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Full text of "Noticia de alguns pintores portuguezes e de outros que, sendo estrangeiros, exerceram a sua arte em resentada á Academia das sciencias Lisboa"

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EXERCERAM A SUA ARTE EM PORTUGAL 



MEMORIA APRESENTADA A ACADEMIA REAL DAS SCIENC1AS DE LISBOA 



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SOUSA VITERBO 

SEU SÓCIO CORRESPONDENTE 



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LISBOA 
Typographia da Academia Real das Sciencias 
1903 • 



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NOTICIA 



DE 



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OUTROS QUE, SENDO ESTRANGEIROS, 



EXERCERAM A SUA ARTE EM PORTUGAL 



Extracto da Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 
nov. ser., Classe de Sciencias Moraes, etc. 



TOMO X PARTP. I 



NOTICIA 



DE 




OUTROS QDE, SENDO ESTRANGEIROS, 



EXERCERAM A SUA ARTE EM PORTUGAL 



MEMORIA APRESENTADA Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS OE LISBOA 



POE 

SOUSA VITERBO 

SEU SÓCIO CORRESPONDENTE 



LISBOA 

Typographia da Academia Real das Sciencias 

1903 




tf 01 



IJNTRODUCÇAO 



Assim como não ha individuo que não revele mais ou menos a sua 
predisposição especial, assim não ha povo ou raça que não lenha uma fei- 
ção característica a designar-lhe o papel que lhe incumbe desempenhar 
no drama da historia. Ainda mais. Assim como ha intelligencias privile- 
giadas, talentos encyclopedicos, capacidades para bem dizer universaes, 
que abrangem toda a esphera dos conhecimentos humanos, assim também 
existem nações que concentram, n'uma dada epocha, toda a pujança ce- 
rebral da humanidade. A Grécia é o mais brilhante e irrefutável exemplo 
a comprovar a these. Nenhum povo executou tão magistralmente, como 
o povo hellenico, a marcha symphonica da civilisação. Nenhum, como elle, 
encarnou tão harmoniosamente, n'um gracioso conjuncto physico e mo- 
ral, a soberana figura do Progresso. No seu corpo viril de athleta, mus- 
culoso como o de Hercules, esbelto como o de Apollo, esbatem-se os re- 
flexos de uma alma poética, aureolada pelos esplendores da mocidade 
eterna. E a estatua colossal de um gladiador coroada por uma cabeça di- 
vina, modelada por Phidias, e em que respira, como na de Minerva, a sa- 
bedoria. A columnada do Parthenon dir-se-hia o marmóreo esqueleto do 
gigante, que legou á posteridade os inexgotaveis thesouros da sua vasta 
intelligencia e do seu finíssimo sentimento esthetico. 

Janeiro, 1903. x 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Nenhum povo, por mais liberalmente que seja dotado pela natureza, 
por mais vigorosa que seja a sua potencia mental, por mais exuberante 
que seja a fecundidade do seu génio, poderá ficar reduzido aos seus pró- 
prios recursos, pois a breve trecho lhe teria seccado a fonte da inspira- 
ção e paralysado nas veias a seiva da originalidade. Ai! d'aquelle que, 
possuído do Deus intus, sentindo estalejar no seu espirito a sarça ardente, 
cheio de confiança na sua vis creadora, se recolhe na sua torre ebúrnea, 
alheado de tudo que o rodeia, imaginando que fica isento de qualquer 
influencia extranha e que assim pode tirar da sua mente geradora qual- 
quer coisa de extraordinário e de descommunall Innegavelmente, ha ta- 
lentos de tal ordem excepcionaes que sobreexcedem e vão muito além 
dos seus contemporâneos, mas para que a sua obra se pudesse conside- 
rar fructo exclusivo e único do seu saber seria necessário que elles fi- 
zessem tábua raza de todo o existente. Esta abstracção tão absoluta e 
completa como e quem a poderia realizar? Benevenuto Gellini, o maravi- 
lhoso cinzelador, uma das mais bellas flores artísticas da opulenta gri- 
nalda do Renascimento, se o fizessem regressar, milhares de séculos, aos 
tempos prehistoricos, possuiria sem duvida as mesmas faculdades geniaes, 
mas em gérmen, e limitar-se-hia a entalhar a imagem da renna ou do ele- 
phante primigeneo n'algum cabo de marfim. 

A civilisação grega, que tanto nos maravilha, não foi resultado de 
uma geração espontânea, mas sim o producto de successivas estratifica- 
ções intellectuaes, que se foram depositando e acumulando, mais ou me- 
nos evolutivamente, num longo periodo de séculos. A civilisação helle- 
nica é um grande e formosíssimo estuário, onde vieram desaguar rios das 
mais remotas paragens, entre os quaes avulta o mysterioso Nilo, sobre cuja 
superfície sobrenadou o berço redemptor de Moysés e se reflectiu a obra 
colossal dos Pharaós. Cada nação ou cada raça não é mais que a depo- 
sitaria do cofre que outras, extincta a sua actividade histórica, lhes lega- 
ram, e cujas preciosidades ora se limitam a conservar, ora augmentam e 
depuram de qualquer imperfeição primitiva. Succede com a civilisação o 
que succede com a sciencia, em cujo grémio se contam os eruditos e os 
sábios. Os primeiros são os receptadores dos conhecimentos adquiridos; 
servem apenas para os manter e propagar; são uma espécie de biblio- 



INTRODC;OÇAfí 111 

thecas vivas ou de plionographos. Os segundos são os innovadores; os 
que impulsionam a sciencia e a enriquecem com factos novos, alargando 
o seu horizonte. A Grécia coube por excellencia este honrosissimo papel. 

Ninguém melhor do que á Itália podia a Grécia confiar a continui- 
dade da sua missão sublime e ninguém mais apropriada do que a gentil 
filha do Lacio para religiosamente cumprir esse mandato. Athenas e Roma 
são os marcos milliarios que mais brilhantes se destacam na estrada do 
progresso. Apesar de possuir na Etruria um poderoso foco de inspiração 
nativa, a Itália foi retemperar o seu organismo nas fontes da civilisação 
hellenica, a quem tomou por modelo, reconhecendo, sem se sentir humi- 
lhada, a sua superioridade artística. Por duas vezes a Itália, em dois pe- 
ríodos bem distantes e bem diversos, transmittiu ao Occidente as tradi- 
ções recebidas da estirpe nobilíssima dos Homeros e dos Aristóteles. Em- 
bora os resplendores do Renascimento já tenham obscurecido de ha muito, 
a Itália ainda é hoje a Terra Santa da arte, onde os peregrinos do Bello 
vão todos os annos admirar as soberbas relíquias da antiguidade e as 
primorosas obras dos grandes mestres que illustraram as cortes dos Me- 
díeis e de Leão X. Na contemplação de tantas maravilhas, no deslumbra- 
mento dos quadros vivificados pelos mágicos pincéis de Raphael e de Ti- 
ciano, ninguém diria, á primeira vista,, que tamanha pujança creadora, que 
tanta força de originalidade, fossem impulsionadas por qualquer motor es- 
tranho; mas, passado o allucinan;enlo, o critico e o historiador da arte não 
podem deixar de confessar que entre as escolas germânicas e as escolas ita- 
lianas houve uma transfusão benéfica, que não fica mal a nenhuma del- 
ias reconhecer, posto que seja difficil extremar qual das duas partes exer- 
cesse sobre a outra a sua maior esphera de acção. 

Seria porventura lisonja afiançar que a Hespanha, sob o ponto de 
vista esthetico, é uma nação tão privilegiada como a Itália, mas não se lhe 
pode negar um profundo sentimento artístico. A escola hespanhola de pin- 
tura tem nomes gloriosos que competem vantajosamente com os mais afa- 
mados de Iodas as epochas e de todos os paizes, e Murillo e Velazquez 
não se apoucam, enfileirando-se na phalange dos Dúrer, dos Rembrandt, 
dos Teniers, dos Buonarroti e dos Rubens. A exuberância da escola hes- 
panhola explica-se não só pela propensão dos seus naturaes, mas por ou- 



IV NOTICIA DE ALGUNS PINTORKS 

tras causas, politicas, históricas e geographicas. Exercendo incontestável 
supremacia na Europa durante o século xvi, vangloriosa dos seus trium- 
phos militares, em contacto directo com as nações mais cultas, seria ne- 
cessário que a Hespanha tivesse a mais completa negação para as coi- 
sas que fazem a alegria do espirito, se se mostrasse insensível a todas as 
producções estheticas e se se não deixasse aquecer pelo fogo sagrado. Na 
Itália, na Allemanha, na Hollanda, nas Flandres, e ainda na França, ella 
teve muito com quem aprender e muito que estudar, e effectivamente ella 
não despresou o ensino e as lições, antes tirou de tudo o mais efficaz pro- 
veito. 

Em Portugal as mesmas circumstancias se repetem, já não direi ab- 
solutamente eguaes e com a mesma intensidade, mas muito idênticas, pelo 
menos. Não exercemos um papel histórico semelhante ao da Hespanha, não 
estivemos em contacto directo, por meio das armas e pela acção politica, 
com os grandes centros de civilisação europeia, mas frequentámol-os com 
assiduidade por meio das nossas relações mercantis e diplomáticas. Por- 
tugal, convertida Lisboa no bazar do mundo, attrahia, já pelo interesse, 
já pela curiosidade, muitos habitantes das diversas regiões da Europa, e 
por isso tanto abundaram entre nós, sobretudo no século xvi, os elemen- 
tos estranhos, uns instigados por si próprios, outros a chamamento dos 
monarchas portuguezes. Artistas e artifices de todos os géneros aqui vie- 
ram exercer a sua variada aptidão, concorrendo para affirmar o fausto da 
corte e a grandeza da nossa actividade histórica. Instinctivamente, por in- 
fluxo do clima, no convívio intimo dos nossos navegadores, ouvindo d'el- 
les as narrativas das suas viagens e as descripções dos paizes novos, res- 
pirando com elles a atmosphera da aventura e do maravilhoso, entraram 
assim na corrente da nossa nacionalidade, imprimindo nas suas obras um 
cunho original, resultante da fusão das mais variadas idéas e sentimen- 
tos. Boytac, João e Diogo de Castilho, mestre Nicolau, João de Ruão, sou- 
beram amoldar-se ás circumstancias e traduziram, nos monumentos que 
levantaram, o ideal de um povo convulsionado pelo espirito da novidade. 
A celebrada janella de Thomar é uma allucinação architectonica, uma 
d'estas creações phantasticas como as que surgem, do meio do oceano, aos 
olhos dos marinheiros videntes. Assim se explica como se poude formar 



INTRODUCÇAO V 

com a collaboração estranha o chamado estylo manuelino, que pode susce- 
plibilisar os clássicos e os rigoristas da arte, mas que surprehende pelo 
capricho das suas linhas e pela exuberância da sua ornamentação. 

O phenomeno, que se deu nos monumentos architectonicos, genera- 
lizou -se á pintura. No mesmo cadinho, aquecidos á mesma labareda, se 
fundiram e caldearam os processos e as individualidades provenientes do 
estrangeiro, dando origem a uma escola nacional, onde se pretende vêr, 
ora a influencia flamenga, ora a influencia italiana. A primeira, sem du- 
vida, é a mais preponderante, sobretudo no século xv até ao primeiro 
quartel do século xvi. As Flandres, com quem estávamos em intima con- 
vivência mercantil, exerciam então sobre nós um predomínio egual ao que 
exerce actualmente a França. Sabe-se de alguns pintores portuguezes que 
iam estudar a Antuérpia e a Bruges, como vão hoje estudar a Paris. E for- 
çoso todavia reconhecer que a Itália também era muito frequentada pelos 
nossos compatriotas, em cujas universidades se iam aprimorar no estudo 
do direito e de medicina. Marinheiros e cosmographos italianos vieram 
tomar parte na nossa faina marítima. Professores, como Calaldo Siculo e 
outros, ensinaram os nossos príncipes. Com relação ás bellas artes, o mo- 
vimento não foi menos escasso. Na Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, 
levado na bagagem da família real portugueza, existe um Breviário, rica- 
mente miniaturado, muito provavelmente em Roma, por Spinello Spinelli, 
por encommenda do Rev. mo Padre Joaquim de Sá, embaixador de D. Fer- 
nando I, rei de Portugal. 1 Na corte de D. João I encontrei noticia de um 
pintor, mestre António, florentino. A celebrada Bíblia de Belém, doada 
por L). Manuel ao convento de S. Jeronymo, primorosamente calligra- 
phada e miniaturada em Florença, nos fins do século xv, foi obra man- 
dada executar pela corte portugueza ou para lhe ser offerecida. No tempo 
de D. João III apparece em Lisboa um pintor saboyano, grande restaura- 
dor de quadros. De Nuno Gonçalves, que viveu no tempo de D. Affonso V, 
diz Francisco de Hollanda que elle imitara nas suas obras os bons pro- 
fessores de Itália, embora não tivesse lá ido estudar. Esta circumstancia 
demonstra que havia entre nós, n'aquella epocha, bons e numerosos mo- 
delos da escola italiana. 



1 Catalogo da Exposição Permanente dos Cimeliot, pag. 476 e seg. 



VI NOTiriA DE ALGUNS PINTORES 

Taborda, no artigo referente a Fernão Gomes 1.° (pag. 16G), informa 
que tanto este como Gaspar Dias, Francisco Venegas e Manuel Campello, 
aos quaes o douto Cenáculo, arcebispo de Évora, accrescenta Diogo Rei- 
noso, haviam sido mandados estudar a Itália por D. Manuel. Não produz, 
porém, nenhum facto ou documento a tornar valida esta asserção. Sabe-se 
além d'isso que Venegas viveu no reinado de D. Sebastião, e não no de 
seu bisavô, a não ser que houvesse anteriormente outro artista do mesmo 
nome. O mesmo Taborda, e ainda outros auctores, attribuem com frequên- 
cia aos nossos artistas a imitação do estylo de Raphael e sobretudo de Mi- 
guel Angelo, professores que, aliás, foram bem dislinclos entre si. Che- 
gou quasi a ser monomania esta generalisação da influencia de Miguel 
Angelo. Raczynski estranha muito natural e judiciosamente que Fran- 
cisco de Hollanda, tendo convivido na intimidade de Miguel Angelo, não 
proferisse uma só palavra acerca dos seus compatriotas que com elle, ou 
antes d'elle, seguiram as lições do Buonarroti. O silencio de Hollanda im- 
pressiona, mas não se deve tirar d'ahi nenhuma consequência decisiva, 
porquanto foi sempre escasso em noticias relativas a obras de arte por- 
tugueza, como se esta fosse planta exótica em Portugal. 

A par da corrente flamenga e italiana não se deve esquecer a cor- 
rente hespanhola, sendo não poucos os individuos d'esta nacionalidade 
que aqui vieram prestar o seu concurso, não só nas bellas artes como nas 
artes industriaes. Os biscainhos, por exemplo, figuram com frequência 
nas artes de construcção e nas industrias melallurgicas; no fabrico das 
armas e nas explorações mineiras. Em Braga, que foi um centro de ar- 
maria, ainda existe a rua denominada a dos Biscainhos. 

Eu acho que a historia de qualquer arte, e com especialidade a da 
pintura, se deve fazer em presença dos próprios objectos, analysando-os 
e descrevendo-os minuciosamente, classificando-os, segundo o tempo e se- 
gundo o seu valor intrínseco. Essa classificação, porém, tem os seus limites 
naturaes, e ultrapassal-os seria indesculpável temeridade que faria cahir 
em graves erros. Nada mais difficil do que classificar um quadro segundo 
a sua epocha e a sua escola, mas essa difficuldade augmenta quando se 
lhe quer ,atlribuir auctor. Ora é preciso não esquecer que houve muitos 
mestres obscuros, modestíssimos, inconscientemente geniaes, cujas obras 



INTRODUCÇÃO Vil 

fazem o pasmo de quem as contempla e o desespero de quem lhes quer 
penetrar o anonymato. Indubitavelmente ha artistas que se erguem muito 
acima dos seus contemporâneos, mas, conhecidos os seus processos, não 
faltam os imitadores e os discípulos, que lhes desvendam os segredos e 
lhes seguem a maneira, sobretudo no que ella tem de material e pratico, 
e por isso as obras de uma dada epocha apresentam um ar de família, 
que fazem com que os mais insignes peritos se enganem muitas vezes. 
Não se está vendo como em nossos dias se praticam burlas e se enga- 
nam os colleccionadores com copias de quadros attribuidos aos mestres 
mais em voga e que deviam ser facilmente reconhecidos? 

A classificação de um quadro, além do seu rigoroso exame technico, 
não se pode fazer com segurança e sem a menor sombra de duvida, sem 
o auxilio de documento elucidativo. E ainda assim é preciso que esse do- 
cumento seja bem authentico e bem explicito, pois de outro modo pode 
dar logar a equívocos. Imagine-se que um documento nos indicou a fei- 
tura de certo quadro num determinado logar e qual o seu assumpto. Se 
não designar a matéria em que foi executado e quaes as suas dimensões, 
nada mais fácil que o original ter sido substituído por outro. E quantas 
vezes não terá succedido assim 1 

A efficacia do auxilio documental comprovou-a recentemente o sr. 
Maximiano de Aragão, revolvendo os archivos de Vizeu, conseguindo as- 
sim attestar e delimitar, sem controyersia, a actividade artística de Vasco 
Fernandes, que já quasi pairava nas regiões da lenda. Hoje está posto 
á evidencia que um pintor d'aquelle nome residiu em Vizeu entre 1512 
e 1543, anno em que já era fallecido, e que ali constituirá família, dei- 
xando por sua morte viuva e filhos. Muitas particularidades da sua vida 
nos são ainda desconhecidas, e entre ellas a do local do seu nascimento, 
embora o sr. Aragão opine que elle não podia ser oriundo senão d'aquella 
cidade ou seus arredores. Os seus argumentos, porém, parece-me que não 
teem outro valor senão o de meras conjecturas, mais ou menos razoáveis. 
Ás terras, que teem sido até agora assignaladas como seu berço natal, de- 
ve-se accrescentar Besteiros, conforme se lê no Diccionario Geographico, 
manuscripto da Torre do Tombo, no artigo relativo a esta villa, onde se 
lê o seguinte trecho: 



VIII NOTICIA DE ALGUNS PINTOItES 

«... mas o que se descobre da Pintura se observa ser notável e se 
prozume ser do nosso grande Portuguez e famoso Pintor o Gran Vasque, 
nem só por auer noticias que elle foi oriundo desta freguezia de hum Po- 
voo, que chamavam Cazal de Vasco e hoje, corruto vocábulo, chamam Ca- 
zal Dasco, mas também por aver noticia que este famozo Pintor nunqua 
Pintou se não em Pau.» 1 

Na enorme quantidade de quadros altribuidos a Grã-Vasco, f e de que 
Raczynski nos dá uma lista a pag. 154 e seguintes do seu livro Les arts 
en Portugal, enumera-se um quadro representando S. Thomaz de Can- 
tuari, que existia n'uma sala do mosteiro de Alcobaça e cujo destino actual 
se ignora. Para authenticar a sua procedência citam-se os manuscriptos 
do dr. Ribeiro dos Santos. Não sei onde este erudito investigador fosse co- 
lher semelhante informação; o que sei é que ella se encontra egualmente na 
interessantíssima obra Alcobaça and Batalha, de William Beckford, que 
nos fins do século iviu visitou aquelles dois mosteiros, sendo hospedado 
principescamente pelos monges de S. Bernardo. Eis o que o espirituoso 
lord escreve sobre o ponto especial a que me venho referindo: 

«I rose early, slipped out of my pompous apartment. strayed about 
endless corridors — not a soul slirring. Looked into a gloomy hall, much 
encumbered wilh gilded ornaments, and grim with the ill-sculptured effi- 
gies of kings; and another immense chamber, with white walls covered 
with pictures in black lacquered frames, most hideously unharmonious. 

«One portrait, lhe full size of life, by a very ancient Portuguese ar- 
tist named Vasquez, attracted my minute attention. It represenled no less 
interesting a personage than St. Thomas à Becket, and looked the chara- 
cter in perfection; — lofly in stature and expression of countenance; pale, 
but resolute, like one devoted lo death in his great cause; the very being 
Dr. Lingard has portrayed in his admirable History.» 2 



1 Torre do Tombo. Obra citada, vol. vii, foi. 796. 

2 Obra citada, pag. 44 c seguinte. O livro de Beckford sahiu á luz da publicidade em 
Londres em 1835. O dr. Ribeiro dos Santos havia fallecido em 1818. 



ÍNTRODUCÇÃO IX 

Verificada, sem sombra de contestação, a existência em Vizeu, na 
primeira metade do século xvi, de um pintor chamado Vasco Fernandes, 
pôde por acaso deduzir-se d'ahi que elle foi o auctor dos famosos qua- 
dros que ornamentam a Sé d'aquella cidade e a um dos quaes já se ap- 
plicou o epitheto de oitava maravilha da pintura ? Certamente que não. 
O mais que esse achado histórico pudera produzir seria consolidar uma 
tradição que se esbatia quasi lendária no vago fundo de uma chronolo- 
gia indecisa. O sr. Maximiano de Aragão encontrou todavia outros ele- 
mentos que contribuem poderosamente para a solução satisfactoria do pro- 
blema que tanto tem atormentado o espirito dos mais ferrenhos investi- 
gadores. Um documento dos princípios do século xvu attribue a Vasco 
Fernandes a magestosa figura de S. Pedro sentado na cadeira pontifical. 
Sem querer de modo nenhum diminuir o valor de semelhante testemunho, 
que tem o defeito de vir meio século depois da morte do insigne artista, 
mas que offerece todos os signaes de sincera authenticidade, não posso 
deixar de dizer que elle ainda não constitue o que se chama uma prova 
positiva, infallivel, rigorosamente terminante. Em vez d'elle preferiria o 
contracto para a feitura da obra, o recibo assignado pelo mestre em que 
declarasse ter cobrado toda ou parte da quantia ajustada, o auto de ava- 
liação feito por qualquer seu collega, uma referencia, emfim, bem clara, em 
qualquer carta da epocha. Estou convencido que ainda se chegará a fazer 
este descobrimento, ou no cartório da Sé ou em qualquer outro, onde ás 
vezes menos se espera. Não sei se se desencaminharam os cadernos das 
despezas das obras feitas na cathedral viziense, mas, se ainda existem, lá 
se deve talvez encontrar algum indicio. O mesmo direi com relação ás car- 
tas dos reis e dos bispos dirigidas ao cabido. Custa a crer que na corres- 
pondência de D. Miguel da Silva, estante em Roma, não se faça allusão 
a qualquer objecto ou assumpto artístico. Eu bem sei que o sr. Aragão 
desceu ás mais minuciosas pesquizas, mas, em taes casos, ninguém se pôde 
gabar de ter exhaurido todas as fontes. Elle mesmo confessa que não ti- 
nha esperança de obter resultado favorável, quando, antes d'elle, archeo- 
logos, como Oliveira Berardo, já tinham procedido á exploração da mina. 
E todavia elle foi bem adeante dos seus predecessores, e poude exclamar 
mais de uma vez jubiloso: Ecce! 

Janeiro, 1903. b 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Admiltindo, por mera hypothese, que Vasco Fernandes nasceu em 
Vizeu, ou no seu termo, como se explica que n'uma terra de província, 
menos importante que outras cidades, como Évora, Coimbra, Porto e Lis- 
boa, se viesse a formar isoladamente um portento artístico? Ou Vasco 
Fernandes sahiu de Vizeu para se ir instruir em algum grande centro, ou 
encontrou na sua pátria algum mestre que ali estivesse trabalhando e que 
lhe dirigisse e aproveitasse a vocação genial. Ainda outra supposição se 
pode formular, e vem a ser que, não sendo Vasco Fernandes natural de 
Vizeu, ao vir ali fixar a sua residência trouxesse já os conhecimentos 
que o caracterisaram eminente profissional. 

Como se vê, a individualidade de Vasco Fernandes suggere ques- 
tões de elevado alcance, não só com relação á sua pessoa, mas com rela- 
ção á escola que se diz fundada por elle. Se existe, como Robinson e ou- 
tros críticos estrangeiros pretendem e admittem, uma antiga escola portu- 
gueza de pintura, deve-se considerar Vasco Fernandes como seu chefe, fa- 
zendo do S. Pedro a cellula-mater, de onde proliferaram as demais ? De- 
ve-se considerar Vizeu como o foco principal da nossa actividade pictórica? 
Relativamente a esta ultima interrogação a minha resposta não pôde dei- 
xar de ler o signal negativo. Lisboa, no meu entender, foi o principal cen- 
tro de producção artística, como o attestam as relíquias que ainda contem- 
plamos e que bem nos denunciam qual seria a opulência do thesouro se 
o fatal terremoto de 1755, secundado pelo vandalismo dos homens, não o 
tivesse consumido na sua maior parte. Os quatro quadros do século xv no 
immenso corredor de S. Vicente de Fora, os do arcaz e do coro da Madre 
de Deus, os de S. Rento e do Paraíso, que estão no museu de Bellas Ar- 
tes, além de muitos outros, bastariam a dar foros de cidade á minha opi- 
nião. D. Manuel, desejoso de ornamentar condignamente o Tribunal da Re- 
lação, mandou executar diversos painéis, obra que devia ser de proporções 
grandiosas, attendendo ao tempo que n'ella se consumiu e ao numero dos 
mestres n'ella empregados. Foram elles Francisco Henriques, que eu sup- 
ponho flamengo, pelas razões que adduzo no artigo que adeante lhe con- 
sagro, e que parece ter sido o director; Garcia Fernandes, Christovão de 
Figueiredo e Gregório Lopes, além de outros que se não nomeiam, e di- 
versos serventuários, que eram escravos. O primeiro falleceu, victima da 



INTRODUCÇÃO XI 

poste, sem vêr concluída a obra. Com elles trabalhava André Gonçalves, 
mas em obras de outro género. As pinturas da Relação deviam ter um 
caracter especial, deslacando-se, sem duvida, dos assumptos religiosos, 
que eram os predominantes, e foi pena que Damião de Góes, na sua Des- 
cripção de Lisboa, em latim, não se referisse a ellas, sendo esta omissão 
tanto mais para lastimar quanto é certo que o illustre chronista era exí- 
mio conhecedor da arte. Esta affluencia de pintores em Lisboa no reinado 
de D. Manuel, e ainda no de D. João III, moslra-nos que era d'aqui que 
irradiava principalmente o movimento artistico para os demais pontos do 
paiz. 

Com estes factos "não pretendo offuscar a tal ou qual primazia de 
que tem gosado \izeu e que na pintura lhe marca um logar semelhante 
ao de Coimbra na arte de esculpir. Além de Vasco Fernandes, indica-nos 
o sr. Aragão a existência, n'aquella primeira cidade, de outro pintor, de 
nome Gaspar Vaz, que eu supponho ser o que executou os quadros do 
extincto convento de S. João de Tarouca, conforme provo, documental- 
mente, no artigo que lhe consagro, e que até agora se attribuiam a Grão- 
Vasco. Aqui está como um documento veiu fazer uma revelação impor- 
tante e simplificar uma questão intrincada. A comparação dos quadros de 
Tarouca com os de Vizeu ajudará a classificar estes últimos, que certamente 
não são todos do mesmo pincel, pois entre o S. Pedro e os restantes não 
só não ha uma analogia profunda, mas até se notam differenças sensíveis. 

Além da parle documental outros subsídios se devem buscar para 
o estudo histórico da pintura portugueza. Os livros illuminados são gale- 
rias em ponto reduzido, e algumas paginas de códices membranaceos teem 
o valor de verdadeiros quadros. Assim o retraio que ornamenta a Chro- 
nica de Guiné, de Azurara. O miniaturista António de Hollanda não valia 
menos do que qualquer pintor do seu tempo. A analyse dos quadros deve 
por conseguinte fazer-se comparativamente com a dos pergaminhos illu- 
minados da mesma epocha. 

Estou lambem convencido que as pinturas sobre vidraça não seriam 
absolutamente estranhas ao movimento geral, e que, por conseguinte, a 
escola da Batalha deve entrar em linha de conta, offerecendo de per si 
só um capitulo bastante interessante. 



XII NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Ao Conselho Superior dos Monumentos incumbe, sem perda de tempo, 
tomar uma parle activa e de primeira ordem na vigorosa campanha que 
se deve intentar em favor da conservação e divulgação histórica e artística 
dos primores da pintura nacional. Já existe uma lei que determina quaes 
são os objectos monumentaes que devem ficar sob a vigilância immediata 
do estado, mas essa lei será letra morta e completamente inútil se não se 
proceder, mais ou menos melhodicamente, ainda que com caracter provi- 
sório, aos arrolamentos indispensáveis. O inventario das pinturas poder- 
se-hia formular, não só pelo exame directo, mas com a ajuda das descri- 
pções que nos offerecem, além dos raros especialistas, os viajantes estran- 
geiros que teem visitado o nosso paiz. Hoje já é um pouco difficil saber-se 
a proveniência de muitos dos quadros que estão no Museu das Bellas Ar- 
tes, por o catalogo não o indicar, mas com o auxilio de Raczynski, que 
ainda teve ensejo de recolher fresca a tradição, se poderá saber d'onde el- 
les vieram. Taborda e Cyrillo faliam de quadros que elles examinaram 
com os seus próprios olhos; urge indagar, pelas suas indicações, se exis- 
tem ou que destino levaram. Uma obra interessante e que merece ser 
consultada pelos que se dedicam a este ramo de estudos, e aos quaes tem 
passado desconhecida, é um poema latino, impresso em Lisboa em 1739, 
e de que é auctor o dr. José de Mattos Rocha. N'elle se descreve o pa- 
lácio de Calhariz, na Arrábida, próximo a Setúbal, e as pinturas que 
adornavam as suas salas, algumas das quaes attribuidas a mestres de 
grande nomeada. 1 Na Torre do Tombo existe um manuscripto in-4.°, 
que foi doado á Cartuxa de Évora pelo arcebispo da mesma cidade, D. 
Theotonio de Bragança. Não tem data, mas é indubitavelmente da segunda 
metade do século xvi. N'elle se encontra uma lista dos quadros, que eu 
supponho, talvez sem grande desacerto, que formariam a galeria dos pa- 
ços reaes de Évora. Apesar da sua extrema concisão, apontando apenas 
e mui ligeiramente os assumptos, julgo-a interessantíssima, como o leitor 
pôde verificar por seus próprios olhos, lendo-a em seguida: 



1 Descriptio Poética Villa Calarisince. Possuo um exeniplar que pertenceu á livraria do 
marquez de Angeja, cujo ex-libris conserva. 



INTRODUÇÃO XIII 

Retratos 

«hum retrato delRey 
«outro da rainha nossa Senhora 
«outro delRey dom Fernando 
« treze retratos de primçepes 
«hum dei rei dom Felipe 
«outro do emperador Carlos 
«outro do ifamte dom Carlos 
«três da Rainha dona Isabel 
«hum da rainha dona Joana 
«outro da rainha D. Maria regente de Frandes 
«outro da rainha de Dinamarca 
«outro da enperatriz dona Isabel 

«hum retrato de hua dama que por egenho lhe bolem as meninas 
dos olhos 

«outro da primçesa de Dinamarca 

«outro do princepe dom Felipe de Castella 

«hua cruz comtra feita que são Tome fez 

«hua figura grande em pano de linho 

« hum perguaminho cõprido de peças de gelosia de Reis e primçepes 

«duas fundas de vaca pêra dous retratos.» ' 

Percorrendo as salas dos paços reaes, os palácios e casas particula- 
res, as galerias publicas, infelizmente limitadíssimas, as egrejas e alguns 
estabelecimentos de instrucção, como a Ribliotlieca Nacional de Lisboa, 
a Academia Real das Sciencias, a Universidade, ainda se encontrariam 
apreciabilissimos vestígios da antiga opulência artística portugueza. O re- 



1 Livro sem titulo que pertenceu A Cartuxa de Évora e se guarda na, Cota dos Trata- 
dos do Archivo da Torre do Tombo, foi. 49 e 49 v. Tem o seguinte começo: «Cruzes = iij. a 
saber hua cruz de pau com seus pees de lauores.» 



XIV NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

cheio actual, resto de maior quantia, não é para desprezar. O cadastro, 
que se viesse a organisar, deveria compôr-se de três partes essenciaes ou 
de três columnas. Na primeira d'ellas registrar-se-hiam os quadros obser- 
vados e descriplos pelos diversos auctores ou mencionados nos documen- 
tos. Na segunda indicar-se-liia o seu paradouro actual, historiando-se as 
vicissitudes por que teem passado, procurando indagar-se, quanto possí- 
vel, qual o destino que levaram, os que não apparecem, extraviados ou 
destruídos. Na terceira, finalmente, mencionar-se-hia o que está inédito, o 
que tem passado desconhecido á superficial observação dos entendidos. E 
não se pense que, sob este ultimo ponto de vista, a colheita fosse estéril 
ou não compensasse o trabalho dos que andassem na apanha. Basta di- 
zer-se que ainda ha bem poucos annos é que foi revelada a existência 
dos quatro notabilissimos painéis de S. Vicente. 

Este inventario, por mais minucioso que fosse, por mais consciên- 
cia que houvesse na sua elaboração, deixaria muito a desejar se não se 
lhe accrescenlassem os complementos indispensáveis — o documental e o 
graphico. Este ultimo, sobretudo, impõe-se como uma necessidade de pri- 
meira ordem, e adial-o por mais tempo chegaria a ser o mais criminoso 
desleixo. Hoje em dia os processos de reproducção graphica teem-se ba- 
rateado e facilitado de tal modo que não seriam precisos grandes sacri- 
fícios para conservar e perpetuar pela estampa os nossos monumentos. 
Estou persuadido até que qualquer photographo se abalançaria á empreza 
desde o momento que lhe dessem o privilegio do exclusivo ou lhe facul- 
tassem um subsidio ou garantia qualquer. Já que os nossos gravadores 
raras vezes se dedicaram a generalisar as obras dos grandes mestres, po- 
pularisando-se e glorificando-se a si próprios, venha a photographia em 
seu logar cumprir esse piedoso dever. Pela sua parte os archeologos, os 
investigadores, explorem os archivos e tragam á luz da publicidade os se- 
gredos que desvendaram nas suas explorações. 

Não pretendo erigir uma columna triumphal á memoria dos nossos 
pintores, incrustando n'ella, de alto a baixo, os nomes de todos aquelles 
que cultivaram em Portugal a arte divina de Apelles. Não metlo hombros 
Ião pouco á tarefa de redigir um diccionario completo. O meu propó- 
sito, consoante as minhas forças, é muito mais restricto: dou apenas um 



INTRODUCÇÃO XV 

contingente modesto, esperançado i]ue a minha contribuição seja seguida 
de outras que completem, quanto possível, as lacunas que se observam 
n'este ramo importantíssimo da historia das bellas artes. 

Pondo remate a estas breves considerações preliminares, seja-me 
pormiltido manifestar aqui o meu mais affectuoso reconhecimento aos 
meus eruditos amigos General Brito Rebello e Pedro A. de Azevedo pela 
dedicada gentileza com que tão generosamente se prestaram a coadju- 
var-me nestas investigações. 

Lisboa, 12 de novembro de 1902. 



I.— Abreu (Simão de). — Racksynski não incluiu este nome no seu Diction- 
naire, omissão tanto mais para estranhar quanto é certo que o visconde de 
Juromenha lhe ministrou esclarecimentos acerca de outros artistas que traba- 
lharam em Thomar. A razão seria porque Juromenha não percorreu todos os 
cadernos das despezas das obras feitas n'aquelle convento. Simão de Abreu 
deu todavia alli grandes provas da sua actividade, não só pintando quadros, 
mas estofando ou encarnando imagens, dourando columnas, retábulos, tochei- 
ros, etc. Para a charola executou sete quadros. Trabalhou juntamente com Do- 
mingos Vieira durante os annos de 1592 a 1595. Pelas verbas extrahidas dos 
cadernos das obras, e que dou em seguida, se vê quaes foram as quantias que 
recebeu, já de per si, já com o seu companheiro, pelos trabalhos que lhe fo- 
ram encommendados. 

Nem Taborda, nem Cyrillo tiveram conhecimento d'este pintor. 

«A Simão da Breu' pintor se derão de sete retábulos que pintou para as 
sete capellas da charola & das Marias A- do crucificio e mais imagês de vulto 
que tudo pintou e dourou de novo com os entabolamentos dourados em que 
estão as ditas imagês — ouue sinquenta mil — A- assim entrão as dez cruzes & __ 
tocheiros que pintou e dourou. L 

Simão dabreu.» 



1 Na féria de 20 de junho de 1592 veja-se em Domingos Vieira a verba de dez mil réis 
que competiu a Simão de Abreu. 

Jaseiro, 1903. 1 



2 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Mais ao dito Simão d abreu se derão dez mil reis de pintar e dourar a 
cappella de São bento que tomou a sua conta. 
fl - 106 v. Simão d abreu.» * 

«Lembrança do que tem recebido os pintores do padre frei Damião': 

* xxb b ' «Domingos Vieira tem recebido trinta e simqo mil e quinhentos reis. 

xxij b c «Simão d abreu tem recebidos vinte e dois mil e quinhentos reis. 

«Mais a Domingos Vieira quinze mil reis que se deuem ao padre dom 
prior. 

«Simão d abreu recebeo outros quinze mil reis que também se deuem ao 
fl. 22 padre dom prior.» 

«Lembrança do que tem recebido os pintores do padre frei Damião: 

xxx. «Emprestou o padre frei damião para a charola trinta mil reis. 

xxbij ix «Emprestou mais o dito padre vinte e sete mil e nouecentos reis. 

«It. Mais se deue ao padre dom prior trinta mil reis que deu aos pinto- 
xxx res a conta dos altos da charola — a saber — quinze mil reis a cada hO. 

«Fiquace devendo a Domingos Vieyra dezaseis mil e quinhentos reis a 
conta dos altos da charola. 

«E a Simão d abreu trinta e seis mil e seiscentos reis. 

«It. A esta conta recebeo Domingos Vieyra dez mil reis véspera de na- 
tal <£ Simão d abreu recebeo outros dez mil reis que lhes deu o padre dom 
fl. 23 prior o dito dia véspera de natal (de 1593). 3 

«Sabbado 28 de outubro de 1595 receberão Simão d abreu e Domingos 
Vieira pintores vinte e dous mil reis — a saber — onze mil reis cada hfl — para 
tintas dos altos dos oitavos da charola — que se hão de lançar em liuro.* 

frey Adrião dom prior 
fl 102 v. Simão dabreu. Domingos Vieira. 

«Sabbado 24 dezembro de 1594 recebeo Simão dabreu pintor trinta mil 



1 Na féria de 24 de julho de 1892. Archivo da Torre do Tombo. Cartório da Ordem de 
Christo. L.° 115. 

2 Entre 28 de setembro e 24 de dezembro 1593. 

3 Archivo da Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Christo. L.° 124. 

4 Idem. Idem. Idem. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES ô 

reis que se lhe montarão na parte das imagês da charola que lhe dourou <£ 
estofou <fc assinou aqui com padre frei Adrião perante mim o Lecenceado Si- 
mão Ribeiro scriuão das ditas obras. xxx 

frey Adrião. Simão d abreu. A- 138 

«Sabbado 22 dias do mez de Julho de Mil e quinhentos e noventa e sim- 
quo annos receberão Simão d abreu e Domingos Vieira pintores oitenta mil 
reis á conta dos vãos de dentro da charola que começarão de pintar e assi- 
narão aqui com o padre dom prior perante mim dito scriuão. Lxxx 

frey Adrião dom prior 
Simão dabreu. Domingos Vieira. fl. 139 v. 

Simão Ribeiro 

«Sabbado 21 dias do Mez de Outubro de 1595 receberão Domingos Vieyra 
e Simão dabreu — a saber — Simão dabreu dez mil reis a conta de hú dos 
altos que pintou da dita charola e recebeo mais sinquo mil reis a conta da 
obra de dentro da charola. xb 

«E Domingos Vieira vinte e dois mil reis a conta da sua parte dos ditos 
altos da dita charola — & recebeo mais sinquo mil reis a conta da obra de cha- 
rola de dentro — & assinarão aqui com o padre dom prior e comigo dito 

scriuão. xxbij 

frey Adrião dom prior 

Simão dabreu. Domingos Vieira. fl. no v. 

«Receberão o dito Simão d abreu e Domingos Vieyra noventa mil reis da 
obra que pintarão na charola da banda e parte & alta por dentro e assinarão 
aqui com o padre dom prior perante mim dito scriuão. & 

frey Adrião dom prior 
Simão dabreu. Domingos Vieira. 

«Recebeo Domingos Vieyra do padre frei Damião em 25 de nouembro 
quinze mil e quinhentos reis para ouro e tintas dos oitauos da charola. Rece- xb b c 
beo Simão dabreu a dita conta doze mil e quatrocentos reis á assinarão aqui xTj iiij« 
com o padre frei Adrião doui Prior.' 

Simão d Abreu. Domingos Vieira. 



Esqueceu assignar o dom prior, o que succedia muitas vezes. 



4- NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Sabbado 23 dias do mez de dezembro de 1595 receberão Simão d abreu 
«-••'" ix e domingos Vieyra cento & sesenta mil reis que se montarão na obra dos oi- 

tauos do alto da cliarola & assinarão aqui com o padre dom prior e comigo 
dito scriuão. 

frey Adrião dom prior 
Simão d abreu. Domingos Vieira. 

fl. 141 frey Maurício 

«Sabbado 28 de outubro de 1595 recebeo Simão d abreu onze mil reis 
á Domingos Vieyra outros onze mil reis para tintas & ouro dos oitauos dos 
^ altos da charola — & assinarão aqui com o padre dom prior perante mim dito 

xx " scriuão. 1 

frey Adrião dom prior 
Domingos Vieira. Simão d abreu. 

fl j-g Simão Ribeiro 

Vejam-se em Domingos Vieira Serrão outras verbas que se lhe referem. 



II. — Affonso (Fernando). — Pintor de D. João II. Este mouarcha, em 10 
de julho de 1486, lhe passou carta, tomando-o por seu e sob a sua guarda. 
Em 12 de dezembro de 1487 lhe passou outra de privilegio, a qual foi confir- 
mada por D. Manuel em 25 de outubro de 1496. Fernando Affonso exercia o 
seu officio em Santarém. 

Gonhecem-se outros pintores de Santarém, como se pode vêr nos artigos 
consagrados a Espinosa (João de), Barreto (Jorge) e Fernandes (Gomes). 

«Dom Joham, etc, a quamtos esta nossa carta virem fazemos saber que 
nos filhamos ora nouamête por nosso e em nossa especial garda e 9mcomenda 
a Fernam da , pintor, morador em esta villa de Santarém, e porem rogamos 
a todolos que com rezom deuemos e êcomêdamos e mãdamos a lodolos fidal- 
gos, caualeiros, escudeiros, corregedores, ouuidores, juizes, justiças, olyciaaes 
e pesoas, assy desta uilla como doutras quaaesquer, a que esta nosa carta for 
mostrada, e o conhecimento delia pertencer que ajom daqui em diãte o dito 
Fernã da per noso e so nossa garda e emcomenda e lhe nom façom nem con- 
sentom seer feito nenhQu nojo. . . Dada em Santarém x do mes de julho. P.° 
Luis a fez anno de mil iiij° lxxxbj.» 2 



1 É a mesma verba que está por lembrança no L.° 124 e que se vê atraz. Archivo da 
Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Cbristo. L.° 115. 
1 Torre do Tombo. Chanc. de D. João II. L.° 4, fl. 91. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES O 

«Dom Jobam, ele. A uos juizes desta nossa villa de Sanlarem e a Iodai- 
las outras nossas justiças e outros quaaes quer que esto ouuerem de ver, saú- 
de, sabede que nos querendo fazer graça e mercê a Fernam Da , nosso pin- 
tor morador em esta nossa villa por o seruiço que de seu oficio nos em ella 
faz, temos por bem e queremos que daquy em diante seja priuilegiado. . . 
Dada em a nossa villa de Santarém a xij dias de dezembro J.° Seram a fez 
de iiij e Ixxxbíj.n • 

«Dom Manuel!, etc. A quamtos esta nosa carta virem fazemos saber que 
por parte de Fernam dAfomso noso pimtor nos foi apresemtada huua carta 
delRey dom Jobam meu Senbor cuja alma Deus aja daquall ho teor tall he : 

«Dom Joham per graça de Deus Rey de Purtugall e dos Algarues daquem 
e dallem mar em Africa senhor de Guyuee a vos juizes desta nosa villa de Sam- 
tarem e a todallas outras nosas justiças e a outros quasquer que esto ouue- 
rem de ver saúde sabede que nos queremdo fazer graça e merçè a Fernam 
dAfomso noso pimtor morador em esta nosa villa por o seruiço que de seu 
officio nos em ella faz. Temos por bem e queremos que daquy em diamte seja 
priuilligiado e escusado de bir seruir por mar nem por terra em paz nem em 
gerra per nhíiua guisa que seja saluo comnosquo e nam com outra nhuua pe- 
soa posto que haja noso poder pêra lleuar bornes darmas piaêes beesteiros ou 
qualquer poder que hasy dermos pêra hirem as ditas gemles nos queremos 
que senam emtemda em o dito Fernam dAfomso saluo havemdo elle nosso es- 
piciall mamdado outro sy queremos que nam pague em pididos peitas fymtas 
talhas nem em outros nhúus emearreguos que per nos ou per ese comçelho 
sam ou forem Mancados daquy em diamte per qualquer guysa que seja nem 
vaa com pressos nem com dinheiros nem seja titor nem curador de nhuuas 
pesoas saluo se ha titoria for llidima nem sirua em outros alguus emearreguos 
nem seruidoêes do dito comçelho nem pagara outauo de vinho nem doutra 
cousa que haja saluo jugada de pam que pagaraa outro sy queremos que nam 
pousem com elle em suas casas de morada adegas nem caualarices nem lhe 
tomem suas bestas de seella nem dalbarda nem pam vinho rroupa palha ce- 
uada llenha gallinhas nem outra nhuua cousa do sseu comtra sua vontade ou- 
tro sy queremos que elle possa trazer quaees e quamtas armas lha prouuer 
asy de noute como de dia per todos dossos Regnnos sem embarguo de nossas 
hordenaçoêes e defesas ffetas em comtrairo. E porem vos mamdamos que lhe 
cumpraees e guardes e façaees ymteiramente comprir e guardar esta nossa 
carta em todallas cousas em ella comthiundas sem outro alguum embarguo 
que ha ello ponhaees e nam o queremdo vos hasy comprir per esta mamda- 



1 Torre do Tombo. Chanc. de João II. L.° 18, fl. 28 v. 



O NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

mos a qualquer taballiam a que for mostrada que vos empraze que ha quymze 
dias primeiros seguymtes pareçaees peramte nos a dizer qual he ha razam 
por que nam compris e guardays e este priuilegio lhe damos asy comtamto 
que elle tenha comthinoadamente todas suas armas compridas como qualquer 
nosso vasalo darmas per a nosso seruiço e pareça com ellas nos halardos pre- 
semte ho nosso veedor dos vassallos ao tempo que he ordenado qne hos ditos 
nossos vassallos pareçam. Dada em a nossa villa de Santarém a xij dias de 
dezembro — Joham Serrãao a fez de iiij c lxxx bij. Pidimdo nos ho dito Fernam 
dAfomso que lhe comflrmasemos a dita carta e visto per nos seu rrequeri- 
mento e queremdo lhe fazer graça e merçee. Temos por bem e lha comfirma- 
mas asy e pella guysa e maneira que se em ella comtem e asy mamdamos que 
se cumpra e guarde jmteiramente ssem outra duuyda nem embarguo alguum 
por que ha sy he nossa merçee. Dada em Santarém a xxb dias doutubro Vi- 
çemte Pirez a fez anno do Naçimento de Nosso Senhor Jhesu Christo de mill 
iiij c 1 r bj annos.» ' 



III.— Affonso (João) 1.° — Pintor e vassallo de D. Affonso V, o qual lhe 
deu carta de aposentamento em 10 de janeiro de 1473, embora elle não ti- 
vesse a edade legal, isto é, 70 annos. Esta mercê lhe fez el-rei pelos seus ser- 
viços nas partes de Africa e outros logares, mais provavelmente com as ar- 
mas na mão do que com o pincel. 

tDom Affomso, etc, a quamtos esta carta virem fazemos saber que nos 
queremdo fazer graça e merçe a Joham Afomso, pimtor, nosso vassallo, mora- 
dor em a cidade de Lixboa por os seruyços que nos tem fectos em as partes 
dafryca e em outros lugares, temos por bem e apousentamollo com toda sua 
homrra, posto que nom aja ydade de sateenta annos per que o deue seer. E 
porem mandamos ao veador dos nossos vassallos da dita çydade, etc, carta 
em forma. Dada em Euora a x dias de janeyro — elRey o mandou per dom 
Joham Galuom bispo de Coimbra & Afomso Garçes a fez — de mill iiij c lxxiij.* s 



IV.— Affonso (João) 2.° — Supponho-o differente do anterior. Morava em 
Leiria e trabalhava como pintor, no mosteiro da Batalha. D. Affonso V lhe 
passou duas cartas de privilegio: uma de 12 de dezembro de 1449, conce- 
dendo-lhe as regalias de que gozavam os demais artífices que trabalhavam nas 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.° 32, fl. 16 v. 
1 Idem. Chanc. de D. Affonso V. L.° 33, fl. 7. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES / 

obras d'aquelle mosteiro; a outra de 24 de fevereiro de 1450, isentando-o 
dos encargos da aposentadoria. 

«Dom Afomso, etc. A quamtos esta carta virem fazemos saber que nos 
querendo fazer graça e merçee a Joham Afomso nosso pintor, morador em 
Leirea por quamto he compridoiro no nosso moesteiro de Santa Maria da Vi- 
torea Temos por bem e queremos que aja e lhe sejam guardados os priuille- 
gios, homrras, graças, liberdades e mercees que ham e sam dadas aos pe- 
dreyros, carpemteyros e cauouqueyros que lauram na dieta obra. E porem 
mandamos a todallas nossas justiças e a outros quaeesquer que esto ouuerem 
de veer que vejam o priuillegio que elles de nos tem e conprem e guardem 
ao dito Joham Afomso em todo e per todo como em elle for conteúdo. E nõ vaa- 
des nem consentaees hir comtra ell per nehQa guissa que nossa mercee e uon- 
tade he de el seer de todo jsemtoo e escussado com tanto que el sirua conti- 
noadamente quamdo lhe rrequerido for sendo bera prestees e deligente a todo 
aquello que a seu oficio pertençee pêra obra do dicto moesteyro e doutra guissa 
nõ unde ai nõ façades. Dada em Euora xij dias de dezembro, Diego Borjes a fez 
anno do Nosso Senhor Jhesu Christo de mjl iiij c Rix.» ' 

«Dom Affonso, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos 
querendo fazer graça e mercee a Joham A.°, pintor, morador em a nossa 
villa de Leirea, porquanto pinta em o nosso moesteiro da Uitoria, teemos por 
bem e queremos que posto que nos ou a rraynha minha sobre todas prezada 
e amada molhei - , iffantes e duques meus irmãaos e tios e outras pessoas se- 
jamos em a dita villa que nora dem de poussadia a pessoa algQua suas cassas 
de morada, adegas e cauallariças, nem lhe tomem rroupa de cama, alfayas de 
cassa, pam, vinho, rroupa, palha, lenha, galinhas, gaados nem bestas, nem ou- 
tra algQua coussa do sseu contra ssua vontade. Porem mandamos aos nossos 
poussentadores e aos da dita Raynha e dos iffantes e duque e aos juizes e 
poussentadores da dita villa e a outros quaes quer a que esto perteencer e 
esta carta for mostrada que lhe compram e guardem e façam bem conprir e 
guardar esta nossa carta per a guissa que em ella he contheudo, unde húus 
e outros ai nom façades. Dada em Euora xxiiij dias de feuereiro. — Diego Bor- 
ges a fez — ano de nosso Senhor Ihesu Xpo de mil iiijM. (1450).» 2 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.° 4, 11 l v. 
' Idem. Idem. L.» 34, fl. 57 v. 



8 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



V. — Affonso (Jorge). — Jorge Affonso era arauto de el-rei e morava por 
detraz de S. Domingos, conforme elle próprio declara no depoimento que fez 
no processo de Garcia Fernandes, seu sobrinho por afinidade, por ser casado 
com a filha de uma sua irmã. Ora, sendo a mulher de Garcia Fernandes filha 
do pintor Francisco Henriques, segue-se que Jorge Affonso era cunhado d'este 
ultimo. 

A 9 de agosto de 1508 o nomeou D. Manuel seu pintor, com o encargo 
de examinador e veador de todas as obras de pintura, submettidas a seu exame 
e avaliação. Tinha, com este officio, dez mil reaes por anno, pagos na Casa 
da Mina. D. João III confirmou-lhe a nomeação a 9 de dezembro de 1529. 

Em 30 de novembro de 1519 foi celebrado um contracto entre Affonso 
Monteiro e Affonso Gonçalves, carpinteiro de maçanarria, para fazer os poiaes 
e grade para o retábulo da Conceição, que Jorge Affonso havia de pintar. No 
respectivo contracto se declara que estava presente Jorge Affonso, irmão de 
Affonso Gonçalves. Seria este Jorge Affonso o próprio pintor? Esta hypothese 
parece confirmar-se, vista a semelhança ou identidade da assignatura dos dois. 
Em 21 de julho de 1521 attestava Jorge Affonso ter recebido a sobredita obra, 
segundo a forma do contracto. 

Encontrei a avaliação de outra obra que fez Affonso Gonçalves — o forro 
de madeira nos tirantes do baluarte. Junto aqui por curiosidade o respectivo 
documento. 

Em 1518 celebrou Bartholomeu Fernandes um contracto para a pintura 
do coro de Santo António. Jorge Affonso passou por debaixo d'esse contracto 
um altestado, em que certificava estar concluída a obra. O documento dou-o 
na integra no artigo relativo a Barlholomeu Fernandes. 

A Jorge Affonso não faltava que fazer na sua qualidade de vedor das 
obras de pintura. Havia então grande actividade artística em diversos pontos 
do reino, principalmente em Lisboa, Évora, Thomar e Coimbra. Nacionaes e 
estrangeiros andavam empregados n'essa faina de caracter tão variado. Em 
Thomar trabalhava, no cadeirado do coro, um entalhador de merecimento, de 
nome Olivier de Gand. Tendo fallecido, suscitaram-se duvidas sobre a maneira 
de executar os contractos pendentes e de concluir a obra. Sua viuva, com os 
officiaes de seu marido, propunha-se dar-lhe o devido andamento, mas a isto 
se oppunha outro entalhador, Fernão Munhoz, concorrente de peso. Pêro Vaz, 
vedor das obras, expoz a D. Manuel as dificuldades da questão, e o rei, em 
carta de 2 de dezembro de 1512, lhe indicou os meios de resolver o pleito, 
dizendo que escrevia ao mesmo tempo a Jorge Affonso para que este esco- 
lhesse dois officiaes peritos a fim de irem a Thomar avaliar o estado das obras. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES » 

Taborda, referindo-se a esta carta, diz que Pêro Vaz, a quem ella foi di- 
rigida, era vedor das obras de S. Francisco de Évora, no que se enganou. 

De 1 de dezembro de 1552 existe uma carta de D. João III dando por 
quite a Jorge Affonso, na sua qualidade de recebedor do azul que se extrahia 
das minas de Aljustrel, com relação ao anno de 1521. Em 1552 já certamente 
Jorge Affonso era fallecido; a própria carta o dá a entender, dizendo meu pin- 
tor que foy. A quitação foi por conseguinte passada á família. Não deixa toda- 
via de causar estranheza que viesse a mediar tamanho espaço entre uma e ou- 
tra d'aquellas duas datas. 

No tocante ao azul das minas de Aljustrel veja-se o artigo Francisco das 
Aves. 

Uma passagem do depoimento de Inigo Lopes, bate folha de el-rei, no pro- 
cesso de Garcia Fernandes, comprova que Jorge Affonso era cunhado de Fran- 
cisco Henriques, sendo este casado cora uma irmã d'elle. A passagem é d'este 
theor: «... por ser compadre e gramde amygo do dito Ffrancisco Amrriquez 
o dixera a sua molher e a Jorge Affonso seu irmão. . .» 

Estava já composto typographieamente o que se acaba de ler, quando o 
meu amigo General Brito Rebello, que explorara o cartório do extincto con- 
vento dos frades dominicanos de Lisboa, agora na Torre do Tombo, me deu 
obsequiosamente noticia de existirem ali documentos que vinham ampliar a 
biographia de Jorge Affonso, assegurando-lhe um logar de preeminência no 
nosso movimento esthetico do século xvi. Confirma-se a these, que sustentei 
na introducção d' esta memoria, de que a sede da escola portugueza de pintura 
não se deve collocar em Vizeu, mas sim em Lisboa, foco luminoso, d'onde ir- 
radiaram brilhantes manifestações para as demais terras do reino. A residên- 
cia de Jorge Affonso, onde havia uma vasta sala, que serviria de certo para a 
execução das suas obras, era uma oflicina ou escola, onde se formaram ou 
aperfeiçoaram numerosos artistas, alguns dos quaes adquiriram nome que che- 
gou até nós. Cunhado de Francisco Henriques, tio de Garcia Fernandes, so- 
gro de Gregório Lopes, estas e outras relações de parentesco, estabelecendo 
a communidade familiar, contribuíam lambera para cimentar a comraunidade 
artística e vice-versa. Gaspar Vaz era seu creado, segundo um documento, e 
segundo outro lavravam ou trabalhavam com elle Jorge Affonso, o mesmo Gas- 
par Vaz, Pêro Vaz e Garcia Fernandes. 

Em 3 de março de 1515 Jorge Affonso encampava ao mosteiro de S. Do- 
mingos um chão que estava junto de Santa Maria da Escada, que elle trazia 
de emprazamento em vida de três pessoas, de que elle era a segunda, por 
não precisar d'elle, encampação que fazia em seu nome e de Maria Lopes, sua 
mulher, cuja outorga ficava de dar. Este chão partia, de uma parte, da banda 
do mosteiro, com rua publica, da outra parte com casa e chão d'elle Jorge 

Fkvbiiewo, 1903. 2 



10 



NOTICIA DE ALGtTNS PINTORES 



Affonso e de outra parte com casas novas do dito mosteiro, que ora eram de 
Gregório de Lopes, genro do dito Jorge Affonso. O mosteiro acceitou a encam- 
pação e aforou o chão ao doutor Gonçalo Vaz, residente na mesma cidade. Fo- 
ram testemunhas da outorga de Maria Lopes Vasco Fernandes, pintor, morador 
em Vizeu, Gaspar Vaz, pintor, creado do dito Jorge Affonso. Tabellião Pêro Fer- 
nandes. 

Este instrumento de encampação é importante por mais de um titulo, mas 
bastaria a valorisal-o uma circumstancia, insignificante na apparencia, mas de 
elevado alcance. Se já não estivesse comprovada a existência de Vasco Fer- 
nandes, quasi perdido nas regiões da lenda sob o nome de Grão Vasco, tel-a- 
iamos aqui incontestavelmente authenticada. A actividade de Vasco Fernandes 
não ficou circumscripta á cidade da Beira, onde todavia é dado como residente. 
Eil-o em Lisboa em 1515, talvez de visita a Jorge Affonso, com quem, muito 
provavelmente, teria aprendido. A hypothese de Jorge Affonso ser o mestre 
do pintor viziense não repugna, antes me parece de todo o ponto plausível. 
Vasco Fernandes viria porventura consultar o seu mestre, inspirar-se na sua 
escola, buscar elementos ou coadjutores para o seu trabalho. Meras conjectu- 
ras, que eu formulo timidamente, mas que talvez não sejam de todo inaccei- 
taveis. Como quer que seja, o que me parece fora de duvida é que a officina 
de Jorge Affonso exerceu uma preponderância a que se não pôde mostrar alheia 
a escola de Vizeu. 

Em carta de 31 de janeiro de 1509 o mosteiro de S. Domingos empra- 
zou a Pêro Alvares, homem preto, forro, taipeiro, um pardieiro que estava já 
como chão maninho, que o mesmo mosteiro possuía em frente de Nossa Se- 
nhora da Escada, que partia por deante com rua e caminho publico que ia do 
adro do dito mosteiro para o postigo de D. Henrique e de todas as outras par- 
tes com casas e chãos do mosteiro que trazia Jorge Affonso, pintor, e outros 
foreiros, por trezentos reaes e uma gallinha por anno. * 

Existe um auto da demarcação e medição das casas que haviam sido de 
Jorge Affonso, por detraz da capella-mór de S. Domingos, ao qual eram forei- 
ras. Procedeu-se áquelle exame no dia 18 de dezembro de 1561, em virtude 
do convento mandar intimar a Jeronymo Jorge, que estava em posse das casas, 
em nome de seu irmão António Jorge, que andava na Índia, que apresentasse 
os títulos de aforamento e os recibos do pagamento dos foros. Jeronymo Jorge 
apresentou não só esses títulos, mas uma verba do testamento de seu pae, 
Affonso Jorge, testamento escripto a 20 de fevereiro de 1540, e na qual elle 
nomeava seu filho mais velho, António Jorge, para ser a segunda pessoa n'aquelle 
prazo. 



1 Torre do Tombo. Cartório do Convento de S. Domingos de Lisboa. L.° 20, doe. 31. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 1 1 

Estas casas, segundo declaração do próprio testador, eram de grande va- 
lia, e o seu emprazamento havia sido feito em vida de seis pessoas, em 31 de 
janeiro de 1504, pagando de foro 1:700 reaes por anno e um par de capões, 
ou um tostão por elles. Ficavam situadas junto do cano real, da outra banda 
da rua que vay de Nossa Senhora da Escada ao longo do dito moesteiro pêra 
os canos da mourarya. Esta é a phrase do testamento, mas em outra parte do 
auto ainda se especifica mais detidamente a situação da propriedade. 

Este auto, que reproduzo textualmente, é muito extenso, e não faltará 
■ quem o taxe de fastidioso, mas o archeologo e até o architecto acharão n'elle 
coisas interessantes. O primeiro entrará no conhecimento de um pequeno tre- 
cho da topographia de Lisboa nas cercanias do convento de â. Domingos. O 
segundo, pela medição dos prédios, ficará tendo uma idéa approximada da cons- 
trucção civil n'aquella epocha, no tocante, pelo menos, ás dimensões e divi- 
sões dos prédios. 

Por este documento se fica sabendo que Jorge Affonso tinha dois filhos, 
o mais velho dos quaes se chamava António Jorge e o outro Jeronymo Jorge, 
além da filha Isabel Jorge, casada com Gregório Lopes. Parece que nenhum 
d'elles seguiu a carreira do pae, porquanto o António andava na índia e do Je- 
ronymo não se designa o officio. 

Pelo documento acabado de citar vê-se que Jorge Affonso ainda vivia em 
20 de fevereiro de 1540, data do seu testamento. É provável todavia que fosse 
já fallecido em 23 de junho do mesmo anno, pois n'esse dia se celebrava no 
convento de S. Domingos de Lisboa uma escriplura de declaração, ínnovação 
e emprazamento a Ruy Dias, pedreiro, e sua mulher, Isabel Pires, de duas mo- 
radas de casas situadas acima do dito mosteiro, quando vão pêra os chãos de 
dona Joana de Crasto, e ahi se diz que por deante confrontaã com casas q fo- 
ram de Jorge Afonso, pintor dei rey noso senhor. 

Não obstante faltar aqui o sacramental que Deus haja ou que Deus perdoe, 
julgo que a phrase casas q foram de Jorge Afonso se hade interpretar d'esta ma- 
neira, embora também se pudesse entender que elle as houvesse trespassado. 

Gomo elucidação e complemento d'este artigo vejam-se os que se referem 
a Gregório Lopes e a outros pintores aqui mencionados. 

«Dom Joham, etc, a quãtos esta minha carta virem faço saber que por 
parte de Jorge A.°, meu pymtor, me foy apresemtado hua carta dei Rey meu 
senhor e padre, que sãta gloria aja, de que o theor tall he: «Dom Manuell 
per graça de D 8 Rey de Portugall e dos Algarues daquem e dallem maar em 
Africa, senhor de Guinee e da comquysta navegaçã comercio d Etiópia Arábia 
Pérsia e da Imdia, a quãtos esta nosa carta virem fazlemos saber que sabemdo 
nos quã sofyciente oficiall he Jorge A.° pymtor pêra todas as cousas que a noso 



12 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

serviço cõprirem, e que em todas as cousas de que ho êcarregarmos nos ha 
asy bem de servir e como o sempre fez e aliem dello avêdo respeito aos ser- 
viços que delle temos recebidos e ao diãle esperamos receber, por lhe fazer- 
mos graça e merçe, temos por bem e o filhamos ora novamente por noso pym- 
tor e queremos que elle seja examinador e veador de todas as obras de pym- 
tura que se pêra nos ou pêra obra que nos ouvermos de pagar fizerem por al- 
gus outros oficiaes de seu oficio e asy nas que se ouuerem de avaliar elle seja 
por nosa parte avaliador, com o qual oficio queremos e nos praz que elle tenha 
e aja de nos em cada hQu ano, êquãto nosa mercê for, dez mill reaes e todos ou- 
tros preuilegios e liberdades que hã e sempre tivera os semelhãtes nosos ofi- 
ciaes e todos os Reis pasados, os quaes x rs lhe serã asemtados na nosa casa 
da Mina, omde em cada hQu ano avera pagamento como ordinárias da casa 
per esta nosa carta somête sem mais tirar outra de nosa fazêda e mãdamos 
ao noso feitor e escprivães da dita casa que lhos asemtem nas ordinárias dela 
pêra deles aver pagamento na maneira sobredita, e ao tesoureiro dela manda- 
mos yso mesmo que em cada huu ano lhos pague asy como paga as ditas hor- 
dinarias e per o trelado dela com seu conhecimento mandamos aos nosos con- 
tadores que lhos leuem em conta, e aliem deles quãdo quer que ho dilo Jorge 
A.° for chamado per noso mãdado ou êviado algQas partes e nyso perder al- 
gus dias, quando quer que tall acontecer nos lhe faremos por yso aquella mercê 
que justa for e nos bem parecer, e por firmeza de todo e sua guarda e nosa 
lêbrãça lhe mãdamos dar esta nosa carta per nos asynada e aselada do noso 
selo pêdêle, a qual mãdamos aos veadores de nosa fazêda que faça asentar 
nos liuros dela pêra se saber como lho asy temos dado e asy mãdamos a to- 
dalas nosas justiças e outros quaesquer oficiaes e pesoas, a que for mostrada 
e o conhecimento dela pertemcer que o ajã asy daquy em diãte por noso pym- 
tor e o homrrem e íauoreçã naquylo que com direito deuerem e tratem como 
noso oficiall e lhe faça guardar todas as homrras e liberdades que se guarda 
aos nosos oficiaes, o qual Jorge À.° jurou em a nossa chancelaria aos samtos 
avãgelhos que bem e verdadeiramente e como deue obre e use do dito oficio 
de examinador e veador e avaliador, guardando a nos noso serviço e ao pouo 
seu direito. Dada em a villa de Symtra a ix dias do mes d agosto. Amdre Py- 
rez a fez — ano do nacymento de noso Senhor Ihesu X.° de mill b° biij.» tPidim- 
dome o dito Jorge A.° por mercê que lhe comfirmase a dita carta e visto por 
mim seu requerimento, e quereodo-lhe fazer graça e mercê, tenho por bem e 
lha comfirmo e mãdo que se cupra e guarde asy e tã imteiramenie como se 
em ella contem. Bastia Lamego a fez em Lixboa a ix de dezembro ano de noso 
Senhor Ihesu X.° de mill b c xxix, e eu Damyã Diaz o fiz escreuer.» ' 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. JoSo III. Doações. L.° 39, fl. 76. 



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NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



13 



«A xxx do mes de novembro de b c xix se comcertou Aaffonso Monteiro 
com Aaffonso Gonçalluez carpinteiro de macanarria estamdo de presente Jorje 
Affonso seu jrmom (sic) que elle se obrigua fazer quatro piaies e a graude (sic) 
dorretauolloda comceisam desta cidade que Jorge Affonso lie obrigado a pintar. 
E os ditos piaies que asy o dito carpinteiro hade fazer ham de ser pella mesma 
maneira que os outros quatro velhos estem feitos que nõ ham de serujr por 
serem ja podres. E o dito Affonso Gonçallnez fará a dita grade em que se 
adasantar o dito rretauollo doutra maneira segundo se agora custuma e que se 
posa armar e desarmar o dito rretauollo e seja obrigado o dito Affonso Gon- 
çalluez de mudar o sagrairo que no dito rretauollo esta e fazer huas portas 
pêra o dito sagrairo e por tudo isto que asj se obriga a fazer lhe daram dez 
mjll reaes e majs a madeira que pêra isto for necesairro e asy majs se obrigou o 
dito Affonso Gonçalluez de aquerçentar neste mesmo rretauollo de quadajlharga 
dous palmos e meo em que fará dous piaies em cada jlharga hum pêra a car- 
ram da pa. . . e amtre os espilares fará três quaixas cõ seus tabernaquollos e 
rrepresas pêra as jmaiges estarem de volto (?) a saber: três de cada cabo de 
maneira que sejam comfor (sic) ao vam e toda esta obra será muito bem feita 
que rrespomda cõ a outra que esta feita no dito rretauolo e se alguas peças 
do dito rretauolo esteuerem quebradas e ouuerem mester que se corregam 
elle dito Affonso Gonçalluez as quorregera e esta dita obra do dito aquerçen- 
çentamento lhe daram oito mjll reaes e a madeira que pêra iso ouuerem mes- 
ter pêra elle e o pagamento que lhe fará o dito Affonso Monteiro será segundo 
se custuma e tanto que eIRey noso senhor mandar dar dinheiro pêra esta obra 
testemunha o dito vigairo da Conceisam e Jorge Affonso seu jrmão e por asy 
serem contentes lhe foy feito este no dito dia e mes era e asynaram aqui = 
Afomso Gonçaluez = Francisco Rebelo = g. uycarius= Jorje Afomso = Afonso 
Monteiro. 

«Traga certjdam de Jorge Afonso se tem feita esta hobra como he ho- 
brygado = Bertolameu de Payua o hamo. 

iDiguo eu Jorje Afonso pimtor delrey nosso Senhor e seu arrauto que he 
verdade que Afomso Gonçalluez carpenteyro me emlregou feitos estes pilarres 
comtheudos em este comtrrato e asy o sacrrayrro que aquy dyz elle ho man- 
dou e corregeo o que sse achou sser danjficado e asy fez a grade em que sse 
o dito rretauollo ade armar e todo me emtregou bem feito sssegundo forma 
deste comtrrato quamto monta aos dez mjll rreaes e quamto monta as crre- 
cemças que sse no dito rretauolo aujam de fazer isto ficou por fazer que nã 
qujs elrrey nosso Senhor que por agorra sse fezesse e por verdade fiz este e 
ho asiney oje xxij de julho de mjll b c xxj= Jorje Afonso. 

«Asemtemse em liuro estes dez mjll (sic) que ho dito Afonso Gonçal- 
uez hadaver desta hobra que tem feita ha quall Jorge Afonso pintor confesa 



14 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

que ha tem rrecebydo pêra aver seu paganieuto=Bertolameu de Payua ho 



«Aos xxbj dias do mes de novembro foram chamados he lhe deram ju- 
ramento dos Samtos avanjelhos que bem emteyramente dexese a verdade Afonso 
de Vyla Lobos he Gonçalo Dyaz pêra aualyarrem ho forro de madeira que fez 
Afonso Gonçalluez carpemteyro de masauarya nos tyramtes do buluarte em 
xEiij reaes he obryguado de adesasemtar he a tornar asemtar depois que fose 
dourado he por que asy he verdade asynaram ambos no mesmo dia he mes 
he era de j b c xix annos.— Afonso de Vyla Lobos = Gonçalo Dyaz.» 3 

«Pêro Vaaz Nos elRey vos emirjamos mujto saudar vymos a carta que nos 
emvjastes e sobre o falecimento do mestre Oliuell e asy a deligençia que di- 
zyeis que em sua fazenda fezerees a que vos agardeçemos e asy ouujmos Fer- 
nam Monhoz e yso mesmo o que a molher do dito mestre Oliuell nos scpreveo 
em que diz que quer tomar sobre sy com os ofiçiaaes que tem a obra asy como 
a tinha o dito mestre Olyuel/. e yso mesmo vymos a sentença/, que destes an- 
tre o dilo Fernam Molhoz (sic) e o dito mestre Oliuell em que julgastes/, sua 
parçarja por bõoa e que se compryse o contrato que antre ambos era fejto/. 
a qual nos pareçeo bem /com a decraraçom que o dito Fernam Monhoz per 
huum uoso aluara que lhe açerqua diso pasamos mostrara/e por que nos nõ 
sabemos quam poderoso o dito Fernam Monhoz será pêra fazer toda esta 
obra/nem yso mesmo se a djta molher do djto mestre Oliuel poderá acabar a 
sua metade/. Vos Remetemos la ludo a vos/, pêra niso fazerdes o que vjrdes 
que he majs noso serujço por a comfiança que de vos temos e vos emcomen- 
damos que vos vejaaes tudo muy bem e o emsemjnees e achamdo vos que o 
djto Fernam Monhoz tem poder pêra a fazer toda/, e a quer açeytar/. vos lha 
emcarreguay toda/, avaliando primeiro o que esteuer fejto per o djto mestre 
Oliuell/. e quamdo/vos parecer que o nõ poderá asy fazer bem e como a noso 
serujço compre/, e que a djta molher do djto mestre Oliuell poderá fazer e 
acabar a sua metade/, emtam lha leixay fazer/, apartando ao djto Fernam Mo- 
nhoz o que lhe da djta obra couber fazer da djta sua metade que per bem de 
nosa sentença lhe he julguada/. E porque ysto de húua maneira e doutra nom 
pode ser fejto sem ser avaljado/. asy pêra se crereflcar. o que monta ame- 
tade do djto Fernam Monhoz como pêra sabermos se a obrea (sic) que ho djto 
mestre Oliuell. tem fejta vali o dinheiro que de nos tem recebido/, he segundo 
cremos by nõ avera ofiçiaaes que ho façom que ou por bua parte ou outra 



1 Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte n, maço 86, doe. 23. 
*Idem. Idem. Idem, doe. 12. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES . 15 

nom sejam sospeitos/. Sprevemos esa nosa carta que vos com esta emuyamos 
ha Jorge Affonso pymtor na quall lhe emcomendamos que ele queira buscar 
na cidade dous ofiçiaaes bõos e que ho bem emteudam e saibam sem sos- 
peita as partes que havaljem a djta obra per juramento que lhe vos daiees/se 
hy nõ teuerdes os ditos ofiçiaaes sem sospeita asy por sua parte das ditas par- 
tes como da nosa /vos envjay a djta carta ao djto Jorge Affonso e elle volos 
envjara e tanto que hy forem avaljaram toda a djta obra. que asy for fejta asy 
a do dito mestre Oliuell como a do dito Fernam Monhoz por que diz que tem 
fejto alguua parte e per a djta avaljaçom se faia a conta damtre ambos a sa- 
ber o dito Monhoz e mestre Oliuell/e asy se saberá se tem merecido hum e 
outro o dinheiro que de nos tem rrecebido. Os quaaes também avaljaram a 
cadeira que ho djto Fernam Monhoz fez pêra amostra, a quall lhe será pagua 
per voso mandado no recebedor desa obra, o que vos emcomendamos que 
tudo façaaes com aquelle rresguardo de noso serujço, que de vos comfiamos 
asy na djta avaliaçom e conta como no dar da dita obra aquém vjrdes que ha 
mjlhor e com majs noso serujço fezer e tanto que tudo for fejto uos spreve- 
rees o que se njso fez decrarando, a djta avaljaçom e quaaes ofiçiaaes a feze- 
rom e todo o majs que se njso pasar pêra o vermos e njso mandarmos o que 
ouuermos por bem se necesario for. E porque nos diserom que ha molher do 
dito mestre Oliuell tirara fazenda sua pêra fora vos vede tudo como pasa e nõ 
lhe consymtaes tirar nenhua fazenda e a mandaj poer em bõo recado e asy nõ 
dees nenhum dinheiro sem noso mandado, por quanto alem da dita obra, ele 
teue outra em que cremos que ele deve dinheyro e compryo asy sprila em 
Euora a ij djas de dezembro André Pirez a fez de 1512. E vos leixarees aca- 
bar a molher do djto mestre Oliuell o que lhe falecer da sua metade por que 
a outra ha de fiquar cõ ho djto Fernam Monhoz posto que digua que vos ve- 
jaaes la tudo e porem a huu e ao outro tomarees aquelas seguranças que vjr- 
des que compre pêra o todo comprirem na prefeyçom que devem e per que o 
dinheiro que lhes derem, ou ja teuerem este seguro = Rey • • • — Pêra Pêro 
Vaaz sobre Fernam Monhoz e molher do mestre Oliuell e sua obra — E o que 
estes avaljadores ouuerem daver se os mandardes chamar a Lixboa se lhes pa- 
gara a terços .s. huu a nosa custa e outro a custa da molher do dito mestre 
Oliuel e outro de Fernam Monhoz por prouejto de todos sam chamados e manda- 
mos ao Recebedor desa obra que pague o que a nosa parte montar = Rey • \ • »' 

«Dom Johão etc. A quantos esta minha carta de quitação virem faço sa- 
ber que eu mandey tomar conta a Jorge Affonso, meu pintor que foy que teue 
carguo de receber o azul que se achou nas minas d Aljustrel o ano de quinhen- 



1 Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte i, maço 11, doe. 37. 



16 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

tos e vinta hum, e pella recadação da dita conta se mostra carreguar sobre 
elle em recepta de dinheiro vinta hum mil seiscentos e oitenta rs. que rece- 
beo per venda d azul. E de azul dous qz (quintaes) vinta dous arrates e três 
quartas. E de cimzas duas arobas dezasete arrates três quartas. E de jaspes 
de moer o dito azul hum. E de balanças três com seus pesos. O qual dinheiro, 
azul e cousas que asy recebeo despendeo e entregou per meus mandados e do 
veedor de minhas obras sem ficar deuendo cousa algúa como se vio pella re- 
cadação da dita conta, que foy tomado pello contador Custodio d Abreu com 
Mateus da Maya escriuã e visla per Duarte d Abreu prouedor de minhas con- 
tas. E por tanto dou por quite e liure ao dito Jorge Affonso e a todos seus 
herdeiros que nunqua em tempo algum por ello sejão requeridos, citados nem 
demandados em meus contos nem fora delles. E mando aos veedores de mi- 
nha fazenda, prouedor moor dos ditos contos e a todos meus officiaes, correge- 
dores, juizes e justiças, a que o conhecimento pertencer, que asy lhe cumprão 
e guardem sem lhe ser posta duuida nem embarguo algum. E pêra firmeza 
dello lhe mandey pasar esta minha carta de quitação per mym asyuada e asel- 
lada do meu sello pendente. Mateus da Maya a fez em Lixboa ao primeiro do 
mes de dezembro do ano do nascimento de Nosso Senhor IhQ Xpo de mil b' 
cinquoenta e dous. Entrando na dita contia acima quartorze mil trezentos e 
quatorze rs., de que lhe fiz quyta e mercê.» ' 

«Auto da midiçã e demarcaçã das casas que foram de Jorge Affonso em 
que he segunda pessoa António Jorge seu filho — de Iras da capella mór: 

«Anno do naçimenlo de Noso Senhor Jhesu Christo de myll e quinhentos 
saseuta e hum anos aos sete dias do mes de nouembro do dito ano nesta ci- 
dade de Lixboa nas pousadas do Licenciado Brás Soarez Pestana juiz do tonbo 
do moesteiro de São Dominguos desta cydade em audiência que fazia da mesma 
causa pareçeo Dioguo Lopez procurador jerall do dito moesteiro e dise ao dito 
juiz que por my escriuão era rrequerido Jerónimo Jorge que estaa em pose das 
casas e chãos que foram aforados em vidas a Jorge Affonso seu paay pêra a 
dita audiência pêra apresentar os títulos que tem da dita propiedade e os co- 
nhecimentos dos paguamentos dos foros e loguo hy pareçeo o dito Jerónimo 
Jorge e dyse ao dito juiz que seu paay nomeara em segunda vida nestas casas 
e chãos a António Jorge seu jrmão que andaua nas partes da Índia avia muy- 
tos anos cujo procurador abastante ele era, e como seu procurador apresen- 
taua o tylolo que fora feyto das dytas casas ao dyto seu paay e asy trarya o 
testamento que fez antes de seu falecimento pêra se treladar a verba dele em 
que o nomeou nas ditas casas e chãos, e asy lhe apresentou os conhecimentos 



1 Torre do Tombo. Chanc. de João III. Privilégios. L.° 1, A- 11{ v - 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 1 7 

dos paguamentos dos foros de muytos anos que lhe tornou e o titolo ficou 
pêra se ver. Belchior Aluarez o escreuy. 

«As quaes casas e asento eslam de trás da capella moor do dito moesteiro 
da outra banda da rrua que vem do Rosyo pêra o cano rreal contra o norte no 
chão que o dito moesteiro pesuy e lhe foy dado juntamente com o chão de junto 
do esprital ate o muro que yay da porta de Santo Antão ate os canos da mou- 
rarya como tudo se declara nas escreturas e sentenças que dele tem que o 
dyto juiz vyo e mandou que fizesse aquy esta declaraçam per estes serem os 
tytolos que ho dito moesteiro tem dos ditos chãos que lhe antiguamente de- 
ram os Reys pasados de que sempre estyueram em pose e não era necesario 
treladaremse aquy e por verdade asjnou e asy mandou que se escreuesem os 
foros dos titolos do dito António Jorge somente que he o seguynte. Belchior 
Aluarez que seruio de escriuão do djto tonbo o escreuy. 

«E despois desto aos dezoylo dias do djto mes de nouembro do dito ano 
de quynhentos sesenta e hum anos em Lixboa nas pousadas do djto Jeronymo 
Jorge eu escriuão lhe fiz pergunta se rreconheçia ele ao moesteiro de Sam Do- 
minguos desta cidade por direito senhorio das ditas casas e asento que ficou 
por falecimento de Jorge Affonso seu paay como procurador que dezia ser do 
dito António Jorge seu jrmão que era nomeado no dito prazo e per ele foy djto 
que sy de que se fez hum termo em hum Liuro onde asynam os foreyros os 
ditos rreconhecimentos em que ele asjnou. Belchior Aluarez o escreuy.» 

«Trelado das forças do titulo que se apresentou por parte de António 
Jorge: 

«Primeiramente he hum contrato daforamento em vidas de seis pesoas 
que o prioll e padres do dito moesteiro fizeram a Jorge Afonso pintor mora- 
dor que foy nesta cidade em cabydo jeral e solenemente e o dito estormento 
daforamento foy feyto e asinado por Joham Aluarez que foy puurico tabelliam 
das notas nesta cidade de Lixboa aos trinta e hum dias do mes de Janeiro 
do ano de quynhentos e quatro anos no qual era declarado que lhe aforauam 
nas ditas seis vidas húas casas térreas todas derrubadas e danefycadas e mais 
hús pardeeyros nas costas das ditas casas que ho dito moesteiro ha e mais hús 
chãos junto com o dito moesteiro que todo estaa mjstiquo e estaa defronte de 
Santa Maria da Escada e lhos aforaram com condiçam que posa aforar parte 
dos djtos chãos aquém quiser e pelos preços que quyser e os foros que lhe 
por eles derem os poderá auer o dito Jorge Afonso e as pesoas que despois 
dele vierem e que faram nelas casas e lhe paguaram de foro e pensam a sa- 
ber: o dito Jorge Afonso e as duas pesoas que logo depôs ele vyerem ao dito 
moesteiro myl e setecentos reaes e hum par de capões cadano bõos e rrece- 
cebondos ou çem reaes por eles paguos todos em hQa pagua por dia de Sam 

Fevereiro, 1903. 3 



18 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Jobam Bautysta e que findas as primeiras três pesoas que as outras três que 
depôs ele vierem dem e pagem do djto foro mais o terço que serom mays quj- 
nhentos e setenta reaes alem dos ditos myll setecentos reaes e que os não po- 
sam uender sem licença do senhorio e lhe paguaram a corentena do preço 
porque as venderem e com outras mays clausulas e comdições conteudas no 
dito aforamento que se costumam por nas semelhantes escreturas. Belchior Al- 
uarez o escreuy.» 

«Trelado da verba do testamento de Jorge Afonso em que nomeou em 
segunda pesoa Antonyo Jorge seu fylho: 

«E despois desto aos dezanoue djas do mes de nouembro do dito ano em 
Lixboa nas pousadas do Licenciado Brás Soarez Pestana juiz do djto tonbo em 
audjençya que fazia da mesma causa pareçeo Jeronymo Jorge que dise ser pro- 
curador abastante de seu jrmão Antonyo Jorge que andava nas partes da ín- 
dia em que seu pay Jorge Afonso nomeara o prazo das casas e asento que tem 
do djto moesteiro junto do cano Real da outra banda da Rua que vay de nosa 
Senhora da Escada ao longuo do djto moesteiro pêra os canos da mourarya e 
apresentou ao dito juiz o testamento do dito seu pay pêra que se tyrase a 
verba do djto testamento de nomeaçam peia se ajuntar ao auto da medicam 
e demarcação da dita propyedade e vista pelo djto juiz djse a my escriuão que 
a treladase de que o trelado he o seguinte: 

«Item por quanto eu tenho hus asentos de casas e forno e quintaes tudo 
foreyro ao dilo moesteiro de São Dominguos em seis pesoas e eu são a pri- 
meira pesoa em mil e setecentos reaes cada hum ano de foro e dous capões 
ou hum tostão por eles os quaes asentos valem muyto dinheiro por estarem 
no luguar onde estão e e necesario nomear pesoa antes de minha morte, diguo 
que per esta cédula e nomeação presente nomeo em todo ho foro destes asen- 
tos por segunda pesoa a meu filho o mais velho chamado António Jorge pêra que 
depois de minha morte ele djto António Jorge logre e pesua os djtos asentos 
asy como os eu senpre pesuy ate ora da minha morte e pague o djto foro ao 
dito moesteiro como eu senpre paguey a qual verba eu escriuão treladey do 
propyo testamento que era asjnado pelo dito Jorge Afonso e por Manuel de Le- 
mos que dizia fazello e era feyto a vinte e hum dias do mes de feuereyro do 
ano de myl e quinhentos e corenta e nas costas dele esta hum estromento da 
prouação do dito testamento feyto por Antonyo Luys pruuyco tabelliam nesta 
cidade de Lixboa aos djtos vinte e hum djas do dito mes de feuereyro do dito 
ano de quynhentos e corenta com testemunhas em ele nomeadas o qual lhe 
torney a sua mão e a dita verba treladey bem e fyelmente do dito testamento 
e comcertey com o dito juiz e por verdade asinamos aquy. Belchior Aluarez o 
escreuy. » 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 19 

«E despois desto aos dezoyto dias do djto mes de dezembro do dito ano 
de quyDhentos sesenta e hum anos em Lixbna o djto Licenciado Brás Soarez 
Pestana com o padre frey Sebastiam de Quadros que he presente ao fazer deste 
lonbo por mandado do padre pryol por parte do dito moesteiro e conuento co- 
miguo escriuã e com António de Saa Carranca medidor fomos as pousadas e 
asento que foy do dito Jorge Afonso defunto em que estaa de pose Jeronymo 
Jorge seu filho por António Jorge seu jrmão que he nomeado no dito prazo 
pêra fazermos medicam dele comforme ao Regimento delrrrey noso senhor 
sendo primeiro apreguoados António Lopez e sua molher e António Gonçaluez 
e sua molher e Marcos Gil viuuo Calafate e Grimanesa Lopez filha de Greguo- 
rio Lopez que não he casada e Isabel Lopez viuua que foram rrequerydos pêra 
yrem perante o dito juiz pêra lhe asjnar termo e dia em que auia de fazer 
a dita medyçam per as ditas pesoas confrontarem com as dytas casas e asento 
e por nam parecerem o dito juiz a sua rreuelia lhe asynou o dito dia, dezoyto 
dias deste mes em que avia de fazer a dita medicam e asy aos vinte e dous 
dias do djto mes por não poder acabar de fazela em hum dia e sendo a ela 
presente o dito Jeronymo Jorge se fez a dita medicam pela maneira seguynte 
— Belchior Aluarez o escreuy=As quaes pesoas foram rrequeridas per my es- 
criuam somente António Lopez que foy pasado do juiz medicam. 

«As quaes casas e quintaes estam çerquados de paredes e taypas sobre 
sy e partem da banda do norte com casas e quyntall de Marcos Gil Calafate 
com quintal d'Antonio Lopez e do leuante com casas d'Antonio Guomez e de 
Grimanesa Lopez e de Isabel Lopez e de Antonyo Lopez que todas são foreyras 
ao moesteiro de São Vicente de Fora e do sull com rrua puurica que vay do Re- 
sio pêra o cano Real e do poente com casas e quyntal do dito moesteiro que 
foram aforadas a Afonso Valente e a Gonçalo Carualho seu jenrro que ora pe- 
suem seus erdeiros e com Felipa Carneira Preta diguo com casas da dita Ke- 
lipa Carneira que também são do dito moesteiro e com rrua puurica que vay 
pêra o chão de dom Anrrique e rrua das Parreyras e são cinquoenta e três 
casas afora o pateo e chão que estaa ha entrada do djto pateo a face da rrua 
que estaa defronte da capela moor do dito moesteiro ho quall chão he em qua- 
dro e tem de comprido oyto varas e três quartas e de larguo outra tanta me- 
dida e contando estas oyto varas e três quartas com a medida do mais chão 
que estaa feylo em casas a face da rrua que vay pêra o dilo cano rreal que 
são deste prazo são ao todo vinte e quatro varas e húa mão trauesa e a pri- 
meira casa que estaa peguada com este chão da banda de leuante he húa logea 
com hum sobrado e a logea tem de comprido quatro varas e três quartas e de 
larguo quatro varas e raea e o sobrado he doutro tanto comprimento e largura 
da logea e tem pelo meyo hum rrepartimento de frontee e húa jenela pêra rrua 
contra o sul e adiante desta casa estaa outra casa com sobrado e são duas lo- 



zU NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

geas a primeira tem de comprido cinquo varas e de larguo outras cinquo va- 
ras e hum quadro e a outra logea de dentro que se serue per esta tem de 
comprido cinquo varas e de larguo quatro varas e o sobrado destas logeas são 
duas casas, a primeira tem de comprido cinquo varas e de larguo quatro va- 
ras e tem nua janela pêra a mesma rrua, e o outro sobrado de dentro tem 
de comprido cinquo varas e de larguo quatro varas e alem destas casas pe- 
guado com elas a mesma face da rrua estão outras em que ora pousa Diogo 
Orelha tabelliam das notas nesta cydade e são três logeas e a primeira tem 
hum portal de pedraria e tem de conprido com a outra logea de dentro que 
parte com o quintal do dito asento e casas d'Antonio Jorge noue varas e hua 
sesma e de larguo cinquo varas e húa terça e a outra logea que fica da banda 
do poente que se serue por a primeira tem de conprido quatro varas e de lar- 
guo outras quatro e he em quadro e sobre estas logeas estam quatro casas 
sobradadas e a primeira casa tem de conprido com outra casa de dentro que 
serue de cozinha e parte com o quintal do dito António Jorge e estaa sobre a 
logea que se medjo com a primeira logea e tem de conprimento estes dous 
sobrados noue varas e hua sesma que he outro tanto como as medidas das dj- 
tas duas logeas e esta casa que serue de cozinha tem de larguo duas varas e 
mea e outro tanto tem a logea que estaa debayxo dela e a casa primeira que 
jaa tem medido o conprimento tem de larguo cinquo varas e húa terça e tem 
duas janelas e tem outra casa sobradada no andar desta que serue de camará 
e tem de conprido quatro varas e de larguo outras quatro de maneira que fica 
em quadro e em cima desta casa estaa outra do mesmo conprimento e largura 
e são todas forradas. 

iE alem do chão que atras vay declarado pêra a banda do norte estaa 
hum pateo descuberto que he seruentia do asento principal deste prazo o qual 
pateo tem de conprido sete varas e mea do dito chão ate as casas que esta 
contra o norte do dito asento e he da banda do poente e ao longuo das ditas 
casas contra o norte tem sete varas e hua sesma e da banda do leuante seys 
varas e mea e tem, cinquo portas de cinquo logeas que sam pêra ele e a pri- 
meira porta da logea estaa quamdo entrão pello dito pateo a mão ezquerda da 
banda do poente e tem a dita logea de conprido dez varas e de larguo seis 
varas/e sobre esta logea estaa hum sobrado em que estão três casas e tem húa 
janela sobre o chão que a trás fica medido que estaa a face da rrua de fronte 
da capela moor e a primeira casa tem de conprido seis varas e de larguo três 
varas e mea e a outra casa que esta no andar desta tem de conprido quatro 
varas e de larguo duas varas e mea e a outra casa que esta no andar destas 
duas tem de comprido três varas e mea e de larguo três varas. E a diante 
desta logea esta outra da banda do norte e tem de conprydo quatro varas e 
mea/e de larguo três varas e alem desta logea estaa outra que se serue por 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 2i 

ela e tem de conprido cinquo varas e de larguo quatro varas e mea e peguado 
com estas logeas pêra a banda do leuante estão outras duas que se seruem 
pelo dito pateo e se serue liQa por outra e a primeyra tem de conprido cin- 
quo varas e de larguo outras cinquo e fica em quadro e a outra logea que se 
serue por esta tem hú rrepartimento de taipa e tem de conprido cinquo varas 
e de larguo três varas e nua quarta e junto destas logeas esta outra que são 
duas e tem no meo hum rrepartimento dadobes da banda do leuante e estas 
logeas tem anbas de conprido sete varas e de larguo cinquo varas e a de den- 
tro tem hum rrepartimento no meyo que fazem duas casas e são ha de den- 
tro da medida a cima e quando entrão pêra o dito pateo a mão direita ao pee 
da escada que vay pêra o apousentamento de cyma estaa noutra logea que tem 
de conprido quatro varas e mea e de larguo duas varas e mea/e sobre esta 
logea estaa ou sobrado da mesma medida da largura e conprimento da logea 
e junto da porta desta logea estaa húa escada de tijolo, dyguo [sic) de degraos 
de tijolo e de tauoado mays acima com húa varanda por onde se serue o apou- 
sentamento de cyma e antes que cheguem a porta da sala grande do dito apou- 
sentamento estaa húa porta a mão direita que vay pêra nuas três casas que 
se seruem por ela e a primeira casa tem de conprido quatro varas e mea e 
de larguo quatro varas e no andar desta casa estaa outra que tem bua janella 
pêra os quintaes do dito asento e tem a caso de conprido três varas e húa 
sesma e de larguo três varas e outra casa pequena peguada com este que 
tem de comprido três varas e de larguo hua vara e três quartas e tem húa 
chamyne e húa janela pêra o quyntal acyma declarado e ha casa primeira 
que serue de sala deste asentamento principal he húa casa grande e tem 
húa porta pêra os quintaes e hua janela grande pêra a parte do leuante e tem 
de conprido oyto varas e de larguo cynquo varas e no andar desta casa a 
mão esquerda contra o poente estaa outra casa sobradada e tem de conprido 
cinquo varas e de larguo quatro varas e húa quarta e aby loguo estaa outra 
casa que se serue per esta e tem de conprido quatro varas e de larguo três 
varas e no andar desta estaa outra casa pequena que tem de conprido três va- 
ras e de larguo outras três e fica em quadro e he térrea por o chão estar aquy 
na altura destes sobrados e outra casa que se serue por a primeira casa que 
estaa a peguada com a sala pêra a banda do poente e tanbem he térrea por 
o chão dela estar no andar do sobrado da casa por onde se serue e tem de 
conprido oyto varas e mea e de larguo três varas e tem húa janela pêra os di- 
tos quintaes e sayndo pela porta da sala pêra o quintall a entrada dele a mão 
esquerda estaa bum poço com hum bocal de pedraria laurada e loguo hy estaa 
hum corredor pêra o poente que nam tem sayda e entesta com a rrua que vay 
pêra o chão de dom Anrrique e Rua das Parreiras e tem de conprido oyto varas 
e mea e de larguo hua vara e adiante deste corredor e peguado com ele con- 



22 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

tra o norte estaa outra casa térrea e tem de conprido quatro varas e de lar- 
guo duas varas e mea e alem desta casa esta outra térrea com hum frontal 
de tauoado no meo e tem de conprido oyto varas e de larguo quatro varas e os 
quintaes tem movias larangeyras grandes e pequenas e parreiras e outras 
muylas amores e tanques daguoa e fontes/e tem de conprido norte e sul ao 
longuo das casas que são foreyras a Sã Vicente de Fora da parte do leuante 
do quintal de António Lopez ate as casas em que ora vive Dioguo Orelha trinta 
e oyto varas e mea e da outra banda da porta da rrua que vay pêra o chão 
de dom Anrrique e rrua das Parreyras ao longuo norte e sul a face da rrua 
tem trinta e sete varas e mea entrando nelas quatro moradas de casas que es- 
tam no chão deste prazo e tem os ditos quintaes de conprimento pelo meyo 
demarcando do levante pêra o poente corenta e cinquo varas e tem os ditos 
quintaes bua porta na dita rrua que vay pêra o chão de dom Anrrique e rrua 
das Parreyras por onde se serue pêra elas. 

