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W,/EVO I 



Presented to the 

UBKARYofthe 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Professor 

Ralph G. Stanton 



)^ 



MULHERES 




OBRAS DE JÚLIO DANTAS 

POESIA 

Nada (1S96) — 2.a edição. 
Sonetos (1916) — 4.» edição. 

PROSA 

Outros tempos, inquéritos médicos às genealogias reais 

portuguesas, etc. (1909) — 2.a edição, ampliada. 
Figuras de ontem e de hoje (1914) — 2.a edição. 
Pátria Portuguesa (1914) — 4. a edição, no prelo. 
Ao ouvido de M."^^ X (1915) — 4.a edição. 
O amor em Portugal no século XVIII (1915) -2.a edição. 
Mulheres (1916) — 5.a edição. 
Eles e Elas (1918) —3.a edição. 
Espadas e Rosas (1919) — 4.a edição. 
Como elas amam (1920) -3.a edição. 
Abelhas doiradas (1920) -2.a edição, no prelo. 
Os (ralos de Apollo (1921). 
Art^ de amar i\^22) . 
As Grandes Batalhas -No prelo. 

TEATRO 

O que morreu de amor (1899) -4.a edição. 

Viriato Trágico (1900)-2.a edição. 

A Severa (iy01)-4.a edição. 

Crucificados (1902)-2.a edição. 

A Ceia dos Cardeais (1902) -24.a edição. 

D. Delirão de Figueirôa (1902) -4. a edição. 

Paço de Veiros (1903) -3. a edição. 

Um serão nas Larangeiras (1904) -4.» edição, no prelo. 

Rei Lear (1906) -2 a edição, no prelo. 

Rcsas de todo o ano (1907) -9.a edição. 

Mater Dolorosa (1908) - 5. a edição. 

Auto de El-Rei Seleuco (1908) -2.a edição. 

Santa Inquisição (1910) -2.a edição. 

O Primeiro Beijo (1911) -4. a edição. 

D. Ramon de Capichuela (1912)- 2.» edição. 

O Reposteiro Verde (1912) -2.a edição. 

1023 (1914) -2.a edição. 

Soror Mariana (1915) -3.a edição. 

Carlota Joaquina (1919)-3.a edição, no prelo. 

D.João Tenório (1920). 

A Castro (1920). 

A data indicada para cada obra é a da sua primeira edição. 



JÚLIO DANTAS 

Sócio efectivo da Academia das Sciências de Lisboa 
Da Academia Brasileira de Letras 



MULHERES 



QUINTA EDIÇÃO. AMPLIADA 



16.0 MILHAR 



PER OFiSeM FVlSOto 




LISBOA 

PORTUGAL-BRASIL LLMITADA 

SOCIEDADE EDITORA 
58 — RUA GARRETT — 60 



Rcsérvaáos todos os direitos de reprodução : em 
Portugal, conforme preceituam as disposições do 
Código Civil Português; no estrangeiro (países da 
União) em harmonia com a Convenção de Berlim, 
a que Portugal aderiu por decreto de 18 de Março 
de 1911, e a o.ue o Brasil aderiu também pela lei 
n.o 4:541, de 6 de Fevereiro de 1922, e decreto 
n.o 15.530, de 21 de Junlio do mesmo ano. A pro- 
priedade desta obra pertence à Sociedade Edi- 
tora Portuoal-Brasil L.^^-*. 



Imprensa PORTUOAL-BRASIL — Rua da Alegria, 100 — Lisboa 



IViULHERES DE HOJE 



Digitized by the Internet Archive 

in 2009 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/mulheresOOdant 



MISS MELANCOLIA 



Uma mulher é sempre uma interrogação. 

Ontem, às dez horas, pus a tiracolo o meu 
binóculo e fui até à praia. Uma manhã re- 
fulgente. Dir-se ia que todo o mar, que toda 
a atmosfera scintilava. Os próprios rochedos 
negros, batidos do sol, chispavam faúlhas de 
oiro. Palpitavam barracas brancas, como gran- 
des albatrozes, sobre a areia coruscante. E as 
ondas, arripiando-se ao largo em ligeiras cris- 
pações luminosas, cresciam, avançavam, rola- 
vam como montanhas, cavavam-se em clarida- 
des glaucas de pedra preciosa, rebentavam 
eriçadas de espuma, e vinham espraiar-se, fer- 
ventes, cachoando ainda nalgum cachopo, e 
lambendo, como uma esteira de prata lí- 
quida, a areia seca e ruiva. Bati o horizonte 
com as lentes mordazes do binóculo. Longe, | 

um barco carvoeiro descia, deixando no céu 
um traço imóvel de fumo. Perto, as escarj3as 



8 MULHERES DE HOJE 

talhavam-se abruptas sobre o mar, em largos 
estratos negros de rocha, escorrendo limos, 
babando névoa, azebrando-se de nódoas ver- 
des, e rebolando penhascos pelo mar dentro, 
fulvos, enormes, na atitude humana de corpos 
debruçados. Num desses rochedos, que pare- 
cia negro de encontro ao clarão lampejante da 
água, uma mancha vermelha Viva, chamejando 
ao sol como uma labareda, feriu-me a atenção. 
Era uma sombrinha encarnada. Fixei-a : osci- 
lava, movia-se. Num desses movimentos, sur- 
preendi, quási adivinhei, assentado na rocha, 
um Vulto branco de mulher. Por um natural 
impulso de curiosidade, fui caminhando ao seu 
encontro. Atravessei a praia onde uma re- 
voada de crianças nuas, chapinando, acendia 
reflexos róseos na água ; meti aos cachopos ; 
e saltando de fraguedo em fraguedo, o binó- 
culo nos olhos, aproximei-me, pouco a pouco, 
da ponta de rocha onde abria ao sol, como 
uma grande flor, a sombrinha vermelha. A 
uma distância da Vinte passos, parei e olhei 
em silêncio. Era uma linda rapariga, tipo de 
inglesa, olhos azuis, cabelos ténues dum loiro 
claríssimo como Rheno opalizado, um Vestido 
ligeiro de cassa branca a ondular ao Vento, 
uma brochura amarela fechada na mão. Não 
me pressentiu. Fiquei de longe a observá-la, 
a seguir-lhe os movimentos, os gestos, as ati- 



MISS MEL'\NCOLIA 9 

tudes. Olhava o mar com uma fi;'^idez impres- 
sionante. O pé direito, nervoso, vivo, calçado 
de camurça branca, a ponta de encontro à ro- 
cha, trepidava, de vez em quando, em peque- 
ninos movimentos convulsivos. Aproximei-me, 
uns passos ainda. Tudo, na figura dessa mu- 
lher, era fluido, musical, transparente, lumi- 
noso. Tudo, na sua expressão, era parado, 
imóvel, absorto e triste. O cont.''aste im- 
pressionou-me. Estava ali, incontestavelmente, 
uma criatura sob o domínio dum profundo 
sentimento. Houve um instante em que julguei 
Ver uma lágrima a tremer-lhe nas pestanas. 
Ilusão, sem dúvida. Como todos os homens 
que supõem conhecer a mulher, e para quem 
não há nada no coração feminino que não seja 
claro, instintivo e fácil, eu íiVe a pretenção de 
ler naquela fisionomia, de penetrar naquele es- 
pírito, e de resolver num instante, com o meu 
binóculo de praia e a minha psicologia de sa- 
lão, a incógnita daquele pensamento e o drama 
daquela existência. Assentei-me na rocha, quási 
debruçado sobre o mar que se me abria aos 
pés, em reflexos roxos de pântano, babando 
espuma. Era, de-certo, uma inglesa. Aque- 
les tipos loiros, duma elegância garçonniève, 
duma flexibilidade metálica, não enganavam 
nunca. Presumivelmente, um ange-gardien de 
Çíisa rica, dezoito, vinte anos, vinda dos pra- 



10 MULHERES DE HOJE 

dos Verdes da Irlanda, como uma pequena mãe, 
para a rude missão de educar os filhos dos 
outros. Uma inglesa nova e triste que pensa, 
absorta, olhando fixamente o mar, — não pode 
pensar senão num homem. Se essa inglesa 
tem dezoito anos, esse homem não pode ser 
senão um noiVo. Que admiraria, sendo esse 
noivo um inglês, e esse inglês— quem sabe? 
— um oficial de marinha, que êle corresse 
àquela hora os acasos e os destinos da guerra, 
na imensidade desse mesmo oceano scintilante. 
onde a pobre inglesa fixava os seus olhos 
azuis, interrogativos e tristes? Debaixo da som- 
brinha vermelha que o sol atravessava num 
clarão de incêndio, fazendo faiilhar os cabelos 
ondeados de Miss Melancolia, julguei Ver, 
uma Vez mais, a mesma lágrima a tremer nas 
mesmas pestanas loiras e quietas ; senti, clara- 
mente, na ondulação do seu pescoço fino de 
ganso cor de rosa, o soluço doloroso que de- 
via apertar-lhe a garganta, — e pensava já, a 
sério, em dirigir-me àquela linda mulher que 
sofria, para lhe dizer não sei bem o quê, quando 
uma voz forte de homem, rouca, alegre, gritou 
por detrás de mim : 

— Mary ! 

Voltei-me. Era um inglês moço, hercúleo, 
enorme, a face rapada e cor de cenoura, uns 
Qçulos de oiro reluzindo ao sol, um cachimbo 



MÍSS MELAx\COLIA 11 

na boca, que vinha, com a leveza de um fau- 
no, saltando de rocha em rocha. Olhei a rapa- 
riga: já ia ao encontro dele, fresca, risonha, 
alegre, inundada de luz como uma primavera. 

— Good morning ! 

E lá foram ambos pendurados nos braços 
um do outro, debaixo do chapéu de sol encar- 
nado, a chilrear e a rir pelos rochedos. 

Tinha-me enganado redondamente. Afinal, 
Miss Melancolia era a mulher mais feliz deste 
mundo. 



A VELHICE DE D. JOÃO 



Meu amigo : — EscreVo-íe de Sintra, onde 
estou passando a lua de mel. Casei há oito 
dias. Minha mulher quer conhecer-te. Vem tomar 
uma chícara de chá comnosco. 

Vejo-te ler e reler as primeiras linhas desta 
carta, com o natural assombro duma notícia que 
não se espera. E a-pesar-disso, meu amigo, 
não há nada mais verdadeiro. Casei. Vou fazer 
setenta e um anos, — e casei. Digo-to com o 
sorriso tranquilo de quem, finalmente, conhece 
a felicidade na vida. Um casamento nesta idade, 
quando nào é uma aventura ridícula, é sempre 
uma história comovedora. A minha noiva tem 
menos três anos do que eu. Antes que Venhas 
beijar as suas mãos ignoradas, meu amigo, 
quero que saibas quem ela é. 

Eu passo por ter sido, durante a minha 
mocidade e mesmo durante o meu outono, um 
amoroso e um sentimental. Fez-se em volta i|l 



14 MULHERES DE HOJE 

de mim uma lenda de paixões e de aVenturaS. 
Nunca a desmenti. E nunca a desmenti, — 
porque ela era rigorosamente verdadeira. Com- 
preendes o que seria, na Lisboa de há qua- 
renta anos, um bonito rapaz, com os hábitos 
fáceis e viris da educação inglesa, rico, fi- 
dalgo, solteirão impenitente e homem do mundo, 
sem outras preocupações que não fossem o 
câmbio sobre Londres e uma admirável colec- 
ção de caixas de rapé do século xvm, que fa- 
ria inveja a Boni de Castelane. Respirei moci- 
dade, a plenos pulmões. Bebi, até à última 
gota, a taça de oiro da vida. Conheci, na sua 
mais alta expressão, a em.briaguez do amor e 
o sentimento da posse. Amei, triunfei, vivi. E 
entretanto, meu amigo, quando hoje olho para 
trás e interrogo as memórias do passado t— 
digo-to com orgulho ! — nada encontro que 
perturbe a paz da minha consciência. Nenhum 
remorso me pesa, nenhuma recordação me 
punge. Tenho setenta e um anos, — e nunca 
fiz chorar uma mulher. 

Bondade, — dirás tu. Bondade natural. Tal- 
vez. E, com certeza, um pouco de egoísmo 
também. O sofrimento alheio foi-me sempre 
insuportável. Acontece muito isto a quem é 
feliz na vida. Mas as lágrimas duma mulher, 
sobretudo as lágrimas duma mulher que se 
amou, apareceram sempre ao meu espírito 



A VÈLIllCÈ DE D. JOÂO l5 

Como uma coisa monstruosa e aflitiva. Fazer 
sofrer a beleza, a candura, a fragilidade, a 
graça! Com.o os homens são cobardes, meu 
amigo, — e como à minha sensibilidade delicada, 
feminina, um pouco doentia, pareceu sempre 
pungente a imagem duma mulher que chora ! 
Por isso as minhas ligações amorosas nunca 
conheceram as lágrimas. Por isso nos meus 
romances de mocidade nunca houve o suplício 
inútil das rupturas e das separações. Na minha 
vida, o amor, como um fruto doirado, só caiu 
sacudido pela mão do tempo. Das mais violen- 
tas paixões, tive a arte de fazer longas e co- 
movidas amizades. Os meus afectos ignora- 
vam, ao esvaziar da taça, o travor do ódio. 
Tive sempre, ou, pelo menos, julguei ter sem- 
pre o pueril cuidado, quási o pudor de conser- 
var as minhas conquistas na ignorância umas 
das outras. Nunca me casei para não pre- 
ferir nenhuma. Era rico. As responsabilida- 
des materiais das minhas ligações não me 
preocupavam. Ia criando ménages, instalando 
afectos pelos quatro cantos de Lisboa, — e 
continuava a Viver sozinho a minha existência 
de solteirão. Fiz colecções de mulheres, — 
com a mesma impassível tranquilidade com 
que coleccionava caixas de rapé. Umas, dis- 
persou-as o tempo ; bateram as asas para novos 
amores. Por que havia eu de querer-Ihes mal? 



16 MULHERES DE HOJE* 

Se a vida é assim ! Outras, levou-as o sopro 
gelado da morte. Quando entrei na assomada 
dos cincoenta anos, — restavam apenas dois 
lares, e, com eles, os dois corações fiéis de 
mulher que me acompanharam toda a vida. Fui 
envelhecendo a amá-las, — sem as sentir enve- 
lhecer ao pé de mim. Eram as últimas relí- 
quias da minha mocidade, as últimas flores da 
minha primavera, — o que restava do meu pas- 
sado e de mim próprio. Amor ? Mais do que amor : 
ternura. Vi embranquecer-lhes o cabelo, afilarem- 
-se-lhes as mãos, desbotar-se-ihes o sorriso, — e 
não dei pela velhice delas. Dizem Vocês que não 
se pode amar duas mulheres a um tempo. Enga- 
no ! Era com a mesma comoção que eu lhes man- 
dava todas as manhãs, peio meu criado Antó- 
nio, dois grandes ramos de flores. Era com o 
mesmo alvoroço e com o mesmo respeito que 
eu ia visitá-las a ambas, em dias alternados, 
beijar-lhes as mãos, sentir o seu perfume, ver 
ainda nos seus olhos pretos e calmos — os 
olhos da mulher não envelhecem nunca ! — 
as últimas scentelhas do meu fogo, as últimas 
loucuras da minha mocidade. Fiz prodígios 
para que não suspeitassem uma da outra. Con- 
fundia-as já tanto na minha alma, — que che- 
guei a pensar num impossível : uni-las, trazê- 
-las, como duas irmãs, para o meu lado. . . 
Um dia — lindo dia de sol ! — inesperada- 



A VELHICE DE D. JOÃO 17 

mente, uma delas morreu. Era a mais bonita 
das duas. Chorei em silêncio. Senti que me 
tinha morrido com ela metade da minha alma. 
A sua única famíh*a era eu : fui cumprir, piedo- 
samente, o dever de velar-lhe o último sono. 
Quando ia a entrar no quarto da morta, da- 
quela que fora, em Vida, uma das minhas duas 
mais ternas amigas, — uma senhora, vestida de 
luto, os cabelos numa névoa de prata, soluçava 
ajoelhada ao pé do leito. . . Era a outra. 

Fora, no meu afecto, a sua rival ; era já, 
sem eu o suspeitar, a sua amiga;— é agora, 
há oito dias, minha mulher. 

Queremos abraçar-te ambos. Manda dizer 
quando Vens.— Teu velho. Nano, 



BEBE 



Meu querido amigo : — EscreVo-lhe já ves- 
tida para o baile da legação de Itália. Acabo, 
neste momento, dé pôr as minhas jóias. São 
10 horas. Deve estar a chegar o automóvel 
que nos leva.. Meu marido, enterrado na pol- 
trona do seu quarto de vestir, calça tranqui- 
lamente as luvas. O meu amor de bebé 
dorme. A criada espera-me, aqui mesmo ao 
pé de mim, com a minha capa Paquin, vieil 
ofy que você ainda não conhece. Tudo está a 
postos. E entretanto, meu amigo, neste ins- 
tante em que lhe escrevo, não há nada mais 
incerto do que a minha ida a esse baile. Vou? 
Não Vou? Ignoro-o ainda. É da conversa que 
Venho ter consigo, nesta pequena folha de papel 
azul, a sós, alma com alma, que Vai depender 
a minha última resolução. É nesta carta, que 
eu não terei tempo de acabar, que nem che- 
gará talvez às suas mãos, — que eu Vou fazer 



I 



20 MULHERES DE HOJE 

O meu exame de consciência. Conheço-o tão 
bem, meu querido, meu único amigo, sinto tão 
bem tudo quanto você pensa, tudo quanto você 
sente, —que, emquanto llie escrevo, tenho a 
ilusão de que o ouço, de que a sua boca me 
fala, de que o vejo ao pé de mim, com as mi- 
nhas mãos nas suas, a guiar-me, a responder- 
-me, a aconselhar-me. Que vergonha eu teria 
de si, a estas horas, se lhe mandasse todas as 
cartas que lhe tenho escrito ! 

Ouça-me. Faz hoje três meses que eu tive o 
meu pequenino. Você ainda não me Viu, ainda 
não me quis ver depois desse dia. Porquê ? Se 
soubesse como eu estou bonita, alegre e forte, 
— como a maternidade nos torna belas, como 
um filho nos dá saúde! Ainda agora, quando 
punha as minhas jóias diante do espelho, gos- 
tei de olhar para mim. Parece que estou mais 
alta, mais branca, mais mulher. Brilham-me 
os olhos; ficam-me melhor as pérolas. E sabe? 
A ama do meu amor de bebé tenho sido eu. 
Meu marido opunha-se ; eu insisti, chorei, — 
Venci. Diziam que o meu leite era fraco, que 
eu era anémica, e— vejalá! — o meu filho tem- 
-se criado lindamente com o leite débil da mãe. 
Está gordíssimo, pesa imenso, — e com que or- 
gulho, meu amigo (só nós é que o sabemos !), 
com que Voluptuoso orgulho eu sentia a boquita 
dele a sugar-me, e as suas mãosinhas cor de 



BEBÉ âl 

rosa, inquietas, polpudas, buliçosas, apertan- 
do-me, apalpando-me, machucando-me o peito! 
Meu marido incomodava-se, impacientava-se, 
não dormia ; separámos os quartos, — eu e bebé 
no primeiro andar, ele e a sua comodidade no 
segundo; e eu continuei, plácidamente, a ser 
a mãe e a ama do meu filho, a viver para ele 
só, a criá-lo, a adorá-lo, até que um dia — há 
duas semanas — tive umas vertigens, umas pal- 
pitações, não sei bem o quê, naturalmente can- 
saço, excitação, fadiga. Fez-se logo em Volta 
de mim uma vasta conspiração, meu marido e 
todos os médicos amigos de meu marido, mi- 
nha mãe e todas as senhoras amigas de minha 
miãe: que eu não podia continuar a criar Bebé, 
que não tinha saúde — com este peito, com 
estes hom.bros, com esta côr ! — que era muito 
nova ainda para sacrificar a minha mocidade e a 
minha beleza a um filho, que o meu coração 
estava fraco, que os m.édicos não tomavam a 
responsabilidade, un tas de choses, — e que 
era preciso, imediatamente, inadiávelmente, to- 
mar uma am.a. Oito dias depois, a ama Veio, 
ruiva, estúpida, maciça, cheirando a leite, fa- 
zendo estremecer a casa toda. Tive uma con- 
vulsão de choro; meu marido afligiu-se; minha 
mãe chegou; ficou combinado que eu não ce- 
deria a ninguém a missão de amamentar o meu 
filho, que continuaria a criá-lo, e que a ama 



22 MULHERES DE HOJE 

ficaria para o entreter, para o passear, para 
me ajudar. Depois, passado o primeiro mo- 
mento de exaltação, caí em mim, reflecti, pen- 
sei; achei que talvez tivessem razão, que tal- 
vez o conselho dos médicos fosse sensato; 
entrevi, num sorriso, a minha liberdade, o meu 
sono tranquilo, as minhas noites de teatro, a 
minha raquette do tennis: — ç^ quando, ante- 
ontem à noite, à ceia, meu marido me mostrou 
o convite da legação de Itália, os olhos brilha- 
ram-me, o coração bateu-me apressado, pousei 
a chícara, Voltei-me alvoroçada e risonha para 
minha mãe: — «E se eu fosse?» Veja o que 
são as mulheres, meu amigo ! Daí a pouco, a 
rir e a caírem-me as lágrimas, a olhar as mi- 
nhas jóias e a beijar o meu filho, resolvi que, 
se realmente fosse ao baile do Paulucci di Cal- 
boli, deixaria para sempre o meu amor de bebé 
à criação da ama. A noite chegou. É hoje. 
É agora. Ouço a buzina do automóvel que 
vem buscar-nos. Devo ir? Não devo ir? Não 
sei. Aconselhe-me. Quie-me. Ampare-me. Eu 
tenho o deVer de amamentar o meu filho, não 
é Verdade? Eu, antes de tudo, sou mãe, não é 
assim? A minha jóia, o meu orgulho, o meu 
sorriso, a minha beleza é êle, — é o meu filho, 
é a minha alma, é o meu amor de bebé. Não 
tenho o direito de o enjeitar, de o abandonar, 
de lhe negar um leite que é dele, uma vida que 



BEBÉ 23 

é dele, de deixar que a sua boquita de flor co- 
nheça outro peito que não seja o ineu, outros 
beijos que não sejam os da mãe. . . Não tenho, 
não tenho esse direito ! Escute. Parece que é 
êle que chora, que é êle que chama por mim. . . 
Obrigada, meu amigo. Obrigada! Eu já sabia 
que era este o seu conselho. Meu marido que 
vá sozinho à legação de Itália. Meu amor, meu 
amor, — aí Vou. Afinal — Vê? — Vesti-me de baile 
para dar de mamar ao meu filho ! 
Sua amiga, — Gabriela, 



o LIVRO DE MISSA 



Querida amiga : —Prometi contar-lhe a his- 
tória do pequenino livro de missa forrado de 
setim branco, que Você encontrou ontem numa 
das minhas gavetas. É uma história simples, 
ingénua e triste. Como tenho a certeza de que 
não posso contar-lha sem me com.over, prefiro 
confiá-la a esta folha de papel, — bastante dis- 
creta, de-certo, para nâo ir dizer-lhe que me 
viu lágrimas nos olhos. Pois Você julgava-me 
tão monstruosamente sensível, que nâo fosse 
capaz de chorar sobre um livro de missa for- 
rado de setim branco? Sim. Adivinhou. Esse 
pequeno Paroissien Romain era duma mulher. 
Ou, melhor ainda, — era duma criança. Tenho-o 
em meu poder há uma eternidade : há quinze 
anos. Nunca lhe toco sem o profundo senti- 
mento de respeito e de ternura com que — se 
isso fosse possível — levantaria nas mãos uma 
alma. Não tenha ciúmes. Tudo passou. Tudo 



26 MULHERES DE HOJE 

passa na vida, tão depressa ! Antes de lhe con- 
tar essa história triste da minha mocidade, antes 
de confessar-Ihe esse pobre romance de inocên- 
cia donde parece desprender-se ainda um perfu- 
me de rosas desfolhadas, — dei?<e-me dizer-lhe, 
minha amiga, que é muito feio mexer nas gavetas 
que nos nao pertencem, ainda mesmo quando 
não seja senão na piedosa intenção de tirar de 
lá um revólver. 

Dê-me as suas mãos, e oiça. Quando eu ti- 
nha vinte e quatro anos — já tive Vinte e quatro 
anos, minha amiga ! — fui para o Algarve conva- 
lescer duma grave doença. Ia sozinho. Era 
perto de Olhão. Lembro-me ainda da viva im- 
pressão que produziu em mim a paisagem al- 
garvia, o azul metálico do céu, os grandes so- 
breiros sangrentos e descascados, as encostas — 
estávamos em plena primavera ! — todas brancas 
de amendoeiras em flor. Um domingo de ma- 
nhã, seguia eu de passeio, com os olhos já 
fatigados pelo revérbero da areia fulva da es- 
trada, quando Vi, ainda longe, caminhando em 
sentido contrário ao meu, um vulto ligeiro e 
resplandecente onde havia todas as tonalida- 
des, todos os valores, toda a opulenta orques- 
tração do branco. Parecia o adejo duma pomba 
ao sol. Saltitava, revoava, scintilava, — caminha- 
va para mim. Afirmei-me melhor. Atrás do vulto 
branco, seguia apressado outro Vulto negro, 



I 



o LI\'RO DE MISSA 27 

quási violeta, — como uma sombra. Esperei que 
passassem. Era a minha vizinha, —uma criança, 
uma pequenina mulher de doze anos, que ia 
com a mãe para a sua primeira comunhão. 

— Adeus, Maria Rosa! 

— Adeus, senhor doutor. 

Em toda a minha vida, não me lembro de ter 
sentido nunca, junto duma mulher ou duma 
criança, uma tão clara, uma tão^ viva impres- 
são de frescura, de inocência e de graça. Dir- 
-se ia que tinham crescido asas num ramo 
florido de amendoeira. Vinha toda Vestida de 
branco, um branco fluido, translúcido, leitoso, 
vagamente azul na transparência do véu, meta- 
lizado em traços de prata crua na ondulação 
dos peitos e do ventre, baço de porcelana na 
espessura da saia, quási roxo nos pés, que 
avançavam na sombra, curiosos como focinhos 
de rato, entre as faúlhas crepitantes da areia. 
Trazia nas mãos um rosário de madrepérola e 
um livro de missa forrado de setim branco. 
Parámos a conversar um momento. Ninguém 
havia de dizer que aquela boca polpuda, aquela 
anca forte, aquele seio já formado, tinham 
apenas doze anos. Via-a todos os dias à janela, 
— e nunca me parecera tão bonita e tão mu- 
lher. Era o fruto algarvio, risonho, vermelho, 
sazonado, temporão, ressumando mal o beija 
o sol A sinfonia de branco que a envolvia tor- 



28 MULHERES DE HOjE 

nava-lhe os olhos mais negros e maiores ; a 
pele, dum trigueiro mais doirado, mais húmido 
e mais quente, acendia-lhe scentelhas fulvas 
de mel e de cobre nos cabelos castanhos, ma- 
cios, empastados, ondulados, de portuguesa. 
Tive tentações de a beijar, como se beija uma 
criança. Não me atrevi. Ela compreendeu, 
corou, baixou os olhos, e, na confusão da des- 
pedida, deixou cair o livro de missa. Quando 
me abaixei para o apanhar, tirou-mo precipita- 
damente das mãos. 

— Não quer que eu Veja o seu livro, Maria 
Rosa? 

— Não tem que ver. 

— Até logo, vizinha. 

— Até logo, vizinho. 

Daí por diante, sempre que eu saía, ela 
estava à janela a dizer-me adeus. Se me vol- 
tava para trás, via-a debruçada, a oihar-m.e. 
Parece que tenho ainda diante dos olhos, como 
uma mancha vermelha ao sol, o pano de pó 
que ela sacudia à janela quando esperava por 
mim. Ás vezes, conversávamos. Interessava-me 
aquela alma inocente que desabrochava para a 
vida, como uma primavera. Cheguei a pensar, a 
sério, na felicidade de ter um dia uma filha 
assim. Foi com tristeza, quási com comoção, 
que vi aproximar-se o dia do meu regresso a 
Lisboa. Uma noite — lembro-me bem ! -- uma 



o LIVRO DE MISSA 29 

noite em que o cheiro das amenJoeiras em 
flor era tào intenso que perturbava, disse adeus 
a Maria Rosa. Partia no dia seguinte. Ela ou- 
viu-me, muito pálida, e retirou-se da janela 
com o lenço nos olhos. Meia hora depois, cha- 
mavam-me para a Ver. Tinha tido um ataque. 
Fui. Era qualquer coisa convulsiva, histeróide, 
que se resolveu com uma compressão leve dos 
ovários. Quando ela sossegou, prostrada, os 
olhos semi-cerrados, os cabelos soltos sobre o 
leito, olhei em volta, com um inexprimível sen- 
timento de ternura, o seu quarto estreitinho 
de criança. Cheirava a rosas. Respirava ino- 
cência, virgindade, simplicidade. Sobre uma 
cómoda, ao pé dum púcaro de prata, dormia 
o livro de missa, forrado de setim branco, que 
ela levava na manhã da sua primeira comu- 
nhão. Folheei-o. Estava cheio de registos do 
santo do meu nome. Só então compreendi. tudo. 
Pobre pequenino coração amoroso ! Quanto 
mal eu lhe tinha feito, sem querer, sem saber ! 
Os olhos hum.edeceram-se-me de lágrimas. 
Quando ela despertou, num sorriso, apertan- 
do-me muito as mãos nas suas, perguntei- 
Ihe: 

— Deixa-me levar este livro, Maria Rosa? 

— A mamã que lho mande quando eu mor- 
rer. 

Na madrugada seguinte, sem me despedir 



50 MULHERES DE HOJE 

dela, parti para Lisboa. Durante dois, três dias, 
tive ainda a impressão de que sentia o seu 
perfume em volta de mim. Ouvia-lhe, de Vez 
em quando, o riso cristalino. Via, por toda a 
parte, como uma bênção, a névoa azulada do 
seu Vestido branco. Mas os homens esquecem- 
-se depressa. Pouco a pouco, tudo se foi des- 
vanecendo. Passaram-se dois, três, quatro me- 
ses. Uma tarde, um correio trouxe-me um 
embrulho e uma carta tarjada de negro. Abri. 
Era um livro de missa. Havia já três dias que 
estava coberta de flores a sepultura de Maria 
Rosa. . . 

Aqui tem, minha querida amiga, a história 
triste do pequeno livro forrado de setim branco 
que Você encontrou ontem na minha gaveta. 

Bejo-lhe as mãos. —José. 



o DOENTE 



Meu amigo : — EscreVo-Ihe com a cabeça 
perdida. Meu marido está pior. Já não há dú- 
vidas sobre a natureza da doença. Temos a 
certeza, a horrível certeza. Há bacilos de Kock. 
Aqui está o resultado da análise, nas minhas 
mãos. Ele nada sabe. Mantem-se num estado 
de ilusão incompreensível. Os médicos vieram. 
Vão radiografá-lo hoje. Que vida a nossa, -- 
que morte a nossa, meu amigo ! E ainda Você, 
há um mês, me julgava a mulher mais feliz 
deste mundo, e ria dos meus olhos pretos de 
criança, e invejava a minha alegria para uma 
filha que Deus lhe desse! Ah, meu amigo, 
como tudo mudou num instante, — e que dolo- 
rosa agonia é hoje a minha Vida ! 

Hesitei muito tempo antes de lhe escrever. 
Não confio em ninguém, senão em si. Mas a 
si mesmo, meu amigo, tenho medo, tenho pu- 
dor de abrir-lhe a minha alma. Se Você sou- 



52 MULHERES DE HOJE 

besse como eu tenho sofrido ! Se soubesse de 
que fraqueza humana, de que egoísmo hediondo 
é feita esta pobre criatura que chora, que 
grita, que sofre, que se revolta, — e que não 
sabe ainda, afinal, se há de ter repugnância, 
se piedade de si mesma ! Ando cheia de pa- 
vores, de insónias horríveis; estou doente; 
emmagreci; -OS anéis caem-me dos dedos. Te- 
nha dó de mim, — ampare-me, aconselhe-me, 
perdoe-me. Já adivinhou, de-certo, a luta afli- 
tiva que se debate na minha consciência. Mas 
é preciso que eu lhe diga tudo, que eu lhe con- 
fesse tudo, que eu lhe abra a minha alma. Meu 
marido está perdido. Os médicos não mo es- 
condem. Nada o pode salvar. É fatal. Resistirá 
ainda oito meses, dez' meses, um ano. Mas 
durante esses meses, durante esse ano, viverá 
— entende-me ? — viverá inexoravelmente, im- 
placávelmente, semeando a morte à Volta de 
si. E eu ? E eu ? Terei eu o dever, terei eu o 
direito de suicidar-me? Poderei eu, deverei eu 
continuar ao lado dele, na mesma mesa, no 
mesmo leito, — aspirando o seu hálito de ago- 
nia, recebendo os seus beijos de veneno ? Ah, 
não, falta-me a força, falta-me a coragem; não 
posso. Eu tenho vinte e três anos, meu amigo, 
sinto a mocidade a brilhar-me nos olhos, a pal- 
pitar-me nas Veias, — e quero viver. Viver í Acon- 
selhe-me, guie-me, tenha pena de mim. Foi assim 



õ Doente 33 



que minha inãe morreu. Foi assim que morreu 
minha avó materna. Herdei-lhes os cabelos loi- 
ros e o peito débil. Mais um mês, mais um dia 
de intimidade com meu marido é uma sentença 
de morte. E porquê? Que mal fiz eu? Que 
utilidade há no meu sacrifício ? Se eu pudesse, 
sacrificando a minha Vida, salvar a dêle, — 
compreendia-se que ficasse aqui, que sofresse, 
que me contaminasse, que me suicidasse, numa 
tortura de cada dia, de cada hora, de cada 
instante. Assim, — para quê? De que serve a 
minha morte, se ela não tem o poder de res- 
gatar lhe a vida? Ante-ontem, depois duma 
noite angustiosa em que meu marido ensopou 
uma toalha em sangue, e me obrigou a ficar 
acordada junto dele, no mesmo leito, a falar- 
-Ihe, a beijá-lo, a ampará-lo, egoísta, cruel 
como todos os doentes, — reVoltei-me, pensei 
em fugir, tomar o comboio, partir para casa de 
meu pai. Vesti-me à pressa, meti as jóias num 
saco de mão, ia sair, — quando ele assomou à 
porta. — «Onde vais?> Senti-mie empalidecer, 
o coração saltou-me no peito, e respondi, su- 
focada : — «À missa. . . > Vi, num relance, toda 
a desumanidade da minha fuga. Compreendi 
todo o horror do meu abandono. O meu ins- 
tinto de mulher, a bondade natural do meu sexo, 
todos os lugares-comuns da minha educação 
moral diziam-me que o meu lugar era ali, à 

5 



34 MULHERES ÒE IIOJÉ 

cabeceira de meu marido, como uma enfermei* 
ra, como uma mãe, como uma irmã. A minha 
missão de piedade chegou a aparecer-me, um 
instante, como um clarão de beleza. Fiquei. À 
noite, quando ia a despedir-me dêíe para me 
deitar, meu marido agarrou-me. Ardia em fe- 
bre ; os seus olhos, fulvos, chispavam ; inun- 
dava-o o suor. Debati me, neguei^me, gritei: 
a hemoptise repetiu-se ; acudiram os criados ; 
a miinha cara, o m.eu roupão, os meus cabelos 
ficaram empastados de sangue. Não posso. 
Não posso mais. Todo o meu ser, todas as 
minhas energias se revoltam. É inacreditável 
que meu marido não tenha a consciência do 
seu estado. É pavoroso que ele queira fria- 
mente, deliberadamente, contagiar-me, assassi- 
nar-me. Falei aos médicos. Contei-lhes o que 
se passara. Perguntei- lhes se devia ficar, se 
fugir. Um deles olhou-me com estranheza e 
encolheu os ombros. O outro, grosseiro, ati- 
rou-me uma baforada de fumo à cara: — «Não 
há lei que a obrigue.» Só o nosso velho dou- 
tor Sousa me disse, tomando-me as mãos, aca- 
riciando-mas, beijando-mas: — <Se o ama, mi- 
nha filha, é um suplício partir ; se o não ama, 
é um suplício ficar. > A si, meu amigo, digo- 
-Ihe tudo, corifesso-lhe tudo, alma com alma. 
Eu "não amo meu marido. Se o amasse, — que 
deliciosa volúpia seria a de morrer por ele, a 



o DOENTE 55 

de morrer com ele, envenenando-me em cada 
beijo, crestando de febre a minha boca, sacri- 
ficando-lhe, dia a dia, hora a hora, a minha 
mocidade, a minha beleza, a minha vida ! Mas 
não o amo. Pior ainda de que não o amar, — 
criei por êle uma repugnância invencível, umia 
aversão raciocinada, feita de toda a minha re- 
volta, de todo o meu silêncio, de toda a minha 
ânsia enorme de ser livre, de respirar, — de 
vl^er, É horrível? É. Mas eu sinto-o; mas 
hão de senti-lo, no seu sacrifício ignorado e 
heróico, todas as mulheres que sofrem como 
eu e que se calam com.o eu. Escreva-me. Acon- 
selhe-me. A sua alma é comipassiva e boa. Di- 
ga-me o que devo fazer. Tenho febre ; os bei- 
ços escaldam-me ; arrepia-me a própria frescura 
do papel em que lhe escrevo; as flores cres- 
tam-se e morremi ao pé de mim. Porque não 
vem vêr-me? Porque me dei?<a só? Porque me 
deixam todos só, neste inferno? 
Sua pobre amiga, — Alana, 



AS MEIAS AZUIS 



A janela do meu quarto de hotel, nas Cal- 
das de ***, dava para um maciço de chalets, 
tão juntos uns dos outros que mal se adivi- 
nhava, entre as empenas mais altas, a luz doi- 
rada e quieta das montanhas distantes. Abri-a, 
de par em par, e encostei-me ao peitoril, fu- 
mando. Uma m.anha criadora. Tive a impres- 
são de que o ar cheirava a feno, a leite, a flo- 
res, a roupa lavada. Respirei profundamente, 
voluptuosamente. O sol ardia, metáh'co, ati- 
rando de encontro às paredes pastadas roxas 
de sombra. Fiquei, durante muito tempo, imó- 
vel, absorvido na incomparável delícia de não 
escrever, de não ler, de não me envenenar, de 
não pensar. Um torpor de plenitude, uma so- 
nolência Vaga invadiam-me. Reagi, acendi ou- 
tro cigarro, — e olhei. O chalet mais próximo, 
fronteiro ao hotel, tinha janelas para a nossa 
rua. Era o tipo vulgar da swiss-çhcesc-housc, 



38 MULHERES DE HOJE 

com O seu pequeno jardim inglês, as suas bri- 
se-bise inglesas de linho cru que a luz salpi- 
cava de oiro, e esse ar repousado, esse ar 
tranquilo e religioso de certas casas onde se 
sente que não podem habitar senào criaturas 
felizes. De repente, surpreendi, na serenidade 
daquela parede cinzenta, uma nota de cór e de 
movimento. Quási defronte de mim, na única 
janela aberta, estavam penduradas, a secar ao 
sol, umas meias azuis. Para um espírito pos- 
suído do vício de observar e condenado à 
ociosidade forçada dumas termas, não há pe- 
quenos motivos que não se transformem em 
grandes assuntos. Durante uma hora contada 
pelo relógio, a minha atenção absorveu-se in- 
teiramente nesse par de meias de seda azul. 
Entretive-me a vê-las oscilar, a adivinhar-lhes 
a transparência nos efeitos da luz, a leveza na 
ondulação do Vento. Eram umas meias de mu- 
lher, finas, leves como um floco de espuma 
escorrendo sobre um prato azul de Limoges. 
Quem seria essa mulher? O ar tocava-as, pa- 
recia palpá-las, acariciá-las, senti-las, como 
uma grande mão invisível. De vez em quando, 
mordia-as a luz, o fio da seda scintilava, e, ou 
se acendiam em clarões como penas de pavão 
ao sol, ou, diáfanas, levíssimas, pareciam su- 
bir no espaço como um ligeiro fumo azul. Tive 
3 pretenção de adivinhar o efeito dessa malha 



AS MEIAS AZUIS 39 

de seda, ténue como uma teia de aranha, so- 
bre a carne loira, doirada, rosada, do pé que a 
calçasse. Via-a já, num Vago azul de névoa, 
envolvendo uma pele fresca, moça, ressuman- 
te, desse branco levemente róseo e luminoso a 
que Barbey d'Aurevilly chamava <^le ton de 
Vinterieur cies fraises^. Evidentemente, aque- 
las meias azuis deviam pertencer a uma mu- 
lher muito nova. Eram, de-certo, as meias 
dum vestido exuberante de tafetá azul cobal- 
to, — esse terrível azul cobalto que só fica 
bem às loiras, e que me levou iniludivelmente 
a concluir, com a facilidade com que nós to- 
dos, Cuviers da psicologia feminina, reconsti- 
tuímos uma mulher por um farrapo da sua 
meia de seda, que a minha vizinha de acaso 
não podia dei?<ar de ser loira, juvenil, esbelta, 
olhos azuis, gestos Viris, elegância masculina, 
queixo imperioso de Fúlvia numa medalha ro- 
mana, — mas, sobretudo, loira, inverosímil- 
mente loira, desse loiro mixto, confuso, para- 
doxal, feito de todos os tons, desde o cobre 
ardente das Venezianas de Rosalba até às tin- 
tas moles e adormecidas do âmbar cinzento. 
Ainda eu seguia com o olhar os movimentos 
graciosos das meias, que ondulavam, que dan- 
saVam, que arfavam ao Vento como as asas 
dum grande pássaro azul, quando um focinhito 
inquieto e escuro de criança, sete para oito 



40 MULHERES DE HOJE 

anos, os olhos muito íristes, a boca muito Ver- 
melha, assomou à janela. Era uma rapariga. 
Disse-lhe adeus. Encarou-me, desconfiada. Per- 
guntei-lhe como se chamava. Z/7/. Começá- 
mos a rir um para o outro. Daí a pouco, 
conversávamos como dois bons amigos. 

