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Full text of "Noções de grammatica portugueza, de accordo com o programma official para os exames geraes preparatorios do corrente anno, [por] Pacheco da Silva Junior e Lameira de Andrade"

HANDBOUND 
AT THE 



UNIVERSITY OF 
TORONTO PRESS 



II 



A^:t> 7z<^? (,^x 

NOÇÕES 



DE 




m 



iií* ^ 



A PORTDGUEZA 



DE ACCORDO COM O PROGRAMMA OFFICIAL 



Para os exames geiaes fie preparatórios do corrente anno 



PELOS PROFESSORES 



'Ifiji/h/o^JL^^oheco da Silva Júnior 



Lameira de Andrade 



Ainda quando a grammatica histórica só 
desse em resultado tomar as grammaticas 
ordinárias mais lógicas e mais simples, já 
nâo prestava pequeno serviço. 



RIO DE JANEIRO 

33 RUA DA URUGUAYANA 33 



1887 



Serão reputados falsos todos os exemplares não rubricados 

t 

e numerados pelos autores, os quaes protestam contra qualquer 
reproducção. 



SEP 28 1967^^ 



Tínhamos emprehendido escrever uma gram- 
matica completa da língua portugueza, rompendo em 
lucta a tradição, e fazíamos fundamento de entregal-a 
em breve á publicidade. O novo programma para os 
exames geraes de preparatórios, porem, veio fazer- nos 
mudar do propósito. E* que muitos dos pontos nelle 
exigidos. para os exames de portuguez não se encon- 
trando nas grammaticas que por ahi correm impressas,' 
e os alumnos não tendo fontes onde possam haurir 
a instrucção de que carecem, resolvemos vir ainda 
uma vez em auxilio da mocidade estudiosa. 

Não apresentamos este trabalho como merecedor 
de gabos de excellente,. nem no intuito de nos reve- 
larmos professores de sciencia jubilada. O tempo 
urgia; bosquejamos apenas o assumpto. 

Nem sempre o nosso parecer coincidiu com a 
indicação do programma ofticial ; seguimos todavia, 
para maior segurança dos viajantes novéis, o roteiro 
apresentado pelo governo. 



A única difficuldade, e não pequena, com que 
tivemos de pleitear, foi a dosagem. 

Acertadamente escreveu o illustre pedagogista 
Alberto Brandão : 

A grande difficuldade com que vão arcar os profes- 
sores é a dosagem, porquanto, como disse Michel Bréal, 
não ha methodo mais perigoso do que o histórico, quando 
mal applicado, e os autores do livro a apparecer têm de 
pôr de parte a vaidade natural aos que muito estudam 
para formularem um livro modesto e comprehendido 
pelos que começam a estudar. 

E isso, parece, ficará de accôrilo com os organi- 
sadores do programma, que devem saber que muitos dos 
pontos exigidos só poderiam ser tratados em theses, não 
de exames de preparatórios, mas de concurso no imperial 
collegio. 

Seguindo esse conselho de mestre, fizemos o que 
devíamos; se o nosso trabalho, porem, não agradar 
a alguns, escrevam elles um outro — a maior aprovei- 
tamento dos estudantes — , e mostrem o que sabem e 
o que podem. 



Nota. — A matéria que o alumno é obrigado a cncerebrar 
vae impressa em typo maior ; as notas encasadas no texto, e as 
que vão embaixo cia pagina são destinadas aos que mais desejam 
aprender. 

Entendemos dever forrar-nos á tarcfii de nos occuparmos 
de definições e outras cousas elementares, que o alumno já deve 
conhecer desde a escola primaria. 



PRIMEIRA LIÇÃO 



Observações geraes sobre o que se entende por grammatica 
geral, grammatica histórica ou comparativa, descriptiva, 
ou expositiva.— Objecto da grammatica e divisão do seu 
sentido.— Phonologia: os sons e as lettras; classificação 
dos sons e das lettras; vcgaes; grupos vocálicos; con- 
soantes, grupos consonantes; syllabas, grupos syllabicos; 
vocábulo ; - notações léxicas. 



I. — Grammatica geral é o estudo dos factos e 
das leis da linguagem em toda a sua extensão. 

E' o conjuncto dos processos communs a muitas 
línguas comparadas. 

O fim, pois, da grammatica geral é coordenar as 
seinellianças c dhcrgoicias dos vários processos oraes, 
seguidos no maior numero das linguas conhecidas, para 
a expressão dos sentimentos e das idéas, estabele- 
cendo ao mesmo tempo regras geraes, principies fun- 
damentaes, leis communs e positivas. 



Nesta accepção a grammatica geral é propria- 
mente o estudo da linguagem (glottologia), isto é, o 
estudo dos meios extraordinariamente numerosos pelos 
quaes o género humano, na diversidade das raças e 
na successão dos tempos, exprimiu o pensamento. 

No domínio da grammatica geral ha duas orientações: — a ten- 
dência exclusivamente lógica, que impõe a priori uma theoria do 
pensamento a todas as modalidades linguisticas; e a tendência ex- 
clusivamente inorJ)hiai,(\\.\Q procura explicar o sentido pela structura, 
o interno pelo externo. 

Quando exclusivas, systematicas, ciumentas, essas orientações 
tornam se viciosas; pois cumpre não esquecer que a palavra com- 
põe-se de dous factores invariáveis — u physiologico e o psycolo- 
gico, a idéa e ?i forma. Para perfeita constituição da glottologia é 
pois de mister a intima combinaçcão dos dous processos. 

2. — Grammatica histórica ou comparativa. — É 
a que emprega 7s.Jiistoriíi e ?l comparação como instru- 
mentos verificadores da linguagem. 

Só ella nos ensina a dissecação scientifica dos 
vocábulos; permitte remontar ao passado obscuro, 
muito além do ponto em que param, a lenda e a tradi- 
ção; pode reconstituir a forma typica das palavras des- 
figuradas ou gastas pelas migrações e pelos séculos. 
Assim, por exemplo, se quizessemos estudar o vo- 
cábulo pomba, a historia nos indicaria a origem no 
latim palumba, e — como todas as evoluções na vida 
humana foram lentas e graduaes — as formas interme- 
diarias /•íz/^wí^í?, j(^íZí?/;^^z,y^6>í?w/^í? (does. do Sec. XIII); 
fr. colombe, palombe; hesp. coltimba paloma; it. co- 
lomba, palombo. ' 



* Em lat. coluniha, gen. gall.; paliiinba (=.paliinibcs, paltiin- 
^//íj= pombo trocaz. Em port. tenioso adj. columbino e colombina. 



3- — Grammatica descriptiva ou expositiva. — 
E' a codificação empyrica, a exposição analytica dos 
factos da linguagem. 

Não investiga as causas nem explica as leis ; seu 
fim é apenas classificar, definir, e exemplificar os ma- 
teriaes linguisticos. 

Este niethodo grammatical, posto estude mui incompletamente 
a linguagem, é todavia de grande utilidade por sua clareza didá- 
ctica, e ainda accrescentado pelos muitos respigos ào. provas cumu- 
lativas. 

4. O OBJECTO DA GRAMMATICA PORTUGUEZA, é 

poiso estudo geral, descriptivo, histórico, comparativo 
e coordinativo ,mas tão somente no dominio da lingua 
portugueza, dos factos da linguagem e das leis que 
os reo;em. 

5. — Divide-se em lexycologia Gsyntaxe. 

A lexycologia estuda a palavra individualmente, 
e subdivide-se ç.\x\ phonologiaow estudo dos sons (que 
comprehende — phonetica, prosódia e orthographia), 
inorpJwlogia ou estudo das formas, e semiologia ou 
estudo do sentido das palavras e da sua variabi- 
lidade. 

A syntaxe trata da palavra collectiva, isto é, da 
phrase e à2i proposição, e divide-se ç^xw grammatical e. 
litteraria. 

A primeira é a theoria da coordenação e subor- 
dinação das palavras em suas relações de pura expres- 
são form.al do pensamento ; a segunda é a theoria 
artística da palavra em suas relações com a esthetica 



do pensamento. Desta nos occuparemos no ponto 
46 (estylistica). ' 

6. — Phonologia é o estudo dos sons em geral. 
PJionetica é a parte da grammatica que estuda as 

modificações, permutas e transformações dos sons. 

A phonetica portugueza, pois, tem por fim o estudo 
histórico de cada uma das lettras do nosso alphabeto, 
das permutas que sofí'reram na passagem do latim 
para a nossa lingua, e ainda o das modificações por 
que passaram até a fixação das formas vocabularias. 

Base dos estudos grammaticaes, philologicos e 
glottologicos ; esteio da etymologia scientifica, é ainda 
a phoneticaque nos ministra as formas intermediarias 
hypotheticas, mas verificáveis, de tão subida utilidade 
para os estudos comparativos. 

Não obstante, as íeis phoneticas não são absolutas 
e rigorosamente fataes; representam apenas tendên- 
cias desenvolvidas da Hno^uasfem. 

7. — Sons e lettras. O som é um phenomeno 
natural que se produz em todas as suas variedades, 
mas subordinado a condições grganicas ; e o alphabeto 
natural é hoje perfeitamente explicado pela anatomia 
e pela physiologia, e ainda pela physica. 

Podemos pois definir o som — producto do 
apparelho phonico. 



' Esta divisão da grammatica é a mais vasta e geral. Outra, 
que também aceitamos, e mais determinada, é a seguinte — phono- 
logia, lexicologia, morp/iologia, morphologia analytica, syntaxe. 



Lettras são as representações graphicas dos sons. 
A' sua disposição methodica, bem como á dos sons, 
dá- se o nome de alphabeto. 

Um systema alphabetico, deve estender-se do a aberto aos 
sons mudos e completamente fechados. São esses — diz Whitney — 
os seus limites naturaes e necessários, e só os gráos intermediários 
podem dividir-se em classes. 

8. — Ha tres cadiegorias de sons ou lettras, cor- 
respondentes a tres ordens de modificações do appa- 
relho vocal — vogaes, consoantes momentâneas, con- 
soantes continuas. 

A divisão geral dos sons em vogaes e consoantes, 
basea-se: i?, no esforço que se emprega para superar 
o obstáculo opposto á emissão do som ; 29, na natureza 
especial dos órgãos que constituem esse obstáculo, 
-D'ahi ainda a divisão das consoantes em contÍ7iiias 
(vibrantes, liquidas, aspirantes) ; instantâneas ou 
explosivas, nasaes, c/iiantes, e — gnttnraes, palataes, 
dentaes e labiaes. 

9. — As vogaes, são produzidas peto larynge, 
posto que modificadas no som pelas differentes posi- 
ções da lingua e dos lábios. Cada uma dessas modi- 
ficações do som origina uma voz ou vogal differente. 

A cavidade bocal forma um canal igualmente largo ou dila- 
ta-lhe o segmento anterior estreitando o posterior : dá-se o primeiro 
caso para as vogaes a, o, 11, o segundo para e, e /. Na emissão 
desses sons ('vogaes puras), os orifícios das cavidades nasaes 
fecham-se pela elevação da aboboda palatina : o contrario produz 
as iiasafs. (Burnt. Kiin. Vhys.). 

As vogaes fundamentaes, typicas são — a, e, u\ 

i ç. o representam sons puros, porém intermediários. 

2 



IO 



A nasalisação vocálica em portuguez, posto fosse vulgar no 
celta e no francez. não deve ser attiibuida a estas influencias senão 
á da lingua romana. ' 

O y entre duas consoantes origina-se de um 
ypsiloii grego, ainda mesmo nas palavras importadas 
pelo latim . 

Entre vogaes equivale a um i o\\ y latino, ou é 
de intercalação euphonica. Serve ainda, no fim da 
palavra principalmente, para alongara vogal {aly, /ly, 
etc.) 

' No latim o ypsilon era representado nas mais 
antigas inscripções por ii ou por //e nos nossos pri- 
meiros documentos equivalia a i ç. j {mayo, mayoi', 
peyor, etc), 

E' final em algumas palavras de origem estran- 
geira {bcy, dcy, joc/ccy), e neste caso representa 
signal etymologico ; e ainda nos nomes locaes deriva- 
dos da lingua indigena (Cafumby, Andarahy). 

IO. — As vogaes podem ser duplas ou compostas 
(de uma forte e uma fi^aca). A estes grupos vocálicos 
dá-se o nome de diphthongo; consistem na emissão 
de duas vozes constituindo um som unicO; e dividem- 
se em oraes e nasacs : ac, (ai), au, (ao), ci, eu (eo,) oc 
(oi), oií, líi, e ãc, ã (an), ão, õe, nim. 

O diphthongo é sempre consequência de reforço 
ou abrandamento. 

Chama-se semi-diphthongos aos grupos ea, ia, té, 
7ia, tie MO, e a razão salta aos olhos — as duas vogaes 



* V. Pacheco Júnior — Rcvisia Brazileira. i" vol. 122. 



i 



1 1 



posto não se possam separar soam todavia distincta- 
mente {ténue, eontiiiiió). 

Alguns grammaticos, — entre os qiiaes Diez — 
consideram triphthongos portuguezes os grupos — 
uae, uei : — iguaes, averigueis. 

Os monophthongos (<?/,=<?, ei^, etc) só se conservaram no 
portiigiiez em relações etyniologicas (Encas = .E/ieas, coevo 
= aTi///i, etc. ) 

II. — A theoria que explica a funcção das vogaes 
e as suas permutas na formação e derivação das 
palavras, chama-se vocalistno. 

As alterações phoneticas mais são devidas á natureza das 
vogaes, cujas intimas relações physiologicas são manifestas na sua 
gradação c degradação,' e que — como ponderou Bopp — obe- 
decem a uma^ escala de peso relativo. 

12. — A consoante é um ruido, e não um som. 

Simples ruidos ou vibrações, não podem ser 
pronunciados senão com auxilio de uma vogal, e 
d'ahi lhes veio a denominação {cuni somire). 

Uma corrente de ar passando por um tubo, fresta ou aresta, 
produz um som. Si o som é produzido por uma vibração regular e 
rythmica, chama-se som musu\tl ou simplesmente som ; se a vibração 
é irregular, isto é, se as suas ondulações successivassão intervalladas 
irregularmente, o tympano recebe a impreãsão de um simples ruido, 
e não de um som. 

Os órgãos de respiração, pela inspiração e expiração, podem 
produzir muitos sons e ruidos. 

Os órgãos necessários para a producção da voz e pronuncia 
são os pulmões — os bronchios, a trachéa, o larynge (que compre- 
hende as cordas vocaes, as fossas nasaes, e finalmente a boca 
língua, lábios, dentes). 



' Caso curioso de reforço vocálico, á maneira do guna sansk., 
é a forma dialectal de Beira — ai aula, ai atigua, etc. 



12 



O ar expellido pelos pulmões, passa dos bronchios para a 
tracbéa, e chega á glotte : não podendo romper facilmente por esta 
fenda, é impellido com força pelo sopro contra as cordas vocaes 
inferiores, que entram em vibração. O ar torna-se linlão so/wro.'^ 

13. — O /i é simples signal etymologico ; — /lora, 
Âoy/o.. .z=:\at. /lora, ho7'tiim; hydrogeneo, (gr. luidros), 
Homero ; notação de dierese ou resolução vocálica — 
sahí, ahi. 

Parece que esta lettra era aspirada nos primeiros 
annos da formação da lingua, á semelhança do latim. 

Deixando de soar, deixou também de ser repre- 
sentada graphicamente (í7w^;2. onrra, etc); mais tarde, 
porem, os latinistas introduziram de novo esse signal 
naescriptae d'elle abusaram osescriptores dos séculos 
XIV e XV — he, hir, huDi, ho, ke, (verbo e conjuncção) 
husofructo, kiusidias, hestroniento, higualdaçoni, etc. 
E ainda hoje ç.scrQXftvaos Jie?i/ním por }ie7n luii. 

Em muitos casos, porem, parece que seu fim era 
indicar o alongamento da vogal (in/icu sabina, etc.) 

14. — As consoantes são simples — b, c, d,/, etc: 
ou compostas: — cli, lli, nli, pli, etc. Ao lli e nh dá-se 
o nome de molhadas. 

Ás combinações bl, br, pi p^^, gl, gr, etc. — accor- 
dadas, em geral, á euphonia latina, — chamamos 
grammaticos — grupos cojisonaiitaes. (V. ponto 3). 

A theoria explicativa da historia das funcções 
e permutas das consoantes denomina-se consoiian- 
tismo. 

A geminação das lettras só se dá no dominio das consoan- 
tes : I." por transmissão etymologicaou uso tradiccional — cavallo-=z 



caballits; 2.° pelo reforço do a proslhetico regional :— íí/zt^ív/Aí/v 
3.° por assimilação, nos compostos (directa ou indirectamente) : — 
a) raigtrr, atlrahir. 

Nos escriptos antigos empregavam a geminação vocálica 
])ara indicar a tonicidade ou transparência etymologica (Sec. XII- 
XVI): — a7'oo, fo/>oo, diaboo, seetii, Vaasio, Aícciíi. . .; leo; seede. 
inrde, aojes, soo/n, Jáa, cncii, Jiwestno, ineestre, door. . . (Sec. XI 11).* 

A substituição d'esta graphia por vogal accentuada data do sé- 
culo XV em Ruy de Pina,e desapparece com Damião de Góes. As 
mesmas tendências se observam na geminação das consoantes 
(reforço, alongamento exterior, etc.) nos mesmos séculos o/irras, ssa, 
nios, metisse, /a/l, capi/o//o,^i//os, ffa/sos, fforom (Sec. XIII XV). . . 
ao passo que, quando etymologica, raro se encontra nos primeuos 
documentos da lingua {aba/c, vosa — século XII — , ape/ido, a/y 
— século XIII — , etc.) 

A geminação //representava na jiiesma época a molhada //;; 
{bar a/ lar, mo//er, conce//o.. .), //// =^ 11 h. 

A maioria d'estes factos representa o período syneretico da 
orthographia. 

15, — SVLLABAS, GKUPO.S SVLLABICOS, VOCÁBULO. 

As syllabas representam os sons elementares do vo- 
cábulo : são as suas articulações ou juncturas. 

Podemos ainda definir a syllaba — todo e qualquer 
som produzido por uma única emissão de voz. ^ 

Vocábulo é uma forma expoente de uma idéa 
ou sentimento. ' 

A formação das syllabas e dos grupos syllabicos 
depende principalmente da afíinidade physiologica dos 
sons e sua correspondência, '* e de hábitos euphonicos 
regionaes, subordinados quasi invariavelmente á lei ou 
ao principio de menor acção. 



' Gane. Vat. , Ined. d'Alle., L. Gons., etc. 

- E como a voz é a emissão dos sons vocaes, segue-se que 
não pode haver syllaba sem vogal. 

■^ Por excusado não nos referimos á sua constituição em 
monosy/Zabos, dissy/Zabos, etc. 

* Ayer — Gramm. 



H 



Assim por exemplo, as combinações syllabicas — cz, _ç//, pth 
iniciaes, são transcripções de vocábulos não vernáculos, isto é, na 
sua formação desviaram-se das leis harmónicas do syllabismo por- 
tuguez. A verdadeira integridade ou unidade syllabica é quasi sem- 
pre consequência do principio de menor esforço a que acima nos 
referimos. 

Phonica e morphologicamente os vocábulos são — homonymos 
(liomophonos ou homographos) e. paronymos; semiologicamenlesão 
mononymos, polynomyno-, syuonymos e antonymos. (V. lições 6* 
e 12."). 

i6. — Notações léxicas. — Sãosignaesgraphicos 
que servem para exprimir a natureza, predominância, 
contracção ou suppressão de vozes livres, e ainda 
para a representação abreviada das palavras. 

São de três espécies — phonicas, etymologicas e 
tachygraph iças. 

a) A primeira espécie pertencem os accentos 
agudo, circiimjiexo, a dierese, o asterisco, a cedil/ia, 
e o /// ou accento nasal, etc 

O accento agudo indica não somente a tonicidade da syl- 
labn, senão também uma contracção — ã =z aa =; lat. s.i\-ilhiin. 

A ãieirse representa uma resolução vocálica, ou emprega-se 
em certas palavras para indicar cpie as duas vogaes não formam 
diphthongo (ataiide, alaúde') * 

O circiiinflexo indica ensurdecimento vocálico (sede =:l siã), e 
contracção (têm = teem = lat. tenent). 

A ccdilha é de origem hespanhola. O seu emprego data do 
século XIII, posto que nem sempre a em|)regassem os escriptores 
{Gu/uan), que outras vezes d'ella se serviam pleonaslicamente 
{Gotidisa/ves). 

O /// representa sempre uma nasal, e até as primeiras déca- 
das do século XVI era empregado como notação abreviadora 
[cô ^^ com, pêdiça ^. pendença= penitencia). Ainda hoje escreve-se 
q, =(jne, etc. - 



• E' este o meio graphico aconselhado por A. Garrett ; ge- 
ralmente, porem, emprega-se o accento agudo, e antigamente 
representavam-no por um h {ala/iiidt). 

- IT=- til {iiiacjio == mão, cristaho — christão,...) F. da Guarda, 
Ined. Port. Nestes últimos — doe. 409 — o til não é representado : 
maao, sayoes. 



b) Os accentos etyuwlogieos são o apostropho e 
a diastase. 

O ultimo emprega-se em palavras formadas por 
juxtaposição ; mas hoje o seu emprego é muito 
menos vulgar porque nos juxtapostos os elementos 
componentes vêm sempre claros e distinctos. Serve 
também, como signal formativo, para separar as 
syllabas da palavra. 

c) Os accentos iachygrapJios são as abreviaturas, 
usadas oferalmente em formas onomásticas, de títulos 
honoríficos e pronominaes. 

Exemplifiquemos: 



Sec. VIII — Test. 


— testis 


YA\—conf. 


confirmo 


— dha. 


dona 


— F. 


firma 


XIV ~ ag. 


aqui 


— díXij. 


daqui 


— qscra. 


quisera 


— s. 


saber 


XV — dy. 


Deus 


— S'\ 


senhor 


V 


vós 


XVI Bartoli. 


Bartolomeu 


— Frez. 


Fernandes 


GIL 


Gonçalves 


— i?. 


Réo 


-^V. A. 


Vossa Alteza 



i6 



XVI — F (fr) 


= Frei 


— VE 


Vossa Excellencia 


— V. M. 


Vossa Mercê 


— V.P. 


Vossa Paternidade 


— V.R 


Vossa Reverencia 


V. s. 


Vossa Senhoria 


— c/iro. 


Christo 


yns 


Jesus 


XVIII ner. 


mulher 


— uto. 


muito 


— Rdo. 


Reverendo 


— Rmo. 


Reverendissimo 


— Sor 


Senhor 


— Sna 


Senhora 



Sec. yji^Att.o, B/l, Cr o, Dig.^iio^ cx. (exemplo), 
Snr., P. S. (post. escriptum), /. e. /, (por especial 
favor), o. d. c. (offerece, dedica e consagra), etc. 

Todas essas notações são convencionaes. 



SEGUNDA LIÇÃO 



ACCENTO E aUANTIDADE 



T. — Accento (lat. acce?ihis, ah-accínendo^iLgv&go 
prosódia) é a influencia ou regra que determina a ele- 
vação ou ensurdecimento da syllaba. 

E' a alma da palavra, como o definiu Diomedes ; 
a viva emoção do sentimento que acompanha o dis- 
curso, o mediador entre o pensamento e a forma, — 
na phrase de Humboldt. 

2. — Ha quatro espécies de accentos : ionico, 
grammatical ou lógico, oratório ou phraseologico, e 
provinciano ou local. 

a) O accento tónico (gr. tonos) é a elevação da 
voz na pronuncia de uma syllaba para tornal-a mais 
saliente. 

E' uma força conservadora, diz o professor Díez, 
que resiste em todo o dominio da linguagem á corrente 

3 



da degeneração phonetica, e por isso é a alma, o 
centro de gravidade da palavra. 

Como em geral nos idiomas congéneres, o estudo 
do accento tónico é de summa importância no portu- 
giiez * pois que na formação da lingua foi grande a 
sua influencra, a qual se manifesta: 

i9 na persistência do accento, principalmente no 
vocabulário de fimdo popular : 

ángelus anjo (arch. anged) — Angelo 

clavicula. .cavilha, cravelha, — clavícula 
parábola, .palavra, — parábola 
viatictim . - viagem, — viatico 
acudia agulha 

A deslocação do accento tónico dá-se sempre por 
circumstancias apreciáveis, taes como — influencia eru- 
dita (ainda que cm muito menor proporção que 
em fiancez), o imparisyllabismo latino, a composição, 
a enclise, as derivações dialectaes : 

pólypíis polypo (polvo) 

plátea platéa (praça) 

cáthedra cadeira 

renego renego 

explico explico 

pústula bostélla 



' Sobre a deslocação do accento tónico nas palavras de ori- 
gem latina, é muito para ser comultado o que escreveu o Dr: Alfredo 
Gomes. 



19 



cómpater compadre 

Hig7ies Ignez 

Didocíis Diogo 

tímor temor 

etc. etc. 

O accento latino estava subordinado á quantidade : d'ahi a 
influencia da penúltima longa, sobre a qual elle recahia [cantórem, 
amare... rígitii/s, poiticus. ..) 

Em muitissimos casos a deslocação do accento remonta ao 
latim vulgar (fícaiiim — figado, currcie, scrihere, géincre, consintere, 
rúmpere, faceie, converte re, regere, etc. =^ correr, escrever, gemer, 
construir, etc). 

Estes verbos proparoxytonos em ere tinham uma forma 
concurrente oxytona tmiie — ciírfíri, scribíre, eic. donde se deri- 
varam as formas verbaes portuguezas, accentuadas na ultima pela 
queda regular da vogal final. 

2. — Na derivação. Os suffixos originários atonos 
tornam-se tónicos em vocábulos de nova formação: 

C7Ístal-mo = lat. cristalum + inus 
primaz-và. = primarium 

3. — Na analogia — imbecil, dúctil, têxtil. 
4. — Na obliteração dos casos, ou melhor no con- 
sequente desappareciniento das syllabas atonas: 

lição lectionem 

lei legem 

face facem 

E as syllabas finaes eram sempre atonas. 

5. — Na homonymia. Muitas vezes o accento dis- 
tingue as formas homonymicas, que deixam conse- 
quentemente de ser homophonas: ulti^no último, vín- 
culo vinculo. 



20 



6. — Na poesia. A obliteração e assonancia só 
produzem verdadeiros effeitos métricos, quando as 
lettras ou syllabas são accentuadas {tants temes tanto 
mando — S. Res. Misc. — ; as que foratn terra acima 
tiveram melhor atina...; deram á rainJia o filho e d es- 
crava deram a filha ; mal se levanta a rainha, vae-se ter 
com a cativa.., — Th. Br. Anth.) ; e o mesmo se dá com 
a rima, que consiste exclusivamente na homophonia 
de syllabas tónicas.* 

Em regra, no portuguez, o accento cahe: i", na 
ultima se a palavra termina por vogal livre nasal, 
diphthongo ou consoante: coração, irmã, bacalháo, 
etc.^; ou nas vogaes / e n: frenesi, bahiâ; 2°, na penúl- 
tima syllaba se a palavra termina em vogal pura: rosa, 
peito,... ou nos diphthongos ea, eo, ia, ie, io, tia, tio, — 
níveo, série, magna ; 3°, na antepenúltima, quando no 
latim era essa a syllaba accentuada: magnifico, car- 
nívoro, artificio'*, celeberrimo (e todos os superlativos 
orgânicos), ou ainda nos substantivos terminados por 
certas desinências gregas: misanthropo, hydroce'phalo, 
homonymo, diaphano, monótono, etc. 



' G. Paris — Acc. 107. 

' Excep. martyr, homem, virgem, etc ; e principalmente 
nas palavras de origem ncão latina — âmbar, a/jofaf,... e em voz livre 
nasal — tman, orphão, orphã. 

^ Excep. quasi, tribti. 

* Estes adjectivos seguem u regra latina por motivo das 
desinências, que são: aco, aro, cola, fero, fluo, frago, fuga, geno, gero, 
ico, ido, imo, iplo, loquo, nubo,paro, pede, pelo, sono,ubo, uplo, volo, 
7>omo, voro. 



21 



D'ahi a divisão das palavras em oxytonas ou 
agudas, paroxytojias ou graves, e proparoxy tonas ou 
esdrúxulas. * 

Os factos contrários a este systema são devidos 
á inlluencia da enclise, cujo caracter principal é 
atonisar as palavras : annuncia-se-lhes, mandando- 
se-lhes^ 

2. — 'Como em latim, os vocábulos polysyllabos 
tinham um accento secundário, que muitas vezes se 
confundia com o tónico nos dissyllabicos. Cahia na 
primeira syllaba de cada palavra ou syllaba inicial, e 
era representado por uma elevação de voz menos forte 
que sobre a tónica. Em portuguez pôde o accento se- 
cundário cahir na primeira syllaba, na segunda, e 
sobre a terceira, isto é de accordo com os vocábulos 
primitivos : s/mp /es mente, coytézanía, valorosíssimo. 

Em portuguez nota-se mais geralmente o ac- 
cento secundaria nos compostos e derivados: qiiebra- 
nozes, setecentos, constitucionalmente , etc. 

Neste caso os elementos da palavra conservam seu valor in- 
dividual e significativo, o que — ■ como acertadamente pondera um 
grammatico moderno — basta para explicar o facto. 

3. — Esta herança dos dous accentos latinos con- 
stitue em todo o dominio romano um facto de má- 
xima importância. 



* Em latim as palavras eram somente paroxytonas e pro- 
paroxytonas. 

' Sobre a origem e o histórico da enclise, vide — Lameira 
de Andrade, Vestigios da declinação latina, pags. 56, 57 — 1886, 



Dando mais duração ou consistência ás syllabas, 
provocava ao mesmo tempo o ensurdecimento ou a 
queda das atonas que lhe estavam próximas. No por- 
tuguez, como no francez, a predominância da tónica 
mais cresceu de ponto, dando em resultado muitas 
formas atrophiadas ou contractas. 

Este phenomeno já era conhecido do latim popular e mesmo 
clássico: tabla portiiguez iabula (tábua ; mas que deu table em 
francez), temflum, scc^lum, ctc. 

Para conservar o accento na mesma syllaba, foi 
o portuguez obrigado muitas vezes a essas contracções 
dos vocábulos latinos, supprimindo as vogaes breves 
que no latim seguiam a syllaba accentuada, — e 
d'essa apocope resultou o termos syllabas finaes 
accentuadas, desconhecidas dos Latinos. ^ 

4. — Geralmente o accento tónico cahe na penúl- 
tima, principalmente nos dissyllabos, se essa syllaba 
era longa em latim. 

Esta tendência já manifesta na linguagem dos Romanos para 
pronunciarem a syllaba final com accento grave, tem modificado 
forçosamente a prosódia de varias palavras. Assim por exemplo: 
o portuguez accentua as palavras compostas importadas do latim, 
como se fossem simples {j-enégo, compadre, etc), e, por extensão, as 
compostas de outras já portuguezas.^ 

5. — Cahe na antepenúltima, como em latim, 
quando a syllaba no vocábulo originário fôr breve: 
rígido, pórtico, tímido. 



* Pacheco Júnior. — prosódia — Quantidade e accento. — Ph., 
pg. 116. 

* Idçm. 



23 



o portuguez regeita a pronuncia das palavras em que todas 
as syllabas são breves, o que era usual entre os Latinos. Todavia 
conservamos algumas amostras : mínimo, tímido, mórbido,...^ 

6. — Nos proparoxytonos é de notar a syncope 
da vogal latina da antepenúltima syllaba, o que con- 
stitue em portuguez principio importante na formação 
da lino^ua. 

o 

7. — Em geral, o accento persiste nos vocábulos 
importados directamente do grego {gcograpliia, cos- 
mograp/iia. . . .); m2LS são accentuados na antepenúl- 
tima, por analogia, os que nos vieram por intermédio 
do latim {astrónomo, apóstropho, etc.) 

8. — O accento secundário é também resultado 
de variações prosodicas dialectaes, e neste caso cha- 
ma-se accento provinciano, ou sotaque provincial.* 

São intonações de voz particulares, devidas ás 
influencias mesologicas muitas vezes de difficil apre- 
ciação, e que muito desvalorisam o accento tónico 
{ó homem, Maceió, mólJiér.-. . .) 

9. — O accento oratório é do dominioda rhetorica. 
Provem do sentido que se dá a uma palavra ou 
phrase : não tem relação alguma com os elementos 
materiaes syllabicos. 

Na contextura phraseologica são de notar as re- 
lações de dependência entre este accento e o tónico. 



1 Pacheco Júnior — 73, 75. 

* Sotaque é propriamente — um dito ou apodo vulgar; hoje» 
porém, é empregado extensivamente para significar o accento par- 
ticular a uma provincia, a peculiar modulação, etc. 



24 



Dá-sc-lhc também a denominação de pathetico, 
o racional ou phraseologico. 

Influenciou muitas vezes na formação dos vocá- 
bulos, como veremos em outro logar. 

Ha ainda outro acccnto a que se pode chamar mímico. 
Origem das duplas de sentido, como, por exemolo, nas variadas 
modulações das partículas ah ! oh / ai / iii / — que podem exprimir 
espanto, admiração, dor, alegria, e reprehensão, enojo, etc, muito 
deve elle influenciar' na accentuação. Modificando os sons, produz 
também outros accidenies, por tal forma postos em seguimento, 
que podem ser considerados — phowinenos reflexos da phoiiaçâo. 

QUANTIDADE 

Em latim, a quantidade era a alma do accento ; 
em portuguez ella perdeu, porém, a sua força primi- 
tiva, e o accento — por sua persistência ainda mais 
influenciou sobre aquella modalidade. 

E' esta tão vaga em portuguez, que em geral os 
grammaticos só consideram longa a syllaba tónica. 

Damos em seguida as" regras, que todavia nos 
parecem mais seguras sobre a quantidade no nosso 
idioma: ^ 

i."" — E' longa a vogal tónica em posição, princi- 
palmente quando nasal — pintura. 

Ha excepções, mas cumpre observar conservamos a quan- 
tidade latina sempre que ella é resultado da queda de uma vogal 
(fé,fée^fl(Ies) ou da intercalação de uma consoante {lembrar). 

Uma vogal em posição pode alongar-se em diphthongos. 
(Vide terceiro ponto). 



í Estas regras são excerptad.is da Prosódia de Pacheco Jú- 
nior, {Photi.) 



^5 



2.^ — E' longa a vogal accentuada quando se acha 
entre uma consoante e uma vogal : — aj'ea (arena). 

E' consequência da contracção dos vocábulos pela queda da 
consoante média ou da syllaba de derivação e da tlexâo.- 

3.^ — E' longa a vogal nas terminações do sin- 
gular em ó' ou z : — feliz, dirás ; nas do plural em aes 
oes, eis, es : — soes, fúteis, deuses. 

4/ — Ainda é longa quando vem antes de um m 
ou n seguidos de uma consoante inicial : — gambia 
dansa. 

5.^ — Também é longa quando se acha na penúl- 
tima syllaba antes de s, z, e r. 

6.'' — E' longa toda a syllaba contracta : — 7nesmo, 
pôr, ver, seta, crença. . . = meesmo, poer, veer, seeta, 
creença, credencia, etc. 

7." — Os diphthongos são geralmente longos. 

S."* — Em regra, a voçral alonQ;a-se antes das con- 
soantes dobradas, principalmente rr, e ///, 7i/i. 

9/ As vogaes atonas, principalmente quando 
seguem a syllaba tónica, são geralmente breves, e é 
esta a causa de frequente simplificação dos diphthon- 
gos latinos no portuguez, 

A vogal final é, em regra, breve. 

A longa accentuada do radical abrevia-se muitas 
vezes quando se lhe ajunta um suffixo ou uma flexão, 
que deslocam o accento. 

A quantidade, elemento material, devia necessariamente enfra- 
quecer-se e variar, já pelas idyosincrasias do fallar do povo, já pela 
tendência para a contracção. 

4 



26 



Eslas mesmas causas se observam na lingua latina e explicam 
a obliteração da quantidade na lingua fallada, e lambem a abre- 
viação do o final dos espondeos na e])oclia de Augusto, do / final 
longo dos verbos, etc. {Cornelio \>ox Conielius, deiiro por dederunt, 
etc), breves accentuadas consideradas longas nos hymnos de 
S, Ambrósio, os herametros de Commadianos sem a quantidade; o 
metro janibico de 12 syllabas accentuadas na 4" e 10", origem 
do endeeassyllabo italiano, e do decassyllabo francez da idade 
média. E' claro pois — conclue Reinach {Pliil. C/ass) — que desde 
os Romanos a accentuação vencera a quantidade. 



TERCEIRA LIÇÃO 



Origem das lettras portuguezas; ieis que presidem á permuta 
das lettras; importância d'estas transformações phonicas 
no processo de derivação das palavras. 



ORIGEM DAS LETTRAS PORTUGUEZAS 



a) VOGA ES 

A. — Em regra, representa: i?, um AJatinafivre, 
atono. inicial, médio ou final ; tónico seguido de 
liquida; em posição (principalmente antes de /, r, ^■, 
ou nasal) : as/io (asinus), saúde (s^lutem), />or/ci (porta), 
òaróa (barba), campo (campum) ; 2?, um E latino : eba- 
710 (ebenus), rainha (regina ; port. arch.-reinha) ; 
3?, um I originário eiu posição: balança (bilancemj, 
maravilha (mirabilia) ; 4?, um o : lagosta (locusta),. 



28 



dama (domina); 5?, um u: irancar (truncarc), ant. 
esbalho =1 esbulho. 

E. — Origina-se : 1?, de um e latino, livre, atono, 
inicial, médio ou final ; em posição (principalmente 
depois de guttural), ou ainda de um e accentuado : 
egreja (ecclesia), legume (legumem), régua (regula) ; 
2?, de um A atono ou tónico, livre ou em posição: 
alegre (alacris) ; 3?, de um i longo ou breve : cercar 
(circare), receber írecipere) ; 4", de um o: frente (fron- 
tem); 5?, de íe e .e : feno (foenum), cebolla (caepulla). 

I. — Deriva: 1?, de um i latino longo, atono ou 
tónico (principalmente na penúltima syllaba) : liquido 
(liquidus), espinha (espina) ; 2?, de um e longo, breve, 
ou accentuado: rim (ren), isca (esca) ; 3?, de um ae : 
cimento (csementum). 

0. — Tira origem: i9, em um o latino tónico ou 
atono, livre ou em posição : amor (amorem) : 2?, em 
um u inicial ou médio, livre ou em posição: 07ida 
(unda), ^(^z^^r/^âtr (gubernare) ; 3?, em um a em posi- 
ção '.fome (fames), ceroto{Q.ç:X2iX.ww\) ; 4?, no diphthongo 
latino AU : pobre (pauper), orelha (aurícula). 

O ó aberto deriva-se de um o tónico ou de um 
u : sorte (sortem), grota (gruta). 

U. — Representa: i?, um u latino, longo ou breve, 
accentuado (na penúltima syllaba) : agudo (acutus) ; 
2**, um u atono em posição : rugir (rugire) ; 3?, um o: 
tudo (totus), testimunho (testimonium). 

Y. — Corresponde ^.oypsilon grego, ainda quando 
nas palavras importadas pelo latim : analyse, lyra, etc. 



29 



Deriva também de um i ou j latino, quando 
entre vogaes (Troya), ant. mayo, peyor. 

As permutas e transformações das vogaes podem 
reduzir-se aos dous factos de alongamento e abran- 
damento. 

As suas modificações podem ser devidas á in- 
fluencia de outras vogaes ou á das consoantes, á accen- 
tuação, e também em composição á assimilação, dissi- 
milação e contracção. 

b) DIPHTHONGOS 

Os nossos diphthongos provêm: 

1? de um diphthongo originário : rt^/z/f;- (autorem), 
pouco (paucum) ; 

2? da queda de uma consoante : vaidade (va-n- 
itatem), meio (me-d-ius) ; 

3? de um a latino em posição antes de l : outro 
(alterum) ; 

4? da attracção ou transposição da vogal : aipo 
(apium),y^/r^ (feria); 

5? do alongamento da vogal : dou (do), estou 
(sto), uoute, noite (noctem), tnuito, arch. munto 
(multum), freio (frenum). 



* Não admitto vocnlisaçâo das consoantes, posto tcdos os 
philologos se esteiem nessa theoiia. A queda da consoante trouxe 
o inevitável alongamento da vogal, que a principio era representada 
por imi nasal o\\ pela reduplicação da vogal. Qualquer que seja o 
gY\.\}^o pt, cf, ii, etc, (preceiio — ])receptus, direito — directus, etc.) 
deu-se sempre a queda da i* consoante e o alongamento da vogal 
precedentç. — Pacheco Júnior [Grammatica his/orica.) 



30 



Ui só é diphthongo nasal em mui, muiío, que 
soam mtiin mtnnto. 

Os diplithongos nasaes (am, an, ão, ãe, õé) deri- 
vam-se das desinências latinas anus, onem : christãos 
(lat. cJiristianus, p. arch. christiano, ainda hoje con- 
servado como nome próprio), benção (benedictionem) ; 
ariin, . . . 

As modificações das vogaes em posição dependem 
maiormente, não de sua tonacidade ou atonicidade, 
mas da natureza da primeira consoante que se lhe 
segue. Assim, por exemplo: si fôr /, a vogal diph- 
thonga-se em o?i ( outro— ^\X.itrv\m ), ou simplifica-se 
scopro — scalpruni); si fôr guttural, esta cahe, e a vogal 
diphthonga-sepor alongamento (feito — factum, direito 

— directum). E o mesmo acontece ao / no grupo 
pt, etc. : — preceito — preceptus * 

As modificações das vogaes reduzem-se pois aos dous factos 
de alongamento e abrandamento ; as suas permutas e sorte de- 
pendem, não somente da sua natureza, quantidade e accentuaçâo. 

— a cujas regras latinas, o portuguez na sua formação foi sempre 
adstricto — , senão também da natureza dos elementos (vogaes e 
consoantes) que as cercam. E já nos referimos á preponderância de 
uns sons sobre outros, á sua mutua reacção. 

E' esta a causa de serem menos persistentes as vogaes livres 
que as em posição. 

Em muitos casos as transformações indicadas pela phonclica 
nada mais são do que ditTerenças graphicas, cunqjrindo advertir 
que os iiossos primeiros escriplores mais .se regulavam na ortho- 
grahia pela pronunciação. Assim é, por exemplo, ipie, parece-nos, 
o diphthongo lat. ausoa.va.ou foi, oj quando se lhe seguia consoante, 



* Esta minha opinião foi publicada em 1871 ; os professores 
Fausto Barreto, Alfredo Gomes e outros aceilaramn'a; em uma 
obra deste anno, impressa na Europa por Brunot, é este também da 
nnnha opinião. — Pacheco "yunior. 



e a prova temos em que todos os povos romanos nas palavras po- 
pulares aprendidas de outiva, representaram o diphthongo latino 
sonicamente por ou e o (oiiniin, ouro, or, oro. etc.) 



C) CONSOANTES 

Todas as consoantes portuguezas vieram do 
latim. 

B — Em geral representa : i9, um h originário 
inicial ou médio: — bom (bónus), diabo (diabolus); 2?, 
um v\ — bexiga (vessica) ; 3?, de um/: — lobo (lúpus), 
cabello (capillo). 

Temos um exemplo em que o b origina-se de um/ — ábrego 
— africus; mas por intermédio de uma forma em v. 

C — Guttural ou forte (A'), provém de um c duro 
latino ou da sua equivalente qu, — inicial ou médio: — 
co7'po (corpus), nunca (hunquam); ou ainda de cc lat, 

C — brando origina-se: 1?, de um c brando do 
latim da decadência : — eco (coelum), cidade (1. p. cita- 
/é';// = civ-i-tatem) ; 2?, de um q {qii): — cinco \<:\y\\\\- 
que)* ; 3?, de um x : — tecei' (texere) ; 4? de ss: — ruço 
(russus) ; 5?, da combinação ti seguida de vogal : — 
graça (gratia), nação (nationem). 

Os grupos t-ia, t-ie, t-io, t-iii, cumpre advertir, soavam já 
no latim d e /z; nos antigos monumentos até o Sec. de Augusto 
concorrem aquellas formas parallelas ás em ci, ssi, si, (eciani, alter- 
ca sio/ie.') * 

Nos séculos V, VI e VII, os Romanos pronunciavam z por /. 



* Cp. francez — i cttiç; it. cinque, hesp. cinco. 
í Dahi o som brando em todas as linguas neo-latinas, — fr. na- 
tionj it. naziofiej hesp. nacion, etc. 



D— Deriva: i", de um d primitivo (inicial ou 
médio): — dedo (digitus), surdo (surdum); 2?, de um 
T médio, abrandamento este muito frequente nos 
vocábulos de origem popular : — todo, tudo (totus), 
vida (vita). 

F — Esta consoante representa: i", um f ou ph, 
originário: — frasco (^^'à.^Q.2), cofre, (cóphinus) ; 2.°, 
um V : - — fisgar (viscare) ; 3?, o khe árabe (=:/ aspi- 
rado) : — alforges (alkhordj). 

A transformação do / em v, e 7'ice-versa, foi mui fre- 
quente na provincia hispânica depois do dominio árabe. 

G — Provém: 1?, de um (i forte ou brando primi- 
tivo (principalmente inicial) : — gosto (gustus), 7iegro 
(niger) ; 2", de um c forte: — fagar (pacare), 
lagrima (lacrima) ; 3.°, de um (i : — águia (aquila) 
guitarra (ar. quitarra) : 4.", de um v: — gastar 
(vastare) ; 5?, de um w germânico : — trégua (triwa) 
guante (wantus) * ; 69, de um gamma grego : — 
glotte (glottis). 

O G brando origina-se : — 19, de um <; brando 
primitivo : — gemer (gemere) ; 2?, de um c brando — 
muito frequente no século XVI : — aduger (addu- 
cere) ; 3?, de um z: — gettgibre (zinziber), ant. 
prigon (presionem). 



> Lat. pop. wantos, Lê-se nas actas Sanct, — chiroteas quacs 
vulgo Wantos vocant. 



33 



H — Representa : i.°, um h latino: — herva .• 
(herba) ; 2?, um f latino : — arch. harto, ahinco 
(= fartus ; afinco, de afico) ; 3?, a aspiração grega. 

Não é modificação phonica ; mas, propriamente fallando, 
uma simples notação graphica e etymologica. 

J — Deriva-se : i9, de um j e G brando latinos ; 
2?, de um z ou s : — gargarejar (gargarisare), 
arch. cajo77i, cajão (occasionem) ; 3? de um hi (i) : 
— JaciíitJio (Hiacinthus) ; 4?, de um s, seguido de 
1 : beijo (basium), cerveja (cervisia) ; 5?, de um d, 
seguido de I :—^'/?;';;^/ (diurnalis), Jioje (hodie) ; 69, 
do dijint árabe : — jarra (dijarra, dijarres) ; julepç 
(djulab). 

Representa o abrandamento do dj, cujo som ainda persiste 
em alguns ângulos de Portugal e em S. Paulo (no linguajar 
caipira): — t/Já, tijogo, (ige?ite, ^ ainda no galleziano, provençal e 
italiano. 

A permuta do d pelo g brando ouy já era usual no latim do 
século IX ; e o (//' representa um verdadeiro som românico. 

K — Representa, ainda que inorthologicamente, 
o c/n grego : — Kisto (chistos), killogramma {chiio e 
g7'amma). 

L — Provém: i9, de um l originário — inicial, 
médio ou final: — lettra (littera), pello (pillus), sol 
(sol); 29, de um r: — palavra (parábola)'; 39 de um 
N : — arch. lomear (nominare), alimal^ Bolonha (Bo- 
nonia), etc. 



1 Does. Secos. XIII e XIV — parava, peravaa,perabola. 
* Estas e outras amostras ainda perduram na linguagem in- 
culta de Portugal. 

6 



Em/Vz/vv//' (juzgar) do \at.j//d (i) carc não foi, — parece-nos — , 
o D que se coveiteu em \. port., mas sim este que se inteicallou 
por motivo euphonico, .de[)()is da queda do dental. 

Em lembrar o l não representa um ni latino, pois não deriva 
directamente de incmorare, mas da forma interniediaria port. nem- 
brar. 

M — Tem por origem : i9, um m typico inicial, 
médio ou final: — morte (niorteni), homem (howinew); 
2?, um N, principalmente final : — bem (ben-e), bom 
(bon-.us) ; 3?, um b em mormo (morbum) ; 4?, repre- 
senta, ainda que raro, um c final latino : — nem (nec), 
sim (sic). 

Não somos hoje accordes com os que acreditam na permuta 
do rlat. por um m port. Acreditamos que a n.isal foi introduzida 
tão somente para o alongamento vocálico, tanto mais que o c final 
não soava na pronuncia. 

N — Origina se : i?, de um x inicial, médio ou 
final: — nariz {\.h. nares), mina (idem), joven (^]w- 
ven-is), hysson (v, asiática) ; 2", de tnn m inicial ou 
médio :-^ — nespera (mesphiluni). r<v//í2'/-(comp'tare); 3", 
de um l: — ;//"t'í'/ (libella, p. ant. //rt*/, olivel), mortan- 
dade (mortalitatem), 

P — Tira origeni : em um P inicial ou médio 
(geralmente protegido por imia outra consoante, 
r, /, ou p) : — pae (pater) . . . ; 2'.', em inn i" : — soprar 
(sufflare) ; 3^, em um i! : — alparca (ant. abarca ou ala- 
barca = árabe albaoat). 

Q — Provém de um o originário ou de imi c 
forte. 

R — Origina-se: 1?, de um r inicial, médio ou 
final :— rainha (regina), direito (directas), /ar (par) ; 



35 



2?, de iim l: — obrigar (obligare : port, ardi. e ant.— 
oblidar, ohligar); 3V, de um x — sarar (sanare). 

S — Deriva-se : i*.', de um s originário : — só 
(solus), casa (1. p. casn) ; 2?, de um c brando latino: — 
visinJio (vicinus), amizade (amicitatem). 

SS — Esta consoante dupla origina-se de ss ou 
X : — Icissar per Icixar (Sec, XIV), ou ainda de uma 
assimilação — assas (ad satis). 

T — Origina-se de um t inicial ou médio : i?, teutpo 
(lempus), estado (status). 

V — Vem: i?, de um v originário inicial ou 
médio: — verdade (veritatem); calvo {ç-^xvwá); 2?, de 
um ij cavallo (caballu^), //í?rvr (habere) ; 3?, de um f: — 
ourives (aurifex) ; de um r, povo (populus), escova 
(scopa). 

Pistas ulliinas, en» geral, passaram pelas formas intermediarias 
em u: — poblo, poblança^ poboaçom, pobLulor. (Sec. XlIeXlII). E 
nisto cumpre aitentar. 

X — Origina-se : i?, de um s, se, es ou ss lat. : — 
bexiga (vessica), enxugar (ccsucarc) ; 2?, da chiante 
árabe sen — oxalá (inshallah), xaqueca ou enchaqueca 
(schaqueca). 

Z — Representa: i", s latino ou c brando: — 
p7'azer (placere), juizo (judicium), fazer (facere) ; 
2?, um (^)U : — cozer (coquere); 3*?, a combinação 
latina ti : — razão (rationem), dureza (duritia) ; ' 4?, as 
terminações \2X\k\-x% ace, ice, oce — que também eram 



* Porque, já vimos, ti soava ç. 



36 



as portuguezas — feliz {{óxce), feroz {í&rocç) ; 5?, um x 
(noz = nox, voz = vox ) ? . . . 

Estes últimos podem derivar do nome lat.; mas geralmente 
todos consideram-os moldados no accus. — voceni, etc. Não vemos 
razão para rejeitar-se o nom. (Vide — Pacheco Júnior. — Pho- 
nologia). 



d) CH, LII, NH 

CH — Os Romanos desconheciam o nosso eh 
com o som de x, e que os nossos maiores, pronun- 
ciavam tsche, como ainda hoje os da Beira, Minho, 
S. Paulo, os Provençaes, Gallegos, Italianos, etc. E 
som romano, genuíno, que passou para a Inglaterra 
por influencia franceza {Charles, cherry). 

Os Beirões dizem, e mui corretamenta, tchapéo, 
tchd, etc. 

E difficil precisar com acerto as varias relações 
etymologicasd'estaIettra complexa. Deriva-se, porem, 
em geral: i9, dos grupos latinos cl, pl, fl: — chamar 
(clamare), chorar {^Xordívo), chamma (flamma) *; 29, do 
c forte latino (seguido de a q\\ i) : — charrua (carruca), 
marchante (mercatitem). 

Ch duro=: K, sem o som chiante, deriva-se do 
latim : — chrístão, monarchia ; do chi grego : — chiro- 
mania ; do chet hebraico: — chemibím. 



* Em does. do sec. XII, como p, ex. no Foral de Évora, en- 
contra-se afiar — achar, etc. 



Ò7 



Algumas vezes a palavra latina dá-nos duas 
formas divergentes, uma que conserva o c duro, outra 
que o transforma em ch chiante : — capa, chapa. 

Já era frequente nas inscripções da Republica o emprega do 
ch por c antes das vogaes e dos dijihlhongos ; e esta orihogtaphia, 
que reviveu na época imperial, era a vulgar nos tempos de Au- 
gusto : — chcniiirioncs, choronac, etc. 

Nos nossos does. antigos encontram- se as formas charidade, 
chato, etc, ao ])asso que — gamar owjamar por chamar (clamare), 
e ainda acado por achado (doe. de 141 8), etc. 

O CH parece ser um abrandamento de dj. 

LH — Esta consoante dupla provém: i?, dos 
grupos latinos bl, cl, gl, pl, tl : — ralhar (rab-u- 
lare), orelha ( auric-u-la ), coalhar ( coag-u-lare ), í"í- 
rí7///í?(escop-u-lus) ; 2?, das combinações latinas /<', //.• 
— palha (palca), batalha (battualia). 

Neste segundo caso é clara a funcção do h, que se limita a 
representar o i palatal latino, indicando ao mesmo tempo a atoni- 
cidade da vogal -.—Batalha, palha, mulher, etc, soam perfeitamente 
— batália, palia, miilicr. * 

Esta molhada corresponde etymologicamente ao li, hesp , 
mas o modo de represental-a graphicamente foi tomado do ])ro- 
vençal. Nos séculos XIV e XV, porem, representa vam-na indiffe- 
rentemente por i.l ou l: — filo e filio, melor e mcllor, migala e 
inigalla, ele, sendo de notar que nos primeiros documentos da 
línguas essas palavras eram escriptas sem o elemento consonantico 
{uioyer, w^-t?/), como aintla se pronuncia em S. Paulo e em certos 
logares de Minas Geraes (/fti^ filho, /////■/>'= nndher, //</ = telha, 
teiado, w/í7 = milho, etc.) ' 

Em nosso parecer, esta molhada — exclusiva das linguas 
néo-latinas — não se deriva do céltico. 

A's vezes o // representa signal etymologico, e não se molha 
com oh — ^^entil homem. 



' Era o processo seguido no século XIV {cambhar, saâha), 
á maneira do ombriano e provençal. Os Bretões, os Celtas, os 
Bascos e os Iberos também possuem esta molhada. 

* E esta é a pronuncia provençalesca e parisiense do //( = Ih). 

Para maior explanação sobre as molhadas Z/Te A'Iíy V. Pa- 
checo Júnior — J^evisfa Brazileira, 



38 

NH — Apparece na liiigua desde o século XIII, 
e a sua adopção foi consequência lógica do emprego 
do Ih. 

Deriva-se : i?, de nx originário : — grunhir (grun • 
nire); 2?, de um \ simples: — í"í?/;///í//(7 (caminus), vinho 
(vinus); 3?, de um n seguido de um e palatal: — aranha 
(aranea), vinha {\''\w^2Í)\ 4?, dos grupos c;n lat.: —anho 
(agnus), desdenhar (desdignari); 5?, de um mn ou x 
(no port. ant.): — danho -^^^-^ damno. 

Este som era conimiun no ibero e céltico ; as lingiias néo- 
latinas, porem, lierdaram-no directamente do latim, pois que, 
— certo — , os Romanos pronunciavam ;,v/ =»= ////, e não como Hoje 
o fazemos, dando som furte ao o {<ii^ m/s, //tirx-/i//s). E é prova «ia 
nossa asseveraçcão o ter aquelle grupo latino passado pnra as 
línguas néo latinas, com o mesmo som (fi/i) que conservam em 
todas as palavras de fundo popular. 

No século XVI ainda i/iag/i()^o^.\:\. nianho: e d"essn pronuncia 
temos vestigio em tamanho (::= tão manho, tão magno). 

Nos primeiros documentos da nossa lingua, esta 
molhada era representada pelas mesmas lettras lati- 
nas {g}i) '. — pegnoraj; segnor, etc , ou por////. 

Os elementos g e n soam separados somente 
nos vocábulos de creação artificial ou origem erudita 
(estag-nado, ig-neo). 

Em anhelo, anhelar, anhelito, e nos vocábulos 
formados de derivados latinos com o prefixo /'//, o // 
não se molha com o n{inh:ibil), etc. * 



* Para estudo mais desenvolvido, e maior copia de e.Kcm- 
plos — cons. Pacheco Júnior — Phonologia, Gratnin. histórica, 
Revista Brasileira, 2? vol. 



2. — As permutas das vogaes e suas transforma- 
ções, como já vimos, podem reduzir-se aos dous factos 
de alongamento e abrandamento. 

Os sons vocálicos também se transformam pela 
influencia das consoantes. 

A fusão de duas vogaes differentes é sempre 
precedida pela assimilação. 

3. — Do facto de poderem as consoantes ser 
fortes ou brandas, resultaram as leis seguintes a que 
estão ellas sujeitas nas permutas : 

r? As permutas dão-se geralmente entre con- 
soantes da mesma ordem ou homorganicas, isto é, um 
b latino pode dar um b portuguez, um v, mesmo um/ 
ou f, mas nunca um g ou 5-. 

2'? Deve-se attender, e muito, á classe das lettras 
(forte ou branda) . A tendência é sempre para o 
abrandamento; e por isso o / latino, que é labial forte, 
muda-se frequentemente em b ou v no portuguez, ao 
passo que b e v latinos raro se permutam em p ou f. 

3? Pôde dar-se a permuta de uma branda pela 
forte homorganicn ; estas transformações, porem, são 
rarissimas e só se fazem giadualmente. 

4. — A inqjortancia d'estas transformações plio- 
nicas resalia do que dissemos acima. Pouco acrescen- 
taremos. 

Adoptando o vocabulário do \2X\\\\ popular, 2.?, 
linguas néo-latinas conservaram -se adstrictas a leis in- 
stinctivas, fataes (mesologicase ethnographicas), e ao 
próprio génio do fallar nativo ; mas também sempre 



40 



subordinadas a outra lei incoercível, — a do menor 
esforço. 

D'ahi, a queda dos sons, no principio, no meio, 
no fim das palavras; a intercalação de sons eupho- 
nicos ; a permuta dos sons homorganicos ; a prepon- 
dencia ou reacção dos vários sons entre si, d'onde a 
assimilação e a dissimilação ; as metatheses, etc. D'ahi 
ainda o atrophiamento das formas populares, ao passo 
que as de creação erudita encostam-se ao typo latino 
ou grego, differindo ás vezes tão somente nas desinên- 
cias. E fácil pois assertar a camada a que pertence o 
vocábulo. 

A's vezes acontece que o vocábulo popular antes 
de se fixar, passou por uma ou mais formas interme- 
diarias. Assim, por exemplo : — povo, papel e lembrar 
não nos vieram <X\xç.Q.'í-à\\\eA\'íç: C\.q popiiliis, papyrus e 
memorare, mas pelas formas intermediarias /^<^/£? e 
poboo, papillo, nembrar, etc. A^aliira- 7ion facit saltus. 

5. — A analyse phonetica do vocábulo pôde pois 
facilmente fazer- nos remontar á sua origem, á sua 
forma completa, descobrir-lhe as intermediarias, co- 
nhecer pela estructura a época do seu império, etc, e 
achar a explicação de todas as transformações phone- 
licas porque passaram os elementos constituídos do 
typo originário. 

6. — Tomemos para exemplo a palavra mesmo, 
que se deriva do latim mclipsimíis, contracção de me- 
tipsissimus = impsimusmet. Só a analyse phonetica 
nos explica essa transformação : i?, indicando-nos a 



41 



forma latina regularmente contracta metips mus (queda 
da vogal breve) ; 2.°, a assimilação das consoantes/i" 
em i-, já mui frequente no latim; 3.°, o abrandamento 
do T. De todas essas transformações resultou a forma 
archaica portugueza medess^no, que se contrahiu re- 
gularmente em viedês e meesmo (Sec. XV), d'onde 
mesmo (Sec. XVI). 

7. — Mas se a phonetica é a base da etymologia, 
não é comtudo a única condição necessária para se dar 
no ponto da verdade. 

E força applicar essas transformações particulares 
ás leis geraes ; cumpre que as estudemos á luz da 
historia e da comparação. 



QUARTA LIÇÃO 



METAPLASMOS ' 



1. — Dá-se este nome a certas modificações 
accidentaes no systema phonetico, de maior impor- 
tância — talvez — que as regulares, e devidas á com- 
binação dos elementos phonicos da palavra, ou ás 
varias influencias do meio. 

2. — Estas alterações são em numero de seis ; a 
saber : substituição, addição, subtracção, fusão, abran- 
damefito, reforço. 

i.° SUBSTITUIÇÃO 

3. — È uma simples permuta de lettras, devida ás 
tendências ou ás necessidades phoneticas de um povo. 



' Do grego nutaplásmos, do v. mctaplásio, transforiiiíir. 
Esta liçào é extrahida da phonologia de Pacheco Júnior 
(cap. IV). 



44 



Esta liiodificação depende da relação ou affinidade, mais 
ou menos estreita, entie as lettras na sua formação physiologica, 
correspondente aos órgãos vocaes que as pronunciam. 

Dá-se a substituição por — iransformação, dissi- 
tnilação, assimilação, e transposição. 

a) Traxrformação. — Temos por excusado 
accrescentar mais nada ao que já dissemos sobre as 
leis das permutas das vogaes e equivalências das con- 
soantes. 

Notemos todavia : 

I." A permuta do li em v e vice- versa, tão frequente em 
todas as linguas romanas, e já vulgar na linguagem popular de 
Roma desde o II século da era christá, parece ser devida a ter o B, 
— principalmente no dialecto latino de Africa — , o som do grupo 
DV (Belhdii soava dvel/um, ele.) 

2° O c já tinha o som da sibillante branda antes de e e i no 
latim vulgar da decadência; o g antes d'essas vogaes, — e na 
mesma época — , soava como a chiante palatal j ; a transformação 
do D quando seguido de ia, ie, io, iii, remonta ao II século ; o 
valor phonetico da dental branda T antes d'esses grupos vocálicos 
já era o da guttural branda c (// =<-i) desde o V século p. C; a 
permuta do u latino em z portuguez acha explicação no antigo 
som da dental (= (/sj. 

3.'' A transformação de certos sons explosivos em sibilantes 
palataes nas linguas néo.-latinas, indicam apenas mais um valor 
phonetico da Unguagem popular de Roma. (V. lição 3") 

òj DissiMiL.AçÃo. — Dá-se quando os dous sons 
se repellem ou reagem : — Marselha {Masselha). 

c) Assimilação. — E' a attracção phonetica de dous 
SG.ns ; a preponderância de um sobre o outro : — /al- 
iar (fab-u-lari), pessoa (persona), esse (ipse). 

Pôde ser coinpleta ou incompleta. 

Toda consoante dobrada é consequência de uma 
assimilação. 



I 



45 

d) Transposição. — Esta mudança de logar da 
lettra ousyllaba, dá-se de três diíiferentes modos : por 
7netathese, hyperthese, anastrophe. 

i9 Por metatliese * quando a transposição é na 
mesma syllaba: —pobre (pauper), patil {^2\ws). 

As liquidas são as consoantes mais sujeitas a estfi 
transposição. 

Nos escriptos amigos (Secs. XII a X\'I) são em numero mais 
crescido as formas metathesicas: — osínar ^ommar .stnrmeií/o, freiíioso, 
/rol, etc, muitas das quaes ainda persistem na linguagem do povo 
{pirgunliir, prcsistir. ci avão, etc.) 

2? Por hyperthese, quando a mudança se effec- 
túa entre lettras de syllabas diversas: — beiço (basium), 
aceíro (1. b. acerium). 

Nos escriplos dos autores antigos, principalmente dos secs. 
XV e XVI, encontrani-se muitos exemplos hyperthesicos, alguns 
dos quaes ainda são conseivados na linguagem plcbéa : — picne {^o- 
hvc),faíiairo, co/ilrayio, etc. 

3? Chama-se anastropJie^ à inversão quasi que to- 
tal das lettras da palavra typica: chiiiella (1. b. planelli), 
ladainha (lat.litania) ^ 

Dá-se também o nome de anastrophe á inversão das palavras; 
eil-o alli, eis alli clle; e á errónea deslocação do accento tónico 
— P^S^^^*^, bi imanto. 



' Gr. mefaí/iesis, transposição. Também se pôde diir a de 
\una syllaba. 

2 Gr. anastrophe, reviramento, volta. 
' Temos também litania, ant. lidania. 



46 



2? ADDIÇÃO 

4. — As lettras acrescentadas ás palavras primiti- 
vas podem sar protkesicas, epenthesicas e epithesicas, 
isto é, iniciaes, medias e finaes. 

a) Prothese (gr. prothesís, apposição). — É, em 
geral, concequencia da lei eiiphonica, e d'este au- 
gmento temos muitas amostras no portuguez: acon- 
selhar, acredor, escrever, etc. * 

No latim (la decadência, nas inscrii)ções africanas e nas 
chiistâsde Roma, etc. são innumeros os exemplos da prothese do 
^ ou /. 

13e uso mais frequente nos escriptores antigos, — maiormenle 
a do A, — ainda é ella muito vulgar na linguagem do povo : ainos- 
ínir, alaiitei na, avoat, aparar (p. parar), etc. . . . 

O portuguez, bem como o hespanhol, regeitou o s impuro. 
Todavia nos documentos anteriores ao Sec. XV são muitas as 
formas nominaes e verbaes escri[)tas sein o e protliesico : s<:a/a, 
scfl/idudo, etc , e ainda posteriormente. Os vocábulos que em portu- 
guez começam por um s impuro, são de origem erudita {sphenoide, 
sternon, etc), aos quaes já vão todavia vencendo na lucta as formas, 
com e protliesico. « 

b) Epentiiese (gr. epeutkesís, inserção). — Tem 
por fim tornar mais eiiphonica a palavra, facilitar 
a sua pronunciação, ou reforçar-lhe o som : liuinilde 
(humilis), hombro (humerus), estrella (stella). 

No portuguez antigo a epenihese também era muito mais 
vulgar que no moderno : hoidrar, nicatia, incliidir prasi/iar, etc 



^ Cumpre também notar a prothese regional, 
* Addição ou replicação. 



4] 



São epentheticas as vogaes a, e, i, e as consoan- 
tes b, p, V, d, h, l, r, n, s. 

São exemplos d'esta intercalação euphonica, as 
formas — aviaram-no, dissej'am-nos, etc. * 

c) Epithese (gr. epithesis). — Essa modificação é 
raríssima em portuguez, A addição de terminações 
para formar derivados não constitue propriamente 
epithese ou augmento paragogico (eiifom, èntonces, 
entonce, viartyre). 

As formas eshrile, felice, prodnze, etc. — anteriores a João de 
Barros — não são exemplos epitliesicos, mas tão somente formas 
mais encostadas aos typos latinos. 

3? SUBTRACÇÃO 

5. — O abrandamento é muitas vezes a causa d'este 
phenomeno phonetico, que pôde effectuar-se de três 
modos differentes — por apherese, syncope e apocope. 

a) Apherese (gr. aphairesis, subtracção) é a 
subtracção da vogal ou syllaba inicial : botica (apothe- 
ca), diamante (adamantem), bispo (episcopus), onça 
(lonza). 

Esta modificação é também instinctiva, e sempre motivada 
pela lei do menor esforço. 

É nniito frequente nos nomes próprios — Zé, Lota, Chico, To' 
nico. Nico, etc, que muitas vezes mais tarde soffrem a reduplicaçào 
— Z^zé, Lolota, ele. 



1 Dá-se também o nome Aq diástole (gr. diástole de diastelto^. 
dilatar) ao alongamento particular da vogal ou syllaba breve pel, 
addição de uma consoante. 



48 



ò) SvNCOPE (gr. sygkopc, corte, de syn, com : coptih 
corto). — E o desappareciniento, a queda, da vogal ou 
syllaba breve, quando precede immediatamente a tó- 
nica : as7io {2íúx\w%), pregar (predicare). 

As consoantes podem também ser s)'ncopadas, e 
d'ellas mais frequentemente — b,g, v, n e /, d, p, r, s : 
frio (frigido), eu (ego), ríó (rivus), cruel (crudel), rosto 
(rostrum). 



Estas alterações phoneticas, já vulgares na linguagem de 
Roma {/rii^do p. fn\i:;id(>, mesa \>. viensa, ele), são devidas, em regra, 
á tendência popular para abreviar as palavras. 

A suppresscão de syllabas medias, para maior ra[)idez ou sua- 
vidade na pronuncia, deu-nos ás vezes vocábulos muito apartados 
dos typos primitivos ://///// (fundibulum), quaresma (quadragésima), 
mister (ministério), dovia, Sec. XIV" (hebdomada), anco (=r angulo, 
em J, de Barros), encréo (= incrédulo), etc. 



c) Apocope (gr. apokope; apo, fora de koptô, 
corto). — E' a suppressão de lettras ou syllabas finaes : 
m7n,gran. 

Esta alteração phonetica, por ventura a mais im- 
portante, é consequência do clima, cuja influencia não 
podia deixar de ser immensa nos systemas phoneticos 
dos diversos povos. 



1 — Das consoantes finaes latinas, que eram essencialmente 
«/, i\ s, f, só as duas primeiras persistiram no portuguez : as outras 
{/,s. . . .) originaram-se da queda das vogaes atonas da ultima syl- 
laba, que tornaram finaes consoantes médias latinas. 

2 — Em latim, já o m final das flexões nominaes, e verbaes 
da i" pess. sing. do Ind. e do opt, activo, bem como o ;//, s, / e (/, 
cabiam geralmente, do tempo dos Graceos ao de Augusto e no latim 
popular da decadência -.pão p. p/ius, ello p. illiid, es^ est, etc. 



49 



4? FUSÃO 

6. — Esta modificação phòiietica pôde dar-se não 
só entro as lettras, senão também entre syllabas. 

Pode ser completa ou incompleta, perfeita ou im- 
perfeita. 

7. — É completa quando ha contracção do vocá- 
bulo, isto é, quando se omittem lettras ou syllabas me- 
dias: semana (sept-i-mana) ; incompleta {^or synizese), 
quando pronunciamos duas vozes simples e livres 
como se ellas formassem grupo vocálico ou diph- 
thongo : Deus. 

8. — A fusão é perfeita: i?, por synalepha, quer 
supprimindo a vogal final antes de vogal inicial da pala- 
"vra seguinte {esf outro, minJi alma), quer omittindo a 
inicial d'esta ultima ; 2?, por syneresis, * que consiste 
em formar de duas vogaes uma única longa {pôrc=z 
poerz=i\at. ponere), ou reunir, diphthongando-as, duas 
syllabas sem que soffram alteração : or-phe-u, or-pheo\ 
39, pela crase, * quando se contrahe em uma syllaba 
longa a final de uma palavra e a inicial da seguinte 
{áquellé), etc. 

5? ABRANDAMENTO 

9. — Já no correr d'estes dous últimos capítulos 
deixámos indicados muitos exemplos {vida=zv\tdL).. . . 

1 gr. synairesis, contracção. 
» gr. krasis, mistura. 



50 



Cumpre notar : i",é esta a primeira modificação phonetica 
em relação á quantidade ; 2°, que a ella deve se muitas vezes a 
queda das lettias ; 3.°, que o abrandamento é consequência natural 
da influencia climatérica, principalmente o das vogaes finaes. 



69 REFORÇO 

10. — Sob esta denominação comprehende-se a 
prolação ou alongamento dos sons, que pôde dar-se 
por èpenthesey prothese eparagoge. * 



* Para maior desenvolviuiento do ponto V. — Pacheco Júnior 
-Est. da ling. vem, — metaplasmos. 



QUINTA LIÇÃO 



Dos syatsmas orthographicos ; caudas da sua irreg-alaridade 



I. — São três os systemas orthographicos — pho- 
netíco ou sonico, etymologíco, e niixto ou usual. 

2. — A primeira orthographia devia necessaria- 
mente ser phonetica, isto é, devia consistir na repre- 
sentação graphica dos sons, infiltrados pelo ouvido. 

E a lingua portugueza foi fallada muito tempo 
antes de ser escripta, o que também explica as varias 
modificações porque passaram os vocábulos. 

3. — A todas as incorrecções e innovações dos 
povos ignorantes, oppoz se a corrente erudita que 
luctou pela tradição da orthographia latina. 

D'esta luta sahiu mais vezes vencedor o uso 
tradicional. No Sec. XVI ainda era muito irregular a 
orthographia ; mas a influencia clássica, já manifesta 



52 



no século anterior, era impedimento a que a ortbogra- 
phia acompanhasse as vicissitudes phoneticas do 
vocábulo. 

Por fim, os eruditos começaram systematicamentc 
a vasar as formas portuguezas em moldes latinos, 
posto que substituindo as lettras latinas pelas corres- 
pondentes no portuguez {senhor — segnor, poblo — povo, 
outro — altro, etc.);* restabelecendo algumas que já 
haviam desapparecido {contar — computar, anco — an- 
giiflo, etc.) ; supprimindo algumas erradamente interca- 
ladas pelo povo {aínigno, loguo, cuigo, etc ) 

E no século XV o capi iclio dos Uaductores, ainda mais apar- 
tou a lingua da sua evolução natural. Os eruditos em tudo mais 
se encostaram á autoridade latina ; foi a cultura litterari.i, que intro- 
duziu crescido numero de vocábulos importados immediatamente 
de autores latinos, e apenas modificados na terminaçjio. 

4. — A orthographia etymologica, e que consiste 
em escrever o vocábulo com as mesmas lettras da 
palavra originaria (com excepção das flexões e termi- 
nações), mais tem occorrido aos homens eminentes, e 
d'elles mais tem sido preconisada que 7\ phonetica. 

Da erudição etymologica, porem, ha resultado 
erros de formas por enganos de origem {charo, /lo, 
etc) 

5.— A pronuncia, variando de época para época, 
de provincia para provincia, de cidade para cidade, 



* Como já dissemos na Intr. á Gramm. hist. : são de mera 
convenção as relações entre o signal escripto e a palavra que o 
representa. 



53 



ás vezes de aldêa para aldêa, e mesmo de escriptor 
para escriptor, " é escabroso pioblcnia tentar accor- 
dar a escripta com a pronuncia. 

Cada terra ou provincia, julgando ser ahi onde a 
lingua correctamente se falia, não se subordinará ás 
locuções que considera peiores que os seus dizeres, e 
até estrangeiradas. 

Onde pois o juiz cuja competência nesse pleito 
não fosse sempre desconhecida? 

6. — As lettras que os neographos desterram por 
ociosas, não são inúteis — servem para attestar a ori- 
gem do vocábulo, a sua evolução, a camada a que 
pertence, etc. Esse desterro de lettras daria em 
resultado numero crescente de homonymos, o que 
seria um mal, 

7. — Si a orthographia acompanhasse a pronun- 
cia nas suas frequentes modificações, difficil seria 
entendex-se um escriptor que nos houvesse precedido 
um ou dons séculos ; si fosse sinceramente etymologica, 
sel-o-hia outrosim ridicula e pedantesca. 

8. — Deve-se pois preferir por sobre todas, a 
orthographia mixta, a que hoje estamos subordi- 
nados. 

As palavras de origem popular, que foram 
aprendidas de outiva, escrevem-se phoneticamente ; 
as de fundo erudito, importadas dos escriptores latinos 
ou gregos, devem ser representadas com as suas 
relações etymologicasí/r/í? — -ffigido, respeito — respec- 
tivo, suor — stidorijico, etc). 



54 



E assim fica extremada a linha divisória, que 
separa o léxico popular do erudito. 

7. — A variabilidade da pronuncia, quer por mo- 
tivo orgânico, quer ainda, pelo accordar das formas 
derivadas por influencia popular ás que liie serviam 
de typos, foi consequência natural da irregularidade 
orthographica, ainda manifesta nos escriptores do 
sec. XVI, e ás vezes no mesmo escriptor. 

8. — Nesse século imperavam as formas despois, 
friLÍto, enxuito, mico, antre, sojugciclo, cJiuiva, coresma, 
abobeda, estainago, piadoso, calidade, pranta, contrairo, 
piibríca, giolho, cudar, devação, tevcras, resíio, ingrez, 
frol, craro, etc, porque mais persistia na phoneiica a 
permuta áob pelo v e vice versa, a do /pelo r, a queda 
do d médio ou a troca do o pelo u, do e pelo i {pidir, 
firir, disciilpar, etc), o qu soava c duro, etc. 

Não havia ainda então regras fixas, mas somente 
hábitos grapkicos, essenciahuente variáveis segundo 
as épocas, as províncias e aindi os escriptores. 

8. — São d'esse século também as formas trado, 
acto, etc, porque soavam czA^ trato, mas que nas épo- 
cas anteriores eram pronunciadas anto, trauto, etc. 
As alterações phonicas deram-nos do sec. XIII ao 
XV as formas participaesem <?íi^í?, mio, ido ; a mudança 
da terminação om em am e ão etc. 



* Com. j. F. Castilho — Oií/io<^nip/iia; Bjscoli — iil. ; Paclieco 
Júnior — A Reforma de orthographia, 1879, e neste ponto, como em 
t)Ulios, a i^rainin. port. tio distincto professor Júlio Ribeiro, trabalho 
que consideramos de grande valor, posto as nossas opiniões eni 
alguns pontos não coincidam. 



DD 



9. — Em remate. — A irregularidade da orthogra- 
phia acha explicação nos processos especiaes, regidos 
quasi sempre pela euphonia, que, conforme o clima, 
usanças, costumes, gráo de civilisação e movimentos 
políticos, vasani o elemento material dá palavra em 
novo molde. Acontece muitas vezes que a pronuncia 
verberada em uma época é mais tarde a corrente, no 
emtanto que a até então tida por certa, é considerada 
errónea e reprovada. ' 

E essa vacillação perdura até que se fixam as 
regras únicas de escrever os vocábulos, " ainda quando 
diversíssimo seja o modo de proferil-os. " 



í Freire, p. ex.: condemna celeuma, chusma, resposta, pestane- 
jar, estômago, ele, e dá como correctas as formas celcusma, churma, 
pstanear, reposta^ estamago, anteado, etc. . . . 



SEXTA LIÇÃO 



Morphologia : estnictnra da palavra : raiz ; thema, terminação ; 
affixos.— Lo sentido das palavras deduzido dos elementos 
morphicos que as constituem : desenvolvimento de sentidos 
novos das palavras. 



I. — MoRPHOLOGiA é a parte da grammatica que 
estuda a forma das palavras, sua flexão e classificação. 
E' — por outras palavras — a theoria da formação 
dos vocábulos. 

2. — A analyse de qualquer palavra, revela-nos o 
elemento essencial e irreductivel, contendo a idéa prin- 
cipal, — a RAIZ ; e vários elementos accessorios que a 
modificam — os affixos. 

A raiz é, consequentemente, parte commum a 
todas as palavras de uma mesma familia. 

3. — A reunião da raiz aos affixos é que constitue 
a palavra no estado actual. 



58 



4. — Os affixos distinguem-se &m prefixos e suffi- 
xos (fixos antes ou depais): são elementos determinantes 
ou modificadores. (V. Lições 176 18). 

5. — As raízes não representam a forma da linguagem primiiiva, 
simples, rudimentar, o seu periodo embryonario, emfim ; mas a 
consequência de diversos attritos e atrophiamenios vocabulares, 
devidos á força natural de cohesão no organismo da phrase. 

A hypothese de um periodo rhematico, isto é, em que a lin- 
guagem só constava de palavras-raizes, posto satisfaça a importante 
lei da evolução (do simples para o complexo, do homogéneo para o 
heterogéneo') não é todavia verificável. E o estudo das primeiras 
camadas da linguagem nos descobre crescido numero de factos 
contradictorios. 

Devemos pois considerar essa theoria, simples postulado de 
philologia metaphysica, mas não scientifica; aceital-a tão somente 
como instrumento lógico para a analyse do mechanismo gram- 
matical. 

As theorias da escola allemã — entre cujos propugnadores 
tanto se sobrelevou o professor Max MuUer — têm sido controver- 
tidas modernamente com argumentos do mais alto valor. 

A palavra — espelho do pensamento e do sentido — - não podia 
ter existido antes da phrase, que implica um juizo mental, a limi- 
tação de uma idéa por outra. E a linguagem é a expressão exterior 
do pensamento consciente (Sayce — Pr. of cotnp. phil.') 

Logo, a raiz não podia ser de natureza vaga e indefinita ; os 
primeiros vagidos da linguagem " não podiam ser idênticos ao 
residuo da analyse dos sons phoneticos. " 

Devem ser consideradas restos obtidos pela selecção de um 
numero infinito de palavras-phrases primitivas. O seu monosylla- 
bismo explica-se pelo producto da alteração phonetica; e a ten- 
dência da linguagem foi sempre a usura e a contracção, o menor 
esforço ou acção. * 



* Sayce — Pott. — La div. des races humaines. 

Não se deve attribuir ás raizes significação vaga, geral, 
abstracta, porque essa theoria esteia-se no principio falso da prece- 
dência do geral ao particular. (Id.) Mais. As raizes nem sempre 
foram monosylabicas : no chinez actual encontram-se ainda raizes 
dissylabicas ; no accadiano dos monumentos cuneiformes de Baby- 
lonia, nas investigações do Baniu da Africa Austral, descobrem-se 
também raizes polyssylabicas em numero cemdobrado {Edkins 
Bleek, Layce.) 



I 



59 



6. — Thema ou radical é a palavra já apta para 
receber a desinência de flexão — nominal ou verbal, 
isto é, o seu desenvolvimento flexionai. E' pois uma 
semi-flexão. 

Podemos ainda definil-o : raiz + suffixo, sem ca- 
tegoria grammatical definida, mas promptos para 
recebel-a. 

Os themas são — nomiivies e verhaes ; e, segundo as formas 
e accidentes das raizes, — redupUcaiivos {gar-gar-ej-ar), epeuthesicos 
(homemzarrão); quanto á energia de derivação — activos {^pedra, 
terra... ) e inactivos (trevas. ..). 

7> — Os verbos apresentam vários themas : um 
puro, que serve de fundamento (thema geral) ; outros 
d'elles provenientes, chamados especiaes. No verbo 
amar, ama é o thema geral ; amar, porém, é o thema 
especial do imperfeito do indicativo. 

8. — Terminação ou desinência é a ultima parte 
da palavra; a que encerra a idéa accessoria que se 
quer juntar á fundamental. 

E' o elemento flexionai, que do mesmo passo 
modifica as formas e indica as varias funcções que a 
idéa incluída no thema representa no discurso. 

As desinências, caracterisando os casos, géneros, 
números, pessoas, tempos e modos, são factores gram- 
maticaes que dão ás formas — variabilidade e vida. 
(V. Lições i6 e 17). 



Devemos notar mais, 1° que a mesma raiz pode ter diversa 
significação, e formas diversas a mesma significação ; 2" que ha 
palavras que de todo perderam a raiz : — gr. ci: = ecn = cs-c:i = port. 
ei-ini ; fr. c/6'/7 = ]at. /labcrc = de/iiòci. 



6o 



9. — A estas desinências chamam os g; ammalicos 
— de flexão ; ás que servem para formar derivados, — 
de derivação. 

Não se deve confundir a terminação (suffixo de desinência ou 
flexionai) com o suffixo thematico, que figura entre a raiz ou o 
primeiro thema e a desinência. 

IO. — Analysemos agora algumas palavras, distin- 
guindo a parte essencial, dos elementos modificadores 
que concorreram para a sua formação. Vejamos 
como, eliminando-os, chegamos ao elemento funda- 
mental, — a raiz. 

Em impermeável, se. tirarmos os prefixos im ^per, 
e o suffixo vel {= suf. lat. comp. b-ili), signal dos adj., 
e emfim o suffixo verbal a, a palavra reduz-se á syl- 
laba ;;^^, que encerra a idéa fundamental — passar, 
escoar,- em respeitável, na qual facilmente se distingue 
o verbo respeitar e a terminação vel, se eliminarmos 
o prefixo re, teremos speitar = {xç.(\w^vú.2X\v(ò spectare, 
que remonta ao verbo simples lat. specere ( = ver, 
olhar), formado da terminação movei e-re e da parte 
invariável — spec, que se encontra em todas as linguas 
indo-européas. 

Em historicamente, supprimindo a terminação «/«fw/d- (que já se 
encontra no latim com sentido de animo, disposição (bona mente), 
a palavra reduz-se a um adjectivo derivado do correspondente latino 
{histórica), e si d'elle eliminarmos o suffixo ca, teremos historia, — 
palavra latina formada do grego histor e do suffixo fem, ia, 
indicador de nomes abstractos e correspondente ao sankrito^'<í, e 
ao grego iã. Histor, é porém corrupção de Hstor, forma que se 
decompõe em Hs e tor, representando o segundo elemento \íor) o 
nom. sing. do suffixo derivativo tar — latim dâtor, sansk. dâ-tar, 
grego do-ter, (— o que dá), e serve para formar nomes de agentes 
e instrumentos {leitor, esmptor, ect.) 



6[ 



Na raiz altribuitiva '/V, o s representa uma modificação plio- 
nelica ; a permuta de um í/ primitivo. E esta aiialyse conduz-nos 
á raiz ;V/ — sansk. 7'^íía, grego o'/(/i/, forma simples do perf. da raiz 
77V/ — saber. * 

Ainda devemos notar a vogal cliamada de ligação. Inter- 
calada entre a consoante da raiz e o suffixo ou entre o suffixo e a 
terminação, não faz parte integrante da raiz ou do thema, nem da 
desinência ; é apenas de intercalação euphonica. 

II. — Nas línguas modernas, analyticas, é de 
pouca importância o estudo das raízes e formas the- 
matícas, ao envez das línguas synthetícas como o 
sanskrito, grego e latim. 

No portuguez, em consequência dos vários ele- 
mentos históricos, * é dífficíl a determinação sincera 
e criteriosa de todas as raízes, e ás vezes por ventura 
iiiipossivel. Só se pôde determinar com segurança, 
as gregas e latinas, as germânicas e algumas célticas : 

a) Latinas: — ^= d iic =^ conáuzxr, fer (for) == levar, frag = 
quebrar, Wí7^(med) ^julgar, apreciar, regular 

b) Gregas .• — arch — ser o primeiro, cop — cortar, gno — co- 
nhecer is^nsk. gnà) , sech — ler (sansk. sahj, ther — aquecer (sansk. 
ghar) 

12. — As raízes distinguem-se em typicas e ono- 
matopicas. A escola allemã, porem, divide- as em duas 
grandes classes : — attributivas, que exprimem noções 
de relações, e deuioiistrativas, que designam os seres 
e suas modificações. 

E como os seres só podem ser conhecidos por 
suas qualidades sensíveis ou manifestações activas, as 



* Bopp. — Vergl. Gramm. 

' Latim, grego, céltico, germânico, phenicío, árabe, hebraico, 
africano, tupy, etc, 



62 



raizes demonstrativas dividem se em quantitativas, 
predicativas, nominantes, objectivas, idcaes e verbaes, 
ao passo que as attributivas distinguem-se em demon- 
strativas, indicativas, subjectivas, formaes e prononii- 
naes. 

Na impossibilidcade de remontar sempre á forma mais simples, 
admittem os glottologos as seguintes combinações: 

I." — Vogal : / — ir. 

2." — vogal -f- consoante : ad — comer, 

3." — consoante -{- vogal : da — dar. 

4." — cons. 4- vogal -}- cons. : cad - — cahir. 

5." — vogal -j- grupo cons.: are — afastar. 

6." — grupo de duas consoantes -\- vogal : sía — estar em pé 
//// . . correr, escoar- se. 

7." — grupo de duas consoantes -f- vogal -|- consoante : spect 
— olhar, spas — olhar. 

8."— cons. -}- vogal + grupo de duas consoantes : vert — girar. 

9.° — grupo de duas consoantes + vogal + grupo de duas cons.: 
sparg — espalhar, spaiid — tremer. 

13. No portuguez, coexistem — e mui naturalmente — raizes 
cagnatas das linguas grega e latina : 

Grego Ijatim 

raiz ag paragoge raiz ag agente 

aug auxesis aug augmento 

gen . . génesis geti general 

gno gnosis gno ignorante 

etc. etc. 

14. — Coexistem outrosim no portuguez formas corresponden- 
tes do prefixos e suffixos gregos e latinos: 

Grego Latím 

an in (neg) 

anti ante 

apo ah 

dia dis 

etc. etc. 

icos iciis 

çn. , , , , . çns 



63 



15. — Quanto á vogal de ligação, devemos advertir que ella 
ás vezes varia lios compostos latinos e gregos: — aer-o- nauta (gr.) 
aer-\fonne (lat.) 

16. — 'Do SENTIDO DAS PALAVRAS DEDUZIDO DOS 
ELEMENTOS MORPHICOS QUE AS CONSTITUEM. ,Do qUC 

levamos dito resalta que podemos deduzil-o— da iden- 
tidade radical {^espelho espécie),^ o que constitue uma 
espécie de synonymia latente, ou da especialisação de 
afifixos, como a e in privativos {atonia, injusto), per e 
/r^ sup. {per lúcido, preclaro), os expoentes augmen- 
tativos e diminutivos {caixão, caixinha, espadim, 
quintalete, homunciilo), o suffixo adverbial mente. 

Quando as palavras são formadas pelo processo 
reduplicativo, podemos também dos seus elementos 
morphicos deduzir-lhes o sentido: — ruge-ruge, bule- 
bule. 

1 7. — Desenvolvimento de sentidos novos nas 
PALAVRAS. — o léxico, como as fómias grammaticaes 
e a pronunciação, varia de época para época. O povo 
não se contenta com exprimir o pensamento e as idéas 
novas ; é-lhe força apresental-os animados e revestidos 
em variadas cores ; não lhe basta pois o processo de 
importação de vocábulos novos de origem estrangeira, 
nem o da formação portugueza propriamente dita 



Vide Lição. 1 2 

Segundo a escola Heyscana, se deduziria o sentido dos 
vocábulos do symbolismo directo dos sons elementares : assim, 
por ex., da lettra m, inuiio = mu/um, innrinurio = mmmur, ele. 

V. Lam. de Andrade — Phi/ohgia viodi'rna e a origem da 
linguagem (Vulgarisador 18). 



64 



(V. Lições 1 7 a 24) ; aquella tendência natural e expon- 
tânea da sua vida intellectual leva-o (sob a acção da 
analogia) a alterar, renovar, e accrescerq léxico pelo 
processo modificador do sentido das palavras. 

O principio da analogia deve ser attribuido em 
parte ao instincto natural da imitação, e em parte á 
lei do menor esforço. A multiplicidade dos sentidos 
de uma mesma palavra, é pois resultante da neces- 
sidade ou desejo de adquirir novas ideassem trabalho 
de inventar ou formar palavras novas. 

E' grande a influencia da analogia — falsa ou verdadeira — na 
linguagem. Revela-se nos phenomenos de alteração phonetica, 
accentuaç<1o, pronuncia; na alteração das relações grani niaticaes, 
das regras syntaxicas, da significação das palavras; na mudança 
insensível da fórma exterior, e caracter de vocabulário. 

18. — Todas as mudanças de sentido fundam-se 
na comparação e analogia ; mas dos objectos materiaes, 
dos idéaes sensíveis, é que os homens passaram ás abs- 
tractos. 

Foi a analogia que deu origem ao que vulgar- 
mente se chama figuras de palavras {tropos — Vide 
Lição 46 ) : pé da cadeira ; a perna do compasso ; a 
cabeça da comarca, da revolução, o olho da enchada . . . 
o bronze = sino, o ferro = punhal, etc , um havana, 
um Terra nova, cognac, bordeaux, etc. * 



* Investir era pôr nas vestes, peiplexo o que está emaranhado, 
etc. , trivial o que se encontra ao atravessar a rua, etc. 

Metaphora, catachrese, metonymico, synecdoque, metalefre, 
etc. 



19- — A influencia d'essa lei é sempre obvia directa 
ou indirectamente. Assim : — €07"= lat. coi' (coração), 
tinha nos séculos XIII — XVI o sentido de desejo, 
vontade, grado {boa cor, coi" de rir) e conservou se 
na accepção de memoria {de cór; Cp. fr. par coeur, ing. 
by heart, hesp. de cor — Obs. cor = coração) ; . . . 
cabo = lat. caput (cabeça) teve varias extensões de 
sentido, — de fim, termo, limite (Sec. XII), * fazendas, 
riquezas, capital (Sec, VIII), ' logar, parte (Sec XIV); 
mídato até o sec. XVI, siofnificava macho asneiro ; 
manceba era mulher nova, até o sec. XV; depois veio 
a ter sentido de w^r^/r/> (pelas formas de transição 
manceba mundanaria — solteira — F. Lopes); coco <\ue. 
significava originariamente o fructo do coqueiro, 
designava no sec. XVI um abantesma, um papão (J. 
de B, Dec) ; ' doiizella até o sec. XVI era uma 
dama do paço, solteira; hoje — mulher solteira, mas 
virgem, ainda que maior de 25 annos (Leão CJir. 
Af. V); corja, antigamente collecção de 20 (de 
roupa, louça, etc), hoje — agrupamento indetermi- 
nado de indivíduos malandrinos, canalhas ; /íw/^r, era 
lançar finta, tributo {Ord.; Bem. Floresta), hoje — eti- 
ganar, etc. 

20. — As palavras soffrem, no dobar dos annos, 
três mudanças principaes no tocante ao sentido: i.°, a 



1 Donde ir ás do cabo. — Ao cabo de dous dias, da rua, etc. 
Cabo = cauda. 

2 Donde — cada um de seu cabo (por si). 

8 Idem no hespanhol. Rom. N. 41, pag. 119. 



66 



que depende da associação de idéas e do sentido 
novo que ella desenvolve, da especialisação, emíim ; 
2.°, a que é determinada pelo sentimento encomiástico 
ou degradativo ; 3.', a que acompanha a evolução 
syntaxica da linguagem. 

O professor Whitney, reduz as perpetuas mu- 
danças de sentido das palavras a dous processos — 
o de especialisação do geral e o de especialisação do 
particular. 

21. — Estudemos agora as principaes causas 
particulares das varias applicações de sentido nas 
palavras ; 

d) Generalisação do particular. O sentido de 
particular torna-se geral ; Alpes desde o século XI 
emprega va-se para indicar qualquer monte ou col- 
lina; oráculo era qualquer oratório ou pequeno 
templo; Belchior chamava-se o primeiro adelo esta- 
belecido, no Rio de Janeiro, e esse nome, por uma 
extensão menos natural, veiu a significar todos os 
que compram e vendem roupas e trastes usados. 

b) Especialisação do geral. O sentido do vocábulo 
restringe-se. — Britar significava arrombar ou 
quebrar qualquer cousa,* e hoje só se emprega no 
sentido de quebrar pedras ; criação designava nos 
antigos does. — todas as fazendas, bens, propriedades 



* Britar as portas, um olho, a^ lança ; aS leis, os fbraes, etc. 
(Nob., Ord. Alf., Chr. D. J. I., Galvão Chr,, etc.) — Escumuuhom 
nom brita osso (dito do povo — Ord. Aíf.) 



6/ 



(fructos, rebanhos...) e bem assim a pátria; os criados 
de El-Rei, etc. ; hoje o seu sentido limita-se (alem do 
acto de criar — crear — já originário) ao da criação 
ou propagação de animaes domésticos ; botica, que 
era qualquer loja pequena, agora só é usado tão 
somente na accepção de pharmacia ; guisar era em- 
pregado no sentido de guiar,' ajudar, dispor, ordenar, 
preparar,* e hoje só se usa no de preparar a comida. 

c) Mudaiiça de numero. — Algumas palavras 
mudam de significação quando no plural. Ex.: bem (o 
que é bom, honesto, vantajoso, conveniente) e bens 
(riqueza, propriedade); honra (estimação, culto, apreço 
que acompanha a virtude e o saber, boa fama, credito) 
e honras (terras, — sec. XIV; e publicas demonstrações 
de respeito) \ fumaça (vapor que se desprende dos cor- 
pos em combustão) ç. fumaças (tolo desvanecimento, 
parva jactância), ferro ^ ferros, prata e pratas, gloria 
e glorias, etc. . . . Dá-se quasi sempre mudança de ap- 
plicação nos pluraes emphaticos. 

d) Mudança de género. — O femenino dá mais 
extensão ao sentido da palavra : fructo fructa, lenho 
lenha, ramo rama, grito grita. 

e) Do abstracto para o concrecto e vice-versa (por 
falsas ou verdadeiras analogias: — ou tomando o effeito 

pela causa, a causa pelo effeito, a parte pelo todo e 



* Ined. d'Alc. , Ord. Aff, Vieira (guisar o engano := faze^ 
en gano). 

Calamidade, pessoa, cynismo, etc, já nos vieram do latim 
com a significação corrente. 



6S 



o todo pela parte). Mundo, corrente, terra, etc, são 
amostras da materialisação das idéas. 

f) M. de seyitido passivo para o activo, e vice-versa, 
do objectivo para subjectivo. — Hospede ^xdi originaria- 
mente o homem que dava pousada ou agasalho, dono 
de estalagem ; depois — pessoa a quem se dá hospeda- 
gem. E só nesta accepção é hoje usada. 

g) M. por encarecimento. — : A palavra, depois de 
certo tempo, toma sentido mais nobre ou elevado. Ex.- 
méco significava devasso, adultero, e hoje, mas em 
linguagem vulgar, tem o sentido de esperto. 

h) M. por degradação ou remoque. — Manceba 
era mulher nova até o século XV ; depois — moça de 
servir ; hoje, só no sentido de concubina. Manceba 
do mundo = meretriz (Lobo, Corte na Aldeia). — Pa- 
tife significava moço de ceira ou ribeirinho, hoje — 
um maroto, bregeiro ; mariola era o homem de fretes, 
que se aluga para carregar, e actualmente um dis- 
soluto, etc. ; tratante applicava-se ás pessoas que tra- 
tavam ou negociavam*, hoje só se emprega á má parte, 
isto é, com relação ao individuo que faz negócios com 
tretas e dolos. 

Muitos augmentativos já são hoje considerados 
irónicos ou pejorativos : — sabichão, santarrão, poe~ 
tdço....y e synonymos de — ignorante, hypocrita, 
máo poeta... 



* Tratar •:=. negociar em alguma mercadoria, 



69 



t) Derivação diverge7ite ou degeneração phonetica. 
E' também um phenomeno semeiologico. Comparar 
= lat. cotnparare, que significa adquirir alguma cousa 
por dinheiro. Cp. — Comparar e comprar, esmaf 
e estimar, acto e atcto, bolha bolla bulia. 

j ) Inversão da ordem, dos factores na composição. 

— Cp : — homem rico e rico homem, gentil homem e 
homef?i ge7ttil {dLVoh. pej= rico omaz. Canc. Vat.) 

Esta mudança é muito commum nos toponymicos 

— Villa Nova = nova villa, Penha Longa = longa 
penha. 

h) Origem histórica. — Assanino^=- -âiX-a^ò^ hacha- 
chi ou hachichi (lat. baixo — heissesin, assassi, assas- 
sini, etc. — D. C. Gloss.) O vocábulo árabe deriva de 
Jiachich, bebida inebriante que papel importante re- 
presentou na fanatisação dos terriveis sectários Ismae- 
linos ou Bathenianos.' — ArmÍ7iho,miisselina, cache- 
mtra, um havana, o gruyère, o paraty, o champag7ie, 
um Lerra nova, etc, lembram as localidades d'onde 
procedem esses productos; amphitryão, tartufo, etc, 
trazem á memoria personagens que de feito existiram 
ou foram creados pela imaginação dos escriptores. 
Amphitryão (comedia de Plauto, e vulgarisada por 



1 E' esta a verdadeira etyniologia, provada por Sylv. de Sacy 
{R. de VA. des Inscrípt. et belles letires), Defrémery (y. asiatique), 
Davic, etc. 

Dozy (Gloss.') é de opinião que port. não importou o vo- 
cobulo directamente do árabe, mas por intermédio do francez ou 
do italiano. 

Mas as formas acima citadas do b. lat. ? 



ro 



Molière) significa hoje aquelle que á sua mesa reúne 
convidados, e ainda o ricaço e poderoso cujo egois- 
mo obriga á lisonja e adulação ; Tartufo é uma 
creação de Molière, e representa o typo da corrupção 
embiocada sob exterioridades de santo, o typo emfim 
do hypocrita. E todos esses nomes tornaram-se 
proverbiaes (Attila, Nero, Calligula, etc), como no 
dominio da toleima são populares os de Calino, 
e os nossos Manuel de Souza e Cónego Philippe. 

Exemplo de mudança de sentido pela origem his- 
tórica, temos ainda no neologismo bofid, no sentido de 
ferro-carril urbano. Estes neologismos por mudança 
de sentido derivam de ou correspondem a um facto 
histórico; e com effeito a inauguração desses vehiculos 
públicos coincidiu com a emissão dos bonds (obriga- 
ções do Thesouro, vales). 

/) Falsa etymologia ou esquecimento etymologico : 
— Hortelã pimenta (p. mentha), respondo = re- 
ponho e resposta = reposta (no jogo do voltarete), 
braço e cutello p. baraço e cutello, come? a dous car- 
rinhos p. comer a dous carrilhos, sarabanda p. zeri- 
banda. 

m) Limitação regional ou dialectal. — As pala- 
vras ás vezes mudam de sentido da metrópole para a 
colónia, de provincia para província, etc. Estas mu- 
danças constituem os brazileirismos, americanismos, 
provincia lismos... Ex.: Babado em Portugal = cheio 
de baba, no Brazil — id., ^folhos de vestido ; capoeira 
em Po-rt. = gaiola para guardar aves, no Brazil— id., 



71 



e matagal de arvoredos teimes^ ave, indivíduos que 
atacam com a cabeça e os pés, etc. ; muqueca em Port. 
é termo de agricultura, e no Brazil — guisado de peixe 
acamarão/ calunga (voz africana) na Bahia significa 
ratinho,* em Pernambuco — boneco de pão, no Rio de 
Janeiro — companheiro, parceiro (só em linguagem 
plebéa, dial. brazil. afr.) 

«) Ellipse de palavras: — cada que (= cada vez 
que, Sec. XIII), estou que (= estou crente em 
que.) 

o) Reforço negativo. — Já era mui frequente no 
latim clássico. Ex.: nem mica, nem sombra, nem um 
piftgo.^ 

p) Por mudança de categoria grammatical: — 
babado (part.) e babado (subst.), pe?idulo (subst.) e pên- 
dulo (adj.), offícial (adj.) e officíal (subst.) 

q) Por mudança de categoria mental: — lustro 
(periodo de cinco annos),^?/^/;///^^/^ (período de quatro 
annos), feira (que ficou sendo a denominação de 
5 dias de semana.) 

r) Por mudança de accentuação ou deslocação da 
tónica: — nível e 7iívél (livel, olivel.) Nível é a pro- 
nuncia hoje corrente para exprimir um plano hori- 
zontal: nível é o instrumento que serve para se reco- 
nhecer a horizontalidade de um plano. 



* Murganho, que no Rio de Janeiro chama-se camondongo. 
V. Lam. de Andrade. — Yid, negação intensiva, 1886. 



/- 



I. — D'esses empregos metaphoricos eram os nossos maiores 
muito mais ricos do que nós, como veremos quando tratarmos 
da negação. 

Ainda poderiamos adduzir, talvez, mais uma causa para a 
modificação do sentido das palavras — a influencia do gesto, como 
por ex.: nestas phrases populares que ouvimos todos os dias e cujo 
sentido só é completo pelo gesto — por esta (se. cruz), nem isto, etc. 

2. — Na evolução semeiologica das palavras é também de 
notar a lei da inferência lógica, que constitue a modalidade funda- 
mental do raciocinio, a trajectória do particular para o geral, 
voltando de novo o sentido ao particular, onde se fixa por fim. 

Ex.: Amor = lat. amarem, passou do sentido de affeição, 
amisade, a significar — mercê, beneficio (sec. XIII), voltando ao 
sentido primitivo unicamente. 

3 Sentimento — a principio sensação, percepção interna dos 
objectos pelos sentidos, teve também a significação de opinião, 
voto, parecer ; sensibilidade physica e moral; aptidão para receber 
as impressões ; intelligencia, discernimento, consciência intima ; 
perfeito conhecimento e segura observação ; magoa, queixa, pezar ; 
máo cheiro, principio de podridão ; abalo (S. de edificio, etc.) ; e 
hoje ainda a de tendência, predisposição para alguma cousa — sen- 
timento de honra, ^^ probidade. Por este exemplo vê-se quanto 
uma palavra pôde apresentar novos aspectos, dilatar as raias da 
sua significação. 

24. — A's vezes, pois, o mentido figurado prevalece 
e tanto se vulgarisa, que o sentido próprio se perde ; 
outras, as varias applicações de sentido desenvolvem- 
se juntamente, e acabam por fazer-nos esquecer a 
relação que as liga. Assim p. ex.: — Tabefe não mais 
lembra a idéa de leite com assucar e ovos ; garganta 
de serra ou de montanha, já parece palavra distincta 
àç^ garganta, parte anterior do pescoço, etc... 

A ultima phase da variabilidade" signifieativa da palavra é a 
perda do próprio sentido {ca, la,...') 

25. — Esta importante elaboração não se limitou 
ao vocabulário e ao esquecimento das etymologias ; 



73 



estende-se mesmamente ás construcções, ás locuções 
e phrases. E a este facto já nos referimos. 

São verdadeiros idiotismos de sentido, que con- 
stituem uma das riquezas de todas as linguas, e dos 
populares passam aos escriptos clássicos. Ex.: — estar 
de asa cahida, fazer gato sapato de alguém, ter dous 
dedos de..., dar em droga, perder as estribeiras, ver- se em 
calças pardas, metter-se em camizas de onze varas, 
chegar a roupa ao couro. ...^ 

26. — Nos dizeres, apodos e provérbios popu- 
lares é que taes mudanças de applicações mais são 
frequentes : — Quem quer bolota trepa na arvore, cada 
um chega a brasa á sua sardinha, não se apanha?n 
trutOrS a bragas enxutas 

Estes factos mostram claramente a reacção da phrase sobre o 
valor individual dos vocábulos. As palavras (como acabamos de 
ver nos vários exemplos) comprehendem muitas relações — mais ou 
menos simples, mais ou menos naturaes — , certa caracterisação de 
virtualidade para todas as equivalências possíveis, " certo poder de 
symbolismo vago." 

E' nessas tendências expontâneas e fecundas dos povos que 
se descobre o laço artificial e de convenção, que torna a palavra 
pensamento, representando-o outrosim sob múltiplas formas objec- 
tivas. 



i Cav. de Oliv. vol. i.°, etc. 

10 



SÉTIMA LIÇÃO 



Da classificação das palavras.— Do substantivo e suas espécies 



I. — Entende-se por classificação das palavras, a 
distribuição das palavras em suas varias espécies ou 
partes do discurso. 

Outros definem a classificação — conjuncto das 
idéas coordenadas por géneros e espécies. 

A classificação das palavras em classes corres- 
pondentes aos grupos de idéas de que se compõe o 
pensamento, chama-se Taxionomia. 

2. — E' antiquíssima a theoria das parles do dis- 
curso ou da oração. 

O portuguez classifica as palavras, quanto á sua 
significação, em oito espécies: substantivo, adjectivo, 
pfonome, verbo, adverbio, preposição, conjuncção e inter- 
jeição, si a não considerarmos forma rudimentar, in- 
stinctiva, não exprimindo — como as outras palavras — 
idéas, ou relações (Lição nona). 

Thomson {Laws of thoughf) classifica as palavras em — sub- 
stantivos, adjectivos e preposições. Beeker classifica- as em duas 



76 



categorias — palavras nocionaes^ que exprimem noções, isto é, 
idéas de seres ou acções formadas no espirito — substantivo adje- 
ctivo, verbo, adverbio de modo, tempo e logar; e palavras telacio- 
naeSy que não exprimem noção ou idéa, mas indicam meramente a 
relação entre duas palavras nocionaes, ou entre uma nocional e a 
pessoa que falia — verbos auxiliares, artigos, pronomes, numeraes, 
preposições, conjuncções, e os advérbios chamados de relação. 

E' difficil — diz Ticknor — applicar os principios de classifi- 
cação a palavas particulares ; ellas podem mudar de classe em 
certo periodo da historia da linguagem, e ainda pertencer a diffe- 
rentes classes em uma mesma época histórica. 

3. — Tocante ás susls /uncções naíuraes, dividem- 
se as palavras em : 

a) Nominativas^ ideaes (dependentes e indepen- 
dentes). São as que servem para distinguir os seres, 
as substancias reaes ou abstractas ; as qualidades e 
acções, os diversos estados das pessoas e cousas, 
todas as manifestações da vida {nome e verbo). 

ô) Connectivas ou relativas. São as que expri- 
mem as numerosas relações de tempo, logar, numero, 
quantidade, causa, effeito, etc. ( preposição e conjunc- 
ção). 

O adverbio participa de ambas as classes. Por 
sua natureza especial é adjectivo e partícula a vezes; 
marca a transição das palavras de flexão para as 
invariáveis. 

4. — Quanto k forma, estas cathegorias de pa- 
lavras dividem-se em variáveis e invariáveis. Perten- 
cem ás primeiras os dous grandes factores da lingua- 
gem — o nome e o verbo ; * ás segundas, as partículas 



* Sob o termo genérico de tiome, comprehende-se o substan- 
tivo, adjectivo e pronome. 



77 



— destroços orgânicos ou organismos inferiores 

— muitas d'ellas sem mais existência independente. 

5. — Conhecidos os elementos que, classificados 
segundo as suas funcções ou relação com a proposi- 
ção, formam as partes do discurso, passamos agora a 
tratar de cada um d'elles separadamente mas, nesta 
e nas quatro lições seguintes, apenas sob o ponto de 
vista taxionomico. 

Do substantivo e suas espécies 

6. — Uma palavra pode, só por si, com todos os 
verbos finitos, ser sujeito de uma proposição ; ecom o 
verbo ser tornar- se predicado: — O homem morre 
(suj.), também és homem (pred.). 

Ora, a palavra que designa pessoa, logar ou 
cousa — segundo a ' idéa da sua natureza, por suas 
qualidades distinctivas — é um substantivo : — Pedro, 
Tijuca, livro, virtude. 

7. — O substantivo exprime estrictamente o que 
subsiste, isto é, o que constitue a base, o fundamento 
de accidehtes ou attributos. e por isso pode ser con-. 
siderado independente, e viver só por si. 

E' o nome de um objecto de pensamento, perce- 
bido pelos sentidos ou comprehendido. Ora, o nome 
de tudo quanto existe ou é concebido existir é um 
substantivo. 

8. — O substantivo, pois, exprime a idéa de um sêr 
vivo ou de um objecto, uma concepção ou idéa. 



78 



9- — O substantivo pode convir a todos os seres 
ou cousas da mesma espécie, ou designar apenas uma 
cousa individualmente, uma pessoa determinada : — 
rio, cão. . . Amazonas, Mário. 

D'ahi 2i sMdi àxviSdiO GCíi próprios e communs ou 
appellativos. 

IO. — O nome commum é o nome da espécie : o 
nome próprio, o do individuo. 

O nome provinda, por ex., significa — divisão 
territorial pertencente a um Estado : é o nome da es- 
pécie, o nome commum. 

A palavra Pernambuco designa uma província 
particular do Brasil, distincta de todas as outras : é o 
nome do individuo isolado, é o nome próprio . 

Os substantivos, pois, designam os seres como indivíduos, es- 
pécies e géneros. O individuo é o ser considerado isoladamente ; 
a espécie — a reunião de muitos seres, de muitas cousas (individuos) 
distinctas das outras do mesmo género, por caracteres distinctivos : 
o género é a reunião de muitas espécies. 

II. — Nos nomes communs e próprios é muito de 
notar — a compre/tensão da idéa e a extensão da signi- 
ficação. 

Por extensão entende-se o numero maior ou 
menor de indivíduos ou objectos comprehendídos na 
significação ; comprehensão é o numero maior ou 
menor de attributos comprehendídos em uma idéa 
geral. 

E — como judiciosamente pondera Ayer — a com- 
prehensão de uma palavra está na razão inversa da 
sua extensão, e reciprocamente. 



79 



Quanto mais geral for o nome, tanto maior será a sua ex- 
tensão e menor a comprehensáo. Os nomes próprios de indivíduos 
sâo pois os que teera menos extensão e mais comprehensáo (Gram. 
comp.). 

E' pois de summa importância grammatical a 
dístincção entre as pessoas e cousas, não só para a 
theoria da formação, mas também — e acrescentado — 
para o emprego das formas pronominaes {que^ çuem, 
alguém, outro, outrem). 

12. Os nomes próprios foram originariamente 
communs ; são verdadeiros substantivos significativos ^ 
Maria = soberana, Úrsula = pequena ursa, Clau- 
dina = mulher que coxêa (claudica), Theophilo = 
amante de Deus, Portugal = Porto de Cale (Portus 
Cale), Itapuca = pedra furada, Marco = nascido no 
mez de Março, Dorothea =:^áoví\ de Deus, etc. 

E ainda temos muitos exemplos do caracter 
appellativo ou significativo dos nomes próprios : — 
Rosa, Clara, Prudência, Felicidade, Ventura, Silva, 
Amoroso, Pereira, Limoeiro, Botafogo, Rio Verde, 
Aguas Claras .... * 

i.'^ Entre os nomes próprios de pessoas, distínguem-se opre- 
nome ou nome de baptismo, o nome ou nome de família, o sobre nome 
e ainda o cognome. Muitos sobrenomes sâo \\.o]tptenotnes. (Cicero, 
César, Scipião, etc.) 

Entre os Romanos o nome {nomen gentis, nomina gentilitià) 
correspondia ao patronymico dos Gregos. Todos esses nomes sâo 
propriamente adjectivos. 

2.° A lettra inicial dos nomes próprios é sempre maiúscula. 



* V. Pacheco da Silva Júnior. — Historia dos nomes próprios 
(portuguezes). Sobre os nomes de origem tupy, Cons. Martius. 
Gloss., etc. 



8o 



13. Alguns nomes communs são considerados 
próprios, quando empregados de modo peculiar, indi. 
vidual, restrictivo: - — o Senhor, a Egreja. 

