimento daqueles hemipteros ; 
em favor destes fatos, que lembramos apenas 
como uma hipótese, fala a circumstancia da 
nula ou pequena proporção de triatomas in- 



125 



fetada encontrada fni localidades onde o i 
bocio é muito abundante como Duro, Porto 
Nacional c Descoberto. 

Os primeiros trabalhos escritos por me- 
dicos e publicados no Brazil a respeito do 
bocio, foram os seguintes: o primeiro em 
1800 sob o titulo de "Memoria sobre o papo 
que ataca no Brazil os homens e animaes. O 
segundo, embora tenha sido impresso em 
1831 em Paris sob o titulo de ^^Dissertation 
sur le goitre" trata o assunto sob o ponto 
de vista brazileiro; é a tese de doutoramento 
do notável naturalista FREIRE ALLEMÃO. 
O trabalho aparecido em 1800, talvez seja da 
lavra de ARRUDA CAMARÁ, embora, nada 
encontrássemos de positivo no Dicionário 
Bibliographico Brazileiro de Sacramento 
Blake. Depois, somente em 1841, apareceram 
as teses do Rio de Janeiro "Bosquejo acerca 
do Bocio" por J. MARIANNO DOS SANTOS 
e "Algumas considerações sobre o Clima de 
Minas Geraes" de E. BENEDICTO OTTONI. 

O primeiro trabalho ainda não tivemos 
oportunidade de encontrar; por algumas re- 
ferencias sabemos que a tese de FREIRE 
ALLEMÃO se filia á teoria hidrica; o traba- 
lho de MARIANNO DOS SANTOS refere 
as impressões de SAINT HILAIRE quanto 
ao bocio em Minas e do espanto que lhe 
causara a abundancia dos mesmos nas cerca- 
nias de S. Paulo, relatando ainda a surpresa 
de d'ORBIGNY pela frequência e tamanho 
dos bócios por ele observados em Jacarehí, 
Mogí das Cruzes e S. Paulo. MARIANNO 
DOS SANTOS repele completamente a agua 
ou a alimentação como produtores do bocio,, 
argumentando com os exemplos da Colombia, 
Chile, etc. . 

O trabalho de OTTONI nada apresenta 
de novo, a não ser o fato relatado á pajina 
27 quando cita o desaparecimento do bocio 
em Minas Novas, depois desta localidade ter 
tomado» grande incremento pela prosperidade 
trazida pela mineração e alta dos preços dos 
algodões, o que levaram ao completo desapa- 
recimento do bocio ao cabo de 30 anos, o 
que está de acordo com a observação geral. 
Todos os outros trabalhos aparecidos até hoje 
de medicos e viajantes com exceção do de 



CHAGAS, subordinam o bocio á teoria hidri- 
ca. As formas nervosas da molestia de 
CHAGAS, foram encontradas em todo o per- 
curso principalmente em Goiaz, todavia em 
frequência muito menor que o bocio; a única 
forma mixedematosa tipica foi verificada numa 
criança de 8 anos moradora em Agua Branca, 
municipio de Corrente, Piauhí e por nós exa- 
minada, quando indo á consulta em compa- 
nhia de seu projenitor e que é um portador 
do bocio nos procurava para medical- 
o de males que nenhuma relação apresenta- 
vam com a tripanosomose. No municipio de 
Parnaguá o bocio, não é muito abundante, no 
do Corrente é mais frequente e pelas infor- 
mações parece ser muito abundante nos mu- 
nicipios de Bom Jesus da Gurgeia e de Filo- 
mena. Algumas pessoas nos referiram que, 
individuos adultos procedentes do municipio 
de Parnaguá e que foram residir em locali- 
dades do municipio de Filomena, adquiriram 
bocio ao cabo de 6 mezes de permanencia. 

Quer o bocio, quer as modalidades ner- 
vosas e cardiacas rejistradas por CHAGAS, 
foram verificadas presentes nas localidades 
dos municipios de Remanso, Sta. Rita do 
Rio Preto e Barra do Rio Grande pertencen- 
tes ao Estado da Bahia; e em toda a zona 
goiana. 

Em Formosa (Bahia) uma portadora de 
bocio, referiu-nos que este é de invasão rela- 
tivamente recente sendo trazido pelos goianos. 
Em lugar afastado desta vila, um pequeno 
fazendeiro que fujira em consequência de 
grandes conflitos que ali se desenrolaram, 
ao cabo de um ano de residencia em locali- 
dade goiana, observou que quasi todos os 
fihos adquiriram o bocio o qual não atinjiu 
a nenhum dos adultos. 

Além das formas citadas, são muito 
comum em Goiaz os casos de cretinismo, in- 
fantilismo e surdo-mudez, principalmente no 
municipios de Duro, Natividade, Amaro 
Leite, Pilar e Descoberto. Localidades como 
Descoberto onde a população é de cerca de 
400 moradores, estes são quasi todos infeta- 
dos e se nem lodos possuem "bocio desen- 
volvido, grande numero tem o sensível cre- 



126 



cimento da ''tireóide'' "pescoço grosso" como 
vulgamente designam. 

Os viajantes sempre evitam pouzar em 
lugares ermos de maneira que, esta pratica 
auxilia a disseminação das triatomas infesta- 
das e que são acarretadas pelas cangalhas e 
outros acessórios de montaria, guardados 
dentro das moradias onde se hospedam. 



ali endémico, todavia, ha sensivel tendencia 
por parte de varios medicos bahianos, a dar 
mais importancia ao foco constituido pela ci- 
dade de Recife donde julgam receber os 
casos produtores das epidemias. 

É absolutamente impossível ao habitan- 
tes de qr.ilquer cidade, estar ao abrigo 
das endemias e epidemias, por um previlejio 



BIBLIOGRAFIA: 

CAMPOS, MURILLO DE 1913 Notas do Interior do Brazil -Do Rio de Janeiro á Cuyabá 

(via Goiaz). 
Brazil -Medico, Ano XXVll-No l2-pp. 111-16- Rio 
de Janeiro. 

1913 Notas do Interior do Brazil. 

Archivos Brazil, de Medecina. Ano III, No 2 pp. 195-227. 
e No 5 pp. 497 -507 -Rio de Janeiro. 

1849 Travels in the Interior of Bra?il, principally, through the 
northern Provinces, and the gold and diamond 
districts during the years 1836-1841. London. 

1911 In den Wildnissen Brasiliens. Leipzig. 



CAMPOS, MURILLO DE 



GARDNER, GEORGE 



KRAUSE, FRITZ 

MAGALHÃES 

J. COUTO DE 

S.\INT-HILAIRE, A: 



SiGAUD, J. F. X. 



1902 Viajem ao Araguaya. 

Edição definitiva. S. Paulo. 

1847-48 Voyage aux sources du rio de S. Francisco et dans la 
Province de Goyaz. Paris, cf. T. II. -Esta obra 
foi publicada muitos anos depois do A. ter per- 
corrido o Estado de Goiaz 

1844 Du climat et des maladies du Brésil. Paris. 



Febre amarela (') 

E sabido que, a Capital da Bahia, cons- 
titue foco permanente de febre amarela e 
que por varias vezes cazos dali provenientes 
têm ameaçado a Capital do Paiz. O mal é 



1 o prezente capitulo, como aliaz todo o relatório, 
foi terminado em jullio de 1915. Por varios motivos, a 
sua publicação, somente agora poude ser realizada de 
maneira que, ao nos referirmos á presença da febre ama- 
rela na Bahia e Recite, já não exprimimos a verdade por- 
quanto, graças aos esforços da Saúde Publica daqueles 
Estados, o mal em questão, foi eliminado do quadro 
nozologico das referidas cidades, coiuo verificou a co- 
missão enviada pelo Diretor da Saúde Publica do Rio de 
Janeiro. Seria altamente proveitoso que, análoga ve- 
rificação, fosse efetuada no jnterior dos referidos Es- 
tados. 



natural; por isso a cidade da Bahia tem fa- 
talmente de ser um foco endémico de febre 
amarela, pois reúne para isto, todas as condi- 
ções epidemiolojicas. 

Já em 1SS4 FIN LAY no trabalho "Apuntes 
sobre la historia primitiva de la fiebre amarilla" 
dividia a febre amarela em frustra e vera ; 
comtudo não se referia ás crianças, porém 2 
anos depois, CORNILLAC fez claramente 
alusão ao fato dos indijenas se imunizarem 
quando crianças. Em 1888, GUITERAS, pu- 
blicou notável trabalho, no qual a questão é 
discutida de modo admirável; para GUITE- 
RAS as crianças são os depositarios de virus 
principalmente as de cor branca; afirma a 
existencia de ataques benignos que passam 



127 



despercebidos e que as imunizaram. A co- 
missão franceza que trabalhou no Rio, igno- 
rando o trabalho de GUITERAS chegou ao 
mesmo resultado e ainda mais recentemente, 
BOYCE verificou o fato entre crianças negras 
da Africa e, a proposito, escreveu valioso tra- 
balho Onde discute a questão. A Bahia que pos- 
sue o Síegomyia calopiis MEIGEN e con- 
dições climatéricas otimas para a ende- 
micidade amarilica, não poderá fujir á regra. 

E' nossa convição, que o mal se tenha 
internado levado pela Estrada de Ferro e que 
em condições análogas, estão todas as cida- 
des até Petrojina, onde encontrámos grande 
abundancia de transmissores. Em Joazeiro e 
Petrohna, o ma! apresenta as maiores dificul- 
dades em ser diagnosticado, pelo fato do pe- 
queno numero de estranjeiros e estes, em 
regra, serem imunizados por ataque anterior 
da molestia, adquirido na Cap'tal do Estado 
ou em outras localidades do pai/, onde rei- 
nava ou ainda existe a febre amarela, pois, 
geralmente, estes forasteiros só se fixam em 
Joazeiro, depois de permanencia prolongada, 
em regra, na cidade da Bahia. Certos fatos 
acontecidos no Brazil demostram a possibili- 
dade do que afirmamos: o caso Caio Prado 
quando presidente do Ceará falecendo de 
febre amarela, na ausencia de qualquer epi- 
demia amarilica em Fortaleza, é bem tipico. 
Naquela ocasião, doutos e profanos, aceitaram 
sem discutir, a hipótese da transmissão do 
mal pelas epistolas recebidas pela vitima e 
procedentes do Rio de Janeiro. Nada havia 
de estranhavel, dada a época, em se ter acei- 
tado a explicação ; com os conhecimentos 
adquiridos posteriormente, verificou-se que tal 
transmissão era inipossivel de se realizar: a 
febre amarela existia em Fortaleza e a sua pre- 
sença passava despercebida e somente foi reve- 
lada, poi ter atacado personalidade de des- 
taque e o mal sç desenvolver dum modo cli- 
nicamente clássico. Fato análogo se reprodu- 
ziu, ha poucos anos, com um enjenheiro norte- 
americano, quando trabalhava em Quixadá 
em estudo de lavoura seca. 

Nós, que observamos as condições preca- 
rias de assistência medica em Joazeiro e as 
profundas falhas do rejistro civil, principal- 



mente na parte referente ao rejistro de óbito, 
nutrimos suspeitas que sob o rotulo de 
maleitas, intermitentes, sezões, etc. estejam 
incluidos casos febre amarela em crianças, os 
quais passaram despercebidos não só pela 
propria dificuldade de ser diagnosticados, 
como principalmente por se revestirem duma 
forma frusta e benigna e não nos surpreen- 
deriamos se, casos análogos aos observados 
no Ceará, fossem ali verificados. Medico que 
nos merece todo o credito, narrou-nos que 
em Jacobina, recentemente, entre trabalhado- 
res portuguezes duma via férrea em constru- 
ção, declarou-se uma epidemia para muita 
gente diagnosticada como febre amarela. Na 
vila de S. Francisco, o referido informante 
poude pessoalmente verificar a morte por 
febre amarela, de estranjeiro ali residente. O 
mal evolveu de modo a não deixar a menor 
duvida, no entretanto a localidade era consi- 
derada como isenta da molestia. A vitima, o 
Prof. CHEVALIER, ensinava quimica agrico- 
la na antiga Escola de Agronomia situada 
em S. Bento dos Lages. Durante o ano de 
1914, na cidade de Santo Amaro, foram ob- 
servados varios casos suspeitos de febre 
amarela. Essa cidade fica próxima de S. 
Bento e isto vem mostrar que não só o in- 
terior do Estado, como também o recôncavo, 
estão contaminados. O Boletim Mensal de 
Estatistica Demografa-Sanitaria do Estado 
da Bahia-Ano 17, No 3 Março 1912, afirma 
que de Setembro de 1910 a Fevereiro de 
1912, "senão mais", passaram-se 17 mezes 
sem que fosse rejistrado um único caso- 
de febre amarela. No entanto em 15 a 27 
de Fevereiro 1912, ocorreram 8 casos em 5 
focos diversos, colocados nos extiemos da 
cidade S. Pedro, Victoria, Mares e Penha. 
É' impossível contestar as informações da re- 
ferida publicação mas, sem duvida, o fato 
parece-nos estranho e estamos inclinados a 
aceitar que a molestia nunca cessou de exis- 
tir; apenas a sua presença passou despercebi- 
da pois, é quasi inadmissível acreditar em 
fenómenos de saneamento espontaneo, num 
meio otimo para o desenvolvimento do mal. 
Recentemente soubemos que, em Parita- 
hiba, povoação próxima de Joazeiro, ha anos 



128 



já se observou casos dum mal por muitos 
diagnosticado de febre amarela. A hijiene 
oficial, verificou casos positivos em Paripé e 
outros suburbios em contato com a Estrada 
de Ferro de Alagoinhas-Joa/.eiro ; é mais um 
argumento em favor de nossa suspeita que 
julga Joazeiro e outras localidades infetadas. 

Pela leitura da tese "Prophylaxia de 
febre amarelia" Bahia 1914 do Dr. N. SAM- 
PAIO BITTENCOURT, tivemos conhecimen- 
to que de 1902 inclusive, a Julho de 1908, isto 
é, durante 78 me/es não se observou um só 
caso r^iortal de febre amarela na Bahia. Se 
naquela época já funcionasse um serviço de 
verificação de óbitos, estatística tão otimista 
talvez não tivesse oportunidade de ser pu- 
blicada. 

BOYCE, em 1911, definiu com felicidade 
que a aclimatação dos europeus na Africa, 
não queria exprimir senão uma immuni/ação 
por Stegomyia e, que grande numero de 
casos diagnosticados do febre remitente ou 
remitente biliosa na costa ocidental da Africa, 
não passavam na realidade de casos benignos 
de febre amarela ; e chama atenção para o 
fato dos negros daquelas rejiões, apresenta- 
rem a forma denominada abortiva ou ambu- 
latoria do referido mal; formas que, segundo 
o autor, passam despercebidas dos indijenas 
do mesmo modo que, em condições análo- 
gas, se dá com o impaludismo. 

Se não temos experiencia pessoal com 
fatos da natureza citada, no que se refere á 
febre amarela na infancia, possuímos todavia 
observações sobre a possibilidade da malaria 
poder passar despercebida, não só em crian- 
ças como em adultos. No Xerem era relati- 
vamente comum encontrarmos crianças por- 
tadoras de anéis de terçan maligna no 
sangue periférico, sem que acusassem 
nenhum mal estar; a molestia evoluia de 
maneira a passar completamente despercebi- 
da não só para os enfermos, como para os 
que os rodeavam. 

No Tomo 3 -No 7 do *^ Office Internacio- 
nal d'Hygiène publique" pp. 1 1 59 - 1 174 - 
Julho de 1911 -encontra-se um artigo sem 
assinatura intitulado ^^Nofe sur l'origine endé- 
mique de la fièvre jaune en Afrique Occiden- 



tale", onde a questão é ventilada e documen- 
tada com grande copia de informações. 
STEPHENS lembra que desde 1848, W. PYM 
dizia existir a febre amarela no interior da 
Africa, atacando as raças nativas porem apre- 
sentando modificações nas formas clinicas. 

Outro caso de um surto epidémico su- 
bito, é-nos referido por AUGE e PEZET 
inda recentemente e, não é impossível que, 
fatos análogos se passem no Estado da 
Bahia, em todo o trajeto da via férrea que 
termina em Joazeiro, acontecendo o mesmo 
na cidade pernambucana que lhe fica fron- 
teira e onde as estegomias são muito nume- 
rosos. Quando em 1686, Pernambuco foi 
pela primeira vez assaltado pela "ôù'a", de- 
signação com que denominaram a febre 
amarela naquela época, o que se observou 
não foi mais do que um violento surto epi- 
démico, disseminando-se por toda a zona lito- 
rânea onde os entranjeiros se acumulavam. 
A transcrição que adiante fazemos, dum do- 
cumento histórico pouco conhecido dos me- 
dicos, virá demonstrar que, á lu? dos conhe- 
cimentos modernos, concernentes á epidemio- 
lojia amarilica, a interpretação dada não de- 
verá ser outra. Dr. DOMINGOS DO LORE- 
TO COUTO, depois de descrever os sinto- 
mas do mal, etiolojia, malignidade etc. etc., 
diz á paj. 183 (13): 

"Foi materia digna de reflexão, que 
deste contagio não enfermarão negros, mu- 
latos. Índios, nem mesclados, como se não 
tivera o mal forças para combater com as 
destes humanos compostos, ou lhe faltara 
jurisdição para neles empregar seus golpes. 
Também os moradores dos recôncavos expe- 
rimentarão menos vigorozo o seu veneno, 
assim na extenção, como na actividade, e dos 
que enfermarão morrião poucos" etc. etc. 
Vid. An. Bibl. Nacional do Rio de Janeiro 
"Desagravos Do Brazil e Glorias de Per- 
nambuco" loe. cit. Vol. XXV- 1904. 

O trabalho citado foi escrito no Recife 
em Março de 1757 e pelo menos, nessa parte, 
é quasi uma copia da Historia da America 
Portugueza de ROCHA PITTA, aparecida 
em 1730, pouco acrecentando ao escrito pelo 
historiador bahiano. A 2a edição da obra de 



129 



ROCHA PITTA apareceu em Lisboa em 1880 
e das pajinas 213-218 ocupando os parágra- 
fos- 13- 55 do Livro Sétimo, o historiador 
somente se ocupa com a febre amarela. O 
paragrafo 43 por exemplo, refere-se a um 
fato ainda iioje observado ; "e foi perdendo 
a força o mal, de forma que ou já não feria, 
ou quasi todos os feridos escapavam ; posto 
que para as pessoas que vinham de mar em 
tora ou dos sertões, assim á cidade da Bahia 
como á de Olinda, durou largos annos le- 
vando grande parte délies, principalmente 
aos mais robustos". 

Os dois autores porém, não foram con- 
temporâneos do rnal e por isso vamos trans- 
crever o depoimento do grande VIEIRA que 
foi testemunha do flajelo e até por ele ata- 
cado : "Achome com duas de V. M. a que 
responderei brevemente, porque estes Navios 
se partem tão arrebatadamente, como quem 
vai fugindo á morte. Tal he a peste em que 
ficamos, a qual perdoando a poucos, se em- 
prega mais nos homens do mar". Carta 101 
a DIOGO MARCHÃO OTEMUDO, Cartas, 
Vol. II, paj. 342 Lisboa 1735-A carta é 
datada da Bahia 2 de Maio de 1686. Na 
carta 102 datada de 1" de Julho do mesmo 
ano e escrita ainda da Bahia ao Conde de 
Castanheira, VIEIRA insiste em falar na 
grande receptividade dos homens do mar e 
dá a boa nova de que o mal vai amainando. 
O fato se explica por serem os mezes de 
junho a Agosto os menos favoráveis á ativi- 
dade do inseto transmissor. Nas epistolas 
escritas da Bahia em 8 e 21 de Julho de 
1692, o autor diz : "Pelas outras novas dou 
a V. Exc. a de haver cessado nesse anno na 
Bahia a chamada Bicha, cujo veneno ferindo 
muito dos naturais, matava tanto dos hospe- 
des, que chegarão, e tornão vivos e sãos". 

'Deos se tem havido este ano tão mise- 
ricordioso comnosco no mar e na terra que 
no mar não houve piratas, e na terra se não 
sentia o veneno da chamada Bicha, com que 
os hospedes que costumão ser os mais 
mórbidos, tornam vivos e sãos" Cf. loc. cit. 
pp. 443 e 459. 

Vê-se, pelos documentos citados, que o 
mal poupava os nevros, mulatos. Indios e 



mesclados; isto é, quasi a totalidade dos 
naturais, naquela época, pois a parte branca 
da população era quasi toda portugueza. O 
mal marchou insidiosamente a ponto de im- 
munizar a população indijena, porquanto 
atualmente se sabe que não existem raças im 
munes á febre amarela. Não passou do re- 
côncavo, isto é, da zona litorânea porque o 
Stegomyia calopus não encontrou meio de 
condução adequado, o que não aconteceu no 
litoral, onde o culícida trazido i.as embarca- 
ções, por intermedio delas se disseminou 
pela rejião á beira-mar. De maneira que, ¡i 
la epidemia não passou, á luz dos conheci- 
mentos modernos, de um surto epidémico 
de mal que endémicamente já lavrava. 

Como já nos referimos em outra parte, 
as rejiões apartadas da estrada de feno nos 
Estados pomos percorridos, continuam 230 
anos apoz á suposta primeira epidemia do 
paiz, a não possuir o ájente transmissor do 
mal. Sabemos que ainda hoje, sertanejos ba- 
hianos e adultos ao visitarem a Capital da 
Bahia, alguns adoecem de febre amarela. O fato 
tem sido verificado varias vezes e isto, a primei- 
ra vista, provaria pela não existencia do mal 
nos sertões. Um fato que chegou ao nosso 
conhecimento e nos foi narrado por pessoa 
de toda a idoneidade, vem provar justamen- 
te o contrario: eil-o: F. fazendeiro em Br(Uas 
de Macaúbas, vindo pela primeira vez na 
sua existencia, visitar a Capital da Bahia 
adoeceu tipicamente de febre amarela. 

Ora, Brotas de Macaúbas, fica a varios 
dias de viajem a cavalo, do porto mais pro- 
ximo no rio S. Francisco, não devendo por- 
tanto possuir o ájente transmissor. 

A vila de S. Raymundo Nonato no 
Piauhí, situada apenas a 80 quilómetros da 
cidade do Remanso, local onde o Stegomyia 
é encontrado abundantemente, até hoje não 
foi contaminada pelo ájente transmissor c 
isto podemos afiançar, pela verificação efetua- 
da durante 15 dias de permanencia ali. Me- 
tade mesmo, pelo menos, dessa distancia, 
naquelas parajens, ¡senta qualquer povoação 
de ser contaminada pelo mal; as nossas 
observações falam nesse sentido. Qualquer 
sertanejo vivendo ali é um predisposto ao 



130 



mal; para o ponto de vista, com que encara- 
mos a questão, só teria importancia decisiva, 
a verificação de habitantes das vilas e cidades 
á marjem da E. de Ferro de S. Francisco 
terem adoecido de febre amarela ao visita- 
rem a Capital da Bahia. 

De Petrolina em diante, até a capital de 
Goiaz, os representantes do genero Stegomyia 
só foram encontrados na povoação Formoza, 



á marjem direita do Rio Preto, sendo que a 
infestação deste local foi efetuada pelos va- 
pores de Viação Fluvial do S. Francisco ; a 
outra povoação ribeirinha que conhecemos, 
a de S. Marcello, na confluencia do Rio Preto 
com o Sapão, não tivemos oportunidade de 
encontrar o culícida em questão, provavelmen- 
pela pequena demt.ra que ali fizemos. 



tíIBLIOOF^AI^IA. 



AUGE, J. & PEZET, O. 1912 



BOYCE, R. W. 
BOYCE, R. 



CORN ILL AC, J. J. 



OUITERAS, J. 



1911 
1912 



1886 



Epidémie de fièvre jaune survenue au Dahomey pendant 

les mois de mai et juin 1912 
Bull. Soc. Pathol, exot. Année 5, No 8 pp. 648-656 

British medical Journal- dec. Lond. 

Note upon yellow fever in the black race and its bearing 
upon the question of the endemicity of yel- 
low fever in West Africa. 

Annals of trop. Med. & Parasitology. Vol. 5 No i, pp. 
103-110. Abril Liverpo )l 

Recherches chronologiques sur l'origine et la propagation 
de la fièvre jaune dans les Antilles et la Côte 
occidentale d'Afrique 

Fort-de-France 

1888 Observaciones sobre la historia natural de las epidemias 
de fiebre amarilla, fundadas en el estudio de 
la estadística de la mortalidad en la ciudad 
de Key West, con indicaciones sobre la ne- 
cessidad de un estudio continuado de esta af- 
fección por el Gobierno de los Estados Unidos. 
Annual Report of the Supervising Surgeon General of the 
Marine Hospital Service of the United States 
for the year 1888. cf. reprodução "Sanidad y 
Beneficiencia" loe. cit. adiante. 



GUITERAS, J. 



STEPHENS, W. J. 



1912 



1911 



Endemicidad de la Fiebre Amarilla. 
Sanidad y Beneficencia, T. VU!, No 6, pp. 617-663, Haba- 
na -Dezembro. 

Discussion on yellow fever on the West Coast of Africa. 
British medical Journal, No 2654. Nov. Lond. 



Anquilostomose 



Verificámos a presença deste mal nas se- 
guintes cidades ou vilas; Joazeiro (Bahia), 
S. Raymundo Nonato, Caracol, Parnaguá 
(Piauhí), Duro, Porto Nacional e na cidade 
de Goiaz. 

A verminose, mesmo em Parnaguá, onde 
a encontrámos mais abundante, nem de lonje 
se aproxima das proporções em que a obser- 



vámos no Xerem (baixada do Estado do Rio; 
tão pouco atinje ao gráo verificado em certos 
suburbios da capital como Jacarépaguá, Pa- 
vuna etc. . 

Nas zonas mais secas, o mal diminuía, 
aumentando nas localidades, onde o fator 
agua crecia; todavia nunca deixamos de veri- 
ficar a sua presença em maior ou menor grau 
em todo o trajeto percorrido. Nos Estados 



131 



de Goíaz e Piauhí, onde a verminoso grassa 
mais abundantemente, os doentes por ela 
afetados são denominados de "empalamados" 
ou "empaletnados" . Como era de prever, o 
verme ocasionador da anquilostomose nas 
parajens percorridas é o Necator americanas 
STILES. O tratamento especifico é totalmen- 
te desconhecido e, em alguns lugares, pode- 
mos observar que a geofajia, sintoma que 
frequentemente acompanha principalmente as 
crianças atacadas do mal, ser tratada com o 
emprego do fumo dado a mascar. 

Esquistosomose 

Na vila de Caraco!, municipio de S. 
Raymundo Nonato, Estado do Piauhí, tive- 
mos a oportimidade de diagnosticar 2 casos 
da molestia, cujas observações damos em 
seguida: 

M. B. S. -10 anos- natural de Pernambu- 
co, (Salgueiro); donde aos 2 V2 anos saiu 
para Vila Nova (Bahia) onde ficou até a ida- 
de de 5 anos, quando se retirou para Boa 
Esperança, proximo á vila de Pilão Arcado 
(Bahia), tendo aí permanecido durante 2 
anos; depois disto, veiu para Caracol (Piauhí) 
onde a encontrámos e onde já residia havia 10 
mezes. Em Salgueiro a agua utilizada é de 
cacimbas; em Vila Nova porém, a agua é a 
dum ribeirão chamados das "Bananeiras", o 
qual não ''corta'\ nem mesmo durante as 
secas. Em Bôa Esperança, a agua é de tanque 
e de cacimbas ; nesta localidade a menina se 
entretinha frequentemente a tomar banhos 
nas cacimbas; em Caracol, porém, já não 
acontecia o mesmo. A pequena narra que 
por varias vezes, em Caracol, deu-se á geo- 
fajia, habito frequente entre as crianças desta 
vila. Nunca emitiu urinas sanguinolentas; por 
varias vezes tem sido acometida por impalu- 
dismo. 

Estado ataal: pequena, raquítica, de tez 
muito pálida; lingua pouco saburrosa, con- 
juntivas descoradas, máu hálito. Ha mais ou 
menos 3 anos que é acometida de bronqui- 
tes; atualmcnte tosse com certa frequência. 
Figado aumentado de volume e doloroso á 
palpação; baço sensível á palpação. 

Em Vila Nova sofreu fortemente de ce- 
falaljias, as quais ainda a acometem, embora 
com menos frequência; a cefalaijia começa a 



qualquer hora e é sempre consequência de 
algum esforço muscular despendido ao brincar; 
ás ve2^s as cefaleas são acompanhadas de 
vómitos; a doentinha é nmilo intelijente. Al- 
gumas vezes as fezes são acompanhadas de 
sangue e em Vila Nova aconteceu, em con- 
sequência dum purgativo de oleo de ricino,, 
fazcrem-seas dejeções entremeiadas de grande 
quantidade de sangue. Por ocasião do exame 
ás de 16 horas de 5-5-12 a doente apresentava 
a temperatura de 3S '. Exame de sangue nega- 
tivo. Urina sem albumina. O exame das fezes 
reve'ou ovos de Schisíosomum mansoni e de 
Necator americanas. 

O 2» caso foi duma criança de 3 anos, a 
qual nunca saiu do município de S. Raymun- 
do Nonato ; as fezes apresentavam ovos de 
Schistosomum mansoni e de Necator america- 
nas; urinas não sanguinolentas. 

Até hoje só se encontram publicadas 
entre nós, as pesquizas de Pi RAJA' DA 
SILVA concernentes aos casos por ele obser- 
vados na Bahia, onde a molestia parece ser 
relativamente frequente. A bilhaiziose intesti- 
nal como muitos a chamam, é mal muito 
mais frequente no norte do Bradl do que 
em geral se pensa; ignorando se já foi as- 
sinalada entre brazileiros do sul. Causou-nos 
certa sorpreza, encontrar o parasito na zona 
seca e, embora o primeiro caso, pelos sinto- 
mas que apresentava quando ainda residia 
em localidade bahiana, leve á suposição de 
que ali se con aiuinara, o 2» caso é certa- 
mente píauhiense porquanto, o doente nunca 
se afastara do município onde nacerá. 

A ausencia de urinas sanguinolentas, vem 
mais uma vez dar razão àqueles que pensam 
ser esta bilharziose diferente da denominada 
bilharziose vesical, ocasionada pelo Schisío- 
somum haematobium (BILHARZ). Todos os 
ovos apresentavam espíenla lateral carateristi- 
ca da especie Schistosomum mansoni SAM- 
BON e o parasito, foi provavelmente introdu- 
zido não só no Brazil, como ainda nas Anti- 
lhas e Sul dos Estados Unidos, com o trafego 
de negros africanos. 

Nada se sabe ainda, sobre o modo de pe- 
netração do Schistosomum mansoni, mas tudo 
leva a crer que se efetue através da pele como 



132 



îoî verificado por KATSURADA, HASHE- 
GAWA, FUJINAMI e NAKAMURA com o 
Schisfosomum ¡aponicuní KATSURADA. Na 
íocalidade onde os dois casos foram observa- 
dos, o parasito em questão parece ser de 
invasão recente porquanto, durante os 10 dias 
que ali permanecemos, tivemos oportunida- 
de de examinar as fezes de grande numero 
de pessoas, somente encontrando os casos 
referidos. 

Se a penetração do trematode se efetuar 
de maneira suspeitada, em breve, Caracol, 
constituirá um grande foco, pois a agua que 
abastece o povoado e seus arredores, provem 
da única lagoa existente e onde os morado- 
res se banham, lavam as roupas, e os animais 
se abeberam. Trata-se duma coleção d'agua 
pouco profunda, não medindo mais de 1 qui- 
Jometro de largura. Pesquizas mais recentes 
publicadas sob o titulo de "/)£-/• Zwischeiíwirt 
des Schistosomiim japonicum KATSURADA 
nos Mitt. ans der Medizin. Fakult. der /(ais. 
Univ. Kyiishu Fukuoka, Japão, Bd. I, pp. 
187-197-Taf. I- II -1914 por Miyairi, K 
Suzuki, M., vêm resolver a questão do ciclo 
evolutivo do parasito japonez, permetindo 
com toda a probabilidade, a suposição de que, 
o trematode brazileiro tenha idêntica evolução. 

Esses pesquizadores conseguiram verificar 
o desenvolvimento em caramujo de agua doce 
pertencente á familia Hydrobiidae, porém ainda 
de especie não determinada, do miracidio da- 
quele trematode tendo podido acompanhar a 
^volução em esporocisto, redia e cercaria, 
quasi completamente desenvolvida, 7 semanas 
após a infeção do caramujo. Verificaram ainda 
que, a infeção é extremamente fácil através 
da pele de camondongos, pelas cercarias exis- 
tentes no caramujo. O assunto portanto pare- 
ce ficar completamente resolvido; de miraci- 
dio ao estádio de cercaria, as especies do ge- 
nero Schistosomam WEINLAND, necessitam 
de um hospedeiro intermediario ; logo porém, 
que as cercarias em liberdade n'agua, entram 
em contato com a pele do hospedeiro difini- 
tivo, atravessam-na rapidamente e vão com- 
pletar a fase final do ciclo evolutivo. 

O mal embora não apresentando a gra- 
vidade da bilharziose vesical, continua a ter 



ignorado completamente o seu tratamento. (1). 

Quanto á profilaxia da anquilostomose 
dadas as atuais condições de hijienedo Brazil 
Central, é impossível fazer-se alguma cousa 
de pratico. Mesmo entre as pessoas vivendo 
em melhores condições, as residencias não 
possuem qualquer simulacro de fossa fixa e 
as dejeções são efetuadas ou lançadas em de- 
terminado recanto do quintal ; como as 
larvas do Necator americanas penetram atra* 
vés da pele, fací é de supor-se, sabendo-se 
do costume principalmente das crianças de 
andarem descalças, a proporção de infeções 
a qual não atinje a intensidade verificada no 
sul do paiz, pelo fato das fezes se encontra- 
rem mais expostas á temperatura acima de 
37o, o que impede a evolução dos ovos. 

Nas localidades como Vila de Pamaguá, 
Duro, onde as condições são mais favoráveis, 
encontrámos infetadas crianças pertencentes 
ás melhores familias. 

Foi verificada também a presença de As- 
caris L. e Oxyuris RU D. 

Disfajía espasmódica. 

Sob esta designação chamaremos o mal 
que no Brazil Central é denominado de *V/z- 
talação'^ e já de ha muito conhecido entre 
nós pelo nome de "mal de engasgo" "entalo'' 
e "engasgue". 

A não ser o trabalho de U. PARANHOS, 
nenhum outro existe sobre a molestia no 
Brazil ; aliás acreditamos ter o fato passado 
despercebido, pda circumstancia de somente se 
observar isoladamente e, por isso, ser diagnos- 
ticado como manifestações histéricas, depois 
de eliminadas as varias causas produtoras de 
disfajia. Não deixa de ser bastante interessan- 
te, a circumstancia de não se encontrar na li- 
teratura medica brazileira, nenhuma publica- 
ção a respeito dum mal disseminado pelo paiz. 
As únicas referencias por nós encontradas, 
acham-se á paj. 1799 da 18a. edição do For- 



(1) Pelas pesquizas recentes efetuadas pelo Dr. ADOL- 
PHO LUTZ, o problema ficou resolvido. O caramujo hos- 
pedeiro é o Planorbis olivaceiís SPIX, muito comum nos 
Estados do Norte e inexistente nos do sul. A evolução 
de ovo a verme adulto, faz-se mais ou menos em 90 dias. 
A penetração do parasito se faz atravéz da pele. 



133 



muIario-CHERNOVIZ- Paris-lQOS. e ás 
pp. 2Q8-299 da celebre novela Innocencia de 
TAUNAY. A informação escrita pelo roman- 
cista, é mais interessante que as referidas 
pelo Formulario e, embora a descrição dada 
não seja um primor de perfeição, é suficiente 
comtudo para se identificar o mal, conhecer- 
Ihe a sinonimic. vulgar e a sua disseminação 
pelo Brazil. 

A referencia mais preciza a respeito, é a 
que se lê ás pp. 204-205 da obra "A Geogra- 
fia Fisica Do Brazil Refundida de J. E. Wap- 
poeus (Edição Condensada) dada á publicida- 
de por J. Capistrano de Abreu e A. do Valle 
Cabral-Rio de Janeiro- 1884". Cada capitulo 
da notável obra alemã foi, alem de traduzi- 
do, refundido por pessoa de toda a idoneida- 
de. Aquele que nos interessa é o capitulo XI 
intitulado Salubridade; Epidemias E moles- 
tias Reinantes, da lavra do Prof. Martins Costa, 
e que textualmente diz ás pajinas referidas: 
"Ha também nessas rejiões (O A. refere-se a 
Curvello, Minas Gerais) uma molestia endé- 
mica, a que seus habitantes chamam mal de 
engasgo, o qual consiste, diz o Dr. A. Idel- 
fonso Gomes, em uma paralizia do farinje ;" 
os que padecem esta molestia não podem en- 
gulir os alimentos; cada bolo de comida é 
empurrado por alguns goles d'agua" Ao 
mesmo autor, constou a existenci:: também 
dessa doença nos sertões de Goiaz e Matto- 
Grosso. Nada se sabe até o presente, quanto 
á natureza dessa singular paralysia, nem 
quanto ás suas causas e simtomatologia" As 
inforninções são do Prof. Martins Costa, 
pois o trabalho orijinal de Wappâus editado 
em 1871, nada diz a respeito. 

No Brazil Central, o fenómeno aparece 
com frequência insólita, o que á primeira vista 
faz pensar em molestia local ; depois que es- 
tudámos o assunto, estamos persuadid(>s de 
que o mal exista por toda a parte, embora 
no Brazil Central encontre condições especiais, 
muito favoráveis ao seu desenvolvimento. 

A denominação de ^^dysphagia tropical" 
d.-^da por PARANHOS apresenta o inconve- 
niente de limitar o mal, á dada rejião geográ- 
fica que, talvez a não possua exclusivamente, 
o que viria ainda aumentar a malsinação da 
rejião tropical. A proposito, vem a pêlo 



lembrar que, a KOCH, se deve a denomina- 
ção tão inadequada de '^malaria tropical" para 
a terçan maligna, entidade mórbida já mesmo 
observada na Russia, e muitov^omum na Ita- 
lia. 

Já seria tempo de se reajír contra estas 
designações improprias e, que só servem, para 
aumentar o desconceito, em que são tidas 
todas as zonas tropicais. Inda recentemente, 
BLONDEL, refere o fato do governo inglcz 
em 1912, propor por via diplomática, que o 
termo de Febre de Malta fosse abandonado 
na nomenclatura medica e substituido por 
um outro mais exato, porquanto a molestia 
existindo também em outras paizes, a deno- 
minação prejudicaria a reputação da colonia, 
no ponto de vista sanitario; este fato deu 
orijem ao nome de melitose. 

Qualquer dos tratados de medicina, 
mesmo antigo, ao se ocuparem das molestias 
do esófago, referem-se á disfajia e ao esofa- 
jismo, de maneira a despertar em nós, a sus- 
peita de que, na Europa, se verifica também 
fato análogo aos observados no Brazil 
Central, em muito menor numero porem. 
Ao lermos no tratado de EICHHORST, 
edição de 1889, a parte referente á "Caimbra 
do esófago— Esofajismo" verificamos a exis- 
tencia dum capitulo dedicado ao fenómeno, 
cuja etiolojia, segundo EICHHORST, é pro- 
veniente dum grande numero de névroses 
de orijem central. 

KFAUS consagra-lhe um capitulo até 
hoje o mais completo que conhecemos 
sobre o assunto; ali aprendemos que a né- 
vrose motora como lhe denomina KRAUS, 
já era conhecida desde 1740 por F. HOFF- 
MANN que a denominou de "Dysphagia 
spasmodica" , nome que aceitamos por ter a 
prioridade. Pela leitura do referido trabalho, 
pode-se acompanhar as modificações experi- 
mentadas pela etiolojia eonsoante as ideas 
dominantes na época. 

BERNHEIM, a este respeito, publicou 
excelente estudo e logo ao começar ao citar 
a sinonimia: Dysphagia spasmodica de 
HOFFMANN, Angina convulsiva de VAN 
SWIETEN, Spasme dei' oesophage át FRANK, 
Oesophago-spasmns VOQEL, Oesophagisme 



134 



MONDIÈRE, Rétrécissement spa&modique de 
l'oesophage BROCA, VIOLA, PETER, Spas- 
módica stricture BRINTON, POWER MA- 
CKENZIE, Stenosis spastica fixa et migrans 
HAMBURGER, deixa a impressão de que 
se trata de assunto conhecido por profissio- 
wais de varios paizes e, da copiosa bibliogra- 
fia reproduzida no seu trabalho e no de 
KRAUS, verifica-se tratar-se de questão 
talvez mais conhecida de que a principio 
julgáramos. Pela comparação com os tratados 
modernos que consultamos, vê-se imediata- 
mente tratar-se dum mal certamente mais 
comum antigamente, pois os capitulos ati- 
nentes ao assunto das modernas enciclope- 
dias de medicina, são mais um repositario 
de observações anteriores e onde a aquizi- 
ção de novos fatos é notavelmente escassa, 
Pela leitura de varios trabalhos consul- 
tados, estamos inclinados a acreditar que, as 
observações por nós efetuadas no Brazil 
Central sobre o mal ali denominado de 
"entalação", referem-se talvez aos conhe- 
cidos em outras partes do mundo. A 
marcha da molestia, seu subito aparecimento, 
a facilidade da alimentação quente ser em 
geral melhor suportada, os casos excecionais 
de alguns doentes poderem injerir melhor 
os alimentos solidos que os líquidos, os vó- 
mitos, quando existentes serem seguidos de 
erutações, a necessidade de alguns doentes só 
conseguirem alimentar-se em pé e em movi- 
mento, a intermitencia do mal com crises dis- 
fajicas de horas até semanas, o fato dos pa- 
cientes em geral, fora das crises, so se nutri- 
rem acompanhando cada bolo de alimentação 
solida com um gole d'agua, trouxeram-nos a 
suspeita da identidade de "/na/ do engasgo" 
com a disfajia espasmódica. Durante mais de 
3 mezes podemos observar um entalado 
nosso camarada. As crises sobreviam ines- 
peradamente, em qualquer tempo da refeição, 
obrigando o camarada a procurar, o mais 
rapidamente possível, injerir alguns goles 
d'agua. Algumas vezes podia continuar a 
refeição, auxiliando a injestão com o liquido; 
outras vezes porém, era obrigado a inter- 
rompel-a procurando o paciente provocar 
eructações e mesmo vomitar, afim de encon- 



trar alivio. Nessas crises fortes, o doente 
punha-se de pé, caminhando rapidamente dum 
lado para o ouiro com o busto voltado para 
traz, ao mesmo tempo que batia fortemente 
com os pés no solo. Temendo que a enta- 
lação se repetisse violentamente, o doente 
tomava a precaução de se abster, nos dias 
seguintes á uma forte crise, de qualquer ali- 
mentação solida. 

Em geral, porém, a disfajia prolongava-se 
por alguns dias, impedindo-o de se alimen- 
tar de qualquer modo. Examinamos esse 
caso de modo o mais completo que nós foi pos- 
sível, com os elementos de que dispúnhamos 
sem resultados positivos. O sangue foi repe- 
tidas vezes examinado e com ele, inoculá- 
mos algumas préas que nada apresentaram. 

As observações de varios clínicos citados 
por PARANHOS, quanto á maior abundan- 
cia de casos existentes antigamente em S. 
Paulo, estão de acordo com que observámos 
no Estado de Goiaz, donde também o mal 
vai desaparecendo, segundo as nossas indaga- 
ções. Nas rejiões secas da Bahia, Pernam- 
buco e Piauhí por nós percorridas, o mal 
grassa de modo verdadeiramente notável. 

Em geral os doentes não se queixam, a 
não ser aqueles que apresentam as formas 
mais graves e que procuram espontanea- 
mente o socorro da medicina, na esperança 
de alivio; a maioria porém, ou por estar o 
mal em inicio ou por não se ter agravado 
a ponto de a atormentar, só se sabe que é 
enferma pelas indagações. 

Fato que os observadores de outros 
paizes não poderiam verificar, é a tolerancia 
que a quasi totalidade dos doentes apresenta 
em relação á rapadura, parte integrante da 
alimentação das populações daquelas para- 
jens ; só, raramente, e por ocasião das crises, 
este alimento deixa de ser injerido; a expli- 
cação residirá talvez na circunstancia da rapa- 
dura ser injerida quasi dissolvida. Os casos 
são muito mais numerosos entre os homens ; 
não é dificil se observar varios membros 
de uma mesma familia atacados pelo mal; 
todavia não obtivemos elementos para julgar- 
mos da hereditariedade ou contajiosldade. 
Esta idea, aliás, é tida em grande voga ali, 



135 



tanto que certas familias separam o prato, 
talher e copos das pessoas enfermas com o 
fim de evitar o contajio. 

A entalação é molestia de qualquer 
idade e até em lactantes, verifica-se a sua pre- 
sença, embora raramente; em regra começa 
entre 20 a 30 anos comtudo encontrámos 
um paciente em que o mal se iniciara depois 
dos 40 anos. 

jEFFERYS e MAXY7ELL, rejistram mal 
análogo em algumas partes da China, onde 
é conhecido sob a denominação de "K^n 
shih ping'\ sendo ao que parece, muito 
comum pelas citações que fazem de MANSON 
p. 37 Customs Medical Reports, Vol. 2 1876 
e pela transcrição de ELLIOT e COLIMAN. 

Todas as indagações e informações que 
colijimos, são unanimes em informar que uma 
vez adquirido o mal, não abandona mais o 
paciente. Casos ha, onde os doentes sa ca- 
quetizam por deficiencia de alimentação e 
varias pessoas nos referiam casos de morte 
por inanição, devido á impossibilidade de 
ser injerida qualquer alimentação. 

GUISEZ, estuda muito bem a dcsfajia es- 
pasmódica, admitindo aliás, quando trata da 
causa inicial e da patojenia dos espasmos 
esofajianos, a existencia de doentes espasmó- 
dicos profundamente nervosos ou histéricos, 
afetados simplesmente de esoíajismo, o qual 
não passa do primeiro periodo: o autor, 
porém, procurando cuidadosamente estudar 
suas observações, chegou ao resultado duma 
causa local resultante da alimentação injeri- 
da rapidamente e portanto mal mastigada, 
conduzindo a principio a um fechamento es- 
pasmódico do esófago o qual, de intermiten- 
te torna-se cada vez mais pronunciado, oca- 
sionando inflamação crónica das paredes do 
esófago, levando progressivamente á estenose 
do conduto. 

O sistema de alimentação adotado no 
Brazil Central, ajusta-se á interpretação dada 
por GUISEZ e, o fato de não termos obser- 
vado nm só caso de entalação entre os habi- 
tantes mais abastados e que por isso se ali- 
mentam melhor, fala em favor desta patojenia. 

