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W,/EVO I
Presented to the
UBKARYofthe
UNIVERSITY OF TORONTO
by
Professor
Ralph G. Stanton
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MULHERES
OBRAS DE JÚLIO DANTAS
POESIA
Nada (1S96) — 2.a edição.
Sonetos (1916) — 4.» edição.
PROSA
Outros tempos, inquéritos médicos às genealogias reais
portuguesas, etc. (1909) — 2.a edição, ampliada.
Figuras de ontem e de hoje (1914) — 2.a edição.
Pátria Portuguesa (1914) — 4. a edição, no prelo.
Ao ouvido de M."^^ X (1915) — 4.a edição.
O amor em Portugal no século XVIII (1915) -2.a edição.
Mulheres (1916) — 5.a edição.
Eles e Elas (1918) —3.a edição.
Espadas e Rosas (1919) — 4.a edição.
Como elas amam (1920) -3.a edição.
Abelhas doiradas (1920) -2.a edição, no prelo.
Os (ralos de Apollo (1921).
Art^ de amar i\^22) .
As Grandes Batalhas -No prelo.
TEATRO
O que morreu de amor (1899) -4.a edição.
Viriato Trágico (1900)-2.a edição.
A Severa (iy01)-4.a edição.
Crucificados (1902)-2.a edição.
A Ceia dos Cardeais (1902) -24.a edição.
D. Delirão de Figueirôa (1902) -4. a edição.
Paço de Veiros (1903) -3. a edição.
Um serão nas Larangeiras (1904) -4.» edição, no prelo.
Rei Lear (1906) -2 a edição, no prelo.
Rcsas de todo o ano (1907) -9.a edição.
Mater Dolorosa (1908) - 5. a edição.
Auto de El-Rei Seleuco (1908) -2.a edição.
Santa Inquisição (1910) -2.a edição.
O Primeiro Beijo (1911) -4. a edição.
D. Ramon de Capichuela (1912)- 2.» edição.
O Reposteiro Verde (1912) -2.a edição.
1023 (1914) -2.a edição.
Soror Mariana (1915) -3.a edição.
Carlota Joaquina (1919)-3.a edição, no prelo.
D.João Tenório (1920).
A Castro (1920).
A data indicada para cada obra é a da sua primeira edição.
JÚLIO DANTAS
Sócio efectivo da Academia das Sciências de Lisboa
Da Academia Brasileira de Letras
MULHERES
QUINTA EDIÇÃO. AMPLIADA
16.0 MILHAR
PER OFiSeM FVlSOto
LISBOA
PORTUGAL-BRASIL LLMITADA
SOCIEDADE EDITORA
58 — RUA GARRETT — 60
Rcsérvaáos todos os direitos de reprodução : em
Portugal, conforme preceituam as disposições do
Código Civil Português; no estrangeiro (países da
União) em harmonia com a Convenção de Berlim,
a que Portugal aderiu por decreto de 18 de Março
de 1911, e a o.ue o Brasil aderiu também pela lei
n.o 4:541, de 6 de Fevereiro de 1922, e decreto
n.o 15.530, de 21 de Junlio do mesmo ano. A pro-
priedade desta obra pertence à Sociedade Edi-
tora Portuoal-Brasil L.^^-*.
Imprensa PORTUOAL-BRASIL — Rua da Alegria, 100 — Lisboa
IViULHERES DE HOJE
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in 2009 with funding from
University of Toronto
http://www.archive.org/details/mulheresOOdant
MISS MELANCOLIA
Uma mulher é sempre uma interrogação.
Ontem, às dez horas, pus a tiracolo o meu
binóculo e fui até à praia. Uma manhã re-
fulgente. Dir-se ia que todo o mar, que toda
a atmosfera scintilava. Os próprios rochedos
negros, batidos do sol, chispavam faúlhas de
oiro. Palpitavam barracas brancas, como gran-
des albatrozes, sobre a areia coruscante. E as
ondas, arripiando-se ao largo em ligeiras cris-
pações luminosas, cresciam, avançavam, rola-
vam como montanhas, cavavam-se em clarida-
des glaucas de pedra preciosa, rebentavam
eriçadas de espuma, e vinham espraiar-se, fer-
ventes, cachoando ainda nalgum cachopo, e
lambendo, como uma esteira de prata lí-
quida, a areia seca e ruiva. Bati o horizonte
com as lentes mordazes do binóculo. Longe, |
um barco carvoeiro descia, deixando no céu
um traço imóvel de fumo. Perto, as escarj3as
8 MULHERES DE HOJE
talhavam-se abruptas sobre o mar, em largos
estratos negros de rocha, escorrendo limos,
babando névoa, azebrando-se de nódoas ver-
des, e rebolando penhascos pelo mar dentro,
fulvos, enormes, na atitude humana de corpos
debruçados. Num desses rochedos, que pare-
cia negro de encontro ao clarão lampejante da
água, uma mancha vermelha Viva, chamejando
ao sol como uma labareda, feriu-me a atenção.
Era uma sombrinha encarnada. Fixei-a : osci-
lava, movia-se. Num desses movimentos, sur-
preendi, quási adivinhei, assentado na rocha,
um Vulto branco de mulher. Por um natural
impulso de curiosidade, fui caminhando ao seu
encontro. Atravessei a praia onde uma re-
voada de crianças nuas, chapinando, acendia
reflexos róseos na água ; meti aos cachopos ;
e saltando de fraguedo em fraguedo, o binó-
culo nos olhos, aproximei-me, pouco a pouco,
da ponta de rocha onde abria ao sol, como
uma grande flor, a sombrinha vermelha. A
uma distância da Vinte passos, parei e olhei
em silêncio. Era uma linda rapariga, tipo de
inglesa, olhos azuis, cabelos ténues dum loiro
claríssimo como Rheno opalizado, um Vestido
ligeiro de cassa branca a ondular ao Vento,
uma brochura amarela fechada na mão. Não
me pressentiu. Fiquei de longe a observá-la,
a seguir-lhe os movimentos, os gestos, as ati-
MISS MEL'\NCOLIA 9
tudes. Olhava o mar com uma fi;'^idez impres-
sionante. O pé direito, nervoso, vivo, calçado
de camurça branca, a ponta de encontro à ro-
cha, trepidava, de vez em quando, em peque-
ninos movimentos convulsivos. Aproximei-me,
uns passos ainda. Tudo, na figura dessa mu-
lher, era fluido, musical, transparente, lumi-
noso. Tudo, na sua expressão, era parado,
imóvel, absorto e triste. O cont.''aste im-
pressionou-me. Estava ali, incontestavelmente,
uma criatura sob o domínio dum profundo
sentimento. Houve um instante em que julguei
Ver uma lágrima a tremer-lhe nas pestanas.
Ilusão, sem dúvida. Como todos os homens
que supõem conhecer a mulher, e para quem
não há nada no coração feminino que não seja
claro, instintivo e fácil, eu íiVe a pretenção de
ler naquela fisionomia, de penetrar naquele es-
pírito, e de resolver num instante, com o meu
binóculo de praia e a minha psicologia de sa-
lão, a incógnita daquele pensamento e o drama
daquela existência. Assentei-me na rocha, quási
debruçado sobre o mar que se me abria aos
pés, em reflexos roxos de pântano, babando
espuma. Era, de-certo, uma inglesa. Aque-
les tipos loiros, duma elegância garçonniève,
duma flexibilidade metálica, não enganavam
nunca. Presumivelmente, um ange-gardien de
Çíisa rica, dezoito, vinte anos, vinda dos pra-
10 MULHERES DE HOJE
dos Verdes da Irlanda, como uma pequena mãe,
para a rude missão de educar os filhos dos
outros. Uma inglesa nova e triste que pensa,
absorta, olhando fixamente o mar, — não pode
pensar senão num homem. Se essa inglesa
tem dezoito anos, esse homem não pode ser
senão um noiVo. Que admiraria, sendo esse
noivo um inglês, e esse inglês— quem sabe?
— um oficial de marinha, que êle corresse
àquela hora os acasos e os destinos da guerra,
na imensidade desse mesmo oceano scintilante.
onde a pobre inglesa fixava os seus olhos
azuis, interrogativos e tristes? Debaixo da som-
brinha vermelha que o sol atravessava num
clarão de incêndio, fazendo faiilhar os cabelos
ondeados de Miss Melancolia, julguei Ver,
uma Vez mais, a mesma lágrima a tremer nas
mesmas pestanas loiras e quietas ; senti, clara-
mente, na ondulação do seu pescoço fino de
ganso cor de rosa, o soluço doloroso que de-
via apertar-lhe a garganta, — e pensava já, a
sério, em dirigir-me àquela linda mulher que
sofria, para lhe dizer não sei bem o quê, quando
uma voz forte de homem, rouca, alegre, gritou
por detrás de mim :
— Mary !
Voltei-me. Era um inglês moço, hercúleo,
enorme, a face rapada e cor de cenoura, uns
Qçulos de oiro reluzindo ao sol, um cachimbo
MÍSS MELAx\COLIA 11
na boca, que vinha, com a leveza de um fau-
no, saltando de rocha em rocha. Olhei a rapa-
riga: já ia ao encontro dele, fresca, risonha,
alegre, inundada de luz como uma primavera.
— Good morning !
E lá foram ambos pendurados nos braços
um do outro, debaixo do chapéu de sol encar-
nado, a chilrear e a rir pelos rochedos.
Tinha-me enganado redondamente. Afinal,
Miss Melancolia era a mulher mais feliz deste
mundo.
A VELHICE DE D. JOÃO
Meu amigo : — EscreVo-íe de Sintra, onde
estou passando a lua de mel. Casei há oito
dias. Minha mulher quer conhecer-te. Vem tomar
uma chícara de chá comnosco.
Vejo-te ler e reler as primeiras linhas desta
carta, com o natural assombro duma notícia que
não se espera. E a-pesar-disso, meu amigo,
não há nada mais verdadeiro. Casei. Vou fazer
setenta e um anos, — e casei. Digo-to com o
sorriso tranquilo de quem, finalmente, conhece
a felicidade na vida. Um casamento nesta idade,
quando nào é uma aventura ridícula, é sempre
uma história comovedora. A minha noiva tem
menos três anos do que eu. Antes que Venhas
beijar as suas mãos ignoradas, meu amigo,
quero que saibas quem ela é.
Eu passo por ter sido, durante a minha
mocidade e mesmo durante o meu outono, um
amoroso e um sentimental. Fez-se em volta i|l
14 MULHERES DE HOJE
de mim uma lenda de paixões e de aVenturaS.
Nunca a desmenti. E nunca a desmenti, —
porque ela era rigorosamente verdadeira. Com-
preendes o que seria, na Lisboa de há qua-
renta anos, um bonito rapaz, com os hábitos
fáceis e viris da educação inglesa, rico, fi-
dalgo, solteirão impenitente e homem do mundo,
sem outras preocupações que não fossem o
câmbio sobre Londres e uma admirável colec-
ção de caixas de rapé do século xvm, que fa-
ria inveja a Boni de Castelane. Respirei moci-
dade, a plenos pulmões. Bebi, até à última
gota, a taça de oiro da vida. Conheci, na sua
mais alta expressão, a em.briaguez do amor e
o sentimento da posse. Amei, triunfei, vivi. E
entretanto, meu amigo, quando hoje olho para
trás e interrogo as memórias do passado t—
digo-to com orgulho ! — nada encontro que
perturbe a paz da minha consciência. Nenhum
remorso me pesa, nenhuma recordação me
punge. Tenho setenta e um anos, — e nunca
fiz chorar uma mulher.
Bondade, — dirás tu. Bondade natural. Tal-
vez. E, com certeza, um pouco de egoísmo
também. O sofrimento alheio foi-me sempre
insuportável. Acontece muito isto a quem é
feliz na vida. Mas as lágrimas duma mulher,
sobretudo as lágrimas duma mulher que se
amou, apareceram sempre ao meu espírito
A VÈLIllCÈ DE D. JOÂO l5
Como uma coisa monstruosa e aflitiva. Fazer
sofrer a beleza, a candura, a fragilidade, a
graça! Com.o os homens são cobardes, meu
amigo, — e como à minha sensibilidade delicada,
feminina, um pouco doentia, pareceu sempre
pungente a imagem duma mulher que chora !
Por isso as minhas ligações amorosas nunca
conheceram as lágrimas. Por isso nos meus
romances de mocidade nunca houve o suplício
inútil das rupturas e das separações. Na minha
vida, o amor, como um fruto doirado, só caiu
sacudido pela mão do tempo. Das mais violen-
tas paixões, tive a arte de fazer longas e co-
movidas amizades. Os meus afectos ignora-
vam, ao esvaziar da taça, o travor do ódio.
Tive sempre, ou, pelo menos, julguei ter sem-
pre o pueril cuidado, quási o pudor de conser-
var as minhas conquistas na ignorância umas
das outras. Nunca me casei para não pre-
ferir nenhuma. Era rico. As responsabilida-
des materiais das minhas ligações não me
preocupavam. Ia criando ménages, instalando
afectos pelos quatro cantos de Lisboa, — e
continuava a Viver sozinho a minha existência
de solteirão. Fiz colecções de mulheres, —
com a mesma impassível tranquilidade com
que coleccionava caixas de rapé. Umas, dis-
persou-as o tempo ; bateram as asas para novos
amores. Por que havia eu de querer-Ihes mal?
16 MULHERES DE HOJE*
Se a vida é assim ! Outras, levou-as o sopro
gelado da morte. Quando entrei na assomada
dos cincoenta anos, — restavam apenas dois
lares, e, com eles, os dois corações fiéis de
mulher que me acompanharam toda a vida. Fui
envelhecendo a amá-las, — sem as sentir enve-
lhecer ao pé de mim. Eram as últimas relí-
quias da minha mocidade, as últimas flores da
minha primavera, — o que restava do meu pas-
sado e de mim próprio. Amor ? Mais do que amor :
ternura. Vi embranquecer-lhes o cabelo, afilarem-
-se-lhes as mãos, desbotar-se-ihes o sorriso, — e
não dei pela velhice delas. Dizem Vocês que não
se pode amar duas mulheres a um tempo. Enga-
no ! Era com a mesma comoção que eu lhes man-
dava todas as manhãs, peio meu criado Antó-
nio, dois grandes ramos de flores. Era com o
mesmo alvoroço e com o mesmo respeito que
eu ia visitá-las a ambas, em dias alternados,
beijar-lhes as mãos, sentir o seu perfume, ver
ainda nos seus olhos pretos e calmos — os
olhos da mulher não envelhecem nunca ! —
as últimas scentelhas do meu fogo, as últimas
loucuras da minha mocidade. Fiz prodígios
para que não suspeitassem uma da outra. Con-
fundia-as já tanto na minha alma, — que che-
guei a pensar num impossível : uni-las, trazê-
-las, como duas irmãs, para o meu lado. . .
Um dia — lindo dia de sol ! — inesperada-
A VELHICE DE D. JOÃO 17
mente, uma delas morreu. Era a mais bonita
das duas. Chorei em silêncio. Senti que me
tinha morrido com ela metade da minha alma.
A sua única famíh*a era eu : fui cumprir, piedo-
samente, o dever de velar-lhe o último sono.
Quando ia a entrar no quarto da morta, da-
quela que fora, em Vida, uma das minhas duas
mais ternas amigas, — uma senhora, vestida de
luto, os cabelos numa névoa de prata, soluçava
ajoelhada ao pé do leito. . . Era a outra.
Fora, no meu afecto, a sua rival ; era já,
sem eu o suspeitar, a sua amiga;— é agora,
há oito dias, minha mulher.
Queremos abraçar-te ambos. Manda dizer
quando Vens.— Teu velho. Nano,
BEBE
Meu querido amigo : — EscreVo-lhe já ves-
tida para o baile da legação de Itália. Acabo,
neste momento, dé pôr as minhas jóias. São
10 horas. Deve estar a chegar o automóvel
que nos leva.. Meu marido, enterrado na pol-
trona do seu quarto de vestir, calça tranqui-
lamente as luvas. O meu amor de bebé
dorme. A criada espera-me, aqui mesmo ao
pé de mim, com a minha capa Paquin, vieil
ofy que você ainda não conhece. Tudo está a
postos. E entretanto, meu amigo, neste ins-
tante em que lhe escrevo, não há nada mais
incerto do que a minha ida a esse baile. Vou?
Não Vou? Ignoro-o ainda. É da conversa que
Venho ter consigo, nesta pequena folha de papel
azul, a sós, alma com alma, que Vai depender
a minha última resolução. É nesta carta, que
eu não terei tempo de acabar, que nem che-
gará talvez às suas mãos, — que eu Vou fazer
I
20 MULHERES DE HOJE
O meu exame de consciência. Conheço-o tão
bem, meu querido, meu único amigo, sinto tão
bem tudo quanto você pensa, tudo quanto você
sente, —que, emquanto llie escrevo, tenho a
ilusão de que o ouço, de que a sua boca me
fala, de que o vejo ao pé de mim, com as mi-
nhas mãos nas suas, a guiar-me, a responder-
-me, a aconselhar-me. Que vergonha eu teria
de si, a estas horas, se lhe mandasse todas as
cartas que lhe tenho escrito !
Ouça-me. Faz hoje três meses que eu tive o
meu pequenino. Você ainda não me Viu, ainda
não me quis ver depois desse dia. Porquê ? Se
soubesse como eu estou bonita, alegre e forte,
— como a maternidade nos torna belas, como
um filho nos dá saúde! Ainda agora, quando
punha as minhas jóias diante do espelho, gos-
tei de olhar para mim. Parece que estou mais
alta, mais branca, mais mulher. Brilham-me
os olhos; ficam-me melhor as pérolas. E sabe?
A ama do meu amor de bebé tenho sido eu.
Meu marido opunha-se ; eu insisti, chorei, —
Venci. Diziam que o meu leite era fraco, que
eu era anémica, e— vejalá! — o meu filho tem-
-se criado lindamente com o leite débil da mãe.
Está gordíssimo, pesa imenso, — e com que or-
gulho, meu amigo (só nós é que o sabemos !),
com que Voluptuoso orgulho eu sentia a boquita
dele a sugar-me, e as suas mãosinhas cor de
BEBÉ âl
rosa, inquietas, polpudas, buliçosas, apertan-
do-me, apalpando-me, machucando-me o peito!
Meu marido incomodava-se, impacientava-se,
não dormia ; separámos os quartos, — eu e bebé
no primeiro andar, ele e a sua comodidade no
segundo; e eu continuei, plácidamente, a ser
a mãe e a ama do meu filho, a viver para ele
só, a criá-lo, a adorá-lo, até que um dia — há
duas semanas — tive umas vertigens, umas pal-
pitações, não sei bem o quê, naturalmente can-
saço, excitação, fadiga. Fez-se logo em Volta
de mim uma vasta conspiração, meu marido e
todos os médicos amigos de meu marido, mi-
nha mãe e todas as senhoras amigas de minha
miãe: que eu não podia continuar a criar Bebé,
que não tinha saúde — com este peito, com
estes hom.bros, com esta côr ! — que era muito
nova ainda para sacrificar a minha mocidade e a
minha beleza a um filho, que o meu coração
estava fraco, que os m.édicos não tomavam a
responsabilidade, un tas de choses, — e que
era preciso, imediatamente, inadiávelmente, to-
mar uma am.a. Oito dias depois, a ama Veio,
ruiva, estúpida, maciça, cheirando a leite, fa-
zendo estremecer a casa toda. Tive uma con-
vulsão de choro; meu marido afligiu-se; minha
mãe chegou; ficou combinado que eu não ce-
deria a ninguém a missão de amamentar o meu
filho, que continuaria a criá-lo, e que a ama
22 MULHERES DE HOJE
ficaria para o entreter, para o passear, para
me ajudar. Depois, passado o primeiro mo-
mento de exaltação, caí em mim, reflecti, pen-
sei; achei que talvez tivessem razão, que tal-
vez o conselho dos médicos fosse sensato;
entrevi, num sorriso, a minha liberdade, o meu
sono tranquilo, as minhas noites de teatro, a
minha raquette do tennis: — ç^ quando, ante-
ontem à noite, à ceia, meu marido me mostrou
o convite da legação de Itália, os olhos brilha-
ram-me, o coração bateu-me apressado, pousei
a chícara, Voltei-me alvoroçada e risonha para
minha mãe: — «E se eu fosse?» Veja o que
são as mulheres, meu amigo ! Daí a pouco, a
rir e a caírem-me as lágrimas, a olhar as mi-
nhas jóias e a beijar o meu filho, resolvi que,
se realmente fosse ao baile do Paulucci di Cal-
boli, deixaria para sempre o meu amor de bebé
à criação da ama. A noite chegou. É hoje.
É agora. Ouço a buzina do automóvel que
vem buscar-nos. Devo ir? Não devo ir? Não
sei. Aconselhe-me. Quie-me. Ampare-me. Eu
tenho o deVer de amamentar o meu filho, não
é Verdade? Eu, antes de tudo, sou mãe, não é
assim? A minha jóia, o meu orgulho, o meu
sorriso, a minha beleza é êle, — é o meu filho,
é a minha alma, é o meu amor de bebé. Não
tenho o direito de o enjeitar, de o abandonar,
de lhe negar um leite que é dele, uma vida que
BEBÉ 23
é dele, de deixar que a sua boquita de flor co-
nheça outro peito que não seja o ineu, outros
beijos que não sejam os da mãe. . . Não tenho,
não tenho esse direito ! Escute. Parece que é
êle que chora, que é êle que chama por mim. . .
Obrigada, meu amigo. Obrigada! Eu já sabia
que era este o seu conselho. Meu marido que
vá sozinho à legação de Itália. Meu amor, meu
amor, — aí Vou. Afinal — Vê? — Vesti-me de baile
para dar de mamar ao meu filho !
Sua amiga, — Gabriela,
o LIVRO DE MISSA
Querida amiga : —Prometi contar-lhe a his-
tória do pequenino livro de missa forrado de
setim branco, que Você encontrou ontem numa
das minhas gavetas. É uma história simples,
ingénua e triste. Como tenho a certeza de que
não posso contar-lha sem me com.over, prefiro
confiá-la a esta folha de papel, — bastante dis-
creta, de-certo, para nâo ir dizer-lhe que me
viu lágrimas nos olhos. Pois Você julgava-me
tão monstruosamente sensível, que nâo fosse
capaz de chorar sobre um livro de missa for-
rado de setim branco? Sim. Adivinhou. Esse
pequeno Paroissien Romain era duma mulher.
Ou, melhor ainda, — era duma criança. Tenho-o
em meu poder há uma eternidade : há quinze
anos. Nunca lhe toco sem o profundo senti-
mento de respeito e de ternura com que — se
isso fosse possível — levantaria nas mãos uma
alma. Não tenha ciúmes. Tudo passou. Tudo
26 MULHERES DE HOJE
passa na vida, tão depressa ! Antes de lhe con-
tar essa história triste da minha mocidade, antes
de confessar-Ihe esse pobre romance de inocên-
cia donde parece desprender-se ainda um perfu-
me de rosas desfolhadas, — dei?<e-me dizer-lhe,
minha amiga, que é muito feio mexer nas gavetas
que nos nao pertencem, ainda mesmo quando
não seja senão na piedosa intenção de tirar de
lá um revólver.
Dê-me as suas mãos, e oiça. Quando eu ti-
nha vinte e quatro anos — já tive Vinte e quatro
anos, minha amiga ! — fui para o Algarve conva-
lescer duma grave doença. Ia sozinho. Era
perto de Olhão. Lembro-me ainda da viva im-
pressão que produziu em mim a paisagem al-
garvia, o azul metálico do céu, os grandes so-
breiros sangrentos e descascados, as encostas —
estávamos em plena primavera ! — todas brancas
de amendoeiras em flor. Um domingo de ma-
nhã, seguia eu de passeio, com os olhos já
fatigados pelo revérbero da areia fulva da es-
trada, quando Vi, ainda longe, caminhando em
sentido contrário ao meu, um vulto ligeiro e
resplandecente onde havia todas as tonalida-
des, todos os valores, toda a opulenta orques-
tração do branco. Parecia o adejo duma pomba
ao sol. Saltitava, revoava, scintilava, — caminha-
va para mim. Afirmei-me melhor. Atrás do vulto
branco, seguia apressado outro Vulto negro,
I
o LI\'RO DE MISSA 27
quási violeta, — como uma sombra. Esperei que
passassem. Era a minha vizinha, —uma criança,
uma pequenina mulher de doze anos, que ia
com a mãe para a sua primeira comunhão.
— Adeus, Maria Rosa!
— Adeus, senhor doutor.
Em toda a minha vida, não me lembro de ter
sentido nunca, junto duma mulher ou duma
criança, uma tão clara, uma tão^ viva impres-
são de frescura, de inocência e de graça. Dir-
-se ia que tinham crescido asas num ramo
florido de amendoeira. Vinha toda Vestida de
branco, um branco fluido, translúcido, leitoso,
vagamente azul na transparência do véu, meta-
lizado em traços de prata crua na ondulação
dos peitos e do ventre, baço de porcelana na
espessura da saia, quási roxo nos pés, que
avançavam na sombra, curiosos como focinhos
de rato, entre as faúlhas crepitantes da areia.
Trazia nas mãos um rosário de madrepérola e
um livro de missa forrado de setim branco.
Parámos a conversar um momento. Ninguém
havia de dizer que aquela boca polpuda, aquela
anca forte, aquele seio já formado, tinham
apenas doze anos. Via-a todos os dias à janela,
— e nunca me parecera tão bonita e tão mu-
lher. Era o fruto algarvio, risonho, vermelho,
sazonado, temporão, ressumando mal o beija
o sol A sinfonia de branco que a envolvia tor-
28 MULHERES DE HOjE
nava-lhe os olhos mais negros e maiores ; a
pele, dum trigueiro mais doirado, mais húmido
e mais quente, acendia-lhe scentelhas fulvas
de mel e de cobre nos cabelos castanhos, ma-
cios, empastados, ondulados, de portuguesa.
Tive tentações de a beijar, como se beija uma
criança. Não me atrevi. Ela compreendeu,
corou, baixou os olhos, e, na confusão da des-
pedida, deixou cair o livro de missa. Quando
me abaixei para o apanhar, tirou-mo precipita-
damente das mãos.
— Não quer que eu Veja o seu livro, Maria
Rosa?
— Não tem que ver.
— Até logo, vizinha.
— Até logo, vizinho.
Daí por diante, sempre que eu saía, ela
estava à janela a dizer-me adeus. Se me vol-
tava para trás, via-a debruçada, a oihar-m.e.
Parece que tenho ainda diante dos olhos, como
uma mancha vermelha ao sol, o pano de pó
que ela sacudia à janela quando esperava por
mim. Ás vezes, conversávamos. Interessava-me
aquela alma inocente que desabrochava para a
vida, como uma primavera. Cheguei a pensar, a
sério, na felicidade de ter um dia uma filha
assim. Foi com tristeza, quási com comoção,
que vi aproximar-se o dia do meu regresso a
Lisboa. Uma noite — lembro-me bem ! -- uma
o LIVRO DE MISSA 29
noite em que o cheiro das amenJoeiras em
flor era tào intenso que perturbava, disse adeus
a Maria Rosa. Partia no dia seguinte. Ela ou-
viu-me, muito pálida, e retirou-se da janela
com o lenço nos olhos. Meia hora depois, cha-
mavam-me para a Ver. Tinha tido um ataque.
Fui. Era qualquer coisa convulsiva, histeróide,
que se resolveu com uma compressão leve dos
ovários. Quando ela sossegou, prostrada, os
olhos semi-cerrados, os cabelos soltos sobre o
leito, olhei em volta, com um inexprimível sen-
timento de ternura, o seu quarto estreitinho
de criança. Cheirava a rosas. Respirava ino-
cência, virgindade, simplicidade. Sobre uma
cómoda, ao pé dum púcaro de prata, dormia
o livro de missa, forrado de setim branco, que
ela levava na manhã da sua primeira comu-
nhão. Folheei-o. Estava cheio de registos do
santo do meu nome. Só então compreendi. tudo.
Pobre pequenino coração amoroso ! Quanto
mal eu lhe tinha feito, sem querer, sem saber !
Os olhos hum.edeceram-se-me de lágrimas.
Quando ela despertou, num sorriso, apertan-
do-me muito as mãos nas suas, perguntei-
Ihe:
— Deixa-me levar este livro, Maria Rosa?
— A mamã que lho mande quando eu mor-
rer.
Na madrugada seguinte, sem me despedir
50 MULHERES DE HOJE
dela, parti para Lisboa. Durante dois, três dias,
tive ainda a impressão de que sentia o seu
perfume em volta de mim. Ouvia-lhe, de Vez
em quando, o riso cristalino. Via, por toda a
parte, como uma bênção, a névoa azulada do
seu Vestido branco. Mas os homens esquecem-
-se depressa. Pouco a pouco, tudo se foi des-
vanecendo. Passaram-se dois, três, quatro me-
ses. Uma tarde, um correio trouxe-me um
embrulho e uma carta tarjada de negro. Abri.
Era um livro de missa. Havia já três dias que
estava coberta de flores a sepultura de Maria
Rosa. . .
Aqui tem, minha querida amiga, a história
triste do pequeno livro forrado de setim branco
que Você encontrou ontem na minha gaveta.
Bejo-lhe as mãos. —José.
o DOENTE
Meu amigo : — EscreVo-Ihe com a cabeça
perdida. Meu marido está pior. Já não há dú-
vidas sobre a natureza da doença. Temos a
certeza, a horrível certeza. Há bacilos de Kock.
Aqui está o resultado da análise, nas minhas
mãos. Ele nada sabe. Mantem-se num estado
de ilusão incompreensível. Os médicos vieram.
Vão radiografá-lo hoje. Que vida a nossa, --
que morte a nossa, meu amigo ! E ainda Você,
há um mês, me julgava a mulher mais feliz
deste mundo, e ria dos meus olhos pretos de
criança, e invejava a minha alegria para uma
filha que Deus lhe desse! Ah, meu amigo,
como tudo mudou num instante, — e que dolo-
rosa agonia é hoje a minha Vida !
Hesitei muito tempo antes de lhe escrever.
Não confio em ninguém, senão em si. Mas a
si mesmo, meu amigo, tenho medo, tenho pu-
dor de abrir-lhe a minha alma. Se Você sou-
52 MULHERES DE HOJE
besse como eu tenho sofrido ! Se soubesse de
que fraqueza humana, de que egoísmo hediondo
é feita esta pobre criatura que chora, que
grita, que sofre, que se revolta, — e que não
sabe ainda, afinal, se há de ter repugnância,
se piedade de si mesma ! Ando cheia de pa-
vores, de insónias horríveis; estou doente;
emmagreci; -OS anéis caem-me dos dedos. Te-
nha dó de mim, — ampare-me, aconselhe-me,
perdoe-me. Já adivinhou, de-certo, a luta afli-
tiva que se debate na minha consciência. Mas
é preciso que eu lhe diga tudo, que eu lhe con-
fesse tudo, que eu lhe abra a minha alma. Meu
marido está perdido. Os médicos não mo es-
condem. Nada o pode salvar. É fatal. Resistirá
ainda oito meses, dez' meses, um ano. Mas
durante esses meses, durante esse ano, viverá
— entende-me ? — viverá inexoravelmente, im-
placávelmente, semeando a morte à Volta de
si. E eu ? E eu ? Terei eu o dever, terei eu o
direito de suicidar-me? Poderei eu, deverei eu
continuar ao lado dele, na mesma mesa, no
mesmo leito, — aspirando o seu hálito de ago-
nia, recebendo os seus beijos de veneno ? Ah,
não, falta-me a força, falta-me a coragem; não
posso. Eu tenho vinte e três anos, meu amigo,
sinto a mocidade a brilhar-me nos olhos, a pal-
pitar-me nas Veias, — e quero viver. Viver í Acon-
selhe-me, guie-me, tenha pena de mim. Foi assim
õ Doente 33
que minha inãe morreu. Foi assim que morreu
minha avó materna. Herdei-lhes os cabelos loi-
ros e o peito débil. Mais um mês, mais um dia
de intimidade com meu marido é uma sentença
de morte. E porquê? Que mal fiz eu? Que
utilidade há no meu sacrifício ? Se eu pudesse,
sacrificando a minha Vida, salvar a dêle, —
compreendia-se que ficasse aqui, que sofresse,
que me contaminasse, que me suicidasse, numa
tortura de cada dia, de cada hora, de cada
instante. Assim, — para quê? De que serve a
minha morte, se ela não tem o poder de res-
gatar lhe a vida? Ante-ontem, depois duma
noite angustiosa em que meu marido ensopou
uma toalha em sangue, e me obrigou a ficar
acordada junto dele, no mesmo leito, a falar-
-Ihe, a beijá-lo, a ampará-lo, egoísta, cruel
como todos os doentes, — reVoltei-me, pensei
em fugir, tomar o comboio, partir para casa de
meu pai. Vesti-me à pressa, meti as jóias num
saco de mão, ia sair, — quando ele assomou à
porta. — «Onde vais?> Senti-mie empalidecer,
o coração saltou-me no peito, e respondi, su-
focada : — «À missa. . . > Vi, num relance, toda
a desumanidade da minha fuga. Compreendi
todo o horror do meu abandono. O meu ins-
tinto de mulher, a bondade natural do meu sexo,
todos os lugares-comuns da minha educação
moral diziam-me que o meu lugar era ali, à
5
34 MULHERES ÒE IIOJÉ
cabeceira de meu marido, como uma enfermei*
ra, como uma mãe, como uma irmã. A minha
missão de piedade chegou a aparecer-me, um
instante, como um clarão de beleza. Fiquei. À
noite, quando ia a despedir-me dêíe para me
deitar, meu marido agarrou-me. Ardia em fe-
bre ; os seus olhos, fulvos, chispavam ; inun-
dava-o o suor. Debati me, neguei^me, gritei:
a hemoptise repetiu-se ; acudiram os criados ;
a miinha cara, o m.eu roupão, os meus cabelos
ficaram empastados de sangue. Não posso.
Não posso mais. Todo o meu ser, todas as
minhas energias se revoltam. É inacreditável
que meu marido não tenha a consciência do
seu estado. É pavoroso que ele queira fria-
mente, deliberadamente, contagiar-me, assassi-
nar-me. Falei aos médicos. Contei-lhes o que
se passara. Perguntei- lhes se devia ficar, se
fugir. Um deles olhou-me com estranheza e
encolheu os ombros. O outro, grosseiro, ati-
rou-me uma baforada de fumo à cara: — «Não
há lei que a obrigue.» Só o nosso velho dou-
tor Sousa me disse, tomando-me as mãos, aca-
riciando-mas, beijando-mas: — <Se o ama, mi-
nha filha, é um suplício partir ; se o não ama,
é um suplício ficar. > A si, meu amigo, digo-
-Ihe tudo, corifesso-lhe tudo, alma com alma.
Eu "não amo meu marido. Se o amasse, — que
deliciosa volúpia seria a de morrer por ele, a
o DOENTE 55
de morrer com ele, envenenando-me em cada
beijo, crestando de febre a minha boca, sacri-
ficando-lhe, dia a dia, hora a hora, a minha
mocidade, a minha beleza, a minha vida ! Mas
não o amo. Pior ainda de que não o amar, —
criei por êle uma repugnância invencível, umia
aversão raciocinada, feita de toda a minha re-
volta, de todo o meu silêncio, de toda a minha
ânsia enorme de ser livre, de respirar, — de
vl^er, É horrível? É. Mas eu sinto-o; mas
hão de senti-lo, no seu sacrifício ignorado e
heróico, todas as mulheres que sofrem como
eu e que se calam com.o eu. Escreva-me. Acon-
selhe-me. A sua alma é comipassiva e boa. Di-
ga-me o que devo fazer. Tenho febre ; os bei-
ços escaldam-me ; arrepia-me a própria frescura
do papel em que lhe escrevo; as flores cres-
tam-se e morremi ao pé de mim. Porque não
vem vêr-me? Porque me dei?<a só? Porque me
deixam todos só, neste inferno?
Sua pobre amiga, — Alana,
AS MEIAS AZUIS
A janela do meu quarto de hotel, nas Cal-
das de ***, dava para um maciço de chalets,
tão juntos uns dos outros que mal se adivi-
nhava, entre as empenas mais altas, a luz doi-
rada e quieta das montanhas distantes. Abri-a,
de par em par, e encostei-me ao peitoril, fu-
mando. Uma m.anha criadora. Tive a impres-
são de que o ar cheirava a feno, a leite, a flo-
res, a roupa lavada. Respirei profundamente,
voluptuosamente. O sol ardia, metáh'co, ati-
rando de encontro às paredes pastadas roxas
de sombra. Fiquei, durante muito tempo, imó-
vel, absorvido na incomparável delícia de não
escrever, de não ler, de não me envenenar, de
não pensar. Um torpor de plenitude, uma so-
nolência Vaga invadiam-me. Reagi, acendi ou-
tro cigarro, — e olhei. O chalet mais próximo,
fronteiro ao hotel, tinha janelas para a nossa
rua. Era o tipo vulgar da swiss-çhcesc-housc,
38 MULHERES DE HOJE
com O seu pequeno jardim inglês, as suas bri-
se-bise inglesas de linho cru que a luz salpi-
cava de oiro, e esse ar repousado, esse ar
tranquilo e religioso de certas casas onde se
sente que não podem habitar senào criaturas
felizes. De repente, surpreendi, na serenidade
daquela parede cinzenta, uma nota de cór e de
movimento. Quási defronte de mim, na única
janela aberta, estavam penduradas, a secar ao
sol, umas meias azuis. Para um espírito pos-
suído do vício de observar e condenado à
ociosidade forçada dumas termas, não há pe-
quenos motivos que não se transformem em
grandes assuntos. Durante uma hora contada
pelo relógio, a minha atenção absorveu-se in-
teiramente nesse par de meias de seda azul.
Entretive-me a vê-las oscilar, a adivinhar-lhes
a transparência nos efeitos da luz, a leveza na
ondulação do Vento. Eram umas meias de mu-
lher, finas, leves como um floco de espuma
escorrendo sobre um prato azul de Limoges.