— Lili, de quem são essas meias? 

A pequenita fitou-me com os seus grandes 
olhos tímidos e respondeu : 

— São da avó. 



PIERRETTE 



Meu velho : — Escrevo-te às 3 da madru- 
gada de têrça-feira gorda, no Monte Estoril, 
fechado num pequeno quarto do Hotel de Itá- 
lia. Cheguei, de automóvel, há pouco mais de 
uma hora. Fugido do Carnaval? — preguníarás 
tu. Nào. Trazido pelo Carnaval. Foi uma Pier- 
rette cor de rosa que me trouxe, uma encanta- 
dora Píerrcte de dezoito anos cujos pés ca- 
bem na minha mào fechada, e que eu fui en- 
contrar por acaso, no turbilhão dum baile de 
máscaras, chorando sobre urna taça Vazia de 
champanhe. Emquanto ela dorme, no quarto 
contíguo ao meu, o seu sono de criança três 
Vezes desgraçada, Venho eu contar-te o que foi 
o nosso passeio, num horrível Benz, desde Lis- 
boa até aqui. Tu, que coleccionas almas de mu- 
lher com a me$ma delicada voluptuosidade com 



42 MULHERES DE HOJE 

que o meu Velho tio Marquês coleccionava jóias 
antigas, deves encontrar um certo interesse na 
história dessa petifc Píerrette rose que eu co- 
nheço apenas há três horas, de quem me apro- 
ximou um simples movimento de curiosidade 
sensual, e a quem acabei por beijar na testa 
com o natural sentimento de respeito com que 
beijaria uma irmã. 

Pode ter história uma pequena de dezoito 
anos ? Ah, meu amigo, — só não tem história 
quem é feliz. Quando a encontrei, em pleno 
baile, assentada no jardim de inverno, a más- 
cara no regaço, um lenço de rendas nos olhos, 
— a sua mocidade, as suas lágrimas, a sua 
pele doirada de trigueira, atraíram-me, interes- 
saram-me, digamos a palavra justa : excitaram- 
-me. Eu já tinha Visto, fosse onde fosse, aquela 
cara, aquela boca sinuosa, rasgada, infantil, 
aqueles cabelos dum tom quente de tabaco de 
Espanha, Vagamente mordidos de scentelhas de 
oiro, onde pousaVa, como uma flor, um pe- 
queno bicorne de setim côr de rosa. Mas 
quando, aonde, — se todas as mulheres se pa- 
recem tanto e nos interessam tão pouco? Per- 
guntei-lhe, delicadamente, porque chorava. Re- 
pousou em mim, um instante, os seus grandes 
olhos pretos húmidos de lágrimas e pronunciou 
o meu nome. Donde me conhecia? — inquiri. 
Não respondeu. Levantou-se, cobriu de novo 



PIE8RETTE 43 

a face com a meia-máscara de Veludo, e agar- 
rada ao meu braço, a tremer, numa convulsão 
de choro, suplicou-me, pelo amor de Deus, 
que a levasse do baile. Saímos. Um nevoeiro 
espesso e frio, cortava. Chamei o primeiro au- 
tomóvel. Era um Velho Benz, impregnado de 
um perfume morno de mulher. 

— Dá-me licença que a leve a sua casa? 

— Não tenho casa. . . 

Olhei, num instante de hesitação, esse corpo 
frágil de criança que se amparava tremendo 
ao meu braço ; tive a im.pressão Vaga e in- 
certa de que o sentia desfalecer; ergui nas 
mãos, com a leveza dum brinquedo, aquela 
nuvem de setim côr de rosa onde um peque- 
nino coração palpitava ; aninhei-a no fundo do 
automóvel ; cobri-a carinhosamente com o meu 
sobretudo, para a resguardar do frio da noite, 
— ecingindo-a a mim, não sei ainda bem se 
num. movimento de Volúpia se de piedade, gri- 
tei para o chaiiffeur : 

— Estoril. 

Foi durante o caminho, debaixo do meu 
braço como uma ave friorenta, que ela me 
contou a sua história. ChamaVa-se Teresa. 
Andara, como todas as raparigas que se per- 
dem,— aos pontapés na Vida. Cest Véternelle 
chanson. Correra, como uma jóia, de mão em 
iDão. Tinha já conhecido muitos homens, — 



44 MULHERES DE HOJE 

quando um dia amou o primeiro homem. Sa- 
bes quem êle era? O pobre Nuno B., que 
morreu aníe-ontem, com vinte e dois arsos. 
Encontrou-a corista num teatro — e adorcu-a. 
Tu conheceste-o. Um lindo rapaz, — loiro, de- 
licado, franzino, doente, um pouco parecido 
com o Cesário Verde de Columbano, her- 
deiro do tipo inglês e da tara tuberculosa da 
mãe. Ao fim de um ano de paixão e de lou- 
cura, Nuno teve a primeira hemoptise. O pai, 
alarmado, levou-o para a Suiça e meteu-o no 
Waldsanaioriíim de Davos. Inútil. O pobre 
rapaz não podia viver sem a amante — e fugiu 
para Portugal. Depois de nova crise amorosa, 
a doença agraVou-se; Nuno foi transportado 
para a Guarda, e, passados dois meses de 
profunda depressão com tentativas de suicídio, 
removeram-no pêra Lisboa, onde chegou mo- 
ribundo. No delírio, gritava pela amante, cho- 
rava, pedia ao pai que o deixasse morrer ao 
pé dela. A questão foi posta aos médicos'. Re- 
solveu-se chamar a pobre rapariga, e pergun- 
tar-lhe se queria instalar-se, como enfermeira, 
à cabeceira do doente. Teresa aceitou. Num 
alvoroço, sorria e caíam-lhe as lágrimas. Po- 
der dedicar-se, poder sofrer, poder morrer pelo 
único homem que amara na vida, —onde have- 
ria maior felicidade para ela? Vencidos os úl- 
timos escrúpulos da severidade paterna, Te- 



PIERRETTE: 45 

resa, a tremer de comoção, foi recebida como 
família na casa dos Viscondes de B., e nunca 
mais, durante trinta e oito dias, abandonou 
um só instante o leito de Nuno. Foi nos bra- 
ços dela que êle m.orreu ante- ontem, iludido, 
feHz, tendo conhecido ao fim da vida, na ter- 
nura duma só miulher, todo o amor duma mãe, 
duma amante e duma irmã. Quando a pobre 
criança, e>ítenuada de sofrimento e de vigílias, 
julgava merecer ao mienos uma palavra de gra- 
tidão à família daquele a quem tanto amara, — 
sabes como lhe pagaram? Mandando-a sair de 
casa pelos criados, — ainda o cadáver de Nuno 
estciVa quente. Teresa, cheia de dor e de Ver- 
gonha, acõlheu-se a casa dama am.iga. Levou 
um dia inteiro de bruços sobre a cama, cho- 
rando. De noite, ardeu em febre, teve delírio, 
pavores horríveis, — via em toda a parte o seu 
Nuno, ouVia-o chamar por ela, adivinhaVa-lhe 
a palidez, sentia-Ihe o suor viscoso das mãos. 
Hoje mandaram-lhe umas dezenas de mil réis, 
como retribuição por serviços de enfermagem. 
Era a suprema afronta. Devolveu-os, intactos. 
À dor, sucedeu, na alma de Teresa, a re- 
volta. Era Carnaval. Quis aturdir-se, embebe- 
dar-se, esquecer, — e, meu caro amigo, a po- 
bre Pierreite cor de rosa, exausta de comoção 
e de fadiga, que eu fui encontrar chorando no 
ja.fdim de inverno dum teatro, dorme agora aqui, 



46 MULHERES DE IlOjfí 

tranquilamente, num quarto contíguo ao meu, 
cheia de confiança neste eterno romântico que 
a beijou na testa como beijaria uma filha, e 
que nào sabe ainda ao certo o que há de fazer 
dela amanhã. . . 
Teu, do coração, — Vasco, 



Maria manuela 



Meu amigo : —Encontro-me num estado de 
excitação que me assusta. Os meus nervos es- 
tão evidentemente doentes, — e eu preciso de 
sossegar, de repousar, de tratar-me. Ora ouve. 
Tu conheces o meu escritório, não é Verdade? 
Lembras-te, de-certo, daquele contador italiano 
onde guardo cartas de mulheres. Pois bem. On- 
tem à noite resolvi-me a arrumar-lhe as gave- 
tas. Acendi o fogão — porque aquij nesta lom- 
ba de serra beirôa, continua um frio de dezem- 
bro — e meti-me ao trabalho. Tanta carta de 
mulher, — para quê? Todas as mulheres que 
amam se parecem, e todas as mulheres que 
mentem, mentem da mesma maneira. Que eram 
aquelas cartas? Papéis inúteis. Talvez papéis 
perigosos. Acudiram-me ao espírito as palavras 
do Marquês de Lauzun : — «Nenhum homem 
correcto guarda as cartas de amor que recebe. > 
Acendi um cigan o, — e comecei a ler e a ras- 



48 MULHERES DE HOJE 

gar. N3o sei se te sucede o mesmo a ti ; a mini, 
o passado produz-me vertigens. A leitura des- 
sas cartas, algumas antigas de vinte anos, deu- 
-me por vezes a impressão de que me debru- 
çava sobre um abismo. Desatei maços sobre 
maços. Emquanto desses Velhos papéis desdo- 
brados se exalava, como um hálito de flores 
mortas, alguma coisa que não era ainda bafio e 
que não era já perfume, — as fontes laíejavam- 
-me, as mãos tremiam- me. Tive a sensação de 
que a minha própria mocidade se esvaía, como 
fumo, entre os meus dedos. Cada uma dessas 
cartas, onde crepitavam manchas de lacre doi- 
rado, acordava uma memória de febre e de de- 
lícia, uma reminiscência de volúpia e de dor. 
Rasguei, rasguei, rasguei. De repente, ao de- 
satar um novo maço, as mãos esfriaram-me, os 
olhos eneVoaram-se-me de lágrimas. Era a pri- 
meira morta. Abri ao acaso uma das cartas, e, 
com o coração opresso, com os lábios trému- 
los, principiei a ler essas palavras de recrimi- 
nação e de abandono onde parecia adivinhar-se 
já como que a grave impassibilidade de alem- 
-túmulo. Pobre Maria Manuela ! Tinha conhe- 
cido na vida o amor que queima e que perde, 
que envenena e que mata. Quem a assassinara ? 
Talvez toda a gente. Talvez eu só. Não tive 
coragem para continuar a leitura desse papel, 
que me escaldava as mãos como um remorso 



MARIA MANUELA 49 

Vivo. Ia amachucá-lo, despedaçá-lo como fizera 
aos outros, — quando, num relance, vi empost- 
'scriptam, traçadas pela mesma letra agitada e 
febril, estas palavras que me gelaram: «Peço-te, 
meu amor, não rasgues esta carta. > Dir-se ia 
que, naquele mesmo instante, a própria mão 
branca da morta as escrevera. Tremi. O papel 
resvalou-me dos dedos, intacto. Olhei, instinti- 
vamente, em volta. Zumbiam-me os ouvidos. 
Latejavam-me as fontes. Não sei porquê, pare- 
ceram-me mais profundas as sombras dos mó- 
veis, mais vagos os relevos das coisas, mais 
convulsos os braços da serpentina de prata que 
me alumiava. Tive Vergonha do meu terror, 
agarrei de noVo a carta, e sem olhar, num mo- 
vimento brusco, numa contracção nervosa, — 
rasguei-a. Ah, meu amigo! Ouço ainda agora, 
claramente, distintamente, o gemido que ouVi 
então. Não. Não suponhas que foi uma aluci- 
nação minha. Ouvi. Um gemido longínquo, — 
mas distinto, doloroso, dilacerante. Tive a im- 
pressão exacta, a impressão perturbadora de 
que, nas fibras do papel que eu despedaçara, 
havia alguma coisa de vivo, de sangrento, de 
humano. Quis rasgar uma carta; tenho a certeza 
de que rasguei uma alma. Ao primeiro gemido, 
outro se seguiu, — e outro, e outro, e outro. Para 
não ouvir, meti a cabeça entre as almofadas 
dum sofá. Inútil. Os gemidos da morta conti- 

4 



50 MULHERES DE HOJE 

nuaram, estrangulados, aflitivos, lamentosos, 
em volta de mim, dentro de mim, toda a noite 
de ontem, toda a manhã de hoje, — e agora 
mesmo, emquanto te escrevo, debruçado sobre 
a minha banca de trabalho, pálido de terror e 
de insónia, escuto-os, adivinho-os, percebo-os, 
ouço-os ainda através do bulício que me rodeia, 
no Vento que uiva, nas vozes que cantam, nos 
sinos que tocam, e não sei para onde hei de 
fugir que os não leVe agarrados aos meus ou- 
vidos, como um castigo, como uma obstinação, 
como uma fatalidade ! Vou partir para aí. Pre- 
ciso de consultar médicos. Previne meu irmão. 
Nunca eu tivesse tocado nessas horríveis car- 
tas! 
Teu amigo,— João. 



LADY FUTILIDADE 



Meu amigo : — Bons dias ! Escrevo-lhe a cor- 
rer. Aí Vai o seu André de Lordes. Horror ! 
Mande-me Loti. Acabei de tomar o meu banho, 
de polir as minhas unhas, de vestir o meu trot- 
teiir cinzento, e — que deliciosa manhã de pri- 
mavera ! — Vou ao meu footing. Deixe-me ver 
que horas são. Dez menos vinte. Tenho vinte 
minutos para conversar consigo. Sabe? É pre- 
ciso que você procure o António. Acabámos. 
Ou antes, — eu acabei. Et, Nini, c'est fini. Ti- 
nha de ser um dia, não é verdade? Foi ontem. 
Porquê? Sei lá! Ainda há de Vir a primeira de 
nós, mulheres, que saiba ao certo a razão por- 
que amou e porque deixou de amar. A você 
pode dizer-se tudo. Você não conta. Você é um 
pouco Vami des femmes. Você conhece-nos 
muito melhor do que nós nos conhecemos a nós 
mesmas. Pois não é verdade— diga-me — não é 
verdade que o amor passa, como passam as ro- 



52 MULHERES DE HOJE 

sas? Se tudo é fugitivo, se tudo é transitório, 
se tudo acaba, se tudo morre, — como querem 
vocês, homens, que o amor seja eterno? Que- 
rer que uma mulher ame toda a vida é tão 
absurdo como querer que a primavera dure todo 
ano. Amei o António? Creio que sim. Pelo me- 
nos, há três semanas, ainda eu estava conven- 
cida disso. Deixei de o amar? Deixei, —não sei 
porquê, não sei quando, não sei como. A culpa 
foi dele? Foi minha? Não. Nem minha, nem 
dele. Foi da Vida, — onde tudo é Vago, onde 
tudo é mudável, onde tudo é efémero. Lembra-se 
daquela frase de La Bru}?ère, que você me disse 
há um ano, há dois anos — como o tempo pas- 
sa ! — diante do admirável DUrer das Janelas^ 
-Verdes? ^Le commencement et le déclin de 
Vamour, se font sentir par V embarras ou Von 
est de se trouver seuls.> Como isto é verda- 
de, meu amigo! Um dia, de repente — sei lá 
porquê! — senti diante do António esse inexpli- 
cável constrangimento que principia quando o 
amor acaba. Compreendi tudo. Estávamos à ja- 
nela, num hotel do Monte-Estoril, olhando o 
mar. Uma atmosfera de tarde, tranquila, doira- 
da, imóvel. Passei-lhe as mãos pelos cabelos, 
tristemente, e beijei-o na testa, como quem se 
despede dum morto. Daí por diante, sempre 
que ficávamos sós, eu sentia, com a evidência 
das coisas irremediáveis, que nunca mais na mi- 



LADY FUTILIDADE 53 

nha vida teria que lhe dizer. É horrível, não é? 
Horrível para nós, para mim, para si, que nos 
habituámos a considerar o amor um sentimento 
que vive eternamente. Horrível para todos aque- 
les que deixam de amar, — e que não encon- 
tram no seu coração, na sua alma, na sua von- 
tade, um pouco de força, um pouco de coragem 
para confessar que já não amam. Eu tive essa 
coragem, eu tiVe essa força. Confessei. Disse 
tudo. Podia dissimular, podia mentir. Mas para 
quê? O amor, para ser belo, não precisa de 
ser eterno. Para quê, embaciar com um hálito 
de mentira um sentimento que deve nascer e 
morrer en beauié? Eu sei que Vocês, homens, 
não pensam assim. Foram Vocês que nos ensi- 
naram a mentir. Díga-me, meu amigo : porque 
um dia amamos um homem, com toda a nossa 
pai?<ão, com toda a nossa alma, — temos por- 
ventura de o amar toda a vida? Oh, não! Não. 
Se eu até das minhas jóias me aborreço ! Pro- 
cure o António. Fale-lhe, conVença-o, diga-lhe 
tudo isto que eu lhe estou dizendo a si. É pre- 
ciso que fiquemos dois bons amigos. Peça-lhe 
que não seja vieux-jeu, que não torne a dizer- 
-me que se mata, — que não estrague com uma 
loucura esse breve sorriso que foi a nossa liga- 
ção. Para quê, estragar uma coisa bela? Os ho- 
mens, mesmo os mais inteligentes, teem às Ve- 
zes —perdoe-me— a estupidez do sentimento. 



54 MULHERES DE HOJE 

O António é como todos,— mas Você tenho a 
certeza de que não é como ele. Dez horas ! E 
o meu footing! Adeus. Sabe? Tenho hoje par- 
tida de golf. Meu marido acordou dum mau 
humor insuportável. Não se esqueça de me man- 
dar Loti. Sabe que eu tinha um grande desgosto 
se o António se matasse? E os meus chapéus, 
que ainda não chegaram de Paris ! 
Beije a mão da sua amiga, — Josefina, 



UMA FLOR 



Senhor doutor: — Se não me sentisse tão 
perto da morte, não teria coragem para lhe di- 
rigir esta carta. É já quási uma desaparecida 
que lhe faia, senhor doutor. Oiça-a com cari- 
dade e não lhe negue a esmola que ela vem 
pedir-ihe. Não. V. ex.^ não me conhece pelo 
meu nome. Nem talvez dizendo-lhe quem sou, 
se lembre de mim. O mundo é tão grande, e 
tudo esquece tão depressa ! Escrevo-lhe do 
hospital de S. José, enfermaria de Santa Cecí- 
lia, cama 7, onde estou já há três semanas, 
cansada de sofrer e desenganada dos médicos. A 
minha fraqueza é tanta, que, só do esforço de 
ditar estas palavras, cubro-me toda de suores 
frios. Poucos dias viverei. Peço-lhe, senhor 
doutor, que me perdoe o tempo que venho ti- 
rar-lhe, e suplico-lhe, de mãos postas, pelo que 
tiver de mais santo e de mais querido na Vida, 
que leia esta pobre carta até ao fim. 



56 mulhbres de hoje 

Um dia, há oito anos, uma pobre mulher, 
lavada em lágrimas, foi chamar V. e?^.* para 
ir ver um doente a Santa Clara. V. ex.^ disse 
que não fazia clínica e indicou os nomes dou- 
tros médicos. Mas, de tal maneira essa desgra- 
çada mulher insistiu, com tanto desespero e tanta 
fé, que o senhor doutor condoeu-se, e foi. Uma 
casa de azulejos — recorda-se ? — um rés-do-chão 
modesto, pequenino, quási sem sol. Ao fundo 
do corredor, num quarto tão escuro que era 
preciso acender luz de dia, um velho, assentado 
na cama, cuspia sangue. Ao pé, a filha, uma 
rapariga de quinze anos, muito loira, com uns 
olhos azuis muito grandes, chorava. O senhor 
doutor falou ao pobre Velhinho com tanta cari- 
dade, que comoveu todos. Foi a esperança, foi 
a alegria, foi um sorriso bom que entrou naque- 
la casa. Â tarde, voltou. Voltou ainda no outro 
dia, e no outro, e no outro. E desde que en- 
trava, até que saía, os mesmos olhos azuis, 
muito grandes, húmidos de lágrimas, seguiam-no, 
imploravam, suplicavam. Uma noite, o senhor 
doutor foi mais tarde. Tinha ido ao teatro. Trazia 
ainda uma rosa vermelha na casaca. Vinha con- 
tente, risonho, feliz. Viu o doente. Estava sal- 
vo.— «Como havemos nós de lhe pagar, senhor 
doutor?»— soluçou a pequenita, querendo bei- 
jar-lhe a mão. O senhor doutor afastou-a deli- 
cadamente, e, como se falasse a uma criança, 



UMA FLOR 57 

emquanto a rosa da sua botoeira se desfolhava 
sobre o leito, respondeu-ihe sorrindo: — «Não 
quero que me pague. Basta que se lembre de 
mim.» Sabe quem era essa pobre rapariguinha? 
Era eu. 

Desde o último dia em que esteve em nossa 
casa, nunca mais o tornei a ver. Mas nem um 
diasó— juro-lhe pela alma de meu querido pai — 
deixei de rezar um padre-nosso por si, pelos 
seus triunfos, pela sua felicidade. Em oito anos 
de sofrimento, de privações, de miséria, nunca o 
seu nome, senhor doutor, saiu do meu pensa- 
mento e da minha alma. Meu pai, um ano de- 
pois de V. ex.^ o tratar, morreu de repente. 
Batemos a todas as portas. Uma noite, minha mãe, 
quási .cega, foi presa por mendigar. Sem um 
carinho, sem um amparo, sozinha no mundo, 
fui caindo, quási sem saber como, de miséria 
em miséria, de perdição em perdição. Conheci 
toda a crueldade dos homens. Devorei todo o 
fel da vida. Caí tão baixo, senhor doutor, que 
chegava a parecer-me um sacrilégio chorar por 
si, pensar em si. Quis esquecê-lo. Não pude. E a 
todas as horas, a todos os instantes, era o seu 
sorriso que eu via, era a sua imagem que me am- 
parava, era o seu nome que eu tinha nos lábios 
e no coração, era a sua lembrança que me 
acompanhava sempre, como um perfume, e me 
dava coragem e força para sofrer. Posso con- 



58 MULHERES DE HOJE 

fessar-lho agora, tão perto como estou da mor- 
te. É já uma sombra que lhe fala. Perdoe a 
essa linda criança que eu era, a esta desgraçada 
que eu sou, a loucura de ter sonhado comsigo 
a vida inteira. É com delícia que eu sinto che- 
gar a morte, senhor doutor, por me lembrar 
que ela pode ainda aproximá-lo de mim. Supli- 
co-lhe, venha vêr-me. Queria vê-lo ainda, antes 
de morrer. Queria beijar-lhe as mãos e entre- 
gar-lhe a minha última jóia. São os restos da 
flor que há oito anos caiu da sua casaca. Se eu 
podesse vê-lo um minuto só, um instante só, 
abençoaria todo o infortúnio da minha existên- 
cia. Venha. Peço-lho de joelhos. Imploro-lho 
pelo amor de Deus. Se se demora, já não me 
encontra viva. Deve ser tão bom morrer feliz ! 
Sua desgraçada, — Antónia. 



o «RENDEZ-VOUS» 



Minha querida amiga : — Que mal fiz eu a 
M.*"^ S.? — priégunta você. E acrescenta, com 
o mais voluptuoso dos sorrisos : «M.™^ S. diz 
furiosam.ente mal de si.» Ah, minha amiga, 
sejamos justos. M."'^ S. tem razão. M.™^ S., 
de todas as mulheres que teem passado na mi- 
nha existência de homme-à-femmeSy foi a única 
com quem eu procedi nobre e generosamente. 
M."'^ S. é a página mais bela de toda a minha 
vida. M."^ S.— está na lógica especial da alma 
feminina — deve, fatalmente, dizer o pior pos- 
sível de mim. 

Eu lhe conto. Fêz ontem onze meses, numa 
maravilhosa tarde de outono, eu esperava em 
minha casa uma mulher. Lembra-se da minha 
salinha-de-fumar, do meu hnpério Jémont de sol- 
teirão, onde você tanta vez seguiu o fumo azul 
dos seus miladVy entre uma faiança holandesa 
de Aegestin Reygens e uma paisagem admirável 



60 MULHERES DE HOJE 

de Malhoa ? Há tanto tempo que a nossa aven- 
tura passou, e — quer crer?— ainda sinto às 
Vezes, nessa pequena sala, estremecendo, pal- 
pitando, errando como um espectro, a sombra 
do seu perfume. Uma eternidade de oito anos, 
não é Verdade? Como o tempo passa, como os 
cabelos embranquecem, — e como nós temos 
envelhecido, minha amiga! No mesmo Récamier 
de mogno e bronze doirado onde tanta vez es- 
perei por si, — confesso-lhe que, nessa tarde 
resplandecente de Setembro, já onze meses con- 
tados, eu não esperava menos ansiosamente, 
menos impacientemente por ela. Era o primeiro 
rende Z'Vous. Era o supremo instante de beleza 
que precede a delícia do primeiro abandono e 
o horror da primeira posse. Era o momento 
em que ainda tudo se releva e tudo se ignora, 
tudo se adivinha e tudo se desconhece. Se as 
mulheres soubessem, minha querida amiga, que 
a melhor recordação que delas nos fica é a do 
tempo que levámos a esperá-las ! O coração ba- 
tia-me, apressado; passeava, sentava-me, abria 
e fechava livros uns sobre os outros, olhava os 
ponteiros impassíveis do relógio, parecia-me 
ouvir na escada, a cada instante, confusos, in- 
distintos, um murmúrio, um rumor de seda, um 
ruído de passos. Mais uma mulher possuída, 
mais uma boca beijada, mais uma vaidade sa- 
tisfeita, — que importava isso, que Valia isso? 



o €REXDEZ-V0U5> 61 

E, entretanto, eu estava evidentemente nervoso, 
apreensivo, perturbado. Nào era apenas a im- 
paciência, a curiosidade da beleza oculta, a 
ânsia da revelação prometida; era mais alguma 
coisa, — era a consciência Vaga da monstruosi- 
dade que ia cometer-se ali, daquela posse sem 
amor, daquele crime sem paixão, daquela aven- 
tura sem dignidade, da obra torpe de atracção, 
de sedução, de volúpia, exercida em volta duma 
mulher virtuosa, casada, tranquila, feliz, só pelo 
prazer elegante de corromper, pela fúria animal 
de dominar, pela estúpida Vaidade de possuir. 
Eu que, como todos nós, homens, esgotara o 
prazer antes de conhecer o amor, —eu desejaVa-a 
sem lhe querer, queria-a ardentemente sem a 
amar, e quando ela veio, emfim, cair-me nos 
braços, pálida, ofegante, prostrada, convulsa, 
escondendo a cabeça no meu peito, molhando- 
-me de lágrimas as mãos, — fui feliz, perversa- 
mente feliz, ignobilmente feliz. Era a fera e a 
presa. Era o sapo e a doninha. Quis enlaçá-la : 
rompeu em soluços. Ergui-lhe a cabeça para a 
beijar: olhou-me com os seus grandes olhos 
azuis de criança, acariciou-me, sorriu dolorosa- 
mente para mim, e, quási boca com boca, numa 
incomparável expressão de sentimento e de can- 
dura, disse-me baixinho : 

— Não fiques desprezando meu marido... 
Ele é tão digno, tão honesto, tão bom ! 



62 MULHERES DE HOJE 

Ah, minha querida amiga! Nessa hora, tive 
repugnância de mim mesmo. As mulheres ! Po- 
bres criaturas de fragilidade, de loucura e de gra- 
ça ! Se elas são aquilo que os homens querem 
que sejam, — e se toda a sua perfídia, toda a 
sua corrupção, toda a sua miséria não passam 
da obra reflectida, da obra consciente, da obra 
abjecta do homem! Afinal, aquela mulher que 
eu atraíra, que eu sugestionara, que eu endoi- 
decera, que eu trouxera sem saber como até 
aos meus braços, — amava perdidamente o ma- 
rido. Lembro-me desse instante, como se fosse 
hoje. O sol acendia faúlhas nos seus cabelos 
loiros de Veneziana. Um grande ramo de rosas 
Vermelhas sangrava num solitário. O tapete 
amortecia-nos os passos. Beijei, com piedade e 
com respeito, os dedos dessa amante que o 
não chegara a ser, pedi-lhe que Voltasse para o 
lar que abandonara, e encerrei, nesse rendez- 
•vous blanc, as nossas relações. Sabe Você 
quem era essa mulher? M.*"^ S. Já vê, minha 
querida amiga, que ela tem toda a razão para 
dizer mal de mim. 

Seu velho amigo, — Pedro, 



UMA FRASE DE DUMAS 



Ao fim da ceia, o velho doutor Moncada, 
que à primeira taça de champanhe fala da sua 
vida, e à segunda começa a falar da Vida dos 
outros, afundou-se numa poltrona, cruzou a 
perna, compôs a orquídea vermelha da casaca, 
acendeu um cigarro e contou-nos : 

— Quando estive há dois anos em Madrid, 
instalei-me num rés-do-chão da calle de To- 
ledo, pouco antes de chegar à igreja de Santo 
Isidoro Real, um palacete moderno de fachada 
italiana onde tinha Vivido, três meses antes, o 
ministro da Rússia. Durante muitos dias, igno- 
rei quem habitava nos outros andares. Saía 
cedo, recolhia tarde. Uma manhã, sobre a mi- 
nha cabeça, ouvi tocar admiravelmente, num 
violino, a tarantela de Wieniawsky. Um natu- 
ral movimento de curiosidade levou-me a per- 
guntar quem morava por cima de mim, no 
andar nobre do prédio. Era uma família da 



64 MULHERES DE HOJE 

aristocracia espanhola, tudo quanto havia de 
mais cursi, marido e mulher, ela ainda va- 
gamente parente dos Marqueses de Baca- 
res, «de piai a, dos caldcros endentados en 
fajã de oro y de guetes-», êle menos conhe- 
cido pelas suas qualidades pessoais do que 
pela excelente égua anglo-árabe, nascida nas 
coudelarias de Afonso XIII, em Aranjuez, que 
acabara de ganhar-lhe, no concurso de Ma- 
drid, a copa dei Rey. Nunca os tinha visto. 
Segundo todas as probabilidades, não os co- 
nhecia. Uma noite, cerca de uma hora da ma- 
drugada, precisamente quando eu ia a entrar 
em casa, parou à porta um automóvel. Deviam 
ser eles. O marido desceu primeiro. Era um 
homem pequeno, raquítico, anguloso, bilioso, 
sem expressão, sem idade, a face rapada e 
como aberta à faca em terra de Siena, um 
chapéu baixo atirado para a nuca, um cache- 
col de setim preto enrolado ao pescoço, a 
elegância doentia de certas criaturas de fim-de- 
•raça, qualquer coisa de intermédio ao pschut- 
teux de Sem e ao «pierrot noir» de Willette, 
andando, um pouco dobrado pela cintura, em 
passinhos curtos de japonês. Depois desceu 
ela, ajudada pelo marido. Conservo ainda na 
retina a figura dessa mulher enorme, serena, 
imperial, magnífica, duma impassibilidade e 
duma beleza clássica de estátua romana, as 



UMA FRASE DE DdMAS 65 

inàos scintilantes de anéis, um molho de aigret- 
tes brancas na cabeça, umas grandes luvas 
brancas de canhão, uma capa de teatro blen 
roy envolvendo-a toda, até aos pés, na majes- 
tade litúrgica dum pontifical. Chartran, o su- 
premo pintor das elegâncias modernas, tem 
alguns retratos assim. Vi-a de perfil, esse ter- 
rível perfil de moeda que é o escolho ou a con- 
firmação de todas as belezas de mulher, — e 
não me recordo de ter surpreendido alguma 
vez, nem nos graves perfis loiros de inglesa 
que Lawrence imortalizou, linhas mais puras, 
mais clássicas emais nobres. Entraram os dois. 
Entrei também, atrás deles. De repente, o ho- 
mem voltou-se para falar ao chauffeur. Dei^ 
xará qualquer coisa no automóvel. Dei de cara 
com ele. O clarão das lanternas bateu-lhe de 
chapada na face. Observei-o então melhor. 
Tinha as feições contraídas, os olhos vítreos, a 
expressão inquietante. Emquanto o olhava, não 
sei ainda hoje porquê, acudiu-me ao espírito a 
frase de Dumas: — ^La destinéc d' une fem- 
me est dans les traits de son mari.» Percor- 
reu-me a espinha uma inexplicável impressão 
de frio. Era uma fisionomia de catástrofe. Ime- 
diatamente, o homem Voltou com um leque 
nas m.ãos. Subiram os dois a escada. As por- 
tas fecharam-se. O automóvel seguiu. Entrei 
em casa. Meia hora depois, quando eu relia, já 

5 



66 MULHERES DE HOJE 

deitado, as perturbadoras páginas do Retrato 
de Dorian Gray, um ruído seco, como duma 
porta que bate, cortou o silêncio da noite. Acto 
contínuo, alguma coisa de semelhante à queda 
dum corpo fez abanar a casa. Escutei, com a 
respiração suspensa. Passados instantes, dois 
novos ruídos, secos, rápidos, — evidentemente 
duas detonações. Estremeci. Apareceu-me diante 
dos olhos, como uma explicação, a face verde, 
crispada, viscosa, desse homem que eu aca- 
bara de ver pela primeira vez. Levantei-me, 
vesti-me à pressa. Soavam campainhas eléctri- 
cas. Havia já gritos pelas escadas. Não me en- 
ganara. Tinham-se disparado três tiros de re- 
vólver, no primeiro andar. Corri, perguntei, 
entrei. Uma mulher enorme, quási nua, estava 
caída de-bruços sobre o tapete. Ergui-a, olhei-a : 
era ela. Palpei-lhe o coração : cessara de viver. 
Os criados, a guarda civil, correram a casa à 
procura do assassino. Foram encontrá-lo junto 
da grande niesa holandesa do escritório, imó- 
vel, abraçado ao busto de mármore duma 
criança. Um fio de sangue escorria sobre o 
mármore branco. Estava morto. Era iniludivel- 
mente verdade que o destino das mulheres está 
escrito na cara dos maridos. 



FLIRT 



Querida Gaby : — Dê-nie as suas mãos e con- 
versemos. É preciso encarar a vida com essa 
inteligência do sentimento que, mesmo quando 
não leva à felicidade, conduz quási sempre à 
resignação. Sinto o meu espírito perturbado. 
Adivinho as suas màos brancas a tremerem 
nas minhas. Tenhamos calma. Tenhamos, acima 
de tudo, a difícil coragem da sinceridade. O 
amor, como a vida inteira, está cheio de luga- 
res-comuns. São as frases feitas que obscure- 
cem, quási sempre, o sentido da vida. Vejamos, 
na sua desconcertadora limpidez, o nosso caso 
moral. Não tenhamos a preocupação de pare- 
cer, um perante o outro, nem mais belos, nem 
mais puros, nem mais nobres. Quando nos co- 
nhecermos bem, havemos de admirar-nos, tal- 
vez, de ser tão semelhantes. É tempo ainda, 
minha amiga. Nada nos prende, — senão os 
nossos olhos que se procuram, as nossas màos 
que se entrelaçam, as nossas almas que se in- 
terrogam. O sentimento que nos liga não tem 



68 MULHERES DE HOJE 

passado. O afecto que nos une nâo tem histó- 
ria. Nunca beijei, sequer, a ponta dos seus de- 
dos. Desconheço- a. Ignoro-a. ReVelerno-nos um 
ao outro. Se essa revelação tiver de nos afas- 
tar, minha senhora, sigamos o nosso destino sem 
amargura, sem rancor, no calmo sorriso de des- 
pedida de duas criaturas que se teriam amado 
se não se houvessem conhecido, — e que seriam 
infinitamente desgraçadas se tivessem chegado a 
amar-se. 