«E da dita porta pêra a banda do sul estão as ditas quatro moradas de 
casas açyma declarados a face da dita rrua e a primeira casa que esta loguo 
junto da dita porta são duas logeas e a primeira tem de conprido quatro va- 
ras e hua terça e de larguo outra tanta medida e he em quadro e a outra lo- 
gea que se serue por esta tem de conprido quatro varas e hua terça e de lar- 
guo outras quatro varas e terça e he em quadrado/e alem desta logea estaa 
outra contra o leuante e he térrea e quadrada e tem de conprido três varas e 
hua terça e de larguo outra tanta medida e o sobrado da primeyra logea he 
da mesma medida e o sobrado da primeyra logea he da mesma medida dela 
de conprimento e largura e a outra casa sobradada que estaa sobre a segunda 
logea tem de conprido quatro varas e hum palmo e de larguo três varas e mea 
e peguado com esta casa pêra a dyta banda do sul e a face da rrua estaa ou- 
tra casa/e logea tem de conprido quatro varas e hua terça e de larguo quatro 
varas e mais dentro tem outra casa como furna (?) que tem de conprido qua- 
tro varas e de larguo duas varas e mea e sobre esta furna estaa hum sobrado 
que he do mesmo conprimento e largura dela e sobre a primeira logea estaa 
hum sobrado que são três casas porque vão sobre o sobrado da furna as duas 
que he camará e cozinha e a primeira casa tem hua janela pêra a rrua e tem 
de conprido quatro varas e hua quarta e de larguo quatro varas e a camará 
que estaa no andar desta tem de conprido quatro varas e de larguo três va- 
ras e a casa que serue de cozinha tem de conprido quatro varas e de larguo 
hua vara e abayxo destas casas estam outras que são hus fornos de poya e 
são térreas e esta casa primeira tem dous fornos em que cozem pão e tem de 
conprido com hum rrepartimento que estaa alem dos fornos contra o leuante 
noue varas e mea e de larguo seys varas e cinquo sesmas e a mão direita en- 
trando por esta casa primeira estaa outra térrea que serue de ter lenha pêra 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 23 

o forno e tem de conprido dez varas e hua quarta e de largo quatro varas e 
duas terças e outra casa alem desta contra a dita banda do leuante e he bua 
logea e hum sobrado somente/e a logea tem de conprido quatro varas e duas 
terças e de larguo quatro varas, e o sobrado he da mesma medida da largura e 
conprimento da logea e tem Ima janela/Aqual medida de todas as dytas casas 
e quyntaes e chãos pateo e corredores e varanda foy feyta toda pelos vãos e 
a fora ysto tem as paredes e paguão de foro em cada hum ano myll e sete- 
centos reaes em dinheiro e dous capões ou çem reaes por eles/o que tudo fi- 
qua medido segundo atras he declarado em que ao todo juntamente ha de lar- 
guo e conprido em todo o dyto asento como a trás fica dito seyscentos e quinze 
varas e mea de cinquo palmos a vara e o dito juiz que a tudo esteue presente 
com o dito padre frey Sebastiam e o medidor asynarão aquy com o dito Jeró- 
nimo Jorge procurador do dito António Jorge seu irmão por estar presente a 
esta mediçã — Belchior Aluarez o escreuy. — Testemunhas que foram presen- 
tes Djoguo Lopez procurador do dito moesteiro e Joham Gonçaluez criado do 
dito Juiz e outros e foram outra vez apregoadas as pesoas a trás escritas 
pelo dito porteiro e a sua rreuelia se fez esta medicam. Uma Cruz = Fr. Se- 
bastianus de Coadros = Joham Lopez = Brás Soares Pestana.» 

«E pêra esta medicam foy pasado mamdado do dito juiz pêra ser rreque- 
rido pêra esta medicam António Lopez e sua molher moradores a Sam Joham 
da Talha termo desta cydade por ter huas casas que confrontam com as do 
dito Antonjo Jorge e foram rrequeridos como consta da çertidam que esta nas 
costas do dito mandado que tudo vay adiante — Belchior Aluarez ho escreuy.» 

«O Licenciado Brás Soarez Pestana juiz do tonbo do moesteiro de São 
Dominguos desta çydade de Lixboa per mandado delrrey noso Senhor Faço 
saber a qualquer juiz escriuão ou porteiro ou alcayde do limyte e julguado do 
luguar de São Joham da Talha termo desta cidade ou a qualquer outro do dito 
termo que com este for rrequerido em como pêra se averem de medir e de- 
marquar huas casas com seus quintaes dos erdeiros de Jorge Afonso pintor de 
trás do dito moesteiro he necesario serem rrequeridas as partes que em eles 
comfrontão pêra o que lhes mando que sendo com este rrequerido que rre- 
queirão a António Lopez filho do Licenciado Lopo Vaaz e sua molher porque 
da noteficação deste a primeira audiência seguinte que faço as segundas e quar- 
tas e sestas de cada semana pareçeo perante my pêra lhes asjnar o dia em que 
ey de demarcar e confrontar os ditos chãos sendo certos que não vindo nem 
mandado os averey por rrequeridos a sua rreuelia e medicam e demarcaçam 
segundo rregimento do dito senhor e da dita noteficaçã me pasarem sua çer- 
tidam nas costas deste por quanto são enformado que tem huas casas onde se 



24 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

chama a rrua da Palma que confrontão com o dito chão cunprio asy — Belchior 
Aluares escriuão do tonbo o fez em Lixboa a dez dias de dezembro de jb e lxj 
= Bras Soarei Pestana.» 

«Dyguo eu Pêro da Syllua ynyz do julgado de Sam Joham da Talha e dou 
fé que he verdade que em comprymento do maridado atras espryto fuy ha caza 
de António Llopez e ho rrequery por todo o cõteudo no dyto mandado e asy 
rrequery sua molhei* e ysto pêra prymeyra audyençya e elle me deu rreposta 
que ho mosteiro de Sam Vicente erra Senhoryo de dereyto da dyta fazenda cõ- 
teuda no mandado e ho por autor e que toda vylla acudyrya a dyta audyen- 
çya por sy ou por outra e eu toda vya os ouve por rrequerydos cõforme ao dyto 
mandado e por verdade asyney aquy ove 13 dyas de dezembro de 1561 anos 
e Rogey a Llançarote de Freytas que ho espreuese por o espryuam do dyto 
julgado estar empedydo —Lançarote de Freytas o espreuy no dyto dya e mes 
era atras espryto = Uma cruz de Pêro da Syllua.» 1 

«Em nome de deos Amem Saibhã quantos este estormento de declaraçã 
e ênovaçã e emprazamento vyrê" que no anno do nacymento de noso senor Jhesu 
Xpo de mill e quinhentos e quorenla anos em vyntee e três dias do mes de 
Junho na cidade de lixboa dentro no mosteiro de sã dominguos na casa do ca- 
bydo estando hi presentes os muito homrados e virtuosos padres do dito mos- 
teiro comvê" a saber o muyto Reverendo padre frey Jeronymo de padilha vi- 
gayro gerall da ordem de sãa domyuguos neste Reyno de purtugall e frey 
paullo Cotello pryor do dito mosteiro e frey Jorge de Santiago apresentado e 
frey marquos de hojeda e frey fernando do cadavall e frey Johã bautista e frey 
lluis de santarê e frey valleryano de mydyna e frey Johãa de sãa domynguos 
e frey xpuão de vallbuena e frey Johã da cruz e frey Jorge de santa lluzia e 
frey Jnaçio de lleyrya e frey ayres barroso e frey dioguo bermudez e frey dio- 
guo de vyseu e frey paullo de santa maria e frey pedro de macedo e frey 
diogo de moraes e frey Inaçio da poryíicaçã e outros frades conventuaes do 
dito mosteiro estando todos jutos ê cabydo e cabydo fazendo chamados a elle 
per som de cãapãa tangida segudo seu bom e virtuoso custume espyciallmête 
pêra este auto ao deante decllarado E bem asy estado hi prezente Ruy diaz 
pydreyro e morador na dita cydade a cyma do dito mosteiro llogo por elles 
padres foy dito q he verdade q o dito Ruy diaz e sua molher Isabell pirez a 
isto ausentee tem na dita cydade acyma do dito mosteiro quando vão pêra os 
chãos de dona Joana de crasto duas moradas de casas que ambas são sobra- 
dadas q buas sã grandes e outras pequenas q elle agora corregeo e as ditas 



1 Torre do Tombo. Cartório de S. Domingos de Lisboa. L.° 31, fl. 66 a 74. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 25 

moradas de casas grandes fez de novo no chãa q ouve de goncallo pynto es- 
cudeyro do comde de maryalvaa q todo parte per hQa banda com quyntall de 
caterina fernandez molher q foy de nu cutyleiro e doutra parte com o dito quin- 
tal da dita caterina fernandez e por deante comfrontãa com casas q foram de 
Jorge Afonso, pintor dei Rey noso Sfíor e com rua pruuica, etc.» * 



VI.— Affonso (Pêro).— Em uma carta de D. Affonso V, de 31 de julho 
de 1456, referente a diversos indivíduos, vem mencionado um Pêro Afom, pin- 
tor hospitaleiro de Ra contador (Rocamador). Esta phrase pôde entender-se de 
mais de uma maneira, mas parece-me que se deve interpretar assim: que 
Pêro Affonso, pintor, era hospitaleiro de Rocamador, isto é, que exercia n'aquelle 
hospital o cargo de mordomo ou qualquer outro semelhante. 

Adeante publico um artigo relativo a Pêro Affonso Gallego, pintor de es- 
cudos no Porto, onde já residia em tempo de D. João I, que lhe passou carta 
de privilegio, confirmada primeiramente por D. Duarte e depois por D. Affon- 
so V em 1441. Creio que entre um e outro não ha relação de identidade. 

Na minha monographia O vidro e o papel, sob o n.° viu e sob o nome de 
Mafamede, dei na integra a carta de D. Affonso V, em que apparece a refe- 
rencia relativa a Pêro Affonso. 



VII. — Affonso (Simão). — O meu amigo e distincto archivista, sr. Pedro 
A. de Azevedo', n'um dos seus interessantes estudos publicados no Archeologo 
Portuguez, trata de um chão que Diogo Luiz trazia aforado ao mosteiro de S. 
Vicente. Uma filha d'este Diogo Luiz e de sua mulher, Violanta Rodriguez, de 
nome Breatis Luís, casou com o pintor Simão Affonso, conforme um documento 
de 1555, pertencente ao cartório do mosteiro de Santos (n.° 1783). 

Veja-se o volume v do sobredito periódico, pag. 264, no artigo intitulado 
Do Areeiro á Mouraria. 



VIII.— Almeida (Pêro de).— Pêro ou Pedro de Almeida era filho natural, 
legitimado, de outro individuo de egual nome, cónego e mestre-escola na Sé 
de Santiago, de Gabo Verde. Pêro de Almeida, o pae, era natural de Marco 
de Canavezes, bispado do Porto, e houvera o filho, sendo ainda moço e leigo, 
de uma mulher solteira, cujo nome se não declara na respectiva carta de le- 



1 Torre do Tombo. Cartório de S. Domingos de Lisboa. L." 55, fl. 207. 
FíVEnEmo, 1903. 



26 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

gitimação, dada a 20 e passada em 21 de abril de 1558. Esta carta acha-se 
registada a fl. 55 v. do Livro 36 das Legitimações de D. Sebastião. 

Pêro de Almeida, o filho, era pintor e residia na rua do Alemo, em Lis- 
boa. Sua mulher chamava-se Isabel Rodeira, e tinha por certo alguma educa- 
ção, pois assigna o seu nome com boa calligraphia, prenda muito pouco usual 
entre o sexo feminino n'aquella epocha. Seu pae nomeara-o em testamento seu 
herdeiro, mas o convento de Christo de Thoraar, de cuja ordem o fallecido era 
freire, oppoz-se á herança, por elle não haver pago os três quartos que devia. 
Levautou-se por isso demanda, mas as partes chegaram a accordo, e em 2 de 
outubro de 1564 se lavrou um instrumento de concerto, em que Fero de Al- 
meida desistia dos seus direitos, largando-lhe o convento duas peças de escra- 
vos e dando-lhe mais 20:000 reaes para satisfação de despezas que elle fizera. 
Entre as testemunhas que assistiram a este auto de desistência e à outorga da 
mulher, merecem destacar-se, pelo lado artístico, Jorge Penalva, capellão e can- 
tor de el-rei, e António Boudão ou Bodau, flamengo, lapidario. 

Eis agora o respectivo documento: 

«Saibão quantos este pubrico instrumento de concerto desistência e acei- 
tação virem que no Armo do naçimento de nosso Snor Jesu Xpo de mil e qui- 
nhentos e sesenta e quatro annos a dous dias do mes de outubro em a cidade 
de lixboa e casas do apousentamento do padre frey fernão lopez capelão dei 
Rey nosso sõr e vigário da conceição da dila cidade sendo hi presente o muito 
Reuerendo padre frey Vicente dom prior do conuenlo de tomar da ordem de 
nosso sõr Jesu Xpo e geral delia per ante mim notário e testemunhas aho diante 
nomeadas pareçeo hi presente pêro d almeida pintor morador na dila cidade 
na rua do alemo filho de pêro d almeida defuncto cónego que foi na see de San- 
tiago do cabo verde e depois mestre scola na mesma e per elle foi dito que 
logo como Amrrique esteuez da veiga morador nesta cidade soube que o dito 
mestre scola era fallecido no mar, vimdo a este Reyno por vijr a elle ende- 
reçado o testamento que fizera o leuara a diogo soarez thesoureiro dos defun- 
ctos com outras cartas que disse que lhe o dito defuncto mandara de descar- 
regos, que fez ajuntar aho dito testamento, e asy as letras, escripturas e al- 
gum dinheiro amoedado e ouro/dizendo que o remitia alli por se descarregar 
de trabalhos e per auisos que mandou a húa parle e a outra foy posto em- 
bargo na dita fazenda por parte do dito convento de tomar dizendo que por 
ser o dito defuncto freire professo da dita ordem e não ter pagos os três quar- 
tos das rendas de seus benefícios antes da sua morte, não podia testar e que 
pertencia aho convento a dita fazenda per inteiro/e prouando depois elle pêro 
d almeida ser filho natural do dito defuncto legitimado e nomeado por erdeiro 
no testamento /o corregedor manuel aluarez juiz dos feitos e causas de justi- 



NOTICIA OE ALGOS PINTORES 27 

flcações de guinee, mina e índias e q visto o dito testamento e carias proua e 
legitimação delle pêro dalmeida per sua sentença o ouue e pronunciou por er- 
deiro do dito pêro dalmeida mestreseola seu pay/mandando q tirado o q bas- 
tasse pêra as diuedas e descarregos do testamento fosse entregue ao dito her- 
deiro o remaneçente da dita fazenda/segundo todo mais largamente na dita 
sentença se contem per vertude da qual pretendendo elle pêro dalmeida auer 
em si a dita fazenda como erdeiro do dito seu pay/e q pêra isso se aleuantasse 
o dito embargo o padre dom prior a quem o sobredito lhe requereo e pidio 
disse q em nome do dito connento o não podia nem deuia fazer e lho contra- 
riou dizendo (como dito fica) q o dito defuncto não podia a ora da sua morte 
testar, nem despoer de seus bêes e q pêra o poder fazer ouuera de ter pagos 
os três quartos assi da conesia q primeiro teue como da dignidade de mestres- 
cola de que depois foy prouido/ou parte della/a ho que atte ora da sua morte 
inclusine se não acha teer satisfeito/como constara per certidão do scriuão das 
três quartas /pelo que tendo per informação ser assi /alem de o dito padre (a 
quem se deve dar credito) ho afirmar (por se não meter a demanda com o 
dito connento sendo elle oficial pintor que lhe conuem mais trabalhar em ga- 
nhar de comer pêra sua casa que despender o tempo e o que não tem em de- 
mandas) tendo auido sobre isso conselho disse que consentia e lhe aprazia 
como de feito lhe aprouue e consintio que o dito connento in solidum fosse er- 
deiro de toda a fazenda do dito mestrescola seu pay assi da que agora hee sa- 
bida que se achou por papes conhecimentos e obrigações como da que adiante 
per informações auisos e outras diligencias sahir e averiguar que era sua/e 
isto com o dito conuento pagar suas diuedas e encargos e fazer por sua alma 
como religiosos que são e obrigado ás almas dos freires da sua ordem. E em 
caso que elle pêro dalmeida per vertude da sentença do dito corregedor te- 
nha ou pretenda teer algum direito e aução á dita fazenda do seu pay elle de 
sua liure e não forçada nem induzida vontade o alarga cede e trespasa no dito 
conuento dõ prior e freires delle por seruiço de deus e saluação dalma do dito 
defuncto sabendo mui certo que será mais alembrada e ajudada com missas 
e ofícios diuinos per elles que per outro algum amigo nem filho/ E dise mais 
que quanto as duas peças descrauos moços que o dito seu pay trazia consigo 
pêra elle seu filho inda que o dyto seu pay no testamento disesse que lhas 
mandaua dar pelo seruiço que lhe fizera/erão realmente de certo fato que lhe 
ficou em poder seu na ilha quando delia se tornou muito doente a este Reyno 
/o que jurara e prouara se cumprir/e outros gastos que ora fez de seis mil e 
quatro centos reis na alfandega e sisa que gastou do seu no despacho dos di- 
tos escrauos e em justificações e outras diligencias e dias que perdeo de seu 
oficio, e hum oficio de dez padres que lhe quiz fazer pela alma, na Conceição 
desta cidade a sua custa o que deixa no aluidrio dos padres e do dito padre 



28 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

dom prior que a tudo em nome do dito conuento disse que açeitaua e aceitou 
a erança do dito defuncto com os ditos encarregos/e auendo respeito ao dito 
pêro d almeida ser filho do defuncto e ao mais do fato e despesas que acima 
diz crendo a boa fee que será assi/por coutempração da alma do dito defuncto 
e por caridade e esmola auia e ouue porbem que o dito pêro d almeida seu 
filho aja e lhe fiquem da dita fazenda as ditas duas peças descrauos que ja 
tem em sua casa e mais vinte mil reaes o que lhe fazia e fez bom pela dita 
fazenda e rendas do dito conuento que pêra ello obrigou e outrosi o dito pêro 
dalmeida que o aceitou em caridade disse que com autoridade e consentimento 
e aprazimento de ysabel rodeira sua legitima molher cuja outorga lhe será to- 
mada também obrigaua e obrigou todos seus bêes moues e de raiz auidos e 
por auer a teer e manter esta escriptura de concerto e ho nella conteúdo e 
que sendo necessário requereria que da maneira sobredita fosse julgado per 
sentença. E por que a ambas partes de todo o sobredito aprouue e forão deito 
contentes assi o outorgarão e mandarão ser disso feito esta nota em que o dito 
padre dom prior e peio dalmeida assinarão e que deste instrumento e outorga 
se tirassem senhos pubricos Instrumentos dum teor: testemunhas que forão 
presentes ho dito frey fernão lopez capelão dei Rey nosso Senhor e Vigário da 
Conceição e frey Jorge de penalua outrosi capelão e cantor do dito suor e Joam 
lopez eslanten a dita cidade. E eu pêro luis ortega notário apostólico per au- 
toridade apostólica e por el Rey nosso sõr outrosi notário e escriuão pubrico 
do dito conuento que resaluando os riscados que dizião — Vigário e frey que 
isto notei e escreui com o riscado dicto e cantor por verdade = frey Vicente 
dom prior = Pêro dalmeyda = fernã lopez = Jorge penalua = yoam lopez = 
Ita est per nota petrus ludouicus apostolicus notarius. 

«E logo no dito dia e mes e ano em casa do dito pêro dalmeida donde 
eu notário fuy e sendo hi presente a dita ysabel rodeira sendo-lhe per mim 
notário lida e dito em substancia o que se atras contem no dito instrumento 
e perguntada se lhe aprazia e era contente do que ho dito seu marido tinha 
feito e concordado com o dito padre dom prior em nome do conuento/a qual 
disse que era muito contente e lhe aprazia disso e daua sua ortorga a tudo e 
pêra o ter e manter da sua parte também obrigaua seus bês como o dito seu 
marido pêro dalmeida os ja tinha obrigados e por certeza dello mandou fazer 
este termo em que a sobredita outorgante da sua mão asinou e as testemu- 
nhas que forão presentes, Joam de Campos ouriuez e anlonio boudão frameugo 
lapidario estantes na dita cidade que também asinarão e eu dito pêro luis or- 
tega notário que isto notei e escreuy=Yzabel Rodeyra = Joham de Campo = 
Anlhonij Bodau = Ita est per nota petrus ludouicus apostolicus notarius.» ' 



i Torre do Tombo. L.° lv, do Convento de Thomar, fl. 26 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 29 



IX. — Alvares (João). l.° — Pintor, residente em Lisboa. D. Affonso V o 
mandou riscar do livro dos besteiros por carta de 10 de junho de 1451. 

«Dom Afomso a uos veedores procurador desta nosa muy nobre, muy 
leal cidade de Lixboa, e ao anadel e apurador dos nossos beesteiros do conto 
dhi e a outros quaees quer que esto ouuerem de veer e esta carta for mos- 
trada, saúde, mandamosuos que tirees logo de uosso liuro, em que he posto 
por beesleiro J.° Aluez, pintor, morador em a dita cidade e o nom ponhaaes 
nem consemtaees daqui en deamle mais poer por beesteiro e em seu logo 
poeemde outro que pêra ello seja bem perteencemte e tall que nom aja razã 
desse dello escusar, do qual emuiaae o nome a A.° Furtado de Memdonça, ana- 
dell moor dos ditos nossos beesteiros pêra o assemtar em seu liuro e riscar 
o dito J.° Aluez, ao quall per esta carta mandamos que assy o conpra por 
quanto nossa mercee he por o daluaro de Bairros caualeiro de uossa casa e 
nosso hucham que nollo por elle pediu auemos assy o dito J.° Aluarez por es- 
cuso como dito he, o que assy coupri sem outro alguu êbargo. Feito em Lix- 
boa x dias de junho. — D. Borjes o fez ano de nosso Senhor de mil iiij c lj anos.» ' 



X.— Alvares (João). 2.° — Pintor, muito provavelmente do mosteiro da 
Batalha, em cuja villa residia sua viuva, Calharina Martins. Esta, não tendo fi- 
lhos, nem herdeiros ascendentes, dispoz dos seus bens em favor de João Pi- 
res, escudeiro, morador ua dita villa, e sua mulher, aos quaes perfilhou por 
um instrumento, que 1). Affouso V confirmou em carta de 12 de março de 
1455. 

«Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que perante 
nos pareçeo huu estormento de perfilhamento feto e asinaado per Iohã Anes 
Cuteliuho nosso tabelliam morador em a nossa villa de Leirea, segundo em 
elle parecia em o quall fazia meemçom anlre as outras cousas que vendo Ga- 
telina Marlijz, morador em a dita uilla, molher que foy de Ioham Aluarez pin- 
tor, como ella nom avya filhos nem filhas nem herdeiros ascendentes que de 
direito despois de sua morte seus bens podessem auer, e outrosy veendo como 
era ja molher de tall hidade que os nom podia auer, e veendo e consirando 
as muitas boas obras que ella recebera e recebya de Ioham Pires, escudeiro, 
morador em a dita villa e de sua molher e contheuda ao deante receber, e que- 



* Torre do Tombo. Ch»nc. de D. Affonso V. L." 13, fl. 30 v. 



30 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

rendolhe galardoar com boas obras que ella recebia por seus filhos adoutiuos 
os ditos Ioham Pirez e sua molher que depois de sua morte podesem erdar 
os ditos seus bêes e lhe outorgara sobre ello o dito estormento de perfilha- 
tuento, pedindonos por mercee que lhe confirmasemos o dito perfilhamento e 
bouuessemos por bõo e firme e valioso, e nos veendo o que nos asy dezia, e 
ante que em ello déssemos liuramenlo, mandamos saber per inquiriçom se a 
dita Catelina Miz fezera o dito perfilhamento os ditos Joham Pirez e sua mo- 
lher de sua e liure vontade sem nenhúu engano nem prema nem costrangi- 
mento que lhe sobre ello fosse feto ou per algúu conluyo ou em outra alguua 
maneira. Outro sy se tinha filhos alguus. E vista per nos a dita inquiriçom e em 
como se per ella mostra que a dita G.°* Miz lhe fez o dito perfilhamento de sua 
liure vontade, sem nenhQu engano nem prema, nem costrangimento que lhe 
sobrello fosse feto e em como ella nom tynha filhos nenhOus que de direito 
ajam de herdar seus bens, e querendolhe fazer graça e mercee ao dito Joham 
Pirez e sua molher, e visto per nos o estormento de perfilhamento e a inque- 
riçom que sobre ella foy tirada, teemos por bem e confirmamoslhe e retefica- 
moslhe e outorgamos e aprouuemos o dito perfilhamento em todo polia guisa 
que feto he e em o dito estormento he contheudo. E porem mandamos a to- 
dollos juizes e justiças dos nossos Regnos e a outros quaees quer oficiaaes, a 
que desto o conhecimento perteencer, a que esta carta for mostrada, que lhe 
conpram e guardem o dito perfilhamento em todo e per todo como em ello he 
contheudo, e lhe nom vaades nem consentaaes hir contra elle em nenhúua 
guisa que seja nom enbargando quaees quer lex e custumes que esto possa 
èbargar, ca nossa mercee e vontade he de lhe o dito perfilhamento seer con- 
firmado e outorgado pella guisa que em elle he contheudo com entendimento 
que esto nom faça nenhúu perjuizo a alguus herdeiros lídimos se os hi ha e 
outras quaees quer pesoas que algúu direito ajom nos ditos bens, e em teste- 
munho desto lhe mandamos dar esta nossa carta dante em a nosa mui nobre 
cidade de Lisboa a xij dias do mes de março — elRey o mandou per o dou- 
tor Lopo Vaz de Serpa, seu vassallo e do seu desenbarguo e das petiçoêes e 
per Gomez Lourenço, outrosy seu vassallo e do seu desenbarguo que ora per 
seu espiciall mandado teem carreguo da correiçom de sua corte — Fernam 
Lopez por A.° Eanes a fez — anno de nosso Senhor Ihú X.° de mil iiij c lb, e 
por quanto aqui nom era o nosso seello pendente mandamos asseellar esta 
carta com o nosso seello de poridade.» 1 



1 Torre do Tombo. Chane. de D. Affonso V. Doações. L.° 15, fl. 41. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 31 



XI. — Alvares de Andrade (Luiz).— Os andores que falam cTelle cele- 
bram mais as suas virtudes de fervoroso catholico do que os seus talentos de 
pintor. Vejam-se os artigos que lhe consagram Taborda e Volkmar .Machado. 
Em 29 de junho de 1601 foi nomeado por el-rei seu pintor de tempera, dou- 
rado e estofado, cargo que vagara por fallecimento de António de Barros. An- 
teriormente, a 22 de setembro de 1590, já lhe tinha sido passada portaria do 
mesmo cargo, mas como se perdesse a respectiva carta, foi-lhe passada de 
novo a de 1601. 

«Dom Filippe etc, faço saber aos que esta minha carta virem que eu ey por 
bem e me praz fazer mercê a Luis Aluarez d Andrade, pintor e morador nesta 
cidade de Lixboa, do officio de meu pintor de tempara, dourado e estofado, que 
vagou por fallecimêto de António de Barros, assy e de maneira que o elle tinha 
e seruia e como o tiuerão e seruirão os mais propietarios do dito officio, com 
o qual não averá mantimento algum, mas serlhehão pagas as obras que fizer, 
e mando a todos os meus officiais que ajão daqui em diante o dito Luis Al- 
uarez por meu pintor e quando mandarem fazer algOas obras para meu ser- 
uiço, em qual quer parte, assy de tempara, como dourado ou estofado lhas 
mandem fazer a elle e não a outro algúu e quero que o dito Luis Aluarez 
goze e vse com o dito officio e todos os priuilegios... Dada em Lixboa a xxix 
de junho — João Aluarez a fez — ano do nacimento de Nosso Senhor Ihesu Xpo 
de mil bj c e huu (1601), e desta mercê se lhe passou portaria ao dito Luis Al- 
uarez a xxij de setembro de nouenta e noue, pela qual se lhe fez carta do 
dito officio, que diz se perdeo e se não acha: cumprirseha hú" delles somente, 
e eu Manuel Godinho de Castello Branco a fiz escreuer.»* 



XII. — Andrade (Lazaro de). — Entre o pessoal da comitiva que acompa- 
nhou D. Rodrigo de Lima na sua embaixada ao Preste João, diz o padre Fran- 
cisco Alvares, chronista d'esta empreza, que se contava Lazaro de Andrade, 
pintor. Outro artista lhe fez companhia, Manuel de Mares, tangedor de órgãos. â 

Em outros pontos da sua obra se refere o padre Francisco Alvares a La- 
zaro de Andrade, fazendo sobresahir as suas qualidades de cantor e luctador. 
No primeiro caso, diz que elle o ajudara, com a sua voz e conhecimentos li- 
thurgicos, na celebração de umas matinas do Natal. Como luctador, provocado 



i Torre do Tombo. Clianc. de D. Filippe II. L.» 7, fl. 222. 
J Verdadeira Informação, cap. iv. 



32 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

a medir-se braço a braço com um pagem do monarcha da Abyssinia, não foi 
muito feliz, pois logo de principio lhe partiram uma perna, pelo que o Preste 
lhe deu, como premio de consolação, um rico vestido de brocado. 

De regresso da Ethiopia, o padre Francisco Alvares foi a Roma apresen- 
tar ao Papa os protestos de obediência do potentado africano. Paulo Jovio, ce- 
lebrado erudito e escriptor italiano, travou relações com o nosso compatriota 
e d'elle obteve um retrato do rei David, que collocou na sua vasta galeria das 
mais notáveis personagens de todos os tempos, reproduzindo-o em gravura no 
seu livro Elogia virorum, etc. 

Por quem seria executado este retrato, ao qual todavia Francisco Alvares 
não faz a menor referencia? Na corte do imperador da Ethiopia, ao tempo em 
que chegaram ali os portuguezes, commandados por D. Rodrigo de Lima, an- 
dava um pintor italiano, de nome Nicolau Rranca Leone. Seria este ou o nosso 
compatriota o executor da obra? As probabilidades parece que devem militar 
em favor d'este ultimo, de quem Gaspar Correia diz que era bom pintor. * 



XIII.— André (Manuel). — Na Torre do Tombo existe um códice, que se 
julga ter pertencido ao convento da Santíssima Trindade de Santarém, o qnal 
comprehende o Instrumento ou processo, que intentou aquella Ordem, em 1575, 
para provar que Frei Miguel Contreiras foi o instituidor da Misericórdia. Tem o 
n.° 1:902. 

Entre as testemunhas inquiridas apparece o pintor Manuel André, mora- 
dor ao Rocio, que disse ter sido discípulo de Garcia Fernandes, que pintara 
o quadro da Misericórdia. N'este quadro, assim como em outros allusivos ao 
assumpto, vira frades vestidos de branco. Declarou que no tempo da peste 
(1569) andava pintando o claustro da Sé. Manuel André é a 9. a testemunha 
do Instrumento ou Inquérito, e como este fosse principiado em 1574, segue-se 
que ainda vivia n'esta epocha. Raczynski, que lhe inscreveu o nome no seu 
Dictionnaire, diz que elle tinha mais o nome de Hieronymus, mas é engano, 
como à priori se verifica, pois não seria admissível que um individuo escre- 
vesse só em latim o seu ultimo nome. Effectivamente Hieronymus é o escri- 
vão do processo. 



XIV.— Anes (Gonçalo).— Foi pintor de D. João I, e D. Affonso V, em carta 
de 15 de junho de 1450, lhe outorgou a tença annual de quatro mil reaes e 
meia peça de bristol (panno). Em 7 de março de 1455 o mesmo monarcha 



1 Lenda» da índia. Tomo n, pag. 587. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 33 

passava caria de illuminador a Vasco, que se diz alli creado de Luiz Dantes, 
creado de el-rei — em loguo de huum moço que tynhamos hordenado a Gonçalo 
Eanes noso capellam outro si noso ilominador. 

Será o illuminador de D. Affonso V, o pintor de D. João I? 

«Dom A.° etc A quamtos esta carta virem fazemos saber que nos que- 
remdo fazer graça e mercee a Gonçale Anes que foy pimtor delRey dom Ioham 
meu auoo, cuja alma Deus aja, teemos por bem e outorgamoslhe que tenha e 
aja de nos de teemça, do primeiro dia de janeiro que ora foy desta era pre- 
sente de quatroçemtos cimquoemta em diamte, em cada hQu anno, em quamto 
nossa mercee for quatro mil Rs e bua m. a peça de pano de Bristoll, os quaaes 
dinheiros e pano auera per cartas que lhe em cada huu anno dello ser amda- 
das em a nossa fazemda. E em testemunho dello lhe mamdamos dar esta nosa 
carta ssinaada per nos e asseelada do nosso seello pemdemte pêra teer por 
ssua garda. Dante em Lixboa xb dias de junho Ruy Diaz a fez anno do senhor 
IhO X.° de mil iiij c V* (1450).» l 



XV. — Anes (João). — D. Affonso V o tomou por seu pintor, para o servir 
nos armazéns da cidade. A respectiva carta é de 17 de julho de 1454 e con- 
cede diversos privilégios. Taborda encarece os merecimentos de João Anes, 
exaggerando os termos da carta, que afinal de contas são communs a diplo- 
mas idênticos, diplomas aliás vulgares. 

Vide o artigo relativo a Gonçalves (Nuno). 

«Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos 
querendo fazer graça e mercee a Johane Anes, pintor, morador em esta nossa 
cidade de Lixbõa, teemos por bem e filhamollo por nosso pintor pêra quando 
lhe da nossa parte for requerido nos auer de seruir de seu oficio em o nosso 
alraazem da dita cidade e queremos e mandamos que daqui en diante elle seia 
escusado de pagar. . . G.° de Moura a fez — ano de nosso Senhor JhesO Xpo 
de mil iiij" liiij — Ruy Galuã a fez escpreuer.» 2 



XVI. — Armõe (Reymão).— Saboyano. Viera para Portugal por 1533, tra- 
balhando durante três annos em restaurar e dourar muitos quadros. A camará 
de Lisboa exigiu-lhe carta de exame do seu officio, e, como elle a não tivesse, 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.° 34, fl. 100. 

2 Idem. Idem. L." 10, fl. 75. 

Fevereiro, 1903. 



34 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

recorreu a el-rei pedindo excusa, allegando que as suas tintas e processos eram 
de segredo, não havendo outro official que o podesse examinar. D. João III 
despachou favoravelmente a sua petição, mandando-lhe passar carta n'este sen- 
tido a 20 de junho de 1536. 

«Dom J.° etc, faço saber a quantos esta minha carta vyrem e o conhe- 
cimento delia pertencer que Reymao darmoye, saboyano, me enviou dizer que 
avia três anos que vyera a estes Regnnos e era oficyall dalympar retauollos e 
renouallos asy da pimtnra como do ouro e depois destar neles tynha lympos 
e renouados muytos e se tynha visto per esperyemcia o proueyto que se dyso 
seguya como mostrou per certidões autenticas, e que ora os oficiaes da ca- 
mará de Lixboa lhe pedyã que mostrase carta demgyminaçam de seu oficio, 
a qual elle nã tynha por lhe nã ser necesarya por quanto o olyo e comfeyções 
e cousas com que alympa e faz sua obra he de segredos per omde se nã pode 
enxeminar por hy nã aver oficiall de sua arte; pedimdome, poys ja estava 
vysto a esperyemcia do dito oficio ouvese por bem que fiodese vsar delle sem 
ser enxeminado, e eu lhe mandey sobre yso fazer deligencia, a qual elle fez, 
e visto todo por mim ey por bem 1 que elle posa vsar do dito oficio e alynpar 
e renovar os ditos retabollos como ate ora fez sem ser enxeminado. Notefico 
asy pêra que o nã costrangam a yso e pêra fyrmeza dello lhe mandey pasar 
esta carta per mim asynada e asellada do meu sello. J.° Roiz a fez em Évora 
a xx dias de junho de myll b e xxxbj.» ' 

Ao lado diz: «Reymão darmoê carta, etc.í 



XVII. — Aves (Francisco das). — Era pintor em Reja. D. Manuel, em carta 
de 30 de abril de 1521 , o nomeou afinador do azul das suas minas junto de 
Aljustrel, com o qual cargo tinha de tença annual vinte e quatro mil reaes e 
dois moios de trigo. Além dMsso, para melhor incitamento ao seu trabalho, 
foi interessado em um por cento no producto da venda. Veja-se o artigo acerca 
de Jorge Affonso, a quem se passou carta de quitação pelo azul que recebera 
das mesmas minas. 

«Dom Manuell etc, a quantos esta nosa carta virem fazemos saber que 
por termos êformação de Francisco das Aves, pimtor, morador na nosa cidade 
de Beja, he auto e pertencête pêra afynar o azull das nosas minas delle, que 



1 Falta no registo. 

» Torre do Tombo. Chanc. de D. Joio III. Doaçõet. L .« 52, í. 42 t. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 35 

stam jumto d Alljusireli, e de sy por lhe fazermos mercê, avemos por bem e 
nos praz de lhe dar o careguo dafynador do dito azull, com o quall queremos 
que ele lenha e aja de mãtimenlo cada ano vinte e quatro mill rs e dous moios 
de Iriguo comprados e paguos na dita vila dAHjuslrel, com tall cõdiçam que 
elle seja obrigado afynar o dito azull em toda perfeyçã e da maneira que com- 
pre pêra se aver de vêder e fazer delle proueito, e pêra elle dito Francisco 
das Aves ter razã de com mais vontade trabalhar na dita obra e fazer todo o 
possiuell pello dito azull sair bem afynado e apurado pêra se melhor aver 
de comprar, queremos que elle aja o hum por cento de todo o proueyto que 
nele se fezer do preço por que se vêder e se caso for que ho dito hum por 
cento nam chegar a elle avera Rszam de hum tostão por cada hum dia que 
na dita afynaçã trabalhar, praz a nos que ele aja e seja pago do dito toslã 
por cada hum dia que asy trabalhar de maneira que se no dito hum por cento 
menos render todavia aja a tostão por dia de trabalho e se mais render será 
pêra elle pello quall mãdamos ao recebedor da dita feitoria... Dada em Lis- 
boa a xxx dabrill — António A.° a fez — ano de mill b c xxj e começara de 
vencer este ordenado do dia que começar a seruir e apresentar esta carta a 
Martym Vaaz Masquarenhas, que temos prouydo de oulhar e mandar oulhar 
por toda a dita feytoria e esto avemos por bem êquãto mãdarmos tirar a dita 
tinta azull.» ' 



XVIII. — Barco (Gabriel dei).— Pintor azulejista. Como o está indicando 
o seu appellido, era hespanhol ou italiano. Talvez tivesse residido em Portugal, 
existindo obras suas em Évora e nos arredores de Lisboa. Tenho noticia das 
seguintes: 

Na egreja de S. Thiago, em Évora, quadros de azulejo representando a 
Historia do filho pródigo, que o sr. Gabriel Pereira qualifica de bellos. Teem 
esta rubrica: Gabriel dei Barco, F. 1699. 

N'uma quinta pertencente á família Cordes, próximo da egreja parochial 
de Barcarena, ha uma linda capellinha, cujo pavimento e altar-mór são de mo- 
saico, tendo pintado no tecto a Visitação de Nossa Senhora. Cada uma das pa- 
redes é forrada por um quadro de azulejos, azues e brancos, com tarjas infe- 
riores, representando meninos brincando e outros ornatos. O desenho não me 
pareceu muito correcto, mas o effeito geral é agradável. Representam o Bap- 
tismo de S. João e o mesmo santo no deserto. No painel, á esquerda de quem 
entra, lê-se: D. Gabriel dei Barco F. 1691. Este ultimo algarismo não está 
muito intelligivel, podendo ser talvez um 2. 



' Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.° 39, fl. 57. 



36 NOTICIA DE ALGDNS PINTORES 

Na egreja parochial de S. Bartholomeu da Charneca existe, na parede do 
lado do Evangelho, ura quadro de azulejo, com moldura ornamental, assignado 
á esquerda, em baixo: G." B." F. 1699. No lado fronteiro ha outro quadro de 
eguaes dimensões, mas sem assignalura; comludo é do mesmo auctor. O de- 
senho é razoável, mas os da Capclla da Eucharistia, onde se não descobre nome, 
julga-os superiores o sr. visconde de Castilho, que foi quem verificou a exis- 
tência d'estes azulejos e teve a amabilidade de m'o communicar. 

Na sua quasi totalidade, os azulejos apparecem anonymos, mas ha alguns 
firmados com os nomes dos seus auctores e outros com datas e inscripções 
de diversa natureza. Consultem-se a este propósito os nomes de Nicoloso, Oli- 
veira Bernardes (António de), Kloet (W. V. der), Mattos (Francisco de), Serra 
(Victorino Manuel da) e Borges (Manuel). Não consegui averiguar se algum 
d'estes pintores de azulejos seria ao mesmo tempo ceramista como Baphael 
Bordallo, e se teria, por conta própria, fornos de louça. 

O azulejo, apesar do desdém a que foi votado nos últimos tempos e dos 
destroços que tem soffrido, é ainda abundantíssimo no nosso paiz, sendo nu- 
merosos os espécimens que restam de diversas epochas, estylose procedências: 
hispano-arabes, italianos, flamengos e porluguezes. O azulejo foi o mais consi- 
derável elemento de ornamentação que se tem usado em Portugal, podendo 
apenas compelir com elle a talha ou madeira esculpida, com a differença, po- 
rém, de que esta ultima era quasi exclusivamente applicada ás construcções 
religiosas, ao passo que o primeiro tanto se empregava nos edifícios sacros 
como nos profanos. Elle revestia as paredes das egrejas, as quadras dos claus- 
tros, as salas dos palácios, brilhando egualmente á luz artificial e á luz do sol. 
Elle servia de enfeite na architectura dos jardins, ornamentando os recintos 
consagrados aos exercícios physicos, como o jogo da bola. Factos históricos, 
como a revolução de 1640, lendas milagrosas, como a de Fuás Boupinho, acon- 
tecimentos locaes, como o caso do Senhor Boubado, próximo de Odivellas, eram 
perpetuados em painéis de azulejo. Antigamente rara era a casa que não ti- 
nha o seu quadrinho azulejado sobre a porta ou na frontaria, muitos d'elles al- 
lumiados por uma lâmpada devota, o que contribuía para a illuminação publica, 
que n'esse tempo ainda não existia, ou era absolutamente rudimentar. Por to- 
dos estes motivos, uns de importância artística, outros de importância social, é 
bem de vèr quanto a pintura em azulejo forma uma especialidade caracterís- 
tica, que bem merece ser estudada com attenção e carinho, não só isolada- 
mente, mas em comparação com os outros ramos da pintura. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 37 



XIX.— Barreto (Jorge). — Era pintor da Camará de Santarém. D. Filippe I, 
em alvará, com força de carta, de 7 de fevereiro de 1598, confirmou o contra- 
cto que a camará da dita villa, hoje cidade, fizera com elle, para lhe pintar 
as suas obras, a Iroco de um moio de pão meado por anno. Parece que egual 
coDtraclo já tinha sido celebrado com seu pae, cujo nome se não declara. 

«Eu ellRej faço saber aos que este aluara virem que auemdo respeito ao 
que na petição atras escrita dis Jorge Barreto pimtor morador na uilla de San- 
tarém e per eu mãodar ouuir os ofíiciaes da camará dela sobre o que na dita 
petição requerer com a jmformação que acerca disto se ouue do prouedor da co- 
marqua da dita villa per que constou ser justo o que per este aluara conscedo 
ao dito Jorge Barreto e proueito da dita camará o contrato que com elle tem 
feito e fazer seya assy cõ seu pay e que aa conta do moyo de pão meado que 
se lhe daua pimtaua muitas cousas que ficauão sendo muito mais baratas do 
que o forão pagandose em outra forma ey per bem que o dito Jorge Barreto 
seya pimtor da camará da dita villa de Santarém e sirua ao diamte o dito offi- 
çio como tee ora o serue e lhe seya cadanno pago e leuado em conta das rem- 
das do conselho delia não emtrando nisso a minha terça ou domde se custuma 
satisfazer o ordenado de que na dita petição faz menção assy do tempo que 
ha que no dito oflicio se ocupa posto que para ysso não ouuesse prouisão mi- 
nha como daquy em diamte em quanto o seruir e comprir o dito contrato polia 
maneyra e na dita petição declarada e mãodo aos ofíiciaes da camará e ao pro- 
uedor da comarqua da dita villa de Sãotarem que ora são e pollo tempo forem 
que polia dyla maneira lhe facão fazer bom pagamento do dito ordenado e com 
seus dinheiros se lhe leue em conta constamdolhes que cumpre sua obrigação 
na forma deste Aluará que ymteyramente se comprirá em todo como nelle se 
contem e será tresladado com a dita petição no Liuro da dita Gamara de que 
aquy se fará declaração como he costume pêra em todo tempo se uer e saber 
que ouue assy per bem e o propio se tornara ao dito Jorge Barreto pêra sua 
goarda e este quero que valha etc., em forma Belchior de Sousa o fez em Lix- 
boa sele de feuereiro de mil quinhentos noueuta e oyto. Pêro de Seixas o fez 
escreuer.» ' 



1 Torre do Tombo. Ghanc. de D. Filippe I. L.° 30, fl. 338 v. 



38 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XX. — Barros (António de).— D. Filippe I, em carta de 29 de fevereiro 
de 1596, o nomeou seu pintor de tempera, cargo que vagara por fallecimenlo 
de Gaspar Carvalho, rei de armas da índia. Não encontrei a carta de nomea- 
ção d'este ultimo. A António de Barros succedeu, em 1601, Luiz Alvares de 
Andrade. 

«Dom Felipe ele. Faço saber aos que esta minha carta uirem que ey per 
bem e me praz de fazer mercê a António de Bairros pintor do officio de meu 
pintor de tempera assy e da maneira que o era Gaspar Carualho que foy meu 
rey darmas jmdia per cujo falecimento o dito officio vagou com o qual officio 
não auera casamento nem mamtimento algum pollo não ter o dito Gaspar Car- 
ualho e lhe serão paguas as obras que fiser e per firmesa disso lhe mãodey 
dar esta carta per mym assynada e sellada do meu sello pemdemte dada em 
Lixboa a uinle e noue de feuereiro — Francisco de Figueiredo a fes — anno de 
nosso Senhor Jesus Christo de mil quinhentos nouenta e seys. — Manoel Godi- 
nho de Castelbranco a fes escreuer.» 1 



XXI. — Le Bault (Claude). — Pintor francez. Nasceu em 1665 em Port de 
Chauvort, logar da freguezia de Allery, na margem direita do Saôoe. 

Besidiu em Roma durante dois annos. Voltou a Paris, onde esteve egual 
tempo. Regressando a Itália, passou d'aqui a Hespanha e Portugal. N'este ul- 
timo paiz pintou os retratos da família real e de pessoas da corte. Entrou em 
França em 1703. 

Lêem-se estas noticias no seguinte opúsculo: Claude Le Bault, peintreor- 
dinaire du floi, ses oeuvres au Musée de Dijon et à l'église d' Allery (Saóne et 
Loire) par Léonce Lex. Paris, 1896. Typographie de E. Plon, Nourrit & C." 



XXII.— Borges (Manuel).— Na egreja da Misericórdia de Évora existem 
uns azulejos firmados com o seu nome e com a data de 1716. Num dos li- 
vros das despezas d'aquella corporação lê-se, com respeito ao anno de 1715, 
que se fizera contracto com o azulejador Manuel Borges. A Misericórdia pa- 
rece ter ficado satisfeita, pois em maio de 1716 lhe mandava dar de gratifica- 
ção duas dúzias de queijos no valor de 4#800 réis. 



i Torre do Tombo. Chanc. de D. Filippe 1. Doqçvet. L.' 30, fl. 169. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 39 

Manuel Borges lalvez não fosse unicamente o pinlor dos azulejos, mas 
também o seu fabricante. 

Entre os opúsculos do sr. Gabriel Pereira, Estudos Eborenses, veja-se o 
que trata da egreja dos Lóios, pag. 14. 



XXIII. — Brandão (Eduardo Emilio Pereira). — No Diário de Noticias de 
28 de maio de 1897 lê-se o seguinte: 

« Eduardo Brandão. — Um pintor portuguez desconhecido. — No Figaro, che- 
gado hontem a Lisboa, lemos a noticia da morte de um pintor portuguez, que 
suppomos inteiramente desconhecido na sua pátria. 

cChamava-se Eduardo Emilio Pereira Brandão e tinha 66 annos. Natural 
de Lisboa, era filho de pães israelitas. 

«Foi discípulo de Montfort e amigo de Corot. São d'elle as bellas pintu- 
ras muracs do oratório de Santa Brigida, em Boma. 

«Depois de ter exposto, durante dez annos, no Salão do Palácio da In- 
dustria, passou ao Salão do Campo de Marte. 

«Haverá porventura alguém que conheça este nosso compatriota ou pes- 
soa de sua família? 

«Seriamos contentes se podessemos transmittir aos nossos leitores mais 
algum dado biographico d'este artista portuguez.» 

O original do Figaro diz Edouard. Será Eduardo ou Duarte? 

Um amigo meu mostrou esta noticia ao sr. Gardozo de Belhencourt, que 
actualmente se acha em Lisboa fazendo estudos sobre os judeus portuguezes, 
e este cavalheiro teve a amabilidade de escrever uma nota em francez, que 
transcrevo em seguida, e pela qual se mostra que Pereira Brandão não era 
nosso compatriota, mas sim um descendente de judeus portuguezes. 

aPereira Brandão, «peintre portngais inconnu». — Cest un trançais et il 
figure comme tel sur les listes de la Société des artistes français. ' Son nom 
exact est Jacob-Emile-Edouard Brandon, né à Paris en 1831, élève de Corot, 
de Montfort et de Picot. Médaillé aux Salons de 1865 et de 1867. Je connais 
de lui: 1.° A Borne, dans la Chapelle ou Oratoire S. le Brigite, de grandes pein- 
tures murales; 2.° Le Sermon du Dayan Cardozo à la Synagogue d'Amsterdam; 
3.° La Prière pour Léopold II dans la Synagogue de Bruxelles. Les n. 01 1 et 2 
ont été médaillés. 



1 Voir le Livret du Salon de 1879 (et autres années). 



40 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«D était fils de Juifs Portugais de Bayonne, les Pereira Brandon, dont une 
branche était établie à Paris vers la fin du xviii 6 siècle, mais dont les premiers 
membres vinrent à Bayonne à la fin du xvn e siècle. Les armoiries de cette fa- 
mille furent enregistrées en France en 1700. 

«Lx. 4 , 25 jan. 903. 

Cardozo de Bethencourt.* 



XXIV. — Cão (Gaspar). — Era filho de Álvaro Pires, que havia sido tam- 
bém pintor de el-rei D. Manuel, e por morte d'elle o ficou substituindo n'este 
cargo, para o qual foi nomeado por D. João III, em carta de 19 de fevereiro de 
1539. Foi casado com uma filha de Luiz Martins, trombeta de el-rei D. Manuel. 

Luiz Martins, em carta de 8 de agosto de 1513, foi nomeado inquiridor 
ante o corregedor de Lisboa, cargo que havia exercido Fernão Vaz, que lh'o 
vendera. i 

O documento, que em seguida transcrevo, está redigido pouco explicita- 
mente, de modo a ter-se alguma duvida em saber se foi Gaspar Cão ou seu 
pae que casou com a filha de Luiz Martins. 

«Dom J.° etc, a quantos esta minha carta virem faço saber que, que- 
rendo eu fazer graça e mercê a Gaspar Cam, me praz de o tomar ora por meu 
pimtor pêra me seruir delle quando me for necesario, e isto em lugar dAluaro 
Pirez, seu pay, que ate ora foy meu pintor per hú aluara delBey meu senhor 
e padre, que samta gloria aja cõfirmado per mim, que ao asynar desta foy roto, 
o qual lhe pasou por casar com hua filha de Luiz Miz, seu tronbeta, e por- 
tãoto lhe naãdey pasar esta pêra sua guarda e minha lenbrança e porem elle 
nom hadaver moradia em casamento nem mantimento alguu pelo nom ter seu 
pay. Dada em a cidade de Lisboa a xix dias do mes de feuereiro. Amtonio 
Godinho a fez ano do nacymento de noso Senhor Ihesu X.° de jb c xsxix anos.»* 



XXV.— Carducci ou Carducho (Vicente). — Nasceu em Florença em 1578 
e falleceu em Madrid por 1638. Madrazo, no seu Catalogo de los cuadros dei 
Museo dei Prado, colloca-o na Escola bespanhola. Na livraria do Archivo Na- 
cional existe, sob o numero 1:086, o manuscriplo em hespanhol, intitulado Dia- 
logo de la pintura. Tem o seguinte ex-libris de lettra de mão: He de António 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.° 42, fl. 89. 
Mdem. Chanc. de D. JoSo III. Doaçõet. L.° 26, fl. 51 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 41 

de Sousa Pintor. Este livro pertenceu, em d 673, a um doutor João Gomes, re- 
sidente no seminário de S. Patrício, e mais tarde passou á livraria de Nossa 
Senhora da Eslrella. 



XXVI. — Carvalho.— No Museu dei Prado existe um quadro represen- 
tando Santa Calharina, em figura de rainha, com trajos do principio do século 
xvi. Sustenta na mão esquerda uma espada e com a direita segura o manto. 
Na bainha da espada lê-se o nome Carvalho, com certeza de algum artista nosso 
compatriota, que talvez residisse na corte de Hespanha. Não se conhece o seu 
nome próprio, ignoraudo-se quaesquer outros pormenores biographicos que 
lhe digam respeito. Ha quem imagine que na imagem da santa está represen- 
tada a infeliz rainha de Inglaterra, D. Calharina de Aragão. O quadro, que 
adornou na primiliva o convento madrileno de los Angeles, aeha-se descripto, 
sob o n.° 2:1 50, no Catalogo de Madrazo, impresso em Madrid em 1878. 



XXVII. — Carvalho (Gaspar).— Era rei de armas da índia no tempo de 
D. Filippe JI e seu pintor de tempera. Tinha falleeido por 1596, pois n'este 
anno era nomeado para o substituir no cargo de pintor António de Barros. Não 
encontrei a sua carta de nomeação e por isso não posso precisar mais nenhum 
dado biographico a seu respeito. Seria acaso o artista de quem tratei no ar- 
tigo anterior? Ignoro a data do quadro de Santa Catharina e por conseguinte 
não sei se coincidirá com a epocha em que Gaspar Carvalho exerceu a sua 
actividade. 



XXVIII. — Castelli (Bernardo). — Inscrevo aqui este nome com o único 
fim de fixar uma noticia e dar conhecimento de uma formosa miniatura em 
pergaminho, que se conserva n'um dos armários do gabinete do director do 
Archivo Nacional. 

Esta miniatura, que mede 16 centímetros de largo por 21 de altura, re- 
presenta o Ecce Homo. Compõe-se de quatro figuras sobre um fundo archite- 
ctonico, vendo-se no alto, atravez de uma abertura rectangular, o azul da 
atmosphera. O desenho é correcto e suave o colorido. No fundo, á esquerda, 
a data 1585. No verso a sigla B. C, correspondente, sem duvida ao nome 
do pintor genovez Bernardo Castelli, que floresceu por aquella epocha (1557 
a 1629). 

Desconhece-se a procedência d'esta linda obra, cujo logar mais apropriado 
deveria ser no Museu de Bellas Artes. 

Makço, 1903. 



42 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XXIX.— Cerveira (Fernão). — Era 19 de fevereiro de 1478 o mosteiro 
de S. Domingos lhe emprazou umas casas ao Poço do Borralem, com o foro 
annual de 400 reaes brancos e um par de frangãos, com a condição d'elle ti- 
rar a Affonso Pires, outrosim pintor, as ditas casas e mover-lhe sobre isso de- 
manda á sua custa. Assignaram n'este contracto, como testemunhas, Martim 
Gomes, creado do Infante D. Henrique, morador ao Poço da Povoa, e Mencato, 
creado de Johane, florentim. 

Aos 14 de maio de 1479 emprazava o mesmo convento a Fernão Pires, 
carpinteiro, umas casas sobradadas, no Poço do Borratem, que partiam de uma 
parte com casas que trazia Fernão Cerveira, pintor, da outra com casas de Al- 
garauya e com casas de Luiz de Beja. ' 

Fernão Cerveira era já fallecido em 1487, pois n'este anno, a 12 de ju- 
nho, sua viuva, Catharina da Gosta, fazia encampação ao mesmo convento das 
casas que seu marido, que Deus haja, havia aforado, como acima se disse, e 
de que ella era a segunda pessoa. 4 

Beproduzo em seguida, textualmente, o primeiro d'estes documentos. 

«Em nome de Deos amem ssaibham os que este estormento denpraza- 
mento ujrem que no ano do naçimento de Nosso Senhor Jhesu Christo de mill 
e iiij' satenta e oyto anos/rfez e noue dias do mees de ffeujreiro na cidade de Lix- 
boa no moesteiro de Ssam Domjngos da dita cidade no cabydo do dito moes- 
teiro e estando hy os honrrados e rrelegiossos frades e conuento do dito moes- 
teiro a saber: mestre ffrey Aluaro da Torre prior do dito moesteiro e o mes- 
tre ffrey Lujs Botafogo e o leçenciado ffrey Fernando e o bacharell ffrey Jo- 
ham e o bacharell frey Affomso de Palmella e o bacharell ffrey Diogo Neto e 
o doutor frey Joham de Sam Njcolao e o doutor frey Joham Fernandez e frey 
Gill de Santa Maria da Escada e frey Affomso de Santa Justa e frey Vasquo 
dEuora e frey Lujs de Lixboa e frey Diogo Sam Crisptãao e frey Pêro de 
Palma e frey Lopo da Maya todos jubilados e outros padres e frades e con- 
uento do dito moesteiro todos juntos chamados a cabydo per canpa tangida 
ssegundo sseu bom cuslume e disseram os sobre ditos que consyrando elles 
por seruyço de Deos e proll e honrra do dito sseu moesteiro disseram que el- 
les emprazauam e dauam denprazamento em ujda de três pessoas a Ffernam 
Cerueira pintor morador na dita cidade que pressente estaua a saber que elle 
Ffernam Cerueira seja a primeira pessoa e possa nomear a segunda e a se- 



1 Torre do Tombo. Cartório do Convento d* S. Domingos. L.° U, fl. 119. 
z Idem. Idem, fl. 99. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



43 



gunda a terceira emprazaramlhe nuas cassas todas de (fundo acima que o dito 
sseu moesteiro tem na dita cidade junto ao Poço de Borratem ffregujsia de 
Santa Justa que partem com cassas do dito moesteiro e com cassas de Lujs 
de Beja e com rrua pubrica e com outras confrontações cõ que de direito de- 
uem de partir com tall condiçam que o dito Ffernam Cerueira e pessoas cor- 
regam as ditas cassas a saber de paredes de pedra e call e telha e madeira 
grossa e delgada e pregadura e de todollos outros adobyos que lhe compri- 
rem e fezerem mester posto que as ditas cassas cayaom ou pereçam per agua 
ou fogo ou terrasmotos ou per outro quallquer casso fortujto e nõ fortujto que 
o dito Ffernam Cerueira e pessoas sejam theudos e obrigados de as fazerem 
e rrefazerem e manterem em as ditas três ujdas em casas feitas melhoradas 
e nõ pejoradas todo a custa delle Ffernam Cerueira e pessoas e que o dito 
Ffernam Cerueira e pessoas dem e paguem de rrenda e foro e pessam em 
cada hõu ano ao dito moesteiro por as ditas cassas em paz em saluo na dita 
cidade quatro centos reaes brancos ora corentes e mais húu par de frangãos 
bõos e rrecebondos paguo todo em cada huu ano em duas paguas a saber 
hõa por Sam Joham Bautista e outra por Natall e começara de fazer a primeira 
pagua por Sam Joham primeiro que uê da sobre dita era e outra per Natall 
logo segujnte e daly em diante em cada huu ano per os ditos dias como dito 
he e que o dito Ffernam Cerueira e pessoas nõ possam uender dar doar tro- 
car escanbar emlhear as ditas cassas cõ nebQa pessoa e querendoas uender 
que o façam primeiro saber ao dito moesteiro se as quer tanto por tanto quanto 
outrem por ellas der e sse as quisserem que as ajam por menos a ametade 
do que outrem der e nõ as querendo que emtam as uendam cõ sseus emcar- 
reguos a tall pessoa que nõ seja das defesas em direito mais que seja a tall 
que pague o dito foro e cumpra todo o ssuso contheudo e daquello por qne 
forem uendidas aja o dito moesteiro ametade daquello por que forem uendidas 
e findas as ditas três pessoas fiquem as ditas cassas ao dito moesteiro em cas- 
sas feitas melhoradas e nõ pejoradas e os ditos frades e conuento obrigaram 
os bêes e rrendas do dito moesteiro de lhe liurarem e deffenderem e fazerem 
boas as ditas cassas nas ditas três ujdas de quem quer/que lhe sobre ello em- 
bargo posser sopena de perdas e dapnos e custas e despesas que o dito Ffer- 
nam Cerueira e pessoas por ello fezerem e cõ ujnte rreaes brancos em cada 
húu dja de pena e o dito Ffernam Cerueira tomou e rrecebeo em sy as di- 
tas casas em as ditas três ujdas com todallas crasullas e condições e penas 
susso ditas as quaees sse obrigou de comprir e manter e pagar em todo como 
dito he so a dita pena per sseus bêes auudos e por auer e das pessoas que 
pêra elle obrigou com tall condiçam lhe emprazaram as ditas cassas que elle 
Ffernam Cerueira tire as ditas casas Affomso Pirez pintor que as tem do dito 
moesteiro e faça a demanda a ssua custa e nõ as tirando que o dito moesteiro 



44 



.NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



e conuento nõ seja obrigado de lhe fazer boas as ditas cassas em testemunho 
desto outorgaram asy este estormento e pediram ssenhos eslormentos: teste- 
munhas Martim Gomez criado do jffante dom Anrrique que Deos aja morador 
ao Poço da Pouoa na dita cidade e mencato de Johane Frolentim morador na 
dita çidade/eu Joham Gonçaluez uassallo delRey nosso e sseu pubrico tabelliam 
na dita cidade que este estormento espreuj e meu synall flz que tall he. (Lo- 
gar do signal publico do tabelliam.)» ' 



XXX. — Coelho da Silveira (Bento). — Bento Coelho da Silveira, ou sim- 
plesmente Bento Coelho, como é designado n'um documento official, occupou 
no século xvii, pela fecundidade do seu pincel, o mesmo logar que coube, no 
século immediato, a Pedro Alexandrino. Foram numerosissimas as suas obras, 
principalmente no género sacro, com as quaes ornamentou a maioria das egre- 
jas de Lisboa e outras do reino e conquistas. Em Taborda e Cyrillo Volkmar 
Machado se encontra a enumeração de muitos dos seus quadros, que logra- 
ram escapar á voragem do terremoto de 1755. O primeiro d'estes autores, 
baseado numa tradição que me parece absolutamente infundada, diz que elle 
aprendera com Rubens, quando o grande pintor flamengo esteve em Hespa- 
nha. Ora fallecendo Rubens em 1640, de que edade teria Bento Coelho ido 
para o reino vizinho ? Quando, porém, não tomasse as lições do eminente pro- 
fessor, procurou seguir-lhe o estylo, que imitou com grande felicidade, segundo 
assevera ainda o mesmo Taborda. A rapidez com que executava as suas obras 
fez com que pozesse de parte, em grande numero de casos, a correcção do de- 
senho e outras qualidades inherentes e indispensáveis a um artista que se 
preza. Volkmar Machado diz que elle tivera três phases ou edades: a de oiro, 
a de prata e a de ferro, á primeira das quaes apenas attribue um numero. 

Bento Coelho foi muito applaudido dos seus contemporâneos, e um poeta 
francez ao serviço de Portugal, Collot de Jantillet, lhe dedicou um epigramma 
latino, em que, fazendo jogo de vocábulo com o seu titulo de pintor do rei, 
lhe chamava rei dos pintores. No meu livro Artes e artistas em Portugal já 
reproduzi esta poesia, assim como outras, de egual exaggero encomiástico, de 
André Nunes da Silva. Ampliarei agora esta ladainha poética com as seguintes 
producções que se encontram no volume de versos de José de Faria Manuel, 
intitulado Terpsychore, Musa Académica, impresso em Lisboa em 1666: 



1 Torre do Tombo. Cartório do Convento de S. Domingos. L.° 11, fl. 100. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 45 



A hum quadro de S. Thomé, 
que está na Capella Real, obra do excellente Bento Coelho, Pintor de S. Magestade 

SONETO 

Este que durará sempre ás idades 
Original de hum caso portentoso, 
Sendo quadro de artífice famoso 
Um jardim pôde ser de nouidades : 

Esta veneração de eternidades, 
Este bello retrato luminoso, 
Acuzando a Thomé de duuidoso, 
Bem pudera matarlhe a» saudades. 

Competirãose a arte, e a natureza, 
Credito do pincel mais soberano 
Com engenho, com alma, e cõ destreza 

Toque o lado Thomé por desengano, 
Que eu vendo das figuras a viueza, 
Para desenganarme toco o pano. 



A Bento Coelho insigne Pintor de Sua Magestade, 
por huma Lamina de Innocentes que pintaua 

DECIMAS 

Estas, do martyrio flores 
Sendo mal abertas rosas, 
Hoje renascem fermosas 
Do vosso pincel nas cores : 
Da morte-cor os rigores 
Com tal primor auiuaes, 
Que quando assim os pintais 
A natureza pasmou 
De ver, que o que lhes tirou 
Herodes, vós lhes tornais. 

Viose na vossa pintura 
Com engenho, com destreza 
Assustada a natureza, 
Afeada a fermosura : 
Viose a afilicçáo mais dura 
Em que o ódio consentio, 
Viose que o bronze sentio, 
Mas o differente estado, 
Que vai do viuo ao pintado 
Só esta vez se nSo vio. 



46 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Ao mesmo sujeito pintando numas flores 

DECIMA 

Neste tão florido empenho 
(Da arte os primeiros primores) 
Se vejo d'essa mSo flores, 
Colho fructos d'esse engenho: 
São do pincel desempenho 
Se as noto por eleuadas, 
Da natureza enuejadas, 
E assim as flores pintais, 
Que parece flor, & mais 
Dizermos que são pimtadas. 



A numa Lamina do Nascimento de Baptista que pintou o mesmo 

DECIMA 

Entre os nascidos sois vós, 
Meu Santo o mais venturoso, 
Mas agora o mais fermoso 
Dizei-o vós, que sois voz: 
Já meu discurso velos 
Aifirma, conforme entendo, 
Que estais pello que estou vendo 
Neste pincel mais luzido, 
Em caza só vós nascido, 
Mas aqui tudo nascendo. 1 



XXXI. — Coimbra (Pêro de). — Pintor em Mirandella, cuja Camará o no- 
meou seu caminheiro, officio que lhe foi confirmado por D. João III em carta 
de 19 de dezembro de 1524. 

É provável que este Fero de Coimbra fosse, não pintor de imagens, mas 
pintor brochante. 

«Dom Ioam etc. A quamtos esta carta virem faço saber que P.° de Coim- 
bra, pimtor, morador em Mirãdella, me êviou dizer que a camará da dita villa 
e o concelho ho elejeram por caminheiro delia por ser pêra iso auto e per- 



1 Obra citada, pag. 86, 135 e seguintes. 



NOTICIA DE ALGCNS PINTORES 47 

temcête, e asy por allguas obrigações que lhe ele fezera que eram era pro- 
ueito do dito comcelho, como mais largamemte se veria per húu estromemto 
pubrico que me foy apresemtado, polo qual me pedia que ouuese por bem de 
lhe cõfirmar o dito oficio em perpetu, por que a dita camará e comcelho eram 
diso comtemtes, e visto per mim seu requeriraemto e asy o dito estromêto de 
como o juiz e uereadores e procurador e pouo da dita villa ho emlegerã e lhe 
deram o dito oficio, me praz diso. Noteficoo asy aos oficiaes que ora sam da 
dita villa e ao diamte forem e quaes quer outras justiças e pesoas a que o co- 
nhecimento desto pertemcer, e lhes mamdo que daquy em diamte leixem ser- 
uir o dito oficio ao dito P.° de Coimbra, asy e na maneira e com aquelas obri- 
gações e avera mamtimento, proes e percallços como a dita villa o êlegeo sem 
a iso lhe ser posto duuida nem êbarguo allgúu por quamto o ey asy por bem, 
o quall P.° de Coimbra jurou em a minha chamcelaria aos samtos avamgelhos 
que bem e direitamête obre e vse do dito oficio, guardamdo em todo meu ser- 
uiço e o direito das partes. Dada em a minha cidade d Évora a xix dias de de- 
zembro — Aratonio Godinho a fez ano de mill b c xxiiij, a qual pasou per m. d0 
delRey noso senhor, sem embargo de ser pasado o tempo dos iiij meses.» ' 



XXXII. — Contreiras (Diogo de).— Pintor, residente em Lisboa. Tinha 
umas casas em Santarém (Marvilla), e el-rei D. João III as isentou de aposen- 
tadoria emquanto n'ellas vivessem gratuitamente homens pobres. Alvará, com 
força de carta, de 12 de agosto de 155 i. 

•Eu EIRey faço saber a vos Lourenço de Sousa, meu apousemtador moor 
e superior das apousemtadoryas que avemdo respeito ao que D.° de Comtrey- 
ras, pymtor, morador nesta cidade de Lixboa, na pytyçã atras esprita diz, ey 
por bem e me praz que as casas, de que na dita pytyçaõ faz memçaõ, que diz 
que tem na villa de Samtarem em Maruilla, lhe não sejão tomadas dapousem- 
tadoria pêra pesoa allgua, e esto vyuemdo nas ditas casas homes pobres de 
graça sem paguarem aluguer allguu. Noteficouolo asy e aos apousemtadores de 
minha corte e da dita villa, e mãdo que em todo se cumpra este meu alluara 
como se nelle comtem e que valha como carta sem embarguo da ordenaçam 
que diz que as cousas, cujo efeito ouuer de durar mais de huu ano pasem per 
cartas e não per alluaras. O bacharel Luis Lopez o fez em Lixboa aos xij da- 
gosto de jb c liiij. E esto seraa em quamto o eu ouuer por bem e naõ mãdar 
o contrario.» s 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. JoSo III. Doações. L.» 36, fl. 5. 
* Idem. Idem. Privilégios. L.» 5, fl. 30 v. 



48 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XXXIII.— Costa (António da). — Juntamente com Gaspar Dias se contra- 
ctou em 1590 com a meza da confraria de Santa Catharina do Monte Sinay, 
da corporação dos livreiros de Lisboa, para pintar o retábulo da capella-mór 
da egreja, mas, como aquelle seu companheiro tivesse desavenças com a dita 
confraria, originando-se d'ahi uma demanda, foi elle quem acabou de executar 
a obra. 

Veja-se o artigo relativo a Gaspar Dias. 



Costa de Rezende (Thomé da).— Vide Rezende (Thomé da Costa de). 



XXX IV. — Delerive (Nicolas). — A ajuizar pelo nome, parece que devia ser 
de naturalidade franceza. Só encontrei a seu respeito uma breve nota na Rela- 
ção dos ordenados que eram pagos pela repartição do particular, janeiro de 1808. 
É do teor seguinte: «Para fazer as obras de pintura que se lhe mandarem 
4800000 réis». 1 

A minha supposição acerca da naturalidade d'este artista vejo-a confir- 
mada n'um recibo, em lingua franceza, passado a 24 de janeiro de 1808, em 
que elle declara ter recebido de Domenico Pellegrini a quantia de vinte moe- 
das de prata por quatro quadros que lhe vendera. Publico adeante este do- 
cumento sob o nome do artista italiano. 

Cyrillo dá uma nota biographica d'este artista sob o nome de Nicolau 
Luiz Alberto de La Riva. Diz que, sendo filho de pães hespanhoes, nascera 
em Lille, e que viera pela primeira vez a Portugal em 1792. Deixando aqui a 
mulher, partiu para Hespanha, onde se demorou cerca de três annos. De re- 
gresso a Lisboa, em 1800, falieceu n'esta cidade em junho de 1818. Vejam-se 
as Memorias de Cyrillo, pag. 224 e 225. 

Raczynski, aproveitando esta noticia, inscreveu-o no seu Diclionnaire sob 
o nome de Riva (Nicolas Louis Albert de la). 



XXXV.— Dias (Gaspar). — Os auctores, que se teem occupado da histo- 
ria da pintura portugueza (Taborda, Cyrillo e Cardeal Saraiva), dizem que 
Gaspar Dias vivera nos reinados de D. Manuel e de D. João III, tendo sido 
mandado pelo primeiro d'aquelles monarchas a Itália, onde estudou com Ra- 



Torre do Tombo. Papeis do Ministério do Reino, maço 279. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 49 

phael e Miguel Angelo, cujos estylos imitou, o que me parece irreconciliável, 
sendo tão differente a maneira de pintar d'aquelles dois grandes mestres. N3o 
fundamentam comtudo a sua asserção em nenhum documento. Outros ainda o 
comparam a Rubens e a Perugino, o que denota uma grande falta de critério 
histórico e artístico. Guarienti diz que restaurara um quadro d'elle, a Vinda do 
Espirito Santo, que existia na tribuna da Misericórdia de Lisboa, o qual tinha 
o seu nome e a data de 1534. 

Ou Gaspar Dias, de que falam os auctores citados, não viveu no tempo 
que lhe designam, ou então existiu outro, talvez seu filho, cuja actividade, muito 
posterior, se encontra authenticada nos livros do cartório da confraria de Santa 
Catharina do Monte Sinay, cuja egreja, hoje destruída, foi da corporação dos 
livreiros. N'um livro da receita e despeza que começa no anno de 1574, a fl. 
178 e com referencia ao anuo de 1590, lô-se o seguinte: 

tEtu 27 de maio despendeo o tesoureiro Simão Lopez corenta mil réis 
que deu a Gaspar Dias pintor e a António da Costa pintor á conta do que lhe 
hão de dar da pintura que fazem no altar mor desta egreja de Santa Catha- 
rina pela obrigação da esptura (escriptura) que ambos tem feito a esta meza de 
Santa Catharina e de como receberão os ditos corenta mil réis asinarão aqui 
— Amt." da Costa — Guaspar Dias.» 

Gaspar Dias, não sei por que motivo, não cumpriu com as condições do 
contracto, dando assim logar a um processo que contra elle instaurou a con- 
fraria. Os pormenores d'esta demanda, que deviam ser curiosos, e que lança- 
riam por certo mais alguma luz para a biographia do pintor, não os posso aqui 
fornecer, porque não encontrei os papeis d'esse pleito. 

Na Torre do Tombo archiva-se um documento, infelizmente sem data, mas 
que é sem duvida pertencente á epocha dos primeiros Filippes. É uma peti- 
ção de Catharina de Évora, dona viuva, mulher que fora de Gaspar Dias, pin- 
tor dos armazéns da índia e Mina, na qual roga que se dê o mesmo logar a 
um seu neto por nome Bastião Dias. N'essa mesma petição declara ella que fi- 
cara com quatro filhos e dá a entender que o marido fallecera em tempo de 
D. Sebastião. Já se vê, portanto, que não é o mesmo que em 1590 pintava no 
retábulo da egreja de Santa Catharina. 

Bastião Dias, neto de Catharina de Évora, aspirante ao logar de pintor da 
casa da índia e Mina, é mais um nome a inscrever no catalogo dos respecti- 
vos artistas, embora se não saiba mais algum rastro da sua existência. Eis agora 
a petição da viuva de Gaspar Dias: 

«Diz Calherina dEuora dona viuua moradora nesta cidade de Lixboa mo- 

Março, 1903. 7 



50 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

lher de Gaspar Dias moço da camará de Vosa Magestade e pintor de uossos 
almazens e caza da índia e Mina que elle andando requerendo o mesmo ofi- 
cio com ordenado pêra por sua morte dejxalo a hú seu neto nesse tempo o 
supplicante falecer e dejxar a sua molher muj pobre com quatro filhos órfãos. 
Pede a Vosa Magestade auendo respejto aos mujtos annos que sempre seruio 
como bem certificou Vasco Fernandez prouedor mor dos uossos almazens que 
conforme ao aluará que apresenta em que EIRej dom Sebastião que este en 
gloria lhe fez merçe aja por bem de lhe fazer merçe do dito oficio pêra o mesmo 
seu neto Bastião Dias uisto ser soficiente pêra o dito carguo. E. R. M.» l 

Gommunica-me o meu amigo e benemérito investigador alemquerense, 
Guilherme J. C. Henriques, que no testamento de Manuel Correia de Menezes 
Baharem se encontram as seguintes verbas: 

«Item. Mando que pintem o retabolo do altar da minha ermida que fiz 
na quintaa da Marynha ao qual estou obrigado pela commutação de ura voto. 
Pintar-se-ha dos Passos da Paixão de Christo Jesu, saber no pr. painel o passo 
do orto e suor na agonia e húu longe dos que vê a prêder o S. r O segundo 
painel tenha Christo atado á colua. O terceyro Christo Jesu cõ a cruz ás cos- 
tas. O quarto o descendymento da Cruz. E seja bem dourado, o qual retauolo 
está em poder de gaspar diaz, pintor, e o preço feyto por trymta mil rã em 
duas pagas.» 



XXXVI. — Dias (João).— Era pintor no Porto, e D. João II, em 26 de fe- 
vereiro de 1486, lhe passou carta de privilegio, isentando-o do pagamento de 
certos impostos e de outros ónus. Esta carta foi feita a pedido de António 
Affonso de Figueiredo, que, em tempo de D. Manuel, era coudel de Unhão. 

«Dom J.° etc. A quamtos esta nosa carta uirem fazemos saber que que- 
remdo fazer graça e mercee a Joham Diaz, pymtor, morador em a nossa cidade 
do Porto pollo d António A.° de Figueiroo que nollo por elle requereo, tee- 
mos por bem, queremos e nos praz que daqui era diãte nom pague em ne- 
nhuus pedidos, fymtas, talhas, etc, em forma. E porem mãdamos, etc. Dada 
em Santarém a xxbj de feuereyro. — Pêro Luis a fez — anno de lxxxbj.»* 



1 Torre do Tombo. Fragmento», maço 1. 

2 Idem. Chanc. de D. JoSo II. L.° 4.°, fl. 14. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 51 



XXXVII.— Dias de Oliveira (Manuel).— Natural do Brazil. Pensionado 
pelo governo portuguez em Roma no século passado. 

Existe uma gravura d'este artista, a Transformação das rosas, que tem o 
seguinte letreiro: 

cFatlo (sic) milagroso de Santa Isabel rainha de Portugal. Dedicado ao 
111.™ 10 Sr. Diogo Ignacio de Pina Manique, etc. Aberto do coadro (sic) original 
de hum seu alumno da Regia Academia de Portugal em Roma. Manuel Dias 
de Oliveira, Braziliençe (sic) inventou e abriu em Roma no anno de 1798.» 

Apesar do dístico da gravura não ser demasiadamente claro, parece que 
o auctor do quadro foi o próprio gravador, de outro modo não teria posto in- 
ventou. 



XXXVIII. — Dioll (Jacomo).— Italiano, natural dos Estados Pontifícios. 
Exercitava a pintura em Lisboa no tempo de D. João V, e este monarcha lhe 
passou carta de naturalisação a 14 de setembro de 1728. A corte portugueza 
estava então desavinda com a corte de Roma; os súbditos do Papa haviam sido 
mandados retirar de Portugal e Dioll recorreu ao expediente da naturalisação 
para evitar a sahida do nosso paiz. 

cDom João por Graça de Deus Rey de Portugal etc. Faço saber que Ja- 
como Dioll me reprezentou por sua petiçam que elle asestia nesta corte exer- 
citando a arte de pintor viuendo e tratando como meu vassallo, e porque se 
podia vir em duuida que por estrangeiro e dos estados do Papa estar incurso 
no meu Decretto pello qual mandaua despejar dos meus reinos naturais dos 
sobreditos estados me pedia lhe fizesse mercê conceder Aluara de naturalisa- 
mento para ser meu vassallo, e visto o que allegou e jnformação que se ouue 
pello dr. Francisco Nunes Cardeal juis dos feitos da Coroa e fazenda e resposta 
do Procurador da Coroa a que se deu vista Hey por bem fazer mercê ao sup- 
plicante de o naturalizar neste Reino para que possa gozar de todas as honras 
previlegios, Liberdades e izenções que logrão os naturais delle sem embargo 
da Ley em contrario e esta Provisão se cumprirá como Delia se conthem que 
vallera posto que seu effeito haja de durar mais de hum anno sem embargo 
da ordenação do L.° 2.°, titulo 40 em contrario e pagou de novos direitos sinco 
mil e seis centos reis que se carregarão ao thezoureiro delles a ti. 119 v. do 
L.° 13 de sua receita e se registou o conhecimento em forma no L.° 12 do 



52 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



registo geral a fl. 177 v. EIRey uosso Senhor o mandou por seu especial man- 
dado pellos D. D. Francisco Mendes Galvão e Anlonio Teixeira Aluarez am- 
bos do seu conselho e seus Dezembargadores do Paço. Josephe da Maya e Fa- 
ria a fes em Lixboa occidental a quatorze de Setembro de mil sete centos vinte 
e outto annos: do feitio desta 200 réis. — Ant.° de Castro Guimarães a fez es- 
crever «Francisco Mendes Galvão— Ant.° Teixeira Aluarez.» Por rezolução de 
Sua Magestade de 9 de Setembro de 1728 em consulta do Dezembargo do 
Paço e em observância da Ley de 24 de Julho de 1713. Joseph Vas de Car- 
valho — Pagou 5$600 reis e aos officiaes 314 reis. Lisboa occidental 23 de se- 
tembro de 1728.— Dom. Miguel Maldonado.» 1 



XXXIX. — Espinhosa (António de). — Seguramente, o local situado na 
parte posterior do convento dos frades dominicos de Lisboa era o bairro dos 
pintores na primeira metade do século xvi. Ahi tinham propriedades, onde re- 
sidiam, Jorge Afibnso e Gregório Lopes, seu genro. Ahi residia também Antó- 
nio de Espinhosa, pintor e morador na cidade delraz do mosteiro de S. Domin- 
gos. É assim que elle apparece designado, como testemunha, n'uma carta de in- 
novação de emprazamento de uma terra de vinha, no termo da villa de Arruda, 
que partia de uma parte com vinhas de Santa Maria e da outra com herdeiros 
de mestre Fernando, e estava junto com a forca da dita villa, a Isabel Alvares, 
viuva de António Ribeiro, que morreu na índia, em que ella era terceira vida 
por nomeação de Anna Fernandes que n'ella foi segunda, ficando a dita Isa- 
bel Alvares primeira vida. 

Este contracto foi celebrado na casa do capitulo do mosteiro de S. Do- 
mingos de Lisboa, estaudo presentes os frades e Isabel Alvares, a 17 de ou- 
tubro de 1533, sendo prior o doutor frey Amador Henriques. Foram testemu- 
nhas, além do citado Espinhosa, João Lopes, cavalieiro, morador na sua quinta, 
perto de Alemquer, e Luiz Alvares de Sequeira, creado de el-rei nosso Senhor. 
Tabellião António Luiz. 1 



XL.— Espinosa (João de). — Morador em a villa de Santarém. D. Manuel 
o tomou por seu pintor, e, em 10 de novembro de 1497, lhe deu carta de 
privilegio, isentando-o dos impostos e encargos do concelho. 

Em 19 de abril de 1519 ainda existia, pois n'esta data se passou em seu 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. João V. L ° 76, fl. 24. 

1 Idem. Cartório do Convento de S. Domingos de Lisboa. L.' 55, fl. 158 v. 



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NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 53 

favor um mandado de pagamento de ura moio de trigo de tença, e no qual é 
designado por mestre das obras de pintar. 

«Dom Manuell ele. A quamtos esla nosa carta virem fazemos saber que 
nos filhamos ora nouamente por noso Joham d Espinosa pimtor morador em 
ha villa de Samtarem e queremos que daquy em diamte seja escuso de todol- 
los emearguos e seruidoêes do comçelho. E porem maradamos a todollos nos- 
sos coregedores juizes justiças de nossos Regnnos a que esta nosa carta for 
mostrada e o conhicimenlo dela pertemçer que hajam daquy em diamte o dito 
Joham d Espinosa por noso e pelo asy ser o homrrem e trautem e fauoreçam 
nas cousas que justas forem como a homem de que temos careguo e o nam 
costramgam pêra seruiço de nhuu dos ditos careguos e lhe guoardem jmtei- 
ramente as cousas que nos taes prinilegios estam decraradas e nam comsem- 
tam ser lhe ffeita nhuúa sem rrazam e em caso que lhe ffeita seja lha façam 
lloguo coreger eemmemdar como for direito cremdo que haquelles que ho hasy 
bem fezerem lho agardeçeremos e do comtrairo que nam esperamos ho estra- 
nharemos como nos bem parecer. Da«ia em Évora a x dias de nouembro. Jo- 
ham Paaez a fez anno de mill iiij c Ir bij.» f 

tDom Manuell per graça de D. 8 Rey de Purtugall e dos Allgarues daquem 
e dallem maar em Africa senhor de Guinee, etc, mamdamos a vos allmoxa- 
rife ou Recebedor das nosas jugadas de Samtarem que do remdimêto delias 
deste anno prcsemte de b c xix dees a João Despinossa, mestre das obras de 
pimtar, húu moyo de triguo que mamdamos daar e de nos hadaveer o dito anno 
de mantimento e vos fazelhe delle bõo pagamemto e per esta nosa carta e seu 
conhecimento mandamos que vos sejam leuados em comta. Dada em Allmey- 
rim a xix dias dabrill — EIRey ho mandou pelo barão daluyto do seu conselho 
eveedor de sua fazenda, Aluaro Neto a fez — de mil b c xix.=Ho barã daluyto 
=j moio de trigo de mantimento a joam despynosa deste anno no almoxari- 
fado das jugadas de santarem. = Sejam certos hos que este conhecimento vy- 
rem como Joham despynosa pymtor conheçeo e comffessou Receber daluaro 
mõteiro almoxarife das jugadas de ssantarem hu moyo de trigo de sseu man- 
timento comteudo neste aluara e por verdade lhe mandou ser ffeyto este co- 
nhecimento por elle assynado e per mym martym gomez espriuã do dito al- 
moxariffado aos x dias de Julho de } b c xix anos.=J.° despynosa = martym 
gomez.» s 



> Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.° 31, fl. 33 v. 
2 Idem. Corpo Chronologico. Parte 2.', maço 81, doe. 73. 



54 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XLI. — Fernandes (Álvaro). — É designado simplesmente como pintor, sem 
mais outra circumstancia que particularise a sua vida, n'um instrumento de 
condemnação, de 10 de maio de 1420, pelo qual foi obrigado a pagar a Affonso 
Domingues, oleiro, a quantia de trinta e cinco soldos, por que ficara por fia- 
dor. A respectiva sentença, que contém alguns dados curiosos, é do teor se- 
guinte : 

«Sabham todos que na era de mjl iiij c e vjnte anos dez dias de majo na 
cidade de Lyxboa apar da porta de Ssamtandré em audjençia perante Stevam 
Lejtom Aluazil presente mj Diago Gonçalluez tabeliom delRey em essameesma 
e as testemunhas que adeante ssom escritas Afonsso Dominguez oleiro mo- 
rador na dita cidade ffazia demanda Aluaro Ffernandez pyntor que presente 
estaua dizendo contra ell que ell emprestara a Gonçalle Anes trjnta e cjnque 
ssoldos e que ell dilo Aluaro Ffernandez lhj fficara por elles e que orra nõ po- 
dia achar o dito Gonçalle Anes E se ausentara e pedia contra ell que lhos desse 
por que lhj assj fficara por elles E o dito juiz ffez pergunta ao dilo Aluaro Ffer- 
nandez que era o que dizia per juramento dos auangelhos e ell disse que 
nunca lhe fficara por elles e logo o dito Afomso Dominguez disse que o que- 
ria prouar e logo apresentou Gonçalle Anes porteiro e o dito juiz lhj ffez per- 
gunta per juramento dos auangelhos sse lhj fficara o dito Aluaro Ffernandez 
por os dictos trjnta e cjnque ssoldos ao dito Afomso Dominguez peita gissa 
que o ell alegaua e elle pello dito juramento disse que assy era uerdade que 
o dito Aluaro Ffernandez fficara ao dito Afomso Dominguez por os ditos trjnta 
e çinque ssoldos e o dilo juiz vista a conthia pequena e a proua julgou per 
sentença diffinatjua que o dilo Aluaro Ffernandez de e page ao dito Affomso 
Dominguez os ditos trjnta e cjnque ssoldos e mandou a quallquer porteiro do 
termo da dita cidade que a compra pella gissa que em ella he contheudo em 
gissa que nõ erredes em uosso offiçio das quaes coussas o dito Affomso Do- 
minguez protestou das custas e pedio huu estormento testemunhas o dito Al- 
uazil e Ffernam Pirez e Joham Vjcente tabeliãaes e outros e eu sobre dito ta- 
beliom que este estormento escreuj e aquy meu ssynal ffiz que tall he. pagou 
iiij ssoldos.» ' 



1 Torre do Tombo. Mosteiro de Chellas. Perg.» n.° 944. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 55 



XLII. — Fernandes (Bartholomeu).— Em 2 de agosto de 1518 celebrou 
Bartholomeu Fernandes com Bartholomeu de Paiva, amo do príncipe, repre- 
sentante d'el-rei, um contracto para pintar e dourar o coro de Santo António, 
obra que se responsabilisava a dar prompta em quatro mezes e pela qual re- 
ceberia 19:000 reaes, pagos em duas prestações, sendo a primeira no começo 
dos trabalhos e a segunda depois de findos. O contracto é muito curioso por 
indicar com bastante minudência a especialidade da pintura. 

Jorge Affonso, pintor d'el-rei, de quem se fez menção no logar competente, 
passou, por debaixo do mesmo contracto, a certidão de estar concluída a obra, 
segundo as condições do ajuste. 

«A ij dias de agosto da era de mjll e quinhentos e dezoito anos na ci- 
dade de Lisboa sse comçertou o amoo do primcipe por mandado delrrey noso 
Senhor cõ Bertolameu Fernandez pimtor morador nesta cidade ssobre a pem- 
tura do coro de Samto Amtonjo a saber: o dito Bertolameu Fernandez sse 
obrigua de pimtar e dourrar o dito corro todo per debaixo quamto he a ma- 
deyra e asy pimtarra e dourra (sic) o peitorrill a saber: adiamteira e asy pim- 
tarra o arco de pedrraria a saber toda a vista que sse debaixo ve a saber elle 
dourrara todos os cordoes trroçidos que correm derredor do dito corro pello 
emtauolamento e asy os trroçidos que correm per forra na diamteira do dito 
corro e asy dourrara todas as rrosas que debaixo do dito corro estam laura- 
das de madeirra as quaes estam omde cruzam as fazqujas e majs dourrara to- 
dos os verduguos que correm derredor dos quadrros e os ditos quadrros sser- 
ram pimtados de artesões bem feitos e bem aleuamtados e os uãos sserram 
de azull fino e demtrro húa rrosa de pemtura e asy pimtarra o emtauolamento 
todo arredor de húa crraraboia e os campos azues de azull fino e adiamteirra 
do corro que he feito de laço sserra pimtada como rrequerre o laço de timtas 
finas e ho emtauollamento da dita diamteirra do corro sserra de hum rromano 
ou craraboia o que rojlhor parreçer o qual sserra mujto bem feito e o arco de 
pedrraria ssera húa craraboia feita a olleo que diga com a do tecto da capella 
e os vaõs desta craraboia sseram de vermelhom e escorreçido a rroxo terra 
aquall obra elle farra em toda perfeiçam e ssera emuernjzada e bem acabada 
e elle auerra por asy fazer esta obra toda a sua custa asy de ourro como tim- 
tas dezanoue mjll rreaes pagos em duas pagas a saber agorra logo em começo 
da dita obra ametade do dito dinheiro que sam íl b e rreaes e a outrra metade 
acabada a dita obra e vista per quem ho dito amoo a qujsser mandar ver e ho 
amoo lhe mandarra emprestar a madeira per os amdaimes a quall obra o dito 
Bertolam(eu) Fernandez darra feita da feiturra deste a quatrro meses e por 



56 i NOTICIA DE ALGUNS PINTOIIES 

que desto forram comtemtes mandou o amoo amy Jorge Afonso que fezesse 
este testemunhas Afomso Gonçaluez e Francisco Martinz ambos carpemteirros 
de maçenaria e eu Jorge Afonso que fiz o dito comtr;ito = Bertolameu de Payua 
ho amo=Jorje Afomso=Bertolameu Fernandez=AfomsoGonçaluez=de Fran- 
cisco Martinz uma cruz.— Diguo eu Jorje Afomso pimtor delrrey Nosso Se- 
nhor que eu vy esta obra que Bertolameu Fernandez fez e acabou comtheuda 
em este comtrrato e digo que elle a tem feita e comprida ssegundo forma do 
dito comtrrato e per verdade fiz aquy este e ho asiney oje primeiro dia de ju- 
nho de mjll e b c xix=Jorje Afomso. i * 



XLIII. — Fernandes (Diogo). — Era escrivão de livros (calligrapho) e illu- 
minador. D. João III o tomou por seu escudeiro, sob sua guarda e encom- 
menda, de que lhe passou carta a 8 de outubro de 1522. Em 1537 Diogo 
Fernandes trabalhava com Jorge Vieira na escripturação e illuminura dos li- 
vros novos do convento de Thomar. 

«Dom Joam etc, a quamtos esta nosa carta virem fazemos saber que que- 
remdo nos fazer graça e mercê a Dioguo Fernamdez, escprivam de liuros e 
iluminador, morador nesta nosa cidade de Lixboa, temos por bem e o toma- 
mos ora novamemte por noso escudeiro em nosa garda e emcomemda... Dada 
em a nosa cidade de Lixboa aos biij dontubro — Aluaro Neto a fez —ano de 
noso Senhor Ihesu Xpo de mill b c xxij anos.> 2 



XLIV. — Fernandes (Garcia). — São pouco conhecidas as particularidades 
da sua vida, ignorando-se a sua naturalidade e qual a epocha do seu falleci- 
mento. Sabe-se comtudo que elle viveu nos reinados de D. Manuel e D. João III, 
sendo numerosas as obras que realisou, não só em Lisboa, mas em Coimbra, 
em S. Francisco de Évora, em Montemor e Leiria. Executou também outras com 
destino á índia. Pela sua epocha existia em Lisboa um pintor muito afamado, 
por certo mais velho do que elle, e a quem D. Manuel tinha encommendado 
diversos painéis para a Relação. Chamava-se Francisco Henriques. Estava elle 
também incumbido de pintar as bandeiras que deviam servir na entrada da 
rainha D. Leonor, terceira esposa d'aquelle monarcha. Era isto pelos annos 
de 1518-1519. Vieram rebates de peste e Francisco Henriques quiz retirar-se 
de Lisboa, mas el-rei lhe ordenou que se não ausentasse, promeltendo-lhe to- 



1 Torre ilo Touibo. Corpo Chronologico. Parte n, maço 82, doe. 49. 

2 Idem. Chanc. de D. João III. Doaçõet. L.° i, 11. 87 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 57 

mar sob a sua protecção a mulher e os filhos no caso d'elle ser atacado de con- 
tagio. Francisco Henriques permaneceu no seu posto, pagando bem cara a sua 
obediência a el-rei e a sua dedicação pela arte. A sua officina foi um açou- 
gue, fallecendo com elle sete ou oito officiaes, que mandara vir de Flandres 
para o ajudarem, e outros tantos escravos. 