Quem seria essa mulher? O ar tocava-as, pa-
recia palpá-las, acariciá-las, senti-las, como
uma grande mão invisível. De vez em quando,
mordia-as a luz, o fio da seda scintilava, e, ou
se acendiam em clarões como penas de pavão
ao sol, ou, diáfanas, levíssimas, pareciam su-
bir no espaço como um ligeiro fumo azul. Tive
3 pretenção de adivinhar o efeito dessa malha
AS MEIAS AZUIS 39
de seda, ténue como uma teia de aranha, so-
bre a carne loira, doirada, rosada, do pé que a
calçasse. Via-a já, num Vago azul de névoa,
envolvendo uma pele fresca, moça, ressuman-
te, desse branco levemente róseo e luminoso a
que Barbey d'Aurevilly chamava <^le ton de
Vinterieur cies fraises^. Evidentemente, aque-
las meias azuis deviam pertencer a uma mu-
lher muito nova. Eram, de-certo, as meias
dum vestido exuberante de tafetá azul cobal-
to, — esse terrível azul cobalto que só fica
bem às loiras, e que me levou iniludivelmente
a concluir, com a facilidade com que nós to-
dos, Cuviers da psicologia feminina, reconsti-
tuímos uma mulher por um farrapo da sua
meia de seda, que a minha vizinha de acaso
não podia dei?<ar de ser loira, juvenil, esbelta,
olhos azuis, gestos Viris, elegância masculina,
queixo imperioso de Fúlvia numa medalha ro-
mana, — mas, sobretudo, loira, inverosímil-
mente loira, desse loiro mixto, confuso, para-
doxal, feito de todos os tons, desde o cobre
ardente das Venezianas de Rosalba até às tin-
tas moles e adormecidas do âmbar cinzento.
Ainda eu seguia com o olhar os movimentos
graciosos das meias, que ondulavam, que dan-
saVam, que arfavam ao Vento como as asas
dum grande pássaro azul, quando um focinhito
inquieto e escuro de criança, sete para oito
40 MULHERES DE HOJE
anos, os olhos muito íristes, a boca muito Ver-
melha, assomou à janela. Era uma rapariga.
Disse-lhe adeus. Encarou-me, desconfiada. Per-
guntei-lhe como se chamava. Z/7/. Começá-
mos a rir um para o outro. Daí a pouco,
conversávamos como dois bons amigos.
— Lili, de quem são essas meias?
A pequenita fitou-me com os seus grandes
olhos tímidos e respondeu :
— São da avó.
PIERRETTE
Meu velho : — Escrevo-te às 3 da madru-
gada de têrça-feira gorda, no Monte Estoril,
fechado num pequeno quarto do Hotel de Itá-
lia. Cheguei, de automóvel, há pouco mais de
uma hora. Fugido do Carnaval? — preguníarás
tu. Nào. Trazido pelo Carnaval. Foi uma Pier-
rette cor de rosa que me trouxe, uma encanta-
dora Píerrcte de dezoito anos cujos pés ca-
bem na minha mào fechada, e que eu fui en-
contrar por acaso, no turbilhão dum baile de
máscaras, chorando sobre urna taça Vazia de
champanhe. Emquanto ela dorme, no quarto
contíguo ao meu, o seu sono de criança três
Vezes desgraçada, Venho eu contar-te o que foi
o nosso passeio, num horrível Benz, desde Lis-
boa até aqui. Tu, que coleccionas almas de mu-
lher com a me$ma delicada voluptuosidade com
42 MULHERES DE HOJE
que o meu Velho tio Marquês coleccionava jóias
antigas, deves encontrar um certo interesse na
história dessa petifc Píerrette rose que eu co-
nheço apenas há três horas, de quem me apro-
ximou um simples movimento de curiosidade
sensual, e a quem acabei por beijar na testa
com o natural sentimento de respeito com que
beijaria uma irmã.
Pode ter história uma pequena de dezoito
anos ? Ah, meu amigo, — só não tem história
quem é feliz. Quando a encontrei, em pleno
baile, assentada no jardim de inverno, a más-
cara no regaço, um lenço de rendas nos olhos,
— a sua mocidade, as suas lágrimas, a sua
pele doirada de trigueira, atraíram-me, interes-
saram-me, digamos a palavra justa : excitaram-
-me. Eu já tinha Visto, fosse onde fosse, aquela
cara, aquela boca sinuosa, rasgada, infantil,
aqueles cabelos dum tom quente de tabaco de
Espanha, Vagamente mordidos de scentelhas de
oiro, onde pousaVa, como uma flor, um pe-
queno bicorne de setim côr de rosa. Mas
quando, aonde, — se todas as mulheres se pa-
recem tanto e nos interessam tão pouco? Per-
guntei-lhe, delicadamente, porque chorava. Re-
pousou em mim, um instante, os seus grandes
olhos pretos húmidos de lágrimas e pronunciou
o meu nome. Donde me conhecia? — inquiri.
Não respondeu. Levantou-se, cobriu de novo
PIE8RETTE 43
a face com a meia-máscara de Veludo, e agar-
rada ao meu braço, a tremer, numa convulsão
de choro, suplicou-me, pelo amor de Deus,
que a levasse do baile. Saímos. Um nevoeiro
espesso e frio, cortava. Chamei o primeiro au-
tomóvel. Era um Velho Benz, impregnado de
um perfume morno de mulher.
— Dá-me licença que a leve a sua casa?
— Não tenho casa. . .
Olhei, num instante de hesitação, esse corpo
frágil de criança que se amparava tremendo
ao meu braço ; tive a im.pressão Vaga e in-
certa de que o sentia desfalecer; ergui nas
mãos, com a leveza dum brinquedo, aquela
nuvem de setim côr de rosa onde um peque-
nino coração palpitava ; aninhei-a no fundo do
automóvel ; cobri-a carinhosamente com o meu
sobretudo, para a resguardar do frio da noite,
— ecingindo-a a mim, não sei ainda bem se
num. movimento de Volúpia se de piedade, gri-
tei para o chaiiffeur :
— Estoril.
Foi durante o caminho, debaixo do meu
braço como uma ave friorenta, que ela me
contou a sua história. ChamaVa-se Teresa.
Andara, como todas as raparigas que se per-
dem,— aos pontapés na Vida. Cest Véternelle
chanson. Correra, como uma jóia, de mão em
iDão. Tinha já conhecido muitos homens, —
44 MULHERES DE HOJE
quando um dia amou o primeiro homem. Sa-
bes quem êle era? O pobre Nuno B., que
morreu aníe-ontem, com vinte e dois arsos.
Encontrou-a corista num teatro — e adorcu-a.
Tu conheceste-o. Um lindo rapaz, — loiro, de-
licado, franzino, doente, um pouco parecido
com o Cesário Verde de Columbano, her-
deiro do tipo inglês e da tara tuberculosa da
mãe. Ao fim de um ano de paixão e de lou-
cura, Nuno teve a primeira hemoptise. O pai,
alarmado, levou-o para a Suiça e meteu-o no
Waldsanaioriíim de Davos. Inútil. O pobre
rapaz não podia viver sem a amante — e fugiu
para Portugal. Depois de nova crise amorosa,
a doença agraVou-se; Nuno foi transportado
para a Guarda, e, passados dois meses de
profunda depressão com tentativas de suicídio,
removeram-no pêra Lisboa, onde chegou mo-
ribundo. No delírio, gritava pela amante, cho-
rava, pedia ao pai que o deixasse morrer ao
pé dela. A questão foi posta aos médicos'. Re-
solveu-se chamar a pobre rapariga, e pergun-
tar-lhe se queria instalar-se, como enfermeira,
à cabeceira do doente. Teresa aceitou. Num
alvoroço, sorria e caíam-lhe as lágrimas. Po-
der dedicar-se, poder sofrer, poder morrer pelo
único homem que amara na vida, —onde have-
ria maior felicidade para ela? Vencidos os úl-
timos escrúpulos da severidade paterna, Te-
PIERRETTE: 45
resa, a tremer de comoção, foi recebida como
família na casa dos Viscondes de B., e nunca
mais, durante trinta e oito dias, abandonou
um só instante o leito de Nuno. Foi nos bra-
ços dela que êle m.orreu ante- ontem, iludido,
feHz, tendo conhecido ao fim da vida, na ter-
nura duma só miulher, todo o amor duma mãe,
duma amante e duma irmã. Quando a pobre
criança, e>ítenuada de sofrimento e de vigílias,
julgava merecer ao mienos uma palavra de gra-
tidão à família daquele a quem tanto amara, —
sabes como lhe pagaram? Mandando-a sair de
casa pelos criados, — ainda o cadáver de Nuno
estciVa quente. Teresa, cheia de dor e de Ver-
gonha, acõlheu-se a casa dama am.iga. Levou
um dia inteiro de bruços sobre a cama, cho-
rando. De noite, ardeu em febre, teve delírio,
pavores horríveis, — via em toda a parte o seu
Nuno, ouVia-o chamar por ela, adivinhaVa-lhe
a palidez, sentia-Ihe o suor viscoso das mãos.
Hoje mandaram-lhe umas dezenas de mil réis,
como retribuição por serviços de enfermagem.
Era a suprema afronta. Devolveu-os, intactos.
À dor, sucedeu, na alma de Teresa, a re-
volta. Era Carnaval. Quis aturdir-se, embebe-
dar-se, esquecer, — e, meu caro amigo, a po-
bre Pierreite cor de rosa, exausta de comoção
e de fadiga, que eu fui encontrar chorando no
ja.fdim de inverno dum teatro, dorme agora aqui,
46 MULHERES DE IlOjfí
tranquilamente, num quarto contíguo ao meu,
cheia de confiança neste eterno romântico que
a beijou na testa como beijaria uma filha, e
que nào sabe ainda ao certo o que há de fazer
dela amanhã. . .
Teu, do coração, — Vasco,
Maria manuela
Meu amigo : —Encontro-me num estado de
excitação que me assusta. Os meus nervos es-
tão evidentemente doentes, — e eu preciso de
sossegar, de repousar, de tratar-me. Ora ouve.
Tu conheces o meu escritório, não é Verdade?
Lembras-te, de-certo, daquele contador italiano
onde guardo cartas de mulheres. Pois bem. On-
tem à noite resolvi-me a arrumar-lhe as gave-
tas. Acendi o fogão — porque aquij nesta lom-
ba de serra beirôa, continua um frio de dezem-
bro — e meti-me ao trabalho. Tanta carta de
mulher, — para quê? Todas as mulheres que
amam se parecem, e todas as mulheres que
mentem, mentem da mesma maneira. Que eram
aquelas cartas? Papéis inúteis. Talvez papéis
perigosos. Acudiram-me ao espírito as palavras
do Marquês de Lauzun : — «Nenhum homem
correcto guarda as cartas de amor que recebe. >
Acendi um cigan o, — e comecei a ler e a ras-
48 MULHERES DE HOJE
gar. N3o sei se te sucede o mesmo a ti ; a mini,
o passado produz-me vertigens. A leitura des-
sas cartas, algumas antigas de vinte anos, deu-
-me por vezes a impressão de que me debru-
çava sobre um abismo. Desatei maços sobre
maços. Emquanto desses Velhos papéis desdo-
brados se exalava, como um hálito de flores
mortas, alguma coisa que não era ainda bafio e
que não era já perfume, — as fontes laíejavam-
-me, as mãos tremiam- me. Tive a sensação de
que a minha própria mocidade se esvaía, como
fumo, entre os meus dedos. Cada uma dessas
cartas, onde crepitavam manchas de lacre doi-
rado, acordava uma memória de febre e de de-
lícia, uma reminiscência de volúpia e de dor.
Rasguei, rasguei, rasguei. De repente, ao de-
satar um novo maço, as mãos esfriaram-me, os
olhos eneVoaram-se-me de lágrimas. Era a pri-
meira morta. Abri ao acaso uma das cartas, e,
com o coração opresso, com os lábios trému-
los, principiei a ler essas palavras de recrimi-
nação e de abandono onde parecia adivinhar-se
já como que a grave impassibilidade de alem-
-túmulo. Pobre Maria Manuela ! Tinha conhe-
cido na vida o amor que queima e que perde,
que envenena e que mata. Quem a assassinara ?
Talvez toda a gente. Talvez eu só. Não tive
coragem para continuar a leitura desse papel,
que me escaldava as mãos como um remorso
MARIA MANUELA 49
Vivo. Ia amachucá-lo, despedaçá-lo como fizera
aos outros, — quando, num relance, vi empost-
'scriptam, traçadas pela mesma letra agitada e
febril, estas palavras que me gelaram: «Peço-te,
meu amor, não rasgues esta carta. > Dir-se ia
que, naquele mesmo instante, a própria mão
branca da morta as escrevera. Tremi. O papel
resvalou-me dos dedos, intacto. Olhei, instinti-
vamente, em volta. Zumbiam-me os ouvidos.
Latejavam-me as fontes. Não sei porquê, pare-
ceram-me mais profundas as sombras dos mó-
veis, mais vagos os relevos das coisas, mais
convulsos os braços da serpentina de prata que
me alumiava. Tive Vergonha do meu terror,
agarrei de noVo a carta, e sem olhar, num mo-
vimento brusco, numa contracção nervosa, —
rasguei-a. Ah, meu amigo! Ouço ainda agora,
claramente, distintamente, o gemido que ouVi
então. Não. Não suponhas que foi uma aluci-
nação minha. Ouvi. Um gemido longínquo, —
mas distinto, doloroso, dilacerante. Tive a im-
pressão exacta, a impressão perturbadora de
que, nas fibras do papel que eu despedaçara,
havia alguma coisa de vivo, de sangrento, de
humano. Quis rasgar uma carta; tenho a certeza
de que rasguei uma alma. Ao primeiro gemido,
outro se seguiu, — e outro, e outro, e outro. Para
não ouvir, meti a cabeça entre as almofadas
dum sofá. Inútil. Os gemidos da morta conti-
4
50 MULHERES DE HOJE
nuaram, estrangulados, aflitivos, lamentosos,
em volta de mim, dentro de mim, toda a noite
de ontem, toda a manhã de hoje, — e agora
mesmo, emquanto te escrevo, debruçado sobre
a minha banca de trabalho, pálido de terror e
de insónia, escuto-os, adivinho-os, percebo-os,
ouço-os ainda através do bulício que me rodeia,
no Vento que uiva, nas vozes que cantam, nos
sinos que tocam, e não sei para onde hei de
fugir que os não leVe agarrados aos meus ou-
vidos, como um castigo, como uma obstinação,
como uma fatalidade ! Vou partir para aí. Pre-
ciso de consultar médicos. Previne meu irmão.
Nunca eu tivesse tocado nessas horríveis car-
tas!
Teu amigo,— João.
LADY FUTILIDADE
Meu amigo : — Bons dias ! Escrevo-lhe a cor-
rer. Aí Vai o seu André de Lordes. Horror !
Mande-me Loti. Acabei de tomar o meu banho,
de polir as minhas unhas, de vestir o meu trot-
teiir cinzento, e — que deliciosa manhã de pri-
mavera ! — Vou ao meu footing. Deixe-me ver
que horas são. Dez menos vinte. Tenho vinte
minutos para conversar consigo. Sabe? É pre-
ciso que você procure o António. Acabámos.
Ou antes, — eu acabei. Et, Nini, c'est fini. Ti-
nha de ser um dia, não é verdade? Foi ontem.
Porquê? Sei lá! Ainda há de Vir a primeira de
nós, mulheres, que saiba ao certo a razão por-
que amou e porque deixou de amar. A você
pode dizer-se tudo. Você não conta. Você é um
pouco Vami des femmes. Você conhece-nos
muito melhor do que nós nos conhecemos a nós
mesmas. Pois não é verdade— diga-me — não é
verdade que o amor passa, como passam as ro-
52 MULHERES DE HOJE
sas? Se tudo é fugitivo, se tudo é transitório,
se tudo acaba, se tudo morre, — como querem
vocês, homens, que o amor seja eterno? Que-
rer que uma mulher ame toda a vida é tão
absurdo como querer que a primavera dure todo
ano. Amei o António? Creio que sim. Pelo me-
nos, há três semanas, ainda eu estava conven-
cida disso. Deixei de o amar? Deixei, —não sei
porquê, não sei quando, não sei como. A culpa
foi dele? Foi minha? Não. Nem minha, nem
dele. Foi da Vida, — onde tudo é Vago, onde
tudo é mudável, onde tudo é efémero. Lembra-se
daquela frase de La Bru}?ère, que você me disse
há um ano, há dois anos — como o tempo pas-
sa ! — diante do admirável DUrer das Janelas^
-Verdes? ^Le commencement et le déclin de
Vamour, se font sentir par V embarras ou Von
est de se trouver seuls.> Como isto é verda-
de, meu amigo! Um dia, de repente — sei lá
porquê! — senti diante do António esse inexpli-
cável constrangimento que principia quando o
amor acaba. Compreendi tudo. Estávamos à ja-
nela, num hotel do Monte-Estoril, olhando o
mar. Uma atmosfera de tarde, tranquila, doira-
da, imóvel. Passei-lhe as mãos pelos cabelos,
tristemente, e beijei-o na testa, como quem se
despede dum morto. Daí por diante, sempre
que ficávamos sós, eu sentia, com a evidência
das coisas irremediáveis, que nunca mais na mi-
LADY FUTILIDADE 53
nha vida teria que lhe dizer. É horrível, não é?
Horrível para nós, para mim, para si, que nos
habituámos a considerar o amor um sentimento
que vive eternamente. Horrível para todos aque-
les que deixam de amar, — e que não encon-
tram no seu coração, na sua alma, na sua von-
tade, um pouco de força, um pouco de coragem
para confessar que já não amam. Eu tive essa
coragem, eu tiVe essa força. Confessei. Disse
tudo. Podia dissimular, podia mentir. Mas para
quê? O amor, para ser belo, não precisa de
ser eterno. Para quê, embaciar com um hálito
de mentira um sentimento que deve nascer e
morrer en beauié? Eu sei que Vocês, homens,
não pensam assim. Foram Vocês que nos ensi-
naram a mentir. Díga-me, meu amigo : porque
um dia amamos um homem, com toda a nossa
pai?<ão, com toda a nossa alma, — temos por-
ventura de o amar toda a vida? Oh, não! Não.
Se eu até das minhas jóias me aborreço ! Pro-
cure o António. Fale-lhe, conVença-o, diga-lhe
tudo isto que eu lhe estou dizendo a si. É pre-
ciso que fiquemos dois bons amigos. Peça-lhe
que não seja vieux-jeu, que não torne a dizer-
-me que se mata, — que não estrague com uma
loucura esse breve sorriso que foi a nossa liga-
ção. Para quê, estragar uma coisa bela? Os ho-
mens, mesmo os mais inteligentes, teem às Ve-
zes —perdoe-me— a estupidez do sentimento.
54 MULHERES DE HOJE
O António é como todos,— mas Você tenho a
certeza de que não é como ele. Dez horas ! E
o meu footing! Adeus. Sabe? Tenho hoje par-
tida de golf. Meu marido acordou dum mau
humor insuportável. Não se esqueça de me man-
dar Loti. Sabe que eu tinha um grande desgosto
se o António se matasse? E os meus chapéus,
que ainda não chegaram de Paris !
Beije a mão da sua amiga, — Josefina,
UMA FLOR
Senhor doutor: — Se não me sentisse tão
perto da morte, não teria coragem para lhe di-
rigir esta carta. É já quási uma desaparecida
que lhe faia, senhor doutor. Oiça-a com cari-
dade e não lhe negue a esmola que ela vem
pedir-ihe. Não. V. ex.^ não me conhece pelo
meu nome. Nem talvez dizendo-lhe quem sou,
se lembre de mim. O mundo é tão grande, e
tudo esquece tão depressa ! Escrevo-lhe do
hospital de S. José, enfermaria de Santa Cecí-
lia, cama 7, onde estou já há três semanas,
cansada de sofrer e desenganada dos médicos. A
minha fraqueza é tanta, que, só do esforço de
ditar estas palavras, cubro-me toda de suores
frios. Poucos dias viverei. Peço-lhe, senhor
doutor, que me perdoe o tempo que venho ti-
rar-lhe, e suplico-lhe, de mãos postas, pelo que
tiver de mais santo e de mais querido na Vida,
que leia esta pobre carta até ao fim.
56 mulhbres de hoje
Um dia, há oito anos, uma pobre mulher,
lavada em lágrimas, foi chamar V. e?^.* para
ir ver um doente a Santa Clara. V. ex.^ disse
que não fazia clínica e indicou os nomes dou-
tros médicos. Mas, de tal maneira essa desgra-
çada mulher insistiu, com tanto desespero e tanta
fé, que o senhor doutor condoeu-se, e foi. Uma
casa de azulejos — recorda-se ? — um rés-do-chão
modesto, pequenino, quási sem sol. Ao fundo
do corredor, num quarto tão escuro que era
preciso acender luz de dia, um velho, assentado
na cama, cuspia sangue. Ao pé, a filha, uma
rapariga de quinze anos, muito loira, com uns
olhos azuis muito grandes, chorava. O senhor
doutor falou ao pobre Velhinho com tanta cari-
dade, que comoveu todos. Foi a esperança, foi
a alegria, foi um sorriso bom que entrou naque-
la casa. Â tarde, voltou. Voltou ainda no outro
dia, e no outro, e no outro. E desde que en-
trava, até que saía, os mesmos olhos azuis,
muito grandes, húmidos de lágrimas, seguiam-no,
imploravam, suplicavam. Uma noite, o senhor
doutor foi mais tarde. Tinha ido ao teatro. Trazia
ainda uma rosa vermelha na casaca. Vinha con-
tente, risonho, feliz. Viu o doente. Estava sal-
vo.— «Como havemos nós de lhe pagar, senhor
doutor?»— soluçou a pequenita, querendo bei-
jar-lhe a mão. O senhor doutor afastou-a deli-
cadamente, e, como se falasse a uma criança,
UMA FLOR 57
emquanto a rosa da sua botoeira se desfolhava
sobre o leito, respondeu-ihe sorrindo: — «Não
quero que me pague. Basta que se lembre de
mim.» Sabe quem era essa pobre rapariguinha?
Era eu.
Desde o último dia em que esteve em nossa
casa, nunca mais o tornei a ver. Mas nem um
diasó— juro-lhe pela alma de meu querido pai —
deixei de rezar um padre-nosso por si, pelos
seus triunfos, pela sua felicidade. Em oito anos
de sofrimento, de privações, de miséria, nunca o
seu nome, senhor doutor, saiu do meu pensa-
mento e da minha alma. Meu pai, um ano de-
pois de V. ex.^ o tratar, morreu de repente.
Batemos a todas as portas. Uma noite, minha mãe,
quási .cega, foi presa por mendigar. Sem um
carinho, sem um amparo, sozinha no mundo,
fui caindo, quási sem saber como, de miséria
em miséria, de perdição em perdição. Conheci
toda a crueldade dos homens. Devorei todo o
fel da vida. Caí tão baixo, senhor doutor, que
chegava a parecer-me um sacrilégio chorar por
si, pensar em si. Quis esquecê-lo. Não pude. E a
todas as horas, a todos os instantes, era o seu
sorriso que eu via, era a sua imagem que me am-
parava, era o seu nome que eu tinha nos lábios
e no coração, era a sua lembrança que me
acompanhava sempre, como um perfume, e me
dava coragem e força para sofrer. Posso con-
58 MULHERES DE HOJE
fessar-lho agora, tão perto como estou da mor-
te. É já uma sombra que lhe fala. Perdoe a
essa linda criança que eu era, a esta desgraçada
que eu sou, a loucura de ter sonhado comsigo
a vida inteira. É com delícia que eu sinto che-
gar a morte, senhor doutor, por me lembrar
que ela pode ainda aproximá-lo de mim. Supli-
co-lhe, venha vêr-me. Queria vê-lo ainda, antes
de morrer. Queria beijar-lhe as mãos e entre-
gar-lhe a minha última jóia. São os restos da
flor que há oito anos caiu da sua casaca. Se eu
podesse vê-lo um minuto só, um instante só,
abençoaria todo o infortúnio da minha existên-
cia. Venha. Peço-lho de joelhos. Imploro-lho
pelo amor de Deus. Se se demora, já não me
encontra viva. Deve ser tão bom morrer feliz !
Sua desgraçada, — Antónia.
o «RENDEZ-VOUS»
Minha querida amiga : — Que mal fiz eu a
M.*"^ S.? — priégunta você. E acrescenta, com
o mais voluptuoso dos sorrisos : «M.™^ S. diz
furiosam.ente mal de si.» Ah, minha amiga,
sejamos justos. M."'^ S. tem razão. M.™^ S.,
de todas as mulheres que teem passado na mi-
nha existência de homme-à-femmeSy foi a única
com quem eu procedi nobre e generosamente.
M."'^ S. é a página mais bela de toda a minha
vida. M."^ S.— está na lógica especial da alma
feminina — deve, fatalmente, dizer o pior pos-
sível de mim.
Eu lhe conto. Fêz ontem onze meses, numa
maravilhosa tarde de outono, eu esperava em
minha casa uma mulher. Lembra-se da minha
salinha-de-fumar, do meu hnpério Jémont de sol-
teirão, onde você tanta vez seguiu o fumo azul
dos seus miladVy entre uma faiança holandesa
de Aegestin Reygens e uma paisagem admirável
60 MULHERES DE HOJE
de Malhoa ? Há tanto tempo que a nossa aven-
tura passou, e — quer crer?— ainda sinto às
Vezes, nessa pequena sala, estremecendo, pal-
pitando, errando como um espectro, a sombra
do seu perfume. Uma eternidade de oito anos,
não é Verdade? Como o tempo passa, como os
cabelos embranquecem, — e como nós temos
envelhecido, minha amiga! No mesmo Récamier
de mogno e bronze doirado onde tanta vez es-
perei por si, — confesso-lhe que, nessa tarde
resplandecente de Setembro, já onze meses con-
tados, eu não esperava menos ansiosamente,
menos impacientemente por ela. Era o primeiro
rende Z'Vous. Era o supremo instante de beleza
que precede a delícia do primeiro abandono e
o horror da primeira posse. Era o momento
em que ainda tudo se releva e tudo se ignora,
tudo se adivinha e tudo se desconhece. Se as
mulheres soubessem, minha querida amiga, que
a melhor recordação que delas nos fica é a do
tempo que levámos a esperá-las ! O coração ba-
tia-me, apressado; passeava, sentava-me, abria
e fechava livros uns sobre os outros, olhava os
ponteiros impassíveis do relógio, parecia-me
ouvir na escada, a cada instante, confusos, in-
distintos, um murmúrio, um rumor de seda, um
ruído de passos. Mais uma mulher possuída,
mais uma boca beijada, mais uma vaidade sa-
tisfeita, — que importava isso, que Valia isso?
o €REXDEZ-V0U5> 61
E, entretanto, eu estava evidentemente nervoso,
apreensivo, perturbado. Nào era apenas a im-
paciência, a curiosidade da beleza oculta, a
ânsia da revelação prometida; era mais alguma
coisa, — era a consciência Vaga da monstruosi-
dade que ia cometer-se ali, daquela posse sem
amor, daquele crime sem paixão, daquela aven-
tura sem dignidade, da obra torpe de atracção,
de sedução, de volúpia, exercida em volta duma
mulher virtuosa, casada, tranquila, feliz, só pelo
prazer elegante de corromper, pela fúria animal
de dominar, pela estúpida Vaidade de possuir.
Eu que, como todos nós, homens, esgotara o
prazer antes de conhecer o amor, —eu desejaVa-a
sem lhe querer, queria-a ardentemente sem a
amar, e quando ela veio, emfim, cair-me nos
braços, pálida, ofegante, prostrada, convulsa,
escondendo a cabeça no meu peito, molhando-
-me de lágrimas as mãos, — fui feliz, perversa-
mente feliz, ignobilmente feliz. Era a fera e a
presa. Era o sapo e a doninha. Quis enlaçá-la :
rompeu em soluços. Ergui-lhe a cabeça para a
beijar: olhou-me com os seus grandes olhos
azuis de criança, acariciou-me, sorriu dolorosa-
mente para mim, e, quási boca com boca, numa
incomparável expressão de sentimento e de can-
dura, disse-me baixinho :
— Não fiques desprezando meu marido...
Ele é tão digno, tão honesto, tão bom !
62 MULHERES DE HOJE
Ah, minha querida amiga! Nessa hora, tive
repugnância de mim mesmo. As mulheres ! Po-
bres criaturas de fragilidade, de loucura e de gra-
ça ! Se elas são aquilo que os homens querem
que sejam, — e se toda a sua perfídia, toda a
sua corrupção, toda a sua miséria não passam
da obra reflectida, da obra consciente, da obra
abjecta do homem! Afinal, aquela mulher que
eu atraíra, que eu sugestionara, que eu endoi-
decera, que eu trouxera sem saber como até
aos meus braços, — amava perdidamente o ma-
rido. Lembro-me desse instante, como se fosse
hoje. O sol acendia faúlhas nos seus cabelos
loiros de Veneziana. Um grande ramo de rosas
Vermelhas sangrava num solitário. O tapete
amortecia-nos os passos. Beijei, com piedade e
com respeito, os dedos dessa amante que o
não chegara a ser, pedi-lhe que Voltasse para o
lar que abandonara, e encerrei, nesse rendez-
•vous blanc, as nossas relações. Sabe Você
quem era essa mulher? M.*"^ S. Já vê, minha
querida amiga, que ela tem toda a razão para
dizer mal de mim.
Seu velho amigo, — Pedro,
UMA FRASE DE DUMAS
Ao fim da ceia, o velho doutor Moncada,
que à primeira taça de champanhe fala da sua
vida, e à segunda começa a falar da Vida dos
outros, afundou-se numa poltrona, cruzou a
perna, compôs a orquídea vermelha da casaca,
acendeu um cigarro e contou-nos :
— Quando estive há dois anos em Madrid,
instalei-me num rés-do-chão da calle de To-
ledo, pouco antes de chegar à igreja de Santo
Isidoro Real, um palacete moderno de fachada
italiana onde tinha Vivido, três meses antes, o
ministro da Rússia. Durante muitos dias, igno-
rei quem habitava nos outros andares. Saía
cedo, recolhia tarde. Uma manhã, sobre a mi-
nha cabeça, ouvi tocar admiravelmente, num
violino, a tarantela de Wieniawsky. Um natu-
ral movimento de curiosidade levou-me a per-
guntar quem morava por cima de mim, no
andar nobre do prédio. Era uma família da
64 MULHERES DE HOJE
aristocracia espanhola, tudo quanto havia de
mais cursi, marido e mulher, ela ainda va-
gamente parente dos Marqueses de Baca-
res, «de piai a, dos caldcros endentados en
fajã de oro y de guetes-», êle menos conhe-
cido pelas suas qualidades pessoais do que
pela excelente égua anglo-árabe, nascida nas
coudelarias de Afonso XIII, em Aranjuez, que
acabara de ganhar-lhe, no concurso de Ma-
drid, a copa dei Rey. Nunca os tinha visto.
Segundo todas as probabilidades, não os co-
nhecia. Uma noite, cerca de uma hora da ma-
drugada, precisamente quando eu ia a entrar
em casa, parou à porta um automóvel. Deviam
ser eles. O marido desceu primeiro. Era um
homem pequeno, raquítico, anguloso, bilioso,
sem expressão, sem idade, a face rapada e
como aberta à faca em terra de Siena, um
chapéu baixo atirado para a nuca, um cache-
col de setim preto enrolado ao pescoço, a
elegância doentia de certas criaturas de fim-de-
•raça, qualquer coisa de intermédio ao pschut-
teux de Sem e ao «pierrot noir» de Willette,
andando, um pouco dobrado pela cintura, em
passinhos curtos de japonês. Depois desceu
ela, ajudada pelo marido. Conservo ainda na
retina a figura dessa mulher enorme, serena,
imperial, magnífica, duma impassibilidade e
duma beleza clássica de estátua romana, as
UMA FRASE DE DdMAS 65
inàos scintilantes de anéis, um molho de aigret-
tes brancas na cabeça, umas grandes luvas
brancas de canhão, uma capa de teatro blen
roy envolvendo-a toda, até aos pés, na majes-
tade litúrgica dum pontifical. Chartran, o su-
premo pintor das elegâncias modernas, tem
alguns retratos assim. Vi-a de perfil, esse ter-
rível perfil de moeda que é o escolho ou a con-
firmação de todas as belezas de mulher, — e
não me recordo de ter surpreendido alguma
vez, nem nos graves perfis loiros de inglesa
que Lawrence imortalizou, linhas mais puras,
mais clássicas emais nobres. Entraram os dois.
Entrei também, atrás deles. De repente, o ho-
mem voltou-se para falar ao chauffeur. Dei^
xará qualquer coisa no automóvel. Dei de cara
com ele. O clarão das lanternas bateu-lhe de
chapada na face. Observei-o então melhor.
Tinha as feições contraídas, os olhos vítreos, a
expressão inquietante. Emquanto o olhava, não
sei ainda hoje porquê, acudiu-me ao espírito a
frase de Dumas: — ^La destinéc d' une fem-
me est dans les traits de son mari.» Percor-
reu-me a espinha uma inexplicável impressão
de frio. Era uma fisionomia de catástrofe. Ime-
diatamente, o homem Voltou com um leque
nas m.ãos. Subiram os dois a escada. As por-
tas fecharam-se. O automóvel seguiu. Entrei
em casa. Meia hora depois, quando eu relia, já
5
66 MULHERES DE HOJE
deitado, as perturbadoras páginas do Retrato
de Dorian Gray, um ruído seco, como duma
porta que bate, cortou o silêncio da noite. Acto
contínuo, alguma coisa de semelhante à queda
dum corpo fez abanar a casa. Escutei, com a
respiração suspensa. Passados instantes, dois
novos ruídos, secos, rápidos, — evidentemente
duas detonações. Estremeci. Apareceu-me diante
dos olhos, como uma explicação, a face verde,
crispada, viscosa, desse homem que eu aca-
bara de ver pela primeira vez. Levantei-me,
vesti-me à pressa. Soavam campainhas eléctri-
cas. Havia já gritos pelas escadas. Não me en-
ganara. Tinham-se disparado três tiros de re-
vólver, no primeiro andar. Corri, perguntei,
entrei. Uma mulher enorme, quási nua, estava
caída de-bruços sobre o tapete. Ergui-a, olhei-a :
era ela. Palpei-lhe o coração : cessara de viver.
Os criados, a guarda civil, correram a casa à
procura do assassino. Foram encontrá-lo junto
da grande niesa holandesa do escritório, imó-
vel, abraçado ao busto de mármore duma
criança. Um fio de sangue escorria sobre o
mármore branco. Estava morto. Era iniludivel-
mente verdade que o destino das mulheres está
escrito na cara dos maridos.
FLIRT
Querida Gaby : — Dê-nie as suas mãos e con-
versemos. É preciso encarar a vida com essa
inteligência do sentimento que, mesmo quando
não leva à felicidade, conduz quási sempre à
resignação. Sinto o meu espírito perturbado.
Adivinho as suas màos brancas a tremerem
nas minhas. Tenhamos calma. Tenhamos, acima
de tudo, a difícil coragem da sinceridade. O
amor, como a vida inteira, está cheio de luga-
res-comuns. São as frases feitas que obscure-
cem, quási sempre, o sentido da vida. Vejamos,
na sua desconcertadora limpidez, o nosso caso
moral. Não tenhamos a preocupação de pare-
cer, um perante o outro, nem mais belos, nem
mais puros, nem mais nobres. Quando nos co-
nhecermos bem, havemos de admirar-nos, tal-
vez, de ser tão semelhantes. É tempo ainda,
minha amiga. Nada nos prende, — senão os
nossos olhos que se procuram, as nossas màos
que se entrelaçam, as nossas almas que se in-
terrogam. O sentimento que nos liga não tem
68 MULHERES DE HOJE
passado. O afecto que nos une nâo tem histó-
ria. Nunca beijei, sequer, a ponta dos seus de-
dos. Desconheço- a. Ignoro-a. ReVelerno-nos um
ao outro. Se essa revelação tiver de nos afas-
tar, minha senhora, sigamos o nosso destino sem
amargura, sem rancor, no calmo sorriso de des-
pedida de duas criaturas que se teriam amado
se não se houvessem conhecido, — e que seriam
infinitamente desgraçadas se tivessem chegado a
amar-se.
Oiça-me. O meu coração sente-se tranqíiilo
e forte para encarar a verdade da nossa si-
tuação. Inunda^me a paz, nesta hora em que
lhe escrevo. Entra-me pela janela, num hálito
de perfume, uma lufada quente de primavera.
Tudo se doira e scintila, à volta de mim, em
labaredas de sol. As suas rosas vermelhas,
sobre a minha banca de trabalho, sangram
como uma boca fresca e aberta. Tenho a ilu-
são de que a vejo, de que a sinto ao meu lado,
loira, grave, inglesa no seu trotteur ligeiro de
pano alvadio, — debruçando-se sobre o meu
pensamento e sobre a minha alma. Há dias —
lembra-se ? — no nosso passeio de automóvel,
um horrível sentimento de comodidade fez-nos
advogar, um perante o outro, a conveniência
de manter as nossas relações nos limites duma
sensata e fiel amitié amoureuse. Nenhum de
nós foi sincero, minha amiga. O que falou em
FLIRT 69
nós ambos, não foi a flor dum afecto que des-
perta ; foi a consideração egoísta de duas cria-
turas extenuadas, que vivem a vertiginosa exis-
tência moderna, e que procuram a cada passo,
instintivamente, descomplicar a vida. Era a so-
lução fácil, cómoda, pronta ; reduzia ao mínimo
as consequências e as responsabilidades ; apro-
ximava-nos, justificando-nos; definia uma si-
tuação que convinha simultaneamente ao nosso
capricho e à nossa consciência: -—adoptámo-la.