14. Os próprios tornam-se communs pela mu- 
dança de applicação, desenvolvimento do sentido: 
Calepino, damasco, cachemira (V. Lição 6f) ; e ainda 
/ — no parecer de alguns grammaticos/ — quando estão 
no plural : os Mirandas, as Emilias, 

15. Os substantivos appellativos subdividem-se 
em concretos, abstractos, collectivos, verbaes. 

á) São concretos os que significam seres de 
existência verdadeira ou supposta: seres reaes cujo 
sentido nos faz conhecer-lhes as propriedades: o 
livro, o amigo. 

Exprimem uma acção, qualidade, condição ou 
propriedade, dependente da substancia que lhes é 
inherente. 

b) Abstractos são os que exprimem uma quali- 
dade, condição ou propriedade, considerada inde- 
pendente da substancia (cousa) a que se acha geral- 
mente ligada: — belleza, amizade, justiça. Aqui, p. 
ex.: não consideramos quem tem belleza, nem quem é 
amigo. 

Exprimem uma idéa de acção, condição ou 
qualidade, só existente no espirito, que a personifica, 
separando-a (por abstracção) do individuo a que 
pertence. 

Os nomes abstractos de acção derivam de verbos por meio 
dossuffixos — ão, agem, ura, menio,...os de qualidade formam-se 



geralmente de adjectivos com os suffixos— ízz/if, eza, iça... (V.l^i- 
ção 18.='). 

c) Collectivos. São os substantivos que, posto 
na forma do singular, indicam agrupamento de indi- 
vidues da mesma espécie : — armada, esquadra, reba- 
nho, pellotão, manada, corja, anno... 

Representam todavia uma cousa única; encerram um caso 
àe plural imJ>lidío _; constituem uma deflexão ou flexão interna, so- 
mente no sentido. (V. Lição 12*). 

O nome collectivo pôde ser geral ou partitivo, 
conforme indica a totalidade da collecção ou tão so- 
mente uma parte indeterminada : — o exercito, a es- 
quadra... UMA cáfila, UM ar medito, uma quantidade^ 
UMA multidão. 

O partilivo pôde subdividir-se em determinado 
e indeterminado^ segundo indicar ou não uma quan- 
tidade certa, exacta : — uma recova, um concilio,... dúzia, 
milheiro. 

d) Verbaes. São certas partes dos verbos em- 
pregadas substantivadamente — castigo, jantar. 

O Infinito é em todas as linguas, uma verdadeira 
forma nominal. 

16. — Ainda temos mais : 

a) S. Correlativos. São os substantivos communs 
considerados em relação reciproca: — Pai ç. filho, Rei 
e Súbdito. 

b) Materiaes. São os que exprimem cousas que 
não despertam idéa de individualidade, mas tão so- 
mente uma noção de aggregação : — leite, agua. 

11 



82 



17- — Todas as palavras, e até mesmo as propo- 
sições, podem ser empregadas substantivadamente. 

A formação de subst. abstractos de adjectivos ou antes o uso 
de adjectivos como subst. abstractos, é feição característica de 
muitas linguas, ás quaes dão força mui peculiar, pois que taes nomes 
não podem ser substituidos exactamente por uma periphrase. Gr. 
tò Kalòn, ali. das Sc/ione, o bello. Estas formas abstractas portu- 
guezas constituem vestígio do adjectivo neutro. 

i8. — Sob o ponto de vista da forma, ainda os 
substantivos dividem-se em simples e compostos, pri- 
mitivos & derivados. 

a) Simples: — mesa, papel. 

b) Compostos. São os formados de duas ou três 
palavras simples: 

1" — Subst. 4" subst arcõ-iris 

2° — Subst. -f" ^dj agua-ardente 

3" — Verbo -f- subst saca-rolhas, papa-moscas 

4° — Prep. -j- subst sub-delegado 

5° — Subst. -[" prep. -\- subst. chefe de turma 

6° — Verbo -j- verbo Jtige-ruge 

7° — Verbo -j- adv falia mansinho 

8° — três palavras diíferentes . . . mal me quer, údalgo (filho de algo; 

c) Primitivos: — arvore, pedra, barca.,.. 

d) Derivados: — arvoredo, arvorejar; pedreiro, 
pedranceira, pedregulho; barcaça, barqíieiro,.. 

Para maior dilucidação d'este paragrapho — V. Lições 
17 e 18. {composição e deriva (ão^ 

18. — Os substantivos communs ainda podem 
ser augmentativos e diminutivos: — komemzarrão, 
quintalete; epicenos òu promíscuos: sabiá, anta. (V. 
Lição 1 3? Flexão dos nomes, género, etc.) 



83 

19. — Os substantivos patronymicos eram na 
origem simples adjectivos indicadores da filiação. 
São propriamente adjectivos, mas pertencem hoje á 
classe dos substantivos adjectivos: — Ex.: Sanches, 
Vasques, Gonçalves, Alvares,... = descendente de 
Saficho, Vasco, Gonçalo, Álvaro.... 

Em latim esses adjectivos terminavam em — ius. 

Historicamente o subst. — com ocategoria grammatical — sue- 
cedeu ao adjectivo e precedeu ao verbo. 

Militam a favor da primeira hypothese as seguintes provas : 

1° No sanskrito antigo encontram-se subst. nos gráos com- 
parativo e superlativo, mudando de sentido pela simples forma de 
género : 

2° Certa tendência instinctiva do adjectivo, que perdendo o 
seu valor qualificativo originário veio a significar exclusivamente o 
objecto/ 

3" Especialisação de sufiixos, como se vê em latim com o 
subst. instrumentaes.* 

A segunda hypothese esteia-se nos dous factos seguintes : 

i." — Na introducção de formas nominaes na conjugação 
(infinito, supino, gerúndio, participio) ; 

2." — Na existência dos nomes abstractos em /í» no latim ante 
clássico, regendo accus. : — Quid iibi hanc curatio est (Plauto). ' 



I Bréal, Bop|). — Gr. comp. 
Idem. 



OITAVA LIÇÃO 



Da classificação das palavras.— Do adjectivo e suas espécies 



I. Vide LIÇÃO SÉTIMA 

2. — Adjectivo (lat. adiectivum, de ad-icere, por a 
par, que ajunta) é o nome que se junta ao substantivo 
para qualifical-o ou determinal-o. Designa as pro- 
priedades de um sêr ou de um objecto, de uma pessoa 
ou idéa ; serve para aclarar a comprehensão da idéa 
expressa pelo substantivo. Ex.: Homem sábio ^ sete 
livros, esta penna. 

3. — O adjectivo não pôde por si só ser sujeito 
da proposição, mas com o verbo ser, pode formar o 
predicado : Deus é justo, o homem é mortal. 

Antigamente o adj. não era parte distincta da oração, mas sim- 
ples substantivo commum. 

*' E de feito, os nomes appellativos mais indicam qualidade 
que substancia. " 

A classificação moderna, porém, íundamenta-se em que o 
adjectivo vem sempre ligado a um substantivo ou pronome, na 
qualidade de attributo ou predicado. 

Desde que não preenche essas funcções, o adj. é considerado 
substantivo ou pronome. 



86 



4. — Os adjectivos qualificam em geral os sub- 
stantivos, sem os quaes não formam sentido completo, 
ou são empregados substantivadamente : — gr. ho so- 
phos, lat. sapiens, o sábio. 

O adjectivo attributivo pode tornar-se um sub- 
stantivo {chão, frio); o circumstancial, um pronome 
{Oy este, aquelle.) 

5. — Os adjectivos classificam-se segundo a sua 
significação e forma. 

Quanto á significação, dividem-se em qualifica- 
tivos (attributivos ou descriptivos), e em determina- 
tivos (circumstanciaes ou definitos.) Aquelles expri- 
mem uma qualidade ou condição; estes definem, 
limitam, a significação do nome a que se ajunta. 

Alguns grammaticos hodiernos rejeitam a moderna classifica- 
ção dos adjectivos em determinativos e qualificativos, apoiados nas 
duas seguintes ponderações : — 1.°, que todos os adjectivos ajuntan- 
do-se aos nomes para determinar-lhes ou restringir-lhes a significa- 
ção á idéa da espécie particular, são forçosamente determinativos ; 
2°, que tal classificação obriga a considerar, ora na classe do adjec- 
tivo, ora na cathegoria do pronome, certas palavras da mesma na- 
tureza, posto não exerçam as mesmas funcções no discurso (tfieu, 
qual....) 

6. — Essas duas categorias subdividem-se do 
modo seguinte: 

possessivos 
demonstrativos 

conjvMctivos . ( collectivos 

Deter miimtivos \ ,., ,. < umversaes j ^ distributivos 

J quantitativos \ ^ 

ou ) j, ff ^ definidos 

de números . ^ ) e indefinidos 



^ i-j: j- \ essenciaes ou explicativos 
Qualificativos \ j 4^ ^ . ■ *.- 

^ ' ( accidentâes ou restrutrvos 



Possessivos, são os adjectivos pronominaes que exprimem 
idé a de posse : — mai, teu, seu, nosso, vosso, 

Demonstrativos, são os que indicam pessoa ou cousa, com 
idéa de logar ou tempo : — este, esse, aqttelle... 

CoNjUNCTivos, são os que conjunctam clausulas: — que, qual, 
cujo. 

Quantitativos, são os que determinam todos os indivíduos 
de uma classe, ou parte d'ella, e por isso dividem-se em univetsaes 
ou geraes e pariitivos. 

Aquelles subdividem-se em collectivos [todo, nenhum) e dis- 
tributivos {cada, cada um); os partitivos podem ser deJi?iidos {iim, 
dous...) e indefinidos {algum, certo, pouco.. ^ 

7. — Os determinativos quantitativos ou nomes 
de numero, determinam as pessoas ou cousas quanto 
ao numero e 2i qua7itidade ; e como essa funcção pôde 
ser geral ou restricta, precisa, d'ahi a subdivisão em 
indefinidos e definidos. 

Os indefinidos assignalam um numero ou uma 
quantidade indeterminada: algum, certo, muitos... {uni- 
dade e pluralidade); cada, nenâum, todos... (totalidade 
e universalidade.) 

I? Empregados absolutamente, qualquer, todos, cada, nenhum, 
teem valor pronominal. 

2.° — Os nomes collectivos partitivos pouco diíferem pelo 
sentido dos nomes de numero indefinido; mas quanto á forma, distin- 
guem-se em que só os collectivos geraes ou partitivos — como todos 
os substantivos —são sempre determinados pelo articular ou seus 
equivalentes. A mesma palavra pode ser coUectivo geral com articu- 
lar o, partitivo com o det. indef. um, nome de numero indefinido 
sem determinante. (V. Cons. Ayer — noms de nombre indeúnis). 

8. — Os nomes de numero definidos exprimem 
um numero determinado. Dividem-se em numeraes 
cardinaese. ordinaes: aquelles representam os núme- 
ros formadores de qualquer numeração — um^dous, 



88 



vinte, etc; estes, são verdadeiros adjectivos que 
exprimem a ordem, — primeiro, quinto, vigésimo..?) 

Os Multiplicativos são os nomes de números 
que denotam as vezes que uma cousa é multiplicada: 
— duplo, triplo, cêntuplo... 

9. — Alguns numeraes mudam de categoria gram- 
matical, pelo esquecimento etymologico : — quartel 
= trimestre, corja = collecção de 20 objectos, dizima 
= a dizima parte, decima, quaderno, etc. 

10. — Os possessivos, demonstrativos, relativos e 
quantitativos ou nomes de numero, — fazendo ás vezes 
as funcções de adjectivos e as de pronome, são con- 
siderados — adjectivos pronominaes. 

11. — O artigo é um verdadeiro adjectivo deter- 
minativo, quer individualise o nome que se lhe segue, 
quer designe uma espécie — geral ou particular. (V. 
Lição, 26). 



Tirou origem na necessidade que tem o povo de nomear 
claramente as cousas de vida commum, de individualisar a signi- 
ficação do nome. 

Sobre a origem do artigo como categoria grammatical, é 
errónea a hypothese de consideral-o resultante da obliteração do 
sentido vivo das raizes indicativas ou relacionaes. De feito, o 
zend, o sanskrito, o grego ani homérico, e o latim clássico, conser- 
vam mais clara a consciência dos elementos de relação ; mas as 
linguas semíticas — que mais conservam a significação primitiva, 
concreta e material de seus typos radicaes (Renan) — possuíam o 
artigo, e desde o mais remoto período histórico. 



12. — As qualidades podem ser physicas ou ma- 
ieriaes : — alto, baixo, quente, frio ; e moraes: — dili- 
gente, preguiçoso, alegre. 



89 



13- — Podem mais ser essenciaes e accidentaes, 
conforme indicam propriedades essencialmente carac- 
teristicas da pessoa ou cousa, ou não : — Bra?ica neve^ 
o cavallo é quadrúpede, são propriedades essenciaes ; 
chapéo alto, cavallo náfego, são propriedades acci- 
dentaes. 



Aos primeiros denominam alguns grammaticos — explicativos; 
aos segundos — restrictivos. 

Também são considerados adj. accidentaes ou restrictivos, os 
subst. que modificam outros : — Rei navegador. 



14. — Quanto á forma, os adjectivos dividem- se 
em primitivos e derivados : — rico, furioso; simples e 
compostos: — verde, auri-verde. 

15. — Aos derivados pertencem os pátrios, gen- 
tilicos e verbaes. 

Pátrios são os que indicam a naturalidade de um 
ser ou de uma cousa: — Bahiano, Maranhense. 

Gentílicos, os que indicam a nacionalidade: — 
Brdzileiro, Inglez. 

Verbaes, os que tiram origem em um verbo: — 
amante, pedÍ7ite, fallador. (V. L. derivação). 

16. — Ha uma outra classificação dos adjectivos 

também em duas classes: i?, dos o^^ fixam a attenção 

na qualidade ou propriedade que descrevem, quer 

esta propriedade seja objecto de sentido physico {certo, 

alto), quer de percepções mentaes e affeições {caro, 

verdadeiro) ; 2?, dos que se referem manifesta e dis- 

tinctamente a algum primitivo {férreo, pedregoso), 

12 



90 



Aos da primeira classe, chamam, .adj. qualificativos \ 
aos de segunda, adj. de relação. 

17. — O adjectivo é uma simples differenciação 
do substantivo. Prova-o a sua syntaxe. (V. Lição 6? 
in fine). 



NONA LIÇÃO 



Da classificação das palavras.— Do pronome e suas espécies 



I. — Vide Lição sétima, 

2. — Conforme a etymologia, o pronome é uma 
palavra que substitue o nome. 

O substantivo exprime uma idéa, designa as pes- 
soas ou cousas por suas qualidades distinctivas, cara- 
cterísticas, naturaes. O pronome, porem, exprime 
apenas uma relação, isto é, designa as pessoas ou 
cousas por sua relação oracional. 

3. — Os pronomes dividem-se em duas grandes 
classes : — Pronomes substantivos e adjectivos. 

d) Os pronomes são substantivos — quando ex- 
cercem as funcções de substantivo, isto é, quando 
ocupam o logar do sujeito, objecto, etc. : — Elle (o 
professor) deu-\M.Y. (ao alumno) tem livro. 

b) Pronomes adjectivos são os que determinam o 
substantivo juntando-lhe uma relação de posse ou 
indicação: — Este (quadro) é de Pedro, isto é, o quadro 



92 



indicado pela pessoa que falia : o teu (escripto) é de 
mais valor. 

O pronome adjectivo, pois, limita também de 
algum modo o substantivo, com uma idéa de espaço 
ou distancia : Aquelle (autor) é mais clássico que este. 

4. — Os pronomes substantivos dividem- se em 
pessoaes e indefinidos. 

a) Os pessoaes designam a pessoa que falia, a 
com quem se falia, e a pessoa ou cousa de que se falia 
{/allanle, interlocutor, assumpto?) 

São consequentemente de três classes: i?^ pessoa 
— eu, nós : 2?, — tu, vós ; 3^ elle, ella ; elles, ellas {o, 
a, os, as: — Tinha essa obra, mas já a dei.) 

São estes os verdadeiros pronomes. A sua origem foi poste- 
rior ao plural, e a idéa do pronome sujeito foi a ultima a formar-se. 

Os pronomes pessoaes — diz Sayce — tiveram origem no 
periodo epithetico, e provavelmente sensível como a dos nomes de 
números. Eram a principio — como refere Bleeck — substantivos 
com a significação de senhor, reverencia, criado, etc, Cp. port. 
Fulano ou Fiião, Beltrano, Sicrano (==elle, alguém) o Degas 
(= eu), etc. 

Amostra mais evidente desse facto na lingua por- 
tugueza, temos na palavra você, forma atrophiada de 
vosmecê, contracção de vossemecê ou vocemecê, que re- 
presenta a transformação do titulo honorifico Vossa 
Mercê em um simples signal unitário. A palavra você 
desterrou quasi que completamente da linguagem 
popular o pronome vós,^ conservando todavia as suas 



* Vós ainda é empregado em alguns pontos de Portugal e 
Brazil na linguagem familiar. 



93 



prerogativas de reverencia, ceremonial (3? pessoa), e 
é hoje um verdadeiro pronome.* 

Foi também o que succedeu em Hespanha com 
a differença que o pronomen reverentice — Usted, tam- 
bém se applica a pessoas de respeito e com quem não 
privamos. 

a) Os indefinidos são também essencialmente 
pronominaes, isto é, não podem ser construidos com 
substantivos claros : — alguém, ninguém, se, outrem, 

tudo, nada ; fulano, sicrano, beltrano (^ elle.) 

* 

Os substantivos homem e gente são empregados na linguagem 
popular de Portugal e Brazil, como verdadeiros pronomes: aquelle, 
desde o século XV (D. Duarte, Ferreira, Sá de Miranda, etc.) ; 
este, mais modernamente: Cp.: fr, on ; ali. tnatm ; ing. mafiçpeople 
(alem de one. e ihey). * 

5. — Os pronomes adjectivos dividem-se em de- 
monstrativos, distributivos e conjunctivos ou relativos 
(interrogativos). — (V. Lição oitava). 

Os demonstrativos isso, isto, aquillo, são, porem, 
essencialmente pronominaes, e neste caso acham-se 
outrosim os conjunctivos — que, quem, quem quer que, 
o que quer que. 

6. — Os conjunctivos referem-se a alguma cousa já 
expressa em outra proposição, mas cuja determinação 
elles mais tornam precisa. 

São interrogativos quando perguntam a relação 
demonstrativa. Nas phrases interrogativas, e ainda 



* Pacheco Júnior. — Questões grammaikaes, 1886. 
» V. Pacheco Júnior. — Rev. Braz., 1882. 



94 



nas interjectivas, o pronome que é adjectivo : — Que 
flor é essa ? — Que menino / 

Os pronomes relativos foram primitivamente demonstrativos, 
e ainda no chinez o relativo so= logar. (Philippi, Schoflf — gram. 
ap. Sayce /V.) 

O pronome é pois uma differenciação lógica do nome. A sua 
origem repousa na dupla modalidade psycologica do subjectivo e 
do objectivo, distincção característica de todas as formas da vida 
consciente. 

Os pronomes e os nomes de números constituem " o traço de 
união entre a grammatica e o vocabulário " ; os primeiros ensaios 
"da passagem do abstracto para o concreto." 

A origem dos pronomes pessoaes, ou melhor a fixação e limi- 
tação da sua funcçâo, que mais se especialisou com o appareci- 
mento do verbo, perde-se' no génesis da historia da linguagem." 



1 Em algumas línguas em que o mechanismo pronominal é 
imperfeito, occorrem á necessidade por meio do gesto ou de certas 
intonaçõcs de voz. (Wilson, etc.) 



J 



DECIMA LIÇÃO 



Classificação das palavras.— Bo verbo e suas espécies 

I. — Vide Lição sétima. 

2. — Verbo é a palavra que exprime uma acção, 
uma affirmação. * 

Sem asserção não pôde haver communicação de pensa- 
mento. 

Mas quanto á noção de tempo (período de acção — passado, 
presente ou futuro), devemos advertir : i.° que na maior parte das 
línguas os verbos teem formas que excluem aquella noção, como 
por ex., o infinito; 2.° que as próprias formas grammaticalmente 
expressivas de tempo, são — em proposições geraes — empregadas 
aoristícamente, ou sem referencia a tempo. Quando dizemos — os 
pássaros voatn, não affirmamos que elles voam agora, que já voaram^ 
ou que//ã<7 de voar; mas simplesmente que o poder de voar é delles 
attríbuto em todos os tempos. 

O emprego do presente pelo futuro é ainda uma prova da 
nossa asseveração. Nas phrases vmi amanhã, je vais demain, Igo, ou 
am going to nwrrow, Ich gehe morgen, etc, os advérbios amanhã, 
demain, to morrow, morgen, e não os verbos vou, je vais, go, gehe, 
é que representam verdadeiramente as palavras de tempo (Mars- 
Lect). 

Chamar ao verbo palavra de tempo com os AUemâes {Zeit- 
wort), é pois denominal-o por um incidente, e não por um carac- 
terístico essencial; por uma propriedade occasional, e não universal. 



* Todos os verbos exprimem uma noção de actividade, con- 
siderada nas relações da pessoa, tempo e modo. Os apparenteraente 
inactivos já exprimiram uma acção originariamente. 



96 



3» — Consta de dous elementos — um material 
(a acção enunciada), e o formal (a affirmação ou 
copula lógica.) A acção é indicada pelo t/iema, a affir- 
mação pela desinência. 

4. — Por sua natureza, o verbo lembra o substan- 
tivo e o adjectivo. Os gerúndios, os participios e os 
infinitos são formas nominaes. 

5. — A analyse do verbo descobre também três 
circumstancias distinctas: — a significação, o modo de 
significar, e difuncção. * 

a) Significação. E' o sentido originário da pala- 
vra, expresso pelo radical. Em amar, a idéa primitiva 
é amor, indicada no thema am. 

b) Modo de significar. São os tempos, modos e 
vozes, que determinam rigorosamente a idéa contida 
no radical. 

c) Funcção. E' a faculdade de poder o verbo 
exprimir a ligação relacional entre o sujeito e o attri- 
buto. Em amamos, a idéa de amor é attribuida ao 
sujeito nós. 

6. — As funcções do verbo estão pois sujeitas a 
quatro modificações — de pessoa, numero, tempo e 
modo. 

7. — Os verbos dividem-se em duas grandes clas- 
ses : — nocionaes (transitivos e intransitivos) e relacio- 
naes (auxiliares.) 



* Ay — Gramm. comp. 



I 



97 



8. — Quanto á sua significação também podemos 
dividil-os : 

a) Segundo a natureza do sujeito ; em péssoaes e 
unipessoaes. 

ò) Segundo a natureza da acção, os péssoaes — 
em transitivos e intransitivos. * 

c) Segundo a natureza da affirmação, os transi- 
tivos — em activos, passivos, neutros e reflexos. 

9. — Verbo unipessoal é aquelle que não tem 
expresso o seu sujeito lógico: — trovejar, chover. Só 
se emprega na 3^ pessoa do singular, e constitue só 
por si uma proposição, cujo sujeito é a idéa de uma 
acção ou de um phenomeno natural expresso pelo 
verbo. 

E' de algum modo um nome com terminação 
verbal, e que se conjuga (Egger.) 

No sentido figurado tornam-se, porém, péssoaes : — choveram 
empenhos, Deus choverá sobre os máos peivias, tormentos (H. P. 352), 
em nossas almas choves certas e altas doutrinas, Cam. Ò de 8) ; tro- 
veja o orador, relampague a estes olhos a verdade. (Esc. da Verd.). 

10. — Os transitivos ou objectivos designam acções 
passantes do sujeito para um objecto. A sua idéa é 
incompleta sem a noção complementar de um objecto. 

Pertencem a esta classe os chamados cansativos, que se podem 
periphrasear com auxilio de certos verbos : — trabalho e economia 
augmentani ^fazenda (í= fazem augmentar.) 



1 Esta classificação tem por fundamento a natureza do pre- 
dicado incluído no verbo. 

13 



98 

1 1. — Os verbos intrans Uivos ou subjectivos affir- 
mam acções limitadas aos sujeitos que as fazem : — 
dormir, chorar, morrer, cahir. A sua idéa é completa 
sem a noção complementar de um objecto. 

Por sua natureza não podem ser conjugados na 
forma passiva. 

As acções dos verbos intransitivos, ás vezes, mais exprimem 
modos de ser ou estado, e por isso muitos definem o verbo — 
palavra que exprime acção ou estado. 

Todavia ha muitos verbos intransitivos indicadores de movi- 
mento — correr, andar; mas as idéas nelles contidas não represen- 
tam os objectos de que são predicados as qualidades — andante, 
corrente, como exercitando uma acção sobre outro objecto. 

1 2. — Entre os verbos intransitivos são de notar 
os inchoativos, que exprimem principio de acção ou 
uma acção successiva (passagem de um para outro 
estado) : — empallidecer, envelhecer. 

13. — A classificação em transitivos e intransitivos 
não é absoluta, que muitissimos verbos transitivos são 
empregados intransitivamente e vice- versa. 

14. — A relação existente entre o sujeito e o pre- 
dicado, pode ser activa ou passiva, isto é, o sujeito 
pôde fazer ou soffrer a acção expressa pelo verbo. 
D'ahi os verbos activos & passivos. 

15. — Reflexos, sdiO os verbos pronominaes cuja 
acção recahe na mesma pessoa que a pratica : — elle 
feriu -í^, arrependeu- se. 

São uma consequência da voz reflexa ou media^ 
em que o sujeito é ao mesmo tempo activo e passivo. 
Constituem pois formas intermediarias entre a voz 



99 



activa e passiva, e conjugam-se com um pronome 
objectivo da mesma pessoa do sujeito. 

Distinguem-se em reflexivos intrajisitivos e tran- 
sitivos.^ 

Os intransitivos subdvidem-se em essenciaes e 
accidentaes, conforme são reflexos na forma e no sen- 
tido (e neste caso o pronome reflexivo é emphatico) 
ou transitivos apenas na forma : — arrepender- se; refu- 
giar^se. 

Refugiar sem o pronome indica idéa causativa : — elles re- 
fugiaram os escravos. 

Os accidentalmente reflexivos são de muito menor 
importância. Não [recahe no agente a acção por 
elles exercida, o pronome reflexivo tem apenas sentido 
intransitivo : — e7iganar-se, deleitar- se, exercitar-se, en- 
fadar-se, enferrujar- se, admirar-se, etc. 

i.° Alguns verbos neutros podem empregar-se como verbos 
reflexos impróprios para exprimirem a reacção do sujeito (pessoa) 
sobre si mesmo: — elles riram-se, eu me /ar^íTi? (Garrett, etc.) 
O pron. neste caso é compl. indirecto (dativo.) 
2? A forma reflexiva ou média foi que deu origem á nova 
forma passiva dos verbos — espalhou-se uma noticia, queimaram-se 
prédios. (V. Licções i6.^ e 27."). 

16. — Os verbos reflexos (activos ou neutros) ex- 
primem muitas vezes uma acção reciproca entre dous 
ou mais sujeitos : — elles fallaram-se, nós ?tos batemos. 



* Quasi todos os verbos reflexos são transitivos (adjectivos) 
que na forma reflexa, exprimem uma idéa intransitiva ou conser- 
vam sua significação transitiva. D'ahi a distincção em verbos 
reflexivos intransitivos (propriamente ditos), e reflexivos transitivos 
(verbos transitivos empregados como reflexivos). 



lOO 



A estes verbos é que geralmente chamam os gram- 
maticos — recíprocos. 

17. — Os verbos auxiliares são os elementos 
formadores dos tempos compostos, da voz passiva, dos 
verbos periphrasticos e frequentativos. 

Egger define-os — verbos que, privados de uma 
parte do seu sentido próprio e desviado da sua primi- 
tiva funcção, tornam-se elementos de uma locução 
complexa. 

Podemos classifical-os em três categorias : 

i.** dos que se combinam com os participios pre- 
sentes (activos) e passados (passivos): — estou f aliando ^ 
sou estimado. 

2.^ com infinitos: — heide f aliar ^ tenho de f aliar. 

3.^ com infinito e participios : — has de ter f al- 
iado. 

Representam um exemplo notável do processo 
analytico. 

O poder auxiliante desses verbos é apenas uma modificação 
do poder originário, que elles teem ou tinham quando não auxiliares. 

A verdade é que o espirito não mais se recorda do sentido 
primitivo dos verbos ser, ter, tornat-se, etc. {sou amado, ing. I shali 
go, ali. Ich werde gehen — litt. eu torno-nie ir ) / " subordina-os ao 
participio passado ou ao infinito para com elles exprimirem um 
único juizo. " 

Os auxiliares são verbos relacionaes. Só expri- 
mem o tempo ou modalidade e a voz passiva dos verbos 
nocionaes, que então se chamam — principaes. 

Os auxiliares e o principal fazem, na composição, a mesma 
funcção que a inflexão nas línguas clássicas. 



lOI 



Semi-auxiliares — Sâo certos verbos que só teem caracter 
de auxiliares nas formas verbaes em que elles apenas conservam 
parte da sua significação própria : — tornar, ir, dever, vir. . . 

i8. — Os verbos ainda podem ser classificados 
segundo a sua natureza em concretos e abstractos, ter- 
minativos, frequentativos e periphrasticos. 

a) Os concretos exprimem uma idéa de acção : 

— ler, matar. Tanto pôde formar a copula como o 
predicado de uma proposição. 

b) Os abstractos exprimem uma simples relação 
da proposição. Só podem formar-lhe a copula, e 
nunca o predicado. 

Ainda temos mais : 

á) Os terminativos, que são os verbos cujo predi- 
cado requer um termo indirecto de acção : — dar esmola 
AOS pobres. Os terminativos podem ser transitivos ou 
intransitivos. 

b) Frequentativos, aquelles cujo participio im- 
perfeito juritam-se aos tempos do mesmo verbo ou de 
outro, afim de indicarem com mais colorido a acção 
expressa pelo predicado : — vir vindo, vou indo, andar 
cahindo. 

c) Verbos periphrasticos são as locuções comple- 
xas formadas dos tempos dos verbos haver e ter e do 
infinito do verbo principal, ligados pela preposição de: 

— tu tens de escrever (v. p. obrigatório), havemos de 
estudar (v. p. promittente.) 

19. — Sob o ponto de vista da forma, os ver- 
bos dividem-se em primitivos c derivados (beber, 



I02 



beberricar), simples e compostos (dizer, contradizer), 
defectivos, regulares e irregulares. 

Z^^í/íz^í?^ quando carecem de formas: — jazer, 
feder. 

São regulares (fortes) ou irregulares (fracos) 
conforme seguem o paradigma da conjugação a que 
pertencem ou d'ella se afastam: — temer, valer.^ 

20. — Damos em seguida a tabeliã da classifica- 
ção geral : 



..« Segundo a natureza | XrS. 




/ transitivo. 




2." Segundo as funcções. . • • • ) intransitivo. 




( auxiliar. 




3." Segundo modo de significar \ ^^Í'^°' 

f passivo» 




' primitivo. 




derivado. 




simples. 




4." Segundo a origem ou forma composto. 




j defectivo. 




1 regular. 




\ irregular. 




inchoativo . . . 


. envelhecer, ador- 




mecer. 


imitativo 


• grugulejar, coa- 




xar, troar, ri- 




bombar. 


frequentativo 


. ir indo, estar an- 


5." Segundo a significação < 


dando. 


iterativo 


. latejar, salti- 




tar. 


periphrastico . 


. ter de. 


terminativo . . 


. dar a. 


. pronominal . . . 


1 Reflexivo. 
(Reciproco. 



' Vide Lições 16? e 27" 



I03 



Verbo = palavra. O chinez chama aos verbos — palavras 
vivas y aos nomes — palavras mortas. 

E, de feito. O verbo é o termo essencial da proposição, a 
palavra por excellencia, o elemento vital do discurso, " o verda- 
deiro signal do juizo. " " Onde ha um verbo ha um juizo e uma 
proposição; sempre que elle falta, ha apenas noções isoladas, idéas 
sem ligação — ou pelo menos incompletas. " 

E' de creação muito mais moderna que o nome, e o seu 
desenvolvimento flexionai é de origem mais recente que as flexões 
nominaes. 



DECIMA SEGUNDA LIÇÃO 

Classificação das palavras.— Das palavras invariáveis 

I. — Vide sétima lição. 

2. — Estudemos agora a taxionomia das palavra- 
invariaveis.* 

i.« ADVERBIO 

3. — Adverbio (lat. adverbium = ad verbum) é 
uma palavra que se junta ao verbo, e ainda a um adje- 
ctivo ou outro adverbio, para (exprimindo as circum- 
stancias da acção) determinar-lhes ou modificar-lhes 
a significação: — Pedro estuda aturadamente, ella 
cafita MUITO bem, e é muito bella. 

4. — Ainda podemos juntal-os ao substantivo 
commum : — Gonçalves Dias era verdadeiramente 
poeta. E' uma prova de que no substantivo domina 
a idéa de uma ou mais qualidades. 



1 Nas lições 20.^ e 28." occupar-nos-hemos da sua formação 
e etyínologia. — Escrevemos adstrictos ás indicações do novo pro- 
gramma official para os exames geraes de preparatórios : cada lição 
corresponde exatamente a um potito. 

14 



io6 



2, — O adverbio corresponde a uma preposição 
com seu complemento; pode ser considerado comple- 
mento de um adjectivo. 

Espécie de qualificativo por sua origem e fun- 
cção/ encosta-se mais que as outras partículas ás pa- 
lavras flexionaes, e admitte gráos de comparação e 
formas diminutivas: — Elle procede muito (mais, 
menos, tão) nobremente ; falar baixinho. 

Exprime todas as circumstancias em que se dá a 
acção — de logar e de tempo, quantidade e modo, 
certeza, duvida e negação. Em todos esses casos, 
elle qualifica o verbo como o adjectivo qualifica o 
nome. (Vide Lição decima). 

6. — Os advérbios dividem-se, quanto á forma 
ou origem, em essenciaes ou propriamente ditos, acci- 
deniaes, e compostos ou locuções adverbiaes. 

I? São essenciaes os que figuram sempre como 
advérbios. Podem s^^r simples, formados — em regra — 
de advérbios latinos — onde (unáe), sempre (semper), tão 
(tam), ja (jam), menos (minus), . . . ; ou compostos, cujos 
elementos já de todo se fundiram no portuguez — alli 
(a li = 1. illic), agora (ac-hora), assas (ad satis). . . 
Os compostos são formados de advérbios latinos 
reforçados por uma preposição. 

2? Os accidentaes são palavras de outra cate- 
goria grammatical (substantivo, e adjectivo na forma 



* E são muitas as relações entre o adverbio e o adjectivo, 
que ás vezes até permutara de categoria. 



107 



masculina), mas empregadas adverbialmente : — forte^ 
certo, alto ; bem, tarde, .... 

3? As locuções adverbiaes formam-se de duas ou 
mais palavras (substantivo ou adjectivo) precedidas 
geralmente de uma preposição {a, de, em, por, sobre) : 
—em vão, de balde, ás cegas, de chofre, por fas e por 
fiefas, sobremodo. 

7. — Sob o ponto de vista da significação, os 
advérbios classificam-se do modo seguinte, conforme a 
circumstancia que exprimem : 

1 9 Advérbios de tempo: — - hoje, agora, já, 
actualmente (presente) ; hontem, já, outrora, antiga- 
mente (passado) ; amanhã, em breve (futuro). 

Quando, antes, depois, (relativo) ; sempre, nu7tca, 
algumas vezes (absoluto) ; 'muitas vezes, raramente, 
(frequência). 

Responde á pergunta — quando? 

29 De LOGAR : — aqui, alli, ahi, acolá, onde, cá, 
lá, algures, alem, perto, longe, proximamente 

Responde ás perguntas — otide f d' onde ? aonde ? 

3? De ORDEM : — primeiramente, ultimamente, 
antes, depois, entre. 

49 De QUANTIDADE OU INTENSIDADE : assás, 

apenas, muito, pouco, mais, menos, abundantemente.... 

Responde ás perguntas — qtianto? quantas vezes? 

59 De MODO. — Chamam-se advérbios de modo 
— alem da maior parte dos acabados em mente — : 

a) os de qualidade : — bem, mal, prudentemente. 

b) de DESIGNAÇÃO : — eis. 



io8 



c) de EXCLUSÃO : — só, somente, apenas, siquer. 

d) de CONCLUSÃO lógica : — consequentemente. 

e) de AFFiRMAçÃo : — sim, certamente. 

f) de DUVIDA : — talvez, quiçá, acaso, não.^ 

g) de INTERROGAÇÃO : — porque, como, qua^ido... 
h) de NEGAÇÃO : — não, nunca, jamais. 

As negativas subdividem-se em — simples e intensivas (refor- 
çadas.) 

Simples — não, nada, nunca... As intensivas são resultado 
do principio da emphase : — não quero não ; não-nem ; nefihmn- 
nem ; nunca Jamais j- não ter mais de ; etc... (Vide Lições 20/, 28.% 
e 37.0 ' 

8. — Os advérbios de modo, derivados de adje- 
ctivos, GX^Yim&m idéas ; todos os mais são meras pala- 
vras de relação. 

9. — Alguns advérbios pertencem a duas ou mais 
das cinco classes supr acitadas. Antes, por ex,, refe- 
re-se atempo ou logar; remotamente, a tempo, logar, 
modo, etc. 

Em conclusão : 

i.° — Não ha negar a natureza nominal do adverbio. E' uma 
forma invariável da flexão nominal ; representa uma migração voca- 
bular ; deriva de adjectivos, substantivos, pronomes, numeraes e 
verbos. 

Posto que parte subordinada na phrase, ainda conserva ás 
vezes, e em diíferentes connexões, sentido próprio {súbito — adj., 
adv.) 

2."' — A natureza nominal do adverbio ainda é clara no facto de 
poderem alguns representar um predicado ( fallar alto.) Latham 
chama a esses advérbios — catego-rematicos (ing. TJiafs verily ; fr. 
ant. — comment es tu si nobremente 



* A partícula não nem sempre tem força negativa como vere- 
mos nas Lições 28,^ e 37. ^ 

' Sobre a negação int. cons. Lameira de Andrade (monogra- 
phia. ) 



I09 



3.° — Como os adjectivos correspondentes, os advérbios de 
tempo e os de logar exprimem verdadeiras circumstancias, que 
nada mais são do que a qualidade accessoria ou accidental da 
acção, 

4.° — O adverbio pode também, em alguns casos, representar 
uma conjuncção (advérbios conjundivos.) 

5.*' — Uma preposição sem complemento torna-se adverbio : 
— elle marchou contra o inimigo (prep.), elle fallou contra (adv.) 



Como escreveu o grammatico — omnis pars orationes mi- 
grai in adverbium. 



2? — PREPOSIÇÃO 

10. — Preposição é uma partícula invariável que 
serve para ligar duas palavras (subst. ou pronome a 
substantivo, pronome, adjectivo ou verbo) com o fim 
de indicar-lhes a mutua relação. 

A palavra preposição = lat. prcepositio, isto é, palavra que se 
coUoca antes do nome a que se refere. Esta definição era errónea, 
e não indicava a natureza interna da preposição, pois que em latim 
ella nem sempre precedia o nome ou verbo. {Tenus coUoca-se 
depois do ablativo ; cum, depois de me, te, se, nobis, vobis, qiii.) No 
portuguez, porem, sempre a preposição é precedente. 

Os grammaticos gregos classificam as preposições com as 
conjuncções, sob o nome de connectivas (sundesmos.) 

1 1. — Sob o ponto de vista da forma ou origem, 
as preposições classificam-se em essenciaes (propria- 
mente ditas), accidentaes, ^ compostas ow. locuções prep o - 
sitivas. 

i9 — As essenciaes são palavras simples ou como 
taes consideradas (pela fusão dos elementos compo- 
nentes) : — a, antes, com, contra, em^ entre, per, por, 
sem, sob... após, para, desde, até... 



I IO 



As nossas preposições simples sáo de origem directa latina, e 
conservam as formas e relações originarias. (V. Lição aS.'') 

Muitas derivam-se de antigos advérbios ou são formadas de 
duas preposições simples ou de uma preposição {a, de, em, por) com 
um adverbio, substantivo, participios : — á^aiite, pem/i/e, átfronie ; 
apezar, excepto, salvo, tocante, coticernente... (V, Lição i8.*) 



2? — Accidentaes. São as palavras (substanti- 
vos, adjectivos, participios), que, posto de categoria 
differente, empregam-se todavia com força prepo- 
sitiva : — segundo, durante, consoante, salvo, visto, 
excepto. 

3? — Locução prepositiva. Forma-se, em geral, de 
adjectivos ou substantivos seguidos de preposição 
(a, de) : — e bem assim de advérbios ou locuções 
adverbiaes : — d força de, quanto a, perto de, acima 
de, concernente a... eis aqui, eis alli. . . 

12. — Muitas preposições, como já vimos, deri- 
vam-se de antigos advérbios ou são preposições e 
advérbios conforme a circumstancia é expressa só pela 
particula (adverbio) ou pela partícula seguida de com- 
plemento (preposição). As relações entre estas partes 
do discurso são tão intimas, que a distincção entre 
ellas não está na significação, mas no diverso valor 
syntaxico com que indicam a mesma circumstancia 
de logar, origem ou causa, tendência ou aparta- 
mento. 

13. — Ainda mais. São varias as relações ex- 
pressas por certas preposições: não podemos pois 
classificai -as segundo as suas significações actuaes, nem 
tão pouco de conformidade com as originarias. 



1 1 1 



14. — O que, porem, se pôde affirmar de modo 
geral, é que as preposições indicam relações de /íT^^r, 
tempo e movimentou 

D'ahi a sua divisão em quatro classes : 

a) De logar e direcção'. — em^ por, sob, sobre, 
entre, para, após. 

b) 'Dg tempo e duração-. — antes, depois, desde, 
durante. 

c) De catísa, meio ou fim: — de, por, para, 
com. 

d) De modo : — segwido, conforme. 



i.° — As preposições são palavras relacionaes (geralmente de 
logar e direcção). Servem para exprimir as varias formas das 
novas idéas ; "são prefixos moveis que representam papel análogo 
ao das desinências nominaes." 

2.'' — O seu nm principal é indicar as relações adverbiaes. 

3.° — Exprimem as relações externas e internas do espirito 
humano ; as de natureza physica, e as do dominio intellectual. 
"As relações physicas são geralmente locaes, as de actividade são 
de direcção e movimento." As relações do dominio intellectual 
são concebidas como se fossem physicas, e expressas por prepo- 
sições que denotam relações physicas: — descançar em alguém, con- 
sultar com alguém, copiar de alguém. 



1 O emprego abstracto e metaphorico das preposições é 
resultado de um desenvolvimento posterior. 

Ex. : — A, por sua etymologia, remonta á preposição ad; 
mas por suas funcções, corresponde também z. ab t apiid {dei um 
livro a Pedro, ksfurtadellas, a sós, matou-o a tiro. . .) De = lat. de, 
com diversos sentidos, e representando o gen. e accus. D'ahi a 
variedade de relações em portuguez — de tempo, causa, instru- 
mento, meio, modo, matéria, quantidade, preço ; corresponde ao 
gen. poss., obj. e de quantidade ; entrou em grande numero de 
composições com substantivo e adjectivo (como já vimos) — de 
maravillia, de seguro, etc. 



I 12 



4.° — A preposição e a flexão nominal coexistiram no dominio 
histórico da linguagem.» 

Foi em vários casos o verdadeiro expoente relacional de 
declinação ; e esta funcção elia ainda conserva nas linguas analy- 
ticas. 

Nas linguas flexionaes ou syntheticas, as preposições — por 
sua tendência agglutinativa, e consequentemente enclytica — já 
eram, por assim dizer, uma flexão dupla, principalmente — por 
motivo de clareza — nos casos como o ablativo latino, que mais 
representava relações significativas {inecum, cutn nobis, in agro, ex 
agro,..) 

Este facto devia ter concorrido forçosamente para o enfra- 
quecimento gradual dos casos, e mais tarde para a sua perda total, 
como se deu em geral nas linguas néo-latinas. (V. Bréal, Egger, etc.) 



39 — CONJUNCÇÃO 

15. — Conjuncção (lat. conjunctionem, de cum 
jungeré) é a palavra invariável e relacional, que serve 
para ligar palavras e proposições. 

16. — O seu característico é indicara relação que 
teem entre si as phrases ou proposições, e também as 
partes do discurso subordinadas á flexão (nome e 
verbo.) 

1 7. — Consideradas quanto aos seus elementos, 
dividem-se ^m simples o. compostas {pois, mas... todavia, 
outrosim...) 

18. — Quanto á sua significação ou funcções no 
discurso, podemos dividil-as em duas grandes classes 



1 A origem nominal das preposições é que explica as flexões 
casuaes de certas formas : — lat. abs e apiid = arch. a-por, ai.* um 
genitivo e a a.'' um locativo e ablativo; e os gráos de comparação 
como in-ter, sup-er ( = sub-ier ). (V. Curtius, Meunier, etc.) 



1 1 



— de coordenação e de subordinação, que se subdivi- 
dem do modo seguinte : 



I " copulativas ~ e, também . . . 

disjunctivas — <?//, quer. . , 

continuativas — pois, ora, outro- 
sim . . . 

adversativas — mas, porem, to- 
davia . . . 

explicativas — como, assim como... 

conclusivas — logo, portanto, por 
consequência . . . 

comparativas — mais-que, tão- 
como ... 



Coordinativas ou connectivas 
copulativas 



SuDoidinativas ou connectivas 
continuativas 



(. 

( ' condicionaes (suppositivas) — si, 

com tanto que, se pot 

ventura . . . 

causaes ( positivas ) — porque, 

visto que, pois que . . . 

concessivas — embora, ainda 

que, posto que . . . 
temporaes — como, quando, logo 
I que. . . 

(_ finaes (integrantes) — que, si. 



19. — A conjuncção coordinativa liga entre si 
asserções ou palavras independentes ; a subordinativa 
só liga affirmações dependentes, e nunca palavras. 

20. — Segundo a forma, as conjuncções dividem- 
se em : 

i9 Essenciaes : — e, nem, mas, pois, quando, como... 
{simples, e todas de origem directa latina), e também, 

todavia, portanto {compostas, — entre si ou com 

advérbios.) 

2? Accidentaes : — Assim, logo, ora, já.... 

3? Locuções conjunctivas : — Não obstante, de sorte 
que... 

15 



114 



Muitas conjuncções actuaes são antigas locuções 
reduzidas a simples signal unitário : — senão, também, 
outrosim. 

21. — Consideradas ainda sob o ponto de vista 
da ORIGEM, as conjuncções podem dividir-se em duas 
categorias, a de derivação latina e a de formação 
portugueza : — e, ou, como, quando, si, pois, mas, nem, 
quando, que... (1. class.), também, pois que, porem.. ^ 
(1. pop.), outrosim, entretanto, pois que, posto que... 
(f. port.) 

i.° — As funcções de certas conjuncções pouco dififerem das de 
alguns advérbios, e das suas relações resultam delicadas cambiantes 
do pensamento (Wierz. Gratum.) 

2." — A preposição equivale — pela significação — á flexão casual; 
a conjuncção quasi que equivale á flexão modal pelo muito que 
contribue para variar-lhe o sentido e uso : Cp. sei que estudas, sei 
como estudas, etc. 

Os modos não podem exprimir, só por si, as relações indica- 
das pelas conjuncções, e este facto basta para mostrar a importân- 
cia da partícula. 

3.° — A conjuncção pertence ao ultimo periodo da diflferen- 
ciação grammatical. Mais encostada ao pronome — pela origem e 
valor — foi a principio simples junctura ou articulação phraseo- 
logica. 

Tornando-se, de simples connectiva, palavra de subordinação, 
deu origem á complexidade syntaxica do modo subjunctivo. 



40 __ INTERJEIÇÃO 

22. — Os physiologistas grammaticaes differem 
muito quanto á ordem de successão das outras partes 
do discurso ; mas quanto a esta, são todos accordes 
em que no génesis da linguagem a interjeição, e as 



1 1 



palavras onomatopaicas devem ser consideradas os 
primeiros vagidos linguisticos. (W. Smith. Manual.) 

No esboço histórico do desenvolvimento genético 
das partes da oração, devia-se pois naturalmente 
começar pela interjeição. 

23. — A interjeição propriamente dita — primi- 
tiva, originaria — é um grito espontâneo e instinctivo, 
um som animal. 

Não constitue technicamente parte da oração; é 
uma voz intercalada na phrase, atirada'^ na proposi- 
ção para exprimir um súbito sentimento, uma emoção 
do espirito. 

E' um grito do instincto ; o echo dos sentimentos 
naturaes. 

24. — Verdadeiro grito da natureza, as conjunc- 
ções primitivas são monosyllabicas, e parecem-se em 
todas as linguas^ comquanto modificadas na intonação. 

As interjeições — diz Breal — semelham certas raças selva- 
gens, que embora vivendo a par da civilisação, conservam-se toda- 
via apartadas, independentes, nunca assimiladas nem destruidas. 

25. — Do grito natural e espontâneo, porem, 
transformou-se a interjeição em palavras convencionaes, 
intencionaes, reflectidas, representando a forma abre- 
viada de uma phrase, a synthese de uma proposição. 
Ex.: Coragem !=^x.^xiàiÇ^ coragem, Credo /= ouço -te, 
vejo, etc, com o Credo na boca, isto é, com medo, 
apavorado. 



* Lat. interjectio, de interjicere ^^ jogar, atirar, etc. 



ii6 



26. — Podemos pois classificar as interjeições 
quanto á origem ou natureza, em instinctivas ou pri- 
mitivas, onomatopicas , convencionaes ou derivadas. 

i9 As instinctivas (essenciaes) são as que repre- 
sentam simples gritos da natureza; são quasi idên- 
ticas em todas as linguas, e — como as palavras no 
chinez — a mesma interjeição pode exprimir vários 
sentimentos ou emoções, conforme a intonação : — 
Ah ! eh! ih! ha ! ho ! /ti ! ai! hui !... 

2? As onomatopicas podem ser consideradas pri- 
mitivas: — CO cà, tic tac, bum, zape, sape... geralmente 
com força intensiva. A interjeição psiu, usada para 
silenciar, também é onomatopica, e consiste mera- 
mente em um som atono, e como que segredado. 

Não devemos, porem, confundir onomatopeas 
com interjeições. Estas indicam sensações, aquellas 
— percepções : bum bum e cliape chape são vozes 
tão onomatopaicas como ronco, troar, clangor. As 
primeiras são espontâneas, as segundas conven- 
cionaes. 

3? As convencionaes são verdadeiras palavras 
(subst., adjv., verbo, adv.) 

a) Termos descriptivos de emoção, com entona- 
ções appropriadas — Jiorrivel! bravo! misericórdia ! 
diabo \ (convencionaes). 

b) Nomes próprios ou communs, usados para 
chamar a nimaes, etc. 

é) Verbos no imperativo — vamos ! olha ! (com 
particular intonação de voz). 



117 



c) Nomes usados imperativamente por meio da 
intonação :^— silencio ! fora ! firme ^ 

e) Formas abreviadas, empregadas particular- 
mente pelo vulgo (locuções interjectivas) — Honiessaf, 
pardeos = por Deus, bofé=- boa fé, ayesú = ai Jesus ! 
aqui (VEl-rei! Ave Maria ! Valha-me Deus\ O diabo 
te leve ! Mãos raios te partam \ Deus te favoreça ! 

A esta classe pertence a maior parte das formas 
familiares optativas e deprecativas, e ainda as de 
invocação de bênçãos, as precativas. Adeus / é um 
exemplo, e dos mais bonitos. 

Nas imprecações e juras é o portuguez mui rico de formas 
interjectivas, e delias são grandes repositórios o Canc. da Vaticana 
e as obras de Gil Vicente. 

PRECATIVAS. Sec. XIII, C.V. — Por deus (var. par deus 
perdeus,pardes),perboafé,(y2LX. per bo7ia fé), per fios tr o Senhor 
Grad^ a Deus, Ay Deus vai. Por Deus da cruz. . . Sec. XVIII — 
Nome de '^esu, Oh corpo de Deus sagrado, Ah .' santo corpo de mi, 
Ave Matia, Poios santos evaftgelhos, por minha alma. . . . 

Impfecativas — Sec. XIII. — Aia morte me prenda, nunca me 
valha nos tro Senhor. Maldito seia. Mao peccado, mal me venha, que 
o tal demo tome, lança de morte me feyra. . . Sec. XVI — Choros 
mãos chorem por ti, dores de jnorte te dem, O ^ diabo dou a morte, 
màos lobos me acabem já, olho máo se meta nelle, eego seja. . . 

As juras e pragas são vulgarissimas em todas as linguas, e 
eram mui frequentes e populares no latim — pro deum fidem, pro 
sancte 'yupiter, Proh ! humane Júpiter, Divene mortant, malam iibi, 
Júpiter te perdat, mala cncz. .. . (Flauto). 

São também de notar as formas cómicas portuguezas : — 
Fernão d^£sculho me pique, Pezar ora de San Pego, viagem de J^oão 
Maleiro, pezar a Jam lamentei. Por vida de San Fará, Juro a San 
Juneo Sagrado, O ' renego de San Grou. . . 

2 1. — Vê-se pois do que acabamos de dizer que 
o sentido das interjeições depende das modulações da 
voz. 



ii8 



22. — Sob o ponto de vista do sentido, as inter- 
terjeições classificam-se em : 

a) de admiração, espanto — a/i ! oh ! Jesus ! 

b) dôr, magoa, — ai / hui ! 

c) exhortação, acoroçoamento — eia ! avante ! 
bravo / ' 

d) prazer, alegria — oh ! olá / caspite ! 

e) desejo, saudade — oxalá, praza a Deus. 

f) chamamento, invocação — ó, olá, psiuf 

g) aversão, cólera — fora! irra! arre! apage ! 
h) zombaria — fora ! hi\ /tu hu ! lia ha ! 

i) de calamento ou silenciadora — chiton ! psiu ! 
caluda ! silencio \ ' 

Alguns glottologos dividem as interjeições (quanto á signi- 
ficação) em duas classes: i" das que exprimem dôr ou prazer 
mental ou physico ; 2' das que indicam impressões derivadas de 
objectos externos pelos órgãos do ouvido e da vista. 

24. — Em remate. As interjeições portuguezas 
pois dividem-se : a) em exclamações naturaes expri- 
mindo paixão ou emoção ; b) em exclamações natu- 
raes exprimindo um estado da vontade (calamento, 
invocação, animação, mando) ; c) imitação dos sons 



^ A's involuntárias expressões de sensação ou emoção, mas 
dirigidas a outras pessoas ou a animaes, indicando desejo, mando 
(imperativos), chamamento, acoroçoamento, etc, emfim todas as 
articulações destacadas, tendentes a influenciar a acção, ou chamar 
a attenção de outros, mas não syntaxicamente ligadas com o pe- 
ríodo, dão os AUemães o nome de Lautgeberden (mimica vocal). 

* Hurrah ! hip / hallow !]k são hoje de uso corrente na lingua 
portugueza e fazem parte do nosso léxico. 



119 



naturaes: — qua qua (c. v.) rii rii ru, patepate (G.V.), 
glu glíi, plash ! bum bum ! 



Nota. Banida do districto grammatical, é to- 
davia a interjeição muito para ser estudada — não só 
por sua importância sob o ponto de vista philoso- 
phico, mas também pela vivacidade que ella empresta 
ao estylo, por sua expressividade inherente e inde- 
pendente. A interjeição é a palavra, a phrase pri- 
mitiva, a parte fundamental da linguagem : com ella, 
a phrase actual, de descripliva torna-se expressiva. 

As interjeições correspondem ás expletivas dos 
rhetoricos, com a diíferença de que estas carecem de 
significação. 

"Consideremos poisa interjeição — palavra; não 
de caracter lógico ou didáctico, mas rhetorico e dra- 
mático." 

Fechamos esta lição com as palavras de um no- 
tável philologo americano: 

" O facto de exprimirem as interjeições as múl- 
tiplas emoções do espirito humano, favorecendo 
consequentemente a súbita e viva manifestação do 
pensamento ; de serem os únicos intermediários entre 
o homem e os brutos, e ainda entre estes ; e de con- 
stituírem uma lingua universal, — é quanto basta para 
patentear-lhes a importância sob o ponto de vista 



I 20 



philosophico. Não ha negar que os interjeições, 
quando bem empregadas, muito contribuem para 
tornar a linguagem o exacto psychographo do espi- 
rito humano." 



DECIM4 SEGUNDA LIÇÃO 

Aggrupamento de palavras por famílias e por associações 
de idéas.— Synonyaios, homonymcs e paronymos 

I. — Famílias DE PALAVRAS são grupos de vo- 
cábulos, que tem entre si certa analogia ou relação 
de som, forma, sentido ou construcção. 

2. — São pois em numero de quatro as famílias 
de palavras. 

1/ Familia philologica. — E' aquella cujas pala- 
vras constituintes apresentam relações morphicas, e 
teem raiz ou radical commum. Ex. : 

Raiz AM : — amor, amoroso, amorabundo, amo- 
rifero, amoravel ; amar^ amante, amacia, amador, 
am ibilidade ; amigo, amisade, amistoso^ amigável; 
namoro, -ar, -dor ; amistar, amistança ; inimi:{ade, 
inimigo, desamor 

Raiz Duc ( conduzir, levar, reger, governar ): — 
conduzir, conductor, conducta, coaducção ; seduzir, se- 
ducção^ seductor ; deduzir, deducçâo ; educar^ educa- 
ção, educador ; introduzir, introducção, introductor ; 
indu{ir, inducção, inductor, indu{imento ; reduzir, re- 

16 



122 



diicção, reductor, redií{ipel, reductivOy reductivel ; tra- 
dupr, traducção, íraductor 

Raiz LEG ( reunir ) : — lei ( 1. legem J, leal, leal- 
dade^ legalidade, legalisar^ legalisação^ legalisador ; 
legista, legitimo, lidimo, legitimar, legitimação, legi- 
timista, legitimidade ; legiferar, legislar, legislador^ 
legislação, legislativo, legisL-ítiira, privilegio 

Radical grapho ( gr. graphein, escrever, des- 
crever ) : — graphia, graphar, graphico ; epigraphe, 
epigraphia, — ico,— ista ; graphite ; graphomelro, pa- 
ra gr aphç ( párafo ) 

Comi^'Ojto com as palavras prefixas — uer, autos, hiblion, bio, caco, cilk, 
clíiro, choro, cosmo, eilmo, geo. Mero, icJuio, micro, léxico, oreo, ortho, paleo, 
photo, phoné, sc?no, telé, topo, ti/po, ctc, deu-nos í/ra;)//» um grupo impor- 
tante de vocábulos de formação erudita, c com jus de accrescer. 

O radical indica a idéa principal ; as desviaçóes 
dependem do valor dos prefixos e suffixos. 

2.'' Familia phonica. — E' a que se compõe de 
palavras-, que — ainda quando de radical differente, 
e não representando relações de idéas — confun- 
dem se todavia na pronuncia, e ás vezes também na 
graphia : — sellacella, pena penna, ami ( subst. ) e 
ama {verbo), dado (s.) e dado (part.),... ?neta meda, 
sede sede, 

Esta família consta dos homonymos e paro- 

NYMOS. 

3/ Familia ideológica. — Compõe-se: i.° de pa- 
lavras de radical commum ou diíferente, mas cujas 



133 



relações teem sentido mais ou menos semelhante^ ou 
idêntico : — amo"^, ami{ad^, affecto^ affeiçãO; estima; 
sermão^ pratica, predica, exhortação ; 2 .° de pa- 
lavras representantes de idéas oppostas, antagó- 
nicas : — bonito feio, alto baixo, corajoso covarde, 

A's palavras que constituem esta familia dá-se 
os nomes de synonymos e antonymos. 

4.*^ Familia syntaxica ou de construcção diver- 
gente. — Compõe-se de palavras que representam 
as mesmas funcções na estructura da phrase : — co- 
meçou de f aliar, começou a fatiar ; pegar da penna, 
pegar na penna : 

( V. Synon. e Liç. 29. } 

Synonymos 

3. Synonymos ( gr. sun e onumaj. 

São palavras de uma mesma língua, que — 
posto de radical diíferente e diversa categoria gram- 
matical — teem todavia idêntico sentido, ou repre« 
sentam diíferenciações significativas de uma idéa 
piincipal. 

í/ Na opinião do profeís jr Marsh, synonymos verdadeiros devem 
f>cr pnlavras que, em uma mesma lingua. teem idêntica significação e per- 
tencem á mesma classe grammatical: — mérito merecimento, a/íold alli, ver 
enchergnr. O uso, pijrém, arrolou também nesta familia, as palavras de 
significação ligeiramente difFerentes. 

2.« * ' Para que as palavras sejam synonymas é mister representem noções 
complexas e geraes, collecções de idéas simples. " 'Eva.ateraão, ódio, ininii- 
aaãe, cada uma dessas palavras encerra certo numero de idéas mais geraes, 
mais simples, elementares (antipj.thia, aborrecimento, nojo, tédio J, " que 
constituem o seu domiuio, a sua exteusilo, a sua significaçUo ". 



134 

——— ^ 

Mas, ás veaes, um ou mais termos signiflcatl\tos de uma ou mala 
esrpecm, sSo synonymos do termo que exprime o gener^^or elles indicado. 
Mocim e corêol silo synonymos de eavallo, quo designa a idéa geral de rocim 
e corsd. ^ 

4. Os synonymos, pois, quanto á sua natureza, 
devem dividir se Qm perfeitos e imperfeitos. 

Perfeitos — são os que teem idêntico sentido : 
encarouchar embruxar^ frade freire (frei)^ arroto eru- 
ctação, usurário usureiro^ avaro avarento, cara rosto, 
perna gambia^ cabedal capital., caminho de ferro o. 
ferro- via., dedo minimo e dedo meiminho, tremor de 
terra e terremoto, spectro abantesma ... 

Ha synonymos perfeitos, e nem pode deixar de liavel-os. Basta attender 
á formaçfio divergente do nosso vocabulário, aos elementos históricos da 
liuguii, á importação neologlca, ás forças creadoras e modificadoras (prefixos 
e suffixos), ás differenciações locaes, etc, (V. § 5.<») 

Imperfeitos — os que apenas apresentam entre 
si relações mais ou menos intimas, mas nunca iden- 
tidade de sentido. 

5. Estudemos agora as varias causas da syno- 
nymia. 

I."- - Tendência polyonymica. — E' geral, e na- 
tural, a tendência que tem o povo para designar um 
objecto por mais de um dos seus respectivos cara- 
cteres. Além do facto de idiosyncrasias de consti- 
tuição mental, ha a necessidade de fugir ao tédio das 
repetições constantes, e de exprimir o pensamento 
do modo mais vivo e colorido possível. Ex.: — diabo, 
demónio, demo, diacho, arch. decho e dexemo ( G. 



125 



Vic), Saian^ Satafia{, canhoto, tinhoso, espirito máo, 
etc. Pateta, tolo, palerma, papalvo^ paspallião, bas- 
baque, néscio., imbecil, tolai, parvo (parvoalho ), es- 
tólido^ idiota, bolonio, patola .... 

Essa exuberância synonymica é mais própria dos primeiros períodos 
das lindas, pelo pendor natural para o estylo figurado ou meiapliorico. 
No sanskri'o veda o sol tinha diversas denominações — o brilhante, o amigo, 
o generoso, o nutrídor, o creador, etc. ( M. MUller Lect. ); o árabe tem 500 
synonymoe para designar o leíío (Renan, L. Sem.J; no dialecto islandico ha 
150 synonymos para espada ( Snorro's EddaJ. 

2." — Derivação divergente, e renovação eru- 
dita. — A cultura litteraria introduziu no portuguez 
crescido numero de vocábulos de fundo erudito, ti- 
rados immediatamente dos autores latinos. 

E assim originaram-se grande numero de formas 
divergentes, porque a maior parte desses vocábulos 
já pertencia ao fundo popular da lingua : — coalhar 
coagular ( = 1. coagulare ), prêa preda presa ( -: 1. 
proeda ), mancha macula ( = 1. macula ), paço palácio 
( =_ 1. palatium ), quedo quieto ( =^ 1. quietus ), doar 
dotar ( = 1. dotare ), alhear alienar ( = 1. alienare ), 
nédio nitido ( =1. nitidus ), etc. ( V. Liç. 23 ). 

Mais. Um vocábulo deriva do nominativo, e 
o outro do accusativo latino : — ladro ( latro) e 
ladrão ( latronem ), preste ( presbyter ) e presbytero 
( presbyterum ). 

Foi a renovação litteraria que nos deu — legi- 
timo p. lidimo, dispensa p. dispensaçom, secular p. 
se gr ar, integro p. iiíteirOy plano p. chão^ logar p. 



136 



logo^ mesura p. medida^ tédio tristeza pe^ar nojo 
desprazer saudade ( suydade ), ira e sanha, astúcia 
e arteince, etc. ', hypothese { gr. hypothesis ) e sup- 
posição (1. SLippositionem ), esphera (gr. sphaira) 
globo ( 1. globus ), léxico ( gr. lexikon) e diccionario 
( = 1. diccionarium ) etc. 

3 '■'— CreaçÃo portugueza.— Mendai ( = l. 
mendax) e mentiroso^ avaro avarento ( = 1. avariis)... 

4.^-— Importação peregrina ( V. Liç. 22 ). — 
E' esta uma grande fonte synonymica e inexhau- 
rivel : — orgia ( — 1. orgia ± gr. orgia) e deboche 
( fr. debauchejy trovador ( prov. ) e bardo {(ze\\.), 
alvo ( 1. albus ) e branco ( germ. blanch ) ; ventre ( 1. 
venter ), abdon-en (1. abdómen), barriga (germ. 
baldrich); cavallo (1. p. caballus ), rocim(germ. 
ross ), palafrem ( fr. palefroi)^ alfarai ( árabe al- 
farás) ; vagão ( ing. wagon ), carro ( l. currus); beija 
flor ( form. port. ) e colibri ( caraíba ) ; casquilho e 
petitnetre [ ív . peiit mâitre ) , chapada (planalto, pla- 
nura ) e plató ( fr. plateau ). - 

5.^— Technologia scientifica. — O progresso 



* Leal Coiis. — Foi D. Duarte o primeiro que encontrou o veio syno- 
nymico. 

A cultura litteraria começou no declinar do Século xiv; no xv a 
língua mais se apartou da sua evolução natural pelo capriclio dos tradu- 
ctores, que, como era natural, introduziu no portugue? grande cópia de 
vocábulos tirados directamente das fontes latinas. 

' Gallicismo. Enxovalho da Ymgna. como bouquei, i/}ilette, soirèe.faii- 
Uuil ... 



127 



scientifico e o industrial muito teem concorrido 
para augmento da corrente synonymica. Ex.: bexiga 
varíola, veneno toxico, contraveneno antídoto, san. 
gria phlebotomía, barriga d' agua ascite, poaya ipe- 
cacuanha, damnação hydrophobia, dôr de dente odon- 
talgia, anta tapir, somnambido noctambido uyctobato, 
terçol hordeolo, 

6/ — Semeiologia. — Sarabanda p. ^eribanda \ 
sé sede ( sanatséde — Vieira ), são santo, saldar soldar, 
exquisito ridictUo, - confiado atrevido, cunha empenho 
( metter-se no cargo á cunha de valias }, patife ma- 
roto, etc. 

7/ — O VOCABULÁRIO PLEBEU E A GIRA. — Mata- 

sanos = medico imperito, sacamollas = máo dentista, 
bisbórria = homem de borra, grosseiro e ridículo. 

8.^* — DiFFERENÇAs LOCAEs. — São ás vezcs de- 
vidas á maior influencia de um dos elementos histó- 
ricos da língua. No Brazil, por exemplo, devc-se ter 
em muita conta o elemento indígena e o africano. 
ExQ.m^^\o\ pacova banana, gerimwn abóbora, quiabos 
quíngombô, calunga camondongo. '^ 



* Ambos sao hoje empregados no sentido de reprehenmo seccra; mas 
zeribanda (or. •àív.) = soca, e sarabanda {ov. hesp.) signiticava umadansa 
lasciva, com muitos saracotes, etc. 

^ Ekquisito, propriamente é cousa rara, excellente, etc. Do lat. exqni- 
sitm = buscado com diligencia, etc. 

'Já vimos que o nome portuguez correspondente — é murganho, e 
bem assim que em Pernambuco calunga não significa camondongo, como na 
Bahia, mas sim um bomfrate. 



128 



Na ichtiologia e na oraiotbologia, è imraensa a differença da no- 
menclatura do Norte do Brazil, comparada com a do Sul. 

O mesmo podemos afflrraar quanto aos vegetaes. — Lê-se cm um trabalho 
do Dr. J. de Saldauha da Gama ^*%?i. de diverso» veffetaes do BmzU Í8G8):... 
"em muitos casos existem 2, 3, 4 ou mais nomes vulgares para uma só 
espécie:... Os nomes ciilgares mnd&m de província para outra, pelo menos 
a respeito de alguns vegetaes, e ás vezes nos municípios de uma mesma 
província". Ex. : CutucanM Carvalho (no Paraná); coco de caiarrho macauba 
mocajuba; camomilla macclla, (Anthemis nobilis), herca íoníão(R. de 3 ) pega- 
pinto (Ceará) Boerhavia hirsuta; gravata cura ud (Amazonas) caragoatá = 
Bromelia sp., tinhorão — pé de bezerro (Caladium bicolor), pdo ferro (R. de J ) 
jucá (Ceará), cajueiro bravo cambaiba, coco da pi'aia — garnry; pdo santo — 
guaico, jatobá (R. de J.) — jetahy (Amazonas) ; maçaranduba — apraiú (S. Fi - 
delis", canna cayanna — tacomarê ou tacoaraêm, capim melado (IX. de J.' 
capim gordura (Minas Geraes), guaxima ou carrapicho (R. de J.) uaissima 
(Amazonas). 

Q."" — Os synonymos perfeitos são hoje em nu- 
mero decrescido, e cada vez mais tendem a rarear. 
E' que o conhecimento mais profundo da lingua 
também mais lhes vae particularisando, restringin- 
do, as significações. Ex.: «eí^/b e «/7/<Yó, confiança e 
confidencia^ re^ar e recitar^ meio e médio ^ solteiro e so- 
litário. 

lo. — Laffay divide os synonymos, quanto á 
natureza das suas diíferenças, em grammaticaes ou 
de radical commum, e etymologicos ou de radical di- 
verso . 

II. — Os de radicai commum só diíferem entre si 
por certas circumstancias grammaticaes — prefixos 
e sufíixos ou desinências :j?roúfMcto/>roí/«cçíío,- risa 
risada.^ melhora melhoria melhoramento, vão vaidoso, 
difficil difficidtoso. 



139 

São avultados, e dividemse em simples q' com- 
postos. 

12. — Para bem profundarmos no génio de uma 
lingua, devemos estudar a synonymia grammatical, a 
qual pôde dar-se dos vários modos seguintes : ^ 

i.° — Synonymia entre substantivos que só diffe- 
rem cm numero : baixe {a baixelas. 

2°-^ Entre substantivos que só differem no gé- 
nero : montanha monte, fortaleza forte. 

S."" — Entre coUectivos e substantivos no plural: 
os homens, a humanidade . 

4." — Entre substantivos e infinitos substan- 
tivados : sensação sentir, riso rir, pensamento pensar , 
sabedoria saber. 

5.° — Entre substantivos e participios passados 
tomados subslantivadamente : — imposição imposto, 
enunciação enunciado. 

6.° — Entre substantivos e adjectivos substan- 
tivados : — belleia — o bellu, utilidade - - o útil, extre- 
midade — o extremo. 

7." — Entre adjectivos e locuções adjectivaes 
compostas da preposição de e de um substantivo : 
oriental — do oriente, homem criterioso — homem de cri- 
tério, litterato — homem de lettras. 



* Xo estudo dos synonymos seguimos o methodo aprefientado por 
Laffay. 



i3o 



8/ — Entre adjectivo e participio passado to- 
mado adjectivadamente : convwa convidado. 

9.° — Entre adjectivos, um de derivação verbal 
outro da forma nominal correspondente : — vibrante 
(de vibrar) e vibratório ( de vibração ). 

10. ° — Entre verbos neutros e os mesmos na 
forma activa reflexa : sahir sahir-se. 

ii.° — Entre verbos neutros eo seu participio 
presente precedido do verbo ser ou estar : depender 
— estar dependente . 

12.°— Entre verbos no indicativo, e outros no 
futuro subjunctivo : Creio que ellefa\ bem^ que fará 
bem ; crés que ellefai bem ? que elle faça bem ? 

i3.° — Entre verbos ir.choativos e as formas 
correspondentes periphrasticas : envelhecer = fa- 
ler-se velho ; empallidecer = tornar-se pallido, ajoelhar 
=^ pór, cahir, em joelhos. 

14." — Entre verbos activos e as suas formas pro- 
nominaes : rir rir-se ; resolver resolver-se. 

i5.° — Entre verbos activos e suas formas pe- 
riphrasticas ( verbo/<2{^r, dar, etc. -h substantivo ): 
acariciar, fa^er caricias ; gritar, dar gritos. 

16. ° — Synonymia das preposições a., para, com 
as preposições de, com, por : — servir de, • ■- para ; 
aproximar-se a, — de; acostumar-se a, — com ; com- 
parar a, — com ; ao menos, pelo menos ; afim, com 
o fim., etc. 



i3i 



17.** — Entre adjectivos e advérbios, e entre 
advérbios e locuções adverbiaes : raro, raramente, 
com raridade ; triste, tristemente^ com tristeza ; cega- 
mente, ás cegas ; vanmente, em vão ; litteraimente, d 
lettra. 

i8.° — Entre palavras que modificam o sentido 
conforme o logar que occupam na phrase : verda- 
deiro amigo, amigo verdadeiro ; maltratar, tratar mal; 
bemfa{er, fa^er bem ; sobrelevar, elevar sobre. São 
verdadeiros synonymos syntaxicos. Todavia a mu- 
dança de logar não raro modifica o sentido das pa- 
lavras. ( V. Liç. 5/ ). Disse Gil Vicente : a quem ou- 
rives chamar bom homem dae-lhe esmola de dó delle ; 
e Vieira sentenciou vje grande differença de ser nosso 
rei ou de ser rei nosso. 

19.°—=- Entre palavras cujas differenças de sen- 
tido são determinadas pelo valor dos prefixos e sufíi- 
xos : — pasto pastura pastagem., corajoso corajento. 

14. — Os synonymos de rai{ diversa são palavras 
de varias origens, imp jrtadas para expressão de 
uma mesma idéa ou de suas cambiantes. Muitas 
vezes não é a necessidade a causa de tal importação, 
mas tão somente a sympathia ou a moda 

i5. — As dissimilhanças de significação expli- 
cam-se pela etymologia, pela ditfcrença dos radi- 
cães: — caro querido, carniceria (carnificina) ma- 
tança mortandade hecatombe. 

16. — Não estão, como os grammatieaes, su- 



l32 



jeitos a leis geraes. « Do seu sentido particular só 
decide a autoridade clássica, a menos que a origem 
etymologica, conservada pela tradição, baste para 
indical-o de modo scientifico » : — cavallo^ corsel^ 
ginete^ rocim, hacanêa^ palafrem, alfarai^ faca ; 
espada^ cimitarra, catana^ alfange, chifarote, cutelo, 
estoque, gladio, montante, sabre, terçado, refles, etc. 
17. — E' de grande utilidade o estudo desta 
categoria de synonymos, que nos faz conhecer as 
distincções philologicas consagradas pelos exemplos 
de bons escriptores, e habilita-nos a dar mais pro- 
priedade e vivacidade á phrase. Exemplifiquemos : 

Prejuízo, preoccupaçÃo, prevenção. — Expri- 
mem o erro permanente ou a predisposição para o 
erro, por motivo orgânico, do meio ou da educação, 
ao passo que illusão, engano, desacerto, significam 
erros ou faltas accidentaes. 

O prejui{0 refere-se ás crenças, opiniões, su- 
perstições ; prende-se á nossa infância, ao lar domes- 
tico, á escola. Explica-se por uma certa fraqueza 
do espirito, credulidade condemnavel. 

A preoccupação é o erro da consciência, ao 
envez do prejui^o, que é o erro da autoridade. 

Representa o aíferro a certas idéas, capri- 
choso, obstinado. 

A prevenção tem por fim dispor os ânimos ao 
nosso intento : fere o coração para actuar sobre a 
razão, e por isso torna-nos as mais das vezes parcial 



i33 



e apaixonado. Constitue o que se chama erro do co- 
ração. ^ 

Incerteza, duvida, indeterminação, indecisão, 

IRRESOLUÇÃO, PERPLEXIDADE. TodoS CStCS VOCa- 

bulos exprimem um estado de enleio, suspensão, 
embaraço, em que o individuo em nada assenta, e 
nada toma por partido. 

A incerte:{a e a duvida referem-se ao entendi- 
mento ; é delle que parte a hesitação no caminho da 
verdade. A indeterminação, a irresolução, indecisão e 
a perplexidade teem por origem a faUa de vontade 
própria, de energia, a inércia e o receio. 

No primeiro caso (da incerteza e duvida) é pre- 
ciso ter crença, fé ou confiança para vencel-as ; cul- 
tivo intellectual, e razões convincentes para remo- 
vel-as. No caso da irresolução, indecisão e indeter- 
minação, fallece ao individuo a necessária energia 
para pôr em pratica a empreza a que se quer aba- 
lançar, para resolver-se em cousa certa. A indetermi- 
nação é proveniente de fraqueza de animo, a inde- 
cisão é devida á fraqueza de espirito. O indeciso 
carece de convicções firmes ; o irresoluto de império 
sobre si mesmo, firmeza de caracter. Para vencer- 
Ihes a inércia, é preciso esclarecer, instruir, conven- 
cer o indeciso ; estimular, excitar, persuadir, o irre- 
soluto. 

* Lalf. Dki. etyin. 



i34 



A perplexidade exprime indecisão com desasso- 
cego de espirito ; uma conjunctura apertada entre a 
indeterminação e a duvida, a perturbação do espirito e 
o desanimo. A duvida affecta a crença; a irresolução, 
indeterminação e a indecisão dependem da vontade ; 
a perplexid ide aífecta o entendimento e a vontade, 
e só pôde cessar ante a convicção de não se dever 
inquietar com o resultado de um commettimento 
quem procede sempre com recta intenção 

A incerteza é o caso do ignorante ; a duvida é a 
hesitação em pontos de dogma, a suspensão do enten- 
dimento no ajuizar. Aquella mais se refere a aconte- 
cimentos, esta a opiniões ; a incerteza é subjectiva, a 
duvida é objectiva ; a primeira — íixa-se, a segunda 
— resolve-se. 

i8. — A synonymia é do mesmo passo uma força 
modificadora e um factor de reducção do vocabu- 
lário ( V. Liç. 21.) Exemplo : monja (arch. mong-a = 
1. monacha) archaisou-se pela preferencia dada á 
forma synonymica freira, feminina de freire ( = 1. 
frater ), que por seu turno foi supplantado pela 
forma concurrente frade ( = l.fratrem, irmão ) no 
século XVI ; ^ gargantuyse ( L. Gons. ) é oblite- 
rado pelo vocábulo ^«//a ( Século xv ) ; agro p. 
campo ^ terreno ;criameiitos p. afagos ;frontar p. pro- 
testar, etc. 



* Freire conservou-se na fórraa atrophiada frei quando se segue o 
ftome do frade — i^/ei Bento, Frei Pedro. 



i35 



19. — A's vezes o vocábulo novo não consegue 
archaisar o outro já existente, mas altera-lhc o sen- 
tido ou restringe-Ihe o uso. Exemplo : comer { = l. 
come-d-ere ) era de emprego vulgar até o século xv 
com a significação á^ jantar ( D. D, — L. Cons ); de- 
pois — pela concurrencia desta forma hespanhola — 
veio a designar simplesmente comida, alimento (Cp. 
verbos — comer e jantar ); eira e área ( 1. área ), 
obrar e operar ' —■ \. operare ), chão e plano ( =1. pla- 
nus ), solteiro e solitirio (= 1. solitarius ). 

Outras vezes, um dos vocábulos fica adstricto 
somente ao dominio da poesia. Exemplo : ledo ( = 1. 
Icetumj era de uso popular nos primeiros tempos da 
lingua(Docs. séculos xii e xni, C. V. ) ; no sé- 
culo XIV a forma alegre ( — 1. alacrem ) substituiu-o 
de todo na prosa. ^ 

1.0 — o estudo dos syaoaymos — de que é o portuguez riquíssimo — é 
indispensável para o bem cnbi<io emprego das palavras, para a exacta e 
precisa expressão do pensamento. Os Gregos tinham em muito valor o 
perfeito conhecimento da significação das palavras ; os Latinos, posto que 
menor lhes fosse a riqueza syuonvmica. também muito curavam desse 
estudo, como se deprebende da 3.* epistola do grammatico Froutoa a 
Marco Aurélio. « 

Nas línguas modernas, porém, o esquecimento ou desconhecimento 
da significaçilo primitiva do radical, faz com que nHo raro as palavras, 
tenham sentido diverso do expresso pelo radical. E este facto é mais 
pateate nos derivados secundários, ou palavras formadas por derivação 
ou composiçáo de formas também derivadas ou compostas, ou impor- 
tadas de fontes estrangeiras ( Egger ). 



' Ap. Egg. Gr. eomp. 
* 8. Eufros. Rom. 



i36 



2.*— A synonyniia explica outrosiin as divergências léxicas, quês» 
notam nos idiomas congéneres e nos c. dialectos. E' assim que dos syno- 
nymos latinos frater e germanus, pastor e berbericus, infirmus e 7nale aptus, 
casa e mcmsio, o portuguez adoptou de preferencia, e espontaneamente, 
germano germaho irmão, pastor (pastoremj, enfermo, casa, e o francez 
frkre,berger, inalade, maison (mansionem). — M. Múller, Lect. 

Mais tarde o francez admittiu as palavras germaia pâtre, infirme, 
easerne, e o portuguez por sua vez — fi'ade ( só applicavel aos irmãos 
de ordem religiosa), malato (p. infl. it&Yi&na. ), meijão {^p. inf. franceza), 
mansão {inú. erudita). 



HOMONYMOS 

20. — HoMONYMOs (gr. Jiomoios semelhante, onu- 
ma nome ). São palavras que, comquanto expri- 
mam idéas diííerentes, pronunciam-se do mesmo 
modo, quer tenham ou não idêntica orthographia. 

21. — Dividem-se : 

\.° Em aunoculares, que soam e se escrevem 
identicamente: — cattto (ária, melodia, e angulo 
formado por dous planos, etc. ), manga (frucio, e 
parte do vestuário que cobre o braço }, maneira 
( modo, uso. e abertura na saia ), são ( sadio e contr. 
de santo ), salsa (hortaliça e salgada ), salva ( prato 
de metal, vidro, etc, e descargas de artilheria, sem 
bala, em demonstração de respeito, honra militar, 
herva, e participio passado do verbo salvar)^ dado 
( substantivo e participio passado ), lente ( professor 
e instrumento ), etc. 

2.° Em homophonos (auriculares) ^ que se escrevem 
diíFerentementej mas teem a mesma pronuncia : — 



i37 



sumo siimmo^ concelho cojiselho, cita sitta sitj^ cervo 
servo y condessa condeça, ruço russo, ceda seda, cinto 
sinto, pena penna, pulo pul-o, ama minha — a mami- 
nha, que ouço — que osso, concebo — com sebo .. 

3.^ Em homographos ( oculares ] que tem idên- 
tica orthographia, mas diversa phonação : sabia sa- 
biá^ sede sede. 

A classe dos homophonos c a mais numerosa. 

Por mais rica que sejsi uma lingiia, uílo pódc deixar de ter homonymos. 

As linguas antigas eram mais pobres em homouyitos que as modernas, 
e a raziTo é obvia. 

Da homonymia é que resulta os trocados de palavras ou equívocos, a 
que os Francezes chamam calembourgs. Para esses mesmos effeitos, serviam- 
se os cómicos gregos da homonymia, transpondo muitas vezes os limites da 
decência. Os Latinos também delia se aproveitaram; evc, ate, aves esse ates, 
e é também muito conhecido o verso sobre as cortezAs. 

(*) Quid fácies, fácies Vcneris oim tenerís atite? 

ye sedeas, sed eas ne pereas per eas. 

22. — São varias as causas da homonymia : 
í.° — Contracção das palavras do vocabu- 
lário popular: — são ( = santo, lat. sanctusj, são 
( = sano, lat. sanus e são (arch. som, lat. sunt), 
cem ( = cento, lat. centum ) e sem ( = lat. sine), grão 
( = grande, 1. grandis j e grão \=\- granum) , paço 
( = palácio, 1. palatium) e passo (S = 1. passus^ e ver- 
bo), era ( ~ 1. eratj e hera ( arch. hedra, Sec. xvi, 
lat. hedera,, som ( = lat, sonus j e arch. som ( = lat. 
suntjj etc. 

2.° — Formação de substantivos verbaes : — 
pega, ( substantivo e verbo ), consulta, rega, rubrica, 

IS 



i38 



canto, mando j calo { verbo calar ) e calo ( S. do lat. 
calum ), passo, etc, capital — Lente. 

3.° — Mudança de categoria por mudança de 
SENTIDO.— o verbo latino soldare, contr. át solidare 
( tornar solido, solidificar ) veio a significar ajustar 
contas, — soldare rationes ( Bréal, Dict. Etym. lat. ), e 
por extensão — ligar metaes. Esses dous verbos pas- 
saram para o portuguez (soldar e solidar ), este com 
a significação de fazer solido, aquelle no sentido de 
unir metaes por meio de solda, unir os lábios de uma 
ferida, e no de pagara divida. — Soldar passou depois 
a ter accepção particular de receber soldo, soldada. 
( Foral de Coimbra, Nob., Ord. Aíf. ), que era a 
paga, a contia, por analogia de soldo, solido (moeda), 
• — Sec. xn ={\3Li. soldus solidusj, donde vieram o 
substantivo soldadeiro — o que recebe soldo, e mais 
tarde soldado — homem de guerra ao soldo do Es- 
tado, que assim tornou-se homonymo do participio 
do verbo soldar = ajustar contas, pagar dividas, ou 
unir por meio de solda. 

4.*^ — Diversidade das fontes léxicas. — Temos, 
por exemplo, a palavra canto^ que no sentido de 
melodia, modulações de sons vocaes, tira origem no 
latim cantus ; e com a significação de angulo for- 
mado por dous planos^ etc. no germ. Kante ^ Acer 



* Cp. D. Kftnl, Isl. Kantr. gal. ami, mg. cani. fr. ant, cant. gr. Kandós 
(li.canthusj. 



í39 



c ager deram-nos de accordo com a leis phoneticas 
— a forma agro ; pen.i^ dor, trabalho, castigo, deriva 
do latim poena, e pena, penha, rocha, do céltico 
pen ; ^ manga^ fructo, é de origem indiana, manga^ 
parte do vestuário, deriva do latim man (i) ca ; lima^ 
fructo, é de derivação pérsica, /zwíJ instrumento, do 
latim lima. 

5.° — Corrupção phonetica. — O facto de não 
mais fazermos soar as lettras geminadas ( suma 
siimmOj pelo pe/loj; ^ a perda da verdadeira pho- 
nação do grupo eh, só conservada na Beira = tchj 
(chá, shahxàjy etc... 

6.° — Influencia local. — E' manisfesta na 
linguagem popular. A troca das syllabas iniciaes en 
e m em an, por exemplo, mui frequente em todos os 
periodos da lingua ( antre p. entre — 1. inter, antre- 
meio, antremetter, antremei, antrepo.\ antretanto, an- 
irevallo, antreuir, anteado, andoenças, etc), transfor- 
mou o adverbio então ( arch. entonce, entonces, 
antonces ) em antão, que se tornou homonymo de 
Antão, f. contr. de António. 

PARONYMOS 

23. — São palavras de sentido diverso, mas 
apresentando algumas relações morphicas e phoni- 



* Aiuda mui frequente nos t&ponymicos — Penadono, Penacota, Pe- 
nafiel, etc. ^osísa Senhora da Pena, diziam o.s autigos. 

* No italiano ainda as consoantes duplas soam di.stinctas. 



140 



cas,e, ás vezes, — etymologicas: Sujeição sug'estão, 
biographia bibliographia, som são, pendença pendência; 
premissa premida, detrahir distrahir^ propagar pro- 
palar. 

24. — A paronymia é resultante da troca de 
sons physiologicamente semelhantes ( leis phoneti- 
cas ), dos metaplasmos, e ainda da derivação diver- 
gente : — soar suar ( latim sonare e sudare J, segredo 
secreto (latim secretusj, degredo decreto (latim de- 
cretus ) braga barca ( latim bracca e barca J. 



DECIMA TERCEIRA LlCÃO 

Flezão dcs nomes: género, numero, caso.— Noções de decli- 
nação latina. - Desapparecimento do neutro latino em 
pcrtuguea ; vestígios do neutro em portuguez. — Ves- 
tígios da declinação em portuguez. - Origem do s do 
plural. 

I. — Flexões (do participio laúno flecto, curvo) 
são as mudanças morphologicas tendentes á indica- 
ção das mutuas relações grammaticaes das palavras 
no mesmo periodo, ou de alguma condição acciden- 
tal da cousa expressa pela palavra inflexa. 

A flexão é uma espécie de derivação. Abrange 
a declinação e a conjugação. 

As linguas litterarias, antigas e modernas, em- 
pregam inflexões : 

i.^ com substantivos, adjectivos, pronomes e 
artigos, para indicarem. 

a) género. 

bj numero. 

c ) caso, ou relação grammatical. 

2^ Com adjectivos e advérbios, para marcarem 
os gráos de comparação. 



142 



3/ Com adjectivos, para indicarem si a palavra 
é empregada com sentido definito ou indefinito.' 

4.^ Com verbos, para exprimirem o numero, 
pessoa, voz, modo e tempo; ou. em outras palavras, 
para determinarem si o caso nominativo (sujeito 
do verbo ) é singular ou plural ; si a pessoa que 
falia, com quem se falia, ou de quem se falia, 
é o sujeito ; si a acção expressa pelo verbo é con- 
cebida somente com referencia ao sujeito, ou occa- 
sionada por um agente externo ; si aquella acção é 
absoluta ou condicional ; e si é passada, presente, 
ou futura. ^ 

As interjeições, preposições e conjuncções não 
são flexionáveis. 

As flexões dividem-se pois em — nominaes e 
verbaes. 

K flexão é constituída pela combinaçíto de um sentido e de uma forma. 

As terminações (por si mesmas insignificantes) foram empregadas 
como signaes externos e instrumentos desta determinação. E assim tornou-se 
perfeita a flexão, interna e externamente. 

A flexão nas linguas avyanas implica uma flexão anterior pela qual ella 
modelou-se. 

2. — As flexões são ainda fortes ow fracas con- 
forme consistem na mudança de lettra do radical, 
ou na addição de elementos vocaes ao radical. 

" Esta nomenclatura fuudamcuta-se em que o poder que tem uma pa- 
lavra de variar pela mudança de seus elemtutos mais desnecessários, sem 

1 M. L. 



143 



auxilio externe (composição ou addiçflo de syllabas), revela certa vitali- 
dade, certa força orgânica innata, que as raizesníío possuem, pois só variam 
pela incorporação òu addiçaode elementos extranhos. " 

3. — São varias as theorias suggeridas para a 
explicação da origem das mudanças de formas nas 
diíFerentes classes de palavras nas linguas flexionaes. 

Schleicher é de parecer que ellas devem ser denominadas, linguas orgâ- 
nicas, porque incluem um principio vivo de desenvolvimento e accrescimo. 

" o admirável mecanismo destas linguas — diz elle — consiste em for- 
mar uma variedade immensa de palavras, e em marcar a connexaio de idéas 
expressas por aquellas pala\Tas por meio de um numero considerável de syl 
labas, que, isoladas, nSo teem significaçílo, mas que determinam com pre- 
cisão o sentido das palavras a que se ligam. Modificando as lettras das raízes, 
formam-se palavras derivadas de varias espécies, e derivadas de palavras 
derivadas. As palavras compoem-se de varias raizes indicadoras de idéas 
complexas. Finalmente, substantivos, adjectivos, e pronomes declinam-se 
com género, numero e caso ; os verbos conjugam-se com vozes, modos, 
tempos, números e pessoas, também por meio de terminações, que também 
nada significam só por si. Este methodo tem a vantagem de enunciar com 
uma simples palavra a idéa principal, muitas vezes extremamente modificada 
e já mui complexa, com a sua inteira serie de idéas accessorias e relações 
mutáveis." 

A escola moderna, avessa ás theorias de Schlegel, é mais aceitável. As 
inflexões foram originariamente palavras que, como as outras, tinham signi- 
ficação distincta: eram pronomes, auxiliares ou participios que se soldaram 
á raiz; e que por tal forma se modificaram que mais nSo podem ser reconhe- 
cidas em sua combinaçílo com a palavra flexionada. Ainda nas linguas 
modernas ha alguns exemplos que evidenciam a historia dessa coaliçSo. A 
terminaçílo do pretérito inglez — doned è o pretérito diâ ; a terminaçio do 
futuro dos verbos nas linguas românicas — ei C amarei -^ amaxlici, amarás 
•= amar has, etc) ; a terminação do condicional nas mesmas linguas neo- 
latinas — ia (amaria == amar Jiia, conírsiC^SLO ác Mtia, etc.) * 



* Em portuguez os constituintes do futuro e do condicional ainda ae 
podem separar, e até mesmo soffrem a intercalação de um caso obliquo — 
dar-lhe-hd. 

No catalão ( Doe. Sec . xvi) — nos donar los niem ço q vallen (nós lhes da- 
remos o que valem ), e em outro doe. — focemos lehandf^ar (far-nos-hão 
deixal-o). 



144 



4. — Latham affirma que quanto mais remoto é o período de uma 
liugua, tanto maior é o numero das suas formas flexiouaes. 

Esta theoria nãoé de todo ponto exacta, e todas astheorias genéticas da 
origem das flexões a contradizem, porque para aceital-a fora mister suppôr 
que a linguagem não estava sujeita a uma evolução orgânica, de crescimento 
e desenvolvimento, e que todas as mudanças consequentes eram apenas cor- 
rupções. 

As linguas selvagens que nunca foram escriptase as das nações ainda 
atrazadas na litteratura, sjlo extraordinariamente complexas e multiformes 
nas suas inflexões. 

5.— Géneros. — O latim tinha três géneros — 
masculino, feminino e neutro; o portuguez só con- 
servou os dous primeiros. 

SUBSTANTIVOS 

6. — A propriedade dos substantivos de indi- 
carem o género, foi sempre caprichosa, e a arbitra- 
riedade salta immediatamente aos olhos dos que 
comparam o grego com o latim, este com o por- 
tuguez, o portuguez com o francez, inglez ou alle- 
mão, etc. 

Em todas essas linguas o neutro lógico c o neutro grammatical nem 
sempre se correspondem : em grego e em latim, por exemplo, os nomes de 
mulheres teem muitas vezes terminações masculinas — Plokioii {formai ái- 
minutiva deplókos J, nua Qlycerium ( Ter. Andria ) ; mea Silenium ( P. ), em 
allemão — mulher é do género neutro (das WeibJ, a lua m&sc. fãer MondJ 
o sol (i feminino (die SoiineJ, etc. 

" Gregos e Latinos empregavam geralmente o género como um 
simples signal grammatical, pois que milhares de nomes de cousas sfto em 
ambas essas linguas do género masculino e feminino, ao passo que nomes 
de seres sflo em muitos casos designados por palavras do género neutro, 
o género grammatical não era essencialmente indicador do sexo. O adjectivo 
neutro tó Theion cm grego é empregado absolutamente por Heródoto c 
Eschylo para exprimir o Ser ou a essência Divina. 



E45 



O sexo c a distincção natural, o geuero é a 
distincção grammatical. 

Segundo a theoria de Bleek — os nomes, combinados com suffixos 
pronominaes, que na origem eram simples substantivos ej;plicativos, 
podiam ser substituídos pelos pronomes correspondentes. Foram estes que 
determinaram o que chamamos ^^cnejv. 

y. — Os Romanos perderam muito cedo o senti- 
mento do verdadeiro emprego do neutro, a idéa da sua 
utilidade, e supprimiram-lhe a forma grammatical, 
ou antes, transformaram-na no masculino. Esta arbi- 
trariedade, assignalada como de frequente uso na 
época imperial, encontra-se a miúdo nas inscripções 

'templus, membrus^ brachios^ p. templum, mem- 

briim, brachium^ '>, e mais tarde — por occasião 

da queda do império, e por motivo da analogia — a 
forma neutra em a do plural folia^ pela. festa, pira, 

poema, de foHum velimi feslumy, foi considerada 

nom. sing. fem. da primeira declinação. 

8. — Os nomes neutros, pois, passaram para o 
portuguez, e mais linguas romanas, ora no mas- 
culino, ora no feminino : lábio ( labrum ), aiiro 
í aurum ), alho ( allium ), século ( seculum ), pidro 

( vitrum ), estudo ( studium ) obra ( opera ), folha 

( folia ), festa ( festa ), pela ( vela )... 

Estes últimos, femininos, do nom. pi. dos nomes 
neutros. 

9. — Todavia, conservamos ainda em muitos vo- 
cábulos, vestigios morphologicos da origem neutra. 

19 



146 



Já no conceito de J. de Barros — jquiilo^ ^Ig^^ isto, 
isso, outrem (arch. al.J eram formas do gen. neutro ; ^ 
Diez (gram. der Rom. Spracher) é lambem de parecer 
que sempre que esses adjectivos preencherem as 
funcções de um substantivo e vierem empregados 
como predicados de um nome neutro ou de uma 
phrase inteira, devem ser considerados do género 
neutro. Bergmann affirma que as formas substan- 
tivas — o verdadeiro ( verum ), o hello ( pulchrum ), 
o bom ( bonum ). etc são verdadeiros typos do 
género neutro, que « por estar logicamente especia- 
lisado não tem mais forma exterior especial, nem 
differente da do masculino ». 

10. — Muitos nomes de fructos são femininos 
em portuguez, mas derivados do neutro latino — 
pêra ( pirum ), cereja ( ceraseum ). Em does. do Sec. 
XIV encontram-se as formas pomas e legumas ( le- 
gumlhas ), vestígios tão evidentes do neutro, como 
penhora, arch. pindra ( Sec. xni For. Cast. Rod),e 
anima/ha anima/ia alimária (Sec. xiv. Rg. S B.j 

II. — - Na linguagem popular dos primeiros sé- 
culos havia também modos de dizer, que relembram 
as formas neutras primitivas, e delias ainda são al- 
gumas usadas hodiernamente, como, por exemplo, 
— escapou de boa, fel-a b )a. Nestas phrases não ha 
ellipse de substantivo ; o feminino representa sim- 
plesmente uma forma neutra. 

• Is(o. esto ( = istud), isso, esso ( = ipsum), «(/t/íí/o ( — hicillud). 



H7 



Cp. mais — chns phts (Soe. xir — xvi), menos =^ ordi. 
mm (Sec. xii), = miuus, ttc. Trom eoin. 

12. — Os substantivos portugezes. em regra, 
reconhecem três origens : 

i.^ Latina — Neste caso os vocábulos portu- 
guezes conservam geralmente o género das palavras 
latinas, com exepção dos que derivam do género 
neutro, que — como vimos — passam para o mas- 
culino ou feminino. 

2.^ Portiigiie{es — Os vocábulos desta origem 
teem o género indicado pelo suffixo. Ha excepções, 
como por exemplo — abusão, aleijão^ alluvião^ que são 
femininos. 

Nos compostos, é a forma de composição que 
determina o género [ V. Lição 17). 

3.^ Estrangeira — As palavras importadas das 
varias linguas estrangeiras consevam o género das 
de que se originam, ou género analógico ( um va- 
gão, um trenó ^ o whist, a tanga, a hemicrania, um 
chope {a\t^ ali sckoppen, masc. ), uma soirée, ^ etc; 

i3. — Mas, em consequência de varias influen- 
cias, muitos vocábulos mudaram de género, quer na 
passagem do latim ou grego para o portugez, quer 
mesmo — uma ou mais vezes — depois de já perten- 
cerem ao nosso léxico. Carvalho, cedro, roble., as let- 
tras do alphabeto, etc, eram do género feminino em 

Soirée é um dos euxovalhos da uos sa linírua. Devo dizer se um sardo. 



148 



latim ', catjplas}7ia era mãsc. em grego; ainda nos 
Secs. XVI, XVII e xviii — pyramide^ emetista, sa- 
fira (ametisto, safiro), hyperbo/e, catastrophe, al/ehua, 
bagagem, base, coragem, homenagem, linhagem, ori- 
gem, decadência, epigraphe, anecdota, .... eram 
masculinos, e epiphonema, enthimema,fim, ^ grude, 
cometa^ planeta, echo^ estratagema^ mappa, synodo^.. 
eram do género feminino. 

14. — Nos clássicos antigos não c raro topar-se 
de olhos, em um mesmo escripto, ás vezes em uma 
mesma pagina, com um nome ora no masculino, ora 
no feminino: — catastrophe, metamorphose, phantasma 
hyperbole, torrente^ espinho (espinha), tribu, etc. 
( Vieira, etc.) 

Em personagem ( masculino c feminino) conser- 
vamos ainda mostra dessa lucta travada entre a tra- 
dição e a etymologia, e que por tempo dilatado 
empeceu a prioridade e fixação do género. Só nas 
ultimas décadas do século passado é que foram 
grammaticos e eruditos fixando a regra, esteiados na 
etymologia . 

i5. — Alguns nomes, por influencia erudita, re- 
tomaram o género etymologico, dissemos nós acima ; 
mas ás vezes perderamno novamente : — labor ^ 
eccho, arvore, base. diadema, syncope, apostema^ 
aneurisma^ e outros muitos. 

• A devida fym, as qvttro fys, ma fim (Sue. xv, xvi.— L. cons. 
7. 30; B. Rib. 247.) 



149 



i6. — Já vimos ( Liç. 6.^) que á mudança de gé- 
nero corresponde muitas vezes a do sentido do vo- 
cábulo. 
uma guia — cousa que serve para um guia — conductor 

guiar, etc. 
uma guarda — acção de guardar, um guai da —guardador, 

corpo de soldado, etc. soldado. 

uma lingua — orgao da boca, um iingua — interprete. 

idioma. 
uma banana — fructo. um banana — homem 

fraco. 
preguiça — negligencia. um preguiça -preguiçoso. 

Estes substantivos — originariamente femininos 
— são, em geral, nomes de cousas, principalmente 
abstractas, que por metonymia se applicam ás pes- 
soas ( homens , e teem no masculino sentido con- 
creto. 

17- — O género dos nomes distinguem-se pelo 
sentido e pela forma. O dos nomes derivados, só 
pela forma. 

17.-' Pela significação ou. \)t\o sentido . Depois 
de algumas vacilla.ões, são : 

Masculinos — Os nomes de homens e animaes 
machos, rios, montes e montanhas, cadêas de mon- 
tanhas empregadas no singular e no plural ( Caneaso, 
Parnaso e Apepinos, os Pyreneos, os Balkans,os Al- 
pes ), os de metaes ( raras excepções ), mezes, ven- 
tos, os pontos cardeaes, povos, sertões, lettras do al- 
phabeto (em lat. do gen. fem. e também do neutro ), 



i5o 



algarismos, as estações (excep. aprimavera)^ os no- 
vos pesos e medidas (ant. eram do género feminino — 
uma vara, braça, légua, arroba^ quarta ...) q qualquer 
palavra empregada substantivamente ; — um por- 
que^ um fá, um lá ( notas de musicas), 

Femeinnos — Os nomes de mulheres e animaes 
fêmeas ; a maior parte dos nomes de arvores ( fructi- 
feras), regiões cidades, ilhas, aldeãs, viilas, serras ; 
virtudes, a maior parte dos nomes de vicios, os dos 
peccados conhecidos por capitães ; sciencias e artes : 
quasi todas as festas do anno (excep. Peiítecosie., Na- 
tal, Carnaval ), os dias da semana ( por causa da sua 
composição, ecom excepção de SabbadoQ Domingo), 
os nomes de cousas abstractas. 

Os nomes de pedras preciosas são masc. ou 
fem. conforme a terminação — uma saphyra, uma 
amethysta, um topázio, jacintho, rubi . . . 

Os nomes de arvores, femininos, distinguem-se 
pela desinência feminina. São muitas as excepções : 
alguns arbustos, e o Carvalho, Roble, Pinheiro, 
Cedro, Jequitibá, o Jacarandá,..} A parte utilisave! 
da arvore ou planta é, em geral, do género mas- 
culino : — páo, fructo, bálsamo. . . 

Quanto aos nomes de paizes e cidades, muitas 
são as excepções; ora decidiu á etymologia ora a 
tradição, ora o capricho ora a terminação — : O Hei- 

* No latim só havia um nomo de arvore Uiaí^culiu j.— O itai-lei: 



i5i 



lesponto, Peloponeso^ o Bosphoro, o Ponto , a Bahia ^ 
a Inglaterra, a França, a Rússia, o Ceará, o Hanover 
o México, o Brasil, o Gt/Vo o Haure . . . Até o Sec . 
XVI reinava grande contusão neste ponto :— um 
Londres, o Diu, o Orniu^, etc. (Leão, Freire, C. 
Real, Camões ...) 

A analyse explica estas regras, que tecm — 
como vimos — muitas excepções. Deve-se attender 
ao nome que se subentende — mei, rio, monte, ilha, 
etc. Os ventos são masculinos porque represen- 
tavam á íorçá irresistivel, e eram considerados 
deuses. 

Nota. Em todas essas regras, o portuguez acom- 
panhou a grammatica latina. . 

i8. — Do género pela forma. As flexões corre- 
spondentes ao género dos substantivos são de origem 
latina : 

A.— Os nomes terminados em a são do género 
fem. porque se originam, em geral, dos latinos da 
primeira declinação em — a. 

Exceptuam- SC os que já eram masculinos em 
latim ou pertenciam á terceira declinação neutra : — 
Íncola, cometa, planeta, poema,... ^ que os no.:>sos 



* Cometa, planeta, jioema, duulema, etc , vieramuos do grego f planeies 
coineies, poienia, diadema, mas por intermédio do \-àúva. planeta, cometa, dia- 
dema, poema.... 

Em diadenM houve deslocação do aceento grego. 

Pfanef'io eiTnd^í*, ovtras planetai (C. Vat. 931 ), Camões f Lui. V. 24 — 
Sec. XVI ). 



l52 



maiores arrolavam no género feminino por se guia- 
rem somente pela terminação. 

Os nomes acabados em a agudo ( com excepção 
de pá, maná, únicos de origem latina — P^[^) ^> 
mamia ) são do género masculino. Os outros são de 
origem oriental, indigena ou africana ; — chá, shá,... 
tupáy maracá. 

E — Os substantivos eme procedem geralmente 
da terceira declinação latina, e consequentemente 
uns são masc. (limite, dente, pente, lume, leite,...) — 
outros /(?m. (febre, noute,fome,nepe,. .). São mascu 
linos não só os for. nados da terceira declinação 
neutra, mas tarnbem os de origem não latina : — 
beque, leque, bule, bote, açude, . . ) 

].<» Muitos duquelles nomes terminavam cm o no poituguez: — deleito, 
appetito, Akxandro. Sao restos dessa oscilUiçflo grapliica — alcanço a par de 
alcance, moto parallelo a mote, etc. 

2. " E agudo desinencial, a niTo ser vestigio da palavra originaria (café 
•*=ar. Kahweh, alinotacé, ralé, maré,,..), iudica uma contracção — /é (ant. 
fee = lat. fl-d-emj, «é(ant. see, contr, de seede, sede = lat. sedes,...) 

O. — São masc. os substantivos acabados cm o, 
derivados da 2.'' ou 4/ decl. masc. em — m5 ou 
neutra em — um (mundo, anno, servo, fructo... 
==lat. mundus, annus, servus,fructiis; reino, templo, 
século, segredo,...— regnwrij templum, seculum, se- 
cretum ). 

Os de derivação extranha terminados em o 
grave, seguem a mesma regra ; e bem assim os 
acabados em o agudo, de qualquer origem f^^orò, 



i53 



pó, teiró, quiproquó, covocó,... Except. — íii^d, í/d, 
mo, enxó, que são femininos. ^ 

XJ. — Os terminados nesta vogal, sejam quaes 
forem suas origens, são masc. porque seguem a 
regra latina, thema em — u (masc. — z^í, neutros 
— tim ). 

Exceptua-se tribu, que é hoje feminino. O vo- 
cábulo latino era masc. (tribus), e até o Sec. xyii 
também assim o consideravam alguns clássicos. 

Depois de voltar ao género etymologico, venceu 
na lucta ( que lucta houve entre os dous géneros ) o 
capricho do acaso. 

Adie. — São fem. quando tiram origem nos 
nomes latinos da S.'' decl. nom. em — as : bondade 
( bon-i-tatem ; nom. bonitasjy piedade ( pietatem ; nom. 
pietas}^ felicidade (flicitatein ; nom . felicitas) ; porque 
exprimem idéas abstractas. 

Excep., e mui naturalmente, — abbade (1. ab- 
batemjj frade (frater). 

A^'oiii, igem, ixgeiTi. — Os derivados do 
latim são femininos porque formaram-se da 3.^ decl. 
lat. nom. em — (^go, que também são femininos ; e 
por analogia os de origem portugueza ou pere- 
grina : — imagem (1. imaginem ; nom. imago) ^ 



• E mui etymok)gi(!amei)te Atá represcnía mulher ; dó é contracção de 
dolor, dor ; mó = I. inola. — Fillió era masc, como se vô do provérbio 
popular — não é por ahi que vai o gato aos Jilhós. 

20 



!54 



vertigem {\. pertiginem^ nom. períigo., ferrugem, 
lambugem, plumagem, etc. 

Excepluam-se — pagem, selvagem, que também 
eram masc. em latim ( 1. b. paghim, seluat-i-cum) . 

Do Sec. XIV ao xvii os nomes em — agem 
eram geralmente masc. — • um imagem, um viagem, 
seu linhagem. 

A.Ô. — São masc, quer se derivem do accus. 
sing. da 3/ decl. masc. em — o : sabão = saponem 
(nom. sapo), sermão .— sermonem (nom. sermoj, 
pulmão, =z pulmonem ( nom. pulmo ), bordão z=z bur- 
doncm (nom. burdo) — ; do masc. em — amis^ 
christào = christianus ( p. arch. christiano), cidadão, 

capitão, escrivão, ou de qualquer decl. lat. do 

género neutro ; quer tenham origem não latina, e 
ainda quando a terminação indica augmentativo : — 
limão, trovão,... portão, carão). 

Cordão é diminutivo de corda. 

Excepções. — São femininos os subst. que de- 
rivam do caso regimen dos nomes abstractos em 
— zo ou <Í6> da S.** decl. lat.. porque já eram desse 
género : religião = reiigionem (nom. religio), lição 
=- lectionem ( nom. lectio ), servidão = servitudinem 
{nom, ser vitudoj, solidão, =sQ\\iuáw\Qm (nom. soli- 
tudo), — Q abusão, aleijão, alluvião. 

Em, iiii, oiiT, um. — São masc, excepto 
ordem e nuvem. Derivam do caso regimen dos subst. 



i55 



latinos da declinação em — o : — homem — hominem 
( nom. homo J. 

Onlo, i/lis, accus. onliuem, era masc. e bem assim nubes, accus. nubem, 
forma collaleral ante clássica de nubis, is. 

Rem, era fem., de accordo com a forma ori- 
ginaria latina (res, rei) : — pêro direy-vos anfunha 

rem. ( C. V. J 

Eu. — Os acabados em en são masc, pois 
correspondem aos latinos, nom. — en^ que são 
masc. ou neutros : — dictamen^ certamen^ ^ regimen, 
gérmen. 

le.— São do gen. /ew, porque trazem seu 
principio da ò.'^ decl. iat. em — es^ que também é 
feminina : — ^ffigie, espécie., serie, superficie. 

Or. — Em regra, são masc.., á semelhança dos 
correspondentes latinos de que precedem. 

Excep. — flor., cor, dòr, = port. ant.—folor, 
color, dolor, contr. em coor, door. No latim, flos^ 
color dolor, eram, porém, do género masculino, 
conservado no hesp, color c dolor. 

Até <i Sec. XVI só tinliam uma forma — mha (mia) senhor, senhor 
fremom, outnis trcx j'M«ío/e« ( Sec. xrii c. v. ), ella era conforUidor, mulher 
peccudor, minha ojvdudoí' {Hom. xi). 

Z. — Os substantivos terminados nesta lettra 
derivam : i.° dos nomes latinos em jc, que são femi- 



1 Mais modcrnameute — eertamc, diríame. 



i56 



ninos : pa{ = ( pacem^ nom. pax J, crii^, = crucem 
( nom. crux )^ lu^ = lucem (nom. lux )^ po{ = vocem 
(nom. vox J ; ^ 2.° do caso regimen dos subst. da 3.^ 
decl. latina nom. em — as, os qnaes também são 
femininos : — solideis nudei^ placidez.... 

ExcEPT. — gai^ arnei^ me^^ gii^ obu{^ cado{, 
matri:(^ nari{, arcabu{, capu{^ alcatrui^ l.ipu^^ que são 
masculinos. 

19. — Alguns substantivos que exprimem cousas 
sem sexo teem todavia uma forma masculina e 
outra feminina, servindo esta para indicar o mesmo 
objecto mais amplo, largo ou dilatado : — bacio, 
bacia, gigo giga, jarro jarra, cesto, cesta, barco, 
barca... (V. Lição 12). Neste caso ainda o femi- 
nino exprime o género, o todo ; o masc. a espécie, 
bem caracterisada {o pendido é parte da pêndula J. 

20. — As vezes o masculino exprime a cousa 
simplesmente, e a forma feminina acrescenta-lhe 
idéa de collectividade (Liç. 12): — titarujo, ma- 
ruja, grito, grita. 

21. — Ha nomes de pessoas e de animaes que 
teem femininos correspondentes anómalos : -^ poeta 
poetisa, cavallo égua,.... A explicação dessas formas 
femininas dá-nos a etymologia ( Lat. poetria, de or. 
estrang. fem. de poeta, equa,...), c^ar, C{arina, abba- 
dessa, archiduqueia, sacerdotisa, rapariga ( ant. ra- 
pada ).... 



' Vide pag. — Lição. 



ID7 



22. — Nos nomes que abrangem os dous sexos, 
predomina o género masc. — deuses^ filhos^ irmãos. 

23. — Temos ainda os nomes epicenos e os com- 
mims de dous. Aquelles debaixo de uma só forma, 
designam animaes dos dous sexos : — tig'fe, onça, 
jaguar y tatii, cegonha,... Determina-selhes o género 
pospondo ao substantivo o adjectivo macho ou fêmea 
(uma onça macho j. Este processo ( adptado pelo 
inglez ), também já era usual no latim.: — vidpes 
máscula. Plin.. porcus f emitia. Cie. 