Por fallecimento de Francisco Henriques, a obra de que fora encarregado 
estava longe do seu termo, e, como já houvesse recebido quasi toda a somma 
do ajuste, não havia quem a quizesse concluir pela quantia que restava satis- 
fazer. Tomou conta da empresa Garcia Fernandes, a quem se prometteu o offi- 
cio de passavante, que era propriedade do fallecido, com a clausula d'elle se 
casar com uma sua filha. A palavra real, exarada em carta de lembrança, não 
se cumpriu, talvez por esta se haver perdido, ou porque empenhos de mais 
valioso pretendente a fizeram esquecer. Effectivamente António de Hollanda, 
o eminente illuminador, é que foi agraciado com aquelle offjcio. Passados bas- 
tantes annos, tendo já Garcia Fernandes nove filhos e boa somma de serviços, 
fez nova petição a el-rei, em que lhe requeria o logar de sellador, fiel e pesa- 
dor da alfandega de Lisboa, que estava vago por fallecimento de João Alvares. 
Instaurou-se processo sobre o caso, sendo ouvidas as seguintes testemunhas: 
Belchior Vicente, filho do grande poeta Gil Vicente; Inigo Lopes, escudeiro da 
casa d'el-rei e seu bate-folha; Christovão de Figueiredo, pintor do cardeal D. 
Affonso, e Jorge Affonso, arauto, tio da mulher de Garcia Fernandes. 

Não se sabe qual o despacho que obteve este processo, que se reproduz 
na intrega no remate d'este artigo. Na Chancellaria de D. João Hl só encon- 
trei uma carta, de 1 de outubro de 1527, coucedendo-lhe licença para poder 
andar em mula. 

Garcia Fernandes parece ter sido discípulo, ou pelo menos companheiro, 
de Jorge Affonso. N'uma escriptura de 7 de julho de 1514, de que trato no 
artigo relativo a Gregório Lopes, assigna elle como testemunha, declarando 
que trabalhava com Jorge Affonso. 

Manuel André, que vivia por 1574, foi seu discípulo e diz que elle pin- 
tara o quadro da Misericórdia, infelizmente perdido como tantos outros, de di- 
versos mestres e de grande valor artístico, que existiam n'esta egreja e que 
foram destruídos pelo terremoto e incêndio consecutivo. 

O sr. Victor Ribeiro, na sua obra A Santa Casa da Misericórdia de Lis- 
boa, diz ler encontrado na Torre do Tombo (Corpo Chronologico. Parte i, 
maço 86, doe. 79), uma carta, com data de 3 de julho de 1551, do Provedor 
e Irmãos da dita Casa, participando a el-rei a eleição da meza, tendo sahido 
Garcia Fernandes eleitor pela classe dos officiaes. 

«Dom Joam etc, a quamtos esta minha carta virem faço saber que a mj 

Março, 1903. 8 



58 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

me praz dar lugar e licemça a Garcia Fernandez pimtor morador na mioha ci- 
dade de lysboa que ele posa andar em estes meus Reynos e em quall quer 
parte delles em mulla e faca selada e emfreada posto que nam seja da marca 
e posto que nam tenha cauallo sem embargo da ordenaçãa feyta em contrayro 
notyfico o asy a todos hos corregedores juizes e Justiças e oficiais e pesoas a 
que esta for mostrada e o conhecimento delia pertemcer e lhes mando que 
leyxem amdar o dito Garcia Fernamdez na dita mulla ou faca como dito he 
sem por ello emcorer em pena allgúa nem lhe ser posta duuida allgúa nem 
embargo algúu ho que asy húus e houtros compri por que asy ho ey por bem. 
Dada na cidade de Coimbra o primeiro dia doutubro Pêro Àmrriquez o fez 
de mill e quynhentos e xxbij.» * 

«Diz Garcia Fernandez que elRey voso padre que Santa gloria aja ordenou 
pêra a casa da Rolação huma grande obra de pintura a qual por ser de muyto 
seu contentamento e a querer em toda perfeição encarregou delia Francisco An- 
rriquez por ser o milhor official de pintura que naquelle tempo avia que foy no 
ãno de xbiij c ou xix quãdo a peste deu nesta cidade de Lixboa e o dito senhor 
lhe mandou que senão sayse e ficase nella fazendo na dita obra e asy nas ban- 
deiras que então mandou fazer pêra a entrada da rainha dona Lianor dizendo- 
lhe que quando noso Senhor delle fizesse alguma cousa S. A. teria sempre lem- 
brança de sua molher e filhos pêra lhe fazer merçe como era rezão pelo qual o 
dito Francisco Anrriquez cumprio seu mandado e ficou nesta cidade honde lhe 
então falecerão bij ou biij 9 oficiaaes quo elle mandou vir de Frandes pêra a dita 
obra e asy sete escrauos e elle mesmo por deradeiro tendo jaa recebido tanto 
dinheiro em parte do que avia daver da obra que senão achaua quem a quisesse 
acabar pelo que se delia deuia por que o que mais tinha reçebydo o dito Fran- 
cisco Anrriquez do que se merecia pelo que fizera erão duzentos setenta e tan- 
tos mill reaes. E sendo o dito senhor ynformado que elle dito Garcia Fernandez 
a acabaria em sua perfeição cõ desejos damparar os filhos do dito Francisco An- 
riquez pela obrigação em que lhe era lhe escreueu que quisese casar cõ huma 
filha sua e tomar sobre sy a dita obra e acaballa pelo que se delia deuia so- 
mente e que S. A. lhe farya por yso merçe do officio de passauante que ua- 
gou per falecimento do dito Francisco Anriquez e de ajuda de casamento pelo 
qual elle aceitou o dito casamento e a obriguação da obra e a acabou em sua 
perfeição senão três painéis que lhe o amo não mandou dar por dizer que V. 
A. não avia por seu seruiço que se acabase a dita obra fez de tudo pitição e 
falou a V. A. o ãno de xxbiij cõ o amo remeteo a Fernão d Alvarez a quem 
deu a petição cõ a dita carta aalem da enformação que elle tomou e lhe foi 



» Torre do Tombo. Chanc. de D. João III. Doações. L.° 2, íl. 92 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



59 



dada como dito he per Guarcia de Resende e pelo amo que deste caso muito 
sabião de que Manuel de Moura poderaa ynda ter alguma lembrança e por V. 
A. lhe maudar fazer nas obras de Coimbra e de são Francisco d Évora e nas 
de Leiria de Montemoor e outras pêra a índia e no retauollo de Santo Eloy 
desta cidade em que somente lhe foy jullgado cem mill reaes mais do que lhe 
por elle foy paguo não pode seguir per sy o requerimento ynda que per ou- 
trem sempre foy requerido ao dito Fernão d Alvarez agora diz lhe que a dita 
carta se perdeo com a pitição, fez esta por que tem cumpridas todas as obri- 
gações que lhe forão postas e ávidos noue filhos de sua molher cõ a qual lhe 
não derão mais em casamento que a dita carta e esperança do dito officio. Pede 
a V. A. que em satisfação do que acima diz e do que o dito oficio lhe poderá 
render de vinte e dous anos a esta parte que ha que he casado e da ajuda de 
casamento que se continha na dita carta o que tudo prova pelo estromento que 
apresenta lhe faça merçe do officio daselador e de fiel e pesador da allfandega 
desta cidade de que ora per falecimento de Yoão Alvarez vagou a servintia, 
pois que o officio darmas que elle ouuera daver foy dado a António dOlanda 
e somente pelo aluara que foy pasado aos officiaaes que geerallmente ficassem 
em Lixboa aaquelle tempo pêra ficarem seus officios a seus filhos se falecesem 
de peste lho não podia negar pois o dito Francisco Anrriquez per espiciall 
mandado de S. A. ficou e faleçeo de peste e tantos officiaaes e escrauos seus 
como dito he e nisto desencaregaraa a conçiençia dei Rey seu padre e a sua e 
faraa seruiço a Deus e a elle esmolla e merçe pêra sustentamento de sua vida 
e remédio de seus fylhos.» 

«Dom Joaom per graça de Deus Rej de Purtuguall e dos AUguarves daa- 
quem e daalem mar em Hafryca (sic) de Guine e da comquista navegaçam comer- 
çyo dEtyopya Arabya Persya e da Ymdia etc. Atodollos coregedores ouuydo- 
res joyzes e jostiças offycyays e pesoas de meus reynos e senhoryos a que esta 
mynha carta testemunhavell ffor mostrada e o conhecimento delia com direito 
pertemçer ffaço saber que amte mym em o joyzo e coreiçam da mynha muym 
nobre e sempre lleall cydade de Llysboa peramte os coregedores delia pareçeo 
Garcia Ffernandez pymtor e me apresentou huma pytycam que tall se sege 
seu teor: «Senhor, Garcia Ffernandez pymtor morador nesta cydade, ffaço sa- 
ber a vosa merçe que ell Rey dom Manoell que samta grorya aja mamdou ffa- 
zer huma hobra de pymtura de muito seu contentamento pêra o curycheo do 
llymoeyro a Ffrancisco Amrriquez que entam emcarregou delia ho quall pêra 
hacabar com aquella brevydade que sua allteza querya semdo muito gramde 
mamdou trazer de Fframdes offycyays pêra o ajudarem; e ao tempo que aquy 
chegaram nom hera aynda tomado assento no debuxo da ymvençam de que a 
hobra auya de ser o prymeyro que se tomase pasou muito tempo que elle pa- 



60 NOTICIA DE ALGTXS PINTOKIÍS 

gou de vazyo aos ditos offycyays como se trabalharam, e depois de ffazerem 
na dita obra deu peste nesta ç.ydade omde elle ffyeou per mamdado de sua all- 
teza pêra haver de acabar e lhe morreram os ditos offycyays e muitos escra- 
uos e escrauas; e elle também de peste e pella grarade despesa que tynha lhe 
ffaziam os pagamentos adiamtados de maneyra que per seu íalleçymento se 
achou ter muyto mays dynheyro reçebydo do que heraahobra que tynha ffeyta; 
e pella emformaçam que sua allteza delle Garcya Ffernandez per Jorge ASonso 
e outras pesoas como per cartas da molher que ffoy do dito Ffrancisco Amrri- 
quez lhe escreveo huma carta que querendo elle tomaar sobre sy ho carrego 
de acabar a dita hobra pelo que se deuya delia somemte que hera menos do 
que se merecya e casamdo com huma fylha do dito Ffrancisco Amrriquez lhe 
farya merçe do offyçyo de pasavante que per seu ffallecymento vagou per ver- 
tude da quall carta elle açeytou o dito casamento e a hobra e hacabou; por omde 
lhe ell Rey noso senhor fficava em obrygaçam de lhe ffazer merçe do dito offy- 
cio, e elle Garcia Ffernandez lho requereo e ffez diso pytyçam que com a dita 
carta deu ha Ffernã dAllvarez pêra seu despacho; e por quamto ela ora nom 
aparece e lhe he neçeçaryo provar o que asi pasou pede a vosa merçe que lhe 
mamde pergumtar as testemunhas que apresemlar pelo comteudo nesta pyti- 
çam e com seus ditos lhe mande pasar hum estromemto pêra por elle poder re- 
querer sua jostyça; em a quall pytyçam per mjm vysta pernuncyey hum meu 
despacho cujo teor tall he.» «Pergumtemse pello comteudo nesta pytyçam as 
testemunhas que o sopricante apresentar e com seus ditos sejalhe dado seu 
estromento ou carta testemunha vell como pede.» «Por vertude do quall des- 
pacho pelo comteudo na pytyçam se perguntarom certas testemunhas que aju- 
ramentadas fforom sobre os samtos avamgelhos por hum emqueredor de mj- 
uha correyçam dos quayes se segem seus nomes e testemunhos: 

«Item Bellchyor Vyçemte ffylho de Gill Vyçemte que Deus perdoe, moço 
da capella dei Rey noso senhor e morador nall caçeva testemunha jurado aos 
samtos avangelhos e perguntado pello costume, dise que he amygo do sopri- 
conte e dirá a verdade. 

«Item pergumtado elle testemunha pelo comteudo na pytyçam do sopry- 
cante Garçya Ffernandez que lhe ffoy llyda etc, dixe elle testemunha que he 
verdade que semdo elle testemunha moço pequeno elle ouvyo dyzer a seu pay 
que Deus aja que ell Rey don Manoell que samta grorya aja emcarregara a ho- 
bra da pymtura que se mandava ffazer pêra o curucheo do Llimoeyro a Ffran- 
cisco Amrriquez comteudo na pytyçam e que elle testemunha vyo em casa de 
Ffernam dAllvarez huma pytyçam que o sopricamte ffizera a ell Rey noso se- 
nhor ha qual amdava pregada huma carta per que ho dito senhor tynha ffeito 
merçee ao soprycamte do offycio de pasauamte que fficara por falleçimemto do 
dito Ffrancisco Amrriquez; e que a dita carta dezya que casamdo elle sopri- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 6i 

camte com huma ffylha do dito Ffrancisco Amrriquez sua alteza dezya que lhe 
darya ajuda pêra seu casamemto; e que avemdo de ffazer allguma cousa do dito 
offiçio de pasavamte o darya ao sopricamte; e sabe elle testemunha que o dito 
sopricante casou logo com a ffylha do dito Ffrancisco Amrriquez e com ella esta 
casado e tem ffylhos e fíylhas e asi sabe que o sopricamte por bem da que 
dito he aceitou ha hobra do dito corucheo, e ele testemunha o vyo amdar tra- 
balhando nella; e ali nom dixe somemte tornou a dizer ele testemunha que a 
dita pytyçam e carta elle a vyo amdar em maço em casa de Ffernã dAllvarez; 
e emtam ouvyo dizer a Pêro Amrriquez que o sopricamte hera agrauado em 
o nom despacharem poys hera justiça e ali nom dixe Gonçalo Tarouca o es- 
prevy. 

tltem Inhygo Llopez escudeiro da casa deli Rey nosso Senhor e seu baty 
ffolha cortesão testemunha jurado aos samtos avamgelhos e pergumtado pello 
costume dixe que o sopricamte he seu amygo e compadre de hum ffilho delle 
testemunha e dyra a verdade e ali nom dixe do costume. Item pergumtado elle 
testemunha pello comteudo na pytyçam do soprycamte Garcia Ffernandez que 
lhe llyda ffoy etc, dixe elle testemunha que he verdade que elle sabe Ffran- 
cisco Amrriquez comteudo na pytyçam ffazya a hobra da pymtura da Rellaçam 
de que a pytyçam ffaz memçam por mamdado deli Rey dom Manoell que samta 
grorya aja e que no ãno de dezoyto quamdo a peste de que nos Deus guarde 
veo a esta cydade de Lysboa o dito sopricamte ffycou nesta çydade ffazendo a 
dita hobra e nella morreo emtam de peste o dito Francisco Amrriquez e asy 
morreo muita gente e escrauos e escrauas; e elle testemunha braadou em- 
tam com elle por que se deyxava aquy fficar em tam fforte tempo e que elle 
lhe respomdeo que ell Rex dom Manoell lhe mamdava acabar aquella hobra 
e que fficase e que lhe ffarya por hyso gramdes merçes e que por hyso fficava 
e ymda que soubese morrer nom avya de deyxar de ffycar por servyr sua all- 
teza e que sabe que ho dito Ffrancisco Amrriquez por sua morte ffycou de- 
vemdo ha dita hobra muito dynheyro que mais tynha recebydo do que vallya 
a hobra que tinha ffeyta e dixe elle testemunha que ffycamdo asy a casa do 
dito Francisco Amrriquez este sopricamte trabalhava emtam com elle e hera 
seu offyçiall na dita obra e elle testemunha dixera emtam a ell Rey dom Ma- 
noell que samta grorya aja como ffycava o dito sopricamte em casa do dito 
Ffrancisco Amrriquez e que hera muito bom offyçiall e que sua allteza o devya 
casar com hQua ffilha do dito Ffrancisco Amrriquez e nelle cobrarya ho que per- 
dera, e que ell Rey lhe respomdera que lhe fallase nyso o amo; e elle teste- 
munha despoys por ser compadre e gramde amygo do dito Ffrancisco Amrri- 
quez o dixera a sua molher e a Jorge Affonso seu irmão e que emtam elles 
com elle testemunha ordenaram huma carta pêra o dito senhor a quall elle 
testemunha ffez a menuta delia de sua letra e ffoy dada ao dito senhor; e a 



62 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

reposta delia elle testemunha e Jorge Affomso vymdo d Évora a trouxeram per 
carta do dito senhor; e o que lhe llembra que nella vynha amtre outras cou- 
sas hera que o dito senhor lhe rogava ao sopricamte que casasse com a ffilha 
do dito Ffrancisco Amrriquez e se emcarregase da dita hobra como a tinha 
Ffrancisco Amrriquez e por o preço que delle tynha e que elle lhe darya ajuda 
de casamemto e quamto ao offyçyo darmas que pedia que ffycara vago por 
morte do dito Ffrancisco Amrriquez que ao presemte nom ffazya nada delle que 
se ouvesse de ffazer allguma cousa delle que emtam lho darya e que o dito 
sopricamte por bem da djta carta açeytou ho dito casamemto e asy ha hobra 
como na dita carta vynha e oje em dia esta casado com a ffylha do djto Ffran- 
cisco Amrriquez e tem ffylhos e ffylhas e asy o sabe trabalhar na djta hobra; 
e que depoys diso ouvyra dizer ao sopricamte Garcia Ffernandez queyxamdose 
que elle dera a dila carta e huma pytyçam a Ffernã dAUvarez em que pedja 
a ell Rey doso senhor satisffaçam da dita carta, e que llaa em sua casa se lhe 
perdera e ali nom dixe Gonçalo Tarouca ho esprevy. 

«Item Chrislovam de Ffygeyredo pymtor do senhor cardeall e nesta çy- 
dade morador na ffregesya de samta Justa testemunha jurado aos samtos avam- 
gelhos e pergumtado pelo costume dixe que a molher do sopricamte e a delle 
testemunha sam primas ffylhas de dous jrmãos e elle testemunha e ho sopry- 
camte sam compadres e amjgos e companbeyros em as hobras que ffazem e 
comem e bebem ambos e ali uom dyxe do costume. It. pergumtado elle tes- 
temunha pello comteudo na pytyçam do sopricamte Garcia Ffernamdez que lhe 
llyda foy etc, dixe elle testemunha que he verdade que ell Rey dom Manuell 
que samta grorya aja emcarregou na hobra da pymtura da Rellaçam desta casa 
do cyvell e sabe que tynha muytos offycyays que de Fframdes vyeram; e que 
he verdade que amdamdo asj, o djto Fframcisco Amrriquez na dita hobra elle 
testemunha hera companheyro nella por mamdado do djto senhor e que nesse 
meio tempo a esta cidade veo peste de que nos Deus guarde no ano de dez- 
ojto e o djto Ffrancisco Amrriquez e elle testemunha fycaram na çydade por 
mamdado do djto senhor ffazendo a djta hobra e que o djto Ffrancisco Amrri- 
quez foy ho primeiro que logo ffalleçeo em sua casa e asy lhe morreram cer- 
tos fframengos offycyays e escravos e escravas de peste; e que por seu ffalle- 
çymemlo se achou elle ffycar devemdo muito dynheyro ha hobra que em sy ty- 
nha reçebydo mays do que mereçya a hobra que ffejta tynha e depoys por o 
djto senhor ter emfformaçam do soprycamte que hera bom offycyall e ffycara 
Da propya casa do dito deffumto e emcarregado de suas cousas por bom ho- 
mem e bom offycyall lhe escreveo huma carta em que dezya que casamdo elle 
soprycamte com huma ffylha do djto Ffraucisco Amrriquez que elle lhe darya 
ajuda de casamemto e nom farya nada do offyçyo de pasavamte que por ffalle- 
cymeoto do djto deffumto ffycara vago por o presemte damdolhe a emtemder 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



63 



que hera pêra ho soprycamte segumdo ho emtemdimento deite testemunha, e 
esto aceytamdo o sopricamte a dita hobra asy como a lynha o dito Ffrancisco 
Amrriquez; e que depoys de todo esto asy ser pasado elle testemunha (Talou 
ao sopricamte por rogo da molher de Ffrancisco Amrriquez que açeytase ho 
dito casamento e elle testemunha o açeylou e amdou njso ate que se recebe- 
ram e sam casados e damtre ambos ha ffylhos e ffylhas e o soprycamte tomou 
a hobra e nella trabalhou ate ser cayse acabada emçeyto três payneys que lhe 
uom deram porque também os acabara se lhos deram e sabe elle testemunha 
que o sopricamte ffez uma pytyçam a ell Rey noso senhor ha quall acostou a 
carta de que atras faz memçam e a deu a Ffernã dAllvarez em que lhe pe- 
dja satisffaçam, e houve (sic) queyxar-se ho sopricamte que lhe dizem que he 
perdyda ha dita carta e pytyçam e ali nom dixe Gonçalo Tarouca o esprevy. 
«Item Jorge Affomso arauto deli Rey nosso senhor e morador de trás de 
Sam Domymgos, testemunha jurado aos samtos avamgelhos e pergumtado pello 
costume dixe que a molher do soprycamte he sua sobrjnha delle testemunha 
ffylha de huma sua jrmãa e sam amigos e dyra a verdade e ali nom dixe do 
costume. It. pergumtado elle testemunha pello comteudo na pytyçam de Gar- 
çya Ffernandez que lhe llyda ffoy etc, dixe ele testemunha que he verdade 
que ell Rey dom Manoell que sarnta grorya aja emcarregou a Ffrancisco Am- 
rriquez que Deus perdoe comteudo na pytyçam que lhe fizesse a hobra da Rel- 
laçam de suas pymturas e que pêra ella vyeram certos offyçyays de Fframdes 
e que ffazendose a dita hobra sobreveo peste a esta çydade e ho djto Ffran- 
cisco Amrriquez ffycou com os ditos hoffyçyays ffazemdo a dita hobra e veo a 
falleçer de peste, asy elle como allguns dos ditos hoffyçyays, que o ajudavam 
e asy lhe morreram certos escravos e escravas e que por sua morte fficou de- 
vemdo muito dynheiro ao dito senhor que reçebydo damte mão hera ; mais do 
que se momtava na hobra que ffeyta tynha e que semdo asj falleçjdo o djto 
Ffrancisco Amrriquez elle testemunha deu emfformaçam a sua alteza do djto 
sopricamte que hera muito bom offyçyall e ffycara em casa do djto Fframcisco 
Amrriquez e que nelle poderya cobrar sua allteza outro Fframcisco Amrriquez, 
e que ao dito senhor aprouve que se o djto sopricamte quisese casar com huma 
ffylha do djto Fframcisco Amrryquez e açejtar ha hobra asy como a tynha o 
deffumto, e que ffazemdo allguma cousa do offyçyo de pasavamte que avagara 
por morte do djto Ffrancisco Amrryquez que lho darya ao djto soprycamte, 
que desto pasou o djto senhor huua carta pêra o djto soprycamte, e o djto 
soprycamte por bem da djta carta aceytou ho djto casamento e tem ffylhos e 
ffylhas e asy açeytou a djta hobra e ffez a djta hobra e nella trabalhou até que 
ell Rey noso senhor mamdou que sobrestyvese asy nella, e logo emtam ele 
testemunha houvyo djzer ao sopricamte que ffyzera huma pytyçam a sua al- 
teza, sobreell e ali nom dixe Gonçalo Tarouca ho esprevy. 



64 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«E semdo asy as ditas testemunhas pergumtadas como dito he o sopri- 
camte me pedio que com o teor delias lhe mandase pasar huma carta teste- 
munhavell e eu llie mamdey pasar a presemte pella quall vos mamdo que lhe 
dejs e ffaçajs dar aquelle credito ffee que se daa e deve de dar has tajs carias 
testemunhavejs e aos próprios orgynajs com o quall vay comcertado bem e ver- 
dadeiramemte, ho que asy huns e outros comprj, e ali nom ffaçades dada em 
ha çydade de Llysboa aos dezaseis dias do mes dabryll, ell Rey ho mamdou 
pello Licenciado Jorge de penhoramda do seu desembargo e desembarguador 
dos agravos em sua corte e casa do cyvell, e que ora por seu espeçyall mam- 
dado tem carrego de corregedor dos ffeytos e causas cyvejs com allçada em 
ha dita çjdade e sua correyçam, etc. Gonçalo Tarouca esprivão a ffez ano do 
nacjmento de noso senhor Ihesu x.° de mjll e qujnhemtos e coremta hanos. — 
Georgius llicenciatus — pagou cxx reis. 

«Ffoy comcertado este trellado com ho propio por mjm esprivã cõ ho 
abayxo asynado, com o rjscado que dezya «cydade» em que nom avya duvjda, 
Gouçalo Tarouca o esprevy. — J ço. — Gonçalo Tarouca.» ' 



XLV.— Fernandes (Gomes).— Residia em Santarém. D. Manuel, em carta 
de 22 de fevereiro de 1496, o tomou por seu, sob sua guarda e encommenda. 

«Dom Manuell etc, a quamtos esta nossa carta virem fazemos saber que 
nos queremdo fazer graça e mercee a Gomez Feroamdez, pimtor, morador em 
Samtarem temos por bem e o tomamos ora nouamente por noso e em nosa 
guarda e emcommemda. E porem rogamos A em forma. Dada em a villa de 
Monte moor o nouo aos xxij dias do mes de feuereiro. Lopo Mixia a fez de 
mill iiij c lrbj (1496). s 



XLVL— Fernandes (Luis).— Pintor da cidade de Lisboa. Vide Luis (An- 
tónio), seu filho. 



XLVII. — Fernandes (Vasco). - Mais conhecido pelo epitheto de Grão 
Vasco, epitheto que bem está demonstrando a sua procedência erudita. É o 
eximio artista que executou o famigerado quadro de S. Pedro, na Sé de Vizeu. 
No artigo referente a Jorge Affonso já tive occasião de tratar, incidentalmente, 



'Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte m, maço 15, doe. 13. 
* Idem. Chane. de D. Manuel. L.« 26, A. 44 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 65 

de Vasco Fernandes, cuja preseDça em Lisboa no anno de 1515 ficou attestada 
n'uma escriptura do convento de S. Domingos, em que elle subscreve como 
testemunha. Este importante documento publicou-o na integra, acoropanhan- 
do-o de judiciosas considerações, no n.° 3 do Archivo Histórico Portuguez, o 
meu amigo e benemérito investigador General Brito Rebello. Transcrevo-o 
agora aqui, pois é nm subsidio de primeira ordem, não só para a biographia 
de Vasco Fernandes, mas para a historia da pintura em Portugal na primeira 
metade do século xvi. Cumpre-me pôr em relevo outra particularidade inte- 
ressantíssima, e vem a ser que, a par de Vasco Fernandes, apparece também 
como testemunha Gaspar Vaz, creado de Jorge Affonso, que é sem duvida o 
pintor dos quadros de Tarouca, de quem falo adeante. Estes quadros eram 
até agora attribuidos a Grão Vasco ou á sua escola, o que não admira, visto 
os dois artistas estarem para assim dizer na mesma academia, designação que, 
com bastante propriedade, se pôde applicar á ufficina de Jorge Affonso. 

«Em nome de Deus ame Saibão quantos este estormêto dencampaçã e 
êprazamento uyrê q no ano do naçimento de nofso) senhor JhQ xpo de mjl e 
qujnhemtos e qujnze anos três dias do mes de março na cidade de lixboa den- 
tro no moesteiro de são domjngos dentro no cabido dele estando hy ho padre 
priol frey Jorge uogado e ho padre sob priol frey balthasar e ho leçençeado 
frey luis e ho bacharel frey tomas e frey João de são domingos e frey nico- 
laao pinto e frey Vasco e frey João do barreiro e frey nicolao daueyro c frey 
pedro de santa maria e frey fernando e frey João de santarê e frey aluoro do 
pedrogãao e frey rrodrigo godinho e frey antonjo de tolosa todos padres e fra- 
des do dito moesteiro e conuêto estando todos ê cabido e cabido fazêdo cha- 
mados ha ele per sõo de campa tangida segundo seu bõo e ujrluoso custume 
logo hij parcçeo Jorye afonso pintor dei Rey noso Senhor morador na dita ci- 
dade junto cõ ho dito moesteiro e dise q era uerdade q ele traz per titolo dem- 
prazamèto do dito mneseiro ê ujda de três pesoas hú chaão q eslaa na dita ci- 
dade defronte, de santa maria descada q parte de hua parte da banda do moes- 
teiro cõ rrua pruuica e da outra parte cõ casas e chaão do dito Jorge afonso 
e da outra parte cõ casas nonas do dito moesteiro q ora sã de gregário lopez 
jenrro do dito Jorge afonso e cõ casas do dito moesteiro q ora traz caterina 
anes e cõ outras confrontações cõ q de dereito deue de partir como se conte 
no contrato pruuico do dito chaão do qual chaão paga ê" cada hu ano seis co- 
tos reaes ao qual chaão he seguda pesoa e lie obrigado ha conprir outros êcar- 
gos segúdo todo mjlhor e mays cõpridamête se conte no contrato de seu êpra- 
zamêto e q ora ele dito Jorge afonso por não auer mister ho dito chaão ne ter 
tie(ce)cidade dele ele ê seu nome e de maria lopez sua molher cuja outorga ficou 
de dar a este contracto ele de seu prazer e boa uonlade êcampaua como logo 

Março, 1903. 9 



ft6 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

de feito encanpou ho dito chaão e prazo dele hao dito priol e padres e moes- 
teiro e per eles foy dito q eles açeitauã e rrecebiã ê sy ho dito chaão e aujã 
deste dia pêra sempre por desobrigado ho dito Jorge afonso do dito chaão 
foro e obrigações e êcargos dele e acceitada asy a dita êcampaçã como dito he 
per ho dito priol e padres foy dito q cõsirando eles ser seruiço de deos onrra 
e proueito do dito seu moesteiro eles baforauã, como logo de feito haforarã 
hao doutor gonçalo uaaz morador na dita cidade que presente estaua ho dito 
chaão pelas confrontações cõ todas suas eiradas e saídas dereitos e pertenças 

serujntias e logradoiros, etc, etc testemunhas que presentes foram 

gonçalo correa aio de luis da silueira fidalgo da casa dei Rey noso senhor e 
nicolaao teixeira criado do dito doutor e francisco rroiz outrosj creado do dito 
doutor. E depois desto logo no dito dia mes e ano sobredito na dita cidade den- 
tro nas casas do dito Jorge afonso estando hi a dita waria lopez sua molher 
logo per my tabalião e perante as testemunhas lhe foi lida e prouicada esta 
scretura e êcampação que ho dito seu marido fez ao dito moesteiro do dito 
chaão e per ela foy dito que ela outorgaua è a dita êcampação que ho dito seu 
marido asy fizera do dito chãao e escritura cõ todalas clausulas e condições ê 
ela conteudas asy e pela maneira que pelo dito seu marido era feita e outor- 
gada e prometia de todo asy comprir per sy e per seus bês q pêra elo obri- 
gou prometendo a my tabellião como pesoa pubrica istipulase e aceitase ê nome 
de dito moesteiro priol e padres a esto ausêtes de lhe todo e mater como na 
dita scritura he conteúdo — testemunhas que presentes fora ho dito gonçalo 
correa e vasco fernandez pintor morador em u/seu e gaspar vaaz pintor creado 
do dito Jorge afonso e eu pêro fernandez pruuico tabaliã por el Rey noso se- 
nhor ê a dita cidade e seu termo q este estormento spruiy cõ ho rriscado q 
dizia doutor e entrelinha q diz chaão e ê ele meu pruuico sinal fiz q tal he. 
Sinal publico do tabellião.* ' 



XLVILT.— Figueiredo (Christovão de). — Figura como uma das testemu- 
nhas no processo instaurado sobre a petição de Garcia Fernandes. No seu de- 
poimento diz elle que era pintor do senhor cardeal (D. Affonso) e que resi- 
dia na freguezia de Santa Justa; que era compadre e amigo de Garcia Fernan- 
des, cuja mulher era prima da sua, sendo filhas de dois irmãos. Ora sendo a 
mulher de Garcia Fernandes filha de Francisco Henriques, vè-se que este ti- 
nha um irmão cujo nome se desconhece e de quem se não tem falado até 
agora. Convém todavia observar que aquella phrase dois irmãos não se deve 
tomar á risca, em absoluto, como sendo do mesmo sexo. Accresce ainda que 



1 Torre do Tombo. Cartório d« S. Domingo» de Litboa. L.° 55, fl. 3. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



67 



o mesmo parentesco podia proceder da linha materna. Ainda mais outro por- 
menor: Christovão de Figueiredo fôra também companheiro de Francisco Hen- 
riques nas obras da Relação. 

Nas Chancellarias não encontrei documento algum que lhe diga directa- 
mente respeito. Uma carta de D. João III concede licença a um Christovão de 
Figueiredo, escudeiro da rainha D. Leonor, minha tia, para poder andar em 
mula, mas creio que se não pôde identificar com o pintor. 

Existe na Torre do Tombo, Collecção de Fragmentos, uma petição interes- 
santíssima de Christovão de Figueiredo, em que elle, depois de nomear alguns 
serviços, requer a el-rei que tome para moço da capella do cardeal seu irmão, 
um seu filho d'elle supplicante, muito bom grammatico e latino. Este documento 
não tem data, mas deve ser anterior a 1540, epocha em que falleceu o car- 
deal D. Affonso, e nelle se encontram preciosos elementos para a historia da 
pintura portugueza. 

Ahi diz Christovão de Figueiredo que fôra a S. João de Tarouca exami- 
nar e receber as pinturas que fizera Gaspar Vaz, indo também a Vizeu em 
missão idêntica, e que n'estas viagens não recebera paga dos seus trabalhos. 
Isto além de outras obras que debuxara para el-rei. O respectivo documento 
ler-se-ha adeante no artigo relativo a Vaz (Gaspar). 



XLIX. — Florentim (António). — O seu appellido indica perfeitamente a 
terra da sua naturalidade, Florença, d'onde veiu, a requerimento de D. João I, 
na qualidade de seu pintor. Estes pormenores colbem-se na carta de privile- 
gio que D. Duarte lhe passou em Almeirim a 5 de janeiro de 1434, sendo 
confirmada por D. Affonso V a 2 de julho de 1439. 

A existência de mestre António Florentim tinha passado até agora igno- 
rada na nossa historia artística. Este facto é importante, não só por nos reve- 
lar o gosto de D. João I pela pintura, mas também por nos indicar a influen- 
cia da escola italiana em Portugal n'aquella epocha. 

tDom Afomso etc. A quamtos esta carta (falta virem) fazemos saber que 
nos foy mostrada huua carta do muy alto etc, Dom Eduarte etç. A uos corre- 
gedores e juizes da nossa muy nobre e leal cidade de Lixboa e aos sacadores 
e Recebedores que ora sam ou forem daquy em diante dos nossos pididos e 
a outros quaees quer oficiaaes e pessoas que esto ouuerem de veer per qual 
quer guisa, a que esta carta for mostrada, saúde, sabede que nos, que nos 
(tic), querendo fazer graça e mercee a meestre Amtonyo Felloremtim, mora- 
dor em essa cidade, por quanto veeo a esta nossa terra a requerimento del-Rey 
meu senhor e padre e era seu pimtor, teemos por bem e priuillegiamollo . . . 



68 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Dante em os paços d Almeirim b dias de janeiro — El Revo mandou— R.° Afonso 
a fez — era de mil e iiij c e xxxiiij. E pidionos por mercee o dito meeslre An- 
toyo (sic) que lha mandássemos confirmar a dita carta e visto seu requerimento 
a nos praz deito. E porem mandamos a uos sobre dito corregedor e juizes e 
a outros quaees quer que esta carta for mostrada que lha compraaes e guar- 
des e façaaes comprir e guardar asy e pella guisa que em ella he contheudo 
sem outro nenhQu enbargo que huus e outros a ello ponhaees, unde ali nom 
façades. Dante em a dita cidade dous dias de julho — EIRej o mandou com au- 
toridade da senhora R. a sua madre e per Ifante dom P.° seu lyo e defensor 
por ell de seus Regnos e senhorio. Lopo Fernandez a fez. Era de mil e iiij c e 



L. — Fonseca (António Manuel da). — Raczynski teve ensejo de tratar de 
perto com António Manuel da Fonseca e de observar e criticar as suas obras, 
consagrando-lhe um artigo bastante desenvolvido no seu Dictionnaire e diver- 
sas passagens nas suas Lettres. Fonseca foi professor de pintura histórica de 
bastante merecimento, embora a obra que nos legou não corresponda em nu- 
mero ao longo período da sua actividade, em concepção artística ás excellen- 
cias de um talento de primeira ordem. Um dos seus mais notáveis quadros, 
Emas salvando seu pae Anchisis, deu logar a uma viva polemica, sendo seu 
vigoroso contendor Joaquim António Marques. Fonseca publicou em sua defesa 
(1855) um opúsculo em folio, de 15 paginas, em que dá alguns curiosos por- 
menores biographicos da sua pessoa. Ahi confessa modestamente que um emi- 
nente escriptor (dizem que fora Latino Coelho) lhe corrigira o escripto, dan- 
do-lhe os realces do estylo. Veja-se a este propósito o Diccionario Btbliogra- 
phico, de Innocencio da Silva, nos artigos relativos a Fonseca e Joaquim Antó- 
nio Marques. António Manuel da Fonseca fez parte de uma geração de artis- 
tas. Seu pae, João Thomaz da Fonseca, era também pintor. Deixou um filho, 
António Thomaz da Fonseca, que, tendo-se dedicado primeiro á pintura, seguiu 
depois a carreira de architecto. Foi director da Escola e do Museu de Bellas 
Artes, succedendo-lhe n'estes cargos o meu particular amigo António José Nu- 
nes Júnior. 

António Manuel da Fonseca falleceu em 4 de outubro de 1890, com 94 
annos de edade, pois nascera na freguezia de Santa Isabel a 27 de setembro 
de 1796. 

Fonseca fora nomeado professor de pintura histórica em carta de 29 de 
agosto de 1837. Recebera as seguintes mercês honorificas, de que tenho nota: 



i Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.» 19, fl. 60. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



69 



Cavalleiro da Ordem de Christo, era 13 de janeiro de 1837; Commendador da 
mesma ordem, em 11 de dezembro de 1884; Cavalleiro da Ordem de Carlos III 
de Hespanha, em 7 de novembro de 1871; Cavalleiro da Ordem da Rosa do 
Brazil, em 18 de janeiro de 1873. Em 1846-1847 serviu no batalhão dos Vo- 
luntários da Carta, tendo-se alistado aos 50 annos. Sahiu alferes em dezem- 
bro de 1846 e tenente a 21 de julho de 1847. 

António Manuel da Fonseca ornamentou diversas dependências do palácio 
Quintella, em frente ao largo do mesmo nome. É por certo o seu trabalho mais 
valioso e de mais amplas dimensões. Executou-o em 1822, tendo a satisfação 
de o restaurar em 1878. Assim a obra que lhe despontara na manhã da sua 
mocidade rejuvenesceu-a elle ao calor do sol poente da sua velhice. 

O meu esclarecido amigo e consócio Dr. A. A. de Carvalho Monteiro, 
actual proprietário d'aquelle palácio, teve a amabilidade de me fornecer uma 
circumstanciada descripção daquellas pinturas, que, apesar de minuciosa, nada 
perde na clareza e realce com que está redigida. Com a devida vénia a repro- 
duzo n'esle artigo, certo de que será lida com todo o interesse e agrado. 

Tendo se-me offerecido occasião de examinar alguns dos seus papeis de 
família pude tirar copia de cinco documentos, que vão insertos logo depois da 
descripção alraz mencionada. São elles: 

a) Certidão de baptismo, em seguida a um seu requerimento; 

b) Requerimento, pedindo certidão da portaria que o mandava concluir 
em Roma a copia do quadro da Transfiguração de Christo, de Raphael; 

c) Officio, communicando-lhe a sua eleição, em 2 de janeiro de 1840, 
para sócio Dê Virtuosi ai Pantheon; 

d) Idem, com relação ao Instituto de França, em 20 de dezembro de 1862; 

e) Idem, com relação á real Academia de S. Fernando de Madrid, em 3 
de janeiro de 1872. 

«Os trabalhos mais importantes feitos por António Manuel da Fonseca, 
na casa da rua do Alecrim, n.° 70, em frente ao Largo do Barão de Quintella, 
que pertenceu ao Conde de Farrobo, adquirida mais tarde por Francisco Au- 
gusto Mendes Monteiro, que foi quem mandou fazer todas as restaurações, e 
que hoje é propriedade de seu filho, António Augusto de Carvalho Monteiro, 
encontram-se em seis compartimentos do mesmo prédio, e são: as pinturas 
da escada principal, as de dois medalhões na capella, as da sala do canto-sul 
sobre a mesma rua e o pateo das cavallariças, as da grande sala de jantar e 
as de um gabinete que olha para o grande terraço do mesmo prédio. As pin- 
turas dos painéis grandes da escada e as da sala do centro são a fresco, as 
demais a óleo. Eis a sua descripção: 



70 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Escada 

assumpto principal consta de quatro dos Trabalhos de Hercules, dispostos 
do seguinte modo: na parede que se eleva do primeiro patamar da escada, toda 
de mármore, e de cada lado de uma grande janella de arco perfeito, fechada 
por vidros de Veneza corados, vê-se, do lado direito de quem sobe, Hercules 
subjugando o Touro de Creia, e da esquerda o Leão da Nemea; e na parede 
do ultimo patamar, do lado direito da porta da entrada para a grande sala octo- 
gona, Hercules esmagando em seus braços a Anteii, filho da Terra, e do lado 
esquerdo dando a morte ao gigante Caco. Por cima d'estes quadros, e entre 
as janellas lateraes e grandes espelhos reproduzindo essas janellas, eslam di- 
versas allegorias pintadas a claro-escuro, assim dispostas: por sobre o Leão 
da Nemea, a Terra em um carro puchado por duas serpentes, por sobre o 
Touro de Creta, Vénus no seu carro tirado por pombas; sobre a l. a porta late- 
ral, á esquerda, o Carro de Apollo puchado por dois cavallos brancos; entre essa 
porta e a principal O de Mercúrio tirado por dois gallos; entre esta porta e a 
2.* lateral O Carro de Juno com os pavões; e em seguida O de Diana a quatro 
cavallos brancos. Entre as humbreiras d'aquellas janellas quatro figuras de Deu- 
ses mythologicos representam os quatro elementos da velha theoria philosophica, 
o fogo, a agua, a terra e o ar (Júpiter ou Zeus, Neptuno, etc.) No centro do 
tecto eslá pintada a Apotheose de Mercúrio, que tem na mão esquerda um pomo 
de oiro (laranja), sobraçando com a direita o caduceu e um Cupido. A facha, 
que passa por baixo das janellas, é de diversos arabescos, sendo os centros 
formados de meninos nús com a maça de Hercules e cornucopias. 



Capella 

No lado direito do altar e esquerdo do espectador está pintado a óleo um 
grande medalhão com a Cabeça de Christo, e do lado esquerdo um outro me- 
dalhão de molduras e dimensões eguaes ao anterior, representando a Cabeça 
da Virgem. 



NOTICIA DK ALGUNS PINTORES 71 



Sala. do centro, ou chamada Romana 

Pinturas Das paredes principaes figurando dois grandes pannos de Raz, 
onde se acham representadas as seguintes scenas da historia da primitiva Roma: 
do lado direito de quem entra e na parede lateral, entre a porta-uorte e o 
canto da sala, grandes jogos romanos, a que foram attrahidos os Sabinos, e 
em seguida, na parede do fundo, o Rapto das Sabinas; do lado esquerdo, e ainda 
na parede do fundo, a Guerra entre os Sabinos e os Romanos, consequência 
d'aquelle rapto, e em continuação, na parede lateral, entre o canto e a porta- 
sul, a Paz de Lacio, firmada por accordo entre Tacio e Rómulo. As sobre-por- 
tas são assumptos, a claro escuro, da historia Romana, principalmente dos cos- 
tumes dos cônsules, lictores, etc. No tecto, ao centro, encontra-se, em um 
grande medalhão, a Apolheose de Rómulo, tendo aos lados, na parte concava do 
tecto, logo por cima da sanca, dois medalhões mais pequenos, também a fresco 
e a claro escuro, representando: o que fica sobre a janella principal a Allego- 
tia da lenda da Loba amamentando Rómulo e Remo, e o que se vè por cima da 
porta de entrada da sala octogona Acca Laurentia, mulher do pastor Faus- 
lulo, também conhecida por Loba, tendo aos peitos os dois gémeos citados e ao 
lado o pastor seu marido. Entre a janella e a porta do lado-norte vê-se, por 
cima do roda-cadeiras, o retrato de António Manuel da Fonseca, muito joven 
e em corpo inteiro, vestido à romana, tendo na mão direita uma folha de pa- 
pel desenrolada com um projecto de pinturas, provavelmente o das pinturas 
a executar na sala, e com a mão esquerda como que mostrando esse mesmo 
plano. Por baixo da indicada folha de papel vè-se uma espécie de lapide com 
a seguinte inscripção em caracteres romanos: Antonius Em-jmanuel a Fonce- 
/ca, Pictor Lusi-ftanus. Anno 1822./; e em seguida, em letra aldina manuscri- 
pta, e feita muito posteriormente àquella, este distico: Forão restauradas es- 
tas/pinturas em 1878, pelo mes/mo autor; tendo d'idade/81 ânuos./; por baixo 
da lapide vè-se a paleta com os pincéis e o torso de uma estatua partida. En- 
tre a janella e a porta-sul do lado esquerdo está o retrato do architecto da casa, 
também com vestuário romano, achando-se sobre o fuste de uma columna trun- 
cada a seguinte inscripção: Joannes /Baptista /Hdbrath, /Archite-/ctus Ro-/ma- 
nus./ A facha do roda-cadeiras é toda pintada também a fresco, representando 
armas, armaduras e petrechos bellicos antigos. 



72 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Gabinete cio lado-sul 

No tecto vè-se a figura de Minerva em corpo inteiro, vestida de Palias, 
e sentada sobre uma uuvem, tendo na mão esquerda duas coroas de loiro, e 
do lado direito um pequeno Cupido que lhe apresenta o mocho da sciencia 
pousado sobre a sua mão direita. 



Sala de jantar 

Assumptos de paizagens dos arredores de Roma e o aspecto da Basílica 
de S. Pedro e do Palácio do Vaticano. Do lado direito de quem entra a porta 
principal vê se uma scena de trabalho de vindima, levando os homens cachos de 
uvas que deitam para dentro de uma dorna; e do lado esquerdo da mesma porta 
uma dança popular junto a umas ruinas de aqueducto. Ainda d'este lado, so- 
bre a parede lateral, entre o canto e a porta-norte, uma camponeza ao pé de 
uma fonte enchendo de agua um cântaro, e, por baixo da bica, junto ao pe- 
queno frontão da mesma fonte, a seguinte inscripção em letra aldina: Ant.° 
M. tl da/Fon." Pinct./, e a seguir pela parte de baixo e em letra manuscripta 
commum: Reformada/pelo mesmo au-fior cm 1877./ Entre a citada porta e a pri- 
meira janella está representada a basílica de S. Pedro com a sua grande praça 
e no ultimo plano á direita o Vaticano, como que vistos por sobre o gradil de 
um jardim, onde estam tocando uns músicos ambulantes com um macaco, a que 
uma creancinha offerece um cacho de uvas. Entre a terceira janella e a porta- 
sul vè-se uma mulher do campo sentada, tendo ao lado esquerdo um cabaz com 
uvas, de onde tirou um cacho que dá a uma creança que está encostada sobre o 
regaço. Entre esta porta e o canto ha uma scena de idylio entre uma camponeza 
e um guarda compestre encostado á espingarda. As sobre-portas, em numero 
de quatro, pois uma das janellas, a fronteira á porta principal, é de sacada 
para uma escada que dá para o jardim, representam Leda deitada em diremos 
posições ojferecendo néctar a Júpiter transformado em cysne branco de azas le~ 
vantadas, que se reproduz dois a dois em cada vão, formando como que os or- 
natos superiores das humbreiras das portas. No tecto, em um grande meda- 
lhão, vè-se Hebe sentada sobre o dorso de uma grande águia (Júpiter transfor- 
mado), de cujo bico pende o lustre da sala. Hebe tem na mão direita uma taça 
offerecendo ambrósia, e ao seu encontro vem um pequeno Cupido com um 
açafate de flores e fructas á cabeça. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 73 



Saleta sobre o terraço 

Representa um boudoir, em cujas paredes se mostram seis raparigas, 
serviçaes talvez, por entre umas columnatas encimadas de caryatides apresen- 
tando vários adornos de toilelte: uma caixa com escovas para cabello, filas, 
plumas, leques, coitares, jóias, etc. As sobre-portas teem pintadas sobre bam- 
binellas a azul e branco, no estylo império, grinaldas de rosas e emblemas 
amorosos, e uma pyra em frente da janella. 



Além destas pinturas do Fonseca, existem na mesma casa e na sala prin- 
cipal, chamada Sala Camoniana, as feitas a óleo por Cyrillo Wolkmar Machado, 
representando: a do tecto o Concilio dos Deuses, segundo o lexto dos Lusíadas, 
vendo-se ao fundo do quadro e a perder-se no horizonte As naus portuguezas 
sob o mando de, Vasco da Gama para o descobrimento do caminho marítimo das 
índias; e em volta, no roda-cadeiras, vêem-se a claro-escuro três medalhões 
figurando assumptos camonianos: Audiência do Rei de Melinde, Desembarque 
em Calecut e a Ilha dos Amores.» 



«Ill. m0 Senr 

«Diz António Manoel da Fonseca Pintor figurista Filho filho (sic) legitimo 
de João Thomas da Fonçeca e de Maria Ignaçia Xavier q ele sup. te persiza q 
o reverendo pároco de S. IzabeUhe pase hnma certidão do seu Balismo e como 
sem ordem de V. S. o não pode fazer portanto 



P. q seja V. S. a servido mandala pa- 
sar na forma do costume.» 



«No L.° 13 dos Baptismos desta Freguezia a fl. 130 v. está lançado o As- 
sento seguinte: 

«Em o primeiro dia do mez de Novembro de mil sete centos noventa e 
seis annos nesta Parochial de Santa Izabel, Rainha de Portugal, baptisou so- 
Iemneniente e poz os Santos Óleos o Padre Coadjutor José Gonçalves Ferreira 
á António que nasceo aos vinte e sele de setembro próximo passado, filho le- 
gitimo de João Thomaz da Fonseca, e de Maria Ignacia Xavier moradores na 

Março, 1903. 10 



74 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Rua de Santa Quitéria desta Freguesia, e na mesma recebidos. Padrinho An- 
tónio Manoel de Mello e Castro, e Madrinha Josefa Maria Gertrudes, tocou em 
seu nome Joaquim José Lopes Pereira— o Prior Francisco José Marques de 
Paiva. 

«E nada mais se contem no dito Assento, que fielmente copiei, e a que 
me reporto. Igreja de Santa Isabel de Lisboa 24 de Dezembro de 1822. 

O Prior D. António da Annunciação Avellino.» 



dll. mo e Ex. m0 Sr. 

«Diz António Manoel da Fonseca Professor proprietário da Aula de pin- 
tura histórica da Rial Academia das Bellas Artes de Lx.*, que elle supp.' pre- 
cisa que V. Ex. a ordene que o Secretario da referida Academia, lhe passe por 
certidão a integra do Decreto com o qual obteve licensa para hir a Roma aca- 
bar a sua copia da Transfiguração de Christo, do quadro original de Rafael 
Sanzio de Urbino, pelo que 

P. a V. Ex. a assim lhe defira. 
Lisboa, 22 de Julho de 1863. 

António Manoel da Fonseca. 

E. R. M. "» 

Tem ao lado o seguinte despacho: «Passe não havendo inconvenientes. 
Academia 11 de Agosto de 1863. Marquez de Sousa.» 



«Em consequência do despacho retro do Ex. mo Marquez Vice-Iospector da 
Academia Real de Bellas Artes: Certifico que em um dos livros de registros 
das Portarias do Ministério do Reino achei a copia do theor seguinte: «N.° 43 
— Ministério do Reino — 4. a Repartição — N.° 2:369 — Livro 4.° — Sua Mag. e 
A Rainha, vendo o que o Vice Inspector da Academia das Bellas Artes de Lx. a 
expoz na sua conta de 28 de Agosto ultimo acerca da necessidade de se facultar 
licença ao Professor da Aula de Pintura Histórica da mesma Academia António 
Manuel da Fonseca, para ir a Roma acabar a copia do quadro da Transfigura- 
ção do celebre Rafael de Urbino, fazendo ao mesmo tempo a compra dos prin- 
cipaes modelos em gesso das estatuas antigas, e consideradas as razões que ha 
de conveniência publica a respeito d'esta matéria: Ha por bem conceder licença 
ao dito Professor para, por termo de oito mezes estar ausente do exercício da 
sua cadeira, occupando-se em Roma dos mencionados trabalhos artísticos; e 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 75 

bera assim na compra dos ditos modelos, sob as inslrucções dadas a esse fim 
pela Academia de Bellas Artes, e mediante a inspecção e fisealisação do nosso 
agente diplomático naijuella corte. E assim o Manda Sua Magestade participar 
á mesma Academia para sua inteligência e devida execução. Paço de Cintra em 
3 de setembro de 1839 — Assignado — João Cardoso da Cunha Araújo. — Está 
conforme. Academia Real de Bellas Artes de Lisboa 1.° de setembro de 1863. 
José da Costa Sequeira. Professor servindo de Secretario. » 

«Insigne Artística Congregazione dè Virtuosi ai Pantheon. A di 3 Gen- 
naio 1840. Num. 2:004. 

«Cbiarissimo Signore 

«Ho 1'onore di partecipare alia Signoria Vra. Chiarissima che la Insigne 
Artística Congregazione dè Virtuosi ai Pantheon sulla proposizione dei Segre- 
tario di Consiglio Sig.° Cav.° Silvagni, e dei sottoscritto Segretario perpetuo 
nell' adunanza dei giorno 22 dello scorso Decembre nominò ad unanimità di 
suffragi la Sig. u Vra. a Virtuoso di mérito corrispondente e la annoverô nella 
classe delia Pittura. 

«Nel portarle a notizia una tal noraina, lieto, perche con tale atto la Insi- 
gne Corporazione segnò una delle piú belle epoche essendo alia Signoria Vra. 
chiarissima tutte quelle prerogative che costituiscono el uomo e 1'artista, invi- 
landola ad intervenire Domenica mattina alie ore 17 i ai Pantheon onde pren- 
dere il formale possesso, gradisca che un sentimenti de stima io passi ali' onore 
de signarmi delia sign. r Vra. Chiarissima. 

aChiarissimo Sig.° Cav.° António Fonzeca Pittore. 

«Direttore delia R. Accademia di Lisbona, etc. 

(Assignado) 

Gaspare C.° Servi, seg. ri ° perpetuo.» 

«Instituí Imperial de France. Académie des Beaux Arts. 

«Le Secrélaire perpetuei de 1'Académie certifie que ce qui suit est extrait 
du Procés-verbal de la séance du Samedi 20 Decembre 1862. 

«IVAcadémie procede conformément à son règlement à 1'élection d'un cor- 
respondant pour remplir la place vacante par le décès de M. Schadow. 



76 NOTICIA DE ALGUNS PINTOIIES 

«Le résultat du scrutin ayant donné la majorité absolue à M. Fonseca, le 
Président declare qu'il est élu Correspondant de 1'Académie. 

Pour extrait conforme 

Le secrétaire perpetuei 

Beulé.» 

«Institut Imperial de France. Académie des Beaux Arts. 

«Paris le 30 mai 1863. 
«Le Secrétaire perpetuei de l'Académie. 

«Paris le 20 Décembre 1862. 
«Monsieur. 

«Je m'empresse de vous adresser 1'exlrait du procès verbal de la séance 
dans laquelle l'Académie des Beaux Arts de Tlastitut imperial de France vient 
de vous nommer l'un de ses Correspondants. 

«En vous offrant ce titre comme un témoignage de son estime, 1'Acadé- 
mie vous invite à lui faire part des connaissances et de 1'expérience que vous 
avez acquises dans les Beaux Arts, afin de concourir avec elle à leurs progrès. 

«Je me felicite, Monsieur, d'être 1'interprète des sentiments de 1'Acadé- 
mie et je vous prie d'agréer 1'assurance de la considèration três distinguèe 
avec laquelle j'ai 1'honneur de vous saluer. 

Beulé. i 

«A Monsieur António Manoel da Fonseca, peintre du Boi, Correspondant 
de l'Académie des Beaux Arts de 1'Institut imperial de France, à Lisbonne. 

«Beal Academia de Las Três Nobles Artes de S.° Fernando. 

«Teniendo en cuenta esta Bea! Academia los altos merecimientos y cir- 
cunstancias que concurren en V. S. ha acordado en sesion celebrada el dia 18 
de Diciembre último, y prévias todas las formalidades que previenen sus Esta- 
tutos y Beglamenlo, nombrar à V. S. Académico corresponsal de la misma. 



NOTICIA PE ALGUNS PINTORES 



77 



«Tengo la satisfaccion de comunicarlo à V. S. para su debido conocimiento, 
no remetiéndole el diploma, hasta que este concluída la nueva tirada. 
«Dios gue. à V. S. muchos anos. Madrid 3 de Enero de 1872. 

El secretario general 

Eug.° de la Câmara.» 



LI. — Furtado (Manuel). — O sr. Conde de Sabugosa possue um mappa 
de grandes dimensões com os seguintes dizeres: 

«Mappa da ilha de Gôa e das adjacentes e das ilhas de Salsete e Bardez 
que o ex. ra0 sr. Viso Rey Vasco Fernandes César de Meneses mandou tirar pelo 
mestre pintor Manuel Furtado no anno de 1716.» 



LIL— Gallego (Pêro Affonso). — O seu segundo appellido talvez seja pa- 
tronymico, derivado da terra da sua naturalidade, Galliza. Era pintor, mestre 
dos escudos e residia na cidade do Porto, onde viera estabelecer-se já no tempo 
de D. João I, que lhe deu carta de privilegio. D. Duarte lh'a passou nova- 
mente em 29 de dezembro de 143i, sendo confirmada por D. Affonso V em 
4 de fevereiro de 1441. 

«Dom Afomso etc. A quamtos esta carta virem fazemos saber que Pêro 
Afomso Gallego, pymtor, nieestre dos scudos, morador em nossa cidade do (falta 
a palavra Porto) mostrou perante nos hQua carta de priuillegio que tynha dei 
Rei meu senhor e padre, cuja alma D s aja, da qual ho theor tal he: «Dom Eduarte 
etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos querendo fazer graça e 
mercee a P.° Afomso gallego, pymtor, morador em a cidade do Porto, por quanto 
se veo morar aa dita cidade, teemos por bem e mãdamos que enquanto na dita 
cidade esteuer e morar e husar do dito mester s^ra priuilligiado, e liberdado 
e scusado de pagar em todollas peytas, fintas e talhas, seruiços, emprestidos 
que per nos ou per os concelhos sejam ou forem llançados per qual quer guisa 
que seia e de seruir em nenhuus encarregos do concelho nem auer nenbúus 
ofícios delle comlra seu tallemte, e que nom pouse nenhQu com el em suas 
casas de morada, adegas e cauallariças, nem lhe tomem pam, uinho, roupa, 
lenha, palha e galinhas, nem outra nenhúua cousa do seu contra seu tallemte 
e se outrosy nom he posto na vymtena do mar nem beesteiro de conto que 
nom seia em ello posto. E porem mandamos aos corregedores, juizes, justiças, 



78 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



anadees e apuradores e sacadores dos nosos pididos e a outros quaes quer 
que esto ouuerem de ueer, a que esta carta for mostrada, que lhe comprem e 
guardem façom comprir e guardar esla nosa carta em lodo e per todo, segundo 
em ella he contheudo. E nom uãao nem consentam hyr contra ella era parte nem 
em todo em nenhua guisa que seja por quanto nosa mercee e uonlade he de lhe 
ser bem compridamente e guardada emquanto na dita cidade morar e husar do 
dito mester como dito he, o qual preuillegio lhe asy damos como dito he, por 
quanto tynha outro tal do muy virtuoso e de grandes virtudes eIRey meu senhor 
e padre, cuia alma D s aja, unde ai nom façades. Dada em Almeyrim xxix dias 
de dezembro — EIRey o mãdou — Martim Gil a fez — Anno de iiij c e xxxiiij 
anos. E pediouos o dito P.° A.° que lhe confirmasemos a dita carta etc. Dada 
a conflrmaçõ em forma em Coynbra iiij dias de feuereiro per autoridade do 
senhor Ifante don P.° Martim Gil a fez anno de iiij c Rj.» ' 



LIII. — Gomes (Affonso). — Era escudeiro da casa real e pintor de D. 
João II, o qual, em carta de 8 de agosto de 1485, lhe fez mercê da tença an- 
nual de 5:000 reaes. Esta carta foi confirmada por outra de D. Manuel, a 28 
de fevereiro de 1497. 

Affonso Gomes tinha umas casas ao Poço do Chão, que entestavam com 
outras que foram emprazadas a Álvaro Annes, tanoeiro, segundo se vê da 
respectiva escriptura, approvada por D. Manuel em carta de 11 de abril de 
1499. É documento curioso para a topographia de Lisboa e para a historia do 
hospital dos tanoeiros, sito n'aquelle local. 

Em 10 de abril de 1508 assignava D. Manuel em Santarém uma carta, 
pela qual quitava a Affonso Gomes a responsabilidade da fiança, a que era 
obrigado, por um João Leitão, de Setúbal. 

«Dom Manuell etc. A quamtos esla nossa carta vyrem fazemos saber que 
por parte dAffomsso Gomez nos foy apresemtada hua carta delRey meu Se- 
nhor quesamta groria aja o lehor daquall he o seguymte: dom Joham per graça 
de Deus Rey de Purtugall e dos Algarues d aquém e dalém mar em Afryca 
Senhor de Guyne aquamtos esta carta vyrem fazemos saber que nos queremdo 
fazer graça e mercê a Afomsso Gomez noso pimtor e escudeiro de nossa 
cassa Temos por bem e nos praz que elle tenha e aja de nos de temça des ja- 
neyro pasado do anno presemte de iiij c lxxxb annos em diamte em cada huu 
anno em camto nossa merçe for cymquo rajll reaes dos quaes auera pagamento 
per carta nossa que em cada huu anno tirara de nosa fazemda segundo nossa 



i Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.° 2, fl. 85. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 79 

hordenamça e por certydam dello e guarda sua lhe mandamos dar esta nossa 
carta asynada per nos e aselada do nosso sello. Dada em Symtra a biij dias 
daguosto anno de mjll iiij c lxxxb annos pedyrndonos o dito Afomsso Guomez 
por merçe que lhe comBrmasemos a dita carta e vysto per nos seu rrequery- 
mento queremdolhe fazer graça e merçe temos por bem e lha comfirmamos e 
avemos por comfyrmada asy e na maneyra que se em ella comlem e mamda- 
mos que asy se cumpra e guarde como se nella comthem sem outra duuyda. 
Dada em a nossa cidade d Évora a vymte oyto dias do mes de feuereyro An- 
dré Diaz a fez anno do nacymento de Nosso Senhor Jhesu Cristo de mjll e iiij c 
Irbij annos.» ' 

«Dom Manuell etc. Aquamtos esta nosa carta virem fazemos saber que 
por parte de Aluare Annes tonoeiro morador em esta nosa cidade de Lixboa 
nos foy apresemtado uQu estormemto ãaforamemto do quall o theor tall he. 
Em nome de Deus amem saibham quamtos este estormemto demprazamemto 
virem que no anno do nascimento de noso Senhor Jhesu Christo de mill iiif 
lrbij annos aos xx dias do mes de julho da sobre dita era nesta muy nobre 
e sempre leall cidade de Lixboa demtro no espritall de Samta Ana dos ta- 
noeiros da dita cidade setuado edeficado as famgas da farinha estamdo hy o 
homrrado Esteuam Marliz mestre escolla e coneguo na ssee da dita cidade e 
proueador moor e juiz dos esprilaaes albregarjas e comfrarjas e capellas em 
ella mesmo e seus termos per espiciall mamdado e comisam delRey noso se- 
nhor e outro sy estamdo hy Afomsso Gomez mordomo do dito espritall este 
presemte anno e Joham Vicente e Joham Martinz e Pêro Martinz e Gonçalo 
Annes e Joham de Gojmbra e Joham diaz e Aluare Annes e Pedre Annes e 
Afomso Esteuez e Vicemte Eannes comfrades do dito espritall e outros muytos 
comfrades chamados per mamdado do dito proueador moor segumdo custume 
em presemça de mym scprivam publico dos ditos esprilaaes a juso nomeado e 
das testemunhas ao diamle espritas pareçeo hy Lourenço d Évora porteiro dos 
ditos espritaes o quall deu fee que elle trouxera em pregam polias praças e lu- 
gares acustumados da dita cidade vymte dias como elRey nosso Senhor mamda 
em seu rregimemto e muyto mais huas casas ssobradadas do dito espritall que 
sam na dita cidade ao poço do chãao que partem de húa parte com casas de 
Catharina Gonçalluez a Monleira molher veuua e molher que foy de Gonçalo 
Momteiro que fazem foro ao dito espritall e da outra partem com outro espri- 
tall que os ditos tanoeiros tem edeficado ao dito poço do chãao e emtestam com 
casas d Afomso Gomez \>imlor delRey noso Senhor e per diamle com a dita nua 
publica do poço do chãao e com outras comfromtações com que de direito de- 



i Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.° 37, fl. 75 v. 



80 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

uem partir as quaes casas foram medidas per mym scprivam per mandado do 
dito proueador moor e tem de lomguo trimta e duas varas e de larguo dez 

varas e mea Dada em a nosa cidade de Lixboa a xj dias de abrill Am- 

dre Pirez a ffez anno do nascimento de noso Senhor Jhesu Christo de mjll e 
iiij c e nouemta e nove annos nom seja duujda no rresp;imçado honide começa 
que partem de hQa parle e acaba e da outra partem por que eu scprivam o 
fiz por verdade.» * 

«Dom Manuell etc. A vos juizes de Setuuell e a todollos juizes e justiças 
dos nosos Reguos a que esta carta virem fazemos saber que mandando nos pro- 
uer as fianças que em nosos Regnos sam dadas per aquellas que nõ fosem com- 
pridas per o forem (sicj execuqutadas foy achada huua fiança em que Joham 
Leitam morador em a villa de Setuuell se nos obrjgou aprouar certos capitólios 
e cousas de noso seruiço ou pagar por sua fazenda e dAfomso Gomez noso pin- 
tor morador em Lixboa quatrocemtos cruzados doiro e por a dita fiança estar 
em aberto e se mostrar nõ ser comprida mandamos pasar nosa carta em forma 
pêra vos em os bêes do dito Joham Leitam eixuquetardes os ditos iiij c cruza- 
dos a qual carta foy perante vos apresentada e em comprimento delia por vos 
a molher e erdeiros do dito Joham Leitam alegar (sicj que. tinha embarguos a 
nõ se qujtar em sua fazemda os ditos iiij c cruzados lhe asynastes termo de xxx 
dias a que perante nos hos viese alegar e auer sua proujsam e dentro no dito 
termo a mulher e erdeiros do dito Joham Leitam nos emviara apresemtar por 
embargos hQa sentença pasada pella nosa chancelaria e asynada per Lopc de 
Afomseca do noso desembarguo ouujdor em nosa corte em aqual sse comty- 
nha que o dito Joham Leitam nos oferecera contra o dito Pêro Faleiro juiz de 
fora que ao tall tempo era em essa villa certos capitólios ssobre os quaaes 
mandamos que ho dito doutor fose ouujdo cõ ele e foy tanto alegado por parte 
do dito Joham Leitam como do dito doutor que ele Joham Leitam nõ prouar 
os ditos capitólios foy condanado per a dita seutença que pagase xxx reaes 
demjura emmenda e corregimento ao dito doutor e lhouuerã em rrelaçam a 
dita fiança por aleuantada aos ditos fiadores ssegundo em a dita sentença e 
seus embarguos mais compridamente era contheudo os quaes vistos por nos 
com a dita sentença e fiança e como se mostra a dita fiança ser comprida e os 
ditos fiadores desobrjgados delia per a dita sentença da nosa rrelaçam vos man- 
damos que por a dita carta de execuçam nõ façaes obra alguua contra o dito 
Joham Leitam nem contra ssua molher e herdeiros nem sua fazenda nem daquy 
por djante nõ sejam por a dita fiança mais demandados nem o dito Afomso 
Gomez sseu fiador por que deste dia pêra todo ssenpre os avermos a eles e a 



i Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.° 16, fl. 58. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 8J 

todos sseus herdeiros por liures e desobrjgados da dita fiança e mandamos 
que por elle nõ sejam coslrangidos per nenhua maneira que seja. Dada em a 
nosa villa de Santarém a dez dias do mes dabijll elRei o mandou per Aires 
da Syllua do seu conselho e Regedor da justiça em sua corte e casa da sob- 
uricaçam — Goniez Anues a fez anno de mjll quinhentos e oyto armos.» 



i 



LTV. — Gomes (Diogo). — Pintor, residente em Cintra. Em caria de ^ de 
junho de 1513 D. Manuel lhe fez mercê da tença annual de 4:000 reaes, em- 
quanto vivesse e estivesse de assento n'aquella villa, sendo obrigado a fazer 
qualquer reparo em obra do seu ofllcio nos paços reaes. Se, porém, a obra ex- 
cedesse mais de um dia, ser-lhe-hia pago o seu jornal. 

«Dom Manuell etc. Aquamtos esta nosa carta virem fazemos saber que 
queremdo nos fazer graça e merçe a Dioguo Guomez pimtor morador em Sym- 
tra temos por bem e nos praz que des primeiro dia de janeiro que pasou da 
era presemte de quinhemtos e treze em diamte elle tenha e aja de nos de 
temça em cada huu auno quatro mjll reaes em quamto viuer e estever dasemto 
na dita vila o quall será obrigado a fazer e correger nos paços dela quallquer 
cousa que for necesaria de seu oficio que nõ seya de calidade que gaste hum 
dia jmteiro por que serndo pagarlheam seu jornall e nom o semdo nom lhe 
pagaram nada o qual lhe será paguo pello almoxarife do dinheiro que for or- 
denado pêra as obras dos ditos paços e nos conhecimentos que der desta temça 
dará fé o scprivam do almoxarifado e obras como elle serue de comtino na 
dita vila e que cumpre a obrygaçam deste comtracto e porem mamdamos ao 
dito almoxarife que pela dita guisa lhe dee e pague cada anuo os ditos dinhei- 
ros do dito janeiro em diarnte per esta soo carta sem mais tirar outra de nosa 
fazenda e per o trelado dela que se asemtara no liuro do dito almoxarifado 
com seu conheçimemto mamdamos aos nosos comtadores que lhos levem em 
conta e asy mamdamos aos veadores de nosa fazenda que lhe façam asemtar 
os ditos dinheiros em os nosos livros dela e pêra se saber como sam despe^ 
sos no dito almoxarifado e por firmeza dello lhe mamdamos dar esta carta asy- 
nada per nos e aselada do noso selo pemdemte. Dada em Lixboa ao primeiro 
dia de junho — Jorge Fernandez o fez de j b c xiij.» s 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.° 5, fl. 8 v. 

2 Idem. Idem. Is «, fl. 45. 

Março, 1903. 11 



82 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



LV. — Gomes (Fernão).— Taborda trata de dois pintores com este mesmo 
nome, sendo o mais antigo do tempo de D. Manuel, que o mandara estudar a 
Itália juntamente com outros seus compatriotas. Alli foi discípulo de Miguel 
Angelo. Taborda não authentiea a sua noticia com nenhuma auctoridade ou do- 
cumento, e é muito provável que se equivocasse, duplicando o mesmo individuo. 

Do artista contemporâneo de D. Manuel não encontrei diploma ou infor- 
mação, e por isso me limitarei a tratar do segundo, cuja existência é positiva 
no ultimo quartel do século xvi e no primeiro do século xvii. 

Em carta de 13 de maio de 1594 o nomeou el rei D. Filippe I seu pin- 
tor, em logar de Cbristovão Lopes, por cujo fallecimento o cargo vagara. 

Em 16 de agosto de 1601 a Meza da Consciência consultou favoravel- 
mente uma petição de Fernão Gomes, em que requeria para ser pintor dos 
Mestrados, para o qual officio (modéstia á parte) se considerava elle próprio 
o mais idóneo. 

Cyrillo Volkmar Machado trata d'elle também nas suas Memorias (pag. 
68 e 69), e diz que elle em 1602 fazia parte da Meza da confraria de S. Lu- 
cas. Baseado por certo em Félix da Costa, dáo como discípulo de Blockland, 
flamengo, e enumera diversos quadros por elle pintados. 

Se Fernão Gomes foi discípulo de Blockland, assim chamado, pois o seu 
nome era Pieter Montfort, devia ter ido estudar a qualquer centro artístico da 
Hollanda, pois não consta que o pintor hollandez viesse a Portugal. 

«Dom Felipe etc. Aos que esta minha carta virem faço saber que eu ey 
por bem e me praz de fazer merçe a Fernão Gomez do officio de meu pintor, 
assi e da maneira que o tinha Xpouão Lopez, per cujo falecimento vagou, avemdo 
respeito a informaçam que delle se ouue, e que tenha e aja de mym em cada 
hum anno com o dito officio cinq mil rs em dinheiro e hum moio de triguo, 
que he outro tanto como com elle tinha o dito Xpouão Lopez e Gregório Lo- 
pez, seu pai, que o também seruio como se uio pello treslado da carta que o 
dito Xpouão Lopez tinha tirado da Torre do Tombo, E mando a Gonçalo Pi- 
rez Carualho, fidalgo de minha casa, prouedor de minhas obras e paços, que 
lhe dee a posse do dito officio e daqui em diante lho deixe seruir e aver o dito 
triguo e dinheiro, e dom Duarte de Castel Branco, cõde meirinho mor destes 
Beinos e hum dos gouernadores nelles, do meu cõselho de estado e vedor de 
minha fazemda, que lhe faça asêtar no Liuro delia os ditos cinq mil rs em 
dinheiro e o dito moio de triguo, e do dia que lhe for dada a dita posse em 
diante leuar cada anno nas folhas do asêtamento, em parte omde lhe seja tudo 
bem paguo, e com certidão do dito Gonçalo Pirez Carualho de como o dito 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 83 

Fernão Goraez serue e cumpre o dilo officio e cumpre com as obrigações delle, 
e por firmeza de todo llie mandei dar esla per mym asinada e asellada com o 
meu sello pêdente. Dada em Lixboa a xiij de maio — Francisco Moutinho a fez 
— anno do nasimento de nosso Senhor Iliesu Xf>o de mil quinhêtos nouêta e qua- 
tro, o qual officio o dito Fernão Gomez seruirá e quanto eu ouuer por bem e 
não mandar o contraíra e com declaraçam que tirandulho ou extimguindosse 
per qual quer causa que seja minha fazenda lhe não fique por isso obrigada 
a satisfação algua. Sebastião Perestrello a fiz escreuer.» l 

«Fernão Gomes, pintor de óleo, fes petição nesta Mesa, disendo que V. 
Magestade lhe fisera mercê do officio de seu pintor, auendo respeito a infor- 
mação que delle ouue, com o qual uense ordenado como uenserão seus ante- 
sesores, e porque nas igrejas e conuentos dos mestrados ha muitas obras or- 
dinariamente pêra se faser de pintura. Pede a V. Magestade que auendo res- 
peito ao que alega e a ser mais idonio e suficiente do reino nn officio de pin- 
tor lhe faça mercê do dito cargo de pintor das obras dos ditos mestrados por 
asy ser proueito das ditas obras e da fazenda de V. Mag. de 

«Pareceo uista a informação que se ouue do supplicante V. Mag. de deue ser 
seruido de lhe fazer mercê do officio de pintor das obras dos mestrados, em 
Lixboa a 16 dagosto de IG01.» 2 



LVI. — Gomes (Francisco).— Sogro de Silva Rabello (Manuel de). Veja-se 
este nome. 



LV1I. — Gonçalves (Affonso). — Foi um dos companheiros do Infante D. 
Pedro na desastrada batalha de Alfarrobeira. Por este motivo cahiu no des- 
agrado e desgraça d'el-rei, que o privou, assim como aos demais que lhe segui- 
ram o exemplo, de todos os seus bens e direitos. D. Affonso V lhe perdoou, 
porém, a pedido do Dr. Lopo Gonçalves, do desembargo do paço, e lhe pas- 
sou carta de restituição a 13 de agosto de 1451. N'esta carta é designado 
como pintor, com residência em Montemór-o-Velho. 

«Dom Afomso etc. A quamtos esta carta virem fazemos saber que Afomso 
Gllz, pimtor, morador em Momlcmoor o Velho, nos enuyou dizer que elle fora 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Filippe I. Doações. L.° 32, fl. 127 v. 

2 Idem. Registo de Consultas da Alesa da Consciência e Ordens. 1598-1603. Consulta 120, 
fl. 120. 



84 NOTÍCIA DE ALGUNS PINTOnER 

na batalha da Alforroubeira comtra nossa perssoa e reall estado, por a quall 
razom aalem da pena corporal!, a que era theudo e os que deli decemdessem, 
fiquauom êfames e inabelles a auerem os ofícios assy pubricos como priuados 
e ssoçederem ex testamento eabintestado a sseus paremtes e aos estranhos que 
lho leixar quissessem e aimda emcorriam em certas penas que erom comlheu- 
das em huuas nossas cartas patemtes que devulgamos per todos nossos Re- 
gnos, em que todos aquelles que forom em a dita batalha nom ouuessem em 
nossos Regnos e senhorios nenhQus ofícios, homrras, perrogatiuas, isemçõoes, 
priuilegios, liberdades e framquezas, e fossem ifamados e priuados de toda 
ssocessom e devassados aos emcarregos do comcelho e lhes façom pagar 
peita, flmta, talha, pidido, enprestido, jugada, quarto, quinto ou auo (deve ser 
oitavo) eiradega, alugueiro, portagees, passagees, e dizemas assy velhas como 
nouas e outras quaaes quer trabutos de que erã releuados, segundo que todo 
esto e outras cousas mais compridamente em as ditas cartas he coulheudo. 
Pidimdonos por merçee que lhe perdoássemos a pena corporall, a que nos era 
theudo e o tornássemos a toda ssua booa fama e ouuessemos com elle com- 
paixom que pois era nosso naturall, tynha vomtade de nos seruir bem, fiell e 
lealmente como boo vassallo, e nos veendo o que nos assy dizia e pidia, hus- 
sando com ell de clememçia mais que de justiça, queremdolhe fazer graça e 
merçee pollo do doutor Lopo Gllz do nosso dessembargo e juiz de nossos fe- 
tos, que nollo por ell pidio, lhe perdoamos a pena corporall, a que era theudo 
por o crime que assy grauemente comtra nos cometeo, e auemos ell e todos 
os que delle deçemderem por releuados de toda a ifamea assy de feito como 
de direito em que emcorressem e os tornamos a toda ssua boa lama e a toda 
ssua homrra priuilegios e liberdades que elle e os que delle deçemderem e 
aviaa e aviaam per direito como sse elle em a dita batalha nom fora. E po- 
rem nos praz que ell e os que delle desçemderem ajam e possam auer em nos- 
sos Regnos e senhorio todollos oGçios assy pubricos como priuados e possam 
seer recebidos em juizo e fora delle per sy e per outrem em sseu nome e em 
nome doutrem, e que outrosy daquy em diamte elle e os que delle deçemde- 
rem possam soceder eix testamento e condicilho ou per outro quall quer moodo 
de hullima vomtade a quem quer que lho leixar e que também posa soceder 
abimtestados aaquelas pessoas que per direito como per hordenaçõoes de nos- 
sos Regnos sobceder devuyam se em a dita batalha contra nos nom fora e o 
abilitamos que ell e os que dei deçemderem ssejam capazes de todalas hou- 
rras, priuilegios e liberdades que per nos ou per nossos soçessores lhe forem 
daqui em diante feitas e dadas. E porem mamdamos a todollos nosos corege- 
dores, juizes, justiças de nossos Regnos e a quaaes quer outras pessoas del- 
les de quallquer estado e condiçom que ssejam, a que esta nossa carta for 
mostrada, que a compram e guardem e façom bem conprir e guardar como 



NOTICIA DIÍ ALOUNS MNTOftES 



85 



em ella he comthudo nom enbargante qnaees querlex, custumes, hordenaçooes, 
direitos canónicos e ciuees que em contrairo desto ssejam, por quanto assy lie 
nossa mercee, sem outro enbarguo alguu que lhe sobrelo sseja posto. Dada 
em Lixboa xiij dias dagosto — Pêro Gllz a fez — anno de nosso Senhor de mil 



iiij c 



LVHI. — Gonçalves (André). — Viveu nos reinados de D. Manuel e de D. 
João III. Não conheço registo de nenhum documento official que lhe diga res- 
peito, mas existe uma carta de Bartholomeu de Paiva, amo de D. João III, di^ 
rigida a Affonso Monteiro, almoxarife das obras da casa da índia, em que se 
lhe faz uma curiosa referencia. Trabalhou elle nas mesmas tercenas, com Gar- 
cia Fernandes, Chrislovão de Figueiredo e Gregório Lopes, que estavam en- 
carregados das obras para a Relação, e com os quaes tivera certas differenças. 
André Gunçalves estava pintando o retábulo da egreja de S. Gião ou Julião. 
Bartholomeu de Paiva, a fim de evitar questões, deu ordem para que elle fosse 
trabalhar para outras tercenas. A carta de Bartholomeu de Paiva não tem data, 
mas a circumstancia de se não mencionar, entre os pintores da Relação, a 
Francisco Henriques, mostra que o caso se passou depois da morte d'este. 

Taborda, transcrevendo em parte este documento, faz as seguintes consi- 
derações, a pag. 157: 

«Aindaque n'este documento não se especifique a data, comtudo sabe- 
mos que todos estes pintores florecerão nos reinados dos Senhores reis D. Ma- 
nuel e D. João III, pois que sendo assignado por Bartholomeu de Paiva, Vedor 
das obras na índia, este mesmo figura a 18 de agosto de 1512, e 30 do mesmo 
mez de 1535, em cujas epochas recahe o governo d'aquelles dous soberanos: 
vindo também a aclarar-se o terem passado áquelles Estados, onde havião de 
pintar segundo as instrucções, que se lhe dessem. Consta do Corpo Chronolo- 
gico. Parte n, maço 3." (aliás 33). Documento 203, e maço 203, Documento 
65, no Real Archivo.» 

Ha aqui mais de um lapso, que convém não deixar passar em julgado sem 
o indispensável conectivo. Nem Bartholomeu de Paiva era vedor das obras da 
índia, nem tampouco se deduz dos documentos que os referidos pintores ha- 
viam ido ao Oriente. Além da carta de Bartholomeu de Paiva dou os dois do- 
cumentos do Corpo Chroiiologico, a que se refere Taborda, e pelos quaes se 
verá que as suas asserções são menos exactas. 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Aflonso V. L.° 11, fl. líl. 



86 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Houve outro André Gonçalves, que floresceu no século xvm, e que foi ura 
dos mais fecundos do seu tempo. 

«Senhor amigo/hoje que sãao xiij dias de novembro me deu voso sobry- 
nho hQua carta/e quanta ao que me escrevees acerqua do djspejar desas ca- 
sas ja vos Ha tenho mandado huua carta pêra o feitor que as mande despe- 
jar ho mais prestes que poder ser pêra terdes tempo de as mandar aljmpar e 
concertar/e quanto as outras cousas que pertencem a hesas honras eu lhe tenho 
esprito largamente rreposta de tudo ho que he necesario/It. hesses pintores que 
hãao de pintar ha hobra darrolaçam tem lia hQua pouca de deferença sobre a 
dita pintura a saber Handre Gonsaluez cõ Gregório Lopez e Fjguejredo e Gra- 
cja Fernam e porque sua allteza tem ja detremjnado ho que sobre yso hãao de 
fazer ha quall he que lio Handre Gonsaluez pjnte na hobra de Sãao Gjhãao e 
os outros três na hobra darrolaçam/e por quem diserão a sua allteza que as 
ditas hobras estavam todas juntas em huua das terrcenas manda sua allteza 
que façaes mudar ho dito Handre Gonsaluez cõ Retauollo de Sãao Gihãao a ou- 
tra terrcena honde laura o carpenteiro os paynes e darres ao dito Handre Gon- 
saluez ha mjlhor parte e honde elle mais follgar e os três darrolaçam fjcaram 
cõ seus paynes honde agora estãao/e ysto farres muito mansamente e sem es- 
tar dello djzendo que sua allteza ho manda asy pêra que nam façam lorvaçara 
huus aos outros encomendome muitas vezes em vosa mercê e dAluaro Vjejra 
a xiij de novembro Bertolameu de Payua ho amo. 

«Ao Senhor Affonso Monteiro allmoxarjfe das hobras da casa da Hyndea.» * 

«Dom Manuell per Graça de Deus Rey de Purtugall e dos Algaruues da- 
quera e dalém mar em Africa Senhor cie Guine etc. Mandamos a vos Diogo 
Fernandez Cabrall que des a Bertolameu de Paiua amo do prjmçepe meu sso- 
bre todos muyto amado e prezado filho e seu garda rroupa trimta mill reaes 
que lhe mamdamos dar e o anno pasado de b c xj de nos hadaver de sua temça 
com o avito e vos fazelhe delles bom pagamento e por esta com seu conheci- 
mento mandamos que vos sejam leuados em corata. Dada em Lixboa a xbiij 
dagosto elRey o mandou per Dom Pêro de Castro do seu comselho e Recebe- 
dor de sua fazemda de b c xij anos - Dom Pêro de Castro. 

«xxx reaes a Bertolameu de Paiua amoo do prjmçepee de sua temça deste 
anno pasado de b c xj com o avito em Diogo Fernandez. 

«Conheçeo Receber e recebeo o amo do prinçepe noso Senhor de Diogo 
Fernandez Cabrall os trimta mill reaes neste mandado conteúdos e por ver- 



i Torre do Tombo. Gaveta 20, maço 13, n.» 73. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



87 



dade fiz eu Affonso Mexia este no qual elle asynou feito em Lixboa a bj dou- 
tubro de 1512 — Bertolameu de payua o amo — Affonso Mexia.» ' 

«Dom Joham per graça de Deus Rey de Portuguall e dos Ailguarues da- 
quem e dalém maar em a Affrica Senhor de Guine etc. Mamdo a vos Manuell Ve- 
lho lhesoureiro do tesouro de minha casa que deis a Bertolameu de Paiva meu 
guarda rroupa três mill reaes que lhe mando daar e este ano piesemte de b c 
xxxb de mim hadaver de sua vistiaria hordenada e per este com seu conheci- 
mento vos serão leuados em comta elIRey o mandou per dom Rodrigo Lobo 
do seu conselho e veador de sua ffazemda — Dioguo doliueira o ffez em Euora 
a xxx dias dagoslo de mill b c xxxb = Dom Rodrigo Lobo. 

«iij reaes no tesouro a Bertolameu de Paiua guarda rroupa de sua vistia- 
ria hordenada deste ano de xxxb per Joam de Castilho. 

«Recebeo Bertolameu de Paiua amo e camareiro dei Rey Noso Senhor do 
thesoureiro Manoell Velho estes três mill reaes conteúdos neste mandado e asy 
nou comigo em Euora a ij de setembro de 1533 — Damiam Diaz = ho amo.» 2 



LIX. — Gonçalves (João). l.° — Leonor Fernandes, rica proprietária em 
Lisboa, filha de Fernão Rodrigues, que foi do desembargo d'el-rei e viuva de 
Lourenço Annes, cidadão da mesma cidade, moradora na rua nova, fez testa- 
mento, que foi celebrado em sua casa pelo tabellião Fernão Martins, vassallo 
d'el rei, a 17 de dezembro de 1465, no qual foram testemunhas Pêro Gonçal- 
ves, João Gonçalves, Fernão Rodrigues, André Affonso, Pêro Vasques do Ave- 
lar e Pêro Vasques tabaliães do paço, Martim da Maia procurador d'el-rei e 
João GonçalveSj pintor, todos moradores em Lisboa. 3 

Eis a única noticia que pude obter de João Gonçalves. 



LX. — Gonçalves (João). 2.° — Por uma carta de privilegio, passada por 
D. João II, em 23 de setembro de 1492, sabe-se apenas que elle era pintor 
e residente em Lisboa, não tendo chegado ao meu conhecimento mais nenhum 
outro documento ou noticia que lhe diga respeito. Entre a data d'esta carta e 
o testamento de Leonor Fernandes vae a distancia de 27 annos, e, embora 
esta differença não seja extraordinária, não me atrevo a identificar o privile- 
giado de D. João II com o seu homonymo, citado no artigo anterior. 



1 Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte u, maço 33, doe. 203. 

2 Idem. Idem. Parte n, maço 203, doe. 63. 

3 Idem. Cartório de S. Domingos de Lisboa. L.° 24, fl. 1. 



88 NOTICIA Dg AlGUNS PINTOUES 

«Dom Joham etc. A quamtos esta nosa carta virem fazemos saber que que- 
remdo nos fazer graça e merçee a Joham Gllz, pimtor, morador nesta cidade, 
lemos por bem, queremos e nos praz que elle seja priuylegiado. . . Dada em a 
nosa cidade de Lixboa a xxiij dias do mes de setêbro — Antam Luis a fez — 
anno do nasçimêlo de nosso Senhor Ihesu X-° de mill e iiij c IRij ânuos. E ave- 
mos por bem que o dito Joham Gllz P. t0 (Preto ?) pimtor seja escusso ê lodol- 
los pididos que por nos forem llamçados. » l 



LXL— Gonçalves (Nuno). — Nuno Gonçalves é dos raros artistas portu- 
guezes que cita Francisco de Hollanda e cujo merocimento encarece, elogiando 
muito a pintura do altar de S. Vicente na Sé de Lisboa e um quadro na egreja 
da Trindade. Diz que florescera no reinado de D. Aflonso. Taborda, mui judi- 
ciosamente, é de parecer que este Aflbnso não podia ser outro senão o quinto do 
seu nome. O visconde de Juromenha, n'um appendice á carta decima da obra de 
Rackzynski, Lcs arts en Portugal, combate esta opinião, julgando que a phrase 
rudeza dos tempos se deveria mais propriamente attribuir a D. Aflbnso IV. Os 
argumentos da sua bypolbese nada teem de convincentes e caem por terra 
deante da evidencia dos factos. Os documentos, que em seguida produzo, e que 
não foram conhecidos de Taborda, não fazem senão confirmar a sua opinião. 

O primeiro, de 20 de julho de 1450, é uma carta de D. Aflbnso V, fi- 
Ihando-o por seu pintor, com o ordenado de 12:000 reaes brancos. 

O segundo é outra carta do mesmo monarcha, de 6 de abri Ide 1452, 
accrescentando mais 3:432 reaes brancos no seu mantimento ou ordenado, 
mandando-lhe dar além d'isso, lodos os annos, uma peça de panno (bristol) 
para sua vestimenta. 

No Livro vermelho, collecção de leis de D. Aflbnso V, acha-se o regimento 
real que regula as despezas da camará de Lisboa, e n'elle uma passagem que 
claramente demonstra que Nuno Gonçalves era contemporâneo de João Annes, 
de cuja existência, no reinado d'aquelle monarcha, ha a comprovada certeza. 
Demais a mais o documento tem a data de 12 de abril de 1471. Eis a passa- 
gem que nos interessa: 

«Item. Queremos e mandamos iso mesmo que Joane Anes Pintor nom aja 
mais daquy em diante mantimento allguum, salvo Nuno Gonçalves averá o que 
lhe he ordenado, e pimte por ele as obras da Cidade.» 2 



» Torre do Tombo. Chanc. de D. João U. L.° 7, fl. 107. 

2 Collecção de livros inéditos da historia portugueia, publicada pela Academia fteal das 
Sciencias, tomo m, pag. 424. 



NOTICIA DE ALGUNS PLNTORES 89 

«Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que dos que- 
rendo fazer graça e mercee a Nuno Gllz, teemos por bem e filhamollo ora no- 
uamente por nosso pintor e queremos que aja de nos de mantymento eo cada 
hQu aDoo des primeiro dia de janeiro que ora foy desta presente era en diante 
doze mil reaes brancos em quanto nossa mercee for a rrazom de mill reaes 
cada mes, os quaaes dinheiros lhe serom pagos eD cada huu ano em lugar 
honde delles aja bõo pagamento aos quartees do ano per nossa carta que lhe 
eu cada huu ano será dada em a nossa fazenda. E por ssua guarda e rrenen- 
brança dei lo lhe mãdamos dar esta carta synada per nos e asseellada do nosso 
seello pendente. Dada em Lixbõa xx dias de julho — G.° Eanes a fez — ano de 
nosso Senhor Ihesu Xpo de mill iiii c 1.» * 

«Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos que- 
reodo fazer graça e mercê a Nuno Goncaluez, nosso piutor, teemos por bem e 
queremos que aja de dos, en cada huu ano, pêra ajuda de seu mantimeDto 
des primeiro dia de janeiro que ora foy desta presente era de iiij c lij en diante, 
emquaDto uossa mercee for, três mil quatro ceDtos trinta e dous reaes brau- 
cos, aalem dos doze mill rs que lhe ja lynhamos assentados pêra o dito seu 
mantymenlo, os quaees lhe serom todos pagos en cada huu ano do nosso al- 
mazem da cidade de Lixbõa, aos quartees per carta que lhe en cada hQu ano 
será dada en a nossa fazenda. Outro si nos praz que aja en cada huu ano na 
nossa alfandega da dita cidade des o dito primeiro dia de jaoeiro que ora foy 
en diante húua peça de pano de Bristoll pêra sseu vestir, per carta que lhe 
isso meesmo será dada eu a dita fazenda en cada huu ano per a dita guissa. 
E por sua guarda e rreneubrança dello lhe mandamos dar esta carta asynada 
per nos e asseellada do nosso seello pendente. Dada en Euora bj dias dabrill 
G.° de Lixbõa a fez ano de nosso Snr Ihesõ Xpo de mill iiij c lij.» 2 



LXIL— Guarienti (Pietro).— Pintor italiano. Veiu a Lisboa pelos anãos de 
173o. Aqui se empregou na limpeza e restauração de quadros, estudando e 
analysando as galerias então existentes, que eram numerosas e algumas del- 
ias de grande valia. Estou, porém, persuadido de que elle procuraria lisonjear 
a vaidade dos seus possuidores, revelando-lhes a existência de obras-primas 
de grandes mestres, que, porveDtura, só existiriam na sua imagioação. Gua- 
rienti publicou uma nova edição do Abecedario Pittorico, á qual ajuntou as im- 
pressões pessoaes, colhidas nas suas viagens pela Europa. As noticias que ahi 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.° 34, 11. 115 v. 
* Idem. Idem. L.° 12, fl. 49 v. 

MAByo, 1903. 12 



90 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

nos dá a respeito do nosso paiz, qualquer que seja o coeficiente de correcção 
que se lhes applique, são muito interessantes e mostram a riqueza de Portu- 
gal, ou antes da nossa corte, n'este género de arte. Cyrillo dedica-lhe um ar- 
tigo nas suas Memorias, e Rackzynski também se occupa d'elle extensamente 
nas suas Lettres sur les arts. Nenhum delles, porém, viu uma noticia contem- 
porânea, que sahiu na Gazela de Lisboa de 17 de fevereiro de 1735, em que 
se especificam alguns quadros, que elle já tinha restaurado, e se faz menção 
de outros não conhecidos. Passo a transcrever o alludido trecho da Gazeta: 

«Pedro Guarienti, de naçam Veneziano, Pintor e Antiquário do Príncipe 
de Darmstai Governador de Mantua, que actualmente se acha nesta Corte, e 
tem trabalhado nas de Londres, Yienna, Parma, Modena e Milan, e adquirido 
bom nome, não só pintando, mas lavando e retocando, sem que se perceba 
outra mão, as pinturas principaes dos Príncipes e pessoas curiosas das dilas 
Cortes, especialmente dos Sereníssimos Duques de Parma e Mantua e do Prin- 
cepe Eugénio de Saboya, tem também lavado, conservado e dado a conhecer 
muitos e excellentes quadros dos principaes Senhores de Portugal e ultima- 
mente restaurou os da Santa Casa da Misericórdia especialmente o famoso Re- 
tabolo da capella da insigne Bemfeitora daquella Casa Dona Simoa Godinho, e 
ali tem achado admiráveis originaes de Pintores Portuguezes do glorioso sé- 
culo dei Rei D. Manuel e de elRei D. João III, nos quaes floreceram na arte 
da pintura Gaspar Dias, Christovam Lopes, Braz de Prado e também Fernando 
Gallegos, insigne pintor hespanhol, de que na Misericórdia ha talvez tantos ori- 
ginaes como no Escurial.» ' 

O meu amigo Francisco Ribeiro da Cunha possue um inventario, redigido 
por Guarienti, da galeria do conde da Atalaya. Não é o manuscripto original, 
mas sim uma copia, executada com certo primor calligraphico nos princípios 
do século passado. Apesar de não ser autographo, não me parece que seja 
uma pia fraude. Com a devida auctorisação d'aquelle meu amigo, tirei uma 
copia, que se reproduz em seguida: 

«Inuentario das pinturas do ill. e ex. S. D. Ioaõ Manoel de Noronha, conde 
da Atalaia, do cone. de guera do s. Rei D. Ioaõ V, q D. s Gd.% general das ar- 
mas da prouc. do Alintejo. 