A alimentação da gente pobre, consiste 
quasi que exclusivamente, em uma mistura 



de farinha com carne do sol ; a farinha comu- 
mente é de má qualidade, grossa e muito 
dura e é provável que ocasione traumatismos 
nas paredes do esófago: a explicação de PA- 
RANHOS, admitindo como causa da entala- 
ção, a intoxicação pela permanencia na fari- 
nha de principios tóxicos não eliminados pela 
torrefação incompleta, parece-nos menos pro- 
vável. 

Para ama circunstancia, porém, quere- 
mos cnamar a atenção. Foi nos^o intuito o 
procurarmos identificar a entalação, como 
manifestação mórbida já conhecida, docu- 
mentando com citações os resultados de 
nossas investigações. Uma duvida comtudo 
permanece em nosso espirito; é a que se 
refere á frequência, e que sem exajero 
pode-se chamar de epidémica, tal o numero 
de casos observados ou conhecidos por in- 
formações. 

Esse fato merece especial reparo, pois, 
sendo a disfajia espasmódica afeção conhecida 
em todo o mundo desde épocas remotas, 
nunca nenhum autor assinalou como fre- 
quente, a exceção talvez de JEFFERYS e 
MAXWELL, que a encontraram com relativa 
abundancia na China, onde, aliaz, o uso da 
farinha de mandioca é completamente desco- 
nhecido. 

A disfajia por nós observada em algumas 
centenas de individuos, talvez constitua 
afeção ainda indeterminada; muitas das 
pessoas, que dela sofrem, passam periodos de 
dias, semanas e até mezes, embora raramen- 
te, sem que manifestem nada de anormal. 

A seguir damos as observações mais 
interessantes : 

OBSERVAÇÃO L ' 

J. C. de S. P.- cearense — 55 anos. Alto, 
bem constituido, sofre do mal desde 1872 
quando exatamente tinha 15 anos. Historia 
pregressa: Subitamente, ao beber agua com 
grande avidez, após violentos esforços mus- 
culares feitos quando perseguia uma rez, 
teve necessidade de correr a pé cerca de 
duas legoas, caiu desacordado; no dia se- 
guinte sentia-se "empanzinado", tendo toma- 
do varias doses de purgativos. Levou mais 



136 



de 2 dias sem sentidos, sem nada ouvir e 
sem poder reconstituir o que se passara du- 
rante este lapso de tempo. Antecedentes pato- 
lojicos : cin criança sofreu de oftalmía e por 
varias vezes foi acometido de impaludismo ; 
teve 10 irmãos dos quais 6 ainda viviam; 
os pães e os irmãos não sofriam do mal 
que é desconhecido em sua terra natal ; foi 
acometido da molestia em Caracol (Piauhí), 
onde o encontrámos ; segundo suas informa- 
ções, somente depois de ter sido acometido 
pela entalação, tornou-se sifilítico pela aqui- 
sição de um cancro duro. 

Estado atual: Apresenta no dorso estig- 
mas sifilíticos e na face interna das coxas» 
afeção dérmica de que sofre ha 5 anos, e que 
nos pareceu se tratar do Eczema marginatum ; 
durante 1 ano teve de andar de muletas em 
consequência de ulcera na perna proveniente 
de mordedura de cão: a ferida fechou com 
tratamento mercurial. 

Disfajia: O doente ha 40 anos que 
sofre sem intermitencia do '^mal de engasgo", 
os alimentos solidos são injeridos com difi- 
culdade o mesmo não acontecendo quando 
muito bem mastigados ; p. ex. : come bem o 
milho ou carne com rapadura, conseguindo 
ás vezes completar a refeição sem se enta- 
lar; a propria agua se tomada rapidamente, 
provoca a "entalação" nos últimos goles. 

O liquido quente é bebido com facilida- 
de e os alimentos tomados quentes, provo- 
cam menos os fenómenos de disfajia, sendo 
mais facilmente absorvidos. De 8 anos a 
esta data, apresenta sintomas que fazem sus- 
P-Mtar ser o doente portador de ulcera no 
estomago. 

A ''entalação" se dá logo na abertura do 
eíofago e ás vezes 2 dedos abaixo da fúrcu- 
la, como na grande maioria dos casos por 
nós observados. Não sofre de pirosis; de 
vez em quando, sente forte dôr em todo o 
percurso de esófago a qual, cessa immedia- 
tamente, com a injestão dum gole d'agua 
fria; sofre de constante prisão de ventre; 
alimenta-se com carne de boi, feijão e arroz 
tomados em duas refeições tomando pela 
manhã café; a entalação tem se agravado 
continuadamente e, certa ocasião, quando 



comia farinha com mel, teve necessidade 
de se pendurar pelos braços afim de se 
'"desentalar" ; só consegue alimentar-se, auxi- 
liando a deglutição com goles d'agua. Urinas 
sem albumina ou assucar; organs perfeitos. É 
sensível certo gráo de emagrecimento, 
devido a não poder alimentar-se conveni- 
entemente. 

OBSERVAÇÃO II. 

S. Raymundo, 22-5-912; J. J. R., brazilei- 
ro, branco, 23 anos. Altura mediana e com as- 
peto de saúde. Ha tres anos teve um grande 
abcesso na coxa, tendo estado acamado por 
esse motivo, cerca de seis mezes -Quando 
se restabeleceu, achava-se muito depauperado 
e desde então começou a sentir dificuldade 
na deglutição. A principio deglutia os ali- 
mentos sentindo um certo embaraço, mas 
dispensava a agua. Esse estado foi-se agra- 
vando e, desde um ano mais ou menos, tem 
necessidade de auxiliar com a agua a deci- 
da pelo esófago, de cada bolo alimentar. 

Não tem espasmo quando come de mis- 
tura com qualquer liquido, frio ou quente, etão 
somente com os alimentos solidos, sendo que 
esses são mais facilmente deglutidos, quando 
quentes. Sente o embaraço no terço medio 
do esófago. Não sofre de pirosis, nem tem 
dores espontaneas ou provocadas. Queixa-se 
de constipação rebelde. Aparelho circulatorio 
e respiratorio normais. Tiroide norma!, inte- 
lijencia lucida, aptidão para o trabalho. An- 
tecedentes sifilíticos negativos. Os pais eram 
robustos e faleceram em idade avançada; o 
pai de conjestão cerebral, e a mãe de lesão 
cardíaca. Teir. um irmão também entalado. 
Não ha outros casos na família. 

OBSERVAÇÃO III. 

Caracol (Piauhí) 23-5-1912). 

M. R. S. — 53 anos, branco. Sofre de ín- 
talação ha 10 anos. Essa começou sem mo- 
tivo aparente, fracamente, agravando-se pouco 
a pouco até que em menos de um ano, não 
podia deglutir sem injerir um gole d'agua á 
cada bolo alimentar. Sente o espasmo com 
qualquer alimento solido ou líquido, exceto, 



137 



a agua. Ha ocasiões que deglute facilmente 
diss seguidos, ás vezes mais de uma semana. 
Ha, outras, porém, que renuncia ao alimento 
pela impossibilidade de deglutir. Felizmente 
ainda não teve necessidade de passar mais 
de um dia sem alimentos. 

Só na familia ha sete casos ák mo- 
lestia: ele, o pai, um irmão tres sobri- 
nhos e um tio. Fora da familia conhece 
cinco pessoas sofrendo do mesmo mal. O pai 
morreu aos 60 e tantos anos, duma sincope 
tendo sofrido de entalação desde os 20 anos. 
O tio morreu em idade muito avançada, 
tendo sofrido de entalação durante mais de 
30 anos. Queixa-se da caseira (constipação 
intestinal). Não tem gastraijias, nem do. es 
espontaneas ou provocadas na rejião epigás- 
trica. Pirosis ás vezes. O espasmo é percebi- 
do no terço superior do esófago. É uni 
homem alto, magro, porem robusto com 
aparelhos respiratorio e circulatorio e tireóide 
normais. Trabaiha na lavoura e vaqueja nas 
caatingas. 

OBSERVAÇÃO rv. 
Caracol 27-5-1912. 

J. C. R., 38 anos, pardo nacido na Bahia 
mas residente a 6 leguas de Caracol, desde 
os 6 anos de idade. Roceiro e vaqueiro. 
Homem alto de complexão robusta. Até 3 
anos atraz, tinha a saúde perfeita, apesar de 
ter sofrido de molestias venéreas na mocidade. 
Ha tres anos: depois duma corrida aos bois, 
chegou á casa muito fatigado, e quando foi 
tomar a refeição, sentiu-se entalado, não po- 
dendo deglutir o alimento sem o auxilio da 
agua. Daí para cá, não mais poude deglutir 
sem o auxilio da agua, ocasiões havendo 
que a propria agua entala e ouïras em que 
não sente entalação alguma, Queixa-se da 
caseira, e de cólicas, ás vezes violentas, á 
altura do umbigo. Algumas vezes sente azia 
Vomita ás vezes. Nunca vomitou sangue. 
Não sente dores no epigastro, espontaneas 
ou provocadas. Aparelhos circulatorio e res- 
piratorio e tireóide normais - Baço e fígado 
idem. Tem um irmão que sofre do mesmo 
mal ha dois anos, e um outro, vitima do 
vexame de coração. 



OBSERVAÇÃO V. 
Caracol, 27-5-1912. 

D. L. E. -30 anos, branco. Entalado 
desde a idade de 20 anos, não sabendo a 
que atribuir o mal ; não se lembra de qualquer 
acidente ou molestia por ocasião de sentir 
pela primeira vez o mal. Constituição robus- 
ta, aspeto de saúde. Sente ás vezes, dores 
surdas no epigastro e sensação de queima- 
dura, que provoca abundante salivação. Ra- 
ramente regorjita o alimento. Sofre de cons- 
tipação não muito rebelde. Tem na familia 
um irmão e uma cunhada sofrendo do 
mesmo mal, e a mãe e uma tia, vitimes do 
vexame de coração. 

Perdeu um tio, que morreu muito idoso 
tendo sofrido de entalação mais de vinte anos. 
O interessante é que tendo residido durante 
tres anos na cidade da Barra (Bahia), quasi 
se restabeleceu, agiavando-se de novo o mal 
quando voltou para o Caracol. 

OBSERVAÇÃO VI. 

Caracol, 29-5-912. 

Meninas Anna Rita— 9 anos, e Isabel -7 
anos, irmãs. O pai é um homem robusto, e 
de nada se queixa. A mãe é anémica e sofre 
de caseira e vexame. Anna Rita deglute con; 
dificuldade e regorjita muitas vezes o ali- 
mento e a agua. Ocasiões ha, porém, que 
deglute regularmente e facilmente desentala 
com um pouco d'agua ; outras vezes, para 
deglutir tem necessidade de andar, elevar os 
braços, ou deitar-se e rolar pelo chão. Izabel 
é menos entalada. A mãe diz que o mal apa- 
receu sem causa aparente. O alimento e bem 
dijerido e a eliminação das fezes são diarias 
e normais. Tireóide e aparelhos circulatorio e 
respiratorio normais. Essas meninas têm o 
aspeto de todas as do lugar. Altura regular 
para as idades, magras e um pouco pálidas. 
Têm dois tios que sofrem de entalação uni 
d'eles, e de vexame e outro. 

OBSERVAÇÃO VII. 
Caracol, 30-5-912. 

A. M.- 58 anos, naceu e sempre residiu 
no Espirito Santo a tres .'éguas de Caracol. 



138 



Sofre de entalação ha 14 anos, não sabendo 
a que atribuir. Sabe que com o aparecimen- 
to do entalo, passou a sofrer da caseira (cons- 
tipação intestinal", e que a entalação é tanto 
mais forte, quanto mais rebelde a caseira. 
Quando defeca regularmente, desaparece o 
entalo, que volta quando fica constipado, o 
que é alias o seu estado habitual. 

Tem um filho homem também entalado 
e mais de que ele. Exerceu desde moço a 
profissão de vaqueiro que abandonou ha dois 
anos, para ser lavrador {roceiro). Além da 
entalarão é vitima também do vexame, já tendo 
tido 4 crises. O pae moneu aos 70 anos, e 
também sofreu durante muitos anos da enta- 
lação. O consultante é homem robusto. 

OBSERVAÇÃO VIII. 
Peixe, 2-6-912. 

Josina-6 anos, sofre do mal ha 8 mezes 
Entala ás vezes até com a agua. Já se tem 
entalado á noite com a saliva. Passa no en- 
tanto dias a fio sem sentir o menor embara- 
ço na deglutição. Queixa-se de cólicas, ás 
vezes. Passa dois e tres dias sem defecar. 
Tireóide normal. A mãe queixa-se de baticúni 
(palpitação) e escurecimento da vista. A avó 
de Josina sofre do vexame e um tio de enta- 
lação. 

OBSERVAÇÃO IX. 

F. , 45 anos, constituição robusta. Sofre 
da entalação desde a idade de 23 anos. A 



principio tentou deglutir sem o auxilio de 
agua, não o conseguindo. Tem periodos da 
maior ou menor embaraço. Deglute melhor, 
quando mistura o alimento com rapadura. 
Constipação rebelde. Pirosis ás vezes com 
abundante salivação. Ausencia de dôr espon- 
tanea ou provocada no epigastro. 

A mãe, já falecida, sofria muito do vexa- 
me e tinha crises repetidas. Tem também 
uma irmã que sofre do vexame. 

As linhas gerais destas observações, são 
as verificadas para todos os casos ; o diagnos- 
tico é fácil de se estabelecer pela intermi- 
tencia lios fenómenos; nos casos dum mal 
continuo, fora daquelas zonas, ter-se-á de se 
estabelecer o diagnostico diferencial, princi- 
palmente com o diverticulo esofajiano, a 
esofajite, tuberculose, sifilis, ulcerações, es- 
treitamentos dcatriciais, paralisia do esófago, 
varises ; neoformações, compressões por aneu- 
rismas e até a histeria se por ventura hctiver 
necessidade de se diagnosticar a todo o transe. 

Nas zonas onde o mal grassar com a in- 
tensidade verificada cm certas rejiões do 
Brazil Central, a probabilidade de se tratar 
duma forma geral de entalação é muito grande. 
Pronostico: geralmente benigno a vida do 
doente não correndo perigo senão muito ra- 
ramente. Tratamento: deve estar subordina- 
do á causa patojenica a qual continua, no 
nosso modo de entender, completamente igno- 
rada. 



BERNHEIM 
BLONDEL, R. 
GBRITSCHEWSKY, G. 
GUISEZ 



BI]BLIOOR.^.I^I.V : 

1880 Vid. OEsophagisme in Dictionnaire Encyclopédique des 
Sciences médicale. Série 2. T. 14. pp. 529-539 
Paris. 

1913 Etude préparatoire a un projet de révision internationale 
de la terminologie médicale. The Lancet, Vol. 
2.— No 6 pp. 413-416. Lond. 

1906 Die Versuche einer rationellen IVlalariabekaempfung in 
Russland. Zeits. f. Hyg. Bd. 54. pp. 227-246; 
Lpz. 

1911 Ce que doit être actuellement la conception des spasmes 
de l'oesophage. 
La Presse médicale, No 22 pp. 216-218. Paris Março 



139 



jEFFERYS, H. W. & 
MAXWELL, L. J. 

KRAUS, F. 



PARANHOS, U. 



1910 The diseases of China including Formosa ad Korea pp. 
32'2-323. Londres. 

1902 Die Erkrankungen der Muadhoehle und der Speiseroehre. 
in Pathologie und Thérapie de H. NOTH- 
NAGEL Bd. 16. Vol, I -pp. 112-121 -Viena. 

1913 Considérations sur le "mal d'engasgo". Bull, de la Soc. 
Pathol, exot. T. 7. No 1 pp. 47-60 Paris Ja- 
neiro. 



Vexame ou Vexame do coração. 

Desde Petrolina, causou-nos impressão, 
a frequência sobretudo entre as mulheres, 
duma manifestação nervosa airiosissima, a 
que os sertanejos denominam "vexame do 
coração" ou simplesmente "vexaine'\ 

Trata-se duma manifestação mórbida, 
raramente mortal, muito Ifrequente entre as 
mulheres, rara nos homens, que não podemos 
identificar á histeria, á epilepsia ou a qualquer 
das névroses conhecidas. Essa manifestação 
foi observada nas zonas flajeladas pelas 
secas, por nós percorridas, desde Petroliua 
até Formosa, desaparecendo inteiramente 
desde que penetramos nas zonas húmidas 
de Goiaz. Frequente nas mulheres, ela afeta 
também os homens, em escala muito peque- 
na, e raramente ás crianças. Na linguajem do 
sertanejo, a crise manifesta-se por um batictim 
n■^ coração (palpitações), escurecimento da 
vista, e perda dos sentido?, com ausencia de 
contratura, convulsões, suores, gritos ou ge- 
midos. Pode a crise ser provocada por ''susto 
ou rancor", ou qualquer contrariedade, mas 
sobrevem constantemente independente de 
qualquer pretexto. 

Em regra geral, declaram os doentes 
peremptoriamente que não sentem, nem o 
desejo de gritarem ou de se debaterem. Não 
ha reação térmica, nem perturbação durante 
a crise, dos ritmos respiratorio e circulatorio, 
exceto nos primeiros momentos, em que ha 
palpitações cardiacas. A crise pode durar de 
minutos a horas. Cessada ela, volta a paci- 
ente aos seus afazeres, sentindo apenas uma 
certa lassitude ou enlanguecimento geral. Em 
geral, o doente conserva a memoria e é rela- 
tivamente frequente, o numero de enfermos 



que, embora sem poder falar ou mover-se, 
ouve o que se passa em torno, conservando 
mesmo certa sensibilidade. 

Casos ha em que não ha perda dos sen- 
tidos, apenas da fala e dos movimentos. 
Outros ha, raros porém, em que sobreveem 
paresias ou paralisias temporarias de um ou 
mais membros, cfue perduram desde horas 
até mezes, desaparecendo afinal independen- 
tes de qualquer tratamento. Ha também os 
casos benignos em que a crise se limita a 
uma vertijem passajei-^a. Raro o portador 
desse mal que se não queixa da caseira (cons- 
tipação intestinal), agravando-se ou repetin- 
do-se as crises quando mais intensa a cons- 
tipação. Essa manifestação mórbida de forma 
crónica tem enorme extenção, verdadeiro ca- 
rater epidémico nas zonas secas por nós 
percorridas, nos municipios de Petrolina 
(Pernambuco) e S. Raymundo Nonato, Par- 
naguá e Corrente, (Piauhí), onde seguramen- 
te mais de 50 o/o das mulheres que nos pro- 
curaram, queixaram-se do "vexame", á que, 
aliás, não ligam grande Importancia, por ser 
um mal "corriqueiro" e que não mata, dizení 
elas. 

É muito disseminado entre as mulheres 
do Nordeste, o habito de cachimbar e de 
j mascar o fumo, chegando muitas delas a 
I dormir com um pedaço de fumo {masca) na 
j boca, a ponto de acordarem ás vezes, quasi 
j sufocados pela mistura do fumo com a sali- 
va. Ocorreu-nos a idea de atribuir esse estado 
vertijinoso, mais ou menos intenso, á intoxi- 
cação pelo tabaco. No em tanto vimos o 
mesmo habito de mascar e cachimbar larga- 
mente espalhado entre as mulheres da classe 
baixa do mterior de Minas, sobretudo no 



140 



îiorte do Estado, onde um de nós (B. Penna) 
permaneceu tres anos, e nunca a nossa atenção 
foi despertada por esse fato, porque não nos 
Íembra ter sido consultados uma uníca vez 
para tal afeção. 

Mas nessa niesma excursão no nordeste 
em que, sem exajero, mais de 50 % das 
consultantes das zonas secas, acusam essas 
crises, foi ela diminuindo até desaparecer ao 
penetrarmos nas rejiões húmidas de Qoiaz, 
onde é também inveterado entre as mulheres 
o pernicioso habito de mascar e cachimbar. 
Além disso, é universal o uso e o abuso do 
fumo, colossal a bibliografia sobre as suas 
consequências, e nada se encontra de seme- 
lhante a essa manifestação mórbida por nós 
verificada no nordeste. 

Rara é a mulher no nordeste (nas re- 
jiões por nós percorridas), que se não queixe 
de perturbações ovarianas, dismenorréas. 
irregularidade de menstruação, sendo quasi 
todas "desmanteladas^^ na sua linguajem pito- 
resca. Isso é, porém, um fato banal nas 
baixas camadas do Brazil, desde o Amazonas 
ao Rio Grande do Sul. Essas perturbações 
não impedem, porém, a concepção, e as mu- 
lheres do nordeste são muito prolificas. Não 
nos parece que se possa classificar o vexame 
como uma névrose uterina. Pelo seu carater 
epidémico, limitado ás rejiões mais secas por 
nós percorridas, é bem possível que se trate 
duma afeção nervosa de etiolojia ignorada; 
bastando lembrar que ha homens atacados 
do mal, para que tal hipótese seja excluida. 
Fizemos inúmeros exame de sangue, inocula- 
ções deste em préas, sempre com resultados 
negativos. Também fizemos exames de fezes, 
onde encontrámos os parásitos comuns. Não 
tivemos, porém» oportunidade de praticar 
autopsias e colher material para estudos em 
laboratorio Os nossos exames resent iam-se 
de deficiencias proprias duma excursão com 
prasos limitados. Essa afeção que não pode- 
mos determinar, não apresenta gravidade e 
mulheres ha, de idade avançada de 60 a 70 
anos, que dele sofrem ha 20, 30 e mais 
anos. 



Citam-se raros casos fatais durante a 
crise, e esses podem ser devidos a outras 
causas. 

Fato muito interessante que convém as- 
sinalar, é a concomitancia, nessas parajens, 
do vexame ou vexame do coração, peculiar ás 
mulheres das zonas secas, com essa outra 
manifestação nervosa, mais peculiar aos 
homens, a disfajia espasmódica, ali denomi- 
nada entalo, entalação, e em Minas, mal de 
engasgo, já descrito, em outro capitulo. Nas 
poucas familias, em que não existe uma 
dessas manifestações, também não existe a 
outra. No entanto, não encontrámos uma só 
familia em que, havendo um ou mais entalb- 
dos, em regra homens, não houvesse mulhe- 
res e homens, ás vezes, acusando o vexame 
e vice-versa. 

Em uma e outra dessas manifestações, é 
constante a caseira (constipação intestinal) e 
as crises são agravadas com a intensidade da 
constipação. As rejiões mais abundantes de 
entalados o são também de pacientes do 
vexame; onde escasseia um mal, escasseia o 
outro. Uma e outra afeção aparece súbita- 
mente, manifcstando-se muitas vezes em 
idade já avançada. Qualquer delas, porém 
surje em geral depois dos 20 anos de idade. 
Uma e outra ataca raramente ás crianças, 
sendo que o mal de engasgo ou entalação 
sob esse ponto de vista, é mais frequente. 
Tivemos ocasião de ver tres crianças (9, e 7 
anos e outra de 6 mezes) sofrendo de enta- 
lação, entre elas, um lactante e apenas uma 
de vexame. Raramente um mesmo individuo 
apresenta as duas manifestações. Ha, porém 
casos desses, tendo nós ocasião de observar 
dois entalados que sofriam também do vexa- 
me. O vexame é frequente nas mulheres, a 
entalação nos homens, mas uns e outras, 
embora em pequena proporção, apresentam 
também o mal peculiar, a cada um àot 
sexos. 

Vimos uma familia de 6 membros; pai 
mãe e quatro filhos (2 casais) em que o pai 
e os filhos sofriam de entalação e a mãe e 
as filhas do *'vexamé\ 

Familias ha, em quç ajíenas um ou dois 
dos seus membros «sofrem de um ou do 



I4Î 



outro mal. O que, porém, frequentemente 
ocorre, é a existencia de vario casos de um 
e do outro mal, com predominancia da enta- 
lação nos homens, e do ^^vexamé' nas mulhe- 
res. É maior a proporção dos homens ate- 
tados de vexame, do que de mulheres ata- 
cadas de entalação. 

Feias nossas observações, entre os do- 
entes examinados, a proporção daqueles é 
de cerca de 10 o/o, e de 3 o o apenas a das 
mulheres em relação á entalação. Apezar da 
concomitancia assinalada, acreditamos, no 
entanto, que cada uma dessas manifestações 
seja afeção á parte. Além de clinicamente 
serem manifestações diferentes, sabemos da 
existencia, em Minas, do mal de engasgo, 
sem a minima referencia até agora ao "ir.va- 
me" e nós mesmos, encontramos dezenas de 
casos do mal de engasgo no nosso extenso 
trajeto pelo Estado de Goiaz, sem observar 
um único c^so de vexame. 

Sem nada podermos afirmar por defici- 
encia de tempo, de elementos e de conheci- 
mentos especiais, aqui deixamos essas obsei- 
vações para que os neuropatolojislas e os 
estudiosos, com mais elementos, possam 
resolver o assunto. Acreditamos ser um fato 
de grande interesse cientifico o estudo da 
afeção que denunciámos. Nos livros e nas 
revistas que consultámos, nada achamos que 
pudesse ser identificado com o vexame do 
coração. Comtudo no ano LXI No 2, pp. 60- 
64 da "Muencli. AU'd. Wochenschr." de Ja- 
neiro de 1914 ha um artigo firmado por 
LEBER, A. e VON PROWAZEK e intitulado 
"C/íitnot manenghrng hálm-tans {Die halte 
Waldkrankhcit der Chamosro)'^ onde os au- 
tores descrevem um mal que, máo grado 
algumas discordancias, apresenta analojia 
com o vexame do coração" do sertão do 
nordeste brazileiro. Trata-se de enfermidade 
que começa na adolescencia, e se carateriza 
por subito ataque de inconciencia, ás mais 
das vezes quando as vitimas se acham tra- 
balhando no mato ; daí o non^e dado pelos 
naturais das ilhas dos Ladrões e Marianas^ 
onde a molestia foi observada, de ^'molestia 
fria da mata^', e atribuida aos espíritos que 
as frequentam. Os ataques variam de alguns 



minutos a 24 horas e a regra é não haver 
convulsões, as quais no entanto, podem 
algumas vezes ser observadas. Em geral apa" 
rece uma aura tomando a forma de figuras 
ou mesmo de sensações volutuosas. Os 
casos parecem ser observados somente entre 
homens e rapazes (justamente o contrario 
do que se verifica no nordeste). Os autores 
relatam 5 casos e dão excelente bibliografia. 
São de opinião de que a molestia apresenta 
analogias com a epilepsia e com o Amok da 
Malaia. 

OBSERVAÇÃO L 

Caracol, 24-5-912 

A. P.— 21 anos, branca, casada -Consti- 
tuição dcbil. Ha cinco anos teve o primeiro 
ataque. Desde então, esses têm-se repetido, 
ora a miúdo ora espaçadamente, tendo havi- 
do já um ano de intervalo. A crise se mani- 
festa por formigamento nos pés e mãos, 
palpitações e vertijem, ora passajeira, ora 
prolongada por meia hora, sem gritos, nem 
convulsões e contraturas. Passada a crise, 
bebe um pouco d'agua e volta a seus afa- 
zeres. Menstruação normal. Queixa-se de 
insónia, inapetencia e constipação. Aparelhos 
circulatorio e respiratorio normaes. Tiroide 
normal. Tem uma filha de 2 anos de idade. 
Não teve outro parlo antes ou depois desses, 
nem abortos. O pae e um »rmão são vitimas 
da entalação. 

OBSERVAÇÃO II. 

Caracol. 31-5-916 

C, J. da S. -24 anos, nacido e residente 
em "Jurema" a seis leguas de Caracol. Tem 
crises frequentes, dizendo sentir um baticúm 
no coração (palpitação), vista escura, queda 
com perda dos sentidos, sem grito, ne<u 
convulsões, tal qual a crise conuim nas mu- 
lheres. O pai, homem robusto, sofre de enta- 
lação ha mais de 20 anos e conta atualmen- 
te 61 anos de idade, Queixa-se somente de 
caseira (constipação). 

É um homem de altura acima da media- 
na, de constituição robusta, sem antecedentes 



142 



sifilíticos. Ritmo cardiaco normal, e normal 
o aparelho respiratorio. 

OBSERVAÇÃO III. 
Caracol, Maio 912 
M. G. -22 anos solteira. Teve a primei- 
ra crise ha dois mezes, sobrevindo inespera- 
damente quando em conversa natural com 
parentes, sem ter tido '*susío ou rancor'\ 
sentiu o "vexame do coração", a vista escure- 
ceu e perdeu os sentidos, sem gritos, nem 
debater-se e assim permaneceu cerca de uma 
hora. Quando voltou a si, sentia esmoreci- 
incnto e cansaço. Depois d'essa, teve já outra 
crise completa. Antes, porém, já sentia o ve- 
xame, sem comtudo perder os sentidos, 
regras irregulares - Dorme e alimenta-se re- 
gularmente. Constipação lijeira. Tiroide e 
aparelhos circulatorio e respiratorio normais, 
bem assim o baço e o fígado. O pai e um 
lio sofrem de entalação. A mãe de nada se 
queixa. 

OBSERVAÇÃO IV. 
Caracol, Maio 912 

M. T. da C, 25 anos, cabocla, casada ha 
5 anos. Tem tido cinco abortos de 1 a 3 mezes. 
Emquanto solteira, tinha saúde perfeita, 
tendo tido a primeira crise um ano após o 
casamento. As crises repetem-se ás vezes, 
duas, e trez vezes num mesmo dia, bastan- 
do para provocal-as a menor contrariedade 
ou susto. Essas se manifestam pelo modo já 
descrito e duram ás vezes horas. Nós pro- 
vocámos uma crise nessa doente, a qual 
durou 1 hora. Esse é um caso mais grave 
do que os observados até então. A paciente 
tem os reflexos rotulianos muito fracos, e 
paresia nos membros superior e inferior do 
lado direito. Dismenorréa, caseira e cefalalji- 
as repetidas. Diz, no entanto, que se alimen- 
ta regularmente e não sofre de insónias. 
Tiroide normal, bem como os sistemas cir- 
culatorio e respiratorio. 

OBSERVAÇÃO V. 
Caracol -Junho 1912 
C. M.-29 anos, casada ha tres anos. 
Teve um parto a termo e um aborto. Sofre 



do vexame desde solteira, de que também 
sofria a mã» já falecida, e ainda sofrem duas 
irmãs. O pai é um entalado. Não sofre de 
caseira (constipação). Mulher robusta, com 
todos os aparelhos normais. 

OBSERVAÇÃO VI. 
Batalha -Junho 1912 (Piauhí) 

M. de J.-24 anos, parda, casada sofre 
do vexame desde os 14 anos de idade. Essa 
porem, não perde os sentidos, porque diz 
que durante a ciise ouve e vê o que se passa 
em lomo, perdendo porém a fala e os mo- 
vimentos. Queixa-se apenas de dismenorréa 
e constipação. 

E mais ou menos o assim, são os nu- 
meroso casos por nós observados. 

Impaludismo 

A malaria por certo constitue o maior 
flajelo das zonas secas ; ao chegarmos a 
Joazeiro em fins de Março, o impaludismo 
grassava intensamente, prevalecendo as 
formas de 3ã maligna e benigna; não obser- 
vámos nenhum caso de quartan. 

Felizmente, porém, mesmo casos clinica- 
mente graves, cediam facilmente ao emprego 
de doses pequenas de cloridrato de quinina 
(0,50-1,0 grama por via gástrica). A popula- 
ção não tem a menor noção sobre as vanta- 
jens deste alcaloide e ali somente encontrá- 
mos empregado escassamente, o denominado 
comercialmente, sulfato de quinina, justa- 
mente o sal de menor valia pela pequena 
percentajem que contem do alcaloide. No 
único hospital existente, grande casarão 
apenas internando 12 doentes, devido á 
carencia de recursos da municipalidade e, 
desprovido de qualquer iiistalat^ão aperfeiçoa- 
da, examinámos o livro desde o seu inicio 
e verificámos grande numero de entradas 
assim rotuladas ''entrou moribundo" o que 
interpretámos como injpaludismo ; aliás sur- 
preendeu-nos o pequeno numero de pessoas 
rejistradas sob qualquer rubrica que desig- 
nasse malaria, fato em contraste do que es- 
távamos observando e cuja explicação, só 
pôde ser feita peto desconhecimento ainda 



143 



existente entre doentes e medicos, de que o 
calefrio inicial possa deixar de existir, como 
observámos em Xerem, em muitos casos de 
terçan maligna diagnosticados ao microscopio. 

A medicação especifica, somente é utili- 
zada em casos de desespero, e, mesmo 
assim, além de empregarem o sal o mais 
improprio, fazem-no em doses insuficientes. 
Como em varias partes do Brazil, observá- 
mos a grande repugnancia que pessoas do 
povo têm pela quinina a qual, naquelas 
parajens, tem o seu emprego dificultado pelo 
alto preço ; pois, é vendida a 500 rs. cada 
30 centigramas e que constitue um "purgan- 
te de quinino" o qual, é pesado com 37 
grãos de pimenta do reino, conforme a dose 
seja simples ou dupla. 

Pode-se bem avaliar pelo modo atraza- 
do de se pezar o medicamento e ainda mais, 
pela denominação de ^'dose dupUû\ que é 
da-1a a 0,60 centigr. de sulfato de quinina 
comercial de pureza duvidosa, como, a única 
medicação eficaz para a malaria, é pouco em- 
pregada. 

Em geral, as pessoas do povo tratam-se 
com infusões feita com a ilôr ou folhas "da 
catinga de porco e de casca do joazeiro e, 
sobre o mal, nutrem erróneos preconceitos, 
como o de não se beber leite, quando se 
está inipaludado. Este desproposito é usado 
mesmo entre pessoas cultas, e os inconveni- 
entes resaltam ao se pensar que as crianças 
são impedidas do uso de dieta láctea, a qual 
é substituida por outra proveniente da ali- 
mentação ali em uso, aliás já de si tão im- 
perfeita. 

As ideas quanto é etiolojia da malaria 
são das mais primitivas; neste partircular as 
populações das rejiões secas não fazem 
exceção ao modo de pensar generalizado 
nas camadas populares de toda a nação; ali, 
como alhures, são as frutas locais as produ- 
toras da malaria ; nem remotamente é sus- 
peitada a influencia culicideana do mal, fato 
que não é de admirar porquanto, com raras 
exceções, os poucos medicos encontrados 
naquelas zonas não lhe dão credito ou a 
ignoram. 

Comtudo, instintivamente as grandes co- 



leções d'agua, permanecem deshabitadas, 
observação que muito surpreende ao viajante 
daquelas rejiões semiaridas, o qual, ao se 
informar das razões que ditam tal procedi- 
mento, tem como resposta ser tais sitios aban- 
donados devido ás sezões. Qualquer que 
partindo da vila de Caracol com destino á 
Parnaguá no Piauhí, poderá verificar o que 
dizemos: as lagoas da Missão, Ibiraba, Tabo- 
cas e o lugar denominado I pu eras têm as 
suas marjens oeshabitadas, porque os mora- 
dores fojem ao impaludismo; no que ha 
razão, porquanto mesmo em Junho as C. ar- 
gyrotarsis são muito abundantes; verificándo- 
se também que, o municipio de Parnaguá, 
pelo fato de possuir agua em maior profu- 
zão, a malaria é mais a húndante que no do 
S. Raymundo. 

Esta questão é de grande importancia 
para a Inspetoria de Obras contra as Secas, 
pois se prende ás consequências decorrentes 
das instalações dos grandes açudes, os quais, 
instalados nas proximidades dos centros de 
população, poderão incrementar o impaludismo, 
se não forem tomadas medidas que atenuem 
em alto gráo o impaludismo, podendo-se até 
evital-o se, porventura, certas providencias 
forem executadas rigorosamense. 

Em certa escala, podemos observar o 
que dizemos no açude em construção na 
vila de S. Raymundo Nonato, onde o nume- 
ro de operarios ali em trabalho, em numero 
superior a 100 estava acometido de impalu- 
dismo, na proporção de 60 o/o pela obser- 
vação que fizemos entre 3 a 20 de Maio. 
Entre o dilema de se fornecer agua, onde 
escassamente existe, e o de acarretar com 
isso, certo desenvolvimento da malaria, mo- 
lestia evitável e curavel, ninguém hesitará. 
Sem duvida, as medidas profiláticas trarão 
certo aumento de despezas, mais algum dia 
virá em que a Nação compreenda finalmente 
a necessidade de amparar mais eficazmente 
zonas ate ha pouco, iniquamente abandonadas 
pelos poderes públicos. 

As medidas que aconselhariamos, são as 
que se seguem, ditadas pelos conhecimentos 
da biolojia dos transmissores por nós encon- 
trados. Das especies de anofelinas, ali por nós 



144 



verificadas, somente contra duas tem que se 
voltar a attnção da In&petoria. Referimos-nos 
ás Cellia ar^roíarsis ROB. DESV. e CeUia 
albimana WIED; estas são as únicas respon- 
sáveis pelo impaludismo em toda a rejião 
percorrida; encontrámos ora uma, ora outra, 
por toda a parte onde houvesse agua cor- 
rente ou parada ; das marjens do S. Francis- 
co á Capital de Goiaz, com exceção d'alguns 
tractos do terra desabitados. A CeUia argyio- 
íarsis é a especie transmissora por excelencia 
naquelíis parajens. A primeira CeUia albima- 
na WIED, foi apanhada em 21 de Maio de 
1912, em Caracol. Aliás, a especie em questão 
pelos desenhos dos palpos deve ser iden- 
tificada á Cellia tarsimaculata GOELDI, 
segundo o criterio dos autores norte-ameri- 
canos. Nos rios correntes, as larvas desen- 
volvem-se nos remansos, junto ás marjens, 
nos lugares onde se acumula a vejetação 
aquática e nas poças deixadas pela vazante 
o que multiplica os focos e que fazem irromper 
as epidemias pelo grande desenvolvimento 
de transmissores. Em qualquer coleção d'agua 
parada, chame-se ela cacimba, caldeirão, 
tanque e quejandos outros nomes, as larvas 
das anofelinas citadas, podem-se desenvolver. 

GORGAS, no Panamá, poude estudar a 
relação entre o numero de estegomiias e a 
produção dos casos de febre amarela; pra- 
ticamente, é necessário um total elevado 
destes insetos, para que alguns mosquitos 
possam infetar um homem; do ovo a 
imajem, qualquer culicina tem que vencer 
múltiplas causas de destruição. 

ROSS, no trabalho intitulado The preven- 
tion of Malaria, 1910, ccupa todo o capitulo 
50, a estudar as leis que regulam o aumento 
da malaria em dada localidade. São mais de 
100 pajinas, onde o autor passa em revista 
os estudos anteriormente feitos por outros 
pesquizadores e, cujos resultados, são expres- 
sos por formulas aljebricas, pois a tanta pre- 
cisão atinjiu o estudo da epidemiolojia palú- 
dica. 

Simultaneamente com o trabalho de 
ROSS, aparecia na revista Biometrika Vol. 
Vil, Part. IV, o artigo de H. WAITE intitu- 
lado "Mosquitoes and malaria. A study of 



the relation between the number of mosquitoes 
in a locality and the malaria rate, cujas con- 
clusões se formulavam de modo análogo ao 
enunciado no trabalho de ROSS; trata-se, 
portanto, dum assunto conhecido ao abrigo 
da instabilidade das hipóteses e presunções. 
Não é dificil acompanhar as formulas 
de ROSS enunciadas em duas importantes 
equações: a primeira é chamada formula de 
variação e indica a maneira pela qual a ma- 
laria varía em dada localidade: 

m i=:m-{-b'^ sia (l-m) m-nn 

Na equação, m; é a proporção de infe- 
tados no começo da pesquiza; a a proporção 
de anofelinas para cada pessoa; r a média 
da cura; b a proporção de anofelinas que se 
alimentaram em pessoas; s a proporção de 
anofelinas nas quais os parásitos conseguiram 
desenvolver-se; / a proporção dos casos por- 
tadores de gametos; m' a proporção de in- 
fetados no fim do periodo de pesquiza {in- 
quiry). 

A segunda formula é denominada for- 
mula estática e representa o final ou o nível 
estático M, para o qual a porção de iníetados 
cai, conforme a proporção de anofelinas e 
os outros fatores permaneçam mais ou 
menos constantes. 

A formula estática é a seguinte : 

M=^l- ■/■ 

¿>2 sia 

Os valores numéricos exatos de b, s, i 
não afefam a validez das equações acima. 

Um solo impermeável em certas condi- 
ções de nivelamento, com uma maior super- 
ficie de agua, tende a aumentar a, numero 
de anofelinas. O aumento das chuvas não só 
aumenta o numero de mosquitos, como ainda 
as recidivas, aumentando portanto o fator b 
e reduzindo o fator r. Aumento da seca 
pode reduzir r e reduz muito a; o aumen- 
to de temperatura ocasiona aumento de 
todos os fatores com exceção do /';estiajens 
muito prolongadas reduzem de muito os fa- 
tores a, b, s, podendo aumentar /. 

Quando as secas flajelam alguns anos 
sucessivos, quasi todos os valores ficam ex- 
tremamente reduzidos; o valor / aumenta 



145 



todavia nos anos de invernos rigorosos com 
chuvas excecionais, os fatores a, b, s, ficam 
muito reduzidos, ha aumento do fator /. 

Ainda sobre esse assunto, encontra-se 
no vol. 50- No 18 pp. 877-878, Out. 1911 no 
"'Medical Record" de Nova York excelente 
artigo de STEDMAN intitulado "Malaria 
and mathematics". 

Nos açudes, a profilaxia teni que visar 
o combate ás larvas de anofehnas e feliz- 
mente as medidas a ser tomadas são de 
sobra conhecidas. Em geral as anofelinas 
tem hábitos diferentes, já conhecidos pelos 
trabalhos de entoniolojistas de varios paizes, 
comtudo, alouns fatos da biolojia destas 
larvas são uniformes e encre estes se en- 
contra o modo de flutuar em posição hori- 
zontal; deste fato orijinou-se a profilaxia 
preconizada por H. P. JOHNSON e publi- 
cada em 1902, em apêndice, no Annual Rept. 
Ne\v Jersey Agrie. Exp. Sta, sob a direção de 
J. B. SMITH, a qual consistia em cobrir a 
superficie d'agua com plantas pertencentes 
ás Lenvwceae; 2 anos depois ADIE fazia a 
apolojia dos resultados obtidos na índia com 
a aplicação da Lenina minor (Ind. Med. Gaz. 
Vol. 39 No 6-1904 e P. HEH IR in Prophy- 
laxis of malaria in India 1910 e BENTLEY 
no artigo The natural history of Bombay 
malaria (Journal Bombay Notur. Hist. Soc. 
Vol. 20, pp. 392-422—1910), continuavam a 
preconizar o emprego não só da Lemna e 
Wolffia, como ainda de outra planta aquati- 
tica da familia Salviniacea e pertencente ao 
genero Azolla, cujo emprego na profilaxia 
anti-larvaria fora lançado pelo Posto Palúdico 
de Wilhelmshaven. 

O emprego destas plantas, é baseado 
no fato do crecimento se operar de modo 
intenso e apresentando tal contiguidade que, 
toda a superficia liquida, fica coberta por um 
verdadeiro manto de verdura, circunistancia 
que impediria a respiração larval e portanto 
acarretando a morte por asfixia. 

No Estado Piauhí mais de uma vez, ti- 
vemos a oportunidade de encontrar colcções 
d'agua revestidas pelos representantes da 
Wolffia, mas quer ali, quer em outra parte, 
somente raras vezes dá-se um revestimento 



completo sem solução de continuidade ; com 
os representantes do genero Azolla, já o re- 
vestimento não é tão perfeito pois estas 
plantas necessitam de sombra, afim de se 
desenvolverem. 

As experiencias realizadas pelo Dr. 
COSTA LIMA, a respeito da evolução de 
larvas, completamente mergulhadas e impedi- 
das de respirar e que mesmo assim algumas 
conseguem se transformar em adultos, tiram 
qualquer valor aos métodos profiláticos ba- 
seados no emprego das referidas plantas. 

Muito vulgarizado e preconizado, é o 
emprego da destruição larvaria obtida pelos 
peixes e, a este respeito, a lista de trabalhos 
publicados é enorme; mas para um fato 
queremos chamar a atenção; o emprego 
deste meio de destruição somente dá resul- 
tados com larvas de culicinas; com as larvas 
de anofelinas devido á posição que ocupam 
n'agua, os resultados são completamente 
falhos. Disto tivemos sobeja prova no decur- 
so da excursão, cujos resultados estamos 
expondo. Certa vez, ao anoitecer, acampámos 
á marjem de certa lagoa e durante toda a 
noite, fomos supliciados atrozmente por ano- 
felinas exclusivamente. A abundância era tal, 
que o sono mal se podia conciliar e, apezar 
das nossas reiteradas pesquizas, não eonse- 
mos apanhar qualquer exemplar de outra 
especie que não a C. argyrotarsis. Ao ama- 
nhecer, fomos investigar as condições da 
lagoa e não nos foi possível encontrar um 
só larva de culicina, tendo ao contrario, con- 
seguido recolher muitas de anofeh'nas; a 
lagoa estava abundantemente povoada por 
peixes e, provavelmente, era devido a este 
fato, que se não encontravam larvas de cu- 
licinas ao contrario do que se observava com 
as larvas de anofelinas, as quaes escaparam 
á destruição, pela posição que ocupam á sur- 
perficie d'agua. 

Quando realizámos a campanha antipa- 
ludica em Xerem, ja fato análogo, observá- 
mos em certos sitios povoados por peixes e 
onde o numero de anofelinas era grande. 

No artigo "Some observations on the bio- 
nomics and breeding-places of Anopheles in 
Saint-Lucia, British West Indies (Bull, of 



146 



entom. Research, Vol. Ill, Part Ml -pp. 251- 
277 Nov. 1912) NICHOLLS publícaos resul- 
tados das suas observações e experiencias, 
exatamente sobre as rr.esinas duas especies de 
anofelinas observadas na nossa excursão. 
Colocando em lugares povoados por peixes 
sabidamente larvivoros, larvas de anofelinas 
e de estegomiias, poude verificar ao cabo 
de 36 horas, que só restavam as larvas 
de anofeiir.as as quais, pouco tinham sofri- 
do. Comtudo, as larvas de anofelinas só 
escapam em tão grande proporção a inimi- 
gos tão vorazes se, por ventura, elas se de- 
senvolvem em aguas contendo vejetação, 
mesmo que esta seja formadas pelas massas 
filamentosas de Splrogyra e outras Zygnema- 
ceae: nestas condições as larvas facilmente 
se ocultam e são por isso poupadas. 