Dos communs de dous são exemplos — doente, 
martyr^ etc. Infante faz infanta, posto que nos clás- 
sicos mais se encontre a infante. 

DO ADJECTIVO 

24. — O adjectivo portuguez é também va- 
riável como o latino. 

Como já vimos, quando tratamos do género 
neutro, alguns adj. pronominaes teem também uma 
S.'* forma. 



este 


aquella 


isto 


esse 


essa 


isso 


aquelle 


aquella 


aquillo 


uliíum 


alguma 


algo 


outro 


(/Utia 


outrem (al.J 


todo 


toda 


tudo 



25. — Na formação do feminino, seguiram os 
adjectivos exactamente as regras latinas. 



i58 



i.^ Os acabados em o é u formam o feminino 
em a, signal — já em latim — distinctivo desse gé- 
nero : — justo, — a ; crú, — a = lat. jiistus^ — a ; 
crudus^ — a. , 

2." Os em ol e or seguem a regra geral ; alguns 
em or fazem o fem. em i^. 

Eram porém defectivos em género : — mulher 
hespanhol, mulher amador, peccador hom\idor de Deus ; 
minha senhor, a devedor, manceba morador em Lisboa, 
donas entendedores, lettras conservadores,.... ; Gane. 
da Vat. — D. Diniz, Arraes, F. Lopes, .1. de Barros, 
Jorge Ferreira, etc. ) Estes adj. portuguezes derivam 
do caso regimen latino. 

Desde o Sec. xv é manifesta a tendência para o 
desapparecimento desses typos defectivos em género. 

Só no Sec. xvii é que se fixaram as regras dos 
adjectivos em — o/e or.^ ajustando-se pela regra geral 
( em a ). ^ 

O latim tinha a flexão — trix ( tr-ic, tr-ic-i), 
para o fem. dos nomes em — tor actor actrix, pec- 
cator pe oca trix, impera tor, imperatrix ^ ama tor ama- 
trix.. J. Nós só conservamos fidelidade á tradição em 
actri\, embaixatriz imperatrii, directriz. Este ultimo 
porém, tem significação especial, e não mais se 



• J. de Barros ainda recommenda na sua,5'?'aw???a^<m ( 1533), que 
"o nome conveniente a mnlhev v homem será commum de dous ". romo 
autár, devedor, etc, 



139 



emprega para indicar o feminino de director dire- 
ctora ). 

Todos esses adjectivos cm or «jíIo hoje considtTíidos substantives 
ou adjcctivos-sutstnntivados. 

3." Os terminados no diphthongo eu (eo) fazem 
o fem. em — éa^ segundo o molde latino : — europeu 
européa, pebleu plebéa, hebreu hebréa. 

Except.— judeu ^ sandeu^ que fazem — judia, 
sandia, e os possessivos meu. teu, seu. que fazem 

— minha, tua. sua \ Judia, minha, tua. sua, consti- 
tuem legados maternos (lat. judia, mea — ■ port. arch. 
mia, ma — , tua. sua j ; sandia é o fem. regular de 
5íz;zí/zo. forma parailela de sandeu. (Cap. meu mia. 

Os acabados em eo è» como ÍIIím tnbaréo, fnzein f) fem. em <?-7 
íiUiôa, tíibarôa J. 

4^ Os adjectivos acabados em ão, derivados 
dos latinos em — anus, formam o feminino mui 
regularmente, i. e., em — ana, que se contrahiu em 

— an, ã : — chrístiana. christan. christã, saia, san, sã. 

5.' — Temos um acabado cm — om, que faz o 
fem á maneira latina : bom boa =: bon (us), bo (n) a. 
26.— São invariáveis os seguintes adjectivos : 
1,0.==, Os terminados em e derivados do caso re- 
gimen — a) dos adjectivos latinos em er, f. is, n. e : 



' A nssirailaçào dos casos S. c li. dos pronomcá p.j.scssivas fmcxi-^ 
meu-m, etc.) dou-nos uma única fórma, ao contrario do francez que 
conservou as formas atonas c tónicas — mon inii son e 7nien tieti sien. 



i6o 



acre = 1. acer aci is acre, pobre = pauper, celebre = 
celeber ; b) dos adjectivos em is masc. e fem. e e 
neutro : — brepe = brevis breve, silvestre = silves- 
tris ; c) dos em ens entis ( uniformes ) : diligente^ 
prudente ; d) dos participios presentes em ante, ente, 
inte = 1. ns, abl. abs. em e : — reinante, escrevente, 
pedinte. 

A invariabilidade desses nomes é devida a 
que, — procedentes do caso regimen — , só encon- 
traram um typo uniforme para os dous ou três gé- 
neros — acre (m), breve (m), diligente (m). — Homo 
ou femina fortis ou prudens, diziam também os 
Latinos ( homem ou mulher forte ou prudente ). 

2.° — Os acabados em al, que se derivam da 
declinação latina em — ahs masc. e fem., são inva- 
riáveis pela razão acima : — mortal = mortalis, masc. 
e fem., faial — fatalis M. e F. 

Homo ou femina mortalis. 

Também são invariáveis os terminados em el, 
il : — cruel, estéril, hábil ( arch. esterile, habilej, 
3= lat. cruddis masc. e fem., — e neutro, esterilis 
masc. e fem., e os em ul, por analogia ( a^ul, taful). 

Até o Sec. XV os em ol tinham também uma 
única forma ( uma ?nulher hespanhol ). 

3.° — Os adjectivos acabados em vel ( ant. bil J, 
são defectivos porque se derivam dos latinos em bilis 
masc. fem., em e neutro (V. § i.°}: — amável, ter- 
r/VcV = amabil-is, terribil-is. No Sec. xvi estes adje- 



i6i 



ctivos conservavam a forma latina — terribii ( Ca- 
mões I. 14),... 

4.° — Nos em ar. er {fciminar esmoler ), e em 
m, n, s ( ruim, joven^ simples )^ a invariabilidade é 
devida ao facto já citado dos adjectivos latinos em 
is masc. fem. ( familiaris^ jiwems ) . Quanto a sim- 
ples ( arch. simplice ) é defectivo porque deriva do 
adjectivo de uma só forma latina (simplex simplicis). 

5.° — Os em a:[^ e^^ z^, o^^ derivam dos lati- 
nos, também de uma só forma, em ax axis^ ex ecis, 
ix íciSj ox ocis, e ainda em ânsis : — audai audace m, 
feb\ ( felice-m ), atroi ( atroce-m ), montanhei ( mon- 
taniese-m ). Até o Sec. xv as formas portuguezas 
foram sempre mais encostadas ás latinas f audace, 
felice, atroce^ .., J. 

No Sec. XVI c que começaram as formas em 
eia ( montanhesa, calabresa y, talvez por analogia 
dos nomes fem. em issa. 

2j.-^ INumoro. — O portuguez tem dous 
números — singular e plural, como em latim. O dual 
não lh'o podia elle legar, que muito cedo perdeu-o, 
ao envez do grego e do hebraico, que sempre o 
conservaram. 

No latim as únicas formas de dual são ambo 
e duo, que são também no portuguez os únicos 
vestígios dessa primeira concepção da pluralidade. 

o dual precedeu ao plural ; e sao provas do asserto os seguintes 
argumentos: 1.° o eraprego extensíssimo do dual no doniiuio aryano, 
semítico, turaniano, ctc, que declina e cahe de todo com o progresso intel- 

3X 



r62 



lectual (los povos, ao pnsso que mais se vulgarisa o uso do plural; 3." a for- 
niaçflo, relativamente recente, em muitas línguas, dos números superiores 
a dous. ( 8ay. Pr. ) 

As tribus occidcntaes da Nova Hoilanda (segundo Adfieid). mio es- 
tendem a numeração além de dous; no gnipo das línguas c/iatnHicas (de 
Africa), o subst. náo tem plural; no accadiano, o signal do plural do 
adj. é o sufflxo mes (muito). 

Na lingua indígina do Brazil, o plural é expresso pela addiçflo da 
partícula — , eíd, contr.dcsí/a^^multidilo, grande quantidade: — oku = CA\síi, 
oka cid —» casas, npengdna = um homem, apeagan etd = homens. ( Dr. Am. 
Cavalcanti — The Brasilmn Lavg.J 

lia ainda outro systema, usr.do pelos Canarmos, Bascos, ^lalaios, 
Boschimans, que corísiste na reãiiplicnção. líednplicar — diz Sayce — é 
identificar a pluralidade com a dualidade, é indicar a prioridade do 
dual. "A reduplicaçiío foi um dos mais antigos processos da linguagem 
para a formaçilo do plural, que mais se accentuou com a definiçito clara e 
precisa, da concepção da dualidade". 

Deste processo conservamos amostra nas phrascs populares p infantis 
— innío Umto hmimii, nvita muita Jfó)% o que se verifica ainda na formação 
do superlativo, oue tem com o plural estreita connexão. ( Liç. 14.)' 



* Qu;jrem alguns que a forma plural, única antigamente para exprimir 
certos objectos compostos do duas partes iguaes (ccrouUis, oilçu^, ventaa, 
tesoura»), seja um verdadeiro dual ; outros são de pareccn- que o em- 
prego do adjectivo uns, uma», constituo o numero dual em certo.s casos 
(quando se trata de parte do corpo que temos em duplicata) fdk tem 
uns lábios vincados, umas orelhiis cabana.»^; alguns consideram uma quasi 
equivalência do dual, o emprego do possessivo twsso em certos casos, como. 
por exemplo, quando por corte/ia dizemos á pessoa a quem nos dirigimos 

— sua casa p. tiossa casa. 

A 1.* hypothese é errónea; a 3.» — e esse u.'!0 do intlefiuito é peculiar 
a todas as liuguaes romanas, ao inglez, etc. , — também não nos parece 
aceitável. 

Hoje, por influencia franceza, abusamos do emprego do indeflnitò, e, 
até em escriptores de boa nota. apparccc elie com os nomes no singular 

— die tem um nariz pequeno, um pé grande (fr. il a un grand picd, ingl. he 
haJi a largcfoot), comt> se tivesse um outro nariz grande, ou o outro pó fosse 
menor. 



i63 



28. — O s c a nossa característica do plural 
desde a origem da lingiia. Representa o plural do 
accusativo latino, caso que o portuguez mais tomou 
para lypo geral dos substantivos ; e nas cinco de- 
clinações latinas o accusativo termina em 5, com 
excepção dos neutros. i- 

Alguns glottologos consideram essa sibilante um equivalente ila 
preposição san«k. sani, sahã, ou ilo s do nom. e gcn. sing. — A !.• 
hj-pothcse c insustentável porque o dual nõo é uma simplificarão das for- 
mas do plural; a 2.», porque '■ os nominativos da 2.» decl. latin;i e 
grega, e os neutros em i e u do sansk. nilo encerrara o menor ves 
tigio de sibilante originaria ". 

29. — Substantivos com flexão numeral. — 
Os nomes substantivos seguem, na formação do 
plural, as regras latinas. 

i.° — Nomes abstractos.— Os nossos gramma- 
ticos condemnam, no portuguez, o emprego do plu- 
ral dos nomes abstractos. Não obstante, é elle vul- 
gar em escriptores clássicos e de boa nota desde 
o Sec. XVI : — negniras^ as soberbas., silêncios., em- 
briagiieies. pobre{as, etc. Tomarão os cálices e vasos 
sagrados, apflical-os-hão a suas nefandas embria- 
guezes ( Vieira 3. 486 }, Deus aborrece avarezas, a 
alma assaltada de ambições e invejas. 

Quando esses nomes vierem considerados indi- 
vidualmente, devemos consideral-os defectivos no 
plural ^ a fé diinna, a fé catholica); mas são. suscep- 
tíveis dessa flexão quando as qualidades por elles 
expressas forem tomadas pelos actos a ellas in- 



164 



herentes, e em suas diversas manifestações ç ha 
três fés e crenças distinctas). 

Em latim eram muitos os substantivos ab- 
stractos com plural consagrado pelo uso — vitae^ 
superbiae^ nobilitaíes, ... 

2° — Nomes próprios.— Em latim eram elles 
empregados no plural (Cicerones., Verrones, Me- 
teili^ Marones, ...J;só no Sec. xvi é que no por- 
tuguez apparecem os primeiros exemplos. 

Os nossos grammaticos ( mesmo os de mais 
alto valor ) sentenceiam esse emprego do plural, 
a menos que « os nomes não sejam tomados figu- 
radamente para significar indivíduos da mesma 
classe». (Ex. : os Osorios., isto é, os generaes es- 
forçados como Osório. ) ^ 

Por boa lógica desaceitamos a regra estabe- 
lecida, e temos em nosso apoio a tradição ma- 
terna e os escriptos aos mestres. Quando dizemos 
os Andradas, os Mellos, os Braganças, os Bour- 
bons, é claro que nos referimos a duas ou mais 
pessoas distinctas, do mesmo nome, de uma mesma 
familia. Considerar taes nomes logicamente no 
plural, e negar-lhes a caracterista flexionai, é cahir 
em erro. Assim pois, diremos doiis Pedros reina- 
ram no Brasil, e com um clássico moderno — a 



1 Por cmphase: — Os Andradas distinguiram se ua politica ; an- 
tonomaisia — ou Shakspeurcs e Byrous mo raros; metonymia — os Rubens, 
08 2'icianos (os quadros, ttc, de....). 



i65 



obra impávida dos Albuquerques, dos Castros, e dos 
Almeida:;. 

É que estes nomes próprios tornamse com- 
muns, como aconteceu innumeras veze> — dédalos^ 
harpagões, macadam, mentor, tartufo,... champagne., 
cognac, bordeaux, gruyère, al^epir, um terra nova, 
galgo ( cão da Gallia ), go^o ( cão godo ), perro 
(cão párria, pariak).^ — V. Liç. 6/ 

3o. — São de formação anómala os seguintes : 

i.*^ — Os terminados em ai, el, il ( oxytono e 
paroxytono ), o/, ul, formaram o plural no portu- 
guez antigo e médio mui regularmente : — cales, 
corales, arreboles, aniles. Destas formas, regular- 
mente contrahidas pela queda da consoante média — , 
originaram-se as actuaes — coraes, arrebóes, anis, 
fosseis., tafues. 

Figuram ainda como amostras da flexão primi- 
tiva — males., cônsules., curules, reales. 

2.^ — Dos nomes acabados em 5, só Deus toma 
signal de plural quando nos referimos aos do paga- 
nismo. Das antigas formas regulares — alfereses, 
(Cam. Lus. 4, 27; arraeses., caeses, ouriveses., etc. 
( as variantes orises e origes) '^ não temos amostras ; 
simples (droga ), calis (cálix ) e o adj. duplex não 
constituem excepção á regra, pois formaram o 



» Sansk. para ( fora de ) T. parcyer, parnnr ; ind paliariya. Pariah 
dogs = native dogs which have master and home ( Webster ). 
• " Ourirezes e escultores " ( Garcia de Rezende.) 



i66 



plural regularmente dos typos parallelos simplice^ 
cálice^ diiplice, ( d. do caso regimen). ^ 

3.'' — Os subst. em Ão fazem o plural em ãoSy 
ães, ôeSj conforme se derivam de vocábulos latinos 
em anus, anes^ ( anis) ou /o, accus. onem, Christiano^ 
christão = lat. Christianus — christãos ( christianos ), 
Cão — 1. canis ( p. canes ) — cães ( canes ), legião = 
legio7iem ( p. legiones ) — legiões (legiones). 

Até o Sec. XV eram duas as formas do sing. — 
ani (pam, cam y cujo plural era em ães; e om (educa- 
com, liçom, que fazia o plural em ões. 

Houve lucta a principio entre as três formas 
do plural, e muitas vacillaçóes ( Sec. xvi xvn). A 
prova temos nos pluraes biformes e triformes ainda 
hoje existentes : 

alao ulões, alães, 

soldao soldões, soldíles. 

aldeão aldeãos, aldeáes, aldeões, 

anão anAos, aniles, aniSes. 

vulcão vulcftos, vulcâes, vulcões. 

Os que se não originam do latim formam o 
plural em õeSj desinência a que sempre mais se aífei- 
çoou o povo ; — botões (or. germ.), limões (or. ar.), 
vagões ( == ing. wagons.) 

3i. — Nomes de fec tipos em numero. — Podem ser 
defectivos no sing. ou no plural ; concretos, abstrac- 
tos ou collectivos. 



Cp. — Índex itidice, appendix appendiee, codex códice. 



167 



1." — Defect. no plural, a) Os nomes de sciençias 
e artes só se empregam no singular quando tomados 
individualmente. Já se abriu excepção para as ma- 
them atiças. 

bj Os nomes de raetaes só teem plural quando 
exprimem objectos delles fabricados ; — quando sig- 
nificam objectos que tiram o nome da matéria de 
que são feitos (os ouros, as pratas ^ os ferros, os 
bronies, os nickeís 

cj Os de cereaes, productos animaes e vegetaes 
pluralisam-se em linguagem commercial, quando se 
quer expecificar as varias espécies ou qualidades, 
ou quando exprimem objectos cujos nomes são 
tirados da matéria de que são feitos : — assucares, 
trigos, favas, ervilhas^ sedas, linhas^ cimentos 

Os antigos escreviam — meles e méis, arrobes, 
aieites^ leites. 

dj Os nomes de ventos usam-se no plural so- 
mente quando estes reinam por tempo mais ou 
menos dilatado (as brisas, os nord'estes ). ^ 

ej São ainda defectivos no plural os nomes abs- 
tractos (fama, pudor, compaixão j^ e os collectivos 
(prole, plebe ^ vulgo -. 

2.° — Defectivos no singular. Também já os 
havia em latim ; o seu numero era muito mais cres- 
cido nos antigos escriptores — caleis., ceroulas, te- 



' Algun? defectivos ein hitim, tem ambus os números cm port. — 
viíruni, reliquine, arma, ipeciíncn,... 



i68 



souras, fauces, esgares, cócegas, sêmeas, ventas, 
trevas, ... 

Alviçaras, arredores, ambages, andas, annaes, 
calendas, confins ( limite ), escouvens, esponsaes, exé- 
quias, ferias (vacação), lampas, laudes, lamures, ma- 
tinas, manes, nonas, núpcias, ovens, penates, páreas, 
próceres, primicias, semeias, syríes, trevas (h. treva), 
victualhas, viveres, elementos (no sentido de principios 
ou fundamento de arte ou sciencia). os nomes dos 
naipes, {elos, (íiumes), í^/505(ares), os nomes de povos 
collectivos — Aborigenes, Romanos; os de grupos 
de ilhas — os Açores, as Canárias. 

32. — Alguns nomes mudam de significação 
quando passam para o plural. A este facto de patho- 
logia verbal já nos referimos na lição 6/ 

lÁberilnde — Poder do agir ou u lo Uberdaães — atrevimentos 

meninice — idarle tenra meniniceH — puerilidades 

lltra — cada um dos caraí-teres do hitran — litteratura. sciencia 

alpliabeto 

fticyUhide — poder physico ou moral que fiiculdítdcs — disposi(;ões, meios. 

torna algum ente c ipaz de 

agir. 

33.— Os nomes de origens estrangeiras, ou 

mesma latina, substantivados, fazem o plural segundo 

a regra geral — hurrahs, álbuns, tenores, tramways, 

deficits, benedicites, tnisereres, améns, requiems, in- 

fólios, post scripiums. Te Deums, 

Nota. Os adjectivos seguem as mesmas regras 
do subst. na formação do plural. 



169 



Os acabados em ão^ com significação augmen- 
tativa, fazem o plural em Ões. 

34. — Casos. — Caso ( l. casus^ queda, de ca- 
dere cahir ) é a união do thema nominal á desinência 
para indicação de certas relações — de causa, origem 
ou propriedade, condição, direcção, instrumento ou 
meio; emfim a funcção do nome na phrase. ^ As 
desinências casuaes designam também os números, e 
— mas nem sem.pre — os géneros dos nomes. -^ 

S. P. 

N. Pater o pai (suj.) Patr - es 

G. Patr - is do pai PatJ' - um 

D. Patr - i ao pai Patr - i - bus 

Ac. Patr -em o pai (reg.) Patr - es 

Ab. Patr ' e do pai, etc. Patr -i- bus 



* Assim, na phrase amo Deum o m de Deum mostra que elle está 
no accus., e é complemento directo de amo. 

Esta construcçao, com ellipse da preposiçiTo, é também portugueza: 
E correram quasi todo aquelle dia arvore sccca. 

( F. X*. Ilisl. da índia: J 
... eis que alia noite sentem um rumor extraordinário. 

( Souza — V. do Are.) 
.' . . el-rei vestido eru uma cota d'armas, rosto e cabeça descoberta. 

( Id. //. de S. D.J 
. . . levauta-se o conde cedo cerõo e Jiyncerno. 

( Vieira — Serm . ) 

' As terminações dos casos nos dialectos primitivos da familia 
indo européa eram, na origem, preposições justapostas á raiz, que com 

o tempo fundiram-se. 

22 



170 



35. — No latim, não havendo tantas formas 
características quantos eram os casos, forçosamente 
a mesma desinência devia servir para dous ou três. 
Todavia, o systema das declinações era meca- 
nismo complicado para os populares, que não lhe 
comprehendendo a vantagem, acabaram por com- 
balil-a de todo sob a acção destruidora das leis 
phoneticas. As vogaes atonas cada vez mais se 
atonisaram, as características fiexionaes do nom. 
e do accus. ( s Qtn ) cahiram, e dahi a confusão 
entre esses casos, e entre elles e o abiativo. Seruns 
( N. ) e servum (Ac), pela queda das caracterís- 
ticas transformaram-se em servu. e como o n final 
latino soava ô confundiram-se com o abl. servo. 

No Sec. V a declinação latina resumiu-se 
aos dous casos — sujeito e regimen. 

O descuramento das inflexões nomínaes, a 
tendência do povo para simplificar as formas, ori- 
ginaram a necessidade de palavras auxiliares ( pre- 
posições ) para maior precisão e clareza da língua, 
cujo emprego cada vez mais se tornou frequente 
porque os casos já não indicavam as varias re- 
lações, mas tão somente o género e o numero. 

36. — Das línguas néo-latínas, só o italiano, 
o valachio e o francez herdaram o systema das 
declinações, mantido até hoje apenas pela pri- 
meira. 

• As unicair flexões nomínaes portuguezas são 



— o género e numero, o superlativo dos adj., as 
variações dos pronomes pessoaes. 

37. — A DECLINAÇÃO LATINA. — DecHnação é a 
serie de formas que os nomes tomam na sua passa- 
gem por todos os casos. Desenvolvida ou não, a 
declinação indica o género^ tiumero e caso, como 
a conjugação exprime a P0{, o modo, o tempo e a 
pessoa. 

Havia no latim cinco declinações, constituídas 
por seis casos no período clássico. ^ 

i.° Nominativo. Era o expoente do sujeito, fle- 
xionado por s em ambos os números nos nomes da 
3.', 4." e 5.^ decls. 

Jto-s flore-a 

currv-s 

die-s 

e por s no sing. , e e (ai), /, no plural da i .^ e 2 .^ 

^nea-s hora-e 

tervu-s se7'v-i 

A flexão neutra era geralmente em a ( regn-a, 
corpor-a). ^ 



• Desde a primeira pLase da lingna desappareccram o locativo e o in- 
strumeníal. O loc. era o antigo gen. em as (pater familiasj , sufif. as = ai 
( ae ) -> sansk. ayas. Assim confundirara-se o loc. e o gen. — Sáo também 
verdadeiros locativos, os dativos da decl. simples ( Benfils, — Intr. XXVI). 

• A flexão ori;anica do uom. plural em ««/• «—saj/er saí, cujo vesti- 
gio encontra-se nas f. arch. maginter-ta, 2)opul-c\s, liber-is, donde derivam— 
magiatri, populi, liberi. 



172 

2.*' Genitipo. E' o expoente de restricção fle- 
xionado no sing. poree i para a i.% 2/ e 5/ 

Jiora-e serv-i diei 

e z5 para a 3/ e 4/ 

arbor-is curru-\s * 

No plural a flexão da i.% 2.'' e 5.== é rww, e wm 
para a 3/ e 4/ 

hora-rum xervo-rum (lie-runi 
m'bor-r\im avt-um. * 

3.° Dativo. Expoente de attribuição, flexionado 
no singular por e qí 

hora-G servo (i) àrbor-i cin'ru-i die-\ 

No plural por is para a 1/ e 2.% e bus para as 
outras. 

horls se7'cAs 

arbori-hns cvjvi-hns dieltns ' 

4.° Accusativo. Expoente do objecto ( caso re- 
gimen ) flexionado por m no sing. e s no plural para 
todas as declinações ( masculinas e femininas ). 



• As term. orgânicas do gen. sing. eram — is — os — us fsenaíu-os, 
venerusj. Is foi subst. na 1.». 2.» e 5.» pelo suff. loc i (rasai rosa.) 

• o prototypo do su#. orgânico do gen. plural era = san9k. sams 
^ ams — lat. vm. 

• o dat. sing. prototypo — .sansk, aya. No plural =- ablativo. 



173 



?iora-xa sertum arhore-m currum die ra 
horas servos arbore-s curro s die-s * 

Para os neutros — em a f corpora J. 
5.'' Vocativo. Expoente interjectivo, e quasi 
sempre idêntico ao nominativo. 

puer arhor eorpu-s 
die-s corpora 

6.° Ablatívo. Expoente de origem ; no plural, 
de flexão idêntica ao dativo. ^ 

Estas flexões casuaes do latim clássico ( já nos 
referimos a este^ facto ) foram pouco a pouco se al- 
terando, principalmente pela queda do 5 e m finaes ; 
e esta alteração posto remonte aos mais antigos 
monumentos da lingua ( poetas scriba-Sy . j ', com- 
tudo^mais se generalisou na corrente popular, o que 
muito concorreu para transformar a declinação syn- 
thetica latina na declinação analytica românica. 



* A forma orgânica originaria era ma no sing., e no plural ?«-« = 
\&i.' as, os, ns. es frosams = rosa-s, serv^-ins^^ servo-s, etc.) 

' A teiminaçílo orgânica do ablalivo sing. era d = ad, ed = at (for- 
mas arch. siceliaú, macestatad marido. No plural — bis = bus ( bos ) =-= is 
== san&k. bhi^-bhyas. (Talbot.— Hist. LUt. Bom. ; Schleicber, Bopp., etc. ) 

' Sflo formas epigraphicas do tempo dos últimos imperadores — 
Themloru, filio, admirabili, etc. Remonta ao velho lat. — optumo=' optimum, 
xiro -= virum, etc. ( Sec. iii. ) 



174 



QUADRQ SYNOPTICO DAS FLEXÕES^ 

l/' GRUPO.- • FLEXÕES EM A, E, - - O 



SINGULyVR 



CASOS 



V. 

G. 

Ac. 

D. 

Ab. 



M. 



— 1 



— m 



(d) 



F. 


N. 


— s 


— ra 


— 


— ra 


— ds, i 


~ i 


— m 


— m 


~-i 


— i 


- (d) 


- (d) 



PLURAL 



M. 


F. 


N. 


- i 


— i 


— a 


- 1 


— i 


— a 


- rum 


— rura 


— rura 


-(n)s 


— ^n) s 


— a 


bus, is 


— bus, is 


— bus, is 


bus, is 


— bus, is 


— bus, is 



2.° GRUPO. — FLEXÕES EM I, — CONS. U 



SINGULAR 



CASOS 








PLURAL 




IN. 


M. 


F. 


N. 




— 1'5 


— es 


— a 


— 


— es 


— es 


— a 


— IS 


— um 


— ura 


— um 


- 


-(e)(n)s 


-- (e) (n)s 


— a 


— i 




— i 


— ibus 


- (ê) (s) 


— (i)bus 


— (i) bus 


— ibus 



1 Quadro — Grainniatica Latina. 

MoeUer — Fonnelehre { c. sobre unidade das flexões). 



173 



Podciios pois traçar o schema da evolução 
histórica da declinação latina. 

lypo areJuiieo T. clássico T. romano 

SINGULAR 

N. — Tiora s aròor-?, hora arbor hora arbor {hxvor) 

Q — Jiora-is (i), arborasi$, Tiorae arbor-is hore arhor-ie, 

Ac. — hora-m arbore-ia HORA-roARBoRE-m hora aurore ( arvore ) 

D. — Tiora-i arbor -i hora-a arbor-i fior-e arbori {e) 

Abl. — 7iora-d a7'bore-d hora arbore hora arbobb (arvore) 

PLURAL 

N. — hora-ses arbor-ses A<?ra-e arbore-s hora arvore 

S. — hora-sam ( sum ) arbor-sam hora -rum arbo-rum horaro arboro 
Ac. — hora-ms arbore-ams hora-s arbore-s horas arvores 

D. Alb.— hnra-bis arbor-b!s hor-is arbor ribus hori ( e ) arboribo 

Em consequência das leis phoneticas, e das 
deslocações do accento tónico, a declinação portu- 
gueza resLime-se a uma única forma — hora horas, 
arvore ( arvor Sec. xiv ) arvores, como melhor ve- 
remos adiante. 

38. — Vestígios da declinação latina no por- 
TUGUEz. — « No portuguez antigo e médio ( Sec. xii e 
XVI ) muitos typos syntaxicos recordam immediata 
e mediatamente a declinação latina.» ^ (V. Lição.) 

Já vimos: i.° que a i.'' declinação, de todas 
a mais fácil na creação de typos femininos, fazia 
o nom. em a^ accus. am (hora horam), casoS 
que vieram a confundir-se pela queda do m final. 

2.° que os nossos maiores, assim como, por 
ignorância, importaram do árabe e hebraico pala- 



' Lam. cie Andrade — Ve*t de ded. lai. 



176 



vras no plural, julgandoas formas do sing. (che- 
rubim, seraphim, etc. ^), também tomaram nomes 
neutros no plural por formas do fem. sing.: — 
animalia, insignia, folha, maravilha^ etc. 

3.*" A i.'"* declin. masc. attrahiu os nomes 
neutros em um da 2.* declin., e alguns da 3." e 
4.^ (panis^ fructus, dies). 

4.*^ Os nomes da 2.^ declin. masc. nom. em 
W5, accus. em i/m, confundiram por fim esses casos 
pela queda do 5 e m., característicos do nom. 
e accus. Servu servum^ soavam servu (servo). 

b.° Em muitas palavras latinas da 3/decl., 
em algumas de themas e desinências differentes, 
houve deslocação do accento no accus. : — ratio ra- 
tiónem, sénior seniórem, imperátor imperatórem. 

O portuguez ou conservou apenas o caso 
regimen, principalmente nos nomQs Qm eo (io) ^ anis : — 
raiãOy senhor^ imperador, lição ( lectionem), leão 
(leonem), etc, ou ambos elles distinctos : — preste 
presbytero^ ladro ladrão. 

Também derivam do caso regimen, os nomes 
de outras declinações terminados geralmente em s 
no nom. sing.: — mors mor/em ( morte ), virtus vir- 
tutem (virtude ). 

O imparissyllabismo (i. e., a diíFerença no 
numero de syllabas entre o nom. e o accus. ) 
mais pertence á 2.^ declinação. 



1 Ling. hebr. — {^herubs. Seraphs. 



177 
39- — Acompanhemos agora os casos lati- 



1 



nos. 

I,'' Nominativo. — A carateristica do caso su- 
jeito era o sufíixo originário 5, perdido em muitis- 
simos vocábulos latinos (hora, patçr^ puer, etc), e 
cujo desapparecimento mais cresceu de ponto na 
linguagem popular de Roma, facto este a que por 
vezes nos hemos referido. 

Desse expoente do nominativo ainda conser- 
vamos vestigios em algumas palavras : — ca/is (cali{, 
cálix, e cálice) = 1. cálix, Deus, Jesus, sages (Sec. 
xiv), simples (simples, simprei e simplicej, e muitos 
onomásticos de origem litteraria : — Marcos, Lucas 
Vénus, Ceres, Moyses, Isaias, Matheus, Boreas, 
íris. 

2° Genitivo. — São poucos os vestigios mor- 
phicos, o que não é para causar extranheza desde 
que reflectirmos já no latim era esse caso de uso 
pouco frequente, por ter sido supplantado desde o 
periodo clássico pelo ablativo com a proposição de. 



aqueãud/} 


aquae ductus 


tiaducío 


viae ductus (f. port. ) 


condenlatel 


comes stabuli 


jurmomuUo 


juris-consultus 


legvflação 


legis lationejn 


petróleo 


petrse oleura 


terremoto 


terrae motus 



* y. monographia Lam. de Andrade ~ V. daded.lat. 

28 



178 



Destes, só condestavel ( conde -stable, Sec. xiv, 
condestabre^ Sec. xv) é de origem popular. 

3.'' Dativo. — Poucos exemplos podemos res- 
pigar deste caso, que — conforme pondera Schlei- 
cher — já no latim a sua flexão orgânica era 
imperfeita pela confusão com o locativo, gen., ablat. 
e instrumental. 

C? ucifixo cruci fixus 

Fideicommmo fidei commissus (f. er. ) 

4.° AccusATivo. — Era a forma mais primitiva 
da declinação, ^ mas foi também a que mais cedo 
desappareceu, em consequência da perda da con- 
soante característica, que deu em resultado a sua 
confusão com o nominativo. « Nos does. em latim 
lusitano dos Sec. xni — x, o accus. já não tinha 
valor casual. » 

Morcego murs coecus 

Jiomein liouiinem 

Os subst, acabados em io, ude, ade, agem 
(V. pgs. §§ ) 

VocATivo. — Avemaria = ave Maria. 

S.** Ablativo.-- Era o caso de maior emprego 
no latim, principalmente depois da perda do locativo 



* o nom. parece — no òouceito de alguns glottologos — ter sido 
" addiçào posterior á declinação nominal "; e o accusativo on caso com- 
plementar "a forma primitiva do nome". Ex. desta liypothese encon- 
tram-sc nas linguas aryanas e semiticas (sansk., grego, latim, gothico,.... ); 
e ainda na linguagem-ipfantil — Nené quer, Carlos não qu-er p. eu qu^ro. 



179 



e do instrumental ; e sendo o que mais relações 
representava, foilhe necessário o auxilio de certas 
preposições. ' 

Talvez, por isso mesmo, tão raros são os seus 
vestigios morphicos conservados em portuguez na 
formação do substantivo : amanuense = a manu en- 
siSj hontem ( ante hodie }. 

42. — A-djectivos. — Também resumem-se 
no nom. e accus. os casos de que conservaram vesti- 
gios os adj. portuguezes. 

Foram estes os conservados pelo latim popular 
quando — depois de se terem simplificado as duas 
declinações distinctas, uma em us^ o. outra em 
is^ — , aquellcs adjectivos da 2.* classe em er ( ac- 
cus. em — em) assimilaram-se por analogia aos 
da i.^ classe em er (accus. em — um), e empare- 
Ihou-os por fim aos adjectivos em us. Assim niger 
(accus. nigrem)j fortis [accus. for tem )y prudens 
( accus. prudentem J, celeber ( accus. celebrem)^ acer 
( accus, facrum p. acrem, donde acre, acro), foram 
considerados de i.* classe e declinados por bónus. 



* J. F. de Castilho afflrma que de cada grupo de palavras, nove 
descendem do ablativo, e que em uma pagina de Cicero verificou que dous 
terços dos subst. e adj., estavam no ablativo. 

' Que comprehendia os adjectivos que só differiam pelo nom. sing. 
raasc. em er, accus. em em. 

' A esta classe pertenciam adjs. análogo.* a pnidens ç fcl-eber, que só 
divergiam no noraipatiyo e vocatjvo, 



i8o 



Só restaram pois duas declinações distinctas, 
uma das quaes — a 2/ — não tinha forma para o 
feminino. E destas duas declinações conservamos 
vestígios tm bom ( boa ^ bónus, a ), máo máy ( ma- 
lus, a ), negro negra, ( niger, nigrem ). 

Do genitivo, são raras as amostras. 

O accusativo é a principal origem dos nomes 
adjectivos imparissyllabicos. Ex.—fe/ii, arch. felice 
= felice ( m ), atro{, arch. atroce = atroce ( m ), trai- 
dor tradito-r ( e ) { m ), amainei, arch. amabile = ama- 
bil e (m), prudente = prudente (m). acre =^ acre-m 

Conserva, pois, o portuguez vestígios da declinaçflo latina. Houve, 
porém, na língua fallada uma declínavão embryonaría portugucza, ainda 
que de dous casos como a do francez antigo ? 
Delia nao encontramos vestígios seguros. 

A verdade é que o Romano conservou a distincçào dos casos, sujeito 
e regimen, e a flexão do sing. e do plural. O caso sujeito era, cm geral, ti- 
rado do nom. ; o regimen, do accus. E nós temos palavras derivadas dos 
dous casos distinctamentc 

serpe — serpens serpente — serpentem 

chantre — cantor cantor — cantorem 

prente — présbj^ter presbyiero — pix-sbyterum 

fray — f rater frade — fratrem 

mãi — mater madre — matrem 

pai — pater padre — patrem 

sénior — sénior senTwr — seniorem 

compáno — companus companhm companJteiro — companionem 
ladro — latro ladrão — latrouem 

virgo — virgo virgem — virginem 

Bem, ren, sem, sen, irom, com ( C. V., Canc. do Fig- ), etc. 

Serfto estes os duplos vestígios de uma antiga declinação portugueza ? 
Nfto ousamos asseverar. 



DECIMA QUARTA LIÇÃO 

Flexão dos nomes. Gráo do substantivo e do adjectivo ; com- 
parativos e superlativos syntheticos ; comparativos e su- 
perlativos analyticos. 

I.'' — V. Lição i3. 

2.° — Gráo é a flexão nominal, que augmenta 
ou diminue a idéa de palavra. ^ 

3.° São principaes suffixos augmentativos : — 
ão, aço^ a^y a^io, alho, a/ha, orio, astro, ati'o. 

Aço-a ( = lat. ax, acc. acemj — Senhoraço, ri- 
caço. 

A's vezes teem sentido pejorativo — poetaço. 

Esta dessinencia corrompe-se emalho: — po- 
pulacho. 

Alha ( 2= suff. alia). Tem sentido collectivo : — 
^■entalha, canalha. 

Alho : — parpoalho. 

Aõ : — rapagão., espião, portão. 



* Vide Liçáo Sufflxos. 



iSa 



Que indica maior intensidade, provam ~ os se- 
guintes exempJos : 



affecto 


afifeiçflo 


domínio 


dominação 


repulsa 


repulsfto 


perda 


perdição. 



Tem ás vezes sentido pejorativo : — pobretào. 

ELHO,-a ( = suíf. lat. iculus, ic'lus ) folhelho^ a:{e- 
IhOj francelho, fedelho ( pejor ). 

ÉoLO (lat. eolus ). — Forma erudita. Ex. — 
alvéolo.^ capreolo. 

Ebre. Tem sentido pej. — Só nos resta um 
exemplo : — casebre. 

Eta, ete, óte, ôto. — São suffixos romanos. 
Ex : — trombeta, costelleta : diabrete, capote, ve- 
lhote, perdigoto. 

Os femininos correspondentes são — êta^ óta, 
agem e ilha (ilheta e ilhota, villota e villagem, 
mantilha, forquilha ). 

Ico ( lat. /cw5,-culus, ) : — abanico^ burrico^ 
Joanico. 

Ás vezes intercala um s euphonico : — chopiscOj 
pedrisco. 

IcuLo,-A ( lat-ícz^/ws,-a ) : — montículo, aurícula. 

Ilho,-a ( sufF. dim. port., de iculo, mas que tam* 
bem corresponde ao lat. ilhis^ a): — cabresíilhOj 
rastilho, vidrilho ; mantilha, cartilha, partilha, serrilha. 



i83 



Corresponde a inho, e é mui crescido o numero 
de diminutivos em ilho,~a, formados de radicaes por- 
tuguezes. 

Ito,-a : livrito^ mosquito ; mídherita^ cabrita. E' 
uma diíferenciação do suffixo — inho. 

Im : ( inus ) — espadim .^ flautim, tamborim. 

Az : — Cartas^ montar a^., lobai, Satana^j ladrava^ 
( de ladro). 

A's vezes teem sentido pejorativo — dançara:^ 
machaca{. 

Azio : — copa^io. 

Orio : — finório^ sabidorio. 

Ona : — Fem. da desin. port. — ão : mocetona., 
valentona. 

Stnt. pe'].— sabichona, pobretona. 

Corresponde ao suíf, — (aça) ( ricaça ). 

Além destes — ainda temos os suffixos populares 
portuguezes — arão.^ — arrão fhomeniarrão , casarão, 
santarrãoj, e algumas formas anómalas, idiomáti- 
cas, geralmente de sentido deprimente f cateçoKviA. 
amigaLHÃo.fradaLHÃo, corp\^z\L, sabicviÃo ), 

Temos mais alguns augmentativos verbaes: 
fujão, beber rão, chorão... 

Astro é de origem litteraria : — poetastro. 

4.° São de Sec. xm os seguintes : estaturão, lampaãões, cordões, cal- 
{õc3, cabrões, Altão, garganiom, jaquetão, malcaz, pescai, vagando, viaráz. 
( C. vat.) 



i84 



5. — Diminutivos. — Os principaes suffixos dimi- 
nutivos são : 

Acho : — riacho. 

Ejo : — logarejOj animalejOf quintalejo. ( E' de 
sentido pejorativo.) 

Ello,-a ( corr. 1. ello^ illa ): — portello^ viella. 

El ( contr. de el) : — cordel^ fardel^ canastrel. 

Inho. — (= 1. inus). E este o mais vulgar de 
todos os suffixos diminutivos da nossa língua. Alguns 
diminutivos teem as duas formas — inhOy ino, e ás 
vezes ainda — ito^ ico, ete, ejo, etc: — grão, gra- 
nito ; quintal — quintalinho, quintalete, quintalejo^ etc. 

Os nomes terminados em consoante, formam 
também os diminutivos em ^inho — desde o Sec. xii, 
(principalmente os monosyllabos) — flor flor ic a flor ita 
florinha, florsinha, quintal, quintalinho quintalsinho , 
somsinho, dorsinha cersinha. Esta regra é absoluta 
quando a palavra thema acaba por voz livre ( nasal 
ou diphthongo ), ou é oxitona em voz livre pura : — 
irmansinha, ^rãosinho, crz/<3sinha, «wsinho. 

No uso familiar, formamos diminutivos de dimi- 
nutivos : — pequenininha, pequerichinho. 

Cândido Lusitano e outros verberam as formas 
capinha, florinha, sapatinho,... p. capasinha, florsinha^ 
sapatosinho , . . . O uso consagrou essas formas, que 
datam do começo de lingua (Sec. xii — xiii), e são 
empregadas por vários clássicos, entre os quaes 
Manuel Bernardes, Camões, Castilho : 



i85 

Eatd o hiscico doce passarinho 

(7<>//t obiquiulio aspeunas ordenando 

a csfas criancinhas (em respeito 

aos peitos os filhinhos apertavam 

(TaisJ 

Rezende (MiscJ, ridicularisando as modas 
do seu tempo, diz : 

Agora vemos capinhas, 
muitos curtos pellotiuhos, 
golphinhos e sapatinhos, 
fundas pequenas, mulinlias, 
giboesinhos, harretinlios 

Muitas vezes o diminutivo exprime carinho : — 
filhinho, maninho ; outras, --- dó, interesse, compai- 
xão: — iim pobresinho. 

Olo-a : — bolinholo, sacola^ portinhola, rapazola. 
Olho-a ; ULHO-A ( 1. culiis~a ) : — E' de origem 
erudita. Ex, : ferrolho. 

Em muitos destes n:\o existo no portuguez a palavra simples; ou as 
formas diminutivas latinas passaram para as linguas romanas como pri 
mitivas : — agulha acucVa dim. do açus = agulha, apicula, dim. de apis 
-= abelha: ovicula, dim. de ovis •= oyQ\h-à , lentilha iim. de ?^«í<í =entilh a^ 

Ote : — velhote, rapa^ote. 

6, — São de derivação erudita - • olo, tilo, colo : 
— pellicula, granulo, capreolo . 

7. — A lingua portugueza é riquissima neste 
género de derivação. O vocábulo primitivo pode ter 
significação graduada, desde o mais alto gráo até o 
mais Ínfimo ; — 7nulher,~ona,-aça,-ão,~sinha,-ita,-ica, . . . 

24 



i86 



E essa exuberância levou-nos até a formar diminu- 
tivos anómalos, do mesmo thema ou de thema di- 
verso: — canito, diabrete y casebre. 

8. — Para os filhos dos animaes temos vocá- 
bulos próprios ; leãosinho cachorro^ lobosinho lo- 
binho lobato lobacho^ pombosinho borracho^ etc. 

9. — Os diminutivos da linguagem familiar e 
vulgar formam-se pela reduplicação ou pelo atro- 
phiamento da palavra : — mamãe, papae, titio ^ vovô^ 
dindinho (padrinho) ; sôr^ sô, seu (!) = senhor ; sóra, 
sinhá, siá, sá ( Minas Geraes. Rio de Janeiro ), nhò, 
nhã, ( S. Paulo ), nhonhô, uhanhã, (R. J. etc.) 

10. — Também teem formas diminutivas os 
nomes próprios como já vimos : Pedrinho Pedroca^ 
Anninha Nicota, Chico Chiquinho, Jucá Zé\é^ Zé ( só 
em Portugal), Lulu (Luiz), Maricas Maricota (Maria), 
Lola Lolota (Carlota), Manduca (Manuel), etc. 

II. — Aqui cumpre lembrar uma forma diminu- 
tiva, que, por pouco frequente, não deixa de ser 
graciosa. 

E' o emprego dos gerúndios em diminutivo 
( dor mindinho )^ que o nosso escriptor José de 
Alencar escreveu — era um bra^ileiíistno, muito par- 
ticular d provinda do Ceará. 

No hespanhol também é frequente essa forma 
diminutiva do participio presente, e, ainda acres- 
centado, no fallado nas Republicas da" America, 
e na Galliza (Saco Arce, Gramm. gallega). Em 



i87 



todos os poetas gallegos eiicontram-se essas formas 
a exprimirem carinho : 

Eu noa lie quero dar bicos 
e solo me folgo en vel-o 
dormindinõ cal un auxel. 

o Visconde de Castilho, " por achar muito graciosito esse modo de 
dizer dos Hespanhocs," empregou-o nas falias de Titaniaa Oberon f Sonho 
de uma noite de 8. João J : 

andamos muito manas 

Passandito a par naquellas indianas. 

12. — Sao dos Sec. xii e xiiios seguintes diminutivos: — Fen/cm, Al- 
vim, Celoricí», Cerzeía, EisfeZ, Pedrozeías, CorneoZa, A\\elo, Meendi/iAí>, Pi- 
mentel, BodwiAo, fremoswiAa, bayonín^o, moceh"rt/ía, passa^^■7l/^í», pastorin/ía, 
\\\eco. marseU'nA«. oapeyr<;te, cxhvito. (P. Ri)). Dm. Crit., C. Vat.J 

i3. — Gráos de significação. — Herdamos do 
latim os três gráos : positwo^ comparatwo e super- 
lativo. 

COMPARATIVO 

14. — Comparativos synthettcos (orgânicos). — 
Em latim o comparativo era geralmente expresso 
pelo sLifíixo — ior ( masc. e fem. ), ius [nf unido ao 
thema:— ' altior, diílcior^ sapientior. 

A tradição conservou fielmente no portuguez 
algumas amostras desses comp. syntheticos : 



1 A forma neutra só se distinguiu em pleno período histórico como 
attestam os exemplos seguintes : " Bcllum puuicum posterior. — Senatus 
consultum prior. " ( Sayce. ) 



maior =• 1. majóiíw ' 
menor — miuóre?» ' 
melhor — * molió?r??i ' 
•peior =— pejó?'«7» * 

Júnior, senhor, prior, exterior, interior, superior^ 
posterior^ anterior, são também etymologicamente 
superlativos orgânicos. 

i5. Alguns destes comparativos tornaram-se 

substantivos, conservando comtudo a significação 
originaria latina — major, senhor, prior,... melhora, 
peiora. 

Nota. Até o Sec. xtv essas formas conservaram o seu valor com- 
parativo : — nostro senJioi' demonstre aojumor aquelle que melhore ( R. de S. 
B., Ined. d' Ale. 3), todos os juniores sexis priores, obedeeseam ( Id, 280). 

Pmr — id. ( C. Vat., R. S. B. Ined. ) 

Nas formas interior, posterior, etc. . nota se uma dupla suffixaçao 
Comparativa. Interior, = \. interiorem =-^in-\-ter (sufE. ant. comp.==gr. feros J 

+ 01'. 

Nota-se o mesmo em mestre (arch. meestre, maestrej 1. = magister 
magis ( p. magias J + ter, ministro =- 1. minister ^ minis ( = minus ) + 
ter. (Oramm. Comp. Bopp. ) 



1 Maior. Já se encontra nos does. do Sec. xii: mowr «;'«/(?«. (P.Rib. 
doe. LX), e as variantes moor mor, frequentes desde o Sec. xv, bem como os 
derivados maioria, maioral, maioridade, mordomia, meirinho, etc. Meyrinho 
(C. Vat. 987) é forma parallela de maiorino-= h. lat. maiorimis{Sec. xi), cujas 
formas pleonastica e antithetica — maiorino-maior(meirinJio-mvr Sec. xix ) 
e meirinho menor provam o esquecimento otymologico. 

2 Menor e as variantes arch. meor mei já pertenciam aos Secs. xiii e 
XIV, e bem assim os der. minoria, minoiidade. O typo menos -= minus deriva- 
do neutro; e tanto ella como as var. arch. meos, mus, muz, c os compostos e 
derivados — menosprezo, menosprezar, etc . , datam também do Sec. xiii. 

8 MeUwr. Sec. xiii.— as melhores terras (C. Vat. 786); as variantes 
arch. melor, melhur, milhor ( Sec. xiii-xiv ). Id. o der. — vullíoría. 
* Peior Cpeyor. peorj. (Sec. xni, C. Vat. lA.)peiorar. 
P^orative é importação recente (Sec. xix). 
•^ Júnior ( iiuiior, iuvenior ) compar. de ?'««'«/«. 



i89 



Entre = iuter. sobre =— super = contra, íru, traz = tians, etc, sao pois 
restos petrificados do comp. orgânico. (Meuier. Comp. J 

Dos comp. diminutivos latinos grandiusculua, duriusculus, longiuseu' 
lus, etc, citados por Meedvig fOr. lat.J temos exemplos directos em maiús- 
culo, minúsculo, e indirectamente, ua formação portugueza — maiorsinho, 
ssnhortinho, etc, já doSec. xii. 

Cp. — Prov. — bou melhor 

mal peior pesme 
gran maior — 
passe menor — 
Catalão — bo millor — 
mal pitjor pessim 
gran major máximo 
petit menor mismim 
Franccz prim. — bom meillor — 

mal pior pejor pesme 
grand maor major — 
petit míittor mesme 

i6.— Comparativo analytico ( periphrasiico ). 
— Exceptuando esses quatro casos, o portuguez 
forma os comparativos analyticamente, ajuntando 
ao positivo o adverbio mais ; systema formativo já 
mui frequente no declinar do império romano (magis 
piíis, magis egregiej. Alguns clássicos latinos se- 
guiram esta tendência do espirito analytico, princi- 
palmente com os adj. cm — us. 

São pois latinos os moldes em que se vasaram 
os comparativos poriuguezes. 

O latim vulgar deu preferencia ao adverbio 
pliis na formação destes CQmparativos (plus sajpium, 
plus clarum). 

Plus linha o mesmo sentido (\UQmagis^ tornou-se 
modelo dos comparativos italianos e francezes fpliis, 



igo 



piú )y e deixou-nos vestígios da sua existência nos 
primeiros documentos da lingua portugueza, na 
forma pop. chus : — chus pouco ( can. Ined. ), chus 
negros { Nob. ) Esta forma archaisou-se no Sec. xiv/ 
íy. — Os comp. de igualdade, inferioridade e 
superioridade formaram-se com os advérbios tão... 
como, tanto... quanto ; e os adv. mais menos ; muito 
menos, muito mais. Estas formas datam do pri- 
meiro periodo da lingua : — may /cda^ mays perto 
( C. Vat. 98, 293 )y tan cruamente ( Id. 280 ),... 

Advertências. — l.a Nos comp. de inferioridade e superioridade é 
tão correcto empregar do que, como simplesmente que. Mais depende 
ás vezes do tecido da phrase, que pôde parecer mais ou menos harmonioso. 
— 2.8 Em vez de tão grande podemos usar de tantMnho (=tão manho, arch. 
-= tão magno (Sec. xvii). E' força porém curvar-nos ao despotismo da moda, 
e essa forma — também camoneana — deve ser rejeitada. — 3.» O compa- 
rativo pleonastico era frequente no Sec. -ku (may melhores C. V. 1154), á 
maneira do latim — magis maiores, magis dulciores, magis certius. 

São equivalentes do comp, antes e sobj-e { = mais): — antes ser des- 
feito que cançado (Ant. Ferr. Son, 1 — 8.), soh)'eiudo { = mais qne tudo). 

DO SUPERLATIVO 

19. — Superlativo synthetico ou orgânico 
(formados por suffixos ). — O superlativo synthetico 
latino emimuSy deixou muitíssimos vestígios na lingua 
portugueza : 



máo 


pesnmo 


lat. pessimus 


bom 


óptimo 


Optimus 


grande 


máximo 


maximus 


pequeno (parvo) 


minimo * 


minimus 



* No hesp. e doe. rom. — mm, mais. 

« Minimo, meindinho, meiminlio, miminho, menino. 



19 1 



e desta composição orgânica cada vez mais cres- 
ceram as formas ; — reverendíssimo , illustrissimo^ 

excellentissimo, sereníssimo, 

O latim emprega na formação do superla- 
tivo synthetico, a terminação — simus, <3, «m, 
junto ao sufíixo do comparativo contrahido em 
is { de ius = ios ) : — felic-is -simus, doct-is-simus 
f doct-ior-simus : pela assimilação). E' esta a ori- 
gem da forma caracteristica portugueza dos super- 
lativos orgânicos (issimo==\dit. is-simus), que todavia, 
só apparece pela i/ vez em does. do Sec. xv, 
e fixa~se no xvi ( Illusfrissimo, sereníssimo, L. Cons.; 
vitosissimo Th. Braga Ch ; C. de Évora, G. de 
Rez, etc. ) Nos séculos anteriores empregavam a 
forma analytica. 

19. — Temos mais uma forma orgânica em 
wzo(z=lat. mo, contr, de simoj, que é de fundo 
erudito : — humilimo, aspérrimo, (Camões), acérrimo, 
etc. Data do Sec. xvi. 

São delia vestigios, embora hajam ás vezes 
perdido o sentido etymologico, — intimo, imo, pós- 
tumo/ máximo, Ínfimo, summo, supremo, etc.^ Destes 



* E os der. arch. — prestumeiío, pestuineiro — Sec. xiii — xvi. 

• Estes sup. derivam da forma ter ( gr. tepo; ), que se encontra 
nas palavras de sign. comp. — dexier, sinister, alter, nosier, vester, exteri, 

posieri, (Struchtmeyer, Rud. ling. graecae; Lennep. — Elymologicum 

l. gr. 

E ainda temos os numeraes formados com o suff. timo =- mo : — 
primo, decimo, vigésimo ( Bopp. II 246 ). 



192 



typos formam-se outros superlativos : uns moldados 
em formas latinas ( Cicero, Ovidio^ etc): — supre- 
missimo, immensissimo ^ excellentissimo; outros de ori- 
gem analógica portugueza — grandessissimo, de 
grandissimo.^ 

20. — Os adjectivos em il (= 1. ///5 ) fazem o 
superlativo em imo e issimo :— fácil facilirno facilis- 
simOj frágil fragilimo fragilissitno, subtilissimo. 

No latim dava-se a mesma concurrencia de 
formas do sup. synthetico : — gracillimus ( Suet. ), 
e gracillissimuSj agillimus ( Prisc. ) e agillissimus, 
imbecillimus (Sen.) e imbecilissimus, etc. 

Dahi as f. port. — humilimo humilissimoy aspér- 
rimo e asperrissimo (ambas em Camões), etc. 

Os nossos adj. seguem a regra dos latinos em // 
(ili, ile) com vogal breve antes da terminação (radical 
atono),e daquelles cuja vogal é longa (radical tónica): 
— facilis — facillimus, humilis humillimus, nobilis 
— nobilissimus. 

21. — Os adj. em vel (= 1. bilis) fazem o sup. 
mudando a terminação em bil antes de suííixarem a 
desinência do grão : — notavEL — notaBiússimo — , 
miser A\EL — miseraBiússimo . 

Estes sup. não se afastaram das formas positivas 
portuguezas para mais se encostarem ás latinas. 
Formaram-se das nossas formas archaicas ferribil. 



Cp. iuglez — inmrmost, híndermost. 



igS 



miserabi/j etc, bem como nobilhsimo (de nobile)^ 
esterelissimo (de esterile , audacíssimo { de audacej, 
felicíssimo ( defelicej, christianissimo ( de chrisíianoj, 
antiquissimo ( de antiquo), etc, 

O latim deu-nos o modelo; o portuguez antigo 
imitou-o ; a analogia alargou o circulo dos exemplos. 

22. — A's vezes, porém, um dos superlativos 
syntheticos é de fundo popular, c o outro de for- 
mação erudita — pobríssimo paupérrimo, friíssimo f ri- 
gidissimo, docíssimo dulcíssimo^ amiguissímo amicís- 
simo, cruel crudelissimo, inteirissimo integerrimo,... 

23. — São pois susceptiveis da formação orgâ- 
nica do superlativo só os adjectivos acabados em e, 
o, u, /, r, i. 

24. — Alguns rejeitam as flexões do gráo por- 
que já exprimem idéa de superlatividade ou por lhes 
serem naturalmente refractários: — egrégio^ superior^ 
ulterior^ posterior, ínclito, invicto, longíquo, joven, 
adolescente,... (já temos porém Excellentissímo e om- 
nípotentissimo) , ou pelo respeito á tradição latina, 
como, p. ex. alguns nomes de cores, alguns em ão, 
(pagão, ladrão), os em ico (pacifico), os verbaes em 
bundo ( gemebundo), etc. 

2 5. — Em compensação, conservamos super- 
lativos ( e comparativos ), cujos positivos mais não 
são usados: — minacissimo, de mmí7{ ( ameaçador 
= 1. mínax, acis), belacíssimo ( Camões, Lus. ) de 
belai ( = 1. belai, f. muitíssimo rara), etc. 

35 



E94 

Na poesia, porém, é permittido o reviver desses positivos, e o nosso 
poeta Odorico Mendes empregou belaz na sua traducção da lUiada, 32. 

26. — Superlativos divergentes : — summo- su- 
premo superno, intimo interno, etc. 

27. — ^^O sup. synthetico lambem pôde formar-se 
pela prefixação. Neste processo que. no portuguez, 
remonta á origem da lingua, e estendeu-se ao Sec. xiv 
fperlongadamente R. S. B. ; tamanho = tão magno ; 
tamaninoG. Vic, perdurauel — Id. ; preclaro per- 
claro. Cam. Liis.; translúcido ;...)^ é de notar — 
como observou Diez — a usual separação do pre- 
fixo per : — port. ant. mal vos per está., ben mi o per 
depedes a creer ; lat. per mihi mirum visiim est., per 
pol quam paucos ; fr. ant. tant pas est sages .^ 

28. — Superlativo analytico ou periphras- 
Tico. — Este superlativo, formado pela anteposição 
do adverbio, mais alcançou popularisar-se do que o 



* As formas principaes do sup. intensivo são mui maii, muita j)eior, 
muy melhor ( 1. multo carior ), mui bem ; — melhor de quantos, melhor dos 
outros, a jnelhor do mundo, etc. (Secs. xiri — xvi. — C. Vat. G. Rez., Fern. 
Mendes. ) 

— o comp. sup. é o typo que representa, só por si, a synthese dos 
gráos de comparação. Ex. c^ysm« = port. are. cA?ís= lat. plus (plous 
plosius ), í)íunwa= plusima = gr. pólitis e ma, fem. de tima = inaa. 

— Os superlativos podem também formar se metaphoricamente, como 
acontece nas línguas semíticas. Ex. hebr. — Jilha das mullier es {=^ formosís- 
sima, lat. filiam feminarumj, varões das valentias =— foi'tissimtis lat. viri 
virtutumj... V. Dr. Souza. Idiot. da lingna Ti-ebr. e grega. 

Nós dizemos o homem, dos homens, o sábio dos sábios, o bun'o do» 
burros, i. é, o maior d'entre os. . . 



igS 



synthetico. A tendência foi sempre para o analy- 
tismo, para a simplificação. 

Em latim era frequente o emprego dessas for- 
mas : os adjectivos que formavam o comp. com o 
adv. magis, tinham um surperlativo também ana- 
lytico construido com inaxime, que algumas vezes, 
por amor da variedade, era substituido por uma 
outra particula — satis, per, ultra, prceíer, super, ante, 
multo,... (multo tanto carior, Plauto, multo optimus 
hostis, Lucil. ) 

O portuguez mais se aíFeiçoou ao adverbio 
tnuito mui), e fel-o indicador do superlativo, apro- 
veitando-sc comtudo da liberdade de poder também 
substituil-o por outros (assas, demasiado, ultra, extra, 
super, hyper, archi, excessivamente, horrivelmente, etc.) 

O emprego destes últimos advérbios tem aug- 
mentado de dia para dia : — uma mulher adoravel- 
mente bella, imi critico genialmente patarata, 

29. — Até o Sec. XVI indicava-se outrosim o 
superlativo antepondo mui e muito ao adjectivo : — 
gente de pé n-]\x\ muita sem conta (F. Lopes. Chron. de 
João I) ; monte mui muito alto (S. Luiz ). 
que dos mui muitos ciúmes 
nace o mui muito amor. 

(Gil Vicente.) 

costume que, na linguagem popular e familiar ainda 
se conserva para dar mais intensidade ou vehemen- 
cia á phrase : — João é muito muito /e-Zo. 



igó 



- o processo rcduplicativo approxima o suj). do uuuicio plural, de que é 
apenas simples prolougameuto. ( Sa}'cc. ) 

Este processo é conservado em Portugal, Brazil e nos dialectos de 
Africa e Ásia : — secc-osecco, quenti-quenti ( =. muito secco, muito quente, — 
port. de Cochim), lecco-lecco,... das melhares mdhor, o peyor de peyor{C.\. 
119, 129 ); ieu tio, doa mawres, o inór. (A. Ferr. Luait. I. 130. ) — Id. nos he- 
braísmos — cântico dos cânticos, senhor dos senhores, rei dos reis, vaidade das 
raidade^, servo dos servos, aic. (Rciswerk — Gram.heb.J 

3o. ■=— Mais divorciadas da regra grammatical 
estão as expressões formadas com os advérbios 
mui e tão y e os superlativos de uso vulgar no Sec. 
XVIII — mui sapientissimo senhor, tão grandíssimo . 
( Tam muito. Sec. xiii. C. V. f8i. ) Hoje ninguém 
ousará escrever taes solecismos, que todavia repre- 
sentam exemplos do fallar romano ( multo Optimus, 
pulcherrimum^ utilissima,.... Cie. Quint., etc. ) 

3i. — Os augmentati'vos podem indicar o gráo 
superlativo : — pan^oeirão, pobretão, etc, muitas ve- 
zes com sentido degradado : — sabichão, grammati- 
cão. 

Os diminutivos também indicam superlativi- 
dade, mas com certo sentimento de dor ou lastima. 
Quando dizemos — elle está pobresinho, não temos 
só em mente apresentar o individuo como miserabi- 
lissimo e mui fallido ao dinheiro, mas manifestar 
também o sentimento de dor ou lastima, o interesse, 
que nos causa a seu estado de penúria. ^ 

32. — Superlativo relativo. — No latim só 
havia uma forma para os superlativos absolutos e re- 



197 



lativos. Assim — femina pulcherrima tanto significa 
mulher m\i\Xo formosa^ como a mulher mais formosa. 

É que o latim só attendia á idéa de superlativi- 
dade, no emtanto o portuguez e as demais linguas 
romanas, mais suppoem a de comparação (o mais 
de... hesp. lo tnas^ franc. leplus, it. ilpiú,..Jj e com 
justo fundamento. Na phrase a mulher mais bella^ 
não está contida somente a idéa de ser ella muito 
bella, mas também, — e acrescentado, — a de ser 
mais bella que todas as outras. A mulher a que nos 
referimos, em relação ás outras^ é muito bella. Domina 
pois a idéa de comparação. 

No dominio do portuguez houve lucta entre as 
duas formas, que mais se estremaram no Sec. xv. 
Data desta época o emprego do artigo antes do 
superlativo relativo ; mas o emprego distincto e 
judicioso das duas formas só se assegurou no sé- 
culo XVI. 

Hoje não mais se pode supprimir o artigo, a meuos que o substantivo 
venha precedido de um possessivo — Onteuamigo maia intúno de todoii,... 

tuas mais bellas aspirações. 

33. — São ainda equivalentes do superlativo 
analytico : 

SOBRE TODOS ! — E O Infante Dom Pedro meu 
sobre Xoáos preiado Yrmaão (Sec. xv L. Cons. 27 ). 

Mil: — Mú lindo, mil gamenho ( Fil. Elys. Obe- 
ron ). Só encontramos este emprego em F. M. do 



igS 



Nascimento f Af// = gr3nde numero, muitissimos, — 
mil ra{õesj . 

Assas : — assas de forte está minha alma (Alm. 
Tr. de Biblia)...^ Assas de pouco f ai quem perde a 
pida (Cam.) — Cp. de suso. 

Que ( Sec. xin ) : — que leda que oj ' eu sejo 
(C. V. 3o7). 

Muito mais. — É também um reforço do sentido 
comp, — muito mais bello, muito maior. 

Bem. — Também é um reforço mui usado em 
todas as línguas romanas : — bem bom^ bem doente^ 
bem mal^ bem caro,... (:= lat. bene multi^ b. lat. filiam 
bene idoiteam,. . ./ Bem mais. 

Os comp. e superl. — diz Brugraflf — sSo os expoentes próprios da 
qualidade intensiva dos objectos considerados relatitameuU. 

Essas flexões estendiam-se nas primeiras phases da linguagem a 
todo o dominio nominal, do que conservam vestígios muitos idiomas, prin- 
cipalmente em formações analógicas de fundo popular. 

No sansk. védico o comp. tirou origem no subst. No port. temos 
consismo, lat. oculismne homo (Plauto), e analyticamente — mui trobador 
( C. Vat. 97 ), erajd mvito noitfe, b. lat. pro me nimium peccaiorl ( Diez III, 
13). 

A distincçao entre comp. e sup. é de origem secundaria. Primitiva- 
mente os seus sufRxos apenas indicavam uma relaçfio de maior afustamento, 
como se vê das f . sansks . — apa-ra apa-mk apa. (Bréal, Intr. Bopp, 3 
XIX.) 



í Diez. Oram. der Bom. Spraclien. 



DEC1M4 QUINTA LIÇÃO 

Flexão dos nomes. Flexão do pronome ; declinação dos prono- 
mes pessoaes. 

1. — V. Lição i3 e 14. 

2. — Só estão sujeitos á flexão de género e nu- 
mero os pronomes-adjectivos — demonstratipos e pos- 
sessivos ; os indefinitos — aigiim, certo, nenhum^ nullo^ 
outro j todo, um ; o relativo ( conjunctivo ) : — cujo. 

Qual e qualquer ( adj.-pron. ind. ) só tem flexão 
de numero ; dos pronomes pessoaes só tem flexão 
de género e numero o da 3.'' ( elle ). 

E' quanto nos cabe dizer aqui sobre a flexão 
desses pronomes. V. Lição 26. Etimologia. 

3. — Declinação dos pronomes pessoaes. — As 
tabeilas seguintes apresentam a declinação dos 
nossos pronomes pessoaes comparada com a dos 
latinos. 



2O0 



SINGULAR 



N. (Sujeito) 
Acc. (R. dilecto) 
Dat. (R. indirecto) 
Em relação prepos. 
Abl. 



PRIMEIRA PESSOA 



LATIM 



ego 

me 

mihi 

me 



PORTUGUBZ 



eu 

me 

me 

mim 

migo 



SEGUNDA PESSOA 



LATIM 



tu 
te 
tibi 

te 



PORTUGUEZ 



tu 
te 
te 
ti 
tigo 



PLURAL 





PRIMEIRA 


PESSOA 


SEGUNDA 


PESSOA 




LATIM 


PORTUGUEZ 


LATIM 


PORTUGUEZ 


N. (Sujeito) 


nos 


nós 


IfOS 


vós 


Acc. (R. directo) 


71 OS 


nos 


vos 


vos 


Dat. (R. indirecto) 


nobis 


nos 


vobis 


vcs 


Em relação prepos. 


— 


nós 


— 


vós 


Abl. 


nobis 


nosco 


j>obis 


vosco 



201 



Notas, i.-' São formas archaicas da i.* pessoa 
do sing. — ez, leii (geu), aquella no Sec. xii, esta — 
que era tónica — no Sec. xiii. 

Ma se iii for para Monde g- o 

( C. DE Egas Moniz. ) 
ei boyme por hifóra 

(ID. ) 

por quanto ieu crer sey 

( C. DA VaT. ) 

estraynã vida vivo geu senhor 

(ID.) 

Attribue-se a forma ieu — idêntica a ^^z/ — á 
influencia provençalesca ( = fr. ant. giè^ f. tónica 
áejojej.' 

2.^ Ale. Abrange o domínio do dativo (desde o 
Sec. xni), accus. e genitivo : deu-me, amas-me, secca- 
ram-se-me as iUusôes ( para mim seccaram-se as 
illusões ). Este accumular de funcções é devido ao 
emprego de me p. mihi (mche, Quint., etc.) e tam- 
bém a ser mi f, dativo de ego. 

E' para sentir haver a forma objectiva me 
obliterado a terminativa m/, que constituía mais uma 
riqueza da nossa lingua. 



^ Ern grande a confusilo na e^scripía entre i ej (já no latim), e por 
isso representavam muitas vezes o i latino pelo^' portuguez ou g braado. 
A diíferença entre ieu e geu, é simplesmente grapbica, como também 
entre eu e eo. ( Sec . xrn. ) 

Quanto ás formas eu ei, Cp. meu e mei, mê, ainda boje vulgares no 

Alemtejo, Algarves, c em algumas ilhas A(oria7utii. 

26 



302 



3." — Mim ( arch. mi — mhi), O m representa 
exemplo epithesico ou paragogieo. — Cp. assi assim, 
si sim j ^ nem, .... (= lat. si-c, ne-c^...). 

Como vimos acima, mi derivou de mi, dativo de 
ego e de mihi, regularmente contrahido em mii, mi. 
Appareee nos primeiros monumentos da lingua (Sec. 
XIII e xiv), mas sempre a par de mim (min^ 7nê) ; só 
cahiu na lucta no declinar do Sec. xvi )} 

4.^ Houve no portuguez uma variante popular 
che ( Couto — M. Z., Euf.^ ap. Moraes ). 

Esse archaismo pronominal (che, xej, não nos 
parece forma equivalente a te, como suppóe Moraes. 
Os exemplos xi quer, xe quer ( S. de Mir. ) provam 
que elle corresponde a 52 ou se (it. 5^a;gallego 
ge, xe, que soa tchej. Em desto xe vos seguer 
grandes perdas ( O. Aíf. ) = pron. se ; a phrase não 
significa disto te sobrevirão grandes perdas ( como 
querem alguns), mas — disto se vos hade provir gran- 
des perdas ou ha-se-de provir-vos . . .; a vacca morreu-xe 
{S. M.); Jtã sey que chQ heprêfermoso. (S. Mir. Eg.) 

Em hespanhol é frequente este uso :^- Le en- 



* Sim p. si, pron. da terceira pessoa, ainda no A.lemtejo (Vasconcel • 
los — Bev. dos Estudos livfes. 

E' uma necessidade euphonica do povo, que pronuncia também — 
muin p. mui, muinto p. muito. E no port. antigo muitas sao as palavras 
com formas duplas nasalisadas e nSo — (assi assim, home iMmem, hoo 
bo boom bom, eo com, soo toam). 

' Camões ainda empregoH-a. 



20S 



rega V. la carta ? — Si^ se la entregue ; e em portu- 
guez ainda temos exemplos : — cá seme está parecendo, 
etc. 

O me nestes casos é dativo :— não datur mihi 
( cura ) ; seja-se elle vossa amante. ( Euphros. ) 

A permuta do s pela chiante jc, cã, é um dos 
casos de corrupção phonetica, que o Sr. Thephilo 
Braga attribue a idoisincracia galleziana. 

5/ Migo = 1. mecum ( = ciim me) ; tigo = 1. te- 
ciim ( cum te ).^ Os escriptores antigos escreviam 
simplesmente — migo, tigo^ ^igo^ ou porque obede- 
cessem inconscientes á tradição latina, ou conservas- 
sem ainda a noção lógica da composição : 
non trago migo qitesto coraçon 

( C. Vat.) 
tigo começar fui 

.( ii>- ) 

Perdida, porém, de todo essa noção^, origina- 
ram-se as formas redundantes, pleonasticas — com- 
migo^ comtigo, comsigo, que vecejaram simultanea- 
mente com as mais simples — migo^ í/^o, sigo, nos 
Secs. xin e xiv. 

No Sec. xni appareceram as variantes comego, 
comtegOj comsego, ainda muito populares no Sec. 
XVI. (G. Vic, etc.) 



* Meco, meeu, p. mecum. A queda da nasal fioal, apesar da influeaj 
cia dos estudos gregos, prevaleceu no latim popular desde as guerras da 
Macedónia e Syria, ainda na época de Cícero e Tito, e mais se tornou 
frequente depois do terceiro século da nossa época. 



204 



4.— O Latim, só possuía dous pronomes pes- 
soaes propriamente ditos (ego,nós^ tu, vós); para a 3/ 
p. empregava o pron. definito ou demonstrativo ille,- 
a,-udj hic haec hoc, iste^-ãy-ud. — V. Lição Artigo. 

SINGULAR 





MASCULINO 


FEMININO 




LATIM 


PORTUGUEZ 


LATIM 


PORTUG. 


IN. (Sujeito) 


ille 


elle 


illa 


ella 


Acc. (Reg. directo) 


illum 


(ello, lo) 


illam 


a (la) 


Dat. (Reg. indirecto) 


illui {ili, li) 


lhe (er, lures) 


illei {illi, li) 


lhe 


Relação prepositiva 


— 


elle 


- 


ella 


Abl. 


mo 


comsigo 


illa 


comsigo 



PLURAL 



Sujeito 

Regimen directo 
Regimen indirecto 
Relação prepositiva 
Abl. 



MASCULINO 



LATIM 



illi 

illos 

illorum 

illis 



PORTUGUEZ 



elles (ellos) 
OS (los) 
lhes (lures) 
elles 
comsigo 



FEMININO 



LATIM 


PORTUGUEZ 


tilas 


ellas 


illas 


as (las) 


illorum 


lhes 


— 


ellas 


illis 


comsigo 



205 



Advertências. — i^ Elle^ ella^ são formas dos 
primeiros does. ( Sec. xii), que tinham por concur- 
rentes as archaicas — el, ello ( n. z=: illnd) e ille. 

Renhiram ellas por tempo mais ou raenos dila- 
tado, ^/desappareceu no fim do período archaico ; 
elhos, elhas, só persistiram no Sec. xii, e nas primei- 
ras décadas do immediato ; a forma pura tile cahiu 
no fim do xiv ; ello perdeu-se no xv, em que tam- 
bém concorreu uma forma tónica de el (salveseli), 

A forma ello^ eile, do regimen directo, desappa- 
receu ante a do pronome o ( lo ).' 

2.' Lhe. Deriva de illi (ÚY\ huic=este, contr. em 
ili'huic, d'onde illiiic^ que se encontra na forma illui 
nasinscrip. romanas). 

Apresenta três formas intermediarias — /z, illi e 
llú (He, liy,) plural les^ Ihis. 

Li (le) é frequente nos primeiros does. da lingua 
(J. P. Rib. Dissert.); illi (ille) apparecem esporadica- 
mente nos Secs. xii e xiii ; le, les ; lie, lies, lly, Ihi, são 
variantes graphicas do Sec. xiv, já corresponden- 
tes a //ie, lhes. Ex. — que' li pla^a faceies ajuda (Rib. 
Diss.J, llefe:( Deus (Canc. Aff.), lly for demandando 
(F. de Gravão), antes lhe quero a mha senhor diíer, 
coytas Ihi davan amor, (G. Vat.) 



* 2Í0 africano portuguez de S, Thomó elle =-= é, ; no indo portuguez de 
Diu — êU (Schuchardt — Ereolisclie Sínãkri); no portuguez africano do 
Brazil — zére, c o z prothesico também é vulgar no francez da Reunião e da 
Mauricia (Eumania), e em alguns pontos de Portugal — zuma tez, etc. 
(Vaso. Op. cit.) 

— V. Lam. de Andrade. — Ye^i, da decl, latina. 



206 



Lhe conservou- se invariável até o Sec. xvi, 

A's ondas torna as ondas que tomou ; 
mas o sabor-do sul lhe tira e tolhe. 

(Camões.) 



Qual pávida leoa, ferae brava, 
que os filhos, que no ninho só estão, 
sentia que, emquanto lhe buscara, 
o pastor da Massylia lh'os furtara. 

(ID.) 



A cidade correram e notaram 
muito menos d'aquillo que queriam, 
que os Mouros cautelosos se guardaram 
de lhe mostrarem tudo que pediam. * 

ÇL-D.) 

5. — A's vezes o pronome elle é substituído por 
ai {=z aliud) : — cá nunca jne d^ a\ pude nembrar . (Sec. 
XIXI, C. de Vat.) 

Note-se, porém, que ai correspondia a outrem^ 
e era já arch. no tempo de J. de Barros. 

6. — O pronome o (/o = 1. illo = illud) é que de 
feito substituiu o pronome elle no caso objectivo, 
desde o Sec. xvi. 

7. — Terceira pessoa reflexa. — Se = lat. se. 
Atonisou-se por influencia da enclise (id. — me, te). 
Formas archaicas — se, sse, xi, xe (Secs. xii e xni). 

Além da sua funcção reflexiva e reciproca, tem 
mais a passivadora. As linguas romanas deram-lhe 
foros de pronome pessoal. 



1 ^hrc l, 11 =- Ih - V. LirAo. 



207 

Tem três casos, defectivos em'genero e numero : 

ohjoctivo— ,<í' i 

dativo — .St; ) 
Kiii iria<;<n> adv. OU prcp. — « -= 1. sibi. 

Si data do Sec. xiv ( = sy, ssi, ssy ). No fallar 
do Alemtejo dá-se a nasalisação (sim). 

8. — Sigo = 1. secum ( cum se ). Deu-se com 
esta variação pronominal o mesmo que com migo, 
tigo; mais se empregava nas formas pleonasticas — 
comsigo, comsego. 

9. — Segundas pessoas do plural. — O latim 
já tinha uma só forma nos, vos para o nom. e accus., 
recrescendo a confusão depois que, pela subordi- 
nação ás leis phoneticas, os dativos wo^Í5, vobis, 
transformaram-se em nos, vos. 

Em portuguez estes casos só se diíferenciam 
pelo o agudo do nom. e do caso que exprime re- 
lação adverbial ou prepositiva (nós). 

Nosco z= 1. barb. noscum (cum nobis), con- 
tracção regular de nobiscum ; assim como vosco é 
contracção de pobiscwn ( nob-i-scum, uob-i-scum). 

Nosco, uoscOj datam do Sec. xiii. 

Que noii mor'en uosco per boa fé 
fui vosco falar. 

No Sec. XV as formas commummente usadas 
são as pleonasticas — comnosco, comvosco. 

Em Viterbo encontra-se uma forma em vosquo, 
das cortes de Coimbra ( Sec. xiv ) que também vem 
citada nos Monum, hstoricos. 



208 



IO. — Os escriptores antigos confundiam os 
vários casos dos pronomes pessoaes. Ex. requerer 
ojui:{ da terra que se^ue mim ( Ord. Aff. ) ; se eu fora 
a ti ( esta phrase ainda é muito vulgar no povo ), 
mais que mim, melhor que si, tenho mais poder que si ; 
por amor dos Mouros que lhe peitaram ( Fern. 

Lopes ) ^ 

n. — Havia também uma forma correspon- 
dente ao lat. illoriim. Era lures ( do lat. barb. ), 
de uso mui frequente nos Sec. xii e xiv. mas que 
cedo atrophiou-se em er (her).— Equivalia a 
lhe (seu), o (elle). Os exemplos melhor nos con- 
vencerão. 

nem er costrange, nem veda 

(O. Aff.) 
e outros er ordinharam. 

( D. DE Pend. i347 ) 
mays quand^Qv quis tomar pola ver. 

(C. D. Diniz. ) 
depois de comer er veo espellar outiva ve^. 

(ID.) 

O latim empregava para o possessivo da 3." 
pessoa do plural o sing. suus, que foi supplan- 
tado pelo gentivo illorum (eorum). Esta con- 
strucção. restricta na origem, tornou-se regra (por 
analogia ) sempre que o nome do possuidor estava 
no plural, qualquer que fosse o género. 



* Nao é para admirar essee enganos nos does. e clássicos antigos, 
quando ainda hoje ouvimos frequentemente desteraperos de igual marca 
— eu vidle, chameio tolo,faUo comsigo p. comvosco, etc. 



209 

E dahi derivaram as formas leur em fran- 
cez ( ant. íor íour), loro cm iíal., /or prov., lures 
iiesp. arch. 

O portuguez só conservou a constracção la- 
tina, e com isso não só perdeu um elemento de 
riqueza vernácula, mas também obriga os menos 
adestrados — para evitar equívocos — a phrases 
de estylo fraldoso e arrastado ( a sua casa delle^ 
ele. ) 

Os possessivos sendo por sua definição adje- 
ctivos dos pronomes pessoaes, e substituiado-os 
no genitivo ( meu filho — o filho de mim), resulta 
poderem, inversamente, os pronomes pessoaes no 
gen. substituir em certos casos os possessivos 
(por amor áe\\Q z= por seu amor J. 

Em — segure-lhe a mão, pendi- lhe as terras^ lhe 
lhes = sua^ suas. 

Esiudemos os exemplos do emprego do er em 
todos os does. antigos ; tenhamos em conta o 
barbarismo ainda hoje tão frequente do emprego 
de lhe por o ( eile ) — pi-lhe hoje, amstei-lhe, chamei-o 
tolo, etc; lembremo-nos de que lhe é forma 
synthetica de a eile, a ella ( ainda hoje de uso 
constante — eu disse a eile, recommende -lhe a eile), 
e de que era frequente a omissão da preposição 
no port. antigo, e teremos em remate a eviden- 
cia de que er não corresponde a eu, vós, eile, 
etc, como diz Viterbo, mas a lhe. 

Notemos mais as phrases pleonasticas — lhe 
disse a eile, vi-o a elle^ etc. 



27 



DECIMA SEXTA LICAO 

riexao do verbo ; conjugação ; formas de conjugação 
I. — Vide lição IO e a 27. 

ADDITAMENTO Á LIÇÃO IO 

1.0 — O verbo compõe-se de dous elementos — thema e desinência. 

Esta — que corresponde ao sufflxo nas formas nominaes — exprime as 
três pessoas, os dous números ( sem distincção de género ), os tempos e os 
modos. 

2." — Os radicaes sS,o ato^ios ou tónicos. Em mover, p. ex-, move tem o 
radical tónico ; e 7novia tem-no atono ( = 1. mávet, movébaij. Em regra, se- 
guimos a accentuação dos verbos latinos, que se deslocava segundo a natt- 
reza da flexão. Kegularmente tem radical tónico as três pess. sing. do 
Ind. presente, e as do Imperativo sing. 

As deslocações da tónica mais de notar são : 

aj — Nos verbos em erc — curvere, gemere, tremere, = correr, ge- 
mer, tremer, etc. Esta deslocação do accento remonta, porém, ao latim popu- 
lar, que a par dessas formas proparoxytonas, creara as oiytonas em ire(ge- 
mire, iremire, currtrej e pela accentuaçfto do prefixo na época romana — 
^rot'i(í<!r« =-= ^TíwzV/^re (prover). Dabi as formas portuguezas construir 
( constrúere ), destruir (dcstruiere), /(^«er ( f acere), invadir, romper, mnverter, 
reger, jwer, etc,,' 



211 



Xos does. primitivos da lingua muitos desses verbos seguiam a flexão 
eni í e vicc-versa; arrompir, corrire, eacreviren, comiste, cingeste, ení€ndiste,fe- 
zisfi, meíir, perdir, nacire, recibir, etc. 

hj — Nas l.a e 2.* pess. do plural do prés. do Ind. da conj. cm ere : — 
rumpimus, rúmpitis, = rompemos rompeis. Aqui actuou no port. o principio 
da analogia. 

cj — Na l.=^pess. do plural do pret. do Ind. — fécimxis, rúpimHS'~ fi- 
zemos, rompemos. 

3.0 — Os tempos e os modos sito resultantes das modificações do thema 
em suas combinações com os suíHxos e as desinências. 

aj — Modo é a forma do verbo tendente a marcar as differentes ma- 
neiras da aflirmação. Temos quatro modos — o indimtivo, o subjunctivo, o 
condicional, o imperativo. 

O Indicatico exprime uma realidade ; o subjunctivo a contingência ; o 
condicional 0. possibilidade ou condição; o imperativo, necessidade ou mando. 

O Infinúo é subs. ; oparticipio — adj. verbal ; os supinos representam 
formas adverbiaes. 

bj — O t£mpo é a forma verbal para indicar a época em que se faz, 
passou-se ou far-se-ba a acção. São em numero de três — passado, presente 
e /m?m7'í>, correspondentes ás três grandes divisões da duraçfto. 

cJ — As pessoas sfto também indicadas pelas terminações. São três para 
o sing. e três para o plural. 

dj —O part. presente tem sentido activo; termina sempre em nte (ante, 
ente, intej; só tem flexão de plural. ( V. Liç. 37. ) Corr. lat. ans fensj antis 
fentisj . 

O gerúndio e o part. presente empregado adverbialmente. Termina 
etandofando, endo, indoj. E' invariável, e corresponde ao ger, lat. em 
ando (endo). 

4.0 — São duas as vozes nos verbos que exprimem acçfto. A activa re- 
presenta o sujeito; apasbita, o objecto do verbo (amo. sou amado J. Perde- 
mos a flexão da voz passiva,— a periphrase de que usamos é todavia de 



212 



origem latina (V. L. 27). Na forma periphrastica é o auxiliar «2r que lú- 
dica a pessoa, o numero e o modo, 

Í5.0 — A conjugação simples contém onze formas, daa quaes três sfto 
impessoaes (infinito, participios presente e passado): 

f 1 . ° indicativo — amo ( o imp. cantava ) 



imperativo — ama 
\ 3. subjnnctivo — que eu fl!77?<3 
l 4.' participio — amando 

[" 1.0 In d. perf. — amei 
-{ 2.0 Subj imp. — que eu amasse 
[ 3." part. passado — amado 

r 1." luf. — 'amar 
-{ 2.° Ind. — amarei 
[ 3.0 Condicional — amaria 
2. — A flexão verbal é como segue: 

f 3 para o sing. 
3 para o plural 
2 para o Imperativo 



Formas do presente "i, 



F. do paleado 



F. áo futuro 



Pessoas 



Números 2 



Vozes 3 



Tempos 6 



singular 
plural 

activa 
passiva 

presente 
perfeito 
futuro 
imperfeito 
mais que perfeito 
futuro perfeito 
\ futuro anterior 

Os trcs primeiros sao chamados pi incipaes, os outros — históricos. 

r Indicativo 

.,, , i Subiunctivo 

Modos ^ _ V • 1 

Condicional 

1^ Imperativo 
Os tempos do Infinito sfto formas n»minaes. 



3l3 

2.— Todos os verbos podem reduzir-se a uma 
única flexão. As modificações devidas á lettra final 
do thema, é que deram origem ás quatro conju- 
gações. 

E como o infinito era que mais distinctamente 
apresentava a vogal característica, foi elle tomado 
para typo da flexão verbal. 

Para cada grupo — a que chamamos conju- 
gação — temos uma vogal thematica característica : 

l.a — a?' = 1. «-re 
2.* — er= ]. e-re, ere 
3.* — w"= ]. ?-re, ere 
A.^—or (ant. erj =1. ere 

A quarta conjugação data do Sec. xvi. For- 
mou-se pela degeneração phonetica do verbo da sq- 
%unásí poer , poner ^ e esterilisou-se completamente. 

3. — Quadro synoptico das desinências ver- 
BAEs. — Os themas verbaes são pois em a^ e, i, (dei- 
xamos de parte o Yerbo pôr) — ama-r^ teme-v^ parti-v. 



214 








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2l6 



FORMAS NOMINAES 



Infinito imp. — ar, er, ir, or. 

Gerúndio. — ndo (para as quatro conjugações.) 

Part. prés. — nte (idem.) 

Part. pass.— do ( id. ) — Os da segunda conj. 
mudam o e thematico em / (vendido). 

Temos ainda no portuguez o Infinito pessoal, 
que constitue uma das nossas riquezas vernáculas. 
E' idêntico ao futuro do Subjunctivo. 

Comparando as desinências, ver-se-ha facil- 
mente que, de facto, como dissemos acima, todos os 
verbos podem reduzir-se a uma única flexão, e que 
as conjugações só tiveram origem na diíTerença da 
lettra final dos themas (a^ e^ i.J 

4. — Advertências : 

I.'' INDICATIVO. — presente: No Sec. xiii as 
formas da i.-'' p. do plural eram — amamus, outor- 
gamiis, veiidemiis^ etc. mais conchegadas ás latinas. 

Nas 2." p. do plural o / (de origem latina) 
abrandara em d: — di\edes, amades. leyxades. uirJides, 
perdedeSj etc. 

Essas eram as unitas formas usadas do Sec. 
XII ao XVI (valedes, fareacs^ c f acedes, queredes, 
sodes^ passades, sejades), etc. 

No Sec. XV é que começou a syncope do i' 



* o primeiro doe. em qnc nppr.rece a fórran contractn, mas ainda 
n pnr (ia outra, tem a data m\í\^ — guards, guardes-gvardades. (Cap. 
gerae» propostos péla Camará de SaruaremJ. 



217 



fa\Qes^ di\ees^ embarqiiees, sooes, avees. daees^ etc. 
( J. de Barros, etc), que só conseguem fixar-se 
no XVI. Vestígios dessas primeiras phases da língua 
ainJa conservamos em certos verbos — creAes^ iedi^s, 
tendes, pedes^ vindes, te. 

O í/ primitivo conservou-se apoiado no n e no r 
( futuro do Gonjunctivo e Inf. pessoal — cantardes J.^ 

A 3.'' pessoa do plural terminava em am e 
em (flexão ê ou /y. No Sec. xv é .que começa a 
forma em aõ, om on, am an. 

No Imperf. — a 2.^ p. do plural, do port. 
antigo era também evades ( tinhades, haviades^ ctc.j. 
Esta desinência conservou-se — como acertadamente 
pondera A. Coelho — apesar de íicar em con- 
tacto coni a vogal do thema pela queda do d^ 
sempre que esta vogal era úf tónico ( ama-QS^ mata-es 
— amadQs maUdesJ, etc. : funJe-se com ella quando 
é a atono ( -amáveis, diiieis^ sentíeis ) ; muda-se 
para i se a vogal for um ó fdi{e is^ have-is ) ; é 
absorvido por ella se fôr um i (sentí-s, menti-s, 
vesíi-s ). 

Mas nos textos do tempo de João de Barros 
encontram -se ainda as formas querijiis^ faiiais ( z=z 
queriades, fa^tadesj. 



1 Diez-acrescenta que o a precedente ao d mudou-ae — em e, na 
queda da dental, quando não era protegido pelo accento :— oa/i<rt«« — 
eaniarieín. 

28 



2l8 



' Pretérito perfeito. — A 2/ pess. terminava em 
// á maneira latina — escolisti, fe{isti, eniendistij 
deitastiy etc. ( Sec. xii ). O / até o Sec. xv abran- 
dou em d. É este o único tempo que conservou 
a dental latina da 2/ p, do plural (amaste, per- 
deste). 

A 3/ p. do plural terminava em um: — fórum, 

operum^ fecerum, derum, etc. (Sec. xu ) ; depois, 

em om, on. (Sec. xiii ), e mais tarde em o: — 

foro, trounerõ^ até que no Sec. xvi íixou-se na 

forma actual. 

Futuro. — O nosso futuro não é propriamente 
um tempo simples^ mas os seus elementos com- 
ponentes acham- se por tal geito soldados, que é 
impossivel classifical-o nos tempos compostos, com- 
quanto, e bem assim no hespanhol, italiano, e 
provençal, a desinência apparente do futuro possa 
ser considerada palavra independente : — port. — 
far-lo-he\^ hesp. hacer-lo-he, prov. dir-vosai, etc.^ 

Essas expressões, que se encontram desde 
as primeiras phases da lingua fpoder-m^edes^ leuar-vos- 
ey, poel-os-hemos, lepantar-s^am, etc.) mostram á evi- 
dencia a origem do futuro dos idiomas néolatinos 



» A descoberta deste futuro fel-a o gramm. hesp. Xebrissa (1492), 
o Ste. Palaye, M. Muller, Raj^nouard, Diez. etc. confirmaram a expli- 
cação. Nunes de Leílo foi o primeiro graram. port. que fez esta 
observação; e A. Ribeiro dos Santos ^.P<«», port. ^ notou que o galleziauo 
" emprega a expletiva ai e o algario ei\ 



219 



que adotaram a forma peniphrastica latina f amare 
habeo = ainabo ) . 



Port. 


hei 


eanto7'-ei 


besp. 


hè 


caniar-d 


ital. 


no 


canter-ó 


francez 


ai 


chanter-vÁ 


prov. 


ai (ei 


chantar-'ài * 



Os verbos diíer, fa^er, traier, etc, perdem o { 
no futuro, do que resulta a contracção regular das 
duas vogaes :- - dir-ei, far-ei tra-rei^ correspondentes 
ás archaicas — di{erei,faierei, íra^erei, etc. ^ 

Só o verbo ja^er conserva hoje a forma não 
syncopada — jazerei. 

Condicional. — O latim desconhecia este modo. 
A sua formação é indentica á do futuro, com a dif- 
ferença de que formou-se do imperfeito^ e não do 
presente, do verbo hai^er (amar-ia = amar-hia= amar 
havia}. Corresponde ao imperf. do subj. latino. 

A desinência, i. e., o auxiliar em estado agglu- 
tinante, também pôde separar-sc, como acontece 
no futuro, deixando perceber claramente a sua 



' Em Iodas as línguas o futuro forma-se pela composiçílo. 

Em inglez com shall e will, ali. com werden, goth. com ícair- 
than; grego mod. (romaico) com theto; no românico com vegnir (tenga 
a venir-vireij , no valachio com vom (is voin candii-qneTO cantar, can- 
tarei^ V, Bopp. Of. cit. — Suney of languages. 

• Da syncope da vogal final do Infinito originaram-se varias formas 
de fut. querrey p. quererei, querra, quarrey, etc. (D. Diniz), guarrei p. gva- 
rirei (Tr. e Cant.) etc. Em algumas deu-se a duplicação do r do Infinito — 
Tulrrá p. vaUrd ; terrey, verrd, etc (Cf. Ad. Coelho.) 



220 



origem : — deper-me-hias^ amar-vos-hia.,. guysar-lh'ía 
quitar m'end-Ú7, etc. (Sec.xiii.) 

E' pois propriamente um tempo composto. ^ 

ÍMPi'RATi/o. — A i^ ''itíiicia da segunda pesr.oa 
do plural e.ri todos os do-s. anteriores ao Sec. xiv 
tra invariavelmente em — - de {=:\. te) : — fa^ede, sof- 
frede, qut:rede^ pimhade, diiede, metede^ ai^ede, sa- 
bede, amade^ sej.ides^ etc, formas que ainda vigo- 
raram nos Secs. xv e xvi, mas tendo já por concur- 
rentes as syncopadas : — femperaae, ordenaae, sabee, 
pensaac, etc, idiníicas ás modernas, pois que o a c e 
geminados indicam apenas a syllaba tónica. 

Também o Imperativo conserva, como o Indi- 
cativo, algumas formas relembradoras das archaicas 
em de : crede, íède^ vede, ride, ide, tende, vinde, ponde, 
sede. 

O d persistiu geralmente : i.° quando o thema 
compunha-se de uma única vogal (i-de. i-te) ; 2." 
quando, por motivo da qiicda da consoante média, o 
thema ficou reduzido em latim á parte inicial da raiz 
ride ^ ri (d) ete, vê-de = vi (d) ete; : 3 ° quando o / 
latino vinha protegido por uma nasal {tende, ponde.) 

SuBjuNCTivo. — F. arch. — prés. — seiayes, ameys, 
ouçayes, Itáyes (Sec. xvi) ; vçn^.—fosseyes, amasseyes, 



* o couJi pôde ser substituído pelo mp. do Ind., e os nossos clás- 
sicos empregaram de profereacia o inais que perfeito : — sem outra, vurcc 
nem despacho, me dera por muit) conic ite. (Vieira) ; no moa próprio vierc- 
cifíieuio achara razões de me comolar. (Id.) 



221 



oiivisseyes. As f. do futuro já se encontram no 
L. Cons., em J. Claro, F, Lopes, etc. 

Infinito. — E' o portuguez a única língua que 
tem a propriedade de dar inflexões de pes-^oa e nu- 
mero aos infinitos. E' um formoso e singular idio- 
tismo, « que tem a vantagem de tornar o nosso 
idioma mais breve e elegante ». (V. Syniaxe ) 

Participio presente. — O actual part. presente 
port. forma-se do ablativo do gerúndio latino: (andOj 
endo) ; mas até o Sec. xiv tirava origem no tempo 
correspondente em latim, e o portuguez antigo oífe- 
rece-nos muitas amostras desses participios em — nte 
ainda no Sec. xvi : — entrante aa casa; os quaes 
tementes Nostro Senõr ; a Sineta Escriptura de Deus 
di^ente ; eu temente minha morte, rompente o alifor 
da manhã (Nob, D. Pedro); as perlas imitantes 
a còr da Aurora { Canc. ). 

Hoje estas formas são consideradas simples ad- 
jectivos ou substantivos, como já a alguns delles 
acontecia no latim e no port. antigo: amante , peniten- 
te, consoante, escrevente, obediente, p, edominante, ca- 
minhante, semente, tirante, nascente, — occidente, 
poente, oriente, lente, etc. A águia mais voantc, escre- 
veu Pereira. 

Modernamente, Cc^millo e outros teem revivido, 
c ainda bem, o emprego desses participios. 

Participio passado. — Até o século xv, o por- 
tuguez seguia também o latim na desinência do part. 



232 



passado dos verbos da 2/ conj. (derivados em ã e 
/, e flexão cons. ) 

Ex. : estabeleçudo, perdudo, metiido, perduda, te- 
hudo^ conhoçudo, recebudo, venduda^ temiido, avuda^ 
tenda, responduda, etc. Só no Sec. xvi é que se intro- 
duziu a forma em ido por analogia da 3.* conjuga- 
ção : — vencido^ collidas, estabelecido, etc,. ou, talvez, 
por haver prevalecido a vogal accentuada da forma 
completa — uiins, dando em resultado a perda do u. 

Na linguagem hodierna ainda temos exemplos 
da forma archaica em teúdo, mantendo, conteúdo, sa- 
nhudo, etc, mas considerados simples adjectivos, 
excepto na phrase mulher teuda e manteuda. 

Esses participios, ainda mesmo com significa- 
ção activa, concordaram, até o Sec. xvi, com os 
substantivos em género e numero : quantas culpas ti- 
nham commetúáas, (F. y[. Pinto), ser uiços que lhe 
tinham feitos ( F. Lopes ), também tmham mortos 
muitos e bons soldados ( Pr. L. de Souza) ^ 

No portuguez antigo era de uso frequente o 
participio do futuro ( enpolvedouro, enxugadouro, 
esperadouro, miradouro, travadouro, escorre gadouro, 
etc. ), de que subsistem apenas algumas formas, 
mas como adjectivos ou substantivos : — duradouro, 
bebedouro, espojadouro, ancoradouro, lavadouro, 7na- 
tadouro, suadouro, etc. Estes substantivos ainda in- 
dicam uma acção futura. 



Hoje S(5 variam com o verbo «cr. { 



223 



O part. do futuro era também expresso no por- 
tuguez antigo por uma forma em — ondo ( recebondo 
= capaz de receber, etc. ), da qual conservamos 
vestigios em — nefando^ execrando^ miserando^ vene- 
rando, educando^,.., Francisco Manoel do Nasci- 
mento ainda empregava essas formas, e mui fre- 
quentemente ; hoje, porém, tem cabido em desuso, e 
são substituídas pelas em — avel^ ( execravel^ mi- 
serável, invejável^ admirável^ ) 

5. — Muitos verbos portuguezes teem dous parti- 
cipios, um regular e outro irregular. Este em geral, 
é forma contracta, ou mais conchegada á latina 
correspondente. 

PRIMEIRA CONJUGAÇÃO 



Aceitado, 


aceito. 


Affeiçoado, 


aífecto. 


Agradado, 


grato. 


Annexado, 


annexo. 


Apromptado, 


prompto 


Captivado, 


capto. 


Cegado, 


cego. 


Descalçado, 


descalço, 


Entregado, 


entregue, 


Enxugado, 


enxuto. 


Exceptuado, 


excepto. 


Escusado, 


escuso. 


Expressado, 


expresso 



224 



Expulsado, 


expulso. 


Findado 


findo. 


Fixado 


fixo. 


Fartado, 


farto. 


Ganhado 


ganho 


Gastado, 


gasto. 


Ignorado, 


ignoto. 


Infestado, 


infesto. 


Isentado, 


isento. 


Juntado, 


junto. 


Limpado, 


limpo. 


Livrado, 


livre. 


Manifestado, 


manifesto 


Matado, 


morto. 


Misturado, 


mixto. 


Molestado, 


molesto 


Occultado, 


occulto. 


Pagado, 


pago. 


Professado, 


professo. 


Quietado, 


quieto. 


Salvado 


salvo 


Secado, 


secco. 


Segurado, 


seguro. 


Sepultado, 


sepulto. 


Soltado, 


solto. 


Sujeitado, 


sujeito. 


Suspeitado, 


suspeito. 


Vagado, 


vago. 



22 5 



Ha alguns archaicos : — rapto ( Camões, Fr. L, 
de S., Sá iMenezes, etc. ), e hoje só subst. ou adj. ; 
bolo ^ embotado ( Ferr. Põem. Lus. Son. 41), etc, 
z^o/Zo = voltado, etc... 

SEGUNDA CONJUGAÇÃO 



Absolvido, 

Absorvido, 

Accendido, 

Agradecido, 

Attendido, 

Comido, 

Conhecido, 

Contido, 

Convencido, 

Convertido, 

Corrompido, 

Cozido 

Defendido, 

Descrevido, 

Elegido, 

Enchido, 

Envolvido, 

Escurecido, 

Estendido, 

Incorrido, 

Interrompido,, 

Mantido, 



absoluto, absolto. 

absorto. 

acceso- 

grato. 

attento. 

comesto (ant.) 

cognito. 

conteú io ( ant. ) 

convicto. 

converso. 

corrupto. 

couto 

defeso. 

descripto. 

eleito. 

cheio. 

envolto. 

escuro. 

extenso. 

incurso. 

interrupto. 

mantendo ( ant. } 



39 



226 



Morrido, 

Nascido. 

Pervertido, 

Prendido, 

Recosido, 

Reconhecido. 

Resolvido, 

Retido, 

Revolvido, 

Rompido, 

Submettido 

Suspendido, 

Tido, 

Torcido, 

Volvido, 



morto. 

nato. 

perverso. 

preso. 

reconto ( arch. ) 

recognito (ant.) 

resoluto. 

retento. 

revolto. 

roto. 

submisso 

suspenso. 

teudo ( ant. ) 

torto. 

volto ( ant. ) 



Além destes participios, ha arrepeso^ de arre- 
pender ; colheita^ de colher ; comesto, de comer ; con. 
cesso, de conceder ; coieito, de cozer ; despeso, de 
despender, etc. 

As segundas sSo formas syncopadas ou contrahidas das regu- 
lares. Sao de origem edudita, [em geral, econservaram-sc como adjectivos 
verbaes; e é esta a razSo por que as primeiras conjugam-se com os aux. ter 
e haver, e estas principalmente com ser ou estar, f Dissoluto devoluto, 
difuso afflicio, etc. ) 

TERCEIRA CONJUGAÇÃO 



Abrido, 

Abstrahido, 

Affligido, 



aberto. 

abstracto. 

afflicto. 



227 



Assumido, 

Cobrido, 

Compellido, 

Concluído, 

Circumduzido, 

Ditfundido, 

Digerido, 

Dirigido, 

Distinguido, 

Dividido, 

Encobrido, 

Erigido, 

Excluido, 

Exhaurido, 

Eximido, 

Expellido, 

Exprimido, 

Extinguido, 

Frigido, 

Imprimido, 

Incluido, 

Infundido, 

Inserido, 

Instruido, 

Opprimido, 

Possuido, 

Repellido 

KepremidOj 



assumpto. 

coberto. 

compulso. 

concluso, 

circumducto. 

diffuso. 

digesto. 

directo. 

distincto. 

diviso. 

encoberto. 

erecto. 

excluso. 

exhausto. 

exempto. 

expulso. 

expresso. 

extincto. 

frito. 

impresso. 

incluso. 

infuso. 

inserto. 

instructo. 

oppresso. 

possesso. 

repulso. 

represso. 



228 



Submergido, submerso. 

Supprimido, suppresso. 

Surgido, surto. 

Tingido, tinto. 

6. — Muitas das formas irregulares dos partici- 
pios são hoje desusadas :— » rapto (de arrebatar), boto 
( de botar ), volto ( de voltar ), absoluto (de absol- 
ver ), colheita ( de colher), comesta ( de comer ), con- 
cesso ( de conceder), coseito (de cozer ), despe{0 (de 
despender), escolheita { áe escolher), reprehenso (de 
rcprehender ), tolheito ( de tolher ), acqiiisito ( de ad- 
quirir ), assumpto ( de assumir), cincto { de cingir ), 
digesto ( de digerir ), extorto ( de extorquir ), instructo 
( de instruir ), escreuido ( de escrever ), nado ( de nas- 
cer ), etc. 

7. — Muitos desses participios irregulares são 
hoje subst. ou adj. verbaes ; e o seu estudo é de in- 
teresse porque nos mostra evidentemente a influen- 
cia do accento latino na formação do nosso idioma 
-' actOj colheita^ escripto, facto j annexo, feito, reduclo, 
digesto, contracto, prognesso, etc 

8. — A QUARTA CONJUGAÇÃO. — O tj^po desta 
conjungação é o verbo j7or (arch. poner ant. pòer z=z 
\at. vonerej. Pertencia á 2/ até o Sec, xvi, mas 
a qaéda do n e a consequente acção do o sobre 
o e obrigou a creação de um novo paradigma 
em or. 



^^9 

The ma pon 

Ponh-o 

P-.L--S 

r-ôe 
P:>-aos 

ro-cm 

O n nasalou-se ao passar para o portugaez, mo- 
Ihandose por fim na i/' pess. sing. (nhj. Deu-se o 
mesmo que com /er, jnr, eíc. (tenho, venho = lat. 
teneOy venio). 

Já vimos na phonologia que antes do e c áo i palatal e 7i e o Z mo- 
lham -se. 

Os antigos escreviam põemos, põeis, põeetn. ^ 

No imperfeito apresenta o verbo pôr flexão já 
particular aos verbos /ét, vir : — punha, punhas, pu- 
nha, púnhamos, púnheis, punham ( Zp. linha, pinha, 
etc.) A forma antiga era pónia, o / palatal foi repre- 
sentado graphicamente- pelo h (ponha).' 

No ímperf. e perf. do Indic. e no subj., prés. o 
o do radical muda-se em u — punha^ pui, pudesse. 
Esta transformação era frequente principalmente 
quando o o era longo (f urar z= for are, cumprir = com- 
plere, tudo = toium, etc. ), assim como o era a do e 
em / (tinha, vinha J. 

A i." pessoa do prct. perf. é a que apresenta 



* E bem assim poeria poesto, etc. 

• Niáe lylwnologia. 



23o 



mais desvivação (lat. possui,-sti,-tJj mas é preciso ad- 
vertir que ella passou por varias transformações até 
íixar-se : — pusy (pusij, piige, pugy (pugi)^pose^ pôs, 
pús ( Sec. XIV. ). 

Part. passado — posto = 1. pos ( i ) futn. 

A quarta conjugação formou uns 24 verbos, mas hoje devemos consi- 
deral-a esterilisada, morta. 

9.-- Venhamos agora aos verbos irregulares. 

PRIMEIRA CONJUGAÇÃO 

Esta conjugação tem apenas dous verbos primi- 
tivos irregulares : — estar e dar. Todos os mais (como 
encommendar^ sobreestar^ etc.) são com elles com- 
postos, e seguem o mesmo paradigma. 

Dar. — ( = 1. dore). — índ. prés.— dou, dás, dá, 
damos, dais, dão = lat. do, daSj dat, damus, datis, 
dant. — Pret. perf. : — dei deste, deu, demos, destes, 
deram = lat. dedi, dedisti, dedit, dedimus, etc. — Subj. 
prés. : — dè, dês, demos, deis, dêem = lat. de-m, de-s, 
de-tj de-mus, de-tis, de-nt. 

Formou-se pois regularmente pelo molde latino, 
sendo apenas de notar a queda do d médio fdaes = 
da-t-is, demos = de-d-imus, deste = de-d-isti, etc. 

Estar. — (1. esiarej. Formou-se do mesmo modo 
que o verbo ser. Ind. prés. — estou, estás, está, etc. 
= 1. sto, stas, stat, etc. ; Pret. perí.—estipe, estiveste, 
estepe, etc. — esteti, etc. Subj, prés.--- esteja, estejas, 



23l 



esteja^ etc. formado por analogia com seja ; Snbj. 
imp. — estivesse, estivesses, etc. 

Da terceira pess. sing. do pret. imp. do Ind. 
acha-se a forma sia (e o dito Jui^ que presente sia per- 
guntou — XIV Sec. Rib. Diss.J ; no Subj. prés. fazia 
estê^ estes, este, esternos, esteis, estêm, correspondentes 
ao latim stem, stes, stet, etc. ; mais tarde — sia, siades, 
etc... Aquellas formas ainda eram as empregadas por 
S. de Miranda e Gamões. Em Miranda não se encon- 
tram as modernas esteja^ estejam ; Camões foi o pri- 
meiro a empregal-as. — Cfr. gall. estea s estia, — sea, 
sia. 

Os verbos acabados em ear intercalam um i 
entre as duas vogaes thematicas nas três pessoas do 
sing. e terceira do plural do prés. do Ind. e do Subj., 
e na segunda sing. do Imperativo : — discretear, dis- 
creteio, discreteias, etc. Esta intercalação, porém, 
não é forçosa ; e muitos indicam o alongamento do 
e por um accento circumflexo fdsicretêo), assim como 
alguns escrevem o Infinito com / (ceiar, discreteiar) 
cessando assim a irregularidade. 

Crear só é irregular no prés. do Ind. e do Subj. 
— crio, crias, cria, criam, crie, cries, etc.^ 

A irregularidade das segundas pessoas do Ind. 
prés. estende sempre ás do Imperativo. 



* Faz também criar uo iufiuito A differença do sentido é mo 
derna. 



232 



SEGUNDA CONJUGAÇÃO 

Caber ( lat. capere^ tosiiar ) ^ Ind. prés.— c^z/Z^o, 
cabes ^ Cábe, ele... A i.^ pess. formou-se regular - 
mc.ue á^àccpio. Pret. pe. í. — coube, coubeste^ cj;;^", 
etc. Coube p. caube = lat. capui^ e esta transformação 
deu-se nos perf. latinos em ui : — soube ( sapiii ), 
prouve ( plabuit ), houve ( habuit ), poude ( potui ), 
trouxe ant. trouve {lax. vulg. tracsui traxi), e na f. 
arch. jouve, jougue ( ~ ]. jacui). 

Crer (ant. creer = lat. crédere^) Ind. prés. 
— creio, créSy crê, etc. = 1. credo, — es, — <?/, etc, 
pela queda da consoante média, que só se conservou 
na 2." pess. plural do !nd. e do Imp., para evitar 
equivoco com a do sing. (credes, crede J. — Ind, 
perf. — cri, creste, creu, etc, de credidi^ etc, con- 
trahido regularmente em cr^^di , donde ( pela xjuéda 
do d médio) — crei, creiste, etc, port. ant. 
( Sec XVI ), crii ( e bem assim ///, corrii, vii, etc) 

O / epenthesico em creio serve para evitar a 
diphthongação, (Cp. leio, etc) 

Imp. — crè, crede. 

Dizer ( = 1. dicerej. — Ind. prés: — digo, di{es, 
di{ (ant. dige ). etc = 1, dico, dices, etc Pret. perf. 



* Que esta ó ;\ verdadeira ètyinoloçia provam-no os antigos textos. 
Ex. : Sse obrigou de estar, e a caber toda rem, que os ditos Juizes urvidos 
julgasnem (Eliic. Vit., doe. 1389). 

' Crédere = ered're. Pela perda da consoante média — crer fej. Vrer 
já é do Sec. xvi. 



233 



— disse, disseste, disse, etc. ( ant. dii, dixe, dixeste, 
f. pop. mui frequentes nos escriptores do Sec. xvi) 
= I. dixi, dixisti, dixit, etc. — O futuro e o condi- 
cional formaram-se com a forma atrophiada do Infi- 
nito ( dir ) ; — direi, -ás, -d, etc, , diria, ■ as, etc. No 
Sec. xvT ainda se encontram as formas comple- 
tas — di^erei, diferia, Part. pass. — dito = I. dictus. 
Di{ por dice disse ( Sec. xvi ) como pla{ p. pld^s, 
etc. Dii que por diiem que. ( S. de M. ) 

Fazer (lat. f acere ) — Ind. prés. — faço,fa-{es^ 
fa\, etc. =1. facio, faces, facet... Fais p. fa{eSy 
Sec. XVI : olha o que fais (S. de Mir.) A i." pess. sing. 
conservou o c, em consequência do /da forma latina 
( facio J. — Pret. perf. — fii, fiieste, fe^, filemos, — 
= lat. fecit fecisti fecit,.... A i.*" pess. sing. mudou 
o e thematicò em /para distinguil-a da 3.^ ; a 2.* do 
sing. e as do plural adoptaram o / por analogia. 
O futuro — (farei, -ás, etc. ) e o condicional (fa- 
ria,-as, etc. ) eram tanbem ( como nos verbos di^er 
e trazer J insyncopadas até o Sec. xvi ( f acerei, 
f aderia ). 