Oiça-me. O meu coração sente-se tranqíiilo 
e forte para encarar a verdade da nossa si- 
tuação. Inunda^me a paz, nesta hora em que 
lhe escrevo. Entra-me pela janela, num hálito 
de perfume, uma lufada quente de primavera. 
Tudo se doira e scintila, à volta de mim, em 
labaredas de sol. As suas rosas vermelhas, 
sobre a minha banca de trabalho, sangram 
como uma boca fresca e aberta. Tenho a ilu- 
são de que a vejo, de que a sinto ao meu lado, 
loira, grave, inglesa no seu trotteur ligeiro de 
pano alvadio, — debruçando-se sobre o meu 
pensamento e sobre a minha alma. Há dias — 
lembra-se ? — no nosso passeio de automóvel, 
um horrível sentimento de comodidade fez-nos 
advogar, um perante o outro, a conveniência 
de manter as nossas relações nos limites duma 
sensata e fiel amitié amoureuse. Nenhum de 
nós foi sincero, minha amiga. O que falou em 



FLIRT 69 

nós ambos, não foi a flor dum afecto que des- 
perta ; foi a consideração egoísta de duas cria- 
turas extenuadas, que vivem a vertiginosa exis- 
tência moderna, e que procuram a cada passo, 
instintivamente, descomplicar a vida. Era a so- 
lução fácil, cómoda, pronta ; reduzia ao mínimo 
as consequências e as responsabilidades ; apro- 
ximava-nos, justificando-nos; definia uma si- 
tuação que convinha simultaneamente ao nosso 
capricho e à nossa consciência: -—adoptámo-la. 
E, entretanto, nós bem sabíamos que está- 
vamos mentindo um ao outro para nos iludir a 
nós próprios. Sabe-o você e sei-o eu: a ami- 
tié amourcuse não existe. Entre um homem 
moço e uma mulher bonita, a amizade pura, a 
amizade insexuada, a amizade intelectual é 
impossível. O homem e a mulher são funda- 
mentalmente, irredutívelmente inimigos. Só se 
aproximam para se amar, — ou para se de- 
vorar. Não é possível entre êles o sentimento 
doce e calmo, sereno e terno da amizade. 
Tudo o que não seja fazerem inexoravelmente 
a felicidade ou a desgraça um do outro, — 
não o sentem, não o entendem. É horrível, 
não é Verdade? Mas é assim, minha amiga. 
Aproximou-nos, a ambos, um grande sonho 
irrealizado e uma grande curiosidade insatis- 
feita. Essa curiosidade e esse sonho chamam-se 
— amor. O nosso caso atinge o momento 



70 MXTLHERES DE HOJE 

da crise. Neste instante, ainda tudo é possí- 
vel: amarmo-nos numa paixão, — ou separar- 
mo-nos num sorriso. Amanhã será já, fatal- 
mente, a paixão que freme ou o sorriso que 
afasta, — mas não poderá ser nunca, entre nós 
dois, a amizade que abdica e que renuncia. 
Para o homem, há só uma expressão plena do 
amor : a posse. Há só, para a mulher, uma ex- 
pressão plena da felicidade: a volúpia de ser 
possuída. Quem não deseja veementemente, — 
não ama. A amitié amouretise inventou-se 
para os homens gastos e para as mulheres 
feias. Você é bela de mais para ser amada 
assim ; e, neste assomo de primavera em que 
as aVes cantam, o sol esplende e as rosas 
abrem, com que orgulho eu sinto, enevoando- 
-me a testa, a esplêndida mocidade dos meus 
cabelos brancos ! Não, minha amiga. Eu men- 
ti-lhe. Mentimos um ao outro. Nós só podere- 
mos, ou amar-nos com loucura, — ou afastar- 
-nos com dignidade. Não há meios amores, nem 
meias posses. Não há ternuras intelectuais, 
nem amizades apaixonadas. Há a vida, que é 
bela,— há a sua boca, que é Vermelha e glo- 
riosa. Adeus. Deixo nas suas mãos fiéis a mi- 
nha confissão e a minha alma. Chame-me, ou 
repila-me. Para que havia você de julgar-me um 
santo, se eu sou apenas um homem? 
Seu, — /?///. 



NOIVA 



Senhora Marquesa :~Escrevo-!he a chorar, 
no meu pequenino quarto amarelo de casada, 
com a sua linda carta aberta diante de mim. 
Não, minha senhora Tia, não aceito nem os 
seus parabéns, nem os seus beijos, nem as suas 
flores. Não os aceito porque sou muito desgra- 
çada, porque nunca supus que podesse ser isto 
uma lua-de-mel, porque nunca acreditei que os 
homens fossem uns monstros assim. O lorge 
parecia tão educado, tão fino! Pois não é. Afir- 
mo-lhe, com as lágrimas nos olhos, que não é. 
E a tia Marquesa, que teve a infelicidade de 
ter três maridos e a felicidade (Deus me per- 
doe!) de os ver morrer a todos três, Vai dar 
razão, muita razão à sua pobre amiga. Eu ca- 
sei por amor, — como todas nós, que não faze- 
mos do amor a mais pequena idea. Imaginei — 
pobre de mim! — que amar era viver numa 
primavera eterna, num eterno sorriso, num 



72 MULHERES DE HOJE 

êxtase que só acabava com a morte. Desde 
muito criança, tive do amor a idea pura, a idea 
terna, a idea luminosa de duas pombas voando, 
num grande dia de sol, sobre um grande rosal 
em flor. Julguei que tudo era meiguice, que 
tudo era ternura, que tudo era comoção, que 
tudo era delicadeza, — que uma nuvem de oiro 
nos embalava, que vivíamos sorrindo, que falá- 
vamos beijando-nos, e que devia ser triste, 
muito triste, morrer depois de ter conhecido na 
vida o supremo bem de amar muito e de ser 
infinitamente amada. Pois bem, senhora Mar- 
quesa : sou bonita, tenho dezoito anos, casei há 
quinze dias, — e que desilusão ! Não é um noivo 
apaixonado que eu tenho ao pé de mim ; é um 
senhor engenheiro, seco, metódico, elegante, 
comodista, formalista, com uns olhos azuis frios, 
um egoísmo feroz, um lindo bigode loiro mui- 
tíssimo mal empregado nele, —um sujeito grave 
que passa os dias metido no escritório a fazer 
cálculos matemáticos, e a noite enterrado num 
cadeirão Ma pie, a cabecear com sono. Não é 
um homem, minha Tia : é um relógio. Não é 
um marido : é um barrete de dormir. Tem a ma- 
nia da pontualidade, da higiene, do espírito prá- 
tico, dos hábitos ingleses. Quer que eu faça 
gimnástica todas as manhãs e que me deite com 
as galinhas todas as noites. Mas tudo isto eu 
lhe suportava, os cálculos e a gimnástica, o sono 



NOIVA 73 

e os jornais de Londres, — se êle se importasse 
comigo para alguma coisa. Mas não, senhora 
Marquesa. A Verdade, a triste Verdade que lhe 
digo só a si e à sua alma, — é que meu marido 
repele-me, meu m.arido impacienta-se com a mi- 
nha ternura, meu marido aborrece-se com as 
minhas carícias. Vejo-a a rir-se de mim, a acon- 
selhar-me com a sua linda voz e os seus cabe- 
los brancos, a dizer-me que sou uma tonta, uma 
exagerada, uma criança. Nào sou. Venho con- 
tar-lhe tudo. São pequenas coisas, — sim, talvez 
sejam pequenas coisas : mas com.o estas pequenas 
coisas decidem da felicidade duma mulher ! Não 
lhe dou um beijo, que êle não tenha um gesto de 
enfado. Eu bem sei que o beijo quási de cinco 
em cinco minutos, que o não deixo quieto um 
instante, — mas parece-me, senhora Marquesa, 
que não é para estar quieto que um homem casa 
com uma rapariga de dezoito anos. Quando êle 
se fecha a trabalhar no escritório — é sabido — 
começo a enervar-me, a aborrecer-me, a pensar 
que nào casei para estar só, e daí a meia hora 
Vou bater-lhe à porta. — «Que é que tu queres ?> 
— «Quero dar-te um beijo.» Sua Excelência 
deixa-se beijar, Monsieur se laisse aimer, im- 
paciente, mal humorado, furioso porque o in- 
terromperam, — e acaba por me pôr fora, com 
a mais inglesa das semceremónias, como se eu 
não fosse a sua mulher, a sua companheira, a 



74 MULHERES DE HOJE 

sua noiva, a sua amiga. — «Vai-te embora da- 
qui, deixa-me trabalhar !> Eu faço-lhe a vonta- 
de. Vou. Mas não me conformo. Chego ao meu 
quarto, Vejo-me no espelho, acho-me bonita de 
mais para sofrer esta solidão, este abandono, 
este desamor, — e daí a cinco minutos estou ou- 
tra vez a bater-lhe à porta, a interrompê-lo, a 
persegui-lo, a chamá-lo. Porque não hei de eu 
ficar ali, ao pé dele, a vê-lo trabalhar, muito 
calada, muito quieta, a bordar a minha renda 
inglesa — a única coisa inglesa que eu não de- 
testo — emquanto Sua Serenidade, Sua Impas- 
sibilidade desenha traçados de estradas que ain- 
da estão por fazer e que eu hei de ver de den- 
tro de um automóvel que ainda está por com- 
prar? O Jorge consente. Fico. Prometo estar 
sossegada. Passa-se um minuto, dois minutos, 
três minutos, Vejo-o curvado à banca, sigo-lhe 
os movimentos da mão forte, rosada, sobre o 
papel marioTiy espreito-lhe a sorrir a penugem 
loira do pescoço, levanto-me, vou pé ante pé, 
aproximo-me, um grande beijo, e — pronto ! — 
um borrão no desenho. Um borrão, que impor- 
tava? Outro que não fosse êle, sentia-se feli- 
císsimo por ser beijado com tanta paixão, com 
tanto enlevo, com tanto amor. Êle, não. Zan- 
ga-se, ralha, põe o chapéu na cabeça, grita que 
não pode trabalhar, que Vai para um hotel, que 
não tem um instante de sossego ao pé de mim. 



Non\\ 75 

Daí por diante, — se lhe falo, queixa-se de que 
o interrompo ; se o beijo, diz que o sufoco ; se 
lhe enlaço o pescoço nos meus braços, grita 
que o sujo de pó-de-arroz; se rio, faço barulho ; 
se choro, sou impertinente ; se brinco, sou uma 
criança ; e eu Vingo-me, senhora Marquesa, e 
beijo-o cada vez mais, e choro, e rio, e aper- 
to-o nos meus braços, e não lhe consinto um 
momento de descanso, de tranquilidade, de paz, 
porque o amo a-pesar de tudo, porque o que- 
ro, porque o adoro, porque êle é meu, porque 
tenho uma vontade imensa de lhe fazer mal, — 
e porque sou infeliz, cada vez mais infeliz. 
Sabe o que êle me disse hoje, minha Tia? Que 
não havia maior suplício para um homem, do 
que ser amado por uma mulher tão bonita e tão 
importuna como eu. Diga-me. A senhora Mar- 
quesa conhece a vida. Amarei eu de mais ? Êle 
terá razão ? 
Sua pobre sobrinha, — Bebé. 



A OUTRA 



Éramos três à mesa do café. Quando o Vis- 
conde de Malafaia, com a sua face de perga- 
minho e a suá elegância à Robert de Montes- 
quiou, afirmava que nunca conhecera mulher 
alguma capaz de sacrificar a vaidade do seu 
sexo a um sentimento grande e generoso, — o 
sólido, o maciço dr. Gama, que sorvia em si- 
lêncio o seu brandy flip, embrulhado num so- 
nolento, num formidável casacão escocês, levan- 
tou a cabeça, fixou-nos, ora a um, ora a outro, 
com os seus olhos de faiança, e disse, numa 
profunda expressão de sinceridade : 

— Conheço eu. 

— Uma mulher ? 

— Uma mulher. 

— Quem é ela ? 

— A minha. 

Olhámo-nos os três. O velho Visconde, no- 
bre, encarquilhado, elegante, pesado de anéis, 



78 MULHERES DE HOJE 

encolheu imperceptívelniente os ombros. Eu tive 
um Vago gesto amável de aquiescência e enchi, 
pela terceira vez, a minha chícara de chá. De- 
ram onze horas. Lá fora, na noite húmida e ne- 
voenta, passaram clarões de automóvel. A um 
canto do café, um inglês de cabelos amarelos, 
com a orquídea de Joe Chamberlain sangrando 
na lapela do casaco, meditava sobre um artigo 
áo Times. Lentamente, o dr. Gama sorveu o 
cognac e a gema de ovo do seu americaníssimo 
flipy calçou um desses amarrotados pares de 
luvas cinzentas que aparecem às vezes nos 
retratos de Columbano, derrubou sobre os olhos 
a aba do chapéu mole, e disse, no seu habitual 
sorriso de bonomia : 

— Vou ver um doente às Chagas. Mas, an- 
tes de me despedir de Vocês, quero contar-lhes 
uma história. Vocês teem razão. Conhecem 
apenas, como disse M."^ Du Deffand, «/^ vul- 
gaire des femmes,— c'est à dire, presque 
toutes.^ Mas faltam as outras. Faltam precisa- 
mente aquelas que vocês ignoram, — aquelas que 
poucas vezes se encontram e que quási nunca 
se merecem. Eu conheci uma, — e pesa-me não a 
ter sabido merecer. Lembram-se vocês de quan- 
do, há seis anos, tive uma loucura por uma 
actriz conhecida? Pois bem. Dessa loucura 
nasceu uma criança, — pouco mais ou menos 
quando minha mulher tinha o seu último filho. 



A OUTRA 79 

Julguei que essa criança Viria tornar mais ínti- 
ma, mais indissolúvel a ligação de acaso que 
eu contraíra, ~ e cheguei a receá-lo por minha 
mulher, por meus filhos, por mim próprio. Nào 
sucedeu assim. Três meses depois, as minhas 
relações com essa criatura, prodígio de má 
educação e de insensibilidade moral, tinham-se 
tornado dolorosas e difíceis; cinco meses de- 
pois, eram insustentáveis. Uma noite, procurei-a, 
inesperadamente, às três horas da manhã. Re- 
cusou-se a abrir-me a porta. A m.inha idade e 
a minha situação aconselhavam-me a evitar toda 
a espécie de escândalo público. Compreendi,— e 
retirei-me. Quando já vinha ao fundo da esca- 
da, senti passos. Alguém descia ; pareceu-me 
ouvir a Voz da criada, chamando ; — esperei. 
Daí a pouco, uma trouxa morna, rosada, chei- 
rosa a leite, salpicada de rendas, embrulhada 
num chaile Velho, caíu-me chilreando nos bra- 
ços. Era uma criança. Era o meu filho. Passou- 
-me uma névoa de sangue pelos olhos. Quis su- 
bir, bater, gritar, brutalizar, — mas tive vergonha 
do meu ridículo e de mim mesmo. Encontrei-me 
na rua. Chovia. O ar cortaVa. Que fazer? Levar 
para um hotel uma criança de cinco meses ? A 
quem a entregaria eu ? Quem alimentaria essa 
boca, inocente da volúpia criminosa dos pais? 
De repente, — lembrei-me de minha mulher. 
Abriu-se diante da minha alma um sorriso de 



80 MULHERES DE HOJE 

fé, de serenidade e de ternura. Passava um trem. 
Chamei-o. Vinte minutos depois, pé ante pé, 
como um ladrão, entrei no quarto onde minha 
mulher dormia com o filhinho; acordei-a; pe- 
di-lhe perdão, chorando; confessei-lhe tudo, co- 
ração contra coração; e emquanto eu soluçava 
como uma criança, — ela, a sorrir, desfeita em 
lágrimas, tomou dos meus braços o inocente que 
a outra engeitara, beijou-o, aconchegou-lhe a 
boquita sequiosa ao peito farto de leite, e dis- 
se-me, apertando muito a minha mão na sua : 

— Não faz mal. Foi outro filho que nos nas- 
ceu . . . 

Houve um instante de silêncio. Quando o 
dr. Gama, levantando a gola enorme do casacão 
escocês, saiu para ir ver o seu doente às Cha- 
gas, — o Velho Visconde de Malafaia, a sós 
comigo, franziu a face glabra e fina, amachu- 
cou as luvas sobre a bengala pomme cVor, e, 
empertigando a sua elegância septuagenária, 
concluiu, desdenhosamente : 

— Meu amigo, quando uma mulher perdoa — 
é porque não ama. 



MAE 



Meu amigo: — Escrevo-lhe na maior das an- 
gústias. As mãos ardem-me de febre. Preciso 
de si, da sua amizade, do seu conselho. Es- 
cute-me, ampare-me, valha-me. As minhas sus- 
peitas confirmam-se. Tudo quanto eu lhe disse 
há dias, na nossa partida de pocker,—è Verda- 
de. Soube-o ante-ontem, — e com que dor, com 
que revolta, com que desespero, meu Deus ! 
Não. Eu nunca me enganei. Já o esperava. 
Creio que lho disse algumas vezes a si. Tive o 
pressentimento do que havia de suceder, no pró- 
prio dia em que meu filho se casou. Meu pobre 
filho ! Tão moço, tão gentil, tão cheio de bon- 
dade, de generosidade, de nobreza ! Semelhante 
criatura era lá mulher para êle! Podia lá amá-lo, 
respeitá-lo, compreendê-lo ! Ah, meu amigo ! As 
mulheres podem não conhecer os homens ; mas 
conhecem-se bem umas às outras. Não imagine 
que é a sogra que fala, com os pequeninos des- 

6 



82 MULHERES DE HOJE 

peitos, com os inevitáveis ciúmes de todas as 
mães. Não. Eu antipatisei com essa criatura 
desde o primeiro dia em que a vi, em Londres, 
há dois anos. Ainda nem sequer sonhava que 
ela havia de vir a ser mulher de meu filho, já 
ela me parecia execrável, com os seus denti- 
nhos ralos de mentirosa, a sua mèche à la 
Goya, os seus Vestidos de tennis pelo joelho, 
todo o seu ar parvena de brasileirinha cosmo- 
polita, criada em Paris e nascida na cabine 
dum transatlântico. Nem educação, nem nasci- 
mento, nem família, nem delicadeza de instinto, 
nem sequer essa Vulgar aristocracia de pele — 
que, nas mulheres que se prezam, se chama 
dignidade. Meu filho devia ter feito dela sua 
amante; fê-la sua mulher legítima. Foi um 
desvario dos vinte anos. Como podia eu opor- 
-me, — se êle me cobriu de beijos e de lágrimas 
quando lhe pedi pela primeira vez que não se 
casasse! Você bem sabe como eu eduquei 
aquele filho, sem pai aos quatro anos, com o 
mesmo tipo loiro de doente, com os mesmos 
caprichos, com a mesma sensibilidade feminina 
da mãe, — como eu formei, como eu criei, amo- 
rosamente, beijo a beijo, carícia a carícia, tudo 
quanto há na sua alma de nobre, de terno, de 
delicado, de digno. Lembra-sedo Cruel Enigma, 
de Bourget? Quantas Vezes tenho pensado, des- 
de ontem, nessas páginas terríveis ! Meu pobre, 



MÃE 83 

meu querido filho ! Porque havia ela de o en- 
ganar assim ? Onde encontrou ela mais beleza, 
mais inteligência, mais fidalguia, mais mocida- 
de? Oh, se Você soubesse tudo! Se eu lhe 
contasse tudo! E com quem! Com quem! Minha 
pobre cabeça, meus pobres nervos, minhas po- 
bres mãos que escaldam ! Como eu tenho, como 
eu posso ter ainda serenidade para pensar, para 
reflectir, para decidir, — com o espírito doente, 
com a alma quebrada, com a vida do meu filho 
desfeita, com um susto que me oprime, que me 
mata, que me faz estremecer a cada ruído, a 
cada passo, a cada porta que se fecha, a cada 
campainha que toca ! É preciso, meu amigo. 
É preciso que Você Venha aqui, que me fale, 
que me aconselhe. Venha tomar chá comigo, 
esta tarde. É agora que os meus cabelos Vào 
embranquecer, verá. Como o sofrimento enve- 
lhece ! Quero apertar as suas mãos, ouvir a sua 
voz. Venha. Meu filho nada sabe. Ignoro tudo. 
É feliz, horrivelmente feliz ainda. Continua a 
adorá-la, a beijá-la, a viver numa ignorância 
que é uma afronta. Que devo eu fazer? Que 
deve fazer uma pobre mãe, como eu, que não 
pede, que nunca pediu a Deus senão que lhe 
faça feliz o seu filho? Deixá-lo na ilusão, na 
mentira, — sujeito aos acasos duma denúncia, 
duma surpresa, duma violência? Acordá-lo para 
a verdade, para o sofrimento, para a dor, -eu, 



84 MULHERES DE HOJE 

que daria a minha vida toda, todo o meu san- 
gue, toda a minha alma por um sorriso só do 
meu filho? Qual é o meu dever de mãe? Acon- 
selhar minha nora? Já o tentei. Respondeu-me 
com orgulho e com insolência. Dizer-lhe tudo a 
êle? É capaz de matar-se, ou de a matar. Dei- 
xá-lo Viver na ignorância, na vergonha, no ridí- 
culo, — ao meu filho, que eu ensinei a ser tão 
digno, tão honesto, tão nobre? Mas isso 
é a última das infâmias, é tornar-me cúmplice 
dessa mulher, é transigir, é aviitar-me. E deba- 
to-me nesta angústia, neste inferno, — sem sa- 
ber o que pense, sem saber o que diga, sem 
saber o que faça. Venha. Preciso duma mão 
amiga ao pé de mim. Preciso do seu bom sen- 
so, do seu afecto, do seu conselho. Venha às 
quatro. Sabe? Chegou ontem de Paris o meu 
vestido novo, tête-de-nègre, grandes botões de 
prata, Redfern. Talvez o não chegue a pôr. Sei 
lá o que será o meu dia de amanhã ! 
Sua ^m\g^i,~ Maria do Carmo. 



A HORA DO DIABO 



A partida de brigde tinha-se prolongado 
até às três da madrugada. Uma noite azul de 
inverno, duma serenidade magnífica, dum frio 
cortante. Desci as avenidas novas, a caminho 
de casa. Já ia longe do arvoredo triste de Fa- 
lhava, quando, de dentro de um automóvel pa- 
rado, de lanternas apagadas, uma Voz conhe- 
cida chamou pelo meu nome. Era o meu amigo Z. 

— Que fazes tu aqui, a esta hora? 

Por um momento, a Umousine iluminou-se. 
O meu amigo, com a sua elegância de vieiíx 
beaUy o seu peito largo de atleta, a sua face 
vermelha e lustrosa como barro vidrado, as 
suas luvas de camurça brincando sobre a volta 
de oiro da bengala, abriu-me, num sorriso, a 
portinhola do Panhard : 

— Sobe um pouco. Conversamos. 

Subi. A atmosfera morna do automóvel, 
onde errava um cheiro vago a flores e a coiro 



86 MULHERES DE HOjE 

da Rússia, acariciou-me a pele crispada do frio. 
Na obscuridade, emquanto falávamos de coisas 
fúteis, de política, de livros, de mulheres, o 
meu amigo, visivelmente inquieto, debruçava- 
-se, de instante a instante, a Ver fosse o que 
fosse. Observei-o. De vez em quando, tirava 
o relógio. A princípio, não lhe percebi a direc- 
ção do olhar. Daí a pouco, ao acender um ci- 
garro, notei que as suas atenções se fi?<aVam 
em certa casa, com o tipo caraterizadamente 
inglês do cottagey que dormia, do outro lado 
da avenida, ao fundo dum pequeno jardim gra- 
deado. Todas as janelas estaVam fechadas. 
Não se adivinhava o menor sinal de luz e de 
vida. Não distingui pessoa ou coisa que podes- 
sem justificar a atenção do meu amigo Z. En- 
tretanto, manifestamente, a sua impaciência 
crescia. Falava com uma verbosidade quási in- 
coerente, e a sua mão forte, sanguínea, espes- 
sa, pesada de anéis, tão inexpressiva que po- 
deria pertencer, indiferentemente, a um criador 
de gado ou a um Douglas da Escócia <^au cceur 
sanglanhj eriçava, em movimentos nervosos, 
os pêlos ainda loiros do bigode. 

— Esperas alguém ? — perguntei. 

— Espero. 

— Cherchez la femme ? 

— Cherchez la femme. Uma bela mulher. 

— É sempre bela a mulher que se espera . . . 



A HORA DO DIABO 87 

Tornei a enrolar ao pescoço o cache-col, e 
despedi-me. O meu amigo deteve-me, num 
gesto distraído : 

— Fica um instante. Vês aquela casa? 

— Vejo/ 

— O primeiro andar ? 

— O primeiro andar. 

— Conta, do teu lado esquerdo, a terceira 
janela. 

— Contei. 

— Tudo parece dormir, não é verdade? E, 
entretanto, por. detrás daquela janela fechada, 
está a estas horas uma mulher em cuja alma 
se passa um grande drama. Talvez a conheças. 
Tem vinte e cinco anos, os cabelos pretos, os 
olhos maravilhosamente verdes, e casou ' há 
tempo com um judeu português. É uma dessas 
mulheres de aparência serena, calma, impassí- 
vel, em cujas pálpebras descidas há mil vezes 
mais e?ipressào do que no próprio olhar. Temos 
tão entranhado o hábito de chamar defeitos, 
nas mulheres, às qualidades que não possuí- 
mos, que eu ia quási atribuir a essa encanta- 
dora criatura o defeito de ser fiel ao marido. 
Há três anos que lhe faço a corte ; há três 
anos que o seu pudor, a sua Virtude, a sua fi- 
delidade resistem a toda a minha obra de sedu- 
ção, de perturbação e de mentira. Ontem, à 
tarde, o marido partiu no Sud, para Paris. 



88 MULHERES DE HOJE 

Hoje, no chá da Legação de ***, emquanto, 
por uma singular coincidência, se tocava a So- 
nata de Kreutzer, pus terminantemente a ques- 
tão : ou esta noite, ou nunca mais. Ela baixou 
os olhos, e, com a mesma tranquilidade com 
que deitava o açúcar na sua chícara do Japão, 
disse-me: ~ «Se hoje, às três da madrugada, 
Vir uma luz na janela do meu quarto de vestir, 
é o sinal de que a porta está aberta e de que 
espero por si ; se a não vir, peço-lhe que não 
me persiga mais.> São três horas e dez minu- 
tos, e a luz ainda não apareceu. 

Uma aragem leve principiava a encrespar 
as árvores. O chauffenr dormia. A nesga de 
céu que nós víamos de dentro do automóvel 
dava-me a impressão dum grande esmalte azuK 
O meu amigo calçou plácidamente as suas 
luvas inglesas de camurça, olhou ainda uma vez 
a casa que continuava mergulhada em sombras, 
e perguntou: 

— Qual é a tua impressão ? 

— A luz ainda não apareceu. Mas aparece. 
— Julgas isso? 

— Tenho a certeza. 

— Porquê ? 

— Porque conheço as mulheres. A luz que 
treme a estas horas nas mãos dessa pobre 
criatura, tem, para ela, toda a irresistível atrac- 
ção, todo o ine?^primível mistério dos abis- 



A HORA DO DIABO 89 

mos. É a tentação, é a Vertigem, é o pecado. 
Fosses tu, ou fosse qualquer outro homem que 
a esperasse, — aquela janela, fatalmente, ilu- 
minar-se ia. Por detrás daqueles vidros, há 
apenas uma consciência que se debate — e 
que leva tempo a vencer. Todas as mulheres 
teem na vida uma hora perigosa. Essa hora de- 
cide da sua existência inteira. É a «hora do 
Diabo>. É o instante de fragilidade em que 
sucumbem para sempre, ou em que para sempre 
se salvam. O seu triunfo ou a sua perda de- 
pendem menos delas do que do homem que 
nesse instante lhes perturba a inteligência ou 
os sentidos. Se é um homem digno, estão sal- 
vas. Se é um miserável, estão perdidas. As 
mulheres são apenas aquilo que nós queremos 
que elas sejam. Não há, fundamentalmente, 
mulheres desonestas; há homens desonestos. 
A deliciosa criatura que te trouxe até aqui, 
atravessa, neste momento, a sua «hora do Dia- 
bo». Está nas tuas mãos. Depende exclusiva- 
mente da tua generosidade. És tu o árbitro do 
seu destino. Ignoro se o que te impele para 
ela é um sentimento nobre ou uma curiosidade 
sensual. ^Les amours partagés,~ceite ga- 
melley! Se a amas, dignifica-a. Se apenas a 
desejas, salva-a. Ficar-te há a certeza absoluta 
de que essa mulher, salva nesta hora por ti, 
nunca mais se perderá. 



90 MULHERES DE YíOJE 

— É O que tu pensas? 

— É o que eu penso. 

Calámo-nos. De repente um foco intenso 
de luz bateu-nos nos olhos. Voltámo-nos am- 
bos. A janela estava iluminada. Como uma né- 
voa, adivinhava-se, lá dentro, um Vulto branco 
de mulher. O meu amigo teve um instante de 
perplexidade, depois um movimento súbito de 
resolução, a face contraíu-se-lhe imperceptível- 
mente, apertou-me as mãos num gesto agrade- 
cido, e gritou ao chauffeiir: 

— Para casa. 

O automóv^el partiu, numa nuvem de poeira. 
Quando demos a volta, lá baixo, na avenida 
distante, a pequenina luz brilhava ainda. 



j 



o ADEUS 



Meu Carlos: -O nosso casamento já não 
pode realizar-se. É preciso que nós falemos um 
ao outro, neste instante decisivo para os nossos 
destinos, com a nobre franqueza, com a serena 
dignidade de duas criaturas que sofrem. Sim, 
Carlos. Está desmanchado o nosso casamento. 
Há razões de ordem moral que me impedem de 
ser tua mulher. Só hoje as soube. Ouvi-as a cho- 
rar e a sorrir, com a alma cheia, ao mesmo 
tempo, de piedade, de dor e de ternura. Não 
Venho fazer-te recriminações. A vida é o que é. 
Os homens são o que são. Tu não és melhor 
nem pior do que todos: és homem. Devíamos 
casar depois de amanhã. Tenho aqui, sobre o 
sofá do meu quarto, o vestido branco de noiva 
que já não chegarei a vestir. Quanta coragem, 
quanta força de alma é precisa, meu Carlos, 
para renunciar, num momento, a um bem que 
se sonhou toda a Vida ! Quantas lágrimas custa 



92 ^ MULHERES DE HOJE 

uma boa acção, meu pobre, meu querido ami- 
go! Eu, que desde criança, ainda com as saias 
pelo joelho, me acostumei a gostar de ti, a con- 
siderar-te o meu irmão, o meu noivo, o meu ma- 
rido, o meu orgulho, a minha alma, — com que 
lágrimas amargas hei de resignar-me agora a 
perder- te ! Mas é preciso. É irremediável. Eu 
já não podia ser feliz comtigo. Ninguém pode 
ser feliz construindo a sua felicidade sobre a 
desventura alheia. Ouve. É necessário que me 
oiças com calma, com serenidade, que me aju- 
des a ser forte, a ser justa, a ser boa. Esteve 
hoje em minha casa, falando comigo, uma po- 
bre rapariga que tu conheces, e que seria mais 
bonita do que eu se não tivesse sofrido tanto. 
Trazia duas criancinhas, uma de colo, outra de 
ano e meio, muito loira, de olhos muito azuis. 
Quando vi essas duas crianças, Carlos, senti, 
ao mesmo tempo, o irresistível desejo de as re- 
pelir e de as beijar. Se elas eram o teu retrato 
vivo! Durante uma hora, escutei em silêncio, 
com a alma retalhada, as súplicas dessa pobre 
criatura. É preciso que uma mulher seja muito 
desgraçada, para pedir o que ela me pediu, para 
se humilhar como ela se humilhou. Durante uma 
hora, tive encostada ao meu seio a cabeça do 
teu filhinho ; sorri e chorei ; acariciei e repeli ; 
comovi-me e revoltei-me ; mordi e beijei ; fui 
boa e fui cruel ; fui caridosa e fui implacável ; 



o ADEUS 93 

— e não sei ainda, meu Deus, ao fim desses 
sessenta minutos de agonia, qual de nós duas 
teria sofrido mais. Não, meu Carlos. Reflitamos. 
Encaremos com dignidade tudo quanto há de 
doloroso e de difícil na nossa situação. Se uma 
de nós duas tem o direito de ser tua mulher,— 
não sou eu; é ela. É ela que deve casar com- 
tigo. Ela, que te deu dois filhos, que te sacri- 
ficou a sua mocidade, que te consagrou a vida 
inteira, — é que tem o supremo direito de ser 
feliz ao pé de ti. Eu fui a intrusa. Devo desa- 
parecer da tua existência. Só ela ficará. Não 
tenhas pena de mim- Ela é mais bonita do que 
eu ; talvez seja ainda mais tua amiga do que eu 
sou. Deixo-te resignada, serena, quási satisfeita. 
Tenho a consciência de que pratiquei hoje a 
m.ais nobre acção da minha vida. Compreendo 
agora que pode haver a volúpia do sacrifício. 
Adeus, meu amigo, meu amor, meu irmão. 
Quando te casares, mandarei a tua mulher as 
minhas jóias de noiva. Se outro filhinho nascer 
depois do teu casamento, quero ser eu a ma- 
drinha dele. Será também um pouco meu filho. 
Adeus. Esquece a tua pobre amiga, — Emília. 



MARIDOS 



Minha querida Mary: — EscreVo-te de Nice, 
onde estou há oito dias. Acabo de receber, de- 
volvida de Lausanne, a tua última carta. Então 
que foi isso, minha pobre Mary? Casada apenas 
há Vinte meses, —e já tão pouco feliz! Tenho 
pena de não poder estar junto de ti neste momen- 
to, para en?<ugar os teus olhos que choram, para 
beijar as tuas mãos que tremem, para te pedir que 
tenhas calma, que tenhas serenidade, que tenhas 
sangue-frio. É preciso, minha filha, que todas 
nós nos habituemos a encarar os homens como 
eles são, e não como nós desejaríamos que êles 
fossem. Dizes-me que o teu marido te engana. 
É possível. Ia quási a dizer — é natural. Há 
quinze anos, quando me casei, tive a ilusão de 
supor que ainda havia um marido fiel : o meu. 
Três meses depois, essa mesma ilusão tinha-se 
dissipado como fumo. Todos os maridos enga- 
nam, minha querida Mary, — e o marido ideal é 



96 xMULHERES DE HOJE 

precisamente aquele que nos sabe enganar me- 
lhor. O teu, por emquanto, é inexperiente; mas 
deixa-o ser menos gaúche, deixa-o habituar-se, 
— e Verás que daqui a algum tempo há de en- 
ganar-te tão bem, que tu nem darás por isso. 
Que havemos de fazer ? O homem é um animal 
essencialmente infiel. Ainda Miss Davidson me 
dizia ontem: — «É a única coisa que o distin- 
gue do câo.» Tenhamos paciência, filha. Eu, 
então, penso que se os nossos maridos não ti- 
vessem, de vez em quando, a generosidade de 
nos enganar, a nossa vida de casadas seria 
muito menos suportável do que é. Falas-me em 
Voltar para casa de teus pais, e pedes-me que 
te aconselhe. Minha querida Mary, — eu acho 
que fazes mal. Li, umas poucas de vezes, tudo 
o que diz e tudo o que não diz a tua carta. Tu 
própria confessas que teu marido não deixou 
ainda um só instante, a-pesar do seu suposto 
desvario, de ser para ti o mesmo homem cor- 
recto, educado, gentil, que tu conheceste no 
primeiro dia do teu casamento. O seu respeito 
por ti mantem-se, inalterável. Não é, portanto, 
a tua dignidade de esposa que sofre; é, quando 
muito, o teu orgulho de mulher; ou, menos ain- 
da do que isso, — a tua Vaidade de amorosa. 
Parece-te frio, distraído, desinteressado; o teu 
instinto diz-te que êle te foge, que é já menos 
«teu>; a tua sensibilidade pressente que a som- 



I 



Maí^idos 97 

bra doutra mulher passa na sua vida. Estás a 
caminho de o perder? Pois bem. O teu dever, 
Mary, é reconquistá-lo. Como? Com o teu me- 
lhor sorriso, com a tua melhor graça, com os 
teus melhores encantos. Tu não precisas, minha 
filha, de que eu te ensine a ser mulher. Vou em 
quinze anos de casada; a minha criada de quarto 
encontrou-me hoje mais três cabelos brancos : 
tenho obrigação de conhecer os homens melhor 
do que tu. Sabes o conselho que te dou? Que 
sejas, daqui por diante, mais bela do que nun- 
ca, mais perturbadora do que nunca, mais mu- 
lher do que nunca — com teu marido. Sabes 
porque muitas de nós se perdem? Porque jul- 
gam, na ingénua sinceridade da sua dor — po- 
bres delas ! — que é com a fuga, com a amea- 
ça, com o escândalo, com todo o horror das 
recriminações e das lágrimas, que se recon- 
quista o amor dum homem. Os nossos maridos 
Voltam sempre, Mary; e quando nào Voltam, é 
porque nós os repelimos. Estou vendo daqui o 
senhor teu marido, com os seus olhos bleud^en- 
fer, com a sua elegância talhada em bronze, 
com o seu sorriso frio como uma bola de cris- 
tal,— a aborrecer-se das scenas de ciúmes que 
tu lhe tens feito, e a achar que a tua amiga 
(estas coisas acontecem sempre com as nossas 
melhores amigas) é muito mais interessante 
quando se ri do que tu quando choras. Não. Nós 

7 



és MULHERES Í)E HOJÊ 

não devemos fazer-nos feias quando mais pre- 
cisamos de ser bonitas. Eu bem sei, Mary, que 
é necessária uma grande dose de bom senso e 
de sangue-frio para sorrir a um homem a quem 
nós desejaríamos de todo o coração poder ba- 
ter; mas, quando os nossos maridos nos enga- 
nam, minha filha, <c'est Vlieiire des grandes 
âmes^, — Q não me parece e?<lremamente difícil, 
mesmo a quem ama como tu ou a quem é or- 
gulhosa como eu, fazer à própria felicidade o 
sacrifício de educar os nervos. O teu marido 
engana-te ? Sê calma — e sê bela. Êle Voltará. 
Depois du.ma infidelidade, os maridos voltam 
sempre mais ternos, mais gentis, mais apaixo- 
nados do que nunca. Porque não vêem vocês 
passar em Nice a sua segunda lua de mel ? Nós 
continuam.os aqui, no Splendid, até fim de Se- 
tembro. Era uma bela idea, não é verdade? Eu 
bem sei, minha querida filha, que os nossos ma- 
ridos são detestáveis, — mas que havemos de 
fazer, se não tem.os outros ? 
Tua, — Guida. 



ÁS MÃOS 



Maria Júlia acordou em sobressalto. O cora- 
ção batia- lhe com força. Tinha a testa inundada 
de suor frio. Á boca sabia-lhe a sangue. Fêz 
um esforço intelectual para reconhecer onde es- 
tava. Na escuridão, sentou-se na cama, es- 
cutou, tacteou. As suas mãos encontraram uma 
massa morna, gelatinosa, arquejante. Era um 
homem. Era o seu companheiro de acaso, na- 
quela noite. Na torre de S. Paulo bateram as 
três da madrugada. Um cheiro acre a palha e a 
bafio sufocou-a. Dormira, mais uma vez, na hos- 
pedaria da rua do Carvalho, tão conhecida já 
dos seus dois anos de miséria. O calor viscoso 
daquele corpo fê-la estremecer; sentiu crispar- 
-se-lhe a pele num movimento instintivo de re- 
pugnância. Quem seria aquele homem ? Mal ti- 
vera tempo de o Ver. Dei?<ara-lhe a Vaga impres- 
são dum casacão amarelo, duma voz rouca, 
duma barba hirsuta e grisalha, duns braços pos- 



lÔO MULHERES DE HOJE 

santes que a tinham sacudido, apertado, calca- 
do. Ficou uns minutos, na treva, a ouvi-lo res- 
pirar. Era o ronco brutal e pacífico dum animal 
que dorme. Imóvel, a respiração quási suspen- 
sa, Maria Júlia esperou, com a resignação das 
abandonadas, que clareasse a manhã. Os len- 
çóis de estopa ardiam-lhe na pele. Zumbiam-lhe 
os ouvidos. Quis adormecer; não pôde. Passa- 
Vam-lhe pela cabeça, num tropel, os horrores da 
sua vida inteira. Reviveu toda a sua infância 
aos pontapés; o abandono, o asilo, o hospital, 
a fome; a mãe morta, com as veias abertas, 
numa poça de sangue, o pai embarcado para o 
Brasil quando ela tinha sete anos; os vizinhos 
a griíarem-lhe, no pátio: — «Manuel da Cruz, 
tenha dó da criança, que é sua filha !>; — e na 
escuridão, na imobilidade, no silêncio, adivi- 
nhando cada vez mais Vivo, mais mordente, o 
calor daquele corpo desconhecido, Maria Júlia 
sentia as lágrimas a escaldarem-lhe a cara, o 
peito a arquejar-lhe com força, e toda a cama 
tremia já do arranco dos seus soluços. A obs- 
curidade oprimia-a; a cabeça andava-lhe à roda; 
vacilou, numa vertigem; acendeu a luz. O ho- 
mem dormia serenamente, de costas, a barba 
empastada de suor, o arcaboiço largo arfando 
numa camisola velha de mescla azul, a mão di- 
reita espalmada sobre o peito. Maria Júlia le- 
vantou a Vela, debruçou-se, observou-o, — es- 



AS MÃOS 101 

tremeceu. Os olhos fíxaram-se-lhe, redondos de 
pavor, naquela mão espessa, maciça, enorme, 
queimada de tabaco, eriçada de pêlos ruivos, 
onde brilhava um anel de prata. Cambaleou. 
Dominou-se, para não gritar. Tinha conhecido, 
na sua infância, umas mãos assim- A tremer, 
aproximou a luz da cara do homem, — e olhou-o, 
e fitou-o ansiosamente. Uma expressão de dú- 
vida horrível crispou-lhe as feições. Seria êle? 
não seria êle? Num lampejo, pensou em tudo, 

— em sacudi-lo, em acordá-lo, em fugir, em gri- 
tar, em esmigalhar a cabeça de encontro às pa- 
pedes. Num esforço de todas as suas reminis- 
cências infantis, olhou ainda, uma vez mais, 
aquela mão musculosa, ruiVa, felpuda, possante 
como uma pata de fera. Queria saber, queria 
ter a certeza. Atirou-se para os pés da cama. 
O sangue ardia-lhe nas faces. Perdida, ofegan- 
te, travou das roupas do homem, — revolveu-as, 
rebuscou-as, despedaçou-as. Achou uma carta, 
um sobrescrito com um nome. Abriu os olhos, 
fitou esse papel mudo onde estava escrita a sua 
sentença. Não sabia ler. Numa angústia, num 
desespero, sustendo a respiração, calçou-se, 
Vestiu-se, atou o lenço, embrulhou-se no chaile 

— e, com os dedos fincados na carta, desceu a 
escada, de roldão. Era madrugada. Uma lufada 
de ar fresco bateu-lhe na cara. Na rua, a luz 
azulada da manhã alastrava como uma névoa. 