«Feito e asignado por mim. 

«Pedro Guarente, pintor ueneziano e antioquario do Ex. s. Príncipe Dar- 
mestat. 



1 Gazeta de Lisboa, de 17 de fevereiro de 1735. N.° 7, pag. 84. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 91 

«As pinturas nesta atestação declaradas foram medidas com a comua me- 
dida de pé francês. 

«Oito painéis grandes, orginais de pintor castelhano e me parecem de Alonço 
Cano, pintados en pano, q representão os doze Apostollos e os quatro Euangel- 
listas, dous por cada painel, e tem de altura oito pés e de largura sinco, e três 
onças cada bum. 

«Nove painéis grandes, originais de João de Lacorte, pintor de El Rey Fe- 
lipe 3.° de Castella, pintados em pano, e representão nove empresas de Car- 
los 5.° de suas vitorias, e acções, e tem de altura quatro pés, e nove onças, 
e de largura oito e meyo, cada hum. 

«Oito painéis grandes, originais de António Tempesta, pintor florentino, 
pintados em pano, e representão diversas caçadas e montarias com seus paí- 
ses, e tem de altura quatro pés e nove onças, e de largura oito e meyo, cada 
hum, dos quais hum tem menos largura. 

«Hum painel grande, original M. r Lebrun (sic), Pintor mor do ditto Rey, 
pintado em pano, e representa o Retrato do Rey D. Luis quatorze e a cavallo, 
vestido de armas brancas, e tem de altura oito pés e meyo, e de largura seis 
e nove onças. 

«Hum painel, original de Barthollouieo Morilho, pintor insigne castelhano, 
q representa a figura inteyra de S. Francisco adorando de joelhos a Jesus Cru- 
cificado, e tem de altura quatro pés, e de largura três. 

«Outro companheyro e da mesma medida, q representa Santa Maria Ma- 
gdalena, adorando de joelhos a Crus de Cristo, pintado em pano, original de 
Paris Bordon, celebre pintor veneziano. 

«Hum painel, original de Angelo Nardi Escollar da escolla de Paullo. 

«Dous grandes, pintados em pano, hú original de Palma, o moço, pintor 
venesiano e representa São Lourenço em grelhas. E outro representa Nossa 
Senhora do Filiar de Espanha e he coppia de Caravoyo (sic) e tem de altura 
seis pés e de largo quatro e nove onças, cada hum. 

«Huma prespectiva, original de Escorcelino de Ferrara, pintada em pano 
com hum convite de figuras em hua mesa; tem de altura pé e meio e de lar- 
gura dous. 



92 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Hum painel, coppia de Rafael Dorbino pintado em pano; Júpiter com os 
seus Deuses falços; tem de altura onze onças, e de largura dous pes e meyo. 

«Todo o referido nesta certidão passo na verdade, o que juro aos Santos 
Evangelhos em fé do que mandey passar a presente, que asigney em Lisboa 
Occidental a quatro de Agosto de mil e sete centos quarenta annos. 

«Verones, pintado em pano, e representa o Christo preso á colluna com 
dous fariseos; de altura tem sinco pés, e de largura três e oito onças. 

«Oito painéis, pintados em pano todos de huma medida, e representão oito 
historias da Sagrada Escriplura de génesis, originais do celebre pintor Jacob 
da Ponte ditto Bassam, obras das mais perfeitas dos seus pincéis, que tem de 
altura três pés e meyo, e sinco de largura, cada nu, os quais tem em sy mui- 
tas tiguras de animais de varias castas, e paises; e da parte do Sereníssimo 
Príncipe Eugénio de Saboyo (de) oflereci eu Pedro Guarente vinte mil cruza- 
dos ao dito Ill. m0 e Ex. m0 Sfior Conde da Atallaya, que recuzou vendellos, aiuda 
por mayor quantia. 

«Hum painel, original de João Fayt, insigne pintor flamengo, e representa 
diversas cassadas de pássaros mortos com bua lebre, e dous cais vivos; tem 
de altura três pes e meio e de largura quatro, e quatro onças. 

«Hum painel, original de Bernardino Lecyno, pintor millanes, pintado em 
pano, e representa Nossa S. ra com Jesus e Sam João meninos, e tem de altura 
três pés e meio, e de largura três pés e nua onça. 

«Outro seu companheyro, pintado em pano, e representa Nossa S. ra com 
o Menino Jesus esperando S. Cann. a e Sam Joam Baptista, copiado de hum ori- 
ginal de António Alegre, ditto Goreggo, feito de perito Autor. 



Gabinete 

«Tem seis painéis pintados em cobre, iguais, originais de Paullo Bril, esti- 
mado Pintor flamengo, e representão paizes com quantidade de figuras; tem de 
largura hu pé e duas onças, digo tem de comprido ou altura hú pé e duas 
onças e de largura hum pé e quatro onças cada hum. 

«Dous da mesma altura e largura, em cobre, originais de Pedro Brugola, 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 93 

pintor flamengo e representam dous paizes com figuras. Dous mais, em cobre, 
desta dita medida, originais de autor clacico flamengo, e representão hQ Izá 
dando a bençoa a Jacob; outro o Banquete de Balthesar. 

«Dous, das referidas medidas, em cobre, originais de Abram Bleomart, 
pintor flamengo, em hum se representa Adam trabalhando na terra com sua 
mulher e filhos, e no segundo o mesmo Adam comendo o pomo. Os seis pri- 
meiros the estes dous últimos, que fazem doze, sam pimturas de toda a esti- 
mação e dignas do mesmo gabinete em que se achão. 

«Dous em pano, de meias figuras, hum delles representa a Costatino Ma- 
gno; outro a Saneia Eleuna sua Mãy, originais de Guido Cagnacio, pintor bo- 
lones; tem de altura hQ pé e meyo e de largura hú pé e quatro onças, cada 
hum delles. 

«Dous paizes irmãos, hum delles pintado em pao, original de Paullo Bril, 
outro pintado em pano, original de João Baptista Simarolli, pintor valenciano; 
tem de altura hum pé, e de largura oito onças cada hú. 

«Dous painéis, originais de Autor Castelhano, pintados em pao, de figura 
ovada, e representão dous paizes com figuras; teram de largura oito onças e 
de altura seis onças, cada hú. 

«Dous paizes, hum pintado em pano, original de João Baptista Simaroli, 
e outro pintado em pao original de Paullo Bril; tem de largura hum pé, e de 
altura nove onças cada hum delles. 

«Dous painéis, originais de Francisco Salviati, pintor Florentino, pintados 
em cobre, dos quais hum representa a Cristo no sepulcro; outro o mesmo 
Cristo no horto; tem de. altura treze onças e de largura oito cada hum. 

«Hum painel, original de Miguel Angello Bonarota, pintado em pao, e re- 
presenta meya íigura de Cristo com a crus nas costas; tem de altura dous pés 
e de largura hum pé e nove onças. 

«Hum painel, original do insigne pintor monsu Derigo, pintado em pano, 
e representa em meia figura o retrato do Ill. mo e Ex. mo Snor Conde da Atal- 
laya, que foy vice Rey de Cecillia; tem de altura dous pés e des onças e de 
largura hum e oito ODças. 



94 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Hum painel, original de Lionardo de Vinci, primário pintor florentino, 
obra excelente, pintado em cobre, representa húa cabeça; tem de altura onse 
onças e de largura nove. 

«Hum painel, original de David Taniers, imitando o estillo dei Baçam, pin- 
tado em pano, e representa a Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo; tem 
de altura quatro pés e meyo, e de largura três e meyo. 

«Quatro painéis, em cobre, em hum representa Sam João Baptista e Sam 
Miguel: outro Sam Francisco e Sancto António: outro sam Pedro e sam Paullo: 
outro Sam Carlos e Sam Benedito, lodos iguais, e tem de altura quatro onças 
e de largura oito, cada hum, de Francisco Salviati, florentino. 

«Dous painéis, originais de Monsu Guilhar, pintor francez, ovados e pin- 
tados em cobre, em hum animais, figuras e paiz, em outro animais e paiz. 

«Hum paiz, original da Escolia de Ticiano, pintado em pano, e representa 
húa festa de Baco; tem de altura hum pé e nove onças e de largura hum pé 
e dez onças. 

«Dous painéis, originais de André Gonsalves, pintor Português, pintados 
em pano e representam duas cabeças de velhos. 

«Hum painel, original do insigne António do Correggio, pintado em pano 
e representa Nossa Senhora com o Menino Jesus, e Sam José; tem de altura 
três pés e duas onças e de largura dous e nove onças.» 



LXIII. — Henriques (Francisco). — A ajuizar pelo nome, ninguém deixaria 
de o considerar portuguez, e, quando muito, podel-o-hiam tomar por hespanhol, 
como fez o sr. D. José Pessanha. d Eu estou, porém, convencido de que elle 
era flamengo, segundo me parece dever deduzir-se da interpretação dos do- 
cumentos. Quando e em que circumstancias viesse para Portugal ignora-se, mas 
é certo que elle já estava no nosso paiz em 1509, pois n'este anno, a 5 de janeiro, 
escrevia D. Manuel a Álvaro Velho, encommendando-lhe que apromptasse duas 
camas de roupa para Francisco Henriques, que ia executar algumas pinturas 
em S. Francisco de Évora. Posteriormente, a 26 de julho de 1510, escrevia 
ainda D. Manuel ao dito individuo sobre o mesmo assumpto, e especialmente 



1 Ârtt Portugtteza, revista de areheologia e arte moderna, pag. 84-85. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 95 

sobre a imagem de S. Francisco, que elle havia de pinlar ao modo da sua 
terra. Esta breve phrase é preciosa, porque nos revela simultaneamente dois 
factos importantes: o primeiro, que Francisco Henriques não era portuguez; 
o segundo, que o estylo do quadro seria o usado na sua pátria. No processo 
motivado pela petição de Garcia Fernandes dizem as testemunhas que Fran- 
cisco Henriques mandara vir de Flandres alguns officiaes para o ajudarem. Ora 
se elle fosse hespanhol, o mais plausível é que mandasse vir para companhei- 
ros alguns dos seus conterrâneos. É esta a razão que me leva a crer que Fran- 
cisco Henriques era flamengo. 

A série de quadros destinados a ornamentar o edifício da Relação devia 
ser importantíssima, não só pelas quantias dispendidas, como pelo tempo que 
levou a executar, e pelo numero de officiaes n'ella occupados. Além dos offi- 
ciaes vindos de Flandres, que morreram de peste, collaboraram na obra: Gar- 
cia Fernandes, que foi o successor de Francisco Henriques, André Gonçalves, 
Christovão de Figueiredo e Gregório Lopes. 

Francisco Henriques era casado ao tempo do seu fallecimento, e pae de 
alguns filhos, que se não especificam. Uma de suas filhas casou com Garcia 
Fernandes, sob cujo nome se encontrarão documentos que elucidam a vida de 
seu sogro e de outros pintores contemporâneos. 

Pela mesma epocha apparece outro Francisco Henriques, pintor de vidra- 
ças, que o sr. Pessanha considera differente. Os documentos relativos a este 
propósito não os julgo todavia em extremo claros e decisivos. Gonsultem-se 
no já citado artigo da Arte Porlugueza. 



LXIV. — Kloet (Willelm van der). — Pintor azulejista. O seu nome indica 
procedência germânica. Não me consta que residisse em Portugal, nem que 
tivesse cá vindo, não obstante existirem entre nós productos do seu pincel ou 
das suas officinas. 

O sr. Visconde de Castilho, no i.° volume da sua Lisboa antiga, o Bairro 
Alto, ao enumerar os palácios que ennobrecem o sitio, fala no dos srs. Galvões 
Mexias, na rua dos Mouros, mas não lhe consagra descripção especial. Effecti- 
vamente, pelo lado externo, o palácio nada tem que o recomraende, a não ser 
a sua vastidão, mas internamente a sua ornamentação não deixa de offerecer 
alguma coisa de bastante curioso a um exame artístico. Tanto a escada como 
algumas das salas estão revestidas de bellos azulejos, azues e brancos, de in- 
teressante e correcto desenho. Os das escadas enfeitam-os graciosos grupos 
de meninos. Os das salas representam danças, concertos, scenas e costumes do- 
mésticos, da epocha e do estylo de Luiz XV, ou talvez ainda anterior. Mas, de 
todos, os melhores, são os de uma capella, hoje profanada, em quadros allusi- 



96 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

vos á vida de Chrislo. Parecem todos da mesma procedência industrial e ar- 
tística, mas só os da capella estão assignados, tendo esta rubrica: Willelm Van 
der Kloet fecil. 

No palácio, ou antes casarão, dos Galvões Mexias, estiveram os escripto- 
rios e officinas da Folha do Povo e mais tarde a Academia Recreativa Portu- 
gueza. Ultimamente foi reconstruído por completo e applicado a domicílios fa- 
miliares. Por motivo d'esta reconslrucção foram arrancados e postos em hasta 
publica os azulejos, segundo um annuncio publicado no Diário de Noticias de 
10 de julho de 1899. Parece que não houve licitante, ou que não chegaram ao 
preço, e hoje esses azulejos, segundo me informam, existem encaixotados em 
poder do sr. Adriano Coelho, morador ás Chagas. 

No cruzeiro da egreja de Nossa Senhora da Nazareth vi uns grandes pai- 
néis de azulejo, azues e brancos, como os que refiro acima, tendo esta inscri- 
pção: W. V. D. Kloet. f. 



LXV.— Landrofe (António de).— Em 1692 foi recolhido aos cárceres do 
Santo Oíficio João de Sousa, dourador, por crimes contra a moralidade, o pec- 
cado nefando, segundo a technologia inquisitória!. Era solteiro, de 37 annos de 
edade, e morava em Lisboa, na rua que ia de Nossa Senhora do Soccorro para 
S. Lazaro. Seus pães chamavam-se António de Landrofe, pintor, e Maria de 
Sousa. O avô paterno era Francisco de Landrofe, allemão. Declarou ter ido por 
vezes a Castella, Sevilha, Toledo e Madrid. No seu espolio, de pouca monta, 
vêem mencionados três painéis. O respectivo processo acha-se na Torre do 
Tombo, com a seguinte designação — Lisboa v. 10.110. 



LXVI.— Lassere (Prospero).— Em 10 de janeiro de 1900 falleceu em Pa- 
ris este distincto artista, que residiu muitos annos em Portugal, que elle con- 
siderava como sua segunda pátria. Aqui casou com uma senhora portugueza 
de quem enviuvara. Era um espirito illustrado e um cavalheiro sympathico. To- 
dos os annos ia fazer a sua viagem ao estrangeiro. 

Transcrevo do Diário de Noticias, de 13 de janeiro de 1900, a sua abre- 
viada necrologia, e, em seguida, a participação fúnebre dos parentes de sua 
mulher: 

«Falleceu quarta feira em Paris, onde tinha ido fazer uma operação, o 
distincto pintor francez Prospero Lassere, que ha muitos annos residia em Lis- 
boa. Amigo intimo de Ferreira Chaves, não lhe sobreviveu muito tempo. 

«Prospero Lassere era de grande merecimento na sua especialidade — 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 97 

pintura de flores. Trabalhou na ornamentação do edifício dos paços do conce- 
lho. Era membro da nossa Academia de Bellas-Artes. 

«Prospero Lassere era tão distincto e apreciável pelos seus quadros como 
pelas suas qualidades pessoaes. 

«Dizem-nos que deixou bens de fortuna e que fizera testamento. 

«A sua partida para Paris realisou-se nos últimos dias do mez passado, 
por conselho do seu medico assistente. Acompanhou-o sempre o seu dedicado 
amigo sr. Roux. 

«A operação correu o melhor possível, mas, sobrevindo uma febre intensa, 
a morte foi inevitável. 

«O fallecido não deixa família.» 

«Maria Thereza Bastos Pinho da Cunha Pereira e seu marido Bento José 
Pereira Júnior, Eugenia Amélia Bastos Pinho de Almeida e seu marido Manuel 
Pinho de Almeida, Anna de Almeida Correia Leal e seu marido o conselheiro 
Joaquim de Almeida Correia Leal, Henrique Pinho da Cunha e Eduardo Pinho 
de Almeida participam aos seus parentes e ás pessoas das suas relações e ás 
das de seu prezado padrasto, cunhado e padrinho, que elle falleceu em Paris 
no dia 10 do corrente.» 



LXVIL— Leal (Jorge). — Designado como pintor, sem mais nenhum ou- 
tro pormenor elucidativo, apparece como testemunha no contracto de venda 
de umas casas a Gregório Lopes. A escriptura é de 28 de maio de 1513 e 
dou-a integralmente no artigo que se refere a Gregório Lopes. 



LXVIII. — Leitão (Antão). — Pintor, residente em Lisboa. Tinha aforadas 
a el-rei umas casas na Correaria de que elle era a segunda pessoa, sendo a pri- 
meira uma Constança Annes, de quem as houvera Desejando fazer obras n'el- 
las, pediu renovação do emprazamento, com augmento de foro em três vidas, 
ficando elle a primeira. Em 23 de outubro de 1497 celebrou-se o novo instru- 
mento, que foi confirmado por D. Manuel em carta de 20 de março de 1498. 

«Dom Manuell ele. A quamtos esta nosa carta virem fazemos saber que 
da parte dAmtam Leitam pymtor morador em a nosa cidade de Lixboa nos 
foy apresemtado huum eslromento daforamento de que o theor he este que se 
segue: Saibam quamtos este estromento de emnouaçam e emprazamento virem 
que no anno do nacimento de Noso Senhor Jhesu Christo de mill e iiij e Ir 
bij xxiij dias do mes doutubro da dita era em a cidade de Lixboa na casa do 

Março, 1903. 13 



98 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

almazem do Regnuo estamdo hy Diogo Delgado Caualeiro da casa do dito Se- 
nhor e comendador da Fomte Arcada e dagramja d Ulmeiro almoxarife delRey 
Noso Senhor do dito almazem e tareçenas presemte o dilo almuxarife e my 
esprivam e testemunhas ao diamte nomeadas pareçeo Anlam Leilam pimtor e 
dise ao dito almuxarife que hera verdade que hele trazia húuas casas de foro 
do dito Senhor que sam na Rua da Correaria de pagar em cada huum hanno 
de foro delas ao dito Senhor satemta e quatro reaes e quatro pretos ao qual 
aforamento ele era a segumda pesoa per nomeaçam que ha elas nomeou húua 
Costamça Annes cujas as ditas casas eram E por quamto ele queria correger 
aas ditas casas e fazeer em elas algúuas bemfeitorias e o leixaiu de fazeerpor 
asy seer a segumda pesoa ao dito emprazamento que lhe pedia que lhe quisese 
em nouar as ditas casas em três pesoas e visto polo dito almoxarife seu dizeer 
e pedir e a carta do aforamemto das ditas casas e como pagaua em cada hQu anno 
delas de foro os ditos satemta e sete (sic) reaes e quatro pretos e como era 
a segunda pesoa ao dito emprazamemto semtimdoo asy por seruiço do dito se- 
nhor dise que ele em nome do dito Senhor emnouaua e aforaua as ditas casas 
ao dito Amtam Leitam em vida de três pesoas com mais vimte e noue reaes 
e três pretos de crecimento de foro em cada huu aQno pêra o dilo senhor que 
hera a quarta parte mais do dito foro que hasy pagam em cada huu anno que 
era asy por todos com o dito crecimento o que avia de pagar em cada huu 
anno cemto e seis reaes e sete preetos as quaees casas lhe asy ouue por era- 
prazadas em vidas de três pesoas pello dito foro e com as condiçoêes acustu- 
madas e per estas comfromtaçoêes que se seguem partem de húua parte com 
casas de Afomso Aluerez tanoeiro e por de trás com casas do dito Afomso 
Aluarez que sam foreiras ao moesteiro da Cheias e da outra parte som rua pu- 
blica que vem sobre a capela de Samta Maria da Palma e com outras com- 
fromtaçoêes com que de direito cleuem partir e com comdiçam que ele dilo Am- 
tam Leitam seja ao emprazamemto das ditas casas a primeira pesoa e amte de 
seu falecimento posa nomear a segumda e a segumda nomee a terçara em guisa 
que sejam três pesoas e mais nam e com comdiçam que se as ditas casas em 
algõu tempo vierem a perecer per augua ou foguo ou terremoto ou per outro 
qualquer caso furtuito cuidado ou nom cuidado que ha vyr posa o que Deus 
defemda que ele dito Amtam Leitam e pesoa que ha pos ele vyerem as ale- 
uantem façam e rrefaçam adubem e aproueitem de todo o que lhes comprir e 
mesteer fazer as suas propeas custas e despesas em tall guisa que sempre se- 
jam casas aleuantadas como ora sam e milhoradas e nom pejoradas e com com- 
diçam que hele nem as pesoas que após hele vierem nom posam vemder as di- 
tas casas dar nem doar trocar nem escambar nem outras nenhuuas pesoas em 
alhear nem fazeer sob se elas (sic) outro nenhuum foro a Igreja nem moesteiro 
nem pêra outra nenhúua pesoa sem licemça e autoridade do dito Senhor e 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 99 

quamdo vier caso que as ajam de vemder que ho façam primeiramemte saber 
ao dilo Senhor ou ao seu almuxarife que emtam for do dito seu almazem se as 
quer tomar pêra ele tamto por tamto quamto outrem por elas deer e quamdo 
as tomar nom quiser pello dilo preço que hemtam as posam vemder a quem lhas 
comprar quiseer com tamto que ha pesoa que lhe as comprar nom seja daque- 
las que o dito Senhor e o direito em este caso defemde mais que seja pesoa 
abonada e leiga e rrealmente da sua jnrdiçam e tall que bem e sem nenhQua 
rrefeerta page o dito foro ao dito senhor em cada hQu anno asy como o pa- 
gam os outros foreiros do dito Senhor e que cumpra e guarde todallas com- 
diçoêes deste aforamemto e todallas outras com que ho dito senhor afora suas 
eramças e mais que page ao dito senhor a coremtena do preço por que nas 
ditas casas forem vendidas e com condiçã que ele leua ou mande este empra- 
zamento aa fazemda do dito Senhor pêra lhe laa seer comfirmado segumdo 
sua ordenaraça e o dito Amtam Leitam a todo presemte dise que de todo que 
o dito almoxarife dezia e mamdaua que de todo lhe aprazia que de todalas di- 
tas comdiçoêes tomaua rrecebia em sy as ditas casas e emprazamemto delas 
e que pêra elo obrigaua todos seus bões mouees e de rraiz ávidos e por aveer 
a todo que dito he comprir e mamter e bem asy os bêes das pesoas que ha 
pos ele amde vyr e o dito almuxarife lho ouue por outorgada com as sobredi- 
tas comdiçoêes e com todalas outras com que o dito senhor afora suas eramças 
posto que haqui nom sejam expresas nem declaradas e o dito Amtam Leitam 
pedio asy de todo hQu estromento e o djto almoxarife lho mamdou dar testemu- 
nhas que presemtes furam Fernam dAluarez e Fernam Lopeez homêes do dito 
almazem e Fernam da Afomso dos Pedrogos e outros e eu Luis Godinho es- 
cprivam do dilo almazem e larecenas por mamdado delRey Noso Seuhor que 
ha todo presemte cõ as ditas testemunhas fuy e aquy asyney. Pedimdonos o 
dito Amtam Leitam por mercee que lhe comfirmasemos e ouuesemos por com- 
firmado o dito aforamemto asy e pela maneira que se nele comthem e visto 
per nos seu pedido e queremdolhe fazer graça e merçee temos por bem e lho 
comfirmamos e avemos por comfirmado como nele he comtheudo com tamto 
que ho dito foro nos dee e pague em cada hQu anno per cimco reaes e hQu terço 
de prata de Cxbij reaes em marco e de lei domze dinheiros e quatro ceitis. E 
porem mamdamos ao noso almoxarife do dito almazem e a quaeesqueer outros 
nosos oficiaes a que o conhecimento dela pertemçeer que lhe cumpram e guar- 
dem sem duuida nem embargo (pie a elo ponham por que hasy he nosa mer- 
çee. Dada em a nosa muy nobre e sempre leal cidade de Lixboa aos xx dias de 
março el Rey e princepe etc, ho mamdou per dom Pêro de Castro do seu com- 
selho e vedor da sua fazenda — Vicente Carneiro a fez de mill e iiij c I. r. biij.» ' 



' Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.» 32, fl. 37. 



100 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



LXIX. — Leitão (António). — Era moço da camará da infanta D. Maria, 
filha de D. Manuel, e foi para Roma para se aperfeiçoar na arte de pintura. A 
nossa eôrte o recommendou ao seu embaixador, Lourenço Pires de Távora, 
segundo se vê de uma minuta, sem data, que existe na Collecção de S. Vicente, 
e que já foi publicada a pag. 149 do vol. ix do Corpo Diplomático, onde è at- 
tribuida ao anno de 1560. 

Deve, todavia, haver aqui algum equivoco n'esta collocação, pois em 1560 
já reinava D. Sebastião, o qual não podia dizer-se irmão da infanta D. Maria, 
sendo esta aliás sua segunda tia. O neto de D. João III foi filho único. 

«Lourenço Pires de Távora etc. António Leytam, que vos esta dará, he 
moço da camará da infanta dona Maria, mynha muito amada e prezada irmãa, 
vay a esa corte para nella se exercylar na arte da pymtura, e porque eu per 
alguns respectos receberey contentamento em o averdes per emcomemdado 
para o favorecerdes no que for razam e vos requerer, vos emcomemdo muito 
que o façaes asy e muito volo agradecerey.» 



LXX.— Lisboa (Fernão).— Pintor, creado de D. AffonsoV, o qual, em carta 
de 5 de março de 1471, o nomeou contador e procurador dos resíduos nas 
villas de Setúbal, Palmella, Cezimbra, Almada e todos os outros logares do 
Ribatejo até ao rio das Anguias e de Alcácer, Torrão e S. Thiago do Cacem. 
Este officio foi-lhe dado por fallecimento de Fernão Lourenço. 

«Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos que- 
rêdo fazer graça e mercê a Fernã de Lixboa pimtor, nosso criado, fiamdo da sua 
bõdade e descryçã que o fará bem e como deue, temos por bem e damollo da- 
quy em dyamte por contador e procurador dos residos nas villas de Setuual e 
Palmella e Cez)bra de Almada e de todollos outros lugares de Ribatejo ataa o 
ryo das anguyas e das villas d Alcácer Terrom e Santiaguo do Cacem, asy e 
pella guisa que o taa ora foy Fernã L. t0 , que os ditos ofícios tinha per carta 
do espriuã de nosa puridade e se ora finou. E porem mãdamos a todollos ou- 
uidores juizes e justiças da dita comarca e villas e a quaees quer outros ofi- 
ciaes e pessoas a que esto ou o conhecimento deslo pertencer e esta carta for 
mostrada que ajom d'aquy em diãte o dito Fernã de Lixboa por contador e pro- 
curador dos residos das ditas villas e comarqua e outro algum nã, e o meta 
em posse dos ditos oficios e lhe deyxem seruir e vssar delles e aver o man- 
tymêto proes e precalços que a elle per tecer ou pertencer deuem de direito 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 101 

segundo he cõteudo em nosso Regimêto dos ditos Ressydos sem outro êbar- 
guo que lhe huus nê outros sobre ello ponha por que asy he nossa mercê. O 
quall Fernã de Lixboa jurou etc. Dada em Sãtarem b dias de março. Atam 
Gllz a fez anno de mill iiii c lxxj.» l 



LXXL— Lobo de Moura (Eduardo).— Uma folha portuense (A Provin- 
da), de 30 de janeiro de 1887, publicava a seguinte noticia: 

iO sr. Eduardo de Moura, irmão do visconde de Moura, que foi nosso 
ministro em S. Petersburgo, falleceu ha pouco em Londres. Este nosso com- 
patriota era um ininiaturista dos mais notáveis de Inglaterra, considerado 
mesmo o primeiro. Por occasião da sua morte a rainha de Inglaterra fez di- 
rigir a seguinte carta á filha do illustre artista. Traduzimol-a do Standart, de 
Londres : 

«Osborne, 3 de janeiro 

«Minha querida senhora: recebi a sua carta esta tarde, e tenho ordem da 
rainha para lhe transmittir a expressão do grande sentimento de sua mages- 
tade pela morte tão inesperada de seu pae, cujo talento sua magestade tinha 
na mais alta conta. 

«Sua magestade está muito satisfeita com a miniatura e dá-lhe um gran- 
díssimo valor por ser a ultima obra de seu pae. 

«Affirmando-lhe os meus próprios sentimentos pela grande perda que 
acaba de sofírer, continuo a ser sinceramente sua 

Emilie Dittweiler. 

«Este nosso compatriota, desconhecido no seu paiz, era um notável ta- 
lento que se finou sem que a nossa imprensa tivesse duas palavras para lhe 
honrar a memoria.» 

Não sei se a noticia da Provinda é original, ou se foi reproduzida de ou- 
tra folha. 

O visconde de la Figanière, explicando a tal ou qual authenticidade dos 
retratos que apresenta no seu livro Rainhas de Portugal, diz que se resolvera 
a dar o de D. Theresa por conselhos do nosso minialurista. E a este propó- 
sito escreve: 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.° 16, fl. 90 v. 



102 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

iO retrato de D. Theresa, que apresento, é copia do que se acha na ta- 
boa n.° 6 da referida arvore genealógica. Se fiz excepção d'esta, não foi por 
suppôr o retrato fiel quanto ás feições, mas resolvi-me a apresental-o por con- 
selho do meu amigo o sr. Eduardo Lobo de Moura, artista portuguez residente 
em Londres, bem conhecido por suas obras primorosas e cuja fama tem mere- 
cidamente chegado aos principaes paizes da Europa.» 

O Diário de Noticias, de 2 de dezembro de 1902, publicou um artigo in- 
titulado Na legação de Portugal em Londres, acompanhado de uma gravurinha, 
representando a missa que se celebrou u'aquella embaixada por occasião da pas- 
sagem da rainha D. Estephania, que vinha consorciar-se com D. Pedro V. Era 
nosso ministro n'aquella corte o conde de Lavradio, que assistiu ao acto com 
o pessoal da legação e com toda a comitiva régia. A gravura do Diário de No- 
ticias era copia, segundo photographia, de uma aguarella pintada por Moura. 

D'este artista possue o meu amigo Anselmo Braamcamp Freire três agua- 
rellasinhas, representando uma d'ellas sua esposa, d'elle possuidor, quando 
creança; outra uma lebre, e outra, finalmente, Ophelia. 

Satisfazendo com toda a gentileza a um pedido que lhe fiz, o sr. Jeronymo 
da Camará Manuel, secretario da nossa legação em Londres, que tão primoro- 
samente sabe conciliar os deveres oíEciaes do seu cargo diplomático com o 
amor á cultura dos estudos históricos e litlerarios, teve a bondade de me en- 
viar algumas interessantes notas acerca do artista nosso compatriota. Uma des- 
sas notas, que eu dou no próprio original, com a respectiva traducção, é pro- 
veniente da família; a outra é uma carta do sr. Camará Manuel, que eu peço 
também licença para transcrever. Eis primeiramente a nota ingleza: 

«Edward Lobo de Moira was born at Villa Nova Foscôa in the Beira Alta, 
October 1817, died January 2, 1887. He was miniature painter to Her Majesty 
the Queen of England and the principal Sovereigns of Europe. From the year 
1849 to the time of his dealh, his portrait miniatures, on Ivory, were exhi- 
bited at the Exhibition ot the Royal Academy of London, the Sahn in Paris 
and other continental Exhibitions. He received the order of Christ from II is 
Majesty Dom Pedro of Portugal and was Chevalier of the order of Malta. The 
sympathy of lhe Queen of England and the King of Portugal enabled his son, 
by their generous pensions, to persue his studies at the Royal Academy where 
he received at ali examinaliim many honours and prizes. He is now a distin- 
guished artist and been made Professor of design and painting at the Royal 
College of Art London.» 

«Eduardo Lobo de Moura nasceu em Villa Nova de Foscôa, na Beira Alta, 






NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 103 

em outubro de 1817 e morreu em 2 de janeiro de 1887. Foi pintor miniatu- 
rista de sua magestade a rainha de Inglaterra e dos prineipaes soberanos da 
Europa. Desde o anno de I8'i9 até á data da sua morte os seus retratos, mi- 
niaturados em marfim, figuraram na Exposição da Real Academia de Londres, 
no Saloti de Paris e em outras exposições conlinentaes. Foi agraciado com a 
Ordem de Christo por sua Magestade el-rei D. Pedro de Portugal. Foi lambem 
cavalleiro da ordem de Malta. A sympathia da rainha de Inglaterra e do rei 
de Portugal habilitaram seu filho, com generosas pensões, a proseguir os seus 
estudos na Royal Academy, oude recebeu, em todos os exames, muitas menções 
honrosas e prémios. Actualmente é um artista distincto, tendo sido nomeado 
professor de desenho e pintura no Gollegio Real das Artes, em Londres.» 

Agora a carta do sr. Jeronymo da Camará Manuel, datada de Londres a 
31 de janeiro de 1903: 

«Meu Ex. m ° Amigo. — Apresso-me a enviar-lhe os apontamentos sobre o 
pintor miniaturisla Eduardo de Moira, escriptos pelo próprio punho da viuva 
do illustre artista e que hoje aqui veiu trazermos. A estes apontamentos aceres- 
centarei o seguinte: Eduardo Lobo de Moira, antes de se dedicar á pintura, foi 
empregado como escripturario na Agencia Financial Portugueza n'esta cidade, 
onde trabalhou durante muitos annos. 

«Foi muito protegido pelo Conde de Lavradio quando ministro junto da 
corte d,e S. 1 James, sendo o mesmo Conde que o apresentou e recommendou 
á Rainha Victoria. Como bem diz a viuva no apontamento incluso, foi minia- 
turista da Corte Real ingleza, e ainda não ha muito tempo vi no Castello de 
Windsor muitas miniaturas de quasi toda a f;imilia real de Inglaterra, pintadas 
por elle. A rainha Victoria tinha-o em grande estima, escrevendo uma carta á 
viuva por occasião do fallecimento do marido. 

«Moira casou-se aqui em Londres com D. Eugenia Rebello, filha de Fran- 
cisco Rebello, vice-consul de Portugal. D'este casamento existem ainda hoje 
duas filhas e um filho. O rapaz chama-se Giraldo Eduardo Lobo de Moira ; fez 
o curso de pintura com o subsidio do Governo portuguez (£ 4,8,11 por mez) 
e com outro, dado pela rainha Victoria. Num concurso realisado no mez de De- 
zembro de 1891 na Real Academia de Relias Artes d'esta cidade, obteve 4 
prémios por uma collecção de 6 desenhos, e a medalha de prata pela pintura 
de uma cabeça do natural. Terminou o curso em Junho de 1893 e hoje é pro- 
fessor de pintura no Royal College of Art (South Keisington) recebendo de or- 
denado £ 500, devendo muito breve ter um augmento de £ 300. É um ar- 
tista de mérito e muito considerado. Em Portugal, dos trabalhos do pae, só co- 
nheço duas ou três miniaturas, retratos de família, que possue o Visconde de 



104 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Soure e uma ua posse da Condessa de Rilvas, pessoas muito da amizade da 
família Moira. 

«A gravura de Moira n'esta legação, e que o Diário de Noticias publicou, 
é copia muito reduzida da aguarella pintada por Moira e por elle offerecida ao 
seu protector o Conde de Lavradio. O correspondente do Noticias esqueceu-se 
de mencionar, na sua correspondência, que o Moira foi celebrado pelo Cardeal 
Wolsoley e que das pessoas então presentes apenas existe hoje o Conde da 
Azambuja, que fazia parte da nossa Legação como addido. 

«Desculpe, meu caro amigo, a mà redacção d'esta carta escripla á pressa 
por causa do correio, que prestes está a partir.» 



LXXII. — Lopes (Christovão). — Era filho de Gregório Lopes, pintor doi- 
rei, em cujo cargo, por seu fallecimento, o ficou substituindo, sendo nomeado 
em carta de 18 de agosto de 1551. Succedeu-lhe, por egual motivo, Fernão 
Gomes, em 18 de maio de 1594. 

Taborda fala d'elle com grandes elogios, citando as suas pinturas em 
Belém. 

«Dom Joam etc, a quamtos esta mynha carta virem faço saber que que- 
remdo eu fazer mercê a Xpovam Lopez, meu pimtor, ey por bem e me praz 
que ele lenha e aja de mym de temça, em cada hQu ano, de janeiro que pa- 
sou deste ano presemte de quynhemtos cymquoenta e huu em diamte cym- 
quo mill rs. e hQu moyo de tryguo com o dito oficio, que he outro tamto 
como Grigorio Lopez seu pay com ele tinha, per cujo falecymento fiz mercê 
do dito oficio ao Xpovam Lopez, e portamto manado ao barão dAluyto, via- 
dor de mynha fazemda que lhe faça asemtar a dita tença de dinheiro e tryguo 
no tesoureiro dela e do dito Janeiro em diamte lhe despache cadano tudo 
omde aja bom pagamemto e por firmeza delo lhe mandey dar esta carta por 
mym asynada e aselada com o meu selo pemdemte. D.° Lopez a fez em Almei- 
rym aos dezoyto dias do mes dagosto ano do nacymenlo de noso Senhor Ihuu 
Xpo de Jb c Ij, e eu Damiam Diaz o fiz escprever.» ' 



LXXIH. — Lopes (Gregório). — Pae de Christovão Lopes, de quem se fa- 
lou no artigo antecedente. Era casado com Isabel Jorge, filha do pintor Jorge 
Affonso, com o qual convivia e convisinhava. 

Em 7 de julho de 1514 o mosteiro de S. Domingos dava licença a Pêro 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. JoSo III. DoaçOu. L.« 56, fl. 98. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 105 

Alvares e a sua mulher, Beatriz Lopez, pretos forros, para cederem de empra- 
zamento a Gregório Lopes umas casas situadas detraz de Santa Maria da Es- 
cada, que partiam com Jorge Affonso, pintor, e d'outra parte com casas do 
dito Gregório Lopes e com azinhaga que vem ter ás casas d'este, pagando de 
foro por anno 150 reaes e uma gallinha. A escriptura foi lavrada nas casas de 
Jorge Affonso, nas pousadas de Gregório Lopes, estando este presente e sua 
mulher, Isabel Jorge, sendo testemunhas Pêro Vaz, Garcia Fernandes e Gas- 
par Vaz, que lavravam em casa do dito Jorge Affonso. 1 As casas de Pêro Al- 
vares, sendo então um pardieiro ou quasi chão maninho, haviam-lhe sido afo- 
radas por escriptura de 3i de janeiro de 1509, como já disse no artigo rela- 
tivo a Jorge Affonso. 

Em 3 de março de 1515 o mesmo mosteiro vendia umas casas a Jorge 
Affonso, as quaes confinavam com casas de Gregório Lopes. Veja-se o respe- 
ctivo documento no artigo relativo a Fernandes (Vasco). 

Em 28 de maio de 1513 celebrava-se uma escriptura, pela qual Diogo 
Gil, pedreiro, e Inez Gonçalves, sua mulher, vendiam a Gregório Lopes umas 
casas de um sobrado que estavam situadas por detraz de Santa Maria da Es- 
cada, que parliam com Pêro Alvares, taipeiro, e com rua que ia para o chão 
de D. Henrique, filho do marquez. Foram testemunhas Miguel Nunes e Jorge 
Leal, ambos pintores. Dou adeante o respectivo documento. 

D. Manuel o tomara por seu pintor, mas não se acha registado o compe- 
tente diploma. D. João III o nomeou para egual cargo a 25 de abril de 1522, de- 
clarando na respectiva caria que elle já o era por alvará de lembrança d'el-rei 
seu pae. Este documento vem publicado em Taborda. 

Em 4 de novembro de 1525 lhe foi passada carta, ordenando que elle ti- 
vesse de tença annual, pelo dito officio, 5:000 reaes e um moio de trigo. Esta 
tença, em carta de 19 de outubro de 1550, foi trespassada a sua viuva, Isa- 
bel Jorge, para sua mantença e de suas filhas. 

Em 1536 Gregório Lopes andava trabalhando no convento de Christo, em 
Thomar, segundo se vê de uma verba das despezas das obras com relação 
áquelle anno e ao mez de outubro. Recebeu elle, n'essa occasião, 168:000 reaes, 
pelo retábulo para a charola, em que pintou Santo António, S. Sebastião, S. 
Bernardo e a Magdalena, assim como os da capella de Nossa Senhora. 

Gregório Lopes pintou um retábulo dos Martyres de S. Quintino, para a 
egreja de Nossa Senhora do Monte Agraço, segundo se vè de uma carta diri- 
gida a D. João III por António Dias, provedor das capellas e hospitaes. D'este 
quadro não existe outra memoria, pois os que se vêem ali actualmente, se- 
gundo me informa o respectivo prior, são mais modernos. 



1 Torre do Tombo. Cartório do Convento de S. Domingos de Lisboa. L.° 20, fl. 30. 
Abril, 1903. 14 



106 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

No Corpo Chronologko existe um mandado de pagamento de um moio de 
trigo, de sua tença, a Gregório Lopes. O mandado é de 26 de junho de 1329, 
e o competente recibo, assignado pelo piutor, é de 4 de setembro do mesmo 
anno. 

tDom Joam ele. A quamtos esta minha carta virem faço saber qu? que- 
remdo eu fazer graça e mercê a Grigorio Lopez, meu piuitor, tenho por bem 
e me praz que ele tenha e aja de mim de temça com o dito oficio em cada 
huu ano, de janeiro que vem de quinhêtos e vimte bj em diête cimeo mill rs. 
e hum moio de trigo. Porem mamdo aos vedores. . . Dada em a minha villa 
dAllmeirim a iiij dias de nouembro. Gaspar Mêdez a fez ano de noso Senhor 
JhQ x.° de mill b e xxb. E eu Damião Diaz a fiz escreuer.» * 

«Dom Joam etc. A quamtos esta minha carta virem faço saber que avemdo 
respeito ao seruiço que me fez Gregório Lopez, que foy meu pimtor, e que- 
remdo por ysto fazer esmolla a Isabell Jorge sua molher, tenho por bem e me 
praaz que ella tenha e aja de mim, de janeiro que viraa do anno de b c lj em 
diamte, cimquo mill rs. e huu moyo de triguo de temça por esmolla em cada 
huu anno pêra ajuda de sua mamtemça e criação de suas filhas, que he outro 
tamto como o dito seu marido tinha de temça com o dito oficio; e mamdo ao 
barão dAlluito, veedor de minha fazemda, que lhe faça asy asemtar os ditos 
b rs e huu moyo de trigo no liuro dela e do dito janeiro em diamte cadanno 
lhe despache tudo omde aja bom pagamento, e per firmeza dello lhe mamdey 
daar esta carta de padrão per mym asyuada e asellada do meu sello pemdemte. 
Dioguo Lopez a fez em Lixboa a xis dias do mes doutubro anno do nascimemto 
de noso senhor JhQu Xpo de mill b c l. u , e eu Damiam Diaz a fiz screver.» s 

Despesa do mez de setembro (de 1536): 

«It pagou mais o dito Recebedor per mandado do sobredito padre frey 
antonio gouernador e perante mi spuão a gregorio lopez pintor de certos re- 
tauollos q pintou de nouo pêra a charolla a saber hu de santo antonio e outro 
de sam sebastião e outro de sam bernaldo e outro da madanella e assi dos 
retauollos da capella de nosa Sra cento e sasenta e oyto mil reaes e por ver- 
dade asinou aqui. 

G r goreo 
lopez 3 

1 Torre do Tombo. Chane. de D. JoJo III. Doações. L." 8, fl. 134 

*Idem. Idem. L.« 69, fl. 124. 

J Idem. Cartório da Ordem de Christo. L° 23. 



ESTAMPA IV 

Sousa Viterbc . Noticia de alguns pintores. 

r^\X>*ff ^èn™**, ^goO- — / 

/Ç^v-w)- • 3 «x t>^«*. o**^ «4*** fe^fP* ^ >^^4^>c«. 

Jjn*** cxy ff -- " fXjpu ^X—~ 



Fac-simile de um recibo de Gregório Lopes, publicado a pag. 106 

(hist. e mem. da acad. E. DAS SC. DE LISBOA, nov. ser., CL. DE SC. MOR., ETC, TOMO X, PT. I.) 



-V T 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



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«Item, na Confraria de Sam Quintino, que está era Nossa Senhora de 
Monte Agraço, termo desta cidade, descobri setenta e tantos mil reaes que an- 
dava sonegados á dita Confraria avia muitos annos e procedi nisto de maneira 
que os fiz trazer a juizo e mandei fazer as peças seguintes pêra a dita con- 
fraria, a saber: huu frontal de cetim avelutado verde, laurado e garnecido 
de tella douro por as custuras, e muito bem acabado, foi avaliado em vinte e 
dous mil rs.: hum tribulo de prata com sua naveta, que custou vinte e três 
mil rs.: hum retavollo dos martírios do dito santo, que em branco custou vinte 
mil rs. e a pintura com seu ouro chegara a sincoenta mil rs.; estase acabando 
em casa de Gregório Lopez pintor de Vossa Alteza ; das outras peças esta ja 
entregues os mordomos da dita Confraria foram deste preço e sorte pêra di- 
zerem com outros ornamentos mui ricos que tem a dita confraria, que he rica, 
e sam ledos os confrades de cousa tam bem feita, que eu seria bem aventu- 
rado se fosse tam bõom como elles dizem.» * 

«Dom Joham per graça de Deos Rey de Purtuguall e dos Alguarues da- 
quem e dalém maar em Africa Senhor de Guiuee etc, mamdo a vos almoxa- 
rife ou Recebedor do Reguemgo dAUjeez que do Reradiraento delle do anno 
presemte de quinhemtos virate e noue deis a Griguorio Lopez meu pimtor huum 
moyo de triguo que lhe mamdo dar e o dito anno de mim ha daver de sua 
temça cõ o dito oficio o qual tem asemtado nas liziras de Vila Fframca e vos 
lhe fazey delle bom paguamento e por esta com seu conhecimento vos seraa 
leuado em comta elRey o mandou pelo comde do Vimioso veedor de sua fa- 
zemda — Pêro Amriquez a fez em Lixboa xxbj dias de junho de mill b c xxix. 
ho Conde = Aluarus=. 

«i moyo de triguo no Reguemguo dAiljeez a Griguorio Lopez voso pim- 
tor de sua temça deste ano cõ o dito oficio o qual tem asemtado nas liziras de 
Villa Framca. 

-iE he verdade que rrecebeo grygoryo Lopez de Gaspar Dyaz almoxarife 
do Regengo de Aljez hu moyo de trygo comtiudo neste dessembargo e por 
verdade asynou aquy com o esprivam que este fez feyto oje iiij dyas de se- 
tembro de 1529 anos=Grigoreo Lopez = Manuell Pirez.» 1 

tEm nome de Deos amem. Saibam quantos esta carta de venda virem que 
no ano do naçimento de nosso Senhor Jhesu Christo de mjl quinhentos e treze 
anos vynte e oylo dias do mes de mayo em a cidade de Lixboa e dentro na 
cassa do moesteiro de Sam Domjngos desta cidade de Lixboa estamdo hy Die- 



• Torre do Tombo. Gav. 2, maço 9, n.° 37. 

2 Idem. Corpo Chronologico. Farte ir, maço 156, doe. 89. 



108 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

guo Gill pedreiro e Inês Gonçaluez sua molher moradores atras de Santa Ma- 
rja da Escada da dita cidade e disserom os ditos marjdo e molher que era 
uerdade que elles tynham Imas cassas de hQu sobrado que estam detrás o dito 
logo de Sanla Marja da Escada que partem com fero Aluarez taypeiro e cõ 
rua que vay pêra o chaão de Dom Aurrique fillio do Marques e com outras 
confrontaçoêes cora que de djreito deuem de partyr as quaees cassas ssom do 
moesteiro do dito loguo de Sam Domjugos e elles dito (sicj Dieguo Gill e Inês 
Gonçaluez as trazem enprazadas em vida de três pessoas e que elle Djego Gill 
he a primeira pessoa e pagua de foro cento e çinquoeuta reaes ssegumdo sse 
contem majs compridameute no contrauto do enprazameuto delias as quaees 
queriam vender e o nõ podiam ssem consentimento do moesteiro/e lloguo hy 
estauam juntos o padre írey Lopo Soarez prioll da dita cassa e moesteiro e o 
padre frey Francisquo de Vargas padre prioll e o rreuerendo padre meestre 
Jorge e o leceuçeado frey Lujs e o bacharell frey Jobam Lopez e ho bacharell 
ffrey Pedro de Queiroos e frey Dieguo dEuora e frey Pedro de Palma e ou- 
tros padres e frades do conuento os quaees todos juntos chamados a cabido 
per campaa tangida ssegundo sseu bõ custume pêra o dito negocio da dita 
venda disserom que lhes aprazia darem como de feito derom sseos consenti- 
mentos aa dita venda com as condiçoèes que he custume de sse lazer que he 
elles auerem sua quarentena e majs sserem vendidas a tall pessoa que cun- 
pra as condiçoèes no dito contrauto de enprazameuto asy e pella guissa que 
sse nelle coutem per bem do qual consentimento dos ssobre ditos padres/os 
ditos Dieguo Gill e a dita lues Gonçaluez ssua molher disserom que elles ven- 
diam como loguo de feito venderom doje em diante as ditas cassas a Grigo- 
rio Lopez pintor que presente estaua morador na dita cidade com todas suas 
entradas e saydas djreitos e pertenças e logradoiros e como pertencem ao dito 
senhorio e como a ele Djeguo Gill perteuçem per bem de sseu enprazamento 
e com o dito encarrego dos ditos cento e çinquoenta rreaes que fazem de foro 
em cada hQu ano nas pesoas que as elles tem por preço de vynte mjl rreaes 
em ssaluo de sissa pêra elle Djeguo Gdl/o quall dinheiro loguo hy contou e 
rrecebeo do dito Grigorio Lopez conprador e porem deram os ditos vendedo- 
res qujtaçom pêra ssenpre dos ditos vynte mjl rreaes e a todos sseos bêes e 
herdeiros e tirarom e demetiram e rrenunciarom loguo de sy todo djreito au- 
çom posse /vtelle domjno que tynham e aujam nas ditas cassas e a poserom e 
trespassarem em o djto Grigorjo Lopez comprador e em sseos herdeiros pêra 
fazerem delias cassas o que quisserem como de coussa sua foreira e obriga- 
rem todos sseos bêes asy moues como de rraiz a lhe manterem pêra senpre 
esta venda e lhe fazerem as ditas cassas sseguras liures e de paz de quem 
quer que lhes demande ou embargue sob pena de lhes pagarem todas perdas 
e dapnos e custas que por ello fezerem e rreçeberem e com o dobro do dito 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 109 

preço por pena e jnteresse per todos sseos bêes que pêra ello obrigarom e os 
ditos padres rreçeberom do dito comprador qujnlienlos rreaes de sua quaren- 
tena e em testemunho dello asy no outorgarom e lhe maudarom ser feila esta 
carta e as que lhe conprirem/testemunhas que a esto presentes estauam Mj- 
guell Nunez e Jorge Leall anbos pintores e Duarte de Sequeira taballiom e 
disse majs o dito Djoguo Gill vendedor que trespassaua de sy a sua pessoa 
que era a primeira que no dito contrauto sse contynha e a punha no dito Gri- 
gorio Lopez e aos ditos padres todos aprouue dello e per firmeza de verdade 
asynarom aquj todos e eu Gonçalo do Hego escudeiro delRey nosso senhor e 
espriuam pubrico por sua autorjdade por Duarte Rodriguez taballiom na dita 
cidade e sseos termos que esto espreuj e haquj meu pubrico synall fiz que 
tall he. 

«Pagou com camjnho estada e purgamjnho cxxx reaes.» ' 



Louredo (António de Oliveira de). — Vide Oliveira de Louredo (António de). 



LXXIV. — Luiz (António). — Era filho de Luiz Fernandes, pintor da Ca- 
mará de Lisboa. Esta, attendendo a que o pae já servia ha mais de vinte an- 
nos, deu o ofificio ao filho, segundo um accordo celebrado em 15 de outubro 
de 1543. N'este accordo se diz que António Luiz era bom oGQcial e que não 
levantaria o preço nas obras das varas e dos pendões. O alvará da nomeação 
da Gamara foi confirmado em 11 de fevereiro de 1549. 

«Eu elRey faço saber a quamtos este meu aluara virem que por parte de 
Luis Fernandez, pimtor da cidade de Lixboa, me foy apresemtado hum aluara 
asynado per dom Garcia d Eça e o doutor Fernão Miz, que forão vereadores 
da dita cidade e por Amtão dAgiar, que foy procurador da dita cidade e asy 
per Bertolameu Rodriguez, Francisco Diaz e R.° Aluárez, procuradores dos 
mesteres dela, per que lhes aprouue de per falecimento do dito Luis Fernan- 
dez darem o dito oficio Amtonio Luis, pimtor, seu filho, do quall aluara o tre- 
lado he o seguinte: «Praz aa cidade que per falecimento de Luis Fernandez, 
pimtor da cidade, o seu oficio fique e o aja Amtonio Luis, seu filho, outrosy 
pimtor, por ser muito bom oticiall do dilo oficio, avemdo respeito aaver xx 
anos que o dito Luis Fernandez, pimtor, serue com o dito seu oficio a cidade 
por seu dinheiro, e porem ele dito Amtonio Luis, filho do dito Luis Fernandez 
que o dito oficio adaver per seu falecimemto não leuara mais pellas varas e 



1 Torre do Tombo. Cartório do Convento de S. Domingos de Lisboa. L." 20, perg. n.° 31. 



1 10 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

pemdoês que lhe a cidade mãdar fazer que o preço que se ora leua e não 
aleuãtara mais o preço das ditas obras, e por certeza asinarão todos este 
acordo e mãdarão dar o trelado dele ao dito Luis Fernãdez oje xb doutubro 
de Jb° Riij. Xpouão de Magalhães o fez espreuer.» E pedindorae o dito Luis 
Fernãdez por mercê que lhe comfirmace o dito aluara, e visto seu requiri- 
mento, e por lhe fazer mercê, ey por bem e me praz de o comfirmar como 
de feito per este cõfirmo e ey per comfirmndo e mãdo que se cumpra e guarde 
como se nele comtem. J.° de Seyxas o fez em Almeirim a xj dias de feuereiro 
de jb c Rix M.* 1 da Costa o fez espreuer.» ' 



LXXV. — Martins (João). l.° — Era pintor da Sé de Lisboa, e, tendo 
commettido adultério com uma mulher casada, foi condemnado a sele annos 
de degredo para Ceuta. O deão e o cabido, vendo a necessidsde que tinham 
d'este offlcial, requereram a el-rei, pedindo-lhe que transmutasse a pena, a qual 
foi effectivamente commutada, ficando João Martins obrigado a trabalhar du- 
rante aquelle tempo nas obras do sobredito edifício, não sahindo para fora 
delle, passeando apenas na crasla e no cemitério. A respectiva carta é de 29 
de maio de 1441. 

«Dom Afomso etc. A uos G.° Gllz Camello, nosso chamceller em a casa 
do ciuel, que ora teendes carrego do Regimento delia e aos desêbargadores da 
dita casa e a todollas outras justiças dos nosos regnos a que esta carta for mos- 
trada, saúde, sabede que o deam e cabidoo da see da nosa muy nobre leal ci- 
dade de Lixboa nos enuyarom dizer que Joham Miz, pyntor, era ora preso em 
prisom da dita cidade por huua molher casada que asy por pubrica era auuda 
a per razom da qual fora condepnado na terra que pagou quinhentos brancos 
e apellado por parte da justiça e que em nosa Rellaçom fora degradado pêra 
Cepta por sete anos, e que por quanto elle era muyto necesairo per razom do 
seu oficio pêra pintar a dita See, que nos pidiã por mercê que aa honra da 
morte e paixom de nosso SeDhor Ihesu x.° e do mártir sam Vicente qne lhe al- 
çasemoso dito degredo de Cepta e o manteuesse em a dita see servindoa. E nos 
veendo o que nos asy dizer e pidir enuyarom, querendo fazer graça e mercê ao 
dito Joham Miz aa honrra da dita morte e paixom e do mártir sam Vicente, 
Teemos por bem e releuamollo de estar em a dita cidade de Cepta os dUos 
sete anos contanto que el sirua todo o dito tem pode sete anos conlinoadamente 
per sua pessoa dentro na dita see, e possa andar per a crasta e todo o cimi- 
terio delia sem pasando nem sayndo fora destes llugares, e seendo achado fora 



• Torre do Tombo. Chanc. de JoSo III. L.» 70, fl. 119. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 11 i 

que seja enforcado. No qual tempo de sete anos elle sirua ao dito cabydoo em 
seu oficio aa sua aueença e do dito cabydo. E uos o mandaae logo soltar se 
por ai nom for preso e entregar em a dita see, e fazee registar esta carta no 
feito que contra o dito Joham Miz foy hordenado o dia en que o asy entregaaes 
e dhi em diante comece de seruir em a dita see ata acabados os ditos sete anos, 
os quaes acabados dhi em diante posa uiuer e morar em quaes quer llugares 
de nosos Reguos onde quiser e por bem teuer sem mais seer preso nem acusado 
quanto lie per razom do dito adultério e de nom mãteer mais o dito degredo 
em a dita cidade de Cepta por que nosa mercê e voontade be de seer de todo 
perdoado e relleuado pella guisa que dito he unde ai non façades. Dada em a 
uilla de Torres Uedras xxix de mayo per os ditos desembargadores — D.° Al- 
uez a fez anno de iiij c Rj.» ' 



LXXVI. — Martins (João). 2.° — Pintor, morador em Trancoso. D. Ma- 
nuel, em carta de 28 de abril de 1496, o nomeou escrivão das cisas da feira 
d'aquella villa, assim como já o era por carta de D. João II. 

«Dom Manuell etc. Aquamtos esta nossa carta virem fazemos saber que 
queremdo nos fazer graça e merçe a Joham Martinz pymlor morador em Tram- 
coso e comliamdo delle que neste oficio nos seruira bem e como compre a 
nosso seruiço e queremdolhe fazer graça e merçe teemos por bem e damollo 
daquy em diamte por sprivam das sisas da feira da dita vila de Trancosso asy 
e pella guisa que o atee quy foy per carta delRoy meu senhor que Deus aja. 
E porem mandamos ao nosso comtador em a dita comarca e a quaes quer 
outros nosos oficiaes e pesoas a que esta nosa carta for mostrada e o conhe- 
cimento delia pertemçer que o ajam daquy em diamte por sprivam das sisas 
da dita feira e lho leixem seruir e husar delle e aver de mantimento em cada 
hQu anno trezemtos reaes quando o dito almoxarifado nom for arremdado e 
quamdo o for avera a custa dos rremdeiros delle segundo ordenamça sem a 
ello poerem duujda nem embargo que a ello ponham por que asy he nosa 
merçe o quall Joham Martinz jurou em a nosa chancellaria aos Samtos avam- 
jelhos etc, em forma. Dada em Setuuell a xxbiíj dias dabrill elRey o mandou 
per dom Martinho de Castelbramco do seu comselho e vedor de sua fazenda 
Senhor de villa Noua de Portimam. Lopo Fernandez a ffez anno de noso Se- 
nhor Jhesu Ghristo de mill iiij c Ir. bj annos. » * 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.» 2, fl. 118. 

2 Idem. Chanc. de D. Manuel. L.° 40, fl. 35. 



112 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



LXXVII. — Martins (Lourenço). — Residente em Cintra. D. Affonso Voto- 
mou por seu pintor e lhe deu carta de privilegio em 16 de dezembro de 1449. 
Já o havia sido de D. Duarte. 

O meu illustrado amigo Anselmo Braamcamp Freire teve conhecimento 
d'este artista, exercendo a sua actividade em Cintra, com relação aos annos 
de 1430, 1431, 1446 e 1449. N'aquelles dois primeiros annos figura simples- 
mente como piutor. Lourenço Martins fora irmão e depois juiz da confraria 
dos Fieis de Deus. Em 1437 era um dos homens bons da vereação da villa. Es- 
tes dados colheu-os o sr. Braamcamp em três documentos da confraria dos 
Fieis de Deus e n'outro pertencente á Misericórdia de Cintra. Consulte-se o 1.° 
volume, pag. xxxv e seguinte, do Livro primeiro dos brasões da sala de Cintra. 

€ Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos to- 
mamos por nosso pintor Lourenço Martins, morador em Sintra, pintor que foy 
dei Rei meu senhor e padre, cuja alma Deus aja, e queremos e mandamos que 
seja priuiligiado e escussado de todollos êcarregos e seruidooês e peitas e fim- 
tas e talhas dos concelhos honde quer que morar e dos nossos pedidos e ser- 
uiços e empreslidos que lançarmos e de nom parecer em alardo nem teer 
beesta nem armas nem cauallo nem seer acontiado, posto que tenha a contia 
per honde possa teer cada huua das ditas cousas nem seer titor nem curador 
de nenhuns horfõos e também seja scussado de pousadias (em) suas cassas de 
morada e adegas e caualariças nem lhe seja tomada roupa nem bestas nem 
outra cousa do sseu contra sua vontade, posto que nos a Rainha minha molher 
e ifantes meus irmãaos e tyos e outras quaees quer pesoas sejamos honde el 
for morador. E porem mãdamos aas nossas justiças e apousentadores, saca- 
dores e recebedores dos ditos pedidos e a outros quaees quer que esto ouue- 
rem de veer, a que esta carta for mostrada que lha compram e guardem e 
faça cõprir e guardar como em ella he cõtheudo sem outro alguu êbargo. Dada 
em Euora xbj dias de dezembro — Gonçalo de Moura a fez — auno de mil iiii 
Rix Ruy Galuom a fez escpreuer.» l 

LXXVIII. — Matta (António da). — Illuminador, que vivia no reinado de 
D. Sebastião. Sabe-se da sua existência, indirectamente, por uma carta de per- 
dão, concedida a um Francisco Mergulhão, o qual, n'uma noite de maio de 
1565, espancara uma mulher. António da Matta acudiu, mas o Mergulhão fe- 
riu-o n'um braço e na mão com uma espada. O illuminador querelou do seu 



1 Ton-d do Tombo. Ch&ne. de D. Affonso V. L.» 34, fl. 169. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES i 1 3 

aggressor, e este foi recolhido á cadeia. Curado das suas feridas, António da Matta 
perdoou-lhe, e el-rei fez-Ihe égua! mercê em carta de 13 de dezembro de 1S66. 

«Dom Sebastjão etc. A todollos corregedores ouujdores juizes e justiças 
de meus Reynuos e senhoryos a que esta mynha carta de perdão for mostrada 
e o conhecimento delia com direito pertencer sande faço saber que Francisco 
Mergulhão mancebo sollteiro morador nesta cidade de Lixbo.i me enujou dizer 
por sua petição que elle eslaua preso na cadea desta cidade por delle querel- 
lar hum António da Mala yluminador dizendo que hum dos dias do mes de 
mayo do anno pasado de Ixb de noyte elle soplicante dera húa espalldejrada a 
bua molher e que sobre jso vyera o dito António da Mata aver rrezõis cõ elle 
sopricante contra elle quejxoso arrancara elle sopricaute da espada e sobre as 
ditas pallauras lhe dera húa feryda ou estocada no braço e mão direita estando 
eu nesta cidade cõ mjnha corte e porque o dito queixoso era são e sem alei- 
jão e lhe tinha perdoado como parecya do estromento junto e elle sopricante 
era mancebo pobre e se perdera na prysão me pidio ouuese por bem de lhe 
perdoar a cullpa que no dito caso tiuera da maneira que dizya e Receberia 
merçe. Eu vendo o que me elle sopricante asy dizer e pidir enujou e queren- 
do lhe fazer graça e merçe visto hum prazme asjnado pelo licenceado Fran- 
cisco Diaz do Amaral do meu conselho e meu desembargador do paço e piti- 
çõis a quem pêra ello tenho dado poder ey por bem e me praz se asy he como 
o sopricante diz e hy mais não ba de lhe perdoar a culpa do arrancamento e 
ferymento que diz, visto o perdão do ferydo que offereçe e pagara quatro mil 
reaes pêra a piedade e por quanto elle sopricante pagou os ditos quatro mil 
reaes pêra a piedade a Pedre Alluarez de Landym meu esmoller segundo dello 
fuj certo por hum seu asjnado de como os rrecebera e por hum conhecimento 
de Pêro Gomez Madeira thesoureiro da mjnha capella e escryuâo de seu car- 
rego de como os sobre elle carregara em rreceyta vos mando que ho sollteis 
não sendo por ali preso e que daquy em dyante não procedais contra elle so- 
pricante nem o prendais nem mandeis prender nem lhe façais Dem consjntais 
fazer mal nem outro allgum desagujsado quanto he por rrezão do conteúdo 
em sua pityção e em esta mynha carta e decllarado porque mynha mercê e von- 
tade he de lhe perdoar pello modo sobre dito o que asj comprj e ali não fa- 
çais. Dada em Lixboa aos xj dias do mes de dezembro e feyta aos xiij elRey 
noso senhor o mandou pelo Licenceado Francisco Diaz do Amaral e o doutor 
Christovão Mendez de Carualho ambos do seu conselho e seus desembargado- 
res do paço e pitiçõis. António Velho a fez, anno do nacymeuto de Noso Se- 
nhor Jhesu Christo de jb. c Ixbj. Gaspar Velho a fez escreuer.» * 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Sebastião e D. Henrique. Perdões e legitimações. L." 14 
fl. ÍS2 t. 

Abril, 1903. 15 



114 NOTICIA DE ALGCNS PINTORES 



LXXIX. — Mattos (Francisco de).— Eis aqui o nome de um artista no- 
tabilissimo, que não foi inscriplo nos annaes da arte portugueza, nem se acha 
registado no Dictionnaire de Raczynski, que recopilou os escriptores da espe- 
cialidade que o antecederam. Francisco de Mattos é todavia um pintor de raça, 
de imaginação vigorosa e delicada ao mesmo tempo. O que parece incrível, 
dadas as snas poderosas faculdades, é que o seu talento não tivesse sido apro- 
veitado officialmenle, pelo menos que se saiba. Nos archivos reaes não se en- 
contra, ou não se encontrou ainda, nenhum diploma que lhe diga respeito. É 
no palácio de Azeitão, largamente reconstruído, no bello estylo do renascimento 
italiano, pelo filho de Affonso de Albuquerque, e que é mais vulgarmente co- 
nhecido pelo palácio da Hacalhòa, que se encontram as principaes obras de 
Mattos que lhe assignalam um logar de primeira ordem entre os pintores ce- 
râmicos do século xvi. O palácio da Bacalhôa é riquíssimo em majolicas, e quasi 
se pôde considerar um museu n'esta especialidade. O appellido de Mattos sim- 
plesmente subscreve algumas das peças capitães d*essa collecção, com a data 
de 1565, mas creio que não haverá a menor duvida em identifical-o com o 
auctor dos bellissimos azulejos polychromos que revestem a parte inferior das 
paredes da capella de S. Roque, na egreja d'esse mesmo titulo, fundação dos 
jesuítas, em Lisboa, assignados Francisco de Mattos e com o anno de 1584. 
A distancia de 19 annos, que vae de uns a outros, não pôde de per si só au- 
ctorisar a que se attribuam a differentes artistas. 

Na mesma egreja, á entrada, as paredes são forradas, de um e de outro 
lado, de azulejos, de singelo padrão, mas bonitos e elegantes, tendo, ao lado 
esquerdo de quem entra, o monogramma 



[XX] 



um MA entrelaçados e a data 1596. Do lado opposto egual millesimo somente. 
Não sei se Francisco de Mattos exercitaria o seu brilhante e fecundo pin- 
cel em outra matéria que não fosse o barro. A sua vida e a sua obra recla- 
mam um estudo serio, de onde resultaria, por certo, não pequena gloria para 
o nosso paiz, generalisando-se o conhecimento de um artista de illustre raça, 
que se poderia pôr a par de Vasco Fernandes e dos grandes mestres das es- 
colas estranhas. A interessante memoria de Joaquim Rasteiro, Quinta e Palá- 
cio Ja Bacalhôa, seguida do competente álbum, publicados, ura e outro volume, 
em 1895-1898, podem servir de valioso subsidio para tal estudo. 



NOTICIA Dl! ALGUNS PINTORES 115 



LXXX. — Mendes (Álvaro). — Era morador em Torres Novas, e, andando 
empregado como pintor nas obras que D. João II mandara fazer nos paços de 
Évora, alli foi preso e condemnado a um anno de degredo para o couto de 
Mertola polo crime de blasphemia, tendo arrenegado de Nosso Senhor. Sup- 
plicando a el-rei que lhe commutasse a pena em alguma obra piedosa, D. João II 
lh'a commutou, com effeito, ordenando que elle fosse trabalhar três mezes 
de graça no mosteiro do Espinheiro (Évora). A respectiva carta de perdão é 
de 2- de outubro de 1490. 

«Dom Joham etc, saúde, sabede que Aluaro Mêdez, pintor, morador em 
a villa de Tores Nouas, nos êviou dizer que andando elle em as obras que man- 
damos fazer em os nosos paços da nosa cydade dEnora nos enuiaraa presen- 
tar hua emformaçam, em a quall uos fizera a saber que elle era culpado em 
hQua deuasa que este anno presente de iiij c e nouenta annos se tirara em a 
dita villa que arenegara de noso Senhor, em a quall êformaçam per os no- 
sos desenbargadores do paço fora posto hum desenbarguo que fose perdoado 
contanto que fose estar e seruir huu anno ao couto de Mertolla segúdo ho ver 
podervamos pello dito desenbarguo, ho quall perante nos foy apresentado pe- 
dindo nos elle sopricante por mercê que lhe mudasemos o dito anno de de- 
gredo em algQa obra piadosa, etc. E visto per nos seu dizer e pedir, e que- 
rêdolhe fazer graça e mercê, visto huu prazme com ho noso pase, temos por 
bem e perdoamos lhe a nosa justiça, a que nos elle per rezom do dito caso 
era theudo e o relleuamos da pena do degredo, que por ho dito caso lhe era 
posto contanto que elle serua de seu oficio em ho moesteiro de Santa Marya do 
Espinheiro três meses de graça, e se o elle asy nom fizer esta carta lhe nom 
valha e comprindo ho asy mandamos que daquy em diante ho nom prendaees 
nem mandes prender ele. em forma. Dada em a villa de Viana dapardAluito 
aos dous dias do mes doytubro ElIRey ho mandou pellos doutores Ruy Boto 
e Fernam da Mezquita, ambos seus desenbargadores do paço — Ruy Fernan- 
dez a fez anno do nacymenlo de noso Snhor Ihesu Xpo de mil iiij c e nouenta 
annos. E por que ao asynar desta carta aqui non eram os ditos doutores asy- 
naram por elles o licenceado Ayres d Almada, do desenbargo do dito Senhor 
e corregedor da sua corte, e o doutor Pêro Vaz, vigairo de Tomar.» ' 



i Torre do Tombo. Chanc. de D. João II. L.° 16, fl. 98 v. 



116 NOTICIA DE ALGUNS PLNTORES 



LXXXI. — Mendes (Jorge). — Era pintor e residente em Lisboa. Accusado 
de ter puxado de um punhal contra seu primo, a justiça o condemnou a um 
anno de prisão para Arzila. D. Manuel, porém, lhe relevou a pena, passando- 
lhe carta de perdão a 28 de janeiro de 1513. 

«Dom Manuell etc, fazemos saber que Jorge Mendez pymlor morador em 
a nosa cidade de Lixboa nos enuyou dizer per sua pitiçam que por se comtra 
elle dizer que arramcara em a nosa corte de hum pinhall (sic) comtra bnm 
Jorge Mendez seu primo se procedera tamto comtra elle que fora condenado 
per sentença em hum anno de degredo com pregão na audiência pêra nosa 
vyla d Arzila a qual acusaçam e degredo e com fforo (sic) na audiência con 
ele sopricamte fora feyta segumdo ver poderíamos pola semtença de seu li- 
uramento que logo perante nos apresentar emvyou esprila em purgaminho e 
asynada poios desembargadores que andam em a nosa casa do ciuel e aselada 
com o noso selo pendemte a que se continha o dito sopricamte foy feyta a em- 
xucaçam de degredo com pregam na audiência e fora dado sobre fyamça pêra 
se jr seruir e comprir seu degredo emvyamdonos ele pidir por mercê que o 
rreleuasemos e ouvesemos por rreleuado da seruentia em que asy fora con- 
denado posto que o nam teuese começado a seruir e nos vendo o que nos elle 
asy dizer e pidir emviou se asy lie como ele diz e hy mais nom ha vista a sen- 
tença de sem (sic) liuramento e hum praz me per nos asynado querendo lhe 
fazer graça e merçe temos por bem e nos apraz de lhe rreleuarmos como de 
feyto rreleuamos da seruentia do dito ano de seu degredo posto que o nam te- 
nha começado a seruir com tanto que ele pagase quatro mill reaes pêra a pie- 
dade os (sic) que por quanto logo pagou os ditos dinheiros a Djogo Fernandez 
Cabral segundo dello fomos certo per hum seu asynado e per outro de Jam 
de Nontaches outro sy noso capelão e esprivão do dito cargo que os sobre ele 
pos em rreceyta vos mandamos etc, em forma. Dada em Euora a xxbiij djas 
de Janeiro elRey o mandou somente polo vigário de Tomar etc. Feruam Ro- 
driguez a fez de b c xiij.» ' 



LXXXTI. — Moralles (António de). — Morava na villa de Olivença. D. 
Affonso V lhe deu carta de privilegio, isentando-o dos encargos Ja aposenta- 
doria, em 13 de outubro de 1475. 

Já se vê que não se pôde nem deve confundir este Moralles com o seu 



' Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. Legitimações. L." 1, fl. 264. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 117 

homonymo cognonimado o Divino, e que foi uma das glorias da pintura hes- 
panhola no século xvi. 

«Dom Afomso Rey de Castella etc A quantos esta carta virem fazemos 
saber que nos queremdo fazer graça e mercê a António de Moralles, pintor, 
morador em a nossa villa dOlliuença, temos por bem e queremos que daquy 
em diante nom pousem com elle em suas casas de morada, adeguas nem ca- 
ualariças nem lhe tomem roupa de cama nem alfaias de casa. E porem man- 
damos ao nosso apousemlador e do príncipe etc. Dada em Estremoz a treze 
dias doutubro. El Rey o mandou e o senhor príncipe a asinou. Lopo Fernandez 
a fez anno de mil iiif lxxb.» ' 



LXXXIII. — Negreiros (José da Costa). — Pintou os quadros da ermida 
de S. Roque, no Tojal. 

Vide Diccionario Geographko da Torre do Tombo, fl. 415 do vol. xxxvi. 



LXXXIV. — Nicoloso (Francesco).— D'esta forma, Nicoloso italian me fe- 
di, subscreveu um bello quadro de azulejo, que pertenceu a el-rei D. Fernando, 
e que este, segundo ouvi dizer, achara embutido na parede de uma casa de 
Lisboa, talvez casa religiosa. Figurou na Exposição de Arte Ornamental de 
1882, nas collecções d'aquelle monarcba, sala F, n.° 147. Representa a Vm- 
íação. 

Com toda a probabilidade este Nicoloso é o mesmo Nicoloso Francesco 
que assigna os bellos azulejos que adornam o sepulchro da egreja de Sant'- 
Anna, em Sevilha, e que estão assignados d'esta forma: Nicoloso Francesco ita- 
liano me fecit, en el agno dei mil ccccc iii. 

Veja-se Riano, The industrial arts in Spain, pag. 169. 

É de crer que Nicoloso estivesse em Hespanha e que visitasse também 
Portugal. 



LXXXV.— Nunes (Miguel).— Designado como pintor, sem mais nenhum 
outro pormenor elucidativo, apparece, na qualidade de testemunha, no con- 
tracto de venda de umas casas a Gregório Lopes. A escriptura é de 28 de maio 
de 1543 e dou-a integralmente no artigo que se refere a Gregório Lopes. 



' Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.° 30, fl. Í9. 



118 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



LXXXVI. — Oliveira Bernardes (António de). — Com os appellidos de Oli- 
veira Bernardes existe uma numerosa família de pintores, cuja biographia não 
está suficientemente desenvolvida e elucidada. Tanto Taborda como Cyrillo tra- 
tam d'ella sob o titulo de Ignacio de Oliveira, filho de António de Oliveira, pa- 
recendo dar, por esta preferencia, a Ignacio de Oliveira uma certa superioridade 
sobre os outros membros da família, o que talvez não seja absolutamente ver- 
dadeiro. Taborda diz, muito incidentalmente, que Ignacio fora filho de António 
de Oliveira, celebre pintor. Cyrillo adianta mais alguma coisa. Diz que Antó- 
nio de Oliveira Bernardes era filho de Manuel Rodrigues, também pintor, e 
que entrara para a Irmandade de S. Lucas a 7 de agosto de 1684. Nos livros 
d'esta confraria encontrei-o figurando, na qualidade de mordomo, em 1686 e 
1687. N'este ultimo está assim inscripto: António de Oliveira Bernardes do 
Alemteio (Alemtejo). Casou com Francisca Xavier de quem teve os seguintes 
filhos, que todos se dedicaram á profissão paterna: Ignacio de Oliveira, Fr. 
José de Santa Maria, Padre Thomarista, e Policarpo de Oliveira. 

Ignacio teve uma filha, que seguiu as pisadas artísticas de seu pae, de 
nome Michaela Arcangela Romaneti. Este appellido provinha-lhe da mãe, que 
se chamava Anastácia Theresa Romaneti, segundo se vê da seguinte nota que 
se encontra nos livros da Confraria de S. Lucas: Ignacio de Oliveira Bernar- 
des — 16 janeiro 1718 — casado com Anastácia Teresa Romaneti — moradora 
Santa Catharina. 

Nem Taborda nem Cyrillo mencionam uma circumstancia importante, e 
vem a ser que elle foi um dos nossos mais notáveis pintores de azulejos, a 
ajuizar pelos numerosos quadros d'este género que existem, subscriptos com 
o seu nome, disseminados por diversos pontos do paiz: Évora, Braga, Peni- 
che, Bemfica e Paço d'Arcos (Ermida de Porto Salvo). 

Os a/.ulejos, azues e brancos, de figura, que forram as paredes e tecto 
da egrejinha de Nossa Senhora dos Remédios, em Peniche, teem a seguinte in- 
scripção: Antonius de Olivera Bernardes fecit. 

Os azulejos da capella de S. Pedro de Rates, na Sé de Braga, estão as- 
signados, sem data, por António de Oliveira Bernardes. Os outros, das demais 
capellas, parecem do mesmo auctor. 

Os azulejos que revestem as paredes da egreja do extincto convento de 
S. Domingos de Bemfica são de António de Oliveira Bernardes. 

Em Évora os da egreja dos Lóios, representando a vida de S. Lourenço 
Justiniano, teem a assignatura: Antonius ab Oliva, fecit 1711. Os de Nossa Se- 
nhora da Cabeça teem a seguinte inscripção: An." de Olu." B. ia o fes 1736. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 119 



LXXXVII. — Oliveira de Louredo (António de).— Pintor de retratos. A 
rainha D. Maria (D. Maria Sophia de Neubourg, segunda mulher de D. Pe- 
dro II), o tomou por offieial de pintor de sua casa, de que lhe passou carta a 
28 de fevereiro de 1698. 

«Donna Maria etc. Faço saber a vos D. Nuno Aluarez Pereira Duque do 
Cadaual meu muito prezado sobrinho Mordomo Mor de minha caza que eu hey 
por bem e me praz fazer mercê a António de Oliveira de o acceitar por offi- 
eial de pintor de minha caza para me seruir como os mais officiaes delia, com 
que gozará de todas as honras priuilegios e liberdades que logrão os meus 
creados; e por firmeza de tudo lhe mandei dar esta carta por mim assinada 
que passará pela minha chancellaria sellada com o sello de minhas armas. Dada 
em Lisboa aos 28 de feuereiro. Bernardo de Araújo a fes — anno do nasci- 
mento de Nosso Jesus Christo de 1698 — A Raynha — Por portaria do Duque 
Mordomo Mor de 10 de outubro 697. 

«Pintor António de Oliueira de Louredo por pintor de retratos de minha 
(sic) para me seruir na dita arte.» * 



LXXXVHI. — Oort (J. Van).— Pintor azulejista, exercendo a sua arte 
em Amsterdam. No corpo da egreja do exlincto convento de freiras de Nossa 
Senhora da Conceição, da Ordem dos Carmelitas descalços, situado na rua For- 
mosa, com frente também para a rua dos Cardaes, hoje transformado em re- 
colhimento de cegas, achamse as paredes revestidas de bellos painéis de azu- 
lejos, n'um dos quaes se lê a seguinte legenda: 

/. Van Oort 
Amst. fecit. 



LXXXIX.— Paiva (Miguel de).— D. João IV, por alvará de 4 de março 
de 1641, o nomeou seu pintor de óleo, declarando-se, porém, n'este documento 
que elle já havia sido nomeado em 19 de agosto de 1632, por fallecimento de 
Domingos Vieira; sendo-lhe dada a posse em outubro do anno seguinte. Esta 
circumstancia, que é aliás valiosa para a biographia de um e de outro pintor, 
passou despercebida a Taborda. 



1 Torre do Tombo. Cata da$ Rainhai. L.' 1, fl. 69. 



120 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Convém fazer aqui uma aclaração importante. Na carta que nomeia Bento 
Coelho da Silveira, passada em 1678, se diz que elle succedera a Domingos 
Vieira. Ora este não pôde ser o mesmo, a quem Miguel de Paiva succedera 
no anno de 1641. Logo houve dois artistas do mesmo nome, Domingos Vieira, 
que até agora teem passado confundidos. Adeante, nos artigos relativos a Viei- 
ra, se tratará mais largamente d'este ponto. 

«Eu EIRey faço saber aos que este aluará virem que eu hei por bem fa- 
ser mercê a Miguel de Paiua, pintor, do offleio de meu pintor de óleo, que 
uagou por falecimento de Domingos Uieira, auendo respeito a informação que 
tiue de sua suficiência, e auera de ordenado cõ o dito officio hum moio de trigo 
e sinco mil rs em dinheiro, que he outro tanto como com elle tinha o dito Do- 
mingos Uieira, e por firmesa de tudo lhe mandei dar este aluara que ualera 
como carta sem embargo da ordenação em contrario. Luis de Lemos o Ees em 
Lixboa a dezanoue de agosto de mil seis centos trinta e dous. Sebastião Pe- 
restrello o fes escreuer. E da propriedade do officio de meu pintor de óleo se 
tinha passado o aluara asima referido a Miguel de Paiua, no dia, mes e anno 
nelle declarado, o qual passou peita chancellaria a sete de outubro de mil e 
seis centos e trinta e dous, e nella se pagarão os direitos que nella se deuião 
do dito officio a minha fasenda, e por uertude do dito aluara, que se rompeo 
ao assinar deste, se deu posse do mesmo officio ao dito Miguel de Paiua de 
outubro do anno de mil e seis centos e trinta e três, como constou dos despa- 
chos e termo da dita posse, tudo feito nas costas do dito aluara, que, como 
dito he, se rompeo, em cujos registos mando se ponhão uerbas de como do 
dito officio de meu pintor de óleo mandei dar este por mi assinado ao dito 
Miguel de Paiua, o qual so quero que valha e se cumpra tão inteiramente como 
nelle se contem, posto que seu efeito aja de durar mais de hum anno sem em- 
bargo da ordenação em contrario. Luis de Lemos o fes em Lisboa a quatro de 
março de mil e seis centos quarenta e hum arinos. Fernão Gomes da Gama o 
fes escreuer.» á 



XC. — Paulino dos Reis (Máximo). — A biographia d'este pintor, assaz 
accidenlada, pôde lêr-se a pag. 154 das Memorias de Cyrillo Volkmar Ma- 
chado. 

No Archivo da Intendência geral da policia encontrei um documento de 
23 de agosto de 1814, com relação ao subsidio para pagamento das despezas 
da sua viagem de Roma a Portugal. É do teor seguinte: 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. João IV. Doafões. L.« 10, fl. 137. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 121 

•Sendo prezente ao Príncipe Regente Nosso Senhor a Informação de V. S. 
datada de 20 do corrente sobre o Requerimento de Máximo Paulino dos Reis, 
Alumno da Real Academia de Pintura em Roma, para onde foi mandado es- 
tudar em 1802 como Pencionado da Corte, em que pede se lhe mande satis- 
fazer a quantia de trezentos pezos duros, que dispendera na viagem, que fi- 
zera para este Reino, na forma com outros practicada. 

«Sua Alteza Real attendendo ao que V. S. judiciozamente pondera sobre 
este negocio He servido que se lhe mande dar huma quantia igual a que se 
deu aos outros em iguaes circumstancias, e pelo mesmo motivo, e que no cazo 
de não constar qual ella fosse, V. S. lhe mande dar a quantia de sincoenta, ou 
sessenta mil reis na forma do seu Parecer. Deos guarde a V. S. Palácio do 
Governo em 23 de agosto de 1814 — Alexandre Jozé Ferreira Castello — Sr. 
João de Mattos Vasconcellos Rarboza e Magalhaens.» ' 



XOI. — Pellegrini (Domenico).— Pintor italiano, que veiu para Lisboa em 
1803, sendo em 1810 mandado sahir d'esta cidade, por ordem do governo, 
na fragata Amazona. Foram com elle Urbino Pirreto e muitos outros indiví- 
duos que se haviam tornado suspeitos á auctoridade. É certamente devido a 
esta circumstancia que nos cadastros da policia d'aquella epocha se encontram 
bastantes documentos de caracter particular, e pelos quaes se fica tendo noti- 
cia da sua actividade artística e mercantil, pois parece que não só se empre- 
gava no desempenho da sua arte, mas na compra de quadros, que adquiria 
talvez para negocio. Essas notas soltas são muito curiosas, pois n"ellas vemos 
figurar outros artistas, como Nicolas Delerive e José da Cunha Taborda, cuja 
esposa se chamava Maria Francisca Alegre da Cunha. Um dos indivíduos que 
mais vezes apparecem vendendo quadros a Pellegrini é José Joaquim Fer- 
nandes de Castro. Vê-se também que Pellegrini fizera o retrato de Lord Wel- 
lington. Ha ainda um recibo, em italiano, em que um Mário Vieira diz haver 
cobrado de Pellegrini cento e trinta moedas por cincoenta e oito desenhos, fei- 
tos para Rartolozzi. 

«Ho ricevutto io sotto scritto dal Sig. Domenico Pellegrini cento e trenta 
monette e questa in píeno pagamento di cinquanto otto dissegni fatti per il 
signore Rartolozzi. Lisbona. Li 28 Aprille 1806. Mário Vieira.» 

«Receby do Snr. Domingos Pelegrini a quantia de quarenta e outo mil 



1 Torre do Tombo. Intendência Geral da Policia. Avisos e Portarias. Maço 26. Aviso de 
23 de agosto de 1814. 

Abril, 1903. 16 



12â 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



reis em dinheiro melai importância dos seguintes painéis que lhe vendi a sa- 
ber: a Cena dos Apóstolos con nosso Snr, hum retrato vestido de preto eon 
guarnições no pescosso, a Adoração dos Mágicos. Lisboa 20 de Agosto 1806= 
Sinal de Jozé Joaquim Fernandez de Castro.» 

«Receby do Sr. Domingos Pellengrini a quantia de trezentos e oittenta 
e nove mil reis em dinheiro de metal, que me mauda emtregar o Sr. António 
Jozé Vieira da cidade do Porto e para clareza de ambos passey o prezente. Lis- 
boa 9 de dezembro de 1806. 389^000 réis.=0 Beneficiado João Jozé de Oli- 
veira Silva Cardoso.» 

iEu Innocente Jeremia declaro que stando gravemente imfermo in esta 
citade de Lisboa, sin que mi fiqui cousa alguna mia i me tenha valido o Si- 
nhor Domingo Pellegrini para toutas as espesas que conmigo ten feilto i che- 
gan a quantia di docientos mille reis desego seja pago no modo possível, visto 
que não tenio con que possa slisfacer, i faço esta declaracon para testimuo- 
gno da verdade presentes as testimonhas de mio conhosimento, conmigo assi- 
nhatas i na presença de notário pupplico. — Lisboa 30 di Jenneiro 1807 — Ino- 
cente Geremia — Eu que a fiei a roogo i com a testimounha Frei António de So- 
rana Barba tinho — Vicenti Delahanty — Juan Nunez.» 

«Receby do Snr. Domingos Pelegrini a quantia de vinte hum mil e seis 
centos reis em dinheiro metal importância dos seguintes painéis que lhe vendi 
a saber: 

«Huma Senhora com o Menino Jezus e dois anjos tocando; huma dita e 
gloria dos Anjos, pintada sobre o Cobre. — Reis 21:600 metal— Lisboa 12 Ou- 
tubro 1807 — Sinal de Jozé X Joaquim Fernandez de Castro.» 

«Jay recue de Monseur Pelegrini le somme de 20 monois argens metali- 
que, pour 4 tablau que je lui ai vandu. Le 24 de Janvier 1808 — Nicolas Dele- 
rive.» 

«Receby do Snr. Domingos Pelegrini a quantia de vinte hum mil e seis- 
centos reis em dinheiro metal, importância dos seguintes painéis que lhe vendi 
a saber: Hum retrato vestido de encarnado encostado a huma menza com ar- 
mação ao lado. Hum paiz reprezentado o jnverno. Hum sam Gregório matando 
a serpente. Dois pequenos painéis redondos com vários animaes. Reis 21:600 
reis.— Lisboa 15 de maio 1808 — Sinal de Jozé X Joaquim Fernandez de 
Ca&tro.» 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 123 

«Receby do Snr. Domingos Pelegrini a quantia fie dezanove mil e duzen- 
tos reis em dinheiro metal importância dos seguintes painéis qne lhe vendi a 
saber: Hum painel de flores e no meio a sagrada famfllia. — Dois ditos pássa- 
ros mortos — hum dito de hum cão com huma guitarra — hum dito de hum 
paiz reprezentando huma batalha — hum dito pequeno com a sagrada famillia — 
Reis 19:200 metal — Lisboa 22 Junho 1808 — signal de Jozé X Joaquim Fer- 
nandez de Castro.» 

«Ho ricevuto dal sig. r Giuseppe Comello trenta sei mile reis per conto dei 
sig. r Domenico Pellegrini e questi per saldo de nostri conti col sudetto Pelle- 
grini sino il giorno d'oggi. Reis 36:000 — Lisboa 29 Nouembre 1808 — Agos- 
tinho de Poli.» 

«Recebi do Sr. Domingos Peligrini a quantia de sincoenta mil reis, em 
metal, importância da, renda de hum quarto que occupa no terceiro andar das 
minhas cazas de Buenos Aires, do semestre que se hade vencer em Junho do 
anno próximo futuro de mil oitocentos e nove. Reis 50:000 — Lisboa 10 de De- 
zembro de 1808— António Esteves Costa.» 

«Tenho recebido do Snr. Domingos Pellegriny, cento e dez moedas de 
quatro mil oito centos cada huma em dinheiro metálico as quaes enlreguerey a 
o mesmo Snr Pellegriny o todas, o em parcellas conforme elle lhe será pre- 
cizo. Lisboa 12 de Fevreiro 1809 — Somma 110 moedas — Eugenia Guillimod.» 

«Resebi do Snr. Domingos Peligrini pela quantia de quatro moedas em 
metal de dois quadros de pinturas que lhe vendi e por ser verdade lhe paso 
este. Lisboa 30 de Abril de 1809 — D. There (sic) Amália Velozo Veccaro.» 

«Recebi do Snr. Domingos Pelegrini a quantia de sincoenta mil reis im- 
portância da renda de hua loja e hum quarto no segundo andar das minhas 
cazas de Buenos Aires do semestre que se ha de vencer em Junho do anno de 
mil oitocentos e dez. Lishoa 2 de Dezembro 1809 — António Esteves Costa. 
São Reis 50:000.» 

«Sr. Peligrini em todo o mes de Fevereiro próximo passado teve 22 jan- 
tares a seiscentos reis importão 13:200. Em o 1.° de março de 1810.» 

«Recebi do Snr. Domingos Pelegrini dezanove mil e dozentos de hú" fru- 
teiro que lhe vendi. Recebi mais de sete quadros piquenos trinta mil e coa- 
tro centos e por ser uerdade pacei o prezente que asigno. Lisboa, 14 de majo 
1810— Jozé da Cunha Taborda — São reis 49:(i00.» 



124 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Resebi da mão do Snr. Domingos Pelegrini a coantia de dezaseis mue- 
das de 4:800 em metal pagamento de 6 coadros que vendo ao dito Senhor 
paso este na auzencia de meu marido o Sr. Jozé da Cunha Taborda elle deve 
pasar novo resibo sendo este cassado. Recebi a conta asima. Lixboa 31 de Ju- 
lho 1810— Jozé da Cunha Taborda — Maria Francisca Alegre da Cunha.» 

«240:000 reis em metal importância de hum retrato que fez do Marechal 
General dos exércitos Lord Wellington.» 

«Mr. Willien fait ses complimens a Mr. Pelegrini il vient de parler a Lord 
Wellington qui será bien aise de le voir chez lui demain sur les neuf heures.» 

«Recebi 13 moedas e 1:120 da mão do Rorno a conta do coadro do ca- 
pitão Escota. í 

«Nota dei quadri che il sig. D. Pellegrini lasciò alli fratelli Schiavonetti e 
che potranno disporre a norma dei prezzi qui marcati. (Ultimi prezzi): 

1. — Un Quadro con tre putti che giuocano. 

2. — Uno detto Stagione dei Rassan. 

3. — » » Vescovo che batesa un santo Rizzi. 

4. — n t La Donna adultera; Tiepolo, 20. 

5. — » » Testa di monaca, 1. 

6.— Due » Baccanali dei Tiepolo, 20. 

7.— Uno » Madona col bambino con cornici e vetro, 30. 

8. — » » Natività. Rattani, 10. 

9. — » » Schizzo ragazza col serpente di Pellegrini, 5. 
10. — Due » Veduta di Venezia dei canaletto, 20. 
11. — » » Vedute per lungo, 15. 
12. — Uno » Ritratto di un uomo con barba. 
13. — » » Schizzetto di una Eva intiera con un serpente, 4. 
14. — D » Soffitto che rapresenta un santo con angeli. 
15. — » » Ritratto di una signora con un bambino Pellegrini, 20. 
16. — Due » Con mezza figura che dorme ed un pulto con il suo compa- 

gno dipinti da Pellegrini con cornici, 30. 
17. — Uno » Piccolo con cornice Santa Caterioa ed un angelo di Paolo Ve- 
ronese. 
j d Ritratto Rartolozzi, 20. 
» » Morte di Murat. 
18.— » » Natività. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



125 



22.- 


— » 


23. 


— « 


24.- 


— i> 




Una 




Due 



19. — Uno detto Ritratto di Donna con un cane Tiziano. 
20. — » d Paese con Donna e pulto dei Pellegrini, 12. 
» » Lote con le íiglie dei Giorgione. 
» » La Madona Santa Ànna, Saula Catarina ed il bambino de P. 

Veronese. 
D » Bersabea dipinto sopra la tavola. 
• » Con due figure ed un fratte che presenta una testa di morto 

sopra la tavola. 
» i Saluator Mundi. 
21. — n » Grande, Venere con lo spechio dei Pellegrini dipinto in Itá- 
lia, 130. 
Con Venere veduta in schiena ed un putto dei Pellegrini, 23. 
Tratto dal Pastor fido dei Pellegrini, 15. 
Amore che sofia sula rosa in mano di una ragazza con la cor- 

nici dei Pellegrini, 10. 
Stampa in colori delia Baccante con cornice e retro, 4. 
dipinto sopra la lanola con la Vergine il Putto ed altri santi 
grandi di Giovanni Pellino. 
Uno d rotondo con heda dei Pellegrini, 15. 
» » Grande amore che sofia sula rosa. Pellegrini, 8. 

1796. Nov.° 7. 

Avere delli fratclli Schiavonetti contro il sig. r Pellegrini. 

Dinaro pagato ai sud.'°, 5, 5. 

Per un Ritlratto di Lord Camden, 8. 

Dinaro pagato alli sig." Novelletto e Bombardini per suo ordine, 2, 2. 

Dinaro pagato a sua Madre col mezzo dei sig/ I. Viero, 4, 8. 

Pagato ai sudt. in proprie mani, 2. 

Per mettà deli incisione dei Rame Happy Reunion, 210. 

Per mettà deli incisione delle Lettere nel sudt. Rame, 12, 6. 

Per mettà deli' incisione delia chiave, o sia Referenza ai sudt. Rame unita- 

meute alie lettere in questo incise, 1, 8. 
Per mettà delia stampatura e Carta di 800 Chiave sud. t0 1, 7. 
Per mettà delia stampatura di due Aquaforti dei Rame Happy Reunion in Colori, 9. 
Per colorire una delle sudt." 
Aquaforti, mr. Farrer impiego 15, giorni, li qualli computando le spese di 

vilo ed alogio unitamente ad una mezza Ghinea alia settimana fa la somma 

di 3 Ghinee delle quali ci carica la mettà ai sig. r Pellegrini. 
Per mettà delia stampatura di 468 impressioni dei Rame Happy Reunion a ra- 

gione di 5 Ghinee ai 100, 12, 5, 6. 