Haver ( haber, lat. habere) — Ind. prés. — hei^ 
has, ha, havemos (hemos), haveis (heis), hão ^ lat. ha^ 
beo, habeSj habet, habemus, habetis, habent. (Ha-h-eo=i 
hai, hei : ha-be-nt = han, hã, hão ) — Pret. perf. — 
houpe houveste, etc, r^l.habui, habuisti, habuitj... ; 
arch. oube, ouve, ouvo ( Trov. e Cant. ), iivi, tiveste 
( D. Diniz ) ; ovi, ove ( Rib. diss. ) — Subj. prés. — 

80 



2 34 

fórma-se do tempo correspondente latino : — haja 
(ha-b-eam ), hajas ( ha-b-eas ), etc; Sub. imp. — do 
mais que perf. latino: — houuesse ( habuissem ), hou- 
vesses ( habiiisse ), etc. 

No port. ant, o infinito não tinha h inicial 
( aper ), e d'ahi — avees^ aveeyes^ avede^ etc. 

Part. pass. — havido { = \. habitum ) ; ant. ha- 
pudo -— 1. barb. habutum. 

Heis p. haveis no futuro, e hemos p. havemos, etc, é do Sec. xvi, 
bem como também /íííí p. havia no modo condicional: — se os ódios antre vos 
crescem comer vos fieis a bocados ; Si la deuda acaso es líuestra Pagar la hemos 
ain dineros ; sen, ela ter se hia mal. 

Jazer ( l.jacere). — Ind. prés. — ja^o {ant. jaço j, 
ja^es^ ja^^ etc. 

A primeira pess. é desusada. — Pret. perf. — 
ja{i^ jazeste ( z=^ jacidt^ etc. ), é forma mod. ; a an- 
tiga éjoiíue, joupeste, etc, por jougue (1, jaukit p. 
jacidt ). C f r . prouve . 

Ja^er era verbo muito usado antigamente ( até 
o Sec. XVI ), no sentido de estar ^ estar situado, assen- 
tado ou deitado, áQ permanecer na mesma posição, etc. 

A moça ensinou mais 
simpreza sauta ejoiíve, 

Q clioraudo em terra um tempo, perd ilo houve. 
M. Eo, ExcANT. 502. 
Serrana onde jouoeate ? 

ViLANCETE VI. 

Tudo espirito e tudo é vida 
mal jard a morte escondida. 

( Tu. x.xn. ) 

Cal onde ora jaço. 

8. DE M. ixm. 



23-5 



Ler ( ant. !eer = \. légere ). — Conjuga-se por 
crer. Leio, lés, /è,... = le-(g)-o, le-(g)-es, le-(g)-et,...; 
li j leste, leu,... =\e-{§yi, le-(g)-isti, le-(g)-it,...; lede 
= íe-(gi)-te. 

Perder (lat. pérdere ).-^ Ind. prés. — percOj 
perdes, perde., etc. = I. perdo, perdes, perdei, ... 
A mudança do í/ latino em c ( i." p. do sing. ) é rara ', 
todavia delia temos amostras ( ant. arcer = arder J. 

Poder ( lat. pótere ) — Ind, prés. — posso, po- 
des, etc. =1. possum, potest, potet, ... Ind. perf. — 
pude, pudeste, ponde, etc. =z\. posui,^posuisli, posuit,... 
No port. ant. as formas das primeiras pess. sing. do 
prés. afastavam-se da latina e seguiam o thema do 
Infinito : — podi, pude ( D. Din. ), puyd, pude ( Tr. e 
Gant. ) ; a terceira pess. fazia podo, pudo ( G. Vic. 
etc. ) 

Não tem Imperativo, comquanto em alguns 
clássicos se encontrem exemplos do seu emprego : — 
Si quereis ser omnipotentes podei só o justo e o licito. 
( Vieira ). 

Y^KxzEK {\. plácere ) — Ind. prés. — pra^ (ant. 
piai); Ind. perf. — prouve p. prouge ( placui ) . Cp. 
caber, trazer. 

Era frequente o emprego âas íóvmas plougue, 
etc, Inf. pla^er {LW. de Linh., Ord. AfF. etc); 
mais tarde — prouguer, prouguesse. Só no Sec xv 
é que appareceu pela primeira vez a forma actual 
prouve, mas a par deplouge. 



236 



Este verbo é hoje unipessoal : no port. antigo, 
até o Sec. xvi, só do part. pass. é que não ha exem- 
pios : — assi IQ praza que seja^ prazerá a Deus, si 
prouver, prouvera^ prouvesse^ prazendo, etc. 

Também empregavam-no interrogativamente, 
quando se desejava se repetisse o dito por o não 
haver entendido ( = fr. phit-il?) 

Querer (lat. quaerere ) — Ind. perf. — qui^y 
qui^esie, qui{^ etc. Qui{ é (órma abreviada das anti- 
gas quigi, quigo\ qui\o, que no Sec. xvi escrevia se 
quis. — Subj. prés. — queira., queiras^ etc. 

Não tem Imperativo, posto o houvesse empre- 
gado o Padre A. Vieira ( Serm. IV. 297 ) : — queirei 
só o que podeis. 

Quês é f. poj). contrahida de queres ( S. de Mir. 
. G. V.); Csisi. quies p. quieres ; gall. quês. Queip, 
querei^ nos Autos de Prestes. 

Requerer (lat. requirere j — Ind. prés. — re- 
queirOj requeres, requer, etc... O i da primeira pess. 
sing, foi intercalado para reforçar a vogal thematica. 

Saber ( lat. sapére ) — Ind. prés. — sei^ sabes, 
etc. ; Ind. perf. — soube, soubeste, etc. (Cp. coube, 
houve J ; Subj. prés. — saiba, saib.is, etc. ( 1. vulg. 
sapeam, saepam). 

Sei ( Cp. hei) é i". contr. de sabi ( sa-b-i ). 



3-37 



Ser ( f. rom. essere — !. esse ^ ) — Forma-se como 
cm latim de duas raízes — es efu. 
A 1/ fórma : 
i.° — O presente e o imperfeito do Indicativo 

— sou ( siim ), és ( es ), é ( est ), somos ( sumus ), 
^ois ( são ). 

2.° — O futuro e o condicional : serei seria. 

3.° — O Imperativo - — sê, sede = es-5^, es-sete, 
ou de sedere. 

4.'' — O Subj. prés., que se não formou do 
tempo correspondente no latim (sim, sis, 5//, etc. ) 
mas das formas archaicas — si-em, si-es, si-eí, si-a- 
miis si-a-tis, si-enl. 

5.° — Participios — sendo., sido. O presente = 
\sii.senSj entis QUQ só apparece n js compostos f^^^- 
sens, prae-SQU^), port. arch. : — seente \ o passado 
formou-se analogicamente, e não havia em latim, 

A raiifu fórma : 

I /■ — O pret. perf. e mais que perfeito do Ind. 

— fui, foste., foi, fomos, fostes, foram = lat. — fui 
fuiste, fuit,fuimus,fuistis, fuerujit ; fora, foras, etc. 
= fue''am, fueras, fuerat, ... 

2.° — O Imp. e futuro do Subj. — fosse, fosses, 
fosse, etc. —lat. fuissem,fmsses, fuisset, etc. O fu- 



* Desde o vi Sec. os verbos defect. latinos terminavam cm — re ua 
linguagem popular, por analogia aos verbos da segunda conj. : poiere, volere, 
inferrcre, etc. p. posise, telle, iiiferre. Ced cstis fui et quodsum essere oMtf. 
VnJfaldo episcoptis essere d^uisset. { Grutcr — ^ Imcrip. Rom. j 



238 



turo deriva do infinito futuro latino — fore (amatiim 
fore^ illud spero, me fore immortalem. ( Cie. ) 

FORMAS ARCHAiCAs. — Comparando a conjuga- 
ção latina com o arch. port. torna-se mais manifesta 
a identidade de formas. 

Ind. prés. — i.* pess. sing. sum^ som, soon, soo, 
sam^ san (D. Diniz, Liv. de Linh., G. Rez., Sá de 
Mir., G. Vic, etc), soon (Gane. d'Ajuda), soô (Gane. 
da Vat.), são, sejo (Cancs.. G. Wic.) Son apparece pela 
primeira vez em um doe. de 126 5. 

São p. sou também foi empregado por Sá de Mi- 
randa e Gamões ; e hoje ainda é usual entre os Mi- 
nhotos. 

Na 3." p. é de notar a forma est a par de é nos 
autores do xiii e xiv Secs., que parece mais era 
usada antes de palavra que começava por vogal: — 
est opraso salido; est o meu sen ( D. Din. ). Em B. Rib. 
fmen. e moça)^ Moraes, Palm etc, encontra-se er<?5 
em vez de és. E^s por fim reduziu-se em é por ser 
o 5 característico da 2'. pess.. e assim fixou-se a 
forma. 

No plural, a i.^ pessoa fazia também sumus [so- 
mos ); a 2.^ era soedes, sooes (L. Gons.), sodes, (Fr. J. 
Glaro e G. Vic, em cujas obras também se encontra 
a forma sondes)^ até que com J. de Barros apparece 
a forma actual — soes ( = so-d-es ). 

Aqui houve completa desviação do typo latino 
— estis : a forma port. moldouse na correspondente 



239 

latina do Subj. — sitis. A 3/ pess. passou por varias 
evoluções : — sunt ( Sec xiii ), sufHy som, son^ sam 
(Sec. XIV, R. de. S. B., Rib. Diss., Canc d'Aj., Trov. 
e Cant.j, são ( já usada no xiv Sec. ). 

No pret. imp. é de notar a 2.^ p. pi. — erades r=z 
1. eratis, depois erais. f Freis data do Sec. xvi ), e a 
forma 5/<3, como se vê de does. do Sec. xiv , para a 
3.^ (e ojui^ que presente sia — era — perguntou). 

Esta ultima forma explica-se pela synonymia 
entre esse, stare e sedere. Sia e seia p. siia ( lat. sede- 
bat ), imp. de seer ( sedere ) — em Sá de Miranda ; 
Cp. mais sé, see sei p. é, — formas muito usadas an- 
tigamente fez/ 5^/0, íí/ ses, elle see, sei,etc., Sá de 
Miranda, G. V. ) : — tu que sés na celdj, qual fizeres 
tal espera ( Prov. pop ), quem bem see nam se leve, 
pê o mar e sê na terra ( Id. ) ; seiaya, seiayes, etc. = 
éreis ( Sec. xvi). 

O pret. perf. tem a forma seve por fui, que se 
encontra no Canc. de D. Diniz, a par de foy,fuy, 
fui, Fu ( Foros do Cast. ),fui ( doe. 1298 ), fou (doe. 
i3io ),/oe(Fr. J. Claro ). 

O subjunctivo apresenta formas mais encos- 
tadas ás latinas — siades ( sejaes ), seiaya, seiayes, 
seiaces (Sec. xvi ) ; focedes ( J. Cl, ), etc. ; e no 
futuro — sever, severim ( F. da Guarda 401, 422 ). 

No infinito, além das formas seer, soer ( C. 
Vat. ), que fez com que alguns acreditem deriva a 
I .^ de sedere e a 2.^ de solere ; temos o part. prés. — 
seendo ( Cp. tendo j, see n te. 



240 



SoER ( soher, lat. solerej. H )je quasi obsoleto, 
era comtudo regular e de uso frequente no Sec. xvi :* 
— o silencio que sohe encobrir a tristeza ; Portugal 
já não é o que d' antes ser sohia ; do que soi ( por soe ) 
acontecer. 

Ter. E' reproducção do verbo latino tenere, e 
serviu, em alguns tempos, de typo para o verbo 
estar ( estive, estivesse^.,.) 

Ind. prés. — tenho^ tens, tem, ternos^ tendes^ 
teem ( têm ) = lat. teneo, tenes, tenet, tenenius, tene- 
tis^ tenent ; — imp. — tinha, tinhas, etc. = tene {h)am^ 
etc. ; perf. — tive, ti 1^ este, teve, tivemos, etc. = 
te-(nyin, te-{x\)-uisti, etc. ; imper. — tende, ( tenete ) ; 
Subj. prés. — tenha ; imp. — tivesse ; part. pass. — 
tido, arch. — teudo ( tenetum ). 

A forma do imp. Ind. era em ades para a -i.'^ 
p. pi. (tinhades), como era regra geral na conjuga- 
ção até o Sec. XVI (queirades,façadesj. 

No prés. e imp. Ind. e prés. Subj. o n latino 
molhou-se ( V. Phonetica), mas nos antigos textos 
encontram-se esses tempos sem o n ( teeya a par de 
tinha, etc. ). 

No port, ant. raro permutou o e thematico em i 
(eu teve, tevera^ teverom^ teeya^ tevesse, tendo,. .). 

Trazer (ant. ti^aeer, trager, traxer do lat. 
trahere). Ind. prés. — trago,, tra{es, tra^, tra{emos, 
etc. = lat. traheo^-es, etc. O ^ da i.*" pess. sing. é 
vestígio da ant. f. do Inf. trager ^ que— consequen- 



241 



temente — estende-se ao prés. do Subj. — No Sec. 
XVI, por motivo da forma traer do Inf. — diziam 
traio, traia ^ p. íraigo, traiga ( trago, traga ). 

Pret. perf. — trouxe^ trouxeste^ etc. = 1. traxi^ 
1. vulg. tr. csiii. Até o Scc. xvi as f. usadas eram 
traje, trajo, alternando com ti^uje, trujo, troiiue ( por 
trougue — ti'acuit ; Cp. houwQ^joiwe, = jacuit, prouve 
= placLiit ), trouge ( gall. trougue ), troperão, trou^ 
ves:e ( L. Linh. ), etc. 

Só no Sec. xvii é que se fixou a forma do 
Infinito. Futuro — trarei, etc. ; ant. tra^erei, etc. 

Valer (I. valere)— Ind. prés. — 'Valho, vales, etc. 
= lat. valeo,...\ port. ant. valo, vales, vai ( Sec. xvi ). 
— Sobre o Ih da 1/ pessoa, Vide Phonetica. 

Ver (ant. veer = lat. vidére). — Ind. prés. — i^ejOy 
vès, vè, etc. = lat. video, vides, etc. Quanto ao 
j da I.'' pess. ( e consequentemente das do Subj. 
prés.) Cp. — hoje hodie, inveja invidia, haja habeam, 
granja granea, etc, 

Pret. perf. — vi, viste, viu, vimos, etc. = vidi, vi- 
disti, vidit, etc , port. ant. — vii, vi is ti, viimos,... AS." 
pess. siuQ. fez viu para não se confundir com a i.'"*, e 
de accôrdo com a theoria ia nossa conjugação. 

Vim p. vi é galleguismo que se encontra em es- 
criptos do Sec. xvi. 

O d. latino conservou-se na 2.^ p. pi. do prés. do 
ind. {íédesj\ e (como em outros verbos ) quando 



1 IVífí.s p. )x'ii<. ,sec. XVI. 



242 

elle acha-se protegido por um r ou n (virdes^ terdes... 
vindes^ tendes, pondes). 

Fart pass. — visto. 

O verbo prover., derivado de vér., íazprovi, pro- 
veste^ provemos, provestes, proveram, e o part. pass. 
— provido. 

PoER — V. pgs. 228 e 247. 

Arder fazia arco ( = ardo ) ainda no Sec. xvi. 

TERCEIRA CONJUGAÇÃO 

Cahir (lat. cadere) — Ind. prés. — caio., cães, 
cáe, cahimos, etc. A anomalia está somente na in- 
tercalação euphonic* do i fca-d-o. cáo, caio). 

Seguem a mesma conjugação — sahir e trahir. 

CoRTiR — Ind. prés. — curto, curtes., curte.^ corti- 
mos., cortis curtem. A mudança do o do radical em 
u tem a conveniência de as pessoas se não confundi- 
rem com as do verbo cortar (corto, cortes., corte., cor- 
tem)., mas não constitue propriamente uma desvia- 
ção porque o infinito era curtir., ainda hoje por mui- 
tos empregado. 

Seguem esta conjugação os verbos ordir e sor- 
tir, que também não pedem ser considerados verda- 
deiramente irregulres, pois tinham outra forma de 
infinito — urdir, surtir., como se lê em alguns clássi- 
cos. 

Cobrir (lat. cuperire) — Ind. prés. — cubro., co- 
bres, cobre., etc. A irregularidade é tão somente na 



243 



1.^ pess. sing. (e consequentemente nas do Subj. 
prés.), para evitar equivoco com a do verbo cobrar 
(cobro); mas que se dá em todos os verbos cujo o da 
raiz é seguido dos grupos br^ rm (cobrir cwbro, dor- 
mir di/rmo). 

Tinha também um infinito em 11 fcubrirj, e por 
isso diziam os antigos — elle encubre^ cubre tu, des- 
ciibre^ etc. (M. Bern., Ferr., D. Nunes, etc. ) 

Segue a mesma conjugação — dormir (lat. dor- 
mire, durmo dormio, dormes dormis, etc. ). 

Ir ( lat. irej. — Este verbo completa a sua con- 
jugação com o verbo arch. port. par ( = lat. vadere) 
e ser. 

Ind. prés. — vou, pás, pae, pamos (\mos). ides 
(ant. padesj, pão =z pado, padis, padit, etc. Vado, pela 
queda do d = pao, d'onde ;^oí/. 

Ind. imp. — ia, ias, ia, iamos, ieis, iam ; perf. 
— /"^ foste, foi, etc; Imperativo — pae, ide ; Subj. 
prés. — pá, pás, vá, etc. ; Subj. imp.-- fosse, fosses, 
etc. ; pas, p. pais ; pe pee p. pay ant. forma de pa ; 
Imperativo, ainda são formas de Sec. xvi. 

Medir (lat. metiri—jnetiorj — Ind. prés.— m^ço, 
medes, mede, medimos, etc. z= 1. metior, metins, etc. 

Na i.^ p. sing. muda o d em c brando, mas 
a forma ant. era mido (Cp. arch. arco = ardo, 
peço pido, despeço — despido, etc.^ ). Essa mudança 



* A. mudança do grupo ãi ( de ) em r era usual : — baeo ( badius ), 
arch. terffonça (ver'cuDdia), etc. 



244 



nota-se também nas pess. do Subj. prés. que, como 
já dissemos — tomou, em regra, para typo a i." 
sing. Ind. prés. — eu meça, meçaSy meça^ etc; port. 
ant. mida ( id. pida^ etc. ) 

Segue pois esta conjugação o verbo pedir. 

No Sec. XVI ainda imperavam as formas regu- 
lares : — despida-se Vossa Alteia dos livros ; eu vos des- 
pido ou me despido de vós ( Vieira ), e D. N. de Leão 
assim recommenda que se escreva e pronuncie ( pi~ 
do^pideSy impidOy etc. ). 

Ouvir ( lat. audire J- - Ind. prés. i.^p. sing. — 
ouçOy ouves,... ^ audio, audes,... Sub. prés. — ouça, 
ouças, etc. A divergência explica-se pela razão já 
indicada ( di lat. = ç -— audio, ouço ). 

Em Gil Vicente, — oivo — ouço, ouvamos = ou- 
çamos, o que prova eram aquellas formas populares. 

Pret. perf. Ind. : ouvi, ouviste, ouviu, etc.= au- 
{ái)-vit, au-(di)-visti, etc- 

Remir (redimire). — Ind. prés. — redimo, redimes, 
redime, remimos, remis, redimem; Imperativo — redi- 
me, remi. A actual ir^-egularidade é devida á con- 
tracção do Infinito redimir. 

Rir (1. V. ridere).— \ná prés.— no, ris, ri, 
rimos, rides, riem = \. p. ridi, riiis, etc. 

Só conservou o d etymologico na 2.''p. pi. do 
prés. Ind. e na do Imperativo f rides, ride ). 

Sahir ( sair = I. salire \ — Saio — salio, etc. 
V, cahir. 



24^ 



Seguir ( 1. b. sequere^ Prisc. ). — Na i.'' p. sing, 
pres. Ind. íazsigo^ ant. sig-iio == lat. sequo. 

Sentir ( 1. sentire ). — Soífre a mesma mudança 
que seguir ;— sinto = sendo. 

No Sec. XIV prevalecia a fórma em e — sento., 
senta ; no xvi todo o paradigma era em i -=- sinte^ 
sintem. sentistes., etc. ^ 

Vir ( f. contr. de venire ) — Ind. pres.-- i^enho. 
vens., vem., vimos., vindes., vêem (vêm) = 1. venio, venis 
( n = nh, Cp. pôr, ter j ; Ind. imp. — vinha, vinhas, 
etc. ; Ind perf. — vim., viestes, veio, viemos, viestes, 
vieram z=i]. veni venisti venit. ... 

Imperativo — vem, vinde. 

A i.'* pess. sing. pres. Ind. — vim, passou pela 
fórma intermediaria ven ; vieste = venisti pela f. in- 
term. veiste. 

O part. pass. seguiu o typo latino — ventiim, e 
d'ahi o ser idêntico ao presente. 

Vir — Ind, pres. — venho, vens, vem., vimos, 
vindes, vêm fveem) ; Ind. imp. — vinha, vinhas, vi- 
nha, vinhamos, vínheis, vmham ; Ind. perf. — vim, 
vieste, veiu, viemjs viestes, vieram ; Imperativo — 
vem, vinde, 

Accudir, bulir, construir, consumir, destruir, 
cumprir, engulir, fugir, sacudir, subir, sumir, tus- 
sir (tosíiir), mudam o « do radical na segunda e ter- 



* Já nos referimos á grande Gonfusao reinante até o Sec. xvu na cr; 
thographia : ~. premeu premia, fina, feria etc. 



246 



ceira pess. do sing. e terceira do plural — (acodes^ 
acode ^ acodem). 

Dá-se essa mudança — e consequentemente 
na da segunda pess. sing. do Imperativo — quando 
o o é seguido de b, d, g^ /, m, ^, ss, s_p, st. 

Os antigos monumentos, porém, não apre- 
sentam esta irregularidade na conjugação : — açude 
tu, elle açude, elle destrue, tu destrueSj elle fuge^ 
sube^ construe, etc. 

Advertir, aggredir, perseguir, prevenir pro- 
gredir, transgredir, etc, mudam em todas as três 
pessoas do sing. e terceira pessoa do plural, e 
consequentemente nas do Subj. — o e thematico 
em i, como também em sentir. São irregulares tão 
somente por essa mudança de lettras, que mais 
se nota nos autores clássicos ; e também era 
frequente no i em e : — advirte, compite, con- 
sinte, tninte, etc, e mento p. minto, persigue, pro- 
sigue, sinte, sigue, sirve, etc). 

Geralmente mudam o e em i quando aquella 
vogal vem precedida de/, g, p, r, nt, sp, st (con- 
firo, dispo,firOy f rijo, ^ visto, etc), 

^- As formas verbaes em m{ da 3.^ pessoa sing. 
Ind. prés. (condu^, indui, etc ) eram regulares — 
elle indu^e, lu^e, produ^e, redu^e, tradu^e. Deu-se 
o mesmo que com as formas nominaes em a^, i^, o^, 



i Frigir — faz no lad. prés, — friio, frgees, frege, frigimos, frigia, 
f regem. 



247 



uij — capace^felice, veloce^ etc, que se transforma- 
ram em capais fil^{^ pelo{. Parece, porém, que a 
apocope do e foi feita muito de industria para evitar 
a equivocação entre a 3.^pess. do sing. prés. Ind. e 
3 2/ sing. do Imperativo ( fa^fa^Cj trai traie^dii 
diiCj etc. ) 

— As irregularidades da 3."p. plural Ind. perf. 
estendem-se ás formas do plus quam perfeito e do 
Sub. imp., e futuro : — trouxeram^ trouxera ^-as^- a, 
etc. ; trouxesse, -s, -e ; trouxer, trouxeres, etc. 

Advertência. — A defectividade dos verbos 
não basta para classiíical-os entre os irregulares, 
nem também as divergências graphicas tendentes á 
conservação da mesma pronuncia em todos os 
tempos. 

Ex,: — Nos verbos acabados em car, a mudança 
do c em qu ( calcar^ calquQ, cal^wemos ) ; nos em 
gar, a intercalação de um u entre a guttural e a 
vogal thematica ( galgar, galgwes, galgwem ) ; nos 
terminados em ger, gir, a troca do g pelo 7 antes 
de a e o ( re/o, corri/diyi ; a perda do u nos verbos em 
guir, antes áa a q o { distingo, (Xisimgas)j etc. 

Q.UARTA CONJUGAÇÃO 

Hoje não se pôde negar asua existência. Data 
do Sec. XVI pela degeneração phonetica do verbo 
poer ( l ponere ). 



24^ 



Comparando-o no presente do indicativo com 
as formas correspondentes no latim, vêse clara- 
mente que as irregularidades são apparentes. 



ponho 


poneo 


pões 


penes 


põe 


ponet 


pomos 


ponemus 


pondes 


ponetis 


põem 


ponent 



No imp. são particulares as flexões : — punha^ 
as, etc, com deslocação do accento e mudança da 
vogal do radical ( Cp. íer, ver — tinha, via ; vir, 
vinha, etc. ) A forma primittiva era pónia ; a des- 
locação da tónica foi para melhor conservar o n 
thematico, que sem isso teria cabido como aconteceu 
no infinito ; o molhar-se o n quando seguido de i 
palatal era facto frequente. 

Prep. perf — pui, pudeste, po{, etc. = arch. 
puge (piigi. piigy), pôs, pose, pusy, pus, etc. (Sec. xiv 
= lat. posui,-sti,-t. 

Part. pass. — posto = 1. positum 



DECIMA SÉTIMA LIÇÃO 

Formação das palavras em geral. — Composição por pre- 
fixos e por juxt aposição. — Estudo dos prefixos. 

1. — São dous os processos empregados para a 
formação das palavras : — composição e derivação. 

As palavras compostas indicam periodo adiantado na historia de uma 
lingua ; uma differenciação progressiva. E, de feito, para que com duas 
palavras se possa formar uma terceira sinceramente determinada na forma 
e no sentido, é preciso que aquellas teuiiam significação já bastante clara 
e definida. " A diíIerenciaçSo ainda mais se accentúa quando a idéa contida 
no composto fixa-se e define-se de modo tal que não mais conserva relação 
alguma com os seus primeiros factores, a ponto de perderem a significação 
independente, e só terem sentido quando reunidos. " * 

2. — A palavra composta fórma-se de dous ou 
mais termos, dos quaes só um exprime a idéa prin- 
cipal, que é determinada ou precisada pelos outros. 

O termo determinante pôde ser : 

i.° — = Um prefixo : — wJieL 

A esta composição por prefixos, — que forma 
substantivos e adjectivos, e principalmente verbos-—, 



» Savcc — Pr me. 

32 



25o 



devemos a persistência de muitos vocábulos : — con- 
vergir^ demolir^ disparate^ explorar^ irrupção. 

2.° — Um substantivo ou adjectivo : — arco-iris, 
planalto. 

3. — Nas palavras desta ultima categoria os 
elementos podem estar apenas juxtapostos e ainda 
distinctos, ou fundidos e representados por um sim • 
pies signal unitário : — • arco-iriSj madre-sibja^ canto- 
c/ião, ponta-pé, couve flor ,... aguardente ^ vinagre^ bi- 
cou to, planalto^ botxfóra.... 

No primeiro easo o su')Rtantivo apresenta idéa dupla ; no segundo, 
só uma transparece, — que é a do objecto " em toda a extensfio de suas 
qualidades. " E, assim como o substantivo simples, perdendo a sua signi- 
ficaçflo etymologica, acaba por corresponder inteiramente á ideado objecto, 
também nos compostos o determinante e o determinado desapparecem para 
melhor apresentarem \ima imagem ou idéa única. O composto torna-se 
simples. 1 

4. — As palavras achamse pois juxtapostas 
quando, representando uma idéa única, conservam 
todavia em suas formas e vida própria, o mesmo 
valor que teem quando separadas (v^a roXis, agri-cul- 
tura, dies doniinica, amor próprio^ padre famílias 
(Sec. xiv), um cara dura, espalha brasas^ tranca ruas, 
pintamonos^ tocartintas^ ichecorpos ( impostor, ocioso, 
Sec. xv). 

Os juxtapostos tendem por íim á unitariedade 
do signal graphico, á simplificação da forma : — 
vinagre^ vinho acre (agro) = lat. vinum acre, 



* Darmstcter. Form. ãen mots composés. 



25l 



carafiii = cara fusca, um capemcólo = um capa em 
collo, ^ qualquer (Sec. xiii) = en qual tempo quer (F. 
de Gravão), qual-xiquer (F. da Guarda, Ined. Hist. 
Port. Tom. 5), ervoada (Sec. xv p. arpoada, hoje na 
ling. vulgar avoada), etc. 

O porluguez não rejeitou esse processo do 
latim, clássico e popular, de exprimir a idéa sem pre- 
posição clara : - • ferrovia, pontapé, o ministério 
Rio Branco, a casa Norton & C.% Collegio Alberto 
Brandão, tinta Monteiro, cerveja Logos, etc... Essa 
pratica, porém, não é tão extensa como se suppõe, 
e o regimen vem geralmente precedido de preposição 
(em, de J : — bicho de seda, sala de jantar, bacharel 
em lettras, etc. 

Nestes juxtapostos de subordinação, devemos 
arrolar certas expressões, que por metaphora mudam 
de sentido e applicação : — pé de gallo, pé de morto, 
rato de botica, rato d' alfandega, eic. 

COMPOSIÇÃO POR PREFIXOS 

5. — Este processo é o mais rico e fecundo, 
maiormente quando combinado com o da deri- 
vação. 

Herdámos do latim cerca de 2.000 vocábulos, 
mas por esse jus que tinham de accrescer, delles 



* No Sep. XVT — escrevia-se cap^emcolo e mpem-coh. Nflo sign. pobre- 
tão, miserável, mas sim o fanfarrão, o blazonador. 



2 52 



derivaram uns 8.000 inteiramente novos, muitos sem 
correspondentes no latim. 

Não temos compostos de mais de três prefixos : 
ir-re-con-ci-liapelj in-de-com-por. 

6. — As particulas, quanto á sua natureza, são 
preposições e advérbios : — bem (bene), mal (male), 
pen pene (quasi), semi simul^ bis, que quasi corres- 
ponde ao des, gr. archi,.... un, uni (adv. lat. ima), bis 
(2 vezes), iri, ter^ três, cenii, etc. ; não, ne, in 
fim, il, ir, pela assimilação ), etc. 

7. — Das particulas empregadas na composição 
algumas teem vida própria, outras só existem como 
elementos de composição. São pois separáveis e 
inseparáveis. 

São separáveis as portuguezas ( prep. e adv.) : 
— co^TK^por, BEMdi:(ente,....; inseparáveis, as prepo- 
sições latinas, que não se empregam isoladamente, 
e em composição teem valor adverbial : — REler, 
DEsobedecer. 

Esses prefixos inseparáveis são, em regra, im- 
productivos, e só se apresentam em palavras tiradas 
directamente do latim ou formadas por typos la- 
tinos. ^ Muitas são porém as excepções, principal- 
mente com ex, in, des, ultra, inter. 

8. — Acontece muitas vezes que a juncção do 
prefixo á palavra causa um hiato ou choque des- 



Ager 



253 



agradável de consoantes. Para evitar esses incon- 
venientes elide-se a vogal ou consoante final do 
prefixo: antagonista^ aviltar (ad-viltare), alumiar^ emi- 
grar ( ex migrare ), ou assimila-se esta consoante á 
inicial da palavra simples : assimilar ( ad-similare ), 
irrupção {in rupere ^). 

Estas modificações na própria forma do radical já eram usuaes no 
latim, e silo communs a todas as linguas neo-latinas ^a5'eí'6 — ad-?gere, 
red-ígere, — agir, redigir J. Muitos desses compostos latinos, pela perda de 
signal externo de composição, ficaram considerados palavras simples 
(^colher de colligere, e nfío de con-legerej. A maior parte desses compostos 
decompuzeram-se, porém, na época romana: promlere, pró vidére, prover; 
ex por e, din p. ãe, subtus p. sub; etc. ' 

9. — Algumas partículas teem dupla forma, 
uma latina e outra portugueza. Posto seja esta a 
preferida na formação de palavras novas, ha todavia 
muitas palavras compostas com ambas essas formas, 
e ás vezes com sentido diverso. 

10. — As partículas que entram no processo da 
composição são advérbios ou preposições. Estas 
podem ter valor adverbial — coNTRAí/z:{^r. 

11. — A composição só pôde formar verbos^ 
sub st. e adjectivos, 

\.^ — ConiRAfaier^ soBREexcitar ( adv. ) ; enco- 
rajAR, REsfriAR. Estes últimos, formados de prep. 
prefixadas ao substantivo coragem e ao adjectivo 
frioj e do suffixo verbal, são chamados parasyntheti- 



* Id. 

* Parmsteter, l-c p. 78. 



254 



cos verbaeSy porque formaram-se syntheticamente^ de 
chofre, da juncção simultânea do prefixo e do suffixo 
ao radical. 

2.° — ^Euestar, UALcriado, des/^í?/ ; ENCordoa- 
MENTO, suBmarinho. Formados por pref. prep. e de 
um suffixo nominal juntos a um subst. ou adj., rece- 
beram estes compostos a denominação de parasyn- 
the ticos nominaes. 

Nos compostos parasyntheticos formados de substantivos, o su fflxo 
dá a idéa verbal de pôr, fazer, tornar, si o composto é um verbo activo ; 
de ser, estar, vir a ser, si o verbo é neutro, e o prefixo precisa a idéa indi 
cando a relação desse verbo com o substantivo : enterrar, p. ex., inalysa-sc 
pói-, metter ( = er) em; ateirar, ])ôr (=er) a (=ad, at) tei'ra. A par 
ticula nesse caso é uma preposição ; ajunta- se a um subst. que lhe serve 
de complemento, e esse composto recebe, com a terminação verbal do suf- 
fixo, a unidade de forma e de idéa. Acontece o mesmo com os parasynthe- 
ticos formados de adjectivos ; enriqiiecer é torna-se rico, mctter-se em 
riqueza ; desemburrar é pôr fora do estado de ignorante. A analyse mostra 
que os compostos formados de adjectivos tecm valor de verbo sfactitivos. 
Todavia a maior parte delles, sobretudo os em ar, er, tendem a tornar-se 
neutros, i. e., empregam-se absolutamente ; assim embrutecer, bestificar 
tanto é fazer alguém como tornar-se bruto ou besta. (Darmesteter l. c. ) 

12. — Damos em seguida a lista das preposições 
latinas que entrrtm na composição de palavras por- 
luguezas, 

A, AB, ABS. — Significa privação, apartamento, 
separação : — aversão^ abortar^ absorver ^ abstracção^ 
absurdo^ abdicar., abolir, abstenção, abjecto ( de jacere 
jactum ). Tem valor adv. qvh abusar, absolver, etc. 
Equivale a uma prep. com seu complemento em 
aborígenes j abstinente , etc. 



255 

Indicam direcção, tendência, fim, e são de 
uso mui frequente : — admittir, addiiiir, cccedcr, ctc. 
O d conserva-s'^. antes das vogaes e das con- 
soantes d.j.m^v ( admittir advertir ^ adjacente, adje- 
ctivo^ admirar j admoestar^ adverbio^ adventicio ) ; assi- 
mila-se á consoante seguinte si for c,/, g^ /, n,p^ 
r, s, t ( accordo^ accedcr, affrontar, affilic.r^ a g gra- 
var^ agg/omerar, alliar, allumiar^ aniiexo, annitn- 
cio, appeudice, arrumar, arrogar^ assaltar, assimilar, 
aterrOy atteniiar,... údquQur, (jcquisição. 

Algumas vezes o d do prefixo desa [aparece 
na linguagem popular ; — abreviação, alugar, abor- 
dagem. 

Tem força adv. primitiva — adlierir, aggredir : 
equivale a uma prep. e um complemento — 
ajustar. 

A. é a forma portugueza correspondente a 
ad, e concorre para a formação de palavras 
novas^ verbos e substantivos: — amestrar, amiudar, 
adormecer, amotinar, apurar, achatar, apontar, 

abaixar, : adeus, ajim. 

Am., AiMB ,( contracção de ambi). — Significa 
em torno, ao redor. Emprega-se amb antes de 
vogal ( amb ages, âmbito ) ; perde o b antes de p 
(amputar ), muda o m em n antes das gutturaes 
e de /, h, t ( anhelo ). 

Tem força adv. em ambição, ambiguo, etc. 

- Ante (anti). — Sign. prioridade, precedência ; c 

entra principalmente na formação de nomes : — an- 



256 



tepassado^ antetempo antevéspera^ anteparto, antenome; 
antidata, antiface (véo). Form. erudita — antecedente^ 
antecessor, antepenúltimo , etc. ; de creação moderna 
— antedelupianOj antídoto, antecâmara. 

Antehontem= antes de hontem, e em todos os 
compostos portuguezes a prep. ante é preferida a 
antes. 

CiRCUM (em torno — circii). — Indica também prio- 
ridade, só entra na formação de palavras de origem 
clássica : — circumferencia, circumloquio, circum- 
stancia, circumscrever^ etc....; perde o m em circuito ; 
formou TCioátvndLmenXe, -— circumvalação, circumna- 
vegação, circumvisinho , circumpolação, etc. 

Tem força adv. em circumspecto, circumstancia, 

etc. 

Cis (cit). — Sign. dquem ; oppõe a trans ou idtra 

(= além) : — cisgatigetico, cisplatino, cisalpino, ci- 

terior. 

Com ( con, cuM).--Sign. concurso, reunião, 
acção, simultânea. — São muitos os compostos de 
formação popular no portuguez antigo, quasi todos 
herdados do latim — ■ compaixão, conceber, conflicto, 
conduzir, condemnar, confessar, converter, conjuração, 
contar (computarej . Form. eru.iita — collegio, collisão, 
contractar, confirmar, concentrar, correlativo, coerção, 
coherente, combustível, comestível (edere, estum, 
comer). 

Com persiste antes de m, b, p ; cum nunca appa- 
rece em composição ; o m assimila-se ao /, r, n fcol- 



257 



Icgio^ corre li gioso ^correligionário^ connato, connexão; 
cahe antes de vogal, ou h mudo — coalhar (coagu- 
larej, coadjuvar, coherdeirOj cohabitar, coproprie- 
tario, co;zcidadão. 

Contra (opposição, acção ou eífeito contrario ; 
situação fronteira, antagonismo). — E' prefixo muito 
productor ; os compostos antigos são^ porém, quasi 
todos de creação erudita : — contramestre, contra- 
marca ^ contraordem, contrabando, contrapeso, contra- 
baixo, contramina, contraforte, contramarcha, e 

muitos outros em que contra tem força adverbial. 
Em contrasenso, contravetieno, contrapello,... a par- 
ticula é preposição. Contra forma muitos verbos : 
e indica juxtaposição^ opposição e subordinação 
(contra-baluarte, contrareplica, contramestre). 

De. — Indica origem, logar d'onde, passagem de 
um estado para outro, relação de apartamento, e 
privação (no sentido figurado) : Deduzir, dejectar, 

defender^ debandar, dedicar, desenhar {áQ-ú^n^íV o), 

delonga, demora, descendência, dependência. Form. 
er. — decapitar, decidir, definir, degradar, delegar, 
designar, etc. 

Quando o de {dd) serve apenas para ampliar a 
significação da palavra, chama-se ampliativo (de-XQX~ 
minar, úfz-vulgar ). 

Des, dis. — Exprime geralmente negação, sepa- 
ração, privação, acção contraria. Dis é a forma 
archaica. Di emprega-se nos mesnios casos que de ; 



258 



teem muitos compostos antigos e de forma erudita ; 
assimila o s ao f (diffamar^ difficil^ diffiisão): — dispo- 
sição^ distrahir, disjuntar , ... discórdia^ disjiincção 
dissimular disjunctiua^ etc. A's vezes perde o s (antes 
de g. l, m, r, vj — diminuir diligente^ digerir j divertir.^ 
divergência.^- Des é a fornia moderna, também 
inseparável ; desunir, desobedecer, deslocar, desembar ■ 
car, desleal, desfavor, desordem, desagradável, etc. A's 
vezes concorre na composição moderna a forma 
dis : — discernir, dispor, disgregar ( desagregar ), etc. 

Ex, ES, E. — Indica extracção, ausência, separa- 
ção, movimento do interior para o exterior, priva- 
ção ; tem quasi o mesmo sentido de dis c de. — ¥J 
mais usada a forma ex Form. prop. — exalçar, ex- 
presso, extrahir, emittir, exclamação, espertar...; erud 
— excepção, excursão, exhumação, educar, exigir, eja- 
cular, eliminar, exceder, enumerar, exabundancia, 
exautorar ; emissão, emanação, etc. 

Ex é inseparável, posto que em certos compos- 
tos seja empregada como palavra distincta ; cx-go- 
vernador, ex-deputado. Este processo é hoje quasi 
que orgânico. 

Em regra emprcga-sc e, es antes de b, d, g, i, l, 
m, n, r, v, e ex antes de c, p, q, t c vogacs. O jc ás 
vezes transforma-se em s ( esforço) ou assimila se ao 
f (effiiivio ej^orescenciaj; outras vezes a particula trans- 
forma-se por degeneração phonelica em is (isenção) 

Extra. — Sign. fora, alem ; denota a acção de 
sahir através. — Forma verbos, adjectivos a sub- 



2 59 



stantivos, o que não era de pratica em latim: — extra- 
vasar, extraordinário^ extrajudiciario, extramuros, ex- 
travaganci-i. 

Em extraordinário^ etc. tem força adv. ( fora 
da ordem ordinária) : em extravagante^ etc, tem va- 
lor prep. ( que vagueia ahm dos limites ). 

Entre, inter ( no meio de, pelo meio, posição 
média, reciprocidade ). — Inter só forma palavras 
de origem erudita — interposição ^ iníerpellar, interca- 
lar, interceder^ intermediário^ intermittencia,... Entre 
é de uso frequente e popular: forma verbos transiti- 
vos (entremeiar, entrelaçar, entreli Mar ^..})^ ou ainda 
com a significação de a meio, um pouco (entrever,, 
entrecobrir, . . . J, q substantivos e adjectivos (entre- 
casca, entrecosto, entrelinha). 

Inter = entre port. entra ainda muito nas for- 
mações modernascom substantivos e adjectivos— /»- 
ternacio uai, inter tropical, . . . 

Em ( en ) = lat. in. — Prep. port., separável ; 
empregada em grande numero de compostos sem 
correspondente no latim : — encadear, enterrar, em- 
palhar, encaixar, etc,... (como prep.) encaixe. 

Intro, intra ( = dentro, dentro de, tendência 
para logar interno ). — Só apparecem nos vocábulos 
herdados do latim: — introduiir, introducção, introfnet- 
ier, intromissão , intrínseco ( intra secus ), etc. 

1 Em entreler já perdemos a idéii primitiva da pai*ticuia. 



26o 



In ( im ), en ( em ) ( il , ir ). — Indica logar onde, 
movimento do exterior para o interior. — Induiir, 
infíammar^ inclinar, infectar^ injecção^ imprimir^ im- 
plicar^ ... infiltração^ iníhronisaçãOy.. in-foliOy in- 
quarto. 

Além de introducção, situação interna, a prep. 
in indica também negação : — incógnito^ imberbe^ 
inanimado^ immuíavely inactivo. 

O n assimila-se ao m, /, r (illegal^ irreflectido.) 
O nosso en corresponde ás vezes ao in latino =- 
embiiscada, encravar, ensinar ^encorrer (inciirrere),etc. 

Ob (oc, op, of, obs).— Sign. em face, deante, 
logar fronteiro, contra ; indica hostilidade, obstá- 
culo, opposição : — Obedecer, obstar, obstáculo, obje- 
ctar objecção, obrigar, observação, oppor, occasionar, 
offensa, ostentar, oscillar, etc. 

Per. — Exprime por onde, o meio, a passagem 
através. Quasi todos os compostos com este pre- 
fixo são de origem erudita — perplexo, perseverar, 
perlucido, perceber, perdoar, permittir, etc. Nos de 
formação popular />er degenera Qmpre, e era substi- 
tuido pela prep. por. 

Por { = \.per). — Indica fim^ termo, meio de 
conseguir. E' de emprego raríssimo. 

Pre ( 1, prae ). — Indica antecedência, excel- 
lencia augmento. Só existe na linguagem popular nos 
vocábulos importados directamente do latim popu- 
lar : todos os mais são de origem erudita : — pregar 



26l 



( praedicare ) , preper (praepidere) , presidência (prae- 

sidentia )^ preferir^ preludio^ prematuro ^ prefacio^ 

prefixar^ prescrever^ presidir^ precaução^ presumir^ . . . 
predominar j preexistir , preliminar ^ etc. 

Preter ( lat. praeter, — além, excesso ). — Só 
existe em raros vocábulos de origem clássica : — pre- 
térito f praeter-ire J , preterir , preterição , pretermittir, 
pretermissãOy preternatural. 

Pro. — Indica deante, elevação, protecção, 
procedência, e significa/^or, em logar de : — prover, 
protrahir, procurador^ procônsul, produzir, propi- 
denciaj... proeminente ^ profanar, professar, progres- 
são, promover, pronome, etc. 

r*os ( post). — Indica inferioridade, retar- 
damento ; sign. depois. E' da linguagem clássica. 

Pos é forma arch. port. que se transformou 
successivamente em empós, após, depôs, depois. Pos- 
por, pospontar, póstero, postergar, posterior, pos- 
posto, . . . postescripto ( post scriptum ) e posdata , 
postmerediano ( post meredianus ) e pomerediano 
( pomeredianus ).... 

Re. — Indica reiteração, regresso. E' prepo- 
sição iterativa. Este prefixo é abreviação do adver- 
bio latino rursus, que significa de novo. Indica 
repetição, reduplicação da acção ou idéa de retrogra- 
dação : — reler, refazer, rehaver,.,. recuar, re- 
gresso..,. 

Tem pois sentido ampliativo, e indica conse- 



262 



guintemente intensidade de acção — rejeitar^ resis- 
tir ; sentido iterativo — reler ; indica reacção, oppo- 
sição — reprimir^ refrear, repugnar^ sentido adver- 
salivo. 

São poucos os substantivos com re : — retoque, 
re torção, re torcedura, retorno , retrahimento 

Retro. — Adverbio latino que significa atrás, 
para trás, regresso. Só figura em vocábulos de ori- 
gem erudita : retrogradar, retroceder y., e os seus 
novos derivadas retrogradação, retrocesso, retroactii^o, 
retro guarda (retaguarda) retrogrado. 

Se. — Partícula inseparável que indica idéa de 
separação, afastamento. Só existe nas palavras 
latinas que passaram para o portuguez pela camada 
popular : — seduzir, seguro, separar,... e em algumas 
de fundo clássico — selecção, sedição, segregar. 

Satis ( SAT ). — Partícula latina que significa 
assas, e só figura em palavras que nos vieram do 
latim já compostas : — satisfa^er^ saturar, saciedade. 

SiNE ( siN ) = sem. — ^^ Indica privação, carência : 
— smecura ( sem cuidado, cura), sinceriedade, sim- 
ples ( sem folho, de plicarej. 

Seii:i.— E' part, portugueza = lat. sine : só 
entra na composição de substantivos : — sem cere- 
monia, o sem ventura amante, sempar, semjustiça 
( injustiça ). 

Sub. — Indica segredo, profundeza, inferiori- 
dade. Nas palavras de formação popular emprega-se 



I 



263 



su, 50, sa : — sorrir, soffrer ( suíFerre ) saccudir 
( succutere ), sojugar^ soceder, siimergir. Formas 
eruditas — subjugar^ submergir, substituir^ substancia^ 
succeder, suggerir,... e os de creação moderna — 
subdividir^ subdivisão^ subordinar^ subjacente^ subsidio^ 
subcutâneo subterrâneo , sub marinho. 

Com força adverbial — sub-chefe, sub-acido. 

O b assimila-se á consoante seguinte se for c, g^ 
f,p, r, — succumbir, sug gerir, suffocar, supposição, 
ou cahe — sujeitar^ soca/c o. 

SoB= sub, subtus : — sobpé^ sobsello, sobsollo, 
sopé. 

SuBTER (sob, a baixo de). -• Só em subterfúgio^ 
subterfugir, subterfluente (com força adv.)» 

Super (solbne). — Indica superioridade, abun- 
dância, e só se emprega na linguagem clássica ; a po- 
pular forma compostos com a partícula correspon- 
dente portugueza — sobre : — superjicie^ superstição^ 

superfluidade, superfino, sobrecenho, sobrepelii, 

sobreloja, sobreescripto, sobrecarga, sobrecheio , sobre- 
mesa sobrenome. 

Tem ás vezes força adverbial : — superabundar^ 
superar, . . . 

Trans, p. TRAS (três, tra). — Sign. através de, 
além ; exprime a translação, a passagem, o transito 
até um termo. No port. antigo trás tra e três são as 
formas mais empregadas : — traduzir, tramontano, 

trasmudar, trasladar, trespassar Formas eruditas : 

-^ transcrever , translação, transladar, transcendente 



264 



Tem ás vezes força adv. transgredir ^ transformar. 

Ultra (além, excessivamente) : — ultrapassar^ 
ultramar, ultramontano, ultraabolicionista. São com- 
postos portuguezes, isto é, sem análogos no latim. 

Vice (em logar de), — Com esta preposição for- 
maram-se alguns compostos populares — i^isconde, 
(vicecomite) visconsul (vice cônsul), vicerei picereinOy 
vidama (vice dominus). E' frequente o emprego desta 
partícula (como adverbio) para designar pessoa 
que substitue outra em cargo significado pelo outro 
termo do composto, isto é, a palavra a que ella se 
ajunta : — vice-presidente^ pice-rei {ant. visrei, visorei)^ 
vice-reino, vice-deus (Vieir. II. 363). Verbos — só pice- 
rei 11 ar ^ picegopernar. 

COMPOSIÇÃO COM ADVERBIO 

i3. — As partículas adverbiaes empregadas com 
prefixos podem ser quantiiatipas, qiialificatipas, nega- 
tipas. 

A Quantitatipos 

Bis (2 vezes, repetição) : — biscouto (bis cocto), 
bisavô, bisdona fapó)^ bisneto^ bissexual^ bis seção,... 
Posto seja forma clássica, entra no vocabulário popu- 
lar, e tem formado alguns compostos portuguezes, 
sendo de notar que em muitas palavras deuse prefe- 
rencia á forma bi — bigorna (bi-cornis), bipede, bino- 
eido (bini oculi); bigano^ bimane, binascido, binocular, 
binómio. 



265 



Meio (lat. medius): — meío-relevo, meio - sol do, meio- 
tcrraneo. Em meia notte^ meio dia, é adjectivo. 

Quasi : qiiasi- delicio, iim quasi nada 

Semi ( meio ). Forma tâo somente compostos clássicos, 
principalmente adjectivos. — Semicirculo, semitom, semi- 
lunar, semilunio, semifusa, semidonto. 

Satjs (assas): — satisf acção,'' saiis factor io, etc. 

Tris ( triplicação ) — Trifolio, trifiircação . 

b) Qualificativos 

Bene. Os compostos com esta partícula são em geral de 
origem erudita : — beneficiar, qx.c benemerência, beneplácito, 
benei^olo. 

Bem. Part. port. separável, forma compostos de 
origem popular; — bemdito ( benedicto ), bemaventurado, 

bemdiienie,bemquerença, bemdi^er, — estar, — faier, 

— querer 

Bemvir só se emprega no part. prés. — bemvindo 

AIale. — malefício, maleante, malévolo^ ( Fórm. eru- 
dicta ) Nos outros compostos emprega-se a forma por- 
tugueza mal: — maldizer, malfade)', malcriado, maltra- 
tar. . . 

menos ( = lat. minus) : menospre:{ar (l. minus-pre^ 
tiure ), menoscabo, . . . 

V, des (descrer, desprezar. . .) 
c) — Negativas 

In. — Part. inseparável; significa impuridade, indigni- 
dade. 

Entra principalmente na composição das palavras de 
origem clássica : assimila-se ao /, m, r, (//, im, ir.) 

Desde o século XV que substituiu a negativa não nos 
compostos, e o seu emprego é hoje familiar, e quasi po- 

34 



266 



pular. Combina-se com substantivos, mas principalmeme 
com adjectivos e participios : — ingralidão, irreligião^ tn- 
calculáveis incauto^ inconsiderado^ inconsulto; illegal, 
immoral^ irregular . 

Raro deixou de ser observada a regra da assimilação : — 
inristar (envhtss). 

IVão : — não ra^ão. 

Composição propriamente dita 

12. — Já vimos a formação por prefixos; estudemos 
agora o segundo processo em que os vocábulos unem-se 
sem signal de relação, soldam-se, terminando por uma 
única desinência que pertence á palavra inteira, e dá -lhe 
unidade . 

i3. — Muitos compostos latinos já passaram para o 
portuguez como palavras simples [infante^ de infans^ tis= 
in não -{- fans fallante ; amanuense == a manu ensis ; ouro- 
pel ^auripellis^ de auri pellis^ folha de ouro, etc. 

i4. — Os compostos são logicamente phrases descripti- 
vas abreviadas ; as idéas representadas pelos dous ele- 
mentos reduzem-se a um único signal que muitas vezes 
encobre as suas relações. 

i5. — Este processo não é propriamente latino: mas 
deu ás línguas romanas grande numero de vocábulos, em 
que o determinante pode preceder ou segnir o determinado 
[mãi pairia^ mestre escola^ café concerto, paletot sacco). 

i6. — Si as palavras acham-se juxtapostas, cada uma 
delias conserva a sua accentuação ( arco-iris^ porta-lapis ) : 
mas desde que se opera a fusão dos dous termos, o i*^ : vai 
pouco a pouco perdendo a accentuação, até que por fim 
perde -a de todo ( pedestal ^ mordomo ). 

i7. — Os compostos são synlaxicõs ou asyntacticos con- 
forme as relações em que se acham. Em geral, é asyntactico 
o composto em que o i* elemento é um thema. 



267 



i8. — Na composição propriamente dita notam-se qua- 
tro processos — o de concordância ( ou coordenação ), de 
subordinação ( ou dependência ), verbal^ zomp articulas. 

a ) Compostos de concordância ( syntaxicos ) 

19. — O determinante é um subst= ou adj. em relação 
syntaxica de concordância com o termo principal. 

1° Subst. + subst. : — beira mar, varapáo. Os dous 
substantivos acham-se em relação de concordância, e o 
ultimo determina o primeiro appositivamente. Nos com- 
postos por apposição os substantivos ainda podem vir 
ligados pela preposição de : — jui^ de pa{, inspector de 
districto. 

O determinante segue, em regra, o determinado : — /ol>ís homenij 
gotnma lacca ou arabicUj couve Jiôrj papel moeda j etc. : precede-o ás 
vezes : — mãi-patriaj madrepérola. 

2,° — Subst. H- adj. e vice-versa. — boqui- aberto fant. 
bocaberto, em Gil Vic. boqui amcho), cabisbaixo.^ pon- 
te-agudo . . .., menoridade, baixa-mar, gentil-homem . 
O adjectivo acha -se na relação attributiva com o sub- 
stantivo. 

Geralmente o determinante precede o determinado :— 
primavera., gentil-homem., salva- guarda., clara-boia, plata- 
forma., santo-padre., santa-sé., baixa-mar., baixa-latini- 
dade, bom- senso alio-mar (mar alto)., novo-mundo., Santa 
Egreja... São muitas, porém, as excepções: — canto- 
chão., bancoroto., Espirito- Santo., idade-media., republica., 
ponte- pênsil ou levadiça., sangue-frio., fogo-fatuo., guarda- 
nacioncil., senso-commum., terra- firme., terra- santa ( Pa- 
lestina), etc. 

Si o adjectivo for de numero, determina o substantivo, e 
precede-o sempre : — tridente., triangulo., quadrúpede., qua- 
drilátero., semana., (septi mana., sete manhãs}., centopéa., 
binóculo^ centimetrc, milligrammo., primogénito . 



268 



d) Compostos de subordinação 

19. — Nestes compostos o determinante é um substan- 
tivo em relação de dependência, regimen directo ou com- 
plemento com o determinado. 

I.° SUBST.+VERBO ou ADJ. VERBAL — Viandante^ logãV 

tenente. 

2.^ SuBST. H- suBST. : — viaducto^ ourives (aurifex) 
ouropel (auri pellem)^ salmoura (de sal t muria)^ petróleo 
(áo. petrae olum)^ quartel -mestre^ terrapleno^ lerremoto. . . 
O 1° substantivo em todos esses exemplos está em geni- 
tivo. Exceptuam-se: — condestavel^ mappamundi^ banho- 
tnaria . 

c ) Verbal, 

20. — Formam-se de um verbo no imperativo ( ou 3^ 
p. sing. do prés. do Ind. ) seguido do seu comple- 
mento . 

Os dous termos acham-se em relação de dependência: 
o principal é um verbo, o complemento é um substantivo, 
um adverbio, ou um outro verbo também no impera- 
tivo. 

1° ) VERBO + SUBST. — Raro vem o complemento pre- 
cedido de preposição ; ás vezes os elementos fundem-se, 
outras conservam-se distinctos : — batibarba^ferefolha^ 
beijamão, sacarolha, saca-trapo, porta-voz^ guarda-pó, 
para-raio^ beija -flor^ valha-coulo, passaporte, porta-estan- 
daríe, tira-pé, girasol, serrafila, etc. . 

A esta classe pertencem os gallicismos : — abat jour ( quebra luz ) 
cache-ncz, rcndcz-vous . 

2°. — SUBST. + VERBO : — parricida, carnijforo, som- 
viambulo, ..... pedicura . 

3". — VERBO 4- ADV. . — passavanle, piixavaníe . 

4°. — VERBO -f- \ERBo : — vaivcm, ganha-perde, luie- 
lu{e, bule bule, dicemediceme, etc. 



26o 



Esta composição é muito fecunda, e só a linguagem 
popular deu -nos vocábulos em numero passante de 5oo. 

O infinito é um verdadeiro substantivo: — o poder j o jantar j os 
teres j os viveres . 

Do part. presente formaram-se adjectivos, que mais tarde torna- 
ram-se substantivos: — a coiistitíii)ite_, o amante . 

Do part. passado formam-se substantivos, geralmente do género 
feminino, e esta formação é mui fecunda : — vista j tomada j cscripta, 

d) Cojii paniculas . 

21 . — Prep. ou AD^^ + subst.: — contra veneno ^-ante- 
manhã^ ante-braço^ parabém^ sem raião^ contra ordem^ 
sobresalto^ entre acto, ultra-mar, entrecosto, sobre-pelii, 
jnce - almirante, sub - secretario . 

Este processo da formação já existia em latim: — pro-consu/j inter- 
valluvi; 1. pop. in ódio, etc., com o x» termo adverbio, também se 
encontram exemplos : — 2Cíi\.t-peaèSj post-^enitus, 

— Dos advérbios formam-se substantivos, por meio de 
ellipse : — o melhor, o bem, etc ... . 

//. Formação de adjectivos 

22. — O portuguez forma adjectivos pelos mesmos 
processos que emprega para a formação de substantivos, 
i . e . , — pela composição e derivação . 

Forma pela composição : 

I .° Ajuntando dous adjectivos simples : — rosicler, surdo- 
mudo, agro-doce, verde -gaio ; 

2.° Juxtapondo um adverbio a um part. passivo : — bejji- 
quisto, bemáito, ?nalcr ea.do. 

Temos pois também compostos juxtapostos e crystalli-' 
sados. 

Exemplos de juxtaposição temos nas formas numeraes : 
i>inte e dous, etc . 

3.° Antepondo certos prefixos aos adjectivos, modiíi- 
cando-lhes o sentido. 



270 



ITI. Formação dos verbos 

23. — o portuguez segue para a formação dos verbos 
os mesmos processos que para a formação dos nomes. 

Pela composição, antepondo um siibstantipo (raaficar, 
manohvdcc^ caval^ds. . . .), um adjectivo empregado adver- 
bialmente {purijicar * , doeiítar^,,.) ; uma partícula (adv.) 
/ríjwsluzir, wa/tratar, antever. . . .) 

24. — Os prefixos latinos que entram na composição 
dos nossos verbos já foram citados quando tratámos do 
Sub. e do Adject. 

Atroar, Amover, Apegar ; Absolver, Abjurar, Abjurgar 
(f. erud.) ; ABster-se, ABStrahir ; AccEder, ANnotar ( ad 
lat.) 

ANTEpôr, ANTidatar ; BEMquerer, BE.Mquistar (pop) ; Bi- 
partir ; ciRCUMdar ciRCUMScrever ; coMprometter, coMplicar ; 
coNTRAdizer coNTRAfazer ; Dsmitir, DECompor ; OEsamparar, 
DEsempatar ; Divagar, Dispor, Discorrer ; EMpoar, ENrama- 
Ihetar ; ENTRElaçar, ENTREabrir (pop.); Equiparar, equi- 
librar ; Escorrer, Espalhar ; Excavar, Exclamar ; inteiyôr 
iNternar, iNTRometter ; MALdizer MALtratar (pop.), obscu- 
recer ; PERfurar PERCorrer ; pospor pospontar ; PREdispôr, 
PREdizer ; pRoclamar PROtahir ; REalçar, REbater RECom- 
pensar REConstruir ; RETROceder RETROgradar ; suslinhar 
suBScrever suspender ; soBREpôr, soBREvir, TRANspôr 
TRANspassar xREslêr ; ULTRApassar, etc . 

25. — Ha nomes compostos de phrases, cuja formação 
não se subordina por sua irregularidade a uma classifi- 
cação : — mal me quer., aqui d' El-Rei., salve-se quem 
puder., etc . Outros formam-se pela reduplicação : — naud.^ 
mifiu\ etc. 



' São muitos os derivados com ficar, quasi todos de imp. latina. Ftati- 
ficar e ramificar, quo na opinião de um grammatico não teem corres- 
pondentes em latim, são reproduções do lat. \ulgav-ratificare, ramificare. 
Temos f. pop. — bestifícar. 



271 



26. — Temos também compostos importados de línguas 
estrangeiras : — visà-ins^ casse-têíe^ hors d'oeuvre^ burgo - 
mestre^ feldpath^ landwehr^ caparosa^ bulldog^ beefsteak^ 
sieeple chase ; saltimbanco, /iligrana^ salsaparrilha, oran- 
giUango, etc . . . 

Género 

27. — O género dos nomes compostos é sempre o da 
palavra principal : — a grã cruz, o canto chão. Os com- 
postos verbaes, são essencialmente masculinos — um 
guarda prata, um salva vidas. Os compostos com par- 
tículas são sempre (excepto quando nos referimos a uma 
mulher e animal fêmea ) masculinos, si ellas forem pre- 
posições ; mas si forem advérbios, o género deve ser o 
mesmo do subst. determinado: — uma contra marcha, 
um contra peso, um ante braço. 

Numei^o 

28. — Os nomes compostos formam o plural de accôrdo 
com as regras a que estão sujeitos os nomes simples desde 
que os seus elementos estiverem fundidos (ferro-vias). 

Quando, porém, os termos conservam-se distinctos, a 
formação do plural depende dos elementos componentes : 
só o subst. e adj. — é claro — são susceptíveis de flexão 
numérica. 

Nos compostos de adj. -h subst. só este toma signal 
de plural. Excep. — genttl-homem, que faz gentis homens, 
mas que no Sec. XVII ainda seguia a regra geral : geniil 
homens escT&vtu Vieira. 

Nos compostos de dous adjectivos, só o 2° varia : — 
medico - ciru rgicos. 

Em relação de subordinação ambos os termos tomam 
signal de plural : — couves-Jlores (subst. -f- subst.), pro' 
cessos verbaes (subst . + adj . ) . 



272 



Em relação de dependência, só o termo principal pôde 
ter plural : — quartel -jnesíres. 

29. — São em pequeno numero os adjectivos com- 
postos : formam-se de dous adjectivos ou de prefixo c 
adjectivo. 

No 1° caso acham-se em relação de coordenação 
(agro-doce^ surdo-mudo) ou de subordinação (recem- 
nascido) . Temos mais os que exprimem cor, que são susce- 
ptíveis de flexão, excepto quando um delles determina 
o outro . 

A' classe dos compostos de coordenação pertencem os 
nomes de numeroe cardeaes — de:{Otio^ inníe quatro, ttc. 

29. — Nos verbos compostos o elemento determinante 
pôde ser um substantivo ou um prefixo ( manter^ ma- 
nobrar ) . A esta serie pertencem os verbos formados de 
um substantivo ou adjectivo e de /acere ou Jicare, hoje 
verdadeiros sufHxos em todas as línguas romanas ( per si - 
ficar, forti^cav ) . 

Si o determinante fôr um prefixo, a palavra principal 
é um verbo, um subst. ou um adj.: — repor; em-pedrar 
( comp . parasynthetico verbal ) . 

Compostos com elementos gregos 

3o. — Alguns nomes já nos vieram compostos do 
^vtgo [acrobata^ de .acros ponta, e bainein andar); am- 
phibio^ de ampho dupla e bios vida ; amphibologia, ana- 
gramma, acephalo^ amphitheatro^ cosmographia^ caco- 
phonia^ apologia^ architecto^ dissyllabo^ dyspepsia^ aS' 
irologia^ aristocracia^ synonymo^ synagoga^ encephalo^ 
metamorphose^ epidemia^ prolegomenos^ etc; outros, e 
estes mais numerosos, formaram-se eruditamente, e não 
teem correspondentes no grego : — typographia^ agerasia, 
arcipreste, ecchymose, enostose, ea^ophthalmia, anemia, 
anemoscopio, philologo, attthropologia, necrotério, tele- 



273 



phone^ ielegrapho^ kilometro^ pariamho^ synaniho^ hypo- 
carpo ^ etc. 

Nas sciencias é que mais abundam estes compostos, 
cujos elementos formadores podem ser partículas ( prep . 
ou advérbios ) e palavras . 

Tarticulas 

A, AN ( áv, á = l. in). Part. privativa; prefixo ne- 
gativo : — acephalo^ acaule^ aiheo^ aphonia^ atropina^ 
anonymo^ etc. 

AMPHi ou AMPHis ( à [x íp t = ambos, 1. ambi ) : — am- 
phibio^ amphitheatro ; amphisbena^ amphiscios. 

ANA, AN ( á V á, á V , equivale prefixo re ) — Indica 
repetição, sign . de novo, sobre : — analogia^ anatomia^ 
anabaptista, anachoreta^ anachaiarttco^ anagogia^ ana- 
dema^ anamorphose ( comp. port. — mudança de 
forma ), etc. 

ANTI ( áv T t = l. a«/e). Denota opposição, etc : — 
antídoto^ antípoda^ antipathia^ antithese. Com adjectivos, 
forma muitos parasyntheticos ( anti- febrífugo^ anuna- 
cional ). etc. 

APO ( á Tt ó = 1 . ab) — Indica posição superior, afas- 
tamento, origem: — apologia^ apocope, apostrophe^ apo- 
plexia, apophonta etc. 

Archi (ã p X t — commando, primazia : é adv.) Indica 
superlatividade, preeminência : — archtduque, archanjo, ar- 
chiteto, . . . (oligarc///í7, heptrarc/i/j, arcipreste, archipres- 
bjtero, etc. 

E' o único prefixo grego empregado na formação de 
vocábulos populares. 

Cata (x a t á, contra, sobre, sob, por). Indica ordem — 
catalogo; perturbação — cataclysmo, catastrophe. Entra 
na formação de muitos vocábulos eruditos : — catachese, 
catacumba, catar acta, catalepsia, cataphonico, etc. 



274 



Dia (8 i á — 1. dis ; através, por entre ; por causa de): 

— diâmetro, diapham, diatribe, diagnostico, di.ilogo, dia- 
phragma, etc. 

Dis (duplo) : — dissyllabo. 

Dys, (S ú ç — pref. adv. pejorativo). Significa difficul- 
dade, falta, ummal, máo — d^^spesia (má digestão — dus 
difficilménte e pepto digerir) ; dysorexia (falta de appetite), 
djsuria (difflculdade em ourinar), djspnea, djsenteria, 
dyscrasia, dystalia, ( difficuldade no fallar — dys e talein) . 

Ec, Ex ( é £ X — I. e, ex ; — de, fora de) :— êxodo, 
exógeno, exanthema, eclipse, écloga, ecchymose (eflfusão dos 
humores sob a pelle), etc. 

En, em (e V — 1. IN.) Indica tendência para dentro : — 
encephalo, endógeno, enthymcma. emphase, embryão, en- 
démica, enthiisiasmo, enostose (en e octeon osso), etc. 

Epi — EP, EPH (e 7r t). Sign. sobre, perto de. — epitaphio, 
epidemia, epigasiro, epigraphe^ epilogo, ephemero, epi- 
craneo, etc. 

Endo (dentro) : — Comp. vern. — endocephalo. 

Eu (adv . e o, bem) : — euphonia, encharistia^ evangelho^ 
euchromo^ (que tem bella cor), etc. 

Exo (para fora) : — exotérico, . . . exophthalmia (sabida 
do olho fora da orbita), etc. 

Hemi (vi {jl 1 t u, 1. semi): — hemispherto, hemicrania, 
hemistichio, hemiplegia . 

Hyper (u tt Ip, 1. super.) Indica superioridade, excesso ; 
sign. acima, além : — liyperaspista, hypercritico, liyperbole, 
hjperthrophia, etc. 

Hypo, hyp ( u t: ô ,lat. sub) : — Iiypocrisia, hypocondrio, 
hfpogasiro, hypoiheca^ etc. Denota ás vezes insufficiencia, 

— hyposulphitroso. 

Mega ({í tí y «, pref . qual. — grande): — megametro, 
megacephalo^ megatherio . 

Meta, met. ((x e x á, com, depois, acima, entre, conforme 
a palavra que segue : sign . successão, mudança, transfor- 



•275 



mação) : — metamorphose, metaphora, metaphysica, me- 
tliodo, fjieiacarpo, iiietachronismo (erro de data), etc. 

Para, par ( Trapa — ao lado de, perto de ). Indica paralle- 
lismo, comparação, tendência : paralogismo, parodia, pa- 
roxismo, parallelo^ parasita^ paradigma, etc. 

Peri ( r£çt — 1. per ; em redor. Em composição sign. 
muitas vezes o mesmo que circiim ) : — perimeíro, peri- 
phrase, pericárdio, pericraneo, peritoneo, perianiho ( peri e 
antho flor, invólucro da flor ), etc. 

Pro ( rpo — 1. pro., prae ) Indica anteposição : — pro- 
gramma, problema, prognostico^ prophy láctico^ progna- 
ihismo^ prologo.^ proifpographico (anterior á typographiaj 
etc. 

Prós ( ■Jtpóç — perto de, para ) Indica tendência para um 
logar ou cousa : — prosel}'to, prosódia, prosthese. 

Syn, 5/w, 5;^/, sj' ( (TÚv, (Tutx, (pfk., (TU — 1. coii^ port. com). 
Indica ajuntamento, simultaneidade : — synagoga, sympa- 
ihia.f symphonia., sj-meiria, syníaxe., s/tionymo^ synchro- 
nismoy systema., syi^ygia, etc. 

b) Palavras 

Acro ( extremo, cume j ; — acrobata, acroteno., acró- 
stico, acrópole... 

Anthropo (homem ) : — antrhopophago, anthropolo- 
gia, anthropomorphismo . 

Anemo ( verbo ) : — anemómetro.^ anemóscopo. 

Auto ( por si mesmo ) : — autonomia., autocrata, auto- 
grapho, aiitonofjio., aiitobiographia. 

Baro ( peso ) : — barómetro., bar/metria, . 

BiBLio ("livro ) : — bibliotheca, bibliomania, bibliophilo., 
bibliographo . 

Bio ('vida) : — biographia, biologia, biometro, etc. 

Caco ( máo ) : — cacochymo., cacographia., cacophonia, 
cacologia. 



276 



Cephalo (cabeça): — ceplialalg-ia^ cephaloide^ cephalo- 
tomia. 

Chiro (mão) : — chirographia^ chiromancta^ duro- 
logia, etc. 

Chromo ( cor ) : — chromolithographia^ chromophoro^ 
etc. 

Chrono (tempo) : — chromca, chronologia^ chrono- 
metro . 

Chryso, cryso (ouro) : — chrysocalo^ chrjsocomo^ chrf- 
solitho^... chrisma^ crysalide. 

Cosmo (mundo) : — cosmogonia^ cosmographia^ cosmo- 
polita^ cosmorama^ etc. 

Crypto (occulto) : — crypíographia^ cryptogamo^ etc. 

Cyano, cyan (azul): — c/anhydrico, cyanogeno. 

Cyno (cão) : — cynocephalo^ cfnegetica^ etc 

Cyclo (circulo) : — cydolitho^ cfdoptero^ etc. 

Gysto, cyst (bexiga) : — cystocele^ cystalgia^ etc. 

Demo (povo) : — democrata^ democrilo^ demagogo. 

Deca (dez) — decálogo, decagoiio., etc. 

Endo : — endosmose. . . 

Electro (electricidade): — electro-dynamico, electro' 
negativo, electro geno, electroscopo. 

Entomo (insecto) : — entomologia, entomo'{oario, enío- 
mophago . 

Etho (costumes) : — ethnographia, ethologia, ethopéa. 

Exo: — exosmose. 

Galacto (leite) : — galactophoro, etc. 

Gastro, gastr (ventre, estômago) : — gastralgia, gaS' 
tronomo, gastro-enterite etc . 

Geo ( terra ) : — geographia, geometria, geologia, 
geodesia, etc. 

Gymno ( nu ) : — gymnospermia, gymnosophista, etc. 

Gyn, gyneco ( mulher ) : — gynecocracia, gynandria. 

Heli, hélio (sol) : — heliographia, helioscopio, lie- 
liotropo, etc. 



277 



Hemo, hema, hè.mato ( sangue ) : — hemorragia, he- 
moptfsis^ hemaiiiria^ hematocele, IiemorrJioides, etc. 

Hetero ( outro, diverso ) : — heterodoxo^ heteróclito, 
heterogéneo . 

HiERO, HiER ( sagrado ) : — hierogljpho, hierar-' 
chia, etc. 

Hippo, Hipp ( cavallo ) : — hippiaírica, hippodromo, 
hippogriffo, Hippolttho, hippopotamo, etc. 

HoMEO { egual ) : — hoiUiXopathia. 

Homo ( o mesmo, semelhante ) : — homogéneo, ho- 
mologo, homonomo, etc. 

Hydro, hydr ( agua ) : — hydrographia, hydro- 
mancia, hydromel, hydrocephalo, hfdrogeneo, h/dro' 
iherapta, hydropesia, etc. 

Hygro (húmido ):— hfgroscopo, hygrometro, etc. 

IcHTYO (peixe) : — ichtjologia, ichty ophago, ttc. 

IcoNO ( imagem ) : — iconoclausía, iconolatra, icono- 
graphia, etc. 

Ideo (idéa): — ideographia, ideologia, ideogenia. 

Idio ( próprio, particular ) : — idiogyno, idiopathia, 
idiosyncracia, etc. 

Iso ( egual ) : — isotherme, isocele, etc. 

LiTHO ( pedra ) : — lithographia, lithographo, litho- 
timia, liíhotricia, lithologia, ete. 

Macro (grande): — macrocephalo, macroscomo, etc. 

Micro (pequeno) : — microcephalo, microcosmo, mi- 
croscópio, mtcrosoario, micographia, etc. 

Meso, mes ( que está no meio ) : — mesenterio, meso- 
carpo. Mesopotâmia, etc. 

Metro (medida) : — metrologia, metronomo. 

Miso, MIS ( que odeia ) : — misanthropo, 7iiisogamo, 
misogcneo . 

Mytho (fabula): — mjthologia, mythologo, etc. 

Mono ( um ) : — monomania, moitomio, monopólio, 
monorima^ etc. 



278 



MoRPHE ( forma ) : — morphologia . 

Neo (novo) : — neophyto^ neologia^ neographo^ 
neomenia^ etc. 

Nevro ( nervo ) : — nevralgia, nepropiero, nevrosthe^ 
nico, nevrotoniia^ etc. 

Noso ( doença ) : — nososrraphia, nosologia^ noso- 
genia^ etc . 

Nycto ( de noute ) : — nyctobato^ nyctographia. 

Odonto ( dente ) : — odontalgia^ odontologia, odon- 
toide^ etc. 

Onoma ( nome ) : — onomástico, onomatopéa, ono- 
maneia . 

Ophi, ophio (serpente) : — ophidico, ophiolitho^ etc. 

Opthalmo ( olho ) : — ophiabnta, ophialmotomia, 
ophtalmoscopio, etc . 

Ornitho ( pássaro ): — orniihologia^ ornithoinancia^ etc. 

Ortho ( recto, certo ) : — orthographia^ orthophonia^ 
orthodóxo, orthopedia, etc. 

Orycto (fóssil): — oryctotechnia^ ory etologia^ etc. 

OsTEO (osso) : — osteologia^ osteoscopo, osteoiomia, etc. 

OxY (acido-chimica ; agudo — hist. nat.) : — oxygeneo, 
oxymetria^ oxyphonia . 

Paleo, paleonto (antigo): — paleontologia^ paleogra- 
phia^ paleo^oologia^ etc. 

Pan panto (tudo) : — panorama^ pantheismo^ panto- 
metro^ pantomima^ etc. 

Penta (cinco): — pentametro, pentágono, etc. 

Pathos (moléstia) — patliologia. 

Philo, phil (amante): — philologiã, philanthropo, phi- 
losophia, philomatico, etc. 

Phlebo (veia): — phlebotomta, phleborragia, etc. 

Phono (voz) : — phonologia, phonographia, phono- 
metro, phonação, phonema, etc. 

Photo (luz) : — photographia, photometro, photobia, etc. 

Phos (id) : — phosphoro, etc. 



2 7y 



Podo (pé) — podopíero, podagro^ etc . 

Physio (natureza) : — physiologia^ physionomi.i^ etc . 

PoLY (muito): — polysfllabo ^ poljrtheama^ poly- 
clinica^ e/c. 

Pseudo (mentira, engano): — pseudonymo^ pseudopro- 
pheía^ etc. 

PsYCHo (alma) : — psychologia^ ps/chtco, psychiatria^ 
psychoguosia, etc. 

PsYCHRO (frescura): — psychromeiro. 

Pyro (fogo) : — pyrometro^pyrophoro^pyrotechnia^ etc. 

Proto (primeiro, principal): — prototypo ^ proto- 
nauta^ etc. 

Phren (cérebro) : — phrenologia^ phrenetico^ phrenesi^ 
phrenttis . 

Rhino (nariz) : — rhinalgia^ rhinoplastia^ rhinoceronte. 

Semeion (doença): — semeiologia^ semeiotica. 

Stereo (solido) : — stereoscopto^ stereometna^ etc . 

Strato (exercito) ; — estratégia, estratagema, estrato- 
cracia^ etc. 

Tele (longe) : — telegramma, telephone^ telegrapho, 
telescópio^ etc. 

Tetra (quatro) : — ieíraedro, tetrarchia. 

Thera (cura); — therapeutica. 

Theo (Deus) : — theocracia^ theodicéa^ theologia^ Iheo- 
phtlo^ Jheocrito^ etc. 

Thermo (calor): — thertnometro^ thermal. 

Topo (logar) : — iopographia^ topologico^ etc . 

Typo (modelo) : — íypographia^ typomania^ etc . 

Zoo (animal) : — '{oologia^ loophyto^ "{oographia^ etc. 

Os nomes de números gregos entram em composi- 
ção de muitos vocábulos : — mono, dts, tn\ tetra, penta, 
hex, hepta, odo, ennéa, deca (lo), endeca (ii), dodeca 
(12), icos (120), herato (100), kilo (i.ooo), myria (10.000), 
poly — muitos, hetni — meio, proto — primeiro, dento 
dentero — segundo, trito — terceiro . 



28o 



3i.— Desde os primeiros tempos da lingua (Sec. XII e XIII) 
que apparecem compostos vernáculos : — iiengunOj sobrecabadura 
(F. do Cast. Rod. 2. IX), semrazovij ouVroinevi, niaPsoffrcdorj 
desamor j dcsaqui (Canc. Vat.), grand^a/go ric^oiiiein , euvoí- 
iuradOj..., e grande numero de toponymicos e antonomasticos {Vyl 

— H enrique j Valongo, Jograr Sacco, corpo — dei gado j etc. C. Vat.) 

32. — Mais tarde, e principalmente depois do Sec. XVI, apresenta-se 
uma nova corrente de compostos vernáculos de formação erudita. 
Ebri-festaniej atiriltizcnteSj ambri-odoro , fiimi -fiavi - ruivas j vio- 
narc/ti- grapho, doce - ambri - fogo — andeatite, ovini — cores j e/cr no 

— maíicoSj ar — delicias j * longe -— vibrador j fitccti — sonantes j aviplo 

— reinante j olhi — cernleaj othigaseaj jlaxipedeSj celeripede, * atiri — 
t/tronada — Juno . . . ^ 



» Fil. Elysio — V. 14, 17, 34, 60, 86; VII — 105, etc. 

« Od. Mendes 11. U, 12, 14, 16, 25, 37, 120, 132.... 

^ Mac. Or . Inscreveu um critico (Castilho^ que se a deusa estivesse 
seiíLada em unia cadeira de palha ou empalhada, devia-se pois dizer — 
palhinha — enearleirada — Juno. 



DECIMA OITAVA LICÀO 



Formação das palavras em geral. — Derivação 
própria e imprópria. — Estudo dos suffixos. 



I. — Dá-se o nome de derivação aos processos for- 
madores de palavras pelo accrescentamento de um suffixo 
a um vocábulo primitivo ( i . e . ao thema como signal 
de categoria grammatical) ou pela modificação de sen- 
tido. O 1° processo chama-se derivação própria ; o 2° 
imprópria. 

digua é pois palavra primitiva ; aguadeiro^ aguaceiro^ 
agitador^ aguar , são derixados. 

Os suffixos são de formação popular ou de origem 
erudita. Só os primeiros entram na derivação propria- 
mente portugueza ; mas alguns de origem clássica são 
hoje de uso vulgar, e estão, por assim dizer, nacio- 
na Usados, e com força creadora ( escripíurano, instru' 
mental^ abolicionista.^ etc.) 

Alguns teem dupla forma, uma popular e outra eru- 
dita, muitas vezes com significação também dupla : — 
juslica. justeza.^ razão r jzão, pritna.no primúro . A forma 
popular é geralmente a mais antiga. 

O sentido próprio de cada um dos suffixos portu- 
guezes revela -se em todos os derivados para cuja for- 
mação elle concorre ; mas, em geral, o derivado tem 
sentido mais restricto que o primitivo. Equivale a um 

36 



282 



substantivo adjectivado ( homenzarrão = homem grande ) 
ou a um verbo e seu complemento ( estudar =íazer es- 
tudo). 

O mesmo suffixo pôde ter varias significações. Ex. 
— //zreiro, í/w/eiro, primeiro^ limoúvo. 

Temos muitos derivados cujos primitivos nunca fi- 
zeram parte do nosso léxico ; outros cujos primitivos são 
palavras portuguezas já archaisadas ou modificadas na 
forma : — «wcluir, transgvQáir, í^epertorio, .... repinicar^ 
piverada , 

A's vezes, entre o radical e o sufíixo das palavras 
derivadas, intercala-se uma consoante euphonica : — 
chopisco, florsinha^ cafeteira^ ou uma syllaba que equi- 
vale a um sufíixo : — cabellúveiro . 

2. — Estudemos agora a formação nominal, que pôde 
ser própria ou imprópria . 

a) 'Derivação imprópria. 

3. — A derivação imprópria' forma substantivos — de 
nomes, verbos, e de palavras invariáveis. 

i.^ — De nomes próprios, que pela mudança de sentido, 
por uma acção psychologica, tornam-se communs; — 
macadam^ musselina, cognac, magnólia (de Magnol, botâ- 
nico do XVIII), camélia (Gamei, introductor da flor japo- 
nezana Europa em 1732), nicotina (Nicot, physico francez 
que introduziu o tabaco na Europa), pânico (de Pan), 
sardónico, ^ saturnino, caipora, tartufo, quassia (nome de 
um negro feiticeiro de Surivem, que em 1 780 descobriu as 
propriedade da planta), etc. . . ^ 



1 Riso causado por uma planta da ilha de Sard«»U», que occasionavu 
morte çonvulcionad» pelo riso aos que a comiam. 
» Vide Lição 22* e6.» • - 



283 



2.^ — De adjectivos — Consiste em designar um ente ou 
objecto pela qualidade que mais attrahe a attenção : — 
dormente, jornal. 

Este processo já era vulgar no latim. 

O adjectivo pôde também empregar-se substantivada- 
mente : — um louco, um pobre . 

3.° — Dq jyerbos — Podemos derivar o substantivo di- 
rectamente do thema verbal isiibst. iferbaes) ou de uma 
das formas nominaes. 

a) Da 1® pessoa sing. do Ind. prés. (principalmente 
dos verbos da i* conj.) amanho, esgoto., appelo^ am- 
paro, .... á imitação do latim da decadência (proba de 
probare., liicta de luctarei . « 

b) Do Imperativo : — combate.^ degola, esfrega., receita., 
purga, janta. 

ci Tio participio presente. Deram adjectivos que depois 
se tornaram substantivos : — escrevente, amante, consti- 
tuinte, tratante. 

Temos muitas palavras em a/itej enie, sem part. prés. corre- 
spondentes no portuguez : — ambulante j benevolctite ., peiMlanfe j elegante. 
Importação directa. 

d) Do p ar ticipio passado. — Esta formação foi muito 
productiva : hoje porém vai-se esterilisando : — feito, trás-' 
lado., tratado, producto, reducto., entrada, saliida., pista, 
insto, escripta, escripto, certificado, rugido, tecido., ge- 
mido., etc. 

e) Do Infinito. — E' doSec. XVI este emprego do in- 
finito, que toma flexão do plural quando, em vez de deno- 
tar uma acção (o descambar, o cantar}., representa um ser 
ou substancia (os seres da creação., os meus haveres ou 
teres, os cantares do povo, os jantares, etc. . . 

4. — Não é indiíferente o emprego das duas formas 
( invariável e variável ). A 1* indica uma acção dilatada, 
reiterada. Cp. o caJtir das folhas e a queda das folhas, o 



284 



troar do canhão e o irom do canhão, o declinar do dia e o 
declinio do dia, etc. 

De resto, o infinito é uma verdadeira forma nominal. 

Esta propriedade de nossa lingua, era-o também da lingua mãl, 
que empregava o infinito dos verbos como sujeito c como comple- 
mento directo, quer na época archaica (principalmente entre os 
cómicos), quer na prosa dos séculos anteriores : — oò/iíi suni Roniai 
loquier lingua latina ; Hic vereri ferdiáit ; ipsuvi crcmare non fni 
veteris insíitnii (PI.) ; scire ínnm (Prisc.) ; carere igitnr hoc significai 
egere co quod habcrc velis (Cic.^ E também depois de cavcrCj cogiíarc, 
adornare, per gere j foriíilarej ttc. A lingua clássica fez menos em- 
prego dessa derivação, que todavia foi muito frequente com Ovidio, 
Horácio, Sallustio, etc. 

5. — Muitas vezes o verbo desappareceu, restando só 
para lembrança o infinito ou participio, mas na categoria 
da substantivos ; — porvir^ lente . 

h) derivação própria 

6. — Grande parte dos vários vocábulos derivados já 
nos vieram formados do latim ; em compensação o portu- 
guez formou muitos novos tomando do latim apenas os 
elementos de formação. 

7 . — Ha três cousas a considerar na classificação dos 
suffixos nominaes — sl forma de derivação (verbal ou no- 
minal) ; a naUire:{a ou emprego (substantivo, adjectivo, 
coUectivos, nomes concretos ou abstractos, etc); o sentido^ 
porque os suffixos, como as palavras, teem a sua his- 
toria. 

1." — As mudanças de forma são devidas á analogia. 
Itia é e:{ e\a^ fortaleia fortalitia^ negro dá enegrecer 
(intercalação de consoante entre o radical e o suffixo), de 
cabello forma- se cakelleireiro (intercalação de uma syllaba 
suffixo) . 

2.° Alguns suffixos suppoem certas categorias de pala- 
vras. Assim, ada supõe thema verbal : — amar^ calçar^ — 
amada^ calçada. Com o correr do tempo, porém, quando já 



285 



na lingua existem muitas palavras formadas com o mesmo 
suffixo, e a lei já está esquecida por todos, formam- se 
derivados directamente análogos sem mais se indagar da 
forma thematica que lhes corresponde . E accresce que 
muitos suffixos teem vários empregos : inchaço tem por 
base um verbo ; poeiap, um substantivo . 

3.° — A's vezes o suffixo muda de sentido, e^/za denota 
uma reunião de pessoas ou cousas, e hoje mais tem sentido 
pejorativo : — gentalha^ canalha. 

a) Substantivos derivados de substantivos 

8. — São numerosos os suffixos portuguezes desta 
categoria, uns derivados do latim, outros do próprio génio 
da lingua, e servem para formar nomes concretos e 
abstractos . 

Aça. — Indica quantidade : — fumaça^ vidraça, vinhaça. 

Aço ( — do acc. acem dos nomes em ax). — Denota 
augmento : — cartapaço, espinhaço^ estilhaço. A^s vezes 
com sentido pejorativo. — poeiaço, senhoraço. 

AcEo (accus.) — Este suffixo foi adoptado em botânica, 
no feminino, para a designação das flores . 

Ada fl. actus, a, m.} — Indica : i°, grandeza, numero, 
extensão, golpe, acção — cumiada, fachada., pedrada, 
cabeçada, facada ; 2°, reunião, collecção de objectos da 
mesma espécie — arcada, rapaziada, barricada, carnei- 
rada;3^.f tempo — alvorada., noitada; 4°, productos do 
primitivo, derivados de fructos — mannelíada., goiabada, 
limonada. 

Encontra-se em alguns nomes derivados do grego : myriada 
(numero de dez mil)^ Iliada ( poema sobre o Illion ), e por imitação 
Hciiriadaj LiiziadaSj Messiadn. 

Ade (accus. 1. atem dos nomes do 3^ dec. lat. em as) : — 
irmandade, animalidade., mortandade . . . 

Ado, ato ^1. atus.) — Indicam cargo, dignidade, pro- 
fissão. O 1° é de origem popular : — reinado, bispado. 



286 



consulado. . . ; o 2*^ de origem clássica : — generalato^ 
bachalerato, baronato, ant. baroado. 

Cp. baronato baronia. 

Agem (\. aticum, at''cum.) — Indica : i°, coUecçao de 
objectos da mesma espécie — folhagem., plumagem ; 
2°, estado — aprendizagem ; 3^, resultado de uma acção — 
ancoragem, lapagem. ^ 

Estes nomes, em numero de 3oo pouco mais ou menos, são pela 
maior parte novos e sem correspondentes em latim. 

Al (\, alis. elis.) — Indica extensão, quantidade, ou 
objecto material que tem o mesmo sentido expresso pelo 
thema nominal : — colmeal, areal, lamaçal, dedal, memo- 
rial, pombal ; e quasi todos os nomes de plantações — 
cafesal, inhamal, capinsal, faval. 

Alha ^"1. alia) : — muralha, parelha. Tem também sen- 
tido collectivo, e ás vezes pejorativo : — gentalha, canalha. 

Ame, ume ( Pop . — 1 . ame ) — Indica numero, col- 
lecção, intensidade — velame.^ cordame.^ correame., quei- 
xume. 

Anha — ( 1. anea ) — Só entra na formação de alguns 
nomes femininos com significação concreta — montanha. 

A5 (lat. onem, anum^ nom. anus^ etc. ) Indica — 
além de maior intensidade e superlatividade — (pg. i8i ); 
agente, profissão subalterna — centurião., histrião., cirur- 
gião ( antigamente de categoria inferior ao medico ), 
ladrão . 

Esta derivação, pela etymologia, abrange a forma em 
— ano: — africano., romano (origem) : dominicano., re- 
publicano (seita, profissão), parochiano, lutherano. 

Ária {arius, a, um). Indica i°) collecção de ob- 
jectos, quantidade : — livraria^ vo^eria^ grtíatia, esca- 



* A acção está expressa na \/ o^. — Lê-se nos Ined. d'Alcob. Tomo 2o, 
pag. 7 :— « E posse Adam a sua mulher nome e disse : esta será chamada 
Virago, que quer dizer feita de barom.» 



287 



dana ; 2° ) otHcina, domicilio, estado : — confeitaria^ dro- 
garia^ chapelaria ; hospedaria^ albergaria^ celibatário ; 3° ) 
acção — ventaneira^ choradeira . 

Ario, eiró ( arius^ aris^ erium ) . — Ambos indicam 
individuo que exerce certa profissão : — estatuário^ bo- 
ticario^ lapidario^ carpinteiro^ porteiro^ cosinheiro. * A 
i^ desinência, de forma erudita, indica profissão mais 
elevada que o suffixo eiró. ^ Este, de forma popular, 
indica — 1°) nomes de arvores e plantas: — limoeiro^ 
mamoneiro^ cerejeira ^ )\ 3° ) intensidade, extensão : — 
aguaceiro^ luzeiro \ logar onde se guardam certos objectos 
( expressos pelo radical) : — celleiro^ gallinheiro^ tinteiro^ 
idéa -esta também indicada pelo sufíixo ario ( de arium ) : 
— armário^ herbario^ erário. 

Os antigos, assim como diziam, transpondo as lettras, — : con- 
írairOj adversairOj também diziam, menos se afastando do typo la- 
tino : — forcairo ( porqueiro ), caprairo ( cabreiro ), caldario ( cal- 
deiro ) etc . 

Este suffixo é muito productivo : — O erudito ario 
tomou tal extensão na linguagem vulgar, que forma pa- 
lavras com radicaes partuguezes : — annuario^ horário^ 
inventario . 

Oppõe-se a ante : — mandante mandatário ; a j/ — 
original originário -^ a oso — tumidtiiario tumultuoso. 

Asio (azio). — Significa extensão, augmento : — ba~ 
lasio, copasio. 

Az. — Indica augmento, intensidade: — carta:{., mon- 
tara^., Saíana^. Temas vezes sentido pejorativo : — rfíZM- 
çara:{^ 77iachaca:{. 



*) ladividuos que fazem, produzem, fabricam, os objectos indicados 
pelo radical. 

*) Cumpre advertir ha certa differença na significação das desi- 
nências — ARIO, KiRO, OR, ADo, comquanto todos indiquem cargo, prvfissão 
— Ario denota posição inferior, eiró ainda maia inferior ; or e ado. ato 
alta dignidade, posição elevada, etc. 

*) Isto é — productores de tal e tal fructo. 



288 



ferfma.v,/a//ax, etc. ''"''''''"''' ^ ^ ^s ant.gas formas :- ^.,-/^^-^ 

Bulo, culo, bro, cro - Dos suffixos latinos- 
bulum, culum (arch. dum) As r- formas são de 
ongem erudita. Ex. : ^ ihuribulo, paUbulo, vocábulo 
cenáculo, candelabro, sepulcro. ^«^^^«/o, 

O de origem popular tem a forma agre :- milagre 
(miraculum ). muagre 

.«/.^;!;^a;lr^ e já no latim c,„„^ 

CiDA (lat. a^^ -matador) :- homicida, regicida 
parricida etc. 5*«-^^«, 

Cola {\^x. cola) :- I„diea profissão agraria •- 
agricokt, vinicola, ; habitação :- arvicola, monticola, 

Eço,-A, iço,-A, oço,-A.-São varíacões do suffixo a^^o 
e correspondentes ás desinências latinas -.A^,./v-oy 
Indica augmento, muitas vezes com sentido pejorativo- 
movimento : — cabeço, alvoroço. 

Dade (accus. atek nom. ^m tas) :- autoridade, mater, 
metade, irmandade, sociedade. (V. ade). 
EiRo — V. ario. 

Eira -Corrupção de ária. Indica extensão, colleccão 
arvoredos, plantas, etc: sementeira, parreira, hananTa. 

^ícT3^^^, Tdica^ír.wr ^--'^em correspondente 



no masc, 



donde a expr^sãrvú W ^//. T"'/ f^''^''^'^^'^^ - "mulher dissoluta' 
pai conhecido) "^^'' '~^'^'' '^'' ^"''""'^ ?' «^^0 de meretriz, sem 

EDo(I.e/«;;^;-. Denota coliecção, produccão, gran- 
deza; e junto dos radicaes dos nomes de vegetae forma 
substantivos indicando trato de terra plantado da espede 
de arvores designada pelo radical (=al, eiró) .- arvoledo 
penedo, olivedo, vinhedo . ' 



289 



Ez, EZA, ISA, ESSA (1. tssa ittã) . — Os três últimos 
formam somente o fem. de subst.: — princeia^ poetisa^ 
abbadessa. Indica posição, cargo e a origem, habitação 
{burguei, francei) . A forma e- é muito empregada para al- 
guns nomes de povos — Carihagine^, lngle:{. Português. . . 
e ainda de habitantes de certas cidades francezas — Mar- 
selhei, Bolonhe:{. 

Ia — Indica: i°, acção própria do individuo indicado 
pelo radical : — raparia ; 2°, cargo e o logar em que é exer- 
cido — abbadia^ recebedoria, thesouraria . 

Io — Indica collecção : — mulherio, rapa^io; estado, qua 
lidade — poderio, sombrio . 

Ico — Ind. origem, seita, communidade, profissão : — 
musico, esloico. 

Ina (1. ina) . Indica officio, profissão, logar onde elles 
são exercidos, habitação : — medicina, disciplina., officina. 

A forma masc. wa deu, modificando -se em tn/io, o subst. capn- 
chitiJio. 

IsTA (1. ista^ gr. istes). — Indica emprego, occupação — 
oculista, dentista, sacristã., copista., jornalista. E' esta a 
terminação dos nomes de pessoas que tocam um instru- 
mento, excepto aquelles que derivam por mudança de sen- 
tido, por metaphora (um piston, um tambor) : — flautista, 
pianista. Hoje é de grande emprego, e entra também na 
formação dos nomes que exprimem os partidários de um 
systema, escola, seita ou idéa — abolicionista., socialista., 
mhilista . 

IsMO (1. ismus, gr. ismos de isme., espirito) — In- 
dica. I", religião, crença, seita, doutrina e também se 
junta a adjectivos) — christianismo., islamismo., sebastia- 
nismo, socialismo, positivismo., mazhiauelismo^ altruísmo (p . 
analogia com egoismo) — 2°, qualidade — brilhantismo , pu- 
rismo : — 3°, palavra, locução peculiar a uma lingua ou ci- 
dade — gallicismo, hellenismo, solecismo. Forma pois nomes 

37 



•i90 



abstractos correspondentes aos adjectivos em /s/a, /co - 

,orZro'noZrl direcu>río ....; logar onde se fa. a acção 
canorio,escriptorio, refettono. , 

Sentido pe)or.- chapelorto, camelorto. 

c) Substantwosderípadosde adjeclivos. 

n_Formam-se accrescentando aos adjectivos os 
J;Z-acTado.o cia iade d.o ença e„. e«a. (an- 

^■'^'Ili -1'nÍ^ '^^.rriiosa, baixa : - bre.érada, 
•''''f:'l'Z:::-lM. q-Udade, estado ..-.e./«ç.-o, 

T,fr(^?t).-ln'^'- qualidade, tendencia:- 
a»á<»aa, constar^cia, prudência, P''-f'f- , ,^,. 

n.nv /a/cm accus. dos nomes lat. da i aeci. 
.mTs/MTca qualidade: -forma geralmente nomes 

Xtracts -?o»L., felia^^^e. --««^^ - - -"- 
°X:riÍrri--dade (..dade) .U^o A inter- 

-^:est;i':drsr:xTnií;e7nrír.e.e 

..•iáo (G. Vic), variedade vartacao. ... e no bec. Avi 
eira^cegiiidade cegueira (cegutce). 

. A,ui, porém, o t.e.a deve ser considerado adjectivo, isto d, cabelo 
é empre^do no sentido de estumdo. 



2ql 



Aria. — Indica acção, efleito, próprio do individuo, 
idéa expressa pelo radical ; o estado do que exerce estas 
funcções, etc. . . : — enfermaria, velhacaria 

Ena — De nomes de números : — novena^ quarentena. 

Ença . — Significa — qualidade, estado : — doença, con- 
7*alescença. 

Encia (1. eniia). — Denota qualidade: — prudência. 

Ez, tZA (1. iíia). — Indica qualidade, estado; forma 
nomes abstractos: — rapide^, fortaleza, surde^., lar- 
gueza. 

Oppunha-se no Sec. XV a ura, dade: — brande^a p. 
brandura, faríe:{ap. fartura, víuvidade p. viuve-{, nuidade 
p. nudez,.... E ainda temos exemplos dessa con- 
fusão em clareia claridade, lorpe^a torpidade, tristeza 
tristura, etc. 

Ia (lat. /aatono). — Significa o mesmo que esa: — per- 
fídia, monotonia, cortesia. 

Iça Icia ( f . pop. accessoria ) ; do lat. itia : — justiça, 
preguiça, malicia. 

Ice (l.itie) — Indica estado: — patetice, velhice, cal' 
vice, 

IsMo — V . — subst . de subst . 

Mento (1. mentum). — Indica estado, acção: — con- 
tentamento, atrevimento . 

MoNiAfL monia ) . — Indica acção: — acrimonia, par- 
cimonia. Só entra na formação de palavras clássicas. 

Orio. — Tem sentido pejorativo — finório, simplório. 

TuDE (lat. tutem der. de tus tutis). — Indica estado 
qualidade : — juventude solicitude . 

Ura (\. ura, 2iX.uv2i } . Idem: — amargura, formosura, 
loucura . 

Oppõe-se a GR — amargor amargura . 

Os substantivos derivados de adjectivos são do género 
feminino, como em latim. Exceptuam-se os em — ismo, 
mento, orio. 



2Q2 



c) Substantivos derivados dos jyerbos. 

IO. Destes substantivos, alguns indicam a acção ex- 
pressa pelo verbo (ada, anca, âo, ção^ (são) ii>o, ela, en) ; 
outros, o resultado dessa acção {aço^ ado, ire^mento, ura) \ 
o agente da acção (or dor^ tor^ sor) ; o logar em que se 
passa a acção (eiró, io, ouro, etc J ; a significação do sub- 
stantivo no superlativo ^<a!;{'. 

Aço (eíFeito) : — cansaço, andaço. 

AçÃo. lat. ionem, nominativo io (t-io) (acção). Fórma-se 
geralmente com verbos da i^ conj. : — ligação, publicação, 
encadernação . 

A maior parte destes derivados comp5e-se de nomes 
abstractos ; muitos delles — de acção — , tiveram por base 
o part. passado latino — effusão intuição. 

Agem . Indica "acção ou resultado da acção : — la- 
jfagem . 

Alho — Exprime cousa masc. que serve de instrumento: 

— espantalho . 

Anca, ença, anciã, encia (1. aníia entia) . Indica acção, 
estado de acção : — forma geralmente nomes abstractos 
correspondentes aos adjectivos em ante., ente, inte: — es- 
perança lembrança^ mudança ; crença detença ; resistência 
concurrencia ; observância vigilância. 

Ença encia são as formas populares ; mas temos não 
obstante muitos vocábulos de derivação clássica com este 
suffixo : — exigência, urgência, adherencia. 

Muitos dos nossos nomes derivados em anca não teem 
correspondentes em latim . 

Ante — Suffixo do part. prés. Indica acção ; profissão : 

— marchante, negociante, purgante . 

Ao CÃO (são). Do latim ionem tionem c-ionem s-ionem). 

Indica acção: — rasgão, canonisação, pronunciação, abolição. 

Anda. Forma nomes fem. dos part. futuros latinos : 

— propaganda. Except. multiplicando. 



■lijó 



EiRO OURO (oiro), óRio. — Do latim arium, enum; 
oriíim (t-orium, t-sorium, etc . ) Indicam : i '^, o logar onde 
se faz a acção : — atoleiro resvaleiro ; matadouro anco- 
radouro ; lavatorto, dormitório^ oratório, etc; 2^, o sutf. 
orio significa mais o instrumento com que se faz a acção : 

— vomitório^ seringatorio ; ?>°^ eiró indica outrosim o 
agente : — lavadeiro^ cosinheiro ; 4°, ouro indica ainda 
estado : — casadouro. 

O a Q o i são consoantes de intercalação frequente 
nestes derivados, como já acontecia no latim . 

Os formados do supino são, em regra, masculinos — 
directoria^ dormitório. . . . Except. — escapatória. . . 

Ouro corresponde a ijo — escondedouro esconderijo. 

Enda — forma, bem como anda, alguns nomes fe- 
mininos de part. futuros latinos: — offerenda. . . Kxct^t. 
dividendo. 

Eira — Indica acção : — choradeira^ dormideira . 

Ela ( ella ). do 1. ela\ indica resultado de uma acção: 

— tutda^machucadtlsi, apalpadtla. Nos derivados popu- 
lares nota -se a intercalação do d. 

Ia (c/a, etc, com os verbos da 2" e 3^ conj.; vidcENCiA) 
do latim arta contrahido. Indica acção, resultado : — 
berraria^ gritaria. 

Ivo ( t-ivo) ( 1. ivus). — Exprime acção, resultado da 
acção : — paliativo., recitativo. 

Ido (1. itus). — Exprime o resultado da acção: — 
rugido, ganido., tecido. Formam-se todos de verbos da 
3^ conj. ( part. pass.) 

Io (1. ium ). Indica acção, logar onde ella se exerce. 

— império., pousio., vaticinio. 

Ente — Indica acção, resultado, logar onde, agente. 
Suffixo part . , derivado do part . act. lat . em — e«5, — entis 
(entem) ; e por motivo desta derivação a palavra a que se 
ajunta este suffixo tem sentido de estar, existir : — ausente 
(absentem), servente {sQrveniçm)^ precedente, semente 



294 



A maior parte dos verbos radicaes destes nomes, todos 
de origem latina, não existe em portuguez. 

Iz — Só temos um exemplo em que corresponde a — 
mento: chaman\ (pop. port.) 

Men, me. — Este suffixo só apparece em palavras 
clássicas de origem latina, taes como — exame^ certamen, 
regímen, specimen. 

Mento (1. mentum, de minere). Significa acção, resul- 
tado : — testamento., ornamento . . . . cumprimento, falle- 
cimento, enchimento., aborrecimento, etc. 

Muitos já nos foram transmittidos pelo latim : — docii- 
mento (de docere., instruir ensinar), alimento {alimenium., 
de alere, alimentar), fragmento (fragmentum, de fran- 
gere, quebrar) .... 

Forma-se pois como em latim, do presente do Indicativo (Tesfv 
mento, documento), ou do supino {detrimento ^ fragmento) . 
No 1° caso indica o resultado ; no 2° acção. 

OppÕe-se a cão: — fundamento fundação, fragmento 
fracção., sentimento sensação., criamento criação., .... anca : 
— ensinamento ensinança., etc. 

Or (d-or, t-or, s-or;, do lat. — or {t-or, s-or). Indica : 
1°, agente — abridor, leitor, imperador, contador ; 2^., logar 
onde : — ja^edores^. Uns representam typo latinos (leitor, 
injector, ahactor), outros são de derivação portugueza etc. 
(contador , fumador . . .} 

Cp. — leitor ledor, escriptor escripturario, fumador 
fumante, tabaqueador tabaquista, etc . 

Orio (t-orio) — V . Eiró . 

Ura {x-ura, d-ura). Do latim ura {t-ura., s-ura). — 
Exprime o resultado, o eíFeito, o estado — queimadura, 
quebradura, captura, sepultura, pintura, etc. 



* Na Sec. XIII dava-se está denominação aos qnô eram sepultados no 
cemjtefio d« S. João d« Tarouca, 



29^ 



A maior parte destes derivados são portuguezes for- 
mados pelo t\po latino : — molhadura, cosedura^ desco}?t' 
postura, .... 

OppÕe-se a. meti to — ligadura ItgafneJtto, quebradura 
quebramento ; acção — fractura fracção, creaiura creação. 

II, — As desinências indicadoras de collecçao, além 
das que já ficaram apontadas ( ado, ade, edo, io, agem, 
ai, ario, eira, mento, orio, ura ), são — alho, -ít, ilha, 
ulho, ame, ama, ume, enta, ura. 

Temos, porém, muitos nomes collectivos simples :— 
bando., mó, chusma^ povo., recua., recova, . . . 

Estudemos os suffixos de que ainda não tratámos. 

Alho,- a ( ilha ulho ). — Tiram origem : alho,- a, 
não da desinência latina — alo, - is — como geralmente se 
tem escripto, mas de aculus,- a, -um., sem mais significação 
diminutiva ; e do suffixo lat . — alia ; ilha., do suffi . — ilia:, 
ulho., de uculum ; — cascalho., sei-ralho ; caniçalha, ca- 
nalha ; matilha., camarilha ; pedregulho . São quasi todos 
de derivação portugueza. 

Ame, ama ume (de amen^ multidão) : — barrilame., 
cartuchame., massame., vasilhame^ etc. — Os Romanos 
também derivaram — examen., certamen., velamen .... 

As formas — ama., ume., são corrupções de ame :— 
mourama., cardume. 

Ena. — Forma-se com certos nomes de números : — 
centena, trezena., deiena. 

Enta ( 1. entum ) : — ferramenta . 

b) Suffixos augmentativos e diminutivos 
11. — Vide Lição 14* pags. i8r - 187. * ) 



») ADVERTÊNCIA.— Por um erro indesculpável (}« paginaçàio, mas 
que salta immediatamente aos olhos, os suffixos dimiqutivos de dho (pg. 
182) a im (pg. 183 ) figuram entre os augment»tÍT08. 



2()b 



i3 . — Ao que dissemos na Lição 14" nada mais temos a 
accrescentar senão que muitos nomes femininos formam 
o augmentativo em ão (p. ona^ã). passando consequen- 
temente para o género masculino — portão^ mulherão . 

Havia nos Sec. XV XVI as desinências ego, igOj que, parece, cor- 
respondiam ás actuaes — agenij ia : 

Fwnádego — fumagcm, pensão paga por fogo ao senhorio. 

Terradigo terradego — quantia que o foreiro pagava de laudemio 
ao direito senhorio para poder alienar o prédio^ etc. 

Portadgo — portagem. 

MordoDiadigo — mordomia . 

Hospcdarigo — hospedagem. 

Ainda temos amostra desta derivação em realengo ( ant. realego ), 
avoengOj terras reguengas, etc. 

II. Formação de adjectivos 

14. — O portuguez forma adjectivos também pelo 
processo de derivação, com themas nominaes e verbaes : 
— pedregoso^ negral^ enganador : 

a) oAdjectivos derivados de substantivos 

i5. — São principaes suf fixos, além de alguns já es- 
tudados : 

Al, EL, iL, ( lat. alis, elis, ilis. . ) — Significa — que 
se prende ou refere a, da mesma natureza que : — Estes 
adjectivos não nos indicam a cousa em si ; apenas a deter- 
minam : — meridional {Xo^ox)^ imperial (classe), occa- 
sional ( tempo ), etc . 

Al é muito productivo, e sobem a cerca de Soo os adje- 
ctivos de base nominal formados com esse suftixo . 

As outras duas formas mais se apresentam em adje- 
ctivos importados directamente do latim, ou formados eru- 
ditamente de themas latinos : — cruel ( crudelis ), Jiel 
( fidelis ), hostil ( de hos hostis inimigo ), viril ( de vir, 
homem ), pueril ( de puer^ menino ), senil ( de senex, 
velho ), etc febril, catTil. 

Alguns adjectivos em ai são hoje substantivos : — 
natal^ riml^ jornal. 



297 



AcEo (1. aceiís) — Indica semelhança : — rosáceo, galli' 
naceo . 

Ado (1. atus). — Indica posse: — esírelhdo, alado. 

Ano ão (1. anus) — Indica origem, seita, profissão: 
— transmontano., Pernambucano ; dominicano, christão, 
christiano . 

Ar (1. arisariusf. — Denota estado, qualidade: — pati' 
biliar, familiar. 

Ario eiró (1. arius) — Indica profissão, estado, quali- 
dade — imaginário, solitário, embusteiro .^ interesseiro, sol^ 
teiro. Nas palavras de fundo popular mais predomina 
a segunda forma. 

Atiço (1. aticus) — Só apparece em palavras de formação 
erudita: — lunático, anseatico, aquático, fanático. V, Ico. 

EciMo, ESíMo (1. esimus). Junta-se a numeraes car- 
dinaes para a formação de ordinaes : decimo, centésimo . 

Ejo. Indica procedência: — Sertanejo, annejo. 

Enho (1. enus) — Exprime uma propriedade ou quali- 
dade, representada pelo radical: — ferrenho. 

Ente (1. ente) — Indica estado porque ente é ablativo 
de ens participio do verbo ser — paciente, prudente. 

Ento (1. ento) — 1. lentus. Indica abundância, ten- 
dência: — ferrugento, pestilento, bulliento., succulento. 

Ense (1. ensis) — Exprime procedência, origem : — 
forense, Maranhense . 

Ez, A [\. ensis) — (Indica procedência, próprio de: — 
montanhei., monte^., campone^. 

Eo (1. eus). — Indica a matéria de que a cousa é 
feita: — férreo., argênteo., limo. 

Opp . a oso : — férreo ferruginoso . 

Este (1. estis) — agreste., celeste. E' improductivo. 

EsTRE (1, estris éster): — pedestre, equestre, terres- 
tre.,.. Destes só é de fundo popular — campestre. 

Esco (1. iscum) — Indica o modo, a propriedade, 
origem, semelhança : — fradesco., burlesco, pedantesco, 

38 



298 



arabesco, pittoresco. Pelos exemplos vê-se que ás vezes 
tem sentido depreciador. 

Fero (ifero). — E' um dos suíF. lat. que mui pro- 
ductivo tem sido no portuguez, mas só em vocábulos 
de origem erudita : — mortífero (levo a morte), pestí- 
fero^ salutifero. 

Ico (1. ícus). — Denota o mesmo que ai — relação, 
origem, ainda que mais determinando o conjuncto das 
propriedades : — aristocrático^ geométrico. 

Opp . a // ; — cípíl cívico ; a oso — harmónico har- 
monioso; a ar — monástico monacal. 

A desinência fico [á.t fàcio^ faço) entra na derivação 
de muitos adjectivos, e exprime a idéa de produzir ou 
fazer alguma cousa: — pacifico, soporijico, prolífico. 

Iço icio (\. icius). — Indica qualidade : — castiço., chuvC' 
diço., alagadiço, patrício. E' suffixo popular. 

Ido (\. idus). — Exprime a qualidade própria do substan- 
tivo radical, mas em alto gráo : — cálido., tímido, húmido. 

Imo (l. imus, suffixo indicador de super lati vidadej. — São 
poucos os vocábulos em que apparece, e sempre com a 
intercalação de um í (t-imo) : — legiiif?to, marítimo. 