102 MULflERES DE HOJE 

Maria Júlia correu a um polícia, que cabaceaVa 
encostado a um candieiro ainda aceso, e páli- 
da, opressa, mal podendo falar, pediu-lhe que 
lesse o nome escrito naquele papel. O guarda 
encarou-a, viu a carta, e leu : 

— Manuel da Cruz. 

Diante dele, Maria Júlia caiu sem um grito, 
como um corpo morto. 



TIA ANGÉLICA 



Logo que cheguei a Viseu, recebi a visita 
do meu amigo João de Albuquerque, da casa 
de ***, ao cimo da Vila, nobre morada em cuja 
pedra de armas, entre dois leões batalhantes 
de oiro, floria em pala, cosido de Verde e ar- 
rancado de prata, o cardo heráldico dos Car- 
dosos. Não o via já havia oito anos. Estava Ve- 
lho, calVo, usava óculos e Vinha Vestido de ri- 
goroso luto. Abracei-o : 

— Quem te morreu ? 

João de Albuquerque desprendeu-se do meu 
abraço, deixou-se cair num cadeirão de sola, e, 
numa expressão sinceramente compungida, res- 
pondeu-me : 

— A tia Angélica. 

Eu tinha-a conhecido, quando, oito anos 
antes., passara por Viseu. LembraVa-me ainda 
da vivacidade com que ela conversava. Era 
uma (lassas virgindades septuagenárias que en- 



104 MULHERES DE HOJE 

Velheceram a sorrir, que são toda a ternura 
e todo o encanto das casas fidalgas, passa- 
rinhos decrépitos que em Vez de andar salti- 
tam, que em vez de falar gorgeiam, e em cujo 
olhar, pela segunda Vez infantil, há ao mesmo 
tempo a serenidade incomparável dos velhos e 
a graça transparente das crianças. Devia ter 
sido bonita. Ela mesma me mostrara, num da- 
guerreotipo, o seu retrato dos vinte anos, um 
pouco imperatriz Eugenia, tirado no tempo dos 
camafeus, dos bandós e das saias de balão. A 
sua figura, majestosa na mocidade, encarqui- 
lhara, ressequira, espiritualizara-se, amarelara 
como um antigo marfim, tornara-se, com a 
idade, leve, graciosa, fluida, pequenina. Tudo 
envelhecera nela — menos os olhos, muito pre- 
tos, muito vivos, muito alegres, uns olhos es- 
curos, de rapariga, que, ao pé dos cabelos 
brancos e da touca branca, pareciam ter, si- 
multaneamente, o negro baço de certas viole- 
tas e a scintilação roxa de certos cristais. Edu- 
cada ali perto, nas beneditinas do Bom Jesus, 
trazida para o solar aos dezoito anos, por 
morte do pai, — vira casar todas as irmãs, flo- 
rir todas as primaveras, poVoarem-se todos os 
ninhos, e resignada, risonha, contente, sempre- 
-virgem e sempre-noiva, vivera cercada da feli- 
cidade dos outros e morrera talvez — quem 
$abe? — na doce ilusão de ter vivido feliz. 



TIA ANGÉLICA 105 

- — Tivemos um grande desgosto, — disse o 
meu amigo, depois de um silêncio, o chapéu 
mole de veludo a rolar-lhe nos dedos. 

— Quando morreu ? 

~A semana passada. É amanhã a missa do 
oitavo dia. 

Uma luz rosada de tarde enchia a sala do 
hotel provinciano onde eu recebera João de Al- 
buquerque. Conversámos. Vinha buscar-me 
para jantar. A mulher queria que eu ouvisse 
ler os papéis da tia Angélica, encontrados, no 
próprio dia da sua morte, dentro duma antiga 
escreVaninha de espinheiro. Eram, dizia ela, o 
documento duma alma. Todos conheciam o en- 
canto da Velha senhora na delicada prenda de 
conversar ao serão, ^cctle filie expirante dcs 
arístocratics oisivcsy>, como lhe chamou Bar- 
bey d'Aurevilly; mas ninguém pudera supor, 
nem a própria família, que ela nos deixasse, 
nas folhas desmaiadas dum diário, as melhores 
memórias da sua vida. Saímos. Meia hora de- 
pois, estávamos ambos na casa solarenga do 
Cimo da Vila. Era um pesado solar do século 
XVIII, com uns silhares ricos de azulejo de ca- 
beceiras, dois ou três tectos que se supunham 
pintados por Pedro Alexandrino, e um pátio 
que parecia suspirar, há oitenta anos, pela 
berlinda Velha da casa. A obscuridade e o si- 
lêncio dcram-me a impressão de que tinha en- 



106 MULHERES DE HOJE 

trado numa igreja. Beijei a mão da mulher do 
meu amigo, cuja beleza loira se empastara, 
mas cujo nariz Bourbon mantinha ainda a no- 
breza antiga do perfil, e deixei-me apresentar a 
duas curiosas figuras de homem, — um, míope, 
oleoso, redondo, que pela volta roxa parecia 
Vagamente cónego da Sé de Viseu, o outro 
alto, seco, velhíssimo mas elegante ainda, os 
ombros largos, o queixo enérgico, o cabelo ra- 
pado e luzidio como um soll-deo de seda 
branca, que se abanava com um lenço de mu- 
lher e a quem João de Albuquerque tratou fa- 
miliarmente de -oprimo general». Depois do 
jantar, reanimo-nos os quatro em volta da 
mesa para ouvir ler os papéis da tia Angélica. 
O padre, de mãos cruzadas sobre o ventre, 
dormitava. O general aproximou da leitora uma 
serpentina de prata de seis lumes. A mulher do 
meu amigo, folheando os papéis donde parecia 
evolar-se um Vago bafio de flores, disse-me que 
a página mais comovente era a última, — es- 
crita pela ilustre senhora seis dias antes da sua 
morte. Pedi-lhe que m.a lesse. A leitura come- 
çou, serena, pausada, grave: 

«Dia 22 de Abril —Faço hoje setenta e 
dois anoS; e ainda gosto de ter flores no meu 
quarto. Dizem que é triste envelhecer. Não 
acreditem. O que é triste é não saber envelhe- 



TIA ANGÉLICA 107 

cer. Quando eu era nova e bonita, parecia-me 
que havia de sofrer muito em me vendo feia e 
Velha. Os primeiros cabelos brancos chegaram, 
e eu aceitei-os com resignação, quási com ale- 
gria,— porque percebi que me ficavam melhor 
do que os pretos. Se hoje me olho nos espe- 
lhos doirados da sala, em que me Via aos de- 
zoito anos, não tenho pena de mim; tenho 
pena dos espelhos, coitados, -— que mudaram 
tanto. Que importa que a mocidade nos aban- 
done, se o coração nunca envelhece ? Cheguei 
ao inverno da vida com a mesma frescura de 
sentimento da minha primavera. Será porque 
envelheci sem me casar? Minha mãe, quando 
eu saí do convento, contaVa-nos, a mim e a 
minhas irmãs, a história da palmada com que 
Santo Onofre recebe no céu as mulheres que 
morrem solteiras. Eu lembrava-me das doces, 
das tranqíiiias, das felizes Velhinhas que dei- 
?<ara no Bom Jesus, de Soeur Jeanne, da se- 
nhora Abadessa, da donata dispenseira que 
tinha oitenta anos e uns olhos azuis muito vi- 
vos; ria me, na minha inocência, da cara com 
que elas receberiam todas a palmada de Santo 
Onofre, e, muito em segredo com a minha 
alma, pedia a Deus Nosso Senhor que não me 
deixasse envelhecer solteira. Mas Deus não 
quis ouvir me — Êle lá sabe porquê — e as mi- 
nhas rosas secaram sem ninguém as colher. Eu 



108 MULHERES DE HOJE 

bem tenho sentido sempre, em Volta de mim, o 
murmúrio de terna piedade, o sorriso de quási 
compaixão que acompanham, por toda a parte, 
as vieilles demoiselles. Julgam-nos infehzes; 
pensam que nós sofremos com a felicidade 
alheia, — e teem pena de nós. Engano. Nós 
outras, que envelhecemos sem nos casar, so- 
mos mais felizes do que aquelas que um dia 
imaginaram ter realizado o seu sonho. Todo o 
bem que se realiza é uma ventura que se per- 
deu. Deus quis que eu não soubesse o que era 
a perturbadora delícia de ser esposa, a como- 
vida felicidade de ser mãe; mas não me fez 
sofrer em troca , como àquelas que foram 
amadas e possuídas, o horror da primeira in- 
diferença, o traVo da primeira saciedade, o in- 
ferno da primeira desilusão. Conheci apenas o 
amor, de o ter sonhado a Vida inteira Quando 
uma mulher foi bela como eu fui, e envelheceu 
solteira como eu envelheci, — é porque chorou 
toda a Vida um homem que lhe morreu, ou por- 
que esperou toda a vida um homem que lhe fu- 
giu. Os meus lábios murcharam; os meus cabe- 
los embranqueceram; as minhas mãos tremem de 
velhice, — e ainda hoje, aos setenta e dois anos, 
diante das flores do meu quarto, espero por 
êle, pelo bem-amado da minha alma, com o 
mesmo alvoroço, com a mesma ternura, com 
a mesma inocência . . . É a Velhice que nos en- 



TIA ANGÉLICA 109 

sina a sonhar, a sorrir e a esperar ;— e só é 
feliz na Vida quem sonlia e quem espera. Bem- 
dito seja Deus, que não deixou envelhecer no 
meu coração o homem por quem espero há 
cincoenta anos ! ■» 

A voz da leitora calou-se. Nesse momento, 
não sei porquê, lembrei-me do Velho general. 
Encarei-o, fixamente. Nos seus olhos imóveis, 
duas grandes lágrimas brilhavam. 



IBSENÍANAS 



Minha amiga : — A sua carta é interessantís- 
sima. Li-a duas, três vezes. Como você é infi- 
nitamente mulher, — em tudo quanto pensa, em 
tudo quanto diz, em tudo quanto escreve ! Não. 
Só num ponto você errou. Quem foi que lhe 
disse mal de Ibsen? Enganaram.-na. O grande 
norueguês não tem, em nenhuma das suas obras, 
uma palavra só contra a mulher. Toda a litera- 
tura escandinava, com excepção de Strindberg 
e do sombrio Sõren Kirkegaard, é uma literatu- 
ra estruturalmente feminista. O fjord de Cris- 
tiânia, coalhado de navios, hirsuto de montanhas 
azuis, assistiu, na luz doirada e incomparável do 
norte, ao mais nobre piaido\'er da Eva moder- 
na. Há, de-certo, confusão com o ilustre sueco 
que escreveu a Saga de Pedro, o Afortunado. 
Strindberg, sim. Depois do grande Nietzsche, 
que a parilisia geral liquidou, não sei de ne- 
nhum misógino tão furiosamente intransigente. 



112 MULHERES DE HOJE 

Foi Strindberg que pronunciou a frase célebre: 
«A mulher é tudo quanto nos resta do macaco.» 
Que é o Pai, senão um libelo ? Que é a Con- 
dessa Júlia, senão uma dolorosa blague? Mas 
não o confunda com Ibsen, minha querida ami- 
ga. As mulheres que passam na obra do grande 
desterrado de Munich e de Veneza, são, todas 
elas, exemplos de dignidade, de nobreza, de 
poesia, de resignação e de graça. Hedda Ga- 
bler, excepcionalmente, tem a perversidade, a 
crueldade voluptuosa de certas histéricas ? Mas 
a própria Hedda Gabler é uma mulher supe- 
rior, que sabe «v/vt^ et mourir en beauté^. De 
resto, que doce teoria de virgens e de amoro- 
sas, de abandonadas e de sacrificadas desfila 
tremendo, soluçando, sorrindo, nesses intensos 
clarões de génio que são os Vinte e quatro dra- 
mas de Ibsen ! Desde Nora, símbolo eterno da 
revolta contra a «lei do homem :>, até à loira 
Elida da Dama do Mar, misteriosa, orgulhosa, 
atravessando a vida no delírio de ser «livre e 
responsável»; desde a Solveig, de olhos azuis, 
vestida de branco, um livro de orações na mão, 
esperando na velhice o seu exilado Peer Gynt, 
até à fria Svanhild, que ignora a felicidade 
porque desconhece a fé que move montanhas; 
desde a triste Edwiges, morta como uma ovelha 
branca de sacrifício, até Rabeca West, expres- 
são da mais alta dignidade moral; finalmente, 



IBSENIANAS 113 

desde a trágica Inger, a mulher nobre da No- 
ruega do século XVI, dilacerada entre o amor 
da pátria e o amor dum filho, até Ilda, musa 
criadora e inspiradora do construtor Solness, 
— quantas figuras adoráveis de mulher esvoa- 
çam, palpitam, resplandecem nesses scenários 
de fjords brancos, de montanhas brancas, de 
céus brancos, duma impassibilidade e duma 
imobilidade de êxtase ! Não, minha querida 
amiga. É certo que Ibsen escrevia as suas pe- 
ças entre um escorpião e um ramo de flores. 
Mas o seu génio soube colher o perfume e des- 
prezar o Veneno. O ilustre norueguês, que 
amou «como se ama quando se ama uma só 
Vez na vida», teve um pensamento dominador 
em toda a sua obra : a dignificação da mulher. 
Quando Eva ruge nos versos de Ibsen, — Eva 
tem razão. É a oprimida que se revolta; é a 
estrangulada que pede ar ; é a humilhada que 
exige uma lei nova, uma jusHça nova, uma so- 
ciedade nova. No teatro de Ibsen há só um 
condenado : o homem. É o mesmo condenado 
do teatro de Hervieu, deTolstoT, deHauptmann, 
de Brieux, de Curei, de d'Annunzio. É a fera, 
é a sombra, é o crime. A mulher é apenas o 
que o homem quer que ela seja. Que direito 
tem o homem de se queixar — disse Ibsen — se 
a mulher é a sua própria obra? Ah, minha que- 
rida amiga, - Ibsen e você precisam de se re- 

8 



114 MULHERES DE HOJE 

conciliar. Aí lhe mando, com uma tradução in- 
glesa de Rosmersholrtiy esse ramo de flores 
azuis. Sabe? Antes de lhe escrever, estive fo- 
lheando o meu velho Nietzsche. Li esta bouta- 
de : «Quanto mais inteligente for a mulher, 
mais o homem se afasta dela.:^ Não deve ser 
verdade, — porque eu cada vez me sinto mais 
irresistivelmente atraído para si. 



1 



AS NOSSAS MULHERES 



O professor eminente que é Bento Carqueja 
acaba de publicar um livro sob muitos aspectos 
notável : O Povo Português, Esse livro cheio 
de revelações, orientado por um rigoroso espí- 
rito scintífico e obedecendo às exigências da 
mais nobre elegância literária, é o primeiro es- 
tudo completo do nosso povo, revelado nos seus 
caracteres demográficos, que se publica em 
Portugal. Há muito tempo que o ilustre profes- 
sor traçara as linhas fundamentais deste traba- 
lho ; o censo geral de 1911, porém, alargando 
inesperadamente a área dos elementos estatís- 
ticos oferecidos à sua reflexão e ao seu estudo. 
Veio determiná-lo na conclusão duma obra que 
honra as suas admiráveis faculdades e que, na 
efémera livraria portuguesa do nosso tempo, 
marca uma data e dignifica um nome. 

Tenho a certeza de que Bento Carqueja sor- 
riu ao ler o título do meu artigo. Pois quê ? 



116 MULHERES DE HOJE 

Como pode haver o perfume do mais ligeiro 
interesse feminino nesse livro pesado e forte, 
sóbrio e vigoroso, que é o Povo Português? 
Como pode a obra grave dum demógrafo e 
e dum economista, em quinhentas páginas de 
profundidade, de raciocínio e de método, pren- 
der, por um só instante, essa pequenina borbo- 
leta inquieta que é a atenção duma mulher? 
Como ? Dizendo-lhe, entre muitas coisas que 
ela felizmente não sabe, algumas que^com cer- 
teza gostará de saber, — porque a interessam, 
porque a tranquilizam e porque a lisonjeiam, 
De-certo a loira M."'^ Y., que a estas horas, na 
Livraria Chardron, descalça a sua grande luVa 
cinzenta para folhear o livro de Bento Carqueja, 
ignora que há em Portugal mais mulheres do 
que homens, e — o que é interessante — que, 
de todos os países da Europa, aquele onde existe 
proporcionalmente maior número de mulheres, 
é Portugal. Em cada 100 habitantes, há, para 
47 homens, 55 mulheres, — o que, se ainda é 
pouco sob o ponto de vista galante, é evidente- 
mente demais sob o ponto de vista económico. 
Essa lamentável — perdão. . . — essa encanta- 
dora superioridade numérica acentua-se, de censo 
para censo : para cada 1.000 homens, havia, em 
1919, 1.069 mulheres; em 1918, 1.088; em 1911, 
1.104, — donde se conclui que Portugal é, não 
só o país da Europa onde há mais mulheres, 



j 



AS NOSSAS MULHERES 11? 

mas também aquele onde há cada vez mais 
mulheres, o que, por um mero sentimento de 
delicadeza, me não atrevo a achar assustador. 
É claro, esse e?<cesso é maior nuns distritos, 
menor noutros ; em geral, maior no norte, me- 
nor no sul, — maior na planície, menor na mon- 
tanha. O distrito de Portugal onde as estatísti- 
cas acusam o maior predomínio numérico de 
mulheres é o de Viana do Castelo, — o que 
nos mostra que o acaso, esse «pseudónimo de 
Deus^, como lhe chamou Theophile Gautier, 
teVe a e?icelente . previdência de fazer nascer 
mais mulheres precisamente onde elas são mais 
bonitas. Mas as estatísticas leVam-nos a conclu- 
sões inesperadas e parado?<ais. Sabem onde a 
nupcialidade é mínima, — quer dizer, onde se 
encontra maior núm.ero de hom.ens solteiros? 
Exactamente em Viana do Castelo, — onde há 
mais mulheres. Aumienta a produção, — diminui 
o Valor. É por isso que a mulher portuguesa se 
casa pouco. Só há um país onde, proporcional- 
mente ao número de habitantes, há menos ca- 
samentos do que em Portugal : é a Suécia. 
Dir-se ia que a literatura misógina de Strindberg 
influiu na diminuição da nupcialidade escandi- 
nava. É possível. Mas, ainda assim, o coefi- 
ciente de matrimonialidade (núm.ero de núpcias 
em relação ao número de núbeis) mantem- 
-se, mesmo na Suécia, muito superior ao de 



118 MULHERES DE HOJE 

Portugal. A maritabilidade da portuguesa é 
mínima, — o que e?<plica o grande número de 
ilegítimos, constituído em Lisboa por um terço, 
e no Porto por um quarto do total dos nasci- 
mentos. Isto é lamentável, — e de-certo a peque- 
nina mão branca de M.*"* Y. fecharia nervosa- 
mente o livro de Bento Carqueja, se êle lhe 
não desse a excelente novidade de que Portu- 
gal, sendo o país da Europa onde as mulheres 
nascem mais, é também o país da Europa onde 
as mulheres morrem menos. Está averiguado 
que a longevidade da mulher é, por toda a par- 
te, superior à do homem. <Dans toujs les pays 
da monde — diz a Longévité à travers les ages, 
de Legrand, que tenho aberta sobre a minha 
mesa de trabalho — en Europe et en Amérique, 
à chaque recensement, le nombre de femmes 
longévites e centenaires a foujours dépassé 
celui des representanfs da sexe fort.-^ Jean 
Finot, na sua Philosophie de la longévité, já 
tinha chegado à mesma conclusão. A mulher 
vive mais do que o homem em todos os países, 
— mas, especialmente, em Portugal. Pelo censo 
de 1911, em cada 395 centenários, há 130 ho- 
mens e 265 mulheres, — o que assegura à mu- 
lher portuguesa uma longevidade de crocodilo 
ou de papagaio; pela comparação das nossas 
estatísticas com as estatísticas estrangeiras, Ve- 
rifica- se que em nenhum país europeu as mu- 



4 



AS XOSSAS xMULHERES 119 

Iheres de 90 a 100 anos são tão numerosas 
como em Portugal, ~ o que, duma maneira deli- 
cada, quer dizer que vivemos numa terra de ve- 
lhas. Em resumo : em Portugal, as mulheres, 
fisiologicamente mais resistentes do que os ho- 
mens, são muitas, casam pouco e morrem tar- 
de. Donde se prova — o que não pode deixar de 
ser muito agradável a M."^^ Y. — que, pelo me- 
nos entre nós, o sexo fraco — é o mais forte. 




J 



MULHERES DE ONTEM 



AS AMANTES DE D. MIGUEL 



I 



A história anedótica tem-se ocupado, desde 
Camilo até Barlx)sa Cólen, da vida amorosa de 
D. Miguel. Grande parte das aventuras do filho 
de Carlota Joaquina são conhecidas. Poucos 
príncipes portugueses podem orgulhar-se de ter 
despertado tantas paixões, — naturalmente por 
que poucos possuíram o prestígio duma tão no- 
bre e tão viril beleza. As mulheres adoraVam- 
-no. Em Viena de Áustria como em Lisboa, em 
Paris como em Londres, infante ou proscrito, 
emigrado ou rei, D. Miguel deixou sempre no 
seu rasto, como um tapete de rosas desbota- 
das, — êxtases e sorrisos, beijos e ilusões, so- 
luços e abandonos. Era um lindo rapaz — a 
face italiana do retrato de Giovanni Ender, os 
olhos ardentes dos carvões admiráveis de Se- 
queira — ; nada se parecia já com a realeza ba- 
lofa e austríaca, obesa e idiota, prognata e se- 
dentária, que dera D. João V e D. José, Pe- 



124 ' MULHERES DE ONTEM 

dro III e D. João VI. Pela primeira vez, desde 
o loiro D. Sebastião, a beleza romântica se en- 
controu consubstanciada na majestade real. A 
estirpe de monstros floria num arcanjo: os 
Amores haviam de revoar, pequeninos e alados, 
em Volta do seu gládio de oiro. Não tiveram 
contas as bonnes-fortnnes de D. Miguel. Desde 
a bailarina Margarida Bruni, de que o Duque de 
Loulé quisera fazer a Fanny Essler deste novo 
arquiduque Carlos, até à escandalosa aventura 
de Paris, que dei?<ou a uma polaca a alcunha de 
^Princesse de Portiigah; desde a enganada e 
dolorosa Margarida Adriòa, até à saloia de Que- 
luz, Maria Evarisia, de carapuça bicuda de ve- 
ludo preto, a sapatear o fandango ; desde a cé- 
lebre tamanqueira de Braga, em que fala Camilo, 
até à fidalga de Guimarães, D. Emília, com mui- 
tos cunhais de armas no solar e muitos grilhões 
de oiro ao pescoço ; desde a mulher casada que 
o endoideceu em Viena e se meteu a freira, até à 
actriz, espécie de M.^"^ de Maupin, que se quis 
bater com êle, à espada, debai?iO dos arvoredos 
do Campo Grande, — quantas figuras de volúpia 
e de encanto, de sedução e de mistério passa- 
ram na vida amorosa do infante-rei, e como esse 
bravo rapaz, cheio de força e de beleza, de vi- 
rilidade e de raça, correu toda a escala do Amor, 
tambonr baitant, desde as leiras de trigo ma- 
duro onde as saloias rebolavam, até aos pre- 



AS AMANTES DE D. MIGUEL 125 

guiceiros de damasco e aos potes de prata das 
alcovas fidalgas de Lisboa ! 

Pois bem, Á extensa lista das apaixonadas 
de D. Miguel, eu venho trazer mais um nome : 
Aíiss Askion. É desconhecido ainda. Ericon- 
trei-o nos papéis inéditos do agente diplomático 
de confiança do Governo Português junto de 
S. M. Britânica, António Ribeiro Saraiva, que 
fiz adquirir em Londres, há três anos, ao súb- 
dito inglês sír E. West. Saraiva diz-nos que 
Alíss Askion foi em 1828, em Plymouth, uma 
das aventuras dò filho de Carlota Joaquina. Era 
trigueira, bela, viva de espírito, olhos negros, 
tipo semelhante em tudo ao de D. Miguel, que 
lhe deixara um esmalte com o seu retrato, — e 
tão fácil de sucum.bir ao galanteio dos portu- 
gueses, que, tendo em 1828 amado apaixonada- 
mente o príncipe, parece não ter sido insensí- 
vel, em 1832, ao seu agente diplomático de con- 
fiança. Dizia-se filha de um capitão de navios 
da marinha inglesa, dansava admiravelmente 
contradanças com a nova marca de Treinitz, e 
aparecera a Ribeiro Saraiva, então rapaz de 31 
anos, loiro, robusto e jovial, primeiro num baile 
em casa de Madame Woodhead, depois num 
pic-nic, em pleno nevoeiro de Beulah's-Spa, 
perto de Norwood. A nota mais interessante co- 
lhida pelo moço diplomata é a da similhança 
fisionómica de Miss Askion com D. Miguel. 



126 MULHERES DE ONTEM 

cSem ser uma beleza perfeita, é, contudo, bo- 
nita e interessante, e não lhe falta talento ; no- 
tei-lhe muita analogia entre a sua fisionomia e 
a de El-rei, o que pode talvez explicar o por- 
que êle se inclinou mais facilmente a ela que a 
outras, mais bonitas.* Depois do pic-nic de 
BeulahVSpa, na noite de 7 de Julho de 1832, 
Saraiva, já apaixonado também, escrevia no seu 
Diário: «Passeei primeiro com Elisa Dickens 
e depois com Miss Askion, a menina a quem 
El-rei fêz suas distinções, quando passou em 
Plymouth em 1828 ; e se a distinguiu El-rei, tam- 
bém o seu representante em Londres, agora, a 
não desatendeu ...» 

Miss Askion ! Mas que importa, na Vida ga- 
lante dum rei, um nome de mulher a mais? — 
perguntarão. Que importa mais um beijo, mais 
uma flor, mais um coração, mais um farrapo ? 
Engano ! Foi Carlyle que o disse: as mulheres 
hão de ser sempre o sorriso da História. 



o BUSTO DA DUQUESA 



Tçixeira Lopes, na sua passagem por Lisboa, 
quis ter a bondade de mostrar-me a sua última 
obra : o busto da Duquesa de Palmela, D. Ma- 
ria Luísa de Sousa Holstein. Vi-o no pequeno 
atelier que foi do inglês Calmeis, em plenos 
jardins do palácio do Rato, na luz vagamente 
doirada duma destas manhãs de Setembro. Há 
muito tempo que não recebia uma tão nobre e 
tão profunda comoção de arte. Seja-me permi- 
tido agradecê-la daqui ao grande escultor, or- 
gulho do nome português, ~ certo de que não 
há prazer intelectual que Valha, para um espí- 
rito educado na dignidade das emoções estéti- 
cas, o elevado prazer de admirar. 

O busto da Duquesa de Palmela, que as ma- 
ravilhosas mãos de Teixeira Lopes tocaram com 
a ternura duma carícia, ficará na história da es- 
tatuária portuguesa contemporânea, ao lado do 



128 MULHERES DE ONTEM 

busto da Inglesa j de Soares dos Reis. Resplan- 
dece, nas criações dos dois mestres, o mesmo, 
clarão de génio. São duas obras irmãs. Que 
frescura, que fluidez, que espiritualidade há na 
expressão desse márm.ore admirável, onde uma 
grande figura de Mulher ressurge para a vida 
eterna das estátuas ! A Duquesa de Palnielay 
de Teixeira Lopes, é, simultaneamente, o espí- 
rito e a raça, a doçura e a energia, a altivez 
fidalga e a graça acolhedora. Tem a cabeça le- 
vemente inclinada sobre o ombro, na sua ati- 
tude habitual ; o cabelo ondeado e alado em 
dois bandós crespos ; a linha do nariz impera- 
tiva e nobre ; o sorriso tranquilo, espiritual, in- 
teligente, indefinível, enrugando-lhe a comissura 
das pálpebras, fazendo-lhe arfar de leve a nari- 
na, florindo-lhe na boca finamente polpuda, ilu- 
minando-lhe os dentes iguais, — como se, em 
volta desses lábios de austríaca, o mármore, 
palpitando, ganhasse a transparência luminosa 
duma gota de água, a imaterialidade perturba- 
dora de um perfume. O grande artista, que sou- 
be fixar, num lampejo de intuição, tudo quanto 
havia de rápido, de fulgurante, de fugitivo nessa 
^expressão infinitamente intelectual, quis com- 
prazer-se, com a arte clara dum grego e a vo- 
lúpia ansiosa dum italiano da Renascença, em 
arrancar àquele bloco de calcáreo, golpe a gol- 
pe, scenteiha a scentelha, um espírito que lateja 



I 



o BUSTO DA DUQUESA 129 

e freme, uma inteligência que resplandece e tu- 
multua, uma graça que encanta, que sorri e que 
enternece. Teixeira Lopes procurou nos retra- 
tos de Carolus Duran ; procurou no carvão de 
Carlos Reis; procurou no esm.alte da Romani; 
procurou no fundo da sua própria alma e da sua 
própria saudade ; naquela atmosfera de atelier, 
que ela respirava ; naquela luz doirada, que a 
envolvera; — e gérmen a gérmen, clarão a cla- 
rão, grito a grito, sonho a sonho, a imagem foi 
surgindo, desbastando a faíscas o mármore, re- 
Velando-se, espiritualizando -se, vivendo a vida 
imortal da pedra humanizada, faiando com os 
seus lábios brarxos de espectro, sorrindo com 
a sua boca fria de aparição- Batia lhe em cheio 
um. raio de sol quando a vi florir, translúcida, 
sobre um trapo de rico Vermelho, no atelier que 
fora de Calmtls. Entre um fauno e Diógenes, 
entre uma cadeira Velha e um biombo de xarào, 
— senti que ela me sorria ; que a sua gola de 
rendas palpitava ; que o seu colar de grandes 
pérolas, o colar que fora da sobrinha de Ma- 
zarin, arfava e tremia respirando com ela, — e, 
meu caro Teixeira Lopes, eu, que apenas vira, 
que apenas falara uma Vez, há dezaseis anos, a 
essa singular m lh?r que dominou, com o seu 
prestígio e com o seu talento, a segunda me- 
tade do século XIX, — eu tornei a Vê-la viva, a 
ouvi-la, ;^falar-lhe, emquanto uma manhã clara 



130 MULHERES DE ONTEM 



de Setembro cantava lá fora, e o perfume das 
últimas flores do jardim, numa lufada fresca, 
entrava pelas janelas. . . 

Como eu lamento, Teixeira Lopes, não saber 
dar às minhas palavras a leveza, a trasparên- 
cia e a graça do seu mármore! 



AVÓSINHAS 



Encontrei hoje, entre papéis' velhos, um maço 
de figurinos de 18-10 — ingénuos, coloridos e 
leves. Vinte e quatro ou vinte cinco cabeças 
de mulher. Pertenciam ao dossier que eu reu- 
nira, em 1904, para escrever Um Serão nas 
Laranjeiras Folheei a pequena colecção donde 
se desprendia um vago cheiro a baíio e a rosas 
secas, e ao chegar ao último figurino, reprodu- 
sido pela litografia sobre um papel francês que 
o tempo encheu de manchas doiradas, perguntei 
a mim próprio porque motivo não ressurgirão as 
nossas mulheres de agora as encantadoras mo- 
das dos penteados de 1840. 

Essas vinte e quatro cabeças cheias de flores, 
de jóias e de caprichos, fizeram-me sorrir — e 
fizeram-me pensar. Quasi um século já ! As be- 
lezas de 1809 e de 1812, vestidas de musselina 
e penteadas à grega, com pantalonas côr de 
carne ee'<;/fí7r/7^5 transparentes, anéis nos dedos 



152 MULHERE- DE ONlEM 

dos pés e jóias nos bicos dos peitos, tinha su- 
cedido a beleza bvroniana e grave, romântica e 
triste das elegantes da Constituição, com gran- 
des laços azuis e brancos na cabeça e os meni- 
nos ao colo pelas salas de baile, — porque era 
então moda dar de mamar aos filhos diante de 
toda a gente. Foi esta elegante de olhos pro- 
fundos e m.arcados a bistre pelas olheiras, a 
Musa tutelar dos casacas-de-briche do Vintismo, 

— a mulher amada por Garrett e por Mousi- 
nho, por Borges Carneiro e por Fernandes To- 
más, a inspiradora dos homens do sinédrio e a 
mãe das elegantes de 1840. Desde os penteados 
à Constituição, até às cabeça nobres e discre- 
tamente sensuais das <leôas> das Laranjeiras, 

— correm vinte anos em que os cabeleireiros da 
Lisboa de D. Maria il se penitenciaram da obra 
exuberante e ridícula, empoada e monstruosa 
dos seus antecessores do século xviii. Então, 
sim : fez-se arte. Percorrendo os figurinos por- 
tugueses da época, no Jornal das Damas e no 
Jornal d ís Famílias — as melhores publicações 
sobre modas que houve na Lisboa de 1840 — 
Vêem-se desfilar, em traços leves, coroando 
elegâncias convencionais de ombros e de nucas, 
penteados que são um primor de invenção e de 
ligeireza, de graça e de espiritualidade. Os ca- 
beleireiros lisboetas do tempo, o Galvão, o 
Devy, o Baron, fizeram-nos esquecer as extra- 



AVÓSIXHAS 133 

vagâncias do Pedro Maria, cabeleireiro de Car- 
lota Joaquina, e os exc-ssos de todos os riça- 
dores e poivilhadores da Lisboa apostólica de 
Pina Manique. Fui uma desforra brilhante. Nunca 
a portuguesa se penteou melhor do que para os 
bailes do Conde de Farrobo e da Baronesa da 
Regaleira, dos Marqueses de Viana e dos Con- 
des de Penafiel. A característica dos penteados 
de 1840 a 1850 era a leveza, a grac'Osidade, a 
simplicidade, um «não sei quê> de infantil e de 
ligeiro que Eugénio Lami surpreendeu com tanta 
finura, e que dava às elegantes das Laranjeiras 
o ar de bebés, —grandes bebés frisados, enca- 
racolados, cheios de laços, de rendas, de flores, 
saltitantes nos seus vestidos curtos de organdi 
cor de rosa ou de gros de Nápoles, nas suas 
botinas razas de duraque azul e nos seus enor- 
mes Bolívares de setim e pérolas. Foram inúme- 
ros os tipos do penteado feminino no meado do 
século XIX. O mais simples, o mais fácil, o mais 
gracioso era o penteado francês à Croisat, 
género cocen-Vairy — um grande laço de setim 
erguido sobre um chígnon e um penteado vul- 
gar de bandós. Depois, logo a seguir por ordem, 
de complexidade, vinha o penteado D Maria II, 
imitando o que a Rainha costumava usar nas 
noites de S. Carlos, — duas madeixas encanu- 
dadas caindo adiante das orelhas, o cabelo 
apanhado em grinaldas de pequeninas rosas, e 



134 MULHERES DE ONTEM 

sobre a nuca, formando 8 de conta, duas tran- 
ças fininhas, apertadas à moda inglesa. Era o 
penteado clássico do tempo. Em seguida, vinha 
o penteado à Raquel ou à Judia , em ban Jós 
simples, ligeiramente derrubado para a nuca, 
guarnecido de pedras e de camafeus; o pen- 
teado à Polka, com dois rolos de Veludo ver- 
melho por cima das orelhas; o penteado à Ma- 
dame Burnay, modista célebre de Lisboa, 
salpicado de pequeninas pedras formando coifa ; 
o penteado à Boccabadaíi, semelhante ao que 
usava a grande cantora italiana ; o penteado à 
Fátima, com o seu turbante de setim e penas 
de marabú, muito usado pela infanta D. Maria 
da Assunção, revivescência da moda do Impé- 
rio lançada pela sensual M."*^ de Genlis ; e, por 
último, o penteado do século xvn, à Sevigné, 
encanudado e frisado, com dois tufos de cabelo 
laterais presos por um fio de pérolas, e levan- 
tado por detrás a descobrir a nuca, — penteado 
delicioso, sobretudo nas mulheres loiras, e muito 
usado pela trigueira e espirituosa D. Maria 
Kruz, a Musa dos salões da Regeneração. 
Mas, além destes quantos outros! Que infini- 
dade de cabeças adoráveis surgem dentre as 
molduras de oiro dos grandes retratos de há 
setenta anos, palpitantes de frescura e de graça, 
com os seus topázios, os seus Bolívares de 
seda, os seus olhos profundos, os seus cabelos 



AVÓSINHAS 135 

encanudados e semeados de rosas ! Que varie- 
dade a das modas do tempo, — e como tinham 
bem por onde escolher, as aVósinhas românti- 
cas que flirtavam à inglesa com Garrett, que 
cultivavam camélias com o Marquês de Viana, 
que faziam espírito com o Visconde de Sotto- 
mayor, e que se perdiam com Farrobo na pe- 
numbra misteriosa do Pavilhào-dos-Espelhos ! 
Porque não voltarão os penteados de 18i0? 