Ora, qualquer profilaxia que se queira 
estabelecer nos açudes, tem que fatalmente 
atender a limpeza de toda e qualquer vejeta- 
alo que se desenvolva na sua superficie. É 
sabido, que as larvas de mosquitos principal- 
mente as de Anophelinae, não se desenvol- 
vem em lugares onde a massa d'agua 
seja profunda ; por isso, já a alguns metros das 
niarjens dos açudes, as larvas de mosquitos 
não são encontradas, a não ser que exista 
vqctação flutuante de qualquer natureza. 

Na lagoa de Parnaguá (Piauhí), "pode- 
mos estudar esta questão de modo perfeita- 
mente elucidativo ; as larvas de culícidas só 
se encon«ravam quando muito, a 2 metros da 
marjem, se porventura esta possuía vejeta- 
ção de gramíneas; era inutil procúralas além; 
mas se as marjens enconiravam-se cheias de 
Eichornia aznrea KUNTH ou de especies dos 
géneros Nymphéa SMITH ou mesmo da Ca- 
bomba piauhiensis G.^RD. formando cania- 
lotes que se prolongavam pela lagoa a dentro, 
podia-se com cuidado surpreender larvas 
de anofelinas que se protejiam sob as folhas 
ou aderiam a estas planta'^. 

Todo e qualquer açude sem vejetação ou 
detritos flutuantes, povoados por peixes, não 
constituirão de modo algum, focos de malaria ; 
a limpeza tem que ser mais escrupulosa nas 
proximidades das marjens. Ha anos, tive- 
mos a oportunidade de o'~,servar um grande 



foco das anofelinas em questão, em grande 
caixa d'agua pertencente á fabrica de Teci- 
dos Carioca no Jardim Botânico; aliás, na 
agua, não se via nenhuma vejetação mas, 
sobre toda a superfície se encontravam dis- 
seminados pequenos fragmentos de madeira 
que serviam de apoio ás larvas de anofelinas; 
não se conclua deste fato qne é impossível 
obter-se limpeza total da superficie dum açu- 
de; a simplçs limpeza parcial dá immensos 
resultados. 

A instalação dum posto antípaludico 
nas localidades onde houvesse medico, não 
nos parece difícil de se conseguir; tomemos 
para exemplificar, a cidade de Joazeiro onde, 
nas condições atuais, o impaludismo grassa 
em todas as partes da cidade. Não seria im- 
possível instalar ali um posto medico apro- 
veitando os elementos locais e, pelo que 
vimos, com relativa facilidade pode-se isentar 
da malaria a parte mais povoada da cidade. 

O Estado e o Município teriam o máxi- 
mo interesse em auxiliar tais medidas e, acre- 
ditamos que, os resultados não se fariam 
esperar. Tais medidas são hoje utilizadas 
em todas as rejiões palustres, não se tratan- 
do portanto de experiencia. A Argentina, 
neste particular, já vai muito adiante de nós 
e apesar de constituir federação com nm reji- 
me constitucional análogo ao nosso, o gover- 
no central teve meios de intervir nos Estados 
afim de fazer a profilaxia antipaludica; para 
isso, teve de fundar repartição autónoma á 
qual incumbe intervir em todos «^^ Estados 
onde grassa a malaria. Nós tivemos a opor- 
tunidade de assistir em Tucuman, o funciona- 
mento de um Posto Medico contra o impalu- 
dismo e, por isso, podemos bem aquilatar das 
suas vantajens. 

Em Joazeiro poder-se-ia fazer cousa aná- 
loga e, o Posto que funcionasse nesta locali- 
dade, socorreria também a cidade pernambu- 
cana de Petrolitia. Somos testemunhas das 
devastações ocasionadas pela malaria naque- 
las localidades e as medidas que propomos, 
são de facílima realização e relativamente 
pouco dispendiosas; além do estipendio dum 
medico, o posto teria que fornecer a quini- 
na gratuitamente e parece impossível que o 



147 



^Municipio, o Estado e a União não consigam 
fazer face a tais encargos tanto mais quanto, 
os sais de quinina poderiam ser diíetamente 
comprados no estraiijeiro. 

Quando se jmajina a heroica campanha 
travada pela a Italia e iniciada ha cerca de 
10 anos, com a utilização de todos os meios 
que a ciencia aconselha e realizada em esca- 
la jamais vista no mundo e, que apezar das 
grandes obras de engenharia sanitaria e do 
emprego de todas as medidas de profilaxia 
moderna mecânica e quimica, de todos os 
processos de propaganda e vulgarização das 
medidas preventivas em conferencias popu- 
lares, preleções -m todas as escolas publicas, 
instalação de extraordinario numero de postos 
medicos emfiin, um pequeno exercito de fun- 
cionarios de todas as categorias, dedicados 
excluzivamente ao serviço profilático e que 
apezar do emprego no ano de 1911 de 42 
toneladas de quinina viu morrer vitimados, 
psla malaria, quasi 5000 dos seus filhos, 
poder-se-ha então, talvez, imajinar qual a des- 
truição ocasionada pela malaria entre popu- 
lações vivendo ao Deus dará, em materia de 
assistência medica. Entre os impaludados 
do Joazeiro e S. Raymundo Nonato que, 
pelo numero, ofereciam maior campo de 
observação, podemos ainda verificar fatos 
bastante interessantes para o conhecimento 
da biolojia dos parásitos de malaria e do modo 
de se comportar em presença da quinina. 

No Xerem e em Itapura, onde estivemos 
encarregados da profilaxia antipaludica, des- 
pertou-nos a atenção, a curiosa circumstancia 
de ser justamente nos mezes em que a ma- 
laria atinjia ao auje, que se verificava a au- 
sencia de gametoforos, afirmação que a se 
demonstrar, estaiá em desacordo com o modo 
de ver exclusivista atual, o qual, exije a pre- 
sença obrigatória de portadores de gametos, 
afim de se operar o ciclo de ROSS em todas 
as suas clássicas fazes. 

Em Joazeiro e S. Ray mundo, observamos 
o mesmo fato; todos os impaludados subme- 
tidos a exame microscópico, somente possuí- 
am hematozoarios em estádio esquizogonico. 
Se isto se verificar como regra, forçosa- 
mente temos que admitir que os mosquitos 



transmissores, possam veicular a malaria in- 
dependente das formas sexuadas no sangue. 
A nossa observação em varias partes do 
Brazil, tem colhido elementos suf'cientes para 
nos trazer a convição que de fato isto acon- 
teça. 

Outro ponto interessante, é o relativo das 
raças de hemotozoario resistentes á quinina, 
assunto de que se já nos ocupamos em tra- 
balho anterior, publicado nas Memorias do 
instituto Oswaldo Cruz. Nessa publicação, 
afim de explicarmos fatos numerosos e pa- 
tentes, da resistencia adquirida pelos hemato- 
zo irios contra a quinina, nós acreditávamos na 
possibilidade da resistencia ao alcaloide se 
efetuar no ciclo exojeno do parasito. 

. NOCHT e WERNER do instituto de 
Medecina Tropical de Hamburgo, em traba- 
lho posterior ao nosso, admitindo as raças 
de hemotozoarios quinino-resistentes, pel.i 
observação de alguns doentes provenientes 
do Mamoré e por eles observados, interpre- 
tavam o fenómeno da resistencia como de- 
vendo se operar no próprio ciclo endojeno 
do Plasmodium. Os fatos observados em Jo- 
azeiro, levam-nos a crer que a verdade este- 
ja dos 2 lados porquanto, em alguns casos 
por nós observados no Xerem, individuos 
houve que, apenas ali dormiram uma única 
noite, e que no entanto se infetaram apezar 
de quinizados, demonstrando isso que, a 
forma inicial de heniatozoario, lançada no 
sangue pela anofelina transmissora, já se 
achava quinino-resistente, porquanto não era 
destruida pelo alcaloide dado profilaticamente. 

A grande eficacia e rapidez de ação de- 
monstrada pela quinina; em doentes seria- 
mente enfermos e que certamente no sul do 
paiz, exijiriam o emprego de maior dose de 
alcaloide, trcuxeram-nos a convição de que, 
a quinino-resistencia, também se efetue no 
ciclo esquizogonico; a facilidade em se debe- 
lar o mal ali, só se poderá explicar pela de- 
zuso, já por nós referido, dos sais de quini- 
na naquelas parajens. Admitindo-se esta hi- 
pótese, pode-se compreender que, individuo 
infetado, tratado com doses insuficientes de 
quinina, os hemotozoarios que não morreram, 
estejam aptos a apresentar em presença do 



148 



alcaloide, certa resistencia a qua! será cre- 
cente caso, as doses empregadas continuem 
a ser diminutas. 

Na zona do S. Francisco, é considerada 
enorme, a dose de 0,60 gr. de sulfato de 
quinina comercial, sal dos mais pobres em 
alcaloide ; nós prescriviamos de urna só vez, 
urna grama de doridato em duas capsulas e 
mais uma de 0,50 para 8-10 horas depois de 
injeridas as primeiras; os resultados eram 
extraordinarios, mesmos em casos reputados 
graves. 

Ora, no sul do paiz ou melhor, em certas 
zonas, onde por força das circumstancias o 
uso de quinina rapidamente se vulgariza, 
como por exemplo entre trabalhadores das 
estradas de ferro, que a si próprios se medi- 
cam, pode notar-se ao cabo algum tempo, en- 
fermos de malaria rebeldes ao tratamento 
especifico e o facultativo verá que, a dose 
terapêutica, a principio empregada com todo 
o êxito, foi aos poucos sendo insuficiente ha- 
vendo necessidade de se aumentar não só em 
quantidade, como ainda em duração, paten- 
teando isto, a possibilidade do próprio enfer- 
mo estabelecer, por meio dft doses de quini- 
na a principio pequenas e tomadas durante 
pouco tempo, raças de hematozoario resisten- 
tfs ao alcaloide, mesmo empregado em doses 
consideradas toxicas. 

Não se depreenda que, de aigum modo, 
(|iieirarnos aplaudir a escassez do uso da 
quinina naquelas rejiões ; ao contrario, os 
c;isos de resistencia á quinina são relativa- 
mente pouco numerosos e em geral, só se 
observa em condições especiais de quiniza 
são intensa, em serviços onde uma profilaxia 
antipaludica enerjica se impõe. Fora disto, os 
casos quinino-resistentes, embora não possam 
ser considerados excecionais, são sem duvida 
raros. 

Tuberculose 

Este flajelo é muito mais abundante nos 
sertões do que geralmente se pensa; ao mi- 
croscopio, podemos por varias vezes diagnos- 
ticar o mal. 



Sífilis 

E' certamente ainda mais generalizada 
que nos centros populosos do paiz; existe 
em larga escala nas parajens mais afastadas 
da estrada de ferro; o grande numero de abor- 
tos é explicável pela quantidade de luéticos. 

Bouba 

De algum modo, sorpreendeu-nos a au- 
sencia deste mal que esperávamos encon- 
trar muito abundante. Os 2 únicos casos 
vistos e cujos esf regaços foram diag- 
nosticados empregando-se o método de 
BURRI, foram observados no Estado de 
Goiaz no trajeto da vila Duro á cidade de 
Porto Nacional ; pelas informações soubemos 
ser a bouba mais abundante ao norte da re- 
jião que percorriamos. 

Lepra 

Não tivemos oportunidade de obser- 
var um só caso nos Estados da Bahia, Per- 
nambuco e Piauhí, embora os moradores 
algumas vezes se referissem á sua presença 
que deve ser considerada rara nas rejiões 
percorridas destes Estados. Fomos encontral-a 
no Estado de Goiaz, rara na parte norte, 
mais abundante no sul do Estado, principal- 
mente entre a cidade de Goiaz e Anhanguera 
onde, pelas informações colhidas, parece ser 
relativamente comum. 

Leishmaniose 

Em todo o percurso, não verificámos 
um só caso, embora tivéssemos a nossa 
atenção especialmente voltada para o as- 
sunto, porquanto não encontrávamos o 
Phlebotomus, a cuja ausencia ligávamos 
grande interesse, pois somos dos que crêm 
iiã transmissão da molestia por aquele díp- 
tero. De modo que, procurávamos verificar 
atentamente se a ausencia do suposto trans- 
missor se relacionava ou não com a leish- 
maniose. Em todo o trajeto, só conseguimos 
capturar 3 exemplares de Phlebotomus^ 1 num 
buritizal dos ''gerais" bahianos e 2 nas 
matas proximo á cidade de Goiaz. Soube- 
mos comtudo por informação de varias pes- 



149 



soas da existencia da ^^ ferida brava'* no ex- 
tremo norte de Goiaz, de Pedro Afonso para 
o norte, onde as ^'tatuquiras" , nome vulgar 
dos flebótomos ali e na Amazonia, são 
muito abundantes. 

Molestia de HEINEMEDIN 

Verificámos 3 casos, 1 em Petrolina (Per- 
nambuco) e 2 na Capital de Ooiaz e, pelas 
informações dos medicos, soubemos da sua 
existencia em Joazeiro. 

Difteria 

Pelas informações verificamos a exis- 
tencia do mal em varias localidades; o tra- 
tamento soro terapico, mesmo em lugares 
onde se encontram facultativos, quasi não 
é empregado ; é conhecida pelo nome de 
garroUlho. 

Fil ariose 

Observamos apenas 6 a 8 casos de elefan- 
tiasicos em transeuntes da Capital da Bahia; 
esta afeção está certamente decrecendo na- 
quela cidade, em todo o resto do percurso 
não tivemos oportunidade de verificar neuhum 
outro caso. 

Carbúnculo 

Em consequência deste mal atacar 
frequentemente o gado, principalmente o 
caprino onde ele existe, os acidentes de 
infeção humana são relativamente comuns. 
Em geral, as pessoas do povo conhecem-no 
pela corrutela de '^^crabunco" o qual diferen- 
ciam em preto e branco, conforme a pústu- 
la SC apresenta roxa ou um pouc(» mais 
avermelhada. A contaminação se efetua pela 
retirada do couro do animal ^^pesteado" 
o qual é aproveitado para exportação; em 
toda a parte essa pratica é seguida, exceto 
na vila de Duro, onde animal é completamente 
despresado. Outras vezes o individuo se con- 
tamina ao preparar a matolotajem com a 
carne do animal aparentemente sadio ; nesses 
casos, vê-se evidentemente que, o animal es- 
tava atacado de uma forma intestinal do 
carbúnculo. Os vaqueiros são os mais aco- 



metidos o que é explicável; o numero de 
casos de morte por carbúnculo são, segundo 
as informações, bastante elevado. As noções 
sobre a contajiosidade são infelizmente erró- 
neas e na vila de Parnaguá, narraram-nos 
o triste episodio dum individuo que, ao saber 
que uma rez falecera carbunculosa, não se 
arreceiou de utilizar-se da carne depois de 
muito a ter esfregado com alho o qual, em 
todo o sertão é tido como possuidor de ex- 
traordinarias virtudes antiseticas, dias depois, 
o desgraçado falecia carbunculoso. 

Disenteria 

Como quasi todas as molestias, este 
mal é comum apenas no ''verde" como 
ali se designa o periodo chuvoso; in- 
clinamos-nos a acreditar que a afeção descri- 
ta pelos moradores só se poderá relacionar 
com a disenteria bacteriana, porquanto, nas 
centenas de pessoas de todas as idades 
cujas fezes foram examinadas, nunca verifi- 
csnios a presença de amebas. Por isso supo- 
mos que a disenteria amcbiana deva ser rara 
pois, nem portadores de amebas íopam encon- 
trados, o que provavelmente aconteceria se 
de fato os rizopodos em questão, fossem os 
responsaveii pelas formas disentéricas des- 
critas pelas habitantes. Tão pouco têm sido 
observados abcessos de figado, segundo as 
informações dos clínicos da zona. Em cerlas 
localidades do municipio de Sta. Rifa do Rio 
Preto, denominam a disenicnn ou diarreas 
disenteriformes pelo nome de ''joga". 

Periodicamente, aparecem epidemias de 
variola que grande terror ocasionam ; em 
nenhum lugar, observámos por parte das pes- 
soas, conhecimento sobre a presença do ini- 
Ikpox (alastrim) e nem nenhum outro nome 
vulgar existia que lembrasse a molestia. 

Conitudo, pelas noticias que obtiven:os 
em algumas localidades, e pela observação 
duma epidemia grassando em quasi todo o 
percurso do municipio do Porto Nacional 
(Goiaz) podemos afirmar a sua existencia no 
Brazil Central. 

Na vila Parnaguá, por exemplo, poi cos 
anos antes da nossa passajem por ali, gras- 
sara intensa epidemia identificada como va- 



150 



rióla pelos moradores mas, que no eintanto, 
não ocasionara nenhum óbito. Em Formosa, 
falaram-nos de grande epidemia disseminada 
em 1808 por todo o municipio de Sta. Rita 
onde, porém, ao lado de certa mortandade 
e restabelecimento com as carateristicas cica- 
trizações, observava-se grande benignidade 
para individuos cobertos de pústulas os 
quais facilmente se restabeleciam, sem per- 
manecer com as cicatrizes. Pode-se presumir 
que, neste caso, houvesse a presença simulta- 
nea das duas entidades mórbidas. Em lugar 
denominado Peixe, municipio do Porto Nacio- 
nal, (Goiaz) assolara, pouco tempo antes 
da nossa passajem, uma epidemia que atinjiu 
cerca de 600 pessoas da localidade e arredo- 
res, ocasionando apenas 16 óbitos, o mesmo 
fato foi observado na povoação de Desco- 
berto; aliás a opinião reinante segundo se 
iê em H. DE ARAGÃO -(Memorias do Ins- 
tituto Oswaldo Cruz, T. 3. fac.2 paj. 309-318. 
Estudos sobre o Alastrim- 1911) é de que 
o alastrim se disseminasse no Brazil vindo 
das niarjens l'ahianas do S. Francisco. 

A impressão de quem viaja para aquelas 
zonas e onde a universalidade dos habitantes 
não é vacinada, é de que a » ariola vera não 
ocasiona as devastações que seriatn de 
presumir. O numero de portadores de cica- 
trizes variólicas é diminuto e, este fato, chama 
logo a atenção de qualquer que, com animo 
prevenido, queira observal-o. A questão da 
identidade entre a variola e o alastrim con- 
tinua a ser debatida em ciencia, havendo 
muitos autores que admitem tratar-se da 
mesma molestia em gráos diversos de viru- 
lencia; para os que assim pensam, as popu- 
lações não vacinadas do Brazil Central, visi- 
tadas periodicamente por cpidenu'as de va- 
riola sempre de baixa letalidade, não deixa- 
rão de encontrar argumentos que sejam fa- 
voráveis ao seu ponto de vista. 

Quando se imajina que na epidemia de 
variola de 1008 no Rio de Janeiro, a cifra de 
¡etalidade atinjiu a 60 o/o, não se pode dexar 
de estranhar, que fato análogo não aconleça 
em populações onde as condições de propa- 
gação são indubitavelmente muito mais favo- 
ráveis e, como ainda até hoje, repele-se a 



hipótese dum germe imunizar para outro, os 
dados epidemiolojicos a este respeito por 
nós colhidos naquelas parajens, insensivel- 
mente nos conduz a pensar que o alastrim, 
seja de fato, uma forma atenuada da variola, 
pois, de contrario, se isto assim não fosse, 
ter-se-ia certamente a rejistrar epidemias de 
variola com grande mortalidade, ao lado das 
de pequena letalidade. Fato que se não 
observa, não só pela presença já referida de 
exiguo numero de portadores de cicatrizes 
variólicas, como ainda pelas unanimes infor- 
mações obtidas em todo o trajeto, sobre a 
inexistencia, já de longa data, de qualquer 
epidemia variólica ocasionando grande mor- 
tandade. 

No nordeste impressiona altamente o 
numero de pessoas atacadas por enfermida- 
des de olhos; as conjuntivites e mesmo of- 
talmias contajiosas são extremamente frequen- 
tes, existindo predominancia notável nas 
crianças, até a id le de 12 anos. Um fato 
julgamos todavia poder dizer: o tracoma 
entra em certa escala na proporção das 
conjuntivites reinantes. 

Em Peixe (Municipio do Remanso 
Bahia), em uma fazenda onde des cáncamos no 
Municipio da Barra do mesmo Estado, depa- 
ramos 3 doentes bastante suspeitos. Na pri- 
meira localidade tralavam-se de duas crianzas 
que apresentavam a carateristica diminuição 
da abertura palpebral, intensa conjuntivite, 
sem que pudéssemos, no entanto, verificar a 
presença de granulações. O 3o caso, era o de 
unía mulher, idosa e portadora dum entropion. 
Em Joazeiro e outras povoações ribeirinhas 
do S. Francisco, a molestia com <oda a pro- 
babilidade deve existir, não só por se acha- 
rem em fácil comunicação com localidades 
bahianas já contaminadas pelo mal, como 
ainda porque a presença de sirios é numero- 
sa, como se observa principalmente na cida- 
de pernambucana de nome Petrolina. 

A Inspeíoria deveria enviar especialista, 
afim de conipetentemcntf estudar o assunto. 
Em tese intitulada "Estudo sobre o trachoma" 
que o Dr. J. Felix Ribeiro, apresentou á Fa- 
culdade de Medicina da Bahia em 1914, vê- 
se que, muitas localidades do interior do Es- 



151 



tado, já se encontram contaminados pelo tra- 
choma. Em 1915 o Dr. P. de B. Barbosa 
-Lima, defendeu na Faculdade do Rio o inte- 
ressante trabalho de doutoramento "Do Tra- 
choma no Brazil" por onde se vê considerar 
o autor, o Ceará, um dos focos mais impor- 
tantes do norte do Brazil. 

No Jornal do Comercio de 1915 o ilustre 
Dr.R.iuI David de Sanson, dá a publicidade 
sob a rubrica de "Trachoma No Brazil" valio- 
so artigo onde nos dá a conhecer a abun- 
dancia do tracoma no interior do Ceará, 
Pelo relatório que o referido especialista apre- 
sentou ao Dirclor da Hospedaria de Imigran- 
tes na Ilha das Flores em 18 de Fevereiro 
de 1916, verifica-se que, de 4846 retirantes 
principalmente do Ceará examinados pelo 
Dr. Raul de Sanson, 80 eram tracomatosos. 
Desgraçadamente o mal por aqueles parajens 
é muito mais comum do que supúnhamos. 
Na rejião das caatingas onde as arvores com 
espinhos são a regra, é notável o numero 
de pessoas geralmente do sexo masculino 
portadores de ''bclides" (pterijios); logo que 
a zona muda, as condições a este respeito 
caem na normalidade observada em qualquer 
parte e ccnio a profissão de quasi todos os 
homens é a de vaqueiro, constantemente su- 
jeita a traumatismos não sabemos se haverá 
relação entre uma cousa e outra. Sentindo a 
nossa incompetencia principalmente no capi- 
tulo que agora tratamos, CFcusamos-nos de 
tirar qualquer conclusão a respeito e apenas 
rejistramos como qualquer viajante o faria, 
as notas tomadas do nosso diario, com a úni- 
ca intenção de expor um fato que julgaruos 
bem observado. 

As blefarites são vulgarmente denomina- 
das "sapirnnga" ; nas povoações das marjens 
do Rio Preto ou que lhe ficam proximo, 
existe um processo mórbido que traz o 
mesmo nome, embora de gravidade desusada, 
pois as pálpebras se abrem em chagas acar- 
retando como consequência ent'-opion; a mo- 
lestia em grande numero de casos progride 
inda até á cegueira. 

Dada a generalidade da l-ileiíorrajia, é 
natural que se suponha que granck numero 
de casos de cegueira pela opacificação da 



cornea, seja devido a esta causa; a sífilis, 
cuja presença naquelas parajens se observa 
em grande escala, é também responsável por 
grande numero de lesões oculares. As afeções 
asmáticas ali denominadas de estalicidio, 
são muito frequentes principalmente em certas 
zonas bahicnas e piauhienses. As pertubações 
menstruais {"'desmantelo") são extremamente 
comuns em todo o percurso. 

Na povoação Lago, distrito de Santanna 
municipio do Riacho da Casa Nova (Bahia) 
nos deram noticias dum mal epidémico de 
grande mortalidade e que suspeitamos tra- 
tar-se, pela descrição, do tito exantemático. 
A povoação tem cerca -de 40 casas e a escas- 
sez d'agua é extrema; isto explica o enorme 
desasseio corporal em que vivem os seus 
moradores; o Pediculus vestimenti NITZSCH 
a vulgar muquirana, desde 1909 reconhecida 
como transmissor do mal segundo as pes- 
quizas de NICOLLE, é, pelas informações, 
bastante frequente. 

Como é conhecido, o pediculideo em 
questão só frequenta a pele, para procurar a 
alimentação finda a qual, abriga-se nas vestes 
que constituem o vardadeiro habitat desde 
ovo. 

O tifo exantemático sob o nome de 
^Habardillo" é também conhecido em varios 
paizes sul-americanos, como Chile, Perú, 
Argentina; entre nós, cremos, nunca ter sido 
verdadeiramente identificado ; a sua ausencia 
em alguns lugares do Brazil poderia se ex- 
plicar pelo habito das pessoas do povo lava- 
rem com certa írequenda as projMias vestes 
e pelas condições de clima desfavoráveis ao 
desenvolvimento de iim mal, muito mais co- 
mum nas rejiões frias. 

A raridade da agua em certas parajens 
do nordeste, impediu que este uso se gene- 
ralizasse, com o tempo e pela dificuldade de 
se obter agua, o desasseio corporal fez-se 
regra. Pelas informações obtidas, é peio 
menos para se suspeitar que, os casos de 
morte a nós referidos no Lago, possam ser 
atribuidos ao tifo exantemático. 

A mortalidade infantil, mesmo nas grandes 
povoaçõas, é enorme ; é fato de observação 
milito comum, casais que tiveram 14-16 



152 



filhos terem perdido metade morta em tenra 
idade; o impaludismo, as infeções intestinais 
entre populações que ignoram todo e qual- 
quer preceito hijienico, são os maiores res- 
ponsáveis por isto. 

Epizootias. 

O carbúnculo bacteriano existe quasi por 
toda a parle e durante o ano inteiro ; ocasio- 
nando grandes prejuizos ao gado de toda a 
especie e, contaminando e acarretando a morte 
de muitas pessoas, como acima já foi dito. 
Pelas informações a zona da caatinga é a 
mais atacada. No municipio de S. Raymundo 
Nonato existe um mal que ataca de prefe- 
rencia aos bezerros e cuja denominação local 
é de "/no/ da guelra". Pela descrição dos 
sintonias da molestia, sua evolução, conla- 
jiosidade, deve com toda a probabilidade 
referir-se ao carbúnculo verdadeiro. 

Certa zona dos municipios de Sta. Rita 
(Bahia) e do Corrente (Piauhí), as informa- 
ções quanto á presença do carbúnculo ver- 
dadeiro e do sintomático, foram completa- 
mente negativas; os informantes conheciam 
apenas de nome, todavia quando interrogados 
sobre os casos do ofidismo, afirmavam ser 
comum a morte de rezes em consequência 
da picada de cobras. É possível que haja 
algum erro de observação passando o car- 
búnculo despercebido, sendo em parte a 
morte do gado ocasionada pelo carbúnculo 
bacteridiano. Em alguns lugares de Goiaz é 
comum o aparecimento de veados mortos 
^'pesteados" e, como a febre aftosa não existe 
na referida zona, é de suspeitar que o car- 
búnculo seja em qualquer porcentajem o res- 
ponsável. 

Certa vez encontrámos o cadaver de 
veado recem-morto: certamente não se tra- 
tava de febre aftosa, o exame do sangue e 
a cultura deste em agar, foram negativas a 
qualquer respeito. 

Relativamente proximo a esse local, 
vimos uma cabra moribunda ; as pesquizas 
nada adiantaram podendo-se conitudo excluir 
o carbúnculo para os 2 casos em questão. 
Da marjem esquerda do Tocantins até á ca- 



pital de Goiaz, o carbiinculo bacteridiano 
praticamente não existe pois, todas os inda- 
gações por nós efetuadas, levam-nos a acre- 
ditar ser mal desconhecido. 

O carbúnculo sintomático é frequente 
sendo conhecido por varias designações: na 
rejião da caatinga tem o nome de ^^quarto in- 
chado" e "quarto fofo" sendo esta designa- 
ção a mais conuim no resto do percurso; em 
alguns lugares de Pernambuco é chamada de 
"quarto preto". 

Existe também durante todo o ano; 
sendo mais frequente entre os mezes de 
Maio e Agosto, desaparecendo no tempo da 
seca. Em alguns lugares do Piauhí, os va- 
queiros pensam ser o mal ocasionado em 
consequência da injestão das frutas da "ara- 
piraca'^ ou "triadinho", especie vejetal que 
ignoramos qual seja. 

Nas cabeceiras do Rio Preto sob o nome 
de "laranjão" é encontrado o carbúnculo sin- 
tomático; no municipio de Duro (Goiaz) a 
denominação muda para "mal fofo". Da 
marjem esquerda do Tocantins até Ouro 
Fino não existe o carbúnculo sintomático ou 
é então muito raro. Daí até Anhanguera, de- 
saparece por completo o nial em questão. O 
mormo é encontrado com maior ou menor 
frequência apresentando malignidade variável; 
o mal quasi nunca é conhecido por aquela 
designação. Ora lhe dão o nome de "catarrei- 
ra^' ora de ^•estiladeira" e "estUação", Em 
geral é benigno; em Perí-perí, municipio de 
S. Rita, a forma cutanea não parece ser rara 
conforme as informações; em Goiaz a deno- 
minação mais comum no norte é ^^estãação" , 
no sul ''; conhecido por "garrotilho" nome 
empregado vulgarmente no sul do paiz para 
designar o carbúnculo bacteridiano. 

Da Bahia até o Piauhí, eram relativa- 
mente frequentes as referencias ao "uvd de 
chifre" ou "broca"; molestia que ataca o 
gado bovino ns seca, denunciando-se por 
edema palpebral, olhos lacrimajantes e algu- 
mas vezes cegueira; as vacas cessam de dar 
leite e nota-se "acabanamento" das orelhas, 
dos animais atacados; só raramente o mal 
dá "corno correição" (epizoóticamente). Nos 
casos graves a molestia evolua em 15 dias e 



153 



menos. Em Ooiaz não ouvimos nenhuma re- 
terencia á molestia em questão, tão pouco 
tivemos oportunidade de observar nenhum 
caso. Em certas localidades os casos de 
morte eram comuns; evidentemente trata-se 
de molestia mal definida e que necessitaria 
de estudos mais aprofundados. 

Desde a cidade de Joazeiro, que ouvimos 
referencias constantes á epizootia denomina- 
da ^Uorce" a qual dizimava os equideos ; logo 
suspeitámos de mal de cadeiras, cuja presen- 
çi já tinha sido rejistrada em varios pontos 
do paiz. Na povoação de Caracol (Piauhí) 
conseguimos afinal determinar exatamente 
qual a verdadeira causa eficiente da epizootia, 
pois encontrámos um cavalo abundantemente 
infetado pelo Trypanosoma equinum VOGES, 
ájente produtor do mal de cadeiras. 

Vários autores têm incriminado as capi- 
varas como os depositarios de virus mas, este 
roedor, não existe absolutamente de Petroli- 
na á vila de Parnaguá, localidade, porém, 
onde aparece pela primeira vez e é encon- 
trado em grande abundancia; aliás o fato 
é de fácil explicação pois, no trajeto refe- 
rido, a escassez d'agua é verdadeiramente 
notável, o que não é compatível, com o 
modo de viver da capivara. Desde 1902 
que SIVORI e LECLER acusaram da trans- 
missão do tripanosomo, um inseto hema- 
tófago (Stomoxys calcitrans GEOFFROY), 
e LUTZ em 1907, quando foz pesquisas 
sobre o assunto na Ilha de Marajó, incrimi- 
nou 2 tabánidas, o Tabanas importunas 
WIED e T. trilineatus LATR. como os veí- 
culadores da epizootia. LUTZ conseguiu 
guardar vivos exemplares de T, importunas, 
os quais no 3" dia apresentavam tripanoso- 
mos vivos no conteúdo intestinal; o ilustre 
pesquizador também foi o primeiro a obser- 
vir capivaras naturalmente infetadas (Vid. 
LUTZ, A. , Estudos e observações sobre o 
quebrabunda ou peste de cadeiras -S. Paulo 
1908). Em 1911 nós, em companhia do Dr. 
GOMES DE FARIA, tentámos em laborato, 
rio a transmissão do mal de cadeiras por 
intermedio da 5. calcitrans com resultados 
negativos, pela dificnldadde de conservar 



vivos em cativeiro os dípteros em questão, 
aliás algumas Stomoxys que sobreviviam 
quando examinadas após 48 horas, não reve- 
laram em exame a fresco ou nos esfregaços 
corados, a presença de tripanosomos, o que 
conduz a pensar não serem esses dípteros os 
transmissores naturais do mal de cadeiras. 

O mesmo se dá com os representantes 
das Tabanidae; este obstáculo tem impedido 
até hoje determinar-se exatamente qual o ver- 
dadeiro transmissor da epizootia; comtudo as 
nossas observações levam-nos a pensar que, 
cabe aos representantes do genero Chrysops 
MEIGEN o papel de transmissor do mal de 
cadeiras. E na excursão que agora relatamos 
colhemos fatos bastante importantes para a 
elucidação da questão pcis, em determinados 
lugares, como de Perí-P-rí á Pinguela cabe- 
ceiras do Rio Preto (Bahia), onde sua pre- 
sença foi novamente verificada, distanc a re- 
presentada por 10 dias de marcha, não exis- 
te o mal de cadeiras, coincidindo este fato 
com a ausencia das crisopinas. Estas tabáni- 
das são perfeitamente conhecidas pela gente 
do p^vo de todo o paiz e principalmente 
das rejiõcs percorridas tanto, que consegui- 
mos rejistrar 4 nomes vulgares: "mutuca ra- 
jada", "mutuguinha", "mutuca carijó", e '^mu- 
tuca niaringd", e o fato dos representantes 
do genero Chrysops perseguirem os cavalos 
em quantidade nunca atinjida pelas especies 
de outros géneros de Tabanidae e, ainda a 
circumstancia de quazi somente pouzarem 
na cabeça dos animais, são condições tão 
evidentesque não poderão permitir que a sua 
presença escape onde de fato existam. 

Desde que identificámos o mal de ca- 
deiras, a nossa atenção se dirijiu princi- 
palmente para a fauna de tabánitias, por 
serem os insetos acusados de transmissão; 
diariamente coiccionavamos e por isso, está- 
vamos em condições de verificar a relação 
existente entre a presença da tripanozomose 
e os referidos dípteros. Deste modo, quando 
a ausencia do mal de cadeiras coincidiu com 
a inexistencia das crisopinas, não só pelas 
informações dos moradores, mas principal- 
mente pela nossa observação direta, ficamos 



154 



niuîto inclinados a supor sejam as criso- 
pinas os principais ajentes trasmissores do 
ma! de cadeiras; esta suposição tem pelo 
menos o mesmo valor que as anteriormente 
formuladas por varios autores, que incrimi- 
nam a Stomoxys calcitrans e a varias especi- 
es do genero Tabanas, pois, até hoje, ne- 
nhuma verificação experimental foi efetuada 
a não ser a de LlGNIÈRES que, encontrou 
ttipanosomos vivos no tubo dijestivo S. cal- 
citrans, recusando-se comtudo a consideral-a 
como transmissora, por não ter verificado a 
contaminação de animais sãos, colocados ao 
lado de infetados em lugar onde a S. calci- 
trans abundava. Cf. LlGNIÈRES, ].; Contri- 
bution a l'étude de la trypanosotnose des équidés 
sud-ame'ricains - Buenos Aires 1902 pp. 101- 
105. Aliás, experiencias efetuadas recente- 
mente nas Philippinas por experimentadores 
americanos com o Trypanosoma evansi 
ájente produtor da surra, levam a acreditar 
que a razão esteja com LlGNIÈRES. (vid. 
MITZMAIN, M. B., "Th£ rôle of Stomoxys 
calcitrans in the transmisson of Trypanosoma 
evansi'^ in the Philippine Journal of Science, 
Vol. VII. Sec. B. No 6, pp. 475-520 -Manila 
Dec. 1912). 

A. MACHADO, o descobridor do Pro- 
tosan, especifico seguro contra o mal de ca- 
deiras, em fins de 1914 verificou em Mato- 
Qrosso o transmissor do mal cadeiras, pela 
presença de tripanosomos no conteúdo intes- 
tinal do Tabanas importunas \Ç/lZD. Esta es- 
pecie foi a mais pesquizada pelo referido 
observador que encontrou percentajem de 
0,5 o o de exemplares infetados. 

O exame realizado nas crisopinas, resul- 
tou negativo, todavia pelas suas informações 
as pesquizas que realisou nessas Tabanidae 
foram em menor numero que as efetuadas 
com o 7". importunas, pela razão desta ser a 
especie mais abundante, naquela época, nas 
rejiões por onde andou. 

Na lista anteriormente dada dos dipteros 
encontrados nas rejiões por nós percorridas, 
está resistrado o T. importunas e, que, em- 
bora presente por toda a parte, como aliás 
acontectí para todo o Brazil, nunca foi en- 
contrado em abundando. 



Como já rejistrámos no capitulo concer- 
nente aos dipteros, a Stomoxys calcitrans 
praticamente quasi não existia na época da 
nossa excursão, no entanto, o mal de cadei- 
ras, dizimava e das crisopinas fizemos farta 
colheita. 

Outro fato digno de rejistro é a au- 
sencia, segundo as informações obtidas em 
Parnaguá, onde as capivaras são muito nu- 
merosas, da mortandade destes roedores, os 
quais são também vitimados pelo T. equinum 
conforme verificações efetuadas entre nós por 
LUTZ e CHAGAS e no Paraguai por EL- 
MASSIAN e JMIGONE. 

No Piauhí a invasão do mal de cadeiras 
é recente, datando de menos de um decenio ; 
os fazendeiros são unanimes em afirmar que 
a tripanosomose proveiu da marjem do S. 
Francisco; nos arredores da Vila da Parna- 
guá a invasão do torce data apenas de 3— 4 
anos. Em Goiaz o mal data de 30 anos im- 
portado provavelmente de Mato Grosso e, 
como o norte de Goiaz se abastece em Bar- 
reiras (Bahia) o mal de cadeiras foi para aí 
levado pelas tropas goianas; Barreiras é ba- 
nhado pelo rio do mesmo nome e afluente 
do S. Franciso aos poucos foi invadindo aS 
povoações ribeirinhas da Bahia e Pernambuco 
até que invadiu o sul de Piauhí. A marcha 
da epizootia foi com toda a probabilidade 
esta, porquanto as comunicações entre Goiaz 
e Pará onde mal é também conhecido, só se 
fazem por agua; o mesmo não se dando 
com Mato Grosso que entretém comunicação 
com o sul de Goiaz e onde o mal de cadei- 
ras já era conhecido desde o tempo da guerra 
do Paraguai. 

A denominação 'Voz-f^' ou ''troço" cor- 
rutela do primeiro e usado pelas pessoas 
mais ignorantes, desaparece em Goiaz para 
ser substituida pela de ^^escanchó" nome re- 
servado em ontros Estados exclusivamente á 
durina mas, que nas rejiões goianas em geral, 
inclue as duas tripanosomoses. A' medida 
que nos aproximávamos do sul, iamos verifi- 
cando a substituição deste nome pelo de 'apeste 
de secar", e ^'cochila" denominação que a prin- 
cipio supuzemos referir-se á entidade mórbi- 
da diferente mas que por fim, nos inclina- 



155 



mos a acreditar ser mais uni sinonimo a 
ajuntar ao mal de cadeiras ou "peste de ca- 
deiras", como é conhecido nas rejiões mais 
meridionais de Goiaz. 

Nos Estados de Pernambuco e Bahia, 
onde a criação caprina é intensa, os mora- 
dores queixam-se da "magreza" epizootia 
que ocasiona grandes estragos àquele gado. 
Nunca conseguimos observar um animal ata- 
cado e as pesquizas hematolojicas sempre 
resultaram negativas; conitudo, peia descrição 
e marcha da molestia e conhecida a rece- 
ptividade dos caprinos pelo Trypanosoma 
equiniim, suspeitamos tratar-se também do 
mal de cadeiras; aliás muitos moradores in- 
formam serem os referidos animais sujeitos 
á epizootia; alguns procuram diferenciar a 
"'magreza" do mal de cadeiras. Provavelmen- 
te, tratam-se de diferentes aspetos cliuicos da 
mesma molestia, a qual, quando não evolua 
rapidamente, acarreta grande emagrecimento, 
daí o nome de '''peste de secar'". Em algumas 
localidades ^ahianas e goianas, referiram-nos 
que os porcos são também atacados e em Bre- 
jinhos (Goiaz) a "peste de secar" também 
ataca os cais. Este fato está de acordo com 
as observações feitas por MlGGNE no Para- 
guai quando observou estes animais atacados 
pelo T. equinnm. Os cavalos e burros são os 
mais atacados, os jumentos só raramente o 
são. 

Outra tripanosomose equina presente 
em todo o trajeto, é a durina, epizootia oca- 
sionada pela Trypanosoma equiperdum DO- 
FLEIN e conhecida geralmente nas rejiões 
bahianas e pernambucanas e em todo o sul 
de Piauhí pelo nome de "escanchó" ; de For- 
mosa (Municipio de Ranta Ri. a do Rio Preto 
Bahia) em diante, a denominação vulgar da 
molestia passa a ser, além de "escancho" 
"mal de foveiro"y pois os habitantes julgam 
tratar-se de males diversos quando apenas 
são fazes da mesma molestia. 

O "mal de foveiró" tem nesse nome de- 
vido ás manchas que aparecem em varias 
partes do corpo; pernas, tetas, ^'paridor'^ 
(vulva) e corresponde exataniente ao que no 
Ceará é denominado de ^^môfo'\ Dos geraes 



bahianos em diante o povo começa a con- 
fundir com o mesmo nome de "escancho", o 
mal de cadeiras e a durina ; em todo o Goiaz 
onde existe esta designação, em geral ela se 
refere ao mal de cadeiras : todavia em algumas 
localidades do norte do Estado, a molestia é 
designada pelo nom^ de "foveiro" ou "m(// 
de pinta". 

A diarrea dos bezerros é comum e mor- 
tífera por toda a parte ; a molestia passa 
por atacar também a criação caprina. As 
denominações variam enormemente, a mais 
conhecida é a de reira" ; "curso" "enxiir- 
río" "caimbra" "toque" são usadas em va- 
rias localidades. E' molesJa do "verde", 
sendo a mortalidade maior entre os mezes 
de Janeiro a Março. 

Entre os males que atacam os equideos, 
encontra-se a esponja de patojenia ainda du- 
vidosa, supondo alguns tratar-se de um verme. 
O Dr. GOMES DE FARIA acredita ser a 
molestia de orijem micotica pois, pesquizas 
que a este proposito empreendeu neste Ins- 
tituto, levaram-no a esta suposição. O mesmd 
autor foi o primeiro a empregar o trata- 
mento pelo emético de indubitável ação 
contra o mal, até então crido indebelavel c 
que atinje grande area de disseminação, em 
todo o paiz. Em meiados de 1915, o Dr. A. 
MOSES, comunicou o descobrimento da 
cura da esponja pda aplicação do iodureto de 
sodio por via endovenosa, dizendo ter obtido 
a cura sem recidiva de varios animais ataca- 
dos. Aliás, a medicação preconizada por 
GOMES DE FARIA e THOMAS POMPEU 
e que tão bons resultados deu no Ceará, no 
Rio de Janeiro falhou, porquanto as aplica- 
ções efetuadas por MUNIZ DE ARAGÃO 
em cavalos do exercito e por VI ANNA em 
animais de Manguinhos, resultaram negativas. 

A osteoporose ou cara inchada, molestia 
que ocasiona grandes prejuizos entre os 
equideos de todas as nações, e cuja patr»je- 
nia e tratamento contmuam ignorados, foi 
também verificada presente em varias loca- 
lidades. Pelas observações os vaqueiros co- 
nhecem perfeitamente o mal e imediatamen- 
te estabelecem o diagnostico diferencial com 
a "muda esquecida", rubrica que encerra va- 



156 



rias afeções que atacam os maxilares supe- 
riores dos equídeos, terminando sempre por 
abcedação. Em fins de Dezembro de 1914, 
o Dr. PARREIRAS HORTA em artigo pu- 
blicado no "Jornal do Commercio", anunci- 
ou ter ¡solado o germe causador da osteo- 
porose o qual foi denominando Microccacus 
osteoporosus. 

De Joazeiro ao começo dos gerais, é 
muito comum a referencia á raiva: é inutil 
para toda a rejião percorrida a indagação 
sobre a existencia decais danados; o quali- 
ficativo é completamente desconhecido, sendo 
substituido pela denominação de ^'cachorro 
csptitados" \ "esprítar" significa exatamente 
danar, adquirir raiva. 

Sabendo-se disto, qualquer que faça in- 
terrogações a respeito, ficará impressionado 
pela abundancia de informações sobre a 
presença em alta escala da raiva e molestias 
afins. E frequente a citação de óbitos huma- 
nos, todavia cm proporções inferiores ao que 
se poderia supor pelo numero de cais e 
outros animais infetados ; como os recursos 
terapêuticos empregados naquelas rejiões são 
completamente absurdos e o numero de pes- 
soas mordidas por cais e animais aparente- 
mente raivosos é muito grande, conforme as 
informações, é licita a suposição de que, 
mesclados com a raiva, encontrem-se outros 
males aparentemente semelhantes, pois, o 
único tratamento atualmente conhecido, con- 
tinua a ser o instituido por PASTEUR e é 
sabida a extraordinaria letalidade da raiva 
quando não convenientemente tratada. 

De vez em quando, formam-se grandes 
focos de raiva como aconteceu em 1911 em 
S. Bento (municipio de S. Raymundo Nonato), 
sendo acometidos centenas de animais de 
toda a casta; os bois, équidas e cais, foram 
os mais atinjidos e um cão mordeu duas 
pessoas que não faleceram; além disto, alguns 
fazendeiro? nos referiram o fato dum indivi- 
duo ter sido mordido por um jumento raivo- 
so, sem consequência. 