120 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 






Per mettà delia carta francese. 
Grande eagle unitamente aquella daneggiata, 7, 7. 
Pagato per Ia stamparia de 25. Leda in colori, 1, 17, 6. 
Per la caria per le sudt. , 6. 

Avere dei sigr. Pellegrini contro li fratelli Schiavonetti: 

1798. Marzo 17. Per 8 Holy family, 8, 8. 

6 Prove Pisani, 6, 6. 
Apr. 1 14. 10 fuga in Egitto in colori, 18. 
li 15. 6 Istoria di francia di Bovi, 3, 12. 
Ag. t0 9. 3 Re a Varene, 1, 16. 

1799. Marzo 21. 4 faraiglia napolitana nero, 3, 4. 

3 D.° D.° colori, 4, 16. 

Ap." 18. 7 D.° D.° nero, 5, 12. 

3 D.° D.° colori 4, 16. 

Ag. t0 3. 3 Para Baccanti, colori, 3, 12. 
li 29. 7 para D.° D.°, 8, 8. 

4 stampe Baccante grande D.° 4, 16. 
ott. 11. 2 para Baccante elo. Colori, 2, 8. 
li 14. 5 D.° D.° D.° 6. 

li 23. 1 famiglia napolitana nero, 16. 

Si difalca la 7. ma ed il 10%: 82, 10. 

Resta per stampe nette: 63, 13. 

Per la mettà dei quadro Happy Reunion, 52, 10. 

Per il quadro morte dei general Dubois, 42. 

Per il quadro Nozze di cana, 31, 10. 

Per uno schizzo Príncipe Cario, 2, 2. 

Porzione di dinaro pagato per la nota de Mr. Dixon stampatore, 15 = Lb 

206, 15. 
Ora si diduce le seguenti stampe che li fratelli Schiavonetti tengono in- 

vendute in casa cioè: 
- 5 fugga in Egitto 9.0.0. 
8 Holy family 8.8.0.= 13, 8, 6. 
Si difalca la 7. ma e il 10% 3,19,6 come sopra. 
Resta per stampe da ritornarci nette, 13, 8, 6. 
Avere delli Schiavonetti, 251, 7. 

Pagato per la stamparia di 40 Happy reunion in colori, 7, 10. 
A 7, b — 1'una la mettà, 7, 10. 

Detto per la ritocca di 28 d.° 4, 18. 44 fogli carta per detto meltà 8. 
Per mettà delia carta per la chiave, 10. 



/ 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 127 

Per mettà delle spese incontrate per Dichiarazione, Dogana, carta di setta, 

etc, 264,13. 
Sig. Pellegriui, Cr.— 193, 6, G. 
Per la ritoca di 12 Happy Reunion, 2, 6, 6. 
Per stampe Baccante e Leda grande e piccola avate dal febraro 20 — 1800 

si no ai giorno doggi 15. Sett. ro 1802 p.» £ 48.0.0. 
Si defalca la 7. ma 7. 
10% 4, 2: 41.0.0. 
Resta netto: 36.18.0. 

Da difalcare una Prova dei Pisam nette 15,6. 
£231,156. 

«Lisbon 8"" 9. bw 1809. Received of Mr. Barnwell the sura of twenty 
moydor metallic which cap." Scott of 45."° Reg."" Foot left hira in order to be 
deliver to me for the payment of a Portrait. Domenico Pellegrini. Ricevuto a 
conto m." 13 T 11.» 

Teniers caciatori a caro in legno. 

Bos di Itália un paese in legno. 

Velasco Schizzo di ritratto con cavallo. 

Trevisani sacra famiglia. 

Rubens una testa sopra carta. 

Teniers gioco dei Begam. A la cornice. 

Shidone la nostra signora che porta la croce con la madona. 

Guercino Testa di Baco. 

Rubens le Ire grazie in legno. 

Giaun Fit ucelli. 

Detto. 

Velasco Schizo in chiaro Suro. 

Detto. 

Detto una testa di Pellegrino. 

Autore spagnolle una schizo di donne che sonano. 

Sacra famiglia stile di moliglios a la cornice. 

Autore spagnollo la cena con li apostoli a la cornice. 

Zegar fiori. 

Lechi un cane. 

Sacra famiglia scola di carazzi. 

F. B. un paese. 

Lodivico Tinzonicar ritratto. 

Tiziano ritratto. 



128 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Vandichi sacra famiglia. 

Paris Bordin Bacanalle. 

Moriglios San Jovanine con Gesu. 

Sacra famiglia scola di Coregio in legno. 

Antico la discesa de lia croce in legno. 

Castiglione animalie e figure. 

Detto. 

P. M. Batalia muliner in Rama. 

Pussiero dedutta dei colosseo. 

Ganaletto a la cornice. 

Detto a la cornice. 

Scola tedesca Sa Jorgio a cavallo. 

Un paese Bataglia in legno. 

Rubens copia la adurazione de magii a la cornice. 

Scola di Rubens la apparizione delia Vergine in Rame. 

P. M. Bataglia muliner in Rame. 

Genari Sacra famiglia. 

Scola di Tiziano ritratto di diana. 

Lechi una chitara. 

Bassano rico opulone. 

Tenier S. Pietro nella cárcere. 

Vandiche ritratto di dona. 

Garazi detto di uomo. 

Vandiche detto di uomo. 

Petito detto di Luigi quatordici in smalto. 

Ostado Canbiato. 

Retenamer sacra la madona con li angelli. 

Teniers ritratto di dona. 

Resalla ritratto in miniatura. 

Rubens ave e fangli. 

Paulo Veronese Sacra famiglia da se Pilua. 

Gorado Madalena. 

Vilmar detto. 

Tiziano Madalena. 

Detto detto. 

Vandiche ritratto di dona. 

Detto detto. 

Palamedi. 

Frutti de maix. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 129 



Pessi. 

Zegar fiori. 

Zeegar fiori. 

La madona con le vergini. 

La disesa di croce. 

Bughel e vover mater paesse. 

Detto e detto. 

Bonifácio la casta Susana. 

Santa Catarina. 

Scola flamingha. 

Brughel framenco. 

Detto. 

Paese. 

Detto. 

Tenier copia. 

Un paesse. 

Detto. 

Tiziano copia. 

Paris berdon sia co le crache. 



XCII. — Pellereau (Frédéric). — Natural de Boulogne sur Mer, veiu para 
Portugal em 1867, em companhia de José Duarte de Oliveira, do Porto, em 
cuja casa esteve hospedado por muitos annos, sendo tratado como pessoa de 
família. Era de estatura regular, razoavelmente nutrido, loiro, de olhos azues, 
de maneiras finas e intelligente. Dedicou-se com certo ardor aos trabalhos da 
sua arte, estudando e reproduzindo os costumes do Porto e seus arredores. 
Passado, porém, certo tempo, o enthusiasmo arrefeceu, e annos depois como 
que tinha perdido o verniz social, e substiluido a sua energia por um certo 
abatimento e quasi desleixo de si próprio. Em 1894 voltou para a sua pátria, 
onde se presume haver fallecido. 

Nos primeiros annos, depois da sua chegada ao Porto, executou vários 
quadros de género, que foram quasi todos adquiridos por membros da colónia 
ingleza d'aquella cidade. São duas, porém, as suas principaes composições 
d'esta epocha, uma das quaes representa um carro puxado a bois, d'onde se 
estão descarregando saccos de milho. Faz parte das collecções do sr. António 
José da Silva, negociante de vinhos, ás Palhacinhas, Villa Nova de Gaya. A 
outra, de grandes dimensões, representa outra scena da vida minhota, uma 
dança de camponezes, e pertence ao meu amigo José Duarte de Oliveira. 
Abril, 1903. 17 



130 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Pellereau dava lições da sua especialidade em collegios e casas particula- 
res, e fez, com elegante traço sobre madeira, os desenhos para a maior parte 
das gravuras que adornam as paginas do Jornal de Horticultura Pratica. 



XOILT.— Pereira de Miranda (Braz).— Debuxador e aguarellista. No to- 
cante a esta ultima qualidade, o seu merecimento parece-me bastante limitado. 

Da sua perícia artística nada se sabia até agora. Recentemente encon- 
trou-se um códice na livraria dos srs. Condes das Alcáçovas, o qual vem tirar 
da plena obscuridade, em que jazia, o nome de Braz Pereira de Miranda. Este 
mauuscripto apresenta o seguinte titulo em sete linhas: Fronteira de Portugal 
fortificada pellos reys deste Reyno. Tiradas estas fortalezas no tempo dei Rey 
Dom Manoel. Copiadas por (1642) Brás Pereira. 

Este titulo está encerrado n'uma portada, a que servem de pilastras, como 
cariatidas, duas figuras, sendo uma de mulher, outra de homem, com vários 
adornos. Entre a ultima linha do titulo e a da data vê-se, n'um medalhão, o 
retrato do auctor, colorido. A portada é também feita a sépia. 

É uma copia colorida do Livro das Fortalezas de Duarte d'Armas, exis- 
tente na Torre do Tombo, faltando, porém, as duas vistas do castello de Pe- 
naroia, de Caminha, a de Barcellos, as três de Cintra, havendo de todos os 
outros castellos apenas uma vista, salvo Castro Marim e Castello Branco, de 
que ha as duas. São ao todo cincoeuta e cinco estampas, salvo erro, e copia 
regularmente fiel d'aquelle livro, o que torna a collecção bastante valiosa. 

Duarte d'Armas inclui-o, como debuxante e tracista de fortalezas, no 1.° 
volume do meu Diccionario dos architectos. 

A existência do códice de Braz Pereira na livraria dos srs. Condes das 
Alcáçovas explica-se pela biographia do seu auctor. 

Foi elle 3.° filho de João Alvares Pereira de Berredo (filho segundo de 
Francisco Pereira de Miranda e de D. Guiomar Pereira) e de D. Bernarda An- 
tónia de Sousa (filha de Bernardo Osório de Mello e de D. Leonor Chainha). 
Tendo fallecido seus irmãos mais velhos, Francisco e Bernardo, sem geração, 
herdou a casa de seu pae. Casou com D. Juliana de Meneses, filha de Fran- 
cisco de Faria, alcaide-mór de Palmella. Deve ter nascido pelos fins do século 
xvi, e, havendo fallecido seu pae em 1626, foi-lhe passada apostilla em 22 de 
agosto d'esse anno para ler, desde o primeiro de janeiro do anno seguinte em 
deante, a tença de juro de cento e sessenta mil réis que pertencera áquelle. 4 
Em 1633, a 2 de agosto, 2 se lhe passou apostilla para poder ter uma com- 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Filippe III. Doações. L.° 19, fl. 43. 

2 Idem. Cartório da Ordem d* Christo. L.° 27, fl. 214 t. 



NOTICIA DK ALfiUNS PINTORES 



131 



menda na Ordem de Christo, com obrigação de servir cm duas armadas, qua- 
tro meses em cada uma, por ter seu irmão mais velho, Bernardo, já defuncto, 
a quem havia sido promettida, servido em Tanger com cavallo acobertado e 
quatro criados de armas e cavallos e dous de pé, durante três annos dos qua- 
tro a que era obrigado, segundo a caria que lhe fora passada em 1621. 

Braz Pereira falleceu provavelmente no principio do anno de 1654, por 
isso que a 15 de março se passava apostilla, a sua filha, única herdeira, D. 
Maria Luiza Pereira de Meneses, já então casada com D. Henrique, Senhor 
das Alcáçovas, dos referidos 160$000 réis. 1 



XOIV.— Pires (Affonso).— Jâ se viu, no artigo relativo a Fernão Cer- 
veira, que o mosteiro de S. Domingos de Lisboa emprazára a este, em 19 
de fevereiro de 1478, umas casas sitas no Poço do Borratem, com a clausula 
d'elle as demandar a Affonso Pires, pintor. Em 28 de julho de 1472approvaram 
a prioreza e convento de Chellas a nomeação em terceira pessoa, que uma 
Maria Martins, que era a segunda, fazia na pessoa de ura seu sobrinho, Affonso 
Pires, viroteiro d'el-rei, de uma casa com forno, que trazia de emprazamento 
ao dito mosteiro, sita na Porta Nova. Este prédio confrontava com casas de 
Luiz de Beja, barbeiro do conde de Monsanto, com as de Álvaro Annes, tece- 
lão, com as de Affonso Pires, pintor, e com as de Breatiz Gomes, a alguar- 
uija. Por estas confrontações se vê que o prédio do pintor Affonso Pires era 
o mesmo que foi emprazado seis annos depois a Fernão Cerveira. Os dois do- 
cumentos completam-se portanto. 

«Em nome de Deos amem. Saibham os que este estormento denpraza- 
menlo virem que no anno do nacimento de Nosso Senhor Jhesu Cbristo de mjl 
e iiij c e sateenta e dous annos xxbiij dias do mes de julho dentro no moesteiro 
da Chellas que he em termo da cidade de Lixboa seendo hi presentes as hon- 
rradas rrellegiosas a saber dona Lyanor de Castel Branco prioressa do dicto 
moesteiro e Inês Gonçalluez sobprioressa delle e Maria Aluarez e Aldonça Ro- 
driguez e Inês Afonsso e Clara Mena e lues Gonçalluez de Castel Branco e Isa- 
bel Diaz e Vyollante Çacota e Caterina Afonsso e outras donas todas freiras 
professas do dicto moesteiro as sobre dietas todas juntas chamadas em caby- 
doo per canpãa tangida segundo seu custume diserom que verdade era que o 
dicto seu moesteiro auya como de feito ha em a dieta cidade de Lixboa aa 
porta noua huu forno de cozer pam com sua casa em que elle esta que parte 
de húa parte com casas de Luis de Beja barbeiro do conde de Moonssanto e 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. João IV. Doafõm. L.° 6, fl. 93 v. 



132 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

da outra parte com casas dAluare Anes teçelam e da outra parte com casas 
d Afonsso Pirez pyntor e com casas de Brealiz Gomez a alguaruija e com quin- 
tal de dona Inês e com rruua pubrica e com outras confronlaçoões com que 
de dereyto deue de partir. O qual forno e casa ora trazija denprazamento do 
dicto moesteiro hQa Maria Martijnz que em elle viue como segunda pessoa que 
era ao dicto enprazamento per bem dhua nomeaçom que lhe delia fez hQa Ma- 
ria Pálios que foy sua aama a que o dicto enprazamento primeiro foy feito ja 
finada e que ora a dieta Maria Martijnz seendo ajnda viua nomeara por ter- 
ceira pessoa ao dicto enprazamento Afonsso Pirez vyrotoeiro delRey Nosso 
Senhor seu sobrinho morador em a dieta cidade que também no presente es- 
taua per bem de hQa sepritura de nomeaçom que logo hi apresentou que pa- 
recia seer feita e asijnada per Pêro Vaasquez do Auellaar pubrico taballiam 
delRej em a dieta cidade aos xx dias do mes de julho da era de mjl e iiij c e 
sateenta e dous annos em aqual eram contheudas por testemunhas Afonsso Pi- 
rez pyntor e Pedrafonsso teeeelam e Antonynho Afonsso barbeiro e Gonçalle 
Anes alfayale todos moradores aa porta noua. Per a qual sse mostraua a di- 
eta Maria Martijnz nomear por terceira pessoa ao dicto enprazamento o dicto 
Afonsso Pirez seu sobrinho de guisa que despois de sua morte ouuesse o di- 
cto enprazamento segundo todo esto e outras cousas na dieta sepritura de no- 
meaçom mais conpridamente era contheudo. E ora disse o dicto Afonsso Pi- 
rez que elle era concertado com o dicto Luis de Beja barbeiro que foy do di- 
cto conde de Moonssanlo de lhe vender como de feito lhe tijnha ja vendido a 
dieta sua terceira pessoa por preço de seis mjl rreaes brancos desta moeda 

ora corrente 

testemunhas que a esto presentes forom António Pirez sepriuam dos contos 
delRej em a dieta cidade e Joham Leyte scudeiro morador aos loguares del- 
Rej e Dieguo Afonsso criado de Joham Lameguo caeiro e o dicto Afomsso Pi- 
rez Virotoeiro delRej e Vaasquo Anes morador em o dicto moesteiro e outros 
e eu Martim Aluarez criado e contador delRej Nosso Senhor e sseu pubrico 
notairo geeral per sua rreal autoridade em sua corte e em todos rregnos e se- 
nhorio que a todo o que dicto he cõ as dietas testemunhas presente fuy e este 
estormento denprazamento que he pêra ao dicto moesteiro per outorgamento 
das dietas partes escpreuy e em elle fiz meu singal (sicj pêra ello chamado e 
rroguado.» 1 



• Torre do Tombo. Mosteiro de Chellas. P«rg.» n.* 746. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



133 



XOV. — Pires (Álvaro). — Pae de Gaspar Cam ou Cão. Era pintor d'el-rei 
D. Mannel. Succedeu-llie seu filho. 

Não crnheço nenhum documento que lhe diga directamente respeito. 



Rabello (Manuel da Silva). — Vide Silva Rahello (Manuel da). 



XCVI. — Rezende (Thomé da Costa de).— Pintor de óleo e imaginaria, e 
um dos melhores do seu tempo, segundo se affirma no alvará que o dispen- 
sou de servir na bandeira de S. Jorge, o qual é de 2 de setembro de 1636. 

As palavras do alvará com relação ao merecimento do artista são communs 
a diplomas idênticos, e por isso talvez se devam considerar apenas como de 
chancella. Vejam-se os artigos Rodrigues (Simão), Teixeira (Diogo) e Vieira (Gas- 
par). 

«Eu elRei faso saber aos que este aluara virem que avendo respeito ao 
que na petição atraz escrita diz Thome da Costa de Resende, pintor de ollio 
de imaginaria, e visto o que alega e imformação que se ouue pello doutor 
Diogo Lobo Pereira, desembargador da Casa da Soplicação e corregedor do 
ciuel de minha corte, porque constou ser o supplicante hum dos milhores pin- 
tores de imaginário de ollio deste Reino e a dita arte da pintura de ollio e 
imaginário ser hauida e reputada por nobre em todos os outros Reinos, e o 
mais que da imformação do dito corregedor constou, ei por bem e me pras 
que o dito Thome de Costa Resende não seja daqui em diante obrigado a ban- 
deira de São Jorge nem aos emcargos delia nem a outros alguns emcargos dos 
que se costumão obrigar os oífkiaes mechanicos. . . Francisco Nunes o fes 
em Lixboa a duus de septembro de mil e seis centos e trinta e seis. P.° San- 
ches Farinha o fes escreuer.» ' 



XCVII. — Rodrigues (Fernão). — Trabalhou no segundo e terceiro quartel 
do século xvi, no convento de Christo, em Thomar. Em dezembro de 1533 re- 
cebeu 3:000 reaes de pintar algumas maguas e gretas dos retábulos da Cha- 
rola. Em 1535 recebeu mais 17:000 por pintar, dourar e reformar muitas coi- 
sas dos retábulos da Charola, da crasta, refeitório e abobada de cima, e nos 



1 Torre do Tombo. Chanc de D. Filippe III. Doaçõtt. L." J<5, fl. 331 



134 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



altares em muitas partes que ficaram abertas do tremor; e de pintar as gra- 
des e outras miudezas que pintou e reformou em que gastou um anuo. 

Em 1551 e 1562 apparecem verbas relativas a Fernão Rodrigues que lhe 
prolongam a existência, pelo menos até áquelle ultimo anno. Não especificam 
todavia os trabalhos que executasse. Aqui dou textualmente o que encontrei a 
seu respeito nos livros de Thomar. 

* Despesa do mes de dezembro (1533): 

«It. pagou mais o dito Recebedor pella dita maneira a fernã Roiz pin- 
tor três mil reaes por pintar algúas magoas e gretas dos retauollos da cha- 
rolla.» ' 

i Despesa do mes de janeiro de 1535 anos: 

«It. pagou mais o dito recebedor per mandado do dito padre governador 
a Fernão Roiz pintor, por pintar e dourar e reformar muitas coisas dos reta- 
uollos da charolla e da crasta e refeitor(7oJ e abobada de cima em muitas par- 
tes que ficou aberta do tremor e nos altares e de pintar as grades e outras 
miudesas que pintou e reformou em que pos hu ano. Desasete mil reaes afora 
três mil que loguo em principio lhe dera que ja fica atras perante mj sobre- 
dito scripuão. » 2 

• Titulo da despesa que faz nas ordinárias este ano de 1551: 

«Pagou ao pintor cinquo mill reaes de hQ moyo de trigo a lxx reaes e 
quatro allqueires dazeite a ij c reaes. 
«Do trigo que foy a lxxx reaes.» 3 

«E fernão Roiz pintor que tem hum moio de trigo e quatro alqueires da- 
zeite Averá por elles cinco mil reaes.» 

Alvará del-rei de 10 de setembro de 1562. 4 



XCVIII. — Rodrigues (Pêro).— Em 1510 andava trabalhando nas obras 
de pintura do paço real de Cintra. Veja-se o artigo relativo a Gonçalo Gomes, 
que publico adeante na Áddenda. 



1 Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Christo. L.° 23, fl. 175. 

* Idem. Idem. L." 23, fl. 179 v. 

3 Idem. Cartório do Convento de Thomar. L.° 101, fl. 111. 

* Idem. Cartório da Ordem de Christo. L.° 103, fl. 200. 



NOTICIA DE ALGCNS PINTORES 135 



XOIX. — Rodrigues (Simão). — Pintor de óleo e imaginaria. Dispensado 
de servir na bandeira de S. Jorge, por alvará de 20 de maio de 1589: 

«Eu elRey faço saber aos que este alluara virem que havendo respeito 
ao que na petição atras scprita diz Symão Rodriguez, pimtor doleo e ymagy- 
naria, e vistas as causas que allegaa e a êformação que o doutor Paullo Coe- 
lho do meu desembarguo corregedor do ciuel da corte per meu mandado to- 
mou acerqua do comtheudo na dita petição, e como pela dita êformação cons- 
tou ser o dito Symã Rodriguez hum dos melhores pimtores de ymagynaria do- 
lio que ha nestes Reynos e a dita arte de pimtura de olio e ymagynaria ser 
havyda e reputada por nobre em todos os outros Reynos ey por bem e me praz 
que ho dito Symão Rodriguez não seja d'aquy em dyamte hobriguado ha ban- 
deyra de são Jorge nem aos encarguos delia nem a outro allgúu emcargo dos 
ha que se custumão hobriguar os oficiaaees macaniquos e isto sem êbarguo da 
prouisão per que elRey dom João, meu senhor he tyo, que samta gloria aja, 
anexou os pimtores imdystymtamenle ha dita bandeira de são Jorge, e de 
quaesquer outras prouisões, regimentos he posturas da camará desta cidade 
de Lixboa, que em contrario desto aja, e mãdo ao prisydente vereadores e pro- 
curadores e aos procuradores (pp. dores ) dos mesteres delle a quaaes quer ou- 
tras justyças oficiaees he pesoas ha que ho conhecimento desto pertemcer que 
ho não hobriguem nem ho comstramguão aos êcarguos da dita bandeira de 
são Jorge nem a outros allgus de oficiaees macanequos e lhe cumprão e guar- 
dem, facão imteiramente conprir he guardar este alluara como se nelle cõthem, 
o qual ey por bem que valha etc, na forma. Amtonio dAguillar o fez em Lix- 
boa a xx de mayo de mill b c lxxxix (1589). Francisco Mendez de Pauia o fez 
escpreuer.» l 



O. — Rodrigues da Silva (José). — Pintor das obras publicas por 1775. 
N'esta qualidade apparece a depor, como testemunha, no processo de habili- 
tação para o habito de Christo concedido ao architecto Reynaldo Manuel dos 
Santos. 



' Torre do Tombo. Chanc. de D. Filippe I. Privilegiot. L." 5, fl. 239. 



136 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Cl. — Santa Cruz (Francisco de). — Era talvez castelhano, e estava preso 
na cadeia de Bragança por haver passado para Castella, sem as devidas for- 
malidades, vinte e oito reaes de prata. Sendo necessário pintar a gaiola rica 
em que se levava o corpo do Senhor na procissão de Corpus Christi, e não 
havendo na cidade outro official capaz de fazer a obra, foi dada a incumbên- 
cia a Francisco de Santa Cruz, que vinha todos os dias da cadeia á casa da Ca- 
mará, acompanhado de um homem, para executar o trabalho. Véspera da fes- 
tividade conseguiu escapar-se, pelo que ficou culpado na fugida o vereador 
Garcia de Madureira, que era o responsável, e a quem D. João UI perdoou em 
carta de 10 de maio de 1533. 

«Dom Joham, etc, a todolos corregedores ouydores jujzes e justisas ofi- 
ciaes e pesoas de meus Regnnos e senhoryos a que esta mjnha carta de per- 
dam for mostrada e o conhecymento delia por qualquer guisa que seya per- 
tencer saúde facouos saber que Graeia de Madureyra morador na cydade de 
Bragança memvyou dizer per sua piticam que sendo elle sopricante o anno de 
b c xxxj vereador na dita cydade e seruyndo de jujz por o jujz ser ausente ou- 
vera neçesydade de se comcertar hua gayola rrica que avia na cydade em que 
leuauã o corpo do senhor Dia de corpo cryste e por nã aver quem o soubese 
fazer senã huu pimtor per nome Francisco de Samta Cruz que hera preso 
por ser achado pasar pêra Castella vymte e oyto rreaes de prata sem rregis- 
tar e fora rrequerydo a elle sopricamte em camará que ho mandase leuar per 
huu home a casa do concelho pêra aver de comcertar a dita gayolla e elle so- 
pricante o fizera por na cadea nã aver lugar pêra se leuar a gayolla e o dito 
preso a fora coreger ymdo sempre cõ huu home ate que bespora de Corpo de 
Deos fogira enviandome elle sopricante pedir por mercê que lhe perdoase mj- 
nha justiça se me a ello por rrezam da culpa que tynha em asy fogyr o preso 
em algúa guisa hera theudo e obrjgado e eu vemdo o que me elle sopricamte 
asy dizer e pedir envyou se asy he como elle diz e rreconta e ahy mays nã 
ha visto huu praz me cõ ho meu pase e querendolhe eu fazer graça e mercê 
tenho por bem e me praz de lhe perdoar a mjnha justisa que me elle por rre- 
zam da culpa no caso do que em sua piticã faz mençâ era theudo e obrjgado 
e esloo lyuremente sem que nada pagase. E porem vos mando que daquy em 
diamte o nã prendaes nê mandes prender nê lhe façaes nê comsymtaes fazer 
mall nê outro algúu desaguysado quamto he por a rrezam do sobre dito caso 
por que mjnha mercê e vomtade he de lhe perdoar a mjnha justisa lyuremente 
pela guisa que dito he o que asy conpri e ali nã façaes. dada em a mjnha cy- 
dade d Évora aos x dias do mes de mayo ElRey o mandou pelo doutor Luys 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 137 

Eanes e pelo Licenciado Chrisptouã Esteuez da Espargosa anbos do seu con- 
selho etc. Francisco Pirez a fez por Pêro da Lagea espriuam anno de Noso 
Senhor JhesQ Christo de myll b e xxxiij. — E eu dito Pêro da Lagea ho sob es- 
creuy.» ' 



OII. — S. José (Fr. Luiz de). — Não posso afiançar que elle fosse pintor 
na genuína e elevada accepção da palavra, mas era sem duvida um excellente 
debuxante e illuminador. Confiado na sua pericia, D. João V lhe encommen- 
dou o debuxo das principaes povoações da província do Minho e um mappa 
de tudo que se observava de mais notável no caminho de Lisboa ás Caldas da 
Rainha. Os trabalhos de frei Luis de S. José, tendentes a satisfazer a curiosi- 
dade do nionarcha, podiam considerar-se complemento de uma obra mais ex- 
tensa, que existia na regia livraria, sob o titulo rle Theatro do reino de Portu- 
gal e do Algarve, em cinco volumes, executada em 1686. 

Tanto o Theatro como os debuxos de frei Luis de S. José não existem 
hoje, tendo sido por certo consumidos no incêndio que devorou a magnifica 
bibliotheea de D. João V. Se porventura poderam ser salvos n'aquella occa- 
sião, perderam-se depois, ou por extravio, ou por nova cataslrophe, pois não 
me consta que tenham chegado até nossos dias, ou que alguém haja d'elles 
conhecimento. Foi uma perda irreparável e que todos devemos lastimar. 

Costuma-se, com frequência, accusar a incúria dos nossos antepassados, 
remissos em transmitlir á posteridade os seus feitos e os seus monumentos, 
mas essa accusação é muitas vezes destituída de base, porque elles não teem 
culpa que desastres imprevistos houvessem inutilisado os seus esforços. O re- 
paro, que com alguma justiça se pôde fazer, é que se não entregassem á es- 
tampa tantas obras que se conservaram manuseriptas e que se damnificaram 
e perderam, sujeitas ás naturaes vicissitudes do tempo. 

De muitos monumentos da actividade intellectual portugueza desapparece- 
ram completamente os vestígios, e de outros apenas nos ficou archivada uma ou 
outra noticia. É o que succede com as obras acima mencionadas, das quaes nos 
dá uma breve descripção, preciosa apesar de breve, Francisco Xavier da Silva 
no seu Elogio fúnebre e histórico de D. João V, impresso em Lisboa em 1750. 
Merece transcrever-se a pagina que elle dedica a este assumpto: 

«E para cabalmente expressar o grande, e curiosíssimo génio de Sua Ma- 
gestade, bastará dizer, que não podendo satisfazer ao desejo, e tenção, que 
sempre teve de ver, e examinar todas as Cidades, Villas, Fortalezas, e povoa- 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. João III. Leyitmwções. L." 9. fi. 197 v. 
Maio, iO<)y. 18 



138 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

ções de seus Reynos, o supprio por hum modo suficiente á vista, ainda que 
não ao seu gosto; e foy com o continuado exercício, e averiguação, que fazia 
nos cinco volumes, que se conservão na sua Real livraria, intitulados: Thealro 
do Reynn de Portugal e do Algarve, por suas Cidades, Villas, Fortes, e Fortale- 
zas, como por scenas repartido, e forão feitos no anno de 1686. Nelles se achão 
todas ellas debuxadas em ponto grande, e com summa perfeição, e muito ao 
natural. E ainda que esta Obra poderia ser bastante a satisfazer muitos génios 
curiosos, não o era ainda para a incansável diligencia de Sua Magestade; por- 
que para examinar com mais miudeza os novos edifícios, que se tinhão erigido, 
mandou ao Padre Fr. Luiz de S. Joseph, Monge Cisterciense, por ser peritis- 
simo neste género de estudo, que debuxasse todas as povoações, que ha na 
Província do Minho, o que elle fez com summa perfeição no anno de 1726. 
Reduzio também a Mappa algumas Cidades, e Villas da Província da Beira, 
dando a todas as differentes vistas, que tem de Norte a Sul, e de outras situa- 
ções, para satisfação da grande curiosidade de Sua Magestade, que se exten- 
dia a tanto, que até mandou fazer hum Mappa de todo o caminho, que vay 
desde o Mosteiro da Madre de Deos até á Villa das Caldas, para ir pelo ca- 
minho, quando a ella passava a tomar os banhos, empregando nesta forma a 
sua curiosidade, por se não satisfazer com a narração: e he obra estimável; 
pois com summa exacção se debuxão, e apontão os nomes das Quintas, Ca- 
saes, Herdades, e seus donos; Villas, Lugares, e tudo o que ha memorável 
por todo aquelle caminho.» ' 



CHI. — Serra (Victorino Manuel da). — Tem a sua nota biographica a pag. 
225 da obra de Taborda, que o classifica de pintor ornamentista, procurando 
seguir o estylo de Baccarelli. 

No hyperbolico Elogio fúnebre, que lhe consagrou Jeronymo de Andrade 
(diz Taborda que é pseudonymo de Manuel Ferreira Leonardo), publicado em 
Lisboa em 1748, ha duas passagens que nos revelam que Victorino Manuel da 
Serra fora um dos mais notáveis, ou, pelo menos, um dos mais fecundos dos 
nossos pintores azulejistas. A pag. 15 lê-se o seguiute: 

tDeste novo estilo pintou muito nas casas de Custodio Vieira, e lhe deu 
os riscos para os azulejos, empreza da sua idéa, e novo primor do seu dis- 
curso.» 

Outra passagem diz ainda : 



Francisco Xavier da Silva. Elogio fúnebre, pag. 281 e 282. 



NOTICIA DK ALGUNS PINTORES 139 

«Manifestem os pintores de azulejos quantas vezes o attenderam, e rece- 
beram da sua própria mão os riscos, sem que nisto interessasse alguma con- 
veniência íque esta c a desgraça dos homens grandes), as penalidades da mi- 
séria, conservando sempre as grandesas da heroicidade.» 

Não conheço nenhum painel de azulejo subscripto com o seu nome ou com 
as suas iniciaes. 

Serra assigna, como escrivão, vários termos nos livros da confraria de 
S. Lucas. Ahi se diz que elle residia, em 23 de janeiro de 1718, na rua dos 
Vinagres. Também lá se indica o dia da sua morte, 1 1 de abril de 1747, e o 
local do seu enterramento, Nossa Senhora do Soccorro. Taborda dá-o falle- 
cido a 9. 



OIV.— Silva Paz (Lourenço da).— Por morte de Bento Coelho, do qual 
não ficaram filhos, foi-Ihe dada a propriedade de pintor de óleo da Casa das 
obras dos paços reaes da Ribeira. Carta de 26 de novembro de 1708. 

tDom João por Graça de Deus Rey de Portugal etc. Faço saber aos que 
esta minha carta virem que hauendo respeito ao bem que me tem seruido Lou- 
renço da Silua Pas de Mestre Pintor de olio da caza das obras dos meus Pa- 
ços da Ribeira desta cidade Hey por bem e me pras fazer lhe mercê da pro- 
priedade do dito officio de mestre pintor de olio da mesma caza das obras que 
vagou por falecimento de Bento Coelho ultimo proprietário que delle foj do 
qual não ficarão filhos, o qual oficio terá e seruirá em quanto eu o ouuer por 
bem e não mandar o contrario com declaração que tirandolho ou extinguin- 
doo em algum tempo por qualquer cousa que seja lhe não ficará por isso mi- 
nha fazenda obrigada a satisfação algua e com o dito oficio hauerá de orde- 
nado cada anno sinco mil reis em dinheiro pagos no almoxarifado da impoçis- 
são dos vinhos desta cidade, e hum mojo de trigo no das jugadas da villa de 
Santarém, asim como tinha e hauia seu antecessor o dito Bento Coelho, e as 
mais pessoas que o seruirão, e asim hauera mais todos os proes e precalsos 
que lhe direitamente pertencerem, pello que mando a vos Prouedor de minhas 
obras e Paços lhe deis posse da propriedade do dito officio e lho deixeis ser- 
uir e delle usar e hauer o ordenado proes e percalsos como dito he dando lhe 
primeiro o juramento dos Santos evangelhos que bem e verdadeiramente sirua 
guardando em tudo meu seruiço e cumprindo sua obrigação; e o dito ordenado 
lhe hade ser pago com certidão do dito Prouedor das obras e Paço de como 
satisfes a sua obrigação e de como o dito prouedor lhe deu posse e juramento 
se fará termo nas costas desta que se comprirara tão inteiramente como nella 



140 



NOTICTA DE ALGUNS PINTORES 



se comtbem e pagou de nonos direitos sinco mil reis que forão carregados ao 
thezoureiro delles Aleixo Bottelho de Ferreira a fls. 21 do L.° 1.° de sua re- 
ceita e deu fiança a outra tanta quantia no L.° l.° delias a fl. 7 v. como tudo 
constou por conhecimento feito pello escriuão de seu rargo e assinado por am- 
bos o qual foj registado a fls. 20 do L.° 1.° do Registo geral dos mesmos di- 
reitos e rotto com a portaria de outo de nouembro corrente por vertude da 
qual esta se obrou e a margem do Registo delia se porá verba do contheudo 
nesta minha carta que por firmeza de tudo o que dito he mandey dar ao dito 
Lourenço da Silua por mim assinada e sellada com o meu cello pendente Luis 
Pinheiro de Azeuedo a fes em Lixboa a vinte e seis de nouembro de mil e se- 
tecentos e outo annos/AIartim Teixeira de Carualho a fes escreuer/ElRey o 
Conde da Castanheira /Manoel Lopes de Oiiueira chanceller Mor/Pagou duzen- 
tos reis e de aualiação mil e setecentos reis e aos officiaes quinhentos e sin- 
coenta reis. — Lixboa 8 de Janeiro de 1709/Innoceneio Corrêa de Moura.» • 



CV.— Silva Rabello (Manuel da). — A seu respeito encontramos a se- 
guinte menção no Livro S.° das Matriculas: 

«Natural de Montemor o Velho. EIRey noso Senhor, tendo respeito ao ta- 
lento que tem na arte de pintar, e que seruirá bem, lhe faz mercê da pro- 
priedade do officio do pintor de sua caza, com o qual hauerà 20#000 reis de 
ordenado cada anno, que lhe serão pagos aos quartéis no Thizoureiro das mo- 
radias dos moradores delia que he o mesmo que tinha e hauia seu sogro Fran- 
cisco Gomez, por quanto Sabastiana de Souza sua filha esta cazada e recebida 
á face da igreja com o dito Manuel da Silva ao qual se tinha feito mercê da 
propriedade do dito officio para a pessoa que com ella cazasse por hum Al- 
uara feito a mercê da propriedade digo (sic) por Aluara de lembrança de que 
o treslado he o seguinte: 

«Eu elRey faço saber a uos D. João da Silua Marquezes (sic) de Gouea 
Conde Portalegre, e meo muito prezado sobrinho do meu conselho destado e 
meu Mordomo Mor que hauendo respeito a Francisco Gomez que foi meu pin- 
tor hauer seruido o dito officio mais de sincoenla annos, e por seu falecimento 
ficar Sebastianna de Souza sua filha com pouco remédio pêra poder tomar es- 
tado Hey por bem e me praz fazer mercê a dita Sebastianna de Souza da pro- 
priedade do dito officio do meu pintor que vagou por falecimento do dito Fran- 
cisco Gomes seu pay com o mesmo ordenado que elle tinha e hauia pêra a 



1 Torre do Tombo. Chanc. de D. João V. L." 32, fl. 214 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



141 



pessoa que com ella cazasse que sendo apta e suficiente pêra seruir o dito 
oficio se lhe fará Aluara em forma delle constando que esta cazada e recebida 
a face da igreja e para sua guarda e minha lembrança lhe mandey passar estr. 
aluara que lhe farei inteiramente comprir tanto que for cazada na forma so- 
bredita a qual quero que valha tenha força e vigor posto que seu effeito dure 
mais de hum anno e de não ser passado pela chancellaria sem embargo das 
ordenações que o contrario dizpoem, e este Aluara não terá effeito sem pri- 
meiro constar por certidão do escriuão do nono direito de como o tem pago 
se deuer Manoel Corrêa o fez em Lixboa a '.í de Dezembro de 16(50 e he o 
mesmo que tinha e hauia o dito seu sogro Francisco Gomez uisto ter pago 
5:000 reis de nouo direito que se carregaram ao thezoureiro delle Aleixo Fer- 
reira Botelho em seu Liuro fl. 190 e dado fiança a pagar outra tanta quantia 
no L.° delias fl. 53 por Alvará de U de julho de 16U5 — Rebello.» • 



OVI. — Sousa (António de). — Com o nome de António de Sousa, pintor, 
se acha subscripto um ex-libris no Dialogo de la pintura, de Carducci. Veja-se 
este nome. 



OVII. — Sousa Villar (Thomaz de). — Mestre pintor. A rainha D. Marianna, 
esposa de D. João V, o tomou por oficial de sua casa, em carta de II de 
maio de 1727. Parece que era pintor brochanle, pois ao fundo do registo da 
carta se lê que lhe fora passada outra de pintor das cavallariças da rainha. 

aDonna Marianna por Graça de Deus Raynha de Portugal e dos Algarves 
daquem e dalém mar em Africa Senhora de Guine e da conquista, navegação, 
comercio da Ethiopia, Arábia percia e da índia faço saber a vos D. Fernando 
Mascarenhas Marquez de Fronteira Mordomo Mor de minha caza que hey por 
bem fazer mercê a Thome de Souza Villar mestre pintor de o aseitar por ofi- 
cial de minha caza para me seruir como os mais officiaes delia com o que go- 
zará de todas as honras, previlegios liberdades que gozão todos os meus cria- 
dos e por firmeza de tudo lhe mandei passar essa caria por mim asinada que 
passara pella minha chancellaria selada com o selo de minhas armas. Dada 
nesta cidade de Lisboa occidental aos vinte e sinco de mayo. Gregório Lourenço 
de Magalhães a fez anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil 
setecentos e vinte e sete — António de Barros Pereira a fes escreuer, Marquez 



• Torre do Tombo. Matriculai. L.« 5.", fl. 856. 



142 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

mordomo rnor = a Raynlia Por portaria do Marquez Mordomo mor de 11 

de mayo de 1727.» * 

«Em o dito dia se passou carta de pintor das obras da cavallerice da Rai- 
nha Nossa Senhora a Vicente de Souza — por portaria do Duque Mordomo Mor 
de 18 de agosto de 718.» * 



CVIII. — Taveira.— Communicam-me de Santa Valha, concelho de Valle 
Passos, districlo de Villa Real, que existe na egreja parochial d'aquella fre- 
guezia um quadro a óleo, pintado sobre madeira, representando Nossa Senhora 
do Desterro, o qual tem a seguinte inscripção: 

73 TA/R A 

O 73 deve, com toda a probabilidade, referir-se ao anno de 1573. Di- 
zem-me ser quadro de merecimento. 



CIX.~ Teixeira (Diogo).— Cyrillo Volkmar Machado (Memorias, pag. 68) 
cita a opinião de Félix da Costa, o qual diz que Diogo Teixeira fizera cousas 
excellentes no tempo de D. Sebastião. Accrescenta que na egreja da Luz exis- 
tem pinturas suas ao pé das de Vanegas. 

Era cavalleiro fidalgo da casa de D. António, prior do Crato. D. Sebastião, 
por alvará de 6 de maio de 1577, o dispensou dos encargos da bandeira de 
S. Jorge. 

«Eu elRey faço saber aos que este alluara virem que avendo respeito ao 
que na pilição atras escrita diz Diogo Teixeira, canaleiro fidallgo da casa de 
dom António, meu muito amado e prezado primo, e vistas as causas que nela ' 
alega e a informação que o licenciado Ruy Fernandez de Castanheda, do meu 
desembargo e corregedor do ciuel desta cidade de Lixboa, por meu mandado 
tomou acerca do conteúdo na dita pitição e como pella dita informação cons- 
tou ser o dito Diogo Teixeira hum dos melhores pintores de imaginarya dolio 
que ha nestes Reynos e a dita arte de pintura dolio e imaginarya ser ávida e 
reputada por nobre em todos os outros Reynos, ey por bem e me praz que o 
dito Diogo Teixeira não seja daqui em diante obrigado a bandeira de São Jorge 



1 Torre do Tombo. Casa das Rainhas. L.° 1, fl. 116. 
1 Idem. Idem. L.° I, Q. 99 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 143 

nem aos emcargos delia nem a outros alguns emcargos dos que se custumão 
obrigar os officiais mecânicos e isto sem êbargo da prouisão per que eIRei meu 
senhor e avô que Deus tem anexou aos pintores indistintamête a dita bandeira 
de São Jorge e de quaes quer outras prouisões regimêtos e posturas da ca- 
mará desta cidade de Lixboa que em contrario aja, e mando aos vereadores e 
procuradores da dita cidade e aos procuradores dos mesteres delia e a quaes - 
quer outras justiças, officiaes e pesoas, a que o conhecimento disto pertencer 
que o não obriguem nem constrangão aos emcargos da dita bandeira de São 
Jorge nem a outros algus de official macanico e lhe cumpra, guardem e fa- 
cão inteiramente comprir e guardar este alluara como se nelle contem, o qual 
ey por bem que valha etc. na forma. Gaspar de Seixas o fez em Lixboa a seis 
de mayo de mil b c lxx bij. Jorge da Costa o fez escreuer.»' 



CX. — Tomasini (Luiz Assencio). — Falleceu em Lisboa no dia 29 de ou- 
tubro de 1902, e foi sepultado no dia seguinte no cemitério occidental (Pra- 
zeres). Os jornaes, na secção necrologica, limitaram-se a registar o seu nome, 
sem indicar a menor particularidade biographica, como se se tratasse de um 
insignificante ou de um desconhecido. Effectivamente ha bastante tempo que 
elle jazia apartado do mundo, que não só o esquecera, mas que até talvez já 
o considerasse morto. Apenas, que me conste, o meu particular amigo F. Ran- 
gel de Lima, como fino conhecedor da arte e do nosso meio artístico, lhe de- 
dicou, nas suas cartas diárias para o Commercio do Porto, algumas palavras 
de saudosa e merecida homenagem. Aqui as transcrevo: 

«Esse homem chamou-se Luiz Assencio Tomasini. 

«Intrépido capitão de navios, Tomasini realisou innumeras viagens de ca- 
bos a dentro, em que por mais de uma vez, á sua muita coragem e perícia, 
se deveu a salvação de importantes valores e preciosas vidas. Mas não foi como 
homem do mar que Tomasini adquiriu celebridade, comquanto o seu nome 
fosse dos mais respeitados pelos seus camaradas e negociantes da praça; foi, 
sim, como pintor de marinhas, porque, logo depois de abandonar a vida ma- 
rítima, durante a qual fizera estudos importantíssimos do natural, entregou-se 
de alma e coração á vida artística. 

«Estabelecendo o seu atelier no atelier de Thomaz José da Annunciação, 
de quem era amigo intimo, e nunca despresando os assisados conselhos do 
mestre, chegou a ser o nosso primeiro pintor de marinhas, disputando prima- 
zias com Pedroso, que então gosava de boa fama como tal. 



1 Torre do Tombo. Chane. de D. Sebastião e D. Henrique. Privilégios. L.* 13, fl. 69 v. 



144 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«A differença entre estes dois artistas saltava aos olhos. Pedroso era a 
convenção, Tomasini o naturalismo. 

«Produzindo immensos quadros, que expoz, e dos quaes vendeu a maior 
parte, o seu nome tornou-se tão conhecido que chegou a ser moda ter um 
quadro de Tomasini. Por fim a doença impossibilitou-o de trabalhar e o seu 
nome cahiu em tal olvido que, morrendo agora, raros são os que se lembram 
de que elie foi um grande pintor. 

«Paz á sua alma. Pezames a sua família.» 

O convite da família para o enterro era concebido nos seguintes termos: 

«Rodolpho Luiz Tomasini, D. Elvira Tomasini de Noronha, seu marido e 
filhos, D. Elvira Lambertini Pinto e seu marido, participam a todos os paren- 
tes e pessoas das suas relações o fallecimento de seu muito querido pae, so- 
gro, avô e cunhado, cujo funeral se realisa hoje, 30, pelas 4 horas da tarde, 
sahindo o funeral da sua residência na rua Saraiva de Carvalho, 2IG, para o 
cemitério dos Prazeres.» 

Sabendo eu que o distincto pintor de marinhas fora baptisado na egreja 
da Conceição Nova em 15 de agosto de 1823, escrevi ao prior d'aquella fre- 
guezia, o reverendo padre António Marques de S. Ramalho, que nem conhe- 
cia sequer de nome, pedindo-lhe se dignasse enviar-me as principaes informa- 
ções contidas no assento do baptismo, e elle, em extremo delicado e pontual, 
me enviou os seguintes apontamentos em carta de 26 de novembro de 1902: 

«Foi baptisado em 24 de setembro de 1823, e nasceu em 15 de agosto 
do mesmo anno. Foram seus pães Luis Máximo Tomasini e D. Maria Elena Go- 
mes, natural de Pernes. Nada mais consta do termo de baptismo, a fl. 16 v., 
livro 18.» 

Não me consta que frequentasse estudos regulares de nenhuma escola 
especial, tendo aprendido particularmente a pintura com Thomaz José da An- 
nunciação. Tinha as seguintes condecorações e títulos honoríficos: habito de 
S. Thiago, commenda de Isabel a Calholica e habito de Carlos III. Académico 
de mérito da Academia Real de Relias Artes de Lisboa. Medalha de prata da 
Sociedade Promotora das Relias Artes em Portugal. Medalha de cobre na Ex- 
posição portugueza do Rio de Janeiro. 

Em 1879 commandou elle o vapor Maria Pia, que conduziu ao Rio de Ja- 
neiro os productos da Exposição portugueza. A companhia organisadora pro- 
moveu, no dia da partida, uma honrosa manifestação de sympathia ao illus- 






NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 145 

tre comniandante, convocando para este acto diversas pessoas. A carta de con- 
vite era redigida nos seguintes termos: 

«Companhia Fomentadora das Industrias e Agricultura de Portugal e suas 
Colónias. — Escriptorio: Largo do Corpo Santo, 28, 1.° 

Ex. m0 Sr. 

«Devendo o vapor Maria Pia, fretado por esta companhia para conduzir 
ao Rio de Janeiro os productos destinados á Exposição Portugueza, feita por 
iniciativa da mesma companhia, partir do Tejo no próximo domingo 8 do cor- 
rente, ás 5 horas da tarde, os abaixo assignados desejam dar, na occasião da 
sabida do vapor, uma demonstração da estima que a todos merece o seu di- 
gno commandante o sr. Tomazini. 

«Se a V. Ex. a não fôr de muito incommodo n'aquelle dia fazer um pas- 
seio alé bordo do Maria Pia, dar-nos-hia n'isto muita honra e satisfação. 

«Creia-nos, etc 

De V. Ex. 1 

Amigos e obrigadissimos criados 
«Junho, 4, de 1879. 

Os gerentes da Companhia 

Marcellino Ribeiro Barboza 
Caetano de Carvalho 
Luciano Cordeiro. 

Director etpecial da exposição 

«Da uma hora da tarde ás duas estarão no cães do Sodré alguns botes 
ás ordens dos nossos amigos.» 

Tomasini foi um dos artistas encarregados de ornamentar os carros que 
figuraram no préstito civico do 3.° centenário da morte de Luiz de Camões, 
celebrado em 10 de junho de 1880. Como era natural, coube-lhe um carro pró- 
prio da sua especialidade: um Galeão do século xvi. 

O semanário illuslrado O Occidente publicou no n.° 63 do seu 3.° anno 
(1 de agosto de 1880) uma pagina com quinze medalhões, contendo os retra- 
tos da commissão executiva da imprensa e dos artistas que delinearam os car- 
ros triumphaes da procissão civica. 

Eu conheci ha bastantes annos Tomasini n'um conciliábulo arlistico-lilte- 
rario, que se reunia, quasi todas as noites, no estabelecimento de modas de 
José Gregório da Silva Barbosa, ao Chiado, quasi á esquina da rua Nova do Al- 

Maio ; 1903. 19 



146 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

mada. Tomasini era baixinho, magro, mas vivo, nervoso. Ao vêr aquella figura 
franzina ninguém diria que estava ali um audacioso homem do mar. E, toda- 
via, era não só um dos mais illustrados, mas também dos mais valentes capi- 
tães da nossa marinha mercante, como o attestavam as suas numerosas viagens 
e a sua longa e honrosa carreira marítima. A sua voz de espirra-canivetes, como 
vulgarmente se costuma dizer, tomava a entonação imperiosa do commando e 
impunha-se dominadora nos momentos da tempestade e do perigo. 

A loja do Barbosa tinha e tem — pois ainda se conserva — quatro largas 
portas, duas das quaes envidraçadas para exposição permanente de objectos. 
A terceira formava um vasto recanto propiciamente apropriado ás palestras do 
cenáculo. A quarta dava para o escriptorio ou gabinete, onde o dono da casa 
tinha a sua secretaria, e onde as freguezas costumavam ir provar os chapéos, 
as capas e outros enfeites. Além d'isso havia uma sobre-loja, onde se chegara 
a formar um atelier. 

José Gregório da Silva Barbosa era irmão da viuva de Francisco Gomes 
de Amorim, e foi talvez o contacto com o cunhado que lhe apegou a tendên- 
cia pelas cousas de arte e litteratura. Falleceu a 22 de janeiro de 1896, na 
sua casa da rua do Belver, que anteriormente fora propriedade de José Sil- 
vestre Ribeiro, que ali exhalou também o ultimo suspiro. Era alto, de figura 
e maneiras distinctas, com certa illustração e gosto. Aprazia-se muito com a 
amena cavaqueira dos artistas e litteratos, mas, á maneira que a loja se ia 
enchendo de freguezas, elle já não sabia para onde se havia de voltar, e eil-o 
indeciso, oscillando como um pêndulo, entre o grupo dos amigos e as senho- 
ras, para as quaes tinha sempre uma phrase e um sorriso amável, decidin- 
do-se afinal por estas, na fina comprehensão de quem sabe que eram ellas, e 
não os litteratos e os artistas, que mantinham a prosperidade do estabeleci- 
mento. Se a affluencia da freguezia augmentava, o dono da loja convidava pru- 
dentemente o grupo dos amigos a ir deliberar para o escriptorio. 

Barbosa ia invariavelmente, duas vezes por anno, ao estrangeiro, a fazer 
o sortimento de modas para as estações de verão e de inverno. O centro das 
suas operações era Paris, mas muitas vezes dava um salto a Londres e fazia 
algumas entradas pelo norte, Bélgica, Hollanda, Allemanha. Na capital da 
França tinha um amigo, que nunca deixava de visitar, aquelle syrupathico e 
virente velhinho, tão affeiçoado aos portuguezes, que se chamava Ferdinaud 
Denis. Concluídas as suas transacções commerciaes, Barbosa divagava então pe- 
los museus, frequentando os ferros velhos e alfarrabistas, onde encontrava 
quasi sempre algum objecto que lhe picasse a curiosidade e que elle alcançava 
por um preço módico. Barbosa linha o amor, mas não a paixão immoderada 
dos colleccionadores a todo o transe. Primeiro que tudo era negociante, e, 
com o seu tino pratico, não se deixava afogar n'uma gotta d'agua. Por este sys- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 147 

tema pôde alcançar muitos objectos com referencia a Portugal, sobretudo moe- 
das e medalhas, das ultimas das quaes fez uma collecção preciosa, talvez única 
no seu género, e que os seus herdeiros venderam por quatro contos, segundo 
ouvi, a Jeronymo Ferreira das Neves, o infatigável bibliophilo americanista. 

Já que falei em coleccionadores, vem muito a propósito citar outro amigo 
de Barbosa e frequentador da casa, Joaquim Ventura Pereira, que fora dono 
de uma loja de sola ás portas de Santo Antão e que, tendo sido um homem 
vigoroso, chi-gou, pelos seus longos annos, a um estado senil, até que fal- 
leceu em 13 de dezembro de 1902. Typo original, gostaudo de narrar a sua 
anecdola e de dizer a sua chalacinha. Portuguez velho, de quatro costados, 
muito patriota, amando tudo que fosse nacional. Tinha quasi uma adoração 
pelos três patriarchas da moderna litteratura portugueza. Reunira uma apre- 
ciável collecção de quadrinhos, de relógios, caixas esaialladas e pintadas, le- 
ques, miniaturas, cerâmica, etc. Esta collecção foi vendida em hasta publica, 
poucos mezes antes da sua morte, na sua residência na Avenida da Liberdade. 

Do núcleo que concorria ás palestras nocturnas da loja de modas do Chia- 
do, além de Tomasini, que já citei, lembram-me os seguintes: Manuel Bordallo, 
um flamengo ou hoilandez da linhagem dos Teniers; Raphael, seu filho, cujo 
talento embryonario já denunciava as fulgurantes qualidades que o haviam 
de exalçar; Gonçalves Pereira, auctor de um quadro Romeu e Julieta, em que 
os dois amantes de Verona são representados por um gallo e uma gallinha; 
Barradas, um engraçado bohemio; Lassere, primoroso florista e ornamentista; 
Ferreira Chaves, tão hábil no retrato como delicado nas flores; Malhoa, um 
enthusiasla de vigorosa e fecunda palheta; Simões d'Almeida, o correcto e no- 
tável estatuário; o general Cascaes, o conceituoso poeta que tanto trabalhou 
para engrandecer o theatro portuguez; Rangel de Lima, que, por tantos an- 
nos, forneceu a matéria prima ao saboroso entretenimento das nossas plateias; 
A. de Sousa e Vasconcellos, que também cultivou a litteratura dramática e re- 
digiu A Arte; Zacharias d'Aça, de forte arcabouço, manejando a espingarda e 
a penna, Nenrod como Bulhão Pato e seu amigo intimo; Severini, distincto 
gravador hespanhol. 

Deixei para o fim, seguindo a conceituosa phrase do Evangelho, de que 
os últimos serão os primeiros, a Thomaz José da Annunciação, a quem todos 
respeitavam pelo caracter e consideravam como mestre. Barbosa dedicou-lhe 
especial affeeto, a que o artista correspondia da mesma forma. Annunciação, 
physionomia peninsular, moreno, de olhos vivos, sempre correcto na sua so- 
brecasaca preta, pendente do braço o sobretudo, á maneira do pae Rosa, era, 
ao primeiro aspecto, um pouco severo, mas, atravessada a linha divisória da 
etiqueta, toda a apparente frieza se transformava na mais expansiva amabili- 
dade. A sua morte deixou um profundo rasto de sentimento no coração dos 



i 48 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

seus amigos e admiradores, que se organisaram desde logo em commissão 
para se lhe erigir um tumulo, singelo mas grato monumento, destinando-se o 
que sobrasse d'esta obra para constituir um premio com o nome do grande 
artista. Embora não trate aqui de o biograpliar, julgo todavia opportuno re- 
produzir a circular que foi então distribuída para angariar subsídios para 
tal fim. Eis o seu contexto: 

«Ill. mo e Ex. mo Sr.— A grande commissão eleita pela assembléa convocada 
para se prestar um testemunho de homenagem á memoria do fallecido pintor 
Thomaz José da Annunciação, tendo resolvido por unanimidade de votos, em 
sessão de 14 de abril ultimo, que o producto da subscripção aberta por aquella 
assembléa seja applicado á construcção de um tumulo em que se guardem os 
restos mortaes d'aquelle artista, e o remanescente convertido em títulos da 
divida publica portugueza para que o seu rendimento seja dado como pensão 
ás irmãs do mesmo professor, passando por morte d'ellas a constituir um pre- 
mio pecuniário denominado — Premio Annunciação — que será annualmente con- 
ferido ao alumno da Academia Real de Bellas Artes que mais se distinguir na 
pintura de animaes; vem por este meio solicitar de v. ex. a se digne associar-se 
a tão nobre e levantado empenho, contribuindo para a referida subscripção com 
qualquer quantia por mais diminuta que ella seja. 

«Encarecer a significação moral d'esse empenho seria, sobre inútil pro- 
lixidade, censurável desdouro para a veneranda memoria do fallecido pintor. 

«A ingratidão, se é no homem condemnavel, é nas nações indicio certo 
de um rebaixamento moral que as avilta. Portugal deve compenelrar-se d'esla 
grande verdade, e d'esse convencimento resultará de certo o vermos pagas as 
Dossas mais sagradas dividas para com a memoria respeitável dos graudes vul- 
tos que illustram e ennobrecem as paginas da nossa historia. 

«A commissão, portanto, fazendo a devida justiça ás elevadas qualidades 
e illustração de v. ex.\ ousa esperar que, entre os nomes dos subscriptores, 
contará o de v. ex. a , e por isso lhe roga a mercê de devolver a inclusa lista 
com a indicação da sua morada e da quantia com que v. ex. a e os seus ami- 
gos se dignem subscrever, dirigida ao presidente da commissão, na Academia 
Real de Bellas Artes. 

«Deus Guarde a v. ex. a , sala da Commissão em Lisboa aos 26 de abril 
de 1879. 

tDelphim D. Guedes — Presidente, José António Gaspar — Secretario, Za- 
charias d' Aça — Secretario, Anatole Celistin Calmeis, A. C. Ferreira de Mes- 
quita, Atdonio Joaquim d' Oliveira, António Manuel da Fonseca, António da Silva 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES i 49 

Tullio, A. de Souza e Vasconcellos, António Thomaz da Forneça, António Victor 
Figueiredo de Bastos, Rartholomeu dos Martyres Dias e Sousa, Barão de Bous- 
sado, Carlos Relvas, Conde de Bio Maior, Conde de Samodães, Eduardo Coe- 
lho, Ferraz de Miranda, Francisco Lourenço da Fonseca, Francisco Rangel de 
Lima, Joaquim da Costa Cascaes, Joaquim Gregório Nunes Prieto, Joaquim Pos- 
sidónio Narciso da Silva, João Anastácio Bosa, João Maria Alves Costa, João 
Pedroso Gomes da Silva, José Elias Garcia, José Ferreira Chaves, José Gregó- 
rio da Bosa Araújo, José Gregório da Silva Barboza, José Jgnacio de Novaes, 
José Machado Carreira dos Santos, José Maria Alves Branco Júnior, José Ma- 
ria Nepomuceno, José Palha, Júlio a" Andrade, Leonel Marques Pereira, Luiz 
Ascendo Tomazini, Luiz Tiburcio Ferreira, Manuel Maria Bordalo Pinheiro, 
Miguel Angelo Lupi, Miguel Queriol, Visconde de Alhouguia, Visconde de Casti- 
lho, Visconde de Pernes.» 

Zacharias d' Aça começou a publicar na Arte (1.° vol., 1879) um largo 
estudo biographico, do eminente pintor animalista, acompanhado de um bello 
retrato gravado por Severini. Este gravador, que exerceu por algum tempo a 
sua profissão em Lisboa e que frequentava também, cou:o acima disse, a loja 
de Barbosa, era hespanhol, embora o seu ultimo appellido pareça indicar pro- 
cedência italiana. Retirando-se para Hespanha alli falleceu poucos annos de- 
pois. Tenho presente a participação mortuária, que reproduzo textualmente, 
servindo assim de nota elucidativa e documental para quem escrever um dia 
a historia da gravura no nosso paiz: 

tEl Senor Don José Diaz Lozano y Severini, sócio de mérito de la Real 
Academia de San Carlos de Lisboa y profesor de dibujo de la Escuela de Ar- 
tes y Ofícios de esta capital, ha fallecido ayer 19 de marzo de 1893, á los 63 
anos de edade, después de recibir los Santos Sacramentos. R. I. P. 

«El Sr. Presidente de la Junta provincial de dicha Escuela y Claustro de 
Profesores: su desconsolada esposa D. a Maria de la Ptirificación Ovejero, sus 
hermanos políticos, sobrinos y demás parientes, suplicar! á V. se sirva enco- 
mendar su alma á Dios y asistir à la conducción dei cadáver ai Cementerio, 
desde la casa mortuoria calle de la Juderia Vieja, num. 11, pral. y hora de 
las cinco de la tarde de hoy 20, y ai Funeral que, por su eterno descanso se 
ha de celebrar el martes 21, á las nueve de la manana en la Iglesia de San 
Miguel, en cuyos piadosos actos ejercerá una obra de misericórdia á la que le 
quedarán cristianamente reconocidos. 

«El duelo se despide en el Cementerio y en la Iglesia respectivamente. t 

Como é triste ao recordar os nomes de tantos indivíduos, com os quaes 



150 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

cheguei a conviver, verificar que a maior parle cTelles já dormem o ultimo 
somuo, tendo por cabeceira uma lapide funerária ! 



CXI.— Trosylhos (Fernão de).— O nome d'este pintor apparece mencio- 
nado aqui pela primeira vez, creio eu. N'um mandado de pagamento, de 20 
de dezembro de 1314, ordena D. Manuel ao almoxarife ou recebedor do al- 
moxarifado de Vizeu que dê a Fernão de Trosylhos sessenta e dois mil tresen- 
tos e cinco reaes, que eram devidos a Fernão Affonso, cuja viuva se matrimo- 
niara com o pintor. A circumstancia do pagamento ser feito em Vizeu leva a 
suppõr que o artista trabalharia alli, quem sabe se nos quadros da Sé. 

«Dom Manuell per graça de Deus Rey de Purtugall e dos Algarves da- 
quem e dalém mar em Africa, Senhor de Guine, mamdamos a vos almoxarife 
ou recebedor do noso almoxarifado de Viseu, que do remdimêto delle do anno 
que vem de b c xb deis a Fernã de Trosylhos, pimtor, que casou com a rao- 
lher de Fernã dAfomso carpêteiro sesemta e dous mill trezemtos cimquo rs. 
que lhe mandamos dar por outros tantos que erã deuidos ao dito F. do A.° de 
sua pimenta segundo vimos per certidã do nosso recebedor e ofiiciaes da nossa 
casa da Imdia, que ao asynar deste foy rolo, dos quaes lhe vos fazey bom pa- 
gamento semdo primeiro certo per outra certidã do nosso feitor e ofiiciaes da 
dita casa que ouue pagamento delles em vos. E per este com seu conheci- 
mento vos serã leuados em conta. Dada em Almeirim aos xx dias de dezem- 
bro — eIRey o mãdou pelo cõde de Villa nova, vedor de sua fazemda — Diogo 
Vaaz o fez — de jb c xiiij. = Conde de Uilanoua. = íxij iij c b reaes a fernando 
de trosilhos deuidos de pimenta em Viseu pêra o anno que vem.» • 



CXII. — Utrecht (Christovão de).— José da Cunha Taborda, um dos pri- 
meiros, senão o primeiro, a lançar as bases da historia da pintura portugue- 
za, dá-uos uma biographia de Christovão de Utrecht, sem todavia indicar quaes 
foram as fontes da sua informação, o que lhe tira até certo ponto todo o ca- 
racter de auctoridade. Diz elle que Christovão Utrecht nascera em 1498 na 
Hollanda, provavelmente na cidade de seu nome, e que em Hespanha fora dis- 
cípulo de António Moro, tendo vindo para Portugal na companhia de um em- 
baixador de D. João III, o qual logo o admitliu a seu serviço, dando-lhe o ha- 
bito de Christo e a pensão de 1:500 ducados. 

Em nota, contradizendo-se de algum modo com o que acima dissera, 



1 Torre do Tombo. Corpo Chronologieo. Parte n, maço 53, doe. 149. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 151 

escreve que elle viera para Portugal em 1552 com António Moro, o celebre 
pintor que retratou D. João III e a sua esposa D. Catharina, retratos que se 
conservavam na livraria do convento de Belém. Pormenorisa ainda mais que 
Christovão trabalhara para muitas egrejas e palácios reaes em quadros de his- 
toria e retratos, merecendo o epilheto de Gran Vasco de Ulrecht. Esta cir- 
cumstancia parece-me pura e inadmissível phantasia de Taborda, que termina 
por dizer que as suas obras, merecedoras até hoje de estimação considerável, 
eram acabadas no gosto de Pedro Perugini e João Bellini. Morreu em 1537, 
com 59 annos de edade. Ora se elle tivesse vindo em 1552, não teria tido 
tempo de produzir tantas obras, como a fama lhe atlribuia. Deve-se mais ob- 
servar, e com absoluta extranheza, que servindo-se Taborda da phrase até 
hoje, o que indica que n'aquelle tempo (1815 approximadamente) ainda exis- 
tiam algumas, não aponte quaes ellas sejam e onde se conservavam. 

A origem da noticia de Taborda não é todavia difficil de averiguar-se. O 
nosso escriptor não fez mais que plagiar Guarienti no seu Abecedario Pittorico, 
como se pôde vêr pelas transcripções de Raczynski, a pag. 320 do seu livro 
Les Arts en Portugal. O próprio epitheto de Gran Vasco de Utrecht nem é se- 
quer invenção de Taborda. É deplorável que assim se faça copia de copia, sem 
citação do auclor que primitivamente deu a noticia. Ao menos Guarienti de- 
clara que obteve os seus dados de um manusçripto authentico existente na li- 
vraria do Marquez do Louriçal. 

Wolkmar Machado faz o inverso de Taborda; consagra directamente um 
artigo a António Moro, e no final, como por incidente, é que se refere a Chris- 
tovão de Utrecht, sem comtudo accrescentar circumstancia nova. Opina que os 
quadros, que adornam os arcazes da sacristia da egreja do extincto convento 
da Madre de Deus, se poderiam attribuir á sua escola. 

Raczynsky não esclarece mais a sua vida, limitando-se a compilar e con- 
frontar os trechos que lhe dizem respeito, reproduziudo algumas das obser- 
vações dos seus predecessores. Pensa, mas sem o afBrmar positivamente, que 
os quadros do paço arcebispal de Évora, que lêem por monogramma X V, se 
poderiam attribuir com muita probabilidade áquelle pintor. Esta hypothese só 
poderia comprovarse quando existisse outro quadro authentico do mesmo pin- 
cel e pelo exame comparativo se chegasse a verificar a identidade. É de ad- 
vertir que antigamente a letra X com um traço por cima era a abreviatura 
da primeira syllaba do nome de Christo, podendo portanto significar Christo- 
vão. E com V inicial também se escreviam muitas palavras que principiam 
por U. 

Encontrei na Torre do Tombo, entre os papeis que pertenceram á Santa 
Inquisição, um documento que não só fornece alguns pormenores sobre a vida 
de Christovão de Utrecht, mas que delimita a sua residência em Portugal. 



152 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Esse documento é nem mais nem menos que o testemunho de sua mu- 
lher, que, para descargo de consciência, foi denunciar ao Tribunal do Santo 
Officio outra que já lá estava presa. 

Chamava-se ella Anna Rodrigues, molher de hum pintor Xpovã Treque, 
morador na cidade de Lisboa, à Mouraria, freguezya de Santa Justa. 

A denuncia foi feita aos 18 de fevereiro de 1537. e disse ella que have- 
ria um anno ou 15 mezes, indo á Ribeira comprar uma sacca de carvão, uma 
vendedeira do mesmo combustível a convidara a assentar-se, perguntando-llie 
que novidades havia. 

— Nada sei — respondeu Anna Rodrigues. 

— E da Inquisição, que se diz? 

— Dizem que não tarda a vir, e bem vinda seja ella que bem precisa se 
torna, pois tanto é pela lei nova como pela lei velha. 

Ao ouvir esta resposta, a vendedeira de carvão teve um accesso de raiva 
e com os punhos hirtos, dedo pollegar enclavinado entre os dois, principiou 
de gritar, acompanhando o respectivo gesto — figas para el-rei e mais para 
quem o aconselhou! Figas para o Papa, que outorgou a Inquisição! 

Que revolucionaria! Luthero não protestaria, nem com mais violência, 
nem de um modo mais suggestivo. 

Este depoimento, na sua rude simplicidade, é de um alto valor histórico 
e social, porque nos pinta em breves traços o modo de pensar d : aquellas epo- 
chas e como as questões religiosas agitavam e perturbavam todas as classes, 
por mais baixas e ignorantes que fossem. Por outro lado fica-se sabendo que 
Chrislovão de Utrechl já residia em Portugal em 1537, ou em annos anterio- 
res ainda, que era casado com uma mulher, naturalmente portugueza, e que 
residia na Mouraria, freguezia de Santa Justa. 

Anna Rodrigues parecia que devia ser mulher de baixa condição, pois 
não sabia ler, embora n'aquelle tempo a prenda fosse pouco commum. 

Eis agora o depoimento, perante o Santo Officio, da mulher de Christo- 
vão de Utrccht, feito a 18 de fevereiro de 1538: 

«It. Ana Royz, molher de hum pimtor Xpovã Treque, morador nesta cidade 
na Mouraria, freguesya de Santa Justa, testemunha jurada aos santos auãge- 
lhos e perguntada deuasamête pello dito doutor Joham de Mello inquysidor que 
se sabya alguua pesoa ou pesoas que disesem ou fezesem alguua cousa com- 
tra nosa santa fee catolleca que ho disese: dise ella testemunha que he ver- 
dade que auera huu ano ou quinnze meses pouco mais ou menos que ella tes- 
temunha fora a Ribeyra por hum saco de caruã e ho foy cõprar a huua molher 
grosa preta, que ora esta presa e que nã he lêbrada do nome e vende caruã, 
a quall disera a ella testemunha que se asentase, e ella testemunha se asen- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 153 

tara e a dita molher estaua soo, e a dita molher lhe pergumtara que nouas 
auia por esta cydade, e ella testemunha lhe disera que nam sabya, e ella lhe 
disera que nouas tynha da Iuquisiçã, e ella testemunha lhe disera que dizia 
que vynha e se era asy que vynha que era hua cousa mui santa que tanto era 
por hua lei velha como pella noua segundo diziam, e a dita molher lhe disera 
nuca o ouuires nem veres em vosos dias, e ella dera com ambas as mãaos fi- 
gas, dizendo — tome pêra elRey, tome pêra quem ho aconselhou, e tome pêra 
o Papa que ha outorgou, por que per derradeiro hamde fycar por quem sam 
e força do dinheiro hade acabar tudo e ali nom dise e ao custume dise nihil 
e por nã saber asynar asynei aqui a seu roguo eu uotairo e eu Jorge Uelho 
notairo ho escreui. Jorge Uelho. J.° de Mello.» l 



CXIII. — Vanegas ou Venegas (Francisco). — Até aqui o seu appellido tem 
sido registado como sendo Vanegas, mas no documento, que adeante cito, 
acha-se escripto Venegas. Taborda, erradamente, classifica-o como contemporâ- 
neo de D. Manuel, sendo um dos.quatr<j artistas que este rei enviara a estu- 
dar a Itália. Cyrillo, nas pisadas de Félix da Costa, fala mais ajuizadamente, 
collocandoo no ultimo quartel do século xvi e dando-o como auclor do painel 
do retábulo no conveDto de Nossa Senhora da Luz. Era pintor da casa real, 
meu pintor, como lhe chama Filippe I (II de Hespanha), n'uma carta de 14 de 
março de 1583, em que lhe faz mercê de dois moios de trigo de ordenado 
annual. 

«Dom Philipe etc. Aos que esta minha carta virem faço saber que eu ei 
por bem e me praz por fazer mercê a Francisco Venegas, meu pimtor, que 
elle tenha e aja de minha fazemda, do primeiro de janeiro deste anno pre- 
sente de b c lxxx e três em diante, dons moyos de trigo de ordenado cada anno 
com o dito oflicio, que lhe serão assentados e pagos no allmoxarifado das le- 
ziras de Villa Franca da parte dalcoelha. E por tanto mando ao allmoxarife do 
dito allmoxarifado que ora he e ao diante for, que do dito primeiro de janeiro 
deste dito anno em diante de e pague ao dito Francisco Venegas os ditos dous 
moyos de trigo cada anno e pello treslado deste, que será registado no liuro 
dos registos do dito allmoxarifado pello escrivão delle com seus conhecimen- 
tos mando aos contadores que lhe leuem em conta os ditos dous moyos de 
trigo qne lhe assi pagar cada anno e aos vedores de minha fazenda que lhos 
faça asêtar no liuro das ordinárias delia e do dito janeiro em diante Ieuar cada 
anno na folha da asêtamento do dito allmoxarifado pêra lhe nella serem pagos 



1 Torre do Tombo. Livro das Denuncia rões da Inquisição, a partir de 1537, 11. 89. 
Maio, 1903. 20 



154 NOTICIA DE ALGUNS PINTOftES 

pella maneira que dito he, e por firmeza de todo lhe mandei dar este per mim 
asinado e aselladn do meu sello em diante (sic) Antão da Rocha o fez em Lix- 
boa a xiiij dias de março anno de jb e lxxxiij. E eu Manuel dAzeuedo a fiz es- 
creuer. 



! 



OXTV.— Vaz (Diogo).— De 24 de novembro de 1538 existe um alvará 
do cardeal infante mandando pagar a Diogo Vaz, pintor, a quantia de 26:450 
reaes, resto dos 62:650 reaes, em que fora ajustada a obra da samcrestia do 
moesteiro d' Alcobaça onde estam as relíquias do dito moesteiro. Esta obra, a ajui- 
zar pelo custo, não devia ser de pouca monta. A circumstancia de Diogo Vaz 
passar o recibo e assignal-o pelo s?u próprio punho é prova de que elle não 
era um espirito inculto, nem um artífice grosseiro. Raczynski citou em ex- 
tracto o documento alludido, mas, certamente por incorrecção typographica, 
traz errado o seu numero, 8 em vez de 80. 

«Thesoureiro de nosa casa mandamos uos que dees a Djogo Vaaz Pym- 
tor que fez a obra da samcrestia do moesteiro d'Alcobaça onde estam as re- 
líquias do dito moesteiro vinte e seis mill quatro cemtos e cinquoenta reaes 
que lhe mandamos dar em comprimento do paguo dos íxij bj c 1 em que foy 
avalyada a obra que fez na dita samcrestia sobre que se comcertou cõ Pêro 
da Videira vedor que foy do dito moesteiro a qual foy avaliada nos ditos iííj 
bj c 1 reaes segundo delo fomos certo per o terlado da dita avaliaçam em pu- 
blica forma que foy rota ao asynar desta e dos xxxbj reaes que falecem pêra 
o dito comprimento foy paguo no dito Pêro da Videira e vos fazelhe dos ditos 
xxbj iiij c 1 reaes muy bõo paguamento sendo primeiro certo per certidam do 
Licenciado André Lopez procurador do dito moesteiro como pos verba no dito 
coratrato e avaliaçam da obra que he paguo delia e per este e a dita certidam 
e seu conhecimento vos serão leuados em conta — Jorge Diaz o fez em Lix- 
boa a xxiiij de nouembro de jb c xxxbiij°.= cardeal Ifante.» 

«xxbj" iiij c 1 reaes a Diogo Vaaz pintor em comprimento de pago dos ixTj 
bj e 1 reaes em que foy avaliada a obra da samcrestia d' Alcobaça por que dos 
mais seja pago e amse de pôr as verbas necesarias.» 

«Diguo eu Diogo Vaaz pintor que he verdade que recebj de Pêro Sousell 
vymte e seis mill e quatrocentos e cimquoenta reaes comleudos neste desem- 
bargo atras e por verdade que os receby delle lhe dey este per my asynàdo 
oje xj de Janeiro de 1539 — Dyeguo Vaz.» 

« Torre do Tombo. Chanc. de D. Filippe I. Doações. L.» 4, fl. 158. 



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72 




NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 155 

«O Licenciado André Lopez procurador deste mosteiro d'Alcobaça que ora 
per espycyall mandado do Cardeall Nosso Senhor tenho cargo de olhar polias 
cousas delle como veedor do dito mosteiro etc. Faço saber aquantos esta mj- 
nha certydam vjrem e o conhycymento delia em direito pertencer que eu fiz pôr 
a verba ao pee do contrato desta obra de pyntura da samcrystia velha que fez 
este Diogo Vaaz pyntor segundo este alluara de sua alteza atras esprito re- 
quere na quall verba esta decllarado como foy pago desses vynte e seys mjll 
iiij e 1 reaes per que lhe fizerem coprymento dos sesenta e dous mjll seyscen- 
tos e cynquoenta reaes em que ha dita obra foy avallyada per ofycyaes a quall 
avaUyaçam fez Jorge Fernandez tabelliam e por certeza dello pasey a presente 
feita per Diogo Vaaz espriuam que fez o dito contrato e synou aquy comjgo 
oje xxbij de Janeiro de ]b c xxxix anos = Djogo Vaaz = Andreas.t 

«Pêro Sousell paguay a Diogo Vaz estes vynte seys mjll quatrocentos e 
cynquoenta reaes conteúdos neste desembargo do que sojs hobrygado pagar 
deste anno que vem de jb c xxxix e por este desembargo hos levares em conta 
a Fernam de Campos feyto oje bj dias de dezembro de 1538 — André Rodri- 
guez de Beja.» ' 



CXV.— Vaz (Gaspar).— Pelas investigações tão diligentemeute realisa- 
das pelo sr. dr. Maximiano de Aragão, verifica-se a existência em Vizeu, no 
século xvi, de um pintor por nome Gaspar Vaz. As phases da sua vida não 
estão perfeitamente delimitadas, ignorando-se a sua naturalidade, a epocha do 
nascimento e morte, os annos em que residiu n'aquella cidade e quaes as 
obras que executasse, tanto alli como em quaesquer outros pontos. O que se 
colhe d'essas informações é o seguinte: 

«Que no anno de 1540 e tantos fora padrinho de um filho de João Diniz, 
pintor; que em 1566-67, trazia umas casas foreiras ao cabido, dizendo-se, no 
respectivo assento, que era genro de Francisco; que, nos fins do século xvi, 
Maria Lopes, sua viuva, trazia umas casas que haviam sido de Luiz de Pinhel.» ' 

Este Gaspar Vaz é com toda a probabilidade, senão com toda a certeza, o 
mesmo a que se refere a carta ou memorial de Christovão de Figueiredo, que 
foi, por mandado de D. João III, a S. João de Tarouca, vêr e receber as obras 
que fizera aquelle pintor, sendo também incumbido, ao mesmo tempo, de outras 



1 Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte i, maço 60, doe. 80. 

* Maximiano de AragSo, Grão Vasco ou Vasco Fernandes, etc, a pag. 137-138. 



150 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

missões idênticas em Vizeu. O documento não tem data, mas não será poste- 
rior a 1540, anno em qne Gaspar Vaz se achava na cidade de Viriato. Fica, 
pois, reconhecida a paternidade dos quadros de Tarouca; só nos resta alguma 
duvida sobre a verdadeira individualidade representada pelo nome de Gaspar 
Vaz, pois se ainda era vivo em 1560, e a sua viuva apparece nos fins do sé- 
culo, custa um tanto a admittir que a sua existência se prolongasse por tanto 
tempo. 

Deixaria acaso algum filho do mesmo nome, que fosse o marido de Ma- 
ria Lopes? 

Da existência de Gaspar Vaz em Lisboa, em 1514, e trabalhando então 
com outros pintores na officina de Jorge Affonso, tenho conhecimento por uma 
escriptura de emprazamento feita a Gregório Lopes, e em que elle assigna 
como testemunha. Veja-se o artigo relativo a Gregório Lopes. 

t Diz Christovam de Figueredo pintor que Vosa Alteza ho mandou a Sam 
Joam de Terouqua a ver e Receber as obras que fez Guaspar Vaz pintor e assy 
foy per voso mandado a Viseu a Receber outros e por elle hir e vyr estar a 
sua propia custa lhe nam foy nas ditas terras feito algQu pagamento de seu 
trabalho e assy tem feito a Vosa alteza muitos debuxos e mostras de trabalho 
e guasto de tempo e estaa paielhado e prestes pêra em todas as cousas que 
Vosa Alteza lhe mandar que sirua pêra o fazer e nunqua tee oge ouve paga- 
mento nem satisfaçam algQa e requereo e pedio a Vosa Alteza que lhe fizesse 
merçe de lhe tomar huu seu filho que tem muy bõo gramático e latino e dis- 
posto pêra moço da capela do cardeal voso jrmão e Vosa Alteza lhe disse que 
lho lenbrasse. Pede a Vosa Alteza lhe faça merçe de lhe tomar o dito seu fi- 
lho per moço da capella do cardeal. No que Recebera merçe.» ' 



CXVL— Vaz (Pêro). — Residia em Lisboa no reinado de D. Affonso V, o 
qual, por algumas justas razões, lhe deu carta de privilegio em 8 de julho de 
1473. 

Em 1514 apparece um pintor do mesmo nome, que talvez já não seja o 
mesmo que vivia no reinado de D. Affonso V. Muito provavelmente seria ir- 
mão de Gaspar Vaz, com o qual assigna, como testemunha, na mesma escri- 
ptura. Veja-se o artigo anterior e o relativo a Gregório Lopes. 

«Dom Afomso etc, a quamtos esta carta virem fazemos saber que nos que- 
remdo fazer graça e mercee a Pêro Vaaz, pintor, morador em Lixboa por al- 



1 Torre do Tombo. Maço 1 de Fragmentos. 



ESTAMPA VI 

Sousa Viterbo. Noticia de alguns pintores- 






V. 



Ufa fi.- **■ fr ôcA^j^^^pi/i^ 

Jbo r, y ^r^L^- foi»*** tÁJ Jj- ttiJLrr 



Fac-simile de uma petição de Christovão de Figueiredo, publicada a pag. 156 

(HI8T. E MEM. DA ACAD. R. DAS SC. DE LISBOA, NOV. SER., CL. DE SC. MOR., ETC, TOMO X, PT. I.) 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 157 

gúas justas rezoêes que nos a ello mouerom teemos por bem e queremos que 
daquy em diamte seja preuilegiaclo e escusado de pagar em todallas peitas, fini- 
tas, talhas, pedidos, seruiços, emprestidos que agora ou daquy em diamte per 
nos e per o comcelho som ou forem lançados per qualquer guisa que seja nem 
vaa com presos nem com dinheiros nem seja litor nem curador de nenhuas 
pessoas que seja saluo se a tilorya for lidima nem sirua nem uaa seruir em 
outros alguus emcairegos do dito comcelho nem aja nenhuns ofícios delle com- 
tra sua võotade nem seja posto por beesteiro do comto se ataa ora posto nom 
he. Oulrosy queremos que nom poussem com elle em suas casas de morada, 
adegas nem cauallariças nem lhe tomem delias roupa de cama, alfaias de ca- 
sas, palha, ceuada, leenha, galinhas nem outra algQua cousa de seu comtra 
sua võotade. Outrosy queremos que nom seja acomtiado em cauallo nem em 
armas beesta de garrucha nem de pollee nem pareça em allardo com outra al- 
guua comthya, posto que pêra ello aja bees. E porem mamdamos aos juizes e 
coudell por nos na dita cidade e a todollos outros correjedores, juizes e justi- 
ças officiaes e pesoas a que o conhecimento desto pertencer e esta nossa carta 
for mostrada que ajam daquy em diamte o dito Pêro Vaaz por escusado e re- 
leuado dos ditos emcarregos como dito he e o nom costrãgê nem mãdem cos- 
tramger pêra nenhuus delles e lhe cumpra e guardem e faça bem comprir e 
guardar esta nossa carta como em ella he comlheudo, por quamto assy he nossa 
mercee. Dada em Lixbõoa biij de julho de lxxiij.» ' 



OXVII. — Vieira (Domingos).— Houve dois pintores d'este nome, assim 
como, no século seguinte, existiram dois Franciscos Vieiras, que se distinguiam 
pelo epitheto de Lusitano e Portuense, este ultimo posterior áquelle. 

Domingos Vieira foi pintor real, como o seu homonymo, e succedeu-lhe 
no cargo, por sua morte, Bento Coelho da Silveira, que foi nomeado para este 
fim em carta de 15 de outubro de 1678. Não encontrei a carta de nomeação 
de Domingos Vieira, nem outro documento official que lhe diga respeito. 

Cyrillo, como se vê no trecho incluído no artigo seguinte, diz ter visto, 
na portaria de S. Bento, um painel assignado por elle e com a data de 1652, 
representando a arvore genealógica religiosa de S. Bento e S. Bernardo. 

O homonymo d'este Domingos Vieira pôde distinguir-se pelo appellido de 
Serrão e foi-lhe anterior bastantes annos. Veja-se o artigo que segue. 



* Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.» 33, fl. 136 r. 



158 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



CXVIIL— Vieira Serrão (Domingos). — Nasceu em Thomar, sendo filho 
de João Henriques Serrão. Este era de Torres Vedras, mas creou-se, viveu e 
morreu em Thomar, onde desempenhou o cargo de executor dos três quaitos 
e meias aonatas da Ordem de Christo. A mãe ehamava-se Maria Dias; era na- 
tural do Furadouro, mas, á semelhança de seu marido, também se creou e 
viveu em Thomar, onde acabou seus dias. João Henriques Serrão era caval- 
leiro fidalgo da casa d'el-rei, assim como também o foi seu filho. 

Domingos Vieira foi casado com Magdalena de Frias, filha do architecto 
Nicolau de Frias. Todos estes pormenores biographicos se colhem do processo 
de habilitação para familiar do Santo Officio, cargo para que elle fez requeri- 
mento em 1625. Reproduzo abaixo, na integra, esse requerimento. No meu 
Diccionario dos Archileclos, artigo Nicolau de Frias, forneço indicações relati- 
vas á mulher e ao sogro. Domingos Vieira foi nomeado pintor d'el-rei por 
carta de 1 de junho de 1 G 19, em substituição de Amaro do Valle, que havia 
fallecido. 

Cyrillo, nas suas Memorias, diz que Domingos Vieira devia ser fallecido 
em 4641, pois n'esse anno, a 4 de março, fora passado alvará, nomeando, 
para o substituir por sua morte, Miguel de Paiva. Deve, porém, advertir-se 
que no mesmo alvará se declara que Miguel de Paiva já havia sido nomeado, 
com o mesmo fim e pelo mesmo motivo, a 19 de agosto de 1632. 

Na egreja de Santa Iria, de Thomar, que foi propriedade de José Maria 
Nepomuceno, encontrou este architecto, por baixo dos degraus da capella de 
Jesus, a campa sepulchral da família de Domingos Vieira Serrão, mas n'ella 
não se precisa a epocha da morte do pintor. A data de 1648, que ahi se lê, 
tanto poderia indicar o seu fallecimento como o anno em que se acabou a se- 
pultura e lavrou o letreiro. No alto da lapide, o escudo dos Vieiras e Serrões; 
pela parte inferior a seguinte legenda: 

S.* D D." Vr. 1 Seram cavl.' fidalgo 
D casa de S. Mag. D S. Molher Madaleia D Frias e erdeiros. 1648 

Cyrillo Volkmar Machado, a pag. 71-72 das suas Memorias, publica a se- 
guinte biographia: 

tFez cousas excellentes, diz o nosso guiador, com muita doçura, modéstia, 
fidalguia e bom debuxo. Entendeo bem a perspectiva, como se vê no tecto do Hos- 
pital Real, intenção sua. Recebeo muitas honras de Ftlippe 3." e 4." por quem 
foi chamado a Madrid para pintar no Retiro, aonde tem cousas admiráveis. De- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 159 

senhou o desembarque de Filippe 2.°, em Lisboa, que foi gravado por João 
Schorcquens. Em 1608 sérvio de Juiz na Meza de S. Lucas; e cré-se que mor- 
rera no de 1641, anno em que lhe suecedeo Miguel de Paiva, no lugar de Pin- 
tor do Rei. Na Portaria de S. Bento está pintada em grande painel a Arvore 
Genealógica Religiosa de S. Bento, e S. Bernardo, e tem em letras grandes o 
nome de Domingos Vieira, com a era de 1652; mas se a firma não he sup- 
posta, podemos inferir que será de outro Pintor do mesme nome.» 

Effectivamente existiu um outro Domingos Vieira, como se pôde verificar 
no artigo anterior. 

À estampa, gravada por João Schorcquens, acompanha a obra de João Ba- 
ptista Lavanha: Viagem da Calholica Real Magestade d'elrei D. Filippe II, im- 
pressa em Madrid, em 1622. 

Domingos Vieira trabalhou juntamente com Simão de Abreu no convento 
de Christo de Thomar, como se pôde vêr no artigo referente a este ultimo. Da- 
rei agora aqui as verbas, conteúdas nos livros das despezas das referidas 
obras, que mais directamente dizem respeito a Vieira. 



Charola 

«De tinta & ouro que se mandou comprar a Lx. a para as pinturas que se 
mandão fazer na charola — desanoue mil & oito centos á- simqo reis. — Estes íix. biij» xxb 
xíx biij c xxbij vão carregados a domingos Viera a fl. 106.» 

«Seis mil reis que se derão aos pintores & aos douradores que andarão bj 
estas duas semanas passadas * nas ditas charola (sic) a conta do preço que 
bade aver por cada hú dos altares da dita charola. 

Domingos Vieira. » fl. 103 

«Ao pintor seis mil reis a conta do que hade auer por cada altar. Ej 

Domingos Vieira.* fl, 103 T . 

«Na mesma feria* se derão a Simão d abreu dez mil reis <£ a Domingos 
Viera ambos pintores outros dez mil reis a conta das pinturas & ouro que tem xx 
á sua conta dos altares da charola. 

* Domingos Vieira. abreu.* 



1 De 23 e 30 de maio de 1592. 

2 De 20 de junho de 1592. 



160 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

iRecebeo mais domingos Vieira pintor, á conta das obras que pinta na 
xij charola doze mil reis. 

fl. 105 Domingos Vieira.» 

«Mais se derão a domingos Vieira vinte mil A seis mil reis — a saber — 
vinte mil reis para tintas & ouro 1 da charola á- os seis mil reis a conta de 
suas mãos et assinou aqui com o padre frei Adrião e com o padre frei ber- 
xxbj nardo commigo o Licenciado simão Ribeiro escriuão das ditas obras. 

frey Adrião 
fl- 106 «frei Bernardo. Domingos Vieira.» 

x «A domingos Vieira pintor dez mil reis a conta dos altares que tem á sua 

conta. 
fl- 106 v. Domingos Vieira.» 

«Sabbado oito de Agosto de (592 recebeo Domingos Vieira pintor quo- 
renta mil reis a conta dos altares & capellas que estão a sua couta — assim a 
conta do que tem feito como o que recebeo para mandar a Lx. a para tintas e 
ouro das ditas cappellas á- altares á assinou com o padre dom prior & com o 
padre frei bernaldo & commigo o Licenceado Simão Ribeiro escrivão das di- 
ft tas obras. 

frey Inocêncio -J- d. prior 
tfrey Bernardo. Domingos Vieira.» 

A. 107 Simão Ribeiro 

ílíj «A domingos Vieira pintor — quatro mil reis a conta do que se lhe deve 

dos altares & capella da dita charola.» 

b bij* «Somma esta feria de 14 de agosto de 1592 simquo mil e setecentos reis 

— os quaes logo receberão os ditos officiaes que aqui asinarão com o padre 
dom prior e com o padre frej bernardo & commigo o Licenceado Simão Ri- 
beiro escrivão das ditas obras. 

frey Innocencio •{• d. prior 
tfrey Bernardo Symão gttomez.» 

fl. 108 Domingos Vieira 

xfj «Doze mil reis a Domingos Vieira pintor a conta do que se lhe deve dos 

altares e capellas que pinta na charola e assinou aqui. 

Domingos Vieira.» 



1 Vide a primeira verba a fl. 103. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 161 

«No mesmo dia se fez concerto com o dito pintor sobre o preço de co- 
munas acabadas na traça que mandou S. Mg." & tomou cada bua em seis 
mil réis. 

frey Adrião 

«frey Bernardo. Domingos Vieira.* 

«Sabbado 5 dias do Mes de Setembro se derão a Domingos Vieira a conta 
do seruiço que fez nas ditas capellas e colunas da dita charola — doze mil reis xij 
e assinou aqui com o padre dom prior & cõ o padre frej bernardo e commigo 
o Licenceado Simão Bibeiro, escriuão das ditas obras. 

frey Inocêncio -f- d. prior 
a frey Bernardo. Domingos Vieira.* &■ 109 

tA domingos Vieira pintor trinta mil reis a conta das colunas da charola xxx 
que tomou para pintar e dourar e assinou aqui. 

Domingos Vieira.» 

«Ao mesmo domingos viejra, pintor doze mil reis a conta das ditas co- xi J 
lumnas e assinou aqui. ' 

Domingos Vieira.* A 109 v. 

«Recebeo domingos Viejra pintor a conta dos altares e columnas que tem DÍi J 
a sua conta — oito mil reis.» 

«Soma esta f. que se fez sabbado que forão três dias do Mes de outubro 
de 1592 doze mil e setenta reis — que recebeo o dito domingos Viejra e o xij. Lxx 
dito Simão gomez que aqui assinarão cõ o padre dom prior e cõ o padre frei 
António de Presença e comigo o Licenciado Simão Ribeiro escriuão das ditas 

obras.» 

fr. António de Presença 

* Domingos Vieira. frey Inocêncio -j- d. prior.* 

Simão guomez fl. no v. 