I 



CATARINA DE BRAGANÇA 



Toda a gente sabe que uma filha de D. João IV 
foi rainha de Inglaterra. Toda a gente sabe 
també.-n que foi essa pobre infanta portuguesa, 
Catarina de Bragança, que introduziu em Lon- 
dres a moda elegante de tomar chá às cinco 
horas. Ninguém ignora ainda que a corte escan- 
dalosa de Whitehall e de Hampton Court pre- 
tendeu desculpar os desvarios am.orosos de 
Carlos II, justifícando-os — di-lo o embaixador 
francês Conde de Comminges — pela «portu- 
guesíssima fealdade da Rainha >. As Memórias 
do tempo sào terminantes e claras. Porque foi 
Cbrlos II de Ing'aterra um devasso espirituoso, 
^ à maneira de Lauzun e de Luís XV? Responde 
Charendon : porque Catarina de Bragança era 
feia. Porque passou Sua Majestade corruptís- 
sima dos braços astutos de Lady Casílemaine 
para a viola voluptuosa da dansarina Moll Da- 
Vis, dos olhos verdes da demí-vierge Stewarth 



138 MULHERES DE ONTEM 

para a ternura loira e absorvente da grave Du- 
quesa de Portsmouth? Responde Pepys, no seu 
Diário: porque Catarina de Bragança era um 
monstro. Não sei até que ponto poderá admitir- 
-se a singular doutrina de que a fealdade da 
mulher justifica as infidelidades do marido Mas 
dêmos de barato que essa justificação moral, 
ou melhor, que essa justificação imoral é admis- 
sível, — e vejamos o que houve de verdadeiro 
na pretendida monstruosidade da Infanta portu- 
guesa que os acasos da política dinástica do 
século XVII fizeram mulher de um dos mais 
galantes reis da Europa. Catarina de Bragança 
seria, realmente, tão feia como quiseram pintá-la 
em Inglaterra? As estirpes doentias de iMedina- 
-Sidónia e de Vila Viçosa, já duas vezes cruza- 
das, teriam produzido na filha de D. João IV 
alguma coisa de disforme e de teratológico, que 
desse razão às afirmações terminantes de Cha- 
rendon e de Reresby, do Conde de Commin- 
ges e do ministro Pepys ? Parece que não. A 
fealdade tradicional da mulher de Carlos II deve 
ter sido, fundamentalmente, uma lenda. E essa 
lenda explica-se. É claro que entre as belezas ^ 
loiras, translúcidas, róseas, aladas, normandas, 
que revoavam pelos salões antigos de Whitehall 
como um bando doirado de Amores, e que os 
pincéis de Houthorst, de Lely e de Wissing 
fixaram para a imortalidade, — a pobre infanta- 



I 



CATARINA DE BRAGANÇA 139 

sinha portuguesa, pequena, acanhada, trigueira, 
de cabelos pretos e de olhos enormes, com o 
seu verdugadim espanhol, a sua educação de 
mosteiro, os seus olhares de revés, havia de ter 
produzido, fatalmente, a mais estranha e a mais 
desgraciosa das impressões. Sucederia o mesmo 
a qualquer outra mulher, que possuísse o tipo 
escuro, miúdo, Vulgar, português de Catarina 
de Bragança. Todas as aias que acompanharam 
a Infanta-raínha para a Inglaterra tiveram a 
honra de ser consideradas «uns monstros^ (1) 
— e, entretanto, uma delas foi a amante prefe- 
rida de Buckingham. É certo que um ligeiro 
prognatismo e uma defeituosa implantação dos 
dentes desfeavam a filha de D. João IV, per- 
turbando-lhe a harmonia da boca ; mas os olhos 
eram belos, a pele dum doirado quente de mo- 
rena, as mãos finas, os movimentos graciosos, 
a expressão atraente e bondosa. O próprio 
Carlos II reconheceu os encantos da mulher, 
descrevendo «os seus olhos maravilhosos e o 
seu lindo timbre de voz» (2), e declarando em 
carta à Duquesa de Orléans, dois dias depois 
do casamento, que se sentia «completamete 
feliz com ela» (5). O mesmo diz John Evelyn, 



(1) Charendon, Metn., II, 419. 

(2) Jesse, Mem., III, 6. 

(5) Comte de Baillon, Henriette dAngleterre, pag. 85 



140 MULHERES DE ONTEM 

apresentado à Rainha no próprio dia da sua 
chegada a Hampton Court: «...é pequena de 
corpo, mas bem feita; tem belos olhos cheios 
de langor; só os dentes, avançando de mais, 
lhe estragam um pouco a bôca> O prognatismo 
manifesta-se nos retratos de Huysmans e de 
Stopp, existentes na Nacional Galltry, e nos 
retratos do paço de Sintra ; mas é menos acen- 
tuado na admirável pintura de Peter Lely, onde 
a Rainha aparece como uma linda mulher, nada 
inferior, na sua grave beleza, à iiltima amante 
do rei, Lady Keroualle Cortesania do pintor, 
— para quem não houve mulheres feias, sobre- 
tudo quando eram rainhas? Evidentemente. 
Mas, feitos todos os descontos, a triste Infanta 
portuguesa que a esterilidade condenou à mais 
dolorosa e apagada das realezas, estava longe 
de ser aquele «monstro anão, escuro e plebeu> 
que Pepys descreve, ou aquele «hediondo mor- 
cego> a que aludem as memórias interessantís- 
simas de Jesse. Quando voltou para Lisboa, aos 
cincoenta e cinco anos, D Catarina estava bem 
conservada e fresca. A sedentariedadetornara-a 
um pouco obesa ; o Duque do Cadaval descre- 
Ve-a nas suas Memórias, «baixa de corpo e 
grossa> (1). Tinha a mania de mudar constan- 



(1) Mss. da Bibl. Nac. de Lisb., F. A., códice 749, 
fl. 270. 



CATARINA DE BRAGANÇA 141 

temente de casa - de Belém para as casas do 
Conde de Soure, da morada de Fernão de Sousa, 
a Sanía Marta, para os Paços da Bemposta — 
e vivia absorvida na cura das suas freqíientes 
erisipelas, de que a tratava o cirurgião francês 
Rambaud, que viera com Schomberg para Por- 
tugal (1) Aos sessenta e sete anos, precisa- 
mente quando chegou a Lisboa o médico inglês 
Crikion, encarregado de colocar no rei Pedro II 
um céu-da-bôca de prata, Catarina de Bra- 
gança morreu duma apendicite. As cartas de 
Manuel Dias e as Memórias manuscritas de 
Manuel de Almeida e do Duque do Cadaval des- 
crevem a agonia da Rainha de Inglaterra, durante 
uma terrível noite de tempestade (2). Coisa 
curiosa : nem no próprio dia da sua morte dei- 
xou de tomar às cinco horas, com uma pontuali- 
dade inglesa, a sua chícara de chá. 



(1) Tôrre do Tombo, Mss., códice n.* 60, Cartas de 
Manuel Dias. 

(2' Mss. da Bibl. Nac. de Lisb., F. A., códice 409, 
fl. 1 V., e códice 749. fl. 206, t. e 271, v. 



1 



UM DRAMA DE AMOR 



Camilo, nas Noites de Insónia, refere-se su- 
mariamente a uma anedota amorosa do tempo 
de D. João V : a fuga de uma das damas da 
rainha D. Mariana de Áustria, raptada nada mais, 
nada menos, do que pelo mordomo-mor do Rei. A 
dama era a linda D. Maria dá Penha de França ; 
o raptor era o Marquês de Gouveia, D. João 
de Mascarenhas, filho daquele velho Marquês 
mordomo-mor D. Martinho, que fêz professar 
nas Mónicas a cómica Isabel Gamarra e que 
morreu com ciúmes dela quando a viu despir o 
hábito e voltar para o marido. Fugiram na noite 
de 11 d*e Novembro de 1724, numa forte es- 
tufa de viagem, de couro pregado, perseguidos 
de perto pela cavalaria que o ministro Diogo de 
Mendonça Côrte-Real mandou a cortar-lhes o 
caminho. O escândalo produzido pela fuga foi 
enorme; muito pela qualidade dos dois amantes, 
ambos da intimidade do Paço ; mais ainda pela 
circunstância de serem ambos casados, — ela 
com um primo co-irmão, D. Lourenço de Al- 
mada, que deitou luto de baeta negra e deixou 



144 MULHERES DE ONTEM 

crescer as barbas, ele com uma espanhola, 
D. Teresa de Moscoso e Aragão, filhados Con- 
des de Altamira, que a Rainha no dia seguinte 
mandou trazer ao Paço da Ribeira numa ber- 
linda da Casa Real, e cujas virtuosas lágrimas 
souberam chorar, quási ao mesmo tempo, a dor 
da ofensa e a doçura do perdão. 

Que foi feito dos fugitivos? 

Di-lo uma notícia que há anos encontrei no 
códice 1161 da secção de Aiss. da Torre do 
Tombo, e que acompanha alguns dos muitos 
sonetos então escritos àcêrca dos amores do 
marquês D. Juâo com a Penha de França. Vem 
a fls. 184, V. Por ela se sabe que os oficiais de 
justiça e as tropas deD João V os seguiram pela 
Beira, não os colhendo debaixo de mão por- 
que a estufa de D. João de Mascarenhas le- 
vava o avanço de um dia de jornada. O Conde 
de Vila Verde, depois Marquês de Angeja, 
D. António de Noronha, governador das armas 
dentre Douro e Minho, logo que soube d \ che- 
gada dos fugitivos à Galiza, onde tiveram a sua 
única noite de amor, mandou recado ao Bispo 
de Tuy para que imediatamente os separasse, 
fazendo reco her a um mosteiro D. Maria da 
Penha de França e guardando o Marquês dos 
vários picões de Lisboa pagos a peso de pata- 
cas de prata, que já iam. lezíria acima, fazer a 
justiça dos Almadas. Sua Ilustríssima, a quem 



U^í DRAMA DE AMOR 145 

O Conde — diz a notícia manuscrita que acom- 
panho— <?^não declarara com individuação a quali- 
dade das pessoas^, relaxou o caso à Vara do 
alcaide ; procuraram-se os homisiados por todas 
as estalagens e hostarias de Tuy, e, no próprio 
dia, a linda e infeliz Penha de França, arrancada 
aos braços do homem que insensatamente amara, 
era entregue à Abadessa de um mosteiro de 
franciscanas e via pela primeira vez o claustro 
branco e florido donde nem morta saiu. Entre- 
tanto, o nome do Marquês corria já de boca em 
boca, e o Bispo, acompanhado peio governa- 
dor da cidade, viu-se constrangido a visitar 
na sua hostaria humilde o mordomo-mor de 
D. João V, tendo a bizarria de lhe oferecer, 
para sua residência, o próprio Paço episcopal. 
D. João de Mascarenhas recusou polidamente; 
pediu ao prelado que lhe mandasse entregar a 
mulher ; insistiu ; ameaçou ; suplicou ; rondou, 
perseguido de guardas que o não largavam, os 
muros negros do mosteiro; viu luzir o primeiro 
tiro, cujos quartos lhe zumbiram perto — e, de- 
senganado, partiu para Vigo. «Vi uma carta de 
pessoa mui aceita ao Conde de Vila Verde — 
refere o autor da notícia — dizendo que EIRei 
católico Filipe 5.° mandara que assistissem ao 
Marquês sessenta soldados de cavalo com unt 
bom oficial, para que o acompanhassem por 
onde quer que andasse ; e que estes, vendo pes- 

10 



146 MULHERES DE ONTEM 

soas desconhecidas, as matassem.» Mas as de- 
ferências e atenções havidas com o pobre mar- 
quês D. João, que por uma noite de amor dera 
tudo o que possuía na vida, a honra, os bens, 
o título e a casa, não partiram apenas do Rei 
de Espanha e do Bispo de Tuy; houve alguém 
mais que o protegeu e honrou, e esse alguém 
— cavalheiresca generosidade espanhoh ! —foi 
o pai da mulher que êle abandonara e a quem 
fizera chorar lágrimas de sangiie, o seu próprio 
sogro, —o Conde de Axitamira. Emquanto D. Lou- 
renço de Almada aperrava arcabuzes na som- 
bra—o Velho Conde, talvez movido de Lisboa 
por CBrtas desse anjo de bondade que era filha, 
mandava à cidade de Vigo um dos gentis-ho- 
mens da sua câmara oferecer ao genro as chaves 
do palácio de Ourem, para nele viver, e plenos 
poderes para dispor de todas as rendas e bens 
da casa de Altamira, como se seus próprios 
fossem. D. João de Mascarenhas enterneceu- 
-se até às lágrimas, — mas nada aceitou. Pouco 
depois, no primeiro pacabote, fazia-se de vela 
para Inglaterra. Se, pelo que conheço do cora- 
ção humano, me fosse dado conjecturar para 
onde iria, nessa hora dolorosa di partida, a 
saíidade daquele que fora o 4.° Marquês de 
Gouveia e o 7.^ Conde de Santa Cruz, eu ju- 
rava sobre umas Horas que, se no mosteiro 
das clarístas de Tuy, onde deixara a amante, 



I 



UM DRAMA DE AMOR 147 

lhe ficava toda a alma do seu corpo, para Lis- 
boa, onde lhe sorria o perdào da mulher, ia 
toda a alma da sua alma. Foi essa asa branca 
de misericórdia, foi esse perdão de infinita bon- 
dade que acabou por alcançar de D. Joào V li- 
cença para D. Joào de Mascarenhas voltar a 
Portugal. Mas a vingança do lôrvo D. Lourenço 
não desarmara ainda ; duas vezes, nas ruas de 
Lisboa, lhe despejaram uma escopeta aos pei- 
tos; Diogo de Mendonça compreendeu que con- 
servar D. Joào ni p^ís era assassiná-lo — e de 
novo o fêz partir, escoltado, a caminho de Ara- 
gão. Mas, desta Vez, seguia-o de perto o pri- 
meiro sorriso de felicidade da sua vida inteira. 
D. Teresa de Moscoso, obtida licença do Rei 
para acompanhar o marido, partia no seu coche 
de jornada com o velho tio Aires de Saldanha, 
camarista do infante D. António, que pelo ca- 
minho chorava de contente. E emquanto. Es- 
panha a dentro, numa estalagem de Cáceres 
fronteira a Sun AÍJteo, marido e mulher troca- 
vam emfim, iluminados de bemaventurança, o 
seu primeiro beijo de exílio e de perdào, — lá 
cima, no pequeno mosteiro de claristas de Tuy, 
rezando Vésperas junto do báculo doirado da 
Abadessa, soror Maria da Penha de França de- 
vorava em lágrimas o seu amor perdido. . . 

Neste mundo, por cada deis que sorriem, — 
há sempre um que chora. 



DUAS PRINCESAS 



Conhecem, de-certo, Pedro deBourdeiiles, se- 
nhor de Brantôme; ao menos pela sua obra tão 
viva, tào picante e ião original ~ Les Dames 
Galantes. Pois esse bravo e risonho gascão, 
que é um dos representantes mais característi- 
cos e mais perfeitos do espírito gaulês do sé- 
culo XVI, esteve em Portugal, conheceu bem os 
portugueses — e, segundo todas as probabilida- 
des, as portuguesas — foi recebido no Paço 
mano-a-mano com D. Sebastião, bateu-se ao 
nosso lado, levou de cá, sobre o seu gibão 
de brocado flam.engo de três altos, o hábito 
de Cristo, e ao contrário do que tem suce- 
dido com alguns estrangeiros, sobretudo ingle- 
ses, não disse, nas suas obras, muito mal de 
nós. 

Nas Dames Galantes, por exemplo, e no 
sétimo discurso sobre ^Les femmes mariées, 
les veuves et les filies^ ^ fala Brantôíne em ai- 



150 MULHERES DE ONTEM 

gumas princesas portuguesas ou casadas em 
Portuga), e todas as suas referências são, em 
geral, delicadas e respeitosas. Levanta, aqui e 
alem, uma ponta de véu sobre este ou aquele 
incidente político ou amoroso; mas — caso para 
estranhar, muito mais em quem, como Pedro 
de Bourdeiiles, parece preocupar-se pouco com 
a moral do amor — nào deixa de prestar home- 
nagem à virtude sempre que a encontra no seu 
caminho. Em especial, a princesa D. Joana, 
mãe de D. Sebastião, e a célebre infanta 
D. Maria, filha de D. Manoel, a quem de perto 
tratou e conheceu, nào podem merecer-lhe pa- 
lavras de mais rendida deferência, — o que não 
quer d^zer que êle não aluda, nos seus bárbaros 
ensaios de psicologia amorosa, às veleidades de 
viúva duma delas e às fantasias de solteirona 
da outra. É tão inofensivo e tão interessante 
o que nos diz Brantôme destas duas princesas, 
que vale a pena referir algumas passagens do 
seu discurso. 

A primeira vez — e a única — que Pedro de 
Bourdeiiles viu a princesa viúva D. Joana, mãe 
de D. Sebastião e filha de Carlos V, foi na 
sua passagem por Madrid, ao regressar de Por- 
tugal a França. A beleza e a majestade dessa 
admirável rfiulher, que devia andar perto dos 
quarenta anos e que enviuvara aos dezoito, im- 
pressionaram vivamente Brantôme. ^Je la con- 



DUAS PRL\XESAS 151 

tem pie et admire d'cbord, et si fixemerã, que 
siir le point j'en devenois ravy», —diz o bravo 
gascào, diante de cujos olhos as mais belas 
mulheres de França tinham bebido pela taça 
de oiro de Henrique II. Vinha vestida à espa- 
nhola, não como as damas viúvas, mas à moda 
da corte, íraldilha de seda sobre guarda-in- 
fantes bojudos, como nos quadros de Pantoja 
de Ia Cruz, a cabeça toucada duma crespina 
branca, espanhola, que descia em bico pelo 
meio da testa, quási até ao nariz. Conversaram 
muito acerca do rei de Portugal, D. Sebastião, 
que a princesa sua mãe deixara de quatro me- 
ses nas mantilhas e no leite das amas, ao Vol- 
tar, viú^a, para Castela. Falaram do seu pro- 
jectado casamento com Margarida de França, 
depois rainha de Navarra. D. Joana, que não 
conhecia o filho senão por um retrato de San- 
ches Coelho, perguntou a Brantôme se êle era 
belo e com quem se parecia. — «Cest le vray 
image de vostre beaiité, madame /^ —respon- 
deu-lhe o autor das Dames Galardes, que não 
cessava de a olhar e de a admirar. Ela corou, 
sorriu (fit un petit soaris et coulear de visa- 
ge) e retirou- se quando a vieram chamar para 
a ceia. Conta Brantôme, então, que a princesa 
D. Joana tinha querido casar com o rei de 
França, Carlos IX — o tuberculoso sinistro de 
que nos resta o eloquente busto de Pilon — ; 



152 MULHERES DE ONTEM 

mas que Catarina de Médicis, impressionada 
pela diferença das idades (elle avait trop d'âge 
sur luiy et serait sa mère), não consentiu nesse 
casamento, preferindo a D. Joana a sobrinha 
desta princesa, Isabel de Áustria, fiiha do im- 
perador Ma?<imiiiano, uma Habsburgo típica, 
quási infantil, cheia de inocência e de graça, 
com quem realmente Veio a casar-se o monarca 
francês. Depois disso, a mãe de D. Sebastião, 
<LOstent ative et superbey à Vespagnolet>y Vendo 
perdida a esperança de vir a ser rainha, reti- 
rou-se do mundo para o mosteiro das descal- 
ças de Santa Ciara, por ela própria fundado em 
Madrid. 

Também Brantôme conheceu em Lisboa a 
erudita e sumptuosa infanta D. Maria, filha de 
D. Manuel e da depois rainha de França 
D. Leonor, no seu palácio a-par do mosteiro 
das claristas. Tinha então a misteriosa inspi- 
radora de Camões quarenta e cinco anos de 
idade. De Bourdeilles alude à sua virgindade in- 
transigente, e não a atribue nem a insuficiência 
de meios de fortuna (a infanta era riquíssimia e 
êle sabia-o bem pelo general Oger de Gourgues 
Julliac, que tratava dos seus negócios em Fran- 
ça), nem à falta de enca ^tos pessoais, porque, 
segundo o nobre autor das Dames Galantes, 
D. Maria foi ^une três helle et agréahle filie y 
de bonne grace et helle apparenee^, a mesma 



I 



DUAS PRINCESAS 153 

figura loira, senhoril e grave que nos mostra o 
«retábulo das màos^ do antigo mosteiro de 
Nossa Senhora da Luz. Entretanto, a grande 
bas-bleu portuguesa do século xvi estava 
longe de ser insensível às solicitações do amor, 
e Brantôme, prestando homenagem às suas altas 
virtudes, refere se a uma paixoneta da Infanta 
pelo Grào-Prior da Lorena, um Guise, irmão 
do Duque e do Cardeal, que, de caminho para 
a Escóssia nas suas galeras, se deteve algum 
tempo em Lisboa. A ilustre filha de D- Manoel, 
^que volontiers eut rompa son noead virginal 
poiír Itiyy cela s'àppelle par mariage^ car 
c'etoit une ires sage et vert acuse princesse>, 
encheu-o de presentes, entre os quais uma 
maravilhosa cadeia de ombros com cruz de dia- 
mantes e de rubis, que o Grão-Prior mais tarde 
empenhou por três mil escudos de oiro em 
Londres. Chegou a falar-se de casamento, diz 
Pedro de Bourdeilles, e pensou-se obter para 
isso dispensa do Papa. Porém, as convulsões 
políticas que, nesse momento, perturbavam a 
França, não permitiram que o nobre Guise, em- 
bora <fort pris et encapricé d'elley, voltasse 
a Portugal ;e, pouco depois, o Grão-Prior de 
Lorena caía sob o punhal do capitão de galeras 
Casíellan, senhor de Altivity, levando consigo 
para o túmulo a última Veleidade amorosa da 



CARLOTA JOAQUINA 



Acabam de ser adquiridas pelo Estado três 
interessantíssimas cartas autografas da rainha 
Carlota Joaquina, escritas de Queluz e dirigidas 
ao filho D. Miguel, então em Viena de Áustria. 
Sào três documentos de um carácter, — e estão 
inéditas Na primeira, datada de 20 de Outubro 
de 1827, e, portanto, já depois de D. Pedro, no 
Rio de Janeiro, ter nomeado o irmão D. Miguel 
seu lugar-tenente em Lisboa, Carlota Joaquina 
deseja ao filho uma breve e feliz jornada, es- 
pera que êle volte «com os mesmos sentimentos 
que cá lhe conhecia>, e pede-lhe que se acau- 
tele de todos e de tudo na viagem, insinuando 
que «só o cercam inimigos fortíssimos com capa 
de amigos, mesmo dentro de casa>. No des- 
terro de Queluz, a filha de Carlos IV de Espa- 
nha pressente que a volta do seu arcanjo S. Mi- 
guel lhe resíituVrá o poder perdido, e começa, 
para o reconquistar, a envolve lo de longe na 



156 MULHERES DE ONTEM 

teia da sua intriga. Na segunda, datada de 
24 de Outubro de 1827, pouco mais de um mês 
depois, acusa o filho «de estar vendido aos ma- 
ções» e recomenda-lhe o portador, Francisco 
Martins, homem de sua inteira confiança, que 
ela manda expressamente a Viena de Áustria, 
«como carta viva», para lhe falar deía, para lhe 
dizer os seus sentimentos, para o acompanhar 
na jornada. Carlota Joaquina teme que a te- 
nham malquistado com o filho ; receia que o 
D. Miguel que volta não seja já, nas suas mãos 
astutas de espanhola, o mesmo instrum.ento dó- 
cil da Abrilada ; antecipa-se a todas as narra- 
tivas sobre a sua vida dissoluta de Queluz, 
sobre a lenda da áqaa toffana que matara 
D. João VI; tenta, pelos bons ofícios dum emis- 
sário, captar, envolver, enredar a alma fraca do 
seu infante Marialva. Na terceira carta, datada 
de 7 de Dezembro de 1827, precisamente no dia 
seguinte àquele em que D. Miguel saiu de Viena 
a caminho de Lisboa, pede-Ihe que não ouça 
«as notícias desagradáveis que lhe deram da sua 
família ; que suspenda o seu juízo até que fale 
à mãe; declara-se vítima da intriga e da male- 
volência» ; invoca a misericórdia de Deus para se 
proclamar a si própria a mulher mais verdadeira 
do mundo. Todo o drama dos últimos três anos 
da vida de Carlota Joaquina está nestas três 
cartas. São, todas três, escritas pelo próprio 



CARLOTA JOAQUINA 157 

punho da Rainha, numa letra regular, gorda, 
calma, incaracterística. Transcrevo-as na sua 
grafia original, para não perderem o ViVo sabor 
áo tempo: 

^Qnellus, 20 d^Onftibro de 1827. — Meu 
querido filho do meu coração: faço estas 
duas regras para te dizer o quanto eu desejo 
que faças huma breve e felliz jornada, e que 
venhas com os mesmos sentimentos que eu cá 
te conhecia : pois hé o único desejo do meu 
coração; porque só assim hé que seremos 
felizes. Peço- te que te acautelles muito y 
muito e muitissimo de todos e de tudoy por- 
que ahiy na viagem, e cá, teems inimigos 
fortissimos, e com capa de amigos; e m.esmo 
dentro de casa. Eu vou vivendo, milhor do 
que se podia esperar, pela mizericordia de 
Deos; mas agora com mais algum allento d 
espera de te vêr e abraçar; mas sem des- 
canço em quanto não te apertar nos meus 
braços. A Deus meu querido e adorado filho 
do meu coração ; recebe milhares e milhares 
de bênçãos que te deitta tua mais terna e 
amante mãy— Carlota Joaquina.-^ 

^Quellus, 24 de Novembro de 1827. — Meu 
querido e adorado filho do meu coração: o 
portador desta hé Francisco Martins (que tu 



158 MULHERES DE O.XTEM 

muito bem conheces): vai incumbido por mim 
para te dizer os micus sentimentos ; quero que 
o ouças com. toda attenção ; elle lié carta 
viva, e muito verdadeira; e por tanto, pésso-fe 
que o attendas, e que nunca o separes de 
tim; porque assim te conveem. muito para 
tudo : porque hé talvez o único que nunca se 
deslizou : e tu estás vendido aos maçoens. A 
Deos w.eu amado filho da minha alma ; re- 
cebe a benção de tua muito am.unte Aíây — 
Carlota Joaquina. » 

<í Reservado só p* tim. — Qnellus 7 de De- 
zembro de 1827. — Meu querido e adorado 
filho do meu coração: faço estas regras 
para te dizer que hé natural te chegue aos 
ouvidos algumas noticias dezagradaveis da 
nossa Familia; porém pesso-tCy que suspen- 
das o teu juizOy athe que faltes com^ ^o ; por 
que então eu direi tudo, com aquela miude- 
za, e verdade, com que eu costumo, e sem- 
pre costumei faltar^ pela Misericórdia de 
Deus ; e por essa mesma razão tenho sido 
sempre vi et ima da intrica ^ e da mallignida- 
de; mas Deos hé grande, e de muita miseri- 
córdia, há- de acclarar a seu tempo a verdade 
toda; o que eu quero, e te peço he, que não 
ouças nada do que te disserem , porque o que 
querem, he introduzirem-se os mallevolos, e 



CARLOTA J0-- QUINA 159 

intrigar os bons, e irazer a familia desunida y 
pois he o meio milhor para que nunca se 
saiba a verdade ^ e levar o seu infernal plano 
ao fim. A Deos meu amado filho do meu 
coração ; Deos te tra^a Já, para consolação 
e descanço de iua Mãy que te lança a benção, 
e que te ama muito deveras — Carlota Joa- 
quina.y 

Que admirável página daria a urn romancista 
o primeiro encontro desta mãe e deste filho, na 
sala das Talhas de Queluz, no mesmo dia 22 
de Fevereiro em que D. M'giiel desembarcou 
em Belém, — ele. pupilo de Metternich. belo 
como no-lo revela o retrato admirável de Gio-. 
Vanni Ender, ela, decrépita, com o seu turban- 
te, 03 seus rosários e as si^.as açafatas espa- 
nholas cantando malagaenas e sacudindo-lhe 
as moscas com os leques ? 



Passa ""os dias, nova carta de Carlota Joa- 
quina Veio parar-me às mãos, tâo interessante 
como as três primeiras, dirigida como elas ao 
filho, e, desta vez, encontrada na Valiosíssima 
colecção de papéis políticos que se removerem 
dos armários do palácio das Necessidades. Tem 



160 MULHERES DE ONTEM 

a data de 29 de Outubro de 1726, — precisa- 
mente o dia em que chegaram a Queluz as no- 
tícias do levantamento popular em. Trás-os- 
-Montes. Ao contrário das outras três cartas, 
que são autografas, nesta apenas as duas linhas 
finais foram escritas pelo punho da Rainha. 
Carlota Joaquina, fechada na sala Dom Qui- 
xote com as suas companheiras inseparáveis, a 
mulata Leonor, que a catava, e a açafata Anto- 
nita, que lhe cantava lunduns, sofria ainda, ao 
tempo, de perturbações gerais ligadas a uma me- 
nopausa difícil. Passava os dias conspirando, 
queixando-se de flatos, comprando as guardas 
do palácio, tecendO; entre um ramal de contas 
de Jerusalém e uma tijela da índia fumegmte 
de caldo, a complicada teia da sua intriga polí- 
tica. Os apostólicos, os corcundas fiéis prepa- 
ravam, por toda a parte, em revoltas, em sedi- 
ções, em pronunciamentos militares, o advento 
do seu arcanjo S. Miguel. Carlota Joaquina 
pressentia o regresso breve do filho. Mas que 
teriam feito desse filho os conselhos de Met- 
ternich, o desterro de Viena de Áustria, as no- 
tícias habilmente exploradas da morte misteriosa 
de D. João VI, vítima do Veneno que, segundo os 
apostólicos, lhe ministrara Renduffe, e segundo 
os constitucionais lhe dera a Rainha? Conti- 
nuaria D. Miguel a ser o mesmo para ela, — o 
seu arcanjo, o seu condestável, o seu braço 



CARLOtA JOAQUINA 16l 

armado? Poderia contar ainda com êle, com o 
seu Nuno Álvares, com o seu Du Guesclin de 
Queluz, como na hora longínqua da Jornada 
da Poeira? Todos a alarmavam, todos a alan- 
ceavam de dúvidas, todos a aconselhavam a es- 
crever ao filho. O próprio Latanzi, quando lhe 
vendia as jóias e a loiça da China, oferecia-se 
para ir a Viena levar as cartas ao senhor In- 
fante. Pela carta de 29 de Outubro, sabe-se que 
Carlota Joaquina escreveu a D. Miguel três 
vezes, sem obter resposta: em 7 de Julho de 
1826, — isto é, cinco dias depois da chegada de 
Lord Stuart, e um dia antes da apresentação da 
Carta de D. Pedro em conselho de ministros, 
nas Caldas; em 28 de Agosto do mesmo ano, 
— quer dizer, seis dias depois da sedição go- 
rada de Lisboa, que havia de entregar a coroa 
a D. Miguel e a regência a Carlota Joaquina ; 
e, finalmente, em 25 de Setembro de 1826, data 
que coincide com a dos boatos do próximo ca- 
samento do Infante em Viena e da sua possível 
coroação em Madrid. Todas estas cartas foram, 
naturalmente, interceptadas pelo governo por- 
tuguês. A falta de resposta do filho determinou 
a Rainha a enviar à Áustria José Crisóstomo da 
Fonseca Osório, em Novembro de 1826, e, mais 
tarde, em 24 de Outubro de 1826, Francisco 
Martins, homem da sua inteira confiança. Ignoro 
o resultado da missão de que Carlota Joaquina 

11 



162 MULHERES DE ONTEM 

OS incumbiu. Ignoro, mesmo, se a chegaram a 
cumprir. O que sobre o assunto se sabe é o 
pouco que diz a carta encontrada no palácio 
das Necessidades. Reproduzo-a, te?<tualmente : 

^Quelíuz, 29 de Outubro de 18 26. — Meu 
querido filho do meu coração: recebi huma 
carta tua de 17 do mez p. p.; a qual estimei 
muito por todos os motivos ; eu não respondi 
até agora por ter passado mal, porem agora 
estou milhor graças a DeoSy mas ainda não 
boa, rezão porque esta não vai da minha le- 
tra ; mas podes descançar que é o mesmo que 
se eu a escrevesse y porque hé pessoa de todo 
o segredo. Ainda que não tenho tido resposta 
nenhuma a três cartas rezervadas que te es- 
crevi, huma em 7 de Julho ^ outra em 28 de 
agosto e a terceira em 23 de Setembro, não 
hei de deixar de te avizar de tudo o que eu 
saiba a teu respeito, para que estejas preve- 
nido e não caias nos laços que te querem ar- 
mar para tua desgraça. Peço-te que ainda 
que te preguem e pintem com todas as boas 
cores que elles possão a tua hida para o Rio 
de Janeiro, que não vás, porque eu sei que hé 
para te agarrarem lá e dar cabo de tim ; 
nem metas o pé em nenhuma embarcação, e 
muito menos na Nao que vier do Rio de Ja- 
neiro buscar-te, porque sei de certo que está 



CARLOTA JOAQUINA 165 

a trama armada para te sacrificar; pois os 
pedreiros y e os seus apaixonados, não querem 
que tu cá venhas nunca: entre tanto a Nação 
toda, e a tropa, não querem para seu Rey 
senão a tim, e estão fazendo os maiores sa- 
crificios para o conseguir, como tu has de 
saber. Se ahi for hum homem chamado José 
Chrisostomo da Fonseca Ozorio e levar hum 
sello como este que te remmeto dentro desta 
carta, falla-lhe por que vai mandado por 
mim para te dizer tudo o que eu não fio ao 
papel. Adeus meu: querido filho da minha 
alma, recebe a benção de tua Mãy que muito 
te ama, — Carlota Joaquina. » 

O selo a que Carlota Joaquina se refere en- 
contra-se ainda dentro da carta, cuidadosamente 
embrulhado em algodão em rama. É batido so- 
bre dois pingos de lacre vermelho, num qua- 
drado de papel com a rubrica da Rainha. Tem 
gravada uma chave — símbolo do segredo, e um 
nó de corda — símbolo da união. 



A MUSA DAS RENDAS 



Era ali em baixo, ao Tesouro Velho, numa 
lojinha de três metros quadrados, silenciosa 
como uma capela, exígua como uma caixa de 
confeitos, que D. Maria Augusta Bordalo Pi- 
nheiro expunha as suas rendas. Recordo-me 
ainda da última Visita que lá lhe fiz. Uma luz 
doirada e tranquila de fim de tarde ; dois ou 
três móveis portugueses; um molho de rosas 
frescas sangrando e abrindo nas goelas duma 
faiança, — e em Volta, armadas sobre almofa- 
das de veludo, dezoito ou vinte pequeninas 
jóias brancas, mordidas de oiro aqui e além, 
finas como espuma, leves como pensamentos, 
expressão gloriosa e paciente de tudo quanto 
pode haVer de encanto, de fragilidade e de 
graça na arte delicada da Mulher. 

Perante esses pequenos farrapos de Beleza, 
onde parecia estremecer e palpitar uma alma, 
não foi apenas a admiração que me venceu ; 



166 MULHERES DE OXTEM 

foi a ternura, também. No gesto de comovida 
curiosidade com que me curvei sobre esses le- 
ves sorrisos brancos, houve todo o inexprimível 
enternecimento duma lágrima. Evoquei e senti. 
Como a encantadora puerilidade que se chama 
uma renda pode, tocada pelo génio, resplande- 
cer da mais nobre arte ! Como essa maravi- 
lhosa ourivesaria da linha, ligeiramente picada 
e tecida na graça luminosa duma crista de es- 
puma que se im.obilizasse, consegue dar-nos a 
impressão magnífica da opulência e do movi- 
mento, do ritmo e da côr ! Como esse milagre 
de bilros, ao mesmo tempo carinhoso e esplên- 
dido, pode fazer surgir a beleza de um floco 
confuso e inexpressivo de linho branco, — le- 
vemente, graciosamente, num frémito de asa, 
num gesto de voo ! E o meu olhar interessado 
percorreu, uma a uma, todas essas jóias quási 
impalpáveis, esses breves estremecimentos de 
luz, esses sopros de aragem materializados agora 
num leque de cravos ou de golfinhos, logo 
numa sôbre-cama de rosas bravas, — aqui num 
pára-luz Luís XVI, Verde como uma onda mor- 
dida de espuma, além num mantéu de dona, 
picado de oiro à flor da carne, transparente e 
ligeiro, misterioso e antigo, como se a alma 
ansiosa de Columbano o tivesse surpreendido, 
à luz das velhas aranhas de prata, num serenim 
distante de Queluz . . . 



I 



A M'JSA DAS RENDAS 167 

Lembro-me bem. Um sol fulvo ardia, lá fora. 

Não tive coragem para deixar aquele interior 
silencioso de oficina, aquela penumbra doirada 
de capela. Fiquei ainda um momento. Por sobre 
esses flocos brancos e harmoniosos onde relí- 
quias de luz estremeciam, julguei ver, num pas- 
sageiro instante, numa névoa fugitiva, numa 
revoada branca, erguidas em gestos de graça 
e de bênção, mãos ligeiras, mãos resignadas, 
mãos melodiosas de mulher, entre cujos de- 
dos brincavam, dançavam, floriam eternamente, 
como um suplício, pequeninos bilros de ma- 
deira. .. 



A BRICHOTA 



Está por fazer, sobre tudo quanto às suas 
determinantes de carácter íntimo, a história da 
conjuração de palácio que destituiu Afonso VI. 

Como se sabe, M.^"^ de Nemours tinha a 
fama de uma autêntica dcmi-vierge quando dei- 
xou a corte de França para vir ser rainha em 
Portugal. Era uma mulher inteligente, interes- 
sante, educada na corte de Luís XIV (1) e 
herdeira do feitio aventureiro e apaixonado do 
pai, o Duque de Nemours, criatura singular, 
meio virtuosCy meio poeta, compositor de pan- 
tomimas que se dançaram em Versailles, e 
morto em duelo pelo cunhado aos 54 anos de 
idade (2). Mr. de Lionne investira-a, natural- 



(1) Conversaíions inédites de Madams de Maintenon, 
precedées d' une no t ice historiqiie par Mr. de Monmer- 
que. Paris, 1828, pag. 24. 

(2) Siècle de Louis XIV, 67. 



170 MULHERES DE ONTEM 

mente, na missão diplomática de todas as rai- 
nhas : dominar o rei pelos seus encantos de 
mulher e preparar em Portugal a política da 
França. Nada mais fácil. Afonso VI era aleijado 
e idiota ; pelo menos, toda a gente o supunha 
como tal em Paris (1), — e o Marquês de 
Sande não tinha coragem para afirmar o con- 
trário. M.*^"*^ de Nemours sabia o que vinha en- 
contrar. «// est constant que la Reine rCigno- 
rait aucune de ces circonsiances avant de 
partir pour Vepoaser^y — dizia, em carta para 
Londres, o embaixador inglês Southwel (2). 
Quando entrou em Lisboa, no seu coche doi- 
rado sem tejadilho, sob o enorme chapéu de 
sol de chamalote vermelho que um moço-da- 
-câmara erguia como uma umbela (3), — com- 
preendeu logo que teria no Conde de Castelo 
Melhor um inimigo implacável e no infante 
D. Pedro um aliado fiel. Assentada ao lado do 
Rei e na frente do Infante, o seu instinto de 
mulher não pôde furtar-se à comparação dos 
dois irmãos : um, acanhado, imbecil, obeso, 



(1) Memoires de Mademoiselle de Montpensier, to- 
mo IV, pag. 26 e seg. 

(2) Histoire da Détrònement de Alfonse VI, coníenue 
dans les lettres de Rohert Soiithwel, pag. 25 e seg. 

(5) Bib!. Nac. de Lisboa, Mss., F. A., códice 749, 
fl. 113, V. 