Havendo facilidade de visu observarmos 
o individuo em questão, procuramol-o afim 
de diretamente obter informações. O caso 



era possuidor dum jumento manso a que ali 
dão o nome de "raçoeiro'^ por vir procurar 
a ração no domicilio do proprietário ;o animal 
apresentou-se doente quasi inesperadamen- 
te ; os sintomas foram-se agravando rapida- 
mente, a ponto de não deixar duvida sobre 
o diagnostico de raiva a qual então grassa- 
va no municipio; procurando providenciar 
sobre o afastamento do animal das proximi- 
dades da residenda, foi mordido na perna. 
Quando por ali passámos, a cicatriz datava 
havia pouco mais de ano podendo-se perfei- 
tamente julgar da grande extensão e profun- 
didade do ferimento ocasionado peia morde- 
dura. O jumento seguro e amarrado viveu 
ainda cerca de 24 horas. A não ser que o 
caso em questão constitua, ao lado de raros 
outros, exceção quanto ao que concerne a 
incubação da molestia, trata-se de mais um 
caso a acrecentar aos outros e que nada 
apresentaram, embora na ausencia de terapêu- 
tica racional. Ora, em toda a zona, queixam-se 
os fazendeiros da "sarna'" não se imajine 
que se trata do ectoparasito (Sarcoptes) o 
qual ali é denominado de piolho ; a "sarna^^ 
que ataca o gado bovino e equino principal- 
mente o ultimo, dá epizoóticamente. Os ha- 
bitantes pensam que se orijine da injestão 
duma planta e que denominam ''//crvanço" 
aliás, pelas observações pessoais, o vejetal 
incriminado varia segundo as locailddade, 
frequentemente porém, mostram uma peque- 
na planta da familia das compostas como a 
responsável. 

A molestia começa pelo prurido cada vez 
mais intenso ; o animal atacado principia a 
esfregar-se pelas arvores, cercas, paredes etc. 
até que, por fim, começa a diiacerar-se com 
os dentes. No sul do paiz sob o nome de peste 
de coçar existe urna molestia de animais com 
a mesma sintomatolojia e que desde 1912 
CARiNi e MACIEL identificaram com a mo- 
lestia que em 1902 sobre oi\\n\o:"Ueber einr 
neiíe Infcktionkrankeit "Centralbl. f. Bokt. I, 
Abt. O ring. Bd. 32 No 5 pp. 353-357, foi es- 
tudada por AUjESKY, o qual foi o primei- 
ro a investigar e que, por isso, hoje traz o 
seu nome. Em 1911 ZWICK e ZELLER pu- 
blicaram nos "Arbeifen aus dein Ksl. Gesun- 



157 



dheitsamte^ Voi, 36 pp. 3S2-408 sob a epigra- 
fe " U titer suchungen ueber die sogenannte Pseu 
dowut", o melhor trabalho existente sobre a 
pseudo-raiva, parahsía bulbar infetuosa, de- 
nominações que ainda tem a peste de coçar. 

Nada se sabe ainda quanto ao germe e, 
os trabalhos sobre o assunto, são ainda es- 
cassos e a molestia é ainda muito mal co- 
nhecida pois até hoje, só tem sido denuncia- 
da na Hungria, Siberia e Brazil ; qualquer 
contribuição para o assunto tem interesse e 
por isso insistimos sobre a questão. Dada a 
analojia de sintomas com a molestia identi- 
ficada em S. Paulo por CARINI e MACIEL 
como sendo a mesma que ocorre em paizes 
distantes do nosso, é de presumir que a 
"sarna" existente no nordeste brazileiro seja 
a molestia de AUJESZKY tomando aquele 
nome, quando ataca équidas e bóvidas, cha- 
mando-se de raiva com a qual muito se as- 
semelha, quando ataca os cais. 

Para um fato porém quereínos chamar 
a atenção; o virus estudado por CARINI e 
MACIEL quando inoculado subcutáneamen- 
te em cais e gatos, não reproduz a molestia 
e esta observação está em desacordo com as 
pesquizas de varios autores entre os quais 
se acham as de ZWICK e ZELLER PANIS- 
SET e SCHMIEDHOFFER (Vid, ''Beitraege 
zur Pathologie der infektioesen Bulbaerparaly- 
se (A'üjESZKY schen Krankheit), Zeits. f. 
Infekt. Krank. u. Hyg.. Vol. 8, pp. 388-405 
1910 etc. Todavia por injestão aqueles auto- 
res conseguem facilmente reproduzir o mal; 
pondo de marjem o fato do virus estudados 
por CARINI e MACIEL, em vista deste de- 
sacordo, ser o mesmo estudado pelos pes- 
quizadores europeus, não deixa de impressi- 
onar o grande numero de pessoas mordidas 
por cais, aparentemente raivosos e por outros 
animais, como o caso do jumento já referido 
e onde não se dá a contaminação ; sem a 
menor duvida, as analojias do virus do nor- 
deste apresenta flagrantes concordancias com 
o virus da peste de coçar, estudada em S. 
Paulo. Só por injestão, alguns animais contra- 
irão a molestia, sendo muito provável que, 
os focos de raiva ali observados, sejam atri- 
buíveis a pseudo-raiva podendo embora a 



raiva existir concomitantemente- E' crença 
muito generalizada que a "sarna" ataque de 
preferencia aos animais brancos ou mancha- 
dos desta còr; não sabemos se de fato isto 
se dê. Varios informantes nos afirmaram que 
por ocasião da seca quando os cais são 'Vs- 
pritados" é muito comum o aparecimento de ra- 
posas mortas provavelmente do mesmo mal 
assim como veados e porcos. A pseudo-raiva 
tem sido estudadas em varios animais e 
SCHMIEDHOFFER, in loe. cit., refere casos 
espontâneos por ele observados em cavalos e 
burro, o que torna mais provável a identifi- 
cação que fizemos do mal atacando jumentos 
observação até então não rejistrada e de equi- 
nos, que, até agora, não tinham sido obser- 
vados no Brazil atacados do mal. 

Em Formosa, municipio de Sta. Rita do 
Rio Preto, narraran-.-nos que ha mais de 10 
anos houve grande epidemia de raiva com 
varias vitimas humanas, sendo observada a 
propagação do mal ao gado. A mortandade 
entre os cais sofrendo do "mal corredor" 
foi enorme e pelas narrativas, foi este o foco 
onde de fato, devera existir a verdadeira 
raiva pelo menos em maior escala, pois, o 
numero de vitimas humanas foi muito maior 
ao que sóe acontecer em casos análogos ali 
rejistrados como de raiva, mas, onde com 
toda a probabilidade, ocorre concomitantemen- 
te outra molestia afim, que julgamos ser pelas 
razões acima expostas, a pseudo-raiva. Em 
Março do corrente ano RÁTZ v. S. publicou 
no "Zeits. f. Infekt. Krank. u. Hyg- Vol. 15, 
fac. 2 pp. 99-106 sob a epigrafe "Empfaeng- 
lichkeit der Tiere fuer Paralysis bulbaris infe- 
ctiosa, um apanhado geral sobre o que ha de 
conhecido sobre o assunto e que vem corro- 
borar o nosso ponto de vista sobre a questão. 
PANISSET, L. publicou na Revue genérale 
de Med. vétérinaire, T. XXIII— No 275 pp. 
601-618. Toulouse -Junho de 1914, sob o 
titulo : ^'Paralysie bulbaire infectieuse, pseudo- 
rage, maladie d'Aujeszki" excelente artigo 
onde passa em revista todas as pesquizas 
feitas anteriormente, acrecentando novas ob- 
servações. Entre as especies atacadas pelo 
mal o autor refere a raposa europea e, este 
fato, vem aumentar a probabilidade de que a 



158 



mortandade das raposas do nordeste a qu« 
acima nos referimos, seja ocasionada pela 
pseudo-raiva. Quando estuda a evolução da 
molestia no cavalo, PANISSET diz que o 
virus parece perder no organismo daquele 
animal toda a ação patojenica para os anima- 
is das outras especies porquanto, as inocula- 
ções praticadas com os produtos provenien- 
tes de cavalos que sucumbiram ao mal, resul- 
tam sempre negativas. Se admitirmos, dadas 
as afinidades existentes entre o cavalo e ju- 
mento, que a pseudo-raiva evolva neste ani- 
mal de modo análogo ao observado no ca- 
valo, o que é muito provável, estaria expli- 
cado o fato do individuo mordido pelo ju- 
mento não se ter contaminado. Aliás, o 
homem é muito pouco sensivel ao virus, 
iiavendo apenas até hoje poucas observações 
Vid. RÁTZ, loco cet 

A febre aftosa só foi encontrada no sul 
de Goiaz onde é denominada "/7^s^^í/^«/í/w"; 
apesar das frequentes indagações o mal não 
parece existir nas outras zonas percorridas. 
Na zona das caatingas bahianas foi-nos re- 
ferida uma doença que, no inverno, ataca so- 
mente o gado caprino, atinjindo os cascos, 
os quais em consequência c?em ; julgamos 
não se tratar da febre aftosa não só por 
faltarem outras carateristicas como ainda, por 
poupar outros animais sensíveis ao mal. É 
provável que se trate de mal já observado 
entre nós nos carneiros sob a denominação 
de **frieira" e de ha muito já conhecido na 
Europa e Estados Unidos pelos nomes de 
*'Fussraüde der Schafé" na A lie manha, "Footrot 
of sheep" nos Estados Unrdos, "contagious 
footrot" na Inglaterra e "Piétin. contagieux" 
na França. A molestia começa pela inflama- 
ção da coroa do casco o qual, acaba final- 
mente por cair em consequência da secreção 
purulenta de desagradável cheiro que se 
forma e que invade toda a face interna dos 
cascos. O animal atacado fica impossibilita- 
do de andar; a principio marcha sobre os 
joelhos por fim, fica totalmente tolhido, aca- 
bando por perecer. 

Apesar de numerosos exames de sangue, 
nunca conseguimos observar ali o parasito 
produtor da tristeza no gado; todavia de 



vex em quando, apareciam informações que 
de algum modo concordavam com os princi- 
pais sintomas clínicos da babesiose; a lhes 
dar credito, a zona onde é mais observada é 
a do municipio de S. Raymundo Nonato ha- 
vendo a rejistrar segundo os informantes, o 
aparecimento periódico de intensas epizooti- 
as, com grande mortandade, sendo constante 
comtudo a ausencia da hemoglobinuria. Os 
équidas examinados, também nunca demons- 
traram estar atacado de nuttalliose, molestia 
ocasionada por hematozoario análogo ao de 
genero Babesia, e causa eficiente da tristeza 
no gado. 

No lugar denominado Vau, municipio 
de Sta. Rita (Bahia) pela primeira vez ouvi- 
mos referencia a mal muito comum em 
Goiaz e denominado de ''caruara". Ataca 
somente aos "bezerros-ntinjolos, isto é, ani- 
mais muito novos, caraterizando-se pela tu- 
mefação das articulações, que quasi sempre 
abcedam ; é bastante mortal e de evolução 
lenta; mais comum no tempo chuvoso e em 
geral ataca articulação da pata anterior di- 
reita e outra da pata posterior esquerda ou 
vice-versa; se o animal escapa, as partes ata- 
cadas atrofiam-se; o primeiro sintoma a se 
notar é o emagrecimento e consequente en- 
tumecimento das articulações. Pelasintomato- 
lojia, marcha da molestia e patojenicidade 
para os bezerros muito novos, deve com 
toda a probabilidade tratar-se da ''Laehme 
der Saeuglinge", dos alemãis ou "Pyosepti- 
caemia neonatorum", molestia cujo ájente pa- 
tojenico ainda em ciencia não se tem bem 
certeza de qual se trate. E mal que ataca 
varios mamíferos nas primeiras 4 semanas 
da vida; supondo-se que a via de entrada 
do virus se efetue pelo umbigo, pois, a mo- 
lestia é sempre consequência de infeção um- 
belical. A infeção apresenta grandes analo- 
jias com a diarrea dos bezerros. HUTYRA 
e MAREK na 3» edição- 1° volume, 1910-pp. 
160-172 de sua obra "Spezieíle Pathologie 
und Thérapie der Haustiere" tratam do as- 
sunto como entidade mórbida inteiramente á 
parte. 



159 



Na rejião norte de Goiaz, é muito comum 
a 'osteomalacia nos burros novos os quais, em 
consequência, ficam com as pernas arqueadas 
de modo verdadeiramente notável. Referiram- 
MOS que, embora muito raramente, o mesmo 
fenómeno se observa nos cavalos, bois e ca- 
britos. Atribuem o fato ás pastajens e tamo 
que ao observarem a molestia em inicio, con- 
seguem dele!-a transportando os animais ata- 
cados para outros sitios. O N» 12 do "5c/- 
ence Bulletin do Department of Agriculture, 
jWew South Wales, publicado em Outubro 
de 1914, é inteiramente dedicado ao estudo 
da osteomalacia no gado australiano, os tra- 
balhos estão firmados por F. B. GUTHRIE, 
A. A. RAMSAY e H. J. JENSEN, e MAX 
HENRY, sendo a questão estudada por 
varios aspetos. As pesquizas efetuadas, leva- 
ram á conclusão de que, o sólo dos pastos 
onde a molestia grassa comumente, é mais 
pobre do azoto, cal, potassa e acido fosfori- 
(áo de que as outras pastajens. As plantas 
forrajeiras resentem-se da pobreza do solo 
e as medidas profiláticas e terapêuticas, 
achani-se subordinadas á ausencia daquelas 
substancias. A observação dos fazendeiros 
do norte de Goiaz é portanto verdadeira 
porquanto, com toda a probabilidade, causas 
análogas, sinão idênticas, são as que dão 
orijeni a osteomalacia naquela rejião goia- 
na. Em Agua Branca, municipio do Porto 
Nacional (Goiaz) informaram-nos da existen- 
cia relativamente frequente do "e/npôlo" ou 
"gerímum", tumor que crece no dorso em 
cima do jogo anterior das patas dos cava- 
los e qne lentamente acaba por impedir a 
locomoção. 

A peste dos porcos é comum, principal- 
mente no sul de Goiaz, onde a criação destes 
animais se faz em escala muito maior que nas 
rejiões anteriormente percorridas. Das modali- 
dades clinicas da molestia, o povo só conhe- 
ce a forma pneumónica a que dá o nome 
de '^batedeira". Passa por ser ocasionada por 
germe filtravel, mas, as recentes pesquizas 
de KING e HOFFMANN {Spirochaeta suis, 
its significance as a pathogenic organism. 
Studies on Hog Cholera The Journ. of infecti- 
tas diseases, Vol. 13, No 3 pp. 463-498 Nov. 



1913), trouxeram grande luz á questão por 
quanto, estes autores, evidenciaram ser a 
molestia ocasionada pelo Spirochaeta suis, o 
qual, possuindo formas filtráveis, permitiram 
a suposição da patojenia ocasionada por 
virus ultra-microscopico. No Vol. 16 N" I 
pp. 54-57 Janeiro de 1915 da mesma revista 
KING, E. W. & DRAKE, H. R. dão publi- 
cidade aos resultados obtidos com a cnlturj 
de espiroquetas feita em meio de Hata, con) 
rim de coelho e da sementeira do filtrado 
em Berkefeid de material procedente duma 
lesão assestada na orelha de um porco e cujo 
exame, no ultra-microscopio, revelava, nu- 
merosos espiroquetas. A inoculação em 3 
animais, reproduziu a molestia sendo verifi- 
cada em todos a presença de espiroquetas. 

Sob a denominação de "ffl///Vm" o povo 
daquelas rejiões denomina o Cysticercns cel- 
lulosus, fase larvaria da Taenia solium L., 
no seu hospedeiro intermediario, o porco. A 
cisticercose é ; ilativamente abundante, sendo 
a carne infetada, só repelida quando muito 
infestada. 

A avicultura é pequena, concorrendo para 
isto o preconceito existente contra o aprovei- 
tamento da carne de aves, as quais, em 
geral, passam por ser nefastas e por isso 
não entram na dieta de certas molestias 
principalmente o impaludismo. Em Caracol, 
existe criação bem desenvolvida de pavões e 
o '''■cocar" (galinha de angola) é por toda a 
parte quasi tão abundante quanto a galii.ha. 
Apesar de não encontrarmos, nem termos 
conseguido informações positivas sobre .t 
presença do Argas pérsicas (OKEN), acredi- 
tamos na sua presença pelo menos até Par- 
naguá pois, por varias vezes, onvinios refe- 
rencias a males dizimando galinhas e patos e 
que, pela descrição, deve-se atribuir ao Tre- 
ponema anserina (SACHAROFF) (Spiro- 
cheta gallinarum dos autores) germe transmi- 
tido por aquele ixódida. 

A niiiase estrosa, que tantos prejuizos 
ocasiona no gado das zonas meridionais 
do paiz, só existe esporadicamente nas rejiões 
secas. Todo c longo percurso compreendido 
entre Joazeiro até os limites de Goiaz, somen- 
te em uma localidade denominada Jatobá e 



160 



pertencente ao municipio de Remanso (Bahia), 
foi verificada a presença da Dirtnatobia ho- 
minis (LINNAEUS JUN. , 1781) (=/). cvani- 
ventris, MACQT.). Já em trabalho publicado 
ha alguns anos previramos que isto acon- 
tecesse, pois a mosca produtora do berne 
exije condições de humidade que não são 
encontradas nas zonas referidas. Ninguém 
até hoje calculou os prejuizos acarretados 
aos couros de boi pelo parasito em questão, 
mas basta referir, que, a depreciação produ- 
zida nos couros exportados do Brazil são 
tão grandes que, para o fato ZUERN desde 
1877, chama atenção para os couros prove- 
nientes do Brazil e denominando, de Riohaute 
todas as peles procedentes do Brazil ou não, 
e que estão desvalorizadas pelas perfurações 
produzidas pelas larvas da Dermatobia. 

A ausencia deste díptero nas zona bas- 
hianas e pernambucanas, permite inteira va- 
lorização das peles de cabras, principal ele- 
mento de exportação de varios municipios 
daqueles Estados; além disto, como z. Derma- 
tobia além de parasitar grande numero de 
?namiferos, ataca também o homem, esta 
miiase deixa de fazer parte do quadro noso- 
lojico da zona. Ao entrarmos, porém, nos 
gerais entre S. Marcello (Bahia) e a vila de 
Duro em Goiaz, começamos a verificar que 
o berne se apresentava com mais fiequencia; 
é, porem, no Estado de Goiaz, principalmente 
na zona meridional, que a miiase assume 
proporções de flajelo ; somente na zona 
entre Baião e Porto Nacional se nota certa 
tliiiiinuição, porém, á medida que nos apro- 
ximávamos da zona de mala do Sul do Es- 
tado, Íamos observando as depredações oca- 
sionadas no gado pelo parasito. 

Até hoje continua ignorada a maneira 
pela qual as moscas depositam os ovos 
sobre os hospedeiros; recentemente SUR- 
COUF comunicou á Academia de Ciencia de 
França os resultados observados por GON- 
ZÁLEZ-RINCONES da Venezuela, sobre o 
papel exercido por um culícida (Janthinosoma 
liitzi) como veículador dos ovos da Derma- 
tobia. Observações por nós efetuadas quanto 
ao que concerne á biolojia deste culícida e 



ainda sobre o berne, são inteiramente con- 
trarias ao referido por aqueles autores. 

Temos de confessar porém que, as provas 
em favor de tal teoria estão se acumulando. 
O primeiro a denunciar o fato, foi RAFAEL 
MORALES de Guatemala em Dezembro de 
1911, o qual em 1913 conseguiu criar a larva 
no braço de um seu empregado. Knab, no 
Vol. XVUl, No. 3 pp. 179-183 dos Proc. oj 
the Ent. Soe of Washington, Set. 1916 publi- 
ca sob o titulo ''Egg- Disposal In Dermato- 
bia hominis" interessante trabalho a respeito. 

Estamos muito mais inclinados a aceitar 
a observação popular, já por nós rejistrada 
em S. Paulo e noroeste de Matto Grosso, 
sobre a penetração direta da larva no corpo 
do hospedeiro. Embora, desprezemos em 
geral as observações populares por serem 
de regra mal feitas, não nos deixaram de 
impressionar a concordancia que \erificamos 
existir entre as observações do povo daque- 
les Estados, com as referidas por varias pes- 
soas, nos lugares Taboão proximo á Capital 
de Goiaz e pelos fazendeiros das proximi- 
dades de Anhanguera, localidades onde o berne 
atinje proporções por nós nunca verificadas. 
Diz a gente dos referidos lugares que, a mosca 
desova diretamente sob as pessoas e vestes 
ou sobre as roupas colocadas sobre plantas, 
principalmente se estas se acham impreg- 
nadas de suor o que muito as atrae aliás, 
este fato já está rejistrado pelas observações 
scientificas concernentes aos insclos hemató- 
fagos. 

Se de fato assim acontecer, a explicação 
de casos de recemnacidos se infetarem dentre 
dos domicílios, donde nunca saíram, está 
realizada, pois os ovos são acarretados pelas 
vestes que se contaminaram; nestes cazos 
também, existe um argumento favorável ao 
transporte dos ovos pelos mosquitos que in- 
vadissem o domicilio. Além disto, a descri- 
ção que fazem os habitantes das zonas onde 
o berne é abundante, da larva de pequenas 
dimensões e que referem ser arrancada por 
ocasião da penetração pela pele, fala em 
favor do que afirmam. 



16) 



No Sul de Ooiaz, assistimos a aplicação 
sobre as parles do corpo do gado inçado de 
berne, duma mistura de pó e banha o que 
obriga as larvas a abandonarem as lojas onde 
se acham, caindo por isso ao sólo. Este modo 
de tratamento é perfeitamente racional e pra- 
tico, pois impede o acesso ao ar e obstrue 
as placas estígmaticas asfixiando deste modo 
as larvas. 

Como em varias outras partes do Brazil, 
verificamos que as pessoas do povo incrimi- 
nam a um diptero pertencente ao genero 
Echinomyia, como o produtor responsável de 
berne. A orijem desta crença reside no fato 
da observação de que, varias especies daque- 
le genero, lançam as larvas sobre as folhas 
das arvores, onde procuram os seus hospe- 
deiros, geralmente larvas de lepidópteros. A 
verificação deste fato, contribuiu para que, 
mesmo em livros cientificos, encontre-se a 
afirmação de que a Dermatobia lance as 
larvas sobre as folhas, onde o homem e os 
animais se infetam com o contato. 

Em Goiaz soubemos que as proprias 
antas se ''embernam", sendo as onças muito 
perseguidas, fato já rejistrado por varios 
observadores e que muito contribue para a 
desvalorização das peles. 

Observação que rejistramos no sul de 
Ooiaz e que nos causou estranheza, foi o 
grande tamanho dum berne retirado de um 
bezerro de 20 dias segundo a informação ; 
a ser verdade, isto indicará que a Dermato- 
bia se desenvolva muito mais rapidamente 
no gado bovino, ao contrajíio do que se dá 
com o homem e animais onde a evolução é 
de varios mezes. 

Terapêutica popular 

Este capitulo mostrará a inopia de re- 
cursos em que vivem as populações do Brazil 
Central, obrigadas a procurar auxilio na flora 
e fauna locais afim de se tratarem. Pela ex- 
posição que abaixo daremos, ver-se-á a po- 
breza do arsenal terapêutico de que podem 
lançar mão, aliás, quasi sempre, sem o menor 
resultado. Os produtos provenientes da flora, 
são empregados conforme as localidades, 
para debelar males de natureza completamen- 



te diferentes e isto, já é uma prova do pe- 
queno ou nenhum valor como meio medica- 
mentoso. 

Temos a impressão de que se exajera 
imensamente em todo o Brazil, a ação tera- 
pêutica das nossas plantas; esta afirmação 
não exclue o fato verdadeiro de muitas es- 
pecies vejetais possuírem realmente ação te- 
rapêutica eficaz; a qualquer, porém, que com- 
pulse trabalhos de botânicos brazileiros, não 
escapará o enorme numero de plantas, indi- 
cadas como elementos terapêuticos de pri- 
meira ordem, para grande numero de enfer- 
midades. 

A não ser os trabalhos de PECKOLT e 
artigos da lavra de MONTEIRO DA SILVA 
e algumas tezes de medicina, quasi não ha 
pesquizas orijinais sobre o assunto, limitan- 
do-se os trabalhos a assinalar as virtudes te- 
rapêuticas que lhes dá o povo. 

Os produtos extraídos da fauna são em 
muito menor numero e não possuem tanto 
credito; as reras, crendices e abuzões, têm 
grande voga pelo prestijío que lhes empres- 
ta o maravilhoso. O 'Undo olhado", em todo 
o Brazil Central, possuo ainda todo o seu 
misterioso poderio e indivíduos ha, possuido- 
res de tal fama perniciosa que ''''até o falar ofen- 
dé\ São jetatton, cuja presença ou fala, são 
suficientes para aniquilar a melhor terapêu- 
tica local em prejuízo do enfermo, cuja morte 
lhes é atribuida. 

Os picados de cobra são especialmente 
influenciados pelos referidos indivíduos e 
isto, dá larga marjein ao curandeirismo que 
explica os desastres, atribuindo a influencia 
maléfica de alguém. A crença no poder 
sobrenatural que algumas pessoas dizem pos- 
suir, é verdadeiramente espantosa. Em Par- 
naguá tivemos oportunidade de conhecer 
um individuo que, muitas leguas em torno, 
era tido como possuidor de pt^deres fantás- 
ticos na cura do ofidísmo. Qualquer pessoa 
picada, mesmo gravemente, restabelecer-se-ía 
se porventura o referido individuo tivesse 
tempo de colocar as mãos no corpo ou 
mesmo em objeto da propriedade da vitima 
e isto, a qualquer distancia. Contestar este 
fato, demonstrando sua impossibilidade, seria 



Itl 



trabalho invtil para^ q^iem. c|ue¡ra tentar; 
mesmo a$ pes&ôas, de maior cultura da locar 
îidade, dão-lhe completo çredjto; o próprio 
curandeiro, com quem conversámos, solene-; 
mente nps narrou longa serie de curas, termi- 
nando por dizer que ignorava a razão do 
seu poder* 

O povo não conhece cobras, nutrindo 
por elas verdadeiro terror; a não ser a cas- 
civel benicaratensada pelg chocalho, qualquer 
cobra escura que se lhe apresenta, é iniediata- 
inenle julgada como venenosa; para ele as 
cobras voam, sendo a caiunana sempre citada 
como exemplo. Apezar da impossibilidade 
anatómica o impedir, algumas cobras gozam 
a faculdade de mamarem em vacas e até em 
mulheres durante o sono. Entre os saurios 
existe o genero Amphisbaena (cobra de duas 
cabeças) cujos representantes são absolutamen- 
te inocuos mas, para o povo, são ohdios dos 
mais venenosos. Erros ha, mais desculpáveis 
como por exemplo, o fato da cascavel engulir 
os filhos quando se vê perseguida; sendo este 
ofidio ovo-viviparo, ao se matar algum 
exemplar na eminencia de dar á luz, inter- 
pretam como tendo sido engu'idos. Ignoran- 
cia tão completa a este respeito, explica o 
êxito de qualquer terapêutica, porquanto 
qualquer picada é para o povo ocasionada 
por cobra venenosa. 

Ao individuo picado, aplicam os seguin- 
tes medicamentos, alguns, como o alcool 
em alta dose, usada em todo o paiz e 
outros, já de uso local como o alho, medi- 
cação de primeira ordem naquelas parajens 
e utilizada para combater diferentes enfer- 
midades; o sal, a pólvora e oquerozene são 
ainda usados também interna e externamente. 
Outras localidades aplicam o ferro em brasa 
e também o rozalgar (bisulfureto de arséni- 
co) interna e externamente. As pessoas mais 
cultas empregam o permanganato de potássio. 

A "golda" (infusão) de umburana de 
cheiro, é também aplicada assim como as 
raspas do tronco do pinhão bravo. 

Em outros lugures empregam as raspas 
duma arvore denominada ^^coronha". A soro- 
terapia é completamente desconhecida, fora 



das cidades do percurso; o numero de óbitos 
humanos é avultado pelas informações; o pre- 
juízo no gado é também grande. Além das 
cobras que Butantan prepara o soro, ha certa- 
mente outras venenosasjá rejistradas na ciencia 
e provavelmente algumas ainda desconhecidas, 
que devem ser estudadas é capturadas, afim 
de se dar inicio ao preparo de soro, única 
medicação eficaz contra as mordeduras. O 
individuo picado, emquanto se trata, não re- 
cebe visitas e entra apenas em contato com 
as pessoas da familia, afim de evitar a influ- 
encia de alguém possuidor de poder maléfi- 
co. As mulheres grávidas são especialmente 
mal vistas nestes casos. O alho, o sal e o 
alcool encontram empregos ainda nos casos 
de raiva ; comtudo, nada é mais eficaz para 
esta molestia do que o se colocar na boca 
do doente, a chave do sacrário da igreja 
mais próxima; até a urina ë utilizada como 
medicação para a raiva. Como meio profila- 
tico, costumam dar aos cais leite com calo- 
melanos ; localmente empregam a ponta quei- 
mada de chifre de veado e em alguns lugares 
usam a infusão da raiz duma apocinacea de 
nome "^ patacas" (Allamanda violácea 
OARDN e FIELD), a qual também é usada 
como antireumatico. Os ossos hioides vesicu- 
losos dos guaribas, servem em algumas locali- 
dades de copos, pois, a agua bebida nestes 
recipientes, possue virtudes terapêuticas centra 
o bocio. Também desses animais, procuram 
com o mesmo fim, alimentar-se da traquea e 
músculos da garganta. 

O impaludismo possue arsenal terapêu- 
tico mais variado, desde a resina de purga 
(Operculina convolvulus SILVA MANSO), a 
infusão das cascas do joazeiro (Ziziphus jua- 
zeiro MART.), o páo pereira Geissospennum 
vellosii FR. ALL. também em "golda''\ a in- 
fusão da flor da '^catinga de porco'' ou "pau 
de rato" e "catingueira", como é ainda de- 
nominada em outros lugares (Caesalpinia bra- 
cteosa TUL.) a flor e a raiz da '-Maria molle'^ 
ou "canafistula" (Cassia ferruginea SCHRAD.) 
e o fedegoso (Cassia varias especies) a raiz 
de "tipi" (sob este nome confundem duas 
fitolacacaceas : a $egnieria floribunda BENTH. 



163 



e a Petiveria tttrandra FISCH.) e as penas 
torradas da galinha de angola. Em outra 
parte já nos refirimos ao pouco uso de qui- 
nina. Os mandacarus (Cereus) e cabeças do 
frade (Echinocereus), encontram emprego em 
certas erupções. O joazeiro é das especies 
vejetais uma das mais empregada? na tera- 
pêutica popular <\c nordeste; as folhas, frutos 
e certas partes do lenho, o "entrecasco^', como 
chamam por ali, têm largo emprego ora 
como peitoral, cicatrizante, parasiticida etc. . 

Em 1909 o Dr. J. E. FREIRE DE CAR- 
VALHO JUNIOR deu á publicidade na Bahia, 
.^ob o titulo de "Estudo do Ziziphus joazeiro 
em suas aplicações na Medicina", a orijinal 
e interessante tese onde o autor noticia ter 
obtido uma nova glicosida a que deu o nome 
de joazina, tratando em seguida das aplica- 
ções medicas, tendo verifcado certa eficacia 
no tratamento das ulceras. 

A casca da umburana de cheiro Toiresia 
cearensis FREIRE ALL. é empregada em 
baühos e em perturbações menstruais muito 
comuns em toda a zona. As feridas são tra- 
tadas com a aplicação da resina da '^umbura- 
na vermelha'^ ou de '^abelha" Bursera lepto- 
/-(///oros MART.) ; as flores são utili/.adas como 
calmantes ; as feridas dos animais são trata- 
das com a '^goída" da "imbira-assú" Bombax 
L.); da f avelara {Pachystroma acanthophylla 
LOEFGR.), é utilizada a infusão das raspas 
do tronco, para as hemorrajias internas em 
consequência de ferimentos. A difteria é tra- 
tada com limão; contra a pneumonia ali cha- 
madas de "pleuriz" usam empregar o dente 
canino esquerdo da queixada {Dycoteles la- 
biatus CUV.), o qual, depois de 'Horrado" é 
bebido em alcool; em localidades bahianas, 
costumam beber o sangue da galinha de 
angola logo depois de sangrada. As conjun- 
tivites são tratadas barbaramende com sarro 
de cachimbo em geral, e em alguns lugares, 
adicionado de limalha de ferro e limão. O 
joazeiro ainda encontra aplicação nas hemor- 
roidas e corizas, o marmeleiro (Crotón), anji- 
co (Piptadenia moniliformis BENTH.) aroeira 
(Astronium) e "Catinga de porco" são em- 
pregados comumente como balsâmicos. 



Como antielminttco usam o mastruço 
(Chemopodium ambrosioides L); este medica- 
ção é de fato eficaz. As mííazes são tratadas 
também racionalmente pois, empregam o ca- 
lomelanos e a creolina. O emprego desta 
porém, á medida que as fazendas vão se 
afastando das povoações, diminue pelo alto 
preço que atinje, mas desde que o animal 
foje usam então das rezas; segue-se e rastro 
da rez atacada e logo que é encontrada 
forma-se, com duas folhas verdes introduzidas 
umn na outra, uma cruz a qual é colocada 
sobre a pegada do animal e «.oberta com a 
terra apanhada do mesmo rastro, e reza-se 
em seguida; também empregam a "golda" 
das cascas das juremas (Miniosae) com o fim 
de debelar as bicheiras. 

O carbúnculo sintomático é tratado pela 
castração dos bezerros e pela confeção duma 
cruz, feita com ferro em braza, sobre a anca; 
em alguns lugares, costumam usar como me- 
dida profilática o calomelanos o qual é in- 
troduzido sob a pele; em outros lugares 
sa ngram os bezerros atacados ; contra o mal 
de cadeiras empregam também o calomela- 
nos debaixo da pele e sangram o animal. 

Estas observações compreendem so.nen- 
te os Estados de Piauhí, Pernambuco e Bahi."; 
em Goiaz onde a flora apresenta outros ele- 
mentos, as plantas fornecedoras de medica- 
mentos são inteiramente diversas. Por toda 
a parte, tem largo emprego em homens e 
animais, uma euforbiacea a que dão o nome 
de '^paulista" (Joannesia princeps VELL.), o 
tártaro emético e o pinhão de purga (Jatro- 
pha curcas L.). Em localidades, onde ha me- 
dicos, estes são consultados em ultimo caso; 
primeiramente apelam para as rezas e as me- 
dicações em uso; em certos lugares do Piaubí 
as mulheres do povo, quando dão á luz, 
costumam injerir uma beberajem onde entra 
a pimenta; a tezoura que serviu para cortar 
o cordão umbelical é colocada sob a cabeça 
da criança afim de impedir o mal de 7 dias. 

A caapeba {Heckeria peltata L.) assim como 
o Solatium paniculatum L (Jurubeba) são 
utilizadas de varios modos para combater as 
molestias de figado, febres diversas e até a si- 



— 164 



filis ; uma capparidacea o "mussambê'* (Citóme 
spinosa L.) e o "loco" (Plumbago, scandens 
L.) já com este nome conhecido do tempo 
de PISO e MARCGRAV apenas não possuin- 
do tantas aplicações, são utiliz;idas como 
sinapisantes. A agua contida no caule das 
niuciinans (Muciina ADANS) e a raiz do im- 
buzeiro {Spondias tuberosa AR. CAMARÁ), 
são utilizadas no tratamento das diarreas. 
Como em toda a parte do Brazil, é crença 
que as frutas locais são as causadoras das 
sezões, por isso, os habitantes se privam 
principalmente das pinhas, araçás e melancias. 
Entre os amuletos existe o dente de jacaré o 
qual é colocado bem á vista no chapéu de 
couro, cíim de protejero portador de certas 
enfermidades. O oleo extraido da gordura de 
capivara, viu, os ser empregada em Parnaguá 
na cura da tuberculose. Naquela localidade, 
o referido roedor é muito abundante, e o 
farmacêutico local comprava a 2$ a garrafa do 
oleo. Em Goiaz, os ganglios cervicais da anta 
encontram largo emprego nas afeções reu- 
máticas. 

Considerações gerais. 

Mesmo no verde que exprime a fartura 
naquelas parajens, a alimentação da maioria da 
população é insuficiente e má. Na zona das 
caatingas, a base é constituida pela carne de 
bode, farinha e raspadura: noPiauhíe certas 
zonas de Goiaz, o xarque é feito com a carne 
do gado vacum. Nas farendas de gado o 
leite é utilizado de varias maneiras e em 
abundancia. A carne verde e o leite são ex' 
celentes no Piauhí ; em certas épocas do 
ano, porém, o gado gosta de alimentar-se 
duma planta, que impregna a carne e o leite 
dum sabor aliáceo quasi intolerável. Durante 
os dias que estivemos hospedados na fazenda 
Tanque, foi impossível obter-se leite com 
outro sabor e mais de uma vez, a carne 
mesmo bem cozida, em nado mascarava o 
forte saboi de alho que encerrava. A causa 
deste fato reside na injestão pela rezes duma 
bignoniacea trepadeira ali vulgarmente co- 
nhecida pelo nome de "cipó d' alho" e que, 
provavelmente, é a Adenocalymma alliaceum 
MIERS. 



A titulo de curiosidade, transcrevemos o 
cardápio de um vaqueiro das proximidades de 
Joazeiro, que pessoalmente nos deu a infor- 
mação: Ás 6 horas café simples; ás 10 almo- 
ço de carne de sol (carne de vaca ou de 
bode preparado á maneira de xarque) fari- 
nha e ás vezes feijão ; ás 13 horas jantar que 
consta da mesma alimentação do almoço, 
tendo porém a majs rapadura e requeijão 
como sobremesa; ás 19 horas ceia; café 
acompanhado geralmente de requeijão ou 
carne. Esta é a alimentação dos abastados, 
fora das cidades e vilas, pois o vaqueiro 
participa de todas as regalias dos fazendei- 
ros. 

Muito menos do que isto, constitue a 
alimentação dos pobres habitantes do sertão 
do nordeste ; a frugalidade deles é inevitá- 
vel ; onde porem a miseria assume propor- 
ções dolorosas, é nas rejiões bahianas e pi- 
auhienses próximas de Goiaz e principalmen- 
te no norte deste Estado, onde grande nu- 
mero de brazileiros vive ao Deus dará, pro- 
curando mel e comendo o que caça sem sal, 
cozido simplesmente n'agua e acompanhado 
de arroz, quando ha, farinha e alguns cocos 
quando é tempo. O sal para grande numero 
de habitantes destas rejiões não é absoluta- 
mente utilizado e pode-se calcular que assim 
seja, pelo elevado preço que atinje nestas 
parajens, onde, quando existe, é vendido a 
2$000 e mais o litro. 

Isto só se observa nas moradias isola- 
das e disseminadas nos ^'Gerais" mas, o nu- 
mero destas, é certamente de alguns milhei- 
ros; em geral, nas parajens distantes a que 
agora estamos nos referindo, o que existe é 
o agrupamento de algumas casas, a maior ou 
menor distancia de uma que serve de centro; 
o todo é denominado quasi sempre pelo 
nome de morador mais importante; não é 
bem uma fazenda, é um punhado de gente 
que se auxilia reciprocamente. Aí a alimen- 
tação é mais abundante, existe o milho, 
arroz, feijão, raspadura e criação "miiinçà" 
(galinhas, porcos etc). Para o viajante, estes 
sitios representam muitas vezes a salvação, 
não ha exajeiro ; são os únicos lugares onde 
poderão se abastecer de viveres e do milho 



165 



impredndivèî á tropa. Mesmo assim ó uso 
do sal é peqcieno: apenas usado em quanti- 
dade indispensável para impedir que a carne 
a se xarqueiar se putrefaça. O café não é uti- 
lizado, pois o preço é proibitivo sendo vendi- 
dó em grão, a 2$ o quilo, nas proximidades 
do Porto Nacionali Não acreditamos haver 
necessidade de insistir mais neste capitulo ; 
ainda guardamos vivas, as impressões bem 
uistes, da profunda miseria e do abandono 
cm'qne jazem milheiros de seres humanos 
e, o nosso depoimento, de forma alguma 
viria mitigar as suas aflições. 

Como se alimentar convenientemente se 
o salario é desprezivel? Em Joazeiro e ime- 
diações, o salario é de 1$ diarios a 12 iioras 
de trabalho sem descanço; a 30 quilómetros 
de Petrolina cae a 500 rs. e o mesmo tempo 
de trabalho sendo a comida á custa do patrão, 
chegando a baixar a 300 e200 rs. em varias 
localidades bahianas e pernambucanas. Do 
Piauhí em diante, começam os contratos que 
continuam presentes, na propria capital de 
Qoiaz, conforme informações insuspeitas. Na 
vila do Duro e imediações, paga-se a men- 
salidade de 7$ por trabalhador; o trabalho 
é de 8 a 10 horas; a comida fornecida pelo 
patrão, o descanço é obrigado ao5 domingos 
e dias santificados ; nas proximidades das 
cidades a mensalidr.de melhora; proximo á 
Capital de Goiaz chega a atingir 2ü$00ü. o 
quilo de carne verde na vila do Duro custa 
250 rs. , o litro de sal 1$, a lata de queroze- 
ne de 15-20$ e, de passajem, é bom notar-se 
que o Duro se abastece facilmente em Bar- 
reiras- Bahia, de onde dista cerca de 8 dias 
de viajem comum. A 50 quilómetros da cida- 
de do Porto Nacional, já o sal é vendido a 
1$500 o litro, o querozene a 1$000 a garra- 
fa; a creolina 100 gramas por 1$; no Veris- 
simo o querozene sobe de preço, o sal alin- 
je 2S o litro e este preço se mantém até á 
distancia aproximada de 160 quilómetros da 
Capital de Ooiaz, começando então a docer, 

O alto preço que atinje o petróleo, ex- 
plica a iluminação usada no Brazil Central; 
o uso da candêa é generalizado, algumas são 
feitas de ferro e compradas nos grandes 



centros mas a maioria, é de arjíla feita tosca- 
mente, apenas com a concavidade necessária 
para conter a gordura de quajquer animal 
ou cera de abelha, carnaúba, oleo de mamo- 
na e que alimenta o pavio. Lonje das cidades 
e vilas, é o que se usa; ena parte central de 
Goiaz, não existe outro meio dé iluminação, 

A carestia de certos géneros, só apresen- 
ta a vantajem de não permitir o desenvolvi- 
mento do alcoolismo, os habitantes afastados 
das povoações maiores, são abstemios força- 
dos; a garrafa de aguardente atinje a 2$ e 
acima. 

Para compensar a ausencia do alcoolis- 
mo, ha o tabajismo que existe em proporções 
incríveis; as mulheres geralmente funlam ca- 
chimbo, mascam e tomam rapé; as crianças 
mascam ocultamente, mas usam rapé dada 
pelos pais. 

Geralmente o uso de masca começa aos 
12 anos e muitas vezes, são os próprios pais 
que iniciam os filhos com o intuito de evitar 
a geofajia, indicio de provável anquilosto- 
mose. O tabajismo é muito mais desenvolvi- 
do entre as mulheres, sendo muito comum as 
que mascam e pitam 1/2 vara e mais de fumo 
poi semana. Pezámos uma vara de fumo e 
encontramos 750 gramas de pezo. A 'imasca- 
deira" não abandona a "masca" ou ^''brejeira" 
nem para comer e muitas, dormem com o 
fumo na boca; no entanto o fumo não deixa 
de ser caro porquanto, uma vara custa de 3 
a 4$. 

Antes de se chegar a Joazeiro o viajan- 
te tem impressão nitida da escassez d'agiia 
da rejião que percorre, pela distribuição d'agua 
feito pelo trem da carreira aos moradores de 
certas estações. De Itumerim em diante co- 
meça o serviço; o liquido é transportado em 
Vagão-tanque que comporta 10 metros cúbi- 
cos e onde os moradores vêem encher as 
vasilhas; parase apressar a operação, algun- 
individuos sobem ao deposito d'agua e dali 
despejam o liquido o qual, em grande parte, 
derrama-se no solo acarretando grande des- 
perdicio. 

Nas cidades, vilas e povoações ribeirinhas, 
a população se abastece facilmente eem Joa- 



166 



zeiro, S. Raymundo Nonato, Porto Naciorial,; 
e Ooiaî ha vendedores d'agua em bafiris 
nenhuma cidade ou vila, possue agua canali- 
zada apezar da extrema facilidade de tal ie 
obter para algumas delas. 

Nas fazendas, em geral, o liquido é for- 
necido pelos açudes; oâ habitantes da vila 
de Parnaguá se abastecem da lagoa do 
mesmo nome ou, o que é o mais comum, de 
cacimbas cavadas em determinados lugares. 
Em Caracol a agua existente para todos os 
misteres procede de lagoa raza ; procurando 
os habitantes utilizal-a de uma das marjens 
para lavajens de roupas, abeberar os animais, 
emquanto a outra fica reservada para a popu- 
lação beber. Nem sempre porém, este cuida- 
do é tomado; podemos verificar em grande 
¡iumero de localidades, no único deposito 
d'agua existente, a separação por uma cerca 
de madeira, ficando a parte interna reservada 
para os moradores e a externa para os 
outros usos. Logo adiante de Petrolina co- 
meça-se a observar esta pratica. A separa- 
ção, como facilmente se compreende, é per- 
feitamente teórica e de fato o que se dá, é 
o rejime da aguada comum para homens e 
animais ; é inutil lemb'-ar os perigos de tal 
promiscuidade pois, é crença arraigada, que 
"/ia agua nada pega". 

No povoado Lago de 25 a 40 fogos e 
pertencente ao distrito de Santanna, munici- 
pio do Riacho de Casa Nova, Bahia, a agua 
utilizada pelos moradores é de inacreditável 
poluição. Em Jatobá, localidade do munici- 
pio de Remanso, a agua centrifugada deu 
em 10 cc3. de volume o deposito 0,1 cc^. o 
que equivale a 10 cc^. por litro e a operação, 
foi executada com um centrifugo de mão tipo 
KRAUSE. Em certas zonas maniçobeiras, a 
agua é extremamente escassa sendo vendida 
pelos barraqiiistas por preços exorbitantes. 
Lugares ha, onde a escassez d'agua é tão 
grande que cada morador não pode se utili- 
zar de mais de 2 a 3 litros diarios ; a inopia 
deste elemento, explicará certamente o desas- 
3€io corporal em que se encontra a maioria 
da população do Brazil Central, onde o ha- 
bito do banho só existe para os habitantes 
das marjens das lagoas e cursos d'agua. 



'■• Em tèrtós trechos do caminho, ha ne- 
cessidade de se forçar a marcha, afim de se 
pousar em determinada aguada, em regra de 
rhá qualidade ; em alguns chapadões de grande 
extensão, é imprecindivel a utilização de reci- 
piente dé couro ou lona, denominados de 
"borrachas" e que se enchem d'agua, afim de 
se poder realizar a travessia. 

Estas observações só compreendem as 
rejiões da Bahia, Pernambuco e Piauhi, em 
Goiaz a agua ainda existe em grande profu- 
são, com exceção de algumas zonas niais 
centrais. 

Somente nas cidades e vilas encontram- 
se casas relativamente bem construidas, as 
cidades mais importantes do percurso são 
Joazéiro e Goiaz; nestas existem predios de 
2 pavimentos; em todas as vilas visitadas, 
habitações de 2 andares só existem na de S. 
Raymundo Nonato (1) e vila do Duro 
também 1 ; a iluminação de pequena parte 
de Joazéiro é de petróleo e em Goiaz de 
acetileno pro parte, nas outras nada existe a 
este respeito. 