Çp . lídimo leal legal legitimo, e marino marinho marítimo. 

Ino ^t-ino^ 1. inus, t-inus. — Indica semelhança, origem, 
relação : — crystallino, marino, salino, libertino. 

iNHo : — marinho. . . 

Itico : V. ico. romântico. 

Lento — V. ento. 

Olico {\. oMcus) V. ico. Melancólico ^ant. merencoreo), 
symbolico . 

Onho (onius). Exprime o que faz, o produz : — cnfa- 
donho, tristonho. 

Oso (1. osíis). Indica posse: — astucioso, fogoso, 
manhoso, nervoso, montanhoso, ocioso, etc. B' uma das 
mais productivas desinências portuguezas, e já o era no 
latim. . . _ _ :;.:-. 



299 



Notemos mais os derivados em uoso formados por ana- 
logia : — monstruoso^ voluptuoso. 

Udo (1. mus) — Ind. abundância ; — posse, mas com 
idéa de grandeza, augmento: — cabelludo, pelludo^ sanhudo^ 
barrigudo . A'^s vQZQs ttm sentido pejorativo: — lingua- 
rudo^ abelhudo. 

Um. Os adjectivos formados com este suffixo só se 
empregam com o subst. gado: — vacum., cabrum. Corr. a 
ar (cav aliar.) 

Undo. (1. undus) — Indica tendência: — furibundo., ira- 
cundo . 

Opp . a oso — Cp . furioso., iroso . 

Urno, ierno, (1 . urnus., iernus) . Indica tempo : — di- 
urno., hodierno., nocturno. Só em derivação erudita. 

b) Adjeciivos formados de adjectivos 

i6. — Já tratámos dos suftixos augmentativos e dimi- 
nuitivos etc, dos adjectivos (Lição 14). 

Além desses temos — ento {pardacento., alvacento)., ai 
(negral), tirante a negro, oso (verdoso), aico (judaico, re- 
ferente a judeu) etc. . . . 

No Sec . XV era corrente o suffixo engo., hoje rarissi- 
simamente empregado, indicando — de, referente a:-:- 
Judengo. ^ 

c) Adjectivos derivados de verbos 

17. — O portuguez forma adjectivos verbaes adoptan- 
do os participios do verbo, ou ajuntando certos suíTixos 
ao radical verbal. 

18. — Formação pelo participto . — Empregamos tanto 
o participio presente latino como o passado : — obediente ; 
paciente., brilhante.,. . . vago (vagante), sujo (sujado). 



' Além deste, perdemos outros .muitos, como igo^. que se archaisoii no 
Sec. XVI e XVII —'ínoníediyo. Mentodkié o Secl X~\Í "era de U80 ipais 
frequente: correspondia a ta (ousamento), a aaqa (mudamento)... 



3 00 



A^s vezes o verbo desappareceu do portuguez moderno, 
persistindo, porém, os participios com cathegoria de adje- 
ctivo ou de substantivo : — miserando (de miserar)^ pu- 
dendo e pudeníe (Sec. XVI), bispado (de bispar^ "ver 

o rebanho cathedraP ^), calçado. 

19. — Formação cotn suffixos . Os principaes são : 

Ado. Já nos referimos a este suffixo. 

Ante, ente, inte.= Corrrespondem ás desinências dos 
part. prés, activos latinos — ante {ans antis) e ente {ens 
entis) : — caminhante., imponente., conhecente (Sec- XV), 
pedinte. 

Alguns tornaram-se substantivos — /e/itt-j affli4eiiie. 

Muitos dos verbos thematicos destes adjectivos não existem no por- 
tuguez : — apitit/a}ite,(\. eimàu/are andar) benevolenle (Sec. XVIII), 
ou já vão, ainda que mal, cahindo em desuso : — febricitante , {dcfcbri- 
cifnr), proticberante . 

Aõ. — Folgarão, brincalhão e brincão. 

Ando endo undo (endiis., arch. iindus.) — Como em 
latim, suffixam-se ao radical do prés. do Ind., e indicam 
acção . Correspondem aos derivados em avel : — venerando 
(venerável). São em geral de origem erudita (oriundo), 
mas com uma forma s3'nonymica popular (originário). 

Az (age) 1. ax. — Indica alto gráo da qualidade expressa 
pelo radical : — (ifficai (efficere eftectuar), loqua:^., (loquere 
fallar),. . . bebera^, robai, (Sec. XV e XVI), morda^. 

Bundo fl. hindus). — Ajunta-se ao radical do presente 
do Ind. — Significa tendência, estado : — vagabundo 
(p. vagamundo), tremebundo, meditabundo., gemebundo., 
moribundo. 

Equivale ao oso das bases nominaes. — Quasi todas as 
palavras desta terminação são importações latinas. 

AvEL, ivEL, BiL, iL fl. btUs — ibUis., ///5, — abUis, ebilis, 
nos poetas). — Indicam a possibilidade — quasi sempre 



Hoje só em linguagem muito familiar, vulgar, por vêr. 



3oi 



passiva — , a capacidade de fazer alguma cousa. — Os em 
apel formam-se pela juncção do suffixo aos radicaes 
verbaes de i^ conj. : — amável^ penetrável: os em ivel, 
formam-se do part. pass. lat. — vendível, crivei. Os em 
avel podem também formar-se tomando para thema um 
substantivo — genial. ^ 

Ivel, é de formação erudita ; avel, popular. 

Ai'el opp5e-se a aníe^ oso : — amável, amanle, amoroso ; 
ivel a ivo : — sensível., sensitivo . 

Os em BiL — /■/ formam-se de base verbal latina ; e 
todos nos vieram já formados dessa lingua : — fácil f/a- 
cere fazerj dócil, (docere ensinar^ frágil (frangere 
quQhvsir ), niibtl (Hubere caisa.r}., reptil (àt reptum sup. de 
repa arrastar^, 7nobil /de mover e, mo^'er J 

Na ling. pop. muda -se o b tmv — rnoj^el. 

Neste grupo devem entrar os em uvel (de sentido 
passivo) : — indissolúvel, insolúvel, jfoluvel. 

A acção que nas línguas romanas a i^ conj. exerceu sobre as 
outras no part. prés. também é manifesta na derivação. Temos 
alguns exemplos no portuguez desta preferencia pela forma em ave/ ; 
que hoje muito inais se acceutúa no francez. Os verbos de 2* conj. 
seguem os da 3* porque, adoptando as formas a-biliSj ibilis latinas, 
desprezaram de todo a em ebilis (fle-e-bi/is) . 

Ejo : — andarejo andejo . 

Iço (1. icius). — Indica a natureza ou condição: — 
abafadiço, alagadiço . 

lo : — escorregadio, luzidio. 

Ido ( 1. idus ). — Como a\ e undo, é um suffixo im- 
productivo. — Rigido, timido. 

Ivo ( 1. ivus., que corresponde a bilis ). — Indica força, 
aptidão, faculdade para fazer alguma cousa : — putativo 
( de putare pensar julgar ), auditivo ( de aitdire ouvir), . . . 
fugitivo. ÍMStructii>o, corrosivo . 



* Medicinal, f* outros vieram flfl verbos nrchaisados — mtdicinai', «te. 



302 



Forma geralmente adjectivos de sentido activo : 
captipo^ adoptivo, etc. 

E' de formação clássica; mas já vai se popularisando. 
Cp — negativa negação ; persuasivo persuasorio ; nutritivo 
nutriente; instructivo instruidor (instructor) . 

Or ( dor /or-fem iri^, sôr, óra ) — Corresponde ao 
lat. Or ( tôr. sor. fem. tri:{ ) sempre que o radical é su- 
píno latino ou particio presente : — seductor, conciliador, 

d ) Substantivos etlmicos, gentilicos e patrominicos 

19.— Os nomes locaes formam-se também de varias 
terminações : ia ( Itália, Ásia, Dalmácia, Bulgária, . . . .) í 
ica ( Africa ) ; ento ( Agrigento, Buxento ) ; anha ( Bre- 
tanha, Allemanha ) ; polis ( gr . polis, cidade ) Petrópolis, 
Jheresopolis^ .... Os do Brasil, porém, são na quasi to- 
talidade nomes indígenas : Piauhy ( piau peixe + hy 
agua ), Pará, contracção de paraná ( mar ) Nictheroy ( ni- 
tero escondida + liy agua ), Carioca., etc. . . 

20. — Os nomes de 'povos e nações formam-se com os 
nomes próprios de paizes e cidades, e as desinências — ano 
( iano ), ense, ão, e{, ino, ico, ista., aicc, etc : — Per nambu ' 
cano., Romano.) Galle:{iano ( Gallego ), Atheniense Lisbo- 
nense Lisbones, ( I isboeta ), Coimbrense ( Coimbrão ), 
^eirense ( Beirão ) Maranhense., bretão., Egypciaco., La- 
tino., Paulista., Romaico., Judeu (Judaico) Chinei (Chim) 
índio (indico, indiano) Portugue^^ Ingle^., France^ : Bra- 
sileiro (Brasiliense) , Essas desinências são de origem latina, 
com excepção de e^ ( contr. de e}ise, mas de emprego mo- 
derno ), e eiró., que não tem correspondente em latim, 
mas que formou alguns nomes ethnicos — Vimieiro., 
Barreiro, etc. ... 

21 . — Alguns nomes, pois, teem duas e três desinências. 

Os clássicos conservavam as desinências claras, isto é, 
as formas completas dos vocábulos : — Egypciano (Luc), 



3o3 



Persiano ( Vieira ), SyrianoEtjopiano (Pant. de Aveiro), 
Indiano^ Pormgalense^ etc ; hoje quasi todos elles se apre- 
sentam symcopados : — Persa^ Egypcio^ Etjope^ Syrto^ 

Assyrio^ Tndío, Vorluge^ 

22. — Os patronimicos, já vimos, derivam-se dos 
nomes próprios — com o suffixo es : — Alvares de Álvaro^ 
Gonçalves de Gonçalo. Soares de Soeiro^ etc . 

e ) 'Derivação dos verbos 

23. — O portuguez forma verbos derivados, de sub- 
stantivos, adjectivos primitivos, e de verbos simples. 

i"^. — De substantivos — Juntando-lhes : a) a termi- 
nação ar : — caminhar, tabaquear, ajoelhar, batalhar ; b) 
a terminação — isar, de iniroducção mais recente (=1. 
iiare, grego issare ) : — arborisar, romantisar ; c) a desi- 
nência içar ( 1. icare ) : — fabricar forjar, pregar ( predi- 
care ) ; f ) Ir, mas muito raro : — divertir, cuspir^ etc.) 

São pois quasi todos da i^conj. os verbos derivados 
de substantivos, os quaes exprimem o objecto da acção. 
Esses verbos exprimem ao mesmo tempo a acção e o 
objecto delia. Alimentar é dar alimento; espanar, saccu- 
dir com espanador ; ajoelhar é cahir em joelhos . 

Este processo era conhecido dos Latinos ( querelare de 
querela), e delle muito se aproveitaram os nossos maiores. 
São do Canc. da Vat. os seguintes exemplos — desemparar 
(84), alongar, alegerar (m), regai lar (20%)^ aven- 
tiirar. 

2°. — De adjectivos — Terminam: a) em ar, ir: — 
manear, ventar, denegrir; b) em isar : — fertilisar; e ) 
em ecer escer (1. escere)^ com os prefixos a em (en) 
etc . : — amarellecer, endurecei', emmagrecer, envelhecer . 

Os em ar são activos com sentido cansativo ; os em er e 
ir significam tornar-se, fa-{er (denegrir é fazer negra 
qualquer cousa, envelhecer — tornar-se ou fazer-se velho ). 



3o4 



3"^. — Dq verbos simples. Com os suffixos — icai', itar., 
iscar, inhar, migar, etc. ; — bebericar, namoricar, dor- 
mitar, chupitar, escrevinhar escoucinhar ' Estes verbos 
teem sentido diminutivo, frequentativo ou pejorativo. 

Destes verbos derivados formam-se substantivos em 
ola, or, ico, iga : — cantarola, escrevinhador, namorico., 
choramigas. 

Nota. — A derivação verbal, pois, faz-se por meio de 
suffixos próprios (derivação mediata ) : — caval-g-ar, 
pulver-is-ar ; ou pela simples addição ao thema de flexão 
verbal : — cant ir pensar . 

Para a derivação mediata conserva o portuguez quasi 
todos os suffixos latinos. 

a ) Suffixos nominaes. 

kgevi — viajar, ultrajar;: aço — embaraçar ; ça jã (■== [. ia ) — 
\nyQ.ja7' ã.gx?LCÍar; lho a ( 1. aliUj i7ia, ciihts ) — trabalha;- maravilhrt;- 
envelhecíTy ela — acautela;"/ ai — imniorta/zía;- igualar/ // — facil- 
itar; atiça acção — semelhar humilha;-/ bil — terrilil/.fa;" / ão ano — 
christianwar/ inho ino : — caminhar assassinar/ sião ião — occasiona;- 
questionar/ iitiie — costumar/ igcm — originar/ ngein — ferruginar/ 
anho ( 1. anens) — estranhar ; itra — misturar ; ario — contrariar : 
io — libertar ; ço — abraçar soluçar ; icia iça — acaricia;-^ espregui- 
çar ; ÍTO — cultivar^ motivar/ e/c — banquetear ( sem mod . do the- 
ma ), ífndo — vagabunda;- vagabundear/ r///o — alimenta;- parla- 
mentar, etc* 

Suffixos consoantes : 

Tb. ^. 1°) ic-ã (icare). Indica, /tv/í/ív/ír/a para o estado já indi- 
cado j semelhança, c frequência ou ainda diminuição, conforme vem 
junto a um nome ou a um verbo : — fabricarj pacificar j mastigar ^ 
•vingar, amargar j folgar j julgar, castigar, fustigar ; o g tam- 
bém é formativo em espargir (sparso)^ immergir (immerso). Nas 
linguas Romanas, ás vezes essas gutturaes são representadas por um jj 
o que faz suppor l° :) queda do r primitivo, 2?) intercalação de um j 
euphonico : — verdejar, flamejar, forjar , bocejar, calvcjar, branque- 
jar, dardejar, etc. 

Muitos são os novos derivados deste suffixo em portuguez :— 
madrugar, cavalgar, outorgar, (autorisare) , rasgar (rasicare lat. 
bar.), salgar, amolgar, etc... A nossa forma em ear, iar, já era, 
segundo affirma Diez, muito frequente nos antigos poetas (eare, iare) 



* A desin. -»íAaré muito popular: e7ide>noninhar, engofovinhar. actnhar 



3o5 



— folhear j guerrear j senhorear, manear j branquear j saborear j mas 
entre nós é mais usual o suíT. ejar^ planejar, manejar j cortejar, ve- 
lejar j etc. 

F*. I> — 1°) / — a (tare, sare). E' intens. em captar j imidar; 
mas em povtuguez tem em geral sentido frequentatlvo : — aproveitar, 
/untar j conquistar j despertar ; ousar , reuncarj nsar, avisar , olvidar j 
appelidar, crocitar, palpitar, e muitas outras palavras de creação re- 
cente ; 2°) — i-t-a (itare) frepuent. opt. ou simp. denom : — dor- 
mitar, noòil-iíar, dcbel-i'ar •,y t -i-a (tiare, siare) port. çar sar . 
São formas particulares do lat. vulgar, ás quaes se deve uma série de 
verbos transit. da i^conj.: — caçar, traçar, aliar, (alço) aguçar, 
(agudo) avelgaçar, pcusar, etc. . . . 

R, 1 — i» RE (lat. RI, Si) junta-se ao suff. DU, TU (lat. tu), e 
forma verbos desid : — ama-dii-re-cer; 2°) \kl (ol,V), tem valor frequent- 
e dimin. tanto com portuguez como em latim \— formigar, tremolar, 
granular, pull-ul-ar, vi-ol-ar, vent-il-ar ; 3°) C-UL — c-ulare), fre- 
quent. ás vezes dim.: — gesti-c-ular, os^c-ul-ar, .. . .,• 

A's vezes a consoante vem dobrada (LL — illare, dim.)LT — 
altare,ettere, ol-.arc, id. sombetear, esgravatar). 

N — Esta nasal dental, formava o thema tn\ po-n-er (põer, por), 
IN em ob-st-in-a-r , de-st-in-a-r, contam-in-a-r ; a forma UT (untare, 
entare), deu ás linguas Romanas grande numero de verbos da i* conj., 
quasi todos de significação intransitiva, porque nem sempre conser- 
varam a primitiva :— acalentar, levantar, acrescentar (crescer) ama- 
nietttar (mamar), amedrontar, tnolentar, apascc?itar (pascer) aparentar, 
espantar, ant. queniar, afugentar, aquentar (aquecer)^ endireitar, 
S. Ros. (endurecer) etc. 

S SC (ascere, escere iscere), forma verbos inchoativos, em geral 
da 2* conjug.; — crescer, acquiescer, nascer, e carecer, empobrecer, 
agradecer, atnanhecer, merecer, obscurecer, padecer, perecer, ver^ 
decer, envelhecer, etc. 

Muitos dos verbos derivados em SG, porém, perdem o sentido in» 
choativo :— apetecer, abastecer, guarnecer, enternecer, enfraquecer, 
etc ... . 

Èss iss indica reiteração, imitação, semelhança, isto é, forma 
verbos iterativos e desiderativos . Nós porém despresando esta forma 
grega lalinisada, adoptamos no periodo clássico, a puramente grega 
nos verbos formados com o suftixo \z (is) : — baptisar, (ant. bautizar) 
escandalisar, e por 2i.na.\og\z. jíídaisar, latinisar, autorisar, moralisar, 
escravisar , poetisar, tcmporisar, aromatisar, eternisar, democraíisar, 
pulverisar, tyrannisar, etc. 

Além destas derivações verbaes, temos — UGAR (batucar, beijocar, 
retoucar) USSARE, USARE (bambusar), AZZARE (escorraçar, esvoaçar, 
espedaçar) U22ARE (relampejar), ISCAR (belliscar petisc;ir); U?CAR 
(corr. do ult.— chamuscar) etc. . . 

Derivação grega 

24. — O portuguez também tomou do grego elementos 
de derivação, e ajunta os suffixos tanto a radicaes gregos 
como a latinos e portuguezes (F. Hybidrismo. Liç. 24). 

39 



3o6 



A medicina e a chimica são as duas sciencias que mais 
se teem aproveitado desta derivação para aperfeiçoamento 
de sua technologia (vide Liç. 24 Eiymologia pormgueia). 

2,5. — São principaes suffixos gregos entrantes na for- 
mação dos nossos vocábulos. 

i%.lgi£i ( «Xyoç — dôr ) : — odonialgia^ nevralgia^ 
nostalgia, gastràlgia. 

Oracia ( xpaTia — govemoj : — democracia, iheo- 
cracia, arisirocacia. 

Orisia ( xptSiç — juizo, R. — xpívw — julgar) : — hfpo' 
crisia^ cacocrisia. 

Alguns querem que hypocrisia e hypocrita venham do latim 
porque já em S. Jeronymo encontram-se as formas hjpocrisis, 
hypocrita ; mas a sua verdadeira derivação é grega — ( úirÒxptStç — j 
dissimulação. 

Oosnro ( xo(7[jlo — mundo ) : — microcosmo, macrocosmo. já 
vimos que muitas vezes cosmo serve de prefixo:— cosmogonia, coseno- 
graphia, cosmologia, cosmopolita j etc.': 

Oamia ( Ya(ji.oç — casamento ) : — bigamia., poly- 
gamia. 

Oastpio ( xa^-niv — ventre ) : — epigrasírio, hypo- 
gasirio. 

Oenia (revia = geração) — : androgenia., pathogenia., 
pyogeniaetc. 

Oeo (yewv = terra) — : perigeo, apogeo. 

Gnosia, gnose, goosis, (gnóstico) gonia 
(yvocrta, X^oait;, yovía = conhecimento) — : anlognosia, dia- 
gnosis, íheogonia^ cosmogonia ttc . e diagnostico. 

A desin. gonismo em aniogonisino vem do grego Y(óvt(T[jLaj donde se 
derivou antagonista . 

Oi-anima (Yp«{J^f*« =t letra ) — : anagramma., ept- 
gramma . 

Oraptie (yp»?"^ ) == escripta) — : epigraphe. 

Orapliia (Ypá^w = escrevo ou Xpácpetv = escrever — : 
geog7^aphia, typographia, lithographia etc, caeographia 
etc, d' onde 



3o7 



Oi*aplio(= que escreve) — : geographo, tjpogra- 
pho, liihographo. 

I^ittio (XíGoç = pedra) — : aerolitho 

LiOgia ( lokíoL^ := tratado X6yo; ) — : anthropologia, bio- 
logia, cacologia^ philologia^ tautologia, paleontologia, 
pathologia, geologia, astrologia. Derivados portuguezes — : 
tniPieralogia, etc. 

Ufachia ({^a/ta = combate) — : tauromachia. 

lllailisfc (fjiaAÍa = loucura) — : bibliomania, jnonoma- 
ília . 

Metro ( (JiéTpov = medida) — : barómetro., cronometro^ 
pluviometro., etc. 

lHetria (Ind. sciencia de medição) — : geometria., tri- 
gonometria 

maneia (de manteia) acção de predizer — cartomancia. 

IHetra (Ind= o que mede) — geometra etc. 

Hlétria acção de medir :• — geojnetria. 

IHorpIío (,u.od(p£= forma) — : amorpho. etc, donde amor- 
phia, etc . 

IVomo (vo.aoç = conhecedor) — ; astrónomo, agrónomo. 

IVomia (= conhecimento) — : astrono?7iia., agrono- 
mia . 

Orna lo (wfAaXoç = irregular) — : anómalo., donde ano- 
malia . 

Patliia ( ■JTotôoç = doença, aíFecção e sentimento) — : 
allopathia, Iiomeopathia^ sjmpathia., antipathia., etc. 

Phago (oàystv = comer) — : anthropophago, homo- 
phago., hippopJiago, etc. donde anthrophagia., etc . 

I*liilo ((piXo; = amigo) — : bibliophilo, Theophilo. 

Pliobia ( (poêoç = aversão, temor) — : hjdrophobia. 

F*liol>o (Id r= o que teme, e tem repugnância a...) — : 
hydrophobo., que tem aversão á agua com o mesmo sen 
tido em lat . hfdrophobus (Plinio) . 

I*lioro (^opo; = que produz) — : phosphoro, (que pro- 
duz luz) aromatophoro, etc . 



3o8 



í»liy to (cpuToç = crescer, «puxov, planta, creatura) — : 
neophfto^ ^oophyto. 

I»lexia. (de plexta, plexis) acção de bater, ferir, ata- 
car : apoplexia. 

I»oíia (ir o âú ç pé) : — antípoda, etc. No lat. ha a for- 
ma antis podes. 

Pola {^ to A £ t V vender) : — bibliopola . 

I^oli,-ii ([A o À t ç cidade) : — metropolis^ e nos nomes 
ethnicos ou locaes : — Tripoli., Andriopnli, Sebastopol cor- 
rupção, etc. Sebaslopolis)^ Petrópolis, Theresopolis . 

Scapi&i (scopia ; acção de olhar, ver): — microscopia. 

fâopliia (<T o <p í a sabedoria) : — philosophia, donde 
philosopho, etc. 

íStylo (o- T u X o V columna, pilar) : — peristylo. 

Xsctiiiia (t é X "*"^ « SiViQ., sciencia) : — atechuia, etc. 
d'onde a desinência technico — polytechnico, pyrotechnico 

Xlieca ( 9 ^x '^ deposito): — biblioiheca., pfnacotheca. 

Xliese (6 6 (T t ; posição) : — antithese. 

Xtiono, tono (t o v o c som) ; — monótono, arterio^ 
thoHo., donde monotonia, etc. 

Xomia (tomia) — de covt2iV anatomia, iirethrotomia . 

XIii*optiÍ£à (t p o Cp í a nutrição): — alrophia. Der. 
atrophiar., — mento . 

Typo (t u TT o ç typo modelo) : — archetypo, proto~ 

typo. 

A nossa lingua tendo a faculdade de crear novos verbos, é para 
sentir não entrem em circulação muitos de que carecemos, formando-os 
de substantivos ou adjectivos existentes, ou mesmo desarchaisando-os 
— No i^ caso estão— aZ/fuisnurr (já temos cgoisviar) inâifferenciarj Jft- 
disthiguir, vaguear (pastorear gado vaccum) T^r/íV^zZ/írtr, etc: no 27 
alfaiar^ harpar^ abeberar j cvtbruscar-sej encuminarj esquerdear^ Jit- 
bilar, medicinar, evipegar-se, frèarj sabadearj feriar^ palmejarj 
desprenhar (uma vez que conservarmos emfrenhar}^ Gravidar, di- 
mentarj estugar, patrisarj reptar j refertarj esmec/iarj iagantarj 
traiear, lindar, maridar, . . . Alguns desses verbos archaisados con- 
servam-se nas províncias e em alguns logarcs onde mais medrosa 
conservou -se a instrucção : por ex. o verbo pitichar usado no Rio 
Grande do Sul, e que é do tempo de Barros e Damião de Góes. 



DECIMA NONA LICAO 

Das palavras variáveis formadas no próprio seio 
da lingua portugueza. 



1 — o portuguez formou no próprio seio da lingua — 
substantivos^ adjectivos^ pronomes, e principalmente i^erbos . 

Já nos referimos a essa necessidade de accrescer, e ao 
parallelismo forçado do léxico com os progressos indus- 
triaes, artísticos e scientificos ; já vimos a importância da 
analogia na formação das palavras novas; o caudal im- 
menso que nos offerecem os dous processos da composição 
e derivação para crearmos palavras vernaculamente, e lhes 
desenvolvermos o sentido * . 

2 — As palavras nascem da actividade do pensa- 
mento. « O vocabulário é a photographia completa do 
saber de um povo ; é o ps^xhographo que indica e deixa 
registrados os successivos gráos por onde o espirito foi 
ascendendo. » 

Si creamos, descobrimos ou fabricamos uma cousa 
nova, é força dar-lhe um nome ; mas isso não basta, e 
em breve vem a necessidade dos compostos e derivados 
para exprimirmos a acção ou o logar onde ella se faz, o 
agente, a collectividade, o augmento, a extensão, a de- 
gradação do sentido, etc. Chuva, p. ex . , deu chuveiro, cho- 



« T. Lições 17, 18, 22, 23, 24. 



3io 



visco, chopiscar, chuvoso, chovediço ; feitoria^ — feitor ^fei' 
torisar^ feitorisação ; telegrapho, — te.egraphar, telegra- 
phista, telegraphico^ etc. 

3 — A palavra pôde ser de formação erudita (necrotério, 
viaducto) ou de creação popular. Sobre os vocábulos 
eruditos nada temos que accrescentar ao que expu- 
zemos nas lições passadas ; dos de origem popular pouco 
mais se nos offerece dizer. 

A's vezes o vocábulo popular logra ter entrada nas 
camadas superiores da sociedade { caniço, derriço, caliça, 
desobriga, palhaço, . . .)\ outras, porém, falta -lhe a força 
contraria a que também estão sujeitas as linguas, — a força 
conservadora — , e o vocábulo morre no nascedouro ou 
tempos depois ( esca/eder-se, cacunha^ bilontra ) . 

Levado também pela força creadora e revolucionaria, 
e sempre pela tendência metaphorica, o povo formou 
muitos vocábulos pejorativos : — um máo dentista é um 
sacamolas ; um medico imperito — um matasanos \ um 
esfolacaras é um máo barbeiro, um vadio \ um pintamonos 
é um máo pintor ; o sonso é um pisamansinho\ o cas- 
quilho — um pisajlôres ou pisaverde -^ o arruador — um 

trancaruas^ A par dos nomes scientificos temos 

outros também de formação popular, que são os de uso 
corrente : — girasol, 77tal-me-quer^amor-perJ'eiio^ chupa- 
mel^ beija-Jlôr^ bico de lacre, bem^te-vi, etc. 

4. — Os substantivos vernáculos formam-se pois 1° 
pela composição : 

a) de subst . + subst mestre-escola 

b) subst . + adj redea-falsa 

c) verbo 4- subst troca-tintas 

poria 'j'oi 

d) prep. 4- subst emre-casca 

e) subst. -f prep. + subst chefe de irem 

f ) verbo + verbo vaivém 

g) de palavras diversas bem-te-vi 



3ii 



2 .** — De um verbo : — vivenda ( de viver ), choro ( de 
chorar = 1. piorara ), lida { de lidar ) chama ( de chamar 
= 1. clamara ), chamarti^ ete. 

3.** — De um participio : — achada^ nascida^ picada, 
desfolhada, queimada 

4.0 — Pela derivação : — Os suffixos mais usados nas 
creações vernáculas são — ada ( limonada, chibatada ), 
ária (sapataria, cavallaria ), ada ( irmandade, sujidade), 
eiró ( sapateiro, charuteiro ), ismo ( abolicionismo, jorna- 
lismo), isia (abolicionista escravista), agem (friagem, 
criadagem), ão (escravidão, amarellidão ) etc. Todos 
esses nomes derivados portuguezes formaram- se, porém, 
. dos t}pos latinos ( Lição 18). 

5. — Os adjectivos de creação vernácula são em nu- 
mero avultado, eformaram-se pelos processos que vimos 
nas lições 17 e 18. O suf&xo 050 foi, e é ainda, um dos 
mais productivos: — gostoso^ buliçoso^ teimoso^ amargoso, 
feioso 

6.— Os nomes de números também deram algumas 
formações novas : — milhão, billião, trillião, quairil- 
Hão, etc . ; de-{avos, vinteavos, etc . . . vintena, iresdobro .,.. 

7. — São pronomes de formação portugueza = qual- 
quer, cada qual, quem quer, etc . 

8. — Nos verbos não pôde ser mais rica a nossa lingua 
no tocante a força creadora, quer sejam diminutivos ou 
frequentativos, quer inchoativos ou onomatopicos, etc. -, 
— barbear, entocar, caíucar, chatinar, papaguear, paga- 
guear, feitorar, bispar; encaiporar, mordomear, macaquear, 
r alojar (de relógio, F. Man.), velhaquear, iabaquear, ci' 
garrar, cachimbar, pinotear, sapatear, caranguejar, en- 
gatinhar, judear, cacarejar, grugulejar, miar, telegraphar, 
ialaphonar. . . , de substantivos com uma syllaba prefixada 
ou intercalação de lettra — adoecer, amanhecer, envelhecer, 
ensurdecer, emmagrecer, cabrejar, irastejar, sandejar 
CG. Vic). . .; de verbos —/e//omar, beijocar, barregar (de 



3l2 



berrar), chupitar (de chupar), espanejar (espanar), ajfor- 
mosenlar (de aíformosear), . . . adocicar, escrevinhar, treme- 
Ihicar .... 

Esta exuberância verbal data propriamente do Sec. 
XVI. - 

9.— O substantivo pôde também formar-se vernacula- 
mente de um facto histórico : — abrilista, setembrista^ 
cabralista, bond, etc. 

10. — Na derivação tem o portuguez uma fonte inesgo- 
tável para o augmento do vocabulário. 



V1GESI3ÍA LICÀO 



Das palavras invariáveis formadas no seio da 

lingua 



I. — Os advérbios, preposições e conjuncções de for- 
mação vernácula, correspondem a locuções anal3-ticas 
latinas : — assim = ad sic, agora hac Iiora^ assas = ad 
satts^ após:= adpos^ dentro =de intro, outrosim, ant. aliro 
5í'( = l. alierum sic)^ outrotanto ( = 1. alíerum tantum)^ 
etc, ou ainda de locuções portuguezas : — embora (em boa 
hora), outr'ora (em outra hora), etc. 

Todas essas palavras são phrases cujos eJementos fun- 
diram-se na primeira época de nossa lingua. A''s vezes, 
porém, a crystallisação já se encontra no latim bárbaro 
{abanté) . 

2. — Não adoptou o portuguez o typo latino em cr 
para a formação de advérbios {proplei\ breviter ) ; mas 
sim o em e, talvez por mais facilidade : a miude (minute),... 
( — V. Lição 28), e, depois (Sec. XV e XVI) o processo — 
também conhecido dos Latinos — de adverbiar um adje- 
ctivo, (V. pg, 108). Estes advérbios correspondem aos de 
modo em meme^ os quaes se formam de adjectivos qualifica- 
tivos femininos e de superlativos orgânicos — lindamente^ 
pessimamente . De melhormentc é expressão correcta. 

43 



:)14 

O portuguez também aproveitou -se da liberdade latina 
de empregar participios com força prepositiva — referente^ 
visto^ ... 

Todos esses processos são latinos : — 1, class hodie (hoc die), reipsa 
(re ipsa) ; 1. pop. — /laiic /loj-auij òona mente efe. 

3 . — São de formação portugueza : — depois^ adeame^ 
Jiontem, aníelioníem, ainda que^^ como quei\ aosadas aousa- 
das (ousadamente), taipe:;., portanto, d' ora avante., todavia., 
por conseguinte., etc, e principalmente as locuções : — a 
olho, de força., ás occultas., de siso, de maravilha., a pin- 
cho., a sabendas., de espaço., ás caladas., etc. 

Dos mesmos compostos — como veremos na etymo- 
logia — encontram-se formas correspondentes no latim 
popular. 

4. — Interjeições de formação vernácula só temos con- 
vencionaes e locutivas : — mal peccado, maocha ( em má 
hora ), farenego ! safa ! caluda ! aqui d' El- Rei !. . . 

5. — No port. antigo são muitas as palavras invariáveis, 
principalmente formadas pela composição, hoje de todo 
esquecida : aramá ( hora má ), hogano \{ hoc anno ), cada- 
nho ( cada anno ) anproom ( adiante, ao longo, ao sopé ), 
anfeste enfeste (para cima, Sec. XII, XIII), abondo 
(excessivamente ; Seé. XIII ); acarom ( defronte ), cada 
^we ( cada vez que, Canc. Vat.)., desi (desde então), de 
chano ( de prompto ), eiri eyri oyte oojte ( hontem ), jiiso 
( abaixo ), suso ( acima ), majiteneme ( detidamente ), 
euxano (cada um anno, Sec. XIII, C. V.\ a eertas 
(certamente, R. de S. "B.)., Qtc— V. Lição 28, etym. 



* V. Lição 28 — htym. das paL inv. 



VIGÉSIMA PRIMEIRA LlCÂO 



Etymologia portugueza. — Principios em que 
se baseia a etymologia. — Leis que presidi- 
ram á formação do léxico portuguez. 



1 — A philologia é a ph3'siologia de uma espécie ; a glot- 
tologia é a anatomia comparada de diíferentes espécies ; 
a etymologia é o estudo das formas primitivas, derivadas, 
e das acções physiologicas . '■ 

2 — A etymologia portugueza é pois do dominio philo- 
iogico : estuda somente o nosso vocabulário. 

Guiado por ella, mais clara se torna a comprehensão das 
palavras, mais acertado o seu emprego. 

3. — Ramo principal dos estudos philologicos e lin- 
guistiscos, não se occupa tão somente das formas pri- 
mitivas e derivadas, e dos sentidos das palavras ; mas 
também das inflexões e modificações grammaticaes, e 
considera as palavras nas suas relações syntaxicas. 

Por isso um philologo inglez escreveu que era a etymo- 
logia a historia domestica, a glottologia — as relações es- 
trangeiras. 

4. — De varias origens são os nossos vocábulos, como 
veremos na lição seguinte: (22) — O grego, o púnico, o 



Marsh, Man. 



3i6 



gothico, o árabe, o francez, inglez, allemao, italiano, afri- 
cano, o brazileiro (tupy, abanhaenã,). ... e maiormente, 
em mil dobrada proporção o latim, — clássico e po- 
pular. 

5. — Muitas vezes, percorrendo o léxico, encontramos 
palavras completamente mudas para a consciência actual 
da linguagem que só despertam sob o olhar escrutador 
do historiador, e revelando a sua historia, revelam do 
mesmo passo os costumes e a civilisação de outros 
tempos . — (Reboras, almotacé^ alcaide . . . . J 

O vocábulo palavra^ no sentido actual, — diz Darm- 
steter — , nada exprime hoje: consultando a et\niologia, 
de súbito a /?jraèo/a christã, a predica envangelica c um 
rejuvenescer maravilhoso de um mundo em decadência 
reapparecem aos nossos olhos. — E ella nos ensinará 
mais que a transformação fez-se pela forma interme • 
daria parola \ hoje só empregada com sentido pejorativo, 
paraavas^ pavapras [\\\tá . d^Alci. 

Si procurarmos a palavra liberiino^ a et\'mologia ensi- 
nar-nos-ha que se deriva do latim — libertinus {liberiíis) 
que significava o individuo livre da escravidão legal. 
O escravo manumittido era liberto (i. e. liberatus) com 
relação ao senhor ; em relação, porém, á classe a que 
pertencia depois da manumissão, era libertino. Id. no 
portuguez antigo, e íilho de escravo romano ; depois, 
homem de costumes desmanchados. 

6. — Por esteio principal tem a etNmologia a pho- 
netica; mas — -para ter cunho scicntifico — não pode cila 
dispensar o. > historia e a comparação. 

7. — A phonetica explica-nos a historia de cada um 
dos sons que compõem o vocábulo {\ . Lição 2*'^). 



' Cep. f. j)fl ro/c, prov. paraula (\n{ , iinrav1'i. lie=!p. jtalahra nnt. ^xi* 
rahla, it. parola. 

ro.rabula é de iiiliud. triiílUa. 



:>i 



As transformações phoneticas estáo subordinadas a 
regras geraes, ás quaes o homem obedece instinctiva- 
mente por motivo da acção ph3'siologica e da ps\xho- 
logica. Assim, p. ex., o enfraquecimento — mas lento e 
gradual — dos sons constitue as duas leis de menor 
acção e de transição^ communs a todas as línguas 
neolatinas , 

Cada uma delias, porém, e bem assim os dialectos 
e sub-dialectos têm suas leis particulares ; e, como já 
advertimos, a pronuncia muda de época para época, 
de província para província, de cidade para cidade, e 
até de aldêa para aldêa (reposta^ estamago, anteado, 
jfentagem^ Cathelmi, giollho....) 

Ha excepções devidas : 

a) C/í' analogia. — Cuidar, de cogiiare, deu cuidação^ 
e cogitar — cogitação ; dor, de dolor, deu doroso, e 
dolor — doloroso; do Sec. XII ao XIV pronuncia-se scola^ 
scondido^ spadua^ star, stiido^ etc, hoje (e assim já 
praticavam os Romanos no V Sec. para maior faci- 
lidade da pronuncia) escola^ espádua^ etc. 

b) Injlmncia intei^mediaria . — A's vezes adoptamos 
palavras latinas por intermédio de outra lingua, que 
assim escapam á acção das nossas leis phoneticas : — can- 
tata^ maestro^ {'it.) ch:iminé ( fr . — 1 . camminata ) . 

c) Injlmncia entdiía. — A formação erudita não se su- 
bordina ás leis phoneticas ; e nas palavras introduzidas no 
portuguez nos Sec. XV e XVI, as modificações que ellas 
apresentam escapam á analyse phonetica. Segral se- 
cular, cossario corsário, .... 

A essas excepções dá-se o nome de inizrferencias 
As três leis geraes das modificações phoneticas são 
as que seguem : 

I.* Persistência do accento tónico. — A conser- 
vação da syllaba que mais feria o ouvido deu ás palavras 
physionomia própria, caracter particular, e muitas vezes 



3i8 



o encurtamento delias ( na camada popular ) pela queda 
da desinência : — angdiis anjo, angiilus anco (ant.). 

2.® Perda da vogal breve : — coalhar = coag ( u ) 
lare, mascar == mast ( i ) care, obj^ar = op ( e ) rare, .... 

Nas inscripções latinas do Impeiio,, nos autores archaicos_, etc, 
encontram-se innumeros exemplos da perda da vogal atona : — ^e- 
richtvij pophiSj templum, t\.z.^^. periculumjpoptihiSj tempuhim, etc. 

3.^ Queda da consoante media: — s«ar=su (d) 
are, zVw^ar = vin ( d ) (i) care, crer ant. creer =cre 
( d) ere. arta = are ( n ) a, etc. 

8 — Historia — A historia descobre nos textos da 
baixa latinidade e nos primeiros documentos da nossa 
lingua a serie de formas intermediarias, e por conseguinte 
as varias transformações graduaes por que passou o vocá- 
bulo. Só ella nos ensina que bacharel tem origem em Sac- 
calarios, de 'Baccalarias ou ^accalares (lat. 'Baccalaria)^ 
nome que se dava até osec. IX ás propriedades ruraes 
servidas com uma junta de bois, etc. ^ 

O ISacharel ( bacculario ) era o que tinha dominio útil 
da propriedade, e era mais honrado que os simples lavra- 
dores ou colonos^ e desobrigado e livre de encargos civis 
(sec. X); depois designava o individuo que comquanto 
houvesse conseguido ordem militar, era ainda de pouca 
idade e poucos meios para ter pendão e caldeira ; mais 
tarde passou a denominação ('Bachaleres] aos benefi- 
ciados de cathedral e mosteiro, ou aos ministros de 
2» ordem (assisio) ; do sec . XVIII começou a significar o 
que obtém nas universidades dignidade ou titulo inferior 
ao de doutor. 

E' ainda pela historia que descobrimos que_/*rí75co não se 
deriva de vasculum, como escreveu o professor Diez, mas 
de flasca pequena garrafa (Isid. de Sev. ), que salário 



* Baccalator = vaqueiro. 



3i9 



tira origem na palavra sal ; que espórtula lembra a coena 
rec/a dos Romanos; que ybr/í7/(?ja, boca^ batter^ semanal ^ 
dobrar^ bat^lJu^ testa^ .... são do lat. pop . , posto muitas 
dessas formas se encontrem nos clássicos latinos. 

9 — A comparação verifica as h3-potheses, confrontando 
as formas portuguezas com as correspondentes nas outras 
linguas nio-latinas, e seus dialectos. Assim, comparando 
viagem, port. ant. vtage, com o hesp. viage, it. viaggio, 
prov. viatge, fr. ant. inaige,ví\oà. voyage, etc, convenr 
cemo-nos de que o vocábulo originário é o lat. viaticum, 
e que a desinência a'cum deu age nas formas populares. 
Comparando /ròe=l. lactem, noite=\. noctem^Qtc. com o 
italiano latte^ notíe ; hesp. leche^ noclie^ franc. latt, nuit, 
etc. chegamos á conclusão de que o c latino do grupo et 
não soava na pronuncia, como acontece nos nossos vocá- 
bulos jc/o.yijc/o, contracto^ etc. 

Quanto maior for o numero de dialectos romanos em 
que se encontra o vocábulo, tanto maior será a probabili- 
dade da sua derivação do latim vulgar. 

Mescabar poderá parecer á primeira vista formado do 
ali. m\s. it, mis. fr. mes ; mas historiando essa palavra nas 
outras linguas romanas, vemos que mes corresponde ao 
prov. meus, port. menos = lat. minus., e que mescabar 
é forma atrophiada de menoscabar. 

A comparação é pois ao mesmo tempo instrumento de 
investigação e da verificação. 

IO — Só a etymologia pôde reconstituir a forma typica 
das palavras desfiguradas ou gastas pelas migraçães, e pelos 
séculos no seu evolucionar lento e graduado. 

li — As palavras de formação erudita estão também 
subordinadas a certas leis. As de introducção antiga soffre- 
ram transformações phoneticas, mui principalmente nas 
desinências, compreição., reLimpado (p . relâmpago — Lucena 
etc. ) abondanças, malencolico^ etc. . . . 

As formações eruditas são em palavras importadas do 



320 



latim ou grego geralmente, ou ainda formadas no seio da 
lingua com elementos latinos ou gregos : — contumácia^ 
mamimissão^ hemicrania^ phoíographo, etc. 

Ao grego muito devem as sciencias a sua technologia, principal- 
mente a botarica, a medicina c a cliimica. Mas o emprego cada 
vez mais frequente de elementos gregos na formação das palavras 
portuguezas tem aberto brecha a muitos hybridismos — mineralogia j 
anglomaniVj plaiiispherio, etc. (Lição 24.) 

Essa predilecção pelas nomenclaturas scientificas de formação 
grega é um mal — porque, como observa Darmsteter, a plantação 
exótica, tendendo cada vez mais a desenvolver-se no meio da indígena, 
acabará t ilvez por abafal-as. 

Melhor fora buscar ao latim os elementos para novas creações 
vocabulares. Ainda ha mais: muitos dos compostos modernos des- 
afiam — na phrase de C. Nodier — as leis da analogia e do bom 
senso ; 1 ) e os próprios Gregos não lhes comprehendem o sentido. 

A prova temos em que, adoptando o systema métrico, elles re- 
geitaram a technologia por não comprehendel-a. Assim p. cx. — 
kilovieiro === medida de um asno (killos)j kliiloviciro, como outros 
escrevem = medida de feno, forragem (chi/os). 

Esta terminologia tem, porém, a vantagem de se fazer entendida 
facilmente dos homens^dasciencia. 

12 — As dicções novas, as de importação moderna, para 
terem entrada no vocabulário vulgar e existência real, de- 
vem nacionalisar-se, tomar devidamente o geito, a queda e 
o soar das com que ambiciona conviver. Ex. comradansa^ 
— ing, coiintrf danse ( dansa campestre ) manequim^ — 
ali. manneken (homemsinho. ) 

Todavia nas palavras importadas das linguas vivas mui- 
tas vezes conservamos o próprio tj po etymologico com 
foros de cidade: — lunch^ koulevard ( a par de baluarte ), 
Jioriíiire^jockey, íram>vaj\ bidl-dog^ roast-beef {o. rosbif)^ 
beef-steak ( e bifs-tek)^ etc. . . . 



' Hyãroficnco p. ex,. significa cousa produzida pela a^ua, e não o 
que produz agua ; anemia c privação dej sangue, falta total. 



VIGESSIMA SEGUNDA LIÇÃO 

Da constituição do léxico portuguez. — Lín- 
guas que maior contingente forneceram ao 
vocabulário prtuguez. ' 



I . — o vocabulário antigo é essencialmente latino: re- 
presenta uma evolução lenta da lingua /70/7Z//ar dos Ro- 
manos. Do Sec. XV em deante a importação latina é 
artificial, devida á corrente erudita. 

Além da circumstancia externa — persistência do vo- 
cabulário, havia outro interna, que dava ao portuguez jus 
de accrescer, — a fidelidade á tradição latina quanto aos 
processos essenciaes da composição e derivação das pa- 
lavras . 

2 . — O latim popular tinha muitas vezes vocábulo di- 
verso do latim clássico para exprimir a mesma idéa. Her- 
dámos ora uma só das formas, ora ambas ; ás vezes o erudito 
serve apenas para formar derivados. 



L. pop, 

caballus 
batti ere 
russus 
septimana 



Lat. class. 

equus 
verberare 
lubeus 
hebdomadas 



forni. pop. 

cavallo * 
bater 
russo 
semana 



forvi. erudita 

equestre j etc. 
verberar 
ruivo 
hebdovtadario * 



' Pacheco Júnior — Grainm. hist, — Elementos históricos. 

* Xo lera. encostou-se ao lai. clássico — f.oua. 

* Sec. XIII — hcbdoma. 



41 



322 



Z. pop. 


Lat. cjass. 


form. pop. 


form erudita 


batualia 


pugna 


batalha 


pugna 


parentes 


aftines 


parentes 


affins 


casa 


do mus 


casa 


domicilio 


testa 


frons 


testa 


fronte 


basiari 


osculari 


beijar 


oscular 


duplare 


duplicare 


dobrar 


duplicar 


focus 


ignis 


fogo 


Ígneo j etc. 


catus 


felix 


gato 


Jelino 


lutum 


coenum 


lodo 


ceno 


porta 


jauna 


porta 


janella 


terra 


tellus 


terra 


tellurio 


villa, civitatem 


urbs 


villa, cidade 


urbano 


rivus 


flumen 


rio 


jiumineo 




etc. 


etc. 





3. — As palavras simples ou derivados latinos são ás 
vezes representados no nosso léxico por derivados e com- 
postos formados segundo os processos de derivação e 
composição popular . Estas formas, porém, são heranças 
do latim basbaro ou por ellas moldadas : — dies — diurnus^ 
anie-abante. 

Outras vezes os substantivos simples são substituidos 
pelos diminutivos correspontes : — avíolusp. avus = a.yô^ 
acucula p. acus= agulha, aurícula p. íjz/n5= orelha, oviciila 
p. om = ovelha, apicida p . j/'/5 = abelha, luciniola p. 
lucinia = rouxinol, etc . 

Outras vezes ainda adoptou o portuguez derivados com 
thema ou suffixo diverso : — duplare — duplicar^ octernalis 
— ceiernus. 

4. — A^s vezes o mesmo vocábulo latino é que deu 
duas, três e quatro formas portuguezas distinctas, diver- 
gentes ( Lição 21^ ) : 



Lat. Form. prop. 

masticarc mascar 

kfralitatevi lealdade 

benedicere benzer 

clavícula cavilha, chavelha, cravelha 

macula mancha, malha, magoa 

etc .• etc. 



Forvi . erudita 

mastigar 

legalidade 

bemdizer 

clavicula 

macula 



323 



5. — No latim popular dos does. do Sec. XII, primeiro 
periodo da lingua portugueza, muitas palavras já apre- 
sentam forma portugueza. — sobrinho (suprinis nostris ), 
rio { id.), levar ( levare), havia (avia ), arroio ( id.), ro~ 

dondo^ Sec. XIII ; subúrbio^ pomar (pumares), 

Í7'mão, ant. ^er;«j«o, etc. (iermano), dona^ fornos, neto, 
( neptos ), criação ( criagom), logôa ( lagona ). . . / 

6. — E' de origem latina a maioria dos nomes de 
cousas que percebemos pelos sentidos ou conhecemos pela 
experiência ( hofnem, mulher, cavallo, cão, gaio, sol, lua, 

estrella, arvore, nuvem, pão, leite, rio, mar, monte ) ; 

os phenomenos ph3'sicos da natureza e suas causas ( chuva, 
raio, trovão, calor, frio, tempestade. . . . )i ^^ divisões do 
tempo ( primavera, outomno, estio, inverno, anno, mez, 
dia, hora, século, semana, os nomes dos mezes, os dias da 
semana, ^) ) ; os nomes de cores mais usuaes f encar- 
nado, verde, claro, negro, alvo ^) ; os nomes dos 

membros do corpo animal, e os das suas funcções : — 
( rosto, cara, * boca (1. p. bucca), testa, face, nariz, 
( narix, p . 7tans ), lábios, lingua, pálpebra, olho, orelha 
( aurícula ), sobrancelha ( supercilium ), mão, dedo, pé, 
unha, calcanhar ( calcaneum - calcaneo ), dente, ventre, 
perna, gambia, coxa, peito, costas, hombros ( humerus ), 

cabello, joelho ( ant. geoiho, lat. genuclum ) ; 

os nomes de porentesco : — pai, mãi, avô, filho, padrinho, ' 



* Poj-í, Mon. 

* — Saft&íJKfo rigorosaraento é hebraico, mas no 1. pop. havia sab- 
badi = Sabbati dies : ÍT. samedi, it. sabato, vai. sembete, prov. disapte 
= dies sabb'ti. 

* — Branco = germ. blanch : amarello e preto, do grego: azul = 
árabe í^mZ, pers. lazur :=l3ii. cceruleus (cerúleo). 

* — Cara = gr. cara. lat, vultus, fácies, forma: mas já o encon- 
tramos no latim do Sec. VI,' principalmente no sentido figurado : — Post- 
guam venere vcrendam Caesaris ante caram ( Coreppo — Panegyr. de 
Justino.) 

Barriga e nuca = germ, baldrich, nocke ( columna vertebral ) 
" — De pater. — Santissimum vir patrinus videlicct seu sjnriticalis 
pater lioter. doe. 752. 



324 



sobrinho, marido, esposa, sogro, nora (1. barb. nora)^ 
genro ( id, gener ), madrastra ( 1. prop. matraster ), neto 
(netos neptis ), irmão ( germanus, p. ant. germaho 
germaio germano Secs. XIII e XIV); cunhado { co- 
gnatus ^ ), Tio e tia=^v. theia, talvez por in- 
termédio do italiano :{ia. 

E' ainda do latim que nos vieram as palavras indi- 
cadoras dos deveres communs, a que se referem á vida 
moral e domestica, as que exprimem sentimentos, os 
numeraes, e — directa ou indirectamente — quasi todos 
os termos da vida moral, das invectivas, da facécia, e 
do linguajar da plebe. 

E' do latim que nos veio o emprego nominal de infini- 
tos e participios : — dever ^ jantar^ manjar^ poder. . . . 
appello, recibo^ peccado^ escripto^, . . . principalmente nas 
formas femininas — m/a, vinda^ comida escripta .... 

O povo, como era natural, adoptou o vocabulário 
popular — calus p . felix^ caballus p . equiis, batualia p . 
pugna ; mas no Sec . XIII a lingua era uma mistura 
de latim bárbaro com termos godos, árabes, proven- 
çaes, francezes e castelhanos. 

No Sec . XIV, passou ella por uma transição devida 
á ascendência da escola hespanhola, e á predominância 
e influencia clássica latina, que ainda perdurou no Sec. XV 
e estendeu -se ao XVI, notável pelo aturamento nos 
estudos das antiguidades greco -romanas, pelo culto ao 
clacismo^ e pela influencia da escola italiana. 

E' claro que essa cultura litteraria devia natural- 
mente e forçosamente introduzir grande numero de vocá- 
bulos tirados immediatamente dos autores latinos, c 
ainda das outras linguas que então tinham predominio. 

Dessa elaboração resultou o archaisamento de muitos 



' — Cognacio ind. parentescoconsaguiueo, em opposição a a/fímfos, 
que ind. gváo de parentesco por alliança. 



:>2D 



\ocabulos já portuguezes, que morreram na lucta syno- 
n\mica (V. L. 12) :— -ruão — cidadão, acarão — a par, 
samicas — por ventura^ hogano^ mmtchola .... 

Legitimo torna -se forma parallelo, mas preferida a 
lidimo, dispensa a dispensaçom^ logar a. logo^ secular 
a se gr ar ^ mesura a medida, porque a cj, quieto a quedo ^ 
integro a inteiro^ plano a châo^ . . . . e assim um numero 
crescido de formas divergentes. 

São deformação clássica ( Sec. XIV-XVI ) : — aniro= axiimni, — 
agr!co/a= agrícola, — aírio= atriíim, — ajtla^= aula, — ara= ara, — 
adnnco=^ aduncus,— auriga'= auriga, — auxí/io= auxilium, — adoles- 
sentc= adokscentcm, — aítingir= attingere, — crnor — cruorem, — 
coiiJiige= conjugem, — ceríaii!C=^ certamen, — conJlicto=^ conflictus, — 
catttaro=^ cantharus, — cohoric= cohortem, — diluctilo= diluculus, — 
ilo!o= dolus, — dti;idia^= desídia, — cgrcgio=^ egregius, — ertcío= ere- 
ctus, — flagicic= flagícium, — Jiagel/o= flagellum, — fausto — faustum, 

— fu/gido= fulgidus, — gladio= gladius, — gelido= gelídus, — Í7isania 
== insânia, — iiicrcia= inertia, — inoxia= inoxia, — ig!ieo= igneus, — 
ijic/iío= inclítus, — iiiervie^^^ mcrme., — /(^/zrtV^ lapidem, — /h'ido= 
lividus, — languido^= languidus, — lasso== lassus, — messe= messis, — 
iiauia = nauta, — mimem = numen, — odo7-= odorem, — 5r<^6'=orbem, 

— osciílo= csculum, — petiiiria= penúria, — frelio= prelium, — prc- 
cella=^ procella, — firogenie^^ progeniem, — r2bido= rabidus, — sapido 
= sapídus, — iritimpho^=-- tríumphus, — tnmuIo= tumulus, — liberdade 
= ubertatem, — verberais- verberare etc. . . 

8 — Elemento gemanico — Dos elementos céltico, pú- 
nico ( phenicio e casthaginez ) e germânico, herdamos algu- 
mas contribuições léxicas, mas deste ultimo em cem 
dobrado numero. Elias vieram-nos, porém, já latinisadas 
(mappa, cambiar e, parentes . . . ) 

Com a invasão das hordas barharas do Norte, o po- 
derio romano succumbiu também na península hispânica ; 
mas os vencidos, posto que pela superioridade de cultura 
intellectual e civilisação, houvessem imposto aos vence- 
dores — costumes, culto, e o próprio idioma, todavia não 
poderam deixar de aceitar muitíssimos vocábulos da lingua 
germânica, referentes ás suas instituições politicas e judi- 
ciarias, ao direito privado, aos titulos herarchicos, S3stema 
feudal, á guerra c navegação, ás di^■isõei arbitrarias do 



32Ó 



solo, etc. . . E este acressimoao atque peregrinum do latim 
de Hespanha, era- lhes de facil aceitação, que na lingua 
latina anterior á invasão da península pelos Godos, já pos- 
suía muitas palavras germânicas importadas pelos bárbaros 
alistados nos exércitos de Roma: — burgo (germ. burg^ for- 
tificação, praça fortificada; lat. biirgits)\ garante ( germ. 
gwaraiU^X. b. — yvarantus\ ganhar^ guerra { werra — 
confusão disputa), ^//aw/e (germ. ^>í^í3!;i/, 1. b. wantus\ 
5íím, salga sayo ( sago^ sagum}^ etc. 

São de origem germaniea : — '^arigel, baluarte, elmo 
Z^anfo (homem Ywvt) ^^ marechal mariscai {\. mariscalus, 
germ. marahscall ), seitechal senescal ( 1. seniscallus, germ. 
siniscall ), bando banho (edital, germ bannan, (b. bannum); 
adaga; patarata, feudo, rato ^), bosque ( ger. busch^ B. L. 
boschus ^ ), brasa *, guindar % rato, . . . e muitos 
termos náuticos, principalmente introduzidos pelos Nor- 
mandos, que invadiram a Gallizae mais tarde estancearam 
nas margens do Minho : — ^ordo (e dahia bordo, abordar, 
bombordo, estibordo. . .), arpéo, boie (bat. bot.), cábrea, 
canoa {kaan, barquinho), fragata, chalupa, croque, dique, 
galeota, quilha, etc. 

Muitos desses termos já nos vieram latinisados — senescaliiSj via- 
riscalcusj arauius, etc. 

9. — Elemento árabe, — No sec. VII os Árabes se- 
nhorea-se, de todo a península com excepção do ter- 
ritório Basco . A lingua arábica, tão grande foi a sua in- 
fluencia, muitíssimo enriqueceu o nosso léxico, maior- 
mente em termos referentes á vida ph3^s!ca, aos usos do- 
mésticos, intituições civis, politicas e militares, á techno- 



* Der. baronia, baronato, baronete. 
"* Ratazana, i-atoeira,. . . 

^ buscar, embuscaãa. . , 

* braseiro, 

* guindaste., . 



I 



327 

logia de contrucção, philosophia e sciencias medica e natu- 
raes. 

Muitos vocábulos perdemos desta origem : restam talvez 
uns Soo. 

oAllah, acicate, acipípe, asotéa, açougue, açude, ala^ão, 
alarve, alfandega, alca^ar, aljageme, alfinete, . . . \ azei- 
tona, assassino, argola, âmbar: beduíno, ba\ar, burnú, bar- 
raca, café, cáfila, cafre, camelo, carmim, caravana, califa, 
cifra^ {ero, cabala, cubebas ; falua ^ faquir{fakir)^ fulano, 
( fallacli- lavrador), farnel, farraf a, giveie, ga^ella, elixir, 
jasmin, laudano, kalifa, mameluco, marfim, mascara ar.) 
mascharat — risada, mofa, truonice), nafé, rababo, mes- 
quinho, recife, recua {recova), tamarindo, ^enitli, tarifa, 
talisman, xarope, etc. 

Como succedeu com o germânico, dos nomes que nos 
legou o elemento histórico árabe formamos verbos, etc. — 
alambicar, alcunhar, almoxarifado, alvoraçameníe . . . 

io.= Hebraico — Hoje são em numero decrescido, e 
muitos delles, principalmente os da linguagem hebraica, 
nos foram importadoi pelo latim ; como, p-ex., — abbade, 
alleluia, hossana, cherubim, hyssope. Nazareno, Bel^ebut, 
amen, seraphim, Saian Saianaz, sabbado, Messias Missa, 
Jesus, jubileo. Éden, 7jiand, jaspe, saphira, cabala, tal- 
mud. . . 

II. — A muitas outras linguas deve o portuguez — 
pelas relações commerciaes e litterarias — grande contin- 
gente para o léxico. Só trataremos das que para esse fim 
mais concorreram. 

a) Indico: — brâmane, bambu, bengala, bon^o, catana, 
cha, chávena, lacre, leque, mandarim, salamalek, xarão, 
cornaca, laca, mumia orangutango (homem florestal), 
peri, patchuli, cipayo, tambor y tarlatana . . . 



' Quasi tedos os que começam por aZ, que é o artigo árabe. 



328 



b) Slavo : — caleche^ ma^iivka^ vedowa^ Ixiiiit^ ciat^ 
cosaco^ dohnan^ steppe, iikase^ etc . 

Hespanhol : — castanheta^ castanholas, bolero^ sesta, 
sarabanda, cabotagem, camarilha, cigarro, mantilha, fan- 
dango, gitano (cigano), oilapodrida, piastra, câchucha, 
habamera, segiiidilha, etc. 

c) Italiano : — Este elemento mais influenciou a datar 
do Sec. XVI : — oágio, adagio, alarma, andante, aqua- 
rella, arlequim, bandido, bagatella, belladona, dilettanti, 
belveder, imbróglio, biiffo, cantata, dilletanti, doge, ga^etta, 
gôndola, lanarone, cavatina, madona, charlatão (de ciar- 
lare), contralto, fresco (t. de pint), prima dona, piano, 
pi-^icato, poltrona, scher:{ando, serenata, sonata), \soprano, 
tremnlo, tenor, libre tto, . . . 

d) Inglez : — Poucos vocábulos entraram na lingua no 
seu 1** período : hoje é que com as communicações mais 
estreitas, também mais vai augmentando o contigente : — 
bill, bond, btãdogue, beefsteak, rostbeef (rosbife), dand r, 
goom, grog, Jockey, Innch, piknik, rhiim, steeple-chase, 
sport, tiinnel, tilbnry, whist, boagoion, paquete (vapor), 

yacht, cutier, bolina, brigue, cheque (bilhete pagável ao 
portador), cabs, clown, club, coke, dollar, penny, jury, 
hurra, pickpocket, repórter, pudim, quaker, revolver, 
vagão, Sandwich, whiskey, tranuvay, lender, water-proof, 
high-life, meeting, etc. 

e) Allemão. Aqui nos referimos aos vocábulos impor- 
tados directamente do allemão moderno : — bismuto, 
cobalto, Kirsch, landwehr, mangane^, potassa, spath, 
:{inco, feld -marechal, feldspath, schopp, obu^, Kermesse, - 
canivete, landgrave^ rixdal (reichsihalep), thalweg (linha 



' Do lat. se>'a, noite ; e sonare resoar. 

* Kirohmessc. p. comp. : missa celebrada para conimemorar a fundaçiio 
011 inauguração de unia ogreja : regosijos públicos dados pr>r esta 
occ.iísião. 




329 



de juncção dos dous declivios de um valle, indicando a di- 
recção do curso d^agua), thalej\ etc. 

f) Francez. — Desde o primeiro periodo da formação 
da lingua que apparecem os vocábulos desta origem. 
A influencia do elemento francez tem sido grande desde o 
século XIII, posto muitas das palavras implantadas já 
se tenham archaisado : — jalne (amarello), escote^ vianda^ 
ialha^ aprés, ensembra^ oeta (fr. ouate), avrecures^ prevoste^ 
aproxes^ castramentaçóes^ D:{eres, ornaraques^ dobreíes, 

marídaes D''esses termos, porém, ainda nos ficaram 

muitos : — corneta^ caporal^ furriel^ quartel -me sire^ bar- 
bacan^ esquadrões^ quadrados ( de soldados ), meijon meison 
(maison), etc. ^ 

Não somos avessos aos gallicismos, quando necessários, — como por 
exemplo : patinar, guilhoiina, soiiiache, cache-nezj vis-à-vis,Jichúj 
e esses termos de mil cousas para enfeites femininos, modas, etc. uns 
por não terem equivalente no portuguez, outros por já fazerem parte 
da lingua popular. 

Si não consideramos gallicismos com S. Luiz, N. de Leão, Tullio, 
etc. — adiar, adiaine7ito, activar, felicitações j inabalavelj regressar j 
rotina, etc, e menos escusados, temos por muito para censurar a lepra 

dos bouquets, soirces,faitteiiil, lorgnonsj toilletfeSj blasé, ^ 

que não devem figurar no nosso léxico. 

Os neologismos de origem franceza mais se referem á 
moda, á mesa (iguarias), á ficção litteraria, ou são nomes 
próprios ou geographicos indicadores do producto ou in- 
venção : — gris-perle^ grenai^ ruche^ capotte, .... vol- 

au-veui, croqueiíe^ mayonnatse^ salada panachée^ 

amphytriâo^ harpa gon^ iariufo^ pantagruel^ . . . 'Bordeaux, 
Chambertin^ brie^ cognac^ bayoneta^ 7iiedoc^ daguer- 
re-o-typo^ guilhotina. 

g ) Africano — Algumas palavras desta origem foram 
introduzidas no portuguez indirectamente pelos Árabes 
até o Sec. XIV ( papagaio, azagaia. . . ) ; as outras vieram 



' Ou do lat. mansionem, mansão f 



33o 



directamente pelo commercio e trato entre Por tuguezes e 
Africanos ( bugio, bu^io, gímbo... — Sec. XV e XVI ; Gil 
Vic. I*, 122 etc. ), e ainda acrescentado no Brazil depois 
do XVII ( inhame, calundu, giló. ..). 

Quasi todos os vocábulos desta origem pertencem á lin- 
gua bunda, e aos dialectos do Congo : bania^ bambar, ban^é, 
( barulho, motim, disputa ), batuque^ cacunda { costas ), 
calunga^ cangerè^ catinga^ caxeringuengue ( faca velha ), 
jongo^ lundú^ macaco, malungo^ moleca moleque ( ou do 
Árabe?), marimba, manding a {íúúco)^ mulambo^ quegila, 
samba^ cumbuca^ sentai a ^ sova ( governador)^ urucungo, 
( instrumento mus. ), :{anga, ■{umbi^ ^ungú^ etc. 

Muitos desses vocábulos pertencem tão somente ao lé- 
xico brasileiro : camondongo^ calunga^ pucuman picu- 
mam ( fuligem ), muxinga ( açoite ), etc. .. 

Tanga é também palavra africana : mas no código Theod. 
C. V. XIV* tit. IO — cncontra-se a palavra izanga^ com o mesmo 
sentido. Ter-nos-hia o termo vindo de Africa directamente ou 
pelo latim ? 

Na linguagem do Brasil muito frequente é ainda hoje o 
emprego de termos do elemento africano, que apparece 
também, — ainda que raro — , nas canções populares: 

Você gosta de mim 

Eu de gosto de você ; 

Si papae consenti 

Oh l meu bem, 

Eu caso com você. 

Alê, alê, calunga 

Mussutíga, musssnnga ê ( ^ ) 

b ) Elemento brasileiro. — São muitíssimos os vocá- 
bulos que da lingua tupy ou abanaenga figuram no nosso 
léxico : — cabiuna, caboclo^ cacique^ capoeira ( mato ténue, 
ave), cuia^ embira^ P'^g'éi taba (aldeia), bore^ maracd 
( instr. mus. ), igara ( canoa feita de um toro ), ubá ( id. 
feita de cortiça ), tanajura^ (espécie de formiga), larabaia- 



Sylvio Romero — Cant, pog. hras. 



À 



33i 



«j, tacape^ langapema ( instr. de guerra ), acanguape^ 
( cocar de pennas ), onduapes ( tanga de pennas ), metara^ 
(pedaço de páo, osso, etc. que introduziam nos lábios), 
ay ucara ( collar feito de dentes e ossinhos dos inimigos 
mortos por quem o trazia ao pescoço ), curare ( urari ), 
caipora ( d'onde caiporismo ), — caa-pora^ iiabitador do 
matto ; mandioca^ tapera^ etc. 

Na ichtiologia, ornithologia, e na flora, etc. muito enri- 
queceu o elemento brasílico o nosso vocabulário : — aba- 
caxi^ abacate, taquara^ taquãrussú,\ arara^ capini^ caroba, 
cajú^gerimum^ sipó^ goiaba^ guaxima^ embira^ jaboiicaba, 
peroba^ jacarandá, poaya^ pita^ pitanga, sapucaia^ ta- 
pioca, . . . juriiti^ acará, carapicú, corocoroca, mandy, 
mossum, . . . inhambú araponga^ arara, caboré, sabiá ( e 
todas as espécies : — guacú, guba, piranga, pen\ poça, 
sica, iinga, una), urubu gaturamo, jacu soco. . . capivara, 
coaii, gia (rã), giboya, mico, marimbondo, mutuca, paca, 
snssuran2, surucucú, tamanduá, . . . 

Também crescidissimo é o numero dos nomes locaes 

no Brazil — oAndarahy (morcegos rio), oAraripe, Aracaju, 

Cacapava, '\Baependf, Capanema, Cabuçú, Carioca, Ceará, 

Catumby, Curitiba, Icarahy, Itapuca, 'Pernambuco, Ti- 

juca, Catteie, . . . 

Como do elemento árabe e germânico, etc herdamos 
nomes, e delles derivamos verbos : — catucar, capinar, 
E^caiporar, íocaiar (íicar na tocaia, i e. , á espera),. . . ^ 

Na poesia popular do Brazil, principalmente do Norte, 
apparececem phrases indígenas entresachadas, como es- 
tribilhos ; 

Te mandei um passarinho 
Patuá mire pupê ; 

Pintadinho de amarello 
Iporanga ne ianê 

(S. Rom. lac. cit.) 



' O Dr. Macedo Soares publicoa aobreesta derivação, no Rev, Brás., 
Tim trabalho de merecimento. 



332 



Vamos dar a despedida 
Mandu Sarará 

Como deu o passarinho 
Mandu Sarará * . . . 

(Id) 

O numero de vocábulos desta origem, que só figuram 
no léxico brasileiro, i e., que são desconhecidos em 
Portugal, é passante de 5ooo. 

1 1 — Ainda, além desses elementos, com o jus de 
augmental-os pelos processos da composição e derivação 
(Lições 17 e 18, 19*), temo portuguez outros de não 
menor valor para a constituição do léxico. 

I. — Nomes locaes: — artesiano (de Artois ), arminho 
( da Armemia ), avellã ( Avella, cidade da Campania ), 
baioneta ( Bayonna, cidade da França ), berlinda ( Berlim ), 
bohemio (Bohemia), ^ne ( França ), casimira, cambraia, 
cachemira, campeche, chambertin (França, vinho tinto), 
chajupagne, chester^ curaçao ( licor das Antilhas ), 
falerno ( Itália ), Gallileo ( J^sus, antiga provincia da 
Palestina ), gaivota ( Gavot, cidade da França), gruyere, 
itálico ( typo de imprensa ), laconismo ( Laconia), landau 
( Baviera rhenana ), madapolão ( cidade do Indostão ), 
havana, musselina ( Mussul, cidade da Mesopotâmia ), 
nankin ( cidade de China ), Nazareno { de Nazareih ) pa- 
raty ( aguardente de Paraty ), 'Persianna{ Pérsia ), faisâo 
( Phasis), Torto^ Siirnhy (farinha de S. ), sauterne, 
sevres, xere:{, cordovão (Córdova ), marroqiàm (Marrocos), 
pistola ( Pist03'a ) 

2 . — Nomes próprios de individuos: oAristarco juiz severo, 
biicephalo ( cavallo de Alexandre : hojecavallo de batalha j, 
Cíi/e/jmo ( lexicographo italiano — hoje collecção de notas), 
catilinarias ( de Catelina), elzevir ( impressores do Leyde ), 
el^everiano^ etc . , Galvanismo galvanoplasta ( de Galvani, 



* Zatm— la tinisar, alatinado, latininismo, lalino-mauia, etc. 



333 



physico e medico de Bolonha, século XMII ) la^aro^ laza- 
rento lazareto la:{arísla ( Lazaro, da parábola evangélica ), 
mecenas protetor das lettras, de Mecenas favorito de Au- 
gusto, macadam ( do engenheiro Mac-Adam ), nicotina ( de 
Nicot, embaixador de França em Portugal, conhecido 
sobretudo por ter importado o tabaco em França 1492- 
1577), etc... 

3. — Transferencia — Egi^eja romana^ cúria Romana, 
pedante iy. também — semeiologia^Xicõ.06^) alarve^ ma- 
landrino . 

4. — Ficção litterarta : — um matamouros (com. hesp.) 
um harpagão (muito avarento — com. de Molière), um 
dom Quixote (blasonador de bravo, etc. — romance de 
Cevantes), Tartufo^"Toltchinello^ Rocinanle. 

5. — Mythologia, CRENÇAS E CRENDICES: — avgouauto 
(de argos)^ QArgus\{olhos de o/lrgos^ muito penetrantes). 
Medusa (cabeça de Medusa — ) ; hermes hermético her- 
meticamente (de Hermes, nome grego de Mercúrio, e 
Hermes Trismegista) ; chimera chimerico, pânico (de Pan), 
hercúleo (de Hercules), vutcanico vulcanite^ etc. (Vulcano) 
lamures. caipora^ jovial (Jove, porque Júpiter era a planeta 
mais feliz), 5J?/?/rwmo (triste, grave, refolhado — porque o 
planeta Saturno inspirava gravidade, etc), lunático^ marcial 
(de Marte) . . . 

6. — Erro etymologico : — Índio {o habitante do Bra- 
zil). 

7. — Analogia : — bom humor ^ máo humor ^tic. 

8. — Títulos, CARGOS, OFFicios: — maire^ landlord^ land- 
grave^ delegado, presidente. . . 

9. — Os costumes, a caça, a pesca, os vicios e as artes, 
a guerra e a politica, os jogos e a agricultura, as machinas 
e instrumentos, as peças delles componentes ( gata., porca., 
cachorro., cavalete., mosquete., etc.) ; as metaphoras (emolu- 
meníum., o que se pagava a moleiro pela moenda, depois 
proveito, ganho ; salarium., quantidade de sal|que se dava 



334 



como pagamento, hoje estipendio ou aluguel do traba- 
lhador — (V. Lição — 6^ e 21®) ; o condestaifel era o chefe 
das estribarias ; o marechal^ o guarda dos cavallos ; o vassalo 
transforma-se no vassalete^ que se degrada no valete \ o hu- 
milde ;mm5/èr (criado) torna -se ministro do Estado. 

« As phases percorridas pela lingua em suas modificações 
são como o reflexo exacto das revoluções politicas e mo- 
raes » porque passara o espirito publico na provinda his- 
pânica, em Portugal e no Brazil. 

Ainda temos mais as viagens e o commercio : — tatua- 
gem^ Simun etc. 

Resta fallar do elemento grego. 

Na formação do portuguez vulgar foi este elemento 
etymologico em extremo insignificante. 

Só no sec. XIV é que elle começa a entrar na lingua, 
mas por intermédio do latim, que já posssuia certo numero 
de palavras gregas (bjrsa^ buticula, cara, colla, ... — bolsa, 

botelha, cara, colla, episcopus, apostolus, diaconus, 

parábola, ecclesia. . . .) 

Temos alguns nomes dessa derivação que hoje fazem 
parte de lingua popular: — democracia, monarchta, eco^ 
nomia, agonia, harmonia, anarchia, melodia, gymnastica, 
poema, politica, sophisma, tyrannia, déspota. . . 

Nos séculos XV e XVI a corrente erudita deu entrada a 
mais algumas palavras cujo numero recresceu desde o 
XVIII, especialmente na terminologia scientifica. Hoje, na 
medicina e nas sciencias naturaes, triumpha a nomencla- 
tura grega, principalmente por sua força formadora pelos 
processos da derivação e composição ( Lições 17® e 18®.) 

Dos vocábulos de creação moderna, muitos também já 
pertencem á linguagem popular : — telegrapho, telephone, 
typographia, polftheama, cosmorana, necrotério, gaio- 
metro, polytechnica, gramma ( peso ), metro ( medida de 
extensão ) . . . 

São hoje em não pequeno numero os suffixos e prefixos 



335 



gregos (partículas e termos), que entram na formação de 
palavras portuguezas ; mais de 8o raízes verbaes gregas 
contém o nosso léxico ; mais de 3.ooo vocábulos possuí- 
mos actualmente derivados desse elemento histórico, graças 
ao direito de accrescimo que nos facultam os processos de 
novas formações. Assim, p. ex., kosmos deu-nos — cós- 
mico, cosmogonia, cosmogonico, cosmographia, cosmo- 
logia, cosmopolita, cosmorama, microcosmo ; metro, — 
metro, decametro, decimetro, millimetro, metrologia, me- 
trologo, metronomo, pirimetro, isoperimetro, diâmetro, 
symetria, S3^metríco, semetrisar, symetricamente, asyme- 
trico, acrometro, gazometro, chronometro, hydrometro, 
pentametro, fpluvíometro, thermometro, barómetro, geo- 
metria, trigonometria, hexametro, etc . ; auto — autobrígra- 
phia, autobiographo, autobiographico, autochthone, au- 
tocracia, autocrata, autocrático, autographo ( — iar, — ia, 

— ico), autómato, automático, automotor, automotriz, 
autonomia, autónomo, autoplastia (t. de cirurgia), autopsia, 

— ar, etc. , . . 

i3. — Em remate — O portuguez recebeu do latim a 
tradição oral de expressões, idéas e imagens ; transmittiu-a 
ás gerações seguintes pela força conservadora, mas modi- 
ficada, e dilatada neologicamente, pela força revolucio- 
naria . 

E cumpre não esquecer a acção ps3xhologica, cujo pro- 
cesso muito tem avolumado o nosso léxico, e consiste na 
transferenciado sentido do vocábulo (V. Lição 6^). 

As línguas não se fixam : « são rios que tendem sempre 
a augmentar em caudaes á proporção que mais se alongam 
da matriz. » 



VIGÉSIMA TERCEIRA LIÇÃO 

Caracter differencial entre os vocábulos de 
origem popular e os de formação erudita. 
Duplas, formas divergente. 

i.o — o nosso vocabulário comp5e-se de três cama- 
das de palavras — popular, estrangeira e erudita (Lie. 22). 

São, por assim dizer, distinctas, a linguagem vulgar e 
a erudita ; mas a instrucção, que cada vez mais se vae 
entranhando na classe popular, e a imprensa (que é a 
lingua escripta), muito concorrem para que se vá apa- 
gando pouco e pouco a linha que as estrema. Já vimos 
que muitos vocábulos de formação erudita figuram hoje 
no léxico popular {varíola^ applacar^ pústula, blasphemar^ 
arcJianjo^ telegramma^ atheo, geographia^ •'••)'■> certas 
partículas formativas, latinas e gregas, são hoje vulgar 
(ex — ex- chefe, ario — partidário, . . . . ) 

O que acontece muitas vezes na linguagem popular é 
o vocábulo mudar de sentido (Lie. 6^) ou soíírer alguma 
modificação — alarve^ patife^ murcido (cp. murcho),.... 
"Beeito bieito bento ^enedicto. 

2.° — A's vezes da mesma palavra latina derivam 
duas ou mais portuguezas, umas de fundo classieo e 
outras de fundo popular, (pag. ) 

LAT. FORM. rOP. FORM. ERUD. 

Niíidiivt nédio nitido 

cuviulus combro cumulo 

colliçcrc colher colligir 

* ° 43 



338 



LAT. 


FORM. POP. 


FORM. ERUD 


captare 
plejiíis 


catar 
cheio 


captar 
pleno 


impregnare 
coghatus 
especuhini 
stagnare 


imprenhar 
cunhado 
espelho 
estancar 


impregnar 
cognato 
especulo 
estagnar 



3 . ° — Os vocábulos populares (infiltrados pelo ouvido) 
são mais contrahidos porque moldaram-se nas formas 
populares latinas, ]á regularmente contrahidas (frigdo 
p. frigidus^ anglo p. angulus^ caldo p. calidus^ poplo 
p. popiiliís, templo p. tempiilnm^. . . .) \ e a sua for- 
mação foi sempre presidida pelas três leis geraes e fe- 
cundas a que nos referimos na lição antecedente {mascar 
= mast (i) care, obrar t:=op (e) rare ; mãe = ma. (t) 
er, arêa = are, (n) a, doar = do (t) are,....) 

Os vocábulos de origem erudita, vasando-se directa- 
mente no typo escripto latino, retomam a vogal atona 
e a consoante media (mastigar^ operar, arena, dotar. . . .) 

4. — A essas palavras, de origem commum e muitas 
vezes de sentido diverso, deram os philologos os nomes 
de FORMAS DIVERGENTES OU DUPLAS. Esta denomiuação é mal 
cabida porque se as derivações são geralmente duplas, 
também as temos triplas e quadrupnlas, etc . : cavilha cha- 
velha cravelha clavícula^ mancha malha magoa macula; 
ben:{ido bento beneito (Canc. Vat.) Beento (Sec. XIV) Bieito 
Fie/Vo (Canc. Vat.) Benedicto; cabedal cabedel{Act. dos 
Apost. Sec. XV) coudel caudal capital .. . 

5. — São varias as causas das formas divergentes. 

I .* A degeneração phonetica, a que nos referimos acima 
e que ás vezes por tal forma modifica o vocábulo que de 
todo perdemos o seu sentido etymologico. Foi o que p. ex. 
succedeu com o verbo ben^er^ que fez-nos ir buscar a outra 
forma á lingua originaria — benidi^er ( = benedicere ) para 
exprimir acção opposta a maldizer ; artelho e artigo ; área 
e arena f bodega e botica, ladino e latino, etc. . 



339 



2.* A adopção de uma palavra de língua estrangeira, 
mas da mesma origem que outra já existente no portuguez 
e de derivação directa. 



LATIM 


F. PORT. 


F. ESTR. 


Crespus 


Crespo 


Crepe (fr) 


Domina 


Dona 


Dama (id) 


Hospitalem 


Hospital 


Hotel (id.) 


Alacrem 


Alegre 


AUegro (it) 


Opera 


Obra. id. 


Opera (it) 


Planus 


Chão plano 


Lhano (htsp) 


Caballarium 


Cavalleiro 


Cavalheiro (fr) 


Duos 


Dous 


Duo (it) 



3 . ^ — A variação dialectal, que deriva uma forma 
popular de outra já existente no portuguez : 



LAT. 



PORT. 



Basium 


Beijo beiço 


Platus 


Chato prato 


Dominus 


Dono dom 


Santus 


Santo são 


Plaga 


Chaga praça 


Medulla 


Moella mioUo 


Patrem 


Padre pae 



4* — Renovação erudita, principalmente do sec. XV 
em diante. 



F. POP. 


F. ERUD. 


Lat. 


adro 


átrio (S. XVI) 


atrium 


alvitre 


arbitrio (XV) 


arbitrium 


amêndoa 


amygdala (XIX) 


amydala 


bramar 


blasphemar (XIV) 


blasphemare 


confiança 


confidencia 


confidentia 


delgado 


delicado 


delicatus 


estreito 


estricto 


strictus 


cobrar 


coperar 


coaperare 


inteiro 


integro 


integrus 



A's vezes o mesmo typo latino dá duas e mais formas 
populares : — coroa coronha ( = corona ), chumbo plumo 
prumo ( plumbus ), mancha magoa malha ( macnla).. . 

5* — A deslocação do accento da palavra popular e o 
imparisyllabismo da derivação latina: — polpa polvpo^ 



340 



praça platéa ( = plátea),. . . drago dragão ( = draco dra- 
conem), serpe ( nom. ) serpente (acc.) virgo inrgem ( acc. ), 
erro (nom . ) error ( accus . ) . . . 

6.* — A mudança de género: — tormento tormenta^ 
gigo giga, barco barca^ cinto cinta 

6. — O processo da derivação divergente data das pri- 
meiras phases da lingua, e muitas formas são hoje archai- 
cas : — sages sábio sapiente, esmar estimar ( suspeitar 
avaliar ) tredo trahidor, fio ^do, enseja insidia, cajom cajão 
occasião, etc. denostos deostos áoQstos, emprir encher = 1. 
implere, etc 

7. — A onomástica também apresenta grande numero 
de duplas : 

Fagundo de facundo 

Dulce doce 

Angelo anjo 

Bcnedicto Bento 

8.''^ — Em algumas palavras derivadas transparece 
ainda o processo de derivação divergente : 

íímeigar mitigar 

rt^^vastar gastar 

í/í?plorar chorar 

9.= Temos ainda formas sub -duplas ou rcdiver gentes, 
de derivação secundaria : — Sanchico de Sancho, Paulino 
de Taulo 

A esta categoria pertencem as formas divergentes de 
nomes gentílicos : — T^eirão Tíeirense^ Sergipano Sergi" 
pense Lisboeta Lisbonense, T^raguei Bracarense, .... Bra^ 
fileira Bra^iliense^ oAnglo Ingle^^ 

10, — o Intim já conhecia essas bifurcações vocabulares : — //;//- 

pidiis liqniãtis, bcllmn dtie/hniij coluvniba falinnba, fel bi lis , que 

no portuguez constituem formas divergentes indirectas *). O Grego 
também apresenta certo numcio de duplas : — Kr adia Kardia ( co- 
ração ), Kirneini Kerammmi ( misturar ) etc. * 



») Bréal et Railly —dict. Etym. ixt. 
*) Buflry — Grani' coivp. 



34 1 



II.— Em seguida, damos uma lista abreviada de al- 
gumas formas divergentes, advertindo, porém, que muitís- 
simas vezes a derivação é apparente ; houve apenas concur- 
rencia entre palavras latines populares e eruditas: — 'Dobrar 
^^ \. hd.rh. duplare -^ duplicar =\. class. diiplicare. 

Tropa é do lat. barb. irupiis^ trupa (= rebanho \ Si 
enim in tróppo úq jumeniis^ etc, Lex oAlamannorum ), e 
não é forma divergente de turba. 

Coda = {^t. pop. codã^ cauda =\. class. cauda \ Siso 
deriva de seso., e consequentemente não é dupla de senso= 
1 . S2HSUS ; pardo = 1 . pop . pardiis ( da cor de panthera — 
pard ), pallidus= 1. class. pallidus ),....; prisão não é 
forma divergente, como se tem escripto, depreJiensão., mas 
deriva át presionem ;. . . A's vezes uma das palavras tira 
origem no latim e a outra deriva de vocábulo já portuguez : 
— colheita vem de colher ( colligido, escolheito ), collecta de 
collectar \ bispado de bispo, episcopado do lat . episcopatus ; 
coser., do lat. cosere, cosiuhar de cosinha (lat. coquina ; 

1. pop. coquinare ? ), ; ou ainda uma palavra é de 

origem popular a outra de origem estrangeira. 



F. fort. pap. 



Derivação erudita 



/•". class. 



Lat, 



acro 


átrio 


Atrium 


avrego abrego afrcgo 


africo 


africus 


alegria 


alacridade 


alacritatem 


Agosto 


Augusto 


angustus 


ajndorio 


adjutorio 


adjutorium 


acenar 


assigr.ar 


assignare 


arêa 


arena 


arena 


alhear 


allienar 


allienare 


allumiar 


illuminar 


illuminare 


alvedrio alvitre * 


arbítrio 


arbitrium 


austinado 


obstinado 


obstinatns 


amêndoa 


amygdala 


amygdala 


apagar 


aplacar 


aplacara 



* Eibitrio, eibitrario, eibitrar, Sec. XV. 



342 



F. port. pop' 


F, class. 


Lat. 


anjeo anjo 


Angelo 


angelus 


aprender 


aprehender 


aprehendere 


artigo 


artelho 


articulus 


aspeito 


aspecto 


aspectus 


assemelhar 


assimilar 


assim ilare 


asmo 


ázimo 


azimus 


assobio 


silvo sibillo 


sibilum 


assoprar 


insuflar 


iusuflare 


avesso 


adverso 


adversus 


bainha 


vagina 


vagina 


bodega 


botica ( inf . franc. 


? ) apotheca 


bolla bolha 


bulia 


bulia 


bento ( beeito etc. 


) Benedlcto 


benedictus 


bolbo 


bulbo 


bulbus 


bostella 


pustuUa 


pústulla 


cabido 


capitulo 


capitulus 


cadafalso 


catafalco 


catafalcus 


cadeira 


cathedra 


cathedra 


caldo 


callido 


callidus 


cousa 


causa 


causa 


carrear 


carregar 


carricare 


cabedal 


capital 


capital 


cantiga 


cântico 


oanticus 


caramunha 


querimonia 


querimonia 


chamar (jamar Sec, 


• XlV) clamar 


clamara 


chão 


plano 


planus 


chantar ( arch . ') 


plantar 


plantara 


chanto ( arch.) 


pranto 


planctus 


ehave 


clave 


clavis 


eheio 


pleno 


plenus 


chico ( arch.) 


exíguo 


exiguus 


chumbo 


prumo plumo 


plumbus 


cem 


cento 


centum 


chamma 


flamma 


flamma 


chocarre.ro 


jograleiro 


jocularius 


chaga 


praga 


plaga 


conchavo 


conclave 


conclave 2 


cobrar 


cooperar 


cooperare 


côdea 


crosta 




coima 


calumnia 


calumnia 


catar caçar 


captar 


captiare, captara 3 


colher 


colligir 


colligira 


colgar 


coUocar 


coUocare 


coalhar 


coagular 


coagulara 



* D'oQde canteiro, logar onde se planta. 

* Cum clxvis = com chave . 

' Geralmente dão como dupla capturar de eaptMrarc— Capture feras, 
(Prop.) 



i 



343 



F. port' fap. 


F, class. 


Lat. 


cômoro 


cumulo 


cumulus 


contar 


computar 


computare 


cunhado 


cognato 


cognatus 


comprar 


comparar 


comparare 


creto (ant.) 


credito 


creditns 


chavelha cravelha cavilha clavícula 


clavícula 


crasta 


claustro 


claustrum 


cuidar 


cogitar 


cogitare 


chapa 


capa 


capa 


desenho 


desígnio 


designium 


delgado 


delicado 


delicatus 


dedo 


digito 


digitus 


doar 


dotar 


dotare 


doação 


dotação 


dotationem 


direito 


direito 


directus 


deão 


decano 


decanus 


divida 


debito 


debitus 


descer 


descender 


deseendere 


dizima 


decima 


decima 


dobro 


duplo 


duplus duplum 


dormidouro 


dormitório 


dormitorius 1 


eira 


área 


área 


emprenhar 


impregnar 


impregnare 


ensosso 


insulso 


insulsus 


enxabido 


insípido 


insipidus 


esburgar 


expurgar 


expurgare 


escada 


escala 


scala 


escutar 


auscultar 


auscultare 


escuro 


obscuro 


obscuras 


esgaravatar 


escarificar 


scarificare 


espádua 


espátula 


spatula 


estancar 


estagnar 


stagnare 


extorcer 


extorquir 


extorquire 2 


esvigar (arch.) 


edificar 


editicare 


estreito 


escricto 


strictus 


espelho 


especulo 


speculum 


errada 


errata 


errata 


estiar 


estivar 


stivare 


eiguer 


erigir 


erigere 


febra 


fibra 


fibra 


feira 


feria 


feria 


feitura 


factura 


factura 


fino, finto findo (Sec. 


XVl) finito 


finitus 


frio 


frigidc 


frigidus 


fiúza 


fiducia 


fidutiae 


froco 


floco 


flocus 



* V . suffixos — ouro e orio . 

* Torcer — 1. torquere. 



344 



F. poxt. pap. 


F. c/ss. 


Lat, 


funil. 


fundibulo 


fundibulum 


frente . 


irontc 


frontem 


gotto . 


guttur 


guttur 


gola 


gula 


gula 


geral 


general 


general 


hombro 


humero 


humerus 


herdeiro 


hereditário 


heredtarius 


herege 


herético 


hereticus 


inereo (arch) 


incrédulo 


incrcdulus ' 


ilha 


insua 


insula 


inxabido 


insípido 


insapidus 


inteiro 


integro 


integrus 


ladino 


latino 


latinus 


ladainha 


litania 


litania 


lande 


glande 


glandem 


lavrar lobotar 


laborar 


lavorarc 


livrar 


liberar 


liberarc 


lembrar ^ 


memorar 


mcmorarc 


leal 


legal 


legalem 


ligeiro 


aligero 


aligeri 


liar 


ligar 


ligare 


limpo (lindo) 


limpido 


limpidus 


logro 


lucro 


lucrum 


moimento 


monumento 


raonumentum 


meolo 


meduUa 


mcdulla 


mister 


ministério 


ministerium 


molde 


modulo 


modulus 


mosteiro * 


monastcrio 


monasterium 


murcho 


murcido 


murcidus 


marear 


marcar 


morcare 


marchante 


mercante 


mercantem 


mascar 


mastigar 


masticare 


macho 


másculo 


masculus 


mancha malha 






magoa (mazela) 


macula 


macula 


névoa 


nebula 


nebula 


nédio 


nitido 


nitidus 


nalga 


nádega 




obrar 


operar 


operare 


olho 


óculo 


oculus 


olvidar 


obliternr 


obliterara 


orago 


oráculo 


oraculum 


orelha 


aurícula 


aurícula 


órgão 


organo 


organum 


partilha 


partícula 


partícula 


polme 


polpa 




' Appareceu pe' 


la 1=^ vez nas Trov. e Car, 


lí — ant ncnyhrar. 



I 



345 



F. port. pap 


F. class. 


Lat. 


polvo 


polypo 


polypus (do grego) 


praça 


platea 


plátea 


papel 


papyro 


papyrus 


pego 


pélago 


pelagus 


palavra * 


parábola 


parábola 


pende (arcb) 


penitente 


penitemtem 


pellicata 


pellicula 


pellicula 


peso 


penso 


pensum 


pesar 


pensar 


pensare 


povoação * 


população 


populationem 


praia 


plaga 


plaga 


primeiro 


primário 


primarius 


puchar 


pulsar 


pulsara 


podre 


pútrido 


putridus 


precedência 


presidência 


presidentia 


pousar 


pausar 


pausare 


prêa prcda 


presa 


presa 


queimar 


cremar 


cremara 


quedo 


quieto 


quietus 


redondo ("ant. rodondo) 


rotundo 


rotundus 


ração 


razão 


rationem 


regrar 


regular 


regulara 


rezar 


recitar 


recitara 


rotura 


ruptura 


ruptura 


recobrar 


le cu per ar 


recuperara 


raiar 


radiar 


radiare 


rijo 


rigido 


rigitus 


remissa 


remessa 


remissa 


ruido 


rugido 


rugidus 


Ralhar 


rabular 


rabulara 


sanha 


insânia 


insânia 


sangrento 


sanguinolento 


sanguinolentus 


sarar 


sanar 


sanara 


soldar 


solidar 


solidara 


suor 


sudor 


sudor 


Solteiro 


solitário 


solitarius 


senha 


signo 


signus 


sello 


sigillo 


sigillus 


selva 


silva 


silva 


segredo 


secreto 


secretus 


semblante 


simulante 


simulantem 


silha (cilha) 


cingulo 




somma 


summa 


summa 


somno 


sonho 


somnium 


semblar 


simular 


simulare 


sustancia 


substancia 


substantia 



' F. int. jwraôoa jjara f o» jparatra, e te. 
* F. int. j5o6/açom, etc. 



44 



346 



F. port. pop. 


F, class. 


Lát. 


sobrar 


superar 


superara 


serra 


cerro 


serra 


tousar (ant.) 


taxar 


taxare 


tudo 


todo 


totus 


transe 


transito 


transitus 


teia 


tela 


tela 


taboa 


tabola 


tabola 


terno 


tenro 


tenrus 


tredor tredo 


traidor 


traditorem 


vincilho (vincelho) 


vinculo 


vinculum 


viagem 


viatico 


viaticum 


vigia 


vigília 


vigilia 


vodo (ant.) 


voto 


votum 



Derivação popular 



Alvedrio 


alvitre 


leixar ( 1 


e issar 






Sec. XIV) deixar 


Beijo 


beiço 


= laxare 






cinto 


cinta 


oyr (C. D. 


Din) 


ouvir 


creia 


querela 


lomear 




nomear 


coresma 


quaresma 


madre 




mãe 


diato 


diacho 


padre 




pae 


dono 


dom 


polir 




poir 


gaiola 


charola 


palomba 




pomba 


germano 


germaho, mano 


chantar 




plantar 




irmão 


palácio 




paço 


loar (D. Din.) 


louvar 


medicina 




meizinha 


maldicta 


maleita 


roxo 
santo 




russo 
são 



ELEMENTO ESTRANGEIRO 



Além dos citados (pg. SSq, 2°) 



esquadro (ixquadro) 

bannido 

fabrica 

bodega 

cantada 

soberano 

dous 

jurado (1. Juratum) 

mestre {magister) 

plano chão 

tosto (1. fosium) 



square (ing.) 
bandido (it.) 
forja (fr.) 
botica (id. ?) 
cantata (it.) 
soprano (id.) 
duo (it.) 
jury (ing.) 
maestro (it.) 
piano (it.) 
toast (ing.) 



347 



12. — As formas eruditas, é o que resulta do confronto, 
raro supprimem as vogaes atonas — liberar (p. livrar = 
lat. liberare)^ hereditário (p. herdeiro = ]a.t . heredita^ 
riiim), etc . ; conservam a consoante media, que cahe na 
forma popular — dotar (p. doar = \, dotare), legal (p. 
leal = \. legalem) ; desloca ás vezes o accento tónico latino 
conservado sempre no vocábulo popular : platéa, renego, 
invólucro, decano, pol/po. 

i3. — Perderam-se muitas formas divergentes pelo ar- 
chaisamento — cossario corsário (Sec. XVIII), giolho geolho 
joelho, arcepelago archipelago, etc . 

Temos formas divergentes do árabe — \ero cifra (zifr) ; 
das linguas germânicas : — bando banho, baluarte boulepard 
(este ultimo por influencia franceza), etc. 



VIGÉSIMA QUARTA LIÇÃO 

Da creação de palavras novas. — Hybridismos 



Advertência. — Esta lição é por assim dizer ;_ um 
relancear de olhos pelas lições 6* (i6 seq.), 17, 18, 19, 22 
e 45. 

1 . — As linguas estão em perpetua evolução : equili - 
bram-se nas duas forças oppostas, — uma conservadora e 
outra revolucionaria. Constituem a 1^, a . civilisação, o 
respeito á tradição, o desenvolvimento litterario ; a 2* tem 
por fundamento as alterações pJioneticas e analógicas.^ o 
neologismo. ^ 

2. — Não bastava ao portuguez as expressões, idéas e 
imagens recebidas do latim pela tradição oral; outras 
idéas agitaram-se no espirito popular, e força foi augmentar 
o vocabulário. O léxico está sempre em mobilidade: ora 
registra palavras novas, or* apresenta-as sob novos as- 
pectos. (L. 19.*) 

3 . — Muitos são os factores neologicos, os centros for- 
madores de palavras : a politica, a moda, o quartel, as 
as officinas, a lavoura, . . . tudo concorre para opulentar 
o vocabulário e renoval-o. « São tantos os centros de 
neologismos quantos os grupos naturaes de pessoas e de 
occupações. » 



• Darmst. La, vie des mots. 



35o 



4. — Dessa actividade incessante da linguagem dá prova 
a formação erudita^ que crêa um léxico novo e artificia 1 
(de origem latina e grega) no próprio seio do léxico na- 
tural ; e a creação popular que importa termos novos das 
linguas vivas, ou forma-os com elementos da lingua pelos 
processos que lhe são peculiares. Chamar p. ex., foi 
substituído na linguagem clássica por plantar, do lat. 
plantare ; phonographo é de composição grega ; . . . jockey 
foi importado da lingua ingleza ; Jlorsmha, rabiscador^ são 
creaçÕes populares vernáculas. 

5 . — São três, pois, as fontes das palavras novas. 1" as 
linguas estrangeiras ; 2° os processos da derivação e da 
composição; 3° os neologismos de significações. 

6. — Crear uma palavra é fazel-a expressão habitual 
deumaidéa. « k^çdXdiNXQ. desenvolvesse quando o espirito 
prende a ella um grupo mais ou menos extenso de imagens 
ou de idéas . » 

A creação de palavras novas funda-se na analogia e na 
emphase . Um producto novo terá denominação formada 
de um thema ou termos indicadores da matéria de que é 
elle feito ( cafeina., cajurubeba ) \ do nome do logar do pro- 
ducto ( paratf, aguardente feito em Paraty ; Siirnhy., fa- 
rinha feita em Suruhy, etc.) ; o nome do fabricante ou in- 
troductor do producto, do inventor, etc. ( V. — Lição 22^ ). 
— As crenças, crendices e superstições ou os costumes 
também abrem largo espaço ás novas formações de pa- 
lavras. Caipora^ tupy caa-pora., pequeno caboclo, que, 
segundo a supersttçao, vive nas florestas do sertão 
( caa ) malfazendo ás vezes, prineipalmente aos que 
lhe negam tabaco, deu-nos caipora ( individuo infeliz 
nas emprezas, commettimentos, etc), caiporismo en- 
caiporar encaiporisar \ feitiço feiticera feiticeiro enfei- 
tiçar., etc 

A creação de palavras novas marca ás vezes uma nova 
época ou desenvolvimento histórico. Assim, a palavra 



35i 



christão^ diz Renan, marca a data precisa em que a Egreja 
de Jesus separa-se do judaismo. 

7. — O deierminanie nem sempre exerce a suafuncçao 
especial porque condição necessária para a formação de 
substantivos, « é o esquecimento da significação etymo- 
logica . y> Qnaderno^ grupo de quatro ; luneta, pequena lua 5 
soldado, homem que recebe soldo, etc. não indicam ety- 
mologicamente ao espirito as idéas em nosso parecer 
essenciaes — de folhas de papel, instrumento visual, mi- 
litar ou homem de guerra, etc. * 

8. — Na linguagem popular são curiosas as creaçÕes. 
Eftcordoar é enfiar por chufas e motejos ; desfructavel é o 
individuo que se dá ao ridiculo : debicar é chufar; mofar ; 
massada — aborrecimento, importunação, etc. 

A semeiotica é uma das fontes para a formação, não de 
vocábulos novos, mas de novas significações : — Chrtsto 
é o Salvador^ o Redemptor^ o Na:{areno . ^ Mas a acção do 
espirito popular, ao passo que modifica o sentido das pa- 
lavras, forma outras derivadas, já subordinadas á nova si- 
gnifação . Imbecil ( falto de forças ) veiu a significar néscio^ 
e dahi os derivados tmbeciltía?' ( tornar estúpido ) imbecili^ 
dade ( toleima, necedade ), etc. 

9. — Colónia, magistrado^ triumpho, fastos^ facção^ 
aristocracia^ democracia, demagogo^ déspota^ insur- 
reição^ monarchia^ seducçâo^ etc... são do Sec. XIV; 
companheiro { p. companha companhom)^ legiiimo (p. 
lidimo ), ira ( p. sanha ), expansão^ ponderação^ ob- 
stáculo^ allivio^ angustia^ sagacidade^ resplandecente^ es- 
plendido, architecto^ avdacia^ aurora^ auxilio, ciume^ 
conjectura^ crueldade ( p. crueza), desculpa^ desordem, 
maledicência^ transacção^ affavel^ difficil^ imaginário, in- 
crédulo (p.incréo), doloroso, iracundo^ néscio^ magna- 



* Darms — I. 

* Trench — R. af words. 



352 



nimo^ posihumo^ próprio^ continuo^ obstinado^ superno, va- 
loroso^ desejoso^ negligente^ rebelde, arguir, fulminar^ 

restituir, criticar, castigar, etc são do declinar do 

Sec. XV ao XVI, pertencem ao período chamado qui- 
nhentista, no qual também se generalisou o emprego do 
superlativo em issitno. Inflexão, infracção, alienar, re- 
trogrado, correccional, monóculo, undécimo, duodécimo, 
binóculo, assimilar, sinuosidade, etc, são de introducção 
mais recente ; photographia photographo photographar, 
escravismo, evoluir voluir volutir, veriicalisar, telephone 
ielephonar lelephonico, sociologia, altruísmo altruísta, al- 
truismar (cp. egoismar ), subjectividade, assimilação, e 
mais cerca de mil vocábulos, são do Sec. XIX. 

São principalmente do Sec. XVI ao XIX, os compostos 
por nós citados a pags. 280 — altivolame, capriba^bicornipe, 
olhicerulea, levipede, ignivomo, fluctison antes, etc. 

Finado ( defunto ), saga:{, atavio, falha ( omissão 
falta ), arrefecer andrajo passamento sandice, bipede, quei- 
xume delonga derradeiro fallecer lide, pristino, trucu- 
lento, vociferar^ longiquo, enérgico, prematuro, probo, 
fragor, etc ... . são por assim dizer palavras novas, 
neologismos por achaismos, porque no Sec. XVI eram 
ellas consideradas archaicas, reprovadas ou de autori- 
dade equivoca. 

10 — Hybridismos — Dá-se este nome ás palavras com- 
postas de termos tirados de linguas diversas : 

Areometro O 1° elemento é latino, o 2^ 

grego 

decimetro Idem 

bigamo Idem 

socicolosria Idem 

oleographia Idem 

aviceptologia Idem 

linguistica Idem 



353 



monóculo i ° grego, o 2'' latino 

monomania. Idem 

antinacional Idem 

antiácido Idem 

Esses productos bárbaros de elementos latinos e gregos 
muito afeiam a lingua, e são — na phrase de Latham — 
um malum per se. 

As vezes, porem, não ha evital-os, como, acontece 
quando a lingua que nos dá o termo principal não possúe 
o determinante, ou não o conhecemos, etc. : Cí/^d-chumbo, 
capim-rcit\3iáo . 

8 ) Mas cipó e capim^ de origem tupi, já são palavras 
do léxico portuguez, assim como ar chi está tão populari- 
sado ou nacionalisado, que o cruzamento faz-se já mui 
naturalmente, e os termos da composição adaptam-se 
facilmente como se entre elles houvesse affinidade : — 
archiminisiro^ architrave^ architolo. 

II — O h3'dridismo é pois um facto artificial ou natu- 
ral, reprovado ou admissível, conforme é de formação 
erudita ou popular, etc. 



VIGÉSIMA QUINTA LIÇÃO 

Etymologia do sutstantivo e do adjectivo. — 
Influencia dos casos na etymologia 

a ) Do substantivo 

I — Múltiplas são as origens nos nossos substantivos, e 
d^ahi a difficuldade muitas vezes de indicar-lhes com segu- 
rança a etymologia. 

Os nomes próprios derivam-se do hebraico, grego, 
latim e germânico ; todos elles foram a prineipio significa- 
tivos, que ainda temos abundantes exemplos no portuguez 

— (V. Lição 7.* pag.yo) ^ 

Os patronymiços teem também varias origens : os deri- 
vados do latim formam-se geralmente do abl. plural : — 
Vaio^ Paes, Pelagio ( V. pg. ) ; os do árabe, pela antepo- 
sição da palavra ben^ que significa /?Mo : — ^en-i-Egas 
— Viegas, mas que se encontra no hebraico — Benjamin 

— filho da direita. 



* Hebraico — Marta, Sara, Esther, Anna, Pedro, Joaquim, Ma- 
nuel, João, David, Jeronymo, Jeremias, Moysês, Job, eto. . ., que passaram 
para o portuguez pelo latim. 

Gregos — Theophilo, Theocrito, Philippe, Eugénio, Diógenes, eto .. . 

Latinos — Caio, António, Mário, Felis, Deodato, Claudina, Ursxãa, 
eto... 

Germânico — Carlos, Luiz, Duarte, Eduardo, Radolpho, Affonso, 
Adolpho, Izabel, etc. ., 

Sign. — Maria, sobarana, a rainha dos mares ; Sara, immunda, C^m- 
dina, que coxèa, Anna, graciosa, Job, paciente, Joel, quieto. Judas, 
louvado, Theophilo, amante de Deus, Eugénio, nobre, Theodoro e Deodato, 
dadiva de Deus, etc. .r 



356 



Já vimos também ( L. 22*^ etc. ) que os nossos substan- 
tivos originam-se geralmante do latim : que a technologia 
scientiíica deriva do grego ; que terminologia artística é 
emprestada ás linguas vivas — maiormente ao italiano no 
tocante a pintura e a musica . 

2 . — Os de origem latina formam- se do nominativo ou 
do accusativo. O accento tónico indica a derivação. ( V. 
pags. 175 e 176) . 

A's vezes teem dupla derivação : 

ladro do nom. latro e ladrão do accus. latro?tem 
erro — erro e error — error em 

virgo — ■ YW^oQ virgem — virnigem 

etc . etc . 

Outras vezes conservram apenas o caso regimen, princi- 
palmente nos nomes em /o, onis : — religião ( religionem), 
lição (lectionem), . . . em iis,^ iitis : — virtude (virtutem). 
saúde ( salutem ) . 

Dos outros casos, além do sujeito e regimen, derivam 
também alguns substantivos (V. pgs . 177, 178). 

b) Do ADJECTIVO 

4. — Os adjectivos também tiram origem no nominativo 
e accusativo (V. pgs. 179, 180). 

5. — No latim eram quatro os pronomes demonstra- 
tivos . Todos elles conserva o portuguez ( hic, iste^ ille^ 
ipse ) . 

Nem sempre, porém, passaram elles para o portuguez 
na forma simples . Quando os Romanos queriam indicar 
mais claramente a idéa demonstrativa dos pronomes hic, 
ille, iste, antepunham-lhes a partícula adverbial demon- 
strativa ecce, ou o pronome /»c. Dahi os pronomes po- 
pulares — ecce iste, ecce ille, contrahidos regularmente em 
ecciste eccille, hic isle hic ille, etc . 

Este — 1. iste ( fem. esta — ista ; neutro isto istud ). 



3Õ7 



Já são commummente empregadas nos dov,„. dos Secs. 
XIII e XI V as formas este esta^ parallelas a isteista^ piural 
isies . 

Viterbo cita as variantes graphicas sta^ siOj do Sec XIV. 

Os seus compostos — aqueste aquesío (ecc'isie, ecc'istum) 
remontam também áquella época, e ainda persistiam no 
Sec. X^'I (Bern. Rib. 27q, 280, etc. ant. canc). 

Se por palavras pudera 
dáqucsto meu mal cantar 

Comp. — esf outro 

Esse, a. — Derivam-se de ipse^ ipsa^ e sua forma 
neutra isso de ipsum. Devemos, porém, advertir que o 
p do grupo ps não soava na linguagem popular, o que 
reduz phoneticamente esses adjectivos pronominaes a — 
me, issa, isso. Suetonio refere que o Imperador Cláudio 
multara um Senador por haver pronunciado isse p ipse. 

Comp. — ess' outro 

Aquellk, a^. — Do latim hic-ille^ hic-tlla^ segundo a 
opinião geral . 

Parece-nos, porém, melhor seria derival-os das formas 
populares contractas — ecce-ille, ecce-illa^ de icce ille, 
tcce-illa^ que soavam ek-ille, ek~illd. 

Comp . — aquell' outro . 

Adjeciivos pronominaes possessivos 

Todos os nossos possessivos são de origem latina. 

PORT. LAT. 

Meu mia minha vieus viea (meam) 

teu tua íciis hia 

seu sua S7ius sua 

nosso nossa iiosiruiUj a 

vosso vossa vostrnvi, a 

seu sua SU7/S sua 



' Aquell, Nos Foros de Beja, Ined. da Acad. V. 523. 



358 



Derivados geralmente dos pronomes pessoaes, são antes 
adjectivos que pronomes . 

Por motivo da degeneração phonetica os casos sujeito e 
regimen assimilaram-se, e ficaram ambos com uma única 
forma. Neste ponto é o francez mais rico do que nós comas 
suas formas atonas e tónicas (mon, ton, son; inien, tien^ sien). 

Cp. port. — ella é minha; fr. elle est' à moi, ç. elle est 
miejine (Rac.) 

Meu é dos primeiros does . da lingua (meo ; we, mei, 
ainda nos Açores, Alemtejo e Algarvej . A forma feminina 
é que passou por varias e curiosas transformações : 

i.° Mia (=hesp.,prov., ital.) E' do ssc. XII (coK mia 
morte. Canc. Rez \ mia molher S. Ros.) a par da forma 
ma (ma molher., mas filias}., que persistiu até o Sec. XV 
(madama). 

2.° Mha. E' puramente desconformidade na graphia 
{h=i ; y. Phoneiica). 

3.° Miana, miona, (fem. de meono.^ forma citada por 
Viterbo, Eluc.) Sec. XII e XIII ' 

4 . ** Enha, de uso muito popular nos Secs . XV e XVI : 

— a enha esposa, enha mulher (G. Vic), e correspondente 

— segundo Schuchardt — ao portuguez de Cabo Verde 

— nha. 

5.° Minha (Sec. XVI), correspondente á íórma minha 
do port. de Diu, formado analogicamente do masc. minho. 

Esta ultima forma tem sido muito discutida. O pro- 
fessor Diez é de opinião que ella está em connexão com 
mim., e suppõe que o masc. meu não soffreu alteração por 
estar protegido pelo e . 

Estudemos a questão. 

Os vários t\'pos do pronome minha indicam diversas 
influencias ? 



* Miana miona é mais pi'opriamente = maãama madona ; ana = se- 
nhora — en "O senhor, hom«ni graduado. 



35e) 



Mia é a fórma latina mea. Mhia é a mesma \ o h repre- 
sema o í' palatal . No Sec. XIV escreviam viheii^ theii \ 
o h era imercalado para /o«/5í2r o pronome. Nlio p. no, 
{em o) é do Sec . XII . 

Ma corresponde ao francez ma, e nem é essa a única se- 
melhança que em suas formas femininas apresentam os 
pronomes das duas linguas. Ma = mta = \aLl, mea \ e 
temos mais ta e sa = tua^ sua (Secs. XII-XXY), quando 
ainda no francez popular eram meie moie^ miem. Meu 
devia dar 7iiea^ mia ; me devia dar ma . r . 

Minha. Sempre, em francez ( mie h, mienneí ^^itsd. 
(mieHa==mia)., hesp. miena, incorrecção que, tem por 
fiadores Berceo e outros) ; inglez — mifie, ali . die mine^ 
mein, no dialecto indo — portuguez minh, a nasal appa- 
rece. 

O phenomeno do impariss} llabismo é já conhecido ; 
o portuguez tinha duas formas para o possessivo fem., 
uma atona — tnia, e outra tónica — jneana. 

O molhar-se o n era transformação muitíssimo vulgar 
nas primeiras phases da língua, desde a Sec. Xlll (extra- 
nho extra«^Ms, sobrinho., meiminho minimo, campanha.^ 
ordinhar., determinhar, Crisíinha. . . .), deixando todavia 
muitas vezes de ser representado graphicamente {filo p. 
Jilho.) moler p. mulher., melor p. melhor., senora, camino, 
penna p. penha., etc. 