A BRICHOTA 171 

flácido, loiro, meio aleijado do braço direito, 
a titubiar e a escarrar constantemente sobre 
a estribeira do coche; o outro, esbelto, her- 
cúleo, dominador, brutal, escuro como um ci- 
gano, expressão máscula e possante do homem 
trigueiro de Espanha como a sua imaginação 
de francesa o tinha sonhado. Desde esse dia, 
um violento interesse sensual, uma invencível 
atracção física pelo cunhado dominaram toda 
a sua vida de mulher. Era preciso eliminar 
Afonso VI. Essa eliminação não seria possível 
emquanío junto dele estivesse o Conde de 
Castelo Melhor. Foi, portanto, contra o minis- 
tro que se armou desde logo todo o poder da 
sua intriga e da sua astúcia. Quinze dias de- 
pois, já o Conde se queixava ao Abade de 
Saint-Romain, embaixador de França, de que 
a Rainha começava a atacá-lo em diversos ne- 
gócios do governo. Passado um mês, a inteli- 
gente francesa assistia ao conselho de Estado 
que havia de resolver os conflitos suscitados 
entre o infante e o Rei, — conflitos que ela 
própria criara e provocara. Afonso VI, cada Vez 
mais louco e mais intratável, encolhia-se, fugia, 
não queria ouvir falar no irmão, nem no Con- 
de, nem na Brichota, como êle chamava à 
Rainha, — rodava de coche para Odivelas a ver 
soror Ana de Moura, corria a S. Nicolau a 
ouvir cantar à viola Francisca Barreto, ou me- 



172 MULHERES DE ONTEM 

tia-se pela Alfama com os seus mulatos e toda 
a mafra-baixa, a lâmina da espada pintada de 
negro para não luzir na escuridão, cheio de 
bentinhos e de rosários, ferindo, esbofeteando, 
insultando toda a gente. A situação do ministro 
era insustentável. O infante D. Pedro, alegando 
incompatibilidade com o valido, recolhera-se a 
Queluz; a Rainha, mancomunada com um frade 
agostinho, com o conde de Sarzedas e com o 
doutor Pedro Fernandes, juiz da Inconfidên- 
cia, acusava Castelo Melhor de querer dar pe- 
çonha ao infante na água duma fonte do pa- 
lácio (1). Na corte murmurava-se. O povo 
retraía-se. Uma atmosfera hostil envolvia já o 
ministro de Afonso Vi. Chegavam a compa- 
rá-lo a Agostinho Nunes, a João de Matos, a 
António Conti, ao negro Marçal, — alcoviteiros 
e sicários do Rei. Era inútil lutar. Na mesma 
noite em que soube que o acusavam de querer 
envenenar o Infante, Castelo Melhor depôs a 
sua demissão nas mãos Vacilantes do monarca 
e partiu, escoltado, para o convento da Arrá- 
bida. A primeira cartada estava ganha. 

Depois de um curto período em que despa- 
chou Enrique Enriques de Miranda, foi nomeado 



(1) Torre do Tombo, Mss., códice n." 817, Epítome 
^ ' da vida de D, Afonso VI, cap. VIU, 



A BRICHOTA 175 

secretário de Estado António de Sousa de 
Macedo. Mal investido no cargo que o moço 
Conde iionrara, Macedo, que não tinha nem o 
talento, nem a prudência, nem o tacto político 
do seu antecessor, tomou imediatamente a 
ofensiva contra o partido da Rainha. O Infante, 
que um momento voltara ao paço, deixou de 
aparecer nele. Isabel de Nemours refugiava-se 
no seu quarto, com os jesuítas, as capuchas 
francesas e a velha Duverger. Perdera-se a no- 
ção do respeito e da decência. O reposteiro 
Manuel Antunes, muito conhecido por ter «um 
olho branco e outro negro» (1), e o sangrador 
do paço, Manuel Rodrigues, citado na litera- 
tura médica do tempo pela sua «fraqueza de 
rins contraída no muito uso de Vénus^» (2), 
traziam de noite mulheres ao Rei, passando 
com elas por diante da guarda dos tudescos. 
Nas próprias janelas do palácio real debruça- 
Vam-se mulheres públicas. Quando a Rainha, 
petas festas de Santo António, de 1667, ape- 
nas com um ano de casada, assistia duma va- 



(1) Monstruosidades do tempo e da fortuna , pag. 19 — 
«Era homem de índole perversa, filho dum guarda da 
Tapada de Vila Viçosa» (Torre do Tombo, Mss,, có- 
dice n.«817). 

(2) Curvo Semmedo, Foliantéa, p. 578. 



174 MULHERES DE ONTEM 

randa à corrida de toiros do Terreiro do Paço, 
uma das Calcanhares, a quem o Sacristan 
de Trocas pusera a alcunha de ^privilégios 
de las mujeres^, espeitorava-se das janelas do 
rei. O secretário de Estado não se limitava a 
permitir estes escândalos ; incitava o Rei a 
cometê-los. Nessa mesma tarde, interrompida a 
toirada, Isabel de Nemours chamou o valido 
ao seu quarto e repreendeu-o. Macedo, «sem 
lhe falar com a devida reverência, atreveu-se 
a levantar as Vozes e a pegar-lhe das rou- 
pas» (1). A violência inesperada do insulto 
desconcertou a Rainha. Vexada, escreveu a 
Afonso VI exigindo a demissão de António de 
Macedo : o Rei nem abriu a carta, — e man- 
teve-o. Nunca a situação fora mais tensa. De 
acordo com o Abade de Saint-Romain, o secre- 
tário da Rainha, Verjus, julgou oportuno o mo- 
mento para um golpe de Estado. O infante 
D. Pedro, espada em punho, invade o paço à 
frente do povo e impõe a destituição do valido. 
Afonso VI, tomado de fúria, arrepela-se, grita, 
treme todo, numa convulsão:— «Uma navalha! 
uma navalha!» A Brichota aparece, tenta acal- 
mar o marido ; é pior ainda. — «Nem amansa à 
Vista da Vaca ! » ~ comenta grosseiramente o 



(1) Monstruosidades, pag. 11. 



A BRÍCHOTA 175 

Marquês de Cascais (1). A boca espuma-Ihe ; 
uiva como uma fera; gesticula descompassa- 
damente com o braço aleijado; chora, — e o 
triste espectáculo só termina quando o Du- 
que de Cadaval lhe traz, ainda vivo, o escri- 
vão da puridade. O senado da Câmara pede 
a convocação das Cortes. O conselho de Es- 
tado, na presença da Rainha e do Infante, 
vota a convocação imediata. É lavrado o de- 
creto demitindo António de Sousa de Mace- 
do. O Rei estava sozinho e entregue a si 
próprio- Isabel de Nemours ganhara a segunda 
cartada. 

O resto era fácil. Nada se opunha já à exe- 
cução dos planos torpes do jesuíta ÁViIa, con- 
fessor da Rainha. O próprio cabido da Sé 
arqui-episcopal e o Bispo de Tagra estavam na 
confidência. A 20 de Novembro, sob pretexto 
de que a marquesa velha de Castelo Melhor, 
mãe do Conde exilado, lhe dissera conhecer 
«uma comadre perita no seu ofício e de se- 
gredo, que lhe faria uma obra natural e podia 
sua majestade ser mulher de el-rei^, (2) — a 
Rainha despediu-a do cargo de camareira-mor 
e proibiu-lhe a entrada na sua câmara. Como a 



(1) Monstruosidades, pag. 18. 

(2) Torre do Tombo, Mss., códice n.« S17, cap. VII. 



Ít6 MULHERES DE ONTEiVÍ 

Velha fidalga fosse quei?<ar-se ao rei, Afonso VI, 
que andava pelo paço armado de facas e de 
pistolas, ordenou-lhe que continuasse a servir 
o cargo e que, «se a Brichota lhe fizesse mal, 
lhe cortava as pernas com uma navalha» (1). 
No dia 21, Isabel de Nemours saiu do paço, 
onde perigava a sua vida, segundo dizia a ca- 
marilha francesa, embiocou-se num rebuço ne- 
gro de viúva e foi meter-se no convento da 
Esperança. O Rei soube; correu como um doido 
ao mosteiro; encontrou fechados os pesados 
batentes da portaria, e desatou a gritar que 
«trou?cessem machados e quebrassem as por- 
tas2> (2). Arrancaram-no dali ofegante, pros- 
trado, o corpo flácido agitado num tremor con- 
vulsivo. Levado para o paço pelos criados, 
deitou-se a dormir como se nada fosse com 
êle. Â noite, dois dos poucos amigos que ainda 
lhe restavam, o Conde de Santiago e Rui de 
Moura Teles, constando-lhes que se projectava 
a prisão do Rei, quiseram salvá-lo, conduzin- 
do-o primeiro a Aldeia Galega e depois a Elvas. 
Quando já estava a galeota no cais e os remos 
na água, Afonso VI declarou «que não ia sem 



(1) Monstruosidades, pag. 22. 

(2) Torre do Tombo, Col. de S. Vicente, liv. 13, 
fl. 251, V. 



A BRÍCHOTA 177 

levar a Joana», (1) — uma rapariga de 15 anos, 
Joana Tomásia, que o criado Gaspar Pinheiro 
trouxera pela primeira vez ao paço «na noite 
antes do dia em que a Rainha se recolheu na 
Esperança» (2). Não lhe deixaram leVar a Joana, 
— e o Rei não fugiu. Na manhã de 22, o Mar- 
quês de Cascais, velho bobo da corte que pas- 
sou a vida a rir de tudo, entra na câmara do 
Rei, abre-lhe as cortinas do leito, acorda-o, 
entreg-^^-lhe uma faca e diz-lhe, naquela voz fa- 
nhosa que lhe merecera a alcunha de Marquês 
de Sagarralies : ~ <íVós, Senhor, nascestes 
tolo e não sois para rei nem para casado». 
Afonso VI, estremunhado, não entende, abre 
muito os olhos, ri-se para o Marquês, que tre- 
jeita diante dêle, e só tem a consciência da 
situação quando o Velho fidalgo o aconselha, 
claramente, a entregar o governo ao irmão 
«antes que quatro marotos lh'o venham tirar 
por fôrça:^. Daí por diante, o Rei faz dó. Le- 
Vanta-se da cama em camisa, corre pelo quarto 
desvairadamente, atira consigo sobre o leito, 



(1) Torre do Tombo, Mss., códice n.^ 817, Epitome, 
cap. XI. 

(2) Torre do Tombo, Mss., códice n.^ 59S. — Esta 
Joana tinha sido desonestada, seis meses antes, por En- 
rique Enriques de Miranda. 

12 



178 MULHERES DE ONTEM 

e com a cabeça escondida debaixo do cabeçal, 
a tremer e a soluçar, diz ao Marquês de Cas- 
cais «que se deita duma janela abaixo se lhe 
tiram o reino» (1). O conselho de Estado, 
retínido desde manhã na Sala dos Escudeiros, 
entra na câmara do rei, ajoelha protocolar- 
mente diante desse pobre idiota que mal tem 
tempo de envolver numa coberta velha de grã 
de Inglaterra a sua nudez loira, gelatinosa e 
balofa ; e, com o ritual de quem suplica uma 
graça, comina-lhe a abdicação imediata e a en- 
trega do poder ao infante D. Pedro- — «Não 
quero, não quero! Mato-me com uma faca!> 
Pouco depois, perante o povo que invadira o 
paço, e na presença do conselho de Estado, 
do Senado da Câmara e da casa dos Vinte e 
Quatro, reunidos na sala grande, junto à gale- 
ria dos tudescos, o Infante declara que acaba 
de deixar o Rei preso na sua câmara, e assina, 
em nome do irmão, a carta de convocação das 
Cortes. Consumara-se o golpe de Estado. 
Àquela mesma hora, no côro-de-cima do con- 
vento da Esperança, rodeada de freiras que 
entoavam a antífona ^Oh rei glorioso h, a 
Rainha recebia directamente do Infante, num 



(1) Torre do Tombo, Mss., códice n.' 817, Epitome, 
cap. XI. 



I 



í 



A BRICHOTA 179 

bilhete de amor, a notícia da destituição do rei 
seu marido. A terceira cartada estava ganha 
também. 

Faltava a última, a decisiva, que ia jogar-se, 
primeiro na casa da Relação eclesiástica do ar- 
cebispo de Lisboa ; depois em França ; por 
fim em Roma, entre as tapeçarias silenciosas 
do Vaticano, —e que, uma vez ganha ainda, 
levaria o incesto ao leito da Brichota e a púr- 
pura ao Cardeal d'Estrées (1). Nessa mesma 
noite de 22, Isabel de Nemours, fechada na 
casa do capítulo com o Abade de Saint-Ro- 
main, o confessor padre Ávila e o secretário 
Verjus, firmava pelo seu próprio punho uma 
carta admiravelmente escrita pelo jesuíta fran- 
cês e dirigida ao cabido da Sé de Lisboa, ao 
tempo sede vacante, em que a Rainha fazia a 
seguinte declaração formal: «Aparto-me da 
companhia de S. M., que Deus guarde, por 
não haver tido efeito o matrimónio em que nos 
concertámos, e por não poder sofrer por mais 
tempo os escrúpulos da minha consciência, que 
o amor que tenho e me merecem estes reinos 
me fêz dissimular até agora^ (2). Ao fim de 



(1) Memoires de Mademoiselle de Montpensier, V, 
pag. 511 e seg. 

(2) Torre do Tombo, Mss., códice n.° 498. 



180 MULHERES DE ONTEM 

dezasseis meses de coabitação com o marido 
e depois de ter escrito para França <qu'elle 
avoít epousé le plns honnête homme dii mon- 
de, que rien ne manqueroit à son bonheur 
Iorsqu'elle auroit un enfant, qu'elle esperoit 
d'en avoir bientôt^ (1), a Brichota declara- 
Va-se virgem, pedia ao cabido para voltar para 
França e acusava Afonso VI de incapaz de con- 
sumar matrimónio. Quando falava a Rainha 
Verdade? Quando escrevia a Mademoiselle de 
Montpensier, ou quando se dirigia ao cabido 
da Sé de Lisboa? Quando mentia o próprio 
embaixador francês? Quando notificava a Mr. 
de Lionne, em 9 de Dezembro de 1666, que a 
Raínlia estava no seu estado interessante (2), 
ou quando afirmava, em Março de 1668, que 
ela se conservava virgem? Quando nos deve 
merecer crédito o jesuíta Verjus, — escrevendo 
hoje a Colbert «que o rei se deitava todas as 
tardes com a rainha» (3), ou insinuando amanhã 
ao Cardeal de Vendôma que Afonso VI nào 
era, de facto, marido de Isabel de Nemours ? 



(1) Memoires de Mademoiselle de Montpensier, loc cit- 
12) Arquivos dos Negócios Estrangeiros de França, 

Correspondência de Portugal, vol. IV, fl. 360. 

<3) Carta de 9 de Agosto de 1666. — In Francisque 

Michel, Les Portugais en France, pag. 65. 



.■« 



A BRICHOiA 181 

O processo, documento deplorável do impudor 
duma mulher e da insensatez moral duma época, 
seguiu os seus trâmites na cúria eclesiástica ; 
a Rainha constituiu seu procurador na causa o 
Duque de Cadaval, acolitado pelo capelo ver- 
melho do desembargador Serrão e pela argúcia 
do licenciado Maia ; inquiriram-se vinte e seis 
testemunhas, quási todas mulheres de má nota ; 
ouviram-se, como peritos, os médicos Manuel 
dos Reis e António Ferreira ; praticou-se muita 
infâmia, talvez inútil ; e, finalmente, ao termo 
de quatro longos- meses (24 de Março de 1668), 
os juízes na causa da Rainha pronunciaram a 
sentença final, lançada a fis. 151 do processo, 
na qual, por motivo de incapacidade perpétua 
quoad vírgines, resultante da antiga parah'sia 
do Rei, o matrimónio de Afonso VI e da prin- 
cesa de Nemours e Aumale era julgado por 
contraído de direito e não de facto, e declarado 
nulo. Quatro dias antes (20 de Março) já o 
Bispo de Tagra recebera das mãos de Luís de 
Verjus, na capela do paço real, a buia de dis- 
pensa de matrimónio passada com autoridade 
apostólica pelo Cardeal de Vendôma, legado 
a latere de Clemente IX ao rei de França, a 
favor do infante D. Pedro e de Isabel de Ne- 
mours, permitindo-lhes o casamento sem em- 
bargo do impedimento in prima grada pa- 
blicoe honestatis. Ainda um matrimónio não 



182 MULHERES DE ONTEM 

fora anulado por sentença, já estava autorizado 
o outro ! A Brichota, que tinha começado por 
escandalizar Lisboa mostrando as pernas nas 
ruas da cidade (1), conseguira emfim legalizar, 
mais ou menos canonicamente, o seu concubi- 
nato. 
Estava ganha a partida. 



(1) Laporte, Le voyogeur de VEurope, \\, pag. 225. 



DUQUESA DE BORGONHA 



Sabe-se que, em 1428, D. João I mandou o 
Bispo do Algarve e o dr. Fernão Afonso em- 
baixadores a França, para tratarem do casa- 
mento da Infanta Isabel com o Duque de Bor- 
gonha e Conde de Flandres, Filipe o Bom. Um 
ano depois, os embaixadores do Duque entra- 
vam em Lisboa, e, com eles, <íMaííre Jean, 
valet de chambre du Duc de Boiírgogne, fa- 
meux dans Vart de la peínttire^, encarregado 
naturalmente de pintar, para o futuro marido, 
o retrato da Infanta portuguesa. O Duque tinha 
sido pouco feliz nos seus dois casamentos. A 
primeira mulher, iMicaela, filha de Carlos VI de 
França, um louco furioso (1), era estéril; esté- 
ril fora também a segunda mulher, filha de Fi- 
lipe de Artois: aos médicos do ilustre príncipe. 



,\) Religieux de Saint-Denis, tôino II, 19. 



184 MULHERES DE ONTEM 

^à ses six docfeurs médecinsy (1), tinha pa- 
recido conveniente conhecer o retrato da pre- 
sumível terceira esposa, na convicção, corrente 
ao tempo, de que a infecundidade se manifes- 
tava, na mulher, por sinais ou acidentes fisionó- 
micos determinados. Mattre Jean, que era o 
grande pintor flamengo João Van-Eyck, cum- 
priu necessariamente a sua missão diplomática, 
e o retrato da futura Duquesa de Borgonha, 
pintado em Estremoz, foi enviado em Janeiro 
de 1429 para Flandres. Esse retrato perdeu- se, 
como supõem Growe e Cavalcaselle, Springer 
e Laborde (2), — ou existe ainda? Se existe, 
onde se encontra? Na biblioteca de Bruxelas, 
onde, como refere Raczynsk (3), o viu o Conde 
de Lavradio ? Em Paris, como quer o barão Her- 
vin de LettenhoVe? (4) 

Encontra-se no Louvre, de facto, um retrato 
de Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, 
admiràvelmiente reproduzido pela fototipia no 



(1) Oliver de la Marche, Létat de la Maison du Duc 
de Bourgone, in Col. Petitot, l."", 10, 492. 

(2) Joaquim de Vasconcelos, Arqueologia Artística, 
1,95. 

(5) Les Arts, 196. 

(4) Chamou a minha atenção sobre a opinião de Let- 
tenhove uma referência de José Queirós no Diário de 
Noticias de 15 de Novembro de 1907. 



DUQUESA DE BORGONHA 185 

livro de Lettenhove, La Toison d'Or, e muito 
interessante, quer sob o aspecto médico, pelos 
estigmas de degenerescência que revela, quer 
sob o ponto de vista da história da indumentá- 
ria secular do século xv, pela preciosa documen- 
tação que fornece. É este o retrato pintado por 
Van Eyck em Portugal ? Não se sabe. Sabe-se 
apenas — e é o que mais importa — que a re- 
tratada é a infanta portuguesa D. Isabel, ter- 
ceira mulher de Filipe, o Bom (1). Isabel de 
Portugal aparece-nos na tábua do Louvre em 
toda a evidência da sua maravilhosa fealdade, 
— o que me leva a crer que não será este o 
retrato da ^belle portugaloíse^ a que se refere 
o inventário autógrafo de Margarida de Áustria 
(1516). É uma mulher ainda nova, com certa 
doçura de expressão, os olhos baixos, o nariz 
grande, a face comprida, a testa enorme sob o 
imenso toucado borgonhês de brocado de oiro 
e pérolas. No peito, chato e nu, mal se adivi- 
nha a apojadura nascente dos seios. A estigma- 
tização somática revelada na cabeça é notável : 
aumento do diâmetro Vertical e diminuição do 
transverso da face ; assimetria facial tornada 
mais evidente nas linhas dos supercílios, finas, 



(1) Durante muito tempo, supôs-se que era o retrato 
de Isabel da Baviera (Dr. José de Figueiredo), 



186 MULHERES DE ONTEM 

altas, lineares, desiguais ; lóbulos da orelha ade- 
rentes; altura considerável do lábio superior; 
hipertrofia do inferior, desacompanhada de pro- 
gnatismo sensível. Julgou-se que o beiço pen- 
dente e grosso, tão característico das fisiono- 
mias célebres de Carlos V, de Filipe II e de 
alguns Braganças como D. José e D. João VI, 
era um acidente fisionómico típico e, por assim 
dizer, e?cclusivo da casa de Áustria e dos ramos 
dinásticos provenientes dos Habsburgcs. Puro 
engano. A hipertrofia do lábio inferior, antes de 
se verificar na «face austríaca», existia já, re- 
motamente, noutras estirpes reais. Houve beiços 
grossos na descendência do duque Filipe, o 
Bom: em Carlos, o Temerário (iluminura do 
Ms, 9098 da Bibl. Real da Bélgica); em Maria 
de Borgonha, mulher do imperador Maximi- 
liano II, de quem Leonor de Áustria disse, abrin- 
do-lhe o túmulo de Dijon : «/é? pensois que noas 
tenismes nos bouches de ceux d'Austriche, 
mays, a ce que jc voys, nous les tenons de 
Marie de Bourgogne. . . * (1). Estes factos le- 
varam o erudito Bouchot a concluir: «Aa bou- 
che iombanie esl, comme la Toison d'Or, une 
création françaíse.^ O retrato de Isabel de 
Portugal, que seria curioso comparar com o do 



(1) Brantôme, Memoires, II, 88. 



DUQUESA DE BORGONHA 187 

políptico de Beaume (Rogier Van-derWeyden) 
e com o do vitral de Santa Farailda em Gand 
(Roger Stoop), tem, além doutros interesses, o 
de nos mostrar que a hipertrofia do lábio infe- 
rior, antes de se instalar como estigma familiar 
característico na casa ducal de Borgonha, já 
existia nas genealogias reais portuguesas. Não 
irei até ao ponto de afirmar que foi pelo casa- 
mento do duque Filipe com Isabel de Portugal 
que o lábio austro-bcrgonhês se transmitiu a to- 
dos os Habsburgos e a todos os Bourbons das 
dinastias europeias ; Chastellain diz-nosque Car- 
los, o Temerário, ^avait la bouche da père, 
grosseite et vermeille^y (1) o que bastaria para 
tirar àquela afirmação todo o carácter absoluto ; 
mas, estando averiguado que os estigmas somá- 
ticos maternos se transmitem mais constante- 
mente à descendência do que os paternos, isto é, 
que a mãe é melhor transmissora do que o pai, 
não será arriscado concluir, perante a pintura de 
Van-Eyck (?), que o beiço grosso típico entrou 
na casa ducal borgonhesa com Isabel de Portu- 
gal, mulher de Filipe, o Bom, e passou depois à 
casa de Áustria com Maria de Borgonha, mu- 
lher de Maximiliano II. 
É isto o que a tábua sugere sob o aspecto 



(1) Chroniques, 14. 



188 MULfíERES DE ONTEM 

médico. Sob o ponto de vista da história da in- 
dumentária e dos costumes, não é menos curioso 
o retrato da Duquesa de Borgonha. O toucado 
com que se apresenta, na admirável tábua fla- 
menga, a filha de D. João I, é aquele a que ao 
tempo se chamava em Portugal «toqueixo» ou 
«forcarete^ (1), e que o Velho Jacques du Clerc 
descreve nas mulheres borgonhesas: ^Ellespor- 
toient stir leurs chiefs boarlets en manière de 
bonneis rondsy en diminuant par dessas de la 
haiiltenr de demie aulne, ou trois quartiers 
de longy aucunes moins, austres plusy et de- 
li és couverchefs par dessns pendans par der- 
rière jusques en terre^ (2). No retrato, este 
toucado dá-nos a impressão de assentar sobre 
o crâneo nu : a Duquesa tem, visivelmente, o 
cabelo rapado à navalha nas fontes, acima das 
orelhas, moda e?<travagante que devia ao tempo 
ser comum a ambos os sexos, porque o próprio 
duque Filipe aparece, numa tábua do Museu de 
Antuérpia, atribuída a Van-der-Weyden, com a 
cabeça rapada nas têmporas até grande altura. 
A fealdade de Isabel de Portugal explica-nos 
hoje, até certo ponto, o excesso delirante do 






(1) Provas da Mist. Geneal. da Casa Real Portuguesa, 
1,67. 

(^ Jacques du Clerq, Memoires, liv. 6.», cap. III. 



DUQUESA DE BORGONHA 189 

seu ciúme pelo marido. Foi, disse Commines, 
«/a pias soiipçonneuse Dame qa'on eust ja- 
mais congneue^ (1). O Duque deu-lhe motivos 
para isso, — porque a própria ordem do Tosão 
de Oiro, criada no dia do casamento de Filipe 
o Bom com Isabel de Portugal, ^aurait été 
crée — o que Hervyn de Lettenhove contesta — 
en souvenir d'une jolie brugeoise aux cheveux 
dores, tout comme la Jarretière avait été insti- 
tuée en Vhonneur de la belle comtesse de Sa- 
lisbury et comme V Annoncíade avaii pour 
origine la galanterie d'Amedée IV, comte de 
Savoie, . .> 



(1) Memoires, cap. I. 



FREIRINHAS DE S. BENTO 



Nos primeiros dias de Outubro de 1878» o 
Arcebispo de Braga, D. Gaspar, teve denúncia 
de que no mosteiro das bentas de Viana do 
Castelo continuavam os graves escândalos que 
já tinham Valido admoestações a algumas reli- 
giosas. Certos pormenores que chegaram ao 
seu conhecimento encheram de santa indignação 
o prelado. Era preciso punir as criminosas e 
chamar o velho mosteiro de S. Bento ao zêlo 
da observância. No dia 10 de Outubro foi expe- 
dido ao vigário-geral da comarca de Valença, 
desembargador João Manue! Pereira do Lago, 
um decreto de D. Gaspar mandando-o visita^ o 
convento, entrar na clausura e tirar devassa. Os 
quesitos eram vinte e quatro, redigidos pelo 
próprio punho do Arcebispo. As freiras confes- 
savam-se, comungavam, ouviam missas, cum- 
priam rigorosamente as constituições e a regra? 
Traziam vestidos decotados, toucas que lhes 



Í92 MULHERES DE ONTEM 

descobrissem os cabelos ? Bailavam ? Represen- 
tavam comédias e entremezes? Dormiam juntas 
nas mesmas celas ? Namoravam das janelas para 
o pátio? Falavam espeitoradas dos mirantes? 
Ficavam meninos (!) de noite no convento? As 
religiosas iam sem toucado à grade ou à porta 
do carro? Alguém passava, de dia, da casa da 
roda? Alguém violava de noite a clausura? 
Quem guardava as chaves do locutório, ^a por- 
taria, da cerca, do cerrado? Quais eram as 
freiras que se correspondiam com homens ? 
Quais as que desonravam a majestade do seu 
hábito? Tudo isso desejava saber o Arcebispo 
D. Gaspar, nascido dos amores sacrílegos de 
D. João V e duma freira bernarda de Odivelas, 
e, talvez por isso mesmo, implacável para os 
galanteios e para as mundanidades das reli- 
giosas. 

A devassa principiou a 17 de Outubro, sendo 
ouvidas, em primeiro lugar, a Abadessa e as 
madres discretas do mosteiro, quási todas sep- 
tuagenárias. Declararam em geral, madres e 
jerarquias, que tudo corria pelo melhor naquela 
casa de Deus e de S. Bento, referindo-se apenas 
a três freiras que davam escândalo, soror Maria 
Josefa de Santa Teresa, soror Ventura do Sa- 
cramento e soror Maria Rosa de S. João — 
três só — o que, no fim do século xviii e 
num mosteiro de religiosas bentas, podia con- 



FREIRINHAS DE S. BENTO 193 

siderar-se excepcional exemplo de observân- 
cia e de bons costumes. Mas o desembar- 
gador vigário-geral não se contentou com meias- 
-palavras e quis saber tudo. Enca valou no nariz 
os quevedos de coiro, releu os quesitos, pres- 
crutou, farejou, interrogou. Que escândalo da- 
vam as madres ? Quem eram elas ? Que costu- 
mes tinham? Porque não eram observantes? 
Porque não as castigava a prelada? Para que 
serviam a regra, as constituições, o jejum, o 
cárcere, o silêncio, e cepo ? A abadessa titubeou ; 
o escrivão esbogalhou os olhos ; e as madres 
discretas, vencendo o pudor dos seus virginais 
setenta anos, entraram em singulares pormeno- 
res. As três freiras acusadas andavam sempre 
em «bulhas, zelos, ciúmes, prantos e dores, de 
tal sorte que davam pancada umas nas outras, 
apelidando à Voz de el-rei e armando gritaria 
que amotinava todo o convento». Qual a princi- 
pal culpada? Soror Maria Josefa de Santa Te- 
resa, que as madres, nos seus depoimentos, 
pintaram como desenvolta, indisciplinada, gim- 
nandra, masculina, viril. O vigário benzeu-se, 
pasmou, e, ouvidas as velhas, passou às moças. 
Todas elas caíram, numa acusação cerrada, 
sobre as três delinquentes. O mal estava nelas ; 
eram as ovelhas gafas do mosteiro ; o resto tudo 
era virtude, penitência, recolhimento, castidade, 
pureza, mortificação. Podia Sua Ilustríssima o 

13 



194 MULHERES DE ONI EM 

senhor Arcebispo repousar no seu santo zelo 
pastoral. Tiradas as três serpentes, ficava o 
convento um ramalhete de flores. O escrivão 
tossiu; o visitador fungou no seu alcobaça; a 
Abadessa, que ainda era moça, pôs os olhos 
em alvo, — e já andava perto de Vésperas 
quando as três acusadas compareceram perante 
o doutor João Manuel Pereira do Lago. Iam 
falar as «serpentes». Para se defenderem? Não. 
Para acusarem. A sua qualidade de espôsas- 
-Virgens do Senhor não as fizera menos vingati- 
vas, menos rancorosas, — menos mulheres. 
Tinham-nas picado? Pois bem. Suas Reverên- 
cias escandalosíssimas arreavam a ceira — e 
iam pôr a calva à mostra a todo o mosteiro. E 
puseram. Nenhuma das três teve papas na lín- 
gua. Mas quem falou mais claro foi a desenvolta 
soror Maria Josefa de Santa Teresa. O senhor 
Arcebispo havia de saber tudo. O senhor vigá- 
rio geral havia de conhecer com quem lidava. 
Cuidavam que Madre Catarina Rosa de Sena 
era uma santa? Pois Agostinho de Magalhães, 
da rua da Piedade, entrava de noite na cerca 
para falar com ela Viam Madre Maria Mada- 
lena Evangelista sempre de olhos no chão? Pois 
tinha amores com Pedro da Cunha, homem 
casado da rua da Bandeira. E a Abadessa? 
Todos na vila sabiam que namorava Martinho 
Quesado. E soror Antónia Joaquina do Menino 



FREIRINHAS DE S. BExNTO 195 

Jesus? Falava a uni espanhol. E a sonsa da 
madre escrivã? Andava metida com Francisco 
Vieira, cónego da Sé. E. . . 

O vigário, atónito, amarrou as mãos à cabeça. 
A garrida do mosteiro tangeu a Vésperas. No 
dia seguinte, a devassa continuou. 



AS CÓMICAS DO BAIRRO ALTO 



I 



Entre os documentos, ainda inéditos, da Co- 
lecção Pombalina^ existe urna dezena de cartas 
autografas que me parecem interessantes como 
subsídio para o estudo da sociedade portuguesa 
no último quartel do século xviii. Essas cartas 
são datadas de Fevereiro e Março de 1771 ; es- 
critas no mais elegante francês setecentista; 
dirigidas a Mr. le Comte Président, isto é, ao 
Conde de Oeiras, D. Enrique José de Carvalho 
e Melo, presidente do Senado da Câm.ara de 
Lisboa, — e assinadas por Gaubier de Barrault. 
Da leitura desses documentos cheios de inte- 
resse, de colorido e de vivacidade, depreende- 
-se que o seu autor devia ser um homem moço, 
dado a mulheres, eminentemente observador e 
naturalmente espirituoso ; que vivia na intimi- 
dade da família Pombal, frequentando não só a 
casa do Marquês, mas também as dos genros, 
e, em especial, a do Conde de Sampaio, a 



198 MULHERES DE ONTEM 

S. Paulo, e a de Cristóvão Manuel de Vilhena, 
ao cruzeiro de Arroios ; que o Conde de Oeiras, 
muito assíduo junto de cómicas italianas a-pesar- 
-de casado com a linda D. Maria Antónia de 
Menezes, o distinguia com as suas confidências 
e com a sua amizade; que o mesmo Conde, 
nas suas ausências de Lisboa, determinadas 
naturalmente pela administração dos negócios 
particulares da sua casa, o encarregava de no- 
ticiar-lhe todos os acontecimentos da corte e, 
com escrupuloso cuidado, todos os escândalos 
das bailarinas e das cómicas célebres do teatro 
do Bairro Alto, muito visitado então pelos JMar- 
queses de Pombal, pelo próprio Rei e por toda 
a nobreza. 

Quem seria Gaubier de Barrault? Um dos 
muitos estrangeiros que a criação das grandes 
manufacturas chamou a Portugal? Um simples 
parasita da casa dos Marqueses, como o doutor 
Eusébio de Almeida, que passava a vida a pedir 
dinheiro para botas (Pomb.y cod. 619, in fine), 
ou como esses aventureiros que sir V/ilIiam 
Costigan nos descreve no seu livro Sketches of 
Sociefy and manners in Portugal, «atendidos 
sempre do velho Marquês logo que lhe falavam 
mal de clérigos e de frades» ? Não. Nem uma 
coisa, nem outra. Sulpício Gaubier de Barrault 
era um oficial francês contratado para servir 
nos exércitos de Portugal ; que em Portugal 



AS CÓMICAS DO BAIRRO ALTO 199 

atingiu os mais altos postos militares; e cujas 
tendências literárias, nitidamente acentuadas 
nas suas cartas inéditas, se afirmaram, um ano 
depois, pela publicação duma Versão francesa 
das oitavas camoneanas do Adamastor, «or/- 
vrage dédié et presente aii Roi par Sulpice 
Gaubier de Barrault, major de place de Lis- 
bonne». 

A parte mais curiosa das cartas de Gaubier 
é aquela que se refere aos teatros do tempo, e, 
designadamente, ao teatro do Bairro Alto, si- 
tuado nas casas e pátio do Conde de Soure, em 
Lisboa, a cuja" porta paravam, em noites de 
comédia, todos os coches, seges, estufas, cale- 
jas e florões da alta nobreza e do alto comér- 
cio ; cujas tablas foram pisadas pelas primeiras 
bailarinas e pelas mais notáveis cómicas italia- 
nas do fim do século xviii, e cuja vida íntima 
de amores e de escândalos galantes mereceu ao 
rei D. José, à rainha Mariana Vitória, ao Mar- 
quês e à própria Marquesa de Pombal, a mais 
inexplicável atenção e o mais singular interesse. 
Através das cartas de Gaubier de Barrault 
passam todas as figuras marcantes do meio 
teatral português de 1771 : — o maestro Scolari, 
hercúleo e insolente ; o violinista Todi ; Luísa 
Rosa de Aguiar (depois Luísa Todi); Cecília 
Rosa ; a graciosíssima Pepa OliVares ; Angiola 
Bruza, admirável no travesti; a bailarina Rosa 



200 ^ MULHERES DE ONTEM 

Campora, amante do director da Fábrica de 
Faiança {^^rhomme de fayance^, como lhe cha- 
ma Gaubier) ; todas as aventuras da plutocracia 
pombahna e dos casquilhos de peruca à la 
greca, todas as pernas bonitas e todas as ancas 
nervosas que se desnalgavam no fandango e na 
fofa. O amigo do Conde de Oeiras conhecia-as 
como os seus dedos e cortejava-as como um 
bom francês. Era certo no seu camarote, contí- 
guo ao da Condessa de Soure. Uma das noites 
em que o filho de Pombal não pôde assistir à 
ópera, escreveu-ihe Gaubier, pontualmente : 
^Louise (Luísa Todi) ifa jamais chanté si 
Juste ni avec antant de voix; Maria Joaquina 
a deux ires beaux airs qu'elle execute bien. 
Trebbi (?) est un beau Jure, Calcini, premier 
eunuque, s'est liabillé de façon qu'il ressem- 
ble un vieux châtre reforme de la Patriar- 
chale. Cecile (Cecília Ro§a de Aguiar) en turc, 
est passable. Isabelle a deux ar leites le geres 
dont elle se tire fort joliment; mais Louise a 
dans le second acte une ariette qui est magni- 
fique et qu'elle a chanté superieurement. 
Naus sommes prives dans cette opera du 
plaisir d'entendre AI/"^ Bruza ( Angiola Bruza). 
Le publiCy non content d'applaudir les acteurs, 
redoublait de battements de mains à chaque 
beau morceau de Vouvrage, en criant ^vivat 
Scolariy>. La Augusta etait hier à la mort. 



AS CÓMICAS DO BAIRRO ALTO 201 

sans esperance, d' une inflammation de matri- 
ce dont elle souffre depiiis dix jours.y> Com 
a mesma e?<actidão de pormenores descreve 
Gaubier de Barraiilt uma scena de pugilato 
entre o maestro Scoíari e o rabequista Todi, 
em plena representação da ópera de Piccini, 
Incógnita persegnitata. Pedro cantava uma 
arleta. Scclari, bêbado, que queria o andam^ento 
mais presto, começou a acompanhar no cravo 
brutalmente e, Volíando-se para Todi, chamou- 
-Ihe <porco>. Todi, furioso, levanta-se e chama- 
-Ihe «asnoK Scolari arremete; Todi quer que- 
brar-ihe o violino na cabeça. A confusão é 
medonha: dois soldados avançam; Luísa, que 
cantava, desata a gritar ao Ver preso o marido ; 
a ópera vai interromper-se, — mas a petíte Isa- 
bel te (?) salva tudo, canta de improviso a parte 
da Todi, o público serena, a Marquesa de Pom- 
bal intervém, chama âo camarote os maestros 
desavindos, admoesta-os em italiano, e o sos- 
sego restabelece-se. Comenta depois Barrault : 
^Qãoíqne Todi soít un crâne, il n'avait ce- 
pendant pas le prémier tort ; Scolari est un 
insolent qui vient presque tous les jonrs ivre 
au thôatre ; depuis qu'il est ici a fait vingt 
de ces incartades^ La même chose lui est ar- 
rivée avec la Sestini et la Falcliini, et, tous 
les jonrs ci, il a quelques duretés obscenes a 
dire, à ces pauvres filles^ Cest un fort bon 



202 MULHERES DE ONTEM 

musicien, mais c'est un fort dan^ereux et 
brutal personnaoe.i^ Mas os escândalos não 
cessam. Em seguida ao de Scolari, vem o de 
Rosa Campora, dançarina de 3.^ ordem da Rua 
dos Condes, que trabalhava na ópera italiana 
sob a direcção de Bruno, e que era protegida 
pelo ^homme de f avance-». Como a tivessem 
mandado dançar com o bailarino Brambila, ma- 
rido da 1.^ actriz, que tinha sido cabeleireiro 
dela e que ainda frisava, riçava e polvilhava 
algumas damas da corte, Rosa Campora indignou- 
-se, protestou e declarou que não dançava com 
o seu cabeleireiro. O director invoca o contra- 
to; Rosa insulta-o. Ameaçam-na com o Li- 
moeiro ; Rosa quer agredir o bailarino, o director, 
a própria Guadagnini, amante dum israelita rico, 
— e só aquieta diante do Marquês de Pombal, 
que a olha, ameaçadoramente, através da sua 
grande luneta de punho de oiro. 

Estes simples episódios bastam para nos dar 
uma impressão rápida do Valor anedótico das 
cartas de Gaubier e do livro encantador que 
poderia escrever-se amanhã àcêrca dessa nuvem 
côr-de-rosa de cantarinas, de piruetas e de có- 
micas, que passou amando, cantando e sorrindo 
pelo velho teatro do Bairro Alto. . . 