Em toda a rejiâo da caatinga, até as pro- 
ximidades de S. Raymundo, não existe sequer 
uma só casa que não seja coberta de telhas; 
o fato se explica pela raridade de palmeiras 
e do sapé. Isto obriga a existencia da indus- 
tria oleira e vista de certa distancia, Petroli- 
na e Joazéiro, não deixam de ser pitorescas 
com os telhados vermelhos pois, o clima não 
permite o desenvolvimento da vejetação 
criptógama que os escurecem. O conforto 
em Petrolina já é bem menor que em Joa- 
zéiro, e, nas melhores casas, a criação 
^'meun" invade os aposentos. Lonje das po- 
voações, á primeira vista, conhece-se a casa 
dum grande fazendeiro por ser caiada; o 
mobiliario consta duma grande mesa de ma- 
deira, alguns bancos e nas paredes peças de 
madeira que servem para sustentar as redes; 
a sala é também caiada, os aposentos in- 
ternos em geral são apenas rebocados ; a 
iluminação é dada por grande candieiro de 
querozene, de folhas de Flandres com pintu- 
ras ; o chão é revestido de tijolos, retanguía- 
res. 



167 



Não ha armarios e os moveis que o subs- 
tituem, são arcas de couro e madeira. Na zona 
das caatingas os caibros e vigas são de man- 
dacaru ; a habitação acima descrita é comtu- 
do minoria, pois a regra é não ser caiada 
apesar da cal se vender a 200 rs. a saca em 
alguns lugares, onde é abundante; o mobi- 
liario porém é sempre o mesmo. As janelas 
não possuem vidraças e, esta pratica, se obser- 
va nas vilas e cidades goianas com exceção 
da capital. Em toda a cidade do Porto Nacio- 
nal somente existe uma casa com vidraças. 

Logo porém, que aparecem as palmeiras, 
desaparece como por encanto as casas de 
telhas para darem lugar á palhoça ; no Piauhí 
e Bahia a carnaúbeira e a piassava são utili- 
zadas para este fim; além deste material é 
muito comum habitações revestidas com a 
cortice do "pau de casca", especie vejetal que 
não conseguimos determinar ao certo. Alguns 
barracões de maniçobeiros são cobertos coi» 
gramineas e com um revestimento externo 
de barro, o que deve constituir excelente 
abrigo para as triatomas; todavia este modo 
de proceder é raro pois, só o observámos 
uma vez. 

Mor.-'.dias ha, tão primitivas que, nem 
usam o barro; são entrançados de varas com 
cobertura de "pau de casca" ou de folha de 
palmeiras que também completam o revesti- 
mento das paredes. 

O vestuario é o mais rudimentar possí- 
vel e, a não ser na zona das caatingas, onde 
a abundancia de espinhos torna obrigatório 
o uso de alpergatas de couro, no resto do 
trajeto os habitantes, em geral, andam descal- 
ços e este habito é tão comum que, as praças 
de policia destacadas em S. Raymundo No- 
nato e Parnaguá, mesmo fardadas, nunca as 
vimos calçadas. As crianças de ambos os 
sexos das familias mais pobres, andam nuas 
mesmo quando já bem crecidas; os adultos 
vivem andrajosamente. Os vaqueiros da Bahia, 
Pernambuco e Piauhí quando em trabalho, 
vestem-se completamente de couro, único 
vestuario capaz de resistir aos espinhos de 
flora tão hostil. 

Naquelas parajens pobres e onde o pi- 



toresco é tão raro, os vaqueiros constituem 
tipos dignos de toda a simpatia e admiração ; 
por varias vezes, surpreendemol-os em cami- 
nho, no arduo mister de vaquejar e somente 
quem assistiu, poderá avaliar a extraordina- 
ria enerjia fisica e inegualavel corajem que 
possuem ; eles demonstram que aquela genk- 
tem enerjias capazes dos maiores feitos e até 
hoje, nada vimos em arrojo, sangue frio, re- 
sistencia e ajilidade, comparáveis ás façanhas 
daqueles homens. 

Nas vilas e cidades á marjem de S. 
Francisco, o elemento negro é ainda bastan- 
te numeroso ;á medida porém que o viajante 
se interna, este vai se tornando cada vez 
mais raro e é quasi totalmente substituido por 
um tipo acaboclado e que pela côr, modcj 
de falar compassado e calmo, quasi sem 
gesticular, denunciam o decendente do pri- 
mitivo habitante da rejião ; este elemento 
forma a maioria da população. Nas rejiões 
interiores da Bahia, Pernambuco e Piauhí, é 
muito comum a presença dum tipo ruivo de 
olhos azuis e que são conhecidos pelos nr>- 
turais pela designação de "laratijo". De hn 
muito que ouvíramos referencias ao fato, 
mesmo por escritor estranjeiro e a explic"- 
ção geralmente adotada, é de que se tratava 
de decendentes dos holandeses; o fato, para 
nós, tem outra explicação pois julgamos o 
aparecimento espontaneo e isto, podemos ve- 
rificar com algumas crianças loiras decendeii- 
tes de pais e avós que, embora brancos, não 
eram siquer aloirados; talvez não seja corre- 
to identificar o fenómeno com o que DE 
VRIES chamou mutação mas, sem duvida, 
ha analojia. 

Não se ¡majine que se trate dum fato 
esporádico, ao contrario, em alguns trechos, 
o fato chamará atenção de qualquer. Em 
Goiaz domina o elemento resultante da fusão 
do negro c índio prevalecendo o primeiro; 
isto no norte, e explicável pelas levas de es- 
cravos que serviam na exploração do ouro 
e cujos vestijios se encontram a cada passo. 
No sul o elemento branco já predomina e 
os habitantes são mais vigorosos. 



168 



A relíjião predominante é a católica em- 
bora eivada de exajeros e superstições. Em 
quasi iodas as moradias, mesmo as das ci« 
dades como Joazeiro, Petrolina, etc, vêm-se 
cruzes pintadas ás portas ou janelas ; nas 
povoações goianas fazem-nas de madeira e 
as pregam na parede principal da residen- 
cia. Em Almas esta pratica é observada ri- 
gorosamente e sem exceção, duma só habita- 
ção ; a cruz é feita não por ocasião da inau- 
guração da residencia, mas quando reina 
epidemia, e uma vez colocada, não é mais 
retirada. 

O culto, por vezes, é misturado com o 
profano como vimos em S. José da Canastra 
em uma capela toda decorada com pinturas 
repretentando animais; o uso de rezas es- 
critas e pregadas ás paredes, continua muito 
generalizado ; a maioria encerra dizeres para 
combater as epidemias e nas zonas dos 
maniçobeiros, as depredações destes; outras 
são pregadas nas roças rogando contra o 
fiajelo desecas. No municipio de Corrente, 
o protestantismo nestes últimos anos, tem 
feito grande numero de adeptos a ponto de 
dominar em algumas localidades ; todavia não 
se percebe, em qualquer sentido, nenhuma 
modificação para melhor com a aquisição de 
novo credo ; na vila de Parnaguá existe 
lambem um núcleo protestante, cuja influen- 
cia para o aperfeiçoamento moral ou mate- 
rial dos habitantes não se percebe. Á chega- 
da em Porto Nacional dos barcos, que re- 
gressam do Pará e que constitue uma grande 
festa local, as embarcações arvoram a ban- 
deira do Espirito Santo; raras são aquelas 
onde também existe o pavilhão nacional. 

Os frades exercem dominio absoluto, 
mas, a não ser os dominicanos, dignos de 
todo o respeito pela grande obra de bene- 
merencia que ha mais de 20 anos vêm de- 
sempenhando no Brazil Central, os outros 
não passam de vis exploradores. 

As rejiões bahíanas, pernambucanas e 
piauhienses, são periodicamente percorridas 
por frades de varias confissões e nacionali- 
dades em "missões"; a isto se chama a 
permanencia em dado lugar, onde durante 



alguns dias, realizam serviços relijiosos todos 
pagos, com exceção da confissão. Passámos 
alguns dias depois duma "missão'* se ter 
posto em marcha, no lugar denominado 
Peixe-Bahia; os frades demoraram-se cerca 
de 12 dias e realizaram centenas de casa- 
mentos, batismos e crismas, pois para o local 
onde se realiza a "missão", acorrem morado- 
res de toda a redondeza. Ao cabo de alguns 
dias, o dinheiro miúdo escasseia e então os 
frades começam a trocar com ajio. JVlas o 
peior mal, é a guerra encarniçada e a cruza- 
da que fazem em nome da relijião,' contra o 
casamento civil, o qual é fanaticamente re- 
pelido pelos desgraçados sertanejos como 
quotidianamente verificávamos. Entre os curi- 
osos hábitos do povo, existe' nos "gerais" o 
casamento realizado, na noite de S, João, o 
qual se realiza junto á fogueira, em presença 
dos pais dos noivos, padrinhos, pessoas de 
familia, convidados e que é considerado vá- 
lido para todos os efeitos. O isolamento em 
que vivem, e a grande distancia que teriam 
de vencer para atinjir o local donde se achasse 
sacerdote, sujeriu-Ihes a sinjeleza poética 
dum contrato civil, unjido pelo fervor das 
suas crenças. Pois bem, quando os missioná- 
rios passam, torna-se necessário aos casais 
unidos alguns, já por muitos anos, contribuir 
a titulo de esmola, com o correspondente ao 
duplo dum casamento banal, afim de que a 
união seja abençoada. 

E tempo das autoridades intervirem e 
certamente o farão, com o patrocinio moral 
da igreja porquanto o próprio cardeal, já 
baixou uma bula aos seus vigários a res- 
peito dos deveres dos sacerdotes em relação 
ao casamento civil ; e é necessário á bem do 
decoro da relijião católica, que cesse a igno- 
minia das missões comerciais. 

Felizmente, para contraste consolador, 
existem os frades dominicamos instalados no 
Porto Nacional; estes sim, exercem o sacer- 
docio com toda a dignidade e, a sua ação 
intelijente, humanitária e civilizadora ha de 
certa:nente se inscrever na historia da 
civilização brazileira. Na cidade do Porto Na- 
cional, ao lado da soberba igreja de estilo 



— m 



romano, única construção de valor encontra- 
da em todo o trajeto, existem liceus dirijidos 
pelas freiras e onde se çnsina artes e oficios 
e a 1er a grande numero de crianças. Em 
todo o norte de Goiaz até a Capital o casa- 
mento civil é prcstijiado pelos dominicanos^ 
os quais determinam aos seus fieis que le** 
galizem civilmente a união católica poreles 
realizada; as informações a esse respeito são 
unanimes por parte dos moradores. Na Ca- 
pital do Estado, os dominicanos instalaram 
um asilo onde se abrigam cerca de uma cen- 
tena de creaturas. De Curralinho até Anlian- 
guera, dominam, ha alguns anos, os redempto- 
ristas; até hoje nada fi/eram de util, não 
instalaram siquer uma escola; declaram 
guerra ao casamento civil e corno os primei- 
ros missionários referidos, exploram vilmente 
a população. 

A guerra ao casamento civil, leva o 
povo a repudiar o rejistro civil de qualquer 
natureza, exceção feita das localidades per- 
nambucanas onde, todo os rejistros com ex- 
ceção do de óbito, são efetuados com regu- 
laridade, que nos surpreendeu. O óbito nunca 
é rejistrado e o enterramento se realiza sem 
a menor formalidade civil, pois nem mesmo 
guia da autoridade é necessária. Já se vê 
que estão excetuadas as cidades, ou melhor, 
a parte central das cidades e vilas pois, nos 
suburbios, as falhas já são grande«. 

Quando na redondeza existe algum ce- 
mitério, o cortejo fúnebre faz algumas legoas 
afim de levar o cadaver mas, nos lugares 
onde as habitações são raras, o corpo é le- 
vado em rede ao cair da tarde. O cortejo 
desloca-se rapidamente ; na frente, conduzindo 
uma luz, marcha um homem que intermiten- 
temente brada: "irmão das almas". Trata-se 
dum apelo feito aos moradores e aos via- 
jantes que por acaso passam, afim de auxi- 
liarem o transporte do cadaver. A cova é sempre 
raza, sobre elas plantam uma cruz e colocam 
flores, as quais de vez em quando são reno- 
vadas, mesmo pelos viajantes. Quando o nu- 
mero de habitantes é grande, constroe-se 
então o cemitério; trata-se dum cercado de 
de grossas estacas e que não possue porta; 



pqrg, se entrar, deslocam-se alguns páos.r, no 
centro, ergue-se dominando o recinto, grande 
cruzeiro.de madeira. Cemitérios murados só 
nas grandes povoações; em algumas locali- 
dades piàuhienses e goianas, os enterramen- 
tos das melhores familias locais, são ainda 
realizadas no interior das igrejas, como po- 
demos verificar em Jití, Parnagná e Desco- 
berto. 

O encarregado do Rejistro Civil da vila 
de S. Raymundo Nonato, permitiu que co- 
piássemos os dados lançados nos livros e 
que cniiíêm as informações em todo o mu- 
nicipio de S. Raynmndo Nonato: 1909, 4 
óbitos; 1910, 2 óbitos; 1911, 6 óbitos; 1912, 
até 16 de Maio inclusive, 14 óbitos, o fun- 
cionario no entanto nos garantiu que até este 
mez, o numero de óbitos elevava-se certamen- 
te acima de 100. 

Alguns juizes de direito, de quando em 
vez, vão á "desobriga'^ \ esta denominação é 
dada pelo povo, á necessidade que obriga 
aos frades instituírem as missões; os funcio- 
narios civis aproveitam da designação popu- 
lar, quando saem a lejitimar casamentos e 
nacimentos dos habitantes sob sua jurisdição; 
Somente poucos levam a compreensão pelo 
dever a este ponto. 

No entanto, ha enorme zelo por parte do 
governo, em cobrar os inauditos impostos; 
o Piauhí servirá de exemplo, porquanto é 
deste Estado que os nossos aponiamentos 
são mais completos. Cada bezerro nacido, 
paga 2$ se fôr exportado 3$, a vaca 5$; o 
couro exportado paga SOO rs ; qualquer gado 
com exceção do caprimo e suino que gozam 
de isenção, é taxado 10 o/o ad valorem e para 
os efeitos da cobrança o cavalo é avaliado 
em 50$ e o burro em 100$. Estes impostos 
são estaduais, a municipalidade, porém, exíje 
o pagamento de 500 réis a 4$200 conforme 
a rejião, pela rez abatida. O Estado ainda 
cobra os impostos prediais e. de matadouros; 
é obvio que com tal sistema, os fa7endeiros 
dêm informações falsas sobre os bezerros 
nacidos nas suas propriedades. Se porventu- 
ra o fazendeiro se insurje contra o Governo,, 
o lançador de impostos exajera a produção, 



170 



a qual, é cobrada judicialmente até que o 
adversario se arruine, isto mais do que tudo, 
explica a anciã de quem é proprietário nessas 
parajens de ser situacionista a todo o 
transe. 

Pelo seguinte extrato que fizemos da 
mensajem de 1914, apresentado ao Congresso 
estadual pelo Governador do Piauhi, Dr. 
M QUEL ROSA, vê-se que o propric gover- 
no já reconhece a inexatidão das informa- 
ções concernentes á industria pastoril. Diz a 
mensajem : 

"A base do imposto do dizimo é o lan- 
çamento feito peio collector, de acordo com 
a informação da parte interessada. Rara ve? se 
afasta o representante do fisco das informa- 
ção, sob todo o ponto suspeita". 

'O melhor documento desta afirmativa 
está na eslafiskica do ultimo ano. Em todo 
o Estado foram lançadas 6.845 fazendas de 
criação de gado vacum, "I.IOS de cavalar e 
165 de muares. Oeiras é que maior numero 
de fazendas do gado vacum possue; 491. 
Vêm depois nesta ordem; Paulista 355; Jaicós 
344; Valença 304; descendo até Caracol, que 
só tem 27. No gado cavalar, quem maior nu- 
mero de fazendas possue é Jeronienha ; 106. 
Seguem-se-Ihe Valença, 98; Alto Longa, 89; 
Castello 78; Campo Maior 77; descendo até 
Pedro II e Santa Philomena, que não 
contam nem uma. 

'"Fazendas com muares são poucas e 
não existem absolutamente nestes municipios: 
Bom Jesus, Santa Philomena, Oublies, S. 
Raymundo Nonato, Simplicio Mendes, Urus- 
suhy, Pedro II, Amarante, Livramento, Peri- 
pery, Altos. Parnahyba, Porto Alegre, União 
e Caracol. 

"O imposto é lançado sobre esta produ- 
ção: 

Garrotes 55517. 

Poldros 3.2-55. 

Burros e jumentos . . 294. 

Não pagam imposto sobre poldros Santa 
Philomena, Pedro II e Caracol, e sobre 
burros e jumentos, todas as enumeradas 
como não tendo fazendas de uma rez. 



Estas cifras estão lonje de exprimir a 
verdade." 

O serviço de Estatística do Ministerio 
da Agricultura, pelos dados colhidos em 1913 
dá o Piauhi, possuindo 1.163.000 bovinos, 
266.000 equinos, 96.000 asininos e muares, 
638.000 caprinos, 325,000 suinos. A nossa 
impressão pelo que vimos ■ em varios mu- 
nicipios dos mais criadores, é de que as refe- 
ridas informações são muito exajeradas. Os 
dados concernentes a Goiaz, que a este les- 
peito conhecemos melhor que o Piauhi, dão 
um rebanho pecuario total de 3.168.000 ca- 
beças, e são também, pela nossa observação, 
ainda mais exajerados. Quasi (oda a zona 
pastoril de Goiaz, foi por nós percorrida e 
surpreendeu-nos tão elevado total. 

Como era de prever, a instrução é muito 
pouco difundida; um professor pernambucano., 
cuja escola foi extinta, calculou o analfabe- 
tismo nas caatingas em 80 o/o e podemos 
avaliar qual o grão rudimentar dos que sabem 
1er, pelas cartas escritas por este mestre-es- 
cola, o qual tirava a subsistencia da função de 
escriba, que exercia de fazenda em fazenda. 
Aliás, observámos vivo desejo por parte dos 
pais em fazer ensinar os filhos, pois é comum, 
o espetaculo de professores ambulantes que, 
a 3$ mensais por aluno, instalam-se nas fa- 
zendas durante algum tempo. Principalmente 
no Piauhi, nota-se a vontade de aprender; 
em S. Raymundo Nonato por exemplo, além 
da escola publica, existe outra subsidiada por 
particulares, ao preço de 5$ por aluno; o 
professor publico percebe 60$ os quais com 
os descontos, resumem-se em 50$ pagos 
sempre com atrazo. Em Pamaguá existem duas 
escolas publicas muito frequentadas; em 
Qoiaz o analfabetismo ainda é maior e não 
estará lonje da verdade quem o calcular pelo 
menos em 95 % no norte do Estado. Os 
poucos professores existentes, organizam ta- 
boadas especiais que os alunos decoram e 
cantam em coro e que diz: "1 cobre 40 rs. , 
2 cobres e meio 1 tostão" e assim por diante. 
Em Goiaz esta pratica é imprecendivel, pois, 
as pessoas do povo ignoram por completo o 
valor monetario em réis da moeda; 500 



171 



réis são chamados 12 cobres e meio: 1 di- 
nheiro corresponde a IS etc. etc.. Em Porto 
Nacional e proximidades, os dominicanos 
emitem vales impressos em pape!, que são 
aceitos como moeda corrente. Até hoje inda 
¡jjuardamos grata recordação dum vozerio 
que nos despertou a atenção, ao passarmos 
por um grupo de casas duma localidade pau- 
pérrima de Qoia/. de nome Tanque; quando 
nos aproximámos, deparámos com um cole- 
jio particular de 8 alunos apenas, em exerci- 
cios escolares; mais uma vez evidenciava-se 
a ardente vontade daquela gente em fujir 
;io analfabetismo, que a incuria dos poderes 
piiblicos rião procura dar combate. 

O sistema métrico adotado pelo pais, 
só é corrente entre as pessoas educadas das 
cidades e vilas; o povo ainda o repele e as 
suas medidas em uso continuam a ser o 
palmo, covado, vara, oitava e onça Mas o 
anacronismo que mais desperta a atenção 
pela confusão que acarreta ao viajante, é o 
atinente ás medidas de capacidade as quais 
variam em localidades do mesmo Estado. O 
/)rato varia de 2 a 4 litros a guaría equivale 
a 16 pratos na Bahia e a 30 no Piaulií; al- 
gumas localidades pernambucanas adotam a 
unidade cuia —9 litros. Em Goiaz usa-se o 
salainim —5 pratos ou 10 litros e ]á aquaria 
tem menor capacidade, pois mede apenas 40 
litros. A única medida de peso que se vul- 
garkou foi o quilo, todavia, todos os grandes 
pezos são referidos á unidade arroba. As 
medidas itinerarias têm por base a legoa a 
qual, com as mensurações feitas quotidiana- 
mente a podómetro, nos deu a média de 4 
quilómetros; em Goiaz, porém, a legoa tem 
grandes oscilações a que o povo denomina 
de "legoa grande" ou "pequena'". A grande 
quasi nunca ultrapassa de 4 quilómetros, por 
isso as informações concernentes á distancia 
a percorrer, são ás vezes das mais disparata- 
das. Pf áticamente não ha estradas e a única 
que merece este nome, foi construida recen- 
temente entre S. Raymundo e Remanso, pela 
companhia que explora o grande maniçobal 
ali plantado. A maioria do percurso foi rea- 
lizado na estrada conusm, que não passa 



dum caminho ; certos trechos porem, nem 
isto existia tornando a viajem penosa. 

Nos gerais bahianos, ha uma grande 
zona de tremedais que não deixa de ser pe- 
rigosa, principalmente para a tropa, havendo 
necessidade de guias. 

O transporte da carga faz-se de maneira 
a mais primitiva pissivel, em muares ou ju- 
mentos ali denominados át jegues. Neste par- 
ticular, os goianos, aparelham-se melhor do 
que os habitantes dos outros estados. E' de 
regra cada tropa levar animais sobresalentes 
("adestros") e, nos lugares ermos, é indispen- 
sável conduzir milho para os animais, pois 
nem sempre se pode contar com pastajens. 

Os animais não são ferrados, o qun acar- 
reta grandes prejuízos para as cavalgaduras 
em certas zonas pedregosas. Somente do 
Descoberto (Goiaz) para o sul "calçam" os 
animais como ali se diz; aliás seria quasi 
impossível precindir desta medida, devido a 
immensa quantidade de seixos e calhaus que 
revestem os caminhos daquela localidade á 
Capital de Goiaz. 

Alguém, reproduzindo em fotografia a 
maneira de transporte usado norte do Brazil, 
assinalou que idêntico sistema era usado ha 
4 mil anos pelos ejipcios, esquecendo-se, 
porém, de acrecentar que certamente em me- 
lhores estradas. Entre a Capital de Goiaz 
até Anhanguera, ainda se adota a liteira 
para o transporte de senhoras de melhor ca- 
tegoria. No rio de S. Francisco e em alguns 
afluentes, além da navegação a vapor, exis- 
tem barcos á vela, muito carateristicos e pi- 
torescos e pequenos botes vulgarmente cha- 
mados de paquetes. O rio Tocantins é nave- 
gado por grandes batelões e nos rios mais 
despovoados, o transporte de mercadorias 
faz-se em balsas construidas com os talos de 
buriti. 

Em todo o percurso de mais 3500 quilóme- 
tros a partir de Petrolina, só encontramos estra- 
da de ferro em Anhanguera (Goiaz). A pri- 
meira estação telegráfica na cidade de Goiaz. 
O serviço de correio, existe em todas as ci- 
dades e vilas, com exceção da de Parnaguá 
que antigamente o possiu'a. Todos os mora- 



172 



dores do Piauhí e Goiaz, queixam-se amar- 
gamente do serviço postal; é impossível aos 
habitantes do sul do Piauhí, assinarem perió- 
dicos da Capital da Bahia ou do Rio, porque 
nunca chegam aos destinatarios; tão pouco 
podem confiar valores, pois são certamente 
desviados. Num paiz como o Brazil, onde 
faltam as revistas, o papel desempenhado por 
estas, é mais ou menos suprido por certos 
periódicos do sul e, é certamente lamentável 
que, os raros fazendeiros desejosos de acom- 
panhar as aquisições da industria, agricultu- 
ra etc. , vejam-se privados do único elemen- 
to de divulgação, embora imperfeito, que o 
paiz possue. 

Apenas 3 localidades possuem periódicos; 
Joazeiro, Porto Nacional e Goiaz ; nenhum é 
diario, alguns têm escasso serviço telegráfico. 
A circulação é exclusivamente local; em todo 
G Estado de Goiaz, existem 8 periódicos 
sendo que a metade na Capital. 

Quem viaja tem que contar com os pro- 
piios recursos, sendo inutil a esperança de 
encontrar hotéis e hospedarias, as quais só 
existem nas cidades de Joazeiro c Petrolina, 
e na povoação de Formosa; entre a Capital 
de Goiaz e Anhanguera, qualquer fazenda 
fornece hospedajem retribuida. Nas vilas, 
principalmente nas do Piauhí, a hospitalidade 
dada pelas pessoas de influencia, é em todos 
sentidos inexcedivel ; os pequenos fazendei- 
ros e as pessoas do povo, facilitam a dor- 
mida dentro das moradias, mas, indiretamen- 
te, cobrani-se vendendo por preços desco- 
medidos, os géneros destinados á alimenta- 
ção e adquiridos pelo viajante; esta pratica 
é usada principalmente na Bahia ou pelos 
filhos deste Estado, habitando as rejiões per- 
nambucanas e piauliienses. 

No Piauhí, é de praxe, o fazendeiro íor- 
neeer dormida e alimentação a quem pousa 
em sua casa; este costume torna por vezes 
custosa a hospitalidade principalmente, nas 
moradias proximo ás estradas muito transi- 
tadas, o que tem levado a muitos, a mudar 
o domicilio para lonje do caminho. 

Os resultados colhidos na nossa excur- 
são são, em grande parte, devidos á solicitu- 



de carinhosa a nós dispensada por varios fa- 
zendeiros que, por todos os modos, nos deram 
o mais decidido auxilio. 

A indole dos habitantes é pacifica, con- 
tudo certos fatos, deixam transparecer uni 
fundo de crueldade inexplicável. 

Quem visita a povoação de Formosa, 
ainda encontra os vestijios de lutas relativa- 
mente recentes, travadas entre 2 potentados 
locais, cremos que em 1909; fazendas destíu- 
idas, casas incendiadas, toda a sorte de de- 
satinos e perseguições, inclusive assasinatos 
I da crianças e mulheres e fuzilamento e eni- 
palamenio da mulher dum dos chefes, a qual 
se achava em estado de gravidez Na princi- 
pal rua da vila, vêm-se varias casas incendia- 
das, nos arredores da povoação porém, é 
que se pode medir os horrores cometidos e 
ouvir espantosas narrativas de tanta selvaje- 
ria. 

O bárbaro castigo infiijido aos conqu s- 
tadores de mulheres casadas cora fazendeiros 
e que consiste na castração ou emasculação 
total, pena, que tem sido por varias vezc; 
aplicada principalmente em certas zonas d(> 
Piauhí, e cujos mandantes e mandatarios são 
sempre unanimente absolvidos, pois, a moral 
local julga o criminoso com simpatia por se ter 
desafrontado em melindrosa questão de honra, 
episoilios que são narrados com terrível mi- 
nudência e com gestos de assentimento e de 
aplauso dos circumstantes, obrigam a julgar 
o habitante da cidade, como sendo possui- 
dor de melhor índole. Esse cruel processo 
de desafronta á moral local, foi com toda a 
probabilidade, trazido pelos africanos, sendo 
pratica corrente entre muitas tribus negras 
da y\frica. Ainda aos africanos, devem-se o 
costunie tão generalizado no Brazil Central, 
e ei'1 outros Estados do Brazil, da mutila- 
ção dos incisivos. Em certas zOiías brazilei- 
ras, é frequente encontrarem-?e individuos 
de ambos os sexos com •$ dentes incisivos, 
especialmente os superiores, triangulados. A 
essa prótese selvajem, é dado o nome de 
"a/jo/itar'^; os ''dentes apontados" são prepa- 
rados por um operador que, com a iamina 
dum canivete ou punhal impulsionada por 



173 



uma pancada rápida, corta certa porção late- 
ral do dente. Fatos dessa natureza têm sido 
referidos por varios africanistas, tendo sido 
inesino objeto de oesquizas medicas, como 
as que deram orijeni ao trabalho de AN- 
DERSON, G. R., publicado sob o titulo de 
"Some tribal customs in their relation to medi- 
cine and morals, e aparecido ás paj. 239-278 
do Fourth Report of the Welcome Tropical 
Research Laboratories Vol. B.-Khartoun, 
1911. 

A criminalidade deve ser elevada; a 
maioria dos criminosos facilmente foje, pois 
em geral, os crimes são cometidos premedi- 
tadamente e surpreendem a vitima quasi 
sempre traiçoeiramente. Informou-nos o car- 
cereiro de Pamaguá que, no espaço de 1 ano, 
teve sob sua guarda 9 presos acusados de 
assasinato ou tentativa, realizados no muni- 
cipio. 

Não é raro os assasinos precoces ; du- 
rante a nossa travessia, uma criança tiniia 
matado outra poucos dias antes de nossa 
l^assajem em Caracol e, na vila Parnaguá, 
encontrava-se detido um menino pelo mesmo 
crime ; as informações sobre estes casos in- 
felizment"? não são escassas. Os preso-; são 
mantidos sem contensão, quando ha cadeias 
bastantes fortes ; em Caracol o preso é 
mantido em tronco ; todavia este processo 
só é ali utilizado, emquanto o preso espera 
remoção para a detenção da vila de S. Ray- 
mundo. No Duro, um assasino já condenado, 
vivia de gargalheira de ferro ao pescoço e 
presa por correntes á parede. Durante os 
dias que ali permanecemos foram-lhe retira- 
dos os elementos de suplicio, mas eram bem 
visiveis os vestijios deixados pelo uso. 

O júri não é mais imperfeito que o de 
lugares mais adiantados do paiz ; a absolvi- 
ção dos criminosos, depende do maior ou 
menor prestijio que possue na zona. 

O abandono em que jazem as popula- 
ções do Brazil Centrai, muito contribuiu 
para aumentar o natural espirito de rotina 
cjue os domina; grande numero de habitan- 
tes, quiçá a maioria, é misoneista. Pratica- 
mente são impermeiaveis ao progresso, pois 



em localidades onde artefatos da industria 
moderna são vendidos a preços perfeitamen- 
te ao alcance da bolsa de grande numero de 
moradores, são repelidos por mil e uma 
razões; p. ex.: o simples moinho de café 
quasi não é visto; o pilão continua sendo 
insubstituível, a maquina de costura é com- 
pletamente desusada, apesar dos moradores- 
em giande parte do trajeto serem obrigados 
a se vestir de couro, cujas roupas continuam 
a ser cozidas á mão. Máu grado a agua ser 
em geral de má qualidade, o uso de qualquer 
filtro, mesmo dos mais primitivos e que po- 
deria ser feito no próprio local, a custo 
dcsprezivel, é toialmente desconhecido. O 
enjenho de assucar, é inferior ao usado em 
Pernambuco no tempo do dominio dos ho- 
landezes, pela comparação com o desenho 
dado por PISO e MARCGRAV; neste parti- 
cular, portanto, a tendencia é para regredir. O 
nome alualmente empregado para designar o 
local onde se fabrica o assucar, é o de "r«y<'- 
nho de cana"; nada mais primitivo nem tão 
rudimentar; 30 o/o do caldo é perdido devi- 
do á iniperfeição das expressões, tudo é 
feito com enorme morosidade havendo ne- 
cessidade do emprego de 10 pessoas que se 
ocupam durante 16 horas, apenas interrompi- 
das por pequeno espaço de tempo, empre- 
gado em curtas refeições; o trabalho pro- 
longa-se por toda a noite. O pessoal distri- 
bue-se da seguinte maneira: duas pessoas 
(1 homem e um menino) no carro de boi 
de duas juntas, para condução do material 
do canavial á moenda, 2 cortadores de cana, 2 
moedores, 3 mulheres no trabalho do tacho 
1 ''banqueiro" (individuo que se ocupa em 
verificar o ponto da calda do assucar) pois 
tudo isso em ação, consegue apurar 240 
quilos no máximo, de raspadura. 

Este é o enjenho de cana comum ; ba 
maiores, sem duvida, raros com alambique 
mas, destes, no nosso trajeto só os encontrá- 
mos no sul de Goiaz, onde proximo á Ca- 
pital, vimos o ],\\mç:\xo enjenho a vapor na 
Fazenda Fleury depois de tão longo per- 
curso. 



174 



A farinha de mandioca, permite menos 
aparato, e facilmente é feita em qualquer 
parte; o pão é completamente desconhecido 
fora das cidades e vilas, sendo que destas, 
nem todas o possuem. Em geral não ha tulhas 
para guardar feijão, milho, etc; estes cereais 
são introduzidos em enormes sacos de couro 
os quais são cozidos; este processo, aliás, é 
melhor que o da conservação nas tulhas mal 
fechadas, porquanto impede o acesso das es- 
pecies de coleópteros do genero Calandra 
CLAIRV. e que ali são conhecidas pelo 
nome de '^carocha!' e cujos estragos são 
bem conhecidos. 

Certa vez, em habitação bahiana bastan- 
te afastada de qualquer povoação, tivemos 
do seu proprietário, a exata definição do que 
de fato é a moradia sertaneja isolada do 
inundo, sem recursos, sem vias de comuni- 
cação, telégrafos e correios; onde a noticia 
do que vai pelo planeta é transmitida oral- 
mente pelo raro viajante que passa, ou tra- 
zida pelo recemvindo enviado como estafeta 
{''positivo") e portador duma carta ou recado 
c!e amigo ou parente distante, tratando de 
negocio urjente. Ao considerar a dificuldade 
material de vencer as distancias, de povoar 
aqueles ermos, que nunca chegará o dia do 
caminho de ferro por ali passar, que, embo- 
ra velho não percebia a menor diferença 
para melhor do que quando era criança, e, 
certo de que seus netos morrerão anciãos 
deixando as cousas como encontraram, aca- 
bou encerrando resignadamente em dolorosa 
mas verdadeira imajem: "isto aqui, é uma 
sepultura sberta". 

O fazendeiro tinha razão, pois não será 
nem na velhice das crianças de hoje, que 
aquelas plagas serão reveladas ao progresso 
e â civilização; quando se imajina que a vila 
de Parnaguá foi elevada a esta categoria em 
1634, possuindo hoje, com todos os arredores 
600 habitantes, e, depois de quasi 3 séculos 
de existencia se mantém relativamente á épo- 
ca, no mesmo atrazo do dia em que foi fun- 
dada e cujas tendencias para regredir são 
patentes; que Caracol, no municipio de S. 
Raymundo, com as suas 150 casas, fundada 



por JOSÉ DIAS SOARES ha quasi 130 anos, 
nada levando a presumir que em proximo 
futuro veja as suas condições modificadas, 
são fatos que provocam a meditação ao se pro- 
curar a explicação. 

Apesar dos acontecimentos se manterem 
através da tradição oral, os decendentes dos 
conquistadores do nordeste brazileiro, nada 
sabem informar a respeito dos primitivos ha- 
bitantes das zonas e qual o nome das tribus 
que ali dominavam ; quando se referem aos 
antigos indijenas, sempre designam pelo 
nome de "tapuios". Caracol, foi conquistado á 
viva força "aos tapuios", foi tudo qu.mto a 
tradição guardou. Pela informação de DO- 
MIGOS DIAS SOARES, filho do fundador 
de Caracol, e que se lê á paj. 38 do trabalho 
citado mais adiante, pode-se inferir que os 
indios desalojados de Caracol pertenciam á 
tribu diferente dos Cherentes; sendo prova- 
velmente os pimenteiras, tribu que no di/.er 
do informante, habitava o "terreno que medeia 
das cabeceiras do Piauhí acima procurando 
os sertões de Pernambuco". Esta tribu foi 
considerada por EHRENREICH como per- 
tencente ao grupo das tribus caraibas, e por 
este autor lidas como muito diferentes dos 
tupis e dos gés; não sendo inoportuno 
lembrar que, em toda a zona provavelmente 
habitada pela referida tribu, existe ainda e, 
em alguns lugares abundantemente, certa ar- 
vore das mais conspicuas daquelas parajens 
e que possue nome idenfico ao designado 
por EHRENREICH. De vez em quando, certo 
nome, evoca a luta entre o aborijene e os 
conquistadores, como "Batalha" por mais 
de uma vez repetida durante o percurso ; mas 
a tradição perdeu- se totalmente. 

Nas rejiões atravessadas da Bahia, Per- 
nambuco e Piauhí, tudo quanto se mostra e 
se sabe dos antigos habitantes, são alguns 
desenhos abertos no lajedo, e que ainda hoje 
se podem observar bem proximo á vila de 
Parnaguá, representando animais toscamente 
executados e apagados, com exceção de 2 
macacos perfeitamente visíveis. Com toda a 
probabilidade, os autores destes desenhos, 
foram os índios Cherentes pois pelo menos 



175 



até 1827, frequentavam as cercanias de Par- 
naguá como se infere dos "Documentos 
sobre duas tribus de Indios, que ainda exis- 
tiam em 1827 na Provincia do Piauhí" e pu- 
blicados ás pp. 36-40 do T. II, lo Boletim 
da "Revista da Sociedade de Geographia do 
Rio de Janeiro" Ano de 1886. 

No entanto, é o elemento indijena, que 
predomina na constituição da população e al- 
guns hábitos são guardados como o uso de 
pescar a arco utilizado ainda, embora rara- 
mente, por alguns moradores da vila de Par- 
naguá. 

O comercio é feito por brazileiros, os 
quais m.iscateiam fiando as mercadorias com 
extrema facilidade; o preço por que são 
vendidas, é sempre mais ou menos 200o,'o 
acima da povoação próxima ; aliás as difi- 
culdades do transporte e a demora nos pa- 
gamentos, explicam perfeitamente o preço 
da venda á primeira vista exorbitante. So- 
mente as pequenas vendas exijem o paga- 
mento a dinheiro á vista; negocios avultados 
fazem-se trocando-se gado por mercadorias, 
totalmente ou metade, sendo o restante em 
moeda. 

Estamos convencidos que uma das 
causas principais e, no nosso conceito a mais 
impo! tante, do aírazo das reiiões do nordes- 
te é a ausencia de imigrantes. Excluindo 
Joazeiro e Petrolina, encontrámos no imenso 
percurso até a Capital de Goiaz, apenas 19 
estranjeiros a saber : 2 italianos naturalizados 
e empregados da Inspetoria e 2 inglezes na 
vila de S. Raymundo Nonato; 1 arabe em 
Pedro do Fogo (Bahia), 3 portuguezes (2 
relijiosos), 10 francezes (5 frades e 5 freiras 
dominicanas), em Porto Nacional; 1 francez 
nas proximidades do Amaro Leite (Goiaz). 
Pelo relatório apresentado em 1914 ao Con- 
gresso Nacional pelo Ministro da Agricultura, 
verifica-se que no ano 1913 entraram no 
Brazil 192.683 imigrantes, destes apenas 
2.150 destinaram-se á Bahia, nada cabendo 
aos Estados de Piauhí, Pernambuco e Goiaz. 

Sem o concurso da imigração será dificil 
galvanizar populações rotineiras, vivendo em 
terras lendariamente ricas mas que, na ver- 



dade, estão lonje disto. Em S. Marcello, nar- 
rou-nos um negociante local, o Snr. JOSÉ 
DOS REIS, que durante algum tempo teve 
como trabalhador um colono italiano, o qual 
em pequeno tracto de bôa terra á marjem de 
rio Preto, conseguiu transformal-o em grande 
horto fértil e abui.dante; com a sua retirada 
tudo decaiu, pela impossibilidade de obter 
tiabalhadores nacionais perseverantes. É 
absurda a acusação que se faz ao clima afim 
de afastar a colonização escranjcira ; ás 
marjens dos grandes rios, onde a agua nunca 
falta e que constituem quasi exclusivamente 
as únicas porções férteis de toda a rejião, 
o clima é perfeitamente compativel com a 
vida humana de estranjeiro pertencente a 
qualquer raça; o essencial é melhorar as 
detestáveis vias de comunicação, pois as exis- 
tentes incluindo a via ferroa e fluvial a vapor, 
são péssimas. O gado para ser vendido tem 
necessidade de ser conduzido á feira mai> 
próxima a qual, para certas rejiões dista cen- 
tenas de legoas. Uso que muito concorre para 
dificultar a iniciativa particular, é a pratica 
corrente da utilização do enormes latifundios 
que, pela extensão, dificultam a exploração 
metodizada; acrece ainda que, as enormes 
fazendas só raramente pertencem a um unie» 
dono ; todas são propriedades de muitas fa- 
milias pois a regra, é não se fazer partilhas, 
sendo a fazenda patrimonio de dezenas de 
proprietários o que impede uma açâo har- 
monica no sentido de determinada explora- 
ção. 

Em S. Marcello, alguns negociaiites, pre- 
ferem mandar buscar as mercadorias l-mi muares 
da cidade de Barra, pela maior rapidez e garan- 
tia que este primitivo modo de condução 
oferece, apezar do povoado ser ponto obri- 
gatório dos vapores da Viação Fluvial. A 
utilização por parte de particulares da nave- 
gação do S. Francisco, com as modernas e 
baratas embarcações a petróleo, não pode 
ser realizada por ninguém, pois o contrato da 
empreza que tão mal explora a navegaçã'» 
naquele rio, garante-lhe exclusivo monopolio. 

NãC' sabemos como se criou em todo o 
Brazil, a lenda agora dificil de se destruir, que 



176 



iodo o seu sólo, alem de ubérrimo, é riquissi- 
mo de m-nas ; os mapas, mesmo os mais 
modernos, encerram erros grosseiríssimos 
quanto á colocação até de cidades e aciden- 
tes geográficos importantes da rejião do nor- 
deste ; não obstante, vão salpicando ao capri- 
cho da prodigalidade do editor, informações 
sobre fantásticas riquezas do sub-solo e indi- 
cando culturas não menos inveridicas. Por 
sua vez, não ha escritor nacional que, ao es- 
crever qualquer informação sobre as referidas 
zonas, não inclua longo catalogo de repre- 
sentantes d'» flora e da fauna, cuja ausencia 
ou escassez, caem longo na vista de qualquer 
viajante. São certamente trabalhos elaborados 
em gabinetes lonjinquos e guiados por informa- 
ções tendenciosas dos injenuos moradores 
da zona, sempre prontos a ver riquezas a 
cada passo. 

E' fato vulgarissimo a citação por parte 
de fazendeiros, de riquezas ocultas no sub- 
solo e indicadas em roteiros extraviados ou 
ainda, a exibição de fragmentos de varios 
minérios e que são mostrados com todas as 
cautelas, pois foram encontrados em terras 
de sua propriedade. Desenganados pelo 
viajante- a respeito das amostras, guardam- 
nas comtudo, esperando que algum dia o 
prodijioso milagre duma riqueza subila, venha 
arrancar-lhes da modesta condição em que 
vivem. 

Em Ooiaz então, devido ao sucesso da 
extração aurífera aluvial, hoje visivelmente 
esgotada, é inútil a qualquer, querer mostrar 
que não devem nutrir esperança a este res- 
peito e, a citação de que varios técnicos es- 
tranjeiros, mesmo recentemente, tentaram em 
varios lugares do Estado após estudos prévios» 
instalar emprezas que morreram devido á 
escassez do ouro, de nada serve. 

A agricultura é atrazadissima e pratica- 
mente só existem plantações de milho, feijão, 
arroz, fumo e cana; somente em Caracol e 
S. Marcello vimos plantações, aliás pequenas, 
de café. Rara é a fazenda que possue pomar; 
algumas pessoas de mais iniciativa, constroem 
giraos que sustentam taboleiros de terra onde 
plantam algumas hortaliças. Em Joazeiro e 
arredores, alguns habitantes plantam videiras 



que produzem excelentes frutas, e que chegam 
a frutificar segundo informação de varias pes- 
soas idóneas, duas e trez vezes ao ano. Al- 
gumas anonaceas são também cultivadas e, 
com especialidade a "pinha" como é ali de- 
nominada a Annona squamosa L, e é tudo. 

No entanto, pelo que observamos en' 
todo o trajeto, incluindo Goiaz, existe 
para aquelas parajens uma possibilidade que, 
estamos certos, as arrancará do atual estado 
de miseria. Queremos nos referir ao algo 
deiro, o qual nace e se desenvolve da melho; 
maneira. No dia que se quizer encarar este 
problema seriamente, estudando as especies 
e variedades mais adequadas ao sólo, dar- 
se-á então a grande transformação e a abun- 
dância virá. 

Aliás, a extração de algodão, já permite 
em alguns lugares como Perí-perí, municipio 
de S''i. Rita (Bahia) a existe;icia de pequena 
industria rudimentar, sendo o algodão colhi- 
do, cardado, tecido e tinjido no local, e o 
pano vendido a 800 rs. a vara. Todos os ar- 
íefatos para a tecelajeni são de madeira e 
construidos pelos moradores. 

Na rejião das caatingas, a industria pas- 
toril é constituida na sua maior parte, pela 
criação do gado caprino; vindo em seguida 
a criação do gado bovino; fazem também a 
criação de jumentos, cavalos e burros, porém 
em menor escala ; por toda a parte a criação 
de carneiros é rara. Fora da rejião das caa- 
tingas, desaparece praticamente a criação de 
caprinos, para dar lugar em larga escala, pae 
bovinos. A zona de sul de Piauhí presta-se 
admiravelmente á criação do gado bovino e 
cavalar e, até hoje, nada vimos d" melhor 
em espécimens nacionais. Certas rejiões 
do referido Estado, possuem excelentes pas- 
tajens naturais, sem carrapatos ou quasi, não 
existindo absolutamente o berne. A probabi- 
lidade desta zona se desenvolver enormemen- 
te, está por isso assegurada. 

Facilmente, obtêm-se exemplares que 
atinjem 30 arrobas o que, para gado nacio- 
nal sem nenhuma mescla com animais de raça, 
parece-nos raro. A exploração intelijente e 
cientificamente feita de certa parte do sul do 



177 



Piauliî, deve constituir objeto de atenção por 
parte do governo daquele Estado. Nas rejiões 
bahianas que lhe ficam ao sul, a média do 
gado bovino ocila entre 15 e 16 arrobas; os 
carrapatos são abundantes e o berne já apa- 
rece ; no norte de Goiaz o gado é ainda 
menor e a abundancia de carrapatos e bernes, 
tira a esperança de qualquer tentativa de 
ciiaç^.o racional. 