«Recebeo domingos Viejra pintor nesta feria 2 a conta dos altares e co- R 
lunnas que pinta e doura na charola seis mil reis.» fl - 112 



1 Pagamento feito a 19 de setembro de 1592. 

2 Férias de 10 de outubro de 1592. 

Maio, 1903. 21 



162 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

xx «A domingos Viejra pintor vinte mil reis a conta dos altares e colnmnas 

fl. H2 v. que doura e pinta.» ' 

xh «Domingos Viejra pintor de suas mãos tintas e ouro recebeo quinze mil 



reis 



i 



fl. 113 v. Domingos Vieira.* 

J «Domingos Viejra pintor recebeo nesta semana oito mil reis.» 3 

ti. 114 

ífb «Domingos Viejra recebeo quorenta e simquo mil reis a conta dos ditos 

retabolos & columnas & cappella de Jesu para ouro & tintas e feitio de suas 
n. ih t. mãos.» 4 

biíj «Domingos Vieira recebeo oito mil reis a conta das ditas capellas e co- 

fl. 116 umas.» 5 

biíj «Domingos Viejra pintor recebeo vinte cruzados a conta dos altares e 

fl. 117 v. colunas que doura e pinta na dita charola.» 6 

«Aos 28 dias do Mez de dezembro de 1593 7 se fez lanço e se aualiou o 
q podia montar as pinturas & ouro & feitio dos três portais — a saber — o da 
cappella de Jesu & da cappella de nossa S." & da seruentia com todo o mais 
q estaua por fazer no circuito da charola, das colunas de baixo ate o chão á 
se deu tudo a domingos vieira por preço d- contia de sesenla e quatro mil 
reis por ser o mais barato preço de todos a qual contia se deu por parecer 
do padre frei Adrião e do padre frei António de Presença á o dito domingos 
Viejra aceitou acabar toda a dita obra & se obrigou a (sic) a fazer em toda a 
perfeição & por verdade assinarão aqui este termo todos três commigo o Li- 
cenceado Simão Ribeiro escriuão das ditas obras. 

frey Adrião 
tfrej António de presença. Domingos Vieira.* 

Symão Ribeiro 



» Féria de 17 de outubro de 1592. 
*Idem de 31 de outubro de 1592. 
3 Idem de 7 de novembro de 1592. 
♦ Idem de 14 de novembro de 1592. 

5 Idem de 28 de novembro de 1592. 

6 Idem de 19 de dezembro de 1542. 

1 Aliás de 1592; o Licenciado Kibeiro, como se vê, começava a datar o anno de 1593 
do Natal de 1692. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 163 

«Destes sesenta e quatro mil reis se deu o dito domingos Vieira por pago 
no q se monta nas suas addições q vão assima carregadas sobre elle, por cons- 
tar e se achar que tem recebidos sesenta á- oito mil reis mais do q se mon- 
tava no preço de cada hú dos altares A- de cada hua das ditas colunas a sa- 
ber cada altar a vinte mil reis á- cada hua das ditas colunas a seis mill reis & 
os quatro mil reis q mais se montão alem dos ditos sesenta c quatro mil reis 
se derâo ao dito pintor por as faixas de ouro q felipe terçio acreçentou em 
cada hua das ditas colunas — & assinou aqui o padre frei Adrião & o padre 
frei António & o dito domingos Viejra — comigo o Licenceado Simão Ribeiro. 

frey Adrião 
ífrej António de presença. Domingos Vieira.» 

Symão Ribeiro tl.118v.eH9 

«Domingos Viejra pintor recebeo vinte cruzados a conta dos retabolos da 
cappella de Jesus & assim somou ao todo esta feria q se fez sábado — seis 
dias de Feuereiro de 1593 — oito mil e quatrocentos reis dos quaes recebeo o 
dito pintor oito mil reis & os officiaes quatro contos e sessenta reis. E assi- 
nou por elles o mestre Simão Gomes & o dito pintor com o padre supperior 
perante mi — o Licenciado Simão Ribeiro escriuão das ditas obras — diz a an- 
tre linha sesenta reis. biij iiij e Lx 

frey lopo suppor 

« Domingos Vieira. Simão y nomes.» fl. 122 

«Soma esta feria q se fez sabbado 20 dias de feuereiro de 1393 com três 
mil e setecentos reis que derão a domingos Viejra de jaspear as ilhargas dos 
altares — dez mil e quatrocentos e nouenta e simquo reis que logo receberão * iiij* RL b 
os ditos officiaes que aqui assinarão com o padre frei António perante mim o 
Lecenceado Simão Ribeiro escriuão das ditas obras. Diz a antre linha e sete 
centos reis. 

frei António de presença 

« Domingos Vieira. Symão Guomes.» fl. 123 

«Na mesma feria * recebeo domingos viejra pintor oito mil reis a conta buj 
dos retabolos da cappella de Jesu A- assinou aqui com o padre frej António e 
comigo dito escriuão. 

tfrej António de presença. Domingos Vieira.» 

Symão Ribeiro A. m v. 



1 Féria de 27 de fevereiro. 



164 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

H «Sabbado 17 de Abril de 1593 recebeo domingos Vieira pintor vinte cru- 

zados — á conta dos retabolos da cappella de Jesu & assinou aqui com o pa- 
dre frej Adrião perante mim scriuão das ditas obras. 

11. 125 "frey Adrião. Domingos Vieira.» 

xx «Vinte mil reis a domingos Viejra pintor para ouro e tintas para os pees 

dos profetas a saber, dezaseis mil reis para ouro e tintas e quatro mil reis 
para as mãos. ' 

ifrey Bernardo. Symão Ribeiro.» 

fl- J 25 Domingos Vieira 

íiíj «Sabbado 5 dias de Junho Recebeo domingos Viejra pintor quatro mil 

reis a conta das pinturas que faz nas colunas abaixo dos pees dos profetas & 
assinou aqui com o padre frei berualdo perante mim dito escriuão este termo 
& os assina. 

tfrey Bernardo. Domingos Vieira.» 

Symão Ribeiro 

«Sabbado doze dias de junho de 1593, recebeo domingos Viejra pintor a 
ííij conta da obra dos pees dos profetas, quatro mil reis & assinou aqui com o pa- 

dre frei bernaldo per ante mim Simão Ribeiro scriuão das ditas obras. 

fl. 525 v. tfrey Bernardo. Domingos Vieira,» 

«Sabbado 26 dias do Mes de Junho de 1593 recebeo domingos Vieira pin- 
xij tor — doze mil reis a conta dos ditos pees dos prophetas e bandas que pin- 

tou e dourou — com os quaes doze mil se encherão os quorenta mil reis em 
que se fez concerto com elle por a dita obra — & assinou aqui com o padre 
frei bernaldo perante mim o Lecenceado Simão Ribeiro escriuão das ditas obras. 

« Domingos Vieira. frey Bernardo.» 

Symão Ribeiro 

«Sabbado 17 dias do Mes de julho recebeo domingos Vieira pintor — qua- 



1 Deve ser em 24 de abril. 



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NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 165 

tro mil reis a conta de cappella de Jesus A- assinou aqui com o padre frei i'» 
Adrião perante mim dito escriuão. 

frey Adrião 
tfrei Bernardo. Domingos Vieira.* fl - 12 °' 

«Na mesma feria recebeo o dito domingos viejra pintor vinte mil reis >•" 
para ouro e tintas para a obra que Sua Mag. e manda fazer dentro da charola 
da cappella mor & assinou aqui com o padre frei Adrião & frei bernaldo pe- 
rante mim dito escriuão.' 

frey Adrião 

tDomingos Vieira. frei Bernardo, d A- 126 v. 

«Aos 24 de Julho (de 1593) tomou Domingos Viejra as colunnas da cha- 
rola da igreja do pee delias ate a simalha do meo pintadas e douradas em toda 
a perfeição na respondencia das colunnas dos altares pequenos] — em duzentos 
e dez mil reis — & assinou este termo com o padre frei Adrião e com o pa- 
dre frei bernaldo perante mim o Lecenceado Simão Ribeiro escriuão das ditas 
obras. 

frey Adrião 
«frey Bernardo. Domitigos Vieira.» 

Simão Ribeiro 

«Derão mais ao dito domingos Vieira sesenta mil reis por a obra que 
mais lhe acrecentarão na dita charola e assinou aqui. 5 fl. so. 

Domingos Vieira.» 



«Sabbado 24 de Julho recebeo domingos Viejra dez mil reis a conta dos 
retabolos da cappella de Jesus & assinou aqui com o padre frei Adrião e com 
o padre frei bernaldo perante mim dito escriuão. 

frey Adrião 
tfrei Bernardo. Domingos Vieira. » 



X 



'( 



Sabbado xxxj de Julho recebeo domingos Vieira pintor três mil reis mais ííj 



•Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Christo. L.° 115. 
* Idem. Idem. L.« 124. 



i 66 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

para ouro e tintas da charola mor (?) & assinou aqui com o padre frei Adrião 
perante mim escriuão. 4 

fl. 126 v. ífrey Adrião. Domingos Vieira.* 

l7« «Na mesma feria 2 recebeo Domingos Viejra pintor simquoenta mil reis 

para ouro da charola & assinou aqui com o padre frei Adrião e com o padre 
frei bernardo perante mim dito escriuão. 

frey Adrião 
tfrey Bernardo. Domingos Vieira.» 

xy «Sabbado 21 de Agosto de 1593 recebeo domingos Viejra doze mil reis 

a conta da obra que faz na charola do meo & assinou aqui com o padre frey 
Adrião e com o padre frei Bernaldo perante mim dito escriuão. 

frey Adrião 
li. 127 v. tfrey Bernardo. Domingos Vieira.» 

«Sabbado 28 de Agosto de 1393 recebeo domingos Viejra simquoemta 

íTu mil reis para ouro da dita charola mor & assinou aqui com o padre frey Adrião 

e com o padre frei Bernaldo & commigo o Lecenceado Simão Ribeiro scriuão 

das ditas obras. 

frey Adrião 
«I Domingos Vieira. frey Bernardo.» 

«Sabbado quatro dias de setembro de 1593 recebeo domingos Vieira a 
ííij conta da charola do meo quatro mil reis & assinou aqui com os padres frei 

Adrião & frei bernaldo perante mim dito scriuão. 

* Domingos Vieira. frei Adrião.» 

ti. 128 frey Bernardo 

«Sabbado 11 de setembro de 1593 recebeo domingos Vieira pintor seis 
Cj mil reis a conta da obra da charola do meo & assinou aqui com os padres 

frey Adrião e frei bernaldo perante mim dito scriuão Simão Ribeiro. 

frey Adrião 
ifrey Bernardo. Domingos Vieira.» 



1 Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Ghristo. L.° 115. 
1 Feri» de 7 de agosto de 1593. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 167 

«Sabbado desoito de setembro de 1593 recebeo domingos Viejra sim- 
quenta mil reis para ouro e tintas da dita cbarola e assinou aqui com os di- L." 
tos padres. 

frey Adrião 

«frey Bernardo. Domingos Vieira.» fl- 128 v. 

«Sabbado 25 de setembro recebeo domingos Viejra quatro mil reis a conta 'i'j 
das obras da dita cbarola & assinou aqui com os ditos padres perante mim 
dito scriuão. 

frey Adrião 

« Domingos Vieira. frey Bernardo. » 

«Sabbado 2 dias do Mez de Outubro de 1593 recebeo domingos Viejra 
oito mil reis a conta da dita charola do Meo & assinou aqui com os padres biíj 
frei Adrião A- frei bernaldo perante mim dito scriuão — & assinou Theodosio 
de Frias, companheiro do dito Domingos Viejra — por que elle os recebeo. 

«frey Adrião. Theodosio de frias.» 

frey Bernardo fl. 129 

«Sabbado 16 dias de outubro de 1593 recebeo domingos Viejra vinte mil *x 
reis a conta da obra da charola do Meo e assinou aqui com os padres frei 
Adrião e frei Bernaldo perante mim o Lecenceado Simão Ribeiro escriuão das 
ditas obras. 

frey Adrião 

«frey Bernardo. Domingos Vieira.» 

«Recebeo mais o dito domingos Vieira simquo mil reis a conta da cappela b 
de Jesus e assinou aqui com os ditos padres perante mim dito escriuão. 

frey Adrião 
«frey Bernardo. Domingos Vieira.» fl- 129 v. 

«Sabbado 6 dias do Mes de nouêbro de 1593 recebeo domingos Viejra 
dez mil reis d- assinou aqui com o padre frei Adrião, não faça duuida o ris- x 
cado e assinou o padre frei bernardo. 

frey Adrião 
«frey Bernardo. Domingos Vieira. » 

Ribeiro fl- 130 



168 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Sabbado treze dias do Mes de nouembro recebeo domingos Viejra oito 
mil reis a conta da dita charola á- assinou aqui com os padres frei Adrião e 
frei bernaldo comigo dito escriuão. 

frey Adrião 
tfrey Bernardo. Domingos Vieira. » 

Simão Ribeiro 

«Sabbado li de nouembro de 1593 se fez conta com domingos Viejra 
pintor sobre a obra da charola /digo /sobre os arquos á- colunnas da charola 
do meo & se achou que lhe forão dados quatro arquos da dita charola para 
os dourar à estofar na maneira em que hora estão acabados — em duzentos e 
setenta mil reis e por estar ja entrege dos ditos duzentos e setenta mil reis 
se mandou fazer este termo que o dito domingos Vieira assinou no dito dia 
em o qual se acabou de pagar dos ditos duzentos e setenta mil reis — e com 
elle assinarão o padre frei Adrião & frei bernaldo perante mim dito Licenciado 
Simão Ribeiro scriuão das ditas obras. 

frey Adrião 
tfrey Bernardo. Domingos Vieira.* 

fl. 130 t. Symão Ribeiro 

«Oje 4 dias do mez de Julho de 1594 se pagarão a domingos Viejra pin- 
íiij tor treze mil reis que se lhe fiquarâo devendo da obra assima dita por hú co- 

nhecimento de fora que se lhe fez no dia que se fez a conta assima e posto 
que o assinado diga que fiqou pago de todo o que se lhe deuia a conta dos 
ditos arqos decraro que se lhe fiquarâo devendo os ditos treze mil reis pello 
que se lhe deu o conhecimento aqui junto & acostado ' e oje se lhe pagarão os 
ditos treze mil reis & por verdade fiz este termo que o dito domingos Vieira 
assinou com o dito padre frei Adrião e frei bernaldo commigo dito Licenciado 
Simão Ribeiro scriuão das ditas obras. 

frey Adrião 
«frey Bernardo. Domingos Vieira.* 

11. 131 Symão Ribeiro 

xTj «No dito dia recebeo mais o dito domingos Viejra doze mil reis do Reta- 



lio está; naturalmente extraviou-se. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 169 

bolo da cappella de santiago & assinou aqui com os ditos padres frei Adrião 
e frei bernaldo comigo dito scriuão. 

frey Adrião 
«frey Bernardo. Domingos Vieira.* 

Symão Ribeiro 

«Recebeo mais o dito domingos Vieira no dito dia sesenta mil reis para 
ouro e tintas para as outras quatro colunas do rosto da igreja que no dito dia 
se começou de dourar & pintar & assinou aqui com os ditos padres frei Adrião 
e com o padre frei bernaldo perante mim dito scriuão. 

frey Adrião 
* frey Bernardo. Domingos Vieira." 

Simão Bibeiro fl- 131 v. 

«Sabbado 23 dias de Julho de 1594 se derão a domingos Viejra pintor 
sesenta mil reis para mais ouro e tintas dos ditos quatro arquos da dita cha- Lx 
rola por se ver que estava ja gastado o ouro para que se derão os outros se- 
senta mil reis assima ditos e assinou aqui com os ditos padres frey Adrião 
Thezoureiro do dito dinheiro e com frei bernaldo perante mim dito scriuão. 

«Mais se derão ao dito pintor & a seus companheiros e dito 1 digo a conta 
do dito pintor seis mil reis somou toda a dita feria sesenta e sete mil reis. Bj 

frey Adrião 
d frey Bernardo. Domingos Vieira.v 

Symão Bibeiro fl. 133 

«Na mesma feria 2 se derão a domingos Viejra pintor e a seus companhei- 
ros seis mil para a dita pintura da charola & assinou aqui com os ditos pa- 
dres e assim somou toda a dita feria sete mil e quatro centos e oitenta reis. p.« toda a f. â 

«Mais se derão a Sueiro seruidor oitenta reis. E decraro que somou toda 
a feria (sete) 3 mil e quinhentos e sesenta reis. bij b« li 

frey Adrião 
«frey Bernardo. Domingos Vieira.» 

Symão Bibeiro A. 133 v. 



'Estão riscadas da palavra companheiros as que vão sublinhadas do semiço desuasmãoi 
no assentar e o dito ouro e tintas seis mil. 
* De 6 de agosto de 1594. 
3 Falta esta palavra. 

Maio, 1903. 22 



170 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

R «Quorenla mil reis ' a domingos Vieyra á conta das colunas da dita cha- 

rola á assinou aqui com o padre supperior & com o padre frey bernaldo em 
absentia do padre frei Adrião. 

frey Lopo supprior 
«frey Bernardo. Domingos Vieira.» 

Symão Ribeiro 

"'j «Sabbado 20 dias de Agosto de 1594 se derão a domingos Vieyra quatro 

mil reis. 

frey Adrião 
11. 134 *frey Bernardo. Domingos Vieira.» 

Ribeiro 

biíj «Recebeo domingos Viejra pintor' vinte cruzados á conta das colunas da 

charola <£ assinou aqui. 

frey Adrião 
fl - 134 v - tfrey Bernardo. Domingos Vieira.» 

Ribeiro 

^ «Sabbado 10 dias de setembro se derão a domingos Viejra pintor sesenta 

Lx mil reis para ouro e tintas e assinou aqui com os ditos padres. 

fl. 135 "frey Adrião. Domingos Vieira.» 

biij «Sabbado 24 de setembro recebeo Domingos Viejra oito mil reis á conta 

da dita obra da charola & assinou aqui com o padre frei Adrião perante mim 
dito scriuão. 

fl. 13S t. i frey Adrião. Domingos Vieira.» 

«Na mesma feria (l. u de outubro) recebeo domingos Viejra pintor a conta 
bj da cappella de Jesu seis mil reis & assinou aqui com o padre frei Adrião pe- 

rante mim dito scriuão. 

tfrey Adrião. Domingos Vieira.» 

fl. 136 Ribeiro 

£iij «Mais se derão na mesma feria a Domingos Viejra pintor vinte cruzados 



1 Em 13 de agosto. 
1 Em 3 de setembro. 



NOTICIA DE ALGUXS PINTORES 171 

a conta da charola e assinou com o dito padre frey Adrião perante mim dito 
scriuão. 

d frey Adrião. Domingos Vieira, * 

«Sabbado 5 dias de nouembro de 1594 se derão a domingos Viejra dez * 
mil reis a conta, da obra da charola á assim ficou pago de toda a obra das co- 
lunas da dita charola e assinou aqui com o padre frei Adrião perante mim o 
Lecenceado Simão Ribeiro scriuão das ditas obras. 

tfrey Adrião. Domingos Vieira.* 

«No mesmo dia recebeo o dito domingos Viejra vinte cruzados a conta biíj 
da obra da cappella de Jesu á- assinou aqui com o padre frei Adrião perante 
mim dito scriuão. 

tfrey Adrião. Domingos Vieira.* fl. 13ti v. 

«Sabbado 12 dias de nouembro de 1594 recebeo domingos Viejra a conta 
da' cappella de Jesu quatro mill reis e assinou aqui com o padre frei Adrião ÍÍTj 
perante mim o Lecenceado Simão Ribeiro scrivão das ditas obras. 

tfrey Adrião. Domingos Vieira.* 

«Sabbado 19 de nouembro de 1594 recebeo domingos Viejra dous mil T] 
reis a conta da obra da cappella de Jesu e assinou aqui com o padre frey 
Adrião perante mim o Lecenceado Simão Ribeiro scriuão das ditas obras. 

ifrey Adrião. Domingos Vieira.* fl - Vil 

«Na mesma feria de 26 de novembro de 1594 recebeo Domingos Viejra 
quinze mil reis a conta de trinta mil em que tomou para estofar simquo das xb 
figuras grandes das dez que estão dentro na charola & assinou aqui com o pa- 
dre frei Adrião perante mim dito Lecenceado scriuão das ditas obras. 

«frey Adrião. Domingos Vieira.» 

«Sabbado 17 dias de Dezembro de 1594 recebeo domingos Viejra quinze 
mil reis a conta das imagês de dentro da charola á- fiqou pago de todos os 
trinta mil reis em que lhe forão dados & assinou aqui com o padre frey Adrião xb 
perante mim Simão Ribeiro scriuão das ditas obras.» 



i 72 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES ^ 

"j «Recebeo mais o dito domingos Viejra três mil reis a conta da obra da 

cappella de Jesu <& assinou aqui ambos estes termos assima. 

tfrey Adrião. Domingos Vieira.* 

«De hQ bago (báculo) que se fez para são basilio & de hua chaue para S. 
pedro e de picar a mesma pedra & das letras que se abrirão que por (tudo) 
y C" xx são dous mil e cento e vinte reis. 

frey Adrião 

«Resebi por diogo prestes se\s(cen)lo$ reis pêra lhos dar por o bago 
asima dito. 

fl- '37 t. «Symão guomez. Domingos Vieira.* 

iSabbado o derradeiro dia do mez de dezembro de 1594 recebeo domin- 
iiij gos Vieira quatro mil reis a conta da cappella de Jesu & assinou aqui com o 

padre frey Adrião perante o dito scriuão. 

fl- *38 tfrey Adrião. Domingos Vieira.» 

«Na mesma feria ' recebeo domingos Vieira quatorze mil reis a conta da 
cappella de Jesu e assinou aqui com o padre frey Adrião perante mim dito 
xiiij scriuão — digo que recebeo na dita feria quatorze mil reis. 

fl- 138 v. tfrey Adrião. Domingos Vieira.* 

«Na mesma feria 1 recebeo domingos Viejra simqo mil reis de hu dos pro- 
fetas que pintou e he o primeiro dos doze que estão ao redor da charola A 
assinou aqui com o padre frei Adrião per ante mim dito scriuão. 

tfrey Adrião. Domingos Vieira.* 

«Oje sabbado o primeiro dia de Abril de 1595 3 recebeo domingos Viejra 



1 De 7 de janeiro de 1595. 
* De 14 de agosto de 1595. 

> Naturalmente tinha sido pago por lembrança e ió entáo se lançou no livro, fora da or- 
dem chronologica. 



NOTICIA DK ALGUNS PINTORES 173 

do padre frei damião per hua carta do padre frei Adrião trinta mil reis pêra »« 
ouro e tintas, a saber, vinte e dons mil reis que se lhe devião de dourar a ma- 
çenaria da cappella de Jesu, & fiqa a dever oito mil reis que satisfará na mais 
obra que tem para fazer na dita cappella A assinou aqui com o padre frei 
Adrião 1 perante mim dito scriuão. 

Domingos Vieira.» fl - 139 

«Sabbado 14 de outubro de 1595 recebeo domingos Vieira a conta dos 
altos fsic) da charola que agora se começarão a pintar dous mil reis — & as- ; j 
sinou aqui com o padre dom prior perante mim dito scriuão, diz (sic) quatorze 
de outubro. 

<í[rey Adrião dom prior. Domingos Vieira.» fl. 140 v. 

«Na mesma feria 2 recebeo domingos Vieira pintor a conta da charola do 
meo quatro mil reis & assinou aqui com os padres frey Adrião e frey Bernaldo 
perante mim dito scriuão. 

*frey Adrião. Domingos Vieira.» 

frey Bernardo fl. 153 t. 

«Sabbado 17 dias do mez de junho de 1595 recebeo Domingos Vieira a 
conta da capptlla de Jesu vinte mil reis em os quaes fiquão metidos os oito mil íí 
reis que fiqou devendo as folhas cento e trinta e nove na volta.» 

«Mais recebeo oitocentos reis de dourar e emcarnar o serafim do sacrário 
A assinou aqui estes termos com o padre dom prior perante mi dito escriuão. 

nfrey Adrião dom prior. Domingos Vieira.» fl. 155 

«Na mesma feria 3 recebeo domingos Vieira pintor dous mil e quatrocen- yiiij» 
tos reis de oito linhas de ferro que mandou pintar de vermelho & assinou aqui 
com o padre frei Adrião perante mim dito scriuão. 

Domingos Vieira.» 4 fl. 232 

1 Que por signal náo assignou. 

2 Também esta verba, paga em 14 de agosto de 1593, está entre a conta dos carpinteiros 
e serralheiros. 

' De 14 de janeiro de 1595. 

4 Esta verba, que também frei Adrião se esqueceu de aisignar, acha-se egHalmente entre 
as contas dos carpinteiros, pedreiros, etc. 



174 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

bj o O primeiro de Abril 1 recebeo Domingos Viejra seis mil reis a conta do 

retabolo do dormitório, 
fl- 58 Domingos Vieira.»* 

«Illustrissimo Senhor. — Dis Domingos Vieira natural e morador da villa 
de Thomar, caualeiro fidalgo da casa de Sua Magestade e seu pintor de ollio 
que elle tem desejos de seruir o Santo Officio no cargo de famiiliar, e porque 
tem as partes que se requerera. Pede a Vossa Senhoria Illustrissima que man- 
dando-se jnformar de como não tem impedimento algum para o poder ser o 
admita ao dito cargo. E. R. M.» 

«O pay do suplicante Domingos Vieira de que foi filho natural se cha- 
maua João Anrriques Serrão caualeiro fidalgo da casa dei rei, criou-se, uiueo, 
e morreo na villa de Thomar aonde seruio o cargo de executor dos três quar- 
tos e meãs anatas da ordem de Christo foi natural de Torres Vedras seu pay 
e mai se chamarão Miguel Anrriques e Isabel Serram. A mãy do suplicante 
se chamou Maria Dias que tãobem se criou, uiueo e morreo na villa de Tho- 
mar e foi natural do Furadouro duas legoas de Tomar, freguezia de Nossa Se- 
nhora de Seiça, termo da villa de Ourem, filha de João Dias Feuereiro e de 
Vitoria Alures gente mui antiga 

«Os jnquisidores de Lixboa mandem fazer esta diligencia na forma do es- 
tilo do Santo Officio e feita a inuiem ao conselho, em Lisboa 4 de julho de 
1625. Bispo Inquisidor Geral.» 5 

«Dom Felippe etc, faço saber aos que esta cartta virem que havendo res- 
peito a boa informação que tive da suficiência e partes de Domingos Vieira, 
pintor dolios (sic) e comfiando delle que no de que o encareguar seruira bemefiel- 
menle, como a meu seruiço cunpre, ei por bem e me praz de lhe fazer mercê 
do officio de meu pintor, que esta vago por falicimento de Amaro do Valle, o 
qual o ditto Domingos Vieira terá e seruira em quanto o eu ouuer por bem e 
não mandar o contrario, com declaração que tirandolho ou extingindolho (sic) 
por qualquer cousa que seja lhe não ficará minha fazenda obriguada a sasti- 



1 Esta verba, lançada assim n'um livro de lembranças depois de outra de 9 de novembro 
de 1593, deixar-nos-hia em duvida, quanlo ao anno a que pertence, se quem a lançou não es- 
crevesse á margem esta feliz nota — véspera de patroa. — Vê-se pois que foi paga n'um anno 
em que a Paschoa cahiu a 2 de abril, caso que no século xvi só se deu em 1553, 1564, 1589 e 
1600. Começando as lembranças do livro ém 1591, e acabando em junho de 1601, segue-se que 
o facto se realizou n'este período, sendo portanto a referida verba do 1.* de abril de 1600. 

2 Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Christo. L.° 124. 

3 Idem. Habilitações do Santo Officio. Maço 2. Domingos, n.° 60. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 175 

facão algua e avera com elle de mantimento hordenado em cada hum anno 
cinco mil rs. em dinheiro e hum moio de triguo, que he outro tanto como ti- 
nha e avia com o dilto officio o ditto Amaro do Vaile e as pessoas qne o ser- 
uirão amte delle que lhe será pago na mesma partte que a elle se lhe paga- 
uão; pello que mando a Gonçallo Pires de Carualho, fidalgo de minha cassa, 
provedor de minhas obras . . . António de Barros a fez en Lixboa ao primeiro 
de junho de seis centos e dezanoue. Sebastião Perestrello o fez escreuer.» 1 



CXTX. — Vieira (Gaspar). — Pintor de .óleo e de imaginaria. Por alvará 
de 25 de junho de 1577 foi dispensado dos Encargos da bandeira de S. Jorge. 
No artigo Rezende (Thomé da Costa de) já deixei exarados os nomes de ou- 
tros pintores a quem foi concedida egual mercê. 

Este artista è dos que teem passado deconhecidos até agora. 

«Eu elRey faço saber aos que este aluara virem que avêdo respeito ao 
que na petição atras escripta diz G. ar V. ra e vistas as causas que alegua e a 
êformaçã que o licenceado Ruy Fernandez da Castanheda do meu desêbarguo, 
corregedor do ciue! desta cidade de Lixboa per meu mãdado tomou acerqua 
do conteúdo na dita petição, e como pela dita êformaçã cõstou ser o dito Gas- 
par Vieira hum dos milhores pintores de imaginaria dolio que ha nestes Rei- 
nos e a dita arte de pintura dolio e imaginaria ser ávida e reputada por no- 
bre em todos os outros Reinos ey por bem e me praz que o dito Gaspar Vieira 
não seja daqui em diãte obrigado aa bandeira de Sam Jorge nem aos êcarguos 
delia nem a outros algús êcarguos dos a que se custumão obrigar os olBciaes 
macanicos, e isto sem embarguo da prouisão per que el Rei meu senhor e avo, 
que Deus tem, anexou os pintores indistintamente aa dita bandeira de Sam 
Jorge e de quaes quer outras prouisões, regimentos e posturas da camará 
desta cidade de Lixboa que em contrario aja e mando aos vereadores e pro- 
curadores da dita cidade e aos procuradores dos mesteres delia, e a quaes quer 
outras justiças, officiaes e pesoas a que o conhecimento disto pertêcer que não 
obriguem nem costrangão aos êcaregos da dita bandeira de Sam Jorge nem a 
outros algús de ofEcial macanico e lhe cumpra e guardem e faça inteiramente 
cumprir e guardar este aluara como se nelle contem, o qual ey por bem que 
valha como se fose carta etc, em forma. Pêro de Seixas o fez em Lixboa a 
xxb de junho de jb c lxxbij J.° de Seixas o fez escreuer.» * 



'Torre do Tombo. Chanc. de D. Filippe II. Doações. L.° 43, fl. 216. 
2 Idem. Chanc. de D. Sebastião e D. Henrique. Privilégios. L." 12, fl. 45. 



176 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



OXX. — Visete (Vicitor ou Victor?).— Pintor flamengo residente em Lis- 
boa, no reinado de D. Affonso V, o qual lhe passou carta de privilegio em 25 
de abril de 1452. 

«Dom Afomso etc. A quamtos esta carta uirem fazemos saber que nos pri- 
uiligiamos todollos framcezes, bretomes, alemaees, framemguos que ueerem 
morar a nossos regnos, e por que Vicitor Visete, framemguo, pimtor, morador 
em a nossa mui nobre e leal cidade de Lixboa, he huu das ditas uaçomees, 
que assy priuiligiados teemos, nos pedio por mercee que lbe mamdasemos dar 
noso priuilegio, e visto seu requerimemto, e queremdolhe fazer graça e mercee 
teemos por bem e priuiligiamolo e queremos que daqui em diamte nom seja 
costramgido pêra auer de paguar em nenhúus nossos pididos, peitas, fimtas, 
talhas emprestidos nem em seruiços nem em outros nenhúus emcarreguos que 
per Nos nem per os comcelhos som ou forem lamçados per quall quer guissa que 
o sejom nem vaa com pressos nem com dinheiros, nem seja titor nem curador 
de nenhuuas pesoas que sejom nem vaa seruir per mar nem per terra a ne- 
nhúas partes que seja nem seja costramgido pêra outros nenhúus emcarreguos 
nem seruidoees nossos nem do concelho nem aja outro nenhuu oficio nosso nem 
do dito comcelho comtra sua vomtade. Outrossy queremos que nom tenha ca- 
uallo nem armas nem beesta pêra nosso seruiço posto que pêra ello aja con- 
thia. Mamdamos e defemdemos que nom seja nenhuu tam ousado de qual quer 
estado e comdiçam que seja que lhe pouse em suas casas de morada, adegua 
nem cavalariças nem lhe tomem seu pom, vinho nem roupa de cama nem al- 
gúa outra cousa do seu comtra sua vomtade e mamdamos ao noso pousemta- 
dor e ao da Rainha minha molher, que sobre todas prezamos e amamos, e dos 
ifamtes e comdees e ao da dita cidade que em casso que nos todos ou cada 
huu de nos hi sejamos que lhe nom dem as ditas suas cassas dapousemtada- 
ria em nenhuua maneira que seja sob pena dos nossos em coutos de seis mil 
soldos que mamdamos que pague pêra nos quall quer que lhe comtra esto for, 
os quaes mãdamos aos nossos almoxarifes que os arecadem e recebam pêra 
nos e aos espriuaêes de seus ofícios que os ponhom em receepta sobre eles 
em seus liuros pêra deles auermos boa recadaçom sob pena de os paguarem 
em dobro de suas cassas. E porem mandamos a todolos nossos corregedores, 
juizes e justiças e aos sacadores e recebedores dos nossos pididos e a outros 
quaes quer oficiaees e pesoas que esto ouuerem de uer que ajoham (sk) o dito 
Victor Visete, framemguo pimtor por releuado e escusado das sobreditas cos- 
sas e nom costranjam pêra nenhúa delias e lhe compram e guardem e façom 
comprir e guardar esta nosa carta por a guisa que em ela he comtheudo 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 177 

honde búus e outros ai nom façades. Dada em a nossa cidade deuora xxb da- 
bril — Lopo Fernandez a fez ano do nacimemto de nosso Senhor Iliesu Xpo de 
mill e iiij c cimquoenita e douos annos.» ' 



CXXI. — Ximenez (Fernão). — D. Affonso V o tomou por seu pintor do 
mourisco com a tença animal de seis mil reaes brancos, passando-lbe a res- 
pectiva carta em Évora, a 20 de julho de 1464. 

iDom A.° etc. A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que nos 
queremdo fazer graça e mercee a Fernam Xemenez pintor, teemos por bem e 
tomamollo ora nouamête por nosso pintor do mourisco e queremos que elle 
tenha e aja de nos des primeiro dia de janeiro que ora vynra da era de iiij" lxb 
em diante êquanto nossa mercê for seis mill rs. brancos de teça em cada hum 
ano, os quaaes lhe mãdaremos assêtar em lugar honde delles lhe seera feito 
muy bõo pagamento aos quartees per nossa carta que lhe deles será dada em 
a nossa fazenda. E porem mandamos aos nossos veadores e esprivãaes dela e 
a outros quaaes quer que esto perlêcer que lhe dê e faça dar carta em cada 
huu ano dos ditos dinheiros peia tall luguar honde delles possa auer paga- 
mento aos quartees segundo nossa hordenãça. E por sua guarda e renêbrãça 
lhe mãdamos dar esta carta asinada per nos e asselada do nosso sello peudête 
pêra a teer pêra sua guarda. Dante em Euora xx dias de julho P.° A.° a fez 
ano de nosso S. or Ihesu X.° de mill iiij c lxiiij .» 2 



i Torre do Tombo. Chanc. de D. Affonso V. L.' 12, fl. 94 t. 
2 Idem. Chanc. de D. Affonso V. L.« 8, fl. 105. 

-\Lvio, 1903. 23 



ADDENDA ET CORRIGENDA 



Affonso (Jorge). — A pag. 8, linha 17, onde se lê 21 de julho, deve lèr-se 22. 



♦ Barros Ferreira (Jeronymo de). — Tanto Cyrillo como Taborda tratam d'elle 
de modo a podermol-o considerar como artista de merecimento, de variadas 
aptidões, cheio de zelo e de amor pela sua arte. Raczynski, no seu Diction- 
naire, recapitula o que a tal propósito escreveram os dois beneméritos trata- 
distas. 

No 2.° Supplemento á Gazeta de Lisboa, de 25 de julho de 1^01, encon- 
trei um annuncio que dá um pormenor interessante para a biographia de Bar- 
ros Ferreira. É do teor seguinte: 

«Nas segundas e quartas feiras de cada semana, em casa de Jeronymo de 
Barros Ferreira, professor de Desenho e Pintura, junto ao Poço dos Negros, 
se ha de fazer venda publica de uma boa collecção de 407 Desenhos dos me- 
lhores e mais antigos Mestres, em que entrão muitos de Raphael d'Urbino, de 
Miguel Angelos Buenarota, de Júlio Bomano, de Corregio, de Ticiano e de mui- 
tos outros Autores de grande nome, os quaes se farão ver a todos os amado- 
res da Arte que nelles quizerem lançar. Também ha alli para o mesmo fim 
huma collecção de 358 Estampas de vários Authores.»' 



1 Os nomes que levam # nSo foram incluídos no texto d'esta memoria. 



180 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



* Fernandes (Pêro).— Em 1508 trabalhava nas pinturas do paço real de 
Cintra com Gonçalo Gomes, de quem era ajudante. Veja-se o artigo relativo a 
este ultimo. 



Gomes (Affonso). — Temos mais um documento que ajuda a pormenorisar a 
biographia de Affonso Gomes. Em 1513 era já fallecido, pois n'este anno, a 9 
de abril, renunciava sua viuva, Isabel Gomes, o emprazamento de uma vinha, 
no sitio da Lagoa, termo de Almada, com a condição do novo aforamento ser 
feito a Ruy de Castanheda, cavalleiro da casa d'el-rei. O respectivo instru- 
mento foi celebrado no mosteiro de Chellas, que era o directo senhorio, e é 
concebido nos seguintes termos: 

«Em nome de Deos amem saibam quamtos este estromentodemprazamenlo 
em vidas de três pessoas virem que no anno do nacimento de Nosso Senhor 
Jhesu Christo de mill e quinhentos e treze anos noue dias do mes dabrill em o 
moesteiro da Chellas termo da cidade de Lixboa estamdo hi presemtes as munlo 
devotas e Religiosas donas do dito moesteiro a saber a senhora dona Briatiz de 
Castellbranco prioresa e Tareja Fernandez Vigaira e Violamte Aabull e Maria 
Afonso e Maria Diaz e Maria Vaaz e Calharina Maosinho e Janeuora (Genebra) 
Çacota e dona Mecia Pereira e dona Maria Valemle e Isabel Galuoa e Isabel 
do Campo e Briatiz de Macedo e Bramca Leytoa e outras donas do convemto 
do dito moesteiro todas chamadas a cabido e cabido fazendo per sõo de cam- 
pãa tamgida segundo seu bõo custume e diserõ as ditas donas que he verdade 
que o dito seu moesteiro tem huua vinha em termo d Almadaa homde chamam 
aa Lagoa aquall trazia de prazo em três vidas Ysabel Gomez molher que foy 
d Afonso Gomez pimtor que Deos aja de que lhes pagaua de foro em quada 
hQu anno quinhemtos rreaes e que aguora a dita Isabel Gomez por ser mo- 
lher viuua e nõ poder suprir os emcarregos da dita vinha nem paguar o dito 
ff oro e por a vinha estar dapnyflcada Renunciou a dita vinha ao dito moesteiro 
cõ tall condiçõ que a desem de prazo a Ruy de Castanheda caualeiro da casa 
delBey Noso Senhor e seguindo se comtem em puurico estromento de Renun- 
cyaçõ ffeyto e asyuado per Bertolameu Vaaz tabaliam em a dita cidade em oito 
dias do dito mes e anno e que porem elas ditas donas per bem da dita Re- 
nunciaçõ vemdo e consyramdo ser seruiço de Deos e proveyto do dito moes- 
teiro derõ loguo de prazo a dita vinha ao dito Ruy de Castanheda que pre- 
semte estaua que ele Ruy de Castanheda seja a primeira pessoa aa dita vinha 
e posa nomear por segunda pessoa ante de sua morte huua ffilha sua e de sua 



NOTICIA PE ALGUNS PINTORES 181 

molher que ora tem qual ele quiser e nam avemdo ffilho ao tempo de seu fi- 
namenfo posa nomear quem ele quiser por segumda pessoa e a segumda pes- 
soa posa yso mesmo nomear amte de sua morte a terceira pessoa de guisa que 
sejam três pessoas e mais hõ e lha emprazam cõ todas suas emtradas e say- 
das direitos e pertenças e logradoyros na maneira que pertemçe ao dito moes- 
teiro e cõ as comfromtações cõ que de dereito deue de partyr e como a po- 
suya a dita Isabel Gomez cõ tall condiçõ que o dito Ruy de Castanheda e pe- 
soas depôs ele adubem a dita vinha descauar podar cauar empar amergulhar 
e arremdar e tapar em quada huu anno rle maneira que amde sempre bem cor- 
regida e aproveitada melhorada e nõ pejorada e que dem e pagem de foro e 
pemsam da dita vinha em cada huu anno os ditos quinhentos rreaes ora cor- 
rentes em paz e em saluo no dito moesteiro juntamente per natal e começara 
de fazer a primeira paga per Natall primeiro que vem em que se começara ho 
anno de quinhentos e quatorze e asy de hy em diamle em cada hõu anno nas 
ditas três vidas e com tall condiçõ que as ditas pessoas nam posam trocar ê 
alhear nem espedaçar a dita vinha com nem húua pessoa e quamdo ha vem- 
der quiserem que ho façam primeiro saber aas ditas donas se a querem tamlo 
por tamto que a ajam e nam ha queremdo que emtam a posam as ditas pe- 
soas vemder com seu emcarreguo a pesoa que nam seja das que o direito de- 
femde mas seja tall que cumpra e goarde todas as ditas condiçoeês e lhe pa- 
guem delo a quorentena segundo o direito quer e finadas as ditas pesoas da- 
vida deste mundo que emtam fique esta vinha liuremente ao dito moesteiro 
cõ todas suas bemffeylorias e com tall cõdiçam que nam pagado os foreyros o 
dito floro per espaço de dous annos que percam ho prazo posto que loguo ve- 
nham cõ trigosa paga obrigamdo as ditas donas todolos bêes e Remdas do dito 
moesteiro a mamterem este prazo ao dito Buy de Castanheda nas ditas três vi- 
das e lhe fazerem a dita viuha segura liure e de paz de quem quer que lha 
demamde ou embargue sobpena de lhe pagarem todas perdas dapnos e custa 
que por elo fizerem e rreçeberem e cõ cynquoenta rreaes de pena em quada 
huu dia e o dito Ruy de Castanheda tomou e rreçebeo em sy a dita vinha de 
prazo nas ditas três vidas cõ todas as ditas condiçoeês as quaees se obrigou 
cõprir e manter e pagar os ditos quinhentos rreaes de foro em cada hõu anno 
segundo em cyma vay decrarado sob a dita pena e custas e despesas perdas 
e dapnos que o dito moesteiro por elo fizer e rreçeber per todos seos bêes 
ávidos e por aver que pêra elo obrigou e pede por merçee ao senhor arce- 
bispo e a seos vigairos que asy ho queyram afirmar e autorizar e em teste- 
munho de verdade asy ho outorgarõ e mamdarõ ffazer senhos estromemtos 
testemunhas Aluaro Fernandez spriuam dos comlos delRey e Fernam Lopez 
morador na Torre da Bazoeyra freguezia de Samto Amtonio e Pêro Carrasco 
morador em Valejas e eu Fernam Vaaz tabelliam d el Rey iNosso Senhor em a 



1 82 NOTICIA DE ALGUNS PINTOIIES 

dita cidade que este estormento em meu liuro notey e da nola ho fize tirara 
meu spriuom e ho conçertey sobspreuj e asiney do meu puurico sinal que 
tall he. 

«Pagou por este estormento e por outro do Moesteiro e yda e peles clxxx 
rreaes.» 1 



* Gomes (Gonçalo). — D. Manuel, sendo ainda duque de Beja, o nomeou seu 
pintor, tomando-o sob sua guarda e encommenda, e mandando o honrar como 
tal. Na respectiva carta, passada em Évora a 6 de dezembro de 1489, se de- 
clara que elle residia em Lisboa. Subindo ao throno, aquelle principe lh'a con- 
firmou por outra, passada em Montemór-o-Novo a 13 de fevereiro de 1496. 

Taborda teve conhecimento d'esta carta, e, em presença d'ella e dos ter- 
mos elogiosos em que está redigida, é de parecer que Gonçalo Gomes devia 
ser artista de merecimento, postoque não saiba da existência de nenhum qua- 
dro seu ou de obra em que elle fosse empregado. 

D'esta insciencia nos libertou o sr. A. Braamcamp Freire, que num per- 
gaminho da Misericórdia de Cintra e n'um livro, infelizmente truncado, da re- 
ceita e despeza de André Gonçalves, almoxarife da mesma villa, encontrou in- 
teressantes dados para a biographia de Gonçalo Gomes, que já era 1504 resi- 
dia n'aquella pittoresca estancia e não em Lisboa. A sua actividade parece pois 
ter-se exercido particularmente nos reaes paços cintrenses. 

Juntamente com elle, durante os annos de 1507 e 1508, trabalharam como 
seus ajudantes: Johane, que parece ser estrangeiro, talvez flamengo; Diogo 
Gomes e Pêro Fernandes. 

De Diogo Gomes tratei no texto d'esta Memoria, inserindo a carta de D. 
Manuel, de 1 de junho de 1513, em que lhe manda dar 4:000 reaes de tença. 

Á lista d'estes pintores, que trabalharam em Cintra, deve-se accrescentar 
Pêro Rodrigues, que apparece por 1510, e Lourenço Martins, que floresceu an- 
teriormente a qualquer d'elles, nos reinados de D. Duarte e D. Affonso V. De 
ambos me occupei nos respectivos logares. 

Transcreverei agora aqui o que acerca de Gonçalo Gomes se lê a pag. xxxvi 
e seguintes da obra do sr. Braamcamp, Livro primeiro dos brazões da sala de 
Cintra. 

«Do já por outros nomeado pintor Gonçalo Gomes sei que vivia e pros- 
perava no anno de 1504, em que a 27 de maio, em Cintra, nas casas do ta- 
bellião João de Guimarães, comparecendo os juizes e vereadores em camará, 



Torre do Tombo. Mosteiro de Chellas. Peig.° 1:391. 



NOTICIA UE ALGUNS HNTOJIES 183 

comprou elle Gonçalo Gomes, que presente se achou, pintor, e morador que 
então era em Cintra, por mil reaes brancos, moeda ora corrente, a Duarte 
Fernandes Ferreira, morador em Óbidos, e a sua mulher, um pardieiro a par 
do hospital, que partia do aguião (norte) com Inez Martins, do suão (nascente) 
com casa do cosayro e da travessa (poente) e abreguo (sul) com rua publica. 

tDepois encontro-o trabalhando em obras no paço nos annos de 1507 e 
1508, ganhando sessenta reaes por dia. No primeiro d'aquelles annos traba- 
lhou vinte dias, desde 22 de fevereiro até 27 de março. Occupou-se em doi- 
rar e renovar pinturas das camarás e casas cque se dana cõ a homidade». Foi 
n'estes misteres ajudado pelo seu creado Johane, cujo jornal era de quarenta 
reaes. 

cNo anno seguinte de 1508 andou Gonçalo Gomes cincoenta e três dias 
nos trabalhos do paço de Cintra, desde 6 de março até 21 de agosto. Teve 
por ajudantes, além do seu referido criado Johane, a Diogo Gomes e a Pêro 
Fernandes, que ganhavam a cincoenta reaes, e que começaram a trabalhar, um 
a 17 e o outro a 24 de julho. Também se não especificam as obras, porém 
de uma verba consta que em grande parte foram na capella. 

«O almoxarife pagou a 29 de novembro de 1508 a Affonso Alvares, bate- 
folha, de oiro batido «pêra se dourar a capella e asy pêra renovar as pinturas 
dos paços», quarenta e cinco mil duzentos e cincoenta reaes por mil e qui- 
nhentos pães de três reaes e meio cada um, e d'elles fez logo entrega a Gon- 
çalo Gomes, pintor. 

«Além d'este oiro recebeu o mesmo pintor para as referidas obras: nove 
arráteis de vermelhão a sessenta reaes o arrátel, quatro arráteis de alvaiade a 
trinta reaes, dezasete arraieis de óleo a trinta reaes, meio arrátel de azul que 
importou em cem reaes, dez arráteis de roxo terra a quarenta reaes, três ar- 
ráteis e meio de zarcão a trinta e cinco reaes, seis arráteis de ocre a trinta 
reaes, e mais oitenta reaes de grude e gesso. 

«Importaram os materiaes em quarenta e sete mil tresentos e dois reaes 
e meio, a mão d'obra em seis mil setecentos setenta e cinco reaes; gastou-se 
portanto em 1508 em pinturas no paço de Cintra a boa conta para o tempo de 
cincoenta e quatro mil e setenta e sete reaes e meio. 

«Consta tudo do citado Livro de André Gonsalves. 

«Faltam em seguida muitas folhas no livro a que me vou soccorrendo, e 
só lá encontrei contas do anno de 1510, porém n'essas já não vejo nomeado 
a Gonçalo Gomes, apesar de terem continuado as pinturas na capella, para as 
quaes se comprou oiro batido ao mesmo preço mencionado na importância de 
vinte e quatro mil e quinhentos reaes, e mais seiscentos pães de prata ao 
preço de real e meio cada um. 

«Apparece comtudo nomeado como pintor Pêro Rodrigues, cuja soldada 



184 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



era inferior em dez reaes á do outro. Trabalhou Pêro nove dias, rapando a 
borda do guarda roupa da rainha, obra que começou a 1 de abril, e para a 
qual lhe forneceram um pouco de roxo terra, verde montanha, e grude.» 

«Dom Mauuell per graça de Deos Rey de Purtugall e dos Alguarues da- 
quem e dalém maar em Africa e Senhor de Guine. A quamtos esta nossa carta 
vyrem fazemos saber que por parte de Gonçalo Gomez nosso pyntor (sic) húa 
nosa carta que íall lie: 

«Eu o duque etc, faço saber a quamtos esta mynha carta vyrem que eu 
tomey ora nouamente por meu pyntor e em mynha especyall guarda e enco- 
menda a Gonçallo Gomez morador em a cydade de Lixbõa o quall mandey 
asentar em meus liuros pêra me delle seruir quando me necesario for e porem 
rroguo e emcomêdo a todollos juizes, justiças oficyaaes e pesoas a que esta 
mynha carta for mostrada e o conhecymento pertencer que daquy em dyaute 
por ho meu ho honrrem e tratem bem e lhe façam todo fauor e gasalhado que 
bem poderem em todas aquellas cousas que justas e rrazoadas forê asy como 
he rrazam por vyuer comyguo e teer delle grande carreguo nam lhe fazendo 
nem consentyndo fazer nêhQu nojo agrauo nem sem rrazam mais antes como 
dito tenho ho enparem e defendam asy como cousa mynha sendo certos que to- 
dos aquelles que asy fezerem lho guardarey e terey muito em seruyço e do 
contrayro o que de nêhuus nam espero me desprazeria. Dada em Eujra a bj 
dias de dezembro Joham Codouyll a fez ano de mjll iiij e Ixxxix. 

«Pedindonos o sobre dito Gonçallo Gomez que lhe quysesemos confirmar 
a dita carta e nos vysto seu rrequerymento e querêdolhe fazer graça e mer- 
çee, Teemos por bem e cõfirmamoslha asy e pella maneira que nella he con- 
theudo e asy mandamos que se guarde e cunpra jnteyramente por que asy he 
nossa merçe. Dada em Monte Moor ho Nouo a xiij dias de feuereyro — Lujs 
Gonçallvez a fez de mjll iiij c 1 r bj anos — El Rey • \ ■ — » ' 



# Johane. — Era creado de Gonçalo Gomes, a quem ajudava na pintura dos 
paços reaes de Cintra. Veja-se o artigo relativo a este ultimo. 



Oliveira Bernardes (António de).— No artigo acerca d'este pintor attribui- 
lhe os azulejos da ermida de Porto Salvo, em Pago d'Arcos. São, porém, de 
outro, do mesmo appellido Bernardes. A inscripção reproduzida por Luciano 

1 Torre do Tombo. Chanc. de D. Manuel. L.° 26, fl. 59 v. e não 39 v. Gav. lo. maço 9, 
li.» 6. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 185 

Cordeiro, na noticia descriptiva que publicou acerca d'aquelia ermida, diz o se- 
guinte: 

nEsla obra mandarão fazer os devotos de Lisboa no armo de 1740 por P. 
D. Bernardes.* 

Entende o referido escriplor que as iniciaes P. D. se devem traduzir por 
Pedro Domingos, nome que considera desconhecido, e eu egualmente. 



M>io. 1003. 24 



LISTA ALPHABETIGA, 



POR NOMES DE BAPTISMO, 



DOS 



ARTISTAS RELACIONADOS FESTA MEMORIA 



Atlbnso Gomes. 

Aflbnso Gonçalves. 

Atlbnso Pires. 

Álvaro Fernandes. 

Álvaro Mendes. 

Álvaro Pires. 

André Gonçalves. 

Antão Leitão. 

António de Barros. 

António da Costa. 

António de Espinhosa. 

António Florenlim. 

António de Landrofe. 

António Leitão. 

António Luiz. 

António Manuel da Fonseca. 

António da Malta. 

António de Moralles. 

António de Oliveira Bernardes. 

António de Oliveira de Louredo. 

António de Sousa. 

Bartholomeu Fernandes. 

Bento Coelho da Silveira. 

Bernardo Castelli. 

Braz Pereira de Miranda. 

Carvalho 

Christovão de Figueiredo. 

Christovão Lopes. 

Cluistovão de Utreeht. 

(alaúde Le Baiãt. 

Diogo de Cotilreiras. 

Diogo Fernandes. 

Diogo Gomes. 

Diogo Teixeira. 



Diogo Vaz. 

Domenico Pellegrini. 

Domingos Vieira. 

Domingos Vieira Serrão. 

Eduardo Emilio Pereira Brandão. 

Eduardo Lobo de Moura. 

Fernando A/forno. 

Fernão Cerveira. 

Fernão Gomes. 

Fernão de Lisboa. 

Fernão Rodrigues. 

Fernão Trosylhos. 

Fernão Ximenez. 

Francisco das Aves. 

Francisco Gomes. 

Francisco Henriques. 

Francisco de Mattos. 

Francisco Nicotoso. 

Francisco de Santa Cruz. 

Francisco Vanegas ou Venegas. 

Frédéric Pellereau. 

Gabriel dei Barro. 

Garcia Fernandes. 

Gaspar Cão. 

Gaspar Carvalho. 

Gaspar Dias. 

Gaspar Vaz. 

Gaspar Vieira. 

Gomes Fernandes. 

Gonçalo Anes. 

Gonçalo Gomes. 

Gregório Lopes. 

Jacomo Dioll. 

Joronymo de Barros Ferreira. 



188 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



J. Van Oort. 

Johane. 

João Affonso, {.' 

João AlJonso, 2." 

João Alvares, 1.° 

João Alvares, 2.° 

João Ancs. 

João Dias. 

João de Espinosa. 

João Gonçalves, i.° 

João Gonçalves, 2.° 

João Martins, í.° 

João Martins, 2.° 

Jorge Affonso. 

Jorge Barreto. 

Jorge Leoi. 

Jorge Mendes. 

José da Costa Negreiros. 

José Rodrigues da Silva. 

Lazaro de Andrade. 

Luiz atoara de Andrade. 

Luiz Assencio Tomasini. 

Luiz Fernandes. 

Luiz (Fr.) de S. José. 

Lourenço Martins. 

Lourenço da Sííeo Pai. 

Manuel André. 

Manuel Borges. 

Manuel Z)í'as de Oliveira 



Manuel Furtado. 

Manuel da Silva Rabello. 

Máximo Paulino dos Beis. 

Miyuel Nunes. 

Miguel de Paiva. 

Nicolas Delerwe. 

Nuno Gonçalves. 

Pêro Affonso. 

Pêro Aífonso Gallego. 

Pêro de Almeida. 

Pêro de Coimbra. 

Pêro Fernandes. 

Pêro Rodrigues. 

Pêro Foz. 

Pietro Guarienti. 

Prospero Lassere. 

Reymão Armõe. 

Simão de Abreu. 

Simão Affonso. 

Simão Rodrigues. 

Taveira. 

Thomaz de Sousa Villar. 

Thomé da Costa de Rezende. 

Vasco Fernandes. 

Vicente Carducci ou Carducho. 

Vietorino Manuel da Serra. 

Vicitor ou Victor Visete. 

Willelm van der Kloet. 



CONCLUSÃO 



O titulo d'esta Memoria designa perfeitamente os seus modestos intuitos. 
Não é um trabalho definitivo, é um trabalho preparatório; um subsidio para 
quem ura dia se abalançar a redigir o Catalogo dos pintores portuguezes ou 
a escrever a historia da pintura nacional. Ha lacunas e sobejidões. Trazem-se 
á luz bastantes nomes inéditos e accrescentam-se novos pormenores biographi- 
cos aos já conhecidos. Confesso ingenuamente que hesitei por vezes em ins- 
crever aqui alguns indivíduos, que talvez não mereçam o qualificativo de ar- 
tistas na verdadeira e alta accepção da palavra, antes não passem de simples 
artífices, mas tive ao mesmo tempo receio de commetter qualquer omissão 
menos justa, e por isso deixo ao arbítrio prudencial do leitor o decidir a ques- 
tão. É possível que mais extensas e profundas pesquizas produzam novos do- 
cumentos, que venham confirmar ou destruir a classificação, que por ora se 
pôde considerar conjectural e transitória. O futuro, por conseguinte, se encar- 
regará de fazer o apuramento ou selecção, e, quando o não consiga, creio que 
não poderei ser accusado de temerário, desde o momento em que exponho com 
a máxima franqueza estas reservas. Em todo o caso, succeda o que succeder, 
julgo também que nada se perde em estampar certos documentos, que podem 
servir para illustrar muitos pontos da vida social e económica. 

Por esta Memoria se confirma a toda a evidencia que não é possível tra- 
tar a serio e proficuamente de qualquer assumpto sem se explorar os archi- 
vos nacionaes e os de diversas corporações, sobretudo as religiosas, umas já 
extractas, outras existentes ainda. Os cartórios dos conventos, alguns dos quaes 



100 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

já foram recolhidos á Torre do Tombo e outros se conservam ainda nas repar- 
tições de fazenda, os dos cabidos, misericórdias, irmandades, confrarias, ele, 
são de uma riqueza inexhaurivel, o que não admira, visto ter sido a egreja 
quem recolheu e armazenou, durante séculos, a maioria dos fruetos da acti- 
vidade nacional. O guerreiro, o estadista, o lettrado, o homem de negocio, o 
proprietário, tudo emfim, desde o monarcha até ao mais rude e singelo tra- 
balhador, tudo passava, reverente, pela porta da egreja, nos seus dias festi- 
vos, nos seus dias de lueto, em todas as commemorações e phases da família. 
Eram numerosíssimos os elos que vinculavam o homem á religião, e é por isso 
que ainda hoje se encontram tantos vestígios d'essa intimidade profunda. 

O que aqui assevero é uma verdade incontestável, um axioma para bem 
dizer, mas, quando precisasse de demonstração, bastaria adduzir como prova 
o cartório do antigo convento dos frades de S. Domingos de Lisboa, que só 
de per si forneceu elementos para evidenciar a existência de uma espécie de 
academia ou escola de pintura na primeira metade do século xvi. 

Assim como urge e convém salvar pela photographia os objectos artísti- 
cos, assim importa salvar pela imprensa os documentos que os elucidem, ora 
revelando-nos os nomes dos seus auetores, determinando a epocha em que fo- 
ram elaborados ou declarando simplesmente quem os mandou executar. Não 
podem estas monographias históricas apresentar desde logo um quadro com- 
pleto e attingir o máximo grau de perfectibilidade, porque só a collaboração de 
muitos, n'uma porfia de longos annos, é que chegará a traduzir-se n'uma re- 
sultante satisfactoria. Seria loucura censurar aquelles que se preoceupam com 
a perfeição absoluta, porque esse deve ser o ideal de todo o homem que presa 
e ama a sciencia, mas essa preoceupação não se deve converter em preconceito, 
fazendo com que se adiem indefinidamente o resultado das nossas pesquizas, 
na illusoria expectativa de proferir a ultima palavra sobre o assumpto. Isto equi- 
valeria equiparar-se ao homem que andava de continuo com a peça de fazenda 
debaixo do braço á espera do derradeiro decreto da moda. Censurável unica- 
mente é a falta de escrúpulo com que se procede na revelação e analyse dos 
factos, deturpando-os ou apresenlando-os sob uma physionomia menos conforme 
com a verdade. Succede muitas vezes que um pequeno trecho ou um documen- 
to, que se nos afigura insignificante, serve, na mão de outro, de alavanca ou 
de ponto de referencia para descobrimentos de imprevisto alcance. Se chega 
a ser pueril encarecer e valorisar demasiadamente qualquer minúcia, nem por 
isso se hade deitar ao desprezo, sem prévio exame reflectido, o que, no pri- 
meiro relance, se nos afigurou ninharia ou supérfluo. As pequeninas pedras 
servem para calcetamento das grandes, e assim se firmam e consolidam muitos 
colossos que nos parecem inabaláveis, mas que mal se susteriam de pé sem 
aquelle auxilio. Com isto não pretendo de modo nenhum fazer sobresahir os 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 191 

elementos de consulta que revelo, dando-lhes uma cotação superior á que el- 
les realmente merecem. Não é, soprando a rã, que ella se converte n'um ani- 
mal corpulento. O que eu sinto é que os materiaes que offereço ao exame dos 
estudiosos não sejam mais abundantes e não inspirem maior interesse. Com 
isto não lucraria o meu amor próprio, quem lucraria seria a historia da arte 
nacional, e d'este beneficio, profuudamente patriótico, se daria por bem paga 
a minha consciência. 



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NOTICIA 



DE 



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OUTROS QUE, SENDO ESTRANGEIROS, 

EXERCERAM A SUA ARTE EM PORTUGAL 



SEGUNDA SERIE 



MEMORIA APRESENTADA Á ACACEMIA REAL OAS SCIENCIAS DE LISBOA 



SOUSA VITERBO 



SEU SÓCIO COUJlUSrOSDENTE 



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LISBOA 

Typographia da Academia Real das Sciencias 

1906 



NOTICIA 



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OUTROS QUE, SENDO ESTRANGEIROS, 



EXEECEEAM A SUA AETE EM PORTUGAL 



NOTICIA 



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OUTROS ODE, SENDO ESTRANGEIROS, 

EXERCERAM A SUA ARTE EM PORTUGAL 



SEGUNDA SERIE 



MEMORIA APRESENTADA Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA 



SOUSA VITERBO 

SEU SÓCIO COnnESPONDENTE 



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LISBOA 

Typographia da Academia Real das Sciencias 

1906 



Extbacto da Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 
nov. ser., Classe de Sciencias Moraes, etc. 



TOMO XI — TAP, TE I 



INTRODUCÇAO 



Proseguindo na tareia de accumular subsidios para a historia da 
pintura portugueza, venho hoje offerecer mais um pecúlio aos estudiosos 
que se dedicam a esta especialidade. 

Duas são as vias essenciaes, por onde se pôde penetrar no movi- 
mento artístico, mais ou menos evolutivo, do nosso paiz. listes dois pro- 
cessos podem ser usados cada um de per si, mas convém que sejam si- 
multâneos, porque se esclarecem, auxiliam e completam mutuamente. O 
primeiro consiste em pesquizar os objectos, descrevel-os e catalogal-os 
methodicamente, segundo as suas épocas, as suas phases, as suas esco- 
las e as individualidades que os produziram. Depois d'este trabalho de 
analjse, a critica fará o seu dever, synthetisando-o. O segundo consiste 
em explorar os archivos e tirar d'elles toda a somma de noticias que 
possam servir de guia aos classificadores eméritos. 

Eu bem sei que uma obra de arte tem um valor intrínseco, para 
assim dizer absoluto, impondo-se pelos seus predicados naluraes á admi- 
ração de quem a contemplar. A Virgem da Cadeira, de Raphael, ou o 
São Pedro, da Sé de Vizeu, de Vasco Fernandes, não carecem de certi- 
dão de baptismo que legitime a sua perfectibilidade eslhetica. Anonymas, 
teriam a marca do génio a illuminal-as com o seu resplendor divino. 
A regra tem excepções e muitos artistas superiores passaram obscuros 

Agosto, 1906 1 



2 NOTICIA I'E ALGUNS PINTORES 

deante dos seus contemporâneos, sendo necessário que a posteridade os 
viesse resgatar d'esta injustiça, concedendo-lhes tardiamente as palmas 
do triumpho. Obras de grandes mestres encontram resistências quasi in- 
vencíveis, tendo de entrar em lucla para conquistarem o logar que lhes 
é devido. Assim succedeu, por exemplo, com as partituras de Wagner, 
que só a muito cuslo peneiraram em França, depois de terem, no seu pró- 
prio paiz, disputado o terreno palmo a palmo. 

Succede, pelo contrario, que muitas obras de merecimento medío- 
cre adquirem desde logo uma popularidade extraordinária para mais 
tarde cahirem n'um profundo lethargo. Foi questão de moda, capricho 
de momento, phenomeno frequentíssimo, mas ainda assim pouco explicá- 
vel. A critica imparcial fica surprehendida com estas alternativas da opi- 
nião publica, que ora demonstram falta de gosto, ora ausência dos mais 
elementares princípios de educação artística. 

Admittindo, porém, que a verdadeira obra de arte se impõe natu- 
ralmente, é certo que o espirito não se contenta com o goso exclusivo do 
bello e que procura por todos os meios ao seu alcance descobrir as ori- 
gens d'aquella producção sublime, o nome do seu auctor, e quaes as cau- 
sas que prepararam o seu talento e influíram na sua vocação. Este ins- 
tincto prescrutador, esta anciã de diagnose, se nos conduzem a resulta- 
dos felizes, a conclusões admiráveis, também por outro lado nos levam 
a erros fataes, fazendo-nos tomar a sombra pela realidade. 

Infelizmente, o convencionalismo exerce uma grande e perniciosa 
influencia, de que não estão livres os homens de mais elevada cultura 
intellectual. Se o vosso Baedeker vos manda parar deante de uma tela de 
Rubens ou de Ticiano, vós ficaes extáticos, na adoração de uma divin- 
dade hypothetica. E todavia não repugna admittir que bastantes quadros 
que figuram nas principaes galerias do mundo, como rubricados pelos 
mais illustres pincéis, só podem considerar-se authenticos na fé dos nos- 
sos compadres. As fraudes artísticas succedem-se com frequência e a 
industria das preciosidades artificiaes de toda a espécie attingiu um ex- 
traordinário grau de perfectibilidade. Os mais hábeis directores de mu- 
seus teem sido victimas d'essa corporação de embusteiros, que sabem 
todos os segredos de enganar os sábios e os peritos. 



INTRODUCÇAO d 

E para desfazer estas mistificações que o documento é um recurso 
valiosíssimo, quando tem todos os caracteres de sinceridade e não padece 
dos mesmos vicios de falcatrua. Quantas conjecturas scintillantes, basea- 
das nos mais bem formulados raciocínios e na mais peregrina erudição, 
não se desfazem instantaneamente em face de uma prova documental em 
contrario? Um curioso caso succedido entre nós recentemente vem em 
pleno abono do que aliirmo. E preciso todavia não exaggerar a impor- 
tância do documento e não tirar d'elle outras conclusões além d'aquillo 
que nos é permittido derivar da sua mais racional e positiva interpreta- 
ção. Os documentos, qualquer que seja a sua natureza, muitas vezes se 
enganam e nos podem enganar também. Nos epitaphios e em outras le- 
gendas monumentaes não é raro encontrar-se lapsos históricos de bas- 
tante gravidade. Toda a cautela, por conseguinte, será pouca. 

Para a historia da pintura o documento tem uma vantagem assas 
considerável, o de nos indicar nomes de mestres que nos eram totalmente 
desconhecidos. É certo que não apparecendo a obra correspondente, fi- 
camos ignorando o merecimento do artista e só assim avaliamos a sua 
actividade material e a da época em que floresceu. Augmenla-se a esta- 
tística, iuscrevem-se mais alguns números no rol dos productores, fica- 
mos inteirados do seu quantitativo, á espera que um descobrimento qual- 
quer, bem casual por vezes, nos venha designar o seu qualificativo. 

Se a falta de aulhenticidade é um motivo de inquietação para os 
que estudam as obras primas dos professores eminentes e das grandes 
escolas, outra circumstancia, não menos importante, impressiona no mo- 
mento actual o espirito dos críticos. A these que se debate consiste em 
saber se o principio da selecção deve ser applicado ás galerias pu- 
blicas, onde não faltam quadros, que hoje se nos afiguram medíocres e 
até talvez mais que medíocres. Os mamarrachos e as codeas abundam e 
longe de servirem de modelo só podem servir de mau exemplo. Assim 
pensa um certo numero de críticos de arte, que talvez sejam verdadeiros 
e sinceros reformadores, mas que talvez não passem também de iconoclas- 
tas. Telas, que produziram o maior enthusiasmo em certas gerações, são 
hoje olhadas com indiferença, com desprezo até, admirados os olhos da 
feitiçaria idolatrica dos seus antigos devotos. 



4 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Até certo ponto eu estou de accordo com estes princípios, mas não 
desconheço quanto são perigosos se os quizerem pôr rigorosamente em 
pratica. Poderia muito bem dar-se o caso que nos tivéssemos de arre- 
pender e reconsiderar, pois que muita coisa que tem sido condemnada 
num dia vem mais tarde a ser rehabililada. Assim succedeu, por exem- 
plo, com a arcliilectura e com a arte gothica, que os clássicos votaram 
ao desprezo, laxando-a de barbara. 

Dcve-se ainda advertir que a selecção nos museus não ha de locar 
o extremo nem ullrapassar certos limites, pois um tal rigorismo chega- 
ria a produzir lacunas imperdoáveis. Certamente que de uma escola ou 
de um artista não sé deve acceitar tudo indislinctamente, antes se ha de 
proceder a minuciosa escolha. Na historia da arte ha paginas tristes e 
ridículas, que todavia não convém inulilisar, rasgando-as impiedosamente, 
por completo. As phases da evolução artística não se suecedem gradual- 
mente, em marcha progressiva. As épocas de resplendor allernam-se com 
as épocas de decadência e d'estas alternativas e d'estes contrastes se tira 
proveitoso ensinamento. Os directores das galerias publicas carecem de 
ser dotados de um certo espirito de tolerância, de um certo ecleticismo, 
para que as suas collecções não obedeçam a um pensamento reservado, 
a um principio exclusivista, que pôde ser prejudicial para o estudo de 
uma dada serie, de uma dada época ou de uma dada escola. 

Postas estas breves reflexões preliminares, apresentarei o novo elenco 
de pintores, alguns dos quaes haviam passado até agora completamente 
desconhecidos. Averiguada a sua existência individual, resta comproval-a 
com a sua actividade artística, o que talvez, em grande numero de casos, 
seja impossível. Não se deve comtudo desanimar, porque ninguém sabe 
quantos elementos elucidativos poderão vir, casual e inesperadamente, 
aggregar-se áquelles de que estamos de posse. 



I. — Abreu (Simão de). — Fiz expressa menção (Teste pintor na primeira 
serie d'esta Noticia. Cumpre-me agora accrescentar que elle foi investido ofi- 
cialmente no cargo de pintor do convento de Christo de Thomar em carta de 
13 de setembro de 1584. Succedeu a Fernão Rodrigues, pela morte do qual 
vagara aquelle ofJQcio. 

«Dom Phellipe etc. como gouernador etc, faço saber aos que esta minha 
carta uirem que por ora estar vaguo o officio de pintor do comuento da uilla 
de Thomar da dita ordem per falecimento de Fernão Roiz ultimo pintor que 
foj do dito conuento e por confiar de Simão d Abreu pintor e morador na dita 
villa que sernira o dito officio bem e uerdadeirameute visto ser auido por 
auto e soficieiite pello exame que se niso fez ey por bem e me praz de lhe 
fazer mercê do dito officio e o dou ora daquy em diante por pintor da egreia 
do dito comuento com o qual officio terá e aueraa o mantimento a elle orde- 
nado asy e da manejra que o elle fernão Roiz seu antecessor tinha noteficoo 
asj ao Reuerendo dom prior e frejres do dito comuento e mando que o ajam 
daquj em diante por pintor da egreia do dito conuento e lhe acudão com seu 
mantimento a elle ordenado e por firmeza de todo lhe mandey dar esta carta 
per mj asjnada e pasada pella chancellaria da dita ordem a qual se comprira 
sendo pasada pella dita chancelaria e em outra manejra não. Dada na cidade 
de Lixboa a xiij de setembro. — Luis Serrão a fez anuo do nacimento de Nosso 
Senhor Jhesu Christo de jb c lxxxiiij — e eu Amrrique Gamello o fiz escreuer.» 1 



1 Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Christo. L.° o, (1. 259 v. 



6 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



II. — Affonso (Jorge). — Delle falei largamente na primeira serie d'esta 
Noticia. Tenho agora a accrescentar um seu conhecimento ou recibo da tença 
de dez mil reaes, relativa ao armo de 1516, a qual vencia como pintor d'el-rei 
e lhe estava consignada na Casa da Mina. 

«Recebeo Jorge Afomso pimtor dei Rey noso Senhor de Bastiam de Var- 
gas, thesoureiro da casa da myna dez mjll reaes de sua teença deste anno 
que na dita casa tem asentada per carta Jeeral e por verdade lhe deu este 
conhecimento. Feito em Lixboa a bij dagosto de mill b c dezasejs. =Jorje 
Afomso= Pedro de Ferreira.» 1 



III. — Alvares de Andrade. (Luiz) — D'este pintor d'el-rei já ficou feita 
menção na primeira parte d'esla Memoria. Agora reproduzirei diversas ordens 
de pagamento, assignadas pelo provedor D. Fernando Alvia de Castro, pelas 
obras que elle executou em 1617 para a capitania e outros navios da armada 
do Mar Oceano, de que era commandanle D. Fadrique de Toledo.* Essas 
obras consistiram na pintura de estandartes, bandeiras, pbaroes, imagens de 
proa, etc. 

Alvia de Castro, provedor da real armada e exercito do Mar Oceano e 



1 Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte m, maço 6, doe. 27. 

2 No documento original parece lôr-se Salcedo, o que julguei desde logo inadmissível. 
Para tirar todas as duvidas, consultei pessoa competentíssima, o meu amigo e illuslre consócio 
na Real Academia de Historia de Madrid, o sr. D. Cesáreo Fernandez Duro, o qual teve a ama- 
bilidade de me responder na seguinte carta: 

«22 de julio 1906. — Mi distinguido Seíior y amigo. Creo que la persona a queserefiere 
la consulta de V. es la de D. Fadnque de Toledo, ilustre capitan general de la Armada dei 
Mar Oceano, nombrado en 21 de mayo de 1617 hasta 1 634 que muno. Fué el que recupero la 
plaza de San Salvador dei Brasil en 1625 y aunque obtuvo el titulo de Marquês de Villanueva 
de Valdueza, no solia usarlo. 

«No cabe equivocacion de apellido pues solo hubo un D. Diego de Salcedo, Capitan ge- 
neral de las islãs Filipinas en 1664. 

«Cora motivo de una batalla naval ganada á los hollandeses el 10 de agosto de 1621, 
consta que la capitana de D. Fadrique de Toledo era una hermosa nave de 60 caiiones, que 
no tenia par entre las enemigas. 

«Presumo que las pinturas pagadas para esta capitana serian banderas ó estandartes. 

«Deseo que pase V. un verano agradable, descansando de sus asiduos trabajos, siempre 
afectiscimo §uyo — Cesáreo Fernandez Duro.» 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



7 



da gente de guerra e galeras do reino de Portugal, não só exercia officios mi- 
litares, mas também cultivava as letras. De obras suas, publicadas em Lis- 
boa, tenho noticia das seguintes: 

Verdadera razon de Estado. Discvrso politico... Por Pedro Craesbeeck, 
1616; 

Aphorismos, y exemplos políticos, y militares. Sacados de la primcra Dé- 
cada de Juan de Barros. Por Pedro Craesbeeck, 1621; 

Pedaços primeros de vn disccrso largo en las cosas de Alemania . . . Por 
Lourenço Craesbeeck, 1636; 

Penegirico genealógico y moral dd excelente dvque de Barcelos... Por 
Pedro Craesbeeck, 1628; 

Tradvcion dei Compendio italiano de la vida dei santo Francisco Xavier. 
Por Pedro Craesbeeck, 1630; 

Memorial y discurso politico por la muy noble y muy leal ciudad de Lo- 
grono, 1633. 

«Por librança dei prouedor Don Fernando Aluía de Castro de 17 de 
agosto de 1617 se le libraron en el pagador general Geronimo de Vittoria 
dos mill y quiníentos reales a quenta de lo que ade hauer por pintar ai olio 
por ambas partes con las armas reales y las de Dom Fadrique de Toledo 
officio cappitan general de larmada un estandarte de damasco carmesim pêra 
seruicio de la popa de la capitana Real delia y assi mismo por fechadura y de 
mas cossas nescesarias que a de poner en el. 

«Por otra librança fecha en el dicho dia se le libraron nueuecientos reales 
a quenta de lo que hovier de auer per ocho banderas de tope de lienço Ruan 
de a quarenta baras medida de Portugal que a de hazer pêra seruicio de la 
cappitana y almiranta Real. 

«Por otra librança dei dicho dia se le libraron seiscientos reales a buena 
quenta de lo que huuieçe de hauer per dorar dos fanales grandes y un pe- 
queno de gauia pêra seruicio de la cappitana y almiranta Real un quadro y 
olras pinturas quo esta haziendo en las faluas dei seruicio delia. 

«Por otra de 18 de julio de 1617 se le libraron en el dicho pagador ge- 
neral Geronimo de Vittoria mill y ochocienlos reales a quenta de lo que hu- 
bier de hauer por hacer pintar ai temple por anbas bandas con las armas rea- 
les onze bandeiras de tope y dez pequenas de Ruan para seruicio de la cap- 
pitana y almiranta y una ymagen de popa de Nuestra Senhora dei pilar y San 
António. 

«Del dinero que se libra a quenta de lo que huuier de hauer por pintar 
ai olio un estandarte de damazco carmesi por ocho bandeiras de tope y dorar 
dos desfanales grandes e un pequeno de gauia para la armada dei mar oceano. 



8 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Por libranza de 3 d3 Septienbro 617 se le libraron en el pagador ge- 
neral Geronirao de Vittoria 1$478 reales a cunplimiento de 6)51681 que hubo 
de hauer por el balor de un estandarte real de damasco carmesi que se le 
conpro pêra la cappitana real de la armada con que satisfize el cargo de los 
2#500 reales de en frente 

«Por librança dei prouedor Don Fernando de Albia fecha em 3 Septien- 
bro 617 se le libraron en el pagador general Geronimo de Bittoria setecientos 
y cinquenta y dos reales y l /i a cunplimiento de 4052 reales que inporta el 
balor de 11 bandeiras y dos estandartes y la hechura de una ymagen de popa 
de Nuestra Senhora dei Pilar y San António y otras cosas de su olDcio para 
los galeones y nabios de la armada con que queda enteramenle pagado. 

nUma rubrica — Iden en todo.» 1 



IV. — Anes de Leiria (Francisco). — N'um documento do cartório con- 
ventual da Carnota, a que se refere o sr. Guilherme J. C. Henriques no seu 
opúsculo O ex-convento da Carnota-Alemquer e o seu concelho, fala-se de di- 
versos artistas do século xv, que executaram obras n\iquelle mosteiro, entre 
os quaes o pintor Francisco Anes de Leiria, cujo appellido final era sem du- 
vida patronymico. 

Era filho de João Affonso, o mesmo sem duvida que trabalhou na Bata- 
lha e de quem trato na l. a parte d'esta Noticia, sob o n.° IV, a pag. 6. 

O trecho do opúsculo do sr. Henriques que se baseou na Chronica da 
respectiva Ordem, escripta por Fr. Martinho do Amor de Deus sob o titulo 
de Escola da Penitencia, Caminho da Perfeição, etc, é do teor seguinte e 
vem a pag. 9: 

«Sendo Vigário Frey Henrique dé Leiria, no anno de 1450, se pintou o 
retabolo do altar mór, o qual pintou Francisco Annes de Leiria, filho de João 
Affonso. Levou de o pintar, doze mil reis brancos. O dito pintor pintou na 
parede o Crucifixo da igreja, e a Custodia de Corpo de Deos, e S. Gregório, 
e o Senhor com os seus Martyrios, e o Crucifixo de Refeitório. E o carpinteiro 
que fez o retabolo chamava-se Mestre Simão, o qual mandou fazer Frey Lou- 
renço d'Azambuja, sendo Vigário; o dito Mestre fez o Coro do dito oratório 
e a Custodia do Sacramento. Derão-lhe um moyo de trigo e dous mil reis, e 
de comer a elle e a Cornelio, seu mancebo freixeiro.» 



1 Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte n, maço 334, doe. 43. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 9 



V. — Anes ou Eanes (Gonçalo). — Era clérigo, capellão e illuminador dos 
livros de D. Affonso V. Em carta de 3 de julho de 1452 fez-lhe el-rei mercê 
de cinco mil novecentos e dezaseis reaes brancos, de tença annual, sendo 
qoatro mil cento e dezaseis de moradia e mil e oitocentos reaes para vestia- 
ria, isto é, para nove covados de bristol e nove de rolles. Publiquei esta carta 
na integra na minha Memoria sobre A livraria real. 

Três annos depois, na carta que nomeia a Vasco illuminador, faz-se re- 
ferencia a Gonçalo Anes. 

O reinado de D. Affonso V foi um dos mais longos (1438-1481) e du- 
rante os seus 43 annos não deixaram de florescer as letras, as artes, as in- 
dustrias, embora a tranquillidade geral do paiz, compromettida por vezes de 
ura modo bastante grave, não permittisse o seu pleno desenvolvimento. 

Fallecido D. Duarte, surgiu logo a mais deplorável discórdia por causa 
da regência e tutoria do seu successor, tão menino ainda. A rainha mãe sahiu 
violentada do reino, abandonando ao infante D. Pedro a tutella e educação de 
seu filho. O regente exerceu com firmeza e tino o poder que lhe fora confiado, 
mas não soube debellar os ódios e intrigas dos seus emulos, que não tarda- 
ram em acirrar o animo do joven rei contra o pae de sua esposa, que tão 
correctamente havia deposto nas suas mãos o governo. A batalha de Alfarro- 
beira, uma das paginas mais lutuosas da nossa historia, foi o miserável desfe- 
cho d'esse drama cortezão e familiar, em que a perfídia campeou de principal 
agente. 

Era 1457 partiu el-rei para a conquista de Alcácer em Africa, renovando 
em 1471 a sua empreza com destino a Arzilla e Tanger. Os triumphos alcan- 
çados na Mauritânia incitaram-n'o talvez nos seus Ímpetos bellicosos contra a 
Hespanha, mas a invasão nos reinos de Castella foi coroada de um successo 
bem differente. A derrota de Touro fez murchar os louros do vencedor de Arzilla. 

Nos intervallos das luclas intestinas e das guerras extranhas, os desco- 
brimentos marítimos proseguiram na sua marcha pertinaz, ainda que morosa, 
effectuando-se algumas expedições ás Canárias e não cessando o percurso da 
costa africana. A pirataria, que infestava então os mares, obrigava por vezes 
as nossas armadas a fazer preparativos mais sérios a fim de reprimir a au- 
dácia dos corsários francezes, inglezes e de outras nações. No interior, as ri- 
xas entre bandos e parcialidades de diversos fidalgos eram frequentes, assim 
como eram frequentes também os distúrbios populares, como os assaltos ás 
judiarias, mas estes casos quasi se podem considerar como violentas occor- 
rencias policiaes dos nossos dias. 

Apesar de tudo isto, a nossa corte n'aquelle tempo foi uma das mais po- 

Agosto, 1906. 2 



10 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

lidas da Europa, como bastaria a demonstral-o o vertiginoso conjuncto de fes- 
tas, tão numerosas como variadas, que se realisaram em Lisboa para celebrar 
os esponsaes da infanta D. Leonor, imperatriz da Allemanha. Infelizmente não 
chegou até nós nenhum quadro ou miniatura representativos do espectáculo, 
ou antes serie de espectáculos, que deslumbraram os olhos dos naturaes e fo- 
rasteiros. Tantas justas e torneios, tantas cavalgadas, tantos festins, tantas re- 
presentações, tanta riqueza de vestuário e de adereços, haviam de occupar ne- 
cessariamente um grande numero de arlistas e artífices de diversa espécie, no 
recortar dos trajos, no pintar dos emblemas, no cinzelar das taças, no brunir 
das armaduras, no reger das danças, no instrumentar das musicas e dos 
cantos. 

Alguns monumentos da época revelam-nos quanto a pintura foi cultivada e 
tida em estima. Entre os manuscriptos illuminados merece apontar-se a Chro- 
nica de Guiné, ornada com o bello retrato do infante D. Henrique. Este mesmo 
retrato apparece n'um dos quatro magníficos painéis de tábua, que estão hoje 
n'um dos vastíssimos corredores do palácio da Patriarchal, antigo mosteiro 
de S. Vicente de Fora. O assumpto d'estes quadros ainda não está decifrado, 
mas parecem representar actos ou solemnidades de qualquer confraria ou cor- 
poração religiosa, não clerical ou monástica. O estudo da sua procedência aju- 
dará por certo a determinar a sua significação histórica. Como quer que seja, 
elles são de inapreciável valor, cheios de figuras expressivas, copiadas do na- 
tural, verdadeiros retratos. Se fosse possível sobre cada uma d'aquellas cabe- 
ças pôr o nome das personalidades que aviventaram, ter-se-ia a mais brilhante 
galeria ethnographica do século xv. 

Os documentos contemporâneos indicam-nos bastantes illumiuadores e 
pintores, sendo hoje difficilimo fixar a importância de qualquer d'elles, por 
isso que não nos é dado saber quaes foram e onde existem as obras que 
executaram. No convento da Cartuxa, em Évora, trabalhou, por exemplo, um 
Affonso Gomes, mas logo por infelicidade desappareceram os trabalhos d'este 
pintor. É possível, porém, que em ulteriores pesquizas nos cartórios, princi- 
palmente das corporações religiosas, se venham a encontrar elementos que 
ajudem a resolver alguns problemas, que nos parecem hoje insolúveis. 

Como remate a estas breves considerações, darei agora uma lista, exclu- 
sivamente nominal, dos pintores do reinado de D. Affonso V, de que tenho 
conhecimento. 

Affonso Gonçalves — 1431. 
Affonso Pires — 1478. 
Álvaro Gonçalves — 1460. 
Álvaro Pedro— 1450. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 11 

Antoninho (Mestre) — 1430. É de crer que a sua existência se prolon- 
gasse até ao reinado de D. Affonso V. 
António Florentina— 1439. 
António de Moralles — 1475. 
Fernão Cerveira — 1478. 
Fernão de Lisboa — 1471. 
Francisco Anes de Leiria — 1450. 
Gonçalo Anes ou Eanes — 1450. 

João Affonso — 1473. Parece ter havido outro do mesmo nome. 
João Alvares — 1451. Idem. 
João Anes — 1454. 
João Gonçalves — 1465. 
João Martins— 1441. 
Lourenço Martins — 1449. 
Luiz Dantes— 1454-1466. 
Nuno Gonçalves — 1450. 
Pêro Affonso — 1456. 
Pêro Affonso Gallego — 1441. 
Pêro Vaz — 1473. 
Rodrigo Anes — 1481. 
Vasco — 1455. 

Vasco Anes ou Eanes — 1450. 
Vicitor ou Victor Visete — 1452. 

Todos estes indivíduos vêem mencionados, como o leitor poderá verificar, 
tanto na l. a como na 2. a parte d'esta Noticia. 



VI. — Anes (Rodrigo). — Pintor de D. João de Almeida, do conselho de 
D. Affonso V e seu veador da fazenda. Era morador em Punhete, hoje Cons- 
tança, e tinha por servidor ou creada uma Leonor Alvares. Querendo o alcaide 
pequeno da terra prendel-o, elle offereceu vigorosa resistência tanto á espa- 
deirada como á pedrada, sendo n'isto coadjuvado pela sobredita Leonor Alva- 
res, que parece ter-se mostrado não menos varonil. Por este motivo a justiça 
querellou dos criminosos, que tiveram de se homiziar. Obtendo, porém, per- 
dão das auetoridades, el-rei lh'o confirmou em carta de 20 de maio de 1481, 
devendo pagar para a Piedade oitocentos reaes, sendo seiscentos por elle e 
duzentos pela serva. 

«Dom Afomso etc. Saúde sabede que Rodrige Anes pintor de dom Joham 



12 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

d Almeida do nosso conselho e veedor da nossa fazenda e Lianor Aluarez sua 
serujdor moradores em Punhete nos ennjaram dizer que hum Pêro Diaz alcaide 
pequeno do dito logo querelara delles as nossas justiças dizendo que em que- 
rendo elle alcaide prender a elle Rodrige Anes que elle Rodrige Anes regis- 
tira com nua espada contra elle e com pedras e bem asy rregistira contra elle 
a dita Lianor Aluarez com pedras e o tomara pellos cabellos e todo esto lhe 
fezerã em pesoa de Joham Aluarez juiz em o dito loguo por rrezam da quall 
querella sse elles amoraram com temor das nosas justiças e que ora os ditos 
alcaide e juiz lhe perdoaram e o nom querjã acusar nem demandar por rre- 
zam da dita querella e resistência que asy fizeram segundo veer poderjamos 
per hum pubrico estromento de perdam que perante nos emviaram apresen- 
tar que parecia sseer feito e asynado per Esteue Aoes tabelliam em o dito logo 
de punhete aos iij dias do mes de mayo presente do ano desta carta e porem 
nos pediam os ditos sopricantes por merçee que lhes perdoasemos a nossa 
justiça sse nos a ella por rrezam da dita querella e resistência em algúa guissa 
eram theudos e nos vendo o que nos elles asy dizer e pedir enujaram se asy 
he como diz e hi majs nom ha e querendolhes fazer graça e merçee visto o 
perdam das partes teemos por bem e perdoamos lhe a nossa justiça os que nos 
elles por rrezam da dita querella e resistência eram leudos com tanto que elles 
pagassem oyto cemtos rreaes pêra a piedade »s« elle sejs cemtos e ella du- 
zentos e por quanto eles ja pagaram os ditos dinheiros e os entregaram a frey 
Joham de Santarém nosso esmoller que tem carreguo de os rreceber segundo 
dello fomos certo par hum seu asynado e per outro de Francisquo dEuora 
nosso espriuam das malfeiturias que os sobre elle pos em rreçepta vos man- 
damos que daquj em djante os não prendaes etc. dada em Torres Nouas xx 
djas de mayo EIRey o mandou pello doutor Joham Teixeira do seu conselho e 
etc. e por o doutor Fernam Rodriguez anbos do seu desembargo e pitiçoõees 
— Pedraluarez a fez de mjll iiij c Ixxxj.» 1 



VII. — Anes ou Eanes (Vasco).— Em carta de 7 de agosto de 1450 confir- 
mou D. Affonso V um instrumento, pelo qual Leonor Vasquez, viuva do ouri- 
ves João Affonso, residente em Lisboa, perfilhou seus sobrinhos Vasqne Anes, 
pintor, e Branca Vieira, sua mulher, filha de uma sua irmã, moradores na mesma 
cidade a Caiaque farás. 

Raczynski conjectura que este Vasco Eanes pôde ser o Vasco illuminador 
que apparece n'um documento de 1450 e de quem trato adeante. 



1 Torre do Tombo. Ghancellaria de D. Affonso V. L.« 26, fl. 86. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 13 

fDom Afonso etc. A quantos esta carta de comfirmaçom uirem fazemos sa- 
ber que perante nos foi presentado huum estorraento de perfilhamento que pa- 
recia seer fedo e assignado per Fernamdafonso tabaliam era essa mesma em o 
qual era contheudo antre as outras cousas que Lianor Uaasquez molher que foy 
de Joham Afonso ouriuez em essa mesma morador dissera que ela de sua liure 
pura uontade sem outro Rogo nem agalhamento que em ello fosse fecto nem 
dicto por algQua pessoa ella perfilhara e Recebera por filhos e herdeiros e her- 
deiras em todos seus bêes mouees e Raiz bonde quer que fossem achados Uaas- 
que Annes pintor e Rranca Uieira sua molher sobrinhos delia dieta Lianor Uaaz 
filha de sua hirmãa moradores em a cidade de Lixboa a Cata que farás e que 
por sua morte eles possam herdar assi como se fossem seus filhos lídimos e 
os dictos Uaasque Annes e a dieta sua molher lhe disserom que eles Recebiam 
por sua madre em todos seus bêes a dieta Lianor Uaasquez e per o dito es- 
tormento Renunciaua todolos outros perfilharaentos doaçoões e testamentos e 
cédulas e codicillos e outras quaaesquer escripluras que ella atee qui tiinha 
fectas de seus bêes aalgQuas pessoas ou da qui em diante fezesse e mandara 
que nom ualessem nem teuessem em jujzo nem fora dele saluo o dicto es- 
tamento de perfilhamento segundo todo esto e outras cousas em o dicto es- 
tormento de perfilhamento milhor mais compridamente eram comtheudas e que 
nos pedia por mercee que lhe confirmássemos o dito perfilhamento e nos ueendo 
o que nos assi dizia e pedia com o dicto estormento e huua emquiriçom que 
ante sobre ello mandamos filhar per que se mostra que a dieta Lianor Uaas- 
quez outorgou o dicto perfilhamento de sua liure uontade sem alguum emgano 
e prema e que nom auia filhos nem herdeiros e querendo lhe fazer graça e 
mercê, Teemos por bem e comfirmamoslhe e outorgamos lhe e aprouamos e 
Ratificamos o dicto perfilhamento pela guisa que fecto he e ho auemos por 
bõo e porem mandamos a todollos jujzes e justiças dos nossos Regnos que assi 
lho cumpram e guardem e façam comprir e guardar bem e compridamente 
pela guisa que fecto he e lhe nom uaaom nem comsentam hir comtra ele em 
nenhúa maneira que seia ca nossa mercee e uontade he de lhe seer bem com- 
prido e guardado per a guisa que fecto he e no dicto estormento he comtheudo 
nom embargando quaaes quer dereitos custumes e lex que esto possam em- 
bargar com emtendimento que esto nom faça nenhuum prejujzo a alguuas pes- 
soas que algúu dereito aiam nas dietas cousas e em testemunho desta lhe man- 
damos dar esta nossa carta, dada em a cidade de Lixboa aos bij dias d agosto 
EIRey o mandou per os doutores Ruy Gomez d Aluarenga e Lopo Uaasquez de 
Serpa seus uassallos e do seu desembargo e petiçõoes. Philipe Afonso o moço 
a ffez anno do Senor iiij c 1. annos.» 1 



i Torre do Tombo. Extremadura. L. 9 8, fl. 297 v. 



1 4 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



VIIL— Antoninho (Mestre).— Era pintor e residia em Lisboa, no Arra- 
balde, na primeira metade do século xv. Sua mulher chamava-se Catharina 
Affonso e d'ella houve, por casamento e herança, certos bens de raiz em Azei- 
tão e Coina, que pertenceram a sua sogra Maria Vicente. Os de Azeitão fica- 
vam situados a par da egreja de S. Lourenço, sendo a quarta parte de uma 
quinta, que já fora de Marcos Vicente, avô de Catharina Affonso. Parecia ser 
propriedade importante. Os outros quinhões estavam na posse dos filhos de 
Vasco Fernandes, de Coina, netos de Marcos Vicente. Mestre Antoninho e 
sua mulher resolveram vender aquelles bens, passando procuração para este 
fim a Álvaro Affonso Brincão, morador na aldeia de Nogueira, de Azeitão. 

A venda devia efíectuar-se em hasta publica, a quem mais desse, perante 
as auctoridades competentes, ás quaes o dito procurador mostrou os papeis 
de que estava munido e que o habilitavam a exercer legalmente aquelle encargo. 
Um d'elles era um instrumento escripto em pergaminho em Lisboa pelo tabel- 
lião de el-rei, Lourenço Anes, aos 29 dias do mez de março da era de César 
de 1452, e n'elle se provava que os ditos bens direitamente pertenciam, por 
herança e casamento, a mestre Antoninho e sua mulher. O outro era a res- 
pectiva procuração, passada em Lisboa pelo tabellião Gonçalo Pires a 18 de fe- 
vereiro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1430. 

Seis dias depois, a 24 de fevereiro, realisava-se o leilão, sendo licitantes 
e compradores Estevam Esteves, escudeiro e morador em Cezimbra, e sua mu- 
lher Maria Lourença, que deram de preço e pagaram cinco mil reaes brancos 
em dinheiros e oiro amoedado de coroas de França. N'esta quantia entrava 
também o valor da pequena casa de Coina. 

A escriptura d'este contracto, onde tudo vem extensamente relatado, 
acha-se registada n'um dos livros do Tombo do extincto convento dominicano 
de Santa Maria da Piedade de Azeitão, d'onde tirei o treslado que adeante 
se lê. 

Estevam Esteves foi fundador do mosteiro de S. Domingos de Azeitão, ce- 
dendo para este effeito a parte da quinta que comprara a mestre Antoninho. 