E, entretanto, nós bem sabíamos que está-
vamos mentindo um ao outro para nos iludir a
nós próprios. Sabe-o você e sei-o eu: a ami-
tié amourcuse não existe. Entre um homem
moço e uma mulher bonita, a amizade pura, a
amizade insexuada, a amizade intelectual é
impossível. O homem e a mulher são funda-
mentalmente, irredutívelmente inimigos. Só se
aproximam para se amar, — ou para se de-
vorar. Não é possível entre êles o sentimento
doce e calmo, sereno e terno da amizade.
Tudo o que não seja fazerem inexoravelmente
a felicidade ou a desgraça um do outro, —
não o sentem, não o entendem. É horrível,
não é Verdade? Mas é assim, minha amiga.
Aproximou-nos, a ambos, um grande sonho
irrealizado e uma grande curiosidade insatis-
feita. Essa curiosidade e esse sonho chamam-se
— amor. O nosso caso atinge o momento
70 MXTLHERES DE HOJE
da crise. Neste instante, ainda tudo é possí-
vel: amarmo-nos numa paixão, — ou separar-
mo-nos num sorriso. Amanhã será já, fatal-
mente, a paixão que freme ou o sorriso que
afasta, — mas não poderá ser nunca, entre nós
dois, a amizade que abdica e que renuncia.
Para o homem, há só uma expressão plena do
amor : a posse. Há só, para a mulher, uma ex-
pressão plena da felicidade: a volúpia de ser
possuída. Quem não deseja veementemente, —
não ama. A amitié amouretise inventou-se
para os homens gastos e para as mulheres
feias. Você é bela de mais para ser amada
assim ; e, neste assomo de primavera em que
as aVes cantam, o sol esplende e as rosas
abrem, com que orgulho eu sinto, enevoando-
-me a testa, a esplêndida mocidade dos meus
cabelos brancos ! Não, minha amiga. Eu men-
ti-lhe. Mentimos um ao outro. Nós só podere-
mos, ou amar-nos com loucura, — ou afastar-
-nos com dignidade. Não há meios amores, nem
meias posses. Não há ternuras intelectuais,
nem amizades apaixonadas. Há a vida, que é
bela,— há a sua boca, que é Vermelha e glo-
riosa. Adeus. Deixo nas suas mãos fiéis a mi-
nha confissão e a minha alma. Chame-me, ou
repila-me. Para que havia você de julgar-me um
santo, se eu sou apenas um homem?
Seu, — /?///.
NOIVA
Senhora Marquesa :~Escrevo-!he a chorar,
no meu pequenino quarto amarelo de casada,
com a sua linda carta aberta diante de mim.
Não, minha senhora Tia, não aceito nem os
seus parabéns, nem os seus beijos, nem as suas
flores. Não os aceito porque sou muito desgra-
çada, porque nunca supus que podesse ser isto
uma lua-de-mel, porque nunca acreditei que os
homens fossem uns monstros assim. O lorge
parecia tão educado, tão fino! Pois não é. Afir-
mo-lhe, com as lágrimas nos olhos, que não é.
E a tia Marquesa, que teve a infelicidade de
ter três maridos e a felicidade (Deus me per-
doe!) de os ver morrer a todos três, Vai dar
razão, muita razão à sua pobre amiga. Eu ca-
sei por amor, — como todas nós, que não faze-
mos do amor a mais pequena idea. Imaginei —
pobre de mim! — que amar era viver numa
primavera eterna, num eterno sorriso, num
72 MULHERES DE HOJE
êxtase que só acabava com a morte. Desde
muito criança, tive do amor a idea pura, a idea
terna, a idea luminosa de duas pombas voando,
num grande dia de sol, sobre um grande rosal
em flor. Julguei que tudo era meiguice, que
tudo era ternura, que tudo era comoção, que
tudo era delicadeza, — que uma nuvem de oiro
nos embalava, que vivíamos sorrindo, que falá-
vamos beijando-nos, e que devia ser triste,
muito triste, morrer depois de ter conhecido na
vida o supremo bem de amar muito e de ser
infinitamente amada. Pois bem, senhora Mar-
quesa : sou bonita, tenho dezoito anos, casei há
quinze dias, — e que desilusão ! Não é um noivo
apaixonado que eu tenho ao pé de mim ; é um
senhor engenheiro, seco, metódico, elegante,
comodista, formalista, com uns olhos azuis frios,
um egoísmo feroz, um lindo bigode loiro mui-
tíssimo mal empregado nele, —um sujeito grave
que passa os dias metido no escritório a fazer
cálculos matemáticos, e a noite enterrado num
cadeirão Ma pie, a cabecear com sono. Não é
um homem, minha Tia : é um relógio. Não é
um marido : é um barrete de dormir. Tem a ma-
nia da pontualidade, da higiene, do espírito prá-
tico, dos hábitos ingleses. Quer que eu faça
gimnástica todas as manhãs e que me deite com
as galinhas todas as noites. Mas tudo isto eu
lhe suportava, os cálculos e a gimnástica, o sono
NOIVA 73
e os jornais de Londres, — se êle se importasse
comigo para alguma coisa. Mas não, senhora
Marquesa. A Verdade, a triste Verdade que lhe
digo só a si e à sua alma, — é que meu marido
repele-me, meu m.arido impacienta-se com a mi-
nha ternura, meu marido aborrece-se com as
minhas carícias. Vejo-a a rir-se de mim, a acon-
selhar-me com a sua linda voz e os seus cabe-
los brancos, a dizer-me que sou uma tonta, uma
exagerada, uma criança. Nào sou. Venho con-
tar-lhe tudo. São pequenas coisas, — sim, talvez
sejam pequenas coisas : mas com.o estas pequenas
coisas decidem da felicidade duma mulher ! Não
lhe dou um beijo, que êle não tenha um gesto de
enfado. Eu bem sei que o beijo quási de cinco
em cinco minutos, que o não deixo quieto um
instante, — mas parece-me, senhora Marquesa,
que não é para estar quieto que um homem casa
com uma rapariga de dezoito anos. Quando êle
se fecha a trabalhar no escritório — é sabido —
começo a enervar-me, a aborrecer-me, a pensar
que nào casei para estar só, e daí a meia hora
Vou bater-lhe à porta. — «Que é que tu queres ?>
— «Quero dar-te um beijo.» Sua Excelência
deixa-se beijar, Monsieur se laisse aimer, im-
paciente, mal humorado, furioso porque o in-
terromperam, — e acaba por me pôr fora, com
a mais inglesa das semceremónias, como se eu
não fosse a sua mulher, a sua companheira, a
74 MULHERES DE HOJE
sua noiva, a sua amiga. — «Vai-te embora da-
qui, deixa-me trabalhar !> Eu faço-lhe a vonta-
de. Vou. Mas não me conformo. Chego ao meu
quarto, Vejo-me no espelho, acho-me bonita de
mais para sofrer esta solidão, este abandono,
este desamor, — e daí a cinco minutos estou ou-
tra vez a bater-lhe à porta, a interrompê-lo, a
persegui-lo, a chamá-lo. Porque não hei de eu
ficar ali, ao pé dele, a vê-lo trabalhar, muito
calada, muito quieta, a bordar a minha renda
inglesa — a única coisa inglesa que eu não de-
testo — emquanto Sua Serenidade, Sua Impas-
sibilidade desenha traçados de estradas que ain-
da estão por fazer e que eu hei de ver de den-
tro de um automóvel que ainda está por com-
prar? O Jorge consente. Fico. Prometo estar
sossegada. Passa-se um minuto, dois minutos,
três minutos, Vejo-o curvado à banca, sigo-lhe
os movimentos da mão forte, rosada, sobre o
papel marioTiy espreito-lhe a sorrir a penugem
loira do pescoço, levanto-me, vou pé ante pé,
aproximo-me, um grande beijo, e — pronto ! —
um borrão no desenho. Um borrão, que impor-
tava? Outro que não fosse êle, sentia-se feli-
císsimo por ser beijado com tanta paixão, com
tanto enlevo, com tanto amor. Êle, não. Zan-
ga-se, ralha, põe o chapéu na cabeça, grita que
não pode trabalhar, que Vai para um hotel, que
não tem um instante de sossego ao pé de mim.
Non\\ 75
Daí por diante, — se lhe falo, queixa-se de que
o interrompo ; se o beijo, diz que o sufoco ; se
lhe enlaço o pescoço nos meus braços, grita
que o sujo de pó-de-arroz; se rio, faço barulho ;
se choro, sou impertinente ; se brinco, sou uma
criança ; e eu Vingo-me, senhora Marquesa, e
beijo-o cada vez mais, e choro, e rio, e aper-
to-o nos meus braços, e não lhe consinto um
momento de descanso, de tranquilidade, de paz,
porque o amo a-pesar de tudo, porque o que-
ro, porque o adoro, porque êle é meu, porque
tenho uma vontade imensa de lhe fazer mal, —
e porque sou infeliz, cada vez mais infeliz.
Sabe o que êle me disse hoje, minha Tia? Que
não havia maior suplício para um homem, do
que ser amado por uma mulher tão bonita e tão
importuna como eu. Diga-me. A senhora Mar-
quesa conhece a vida. Amarei eu de mais ? Êle
terá razão ?
Sua pobre sobrinha, — Bebé.
A OUTRA
Éramos três à mesa do café. Quando o Vis-
conde de Malafaia, com a sua face de perga-
minho e a suá elegância à Robert de Montes-
quiou, afirmava que nunca conhecera mulher
alguma capaz de sacrificar a vaidade do seu
sexo a um sentimento grande e generoso, — o
sólido, o maciço dr. Gama, que sorvia em si-
lêncio o seu brandy flip, embrulhado num so-
nolento, num formidável casacão escocês, levan-
tou a cabeça, fixou-nos, ora a um, ora a outro,
com os seus olhos de faiança, e disse, numa
profunda expressão de sinceridade :
— Conheço eu.
— Uma mulher ?
— Uma mulher.
— Quem é ela ?
— A minha.
Olhámo-nos os três. O velho Visconde, no-
bre, encarquilhado, elegante, pesado de anéis,
78 MULHERES DE HOJE
encolheu imperceptívelniente os ombros. Eu tive
um Vago gesto amável de aquiescência e enchi,
pela terceira vez, a minha chícara de chá. De-
ram onze horas. Lá fora, na noite húmida e ne-
voenta, passaram clarões de automóvel. A um
canto do café, um inglês de cabelos amarelos,
com a orquídea de Joe Chamberlain sangrando
na lapela do casaco, meditava sobre um artigo
áo Times. Lentamente, o dr. Gama sorveu o
cognac e a gema de ovo do seu americaníssimo
flipy calçou um desses amarrotados pares de
luvas cinzentas que aparecem às vezes nos
retratos de Columbano, derrubou sobre os olhos
a aba do chapéu mole, e disse, no seu habitual
sorriso de bonomia :
— Vou ver um doente às Chagas. Mas, an-
tes de me despedir de Vocês, quero contar-lhes
uma história. Vocês teem razão. Conhecem
apenas, como disse M."^ Du Deffand, «/^ vul-
gaire des femmes,— c'est à dire, presque
toutes.^ Mas faltam as outras. Faltam precisa-
mente aquelas que vocês ignoram, — aquelas que
poucas vezes se encontram e que quási nunca
se merecem. Eu conheci uma, — e pesa-me não a
ter sabido merecer. Lembram-se vocês de quan-
do, há seis anos, tive uma loucura por uma
actriz conhecida? Pois bem. Dessa loucura
nasceu uma criança, — pouco mais ou menos
quando minha mulher tinha o seu último filho.
A OUTRA 79
Julguei que essa criança Viria tornar mais ínti-
ma, mais indissolúvel a ligação de acaso que
eu contraíra, ~ e cheguei a receá-lo por minha
mulher, por meus filhos, por mim próprio. Nào
sucedeu assim. Três meses depois, as minhas
relações com essa criatura, prodígio de má
educação e de insensibilidade moral, tinham-se
tornado dolorosas e difíceis; cinco meses de-
pois, eram insustentáveis. Uma noite, procurei-a,
inesperadamente, às três horas da manhã. Re-
cusou-se a abrir-me a porta. A m.inha idade e
a minha situação aconselhavam-me a evitar toda
a espécie de escândalo público. Compreendi,— e
retirei-me. Quando já vinha ao fundo da esca-
da, senti passos. Alguém descia ; pareceu-me
ouvir a Voz da criada, chamando ; — esperei.
Daí a pouco, uma trouxa morna, rosada, chei-
rosa a leite, salpicada de rendas, embrulhada
num chaile Velho, caíu-me chilreando nos bra-
ços. Era uma criança. Era o meu filho. Passou-
-me uma névoa de sangue pelos olhos. Quis su-
bir, bater, gritar, brutalizar, — mas tive vergonha
do meu ridículo e de mim mesmo. Encontrei-me
na rua. Chovia. O ar cortaVa. Que fazer? Levar
para um hotel uma criança de cinco meses ? A
quem a entregaria eu ? Quem alimentaria essa
boca, inocente da volúpia criminosa dos pais?
De repente, — lembrei-me de minha mulher.
Abriu-se diante da minha alma um sorriso de
80 MULHERES DE HOJE
fé, de serenidade e de ternura. Passava um trem.
Chamei-o. Vinte minutos depois, pé ante pé,
como um ladrão, entrei no quarto onde minha
mulher dormia com o filhinho; acordei-a; pe-
di-lhe perdão, chorando; confessei-lhe tudo, co-
ração contra coração; e emquanto eu soluçava
como uma criança, — ela, a sorrir, desfeita em
lágrimas, tomou dos meus braços o inocente que
a outra engeitara, beijou-o, aconchegou-lhe a
boquita sequiosa ao peito farto de leite, e dis-
se-me, apertando muito a minha mão na sua :
— Não faz mal. Foi outro filho que nos nas-
ceu . . .
Houve um instante de silêncio. Quando o
dr. Gama, levantando a gola enorme do casacão
escocês, saiu para ir ver o seu doente às Cha-
gas, — o Velho Visconde de Malafaia, a sós
comigo, franziu a face glabra e fina, amachu-
cou as luvas sobre a bengala pomme cVor, e,
empertigando a sua elegância septuagenária,
concluiu, desdenhosamente :
— Meu amigo, quando uma mulher perdoa —
é porque não ama.
MAE
Meu amigo: — Escrevo-lhe na maior das an-
gústias. As mãos ardem-me de febre. Preciso
de si, da sua amizade, do seu conselho. Es-
cute-me, ampare-me, valha-me. As minhas sus-
peitas confirmam-se. Tudo quanto eu lhe disse
há dias, na nossa partida de pocker,—è Verda-
de. Soube-o ante-ontem, — e com que dor, com
que revolta, com que desespero, meu Deus !
Não. Eu nunca me enganei. Já o esperava.
Creio que lho disse algumas vezes a si. Tive o
pressentimento do que havia de suceder, no pró-
prio dia em que meu filho se casou. Meu pobre
filho ! Tão moço, tão gentil, tão cheio de bon-
dade, de generosidade, de nobreza ! Semelhante
criatura era lá mulher para êle! Podia lá amá-lo,
respeitá-lo, compreendê-lo ! Ah, meu amigo ! As
mulheres podem não conhecer os homens ; mas
conhecem-se bem umas às outras. Não imagine
que é a sogra que fala, com os pequeninos des-
6
82 MULHERES DE HOJE
peitos, com os inevitáveis ciúmes de todas as
mães. Não. Eu antipatisei com essa criatura
desde o primeiro dia em que a vi, em Londres,
há dois anos. Ainda nem sequer sonhava que
ela havia de vir a ser mulher de meu filho, já
ela me parecia execrável, com os seus denti-
nhos ralos de mentirosa, a sua mèche à la
Goya, os seus Vestidos de tennis pelo joelho,
todo o seu ar parvena de brasileirinha cosmo-
polita, criada em Paris e nascida na cabine
dum transatlântico. Nem educação, nem nasci-
mento, nem família, nem delicadeza de instinto,
nem sequer essa Vulgar aristocracia de pele —
que, nas mulheres que se prezam, se chama
dignidade. Meu filho devia ter feito dela sua
amante; fê-la sua mulher legítima. Foi um
desvario dos vinte anos. Como podia eu opor-
-me, — se êle me cobriu de beijos e de lágrimas
quando lhe pedi pela primeira vez que não se
casasse! Você bem sabe como eu eduquei
aquele filho, sem pai aos quatro anos, com o
mesmo tipo loiro de doente, com os mesmos
caprichos, com a mesma sensibilidade feminina
da mãe, — como eu formei, como eu criei, amo-
rosamente, beijo a beijo, carícia a carícia, tudo
quanto há na sua alma de nobre, de terno, de
delicado, de digno. Lembra-sedo Cruel Enigma,
de Bourget? Quantas Vezes tenho pensado, des-
de ontem, nessas páginas terríveis ! Meu pobre,
MÃE 83
meu querido filho ! Porque havia ela de o en-
ganar assim ? Onde encontrou ela mais beleza,
mais inteligência, mais fidalguia, mais mocida-
de? Oh, se Você soubesse tudo! Se eu lhe
contasse tudo! E com quem! Com quem! Minha
pobre cabeça, meus pobres nervos, minhas po-
bres mãos que escaldam ! Como eu tenho, como
eu posso ter ainda serenidade para pensar, para
reflectir, para decidir, — com o espírito doente,
com a alma quebrada, com a vida do meu filho
desfeita, com um susto que me oprime, que me
mata, que me faz estremecer a cada ruído, a
cada passo, a cada porta que se fecha, a cada
campainha que toca ! É preciso, meu amigo.
É preciso que Você Venha aqui, que me fale,
que me aconselhe. Venha tomar chá comigo,
esta tarde. É agora que os meus cabelos Vào
embranquecer, verá. Como o sofrimento enve-
lhece ! Quero apertar as suas mãos, ouvir a sua
voz. Venha. Meu filho nada sabe. Ignoro tudo.
É feliz, horrivelmente feliz ainda. Continua a
adorá-la, a beijá-la, a viver numa ignorância
que é uma afronta. Que devo eu fazer? Que
deve fazer uma pobre mãe, como eu, que não
pede, que nunca pediu a Deus senão que lhe
faça feliz o seu filho? Deixá-lo na ilusão, na
mentira, — sujeito aos acasos duma denúncia,
duma surpresa, duma violência? Acordá-lo para
a verdade, para o sofrimento, para a dor, -eu,
84 MULHERES DE HOJE
que daria a minha vida toda, todo o meu san-
gue, toda a minha alma por um sorriso só do
meu filho? Qual é o meu dever de mãe? Acon-
selhar minha nora? Já o tentei. Respondeu-me
com orgulho e com insolência. Dizer-lhe tudo a
êle? É capaz de matar-se, ou de a matar. Dei-
xá-lo Viver na ignorância, na vergonha, no ridí-
culo, — ao meu filho, que eu ensinei a ser tão
digno, tão honesto, tão nobre? Mas isso
é a última das infâmias, é tornar-me cúmplice
dessa mulher, é transigir, é aviitar-me. E deba-
to-me nesta angústia, neste inferno, — sem sa-
ber o que pense, sem saber o que diga, sem
saber o que faça. Venha. Preciso duma mão
amiga ao pé de mim. Preciso do seu bom sen-
so, do seu afecto, do seu conselho. Venha às
quatro. Sabe? Chegou ontem de Paris o meu
vestido novo, tête-de-nègre, grandes botões de
prata, Redfern. Talvez o não chegue a pôr. Sei
lá o que será o meu dia de amanhã !
Sua ^m\g^i,~ Maria do Carmo.
A HORA DO DIABO
A partida de brigde tinha-se prolongado
até às três da madrugada. Uma noite azul de
inverno, duma serenidade magnífica, dum frio
cortante. Desci as avenidas novas, a caminho
de casa. Já ia longe do arvoredo triste de Fa-
lhava, quando, de dentro de um automóvel pa-
rado, de lanternas apagadas, uma Voz conhe-
cida chamou pelo meu nome. Era o meu amigo Z.
— Que fazes tu aqui, a esta hora?
Por um momento, a Umousine iluminou-se.
O meu amigo, com a sua elegância de vieiíx
beaUy o seu peito largo de atleta, a sua face
vermelha e lustrosa como barro vidrado, as
suas luvas de camurça brincando sobre a volta
de oiro da bengala, abriu-me, num sorriso, a
portinhola do Panhard :
— Sobe um pouco. Conversamos.
Subi. A atmosfera morna do automóvel,
onde errava um cheiro vago a flores e a coiro
86 MULHERES DE HOjE
da Rússia, acariciou-me a pele crispada do frio.
Na obscuridade, emquanto falávamos de coisas
fúteis, de política, de livros, de mulheres, o
meu amigo, visivelmente inquieto, debruçava-
-se, de instante a instante, a Ver fosse o que
fosse. Observei-o. De vez em quando, tirava
o relógio. A princípio, não lhe percebi a direc-
ção do olhar. Daí a pouco, ao acender um ci-
garro, notei que as suas atenções se fi?<aVam
em certa casa, com o tipo caraterizadamente
inglês do cottagey que dormia, do outro lado
da avenida, ao fundo dum pequeno jardim gra-
deado. Todas as janelas estaVam fechadas.
Não se adivinhava o menor sinal de luz e de
vida. Não distingui pessoa ou coisa que podes-
sem justificar a atenção do meu amigo Z. En-
tretanto, manifestamente, a sua impaciência
crescia. Falava com uma verbosidade quási in-
coerente, e a sua mão forte, sanguínea, espes-
sa, pesada de anéis, tão inexpressiva que po-
deria pertencer, indiferentemente, a um criador
de gado ou a um Douglas da Escócia <^au cceur
sanglanhj eriçava, em movimentos nervosos,
os pêlos ainda loiros do bigode.
— Esperas alguém ? — perguntei.
— Espero.
— Cherchez la femme ?
— Cherchez la femme. Uma bela mulher.
— É sempre bela a mulher que se espera . . .
A HORA DO DIABO 87
Tornei a enrolar ao pescoço o cache-col, e
despedi-me. O meu amigo deteve-me, num
gesto distraído :
— Fica um instante. Vês aquela casa?
— Vejo/
— O primeiro andar ?
— O primeiro andar.
— Conta, do teu lado esquerdo, a terceira
janela.
— Contei.
— Tudo parece dormir, não é verdade? E,
entretanto, por. detrás daquela janela fechada,
está a estas horas uma mulher em cuja alma
se passa um grande drama. Talvez a conheças.
Tem vinte e cinco anos, os cabelos pretos, os
olhos maravilhosamente verdes, e casou ' há
tempo com um judeu português. É uma dessas
mulheres de aparência serena, calma, impassí-
vel, em cujas pálpebras descidas há mil vezes
mais e?ipressào do que no próprio olhar. Temos
tão entranhado o hábito de chamar defeitos,
nas mulheres, às qualidades que não possuí-
mos, que eu ia quási atribuir a essa encanta-
dora criatura o defeito de ser fiel ao marido.
Há três anos que lhe faço a corte ; há três
anos que o seu pudor, a sua Virtude, a sua fi-
delidade resistem a toda a minha obra de sedu-
ção, de perturbação e de mentira. Ontem, à
tarde, o marido partiu no Sud, para Paris.
88 MULHERES DE HOJE
Hoje, no chá da Legação de ***, emquanto,
por uma singular coincidência, se tocava a So-
nata de Kreutzer, pus terminantemente a ques-
tão : ou esta noite, ou nunca mais. Ela baixou
os olhos, e, com a mesma tranquilidade com
que deitava o açúcar na sua chícara do Japão,
disse-me: ~ «Se hoje, às três da madrugada,
Vir uma luz na janela do meu quarto de vestir,
é o sinal de que a porta está aberta e de que
espero por si ; se a não vir, peço-lhe que não
me persiga mais.> São três horas e dez minu-
tos, e a luz ainda não apareceu.
Uma aragem leve principiava a encrespar
as árvores. O chauffenr dormia. A nesga de
céu que nós víamos de dentro do automóvel
dava-me a impressão dum grande esmalte azuK
O meu amigo calçou plácidamente as suas
luvas inglesas de camurça, olhou ainda uma vez
a casa que continuava mergulhada em sombras,
e perguntou:
— Qual é a tua impressão ?
— A luz ainda não apareceu. Mas aparece.
— Julgas isso?
— Tenho a certeza.
— Porquê ?
— Porque conheço as mulheres. A luz que
treme a estas horas nas mãos dessa pobre
criatura, tem, para ela, toda a irresistível atrac-
ção, todo o ine?^primível mistério dos abis-
A HORA DO DIABO 89
mos. É a tentação, é a Vertigem, é o pecado.
Fosses tu, ou fosse qualquer outro homem que
a esperasse, — aquela janela, fatalmente, ilu-
minar-se ia. Por detrás daqueles vidros, há
apenas uma consciência que se debate — e
que leva tempo a vencer. Todas as mulheres
teem na vida uma hora perigosa. Essa hora de-
cide da sua existência inteira. É a «hora do
Diabo>. É o instante de fragilidade em que
sucumbem para sempre, ou em que para sempre
se salvam. O seu triunfo ou a sua perda de-
pendem menos delas do que do homem que
nesse instante lhes perturba a inteligência ou
os sentidos. Se é um homem digno, estão sal-
vas. Se é um miserável, estão perdidas. As
mulheres são apenas aquilo que nós queremos
que elas sejam. Não há, fundamentalmente,
mulheres desonestas; há homens desonestos.
A deliciosa criatura que te trouxe até aqui,
atravessa, neste momento, a sua «hora do Dia-
bo». Está nas tuas mãos. Depende exclusiva-
mente da tua generosidade. És tu o árbitro do
seu destino. Ignoro se o que te impele para
ela é um sentimento nobre ou uma curiosidade
sensual. ^Les amours partagés,~ceite ga-
melley! Se a amas, dignifica-a. Se apenas a
desejas, salva-a. Ficar-te há a certeza absoluta
de que essa mulher, salva nesta hora por ti,
nunca mais se perderá.
90 MULHERES DE YíOJE
— É O que tu pensas?
— É o que eu penso.
Calámo-nos. De repente um foco intenso
de luz bateu-nos nos olhos. Voltámo-nos am-
bos. A janela estava iluminada. Como uma né-
voa, adivinhava-se, lá dentro, um Vulto branco
de mulher. O meu amigo teve um instante de
perplexidade, depois um movimento súbito de
resolução, a face contraíu-se-lhe imperceptível-
mente, apertou-me as mãos num gesto agrade-
cido, e gritou ao chauffeiir:
— Para casa.
O automóv^el partiu, numa nuvem de poeira.
Quando demos a volta, lá baixo, na avenida
distante, a pequenina luz brilhava ainda.
j
o ADEUS
Meu Carlos: -O nosso casamento já não
pode realizar-se. É preciso que nós falemos um
ao outro, neste instante decisivo para os nossos
destinos, com a nobre franqueza, com a serena
dignidade de duas criaturas que sofrem. Sim,
Carlos. Está desmanchado o nosso casamento.
Há razões de ordem moral que me impedem de
ser tua mulher. Só hoje as soube. Ouvi-as a cho-
rar e a sorrir, com a alma cheia, ao mesmo
tempo, de piedade, de dor e de ternura. Não
Venho fazer-te recriminações. A vida é o que é.
Os homens são o que são. Tu não és melhor
nem pior do que todos: és homem. Devíamos
casar depois de amanhã. Tenho aqui, sobre o
sofá do meu quarto, o vestido branco de noiva
que já não chegarei a vestir. Quanta coragem,
quanta força de alma é precisa, meu Carlos,
para renunciar, num momento, a um bem que
se sonhou toda a Vida ! Quantas lágrimas custa
92 ^ MULHERES DE HOJE
uma boa acção, meu pobre, meu querido ami-
go! Eu, que desde criança, ainda com as saias
pelo joelho, me acostumei a gostar de ti, a con-
siderar-te o meu irmão, o meu noivo, o meu ma-
rido, o meu orgulho, a minha alma, — com que
lágrimas amargas hei de resignar-me agora a
perder- te ! Mas é preciso. É irremediável. Eu
já não podia ser feliz comtigo. Ninguém pode
ser feliz construindo a sua felicidade sobre a
desventura alheia. Ouve. É necessário que me
oiças com calma, com serenidade, que me aju-
des a ser forte, a ser justa, a ser boa. Esteve
hoje em minha casa, falando comigo, uma po-
bre rapariga que tu conheces, e que seria mais
bonita do que eu se não tivesse sofrido tanto.
Trazia duas criancinhas, uma de colo, outra de
ano e meio, muito loira, de olhos muito azuis.
Quando vi essas duas crianças, Carlos, senti,
ao mesmo tempo, o irresistível desejo de as re-
pelir e de as beijar. Se elas eram o teu retrato
vivo! Durante uma hora, escutei em silêncio,
com a alma retalhada, as súplicas dessa pobre
criatura. É preciso que uma mulher seja muito
desgraçada, para pedir o que ela me pediu, para
se humilhar como ela se humilhou. Durante uma
hora, tive encostada ao meu seio a cabeça do
teu filhinho ; sorri e chorei ; acariciei e repeli ;
comovi-me e revoltei-me ; mordi e beijei ; fui
boa e fui cruel ; fui caridosa e fui implacável ;
o ADEUS 93
— e não sei ainda, meu Deus, ao fim desses
sessenta minutos de agonia, qual de nós duas
teria sofrido mais. Não, meu Carlos. Reflitamos.
Encaremos com dignidade tudo quanto há de
doloroso e de difícil na nossa situação. Se uma
de nós duas tem o direito de ser tua mulher,—
não sou eu; é ela. É ela que deve casar com-
tigo. Ela, que te deu dois filhos, que te sacri-
ficou a sua mocidade, que te consagrou a vida
inteira, — é que tem o supremo direito de ser
feliz ao pé de ti. Eu fui a intrusa. Devo desa-
parecer da tua existência. Só ela ficará. Não
tenhas pena de mim- Ela é mais bonita do que
eu ; talvez seja ainda mais tua amiga do que eu
sou. Deixo-te resignada, serena, quási satisfeita.
Tenho a consciência de que pratiquei hoje a
m.ais nobre acção da minha vida. Compreendo
agora que pode haver a volúpia do sacrifício.
Adeus, meu amigo, meu amor, meu irmão.
Quando te casares, mandarei a tua mulher as
minhas jóias de noiva. Se outro filhinho nascer
depois do teu casamento, quero ser eu a ma-
drinha dele. Será também um pouco meu filho.
Adeus. Esquece a tua pobre amiga, — Emília.
MARIDOS
Minha querida Mary: — EscreVo-te de Nice,
onde estou há oito dias. Acabo de receber, de-
volvida de Lausanne, a tua última carta. Então
que foi isso, minha pobre Mary? Casada apenas
há Vinte meses, —e já tão pouco feliz! Tenho
pena de não poder estar junto de ti neste momen-
to, para en?<ugar os teus olhos que choram, para
beijar as tuas mãos que tremem, para te pedir que
tenhas calma, que tenhas serenidade, que tenhas
sangue-frio. É preciso, minha filha, que todas
nós nos habituemos a encarar os homens como
eles são, e não como nós desejaríamos que êles
fossem. Dizes-me que o teu marido te engana.
É possível. Ia quási a dizer — é natural. Há
quinze anos, quando me casei, tive a ilusão de
supor que ainda havia um marido fiel : o meu.
Três meses depois, essa mesma ilusão tinha-se
dissipado como fumo. Todos os maridos enga-
nam, minha querida Mary, — e o marido ideal é
96 xMULHERES DE HOJE
precisamente aquele que nos sabe enganar me-
lhor. O teu, por emquanto, é inexperiente; mas
deixa-o ser menos gaúche, deixa-o habituar-se,
— e Verás que daqui a algum tempo há de en-
ganar-te tão bem, que tu nem darás por isso.
Que havemos de fazer ? O homem é um animal
essencialmente infiel. Ainda Miss Davidson me
dizia ontem: — «É a única coisa que o distin-
gue do câo.» Tenhamos paciência, filha. Eu,
então, penso que se os nossos maridos não ti-
vessem, de vez em quando, a generosidade de
nos enganar, a nossa vida de casadas seria
muito menos suportável do que é. Falas-me em
Voltar para casa de teus pais, e pedes-me que
te aconselhe. Minha querida Mary, — eu acho
que fazes mal. Li, umas poucas de vezes, tudo
o que diz e tudo o que não diz a tua carta. Tu
própria confessas que teu marido não deixou
ainda um só instante, a-pesar do seu suposto
desvario, de ser para ti o mesmo homem cor-
recto, educado, gentil, que tu conheceste no
primeiro dia do teu casamento. O seu respeito
por ti mantem-se, inalterável. Não é, portanto,
a tua dignidade de esposa que sofre; é, quando
muito, o teu orgulho de mulher; ou, menos ain-
da do que isso, — a tua Vaidade de amorosa.
Parece-te frio, distraído, desinteressado; o teu
instinto diz-te que êle te foge, que é já menos
«teu>; a tua sensibilidade pressente que a som-
I
Maí^idos 97
bra doutra mulher passa na sua vida. Estás a
caminho de o perder? Pois bem. O teu dever,
Mary, é reconquistá-lo. Como? Com o teu me-
lhor sorriso, com a tua melhor graça, com os
teus melhores encantos. Tu não precisas, minha
filha, de que eu te ensine a ser mulher. Vou em
quinze anos de casada; a minha criada de quarto
encontrou-me hoje mais três cabelos brancos :
tenho obrigação de conhecer os homens melhor
do que tu. Sabes o conselho que te dou? Que
sejas, daqui por diante, mais bela do que nun-
ca, mais perturbadora do que nunca, mais mu-
lher do que nunca — com teu marido. Sabes
porque muitas de nós se perdem? Porque jul-
gam, na ingénua sinceridade da sua dor — po-
bres delas ! — que é com a fuga, com a amea-
ça, com o escândalo, com todo o horror das
recriminações e das lágrimas, que se recon-
quista o amor dum homem. Os nossos maridos
Voltam sempre, Mary; e quando nào Voltam, é
porque nós os repelimos. Estou vendo daqui o
senhor teu marido, com os seus olhos bleud^en-
fer, com a sua elegância talhada em bronze,
com o seu sorriso frio como uma bola de cris-
tal,— a aborrecer-se das scenas de ciúmes que
tu lhe tens feito, e a achar que a tua amiga
(estas coisas acontecem sempre com as nossas
melhores amigas) é muito mais interessante
quando se ri do que tu quando choras. Não. Nós
7
és MULHERES Í)E HOJÊ
não devemos fazer-nos feias quando mais pre-
cisamos de ser bonitas. Eu bem sei, Mary, que
é necessária uma grande dose de bom senso e
de sangue-frio para sorrir a um homem a quem
nós desejaríamos de todo o coração poder ba-
ter; mas, quando os nossos maridos nos enga-
nam, minha filha, <c'est Vlieiire des grandes
âmes^, — Q não me parece e?<lremamente difícil,
mesmo a quem ama como tu ou a quem é or-
gulhosa como eu, fazer à própria felicidade o
sacrifício de educar os nervos. O teu marido
engana-te ? Sê calma — e sê bela. Êle Voltará.
Depois du.ma infidelidade, os maridos voltam
sempre mais ternos, mais gentis, mais apaixo-
nados do que nunca. Porque não vêem vocês
passar em Nice a sua segunda lua de mel ? Nós
continuam.os aqui, no Splendid, até fim de Se-
tembro. Era uma bela idea, não é verdade? Eu
bem sei, minha querida filha, que os nossos ma-
ridos são detestáveis, — mas que havemos de
fazer, se não tem.os outros ?
Tua, — Guida.
ÁS MÃOS
Maria Júlia acordou em sobressalto. O cora-
ção batia- lhe com força. Tinha a testa inundada
de suor frio. Á boca sabia-lhe a sangue. Fêz
um esforço intelectual para reconhecer onde es-
tava. Na escuridão, sentou-se na cama, es-
cutou, tacteou. As suas mãos encontraram uma
massa morna, gelatinosa, arquejante. Era um
homem. Era o seu companheiro de acaso, na-
quela noite. Na torre de S. Paulo bateram as
três da madrugada. Um cheiro acre a palha e a
bafio sufocou-a. Dormira, mais uma vez, na hos-
pedaria da rua do Carvalho, tão conhecida já
dos seus dois anos de miséria. O calor viscoso
daquele corpo fê-la estremecer; sentiu crispar-
-se-lhe a pele num movimento instintivo de re-
pugnância. Quem seria aquele homem ? Mal ti-
vera tempo de o Ver. Dei?<ara-lhe a Vaga impres-
são dum casacão amarelo, duma voz rouca,
duma barba hirsuta e grisalha, duns braços pos-
lÔO MULHERES DE HOJE
santes que a tinham sacudido, apertado, calca-
do. Ficou uns minutos, na treva, a ouvi-lo res-
pirar. Era o ronco brutal e pacífico dum animal
que dorme. Imóvel, a respiração quási suspen-
sa, Maria Júlia esperou, com a resignação das
abandonadas, que clareasse a manhã. Os len-
çóis de estopa ardiam-lhe na pele. Zumbiam-lhe
os ouvidos. Quis adormecer; não pôde. Passa-
Vam-lhe pela cabeça, num tropel, os horrores da
sua vida inteira. Reviveu toda a sua infância
aos pontapés; o abandono, o asilo, o hospital,
a fome; a mãe morta, com as veias abertas,
numa poça de sangue, o pai embarcado para o
Brasil quando ela tinha sete anos; os vizinhos
a griíarem-lhe, no pátio: — «Manuel da Cruz,
tenha dó da criança, que é sua filha !>; — e na
escuridão, na imobilidade, no silêncio, adivi-
nhando cada vez mais Vivo, mais mordente, o
calor daquele corpo desconhecido, Maria Júlia
sentia as lágrimas a escaldarem-lhe a cara, o
peito a arquejar-lhe com força, e toda a cama
tremia já do arranco dos seus soluços. A obs-
curidade oprimia-a; a cabeça andava-lhe à roda;
vacilou, numa vertigem; acendeu a luz. O ho-
mem dormia serenamente, de costas, a barba
empastada de suor, o arcaboiço largo arfando
numa camisola velha de mescla azul, a mão di-
reita espalmada sobre o peito. Maria Júlia le-
vantou a Vela, debruçou-se, observou-o, — es-
AS MÃOS 101
tremeceu. Os olhos fíxaram-se-lhe, redondos de
pavor, naquela mão espessa, maciça, enorme,
queimada de tabaco, eriçada de pêlos ruivos,
onde brilhava um anel de prata. Cambaleou.