O povo pronunciava mianha., mienha., d'onde minha., 
f. correspondente á franceza mienne., hesp. mienâ. ^) 

A foama vulgar enhaj motejada por Gil Vicente, e que era de uso 
desde o Sec. XIII aos que demoravam nas abas dos Pyrineos, os 
quaes antepunham ao nome próprio Eu, Nã, é o mesmo phenomeno 
de pathologia verbal que em S, Paulo reduziu Senhor, Sen/tora, a 
tihô nhã, e entre nós a seu, sá. 



')~No port. do povo ignoranta antes é anantes inhantea. 



36o 



Ainda mais- No Lyonez temos la min, la sin; no 

la meinS, la lewâ, la sema, a par da. formas mais 
antiaas-la mronã, la ífonS. la xona. 

pfde-se também explicar o phenomeno, que nao e 
isolado, pela queda do a de mia, e nasahsaçao do , 
r^f^U influencia da nasal inicial. . 

^ No sovcftso.- Passaram pelas formas intermediarias 
J°o.;^rTque persistiram até o Sec. XIV. A trans- 
:rcáol^Ucl-se'. t« pela queda de consoante medi 
i^osl-r-um/rost-r-um rosto, aral-r-um arado) , 2 pela 
assimilação do / ao s. 

7. dádjecttpos proii. indefinidos 

At cum Segundo uns, é formado de algo e um ( c p. 
./im^ ^ cLespondea./^^^^^^^ Outros buscam-lhe a 
Si em ali,uam, outros ainda em aU.ms uuus 
( aliquuno aliquno àl^quno, algum ). 

Esta ultima opiníâo é a mais seguida. 

E^ forma popular parallela a .-^^"^'" '-/íf ^^^^^^^^^^ 
fi aue a verdadeira nobreza consiste na virtude, Apezar 
de tymo ogicamente oppostos, confunde-se com ..*m^ 
lpalavra\rab. alguma se lhe entende [ cr.. ). em 
tempo algum •, 

Tem flexão de género e numeio i,^iam muitas vezes o 

malferidos ( C . Real, Cerco de Dm ) . 



7- 7N w rln* Secs XII e XIII, mas 
) Al,o. acl,. = algum ( 1. ±^f^i:^;\ '^°\dv equivalente a aZ- 
' .•''o„„ vvi era empregado como aclj . e '^ - i j^ /^c-ama. 



ainda noSec. XV 



çumacowsa ( «m rerez ''^^^'^^^'-''""i^^do •_ lz?e tem alquma cousa. (Algo 
•È ainda hoje íH^e'"«« "?,f,Ss ves ígiôs que nos restam deste pronome 

rvTior^^n^. rSo ^;s%s:: A^^^^^^ ^^^- ^^ «^^^^ ^ ^ '^^'° '^ 

afgumric?, importante, al^ir, algures, eic. 



3bi 



F. archaicas : — agií, agua. ( S. de Mir.), aigu^ 
algiiã\ algúo {Hist. de Ep. Res. : — faier alguo ;ze- 
gocto ) . 

Cada. — Representa o latim ^;;/5^z/e ( hesp. cada^ fr. 
chasque chaque ) . 

De derivação grega ( kata ), veiu-nos, porém, a pa- 
lavra por intermédio do latim medievo . 

Notemos todavia que o emprego de cada é posterior 
ao de cada um, ant. cadhun, cadiin ; arch. qiiiscadaun 
= lat. qu isque ad unum. 

No Sec. XVI ainda cada um era considerado adjec- 
tivo: — cadi um homem \ e no Sec. XMI empregavam-no 
ainda no plural : — tynha encarrego de dar cada umas 
aos desembargadores, Jicaram cada um onde a 7norie o 
tomou 

Este emprego do verbo no plural tem exemplos em latim : — nH 
quiique vident, etint olnimn ( Plant. ), nbi quisque habeant, qv.od 
suuin est. ( Id.) . 



Cada qual i de formação portugueza, 

Estavam três a três, e quatro a quatro. 
Bem como a cada ^?<rt/ coubera em sorte. 



( Cani.) 



Também ( como cada um ) leva o verbo ao plural 
quando a acção ou attributo é de todos : 

Cada qual sobre o remo qne procura 
contendavi entre si, que o mais é erro. 

Cada que é um antigo composto, de sentido idêntico a 
cadavei que (Ord. Aíf.; C. de D. Din.). 

Cada ve\ que equivale a uma loc. adv. ( = de cada ve\ 
que..,.)^ 

Cada é simplesmente adjectivo. 

Çerto (1. p. certus=\. class. quídam, que só ficou- 
nos como subst. — ufjt qmdam., na linguagem vulgar e 
galhofeira). — E' somente adjectivo. 

46 



3Ò2 



Tem duplo sentido, conservado pela tradição latina, — 
de resolvido, deierminado^ e coupencido^ da accordo com a 
verdade, Ex : — certo homem viu. . ., ficamos certos nisto; 
estou certo de que. . . , amigo certo (verdadeiro). 

Mesmo — Deriva- se do lat. me//)?^'' ;«;/5, contr. regular 
de metipsÍ7mis (contr, dosup. itietipsissimiis=^ipsimusmet), 
por intermédio das formas medessmo., medesmo., donde se 
originou a forma meesmo., Sec. VX (pela queda regular 
do d médio), e a forma actual {mesmo) no Sec. XVI. 

Havia mais uma forma popular parallela a meesmo., que 
se encontra em does. do Sec. XIV e XV ; nas ord. Aíí'., 
D. Duarte, etc. Era medes : — e que elles medeses paga- 
rão (Doe. das Salzedas de i832). 

Alem do sentido etymologico, ha muito que este adj. pron. é empre- 
gado com sentido diverso, como p. ex. na phrase — aviamos a mesma 
vuilher, cm que mesma deve ser vertido em latim por eamdevi e não, 
por ipsam. 

Mesmo, a, em logar de próprio, é de nobre estirpe c cunho clássico, 
de bom quilate emfim. A mesma naureza enamorada, escreveu o nisso 
épico ; elle mesmo disse = ispse dlxit, de Ciccro ; nesse mesmo o ia = 
ipso illo die. No latim, ipse servia para indicar rigorosamente a per- 
sonalidade, a opposição :-ntre dous indivíduos. 

Não ha razão para refugarem alguns grammaticos esses modos de 
dizer. Barbarismo, linj^uagcm mascavada com sabor gallico, sim, é — 
o atíctor elle mesmo disse. .. .,x(sva.\o frequente dos menos sabedores 
da lingua (l'aíítetir lui méme) . 

Muito = 1 . ímiltum . 

Nenhum. E' também de formação portugueza, pela jux- 
taposição de /íew + /2Z/;;z = 1 . nec-umis. Nemo unus = 
ninguém, nenhuma pessoa . 

Desses compostos morphicos, porém, herdamos do latim o processo 
de formação : — nemo=' ne liem o ; E assim formaram-se ncmigálha 
= nem migalha ; nenkicres em opposição a algures. . . ., e mais mo- 
dernamente com o adverbio proclytico fião {twn) : — nonnada no- 
nada, íião vinda . 

F.archaicas: — nemguum, nengun, neun., nemú (Ined. 
d'Alc. F. de Thomar, Canc. ined.,. . .), e as atrophicas — 
nhum nhua. 



363 



Cp. ital. — nessuno neuno ; hesp. ninguno nenguno^ 
f. arch. nisiin (nisiin) nesiine. 

Outro, ant. altro^ de ai ter ^ accus. alter um. 

Formou as locuções — nm e outro, nem um nem outro. 

F. arch. — outro e nenhum p. nenhum ou Iro ; com- 
binação de outro e outrem com o pron. indef. ninguém: — 
^///outrem ninguém me conhecera (Cam.); bem sei que outro 
nmguQm. ponde valer ^ — Ninguém outrem é forma ainda 
corrente, mas também do Sec. XVI : — de ninguém ou- 
trem se poderão aceitar estas cousas (Ferr.). 

Conib. com os pron. pess. «ííj-j vóSj e demonstrativos essCj aquelle. 

Qualquer. — Poderíamos derival-o do prononle qual 
e do adv , conj . quer, que serve para exprimir a generali- 
sação de um acto, tempo, acontecimento, etc. Corresponde 
ao latim cumque {= quum que) . Mas a forma archaica 
qualqui^er prova que é esta a sua etymologia {qual quer 
= qui\er) . ^ 

Tem flexão de numero — quaesquer. 

Forma as locuções — qualquer que, equivalente ao latim 
qualiscumque. 

Tal — (lat . talis) . Significa — igual, semelhante ; ta- 
manho^ nenhum. 

Tem plural — taes. — Vide Syntaxc. 

Todo (= lat. toíus). E' variável em gen. e nnmero. i° E' de 
emprego antigo o pron. todo desacompanhado do artigo — todo ho- 
mem j todo mundo j cm toda farte : hoje ha regras a que estão ad- 
strictos os disciplinados (V. Sjittaxe)j ■pos.to (\\xe cada vez mais se vá 
generalisando o emprega do artigo. JEin todo o casOj a todo o tcmpo^ 
a iodo o fnovientOj toda a natureza, evi toda a ttudes..,. escreveu o 
athleta do estylo C. Castello Branco ; em tcda parte j viveiro de todo 
malj -pomo de toda discórdia j. . . (Bem.) Todos douSj todos três,. . . 

2.° Dizem os nossos grammaticos era muito freqnente, entre os clás- 
sicos, o emprego de todos por tudo : — armadores e marinhagem tudo 
da mesma terra (V. do Arcb.); as abobadas, pilares e paredes são tudo 
cantaria (H. de S. Dom.) 



lued. d'Alcob. V". 18. Gorresp. lat, xcUc. 



364 



Cremos, de nós, não ha nesses exemplos resaibo synonymico. Tudo 
é como que um pronome rcsumidor, epilogador, synthetisador (ou como 
melhor queiram chamar) ; é do gen. neutro ; equivale a itiãoisso. 
Cp. na ultima phrase — as abcbadaSj filíucs c paredes são — tudo 
(isso) — caiiiaria^ e abobadas ., pilares e paredes , indo é cantaria . 

Não negamos porém a vacillação no emprego entre lodo e a sua forma 
divergente tudo — fizeram tudo o necessário, em toilo e/or todo, etc... 

Um (hum) = lat. ///«/^(adj. pron.) 

O emprego do numeral com significação indeterminada, equivalente 
a nm ceriOj alguém, é de origem popular latina, c fonte também 
clássica (unum vidi incrtmtm afferri — PI.) Por viais que resplandeça 
um cm virtudes (Arraes). 

c) Dos numeraes 

8 — Numero cardinaes. — E' cópia dos Romanos o 
iiosso modo de enunciar e escrever os números. A dif- 
ferença que entre eiles existe é apenas phonetica . 

nm unus 

doíis, arch. di:os duos 

ires trcs 

quairo quatuor ' 

cinco quinquc * 

seis scx 

seíe scptem 

oito octus 

nove novem 

dez decen 

Nas palavras de origem clássica, adoptámos a forma 
latina — duo- decimo^ duo-deaiplo ; septeuario^ quinqna- 
gemaria^ qinnqiitmo^ ocíacordo 

De II a 20, excepto i:', 17, 18, 19 que se compõem 
com de:{, os numeraes portuguezes são expressos por uma 
palavra simples : 

onze un ( de ) cim * 

doze duo ( de ) cim 



* Empregamos qualuor no sentido de uma jMrtitura que só tem 
quíitro partes ( neol. ) 

* A permuta do q lat. em c ou s brando port. é mui frequento — 

antes de e e i (torqvcrc = toi'cer. coquina = cosinlia, ) Em latim. 

nas inscrip. romanas do Sec. III, encontra-se c p. §?( o vice versa ; teem 
pois o mesmo som. Fr. cinq. hcsp. cinco, it. cinque, 

* Úechn pr ãioem. 



365 



treze trc ( de ) cim 

quatorze quatuor ( de ) cim 

quinze quin ( de ) cim 

dezeseis st'x deciw ; sedecim 

dcresetc scpíevi decivi 

dc.oito octo decivi 

dezenovc iiovein decim 

vinte viginti 

De 1 1 a 1 5 03 nossos numeraes indicam uma contracção 
regular dos typos latinos, sujeitos á acção dissolvente das 
leis phoneticas, que transformou a desinência cim em ^e. 
De i6 a 19, abandonando as formas syntheticas, seguiu o 
portuguez outro modelo a que os Romanos davam pre- 
ferencia por ser mais chro, segundo refere Prisciano * : 
— decem et septem^ decem et octo^ decem et nopem^ {T . 
Livio, Cie, Gesar, ete.), e em toda a numeração delle não 
mais se apartou. 

De 20 a 90 só temos a notar o atrophiamento do nu- 
meral latino : 

vtnte vi ( g ) inti 

trinta tri ( g ) inta 

quarent • quadra ( g ) inta 

cincoenta quinqu ( g ) inta 

sessenta sexa ( g ) inta 

setenta ' septua ( g ) inta 

oitenta octo ( g ) inta 

noventa nona ( g ) inta 

Os Latinos diziam indifferentemente vig-iiiíi três e três 
et viginti^ á semelhança do gothieo ( ing. twentf three ou 
trhee and twentf; em ali. sempre as unidades vêem antes — 
drei iiud pvan\ig. 

De 1 00 a 900 só é de notar a transformação muito na- 
tural, e lógica, da terminação gentt em centos ( centos ) . 

cem ( para diff. àeceu/o) centum 

duzentos ( dous centos ) ducenti 

taezentos ( três centos ) trecenti 



• Giwmmatico. 



366 



quatrocentos quadrigenti 

quinhentos qningenti 

seiscentos sexcenti 

setecentos septingenti 

oitocentos octogenti 

novecentos nongenti 

Quigenti deu qninhentos pela perda do^, que poz a nasal 
em contacto com a vogal e. 

Como em latim, os números cardinaes são invariáveis, 
com excepção de um e dous {no lat. também iria p. ires.) e os 
,que exprimem centenas [ducenti., ce^ a.., duzentos., — j5,...) 

g — ^il e seus múltiplos correspondem exactamente 
a formas latinas. Mille^ declinavel, tinha um ablativo 
archaico milli, e fazia no plural milita, donde derivou 
o nosso subst. jnilhar, ) ^ 

Milhão, billião, etc. são de creação portugueza. 

NUMERAES ORDiNAEs — Como em todas as linguas, os 
ordinaes lembram os cardinaes correspondentes ; mas no 
portuguez elles representam formas importadas directa- 
mente do latim. 

Primo 2 primus 

primeiro (primário) ^ primarius 

segundo sccundus * 

terceiro (terciário) tertiarius * 

quatro quartus 



* Der. pop. Milheiro, mil pés, millionario, milefolhas, . . . Millenio 
millenario raillepedes, mlLefolio, milliario, millefomie. 

* Ad instar ào% Latinos, escreviam os nossos maiores os mumeros por 
extenso ou represe ntavam-os pelos caracteres romanos, (V etLXet, 
CCC = 5 -f- 60 + 300 = 365; era MCCXXX ). Apesar de modificado 
apresentava este systema graves inconvenientes para a representação 
dos números elevados ; d'ahi a introducção do sysiema árabe, que muito 
se avantajava áquelle na simplicidade do mechanjsmo. para expimir 
um numero elevado e indeterminado. 

' Primeiro é iioja a forma usual; primo só se conservou em compo- 
sição — primogénito, primoponendo, primazia, primevo, primioias, pri- 
micerio, primado, primipara, primitivo, pri^riariçau primichica, prima- 
dona, etc...., prima (1* hora do officio divino). — Primário, é f. diver- 
gente de primeiro ; pertence á classe dos distributivos. 

* Secimdus encontra-se em secundário, secundogenito. etc. ( Segunda 
feira). 

■ Tertius deu terço, terça, que são substantivos. 



367 



quinto 


quintus 


sexto 


sextus 


sétimo 


septimus 


oitavo 


octavus 


nono 


nonus 


decimo 


decimus 



e assim por diante — undécimo^ duodécimo^ ingestmo 
(arch. vicesimo), trigésimo (arch. tricesimo), centésimo^ 
millesimo = \dX. undecimus, duodecimus^ jncesimus, tricc' 
simus, centesimus, millesimiis . 

10. — Nos números compostos, ambos os elementos 
tomam forma ordinal : vigésimo segundo = lat. vicesimus 
secundus. 

11. — Usavam os Latinos da forma ordinal para as 
datas do mez, do anno, as horas, ^ duração de um 
reinado, cargo, officio, etc, indicação dos séculos e de certos 
prazos, successão de monarchas. Com todas essas regras 
conformou-se o portuguez exclusive as três primeiras 
referentes ás datas do mez e anno, e ás horas ; pois 
empregamos a forma ordinal, por excepção, somente 
para o i° do mez (e também se emprega o cardinal), 
e em linguagem ecclesiastica — horas de prima, terça, 
nonas. 

Nem para todas as indicações de prazo, isto é, de espaço 
de tempo dentro do qual ha se de fazer alguma cousa, em- 
prega o portuguez o ordinal . 

Dizemos antes ou depois do 3^ dia = também 3 dias antes 
= lat. ante tertiam diem^ etc, mas os Latinos diziam tertio 
qiioque die = port. de três em ires dias (fr. ious les 
trois jonrs, ing. every three dafs...). ' 

12. — Das formas distributivas latinas em amis-2i^ con- 



* Modernamente,^ decíino, vigésimo, quarto, são também subst. 

* Anno raille=3imo octingentesimo septuage^imo quarto. Octavam 
horam, nonam,.... 

-* .Veste ultimo emprego dão-lhe alg. gramm, — o nome de antidaZa. 



368 



cernentes ás classes ou ordem dos legionários * pnmanus, a^ 
iim^ secundanus, tercianus, vicesimani txc), só nos restam 
lembrança em alguns raros vocábulos, hoje já obsoletos — 
terçã^ quarlã (febre — , que tem intermittencias de trez 
ou de quatro dias) ( = lat. febris tertiana^ qiiartana). 

i3. — MuLTiPicATivos — Derivam-se todos das formas 
latinas emplus (declináveis), que tinham uma concurrente 
em plex {diiplus duplex^ triplus irtplex) . 



ant. s'iniplo 


(simples) 


simplus 


duplo 




duplus 


triplo 




triplus 


quádruplo 




quadiuplus 


decuplo 




dccuplus 


cêntuplo 




centuplus 


múltiplo 




multiplus 



Da 2* forma temos simplice (arch.), diiplice^ tríplice o. 
multiplico. . 

São de formação erudita, e correspondem aos de fundo 
popular — dobro^ tresdobro^ cemdobvo (cemdobrar = 
centuplicar) . 

Ainda temos uma forma pop. para multiplicativos — duas 
vezes tanto, três — , quatro — . Responde á pergunta quan- 
tas veies ? e corresponde á latina — septies tanlum etc. 

A' pergunta — em quantas partes ? responde o latim no 
ordinal, iterum (p. secundum), tertium^ etc, Nós pelo car- 
dinal — diias^ ires . 

14. — Oadv. numeral 5^5^/// (f. cont. de sefyiis qiii?) 
= mais uma ametade^ só se emprega no portuguez em vo- 
cábulos de fundo clássico. Também em latim só uma vez 
occorre empregado separadamente ; era porém de uso 
frequente ligado a uma outra palavra, indicadora de nu- 
mero ou quantidade, e neste caso significava uma ]>e- e 



* Não s,') iirlicav.im a oi'rteni da, legião, mas dos soldado'! que a eom- 
]junha-", e enipref^avam-se em relação a tudo quanto lho pertencia ou 
dizia respeito — Primanus Tribumis is dicebatur qiii primae legioni tri- 
l)utum scril)e))at (Pnul.cx Fest) 



369 



meia. ^ Ex : — sesquialtera (t. musica), sesquipcdal^ ses- 
qtiihora 

Distributivos — Estes números são ao mesmo tempo 
coUectivos e analyticos, porque « decompõem a coUecção, 
o total, em tamas unidades quanias ellas cntêm » £** latina 
também a origem desces adjectivos, todos de fundo erudito. 

Centenário^ já pertence ao vocabulário popular. 

l'rimario Primai ius 

binário binarius 

scptenario septenarius 

centenário centenarius 

sexagenário sexagenários 

octogenário octagenarius 

A desinência ario — lat. orius (sign. que contem). Indica uma 
classe, medida, compasso, intervallos iguaes, divisão da duração de 
uma ária, (bin. tern. quat). 

Dos ordinaes em um, temos ex. em primo., lercio (Cp. 
terço . . . ) 

6. — Existem no portuguez formas numéricas ou nomes 
formados dos numeraes, que não devem ser alistados na 
classe dos adjectivos. Neste numero estão — ameíade, 
dobro, cento ( centenar, centenário ), milhão^ cêntimo, e 
viennio, quatriewiio^ deiena, vintena, tre:{ena^ quaren- 
tena^ centena, da forma neutra em a dos numeraes distri- 
butivos latinos ( centeni, ce a — em poesia em prosa post. 
class. Cp. bini, temi) e com os compostos com avo — cin~ 
coentavo, de\avo, etc. . . 

Bis é adv. numeral ( do latim bis der. de dtds de ditOj como 
belhíin à.c duclluin). Di/ns i escSj uma seçuuífn rez. 



' Iiigam-S3 outfosim a numeraes (o3lavus e Isrtius), como o grego i-^[ 
(em sttÒySoo!;) pai'a denotar um total e mais uma fracção. Sesquiocta — 
riis, p. ex = encerra a relação de 8 para 9. 

— F. frac. — temos os formados com os lermos aco, octata, et?...,e 
vm meio, tcron. quarto, quinto ete. 

47 



370 



Já faz parte do léxico o verbo bisar. Só, emprega-se com sen- 
tido vocalivo para pedir a actores a repetição de um passo : é 
porém, de uso frequente como elemento de derivação — bipcdc, bí- 
gamo j bijloro, biforme, bissecção, bifoliadOj biferOj bi/abíaceas, . . , 
bisndOj bissexual j bissexto j bicepSj bifronte. 

E' mutto crescido o numero dos compostos com os adjectivos 
numeraes : primícias j primífivo^primogetiitOj prímiparaj. . . bimestre^ 
trimestre j se7/iestre, qiuidrupedej se^íqitipedej trivio, guadrivio, decem- 
virOjtriumvirOj cen'iiria, decuriaj.. . os nomes dos mezes Setembro j 
OíitubrOj Novembro f Dezembro ^ e os dias de semana, excepto sabbado 
e domingo. 



VIGÉSIMA SEXTA LICÀO 



ETYMOLOGIA DO ARTiGO E DO PRONOME » 

i.° — Pronomes. — Vide lição i5*^ (declin. dos pron. 
PESSOAEs) e23^(adj. pronominaes) . 

Pronomes demonstrativos 

1.^ — Isto isso ( forma neut. lai. — istud^ ipsum). São 
formas neutras concurrentes com as archaicas portu- 
guezas esto^ esso^ que se archaisaram no periodo clássico : 
— e con esto pei^co a esperança ; porque fizeste esto ? ^ (esso 
mesmo lhe fe\erom ^) . 

Nos antigos cancioneiros, Leal Cons. de D. Duarte, etc. é 
de uso vulgar a forma referida ou composta — aquisto^ 
que persistiu até o See . XVI : — em aquisto Jano ou- 
vindo (B. Rib). Nos antigos textos é frequente o emprego 
de elle (ello) p. isto -^ solecismo que vecejou até o Sec. 
XVI: — asst fos?,e tWt verdade (Sá de Mir.) — Cp. fr. 
si c'téait vrai ; ing. ifii >vas triie^. . . 

oAquillo — 1. hic-illui — ecc-illud {ek-illo)^ arch. 
aquello, 

ludefiiiitos 

3.** — Os pronomes indefinitos, além dos que já vimos na 
lição antecedente (adj . pronominaes), são — alguém, cada 
um, alguns, outrem, outros, nada, ninguém, qual, um, se. 



» Ined. d'Alcob II 8. 
* Jd. II 201. 



372 



ALGUÉM ( = \a.t altguem — ailqiiem ^). E' invariável. 

Gonfundia-se nos primeiros tempos da lingua com o 
adj. algum; do mesmo modo que na linguagem dos có- 
micos, aliqtiis aliqiiid eram algumas vezes usados por 
aliqui aliqiiod. 

OUTREM (composto = a//ír//w). "No lat. pop., na b. 
latinidade, já alleritm superara alium. 
' C. — ninguém outrem^ outrem ninguém (Camões). 

Sign . — oiiiro homem . 

QUEM QUER. E' de fomiação popular vernácula = 
(prom. quem -^ quer. Cp. qualquer). 

Quem quer que é equivalente do comp lat. cmcumque. 

NINGUÉM. Corresponde ao latim popular itequem^ forma. 
que se encontra nas Inscrip. romanas do 2'^ Sec. da nossa 
era, e que conseguiu obliterar o nom. nemo { = ue 
homo ^) . 

A forma alongada é nem alguém : derival-o pois de 
nenheme p . nec hem == nem homem é hvpothese que de 
todo rejeitamos. E bem assim a que dá outrem = outro 
hem = outro homem . 

Nos escriptos antigos ninguém tinha também o sentido de alguém ^ 
equivalia a ncnJiuvi : — lonnira c cuidar ninguém que. . .; hc atrevi- 
mento pedir ninguém açni/lo que deseja j * Viingucm outrem 
(nenhum). 

Emprega-se substantivamente para significar pessoa de nenhum 
valimento : — é ninguém ^ um ninguevi. 

NULLO, A (=:lat. nullus, j, um p. ne illus). E'de sen- 
tido negativo pela etymologia ; e — como )á vimos — ainda 
que originariamente oppostos, confundia desde os pri- 
meiros tempos a sua significação com a do pron. uenhnm, 
Deve-se porém advertir que em latim, nullus era conside- 



* Prep. iieque = Jiec, nc. 

* Accin. de uliquis (=^iitiits quis). 

' Talvoz por analogia ã-> cniprezo de alpiitn por Jioihiim. 



SyS 



rado subst.== nemo (ninguém, nenhum) — siint nulli 
(Planto); bemjicia properanlius reddere: ipse ab iiullo re- 
perlere (Cie . 

Se — Deriva-se do accus. 5e do pron. reflexivo latino 

— sui sibi se ( sem nominativo ), e cujos números confun- 
dem-se soba mesma forma flexionai. 

E' pois o mesmo pronome reflexivo portuguez. 

Corresponde ao francez on (o/;z, no Sec. XIII), cuja 
origem claramente se percebe na forma primaria Iio?n, 
contracçáo de Iiomme ; allemão man ( contracção de mann- 
homem); anglo -saxonio, inglez e dinamarquez — man ^ 

— italiano, hespanhol, provençal — se. 

Nos Secs. XV e XVI empregava-se também o sub- 
stantivo ho?nem como pronome indefinido, nos mesmos 
casos em que hoje empregamos se: — homem não sabe como 
se valha contra a ccihimnia ( Barros ) ; cuida homem que es- 
colhe... (S. deM.) etc... Este uso ainda é vulgar em Portugal, 
( anda homem a trote para ganhar capote ); no Brasil dá -se 
preferencia á palavra genle ( a gente não sabe que hade 
Mer'). 

Com o Sec. XVI é que começou na linguagem clás- 
sica a verdadeira preponderância do pron. indef. 5?, e a 
queda das suppletorias homem e gente. 

A sua derivação do caso regimen não é para causar 
estranheza. O inglez antigo ( 1 25o- lõoo) usava do caso 
objectivo me, do pron, pess. da i^ pess. sing. ( /) como 
pronome indefinido correspondente a man, one., etc, e 
ainda hoje na linguagem familiar e vulgar persiste o solle- 



' — AU. — man sagfc ( diz-se ), man muss (deve-se); ang. sax. — 
man greaf ( deu-se ) : ing. man says (diz-se); dinam. )Ma?i siger. No 
saxonio mav=elles /maíi o/ls/')c/i=ell'^s mataram ou motaram-se ) ; no 
ingl-^z antigj com pi irai — mcn Iierd == elles ouviram. No inglez mo- 
derno o pron. ind. se é também representado pelo pron. jjess. they (elles, 
cilas ). 

*_No inglez também o substantivo people (poxo, gente) indica o prou. 
indrsó ( thcij áay, nia'n savs,— • peOPLe saj':= diz-sc: on dizíra ).■ 



374 



cismo ^ ; o portuguez também empregava cujo no sen- 
tido de dono, senhor ( sou cujo de quanto tendes ^ ) . 

Si um objectivo e genitivo pronominaes podiam ser 
sujeitos de uma oração, que muito fossemos buscar, e com 
mais cabida e propriedade, o ciccus. de um pronome re- 
flexivo para exprimir o pronome sujeito da 3" pessoa que 
desejamos apresentar de modo vago, indeterminado, inde- 
finito, no sentido lato da palavra homem ? 

Pronomes relativos 

4). São : — que, quem, qual, cujo. 

Que ( = lat . qut\ arch . quei, de quí quoe quod ) . Da 
declinação latina, que era perfeita, herdamos o nom. — 
qut^ oaccus. quem. o gen. cujus. 

Etymoiogicamente, pois, temos formas especiaes para o 
sujeito, regimen directo, e indirecto. Quem., porém, 
tornou -se pronome independente, e de uso mais geral, 
como veremos. Neste ponto ainda é o francez mais 
abastado, que conserva qm para o caso subjectivo, e que 
para o caso objectivo, além de quot. 

Que apparece desde a formação da lingua, e não lhe 
conhecemos variantes morphologicas, exceptuantes as 
formas dialectaes. Assim, p. ex.. em S. Thomé — se- 
gnndo o testemuuho de Schuchardt — , é elle equivalente 
a. cu : — Padre nosso cu já no cjé = Padre nosso que estás 
no céo. 

Quem, arch. qui ( qm ferir moller. ... F. de Gravao ; 
qm J/ilhos ouuer. . . S. Ros.). 



* You are torong. — Me ? (por I). 

' — Meti cujo p. meu marido, os meus cujos p. os meies parentes, a 
rainha familia, etc. ainda são dizeres miut'^ vulgares na linguagem po- 
pular. Esta moça tem ciyo(Eupbr.) 

V. Pacheco J-or. — Rev.Brãz. . . 



SyS 



Deriva directamente do accus . lat. quem (de qui quoe 
quod. ^) 

Os clássicos antigos empregavam-no também em refenencia a 
animacs e cousas; e ( o que não deixa de ter elegância ) em substi- 
tuição dos demonstrativos esíe, aquelle : — as boas ariorcs dão bom 
frucio e as viás como quem são ( H. Pinto ) ; quem lhe dava ovelha, 
queai um carneiro, qncm um novilho ( Luc) ; quem de vós não ttvi 
placado, este atire as pedras. (Vieira). 

O emprego de quem é também dos primeiros séculos da 
lingua : — m.ha senhor^ quem me vos guarda, guarda a 
myn ( C. da Vat. ) — quem se louva., tn H^eus se louve ( R. 
de S . B . ) ; quem amar ho padre e ha madre mais que mi 
(V, de S. Euphros.); porque no avia aquém leyxasse 
ssua Reque^a ( Id.). 

Qual = proa. im. erelat. lat. qualis — quale, corre- 
lativo de talis. 2. 

E' invariável em género. Plural — quaes. 

Form. port. — qualquer. 

Eram vários os seus empregos até o Sec. XVII. como veremos na 
syntaxe, entre os quacs o da substituição de alguns, alguém, de mui 
agradável effeito e muito para serem imitados pelos que prezam a 
vernaculidade. 

Qual do cavallo vôa, que não desce ; 
qual co'o cavallo em terra dando geme ; 
qual vermelhas das armas faz de brancas ; 
qual co'os penachos do elmo açouta as ancas. 

(Camões, Lus. C. VI). 

Cujo, arch. cuyo., cu/ia — Sec. XIII ; cuigo — Sec. XA', 
(== lat . cuios, cujus) . 

E' pois dos 1°^ does. da lingua escripta. 

O gen. de qui quoe quod exprimia varias relações, e 
desde o periodo clássico começou a ser substituído pelo 
ablativo regido da preposição de. 



• Querer com Th. Braga e outros deacobrir-llie a origem om qiie'heme 
= que, homem, parece-me desacerto. 

* Leoni e outros derivam-no de qua illa ! 



376 



Imperava também nas mesmas épocas o pron. interrogativo ít/z/V/j-j 
ãj 7itn (com uma forma arcli. qiiojj também idêntica á arçh. do pron. 
relativo) . 

Cu jus j pron. interr. poss., significava — de çiian ? cujo ? ; 
cujiiSj genitivo, era mais empregado no sentido de pertencente a 
quem, a qtiej de quem, de que^ dos quaeSj sem idéa relacional de 
posse. ' 

Da analogia das formas, resultou o duplo emprego de 
cujo no portuguez antigo. D^ahi estas phrases que os gram- 
maticos condemnam :■ — Represenlam estes delineamentos ao 
Senhor, de cujo ha de ser o ediíicio (B . Dec . ) ; SanCIgnacio 
Interciso de cuja nação fosse nâo nos consta (D. Nunes, 
Descr. de Port.j, - este sacerdote cujas eram estas Jilhas 
(íni. de Ale.) Um clássico, a quem temos por contem- 
porâneo, escreveu : — Os Sds e Mem\es cujos era de jus e 
herdade a alcaiad ária. (G. Castello Branco). 

A pbrase — este sacerdote cujas eram estas filhas, é correcta, e não 
repugnarih ao ouvido dos menos lidos por cias icos si mudássemos 
apenas a collocação do pronome — este sacerdote cujas filhas eram 
estas. A pkrase de Castello Branco, equivale &—- os Sas e Menezes de 
quem (dos q^uaes) era de jiis e herdade a alcaiadaria j si disséssemos 
— cuja. alcaiadaria era de Jus e herdade, é claro que daríamos a en- 
tender já lhes pertencia a alcaiadaria. 

Deve pois este pronome, conforme a proposição, ser 
considerado relalii^o ou possessivo. 

O emprego da prep. de antes de cujo, sempre que o 
subst. com elle concorda exprime relação restricta circum- 
stancial ou terminativa, data do Sec. XII {. . . de cuja ifida, 
Rib. Diss.) Esta construcção é hoje de rigor. 



' Cp. Gôíí.— is denique, cuja est uxor fuerat (Plin.); ea caedes si 
potissimnm crimini datur, detur ei cuja interfuit, non ei euja nihil in- 
terfuit (Cie.) 

Interr. j[ass.— Ut óptima conditione sit is euja res sit, cujum perl- 
c ilum (Cie. Verr.) cujam esas te vi!3 maxime, ad eum duco te (Plauto 
Cure.) 

* O erro está no emprego da prep. de, por se haver perdido a noção 
etymologica (do gen.) E erro mais grosseiro ó o (>mpi'ego de cujo por 
que. 



377 



Pronomes inienogativos 

5.— Sâo os mesmos relativos qiie^ quem, qual. 

Tal também se pôde empregar interrogativamente : — 
tal ha que assim proceda ? 

Cujo., com funcção interrogativa é um archaismo. Era, 
porém, de uso até o Sec. XVill : — cujas s!'o eslas ricas 
armas ? (J. de Barros); cuja é esta caveira ? (Vieira), e tinha 
exemplo no latim — cujus pecus ? an Meltboei ? (Mrg. En . ) 

Nota , — Sobre o pron, Oj cnclytico V. Lição 34 : 
Era muito usado na forma /o claramente : — poz-lOjfez-laSj ei'los, 
110-IoSj vo-lo j vede-las j vc-lo, que ainda conservamos posto que alte- 
radcs no modo de escrever Y7'<^/-í^^ veíidel-as)^ e em alguns nomes de 
jogos populares de Portugal — dcu-che-lo-i.nvOj dou~che-lo-morio . 

6. — Tratemos agora de duas palavras archaicas ge- 
ralmente consideradas pronomes., mas que mais devem ser 
arroladas txsx^c o. o^s, advérbios supplementares. 

Ende — Nos canc. e does. dos Secs. XIII e XIV appa- 
rece esta palavra, e a forma encurtada en (de ulterior em- 
prego), que correspondem ao pronome francezew. 

O primeiro que fez este reparo em lettra de forma, 
suppomos foi o nosso lexicographo Moraes. Desacertou, 
porém, acreditando que essa partícula adverbial equivale 
somente a d'elle, d'ella, d'elles, d'ellas. 

e nom dom a mi os meus foros que e/ide ei de haver. 

(Ind. de Ale.) 
... molheres casadas... que andavam a preito nas audiências e 
nossa corte, em tal guisa que levaram eude maa fama. 

. . . fará queixume aos que se e;/de queixarem. 

. . . fará complimento de direito e justiça aos que eude se queixarem. 

(Id.) 
Pays de vós non ey nenhum ben 
de vos amar não vos pesV« senhor. 

(C. de AJ.) 
E pêro m'eu da falta non sey ren, 
de quanfeu vi, madre, ey grã prazer e». 

(C. de Vat.) 
E pays e;/d'as novas saber. 
Também possVv;. 

(8 



378 



Ende = \a.t. inde : é partícula adverbial equivalente a 
d'ahi^ d'alli^ d' isso, d'elle ou d'ella, d'elles d'ellas. ^ 

Dessa palavra só nos resta vestígio na locução em que 
pese = arch. endi que pese, ant. em que pés {pe^), e é equi- 
valente a ainda que lhe pese^ i e... que lhe cause pesar, a 
seu pesar, despeito, a mal do seu gado. - 

Por ende (mesmo em hesp.)= portanto, então, em conse- 
quência dSsso Também este sentido tinha em latim o 
adverbio imde, como se pode verificarem Scheller, Gesner, 
Freund e Facciolati. 

Hl {i,jy) — Correspondem ao francezj^. 

Não é pron. pessoal. Propriamente, hi, i,y, sign. ahi,alli 
(onde) ; mas — por tranferencias — (como ende) então, 
portanto {^ov\s,so),c.Q\nàQ. nessa ansa, nesse caso. Todas 
essas applicações são legados da lingua mãe ^ 

Tantas coytas passey de la sazon 

que vos eu vi, per bona fé, 

que non posso i osmar a mayor qual é. * 

Non ha hi quem me soccorra 

(Ferr. afií.) 
veno a vos senor 

que me digades que farei eu y 

(Trov. Cant.) 

se nessa ha ki mudar-se hum triste estado. 

(Chr. do Cond.) 



1 De todas essas funcçõeg nos dá amostras o latim: lo (d'ahi) si legioius 
sese recipis^ent inde quo temere essent progressão : 2°, (d'isso) — e.v avaritia 
erumpat audácia necesse est. ; ixde omnia acelera gignu7itur ; 3", (d'elle). 
etc) — nat filu Duo, inde ego hunc majorem adoptavi jníAi (tempo, d'ahi 
em diante). 

* Mas no século XVI a partícula em que era muito frequente: — em que 
eu seja lavradora bem vos hei de responder 

G. V. I. 259 
e jura, em qzie veja bonançoso 
o violento mar e socegado 
não entre elle masi 

Cam. S. 8o. 
' Demaratus fugit Tarquinios Corintho et tibi suas fortunas constituit 
(Planto) ; invocat deos immortales : ibi continuo contonat Sonitu má- 
ximo (Id). 

* Tantas foram as degraças que passei 
do tempo em que vos vi — era boa fé — 
que não posso portanto avaliar 
a maior qual delias é. 



3-9 



Empregava-3e com preposição — de i, de hi ;para hi, i; 
per Ju\ i ; des h\ i, des i ; d' kit d' i. 

De uso frequente nos primeiros séculos da lingua nas 
nas trovas e cantares, não o foi menos nos que se lhe se- 
guiram até o XV. A forma preferida era /. 

Qual a sua etymologia ? 

Derivam-n3 alguns do lat. ihi^ outros da adv, ahi. E' 
este o nosso parecer. Cp. qiii aqui.-^ e nos mesmos casos 
em que se empregava ///, /, /, usamos nós na linguagem 
familiar e vulgar dos advérbios ahi^ aqui: 

a/li estávamos nós quando elle chegou ( iicssc /ogar.) 

dissc-me elle que. . . . , açiti eu redargui. . . ( eníão.) 

a/li o que se deve fazer é. . . . ( nesse caso ). 

a/li nada mais ha que fazer. 

Nota Suvi ibi traduz-se por aqui estou eu. Nesta phrase, e bem 
assim em ai/i está e/le ( que também se diz ), ctc, o sentido é locativo 
e o seu emprego é tão sómenfe para mais dar força á indicação da 
pessoa. Equivalem a — eis-ine aqui, aqui me tens ; em mim, nelie, etc. 
tensa pr(n'a presente — aqui mesmo — do que digo, etc. Ex.: — 
Estás muito envelhecido ! Aqui estou eu que com 8o annos ainda 
não me branquejaram os cabellos. 

E este modo de dizer é commum a outras muitas linguas. 

DO ARTIGO ' 

O artigo definito c uma voz demonstrativa em todas 
as linguas, não só pela derivação como por suas funcções 
e propriedades ( grego ó Sovto; = este; ali. der de dieser^ 
ing. lhe de íluí. quQ servia de artigo no A. S. e vinha 
prefixado á palavra, e ainda em muitos paióis encon- 
tra-se o emprego do pronome demonstrativo como ar- 
tigo — c/l cure., eh' tnarichau ■= ce cure., ce iHÀrechjl., por 
lecuréttc. ( P. Picard.) ce=hicce. E' equivalente en- 
fraquecido de um demonstrativo . 



* Para nós o artigo, como já dissemos, entra no rol dos adjectivos 
daraonslrativos: não é parte distineta do discurso — A nossa divisão, ex- 
-plica-se pelo dever de não nod afastarmos do programma official. 



38o 



No latim, o analytUmo introduziu também o Uso do 
pronome ills, que depois transforniou-se em ILLO ( alte- 
ração geral nas declinações masc). lllo Iionto^ tila miiller^ 
illo caballo^ illa ecclesia^s^ò no laiim popular verdadeiras 
formas de nominativo ; e esse uso tornou-se frequente nos 
melhores autores latinos, ( Cie, Sen., Plauto ) ^ 

demonstrativo latino, passou por varias evoluções — 
<?/, elJi, lo, la \ plural e/5, elhs^ li^ los^ las, e destas formas 
esnocadas bracejaram as que deram origem aos artigos 
das línguas neo- latinas : hesp. <?/, /í7, los^ /a5 ; ital — el, 
la, lo^ /e, glt '^ fr. — el, il, la^ li -^ /e, la, les ; valachio — 
/e, (3, /, le ( postposto ao subst.) ; prov. /o, /c7, ti ( li ) i 
//, // ( los ), las ; port. — <?/, /o, lio ; o, j, 05, as. 

São varias as opiniões sobre a origem do nosso artigo 
dejinito, das quaes três são mais seguidas. Só destas nos 
occuparemos. Uns opinam que elle descende do grego ò 
( m) ev) ( fem.) ; outros são de parecer que deve-se 
buscar a sua origem no demonstrativo latino hk^ haec, hoc\ 
certo numero inclina -se á fonte que já deixamos apontada 
como verdadeira ( iíío^ a ) . 

1 .^ Regeitamos de todo a origem grega porque o 
génio de uma lingua pôde ser modificado por outras ; mas 
essas modificações não se podem estender mesmamente ao 
caracter, e tão profundamente que consigam a implantação 
de uma nova parte da oração. 

O Grego desde os tempos mais remotos estanceou na 
Itália, onde dominou a par do latim ; á Grécia deveram os 
Latinos os rudimentos de civilisação, copiosidade de vocá- 
bulos, '^ a religião, a legislação. O estudo do grego era muito 
mais usual — affirma Quintiliano — do que o do latim ; e 
no tempo de Gatão saber grego era signal de boa educação. 



' Pacheco Juiiioi* — G''amm. hist. Intr. p;ig. 21. 
* Foi Dyonisio da Thracia q lem inh-odiuiu em lloina a lenuiiio- 
logia Grega. 



38i 



Tibério Graccho discursava, e Flaminino versejava nessa 
lingua ; a primeira historia de Roma foi escripta em grego 
por Fábio Pictor ( Mommsen I 425 - 902 ) ; Cicero, pe- 
rante o senado de Syracusa, e Augusto em Alexandria, 
fizeram allocuções em grego : as mulheres. — referem 
Ovidio e Juvenal — , liam Menandro e outros escriptores 
Gregos, 

Ora, si apesar de toda essa legitima influencia da Grécia 
sobre a intellectualidade romana, não conseguiram os Hel- 
lenos introduzir na lingua latina o emprego do artigo, com 
razão mais forte na peninsuia hispânica onde a influencia 
grega só se fez sentir nos usos e costumes . 

Na linguagem não é ella. reconhecida ; este elemento 
et3'mologico foi em extremo insignificante no léxico po- 
pular. O predomínio deste elemento só se manifestou na 
technologia scientiftca, no vocabulário erudito, isto é, 
quando a lingua já estava formada, e já era geral o uso do 
artigo em todos os idiomas romanos, inclusive o por- 
tuguez . 

Em remate. O artigo definitivo, que também era co- 
nhecido dos Celtas e dos Godos, não veiu da Greeia. 

2°. — Estudemos agora a segunda hypothese. 

Leoni e outros muitos, são de parecer que em Portugal 
o artigo provém do ablativo hoc^ hac, que mais tarde sim- 
plificou-se ern ho, ha, e finalmente fixou-se em o, a. 

O principal esteio de argumentação de Leoni e seus 
proselytos é a graphia ho, ha. 

Sabemos que Plinio escreveu devia-se considerar os 
pronomes hi:, hx:, hoc, verdadeiros artigos sempre que 
estivessem exercendo funcções de demonstrativos . 

Lê-se em Eggerde que nas escolar do Império do Occi- 
dente, os grammaticos romanos empregavam hic, h.vc, hoc., 
para designação do género dos nomes. 

Mas se todas as outras lin^uas irmãs derivam o artigo 
•definito do demonstrativo lat. ilh, illa, illud, porque o 



382 



portuguez, delias se desviando, foi buscar a sua muleta 
grammatical ao ablativo hoc, hac^ posto que em legitima 
concurrencia com aquelle outro typo ? 

O facto náo seria novo, e se fosse verdadeiro não nos 
causaria estranheza. 

Mas o nosso artigo dirivou-se das formas illo, illa, illos^ 
tilas. São provas incontradictaveis do novo asserto, os 
documentos históricos. 

Nos escriptoá dos Secs. XII e XIII, isto é, nos primeiros 
períodos da lingua, as formas articulares são ilo i.o ( por 
jm\o de ilo re;, a los alcalddes^ las vertudes, los santos}^ 
2l par das hodiernas o, a ( o abale de Santo Mariino^ a jnaior 
ajtída^ os amem, o Jiel dixer,). Nas contracções ainda se 
descobre a forma actual, que foi das primitivas — dus 
( dos ), no, nus^ nos^ lus ( los ) i . ^ As formas contrahidas 
d'is., nus, lus., constituem simples variantes graphicas e 
ainda no sec. XIV coexistiam as formas usqous{o). "•^ 

No Século XIV — persistem as formas o, a, além das 
variantes citadas — iis, oiis, ^ . Apparece a forma El- 
Rei= tio rei:— foram dt\er a elrrey qus. . . [Livro de Liiih. 
D. Pedro ), que persistiu até hoje. 

No sec. XV temos as formas o, a, os, as, ; ao, do, das, 
ni, por o etc. * 

No sec. XVI, isto é, no portuguez moderno, é que se 
implantaram as formas /lo, ha, cujo império estende-se 
ao XVII ; mas sempre a par da actual ( o, a, ). * 



' Enclises noniinaes: — todolo, todolos, ambolos, todoltcs Sec. 

XIII. V. 

* Vide Cano. da Vat., Car. da Vat., Foros de Gravão, J. P. Ribeiro 
loc. cit., Canc. Affonsiin. 

' Iti de S. Dento de Foros Gravão, de Santarém ect., Fr. J. Claro.... 

* No Liv. das Linhagens : — de máa ventura he ho homem que sse 
lia per nenhuma molher ; o curral era alto de muros ; o ilTante disse con- 
tra seu pae, etc. 

» ieaZ Coíis-, Mor., J. Ciar. J. Ferr. etc. 

Conservamos la, etc. em algiimas expressões — a la fè, a la moda ; 
El em El-Rey ( é a forma usada exclusivamente^ na ilha da Madeira, 
segundo refere a eminente glottologa Car. Michaolis. ) 



383 



A orthographia — como vimos na Lição Quinta — era 
ainda muito irregular e vacillante ; e a corrente erudita, 
que tanto se manifestou nesta phase evolutiva da lingua, 
cahiu em muita estultice pelo culto exagerado ao clacismo. 
Predominava o gosto pelas antiguidades gregas e romanas ; 
e sem mais exame, talvez descobrissem no grego os 
pergaminhos nobiliários do nosso artigo definitivo. Mas 
cumpre advertir que o abuso do emprego do h no sec. 
XIV (introduzido pelos latinistas) e no XV, continuou 
no periodo áureo ( hinsidias, heslromento, higiialãaçon^ 
husofructo, husaro77i... ) 

D"'onde se originou o Ji áz hum, hunia S ( que conserva- 
mos em nenhum ), he ( ainda dos Sec. XVII e XVIII ), ao 
passo que escreviam OMrr<:z, omen, oje, aver, etc. . . ? 

Ainda mais. Illo homo era forçosamente pronunciado 
com um único acento tónico, que recahia sobre o primeiro 
o de homo. O accento secundário, em geral sobre a syl- 
laba inicial, deslocou- se para a 2^ /o, como acontece fre- 
quentemente nos procliticos. 

O h pois não é etymologico. O artigo procede em linha 
recta do illo : prova-o mais a sua dupla formação (o homem., 
eu vi~o — V. Syntaxe. ) 

As contracções do artigo definito começaram no Sec. XII ; 
as primeiras empregadas foram as das preposições em 
e de {nos., luts., dos deles., etc.) ^ 

A contracção da preposição a e per (por) só appa- 
receu no fim do Sec. XIII, principio do XIV (ao, pelo., 
pola., etc); ^ mas costumavam também indical-a apenas 



• Nas primeiras décadas do Sec. XIV — ?í7jo, a ti», (Cd. Aff. ) 
mais tarde — Ai/, htia, hú, huã, hum, huma, humxs, ( L. de Linh. do CoU. 
dos Nobres ) : dep >is w, uã, a par de Iwm huma, e por íim xim uma. 

* E leriim deles quanto que overum ; devision que fazemos entre nos 
dos erdamcntiis e dos coutos e das onrras ; nas três quartas partes do 
Padroidigo dessa Eygreyga. 

' Vaya ao plazo ; peyte médio m.orahitino a aquel con que non quer yr 
(Foros do Cast. de Itod.) ; o noso senhor pola sua piedade nos demostra a 
carípcira da vida (R. de S. Bento). 



384 



aa^ por o, per o. Muitas vezes, no mesmo documento, 
deparam-se ambas as formas contrahidas e nâo. ^ A 
contracção com o artigo masc. era o ^ e ainda tinham 
a forma ai = alo . 

A prep. pér, foi ferida de morte^ pela prep. por na lucta pela vida, 
e com isso perdemos uma riqueza da nessa lingua : aquella empre- 
garam-na os antigos com o accus., esta com o dativo — Já novi pode- 
des per x&va. bem haver ; a voos graças faço por íxs mercees qite vte 
fizestes. 3 

9. — Artigo iNDEFiNiTo. — O artigo indefinito, como o 
definito, tem por fim — diz F. Diez — a individualidade 
de um objecto. 

Resta accrescentar que o indefinito, ao contrario do 
definito, só se emprega em referencia a cousas ou indi- 
viduos indeterminados. O artigo indefinito é um adjectivo 
determinativo indefinito . 

O nosso artigo indefinito é iim, iima=^\2LX. umis., — 
j, que entre os Romanos significava U/ii certo^ algum., 
alguém (por transf.) E' esta a razão porque tocou a 
esse numeral o papel de artigo indefinito, em que alguns 
acreditam ver — e talvez com fundamento — vestígio da 
palavra homo (homem). 

Skiit unus paterfamilias his de rebiis loquor (Cie), est hitic unus 
scr7'!is violeiítissivuíS (Quin.)y fonite aiiie óculos iinimi qí.'C7iiçue rcgeinj 
íienio de nobis iiniís excellaí; unos sex dics (Plaut.) D'ahi é qne 
nos veio o modo de dizer — umas faces rosadas, uns cabellos calanm- 
trados j uns quitizc dias, etc. 

Emprega-se também o artigo indefinito, por extensão, 
para designar um individuo como typo da espécie : — 
um bom filho será bom pai. Neste sentido é que elle 
se approxima do definito. 



' Ashí coní lliis fora mandado jtelos reis ; per rs grandes e dur^s g(TÍIpcs 
que se darani (I.irro de Linh, D. Pedivi^. 

* E' fraqueiifca o emprígí de ó=.ao até os quinhentistas, N. Sec. XVII 
já e esporádico. 

' Vid. Carim — Jlrmunii. 



VÍGESLMA SÉTIMA LIÇÃO 

Etymologia das formas vertaes. — Compa- 
ração da conjugação latina com a por- 
tugueza. ^ 

1. — A historia da conjugação portugueza mostra cla- 
ramente a lucta entre as duas forças oppostas, a que 
por vezes nos hemos referido, e a que estão as línguas 
sujeitas na sua formação. 

Mostra -nos mais ainda a lucta entre a tradição das 
formas s3'ntheticas latinas, e o anahtismo. 

2. — Temos quatro conjugações. 

A 1^ em jr, que corresponde á latina em are. 

A 2^ em er, correspondente á latina em ère e ere. 
Nos derivados dos verbos em ere houve deslocação do 
accento, que já remontava ao latim vulgar, porque a 
par das formas proparox}'tonas {críarere., gémere., fdcerc, 
dícere., íj'émere^ rúmpere., . . . . ) creara as oxytonas em 
ere ire {currire g-emire., f acere .^ dicére . . . . ) 

A 3® em /r, que corresponde á latina em ire e ere, 

A 4* em or, que, como vimos á pag. 228 § 8, per- 
tencia á 2° até o Sec. XV, e corresponde á latina em ere. 

3. — No tocante ás flexões de tempo e modo, já notamos 
o desapparecimento de formas simples ( futuro ), substi- 
tuídos por outras compostas ou periphrasticas. 



■- » Vid-- Licfio 16^ pag-. 210 § 4" 

49 



386, 



Perdemos mais o snpino e o geriindio^ mas em com- 
pensação creámos o condicional. 

Emíim, e isso ja resalta do que dissemos na 16* .lição, 
apesar de todas as modificações porque passou, a con- 
jugação portugueza conservou prefeita analogia com a 
latina. 

Tempos simples 

4. — Tempos simples são os que se formam pelo acres- 
centamento de uma desinência ao radical do verbo. 

5. — INDICATIVO PRESENTE. — Não apresenta na sua 
formação differença dos tempos correspondentes no 
latim. 



amo-o 

ama-s 

ama 

ama- mos 

ama-is 

ama-m 



que correspondem a 



am-o 

ama-s 

amat 

amã-mus 

amã-tis 

ama-nt 



dev-o 

deve-s 

deve 

deve-mos 

deve-eis 

deve-ra 


applaud-o 

applaude-s 

applaude 

applaudi-mos 

applaud-is 

applaude-m 


mone-o 


audi-o 


mone-s 


audi-s 


mone-t 


audi-t 


mone-mus 


audi-mus 


mone-tis 


audi tis 


none-nt 


audi-u-nt 



A desinência da i* pessou sing. é idêntica á latina em 
todas as conjugações ; a 2^. conservou o 5 final carac- 
terístico, mas muda o / dos verbos latinos da 3*. e 4*. 
conjug. em (?; na 3* pessoa deu-se em todos os tempos 
a queda do t final. * 

O único vestígio que nos restou desta característica é a 
forma est., que se encontra nos primeiros cancioneiros., etc : 



• Já frequenti no latim desde o sec. — IV da nossa era, porque não mais 
soava na linguagem popular de Roma. 



387 



— esl a pra'^0 passjdo ( D. Din ), est asst\ est' est 
o m.T/er beii, grave est a mi^ etc. 

Já dissemos que esta forma era principalmente em- 
pregada antes de vogal . 

A 1*. pessou do plural muda regularmente o u da 
desinência em o ( mus=:mo5 ) ; mas no sec. XIII ainda as 
formas eram verdadeiras reproducçõ;s — amamus ven- 
demiis . 

Nas 2*^ pessoas do plural o t desinencial (ama-t-ts) 
cahiu, mas depois de haver abrandado em d [ama-d-es, 
vale-d-es). No Sec. XV é que começou a s3'ncope do d^ 
que se tornou definitiva no XVI ^ [soes, amayes^ oiiuis}^ 
coniquanto ainda as encontremos em Gil Vicente — 
(olhade, diiedes, sodes^sabedes, deixades^ etc.) 

Conservamos ainda vestígios dessas formas em — ledes^ 
credes^ vedes tendes^ vindes^ pondes (V. pg. 217-nota.) 

A 3* pessoa do plural é em m (am^ efn) = \sit. nt (p. 
ntt) \ • mas a nossa flexão já era a do latim popular . 

Segundo Corssen (Uber Ansspr.), a articulação cons. final — ;//, 
tendia a cahir dtsde o periodo comprehendido entre a 1* e 2* guerra 
púnica, na linguagem popular e na poesia, ao passo que na linguagem 
clássica e na prosa predominaram as formas completas em — etunt . 
No latim da decadência, porém, dava-se a queda do /^ persistindo o 
«_, que se tornou final, e que por ser surdo, transformava-se muitas 
vezes em ;// (Jeceria/i, couve iienim, dedicaru)!; .) 

Nos Foros do Casiello Rodrigo (Port. vtoií. hist . leges) as formas 
façan, euire», deu, &\.c, eram todavia concurrentes com as em tií : — 
denf, facent, ... 

Em alguns verbos, o ii • o) formando hiato com a vogal 
do radical, deu em resultado o diphtongo ão: — va (d) 



^ Sansk. — nti, gr. — ivti, gilh. ?i ', ant. alio ali. — nt, moderno — n, 
gallez — nt, franeez — nt, eVc. 

* Achades, sejalcs pxssades, soles, faczici e fazedes,. ., posto mais pre- 
dominem as syncopadas — fazezs, dicee.t, tocees, avce-<, daaes, sooes, em 
que dobravam a vogal para conservar a tonicidade latina. 

O 1° doe. em que appare^e a íorma contraliida, parallela a antiga, 
tem a data de 1410: — fjiiards guardes guardados (Cap. geraes propostos 
pela^Cam. d", Santarém), 



388 



iml = vaom, vão . Cp. — sermom^ coroçon^ oraçom, non^ 
galardon, . . . 

No Sec. XV é que começou a forma em ão. 

6. — Ind. Imperfeito — Forma-se do modo seguinte : 

ama-va dcvi-a applaudi-a 

ama-vas devi-as applaudi-as 

ama-va devi-a applaudi-a 

ama-va-mos devi-a-mos applaudi-a-mos 

ama-ve-is devi-e-is npplaudi-e-is 

ama-va-m devi-a-m applaudi-a-m 

que corresponde ao latim : 

ama-ba-m mone-ba-m audi-c-ba-m 

— ba-s — bã-s — — — s 

— ba-t — . ba-t t 

— bã-mus — bã-mus — — — mus 

— bã-tis — bã-tis — tis 

— ba-nt — ba-n — — — nt 

Duas cousas são de notar neste tempo : 

I .* — A transformação da desinência latina da i^ pess. 
sing . — bam em va, ( i ^ conj . ) 

No latim vulgar da decadência já era frequente a 
apocope do m (5« p. siim, carpere p. carperem^ dice p. 
di:em^ ctc), á imitação do que se praticava nas formações 
nominaes, principalmente nos tempos de Cicero e Tito, e 
ainda accrescentado depois do Sec. III da era christã. 

— Quanto á permuta do b pelo v (que remonta ao latim 
do 2" Século D. C. — mirainlt Fapío, lavoratiim^. . , e 
tornou -se geral desde o 4°), vide lição 3 .* 

2.° — A deslocação do accento primitivo latino na i^ e 
2^ pess. áo ^\nvd\ {amávamos amabdmus.) 

Nos verbos de 2^ e 3" conj. seguimos o typo do Im- 
perfeito da 3^^ conj. lat. em i, desprezada porém a ter- 
minação derivada ; e por isso os da 2*^ mudam a vogal 
thematica em 1 {temia, vendia). 

Ouvia — aiidi (e) (b) a (m), — s, — , mos, — eis, — m. 

Nos primeiros does. as formas dos verbos da 2* conj. 
eram em ades^ i. e., mais encostadas ás latinas (ba-iis) ; 



38ç) 

— qUerhdes^ fa{údes\ . . . A queda do d trouxe as fórmaâ 
quer iat s /a{tais^ ainda, frequentes nôâ does. do XV, 

7. — Pret. perfeito. — Formou-se tomando para typo 
o dos perfeitos latinos em — avi, evi, vi. 



amii 


devi 


applauaV 


ama-ste 


deve-ste 


applaudi-ste 


am-ou 


deve-u 


applaudi-u 


amá-mos 


deve-mos 


applaudi-mos 


ama-ste 


deve-ste 


applaudi-stes 


ama-ram ' 


deve-ram 


applaudi-ram 


que correspondem 


ás formas latinas 




ama-v-i 


mon-u-i 


audi-v-i 


ama-v-i-sti 


nion-u-i-sti 


audi-v-i-sti 


ama-v-i-t 


ir.on-u-i-t 


audi-v-i-t 


ama-v-i-mus 


mon-u-i-mus 


audi-v-i-mus 


ama-v-i -stis 


mon-u-i-stis 


audi-v-i-stis 


ama-ve-runt 


mon-u-i-runt 


audi-v-e-runt 



Dizem os grammaticos que amei é contracção de amado 
hei, amasie de amacio has^ etc. De feito, são estas as formas 
correspondentes, e sabemos que no latim o participio 
precedia o auxiliar ; mas basta confrontar o paradigma 
portuguez com o latino para nos convencermos de que a 
nossa língua aceitou o typo latino, e que as desviações 
que apresenta são devidas ás regulares modificações 
phonicas . 

No latim líi e vi exprimem o thema do perf. da raiz fn e d'alii — 
avia fui = aina-Iuii, ama-iii, aina-vi. 

F/ juntava-se, em regra, aos themas do prés. dos verbos derivados 
das flexões — </, e, \. para formar o perfeito avio aviavij avian.ns, 
avia^nviiis. 

Nos verbos de primeira conjugação { di-íu'^, deu-se a 
queda do v em todas as pessoas ^, e d^ahi pela mudança 
regular do diphthongo ai em ei ^ ami, ( v ) / = amei. A 



* Esta forma am õo fixou-se no Soe. XVI — Sec. XII — em um, XIII 
om^ on, XIV, XV — om, õ. 

• Probai p, probavi, probaisl, calcai, p, calcavi, etc. 
*^>*í»?aj'í(t.=p. aiit.-o>*i»iatVo, primeiro: Jamtaviu$=janeiro. 



Sijo 



queda do v médio arrastou a do / ( <? / ^ e d'ahi amasíe=ama 
( V ) (i) sti, amamos = ama (v) ( i ) mus, amasies, amaram. 

Na terceira pessoa do sing. ( amou — amant ) a termina- 
ção it cahiu porque não soava na linguagem popular ; o v 
( principalmente por se tornar flnal ) mudou para a vogal 
u ( amauit, arui, deseruit. . .) \ o diphthongo aii transfor- 
mou -se em ou. 

Os verbos da 2^ e 3*^ conj. formaram o pretérito ana- 
logicamente, dando- se apenas na 1* pessoa do sig. a 
cantracção de ei em i — ozm, applaudi. Formaram-se pois 
os da 2''* das formas latinas não syncopadas, de accordo 
com as regras da accentuação ( Cp . audi-p-i — oudit 
ouvi. ) 

Nos verbos de "ò^ conj . é de notar que os Latinos ajun- 
tavam simplesmente um/ ao radical para a formação d'este 
pretérito : — prehendo — eprhendi., prendi. 

A 2^ pess. do sing. tinha no Sec. XII desineneia idêntica 
á latina ( feiista) — ; no Sec. XV. a dental abrandou em 
d, encostando- se no XVI de novo ao typo primitivo. 
E' o único tempo que conservou a dental latina das 2^* 
pessoas — amastes., vendestes, applaudiste. 

8. Mais que perfeito — Formou-se do tempo corres- 
pondente em latim. O que dissemos com relação ao pre- 
térito, explica as modificações phoniças porque passou. 



ana-ra 


ama-v-era-m 


amára-s 


ama-v-era-s 


amá-ra 


ama-v-cra-t 


amára-mos 


ama-v-cra-mus 


amá-re-is 


ama-v-era-tis 


amá-ra-m 


ama-v-cra-nt 



E assim para as outras duas conjugações. 
Houve deslocação do accento na i^ e 2* pessoas do 
plural . 



» Abit = abLvit, exit exivit ( P. 1.): ierut t = ieverunt, redit = redivit. 
( Ter. ).,. E o i loago latino soava ás vezes e-o que fez com que Lu- 
erlio propuzessa fossJ eile representado pelo diphthongo ci. 



39 1 



Já são do Sec. XVI as formas — foreys^ amáreys^ 
léreyes, ouvir eys . 

9. — Futuro. A sua formação remonta aos tempos 
históricos . 

O latim tinha um futuro, que se conserva na forma 
c-ro, antigo e~so (= <t o) ; e outro primitivamente peri- 
phrastico, composto de um thema verbal ou de uma 
flexão nominal dp verbo e do presente de_/«o, que só se 
empregava em composição. Fiio mudou -se em z/-o, v-o; a 
semivogal v, permutou em b, e assim formou-se o futuro 
em bo na latinidade antiga. 

Na época da decadência, porém, as finaes latinas dei- 
xando de ser pronunciadas, houve forçosa confusão de 
formas, e impossivel era aos populares a distincção entre 
o imperfeito amabtt, amabam, e o futuro aniabit amabo. 
Para removerem esse embaraço, crearam os Romanos uma 
nova forma de futuro, composta com o infinito do verbo 
e o presente de habere : — amare Jiabeo^ habeo dicere, habeo 
ad te scribere (Cie. ), . . . 

Este futuro periphrastico por fim alterou o clássico, e 
foi o adoptado por todas as linguas romanas, que conser- 
varam a inversão latina. 

Amare habeo deu amar hei (assim como habeo amare — 
het de amar), e pela fusão dos elementos, — amarei, amarás, 
amará^ etc. Que a desinência ainda conserva, porém, 
foros de palavra independente prova-o o facto de 
poder separar-se do verbo: — escreper-íe-hei^ etc. (V. 
pag. 218 e seg.) 

10. — Condicional. Nada temos a accrescentar ao que 
dissemos a pag. 219. 

II. — Imperativo. As 2*^ pessoas (ama amae) for- 
mam-se das correspondentes latinos (ama amaíe^ mone 
monete, audi audite, ... As 3^^, de uma reproducçao da 
formado prés. do subjunctivo — ame elle^ amem elles, e 
bem assim amemos, applaudamos, etc . 



39Í 



Quanto ás modificações porque passaram essas formas 
até o Sec. XVI, V. pag. 220. 

Conserva a 2^ pess. pi. de alguns verbos, vestígio do 
t latino : ponde tende ^ lede. ^ 

12.— SuBJUNCTivo. '^Presente . E' uma reproducção 
do typo latino . 



I™ coiijvgarao 


2* e 3 


* conj\ 


Hgaçao 


Port. 


Lat. 


Port. 




Lat. 


ame 


ame - iii 


— a 




ít - in 


ame - s 


ame - s 


— rtS 




a - s 


ame 


ame - / 


— a 




a- t 


ame - mus 


ame - mus 


— «mos 




a - mus 


ame - is 


ame - /is 


— flCS 




a - /li 


ame - m 


am - cn/ 


— am. 




a - n/. 



As modificações únicas são a queda do m latino das 
1^2 pessoas sing., do i final das 3^% e do / médio das 
2** do plural , Todas são regulares, e a ellas já nos refe- 
rimos acima. 

Nos derivados da flexão em e 
perda da vogal thematica ( deva 
vista^ p . vestia = 1 . vestia-m . 

1 3 — S . IMPERFEITO . — Forma-se do mais que perfeito 
do subjunctivo latino ( forma popular ). 



e /, dá-se ás vezes a 
p . devea = 1 . debea-m, 



Por. 

ama - sse 
ama - sse - s 
ama - sse 
ama - sse - mos 
ama - sse - is 
ama - sse - m 



Lat. pop. 

amassem 

amasses 

amassei 

atnasscmiis 

amasseis 

amasseiit 



Lat. class. 

ama - v - issem 

— — isse - s 

— — isse - t 

— — isse - mus 

— — isse - tis 

— — isse - nt 



No Sec. XVI ainda era frequente o emprego do mais que per- 
jeito do Lidicativo pelo subj. prcs. ( Se eu fora inn dos õetiemerifos 
— Vieira Ser7H ), e no Soe. XV o do Iníidito pessoal pelo subjunctivo 
( O Imperador desejara muiio de ficardes 7ia sua íerra, Barros : ) 

O I® emprego ainda é usado por alguns escriptores puritanos ; do 
2°, ha exemplos que entendo devem ser imitados :— trabalha, filho 
meu, por agradarem tuas obras a Deus ( M. Pinto.) 



* Sac. Wl amay, oei,... e sede, lide. 



J 



393 



14 Futuro. — São encontradas as opiniões quanto á 
sua et3'mologia. Querem alguns gramma ticos que elle se 
forme da 2^ pessoa sing. do pret. perf. do Ind .; outros 
opinam que do infinito ; raros — e com mais cabimento — 
derivam-no do futuro perfeito do subjunctivo latino. 

ama - r ama •• v - erim 

ama - r - es — — eri - s 

ama - r — — eri - t 

ama - r mos — — eri - mus 

ama - r í/es — — eri - t!s 

ama - re - m — — eri - nt 

Amares corresponde de feito a teres de amar^ amar- 
mos a leiamos de amar^ etc; mas as differenças que apre- 
sentam esses dous paradigmas desde que attendermos a 
que — como jà vimos — o ?^ cahiu sempre, e bem assim 
o met da 1* pess. do sing. e 3^ pess. de ambos os números, 
perdas estas que arrastaram forçosamente a queda do i da 
flexão, que d''outra forma tornar-se-hia final. Assim ex- 
plica- se a semelhança que apresentam com o Infinito as 
I* e 3* pess. sing. Ama (v) er (im), ama (v) er (\t) = a77iaer 
amar. 

As formas do futuro do subj . já se encontram em does. 
doSec. XV (ouvirdes, fordes^ amardes^ lerdes,) 

i5. — Infinito. E' de origem latina. 

16. — Participios. Pouco mais temos que accres- 
centar ao que dissemos na pg. 221 e seguintes. Sobre o 
part. pass. em eito (alguns ainda muito frequente nos 
textos do Sec. XVI) — escolheiio, escorreito, correiío, co- 
Iheito, recolheito., cncolheito, coieito^ tolheiíò, (= ido, typo 
latino em ectus^ collectiis, etc), Cp. — feito leito peito treito 
contreito (G. V. III 25 1) maltreito,, bieito (benedicto) •, /e- 
eiío, empleita^ colheita, etc . . . 

Tempos compostos 

17. — Na formação dos tempos compostos, emprega 
o portuguez os auxiliares — ter, haver ^ ser e estar. 

50 



394 



O processo não era estranho ao genis da lingua ; já era 
conhecido dos Romanos, que, perdido o sentimento da de- 
clinação e das flexões vèrbaes, tiveram, seguindo a tendentia 
analytica, de empregar palavras auxiliares — preposições e 
certos verbos de significação muito geral, para clareza da 
phrase. D'ahi as fórmafe — habeo dictum, habeam scriptum... 
a par das syntheticas — dixi, scripseram, habeas scriptum 
p . scripseras, hâbes instituta p . msítiutsíí\ redempta habet 
p . redemit . . . ^ 

VERBOS PASSIVOS 

i8. — O portuguez regeitou de todo a forma S3^nthetica 
do passivo latino, substituindo-a — pela composta do par- 
tieipio passado e do verbo ser ou estar . 

Esta mudança morphologica, porém, já era frequente 
no latim popular:— Aoc volo esse donatum (p. donari), 
quod ei nosira largitate est concessum (p. conceditur)», sitm 
ãniatus (jp. amor)^ sunt aspecta (aspectantur)^ est possessum 
(posseditur), etc. E assim amatiis sum ou fui, eram ou 
fuet^ami ero, essem, esse. 

Por outras palavras. A conjugação passiva latina era 
expressa por varias formas simples : — aman\ ser amado, 
amor, sou amado, amabar, eu era amado, etc. Mas em 
alguils tempos, como no perfeito e mais que perfeito do 
Indicativo, etnpregaram os Romanos formas compostas do 
participio passado do verbo principal e do auxiliar ser : — 
àmatiis fuit. As linguas romanas adoptaram essas formas 
aiiàlyticas) « que mais estavam em harmonia com o espi- 
tito da lingua popular, e que de todo suplantaram as formas 
simples » . 

19. — Tinham mais os Latinos grande numero de verbos 
activos intransitivòs de forma deJ)oriente (passiva), e de 



* Todos eâsea dizeres são class.— César, Cicero. 



395 



formas passivas de sentido activo : — revevsus sum^ pro- 
fecttis sum,....; me uliiis sum (eu me sou vingado, eu 
vinguei- me ; fr . je me suis vengé ) . 

Neste ultimo caso, o sujeito sendo ao mesmo tempo 
autof e objecto da acção, o verbo reflexo latino assimilou- 
seao passivo. 

20. — O processo apassivador dos verbos activos pela 
juncção da enclise rê nâs terceiras pessoas e rio Infinito im- 
pessoal (cultiva-se a terra é a intelligencia)^ já era conhe- 
cido dos Latinosi ^ jà nos referimos á forma periphrastica 
(pronome se -f- forma vefbal activa), cujos elementos fun- 
diram-se por fim. ^ 

O portuguez absorveu na forma activa todos os verbos 
deponentes latinos, que já eram pela maior transitivos na 
linguagem vulgar : — arbitrarei, moderare, pariire,. . . . por 
arbitrari, moderaria partiria .... 

Os nossos clássicos, porém, estendiam o emprego desta 
forma aos verbos neutros :^ a avesinha se cahiu ; ella se 
morreu (B. Rib.), cahtr-se^ emmdgrecer-se, acofitecer-se, 
partir-se {d' alli nos partíramos^ Gam.) etc. .. Hoje só temos 
esta liberdade quando o verbo neutro exprime exponta- 
neidade da aeçao : — víVe~se^ come-se^ bebe-se^ dorme-se^ . . . 

O latim procedia da mesma forma com os verbos mixtos 
{semi depoentes, neutro passivos \ — ceno^ praiideo^ poto. 
{a.z}a.m cenatns sum^ pransus sum^ poius svim^... Cp. port. 
— bem comido^ estar dormido . 

21. — Os Latinos tinham também um outro modo de 
oxprimir que a acção era feita e sotVrida pela mesma pessoa, 
além da voz passiva. Empregavam o verbo na voz activa, 
mas acompanhado de um pronome regimen (reflexivo da 3''' 



' Amor = amo-se, etc,. Como no grego, o pronome serre de reflexivo ás 
3^" pesííôas. Esta formação periphrastica autor isa a supposição de que o 
latim teve desinências correspondentes ás gregas mai sai tai, para exprimir 
o médio paosivo : e o gregj com excepção -do aoristo i» do futuro, exprime 
o sentido passivo e médio pelas mesmas formas : — luoinai = eu me des' 
■prendo e sou desprendido. 



396 



pessoa) : — Virgo de cespite se levat {a virgem levanta-se 
da relva). O portuguez, como as outras línguas congéneres, 
adoptou esta construcção latina, e assim crearam-se os 
nossos verbos reflexos pronominaes . 

Si o verbo é transitivo, o pronome é regimen directo 
(mover-se) ; si intransitivo, o pronome é regimen indirecto 
[arrepender^se). 

O desenvolvimemo analógico d'essa forma no portuguez 
antigo, deu em resultado uma serie de verbos que não são 
propriamente reflexivos, mas simplesmente pronominaes, 
porque o pronome nem fazia as funcções de regimen di- 
recto nem de regimen indirecto {apoderar-se^ partir-se, 
morrer-se., deliberar-se^ etc). 

22. — Já fizemos sentir em outra lição a grande influencia 
da analogia na conjugação portugueza, e bem assim que as 
irregularidades são devidas a uma lei de accentuação ou á 
acção de certas lettras sobre as do radical. 

Na conjugação latina o accento dos verbos deslocava-se 
segundo a natureza da flexão que se juntava ao radical, e 
este facto é de grande importância . 

No portuguez antigo eram em maior numero os verbos 
de duplo radical (atono e tónico) hoje resumido pela acção 
da analogia. 

Por estreiteza de tempo e de espaço não damos aqui as regras rela- 
tivas aos verbos de radical monosyllabico ou polysyllabico. 

23. — A acção flexionai depende : 1° da presença de um 
io\ie. — Neste caso a acção flexionai cahe ora na vogal 
diphthongada, ora na consoante que se modifica oués3'nco- 
pada, e ás vezes sobre ambas . 

D'ahi as transformações dos radicaes . Cp . audio^ debeo ; 
hav (radical de haver) — hei. etc . 

2." — Introducção de letras euphonicas : — Já nos refe- 
rimos a este facto, que obriga ás vezes esses verbos, por 
motivos euphonicos, a dous radicaes . 



VIGÉSIMA OITAVA LIÇÃO 

Etymologia das palavras invariáveis 

I. — Do ADVERBIO 

1 — Os nossos» advérbios originam-se : 

a) de um advervio latino simples : — jd^ onde^ Id. 

b) de partículas latinas : — assas ( = ad satis ), avante 
( ab-ante ). 

c) de adjectivos : — a//o, forte^ baixo^ certo, raro, 
tarde, etc . . . . 

d) de um adjectivo na terminação feminina e o suffixo 
mente : — rarajuente . Por derivação . 

e) de duas palavras portuguezas : — atue-hontem, 
outr^ora^ atJianhã. 

2 — Das modificações adverbiaes a mais de notar é a 
do s paragogico, mais frequente nas formas archaicas : — 
entonces, ames^ algures^ 

Advérbios de tempo 

3 — Vide lição 20. 

Amanhã = Form. port. : — a -\- manhã {ad mane ). 

Antes, ante ; anttrci}. de Barros, Ined. d"'Alc. etc. 
Do latim ante. 

Ate — 1. hactenus, d^onde a forma port. hacté Formas 
arch. atd^ athd, attá, atda ( Liv. deLinh., Nob., Ord Aíf. 
e M., Ined., Azur.) 

Agora = ac hora . 



398 



Cedo == 1 . cito . 

Hoje = 1. hodtè ( hoc die ) ; port. arch. q/ {S. Ros,), 
oje ; hesp . hor ; fr . atijourd' hm\ arch . Jioi hui^ it . ogge . 

HoNTEM = 1 . anie hodie^ na opinião de alguns ; de ad 
noctem^ segupdo outros (Cornu, etc), E' dos primeiros do- 
cumentos da lingua \ port, arch. herí= 1. heri. fr. híer^ it. 
tere^ hesp . ayer . 

Havia, porém, no port. a forma o//e, Qoyte ( Doe. de 
1 -743 = Eluc ), a par de oníe ontem . 

Não será hontem de formação portugueza : anfoy, ont*oy ; 
{oiit p, aftt — também no hesp.) ? O m epithesico, a nasalisação da 
vogal final, é muito frequente no portuguez — ( si sim, assi assim, etc). 
De restOj ad note1n^ hesp. anoc/ie, não significam avianhã, mas ao 
declinar do dia^ perto da notite, ♦ 

Cp. mais — ogÇj ogè die 7= hodie ; l^t. — hesterno die ou simples- 
mente hesier7w <== hontem^ antehac em tempo passado, e nesse 
mesmo sentido empregar-se /w«/í?;« ; antCf hontem, etc. Jam ante = 
d'antes, anteriormente (Cie). 

Já = 1 . jam , 

jamais. — De jd e mais ( Sign. propriamente nunca 
mm^ ) . 

Logo = 1. loco ( in Joço ). 

Nunca. = 1 • nunquam . — F . arch . iiuncas, nunqua . 

Ogano, oganho = \. hoc anno (este agora, agora), 
Vem og2i.no mais portugueimente {E.UÍV.) -^Yt. ant. uan 
oan QuaH . E' forma archaica , 

Outr'ora — E' de formação portugueza ^^ outra hora 
( d'antes ) . 

Pós = 1 . post . — Deu após, empôs arch . , depois . 

Quando = 1 . quando . 

^EUWSL==\, semper. 

Tapde = 1. tarde. 

Além das formas de creação vernácula já citadas, temos 
-^dliora em diante, ante hontem, ha pouco, depois d''amanhã, 
tresantehoniem-,.,, ., 

Além d'estes, temos mais — ainda, inda==i\. inde, 
amanhã { a -f- manhã ), depois ( de + pois ), então arch. 



39,) 



entonce entonces, ant. entom { in -f- tunc ),..-. e os ob- 
soletos — crj5 = amanhã ( G. Vic ) = 1. crds ; aliqiiando 
( f . lat . \ asinha = depressa ( 1 . agililer ? ) . Creio mais é 
forma abreviada de agilsinha, ^ ; desende desen desi de~y 
= deinde^ d'ahi, desde ahi, 

Advérbios de logar 

4 — Perdeu o portuguez algumas das perguntas de logar 
dos Latinos, que eram quatro. Assim unde tem sempre 
a mesma forma para o logar em que estamos, de que 
viemos, e para onde vamos. Para exprimir es^as differenças 
somos obrigados a fazer preceder o adverbio onde da 
prep. ífí? ( pergunta unda) ou íj, para (pergunta quã) 
( onde, d''onde, aonde para onde, por onde ) . 

Aqui, 4nt, qui \ hesp. aqui acá ; it-qui \ fr. ící. 

Diez deriva -o de ecce hic ( ec'hic ) ; outros da forma 
pleonastisa hac hic . 

Tenho, porérp, para mim, que este açjverbio, e JDem 
assim alli, ah\ acá alá^ forrnaram-se do adverbio latino 
com a prep. j, do mesmo modo que de unde formou-se 
o;iie, e depois aoude^- etc. Nos clássicos encontram-se £ts 
formas — j- i Iu\ té U^ té qui^per hi t hi'Vos 4'hi, etc. 

Em açuój acujusOj acasusç ( d'aquem, em baixo, em cima ), é que 
mait parece dar-se a influencia do demonstr. lat. — Mas notemos 
que no port. havia as fóimas jnss-ãOj ante, ( de baixo ). e sttsão 
suso ( de ciiua : açujuso pode pois ser corrupção de aquijuso ( aq^i 
de babco), acasuso^ de aquisuso. ( acásuso ). 

Ahi,'-- Corresponde ao latim ibi'^ deriva de hi, /, 
ç}'onde as formas archaicas portuguezas »-r^j' il }\i aj. 
Ahi= a + hi. 



* Trabalhos não a quebrantam. 

com elles vae mais as?nha. 

( F. de Castilho.) 
Nos Ined. d'Alc,, Versão da R. de S. Bento, — agina. I 256, 270, 
II, 258. 

* Afora, odentro,... desi, dcshojé, ein muito, ãe ascinte, de adp«de, efe 
aqiliçaraeofre, de pjeHioFmeptQ, ^tÇp 



400 



D^ahi tem por etymologia, na opinião geral, o composto 
latino deinde^ a que corresponde. Mas força seria então 
derivar ahi de inde. D'ahi é de creação portugueza ; a forma 
que directamente se derivou de deinde é a arch. desende^ 
- ende { d' ahi } . 

Alli = 1. illic^ tllt\poTt. ant. li. O e final tendeu 
sempre a cahir ( hic Ju\ nec ne^ illic illi^ Ter.) ; o zinicial 
transformou -se em a (cp. inier antre entre). 

A'quem — Derivam-no os grammaticos de hinc. — Em 
minha opinião é um adv. composto, de origem portugueza, 
e de formação emphatica ( a + adv. quem = para cá 
d'esse logar. cp. adeaníé). Corresponde a a ende. 

Alem — Deriva de alHiinde, que ás vezes corresponde 
a alibi. Cp. allende. ( hesp. ) 

Ante, k^tes = l ante antea. — O s da 2^. forma é 
como que a característica dos advérbios antigos. Em 
composição — deanie^ adeanie. 

O esquecimento etymologico é que nos obrigou ás 
formas actuaes — <ieante de., etc . 

Ante com ante é loc. adv. antiga; de hora em ante 
diziam ainda os do sec. passado por d' ora em deante, avante. 

Avante = lat. pop. abante ( ab + ante ) . 

Acolá t=: /. ecc"* illd ( c ), ou melhor de hac illà (illac) 
Significa aquelle logar, propriamente ahi Id para indicar 
logar mais remoto d^aquelle em que estamos. 

Lá no port. ant. era alá ( hac ala, acolá ) ? 
Algures. — Querem geralmente que este adverbio se 
origine de alicubi = aliqiio ubi, ant . aliquobi, que ás vezes 
vem reforçado por hic (hic ahcubi, C\c) . Parece-nos porem 
mais acertada a etymologia al'quoris {aliquis om=alguma 
região) . 

F . arch . — algur 

Alhur . alhures ( arch ) . São varias as etymologias 
apresentadas : — aliubi {= alio ubi), aliunde (= alio unde), 



401 



mais acertadamente de aliors^ alíorstwi^ ou de alioris ( alii 
+ oris). 

Arriba = 1. v. arriba ( = ad. ripam). 

Arredo, aredo, arch. an^eo=\. v. à re/rò( = para 
traz, para longe) : — arredo m de nós o sestro agouro 
(D. Fr. Man.). 

Perdeu-se o adv. portuguez, ao passo que a phrase la- 
tina — vade retro é hoje popular ^ . 

Alló, alô, arch . ( = 1 . illo = illuc, para aquelle logar, 
então):— allò hallara holgança (Canc. ger.), di\endo a 
El-Rei tudo o que sobre este negocio allò viera (Fern. Lopes. 
Chron. de Guiné.) 

Cá, port. ant. qua ; ízci = para cá. Do lat. ecc' hac, 
d^onde ecd, cá ( Cp. enomorar namorar, egreja greja, £thi- 
opicos Tiopicos, etc.) 

Cerca = 1. circa. 

Dentro = de intro . 

EsDE, desende desen desi de ~y, Qtc= inde, deinde, V. 
Lição 26. 

FóRA = 1 . foras ( for is ) . 

Lá, arch. ai d ^)=1. illac, cAlld {pava. \á) oppÕe-se a 
acd — Cp . alli acolá aqui. 

Longe = lat. longe. 

Nenhures. De nec ubi^ necorsum^ conforme os gram- 
maticos. Em minha opinião de neoris (nec oris) opposto 
a algures ' . 

Ondé = 1. unde, port. arch. u^ hu., — o fJiel vae vuscar-se 
hw ha colmeias ; non cries gallinhas hu raposa mora. Os 
antigos também empregavam, como ainda hoje a gente 
ignorante, aonde e adonde p. onde ; e u hu no sentido de 
aonde (Cp. fr. ou: — oii vas-tu ? aonde vás?) 



* Como outras muitas — Te-Deum, Dominus-tecum, Amen, Arreo, 
V. do Arcebispo: a reqxie é forma Açoriaaa. 

' Neoris, nenoris (nec ne = nem), nenhores, nenhum. 

3 Chron. do Cond., Ord. Aff., Ined. d'AIc., etc. 

51 



402 

U cofitrahiu^^se ap adj. articular (uIq ?//í? = on4e o) ; 
— ulas partes que damos á virtude ; ullo ser e autoridade 
de fidalgo ? ( Szã V. do Are, ) 

Adú=ia.á''oiide : — se partiu ad'u viera. 

Nos clássicos ( Lucena, etc. ) ençontra-se erradamente 
onde p . donde . 

Deve -se empregar onde, aonde., d'onde^ conforme o logar 
a que nos referimos ( onde esfas f d''Qnde vens P aonde (para 
onde ) vás? 

Perto = 1. pertus, 

Traz, ( atraz, detrás ) =1. trans. 

Suso, arch. = emcima. Do lat. susum ^. sursum (PI. 
Gat. etc. ) 

Advérbios de quantidade 

5 — São quasi todos de origem latina. 

Apenas = 1. poena ( a + penoe ). Pene ^ 

AssÁs = l. diásatts. Tinha muitrs vezes sentido de 
jniiito. 
. Bastante — do adj. — verbal. 

Cerca = 1. circa. 

CoMo = l. quomodo., pelas formas intermediarias quo^ 
mo, Cop. cowo geralmente na poesia, 

Mais = 1. magis. 

Meio = 1. medius. Sign. algum tanto. 

Menos = 1. mínus. 

Mui muito = 1. multum. No sec, XV empregavam 
ambas a formas para o sup. abs. ; — gente de pé mui 
muita sem conta ( = muitíssima ). 

F. arch. wm//(Sec. XII— XIII). 

Nada = 1. nata? (filha, pequena; Res nata). 

Pouco = 1 . paucum . 



^2)cnas, com pçíia, a 4- paiia^í^JífiÇ^Wfidfí; trab^JJ^p). 



4o3 



QuÃo = l. quatn, Ernprega''5e antes de adjectivo e 
advérbios com sentido de - — por tal modo ou tanio ( qiiam 
sem exciíscf. Luc. ; quão aiiJthci em jneii dano vos tomastes, 
Cam. ; camanJio. 

Quanto = 1 . quaninm . 

QuASi = í. quasi. F. arch, çasi quage qiiagi . 

TÃo==l. iam- Corresponde a tanto \ sign. a tal ponto, 
em tanto mg^P. Empregado com muito representava p 
superlativo absoluto (Sec. XIV): — porque tão muito 
tarde d' esta ve^. . . ( Canc. ) 

Formas ant . tam tom . 

Em çppiposição çom mcmho ( == magno ) çjeu tamanho. 

Tanto^I. tantnm. 

Compostos : — outroíanto^ ( alternm tantum ) com^ 
tanto. , no emtanto, . . . . , 

Formas arch . — adar — apenas, çhus., plus — mais,, , , , 
que farte ( — , fartim) — assas ; /j;«-j-/j-?'e{:= algum 
tanto, raro, etc. 

Noía.ie^ Os clássicos empregavarri frequentemente os 
advérbios bem ( benè ), 7nal ( malè ) para á maneira dos 
Latinos, darem aos adjectivos força intensiva : o coração 
bem mais largo que as praias do Oceano ( Luç. ), ete. 
E ainda hoje dizemos çom Souza — ficar meti ferido^ bem 
como-dei-lhe bem a entender^^ etc. 

oAdverbios de exclusão e designação 

6. — De alguns já tratamos, como apenas \ outrps for- 
mam-se por derivação — somente., unicamente. 

I . PopEM . arch . porende =\ . proinde. 

Senão. De si-hnão{\, siç non). 

Sequer. E' dos primieros does. — Significa propria- 
mente se quiser, ao menos. 

Só=l. solus. 

5.° Eis, port. arch. ex = 1. ecce — Sec. XIII e XIV. 
Com. — eis aqui., eis ai li. . . 



4o4 



cAdverbtos de modo 

7 — São em crescidissimo numero, que múltiplos são os 
modos de ser da matéria ou do pensamento . 

São advérbios de modo — assim ( ant. assi)^ assim 
assim, bem^ mal, como, e quasi todos os derivados, i. e. 
formados de um adjectivo feminino e da terminação — 
mente. oAssim derivou de ad-\-sic ou de zw+síc, segundo 
Littré. ^ 

O portuguez, regeitando as terminações adverbiaes 
latinas em e t ter ( certe^ prudemer ^ recorreu á forma pe- 
riphrastica latina, mui frequente entre os escriptores do 
Império — bona mente factum ( Quint, ), devota meme 
tuentur. 

A terminação mente pois é o ablativo latino do subst. 
fem. mens jnentis ( espirito, entendimento, mente ) ; mas 
que os Latinos já empregavam no sentido de modo^ ma- 
neira. 

l" Cp.: Elle procedeu de boa mente-, elle trabalha boa- 
mente. 

Esta desinência conserva ainda a idéa etymologica,e nem 
perdeu sua vida própria e independência : não soífreu mo- 
dificação phonetica, e pôde separar -se do adjectivo : — Elle 
escreve clara, concisa e elegantemew^e. 

Não ha razão — a não ser a ignorância — para não 
empregarmos — maior mente ( mormente ), melhor mente 
( Camões, etc. ), mesmameme., etc. 

Alias = 1. alias. 

Adrede — acinte, propositalmente. Forma outro adj. de 
modo — adredemente ; com prep . — de adrede. 

Acinte ( assinte ). — De caso pensado, mas com má in- 
tenção. De acinte., aciniemente. (L. ad scieme., áo ytrho 



• Outrosim=alte'rum sie 



40D 



seio = saber, conhecer, ter noticias : ad scienter = sabida- 
mente, Ex. — quer fosse acinte, feito quer acaso ( Eufr.) ; 
assintes 77ius de pensado ( Vieira ). Siuie ; a sinte ~ a saben- 
das. Cp. a-ienlo. 

Alguns "advérbios de modo derivam- se da forma com- 
parativa do adjectivo : — antiqiiissimamente = muito anti- 
gamente. 

Adverbias de interrogação e duvida 

8 — Daremos os principaes : 

I . ° Porque = por-f-que ^ 1. barb = per quce^ per qtiod. 

Como, ant quomo ^= lat. quomodo. 

Quanto = 1. quantum. 

Quando = 1. quando. 

2.0 Acaso = \. a casu — Tor acaso. 

Porventura ( por-l-ventura ). 

Talvez (tal-f-vez). 

Qyiiç^., 3sch.. quesais^qniçais^ quissd, quiçaes. Correspon- 
ao fr. quisait ? ital. chi 5<í? — gall. qui^aves^ que^ayes^ 
quisais^i qidxais. E' o latim pop. — quis sapit ( quis sap. 
pui sab, quiçá. ) 

NÃO. ( = 1. non) Esta partícula [nem sempre tem 
força negativa; ás vezes significa porventura., acaso — a 
duvida. ^ 



» jlned. d'Alco?> II, 26G. 

* Apparece, e mui frequentemente, em certos clássicos (como ponderou 
o V. de Castillio), um não, que nem nega, nem pergunta, nem aífirma, 
é que mais parece, o que succede no latim e outras línguas, se intro- 
metteu no fallar e no escrever unicamente para arredondar a plirase, sem 
que desses termos respigue um átomo de idéa : — nem itma só palavra 
dirá ate lhe não responderem á ferg^mta ; temo que elle não venha hoje 
p, temo qrie elle venha. 

Cp. lat. — timeo (ut) ne veniat ; etc, je crains qiCil ne vienne. Mais 
tarde, pela perda da distincção entre ne e ?íí non : — timeo itt non 
veniat, e emíim quando a conj. popular quod subst. a conj. ut: — tiiueo 
quod non veniat. 

Na phrase de Castilho — si tantos deleites ha na terra, que não será 
no céo? a particula não tem íorça negativa. 



4o6 



Advérbios de àffirmàção é úêgâçãú 

9. São de affir mação -^éim (=1, sic^ st); port. arch. 
5/c, ant. si; certo certamente^ seguramente. . . . -^Também 
= tão bem. 

As negativas dividem-se em simples e intensivas ou 
rejbrçadas. 

a) Negativa simples. E' não = 1. ;íom, também única 
neg. simples no latim 

F . arch . — no num non . 

Menos (minus), nada-., nunca (1. nunquam) 

Sem nos Sec. XIV e XV tinha força negativa, e 

empregava-se pela neg. wõb, como se vê em mais de 

um passo de Fern. Lopes {chron. G). 

b) Negação intensiva: — Resultado doesse principio 
conservador a que se chama emphase, a negação inten- 
siva é facto vulgar em todas as línguas, maiormente nas 
locuções populares. 

Consiste o processo em substituir a idéa pela imagem ; pluma 
Aaud interesty non fili facere, non nauci facere, e assim flocns, 
maticuSj triobolunij etc. . . . Por fim a imagem desapparece ; a expres- 
são deixa de ser figurada para se tornar abstracta : nihihtni nihil ^=^ 
nadaj são compostos de ne -f- hiinni., que significava « nem mesmo 
um desses pontos negros que s-5 encontram no extremo das favas ». 
'— Nihil igittir inors estj aã nos ncqnem ptriinct hilum (Lucr.) 

Para dizer que um homem nada vale. diz-se que não 
vale quatro vinténs., meia pataca, uma castanha., etc . ; que 
é fraco — um banaita ; quQ é estúpido — um cíiwe//o, um 
tajliânco, um burro.... A figura perde-se, e a idéa 
torna-se abstracta, como p. ex. em f\7/i/è (riachosinho). 

Seguimos pois o processo latino ; e muitos são os 
substantivos empregados para esse fim: — mica (arch. 
mique — nem mique nem nada)., c\\it já no latim exprimia 
negação — nullaque mica 5a//s (Marc.) ; migalha, sombra, 
polegada, um nickel, passo [nem passo se esquecia., G. 
Vic), ponto {hum ponto nh esteia parado., id.), ponta 



407 



( móçds apraieradas sem ponta de miolo ), fumo ( nem 
fumo de cãô óu de cadella)^ ceitil^ fava^ pingo (de ver- 
gonha, etc), gota [não lhe marra ellà aqui gota, G* 
Vic), espaço {nenhum espaço dormia^ B. Rib.), boia-^ 
patavina^ fumaça,. . . . além dos já archaisados -^ me^f ra, 
cornado^ ren., àl^ ome, .... A fonte é iriexhaurivel, e 
acompanha sempre a corrente das idéas novas. *■ 

Muitas vezes duplica-se a negativa para mais reforçál-a : 
— nem tiií|Ue nem nada ; item eira neiii beii'a, nem rámò 
de figueira ; nern chique, nem miqiie^ nem náda{G. Vic;) 

Vejamos agora rapidamente os principaes processos do 
reforço iiegativo. * 

a) repetição similar -. — não-nãOj nem-nevij nada-nada.. . bata do 
Sec. XIII. 

b) repetição dissimar : -^ iiern-fião^ não-nem, 7iao-nada , etc . 

c) eiTi prego de equivalentes pronominaes : — 7ienhnm-tiev!_, ciiíra- 
iienhnm ou iiingitevi,. , . Data do Sec. XIII 

d) emprego de equivalentes adverbiaes : ^^ nuyica-nenhnntj nem- 
nuiicãj muica jamais j nem-jaiuais, iião-nnitca,. .. do Sec. XII. 

e) emprego semeiotico da prep. iem : — sern tom nem som ; sem 
tirar nem porj sem tirte nem giiarte 

f) reforço epithetico : — alma perdida, não vale um figo podre, 
não ter onde cahir morto, etc. Do Sec. XIII. 

g) da condicional negativa senão, e das equivalentes gjie e nego, 
nega,. São archaicas : — não tem mais de dons vinténs ; não se ame a 
consa pelo que c ; o emprego dO (jneí^^ senão é frequente nos classicbs, 
pirincipalmeute nos secs. XVII e XVIII. 

h) de equivalentes interjectivas, diminutivas, e superlativas — setião 
não ; não bofe ; nem um bocadinho ; etc. . . cotísissimà nenhuma. 

i) do infinito pleonastico intensivo : — eu não canto para cantar ; 
nem qne chova que chover, nem que vente que ventar. 

j) depois de certas locuções — não se podia ter que lh'o não mos- 
trasse ; nam tardou que logo nam tomasse. 

k) com o verbo negar e outros, nás proposições depeildentes : — 
neguei que nunca lhe houvesse fcdlado . 

1) negação intensiva seriaria, periódica, ou melhor cOmulativa : — 
e não menos me, maravilho daquelles que crevi que nenhiim homéhi 
pôde saber aquillo que não têm ser scrião no segredo da eternal sabedoria 
(G. Vicente.) 



' Facto commum a todas as línguas. Em franeez — pis. point, gontte 
(J3 ne vois gontte), mie, pzrsonne, rien, etc, são verdadeiros substan- 
tivos concretos. 

* Lam. de Andrade — da negaçãro intensiva 1882. 



4o8 



IO. — Muitas partículas e locuções adverbiaes archaisa- 
ram-se e obsoletaram-se, além das que já deixamos apon- 
tadas : — cras= homem (1. eras), empero == certamente, 
a la fé, bofe = a. boa fé, íjiwr = apenas, difficilmente ; 
chus= mais, er = aliás, tambe m, samicas= por ventura ; 
ai gorem, todíoge, soncas = ta.\vQz^ w = onde (gall. uloula), 
ogano^ essora^ acorão^ camanho e qiiamanho (quão manho 
==■ tamanho ^), alhures, desende desen desi (contr-em de-y) 
= lat. deinde ^), ;íe^o = senão (G. Vic), a osadas, a oU' 
saííí35 = ousadamente ^), nessora, logo essora, agora 
estora, a deshora quando, adesora = \ogo que (G. V., 
Mir., etc) de vedro — outr'ora, a sciente ( — 1. a sciente\ 
d mveja (lat. ad invicem) no sentido de aporfia, á com- 
petência, de uso frequente nos clássicos {andavam á inveja 
de quem daria melhor mesa as do seu quarto, — Bar. dec.) 
de ligeiro = {a.cúmentQ, de íjiaravil ha =^rd.vamcntQ, de pu- 
blico, de secreto, pran, de plano, presentemente ; de frecha 
= directamente, sem detença, de chofre ou de entuviada, 
de cote = toàos os dias (1. quoiidie''), a sabendas = com 
conhecimento, acinte, etc. 

II. — Este processo de formação adverbial é latino ; e 
ainda hoje temos grande cópia desses advérbios de modo : 
— de leve, de feito, de certo, de espaço, de industria, de veras, 
de rijo, de siso, de pnmeiro ; em breve, em balde, em vão, 



* Moraes diz que quamanho altei'ou-se em tamanho pela ignorância 
dõs edictores. A verdade é que o emprego era diverso (Cp. tão quão) : — 
no que passaram ta.)n«7í7io trabalho camanho não se póae imaginar. 

* O emprego frequente desse adverbio noport. antigo, ainda se reflecte 
no f aliar do povo — rt'aAi foi, d'ahi disse, etc. 

' Que posto que ás vezes tarde em lhe dar o pago, a ousadas, 
que não vão sem lhe dares como na sua testialidade merecem (S. 
Mir.) 

* Tenho assaz pêra decote 
se mais quizer vesigar (a) 
também sei laços armar 
também tirar com virote. 
Eg. II, 167. 
(a) Comer ™«1. b. vesicarip. vesci. 



409 

em fim^ em cima ; a miúdo, d destra^ d ve^, d medida, a 
porfia^ a espaço^ a vulto; com efeito, por ventura. . . 

12. — A's vezes o nome vai para para o plural para 
maior reforço ou mudança de sentido {ás tontas^ ás furtai 
delias, ds cegas, as occultas, a espaços, a ve^es. , .) 

i3,_No Sec. XIV é que começou o emprego dos 
adjectivos em o com força adverbial, correspondentes 
ao ablativo latino sem preposição : — cerío> claro, manso, 
passo. ..= de certo certamente, de manso mansamente, de 
passo pausadamente . 

14. — Dos adjectivos uniformes em e menos vestígios 
nos restam : — tarde, longe, suave, leve. . , 

i5. — Na linguagem litteraria empregamos alguns ad- 
\'erbios latinos : — maxime, grátis, retro, supra, infra, 
item. 

Também formamos advérbios de modo do superlativo 
orgânico : — deligentissmamente . 

DA PREPOSIÇÃO 

I." — A maior parte das nossas preposições simples 
são de origem directa latina, e conservam as formas e 
relações originarias: de = úq^ — e;n (in), entre (inter), 
contra (contra), por (pro, per ^), ante antes (ante), sem 
(sinè), sobf^e (super), co;« (cum), etc. 

Note- se que muitas preposições derivam-se de antigos 
advérbios ou são preposições e advérbios conforme 
a circumstancia é expressa só pela partícula (adverbio) ou 
pela partícula seguida de complemento . As relações entre 
estas partes do discurso são tão intimas, que a distincção 
entre ellas não está na significação, mas no valor synta- 
xico diverso com que indicam a mesma circumstancia de 
logar, origem ou causa, tendência ou apartamento. 



Pai' p. jwr em pardès = fr. jMr Dicu, kesp. pardcz ; etc. 

53 



410 



2 ° — Muitas são as preposições formadas pela deri- 
vação imprópria ; 

a) de duas pvQposicÕQs simples ^: — depois (de-post.), 
deante (de ante), atrás (a-trans), após (ant. em pós, após de) 
perante, dentro (de intro), para (por a, per a),... oAdeante^ 
desde (de ex de), até (a + té = hactenus), etc. 

b) de substantivos e adjectivos: — apesar^ a par..., 

c) dos participios passados e das antigas formas em 
aníe, ente, inte dos participios presentes : — excepto, salvo, 
junto,. . . tocante, referenie, concernente. . . 

d) — de advérbios : — eis aqui, eis alli, . . . dentro de, 
defronte de, perto de, . . . 

2. — As locuções prepositivas são muito portuguezas, e 
formam- se, pela maior parte, de substantivos ou adjectivos 
seguidos das preposições de, a, e bem assim de advérbios 
elocuções adverviaes : — em face ác, em virtude de, por 
causa de, d força de. longe de, deante de, concernente a, 
referente a. . . 

3. — Das preposições simples já existentes no latim, a 
maior parte só occorre no processo da composição ou nas 
palavras de creação artificial ( extr afino, superfiuo). São 
ellas — a ab abs, ad, ante, circum, ( co, cou), de des dis, e, 
em {evi) inter, es, ex, extra, in, intro, ob obs, per, pre, pro, 
re, retro, sub, super, irans, trás três, ultra, etc. 

Doestas, como se vê das listas dos prefixos, algumas 
teem uma forma concurrente popular : — entre inter, sob 
soto ^ sub 50, pos, sobre super. 



* Avante = lat. pop. abantc p. anti', como provam as seguintes linhas 
de um grammatico romano: — ante me fugit dicimus, non ab-antc me 
fugit : nam proepositio proepositioni adjxingitur imprudenter : quia ante 
et ab sunt dn prwpositiones. O tal grammalico njio percebia que ab 
reforçava a idéa (adeante, atrás), que ainda mais se tornou intensiva 
em devant {=^ de ab ante), porque por ponto de partida tomou uma 
forma já reforçada. 

* Toma erroneamente a forma feminina em sotacomitrc sotajuloto, 
sotaoocheiro, etc. Diz-se tombem sotavento» 



411 



Façamos agora algmas considerações muito /t'/- summa capita, por- 
que a contextura d'ellas mais pertence ao dominio da syntaxe. 

I '"^ São varias as relações expressas por certas preposições ; não po- 
demos pois classifical-as segundo as suas significações, nem tão pouco 
de conformidade com as originarias. 

O que, porém, se pôde affirmar de modo geral, é as preposições 
indicam relações de logar, e por extensão — as de tempo. Que o 
emprego abstracto e metaphorico é resultado de um desenvolvimento 
posterior. * 

2°. — E' muito para sentir haja o portuguez perdido a preposição/^^ 
(só conservada nas contracções com o antigo *), cujo emprego era 
diíferente do que tinha a prep. por, que dupla também lhe era a 
origem. 

Por = XzXpro, e passou para o portuguez com a significação de 
deanie : — face por face (Ined. d'Alc) ; rosto por rosto (Barros, dec),,..; 
per = lat. per . Por isso empregaram os antigos per nas relações de 
espaço, tempo, logar, meio, instrumento, etc, e por nas de causa, 
preço, etc. — per montes e vales, per obrigação,. . . polo aífior de Vens, 
combater ^o\o pátria etc. 

Ne periodo archaico, claro está, é que menos raro se encontra o em- 
prego correcto át per com accus.,/í?r com ablat., i. e., em suas natu- 
raes relações ; ainda frequente nos documentos do Sec. XIV. ^ 

Exemplifiquemos : 

Perecerem per espada e per fome ataa que 
sejam de todo consumidos (J> B. dec) 

... da índia jí^r o rumo (Id.) 

viveu per espaço de septenta annos (Id.) 

Foram pregar a fé uns per Itália, per Grécia outros ; outros per 
Hespanha ( Luc). 

, . . per tempo eram enfermos, ataa que se reformaram com a na- 
tureza da terra. ( Azur. C/ir. de G.) 

per noites de hynverno se ouviam gemidos ( F. Mendes Perego ). 

Tanto \iver per nulha ren — ( C. Vat.). 

Por suas grandes partes e provada virtude (Szã. V, do are). 

Por culpas, /íir feitos vergonhosos — ( Cam.). 

Mandou dar aviso .. . que trabalhassem por lhe tomar o galeão 
( Bar. dec). 



* A, por suaetymologia, remonta á prep. ad ; mas. por suas funcções, 
corresponde também a aft e apud : dei um livro a Pedro (ad) : a sós, ás 
fnrtadellas, maton-o a tiro;. . . . De, vem do 1. de com diversos sentidos, e 
representando o gen. e oaccns. D'ahi a variedade de relações em portu- 
guez — de tempo, causa, instrumento, meio, modo, mataria, quantidade 
preço,... Corresponde ao genitivo possessivo, objectivo, e de quontidade. 
Enti*a em grande uumerode composições com substantivos e adjectivos como 
jávimos:^ de maravilha, de seffuro... 

* V. Q,ovrm-Ramania \S&2-ii~Et. do gramm. port. 

^ Pela confusão synonymica a combinação pelo venceu na hicta a com- 
binação po\o, cuja decadência e morte datam do Sec. XVII. 



412 



A voos graças íaço por as mereces que me fezestes( Fr. J. Claro). 

A's vezes — mas raro— se eucontra divergência nos textos : — per 
mar e per terra ; por mar ou por terra ( J. Bar. d^e ) ; assim como 
também diziam — çue o inesi7io Affonso fosse per pessoa, que nós di- 
zemos — em dessoa . 

No baixo latim, também reinava a confnsão àe per pro ; per otnnes 
montes ac pro illis locis ; obligo per me et per iiteos heredes. 

III DA CONJUNCÇlO 

I. — As conjuncções, quanto á origem, podem di- 
vidir-se em duas categorias : — as de derivação latina — 
e as de formação portugueza . 

Estas, em geral, são antigas locuções conjunctivas cujos 
elementos se acham juxtapostos : — portanto^ senão^ 
outrosim {olUX. outro si), todavia^ postoqtie^ entreíanio^ sup^ 
posto que^ porque^ afim de que^ poisqiie^ etc . 

2 — Estudemos a etymologia : 

Como = 1. quomodo, 

Ergo = 1. ergOi No Sec. XVI empregam de prefe- 
rencia a forma contracta er. 

E = lat. et, port. ant. et ( Sec. XII - XIV.). 

Logo = 1. loco ( in loco.). 

Mas = 1. magis ( adv . ) 

Nem = 1. nec. 

Ora = 1. hora. 

Ou=l. aui, 

0\jTROsm= outro que st\ ant, ou trosi\ F. port.= lat. 
alterum sic. 

Porem, — port. arch. /^ero ( Bar., Azur.). Do latim 
popular per inde pro inde = port . ant . por ende ( por 
isso . ) 

Porque = 1. pop. per quoe, per quod. Corresponde a 
por causa de, para que, ao que . 

Pois= 1. post. 

Que == 1 . que ( quod ) . 

Quando = 1 . quando . 



4i3 



Também = 1 . vulgar iat?i bem . 

Si ( se )= 1. si. 

Formas populares archaicas — aqiie = ets que^ 1. ecce 
( Ined, d' Ale), sed ( = lat. sed ) — sed inays been^en ( In. de 
Ale.) ; nega { excepto, senão ) ; sicaes ( si quâ, si casú ) =; 
si acaso ; — stcaes não foi morto (G. Vicente ), ca, arch. 
quá^ cjr = porque ( Ined. d^Alc, Nob. D. Pedro, F. de 
Thomar, etc), que corresponde ao latim quare \ er = 
tsLmhem \ naiíja ( = iieja)^ quQ SQ ]unta. ao pronome pes- 
soal ainda hoje na linguagem do povo em Portugal, narija 
e«, e que era frequente no Sec . XXl — nas formas nanjeu 
nenjeu \ pero^ emperol^ perol - porém, ende f pg.), etc. 

IV — 'Da interjeição 

1 . — As instinctivas ou naturaes (ai^ hui. . .j e onoma- 
topicas (bum., trá^^ psiu ), ainda mesmo as formadas pelo 
reforço similar ( \ás trás, bum bu?n^ tini iim, ^um :{um., 
babau^ grogotó )^ não teem ef\mologia. 

2 . — As convencionaes tiram origem em substantivos, 
adjectivos, verbos e advérbios, que bem espelhem a 
emoção de que nos achamos possuídos, que represente 
a S3mthese da proposição, e seja verdadeiro echo dos 
nossos sentimentos naturaes (pag. 114, 22.) 

3 . — oápage e sics são de origem latina ( 1. apage = 

(XTrays ; adv . lat . SUS ) . 

oAy Deus] aj tul ay mel ave Maria l... são ves- 
tígios do vocativo latino. 

oArre e oxold originam-se do árabe : a i^ de arrie = 
caminha; a 2^ de ez/A-^/a/z = praza a Allah ^ Apre é 



' Cp. praza a Deus. 

Arre era a voz usada pelos azeméis para excitarem os animaes a estu- 
garem o passo: hoje os cangalbeiros empregam outras interjeições {anda! 
caminha ! vamos ! arreda! ), e arre só serve para exprimir cólera ( Cp. 
arrelia ) . 



414 



corrupção de arre; e também tpra, irra muitos usados no 
Sec.xVl. 

4. — Formas archaicas, e antiquadas : — hulid ( G. Vic.) 
= cast. huiha, hiifá; hio = 1. io ( G. Vic. ) ; ipra= apre 
bofa = hoíé^ aramá eramd leramá = tm liora má, (id.), 
muilíeramã = muho em hora má, appello eu ; vae-íe a 
reqiít (corrupção do vade retro) ; maocha (em má hora), 
horasus (hora sus, hoje diz-se — ora i>amos! pãva. calar) ^ 
td (estae)^ i. e. cala -te ! pára ! detem-te ! : — Ta, Pedro^ 
embainha a espada ( Vieira Serm. XV, 7.), hou Id = holá, 
mal peccado ( de pezar : hoje ainda se diz — por meus 
peccados) ; guai ( de pesar, sentimento ) é forma vulgar de 
ai, posto se encontre em Souza e outros. Que era ex- 
pressão de ignorância popular provam os seguintes versos 
de Gil Vic: 

Andava elle namorado 

e por, má hora, dizer ai 

á\z\ã.-\\\t guaij 

e por dizer-lhc minha senhora 

chamava-lhe minha sinoga. 