«Em nome de Deos amem saibham quantos esta carta de pura uenda vi- 
rem que na era do naçimento de Nosso Senhor Jhesu Christo de mjll e quatro 
centos e trinta anos vinte e quatro dias do mes de feuereiro è" Azeitam apar 
da egreja da Sam Lourenço do djto logo termo de Sezibra sseendo hi Affonso 
Anes Romeu juiz hordenairo da djta villa en pressença de mjm diego Affomso 
tabelliam pello jfante dom Joham no djto logo e das testemunhas que adiante 
sam escritas parçeo hi Aluaro Affomso Brjncam morador em o djto logo d Azei- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 15 

tam na aldeã da Nogeira termo da djta villa e disse que meestre Antonjnho 
pintor e Catharina Affomso ssua molher moradores na cidade de Lixboa no 
arraualde lhe disseram e deram poder per ssua procuraçam abastante que logo 
hy mostrou que elle dyto Aluaro Affomso em nome delles uêdesse e podesse 
uêder todollos bêes de Rajz que elles aujam em o djto logo d Azeitam e em 
Couna que elles ouueram e cobrara per erança e casamento de Maria Vicente 
ssogra do djto meestre Antonjnho e madre da djta Catharinaffomso ssua mo- 
lher os quaaes bêes jazem apar da egreja do djto Sam Lourenço comuem a 
saber a quarta parte de toda a quintãa que foy de Marcos Vicente auoo da djta 
Catharina Affomso e majs hua cassa em Couna e por quanto elle djto Aluaro 
Affonso dizia que achaua quem lhe conprara todollos djtos bêes e os queria 
uêder pressente elle djto juiz a quê lhe delles mays desse o djto Aluaro Af- 
fomso amostrou e per mjm ssobre djto tabelliam leer ffez hQu estromento pru- 
bico escprito em purgamjnho e que fora ffecto na cidade de Lixboa nas cassas 
do djto meestre Antonjnho aos víjte e noue dias do mes de mayo da era de Ce- 
zer de mjll e quatro centos e çinquoenta e dous anos ffecto e asijnaado per Lou- 
renço Afies tabelliam delRej em a djta cidade ssegúdo em elle parecia pello 
quall estromenlo sse amostraua antre as outras coussas que os bêes ssuso dj- 
tos eram todos do djto meestre Antonjnho e da djta ssua molher per erãça e 
casamento como djto he e asy amostrado o djto estromento logo o djto Aluaro 
Affomso mostrou a djta procuraçam que lhe os ssobre djtos ffizeram abastante 
em todo pêra elle poder uender os djtos bêes ffecta e asynaada na djta cidade 
no arraualde nas cassas do djto meestre Antonjnho per Gouçallo Pirez tabel- 
liam delRey em a djta cidade aos dez oyto dias do mes de feujreiro da era 
ssobre djta do naçimento de Nosso Senhor Jhesu Christo de mjll e quatro cen- 
tos e trinta anos em a quall procuraçam sse mostraua antre as outras coussas 
que o djto meestre Antonjnho e a djta ssua molher deram anbos sseu com- 
prido poder ao djto Aluaro Affomso Brjncam que elle em sseus nomes uêdesse 
e podesse uêder todollos sseus bêes de Rajz que elles aujam em o djto logo 
d Azeitam e em Couna ssegudo djto he a quê elle quisesse e pellos preços que 
lhe aprouguesse e que lhe podesse mãdar fazer e ffizesse todallas escritu- 
ras de fermjdõoe que aa djta venda e auto delia pertêeçesse ffectas per quall 
quer tabelliam que a djta procuraçam vise e que Reçebese os preços por que 
os djtos bêes uêdesse e desse dello quitaçõoes aas partes de que os Recebesse 
e que aujã por firme e estaujll pêra todo ssempre todo aquello que pello djto 
sseu procurador ffosse ffecto e afirmado em todo o que djto he ssobrjgamento 
de todollos sseus bêes que pêra esto obrigara e amostrada a djta procuraçam 
e estromento perante o djto juiz logo o djto Aluaro Affomso per poder da djta 
procuraçam e do mãdado e autoridade do djto juiz e pressente ell uêdeo e ou- 
torgou por pura uêda deste dia pêra todo ssenpre a Esteuã Esteuez escudeiro 



16 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

morador em Sezíbra que pressente estaua e a Maria Lourenço ssua molher to- 
dollos bêes ssusso djtos de Rajz com todas ssuas noujdades e pertêeças que 
o djto meestre Antonjnho e a djta Catharinaffomso ssua molher tjinham e au- 
jam em o djto logo d Azeitam termo da djta villa de Sezíbra cõuê a ssaber a 
quarta parte da quintãa ssusso djta que ffoy do djto Marcos Vicente asy como 
jaz deuissada e demarquada cõuê a ssaber de casas e vinhas e herdades de 
pam e oljuall e pumar e figeiras e outras aruores e logradoiros delias e aguas 
e Ressios e montes e fontes e matos e canpos asy arroios como a por aRonper 
e a parte e djreito quinham do lagar do azeite que hi esta na djta quintãa os 
quaaes bêes e quarta parte da djta quintãa jazem deujsados e demarquados e 
partem de todas partes com os bêes e quintão da djta erãça que ora ssam dos 
filhos de Vaasquo Fernandez de Couna netos do djto Marcos Vicente cuja a djta 
quintãa foy e partem majs com bêes da quintãa da capeella de Lourenço De- 
njs que ora tem Fernandaluarez que antijgamente foram todos de húa erança 
e com outros com que de djreito deuem de partjr e outrossy lhe uêdeo majs 
com os djtos bêes húa cassa pequena que os ssobre djtos uêdedores tijnhã e 
aujam em Couna aquall parte ao aleuãte com cassa que foy de Johã Vicente 
Escollar e ao poete parte com cassa de Maria Vicente ssogra do djto meestre 
Antonjnho e aagiam e abrego parte com Ruas prubicas os quaees bêes ssusso 
djtos assy como ssam deujsados que o djto meestre Antonjnho e a djta ssua 
molher tynham e aujã em o djto logo d Azeita e de Couna e de djreito majs 
compridamente deujam dauer o djto Aluaro Afíomso uêdeo ao djto Esteuã Es- 
teuez e a djta ssua molher como dito he foros e jssêetos dizimo a Deos com 
todas ssuas entradas e ssaidas e djreitos e pertêeças asy como os elles djtos 
uêdedores aujã por preço certo nomeado cõuê a ssaber por çinquo mjll reaes 
brancos em dinheiros e ouro amoedado de coroas de Frãça que logo o djto Al- 
uaro Affomso procurador dos djtos uêdedores em nome deites cotou e Reçe- 
beo do djto Esteuã Esteuez pressente mjm ssobre djto tabelliam e testemu- 
nhas adjante escritas per conpra dos djtos bêes do quall preço sse elle deu por 
bem pagado e entregue e disse que daua o djto Esteuã Esteuez e ssua mo- 
lher e bêes e herdeiros por quitees e ljures pêra ssenpre de todollos ditos di- 
nheiros e preço ssuso djto que pellos djtos bêes dera e mãdou e outorgou que 
o djto Esteuã Esteuez e ssua molher e todos sseus herdeiros e ssoçessores que 
despos elles ueerem que daqui em diante pêra todo sseupre ajam elles e po- 
sam auer e lograr por sseus e como seus todollos djtos bêes e pertêeças 
delles assy como ssobre djto e decrarado he e que ffaçam delles e em elles 
todo aquello que lhes aprouguer assy como de sseu auer propio que he e ar- 
reunçiou em nome dos ditos uêdedores todo djreito e pose e ssenhorio e erãça 
e propiadade que os djtos uêdedores tijnham e aujam nos djtos bêes e o pos 
todo cõpridamente nos djtos compradores e em todos sseus herdeiros e soçe- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 17 

sores como dito he e logo o djto Aluaro Affomso per poder da djta procuraçã 
e per autoridade do djto juiz ffez e outorgou a djta uêda como djto he e com. 
o djto juiz e comjgo ssobre djto tabelliam e testemunhas sse foy coin o djto 
Esteuã Esteuez ueer e apeegar todollos djtos bêes e lhos entregou e o me- 
teo em posse delles asy e per aquelles moodos que o djreito mãda e sse deue 
de fazer e o djto Esteuã Esteuez sse ouue por entregue dos djtos bêes e de 
todas ssuas pertêeças e tomou em ssy a posse e têeça e senhorio delles e logo o 
djto Aluaro Affomso obrjgou todollos bêes dos djtos uendedores mouijs e Raizs 
anudos e por auer a lhe defender e enparar todollos djtos bêes e suas per- 
têeças delles a todos tempos de quallquer pessoa ou pessoas que lhos embar- 
garem ou demãdar quisserem ssopena do dobro e de quanto em os djtos bêes 
ffor ffecto e melhorado e majs lhe pagarem os djtos uêdedores todas custas e 
despesas e perdas e danos que os djtos compradores ou sseus herdeiros e 
ssoçessores por esta Razam ffezerem e Receberem e com quinhentos reaes 
brancos em cada húu dia de pena ssobrjgamento de todollos bêes dos djtos 
uêdedores que pêra esto obrjgou o djto sseu procurador e os deu aa penhora 
e fiodaria de todo o que djto he e em testemunho da uerdade e firmeza lhe 
mãdaram assy sseer ffecta esta carta de uêda ffecta e outorgada no djto logo 
dAzzeitam dia e mes e era ssusso djta testemunhas que a esto pressentes 
fforam o djto juiz e Fernãdaluarez escudeiro e Joane Afies creligo moradores 
no djto logo d Azeitam e Apariçaffomso e Martjm Vaasquez fllho de Vaasquo 
Fernandez moradores em Couna e outros e eu ssobre djto tabelliam que per 
mãdado a outorgamento do djto Aluaro Affomso procurador dos sobre djtos 
uêdedores esta carta escpreuj e aqui meu ssinall fiz e eu Fernãdaluarez sso- 
bre djto taballiam que a djta carta em este pressente ljuro de tõbo treladey e 
aqui meu ssinall ffiz que tall he: -f .»' 



IX. — Azevedo (João de).— Sabe-se apenas que era pintor e que residia no 
Rio de Janeiro em 166Í). Em sua casa assistia um estudante, Silvestre Fran- 
cisco, que vem apontado com outras testemunhas na denunciação enviada ao 
Santo Officio de Lisboa por Frei Luiz Lamberto, que parece extraqgeiro, con- 
tra Luiz de Crasto, morador na mesma cidade. 

O accusado era christão novo e tinha parentes presos na Inquisição. D'esta 
dizia que era uma trampa — por certo no sentido que a palavra ainda hoje con- 
serva no hespanhol — e que só servia para tomar as fazendas dos delinquentes. 

A denuncia de Frei Luiz Lamberto não apparece, vindo indicada no se- 
guinte requerimento do promotor do Santo Officio: 



1 Torre do Tombo. Tombo n.° 29 do Convento de Santa Maria da Piedade de Azeitão, fl. 59. 
Agosto, 1906. 3 



18 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Muito Illustres Senhores=Da denunciação junta que offereço de Fr. Luiz 
Lamberto de 22 do mez de Mayo de 669 consta que Luiz de Craslo morador 
na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro christão nouo falandose diante 
delle nos procedimentos do Santo officio dissera que o Santo Officio hera nua 
trampa, e que não seruia mais que de tomadas fazendas, o que tudo ouuirão 
— João Duarte Barbeiro — Rodrigo Coelho filho de António Coelho, e Sylues- 
tre Francisco estudante assistente em casa de João de Azeuedo Pintor todos 
moradores na dita cidade do Rio de Janeiro e porque estas palauras são dignas 
de castigo e sendo o delato christão nouo e sendo seus parentes prezos pelo 
Santo Officio aggraua mais sua culpa, pois he sentir mal do recto procedi- 
mento delle, e conuê constar judicialmente do referido. 

«Requeiro a Vossas Mercês mandem passar comissão para serem pregun- 
tadas as ditas testemunhas e as mais que do caso souberem e que venhão ra- 
tificados seus ditos e que do que resultar se me dé vista para requerer o que 
for a bem da justiça. 

*E presentado em Meza o requerimento assima do Promotor para os Se- 
nhores Inquisidores lhe hauerem de deferir de mandado dos dittos Senhores 
lho fis concluso. Manoel Martins Cerqueira o escreui. 

«Passe commissão para serem perguntadas as testemunhas que requere 
o promotor das mais que tiuerem noticia da matéria da denunciação e serão 
ratificadas as que depozerem a fauor da justiça e em o que resultar de seus 
testemunhos se dará vista ao promotor para requerer o que lhe parecer. Lis- 
boa Em meza 14 de Junho de 669 = Pedro Borges Tanares — João de Cas- 
tilho =.» 

Á margem: «Feita comissão ao Rio de Janeiro ao P." Manuel Ribeiro, 
Reytor aos 18 de Junho de 669». ' 



X. — Baccarelli (Vicente). — D'este artista italiano dá Cyrillo Volkmar Ma- 
chado, a pag. 181 da sua Collecção de memorias, uma elogiosa noticia, fazendo 
sobresahir entre as suas obras o tecto da portaria do mosteiro de S. Vicente, 
pintado a óleo em 1710. 

No Cartório do alludido mosteiro, hoje na Torre do Tombo, conserva-se 
uma provisão de D. João V, de 1719, em que attende favoralmente os fra- 
des d'aquelle mosteiro, que andavam em litigio com Baccarelli por causa da 
pintura do tecto da capella-mór da egreja, pintura que se não levou a effeito, 
pois d'ella não existem hoje os menores vestígios. 



' Torre do Tombo. Cartório da Inquisição de Lisboa. Caderno 57 do Promotor, fl. I. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTCRES 



19 



«Dom João por graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daqnem e 
dalém mar em Africa Senhor de Guiné etc. Faço saber que o prior e cónegos 
do Mosteiro de S. Vicente de Fora, me reprezentarão por sua petição que elles 
trazião bua cauza com Vicente Bacareli que pendia por agrauo ordinário na 
caza da supplicação sobre a pintura do tecto da cappella mor e coro e tiuerão 
elles supp. tes sentença a seu fauor tanto na correição do eivei da corte como 
na instancia do agrauo que o supp. do embargara na cbancellaria e estando nes- 
tes termos, como os supp. le3 tinhão mandado fazer a dita pintura vendo que 
por sentenças estaua o contrato nullo e a cappella mor impedida para nella se 
celebrar os officios Diuinos, e também os ires dias da festa de Santa Engra- 
cia, mandarão deitar abaixo os ditos andaymes ao que o supp. do viera cõ arti 
gos de attentado que se lhe julgarão e porque o mosteiro delles supp.'" era 
da minha protecção e sua a cappella mor do dito mosteiro e as obras que na 
dita Igreja se fazião erão por conta da minha fazenda real por cujo respeito 
deuia o procurador da coroa assistir lhes na dita demanda e allegar pella sua 
parte o que conveniente fosse como em outras cauzas lhes assistia. Pedindo me 
lhes fizesse mercê conceder prouizão para o dito effeito. E visto o que allegou 
e resposta do procurador de minha coroa a que se deu vista e não teue du- 
uida Hey por bem que o dito meu procurador da coroa assista aos supp.' M na 
cauza de que fazem menção e requeira tudo o que fizer a bem delia, como 
pedem. E esta prouisão se comprira como nella se conthem e valerá posto que 
seu effeito haja de durar mais de hu anno sem embargo da ordenação L.° 2.° 
titulo 40 em contrario. E pagou de nouos direitos quinhentos e quarenta reis 
que se carregarão ao tezoureiro delles a fl. 211 do L.° 2.° de sua receita e se 
registou o conhecimento em forma no L.° 2.° do registo geral a fl. 119. EIRey 
Nosso Senhor o mandou por seu expecial mandado pellos doutores Gregório 
Pereira Fidalgo da Sylueira e António de Beja de Noronha ambos do seu Con- 
celho e seus Dezembargadores do paço — Joseph da Maya e Faria a fez em 
Lixboa Ocidental a 13 de março de 1719. de feitio desta duzentos reis — dis 
o emmendado = e pagarão — Manoel de Castro Guimarães a fez escreuer, asi- 
gnou o Dr. António dos Santos de Oliueira — António dos Santos d Oliveira 
Gregório Pereira Fidalgo da Sylueira.. 

«Por rezolução de S. Magestade de 27 de Feuereiro de 1719 em consulta 
do Dezembargo do Paço e em obseruancia da lex de 24 de Julho de 1713. 
Joseph Galuão de Lacerda Pagou Quinhentos e quarenta reis e aos officiaes 
trezentos e quatorze reis. Lixboa ocidental 18 de março de 1719 — Dom I. Mi- 
guel Maldonado.»* 



1 Torre do Tombo. Cartório de S. Vicente, Maço 46. 



20 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XI. — Browne (D. Izabel). — Creio que foi no Theatro Heroino (fl. 534) que 
appareceu pela primeira vez o nome d'esta senhora como o de uma artista de 
bastante merecimento na pintura. A noticia tem sido depois reproduzida ipsis 
verbis por outros auctores, sem accrescento de particularidade nova. Transcre- 
verei a informação original, que é do teor seguinte: 

«Izabel Bruno (sicj de Nação Ingleza, e filha de Duarte Pequerim, e de 
Elsa Pequerim, e mulher do Doutor Pedro Bruno Medico, peritissima em pin- 
tar a óleo, e singular em fazer retratos. 

«Viveo na Cidade do Porto neste século onde se admirão as suas pintu- 
ras, e se adquirem por empenhos, respeitos, ou liberalidade.» 

Artista como ella, ha outra senhora, sua parenta, Izabel Maria Rite, de 
quem adeante faço menção. 

Os Browne uniram-se á família de Manuel de Clamouse, cônsul francez 
no Porto, resultando uma geração que adoptou os dois appellidos Clamouse 
Browne. 

D'esta família é hoje representante o sr. visconde de Villarinho de S. Ro- 
mão, como se pôde vèr na seguinte obra publicada no Porto em 1904: Nutas 
bibliographicas dos Villarinhos de S. Romão e dos Clamuse Browne colligidas 
por Júlio Ferreira Girão. 

O livro acabado de citar não menciona outra ligação importante da famí- 
lia Browne, ramo perpetuado hoje na família Daupias. A pag. 13 das Recor- 
dações de Jacome Raiton, impressas em Londres em 1813, lê-se o seguinte: 

«Em o primeiro de janeiro de 1758, casei na Cidade do Porto, com D. Anna 
Isabel Clamouse, filha mais nova de Bernardo Clamouse, já viuvo de D. Geno- 
veva Hartsoeker, Negociante Francez, e Cônsul honorário da Nação Franceza 
na dita Cidade.» 

O primogénito d'este consorcio, de nome Bernardo, falleceu aos 10 an- 
nos. Diogo, que ficou sendo o mais velho, casou-se em segundas núpcias com 
sua sobrinha D. Júlia Francisca Daupias, de quem descendem os actuaes Daupias. 

Na Torre do Tombo existem processos de babilitação para a Ordem de 
Christo por parte de alguns dos membros da família Clamouse Browne, os 
quaes lançam grande luz, não só sobre as suas origens e laços de parentesco, 
mas também sobre a colónia estrangeira no Porto, na segunda metade do sé- 
culo xviii. Esta, em grande numero, residia ou tiDha os seus escriptorios na 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 21 

freguezia de S. Nicolau, em cujo cartório parochial devem existir elementos 
preciosos, que ampliem e completem os documentos da Torre do Tombo. Seria 
para estimar que uns e outros fossem convenientemente explorados, no que 
muito lucraria a historia d'aquella cidade, principalmente nos domínios da sua 
vida intima e da actividade commercial e económica. 

O meu particular amigo Pedro A. de Azevedo fez favor de extractar dos 
processos de habilitação alguns apontamentos, que, embora breves, são muito 
interessantes, dando a conhecer muitos indivíduos e algumas particularidades 
da sua vida. 

Aqui transcrevo essas notas soltas á espera de que alguém as venha fun- 
dir um dia n'uma solida cadeia biographica. 

Pedro Broune é morador no Porto ha 18 annos, 1745. 

Luiz Manuel Bronne, filho de Dr. Pedro Broune e de D. Isabel Peche- 
riog, n. al de Inglaterra de S. Nicolau do Porto ordenou-se em 1746. Era neto 
materno de Duarte Piquerim e de Elicia Piquerira, ingleses. 

Testemunhas da habilitação: 

Christovão Fitz Gerald, inglês, cath. m. or R. r \ 

Pedro dos Santos, boticário, m. or na Beboleira. 

Luis dos Santos, boticário, m. or na Reboleira. 

Arnaldo Hopman, cônsul de Hollanda, c. ro de Ghristo, m. or na Rua Nova. 

Diogo Archer, holandez, R. r \ 

Dr. Luis Nogueira, adv. da Relação, m. or na Rua Nova. 

Pedro Henquel, cavalleiro de Ghristo, m. or Rua Nova. 

Ignacio Ant.° Henquel, m. or Rua Nova. 

Henrique Verne, irlandez, Rua Nova. 

Mathew Talbot, irlandez, Rua Nova. 

Pedro Pedrosen, cavalleiro de Ghristo, m. or na Reboleira, 31 annos. 

Diogo Archbold, irlandez, rua de S. D.° s . 

Guilherme Gooche, inglês, rua de S. D. 03 . 

D. Carlos de los Rios, cor." de infanteria, gov. dor de Tui, rua das Flores, 
n. al de Flanderes. 

P. Gabriel Talbot, cruz. do Oratório, S. Ildefonso. 

P. José Talbot, cruz. do Oratório, S. Ildefonso. 

P. José Butler, cruz. do Oratório, S. Ildefonso. 

M. da Aylward, viuva de Ricardo Aylward, rua da viella do correio-mor, 
S. t0 Ildefonso. 

Ricardo Arcediago, Rua Nova. 

Fr. Bernardo de S. ta Rosa, religioso do Corpo Santo, irlandês, conheceu 
Pedro Brone em Louvain, onde estudou Medicina. 



22 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Fr. Carlos 0' Kelly, conheceu o pae quando veiu assistir aos actos do fi- 
lho na Universidade de Louvain. 

Padre Mestre Fr. Domingos de S. ta Catharina, conheceu Domingos Broun, 
lio ou irmão do habilitado, que era senhor de um morgado. 

Margaret e Mary Buckmaster. 

Diogo Caetano Keating. 

Pedro Pedrossen da Silva, 65 annos. Pedro Broune veiu para medico da 
feitoria, onde esteve até falecer. Domingos é casado ha dois annos. 

Manuel Boiz Leitão. Domingos esteve em Inglaterra a aprender inglês e 
negocio. Tem liteira. Bernardo Clamouse, cônsul de França. 

F. e ° do Couto de Azevedo, ensaiador de prata, m. or na Reboleira. 

M. el Pinto Soares, barbeiro, Reboleira. 

José Pereira Mendes. 

José Ferreira Dias. 

André Morogh., irlandez. 

Henrique Marcos Gool, boticário. 

Dr. Ricardo Raimundo Nogueira. 

Diogo Archbold. 

Manuel José Pereira. 

Dr. Gualter Wade, medico, irlandês. 

D. 09 Roche Macragh, guarda-livros, irlandez. 

José Jewson, inglês, guarda-livros de José da Silva Leque. 

Nicolau Mahon, inglez. 1 

Bernardo Clamouse é natural de S. Nicolau do Porto, onde vive na com- 
panhia dos pães. Terá 40 annos (em 1765). Seu Pae do mesmo nome era n. al 
da cidade de Daumazão, bispado de Rieux, teve negocio de grosso trato, sendo 
cônsul de França. Sua mãe chamava-se Genoveva Clamouse Artesuquer, a qual 
é natural de S. Nicolau do Porto. Seus avós maternos eram Christiano Arte- 
suquer, n. al da Hollanda, e Simoa de Oliveira Fernandes, n. al de Barcellos. 

Os avós paternos eram Boaventura Clamouse e Francisca Daupias Cla- 
mouse. 

Nicolau Clamouse, irmão de B. d0 é abbade de Paredes e José Clamouse é 
da ordem de S. Jeronymo. 

A requisitória em francez foi traduzida pelo P. e Manuel Ferreira da Costa 
e Saboya, perito naquella lingoa. 

Boaventura Clamouse era filho de João Clamouse e de sua mulher Ca- 
tharina Descens. 

Francisca Daupias era filha de Pedro Daupias e de Maria Aresce ou Areici. 



1 Torre do Tombo. Habilitações da Ordem de Christo. Maço 6, Domingos, n.° 6. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 23 

Dispensa de habilitações a Bernardo Clamousse Broune em 1802. ' 
Dr. Pedro Bronne, n. al de Bruges, filho de André Bronne, n. al deWater- 
fordia, Irlandia e Philippina Smites, n. al de Bruges. Neto paterno de Duarte 
Brone e de Catharina Iloore, n. aC8 de Waterponde e materno de Pedro Smides, 
n. al de Anvers, de Susana Robinsen.* 

D. os Broune, n. al do Porto, filho do Dr. Pedro Broune, e D. F.°* Xavier 
Clamouse Broune, n. al do Porto, neto paterno de André Broune, e de Filippa 
Smidts, neto materno de Bernardo Clamusse, n. al de Daumasan, Lamguedoc 
e de D. Genoveva Clamuse, do Porto. 3 



XII. — Campos (Lucas de). — Os diminutos elementos biographicos de Lu- 
cas de Campos são-nos transmittidos pelo auto de uma denuncia que sua fi- 
lha, Calhariua de Campos, apresentou de viva voz ao Tribunal do Santo Officio, 
perante o dr. Diogo de Sousa, inquisidor, a 10 de janeiro de 1579. 

N'este anno era já fallecido Lucas de Campos, designado apenas por pin- 
tor, sem mais indicação pessoal, além da sua naturalidade. Tanto elle, como 
sua mulher, Magdalena da Rocha, eram flamengos, apesar dos seus nomes 
serem absolutamente portuguezes. Esta nacionalisação era, porém, frequentís- 
sima. 

Catharina de Campos tinha trinta annos, era já viuva e morava em S. Ro- 
que, junto aos moinhos de vento (hoje rua de D. Pedro V), em casa de Maria 
Fernaudes, de 26 annos, egualmente viuva. 

A denuncia recahia sobre uma tudesca, mulher que fora de um dos tudes- 
cos que acompanharam D. Sebastião na jornada de Africa. Tudo pousava no 
mesmo domicilio, desabafando com Catharina de Campos, que era a única pes- 
soa que entendia a lingua. Disse a tudesca á sua confidente, que se fora con- 
fessar a um frade de S. Domingos, que falava o seu idioma, e que ficara es- 
pantada por este lhe pedir a individuação dos peccados, quando na sua terra 
os padres se contentavam com a confissão geral, o que lhe parecia mais justo 
e sensato, pois quem pedia a Deus perdão de todo o mal que fizera por pen- 
samentos, palavras e obras, não precisava de especificar mais nada. Novo mo- 
tivo de queixa se juntava a este e era que a tudesca não dava graças ao Se- 
nhor depois de levantar-se da mesa, onde comera. 

Outras pessoas foram envolvidas na denuncia, avultando entre ellas um 
negociante flamengo, Henrique Fernandes, morador á Calcetaria. Pelo depoi- 



1 Torre do Tombo. Habilitações da Ordem de Chriito. Maço 10, Bernardo, n.* 32. 

2 Idem. Idem. Maço 1, Pedro, n.° 16. 

3 Idem. Idem. Maço 6, Domingos, n.° 6. 



24 



NOTICIA DE ALGUNS PINTOHES 



mento de outra testemunha, Izabel Gomes, que fora serviçal na casa d'aquelle, 
se verifica que tudo isto não passava de intrigas e mexericos amorosos, em re- 
sultado da mulher de Henrique Fernandes suspeitar que seu marido mantinha 
relações illicitas com Catharina de Campos, que já estivera em casa d'aquelles 
esposos, de onde fora expulsa por ciúmes. A própria Inquisição reconheceu 
que se tratava apenas de uma intriga familiar e teve o bom siso de não inten- 
tar processo, sobreestando em qualquer procedimento até que apparecessem 
novas e mais convincentes provas. 

Uma serie de enredos femininos, em que transparecem algumas figuras 
e costumes curiosos, como o leitor poderá certificar-se, lendo os documentos 
que seguem: 

•Treslado da denunciaçam de Catherina de Campos contra hua framenga. 

f Aos dez dias do mes de janeiro de mil quinhentos setentta he noue an- 
nos em Lisboa nos estauos na casa do despacho da Santa Inquisiçam estando 
ahi o Senhor doctor Dioguo de Sousa Inquisidor parceo Catherina de Campos 
molher viuua filha de Lucas de Campos pintor e de Magdalena da Rocha an- 
bos framengos já defuntos e pousa a S. Roque junto dos moinhos do vento en 
casa de Maria Feruandez viuua de jdade de vinte seis annos pouco mais ou 
menos a qual foi dado juramento dos Santos Evangelhos en que pos sua mão 
e prometteo dizer verdade e disse que auera quiuze dias pouco mais ou me- 
nos que en sua casa pousou hua molher framengua pobre que lhe disse que 
era viuua molher de hum trudesqo dos que foram a gerra d Afriqua e não lhe 
sabe o nome próprio da sua terra mas ella disse que aquj lhe chamauão Lu- 
zia e he molher moça e trás hua saia vermelha e hum gibão preto com man- 
gas vermelhas e hum pano atado na cabeça e hum avantal diante cingido de 
panno de linho e esteue en sua casa sete ou oito dias e que oje faz oito dias 
que ella denunciante esteue praticando cõ a dita framenga na sua lingoa por 
que ella denunciante a entende e lhe ueo a contar que se fora comfessar ao 
mosteiro de Sam Domingos desta cidade a hum frade que entende a linguoa 
e que a confessara de que não era como a que se usaua na sua terra pois la 
não faziam mais que asentarse aos pees do confessor e dizer a confissam ge- 
ral que se custuma sem declarar os peccados particulares e que feito isso se 
aleuantauão dos pees do comfessor e que ella assim o fazia na sua terra e 
preguntandolhe ella testemunha por que não comfessauam os pecados en par- 
ticular a seu comfessor declarando lhe cada hum per si a dita framenga lhe 
respondeo que asaz declaraua os peccados quando dizia na confissão geral que 
offendera a Nosso Senhor en palauras pensamentos e obras e pella pratica que 
teue entendeo ella testemunha da dita framenga que jnda agora lhe parecia 
bem o modo da dita comfissão da sua terra e que lhe não quadraua o modo 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 25 

dos cristãos catholicos como se fazia nesta cidade e ella denunciante a repren- 
deo de lhe ouuir dizer o sobre dito e a dita framêgua se não disdise mais an- 
tes deu a cabeça como pêra que não consintia no que lhe ella denunciante di- 
zia antes ficaua em seu parecer e que isto da confissam lhe ouujo hua soo vez 
e que a esta pratica esteue presente hua moça que se chama Barbora netta 
da dita Catherina Fernandez que esta na mesma casa mas que não deuia de 
entender a pratica por que ella testemunha e a dita framengua falauão ambas 
a dita liugoa framengua a qual não entende a dita Barbora e disse mais que 
no dito tempo ella denunciante disse a dita framengua que aleuantasse as mãos 
e resase e desse graças a deos quando começaua e acabaua de comer como 
ella denunciante e as mais pessoas faziam da casa e ella uia fazer e a dita fra- 
mengua nuqua quis dar graças a deos como lhe diziam nê daua rezão por que 
o deixase de fazer o que ella denunciante também lhe dizia em lingoa framenga 
aqual não emtendem as pesoas da casa nê a dita framêga entende português 
somente entende algúas cousas por acenos e declarou sendo preguntada que 
a dita framenga lhe disse dõde hera natural mas que lhe não lembra donde 
nê sabe donde pousa nesta cidade mas que lhe disse que pousara ja a cruz 
de cata que farás en casa de bus framengos e elles lhe ajuntam esmolla de 
que se ella mantém e o que ella denunciante lhe ouujo da confissam o disse 
também a dita Maria Fernandez a qual disse a framenga que se fosse embora 
de sua casa que a não queria agasalhar mais e que vem denunciar disto por 
lhe dizer hum padre de Sam Boque seu confessor aquém deu conta disto que 
o viesse dizer a esta mesa e mais não disse e do custume disse nada mas que 
he verdade que a dita framenga estado alj en casa vio ahi estar hum home 
castelhano que se chama Jeam de Lasala criado do Marques de Villa Beal e 
casado com húa netta da dita Catherina Fernandez digo Maria Fernandez que 
esta en Ceita e por essa rezão se agasalhava ahi e o foj dizer a hum framengo 
mercador que se chama Anrrique Fernandez que mora ha Calcetaria dizemdo 
que hera hum castelhano que trazia muitos vestidos o qual Anrrique Fernan- 
dez o disse a Issabel Gomez padeira molher de Manoel Martinz trabalhador que 
mora junto delia denunciante na rua onde pousaua ho Snr. de Murça e a dita 
Issabel Gomez o veo dizer a dita Maria Fernandez que he conhecente do dito 
Amrrique Fernandez e a manda chamar pêra sua casa quando tem emfermos 
e que ella testemunha ouujo dizer a dita Maria Fernandez que não hera con- 
tente de ter en sua casa quem fosse dizer o que passaua em sua casa e que 
ella denunciante se agastou também disso mas que agora lhe não quer mal 
preguntada se foy a dita framengua dizer a casa do dito Anrrique Fernandez 
ou a outra parte algfla cousa delia denunciante ao dito Castelhano ou com ou- 
tra pessoa que lhe tocase en sua honrra respõdeo que não sabe que a dita 
framengua apontase nella denunciante em nenhúa cousa de sua honrra nem 
Agosto, 1906. 4 



26 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

lhe disseram que o fizera mas que somente dissera en geral que estaua o dito 
castelhano en sua casa e assignej a rogo delia denunciante por não saber es- 
creuer juntamente com elle Snr. Inquisidor e declarou que o padre da com- 
panhia que mãdou a ella denunciante que viesse a esta mesa dizer isto e mais 
a dita Maria Fernandez que se chama Diegaluerez a quem ella se custua (sic) a 
confessar e declarou que o dito castelhano esta jnda eu casa e lhe foi mãdado 
ter segredo sob cargo do juramento que lhe foi dado e ella promeleo assim 
comprir. António Pirez ho escreuj. 

«Foi tirada esta denunciaçam da própria que anda no liuro das ditas de- 
nunciações a folhas quarenta e quatro e concordam ambas de uerbo ad uer- 
bum e por verdade a concertej com o notário abaixo assignado oje vinte três 
de janeiro de setentta e noue annos = concertada comiguo António Pirez = 
Joam Capello: 

cAos seis dias do mes de feujreiro de mil e qujnhentos setentta he noue 
annos en Lisboa nos estaos na casa do despacho da Santa Inquisiçam estando ahi 
o Shr. doctor Diogo de Sousa Inquisidor peraute elle pareceo sendo chamada 
Issabell Gomez testemunha referida etc. de jdade que disse ser de trinta an- 
nos aqual foi dado juramento dos Santos Evangelhos en que pos sua mão e 
prometteo dizer verdade e preguntada disse que ella testemunha he filha de 
bua comadre de Anrrique Fernandez flamengo mercador morador na Calceta- 
ria e elle a casou por este respeito com seu marido Manoel RQiz por este res- 
peito e por essa mesma rezam ella testemunha tem conhecimento e amjzade 
em casa do dito Anrrique Fernandez e assim disse que conhecia a Catherina 
de Campos framenga de naçam a qual pousa en casa de Maria Fernandez viuua 
sua visinha que vejo de Africa preguntada se sabia que algúa pesoa fosse di- 
zer algua cousa o dito Anrrique Fernandez do que passaua en casa da dita 
Catherina de Campos e Maria Fernandez disse que auera hum mes pouco mais 
ou menos que en casa da dita Maria Fernandez pousou hua tudesqua molher 
de hum tudesco dos que foram Africa a qual ella testemunha não sabe o nome 
nê onde pousa e a dita Maria Fernandes agasalhou por amor de Deos e que 
a dita framenga estaria alj oito dias no qual tempo estaua na mesma casa hum 
orne castelhano que a dita Maria Fernandez diz que he seu genrro e que mora 
en Ceita e a dita framenga foi dizer ao dito Anrrique Fernandez digo a sua mo- 
lher que o castelhano pousaua en casa da dita Catherina de Campos e que co- 
miam e bebiam todos e que elle que trazia três ou quatro vistidos muito 
finos e ella o disse ao mesmo Anrrique Fernandez seu marido o qual o coutou 
a ella testemunha como zonbando disso e auendo ciúmes na dita Catherina 
de Campos e ella testemunha o foi dizer as ditas Maria Fernandez e Catherina 
de Campos dizendo lhes que olhasem quem tinham en sua casa e lhes contou o 
que a dita framenga fora dizer a dita molher de Anrrique Fernandez e que 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 27 

isto lhe contou a mesma molher de Anrrique Fernandez estado alj seu marido 
e disse mais que no mesmo tempo contou a ella testemunha a dita molher de 
Anrrique Fernandez que se chama Tanque que a dita tudesqua lhe fora dizer 
que seu marido Anrrique Fernandez leuaua e mãdaua muitas cousas a dita Ca- 
therina de Campos e amantinha a sua custa e ella testemunha o foj contar a 
dita Maria Fernandez e a Catherina de Campos pellas quais causas a dita Ma- 
ria Fernandes a dejtou de sua casa a dita tudesqua e diz que ella que mente 
por que o dito Anrrique Fernandez não mãten a dita Catherina de Campos que 
o castelhano he seu genrro e que nam ha que suspeitar delle com a dita Ca- 
therina de Campos como o dito Anrrique Fernandez cujda e que ella testemu- 
nha entende que as sobreditas estam mal cõ a dita tudesqua pellas ditas re- 
zois e declarou que a dita Catherina de Campos antes de casar foy criada do 
dito Anrrique Fernandez e despojs de viuua tornou pêra sua casa e por sua 
molher suspeitar que o dito Anrrique Fernandez andaua com a dita Catherina 
de Campos dejtou fora de casa e lhe demãda ciúmes e pelejam e tem desgosto 
por isso algúas vezes e que destes mexericos que a dita tudesqua foi dizer a 
molher de Anrrique Fernandez lhe parece que sabe hua sobrinha do mesmo 
Anrrique Fernandez casada com um flamêgo que mora a Cruz de Pao aos 
quais nã sabe os nomes preguntada se sabe que a dita tudesqua dissese al- 
gúa cousa contra nossa Santa fee catholica no tempo em que esteue em casa 
da dita Maria Fernandez ou se ella ou a dita Catherina de Cãpos lhe contaram 
que a dita tudesqua ouuese dito disse que não sabia mais que contar lhe Ma- 
ria Fernandez que a dita tudesqua não qujria dar graças a deos quãdo aca- 
baua de comer preguntada disse que ella tem a dita Catherina de Campos por 
molher recolhida e de boma vida e que viue por seu trabalho e se vaj com- 
fessar a Sam Roque as vezes em companhia da dita Maria Fernandez e do cus- 
tume disse que sam amigas e lhe foi mãdado ter segredo sob carreguo do 
juramento que recebeo e ella assim o prometeo comprir e asignou com elle 
Sr. Inquisidor. Joam Campello notário apostólico o escreuj e assignej por ella 
com elle Sr. Inquisidor.= Diogo de Sousa=Joham Campello. 

«Vista esta denunciaçam è" a enformaçã que resulta do testemunho de 
Isabel Gomez acerca do credito que se deve dar a Caterina de Campos denun- 
ciante pareçenos que por seu testemunho se não deue proceder contra a tu- 
desca de que faz mençam não acrecendo mais proua. È Lisboa 6 de fevereiro 
de 1579= Jorge Gonçalves Rybeiro = Diogo de Sousa.* 1 



Torre do Tombo. Livro das Denuucia;õe-< da Inquisição de Lisboa, fL 325, vol. xit. 



28 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XIII. — Castro (Affonso). — Um dos artistas portuguezes que no século rvi 
residiram em Flandres, talvez de passagem para se exercitarem na pintura. 
A este propósito escreve o sr. Ad. de Ceuleneer a pag. 84 do seu opúsculo 
impresso em Auvers, em 1882, sob o titulo de Le Portugal — Notes d'art et 
d'archéologie: 

«Nous connaissons les noms de quelques artistes portugais qui travaillè- 
rent à Anvers. Edouard le Portugais (Edewart Portugalois), élève de Quentiu 
Metsys en 1504, fut reçu franc-maitre dans la Ghilde de Saint Luc en 1506; ' 
Simon le Portugais (Symou Portugaloys) travaille chez Goosen van der Weyen 
en 1504,* et Alphonse Castro en 1522; 3 Hannoken (Jean) Velasco chez Jacques 
Spueribol en 1540 4 et Pierre de Castro chez Jean Soezewint en 1559.» 5 



XIV. — Castro (Pedro de). — Vide artigo anterior. 



XV. — Correia de Araújo (Manuel).— Em alvará, com força de carta, de 
6 de outubro de 1622, foi-lhe concedido o titulo e privilégios de mestre de 
pintura e doirados da ilha de S. Miguel, mercê que lhe foi feita em attenção 
ao seu requerimento e á informação da camará de Ponta Delgada que o jul- 
gara perito na sua arte. Aquella corporação, porém, não se considerava obri- 
gada a pagar-lhe qualquer salário, reservando-se também a liberdade de en- 
commendar as obras a quem melhor entendesse. 

«Eu elRej faso saber aos que este aluará uirem que auendo respeito ao 
que na pitição aqui junta asinada per Manoel Fagundes meu escriuão da ca- 
mará diz Manoel Corea de Araújo pintor morador na Ilha de Sam Miguel e 
vistas as causas que alega e informações que se ouuerão pello juiz de fora da 
cidade da Ponte Delgada da mesma Ilha ouuindo os ofiçiaes da camera da dita 
cidade que responderão que neuhum enconuiniente auia em se conceder ao 
supplicante a mersse do prouilegio que pede do oflicio de pintor por elle ser 



1 De Liggeren der antwerpscke Sinl Lucas gilde afgeschreven en bewerkt door. Ph. Rom- 
bouts en Th. Van Serius i, bl. 60, 69. 

2 Ib. 60, sans doute un parent de Roger van der Weyden. 
' Ib. 100. 

« Ib. 139. 
sib. 216. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 29 

perito na arte mas com declaração que não leuaria nem pederia coussa algúa 
aqu°lla camará nem ella ficaria obrigada a lhe dar coussa algúa nem lemitada 
sua liberdade sobre as obras que tiuese e o mais que das imformações do dito 
juiz de fora constou e seu parecer e como nella se declara fasa o sopp." termo 
em camará de como não queria selario nem outra algua cousa das rendas dela 
ej por bem de faser mersse ao suppt, te que elle seja mestre da pintura e dou- 
rados da dita ilha com os prouilegios de que gosão os mestres pintores do dito 
offiçio como pede e isto com as declarações e limitações da reposta dos offi- 
ciaes da camará acima referidas pello que mando as justiças officiaes e pesoas 
a que o conhecimento disto pertencer cunpram este Aluara jnteiramente como 
nelle se contem o qual me praz que ualha como carta sem enbargo da orde- 
nação do 2.° L.° titulo 40 em contrario — Pedraluarez o fez em Lixboa a seis de 
outubro de mil e seiscentos e uinte e dous— Manoel Fagundes o fez escreuer.»' 



XVI. — Côrte-Real (Jeronymo). — Pertenceu a uma família de fidalgos 
illustres, entre os quaes avultam seus tios, Miguel e Gaspar, cujos nomes 
se acham inscriptos honrosamente nos annaes marítimos e coloniaes, como 
tendo tomado parte no descobrimento da America do Norte. 

Dois especialistas notáveis, os srs. Henry Harrise e Ernesto do Canto, 
este ultimo ceifado pela morte no ardor das suas investigações históricas e 
geographicas, dedicaram-lhes importantes memorias, que muito esclareceram 
a sua vida e as suas viagens. Tive, porém, occasião de ampliar mais este qua- 
dro, publicando nos meus Trabalhos Náuticos, a respeito de alguns membros 
de tão nobre família, mais alguns documentos inéditos, concernentes sobretudo 
a Jeronymo Côrte-Real, um dos mais fecundos poetas e um dos mais apreciá- 
veis cavalleiros do seu tempo. 

A dar credito aos encómios com que tanto o endeusaram os seus con- 
temporâneos, entre os quaes se extremaram Diogo Bernardes e António Fer- 
reira, foi Côrte-Real o verdadeiro modelo do palaciano, dotado de todas as pren- 
das que sublimam o homem de corte, sem quebra do espirito varonil. Cantor, 
no duplo sentido da palavra, já musico, já poeta, manejava com egual destreza 
as armas e os pincéis, de modo a victorial-o com os epithetos de Marte e de 
Apollo, de Orpheu e de Apelles. 

Não menos de três longos poemas históricos nos legou o seu estro proli- 
fero e por elles se poderá avaliar o grau da sua invenção e capacidade poé- 
tica. Emquanto ao seu talento de pintor é que era mais diflQcil saber-se o 
apreço que d'elle houvéramos de fazer, visto não existirem as provas mais ou 



1 Torre do Tombo. Chaneellaria de D. Filippe III. Doações. L.» 11, fl. 41. 



30 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

menos authenticas. Hoje essa demonstração pôde considerar-se realizada em 
presença de dois dos seus manuscriptos, calligraphados por elle e adornados 
de estampas illuminadas. 

Esses manuscriptos são: a Felicíssima Victoria etc. e Segundo Succesto 
do cerco de Diu. 

O primeiro guarda-se na Bibliotheca Nacional de Madrid, tendo-lhe sido 
barbaramente cortadas as estampas. O segundo, em bello estado de conserva- 
ção, existe na livraria da casa dos srs. duques de Cadaval, e delle, por ama- 
bilidade extrema dos seus donos, fiz reproduzir uma das estampas, que o lei- 
tor poderá examinar nos alludidos Trabalhos Náuticos. Muito seria para esti- 
mar que este precioso manuscripto tivesse a mesma sorte do Missal de Este- 
vão Gonçalves. 

Nos Trabalhos Náuticos, a que já tenho feito referencia, além de vários 
dados biographicos que sahiram a publico pela primeira vez, fixei documen- 
talmente a morte do poeta, succedida a 15 de novembro de 1588. 



XVII. — Cunha (Domingos da). — Pintor de loiça. Por esta simples designa- 
ção mal se pôde apreciar o seu merecimento artístico, pois talvez não passasse 
de artífice, simples official de oleiro. Tinha partido para a índia, deixando em 
Lisboa sua mulher, Maria dos Santos, moradora na rua dos Cegos, de 30 an- 
nos de edade pouco mais ou menos, occupando-se em coser esparto. 

A trinta dias de agosto de 1658 apresentou-se ella a fazer uma denuncia 
na terceira casa das audiências do Santo Officio, estando ahi, na sessão da 
tarde, o inquisidor Rodrigo de Miranda Henriques. A denuncia versava sobre 
um interessante caso de bruxaria, em que estava implicada uma Catharina de 
Sousa, que outr'ora dera também pelo nome de Francisca de Sousa, viuva de um 
volanteiro e moradora a S. Thomé, onde tinha uma tenda de loiça e mercearia. 

Nos fins de março d'aquelle anno, estando doente de cama a denunciante, 
foi esta procurada por Catharina de Sousa, que lhe pediu consentimento para 
em sua casa falar e fazer uma coisa com um homem. Maria dos Santos ficou 
melindrada julgando que se tratava de coisa deshonesta e contraria á sua honra, 
mas a proponente tranquilisou-a, affirmando-lhe que não se tratava de peccado 
mortal. Maria dos Santos annuiu ao pedido da amiga e n'essa mesma tarde 
veiu esta com um individuo de estatura ordinária, de óculos, vestido de vel- 
ludo curto. Chamava-se, segundo dizia Catharina de Sousa, João de Vilhana e 
morava no bairro do Chão de Loureiro. 

Entrados no domicilio de Maria dos Santos, metteram-se os dois n'um 
quarto e mandaram buscar por uma filha da dona da casa, de nome Antónia, 
um fogareiro novo, uma tigela, uma porção de vinagre, mostarda e um frango, 



NOTÍCIA de alguns pintores 3 1 

recommendando-lhe que pedisse tudo em nome de Manuel da Costa. Fechando-se 
por dentro, fizeram fogo, não sabendo Maria dos Santos o que mais se passara. 
Depois que elles se foram embora é que verificou que haviam deixado o frango 
morto, ainda com pennas, aberto pelas costas e com o coração de menos. 

Maria dos Santos desconfiou que tudo isto era feitiçaria a fim de conse- 
guir que Manuel da Costa, creado do dr. Luiz Delgado, casasse com Catbarina 
de Sousa, com quem chegara a ter relações illicitas. As suspeitas confirmou-as 
a própria Catharina, dizendo á sua amiga que só conseguira com o seu feitiço 
que Manuel da Costa adoecesse de morte, sendo necessário pedir ao João de 
Vilhana que desfizesse tudo para que o homem não fallecesse. 

No mez de julho do mesmo anno voltou Catharina de Sousa a casa de Ma- 
ria dos Santos a pedir-lhe que deixasse effectuar scena idêntica, no propósito 
de fazer com que Manuel da Costa regressasse de Thomar para casar com ella. 
A supplicada, porém, negou-se, por a terem prevenido uma creada e uma sua 
amiga que os diabos por este motivo viriam falar com ella. Soube, porém, pela 
dita sua creada que Catharina de Sousa mandara comprar diversos objectos 
para fazer três jantares, com os quaes regalasse os diabos e obrigasse Manuel 
da Costa a regressar de Thomar, como com effeito regressou. 

A lista d'esses objectos é deveras interessante, dando-nos uma idéa dos 
processos e receitas das feitiçarias d'aquella época. Eram elles: nove cabeças 
de carneiro, três pintainhos, alfinetes sem cabeça e agulhas, queijo comprado 
por uma Maria Esgalhada, que o havia de partir com a bocca, e uma pada ou 
pão que tivesse sido amassado por uma marranada (carcunda). Os banquetes 
realisaram-se em casa de uma mulher residente ao Castello Picão. 

Esta culinária é bem extravagante e mostra que os diabos tinham bom 
estômago, engolindo ao mesmo tempo agulhas e alfinetes. 

Perguntada pelos costumes dos denunciados, disse Maria dos Santos que 
■João de Vilhaua era homem de enredos e alcaiote das próprias filhas e que 
Catharina de Sousa não gosava de boa fama. 

Eis aqui como o obscuro nome de um pintor de loiça faz surgir um qua- 
dro pitloresco do viver social do século xvii! 

«Aos trinta dias do mez de Agosto de mil e seiscentos e sincoenta e oito 
annos em Lisboa nos estaos e caza terseira das audiências da Sancta Inquisição 
estando ahi em audiência da tarde o Senhor Inquisidor Rodrigo de Miranda 
Henriquez em audiência da tarde digo mandou uir perante sy da salla desta 
Inquisição a húa molher que pedira delia meza e sendo prezente por dizer 
que tinha que denunciar nella para descargo de sua consciência lhe foi dado 
juramento dos Santos euangelhos em que pos sua mão sob cargo do qual lhe 
foi mandado dizer uerdade e ter segredo o que ella prometteo comprir. 



32 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



«E disse chamarsse Maria dos Santos, cazada com Domingos da Cunha 
pintor de louça auzente nas partes da índia moradora nesta cidade na rua dos 
Cegos e disse ser de idade de trinta annos pouco mais ou menos e uiue de 
coser esparto. 

«E denunciando disse que no fim de mayo próximo paçado não se lem- 
bra do dia certo estando ella denunciante doente em sua caza veio fallar com 
ella nua molher por nome Catherina de Souza que em outro tempo se chamaua 
também Francisca de Souza, viuva de hum volanleiro de cuio nome não he 
lembrada e moradora nesta cidade iunto a São Thome aonde tem tenda de 
louça e mercearia e entre outras cousas que lhe disse lhe pedio quisese con- 
sentir que em sua caza fallasse e flsesse nua cousa com hum homem e enten- 
dendo ella denunciante que seria com máo titolo ella e por ter ouuido dizer 
que ella procuraua e fazia feitissos ficou embaraçada e com sohresalto e por 
estar também doente como ditto tem lhe deu hum accidente de que logo tor- 
nou por os remédios que lhe fez a ditta Catherina de Souza e tornando lhe 
a repetir o que lhe tinha pedido dizendo que não era nenhum peccado mortal 
respondeu ella denunciante que uiesse embora com o ditto homem e fisesse 
o que perttendia e logo na tarde do ditto dia veio a ditta Catherina de Souza 
com hum homem de estatura ordinária uestido de uelludo curto fsic) e uza sem- 
pre de occullos que disse a ditta Catherina de Souza chamarsse João de Vilhana 
e morador nesta cidade ao bairro do Chão de Loureiro, e entrando ambos pela 
porta delia denunciante se recolherão em hua caza e se fecharão por dentro 
donde mandarão buscar por hua filha delia denunciante por nome Antónia hum 
fugareiro nouo com hua tigella e hum pouco de uinagre e mostarda e hum 
frangão e disserão a ditta Antónia que quando comprasse as ditlas couzas dis- 
sesse eu compro isto em nome de Manoel da Costa e depois que uierão as dit- 
tas cousas ferirão fogo e não sabe o que mais paçarão com ellas por estarem 
fechados como ditto tem e so uio que depois que se forão deixarão o frango 
morto cõ a pena aberto pelas costas e com o coração menos de que ella de- 
nunciante ficou presumindo mal e entendendo que tudo o sobre ditto era couza 
de feitisos para obrigar a querer bem á dita Catherina de Souza o ditto Manoel 
da Costa que he criado do Doutor Luis Delgado por hauer andado com elle 
amãsebado e perttender seu cazamento o que depois confirmou por dizer a 
ditta Catherina de Souza a ella denunciante que aquellas cousas erão para ef- 
feito do ditto cazamento e que não era peccado mortal e depois de paçar o 
sobre ditto adoeceo o ditto Manoel da Costa, e disse a ella denunciante a ditta 
Catherina de Souza que a doença era porque não determinaua cazar com ella, 
e que fora pedir ao ditto João de Vilhana que desmanchasse o que linha feito por- 
que estaua morrendo o ditto Manoel da Costa e que logo lhe desmanchou e teue 
saúde e se leuantou no mesmo dia mas que melhor fora deixallo leuardo Diabo . 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 33 

«Disse mais que no mez de julho próximo paçado não se lembra o dia 
certo tornou a ditta Catherina de Sousa a pedir a ella denunciante quisese em- 
prestar lhe húa das suas casas para em húa noite fazer com o ditto João de 
Vilhana huas cousas com que obrigasse ao ditto Manoel da Costa a uir de To- 
mar para onde se tinha auzentado por pertender ainda cazar com elle, ella de- 
nunciante o não quiz consentir per temer que fisesse feitisserias com que uies- 
sem os diabos fallar com ella, como lhe hauião ditto hua sua criada por nome 
Francisca e outra sua amiga por nome Barbara da Silua, as quais outro si 
disserão a ella denunciante que a ditta Catherina de Souza mandou buscar noue 
cabeças de carneiro e trez pintainhos hús alfinetes sem cabeça e agulhas e 
queio comprado por hua Maria esgadelhada que também hauia de partir com a 
boca e hua pada de pão que tiuesse a massado hua manaerrada para contudo 
isto dar trez banquetes aos Diabos e fazer feilissos para lhe querer bem o ditto 
Manoel da Costa e o fazer uir de Thomar como com effeito ueio e esta nesta 
terra e que as cousas que tem declarado por os três jantares leuou a ditta 
Francisca sua criada a caza de húa molher que mora a Castello Picão nesta 
cidade cuio nome lhe não declarou. 

«Perguntada se o ditto João de Vilhana ou a ditta Catherina de Souza são 
de bons procedimentos ou pelo contrario de ruis costumes emfamados de fa- 
zer feitiços. 

«Disse que não sabe couza algúa da opinião e fama da dittas duas pes- 
soas mais que o que tem declarado, e que o ditto João de Vilhana era homem 
que uiuia de enredos e infamado de alcouitar suas filhas e a ditta Catherina 
de Souza era também infamada de molher da ma (sic) e que uiuia mal. 

«Perguntada se teue ella denunciante algúas brigas e inimizades ódio 
ou ma uontade a algúa das dittas pessoas e que rezão a obrigou a uir denun- 
ciar delias. 

«Disse que não tem rezão algúa de inimizade com as ditas pessoas nem 
conhecia o ditto João de Vilhana mais que pela occazião que tem declarado e 
que trata amigauelmente a ditta Catherina de Souza e se fallão com grande 
confiança e pela obrigar seu confessor faz esta denunciação e mais não disse 
e ao costume o que tem declarado e sendo lhe lida esta sua denunciação e 
sendo por ella ouuida e entendida disse estar escritta na uerdade assim e da 
maneira que ella a dissera e nella não tinha cousa algúa que tirar mudar ou 
acresentar nem de nouo dizer ao costume e nisso se afirmaua e ratificaua e 
de nouo tornaua a dizer sendo necessário, e tornaua a iurar aos Santos euan- 
gelhos ao que tudo estiuerão prezentes por honestas pessoas os Licenciados 
José Cardozo e João Teixeira Clérigos do habito de São Pedro Secretários 
desta inquisição que tudo ouuirão e prometterão dizer uerdade sobre cargo de 
iuramento dos Santos euangelhos que receberão e assinarão aqui com o ditto 

Setembro, 1906. 5 



34 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

jnquisidor e eu pela denunciante de seu consentimento por ella não saber es- 
creuer e eu Luis Barreto notário do Santo Officio que o escreui = Rodrigo Mi- 
randa Henriques = Luis Barretto = Joseph Cardoso da Silva = João Teixeira. 
»E ida para fora a ditta denunciante logo forão perguntados os dittos Re- 
uerendos Padres se lhes parecia que ella fallaua verdade e a sua denunciação 
se deuia dar credito e por elles foi ditto que sim entendião que ella fallaua 
uerdade e a sua denunciação se deuia dar credito e tornarão assinar com o 
ditto Senhor Inquisidor e eu Luis Barretto notário que o escreui = Rodrigo 
Miranda Henriques=Joseph Cardoso da Silva=João Teixeira. «' 



XVIII.— Dantes (Luis). — Pintor de el-rei D. Duarte, como se vê por uma 
carta de D. Affonso V, passada em Cintra a 9 de agosto de 1454, pela qual 
nomeia Tristão Affonso escrivão das sisas de Tentúgal, officio que vagara pela 
renuncia que d'elle fizera Luiz Dantes, pintor criado delRej meu Senhor e pa- 
dre cuja alma Deus aja. 

Na minha Memoria sobre A livraria real especialmente no reinado de D. Ma- 
nuel publiquei uma carta de 7 de março de 1466, pela qual D. Affonso V to- 
mava por seu illuminador a Vasco, creado de Luiz Dantes, nosso creado. Pôde 
deduzir-se d'aqui que Luiz Dantes ensinava a pintar e illuminar e que Vasco 
aprenderia com elle. 

Não encontrei até agora nenhum documento que diga directamente res- 
peito a este pintor. 

«Dom Afomso etc. Item carta de Tristam Afomso morador em Tentúgal 
criado da jfante dona Isabel dAragam madre da rainha mjnha molher etc. 
per que o damos por scpriuam das nossas sisas da dita vila de Tentúgal e sseu 
termo asi e pela guisa que o era Lujs d Antes pintor criado delRej meu Senhor 
e padre cuja alma Deos aja por quanto ho arrenunçiou em nossas maãos que 
o desemos a quem nossa merçee fosse etc. em forma — dada em Sintra ix 
dias d agosto elBey o mandou per Lopo d Almada do sseu conselho e vedor 
da sua fazenda Ruj Diaz a fez ano do Nosso Senhor Jhesu Christo de mjl iiij c 
liiij .»» 



XIX. — Dias (Gaspar). — Está confirmada a existência de Gaspar Dias em 
tempo de D. Sebastião, embora na chancellaria d'este monarcha não se encon- 
tre registo de qualquer mercê que lhe fosse feita. Existe, porém, um alvará, 



1 Torre do Tombo. Livro das Denunciações da Inquisição de Lisboa. Caderno 37, fl. 404. 

2 Idem. Chancellaria de D. Affonso V. L.° 10, fl. 64 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



35 



com força de carta, de 17 de fevereiro de 1574, pelo qual foi nomeado pintor 
de óleo e tempera das Casas da Mina e índia. É este o alvará ou provisão a 
que se refere sua viuva Catharina de Évora, de quem trato na primeira serie 
d'esta Memoria, sob o titulo de Gaspar Dias. 

«Eu ellrey faço saber aos que este allvara virem que confiando eu de 
Guaspar Diaz meu moço da camará, pintor morador nesta cydade de Lixboa 
que nisto me seruiraa bem e como deue hei por bem e me praaz de o encar- 
reguar de pintor de todallas cousas de seu officyo que se ouuerem de fazer 
nos almazens da dita cydade e nas casas da índia e Mina e que elle as faça 
todas per sy e pellos olliciais que nisso puser e não outra pessoa allgua em 
quãonto o elle bem fizer a saber: aquellas cousas das ditas casas que forem 
de seu officio que ja ouuer preços taxados e elle as fará pellos ditos preços 
e as em que não ouuer os tais preços as fará pello em que se concertar com 
os prouedores e ofliciais das ditas casas, ou por avaliação de pessoas que o 
bem entendão: qual os ditos provedores mais quiserem e serlhehão paguas 
as obras nas casas pêra que se fizerem, noteflicoo assy aos prouedores e offi- 
cyais dos ditos allmazens e casas da índia e Mina e lbes mando que ajão daqui 
em diante o dito Guaspar Diaz por pintor delias, e quando se allguas obras 
ouuerem de fazer assy a ollio como a tempera e mandem chamar ao dito Guas- 
par Diaz e a elle as mandem fazer na sobre dita maneira e não a outra 
pessoa allgua por que o hey assy por bem e meu seruiço e mando que este 
alluara se cumpra ynteiramente sem duuida nem embarguo algu o qual quero 
que valha e tenha força e vigor como se fosse carta feita em meu nome per 
mym assynada e passada pella chancellaria posto que por ella nam passe sem 
embarguo das ordenaçõis do 2.° Liuro em contrario — Domingos de Seixas o 
fez em Lixboa a xbij de feuereiro de b c .lxx e quatro — Guaspar Rebelo o fez 
escreuer=Rey •; =Aluara per que V. A encarregua a Guaspar Diaz voso 
moço. . . casas da índia e mina em quãonto o elle bem fizer e assi. . . pêra 
que faça as obras que a seu officio tocarem e outro... pela maneira acima 
decrarada e que valha como » ' 



XX. — Eduardo ou Duarte. — Discípulo de Quentin Metsys em 1504, 
e recebido franc-maiire na Ghilde de Saint-Luc em 1508. 
Vide o artigo referente a Affonso Castro. 



' Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte ii, maço 248, doe. 100 



36 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XXI. — Fernandes (Lourenço). — Raczynski inclue no seu Diccionuaire um 
individuo d'esle nome, dando-lhe à qualidade de architecto, exercendo a pro- 
fissão em 1511 no mosleiro de S. Jeronymo de Belém. 

No arligo relativo a Boytac, inserto no vol. i do meu Dkcionario dos ar- 
chitectos, publiquei o documento em que Raczynski se baseava para tal asser- 
ção, e por elle se poderá vèr que Lourenço Fernandes era com toda a proba- 
bilidade um funccionario administrativo e não um artista. Ainda no mesmo vo- 
lume da minha citada obra, no artigo Luiz Fernandes, fiz referencia a Lou- 
renço, trocando-lbe, porém, equivocadamente, o nome. Fica exarada aqui a ne- 
cessária rectificação. 

Existiu, com effeito, um artista de nome Lourenço Fernandes, o qual per- 
tencia á classe de que venho tratando e que no auno de 1517 estava em Aza- 
mor, onde pintou quarenta bandeiras, sendo oito grandes com as armas e trinta 
e duas com as cruzes de Ghristo, para o Castello. Por cada uma das primeiras 
recebeu duzentos e cincoenta reaes e das segundas trinta, prefazendo ao todo 
a somma de dois mil novecentos e sessenta reaes. 

Pelo respectivo mandado de pagamento, de 28 de agosto de 1517, se re- 
conheceu que Lourenço Fernandes havia também pintado as bandeiras para a 
cidade. 

«Simão correa fidalgo da casa delRey noso senhor capitam e gouernador 
da cidade dazamor mando a vos aluaro de Gadavall almoxarife em a dita ci- 
dade que ora tendes carego de feitor que des e pages ao pimlor Lourenço 
Fernandez de quarenta bamdeiras que pintou pêra este castello .s. oito gram- 
des das armas e trimta e duas de cruzes de christaos a rrezam as oito de du- 
zentos e cinquoenla reaes por bandeira e as trinta e duas a rrezam de trinta 
rreaes por peça em que monta ao todo dous mill e novecentos e sesenta rreaes 
dos quaes lhe fazej bom pagamento por que he ornem proue e seruio bem e 
lhe mando dar por estas menos do que leuou polias outras que pintou pêra a 
cidade e per este meu mandado vos serã leuados em conta. Feito em Azamor 
aos xxbiij dias do mes dagosto de mjll e b c xbij. = Symã Correa. 

No verso: «he verdade que recebeo o sobredito loureuço fernandez de Ál- 
varo de cadavall almoxarife os dous myll e novecentos e sesemta reaes com- 
teudos neste mandado do capitam e per verdade asynou comigo Duarte Ro- 
driguez escrivam do dito carreguo oje xbij de setembro de b c xbij. = Duarte 
Rodriguez.* 1 



1 Torre do Tombo. Corpo Ghronologico. Parte u, maço 66, doe. 28. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 37 



XXII. — Figueiredo Seixas (José de). — Era pintor e natural da cidade do 
Porto, conforme vem declarado Da traducção que fez da segunda parle do li- 
vro intitulado Perspectiva de pintores e architectos, composto em latim por An- 
dré Pozo, da Companhia de Jesus. 

A primeira parte da obra foi traduzida pelo padre João Saraiva, da ci- 
dade do Porto. Tanto uma como outra estão inéditas, conservando-sé o res- 
pectivo manuscripto oa Bibliotheca da Universidade de Coimbra. A sua des- 
cripção pôde vêr-se sob o n.° 222, a pag. 154-155 do vol. m do Archivo bi- 
bliographico da mesma Bibliotheca. 

A segunda parte contém um appendice com instrucção para pintar a fresco 
e a secco, Mudo de fazer uma graticulação e uma abobada, por José de Figuei- 
redo Seixas. 



XXIII. — Francesco (Nicoloso). — Tratei d'este pintor de azulejos sob o 
nome de Nicoloso, como geralmente mais conhecido. Era oriundo de Pisa, 
tendo talvez aprendido em Faeuza ou Caffagiolo, e veiu estabelecer-se em Se- 
vilha, onde implantou o gosto da faiança italiana. Ad. de Ceuleneer, a pag. 58 
do seu opúsculo Le Portugal — Notes d'art et d'archêologie, impresso em An- 
vers em 1882, faz d'elle o mais levantado elogio, dizendo que a sua obra prima 
é o retábulo da egreja do Alcazar, onde trabalhava em 1504. 

O quadro principal representa a Annunciação. Ceuleneer transcreve a este 
propósito a opinião de M. Uavilier: 

«Não receiamos accrescentar que não existe em oeDhum paiz, incluiDdo 
a própria Itália, um monumento d'este género que o eguale em belleza e em 
importância.! 



XXIV. — Franco (Manuel). — Era casado com Rufina de Paiva, irmã do pin- 
tor de el-rei António de Paiva, em cujo officio lhe succedeu, por seu falleci- 
mento, sendo o alvará de nomeação, com força de carta, de 23 de fevereiro de 
1650. 

António de Paiva era filho de Miguel de Paiva, egualmente pintor. De am- 
bos se faz adeante menção. 

«Eu EIRey faço saber aos que este aluara virem que hauendo Respeito, a 
Manuel Franco pintor meu criado estar cazado com Rotina de Paiua irmã de 



38 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

António de Paiua e estar uago por seu falecimento o oficio de pintor do oufi- 
cio digo (sic) de óleo de que foi proprietário, Hey por bem fazer mercê delle 
ao dito Manoel Franco o qual terá e seruira em quanto eu ouuer por bem e 
não mandar o contrario com declaração que tirando Ibo ou extingindoo em al- 
gum tempo por qual quer uia que seja lhe não ficara por isso minha fazenda 
oubrigada a satisfação algua e hauera o mantimento delle a elle ordenado e 
os proes e percalços que lhe direitamente pertencerem pello que mando ao 
prouedor das obras dos meus paços lhe dem a posse do dito oficio e lhe dei- 
chê seruir e delle uzar e hauer o mantimento proes percalços como dito he 
e iuramento dos santos euangelhos que bem e uerdadeiramente sirua e guar- 
dando em tudo meu seruiço e as partes seu direito de que se fará asento nas 
costas deste que hej por bem que ualha como carta sem embargo da ordena- 
ção em contrario constando ter pago o Nouo direito que deuer comforme ao 
Regimento e se cumprira tão inteiramente como nelle se conthem — João da 
Silua o fes em Lisboa a uinte e três de feuereiro de mil e seiscentos e sin- 
coenta annos — Fernão Gomes da Gama o fes escreuer.= Rey=* 



XXV. — Gentileschi (Francesco). — Fez parte de uma notável família de 
artistas de Piza. Era filho de Orazio Pisano, insigne pintor. Por morte do pae 
partiu para Génova, onde se exercitou no colorido com Sarezana. 

Orlandi, no seu Abecedario pittorico, a pag. 165 da edição de Nápoles de 
1733, dá-nos d'elle os lacónicos apontamentos que acima transcrevo e remata 
a sua curta biographia com esta phrase, que me parece bastante original: par- 
tilo che fu da Génova, passo aWaltra vita. 

Francesco teve dois irmãos, ambos pintores de merecimento; um delles 
uterino, Aurélio Lomi, e Orazio Gentileschi Pisano. 

Este ultimo foi talvez o que obteve maior e mais justo renome. Depois de 
ter estado em Roma e Génova, passou a França e daqui a Inglaterra, em cuja 
corte recebeu grandes honras e mercês. Falleceu n'este paiz aos 48 annos de 
edade, sendo sepultado na capella da rainha, debaixo do altar-mór. Deixou 
uma filha, de nome Artemísia, famosa retratista. 

Existe um documento que amplia alguns traços da biographia de Fran- 
cesco e pelo qual se mostra que elle não era là muito boa pessoa, antes pa- 
recia mais um aventureiro que um artista cavalheiroso, que presa o seu nome 
e a sua arte. Esse documento é uma denuncia feita por elle verbalmente ao 
Tribunal do Santo Officio, na audiência da tarde de 8 de junho de 1648, con- 
tra um seu compatriota, D. João de Tovar, napolitano. Com elle se encontrara 



i Torre do Tombo. Chancellaria de D. João IV. Doações. L.° 23, fl. 30 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 39 

duas vezes: uma na prisão do Limoeiro, haveria um anno; outra, recente- 
mente, na hospedaria de Feliciana da Costa, ao Pelourinho Velho. De todas 
as vezes que praticara com D. João de Tovar, este mostrou-se sempre um 
homem desesperado, descrente, blasphenio, proferindo acerca de Deus e da 
Virgem as palavras mais insultantes. No Limoeiro soubera que o napolitano 
estava ali preso por haver deitado ao mar uns papeis de estado, que trazia 
de Itália depois de certa missão de que el-rei o havia encarregado. 

N'esta denuncia declara Francesco que era natural de Roma, residente 
em Lisboa e pintor do rei de Inglaterra. 

Como era de esperar, D. João foi chamado ao Tribunal do Santo Officio, 
e a sua contestação, dando-nos o reverso da medalha, mostra-nos bem o cara- 
cter do denunciante. O denunciado affirmou com toda a segurança que era bom 
christão, sendo falsíssimas as accusações que lhe faziam pessoas malévolas, 
suas inimigas, entre as quaes avultava Francisco Gentil fsic) milanez. D. João 
desforra-se valentemente do seu rival, desenrolando um sudário tão sombrio 
e carregado que nos faz de Francesco Gentileschi um miserável repugnante. 

Gentileschi parece que viera a Lisboa, não propriamente por motivo da 
sua arte, mas para tratar de coisas de artilharia, no que talvez não cumpria 
como devera, sendo por isso preso como traidor. As suas gentilezas não pa- 
raram aqui. Furtou uma lamina de prata a D. João, pelo que este o quiz ma- 
tar no Limoeiro, e fez o mesmo com relação a uns quadros de Nossa Senhora 
do Loreto. Em resultado de um seu falso juramento foram enforcados dois 
homens que estavam presos no Castello. Em summa: era um homem infame, 
e como tal tinha sentença de degredo para Angola. 

Denunciante e denunciado vê-se bem que eram dignos um do outro, e por 
muito que se desconte no depoimento de qualquer d'elles, ainda fica bastante 
para se poder aquilatar devidamente a baixeza da sua estructura moral. 

O pintor italiano não nos retratou o seu amigo e compatriota com o pin- 
cel, mas sim com a palavra, deixando-nos d'elle a seguinte imagem: baixo, 
de barba loura, de trinta e dois annos approximadamente. Veste de baieta ne- 
gra; não usa espada e em vez d'ella traz muleta na mão. 

Tenho presente um documento que nos mostra sob luz mais lisonjeira a 
Francesco Gentileschi e a um seu irmão, de nome Júlio, os quaes já se acha- 
vam em Lisboa muito tempo antes da occorrencia inquisitorial a que me te- 
nho referido. 

Vieram elles para o nosso paiz logo no começo da acclamação de D. João IV, 
pois a sua permanência aqui em setembro de 1642 datava já de 17 mezes. Ha- 
viam elles sido contractados em Inglaterra pelo nosso embaixador n'aquella corte 
D. Antão de Almada para virem fabricar peças de artilharia ligeira, invento seu, 
cujos resultados pareciam de grande alcance. Os dois fundidores queixavam-se, 



40 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

porém, de qne não haviam feito tanta obra quanta podiam e deviam fazer, por- 
que o tenente-general de artilharia não os favorecia, antes os desajudava. Por 
este motivo dirigiram um requerimento a el-rei, pedindo-lhe as providencias 
que o caso requeria. N'elle expunham os benefícios que provinham das suas 
peças, muito superiores ás de Mansfelt, fabricadas na Hollanda, e ás de qual- 
quer outro systema, como se provou na experiência feita no Terreiro do Paço, 
a que se dignou assistir sua magestade, acompanhado da sua corte e de pes- 
soas entendidas. 

O conselho de guerra lavrou sobre este requerimento um despacho favo- 
rável aos dois fundidores, cuja perícia n'este ramo parece ser fundamentada. 

Entre 1642 e 1648 medeia um espaço bastante longo, no qual é bem de 
suppôr que a aptidão dos dois artistas não tivesse ficado sedentária. Não en- 
contrei, porém, mais nenhum documento elucidativo, sendo todavia de esperar 
que ainda venha a apparecer. 

«Aos oito dias do mes de junho do anno de mil e seiscentos quareuta e 
oito em Lisboa nesta caza do despacho da Santa Inquisição estando ahy em 
audiência da tarde os Senhores Inquisidores, mandarão entrar na meza a Dom 
Francisco Gentilesque natural de Roma e morador nesta cidade por dizer que 
tinha que declarar nesta meza por descargo de sua consciência lhe foy dado 
juramento dos Santos Evangelhos em que poz a mão sob cargo da qual lhe 
foy mandado dizer uerdade e guardar segredo o que prometteo cumprir e disse 
ser de edade de quarenta e oito annos e ser pintor delRey da Grão Bretanha 
e denunciando disse que hauera hum anno pouco mais ou menos estando elle 
denunciante prezo na cadea do Limoeyro o leuarão a dilta prizão a hum home 
napollitano que diz ser natural da cidade de Nápoles e chamarse Dom João, 
do qual elle denunciante tinha ia de antes conhecimento em rezão de se ha- 
verem visto algúas uezes nesta cidade e se fallarem como homens da mesma 
nação e por ter elle denunciante entendido que o ditto Dom João passara a 
Itália com passaporte de sua magestade estranhou muito o uello na ditta pri- 
zão, e perguntando lhe a cauza lhe disse o ditto Dom João que com effeito 
passara a Itália e que uoltando para este Reyno em companhia de certos Re- 
ligiozos e outros passageiros que uinhão para estes Reynos o acriminaram de 
que lançara ao mar certos papeis e referindo a elle denunciante os trabalhos 
que teuera na uiagê e o que sentia a esse prezo consulandoo elle denunciante 
e dizendo lhe que teuesse sufrimento e que Deos lhe acudiria, o ditto Dom João 
lhe respondeo que não esperaua que Deos lhe fizesse mercê porque Deus que 
era hum cão, e replicando elle denunciante que não dissesse tal o ditto Dom 
João instou tornando a dizer que elle denunciante por se uer com saúde e sem 
moléstias lhe daua aquelle conselho e por então não passarão mais, mas ha- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 4i 

uera quatro dias que elle denunciante foy a pouzar a estalagem de Feliciana 
da Costa, veuua que uiue ao Pelourinho Velho e achando em ella também pou- 
zado ao ditlo Dom João emfermo em cama o foy a uizitar, e consolando o do 
achaque e persuadindo o que com hua purga que tomara se hauia de achar 
bem o ditto Dom João, tendo algúas anciãs com a purga e dizendo lhe elle de- 
nunciante que esta era o effeito do ditto remédio, e que se encomendasse a 
Deus para que elle fosse de bom effeito, respondeo o ditto Dom João que elle 
não conhecia a Deus nem se hauia de encomendar a elle porque nunca lhe fi- 
zera bem, e que Christo Nosso Senhor era e que elle Dom João de- 

sejaua muito acharse entre mouros para renegar e que com effeito renegara 
se se uira entre elles e então elle denunciante para não querer ouuir o que 
o ditto Dom João dizia se sahio do appozento em que ambos estauão soos e 
lhe não f;illou mais. Porem fatiando com a hospeda da mesma estalagê estra- 
nhando lhe agasalhar em sua caza ao ditto Dom João sendo home que dizia 
taes couzas a ditta hospeda, disse que assy era uerdade que o ditto Dom João 
era home dezesperado de Deus porque lambem ella ditta hospeda lhe ouuira 
que Deus não fizera bem a ninguém, e que senão queria confessar porque 
não cria em Deus, nem esperaua que lhe fizesse bem, nem a Virgem Nossa 

Senhora porque nem a hum nem a outro havia e ouuindo elle 

denunciante o sobre ditto, disse a dita hospeda que era rezão que uiesse a 
esta meza a dar conta de todo o sobre ditto, e comunicando o a certos cléri- 
gos que estauão na ditta pouzada estes lhe disserão que erão obrigados a ui- 
rem a esta meza e com esta resolução ueyo elle denunciante esta meuhan em 
companhh da ditta hospeda a denunciar o sobreditto tudo por descargo de sua 
consciência e mães não disse e ao costume, nada e perguntado se estaua o 
ditto Dom João quando disse as couzas contheudas nesta denunciação em seu 
perfeito iuizo ou uencido de algua pachão que o pudesse perturbar e se desse 
as diltas cauzas por tal modo que elle denunciante não recebesse escandallo 
de o ouuir, ou se pello contrairo se escandalizou e ficou tendo ao ditlo Dom 
João por home mao christão e que sentia mal de Deus Nosso Senhor e de seu 
poder e amor pêra com os homês. 

«Disse que o ditto Dom João quando disse as couzas que se contem nesta 
denunciação estaua em seu iuizo e ainda que estaua inquieto com a ditta purga 
não era em forma que lhe perturbasse o entendimento e que elle denunciante 
se escandalizou muito de o ouuir e Geou persuadido que o ditto dom João era 
muito mao christão e pior que o demónio e por home dezesperado da mercê 
de Deus Nosso Senhor e perguntado se he o ditto Dom João costumado a di- 
zer as sobre diltas cousas ou outras semelhantes e se he de tal natureza que 
com qualquer leue occazião saya fora de sy. 

«Disse que o ditto dom João costuma dizer as sobre diltas couzas e outras 

Setembro 1906. 6 



42 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

semelhantes muitas uezes e sem occazião algúa de sentimento ou pachão por- 
que elle denunciante quando lhe ouuio o que fica escrito estando ambos em 
o Limoeyro estaua o ditto dom João então em todo o socego e sem occazião 
algua que alterasse nem ainda tão leue como a da purga e que tudo o sobre 
ditto diz por ser home dezesperado. E perguntado que feições tem o ditto 
dom João. 

«Disse que he home baixo de barba loura que representa trinta e dous 
annos pouco mais ou menos e anda uestido de bayeta negra sem espada e 
com bua muleta na mão e mães não disse nem lhe forão feitas mães pergun- 
tas e ao costume disse nada e sendo lhe lido esta sua denunciação por elle ou- 
uida e entendida disse que estaua escrita na uerdade e que nella não tinha 
que tirar acrescentar nem dizer de nouo ao costume e que assy afirmaua ra- 
teficaua e dizia de nouo sendo necessário debaixo do iuramento dos Santos 
Euangelhos em que pos a mão a que tudo estiuerão prezentes pessoas hones- 
tas e Religiozas para o que tudo uirão e ouuirão e prometterão dizer uerdade 
e guardar segredo em tudo o que fossem perguntado e debacho do iuramento 
dos Santos Euangelhos em que puzerão suas mãos os Reuerendos Padres João 
Carneiro e Jozeph Cardoso sacerdotes assistentes nesta cidade que com os dit- 
tos Senhores assinarão e com o denunciante Domingos Esteuez nottario do 
Santo Offlcio que o escreui= Pedro de Castilho = Belchior Dias Preto — Dr. 
Francisco Gentileschi = João Carneiro=Joseph Cardoso.* 1 

«Da confissão de D. João Tovar: 

«Disse que elle era bom firme e fiel catholico e que não tinha que con- 
fessar nesta meza nem dissera as palauras per que nella foy perguntado, e 
que todas são falsas e dittas por pessoas infames e suas inimigas como são 
Francisco Gentil Milanez pintor ladrão que tem enganado a Sua Magestade em 
artelharia e esteue prezo por traydor no Limoeyro e furtou a elle declarante 
húa lamina de pratta sobre que na prizão o quizera elle declarante mattar e 
com iuramento falso que deu fez enforcar a dous homês que estauão prezos 
no castello e taruhem furtou huns quadros em Nossa Senhora do Lorelto e he 
pessoa infame e tem sentença de degredo para Angola.» 2 

«Snor — Por parte de Francisco, e Júlio Gentileschi mestres e inuentores 
da noua traça de Artelharia ligeira para campanha, se presentou neste conselho 
a petição inclusa, na qual referem que estando em Londres contraltarão com 



1 Torre do Tombo. Livro das Denunciações da Inquisição de Lisboa. Caderno 3i do pro- 
motor, fl. 318. 

* Idem. Idem. Fl. 338 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 43 

Dom Antão de Almada Embaixador de V. Mag. de para virem a este Reyno a 
fabricarem a quantidade de Artelharia que fosse necessária para a presente 
necessidade de guerra e com ella ser senhores da campanha abrasando a ca- 
uallaria do inimigo, sendo so a tal artelharia bastante para com facilidade se 
alcançarem grandes vitorias como em diversas partes tem succedido, e para 
cujo effeito foi inuentada, e que ha dezasete meses estão nesta cidade, tempo 
em que poderão ter feito duas dúzias dos ditos canhões se lhes derão o neces- 
sário e não tem obrado mais que sete, e estes ainda com trabalho por o The- 
nente general da Artelharia mostrar pouca vontade que elles obrem, sendo de 
tanto effeito e bondade como se mostrou na proua que se fez no terreiro do 
Faço a vista de V. Mag. d0 e de muitos fidalgos e pouo de que foi bem aceito, 
e que o dito Tenente general mandou leuar os ditos canhões para o cães do 
Caruão onde tornou aproualos com maior carga, e lançarão o peluuro dobrado 
espaço e com três tiros de que ouue mayor admiração dos fuudidores, e com- 
tudo se achão tão mal aceitos do dito Thenente general desejando sempre com 
fidellidade acertar no seruiço de V. Mag. de que pedem lhes faça V. Mag. de mercê 
conceder licença para se irem a suas terras onde deixarão suas casas e famí- 
lias fiados nas grandes prumeças do Embaixador de V. Mag. de sem até gora 
terem recebido mais que moléstias e miséria com que tem passado. Ao conselho 
parece que de nenhQa maneira conuem dar se lhes licença para se hirem, an- 
tes mandar V. Mg. de ordenar que se lhes faça todo o bom agasalho para os 
obrigar a que continuem o seruiço de V. Mg. de ordenando que se faça noua 
proua das pessas da Artelharia que laurarão, no terreiro do Paço e que as- 
sista a ella o Thenente general da Artelharia e este conselho todo para se aue- 
riguar milhor a importância delia, e a conta que tem. Lixboa 17 de Setembro 
de 642 — Dom Gastão =Vasconcellos=^& uma rubrica. 

«Como parece e execute-se logo. Em Lixboa a 20 de Setembro de 642 — 
Rubrica de D. João IV. 

«Snr — Dizem Francisco e Júlio Gertileschi, (sic) mestres, e Inuentores 
da noua traça de artelheria ligeira para campanha, que estando elles dittos 
supp. tes em Londres comtratarão com o embaixador Dom Antam de Almada 
para uirem a este Reino a fabricarem a quantidade da artilheria que fosse 
necessária para a presente necessidade de gerra, para com ella ser senhores 
da campanha, abrasando a caualleria do enemigo, sendo so a tal bastante para 
com facilidade se alcansarem grandes uittorias, como em diuersas partes tem 
succedido, para o qual effeito foi inuentada; e tendo estado nesta Cidade ha 
desasete meses, tempo em que poderão ser feitas duas dúzias dos dittos ca- 
nhõis se lhes derão o necessário para a dilta fabrica, não tem ate oie obrado 
mais de sete canbõis e estes com muita pena e trabalho, pois o Tenente Ge- 



44 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

neral da artilheria, os fauorecia tam pouco, qne bem mostra a pouca uontade 
que tem de que se obre a tal artilheria, so para contentar os fondidores, os 
quais sempre forão inimigos de tam proueitosa inuensão, cuio effeito e bondade 
bem se mostrou na proua que se fes publicamente diante de V. M. d6 fidalgos 
e mais pouo, por cuio aplauso foi bem asseita e louuada, alem do Tenente 
para o suditto respeito, ainda que do mandado do embaixador de Vossa M. d " 
tem deixado suas casas e familhas; tendo seruido com tanta fidelidade, como 
todo o mundo sabe, dexando de seruir a outros Reies, como ia se se offres- 
seo, e per maior rigor o Tenente, sempre tudo a costa dos dittos proues 
supp. les mandou leuar as dittas pessas ao Cais do Caruão donde a mandou 
carregar conforme lhe pareceo, prouandolas outra uez com três tiros hu des- 
pois outro, pois com maior uiolença lançarão o pilouro dobrado espaço do que 
quando se dispararão diante de Vossa M. de com maior admiração do Pouo con- 
fusam dos fundidores, e honra dos supp. les ; os quais se achão tam perseguidos 
e mal asseitos do ditto Tenente, pois com tanta diligença, e trabalho se tem 
mostrado de assertarem no seruiço de Vossa M. de Pello que P. a V. M. de lhes 
faça mercê de conceder lhe licença para se irem a suas terras e casas pois as 
dexauão sem remédio fiados nas grandes promessas que o embaixador lhe fez 
de parte de V. M. de com contrato firmado de sua mão e chegados a este Reino, 
ale oie não tem recebido mais que muitas molesetias (sic), o que mais seDtem 
do que a muita miséria com que tem passado, todo o tempo referido que tem 
estado neste Reino, e R. M. 

tO muito proueito e utilidade que nasce da artilheria ligeira, a bondade 
e a prefeiçam delia e quanto seia impossiuel poder se fazer artilheria, de bronze, 
de menos peso da regra ordinária. Primieramente se ha de saber, que despois 
de se hauer feito grandíssima experiência, e se se podia achar modo de fun- 
dir artilberia de bronze, de Campanha de menos da regra ordinária, nascida 
de muita experiência, em diuersas occasiois de guerra, com hauer feito pes- 
sas de des, oito e seis quintais finalmente se ha visto em todas as partes do 
mundo, ser impossiuel poder se fabricar artilheria de Campanha de quatro li- 
bras de baila de menos peso de 14 quintais e fazendo se fica falsa e inútil e 
de nenhum proueito, e se algum fundidor, ou sobre intendência de tal officio 
disier differentemente ou dirá por puro interesse ou não intendera soo que 
diz, conforme constará da proua dos dittos pezos falsos, se tiuerem fabricado 
algu fora da regra ordinária da fundição, que se esto poderá ser se fiziera 
tambê em muitas outras fundisioins do mundo, aonde todos dias se fundem, 
infinitas pessas de artilharia, pello que se estima tam pouco, a inuensam das 
pesas piquenas de artilheria de Mansfelt, cheas de chumbo encameradas, que 
se fazem em Olanda, tendo se uisto por experiência que sendo qeotes logo re- 
bentão, alem de pulsar mui poço a baila a qual inuensam, sendo conhecida, 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 45 

por de pouca dura e pouco effeito não foi adraittida em parte algnã do mundo, 
e dentro em olanda mesmo, se não fas estima delias. E visto que a artilheria, 
da campanha de hum instrumento tam necessário, e essencial para destruir o 
exercito euemigo, e alcançar sinhaladas uitlorias, os dous irmãos Francisco e 
Júlio Gentileschi, vindo de Inglaterra a ordem de Dom Antam de Almada, em- 
baixador de sua mag. de tem inuentado nua sorte de artilheria ligeira a mais 
perfeita, e a milhor para correr a campanha e a mais ligeira e segura que se 
ha inuentado ale agora, pulsando o piloiro de qualquiere de bronze fondida, 
o dobrado, a qual V. M. de fidalgos, e nobreza desta cidade ha uislo com seus 
olhos, não passando mais hQa pessa destas o peso de três quintais ou treze 
arobas leuandola hu home as costas conforme V. Mag. de tem uisto per aqual 
ligeireza se uem os proueitos seguentes. 

«Primieramente serue esta artilheria para correr a campanha e fazerense 
senhores delia ainda que o inimigo tinha dobrado exercito. 

«Serue para destruir, e desbaratar a caualaria e certo he de inexplica- 
uel ualor porque repartida em diuersos esquadrais, dentro de quinhentos o 
mil cauallos pode de fazer e abrazar o numero de outo ou des mil caualos, 
con muita facilidade carregada de munisam de mosquete. E he lambem de 
grande proueito para fazer emboscadas, e sahir de improuiso com hu" exercito 
em campo aberto e he de tal effeito que com pouca gente faz alcançar gran- 
des vitorias. Serue lambem para colher e aquirer a bagagem do enemigo e 
os canhois de bronze que marchão muito de uagar. E he utilíssima para se 
senhorear hu posto alto e guardalo e defendelo de toda a força do enemigo 
infim em todas as occasiõis e em qualquer batalha com 50 pessas desta arti- 
lharia repartida em muitos esquadrais se alcançara infaliuilmente a uitoria, 
com grade perda do enemigo, e em qualquer ocasiam que seia necessária 
obrar com a tal artilheria não somente de repente se alcançara dobrado pro- 
ueito, do guasto feito, mas sem comparaçam algúa muitas vezes em dobro 
se ganhara o guasto que nella se fizer de mais da honra da victoria, que não 
ha dinheiro que a pague; e se se duuidar da sua dura os mestres delia asse- 
guram, com a mais prouada de bronze, como se uiu na primeira peça que fi- 
zerão para proua que em poucos dias tirou mais de 40 tiros e sempre ficou 
fixa e segura e he milhor que nunca, tirando sempre tiros dobrados, carre- 
gando a porem com a sua ordinária carga e medida. 

«Esta artilheria se esquenta pouco e he de pouco guasto ou custo porque 
hum so cauallo, pode tirar e rastrar hõa peza caualgada com grande facilidade e 
basta hu homen a gouernarla de manera que por muitos respeitos he de respei- 
tos he de grandíssima uantagem a de bronze que faz grandíssimo gasto a con- 
dusila e gouernala. E quando V. Mag. de se queira seruir da ditta artilheria a qual 
não pode ser feita nem fabricada seoam da mão destes dous irmãos Gentiles- 



46 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

chi pedem a V. Mag. de se lhes de a fabrica de toda a quantidade necessária, toda 
iunta a bQ tempo não temdo comodidade como forasteiros para a fabricarem 
pouco a pouco pois no mesmo tempo que fazem seis pesas podem fazer 24 
que mais de ficar V. Mag. de seruida prestamente poderão elles supp. les resis- 
tir aos gastos com que ategora se tem emprobecido. R. M.» 1 

iFrancesco Genlileschi flglio d'Orazio Pisano insigne Pittore, dopo la morte 
dei Padre ando a Génova, imparò dal Sarezana, e per qualche tempo s'eser- 
cilò col Maestro nel colorire, partito che fu da Génova, passo alfaltra vita. So- 
prani foi. 252.»* 

*Orazio Gentileschi Pisano imparò da Aurélio Lomi, suo maggiore fratello 
uterino: pratico nel colorire ando a Roma; piacque ai Pontefici, ed alli Prin- 
cipi il suo dolcissimo stiíe: 1'anno 1621. dagli Ambasciadori Genovesi fu a 
quella Città condotto, e lavorò per Savoja, e per la Francia, dove invilato fer - 
mossi due anni: di là spedito in Iughilterra, da quel Re fu provvisionato di 
500. lire sterline annue, oltre i pagamenti dei lavori : in quella Regia si fermò 
fino alia morte, che lo sorprese in età d'anni 48. Gon onorate esequie fu se- 
polto: ed ebbe riposo nella Cappella delia Regina, sotto 1'Allare Maggiore. Las- 
ció Artemísia la figlia famosa ritrattista. Sandrart. Soprani foi. 319. Baglioni 
foi. 359. » 3 

«Aurélio Lomi fratello uterino d'Orazio Gentileschi, Pittore Pisano; imparò 
da suo Padre Gio: Ratista. Fu molto gradilo in Génova. D'anni 58. mori nel 
1622. Soprani foi. 318.** 



XXVI. — Gil (Vicente).— O seu nome é exactamente o inverso do do 
grande poeta, que alegrou com as suas farças e comedias a corte manuelina. 
Era pintor de D. João II e para estar sempre prompto em todas as coisas do 
seu officio lhe passou el-rei uma carta de privilegio, em que o tomava por 
seu e lhe permiltia trazer armas. Esta carta foi passada em Lisboa a 16 de 
novembro de 1491 e é do teor seguinte: 

«Dom Joham etc. A quamtos esta nosa carta virem fazemos saber que 
querendo nos fazer graça e merçe a Viçemte Gill pintor morador nesta nosa 



1 Torre do Tombo. Conselho de guerra. Maço 2, consulta 307. 
*L'Abecedario pittorico. In Napoli AIDCCXXX1II. Pag. 165. 
1 Idem. Pag. 345. 
* Idem. Pag. 78. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTOBES 47 

cydade de Lixboa por seruiços que delle rrecebemos e por que a d estar sem- 
pre prestes pêra nas cousas de seu oficio nos seruir quamdo e omde mandar- 
mos Temos por bem e filhamollo por noso e em nosa espeçiall guarda e era- 
comenda pello quall rogamos e emcomendamos e mandamos a todos em ge- 
rall e a 6ada hum em espeçiall que pello nosso daquy em diamte bo homrem 
trautem bem e fauoreçam como cousa nosa de que temos carguo e asy que- 
remos que nom seja comstrangido pêra de seu oficio nem doutro carguo nem 
officio allgum seruir comtra sua uontade saluo per noso espeçiall mandado e 
asy nos praz que per todos nosos Regnos e Senhorios e asy demtro nesta ci- 
dade de Lixboa posa de noite e de dia trazer armas sem lhe serem tomadas 
nem por ello emcorrer em pena allgúa sem embarguo de nosas leis e horde- 
naçõees e defesa em comtrairo e porem mandamos a todollos nosos correge- 
dores allcaides meirinhos juizes justiças ofiçiaes e pesoas a que estas cousas 
e cada nua delas per quallquer maneira pertemçer que lhe guardem e cum- 
pram e façam ymteyramente guardar e comprir esta nosa carta e todalas cou- 
sas em ella comtheudas sem duujda nem embarguo allgum por que assy he 
nosa merçee. Dada em a nosa cidade de Lixboa a xvj dias de nouembro — 
Ruj de Pina a fez ano de mjll iiij c nouemta hum etc. nom seja duujda no rres- 
pamçado homde diz alcajdes meyrjnhos porque eu espriuam o corego por ver- 
dade ao comçertar.» 1 



XXVII. — Góes (Manuel António de). — Entre os discípulos e ajudantes 
de Cyrillo Voíkmar Machado, de que elle trata a pags. 218 da sua Collecção 
de Memorias, vem mencionado um Manuel António de Góes, pae de Bernardo 
António d'01iveira Góes. A este propósito escreve o seguinte: 

«Concedido por Sua Magestade, tive por meu Ajudante nas Obras Reaes, 
de Mafra, e Ajuda, Bernardo António d'01iveira Góes, filho de Manuel António 
de Góes, natural do lugar da Lobageira Freguezia de S. Domingos da Fanga 
da Fé, termo da Villa de Torres Vedras: seu pae também foi pintor de figura 
empregado pelo Marquez de Pombal na fabrica de azulejos, da qual se reti- 
rou para as províncias por desgosto de intrigas: pintou, em Torres Vedras na 
Casa do Despacho da Irmandade dos Clérigos Pobres na Igreja de S. Pedro, 
etc.» 