Dominou-se, para não gritar. Tinha conhecido,
na sua infância, umas mãos assim- A tremer,
aproximou a luz da cara do homem, — e olhou-o,
e fitou-o ansiosamente. Uma expressão de dú-
vida horrível crispou-lhe as feições. Seria êle?
não seria êle? Num lampejo, pensou em tudo,
— em sacudi-lo, em acordá-lo, em fugir, em gri-
tar, em esmigalhar a cabeça de encontro às pa-
pedes. Num esforço de todas as suas reminis-
cências infantis, olhou ainda, uma vez mais,
aquela mão musculosa, ruiVa, felpuda, possante
como uma pata de fera. Queria saber, queria
ter a certeza. Atirou-se para os pés da cama.
O sangue ardia-lhe nas faces. Perdida, ofegan-
te, travou das roupas do homem, — revolveu-as,
rebuscou-as, despedaçou-as. Achou uma carta,
um sobrescrito com um nome. Abriu os olhos,
fitou esse papel mudo onde estava escrita a sua
sentença. Não sabia ler. Numa angústia, num
desespero, sustendo a respiração, calçou-se,
Vestiu-se, atou o lenço, embrulhou-se no chaile
— e, com os dedos fincados na carta, desceu a
escada, de roldão. Era madrugada. Uma lufada
de ar fresco bateu-lhe na cara. Na rua, a luz
azulada da manhã alastrava como uma névoa.
102 MULflERES DE HOJE
Maria Júlia correu a um polícia, que cabaceaVa
encostado a um candieiro ainda aceso, e páli-
da, opressa, mal podendo falar, pediu-lhe que
lesse o nome escrito naquele papel. O guarda
encarou-a, viu a carta, e leu :
— Manuel da Cruz.
Diante dele, Maria Júlia caiu sem um grito,
como um corpo morto.
TIA ANGÉLICA
Logo que cheguei a Viseu, recebi a visita
do meu amigo João de Albuquerque, da casa
de ***, ao cimo da Vila, nobre morada em cuja
pedra de armas, entre dois leões batalhantes
de oiro, floria em pala, cosido de Verde e ar-
rancado de prata, o cardo heráldico dos Car-
dosos. Não o via já havia oito anos. Estava Ve-
lho, calVo, usava óculos e Vinha Vestido de ri-
goroso luto. Abracei-o :
— Quem te morreu ?
João de Albuquerque desprendeu-se do meu
abraço, deixou-se cair num cadeirão de sola, e,
numa expressão sinceramente compungida, res-
pondeu-me :
— A tia Angélica.
Eu tinha-a conhecido, quando, oito anos
antes., passara por Viseu. LembraVa-me ainda
da vivacidade com que ela conversava. Era
uma (lassas virgindades septuagenárias que en-
104 MULHERES DE HOJE
Velheceram a sorrir, que são toda a ternura
e todo o encanto das casas fidalgas, passa-
rinhos decrépitos que em Vez de andar salti-
tam, que em vez de falar gorgeiam, e em cujo
olhar, pela segunda Vez infantil, há ao mesmo
tempo a serenidade incomparável dos velhos e
a graça transparente das crianças. Devia ter
sido bonita. Ela mesma me mostrara, num da-
guerreotipo, o seu retrato dos vinte anos, um
pouco imperatriz Eugenia, tirado no tempo dos
camafeus, dos bandós e das saias de balão. A
sua figura, majestosa na mocidade, encarqui-
lhara, ressequira, espiritualizara-se, amarelara
como um antigo marfim, tornara-se, com a
idade, leve, graciosa, fluida, pequenina. Tudo
envelhecera nela — menos os olhos, muito pre-
tos, muito vivos, muito alegres, uns olhos es-
curos, de rapariga, que, ao pé dos cabelos
brancos e da touca branca, pareciam ter, si-
multaneamente, o negro baço de certas viole-
tas e a scintilação roxa de certos cristais. Edu-
cada ali perto, nas beneditinas do Bom Jesus,
trazida para o solar aos dezoito anos, por
morte do pai, — vira casar todas as irmãs, flo-
rir todas as primaveras, poVoarem-se todos os
ninhos, e resignada, risonha, contente, sempre-
-virgem e sempre-noiva, vivera cercada da feli-
cidade dos outros e morrera talvez — quem
$abe? — na doce ilusão de ter vivido feliz.
TIA ANGÉLICA 105
- — Tivemos um grande desgosto, — disse o
meu amigo, depois de um silêncio, o chapéu
mole de veludo a rolar-lhe nos dedos.
— Quando morreu ?
~A semana passada. É amanhã a missa do
oitavo dia.
Uma luz rosada de tarde enchia a sala do
hotel provinciano onde eu recebera João de Al-
buquerque. Conversámos. Vinha buscar-me
para jantar. A mulher queria que eu ouvisse
ler os papéis da tia Angélica, encontrados, no
próprio dia da sua morte, dentro duma antiga
escreVaninha de espinheiro. Eram, dizia ela, o
documento duma alma. Todos conheciam o en-
canto da Velha senhora na delicada prenda de
conversar ao serão, ^cctle filie expirante dcs
arístocratics oisivcsy>, como lhe chamou Bar-
bey d'Aurevilly; mas ninguém pudera supor,
nem a própria família, que ela nos deixasse,
nas folhas desmaiadas dum diário, as melhores
memórias da sua vida. Saímos. Meia hora de-
pois, estávamos ambos na casa solarenga do
Cimo da Vila. Era um pesado solar do século
XVIII, com uns silhares ricos de azulejo de ca-
beceiras, dois ou três tectos que se supunham
pintados por Pedro Alexandrino, e um pátio
que parecia suspirar, há oitenta anos, pela
berlinda Velha da casa. A obscuridade e o si-
lêncio dcram-me a impressão de que tinha en-
106 MULHERES DE HOJE
trado numa igreja. Beijei a mão da mulher do
meu amigo, cuja beleza loira se empastara,
mas cujo nariz Bourbon mantinha ainda a no-
breza antiga do perfil, e deixei-me apresentar a
duas curiosas figuras de homem, — um, míope,
oleoso, redondo, que pela volta roxa parecia
Vagamente cónego da Sé de Viseu, o outro
alto, seco, velhíssimo mas elegante ainda, os
ombros largos, o queixo enérgico, o cabelo ra-
pado e luzidio como um soll-deo de seda
branca, que se abanava com um lenço de mu-
lher e a quem João de Albuquerque tratou fa-
miliarmente de -oprimo general». Depois do
jantar, reanimo-nos os quatro em volta da
mesa para ouvir ler os papéis da tia Angélica.
O padre, de mãos cruzadas sobre o ventre,
dormitava. O general aproximou da leitora uma
serpentina de prata de seis lumes. A mulher do
meu amigo, folheando os papéis donde parecia
evolar-se um Vago bafio de flores, disse-me que
a página mais comovente era a última, — es-
crita pela ilustre senhora seis dias antes da sua
morte. Pedi-lhe que m.a lesse. A leitura come-
çou, serena, pausada, grave:
«Dia 22 de Abril —Faço hoje setenta e
dois anoS; e ainda gosto de ter flores no meu
quarto. Dizem que é triste envelhecer. Não
acreditem. O que é triste é não saber envelhe-
TIA ANGÉLICA 107
cer. Quando eu era nova e bonita, parecia-me
que havia de sofrer muito em me vendo feia e
Velha. Os primeiros cabelos brancos chegaram,
e eu aceitei-os com resignação, quási com ale-
gria,— porque percebi que me ficavam melhor
do que os pretos. Se hoje me olho nos espe-
lhos doirados da sala, em que me Via aos de-
zoito anos, não tenho pena de mim; tenho
pena dos espelhos, coitados, -— que mudaram
tanto. Que importa que a mocidade nos aban-
done, se o coração nunca envelhece ? Cheguei
ao inverno da vida com a mesma frescura de
sentimento da minha primavera. Será porque
envelheci sem me casar? Minha mãe, quando
eu saí do convento, contaVa-nos, a mim e a
minhas irmãs, a história da palmada com que
Santo Onofre recebe no céu as mulheres que
morrem solteiras. Eu lembrava-me das doces,
das tranqíiiias, das felizes Velhinhas que dei-
?<ara no Bom Jesus, de Soeur Jeanne, da se-
nhora Abadessa, da donata dispenseira que
tinha oitenta anos e uns olhos azuis muito vi-
vos; ria me, na minha inocência, da cara com
que elas receberiam todas a palmada de Santo
Onofre, e, muito em segredo com a minha
alma, pedia a Deus Nosso Senhor que não me
deixasse envelhecer solteira. Mas Deus não
quis ouvir me — Êle lá sabe porquê — e as mi-
nhas rosas secaram sem ninguém as colher. Eu
108 MULHERES DE HOJE
bem tenho sentido sempre, em Volta de mim, o
murmúrio de terna piedade, o sorriso de quási
compaixão que acompanham, por toda a parte,
as vieilles demoiselles. Julgam-nos infehzes;
pensam que nós sofremos com a felicidade
alheia, — e teem pena de nós. Engano. Nós
outras, que envelhecemos sem nos casar, so-
mos mais felizes do que aquelas que um dia
imaginaram ter realizado o seu sonho. Todo o
bem que se realiza é uma ventura que se per-
deu. Deus quis que eu não soubesse o que era
a perturbadora delícia de ser esposa, a como-
vida felicidade de ser mãe; mas não me fez
sofrer em troca , como àquelas que foram
amadas e possuídas, o horror da primeira in-
diferença, o traVo da primeira saciedade, o in-
ferno da primeira desilusão. Conheci apenas o
amor, de o ter sonhado a Vida inteira Quando
uma mulher foi bela como eu fui, e envelheceu
solteira como eu envelheci, — é porque chorou
toda a Vida um homem que lhe morreu, ou por-
que esperou toda a vida um homem que lhe fu-
giu. Os meus lábios murcharam; os meus cabe-
los embranqueceram; as minhas mãos tremem de
velhice, — e ainda hoje, aos setenta e dois anos,
diante das flores do meu quarto, espero por
êle, pelo bem-amado da minha alma, com o
mesmo alvoroço, com a mesma ternura, com
a mesma inocência . . . É a Velhice que nos en-
TIA ANGÉLICA 109
sina a sonhar, a sorrir e a esperar ;— e só é
feliz na Vida quem sonlia e quem espera. Bem-
dito seja Deus, que não deixou envelhecer no
meu coração o homem por quem espero há
cincoenta anos ! ■»
A voz da leitora calou-se. Nesse momento,
não sei porquê, lembrei-me do Velho general.
Encarei-o, fixamente. Nos seus olhos imóveis,
duas grandes lágrimas brilhavam.
IBSENÍANAS
Minha amiga : — A sua carta é interessantís-
sima. Li-a duas, três vezes. Como você é infi-
nitamente mulher, — em tudo quanto pensa, em
tudo quanto diz, em tudo quanto escreve ! Não.
Só num ponto você errou. Quem foi que lhe
disse mal de Ibsen? Enganaram.-na. O grande
norueguês não tem, em nenhuma das suas obras,
uma palavra só contra a mulher. Toda a litera-
tura escandinava, com excepção de Strindberg
e do sombrio Sõren Kirkegaard, é uma literatu-
ra estruturalmente feminista. O fjord de Cris-
tiânia, coalhado de navios, hirsuto de montanhas
azuis, assistiu, na luz doirada e incomparável do
norte, ao mais nobre piaido\'er da Eva moder-
na. Há, de-certo, confusão com o ilustre sueco
que escreveu a Saga de Pedro, o Afortunado.
Strindberg, sim. Depois do grande Nietzsche,
que a parilisia geral liquidou, não sei de ne-
nhum misógino tão furiosamente intransigente.
112 MULHERES DE HOJE
Foi Strindberg que pronunciou a frase célebre:
«A mulher é tudo quanto nos resta do macaco.»
Que é o Pai, senão um libelo ? Que é a Con-
dessa Júlia, senão uma dolorosa blague? Mas
não o confunda com Ibsen, minha querida ami-
ga. As mulheres que passam na obra do grande
desterrado de Munich e de Veneza, são, todas
elas, exemplos de dignidade, de nobreza, de
poesia, de resignação e de graça. Hedda Ga-
bler, excepcionalmente, tem a perversidade, a
crueldade voluptuosa de certas histéricas ? Mas
a própria Hedda Gabler é uma mulher supe-
rior, que sabe «v/vt^ et mourir en beauté^. De
resto, que doce teoria de virgens e de amoro-
sas, de abandonadas e de sacrificadas desfila
tremendo, soluçando, sorrindo, nesses intensos
clarões de génio que são os Vinte e quatro dra-
mas de Ibsen ! Desde Nora, símbolo eterno da
revolta contra a «lei do homem :>, até à loira
Elida da Dama do Mar, misteriosa, orgulhosa,
atravessando a vida no delírio de ser «livre e
responsável»; desde a Solveig, de olhos azuis,
vestida de branco, um livro de orações na mão,
esperando na velhice o seu exilado Peer Gynt,
até à fria Svanhild, que ignora a felicidade
porque desconhece a fé que move montanhas;
desde a triste Edwiges, morta como uma ovelha
branca de sacrifício, até Rabeca West, expres-
são da mais alta dignidade moral; finalmente,
IBSENIANAS 113
desde a trágica Inger, a mulher nobre da No-
ruega do século XVI, dilacerada entre o amor
da pátria e o amor dum filho, até Ilda, musa
criadora e inspiradora do construtor Solness,
— quantas figuras adoráveis de mulher esvoa-
çam, palpitam, resplandecem nesses scenários
de fjords brancos, de montanhas brancas, de
céus brancos, duma impassibilidade e duma
imobilidade de êxtase ! Não, minha querida
amiga. É certo que Ibsen escrevia as suas pe-
ças entre um escorpião e um ramo de flores.
Mas o seu génio soube colher o perfume e des-
prezar o Veneno. O ilustre norueguês, que
amou «como se ama quando se ama uma só
Vez na vida», teve um pensamento dominador
em toda a sua obra : a dignificação da mulher.
Quando Eva ruge nos versos de Ibsen, — Eva
tem razão. É a oprimida que se revolta; é a
estrangulada que pede ar ; é a humilhada que
exige uma lei nova, uma jusHça nova, uma so-
ciedade nova. No teatro de Ibsen há só um
condenado : o homem. É o mesmo condenado
do teatro de Hervieu, deTolstoT, deHauptmann,
de Brieux, de Curei, de d'Annunzio. É a fera,
é a sombra, é o crime. A mulher é apenas o
que o homem quer que ela seja. Que direito
tem o homem de se queixar — disse Ibsen — se
a mulher é a sua própria obra? Ah, minha que-
rida amiga, - Ibsen e você precisam de se re-
8
114 MULHERES DE HOJE
conciliar. Aí lhe mando, com uma tradução in-
glesa de Rosmersholrtiy esse ramo de flores
azuis. Sabe? Antes de lhe escrever, estive fo-
lheando o meu velho Nietzsche. Li esta bouta-
de : «Quanto mais inteligente for a mulher,
mais o homem se afasta dela.:^ Não deve ser
verdade, — porque eu cada vez me sinto mais
irresistivelmente atraído para si.
1
AS NOSSAS MULHERES
O professor eminente que é Bento Carqueja
acaba de publicar um livro sob muitos aspectos
notável : O Povo Português, Esse livro cheio
de revelações, orientado por um rigoroso espí-
rito scintífico e obedecendo às exigências da
mais nobre elegância literária, é o primeiro es-
tudo completo do nosso povo, revelado nos seus
caracteres demográficos, que se publica em
Portugal. Há muito tempo que o ilustre profes-
sor traçara as linhas fundamentais deste traba-
lho ; o censo geral de 1911, porém, alargando
inesperadamente a área dos elementos estatís-
ticos oferecidos à sua reflexão e ao seu estudo.
Veio determiná-lo na conclusão duma obra que
honra as suas admiráveis faculdades e que, na
efémera livraria portuguesa do nosso tempo,
marca uma data e dignifica um nome.
Tenho a certeza de que Bento Carqueja sor-
riu ao ler o título do meu artigo. Pois quê ?
116 MULHERES DE HOJE
Como pode haver o perfume do mais ligeiro
interesse feminino nesse livro pesado e forte,
sóbrio e vigoroso, que é o Povo Português?
Como pode a obra grave dum demógrafo e
e dum economista, em quinhentas páginas de
profundidade, de raciocínio e de método, pren-
der, por um só instante, essa pequenina borbo-
leta inquieta que é a atenção duma mulher?
Como ? Dizendo-lhe, entre muitas coisas que
ela felizmente não sabe, algumas que^com cer-
teza gostará de saber, — porque a interessam,
porque a tranquilizam e porque a lisonjeiam,
De-certo a loira M."'^ Y., que a estas horas, na
Livraria Chardron, descalça a sua grande luVa
cinzenta para folhear o livro de Bento Carqueja,
ignora que há em Portugal mais mulheres do
que homens, e — o que é interessante — que,
de todos os países da Europa, aquele onde existe
proporcionalmente maior número de mulheres,
é Portugal. Em cada 100 habitantes, há, para
47 homens, 55 mulheres, — o que, se ainda é
pouco sob o ponto de vista galante, é evidente-
mente demais sob o ponto de vista económico.
Essa lamentável — perdão. . . — essa encanta-
dora superioridade numérica acentua-se, de censo
para censo : para cada 1.000 homens, havia, em
1919, 1.069 mulheres; em 1918, 1.088; em 1911,
1.104, — donde se conclui que Portugal é, não
só o país da Europa onde há mais mulheres,
j
AS NOSSAS MULHERES 11?
mas também aquele onde há cada vez mais
mulheres, o que, por um mero sentimento de
delicadeza, me não atrevo a achar assustador.
É claro, esse e?<cesso é maior nuns distritos,
menor noutros ; em geral, maior no norte, me-
nor no sul, — maior na planície, menor na mon-
tanha. O distrito de Portugal onde as estatísti-
cas acusam o maior predomínio numérico de
mulheres é o de Viana do Castelo, — o que
nos mostra que o acaso, esse «pseudónimo de
Deus^, como lhe chamou Theophile Gautier,
teVe a e?icelente . previdência de fazer nascer
mais mulheres precisamente onde elas são mais
bonitas. Mas as estatísticas leVam-nos a conclu-
sões inesperadas e parado?<ais. Sabem onde a
nupcialidade é mínima, — quer dizer, onde se
encontra maior núm.ero de hom.ens solteiros?
Exactamente em Viana do Castelo, — onde há
mais mulheres. Aumienta a produção, — diminui
o Valor. É por isso que a mulher portuguesa se
casa pouco. Só há um país onde, proporcional-
mente ao número de habitantes, há menos ca-
samentos do que em Portugal : é a Suécia.
Dir-se ia que a literatura misógina de Strindberg
influiu na diminuição da nupcialidade escandi-
nava. É possível. Mas, ainda assim, o coefi-
ciente de matrimonialidade (núm.ero de núpcias
em relação ao número de núbeis) mantem-
-se, mesmo na Suécia, muito superior ao de
118 MULHERES DE HOJE
Portugal. A maritabilidade da portuguesa é
mínima, — o que e?<plica o grande número de
ilegítimos, constituído em Lisboa por um terço,
e no Porto por um quarto do total dos nasci-
mentos. Isto é lamentável, — e de-certo a peque-
nina mão branca de M.*"* Y. fecharia nervosa-
mente o livro de Bento Carqueja, se êle lhe
não desse a excelente novidade de que Portu-
gal, sendo o país da Europa onde as mulheres
nascem mais, é também o país da Europa onde
as mulheres morrem menos. Está averiguado
que a longevidade da mulher é, por toda a par-
te, superior à do homem. <Dans toujs les pays
da monde — diz a Longévité à travers les ages,
de Legrand, que tenho aberta sobre a minha
mesa de trabalho — en Europe et en Amérique,
à chaque recensement, le nombre de femmes
longévites e centenaires a foujours dépassé
celui des representanfs da sexe fort.-^ Jean
Finot, na sua Philosophie de la longévité, já
tinha chegado à mesma conclusão. A mulher
vive mais do que o homem em todos os países,
— mas, especialmente, em Portugal. Pelo censo
de 1911, em cada 395 centenários, há 130 ho-
mens e 265 mulheres, — o que assegura à mu-
lher portuguesa uma longevidade de crocodilo
ou de papagaio; pela comparação das nossas
estatísticas com as estatísticas estrangeiras, Ve-
rifica- se que em nenhum país europeu as mu-
4
AS XOSSAS xMULHERES 119
Iheres de 90 a 100 anos são tão numerosas
como em Portugal, ~ o que, duma maneira deli-
cada, quer dizer que vivemos numa terra de ve-
lhas. Em resumo : em Portugal, as mulheres,
fisiologicamente mais resistentes do que os ho-
mens, são muitas, casam pouco e morrem tar-
de. Donde se prova — o que não pode deixar de
ser muito agradável a M."^^ Y. — que, pelo me-
nos entre nós, o sexo fraco — é o mais forte.
J
MULHERES DE ONTEM
AS AMANTES DE D. MIGUEL
I
A história anedótica tem-se ocupado, desde
Camilo até Barlx)sa Cólen, da vida amorosa de
D. Miguel. Grande parte das aventuras do filho
de Carlota Joaquina são conhecidas. Poucos
príncipes portugueses podem orgulhar-se de ter
despertado tantas paixões, — naturalmente por
que poucos possuíram o prestígio duma tão no-
bre e tão viril beleza. As mulheres adoraVam-
-no. Em Viena de Áustria como em Lisboa, em
Paris como em Londres, infante ou proscrito,
emigrado ou rei, D. Miguel deixou sempre no
seu rasto, como um tapete de rosas desbota-
das, — êxtases e sorrisos, beijos e ilusões, so-
luços e abandonos. Era um lindo rapaz — a
face italiana do retrato de Giovanni Ender, os
olhos ardentes dos carvões admiráveis de Se-
queira — ; nada se parecia já com a realeza ba-
lofa e austríaca, obesa e idiota, prognata e se-
dentária, que dera D. João V e D. José, Pe-
124 ' MULHERES DE ONTEM
dro III e D. João VI. Pela primeira vez, desde
o loiro D. Sebastião, a beleza romântica se en-
controu consubstanciada na majestade real. A
estirpe de monstros floria num arcanjo: os
Amores haviam de revoar, pequeninos e alados,
em Volta do seu gládio de oiro. Não tiveram
contas as bonnes-fortnnes de D. Miguel. Desde
a bailarina Margarida Bruni, de que o Duque de
Loulé quisera fazer a Fanny Essler deste novo
arquiduque Carlos, até à escandalosa aventura
de Paris, que dei?<ou a uma polaca a alcunha de
^Princesse de Portiigah; desde a enganada e
dolorosa Margarida Adriòa, até à saloia de Que-
luz, Maria Evarisia, de carapuça bicuda de ve-
ludo preto, a sapatear o fandango ; desde a cé-
lebre tamanqueira de Braga, em que fala Camilo,
até à fidalga de Guimarães, D. Emília, com mui-
tos cunhais de armas no solar e muitos grilhões
de oiro ao pescoço ; desde a mulher casada que
o endoideceu em Viena e se meteu a freira, até à
actriz, espécie de M.^"^ de Maupin, que se quis
bater com êle, à espada, debai?iO dos arvoredos
do Campo Grande, — quantas figuras de volúpia
e de encanto, de sedução e de mistério passa-
ram na vida amorosa do infante-rei, e como esse
bravo rapaz, cheio de força e de beleza, de vi-
rilidade e de raça, correu toda a escala do Amor,
tambonr baitant, desde as leiras de trigo ma-
duro onde as saloias rebolavam, até aos pre-
AS AMANTES DE D. MIGUEL 125
guiceiros de damasco e aos potes de prata das
alcovas fidalgas de Lisboa !
Pois bem, Á extensa lista das apaixonadas
de D. Miguel, eu venho trazer mais um nome :
Aíiss Askion. É desconhecido ainda. Ericon-
trei-o nos papéis inéditos do agente diplomático
de confiança do Governo Português junto de
S. M. Britânica, António Ribeiro Saraiva, que
fiz adquirir em Londres, há três anos, ao súb-
dito inglês sír E. West. Saraiva diz-nos que
Alíss Askion foi em 1828, em Plymouth, uma
das aventuras dò filho de Carlota Joaquina. Era
trigueira, bela, viva de espírito, olhos negros,
tipo semelhante em tudo ao de D. Miguel, que
lhe deixara um esmalte com o seu retrato, — e
tão fácil de sucum.bir ao galanteio dos portu-
gueses, que, tendo em 1828 amado apaixonada-
mente o príncipe, parece não ter sido insensí-
vel, em 1832, ao seu agente diplomático de con-
fiança. Dizia-se filha de um capitão de navios
da marinha inglesa, dansava admiravelmente
contradanças com a nova marca de Treinitz, e
aparecera a Ribeiro Saraiva, então rapaz de 31
anos, loiro, robusto e jovial, primeiro num baile
em casa de Madame Woodhead, depois num
pic-nic, em pleno nevoeiro de Beulah's-Spa,
perto de Norwood. A nota mais interessante co-
lhida pelo moço diplomata é a da similhança
fisionómica de Miss Askion com D. Miguel.
126 MULHERES DE ONTEM
cSem ser uma beleza perfeita, é, contudo, bo-
nita e interessante, e não lhe falta talento ; no-
tei-lhe muita analogia entre a sua fisionomia e
a de El-rei, o que pode talvez explicar o por-
que êle se inclinou mais facilmente a ela que a
outras, mais bonitas.* Depois do pic-nic de
BeulahVSpa, na noite de 7 de Julho de 1832,
Saraiva, já apaixonado também, escrevia no seu
Diário: «Passeei primeiro com Elisa Dickens
e depois com Miss Askion, a menina a quem
El-rei fêz suas distinções, quando passou em
Plymouth em 1828 ; e se a distinguiu El-rei, tam-
bém o seu representante em Londres, agora, a
não desatendeu ...»
Miss Askion ! Mas que importa, na Vida ga-
lante dum rei, um nome de mulher a mais? —
perguntarão. Que importa mais um beijo, mais
uma flor, mais um coração, mais um farrapo ?
Engano ! Foi Carlyle que o disse: as mulheres
hão de ser sempre o sorriso da História.
o BUSTO DA DUQUESA
Tçixeira Lopes, na sua passagem por Lisboa,
quis ter a bondade de mostrar-me a sua última
obra : o busto da Duquesa de Palmela, D. Ma-
ria Luísa de Sousa Holstein. Vi-o no pequeno
atelier que foi do inglês Calmeis, em plenos
jardins do palácio do Rato, na luz vagamente
doirada duma destas manhãs de Setembro. Há
muito tempo que não recebia uma tão nobre e
tão profunda comoção de arte. Seja-me permi-
tido agradecê-la daqui ao grande escultor, or-
gulho do nome português, ~ certo de que não
há prazer intelectual que Valha, para um espí-
rito educado na dignidade das emoções estéti-
cas, o elevado prazer de admirar.
O busto da Duquesa de Palmela, que as ma-
ravilhosas mãos de Teixeira Lopes tocaram com
a ternura duma carícia, ficará na história da es-
tatuária portuguesa contemporânea, ao lado do
128 MULHERES DE ONTEM
busto da Inglesa j de Soares dos Reis. Resplan-
dece, nas criações dos dois mestres, o mesmo,
clarão de génio. São duas obras irmãs. Que
frescura, que fluidez, que espiritualidade há na
expressão desse márm.ore admirável, onde uma
grande figura de Mulher ressurge para a vida
eterna das estátuas ! A Duquesa de Palnielay
de Teixeira Lopes, é, simultaneamente, o espí-
rito e a raça, a doçura e a energia, a altivez
fidalga e a graça acolhedora. Tem a cabeça le-
vemente inclinada sobre o ombro, na sua ati-
tude habitual ; o cabelo ondeado e alado em
dois bandós crespos ; a linha do nariz impera-
tiva e nobre ; o sorriso tranquilo, espiritual, in-
teligente, indefinível, enrugando-lhe a comissura
das pálpebras, fazendo-lhe arfar de leve a nari-
na, florindo-lhe na boca finamente polpuda, ilu-
minando-lhe os dentes iguais, — como se, em
volta desses lábios de austríaca, o mármore,
palpitando, ganhasse a transparência luminosa
duma gota de água, a imaterialidade perturba-
dora de um perfume. O grande artista, que sou-
be fixar, num lampejo de intuição, tudo quanto
havia de rápido, de fulgurante, de fugitivo nessa
^expressão infinitamente intelectual, quis com-
prazer-se, com a arte clara dum grego e a vo-
lúpia ansiosa dum italiano da Renascença, em
arrancar àquele bloco de calcáreo, golpe a gol-
pe, scenteiha a scentelha, um espírito que lateja
I
o BUSTO DA DUQUESA 129
e freme, uma inteligência que resplandece e tu-
multua, uma graça que encanta, que sorri e que
enternece. Teixeira Lopes procurou nos retra-
tos de Carolus Duran ; procurou no carvão de
Carlos Reis; procurou no esm.alte da Romani;
procurou no fundo da sua própria alma e da sua
própria saudade ; naquela atmosfera de atelier,
que ela respirava ; naquela luz doirada, que a
envolvera; — e gérmen a gérmen, clarão a cla-
rão, grito a grito, sonho a sonho, a imagem foi
surgindo, desbastando a faíscas o mármore, re-
Velando-se, espiritualizando -se, vivendo a vida
imortal da pedra humanizada, faiando com os
seus lábios brarxos de espectro, sorrindo com
a sua boca fria de aparição- Batia lhe em cheio
um. raio de sol quando a vi florir, translúcida,
sobre um trapo de rico Vermelho, no atelier que
fora de Calmtls. Entre um fauno e Diógenes,
entre uma cadeira Velha e um biombo de xarào,
— senti que ela me sorria ; que a sua gola de
rendas palpitava ; que o seu colar de grandes
pérolas, o colar que fora da sobrinha de Ma-
zarin, arfava e tremia respirando com ela, — e,
meu caro Teixeira Lopes, eu, que apenas vira,
que apenas falara uma Vez, há dezaseis anos, a
essa singular m lh?r que dominou, com o seu
prestígio e com o seu talento, a segunda me-
tade do século XIX, — eu tornei a Vê-la viva, a
ouvi-la, ;^falar-lhe, emquanto uma manhã clara
130 MULHERES DE ONTEM
de Setembro cantava lá fora, e o perfume das
últimas flores do jardim, numa lufada fresca,
entrava pelas janelas. . .
Como eu lamento, Teixeira Lopes, não saber
dar às minhas palavras a leveza, a trasparên-
cia e a graça do seu mármore!
AVÓSINHAS
Encontrei hoje, entre papéis' velhos, um maço
de figurinos de 18-10 — ingénuos, coloridos e
leves. Vinte e quatro ou vinte cinco cabeças
de mulher. Pertenciam ao dossier que eu reu-
nira, em 1904, para escrever Um Serão nas
Laranjeiras Folheei a pequena colecção donde
se desprendia um vago cheiro a baíio e a rosas
secas, e ao chegar ao último figurino, reprodu-
sido pela litografia sobre um papel francês que
o tempo encheu de manchas doiradas, perguntei
a mim próprio porque motivo não ressurgirão as
nossas mulheres de agora as encantadoras mo-
das dos penteados de 1840.
Essas vinte e quatro cabeças cheias de flores,
de jóias e de caprichos, fizeram-me sorrir — e
fizeram-me pensar. Quasi um século já ! As be-
lezas de 1809 e de 1812, vestidas de musselina
e penteadas à grega, com pantalonas côr de
carne ee'<;/fí7r/7^5 transparentes, anéis nos dedos
152 MULHERE- DE ONlEM
dos pés e jóias nos bicos dos peitos, tinha su-
cedido a beleza bvroniana e grave, romântica e
triste das elegantes da Constituição, com gran-
des laços azuis e brancos na cabeça e os meni-
nos ao colo pelas salas de baile, — porque era
então moda dar de mamar aos filhos diante de
toda a gente. Foi esta elegante de olhos pro-
fundos e m.arcados a bistre pelas olheiras, a
Musa tutelar dos casacas-de-briche do Vintismo,
— a mulher amada por Garrett e por Mousi-
nho, por Borges Carneiro e por Fernandes To-
más, a inspiradora dos homens do sinédrio e a
mãe das elegantes de 1840. Desde os penteados
à Constituição, até às cabeça nobres e discre-
tamente sensuais das <leôas> das Laranjeiras,
— correm vinte anos em que os cabeleireiros da
Lisboa de D. Maria il se penitenciaram da obra
exuberante e ridícula, empoada e monstruosa
dos seus antecessores do século xviii. Então,
sim : fez-se arte. Percorrendo os figurinos por-
tugueses da época, no Jornal das Damas e no
Jornal d ís Famílias — as melhores publicações
sobre modas que houve na Lisboa de 1840 —
Vêem-se desfilar, em traços leves, coroando
elegâncias convencionais de ombros e de nucas,
penteados que são um primor de invenção e de
ligeireza, de graça e de espiritualidade. Os ca-
beleireiros lisboetas do tempo, o Galvão, o
Devy, o Baron, fizeram-nos esquecer as extra-
AVÓSIXHAS 133
vagâncias do Pedro Maria, cabeleireiro de Car-
lota Joaquina, e os exc-ssos de todos os riça-
dores e poivilhadores da Lisboa apostólica de
Pina Manique. Fui uma desforra brilhante. Nunca
a portuguesa se penteou melhor do que para os
bailes do Conde de Farrobo e da Baronesa da
Regaleira, dos Marqueses de Viana e dos Con-
des de Penafiel. A característica dos penteados
de 1840 a 1850 era a leveza, a grac'Osidade, a
simplicidade, um «não sei quê> de infantil e de
ligeiro que Eugénio Lami surpreendeu com tanta
finura, e que dava às elegantes das Laranjeiras
o ar de bebés, —grandes bebés frisados, enca-
racolados, cheios de laços, de rendas, de flores,
saltitantes nos seus vestidos curtos de organdi
cor de rosa ou de gros de Nápoles, nas suas
botinas razas de duraque azul e nos seus enor-
mes Bolívares de setim e pérolas. Foram inúme-
ros os tipos do penteado feminino no meado do
século XIX. O mais simples, o mais fácil, o mais
gracioso era o penteado francês à Croisat,
género cocen-Vairy — um grande laço de setim
erguido sobre um chígnon e um penteado vul-
gar de bandós. Depois, logo a seguir por ordem,
de complexidade, vinha o penteado D Maria II,
imitando o que a Rainha costumava usar nas
noites de S. Carlos, — duas madeixas encanu-
dadas caindo adiante das orelhas, o cabelo
apanhado em grinaldas de pequeninas rosas, e
134 MULHERES DE ONTEM
sobre a nuca, formando 8 de conta, duas tran-
ças fininhas, apertadas à moda inglesa. Era o
penteado clássico do tempo. Em seguida, vinha
o penteado à Raquel ou à Judia , em ban Jós
simples, ligeiramente derrubado para a nuca,
guarnecido de pedras e de camafeus; o pen-
teado à Polka, com dois rolos de Veludo ver-
melho por cima das orelhas; o penteado à Ma-
dame Burnay, modista célebre de Lisboa,
salpicado de pequeninas pedras formando coifa ;
o penteado à Boccabadaíi, semelhante ao que
usava a grande cantora italiana ; o penteado à
Fátima, com o seu turbante de setim e penas
de marabú, muito usado pela infanta D. Maria
da Assunção, revivescência da moda do Impé-
rio lançada pela sensual M."*^ de Genlis ; e, por
último, o penteado do século xvn, à Sevigné,
encanudado e frisado, com dois tufos de cabelo
laterais presos por um fio de pérolas, e levan-
tado por detrás a descobrir a nuca, — penteado
delicioso, sobretudo nas mulheres loiras, e muito
usado pela trigueira e espirituosa D. Maria
Kruz, a Musa dos salões da Regeneração.
Mas, além destes quantos outros! Que infini-
dade de cabeças adoráveis surgem dentre as
molduras de oiro dos grandes retratos de há
setenta anos, palpitantes de frescura e de graça,
com os seus topázios, os seus Bolívares de
seda, os seus olhos profundos, os seus cabelos
AVÓSINHAS 135
encanudados e semeados de rosas ! Que varie-
dade a das modas do tempo, — e como tinham
bem por onde escolher, as aVósinhas românti-
cas que flirtavam à inglesa com Garrett, que
cultivavam camélias com o Marquês de Viana,
que faziam espírito com o Visconde de Sotto-
mayor, e que se perdiam com Farrobo na pe-
numbra misteriosa do Pavilhào-dos-Espelhos !
Porque não voltarão os penteados de 18i0?