Ofolk-lorista, somente com muito bôa von- 
tade, poderia respigar algo de interessante ; a 
literatura sobre o Folk-lore do norte do Brazil 
tem tido varios cultores, que já ccntribuiram 
com diversas obras sobre o assunto. Prova- 
velmente as populações litorâneas foram as 
que ina'5 concorreram pois, as do alto sertão, 
com grande surpresa para nós, são neste 
particular extremamente pobres. 

Os vulgares instrumemos de corda tão 
comuns entre as populações nortistas, quasi 
não existem entre os habiíantes do Brazil 
Central, o que acarreia a ausencia dos trova- 
dores e portanto os melhores colaboradores 
para o Folk-Lon\ tão pouco vimos ou sou- 
bemos da existencia de qualquer festa ou 
costume local interessante, sob o ponto de 
vista em questão, apesar de termos passado 
o S. João na vila de Parnaguá onde, a não 
ser a tradicion;;l fogueira que um ou outro 
habitante acendia, e bárbaro batuque que se 
prolongou por toda a noite, e que reuniu 
grande numero de moradores, nada mais foi 
observado. 

Muito pouco se canta por aquelas para- 
jens e quando alguém o faz, é viajante ou 
tropeiro que frequenta outras terras menos 
tristes. No norte de Goiaz, quando os vaquei- 
ros recolh3m o gado aos currais, um deles 
vai á frente cantando e servindo de guia. 
A este abolar chamam-no de "rebojar''' e a 
melodia, além de ser muito orijinal como 
composição, tem, sem duvida, extranha be- 
leza; sendo o espeiaculo da boiada a se des- 
locar acompanhando o cantor, dos mais pi- 
torescos e interessantes que por ali assistimos. 
Certa vez no Peixe, Bahia, tivemos a atenção 
despertada por um nosso camarada que nos 
levou a assistir a um ^'desafio'" entre dois 



cantadores. Eram 2 rapazes que tamborinan- 
do com os dedos em um banco, ou fazendo 
passar uma faca em bambú previamente pre- 
parado á maneira de reco-reco, afim de não 
perderem o ritmo, improvisavam com rapidez 
espantosa, as respostas a dar ao contendor 
e sempre inspiradas na estrofe daquele que 
cantava. O fato, novo para nós, deixou-nos 
grande impressão pela rapidez com que eram 
improvizadas estrofes rimadas, formando sen- 
tido e geralmente espirituosas; este modo de 
cantar ao ''desafio'" é denominado de "■lijcira" 
as rimas fazem-se em ar ou a. Tempos depois, 
tivemos oportunidade de assistir a outros 
"desafios'' análogos mas logo, pcrcebeinos 
que as estrofes são sempre as mesmas ven- 
cendo aquele que possue melhor memoria ; 
ao cabo de algum tempo, o interesse ficou 
muito diminuido para os trovadores do inte- 
rior do Goiaz que, ao cantarem a ^Hijeirá", 
repetiam, com pequenos variantes, os mesmos 
versos em resposta a outros idênticos, can- 
tados ao desafio no Piauhí e Bahia. 

Quasi 6 mezes de contacto diario, 
não só com os moradores, mas principalmen- 
te com 03 nossos camaradas todos nacido? 
no Brazil Central, foi tempo suficiente para 
podermos formar juizo seguro dos hábitos e 
costumes daquela população. 

A não ser "O boi espado", o A. B. C. 
incompleto de celebre salteador bahiano de- 
nominado Lucas da Feira, fragmentos d'A 
Nao Catarineta, e que eram declamados 
sempre pelo mesmo camarada, não ouvimos 
qualquer outra das produções populares que 
enchem os livros dos nossos folkloristas; O 
mesmo individuo por solicitação dos com- 
panheiros, contava historias ou cantava xaca- 
ras, como por exemplo "A Flor do dia" e 
outras perfeitamente lusitanas ou europeas 
na afabulaçáo e na melodia; o meio nada 
inspirara ou melhor, os habitantes foram in- 
capazes de crear algo de novo, mesmo em 
materia de "Folk-lore". 

A população baixa da vila de Parnaguá, 
acredita que a lagoa do mesmo nome, seja 
habitada por uma criança raptada por algum 
ente sobrenatural que a detém em seu 



178 



poder; em certas noites ouve-se o choro do 
pequeno prisioneiro. Esta lenda mal arquite- 
tada e sem beleza, constitue a única contri- 
buição orijinal fornecida pelos pobres brazi- 
leiros do nordeste. 

A Tapera naevia (L.), o popular saci, 
embora muito mais conhecida que no sul, 
tem o seu prestijio lendário muito diminui- 
do; sinceramente, hoje ninguém mais acredi- 
ta nos encantamentos e prodijios de que o 
pássaro seria capaz. 

E' na linguajem usada pelos habitantes 
do alto sertão, que se pode verificar melhor 
que em outro qualquer campo, quão pouco 
se fez sentir o intercambio de ideas, fatos e 
cousas entre o litoral e o Brazil Central. 

O falar dos brazileiros da referida zona, 
constitue veio riquissimo para ser explorado 
pelo lexicógrafo, o qual encontrará enorme 
nuiP.cro de vocábulos ainda não rejistrado 
na 2a edição de CANDIDO DE FIGUEI- 
REDO. 

O mais interessante porém, é a verifica- 
ção de palavras consideradas arcaisnios, mesmo 
em dicionários antigos, mas que ali vivem em 
todo o vigor. O verbo trouver em lugar de 
trazer, é o único conhecido pelas pessoas in- 
cultas que o conjugam em todos os tempos; 
caroavel na antiga acepção de propicio, é 
vulgar; nanja em lugar de não ou nunca; 
mancar por faltar; apanhar em lugar de em- 
punhar; adestro por sobresalente. 

Expressões apenas empregadas na lin- 
guajem escrita e guindada, são de uso cor- 
rentio: mouco (surdo) enr.car (enriquecer) 
aguar (regar), laborar (trabalhar) as plêiadas 
são chamadas de sete- estrelo, verdadeiro lu/is- 
nio. A tendencia propria da lingua de trans- 
formar os substantivos em verbos, torna-se 
ainda mais acentuada entre aquelas gentes: 
''Recursar" (procurar recursos), *' encarei a niar'^ 
(formar cardumes), "encestar" (colocar as 
cinzas dentro da "estilodeira", "estilador" ou 
ainda ^'^cacite" utensilio domestico em forma 
de cesto infundibuliforme, onde se guardam 
as cinzas com que se prepara a "decoadd* 
(lixivia); ^^adjutorar" (dar adjutorio) "respos- 
tar" (dar resposta), '^melar" (extrair mel) 



"paliar'^ (obter-se paliativo) "ensementar" (en- 
cher-se de sementes), ^'militar" (fornecer 
milho aos animais», "costear" (cruzar o ani- 
mal com outro de casta ou de raça) "ernber- 
nar'^ (adquirir berne), "pulsar" (tomar o 
pulso), "encangar" (unir prendendo 2 animais, 
mesmo que seja sem canga, afim de marcha- 
rem juntos) "pestear" (adquirir ou produzir 
peste). 

Como a linguajem, os próprios objetos 
de uso, são obsoletc>s, a espingarda de pei- 
derneira a "lazarino lejitima de Braga'', como 
se lê ao longo do cano, é de uso vulgar e, 
a espessa rotina que tudo envolve no Brazil 
Central, permitiu a um caboclo possuidor 
de uma destas espingardas o cotejo com armas 
modernas, mas, que não lhe trouxeram con- 
vição de inferioridade entre a sua lazarina e 
uma espingarda de retrocarga calibre 12. 

Na zona percorrida da Bahia, Pernam- 
buco e Piauhí, existe curioso modo de sau- 
dação entre os recem-chegados ; apertam as 
mãos e em seguida pouzam uma das mãos 
sobre o hombro do amigo, emquanto fazem 
perguntas de estilo. É cumprimento obrigató- 
rio e provavelmente representa habito de eti- 
queta usada em outras épocas. 

A semântica de alguns vocábulos é alte- 
rada: é muito comum nas proximidades dos 
gerais, empregar-se o verbo navegar de pre- 
ferencia ao viajar, quando se deseja designar 
grandes viajens. No sul de Goiaz, a paiavra 
viajar quasi não é nsada, a de uso corrente 
é "I'iajear" que assim é conjugado. "Amo/ar''' 
e ^'amajado" perderam a antiga acepção de 
ordenhar, para ser empregados para designa- 
rem entumecimenlos das partes genitais dos 
animais nas proximidades de parir. 

O problema das sêeas, como já dissemos, 
é poliédrico, i. é, tem que ser encarado por 
vr.rias faces. Consideral-o apenas por um 
lado é nunca aiinjir ao fim colimado; é inu- 
til querer resolvel-o apenas com uma única 
medida, seja esta tomada em escala e propor- 
ções ciclópicas ; a tendencia visível por parte 
dos habitantes das zonas, de julgarem que a 
presença d 'agua é suficiente para operar a 
transformação cubicada, é inteiramente falsa. 



179 



As populações ribeirinhas ou vivendo á 
iiiarjem de massas d'agua como a Lagoa de 
I^arnaguá, (êm o mesmo gráo de prosperida- 
de ou melhor, são pobres e vivem na mesma 
inopia de recursos que os habitantes das 
zon-is d'agua escassa. O problema no Brazil 
Central não depende apenas da agua ; esta é 
abundante á marjem do S. Francisco, onde 
nunca faltou e por ventura os moradores 
delas nadam na abastança? Ha quanto tempo 
as rnarjens do S. Francisco são povoadas ? e 
no entanto, nenhuma cidade no sentido mo- 
derno do vocábulo, nelas se ergue. Joazeiro 
com os 6 mil habitantes, apesar de rotulada 
pela denominação de "Princeza do Sertão", 
não passa de amontoado de gente habitando 
uma povoação sem esgoto, iluminação, agua 
encanada, pavimentação; compare-se núcleo 
de população igual, mesmo no Brazil meridio- 
nal, a diferença é patente e, se porventura o 
cotejo fôr feito com o Estado de São Paulo, 
é completamente desfavorável para as povoa- 
ções nortistas, joazeiro só foi escolhido para 
mostrar que, possuindo todos os recursos do 
progresso moderno, não sabe deles se apro- 
veitar. Naquela cidade termina uma estrada 
de ferro e se inicia o serviço fluvial do S. 
Francisco; existem portanto os elementos 
necessários de transporte e vias de comuni- 
cação, pois bem, quasi nada adiantam estes 
elementos; é dificil surpreender os motivos 
de tais fatos; a alguns quilómetros de distan- 
cia de Joazeiro, C5tá-se praticamente nas 
mesmas condições de quem estivesse inter- 
nado centenas de quilómetros daquela cida- 
de e, a não ser o recurso da proximidade 
das vias de comunicação, o resto é perfeita- 
mente análogo, i. é, o sertão em toda a sua 
primitividade. 

No Brazil, o sertão adquiriu prestijio 
através duma literatura ditirambica; foi este 
malsinado modo de contar as cousas que 
transformou o ''descrtão" na Chanaan da 
retorica indijena ; aliás foi esta a feição da 
literatura nacional desde o seu livro inicial, 
quando o seu autor BENTO TEIXEIRA es- 
crevia o Dialogo cias Grandezas do Brazil; 
este feitio moldou o modelo que é segm'do 



até hoje. Em parte nenhuma do globo existem 
terras tão ferazes, natureza de tal maneira 
prodiga ; chega a ser proverbial tanta opulen- 
cia e, no entanto, como tudo is<o está lonje 
da verdade. A causa principal do atrazo do 
Brazil Central é a escassa riqueza do solo ; 
esta afirmação vai de encontro a uma lenda 
criada pela exaltação dos filhos daquelas 
zonas; o sertanejo luta asperamente pela 
vida, procurando tirar duma terra ingrata os 
meio de subsistencia ; pastoreia e cuida da terra 
da maneira a mais rudimentar, aproveita a 
rasante i. é, o lugar abandonado quando as 
aguas decern ; moram mal, satisfazem-se com 
pouco e são relativamente felizes pela incon- 
ciencia da verdadeira situação em que 
vivem. 

A nação não tem conciencia do verda- 
deiro estado das zonas flajeladas pelas secas, 
mesmo os filhos daquelas parajens e que a 
fortuna guindou ás altas posições politicas, 
em geral, não têm conhecimento do solo na- 
tivo porquanto se criaram nas capitais do Esta- 
do ou então no sul do paiz ; de qualquer 
modo a única lembrança que persiste é a da 
meninice e nesta idade, tudo é facilmente 
portentoso. O ritmo a que obedece as secas, 
acabou por deixar indiferentes os compatrio- 
tas distantes; a solidariedade humana facil- 
mente se embota quando o mal é continuo e a 
distancia em que vivem as populações flajela- 
das, só permite interesse sincero, por parte 
dos próprios conterrâneos. 

Hoje, que nos move profunda simpatia 
por aquela gente iniquamente esquecida 
pelos poderes públicos, tivemos a preocupa- 
ção de escrever um depoimento onde a in- 
suspeição da linguajem, podesse ser do 
maior utilidade que os fáceis e falazes pe- 
riodos encomiásticos. Qualquer que, ao atra- 
vessar aquelas plagas, examinar as condi- 
ções sociais daquele povo, logo surpreende 
uma organização atrazada e rudimentar; as 
caatingas estão povoadas de habitantes, viven- 
do á marjem da civilização ; a organização 
da familia legalmente não existe pois, só 
por exceção, os casais se unem pelo casa- 
mento civil ; os filhos quasi nunca são rejis- 



180 



dados, os enterramentos realizam-se na au- 
sencia de qualquer formalidade legal. O fa- 
sendeiro mais abastado e com um pouco 
mais de cultura, exerce grande influencia 
entre os moradores e esta, somente cessa, ao 
entrar em contato com a esfera de influencia 
de outro proprietário pelo menos tão abas- 
tado ; lonje dos núcleos de população é isto 
o que se observa. 

Aliás é impossível evitar; cada fazenda é 
um latifundio de dimensões sempre crecentes 
conforme o afastamento das cidades ; a pe- 
quena propriedade quasi não existe, de ma- 
neira que, os moradores, estão de qualquer 
modo na dependencia do proprietário das 
terras. A escassez de braços é enorme e 
constitue das maiores faltas, este fato levou 
a situação tão vulgarizada dos contratos. Em 
geral, além do vaqueiro, o fazendeiro tem 
contratado por salarios Ínfimos, certo numero 
de pessoas que garante o trabalho da fa- 
zenda. 

Em toda a zona onde se explora a bor- 
racha de nianiçoba, existe praticamente a es- 
cravidão ; o barraquista, assim se chama o 
dono do pessoal que extrae a nianiçoba, 
alicia gente nas povoações ribeirinhas e 
a leva sob promessas de grandes salarios para 
a zona a explorar; antecipadamente é adi" 
antada certa quantia para compras de objetos 
e para se deixar com a familia; no lugar 
onde se instalam os barracões, funda-se um 
armazém de propriedade do barraquista e 
onde o pessoal é obrigado a se fornecer 
pelos preços impostos pelo proprietário e 
que são pelo menos, o dobro do corrente no 
''comercio^' mais proximo ; nas zonas onde a 
agua é escassa esta é vendida aos maniço- 
beiros, ao cabo de algum tempo, o emprega- 
do é devedor e está impossibilitado de sair 
emquanto não saldar a dívida que só faz 
crecer. É inutil qualquer fuga ou rebelião, 
as turmas são guardadas á vista por capatazes 
armados e o sistema é tão generalizads que, 
mesmo na Fazenda Serra administrada por 
2 inglezes, os capatazes fazem o serviço de 
carabina em punho; aliás aí não existe de 
nenhum modo a escravidão do pessoal ; trata- 
se duma plantação, de alguns milhões de 



maniçobeiras onde trabalham 400 homens; o 
operario podia fazer de 5$ a 60$ semanais, 
conforme a capacidade desenvolvida; no 
tempo que por ali estivemos, as plantações 
tinham 5 anos e o pessoal morava em ranchos 
organizados pela empreza. Todos os os tra- 
balhadores são nacionais e os proprietários 
introduziram uma grande leva de negros de 
Barbados a qual, ao cabo de algum tempo, 
teve de ser despedida por se ter mostrado 
inapta e incapaz. De toda a zona percorrida, 
a Fazenda da Serra situada no município de 
S. Raymundo Nonato, constitue a única ex- 
ploração sistematizada e intelijentemente 
feita. 

As autoridades prestam mão forte ao 
maniçobeiro que procura o devedor fujido e. 
na vila de Parnaguá, tivemos o desprazer 
de assistir a prisão de 4 maniçobeiros levados 
á viva força para o barracão dum barraquis- 
ta, já celebrizado em toda a zona que atra- 
vessamos, pelos crimes cometidos. 

Nos gerais entre Bahia e Goiaz, explo- 
ra-se a borracha da mangabeira ; os ''manga- 
beiros" trabalham independentemente e fe- 
lizmente, já se não verifica a escravidão 
observada nos maniçobais bahianos e piau- 
hienses. 

Todavia, mais revoltante ainda, é <■ 
que se dá com as crianças segundo as in- 
formações de varias pessoas. Certos indiví- 
duos chegam ás moradias mais miseráveis e 
depois de se mostrarem interessados pela 
sorte de algum menino, empregam-no imedi- 
atamente com um salario que é pago ao 
chefe da família ; em seguida levam-no em 
sua companhia; adiante, entregam-no a algum 
fazendeiro em troca de 90 a lOOS preços 
das despezas inverosímeis que teve de fazer 
para a manutenção do pequeno; o infeliz 
ao entrar para o serviço do novo dono, terá 
que trabalhar por miserável salario sofrendo 
ainda o desconto da roupa e géneros forne- 
cidos, até conseguir alforriar-se. 

A escassez do braço naquelas zonas su- 
jere destas infamias, todavia, e somos insus- 
peitos para o afirmar, o Norte tem-se mos- 
trado até hoje incapaz de progredir com o 



181 



braço livre, orijem do desenvolvimento mate- 
rial do Sul do Brazil. 

Excluindo Joazeiro e PetroÜna onde se 
enconlram alguns estranjeiros principalmente 
portugiiezes, até atinjirnios a capital de 
Qoiaz, onde o elemento estranjeiro já é 
grande, sendo a maioria constituida por 
sinos, contamos em todo o trajeto 18 es- 
tranjeiros incluindo neste computo os frades 
írancezes instalados na cidade do Porto Na- 
cional. Para nós, neste fato, reside o grande 
atrazo daquelas parajens ; o progresso no 
Brazil, em grande parte, é devido ao estran- 
jeiro e uma incoinpreensivel politica passiva- 
mente permitida pelos nortistas, criou a lenda 
de ser o Norte impróprio ao imigrante euro- 
peu. A exclusão da imigração para o Norte 
do Brazil, denota raro acanhamento de visla 
e, desprezando as zonas verdadeiramente fér- 
teis que aqueles Estados possuem fora das 
zonas secas, não vemos grande diferença 
entre as condições climatéricas da chamada 
rejião seca e a Tripolitania, agora conquista- 
da pela Italia que para ali procura orientar 
forte corrente emigratoria. Para aumentar o 
despovoamento daquelas zonas, o governo 
canaliza quasi todo o pessoal que lhe é ne- 
cessário, pa,a as forças armadas da nação. A 
este proposito o Tenente LEITÃO DE CAR- 
VALHO publicou na '•Defeza Nacional" sob 
o titulo "O Voluntariado do Exercito" inte- 
ressante trabalho onde a questão é tratada 
pormenorizadamente. 

Dos 200 mil contos arrecadados anual- 
mente pela União do Norte do BrazH, segiui- 
do as informações oficiais citadas pelo de- 
putado LUCIANO PEREIRA, apenas 50 mil 
llie são restituidos em obras publicas, o res- 
tante fica para o Sul ; ora, esta desigualdade, 
permite maior desenvolvimento material dos 
Estados meridionais constituindo centros de 
atividade que atraem os nortistas, á procura 
de trabalho, concorrendo para aumentar o 
despovoamento dos sertões do nordes- 
te. 

Com mais ou menos agua. aquelas po- 
pulações têm vivido até hoje, lutando com 
tenacidade inexcedivel contra todas as vicis- 
situdes as qiiais acabaram por crear, uma 



condição íatalista, que tudo envolve. Temos 
bem nitida a impressão da narrativa dos 
horrores de 2 anos de seca consecutivos 
1899-1900, a nós contado por um fazendeiro 
intelijente. Ao ouvil-o, tinha-se a impressão 
de se estar falando com representante de 
outra raça mais apurada, pela fleuma com 
que revestia a conversação. Era um desenro- 
lar de acontecimentos horríveis, relatados fi- 
elmente sem comoção exajerada e acompa- 
nhados de gesticulação sobria num tom de 
voz cadenciada e calmo. A descrição das me- 
didas tomadas afim de salvar algumas cabe- 
ças de gado que iriam reconstituir, passado 
o flajelo, a riqueza desaparecida, foi efetuada 
de maneira verdadeiramente emocionante 
sem que se observasse por parte do narrador 
nenhuma alteração no modo de contar e, 
assim, são quasi todos os habitantes ; as 
maiores desgraças afrontam de frente, quasi 
musulmanamente. Por iniciativa prooria aque- 
les habitan íes serão incapazes de sair da 
grande pobreza em que vivem, o espirito de 
iniciativa é pequeno, e esse mesmo, anula- 
se diante do isolamento em que jazem. 

É necessário estabelecer vias de comu- 
nicação pois as que existem, são absolutamen- 
te impraucavcis á penetração do progresso; 
tudo quanto a maquina permite crear, ali não 
pode ser aproveitado, pela impossibilidade 
material de se transportarem maquinismos 
pezados em caminhos intransitáveis e apenas 
transpostos pelos jumentos e muares de pe- 
queno vulto, mal suportando,os mah pos- 
santes, peso superior a 100 quilogramas. O 
primitivo carro de boi, quando existe, só en- 
contra estrada penosamente carroçavel, entre 
o canavial e o engenho: para maiores distan- 
cias, não pode ser aproveiiado lai o estado 
das vias de comunicação. 

Sem este elemento e s€m o auxilio do 
estranjeiro, cuja iniciativa, operosidade e tiro- 
cinio, iodo o continente americano deve quasi 
tudo do progresso que possue, sem este 
concurso, será inutil, esperar o milagre da 
transformação do sertão do nordeste na tão 
anunciada terra de promissão. 

Ninguém tem duvida que, algum dia, 
aquelas terras sejam afinal aproveitadas, pois. 



182 



mesmo os maiores desertos da terra, serão 
fatalmente cedo ou tarde, utilizados pelo 
homem : o que se quer é transformar em 
terras férteis o mais cedo possivel, as zonas 
atualmente improprias ás principais culturas. 
No nordeste por exemplo, é patente, mesmo 
sem grande preparo do sólo, a enorme pos- 
sibilidade para a cultura do algodão; a cul- 
tura intensiva do algodoeiro bastaria para 
operar o prodijio por todos desejado, mas 
para isto, será iniprecindivel o aparelhamento 
de vias de comunicação fáceis e baratas, afim 
de dar escoamento á produção em condições 
de competir com os já numerosos concurren- 
íes. O sul do Piauhí encontra-se nas mesma 
condições quanto ao que concerne ao gado 
vacum ; fatalmente aquelas grandes pastajens 
sem berne, sem carrapatos, onde portanto a 
possibilidade de valorização do boi, é muito 
maior que em outra qualquer zona do paiz, 
onde o agricultor teni que lutar contra a di- 
zimadora tristeza e contra o inseto que desva- 
loriza o couro do animal, terá o seu futuro 
assegurado logo que modernas vias de co- 
municação lhe pernutam o acesso. Concorrer 
com todas as forças para isto, levando-lhes 
principalmente a imigração e as estradas, é 
necessidade que se impõe aos poderes públi- 
cos. Até hoje, aquelas rejiões têm sido de- 
samparadas pela Nação que se tem colocado 
em situação de metrópole para colonia; esta 
pratica tem sido uma dàs causas do seu atrazo 
e por isso convém, que, as relações se façam 
em condições de mais equidade, onde um 
sincero sentimento de solidariedade possa 
exist.'r. 

Par;; isso, torn.a-se nescessario, que o 
Governo se interesse mais pela inditosa rejião 
seca, até hoje lembrada pelos restos dos 
seus compatriotas, por ocasião dos injenuos 
bandos precatórios efetuados pelos conterrâne- 
os ausentes, afim de suplicar em meios quasi 
indiferentes, o pequeno obulo com o fim de 
mitigar a desgraça de milheiros de seres hu- 
manos, cujos sofrimentos aflijem á maioria 
dos brazileiros em pequena intensidade, de 
tal modo vivem isolados e estão distantes 
dos restantes dos patricios, os desventurados 
sertanejos do nordeste. 



As grandes epizootias que recentemente 
devastaram o gado no municipio de S. Ray- 
mundo, nunca foram conhecidas dos poderes 
públicos, estaduais ou federais ou então não 
deram a devida atenção ás raras queixas re- 
cebidas. O detestável serviço postal, onde os 
abusos Seguidamente cometidos acabaram 
por tornal-o inutil, pela primeira vez encon- 
tra um protesto, satisfazendo nas medidas 
de nossas forças os reiteirados pedidos que de 
muitos fazendeiros recebemos. No emtanto, 
o serviço postal é entregue a arrematantes 
que dele auferem pingues lucros. E porque 
não se incrementa naquelas parajens o ensino 
itinerante, já ali esboçado pela iniciativa par- 
ticular? 

Outros males, certamente, evitáveis como 
p. ex. o carbúnculo sintomático, contra o 
qual existe meio premunitorio seguro e, que no 
entanto, é a enzootia que maiores prejuizos 
acarreta em toda a zona, poderiam ser facil- 
mente prevenidos. De real utilidade, seria a 
existencia de um serviço medico itinerante o 
qual, acompanhado de farmacia e corpo me- 
dico, possuindo nm oftalmolojisía, percorreria 
diferentes zonas atendendo um sem numero 
de enfermos-. 

Tal assistência, certamente prestaria os 
mais relevantes serviços, não só a quem dele 
recorresse, como ainda á ciencia peio estudo 
mais apurado e cuidadoso de eníernu'dades 
obscuras e mal conhecidas, ali presentes e, 
que, merecem ser pesquizadas de melhor 
modo. 

A presença de um bacteriolojista, ao 
qual caberia a incumbencia das ]3."squizas 
microscópicas e de laboratorio para as en- 
fermidades humanas e de todo o serviço de 
estudo das epizootias e das enzootias reinan- 
tes, seria altamente proveitoza para aqueles 
habitantes e para o desenvolvimento da ci- 
encia no Brazil. O que ha a fazer neste par- 
ticular é imenso e não nos parece inviável 
pois, as maiores despezas, seriam para as 
primeiras instalações adequadas a tal serviço, 
sendo o custeio anual perfeitamente suportá- 
vel. A assistência medica se incumbiria do 
serviço de vacinação e bastaria que pouzasse 
de vila em vila, para atender a grande nume- 



183 



ro de enfermos vindos de muitas leguas em 
torno, tal como conosco se passou. Medicos 
vindos da Capital da Bahía já por conta pro- 
pria, fazem estes trabalhos, mais como não 
ultrapassam das marjens do S. Francisco e 
como o serviço medico e medicamentos são 
altamente cobrados, poucos habitantes se 
beneficiam com a sua presença. Na quasi 
totalidade da zona percorrida, o medico era 
desconhecido: até a Capital de Goiaz inclu- 
sive, encontrámos 8 facultativos, 1 em Joa- 
zeiro, 1 em Remanso 1 em S. Raymundo No- 
nato a serviço da Inspetoria, 1 em Parnaguá, 
1 em Porto Nacional e 3 na Capital de 
Ooiaz, sendo que 2 pertenciam á guarnição 
federal ali destacada. 

Evidentemente ha necessidade da Inspe- 
toria continuar a estudar por todos os modos 
a zona que superintende. Os inglezes insta- 
laram grande centro cientifico no Interior da 
índia, afim de pesquizar as questões que in- 
teressam aquela rejião, e os relatórios publi- 
cados pelo Wellcome Tropical Research Labo- 
ratories at the Gordon Memorial College 
Khartoum, despertam o interesse de todo o 
mundo cientifico. A posse das Philippinas 
pelos norte-americanos, foi acompanhada de 
investigações cientificas efetuadas na mais 
larga escala e dadas á publicidade em 4 ad- 
miráveis publicações periódicas, representan- 
do outras tantas seções cientificas e editadas 
pelo Bureau of Science -Manila, sobo titulo 
de " The Philippine Journal of Science*^ ; "Der 
Pflanzer, Zeitschrift fuer Land-und Forstwir- 
tschaft in Deutsch-Ostafrika" é publicação 
oficial e de pesquizas cientificas nas coloni- 
as aîiicanas alemans. Os japonezes instalaram 
laboratorio de pesquizas cientificas no interior 
de Formosa e assim por diante. 

Com o fim de estudar a fauna e flora 
a Inspetoria de Obras contra as Sêcas, po- 
deria contratar especialistas tendo o cuidado 
de instalar um museu para guardar as cole- 
ções efetuadas, e onde seriam recolhidos os 
tipos das especies novas, pois, neste parti- 
cular até hoje, o Brazil, embora contratando 
bons elementos, tem visto parar em outras 
mãos o material colecionado por naturalistas 
por ele estipendiados, sem que lhe advenha 



outra vantajem que a de saber dos resulta- 
dos das pesquizas por ele pagas, terem 
sido publicados em jornal estranjeiro e que 
o melhor da coleção, senão toda, ficou per- 
tencente a este ou aquele Museu, também 
estranjeiro. A questão do exemplar "tipo" é 
tão importante que o museu Oberthuer 
compra por bom preço qualquer que se lhe 
ofereça. 

Ninguém, atualmente, será capa? de por 
si só estudar e determinar todos os espéci- 
mes da fauna e flora brazileiras; somente 
o especialista terá idoneidade para fazel-o 
sendo assim, bastaria á Inspetoria contratar 
naturalistas viajantes o qual entregaria o ma- 
terial recolhido á repartição e esta enviaria 
para os fins de determinação, para os especi- 
alistas mais reputados que seriam retribuidos 
ficando porem na obrigação de escrever os 
resultados das pesquizas efetuadas nas publi- 
cações da Inspetoria e de restituir a coleção 
e os tipos das especies descritas, podendo 
reter os cotipos e as duplicatas. Em setembro 
de 1913 os norle-americanos feslejaram o 1" 
decenio do Desert Laboratory fundado eni 
1902 pela Carnegie Institution em Tucson 
(Arizona) ; mais um argumento um favor da 
impossibilidade de se tentar qualquer em- 
preendimento serio, sem o concurso de 
investigações cientificas efetuadas em todos 
os departamentos. Somente com auxilio de 
pesquizas cientificas, poder-se-á com segu- 
rança, saber-se qual a possibilidade económi- 
ca da rejião do nordeste e os meios de de- 
senvolvei a e explorar as riquezas naturais 
que por acaso possua, colocando o hcimeni 
em situação de dominar o meio pelo conhe" 
cimento perfeito de todos fatores diretos ou 
não e que exerçam influencia próxima ou 
remota, no desenvolvimento duma civilização 
moderna, entre populações que ha mais de 3 
séculos quasi nada assimilarem das grandes 
transformaçães operadas em todo o universf) 
e que, a parcela minima de aproveitamento 
que lhes chega das grandes forças que reali- 
zaram a revolução industrial como a locomo- 
tiva, ou lhes é desconhecida totalmente como 
nos Estados do Piauhie Goiaz, ou se arrasta 
morosamente em dias alternados, partindo 



184 



da Capital da Bahia e levando pelos menos 
33 horas a vencer 575 quilómetros a maior 
paitî estendidos em enormes tanjentes, afim 
de levar a Joa/.eiro, centro de toda a zonado 
nordeste, a civilisação já adiantada do lito- 
ral. 

Antes de terminar queremos agradecer 
a solicitude e o vivo empenho em tudo nos 
facilitar que encontrámos por parte do ilustre 
Snr. Dr. PIRES DO RIO e seus auxiliares. 
Devemos entre muitas pessoas que nos au- 
xii aram, salientar os Snrs. Coronéis ARRI- 
CIO DUARTE, intendente de J oazeiro ; 
MANUEL ANTUNES DE MACEDO JUNI- 
OR, residente em S. Raymundo Nonato, 
AURELIANO AUGUSTO DIAS, morador 
em Caracol (Piauhí), O'DONNELL DE 
ALENCAR, residente em Parnaguá, Dr. 
FRANCISCO AYRES DE SILVA, clinico na 
cidade do Porto Nacional, Major JOÃO 
BAPTISTA LEAL fazendeiro no municipio 
do Duro (Goiaz) Senador ARLINDO OUA- 
DIE FLEURY, fazendeiro em Goiaz, e o Dr. 
MANDACARU DE ARAÚJO, Inspetor do 
serviço de índios de Goiaz, a hospitalidade 
carinliosa com que nos acolheram e os inesti- 
máveis serviços prestados, muitos dos quais, 
decisivos para o bom êxito final da Co- 
missão. 

Itinoi-ftrio (píllate desci'i- 
t:i^-£i.). 

Diario da viajem. 

'* Partida do Rio a 18 de Março de 1912 
pelo paquete nacional "Brazil" com destino 
á Bahia. A comissão se compunha dos Drs- 
ARTHUR NEIVA e BELISARIO PENNA 
e os auxiliares OCTAVIO AMARALe JOSÉ 
TEIXEIRA (fotografo), os Drs, JOÃO PEDRO 
DE ALBUQUERQUE e JOSÉ GOMES DE 
FARIA, estes com destino ao Ceará. Viajem 
de tres dias em velho e inconfortavel pa- 
quete, sem incidentes. Chegamos a S. Salva- 
dor pela manhã do 21. 

O mesmo aspeto de outras i-ras no de- 
sembarque. Grande numero de saveiros 
(boles) guiadas por negros a disputar fre- 



õ'»ezia e outros carregados de branjas, ba- 
nanas e p¿:pagaios. 

Já existia um bom trecho de caes cons- 
truido, mas os vapores ainda não atracavam 
a ele. A cidade baixa, na parte fronteira ao 
mar, onde desembarcamos em uma das 
velhas escadas do antigo caes, ainda muito 
descuidada e desasseiada. 

Devido á gentileza da importante firma 
MOTTA & SILVA, foi prontamente retirada 
de bordo, nossa grande bagajem e graciosa- 
mente guardada em um vasto armazém no 
Caes do Ouro. Depois de alguns anos de 
ausencia, notámos na Bahia alguns melhora- 
mentos ; ruas alargadas na cidade baixa, edi- 
ficios novos e modernos, tração eletrica ge- 
neralizada a todas as emprezas de bondes e 
um excelente elevador Otis, o qual compor- 
ta o máximo de 16 pessoas transpondo 
cerca de 70 metros em 28". 

Na Bahia permanecemos até á manhã 
de 27, aproveitando os dias de estadia na 
Capital para o aprovisionamento de alguns 
materiaes que nos faltavam. Aí adquirimos 
carbureto e uma excelente lampada portátil a 
acetileno, que nos prestou serviços inestimá- 
veis em todo o nosso longo percurso. 

Partida para Joazeiro a 27 pela manhã, 
pela E. F. Bahia a S. Francisco. 

Chegada a Joazeiro a 28 á tarde. 

Viajem longa e fastidiosa em carros de- 
testáveis pela velhice, estrago e imundície, 
pessimamente alimentados nas espeluncas do 
percurso, pomposamente denominadas hotéis. 

No lo dia viajamos até 1 hora da ma- 
drugada, para alcançar Sta. Luzia, onde deve- 
riamos chegar ás 5 horas da tarde. Aí per- 
noitamos no carro em que viajávamos, por 
falta de acomodações e camas no único hotel 
do logar. A causa do grande atrazo foi a 
falta do pressão nas caldeiras da locomotiva, 
velha e estragada, cujo combustível era a 
lenha apanhada á marjeni da linha. De 2 em 
2 quilómetros,, parava o comboio para fazer 
vapor e umas tres vezes parámos para apa- 
iih:ir lenha, s-eíviço para o qual eram convi- 
dados os passajeíros da 2a classe. 

O 2o dia correu um pouco melhor, porque 



185 



houve mudança de maquina que, ainda assim, 
parou varias vezes para abastecer-se de lenha. 
Chegamos a Joazeiro ás 6 horas da tarde. 

A linha da E. F. Bahia a S. Francisco 
atravessa quatro zonas distintas do Estado» 
segundo observação que fizemos de passa- 
jem; 

la A do litoral -húmida, cultivada (prin- 
cipal cultura a cana), mais ou menos monta- 
nhosa, cortada de rios e riachos. Essa zona 
esfende-se até Pojuca. 

A 2a zona começa daí e estende-se até 
Aramarí, duas estações além de Alagoinhas, 
cidade de 5 a 6.000 habitantes. E' já bastan- 
te seca, üjeiramente acidentada e constituida 
de cerrados idênticos aos do norte de Minas. 
Cultura de fumo em grande escala e criação 
do gado vacum. -A 3a zona é a das caatingas; 
seca, plana, constituida de grandes taboleiros 
com uma vejetação baixa e densa, em que 
predominam as plantas de espinho como a 
favela e o cliiqiie-chique. Essa estende-se até 
Itumirim, r.otando-se, porém, uma grande 
mancha, de terras superiores, constituidas 
pelo mutiicipio de Vila Nova, cidade á 
marjeni do Itapicuni com 6 a 7.000 habi- 
tanícs. 

A 4a zona, seca, árida, agreste e deso- 
ladora, estende-se até Joazeiro. E' um tabo- 
leiro enorme, coberto duma vejetação raqui- 
tica, em que predominam os cactos. A linha 
fenea passa nmito proximo á serra do Sa- 
litre, pedregosa e coberia tão somente de 
cactos colossais, semelhando mãos com dedos 
enormes, estendidos para o Céu a implorar 
a misericordia divina. 

Todos estes cactos são espinhosos, divi- 
didos em 4 qualidades com as denominações 
vulgares de mandacaru de boi, mandacaru de 
facho, cabeça branca, e cabeça de frade (ras- 
teiro). • 

Nessa zona não ha inverno; ha apenas 
as chuvas de trovoada, como diz o povo. 

Joizeiro é completamente plano e areno- 
so; clima quente e seco. Vista a cidade de um 
ponto elevado, tem-se a impressão duma ci" 
dade nova, porque os telhados são todos 
claros. Não havendo humidade, as telhas 
não têm limo, e os ventos acarretando grande 



quantidade de areia trazem as telhas sempre 
lixadas. Cidade de cerca de 6.000 habitantes, 
tem mercado, pobre edificio de municipali- 
dade, 2 farmacias e tres medicos. Ha também 
um hospital muito pobre, que comporta ape- 
nas 12 leitos, sob a direção de um dos clinicos 
da localidade, o Dr. EDUARDO DE BRITO. 
Assistimos nesse hospital a tres operações 
efetuadas pelo referido clinico: dilatação de 
uma adenite, retirada de liquido ascitico, e 
ablação duma neo-formação no grande labio. 
A cidade abastece-se d'agua no rio S. Fran- 
cisco, donde é ela retirada em barris e leva- 
da para as casas em costas de jumentos 
(Jegues). Não ha esgotos. População de cerca 
de 6.000 almas, muito assolada pelo impalu- 
dismo durante e após a vasante do S. Fran- 
cisco. Comercio de maniçoba e couros. Al- 
gumas casas de comercio regularmente abas- 
tecidas. Magnificas uvas, quasi tão boas 
quanto as melhores importadas do estran- 
jeiro. No entanto, a sua cultura, muito resu- 
mida, sendo insignificante a sua exportação 
para a Capital. 

A nossa permanencia em Joazeiro foi 
de 17 dias, tempo consumido nos aprestos 
da tropa para a longa excursão através os 
sertões. Durante esta estadia, tratamos de 
grande numero de doentes, sendo um deles 
o uni:o medico, presente na localidade, afe- 
tado de impaludismo. Foram 17 diñs de tra- 
balho incessante. r 

Daí partimos ás 10 '/2 da manhã de 
14-4-012, atravessando o S. Francisco para 
iniciar a viajem montada em Peírolina, cida- 
de pernambucana, fronteira a Joazeiro, e 
como que um suburbio desta, pois que seu 
comercio muito mais resumido, está na de- 
pendencia do de Joazeiro. Cidade muito 
menor, com cerca de 2.000 habitantes, com 
os mesmos hábitos e costumes de sua irmã 
bahiana. A comunicação entre uma e outra 
cidade, faz-se durante todo o dia por inter- 
medio dos paquetes (saveiros ou catraias) e 
por um pequeno rebocador a vapor, sendo 
o preço da passajcm de rs. 200 na la classe 
e rs. 100 na 2^, por pessoa, e o percurso de 
um quilomeíio, largura de S. Francisco nesse 
ponto. Os animais em numero de 36 foram 



186 



íransportados dias antes, em um grande 
paquete (catraia), apropriado a esse mister. 
Levávamos oito camaradas. 

Somente a 1 '/2 da tarde estuva arruma- 
da a tropa. Eram 24 burros carregados 6 de 
montaria e 6 adestras (de sobresalente) estes 
•encangados (presos um ao outro pelos ca- 
brestos), para dificultar-lhes a fuga. 
Quando montamos, e os camaradas 
soiiaram os burros de carga das estacas 
para nos pormos em marcha, foi um desas- 
tre, uma epopéa. Os burros de carga desem- 
bestaram para todos os lados aos saltos e 
aos coices, atirando ao chão as cargas, arre- 
bentando os arrochos, quebrando cangalhas 
numa furia infernal. O chefe da nossa tropa 
havia comprado burros, quasi todos novos, 
de proprietários diferentes, não habituados 
uns aos outros (não amadrinliados entre si). 
Além disso, estavam muito descançados, 
tendo permanecido mais de 10 dias amilhados 
e em uma excelente manga (pastajem fecha- 
da). Tivemos de pegal-os um a um, de repe- 
rar as cangalhas comprar algumas em Pe- 
troliria, por terem ficado inutilizadas as arre- 
bentadas, arrumar tudo de novo, e somente 
ás 3 horas podemos partir de novo, para 
percorrer apenas 3 quilómetros em duas 
horas, repetindo-se nesse pequeno percurso 
os estouros da burrada. Acampámos finalmen- 
te ás 5 horas da tarde, exaustos, no sitio de- 
nominado Coité ou Recieio, onde ficamos 
retidos até 16, em reparos e novos arran- 
jos das cargas. 

Aí tomamos a providencia indispensável 
de marcar os burros. Foram todos ferrados 
com a marca C. M. (Comissão Medica). 

As cangalhas do norte, são muito dife- 
rentes das que se usam em Minas. Aquelas 
são muito mais fracas, menores, sem a co- 
bertura de couro cru {talabardão) na arma- 
ção de madeira, que facilita a acomodação 
da carga ; não têm peitoral nem retranca (tira 
de couro, presa dum lado e outro da parte 
írazeira da cangalha passando pelas coxas, e 
por baixo da cauda do animal); e são presas 
ao dorso do animal apenas por uma silha 
estreita, e pelo arrocho posto sobre a carga, 
e que é apertado pela agulha. 



Aproveitamos a estadia forçada no Coité 
e preparamos as cangalhas pelo sistema mi- 
neiro adicionando-lhes mais uma silha, e co- 
locando-lhes peitoral e retranca. Além disso, 
encheram-se mais os suadouros com paina de 
<:abeça de frade e melhoraram-se os costáis. 
A casa terrea e abarracada do sitio, tinha uma 
varanda em alpendre em toda a sua exten- 
são. Aí dormimos em nossas camas de cam, 
panha e redes. Durante a primeira noite- 
caiu uma pequena chuva e fomos acordados 
pelos porcos, cabras e bodes que nos inva- 
diram o alpendre, disputando-nos o direito 
de se abrigarem nele contra a chuva. 

16-4-912 

Partimos de Recreio a 1 hora da tarde 
e fomos acampar 4 leguas além, em plena 
caatinga no lugar denominado Terra Nova, 
(sem habitantes), onde existia um caldeirão 
(excavação natural numa pedra), com agua 
de chuva depositada. Nesse dia, tivemos a 
repetição em menor escala, de alguns estouros 
da tropa motivo, porque não fizemos maior 
jornada. A meio caminho, na fazenda Morri- 
nhos, demos por falta, de um burro com as 
malas Nos. 3 e 18 (material de farmacia). 
Um camarada mandado á procura do mesmo, 
foi encontral-o sem a carga a 1 legua para 
traz, dentro da caatinga, e as malas atiradas 
ao chão em outro ponto. Demos-nos por 
muito felizes de encontrar as malas. 

Chegando ao pouso, um pequeno claro 
num macambiral, armamos o toldo, e man" 
damos soltar os burros, peados das mãos e 
uma pata. Ainda assim, no dia seguinte, falta- 
ram oito, que foram encontrados a grandes 
distancias, dois deles no ponto da partida (Re- 
creio). Um não foi encontrado. Para poder- 
mos proseguir a viajem no dia 18, fizemos 
pernoitar os burros na estaca. 

A 18, não sendo encontrado o burro de- 
saparecido, até meio dia, resolvemos suspen- 
der cargas proseguir a viajem, deixando um 
dos camaradas á procura áo fujão. 

Caminhamos tres leguas apenas, tendo 
partido ás 2 horas da tarde, e acampamos 
no logar denominado Caldeirão (sem mora- 
dores), onde pernoitamos ao relento, sob um 



187 



copado joazeiro, dispensando toldo ou barra- 
ca. Nessas rejiões não ha inconveniente em 
dormir-se ao relento; geralmente não se 
percebe o orvalho. Para que nã» mais nos 
fahassem os burros, mandamos peal-os das 
patas trazeiras, o que quasi os ¡mmobiliza. 
Só assim podemos partir a 19, ás IO ^h da 
manhã, fazendo um percurso de 5 leguas 
até a fazenda do Tigre, onde chegámos ás 
4 1/2 da tarde, tendo passado por BanriroSy 
grupo dumas dez moradas. 

Uma mulher com quem conversámos aí, 
não nos soube dizer se era pernambucana 
ou bahiana— "50// da banda de ccV era só 
o que explicava. Em todo o percurso, escas- 
sez d'agua e a que existe estagnada e de má 
qualidade. Terrenos secos e incultos. Uma 
ou outra roça pequena nos pontos raros em 
que ha habitantes. 