SANTA iSABEL 



Várias obras, entre elas a de Jacoby, teem 
chamado a atenção dos médicos para a impor- 
tância que reveste, no conhecimento das com- 
plexas questões da hereditariedade e da selecção 
natural no homem, o estudo das grandes famí- 
lias dinásticas, e, em geral, das genealogias 
reais. Por outro lado, é sabido que a reconsti- 
tuição de determinadas figuras históricas — 
hoje, que a história procura estudar o homem 
como seu factor essencial — não pode fazer-se 
de uma maneira completa sem a investigação da 
sua ancestralidade, sem o estudo das suas de- 
terminantes étnicas, sem o conhecimento da 
forma por que a hereditariedade se acumula ou 
se dissolve em cada estirpe, as suas causas de 
degenerescência, as suas intercorrencias rege- 
neradoras. É o caso de Santa Isabel. Quando 
a ilustre princesa, que iniciou em Portugal, no 
século XIV, uma obra admirável de assistência 



204 MULHERES DE OXTBM 

social, for considerada, não sob o aspecto 
agiográfíco, mas sob o aspecto humano, a de- 
terminação dos seus antecedentes hereditários 
tem de fazer-se, e constituirá um dos elementos 
essenciais para o estudo da mais nobre figura 
de mulher que resplandece nas páginas da nos- 
sa história. Vejamos, em traços rápidos, o que 
de mais interessante, sob o ponto de vista da 
selecção e da herança, se encontra na ascen- 
dência de Santa Isabel. 



O pai de Santa Isabel foi o rei Pedro III de 
Aragão, o Grande, filho de Jaime de Aragão e 
de Violante da Hungria; a mãe foi a rainha 
Constança, filha de Manfredo, rei da Sicília, 
um Hohenstauffen, e de Brites de Sabóia- A 
ilustre princesa descende, portanto, pelo avô 
paterno, dos reis de Aragão ; pela avó paterna, 
da dinastia húngara dos Arpades e da casa de 
Courtenay ; pelo avô materno, da estirpe alemã 
de Hohenstauffen ; pela avó materna, da casa 
de Sabóia. Vejamos cada um destes ramos até 
aos quintos aVós, — principiando pelo ramo de 
Aragão. 

O quinto avô aragonês de Santa Isabel foi 
Ramiro lí, o Monge, frade decrépito de Saha- 



SANTA ISABEL 205 

gun, arrancado à paz do seu convento para 
Vestir a púrpura de rei. Casaram-no aos 70 anos 
com Inês de Aquitânia (1), ou com Matilde, 
<ímatrem vicecomites Toareis (2), de quem teve 
uma filiia — Petronila. É desta princesa, obesa, 
sempre doente, procriada em avançada idade do 
pai, que descendem : o terceiro avô aragonês de 
Santa Isabel, Affonso lí, o Casto, psicopata 
sexual, cuja mulher, Sancha de Castela, se faz 
freira depois de viúva ; o bisavô, Pedro II, 
casado com a disforme Maria de Montpel- 
lier (5), Valente, poeta (4), morto na cruzada 
dos Albigenses, onde, no dia da batalha, di-lo o 
próprio filho, ^por haber-se la noche entregado 
à sus torpes amores, se hallaba tan débil, que 
no pudo o ir el Evangélio de la Missa en 
pièT> (5); o avô, Jaime I de Aragão, espírito bri- 
lhante, homem <(>dado a deshonestedad y mal 



(1) Crónica de Afonso VII, in Flores, Espana Sa- 
grada, XXI, n.° 24. 

(2) Roberto, abade de Monte, Ap. ad Sigebert, Chro- 
nicon Gemblacense, ano MCLIX, pag. 778. 

(3) Ramon Muntaner, Crónica do Rei D. Jaime, 
cap. III e seg. 

(4) Hist. de Languedoc, III, 255 ; AIbérico Monge, 
Chronicon, ano 1213. 

(5) Jaime I de Aragão, Comentários, parte 1.*, 
cap. VIU. 



206 MULHERES DE ON'TEM 

trato hasta la postrera edad» (1); o pai, Pe- 
dro III de Aragão, ponderado, medíocre, normal. 
Vejamos o ramo húngaro e o ramo francês de 
Courtenay, de que descende Violante da Hun- 
gria, a avó paterna de Santa Isabel de Portugal. 
O quinto avô da virtuosa princesa na dinastia 
húngara dos Arpades, a estirpe apostólica des- 
cendente de Santo Estêvão, foi o rei Bela, o 
Cego, a quem um tio mandou arrancar os olhos, 
e que morreu na idiotia alcoólica, emquanto a 
mulher, Elena da Sérvia, metia os braços até aos 
cotovelos no sangue da vingança (2) ; o terceiro 
avô foi Bella III, erudito, ruivo, cruel, bizantino 
até à medula, fundador da primeira Universidade 
húngara ; o bisavô, André II da Hungria, o 
Jerosolimitano, príncipe ilustre que assinou a 
Bula Áurea e tomou parte na quinta cruzada ; 
a avó, Violante, meia-irmà de Santa Isabel da 
Hungria, a protectora dos leprosos da Turín- 
gia (3), em cuja memória caridosa Santa Isabel 
de Portugal inspirou toda a sua obra de assis- 
tência e cuja doce figura nos sorri ainda num 
tímpano doirado da catedral de Bruges. No ramo 



(1) Mariana, Hisí. Gen., V, 69, 70. 

(2) Pi^uler, Hung. sob os Arpades. 

(3) Conrad. Marp., Epist. ad Greg. IX, apud. Aliat, 
Synimicí. 



SANTA ISABEL 207 

francês, o quinto avô de Santa Isabel foi Luís, 
o Gordo, rei de França, obeso, braditrófico, 
artrítico profundo, cheio de insónias horríveis (1), 
que do seu casamento com Alice de Sabóia, 
depois freira em Montm.artre, teve, entre outros 
filhos, Pedro, o fundador da casa de Courtena}/, 
estirpe célebre desde o século xii na França e 
no Oriente, cortiço de imperadores bizantinos 
manques (2); o terceiro avô foi Pedro II, senhor 
de Courtenay, conde de Nevers, coroado Impe- 
rador pelo Papa Honório III e morto nas monta- 
nhas da Albânia quando avançava, com o seu 
exército, a caminho de Constantinopla ; a bisavó 
foi Violante, ou Yolanda de Courtenay. terceira 
mulher de André ÍI, o Jerosolímitano (3), em 
cuja filha, Violante da Hungria, avó paterna de 
Santa Isabel de Portugal, se une o sangue hún- 
garo dos Arpades às flores-de-lis de oiro da 
França. 

Isto, quanto aos avós paternos. Vejamos os 
avós maternos : Hohenstauffen e Sabóia. Man- 
fredo, rei de Nápoles e da Sicília, avô materno 



(1) Luchaire, Louis le Gros, p. XXXIX.^ 

(2) Bouffier, Introd. à IHist. des maisons souverai- 
nes, Maison de Courtenay, I, 144. 

(3) Bouchet, Hist. GeneaL de la Mais. de Courtenay, 
liv. 1.°, cap III. 



208 MCÍLHERES DE ONTEM 

de Santa Isabel, descende da estirpe ilustre dos 
Hohenstauffen. É filho do imperador da Alema- 
nha Frederico II, fisionomia complexa e estranha, 
o primeiro em data dos soberanos modernos e 
o precursor dos tiranos italianos dos séculos 
XV e XVI, político eminente que tem já o feitio 
intelectual dos príncipes. da Renascença, que é 
amigo de Leonardo de Pisa e de Miguel Scot, 
que se rodeia de sábios gregos, franceses, ita- 
lianos e árabes, que funda a Universidade de 
Nápoles, que tem o sonho maravilhoso da domi- 
nação da Itália, e que morre duma neoplasia 
abdominal, embrulhado no hábito dum monge de 
Cister, nos braços do Arcebispo de Palermo. 
Este homem superior é o único génito do impe- 
rador Enrique VI da Alemanha, pálido, microcé- 
falo, doente, <^le corps menu, le visagemaigre, 
la tête trop petite^ (1), com a preocupação 
imbecil da magnificência, e de Constança, sici- 
liana de coração, que deixa pelo leito imperial 
a mitra e o báculo de abadessa (2), que tem o 
seu único filho depois dos 40 anos (3) e que 
acaba por assassinar o marido dando-lhe ve- 



(1; Barre, Hist. d' Aliem., V, 499. 

(2) Chr. Viterb, ad. finem. Ital. Sacr. Ugh., tomo III. 
p. 955. 

(3) Baroniuí, Monarch. Sicilioe, tom. 12, and an. 1186. 



SANTA ISABEL 209 

neno (1). São estes os terceiros avós de Santa 
Isabel de Portugal no ramo de Hohenstauffen. 
O quarto avô é o grande Frederico Barbarôxa. 
Vejamos, finalmente, o ramo de Sabóia. A avó 
materna, Beatriz, é filha de Amadeu de Sabóia, 
duque de Chablais ; neta de Tomás, cuja única 
celebridade consiste em ter quinze filhos, entre 
os quais dois bispos, de Mauriène e de Liége, 
e dois arcebispos, de Leão e de Cantorbery; 
bisneta de Humberto ÍII, o SantOy de Sabóia, 
espécie de condestável, de arcanjo S. Miguel 
da Roma pontifícia, que Vive entre o sol das ba- 
talhas e a penitência de um convento de cartu- 
xos (2); terceira neta de Amadeu III, violento, 
exaltado, cruzado à Palestina, amigo de S. Ber- 
nardo, fundador da abadia de Hautecombe, da 
casa dos cartuxos de Valromey, do convento 
de cisterciences de Chesiry (5). 

Em todos estes ramos, Aragão, Hungria, 
Courtenay, Hohenstauffen, Sabóia, a fecundi- 
dade é, em geral, grande; a multiparidade, fre- 
quente ; as mortinatalidades, raras. A dissolução 
da hereditariedade fez-se sentir mais naestigma- 



(1) Chr. German., I, 19, cit. in Barre, V, 498. 

(2) Bouffier, Int. à VHist. des Maisons Souv., I, 346. 

(3) Guicheron, Hist. Geneal. de la Maison de Sovoye, 
I, 225 a 227. 

14 



210 MULHERbS DE ONTEM 

tização psíquica e funcional de certas figuras, 
do que nas suas malformações somáticas; o 
cruzamento de estirpes etnicamente diferencia- 
das explica as regenerescências que se notam 
na ascendência de Santa Isabel. A ilustre prin- 
cesa, que uniu no seu escudo em lisonja as 
quatro faixas de Aragão, em campo de oiro às 
armas de Portugal, tem entre os arqui-avós, além 
de quatro príncipes que pelas suas virtudes fo- 
ram inscritos no cânon da Igreja — Santo Estê- 
vão, S. Luís, Santa Isabel da Hungria e Hum- 
berto, o Santo y de Sabóia — alguns dos maiores 
espíritos que ilustraram, durante os séculos xi 
e XII, as dinastias europeias. 



PARA MISS KATE LER 



PARA MISS KATE LER 



Fui-lhe apresentado num garden-party, há 
dois meses. 

Chamava-se Kate Bergsom, tinha um sorriso 
enigmático, uma elegância seca e masculina, 
umas lindas mãos compridas que faziam lem- 
brar as mãos flamengas de certos retratos de 
Memling, e a-pesar-disso, ou talvez por isso 
mesmo, um perturbador e indefinível encanto, 
feito menos de beleza do que de frescura, me- 
nos de inteligência do que de expressão. Pa- 
rece-me que a estou a ver ainda. Os movimen- 
tos ágeis, a pele loira, os olhos vivos como 
pontas de aço, uma raquette na mão, um 
sweater de malha de seda muito cingido ao 
corpo, um polo de lã branca posto à banda na 
cabeça, uns tornozelos nervosos, finos, elásti- 
cos, calçados de branco, que faziam pensar ao 
mesmo tempo, não sei porquê, nas piérolas cor 
de rosa, nos trorough-bred ingleses e na rija 



214 MULHERES DE ONTEM 

flexibilidade duma Vara de metal. De lento, de 
melodioso, de feminino, só havia nela a voz. 
Afastámo-nos, a conversar, para um canto do 
jardim. Conhecem, de-certo, esse velho tipo 
quási extinto do jardim português do século 
XVIII, com as suas ruas de buxo, os seus faunos 
de pedra, os seus caramanchões de azulejo do 
Rato, os seus pequeninos tanques em concha, 
rasos, lavrados, graciosos como salvas de prata 
de D. João V, a sua horta carinhosa, o seu en- 
canastrado de feijoeiros onde o sol brinca e 
onde gritam pavões. Foi num recanto assim, 
entre um banco de pedra e um canteiro de ro- 
sas, abrigados num maciço de arvoredo que 
tremia, e faYscaVa, e escorria oiro, — que nós 
fomos esconder o nosso splendid flirt. Fala" 
mos de tudo, distraidamente, um pouco ao acaso, 
— de política e de tennisy de Rodin e de cor- 
ridas de cavalos, da música de Ravel e dos ne- 
voeiros de Londres, — e, emquanto as mãos 
brancas de Miss Kate Bergsom se estendiam 
como moluscos sobre a palha fulva da raquettey 
acabámos por falar de literatura. 

— Como se chama o seu novo livro? 

— Mulheres. 

— É uma obra de história natural ? 

— Perdão! É um livro de psicologia femi- 
nina. 

— Oh! 



PARA MISS CATE LER 215 

O ar repreensivo de Míss Kate Bergsom 
deu-me, por instantes, a impressão de que eu 
tinha dito uma inconveniência. Os seus olhos 
pardos, metálicos, em cujas íris inquietas pare- 
ciam misturar-se, na scintijação crua do sol, 
tons azuis de água e manchas doiradas de âmbar 
cinzento, fixaram-se em mim, primeiro desde- 
nhosos, em seguida perscrutadores, por fim ri- 
sonhos : 

— Para que é que os senhores falam de coisas 
que não entendem ? 

— Como, Miss Kate. . . ? 

— Para que faiam os senhores de mulheres, 
que é precisamente aquilo de que percebem 
menos? 

Perante esta afirmação inesperada, confesso 
que tive apenas o recurso de sorrir. Ia falar- 
-Ihe dos romances de Bourget, das cartas de 
Prévost, dos livros de d'Annunzio, — mas a ori- 
ginal inglesa cruzou familiarmente a perna, abra- 
çou o joelho anguloso onde se adivinhava, num 
ranger de seda, a compressão doce da meia, e 
emquanto o seu pé esbelto, adunco, vivaz, cal- 
çado de camurça branca, trepidava nervosa- 
mente no ar, disse-me com o mais britânico dos 
desdéns : 

~0s livros de psicologia feminina que os 
senhores fazem, não interessam nada as mulhe- 
res. São falsos desde a primeira até à última 



216 MULHERES DE ONTEM 

linha. Tenho hdo centenas deles, — e não me 
encontrei em nenhum. Ainda há de vir o pri- 
meiro homem que faça a mais pequena idea 
do que é uma mulher. Como querem os senho- 
res falar de nós, — se não nos conhecem? O 
que há de mudável, de instantâneo, de fugitivo, 
de complexo, de delicado, de quási divino na 
mulher, — escapa absolutamente à observação 
e à inteligência do homem. Conhecem apenas 
a epiderme, — e imaginam que conhecem a 
alma. Ilusão ! Se os senhores soubessem como 
são ridículos quando nos explicam, quando nos 
analisam, quando nos interpretam ! Dão-nos a 
impressão duma criança a apanhar uma som- 
bra. Conseguem conhecer, quando muito, a cor 
dos nossos olhos, o tom da nossa pele, a luz 
dos nossos cabelos, tudo quanto é exterior, 
tudo quanto é grosseiro, tudo quanto é super- 
ficial, — e, ainda assim, quantas vezes se enga- 
nam ! A mulher, meu amigo, há de ser sempre 
para o homem um mistério. No dia em que 
deixar de o ser — pobres dos senhores ! — o 
nosso encanto acabou. Não, senhor psicólogo, 
não me mande o seu livro, fen ai assez. Ou, 
se mo mandar, marque a lápis as páginas. que 
não falarem de mulheres. São as únicas que 
me interessam. Good byel 

Arrefecia. Sobre a nossa cabeça, no êxtase 
doirado da tarde, revoavam andorinhas. Ou- 



PARA MISS KATE LER 217 

Viam-se ainda, ao longe, Vagamente, as danças 
húngaras de Brahms. O Vulto branco da minha 
amiga inglesa perdeu-se, ondulando, nas som- 
bras do jardim. Desde essa tarde, o meu livro 
teve mais um capítulo : 
— Para Miss Kate ler. 



o MEU VIZINHO 



Nào sei qual de nós se levanta mais tarde : 
se o meu vizinho^ se eu. Aponta a madrugada, 
cantam os primeiros galos, já reluz o postigo 
da minha janela, — e ainda o nào ouço. Desa- 
brocha a manhã, numa névoa longínqua ; chis- 
pam oiro, ao sol, os montes distantes, hirsutos 
de rocha; o fumo sobe dos casais, como uma 
bênção ; abro a vidraça de par em par ; bate-me 
na face, corre-me nos cabelos uma lufada de 
ar fresco ; assomo, debruço-me : lá está já o 
meu vizinho espreitando à porta, gordo, rosado, 
pacífico, contente. 

— Bom dia, amigo ! 

Não sei se sabem : eu tenho agora um vizi- 
nho. Vizinho de pátio, Vizinho de ao pé da 
porta, sossegado, metido comsigo, recolhido 
com as galinhas ao pôr do sol, única sombra 
Viva que os meus olhos encontraram em três 
léguas redondas de montanha, quando ante-on- 



220 MULHERES DE ONTEM 

tem, às labaredas do meio-dia, assomei pela 
primeira Vez a este janêio de casal saloio. 
Desde essa hora, o meu vizinho interessou-me. 
Observei-o, primeiro com curiosidade, depois 
com interesse, por fim com ternura Os seus 
olhos redondos, pequeninos, sumidos em refe- 
gos róseos de tegumento, scintilaram; a sua 
orelha espessa, o seu frontal chato eriçou-se ; 
todo o seu corpo gelatinoso e enorme se immo- 
bilizou, numa expressão que me pareceu, a 
princípio, de profunda surpresa, depois, de 
êxtase profético, por fim, de resignação cristã. 
Decididamente, eu viera incomodá-lo. Talvez o 
meu vizinho, por uma falsa concepção do uni- 
verso ou por um defeituoso critério da proprie- 
dade, tivesse suposto que tudo aquilo lhe per- 
tencia exclusivamente a êle, — manhãs de oiro 
e rebanhos de écloga, águas dormentes e árvo- 
res patriarcais. Talvez, no íntimo da sua pesada 
consciência, me acusasse de vir disputar-lhe a 
posse daquela terra fecunda e escaldada de 
sol, que êle considerava sua, tradicionalmente 
sua, imemorialmente sua, desde os pousios pró- 
ximos, eriçados de mato queiró acre e florido, 
até às ondulações roxas e tranquilas do hori- 
zonte, onde se adivinhava uma indecisão de 
bruma e uma paz de geórgica. E quem sabe se 
o meu vizinho teria razão? Porque, afinal, o 
intruso era eu, — e toda aquela glória da natu- 



o MEU VIZINHO 221 

reza era bela de mais para não ser admirada 
por êle só. Nessa tarde, falei-lhe. Passou, des- 
denhosamente. No dia seguinte, vim almoçar à 
janela o meu prato de fruta. Então, o meu vizi- 
nho olhou-me de lado, numa expressão acolhe- 
dora ; um tremor afectuoso percorreu-lhe o largo 
cachaço glabro e côr-de-rosa ; coçou num poial 
de pedra a sua orelha pastosa, onde, uma la- 
nugem fina de prata fulgia ao sol ; roncou, res- 
folegou um grunhido meigo ; esfregou o focinho 
chato na terra ; fossou ; dobrou as patas dian- 
teiras em adoração, e, com um sentimento de 
intimidade que não pôde deixar de me enterne- 
cer, atirou comsigo molemente, voluptuosa- 
mente, sobre o lajedo fresco do pátio. 

O meu vizinho é um honesto e formidável 
porco. 

Damo-nos agora muito bem Desde ontem 
que essa massa gorda, cariciosa e ronflante, 
onde se abriga a mais sábia das filosofias, par- 
tilha comigo a frescura de todas as sombras e 
a polpa de todos os frutos. Levo horas a obser- 
vá-lo, a admirá-lo, a invejá-lo. Tudo nele parece 
contraditório. Move-se com a lentidão e a ma- 
jestade dum boi; tem, nos pés fendidos, a le- 
veza e d graça dum fauno. Quando caminha, 
de focinho na terra, os olhos invisíveis sob a 
orelheira espessa, o lombo coriáceo e grisalho, 
dir-se ia a imagem da decrepitude : mas quando 



222 MULHERES DE OXTEM 

ajoelha, e cai de borco, e se espoja, e brinca, 
e se volta na terra de patas ao ar, e treme todo 
ao sol como uma posta enorme de gelatina, 
desde as tetas negras até ao focinho róseo, — a 
sua expressão, os seus movimentos, as suas 
atitudes, tudo nele é fresco, infantil, gracioso e 
leve, como se um égipan moço se tosquiasse e 
Viesse, glabro, na poeira luminosa da manhã, 
rebolar-se pela relva de um bosque mitológico. 
É hediondo, — e é quasi humano. É Sócrates 
e é S. Francisco de Assis. Tem o orgulho da 
imundície e a immobiiidade dos êxtases. Lá foi 
agora, tropeçando, grunhindo, espojar-se no 
feno do cortelho, que scintila grãos de oiro 
numa réstea oblíqua de sol. O seu lombo ato- 
chado e friorento pressentiu os primeiros arre- 
pios da tarde. Rebola-se, feliz ; uma folha viçosa 
de couve, dum Verde leitoso, ressuma-lhe na 
boca. Ouve-se um sino, num casal distante. O 
corpo enorme do meu vizinho estremece e 
aquieta; o focinho pende-lhe; a boca pinga-lhe, 
numa beatitude; inunda-o todo, o clarão do 
poente; o seu sono começa. 
— Amigo, boa noite! 



A CADEIRA 



Meu amigo, — Faço-te presente dessa ca- 
deira. Deve ficar bem na tua sala Luís XVI. 
Não me agradeças. Mando-ta, porque reco- 
nheci a absoluta impossibilidade de a conser- 
var em meu poder. Tenho especial interesse 
em conhecer as tuas impressões acerca desse 
móvel na aparência Vulgar, — quarenta e oito 
horas depois de êle ter entrado em tua casa. 
Tu sempre foste uma criatura calma, ponde- 
rada, serena, positiva. Vi-te sorrir várias vezes 
quando, há tempo, no último brid^e da legação 
de Espanha, faiámos na lógica suprema do invi- 
sível e do sobrenatural. Pertences ao número 
daqueles espíritos deslumbrados de evidência, 
para quem nada absolutamente existe além do 
mundo real e palpável. Conheço o teu scepti- 
cismo fácil, que é tudo quanto te resta dos 
preconceitos da tua educação scientífica. Tu só 



224 MULHERES DE ONTEM 

acreditas no que se vê. Ninguém, por conse- 
guinte, mais insuspeito para a contra-prova dos 
factos na verdade e?<traordinários que acabam 
de passar-se comigo, e que eu, a não ser que 
o meu espírito se encontre profundamente per- 
turbado, não posso deixar de atribuirá presença, 
em minha casa, da cadeira que te mando pelo 
portador. 

Estou a adivinhar o teu sorriso. É natural. 
Preciso de contar-te o que se passou. Tu sabes 
que eu tenho, há muito tempo, a mania das 
faianças. Passo os dias metido pelos leilões, 
atrás de cacos velhos de loiça, com a mesma 
voluptuosa obstinação com que, há vinte anos, 
as mulheres andavam atrás de mim. É fatal que 
todos nós, na Vida, havemos de coleccionar 
qualquer coisa. Ontem, foi um dia cheio. Tinha 
já comprado um admirável gomil da Bica-do- 
-Sapato e um prato de Ruão, magnífico, que me 
pareceu a princípio um Delft,. com as armas 
coloridas do cardeal de La Rochefoucauld, — 
quando me apareceu no mesmo leilão, entre 
dois lotes sem interesse, uma cadeira Luís XVI, 
de medalhão, perfeita, autêntica, tão bem con- 
servada que daVa a impressão dum Jémont 
moderno, e estofada duma seda amarelo-palha, 
antiga, pombalina, esgarçada, um pouco suja, 
mordida, aqui e ali, duma velha escarcha de 
oiro. Fiz o meu lanço. Picaram. Por capricho, 



A CADElkA 22ò 

— insisti. Cinco minutos depois, a cadeira era 
minha. Á saída, quando eu entregava as faian- 
ças a um moço, veio falar-me o meu amigo 
Visconde de Z. : 

— Sabe de quem era a cadeira que você 
comprou ? 

— Não. 

— Lembra-se daquele judeu relojoeiro da rua 
da Madalena, que tinha uma filha doida e era 
amador de rosas ? 

— O Balsemão? 

— O Balsemão. Foi nessa cadeira que êle 
se matou. 

— O Balsemão matou-se? 

— Deu um tiro na cabeça. Estava perdido. 
Um cancro na boca. Havia aí hoje muita coisa 
dele . . . 

Despedimo - nos . Passara - me despercebida 
aquela morte. Pelo caminho, recordei o velho 
judeu, a quem tinha falado ainda três meses 
antes. Era uma curiosa figura, com um sorriso 
ao mesmo tempo inquietante e afável, uma 
face macilenta, aquilina, empastada de barbas 
brancas, lembrando Vagamente o 6". Pedro da 
sacristia do Escuri^l, um. chapéu alto enorme, 
uma sobrecasaca no fio, escorrida, pingada, 
babada, tocada de dedadas verdes de azêbre, 
que dava ao pobre Balsemão o ar duma está- 
tua de bronze a caminhar ao sol. Roía as 

15 



226 MULHERES DE ONTiiM 

unhas. Gaguejava. Eu sempre lhe conhecera 
esse mesmo aspecto fatídico e inexplicável de 
todas as criaturas condenadas a acabar tragica- 
mente. Quando cheguei a casa, às 8 horas, já 
encontrei as compras do leilão. O criado, sem 
que ele próprio me saiba dizer porquê, tinha 
posto a cadeira aos pés da minha cama. Deti- 
ve-me um instante a olhá-la, a considerar a 
expressão quási humana que inesperadamente 
ganham, em volta de nós, os objectos de que 
conhecemos a história. Aquela cadeira, que me 
atraíra apenas pela arte que continha, interes- 
sava-me agora, acima de tudo, pelo drama que 
evocava. No estofo havia sangue, que correra 
e empastara o tecido. Assentei-me para a expe- 
rimentar. Mal tinha passado os olhos pela pri- 
meira página do Matin, senti uma Vertigem, 
uma impressão brusca de esvaVmento, a testa 
cobriu-se-me de suor frio. LeVantei-me: todas 
essas perturbações cessaram. Pouco depois, 
comecei a vesíir-me para ir jantar com Miss C. 
Quatro Vezes o criado pendurou a casaca nas 
costas da cadeira: quatro vezes, inexplicavel- 
mente, como se mãos invisíveis a arrancassem, 
a casaca se desprendeu e caiu, num ruído 
surdo, sobre o tapete. Quando a vesti, agi- 
tou-me um tremor convulsivo. Dir-se ia que 
uma agulha de gelo me percorria a espinha. 
Senti-me mal durante todo o jatar. Arrepios, 



A CADEIRA 227 

vertigens, excitação, suores. Lego que cheguei 
a casa e despi a casaca, — tudo cessou. Nota 
bem que eu nào pretendo, sequer, explicar ou 
interpretar estes factos. Registo-os, apenas. 
Mas ainda não é tudo. De noite, emquanto a 
cadeira esteve aos pés do meu leito, foi-me 
absolutamente impossível dormir. Não sei que 
fluido, que vibração se comunicava aos meus 
nervos, ao meu organismo, a tudo o que me 
rodeava. Um.a faiança holandesa soltou-se da 
parede e veio estilhaçar-se no sobrado. Na 
escuridão, em meio do horror da minha insónia, 
eu sentia distintamente uma névoa a envoi- 
Ver-me, a circundar-me, a aflorar-me as mãos, 
a humedecer-me os cabelos. De Vez em quando, 
um estalido seco de madeira, cortando o silên- 
cio, fazia-me estremecer. Não havia dúvida : a 
cadeira movia-se, imperceptívelmente, se tu 
quiseres, — mas movia-se. E no meu leito, con- 
gestionado, estrangulado, eriçado de terror, — 
eu tinha a sensação nítida de que ela cami- 
nhava para mim. Num supremo esforço, abri a 
luz eléctrica, olhei. Ninguém. Os relógios esta- 
vam parados. As nódoas de sangue pareciam 
mais vivas. Um fumo ligeiro, uma neblina quási 
invisível, flutuava. Chamei o criado. Mandei 
remover a cadeira para o pátio. Os cães uiva- 
ram um instante. Tudo serenou. Dez minutos 
depois, adormeci. 



228 MULHERES DE ONTfíM 

Nada mais?— perguntarás tu. Nada mais. 
Aí Vai a cadeira Luís XVI onde o velho Balse- 
mão se matou. Ofereço-ta. Manda-a colocar 
aos pés da cama, — e não te esqueças de me 
dizer amanhã as tuas impressões. 

Teu amigo, — Bernardo, 



DEBAIXO DE ÁGUA 



Eram duas horas quando o Espadarte atra- 
cou ao Vasco da Gama. Um dia cinzento, 
pesado, baço. No silêncio do mar gritavam 
gaivotas. O frio cortava. Desci, com o coman- 
dante da divisão naval e com o tenente Capelo. 
Feitos os cumprimentos e as apresentações, o 
submarino largou, rápido, como um focinho de 
aço, cortando a água em borbotões de espuma. 
O mar alagara o convés. O Vento sacudia, 
como uma bandeira, o meu cache-col de lã. 
Principiou a manobra para a imersão. Almeida 
Enriques, na ponte do comando, dava ordens. 
Uma fisionomia nobre ; uma grande expressão 
de calma, de impassibilidade, de confiança. 
Desarmaram-se as antenas da telegrafia sem 
fios. Os lemes horizontais de vante e de popa 
baixaram, arfando, as barbatanas enormes. Si- 
lêncio. Disciplina. Rapidez. Num instante de 
sol, scíntilaram ainda, ao longe, os areais do 



250 MULHERES DE ONTEM 

Bugio. Um gaivotão cinzento, pacífico, acom- 
panhava-nos, boiando. Tudo desaparecera do 
convés, varrido agora de água e de espuma. 

— Pronto, comandante! 

Era o momento sensacional. O Espadarte 
ia imergir. Descemos todos pela escotilha es- 
treita, quási a pulso. Uma lâmpada de fila- 
mento metálico iluminava a câmara dos oficiais, 
pequena caixa de aço, atravancada de acumu- 
ladores de ar com.primido e de energia elé- 
ctrica. Todas as comunicações com o exte- 
rior se fecharam. OuVia-se agora mais perto o 
motor. Principiava já o gorgolejo da água nos 
reservatórios laterais. Estávamos isolados. Mo- 
vimento de comoção? Não. Movimento de curio- 
sidade. Perto de mim, avançando da som.bra a 
sua bela cabeça de marinheiro, Leote do Rêgo 
sorria. Capelo acompanhava a manobra, absor- 
vido, interessado. Para a ré, na câmara do 
comando, ouviam-se as primeiras vozes. íamos 
descer. As minhas atenções convergiram ime- 
diatamente para esse pequeno coração de ferro 
onde pulsava, onde latejava toda a Vida do 
submarino. Espreitei os quatro, os cinco ho- 
mens atentos que eram, naquele instante, o 
olhar, a inteligência, o movimento do Espa- 
darte, A um canto, ao pé da armadura de cobre 
do manómetro, que faiscava, moviam-se os bra- 
ços nus, os braços congestionados e felpudos 



DEBAIXO DE ÁGUA 251 

do timoneiro dos lemes laterais. O comandante, 
tranquilo, Vigiava ao periscópio grande. Na meia 
obscuridade, a lâmpada vermeliia do batógrafo 
sangrava. Tiniam metais. Os olhos do timo- 
neiro do leme vertical, um belo rapaz hercúleo 
e trigueiro, coruscavam, interrogando a bús- 
sola. Principiámos a descer. Houve um movi- 
mento de inclinação insensível. Vivo, inteli- 
gente, o imediato, Fernando Branco, descrevia, 
explicava, elucidava. Fui seguindo, no traçado 
do batógrafo, a linha de imersão, — lenta, oblí- 
qua, suave. Cruzavam'-se vozes, do comandante 
para os timoneiros. O gorgolejo da água era 
mais Vivo. O ruído do m.otor e da hélice, mais 
forte. O submarino caminhava agora a quatro 
metros e meio de profundidade. Um ponto 
luminoso, Vagamente azulado, pequeno como o 
brilhante do meu anel, fulgurou diante de mim. 
Era um dos periscópios. Olhei. O mar, os na- 
vios, a rocha longínqua, apareceram-me nítidos, 
minúsculos, refulgentes como um dia de grande 
sol visto através dum binóculo às avessas. Pró- 
ximo, na minha frente, o tubo do periscópio 
mais alto cortava a água, refervia espuma, 
avançava, espreitava, faiscava. Uma revoada 
de gaivotas passou, estremecendo no ar. Um 
farol distante parecia um traço de oiro. De- 
correram dez minutos, vinte minutos, uma hora. 
Na câmara do comando abafava-se. íamos subir. 



252 xMULHERES DE ONTEM 

Diante dos meus olhos deslumbrados, a água 
próxima começou a coalhar-se de manchas 
Verdes, doiradas, roxas; alargaram-se círculos 
de espuma ; o tubo do periscópio grande ia 
subindo; e, de repente, luminoso, varrido da 
Vaga, eriçado dos seus lemes enormes, o foci- 
nho de aço do submarino surgiu, refervendo, 
espadanando, cortando as ondas. 

Cinco minutos depois, navegávamos à super- 
fície. 



A ESPADA 



Na lomba daquela' serra havia um conVen- 
tinho de arrábidos. Ficava debruçado na rocha, 
a entestar com o céu, todo eriçado de cruzei- 
ros e viçoso de nascentes de água. Servia de 
casa de penitência à sexta província de Santo 
António. Na assomada de Abril de 1702, o mais 
florido Abril que a serra conhecera, não Vivia 
no conventinho senão o guardião. Frei Manuel 
da Madre de Deus, com um donato Velho que 
o acompanhava, muito risonho, muito remen- 
dado no seu chiote de estamenha, — chamado 
Frei João. Nunca uma casa de penitência vira 
tanto descanso e tão santa alegria. Já nem o 
sino da portaria tocava, porque não havia fra- 
des que chamar. Uns, doentes, tinham adorme- 
cido no seio de Deus. Outros, absolvidos da 
penitência, sandálias às costas, abordoados ao 
seu carrasco, tinham tornado, com lágrimas de 



234 MULHERES DE ONTEM 

saudade, ao alvoroço da casa-mãe. O guardião 
era agora a comunidade inteira. Rezava as ho- 
ras canónicas, de joelhos na rocha, os olhos 
pregados no céu. O seu refeitório era uma pe- 
dra, à ilharga duma nascente. A sua casa do 
capítulo era a serra inteira, com os seus ninhos, 
com as suas árvores, com as suas flores. Quando 
comia, à tarde, diante do céu incendiado de 
oiro, as andorinhas revoavam-lhe sobre a ca- 
beça, pipilavam, poisavam-lhe no ombro, nos 
braços, nas mãos, — e êle ria, e afagava-as, e 
chamava-lhes «suas irmãs», e dava-lhes todo o 
seu pão. Rezadas as vésperas, adormecia como 
um justo. Mal apontava a manhã, e os piscos, 
e as toutinegras barbirruivas entravam a cantar, 
o guardião deixava o seu travesseiro de cor- 
tiça, agradecia a Deus o ter-lhe dado mais um 
dia de vida, e emquanto o donato Frei João, 
de alforje às costas, descia a mendigar aos 
casais. Frei Manuel da Madre de Deus reman- 
gava da enxada e ia amanhar, cantando, a terra 
da sua horta. 

Um belo dia, quando o frade cavava, a en- 
xada retiniu-lhe num pedaço de ferro. Curioso, 
desbravou a terra, à volta; esboroou-a, torrão 
a torrão ; deitou as mãos ao ferro que luzia ; 
olhou: era uma espada. Quem a teria enter- 
rado ali? Frei Manuel da Madre de Deus empu- 
nhou-a, considerou um momento a sua larga 



A ESPADA 235 

tijela espanhola, as guardas e as contra-guar- 
das onde se enleara uma reigota de tojo, lim- 
pou-lhe a lâmina a um pano do hábito, cin'dou 
ver ainda, na ferrugem que a mordia, uma nó- 
doa Viva de sangue, orou mentalmente pelas 
almas que aquela espada enviara a Deus, — 
agarrou outra vez na enxada e continuou a ca- 
var. Quando o donato Frei João chegou, gal- 
gando a serra debaixo do seu alforje pojado de 
pão e de frutos, e viu a lâmina a lampejar ao 
sol sobre um penedo, riram-se-lhe os olhos 
para ela : 

— Uma espada, meu padre! 

— Louvado seja Deus. Achei-a na terra, 
irmão. 

— Se Vossa Paternidade ma desse ! 

— Para quê? 

— Ia vendê-la ao ferreiro da vila. 

Frei Manuel da Madre de Deus abanou a 
cabeça, enxugou o suor à manga de estame- 
nha, olhou uma revoada alta de pombas que 
passava a festo da serra, e disse ao leigo : 

—Não. A espada fica no convento. 

— Para que a quer Vossa Paternidade? 

— Sempre há de servir para alguma coisa. 

O donato olhou-o, risonho ; encolheu os 
ombros ; lavou num regueiro de água os pés que 
sangravam do mato, e jogou ao guardião, ati- 
rando outra vez a alforjada às costas ; 



256 MULHERES DE ONTEM 

As espadas, meu Padre, nunca serviram 
senão para matar. 

Frei Manuel da Madre de Deus deixou o 
leigo nos cruzeiros do adro; tornou a empu- 
nhar a espada; assentou-se num banco de ro- 
cha, e ficou a cuidar no emprego que a sua 
alma angélica de franciscano daria àquele ins- 
trumento de devastação e de morte. Pois não 
permitiria Deus que se tornasse ao bem aquillo 
que nascera para o mal? Não poderia aquele 
ferro, santificado pela cruz das suas guardas 
de Toledo, resplandecer já agora numa obra 
humilde de bondade e de paz? Teria razão o 
donato? Não serviria para mais nada aquela 
aguda lâmina, — senão para espalhar no mundo 
a viuvez, a orfandade e a dor? Essa arma de 
destruição — não seria capaz de fazer palpitar 
a vida? O Velho guardião leVantou-se e pôs-se 
a caminho do convento. Seguia por um cór- 
rego estreitinho, entre penedos, quando des- 
cobriu lá baixo, quási aos seus pés, a rebentar 
dum palmo de terra, um braço florido de roseira. 
Toda a face se lhe abriu, num assomo de jú- 
bilo. Aquela roseira montesinha e varejada do 
vento oferecia-lhe um ensejo de tornar útil a 
sua espada. Porque não, se o pobre arbusto 
precisava dum amparo para se aconchegar, para 
se enlear, para subir? Frei Manuel da Madre 
de Deus, alegre como uma criança, descalçou 



A ESPADA 257 

as sandálias, desceu pelas fragas, cravou a es- 
pada pelos punhos na terra, enleou-lhe, enros- 
cou-lhe na lâmina o braço da roseira, — e um 
mês, dois meses andados, o ferro lampejante, 
que erguia para o ar a sua ponta hostil, estava 
completamente, virginalmente coberto dum mon- 
tão vermelho de rosas bravas. O Velho frade- 
•guardiào, ao vê-las abrir todas as manhãs, cho- 
rava de alegria. Realizara o seu sonho. Nas 
suas mãos piedosas, esse instrumento de morte, 
que era uma espada, — dera vida a uma roseira. 
Uma tarde, passou no córrego uma criança; 
debruçou-se dum penedo, e viu tão florida, em 
bai;><o, a moita de rosas, que pediu a Frei Ma- 
nuel da Madre de Deus que a deixasse colher 
uma flor. 