I
CATARINA DE BRAGANÇA
Toda a gente sabe que uma filha de D. João IV
foi rainha de Inglaterra. Toda a gente sabe
també.-n que foi essa pobre infanta portuguesa,
Catarina de Bragança, que introduziu em Lon-
dres a moda elegante de tomar chá às cinco
horas. Ninguém ignora ainda que a corte escan-
dalosa de Whitehall e de Hampton Court pre-
tendeu desculpar os desvarios am.orosos de
Carlos II, justifícando-os — di-lo o embaixador
francês Conde de Comminges — pela «portu-
guesíssima fealdade da Rainha >. As Memórias
do tempo sào terminantes e claras. Porque foi
Cbrlos II de Ing'aterra um devasso espirituoso,
^ à maneira de Lauzun e de Luís XV? Responde
Charendon : porque Catarina de Bragança era
feia. Porque passou Sua Majestade corruptís-
sima dos braços astutos de Lady Casílemaine
para a viola voluptuosa da dansarina Moll Da-
Vis, dos olhos verdes da demí-vierge Stewarth
138 MULHERES DE ONTEM
para a ternura loira e absorvente da grave Du-
quesa de Portsmouth? Responde Pepys, no seu
Diário: porque Catarina de Bragança era um
monstro. Não sei até que ponto poderá admitir-
-se a singular doutrina de que a fealdade da
mulher justifica as infidelidades do marido Mas
dêmos de barato que essa justificação moral,
ou melhor, que essa justificação imoral é admis-
sível, — e vejamos o que houve de verdadeiro
na pretendida monstruosidade da Infanta portu-
guesa que os acasos da política dinástica do
século XVII fizeram mulher de um dos mais
galantes reis da Europa. Catarina de Bragança
seria, realmente, tão feia como quiseram pintá-la
em Inglaterra? As estirpes doentias de iMedina-
-Sidónia e de Vila Viçosa, já duas vezes cruza-
das, teriam produzido na filha de D. João IV
alguma coisa de disforme e de teratológico, que
desse razão às afirmações terminantes de Cha-
rendon e de Reresby, do Conde de Commin-
ges e do ministro Pepys ? Parece que não. A
fealdade tradicional da mulher de Carlos II deve
ter sido, fundamentalmente, uma lenda. E essa
lenda explica-se. É claro que entre as belezas ^
loiras, translúcidas, róseas, aladas, normandas,
que revoavam pelos salões antigos de Whitehall
como um bando doirado de Amores, e que os
pincéis de Houthorst, de Lely e de Wissing
fixaram para a imortalidade, — a pobre infanta-
I
CATARINA DE BRAGANÇA 139
sinha portuguesa, pequena, acanhada, trigueira,
de cabelos pretos e de olhos enormes, com o
seu verdugadim espanhol, a sua educação de
mosteiro, os seus olhares de revés, havia de ter
produzido, fatalmente, a mais estranha e a mais
desgraciosa das impressões. Sucederia o mesmo
a qualquer outra mulher, que possuísse o tipo
escuro, miúdo, Vulgar, português de Catarina
de Bragança. Todas as aias que acompanharam
a Infanta-raínha para a Inglaterra tiveram a
honra de ser consideradas «uns monstros^ (1)
— e, entretanto, uma delas foi a amante prefe-
rida de Buckingham. É certo que um ligeiro
prognatismo e uma defeituosa implantação dos
dentes desfeavam a filha de D. João IV, per-
turbando-lhe a harmonia da boca ; mas os olhos
eram belos, a pele dum doirado quente de mo-
rena, as mãos finas, os movimentos graciosos,
a expressão atraente e bondosa. O próprio
Carlos II reconheceu os encantos da mulher,
descrevendo «os seus olhos maravilhosos e o
seu lindo timbre de voz» (2), e declarando em
carta à Duquesa de Orléans, dois dias depois
do casamento, que se sentia «completamete
feliz com ela» (5). O mesmo diz John Evelyn,
(1) Charendon, Metn., II, 419.
(2) Jesse, Mem., III, 6.
(5) Comte de Baillon, Henriette dAngleterre, pag. 85
140 MULHERES DE ONTEM
apresentado à Rainha no próprio dia da sua
chegada a Hampton Court: «...é pequena de
corpo, mas bem feita; tem belos olhos cheios
de langor; só os dentes, avançando de mais,
lhe estragam um pouco a bôca> O prognatismo
manifesta-se nos retratos de Huysmans e de
Stopp, existentes na Nacional Galltry, e nos
retratos do paço de Sintra ; mas é menos acen-
tuado na admirável pintura de Peter Lely, onde
a Rainha aparece como uma linda mulher, nada
inferior, na sua grave beleza, à iiltima amante
do rei, Lady Keroualle Cortesania do pintor,
— para quem não houve mulheres feias, sobre-
tudo quando eram rainhas? Evidentemente.
Mas, feitos todos os descontos, a triste Infanta
portuguesa que a esterilidade condenou à mais
dolorosa e apagada das realezas, estava longe
de ser aquele «monstro anão, escuro e plebeu>
que Pepys descreve, ou aquele «hediondo mor-
cego> a que aludem as memórias interessantís-
simas de Jesse. Quando voltou para Lisboa, aos
cincoenta e cinco anos, D Catarina estava bem
conservada e fresca. A sedentariedadetornara-a
um pouco obesa ; o Duque do Cadaval descre-
Ve-a nas suas Memórias, «baixa de corpo e
grossa> (1). Tinha a mania de mudar constan-
(1) Mss. da Bibl. Nac. de Lisb., F. A., códice 749,
fl. 270.
CATARINA DE BRAGANÇA 141
temente de casa - de Belém para as casas do
Conde de Soure, da morada de Fernão de Sousa,
a Sanía Marta, para os Paços da Bemposta —
e vivia absorvida na cura das suas freqíientes
erisipelas, de que a tratava o cirurgião francês
Rambaud, que viera com Schomberg para Por-
tugal (1) Aos sessenta e sete anos, precisa-
mente quando chegou a Lisboa o médico inglês
Crikion, encarregado de colocar no rei Pedro II
um céu-da-bôca de prata, Catarina de Bra-
gança morreu duma apendicite. As cartas de
Manuel Dias e as Memórias manuscritas de
Manuel de Almeida e do Duque do Cadaval des-
crevem a agonia da Rainha de Inglaterra, durante
uma terrível noite de tempestade (2). Coisa
curiosa : nem no próprio dia da sua morte dei-
xou de tomar às cinco horas, com uma pontuali-
dade inglesa, a sua chícara de chá.
(1) Tôrre do Tombo, Mss., códice n.* 60, Cartas de
Manuel Dias.
(2' Mss. da Bibl. Nac. de Lisb., F. A., códice 409,
fl. 1 V., e códice 749. fl. 206, t. e 271, v.
1
UM DRAMA DE AMOR
Camilo, nas Noites de Insónia, refere-se su-
mariamente a uma anedota amorosa do tempo
de D. João V : a fuga de uma das damas da
rainha D. Mariana de Áustria, raptada nada mais,
nada menos, do que pelo mordomo-mor do Rei. A
dama era a linda D. Maria dá Penha de França ;
o raptor era o Marquês de Gouveia, D. João
de Mascarenhas, filho daquele velho Marquês
mordomo-mor D. Martinho, que fêz professar
nas Mónicas a cómica Isabel Gamarra e que
morreu com ciúmes dela quando a viu despir o
hábito e voltar para o marido. Fugiram na noite
de 11 d*e Novembro de 1724, numa forte es-
tufa de viagem, de couro pregado, perseguidos
de perto pela cavalaria que o ministro Diogo de
Mendonça Côrte-Real mandou a cortar-lhes o
caminho. O escândalo produzido pela fuga foi
enorme; muito pela qualidade dos dois amantes,
ambos da intimidade do Paço ; mais ainda pela
circunstância de serem ambos casados, — ela
com um primo co-irmão, D. Lourenço de Al-
mada, que deitou luto de baeta negra e deixou
144 MULHERES DE ONTEM
crescer as barbas, ele com uma espanhola,
D. Teresa de Moscoso e Aragão, filhados Con-
des de Altamira, que a Rainha no dia seguinte
mandou trazer ao Paço da Ribeira numa ber-
linda da Casa Real, e cujas virtuosas lágrimas
souberam chorar, quási ao mesmo tempo, a dor
da ofensa e a doçura do perdão.
Que foi feito dos fugitivos?
Di-lo uma notícia que há anos encontrei no
códice 1161 da secção de Aiss. da Torre do
Tombo, e que acompanha alguns dos muitos
sonetos então escritos àcêrca dos amores do
marquês D. Juâo com a Penha de França. Vem
a fls. 184, V. Por ela se sabe que os oficiais de
justiça e as tropas deD João V os seguiram pela
Beira, não os colhendo debaixo de mão por-
que a estufa de D. João de Mascarenhas le-
vava o avanço de um dia de jornada. O Conde
de Vila Verde, depois Marquês de Angeja,
D. António de Noronha, governador das armas
dentre Douro e Minho, logo que soube d \ che-
gada dos fugitivos à Galiza, onde tiveram a sua
única noite de amor, mandou recado ao Bispo
de Tuy para que imediatamente os separasse,
fazendo reco her a um mosteiro D. Maria da
Penha de França e guardando o Marquês dos
vários picões de Lisboa pagos a peso de pata-
cas de prata, que já iam. lezíria acima, fazer a
justiça dos Almadas. Sua Ilustríssima, a quem
U^í DRAMA DE AMOR 145
O Conde — diz a notícia manuscrita que acom-
panho— <?^não declarara com individuação a quali-
dade das pessoas^, relaxou o caso à Vara do
alcaide ; procuraram-se os homisiados por todas
as estalagens e hostarias de Tuy, e, no próprio
dia, a linda e infeliz Penha de França, arrancada
aos braços do homem que insensatamente amara,
era entregue à Abadessa de um mosteiro de
franciscanas e via pela primeira vez o claustro
branco e florido donde nem morta saiu. Entre-
tanto, o nome do Marquês corria já de boca em
boca, e o Bispo, acompanhado peio governa-
dor da cidade, viu-se constrangido a visitar
na sua hostaria humilde o mordomo-mor de
D. João V, tendo a bizarria de lhe oferecer,
para sua residência, o próprio Paço episcopal.
D. João de Mascarenhas recusou polidamente;
pediu ao prelado que lhe mandasse entregar a
mulher ; insistiu ; ameaçou ; suplicou ; rondou,
perseguido de guardas que o não largavam, os
muros negros do mosteiro; viu luzir o primeiro
tiro, cujos quartos lhe zumbiram perto — e, de-
senganado, partiu para Vigo. «Vi uma carta de
pessoa mui aceita ao Conde de Vila Verde —
refere o autor da notícia — dizendo que EIRei
católico Filipe 5.° mandara que assistissem ao
Marquês sessenta soldados de cavalo com unt
bom oficial, para que o acompanhassem por
onde quer que andasse ; e que estes, vendo pes-
10
146 MULHERES DE ONTEM
soas desconhecidas, as matassem.» Mas as de-
ferências e atenções havidas com o pobre mar-
quês D. João, que por uma noite de amor dera
tudo o que possuía na vida, a honra, os bens,
o título e a casa, não partiram apenas do Rei
de Espanha e do Bispo de Tuy; houve alguém
mais que o protegeu e honrou, e esse alguém
— cavalheiresca generosidade espanhoh ! —foi
o pai da mulher que êle abandonara e a quem
fizera chorar lágrimas de sangiie, o seu próprio
sogro, —o Conde de Axitamira. Emquanto D. Lou-
renço de Almada aperrava arcabuzes na som-
bra—o Velho Conde, talvez movido de Lisboa
por CBrtas desse anjo de bondade que era filha,
mandava à cidade de Vigo um dos gentis-ho-
mens da sua câmara oferecer ao genro as chaves
do palácio de Ourem, para nele viver, e plenos
poderes para dispor de todas as rendas e bens
da casa de Altamira, como se seus próprios
fossem. D. João de Mascarenhas enterneceu-
-se até às lágrimas, — mas nada aceitou. Pouco
depois, no primeiro pacabote, fazia-se de vela
para Inglaterra. Se, pelo que conheço do cora-
ção humano, me fosse dado conjecturar para
onde iria, nessa hora dolorosa di partida, a
saíidade daquele que fora o 4.° Marquês de
Gouveia e o 7.^ Conde de Santa Cruz, eu ju-
rava sobre umas Horas que, se no mosteiro
das clarístas de Tuy, onde deixara a amante,
I
UM DRAMA DE AMOR 147
lhe ficava toda a alma do seu corpo, para Lis-
boa, onde lhe sorria o perdào da mulher, ia
toda a alma da sua alma. Foi essa asa branca
de misericórdia, foi esse perdão de infinita bon-
dade que acabou por alcançar de D. Joào V li-
cença para D. Joào de Mascarenhas voltar a
Portugal. Mas a vingança do lôrvo D. Lourenço
não desarmara ainda ; duas vezes, nas ruas de
Lisboa, lhe despejaram uma escopeta aos pei-
tos; Diogo de Mendonça compreendeu que con-
servar D. Joào ni p^ís era assassiná-lo — e de
novo o fêz partir, escoltado, a caminho de Ara-
gão. Mas, desta Vez, seguia-o de perto o pri-
meiro sorriso de felicidade da sua vida inteira.
D. Teresa de Moscoso, obtida licença do Rei
para acompanhar o marido, partia no seu coche
de jornada com o velho tio Aires de Saldanha,
camarista do infante D. António, que pelo ca-
minho chorava de contente. E emquanto. Es-
panha a dentro, numa estalagem de Cáceres
fronteira a Sun AÍJteo, marido e mulher troca-
vam emfim, iluminados de bemaventurança, o
seu primeiro beijo de exílio e de perdào, — lá
cima, no pequeno mosteiro de claristas de Tuy,
rezando Vésperas junto do báculo doirado da
Abadessa, soror Maria da Penha de França de-
vorava em lágrimas o seu amor perdido. . .
Neste mundo, por cada deis que sorriem, —
há sempre um que chora.
DUAS PRINCESAS
Conhecem, de-certo, Pedro deBourdeiiles, se-
nhor de Brantôme; ao menos pela sua obra tão
viva, tào picante e ião original ~ Les Dames
Galantes. Pois esse bravo e risonho gascão,
que é um dos representantes mais característi-
cos e mais perfeitos do espírito gaulês do sé-
culo XVI, esteve em Portugal, conheceu bem os
portugueses — e, segundo todas as probabilida-
des, as portuguesas — foi recebido no Paço
mano-a-mano com D. Sebastião, bateu-se ao
nosso lado, levou de cá, sobre o seu gibão
de brocado flam.engo de três altos, o hábito
de Cristo, e ao contrário do que tem suce-
dido com alguns estrangeiros, sobretudo ingle-
ses, não disse, nas suas obras, muito mal de
nós.
Nas Dames Galantes, por exemplo, e no
sétimo discurso sobre ^Les femmes mariées,
les veuves et les filies^ ^ fala Brantôíne em ai-
150 MULHERES DE ONTEM
gumas princesas portuguesas ou casadas em
Portuga), e todas as suas referências são, em
geral, delicadas e respeitosas. Levanta, aqui e
alem, uma ponta de véu sobre este ou aquele
incidente político ou amoroso; mas — caso para
estranhar, muito mais em quem, como Pedro
de Bourdeiiles, parece preocupar-se pouco com
a moral do amor — nào deixa de prestar home-
nagem à virtude sempre que a encontra no seu
caminho. Em especial, a princesa D. Joana,
mãe de D. Sebastião, e a célebre infanta
D. Maria, filha de D. Manoel, a quem de perto
tratou e conheceu, nào podem merecer-lhe pa-
lavras de mais rendida deferência, — o que não
quer d^zer que êle não aluda, nos seus bárbaros
ensaios de psicologia amorosa, às veleidades de
viúva duma delas e às fantasias de solteirona
da outra. É tão inofensivo e tão interessante
o que nos diz Brantôme destas duas princesas,
que vale a pena referir algumas passagens do
seu discurso.
A primeira vez — e a única — que Pedro de
Bourdeiiles viu a princesa viúva D. Joana, mãe
de D. Sebastião e filha de Carlos V, foi na
sua passagem por Madrid, ao regressar de Por-
tugal a França. A beleza e a majestade dessa
admirável rfiulher, que devia andar perto dos
quarenta anos e que enviuvara aos dezoito, im-
pressionaram vivamente Brantôme. ^Je la con-
DUAS PRL\XESAS 151
tem pie et admire d'cbord, et si fixemerã, que
siir le point j'en devenois ravy», —diz o bravo
gascào, diante de cujos olhos as mais belas
mulheres de França tinham bebido pela taça
de oiro de Henrique II. Vinha vestida à espa-
nhola, não como as damas viúvas, mas à moda
da corte, íraldilha de seda sobre guarda-in-
fantes bojudos, como nos quadros de Pantoja
de Ia Cruz, a cabeça toucada duma crespina
branca, espanhola, que descia em bico pelo
meio da testa, quási até ao nariz. Conversaram
muito acerca do rei de Portugal, D. Sebastião,
que a princesa sua mãe deixara de quatro me-
ses nas mantilhas e no leite das amas, ao Vol-
tar, viú^a, para Castela. Falaram do seu pro-
jectado casamento com Margarida de França,
depois rainha de Navarra. D. Joana, que não
conhecia o filho senão por um retrato de San-
ches Coelho, perguntou a Brantôme se êle era
belo e com quem se parecia. — «Cest le vray
image de vostre beaiité, madame /^ —respon-
deu-lhe o autor das Dames Galardes, que não
cessava de a olhar e de a admirar. Ela corou,
sorriu (fit un petit soaris et coulear de visa-
ge) e retirou- se quando a vieram chamar para
a ceia. Conta Brantôme, então, que a princesa
D. Joana tinha querido casar com o rei de
França, Carlos IX — o tuberculoso sinistro de
que nos resta o eloquente busto de Pilon — ;
152 MULHERES DE ONTEM
mas que Catarina de Médicis, impressionada
pela diferença das idades (elle avait trop d'âge
sur luiy et serait sa mère), não consentiu nesse
casamento, preferindo a D. Joana a sobrinha
desta princesa, Isabel de Áustria, fiiha do im-
perador Ma?<imiiiano, uma Habsburgo típica,
quási infantil, cheia de inocência e de graça,
com quem realmente Veio a casar-se o monarca
francês. Depois disso, a mãe de D. Sebastião,
<LOstent ative et superbey à Vespagnolet>y Vendo
perdida a esperança de vir a ser rainha, reti-
rou-se do mundo para o mosteiro das descal-
ças de Santa Ciara, por ela própria fundado em
Madrid.
Também Brantôme conheceu em Lisboa a
erudita e sumptuosa infanta D. Maria, filha de
D. Manuel e da depois rainha de França
D. Leonor, no seu palácio a-par do mosteiro
das claristas. Tinha então a misteriosa inspi-
radora de Camões quarenta e cinco anos de
idade. De Bourdeilles alude à sua virgindade in-
transigente, e não a atribue nem a insuficiência
de meios de fortuna (a infanta era riquíssimia e
êle sabia-o bem pelo general Oger de Gourgues
Julliac, que tratava dos seus negócios em Fran-
ça), nem à falta de enca ^tos pessoais, porque,
segundo o nobre autor das Dames Galantes,
D. Maria foi ^une três helle et agréahle filie y
de bonne grace et helle apparenee^, a mesma
I
DUAS PRINCESAS 153
figura loira, senhoril e grave que nos mostra o
«retábulo das màos^ do antigo mosteiro de
Nossa Senhora da Luz. Entretanto, a grande
bas-bleu portuguesa do século xvi estava
longe de ser insensível às solicitações do amor,
e Brantôme, prestando homenagem às suas altas
virtudes, refere se a uma paixoneta da Infanta
pelo Grào-Prior da Lorena, um Guise, irmão
do Duque e do Cardeal, que, de caminho para
a Escóssia nas suas galeras, se deteve algum
tempo em Lisboa. A ilustre filha de D- Manoel,
^que volontiers eut rompa son noead virginal
poiír Itiyy cela s'àppelle par mariage^ car
c'etoit une ires sage et vert acuse princesse>,
encheu-o de presentes, entre os quais uma
maravilhosa cadeia de ombros com cruz de dia-
mantes e de rubis, que o Grão-Prior mais tarde
empenhou por três mil escudos de oiro em
Londres. Chegou a falar-se de casamento, diz
Pedro de Bourdeilles, e pensou-se obter para
isso dispensa do Papa. Porém, as convulsões
políticas que, nesse momento, perturbavam a
França, não permitiram que o nobre Guise, em-
bora <fort pris et encapricé d'elley, voltasse
a Portugal ;e, pouco depois, o Grão-Prior de
Lorena caía sob o punhal do capitão de galeras
Casíellan, senhor de Altivity, levando consigo
para o túmulo a última Veleidade amorosa da
CARLOTA JOAQUINA
Acabam de ser adquiridas pelo Estado três
interessantíssimas cartas autografas da rainha
Carlota Joaquina, escritas de Queluz e dirigidas
ao filho D. Miguel, então em Viena de Áustria.
Sào três documentos de um carácter, — e estão
inéditas Na primeira, datada de 20 de Outubro
de 1827, e, portanto, já depois de D. Pedro, no
Rio de Janeiro, ter nomeado o irmão D. Miguel
seu lugar-tenente em Lisboa, Carlota Joaquina
deseja ao filho uma breve e feliz jornada, es-
pera que êle volte «com os mesmos sentimentos
que cá lhe conhecia>, e pede-lhe que se acau-
tele de todos e de tudo na viagem, insinuando
que «só o cercam inimigos fortíssimos com capa
de amigos, mesmo dentro de casa>. No des-
terro de Queluz, a filha de Carlos IV de Espa-
nha pressente que a volta do seu arcanjo S. Mi-
guel lhe resíituVrá o poder perdido, e começa,
para o reconquistar, a envolve lo de longe na
156 MULHERES DE ONTEM
teia da sua intriga. Na segunda, datada de
24 de Outubro de 1827, pouco mais de um mês
depois, acusa o filho «de estar vendido aos ma-
ções» e recomenda-lhe o portador, Francisco
Martins, homem de sua inteira confiança, que
ela manda expressamente a Viena de Áustria,
«como carta viva», para lhe falar deía, para lhe
dizer os seus sentimentos, para o acompanhar
na jornada. Carlota Joaquina teme que a te-
nham malquistado com o filho ; receia que o
D. Miguel que volta não seja já, nas suas mãos
astutas de espanhola, o mesmo instrum.ento dó-
cil da Abrilada ; antecipa-se a todas as narra-
tivas sobre a sua vida dissoluta de Queluz,
sobre a lenda da áqaa toffana que matara
D. João VI; tenta, pelos bons ofícios dum emis-
sário, captar, envolver, enredar a alma fraca do
seu infante Marialva. Na terceira carta, datada
de 7 de Dezembro de 1827, precisamente no dia
seguinte àquele em que D. Miguel saiu de Viena
a caminho de Lisboa, pede-Ihe que não ouça
«as notícias desagradáveis que lhe deram da sua
família ; que suspenda o seu juízo até que fale
à mãe; declara-se vítima da intriga e da male-
volência» ; invoca a misericórdia de Deus para se
proclamar a si própria a mulher mais verdadeira
do mundo. Todo o drama dos últimos três anos
da vida de Carlota Joaquina está nestas três
cartas. São, todas três, escritas pelo próprio
CARLOTA JOAQUINA 157
punho da Rainha, numa letra regular, gorda,
calma, incaracterística. Transcrevo-as na sua
grafia original, para não perderem o ViVo sabor
áo tempo:
^Qnellus, 20 d^Onftibro de 1827. — Meu
querido filho do meu coração: faço estas
duas regras para te dizer o quanto eu desejo
que faças huma breve e felliz jornada, e que
venhas com os mesmos sentimentos que eu cá
te conhecia : pois hé o único desejo do meu
coração; porque só assim hé que seremos
felizes. Peço- te que te acautelles muito y
muito e muitissimo de todos e de tudoy por-
que ahiy na viagem, e cá, teems inimigos
fortissimos, e com capa de amigos; e m.esmo
dentro de casa. Eu vou vivendo, milhor do
que se podia esperar, pela mizericordia de
Deos; mas agora com mais algum allento d
espera de te vêr e abraçar; mas sem des-
canço em quanto não te apertar nos meus
braços. A Deus meu querido e adorado filho
do meu coração ; recebe milhares e milhares
de bênçãos que te deitta tua mais terna e
amante mãy— Carlota Joaquina.-^
^Quellus, 24 de Novembro de 1827. — Meu
querido e adorado filho do meu coração: o
portador desta hé Francisco Martins (que tu
158 MULHERES DE O.XTEM
muito bem conheces): vai incumbido por mim
para te dizer os micus sentimentos ; quero que
o ouças com. toda attenção ; elle lié carta
viva, e muito verdadeira; e por tanto, pésso-fe
que o attendas, e que nunca o separes de
tim; porque assim te conveem. muito para
tudo : porque hé talvez o único que nunca se
deslizou : e tu estás vendido aos maçoens. A
Deos w.eu amado filho da minha alma ; re-
cebe a benção de tua muito am.unte Aíây —
Carlota Joaquina. »
<í Reservado só p* tim. — Qnellus 7 de De-
zembro de 1827. — Meu querido e adorado
filho do meu coração: faço estas regras
para te dizer que hé natural te chegue aos
ouvidos algumas noticias dezagradaveis da
nossa Familia; porém pesso-tCy que suspen-
das o teu juizOy athe que faltes com^ ^o ; por
que então eu direi tudo, com aquela miude-
za, e verdade, com que eu costumo, e sem-
pre costumei faltar^ pela Misericórdia de
Deus ; e por essa mesma razão tenho sido
sempre vi et ima da intrica ^ e da mallignida-
de; mas Deos hé grande, e de muita miseri-
córdia, há- de acclarar a seu tempo a verdade
toda; o que eu quero, e te peço he, que não
ouças nada do que te disserem , porque o que
querem, he introduzirem-se os mallevolos, e
CARLOTA J0-- QUINA 159
intrigar os bons, e irazer a familia desunida y
pois he o meio milhor para que nunca se
saiba a verdade ^ e levar o seu infernal plano
ao fim. A Deos meu amado filho do meu
coração ; Deos te tra^a Já, para consolação
e descanço de iua Mãy que te lança a benção,
e que te ama muito deveras — Carlota Joa-
quina.y
Que admirável página daria a urn romancista
o primeiro encontro desta mãe e deste filho, na
sala das Talhas de Queluz, no mesmo dia 22
de Fevereiro em que D. M'giiel desembarcou
em Belém, — ele. pupilo de Metternich. belo
como no-lo revela o retrato admirável de Gio-.
Vanni Ender, ela, decrépita, com o seu turban-
te, 03 seus rosários e as si^.as açafatas espa-
nholas cantando malagaenas e sacudindo-lhe
as moscas com os leques ?
Passa ""os dias, nova carta de Carlota Joa-
quina Veio parar-me às mãos, tâo interessante
como as três primeiras, dirigida como elas ao
filho, e, desta vez, encontrada na Valiosíssima
colecção de papéis políticos que se removerem
dos armários do palácio das Necessidades. Tem
160 MULHERES DE ONTEM
a data de 29 de Outubro de 1726, — precisa-
mente o dia em que chegaram a Queluz as no-
tícias do levantamento popular em. Trás-os-
-Montes. Ao contrário das outras três cartas,
que são autografas, nesta apenas as duas linhas
finais foram escritas pelo punho da Rainha.
Carlota Joaquina, fechada na sala Dom Qui-
xote com as suas companheiras inseparáveis, a
mulata Leonor, que a catava, e a açafata Anto-
nita, que lhe cantava lunduns, sofria ainda, ao
tempo, de perturbações gerais ligadas a uma me-
nopausa difícil. Passava os dias conspirando,
queixando-se de flatos, comprando as guardas
do palácio, tecendO; entre um ramal de contas
de Jerusalém e uma tijela da índia fumegmte
de caldo, a complicada teia da sua intriga polí-
tica. Os apostólicos, os corcundas fiéis prepa-
ravam, por toda a parte, em revoltas, em sedi-
ções, em pronunciamentos militares, o advento
do seu arcanjo S. Miguel. Carlota Joaquina
pressentia o regresso breve do filho. Mas que
teriam feito desse filho os conselhos de Met-
ternich, o desterro de Viena de Áustria, as no-
tícias habilmente exploradas da morte misteriosa
de D. João VI, vítima do Veneno que, segundo os
apostólicos, lhe ministrara Renduffe, e segundo
os constitucionais lhe dera a Rainha? Conti-
nuaria D. Miguel a ser o mesmo para ela, — o
seu arcanjo, o seu condestável, o seu braço
CARLOtA JOAQUINA 16l
armado? Poderia contar ainda com êle, com o
seu Nuno Álvares, com o seu Du Guesclin de
Queluz, como na hora longínqua da Jornada
da Poeira? Todos a alarmavam, todos a alan-
ceavam de dúvidas, todos a aconselhavam a es-
crever ao filho. O próprio Latanzi, quando lhe
vendia as jóias e a loiça da China, oferecia-se
para ir a Viena levar as cartas ao senhor In-
fante. Pela carta de 29 de Outubro, sabe-se que
Carlota Joaquina escreveu a D. Miguel três
vezes, sem obter resposta: em 7 de Julho de
1826, — isto é, cinco dias depois da chegada de
Lord Stuart, e um dia antes da apresentação da
Carta de D. Pedro em conselho de ministros,
nas Caldas; em 28 de Agosto do mesmo ano,
— quer dizer, seis dias depois da sedição go-
rada de Lisboa, que havia de entregar a coroa
a D. Miguel e a regência a Carlota Joaquina ;
e, finalmente, em 25 de Setembro de 1826, data
que coincide com a dos boatos do próximo ca-
samento do Infante em Viena e da sua possível
coroação em Madrid. Todas estas cartas foram,
naturalmente, interceptadas pelo governo por-
tuguês. A falta de resposta do filho determinou
a Rainha a enviar à Áustria José Crisóstomo da
Fonseca Osório, em Novembro de 1826, e, mais
tarde, em 24 de Outubro de 1826, Francisco
Martins, homem da sua inteira confiança. Ignoro
o resultado da missão de que Carlota Joaquina
11
162 MULHERES DE ONTEM
OS incumbiu. Ignoro, mesmo, se a chegaram a
cumprir. O que sobre o assunto se sabe é o
pouco que diz a carta encontrada no palácio
das Necessidades. Reproduzo-a, te?<tualmente :
^Quelíuz, 29 de Outubro de 18 26. — Meu
querido filho do meu coração: recebi huma
carta tua de 17 do mez p. p.; a qual estimei
muito por todos os motivos ; eu não respondi
até agora por ter passado mal, porem agora
estou milhor graças a DeoSy mas ainda não
boa, rezão porque esta não vai da minha le-
tra ; mas podes descançar que é o mesmo que
se eu a escrevesse y porque hé pessoa de todo
o segredo. Ainda que não tenho tido resposta
nenhuma a três cartas rezervadas que te es-
crevi, huma em 7 de Julho ^ outra em 28 de
agosto e a terceira em 23 de Setembro, não
hei de deixar de te avizar de tudo o que eu
saiba a teu respeito, para que estejas preve-
nido e não caias nos laços que te querem ar-
mar para tua desgraça. Peço-te que ainda
que te preguem e pintem com todas as boas
cores que elles possão a tua hida para o Rio
de Janeiro, que não vás, porque eu sei que hé
para te agarrarem lá e dar cabo de tim ;
nem metas o pé em nenhuma embarcação, e
muito menos na Nao que vier do Rio de Ja-
neiro buscar-te, porque sei de certo que está
CARLOTA JOAQUINA 165
a trama armada para te sacrificar; pois os
pedreiros y e os seus apaixonados, não querem
que tu cá venhas nunca: entre tanto a Nação
toda, e a tropa, não querem para seu Rey
senão a tim, e estão fazendo os maiores sa-
crificios para o conseguir, como tu has de
saber. Se ahi for hum homem chamado José
Chrisostomo da Fonseca Ozorio e levar hum
sello como este que te remmeto dentro desta
carta, falla-lhe por que vai mandado por
mim para te dizer tudo o que eu não fio ao
papel. Adeus meu: querido filho da minha
alma, recebe a benção de tua Mãy que muito
te ama, — Carlota Joaquina. »
O selo a que Carlota Joaquina se refere en-
contra-se ainda dentro da carta, cuidadosamente
embrulhado em algodão em rama. É batido so-
bre dois pingos de lacre vermelho, num qua-
drado de papel com a rubrica da Rainha. Tem
gravada uma chave — símbolo do segredo, e um
nó de corda — símbolo da união.
A MUSA DAS RENDAS
Era ali em baixo, ao Tesouro Velho, numa
lojinha de três metros quadrados, silenciosa
como uma capela, exígua como uma caixa de
confeitos, que D. Maria Augusta Bordalo Pi-
nheiro expunha as suas rendas. Recordo-me
ainda da última Visita que lá lhe fiz. Uma luz
doirada e tranquila de fim de tarde ; dois ou
três móveis portugueses; um molho de rosas
frescas sangrando e abrindo nas goelas duma
faiança, — e em Volta, armadas sobre almofa-
das de veludo, dezoito ou vinte pequeninas
jóias brancas, mordidas de oiro aqui e além,
finas como espuma, leves como pensamentos,
expressão gloriosa e paciente de tudo quanto
pode haVer de encanto, de fragilidade e de
graça na arte delicada da Mulher.
Perante esses pequenos farrapos de Beleza,
onde parecia estremecer e palpitar uma alma,
não foi apenas a admiração que me venceu ;
166 MULHERES DE OXTEM
foi a ternura, também. No gesto de comovida
curiosidade com que me curvei sobre esses le-
ves sorrisos brancos, houve todo o inexprimível
enternecimento duma lágrima. Evoquei e senti.
Como a encantadora puerilidade que se chama
uma renda pode, tocada pelo génio, resplande-
cer da mais nobre arte ! Como essa maravi-
lhosa ourivesaria da linha, ligeiramente picada
e tecida na graça luminosa duma crista de es-
puma que se im.obilizasse, consegue dar-nos a
impressão magnífica da opulência e do movi-
mento, do ritmo e da côr ! Como esse milagre
de bilros, ao mesmo tempo carinhoso e esplên-
dido, pode fazer surgir a beleza de um floco
confuso e inexpressivo de linho branco, — le-
vemente, graciosamente, num frémito de asa,
num gesto de voo ! E o meu olhar interessado
percorreu, uma a uma, todas essas jóias quási
impalpáveis, esses breves estremecimentos de
luz, esses sopros de aragem materializados agora
num leque de cravos ou de golfinhos, logo
numa sôbre-cama de rosas bravas, — aqui num
pára-luz Luís XVI, Verde como uma onda mor-
dida de espuma, além num mantéu de dona,
picado de oiro à flor da carne, transparente e
ligeiro, misterioso e antigo, como se a alma
ansiosa de Columbano o tivesse surpreendido,
à luz das velhas aranhas de prata, num serenim
distante de Queluz . . .
I
A M'JSA DAS RENDAS 167
Lembro-me bem. Um sol fulvo ardia, lá fora.
Não tive coragem para deixar aquele interior
silencioso de oficina, aquela penumbra doirada
de capela. Fiquei ainda um momento. Por sobre
esses flocos brancos e harmoniosos onde relí-
quias de luz estremeciam, julguei ver, num pas-
sageiro instante, numa névoa fugitiva, numa
revoada branca, erguidas em gestos de graça
e de bênção, mãos ligeiras, mãos resignadas,
mãos melodiosas de mulher, entre cujos de-
dos brincavam, dançavam, floriam eternamente,
como um suplício, pequeninos bilros de ma-
deira. ..
A BRICHOTA
Está por fazer, sobre tudo quanto às suas
determinantes de carácter íntimo, a história da
conjuração de palácio que destituiu Afonso VI.
Como se sabe, M.^"^ de Nemours tinha a
fama de uma autêntica dcmi-vierge quando dei-
xou a corte de França para vir ser rainha em
Portugal. Era uma mulher inteligente, interes-
sante, educada na corte de Luís XIV (1) e
herdeira do feitio aventureiro e apaixonado do
pai, o Duque de Nemours, criatura singular,
meio virtuosCy meio poeta, compositor de pan-
tomimas que se dançaram em Versailles, e
morto em duelo pelo cunhado aos 54 anos de
idade (2). Mr. de Lionne investira-a, natural-
(1) Conversaíions inédites de Madams de Maintenon,
precedées d' une no t ice historiqiie par Mr. de Monmer-
que. Paris, 1828, pag. 24.
(2) Siècle de Louis XIV, 67.
170 MULHERES DE ONTEM
mente, na missão diplomática de todas as rai-
nhas : dominar o rei pelos seus encantos de
mulher e preparar em Portugal a política da
França. Nada mais fácil. Afonso VI era aleijado
e idiota ; pelo menos, toda a gente o supunha
como tal em Paris (1), — e o Marquês de
Sande não tinha coragem para afirmar o con-
trário. M.*^"*^ de Nemours sabia o que vinha en-
contrar. «// est constant que la Reine rCigno-
rait aucune de ces circonsiances avant de
partir pour Vepoaser^y — dizia, em carta para
Londres, o embaixador inglês Southwel (2).
Quando entrou em Lisboa, no seu coche doi-
rado sem tejadilho, sob o enorme chapéu de
sol de chamalote vermelho que um moço-da-
-câmara erguia como uma umbela (3), — com-
preendeu logo que teria no Conde de Castelo
Melhor um inimigo implacável e no infante
D. Pedro um aliado fiel. Assentada ao lado do
Rei e na frente do Infante, o seu instinto de
mulher não pôde furtar-se à comparação dos
dois irmãos : um, acanhado, imbecil, obeso,
(1) Memoires de Mademoiselle de Montpensier, to-
mo IV, pag. 26 e seg.
(2) Histoire da Détrònement de Alfonse VI, coníenue
dans les lettres de Rohert Soiithwel, pag. 25 e seg.
(5) Bib!. Nac. de Lisboa, Mss., F. A., códice 749,
fl. 113, V.