Apezar das peias e estacas os nossos 
burros ainda não se enfadaram. No Tigre 
tivemos de permanecer dois dias porque nos 
faltaram alguns deles sumidos nas caatingas. 
Supondo que já houvessem se enfadado, man- 
damos soltal-os sem peias e o resultado foi 
fujirem alguns. Tigre é uma fazenda dum 
ricaço, como são alcunhados nessas rejiões 
os fazendeiros d'algum recurso. Casa terrea, 
coberta de telhas, caiada, por fora e por dentro 
contando diversos compartimentos. Na sala 
de entrada (varanda) varios bancos, uma 
mesa e cabides toscos, pelas paredes, onde 
se penduram arreios e utensis de lavoura. 
Nos portais ganchos para redes. A agua de 
Tigre é de açude bem grande, a melhor do 
percurso feito até agora. O fazendeiro den- 
nos informações de molestias humanas e de 
animais, tratadas em outros capitulos. Reina 
aí o impaludismo depois do inverno. Os cais 
danados são conhecidos por cachorros esprita- 
dos, rejistrando-se casos de óbitos pela raiva 
em pessoas. Como tratamento dão ao pacien- 
te uma mistura de alho, sal e urina, e intro- 
duzem-lhe na boca a chave do sacrário da 
igreja mais próxima. Como meio profilático 
dão ao animal, sujeito a espritar-se, leite com 
azougue. O pleuriz na rejião é muito caroa- 
vel, i. é, muito comum. As miiases são trata- 
dos á creolina, mercurio doce, e benzeduras. 



A 22, afinal, partimos, deixando dois 
burros sumidos, incumbindo o fazendeiro do 
logar de procural-os e remetel-os para S. Ray- 
mundo. Chegámos a 1,20 da tarde ao Lago, 
povoado com 35 a 40 fogos, pertencente ao 
distrito de Sta. Anna, municipio do Riacho 
de Casa Nova, E. ua Bahia. Ha ai uma pe- 
quena capela feita de taipa. Acampamos ao 
relento. O nome desse logarejo orijina-se 
duma grande depressão numa grota, á beir.T 
da estrada, onde se acumulam uns 90 a 
100.000 litros d'agua de chuva. Aí refocilam 
os suinos, bebem os rebanhos de cabias, 
ovelhas (criação rniunça) e o gado (bois, ca- 
valos e burros). Quando passamos, dois 
suinos revolviam a lama do fundo. A agua 
barrenta tinha a côr de charuto escuro. Fi- 
camos verdadeiramente aterrados quando nos 
informaram os moradores do logar, que era 
aquela agua que tínhamos para beber e para 
todos os usos e que era niiufo bôa. 

Felizmente conseguimos de um dos mora- 
dores, que nos fornecesse para beber a agua 
duma cacimba particular, a única que havia 
então aberta. Essa era menos barrenta, tinha 
a côr de charuto claro, e embora escura e 
lijeiramente salgada, bebemol-a com sofregui- 
dão e prazer, tão sequiosos estávamos. Fomos 
consultados por todos os moradores do logar, 
impiessionando-nos o grande numero de 
asmáticos e de mulheres atacadas do vexame. 
Queixam-se muito aí, do rato rabo de couro, 
que devasta as plantações e colheitas. Dizem 
que com o aparecimento do rato, vindo do 
Carirí, desapareceram os bichos de parede. 
Quasi ao partirmos do Lago, fomos informa" 
dos da existencia ha 2 legoas do logarejo, duma 
arvore interessante (uma única conhecida em 
toda a rejião) que tem o tronco e os galhos 
cobertos de um espesso c enorme, espinho. 
Conseguimos um desses espinhos, o qual tinha 
quasi 20 centímetros de comprimento. Con- 
tinuando em indagações sobre tal arvore, em 
toda parte, só nos citavam a existente no 
Lago, parecendo ser ela o único exemplar 
d'aqnelas parajens. Cultura mínima de cana 
e cereais, apenas para o consumo local, limi- 
tando-se o comercio ao de couros de cabias, 
esse mesmo diminuto. População paupérrima. 



- 188 



de vida quasi puramente vejetaliva, Casas de 
taipa, cobertas de telha, sem o mínimo con- 
forto, sem mobiliario, dormem geralmente em 
redes, ou em giraos com couro crû trançado, 
inçados geralmente de percevejos e muquira- 
nas. Impressiona o grande numero de estale- 
cidos (asmáticos que se apresentam á consulta, 
bem como as mulheres atacadas do vexame. 

Fomos informados de casos sempre 
mortais duma lebre que, pela descrição dos 
tabaréos, parece muito semelhante ao tifo exan- 
temático. 

Partimos do Lago em 23-4-912 pela 
manhã e depois dum longo percurso de 10 
legoas sertanejas (7 de 6 quilómetros) acam- 
pamos novamente em territorio pernambuca- 
no, proximo ao arraial da Cachoeira do Ro- 
berto, no claro duma caatinga, ao relento. A' 
uma legoa desse pous«), deixamos o Estado 
da Bahia no logar denominado Torres, onde 
ha uma fazenda antiga, como todas as dessa 
rejião, feita de páo a jjique barread(\ com 
uma varanda (sala) e alguns outros compar- 
timentos, cada qual mais imundo. A casa 
próxima a uma lagoa de aguas barrentas 
onde nós acampamos, num claro da caatinga 
ha tres moradas, á marjem dum brejo, que 
estará completamente seco dentro de 2 a 3 
mezes. 

24-4-912 

Um de nós foi ao arraial dar consultas 
e distribuir medicamentos. O arraial é cons- 
tituido de uns 40 fogos, na sua maioria des- 
habitados. Ha duas casas de negocio, quasi 
sem sortimento. Algumas peças de chita, de 
cores berrantes, algodãosinho, isqueiros uma 
ou outra peça de fila ordinaria, uma caixa 
de oleo de ricino, ausencia de cereais, algu- 
mas rapaduras, e numa delas um saco d'assu- 
car mascavo e um de farinha de mandioca 
grossa. Além duma caixa de botões, havia 
fardas de oficiais da guarda nacional. Ha re- 
jistro civil muito incompleto, todos os óbitos 
são de morte natural. 

Examinámos uma serie de estalecidios 
(asmáticos), outra serie de vitimas do vexa- 
(iie (nada mènes de 8 mulheres, 2 entalados, 



muitos impaludados não recentes e doentes 
banais. A mesma pobreza e sordicie do Lago. 
Tanto na Bahia como no Piauhí, as medidas 
quer de capacidade usadas são o covado e 
a vara ; e o prato, e a quarta, sendo que o 
prato e a quarta equivalem na Bahia, respe- 
tivamente, a 4 litros e 54 litros, ou 16 pratos 
e no Piauhí, a 2 litros e 60 litros ou 3Ü 
pratos. As moedas fiduciarias são o vintém 
e o cobre (dois vinténs), a pataca oito cobres 
meia pataca (quatro cobres e o selo (480 rs.). 
A caça nessa rejiões é muito escassa. Até 
agora algumas codornizes e pássaros miúdos. 
Procuramos em Cachoeira do Roberto algum 
jornal da Baiiia ou de Pernambuco, não en- 
contrando. Nessas parajens não se lê ; víve- 
se absolutamente fora do convivio do resto 
do mundo. O termómetro marcou hoje H*^. 
É a temperatura mais baixa do percurso até 
' agora. Temos dormido impunemente ao re- 
lento, apesar de trazermos toldos e barra- 
cas. 

24-4-912 

Partimos tarde e fomos acampar no 
sitio denominado "Gato" no Estado de Per- 
nambuco a 3 quilómetros do Piauhí e á 
mesma distancia da Bahia. 

25-4-912 

Do "Gato" partimos ás 8,20 a. m. e 
arranchamos em S. José da Canastra ás 12 
horas, Esse arraial está no Estado da Bahia, 
municipio de Remanso em plena zona seca. 
Segundo as informações obtidas, durante as 
secas, só se conservam verdes as cactáceas. O 
arraial está situado num taboleiro na encosta 
duma serra baixa que se estende para o 
Piauhí. Tem um riacho cortado nessa época 
de cuja agua se serve a população. Nas 
secas são abertas cacimbas no leito do ria- 
cho. Arraial pobre ; tem duas casas de co- 
mercio, com pouco sortimento de fazendas 
grosseiras. Com dificuldade obtivemos 4 ga- 
linhas e 2 cabritos para matalotajem ou 
matutajem como abreviadamente pronunciam 
algum milho e uma quarta de feijão. Aí per- 
manecemos até 27 em uma casa regular, pa- 



1S9 



vínientada de tijolos e coberta de telhas. O 
arraial tem unia capela regular mas muito 
pobre. Uma ou outra vez, nunca mais de 2 
vezes ao ano, ha missa. Ha uma escola par- 
ticular pouco frequentada. Nela vimos pelas 
paredes uns desenhos exiranhos ao culto. Mo- 
lestias : asma {estaleddio) em quantidade im- 
pressionante, ou vexame do coração, entalação 
(um caso), in:pa!udismo, dispepsias, ausencia 
de lepra e de molestia de Chagas. Os viajantes 
hrdaços são aí muito explorados. Em toda a 
lejião percorrida depois de Petrolina, não en- 
contramos leito ou produtos de laticínios. O 
^^adoestá espalhado pelas caatingas e ninguém 
se pieocupa de aproveitar esse alimento; só 
se pega o boi para matar e ser preparada a 
carne do soi. A carne do porco é pouco 
usada e poucos os suinos nas fazendas e 
povoados. Quem viaja por essas parajens, 
deve partir dos centros bem aprovisionado 
de mantimentos (matalotaje, farnel) sinão 
correrá o risco de passar fome. Não se encon- 
tram legumes, nem verduras. A raiva é muito 
espalhada e o animal dela atacado é chamado 
cspritado- 

27-4-912 

rartiinos finalmente de S. José de Ca- 
nastra e depois dum percurso de tres Icgoas 
ainda no Estado da Bahia, penetramos em 
território do Piauhí, acampando ha tres lego- 
as além da divisa, no municipio de S. João 
do Piauhí, povoado denominado Ponta da 
Serra, onde pela primeira vez em todo o 
percurso a cavalo, sentimos a preconisada 
hospitalidade nortista. Deram-nos excelente 
coalhada ; pela primeira vez tivemos toalha 
(e limpa) á mesa, pratos de louça e jantar 
fornecido pelo morador. A casa era regular, 
caiada, e o asseio pessoal chamou logo a 
atenção pelo contraste com a sordicie do que 
deixamos para traz. 

Também o terreno é aqui menos seco, 
e a vejctação de melhor aspeto. Dizem os 
moradores não haver aqui o bicho de parede- 
Molestias: as mesmas até agora observadas. 

28-4-912 

Partida ás 9 horas a. ni passando pelos 



sitios Floresta, Conquista e Outeiro onde 
puzemos cargas abaixo a 1 hora para o al- 
moço, daí partindo as 4 '/z p. m. e pouzando 
no Rosilho ás 8 horas da noite,, fazendo um 
percurso de 8 legoas. 

Em todos os sitios ou fazendas por que 
passamos, fomos obsequiados com leite e 
coalhada á vontade. Estamos na safra do re- 
queijão. Logo após as chuvas, as vacas pari- 
das são trazidas para os currais, os bezerros 
delas separados para ser aproveitado o leite 
para o fabrico (como aqui pronunciam a pa- 
lavra) do requeijão. Esse costume só se veri- 
fica no Piauhí, pelo menos na zona por nós 
percorrida. Tudo mais ou menos primitivo, até 
a linguajem muito pitoresca, tratada em outra 
capitulo desse relatório. Dizem, por ex. uma 
arvore florada (florida) escassidão (escassez) 
com a faca apiinliada (seguro pelo cabo) 
ingrememente por cxclusivainente e outras 
muitas. A iluminação das casas á noite, é 
^eita com pavios embebidos de cera da terra, 
ou velas de carnaúba. 

29-4-912 

Partida do Rosilho ás 8 V2 a. m. e che- 
gada á Salgadinha ás 6 horas p. m. , com 
uni percurso d2 9 legoas, passando por Bar- 
rinha, Cágado e Barro, sitios e logarejos mi- 
núsculos. Em Salgadinha, chegámos á hora 
etn que o s,ol se crava (6 da tarde), segundo 
a expressão pitoresca do morador do logar, 
um velho entalado ha mais de 30 anos, e 
possuidor duma lazarína Icjitima de Braga do 
sistema de pederneira. 

30-4-912 

Guiados pelo velho entalado de Salgadi- 
nha, marchamos 6 legoas atravez das caatingas 
até ganhar a serra do Piauhí, do alto da qual 
se descortina belíssimo panorama, e á tarde 
acampamos no sitio denominado St. Anna. 
Aí ha umas locas de pedras com abundancia 
de mocós. Matamos alguns deles, e as locas 
foram visitadas, nelas encontrando triatomas 
e carrapatos. Fizemos unia bôa provisão de 
requeijão. 



190 



1-5-912 

Partida de St, Anna, percurso de 6 legoas 
e rancho no Cavaleiro, passando por Sitio 
c Passa Bem. Partida de Cavaleiro a 2 e poiízo 
em Bôa Vista, a 3 legoas de S. Raymundo, 
com o percurso de 6 legoas, passando pelos 
povoados Marisco e Onça. Aí perdemos o 
barómetro, devido ao desabamento da varan- 
da, onde haviamos estendido as nossas redes. 
Podemos tomar banho, o que não faziamos 
ha dias por falta d'agua para esse mister. 

3-5-912 a 20-5-912. 

Chegámos finalmente a S. Raymundo No- 
nato depois de percorridas 69 legoas em 18 
dias, devendo-se contar como data definitiva 
do inicio da viajem cavalgada, o dia 16 de 
Abril, quando partimos do sitio Recreio ou 
Coité, a 3 quilómetros de Petrolina. Estive- 
mos retidos dois dias em Terra Nova, dois 
no Tigre c dois em S. João da Canastra, ao 
todo 6 dias de parada e 12 de caminhadas 
com a media de 5 legoas diarias. Serviu-nos 
esse trecho de treinamento para o restante 
da viajem, cujo percurso segundo as infor- 
mações será de mais de 400 legoas até Ara- 
guaví em Minas - Bela perspetiva ! Pelo pano 
de amostra, bem podemos avaliar o que nos 
espera. O peior porém, da festa, são os im- 
previstos nesses fiincíões de sertão árido e in- 
gratíssimo. Felizmente é otimo o estado 
moral de toda a comitiva. Em S. Raymundo 
fomos carinhosamente recebidos pelo pessoal 
da Construção do açude que nos proporcio- 
nou iodas as facilidades e pela populnção 
cm geral, devendo, porém, destacar a família 
MACEDO, que foi prodiga cm gentilezas e 
serviços, pelo que deixamos nossos agrade- 
cimentos sinceros. 

Atravessamos até aqui, a verdadeira caa- 
tinga, da qual não se pode fazer uma idéa, 
sem a ter visto Mato baixo (rara a arvore, 
que atinje 8 metros) mais ou menos denso, 
em que é exceção a arvore, arbusto ou her- 
báceo que não seja coberto de espinhos, 
troncos, galhos, folhas e muitas vezes a pro- 
pria flor; espinhos penetrantes, curtos, uns 
urentes e dolorosos outros, como os amfavela. 



cortantes como os da jurema, e outros que 
chegam a cortar até as vestes do couro dos 
vaqueiros como o do arvoredo chamado 
rompe-gibão finos e longos e dolorosos como 
os do chique-chique eos de todas as cactáceas 
em geral. 

Trechos ha, enormes, cobertos de ma- 
cambira, uma bromelicea, cujas folhas, têm 
as bordas cobertas de espinhos em todos os 
sentidos ; outros, como todos os carrapichos 
cobertos de espinhos finos, penetrantes e dolo- 
rosos. Não se pode imajinar natureza mais 
hostil. A par disso, a ausencia d'agua em 
trechos longos de 4, 6, 8 e 10 leguas e a 
qne se encontra em logares determinados, 
isso no final do inverno abundante, em regra 
geral, poços de rios ou de riachos cortados 
ou coleção das ultimas chuvas, em depressões 
de pedras ou do terreno, de má qualidade, 
cobertas de algas sobre um leito de lama. 
Essa a agua para homens e animais, essa a 
agua que bebíamos com sofreguidão, tal a 
sede com que chegávamos aos pousos. Não 
encontrámos um rio ou jiacho correndo. 
Todos cortados, e alguns completamente 
secos. O próprio rio Piauhí, embora com co- 
leções maiores, está cortado. Só depois de 
inteiramente secos os poços, é que os mora- 
dores abrem as cacimbas, quasi sempre no 
leito do rio seco. Durante algum tempo, logo 
após as chuvas e quando já seco o leito do 
rio ou riacho, a agua conserva-se ainda 
quasi á flor da areia. Lembramo-nos bem que, 
ao decer a serra do Piauhí, depois dum per- 
curso de 4 legoas, em rejiões absolutamente 
desprovidas d'agua, e debaixo dum sol caus- 
ticante, atravessamos um riacho seco Está- 
vamos todos os da comitiva sequiosos. Um 
dos nossos camaradas afastou com as mãos 
uma porção de areia, cavando um pei;uenr 
poço e, logo, coletou-se aí a agua que sor- 
vemos com sofreguidão. 

A base da alimentação é a carne do sol 
(carne de boi ou de cabrito), seca ao sol e £ 
farinha de mandioca grossa. Feijão, ás vezes 
arroz raramente. O fubá de milho é desço 
nhecido. Legumes escassos; a abóbora {ge 
rimam) nas colheitas das roças de milho) 
ausencia de verdura. Pouca criação de galí 



191 



nhãs : o leite só é aproveitado logo após as 
chuvas para o fabrico do requeijão. A carne 
de galinha, os ovos e o leite são julgados 
nocivos á Saúde e agravantes de molestias. 
Raro o individuo que sabe o que é o Brazil. 
Piauhí é uma terra, Ceará outra terra, Per- 
nambuco outra e assim os demais Estados. 
O governo, é para esses párias um homem 
que manda na gente, e a existencia desse 
governo conhe'jeni-na porque esse homem 
manda todos os anos cobrar-lhes os dizimos 
(impostos). Perguntados se essas terras (Pi- 
auhí, Ceará, Pernambuco etc.) não estão 
ligados entre si, constituindo uma nação um 
pair, dizem que não entendem disso. Nós 
eramos para eles gnngos, lordaços (estranjei- 
ros fidalgos), A única bandeira que conhecem 
é a do Divino. O analphabetismo é geral e 
abranje mais de 80 % da população. A vida 
se reduz ao que concerne á criação miuiiça, 
e ao gado, ás vicissitudes da seca, á previsão 
do inverno e nada mais e, no entanto, apezar 
do estalecidio, ou estalecido como mais 
comumente pronunciam, da entalação do 
vexame e do impaludismo periódico após o 
inverno, um povo resisleme, havendo belos 
tipos de compleição atlética, organisação 
robusta , resignados, estoicos, indiferentes á 
morte, calmos diante do perigo, otimamente 
adaptados á natureza hostil das suas terras. 

A quantidade de moscas, no sitios e fa- 
zendas, onde se fabrica o requeijão, é sim- 
plesmente fantástica. Entram p;la boca ao 
falar-se, pouzam ou caem aos magotes, na 
tijela do leite ou da coalhada, de quem se 
descuida, em cobril-as, ou não se as abanam 
rapidamente. Vimos sacos cheios de coalhada, 
pendurados em um portal, que estavam negros, 
cobertos de varias camadas de milhares de 
moscas as quais, enxotadas, faziam um zum- 
bido dum colossal enxame de abelhas. 

Nos sitios e fazendas, o traje habitual 
dos homens é a camisa de chita e ceroula e, 
o das mulheres, camisa de algodão e saia do 
mesmo tecido. Em S. José da Canastra, o 
maioral do logar, um negociante, vestia-se 
apenas com um camisolão de chita. O nosso 
comboio (expressão local) co:npunha-se ao 
entrarmos em S. Raymundo, de 2 medicos 



dum auxiliar, do fotografo, do chefe da tropa, 
do guia contratado em Joazeiro, de oito ca- 
maradas, 23 burros carregados, oito de monta- 
ria e quatro adestras, i. é, de sobra para subs- 
tituir os fujões, ou doentes, além de dois cais, 
Tupi e Turco. 

S. Raymundo Nonato é uma vila 
de casas terreas, construidas com adobes, 
pavimentadas de tijolos, caiadas, cobertas de 
telhas, sem forros. Ha duas ruas extensas, 
estreitas, sem calçamento, duas praças, e 
casas esparsas sem ordem População de 
2.000 almas mais ou menos. 

Uma igreja de arquitetura banal, peque- 
no mercado muito pobre, algumas casas co- 
merciais com pouco sortimento e caríssimo. 
Duas escolas publicas, mal acomodadas e 
pouco frequentadas. E' cabeça de comarca. 
A municipalidade rende 10 rontos por ano. 
A agua é detestável, salobra, extraída de 
poços do riacho cortado depois do inverno, 
e de cacimbas nas secas. A cacimba munici- 
pal deixa tudo a desejar, quer pelo lado hi- 
jienico, quer pelo simples asseio. E' uma 
fossa cavada á marjem do riacho, até a altu- 
ra do leito do mesmo, para a qual se desce, 
por uns degráos feitos na propria terra, até 
á agua coletada que é apanhada com uma 
cuia para a vasilha do carregador. Porque 
não se faz um poço, revestido de pedra, e 
coberto, colhendo-se a agua por meio duma 
bomba ? Não vale a pena, é a resposta. O 
povo já está acostumado com isso, que não 
faz mal algum. 

Não ha esgotos, nem se usam fossas 
para as fezes. Cada qual se exonera ao ar 
livre, e a depuração é feita pelo sol. Ha re- 
jistro civil muito deficiente. A única causa de 
morte verificada é : morte natural. A vila tem 
enipreza ingleza, explorando essa cultura, em 
escala já bem avançada. A maniçoba do mu- 
nicipio rendeu de impostos para o Estado 
em 1911, mais de cem contos de réis, sendo 
o imposto de 15 c/o s.obre o valor da cota- 
ção do mercado. Vem em seguida a criação 
de gado, em 3'^ logar a cultura de cereais, 
apenas para o consumo dó municipio. O gado, 
tanto o vacum, como o equino e o caprino, 
é assolado de molestias, uns anos mais. 



1Q2 



uulros menos, e estas são: o carbúnculo 
bacteriano, o quarto fofo (peste da manquei- 
ra), o troço ou torce (peste de cadeiras), a 
sarna ou peste de coçar, a tristeza o escancho 
o mermo, o mal de chifre a esponja etc. . 

Era desconhecida ai a vacina de Man- 
guinhos contra o carbúnculo sintomático 
{quarto fofo), a molestia que mais dizima o 
gado nessas rejiões, matando anualmente 
mais de 50 o/o dos be/enos. Admiraram-se 
03 criadores da nossa afirmativa de que em 
Minas e em outros Estados não ha prejuizos 
de um bezerro, sequer, por essa causa, pela 
infalibilidade do resultado da vacina desco- 
berta e preparada em Manguinhos, quando 
aplicada convenientemente. E' lastimável que 
os representantes do Piauhí não cojitassem 
ainda duma providencia tão simples, como a 
aquisição da vacina, pe'o Estado, para distri- 
buição aos criadores, providencia que daria 
um resultado económico incalculável, pois, 
contam-se por dezenas de milhares anualmen- 
te, segundo as informações, os óbitos de be- 
zerros pelo quarto fofo, em todo o Estado, 
cuja principal fonte de renda provem da in 
dustria do gado. Nessa vila permanecemos 
até 20 de Maio. Logo que ai chegamos, man- 
damos a tropa para uina invernada, afim de 
descancar e rcf.nzer-se da jornada, e monta- 
mos o laboratorio portátil, para exame do 
material colhido e do que colhêssemos no 
local, bem assim o material de farmacia. 
Foram sem conta os consultantes e, de bas- 
tante interesse, os resultados colhidos. 

Entre os consultantes vimos um caso de 
persistencia do buraco de Botal Por deficien- 
cia de géneros alimenticios no local, um de 
nós foi a Remanso, cidade bahiana, á marjem 
do S. Francisco, e a vinte legoas da vüa, 
para adquirir o necessário para proseguimen- 
to da viajem. O trajeto de S. Raymundo a 
Remanso, é atravez ainda da caatinga, mas em 
magnifica estrada mandada construir pela 
empreza ingleza para uso de automóveis de 
carga. Faltava ainda um pequeno trecho a 
construir-se. Remanso, á marjem esquerda do 
rio S. Francisco, é uma cidade comercial, mal 
edificada, sem esgotos, nem agua canalizada. 



Essa é apanhada em barris no S. Francisco ; 
sem cuidado, e transportada para os domici- 
lios em costas de jumento. Clara no verão 
e muito barrenta no inverno. 

A população é de 5 a 6.000 almas, e a 
cidade dividida em duas partes: o Remanso, 
á marjem do rio e o Capão, afastado para 
dentro meio quilómetro em terreno um pouco 
mais elevado. Esse bairro foi construido a 
partir de 1906, depois duma grande enchen- 
te que danificou muito a cidade. Entre a ci- 
dade e o bairro novo, ha um baixio que inun- 
ha durante o inverno, permanecendo a agua 
empoçada durante dois a tres mezes de seca. 
Por essa época lavra epidémicamente o impa- 
ludismo. A carne seca ou fresca e a farinna, 
constituem a base da alimentação. Abatem-se 
diariamente 10 a 12 rezes (matalotajens). Não 
ha cultura de legumes e verduras. Comercio 
bem desenvolvido. Boas casas de fazendas e 
armarinhos de mantmientos e de ferrajens. 
Numa delas vimos expostos dois arados. Di- 
versas yVr//?í//'mas (funilarias) e ferrarias. Conta 
um medico e tres farmacias. Casas terreas 
em geral, (Je telhava e pavimentadade tijolos. 
Aí capturamos o Stegomyia calopus e 
Cellia argyrotarsis. 

De volta do Remanso, onde permanece- 
mos quatro dias, reunimo-nos a 6 legoas de 
S. Raynumdo, na fazenda do Tanque, ao 
nosso companheiro, o qual aí se achava havia 
alguns dias, colhendo material de estudos e 
fosseis, sendo bastante proveitosa a sua es- 
tadia nessa fazenda. Com surpreza nossa, 
chegou do Tigre um portador (positivo) tra- 
zendo os dois burros que havíamos deixado 
sumidos nas caatingas daquela fazenda. 

21-5-912 

Depois de uma permanencia de 17 dias, 
bem aproveitados, com estudos, colheita de 
materiaes e observação de doentes e animais; 
descanço da tropa e provisionamento para 
longo percurso, partimos hontcm de S. Ray- 
mundo ás 12 V2 da tarde rumo de Parnaguá. 
Acompanharam-nos até cerca durna legoa 
fora da cidade, varias pessoas graúdas do 
logar, entre elas o Juiz de Direito. , o medi- 



193 



CO da comissão do açude, o Coronel RUBEN 
(RUBEM) como se diz no logar), e os Co- 
ronéis MANOEL ANTUNES DE MACEDO 
e JOÃO ANTUNES DE MACEDO, dois 
prestimosos filhos de S. Raymundo, que nos 
cumularam de carinhos e nos prestaram ser- 
viços inestimáveis. Acampámos á tarde no 
logar denominado Lages, pequena povoação 
de choças e ranchos de taipa, a 4 legoas da 
vila. Passamos por dois pequenos núcleos de 
8 a 10 casas (Fachadão e Caldeirão) e por 
varios barracões de maniçobeiros O trecho 
hoje percorrdo é menos árido A vejetaçào 
menos minada. Ha mais cnpncho nos mora- 
dores. Já se encontram arvores frutíferas em 
quintaes cercadns, e algumas casas rebocadas 
na parte interior. Moradores, á pequena dis- 
tancia, isto é, mais agua, mais humidade. A 
caatinga é menos hostil, menos fechada e 
menos espinhosa. Grande quantidade de bar- 
beiros (T. megistus) apanhados no interior das 
habitações, tendo desaparecido as especies 
encontradas atraz. Grande numero de asmá- 
ticos, tres casos de vexame, um de entaíação, 
e noticia de mais tres. Ausencia do bocio e 
de outras manifestações da molestia de Chagas. 
Aí acampamos ao relento, num bosque ralo 
de juremas, das quais cortamos os galhos 
mais baixos, para não sermos feridos pelos 
espinhos. Sob essa cortina de espinhos dor- 
mimes nós, e durante as primeiras horas da 
manhã, ouvimos em consulta mais de 60 
pessoas, ás quais distribuimos medicamen- 
tos. Aí foram-nos fornecidos mais de 100 exem- 
plares de megistus capturados nas casas. 
Como no Lago, informaram-nos que o bicho 
de parede estava desaparecendo com a in- 
vasão, no logar, do rato rabo de couro. E' 
interessante o fato do aparecimento em tão 
grande escala do megistus, que não encontrá- 
mos até S. Raymundo, onde apenas colhe- 
mos 4 exemplares. D'entre os exemplares 
de megistus, não havia um só das especies 
encontradas dos da Joazeiro a S. Raymundo. 
Não vimos nenhum doente suspeito da 
molestia de Chagas. Os megistus vão ser 
examinados em Caracol. 



22-5-912 

Partida hontem de Lages ás 10 hora? 
da manhã e chegada á Tamanduá, ás 4 '2 
da tarde com um percurso de 30 quilómetros 
em bòa ordem. Vai-se acentuando a melho- 
ria da rejião pela vejetação mais desenvolvi- 
da, mais viçosa, e diminuição das arvores 
de espinhos da caatinga, sobretudo a jurema 
eos mandacarus. O marmeleiro, que para traz 
é um arbusto, é aqui uma arvore. Macambi- 
ras muito escassas. Trechos longos de mata 
bem regular, sobretudo de anjicos, de troncos 
grandes e retos- Parece já uma transição da 
caatinga para o agreste. A rejião é mais povoa- 
da, repetmdo-se as moradas a pequenos 
trechos Por toda a parte o impaludismo. Em 
Tamanduá, núcleo de 12 a 15 casas esparsas 
com uma população de cerca de 100 habi- 
tantes, fomos carinhosamente hospedados 
pelo Snr RIBEIRO, fazendeiro no local. To- 
mamos nota de 2 entalados, um caso de ve- 
xame e 4 asmáticos e muitos impaludados. 
Ao Snr. RIBEIRO, demos 7 vidros de clori- 
drato de quinina e instruções para o tratamento 
das sezões T. megistus em abundancia. 

22-5-912 a 31 -5-912 

Partimos de Tamanduá ás 9 ''I2 a. m. , 
chegando ao Caracol ás 5 p. m. depois dum 
percurso de 7 legoas. Viajem, agradável, 
quasi toda á sombra dum capoeirão com 
poucas abertas. Passamos por varios sitios e 
por um pequeno povoado (Jurema), avisan- 
do aos moradores que permaneceríamos 
alguns dias em Caracol, onde daríamos con- 
sulta. 

Caracol é um arraial de mais de 100 
anos, constituido duma rua e varias casas 
esparsas, com cerca de 50 casas ao todo, e 
uma população avaliada em 400 pessoas. Está 
situado nas fraldas da serra das Confusões, 
onde nace o rio Píaulií. Os moradoies ser- 
vem-se da agua duma grande lagoa, que so- 
mente seca nos anos de secas excepcionais. 
Aí fomos carinhosamente recebidos pelo Co- 
ronel AURELIANO AUGUSTO DIAS, que 
nos deu casa e muito nos auxiliou durante a 
nossa permanencia no logar. Aliás, desde 



194 



nossa entrada no Estado do Piauhí, temos 
verificado nas povoações e nos pouzos quanto 
é hospitaleiro, solicito e obsequioso esse 
povo. 

Em Caracol permanecemos 9 dias, porque 
verificamos a facilidade de adquirir materiaes 
para estudos e por ser o centro duma rejião 
bfistante habitada, para onde acorreriam os 
doentes á procura de medicamentos e indi- 
cação de tratamento. Assim aconteceu, e a 
nossa estadia aí, foi muito proveitosa para o 
que tinhamos em vista. Montamos o labora- 
tório e a farmacia e durante 9 dias trabalha- 
mos como mouros. Aí foi identificada a mo- 
lestia de cavalos e muares, o torce ou troço, 
ião espalhada nos sertões do Piauhí e Bahia 
com a peste de cadeiras, por nos ter sido 
apresentado um cavalo afetado do torce, en- 
contrando-se no sangue periférico do mesmo, 
grande abundancia do protozoário canzador 
da peste de cadeiras, colhemos abundante ma- 
terial e podemos observar algumas dezenas de 
doentes de entalação e vexame. Também verifi- 
camos a presença de dois casos do Schistoso- 
rnuni mansoni e examinámos centenares de me- 
gistiis capturadas em todo o percurso e no local, 
podendo afirmar que a ausencia do bocio e 
outras manifestações da molestia de Chagas 
nessa rejião, está de conformidade com a au- 
sencia do protozoário, causa da molestia, no 
intestino do inseto transmissor. Causou admi- 
ração á população local o termos apanhado 
viva um cangombá (jaritataca em Minas), 
tal o fétido do liquido que ele secreta e 
lança em quem o persegue, sendo ele a sua 
única arma de defeza. Não se pode avaliar 
o que seja. 

Alem disso, de tal fétido empregnam-se 
as roupas, e tão repugnante é ele, que o re- 
medio é despojar-se a gente delas. Pois captu- 
ramos o animal e tivemol-o preso dois dias. 
Seja dito que das cinco pessoas que toma- 
ram parte na façanha, só uma não teve nau- 
sias e vómitos. Foi morta á bala de carabi- 
na uma ema, que nos forneceu bastante ma- 
terial. Foram verificados alguns casos de tu- 
berculose, aí denominada a magra ou mal 
de secar. 



1-6-912 

Partida de Caracol ás 10 '/2 da manhã, 
acompanhados até cerca duma legoa por al- 
gumas pessoas gradas do logar e chegada 
ao povoado Peixe, ás 5 horas da tarde (6 
legoas). Estamos novamente no Estado da 
Bahia, municipio do Remanso, desde 2 legoas a 
partir do Caracol, e novamente também em 
zona seca de caatinga, tendo acabado a mancha 
menos seca de S. Raymundo a Caracol. Essa, 
segundo informações, prolonga-se para nor- 
deste para o municipio de Bom Jesus da 
Gurgueia. 

Durante o percurso paramos duas vezes, 
uma no Angico (núcleo de 5 casas) e outra 
na fazenda "Aroeiras". 2 entalados em Angi- 
co e um caso de bocio exoftalmico em 
Aroeiras. Pela entrada vimos um quadro in- 
teressante, uma comitiva duma familia em 
longa viajem. Compunha-se ela dum casal e 
4 filhos (de um, de dois, quatro e sete anos). 
Os tres menores iam sentados sobre as broacas 
nas costas dum jumento, puxado este pela 
mãe, indo á frente e a pé, com uma trouxa 
ás costas, o pai, com a filha de 7 anos, também 
á pé. Perfeito quadro das antigas perenígra- 
ções da Palestina. Essa familia vinha do Ma- 
ranhão, distante mais de 80 legoas, e viajava 
havia já 23 dias. No trecho percorrido, encon- 
trámos pela primeira vez, em quantidade, 
uma arvore muito abundante nos cerrados 
de Minas, o tinguí, aqui dominado timbó. Ali e 
aqui, o seu fruto é aproveitado para a fabri- 
cação de sabão, como tivemos ocasião de 
observar. 

Peixe, é um povoado minúsculo de seis 
casas, mais rodeado de pequenos sitios (su- 
burbios), contando numa redondeza de 4 
legoas, cerca de 400 hab'tantes. A agua é a 
duma lagoa bastante profunda, que raramen- 
te seca {não manca) segundo a expressão 
local. Aí tivemos de permanecer um dia, tal 
a quantidade de consultantes que nos pro- 
curaram (cerca de duzentos) entre estes de- 
zenas de entalados e vitimas do vexame de 



195 



coração, duas manifestações mórbidas larga- 
mente espalhadas, nessas rejiões, e que aliás 
a população não liga grande importancia, 
porque não matam, e são males corriqueiros 
Tanto o vexame como a entalação, acompa- 
nham sua vitima toda a sua vida, que se pro- 
longa muitas vezes, aos 70 e 80 anos. Vão 
diminuindo já os casos de estalecidios (asma- 
ticos). Apareceu-nos em todo o percurso até 
aqui, o segundo caso de bocio em uma moça, 
residente no municipio do Remanso, no logar 
denominado Pedra Comprida, a 9 legoas do 
Caracol. Moça de 16 anos de idade, de baixa 
estatura, casada Kavia 21 mezes, com aspeto 
de saúde. Na ocasião em que a examinamos 
tinha 110 pulsações por minuto, mas além de 
gravida de 8 mezes, fizera em dia e meio 
um percurso de 15 legoas a cavalo. Vinha 
acompanhada do pai e dum primo, rapaz de 
18 anos, ambos de baixa estatura. 

O pai media lm48, e o rapaz Im46, bem 
proporcionados porém, e de intelijencia lu- 
cida, sofrendo c ultimo de vexame desde a 
idade de 10 anos. O pai desse rapaz, já 
morto, era um entalado. Afirmaram todos 
que na "Pedra Comprida", onde ha muito 
bicho de parede, ninguém mais, a não ser a 
moça que examinámos, apresenta bocio. En- 
contra-se aqui em abundancia o barbeiro (nic- 
gistus), sem parásitos, não havendo também 
a molestia de Chagas. Compramos um 
quarto de boi (matalotajem). Abandonou a co- 
mitiva o nosso cosinheiro que tinhamos con- 
tratado em Joazeiro- Arvoramos em cosinhei- 
ro um camarada, vitima de entalação, que 
contratamos em Caracol. Os nossos camaradas 
não nos inspiram confiança, e estamos sempre 
recelosos de alguma traição, sobretudo agora, 
que vamos atravessar uma rejião perigosa de 
barracões de maniçobeiros, gente sem escrú- 
pulo arrebanhada nos sertões da Bahia, Per- 
nambuco e Alagoas, cangaceiros habituados 
aos assaltos e morticinii'¿. 

3-6-912. 

Partimos de Peixe ás 9 '/2 da manhã, e 
chegamos a Jatobá a I hora da tarde, com 
um percurso de pouco mais de tres legoas. 
Pretendíamos acampar muito além, na Bocea 



da Caatinga, mas fomos informados de que 
ali a agua já secara e que essa só seria en- 
contrada algumas legoas diante no logar 
denominado Comandante. Pelas informações 
colhidas resolvemos modificar o nosso itine- 
rario, pois pelo anteriormente traçado, cor- 
reriamos o risco de não encontrar agua em 
longas travcss as de 10 e 12 legoas. Acam- 
pamos, pois em Jatobá, e proseguiremos a 
jornada por outra estrada onde ha travessias 
menores de agua a agua. Perguntado um 
pedestre que chegava em tal ou qual logar 
ha agua ? é comum a resposta: Até honteni, ou 
até tal dia ainda havia, hoje já não afirmo. Ja- 
tobá é constituido de 5 habitações barreadas 
e cobertas át páo de casca todas pertencentes 
a uma só familia. A agua de que se serviam por 
ocasião de nossa passajem, era a de chuva 
coletada numa escavação praticada num terre- 
no arjiloso, e que deveria estar seca dentro de 
dois mezes, forçando os habitantes a se trans- 
ferirem para daí a uma legoa, onde ha logar 
próprio para abertura de cacimbas. Nessa es- 
cavação, bebem os animais e dessa agua se 
servem os habitantes. Estava barrrenta, côr 
de havana, horrível. Centrifngamol-a e veri- 
ficámos a existencia de 10 c^ de lama por 
litro d'agua. Dissolvemos nela um pouco de 
alúmen, e assim con;eguimos ciareal-a e de- 
positar a lama no fundo da vasilha. As cinco 
moradas de Jatobá contam 37 habitantes, 
todos aparentados entre si. 

Do casal tronco, a mulher é entalada e 
o homem estalecido (asmático). 2 Filhas ca- 
sadas sofrem do vexame. Todos, queixam-se 
da caseira (constipação intestinal). Por essa 
gente fomos informados da existencia do 
bocio em Guariba municipio de Bom Jesus 
da Gurgueia, onde ele pinta, aqui e ali, bem 
como dum caso em Canhibas (municipio do 
Remanso -Bahia). Desde Caracol impressio- 
na a abundancia de conjuntivites, blefarites, 
dur d'olhos, leucomas e outras moiestias de 
0Ü10S. lia quatro doentes de conjuntivite. 
O tratamento aqui é o seguinte: moem entre 
duas pedras, um grão de chumbo de caça, 
misturam o pó com suco de limão e sarro 
de cacliimbo, e aplicam nos olhos essa mis- 
tura infernal. 



1% 



4-6-912 

Partida de Jatobá ás 9 horas da manhã ; 
percurso de sete legoas atravez da caatinga e 
péssimas estradas até a Fazenda Carahibas, 
onde chegámos ás 6 horas da tarde. Passa- 
mos por alguns ranchos de maniçobeiros, 
com os quais conversámos, ouvindo-ihes a 
historia de sua escravisação. Contratados por 
um patrão, seguem para o maniçobal, onde 
os géneros alimenticios lhes são debitados por 
preços 100 e 200 o/o maiores do que os preços 
das feiras. Dentro de pouco tempo, o salario 
não cobre as despezas, tornando-se eles de- 
vedores do patrão e seus escravos até que 
possam saldar a divida. Si fojem e são agar- 
rados, tomam surras medonhas. Si resistem, 
são mortos impiedosamente. Matamos algu- 
mas codornizes e 2 paturis. Observámos 2 
casos de entalação e 1res de vexame. Existen- 
cia do megistus e ausencia da molestia de 
Chagas. No entanto a rejião é bastante sus- 
peita. 

5-6-912 

Levantamos cargas ás nove horas da 
inanhã, e depois duma caminhada de 5 legoas, 
puzemos cargas abaixo ás 2 horas á marjem 
duma lagoa, com a denominação expressiva 
de Bebe-rnijo, novamente no Estado de Piauhí. 
Essa lagoa, formada d'agua de chuva, está 
numa grande depressão duma extensa varjem. 
E' bem grande depois do inverno, e decor- 
ridos dois a tres mezes de verão, seca intei- 
ramente. 

A ela ocorrem todos os animais de uma 
redondeza de muitas legoas para saciar a sede, 
e como acontece frequentemente, esses ani- 
mais, quando bebem, também desbebem. Daí 
o nome dado á lagôa. Quando aí chegamos, 
uma manada de cerca de 20 éguas bravias, 
justificavam praticamente a denominação. 
Era nossa intenção acampar, no logar deno- 
minado Onça, duas legoas além, mas fomos 
informados, á tempo, de que a agua ali já 
liavia secado. Nessas parajens, queu; viaja 
tiepois do inverno, precisa indagar com muita 
segurança dos logares em que ha agua para 
pessoas e animais para não correr o risco 



de sofrer sede. Os poços e lagoas, esgotam- 
se rapidamente pela intensa evaporação. Os 
sitiantes ou fazendeiros que dispõem dum 
poço ou dum açude, cercam-no e em deter- 
minadas horas só deixam beber, por turma, 
os animais de sua propriedade. Si aparece 
algum animal estranho á bebida, é enxotado 
á vara ferrada (guiada do vaqueiro). Chama- 
se jiqui a entrada para o cercado da bebida. 
Dentro dum mez a lagôa, á cuja marjem nos 
achamos, uma outra (Lagôa do Matto) a uma 
legoa para traz e a da Carahibas, onde 
hontem nos arranchamos, estarão secas e fi- 
cará a estrada com um percurso de 15 legoas 
absolutamente sem o precioso liquido. 

6-6-912 

Partimos ás 8 horas da manhã e acam- 
pamos ás 3 horas da tarde, á beira de um 
grande açude da Fazenda da Cruz da D. Be- 
nedita- Percurso 6 legoas. Felizmente atra- 
vessamos a peior rejião e aqui nos informa- 
ram de que não nos faltará mais a agua até 
Parnaguá. Matamos, 2 patos, 10 pombos ver- 
dadeiros, um socó boi, varios marrecos e 
uma curicaca. A casa dessa fazenda tem o 
aspeto das antigas fazendas de Minas. Casa 
grande com larga varanda na frente. Está, 
porém, abandonada e nela habita apenas um 
vaqueiro, com reduzida familia. No trajeto 
de hoje passamos pelo barracão dum mani- 
çobeiro, onde Ravia 2 impaludados (pai e 
filha). O pobre homem mostrou-nos uma ga- 
rafa com o seguinte rotulo: 

"Possão anti-períodica para cura de todas as 

febres" 

(assinada Dr. BARROSO). 

que lhe venderam por bom dinheiro como 
infalível. 

Beberam ele e a filha quatio colheradas, 
cada um, da tal droga e quasi nioireram viti- 
mados por vómitos e diarrea abundante. A 
tal droga cheirava a limão. Suspeitamos duma 
tisana contendo tártaro emético. Passamos 
pelo sitio "Volta do Riacho" com paredes e 
cobertura de casca de madeira do ^'páo de 



197 



casca" onde estava residindo temporariamen- 
te uma grande fazendeira de orijem fidalga. 

7-6-912 

Partimos da Cruz ás 9 Va da manhã e 
depois de um percurso de 24 quilo- 
metros, acampamos na Batalha ás 2 V2 da 
tarde, ao relento e á beira dum açude pos- 
suindo agua regular. Ha dois dias que 
acendemos fogueiras á noite em torno das 
nossas camas, porque a temperatura baixa á 
noite á 13 e 12o e nós dormimos ao relento 
em logares muito húmidos. Ha uma dúzia de 
casas esparsas em torno do açude, que forma 
um pantano de mais de um quilómetro. Fomos 
procur idos por todos os moradores do logar, 
á procura de remedios para seus males (im- 
paludismo, vexame, entalação, caseira). 

Em uma casa estava gua<-dadi. o cada- 
ver de um homem vitimado pelo impaludismo. 
O enterro foi realizado á tardinha, carregado 
o cadaver em uma rede e acompanhado por 
todos os moradores do logar debaixo de can- 
toria e algazarra. Mais parecia uma festa que 
um ato fúnebre. Dormimos ao relento na 
clareira dum pequeno bosque. 

8-6-912 

Partida da Batalha ás 10 horas, percur- 
so de 5 legoas e acampamento ás 4 ','2 da 
tarde em Ipiieira, á marjeni duma lagoa, com 
mais de 2 quilómetros de extensão, uma das 
poucas que não mancam. Como de costume 
acampamos, ao relento, armando apenas o 
toldo. 

Não ha habitantes em suas marjens, e a 
razão é a intensidade e extensão do impalu- 
dismo. Matamos um pato, tres marrecos e 
2 caraúnas. A's 10 horas da noite, matamos 
a tiro, numa arvore, um rato de longa cauda 
lisa, denominado ^'rabudo". 