A precativa aqui d' El- Rei, e não ail que é d'El-Rei^ 
ou ak d' El- Rei ^ é essencialmente de formação portugueza *. 



' Aqui iãelrei, Doe. 1733. 



VIGÉSIMA NONA LIÇÃO 

Da syntaxe em geral — Breves noções sobre a 
estructura oracional ào latim popular e do 
latim culto.— Typos syntacticos diver- 
gentes na lingua portugueza^ 

I — Syntaxe é a parte da grammatica que ensina a 
concordância das palavras e orações ; a boa eoUucaçao 
das palavras na proposição, e das proposições na phrase ; 
a correcção dos complementos . 

Divide -se pois em syntaxe de palavras e de proposições^ 
é de concordância quando rege palavras ; de subordinação^ 
regimen ou de complemento, quando rege palavras ou os 
membros de phrase subordinadas. 

A concordância das palavras e sua dependência são 
expressas no latim ( e grego / pelos casos : em portuguez 
por preposições e conjuncções. E' esta a principal diffe- 
rença entre as svntaxes do latim clássico, do latim popular e 
das línguas romanas ; caracter ou diíferença que também se 
apresenta na união das proposições do infinito e participio. 

Para escrever-se de fundamento a historia de uma 
lingua, ha-se-de mister conhecer a codificação das dou- 
trinas relativas á construcção, a syntaxe histórica . ^ 



1 A. estreiteza cio tempo, porém, etoriga-nos a re- 
sxxmlr as llQÒes segixinteo S— Temos um compromisso 
e ó força satisfazel-o. 'Na, x-efixndigão «leste tratoalHo, 
esTtxdaremos ontao inais a £und.o a pliysiologia e génio 
da nossa lingua. 



4i6 



2 — E' grande a diíferença da estructura oracional do 
latim popular e do latim culto, e o facto explica-se histori- 
camente. No século V a. G. operava-se a evolução lin- 
guistica, quando esçriptores e traductores fizeram retro- 
ceder e lingua a formas já então refugadas, ou introduziram 
directamente grande numero dehellenismos. Os esçriptores 
que se lhes seguiram imitaram-os, e ao passo que a 
lingua fallada seguia a sua marcha analytica, o latim clás- 
sico sustava a sua evolução natural com a lingua escripta. 

D'ahi o grapharem lettras, que não mais soavam na 
pronuncia ; d'ahi a Unha divisória estreme entre â lingua 
escripta e a fallada, entre o latim clássico e o popular, na 
phonetica, no léxico, nas flexões, na syntaxe. 

Com a queda do Império romano, sobreveiu a des- 
truição da cultura lítteraria, e consequentemente o predo- 
mínio da lingua vulgar. A lingua fallada era o latim vulgar^ 
pedesífe^ castrense^ bárbaro, e medieval^ baixo ; a lingua 
clássica de Cicero ou da Biblia de S . Jeron3^mo só era, 
comprehendida pelos raros eruditos dessa época . 

A principal diflferença na estructura oracional é pois a 
tendência cada vez mais caracterisada do latim popular 
para o analytismo ( ordem directa ) . A queda e o enfra- 
quecimento das lettras finaes ( ama p . amat^ vivon p . vi~ 
vunt^ liipo p, lupiis^ poplo p. populus^ templo p. tem- 
pliim, etc . . . . , e o descuramento das flexões nominaes e 
verbaes, a tendência do povo emfim para simplificar as 
formas e construcções, produziram essas alterações pho- 
neticas e grammatlcaes que constituem a differença essen- 
cial entre o latim clássico e o vulgar ( e consequentemente 
as li nguas romanas ), e originaram a necessidade das pa- 
lavras auxiliares ( verbos, preposições econjuncçÕes ) para 
a necessária clareza e precisão da linguagem. Ex.:—» Capiit 
d§ aquilla^ genera de ulmo { Plínio j, de Coesare satts 
dicium habeo \ Romani sales salsior)s snnt quam illt oAi- 
iicorum ( Cie, j ; Vrbem qnam parte captam^ parte dirutam 



417 



habet ( T. Livio ), cum illum^ adiibt\ Episcopi de regna 
nostra \ln prestntia dejudíces^ donabo adconjux ; templnm 
de i?iarmore (Virg.)^ restitui t ad parentes ( T. Livio); 
amatnm Jiabm\ coptas quas habebat paratas, liabiam etiam 
dícere^ habeo convenire fCic), Romani sales salsiores 
suvit qiiam illi oAtticonem ( Cie.)*. 

Torna-se mais frequente o uso dos pronomes junto aos 
verbos ' (il dedít^ salvarai eo) ; o emprego abusivo do 
anxiliar esse^ como a obliterar a forma passiva (est con- 
cessum p. conceditur^ esse don num p. donan\ etc.) 

Com o prevalecer da ordem anal3tica, diminuem as 
regras de concordância. Mas a lingua latina culta de Ci- 
cero )á trazia em si esses germens da nossa construcçao ; 
Quintiliano )á reconhecia um modo natural e mais oratório 
do arranjo dos vocábulos ; Plinio, commentando Virgilio, 
para tornar mais claras certas passagens, põe -nas em ordem 
analytica, indicando a modificação pelas palavras — ardo 
est. ') 

3. — Typos syntacticos divergentes.—- Dàcse esta de- 
nominação ás bifurcações syntaxicas, aos diversos modos 
— mas análogos — de construcçao, regência e concor- 
dância . 

a) De construcçao. — O portuguez, posto que lingua 
analytica, mais conservou que as outras linguas romanas 
a liberdade no arranjo syntâxico das palavras, privilegio 
da construcçao tnifersativa ou iranspositiva. 

Recebi hoje três cartas juntas de V. S. 
De V. S.jtres cartas juntas recibi hoje. 
Hoje recebi de V. S. três cartas juntas. 
Três cartas de V. S. hoje recebi juntas. 
Juntas recebi hoje três cartas de V. S. 

A sytitaxe é a mesma em todos esses exemplos ; e em- 
bora destituido de flexões nominaes, o portuguez con- 



• Pacheco Juúiop — Gram, /itst. — Introduóção, 
' Idem. 



4i8 



servou, principalmente até o Sec. XVI, muitas construcções 
similares ás latinas, tão livres e variadas, tão ricas e har- 
moniosas . 

O castello de Santarém aos Mouros o tolhy 

(F. de Santarém.) 
. . . mal as despendendo em custosas uyandas que bem acusar se 
temperados foseem, poderiam 

(D. Duarte, L. C.) 
como a todos os triste acaece 

(R. Ril>.) 
mays en pêro direi vos huã ren 

(C. Vat.) 
descobril-a-ha a primeira vossa frota 

(Cainõcs.) 
embarcação que o leve ás náos lhe pedo 

(Id.) 
Em Centa indo D. Aífonso atraz de um mouro 

(M. Bem.) 

b) De concordância. — Ex. — a maioria dos homens 
entende ou entendem ; estamos convicto ou convictos ; o 
primeiro e quarto rei ou reis., etc . 

c) De regência. — São estes os tj^pos syntacticos di- 
vergentes de mais subida importância : 

Morrer a fome, morrer de fome 

mandou ler^ mandou que lesse 

me, a mim 

começar a escrever ou de escrever 

pegar de penna ou na penna 

arrancar a espada ou da espada 

até casa, até a casa, ate ã casa 

apaixonado ;^í?/aí cousas da pátria (R. L.) ou das 

O seu amor ás almas (M. Bern.) ou pelas, para com 

depôs sua morte (Sec. XIV, S* Eufr.), ou depois de 

que os frades huns outros sejam obediyntes (R. de S. C.) — nus aos 
outros 

alçado por Rei em Portugal, alçado em Rei de Portugal (F. 
Lopes) . 

São varias as causas das bifurcações sintaxicas : 

a ) Typos similares originários — igual a, igual de. 

b ) S3'nonymia de preposições : — cercado por, cercado 
de. 

c ) Extensão crescente do infinito impessoal : — começou 
fa\ei\ átfa^er, d.fa\er. 



4íl' 



d ) Vestígios da voz media : — comenim-se-a^ comeriim- 
s'sílo ( Sec. XII ) ; affirmar que, se ajjirmav que ; morrer 
morrer- se ( B. Rib ), cahir cahir-se, etc. 

e ) Acção verbal dupla : — f aliou todo, f aliou de tudo . 

f ) Influencia estrangeira : — moro a rua de — , mora na 
rua. 

g ) Euphonia : — alçar por Rei, — em Rei. 

k ) Influencia articular e pronominal : — o que aconte- 
ceu^ que aconteceu. 

i ) Elipse : — após elle, — d'ellc. 

j ) Influencia da declinação orgânica : — . . . en cas sa 
madre ( C . Vat . ) , em cas de sa madre ; quem vos ouve, 
mim ouve ( Sec. XIII), a mim ouve, ouve-mt. *■ 

r ) Equivalência de formas verbaes : — andar buscan- 
do, — a buscar -, servindo ( Sec. XIV ) sem vir ; em sen- 
do, sendo. 

1 ) Invariabilidade do participio passado : — regadas 
tinha ( as flores ), Cam., regado tinha. 

m ) Tendência anal} tica : — di{em ser, di-{em que é. 

n ) Mudança de categoria grammatical : — desde Março 
t?ieado ( Sec. XIV ), desde o meado de Março. 

o ) Emphase : — de como o cavelleiro ( R . Rib . ) 



* Lam. de Andrade — Vest. ãa decl. lat. 



TRIGÉSIMA LIÇÃO 

Syntaxe da proposição simples. — Espécies de 
proposição simples quanto á forma e signi- 
ficação, — Dos membros da proposição sim- 
ples. '' 

1 — o proposição ou período grammaiical diviáe^st em 
simples e composto. * 

2 — E' simples quando contem uma única affirmação . 

A proposição comp5e-se de termos essemiaes ( sujeito 
e predicado ) e de termos accessorios^ elementos syntaxicos 
modificadores ou determinadores dos essenciaes. 

3 — Aos termos modificadores do sujeito ( adjectivo e 
palavra ou expressão adjectiva ) dá-se o nome de attribulos ; 
aos do predicado objecio e complemento adverbial^ confor- 
me são representados pelo substantivo., palavra ou expres- 
são de natureza substanti/a, ou ainda pelo adverbio, e pa- 
lavra ou expressão adverbiada. 

4 — O objecto p5de ser direcio ou indirecto., coníovm& 
modifica immediatamente ou mediatamente o sentido do 
predicado, i. e., sem ou com preposição : Deus recompensa 
os justos ; elle matou-sQ \ . ..vivo do trabalho, preciso de ti... 



* Damos este ponto e o seguinte muito i-esumidos, não só porque é 
matéria já conhecida dos aluranos da classe de exame, como porque 
todos elles já devem possuir a SeUecçào iútcrana dos professores F. 
Barreto e Vicente de Souza, onde a matéria é tratada com mais abundân- 
cia. — Consulte-so também o excellente trabalho do professor Alexander — 
Analyse relacional. 

* Ainda temos proposição absoluta e relativa. 



I 



421 



Em alguns casos, porém, o objecto directo é precedido de 
preposição : — amp a T>eus^ arrancam das espadas ÇViáQ 
lição) . 

As variações pronominaes — 7ne ie se lhe nos jfos lhes, 
empregam-se sem preposição quando exercem as funcções 
de objecto indirecto, porque já a incluem em si e conser- 
vam « a força synthetita dos dativos latinos » . 

5 . — O comple)7iento adverbial não é necessário para o 
perfeito sentido do elemento que elle modifica, e pôde ser 
substituído por outro termo accessorio : — comprei ha dias 
um bom livro ; elle escreve correctamente, elle escreve com 
correcção . 

6. — O sujeito é expresso por um substantivo^ ou por 
outra palavra ou expressão substantivada-^ ; o predicado é 
representado simplesmente pelo verbo de predicação com- 
pleta (intransitivo) ^ ou pelo de predicação incompleta 
(transitivo), mas neste caso também pelos seus termos mo- 
dificadores . 

7. — Quanto á fórma^ as proposições dividem-se em 
completas e incompletas ou ellipticas. 

Sob o ponto de vista da signijlcação^ em expositivas^ 
interrogativas^ imperativas^ optativas . 

Sob o da lógica, em principaes e sudordinadas . 

8. — As relações, pois, das palavras na proposição sim- 
ples são — subjectivas^ adjectivas [predicativas, attributi- 
vas^ objectivas)^ adverbiaes. 



' Ha algumas excepções : — elle é bom, cu estou hom, tu pax-eces con- 
tente, etc. 



TRIGÉSIMA PRIMEIRA LIÇÃO 

Syntaxe de proposições compostas ou do período 
composto — Coordenações — Subordinação 
— Classificação das proposições. 



I . — 'Troposição composta é a formada pela reunião de 
duas ou mais proposições simples . 

2 . — Essas proposições podem ettar em relação de coor- 
denação ou de subordinação . 

3 . — No 1° caso estão as proposições, que, de igual cate- 
goria intellectual ou força significativa, e por meio de simples 
justaposição ou de con). connectivas, concorrerem 
para a formação do periodo composto : — o homem pensa^ 
falia e ri. Neste exemplo ha três proposições simples : as 
primeiras estão ligadas intellectualmente ; a terceira pela 
GonjuncçãO e. 

4. — As proposições que concorrem para a formação de 
uma proposição composta coordenada são sempre prin- 
cipaes. 

5 . — As coordenadas dividem-se — quanto á natureza 
dos seus connectivos — em copulattvas., adversativas. dis- 
junchvas., conclusivas . 

6. — As proposições coordenadas por mera justaposição 
chamam-se asjndeíicas:^ as ligadas por conjuncções con- 
nectivas (e, mas., ou., logo., etc) syndeiicas. 

6. — Proposição composta por subordinação é aquella que 
determina um dos seus termos, ou serve-lhe de comple- 



423 



mento, tornando o sentido das orações simples dependente 
do sentido das outras, e a elle subordinado. 

7 . — As proposições compostas por subordinação só 
podem ligar-se em relação puramente grammaíical . 

8. — A categoria das subordinadas depende da contex- 
tura do periodo . 

Q. — Quanto ao connectivo^ classiíicam-se as subordi- 
nadas em conjunccionaes e relativas, conforme for elle 
uma conjuncção, adjectivo ou pronome relativo . 

10. — Com. v^ítvtnó.di éi natureza, dividem-se em sub- 
stantivas^ adjectivas e adverbiaes^ conforme representam 
uma dessas três categorias grammaticaes. 

II. — Quanto á funcção, podem ser subjectivas, obje- 
ctivas^ attribiiiivas, ou adi^erbiaes^ conforme preenchem as 
funceões de sujeito^ objecto^ attribulo ou adjun:to adver- 
bial. 

Ex.^ Noticiaram que elle morreu ( i. e. a sua morte); 
a mulher de pudor ( i. e. a mulher pudica, pudenda, pu- 
dibunda); chegou depois que sahimos (circumst. de tempo 
= depois da nossa sabida) . 

As subordinadas • adverbiaes podemexprimir diversas 
circumstancias, de tempo^ Jim., logar., causa^ consequência .^ 
comparação^ conclusão . 

12. — As proposições subordinadas ainda são classi- 
ficadas por alguns grammaticos em completivas ( que en- 
cerram um complemento essencial para o sentido de 
outra proposição) ; incidentes ( as que se unem ao sujeito 
ou attributo de uma outra proposição por um pronome 
relativo, e podem ser explicativas ou terminativas) ; ctrcum- 
stanciaes (as que exprimem circumstancia complementar 
do sentido de outra proposição — ^ de tempo modo, causa, 
etc). 



TRIGÉSIMA SEGUiNDA LIÇÃO 

Regras de syntaxe relativas a cada um dos 
memliros da proposição 



I. — SuGEiTO — O sugeito de uma proposição pôde 
ser expresso por um substantivo, pronome, por outra 
qualquer palavra substantivada, ou ainda por uma outra 
oração . 

2.— Em regra, o verbo concorda com o sujeito em 
numero e pessoa . 

Com os collectivos o verbo emprega-se no singular :— - 
o exercito árabe não respirava de combates contra os 
Godos. 

Mas si o collectivo for partitivo e vier seguido de um 
determinativo no plural, o verbo irá para o plural ; — a 
maior parte dos martfres subscreveram com o sangue o 
testemunho de Christo. 

Esta regra tem excepções, e no latim havia a mesma 
liberdade: a maioria dos deputados votou contra o projecto. 
(Vide lição 35 ). 

Quando os sujeitos são de pessoas dillerentes o verbo 
vae para o plural e concorda com a que tem prioridade : 
— Tueo medico sois dos malandrinos ; vós e eu temos o amor 
da liberdade por invencível como a morte . 

Si o sujeito fôr expresso por palavras s\non3^mas, ou 
representantes de uma mesma idéa ( paesso ou eousa), o 
verbo ( é claro ) conserva-se no sing.:=Era um velho, 



425 



a quem o trôpego^ o quast morto dos membros^ embar" 
gava o caminhar: 

Estas e outras regras de concordância já são muito 
eommuns para que nellas nos demoremos. 

Logar do sujeito — Desde os primeiros documentos que 
regularmente se encontra o sujeito no principio da phrase ; 
mas numerossimos são os exemplos em contrario : — hum 
lal home sey eu^ tenho eii^ vou eu ( c. vt. ), se me a ra:{ão 
lu dz{es ( R. S. Bento ) ; Haverá pa:{ no tumulo ? Pára 
o que ahi repousa^ sei eu que ha na terra o esquecimento ! 
(A. Herc), Sonhou um homem que via um ovo atado 
na ponta do lençol ( M. Bern. ) 

A inversão do sujeito é ás vezes rigorosamente pres- 
cripta : 

a) Nas orações incidentes, e com os verbos accres- 
centar, contar^ referir ^ perguntar, desejar^ di^er^ cuidar^ etc. 

Pergntitando cerio sujeito a um guarda portão se seu amo estava 
em casa, respondeu-lhe ; — Não senhor. — Bem, acrescentou o outro 
mas a que horas voltará ? — Não seij replicou o malicioso criado^ 
quando meu amo manda dL-^er que não está em casa, ninguém pôde 
saber a que horas voltará. 
( M- Bern. Flor. ) 

b ) Quando a phrase começa por um atributo, regimen 
directo ou circumstancial, adverbio ou coniuncção ; e a 
inversão era mais frequente no portugez antigo : — o maior 
e mais\certo motivo de ser amado, é anticipar o seu amor 
( Vieira ), si a tanto me ajudara engenho e arte ( Cam.) ; 
agora tu, Calliope, me ensina ; onde nos estreitava cada ve:( 
mais altiva oppressão ( L. Coelho ). 

No portuguez moderno é ampla a liberdade inversa tiva 
quando a proposição começa por d'2Lhi, talve^, apenas. . . 

c ) — Com os verbos no Imperativo, que só por emphase 
se emprega claro quando é pronome : — daoede-vos por 
mesura (D. Din. Canc. ); nembre-vos que eu sô o vosso 
Rei almofacem (Liv. Linh. ); si queres que eu te ouça, 
ouve -me tu primeiro. 

5i 



426 



Ex. emphatico = tu mesmo faze isio -^ tu, que tens 
de humano o gesio e o peito, a estas criancinhas ttm respeito 
(Cam. ). 

d) — Com os verbos no subjunctivo, quando se supprime 
a óonjuncçáo: — quisesse elle, queira 'Deus, dissera o dono 
do campo a seus criados .... 

Díz-se, porcm,-^ Deus queira, Deus me lipr^e . etò. 

e) — Nas formas do Infinito, principalmente regido de pre- 
posição ; — de mandar os criados e fa^er^se a obra vae ainda 
muito tempo. — Para m' irdes de estorvar, de mifa'{evdes 
mal ou bem. ( D. Din. Canc. ), sem lhe lembrar casa nem 
fazenda ( J. de Barros ),por vos servir a tudo apparelhados 
(Cam. ). 

f) Nas proposições completivas começando por que. 
Era a inversão mais usada até o Sec. XVI. 

g )— Nas proposições adverbiaes indicando circum- 
stancia de logar ou de tempo . No segundo caso é frequente 
a deslocação inclitica : 

por si el Rey achar em Tavilla sem dinheiro. 

( G- de Rez. ) 
para acabar onde o ninguém visse. 

( B. Rib. ) 
emquanto lhes o dia todo deu logar. 

( F. Mor. ) 

São muitos, porem, os exemplos contradictorios . 

Nas phrases imerrogaiivas a inversão é mais de uso : — 
podermiades vos di^er hu ficou ? [h. Linh. ). 

Receava- se Miihridades dos tóxicos ? 

Mas o sujeito antepõe-se ao verbo quando o queremos 
pôr em relevo : vós me perguntat^des per vossa amada ? 
( Cane D. Dín. ), vós quem sois? ( vos quiestis? ), eu faria 
tal cousa ? ( Egon* isthuc /acerem ? ) . 

Thrases exclamativas ou vocaiivas,-^ Não há regra 
fixa : — Deus seja louvado ! louvado seja Deus. Mas 
quando o sujeito exprime pessoa ou cousa pela qual 



427 



fazemos votos propiciatórios, dá-se sempre a inversão : — 
VíPJ a nação brasileira ! 

i Verbo. ^— No latim o verbo, em regra, era final \ más 
no da decadência occupava muitas vezes o logar médio. Já 
nos referimos ao facto do analytismo. 

O põrtuguez adoptou a forma ánalyticâi 

quando me mays forçava seu amor 

( Cé Vai.) 
que nom queria bem outra molher senom mi 

(Id.) 
e se hum meenfestar esse prendam por enmigo e daquelles que 
forom negos prettdàhi outro 

( F. da Guarda.) 
quem me a vos levou tão longe 

( B. Rib.) 

Mas exemplos do verbo final são abundantes nos pri- 
meiros documentos ( Sc. XIII a XVI ) : 

cunucundá cousa seja ( Sc. XIII ) 

(J. P. Rib. Diss.). 
e nos de suso ditus en esta carta revoramus ( Sec. XIII ) 

(Id.) 
Aqúel que casa feier, ou vinha èu sa hefdade onríar 

( F. da Guarda.) 

incommende a nos ajudoyro ministrar 

( R. de S. Benh.) 
do peccado da Itlxuria brevemente fallando 

(D. Duarte, L. Coiis.) 

que já remediar hem nom pode 

(M.) 
que chorando vossa mãi nasceis 

(B. Rib.) 
como a todos os tristes acaece 

(Id.) 

Nos tempos èompostos, é o auxiliar, considerado verbo 
da oração, que occupa o logar médio :— e fuy COrH grâm 
coyta diíer ( C. Vat.). 

O participio pôde ser inicial ou final : — abusado jd tens., 
jâ iens abusado ( V. lição 36 ). 

3 — Regimens. — Os regimens podem ser directos ou 
ittdirectos. 



428 



aj Regimen directo, A construcção varia nos antigos 
textos portuguezes : em latim quasi sempre o regimen di- 
recto vem antes do verbo, de accôrdo com o uso das 
linguas syntheticas. 

Notemos as seguintes construcçÕes : 

i.° Regimen, verbo, sujeito :— Nos seus olhos via 
eu..,. 

2.° Regimen, sujeito, verbo : — alguns meies antes de 
se partir. 

3.° Sujeito, regimen, verbo : — eu com carinho te 
obrigo . Mais frequente nas proposições relativas . 

4.° Verbo, sujeito, regimen : — manda Theobaldo uma 
carta. 

5.° Verbo, regimen, sujeito : — recebeu-o elle. 

Estas ultimas construcções eram mais frequentes nas proposições 
começantes por um adverbio ou complemento circumstancial, que 
obrigava a inversão do sujeito. Depois da perda dos casos tenderam a 
desapparecer porc^ue traziam equivoco . 

O pronome regimen tende sempre a aproximar- se do 
verbo de modo a receber a sua acção mais directamente 
que os outros elementos da proposição. 

Em latim os pronomes procliticos we, te., se., coUoca- 
vam-se muitas vezes immediatamente antes do verbo ; e o 
mesmo acontecia no portuguez antigo . * 

b) Regimen indirecto . — Estes regimens podem ser pro- 
nomes, substantivos, infinitos, e nesta distincção cumpre 
attentar quando se estuda o seu logar na phrase. 

O regimen indirecto pronome depende do logar que 
occupam as formas atonas do pronome ; quanto ás tónicas, 
seguem em geral a regra dos substantivos (V. licção 40.) 

O regimen indirecto substantivo podia vir em qualquer 
logar na phrase : tendeu, porem, sempre para collocar-se 



* V. Lições 34 e 4Q—Syntaxc do pfonome ; Cdlocação dos pronomes 
pessoaes. 



I 



429 



depois do verbo, quer immediatamente, quer após o 
regimen directo. Muitos exemplos ainda lembram a antiga 
liberdade ^ mas a regra começa a firmar-se. 

O regimen indirecto infinito segue a mesma regrra do 
substantivo, e desde os primeiros documentos que regu- 
larmente o encontramos depois do verbo. 

4. — Complementos. — Era immensa a liberdade, e 
ainda hoje nos não repugna a inversão. No portuguez 
antigo o complemento circumstancial vinha principalmente 
no principio, prendendo assim o espirito do leitor ás cir- 
cumstancias antes de enunciar a acção . 



TRIGÉSIMA TERCEIRA LIÇÃO 

Regras de syntaxe relativas ao substantivo 
e ao adjectivo 

a) Substantivo 

1 . — O substantivo em geral precede o adjectivo ; 
pôde dar-se porém a inversão, excepto em certos casos 
consagrados pelo uso, em que ella é inadmissível, 
ou muda totalmente o sentido do adj . "epitheto : — código 
civil ^ mão direita. . . mão signal e signal máo., novos 
homens e homens novos. 

2 . — Já nos referimos á mudança de significação con- 
forme muda o subst. de género ou de numero : — madeiro 
madeira., honra honras (Y . Lição). 

3 . — A construcção dos nomes concretos no plural 
concordando com adjectivos ou substantivos ( apposição ) 
no sing., não é para ser condemnada por estulta. Her- 
damo-la do latim, temos fiança nos clássicos portuguezes: 
-^ oAraiiones Campana et Leontina (Cie), qiiantum et 
duoetricesimum legiones (T. L. ). A phrase pois — as 
grammaticas portuguesa e francesa, é tão correcta como 
a — o quarto e quinto oãffonso (Cam . ) 

4. — Os gramma ticos condemnam erradamente a flexão 
do plural dos nomes qne exprimem producções naturaes, 
dos antigos elementos, dos de virtudes e vicios. Mas 
deve -se dizer — aguas de Caxambu., de Vichy.,. . . ( aquae 
Sextiae diziam os Latinos ) : aguas no sentido de enxurra- 



43 1 



das, correntes d'agua, mar, vislumbre ; /o^os no sentido 
figurado, com referencia aos que se accendem para signaes 
e aos chammados de artificio^ etc, ou ainda com signi- 
ficação de casas^ chammas fugidias produzidas pelas ema- 
nações do gaz hydrogeneo phosphorado, que também sç 
levantam nos logares paludosos, cemitérios, etc. {fogos 
errantes^ faíuos ) ; oAres p. clima, vento, pátria, apparen- 
cia ; — as novas ilhas vendo e os novos ares ( Cam, ), mal 
cobertos contra os agudos ares que assopravam; ares 
pátrios, de familia, de fadista \ estranhar os ares. Suores, 
também é de uso vulgar, e já o era também em latim : — 
passar suores de morte (Luc. ), e5/arew suores frios, — 
Urinas., id., cereaes, etc, (V. Lição 14^.) 

Lat. — aconitãj fabaej viciaCj viteSj snlphtira^ arenae, 'etc. 

5 — Também teem plural, e não devem os grammaticos 
regeital-o, os nomes designativos dos phenomenos mete- 
reologicos : — as chuvas, os ardores do estio, os rigores do 
inverno^ as trovoadas de verão., os ventos do sul. 

6. — Em latim os nomes abstractos eram empregados 
no plural \ e no portuguez antigo o uso era mais frequente 
que hodiernamente: — esperanças., ires constancias. Como 
que augmenta o gráo do sentimento ou faculdade. Outras 
vezes exprime vicissitudes, alternativas e revezes, os lavo- 
res do mundo, emfim, e as voltas da fortuna : — familiari- 
dades^ amisades., temores., tristezas. (V. Lição 14*^). 

Além da tradição, temos para justificar esses plurais, 
a relação existente entre os nomes abstractos e concretos, 
de regra muito incerta \ o serem concresciveis os abstractos 
( santidades., beatices, industriaes . . . delicias, amores, sau- 
dades, aftectos. . . ) etc; a convenção, que manda se diga 
no plural — invenções, cogitações, etc. 

Os collectivos teem plural em portuguez, e oseu emprego nas línguas 
romanas é muito mais lato que no latim, principalmente na lingua- 
gem clássica : — exércitos j povos ^ gentes. , . 



432 



O adjectivo em relação correlativa com um subs. coUe- 
ctivo ou partitivo, vae ás vezes para o plural, construcção 
esta mais geral no portuguez antigo, e o verbo também ia 
para o plural : — gente cega nem os estimo nem me vão 
movendo {¥qvv,) \ começou a quebrantar o ^oyo com di- 
versos gravames^ tirando-lhts as forças para melhor os 
dominar^ timidos e sujeitos ; Logo todo o restante se partiu 
da Lusitânia postos em fugida. 

8. — O subs. apposto concorda com o principal em 
género e numero : — as musas^ irmãs de oApollo ; oAtilla^ o 
flagello de 'Deus. 

O subst. fem. empregado epitheticamente em referencia 
a um subst. masc. toma o género deste na linguagem 
vulgar : — és um besta, um trouxa, um banana, um bolas, 
um mancas, 

9. — O subst. pôde substituir o adj. : — Sideris ora- 
sidérea, e outras expressões como esta eram raras no 
lat. clássico; mas na lingua popular eram frequentes as 
excepções, e por fim constituiram a regra : — poculum 
aureum, it bicchier d' oro, hesp., port. vaso de ouro. 

E só empregamos o adj. em poesia, est3do elevado : — 
licor áureo, esiylo áureo, argênteas conchinhas, brônzea 
côr, férreo somno, etc. . . . 

Dizemos, porém — aguas férreas , 

10. — Quando o nome qualificador é nome de cousa 
inanimada, pôde diíFerir de género e numero : — Tito, as 
delicias do género humano . 

TI. — Apposição. — O nome commum de uma cousa, 
quando tem por apposição a palavra que a distingue das 
cousas semelhantes, vem unida a ella, em regra, pela pre- 
posição de, que é puro expletivo (= que é, que se chama) : 
a cidade do Rio de Janeiro, o me^ de Setembro. 

E o povo diz — o dramaláa. Morte j?wral, a cofjiedia 
da Torre em concurso. 



433 



Os nomes monte e /j^o raro se empregam com a prepo- 
sição íi?e. Este, só quando tem por complemento um nome 
de cidade [lago de Genebra.) 

Na linguagem vulgar diz-se : uma pesie de mulher, um 
diabo de homem., o tratante do Joaquim. 

Nestas phrases compostas por apposição ha uma espécie 
de ellipse . 

O latim dizia simplesmente — urbs Roma., Ctceroms 
opera. *■ 

6) Do adjectivo 

II. — O adjectivo cancorda com o seu substantivo em 
género e numero : iwi bom lipro. Empregado como attri- 
buto, concorda também com o sujeito em género e nu- 
mero : Deus é justo .^ etc. 

12. — Muitos adjectivos no singular podem acompanhar 
um nome, que cada um delles qualifica separadamente : — 
as línguas ft^ance:;a, ingle^a^ allemã. 

Si o subst. está no sing. é mais correcto o emprego 
repetido do artigo : — a lingua francesa., a inglesa e a 
allemã. 

Diz-se também : o ^°, 4° e 5^ Séculos (ou o-3°, o 4e o 
S° Século.) 

i3. — Quando o adjectivo refere-se a muitos [nomes do 
mesmo género, vae para o plural desse género ; si os 
substantivos forem de géneros differentes, o adjectivo vae 
para o plural do género do ultimo, ou melhor para o 
masculino . 



* Sobre as preposições que devem acompanhar os vários complementos 
do substantivo — Vide lição 37. 

De, p. ex., indica as varias relações de dependência, causa, origem, 
tempo, instrumento, união physica ou moral, de objecto ou fim, destino 
habitual (sala de jantar), profissão ou condição, qualidade, peso, medida, 
valor, extensão ou duração (uma garrafa de vinho, etc .^, parte, quanti- 
dade, matéria, (gotta á'agua, ponte de madeira, etc.) Essas relações, o 
latim e o grego exprimiam-nas pelo genitivo (caso de dependedcia). 

55 



434 



14.'— Alguns comparativos e superlativos latinos pas- 
saram para o portuguez sem a sua força gradativa : — 
imerior^ exterior, intimo^ extremo. 

Os superlativos absolutos podem ser empregados sub- 
stantivadamente, e, á maneira da syntaxe latina, por super- 
lativos relativos : — O optiino de lodos^ o sapientissimo do 
Instituto. A I* construcção deve ser reprovada. 

i5. — Quando a comparação refere-se unicamente a 
dous objectos, o latim emprega o comparativo : = minor 
fratrum. As linguas romanas apartaram-se desta regra 
sempre que o adjectivo vinha acompanhado forçosamente 
do demonstrativo o (artigo), porque d'ahi resultaria a gra- 
dação do superlativo : Cp. — terás louvores de mais sisudo 
critico; o mais novo dos dous irmãos (fr. leplusjeum des 
deux frères., ital — .ilpiu giovane de due fratelli .) 

i6. — Depois dos relativos quão quanto. O superlativo 
latino, que exprimia o mais alto gráo da possibilidade 
{quam celerrime poiuit)., é representado em portuguez 
pelo comparativo : — quanto mais depressa possivel . E o 
mesmo dá-se no ital., fr. hesp., valachio. 

B. \ã!i.'~^ quam cithts poterit 

quandocumque ego citius potuero 

Emprega-se também o comparativo depois de outros 
relativos {quando., onde., etc), ede certos verbos : — quando 
o sol mais formoso se mostrou (pulcherrime) ; depois do 
pronome relativo : O filho que eu mais amava. 

B. \c>X .— fa.ciat exittde quidqiiid inelins elegent 

17 — E' frequente o emprego de muito com subst. ( era 
mui Jioute., é muito verdade ) ; e quando concorrem dous 
subst. em relação attributiva, referindo-se a um único 
sujeito, indica-se a preeminência de um sobre o outro por 
meio da particula comparativa : — és mais philologo do 
que X\és tão poeta como Z: 



435 



i8 — Com os verbos ^car, zr, estai\ parecer^ etc, usa-se 
do demonstr. o em vez de outro adjectivo tomado attributi<^ 
vãmente : — Não fora C/nisto o que era^ nem a esposa o que 
devera ser ( Vieira ) \ ao feio nem por serem o deixam de ser 
estimáveis se tem virtudes ( Lobo. ) 

Este o =. el/o ( illud ), e nao se deve confundir com o adj, art. 

i9 — O adjectivo que faz as vezes de adverbio é sem- 
pre invariável. E' erro dizer -se : — a porta está meia 
abeta p. meio aberta. No i° caso sign. que a metade da 
porta está aberta ; no 2° que a porta está algum tanto 
aberta. E assim devemos dizer: casas meio queimadas^ etc. 
O emprego dos adjectivos na forma masc. com força 
adverbial data do Sec. XVI ; no periodo ante clássico 
empregavam os advérbios em mente. 

20 — Quando um substantivo refere-se a outro de gé- 
nero diíferente, o adjectivo concorda com 02° — Cleópa- 
tra., aquelle tfpo de belle^a . 

Os escriptores antigos faziam-no concordar com o pri- 
meiro substantivo, e o povo ainda diz : — J. é um :{ebra^ 
um besta 

21. — Nos adjectivos compostos por juxtaposição, só 
o ultimo elemento toma flexão de plural: escola medico- 
cirúrgica^ guerra franco-prussiana. 

22. — Os possessivos empregam-se geralmente antes 
dos substantivos. Dá-se, porém, a inversão quando o 
substantivo é precedido de um indefinito ou de demon- 
strativo : — alguns livros seus^ um parente meu . 

O possessivo era geralmente precedido do artigo: 
o meu amigo \ seja feita a tua vontade. Esta forma é 
hoje a mais usual, meno5 antes dos nomes de parentesco, 
quando não se segue o nome próprio ou epitheto : — wiew 
pai : minha querida filha, 

O emprego do pron . pessoal pelo possessivo era raro 
no latim, e considerado hellenismo ; na linguagem archaica 



436 



portugueza encontram-se alguns exemplos desta substi- 
tuição, hoje de todo condemnada : — senhor de mi; la 
moller de mi (G. Vic), etc. No hesp. era esse emprego de 
frequente uso ( el cuerpo de mi ) ^ e bem assim no italiano e 
no francez [un ami à moi) . 

Mas si o sujeito acha-se em relação de dependência, 
emprega-se o gen. do pessoal : — parte de mim == lat. pars 
mei, por amor de ti. 

O dativo do pron . pessoal — quando se acha depen- 
dente de um verbo — pode fazer as vezes do possessivo: — 
si não mt fosseis amigo., vejo-te o coração triste^ quebrei^ 
lhe a cabeça. Em lat. empregava-se o adj. mihi iibi., etc. 

O possessivo pileonasiico., consiste no emprego claro do 
possuidor : — os seus feitos delle ; dos Santos não me mato 
em seus louvores (S . de Mir . ) 

E' o possessivo que forma o pleonasmo. 

O possessivo periphrastico fórma-se com os verbos ter e 
haver {Com a sede que XQvho de vingança., eq. a com a minha 
sede). B. lat.: — de filio vestro quem habetis. 

23. — Os demonstrativos este aquelle são ás vezes 
substituídos pelo pronome o, o que bem indica a sua etymo- 
logia ; o demonstrativo articular faz também as vezes de 
determinativo relativo: 

Os grandes feitos que os Portuguezes obraram neste dia o Oriente 
os diga. (Frei. Castr. II, 154 ). 

Leis em favor dos reis se estabelecem, 
as em favor do povo só perecem ( Carn.) 

24 — E a mesma propriedade teem os possessivos e os 
demonstrativos: — Olha-me aquelle assobiar (G. Vic); 
mandou Lopo Soares que neste ir e vir aos comprar andasse 
sómenienm largantim. ( Bar. Dec. I.). 

O demonstrativo concorda, como em latim, com o sub- 
stantivo que serve de attributo : — esia é a verdade. Mas si 
o pronome refere -se a um enunciado anterior, em relação 



437 



com um substantivo abstracto, por intermédio do verbo 
ser, emprega-se a forma neutra : — tsío é verdade . 

Os demonstrativos conservaram a relação latina. 
Quanto á de /z/c e ///e, deve -se observar: i», que se em- 
pregam sem attenção á distancia mais próxima ou remota 
do objecto grammatical, como se dava em latim ; 2®, que 
ambos a par, representam dous objectos indeterminados, 
independentemente da idéa de proximidade ou afastamento: 
— esta e aquella parte; estes o gabam, aquelles o deprimem 
( uns. . . . outros. . . .) 

Os dous pronomes podem também referir-se ( em iin- 
guagem vulgar) a uma única idéa : — este é aquelle de 
quem vos tenho /aliado. — Este modo de dizer é commum 
ás outras linguas romanas : — cet homme esi celui, quês /'è 
colei che, este e aquello de qutem. . . , esto és accelo que, . . . 
Lat. — híc esí tile senex, cui verba data sunt. 

Tem o portuguez um outro modo de exprimir o de- 
monstrativo /5/e ; que é empregando aquelle ou simples- 
mente o, a (\]\ç. ) : — direi somente o em que pararam estas 
coisas ( F . Mend . ), determmou de effectuar o para que alli 
era inndo . 

Em latim is não podia substituir um subst. precedente, 
porque bastava a relação de genitivo : — amicitiae nomen 
tollitur, propinqualis manet ; mas no latim vulgar da media 
idade dizia-se — de vinea S . Eulália ei de illa de S . Justi. ^ 

O vulgo costuma antepor o determinativo o ao demons- 
trativo aquelle, para indicar pessoa de cujo nome não se 
lembra ( o aquelle ), e do Sec . XV temos uma composição 
idêntica, que é a expressão elle esse :— . ^om jamva^ lhe 
seria elle esse ( J . F . Eufros . ) . 

25 — Quem transforma-se em o qual quando prece-« 
dido da conj. sem, simplesmente por euphonia ; Esta trans- 
ferencia data propriamente do Sec . XVII ou declinar do 

* Diez^ ioe. cit. 



438 



XVI : <?5/70SO sem quem ;/ão qiiii amor^ escreveu Camões 
[Liis. IV, gi ). 

Cujo^ gozava no portuguez da propriedade de ser inter- 
rogativo, como em latim :< — cujas sam estas ricas armas ? 
( Barr. Chron. 1. CL) - V. pg. 

Qiie emprega-se interrogativamente com ou sem artigo 
conforme o sentido ; Cp . •— Qiie queres ? que Itrros são 
estes ? O que é grammaítca ? 

26--" Quanto aos indefinitos pouco mais temos a aceres 
centar ao que dissemos na pag. Cp. — pessoa alguma, 
homem, um ( Sec. XIII ), geme ( t=: pron. se ), etc. 

37.*— O emprego dós ordmaes pelos cardeaes data 
das primeiras épocas da lingua, e tornou -se mais frequente 
no portuguez dos Secs . XV e XVI : — capitulo vinie^ século 
do^e, etc. 

38. — As vezes emprega-se o adjectivo no plural para 
exprimir a idéa substantivada : — superiorest inferiores, 
Ínfimos, Íntimos^ nobres^ pósteros^ maiores^ menores^ mor- 
taes, meus, teus, etc. 

A pratica já era latina . 

39. — O adjectivo com sentido pessoal, tem tias lín- 
guas romanas emprego mais extenso que em latim : — 
homo doctus == o douto. O erudito, o sábio, o litterato^ 
etc. 

Em latim, porém, também dizia-se — indocti discant^ 
sapiens . . . 

40. — Si o adjectivo exprime uma idéa abstracta, em- 
prega-se na forma masc, correspondente ao neutro, e 
sempre precedeu ao artigo': o bello^ o sublime, o verdadeiro. 
Com a palavra cousa (ant. rem) formam-àe periphrasticas 
desses neutros . 

Artigo 

41 .— O demonstrativo articular emprega-se para de- 
terminar restrictamente, individualisar, o subst. appela- 



439 



tivo, próprio, verbal, ou para substantivar qualquer outra 
parte do discurso, e ainda phrases, clausulas e sentenças : 
-^ofico de D. Pedro I, o morra e vtngue-se á^Yleira^ etc. 

42. — O emprego do artigo é obrigatório com os no- 
mes próprios no plutal : — os Césares; mas, como acon- 
tecia em grego com os nomes de pessoas celebres, também 
se usa delle no sing. para maior distincção do individuo e 
que se não confunda com algum homonymo :-^o Gama. 
No sing., porém, excepto esse caso, é mais de uso o não 
emprego do artigo : — Phrynéa^ D . João K/, Pasteur^ . . . 
porque não ha receio de confusão com outro . Dizemos o 
'Pacheco^ o oAbilio^ etc » . . mas é gallecismo, e erro, dizer-se 
o Dante^ o Christo^ o Shakspeare, o Tasso . 

E' porém de rigor o emprego do artigo no sing. quando 
o nome próprio tem sentido commum, como acontece 
com os primores da estatuária e pintura, Juptter de 
Thidias, o Chrislo de Rubens, a Vemis de Milo^ o La- 
coonte. 

E' tàmbem de rigor antes das obras jprimas lias lettras, ehsitiam 
os grammaticos, — a Illiadaj os TavioyoSj o Unigtiayj o Paraizo 
perdido. Empregamosj porém, o artigo antes de qualquer titulo de 
obra a que nos referimos, excepto quando fazemos citação, 

43. — Ha nomes communs que regeitam o artigo por 
terem sentido muito restricto a um ser ou objecto :—-Deus» 
Deve -se porém dizer, é claro, — o Deus de Israel, o Deus dos 
Christãos. 

44. — O nomes dos dias da semana e dos mezes 
empregam-se sem o demonstrativo ; mas não assim os 
adjectivos numeraes indicando horas (ds 3 horas) . 

45» — E' também de rigor o demonstrativo antes dos 
epithetos, alcunhas ou cognomentos : — o Jiradentes<, o 
^arba ruwa ; Platão, o divino ; D . Pedro, o justiceivo ; 
Tasso o louco sublime . 

46. — Omitte-se em prop. geral depois da preposição : 
está em casa, chegou de Pernambuco. Except. quando 



440 



queremos determinar mais particularmente o logar já co- 
nhecido e de que se trata, e com certos nomes locaes (estou 
na casa^ i, e, na que desmoronou- se, etc), cheguei da 
IBahia, da Suissa, etc. V. pgs. 

47. — Emprega-se com idéas genéricas, em sentido 
coUectivo : — o homem é sujeito ao erro. Era esta a pra- 
tica no grego ; no lat. class. dizia -se simplesmente homo^ 
o popular empregava ho?no com os demonstrativos tile 
ou hic. 

Também com as idéas abstractas : — a sabedoria, o 
ódio . 

48. — Emprega-se o artigo quando na locução con- 
correm dous substantivos, e o a'' exprime ds modo preciso 
o fim do 1*^ : — o homem do leite (que vende leite), o vidro 
do sal, etc. Este emprego, porém, é arbitrário, e dizemos 
— garrafa de pinho, feira de gado, etc. 

49. — Supprime-se o artigo quando o substantivo — 
concreto ou abstracto — forma com o verbo (ter, haver, 
estar, . . . ) uma idéa única : — ter sede, correr risco, ter 
paciência . . . 

Estas locuções, cuia idéa principal está encerrada no 
substantivo, podem muitas vezes ser representadas por 
um verbo que contenha a mesma idéa : — arriscar-se, 
pacientar. 

5o. — Omitte-se mais na apposição :— Deus padre, 
todo poderoso ; Blumenau, colónia allemã no Brasil, 

Ainda, ás vezes, nas palavras negativas :— violdi jamais 
cantou feitos heróicos . 
Cp. a viola também nos canta amores. 
5i . — Pode-se empregar o determ. antes dos adj. poss. 
e dos infinitos : — a tua mão (V . pg . ) 

O emprego, porém, é de rigor quando queremos affirmar 
ou negar alguma couza com mais emphase ou vehemen- 
cia : — este ê o meu livro e aquelle o teu ; todos vós sois 
meus filhos, masfalia-me aqui o mtu filho (Vieira)* 



441 



52. — O artigo é também de rigor antes das palavras 
senhor^ Senhora^ excepto quando nos dirigimos a alguém 
sem que lhe pronunciemos o nome, titulo ou dignidade. 

Mas omitte-se antes de titulos compostos com o gen. — 
monsenhor^ messer, madama^ e também antes de Frei e de 
Santo, fftesírep. sábio, etc, 

52. — Depois de todo, deve-se empregar o adj. art. 
sempre no plural ; no sing. é facultativo o seu emprego, 
quando toíio indica totalidade. 

Oital. ehesp. regeitam o artigo quando representa o 
sentido de quisque ou de omnis ; no portuguez antigo escre- 
via- se todo homem, toda mulher, todo animal, toda pessoa 
que erê, todo logar, em toda villa, etc. Quando iodo cor- 
respondia a intiramente, á cousa em sua generalidade, 
supprimia-se o artigo, cujo emprego era de rigor quando 
todo se referia somente ao individuo, á totalidade das partes 
integrantes : — gastou todo o cabedal, toda a parte, todo 
o dia, toda a casa, etc . 

Cp . Todo o homem, todo homem . Neste ultimo caso me- 
lhor é empregar o plural — todos os homens. 

Nos clássicos modernos o emprego do artigo é arbitrário 
(Camillo, L. Coelho, Rab. da Silva, etc). 

Para saber o emprego basta poder inverter a phrase sem 
mudar de sentido : — todo o mundo = o mundo iodo {totus 
islemundus), iodo o homem nãoé o mesmo que o homem 
todo ; etc. 

54. — O artigo é de regra no superlativo relativo (ex- 
cepto quando ao adjectivo precedia um pronome) : — as 
minhas mais bellas i/lusões . 

Supprime-se geralmente quando o superlativo vem pos- 
posto ao subst. já precedido do artigo ou acompanhado 
de possessivo : sua idade mais feliz, seu filho mais velho, 
os seus trabalhos mais notáveis. 

Si o subst., porém, vier precedido do indef. um, empre- 
ga -se o artigo. 

36 



442 



55 . — Tivemos uma forma de partitivo até o Sec. XVI, 

— empresta-me áo aceite (V. Vic). dd-me do pão^ etc. 
Hoje empregamos as expressões um pouco^ algum, etc . 

56. — Quanto aos complementos dos adjectivos, só di- 
remos que alguns adjectivos (ehrío, consciente, pobre, 
rico, digno, capa^, ávido, cheio, vasto, certo, etc.y, e os 
partitivos, unem-se aos seus complementos pela prep. de : 

— digno de louvores, isento de dissabores, incapa^ de /ím- 
mildade, ... o ouro é o primeiro dos metaes, um dos sol- 
dados (=um d' entre os soldados ; lat. — unusdemilitibus.) 

Os participios formados com a prep . de, conservam-na 
quando empregados adjectivamente : — ausentar-se de, 
ausente de. 

Temos, porém, construcçÕes divergentes : — Jertil 
(em, de), ignorante (em, de), rico (em de), suspeito (de, a), 
etc. 

Também é a prep. de a que une o adjectivo ao comple- 
mento indicador da parte, qualidade, defeito, origem : 
feio de corpo, fnas bonito d' alma ; bem feito de corpo. 

5j , — Entre um partitivo e o participio ou adjectivo que 
o qualifica, de é expletivo, e não signal de complemento : — 
no que elle di{ ha alguma cousa de verdadeiro ; nada teem 
de assentado. \ 

58. — Outros adjectivos unem-se ao complemento pela 
preposição a ou para (igual, prompto, fel, acostumado, 
análogo, anterior, aitento, estranho, desagradável, repu" 
guante, sensivel, inútil, etc.) 



TRIGÉSIMA QUARTA LIÇÀO 

Regras de syntaxe relativas ao pronome 



I. — Pronomes pessoaes. — Os pronomes pessoaes em 
relação adverbial vem sempre regidos de preposição depois 
do Sec. XIII, (a ií\ de ti ; para ti). 

Migo^ tigo^ sigo^ empregavam-se sem a prep . com até 
o Sec . XIV, posto que desde o XIII já concorressem a par 
das formas pleonasticas cowe^o, comigo, com/e^o, comtigo, 
comsego comsigo : — poys sen mandad'ey migo, e sigo 
medes di{ta (dizia comsigo mesmo), poys tigo começar Jni. 

St, porém, emprega-se sem preposição : 

a) Depois da conj . que quando a esta precede um com- 
parativo : — outros majores que si \ pe/or que si, a mesma 
estrella Vemis se mostra maior que si mesma (Vieira) . 

b) Depois do adj . outro : — após elle não ha outro si 
(e também diziam outro ;?//), este que ahi está he outro si^ 
etc. 

Estas phrases já estão archaisantes, e a construcçãó 
moderna é — outro ew, maior que elle . . . . ; mas dizemos 
superior a si (a mim^ a ti), estar em si, sobre si, de si 
mesmo, etc. . . . 

No Sec. XVI supprimia-se ás vezes a prep . antes do 
pronome : — quem me vos guarda^ guarda myn (C. Vat.), 
despre^arom mim, m'albergue cabo sj (id.), mim ouve 
(R. S. Bento — ouve-me, i. e. a mim). 

Em portuguez (hesp., e ital. ás vezes) o caso sujeito 
do pronome pessoal, dependente do verbo ser^ persiste 



444 



em algumas expressões, que em outras línguas cedeu 
espaço ao caso regimen: — fr. cesi ?noi, ing. it is me, 
din. det er mig^ ali. er ist mij% port. sou eu {és tu, é 
elle)^ it. sono 10....; io non sono /e, s'io fossi lui., egli 
é come me stesso; fr. je ne suis iot\ si fetais lui....; 
eu não sou iu., se eu fosse elle . 

2. — Pron. pess. conjunclivo. — Para os dous casos 
oblíquos (accus. e dat.) as línguas romanas teem duas 
formas pronominaes, uma absoluta e outra conjunctiva. 

Emprega-se a i^ (que é de rigor quando o pronome 
acha-se dependente de preposição) quando se quer dar 
realce á ídéa pronominal; e consequentemente é nalle 
que recahe o acento. Emprega-se a 2* quando predo- 
mina o accento do verbo. — Parece-me., parece a yjiim ; 
digo-vos., digo a vós., dei- lhe, dei a elle. 

Os pronomes conjunctivos só representam relação 
objectiva ou predicativa, ainda mesmo com o verbo ser 
teu o sou). O, a., os, as., são verdadeiras formas de 
accus., como prova o emprego do le no hesp. ant. e lo 
no portuguez das primeiras phrases da lingua. 

Notemos aqui as confusões da relação entre as for- 
mos lhe (illi) e o (illo), ainda nas i** décadas do periodo 
clássico; e a de // por tu., etc, entre os quinhentistas 
e seiscentistas: — mais forte que ti. 

3 . — Pronomes de reifcrencia . — Só empregamos o aluar 
entre pessoas da mais estreita privança; o avosar só 
em discursos e escriptos, e na linguagem familiar em 
alguns ângulos de S. Paulo e de Portugal *■ 

Com o pron. pós o verbo vae para o plural, mas o adje- 
ctivo ou participio segue o género e numero da pessoa aquém 
nos dirigimos : — vois sois bom, boa, bons, estimado, a, os. 



* No 1). lat. diKia-se tuissare, volisare (tratar por tu ou vós) ; o hesp. 
tem tutear, vosear ; cat. tuejai' somente; fr. — tutoyer, ant. eifootíser, 
genovi^z rousoycr ; it. — dar dei tú, dei voi. Temos atHtW, formemos 
avosar, que .]á temos vosear cora outra accepção. 



445 



No b . lat . dizia-se, mais de accordo com a restricção 
grammatical. — vos estis inlionorati^ como no grego mo- 
derno (Grimm.) 

Também em estylo elevado, na tribuna, na imprensa, 
emprega-se nós por e«, ficando o adjectivo no sing. em 
relação attributiva ou predicativa : — mestre é sermos 
antes breve que prolixo . 

No portuguez são muitos os pronomes de reverencia — 
Vossa Mercê^ V. 5., V. Ex., V. Em., V. oAlieia, etc. ; 
o pronome pessoal correspondente é da 3* pessoa por isso 
dizemos wcc sabe, V. S. conhece. 

Você é contração de posmecê, f . já contracta de Vossa 
Mercê, como no hesp. usencia, de intestr a reverencia, use- 
nofia e usia de vuesira senoria, vosencta de V. Ex., também 
jã introduzida hoje em Portugal. — Relativamente ao pro- 
nome de reverencia í^oce, vide pg. 92. 

4. — Tronome pess. plecnastico. — A's vezes, posto 
venha claro o sujeito, emprega-se pleonasticamente, junto 
ao verbo, um pronome da 3* pessoa em relação sub- 
jectiva : — seu pai delle, a mim já me pesa, capa não a 
tinha, ao doente não se lhe ha de fa\er a vontade 
(S. Mir.), linguagem daquella terra nam a sabiam (J. 
B.), etc. 

Destes últimos exemplos, que consiste no emprego do 
pronome conjunctivo em relação objectiva ou predica- 
tiva quando a phrase começa pelo substantivo, — é 
abundaute o portuguez moderno. 

Este reforço já era usado na baixa latinidade : -. — ipsam 
citatem resiaiiramus eam, ipsas res volemus eas esse 
donaias S 

As vezes a reduplicação dá mais clareza á expressão ou 
m.is vivacidade : — Mas se bem atteniaes elle só traía de 



* Cartas d' Hesp. D. Gr. der Bom. Spr. 



446 



se consolar a si (Luc .) '■> os cabellos que os trabalhos do 
mundo, lhe branquearam (Bern.) ; outras, porém, torna 
o estylo mais arrastado e é defeito : — Os padres lhe dtiem 
a elles as coisas da fé (Luc), etc. Estas ultimas ex- 
pressões, que não tinham correspondentes em latim, porque 
a funcção de tllum era lembrar o regimen afastado, devem 
ser rejeitadas. 

Em relação adverbial, os nossos pronomes subst. originam um idio- 
tismo intensivo : — çnem me atida a meí/er-fe estas cousas 7ia cabeça ? 

Já nos referimos ao emprego do pronome pessoal pelo adjectivo 
possessivo : — levoti-me o livro j segure-me a braço . 

Sobre a collocaçao dos pron. pessoaes vide lição 40 : 

5 — Pron. reflexivos — A concordância é a mesma em 
todas as linguas . Si o sujeito está na mesma phrase, em- 
prega -se o conj . si ; — Elle fa{ isto por si mesmo \ mas si o 
sujeito está em outra phrase, o demonstrativo elle (o ) com 
sentido pronominal ; elle disse-lhe que o tinha convidado 
( qui se invitaverat ), pediu4he que se sentasse com elle ( ut 
sederet secum ) . 

Este modo de fallar accentuou-se no latim da decadência e na baixa 
latinidade : — scripsiíj ut illi ( sibi ipsi ) sémen mitteretur ( Petr . ) ; 
se veniuruni in imperinirij quod olitn fuerat illi ( sibi ) datuvt ; inter 
eos ( se ) partiant. 

Elle por se em relação objectiva é frequente nos i°s documentos 
do portuguez. 

O emprego de comsigOj a sij por comnoscoj a vós {falia comsigOj 
refiro-me a si) é destempero de ignorância que modernamente nos foi 
importado de Portugal. 

6 — Pronomes inde/initos — Um é adj . pronome indefi- 
nito, e é de creação posterior ao demonstrativo o, a, a que 
deram o nome de artigo definito . 

Nos antigos textos contem sempre noção pronominal, e 
ás vezes eomo observou o professor Diez, apenas valor 
pleonastico ( o homem é um animal ) . 

Ha palavras que obrigam o emprego d'este pronome ; 
as que só se emoregam no plural ( umas bodas^ umas 
exéquias ), e as que significam objectos que são sempre em 



447 



numero de dous ou se usam em par (uns pês, uns sapatos y 
umas líivas ) . 

Também se emprega antes dos nomes próprios 
quando se quer designar a pessoa mui particularmente, ou 
ainda exaltal-a ; — como quando dizemos — um MonfAl- 
perne. Neste caso é adjectivo. 

A's vezes encerra idéa de pessoa indeterminada e cor- 
responde a aliquis : ás ve^es um d{:{ o que não pensa ( o 
liomem diz, diz-se ). 

Quando exprime identidade tem valor numeral: — 
iodos fallai'am a umavo^. 

E' de bom emprego o pronome qiiem por uns : 

Quem se affoga nas ondas encurvadas, 
qeum bebe o mar e o deita juntamnte 

( Lus I 92) 

Outro.'" É adj. pronominal. Neutro ai • — não enten- 
dem en ai ; o ai não ha de louvar. 

Quando refere relativamente umsubst. a outro prece- 
dente, « ambos os substantivos devem estar entre si na 
mesma relação que a idéa restringida com a idéa geral » ; 
— a gula e os outros peccados ; o amor e as outras offensas 
(falma . 

Um e outro — Empregam-se correlativamente, e neste 
caso um pôde ter plural {uns e outros ). Um e outro = unus 
et alter \ corresponde a uterque^ nnus alterum^ class . alter 
alterum, altus alium. — Outi'o.. . outro ; um. . . um. 

Todos esses modos de dizer teem typos correspondentes 
no b. lat. — uno caput tenente tnfo{{a et alioin palude ; 
;calicesdu0yunum aureum etunum argenteum. * 

Certo — Correspnde a quidam^ mas no latim havia o 
ind . certus {certi homines) . 



* Ap. Deiz. 



448 



O emprego do pronome mui diverge do emprego do 
adjectivo. 

Oãlgiiem — Substitue — como também algnm — o ind. 
nm\ — ponha Deus algum termo aos meus tormentos, 
Pr enderam-no julgando que era algum sedicioso. 

Estes empregos tiram origem na tradição latina, que 
do mesmo modo empregava a//"^MZ5, quidam, quisquam. 

O pronome é ás vezes representado por substantivos, 
que designam a pessoa ou cousa de modo ainda mais 
vago e geral : — chegou onde nunca homem ( ou pessoa) 
nunca chegou ; Lat . — accipii hominem nemo fnelius ( Ter. 
Eun. ap. Diez, G. R. S.) 

Tal — (V. pgs.). Corresponde a. quidam, e a nonnemo 
{tal semêa que não colhe) . 

Serve também para designar pessoa que não existe ; ou 
cujo nome se quer occultar ; junta-se aos nomes da pessoa 
com sentido pejorativo — um tal Onofre; e aospessoaes 
fulano e sicrano {fulano de tal ) . Corresponde no pri- 
meiro caso ao ille do b . latim , 

Emprega-se com valor distributivo por uns. . .outros., 
uns. . .uns : — taes applaudiram taes reproifaram (v. pg.). 
Quanto. — Perdemos a forma alequanto., a., (==1, 
aliquantus ) : — alquanta gente { aliquot homines ), al- 
quantos d^elles ; com força adverbial : — ^ialquanto mais 
esforçado . 
(Ined. ) 

São também de notar certas palavras que expnimem uma 
víéa geral de numero ; todo ( todo /lomein, etc V . artigo ), tanto 
( tanto homevi ), quanto ( também se refere a grandeza, e então a 
relação é expressa pelo plural ) : — quanta viiscria . . . quantos 
filhos, etc. 

A formula latina necio quis, que serve para designar alguma cousa 
de desconhecido, é peculiar a todas as linguas românicas. Corres- 
ponde ao port. — uvi não sei que ; r. je ne sais quoi ; hesp. no se 
que'; it. non so che. 



TRIGÉSIMA QUINTA LIÇÃO 

Regras de syntaxe relativas ao verbo. — 
Do emprego dos modos e tempos — Cor- 
respondência dos tempos dos verbos nas 
proposições coordenadas e nas proposições 
subordinadas. 



I . — A funcção syntaxica do verbo deriva naturalmente 
de sua própria natureza cathegorica. E' por assim dizer o 
elemento disciplinador da proposição, a synthese da 
phrase. 

2. — Voz ACTIVA — Os verbos transitivos exigem um 
termo indicador do objecto directo e immediato da acção. 
E' o seu complemento directo . Ex . •: — o sol abranda a 
cera e endurece o barro . 

Os verbos intransitivos exprimem uma acção cujo, 
objecto directo se não indica \ venho^ corro . 

Muitos verbos, no correr dos séculos, mudaram de 
classe : — cahtr, morrer, crescer^ sahtr . 

Essas mudanças explicam-se : 

i.° — Um verbo transitivo pôde construir-se quasi 
sempre intransitivamente {crêr^ encontrar^ esperar, con- 
sentir^ etc), mas o objecto vae para relação adverbial : — 
Creta o que referes^ creio no que referes. 

2.° — O verbo intransitivo pôde ter um complemento 
directo, i. e., pôde ter significação transitiva {trabalhar, 

67 



45o 



gritar^ chorar, calar^ andar^ correr, dansar^ e todos os 
que exprimem locomoção, etc) . Dormir um somno . Esta 
faculdade era mais ampla no portuguez antigo . 

3.° — Muitos verbos intransitivos empregam-se com 
sign. trans., valor factitivo {descer^ entrar, passar^ cessar^ 
chegar, etc). 

O caso objecto pôde ser acompanhado de preposição, 
principalmente quando designa funcção pessoal : — 
oámarãs ao Senhor teu 'Deus^ e ao próximo como a // 
mesmo. E quando é expresso por formas verbaes : — co- 
mecei a. cuidar^ começava úq querer {B . Rib.), 

Nas phrases, de construcção similar, — peguei da penna, 
arrancam das espadas, o de é pariiculà de realce . 

Alguns verbos transitivos recebem um complemento 
duplo : — Nomearam-no professor ; e o alçarão por Rey 
(também em Rey . ) 

A's vezes a dupla predicação é simplesmente emphatica 
ou expletiva : — Os feiíos que os Poriu guetes obraram nesse 
dia o oriente os diga . 

3 . — A voi passsiva exige um caso agente representado 
pela prep . por ou de : — Esta terra foi ganhada pelos 
mouros (Sec. XIV. L. de Linh.) ; sendo das mãos lascivas 
maltratado (Cam.) 

A tendência nominal do participio prefere a construcção 
de^ como se vê da historia da lingua : — E' feito de aspe- 
rodes., he aborbotado de escudos (Sec. XIII e XIV.) 

A influencia da construcção latina { a., ab ) não raro ap- 
parece no portuguez até o Sec. XVII : — Era ensinada d 
livros de historias ( B . Rib . ) . 

4 — As formas da voz activa, em certos casos, substi- 
tuem as do passivo, e reciprocamente . Assim : 

1° — activo peio passivo., no infinito, participio presente 
{ fácil de áizQT -^ assi meixente os esprov amemos -., Ined. 
d^Alc). Quasi todos os participios perderam a propriedade 
transitiva . 



45 1 



2° — T^assivo pelo activo. — Esta construcção ori- 
ginou-se da falta de uma fórma de participio activo ; só 
se dá com o participio : Com este feito que foi mui soado 
por todas aqiiellas partes.^ ficaram os amigos e liados 
d' el -rei de 'fintam mui quebrados (Bar. ^ec). Muitas 
cousas gostosas aos lidos e curiosos ( Pant. de Aveir.) 

E ainda na linguagem actual, muitos são os exemplos ; 
— uma politica dissiimilada^ ?im homem sabido.^ reflectido, 
previsto^ presumido., inentido., etc . 

3° — O refiexo pelo passivo . — Já nos referimos a esta 
construcção, que mais se tornou frequente depois do 
Sec.Xv'. 

Em França também dizia-se — La }iaUire et ntilitc ãn regne de J. 
C. ne se peut aiifrement comprendre ; construcção que se desenvolveu 
com a influencia italiana : — E' do Sec. XVIII a phrase seguinte : Je 
n^eníretiendraipas V . M. de fontes les sotiises qui se font et qui se 
disent, f/ ^^7// se lisent í^/í ne se lisent pas (d'Alembert.)' E ainda 
hoje — ce qui se dit, etc. 

5 — ^as pessoas e nnmeros. — Vide Lição i6 ; flexões 
pronominaes e verbaes 

Conservamos muitos verbos imptssoaes ; perdemos 
alguns ; no sentido figurado emprega-se na 3^ pessoa do 
plural, e também na 2* ( com valor factitivo ) . — Troveja 
a olympia sala ; trovejam iras de oAchilles \ troveja, mi- 
serável., chove sobre nós tuas verrinas ! 

Em regra, no portuguez antigo e moderno, o verbo 
concorda em numero e pessoa com o sujeito. 

Notemos as principaes dificuldades : 

a) Quando concorre mais de um sujeito de varias 
pessoas, o verbo vae para o plural e concorda com a que 
tiver prioridade ; i,e., 

, Si forem os sujeitos da i» e 2^ pessoa ou 3% o verbo 
vae para a i^ do plural : — Tu e eu estamos bons. 

Si forem da 2^ c 3*, vae para a 2* do plural : — Tu e o 
medico sois dous sabidos . 



4^2 



b) O verbo vae para o plural quando os sujeitos são 
seriarios e do singular ( syndetiea ou asyndeticamente ) : — 
o ouro, a prata, o ferro, são meíaes. 

E' frequente neste caso a anteposição do verbo : — São 
os dous entes mais parecidos de natureza, o poeta e a 
mulher namorada ( Garrett.)** 

c) Quando, porém, o sujeito seriario é representado por 
um expoente geral, ou quando a sua correlativ idade 
funda-se num único conceito, o verbo ordinariamente 
fica no singular ( V, pag. . . .) : — c4 gloria, a riqueza, a 
formosura, tudo é vaidade ; O ouro, os diamantes e as pé- 
rolas tudo é tet^ra e da terra . ( Vieira ) . 

d) Nos does. doSec.IIIao XV, são frequentes as 
anomaliar : — Ho monte grande escalnitado no qual nem 
arvores nem mato aparece ( Sec. XV ) ; Seus olhos fontes 
d' agua parecia ( G . Vic . ) 

6 — Concordância com os col lectivos. — Em geral, 
quando o sujeito de um verbo estava no singular expri- 
mindo idéa de collectividade, o portuguez antigo, fazendo 
a concordância com o sentido, levava o verbo para o 
plural ( gente, povo, etc. de que já demos alguns exemplos). 

Porque, saindo a £vn/e descuidada 
cairão facilmente na cilada. 

( Cam. Lus. I S.) 

Mas ; 

A gente da cidade aquelle dia 
( Uns por amigos, outros por parentes^ 
Outros por ver somente ) concorria, 
Saudosos na vista e descontentes 

( Id.) V. 83i. 

em que se nota o effeito da attracçao. 



' A prep. com ( = e) é também uma equivalente syndetiea : 
Que eu c'o grão Macedónio e c'o Roqiaao 
Demos logar ao nome Luzitano 

( Camões ) 
C. a locução ume outro :— Vede a differença com que um e outro 
ouvirão um íion lioet (Vieira). 



453 



As outras línguas romauas eonservaram-se fieis a este 
principio, que era latino : — prov. gens monteron\ fr. 
ant. gent estoient, corrente la noblesse de Rome ront 
elu ; etc. 

Na lingua moderna ha dous casos principaes dignos de 
nota : 

a) O sujeito do verbo é um nome como — multidão, 
recova, bando, porção. Neste caso o verbo vae para o sin- 
gular, si a idéa mais se refere ao coUectivo ; para o plural, 
se mais se refere ao complemento. 

b) O sujeito do verbo é uma locução exprimindo quan- 
tidade : — muito, assas, pouco, a mator parte, etc. Em 
geral depois dessas palavras emprega-se o plural : a maior 
parte dos homens são inclinados ao mal . 

Ha excepções. 

7 — A impersonalidade do sujeito fixava o verbo no 
singular : — Se y a provas ( F. de Gravão )\ ha homens 
que ainda depois de f aliar são mudos ( Vieira ). 

TEMPOS 

I. — Vide Lições ib e 27. 

a) O Presente — representa a acção como que feita 
(presente) no momento em que se falia : Esiãs alegre ; 

Figuradamente emprega-se pelo passado e pelo futuro 
(pouco remoto): — Moniz, lhes tem rosto., os aperta., e re- 
chaça ; vou amanhã., volto já ; 
Tanio vae o pote ã fonte que afinal lã fica. 

Emprega-se o prés . pelo futuro quando a acção tem 
de effectuar-se em época próxima, que quasi entesta com 
o presente {vou logo):, quando a acção futura começa no 
momento em que se falia (elle esta de volta dentro de i5 
dias) ; quando é indeterminado o tempo em que tencio- 
namos fazer a acção annunciada : — logo que poder., parto 
para S . 'Paulo . 



454 



Emprega- se ainda pelo imperfeito e futuro do subjun- 
ctivo : — Si adevinho, não cahia nessa; si falias, arrepen- 
de s-te. 

b) '■'Pretérito — A principio era distincta a diíferença 
entre o pretérito definito (perfeito) e indefinito. Este in- 
dicava um tempo menos remoto. 

c) O futuro simples ou absoluto ennuncia a acção que 
se deve fazer em tempo posterior ao que falíamos. 

O futuro pôde substituir o presente : — Quantos não es- 
tarão agora arrependidos ! 

9. — « Uma acção determinada pôde ser não só ante- 
rior ou posterio ou contemporânea do momento em que 
se falia, mas também de um acção qualquer presente, 
passada ou futura, em relação ao momento em que se falia. 
Quando dizemos: — elle tinha sahido quando\eu fui, indi- 
camos que elle tinha sahido antes do momento em que 
contamos o facto, e outrosim antes de um outro momento 
que é aquelle em que fomos á sua casa. A acção indi- 
cada pelo verbo elle tinha sahido é pois passada em rela- 
ção a uma outra acção passada . » 

10. — Não temos todos esses tempos precisos; mas o 
hnperfeito e o tnais que perfeito^ representam o Ipresente 
no passado ; assim como o condicional exprime o futuro 
no passado \ e o futuro anterior — o passado em relação 
ao fuiuro . 

a) Imperfeito indica uma acção contemporânea de outra 
já passada. Devemos pois empregal-o sempre que qui- 
zermos indicar circumstancias referentes a um facto pas- 
sado. Essa relação de circumstancias é ás vezes indicada 
mui estreitamente ; outras, porem, deixa de ser expressa 
{Raiava o dia \ Era renhida a peleja^ ..,) 

V. o que dissemos sobre o emprego do presente pelo possado e futuro. 

O imperfeito pôde ainda ser empregado simplesmente 
como tempo do passado, sem relação entre essa acção 



455 



passada e outra . Os factos são ennunciados apenas como 
simultâneos, e não como successivos. *)» 

Indica outrosim uma acção habitual {estudava todos 
os dias) . 

b) O mais que perfeito e o pretérito anterior exprimem 
acção passada em relação ao tempo em que se falia, e ao 
mesmo tempo que ella foi feita em época anterior a outra 
igualmente feita . O pretérito anterior é hoje de uso muito 
menos frequente, e só em phrase subordinada ( em rela- 
ção com o pretérito ) ou quando se quer mostrar que a 
acção do verbo principal começou no momento preciso 
em q»e a já era acabada a acção do verbo no pretérito 
anterior. 

A significação do mais que perfeito é muito mais lata . 

Não indica que a acção durava havia muito, nem que 
acabava de começar. Quando dizemos: elle tinha faltado 
quando eu entrei, o mais que perfeito {tinha faltado) mos- 
tra que a acção de faltar durava ainda no momento em que 
que se deu outra acção passada {entrei). 

c) O latim, para exprimir o futuro no passado, servia-se 
do participio do futuro e do imperf . ou perf . do auxiliar 
esse (ser) : dicturus eraín ou fui. A forma portugueza 
que corresponde perfeitamente á latina é a da condi- 
cional. 

O condicional era pois na origem uma forma temporal, o 
verdadeiro futuro no passado, e como tal empregado nas 
proposições subordinadas.» 

Para suprimirmos a simultaneidade do futuro (para o 
que não tinha também o latim tempo particular) empre- 
gamos o futuro simples e o do conj. — irei quando 
fordes. 

IO. — Para exprimirmos outras subdivisões do tempo, 
temos ainda os tempos compostos, entre os quaes o do con-^ 



* V. G. hi Formes et syntaxe468 . 



456 



diciona\ que — como os simples — também conservam a 
sua significação temporal nas proposições subordinadas 
No ex . soube que elle seria sacrificado antes que chegasse 
o perdão^ a acção expressa pelo condiciona] é anterior á 
indicada pelo verbo chegasse^ que é futura em relação 
ã que se acha indicada pelo verbo soube, que está no 
passado . 

i3. — O presente do subjunctivo corresponde i°ao pre- 
sente do indicativo (espero que elle penha) 5 2'' ao futuro 
(espero que elle Ptrd) . 

O imperfeito : 1° ao condicional presente (pensei que elle 
viria) ; 2° ao mais que perfeito do Ind. {quem pegara então 
de uma mulher errada, e a levara pela mão ! ) . 

14. — Dos tempos nominaes occupar-nos-hemos na 
lição seguinte. 

Dos MODOS 

1 1 . — Do IMPERATIVO. — o Imperativo negativo é repre- 
sentado pelo conjunctivo. Este emprego remonta aos mais 
antigos textos [não falles), e no latim já o subjunctivo 
substitue o imperativo em todas as pessoas do plural e do 
singular nas phrases negativas. 

Deste emprego na forma positiva temos exemplos em 
alguns modos de dizer conservados pelo uso : Viva o 
^ra-{il !) ; mas, em regra, e com certos verbos, o subjun- 
ctivo é precedido de que : — que elle parta ! ; que eu não 
mais o encontre em meu caminho. 

Também o imperativo pôde ser substituído pelo futuro 
do Indicativo : — Honrarás pai e mãi ; e ainda pelo infi- 
nito, principalmente até o XVI século : — eia ! indo apear, 
d barca, chegar a ella (G. Vic). 

12. — Do Condicional. — Corresponde no latim ao 
subjunctivo como já explicamos. 

1 3 — Do SUBJUNCTIVO — Já vimos que se emprega pelo 
Imperativo . 



4D7 

O subjunctivo, chamado de cortezia em latim,foi substi- 
tuído pelo condicional. — versus tuos audtre velim ( = eu 
desejasse onvir teus versos ) = eu desejaria ouvir teus 
versos. 

Correspondência dos tempos 

14 — Proposições coordenadas. — Já nos referimos ao 
presente iiistorico, isto é, á faculdade de poder-se repre- 
sentar o passado e o futuro pelo presente. 

No portuguez antigo, porém, a confusão dos tempos 
nas proposições coordenadas são muitas, e muito de notar, 
ainda mesmo no sec. XV e XVI. 

1 5 — Proposições subordinadas — No portuguez antigo 
era muito mais ampla a liberdade de concordância dos 
tempos nas proposições subordinadas. 

I o — 'Proposições compleíivas — O modo depende 
principalmente do sentido do verbo da proposição prin- 
cipal . 

a) O verbo da subordinada vae para o Indicativo 
quando o principal significa pensar, crer, sentir, saber, 
suppor. Parece-me que elle vem ( virá ); creio que elle 
sabe, pensavas que elle dissera a verdade . 

Mesmo na prop . principal negativa, interrogativa ou 
dubitativa . Não creias que eu tenho ( tenha ) niedo \ crês 
que eu não sei ? ( saiba ) . 

b ) Si a principal exprime admiração, alegria, tristeza, 
duvida, receio, surpreza, mando, etc, o verbo da subor- 
dinada vae para o subjunctivo : — Receio que elle venha ; 
mando que vás. 

c ) Nas proposições hypotheticas o verbo põe-se no 
Indicativo quando exprime facto positivo, actual ( si sof- 
fres, a culpa não é tua ) ; vae para o subjunctivo quando 
significa duvida ou condição ( não sei si te entregue este 
Itvro : si tu fores eu escreverei» 

83 



458 



No port. ant. empregava-se depreferncia o mais que 
perfeito do Indicativo. 

As locuções conjunctivas idênticas a si {com a condição 
que^ de, com tanto qiie^ masque^ etc.) levam sempre o verbo 
para o conjunctivo : — comtanto que leias ; mas que chegues 
a tempo. 

4. — Nas proposições co«ce>sró'as, desiderativas e im- 
precativas, o verbo da clausula principal vai para o 
subjunctivo. Nas concessivas latinas quando nelias fi- 
guravam um pronome como quisquís, qualiscumque, o latim 
punha em geral o verbo no Indicativo, e dessa pratica 
se encontram muitos exemplos no portuguez antigo. 

Quando a proposição era annunciada por uma con- 
juncção, o latim mudava de modo conforme o valor da 
partícula empregada (etsi., etiamsi^ . . . Ind . ; quamvis, 
Subj.) 

O portuguez seguiu mais ou menos as mesmas regras \ 
depois nota-se certa duvida quanto ás conjuncções ; hoje 
emprega-s; o subjunctivo: — ainda que eu saiba; não 
obstante saberes ; quer queiras^ quer não ; posto que 
venhas, não obstante teres^ si bem que., comtanto que, ete . 

5. — Proposições causaes. São em geral annunciadas por 
— insto que., pois que, porque., attendendo a que, etc . , que 
desde o principio da lingua levam o verbo da propo- 
sição subordinada para o Indicativo : — Visto que vens, 
eu não vou. 

Com algumas conjuncções pôde elle ir também para o 
Indicativo : — como elle está bom (esteja), como elle não en- 
tendeu (entendesse), etc. 

Com as proposições negativas annunciadas por não 
que (non qtiod, non quia)^ o portuguez empregou sempre 
o subjunctivo, á imitação do latim : — Não que eu te queira 
mal. 

6. — Proposições /e/w/joríjw.^- Nestas proposições a 
syntaxe depende da conjuncção empregada. Assim : — 



450 



com antes que, primeiro que^ empregou o portuguez senipre 
de preferencia o subjunctivo (antes que o seu peito d 
ferir chegues), com até que, de preferencia o Indicativo 
quando se trata de um facto positivo e já realisado (até 
que por fim acalmar aiii- se os ânimos)^ e o subjuntivo 
quando a acção é futura e hypotlietica {até que cheguem as 
noticias); com — emquauto^ entretanto^ etc. tanto se 
emprega um modo como outro [emquanto estiveres (estás) 
ahi. 

6. — Proposições relativas. — No latim empregava-se 
o subjunctivo nas proposições relativas \ no portuguez 
também, sempre que a acção é representada como incerta 
ou simplesmente possivel {Indica-me um carninho que vd 
dar d villa) ; mas quando a acção é certa, positiva, o verbo 
da clausula subordinada vai para o Indicativo {Indica-me 
o caminho que vae d villa . ) ^ 

O que acabair.oi de dizer muito a traços largcs basta para mostrar 
que cada umas das fórmas_ verbaes não tem papel perfeitamente res- 
tricto, funcção verdadeiramente especial. Eessa discordância entre o uso 
syntaxico e a lógica mais se nota nas correspondências do subjunctivo. 
E;n regra, porém, emprega-se de preferencia o Indicativo quando 
queremos exprimir a certeza absoluta da aftirmação contida na propo- 
sição relativa, iiidefeiidenievieiite do valor chronologico. 

12. — Ha diíFerença no emprego entre ser e estar. 

O 1° serve de auxiliar da voz passiva ; exprime uma qua- 
lidade inherente ao sujeito, um estado que lhe é costumeiro : 
— o ''Bra:[il foi descoberto por 'P . M . Cabral , a neve é 
branca ; 'Plácido é alegre. 

O 2° significa uma qualidade occasional, um estado 
transitório : — a agua está fria ; Fernandes está alegre. 

O verbo ser exprime procedência — este rapai ^ *^^ 
Campinas ; o verbo estar a situação do sujeito, o logar 
onde : — elle está em Campinas . 



* Na divisão desta lição, seguimos Briiut.— 6rr. hUt. 



4^0 

A's vezes, porém, é indiíFerente o emprego : é claro que, 
está clai^o que . A idéa é então sempre a mesma . 

Na linguagem poética emprega-se também o verbo ser 
por estar : eu era ?nudo e só ; porem já cinco soes eram 
passados {p. estavam). 



TRIGÉSIMA SEXTA LIÇÃO 

Regras de syntaxe relativas ás formas 
nominaes do verto 

Infinito 

I. — Já vimos que um infinito pôde ser empregado 
substantivadamente \ e que para isso basta fazel-o pre- 
ceder de um ad). determinativo (demonst., poss., art.) : 
O viver ^ os dt\eres. 

2. — O infinito portuguez tem a singularidade de poder 
flexionar-se. ^ D'aiii a sua divisão em pessoal e impessoal. 

E' pessoal o infinito : 

1° quando a clausula do infinito pôde ser substituída por 
outra do mdicativo ou do subjuntivo : — Virtude^ sem tra- 
balhares e padeceres (sem que trabalhes e padeças), não 
verás tu jamais com teus olhos (Bern.) 

2° quando é sujeito, attributo de um verbo ou comple- 
mento de uma preposição. E' muito próprio das mu- 
lheres o sahir para verem e serem vistas. 

Cp. — Comprei esta pêra para comeres, comprei esta pêra para 
comer. No i° caso o Infinito pode ser substituído pelo subjunctivo 
(para que comas) e refcje-se á -x^ pess. do sing.; ao passo que no 2" 
exemplo o infinito refere-se á i* (para ^/^ comer}. 



* No gallego também, 

' E por isso pôde coastruLr-se na qualidade de sujeito, attributo, ou 
em apposição com um outro nome. 

Ò infinito, é forma nomiaal primitiva introduzida na conjugação. 

O infinito como substantivo neutro era já do latim clássico, e ainda 
acompanhado de formas pronominaes : — illud pecca,re, hoo ricicre 
(Schneider). 



462 



Este grande elemento de clareza — o Inf. pessoal — não 
se encontra nos primeiros does. authenticos da lingua. 
Seu emprego data do sec. XIII: 

Conserva -se impessoal o infinito : 

I . — Quando o verbo da clausula do infinito não pode 
ser substituído por outro dolnd. ou Subj. — outros são 
incrédulos até crer ( Vieira ) ; applicadas a grangear com 
trabalho ( Sza. V. do odre.) ; faltando-lhes valor e accordo 
para se defender ou morrer (Fr. — V. de Castro), etc. 

2. — Com sujeitos idênticos, raro nos clássicos. 

Cp. os seguintes exemplos. — Narn curees de maj's 
chorardes ; não cures de te queixar ( canc . Geral — ) ; 
o que se lhes 7ião pode defender com artilharia por 
trabalhar cobertos (Fr.), ^ folgarás de iteres ("Cam.), 
vieram constrangidos a buscarem refugio (A. Herc. ), 
restricções de amor que impedem os Jilhos de Amor de 
acharem (Garrett.) ; se queixavam de verem sahir d meia 
noite ( R. da Silva ) ; forçareis as pedras a vos fazer 
a vontade (Ulys. ), etc. 

3. — O infinito pode fazer parte de proposições inde- 
pendentes, exclamativas, optativas, deliberativas : — Mu- 
lher muito grande é o teu bom perseverar ( G. Vic); 
Que fa^er! 

4. — Substitue o subjunctivo latino nas interrogações 
indirectas. Lat. class . qutd seriberem non habebam \ baixo 
latim : — quid scribere non habebam ( non habent quid res- 
ponderei S. Agost.) O portuguez muito desenvolveu esta 
construcção : não tenho que responder, nzo sei que dizer, 
etc. 

5 . — Já vimos que o infinito, por sua qualidade no- 
minal, pode ser sujeito e attributo. Pode ainda construir-se 
1° em qualidade de complemento indirecto [depois de um 
certo numero de preposições (a, para^ por^ de, etc), e de 
muitas locuções prepositivas ( longe de, a menos^ em lagar ^ 
d força de, etc.) 



4r33 



o latim empregava o supino ou o gerúndio, modos que 

— desde a decadência — foram substituidos paio infinito. 

— 2° como complemento directo marcando o objecto da 
acção. Já era latina a faculdade de construir para esse 
fim um infinito sem sujeito, depois de certos verbos que 
exprimiam a idéa de vontade, poder, intenção, alegria, pejo. 
Ire valo ; quero ir. 

Com muitos verbos construímos o infinito sem pre- 
posição nem sujeito {temer ^ receiar, sentir^ mostrar, 
7'er....); mas essa construcção directa era muito mais 
geral no portuguez antigo, que empregava o infinito em 
muitos casos, em que ho)e é elle precedido de preposi- 
ções ou substituído pelo subjunctívo. 

6. — Os traductores introduziram na língua portugueza 
os primeiros vestígios das proposições do infinito, isto 
é, proposições que serviam de complemento ao verbo, 
e eonstruiam-se em latim com um verbo transitivo se- 
guido de um infinito, e de um nome no accus., sujeito 
do infinito. No principio da língua essa proposição era 
substituída por outras precedidas de conjuncção, cor- 
respondentes ás formas do baixo latim (Cp. 1. class. 
audto te dicere, b . lat . — audio quod tu dicis) . 

O emprego no XV sec. era muito mais livre do que 
hoje ; mas em muitos casos, quando o sujeito do infi- 
nito é o relativo que, empregamos ainda a proposição 
do infinito. 

Além dessa forma da proposição infinitiva, temos 
outra, caracterisada pela círcumstancia de ser o sujeito 
regimen indirecto. Este emprego, de uso muito limitado, 
já era conhecido dos Latinos {hoc comitibus scire J^actant). 
Ex. eu o vi fazer os seus preparativos. 

A proposição infinitiva refere-se sempre logicamente 
a um sujeito, quando não o tem apparente. Este sujeito 
pode ser determinado pelo contexto ou proposição geral : 
( — muito soffri, para desejar a morte)., ou indetermi- 



464 

nado {para que uma nação prospere^ ê força civilisar o 
rico tanto quanto o pobre. (V. H.) 

7. — Para indicar o íim da acção, empregamos o 
infinito : construcção regular no baixo latim, e excepcio- 
nalmente empregada no latim pelo supino (pecus egit 
altos visere ?nonies). Vou soccorrel-o; venho ao theatro 
applaudir o génio. 

8. — Podemos empregar o infinito pelo imperativo, 
herança que nos veio do latim, e era mais usada dos 
clássicos portuguezes; alegrar que é chegada a hora; 
sus, levantar dahi muito nas más horas:, fugir, fugir do 
infante que vos quer prender. 

oádvertencias . — O dominio romano muito mais es- 
tendeu o emprego nominal do infinito ] sendo de notar em 
portuguez os casos seguintes : 

a ) — Infinito articular — o beber, o comer, e no plural 
os cantares.,- os dares e tomares . 

Encontra-se nos primeiros documentos da lingua. 

b) — Infinito preprosicional — Jade uso frequente no 
baixo latim do 1° sqcuIo { ad abitare., ad firmare),tn- 
contra-se nos mais antigos textos do portuguez : — getar in 
terra ^úo cegar [ Sec. XII ). 

A's vezes a euphonia, e certa força de attração morphica, 
desvia o infinito do uso legitimo e natural: — galantes são 
os poetas l Todos z^erm queixar da malacia dos lempos. * 

'^Participios 

8 — O PARTiciPio PRESENTE, hoje usado exclusivamente 
como adjectivo, só admitte flexão de numero: homem ou 
wwMer amante, homens ou ím/Mere^ amantes . Esta pro- 
priedade já era peculiar ao latim clássico, e teve mais in- 
cremento no latim bárbaro . ^ 



* D. Man. Apol, ap. prof. Aurci. Pimentel — r/tese de concurso. 
« Vide lições — 16, 19 e 27. 



465 



Até o Sec. XV tinha funcção verbal com o comple- 
mento : — Os desprezintes 'Deiiscaem no ( R. S. Bento, In. 
d^Acol. ) ; filhantes inferno a saia^ leixam o 7nanto ( In.); etc. 
Conservamos vestígios dessa forma nominal mas já sem 
propriedade transitiva: — perlas imitantes á côr da aurora 
( Cam . ) ; assim como a águia e o louro não sam domi- 
nadas, senão predominantes ao raio ( Viera V, 48 1 );e 
assim — tirante esta clausula, tendente á paz, tocante 2i mo- 
ral, referente á lei, passante cincoenta, pertencente di nós, 
durante o anno, ect. De obedecer fizemos obediente por 
obedecente. 

No sec . XV, é de notar a confusão do part . presente 
com o gerúndio e participio passado (homem bem parecente 
de corpo)^ e também o seu emprego pelo adjectivo corres- 
pondente em : — era o conhecente d'aquelle Judêo ; sabentes 
per aquesta carreyra da obedeença ; temente (temendo) 
minha morte, rompente o alvor da inanhã ; acabante aquelle 
feito . 

9. — O Gerúndio (part. imp., que no port. substituiu o 
part. prés. latino) é sempre invariável. Quando vem pre- 
cedido da preposição em^ indica que á 1* acção segue-se im- 
mediatamente outra : — Em chegandoX^ parto para Itú^ 
em fatiando^ em diiendo^ em dormindo, etc . *■ 

Equivale a uma locução adverbial : — chegando (quando 
chegar), amanhecendo (quando amanhecer), etc, e é ves- 
tígio do gerúndio latino em e, que mais se vulgarisou na 
época da decadência . 

10. — O PARTICIPIO PASSADO, no portuguez antigo, sem- 
pre que vinha construído com o verbo ter (e ser) e — ainda 
no Sec. XVI — , concordava com o sujeito do verbo em 
género e numero : — bom servidor e leal nos serviços que 
lhe tinha feitos (F. Lopes) ; e do Jordão a areia tinha 



* Cp. estando dormindo, andando appretidendo, . . . = estando a dormir; 
andando a aprender... 

59 



466 



vista (Cam . ) ; votos que Unha feitos ; quantas culpas tinham 
commettidas (F. Mendes), etc. E qualquer que fosse a 
ordem, o part. concordava com o seu complemento, con- 
forme a syntaxe latina, que com o auxiliar habeo também 
dizia — habeo cognitam amicitiam = eu tenho conhecida a 
amisade . 

Mas desde a origem que houve tendência para consi - 
derar-se o part. passado apenas como forma de um pre- 
térito composto. Cognitum habeo=cognovi. Tenho conhe- 
cido ^= conheci. E mesmo nos textos antigos já se encontram 
exemplos da invariabilidade do participio quando se apre- 
sentava mais perto do verbo que do regimen : — maravilhas 
que deixou feito (Caminha), deixar -lhe queimado a cortina 
(P. Per.), deixando descoberto 3So léguas {Bsivros)... etc, 

A concordância continuou, e é observada, quando o 
participio segue o complemento : — não è preciso tenha as 
cartas escriptas. 

A leitura dos textos mostra claramente a tendência para 
a suppressão da concordância, que ficou retardada pela 
influencia clássica, adstricta á tradição latina. 

Por sua natureza, o part. passado dos verbos~intran- 
sitos pôde tomar significação activa, que — como em 
latim — tornou-se extensiva a particicipios de verbos de 
natureza transitiva : — homem applicado:, aborrecido.^ ca- 
lado., confiado descrido., dissimulado.^ esquecido., divertido., 
entendido^ poupado, lido.^ pei^dido., sabido., .... 

Sobre as formas em ítdú, as contractas, etc V. — Lições i6, 
19, 27. 
5obre o participio attributo fallaremos adiante. 

II. — Os PARTicipios DO FUTURO — são hojc raros, c só 
usados como substantiveis ou adjectivos. Já a elles nos re- 
ferimos nas lições 19627. 

Terminam 1° em ouro (oiro) : — ascendedouro, cscorre- 
gadouro, idouro, regedoiro. . . ., que se confundiram com 
os em eira (casadoura casadeira). Ainda conservamos 



467 



vestígios deste participio em duvadiiro. imniorredoitro^ 
morredouro^ vmdouro {Sguardaníe nas cousas vijdoiras ; 
Leal Cons.). 

2**. — em í7W<io, endo. No does. antigos, e mesmo do 
Sec. XVII, estes participios tinham sign. do futuro: — 
entre os despreios d'' esta expianda angustia (Fil. Elis) ; se 
mostra pura e brilhante á consolanda (Id.) ; oh l adorandos 
sempre e adorados ! ; culpandas armas ; etc. 

São participios da voz passiva latina, e apenas em- 
pregados no portuguez em linguagem clássica, pjincipal- 
mente depois do Sec . XVI . Temos dessa origem — mi- 
seiwido, horrendo, educando, doutorando, excerando, exa- 
minando^ etc. 

3 . — Os participios em uudo ( bundo ) : — gemebundo, 
nioribundo^ etc. Quasi todas as palavras desta termi- 
nação representam importações latinas. Este suflixo equi- 
vale ao oso das bases nominaes . 

O part. imper. e o aoristo (part. passado), quando não são em- 
pregados como adju netos attributivos, nem como elementos de for- 
mação- nos tempos compostos da voz activa e da passiva, e nos verbos 
Irequentativos, formam clausulas participaes absolutas, equivalentes 
a outras do modo Indicativo e do Subjunctivo, Taes clausulas prin- 
cipaes, bem como as que se formam com o participio aoristo, corres- 
pondem exactamente aos absolutos latinos — ( J. Rib. Grain7n. 
Pari,). 



TRIGÉSIMA SÉTIMA LlCÃO 

« 

Regras de syntaxe relativas ás palavras 
invariáveis 

Q/ldperbios 

I. — V. lições II, 20, 28. 

2 . — Alguns advérbios conservaram a regência das pa- 
lavras donde derivam: — cegamente de aífeições (Ined.), 
dos meus pôde vir seguramente ( Barros ), etc . . . e 
também, ainda no Sec. XVI, um pouco de proveito^ 
assas de dinheiro (Barros). 

Hoje essa construcção mais se applica aos advérbios 
de modo : — par aliei amente a; confiadamente em, etc. 

3. — Quando concorrem dous ou mais advérbios em 
mente^ só o ultimo toma geralmente a terminação ; — 
sabia, pia, e justamente. Mas podemos empregar em todos 
a forma completa, principalmente quando queremos pre- 
cisar bem o valor significativo de cada um delles : — pi- 
vamos neste mundo sabiamente, piamente e justamente. 
(Vieira) . 

3t — Também são advérbios de modo — co;«o, a rch. 
empero, e aosadas (aousadas), asstm ; — Razão é que façaes 
como vos fazem (F . Mendes) ; mas abasta-lhe ser frade e 
bem Narciso a oasadas (G. Vic.) ; etc. 

4. — G/íss/w emprega-se em phrases desiderativas : — 
assim te eu vejafelii, assim me veja eu casar (Camões). 

5. — O adverbio bem junta-se a outro adverbio ou a um 
nome para lhe dar força augmentativa : — um menino pobre 



469 



e bem malreparado de roupa (Souza, V. aârc.)^ bem sabío, 
bem notório. 

Junto aos verbos e comparativos dá mais força á aífir- 
mação : — Bem deu o Infante a entender a grande digni' 
dade que conhecia em seu irmw (Azur. Chron. Guin.); 
o coração bem mais largo que as praias do oceano. 

Todos esses empregos teem exemplos em latim ; e da 
mesma forma empregavam o adv. fiial : — mal doente., mal 
ferido^ mal vencido ; sendo todos mal contentes (Vieira) . 

6. — A negação pôde ser simples ou intensipa, a que 
também se chama reforçada. 

A simples é expressa pelo adverbio não, nem., nada, 
nenhum, ninguém., nunca. 

Nenhum, ninguém, nunca., empregam-se simplesmente 
quando precedem o verbo; — nenhum sabe, ninguém veiu, 
nunca trabalhas. Si, porém, vierem depois do verbo, exigem 
o reforço : — nHo tenho nenhum, não w" ninguém, não tra- 
balhas nunca . 

Jamais emprega-se por nunca., e também é sujeita nos 
mesmos casos ao reforço da negativa principal não : — não 
áhsQ jamais., nunca jamais. 

Sobre a negação intensiva — Vide pag. 406. 

Quanto ao emprego de não sem força negativa — 
pag. 4o5, nota 2*. 

Algum., no fim ou meio da phrase, equivale a nenhum : — 
de modo algum consentirei ; de guisa que fugiram todos., 
sem curando de levar cousa alguma (F. Lopes). 

Pelo ultimo exemplo vemos ainda que a preposição — 
por significar falta, carência, privação — empregava-se 
também com sentido negativo, junto dos verbos no ge- 
rúndio ( Secs . XIV e XV ) . 

7 ^ Comoqv.eTj guanioquerj equivalentes a posfo que, e quando^ 
querqiie, são formas archaicas : 

.... que te nembre como eu andei ant ty em verdade, e comoqncr 
agora pequei, nem sse percam porem alguns bêes, se õs fige ante ty. 

( Ined. d'Ak.) 



470 



Porque o muito não é nada 
Quando qiierqiic não é bom 

(G. Vic.) 

Por qnantoqiicr que os membros sejam enfermos, e jaçam e mal 
cheiram non son de Christo empuxados, nem desemparados d'tlle 

( Vida Monast.) ' 

7 — O adverbio colloca-se perto da palavra por elle 
modificada: — elle mora longe ; uma porta meio aberta . 

8 ~ Certos adjectivos são empregados adverbialmente : 
os de flexão de género só na forma masculina : muito 
noute^ muito mais razões, fallar alto^ vender barato, parede 
meia^ louvores justo devidos, plantas ?Jieio queimadas, faia 
puro altiva ( Cam.) 

'Preposições 

9 — Vide lições — 1 1 , 17, 20, 28 . 

10 — Em latim, as preposições não tinham a mesma 
importância que em portuguez. E a razão está em que hoje 
ellas substituem os casos . 

As preposições indicam relações adverbiaes de logar, 
tempo, causa, meio, modo. Mas ás vezes só uma delias 
exprime muitas dessas relações, sinão todas. A verdade é 
que a principio ( e principalmente no latim ) ellas exprimiam 
relações de logar e, metaphoricamente, de tempo . « O em- 
prego abstracto e figurado é resultado de um desenvolvi- 
mento posterior. » 

Si tomarmos a prep. a^ veremos que etymologica- 
mente corresponde á prep . latina ad ( e ao dativo ) '^ ; e 
todavia, por seus múltiplos empregos, corresponde 
também a apud e ás vezes a ab. 

A regra é geral, mas não absoluta . 



* Leoni — Génio da l, port . 

* Lai. clas3. — librum dedi Petro ; l. baixo — librumdedi ad Petrum. 



471 



a) Correspondendo ao lat. ad indica essencialmente 
direcção, movimento, tendência, para um logar ou ob- 
jecto. 

Comeste sentido era mais livre o emprego de a no por- 
tuguez antigo : — o. ?nais da gente se tornou a suas casas 
( Barros ) . Hoje diremos para^ e em— manso aos humildes, 
cruel aos fortes, também em J . de Barros, — para com os : 

Por analogia a preposição a indica tempo — d' aqui a 
oiio dias \ di 5 de Fevereiro ; a uma hora . 

A o dia seguinte em amanhecendo, a o pôr do sol ; esta 
festa era a os quator^e dias do /° me^ ( Ined. d'Alc.). ao 
primeiro romper da lu{. 

Lat . — ad diem, ad kalendas . 

Por transferencia, i. e., figuradamente, pode-se indicar 
a direcção ou tendência moral: — in:iíará cólera. 

Essas construcções generalisaram-se por tal forma, 
que em muitos casos a prep . a serve apenas para indicar o 
infinito. Da antiga construcção temos exemplos com os 
verbos chegar, etc . 

qA (de ad.) indica também logar onde, posição, si- 
tuação : — estava em mão estado com outra a olhos e face 
do mundo (Szã. V . Arcb .) ; affrontava o exercito do povo 
de T>eus, não ausente sendo de cara a cara (Vieira) - Tor- 
namos aos nossos que á ponte de Jacob nos estavam espe- 
rando (Pant. d'Av.) ; vivem á borda do Eufrates ; assen- 
tando- se comnosco o abbade á mesa (Id.) 

Por analogia em referencia ao tempo : — chegou á hora 
(na). 

Figuradamente neste sentido : — fel ao conde ; esiar 
á tJiorte (perto da) ; criar aos peitos da esperança (Cam.) 

Cp. — útil ao pai:^, conforme a lei, prestes a partir, 
commum a todos, proiiiptos para o combate, etc. 

Remonta-sea um adj. latino, ou segue-se a etymologia. 

b) A preposição a, por uma extensão natural ainda in- 
dica o modo : — chorar a potes, rir ás gargalhadas, beber 



472 



aos goles, ttc.-^foi alevantado por rei SiO cosnime de seus pas^ 
sados (D. Nunes) ; poria lavrada á antiga : o instrumento, 
o meio, e corresponde a com : — ijiatar a bala, raspar á 
navalha^ apanhar á mãó^ etc. 

c) A preposição a ainda indica o complemento ter- 
minativo e objectivo, quando expresso por nome de pessoa 
ou cousa personificada : — ^ei um livro a Tedro ; adoro 
a 'Deus; obra mandada por Deus e muito acceita a elle ; a 
mais companhia eram mulheres moças, tangendo em seus 
instrumentos e algumas meninas que cantavam a. elles (F. 
Mendes) . 

II. — Não ["podemos demorar-nos em todas as pre- 
posições . Faremos tão somente algumas mais inevitáveis 
considerações. 

Com — Indica. i° Simultaneidade^ companhia : — e no 
quarto de prima nos deu uma trovoada com grande força 
de vento ; qualquer que se fa^ amigo do iimndo^ fa\ banco 
roto com Deus (Heitor Pinto) . 

2.° Modo — '^Pedir com bom modo, com despreso^ 
Póde-se ás vezes supprimir a preposição : — levar-te-hei 
pelos atalhos da egualdade e entrando nelles andarás teu 
passo largo ( Arraes) . 

3 .° Mew^ instrumento : — Os mesmos que os murmuram 
com a boca, os approvam com o coração (Vieira) ; as cousas 
árduas e lustrosas se alcançam com trabalho e com fadiga 
(Cam.) No lat. — cum saggita sancius^ ferido cow uma 
setta, etc. 

Contra — Empregava-se antigamente, á maneira latina, 
para indicar situação fronteira : — c/dade contra a íen^a 
d' Israel, p. defronte (Ined. d'Alc.); e ainda direcção : — 
foram correndo contra o theatro (Ined. d^Acol.), viu descer 
contra a praia um hotnem ; e por analogia — começou de 
se rir contra elles (Azur.), a rainha disse contra Tedro de 
Faria (F. Mend.) E todos esses empregos vieram pela 
tradição latina . 



473 



Hoje ainda conservamos vestígios dessas construcçÕes : 
mas a prep . . contra mais significa opposiçdo, etc . 

De — Indica: i°, logar d' onde : — do porto amado nos 
partimos; procedência — sou de S. "Paulo \ agua de poço; 
a /«de 'Deus — Por an., o ponto de partida : — de hoje em 
deanle ; passados dous dias de sua chegada. 

2°, posse —~ casa de João . 

3°, 7710^0^ jtieio: — Toda a gente vinha át mulas^ (Ra- 
mos) ; di-{er de palavra (Vieira); ouvir de confissão ;. . . . 
vivem de suas lavouras^ agasalhar de palavras (Souza), etc. 

4", causa: — folgaram de o ver \ de ciosos n-o cor- 
rem as mulheres com elles ; de appressado ; de contente ; 
de dó delle. 

5°, qualidade^ matéria: — liomem de juizo, o vaso de 
ouro. 

ó"*, tempo em que : — de manhã \ de dia ; de verão ; 
de maré vásia, 

7"^, Extensão^ tnedida de tempo^ e, por transi"., idade : 
— cCrca de 20 milhas, homem de 3o annos. 

8", etnprego, serventia, fim : — moço de servir, carro 
de aluguel, copo de a^w<3, ízn/a de marcar. 

9®, A^s vezes o emprego da prep. «ie é expletivo : 
pobre de 77iim ; o ^ow do Joslo ; dcu-lhe de /íz«tó pancada. 
(G. Vic.) 

Pôde dar-se a ellipse da prep., o seu emprego em- 
phatico e partitivo : — per de ; muito poderoso Senhor 
per de Deus Rei de Castella e de Lia77i (coron. Reys. 
de Port.); e tomou das pedras (F. d'Alm., trad. do 
Bibl.) 

Em resumo, de, no tempo, indica : ponto de partida, 
svccessão, duração, o 77iot7iento da acção; em sentido 
figurado, indica : origem, causa, instrumento, 77ieio, modo, 
a viate7'ia, e ainda, a quantidade e o preço. 



• .V cavallo. 

«O 



474 



De corresponde ao genitivo possessivo ou subjectivo. 
Já vimos que o gen. latino indicava uma relação de 
propriedade, causa, conteúdo, dependência, reciproci- 
dade, etc, mas que essas relações podiam ser expressas 
por de — de ipsas (ipsius) domus ; ramos de illas arbores. 
E essa construcção reagiu por fim sobre a dos nomes 
próprios . 

De também indica a pessoa ou cousa de que se 
trata, equivale ao genitivo objectivo. — D'ahi as phrases 

— medo da morte ; desejo de viver ; o amor de Deus. 

De substitue o genitivo de qualidade. Os Latinos 
empregavam um substantivo no genitivo, acompanhado 
de um qualificativo qualquer epithetico, principalmente 
com as palavras de significação geral — w/7e 5 (soldado) ; 
vir (homem), etc. Este genitivo entrou então em con- 
currencia com o ablativo e deu no portuguez as phrases 

— um homem de grande valor .^ de grande cabeça. 

De substitue outrosim o genitivo de apposição ( Flumen 
Rhodani — o rio {do) Rhodano) ; si passares o rio do 
Jordom (Barros) ; o cabo que chamam de Catherina., etc. 
(Id . ) . Ilha do Fayal . . . , e esses modos tão frequentes, 
principalmente depois do Sec. XVI — que diabo de rapai 5 
que estúpido de criado ; ladrão do negro melro . 

De precede o complemento dos adjectivos, indicando 
varias relações, conforme o sentido do adjectivo: — áese- 
joso de, mas já dizemos co«/rjnb a, etc. 

Annuncia o infinito, e este é, dos seus empregos, um 
dos mais importantes e caracteristico, posto seguissemos 
sempre de perto a syntaxe latina . 

Em — Sign. propriamente — no interior de., demro de, e 
logar onde., sobre., no exterior : — em Roma., a cidade é 
em campo, no chão, na mesa, pér joelho ou pé em terra, etc. 

Tempo em que, duração : — no jferão ; em sahindo a 
lua ; em sendo horas (vide Lição 3í) gerúndio) ; em dous 
dias. 



475 



Ainda ha mais algumas significações concretas, e muitos 
são os sentidos figurados desta preposição : — correr em 
ajuda de alguém ; gente religiosa em seu modo de crença 
(Bar.) ; homens atrevidos em commetter (Id.) ; deram em 
uma aldêa de pescadores ( Id . ) ; estar em ódio ; em 
cidade; ^m fugida ; em botão; em bra^a (estado occasional 
ou permanente) ; em signal de ; em figura de oval ; ir em 
pessoa ; repartidos em tribus. 

Notemos estas duas construcções em que em é hoje 
substituido por para : — pondo a proa em atravessar 
aquelle golphão (Barros) ; apontajido {com a outra mão) em 
uma mulher (Souza) ; passando em Africa todo o poder 
e nobreza deste reino (Souza), andam de emenda em emenda 
(S . Mir. ) ; e assim ; de porta emporta^ de mão em mão, de 
dia em dia (1. barb. — de die in diem ), etc. 

Por — E' dupla a sua origem — de per e de pro ( Leia- 
se o que escrevi na pg. 4i3 ). 

i.° A derivada de per, tinha a mesma forma no por- 
tuguez antigo e médio, e ainda no moderno indica logar 
por onde, uma relação de logar, e, no tempo, a dura- 
ção, o momento ; no sentido figurado tem vários sentidos, 
como p. ex.: o instrumento, o ?Jteio, o intermediário, o 
modo. 

Foram pregar a fé nns ^er Itália, /^^ Grécia outros (Luc.) 

Passando alem de um rio per uma ponte ( Bar.) 

Teem muitos jejuns, ^í-r todo anno ( Id.) 

Viveu /í'r espaço de setenta annos ( Id.) 

per morte de Synxermo se ouviam gemidos ( F. Mendes ). 

P>er espaço de quinze léguas ( Bar.) ; deitado no seu catre humilde 
em cujo topo pendia o crucifixo que talvez ^í?r sessenta a7inos^ tinha 
visto a seus pés consumir-se na meditação, nas preces, e na peniten- 
cia, aquella dilatada vida ( Al. Her.) 

Pereceram ^í'r espada &per fome ( Ined. d'AIcob. ) 

Ordenou que o mesmo Aífonso Lopes fosse^^r pessoa ( Bar.) 

Também empregavam a prep. per em relação relativa : 
teem lingua per si ; seriam i5o homens per todos. 

Quando per significa transição, passagem, pôde suppri- 
mir-se : — e esses foram-se sua via ( Ined. d^Alcob. ) ; me 



476 



partt de ■ ^açorá em companhia de um mouro alarve pêra 
me guiar lio caminho e atravessar ho deserto. 

Agora damos aqui em excerpto, e applicadaá nossa lín- 
gua, a opinião de um professor de Lyão. 

O emprego de per^ exprimindo causa, é de notar. O la- 
tim considerava o autor da acção como origem d'ella e fazia 
preceder o seu nome da preposição que indicava o ponto 
de partida — ab. O portuguez antigo substituiu a prep. a 
por de^ que também indicava o ponto de partida. Ainda 
temos certas phrases em que depois de certos verbos de 
acção illimitada, o complemento de causa vem precedido 
da preposição de : — estimado de todos., ornado dejlores^ 
esgorovinhado de somno. 

Por fim prevaleceu a nova construcção, porque a causa 
da acção já era considerada não mais como a origem, e sim 
como o instrumento da acção. 

E hoje, com todos os verbos passivos que indicam uma 
acção instantânea ou de duração determinada, a prep. por 
precede o complemento de causa, quer seja nome de homem 
quer de cousa : — venzido por sius discursos. 

Por ajunta-se acertas palavras invariáveis para formar 
locuções : — por cima; por baixo ; por deante; por trás, etc. 

2.° "Por, derivado do lat. pro, perdeu o seu sentido 
originário ( relação de logar ), « e deu um verdadeiro t3'po 
de prep . das linguas analyticas, despojada de todo valor 
concreto, e só conservada para exprimir relação abstracta». 

Significa — troca, substituição ( e dahi pre^o, etc ), a 
proporção, o favor, interesse, dedicação ; o fim, a causa . 

Dar um homem por si. 

Esta herdade comprou Jacob /w cem cordeiros ( Ined. d'Alcob.) 
Por amor d'elle ; ser pf/o Imperador; Apparelhado a pôr a vida 

/<7r tãm bom rei ; />or gente tãm sublime ( Cam.). 

Por dar seu parecer se poz deante ; For nos roubarem mais a seu 

seguro ( Cam. ) Hoje emprega-se^írrí?. 

Também indica convicção, opinião : — assim se hou- 
veram por vencidos { Arraes ) ; eu tenho por de grande 



477 



estima qualquer lettra antiga ( Souza ) ; havendo por ver- 
dade o que dizia ( Cam. ), etc. 

Também indica apposição : — vi eu o senhor face por 
face ( I. d^Alc. ) ; rosto por rosto ; tantos por tantos, dia 
por dia ; hora por hora ; arca por arca ( Ramos, Souza, 
Vieira, Couto, etc ). 

Para — A antiga forma era pera^ e indica : direcção, 
inclina :ío : — espirito invo para tiido^ (Bar.) ; sobre a tarde 
declinamos para a mão dtreita ( Id. ) ; logar para onde : 
o ni-indou para Goa; vou para Paris — '^finv. — ( marearam 
as velas para embocarem o estreito \ conveniência^ oppov- 
tunidade tempo para navegar para tal parte ( Bar. ) \ re- 
ferencia : — teve muita aiiiorid.ids para os graves ; teve para 
si que era obrigado cumprir aquelle simulado juramento . 
Id.),etc. 

Depois, pos. Os antigos empregavam esta prep. por 
detrás^ para trás : — Imã arvor que está depois a cidade de 
Sichen{ Ined.d'Alcob.), cp. lat. post urbcm Sichen. D'ahi 
o emprego figurado indicando inferioridade^ degradação : 
— E'' a 2^ pessoa depois de Fr. João. 

Antigamente depois empregava-se sem a repetição 
pleonastica da prep . de : — Deposjnort de Rey Salamon 
(Ined. d'Ale. ). 

Também empregavam depois nos casos em que hoje 
usamos át após., em seguimento., etc: — efoysseconsua 
host átpois os filhos de Israel (In.d'Alc.), Saul vinha do 
agro depôs seus bois (Id.) ; segui empós elles ( Azur. ) Cp. 
venite post . me . 