A BRICHOTA 171
flácido, loiro, meio aleijado do braço direito,
a titubiar e a escarrar constantemente sobre
a estribeira do coche; o outro, esbelto, her-
cúleo, dominador, brutal, escuro como um ci-
gano, expressão máscula e possante do homem
trigueiro de Espanha como a sua imaginação
de francesa o tinha sonhado. Desde esse dia,
um violento interesse sensual, uma invencível
atracção física pelo cunhado dominaram toda
a sua vida de mulher. Era preciso eliminar
Afonso VI. Essa eliminação não seria possível
emquanío junto dele estivesse o Conde de
Castelo Melhor. Foi, portanto, contra o minis-
tro que se armou desde logo todo o poder da
sua intriga e da sua astúcia. Quinze dias de-
pois, já o Conde se queixava ao Abade de
Saint-Romain, embaixador de França, de que
a Rainha começava a atacá-lo em diversos ne-
gócios do governo. Passado um mês, a inteli-
gente francesa assistia ao conselho de Estado
que havia de resolver os conflitos suscitados
entre o infante e o Rei, — conflitos que ela
própria criara e provocara. Afonso VI, cada Vez
mais louco e mais intratável, encolhia-se, fugia,
não queria ouvir falar no irmão, nem no Con-
de, nem na Brichota, como êle chamava à
Rainha, — rodava de coche para Odivelas a ver
soror Ana de Moura, corria a S. Nicolau a
ouvir cantar à viola Francisca Barreto, ou me-
172 MULHERES DE ONTEM
tia-se pela Alfama com os seus mulatos e toda
a mafra-baixa, a lâmina da espada pintada de
negro para não luzir na escuridão, cheio de
bentinhos e de rosários, ferindo, esbofeteando,
insultando toda a gente. A situação do ministro
era insustentável. O infante D. Pedro, alegando
incompatibilidade com o valido, recolhera-se a
Queluz; a Rainha, mancomunada com um frade
agostinho, com o conde de Sarzedas e com o
doutor Pedro Fernandes, juiz da Inconfidên-
cia, acusava Castelo Melhor de querer dar pe-
çonha ao infante na água duma fonte do pa-
lácio (1). Na corte murmurava-se. O povo
retraía-se. Uma atmosfera hostil envolvia já o
ministro de Afonso Vi. Chegavam a compa-
rá-lo a Agostinho Nunes, a João de Matos, a
António Conti, ao negro Marçal, — alcoviteiros
e sicários do Rei. Era inútil lutar. Na mesma
noite em que soube que o acusavam de querer
envenenar o Infante, Castelo Melhor depôs a
sua demissão nas mãos Vacilantes do monarca
e partiu, escoltado, para o convento da Arrá-
bida. A primeira cartada estava ganha.
Depois de um curto período em que despa-
chou Enrique Enriques de Miranda, foi nomeado
(1) Torre do Tombo, Mss., códice n." 817, Epítome
^ ' da vida de D, Afonso VI, cap. VIU,
A BRICHOTA 175
secretário de Estado António de Sousa de
Macedo. Mal investido no cargo que o moço
Conde iionrara, Macedo, que não tinha nem o
talento, nem a prudência, nem o tacto político
do seu antecessor, tomou imediatamente a
ofensiva contra o partido da Rainha. O Infante,
que um momento voltara ao paço, deixou de
aparecer nele. Isabel de Nemours refugiava-se
no seu quarto, com os jesuítas, as capuchas
francesas e a velha Duverger. Perdera-se a no-
ção do respeito e da decência. O reposteiro
Manuel Antunes, muito conhecido por ter «um
olho branco e outro negro» (1), e o sangrador
do paço, Manuel Rodrigues, citado na litera-
tura médica do tempo pela sua «fraqueza de
rins contraída no muito uso de Vénus^» (2),
traziam de noite mulheres ao Rei, passando
com elas por diante da guarda dos tudescos.
Nas próprias janelas do palácio real debruça-
Vam-se mulheres públicas. Quando a Rainha,
petas festas de Santo António, de 1667, ape-
nas com um ano de casada, assistia duma va-
(1) Monstruosidades do tempo e da fortuna , pag. 19 —
«Era homem de índole perversa, filho dum guarda da
Tapada de Vila Viçosa» (Torre do Tombo, Mss,, có-
dice n.«817).
(2) Curvo Semmedo, Foliantéa, p. 578.
174 MULHERES DE ONTEM
randa à corrida de toiros do Terreiro do Paço,
uma das Calcanhares, a quem o Sacristan
de Trocas pusera a alcunha de ^privilégios
de las mujeres^, espeitorava-se das janelas do
rei. O secretário de Estado não se limitava a
permitir estes escândalos ; incitava o Rei a
cometê-los. Nessa mesma tarde, interrompida a
toirada, Isabel de Nemours chamou o valido
ao seu quarto e repreendeu-o. Macedo, «sem
lhe falar com a devida reverência, atreveu-se
a levantar as Vozes e a pegar-lhe das rou-
pas» (1). A violência inesperada do insulto
desconcertou a Rainha. Vexada, escreveu a
Afonso VI exigindo a demissão de António de
Macedo : o Rei nem abriu a carta, — e man-
teve-o. Nunca a situação fora mais tensa. De
acordo com o Abade de Saint-Romain, o secre-
tário da Rainha, Verjus, julgou oportuno o mo-
mento para um golpe de Estado. O infante
D. Pedro, espada em punho, invade o paço à
frente do povo e impõe a destituição do valido.
Afonso VI, tomado de fúria, arrepela-se, grita,
treme todo, numa convulsão:— «Uma navalha!
uma navalha!» A Brichota aparece, tenta acal-
mar o marido ; é pior ainda. — «Nem amansa à
Vista da Vaca ! » ~ comenta grosseiramente o
(1) Monstruosidades, pag. 11.
A BRÍCHOTA 175
Marquês de Cascais (1). A boca espuma-Ihe ;
uiva como uma fera; gesticula descompassa-
damente com o braço aleijado; chora, — e o
triste espectáculo só termina quando o Du-
que de Cadaval lhe traz, ainda vivo, o escri-
vão da puridade. O senado da Câmara pede
a convocação das Cortes. O conselho de Es-
tado, na presença da Rainha e do Infante,
vota a convocação imediata. É lavrado o de-
creto demitindo António de Sousa de Mace-
do. O Rei estava sozinho e entregue a si
próprio- Isabel de Nemours ganhara a segunda
cartada.
O resto era fácil. Nada se opunha já à exe-
cução dos planos torpes do jesuíta ÁViIa, con-
fessor da Rainha. O próprio cabido da Sé
arqui-episcopal e o Bispo de Tagra estavam na
confidência. A 20 de Novembro, sob pretexto
de que a marquesa velha de Castelo Melhor,
mãe do Conde exilado, lhe dissera conhecer
«uma comadre perita no seu ofício e de se-
gredo, que lhe faria uma obra natural e podia
sua majestade ser mulher de el-rei^, (2) — a
Rainha despediu-a do cargo de camareira-mor
e proibiu-lhe a entrada na sua câmara. Como a
(1) Monstruosidades, pag. 18.
(2) Torre do Tombo, Mss., códice n.« S17, cap. VII.
Ít6 MULHERES DE ONTEiVÍ
Velha fidalga fosse quei?<ar-se ao rei, Afonso VI,
que andava pelo paço armado de facas e de
pistolas, ordenou-lhe que continuasse a servir
o cargo e que, «se a Brichota lhe fizesse mal,
lhe cortava as pernas com uma navalha» (1).
No dia 21, Isabel de Nemours saiu do paço,
onde perigava a sua vida, segundo dizia a ca-
marilha francesa, embiocou-se num rebuço ne-
gro de viúva e foi meter-se no convento da
Esperança. O Rei soube; correu como um doido
ao mosteiro; encontrou fechados os pesados
batentes da portaria, e desatou a gritar que
«trou?cessem machados e quebrassem as por-
tas2> (2). Arrancaram-no dali ofegante, pros-
trado, o corpo flácido agitado num tremor con-
vulsivo. Levado para o paço pelos criados,
deitou-se a dormir como se nada fosse com
êle. Â noite, dois dos poucos amigos que ainda
lhe restavam, o Conde de Santiago e Rui de
Moura Teles, constando-lhes que se projectava
a prisão do Rei, quiseram salvá-lo, conduzin-
do-o primeiro a Aldeia Galega e depois a Elvas.
Quando já estava a galeota no cais e os remos
na água, Afonso VI declarou «que não ia sem
(1) Monstruosidades, pag. 22.
(2) Torre do Tombo, Col. de S. Vicente, liv. 13,
fl. 251, V.
A BRÍCHOTA 177
levar a Joana», (1) — uma rapariga de 15 anos,
Joana Tomásia, que o criado Gaspar Pinheiro
trouxera pela primeira vez ao paço «na noite
antes do dia em que a Rainha se recolheu na
Esperança» (2). Não lhe deixaram leVar a Joana,
— e o Rei não fugiu. Na manhã de 22, o Mar-
quês de Cascais, velho bobo da corte que pas-
sou a vida a rir de tudo, entra na câmara do
Rei, abre-lhe as cortinas do leito, acorda-o,
entreg-^^-lhe uma faca e diz-lhe, naquela voz fa-
nhosa que lhe merecera a alcunha de Marquês
de Sagarralies : ~ <íVós, Senhor, nascestes
tolo e não sois para rei nem para casado».
Afonso VI, estremunhado, não entende, abre
muito os olhos, ri-se para o Marquês, que tre-
jeita diante dêle, e só tem a consciência da
situação quando o Velho fidalgo o aconselha,
claramente, a entregar o governo ao irmão
«antes que quatro marotos lh'o venham tirar
por fôrça:^. Daí por diante, o Rei faz dó. Le-
Vanta-se da cama em camisa, corre pelo quarto
desvairadamente, atira consigo sobre o leito,
(1) Torre do Tombo, Mss., códice n.^ 817, Epitome,
cap. XI.
(2) Torre do Tombo, Mss., códice n.^ 59S. — Esta
Joana tinha sido desonestada, seis meses antes, por En-
rique Enriques de Miranda.
12
178 MULHERES DE ONTEM
e com a cabeça escondida debaixo do cabeçal,
a tremer e a soluçar, diz ao Marquês de Cas-
cais «que se deita duma janela abaixo se lhe
tiram o reino» (1). O conselho de Estado,
retínido desde manhã na Sala dos Escudeiros,
entra na câmara do rei, ajoelha protocolar-
mente diante desse pobre idiota que mal tem
tempo de envolver numa coberta velha de grã
de Inglaterra a sua nudez loira, gelatinosa e
balofa ; e, com o ritual de quem suplica uma
graça, comina-lhe a abdicação imediata e a en-
trega do poder ao infante D. Pedro- — «Não
quero, não quero! Mato-me com uma faca!>
Pouco depois, perante o povo que invadira o
paço, e na presença do conselho de Estado,
do Senado da Câmara e da casa dos Vinte e
Quatro, reunidos na sala grande, junto à gale-
ria dos tudescos, o Infante declara que acaba
de deixar o Rei preso na sua câmara, e assina,
em nome do irmão, a carta de convocação das
Cortes. Consumara-se o golpe de Estado.
Àquela mesma hora, no côro-de-cima do con-
vento da Esperança, rodeada de freiras que
entoavam a antífona ^Oh rei glorioso h, a
Rainha recebia directamente do Infante, num
(1) Torre do Tombo, Mss., códice n.' 817, Epitome,
cap. XI.
I
í
A BRICHOTA 179
bilhete de amor, a notícia da destituição do rei
seu marido. A terceira cartada estava ganha
também.
Faltava a última, a decisiva, que ia jogar-se,
primeiro na casa da Relação eclesiástica do ar-
cebispo de Lisboa ; depois em França ; por
fim em Roma, entre as tapeçarias silenciosas
do Vaticano, —e que, uma vez ganha ainda,
levaria o incesto ao leito da Brichota e a púr-
pura ao Cardeal d'Estrées (1). Nessa mesma
noite de 22, Isabel de Nemours, fechada na
casa do capítulo com o Abade de Saint-Ro-
main, o confessor padre Ávila e o secretário
Verjus, firmava pelo seu próprio punho uma
carta admiravelmente escrita pelo jesuíta fran-
cês e dirigida ao cabido da Sé de Lisboa, ao
tempo sede vacante, em que a Rainha fazia a
seguinte declaração formal: «Aparto-me da
companhia de S. M., que Deus guarde, por
não haver tido efeito o matrimónio em que nos
concertámos, e por não poder sofrer por mais
tempo os escrúpulos da minha consciência, que
o amor que tenho e me merecem estes reinos
me fêz dissimular até agora^ (2). Ao fim de
(1) Memoires de Mademoiselle de Montpensier, V,
pag. 511 e seg.
(2) Torre do Tombo, Mss., códice n.° 498.
180 MULHERES DE ONTEM
dezasseis meses de coabitação com o marido
e depois de ter escrito para França <qu'elle
avoít epousé le plns honnête homme dii mon-
de, que rien ne manqueroit à son bonheur
Iorsqu'elle auroit un enfant, qu'elle esperoit
d'en avoir bientôt^ (1), a Brichota declara-
Va-se virgem, pedia ao cabido para voltar para
França e acusava Afonso VI de incapaz de con-
sumar matrimónio. Quando falava a Rainha
Verdade? Quando escrevia a Mademoiselle de
Montpensier, ou quando se dirigia ao cabido
da Sé de Lisboa? Quando mentia o próprio
embaixador francês? Quando notificava a Mr.
de Lionne, em 9 de Dezembro de 1666, que a
Raínlia estava no seu estado interessante (2),
ou quando afirmava, em Março de 1668, que
ela se conservava virgem? Quando nos deve
merecer crédito o jesuíta Verjus, — escrevendo
hoje a Colbert «que o rei se deitava todas as
tardes com a rainha» (3), ou insinuando amanhã
ao Cardeal de Vendôma que Afonso VI nào
era, de facto, marido de Isabel de Nemours ?
(1) Memoires de Mademoiselle de Montpensier, loc cit-
12) Arquivos dos Negócios Estrangeiros de França,
Correspondência de Portugal, vol. IV, fl. 360.
<3) Carta de 9 de Agosto de 1666. — In Francisque
Michel, Les Portugais en France, pag. 65.
.■«
A BRICHOiA 181
O processo, documento deplorável do impudor
duma mulher e da insensatez moral duma época,
seguiu os seus trâmites na cúria eclesiástica ;
a Rainha constituiu seu procurador na causa o
Duque de Cadaval, acolitado pelo capelo ver-
melho do desembargador Serrão e pela argúcia
do licenciado Maia ; inquiriram-se vinte e seis
testemunhas, quási todas mulheres de má nota ;
ouviram-se, como peritos, os médicos Manuel
dos Reis e António Ferreira ; praticou-se muita
infâmia, talvez inútil ; e, finalmente, ao termo
de quatro longos- meses (24 de Março de 1668),
os juízes na causa da Rainha pronunciaram a
sentença final, lançada a fis. 151 do processo,
na qual, por motivo de incapacidade perpétua
quoad vírgines, resultante da antiga parah'sia
do Rei, o matrimónio de Afonso VI e da prin-
cesa de Nemours e Aumale era julgado por
contraído de direito e não de facto, e declarado
nulo. Quatro dias antes (20 de Março) já o
Bispo de Tagra recebera das mãos de Luís de
Verjus, na capela do paço real, a buia de dis-
pensa de matrimónio passada com autoridade
apostólica pelo Cardeal de Vendôma, legado
a latere de Clemente IX ao rei de França, a
favor do infante D. Pedro e de Isabel de Ne-
mours, permitindo-lhes o casamento sem em-
bargo do impedimento in prima grada pa-
blicoe honestatis. Ainda um matrimónio não
182 MULHERES DE ONTEM
fora anulado por sentença, já estava autorizado
o outro ! A Brichota, que tinha começado por
escandalizar Lisboa mostrando as pernas nas
ruas da cidade (1), conseguira emfim legalizar,
mais ou menos canonicamente, o seu concubi-
nato.
Estava ganha a partida.
(1) Laporte, Le voyogeur de VEurope, \\, pag. 225.
DUQUESA DE BORGONHA
Sabe-se que, em 1428, D. João I mandou o
Bispo do Algarve e o dr. Fernão Afonso em-
baixadores a França, para tratarem do casa-
mento da Infanta Isabel com o Duque de Bor-
gonha e Conde de Flandres, Filipe o Bom. Um
ano depois, os embaixadores do Duque entra-
vam em Lisboa, e, com eles, <íMaííre Jean,
valet de chambre du Duc de Boiírgogne, fa-
meux dans Vart de la peínttire^, encarregado
naturalmente de pintar, para o futuro marido,
o retrato da Infanta portuguesa. O Duque tinha
sido pouco feliz nos seus dois casamentos. A
primeira mulher, iMicaela, filha de Carlos VI de
França, um louco furioso (1), era estéril; esté-
ril fora também a segunda mulher, filha de Fi-
lipe de Artois: aos médicos do ilustre príncipe.
,\) Religieux de Saint-Denis, tôino II, 19.
184 MULHERES DE ONTEM
^à ses six docfeurs médecinsy (1), tinha pa-
recido conveniente conhecer o retrato da pre-
sumível terceira esposa, na convicção, corrente
ao tempo, de que a infecundidade se manifes-
tava, na mulher, por sinais ou acidentes fisionó-
micos determinados. Mattre Jean, que era o
grande pintor flamengo João Van-Eyck, cum-
priu necessariamente a sua missão diplomática,
e o retrato da futura Duquesa de Borgonha,
pintado em Estremoz, foi enviado em Janeiro
de 1429 para Flandres. Esse retrato perdeu- se,
como supõem Growe e Cavalcaselle, Springer
e Laborde (2), — ou existe ainda? Se existe,
onde se encontra? Na biblioteca de Bruxelas,
onde, como refere Raczynsk (3), o viu o Conde
de Lavradio ? Em Paris, como quer o barão Her-
vin de LettenhoVe? (4)
Encontra-se no Louvre, de facto, um retrato
de Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha,
admiràvelmiente reproduzido pela fototipia no
(1) Oliver de la Marche, Létat de la Maison du Duc
de Bourgone, in Col. Petitot, l."", 10, 492.
(2) Joaquim de Vasconcelos, Arqueologia Artística,
1,95.
(5) Les Arts, 196.
(4) Chamou a minha atenção sobre a opinião de Let-
tenhove uma referência de José Queirós no Diário de
Noticias de 15 de Novembro de 1907.
DUQUESA DE BORGONHA 185
livro de Lettenhove, La Toison d'Or, e muito
interessante, quer sob o aspecto médico, pelos
estigmas de degenerescência que revela, quer
sob o ponto de vista da história da indumentá-
ria secular do século xv, pela preciosa documen-
tação que fornece. É este o retrato pintado por
Van Eyck em Portugal ? Não se sabe. Sabe-se
apenas — e é o que mais importa — que a re-
tratada é a infanta portuguesa D. Isabel, ter-
ceira mulher de Filipe, o Bom (1). Isabel de
Portugal aparece-nos na tábua do Louvre em
toda a evidência da sua maravilhosa fealdade,
— o que me leva a crer que não será este o
retrato da ^belle portugaloíse^ a que se refere
o inventário autógrafo de Margarida de Áustria
(1516). É uma mulher ainda nova, com certa
doçura de expressão, os olhos baixos, o nariz
grande, a face comprida, a testa enorme sob o
imenso toucado borgonhês de brocado de oiro
e pérolas. No peito, chato e nu, mal se adivi-
nha a apojadura nascente dos seios. A estigma-
tização somática revelada na cabeça é notável :
aumento do diâmetro Vertical e diminuição do
transverso da face ; assimetria facial tornada
mais evidente nas linhas dos supercílios, finas,
(1) Durante muito tempo, supôs-se que era o retrato
de Isabel da Baviera (Dr. José de Figueiredo),
186 MULHERES DE ONTEM
altas, lineares, desiguais ; lóbulos da orelha ade-
rentes; altura considerável do lábio superior;
hipertrofia do inferior, desacompanhada de pro-
gnatismo sensível. Julgou-se que o beiço pen-
dente e grosso, tão característico das fisiono-
mias célebres de Carlos V, de Filipe II e de
alguns Braganças como D. José e D. João VI,
era um acidente fisionómico típico e, por assim
dizer, e?cclusivo da casa de Áustria e dos ramos
dinásticos provenientes dos Habsburgcs. Puro
engano. A hipertrofia do lábio inferior, antes de
se verificar na «face austríaca», existia já, re-
motamente, noutras estirpes reais. Houve beiços
grossos na descendência do duque Filipe, o
Bom: em Carlos, o Temerário (iluminura do
Ms, 9098 da Bibl. Real da Bélgica); em Maria
de Borgonha, mulher do imperador Maximi-
liano II, de quem Leonor de Áustria disse, abrin-
do-lhe o túmulo de Dijon : «/é? pensois que noas
tenismes nos bouches de ceux d'Austriche,
mays, a ce que jc voys, nous les tenons de
Marie de Bourgogne. . . * (1). Estes factos le-
varam o erudito Bouchot a concluir: «Aa bou-
che iombanie esl, comme la Toison d'Or, une
création françaíse.^ O retrato de Isabel de
Portugal, que seria curioso comparar com o do
(1) Brantôme, Memoires, II, 88.
DUQUESA DE BORGONHA 187
políptico de Beaume (Rogier Van-derWeyden)
e com o do vitral de Santa Farailda em Gand
(Roger Stoop), tem, além doutros interesses, o
de nos mostrar que a hipertrofia do lábio infe-
rior, antes de se instalar como estigma familiar
característico na casa ducal de Borgonha, já
existia nas genealogias reais portuguesas. Não
irei até ao ponto de afirmar que foi pelo casa-
mento do duque Filipe com Isabel de Portugal
que o lábio austro-bcrgonhês se transmitiu a to-
dos os Habsburgos e a todos os Bourbons das
dinastias europeias ; Chastellain diz-nosque Car-
los, o Temerário, ^avait la bouche da père,
grosseite et vermeille^y (1) o que bastaria para
tirar àquela afirmação todo o carácter absoluto ;
mas, estando averiguado que os estigmas somá-
ticos maternos se transmitem mais constante-
mente à descendência do que os paternos, isto é,
que a mãe é melhor transmissora do que o pai,
não será arriscado concluir, perante a pintura de
Van-Eyck (?), que o beiço grosso típico entrou
na casa ducal borgonhesa com Isabel de Portu-
gal, mulher de Filipe, o Bom, e passou depois à
casa de Áustria com Maria de Borgonha, mu-
lher de Maximiliano II.
É isto o que a tábua sugere sob o aspecto
(1) Chroniques, 14.
188 MULfíERES DE ONTEM
médico. Sob o ponto de vista da história da in-
dumentária e dos costumes, não é menos curioso
o retrato da Duquesa de Borgonha. O toucado
com que se apresenta, na admirável tábua fla-
menga, a filha de D. João I, é aquele a que ao
tempo se chamava em Portugal «toqueixo» ou
«forcarete^ (1), e que o Velho Jacques du Clerc
descreve nas mulheres borgonhesas: ^Ellespor-
toient stir leurs chiefs boarlets en manière de
bonneis rondsy en diminuant par dessas de la
haiiltenr de demie aulne, ou trois quartiers
de longy aucunes moins, austres plusy et de-
li és couverchefs par dessns pendans par der-
rière jusques en terre^ (2). No retrato, este
toucado dá-nos a impressão de assentar sobre
o crâneo nu : a Duquesa tem, visivelmente, o
cabelo rapado à navalha nas fontes, acima das
orelhas, moda e?<travagante que devia ao tempo
ser comum a ambos os sexos, porque o próprio
duque Filipe aparece, numa tábua do Museu de
Antuérpia, atribuída a Van-der-Weyden, com a
cabeça rapada nas têmporas até grande altura.
A fealdade de Isabel de Portugal explica-nos
hoje, até certo ponto, o excesso delirante do
(1) Provas da Mist. Geneal. da Casa Real Portuguesa,
1,67.
(^ Jacques du Clerq, Memoires, liv. 6.», cap. III.
DUQUESA DE BORGONHA 189
seu ciúme pelo marido. Foi, disse Commines,
«/a pias soiipçonneuse Dame qa'on eust ja-
mais congneue^ (1). O Duque deu-lhe motivos
para isso, — porque a própria ordem do Tosão
de Oiro, criada no dia do casamento de Filipe
o Bom com Isabel de Portugal, ^aurait été
crée — o que Hervyn de Lettenhove contesta —
en souvenir d'une jolie brugeoise aux cheveux
dores, tout comme la Jarretière avait été insti-
tuée en Vhonneur de la belle comtesse de Sa-
lisbury et comme V Annoncíade avaii pour
origine la galanterie d'Amedée IV, comte de
Savoie, . .>
(1) Memoires, cap. I.
FREIRINHAS DE S. BENTO
Nos primeiros dias de Outubro de 1878» o
Arcebispo de Braga, D. Gaspar, teve denúncia
de que no mosteiro das bentas de Viana do
Castelo continuavam os graves escândalos que
já tinham Valido admoestações a algumas reli-
giosas. Certos pormenores que chegaram ao
seu conhecimento encheram de santa indignação
o prelado. Era preciso punir as criminosas e
chamar o velho mosteiro de S. Bento ao zêlo
da observância. No dia 10 de Outubro foi expe-
dido ao vigário-geral da comarca de Valença,
desembargador João Manue! Pereira do Lago,
um decreto de D. Gaspar mandando-o visita^ o
convento, entrar na clausura e tirar devassa. Os
quesitos eram vinte e quatro, redigidos pelo
próprio punho do Arcebispo. As freiras confes-
savam-se, comungavam, ouviam missas, cum-
priam rigorosamente as constituições e a regra?
Traziam vestidos decotados, toucas que lhes
Í92 MULHERES DE ONTEM
descobrissem os cabelos ? Bailavam ? Represen-
tavam comédias e entremezes? Dormiam juntas
nas mesmas celas ? Namoravam das janelas para
o pátio? Falavam espeitoradas dos mirantes?
Ficavam meninos (!) de noite no convento? As
religiosas iam sem toucado à grade ou à porta
do carro? Alguém passava, de dia, da casa da
roda? Alguém violava de noite a clausura?
Quem guardava as chaves do locutório, ^a por-
taria, da cerca, do cerrado? Quais eram as
freiras que se correspondiam com homens ?
Quais as que desonravam a majestade do seu
hábito? Tudo isso desejava saber o Arcebispo
D. Gaspar, nascido dos amores sacrílegos de
D. João V e duma freira bernarda de Odivelas,
e, talvez por isso mesmo, implacável para os
galanteios e para as mundanidades das reli-
giosas.
A devassa principiou a 17 de Outubro, sendo
ouvidas, em primeiro lugar, a Abadessa e as
madres discretas do mosteiro, quási todas sep-
tuagenárias. Declararam em geral, madres e
jerarquias, que tudo corria pelo melhor naquela
casa de Deus e de S. Bento, referindo-se apenas
a três freiras que davam escândalo, soror Maria
Josefa de Santa Teresa, soror Ventura do Sa-
cramento e soror Maria Rosa de S. João —
três só — o que, no fim do século xviii e
num mosteiro de religiosas bentas, podia con-
FREIRINHAS DE S. BENTO 193
siderar-se excepcional exemplo de observân-
cia e de bons costumes. Mas o desembar-
gador vigário-geral não se contentou com meias-
-palavras e quis saber tudo. Enca valou no nariz
os quevedos de coiro, releu os quesitos, pres-
crutou, farejou, interrogou. Que escândalo da-
vam as madres ? Quem eram elas ? Que costu-
mes tinham? Porque não eram observantes?
Porque não as castigava a prelada? Para que
serviam a regra, as constituições, o jejum, o
cárcere, o silêncio, e cepo ? A abadessa titubeou ;
o escrivão esbogalhou os olhos ; e as madres
discretas, vencendo o pudor dos seus virginais
setenta anos, entraram em singulares pormeno-
res. As três freiras acusadas andavam sempre
em «bulhas, zelos, ciúmes, prantos e dores, de
tal sorte que davam pancada umas nas outras,
apelidando à Voz de el-rei e armando gritaria
que amotinava todo o convento». Qual a princi-
pal culpada? Soror Maria Josefa de Santa Te-
resa, que as madres, nos seus depoimentos,
pintaram como desenvolta, indisciplinada, gim-
nandra, masculina, viril. O vigário benzeu-se,
pasmou, e, ouvidas as velhas, passou às moças.
Todas elas caíram, numa acusação cerrada,
sobre as três delinquentes. O mal estava nelas ;
eram as ovelhas gafas do mosteiro ; o resto tudo
era virtude, penitência, recolhimento, castidade,
pureza, mortificação. Podia Sua Ilustríssima o
13
194 MULHERES DE ONI EM
senhor Arcebispo repousar no seu santo zelo
pastoral. Tiradas as três serpentes, ficava o
convento um ramalhete de flores. O escrivão
tossiu; o visitador fungou no seu alcobaça; a
Abadessa, que ainda era moça, pôs os olhos
em alvo, — e já andava perto de Vésperas
quando as três acusadas compareceram perante
o doutor João Manuel Pereira do Lago. Iam
falar as «serpentes». Para se defenderem? Não.
Para acusarem. A sua qualidade de espôsas-
-Virgens do Senhor não as fizera menos vingati-
vas, menos rancorosas, — menos mulheres.
Tinham-nas picado? Pois bem. Suas Reverên-
cias escandalosíssimas arreavam a ceira — e
iam pôr a calva à mostra a todo o mosteiro. E
puseram. Nenhuma das três teve papas na lín-
gua. Mas quem falou mais claro foi a desenvolta
soror Maria Josefa de Santa Teresa. O senhor
Arcebispo havia de saber tudo. O senhor vigá-
rio geral havia de conhecer com quem lidava.
Cuidavam que Madre Catarina Rosa de Sena
era uma santa? Pois Agostinho de Magalhães,
da rua da Piedade, entrava de noite na cerca
para falar com ela Viam Madre Maria Mada-
lena Evangelista sempre de olhos no chão? Pois
tinha amores com Pedro da Cunha, homem
casado da rua da Bandeira. E a Abadessa?
Todos na vila sabiam que namorava Martinho
Quesado. E soror Antónia Joaquina do Menino
FREIRINHAS DE S. BExNTO 195
Jesus? Falava a uni espanhol. E a sonsa da
madre escrivã? Andava metida com Francisco
Vieira, cónego da Sé. E. . .
O vigário, atónito, amarrou as mãos à cabeça.
A garrida do mosteiro tangeu a Vésperas. No
dia seguinte, a devassa continuou.
AS CÓMICAS DO BAIRRO ALTO
I
Entre os documentos, ainda inéditos, da Co-
lecção Pombalina^ existe urna dezena de cartas
autografas que me parecem interessantes como
subsídio para o estudo da sociedade portuguesa
no último quartel do século xviii. Essas cartas
são datadas de Fevereiro e Março de 1771 ; es-
critas no mais elegante francês setecentista;
dirigidas a Mr. le Comte Président, isto é, ao
Conde de Oeiras, D. Enrique José de Carvalho
e Melo, presidente do Senado da Câm.ara de
Lisboa, — e assinadas por Gaubier de Barrault.
Da leitura desses documentos cheios de inte-
resse, de colorido e de vivacidade, depreende-
-se que o seu autor devia ser um homem moço,
dado a mulheres, eminentemente observador e
naturalmente espirituoso ; que vivia na intimi-
dade da família Pombal, frequentando não só a
casa do Marquês, mas também as dos genros,
e, em especial, a do Conde de Sampaio, a
198 MULHERES DE ONTEM
S. Paulo, e a de Cristóvão Manuel de Vilhena,
ao cruzeiro de Arroios ; que o Conde de Oeiras,
muito assíduo junto de cómicas italianas a-pesar-
-de casado com a linda D. Maria Antónia de
Menezes, o distinguia com as suas confidências
e com a sua amizade; que o mesmo Conde,
nas suas ausências de Lisboa, determinadas
naturalmente pela administração dos negócios
particulares da sua casa, o encarregava de no-
ticiar-lhe todos os acontecimentos da corte e,
com escrupuloso cuidado, todos os escândalos
das bailarinas e das cómicas célebres do teatro
do Bairro Alto, muito visitado então pelos JMar-
queses de Pombal, pelo próprio Rei e por toda
a nobreza.
Quem seria Gaubier de Barrault? Um dos
muitos estrangeiros que a criação das grandes
manufacturas chamou a Portugal? Um simples
parasita da casa dos Marqueses, como o doutor
Eusébio de Almeida, que passava a vida a pedir
dinheiro para botas (Pomb.y cod. 619, in fine),
ou como esses aventureiros que sir V/ilIiam
Costigan nos descreve no seu livro Sketches of
Sociefy and manners in Portugal, «atendidos
sempre do velho Marquês logo que lhe falavam
mal de clérigos e de frades» ? Não. Nem uma
coisa, nem outra. Sulpício Gaubier de Barrault
era um oficial francês contratado para servir
nos exércitos de Portugal ; que em Portugal
AS CÓMICAS DO BAIRRO ALTO 199
atingiu os mais altos postos militares; e cujas
tendências literárias, nitidamente acentuadas
nas suas cartas inéditas, se afirmaram, um ano
depois, pela publicação duma Versão francesa
das oitavas camoneanas do Adamastor, «or/-
vrage dédié et presente aii Roi par Sulpice
Gaubier de Barrault, major de place de Lis-
bonne».
A parte mais curiosa das cartas de Gaubier
é aquela que se refere aos teatros do tempo, e,
designadamente, ao teatro do Bairro Alto, si-
tuado nas casas e pátio do Conde de Soure, em
Lisboa, a cuja" porta paravam, em noites de
comédia, todos os coches, seges, estufas, cale-
jas e florões da alta nobreza e do alto comér-
cio ; cujas tablas foram pisadas pelas primeiras
bailarinas e pelas mais notáveis cómicas italia-
nas do fim do século xviii, e cuja vida íntima
de amores e de escândalos galantes mereceu ao
rei D. José, à rainha Mariana Vitória, ao Mar-
quês e à própria Marquesa de Pombal, a mais
inexplicável atenção e o mais singular interesse.
Através das cartas de Gaubier de Barrault
passam todas as figuras marcantes do meio
teatral português de 1771 : — o maestro Scolari,
hercúleo e insolente ; o violinista Todi ; Luísa
Rosa de Aguiar (depois Luísa Todi); Cecília
Rosa ; a graciosíssima Pepa OliVares ; Angiola
Bruza, admirável no travesti; a bailarina Rosa
200 ^ MULHERES DE ONTEM
Campora, amante do director da Fábrica de
Faiança {^^rhomme de fayance^, como lhe cha-
ma Gaubier) ; todas as aventuras da plutocracia
pombahna e dos casquilhos de peruca à la
greca, todas as pernas bonitas e todas as ancas
nervosas que se desnalgavam no fandango e na
fofa. O amigo do Conde de Oeiras conhecia-as
como os seus dedos e cortejava-as como um
bom francês. Era certo no seu camarote, contí-
guo ao da Condessa de Soure. Uma das noites
em que o filho de Pombal não pôde assistir à
ópera, escreveu-ihe Gaubier, pontualmente :
^Louise (Luísa Todi) ifa jamais chanté si
Juste ni avec antant de voix; Maria Joaquina
a deux ires beaux airs qu'elle execute bien.
Trebbi (?) est un beau Jure, Calcini, premier
eunuque, s'est liabillé de façon qu'il ressem-
ble un vieux châtre reforme de la Patriar-
chale. Cecile (Cecília Ro§a de Aguiar) en turc,
est passable. Isabelle a deux ar leites le geres
dont elle se tire fort joliment; mais Louise a
dans le second acte une ariette qui est magni-
fique et qu'elle a chanté superieurement.
Naus sommes prives dans cette opera du
plaisir d'entendre AI/"^ Bruza ( Angiola Bruza).
Le publiCy non content d'applaudir les acteurs,
redoublait de battements de mains à chaque
beau morceau de Vouvrage, en criant ^vivat
Scolariy>. La Augusta etait hier à la mort.
AS CÓMICAS DO BAIRRO ALTO 201
sans esperance, d' une inflammation de matri-
ce dont elle souffre depiiis dix jours.y> Com
a mesma e?<actidão de pormenores descreve
Gaubier de Barraiilt uma scena de pugilato
entre o maestro Scoíari e o rabequista Todi,
em plena representação da ópera de Piccini,
Incógnita persegnitata. Pedro cantava uma
arleta. Scclari, bêbado, que queria o andam^ento
mais presto, começou a acompanhar no cravo
brutalmente e, Volíando-se para Todi, chamou-
-Ihe <porco>. Todi, furioso, levanta-se e chama-
-Ihe «asnoK Scolari arremete; Todi quer que-
brar-ihe o violino na cabeça. A confusão é
medonha: dois soldados avançam; Luísa, que
cantava, desata a gritar ao Ver preso o marido ;
a ópera vai interromper-se, — mas a petíte Isa-
bel te (?) salva tudo, canta de improviso a parte
da Todi, o público serena, a Marquesa de Pom-
bal intervém, chama âo camarote os maestros
desavindos, admoesta-os em italiano, e o sos-
sego restabelece-se. Comenta depois Barrault :
^Qãoíqne Todi soít un crâne, il n'avait ce-
pendant pas le prémier tort ; Scolari est un
insolent qui vient presque tous les jonrs ivre
au thôatre ; depuis qu'il est ici a fait vingt
de ces incartades^ La même chose lui est ar-
rivée avec la Sestini et la Falcliini, et, tous
les jonrs ci, il a quelques duretés obscenes a
dire, à ces pauvres filles^ Cest un fort bon
202 MULHERES DE ONTEM
musicien, mais c'est un fort dan^ereux et
brutal personnaoe.i^ Mas os escândalos não
cessam. Em seguida ao de Scolari, vem o de
Rosa Campora, dançarina de 3.^ ordem da Rua
dos Condes, que trabalhava na ópera italiana
sob a direcção de Bruno, e que era protegida
pelo ^homme de f avance-». Como a tivessem
mandado dançar com o bailarino Brambila, ma-
rido da 1.^ actriz, que tinha sido cabeleireiro
dela e que ainda frisava, riçava e polvilhava
algumas damas da corte, Rosa Campora indignou-
-se, protestou e declarou que não dançava com
o seu cabeleireiro. O director invoca o contra-
to; Rosa insulta-o. Ameaçam-na com o Li-
moeiro ; Rosa quer agredir o bailarino, o director,
a própria Guadagnini, amante dum israelita rico,
— e só aquieta diante do Marquês de Pombal,
que a olha, ameaçadoramente, através da sua
grande luneta de punho de oiro.
Estes simples episódios bastam para nos dar
uma impressão rápida do Valor anedótico das
cartas de Gaubier e do livro encantador que
poderia escrever-se amanhã àcêrca dessa nuvem
côr-de-rosa de cantarinas, de piruetas e de có-
micas, que passou amando, cantando e sorrindo
pelo velho teatro do Bairro Alto. . .