9-6-912 

Partimos de Ipueira ás 10 horas e acam- 
pamos 4 legoas além, na Baixa da Telhas. 
já não podemos realizar marchas maiores. 
Os Inuros estão quasi todos pisados, feridos 
e estropiados. Seremos forçados a uma longa 



permanencia em Parnaguá para descançal-os, 
cural-os, e alimental-os convenientemente." 
Passamos por um povoado "Jití" onde fomos 
informados da existencia num sitio proximo, 
de duas papudas, dizendo-nos a velha infor- 
mante que por aquelas parajens o papo já 
pinta (aparece aqui e ali.). Causa otima im- 
pressão nessas rejiões do Piauhí o aspeto 
do boi, e bem assim o paladar do leite. Esse 
é espesso, gordo e saboroso. 

O boi crioulo, sem raça, é grande e de 
couro liso e reluzente, porque nãoé persegui- 
do pelo berne nem pelo carrapato, que aí 
não existem. Resolvido o problema da seca 
e o da viação, essas rejiões serão admiravel- 
mente aproveitadas para o desenvolvimento 
da pecuaria, com vantajens extraordinarias 
sobre as do sul do paiz. A construção de 
algumas estradas de ferro bem orientadas, 
rezolverá mais rapidamente o problema da 
seca do que a perfuração de poços e cons- 
trução de açudes. 

10 6-912 

Fizemos um percurso de 36 quilómetros, 
partindo da Baixa das Telhas ás 8 V2 da 
manhã e chegando á lagôa Ibiraba ás 4 
horas da tarde. A' exceção da fazenda Bonifim 
aquém V2 legoa de Baixa da Telhas e dumas 
tres choupanas de maniçobeiros pouco mais 
adiante, a rejião é inteiramente deshabitada. 
Arranchamos em um rancho aberto á beira 
da lagôa, que é muito extensa e larga, bas- 
tante profunda e de belissimo aspeto, orlada 
dum grande carnaubal. Durante o percurso 
matámos 2 pica-páus, uma curicaca e alguns 
gaviões. Na lagôa matamos 5 irerês. O ani- 
mal em que vinha montado o fotografo afrou- 
xou, tendo caido duas vezes. Foi necessário 
deixal-o solto, passando para outro animal 
os arreios. O pobre animal chegou ao acam- 
pamento á noite, tendo vindo a passo, puxa- 
do por um camarada. Apanhámos á noite 
grande porção de anofelinas {Cellia argyro- 
tarsis). Pela primeira ve7 encontrámos carra- 
patos. 



108 



11-6-912 

Chegamos á Parnagiiá ás 3 horas da 
larde, tendo partido de Ibirada ás 10 V2 da 
manhã. Fomos carinhosamente recebidos pelo 
Coronel O'DONNELL DE ALENCAR, que 
nos forneceu casa regular. Em Parnaguá per- 
manecemos o tempo necessário para curar 
os burros, quasi todos feridos nos lombos 
líelas cangalhas; e reforçal-os com boas pas- 
tajens. Além disso, precisávamos examinar o 
material de estudo colhido na viajens e apro- 
visionarmo-nos de comestíveis, já muito es- 
cassos, para podermos proseguir. Bela topo- 
grafia a da vila, que está situada entre uma 
serra sem nome e a majestosa lagoa, que 
lhe deu o nome, a qual mede duaS legoas 
de comprimento por quasi uina de largura, 
com a profundidade maxima de quatro metros. 
Algumas ilhotas. A vila, fundada em 1634, 
nunca progrediu e atualmente está em franca 
decadencia, com grande numero de casas em 
minas. Conta pouco mais de 100 casas, al- 
gumas caiadas, muitas barreadas apenas, e 
uma única com janelas envidraçadas, perten- 
cente ao Dr. JULIO LUSTOSA, Juiz de Di- 
reito de Sta. Filomena, no Maranhão. Resi- 
de aí um medico bahiano, o Dr. NASCIMEN- 
TO, que exerce o cargo de professor publico, 
percebendo por isso rs. 60$000 mensais. Ha 
um mercado paupérrimo, uma escola publica, 
uma farmacia e cadêa e intendente. Para nos 
abastecermos de coniestiveis para prosegui- 
mento da viajem, tivemos de mandar um po- 
zitivo á Sta. Rita (E. da Bahia), porque na 
vila não havia cereais, nem assucar, nem sal, 
nem café, nem farinha. Não encontrámos ga- 
linhas ou frangos, á venda ; em toda a vila 
conseguimos obter uma dúzia de ovos. A 
agua abundante da lagoa é desagradável, sa- 
lobra. Por isso, a população, prefere a agua 
de cacimbas abertas em geral á marjem da 
lagoa. Pessoas ha que, usam-na para beber, 
trazida dum buritizal a uma legoa de distan- 
cia. Povo indolente, como aliás em todo o 
Brazil. Não se vê um quintal plantado, nem 
legumes, nem verduras. Raríssimas as arvo- 
res frutíferas. Alimentação de carne e farinha, 
e ás vezes peixe e farinha. Apesar de bastan- 



te piscosa a lagoa, raramente se pesca. Com 
dificuldade obtivemos peixe, duas vezes ape- 
nas, durante nossa longa estadia de 21 dias. 
O' Donnell, homem intelijente e de regulai 
cultura, além de relevantes serviços, prestou- 
nos informações preciosas sobre costumes 
dos habitantes, molestias humanas e de ani- 
mais. Aí já se encontra a molestia de Chagas 
bem caraterizada, porém pouco disseminada, 
sendo raros os casos graves de manifestações 
nervosas ou cardiacas da molestia. Pela pri- 
meira vez desde o inicio da viajem, encontrá- 
mos o parasito causador da molestia em tres 
ninfas de T. niegistus, depois de centenas de 
exames negativos. Insistimos nos exames de 
novos insetos e não mais se encontrou o pa- 
rasito. São já em numero apreciável, 03 por- 
tadores de pescoço grosso, e alguns com o 
bocio bem visivel. Verificámos alguns casos 
de anquilostomose, muitos de impaludismo 
não recente, grande numero de entalados e 
de vitimas do vexame. 

O estalecidio (asma) vai escasseiando, 
sensivelmente. A temper-atura elevou-se bas- 
tante desde Ibiraba. Até aí, tínhamos neces- 
sidade de acender fogueiras á noite, pois a 
temperatura baixava a 12o. A minima em 
Parnaguá 18o. Maxima de 32». Toda a rejião 
percorrida é min'to atrazada. Não ha noção 
de conforto relativo, nem mesmo de asseio ; 
analfabetismo em mais de 80 0/0 da popu- 
lação, pobreza e quasi miseria gerais -e por 
isso a escravisação dos miseráveis aos poucos 
individuos menos ignorantes e que dispõem 
de alguns recursos, sem que esses procurem 
minorar as precaríssimas condições de seus 
dominados. Verificámos cousa semelhante no 
norte do paiz (Amazonas) e justificámos 
agora o conceito doloroso dum notável juris- 
consulto e eminente politico da monarquia 
que, consultado sobre se a restauração da 
monarquia, ou a instituição da republica par- 
lamentar e unitaria não melhoraria a situação 
do Brazil, respondeu que não acreditava que 
isso se desse porque, dizia ele, para que 
qualquer forma de governo fizesse caminhar 
o paiz, era preciso que tivéssemos um povo, 
e o que tínhamos "não era um povo, mas o 
estrume dum povo que ainda ha de vir". 



199 



Daqui mandamos um portador até á ci- 
dade da Barra, levando telegramas com noti- 
cias nossas ás respetivas familias, o qual na 
volta trouxe de Sta. Rita duas cargas de gé- 
neros alimentícios indispensáveis para pro- 
seguirmos a viajem para Ooiaz, onde nos 
informam aqui, ser ainda mais parcos os re- 
cursos. No município de Parnaguá ha varios 
barracões de maníçobeíros, cujos operarios 
vivem em sua maioria escravisados aos bar- 
roquistas. O sistema de escravísação é idên- 
tico ao dos infelizes extratores do latex da 
Hevea no Amazonas. Os barroquistas têm ajen- 
tes que viajam por toda parte, aliciando os 
maniçobeiros. 

A estes fornecem os barroquistas alem, 
de géneros alimentícios, roup; s grosseiras e 
utensis indispensáveis por preços inomináveis, 
sem o direito de os adquirir onde queiram, e 
pagam-lhes determinada quantia por quilo de 
borracha. Por mais dílijente que seja o ma- 
uiçobeiro, em pouco tempo, é devedor do 
barraqiiista e desde então, fica-lhe escravisa- 
do até que, por acaso, consiga saldar a divi- 
da, ou que outro barroquista ou alguém o 
compre, saldando tal divida. Outro sistema 
de escravísação: rapazes pobres de 12 
a 16 anos são atraídos por fazendeiros, 
barroquistas ou tropeiros com promessas 
falazes, e contratados com consentimento dos 
pais. Decorrido algum tempo é apre- 
sentada uma nota da divida do infeliz, que 
não pode ser saldada. Aparece então 
um abnegado que se prontifica a 
f/agar a divida do rapaz, mediante a sua es- 
cravísação ao generoso pagador. Esses gene- 
rosos (barroquistas, fazendeiros, tropeiros, 
etc.) são sempre amigos de todos os gover- 
nos, de sorte que nada lhes acontece, e as 
autoridades pactuam sempre com essas trafi- 
cancias. Durante a nossa permanencia em 
Parnaguá, fujiram dum maniçobal para a vila, 
quatro maniçobeiros pedindo a proteção da 
autoridade local contra as atrocidades de que 
eram vitimas. Ao encalço deles, vieram emis- 
sários do barroquista e a esses foram entre- 
gues pela autoridade local os quatro infeli- 
zes. 



Em um ajoujo (duas canoas amarradas 
pelas bordas) fomos até á Ilha do Meio, 
onde encontrámos enorme quantidade de 
garças, colhereiras e socds. Tivemos oporUi- 
nidade de verificar a voracidade das piranhas 
de que é rica a lagoa. A caça mal ferida, ou 
morta na ocasião que caía na lagoa, era de- 
vorada era minutos pelos vorazes peixes. 

Consideramos Parnaguá o limite da le- 
jião seca do nosso itinerario. Estamos per- 
feitamente informados de que, de ora em di- 
ante, á exceção dum pequeno trecho antes 
de Formosa, todos os rios são perenes e 
correntes. A vejetação já é outra, muito mais 
viçosa, e pujante, e logo que iranspuzermos 
o Rio Preto, entraremos nas verdejantes 
campinas e veredas de buritis. Foi bem do- 
lorosa nossa impressão da rejião percorrid.i 
e muito penosa e desconfortável nossa ex- 
cursão, pela escassez ou ausencia mesmo de 
recursos, pelo atrazo e ignorancia de seus 
habitantes, embora hospitaleiros e de indole 
pacifica e prestimosa. É uma rejião que, 
embora ha séculos habitada, ainda se encon- 
tra impermeável ao progresso, vivendo os 
seus habitantes como os povos primitivos. 
Vivem eles abandonados de toda e 
qualquer assistência, sem estradas, sem poli- 
cia, sem escolas, sem cuidados medicos nem 
hijienicos, contando exclusivamente com seu> 
parquissímos recursos, defendendos suas vidas 
e propriedades a bacamarte, sem proteção de 
especie alguma, sabendo da existencia de 
governos, porque se lhes cobram impostos de 
bezerros, de bois, de cavalos e burros. Viti- 
mas do clima ingrato, da caatinga hostil ede 
molestias como o impaludismo, a que mais 
castiga a rejião, em época certa do ano, e 
outras desconhecidas e que só agora vão 
sendo denunciadas como o vexame e a enta- 
lação. Sob o nome mal de engasgo encontra- 
se no capitulo XXII, pp. 417-418 da obra 
Brazil And The Brasilions Portrayed In His- 
torical And Descriptive Sketches by D. P. 
KIDDER and J. C FLETCHER Philadelphia 
1857, talvez a primeira indicação da existín- 
cia da molestia em S. Paulo e Goiaz. 



200 



E apesar de tudo isso, uma raça resis- 
tente, aproveitável, vigorosa e digna de melhor 
sorte, O tipo do vaqueiro das caatingas é um 
simbolo de destreza, de ajilidade, de força 
e de resistencia. Metido em suas vestes de 
couro (gibão, peitoral, perneiras e botinas) 
grande e pezado chapeo do mesmo materi- 
al, preso por um barbela, luvas de couros 
protejendo apenas o dorso das mãos, monta- 
do num cavalo magro, em geral pequeno, 
mas adestrado na luta, empunhando uma 
(filiada (vara de páo resistente de cerca de 
dois metros de comprimento com uma pon- 
teira de ferro) com os pés metidos em toscas 
caçambas de madeira, ele entra pela caatin- 
¡4a fechada, inçada de espinhes, á procurado 
boi e encontrado esse, toca-o e cerca-o 
ora abaixando-se, ora desmontando-se rapi- 
damente para se livrar duma cabeçada num 
<íalho que não o deixa passar, nem mesmo 
colado ao pescoço do animal, galgando de 
novo a sela como um acrobata, esgueirando- 
se, colocado ao ventre do cavalo, como um 
felino, por ciitre os moitas trançadas, num 
exercicio fantástico de ajilidade e de resistencia 
leva o vaqueiro horas inteiras até domar o 
boi, numa /;/<?/7/aí/a (claro na caatinga) e leval- 
o afinal vencido para o curral. Entra na hu- 
milde morada, retira as vestes de couro, toma 
a frugal refeição de carne de sol e farinha, 
conta naturalmente, sem afetação, a luta do 
dia, e dorme tranquilamente para recomeçar 
no dia seguinte o desporto que mais destreza, 
sangue frio e ajilidade exijem de todos os 
que conhecemos. 

Ha muitas vitiüías entre eles. Encontra- 
mos diversos vaqueiros com um dos olhos 
vasado, outros com grandes cicatrizes no 
rosto e no pescoço. Vimos em Caracol, um 
desporto interessante. Os cavalos do norte são 
em geral ensinados a esquipar. O esquipado 
é uma marcha peculiar aos cavalos dos Es- 
tados do norte. É um andar especial, muito 
rápido e agradável. Um cavalo não esquipa 
dor, só acompanhará o esquipador, a galope 
ou a meio galope. Reunem-se varios cavalei- 
res em uma grande esplanada, montados em 
bons cavalos esquipadores e partindo dum 
me'smo ponto, si ni galope mas apenas esqui- 



pando, e chegando á meta determinada, es- 
barram os animais que, com a parada brusca, 
recuam cerca de dois metros raspando o solo 
com as patas trazeiras sem cair. O animal 
que cae é repudiado. Um de nós adquiriu 
em Caracol um cavalo esquipador no qual 
viajou mais de trezentas legoas. Apezar de 
todas as vicissitudes, ha habitantes das caa- 
ingas de compleição vigorosa, corpulentos e 
robustos sobretudo em Pernambuco e na 
Bahia, onde vimos também muitos individuos 
alvos de cabelos louros e olhos azues. 

Em todo o percurso, exceto Joazeiro e 
Remanso, não vimos nem tivemos noticia 
dum moinho para café, duma maquina de 
costura. A costura é feita somente á mão, e 
o café pilado em pilões de madeira. Não vimos 
uma vela de estearina. Usa-se a candêa, a vela 
de carnaúb?, o pavio embebido de cera virjem 
e a lamparina de querosene, feita de folha 
flandres; essa, somente, nos povoados maiores 
(S. Raymundo e Caracol). 

Está claro que nos referimos aos hábitos 
locais, sem alusão aos forasteiros e alguns 
moradores abastados e viajados, como tais 
consideramos os funcionados da construção 
do açude em S. Raymundo, os inglezes que 
exploram a cultura de maniçoba, e que tanto 
quanto possível têm bastante conforto. 

Parece-nos que, se os comerciantes im- 
portassem esse objetos, ficariam com eles 
retidos, sem compradores, E' difícil arrancar 
a rotina. Essa desapareceria se fossem aber- 
tas comumcações fáceis para os centros civiliza- 
dos e se pudesse localizar na rejião pessoal 
de outras rejiões, habituado a algumas con- 
quistas da civilização. Não encontrámos mas- 
cates italianos ou sirios, nem noticias de tal 
gente. Não ha na rejião percorrida um só por- 
tuguez. Os mascates são veículadores de civi- 
lização nos sertões, pelos objetos que intro- 
duzem; espelhos, escovas de dentes e de 
roupas, pentes, lamparinas, relojios. Os mas- 
cates que percorrem essa rejião são nacionais 
e vendem somente o que é habitual entre os 
habitantes pof preços exorbitantes, sem a 
preocupação de introduzir novos utensis. Tudo 
é primitivo. O sistema de cultura, o fabrico 
do requeijão, do assacar, e da farinha, a te- 



201 



rapeutica empírica, as abusões, as crendi- 
ças, etc. 

E' urn povo atrazado ainda de alguns sé- 
culos. E' possive! que tenhamos deixado 
uma lenda de homens que tinham comercio 
com o capeta. Causava assombro a nossa 
iluminação a acetileno. Não compreendiam 
os infelizes como o contato da chama dum 
fosforo pudesse provocar a luz, sem a pre- 
sença dum pavio. Os nossos utensis de cozi- 
nha, as camas, as malas, eram objetos de 
admiração. O microscopio infundia receio. 
Ha na vila um gramofone em casa do Coro- 
nel O'Donnell. Logo que chegou o aparelho, 
ccnta o Coronel, houve assombro entre 
aquela gente, convencida de que ali havia 
cousa do diabo. Depois, habituaram-se ; acei- 
taram a explicação dada e hoje já ninguém 
se assusta com o gramofone. 

Ha muita gente nos sertões do nordeste 
que se alimenta de mel, muito abundante 
nas caatingas e nas matas, misturado com fa- 
rinha. No nosso trajeto de S. Raymundo a 
Remanso, encontrámos varios nwladores (tira- 
dores de mel nas matas), e raro era o pouso 
em que se nos não oferecia mel das diferen- 
tes especies de abelhas que abundam na 
rejião. Passamos por uma morada entre a 
"Batalha" e a "Fazenda da Cruz", onde 
vimos um homem semi-nú que chegava da 
mata, oude fera melar. Rodeavam-no a 
mulher e quatro filhos menores, cada qual 
com uma cuia com um pouco de farinha no 
fundo. Iam tomar aquela hora (1 da tarde) a 
sua única refeição do dia. Penetramos na 
vivenda miserável, verificando a ausencia de 
qualquer alimento exceto uma pequena caba- 
ça com farinha de mandioca. 

Não ficamos inativos em Parnaguá. Co- 
lhemos grande copia de material e, durante 
todo o tempo de nossa permanencia ali, 
atendemos diariamente a grande numero de 
doentes, verificando \ presença do bocio e de 
outras modalidades da molestia de Chagas. 
Entre os consultantes, apareceram-nos dois 
tios de uns anões, de que ouvíramos falar 
no Jití; um sofrendo de vexame ha quatro 
anos e o outro para informar sobre o mesmo 
mal, para um irmão que não poude vir. São 



ambos de baixa estatura. Im 46, um deles 
e Im 45 o outro; 50 anos de idade e 42 o 
outro. Ambos robustos e com tiroides nor- 
mais. O pai ainda é vivo, tem 94 anos e ainda 
vaqueja. É também de baixa estatura, bem 
assim toda a familia. Os casamentos se fazem 
entre os parentes. Alem dos dois anões, ha 
crianças muito pequenas de nacimento. Um 
dos consultantes, tinha um filho com dois 
mezes, que a mãe trazia ao seio e que não 
media mais que um e meio palmos. 

Que exceto uma irmã dos anões que 
tem o pescoço grosso, ninguém mais da fa- 
milia apresenta o papo. Á vista das informa- 
ções, mandamos fotografar os anões e a fa- 
milia. Fizemos excursões fora da vila. Esti- 
vemos numa fazenda (Buriti), cuja casa, de 
esteios de madeira de lei, sem alicerc s 
conta mais de cem anos. Espaçosa, com 
boas salas, quartos amplos, bem conservada, 
apesar de quasi sempre deshabitada. Conser- 
va ainda, algum mobiliario, que denuncia a 
riqueza de seus primitivos moradores. Em 
um dos salões, encontram-se trez molduras 
com os retratos dos Barões de Parnaguá, de 
Parahim e da Sta. Philomena. Todo o mate- 
rial da tropa foi reparado eos burros, foram 
curados das pisaduras. Encontramos excelen- 
tes pastajens fechadas (mangas) de capim 
angola, e compramos a 2 legoas da vila, boa 
quantidade de milho. 

28-6-912 

Chegou finalmente o portador que havi- 
amos mandado á Barra passar telegramas, c 
a Sta. Rita comprar géneros. Podemos agorn 
proseguir a viajem que ficou marcada pari 
o dia 2 de Julho. O Coronel O'DONNELL, 
informou-nos de que, em Therezina, não lun 
a entalação. Ele residiu ali muitos anos e nunca 
viu nera ouviu falar em tal molestia; que 
a veiu conhecer somente no sul do Es- 
tado, onde constitue uma epidemia; que 
conhece um caso de morte pela entalação 
dum velho entalado ha muitos anos o 
qual, em ceita época, não pcude mais de- 
glutir e dentro de oito dias morreu de ina- 
nição. Foi o segundo caso de morte, pela mo- 
lestia que chegou ao nosso conhecimento. No 



202 



consultorio, verificámos 12 casos de entala- 
rão e tivemos notícias de 15. Verificámos 10 
casos de vexame q tivemos noticias de muitos 
outros. Não verificámos um único doente de 
asma. Varios casos de bocios, alguna apenas 
perceptiveis; um caso grave de alteração do 
sistema nervoso, um de pulso lento (54 
pulsações) e um de mixedema, 

2-7-Q12. 

Partinsos de Parnaguá ás S,40 da manhã 
e depois dum percurso de 30 quilómetros 
acampámos no Angico so'i um frondoso ja- 
tobá. Acompanharam-nos até '2 legoa da 
vila, o Coronel O'DONNELL e um filho, o 
Major ELVAS, intendente e o farmacêutico 
URBANO DE ARAÚJO. Pelo caminho 
vimos varios casos de bocio bem carateriza- 
dos. Viajamos á marjem esquerda do Para- 
him, primeiro rio corrente, desde o inicio 
da excursão. Dizem os habitantes de suas 
marjens, que ele é perene e que só nas 
secas excepcionalmente rigorosas, corla. Tendo 
desaparecido um burro com a carga, tivemos 
do permanecer no Angico até que voltasse 
o camarada mandado á procura do extravia- 
do. Aí encontramos, uma familia de papudos, 
viuva e 10 filhos. A velha tem o bocio bem 
desenvolvido e diz que o contraiu em Gilbu- 
és, e bem assim os filhos mais velhos. Os 
menores riacidos em Angico, contrairam-no 
aí. Toda a familia tem aspeto de saúde e 
robustez. îs'enhum deles, apresenta sintomas 
de perturbações nervosas ou do aparelho cir- 
culatorio. Desde o aparecimento do carrapa- 
to que a zona é bem mais húmida, com 
lagoas perenes e rios correntes, e vejetação 
desenvolvida. 

Recomeçou a epopéa dos burros. Cura- 
ram-se em Parnaguá, descançaram, engorda- 
ram e desenfadarani-se naturalmente. 

Não havendo no logar roça fechada ou 
manga, foram soltos na larga apenas peados 
de mãos. Além do que desapareceu na ves- 
pera carregado, faltaram tres e até tarde 
ainda um deles não fora encontrado. Encon- 
trámos uma familia de entalados (pai, mãe e 
filho). O homem tem 51 anos de idade e 
sofre de entalação ha 22, a mãe conta 50 de 



idade e 15 de entalação. E' mais entelad. í 
que o marido, i. é., tem mais dificuldade em 
deglutir. O filho de 16 anos de idade é en- 
talado desde 8 anos. Todos têm tiroide normal 
e aspeto de saúde. 

O casal, tem mais um filho de 11 anos, 
que não é entalado. Esse tem todos os uten- 
sis separados, porque dizem os pais que a 
molestia pega. Matam.os um guariba. O en- 
talado pedio o 0S50 hioide (guigó) porque 
disse que era remedio para a entalação. Fe- 
lizmente apareceram 3 burros e a carga. Falta 
ainda um. 

Ainda ficámos retidos por ter amanheci- 
do febril o arrieiro de nossa tropa, com tem- 
peratura de 39.2. Tomou um purgativo e foi- 
Ihe injetado um grama de cloridrato de qui- 
nina. Apareceu o burro que faltava. 

5-7-912 

Felizmente nosso arrieiro (chefe da tropa) 
amanheceu apiretico, e pudemos partir ás 
11 ',2, viajando até a tarde, acampando de- 
pois duma caminhada de 6 legoas no logar 
denominado Brejinho, onde ocupámos uma 
casa de vaqueiro deshabitada, á marjem da 
estrada. Ficámos mais abrigados do que sob 

toldo. Ha tres dias que tínhamos míni- 
ma de 10,5 e que com a humidade represen- 
ta um frio bem regular. Atravessamos o 
Parahim, e vamos marjeando o Corrente. 
A zona não é seca. Matos frondosos, au- 
sencia de espinhos, abundancia de carra- 
patos. 

6-7-912 

Caminhamos hoje 36 quilómetros, par- 
tindo ás 9 horas da manhã acampando ás 
3 1/2 da tarde no Sitio, município de Corren- 
te, logarejo com 8 ou 10 fogos esparsos. A 

1 legoa de Brejinho atravessamos o Corren- 
te e subimos uma pequena serra. Desde 
então, entramos de novo em uma rejião seca. 
Encontramos agua (de açude) em Pé de 
Morro, fazenda, em Ipueiras, casa de vaquei- 
ro, (agua de tanque) e no Sitio (açude). 
Quasi todos os moradores de Sitio apresen- 
tam hipertrofia da tiroide, sem qualquer 



— 203 



outra manifestação da molestia de Chagas. 
Encontrámos dois casos de vexanv e um de 
entalação. Passamos um grando susto ai. Um 
de nossos auxiliares, depois do jantar, teve 
uma perturbação gástrica com fenómenos 
cerebrais. Medicado convenientemente, á 
noite estava fora de perigo. Não havendo 
mais em nossa ambulancia um purgativo 
enerjico, demos-lhe o purgativo da terra 
pinhão de purga, com excelente resultado. 

7-7-912 

Partimos do Sitio ao meio dia, e fomos 
acampar ás 6 horas da tarde em Perí-perí, 
lugarejo (Estado da Bahia- Municipio de 
Sta. Rita), fazendo um percurso de quatro 
iegoas apenas. Dormimos ao relento, sob a 
copa duma gameleira, e tivemos aí a tempe- 
ratura minima, de 7,5. Felizmente tomamos 
a precaução de acender tres fogueiras. A vi- 
ajem foi agradável por ser a estrada atravez 
duma mata. Vimos varias pessoas com pe- 
quenas hipertrofias da tiroide, apresentando 
no entanto aspeto de s?ude e robustez, sem 
perturbações nervosas ou cardiacas. Velhos 
cum pequenas hipertrofias de tiroide desde 
a mocidade ou meninice, sem aumento nem 
alteração da saúde. Crianças robustas, híji- 
das, com tiroide hipertrofiada. Apenas uma 
criança de 9 anos, idiota e afasica, desde a 
idade de 5 anos, sem hipertrofia da tiroide, 
e duas mulheres com arritmias, uma com ti- 
roidite e outra com tiroide normal. A moles- 
tia nessa rejião é muito benigna. Ha muito 
bicho de parede (megistus). Vimos tres en- 
talados, nenhum caso de vexame, nem de 
asma. Aí permanecemos um dia para prepa- 
rar milho para os animais. Matamos 3 jacus, 
8 pombos verdadeiros e uma grande coruja. 
No dia 9 chegaremos á Formosa, vila da 
Bahia, á marjem do Rio Preto. 

9— 7 912 

Partida de Perí-perí ás 8 '/a da manhã 
e chegada á Formosa a 1 hora da tarde. Per- 
curso 27 quilómetros. Fácil de escrever, difí- 
cil de realizar é o levantar-se o acampamen- 
to ás 8 horas da manhã, quando se viaja 



com tropa numerosa. É necessário acordar o 
cosinheiro ás 4 horas para preparar o almo- 
ço e o café, e os camaradas para pegar os 
burros e arrumar as cargas. O almoço fica 
pronto para o ponto da chegada. O café é 
tomada com bolachas ou requeijão. Os de- 
mais camaradas, alguns vão procurar os 
burros, e outros arrumam as cargas, desar- 
mam os toldos e as camas. Felizmente ha 
em tudo nnia certa ordem. Quando chegava 
a tropa a um acampamento, não se descarre- 
gavam os burros a esmo. Tmhamos todas as 
malas numeradas, indicando cada numero o 
conteúdo da mala. Descarregavam-se primei- 
ramente o burro com as maias de material 
de laboratório. Colocadas as malas, uma de 
cada lado do burro, era esse levado para um 
outro ponto, onde lhe tiravam a cangalha. 
Vinha outro em seguida com as malas do 
material de farmacia. A mesma operação, e 
assim em seguida com todos os outros. Fi- 
cavam, pois, todas as cargas, em perfeita 
ordem. As cangalhas eram colocadas com o 
suadouro exposto ao ar para evaporar o 
suor e secar o pus das feridas do lombo 
(quando ferido o animal). Antes de soltos os 
burros, eram peados qn.-^ndo não havia pastos 
fechado {ntwiga) e eram raspados, curados 
e escovados, l^ela mesma operação passavam 
antes de receber as cargas, tomando previa- 
mente uma boa ração de milho. As canga- 
lhas eram reparadas e limpas, os suadouros 
eram batidos para desembolar o enchimento 
e amacial-o e rasp;idos com sabugo de milho 
ou um p-ídaço de páo de casca rugosa para 
retirar as crostas secas de pus ou do suor 
com a poeira. Ai de quem não tomar essas 
cautelas. Arrisca-se a ficar na estrada sem 
condução. 

A nossa mesa era feita da reunião de 
quatro malas, sobre a qual estendia-se um 
couro ^cobertura da cangalha, albarda). O 
nosso alimento habitual teijão, arroz, carne 
fresca (nos povoados) farinha; franguseovos 
(quando encontrados) café e bolachas ou re- 
I queijão. Houve dias sem conta que nos ali- 
mentamos uma só vez ao dia, i. é, tomava- 
I mos café com bolachas ou com requeijão 



204 



antes de suspender cargas, e comiamos a 
(arde ou á noite, depois de arrial-as. Os ca- 
maradas carregavam nos embomaes (pequeno 
saco de pano a tiracolo), farinha rapadura e 
requeijão. Nós carregávamos bolachas nos 
alforjes. Isso, deu-se sobretudo, nas rejiões 
secas onde tivemos travessias longas de seis, 
oito dez e mais legoas sem agua. Essa era 
transportada em borrachas de couro ou de 
Jona impermeável de que nos muníramos. 

Formoza é um grande arraial, situado á 
marjem esquerda do Rio Preto, navegável 
por pequenos vapores, que partem da cidade 
da Barra e vão até S. Marcello, a 9 legoas 
acima de Formosa. O Rio Preto é afluente 
do Rio Grande, e esse do S. Francisco. A' 
marjem do Rio Grande fica situada a cidade 
de Sta. Rita, cabeça da comarca a que está 
subordinada Formosa. O nome do logar é 
bem adequado. 

Formosa já foi logar de grande comercio 
para Goia?, Piauhí e Maranhão, mas está hoje 
decadente, por 1er sido estendida a navega- 
ção até S. Marcelo, para onde se transferiu 
o comercio, como também pela luta tremenda 
travada ha anos entre duas familias impor- 
tantes do logar, por motivos de predominio 
politico. Chegaram os contendores aos maiores 
excessos, aliciando cabroeira (capangas) dan- 
do-se combates sangrentos, tnatando-se uns 
aos outros, incendiando casas do arraial, e fa- 
zendas, devastando plantações, aniquilando o 
gado, cometendo enfim toda a sorte de de- 
predações. Por esses motivos, houve enorme 
êxodo da população e o arraial entrou em 
franca decadencia. Conta ainda assim, uma 
população, de cerca de 1.000 habitantes, de as- 
peto sadio e possue um bom clima, um pouco 
quente, mas muito seco. No centro do arra- 
ial, duas ruas largas com casas regulares, ca- 
iadas, cobertas de telhas, igreja regular, e uma 
capela. Algumas casas de comercio com sor- 
timento regular e pousos para viajantes. Nos 
arredores casas barreadas apenas, em geral 
cobertas de telha. Abundancia de inegistus e 
presença de bocio. Esse em geral muito peque- 
no. De 18 portadores de bocio por nós exanii- 
iiados, apenas um tinha um bocio de voluiiíe 



duma pêra. Nenhum desses individuos apresen- 
tava qualquer outra manifestação da molestia 
Chr.oas, sendo todos robustos, aptos para o 
trabalho e de inlelijencia normal. Percorre- 
mos todo o arraial e apesar de indagações 
minuciosas, não nos chegaram ao conhecimen- 
to casos de idiotia, cretinismo, infantilismo 
e de perturbações outras do sistema nervoso. 
Em toda a rei ião percorrida e onde exis- 
te a molestia, desde Parnaguá, ela é benigna, 
sendo raros os casos de manifestações graves. 
Observámos dois casos de entalação, tivemos 
noticias de mais seis casos. Não vimos 
nenhum doente de vexame. O Rio Preto, 
apesar do nome dado em virtude da côr do 
seu leito, possue agua límpida e cristalina, 
que trava lijeiramente. O comercio local é 
feito com a cidade da Barra por intermedio 
de vapores (uma viajem por mez) e por 
tropas, havendo muita gente que prefere 
esse meio, por ser mais barato, mais seguro, 
mais regular. 

11-7-912 

Partimos de Formosa a 1 hora da tarde 
e acampamos ás 5 '/2 da tarde, numa varjeni. 
á marjem do Rio Preto, 2 quilómetros além 
da fazenda do Váu, ao relento. 

Percurso 4 V2 legoas. Passamos por 
uma vivenda no Angico, onde reside um va- 
queiro, com mulher e cinco filhos ; estes, todos 
portadores de pequenos bócios, contraídos, 
diz o vaqueiro, no Duro, para onde ele se 
mudara ha tres anos. Informou-nos que voltou 
do Duro ha um ano, e que desde então, os 
bocios dos fillios, têm-se reduzido. Informou- 
nos que no Duro, o individuo sem papo é 
exceção, e que é muito elevado o numero 
de cretinos, afasicos e paralíticos. Pela pri- 
meira vez ouvimos falar na caruara, molestia 
de bezerros, comum em Qoiaz, com sintomas 
semelhantes á paralisia infantil. Captu- 
ramos tres mutucas e algumas anoíeiinas. O 
aspeto da rejião já é outro. Desapareceram 
os cactos e a jurema. Entramos no cerrado 
de arvores de galhos tortos. 

12-7 912 

Partimos de Váu ás 8 V2 da manhã e 



205 



ás 2 horas chegamos a S. Marcelo com um 
percurso de 5 legoas. S. Marcelo é um arraial 
novo (pouco mais de 2 anos) fundado depois 
que se estabeleceu a navegação do Rio Preto 
até esse ponto. 

Havia dantes a fazenda Sta. Maria 
assinalada nos mapas. O arraial prosperou 
graças aos preços elevados do caucho e da 
borracha de mangabeira, mas com a crise 
desses produtos, acha-se decadente, e o de- 
sanimo apossou-se do comercio e dos habi- 
tantes. Acha-se o arraial situado á marjem 
esquerda do Rio Preto, na embocadura do 
Rio Sapão, afluente daquele, em local apra- 
zível e pitoresco. Tem algumas construções 
regulares. Aí vimos o primeiro chalé em 
toda a nossa excursão. Predio novo, assoa- 
lhado e forrado, regularmente mobiliado, 
pertencente ao Snr. JOSÉ DOS REIS, nego- 
ciante forte do logar, que muito nos obse- 
quiou durante nossa estadia aí. Funcionava 
na ocasião que por aí passamos, um circo 
de cavalinhos e mirabile didu, um cinemató- 
grafo com luz de acetileno. Conta o logar 
uma população fixa de cerca de 400 pessoas 
e nas safras da borracha de mangaba (de 
Setembro a Janeiro) a população adventícia 
é muito grande. Vimos um portador dum 
grande bocio, residente em Qoiaz. 

No arraial nega-se a existencia do bar- 
beiro o que é possível, porque quasi todas 
as casas são rebocadas e caiadas. Em cami- 
nho para aqui, fomos informados da existen- 
cia de 4 entalados na fazenda Mato Orosso 
e de dois no arraial. Ausencia de vexame. 
Tendo resolvido seguir para Porto Nacional 
pelo Dmo, em vez de Pedro Affonso, como 
estava antes deternu'nado, tivemos de atra- 
vessar o Rio Preto. As cargas passaram em 
canoas e os animais a nado. Esse serviço 
tomou muito tempo, de sorte que aí pernoi- 
tamos para proseguir a viajem no outro dia. 
Passado o rio, acampamos do outro lado 
(marjem direita) ao relento. Acabou-se feliz- 
mente e definitivamente a zona seca. Desde 
Formosa já atravessamos varios riachos cor- 
rentes, grandes chapadas de cerrados, lagoas 
e brejos povoados de buritis. Agora vamos 



penetrar na rejíão das campinas e veredas, 
deshabitadas, aqui chaniadas "í?s gerais". 

13-7-912 

Partimos de S. Marcello ás 11 horas da 
manhã, sem almoço e depois dum percurso 
de 6 legoas. acampamos ás 6 horas da tarde 
ao relento, á beira dum extenso brejo, no 
logar denominado Pouso Alegre, deshabita- 
do. Metade do percurso foi feito num cliapa- 
dão seco, onde fomos perseguidos, cavalos 
e cavaleiros, pelas mutucas {Chrysops) em 
grande quantidade. Fizemos nossa única re- 
feição solida nesse dia ás 9 horas da noiíe. 
Pela primeira vez, durante a excursão, ouvi- 
mos o coaxar dos sapos, e apreciamos a fos- 
ferencía dos pirilampos em quantidade pas- 
mosa. Capturamos 1res exemplares dç Sf/ie/o- 
myia. Não mais juremas, nem macambiras 
nem toda a raça de vejetação de espi- 
nhos das zonas secas Agora são as campina?, 
as veredas de buritisais, os capões de mato 
com arvores esbeltas, de troncos retos e lisos 
e os chapadões ou laboleiros de cerrado, 
com suas arvores de galhos tortos, abundando 
neles o piqui, a cagaita, etc. Tivemos a 
mínima de 9,5. 

14-7-912 

Percorremos 6 legoas desde 11 horas ás 
4 horas da tarde, acampando em Pedra ( o 
Fogo, ao relento, proximo a uma choça ct- 
berta de palmas de buriti, onde vive uma fa- 
mília de papudos, composta de casal e quatro 
filhos. Essa gente não se julga muito isolada 
porque tem visinhos a 2 e a 3 legoas de dis- 
tancia. A meio caminho desse pouso, em um 
taboleuo, ha uma belíssima fonte duma agua 
cristalina, provavelmente mineral. A agua 
burbulha com violencia e em quantidade 
apreciável dum poço natural, revestido no 
fundo e nas paredes de pedras irregulares 
brancas, que, ou pelo reflexo da luz, ou 
talvez pela natureza do sal em dissolução na 
agua, parecem azuladas, dum azul celeste na 
superfície, e azul ferrete nos espaços entre 
uma e outra pedra. Um páo, um objeto 
qualquer introduzido na agua, o braço dum 



206 



homem apresentam a mesma fluorescencia. 
Colhemos duas garrafas dessa agua com 
o fim de examinal-a no Rio. Capluramos mu- 
tucas e mosquitos, entre estes uma Mangai' 
nhosia. Temos encontrado alguns bandos de 
araras azues, mas tão bravias, qne ainda não 
couseguimos atirar nenhuma. Tivemos mini- 
ma de Qo. 

15-7-9Î2 

Perc3rren\os apenas 4 legoas, partindo 
de Pedra do Fogo ás 9 horas a. m. e acam- 
pando a 1 hora da tarde, ern um rancho 
aberto na fazenda da "Barra dos Veados" de 
propriedade dum velho e alentado mulato 
bahiano, homeri rustico, porém hospitaleiro 
e intelijente. Casado, tem filhos homens, ro- 
bustos todos e uma filha moça, única da fa- 
mih'a com um pequeno bocio. Todo o per- 
curso de hoje foi feito em cabeceiras de 
brejos, e pequenas chapadas em terrenos 
alagadiços. Atolaram-se quatro burro^ de 
carga numa passajem de estiva, e iiso atrazou 
um pouco a tropa, que chegou ao pouzo ás 
3 horas. Apanhamos uma Chagasia e mata- 
mos uma perdiz. Informados de que aí havia 
sussuapáras, antas e guarás, resolvemos de- 
morar um dia para caça!-os. Infplizmente o 
resultado da caçada foi negativo. Matamos 
apenas duas perdizes mais. 

17-7-912 

Partimos de "Barra dos Veados" ás 7 
horas e chegamos á "Pinguela" ás 2 horas da 
tarde, percorrendo 6 legoas em maus cami- 
nhos pantanosos. Aí atravessamos de novo o 
Rio Preto, nesse ponto estreito, porem muito 
fundo. Pessoas e cargas em canoas, o:, ani- 
mais a nado. Essa operação tomou muito 
tempo e por isso ai ficamos nesse dia. No 
logar ha apenas dois habitantes, o barqueiro 
e a mulher. Esse homem, quando em con- 
versa, aludimos ao isolamento em que ele 
vive, lastimando o atrazo e ausencia de re- 
cursos, do sertão, teve uma expressão de 
desalento e de resignação ao mesmo tempo: 
"Isso aqui é uma sepultura aberta". 



Capturamos aí grande numero de mutucas 
interessantes, com aspeto de abelhas, certa- 
mente novas para a ciencia. Nos gerais per- 
corridos desapareceram as Cellia argyrotar- 
sis e albiinana, sendo substituidas por 
Cellia bniziliensis, Manguinhosia e Stheto- 
rnyia nimba. 

18-7-912 

Cabeceiras Velhas. Partimos de "Pingue- 
ia" ás 9 horas da manhã e chegamos ás 
"Cabeceiras Velhas", uma das nacentes do 
Rio Preto, as 3 horas da tarde, com um per- 
curso de 5 '2 legoas. Aí não ha habitantes, mas 
ha um pequeno rancho construido por boia- 
deiros e por felicidade nossa estava ele 
ocupado, na ocasião por dois boiadeiros que 
vinham de Goiaz para S. Marcello, e que 
nos deram informações preciosas sobre nossa 
marcha do dia seguinte. Tínhamos de atra- 
vessar um trecho de 8 legoas sem aguas, 
uma campina, de 5 legoas na chapada até 
ganhar a serra do Duro, e no descambo desta 
mais tres legoas até encontrar um buritisal 
no logar denominado Lagoa. Combinamos, 
pois, que a tropa partisse no dia seguinte á 
tarde, com a fresca, para pernoitar no alto 
da serra, e chegar no outro dia muito cedo 
á aguada e que os cavaleiros, levando apenas 
uma carga com alguma bola e as camas sa- 
íssem cedo, para pernoitarem no mesmo dia 
na "Lagoa" ali aguardando atropa. 

19-7-912 

Partimos, pois, os cavaleiros ás 10 horas 
e levando apenas uma carga, e chegamos á 
Lagoa ás 5 horas da tarde. Do alto da serra 
do Duro, já nas divisas da Bahia com Goiaz, 
descortina-se um dos mais belos panoramas 
que se possa imajinar. Senas, chapadas, e 
campinas numa extensão formidável, abran- 
jendo a vista muitas legoas em torno. Dece- 
nios mais de 300 metros e fizemos a famosa 
tia.'ossia em oito horas. Contra nossa espe- 
tativa, á meia noite, desse dia chegava a 
tropa, com que só contavam.os na manhã do 
dia seguinte. Preferiu o nosso arrieiro viajar 
parte da noite e procurar a aguada a deixar 



207 



os burros em pasto seco Ioda uma noite. Es 
tamos em territorio goiano 

20-7-912 

Nessa ocasião apreciamos um belo e 
horrivel espefaculo, da campina em chamas, 
em uma extensão imensa, pelo fogo ateado 
pelos nossos camaradas apezar de terminan- 
tes ordens em contrario dadas previamente. 
Tendo sido grande o esforço empregado na 
véspera, resolvemos percorrer apenas 2 legoas 
até o Riacho de Areia, a 4 legoas do Duro. 
Todos esses logares são deshabitados. Desde 
S. Marcelo só encontrámos habitantes em 
Pedra do Fogo (uma familia) em Barra dos 
Veados (uma familia numerosa) e em "Pin- 
guela" (um casal). 

O "Riacho de Areia" tem o leito de areia 
finissima e movediça, e a corrente de agua 
muito forte. E' muito arriscado atravessal-o 
em certas épocas a cavalo, sem primeiro 
fazer atravessar varias vezes por pedestres, 
dum lado para outro até acamar a areia cor- 
rendo o animal risco de ficar enterrado na 
areia, se não houver esse cuidado. Citam-se 
varios casos de murtes de pessoas e animais. 
Quando o atravessamos, não havia esse risco, 
porque nessa época ha grande movimento 
de tropas vindas de Barreiras, e a areia esta- 
va mais ou menos acamada. 

21-7-912 

Partida do "Riacho de Areia" ás 7 horas 
da manhã e chegada ao S. José do Duro ás 
11 horas com um percurso de 4 legoas. Duro 
é uma vila goiana, situada a meia encosta da 
serra do mesmo nome, com cerca de 60 casas 
e uma população de 400 almas mais ou 
menos. Ha algumas casas bem regulares. As 
da praça e das tres ruas que aí desembocam, 
são todas caiadas e de bom aspeto. Foi agra- 
dável nossa impressão. Fomos carinhosamen- 
te recebidos pelo Major JANjÃO, JOÃO 
BAPTISTA LEAL, proprietário, fazendeiro e 
negociante, homem prestimoso e de alguma 
cultura. Obsequiou-nos com excelente almoço 
em mesa bem posta e cedeu-nos uma das 
melhores casas da vila, um sobrado situado 



na praça, pertencente ao Coronel ABÍLIO 
WOLNEY, Senador Estadoal, ausente na 
ocasião. Aí permanecemos alguns dias par.i 
nos abastecermos de géneros e descançar 
os burros, muito enfraquecidos pela detes- 
tável forrajem das campinas (o agreste), apre- 
ciada pelos animais tão somente na ocasiã<j 
do broto, logo após ás queimadas. Felizmen- 
te encontrámos aí uma manga de capim ja- 
raguá ou provisorio. 

Um dos nossos auxiliares, em companhia 
dum caçador do logar, esteve fora durante 
3 dias á procura dos sussuapáras e guarás, c 
nada conseguiu. Estamos em pleno dominio 
do bocio. Como habitualmente acontece, na< 
rejiões onde ele existe, não se o encontra 
nas camadas mais abastadas, que habitam 
casas rebocadas e caiadas as quais não se 
prestam ao habito do barbeiro, mas é abun 
dante cnlre os habitantes pobres e entre 
os roceiros. 

Quasi nenhum escapa. Já vão aparecendo 
os cas