Sobre — Indica sup?rioridjd?., e por extensão — excesso^ 
emin2n:ii ; por transferencia, supuemazia., sobreexcel- 
lencia : Em os quaes lugares cada hú quer ser sobre os 
outros (V. Monast ) ; Remontae o pensamento sobre as 
nuvens, sobre o céo (Vieira). Fig. indica tambem/?ro- 
ximidade: — estava sobre Goa., sobre os inimigos, sobre 
a noite, sobre a manhã, sobre o inverno, etc. ; e ainda a 



478 



referencia, o assumpto^ a contextura ; Elle escreveu sobre 
philologia-^ P. f aliou sobre anatomia; logo inquiriram 
sobre o nascimento ; tomando conselho sobre o caminho 
que dalli se fazia ( F . Mendes ). 

Conjuncção 

12.— As conjuncçÕes dividem-se em conjuncçÕes de 
coordenação e de subordinação ; as i^' ligam entre si duas ou 
mais proposições independentes ( e, mas logo^ etc.) ; as 2®^ 
ligam uma proposição accessoria á principal ( pois que^ etc, ) 

i3. — ConjuncçÕes de coordenação. — As proposições ou 
palavras que se pretende unir podem ter ou não o mesmo 
valor lógico . 

No i" caso omitte-se ou não a conjuncção (que cor- 
responde ás latinas e/, ac^ atque, que ). 

Iam, cantavam, descuidosos, como avesinha ao sol na mata virgem. 

Quando ha exclusão de idéas, uma das proposições é 
forçosamente negativa e a outra positiva. Esta é prece- 
dida de mas ou de senão^ porem^ etc : — Os imigos amar^ 
os maldizentes si non remaldi:{er sed mays beenier (In. 
d^Alc); A toda parte posso já ir segura stnSiO só do meu 
cuidado [B. Rib.); Para tudo ha remédio senão para a 
morte (Prov. pop.). 

Arch. — nega, nanja^ emque^ pêro ^ per ol^ empei^ol. 

Si a palavra indica uma alternativa, os dous termos vem 
então ligados pela conjuncção o« : — o caso é^ que ou haja 
outra vida^ ou não^ a mim me cumpre viver cotno se a houvera. 

Também empregamos quer ( principalmente com os 
verbos do subjunctivo, e correspondente ao latim vel)^ 
e agora, ora^ já^ quando . 

Nao lhes escapando ningtiem çuer por terra çucr pelo rio.— 
Qíícr elle venha çiter não. 

Agora lhe perguntei pela |[ente 
Agora pelos povos seus vismhos 

(Cam.) 



479 



Amiudaram os combates, hora da parte da Almina, hora da 
banda contraria. 

{Souza . ) 

yá com palavras, Já com o exemplo de suas obras. 
Maneamos com vigor os braços soltos 
Quando estendido já^ quando encurvados * 

A conjuncção porque precede a proposição enunciadora 
da razão ou cansa át um facto. — no argumentar tinha 
particular graça porque tocava exceli entemente o ponto 
da difficuldade {Souia). 

Mas si a proposição exprime a consequência de uma 
outra já expressa, precede-a uma das conjuncções pois^ 
por isso^ por conseguinte^ etc. : — Pois assim como naquelle 
tempo se faliam os conselhos sem papel ^ também^ se poderão 
fa\er agora (Vieira) . 

Conjuncções de subordinação. — No correr deste tra- 
balho, e principalmente na lição 35, já dissemos o que 
ha de mais importante sobre o emprego das conjuncções 
nas proposições subordinadas. 

Remataremos pois esta lição com algumas breves 
exemplificações. 

Phrases comparativas : — O sol não só excede na lu\ a 
cada uma das estrellas^ senão a iodas incomparavelmente, 
( Vieira ) ; Assim como no echo, guando se bate entre 
montes^ o tom ê em uma parte e em outra a pancada ; assim 
nas adulações do lisongeiro o tom é em nossos louvores^ mas 
a pancada em seus interesses . ( H . Pinto ) . 

Emque : — Emque peccasse algum^ora venha a piedosa 
alçada ( G. Vic). 

Comoquerque: — Alli lhe pugerÕ nome o Bom Velho 
Lidador, comoquerque ja ante se chamasse avia gram têpo 
Lidador ( Nob . Conde D . Pedro . ) 



* Lat.— Quando que igitur fiunt trabes, qicando que clypei — Leoni 
II 206. 



48o 



Atndaque: — A dispensação que se concede a um, 
porque a pede, não se pode negar a outro aindaque a não 
peça ( Vieira ) . 

Ca : — Melhor é calar ca de fallar. 

Como: — Co??io se sobe com trabalho o áspero d^aquella 
subida, fica uma terra chan (Bar. ^ec.) -^ Como isto 
disse, a cabeça inclinando, consentiu no que disse Ma- 
vorte( Cam.). 

Tanto que: — Tantoque fot cortada, esta arvore, as aves 
voavam, e os outros animaes fugiram ( Vieira ) . 

Que: — E' em portuguez a conjuncção por exeellencia, 
pois representa varias partículas latinas ( ut, ne, quin, quo- 
minus^ quód^ quid. . .), e é de emprego muito vulgar. 

Emprega-se na comp . de outras conjuncções — posto- 
que, aindaque^ etc. 

Por isso — que pôde substituir outras conjuncções : — 
como todo o bem deriva de ^eus^ e que o homem é nida por 
si mesmo. . . . ; "Para curar as lagrimas da sem-ra^^o^ que 
remédio lhe havemos de dar, que ellas nio teem causa ? 
( Vieira ); Mormente que em nadz tem a fortuna maior 
império^ que nas cousas da guerra. ( J. Fr. ). 

Si: — Concorre não somente nas proposições subordi- 
nadas indicando uma hypothese ; mas também nas phrases 
principaes a exprimir pesar, desejo. — Si eu pudesse ! 



TRIGÉSIMA OITAVA LIÇÃO 

Syntaxe do verbo haver e do pronome se 



I — A s3-ntaxe do verbo haver armou controvérsia que 
ainda perdura. Uns explicam a discordância declarando-a 
idiotismo ; outros descobrem uma ellipse de sujeito apro- 
priado ao caso ( ha homens = o mundo ha homens ). 

E' preciso notar que assim como confundiam o emprego 
dos verbos ser e estar ( et^a a folgar^, por estava a folgar, 
B. Rib.; fui na guerra por estive na guerra. Cam.), 
também empregavam o verbo haver por /er, costume que 
ainda persiste no povo ( tem dtis que n.io posso ler; no 
museo tem muitas cousas que nio vi ) . Em latim já o verbo 
hahere significava ter ; e passou também a empregar-se 
por ser . ^ 

Hoje a phrase — ha homem, haverá cavallos^ etc . , é um 
facto grammatical. A regra de concordância em numero 
entre o verbo e o seu nommativo é universal : mas a pecu- 
liaridade idiomática do verbo haver ^ não é singular. Assim 
do Grego, entre outras excepções, temos uma muito fa- 
miliar, quando o nominativo é de género neutro : — 
ot àvôptÓTTot àtYaôol èifftv, os homens são bons ; mas xát ^t^yioc 
àXaOát ecr-rtv, os livros é bom. E^^csta regra era geral para 
todos os verbos e nominativos neutros . 



' No dialecto portuguez de Ceylão ter p. ser : — todasjninhas covsas 
tem vossas ( Schuchardt ) . 

61 



482 



No grego ainda, si o verbo chamado substantivo precede 
o seu nominativo, « de modo que o numero do sujeito fica 
indeterminado quando se pronuncia o verbo », este deve 
ficar no singular, embora o nominativo seja masc. ou 
fem. plural. E o mesmo acontece no francez : — // est 
{il y a) des hommes. 

Do mesmo modo, a nossa construcção caracteristica e 
individual, constitue uma peculiaridade ou idiotismo . 

2 — Já tratamos do pronome se como apassivante, 
indefinito, reflexivo e reciproco . 

Já vimos também que se corresponde a hom homem 
(alguém^ pessoa, gente ) : — ca sem ra\om parece a aqiielle 
que é atormentado dar4heh.om. outro tormento { T) . Duarte. 
Ord.)^ ca sem ra:{om seria ao affltcto accrescemar hom 
affliçom . ( id . ) 

Também nos dialectos escandinavicos o pronome re- 
flexivo 5/-^ 5/^ = lat . 5e, junta-se aos verbos, e forma um 
suffixo reflexo : — at falia = cahir, at/allask é a forma 
reflexa ou media . Sk^ contracção do accus . sik^ transfor- 
mou-se ainda em st e apassivava os verbos. 

O pron. se pôde, pois, ser substituido pela palavra 
gente ou alguém : — onde a gente p5e sua esperança ; pela 
I* pessoa do plural : — deve-se amar ao próximo como a 
nós mesmos (devemos atitar) ; pela 3* pessoa do plural : 
di:{~se que o errar é dos homens, (dizem que o errar). 

Cp. ing. people say^ tpe say^ they sqy, one say. 
Nas phrases — vive-se^ come-se^ dorme-se^ etc, opinam 
alguns que o se é sujeito, outros que a phrase é tão 
passiva como as formadas com verbos transitivos : — 
alugam~se casas^ quetmaram-se as cearas, (V. verbos, 
Liç. 16.*). Estaé a nossa opinião ; a phrase vive-se é ves- 
tigio da voz média passiva, e os antigos diziam esiar bem 
vivido^ bem comido^ bem dormido. 



TRIGÉSIMA NONA LIÇÃO 

Da construcção. — Ordem das palavras na 
proposição simples, e das proposições simples 
no periodo composto. 



I. — Na conversação, parte -se geralmente de uma 
noção já conhecida pelo interlocutor, para a desconhecida 
que se lhe quer apresentar. A mesma idéa, pois, pôde vir 
a vezes no principio ou no fim da phrase . 

2 . — A construcção é lógica quando a phrase caminha 
parallela ao pensamento, quando as palavras succedem-se 
na mesma ordem das idéas. 

No grego e latim a S3'ntaxe registra apenas para dous ou 
três casos a ordem da collocação das palavras, porque a sua 
deslocação nada ou quasi nada influia no sentido e relações 
delias . Só attendiam á forma grammatical dos vocábulos ; 
não seguiam de todo o ponto as regras de collocação porque 
as flexões indicavam de prompto qual o papel syntaxico 
da palavra na phrase. Em 

Scipio delevit Carihaginem 
Carthaginem delevit Scipio^ 
Delevit Scipio Carthaginem *■ 

a construcção é diversa, e a syntaxe a mesma. 



* Egger — Gram. comp. 



484 



3. — Não obstante ser lingua analytica, o poriuguez 
conserva todavia (como já vimos) certa liberdade no 
arranjo syntactico das palavras, por tradição, costume 
e harmonia, principalmente até o Sec. XVI. Eesse afastar 
da ordem analytica, essa liberdade de construcção, é uma 
das suas muitas excellencias. 

Depressa um pouco vtm {Sqc. XVI.), a que pelo ordi- 
nário concebimento estava obrigada (Arraes) . 

Nos clássicos e nos escriptores de boa nota encontram-se 
construcções similares ás latinas, tão livres e variadas, tão 
ricas e harmoniosas (já citámos exemplos na lição 29) ; 
mos o portuguez moderno por seu caracter ainda mais 
analytico, obedece na ordem das palavras a regras relativa- 
mente fixas : — 1» sujeito, 2° verbo, 3"^ attributo, comple- 
mento do attributo, etc. 

Esta construcção ou ordem directa, analytica, é cha- 
mada synlactica e também lógica. 

4. — Não podendo mudar a ordem das palavras^ o es- 
criptor muda a das ideis^ antes de traduzil-as em palavras . 
Tomemos para exemplo a phrase citada — Scipio delevit 
Carthaginem. 

Não podendo, como em latim, alterar a ordem dos ele- 
mentos prepositivos conservando a mesma S3'ntaxe, apre- 
sentamos (dando um outro g/ro á phrase) Scipião e 
Carthago como sujeito ou como regimen do verbo, conforme 
queremos tornar saliente uma ou outra dessas idéas. E, 
conforme também tivermos concebido e apresentado de um 
modo ou de outro a idéa da victoria de Carthago, o verbo 
estará na voz activa ou na passiva : — Scipio conjuistou 
Carthago ; Carthago foi conquistada por Scipião ; Car- 
thago.^ conquistou-a Scipião . * 

5. — Em maioria, os factos da syntaxe de uma lingua 



• Eggar loc. cit. 



485 



dependem directa ou indirectamente, como consequência 
natural, da própria natureza do léxico e somente do léxico. 

E' esta também a opinião de Tobler [Rom. XI p. 455) : 

« Esse asserto torna-se ainda mais exacto e geral quando 
circumscripto exclusivamente ás diversas modalidades da 
estructura vocabular. 

« E é isso, com etfeito, o que a philologia histórica e 
comparada nos mostra, desde o monosyliabiámo, que é a 
negação da s\ ntaxe, até o perfeito flexionismo, que faculta 
a mais alta e variada complexidade constructiva. » 

6. - E' claro, em face do que acabamos de referir, que 
o portuguez muito perdeu da liberdade quasi illimitada do 
latim clássico ; mas que — todavia — ainda lhe resia grande 
e boa liberdade na pratica da inversão . 

Das linguas neo -latinas é a franceza a que mais se 
conserva adstricta ás regras do analytismo . 

No tocante a separação dos elementos da phrase estrei- 
tamente ligados pelo sentido, aponta-lhe o prof. Diez, 
além da causa hereditária (o génio da lingua latina), mais 
duas. Uma, o terem sido os primeiros documentos dos 
novos idiomas, composições poéticas ; outra, a imitação 
do estylo latino, que lhes servia de modelo. 

Resultado necessário da applicação de uma ordem mais 
livre, diz o celebre romanista, foi o triumpho do principio 
lógico sobre o grammatical: a construcção fica dependente 
da intelligencia e do bom senso do leitor, e não mais se 
opera segundo as estrictas conveniências grammaúcaes. 

7 — A regra ordena a collocação do subsí. em relação attri- 
butiva, depois do subst . principal, mas a faculdade inver- 
sativaé grande, mormente noest*lo erguido, alcandorado: 

Cessem do sábio Crcgo, e do Troiano 
as navegações grardes que fizeram 
Calle-se te Alexandre, e de Trajano 
a fama das victorias que tiveram. 

( Cavi . ) 

do peccado da luxaria brevemente fallando. 



486 



8. — Adjectivo. — i .° A significação de muitos adjectivos 
é determinada pelo logar que elles occupam na proposição, 
e este facto era extranho ao latim. No sentido próprio occupa 
o logar que especialmente lhe convém ; no figurado é pro- 
clytico : — pallida; morte; cego desejo; agro-doce; 
(Liç. XI). 

O exemplo de certo é curioso ; noticia certa, (certa noticia). 
Próprio antes do substantivo conserva a significação ori- 
ginaria ; depois, toma sentido desconhecido no latim, de — 
purus, mundus ; casa própria (própria casa). 5d, antes do 
art. indef . = unus ; depois = singulus ( um homem só ; um 
só momento ). 

2.° Quando attributo, o adjectivo colloca-se de prefe- 
rencia em latim antes do verbo sum, e muitos exemplos se 
encontram dessa construcção no portuguez antigo. 

3 .° Temos, porém, regras mais ou menos restrictas. Vem 
antes mais ou menos rigorosamente : 

a) — Quando, de pequena extensão, o sentido nada con- 
tem de característico ; 

b) — Quando o substantivo é nome próprio : — o sublime 
Tasso ; o divino Platão; Mas segue-o quando queremos 
chamar a attenção para o nome : = oAffonso o sábio ; Fre- 
derico o grande ; Albuquerque terripel ; Castro forte. 

c) — Quando designa qualidade que pertence essencial - 
mente ao substamivo. 

d) — Quando o adjectivo exprime certas relações ex- 
ternas (só em estylo poético) : — o brasileo solo ; a forte 
gente . 

4.0 — Vem depois : a) — Quando o adjectivo acha-se na 
dependência de outras palavras, e seguido de um comple- 
mento ou acompanhado de adv., cede quasi sempre o 1° 
logar ao substantivo : — homem ambicioso de glorias. 

b) — Em regra, quando os adjectivos referem-se ao 
mesmo nome, este deve ser expresso em 1° logar : — uma 
estrada areenta, fragosa, declive. 



487 



Na phrase — eu amo a boa musica italiana, bóa é o 
epitheto, tnustca italiana é uma expressão composta, de- 
signativa de um género particular de musica. Id. formoso 
ginete ala-yão. Nestes casos o subst. toma logar interme- 
diário . 

c) — Quando o adjectivo indica uma qualidade ca- 
racterística do substantivo, e como que a quer pôr em evi- 
dencia : — o império romano; a guerra civil . 

5.° — Ha muitos adjectivos que não podem preceder os 
substantivos. Neste caso estão alguns participios passados, 
que não podem ser proclyticos por haverem conservado 
vestígio do valor verbal. Antigamente, porém, vinham 
esses part. pass. de preferencia antes do substantivo, 
como hoje acontece com os part. presentes. 

6.° — A collocação do adjectivo epitheto era livre entre 
os antigos, quer concorressem muitos adjectivos referentes 
ao mesmo substantivo, quer viesse o adj . acompanhado 
de complemento : — somos filhos da nova Jerusalém e 
celeste . 

A verdade é que o logar do attributo é arbitrário ainda 
hoje, e parece que nessa collocação influe o accento tónico 
oratório, que recahe no adjectivo posposto ao subs . — ca- 
V ali o preto ; quando se dá a inversão, como, p. ex., no 
caso em que o adjectivo exprime uma qualidade particular 
ou distinctiva do substantivo, o accento, recahindo no ad- 
jectivo, dá- lhe á significação mais vigor, mais energia : — 
horrível crime ; infausta noticia . 

7.° — Os nomes de numero seguem a syntaxe antiga, com 
ligeiras modificações, comop. ex. na maior liberdade que 
havia na inversão : — o nove capitulo por capitulo nove . 

Empregamos na successão, ordem, tanto o ordinal 
como o cardinal (século 14 ou 7^°, Lui:{ 11 ou 7/°), e este 
de preferencia, excepto quando o numero vem antes, que 
então deve ser ordinário. Podemos empregar os cardinaes 
por que esses adjectivos são determinativos, e como também 



488 



que qualificam os nomes : — diz-se LuiiXIV como se diz 
Pedro o Cru . 

Excep. 'Pedro 2° ; cAJonso /° ; Napole.:o 3° ; (os nú- 
meros simples, emfim), etc. 

8. — O artigo vem sempre antes do substantivo ou ad- 
jectivo que determina. 

Nas phrases ^. Henrique o navegador; todo o dia ; 
ambos os livros^ etc . , a ordem do determinativo não é 
devida a previlegio seu, mas á liberdade que teem o substan- 
tivo e adjectivo procl tico. Como observa o professor Diez, 
elle só se prende á idéa que deve determinar. 

Todavia o artigo pôde ser separado do nome por um 
adverbio ou expressão adverbial: — a sempre senhora 
minha . 

Q. — Participio e verbo auxiliar — Nos tempos peri- 
phrasticos a ordem regular é — 1° o auxiliar e depois o 
participio, mas a inversão faz-se commummente: — todos 
chegados haviím; pois que chegado era; a dama que 
visto elle já tinha^ etc. 

E a mesma liberdade existiu em todos os tempos 
com relação ao in nito; ouvir n.íoqui:^; vir n~o poude. 

10. — Attributo do regimen. O regimem pôde vir perto 
do attributo ou delle separado por uma ou mais palavras. 

i.° O attributo pôde preceder ou seguir immediata- 
mente o regimen; 

a) — verbo -f- attributo -h regimen, 

b) — verbo + regimen 4- attributo . 

A 2® ordem é hoje mais usual; a 1* era mais fre- 
quente no portuguez antigo. 

2.° O attributo pôde vir separado do regimen por 
varias palavras, e geralmente neste caso o verbo occupa 
logar intermediário. 

a) — Attributo -f- verbo + regimen. 

b) -^ Regimen 4- verbo -4- attributo. 



489 



A i*^ ordem era frequente no latim; a 2^ — a inversa 
— é ho)e a mais usada. 

Esta ordem, que traz o attributo separado do re- 
gimen, é a regularmente empregada quando o regimen 
é pronome ; mas se o regimem for um nome, deve 
ficar perto do seu attributo. 

11. — O pronome pessoal pôde vir antes ou depois do 
verbo, ás vezes de rigor, como nas pessoas do impe- 
rativo, outras para maior elegância ou energia da phrase : 
daqui me i^em a mim o parecer. 

O pessoal conjuncUvo deve vir immediatamente ligado 
ao verbo, afim de que receba a sua acção antes dos 
outros membros da proposição. Desde os primeiros 
tempos da lingua, porém, que elle se pode separar, como 
também acontecia no hespanhol antigo: — se me iu não 
vales., m'o não consentiu elle., onde a ninguém visse. ( Vide 
lição 40). 

12. — Com os verbos di:{er, replicar, responder., retor- 
quir., etc, nas citações e phrases incidentes, o sujeito 
deve vir depois do verbo. 

i3. — São em geral construidas na ordem inversa, 
as proposições que começam por um adverbio, e no 
portuguez antigo também as que começavam por um 
attributo, regimem directo, indirecto ou circumstancial 
e ainda por uma conjuncção. 

14. — O complemento circumstancial (de tempo, logar, 
etc), que hoje mais se colloca depois do verbo, occu- 
pava vários logares da phrase no portuguez, conforme 
a conveniência do sentido, mas vinha particularmente no 
principio. 

i5. — Também, como no latim, tinha o portuguez 
antigo mais liberdade na coUocação do adverbio., quer 
fosse de logar, de tempo ou de modo. 

Em regra, sempre se colloca va perto da palavra que 
elle modificava \ mas nos primeiros tempos nota-se certa 

69 



490 



tendência para collocal-o no começo da phrase, princi- 
palmente os de modo. 

16. — Da ordem das proposições simples no período, 
— As subordinadas coUocam-se na ordem de depen- 
dência em que estão da principal ; as coordenadas — 
conforme o sentido e a successão de idéas que se quer 
manifestar. 



QUADRAGÉSIMA LIÇÃO 

CoUocação dos pronomes pessoaes 

I. — Os pronomes podem ser endiikos, mesocUiicos e 
procliticos. 

A sua collocação depende de ser elle sujeito ou objecto ; 
e muitas vezes mais lhe determina o logar, a harmonia, o 
ouvido, a emphase. 

2. — T^ronome sujeito. — ^^Golioca-se em geral antes do 
verbo, excepto os casos acima apontados : 

a qual cousa se a tu ouvires ; 

(R. S. Bento) 
se me a razão tti dizes 

(Id.) 
Tudo isso sois vós, ou é vos tudo isso. 

(Castilho) 

E' enclitico; 

a) — Com o imperativo dos verbos, quer a phrase seja 
affirmativa, quer negativa : — chama tu ; não ciúmes tu. Só 
se emprega o pronome para dar mais vigor á phrase, 
emphase . 

b) — Quando a phrase começa por um participio : — ■ 
cansado eu de escrever ; acabando elle de f aliar . 

c) — Nas phrases interrogativas : — Qiie estudam elles 
agora ? — Mas si a phrase começar pelo verbo, temos 
modernamenle .liberdade de inversão : — esiudam elles 
agora ? ; elles estudam agora ? 

d) — Com os verbos no subjunctivo quando se supprime 
a conjuncção : — 5/ elle quisesse vir; quiiesse tWt vir. 

e) — Com verbos no infinito : — Procederes (tu) assim é 
cahires no peccado da preguiça . 

Nota.^ Nos tempos compostos o pronome sujeito vem 
antes do auxiliar ou entre p auxiliar e o participio . 



492 



3.° — Pronome objecto — Também a sua collocação 
está sujeita a regras. 

a) — Com o infinito pessoal o pronome objecto antepõe - 
se sempre : — amares-me-lu (Cp. — para tu me amares.) 

b) — Nas phrases imperativas o pronome objecto é en- 
clitico nas phrases negativas, e isso desde os primeiros 
tempos da lingua : — chama-o ; não o chames. 

c) — Quando concorrem dous pronomes regimens, o que 
está em relação de dativo deve preceder ao outro em 
relação accusativa : — Elle vrCo deu. 

Por muyto mal que me Ih^eu menti (D. Din.) 

d) — Nos tempos compostos coUoca-se o pronome antes 
do auxiliar, qu entre o auxiliar e o participio : — ISós o 
temos visto, tinha-o visto, temol-o visto. 

E' proclitico : 

a) — Depois de qualquer adverbio de negação, de tempo, 
logar, quantidade e modo, quando a phrase começa por 
elle : 

Elle não me diz 
nunca me esqueço. 
sempre te esiiviei 
lá nos encontraremos 
muito me agrada 
bevi me parece. 

b) — Com as formas do futuro e do condicional, 
quando vem claro o pronome sujeito : — eu te lembrarei 
( ==: lembrar-íe hei ) tu lhe dirás )=dir-//ze-as ) elle me lem- 
braria ( = lembrar -we-hia ) . 

No futuro anterior ou condicional composto, precede-o 
sempre o auxiliar : — elle me terá dito., me teria dito 
( = ter-me-hia, ter-;«e-ha dito .) 

Nota — Nas 2^^ formas os pronomes são mesocliticos, 
e só se empregam com futuro do indicativo, condicional, 
ou na interrogativa . 

c ) Nas orações de gerúndio, quando a phrase começa 
pela particula em : — em me /aliando {= fallando-;;/e ). 



493 



d ) — Com verbos no subjunctiv^o : — si me visses ; 
quandu elles te procurarem; sei que me estimas ; Prin- 
cipalmeme precedido de que. 

e ) — com o verbo no infinito : — sem o ler. Mas 
também — sem lel-o. 

Quando concorrem dous verbos do infinito, é grande 
a liberdade de collocação : 

sem lios poder conter 
sem poder conter-nos 
íem poder-«íij conter 

4 — Não se deve começar uma oração pelo pronome 
em relação objectiva (me parece., te disse., lhe f aliei ) . O 
povo (no Brazil) conserva -se, porem aíferrado ás formas 
procliticas, que ainda são correntes no hesp. e no ital. 
(me voy., me ne pado)., e eram dos primeiros documentos 
da lingua portuguza, que moldou-as peia syntaxe latina ^ . 

O emprego proclitico do pronome, a par da forma 
enclitica, data do sec. XII.; No XIV é manifesta a pre- 
ferencia pelas formas procliticas ( quando em relação 
adverbial ou conjunctiva ), e que mais se accentua e 
torna-se geral, uniforme, no XV. 

5 — No latim bárbaro a preferencia é pela posposição do 
pronome obliquo : — non calumniemus vos; quos me dedisti; 
dedit uno servo ettornavit illo; concedimus tibi, placuit nobis; 
etc. ' 

Mas que o povo portuguez mais se affeiçoou á antepo- 
sição, provam-no os seus dizeres, provérbios, juras, pre- 
cações e imprecações : — O demo te leve ; o diabo te carre- 
gue ; 'Deus te ouça ; Deus te ajude ; 7náos raios te partam ; 
Deus mt livre, tic. ^ 



* Comos verbos poenitet (f. feias?, pienitere), miseret, puãet (ás vezes) 
com apaje, ecoe, cam certos dativos pleonasticos ou expletivos ( dafí, 
vus etkicus ). etc. 

» Rib. Diss. 

* Recommeadamos os que estudam, leiam as excellentes theses do 
concurso do erudito professor A. Pimentel, e dos seus bem doutrinados 
concurrentes Dr. Alf. Gomes e Fern. Pinheiro, etc. 



QUADRAGÉSIMA PRIMEIRA LIÇÃO 

Das notações syntacticas. — Pontuação. — 
Emprego de lettras maiúsculas. 

1 — Notações syntacticas'— Dá -se esta denominação 
aós signaes de que nos servimos na escriptapara mais 
aclarar o sentido daphrase, e indicar ao leitor não somen- 
te as varias pausas necessárias, senão também os" vários 
passos emocionaes ou de movimento psychico . 

Umas referem- se ao sentido da phrase ; outras indicam 
a intensão, o sentimento de que se acha possuído o escriptor 
Aquellas são objectivas ; estas, subjectivas. 

2 — As i^^ constituem propriamente os signaes de pon- 
tuação : — virgula, o ponto q virgula, os dous pontos e o 
■ponto (final). 

F/r^w/í:3!.-^Emprega-se a virgula : 
Para separar os termos e orações de igual espécie,- não 
ligados por conjuncção : 

O raciocinio, a palavra articulada, a crença em um Deus, são as 
qualidades que distinguem o homem do bruto. 

Tudo isto que vemos com os nossos olhos é aquelle espirito sublime, 
grande, ardente, immenso. (Vieira). 

A virtude risonha acompanha-nos a toda a parte, amolda-se aos 
tempos, e cinge-se ás occurrencias. (Rab. da Silva), 

Depois, vem outra época da vida em que a felicidade é mentira, 
mais ainda é felicidade, posto que já é eivada de vaga inquietação, 
de ambições desregradas, de especulações mesquinhas e outras contra- 
dictorias (A . Herc. ) 

Para separar as palavras em apostrophe, ou as appo- 
siçÕes : 

Boas lettras, senhor, não são baixc2a. 



495 

Para separar orações intercaladas : * 

A vida, dizia Sócrates, só deve ser a meditação da morte. 

Para separar proposições de gerúndio e participio, e 
outras circumstancias pouco extensas, principalmente si 
precedem verbo : 

Espedaçando as lanças, tudo atroam. 

Chegada a eppca, mostrou que lhe não podiam negar a fé, o amor, 
o esforço, e arte. 

Para separar advérbios e locuções adverbiaes da sen- 
tença com força conjunctiva, quando por ellas começam as 
sentenças : 

Assim, lembra-te sempre de que a morte pisa com o pé igual o 
palácio do rei e a choça do pobre. 

Para separar, no meio da phrase, as conjuncçÕes con- 
clusivas e a adversativa porém : 

Quiz o fado, porém, que Camões definhasse á mingua, só, desam- 
parado dos amigos, do rei, da pátria. 

Para indicar a ellipse do verbo, quando §e dá a figura 
zeugma, e ainda na inversão asyntactica : 

A grita se levanta ao céo, da gente . 

O ponto e virgula separa as proposições extensas 
coordenadas, as enumerações mais amplas, principal- 
mente quando já estão divididas por virgulas : 

O dito árabe foi desmentido ; mas a resposta gastou oito séculos a 
escrever-se : Pelaio entalhou com a espada a primeira palavra delia 
no Serros das Astúrias ; a ultima gravaram-na Fernando e Isabel com 
pelouros de suas bombardas, nos panos das muralhas da formosa Gra- 
nada ; e a esta escriptura estampada em alcantis de montanhas, em 
campos de batalha, nos portaes e torres dos templos, nos lanços dos 
muros das cidades e castellos, accrescentou no fim a mão da Provi-» 
dencia; « assim para todo o sempre. » 



* Neste caso, em logar das virgulas podemos empregar o parenthesis, 
ou o travessão : o parenthesis é preferível quando a phrase intercalada é de 
certa extensão. 



496 



Os dous pontos empregam-se antes de uma citação, 
enumeração, explicação ou conclusão : 

Não se farta a cobiça com a riqueza : 
mais arde o fogo quando tem mais lenha 

(Cam. — Ecl. i3.) 

Diz o provérbio popular : Quem falia, semêa ; quem ouve re- 
colhe. 

Dos meninos é próprio o aprender ; dos mancebos o emprehender, 
dos varões o comprehender ; dos velhos o reprehendcr. 

O ponto final emprega-se no fim da phrase, sempre que 
o sentido estiver completo . 

O vento dorme, o mar e as ondas jazem. » 

3. — As notações subjectivas ou psy cincas são as re- 
ticencias^ o ponto de interrogação t o de exclamação . 

A reticencia indica súbita suspensão do pensamento, e 
ainda tibieza, duvida ou refolho : 

não vos atalho mover o passo a longes territórios. . . mas não ; fica, 

O ponto de interrogação é empregado no fim das phrases 
interrogativas : 

Homem, que es tu perante a face do Senhor ? 

O ponto de admiração^ no fim de uma phrase excla- 
mativa : 

Oh immatura morte, que a ninguém 
de quantos vida teem, jamais perdoas ! 

4 — Ha outros signaes ainda, simples auxiliares, que 
servem apenas para maior clareza da escripta . São — as 
aspas^ o hyperbato^ a alinea^ o parenthesis^ o travessão^ etc. 

As aspas indicam uma citação textual. Escreve-se este 
signal ao começar e fechar a citação. 

a Se amas a vida — disse um sábio — não desperdices o tempo, 
que é o estofo, de que ella é feita » . 



497 



X alínea. — O seu nome está dizendo o que é (d 
linha ) : 

Quanto ao desenvolvimento da expressão, o estylo pôde classifi- 
car-se do seguinte modo : 

conciso 
preciso 
desenvolvido 
prolixo . 

O parenthesis serve para encerrar palavras ou phrases 
de sentido independente ao periodo. O parenthesis não 
deve ser extenso, nem empregado frequentemente, c como 
fazem os que não sabem achar logar conveniente para as 
idéas.» 

Perseverar no erro ( depois de conhecel-o enelle ter cabido) é fazer 
do erro porfia, com descrédito do juizo. 

O travessão indica maior pausa que a virgula, que 
chamamos a attençâo do leitor para o que se segue, e, nos 
diálogos, á entrada de cada interlocutor. 

Elmano, iê-me os teus versos. 

— Melhor scrte me dê Deus ! 
Tremo d'isso ! — E porque tremes ? 

— Porque podes ler-me os teus. 

( O hyphen é um traço horisontal que serve para se- 
parar syllabas no fim da linha, etc.) 

5 — Nos primeiros mss . o único signal de que usavam era o ponto 
( colo ) ; nos Cancioneiros , a pontuação deve ser considerada antes 
como indicativa de inflexões ou accidentes da musica porque eram no- 
tadas as cantigas^ de que como lógica d'incisos grammaticaes ; pois 
« afora pontos fallecem-lhe todos os outros signaes orthographicos 
actualmente em uso ».* 

No Sec. XVI muito descuravam os copistas da pontuação, que já 
consistia no coma ( dous pontos ), colo ( ponto ), vergas e virgulas . 
C. Michaelis confessa a difficuldade que muitas vezes encontrou para 
comprehender immediatamente o pensamento do autor, pelo máo ou 
nenhum pontuado. 



» Castilho (A. F. ) — ^<»»' 1845. 

63 



498 



6 ^ Emprego de lettras maiúsculas.— São usadas 
nos seguintes casos : 

No começo de um período, e no de uma phrase que se 
segue a um ponto íinal, de interrogação ou admiração. 
Nem sempre, porém, se emprega depois do interrogativo, 
principalmente quando não é para obter resposta, mas para 
dar mais força ao pensamento, para exprimir emoção 
violenta : 

Como ? da gente illustre Portugueza 

ha de haver quem refuse o pátrio Marte ? 

Para começar uma citação, que neste caso é precedida 
por dous pontos : 

S. Paulo disse : Quem ama ao próximo cumpre a lei. 

Nos nomes próprios, pronomes de reverencia, títulos 
nobiliarchicos ; 

João; Vossa Senhoria; o Visconde do Rio Branco. 

Nos nomes de composições litterarias e artísticas, 
jornaes, etc . : 

AI Ilíada ; os Lusíadas ; a Noute é uma das telasde Pedro Américo ; 

o Jornal do Cointnercio , 

Como inicial dos nomes de cousas personnificadas : — a 
oáríe^ e das adjectivações consagradas pelo uso ou con- 
venção : — Creador 'Pae Omnipotente ( com referencia a 
Dt\Jis)\ Fidelissmo{ià.. aos Reis de Portugal), etc. 

Nos nomes dos edifícios notáveis, repartições pu- 
blicas, etc: — oTantheon^ o Museu Nacional^ a Cusa da 
Moeda. 

Mas hoje já se escreve com muito mais liberdade quanto ao em- 
prego de maiúsculas ( ai f ande {^a da cárie j thesouro 7iacional — o que 
pôde dar logar a equivoco — , o barão de . Macahubas, etc. 

O começar cada verso por lettra maiúscula não é hoje 
de rigor. 



QUADRAGÉSIMA SEGUNDA LIÇÃO 

Figuras de syntaxe — Partículas do realce 



I. — A svntaxe emprega varias figuras para maior 
clareza do pensamento ou harmonia da phrase, para maior 
energia da expressão ou colorido. 

2. — As pnncipãQs figuras de syntaxe (de construcção 
'OU grammatica) são : 

a) Ellipse. — E' a suppresão de uma ou mais palavras 
necessárias á perfeita construcção da phrase, que todavia 
conserva sentido claro . 

A ellipse tanto omitte o sujeito, o verbo e o attribulo, 
como todos elles ao mesmo tempo, os vários complementos, 
preposições, conjuncções, etc. 

Redobrae (zós) com mãos piedosas 
Esmolas que milagrosas 
Recobrareis feitas rosas 
Nos campos do eterno abril 

(Cast.) 

Bemaventurados {são) os pobres de espirito. 
Era um velho {dotado) áe. semblante severo. 
(Nos) Somos (alninnos) do CoUegio Menezes Vieira. 
Irei (no) domingo ; (por) sessenta annos vi-o consumir-se na medi- 
tação ; peço-te (que) me escrevas, etc . 

A ellipse é devida á impaciência do espirito humano, á 
sua imaginação arrebatada, ao desejo de chegar com rapi- 
dez á solução do raciocínio (Lat. Coelho) . 

A ellipse é um dos resultados da lei de menor acção. 
A do verbo é frequente em todos os períodos da lingua. 



5oo 

Occorre principalmente : 

a) Nas phrases intimativas : 

Aos infiéis, Senhor, aos infiéis 

E não a mim que creio o que pcdeis. 

(Camões) 

b) Nas exclamações : — No mar tanta tormenta e tanto 
damno (Id.) 

c) No começo das interlocuções : 

Qual em cabello : Oh ! doce e amado esposo 
Sem quem não quiz amor que viver possa. 

(Id.) 

d) Nas locuções populares : — commigo não ; mão mão, 
etc. Também é vestígio da tradição latina — ?ii/nl ad me; 
dl meliora (deut) . 

e) Nas construcçÕes participaes : — Tassados alguns 
annos. E' vestígio do ablativo absoluto latino ^ : Em pene- 
dos os ossos se /iteram ; Mostrou- se affavel com os povos, 
com os soldados liberal. 

Pleonasmo. — E' o emprego de palavras supérfluas na 
apparencia, mas que servem para dar mais força ao pen- 
samento : — Importa-lhe a um homem passar ãs índias ; 
Ouvir com os ouvidos ; ver com os olhos., etc. 

O pleonasmo oppõe-se á ellipse . E' figura que em nada 
altera a construcção grammatical . 

Inversão. — E' inverter a ordem, consagrada pelo uso, 
dos termos da proposição ou dos membros da phrase ; 
para evitar ambiguidade ou dissonâncias, para tornar a 
expresão mais enérgica ou graciosa. 

Anastrophe. — Consiste na inversão das palavras corre- 
lativas . 

Hyperbato. — E' também uma espécie de inversão, que 
transpõe expressões e pensamentos, geralmente para har- 



* Vid. Lição 36. 



5o I 



monia do tecido da phrase : — Nas tormentas da maledi- 
cência o mais Iranqitillo e abrigado porto é o silencio . 

E** tão frequente no portuguez como a ellipse . 

D'ahi a graciosa brevidade da nossa lingua, e a sua har- 
monia . 

Hypallage. — E' a figura que muda a construcção in- 
vertendo a correlação das idéas . 

Enallage . — Consiste em mudar os modos e tempos 
dos verbos {vou p . trei^ fora p . fosse, amara p . amaria^ 
chega p . chegou^ ) 

As narrações mais ganham em colorido, quando se em- 
prega o presente pelo passado. 

Syllepse. — Esta figura faz a palavra concordar, não 
com o seu correlativo, mas com a idéa que elle com- 
prehende. t A palavra deixa então de responder ás 
regras grammaticaes, para responder ao novo pensa- 
mento. »E' incorrecção a que ninguém hoje se abalan- 
çaria, mas de que temos exemplos no portuguez antigo . 
(Essa gente^ eu os vi bradando ; e o povo apedrejaram. . , . ) 

3. — Temos ainda algumas figuras, a que chamam de 
dicção ou de palavras propriamente ditas: 

Repetição. — Para dar mais energia á phrase, repe- 
te- se uma ou mais palavras. — C/í/// coitado de til ah 
triste, triste!; Tu, só tu, puro amor \ Já mo me oures? 
Já não te hei de ver ? ; No mar tanta tormenta e tanto dano, 
tantas ve^es a morte apercebendo (Cam. ) ; O ouro a terra 
o cria., a terra o tem {k. Ferr.) 

Reduplicação. — E"* a repetição, não de palavras, mas 
de idéas : — quedou-se mudo., e não articulou palavra. 

Pode dar-se pela synonymia ou quasi s\nonymià : — 
Era fogo., era raio., era coiisco (V. do Are . ) . 

Anaphora. — E' a repetição de uma ou mais palavras 
no principio dos diversos membros de um periodo. 

Antistrophe — E"* o contrario da palavra. Sirva de 
exemplo esta passagem de Bourd : — O universo é domi- 



502 



nado pdo espirito do mundo; o homem julga segundo o 
espirito do mundo ; procede e governasse de accôrdo 
com o espirito do fnundo ; até estimaria servir .a Deus con- 
forme o espirito do mundo . 

DisjuNcçÃo. — Subtracção das partículas subjunctivas, 
e com isso oestylo ganha em rapidez e melhor destaca os 
objectos — vim^ vi^ venci. Está tudo contente^ alegre tudo; 
eu 5d, só pensativo, triste^ e mudo. (Cam. Ecl.) 

Antanaclase. — E' a repetição na phrase, de uma 
mesma palavra tomada em diversa accepção: — Formosa 
inrgem clara, inda jnais clara que a lu^ ante quem foge a 
noite escura ; Com pena te lavro a pena. , 

Si as palavras formam opposição, a figura chama- se 
antimetathese . 

Paronomasia. — E' a approximação de palavras de som 
quasi idêntico, mas cujo sentido diífere, ou trocado 
feito pelas varias mudanças de sentido : — E o peior é que 
não sO se vê em nós a meninice., que é defeito da idade., senão 
as meninices., que o são dojui:{o ; 'Dos meninos é próprio o 
aprender ; dos mancebos o emprehender ; dos varões o com- 
prehender., mas dos velhos o reprehender . 

4. — Partículas de realce — A's vezes acompa- 
nham esporadicamente o objecto directo, certas partículas 
— sem significação nem funcção grammatical — a que 
chamam alguns grammaticos — de realce., outros ■— 
expletivas. Ex. Quasi que jne perdi ; ^m começando a 
chover; deixa-os lã fallar ; cumpri o meu dever ; arrancou 
das espadas. 

Em sabe fazel-aSj disse-as boaSj as não é partícula de realce, 
como erradamente se tem cscripto. Em outro logar já lhe explicamos 
a origem. 

O professor F. Barreto, visto haver exemplos de objecto directo 
acompanhado de preposição não expletiva (ncíii elle entende a nós, nem 
nós a ellc)^ diz que melhor, fora empregar a denominação objecto di- 
recto sporadicamente preposiciotial^ que comprehende os casos exple- 
tivos e ,não cxpletivos. 



QUADRAGÉSIMA TERCEIRA LIÇÃO 

Dos vicios de linguagem 



I. — Chamam-se vícios de /m^wa^ew as anomalias da 
lingua, devidas á ignorância popular, ao deleixo do escri- 
ptor subalterno, e ás vezes ao pedantismo clássico . 
Comprehendem os barbarismos e os solecismos , 
^arbarismos são os vicios léxico logkos : consistem no 
emprego excusado de palavras e phrases estranhas á lingua, 
sem a queda e o geito das nossas « com que querem con- 
viver » ; em dar á palavra emprego differente do que 
realmente tem ; em articular e accentuar erradamente os 
vocábulos. Ex.: — bouquet^ comité,.,, taciturno (em- 
pregado por triste ), carrinhos ( em vez de carrilhos ), con- 
feccionar ^ovídiZt\:., organisar, pég-ada por pegada^ ttc. 

Os solecismos ( barbarismos de phrases ) consistem no 
emprego de construcç5es viciosas, contra a Índole da 
lingua. São pois vicios sintácticos: — tu sois^ para tu, 
hóuperam homens, etc. 

2 . — São principaes vicios de construcção : 
Pi.uv\imohOGi^ OM ambiguidade . E' a construcção a que 
se pôde dar duplo sentido : ama o povo o bo?n rei., a águia 
matou a pomba no seu Jtinho . 

Obscuridade. — E' a falta de clareza, pelas muitas 
ellipses ou hyperbatos exagerados : — Certo é que quaesquer 
hitorias muito melhor se entendem, se perfeitamente e bem 
ordenadas, que o sendo por outra maneira . 



5o4 



A certas as quaes cartas ou os quaes sermões de saneia 
auctortdade do vedro, ou novo Testamento, non é senon muy 
dereyta carreyra da inda humana . 

3. — Os barbarismos tomam as denominações de helle- 
nismos, latinismos, germanismos, hebraismos, etc. con- 
forme a sua origem. 

Do sec. XII ao XIV é a época dos latinismos entrados na 
lingua naturalmente ; do V ao XII é o dos germanismos ; 
do VII ao XIII é o dos semitícismos ; no XII germinam os 
gallecismos ; No XV recomeça o império dos latinismos, 
que se estende ao XVI, notável ainda pelos hespanholismos 
e italianismos, etc. Hoje temos de tudo isso a mascavar a 
lingua ; mas os principaes barbarismos, não só porque mais 
avultam em numero, senão também porque mais a afeiam, 
são os gallicismos . 

4. — Temos gallicismos léxicos e syntaxicos. 

a) São gallecismos léxicos : — bouquet, soirée, negligé, 
fauteuil, comité, toilette, boudoir, coquette, desolado, 
nuança, petimetre, plateau, bello espirito, (p. engraçado, 
chistoso), chefe d'obra (obra prima), grande mundo (so- 
ciedade selecta, elevada), guardar o leito (estar de cama), 
deboche (dissolução, desmancho de costumes, devassidão, 
corrupção), etc. 

A era dos gallicismos data do Sec. XII ; mas é principal- 
mente da época de D. João IV que o portuguez começou a 
modificar-se sob esta influencia no léxico e na syntaxe 
{taclia^ vianda^ trampear — tromper — quitar^ esguardo^ 
apres — ensembra^ Jj/we-amarello. . .) 

Alguns gallicismos, condemnados — por S. Luiz, N. de 
Leão, TuUio, etc, não o devem ser. oAdiar^ acti- 
var, anuuidade, barricada, felicitações (porq. se temos 
felicitar^ lat. felicitare=tornar feli\^ Donato?), inabalável, 
inconcebivel^ regressar (1. regredior^ regressus)^ rotina 
(dim. de rota, ant. ruto^ lat. rupta)^ etc. Também não 
devemos condemnar trenó = fr. ireneau, porque não 



5o5 



exprime exactamente o mesmo que trilho^ gorra ou seléa ; 
Tartufo ( que é um neol. por ficção litteraria), nem os 
modos usuaes de fallar — cahi das nuvens^ perdi a cabeça, 
etc. porque representam figuras communs a todas as lín- 
guas . ^ 

Ha gallicismos hoje correntes, — cache-ne:[^ abat-jour 
(que chamaria — quebra lu^^)^ banal^ fatigante^ etc. 

b) São gallecismos de construcção : — fa^er um passeio ; 
a festa terá logar ; partilho das suas opiniões; rapa^ de má 
conducta, etc, e enxertos que devemos regei tar. 

Também ha construcções para as quaes achamos in- 
justas a condemnação de ^<3r^í2ra5, como p. ex.: sem ti 
7ião alcançaria es le logar ; o que ha de ruim, etc. 

5 — Quando os vicios oppoem-se á harmonia daphrase 
ou euphonia, chamam-se vicios de harmonia. — Os prin- 
cipaes são — a cacophonia, o echo^ o hiaío^ a collisão . 

Cacophato é o vicio resultante da concurrencia de 
syllabas formando um vocábulo inconveniente, ou torpe : 
— alma minha, a tua opinião como as concebo^ ttns-me já 
dado amor bastantes penas, por cada vez, a /aca d'ella, . . 

EcHO é a dissonância resultante da repetição das 
mesmas s\'llabas : — o seu estado inspira cuidado ; um ente 
independente . 

Hiato é a dissonância produzida pela successão de 
vogaes, principalmente abertas : — d aula. 

Collisão é o vicio resultante da repetição de certas 
consoantes (r^ s finaes ). 



* Pacheco Júnior, Gr. hist. Elen\entos históricos 138 , 



64 



QUADRAGÉSIMA QUARTA LIÇÃO 

Anomalias graminaticaes — Idiotismos — Dia- 
lectos— Provincialismos— Brasileirismos 



1. — Anomalias grammaticaes. — São factos da lin- 
guagem insubordinados ás leis grammaticaes. 

Podem ser phonicas, morphologicas e syntaciicas. 

a) O / inicial latino persistiu no portuguez, ou per- 
mutou — raras vezes — em r e n; t todavia — como acon- 
tecia ao médio, mesmo em latim, o / inicial latino trans- 
formou -se em d: — deixar^ ant. leixar, lat. lasciare ; 

dimtte (limite), O grupo pi latino foi substituído na 

linguagem popular pelo grupo portuguez eh : — plorare = 
chorar, pliivia = chuva, plemis = cheio, .... mas, por in- 
fluencia hespanhola, planiis deu lhano (por — chano, chão^ 
chaneia p. lhaneza, etc.) 

b) — A palavra carrilho = múo^ caminho, adulte- 
rou-se em carrinho na phrase vulgar — comer a dous 
carrinhos; malandrim corrompe -se em malandro; cima 
alarga-se em cincada. 

A semântica ^, pois, é também origem de anoma- 
lias grammaticaes. 

c) — São mais raras as anomalias syntacticas, e ás 
principaes já nos temos referido: — eu parece -me^ íerp. 
haver (tem muitos homens incapazes do bem), o pro- 



' Este termo foi creado por Darmsteter na sua ultima obra, e aceito 
por G. Paria, Bréal. 



507 



nome sujeito proclitico, nas phrases interrogativas: — 
iti queres comer ? ; começar a sentença pelo pronome 
apassivador se: = se contam cousas do arco da velha^ etc. 

2. — Idiotismo. — Dá-se este nome (do grego idio- 
tismos = modo de fallar trivial, vulgar) ás dicções, aos 
factos grammaticaes, peculiares a uma lingua, mas que 
muitas vezes reagem á analyse. 

Os idiotismos germinam de preferencia na lingua- 
gem familiar e popular ; mas — como pondera Longino — 
dão elegância e energia ao discurso, e delles se aprovei- 
taram com vantagem escriptores clássicos e de boa nota. 

Os idiotismos são phrases construídas contra a etymo- 
logia e a syntaxe natural da lingua, e cuja significação é, em 
regra, arbitraria e convencional. 

Os idiotismos convencionaes coincidem em varias 
linguas : — schone Fraue, a prettry >voman^ bonita mulher 
é o mesmo que femina formosa^ apesar da inversão dos 
termos ; there are birds^ il est — il y a — des oiseaux, ha 
pássaros^ tem em outras linguas equivalentes lógicos. Ho>p 
do you do=comment votis porte:[-vous = como estaes? 

Ha, porém, differenças idiomáticas que só podemos 
verter para outra lingua por meio de um equivalente peri- 
phrastico ; ha palavras cuja traducção exacta é impossível, 
como p. ex. — aW. ahnen, verbo, e o subst. derivado 
ahnumg\ ing. home; port. saudade^ etc. ^) 

São idiotismos vernáculos — o infinito pessoal, a pro- 
priedade singular do verbo haver^ varias transposições 
arbitrarias, o emprego do adj . art . antes do adj . poss . 
{a minha casa)^ que também era de uso no hesp . do Século 



• V. Pacheco Júnior Cartas lexicologicas 1880. 

Para home dêmos pátria, e lar, os penates, a família, etc. ; mas tudo 
isso apresenta friamente a palavra ingleza que nos transporta súbito á 
pátria, ao lar, á família, juntamente, com amor e saudade. O Su-eet 
home é a doce, a branda estancia; a querida, a saudosa pátria, etc... 
mas tudo isso não despsrta subitamente no Inglez a idéa do seu home, 
swcct home. 



bo8 



XVII, e nas outras línguas romanas — /'/ mia faveila ; le 
mten chepal, etc . 

3. — Dialectos. — Dialecto é a lingua peculiar a uma 
provinda, cidade ou estado, alterada do idioma d''onde 
procede — na pronuncia, na accentuação, desinências, no 
léxico, na syntaxe . 

A^s vezes o dialecto conserva formas mais primitivas que 
a lingua clássica, e muitas outras o seu vocabulário excede 
ao desta em riqueza ^ 

Varias são as causas concurrentes para as differenciações 
dialectaes, — o clima, os grandes cataclismas das raças e 
sociedades, o gráo de cultura litteraria. 

São três os dialectos 'portuguez — gallego, — o indo- 
portiigiie:{f o siiajo. 

O gallego representa uma phase evolutiva do portuguez 
antigo. No século XII havia em Portugal duas línguas 
idênticas no fundo — o galleiiano fallado ao norte do 
Mondego, e o aravio^ ao sul. Estes dous dialectos, que 
mais dííferençavam na phonetica, « foram gradualmente a 
fundir- se á medida que se estabelecia a unidade do ter- 
ritório portuguez » . 

O gallego ficou estacionário ; ao passo que o portuguez 
seguiu o seu desenvolvimento natural . ^ 

Vou âs vecinas romaxes, 
Vou ôs pobos, vou âs feiras, 
E de cote vcn meus ollos 
Rapazas garridas n'elas 
Vexo mocinãs que tenem 
Dentes que parecen pelras, 
Meixelas como craveles 
E dourada cabeleira, 
Bermellos lábios, y-ús ollos 
Que tolo a un santo volveran 



') O portuguez fallado no interior do BrazLl conserva muitaí? formas 
■já archaisadag em Portigal, e o nosso léxico possúe pelos menos uns 
6.000 vocábulos mais. 

*) Quem quizer aaber mais sobre este dialecto leia *^ gramm. GaUega 
de Sacco Arce. 



5o9 



O africano e o indo-porttiguei datao do Sec. XV, e são 
fallados em Ce3'lão, Diu, S. Thomé, Cochim, etc. O ultimo 
tende a desapparecer ante a supremacia do governo inglez. 

No poríug'ue:{ de S . Thotné é de notar a queda dor 
{jadim, stoia^ beudC', bendedô^ . . . = jardim, historia, vender, 
vendedor) ; a sua permuta pelo / ( /«i, pledê^ calo = 
rua, perder, caro) ; os vestígios da antiga pronuncia 
(Sec. XII, ainda conservada na Galiiza) — ;7o/c/« noite, 
negocho negocio; as formas S3'ncopadas nino menino, 
poçon povoação, etc. 

Formam o plural emí, mas geralmente pela antepo- 
sição pronominal : — inet7i moço = elles moço (moços). 

Espécimen 

Padê nosso cu sá no cjé, santificado seja vosso nome, venha nosso 
vosso lêno, seja feta vossa vontade achi na tela cumo no cjé, pom nosso 
dji cada djá non da hodje, podoá nom dji tudo djivida cu nom câ lê, 
achi cumô nom cá podoá nosso devedô, nom dessa nom quiê ni tentaçon, 
mas livlanom de tudo mah. Amen Jigú. 

No portuguez de Cochim^ são muitas as corrupções pho- 
neticas : — e p. a lainde^ noves} ^ i p. e (carni^ grandt), 
na p. em (na todo logar), o p. a (madrinha^ miseno)^ etc. 

Formam o pretérito com ja {quem ja fala=/J/o^/^ o 
\v!\pQ.vdAwo coxn vae (yoi nos faie) ; empregam o presente 
pelo imperfeito e futuro {qiiilai ^ te bote — botavas ; que 
dia posse te parti = partirás), etc. 

Formam o plural pela reduplicação : — senhor senhor = 
senhores. 

Espécimen 

Bom dia, senho, quilai tem saúde ? — Tem bom, muito mercê. — 
Vambos nos vai pesca hoje ? Vambos vai. — Quem ja fala ? — Ante 
tarde ja foi dos manchu nosso jente, cada manchu ja pegasinco peixi. 

Si nos vai, nos lo pegue peixi. * — Nos pode vai justo sinco hora — 
Vosse més (locê mesmo) compre isca, eu lo faze pronto cordo.— 
Vossa pedi impesta por mi um anzol ? 



• Qí«7ae( = que laia) = como. 
' ho indica o futuro dos verbos. 



DIO 



O portuguez de *Z)///, também apresenta muitas modifi- 
cações phoneticas : v. gr. — a troca do e púo a (IsiPanta)^ 
a queda das molhadas, das vogaes e consoantes medias 
{imbriii embrulho, quiio quinhãoj, me meu, os vossos, su 
seu, oulr^ corp^ sempr (omissão da vogal final). 

Espécimen 

Eu já comeu, já fez, etc. Eu had vai. 

Mais logo que vêo est os filh que já gastou tud quant tinh com 
mulher de má vid, log já mandou mata cabrit gord. Então su pai já 
fallou : Filh, os semj.r tem junt de mim e tud de min é de ós. 

O portuguez de Ceylão é muito mais correcto na pro- 
nuncia e construcção. Basta confrontar o espécimen acima 
com o seguinte : 

Mas este teu filho quem já desperdiça tua fazenda .com mundanas 
quando já vi, tu já mata por elle o vaccinha gourda. E cUe já falia 
por elle, Filho, vosse sempre tem com mi, e todas as minhas cousas tem 
vossas. > 

O portuguez fallado no Brazil diverge do fallado em 
Portugal, não só, e mui principalmente, na pronuncia, mas 
também em algumas transferencias de significação, facto 
este a que já nos referimos em outro logar (babado^ que no 
Brazil também sign. folhos de vestido, fa^^enda — pro- 
priedade rural, xacara — casa de campo, miiqiieca — gui- 
sado de peixe, etc . ) 

O vocabulário é o mesmo, mais opulentado com o 
elemento tupy-guarani, e mais alguns termos africanos. 
Devemos, porém, attender ás inevitáveis idisyoncracias 
mentaes . 

Na pronuncia a diíTerença consiste principalmente em 
mais fazermos soar as vogaes, no accentuarmos syllabas 
subordinadas, e ainda não estarmos tão sob a lei da menor 
acção. Influencia climatérica. Pronunciamos /Jj/e/, ^dr^Yo, 



Schuchardt — Knolische Studiev, Wien, 1882. 



Ml 



imperador^ corô.T^ pelotão,... o Portuguez papel, bordo., 
tmp'rado7^., croa., p'lot.70., etc. E"* também muito commum 
a troca do e pelo / : — mt deixi\ miniuo, que em Port. pron. 
sempre iiienino, etc. 

DifFerenças S3'ntaxicas importantes são raras, e apenas 
na linguagem vulgar: — fui na. casa, estava ndijanella ; o 
emprego do pronome sujeito pelo objecto — vielle, e tam- 
bém Pt-lhe, isto é pjra mim ler . 

4. — Provincialismos *. — São particularidades locaes 
no modo de fallar uma mesma lingua dentro do mesmo 
paiz, mais ou menos accentuadas na pronuncia, vocabulário 
e phraseologia . 

As circumstancias que concorrem para o enfranqueci- 
mento dos laços políticos e sociaes, ou para o enfraqueci- 
mento de um povo, augmentam o numero das discordân- 
cias no seio da lingua geral ( Whitney) . 

Mais . Na mesma cidade o homem culto pronuncia de 
modo mui diíferente do analphabeto . 

Já S . Rosa de Viterbo notara no Elucidário que, em 
innumeraveis dos nossos antigos documentos variava a 
escripta á proporção que variava a pronuncia, a qual 
muitas vezes até em cada província discordava : — S. Ci' 
brâo, S. CipriaHjy S. Cibriam, S. C/dram p. S. C)'priano\ 
Sanhoane^Sanoanne, Sonoane, S. Oan, S. Jam, S. Jom, 
p. S. João, etc. 

Os Madeirenses pron : — mdoo, bâoa, p. mdo, boa., 
trocam o e grave accentuado antes de articulação chiante 
ou molhada por a grave: — pajo, p. pejo, tânho; toe 
agudo antes das mesmas articulações em ei: — meicha = 
mecha ; /z/m^e= herege ; seige = sege, etc. 

Em alguns logares de Portugal mudam e ç ei em ai : — 
baijo ; meu bdim . 



' Pacheco 3nn\ov — Phortologia portugtieza. 



5l2 



Os Minhotos trocam obp.VQOvp.b; pron. om 
nasal onde nós dizemos ão : — fi^erom, ra^om, e dão ao 
diphthongo ou o som de ão : — são == sou. 

Também os Beirenses trocam o b por v reciprocamente ; 
dizem non., som, etc, (formas mais próximas do typo la- 
tino nom, sum, t\.c.)\ terminam os verbos archaicamente 
em jn, en, iri (amari, beberi, etc), ^ e dão ao í{ um som 
de x: — dixe, dtxere., que em outras provincias se pro- 
nuncia com o som de^ — digere^ etc. 

Nestes modos de fallar ha uma certa harmonia com o 
prisco escrever, que muitas vezes é mais etymologico e 
harmonioso, como succede nas formas antiquadas — ter- 
ribil, a?7íabil^ etc. 

Os do Algarve e Alemtejo mudam o diphthongo eu em 
et: — meipa{\ a molhada Ih simplifica-se na liquida / ; — eu 
dicele (e assim pronunciavam os nossos maiores) ; o ei dos 
pret. em i: — almoct, etc; dizem — ptdir., midii\ etc. 
Trocam o i por g — digia, fagia, vigilar^ e dizem — 
fuge^ pacencia^ home., canairo, pregunlar., precurar., leixar., 
dixe., trouve, ao redol (=ao redor), etc 

Os Conimbrenses pronunciam: — aialma, aiaula., se- 
tiora.,novóra., fruita., astrever-se, etc 

Em Lisboa onde, como espirituosamente observou 
um escriptor Portuguez, « hadex ver como franze pi o 
narix á cuxta do Gallego, e como não handem perceber ou 
imaginar que sam ellex quem ex lá no erro», pronunciam 
— cravão., cravoeiro., cravalho., crapinteiro., menia, auga., 
augadeiro., todódia., etc 

Também em Extremadura notam-se as mesmas indes- 
culpáveis incorrecções, questães, grões, affliçães, etc . 

Os da Beira, onde se pron.: — noti ( = não;, som 
( = sou ), hai (= ha ), e trocam o diphthongo ou em oi : 



' Foi por isso que Bluteau observou que « nos infinitos dos verbos, 
falam os nossos Ratinhos melhor que os Palacianos. » 



bi3 



— oivir^ oivido, cowe^ etc; são, todavia, os únicos que 
pronunciam com verdade o c/z, cujo som confundimos, e 
confundem os de Lisboa, com o de x. E' assim que elles 
dize Ichapéo^ tchave^ tchcí, e nunca xapéo^ etc. As articu- 
lações eh e X não tinham o mesmo valor, e nessas varie- 
dades e distincções de som está muito a belleza e perfeição 
das linguas . 

Todos esses vicios, porém, são devidos á tradição, e a 
sua persistência á falta de cultivo intellectual. 

NoBrazil são mais de notar os provincialismos do 
Geará, Rio Grande do Sul, Goyaz e S . Paulo . 

Nesta ultima provinda as syllabas soam todas ellas 
largas, abertas \ a falia é descansada e como que caden- 
ciada, a molhada Ih não sôa na pronuncia — ietado^ miio^ 
fiio p. telhado^ mtlho, filho, etc. 

5 — Brasileirismos ^. — São termos e modos de fallar 
pecaliares aos Brasileiros, e muitíssimos d'elles desconhe- 
cidos em Portugal, o que não é para admirar porque o 
mesmo acontece aqui deprovincia para província. 

Os termos que seguem são brasileirismos e modos de 
dizer próprios a cada provinda . 

oArrelia — birra . 

cAmojada — No norte diz-se, e com cabimento, que a 
rez está amojada quando está prestes a parir ; estado que 
também se conhece pelo amojo, rigidez das tetas. 

oAlui — bebida feita com agua, assucar e farinha de 
milho torrada . 

QÁtpim — mandioca ( Rio de Janeiro ) . 

oArapúca — armadilha de varinhas para apanhar passa- 
rinhos . 

oAiirar—' é a acção que faz o dansante nas dansas po- 
pulares, para tirar quem o substitua. 



* Pacheco Júnior — Grammatica histórica pag. 142 a 150. 

63 



DI4 



oAtapú — búzio que serve de trombeta ao jangadeiro 
para chamar freguezes ao peixe . 

oAmolar — enfadar alguém com importunidades, pa- 
lavras de ôca d'orna, etc. 

QÁmolador — homem enfadonho. 

Batuque ) , , , ,. , 

, } dansa de negros (voe. air.) 

Jongo ) o V / 

Boquinha — beijo. 

'Cocaína — lugar estreitado entre serras ou cabeços . 

Baião — dansa popular. 

Tiebida — bebedouro ( Ceará ). 

Barbicacho — cordão com borla, preso ao chapéo para 
que o vento o não leve ( Rio Grande ) . 

"Banieiro ■ — ( alem da signif . própria ) — individuo me- 
ditabundo . 

Tarado e corado — homem sem medo, destemido . 

"Bala j 

Onça I homem valente, destemido. 

Jopeiudo 1 

Cauim — vinho de mandioca . 

Ciscar — estorcer-se no chão após um golpe, pan- 
cada, etc. 

Chiquerador — tira de couro torcida presa á extremi- 
dade de um páo. Instrumento de castigo. No Rio de Janeiro 
e Minas dá-se-lhe o nome de relho. 

Cuia — vasilha feita de cabaça partida ao meio, e tirado 
o miolo . 

Combuca — vasilha feita de uma cabacinha furada, onde 
se toma matte . 

Capeta — duende ( Ceará ), demónio. 

Chibio — garoto, bregeiro ( Norte) . 

Capim — herva para pasto do gado ( voe. tupy ). 

Coivára — pequenas fogueiras para queimar os galhos 
etc, que escaparam ao fogo geral. 

Ciichillar — dormitar sentado ou de pé. 



bib 



Cangote — cachaço . 

Cj.rapina — carpinteiro. 

Caçulo^ a — ultimo -genito. 

Calundu — amuo, arrufo . 

Chilenas — esporas enormes de ferro ou prata, com 
grandes rosetas . 

^ j ) — boneco ( Pernambuco ) . 

^ } rato pequeno, murganho ( Bahia ) 

Camondongo — id . Rio de Janeiro) 

Campeão — cavallo em que o vaqueiro campeã (Ceará). 

Cavallairauo — homem que negocia em cavallos (Geará). 

Cangaceiro — individuo que blasona de valente, sem 
ter bulias para isso. 

Cabra — filho de mulato e negra ou vice-versa. No 
Norte dá -se este nome aos que andam descalços, ou uns 
aos outros na conversa familiar. 

Cangaçôes — cacarecos ( no Norte . ) 

Catinga — transpiração fétida dos sovacos, bodum, 
especialmente dos negros ; mato pouco espesso mas garran- 
choso. ( Ind.) D*'ahi vemchamar-se re^ catingueira á que 
se esconde nas catingas. 

Camâra — bezerro enfezado, doente . 

Chimango — que pertence ao partido liberal ( ao Norte) 

Carcará — caranguejo : — que pertence ao partido 
conservador ( Ind . ) 

Crod — abóbora vermelha ( Ceará ). 

Coirama — botas curtas de couro branco . 

Caipira — sertanejo. 

Caipora — ( lu^icaa-pora ) i°, pequeno caboclo bravo, 
que vive nas florestas do sertão, malfazendo ás vezes, 
principalmente quando lhe negam fumo ( superst. pop.) ; 
2°, luz fátua que apparece nos matos ; 3°, homem infeliz 
nos seus commettimentos . 

Caiporismo — infelicidade , insuccesso nas empre- 
zas. 



5i6 



Chapelina — chapéo usado pelas mulheres sertanejas em 
algumas provindas do Norte. 

Comadre — mulher do povo, que parteja a gente pobre 
e escravas. 

Carito — pequena prateleira que se põe a um canto 
( Ceará, etc . ) 

Cangapé — ponta-pé que faz cahir quem o leva. 
Cargueiro animal de carga, e, por extensão, o homem 
que o tange . 

Caco — tabaco em pó, fabricado e usado pelo povo 
(Ceará) . Em Minas dá-se-lhe simplesmente o nome de pó. 
Desabusado — homem corajoso, pouco soífredor de in- 
jurias. 
Desfruciavel — individuo que se dá ao ridículo. 
Desfructar alguém — metter alguém a ridículo. 
Debicar — chufar, mofar, fazer com que alguém enfie. 
Debiqvie — chufa, mofa . 
Dadeira — mulher adultera. 
Destabacado — destemido. 
Encartado — galhofeiro, jovial. 
•Exquisiio — extravagante, que move a riso . 
Embiratanha — planta de embira. 
Enxamear — encher os vãos das paredes feitas com tai- 
pas, de pedaços de páo e barro. 

Encordoar ) amuar-se ou enfiar por motivo de chufas ou 
EncalistrarS gracejos, também se emprega activamente. 
Fadista \ 
FindingaS V^^^^'^^'^^ barregan. 

Fuxicar — amarrotar, enxovalhar (roupa, etc.) 
Farofa — carne mexida com farinha. 
Fabrica — (Ceará) rapaz que ajuda o vaqueiro na es- 
tancia . 
Fachina — soldado em serviço fora do quartel. 
Famanai — ( ao Norte ) muito afamado. 
Flato — ataque de nervos. 



517 



Goraca — cinta de couro que se fecha com dous botões 
grandes ou moedas de ouro ou prata, com uma bolsa. 

Girinmm — (ao Norte) abóbora. (Ind.). 

Geraes — logares ermos (N.) ^^ Perdi-me nesses Geraes" 

Gereré — rede de pescaria. 

Girão — leito de varas sobre forquilhas ; também serve 
para moquear carne, guardar louça, etc. 

Graiicá) 

GaiijcA c^^^nguego. 

Garapa — caldo de canna moida no engenho . 

Isqueiro — pequeno tubo de metal ou ponta de chifre 
com tampa de porongo ou metal, que serve para guardar 
isca a que pegam fogo com fuzil e pederneira para accen- 
der cigarro. 

Igacaba — talha grande para agua (Norte.) 

Igarvana — homem navegador. 

Ipiieiras — logares que no inverno se enchem d'agua, 
conservando-a por tempo dilatado. 

Jacd — cesto comprido com tampo, feito de taquaras. 

Jandahira — abelha. 

Muxinga — açoute (voe. afr.) 

Mnxingiieiro — o que açouta . 

Miingangas — momos . 

Muxox(^ — estalo com os lábios em signal de des- 
prezo . 

Miilambo — farrapo, andrajo. 

Mascate — antigamente mercador estrangeiro; hoje o 
que vende fazenda pela rua . 

Mascatear — vender fazendas pela rua. 

Mandinga — feitiço . 

Muquiar — preparar certo guisado. 

Muqiiem — logar onde se muquia. 

Manjo — jogo do tempo será ; Maria mocangueiro. 

Macachêra — mandioca doce ( Norte ) a que no Rio de 
Janeiro dão o nome de aipim . 



5i8 



Mocambmho — (Norte) habitação feita no mato por ne- 
gros fugitivos. 

Mocambos — vastas moutas no sertão onde se esconde o 
gado. 

Maldictãs — sezões, maleitas, febres de crescimento. 

Mocotó — mão de vacca. 

Muxiba — pelles de carne magra. 

Matuto — sertanejo, homem atoleimado. 

Massada — cousa que causa fastio, aborrecimento. 

Nonhô^ ã * i mancebo, senhor moço, 

Yoyô, yafá I senhora moça. 

Oi^denança — além da significação própria, designa a 
praça que acompanha e está á disposição dos Ministros, 
Presidentes de Províncias, e outras autoridades. 

Obrigação — família (como vai a obrigação ? ) 

Tresiganga — náo que serve de prisão . 

Peqiiira — cavallo pequeno. 

T^agé — adevinho ; homem que livra de feitiços e encan- 
tamentos (Ind.) 

Toncho (ponche) — espécie de cobertor quasi redondo 
com uma abertura e gola no centro por onde passa a 
cabeça . Serve para resguardar o cavalleiro do frio e da 
chuva. Sendo de linho (por causa do pó nos dias de grande 
calma) chama -se palla. 

'Pacoua — banana (Pernambuco . ) 

Ttão — homem que amansa cavallo e burros chucros 
(bravos). 

'Tassoca — carne secca pilada com farinha e cebolas . 

Puxado — aposentos feitos^depois de construído o prédio. 

Taspalhão — papalvo, fátuo . 

'Pereba (pareba) — qualquer erupção cutânea, feridinha 
com puz, sarninha. 

Pipoca — milho arrebentado ao calor do fogo . 



• Em S. Paulo e em alguns lugares de Minas abreviam-no em Nhô, 
Nhà, e dizem NhóQuini (Sr. Joaquim), Nhó sim, nhõ «ão, etc. 



5i9 



Quindins — requebros, melindres . 

Quitute — iguaria exquisita e appetitosa. 

Quitanda ^ — mercado volante de hortaliça, etc . 

Quitandeiro — o que i>ende quitanda . 

Quicé — (Norte) faca pequena. 

Quilombo — lugar onde se refugiam e reúnem negros 
fugidos. 

Quilombóla — negro que se acolhe ao quilombo . 

Quimanga — cabaço em que se guarda comida . 

Rebenque — chicote curto de couro trançado, e com uma 
ou mais pontas de sola ou couro trançado, 

Réve — vasilha de barro que não vasa pelos poros. 

Samburd — cesto de cipó de boca apertada em que o 
pescador guarda o peixe . No Rio de Janeiro é uma espécie 
de cesta com alça. 

Senzala — habitação de negros nas fazendas . 

Sipoada — vergastada (com cipó) . 

Sura — ave sem pennas na cauda. 

Samba (sambar) — festa popular no interior na qual dan- 
ça-se, bebe-se, e canta-se á viola ; ir a samba, divertir-se 
nella . 

Taba — aldeia (voe . tupy) . 

Tapera — estancia abandonada - lugar ermo . 

Trapiche — casa onde se guardam géneros de embarque 
e onde carregam e descarregam navios . 

Tala — chicote pequeno com uma ponta larga de sola. 

Tijuco — barro de estrada, pegajoso (voe. tupy). 

Tupmambaba — maçame de linhas e anzóes . 

Teméro — temerário . 

Tirador — peça de couro que se prende á cintura para 
facilitar o serviço do laço, e não estragar a roupa . 



* Antigamente chamavam quitanda aos campos Romanos onde se 
estabeleciam os vivandeiros {Be antiq, Rom.) Em Portugal também 
outr'ora assim se denominavam as feiras e mercados de comestiveis : em 
Angola, ainda hoje, como no Brasil, significa mercado volante. (Lopes de 
Lima — Ensaio Statis, sobre as poss. Port. na ultramar.) 



520 



Tornbador — (terreno) desigual, cheio de borracaes. 

lauçú — pedra furada presa a uma corda para servir de 
ancora ás canoas. 

Torém — instrumento e dansa popular. ^ 

Urú — bolsa de palha de palmeira buruty ou carna- 
huba. (id. ave). 

Varjota — vargem pequena. 
Vigário — homem astuto . 

Xingar — chamar nomes a alguém . 

Xingamento — descompostura de palavras. 

Xeripá — chalés com que os camponezes no Rio Grande 
cingem a cintura. 

Xenxem — cousa desprezível. Dava-se este nome a 
uma moeda hoje sem valor. 

Também são de notar as mudanças phonicas ; assim é 
que no Pará diz-se Labisonhosp. lobis -homem : gtTsl' 
mente em todo Brasil a gente illetrada diz Vosmecêp. vossa 
merçc ; pronunciam quarar por corar^ i. é, enxugar a 
a roupa ao sol depois de ensaboada qiiarador o logar 
grammado onde se estende a roupa a corar cadc p . que é 
de. 

Nada tem entre o povo mais denominações do que a 
aguardente : — é a bixa^ a teimosa^ a branca^ as sete virtudes., 
d. pilóia^ etc, por beber um trago de aguardente dizem 
— tomar um codôrio, matar o bicho. 

Vejamos agora alguns modos de dizer do povo : 

Levar taboca., ou de taboa, na cuia — não conseguir o 
intento ; não obter despacho favorável á pretenção . 



* Muitas são as danças populares no Brasil. Além das já mencionadas 
tomos o fado, o choradinho, a tyranna, o córta-jacca, o coco inchado, 
baião, o sorongo, o batuque, ojongo, catereté, etc. 

Muitos também são os nomes de arreios especiaes de que se servem no 
Rio Grande, S. Paulo e Minas (bastos, lombilhos, serigotes, etc.) cujas 
peças teem nomes também especiaes. 



521 

Tomar chá com alguém — mofar de . 

Subir a serra ) , 
^ lentiar. 

Dar cavaco > 

Ver -se em assado^ em apuros — achar-se em apertos. 

Homem ralado do mundo — experimentado. 

Ter UKS biquinhos — dividas de pouca morna. 

Andar de ponta com alguém — estar picado, estimu- 
lado. 

Entrosar — importunar ; querer parecer o que não é . 

batera bota, esiicar a canella — morrer. 

Crescer para cima de alguém — dirigir-se para alguém 
ameaçando-o. 

Estar de venta inchada — zangado . 

Querer ensebar alguém, embaçal-o — querer illudil-o . 

Dar as dedicas — empregar os meios convenientes 
( Ceará ) . 

No Ceará é expressão muito vulgar — para esse tanto, 
ex. : — ^'Não julgar que se fallasse n' esse tanto.'''' {d. QstQ 
respeito), uma razão para esse tanto, etc." 

Advertimos que estes modos de fallar são apenas 
ostensivos na conversação familiar, e alguns só na da 
plebe, e que nunca se encontram em nossos escriptores, a 
não ser, execusado era accrescentar, os que o uso sanc- 
cionou e são necessários, como sura, girdo, ordenança, 
etc. 

Outrosim, é muito de notar a tendência que tem o 
povo para dar a cousas ou profissões nomes que lhes não 
cabem, mas que todavia persistem, vendo-se a classe culta 
muitas vezes obrigada a sanccional-a : 

Belchior — adello. 

Maxambo??iba — antiga ferro-via urbana . 

barata — mulher pobre, que usa capona,'i. é capa 
ampla e longa que cobre também a cabeça. 

'Bispo — vehiculo publico, vicíoria pequena tirada por 
um animal. 

66 



523 



'\Bond — ferro-carril suburbano e urbano ; além de 
denominações de certas moléstias epidemicas, taes como : 
— lamperina, polka^ lanceivos^ etc. Quasi todas essas de- 
nominações, , porém, coincidem com um facto politico 
ou social que lhes deu origem. São neologismos históricos. 

Já dissemos — é o povo que representa as forças livres 
e espontâneas da humanidade. 



QUADRAGÉSIMA QUINTA LIÇÃO 

Alterações léxicas e syntacticas. — Archaismos 
e neologismos 

1 — Já vimos que as línguas transformam -se no correr 
dos tempos não só na phonologia, mas também no léxico 
e na syntaxe . 

Esta evolução já ficou claramente explicada. 

As alterações, pois, podem ser phonicas, léxicas e syn- 
tacticas . 

oAlteraçÕes phonicas. — Já as estudamos. 

Alterações léxicas. — Também já vimos nas liç5es pas- 
sadas ( 29, etc.) quaes ellas são, e quaes as suas causas. 

oAlteraçôes syntacticas. — O confronto dos exemplos 
com que quarteamos as lições 29, 33, 34 e 35 basta para 
fazer-nos sentir a differença de construcção nos diversos 
períodos de lingua. 

O optmw ò.e todos 

direi somente o em que pararam estas cousas. 

determinou ãe 

O Castello de Santarém aos Mouros o tolhy . 

estamos convicto ou convictos 

as cousas que elles WvihdiXa feitos , 

morrer á fome, de fome 

até á casa, até casa, até a casa 

começou fazer, de fazer, a fazer 

en cas sa madre, en cas de sa madre 

regadas tinha as flores ; regado tinha, etc. 

desde Março meado, desde o meado de Março 

2 — Para o desenvolvimento da lingua e para o seu 
continuo evolucionar, muito concorrem duas forças co- 
nhecidas pelos nomes de archaismos e neologismos . 



524 



3 — Archaismos. — São palavras que se perdem na 
solução de continuidade, mas cujo desapparecimento, como 
nos seres orgânicos, concorre para o desenvolvimento da 
linguagem. 

Acontece — diz Whitney — como nos seres organisados 
nos quaes a eliminação faz parte do desenvolvimento 
tanto quanto á assimilação. 

As causas da morte das palavras podem-se reduzir a 
quatro : 

1 Perda da idéa ou do objecto expresso pela palavra : 
— algaiil, escamei, behetria, biicellario .... 

2 A synonymia, o neologismo : — agro ( campo ), 
emprir ( encher ), lidimo ( legitimo ), piinçante ( pun- 
gente ), 

3.° — O uso, a ignorância dos escriptores, o pedan- 
tismo litterario : — pellkeiro, empegar, medicinar, sor- 
var, 

4.0 — O dar-se á palavra, por transferencia, sentido 
obsceno, ou ser considerada — por eífeito de idisyon- 
cracia mental — termo vulgar, chulo : — fider, tresandar, 
rabo, . . . 

Os archaismos podem ser : 

Próprios, isto é, termos inteiramente mortos, e sem 
esperança de resurreição, a não ser em does. históri- 
cos: — bayanca, cabiscol, soforar, julgajul, biilhom,. .. . 

qA. de sentido. — São palavras que, conservando a 
forma integral originaria, perderam certo e determinado 
sentido. Ex. — /acenda significando sentimento ou estado 
d^alma; mesura — generosidade, torto — injuria, damno, 
arraial, aguadeiro, caldeira, esmolar, tfianhas, .... 

Mesura seria, senhor, 
de vos amercear de mi. 

Cauc. Vant. 
Da minha senhor que eu servi 
sempre que mays c'ami amey, 
veed amigos que fort^cy. 

(Id). 



525 



A. Jlexionaes. — São as terminações verbaes ades^ 
edes^ odes (Sec. XIII, XIV), os participios em udo 
(Sec. XV), etc. 

qA. phonicos. — São innu meros — abtsso abysmo, 
boveda abobada, tredor traidor. 

qA. orthographtcos . — Constituem archaismos ortho- 
graphicos o emprego de om p. ão, de / ou // p. Ih 
{melor muller alleo\ de dous f iniciaes ou r médio 
{ffalsas oHvra)^ etc. 

qA. syntaxicos. — Destes são mais importantes o em- 
prego de certos verbos sem preposição : — começar dar 
testimunho, entrou casa de, casou a filha de ; do gerúndio 
precedido da prep. ew, equivalente a — no tempo em 
que: — em sendo abbadessa oujfe um Jilho (Liv. Linh.); 
certas inversões arrojadas, etc. 

4 . — Os neologismos são novos meios de exprimir o 
pensamento, e de enriquecer a lingua dando outrosim varias 
accepçÕes a cada uma das palavras. 

Formam-se da combinação dos próprios elementos, ou 
da importação grega, Jatina ou de qualquer outra lingua. 

Os 1**^ são intrínsecos^ os 2°^ — extrínsecos . D'estes 
assas nos temos occupado ; d'aquelles basta ler o que es- 
crevemos sobre os dous grandes processos de for- 
mação . 

Temos ainda o que chamaremos — neologismos por 
archaismos^ facto curioso no desenvolvimento das linguas, 
e que consiste no resurgir em época mais ou menos remota, 
de palavras condemnadas ao esquecimento. Entre as 128 
palavras citadas por D . Nunes como antiquadas, figuram 
— finado p. morto, saga:{^ atroar, atavio^ arrefecer^ 
algures ; nas apontadas por F. Freire acham-se arro- 
ladas — andrajo, adrede^ passamento^ sandice^ bipede, bipar- 
tido^ queixumes^ delonga^ derradeiro^ pristino^ voci- 
ferar^ longiquo^ etc. . . . 

Os neologismos vicejaram em todas as épocas da vida ; 



536 



mas a sua influencia mais se tornou manifesta no Sec. X, 
e accrescentada nos dous seguintes. 

No sec. XV a fonte principal dos neologismos extrinsecos 
era o latim, no XVI — o francez, nos seguintes — o hes- 
panhol, italiano e a influencia greco-latina. 

« O archaismo vale principalmente como tradição litte- 
raria, como correctivo ao neologismo, e, em summa, como 
material expressivo e representativo do espirito e da forma 
das composições antigas. » * 

As linguas estão sujeitas ás duas forças da conserpação 
e revolução, de que nos falia Darmstater ; o neologismo 
será um dia archaismo, disse Littré . 



* Lameira de Andrade — These de concurso. Vide mais F. Bai-reto, 
id. ; Pacheco Júnior — Gram. hist. 



QUADRAGÉSIMA SEXTA LIÇÃO 

Syntaxe e estylo 

I . — o estylo é « a feitura característica, que dá ao dizer 
de cada um o modo especial, porque elle concebe, ordena 
e exprime os seus pensamentos. » 

a Tudo o que se diz fallando ou escrevendo, consta de 
pensamemos, concebidos sob certas formas ou Jigiiras, 
expressadas por palavras^ ordenadas em phrases^ e estas 
distribuídas em clausulas, 

A syntaxe é, pois, o processo geral, e o estylo o pro- 
cesso indmdual . 

2. — A estylistica é a arte de bem escrever; para o 
escriptor, a palavra é um symbolo que se modifica á força 
inventiva da imaginação, transformando -se numa verda- 
deira suggestão de imagens. ^) 

E a perfeita comprehensão da natureza das palavras 
exige uma forma qualquer figurativa . ^) 

Este caracter extrema forçosamente a phraseologia dr- 
/wízca da phraseologia grammaiical \ Si t^xyXisúcoL da syn- 
taxe commum, sem todavia excluir as muitas modalidades 
de dependência a que estão sujeitos os dous processos . 

3. — Em geral, pôde -se affirmar, ha sempre connexão 
estreita e fatal entre as producções litterarias e a indolç 
especifica das línguas que lhes servem de instrumento . E' 
Sl conoXdiCdiO áo apparelho e ádi funcção. E"* força, pois. 



*) Taine — N. Essais de critique et d'histoire, 
*) Stricker Du langage et de la musique. 



528 



distinguir no estudo scientifico do estylo duas ordens de 
factores importantes : — a influencia do caracter e das 
normas tradicionaes da lingua, do meio sociológico sobre o 
escriptor, e da reacção por este exercida, tendente á pro- 
ducção de novos effeitos psychologicos, e á acquisiçao, para 
os seus trabalhos, do cunho de originalidade . No i° caso a 
estylistica é objectiva^ no 2° é subjectiva. 

3. — Em seu periodo embryonario (Sec. XII-XIV) a 
estylistica portugueza é sinceramente objectiva. A pobreza 
do léxico e o cunho vocabular uniforme pelos effeitos pho- 
neticos regionaes, a construcção da phrase simples indecisa 
na sua inversão, o agrupamento inconsciente do periodo, 
as formulas oflficiaes da diplomática e da agiologia., a 
tyrannia da métrica convencional, — além de outras causas 
talvez — , imprimiram nos escriptos d'essa época uma feição 
característica, singular, de homogeneidade total. E' rigo- 
rosamente uma litteratura anonyma, que, na prosa e na 
poesia — como se vê dos Cancioneiros e does . recolhidos 
por Fr. F. de S. Boaventura — , a psychologia geral 
daquelles tempos via-se tolhida pela tradição, que im- 
punha uma forma monotypica . 

4.—* Todavia, esses documentos deram resultados, que 
já por si constituem perfeição de estylo, e de que se apro- 
veitou a estylistica subjectiva. Foi o emprego de termos 
populares — que poupa a energia do leitor ou ouvinte, e o 
emprego de pouco crescido numero de vocábulos — que 
poupa o esforço mental. 

E' o que Spencer denomina — economia da attenção^ 
uma das modalidades do grande principio do minimo es- 
forço^ que, com a emphase., domina a maior parte dos factos 
da vida e evolução da linguagem. 

Menina e moça me levaram de casa de meu pai pêra longes terras: 
qual fosse então a causa d'aquella minha levada, era pequena não na 
soube . Agora não lhe ponho outra, senão parece havia de ser o que 
depois foi. 

(Bem. Rib.) 



D2Q 



Estavas, linda Ignez, posta em socego, 
de teus annos colhendo o doce fruito, 
Naquelle engano de alma ledo e cego 
Que a fortuna não deixa durar muito ; 
Nos saudosos campos do Mondego, 
De teus formosos olhos nunca enxuitos. 
Aos montes ensinando e ás hervinhas 
O nome, que no peito escripto tinhas 

(Camões.) 

5. — Outra vantagem é o emprego dos termos con- 
cretos de preferencia aos abstractos, e d^ahi também o 
emprego dos tropos * e onomatopéas, que — materialisando 
as cousas abstractas — facilita a sua immediata compre- 
hensão. Exemplos destes processos ofFerecem-nos ospro- 
loquios e annexins populares, cheios de vida e de energia. 

Tirar sardinha com a mão do gato. 
Não se pescam trutas a bragas enxutas. 
Miguel, Miguel, não tens abelhas e vendes mel. 

Já dizia Rodrigues Lobo {Corte na Aldeia) « ha meta- 
phoras e translações tão usadas e próprias, que pare- 
cem nascidas com a mesma lingua, que como adágios 
andam pegadas a ella. » 

6. — Outro elemento do estylo objectivo são as ono- 
matopéas, a principio directas, depois ostentando sem 
as palavras, só pela cadencia e som, a imagem que se 
pretende pintar. E as vozes onomatopaicas constituem 
grande riqueza da nossa lingua. 

O louvar com cymbalos bem retittintes ; o louvar com cymbalos 
de alegre resonattcia. Tudo quanto tem fôlego, louve ao Senhor. 

{P salmo 150-5-6) 

De terras e povos fazendo uma dansa vindo cantando com doce 
harmonia estas palavras de grande alegria, vivamos cantando com 
tanta bonança. 

(J. ^.— Clarim). 

Os vastos campos, c'o baque j longe j e roncos ribombaram. 

(F. "EX-y sio.— O ber.) 



V. Lição 6.» 

67 



53o 



Lhe embebe o ferro pela aberta boca 

Na hastea, que os fere, os dentes reiiniravi 

(Id. í?. Ptm.) 
Brama e rebrama em échos o estampido j 
Por âcas furnas j reboajites brenhas, 
Creras que cada tronco estala e escacha 

(Id.) 
A plúmbea pela mata, o brado espanta 
Ferido o mar retumba e assovia ' 

{Camões') 

escarcéos e escarceos, rebentam^ bramam j 
alvejam j troam : o intimo do abysmo 
sobe á flor, desce a espuma ao fundo inquieto 

(Id.) 

Jíue a raivosa rústica torrente 

(Bocage) 

Secca a terra apparece, nella é tudo 
Informe, e rude, e solitário, e mudo. 

(Macedo) 

Exemplo magnifico é este em que Camões descreve 
as cadenciadas e monótonas pancadas do pente e pedaes 
do tear : 

Quando em face ao tear rojaes cantando 
de cá láj de lá cáj por entre os fios 
do alvo ordume a lisa lançadeira, 
E dos pedaes ao compassado toque 
O p^te acode, e vos condensa o panno. 

7. — oAlliteração e assonancia — A alliteração é in- 
stinctiva e popular; delia encontramos exemplos nos 
primeiros does. da lingua. 

cheguei chegar 

(C. Vat.) 
disse-m'a mi meu amigo 

( Id.) 
são e salvo, feio e forte, berliques e berloques : 
Padre Santo san Gião 
Que ve7n e vae com os que vão 
(G. Vic.) 

E' mui frequente a alliteração dos nomes próprios nas 
canções antigas : — Martim Morxa^ Lopo Lecas, etc. 
(G.'Vat.). 



* V. Alliteração, id. 



53 1 



São exemplos de assonancia : 

a Sevilha el rey servir ( C. Vaf.) 

domar foíros porém poucos 
Não levantes lebre que outro leve 
Si não forej casto sê cauto 
Cesteiro que faz um cesto faz um cento 

8. — Elemento também objectivo do estylo é a ten- 
dência sempre crescente para a construcção analytica 
(Secs . XVIII - XIX), que nos poupa fadiga mental, mas 
nem sempre se presta aos effeitos estheticos. 

9 — Não nos demoraremos nas qualidades essenciaes 
das palavras, das phrases e clausulas . 

As palavras devem ser vernáculas, ter por fiadores os 
que bem escrevem e faliam a lingua, ser empregadas com 
propriedade^ clareia e conveniência ( relativamente á con- 
textura do assumpto — elevadas, familiares, communs 
plebéas ou chulas ) . 

São qualidades essenciaes das phrases e clausulas — a 
correcção, pure:{a, isto é, que na combinação das partes e 
arranjo geral sigam o génio da lingua ou uso dos melhores 
escriptores ^ \ clareia ( e para isso é mister, além de vocá- 
bulos nitidos e bem cabidos, claros, e syntaxe correcta — 
precisão^ ordem ^ , unidade ), emphase^ harmonia . 

Estudo necessário para que se forme o estylo é também, 
alem do vocabulário completo, e syntaxe correcta, a da sy- 
nonymia, e a leitura joeirada dos clássicos antigos e mo- 
dernos . 

10 — O estylo classifica-se, quanto ao desenvolvimento 
dos pensamentos e expressão, em — conciso, preciso, desen- 
volvido, prolixo. 

Quanto á qualidade e gráo de ornato, em simples, tem- 
perado e sublime . 



* V. Barbarismos. 

' Criteriosa transposição, boa collocação dos advérbios, de orações 
incidentes, complementos circumstanciaes « casos continuados. 



532 



O estylo simples subdivide -se em simples, natural (que 
á simplicidade da expressão, junta a dos pensamentos), 
familiar. E' o estylo preferido nos livros didácticos, de 
narrativas vulgares, etc... 

Estylo simples. — E' doutrina certa entre os antigos grammaticos 
e rhetoricGS, assim gregos como latinos, que a principalissima quali- 
dade, que deve ter qualquer escriptor, é a pureza da linguagem em 
que escreve. Sem propriedade no fallar perde muito qualquer obra 
litteraria d'aquelle solido merecimento, que depende não do juizo do 
povo ignorante, mas da sentença da critica judiciosa. Esta propriedade 
consiste em usar d'aquelles vocábulos, d'aquellas phrases e idiotismos, 
que constituem o distinctivo e indole legitima do idioma em que se 
escreve, 

( J. Freire — Reflexões .sobre a lingim poríugueza . ) 

Estylo natural — Quando ás vezes ponho diante dos olhos os 
muitos e grandes trabalhos e infortúnios, que por mim passaram, co- 
meçados no principio da minha primeira idade, e continuados pela 
maior parte e melhor tempo da minha vida ; acho que com muita 
razão me posso queixar da ventura, que parece que tomou por p?rti- 
cular tenção e empreza sua, perseguir-me e maltratar-me, como se 
isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e gloria ; porque 
vejo que nãó contente de me pôr na minha pátria, logo no começo da 
minha mocidade, em tal estado que n'elle vivi sempre em misérias e 
em pobreza, e não sem alguns sobresaltcs e perigos de vida, me quiz 
também levar ás partes da índia, onde em lugar de remédio que eu ia 
buscar a ellas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os 
perigos . 

( Fernão Mendes Pinto — Peregrinação .) 

A naturalidade não pôde vir desacompanhada de ta- 
lento, de imaginação, e grande sensibilidade. Si assim 
não for cahe na puerilidade e chateza . 

Estylo familiar.— Ha outros ( proseguiu Leonardo ) que nem com 
isso se contentam -, e andam buscando palavras mui exquisitas, que 
por termos mui escuros significam o que querem dizer. Como um 
que se queixava da sua dama, que, de ciosa, andava^ inquirindo os es- 
crutitiios do seu pensamento . E outro a um barbeiro disse, que lhe 
rubricara a parede com a sangria. 

( F. R. LOBO — Corte na Aldéa.) 

O género temperado divide-se em estylo apurado., 
elegante., espirituoso . 

O estylo apurado mais se eleva pela propriedade e bom 
cunho das palavras, pela sua correcta e elegante collocação, 
do que pelo excesso de colorido, de ornatos, etc . 



533 



De muitos Santos lemos, que o começaram a ser ainda no berço. 
Assim madrugou neste menino a inclinação ás cousas da Religião e 
da Igreja. Inda não tinha idade para entender e discernir, já assistia 
a uma missa com tanto siso, e com tanta quietação, que dava que 
fallar aos que o viam, mostrando na applicação, que não ignorava de 
todo o que alli via e ouvia. 

{Sovzh — V. do Arco.) 

O estylo elegante é o que mais apresenta a phrase ren- 
dilhada, colorida, o período boleado, harmónico, etc. 
Quando o assumpto não comporta o peso dos ornatos, por 
muito ricos para o caso, ou muito multiplicados, o estylo 
degenera, e longe de ser belleza é um defeito. 

A aurora é o riso do céo, a alegria dos campos, a respiração das 
flores, a harmonia das aves, a vida e alento do mundo. Começa a 
sahir e a crescer o sol, eis o gesto do mundo e a composição da 
mesma natureza toda mudada ; o céo accende-se ; os campos sec- 
cam-se ; as flores murcham-se ; as aves emmudecem; os animaes 
buscam as covas; os homens as sombras. E se Deus não cortara a 
carreira ao sol, fervera e abrazára-se a terra, arderam as plantas, sec- 
caram-se os rios, sumiram-se as fontes ; e foram verdadeiros e não fa- 
bulosos os incêndios de Phaetonte. 

(Vieira— i, 251). 

O estylo espirituoso (faceto, etc. ^), em que o escriptor 
deve sempre conservar delicadeza e finura do senti- 
mento, para que o sal attico não degenere em sal de co- 
zinha . 

Fossem lá á rainha Anna que deixasse entrar no seu gabinete 
quatro calças de couro sem creação nem instrucção, e não mais senão 
só porque este sabia jogar nos fundos, aquelle tinha boas tretas para 
o canvassing (manejo) de umas eleições, o outro era figura impor- 
tante no Frecmasson^ s-hall ! (loja maçónica). 

Já se vê que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz sys- 
tema que nos rege : estou fallando de modéstia, e nós vivemos em 
Portugal. 

(Garret — Viagens na minha terra.) 

O estylo temperado é o estylo próprio do senti- 
mento, é o mais empregado em poesia, historia, ro- 
mance . • 



* Os antigos diziam faceto, jocoso, etc; com a morte da velha chalaça 
portiigiieza — introduziu -sô o csptViío, e mais moderadamente o humoure 
o estylo humor istico, etc. 



534 



O enérgico. Exige talento, gosto, e estudo, porque 
muito depende do bom cabimento do termo, que vá im- 
mediatamente gravar a idéa no pensamento . E para isso 
são também precisos o jogo delicado das antitheses, e a 
concisão, a graciosa e emphatica brevidade . 

Eu vos mando, filho, com esse soccorro a Diu, que pelos avisos 
que tenho, hoje estará cercado de multidão de Turcos ; pelo que toca 
a vossa pessoa, não fico com cuidado, porque por cada pedra daquella 
fortaleza arriscarei um filho. Encommendo-vos que tenhaes lem- 
branças daquellesj de quem vindes, que para a linhagem são vossos 
avós, e para as obras são vossos exemplos ; fazei por merecer o appel- 
lido que herdastes, acordando-vos que o nascimento em todos é igual, 
as obras fazem os homens differentes ; e lembro -vos que o que vier 
mais honrado, esse será meu filho. Esta é a bençam que nos deixaram 
nossos maiores ; morrer gloriosamente pela lei, pelo rei, e pela pátria. 
Eu vos ponho no caminho da honra ; em vós está agora oganhal-a. 

(J. Freire — Vida de D. João de Castro.) 

O vehemente — é o irrumpir de um vulcão, cujas ma- 
térias incandescentes recalcara por tempo dilatado . Mil 
idéas atravessam ao mesmo tempo o cérebro do orador, 
dominam-lhe o sentimento, — a paixão, a ira, etc; e d'ahi 
essas phrases ^desligadas, o apostrophe, a interrogação e 
exclamação, a prosopopéa, a repetição, a ellipse, a meta- 
phora, etc. . . 

Crescerá com a nossa paciência o seu atrevimento. Depois de com- 
mettido o maior delicto, qual não terão por leve ? Quem duvidará ser 
oífensor onde se não vingam injurias? Acabemos pois de despertar 
d'este mortal Icthargo ; mettamos até aos cotovellos os braços no 
sangue d'estes cruéis tyrannos ; n'este veneno banhemos os alfanges ; 
porque percam com as vidas a gloria de tão grandes insultos. 

(J. Friere — Vida de D. João de Castro.) 

No estylo magnifico ou sublime a pompa das imagens, 
a louçania das palavras, a elevação dos pensamentos, a 
pujança das figuras em criterioso dominio, a harmonia do 
tecido da phrase e da contextura do periodo, eis o que 
constitue este estylo, de que é excellente exemplo o trecho 
de Herculano citado a pgs. 495 . 

1 1 — ff Todas estas classificações são boas debaixo do 
ponto de vista a que olham ; mas insufficientes para cara- 



535 



cterisar todos os est3los. Dous ou mais escriptores 
escrevem, por exemplo, em estylo simples e conciso, e 
todavia náo deixa cada um d'elles de ter um estylo tão 
individual como a sua physionomia. Serão simples e 
concisos ; mas um será obscuro, outro claro ; um profundo 
outro superficial ; um original, outro vulgar, etc. Assim 
designar o estylo de cada um delles pelas qualificações de 
simples e conciso não é caracterisar-lhes o estylo ; porque 
não é indicar a feição característica, que distingue esse 
escriptor d^outro também simples e conciso.» 

12 — Os estylos litterarios são pois muitos ; mas no 
portuguez [podemos perfeitamente distinguir três cate- 
gorias que bem espelham as transições . 

1°. — O estylo c/íi55/co, creado no sec. XVI artificial- 
mente pela cultura latina . 

2°. — O est\lo gongorico, caracterisado pelas túrgidas 
metaphoras, empolado da phrase, antitheses desvairadas, 
hyperboles disparatadas, pelo fraldoso arrastar da 
phrase, etc. . . 

« Não o nascer se não o nascer sabiamente, é o que faz viver 
para todos: a sabedoria do nascimento dá universalidade á vida, bem é 
universal o que é sciente, que as sciencias tratão de universaes, e quem 
nasce entre sábios, por isso mesmo nasce sabiamente. » 

« Affonso e Beatriz gerão em Pedro sua imagem, e semelhança, 
Pedro o é de seus pais; este foi ditoso em que teve pais, de que 
mereceu ser filho, aquelles em ter um filho, de que mereceram ser 
pais : de um, e outro é a felicidade, e a sorte, dos pais, porque se 
representam em tão bom filho, do filho, porque é imagem de seus pais.i» 

(Fr. H. de Nofbnha Exemplar 
Poético) 1623. 

Donde começarei ? Briareu eburno 
De cem braços de plectros, de um custodio 
Virrei te doto ; abre em Dorio turno 
As pestanas, vê o Sol deste episodio ; 
Vossa Excellencia é o Sol ; pelo coturno 
O abração tantos braços : eu neste ódio 
Rasgo para cantar, e as cordas plenas 
Dizendo vão Menezes, e Mecenas. 

F. j. da Costa ( O Imeneu dos 
Metienei e CdStrõ ) 1740. 



536 



3. — O estylo contemporâneo, que influenciado pela 
escola romântica, afastou -se do clássico no arrevesado da 
phrase, nos periodos estirados, nas inversões á latina, etc. 
Esta escola foi iniciada em Portugal por A. Herculano, 
Garrett, Castilhos, Rebello da Silva, Latino Coelho, 
Mendes Leal, Castello Branco, ... e tem produzido em 
prosa e verso uma serie de escriptores de mui subido 
mérito . 

Entre nós são escriptores correctíssimos J. M. Velho da 
Silva, Carlos de Laet, Aureliano Pimentel, B. de Parana- 
piacaba. Machado de Assis, Luiz de Castro, Muniz Barreto, 
José Banifacio, Bellegarde, 

i3 — A estylistica teve pois a sua evolução. 

No fim do Sec. XIV é que apparece pela primeira vez um exemplo 
concreto, na rude descripção da batalha do Salado ; no XVI Sá de 
Miranda influencia no meio objectivo pela cópia de seus dizeres 
populares, ao passo que, ao envez, o objectivo influe em A. Ferreira pela 
tradição da autoridade clássica. 

No declinar desse século começa a prosa abstracta ; mas o estylo 
affectado e campanudo dos seiscentistas afeia os escriptos. 

No Sec. XVII nota-se a influencia hespanhola, do que nos dá 
prova sobeja o estylo de Rod. Lobo, sem individualidade, todo de con- 
venção. D. Francisco M. de Mello subordina a sua individualidade 
ao que elle chama re suscitar o grave estylo de nossos antepassados ; 
Fr. Luiz de Souza e Freire de Andrade escrevem adstrictos a umarhe- 
torica convencional : Bocage dá ao estylo mais harmonia pela conti- 
fiuidade dos epithetos regularmente repetidos — diz o Sr. Th. Braga-^ ; 
Filinto Elysio— é o grande artista das riquezas da construcção por- 
tugueza. 

t a velha querela de purismo 

« e peregrinismo phraseologico deixa de ter razão de ser e 
« se resolve numa verdadeira logomachia, que só apraz 
« intelligencias ociosas e vasias de doutrina . 

« Que um escriptor originalcontemporaneo, influenciado 
« por um meio physico social particular, deva vasar seus 
« pensamentos e suas emoções conforme os modelos de um 
« convencionalismo clássico e de certa bitola académica 
€ (sempre apoiada na rotina da imitação, e procurando 
« mais o figurativo do que o expressivo), isto, aftirmamol-o, 



I 



Doy 



« é uma exigência que só pôde partir de uma critica er- 
« ronea ou apaixonada. 

« Neste caso estão os frequentes reparos que os críticos 
« de Portugal fazem de certas differenciações do fallar e 
« escrever brazileiro, onde o que mais se lamenta é a 
« nossa indocilidade para com < a tyrannia de Lobato » . 

« Mas é claro que, por exemplo, José de Alencar não 
« poderia, sem máximo ridículo, escrever a sua bellissima 
« Iracema na. feição pesada e grossa do quinhentismo clas- 
« sico, que tão de perto trescala ao fragmento da Capa e 
« á canção de Guesto oAnsures. 

« As pequenas modificações synthaxicas (que outras não 
< são), com que variamos e originalisamos a lingua de 
« nossos maiores, tem em seu favor, além das causas na- 
t turaes que a sciencia descobre e aponta, a vantagem de 
« uma suavidade maior em vários sentidos. » *■ 

E' pelo estylo — diz Taine — que se julga um autor: o 
estylo representa o que no homem ha de verdadeiro e 
predominante . 



* L. de Andrade — These de concurso. 



6K 



índice 



PAGS. 

I* lição. — Observações geraes sobre o que se entende por 
grammatica geral, por grammatica histórica ou comparativa e 
por grammatica dcscriptiva ou expositiva. 

Objecto da grammatica portugueza e divisão do seu estudo. 
Phonologia : os sons e as lettras ; classificação dos sons e das 
lettras; vogaes ; grupos vocálicos ; consoantes ; grupos consonan- 
taes ; syllaba ; grupos syllabicos ; vocábulo ; notações léxicas. . . 5 

2* lição. — Da accentuação e da quantidade 17 

y- lição. — Origem das lettras portuguczas ; leis que pre- 
sidem á permuta das lettras ; importância destas transformações 
phonicas no processo de derivação das palavras 27 

4* lição . — Dos metaplasmos 44 

5* lição. — Dos systemas de ortographia e das causas de 
sua irregularidade 52 

6* /zfã^.— Morphologia : estructura da palavra: raiz; 
thema ; terminação ; afiflxos. Do sentido das palavras deduzido 
dos elementos morphicos que as constituem ; desenvolvimento 
de sentidos novos nas palavras 57 

7^ lição. — Da classificação das palavras. Do substantivo e 
suas espécies 76 

8* lição. — Da classificação das palavras. Do adjectivo e 
suas espécies 86 

9* l/ção. — Classificação das palavras. Do pronome e suas 
espécies 91 

10* lição. — Classificação das palavras. Do verbo e suas 
espécies 95 

II» lição. — Classificação das palavras. Das palavras inva- 
riáveis 106 



pags. 

12^ lição. — Agrupamento de palavras por família e por 
associação de idéas. Dos synonymos, hoironymos e paronymos. 121 

i3» lição. — Fkxão dos nomes: género; numero; caso. 
Moções de declinação latina. Desapparecimento do neutro latino 
em portuguez ; vestígios do neutro em portuguez ; vestígios da 
declinação em portuguez. Origem do s do plural 141 

14* lição. — Flexão dos nomes : grão do substantivo e do 
adjectivo ; comparativos e superlativos syntheticos ; comparativos 
e superlativos analyticos 181 

15a lição. — Flexão dos nomes ; flexão do pronome; decli- 
nação dos pronomes pessoaes 199 

16* lição. — Flexão dos verbos : conjugação ; formas de 
conjugação 210 

17.^ Lição. — Formação das palavras em geral : composição 
por prefixos e por juxtaposição. Estudo dos prefixos 249 

18.* Lição. — Formação das palavras em geral: derivação 
própria (por suffixos); derivação imprópria (sem suffixos). 
Estudo dos suffixes 281 

19.* Lição.— Das paiavras variáveis formadas no próprio 
seio da língua portugueza 3o9 

20.* Lição. — Das palavras invariáveis formadas no próprio 
seio da língua portugueza 3i2 

21.* Lição. — Etymología portugueza; princípios em que 
se baseia a etymología. Leis que presidiram á formação do 
léxico portnguez 3i5 

22.* Lição. — Da constituição do léxico portuguez. Línguas 
que maior contingente offereceram ao vocabulário portuguez. . . 32 1 

23.* Lição. — Caracter differencial entre os vocabulários de 
origem popular e os de formação erudita ; duplas ou formas 
divergentes • ' t . . . 336 

24.* Lição. — Da creação de palavra novas. Hybrídismo. . . 348 

25.* Lição. — Etymología do substantivo e do adjectivo. 
Influencia dos casos na etymología dos nomes 355 

26.* Lição. ^ Etymología do artigo e do pronome 371 

27.* ZíVãí».^ Etymología das formas verbaes ; comparação 
da conjugação laúna com a portugueza 38$ 

28.* lição. — Etymología das palavras. 397 



PAGS. 

29.* lição.— Da syntaxe em geral. Breves noções sobre a 
estructura oracinal do latim pxjpular e do latim culto. Typos 
syntaxicos divergentes na lingua portugueza 415 

3o.* /z^rtí?.— Syntaxe da proposição simples. Espécies de 
proposição simples quanto á forma e á significação. Dos mem- 
bros da proposição simples • 420 . 

3i.* lição''-' Syntaxe da proposição composta ou do periodo 
composto. Coordenação. Subordinação. Classificação das pro- 
posições 422 

32.* lição. — Regras de syntaxe relativas a cada um dos 
termos ou membros da proposição 425 

33.* lição. — Regras de syntaxe relativas ao substantivo e 
ao adjectivo 43o 

34* lição. — Regras da syntaxe relativas ao pronome. ..... 443 

35* lição.— ' Regras de syntaxe relativas ao verbo. Do em- 
prego dos modos e tempos. Corrrespondencia dos tempos dos 
verbos nas proposições coordenadas e nas proposições subor- 
dinadas 449 

36* lição.'— Regras de syntaxe relativas ás formas nominaes 
do verbo 461 

37* lição. — Regras de syntaxe relativas ás palavras inva- 
variaveis 

38* lição. — Syntaxe do verbo haver e do pronome se 468 

39* lição. — Da construcção : ordem das palavras na pro- 
posição simples e das proposições simples no periodo composto. . , 481 

40* lição. — Da collocação dos pronomes pessoaes 483 

41* lição. — Das notações syntaxicas : pontuação ; emprego 
de lettras maiúsculas 491 

42* lição . — Figuras de syntaxe. Partículas de realce 494 

43* lição.— Dos vxios de linguagem 498 

44* lição . — Das anomalias grammaticaes ; idiotismos ; pro- 
vincialismos ; brazileirismos ; dialecto 5o3 

45* lição. — Das alterações léxicas e syntaxicas ; archaismo 
c neologismo 5^-^ 

46* lição. — A syntaxe e o estylo 527 



CORRIGENDA 



Pags. 

4 — linha 4^ — em vez de sentido lêa-se estudo. 
7 — 16 e 17 — lexycolojria — lexicologia. 

II— 3o a 32 — lêa-se... (que comprehende as cordas vocaes)^ as 
fossas nasaes, e finalmente a boca (lingua, lábios, 
dentes) . 
15 — 9 — tachygrapho — iachygraphico. 

24 — 6 — exetnolo — exemplo. 

26— 7 — herametros — hexametros . 

59L. 15 — cm vez de amar, porem j é o tJieina especial, 

lêa-se AMAV. ... 
62 » 15 — spect,\^z.-?,ç. spec . 

64 » 18 — ãs abstractos, loa-se aos abstractos. 

64 » 28 — meto Jty mico j \èa.-se metonymia. 

64 » 28 — metale/rCj lêa-se tnetalepse. 

66 » 18 — estabelecidos yiio Rio de Janeiro, — estabelecidos no 

Rio de Janeiro. 
68 » 18 — alugc^, lêa-se alugava. 

127 » 9 — sana t Sé j lèa-se Santa Se' . 

185 25 entilha lentilha 

— 27 colo colo 
188 36 invenior iuvenior 

2o3 8 idoisincracia idiosyncracia 

209 4 só conservou não conservou 

— 7 evitar evitarem 
216 23 faredcs f acedes 



PAas. 




217 


5 


— 


10 


218 


5 


— 


9 


219 


10 


226 


21 


23o 


I 



daces daaes 

ão, om on aõ=om, on 
2* p. do plural 2^» p. dosing. e plural 

o õ 

tra-rei trar-ei 

edudita erudita 

desvivação desviação 

Mais — Nas pags. 214 e 215 (tabeliã das flexões verbaes), 4' 
observação, lêa-se têm-x em vez de íem-ti . Na etymologia explica-se 
esta formação 'í^o perfeito j 2* conj. 2* pess. sing.— oUj Cpor an)^ u, 
u em vez de ou, eUj iu. No prés. do Ind. 3* conj. 2» pess. plural a 
flexão c is também ; mais o i da fllexão fundiu-se com o do radical, 
dando em resultado tornar-se tónica a syllaba final ( partis=parti-\%). 
Na 6* observação em vez de — os da 3* mudam o i? em í — lêa-se — o 
i em e; mudança que teve por fim diíFerenciar graphicamente as 
pessoas do Imperativo (parte parti) 

Na pag. 245 supprimam-se as linhas 19 a 23, por excusadas. 



n 



BINDING SECT. FEB 2 3 1968 



PC Pacheco da Silva, Manuel 

5067 Noções de grainroatica 

P3 portugueza 



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