SANTA iSABEL
Várias obras, entre elas a de Jacoby, teem
chamado a atenção dos médicos para a impor-
tância que reveste, no conhecimento das com-
plexas questões da hereditariedade e da selecção
natural no homem, o estudo das grandes famí-
lias dinásticas, e, em geral, das genealogias
reais. Por outro lado, é sabido que a reconsti-
tuição de determinadas figuras históricas —
hoje, que a história procura estudar o homem
como seu factor essencial — não pode fazer-se
de uma maneira completa sem a investigação da
sua ancestralidade, sem o estudo das suas de-
terminantes étnicas, sem o conhecimento da
forma por que a hereditariedade se acumula ou
se dissolve em cada estirpe, as suas causas de
degenerescência, as suas intercorrencias rege-
neradoras. É o caso de Santa Isabel. Quando
a ilustre princesa, que iniciou em Portugal, no
século XIV, uma obra admirável de assistência
204 MULHERES DE OXTBM
social, for considerada, não sob o aspecto
agiográfíco, mas sob o aspecto humano, a de-
terminação dos seus antecedentes hereditários
tem de fazer-se, e constituirá um dos elementos
essenciais para o estudo da mais nobre figura
de mulher que resplandece nas páginas da nos-
sa história. Vejamos, em traços rápidos, o que
de mais interessante, sob o ponto de vista da
selecção e da herança, se encontra na ascen-
dência de Santa Isabel.
O pai de Santa Isabel foi o rei Pedro III de
Aragão, o Grande, filho de Jaime de Aragão e
de Violante da Hungria; a mãe foi a rainha
Constança, filha de Manfredo, rei da Sicília,
um Hohenstauffen, e de Brites de Sabóia- A
ilustre princesa descende, portanto, pelo avô
paterno, dos reis de Aragão ; pela avó paterna,
da dinastia húngara dos Arpades e da casa de
Courtenay ; pelo avô materno, da estirpe alemã
de Hohenstauffen ; pela avó materna, da casa
de Sabóia. Vejamos cada um destes ramos até
aos quintos aVós, — principiando pelo ramo de
Aragão.
O quinto avô aragonês de Santa Isabel foi
Ramiro lí, o Monge, frade decrépito de Saha-
SANTA ISABEL 205
gun, arrancado à paz do seu convento para
Vestir a púrpura de rei. Casaram-no aos 70 anos
com Inês de Aquitânia (1), ou com Matilde,
<ímatrem vicecomites Toareis (2), de quem teve
uma filiia — Petronila. É desta princesa, obesa,
sempre doente, procriada em avançada idade do
pai, que descendem : o terceiro avô aragonês de
Santa Isabel, Affonso lí, o Casto, psicopata
sexual, cuja mulher, Sancha de Castela, se faz
freira depois de viúva ; o bisavô, Pedro II,
casado com a disforme Maria de Montpel-
lier (5), Valente, poeta (4), morto na cruzada
dos Albigenses, onde, no dia da batalha, di-lo o
próprio filho, ^por haber-se la noche entregado
à sus torpes amores, se hallaba tan débil, que
no pudo o ir el Evangélio de la Missa en
pièT> (5); o avô, Jaime I de Aragão, espírito bri-
lhante, homem <(>dado a deshonestedad y mal
(1) Crónica de Afonso VII, in Flores, Espana Sa-
grada, XXI, n.° 24.
(2) Roberto, abade de Monte, Ap. ad Sigebert, Chro-
nicon Gemblacense, ano MCLIX, pag. 778.
(3) Ramon Muntaner, Crónica do Rei D. Jaime,
cap. III e seg.
(4) Hist. de Languedoc, III, 255 ; AIbérico Monge,
Chronicon, ano 1213.
(5) Jaime I de Aragão, Comentários, parte 1.*,
cap. VIU.
206 MULHERES DE ON'TEM
trato hasta la postrera edad» (1); o pai, Pe-
dro III de Aragão, ponderado, medíocre, normal.
Vejamos o ramo húngaro e o ramo francês de
Courtenay, de que descende Violante da Hun-
gria, a avó paterna de Santa Isabel de Portugal.
O quinto avô da virtuosa princesa na dinastia
húngara dos Arpades, a estirpe apostólica des-
cendente de Santo Estêvão, foi o rei Bela, o
Cego, a quem um tio mandou arrancar os olhos,
e que morreu na idiotia alcoólica, emquanto a
mulher, Elena da Sérvia, metia os braços até aos
cotovelos no sangue da vingança (2) ; o terceiro
avô foi Bella III, erudito, ruivo, cruel, bizantino
até à medula, fundador da primeira Universidade
húngara ; o bisavô, André II da Hungria, o
Jerosolimitano, príncipe ilustre que assinou a
Bula Áurea e tomou parte na quinta cruzada ;
a avó, Violante, meia-irmà de Santa Isabel da
Hungria, a protectora dos leprosos da Turín-
gia (3), em cuja memória caridosa Santa Isabel
de Portugal inspirou toda a sua obra de assis-
tência e cuja doce figura nos sorri ainda num
tímpano doirado da catedral de Bruges. No ramo
(1) Mariana, Hisí. Gen., V, 69, 70.
(2) Pi^uler, Hung. sob os Arpades.
(3) Conrad. Marp., Epist. ad Greg. IX, apud. Aliat,
Synimicí.
SANTA ISABEL 207
francês, o quinto avô de Santa Isabel foi Luís,
o Gordo, rei de França, obeso, braditrófico,
artrítico profundo, cheio de insónias horríveis (1),
que do seu casamento com Alice de Sabóia,
depois freira em Montm.artre, teve, entre outros
filhos, Pedro, o fundador da casa de Courtena}/,
estirpe célebre desde o século xii na França e
no Oriente, cortiço de imperadores bizantinos
manques (2); o terceiro avô foi Pedro II, senhor
de Courtenay, conde de Nevers, coroado Impe-
rador pelo Papa Honório III e morto nas monta-
nhas da Albânia quando avançava, com o seu
exército, a caminho de Constantinopla ; a bisavó
foi Violante, ou Yolanda de Courtenay. terceira
mulher de André ÍI, o Jerosolímitano (3), em
cuja filha, Violante da Hungria, avó paterna de
Santa Isabel de Portugal, se une o sangue hún-
garo dos Arpades às flores-de-lis de oiro da
França.
Isto, quanto aos avós paternos. Vejamos os
avós maternos : Hohenstauffen e Sabóia. Man-
fredo, rei de Nápoles e da Sicília, avô materno
(1) Luchaire, Louis le Gros, p. XXXIX.^
(2) Bouffier, Introd. à IHist. des maisons souverai-
nes, Maison de Courtenay, I, 144.
(3) Bouchet, Hist. GeneaL de la Mais. de Courtenay,
liv. 1.°, cap III.
208 MCÍLHERES DE ONTEM
de Santa Isabel, descende da estirpe ilustre dos
Hohenstauffen. É filho do imperador da Alema-
nha Frederico II, fisionomia complexa e estranha,
o primeiro em data dos soberanos modernos e
o precursor dos tiranos italianos dos séculos
XV e XVI, político eminente que tem já o feitio
intelectual dos príncipes. da Renascença, que é
amigo de Leonardo de Pisa e de Miguel Scot,
que se rodeia de sábios gregos, franceses, ita-
lianos e árabes, que funda a Universidade de
Nápoles, que tem o sonho maravilhoso da domi-
nação da Itália, e que morre duma neoplasia
abdominal, embrulhado no hábito dum monge de
Cister, nos braços do Arcebispo de Palermo.
Este homem superior é o único génito do impe-
rador Enrique VI da Alemanha, pálido, microcé-
falo, doente, <^le corps menu, le visagemaigre,
la tête trop petite^ (1), com a preocupação
imbecil da magnificência, e de Constança, sici-
liana de coração, que deixa pelo leito imperial
a mitra e o báculo de abadessa (2), que tem o
seu único filho depois dos 40 anos (3) e que
acaba por assassinar o marido dando-lhe ve-
(1; Barre, Hist. d' Aliem., V, 499.
(2) Chr. Viterb, ad. finem. Ital. Sacr. Ugh., tomo III.
p. 955.
(3) Baroniuí, Monarch. Sicilioe, tom. 12, and an. 1186.
SANTA ISABEL 209
neno (1). São estes os terceiros avós de Santa
Isabel de Portugal no ramo de Hohenstauffen.
O quarto avô é o grande Frederico Barbarôxa.
Vejamos, finalmente, o ramo de Sabóia. A avó
materna, Beatriz, é filha de Amadeu de Sabóia,
duque de Chablais ; neta de Tomás, cuja única
celebridade consiste em ter quinze filhos, entre
os quais dois bispos, de Mauriène e de Liége,
e dois arcebispos, de Leão e de Cantorbery;
bisneta de Humberto ÍII, o SantOy de Sabóia,
espécie de condestável, de arcanjo S. Miguel
da Roma pontifícia, que Vive entre o sol das ba-
talhas e a penitência de um convento de cartu-
xos (2); terceira neta de Amadeu III, violento,
exaltado, cruzado à Palestina, amigo de S. Ber-
nardo, fundador da abadia de Hautecombe, da
casa dos cartuxos de Valromey, do convento
de cisterciences de Chesiry (5).
Em todos estes ramos, Aragão, Hungria,
Courtenay, Hohenstauffen, Sabóia, a fecundi-
dade é, em geral, grande; a multiparidade, fre-
quente ; as mortinatalidades, raras. A dissolução
da hereditariedade fez-se sentir mais naestigma-
(1) Chr. German., I, 19, cit. in Barre, V, 498.
(2) Bouffier, Int. à VHist. des Maisons Souv., I, 346.
(3) Guicheron, Hist. Geneal. de la Maison de Sovoye,
I, 225 a 227.
14
210 MULHERbS DE ONTEM
tização psíquica e funcional de certas figuras,
do que nas suas malformações somáticas; o
cruzamento de estirpes etnicamente diferencia-
das explica as regenerescências que se notam
na ascendência de Santa Isabel. A ilustre prin-
cesa, que uniu no seu escudo em lisonja as
quatro faixas de Aragão, em campo de oiro às
armas de Portugal, tem entre os arqui-avós, além
de quatro príncipes que pelas suas virtudes fo-
ram inscritos no cânon da Igreja — Santo Estê-
vão, S. Luís, Santa Isabel da Hungria e Hum-
berto, o Santo y de Sabóia — alguns dos maiores
espíritos que ilustraram, durante os séculos xi
e XII, as dinastias europeias.
PARA MISS KATE LER
PARA MISS KATE LER
Fui-lhe apresentado num garden-party, há
dois meses.
Chamava-se Kate Bergsom, tinha um sorriso
enigmático, uma elegância seca e masculina,
umas lindas mãos compridas que faziam lem-
brar as mãos flamengas de certos retratos de
Memling, e a-pesar-disso, ou talvez por isso
mesmo, um perturbador e indefinível encanto,
feito menos de beleza do que de frescura, me-
nos de inteligência do que de expressão. Pa-
rece-me que a estou a ver ainda. Os movimen-
tos ágeis, a pele loira, os olhos vivos como
pontas de aço, uma raquette na mão, um
sweater de malha de seda muito cingido ao
corpo, um polo de lã branca posto à banda na
cabeça, uns tornozelos nervosos, finos, elásti-
cos, calçados de branco, que faziam pensar ao
mesmo tempo, não sei porquê, nas piérolas cor
de rosa, nos trorough-bred ingleses e na rija
214 MULHERES DE ONTEM
flexibilidade duma Vara de metal. De lento, de
melodioso, de feminino, só havia nela a voz.
Afastámo-nos, a conversar, para um canto do
jardim. Conhecem, de-certo, esse velho tipo
quási extinto do jardim português do século
XVIII, com as suas ruas de buxo, os seus faunos
de pedra, os seus caramanchões de azulejo do
Rato, os seus pequeninos tanques em concha,
rasos, lavrados, graciosos como salvas de prata
de D. João V, a sua horta carinhosa, o seu en-
canastrado de feijoeiros onde o sol brinca e
onde gritam pavões. Foi num recanto assim,
entre um banco de pedra e um canteiro de ro-
sas, abrigados num maciço de arvoredo que
tremia, e faYscaVa, e escorria oiro, — que nós
fomos esconder o nosso splendid flirt. Fala"
mos de tudo, distraidamente, um pouco ao acaso,
— de política e de tennisy de Rodin e de cor-
ridas de cavalos, da música de Ravel e dos ne-
voeiros de Londres, — e, emquanto as mãos
brancas de Miss Kate Bergsom se estendiam
como moluscos sobre a palha fulva da raquettey
acabámos por falar de literatura.
— Como se chama o seu novo livro?
— Mulheres.
— É uma obra de história natural ?
— Perdão! É um livro de psicologia femi-
nina.
— Oh!
PARA MISS CATE LER 215
O ar repreensivo de Míss Kate Bergsom
deu-me, por instantes, a impressão de que eu
tinha dito uma inconveniência. Os seus olhos
pardos, metálicos, em cujas íris inquietas pare-
ciam misturar-se, na scintijação crua do sol,
tons azuis de água e manchas doiradas de âmbar
cinzento, fixaram-se em mim, primeiro desde-
nhosos, em seguida perscrutadores, por fim ri-
sonhos :
— Para que é que os senhores falam de coisas
que não entendem ?
— Como, Miss Kate. . . ?
— Para que faiam os senhores de mulheres,
que é precisamente aquilo de que percebem
menos?
Perante esta afirmação inesperada, confesso
que tive apenas o recurso de sorrir. Ia falar-
-Ihe dos romances de Bourget, das cartas de
Prévost, dos livros de d'Annunzio, — mas a ori-
ginal inglesa cruzou familiarmente a perna, abra-
çou o joelho anguloso onde se adivinhava, num
ranger de seda, a compressão doce da meia, e
emquanto o seu pé esbelto, adunco, vivaz, cal-
çado de camurça branca, trepidava nervosa-
mente no ar, disse-me com o mais britânico dos
desdéns :
~0s livros de psicologia feminina que os
senhores fazem, não interessam nada as mulhe-
res. São falsos desde a primeira até à última
216 MULHERES DE ONTEM
linha. Tenho hdo centenas deles, — e não me
encontrei em nenhum. Ainda há de vir o pri-
meiro homem que faça a mais pequena idea
do que é uma mulher. Como querem os senho-
res falar de nós, — se não nos conhecem? O
que há de mudável, de instantâneo, de fugitivo,
de complexo, de delicado, de quási divino na
mulher, — escapa absolutamente à observação
e à inteligência do homem. Conhecem apenas
a epiderme, — e imaginam que conhecem a
alma. Ilusão ! Se os senhores soubessem como
são ridículos quando nos explicam, quando nos
analisam, quando nos interpretam ! Dão-nos a
impressão duma criança a apanhar uma som-
bra. Conseguem conhecer, quando muito, a cor
dos nossos olhos, o tom da nossa pele, a luz
dos nossos cabelos, tudo quanto é exterior,
tudo quanto é grosseiro, tudo quanto é super-
ficial, — e, ainda assim, quantas vezes se enga-
nam ! A mulher, meu amigo, há de ser sempre
para o homem um mistério. No dia em que
deixar de o ser — pobres dos senhores ! — o
nosso encanto acabou. Não, senhor psicólogo,
não me mande o seu livro, fen ai assez. Ou,
se mo mandar, marque a lápis as páginas. que
não falarem de mulheres. São as únicas que
me interessam. Good byel
Arrefecia. Sobre a nossa cabeça, no êxtase
doirado da tarde, revoavam andorinhas. Ou-
PARA MISS KATE LER 217
Viam-se ainda, ao longe, Vagamente, as danças
húngaras de Brahms. O Vulto branco da minha
amiga inglesa perdeu-se, ondulando, nas som-
bras do jardim. Desde essa tarde, o meu livro
teve mais um capítulo :
— Para Miss Kate ler.
o MEU VIZINHO
Nào sei qual de nós se levanta mais tarde :
se o meu vizinho^ se eu. Aponta a madrugada,
cantam os primeiros galos, já reluz o postigo
da minha janela, — e ainda o nào ouço. Desa-
brocha a manhã, numa névoa longínqua ; chis-
pam oiro, ao sol, os montes distantes, hirsutos
de rocha; o fumo sobe dos casais, como uma
bênção ; abro a vidraça de par em par ; bate-me
na face, corre-me nos cabelos uma lufada de
ar fresco ; assomo, debruço-me : lá está já o
meu vizinho espreitando à porta, gordo, rosado,
pacífico, contente.
— Bom dia, amigo !
Não sei se sabem : eu tenho agora um vizi-
nho. Vizinho de pátio, Vizinho de ao pé da
porta, sossegado, metido comsigo, recolhido
com as galinhas ao pôr do sol, única sombra
Viva que os meus olhos encontraram em três
léguas redondas de montanha, quando ante-on-
220 MULHERES DE ONTEM
tem, às labaredas do meio-dia, assomei pela
primeira Vez a este janêio de casal saloio.
Desde essa hora, o meu vizinho interessou-me.
Observei-o, primeiro com curiosidade, depois
com interesse, por fim com ternura Os seus
olhos redondos, pequeninos, sumidos em refe-
gos róseos de tegumento, scintilaram; a sua
orelha espessa, o seu frontal chato eriçou-se ;
todo o seu corpo gelatinoso e enorme se immo-
bilizou, numa expressão que me pareceu, a
princípio, de profunda surpresa, depois, de
êxtase profético, por fim, de resignação cristã.
Decididamente, eu viera incomodá-lo. Talvez o
meu vizinho, por uma falsa concepção do uni-
verso ou por um defeituoso critério da proprie-
dade, tivesse suposto que tudo aquilo lhe per-
tencia exclusivamente a êle, — manhãs de oiro
e rebanhos de écloga, águas dormentes e árvo-
res patriarcais. Talvez, no íntimo da sua pesada
consciência, me acusasse de vir disputar-lhe a
posse daquela terra fecunda e escaldada de
sol, que êle considerava sua, tradicionalmente
sua, imemorialmente sua, desde os pousios pró-
ximos, eriçados de mato queiró acre e florido,
até às ondulações roxas e tranquilas do hori-
zonte, onde se adivinhava uma indecisão de
bruma e uma paz de geórgica. E quem sabe se
o meu vizinho teria razão? Porque, afinal, o
intruso era eu, — e toda aquela glória da natu-
o MEU VIZINHO 221
reza era bela de mais para não ser admirada
por êle só. Nessa tarde, falei-lhe. Passou, des-
denhosamente. No dia seguinte, vim almoçar à
janela o meu prato de fruta. Então, o meu vizi-
nho olhou-me de lado, numa expressão acolhe-
dora ; um tremor afectuoso percorreu-lhe o largo
cachaço glabro e côr-de-rosa ; coçou num poial
de pedra a sua orelha pastosa, onde, uma la-
nugem fina de prata fulgia ao sol ; roncou, res-
folegou um grunhido meigo ; esfregou o focinho
chato na terra ; fossou ; dobrou as patas dian-
teiras em adoração, e, com um sentimento de
intimidade que não pôde deixar de me enterne-
cer, atirou comsigo molemente, voluptuosa-
mente, sobre o lajedo fresco do pátio.
O meu vizinho é um honesto e formidável
porco.
Damo-nos agora muito bem Desde ontem
que essa massa gorda, cariciosa e ronflante,
onde se abriga a mais sábia das filosofias, par-
tilha comigo a frescura de todas as sombras e
a polpa de todos os frutos. Levo horas a obser-
vá-lo, a admirá-lo, a invejá-lo. Tudo nele parece
contraditório. Move-se com a lentidão e a ma-
jestade dum boi; tem, nos pés fendidos, a le-
veza e d graça dum fauno. Quando caminha,
de focinho na terra, os olhos invisíveis sob a
orelheira espessa, o lombo coriáceo e grisalho,
dir-se ia a imagem da decrepitude : mas quando
222 MULHERES DE OXTEM
ajoelha, e cai de borco, e se espoja, e brinca,
e se volta na terra de patas ao ar, e treme todo
ao sol como uma posta enorme de gelatina,
desde as tetas negras até ao focinho róseo, — a
sua expressão, os seus movimentos, as suas
atitudes, tudo nele é fresco, infantil, gracioso e
leve, como se um égipan moço se tosquiasse e
Viesse, glabro, na poeira luminosa da manhã,
rebolar-se pela relva de um bosque mitológico.
É hediondo, — e é quasi humano. É Sócrates
e é S. Francisco de Assis. Tem o orgulho da
imundície e a immobiiidade dos êxtases. Lá foi
agora, tropeçando, grunhindo, espojar-se no
feno do cortelho, que scintila grãos de oiro
numa réstea oblíqua de sol. O seu lombo ato-
chado e friorento pressentiu os primeiros arre-
pios da tarde. Rebola-se, feliz ; uma folha viçosa
de couve, dum Verde leitoso, ressuma-lhe na
boca. Ouve-se um sino, num casal distante. O
corpo enorme do meu vizinho estremece e
aquieta; o focinho pende-lhe; a boca pinga-lhe,
numa beatitude; inunda-o todo, o clarão do
poente; o seu sono começa.
— Amigo, boa noite!
A CADEIRA
Meu amigo, — Faço-te presente dessa ca-
deira. Deve ficar bem na tua sala Luís XVI.
Não me agradeças. Mando-ta, porque reco-
nheci a absoluta impossibilidade de a conser-
var em meu poder. Tenho especial interesse
em conhecer as tuas impressões acerca desse
móvel na aparência Vulgar, — quarenta e oito
horas depois de êle ter entrado em tua casa.
Tu sempre foste uma criatura calma, ponde-
rada, serena, positiva. Vi-te sorrir várias vezes
quando, há tempo, no último brid^e da legação
de Espanha, faiámos na lógica suprema do invi-
sível e do sobrenatural. Pertences ao número
daqueles espíritos deslumbrados de evidência,
para quem nada absolutamente existe além do
mundo real e palpável. Conheço o teu scepti-
cismo fácil, que é tudo quanto te resta dos
preconceitos da tua educação scientífica. Tu só
224 MULHERES DE ONTEM
acreditas no que se vê. Ninguém, por conse-
guinte, mais insuspeito para a contra-prova dos
factos na verdade e?<traordinários que acabam
de passar-se comigo, e que eu, a não ser que
o meu espírito se encontre profundamente per-
turbado, não posso deixar de atribuirá presença,
em minha casa, da cadeira que te mando pelo
portador.
Estou a adivinhar o teu sorriso. É natural.
Preciso de contar-te o que se passou. Tu sabes
que eu tenho, há muito tempo, a mania das
faianças. Passo os dias metido pelos leilões,
atrás de cacos velhos de loiça, com a mesma
voluptuosa obstinação com que, há vinte anos,
as mulheres andavam atrás de mim. É fatal que
todos nós, na Vida, havemos de coleccionar
qualquer coisa. Ontem, foi um dia cheio. Tinha
já comprado um admirável gomil da Bica-do-
-Sapato e um prato de Ruão, magnífico, que me
pareceu a princípio um Delft,. com as armas
coloridas do cardeal de La Rochefoucauld, —
quando me apareceu no mesmo leilão, entre
dois lotes sem interesse, uma cadeira Luís XVI,
de medalhão, perfeita, autêntica, tão bem con-
servada que daVa a impressão dum Jémont
moderno, e estofada duma seda amarelo-palha,
antiga, pombalina, esgarçada, um pouco suja,
mordida, aqui e ali, duma velha escarcha de
oiro. Fiz o meu lanço. Picaram. Por capricho,
A CADElkA 22ò
— insisti. Cinco minutos depois, a cadeira era
minha. Á saída, quando eu entregava as faian-
ças a um moço, veio falar-me o meu amigo
Visconde de Z. :
— Sabe de quem era a cadeira que você
comprou ?
— Não.
— Lembra-se daquele judeu relojoeiro da rua
da Madalena, que tinha uma filha doida e era
amador de rosas ?
— O Balsemão?
— O Balsemão. Foi nessa cadeira que êle
se matou.
— O Balsemão matou-se?
— Deu um tiro na cabeça. Estava perdido.
Um cancro na boca. Havia aí hoje muita coisa
dele . . .
Despedimo - nos . Passara - me despercebida
aquela morte. Pelo caminho, recordei o velho
judeu, a quem tinha falado ainda três meses
antes. Era uma curiosa figura, com um sorriso
ao mesmo tempo inquietante e afável, uma
face macilenta, aquilina, empastada de barbas
brancas, lembrando Vagamente o 6". Pedro da
sacristia do Escuri^l, um. chapéu alto enorme,
uma sobrecasaca no fio, escorrida, pingada,
babada, tocada de dedadas verdes de azêbre,
que dava ao pobre Balsemão o ar duma está-
tua de bronze a caminhar ao sol. Roía as
15
226 MULHERES DE ONTiiM
unhas. Gaguejava. Eu sempre lhe conhecera
esse mesmo aspecto fatídico e inexplicável de
todas as criaturas condenadas a acabar tragica-
mente. Quando cheguei a casa, às 8 horas, já
encontrei as compras do leilão. O criado, sem
que ele próprio me saiba dizer porquê, tinha
posto a cadeira aos pés da minha cama. Deti-
ve-me um instante a olhá-la, a considerar a
expressão quási humana que inesperadamente
ganham, em volta de nós, os objectos de que
conhecemos a história. Aquela cadeira, que me
atraíra apenas pela arte que continha, interes-
sava-me agora, acima de tudo, pelo drama que
evocava. No estofo havia sangue, que correra
e empastara o tecido. Assentei-me para a expe-
rimentar. Mal tinha passado os olhos pela pri-
meira página do Matin, senti uma Vertigem,
uma impressão brusca de esvaVmento, a testa
cobriu-se-me de suor frio. LeVantei-me: todas
essas perturbações cessaram. Pouco depois,
comecei a vesíir-me para ir jantar com Miss C.
Quatro Vezes o criado pendurou a casaca nas
costas da cadeira: quatro vezes, inexplicavel-
mente, como se mãos invisíveis a arrancassem,
a casaca se desprendeu e caiu, num ruído
surdo, sobre o tapete. Quando a vesti, agi-
tou-me um tremor convulsivo. Dir-se ia que
uma agulha de gelo me percorria a espinha.
Senti-me mal durante todo o jatar. Arrepios,
A CADEIRA 227
vertigens, excitação, suores. Lego que cheguei
a casa e despi a casaca, — tudo cessou. Nota
bem que eu nào pretendo, sequer, explicar ou
interpretar estes factos. Registo-os, apenas.
Mas ainda não é tudo. De noite, emquanto a
cadeira esteve aos pés do meu leito, foi-me
absolutamente impossível dormir. Não sei que
fluido, que vibração se comunicava aos meus
nervos, ao meu organismo, a tudo o que me
rodeava. Um.a faiança holandesa soltou-se da
parede e veio estilhaçar-se no sobrado. Na
escuridão, em meio do horror da minha insónia,
eu sentia distintamente uma névoa a envoi-
Ver-me, a circundar-me, a aflorar-me as mãos,
a humedecer-me os cabelos. De Vez em quando,
um estalido seco de madeira, cortando o silên-
cio, fazia-me estremecer. Não havia dúvida : a
cadeira movia-se, imperceptívelmente, se tu
quiseres, — mas movia-se. E no meu leito, con-
gestionado, estrangulado, eriçado de terror, —
eu tinha a sensação nítida de que ela cami-
nhava para mim. Num supremo esforço, abri a
luz eléctrica, olhei. Ninguém. Os relógios esta-
vam parados. As nódoas de sangue pareciam
mais vivas. Um fumo ligeiro, uma neblina quási
invisível, flutuava. Chamei o criado. Mandei
remover a cadeira para o pátio. Os cães uiva-
ram um instante. Tudo serenou. Dez minutos
depois, adormeci.
228 MULHERES DE ONTfíM
Nada mais?— perguntarás tu. Nada mais.
Aí Vai a cadeira Luís XVI onde o velho Balse-
mão se matou. Ofereço-ta. Manda-a colocar
aos pés da cama, — e não te esqueças de me
dizer amanhã as tuas impressões.
Teu amigo, — Bernardo,
DEBAIXO DE ÁGUA
Eram duas horas quando o Espadarte atra-
cou ao Vasco da Gama. Um dia cinzento,
pesado, baço. No silêncio do mar gritavam
gaivotas. O frio cortava. Desci, com o coman-
dante da divisão naval e com o tenente Capelo.
Feitos os cumprimentos e as apresentações, o
submarino largou, rápido, como um focinho de
aço, cortando a água em borbotões de espuma.
O mar alagara o convés. O Vento sacudia,
como uma bandeira, o meu cache-col de lã.
Principiou a manobra para a imersão. Almeida
Enriques, na ponte do comando, dava ordens.
Uma fisionomia nobre ; uma grande expressão
de calma, de impassibilidade, de confiança.
Desarmaram-se as antenas da telegrafia sem
fios. Os lemes horizontais de vante e de popa
baixaram, arfando, as barbatanas enormes. Si-
lêncio. Disciplina. Rapidez. Num instante de
sol, scíntilaram ainda, ao longe, os areais do
250 MULHERES DE ONTEM
Bugio. Um gaivotão cinzento, pacífico, acom-
panhava-nos, boiando. Tudo desaparecera do
convés, varrido agora de água e de espuma.
— Pronto, comandante!
Era o momento sensacional. O Espadarte
ia imergir. Descemos todos pela escotilha es-
treita, quási a pulso. Uma lâmpada de fila-
mento metálico iluminava a câmara dos oficiais,
pequena caixa de aço, atravancada de acumu-
ladores de ar com.primido e de energia elé-
ctrica. Todas as comunicações com o exte-
rior se fecharam. OuVia-se agora mais perto o
motor. Principiava já o gorgolejo da água nos
reservatórios laterais. Estávamos isolados. Mo-
vimento de comoção? Não. Movimento de curio-
sidade. Perto de mim, avançando da som.bra a
sua bela cabeça de marinheiro, Leote do Rêgo
sorria. Capelo acompanhava a manobra, absor-
vido, interessado. Para a ré, na câmara do
comando, ouviam-se as primeiras vozes. íamos
descer. As minhas atenções convergiram ime-
diatamente para esse pequeno coração de ferro
onde pulsava, onde latejava toda a Vida do
submarino. Espreitei os quatro, os cinco ho-
mens atentos que eram, naquele instante, o
olhar, a inteligência, o movimento do Espa-
darte, A um canto, ao pé da armadura de cobre
do manómetro, que faiscava, moviam-se os bra-
ços nus, os braços congestionados e felpudos
DEBAIXO DE ÁGUA 251
do timoneiro dos lemes laterais. O comandante,
tranquilo, Vigiava ao periscópio grande. Na meia
obscuridade, a lâmpada vermeliia do batógrafo
sangrava. Tiniam metais. Os olhos do timo-
neiro do leme vertical, um belo rapaz hercúleo
e trigueiro, coruscavam, interrogando a bús-
sola. Principiámos a descer. Houve um movi-
mento de inclinação insensível. Vivo, inteli-
gente, o imediato, Fernando Branco, descrevia,
explicava, elucidava. Fui seguindo, no traçado
do batógrafo, a linha de imersão, — lenta, oblí-
qua, suave. Cruzavam'-se vozes, do comandante
para os timoneiros. O gorgolejo da água era
mais Vivo. O ruído do m.otor e da hélice, mais
forte. O submarino caminhava agora a quatro
metros e meio de profundidade. Um ponto
luminoso, Vagamente azulado, pequeno como o
brilhante do meu anel, fulgurou diante de mim.
Era um dos periscópios. Olhei. O mar, os na-
vios, a rocha longínqua, apareceram-me nítidos,
minúsculos, refulgentes como um dia de grande
sol visto através dum binóculo às avessas. Pró-
ximo, na minha frente, o tubo do periscópio
mais alto cortava a água, refervia espuma,
avançava, espreitava, faiscava. Uma revoada
de gaivotas passou, estremecendo no ar. Um
farol distante parecia um traço de oiro. De-
correram dez minutos, vinte minutos, uma hora.
Na câmara do comando abafava-se. íamos subir.
252 xMULHERES DE ONTEM
Diante dos meus olhos deslumbrados, a água
próxima começou a coalhar-se de manchas
Verdes, doiradas, roxas; alargaram-se círculos
de espuma ; o tubo do periscópio grande ia
subindo; e, de repente, luminoso, varrido da
Vaga, eriçado dos seus lemes enormes, o foci-
nho de aço do submarino surgiu, refervendo,
espadanando, cortando as ondas.
Cinco minutos depois, navegávamos à super-
fície.
A ESPADA
Na lomba daquela' serra havia um conVen-
tinho de arrábidos. Ficava debruçado na rocha,
a entestar com o céu, todo eriçado de cruzei-
ros e viçoso de nascentes de água. Servia de
casa de penitência à sexta província de Santo
António. Na assomada de Abril de 1702, o mais
florido Abril que a serra conhecera, não Vivia
no conventinho senão o guardião. Frei Manuel
da Madre de Deus, com um donato Velho que
o acompanhava, muito risonho, muito remen-
dado no seu chiote de estamenha, — chamado
Frei João. Nunca uma casa de penitência vira
tanto descanso e tão santa alegria. Já nem o
sino da portaria tocava, porque não havia fra-
des que chamar. Uns, doentes, tinham adorme-
cido no seio de Deus. Outros, absolvidos da
penitência, sandálias às costas, abordoados ao
seu carrasco, tinham tornado, com lágrimas de
234 MULHERES DE ONTEM
saudade, ao alvoroço da casa-mãe. O guardião
era agora a comunidade inteira. Rezava as ho-
ras canónicas, de joelhos na rocha, os olhos
pregados no céu. O seu refeitório era uma pe-
dra, à ilharga duma nascente. A sua casa do
capítulo era a serra inteira, com os seus ninhos,
com as suas árvores, com as suas flores. Quando
comia, à tarde, diante do céu incendiado de
oiro, as andorinhas revoavam-lhe sobre a ca-
beça, pipilavam, poisavam-lhe no ombro, nos
braços, nas mãos, — e êle ria, e afagava-as, e
chamava-lhes «suas irmãs», e dava-lhes todo o
seu pão. Rezadas as vésperas, adormecia como
um justo. Mal apontava a manhã, e os piscos,
e as toutinegras barbirruivas entravam a cantar,
o guardião deixava o seu travesseiro de cor-
tiça, agradecia a Deus o ter-lhe dado mais um
dia de vida, e emquanto o donato Frei João,
de alforje às costas, descia a mendigar aos
casais. Frei Manuel da Madre de Deus reman-
gava da enxada e ia amanhar, cantando, a terra
da sua horta.
Um belo dia, quando o frade cavava, a en-
xada retiniu-lhe num pedaço de ferro. Curioso,
desbravou a terra, à volta; esboroou-a, torrão
a torrão ; deitou as mãos ao ferro que luzia ;
olhou: era uma espada. Quem a teria enter-
rado ali? Frei Manuel da Madre de Deus empu-
nhou-a, considerou um momento a sua larga
A ESPADA 235
tijela espanhola, as guardas e as contra-guar-
das onde se enleara uma reigota de tojo, lim-
pou-lhe a lâmina a um pano do hábito, cin'dou
ver ainda, na ferrugem que a mordia, uma nó-
doa Viva de sangue, orou mentalmente pelas
almas que aquela espada enviara a Deus, —
agarrou outra vez na enxada e continuou a ca-
var. Quando o donato Frei João chegou, gal-
gando a serra debaixo do seu alforje pojado de
pão e de frutos, e viu a lâmina a lampejar ao
sol sobre um penedo, riram-se-lhe os olhos
para ela :
— Uma espada, meu padre!
— Louvado seja Deus. Achei-a na terra,
irmão.
— Se Vossa Paternidade ma desse !
— Para quê?
— Ia vendê-la ao ferreiro da vila.
Frei Manuel da Madre de Deus abanou a
cabeça, enxugou o suor à manga de estame-
nha, olhou uma revoada alta de pombas que
passava a festo da serra, e disse ao leigo :
—Não. A espada fica no convento.
— Para que a quer Vossa Paternidade?
— Sempre há de servir para alguma coisa.
O donato olhou-o, risonho ; encolheu os
ombros ; lavou num regueiro de água os pés que
sangravam do mato, e jogou ao guardião, ati-
rando outra vez a alforjada às costas ;
256 MULHERES DE ONTEM
As espadas, meu Padre, nunca serviram
senão para matar.
Frei Manuel da Madre de Deus deixou o
leigo nos cruzeiros do adro; tornou a empu-
nhar a espada; assentou-se num banco de ro-
cha, e ficou a cuidar no emprego que a sua
alma angélica de franciscano daria àquele ins-
trumento de devastação e de morte. Pois não
permitiria Deus que se tornasse ao bem aquillo
que nascera para o mal? Não poderia aquele
ferro, santificado pela cruz das suas guardas
de Toledo, resplandecer já agora numa obra
humilde de bondade e de paz? Teria razão o
donato? Não serviria para mais nada aquela
aguda lâmina, — senão para espalhar no mundo
a viuvez, a orfandade e a dor? Essa arma de
destruição — não seria capaz de fazer palpitar
a vida? O Velho guardião leVantou-se e pôs-se
a caminho do convento. Seguia por um cór-
rego estreitinho, entre penedos, quando des-
cobriu lá baixo, quási aos seus pés, a rebentar
dum palmo de terra, um braço florido de roseira.
Toda a face se lhe abriu, num assomo de jú-
bilo. Aquela roseira montesinha e varejada do
vento oferecia-lhe um ensejo de tornar útil a
sua espada. Porque não, se o pobre arbusto
precisava dum amparo para se aconchegar, para
se enlear, para subir? Frei Manuel da Madre
de Deus, alegre como uma criança, descalçou
A ESPADA 257
as sandálias, desceu pelas fragas, cravou a es-
pada pelos punhos na terra, enleou-lhe, enros-
cou-lhe na lâmina o braço da roseira, — e um
mês, dois meses andados, o ferro lampejante,
que erguia para o ar a sua ponta hostil, estava
completamente, virginalmente coberto dum mon-
tão vermelho de rosas bravas. O Velho frade-
•guardiào, ao vê-las abrir todas as manhãs, cho-
rava de alegria. Realizara o seu sonho. Nas
suas mãos piedosas, esse instrumento de morte,
que era uma espada, — dera vida a uma roseira.