— Desce e colhe, meu irmãosinho. São de 
Deus. 

O pequenito desceu ; mas ia tão deslum- 
brado a olhar, que os pés faltaram-lhe, caiu, 
rolou nas fragas e foi tombar em cheio, de 
bruços, sobre a roseira. O corpo oscilou um 
momento e ficou immóvel. Uma ponta de ferro, 
luzente, apareceu-lhe numa espádua. Da boca 
do pequenito golfou sangue. A espada atraves- 
sara-o. 

— Bem disse eu a Vossa Paternidade — cho- 
rava o donato, arrepelando-se — que as espadas 
não serviam senão para matar! 



A DIVISÃO PEREIRA DE ECA 



Partimos de Torres Vedras às 10 da manhã, 
num automóvel do Quartel-General A divisão 
Pereira de Eça estacionava ao norte, dispersa 
numa extensão de noventa quilómetros quadra- 
dos, ao longo de três grandes estradas diver- 
gentes. Tomámos pela estrada Tôrres-Louri- 
nhã-Peniche. Um.a admirável manhã de outono, 
fresca, descoberta de sol, Viçosa ainda dos chu- 
veiros ásperos da noite. Emquanto o focinho 
de ferro do Hudson cortava o ar, a brava pai- 
sagem estremenha ia-se desdobrando em lom- 
bas de pinhal e em chãos de vinhedo, lumi- 
nosa, fecunda, gotejante de orvalho, —para um 
lado até às arribas do oceano, rasas de bruma; 
para o outro, de ondulação em ondulação, de 
montanha em montanha, até à serrania azul de 
Monte-Junto. A atmosfera ofuscava. Passavam 
carros de lenha a caminho dos bivaques. De vez 
em quando, à beira da estrada, Vermelho, fu- 



240 MULHERES DE ONTEM 

megante, enorme, pojava o mamilo de barro 
de um forno de tijolo. Vinte minutos depois, 
estávamos em Paio Correia, -uma mão-cheia 
de casinholos caiados. Perto, um veio de água 
espelhava: era o Alcobrichel. Numa terra cei- 
fada, como pinceladas de oiro, alastravam as 
tendas do primeiro biVaque : era o batalhão de 
infantaria 11. Começava a subir o fumo das 
cozinhas. Um carro alentejano descarregava 
pão. Medas de palha chispavam ao sol. Bandos 
de soldados, risonhos, tisnados, uma toalha 
branca ao pescoço, vinham de laVar-se no ri- 
beiro. Ouvimos ainda o toque de sentido, o 
brado de armas da sentinela. Todo aquele for- 
migueiro humano se immobilizou, faYscando ao 
sol : o General passava. Seguimos. A estrada 
abria-se agora entre pinhais bravos, scintilantes 
de caruma; corria entre vinhas vindimadas, 
onde fossavam e farejavam cães ; talhava-se, 
mais adiante, entre tractos de terra barrenta, 
cavados de barrocais, borbulhentos de cascalho, 
onde o automóvel saltava como uma pela. Prin- 
cipiaram a alvejar, na volta do caminho, umas 
casas de adobe caiado. Era «A dos cunhados», 
centro de reabastecimento, coalhado de carros 
de bois e de camions militares. Um saioto 
roxo de mulher saracoteou ao sol a^m poial de 
porta. Varejavam moscões. Andado o casario, 
num campo à mão esquerda, estendia-se o bi- 



A, DIVISÃO PEREIRA DE EÇA 241 

vaque do 3.° grupo de batarias divisionárias 
(artilharia 3), numa grande mancha ruiva e bu- 
liçosa de gado, as cozinhas fumegando, o par- 
que eriçado de rodados, de cofres, de lanças, 
como as pernadas cinzentas de uma enorme 
aranha de ferro. Por toda a parte, a mesma 
impressão de alegria, de saúde, de disciplina, 
de força. Dois soldados, a cara lambuzada de 
sabão, faziam a barba, à beira da estrada. Uma 
nuvem de pardais atravessou diante do auto- 
móvel, cujo leve chassis americano saltava, 
estremecia, devorava caminho a favor do Ven- 
to. Principiava agora a região dos grandes 
Vinhedos. Ao longe, na encosta, matinando si- 
nos, um povoado alegre branquejava entre vei- 
gas verdes e' viçosas: era o Sobreiro Curvo. De 
novo os pinhais ramalharam ; de novo surgiram 
os fornos de telha, debruçados sobre a estrada 
como cortiços enormes ; — e a primeira casa do 
Vimeiro apontou ao alto, negra, solene, alpen- 
drada, decrépita. Era a pobre Vimeiro onde se 
ilustrou Wellesley em 1808, — com o seu ca- 
beço escarpado, o seu triste cruzeiro de pedra, a 
sua miséria secular, os seus casebres em ruínas. 
Estavam ali duas formações sanitárias — a am- 
bulância n.° 2 e uma coluna de transportes — 
e, mais adiante, num vasto campo, perto das 
águas lampejantes do Maceira, os dois bata- 
lhões de infantaria 1 . Sentia-se já o ar do mar. 

16 



242 MULHERES DE ONTEM 

A paisagem tinha agora uma expressão bárbara 
de aridez, com as suas terras escalvadas, os 
seus pinhais longínquos ao nascente, as suas 
moitas cheirosas de alecrim bravo rescendendo 
à beira da estrada. Quando chegámos a Tole- 
do, em cujas casas se encontravam acantonados 
os sapadores-mineiros, arrepiámos caminho, dei- 
xámos à mão esquerda Cabeça Gorda e o Ca- 
sal do Grilo, voltámos a Paio Correia, — e cor- 
tando a direito, entre sobreiros descascados 
e sangrentos, metemos à estrada das Caldas. 
Pouco depois, entrávamos no Amial. Um povoado 
branco, alegre, cheirando a mosto, com as suas 
hortas Verdes, os seus carinhosos beirais carre- 
gados de abóboras doiradas, a sua igreja onde 
dormia, entalhada por um piedoso imaginário do 
século XIII, a Senhora de Rocamador. Logo 
adiante, galgando, cabrejando, subindo por uma 
encosta de pinhal, um vasto bivaque de três ba- 
talhões, infantaria 16 e 17, — admirável de 
ordem, de aspecto, de disciplina. Quando passá- 
mos, tocava para o rancho da manhã. A senti- 
nela bradou às armas. Mas o Hudson do Gene- 
ral seguiu, a direito do Ramalhal, onde vimos 
infantaria 5 e metralhadoras ; daí para a Boga- 
Iheira, mais ao norte, onde em volta dum velho 
casal amarelo bivacava o 2.« grupo de batarias 
divisionárias (artilharia 1); outra Vez arrepiámos 
caminho, para alcançar a estrada Tôrres-Cada- 



A DIVISÃO PEREIRA DE EÇA 243 

Vai ; metemos a um desvio aberto a picareta 
numas terras barrentas ; seguimos até à Ermi- 
jeira, por entre grandes chãs de vinha onde pa- 
reciam escorrer, ao sol, babas Vermelhas de 
cobre ; entrámos na Quinta do Visconde, esta- 
cionamento duma formação sanitária com tendas 
Bessoneau armadas ; e, pela estrada do Cada- 
val adiante, entre barricas de mosto e carros 
de bois, jumentos bíblicos e cães hirsutos como 
lobos, emquanto o sol aquecia, a luz se metali- 
zava, e pequeninos insectos tremiam como dia- 
mantes sobre a caruma adusta dos pinhais, che- 
gámos a Maxial, onde estacionava o 1.^ grupo 
de batarias ; atingimos Malpique e a Mecejana, 
por cujas terras se estendiam, numa mancha 
fulva de tendas e de gado, o bi vaque do 2 e a 
bela tropa algarvia de infantaria 4. Tínhamos 
percorrido, em três horas, uma extensão de 15 
quilómetros de frente por 6 de profundidade. 
Era, simultaneamente, a revelação de uma pai- 
sagem — e dum exército. Os vinte mil homens 
da divisão Pereira de Eça dispersos por esse 
extenso tracto ribatejano, mantinham-se tão 
admiravelmente na mão do comando supremo, 
— como se estivessem num campo de concen- 
tração. Quando chegámos a Torres, a poeira 
sufocaVa-nos, o sol ardia-nos na pele. Era 1 
hora da tarde. 



os MORTOS 



Meu amigo. — Cheguei de Londres há três 
dias para ver morrer meu sogro. E?<tinguiu-se 
ontem, às onze e meia da noite^ em condições 
tão singulares, que ainda neste momento, 
quási sete horas depois, me sinto gelado de 
pavor. Uma agonia prolongada e terrível, jul- 
garás tu. Não. Pelo contrário. Foi um coma 
rápido, profundo, aparentemente tranquilo. Mas 
as circunstâncias que precederam e acompa- 
nharam a morte foram tão extraordinárias, que, 
se tu estivesses presente, havias de sentir, 
como todos nós, apesar da tua impassibilidade 
de médico, uma impressão desagradável de frio 
pela espinha. 

Tu sabes que meu sogro comprou aqui, há 
seis anos, neste canto de charneca quási raieiro 
de Espanha, um terreno junto à ermida de 
Santo António. Foi nesse terreno, em tempo 
aproveitado para cemitério dum conventinho de 
capuchos, que êle mandou construir , a casa 
onde apenas viveu onze meses, e onde acaba 



246 MULHERRS DE ONTEM 

de morrer agora. Creio que te mandei em 
tempo a fotografia dessa casa. Não tem nada 
de especial nem de interessante. É um casa- 
rão, meio alentejano meio inglês, com o seu 
hall confortável vestido de tapetes de Arraio- 
los, as suas paredes caiadas, a sua lareira 
patriarcal. Quando se abriram os caboucos 
para as fundações, encontraram-se, como era 
natural, muitas ossadas humanas. Em Vez de 
as fazer remover para a ermida de Santo Antó- 
nio ou para o cemitério da vila, o mestre de 
obras encarregado da construção, que era 
meio-irmão de meu sogro e que morreu pouco 
depois sem se saber de quê, juntou as ossadas, 
dei?<ou-as nos alicerces debaixo duma abobadi- 
Iha de tijolos, e edificou sobre elas a casa que 
habitamos. Quando o pai de minha mulher teve 
conhecimento do sucedido, já a construção 
estava adiantada. Um espírito vulgar e forte 
não se teria preocupado excessivamente com 
semelhante pormenor ; mas meu sogro, dotado 
de uma impressionabilidade doentia e dum 
carácter taciturno e extravagante, começou a 
manifestar vivas apreensões pelo facto de ter 
construído a sua casa sobre um cemitério ; pen- 
sou em arrasá-la para a edificar de novo ; ouviu 
amigos; procurou médicos, que o tranquiliza- 
ram alegando o carácter remoto e acidental das 
inumações ; hesitou ; resolveu-se ; um belo dia 



os MORTOS 247 

as obras recomeçaram, — e, há onze meses, o 
pobre velho, sombrio, absorvido, preocupado, 
tendo substituído já, perante a sua consciência, 
a questão concreta da salubridade por dúvidas 
de ordem metafísica e espiritualista, acabou 
por se instalar, com repugnância ainda, mas 
com relativo conforto, na sua nova «casa de 
Santo António ;>. Pouco tempo depois, rece- 
bia-se em Londres a notícia de que o irmão de 
meu sogro falecera de repente. Uma carta mais 
extensa do pai de minha mulher informava-nos 
da morte do velho mestre de obras, — um caso 
obscuro de morte súbita, que tinha ocorrido em 
circunstâncias pouco Vulgares, precisamente 
quando o Velho, de Visita ao irmão, entrava 
pela primeira Vez na habitação que ele próprio 
construirá. Toda a gente supôs que meu sogro 
abandonaria imediatamente a casa. Não suce- 
deu assim. Pelo contrário, criou amor à sua 
nova morada; comprou, para revestimento do 
hall, cinco tapetes de Arraiolos do século xviii, 
dum desenho acentuadamente persa, que são o 
melhor do recheio da casa; pediu um tecto a 
Columbano ; encomendou para França, a Edgar 
Brandt, um lustre de ferro forjado que nunca 
Veio ; e quando eu o imaginava definitivamente 
reconciliado com a casa e com os mortos, a ler 
Michelet e a aquecer os pés nas brasas de 
azinho, diante do frade de tijolo da lareira, — 



248 MULHERES DE ONTEM 

um telegrama urgente chamou minha mulher a 
Portugal : o pai estava a morrer. Combinámos 
que ela partiria no pró?cimo paquete, e que me 
avisaria, logo que chegasse, se fosse necessá- 
ria a minha presença aqui. Veio encontrar o pai 
de cama, ressequido como uma múmia, as 
mãos esbrugadas, os olhos coruscantes, — 
rodeado de família, de criados, de médicos. 
Falavam todos de caque^cia senil, — uma caque- 
xia singular e precoce, acompanhada de vago 
delírio. Quando a filha chegou, meu sogro 
olhou-a fixamente, apertou-lhe muito a mão, e 
recomendou-lhe, numa voz apagada e longín- 
qua: — «Assim que eu morrer fujam desta casa, 
que é um cemitério.» Minha mulher, profunda- 
mente impressionada, telegrafou-me. Vim. Em- 
bora não corresse a mais leVe aragem, quando 
entrei de noite em casa de meu sogro, os tape- 
tes do hall oscilaram nas paredes. Senti uma 
imperceptível vertigem ao subir as escadas. Um 
Velho piano Clementi, que bocejava a um canto, 
gemeu, como se o Vento passasse nas suas 
cordagens de cobre. Evidentemente, ilusão 
minha. De costas, meu sogro, desfigurado, 
olhava em êxtase um ponto imaginário. Pergun- 
tei-lhe o que sentia. Respondeu-me, inquieto : 
— «Os mortos». Nessa mesma noite, à mesa 
do chá, minha mulher transmitiu-me o estranho 
pedido que lhe fizera o pai. Na idea fixa de 



os MORTOS 249 

revelar-nos a verdade de além-túmulo sobre o 
mistério daquela casa funesta, meu sogro supli- 
cara à filha que, no instante supremo da morte, 
lhe aproximasse dos olhos a chama duma vela. 
Se as suas pálpebras se movessem à luz duas 
Vezes, — era sinal de que os mortos viviam ali, 
e nos rodeavam, e nos prescrutavam, e faziam 
palpitar em volta de nós as suas sombras invi- 
síveis e deletérias. Sorri, naquele sorriso fácil 
das criaturas educadas na lição positiva da 
sciência. Ontem de dia, com grande surpresa 
nossa, o doente melhorou. Á noite, pelas dez 
horas, quando minha mulher tocava Mozart no 
velho cravo de oitava larga, — meu sogro caiu 
bruscamente em coma. Rodeámos-Ihe o leito. 
Ás onze e vinte e cinco minutos, com a mão 
da filha apertada na sua, morreu. Não sei ainda 
bem porquê, instantaneamente, deitei a mão a 
um castiçal e aproximei a chama da vela dos 
olhos do cadáver. Uma Vez, duas vezes, as 
pálpebras ergueram-se-lhe, — e os olhos do 
morto ficaram diante da luz, baços, vítreos, 
immóveis, abertos. Os cabelos puseram-se-me de 
pé. Minha mulher caiu com um ataque. E ainda 
agora, depois duma noite inteira de vigília, ao 
escrever-te esta carta, sinto escorrer-me pela 
testa o suor frio do terror. Parto amanhã para 
Lisboa. Vam.os vender a casa. 
Teu, — Manuel. 



A FEIRA 



Havia feira, lá acima, em S. Pedro. Fui. 
Desde certa tarde, em S. Bartolomeu da Char- 
neca, há quatorze anos, que não assistia a uma 
feira de gado. Galguei a azinhaga cortada entre 
silvados brancos de pó ; atravessei uns baldios 
para encurtar caminho ; meti à estrada, debaixo 
de um sol de brasas, e, trezentos passos anda- 
dos, entestei com o terreiro da feira, uma 
Vasta chã sombreada de olmeiros à Volta, onde 
largas manchas de gado grunhiam, mugiam e 
bezoavam, mordidas da raçada do sol e do 
ferrão sangrento dos moscões. Deviam ser 
nove horas andadas. Ao pé da frescura dum 
chafariz, um cruzeiro erguia, entre carvalhei- 
ras, a sua bênção de pedra. Perto, matinava 
um sino. Revoavam rolas bravas, para as ban- 
das da serra, sobre o mato em flor. A atmos- 
fera scintiiava e tremia. Meti-me ao terreiro. 
Saloios grisalhos, risonhos, graves, em mangas 



252 MULHERES DE ONTEM 

de camisa, um grilhão de prata luzindo num 
colete de pêlo de coelho, troquilhaVam encos- 
tados aos varapaus. Ao pé duma junta de bois 
caldeiros, iguais, três ciganos cortavam peda- 
ços de pão, à navalha. Largas nódoas Verme- 
lhas de loiça, húmidas de barro viçoso, coalha- 
vam a terra escaldada. Vinha chegando mais 
gado, trôpego, entre nuvens de poeira. Peque- 
nos criadores, saloios humildes dos casais vizi- 
nhos, atiravam, Vazavam para a feira toda a 
riqueza dos seus corveiros, dos seus cortelhos, 
dos seus currais : agora, um rebanho de chibos, 
enfurdados, sequiosos de leite; logo, uma porca 
enorme, maternal, pacífica, as tetas negras 
pojando, uma cria buliçosa de dez bácoros 
pendurada a mamar ; dum lado, um vitelo magro 
embarbilhado de corda, preso pelas patas a 
uma estaca ; do outro, debaixo do seu albardão 
mourisco de volta em meia-lua, um jumento 
branco, refle?<ivo, resignado, escorrendo sangue 
das mataduras ; os mais ricos traziam manadas 
de bois ruivos, bíblicos, serenos, possantes ; os 
mais pobres, o seu porco negro e oleoso como 
faiança vidrada, ou o seu bezerro tenrinho, pre- 
cário, a ajoelhar no lodo e a chorar pela mãe. 
Toda esta carne palpitante, toda esta massa 
animal de trabalho e de sacrifício se movia, e 
formigava, e borbulhava no terreiro, Varejada de 
moscas, tilintante de chocalhos de cobre, espe- 



A FEIRA 255 

rando o ferro bárbaro dos arados ou a choupa 
lampejante das matanças. Em volta, a feroci- 
dade humana alquilava, regateava, discutia em- 
poleirada em carroças, boleava garupas luzentes 
de égua, travava de patas trazeiras de bácoro, 
zurzia vitelos que demandavam a apojadura ma- 
terna, batia moedas de prata, que rolavam, ti- 
lintavam e retiniam na pedra velha dos poiais. 
Havia de tudo. O saloio abastado, chambão, 
sombreiro de abalroar, amarra de oiro, suíça 
branca, afeito a arrematar os grandes lotes e a 
Varrer o gado das feiras ; o criador tímido, cau- 
teloso, miúdo, com um telheiro e dois palmos 
de chão, empreiteiro de engordas que comprava 
num ano uma ninhada de leitões e os vendia 
porcos anais na Volta da Senhora de Agosto ; 
o pastorelho saloio, esfomeado, descalço, um 
saco de milho às costas, humilde para o patrão, 
feroz para o gado ; o cigano tisnado, semita, 
anguloso, triste, ferrolhando esporas de Guima- 
rães, garrindo mantas de riscas do Alentejo : — 
e tudo aquilo praguejava, íiiVaVa, vociferava ; 
tudo aquilo bebia, os olhos chispando, as bar- 
bas brancas de pó, a pontoeira dos varapaus re- 
luzindo ao sol, uma malga de vinho roxo a es- 
pumar nas mãos ; tudo aquilo era capaz, num 
abrir e fechar de olhos, de se baralhar por um 
pataco Velho, de travar da navalha por uma ma- 
nusca de palha, de assassinar o pai. por uma ca- 



254 MULHERES DE ONTEM 

beça de gado. O sino tornou a matinar para a 
missa. O sol apertava, ardente. Era tempo de 
arrepiar caminho. Meti à estrada, respirando, 
mordendo poeira. Vinham Varas de porcos, a 
tropeçar ; saloias, de lenços sarapantões, empi- 
lhadas em carroças ; cadelas magras, hirsutas, 
farejando, fossando, ganindo. Já na Volta da 
azinhaga, olhei : sobre um jumento infantil, fel- 
pudo, de perninhas de fauno, assentado no seu 
albardão mouro, vinha galgando a encosta um 
saloio Velhinho, seco, risonho, debai?^o dum 
formidável chapéu-de-sol de pano azul. Quando 
nos cruzámos, dei-lhe o «salve-o Deus:& e per- 
guntei : 

— Esse chapéu é para vender, tiosinho ? 

O saloio parou o burro, compôs o atafal, 
mirou-me de alto a baixo, sorriu, olhou a sua 
grande basílica azul, e respondeu-me, co.mo o 
melhor dos filósofos : 

— E vocemecê era capaz de vender a sua 
sombra? 




ARRAIOLOS 



Meti-me na diligência do correio. Eram dois 
quilómetros até à vila. Uma estrada nova, aberta 
entre terras de pão ceifado, que ondulavam a 
perder de vista, fulvas de restolho e esbrasea- 
das de sol. Nem montados, nem olivedos. O 
Alentejo-seara, o Alenteio-celeiro. Numa volta, 
os machos meteram a passo, sacudiram as es- 
quilas, retesaram as ancas. Subíamos, a direito 
do monte de S. Pedro, que encobria ainda de 
todo a nobre Arroiolos dos Senhores Duques. 
Á medida que a diligência galgava a encosta, 
o horizonte alargava, desdobrava-se em novas 
ondulações de terra, estendia-se em leiras bár- 
baras rasgadas pelo ferro da piscola alentejana ; 
além, aparecia uma lomba Verde de sobreiros e 
de azinhos ; acolá, para nascente, um olival ne- 
gro, bíblico, sombrio ; longe, numa névoa azu- 
lada, Estremoz; mais ao sul, a serra de Ossa, 
roxa, coroada de nuvens, escorrendo a baba de 



256 MULHERES DE ONTEM 

oiro do sol. Olhei em frente: alvejavam já, ao 
topo da estrada, as primeiras casas da. Vila. O 
chicote estalou; os machos arrancaram, tilin- 
tando os guizeirões de cobre; uma nuvem de 
poeira, acre, espessa, — scintilou. Estávamos 
em Arraiolos. Não me lembro de ter sentido 
nunca, em nenhuma das pequenas vilas caiadas 
e luminosas do Alentejo, uma tão viva, uma tão 
ofuscante impressão de luz, de brancura, de 
alegria, de claridade. Ao sopé do velho castelo 
das seis torres, de D. Denis, aninhada num re- 
gaço de terra entre dois montes, uma toalha 
branca e faiscante de casaria alastrava, silen- 
ciosa, tranquila, florida de beirais, calcinada de 
sol, cheirando ao mesmo tempo ao leite orde- 
nhado das primeiras cabras e ao pão cozido do 
primeiro forno. Era aquilo, a vila. Aquela meia- 
-dúzia de casas, que parecia caber-nos na palma 
da mão, era a nobre Arraiolos da coroa ducal 
de Bragança, a Arraiolos antiga das tradições 
romanas e visigóticas, a Arraiolos carinhosa, a 
Arraiolos patriarcal dos coloridos tapetes de lã, 
dos frades de tijolo nas lareiras, do chafariz 
milagroso dos almocreves, da noiva que, no sé- 
culo XVIII, levou quinze dias a enfeitar-se para 
a boda e saiu embrulhada numa manta. De re- 
pente, a diligência parou. Tínhamos chegado ao 
rossio da Vila. Um terreiro vesgo, soalheiro, bran- 
co, coruscante, com uma picota de pedra des- 



ARRAIOLOS 257 

troncada, última relíquia do seu orgulho muni- 
cipal : a um lado, a cadeia velha da comarca, 
eriçada duma sineira franciscana; a outro, a 
casa da Misericórdia, acaçapada, acolhedora, 
decrépita, com o seu telheiro encarnado, o seu 
painel de armas de azulejo e um ingénuo portal 
gótico, apeado talvez das primeiras ruínas do 
castelo, em cuja pedra — quem sabe ? — teriam 
faVscado ainda os marrões de ferro dos alvanéis 
de D. Denis. Olhei em Volta: ninguém. Ao pé 
da roda dum carro alentejano com a relha solta 
e os caibros descarnados, — quatro, cinco, seis 
cães fossavam, farejavam, dormiam ao sol. No 
meio dum silêncio de charneca, a torre branca 
do relógio, debruçada da alcáçova, bateu as 
duas horas. Deitei-me a correr as ruas. Tive a 
impressão duma vila recolhida, laboriosa, sosse- 
gada, feliz. Aquele silêncio não era desolação: 
era bem-aventurança. Não era morte : era vida. 
Tudo casas pequenas, brancas, tranquilas, res- 
plandecentes, aconchegadas como ovelhas; as 
mais abastadas com o seu eirado e os seus ja- 
nelos de telhai ; as mais pobres com a riqueza 
da sua enorme chaminé, do seu postigo esprei- 
tadeiro, das suas paredes de adobe caiado, do 
seu hospitaleiro lar de tijolo, e — coisa curiosa I 
— pobres ou ricas, grandes ou pequenas, todas 
com o beiral pojando de ninhos de andorinhas. 
Ninguém lhes toca ; era destruir a própria feli- 

17 



258 MULHERES DE ONTEM 

cidade. E os ninhos crescem, povoam-se, enno- 
velam-se, esbeiçam, arredondam como alcofas, 
chilreiam, palpitam de pequeninas asas, Vivem, 
crestam-se, morrem, — sem que uma só mão se 
levante para perturbar a sua paz e o seu misté- 
rio. Nessa carinhosa Vila de silêncio e de ninhos, 
cada casa apareceu-me como um sorriso ; cada 
rua, como uma bênção. Fui subindo a encosta, 
por um córrego empinado numa lomba de monte 
cheirosa de queirogas e de tojo ; galguei ao cas- 
telo onde viveu Nun'ÁlVares; olhei, do alto 
adarve da muralha, sobre a porta de Santarém, 
toda a maravilhosa planície do Alentejo, faiilhante 
de sol ; debrucei-me para Vale-Formoso, em cuja 
veiga viçosa e verde o convento dos Lóios dor- 
me o seu sono de pedra ; e fatigado de luz, de 
brancura, de solidão, de claridade, voltando os 
olhos, pela última vez, para a nobre Arraiolos 
dos tapetes, — recebi a impressão de que essas 
velhas obras-primas de cor, de paciência, de 
ternura e de graça, não podiam ter sido feitas 
senão ali. 



TROVAS BRASILEIRAS 



Está aqui, sobre a minha mesa, o encantador 
Volume de Trovas BrasileiraSy acabado de pu- 
blicar pelo dr. Afrânio Peixoto. 

Que horas de prazer intelectual eu devo a este 
livro í Só as tive comparáveis, lendo as paginas 
bravias desse genial Catulo Cearense, o pri- 
meiro homéride do sertão brasileiro, cuja obra 
me veio às mãos por obsequiosa lembrança do 
m.eu amigo dr. Araújo Jorge As mil e uma tro- 
vas populares que Afrânio Pei?iOto recolheu e 
prefaciou (com que elegância e com que erudi- 
ção!) e o livro de Catulo, éclogas dum Vergílio 
caboclo, ressumantes, saborosas, doiradas e 
selvagens como os frutos bravos da floresta, 
completam-se e explicam-se um ao outro. Sen- 
te-se pulsar em ambos, no mesmo ritmo largo, 
o coração ardente do povo brasileiro. Neles la- 
teja, como um clarão de fogueira ao vento, a 
alma da mesma raça. Versos de toda a gente. 



260 MULHERES DE ONTEM 

que são hoje anónimos ; versos dum poeta de 
génio, que serão amanhã da multidão, uns e 
outros foram feitos para as cordas da mesma 
sanfona, para os soluços da mesma garganta, 
para o meneio dos mesmos corpos, que se des- 
nalgam, e peneiram, e saracoteiam no samba, 
como torsos de deuses de bronze, ao sol. Mas 
se há muito de brasileiro, de original, de autó- 
ctone nos dois livros, há muito também de por- 
tuguês no seu sentimento, na sua emoção, no 
seu lirismo ingénuo. «Não é fácil suprimir o que 
nós temos de lusitanos» — diz Afrânio Peixoto, 
de resto fortemente nacionalista em literatura. 
Eu próprio tive a confirmação disso, vertendo 
para português correcto a primeira parte do Le- 
nhador, de Catulo, — obra prima que, não sei 
porquê, me fês pensar em certas sagas escan- 
dinavas. Quando li, numa roda de amigos, esses 
versos formosíssimos, que não precisam, para 
ser belos e para ser brasileiros, de estar escri- 
tos em cassange, logo um nome aflorou em to- 
das as bocas, trémulas de admiração : António 
Correia d'0!iveira. De facto, os dois poetas 
confundem-se na mesma ternura, no mesmo 
sentimento, no* mesmo fundo ideológico, na 
mesma expressão formal, idiomática, da redon- 
dilha, no mesmo culto religioso da árvore, na 
mesma tendência para a antropomorfizaçào da 
natureza. E, o que se dá com êies, dá-se com 



TROVAS BRASILEIRAS 261 

esse grande poeta colectivo e anónimo, que é o 
povo. O livro do dr. Afrânio Peixoto, réplica, 
melhor sistematizada, das Mil TrnvaSy de Al- 
berto d^Oliveira, vem demonstrar, antes de tudo, 
que a poesia popular portuguesa e a poesia po- 
pular brasileira são, ainda hoje, uma só poesia, 
impregnada do mesmo forte lusitanismo comum. 
Numa e noutra predomina um fundo essencial 
de lirismo amoroso. Mais sentimental uma, a 
portuguesa, — mais sensual outra, a brasileira 
(como justamente observa o romancista admi- 
rável da Esfinge e de Maria Bonita) ^ ambas 
as colecções constituem, no seu conjunto, uma 
vasta amorografia, que, ou batida na Viola es- 
tremenha dum campino ribatejano, ou zangar- 
reada na brava sanfona dum cangaceiro caboclo, 
não aspira senão à exaltação e à divinização da 
mulher. Através das mil trovas populares da re- 
colta de Afrânio Peixoto, eu vi, senti, reconsti- 
tuí, com todas as suas determinantes étnicas, 
com todo o seu penetrante encanto, a mulher 
brasileira, a <^morena requebrada», a «pimenti- 
nha mordida», a í:trigueira picada do sob, a den- 
gosa «^flor de cananeia», —Eva eterna, volúpia 
imortal, inimiga adorada. Adivinhei a sua graça 
nas expressões ternas do lirismo mineiro, baiano 
e carioca, — «minha bem feita», «minha folhinha 
de coentro», «meu caroço de dendém^, <í:minha 
andorinha de coqueiro», «meu cacujeiro miudi- 



262 MULHERES DE ONTEM 

nho, carregadinho de flor» ; surpreendi-ihe a on- 
dulação melodiosa do torso e dos rins, dríada, 
oréada, fauneza de cobre do sertão ofuscante 
e magnífico, — «corpo de fita lavrada>, «ancas 
de linha torcida» ; vi-a sorrir, com a sua «boca 
de cravo da índia», fitar-me com os seus «olhos 
grandes», os seus «clhos de pimenta e de fogo», 
«de restilo e de veludo» ; compor o lenço azul 
sobre a «trancinha dacheada», cheirosa às pom- 
bas virgens do mato ; sapatear numa esteira — 
«requebra mais, Lionô ! » — com os pequenos pés 
nus, nervosos, doirados, morenos, «coalhados 
de leite cru e de mel de abelha», pés de ave e 
de sopro, de deusa e de flor. Não será, talvez, 
a brasileira citadina, a brasileira hipercivilizada, 
descendente pura e e?<treme de europeus, que 
o scintilante Castro Meneses, numa crónica do 
seu último livro, acha demasiadamente «pálida, 
franzina, nervosa» ; mas é, com certeza, abra- 
sileira plebeia, o adorável tipo lusitano cruzado 
de negroide ou de aborígene, a mestiça — cabo- 
cla, cabrocha, caf usa — a brasileira amarela e 
ardente do sertão que Catulo Cearense canta 
nos seus poemas, a Maíby, a Víraca, a Lindi- 
nha, a Lionô, olhos «de espinhos e de mel», 
peitos de rola morena, línguas de cobra côr-de- 
•rosa, Salomés bronzeadas da floresta, cujos 
olhos matam como «cornadas de chifre», cujo 
suor cheira como as flores do mato, e em cuja 



TROVAS BRASILEIRAS 255 

beleza ondulaníe, voluptuosa, selvagem, eu vejo 
a Mae suprema, o seio fecundo, o ventre glo- 
rioso do Brasil, Ignoro se os acasos da vida me 
levarão algum dia a conhecê-la. Não sei, na in- 
certeza da hora presente, se amanhã terei de 
dem.andar o Brasil, como quem procura uma 
segunda pátria. Mas, se assim for, a mulher 
brasiieira já não terá surpresas para mim. Atra- 
vés da poesia popular do seu país, recolhida 
pelas m.ãos ilustres de Afrânio Pei?<oto, eu pude 
vê-la, senti-la e entendê-la bem. 



A CRITICA 



Aleu amigo. — Os seus nervos estão fati- 
gados e doentes. Não gostei de ler a sua carta. 
Bem sei : é a mental strain inevitável das mo- 
cidades que ardem e vibram de mais. Se a Eu- 
ropa estivesse viajável, — aconselhava-o a uma 
longa viagem. Você precisa de sair daqui. Pre- 
cisa, pelo menos, de não ler, de não pensar, de 
não sentir. A literatura é um veneno. Isole-se. 
Repouse. Entretenha o espírito com qualquer 
coisa fútil. Sabe o que lhe aconselho? Case-se. 

A sua carta é dolorosa. E, entretanto, quan- 
do acabei de a ler, sorri. Vejamos os factos. 
Você tem vinte anos e tem talento. São duas 
grandes crises, meu amigo. Quando se é im- 
pressionável, nervoso, excessivo como você, — 
chegam a ser duas grandes doenças. Tempera- 
mentos como o seu, quando atingem a zona 
equatorial dos vinte anos, — ou se suicidam por 
uma mulher, ou fazem um livro. Você fêz o li- 



266 MULHERES DE ONTEM 

vro Ainda bem. Foi o seu sarampo, foi a sua 
puberdade, foi o seu ataque de nervos. Se o es- 
crevesse apenas, — não havia nada mais inofen- 
sivo. Papéis que se rasgam quando a crise pas- 
sa, ou que se guardam à chave numa gaveta 
até que cheguem os primeiros cabelos brancos. 
Mas você não se limitou a escrever um livro ; 
Você publicou-o. E desde que o publicou, meu 
amigo, —o seu livro pertence a toda a gente. 
É de todos. Todos íeem o direito de o criticar, 
de o envenenar, de o discutir, de aírontar o pu- 
dor da sua sensibilidade, de sorrir da dignidade 
do seu nome, de humilhar, de devassar o que 
há de mais recatado no seu sentimento, de mais 
nobre no seu orgulho, de mais íntimo no seu 
coração. Ah, meu amigo ! Se os vinte anos sou- 
bessem por que doloroso preço se paga a vai- 
dade do primeiro livro, — quantos manuscritos 
inúteis crepitariam no fogo amanhã ! 

O seu caso é o caso de todos nós. Você 
manda-me recortes de jornais que o ferem, que 
o deprimem, que o agravam, que lhe contestam 
originalidade, probidade, talento, — e pergunta- 
-me, num estado de espírito que me alarma, se 
deve ou não responder-lhes. Não deve. Veja- 
mos a questão com serenidade, com essa im- 
perturbável serenidade que é a suprema força 
de todas as criaturas destinadas a vencer. Que 
poderia ser a sua resposta? Ou uma violência, 



A CRÍTICA 267 

OU uma justificação, ou uma banalidade. Não 
lhe aconselho a violência. A liberdade de crí- 
tica consagra um direito incontestável ; e quem, 
pela sua excessiva sensibilidade, pela sua deli- 
cadeza doentia, não pode ou nào quer ser cri- 
ticado, — não publica livros. Dir-me há Você 
que em Portugal, mercê duma lamentável falta 
de educação, o direito de crítica se exerce às 
vezes por uma forma vizinha da impertinência 
e do ultraje. É possível. Isso sucede aqui, — 
e em toda a parte. Mas, meu amigo, não insulta 
quem quer. E, de resto, você sabe que a injú- 
ria literária, como a injúria política, revestem 
caracteres tão acentuadamente intelectuais, que 
só no campo exclusivamente intelectual podem 
ser julgadas e derimidas. Também não lhe acon- 
selho a justificação. Justificação de intenções? 
As intenções não se criticam. Justificação de 
obras? Os bons livros, os livros que teem o di- 
reito de viver, defendem-se e justificam-se por 
si próprios. Disse-o Chateaubriand : '^La criti- 
que ría jamais tué ce qui doit vivre.y Só as 
obras más precisam de ser explicadas. Se a 
obra por si não fala, — de que serve falar o au- 
tor? Muito menos lhe aconselho a banalidade. 
Para quê? O que convém à nossa obra, nào é 
que nós a discutamos ; é que os outros a discu- 
tam. Nào responda. Repouse. Sossegue os seus 
nervos. Nào há nada que valha a dignidade do 



268 MULHERES DE ONTEM 

silêncio. Quanto mais Você subir, — mais detes- 
tado, mais insultado será. cTem-se a medida 
exacta do Valor dum homem, contando o nú- 
mero de medíocres que se coligam para o der- 
rubar. > Sabe quem disse isto? Rubinstein. 
Eduque o seu espírito na lição da serenidade, 
que tudo vence ; da generosidade, que tudo per- 
doa. Você está deprimido, intoxicado, doente. 
A sua carta fêz-me sorrir, — mas fêz-me pen- 
sar, também. Retempere-se, — renasça. Afir- 
mo-Ihe que amanhã, quando você se sentir forte 
na consciência do seu valor, — já não haverá 
artigos de jornal que o perturbem. E dê cá um 
abraço. Tomara eu ter Vinte anos ! 



índice 



Mulheres de hoje : 

Miss Melancolia 7 

A velhice de D. João 13 

Bebé 19 

O livro de missa 25 

O doente 31 

As meias azuis 37 

Pierrette 41 

Maria Manuela 47 

Lady Futilidade 51 

Uma flor 55 

O «rendez-Vous» 59 

Uma frase de Dumas 63 

Flirt 67 

Noiva 71 

A outra 77 

Mâe 81 

A hora do diabo 85 

O adeus 91 

Maridos 95 

As mãos 99 

Tia Angélica 105 

Ibsenianas 111 

As nossas mulheres 115 



270 MULHERES DE ONTEM 



Mulheres de ontem : 

As amantes de D. Miguel 125 

O busto da Duqueza 12? 

A vòsinhas 131 

Catarina de Bragança 137 

Um drama de amor 145 

Duas Princesas 149 

Carlota Joaquina : 155 

A musa das rendas ; 165 

A Brichota 169 

Duquesa de Borgonha 185 

Freirinhas de S. Bento : 191 

As cómicas do Bairro Aíto 197 

Santa Isabel 203 

Para Miss Kate ler : 

Para Miss Kate ler 215 

O meu vizinho 219 

A cadeira 225 

Debaixo de água 229 

A espada 235 

A divisão Pereira de Eça 239 

Os mortos 245 

A feira 251 

Arraiolos 255 

Trovas brasileiras 259 

A crítica 265 



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