Uma tarde, passou no córrego uma criança;
debruçou-se dum penedo, e viu tão florida, em
bai;><o, a moita de rosas, que pediu a Frei Ma-
nuel da Madre de Deus que a deixasse colher
uma flor.
— Desce e colhe, meu irmãosinho. São de
Deus.
O pequenito desceu ; mas ia tão deslum-
brado a olhar, que os pés faltaram-lhe, caiu,
rolou nas fragas e foi tombar em cheio, de
bruços, sobre a roseira. O corpo oscilou um
momento e ficou immóvel. Uma ponta de ferro,
luzente, apareceu-lhe numa espádua. Da boca
do pequenito golfou sangue. A espada atraves-
sara-o.
— Bem disse eu a Vossa Paternidade — cho-
rava o donato, arrepelando-se — que as espadas
não serviam senão para matar!
A DIVISÃO PEREIRA DE ECA
Partimos de Torres Vedras às 10 da manhã,
num automóvel do Quartel-General A divisão
Pereira de Eça estacionava ao norte, dispersa
numa extensão de noventa quilómetros quadra-
dos, ao longo de três grandes estradas diver-
gentes. Tomámos pela estrada Tôrres-Louri-
nhã-Peniche. Um.a admirável manhã de outono,
fresca, descoberta de sol, Viçosa ainda dos chu-
veiros ásperos da noite. Emquanto o focinho
de ferro do Hudson cortava o ar, a brava pai-
sagem estremenha ia-se desdobrando em lom-
bas de pinhal e em chãos de vinhedo, lumi-
nosa, fecunda, gotejante de orvalho, —para um
lado até às arribas do oceano, rasas de bruma;
para o outro, de ondulação em ondulação, de
montanha em montanha, até à serrania azul de
Monte-Junto. A atmosfera ofuscava. Passavam
carros de lenha a caminho dos bivaques. De vez
em quando, à beira da estrada, Vermelho, fu-
240 MULHERES DE ONTEM
megante, enorme, pojava o mamilo de barro
de um forno de tijolo. Vinte minutos depois,
estávamos em Paio Correia, -uma mão-cheia
de casinholos caiados. Perto, um veio de água
espelhava: era o Alcobrichel. Numa terra cei-
fada, como pinceladas de oiro, alastravam as
tendas do primeiro biVaque : era o batalhão de
infantaria 11. Começava a subir o fumo das
cozinhas. Um carro alentejano descarregava
pão. Medas de palha chispavam ao sol. Bandos
de soldados, risonhos, tisnados, uma toalha
branca ao pescoço, vinham de laVar-se no ri-
beiro. Ouvimos ainda o toque de sentido, o
brado de armas da sentinela. Todo aquele for-
migueiro humano se immobilizou, faYscando ao
sol : o General passava. Seguimos. A estrada
abria-se agora entre pinhais bravos, scintilantes
de caruma; corria entre vinhas vindimadas,
onde fossavam e farejavam cães ; talhava-se,
mais adiante, entre tractos de terra barrenta,
cavados de barrocais, borbulhentos de cascalho,
onde o automóvel saltava como uma pela. Prin-
cipiaram a alvejar, na volta do caminho, umas
casas de adobe caiado. Era «A dos cunhados»,
centro de reabastecimento, coalhado de carros
de bois e de camions militares. Um saioto
roxo de mulher saracoteou ao sol a^m poial de
porta. Varejavam moscões. Andado o casario,
num campo à mão esquerda, estendia-se o bi-
A, DIVISÃO PEREIRA DE EÇA 241
vaque do 3.° grupo de batarias divisionárias
(artilharia 3), numa grande mancha ruiva e bu-
liçosa de gado, as cozinhas fumegando, o par-
que eriçado de rodados, de cofres, de lanças,
como as pernadas cinzentas de uma enorme
aranha de ferro. Por toda a parte, a mesma
impressão de alegria, de saúde, de disciplina,
de força. Dois soldados, a cara lambuzada de
sabão, faziam a barba, à beira da estrada. Uma
nuvem de pardais atravessou diante do auto-
móvel, cujo leve chassis americano saltava,
estremecia, devorava caminho a favor do Ven-
to. Principiava agora a região dos grandes
Vinhedos. Ao longe, na encosta, matinando si-
nos, um povoado alegre branquejava entre vei-
gas verdes e' viçosas: era o Sobreiro Curvo. De
novo os pinhais ramalharam ; de novo surgiram
os fornos de telha, debruçados sobre a estrada
como cortiços enormes ; — e a primeira casa do
Vimeiro apontou ao alto, negra, solene, alpen-
drada, decrépita. Era a pobre Vimeiro onde se
ilustrou Wellesley em 1808, — com o seu ca-
beço escarpado, o seu triste cruzeiro de pedra, a
sua miséria secular, os seus casebres em ruínas.
Estavam ali duas formações sanitárias — a am-
bulância n.° 2 e uma coluna de transportes —
e, mais adiante, num vasto campo, perto das
águas lampejantes do Maceira, os dois bata-
lhões de infantaria 1 . Sentia-se já o ar do mar.
16
242 MULHERES DE ONTEM
A paisagem tinha agora uma expressão bárbara
de aridez, com as suas terras escalvadas, os
seus pinhais longínquos ao nascente, as suas
moitas cheirosas de alecrim bravo rescendendo
à beira da estrada. Quando chegámos a Tole-
do, em cujas casas se encontravam acantonados
os sapadores-mineiros, arrepiámos caminho, dei-
xámos à mão esquerda Cabeça Gorda e o Ca-
sal do Grilo, voltámos a Paio Correia, — e cor-
tando a direito, entre sobreiros descascados
e sangrentos, metemos à estrada das Caldas.
Pouco depois, entrávamos no Amial. Um povoado
branco, alegre, cheirando a mosto, com as suas
hortas Verdes, os seus carinhosos beirais carre-
gados de abóboras doiradas, a sua igreja onde
dormia, entalhada por um piedoso imaginário do
século XIII, a Senhora de Rocamador. Logo
adiante, galgando, cabrejando, subindo por uma
encosta de pinhal, um vasto bivaque de três ba-
talhões, infantaria 16 e 17, — admirável de
ordem, de aspecto, de disciplina. Quando passá-
mos, tocava para o rancho da manhã. A senti-
nela bradou às armas. Mas o Hudson do Gene-
ral seguiu, a direito do Ramalhal, onde vimos
infantaria 5 e metralhadoras ; daí para a Boga-
Iheira, mais ao norte, onde em volta dum velho
casal amarelo bivacava o 2.« grupo de batarias
divisionárias (artilharia 1); outra Vez arrepiámos
caminho, para alcançar a estrada Tôrres-Cada-
A DIVISÃO PEREIRA DE EÇA 243
Vai ; metemos a um desvio aberto a picareta
numas terras barrentas ; seguimos até à Ermi-
jeira, por entre grandes chãs de vinha onde pa-
reciam escorrer, ao sol, babas Vermelhas de
cobre ; entrámos na Quinta do Visconde, esta-
cionamento duma formação sanitária com tendas
Bessoneau armadas ; e, pela estrada do Cada-
val adiante, entre barricas de mosto e carros
de bois, jumentos bíblicos e cães hirsutos como
lobos, emquanto o sol aquecia, a luz se metali-
zava, e pequeninos insectos tremiam como dia-
mantes sobre a caruma adusta dos pinhais, che-
gámos a Maxial, onde estacionava o 1.^ grupo
de batarias ; atingimos Malpique e a Mecejana,
por cujas terras se estendiam, numa mancha
fulva de tendas e de gado, o bi vaque do 2 e a
bela tropa algarvia de infantaria 4. Tínhamos
percorrido, em três horas, uma extensão de 15
quilómetros de frente por 6 de profundidade.
Era, simultaneamente, a revelação de uma pai-
sagem — e dum exército. Os vinte mil homens
da divisão Pereira de Eça dispersos por esse
extenso tracto ribatejano, mantinham-se tão
admiravelmente na mão do comando supremo,
— como se estivessem num campo de concen-
tração. Quando chegámos a Torres, a poeira
sufocaVa-nos, o sol ardia-nos na pele. Era 1
hora da tarde.
os MORTOS
Meu amigo. — Cheguei de Londres há três
dias para ver morrer meu sogro. E?<tinguiu-se
ontem, às onze e meia da noite^ em condições
tão singulares, que ainda neste momento,
quási sete horas depois, me sinto gelado de
pavor. Uma agonia prolongada e terrível, jul-
garás tu. Não. Pelo contrário. Foi um coma
rápido, profundo, aparentemente tranquilo. Mas
as circunstâncias que precederam e acompa-
nharam a morte foram tão extraordinárias, que,
se tu estivesses presente, havias de sentir,
como todos nós, apesar da tua impassibilidade
de médico, uma impressão desagradável de frio
pela espinha.
Tu sabes que meu sogro comprou aqui, há
seis anos, neste canto de charneca quási raieiro
de Espanha, um terreno junto à ermida de
Santo António. Foi nesse terreno, em tempo
aproveitado para cemitério dum conventinho de
capuchos, que êle mandou construir , a casa
onde apenas viveu onze meses, e onde acaba
246 MULHERRS DE ONTEM
de morrer agora. Creio que te mandei em
tempo a fotografia dessa casa. Não tem nada
de especial nem de interessante. É um casa-
rão, meio alentejano meio inglês, com o seu
hall confortável vestido de tapetes de Arraio-
los, as suas paredes caiadas, a sua lareira
patriarcal. Quando se abriram os caboucos
para as fundações, encontraram-se, como era
natural, muitas ossadas humanas. Em Vez de
as fazer remover para a ermida de Santo Antó-
nio ou para o cemitério da vila, o mestre de
obras encarregado da construção, que era
meio-irmão de meu sogro e que morreu pouco
depois sem se saber de quê, juntou as ossadas,
dei?<ou-as nos alicerces debaixo duma abobadi-
Iha de tijolos, e edificou sobre elas a casa que
habitamos. Quando o pai de minha mulher teve
conhecimento do sucedido, já a construção
estava adiantada. Um espírito vulgar e forte
não se teria preocupado excessivamente com
semelhante pormenor ; mas meu sogro, dotado
de uma impressionabilidade doentia e dum
carácter taciturno e extravagante, começou a
manifestar vivas apreensões pelo facto de ter
construído a sua casa sobre um cemitério ; pen-
sou em arrasá-la para a edificar de novo ; ouviu
amigos; procurou médicos, que o tranquiliza-
ram alegando o carácter remoto e acidental das
inumações ; hesitou ; resolveu-se ; um belo dia
os MORTOS 247
as obras recomeçaram, — e, há onze meses, o
pobre velho, sombrio, absorvido, preocupado,
tendo substituído já, perante a sua consciência,
a questão concreta da salubridade por dúvidas
de ordem metafísica e espiritualista, acabou
por se instalar, com repugnância ainda, mas
com relativo conforto, na sua nova «casa de
Santo António ;>. Pouco tempo depois, rece-
bia-se em Londres a notícia de que o irmão de
meu sogro falecera de repente. Uma carta mais
extensa do pai de minha mulher informava-nos
da morte do velho mestre de obras, — um caso
obscuro de morte súbita, que tinha ocorrido em
circunstâncias pouco Vulgares, precisamente
quando o Velho, de Visita ao irmão, entrava
pela primeira Vez na habitação que ele próprio
construirá. Toda a gente supôs que meu sogro
abandonaria imediatamente a casa. Não suce-
deu assim. Pelo contrário, criou amor à sua
nova morada; comprou, para revestimento do
hall, cinco tapetes de Arraiolos do século xviii,
dum desenho acentuadamente persa, que são o
melhor do recheio da casa; pediu um tecto a
Columbano ; encomendou para França, a Edgar
Brandt, um lustre de ferro forjado que nunca
Veio ; e quando eu o imaginava definitivamente
reconciliado com a casa e com os mortos, a ler
Michelet e a aquecer os pés nas brasas de
azinho, diante do frade de tijolo da lareira, —
248 MULHERES DE ONTEM
um telegrama urgente chamou minha mulher a
Portugal : o pai estava a morrer. Combinámos
que ela partiria no pró?cimo paquete, e que me
avisaria, logo que chegasse, se fosse necessá-
ria a minha presença aqui. Veio encontrar o pai
de cama, ressequido como uma múmia, as
mãos esbrugadas, os olhos coruscantes, —
rodeado de família, de criados, de médicos.
Falavam todos de caque^cia senil, — uma caque-
xia singular e precoce, acompanhada de vago
delírio. Quando a filha chegou, meu sogro
olhou-a fixamente, apertou-lhe muito a mão, e
recomendou-lhe, numa voz apagada e longín-
qua: — «Assim que eu morrer fujam desta casa,
que é um cemitério.» Minha mulher, profunda-
mente impressionada, telegrafou-me. Vim. Em-
bora não corresse a mais leVe aragem, quando
entrei de noite em casa de meu sogro, os tape-
tes do hall oscilaram nas paredes. Senti uma
imperceptível vertigem ao subir as escadas. Um
Velho piano Clementi, que bocejava a um canto,
gemeu, como se o Vento passasse nas suas
cordagens de cobre. Evidentemente, ilusão
minha. De costas, meu sogro, desfigurado,
olhava em êxtase um ponto imaginário. Pergun-
tei-lhe o que sentia. Respondeu-me, inquieto :
— «Os mortos». Nessa mesma noite, à mesa
do chá, minha mulher transmitiu-me o estranho
pedido que lhe fizera o pai. Na idea fixa de
os MORTOS 249
revelar-nos a verdade de além-túmulo sobre o
mistério daquela casa funesta, meu sogro supli-
cara à filha que, no instante supremo da morte,
lhe aproximasse dos olhos a chama duma vela.
Se as suas pálpebras se movessem à luz duas
Vezes, — era sinal de que os mortos viviam ali,
e nos rodeavam, e nos prescrutavam, e faziam
palpitar em volta de nós as suas sombras invi-
síveis e deletérias. Sorri, naquele sorriso fácil
das criaturas educadas na lição positiva da
sciência. Ontem de dia, com grande surpresa
nossa, o doente melhorou. Á noite, pelas dez
horas, quando minha mulher tocava Mozart no
velho cravo de oitava larga, — meu sogro caiu
bruscamente em coma. Rodeámos-Ihe o leito.
Ás onze e vinte e cinco minutos, com a mão
da filha apertada na sua, morreu. Não sei ainda
bem porquê, instantaneamente, deitei a mão a
um castiçal e aproximei a chama da vela dos
olhos do cadáver. Uma Vez, duas vezes, as
pálpebras ergueram-se-lhe, — e os olhos do
morto ficaram diante da luz, baços, vítreos,
immóveis, abertos. Os cabelos puseram-se-me de
pé. Minha mulher caiu com um ataque. E ainda
agora, depois duma noite inteira de vigília, ao
escrever-te esta carta, sinto escorrer-me pela
testa o suor frio do terror. Parto amanhã para
Lisboa. Vam.os vender a casa.
Teu, — Manuel.
A FEIRA
Havia feira, lá acima, em S. Pedro. Fui.
Desde certa tarde, em S. Bartolomeu da Char-
neca, há quatorze anos, que não assistia a uma
feira de gado. Galguei a azinhaga cortada entre
silvados brancos de pó ; atravessei uns baldios
para encurtar caminho ; meti à estrada, debaixo
de um sol de brasas, e, trezentos passos anda-
dos, entestei com o terreiro da feira, uma
Vasta chã sombreada de olmeiros à Volta, onde
largas manchas de gado grunhiam, mugiam e
bezoavam, mordidas da raçada do sol e do
ferrão sangrento dos moscões. Deviam ser
nove horas andadas. Ao pé da frescura dum
chafariz, um cruzeiro erguia, entre carvalhei-
ras, a sua bênção de pedra. Perto, matinava
um sino. Revoavam rolas bravas, para as ban-
das da serra, sobre o mato em flor. A atmos-
fera scintiiava e tremia. Meti-me ao terreiro.
Saloios grisalhos, risonhos, graves, em mangas
252 MULHERES DE ONTEM
de camisa, um grilhão de prata luzindo num
colete de pêlo de coelho, troquilhaVam encos-
tados aos varapaus. Ao pé duma junta de bois
caldeiros, iguais, três ciganos cortavam peda-
ços de pão, à navalha. Largas nódoas Verme-
lhas de loiça, húmidas de barro viçoso, coalha-
vam a terra escaldada. Vinha chegando mais
gado, trôpego, entre nuvens de poeira. Peque-
nos criadores, saloios humildes dos casais vizi-
nhos, atiravam, Vazavam para a feira toda a
riqueza dos seus corveiros, dos seus cortelhos,
dos seus currais : agora, um rebanho de chibos,
enfurdados, sequiosos de leite; logo, uma porca
enorme, maternal, pacífica, as tetas negras
pojando, uma cria buliçosa de dez bácoros
pendurada a mamar ; dum lado, um vitelo magro
embarbilhado de corda, preso pelas patas a
uma estaca ; do outro, debaixo do seu albardão
mourisco de volta em meia-lua, um jumento
branco, refle?<ivo, resignado, escorrendo sangue
das mataduras ; os mais ricos traziam manadas
de bois ruivos, bíblicos, serenos, possantes ; os
mais pobres, o seu porco negro e oleoso como
faiança vidrada, ou o seu bezerro tenrinho, pre-
cário, a ajoelhar no lodo e a chorar pela mãe.
Toda esta carne palpitante, toda esta massa
animal de trabalho e de sacrifício se movia, e
formigava, e borbulhava no terreiro, Varejada de
moscas, tilintante de chocalhos de cobre, espe-
A FEIRA 255
rando o ferro bárbaro dos arados ou a choupa
lampejante das matanças. Em volta, a feroci-
dade humana alquilava, regateava, discutia em-
poleirada em carroças, boleava garupas luzentes
de égua, travava de patas trazeiras de bácoro,
zurzia vitelos que demandavam a apojadura ma-
terna, batia moedas de prata, que rolavam, ti-
lintavam e retiniam na pedra velha dos poiais.
Havia de tudo. O saloio abastado, chambão,
sombreiro de abalroar, amarra de oiro, suíça
branca, afeito a arrematar os grandes lotes e a
Varrer o gado das feiras ; o criador tímido, cau-
teloso, miúdo, com um telheiro e dois palmos
de chão, empreiteiro de engordas que comprava
num ano uma ninhada de leitões e os vendia
porcos anais na Volta da Senhora de Agosto ;
o pastorelho saloio, esfomeado, descalço, um
saco de milho às costas, humilde para o patrão,
feroz para o gado ; o cigano tisnado, semita,
anguloso, triste, ferrolhando esporas de Guima-
rães, garrindo mantas de riscas do Alentejo : —
e tudo aquilo praguejava, íiiVaVa, vociferava ;
tudo aquilo bebia, os olhos chispando, as bar-
bas brancas de pó, a pontoeira dos varapaus re-
luzindo ao sol, uma malga de vinho roxo a es-
pumar nas mãos ; tudo aquilo era capaz, num
abrir e fechar de olhos, de se baralhar por um
pataco Velho, de travar da navalha por uma ma-
nusca de palha, de assassinar o pai. por uma ca-
254 MULHERES DE ONTEM
beça de gado. O sino tornou a matinar para a
missa. O sol apertava, ardente. Era tempo de
arrepiar caminho. Meti à estrada, respirando,
mordendo poeira. Vinham Varas de porcos, a
tropeçar ; saloias, de lenços sarapantões, empi-
lhadas em carroças ; cadelas magras, hirsutas,
farejando, fossando, ganindo. Já na Volta da
azinhaga, olhei : sobre um jumento infantil, fel-
pudo, de perninhas de fauno, assentado no seu
albardão mouro, vinha galgando a encosta um
saloio Velhinho, seco, risonho, debai?^o dum
formidável chapéu-de-sol de pano azul. Quando
nos cruzámos, dei-lhe o «salve-o Deus:& e per-
guntei :
— Esse chapéu é para vender, tiosinho ?
O saloio parou o burro, compôs o atafal,
mirou-me de alto a baixo, sorriu, olhou a sua
grande basílica azul, e respondeu-me, co.mo o
melhor dos filósofos :
— E vocemecê era capaz de vender a sua
sombra?
ARRAIOLOS
Meti-me na diligência do correio. Eram dois
quilómetros até à vila. Uma estrada nova, aberta
entre terras de pão ceifado, que ondulavam a
perder de vista, fulvas de restolho e esbrasea-
das de sol. Nem montados, nem olivedos. O
Alentejo-seara, o Alenteio-celeiro. Numa volta,
os machos meteram a passo, sacudiram as es-
quilas, retesaram as ancas. Subíamos, a direito
do monte de S. Pedro, que encobria ainda de
todo a nobre Arroiolos dos Senhores Duques.
Á medida que a diligência galgava a encosta,
o horizonte alargava, desdobrava-se em novas
ondulações de terra, estendia-se em leiras bár-
baras rasgadas pelo ferro da piscola alentejana ;
além, aparecia uma lomba Verde de sobreiros e
de azinhos ; acolá, para nascente, um olival ne-
gro, bíblico, sombrio ; longe, numa névoa azu-
lada, Estremoz; mais ao sul, a serra de Ossa,
roxa, coroada de nuvens, escorrendo a baba de
256 MULHERES DE ONTEM
oiro do sol. Olhei em frente: alvejavam já, ao
topo da estrada, as primeiras casas da. Vila. O
chicote estalou; os machos arrancaram, tilin-
tando os guizeirões de cobre; uma nuvem de
poeira, acre, espessa, — scintilou. Estávamos
em Arraiolos. Não me lembro de ter sentido
nunca, em nenhuma das pequenas vilas caiadas
e luminosas do Alentejo, uma tão viva, uma tão
ofuscante impressão de luz, de brancura, de
alegria, de claridade. Ao sopé do velho castelo
das seis torres, de D. Denis, aninhada num re-
gaço de terra entre dois montes, uma toalha
branca e faiscante de casaria alastrava, silen-
ciosa, tranquila, florida de beirais, calcinada de
sol, cheirando ao mesmo tempo ao leite orde-
nhado das primeiras cabras e ao pão cozido do
primeiro forno. Era aquilo, a vila. Aquela meia-
-dúzia de casas, que parecia caber-nos na palma
da mão, era a nobre Arraiolos da coroa ducal
de Bragança, a Arraiolos antiga das tradições
romanas e visigóticas, a Arraiolos carinhosa, a
Arraiolos patriarcal dos coloridos tapetes de lã,
dos frades de tijolo nas lareiras, do chafariz
milagroso dos almocreves, da noiva que, no sé-
culo XVIII, levou quinze dias a enfeitar-se para
a boda e saiu embrulhada numa manta. De re-
pente, a diligência parou. Tínhamos chegado ao
rossio da Vila. Um terreiro vesgo, soalheiro, bran-
co, coruscante, com uma picota de pedra des-
ARRAIOLOS 257
troncada, última relíquia do seu orgulho muni-
cipal : a um lado, a cadeia velha da comarca,
eriçada duma sineira franciscana; a outro, a
casa da Misericórdia, acaçapada, acolhedora,
decrépita, com o seu telheiro encarnado, o seu
painel de armas de azulejo e um ingénuo portal
gótico, apeado talvez das primeiras ruínas do
castelo, em cuja pedra — quem sabe ? — teriam
faVscado ainda os marrões de ferro dos alvanéis
de D. Denis. Olhei em Volta: ninguém. Ao pé
da roda dum carro alentejano com a relha solta
e os caibros descarnados, — quatro, cinco, seis
cães fossavam, farejavam, dormiam ao sol. No
meio dum silêncio de charneca, a torre branca
do relógio, debruçada da alcáçova, bateu as
duas horas. Deitei-me a correr as ruas. Tive a
impressão duma vila recolhida, laboriosa, sosse-
gada, feliz. Aquele silêncio não era desolação:
era bem-aventurança. Não era morte : era vida.
Tudo casas pequenas, brancas, tranquilas, res-
plandecentes, aconchegadas como ovelhas; as
mais abastadas com o seu eirado e os seus ja-
nelos de telhai ; as mais pobres com a riqueza
da sua enorme chaminé, do seu postigo esprei-
tadeiro, das suas paredes de adobe caiado, do
seu hospitaleiro lar de tijolo, e — coisa curiosa I
— pobres ou ricas, grandes ou pequenas, todas
com o beiral pojando de ninhos de andorinhas.
Ninguém lhes toca ; era destruir a própria feli-
17
258 MULHERES DE ONTEM
cidade. E os ninhos crescem, povoam-se, enno-
velam-se, esbeiçam, arredondam como alcofas,
chilreiam, palpitam de pequeninas asas, Vivem,
crestam-se, morrem, — sem que uma só mão se
levante para perturbar a sua paz e o seu misté-
rio. Nessa carinhosa Vila de silêncio e de ninhos,
cada casa apareceu-me como um sorriso ; cada
rua, como uma bênção. Fui subindo a encosta,
por um córrego empinado numa lomba de monte
cheirosa de queirogas e de tojo ; galguei ao cas-
telo onde viveu Nun'ÁlVares; olhei, do alto
adarve da muralha, sobre a porta de Santarém,
toda a maravilhosa planície do Alentejo, faiilhante
de sol ; debrucei-me para Vale-Formoso, em cuja
veiga viçosa e verde o convento dos Lóios dor-
me o seu sono de pedra ; e fatigado de luz, de
brancura, de solidão, de claridade, voltando os
olhos, pela última vez, para a nobre Arraiolos
dos tapetes, — recebi a impressão de que essas
velhas obras-primas de cor, de paciência, de
ternura e de graça, não podiam ter sido feitas
senão ali.
TROVAS BRASILEIRAS
Está aqui, sobre a minha mesa, o encantador
Volume de Trovas BrasileiraSy acabado de pu-
blicar pelo dr. Afrânio Peixoto.
Que horas de prazer intelectual eu devo a este
livro í Só as tive comparáveis, lendo as paginas
bravias desse genial Catulo Cearense, o pri-
meiro homéride do sertão brasileiro, cuja obra
me veio às mãos por obsequiosa lembrança do
m.eu amigo dr. Araújo Jorge As mil e uma tro-
vas populares que Afrânio Pei?iOto recolheu e
prefaciou (com que elegância e com que erudi-
ção!) e o livro de Catulo, éclogas dum Vergílio
caboclo, ressumantes, saborosas, doiradas e
selvagens como os frutos bravos da floresta,
completam-se e explicam-se um ao outro. Sen-
te-se pulsar em ambos, no mesmo ritmo largo,
o coração ardente do povo brasileiro. Neles la-
teja, como um clarão de fogueira ao vento, a
alma da mesma raça. Versos de toda a gente.
260 MULHERES DE ONTEM
que são hoje anónimos ; versos dum poeta de
génio, que serão amanhã da multidão, uns e
outros foram feitos para as cordas da mesma
sanfona, para os soluços da mesma garganta,
para o meneio dos mesmos corpos, que se des-
nalgam, e peneiram, e saracoteiam no samba,
como torsos de deuses de bronze, ao sol. Mas
se há muito de brasileiro, de original, de autó-
ctone nos dois livros, há muito também de por-
tuguês no seu sentimento, na sua emoção, no
seu lirismo ingénuo. «Não é fácil suprimir o que
nós temos de lusitanos» — diz Afrânio Peixoto,
de resto fortemente nacionalista em literatura.
Eu próprio tive a confirmação disso, vertendo
para português correcto a primeira parte do Le-
nhador, de Catulo, — obra prima que, não sei
porquê, me fês pensar em certas sagas escan-
dinavas. Quando li, numa roda de amigos, esses
versos formosíssimos, que não precisam, para
ser belos e para ser brasileiros, de estar escri-
tos em cassange, logo um nome aflorou em to-
das as bocas, trémulas de admiração : António
Correia d'0!iveira. De facto, os dois poetas
confundem-se na mesma ternura, no mesmo
sentimento, no* mesmo fundo ideológico, na
mesma expressão formal, idiomática, da redon-
dilha, no mesmo culto religioso da árvore, na
mesma tendência para a antropomorfizaçào da
natureza. E, o que se dá com êies, dá-se com
TROVAS BRASILEIRAS 261
esse grande poeta colectivo e anónimo, que é o
povo. O livro do dr. Afrânio Peixoto, réplica,
melhor sistematizada, das Mil TrnvaSy de Al-
berto d^Oliveira, vem demonstrar, antes de tudo,
que a poesia popular portuguesa e a poesia po-
pular brasileira são, ainda hoje, uma só poesia,
impregnada do mesmo forte lusitanismo comum.
Numa e noutra predomina um fundo essencial
de lirismo amoroso. Mais sentimental uma, a
portuguesa, — mais sensual outra, a brasileira
(como justamente observa o romancista admi-
rável da Esfinge e de Maria Bonita) ^ ambas
as colecções constituem, no seu conjunto, uma
vasta amorografia, que, ou batida na Viola es-
tremenha dum campino ribatejano, ou zangar-
reada na brava sanfona dum cangaceiro caboclo,
não aspira senão à exaltação e à divinização da
mulher. Através das mil trovas populares da re-
colta de Afrânio Peixoto, eu vi, senti, reconsti-
tuí, com todas as suas determinantes étnicas,
com todo o seu penetrante encanto, a mulher
brasileira, a <^morena requebrada», a «pimenti-
nha mordida», a í:trigueira picada do sob, a den-
gosa «^flor de cananeia», —Eva eterna, volúpia
imortal, inimiga adorada. Adivinhei a sua graça
nas expressões ternas do lirismo mineiro, baiano
e carioca, — «minha bem feita», «minha folhinha
de coentro», «meu caroço de dendém^, <í:minha
andorinha de coqueiro», «meu cacujeiro miudi-
262 MULHERES DE ONTEM
nho, carregadinho de flor» ; surpreendi-ihe a on-
dulação melodiosa do torso e dos rins, dríada,
oréada, fauneza de cobre do sertão ofuscante
e magnífico, — «corpo de fita lavrada>, «ancas
de linha torcida» ; vi-a sorrir, com a sua «boca
de cravo da índia», fitar-me com os seus «olhos
grandes», os seus «clhos de pimenta e de fogo»,
«de restilo e de veludo» ; compor o lenço azul
sobre a «trancinha dacheada», cheirosa às pom-
bas virgens do mato ; sapatear numa esteira —
«requebra mais, Lionô ! » — com os pequenos pés
nus, nervosos, doirados, morenos, «coalhados
de leite cru e de mel de abelha», pés de ave e
de sopro, de deusa e de flor. Não será, talvez,
a brasileira citadina, a brasileira hipercivilizada,
descendente pura e e?<treme de europeus, que
o scintilante Castro Meneses, numa crónica do
seu último livro, acha demasiadamente «pálida,
franzina, nervosa» ; mas é, com certeza, abra-
sileira plebeia, o adorável tipo lusitano cruzado
de negroide ou de aborígene, a mestiça — cabo-
cla, cabrocha, caf usa — a brasileira amarela e
ardente do sertão que Catulo Cearense canta
nos seus poemas, a Maíby, a Víraca, a Lindi-
nha, a Lionô, olhos «de espinhos e de mel»,
peitos de rola morena, línguas de cobra côr-de-
•rosa, Salomés bronzeadas da floresta, cujos
olhos matam como «cornadas de chifre», cujo
suor cheira como as flores do mato, e em cuja
TROVAS BRASILEIRAS 255
beleza ondulaníe, voluptuosa, selvagem, eu vejo
a Mae suprema, o seio fecundo, o ventre glo-
rioso do Brasil, Ignoro se os acasos da vida me
levarão algum dia a conhecê-la. Não sei, na in-
certeza da hora presente, se amanhã terei de
dem.andar o Brasil, como quem procura uma
segunda pátria. Mas, se assim for, a mulher
brasiieira já não terá surpresas para mim. Atra-
vés da poesia popular do seu país, recolhida
pelas m.ãos ilustres de Afrânio Pei?<oto, eu pude
vê-la, senti-la e entendê-la bem.
A CRITICA
Aleu amigo. — Os seus nervos estão fati-
gados e doentes. Não gostei de ler a sua carta.
Bem sei : é a mental strain inevitável das mo-
cidades que ardem e vibram de mais. Se a Eu-
ropa estivesse viajável, — aconselhava-o a uma
longa viagem. Você precisa de sair daqui. Pre-
cisa, pelo menos, de não ler, de não pensar, de
não sentir. A literatura é um veneno. Isole-se.
Repouse. Entretenha o espírito com qualquer
coisa fútil. Sabe o que lhe aconselho? Case-se.
A sua carta é dolorosa. E, entretanto, quan-
do acabei de a ler, sorri. Vejamos os factos.
Você tem vinte anos e tem talento. São duas
grandes crises, meu amigo. Quando se é im-
pressionável, nervoso, excessivo como você, —
chegam a ser duas grandes doenças. Tempera-
mentos como o seu, quando atingem a zona
equatorial dos vinte anos, — ou se suicidam por
uma mulher, ou fazem um livro. Você fêz o li-
266 MULHERES DE ONTEM
vro Ainda bem. Foi o seu sarampo, foi a sua
puberdade, foi o seu ataque de nervos. Se o es-
crevesse apenas, — não havia nada mais inofen-
sivo. Papéis que se rasgam quando a crise pas-
sa, ou que se guardam à chave numa gaveta
até que cheguem os primeiros cabelos brancos.
Mas você não se limitou a escrever um livro ;
Você publicou-o. E desde que o publicou, meu
amigo, —o seu livro pertence a toda a gente.
É de todos. Todos íeem o direito de o criticar,
de o envenenar, de o discutir, de aírontar o pu-
dor da sua sensibilidade, de sorrir da dignidade
do seu nome, de humilhar, de devassar o que
há de mais recatado no seu sentimento, de mais
nobre no seu orgulho, de mais íntimo no seu
coração. Ah, meu amigo ! Se os vinte anos sou-
bessem por que doloroso preço se paga a vai-
dade do primeiro livro, — quantos manuscritos
inúteis crepitariam no fogo amanhã !
O seu caso é o caso de todos nós. Você
manda-me recortes de jornais que o ferem, que
o deprimem, que o agravam, que lhe contestam
originalidade, probidade, talento, — e pergunta-
-me, num estado de espírito que me alarma, se
deve ou não responder-lhes. Não deve. Veja-
mos a questão com serenidade, com essa im-
perturbável serenidade que é a suprema força
de todas as criaturas destinadas a vencer. Que
poderia ser a sua resposta? Ou uma violência,
A CRÍTICA 267
OU uma justificação, ou uma banalidade. Não
lhe aconselho a violência. A liberdade de crí-
tica consagra um direito incontestável ; e quem,
pela sua excessiva sensibilidade, pela sua deli-
cadeza doentia, não pode ou nào quer ser cri-
ticado, — não publica livros. Dir-me há Você
que em Portugal, mercê duma lamentável falta
de educação, o direito de crítica se exerce às
vezes por uma forma vizinha da impertinência
e do ultraje. É possível. Isso sucede aqui, —
e em toda a parte. Mas, meu amigo, não insulta
quem quer. E, de resto, você sabe que a injú-
ria literária, como a injúria política, revestem
caracteres tão acentuadamente intelectuais, que
só no campo exclusivamente intelectual podem
ser julgadas e derimidas. Também não lhe acon-
selho a justificação. Justificação de intenções?
As intenções não se criticam. Justificação de
obras? Os bons livros, os livros que teem o di-
reito de viver, defendem-se e justificam-se por
si próprios. Disse-o Chateaubriand : '^La criti-
que ría jamais tué ce qui doit vivre.y Só as
obras más precisam de ser explicadas. Se a
obra por si não fala, — de que serve falar o au-
tor? Muito menos lhe aconselho a banalidade.
Para quê? O que convém à nossa obra, nào é
que nós a discutamos ; é que os outros a discu-
tam. Nào responda. Repouse. Sossegue os seus
nervos. Nào há nada que valha a dignidade do
268 MULHERES DE ONTEM
silêncio. Quanto mais Você subir, — mais detes-
tado, mais insultado será. cTem-se a medida
exacta do Valor dum homem, contando o nú-
mero de medíocres que se coligam para o der-
rubar. > Sabe quem disse isto? Rubinstein.
Eduque o seu espírito na lição da serenidade,
que tudo vence ; da generosidade, que tudo per-
doa. Você está deprimido, intoxicado, doente.
A sua carta fêz-me sorrir, — mas fêz-me pen-
sar, também. Retempere-se, — renasça. Afir-
mo-Ihe que amanhã, quando você se sentir forte
na consciência do seu valor, — já não haverá
artigos de jornal que o perturbem. E dê cá um
abraço. Tomara eu ter Vinte anos !
índice
Mulheres de hoje :
Miss Melancolia 7
A velhice de D. João 13
Bebé 19
O livro de missa 25
O doente 31
As meias azuis 37
Pierrette 41
Maria Manuela 47
Lady Futilidade 51
Uma flor 55
O «rendez-Vous» 59
Uma frase de Dumas 63
Flirt 67
Noiva 71
A outra 77
Mâe 81
A hora do diabo 85
O adeus 91
Maridos 95
As mãos 99
Tia Angélica 105
Ibsenianas 111
As nossas mulheres 115
270 MULHERES DE ONTEM
Mulheres de ontem :
As amantes de D. Miguel 125
O busto da Duqueza 12?
A vòsinhas 131
Catarina de Bragança 137
Um drama de amor 145
Duas Princesas 149
Carlota Joaquina : 155
A musa das rendas ; 165
A Brichota 169
Duquesa de Borgonha 185
Freirinhas de S. Bento : 191
As cómicas do Bairro Aíto 197
Santa Isabel 203
Para Miss Kate ler :
Para Miss Kate ler 215
O meu vizinho 219
A cadeira 225
Debaixo de água 229
A espada 235
A divisão Pereira de Eça 239
Os mortos 245
A feira 251
Arraiolos 255
Trovas brasileiras 259
A crítica 265
m