Na Chancellaria de D. José acha-se registada uma carta de 22 de setem- 
bro de 1775, concedendo licença a Pedro Correia de Almeida e Menezes para 



1 Torre do Tombo. Chancellaria de D. Jo5o II. L.* 2, fl. 123 v. 



48 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



que pudesse aforar, pelo preço de trinta alqueires de trigo, trinta de cevada e 
quatro gallinhas, a Manuel António de Góes, o casalinho da Serra, ao pé do 
logar da Lobageira, termo da villa de Torres Vedras, o qual fazia parte do 
seu morgado. 

A pags. 25 do interessante opúsculo do sr. Gabriel Pereira, Torres Vedras 
— Notas de arte e archeologia, citam-se uns quadros de azulejo existentes na 
Casa da irmandade dos Clérigos pobres, que talvez sejam devidos ao pincel 
de Manuel António de Góes ou de seu filho. O modesto e consciencioso artista, 
em vez de os rubricar com o seu nome, levou a sua ingenuidade e escrúpulo 
ao ponto de transcrever as assignaturas dos auctores das gravuras, que lhe 
serviram de modelo — Author Claud. Coell. delin. Franc. Houat sculp. 

Esta particularidade torna-se digna de reparo por dois motivos. 

Em primeiro logar dá-nos conhecimento de uma obra executada em ce- 
râmica devida ao desenho de um pintor eminente do século xvu, que alguns 
teem considerado nosso compatriota, mas que apenas é filho de pae portuguez, 
como succede com Velasquez, o insigne chefe da escola naturalista de Hes- 
panha. 

Em segundo logar tem-se aqui uma prova de que a maior parte dos qua- 
dros de azulejo não passam de copias de gravuras ou desenhos dos quadros 
de maior nomeada. Se um dia se proceder ao inventario dos azulejos orna- 
mentaes e de figura existentes no nosso paiz, ter-se-ha de effectuar este con- 
fronto. 

«Dom Joze etc. Faço saber que Pedro Corrêa de Almeyda e Menezes Me 
reprezentou por sua petição que entre as propriedades que possuía e era ad- 
ministrador do seu Morgado tinha um cazalinho chamado da Serra ao pe do 
Lugar da Lobageira termo da villa de Torres Vedras, o qual lhe rendia trinta 
alqueires de trigo, e trinta de sevada e se achava em total dannificação e por- 
que lhe queria aforar o dito cazal Manuel António de Góes morador no dito 
Lugar e lhe dava de foro os ditos trinta alqueires de trigo e trinta de sevada 
e de mais quatro gallinhas e pagar a decima a sua custa o que será de grande 
utilidade ao suplicante e para seus subcessores e porque so não podia fazer o 
dito aforamento sem licença minha me pedia lhe fizece mercê conceder lhe Pro- 
vizão para o referido aforamento na forma costumada. E visto o que alegou e 
informação que se houve pello Corregedor da comarca de Torres Vedras ou- 
vindo a Immediata subcessora que não tem duvida, e constar que andando o 
dito Cazal a pregão na praça os dias do Estillo não houvera mayor lanço do 
que os ditos trinta alqueires de trigo e trinta de sevada e quatro gallinhas li- 
vres para o suplicante que lhe oferecia o dito Manoel António de Góes em cada 
hum anno o qual cazal vallia de principal duzentos oitenta mil reis: Hey por 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 49 

bem fazer mercê ao supplicante de que para aforar o casal de que se trata sem 
embargo de ser de Morgado e das Clauzullas de sua instituição pello referido 
foro de trinta alqueires de trigo e trinta de sevada e quatro galinhas livres 
que lhe offerece em cada hum anno o dito Manoel António de Góes. E esta 
Provizão se cumprira como nella se contem e vallerá posto que seo effeito haja 
de durar mais de hum anno sem embargo da ordenanção L.° 2.°, tititulo 40 em 
contrario, e se tresladara na Escriptura que se fizer deste aforamento no Tombo 
e instituição delle mesmo Morgado para a todo o tempo constar que eu assim 
o houve por bem. De que se pagou de novos direitos dois mil seiscentos e vinte 
reis que se carregarão ao Thesoureiro delles a fi. 138 v. do Livro 41 de sua 
receita e se registou a carta em forma no Livro 30 do registo geral a fl. 12. 
EIRey Nosso Senhor o Mandou pellos Menistros abaixo asinados do seu Con- 
selho e seus Desembargadores do Paço. Thomé Lourenço de Carvalho a fes 
em Lisboa a 22 de setembro de 1775. Desta outocentos reis e de asinar 960 
reis. António Pedro Virgollino a fes escrever. Pedro Viegas de Novaes — Joze 
Ricalde Pereira de Castro. Por despacho do Dezembargo do Paço de 23 de 
Agosto de 1775. E em observância da Ley de 24 de Julho de 1713. António 
Joze de Affonceca Lemos. Pagou quatro centos reis e os officiaes mil e des 
reis. Lisboa 23 de setembro de 1775. Don Sebastião Moldonado.» 1 



XXVIII.— Gomes (Affonso).— Já tratei d'elle na primeira serie d'estas 
Memorias. As duas circumstancias, que tenho agora a accrescentar, não valo- 
risam a sua biographia e apenas determinam mais datas. 

No dia 9 de agosto de 1498, estando Affonso Gomes nas casas de Fer- 
não d'Alvares Rebello, ahi serviu de testemunha a um contracto de encam- 
pamento e renunciação de três courellas, que o mesmo bacharel e sua mulher 
traziam emprazadas, no sitio de Campolide, a Nuno Pereira, fidalgo da casa 
d'el-rei, do seu conselho e administrador da capella de Luiz Eanes, seu avô. 
As courellas foram de novo emprazadas a Álvaro Affonso, homem da alfan- 
dega. 

O respectivo contracto conserva-se hoje na Torre do Tombo, no cartório 
que pertenceu ao convento dos Paulistas, e não obstante ser assaz extenso 
reproduzo-o aqui na integra, não só por illustrar a historia da capella de Luis 
Eanes, mas também por ministrar curiosas informações para a topographia 
do sitio de Campolide. 

Com antecedência de dois annos apparece também outro contracto de na- 
tureza idêntica, em que Affonso Gomes figura como testemunha. Insiro aqui 



1 Torre do Tombo. Chancellaria de D. José. L.« 35, fl. 337 v. 
Setembro, 1906. 



50 NOTICIA DE ALGUMS PINTORES 

um extracto d'esse documento, que é muito interessante para a historia dos 
hospitaes velhos de Lisboa, e do novo, em que todos aquelles se vieram a 
fundir. 

«Aos 8 de julho de 1496, amte a porta principall da see delia mesma 
honde sse faz a audiência dos spritaes, perante o mestre escola Estevão Mar- 
tins, provedor mór e juiz dos hospitaes, albergarias, confrarias e capellas pa- 
receram Thomé Fernandes, carpinteiro, morador en Lisboa, citado por L. co 
de Évora, porteiro dos ditos hospitaes, por causa de umas casas que fora hos- 
pital de João de Braga, sitas na rua dos Arcos que lhe foram aforadas pelo 
provedor João Alves Portocarreiro pela conta que apresentou de 13 de jan. 
de 1492, feitas na horta de S. Domingos onde se está construindo o hospital 
real, da qual foram testemunhas Afonso Gomez pintor delRey nosso senhor 
e Fernão Gomes escudeiro de El Rei e Recebedor da obra do Hospital e Lopo 
Roiz carpinteiro, e tendo-o verificado que ellas andaram em pregão o tempo 
da lei e se tinham observado as solemnidades legaes foram confirmadas ao re- 
ferido Thomé Fernandes e sua mulher. De 10 de fevereiro de 1500 é a carta 
da confirmação de D. Manuel do emprasamento de 6 de julho de 1496.» 1 

«Em nome de deus amem. Saibam os que este estromento denpma- 
mento virem que no ano do naçimento de noso senhor Jhesu cristo de mjll e 
quatro centos e noueenta e oyto anos noue dias do mes d agosto na cidade de 
lixboa dentro nas casas em que ora pousa nuno pereira ffidalguo da casa dei 
Rey noso senhor e do seu conselho estando hi o dito nuno pereira em sua 
presença e de mym tabelliam e testemunhas pareceo hi o bacharell ffernand 
aluarez rrabelo cidadãao da dita cidade e em ela morador e loguo per ele ffoy 
dito ao dito nuno pereira que ele tem e anaffomso sua molher e trazem três 
courelas de vinhas com suas oliueiras e aruores que pertencem a ele nuno 
pereira como menjstrador que he da capela de lujs eanes seu avoo que deus 
aja as quaes sam em Campolide termo da dita cidade asi como partem a sa- 
ber hua delias parte com vinha que ffoy de bento fíernandez e com outra 
vinha que foy mato de sam bras e emtesta em vinha que foy de gonçallò pa- 
checo. E a outra parte com vinhas que foram erdade de sam bras de duas 
partes e com camjnho de ereeos. E a outra parte com gonçallò pacheco e com 
vinha que foy de fernam Louremço e com o dito caminho de ereeos e com 
outras confrontaçõees com que de dereilo deuem de partir. As quaes três cou- 
rellas asi trazem ele e a dita sua molher per titolo d emprazamento em ujdas 
de três pesoas das quaes a dita sua molher he a terceira e paguam delias em 



• Torre do Tombo. Chancellaria de D. Manuel. L.° 17, fl. 51. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 51 

cada hum anno de foro e pensam trezentos reaes destes ora correntes de 
trinta e cinco liuras o rreall e hum par de framgos segundo todo esto melhor 
e mais compridamente se contem em contrauto dello feito a hum Aluaro 
Afomso homem d allfíimdega da dita cidade. E que ora ele dito bacharell per 
si e em nome da dita sua molher de que fica de dar sua outorga por algu- 
mas rrezões que ho a elo mouem rrenuncia como loguo de feito renunciou as 
ditas três courellas de vinhas com suas oliueiras e amores e emprazamento 
delias e direito que era elas tem em mãao e poder do dito mino pereira que 
asi presente estaua a que pertencem como menjstrador que delias he e pêra 
delas fazer o que quiser e por bem teuer como de sua cousa que sam. E 
vista a dita rrenunciaçam per o dito nuno pereira dise ele nuoo pereira que 
as rrecebia e aceptaua em si e que daua como de feito deu o dito bacharell 
e asi a dita sua molher por qujtes e por liures delas e de qualquer foro e 
pensam em que lhe obriguados eram atee ora e os da como de feito deu por 
desatados das condições obrigações conteudas no dito contrauio. E rrecebida 
a dita emcãpaçam e rrenunciaçam como dito he dise o dito nuno pereira que 
ele por o semtir por seu proueito e proueito e honra da dita capela empra- 
zaua como loguo de feito emprazou ora nouamente a Joam diaz escudeiro e 
tabellião do çiujll na dita cidade e em ella morador na rua das esteiras que 
no presente estaua e a briatiz martinz sua molher as ditas três courellas de 
vinhas com todas suas oliueiras e aruores em cima conteudas no modo e ma- 
neira que as o dito bacharell e sua molher trazem asi como partem com as 
ditas confrontações e com todas suas entradas e saidas e logradoiros dereitos 
e pertenças asi como todo tem e como todo pertence a dita capela esto em 
ujdas de três pesoas a saber que ele dito Joam diaz e a dita briatiz martinz 
sua molher sejam ambos juntamente a primeira pesoa e o derradeiro delles 
que vyuo ficar posa nomear a segumda pessoa e a segunda per o derradeiro 
delies nomeada posa nomear a terceira em tal guisa que per o modo sobre- 
dito sejam três pesoas ao dito prazo e mais nom. E dise mais o dito nuno 
pereira que por quanto as ditas courelas estam a mayor parte delas ja pos- 
tas em estacall doliueiras que se ele dito Joam diaz e a dita sua molher sen- 
tirem por seu proueito de as teerem e fazerem em oliuaaes que as ponham 
todas destacas doliueiras e as dem presas e aproueitadas de boas estacas todas 
pouoradas em maneira que dem azeite e as corregam a saber eles como as 
pesoas que depois deles vierem per nomeaçam em oliuaaes e as corregam a 
saber de cauar ou laurar amotar alinpar. E se o nom sentirem por seu pro- 
ueito de as teerem em oliuall que as façam refaçam em vinhas de boas pram- 
tas e as corregam descauar podar amergulhar cauar empaar tapar arrendar 
e asj de todos e quaaesquer outros adobios corregjmentos que lhe a todo mes- 
ter fezer todo em cada hum anuo a seus tempos e sazões em tall gujsa que 



52 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

senpre era as ditas três vidas andem em oliuaaes ou em vinhas ande todo muj 
bem corregjdo e aproueitado melhorado e nom peyorado posto que todo ou 
parte pereça per agua ou per foguo ou terremotos ou per quall quer ou- 
tro fortuyto ou nom furtuylo que avijr posa que todo eles façam e rrefaçam 
a suas custas e próprias despesas e que dem e pagem em cada huum anno 
aas ditas três ujdas de foro e pensam por natall a ale nuno pereira e asy a 
quaaes quer outros que depois dele vierem por mjnjstradores da dita capela 
trezentos reaes ora correntes de trinta e ciuquo liuras o rreal e dous fran- 
goos viuos espertos bõos e de rreceber ou trinta reaes por eles começando 
de fazer a primeira paga por natall este primeiro que vem em que se come- 
çara o anno de quatrocentos nouenta e ooue annos e asi di em diante em 
cada hum anno nas ditas três vidas as quaes três courellas de vinhas ou 
oliuall em que estiuerem nem praso delias nom poderão dar nem doar trocar 
nem escaybar partir nem espedaçar nem em outra nenhuma maneira de si 
trespassar a nenhuma pessoa das em direito defesas e se as vender quiserem 
que ho façam primeiro saber ao senhoryo que a tall tempo for se as quer 
tamto por larato quanto por elas derem per a dita capela que as aja e se as 
nom quiser que em tall caso as posam vender a tall pesoa que nõ seja das 
sobreditas mas seja tall que guarde mantenha as condições deste e que lhe 
de seu foro e pensam e sua corentena. E que findas as ditas três pesoas que 
as ditas três courellas de vinhas ou oliuaaes fiquem loguo ao dito senhorio todo 
niuy bem corregido aproueitado melhorado e nom peyorado com todas suas 
bemfeitorias. E ele nuno pereira promete e se obrjga de lhe senpre ter com- 
prir e manteer este estromenlo de contra[uto] e de lho nunca reuogar nem 
contradizer e de lhe todo fazer boom e liure de quallquer pesoa ou pesoas 
que lhe sobre elo algua briga ou embarguo poseram e de se a elo dar por 
autor defensor so pena de lhe pagar quaaesquer custas despesas perdas da- 
pnos que por elo fizerem e rreceberem e com vinte reaes em cada hum dia 
de pena per todolos bêes seus asy mouees como Raiz e os da dita capela 
que pêra elo obrigou. E ele Joam diaz em seu nome e da dita sua molher e 
pesoas tomou e rrecebeo aceptou em sy e pêra sy as ditas três courelas de 
vinhas demprazamento nas ditas três ujdas com as ditas condições obrigações 
adobios susu ditos os quaes se obriga de ele e a dita sua molher e pesoas sen- 
pre teerem conprirem manterem e de lhe darem e pagarem em cada hum ano 
o dito foro e pensam de trezentos reaes dous framgos como em cima faz men- 
çam so pena de lhe todo comprirem pagarem com quaes quer custas despesas 
perdas dapnos que por elo fezerem e rreceberem e com os ditos vinte reaes 
em cada hum dia de pena per todos seus beens asy moues como de Raiz e os 
da dita sua molher e das ditas pesoas asy mouees como de Raiz que pêra ello 
obrigou. E em testemunho delo as ditas partes presentes asi bo outorgaram 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 53 

e mandaram ser feitos seDhos estromentos testemunhas que no presente fo- 
ram lujs d almeida fidalguo da casa do dito senhor e Joam rrodriguez es- 
cudeiro do dito nuno pereira. E depões desto no dito dia na dita cidade den- 
tro nas casas da morada do dito bacharell estando hi a dita anafonso sua mo- 
lher e loguo per ela foy dito que outorgaua como de feito outorgou a dita 
encanpaçam e rrenunciaçam que o dito seu marido fez das ditas três courellas 
de vinhas e se obriga de a nunca rreuogar nem contradizer per si nem per 
outrem em seu nome so a pena conteuda no dito contrauto per todos seus 
bêes asy moues como de Raiz que pêra ello obrjgou testemunhas afomso guo- 
mez pintor dei Rei noso senhor e aluaro fernandez creliguo de missa que 
canta em sam niculaao. E eu fernam rrodriguez pubrico tabelliam per autori- 
dade d El Rei noso senhor na dita cidade e em seu termo que este estormento 
per mandado e otuorgamenlo das ditas partes per o dito Joam diaz espreuj 
e aqui meu signal fiz que tall he. — Logar do signal publico.— lxxx rs.» 1 



XXIX.— Gomes (Manuel).— A respeito d'este pintor forneceu-me gentil- 
mente o sr. dr. Luiz de Figueiredo da Guerra os seguintes apontamentos: 

Livro das Obras da egreja da Misericórdia de Vianna no anno de 1720, 
a fl. 69: 

Ao pinlor Manuel Gomes pela pintura do tecto, 
debaixo do coro, capella mór, clarabóia e 
painel da bocca do throno 685)5783 rs. 

Azulejos de Relem, que vieram em 48 caixões no 
patacho N. a Sr. a da Victoria, e transporte 
desde Lisboa 649$108 rs. 

Mais 120 azulejos para o coro 4)5320 rs. 

(NB. Estes perderam-se e fizeram nova encommenda para o coro.) 

No Livro de Receita e Despeza de 1722, a fl. 246: 

Ao mestre azulejador Manuel Borges, da cidade 
de Lisboa, por 948 azulejos de brutesco fino 
para o coro, á razão de 30 mil reis por mi- 
lheiro 28)5440 rs. 



i Torre do Tombo. Convento dos Paulistas. Maço 1, n.» 9. 



54 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XXX. — Gonçalves (Álvaro). — Vivia no reinado de D. Affonso V e devia 
ser artista de bastante merecimento a ajuizar por um contracto celebrado em 
13 de outubro de i'»60, no paço episcopal de Évora, entre elle e o bispo da 
mesma cidade, D. Vasco, fundador do convento do Espinheiro, de frades da 
Ordem de S. Jeronymo, e do de Santa Clara. 

Por este contracto ou avença se compromettia o mencionado artista a exe- 
cutar dois grandes retábulos em madeira de bordos, medindo cada um seis co- 
vados e meio de largo e nove e meio de alto, sendo um d'elles para o altar-mór 
de Santa Maria do Espinheiro e o outro para idêntico logar em Santa Clara. 

Exigia o bispo que estes quadros fossem dos melhores, senão os melho- 
res, que se vissem em Portugal, em harmonia com os últimos esbocetos ou 
mostras apresentadas. 

Além dos retábulos, Álvaro Gonçalves obrigava-se mais a pintar quatro 
capellas; três no Espinheiro— a capella-mór e as duas do cruzeiro— e a quarta, 
finalmente, a capella-mór de Santa Clara. 

Devendo todo este trabalho ficar concluído no prazo de um anno, tudo leva 
a crer que Álvaro Gonçalves não o executasse sósinho, mas que houvesse deuti- 
lisar-se do auxilio de outros ofliciaes. No contracto uão se estipula o preço da 
obra e só se declara a pena, ou multa, a que ficava sujeito o artista se não se des- 
empenhasse cabalmente do seu encargo na época determinada. Por esta quantia, 
cem mil reaes brancos, se pôde calcular approxiinadamente o valor da pintura. 

O pergaminho, em que foi lavrado este contracto, conserva-se hoje na 
Bibliotheca Publica de Évora, e d'elle deu copia o sr. A. F. Barata no seu 
opúsculo Breve memoria histórica do mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro, 
publicado em Évora em 1900. 



XXXI.— Leonardo.— Era pintor flamengo, ignorando-se o seu appellido 
ou qualquer outra circumstaucia biographica. Em 1619 existia ainda a sua 
viuva, Catharina de Baste, moradora em Lisboa, na rua que vae por cima do 
Corpo Santo. Em casa delia residia Matinas Mathia, natural de Anvers, filho 
de Godifredo Mathia e Inês de Tilde. Era tocador de alaúde, não sei se de 
profissão, se por mera curiosidade. 

Em 5 de dezembro d'aquelle anno fora elle passar o dia a casa de Chris- 
tiano Lamguel, allemão, mercador de trigo, morador por detraz de S. Gião 
ou Julião, que n'aquelle dia dava banquete a alguns estrangeiros, sendo o 
Mathias convidado para alegrar a festa com o seu instrumento. Depois de jan- 
tar, estando todos juntos em folgazão convívio, como è fácil suppôr, passou 



NOTICIA DR ALGUNS PINTORES 55 

pela ma, eram 4 da tarde, um cego cantando e vendendo papeis avulsos. Cui- 
dando Matbias que as canções impressas eram as mesmas que entoava, man- 
dou comprar uma e trouxeram-lhe um quarto de papel, tendo no alto da pa- 
gina a imagem de Nossa Senhora, ao que julgava. Foi dobrando o papel, do- 
brando, até que por ultimo, por distracção, atirou com elle á rua, sem ter exa- 
cta consciência do que fazia, o que não era para admirar, attendendo ao en- 
thusiasmo em que todos se achavam depois do lauto festim. 

Ao cahir da noite, uns visinhos defronte, maliciosamente talvez, por ha- 
verem observado o facto, perguntaram da janella se Ibes queriam dar a ima- 
gem que compraram. 

Foi então que Mathias cahiu em si, retirando-se envergonhado e confun- 
dido pelo mal involuntário que fizera. No dia seguinte foi logo ao convento de 
S. Domingos procurar um frade, que sabia a sua lingua, e consultou-o sobre 
o procedimento que lhe cumpria adoptar. Certamente o frade o aconselhou a 
comparecer sem tardança perante os juizes inquisitoriaes. Com elle, como seu 
interprete, se apresentou, pois, perante o Santo Officio a confessar a sua im- 
pensada culpa e a pedir d'ella perdão e o castigo que merecesse. O terrível 
Tribunal limitou-se a perguntar-lhe se elle não cria nas imagens sagradas, ao 
que respondeu que era catholico, filho de pães catholicos, e que, n'esta quali- 
dade, lhes prestava o culto preceituado pela Egreja. O inquisidor recommen- 
dou-lhe que não sahisse de Lisboa sem prevenir o Santo Officio e que no seu 
Tribunal se apresentasse todas as quintas-feiras. 

O dominicano que o acompanhou e serviu de interprete chamava-se Frei 
Jeronymo Valuano. 

«Aos noue dias do mez de Dezembro do anno de seiscentos e desanoue 
em esta cidade de lisboa nos estaos e caza do despacho do santo officio Em 
audiência de pola manhã estando nella o senhor frej António de Souza depu- 
tado do santo officio de comissão dos senhores Jnquisidores perante elle pa- 
receo Matias matia framenguo natural de Emuers filho de Godifredo mathia e 
Jnes de tilde morador de presemte nesta cidade na Rua que uaj per cima do 
Corpo Santo ê caza de caterina de Baste viuva de hQ pintor framêguo cha- 
mado Leonardo. E disse ser de vimte e quoatro annos; dizendo que ujnha con- 
fessar hú descujdo que lhe acõtesera do quoal se podia seguir algum escân- 
dalo a pêra en tudo dizer uerdade e ter segredo lhe foj dado juramento dos 
santos Euangelhos em que elle pos sua raão e sob carguo delle prometeo de 
assy o fazer e por não saber falar bem portuguez foj tãobem dado juramento 
ao padre presentado frej Jerónimo Valuano Relligioso e morador em são do- 
minguos desta cidade pêra que bem e fielmente fizesse o officio de jnterprete 
E en tudo dissesse uerdade e tiuesse segredo sob carguo do qual prometeo 



56 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

de assi o fazer E o dito mathias mathia per seu jnterprete disse que quinta 
feira próxima passada, cinco deste presente mez de dezembro, ajuntandose 
elle detrás de são Jião em caza de Christiano lamguel Alemão mercador de 
triguo por ser ahi chamado pêra tanger hu alaúde em nu banquete que o dito 
Christouão (sic) languel daua a hús extranjeiros a que elle não sabe o nome es- 
tando assi todos juntos despois de jantar polias quoatro horas. E estando assi to- 
dos juntos ca dita casa, passou polia rua quautando hu ceguo e cujdando elle 
confidente, que o ceguo uemdia as cantiguas que cantaua mandou comprar 
bua delias e lhe trouxerão hu quarto de papel com hua jmmagem de nossa 
senhora segundo lhe parece; a quoal elle tomou e a foi dobrando em algúa 
dobras e auendo cousa de mea hora que assi dobrada a tinha na mão che- 
gandosse á janella a lançou na Rua sem aduirlir o que fazia por andarê co- 
mêdo e bebendo e folgando todos. E despois a nojte diguo junto a nojte os 
uesinhos de defronte chamarão da janella dizemdo que se lhes querião dar a 
jmmagem que comprarão e a estas palauras lhe perguntarão os mais compa- 
nheiros que fizera da dita immagem E elle confitente Respondeo que a lan- 
çara fora, e Reprehendendoo os ditos companhejros do que auja feito elle to- 
mou a capa e se foi com medo do que hauia feito temendo que lhe podessem 
fazer algum mal. E dahi se foi pêra a casa aonde uiue e a dita catherina de 
baste em cuja companhia esta contando lhe elle o caso lhe disse que uiesse a 
são dominsuos e desse conta ao dito padre frej Jerónimo Valuano e que ella 
lhe aconselharia o que auia de fazer e jndo elle ontem em busca do dito pa- 
dre, lhe não pode fallar e o tornou a busquar esta manhã, e com elle se ueo 
apresentar nesta meza na quoal pede perdão e misericórdia de toda a culpa 
e descujdo que cometeo. foi lhe dito que tomou mujto bom conselho em uir 
confessar sua culpa e pedir perdão delia; E que o admoestão da parte de 
nosso senhor Jhesu christo digua toda uerdade, E declare a tenção que teue 
em dobrar a dita immagem e a lançar polia janella fora e se fez isto como 
pessoa que sente mal da adoração das immagens — Respondeo que elle era 
catholico Romano e filho de pães catholicos que bem entendia e cria que se 
auião de adorar as immagens e assi o faz E as tem em sua casa E que o que 
fez foi por. descuido como tem confessado e por andarem alegres cõ o uinbo 
e sem ma tenção.— foi lhe dito que cuide bem na uerdade de suas culpas e 
não encubra nenhua parte delias nem se absente desta cidade sem licença 
desta meza E uira a ella todas as quintas feiras e prometeo de assy o fazer E 
sendo lhe lida esta sessão disse que estaua escrita na uerdade e mais não disse 
e assinou com o dito senhor francisco de sousa o escreui=/m António de 
Sousa=matho Thysen.» 1 



i Torra do Tombo. 6.' Caderno do Promotor, fl. 498. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 57 



XXXII.— Lobo de Moura (Eduardo).— No artigo concernente a Lobo de 
Moura, a pag. 104 da primeira serie d'estas Memorias escaparam algumas 
inadvertências typographicas, que convém rectificar. Na linha l. a , onde se lê 
Visconde de Soure, leia-se Visconde de Soveral; na 6. a linha, onde se lè que 
o moira foi celebrado, leia-se que a missa foi celebrada; na 7. a linha, onde 
se lê Wolsoley, leia-se Wolseley. 



XXXIII.— Manuel (Diniz). — Pintor da princeza D. Joanna. Apparece um 
individuo d'este nome em tempo de D. João III, como escrivão da camará real. ' 



XXXIV. — Nogera (André). — No Liuro da Receta e despesa da cadea, exis- 
tente no Archivo da Camará de Beja, a fl. 92 lê-se: 

«Add. 160. Despendeo mais o ditto thesoureiro manoel carvalho seis cen- 
tos rs. que deu e pagou a André Nogera pintor de pintar e reno- 
var o Retabolo de taipa em que se acha a imagem de Nossa Senhora 
que estava nas taipas velhas, das paredes e de por no altar dos pre- 
sos da enxovia e o 3.° pintor recebeu ditos seiscento reis da mão do 
d.° thesoureiro e asina aqui. Beja doze dias de setembro de seis cento 
vinte nove. E eu Fraucisco Fialho Guedes escrevi 

amdre nug." 

Este livro está na sala B, est. C, comp. 3. 9 , pratel. I', maço n.° 1. 
Citado no Catalogo da Sala Gomes Palma, 4.° fascículo — Azulejos ix. 
N.° do Catalogo. Beja — 1895, a pag. 44. 



XXXV. — Oliveira Bernardes (Polycarpo de). — Como seu pae, António 
de Oliveira Bernardes, de quem tratei na primeira serie d'estas Memorias, 
foi também pintor de azulejos. A prova da sua actividade n'este género en- 
contra-se em Vianna do Castello, segundo revelação que me fez o sr. dr. Luiz 
de Figueiredo da Guerra, em carta que passo a transcrever. 

«Ill. m0 e Ex. mo Sr. e caro collega. — Não me esqueci da promessa, mas ne- 



1 Torre do Tombo. Chaneellaria de D. JoSo III. L.« 33, fl. 41 v. 
Setembro, 1906. 



58 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

gocios urgentes me teem relido fora de Vianna. Incluso remelto duas photo- 
graphias dos azulejos de Belém, os sacros estão assignados Poticarp. ab Oliva 
fccit, na capella-mór da egreja da Misericórdia de Vianna, e vieram em 1714 
de Belém, como consta dos livros de despeza da mesma Santa Casa, e os pro- 
fanos que guarnecem em roda-pé as salas da casa de minha prima D. Maria 
Barbosa Teixeira Maciel, na casa do Largo de S. Domingos, e oratório adjunto, 
feitos em 1721, apparecem só com a legenda Polycarp. de Olivr* Ber."; mas 
tanto n'um sitio como n'outro não pude obter prova photographica em termos, 
porque no oratório faltava a distancia focal para dar imagem no chassis, e na 
Misericórdia não havia luz sufficiente. As duas provas são insufficientes, ser- 
vindo apenas para mostrar a boa vontade em ser agradável ao douto Mestre, 
sentindo não poder obter coisa melhor. 

Os azulejos da Misericórdia representam as obras da Misericórdia em cima, 
e nos dois vãos inferiores a passagem do mar Vermelho e Jesus entre os Dou- 
tores, e sobre o arco cruzeiro Nossa Senhora, tendo sob o manto clero, no- 
breza e povo. No painel do nascimento de Christo está a Virgem n'um leito 
de bilros, estylo da época. 

As três salas de minha prima teem na 1 . a caçadas e pescas, na 2. a as 
quatro partes do mundo em triumpho, ena 3. 1 recepções, passeios, etc. Na 
capella uns pequenos painéis da vida de Nossa Senhora. 

Desculpe-me a demora e creia-me sempre disposto ao serviço de V. Ex.\ 
e sou com estima e particular consideração— Discípulo muito grato e dedi- 
ca d ._Vianna, 19 de outubro de 1903.— Luiz de Figueiredo da Guerra.» 

Veja-se o artigo — Manuel Gomes. 



XXXVI. — Paiva (António de).— Era filho de Miguel de Paiva, pintor doi- 
rei, em cujo cargo, por sua morte, o substituiu por alvará, com força de carta, 
de 24 de julho de 1645. A este tempo estava servindo no exercito nas fron- 
teiras do Alemtejo, assim como já o fizera no anno anterior, entrando na to- 
mada e saque dos lugares do reino de Castella. Por sua morte foi nomeado 
para lhe succeder, por alvará, com força de carta, de 23 de fevereiro de 1650, 
Manuel Franco, seu cunhado. Vide este nome. 

«Eu EIRey faço saber aos que este meu aluara uirem que eu hey por 
bem de fazer mercê a António de Paiua filho de Miguel de Paiua do officio 
de meu pintor de óleo que vagou por fallecimento do dito seu pay por folgar 
de lhe fazer mercê e estar seruindo na fronteira de Alemtejo como tãobem o 
fes o anno passado achando sse na Tomada e Saque dos lugares do reino de 



NOTICIA W. ALGUNS PINTORES 59 

Castella com o qual officio hauera o dito António de Paim hum mojo de trigo 
e sinco mil reis em dinheiro de ordenado cada anuo a custa de minha fazenda 
e começara ha uençer o dito ordenado de uinte de julho deste anno de mil 
sseiscentos e quarenta e quatro em diante em que lhe fis mercê do dito offi- 
cio que he outro tanto como C'">m elle tinha o dito seu pay pello que mando 
aos vedores de minha fazenda e cooselheiros delia lhe facão assentar o dito 
ordenado de trigo e dinheiro na parte a onde se pagaua ao dito seu paj pêra 
tudo lhe ser paguo do tempo asima declarado e este aluara quero que valha 
como carta sem embargo da ordenação em contrario comtudo não hauera ef- 
feito sem primeiro constar por certidão nas costas delle do escriuão do nouo 
direito como o dito António de Paiua tem paguo em minha chancellaria do que 
deuer da comcessão do dito officio de meu pintor de óleo Esteuão de Faria o 
fes em Lisboa a xxiiij de julho de seiscentos quarenta e sinco annos — Fernão 
Gomes da Gama o fis escreuer — Rey.* 1 



XXXVII. — Paiva (Miguel de). — Dou n*este logar publicidade ao alvará, 
com força de carta, de 19 de agosto de 163:2, em que Filippe 111 o nomeia na 
vaga deixada por fallecimento de Domingos Vieira. A este documento se faz 
referencia em outro inserto a pag. 119 da primeira serie d'estas Memorias. 

A 24 de julho de 164o devia já ser fallecido, pois n'esta época foi no- 
meado para o substituir António de Paiva, seu filho, de quem se fala no ar- 
tigo anterior. 

«Eu EIRej faço saber aos que este aluara uirem que eu ej por bem fa- 
zer merçe a Migel de Pajua pintor, do officio de meu pintor de óleo, que ua- 
gou per falecimento de Domingos Vieira auendo respeito a imformação que 
tiue de sua suficiência e auera com o ditto officio o mesmo ordenado que com 
elle tinha o dito Domingos Vieira e por firmeza de tudo lhe mandej dar este 
aluara que valera como carta sem embargo da ordenaçam em contrario por- 
quanto pagou seis mil e quatrocentos e sessenta reis da mea anatta desta 
merçe que forão carregados em receipta ao thesoureiro das meãs anattas como 
se uio por certidão do escriuão de seu cargo que foi rotta ao asinar deste 
Luis de Lemos o fez em Lixboa a dezanoue de agosto de mil seiscentos trinta 
e dous annos — Sebastião Perestrelo o fez escreuer.» 2 



1 Torre do Tombo. Chancellaria de D. JoSo IV. Doações. L.° 18, fl. 7. 

2 Torre do Tombo. Chancellaria de D. Filippe Dl. Doações. L.° 23, fl. 398 v. 



60 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



XXXVIII. — Pedro (Álvaro de). — Não haveria conhecimento cTeste pintor 
se não viesse mencionado por Vasari, na sua Vile di piú eccellenti pittori, no 
final da biographia de Taddeo Bartoli. Escreve elle a propósito do nosso com- 
patriota, que floresceu em Itália por 1450: «Fú né medesimi tempi, e quasi 
delia medesima nianiera, ma lece piú chiaro il colorito, e le figure piú basse, 
Álvaro di Pielro di Poi togallo, che ne Volterra fece piú tavole, e in S. Antó- 
nio di Pisa, n'é una, e in alire luoghi altre, che per non essere di moita ec- 
cellenza, non occorre farne altra memoria.» 

Este appellido de Pedro é insólito e denuncia viciação extrangeira. Con- 
jecturo que o nosso compatriota assignaria as suas obras d'esta forma: Alva- 
rus Petri que Vasari traduziu á letra, correspondendo em nossa lingua a Ál- 
varo Pires. 

Houve um Álvaro Pires, pintor de el-rei D. Manuel, a quem, por sua 
morte, succedeu no cargo seu filho Gaspar Cão. Não se encontra, porém, ne- 
nhum documento que lhe diga directamente respeito. Não me atrevo a idenli- 
fical-o com o artista que trabalhou em Itália pela distancia dos annos, porque 
só em mui provecta edade é que poderia alcançar o reinado de D. Manuel. 

Fr. Francisco de S. Luiz traduz Álvaro de Pedro por Álvaro Peres e as- 
sim o inclue na sua lista, tendo tirado a respectiva noticia, não de Vasari, mas 
do Diccionano de C. F. Roland le Virloys. 



XXXIX.— Pegado (Bernardo Pereira).— Por provisão de 12 de junho 
de 1749 o nomeou D. João V pintor do Conselho da fazenda e das egrejas das 
ordens mestraes. 

«Dom João etc. Como gouernador etc. Faço, saber aos que esta minha 
Prouizão uirem que tendo Respeito a me Reprezentarem Bernardo Pereira Pe- 
gado hauer feito por ordem do conselho de minha fazenda varias obras de 
Pintura asim no mesmo Tribunal como em outras parles, e nas Igrejas das 
ditas ordens e uiezas mestrais com boa satisfação e desejaua ser prouido na 
ocupação de pintor do mesmo conselho e mezas mestrais na mesma forma 
que costumaua bauer no conselho ultramarino, e na Meza da consjensja, com 
que se tinha nomeado por veslimeuteiro Francisco de Souza e a constar o Re- 
ferido por informação do Sargento mor Architeto do mesmo conselho, e or- 
dens Carllos Manoel (sicj e ser pessoa de muita uerdade e bom porcedimento 
Hey por bem fazer lhe mercê de o nomear para pintor das obras do mesmo 
conselho e mezas mestraes que exzerçitará em quanto eu o houver por bem e 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 61 

Dão maodar o contrario, e fará iodas as obras de seu officio que se manda- 
rem fazer pello dito Tribunal e para as igrejas das ditas Mezas Mestraes fa- 
zendo as bem e fielmente e pellos preços ordinários sem alteração alguma e 
nenhum outro oficial se entremeterá a fazellas sobperma de perder feytio del- 
ias metade para quem o acuzar e a outra ametade para as despezas do mesmo 
conselho, e gozara o dito Bernardo Pereira de todos os peruillegios e jzensões 
de que gozão os mais officiaes dos mesmos Tribunaes pello que mando a to- 
dos os menistros officiaes e pessoas a quem o conhecimento desta pertenser 
que hajão ao dito Bernardo Pereira Pegado por pintor das obras do dito con- 
selho e Mezas Mestraes e lhe comprão e guardem esta prouizão como nella se 
conthem sendo passado pella chancellaria das ordens aonde jurara de bem e 
uerdadeiramente fazer as ditas obras a qual ualera posto que sem effeito haja 
de durar mais de hum auno sem embargo da ordenação em contrario e pagou 
de nouos direitos desta mercê quinhentos e quarenta reaes que se carrega- 
rão ao Thesoureiro delles Manuel de Faria e Souza no L.° 5.° de sua Receita 
f 50 v- como se uio de hum conhesimento Registado no L.° 4.° delias f 208-v- 
que se rompeo ao asinar desta. EIRey Nosso Senhor o mandou pelos do seu 
conselho e da de sua Rial fazenda em falta dos vedores delia. Francisco do 
Rego e Matos a fes em Lixboa a 12 de junho de 1749 annos. Francisco Paes de 
Vasconcellos o fes escreuer. Diogo de Souza Mexia. António de Andrade Rego.» 1 



XL.— Pereira (António). — Era pintor de óleo e de imaginaria. 

Em alvará, com força de carta, de 10 de julho de 1626, foi dispensado 
dos encargos da bandeira de S. Jorge. 

Em 9 de janeiro de 1628 foi nomeado por el-rei para o logar de pintor 
de óleo e tempera das Ires ordens militares. 

Não sei se seria este mesmo António Pereira o que, em 1657, na quali- 
dade de familiar do Santo Officio, com o notário do mesmo Tribunal, João 
Teixeira, foi á egreja de Santa Justa cobrir a tinta preta uns letreiros e figu- 
ras que estavam na capella de Jesus. 

Este caso não era novo. Certos quadros religiosos, sobretudo pelos seus 
letreiros, causavam inquietações nos espíritos orthodoxos da época. Para sa- 
tisfazer a meticulosidade dos casuistas, a Inquisição teve de intervir mais de 
uma vez, como se prova com o facto que se deu na egreja do Monte de Ca- 
parica, de que faço adeante menção no artigo referente a Domingos Vieira. 

tEu EIRey faço saber aos que este aluara virem que avendo Respeyto 



» Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Christo. L° 2òi, fl. 73 v. 



6*2 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

ao que na pilição atraz escrita diz António Pereyra pintor de olio de Ymagraa- 
ria e vistas as causas que alega he Yinformação que se ouve pello doutor Yna- 
cio Colaço de Brito desembargador da casa da suplicação e coregedor do ci- 
uel de rainha corte porque constou ser o supp. e hum dos milhores pintores 
de Ymaginaria dolio deste Reyno e a dita da (sic) pintura dolio e Ymaginaria 
ser ávida e Reputada por nobre em todos os outros Reynos e o mais que da 
Ymformação do dito coregedor constou hey por bera e me praz que o dito An- 
tónio Pereyra não seya daqui em diante obrigado a bandeyra de São Jorge 
nem aos emcargos delia nem a outros alguns emcargos dos a que se custu- 
mão obrigar os ofiçiaes mecânicos. E yslo sem embargo da provisão porque o 
Senhor Rey dom João que Santa gloria aya aneyxou os pintores Jndistintamente 
a dita bandeyra de São Jorge e de quaisquer outras prouisõcs Regimentos e 
posturas da Camará desta Cidade de Lixboa que em comtrario aya e mando 
ao prezidente vereadores e aos procuradores dos mesteres delia e a quaisquer 
outras Justiças ofiçiaes e pesoas a que o conhecimento disto pertencer que não 
obrigem nem constranyão ao supp. e aos emcargos da dita bandeyra de São 
Jorge nem a outros alguns de otíçi.d mecânico e lhe comprão e guardem e 
facão Jnteyramenle comprir e guardar este aluara como se nelle corathem sem 
duvida nem embargo algum o qual me praz que valha como se fora carta, 
começada em meu nome sem embargo da ordenação do 2.° L.° titulo 40 que 
o comtrario despoem — Pedralvres o fez em Lixboa a dez de Julho de mil e 
seis centos e vinte e seis — Manoel Fagundes o fez escrever.» 1 

«Dom Phillippe etc. Como gouernador etc. Faço saber que auendo res- 
peito ao que na pitiçam atraz escripta diz António Pereira pintor e a necesci- 
dade que ha de official de pintor para as igrejas das dittas ordens ey por bem 
e me praz que o ditto António Pereira sirua o dilto oficio de pintor de olio e 
tempara das ditas igrejas dos ditos mestrados pagando se lhe pellas obras que 
fizer o que se lhes aluidrar por três Architettos dos quaes doas seram os das 
ordens que aluidrarão as ditas obras conforme aos preços porque as ouuerem 
fazer outros ofíiciaes e debaixo do juramento que para isso lhes será dado 
pello que mando as pessoas a que pertencer façam as dittas obras de pintura 
de olio com o ditto António Pereira quando forem necessárias nas dittas igre- 
jas pagando lhas na forma que ditto he e elle António Pereira jurara na chancel- 
laria aos Santos Euangelhos de bem e verdadeiramente seruir o ditto officio, 
guardando em tudo meu seruiço bem das dittas igrejas e este se cumprira 
como nelle se contem sem duuida alguma e ualera como carta sem embargo 
de qualquer prouizam on Regimento em contrairo. El Rey Nosso Senhor o 



Torre do Tombo. Chancellaria dfl D. Filippe Iíl. Privilégios. L.° 1, fl. 18G. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 63 

mandou pellos deputados do despacho e da meza de consciências e ordens. 
Dom António Mascarenhas e Dom Carlos de Noronha. Domingos Carualho a 
fez em Lixboa a 9 de Janeiro de J bj e x x biij. Jorge Coelho d' Andrade a fez 
escreuer.» 1 

«João Teixeira notário do Santo ofíicio da jnquisição de Lisboa certifico 
e faço fee que de mandado dos Senhores jnquisidores cõ o familiar António 
Pereyra Pintor e acompanhado por Francisco de Resende homem da vara fuj 
a jgreja de Sancta Justa desta cidade, e depois de dar a entender ao Prior da 
mesma jgreja a diligencia que hia fazer o ditto Prior mandou abrir a grade da 
capella de Jhesus da dilta jgreja, e uir escadas, e logo o ditto pintor António 
Pereyra cõ tinta preta a olio, cobrio os letreiros e figuras das portas e vãos 
dos nichos que estão nas jlhasgas (sic) da ditta capella sem dos letreiros ficar 
algu mais que o que diz ecce homo, nem das figuras de pilalos e fariseos ficar 
algua, a qual obra forão presentes por se chegarem auer alguns dos beneficia- ■ 
dos e o audador da ditta capella, e outras pessoas, que entrarão na jgreja sem 
entre ellas auer quem a conlradicesse ou parecesse que notaua antes o dito 
Prior e o beneficiado André de Figueiredo dizião palauras de aprouação, de 
que tudo passey a prezente de mandado dos dittos Senhores Inquisidores a 
qual diligencia se fez na tarde de hontem e na manhã de hoje bem sedo se 
acabarão de tingir dous nichos a que naquella tarde por falta de tempo senão 
pode chegar. Lixboa sette de Setembro de mil seiscentos cinquoenta e sette 
annos =João Teixeira. » 2 



XLI. — Pires (João). — Era 5 de agosto da era de 1441 (anno de Christo 
de 1403) o prior e mosteiro de S. Vicente de Fora fizeram-lhe emprazamento, 
a elle e á mulher, em três vidas, de uma viuha, situada no logar da Picôa, 
termo da cidade. Esta vinha entestava com propriedades de Domingos Anes 
ou Eanes, moedeiro, e de outros. Entre as testemunhas figura outro moe- 
deiro, André Anes, morador a Santa Marinha. Reproduzo em seguida o respe- 
ctivo contracto: 

«Em nome de Deos Amem Sabham quantos este estormento de Enpraza- 
mento virem que na era de mjl e quatro centos e quarenta e hum anos çin- 
quo dias do mes d agosto na cidade de Lixboa dentro no moesteiro de Sam 
Vicente de Fora ante a crasta do dito moesteiro sendo presentes Steuam Al- 



1 Torre do Tombo. Chancellaria da Ordem de S. Thiago. L.« 12, fl. 54. 

'Torre do Tombo. Livro das DenunciaçOes da Inquisição de Lisboa. Caderno 36, fl. 567 . 



64 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

uarez prior crasteiro e regedor do dito moesteiro por dom Joham Esteuez 
prior dese meesmo moesteiro e conuento todos juntamente em cabidoo e ca- 
bidoo fazendo per campaa tangida como he de costume em prezença de mjra 
Esteuam Lourenço labaliom delRey na dita cidade e testemunhas adeante es- 
critas os sobreditos prior e conuento diseram que o espital do dito moesteiro 
ha nua ujnha cõ suas aruores em logo que chama a Picoa termo da dita ci- 
dade que parte com Domjngue Anes moedeiro e com Roy Gonçaluez e com 
André Afomso jenrro de Lopo Simoêz e com outros com que de dereito deue 
partir E diseram que eles ueendo e consirando seruiço de Deos e prol e onrra 
do dito moesteiro e espital que Enprazauam a dita ujuha com suas arruores 

a Joham Pirez pintor que presente estaua esta que ora ha moradores 

na dita cidade e a húa pesoa qual o prestumeiro deles nomear ante de sua 
morte per gujsa que seiam três pesoas tanto e nom mais com todas suas en- 
tradas e saidas dereitos e pertenças a tal preito e so tal condiçom que os sobre- 
ditos e pesoa que depôs eles ueer adubem bem e fielmente e sem maljçia 
nem húa a dita ujnha descauar e amergulhar e podar e cauar e arrendar (sic) 
em cada hum ano a seus tenpos e sazões per gujsa que senpre nas ditas suas 
ujdas a dita ujnha senpre seia melhorada e nom peiorada E dem e paguem em 
cada hum ano de renda e penssom da dita ujnha em paz e em saluo no dito 
moesteiro ao espitaleiro que pelos tenpos for quatro libras da moeda antjga 
ou seu verdadeiro ualor pagadas por dia de Sam Martjnho e começar de fa- 
zer a primeira paga por este dia de Sam Martjnho primeiro segujnte que uem 
desta presente Era deste estormento fedo E asy daly em deante em cada hum 
ano por o dito dia e nom adubando eles sobre ditos e pesoa a dita ujnha nem 
pagando a dita renda e pensom em cada hum anno como dito he que o dito 
prior e conuento do dito moesteiro lhe posam tomar e tomem a dita ujnha 
com todas suas benfeitorias e melhoramentos nom se chamando eles porem 
forçados nem a força noua e em caso que se a elo chamem que lhes nom ua- 
lha e fazendo eles sobreditos e pesoa que depôs eles hade ujr as ditas cou- 
sas e cada hua delas como dito he; acabado o tenpo dos sobreditos e pesoa 
que a dita ujnha fique ao dito moesteiro e espital sem contenda nem hua e 
obrigarom os bêes do dito moesteiro e espital a lhe Ijurar e defender a dita 
ujnha em o dito tenpo de quem quer que lhe sobre ela poser embargo so- 
pena de lhe correger todas perdas e dapnos que eles por a dita razom reçe- 
besem e com dez soldos em cada hum dia de pena de moeda antjga e o dito 
Joham Pirez a todo esto presente reçebeo em sy a dita ujnha no dito enpra- 
zamento por sy e por a dita sua molher e pesoa e obrigou todos seus bêes 
moujs e rajz auidos e por auer amanleer e aguardar as ditas cousas todas e 
cada hua delas e a pagar a dita renda e pensom em cada hum afio por o dito 
dia como dito he sopena de lhe correger ao dito moesteiro todas perdas e 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 65 

dapnos que o dito moesteiro por a dita razom receber e com dez soldos da 
moeda antiga em cada hum dia de pena as quaes cousas as ditas partes lou- 
uaram e outorgaram e pediram senhos estormentos fectos no dito logo dia 
mes e era sobre dita testemunhas Diego Aluarez tabaljom e criado do prior 
de Sam Njcolaau da dita cidade e André Afies moedeiro que mora a Santa 
Marinha e Joham Vicente procurador do moesteiro da Cheias e outros e eu 
sobre dito Steuam Lourenço tabaliom que este estormento e outro tal anbos 
de hum theor e este pêra o dito Johan Perez escreuj em ele meu signal fiz 
que tal he: pag. com a busca de três anos e de outro tal.»' 



XLII. — Reinoso (André de).— Taborda trata de um artista de nome Diogo 
Reinoso, que suppõe ter existido nos reinados de D. Manuel e de D. João III. 
As suas affirmações, porém, são muito vagas, não se estribando em solido 
fundamento histórico. Cyrillo contesta a existência de um Diogo e regista em 
seu logar André Reinoso, que em 1641 fora nomeado juiz da irmandade de 
S. Lucas, encargo que todavia não acceitou. Posso corroborar e authenticar a 
opinião d'este ultimo auctor com um documento ofíicial. É um alvará, com 
força de carta, de 30 de junho de 1623, isentando-o das obrigações da bandeira 
de S. Jorge. Por este diploma se fica sabendo que era filho do dr. António Rei- 
noso e que era considerado perito na sua arte, como bem o mostravam as obras 
que tinha feito: hum dos mais aventejados e milhares pintores de sua profição 
de óleo e immaginaria que avia en todo este Regno. 

«Eu EIRej faço saber aos que este Aluara virem que avendo respeito ao 
que na petiçam atras escrita diz André de Reinoso, pintor de óleo, e jmma- 
ginaria morador nesta cidade de Lixboa, e vistas as causas que alega, e ezem- 
plos que offereceo a informação que acerca do conteúdo na dita petiçam se 
ouue pelo Licenciado Luis Martinz de Siqueira corregedor do ciuel desta dita 
cidade de Lixboa, porque constou que o supp.' foj filho do doutor António 
Reinoso pessoa nobre e conhecida por tal e que hera hum dos mais aventeja- 
dos e milhores pintores de sua profição de óleo e immaginaria que avia en 
todo este Regno, e assj o mostrauão bem as obras que tinha feito e que a 
arte de pintura de óleo e jmaginaria hera ávida per nobre en todos os outros 
Regnos e o mais que da dita enformação constou, ej por bem que o dito An- 
dré de Reinoso não seia daqui en diante obrigado a bandeira de Sam Jorge 
nem aos encargos delia, nem a outros alguns encargos dos a que se costuma 
obrigar aos officiaes mecânicos, e isto sem embargo da prouisam porque EIRej 



1 Torre do Tombo. ColleíçSo especial. Caixa 116, doe. n.° 2. 
Odtcbro, 1906. 



66 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Dom João meu Senhor e tio que Santa gloria aya anexou os pintores indis- 
tintamente a dita bandeira de Sam Jogre e de quaesquer outras prouisões, 
regimentos acordos e posturas da Camará desta cidade de Lixboa que en con- 
trario aya na forma dos exemplos que o supp.' apresentou e mando ao presi- 
dente, vereadores, procuradores dos mesteres delia e quaesquer outras justi- 
ças offiçiaes e pessoas a que o conhecimento disto pertencer que não obriguem 
nem constranjam ao dito André de Rejnoso aos encargos da dita bandeira de 
Sam Jorge nem outros alguns de official mecânico e lhe cumprão e guardem 
e façam jnteiramente comprir e guardar este Aluará como nelle se contem o 
qual me praz que valha tenha força e vigor como se fose carta feita em meu 
nome por mjm asinada sem embargo da ordenação do 2.° L.° titulo 40 en con- 
trario. Manoel do Reguo o fez em Lixboa a xxx de Junho de jbj c xxiij. Ma- 
noel Fagundez o fez escreuer.» 1 



XLIIL— Rite (D. Izabel Maria).— A pag. 534 do Theatro Heroino lê-se a 
seguinte noticia: 

tlsabel Maria Rite, mulher de Raymundo Rite, e filha de Francisco Pe- 
querim Inglez de Nação, e de Joanna Pequerim natural do Porto nasceo nesta 
cidade, e foy baptizada na freguesia de São Nicoláo. Passou a Espanha neste 
século. Na arte da pintura, risco, e debuxo, se deferença entre os mais peri- 
tos pintores, e he singular na que chamão de Miniatura, tudo por curiosidade, 
e engenho sem dever aos mestres os preceitos desta arte liberal, que usa por 
gosto, e não por oficio.» 

Por parte de seu pae era parenta de D. Izabel Browne, para cujo artigo 
remetto o leitor. 



XLIV. — Rodrigues (António). — Era natural de Albufeira, reino do Al- 
garve, e pelos annos de 1659 morava em Lisboa, em S. Miguel da Alfama, 
onde exercia o officio de pintor. Era casado e sua mulher chamava-se Luzia 
Correia. 

Por meiados d'aquelle anno, pouco mais ou menos, foi procurado por 
uma mulher, cujo nome ignorava, mas que era viuva, saqueira, moradora á 
Portagem, junto de um livreiro. Vivia com ella uma filha solteira, baixa, ma- 
gra, de rosto amarello, picado de bexigas. 



1 Torre do Tombo. Chancellaria de D. Filippe III. Privilegio/. L.° 2, fl. 35. 



NOTICIA DE ALGU.VS PINTORES 67 

O molivo porque essa mulher o procurara era para lhe pintar um quadro- 
sioho com a imagem de Santo Erasmo. Effectivamente elle accceitou a encom- 
menda e executou a obra n'ura panno de três palmos approsimadamente. Eis 
como elle representou o cruciante episodio agiologico. O santo estava deitado, 
e dois diabos, um de cada lado, lhe tiravam pelas costas as tripas, que Hero- 
des e sua filha iam dobando num sarilho. Ao pé de Herodes uma caldeirinha 
com agua benta. 

Rodrigues retirou-se para o Algarve com sua família e casa, mas no co- 
meço de 1660 veiu a Lisboa, hospedando-se na estalagem nova do Rocio. Indo 
á Portagem buscar uns saccos a casa de um saqueiro, ouviu a conversa de uns 
homens, que estavam dizendo, apontando para a casa da mulher que lhe fizera 
a encommenda: — Olha que bichinha aquella! Que grande feiticeira alli está! 

Estas palavras deram-lhe que pensar e desconfiou então que a lelasinha 
de Santo Erasmo que elle pintara serviria, nas mãos da saqueira, para algum 
acto de bruxaria. Com estes rebates de escrúpulo, foi no dia 24 de janeiro, 
na sessão da manhã, á Mesa da Santa Inquisição, onde fez a declaração e de- 
nuncia atraz substanciadas. O inquisidor louvou-o por ter procedido correcta- 
mente, recommendando-lhe todavia que não sahisse de Lisboa sem prevenir 
aquelle Tribunal. 

Lembra-me ter visto, ha bastantes annos, em casa do fallecido architecto 
José Maria Nepomuceno, um quadro a óleo, sobre tábuas de grandes dimen- 
sões, representando o mesmo episodio. O possuidor desejava vendel-o, mas 
não achava quem o quizesse adquirir, porque á maior parte da gente repu- 
gnava o assumpto. A minha reminiscência já bastante longínqua dá-me a pin- 
tura sobre madeira, mas ha por certo illusão da minha parte, em presença 
da seguinte informação, que teve a amabilidade de me communicar o sr. An- 
tónio José Colaço Mimoso Ruiz, intelligente inspector de obras publicas, genro 
do architecto: 

«O quadro a óleo pintado em tela foi vendido ao marquez cfè Jerez de 
los Caballeros por 450j$000 réis. Representava o supplicio de um bispo, se- 
gundo parece pelas vestes que tinha ao lado. Estava nú, deitado de costas so- 
bre um estrado, mãos postas, ventre aberto, de onde sabiam as tripas, que se 
enrolavam num sarilho, que era movido por um personagem vestido de cal- 
ção, jaqueta sem mangas e turbante. Em plano superior, encostado a uma 
balaustrada, achava-se um rei cora sceptro e turbante, longas barbas negras, 
que dava ordens a um personagem que estava junto do paciente. Pela esca- 
daria diversos personagens com mantos bordados. Esperando sua vez para o 
supplicio outro condemnado cora túnica branca. Guardas diversos armados de 
espadins. 



68 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

«Ao alto do painel o Padre Eterno recebia a alma do condemnado, repre- 
sentado por um anjo.» 

«Aos vinte e quatro dias do mez de janeiro de mil e seiscentos e ses- 
senta annos em Lisboa nos Estaos e primeira casa das audiências da Santa 
Inquisição estando ahi na de manhãa o Senhor Inquisidor Francisco Barreto 
mandou vir perante si da sala a hQ home que pedio audiência. E sendo pre- 
sente disse que se vinha apresentar de culpas que lhe parece pertencem a 
esta mesa, e juntamente denunciar. E para tudo fazer cõ verdade e guardar 
segredo lhe foi dado o juramento dos Santos Euanjelhos em que pos a mão e 
sob cargo delle lhe foi mandado que assi o fizesse e elle o prometeo cum- 
prir. E disse chamar se António Rodriguez e ser Ghristão velho pintor, casado 
cõ Luzia Corrêa, natural da villa de Albufeira Reyno do Algarve e residente 
nesta cidade na estalagem noua do Rocio. 

«E logo foi admosestado que pois tomaua tão bom conselho como o de 
se vir apresentar voluntariamente lhe conuem dizer toda a uerdade nesta 
mesa por isso o que lhe conuem para saluação de sua alma o seu bom des- 
pacho, não impondo asi nê a outrem falso testemunho E assi prometeo de 
o fazer. 

«E logo disse que hauera seis ou sete mezes pouco mais ou menos es- 
tando morador nesta cidade em São Miguel de Alfama executando o officio de 
pintor, mandou chamar a elle declarante hua molher a que não sabe o nome, 
e he saqueira, viuua e tem hua filha solteira que viue cõ ella, baixa de corpo 
e secca, amarella do rosto e nelle algus sinaes de bexigas e viue nesta cidade 
a portagem junto a nu liureiro a quem não sabe o nome, e lhe parece que 
não ha naquelle sitio outra saqueira viuua e esta mandou a elle declarante 
que lhe fizesse hua pintura de Santo Erasmo deitado, e dous diabos hQ de 
hua parte e outro de outra tirando lhe pelas costas as tripas e Herodes e sua 
filha cõ hú sarilho dobando as tripas do Santo e ao pe de Herodes hõa caldei- 
rinha cõ agua benta o qual painel elle declarante fez em hu panno de três pal- 
mos pouco mais ou menos, e o entregou a culta molher e ella lhe deu dez tos- 
tões. E por então não fez escrúpulo algu deste particular, e se recolheo a sua 
terra cõ casas mudadas, donde vindo hauera dez dias, e indo buscar nus sac- 
cos a casa de hu saqueiro que viue na mesma portagem a que não sabe o 
nome, e foi tauerneiro, ouuio a hús homês a que não conhece, que estauão 
conuersando, dizer Boa bichina alli esta que he feiticeira, apontando para a 
casa da ditta molher Saqueira. E então ficou sendo sospeiía que lhe mandaria 
fazer a ditta pintura em ordem a algum fim roim de feitiçaria, e por isso se 
resolueo em vir dar conta nesta mesa, e da culpa que commetteo em fazer a 
ditta pintura esta muito arrependido, e pede que se use cõ elle da misericor- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



69 



dia porque fazer a pintura foi por ganhar com seu officio, e não por entender 
que commetia nisso culpa algua e ai não disse e do costume nada. 

«Foi lhe ditto que elle tomou muito bom conselho em vir voluntariamente 
dar conta nesta mesa de sua culpa, que lhe conuem mnito trazer todas á me- 
moria, e achando sua consciência encarregada em algua conta mais o venha 
declarar nesta mesa, e que por hora lhe mandão que desta cidade senão saia 
sê o vir fazer a saber a ella, onde acudira todas as vezes que for chamado. 
E por dizer que assi o faria, e que por hora não era de mais lembrado, foi 
outra vez admoestado em forma e mandado sendo lhe primeiro lida esta sua 
apresentação que por elle ouuida disse que estaua escrita na verdade e nella 
se afflrmaua notificaua e de nouo tornaua a dizer sendo necessário, e não ti- 
nha que acrecentar, deminuir, mudar, nê emendar, nem de nouo dizer ao cos- 
tume sob cargo do juramento dos Santos Euangelhos que outra vez lhe foi 
dado. Ao que estiuerão presentes por honestas e religiosas pessoas que tudo 
virão e ouuirão e promelterão dizer verdade e ter segredo, e assi o jurarão 
aos Santos Euangelhos Reuerendos Padres frey Gabriel da Sjlua e frey Chris- 
touão do Rosário Religiosos de São Domingos que ambos assinarão cõ o ditto 
declarante e com o Senhor Inquisidor — Manuel da costa de Brito, notário o 
escreui.= Francisco Barreílo=Fr. Gabriel da Sylua— António Rodriguez=Fr. 
Chrislouão do Rosário. 

«E ido para fora o dito declarante forão perguntados os ditos Reueren- 
dos Padres sacerdotes se lhes parecia que fallaua verdade. E por elles foi 
dito que sim lhes parecia que fallaua verdade. 

«E tornarão a assinar com o Senhor Inquisidor — Manuel da costa de 
Brito o escreui.= Francisco Barretto=Fr. Gabriel da Sylua=Fr. Christouão 
do Rosário. d 1 



XLV.— Rodrigues (Fernão). — D'elle falei na primeira serie d'esta Noti- 
cia, designando algumas obras, que executara no convento de Christo de Tho- 
mar. Tinha o cargo official de pintor d'esta casa, o qual parece ter exercido 
até annos avançados, pois em 1584 era nomeado para o substituir Simão de 
Abreu. Não encontrei a carta da sua nomeação. 



XLVI. — Sanches (Affonso).— A nacionalidade de Affonso Sanches tem 
sido muito controvertida entre os próprios escriptores hespanhoes, alguns dos 
quaes o pretendem considerar seu patrício. E certo, porém, que um seu con- 



; Torre do Tombo. Inquisição de Lisboa. Caderno 37, fl. 769. 



70 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

temporaneo, pessoa de alto valimento, lhe dá o Ululo de portuguez. Essa pes- 
soa é nem mais nem menos que Lourenço Pires de Távora, nosso embaixador 
junto da corte hespanhola, e custa a crer que uma tal personagem se equivo- 
casse tão gravemente, ignorando a pátria de um individuo de cujo préstimo 
se utilisava. Em carta de 15 de fevereiro de 1557, dirigida á rainha D. Catha- 
rina, mulher de D. João III, participava-lhe a chegada de Affonso Sanches, 
pintor portuguez, o qual era portador do retrato de D. Sebastião, para a in- 
fanta D. Joanna, sua mãe. A propósito do retrato deste príncipe veja-se o que 
escrevo no artigo adeante publicado sobre a rubrica Slralen. 

A carta de Lourenço Pires de Távora, se não resolve definitivamente o 
problema, não pôde deixar de ser considerada um documento importante no 
processo de naturalisação de Affonso Sanches. Aqui a reproduzo: 

i 

«Senhora — Espos tã largua carta como a que escreuo a elRey Nosso Se- 
nhor e que v. A. ouuyra ler nõ sey com que posa alyuyar parte do emfadamento 
que tã pesada materya pode dar se nam com djzer que a prjnçesa fyqua de 
saúde e muito contente com hum Retrato do prjneype seu fylho que lhe trouxe 
Afonso Sanches pyntor porluges o qual tem na camera do seu Recolhimento 
e muito partycularmente pergunta e com synays de ser muito may tudo o que 
toca aquelas feyçoyns e pareçeme que se despoem poys S. A. estaa ja en tempo 
pêra entender os seus recados e ter mays conta com elle, as Rainhas e ella fj- 
cam nel Abroio pêra se uyrem oje por a esperesa do tempo as nõ deixar la 
folgar o emperador entrou no mosteyro a três do presente e o pryncype fjca 
de saúde com suas tjas no Abroio e de todas estas cousas ha muitas party- 
cularjdades mays pêra contar que pêra escreuer e por esa rezão as deyxo 
pêra por mym o poder fazer pryncypalmente no modo da vyda que a Senhora 
jfante tanto procura e de todo outro contentamento que ella cuyda que lhe 
qua estaa guardado afora ter perdydo por tays deseios e tal determynação 
toda a reputação e credyto que nestes Reynos soya ter e afyrmo a v. a. que 
nom ha nenhQa pesoa de toda sorte que nõ entenda e dygua claro o erro que 
ella faz en querer sobre o pasado aparecer onde a veia e porque pela carta 
delRey noso senhor vera v. a. o estado do negocyo nõ tenho que mays dyzer 
se nã tornar nesta afjrmar que nõ auera nenhu meo para as Rainhas e em- 
perador desystjrem do que pedem e que he muito de olhar se ymporta mays 
dylatar esta vynda ou sofrer as jmportunydades e pesadumbres que tal reque- 
rymento dará ynda que seia com roguos prjncypalmente tendo os de qua obry- 
gação com que se escusão pela jnstancya que a Senhora jfante lhes faz e jus- 
tiça no que requerem pelo capitulado, e posto que eu synta muito nõ se po- 
der efectuar o a que vym deuo de recompemsar ysto com ter chegado o De- 
gocyo ao derradeyro do que parece que nele auya que fazer e entendydo tudo 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 71 

pêra com verdadeyro conhecymeuto s. a. se poder determynar no que mays 
for seu serujço. Nosso Senhor o escolha e vyda e Real estado de v. a. guarde 
e acrecente de Valhedolyd xv. de feuereyro 1557 = Lourenço Pires de Ta- 



XLVII. — Silva de Figueiredo (Thomaz da). — O nome d'este individuo é 
completamente inédito, creio eu, nos annaes da bibliographia litteraria ou ar- 
tística. Não teria exercido a pintura, mas, se não foi pelo menos aguarellista, 
foi sem duvida o desenhador de uma obra, ao que parece importante, deno- 
minada Livro das missões do reyno da Cochinchina, que se affirma ter sido im- 
pressa ou mandada imprimir. D'ella, porém, não apparecem, sob qualquer 
forma, os menores vestígios, nem tampouco outra qualquer noticia além d'aquella 
que vem exarada no requerimento de Thomaz da Silva de Figueiredo, que pede 
para ser admittido gratuitamente como official da Torre do Tombo. Origina- 
líssimo sujeito este que em paga dos seus serviços ainda pede mais trabalho! 

Emquanto ao padre José Candone a bibliographia jesuítica não lhe attri- 
bue também a obra indicada, de modo que chega a gente a duvidar se está 
deante de uma sophisticação. Custa, porém, a crer que Silva de Figueiredo fal- 
tasse tão descaradamente á verdade, inculcando a el-rei imaginários serviços. 
A sua petição envolve, portanto, não um problema, mas um verdadeiro enygma 
histórico, litterario e artístico, sobre o qual deve recahir a attenção de todos 
os que se interessam por estudos d'esta natureza. 

A petição de Silva de Figueiredo, datada de 1712, foi dirigida a D. João V, 
allegando n ella o supplicante os serviços que fizera por ordem do pae d'aquelle 
monarcha. 

«Senhor — Diz Thomas da Sylua de Figueredo que elle supp.* seruio ao Se- 
nhor Rey D. Pedro, Pay de V. Magestade que santa gloria haja, escreuendo, 
e estampando por debuxo de pena o Liuro das Missões do Reyno da Cochin- 
china que por ordem do ditto senhor lhe mandou fazer o Padre Jozeph Can- 
done da Companhia de Jesu, com o qual por ser grande volume gastou o supp. 6 
três annos de continuaçam pellas grandes estampas que lhe fez, retratando 
todos os Martyrios, e tormentos que padeciam aquelles que se redusiam a fé 
de Christo, e assim mays declarando todo o estado e gouerno daquelle vastís- 
simo Império, o qual Liuro foy de particular gosto, e agrado do dito Senhor, 
e o mandou impremir, o que tudo informaram os religiosos da Companhia de 
Jesu e porque o supp. e de todo este trabalho nam teue nenhúa recompença, 



1 Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte i.*, maço 100, doe. 104. 



72 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

e deseja o supp.* ocuparse no real seruiço de V. Magestade, e ser pessoa de 
bom procedimento. — P. a V. Magestade que attendendo ao trabalho que teue 
na obra do ditto Liuro, e ao préstimo do supp. 6 lhe faça mercê mandalo ad- 
mitir por official da Torre do Tombo sem ordenado algum, por ser grande o 
dezejo que tem de seruir a V. Magestade com toda a aceytaçam e procedi- 
mento. E. R. M.» 

«S. Magestade que Deos Guarde me manda remeter a V. M. a petição 
induza de Thomas da Silua de Figueiredo, para que V. M. lhe defira como 
lhe parecer. Deos Guarde a V. M. muitos annos. Passo 27 de Mayo de 1712 — 
Bartholomeu de Souza Mexia — Sr. Luis do Couto Félix.» 

tPor esse escrito do Senhor Bartholomeu de Sousa Mexia uera V. M. como 
S. Magestade que Deos Guarde he seruido que eu defira a Thomas da Silua 
de Figueiredo no requerimento que fez ao ditto Senhor e como não considero 
inconueniente em ele se oferecer a seruir no Tombo como oficial supernume- 
rario sem ordenado algum V. M. lhe faça assento do dia que começa executar 
esta ocupação do que entender o pode fazer. Guarde Deos a V. M. muitos 
annos etc. De caza em 3 de Junho de 712 — Senhor Pêro Semedo Estaço = 
Luiz do Couto.* 

«Despois que V. Magestade que Deos Guarde íoy seruido ordenar pelo 
seu seruiço que defirisse a Thomas da Silua que se oferece a seruir sem or- 
denado nesa Torre do Tombo toda a dilação ou duuida que se lhe fizer será 
para que ele se queixe ao mesmo Senhor. Neste sentido não ha mães que fa- 
zer que em execuçam da dita ordem, o assento, que quando seja necessário 
assinalo eu o farey sem embargo que nenhum outro de oficial que ahi entrou 
assiney. E este oficial não tem mães diferença que não leuar ordenado, mas 
o exercício he como dos mães que V. M. lhe asentará ou em tirar Ites para os 
alfabetos ou no que for necessário por que ele da sua parte satisfaz com hir 
lá as tardes custumadas para faser o que se lhe ordenar e não he a mães obri- 
gado, faço este segundo auiso a V. M. aquém Nosso Senhor Guarde etc. De 
caza 4.* feira — Pêro Semedo Estaço = Lwf'z do Couto.* 1 



XLVJ.IL— Silveira (Manuel da).— Por provisão de 22 de agosto de 1670 
o nomeou D. Pedro II pintor das Ordens militares, cargo que havia annos es- 
tava vago. 



1 Torre do Tombo. Avisoi e ordens. Maço 1, n.° 19. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



73 



«Dom Pedro como Regente etc. Faço saber aos que esta prouizão virem 
que avemdo Respeito ao que pella sua petição atraz escrita me Reprezentou 
Manuel da Silveira em Rezão de estar sem sernir a annos o offlcio de pintor 
das ditas ordens e ser conueniente que se proueia em pessoa de toda a satis- 
fação pella que tenho e boa informação que me foi dada de o dito Manuel da 
Sylveira ser bom official Hej por bem e me pras de lhe fazer mercê do dito 
officio de pintor das ditas ordens militares e que o sirua em quanto o eu ouer 
por bem e não mandar o contrairo e que fassa todas as obras de seu offlçio 
pertencentes as ditas ordens as quoais será obrigado a fazer bem e fielmente 
pellos pressos conuenientes que correrem na terra sem alteração algua e sem 
que nenhu outro official do mesmo offiçio se intrometa a fazer as ditas obras 
que por ordem da meza da conçiençia se mandarem fazer e noutro si Hey 
por bem que goze de todos os priuilegios e liberdades que gozão os mais of- 
ficiaes das ditas ordens militares pello que mando a todos os menistros offi- 
çiaes e pessoas das ditas ordens a que toquar cumprão e goardem mui pon- 
tualmente o que nesta prouizão se comtem, sem duuida algua a quoal quero 
que valha como carta posto que seu efeito dure mais de hu anuo sem embargo 
da ordenação em contrairo. O príncipe Nosso Senhor mandou pellos Doutores 
Martim Affonso de Mello e Christouão Pinto de Payui deputados do despacho 
do Tribunal da meza da conciencia e ordens — Francisco Mendes o fez em Lix- 
boa a 22 de agosto de 1670 — o secretario Marcos Roíz Tinoco o fes escre- 
uer || Martim Affonso de Mello || Christouão Pinto de Pajua.» 1 



XLIX. — Simão.— DenomiDado o portugalois, isto é, o portwjuez. Tra- 
balhava na officina de Goosen van der Weyen em 1304. 
Veja-se o artigo Castro (Affonso). 



L. — Sousa Maldonado (Theodoro de). 

«Secular. N. a J2 de agosto de mil settecentos e cincoenta e nove. He 
graduado em mathematica pela Universidade de Coimbra, insigne em Dezenho, 
e Miniatura: elle foi o que dezenhou as Estampas da Cidade do Porto, e da 
sua Rarra, incluídas neste volume. Na Poesia Pastoril não tem superior, e com 
facilidade admirável produz os melhores, e o mais armouiosos versos neste 
género.» 



1 Torre do Tombo. Ordem de S. Thiago. L° i8, fl. 79. 

Outubro, 1906. 10 



74 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Transcrevo textualmeule esla noticia da Descripção histórica do Porto, de 
Agostinho Rebello da Costa. 

Innoceacio da Silva inclue no seu Diccionario bibliographico a Sousa Mal- 
donado, como poeta, descrevendo algumas das suas producções. 



LI. — Straten (Joozis Vander). — Pintor flamengo, cujo nome foi aportu- 
guezado em Jorge Destrata ou de Estrata. Vem já mencionado em Raczynski, 
por indicação do visconde de Juromenha, citando dois documeutos, que abaixo 
transcrevo na integra. O primeiro, porém, foi mal traduzido e interpretado, 
dando logar a um erro bastante sensível. 

Em 4 de julho de 1 556 mandou a rainha D. Catharina, ao thesoureiro Álvaro 
Lopes, que pagasse a Jorge Destrata, pintor flamengo, sete mil e seiscentos reaes, 
além dos quinze mil e duzentos, que já recebera, por outra provisão regia, de Af- 
fonso de Zuniga, isto por tirar pelo natural a Dona Antónia e a mestre Manuel. 

Raczytiski equivocou-se radicalmente, dizendo que fora por tirar o re- 
trato a D. António, filho de D. João III. 

Quem seja esta Dona Antónia e este mestre Manuel não o pude ainda 
averiguar e julgo menos prudente perder-me em conjecturas. 

Ha outro mandado de pagamento, de li de dezembro do mesmo anno, 
ordenando que se lbe dêem oitenta cruzados por tirar do natural a D. Sebas- 
tião, o príncipe meu veto, conforme declara o respectivo documento. 

Em carta datada de Valhadolid a 15 de fevereiro de 1557 e dirigida á 
rainha D. Catharina pelo nosso embaixador na corte de Hespanha, Lourenço 
Pires de Távora, lê-se que a princeza (D. Joanna, viuva do infante D. João, 
filho de D. João III) ficara muito contente com o retrato de seu filho (D. Se- 
bastião) que lhe levara o pintor porluguez Affonso Sanches. Veja-se o artigo 
Sanches Coelho (Affonso). 

Teria acaso D. Sebastião sido retratado duas vezes, na mesma época, 
uma por Estrata onlra por Sanches Coelho? 

«Aluaro Lopez mando uos que deys a Jorge destrata framenguo pimtor 
sete mil e seisçemtos reaes que lhe mamdo dar alem dos quimze mil e dozem- 
tos reaes que Afonso de çunhiga lhe deu ja per meu mandado per outra mi- 
nha prouysão, o que tudo lhe mando dar por tirar pollo natural a dona Am- 
tonia e a mestre Manoel. E per este cõ seu conhecimento feito pello escriuão 
de voso carguo vos serão leuados ê comta os ditos sete mil e seys centos reaes. 
Bastião de fonsequa o fez em lixboa a iiij de julho de mil b c çimcoenta e seis. 
— Amtonio de Sampayo o fez espreuer 

Raynha.t 



NOTICIA DE ALGUNS PINTiiMiS 



75 



«Pêra Aluaro lopez dar a Jorge destrata framenguo pirator blj bj c rs. que 
lhe V. A. manda dar alem de xb ij e rs. que afonso de Çunhigua lhe ja deu per 
outra prouysão, o que tudo V. A. lhe mandou dar por tirar pollo natural a dona 
Antónia e a mestre Manoel.» 

«Recebeo Jorge destrata framenguo pintor do thesoureiro Aluaro Lopez 
os sete mil e seiscentos rs. conteúdos neste aluara em lixboa a iiij c de Julho 
de 1556. « 

ajoozis Van der Slraten. dioguo viartinz.* 

«Aluaro Lopez mando uos que deys a Jorge dEstrata pimtor oytemla cru- 
zados de que lhe faço merçe por tirar pollo natural o prymcipe meu neto e 
per este com seu conhecimento feito pello escryuão de voso carguo vos seram 
leuados em comta Bastião da Fonsequa o fez em Lixboa a xiiij de dezembro 
de mil b c lbj — António de Sampayo o fez espreuer— Ra ynha.* 

«Lxxx cruzados em Aluaro Lopez de que V. A. faz mercê a Jorge dEs- 
trata pimtor por tirar pollo natural ao prymcipe. 

«Recebeo Jorge dEstrata pintor do thezoureiro Aluaro Lopez os oytemta 
cruzados ccntiudos neste aluará em Lixboa a xiij de dezembro 1556.=/oo2i's 
Van der Straten = Dioguo Martinz.» 

«Registado— António de Sampayo. Pag. seyscentos e quarenta reaes. — 
Pamtalyam Rebello — Pêro dAlcacoua Carneiro. 

«Recebi seiscentos quarenta reaes em Lixboa a xiiij dias de dezembro de 
1556 — Luys Gonçaluez. 

«Pag. xxx reaes.» 2 



LU. — Vanegas (Francisco). — O meu particular amigo e illustre escri- 
ptor visconde de Castilho, ua sua miniatura á penna da monumental egreja 
de S. Vicente, inserta no volume iv dos Bairros Orientaes da sua Lisboa an- 
tiga, diz com referencia á capella-mòr: «O altar-mór, resguardado sob um ele- 
gante baldaquino, desenho do notável Francisco Vanegas, castelhano, e exe- 
cução feita sob os olhos do grande Machado de Castro, separa esta capella- 



1 Torre do Tombo. Corpo Chrouologico. Parte i, maeo 98, n.° ii3. 
1 Torre do Tombo. Corpo Chronologico. Parte i, maço 100, doe. 27. 



76 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

mór do vasto coro dos cónegos regrantes, que lhe Gca por traz, e que forma 
a cabeceira da cruz». 1 

No alludido trecho o sr. Castilho põe uma citação a authenticar a sua affir- 
mativa e manda-nos consultar a Collecção de Memorias de Cyrillo Volekmar 
Machado. Este, porém, só se refere a Machado de Castro e não sei por conse- 
guinte explicar como o desenho fosse de Vanegas, quando é certo que este 
pintor foi contemporâneo de D. Filippe I. 

O sr. Gabriel Pereira, no seu interessante opúsculo De Bemfica d Quinta 
do Correiu-mór , pag. 15, relaciona os oito quadros que estão ornando a alia 
parede da frente da capelia-mór da egreja da Luz, fundação da infanta D. Ma- 
ria, filha de D. Manuel. Em três d'elles descobriu a assignatura com o auxi- 
lio de um binóculo— Francisco Venegas, frgius pictnr faciebat, mas crê que os 
restantes sejam todos do mesmo pincel, embora haja entre elles divergência, 
mais apparente que real, podendo-se esta explicar pelo processo, então em 
voga, de seguir e adaptar as obras dos grandes artistas. Assim os seus qua- 
dros, onde mais se revelam faculdades assimiladoras que inventivas, fazem 
pensar em diversos mestres da escola italiana. Vanegas era sem duvida um 
bello executante e um bom colorista. As suas pinturas são sobre madeira. 



LITJ. — Vasco. — Vivia no reinado de D. Affonso V, que o tomou por seu 
illuminador em caria de 7 de março de 1455, a qual publiquei na integra na 
minha memoria d livraria real especialmente no ninado de U. Manuel.* 

Ahi se diz que elle era creado de Luiz Dantes, que, segundo se viu no 
logar competente, era pintor del-rei. Ainda mais se especifica que o tomara 
em logar de huu moço que tynhamos hordenado a G.° Eants, nosso capela, ou- 
tro si nosso ilominador. 

Taborda confundiu este Vasco com o Grão-Vasco, auctor dos quadros da 
Sé de Vizeu. Hoje, porém, está provado á saciedade que o illuminador de D. 
Affonso V é muito differenle de Vasco Fernandes, um viveudo no século xv, 
outro no século xvi. 



'Obra citada, pag. 231-232. 

2 Aproveito a oecasião para rectificar alguns erros que sahirara nVíta Memoria. Assim 
se deve emendar a data que se lé no titulo que encima a carta de Vasco. A cana, aposentando 
Vicente Domingues, tein no titulo 1496, quando deve ser ii4ti. A carta, isentando de besteiro 
a quem casasse com Joanna Rodrigues, tem 1457, quando deve ser 1401. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 77 



LIV.— Vieira (Domingos).— Na primeira metade do século xvii existiram 
dois pintores do mesmo nome e appellido, cuja personalidade andou confun- 
dida, chegando apenas Cyrillo Volkmar Machado a suspeitar que seriam dois 
indivíduos e não um, como efectivamente assim é e jà demonstrei na primeira 
serie d'estas Memorias. Distinguem-se um do outro, não só pela distancia dos 
annos, mas também pelo appellido Serrão, usado pelo mais antigo, que já de- 
via ser fallecido por 1641, emquanto que o segundo ainda subscrevia com a 
data de 1652 um grande painel para a portaria do mosteiro de S. Uento. 

Na Chancellaria de D. Filippe II acha-se registado um alvará de 30 de 
dezembro de 1606, isentando Domingos Vieira dos encargos da bandeira de 
S. Jorge. É possível que este privilegio fosse concedido ao primeiro. 

Um documento do archivo do Santo Officio revela-nos a existência de um 
quadro executado em 1627 por um Domingos Vieira, que sele annos depois 
(1634) assistia em casa do conde de Monsanto. O quadro fora feito por en- 
commenda de António Rodrigues das Neves, cura da frequezia de Nossa Se- 
nhora do Monte de Caparica, para a capella de Nossa Senhora do Rosário. 
Este retábulo dividia-se em vários compartimentos, n'um dos quaes estava 
debuxada Nossa Senhora da Conceição, tendo de um lado S. Thomaz, que pa- 
recia em posição humilde, e do outro, com ar tiiumphante, o dr. Scolto. Da 
bocca de um e de outro sahiam letreiros que offendiam a meticulosidade de cer- 
tos orthodoxos, que fizeram as suas queixas á Inquisição, a qual resolveu man- 
dar estudar o assumpto e anal} sar o quadro. Desta empreza foi incumbido o 
dr. Jorge Cabral, da Companhia de Jesus, que deu parecer em 19 de setem- 
bro de 163 i e n'elle condemna algumas palavras dos disticos, fazendo recahir 
as culpas sobre o cura e o pintor, que julga dignos de serem admoestados. 
N'esta mesma informação dá alguns toques biographicos do executante da obra, 
que tinha por alcunha o Escuro e era cunhado de um corrieiro que faz coisas 
de anta no fim da rua dos Douradores e Gadamicineiros. 

Um attestado subscripto a 24 de setembro de 1634 pelo padre António 
Luiz, natural e morador em Caparica, certifica de visu que não só os letrei- 
ros, mas as imagens alludidas, estavam já completamente raspadas. 

Seria o artista do quadro de Caparica o mesmo que pintou o painel de 
S. Bento? 

«Ev elRej faço saber aos que este aluara uirem que auêdo respeito ao 
que na petiçã atras escrita diz Domingos Vieira pintor de óleo e imaginaria e 
uistas as causas que alega e a informação que o Licenciado Inaçio Colaço de 
Brito corregedor do ciuel nesta cidade per meu mandado tomou acerca do con- 



78 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

teudo na dita petiçã e como pela dita informação constou ser o dito Domingos 
Vieyra hu dos milhores pintores de jmagiuaria doleo que ha nestes Rejnos, e 
a dita arte de pintura doleo e jmaginaria ser auida e reputada per nobre em 
todos os outros Rejnos ey por bê e me praz que o dito Domingos Vieira não 
seja daqui ê diante obrigado ha Bandeira de São Jorge, nem aos encargos 
delia nem a outros algus encargos dos a que se costumão obrigar os officiaes 
mecaniquos, e isto sê êbargo da proujsão per que EIRej dom Joã meu thio 
que santa gloria aja anexou os pintores jndistintamente a dita bandeira de 
São Jorge e de quaesquer outras prouisões regimentos e posturas da Camará 
desta cidade que ê contrairo aja e mando ao presidente uereadores e procu- 
dadores dos mesteres delia e a quaesquer outras justiças officiaes e pesoas a 
que o conhecimento disto pertencer que o não obriguem nem constranjão aos 
encargos da dita Bandeira de São Jorge nem a outros alguns de oficial mecâ- 
nico e lhe cúprã e guardem, e faça jnteiramente cuprir e guardar este aluará 
como se nelle cõthê o qual me praz que valha e tenha força e uigor posto 
que o effeito delle aja de durar mais de hú afio sem êbargo da ordenação ê 
contrairo. António de Moraes o fez em Lixboa a xxx de dezembro de Jbj c e 
seis — João da Costa o fiz escreuer.» 1 

tCertefico eu o Padre António Luis sacerdote de missa natural e mora- 
dor em esta fregezia de Caparica que he uerdade que na capella de Nossa 
Senhora do Rozario que esta na matrix da dita fregezia esta hum relabolo no 
meio do qual esta hum nicho em que esta Nossa Senhora do Rozario de vultu, 
e o mais retabolo se parte em quatro painéis em hum dos quais estaua e esta 
Nossa Senhora da Conceição, e ao pee delia da parte direita estaua Santo Tho- 
maz cõ hum litreiro qne sahia do boca do dito santo pêra a virgem Nossa Se- 
nhora que disia — Dignareme laudarete, virgo sacrata — E da outra parte 
estaua hua figura que dezião ser Sisto, de cuja boca sahia hum litreiro que 
dezia — Da mihi uirtutem contra hostes tuas — as quais figuras ui pintadas 
de óleo, e hoie as ui rapadas todas, de modo que neuhua delias se mostraua, 
nem parte delias, nem mais que a taboa de bordo rossada onde auião estado, 
e o letreiro estaua apagado sem figura de letra nenhQa o que tudo passa na 
uerdade, como consta do mesmo retabolo, a qual certidão passej pelo Padre 
cura António Lopes das Neues me requerer fosse uer o dito retabolo, e do 
que achasse lhe passasse certidão, e pêra este effeito fui uer o dito retabolo, 
e o achei como atras digo, e por assim ser passei a presente hoie 24 de se- 
tembro de 634 annos. = padre António Luis.» 



i Torre do Tombo. Chancellaria de D. Filippc II. Privilégios. L.° 3, fl. 148. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 79 

«De ordem da mesa mãodou fazer diligencia pello padre Iorge Cabral da 
cõpanhia de Iesus reuedor deste Santo officio em resão da Pintura de nossa se- 
nhora da Conceição cõ Santo thomas a mao direita e Escoto a mao esquerda, 
a qual pintura esta na egreia de nossa Senhora do monte em Caparica; e o 
que resultou he o siguinte que S. t0 Thomas esta pintado muito humilde; e Es- 
coto muito alegre e a letra se le as auessas do Escoto pêra S. t0 Thomas ; a 
qual he dignaeme etc; esta pintura se fes ha sete annos; de ordem de An- 
tónio RoTz das neues cura da dita igreia que era official da dita confraria ao 
tal tempo cõ Rui Dias espinosa, e martim gonçalluez; mas ainda correo cõ 
toda a obra e pagamento delia, a qual fez hu Domingos Vieira que hoie as- 
siste em casa do Conde de Monsanto esta he a enformação que temos da ma- 
téria 5 de setembro 634. =Dr Osório de castro — Pedro da Silua.* 

«Aos Inquisidores que mandem ao Padre jorge Cabral dê Rellação da ma- 
téria comtheuda clara e distyntamente, e com ella seu Parecer, E com o dos 
jnquisidores torne a este Conselho. Lisboa 5 de setembro de 1634.=G. pe- 
reira =francisco Barreto. = Manoel daCunha=fr. João de vascõcellos.* 

«Por ordem da mesa da jnquisiçam, fui a Almada fazer diligencia sobre 
um rotolo indicête que se pos em hua capella dedicada a nossa Senhora da 
Conceiçam; E por testemunhas fidedignas, (emtre as quaes foi o uigario da 
vara) achei a enformaçam que dei na dita mesa aos senhores Inquisidores que 
he a seguinte: Na jgreja de nossa senhora do monte sita no termo de Capa- 
rica, de que he cura ha muitos annos o padre António roíz das neues, esta 
húa capella dedicada a nossa senhora da conceiçam, e nella hua confraria da 
mesma innocaçam, de nossa senhora da conceiçam, sendo o dito padre official 
auera 7 annos pouco mais ou menos da dita confraria cõ Rui dias de espinhosa 
casado cõ hua sobrinha do dito cura, e outros homens, deu ordem o dito cura 
que na dita capela se pintasse nossa Senhora da conceiçam com S. Thomas a 
mão direita e Escoto a esquerda (em forma que o doutor Angélico esta muito 
humilhado, e Escoto muito alegre) com esta letra posta as auessas dignareme 
laudarete, uirgo sacrata, da mihi uirtutem cõtra hostes tuos digo as auessas 
por se começa a ler dereito pêra S. Thomas, acabando as ultimas palauras cõ- 
tra hostes tuos em S. Thomas dando a entender que S. Thomas é imigo da 
senhora. O pintor que pintou per ordê do dito cura estas imagens chamase do- 
mingos uieira o Escuro dalcunha; reside nesta cidade de lisboa, e comumente 
assiste em casa do Conde de Monsanto tê boa noticia delle hu corrieiro seu 
cunhado que mora être os officiaes que fazê couzas danta no fim da rua dos 
douradoures e gadamicineiros. 

«As palauras ultimas do dito rotolo considerado o sitio delias, e mais cir- 



80 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

cunstancias, ad. minimum sapiunt blasphemiam; por que dam a entender que 
o doutor Angélico he imigo da maj de deus, pelo que me parece que aos ditos 
cura e pintor se deue estranhar na mesa da inquisiçam este atreuimenlo; por- 
que ainda que com capa de zelo da immacuhda conceiçam da virgem nossa 
senhora queira o cura escusar sua culpa, uã tê ia lugar esta desculpa porque 
(como me testificou o uigairo da vara) na uisitaçam do ordinairo se lhe man- 
dou ia o anno passado riscase o dito rotolo, ao que não tê obedecido, e ao 
dito vigário da vara esta mandado faça executar a dita uisitaçam. porê nã se 
deue mandar riscar todo rotolo pois he da Igreja santa e louuor da Senhora 
senã as ultimas palauras (contra hostes tuos) suspeitas as circunstancias do 

lugar etc. porque cõforme a direito utile non por inutile. isto me pa- 

receo nesta casa de S. Roque da cõpanhia de Jhesu 3. a feira 19 de setenbro 
de 634 = Doutor Jorge Cabral.» 1 



LV. — Vieira de Mattos (Francisco). — Denominado o Lusitano, distinguin- 
do-se por esta forma de um seu homonymo Francisco Vieira, o Portuense. 

O sr. visconde de Castilho publicou um notável estudo 2 sobre aquelle ar- 
tista, baseado em grande parte, sobretudo no tocante á vida intima, n'uma 
auto-biographia dada á luz da publicidade em 1780 sob o titulo de O insigne 
pintor e leal esposo Vieira Lusitano. . . 

É uma extensa historia em cantos lyricos, isto é, em quadras, de redon- 
dilha maior, de rimas toantes, escripta n'uma linguagem pretenciosa, de pré- 
cieuses ridicuks, impregnada ao mesmo tempo de candura e ingenuidade quasi 
infantis. O artista, dando-se o epitueto de insigne, bem mostrava o apreço em 
que tinha a sua pessoa, não deixando correr a sua reputação por mãos alheias. 

O livro do sr. Castilho está a reclamar uma segunda edição, amplamente 
illustrada com as principaes obras do mestre, finalisando com uma lista des- 
envolvida e quanto possível completa dos trabalhos que elle legou á posteri- 
dade, em pintura, em desenho e em gravura. A quem se dedique um dia a 
esta laboriosa tarefa offereço agora aqui uns brevíssimos apontamentos que 
lhe possam servir de auxilio a mais amplas pesquizas. 

No catalogo da Livraria romana, correspondente ao mez de junho de 1904, 
comprehendendo obras, estampas e medalhas relativas a Portugal, vem des- 
cripta, sob o n.° 31, a obra impressa em Roma em 1727 com o titulo de Com- 



1 Torre do Tombo. 14." eaderno do Promotor de Lisboa, fl. 330. 

2 Intitu!a-se: Amores de Vieira Lusitano, apontamentos biographicos. Lisboa. Parceria An- 
tónio Maria Pereira, livraria editora, 1901. É adornado de 22 estampas fora a capa e 4 fac-ai- 
miles. 



NOTICIA DE ALGUNS TINTCRES 81 

pendia delle Vite dê Santi Orefici ed Argentieri, raccolta da diversi autori, por 
Libório Caglieri. É adornada de estampas, algumas das quaes são dcl bravo 
artista Portoghese, Francesco Vieira. 

O meu amigo sr. Annibal Fernandes Thomaz alcançou um exemplar d'esta 
obra, da qual teve a bondade de me enviar mais delidas informações. 

O volume contém S6 gravuras em metal, e em folhas avulsas, que não 
entram na paginação, sendo 9 feitas sobre desenhos de Francisco Vieira Lu- 
sitano e referindo-se estas aos seguintes assumptos: 

Em frente do rosto: Grupo de 5 figuras, tendo na parte inferior, em es- 
cudetes: S. Andronico prima Argentiê poi Mon. co — S. Tillone prima Orefice 
poi Abate — S. Eligio prima Orefice poi Vescovo — S. Anastasio prima Argen- 
tiê poi Mon. e Mar.— Beato Facio Argentiere. 

Em frente da pag. 1 : S. Eligio impara la professione d'Orefice. 

Idem da pag. 32: S. Eligio libera con un miracolo tre sentenziati a morte. 

Idem da pag. 66: S. Anastasio ancora Gentile lavora in bottega d'un Ar- 
gentiere Cristiano. 

Item da pag. 74: S. Anastasio martirizato in compagnia di molti altri 
Cristiani. 

Idem da pag. 78: S. Andronico Maestro Argentiere. 

Idem da pag. 80: S. Alanasia Moglie di S. Andronico á rivelazzione es- 
sere i Figli andati in Cielo. 

Idem da pag. 88: It B. Faceio esercita la professione d'Argentiere. 

Idem da pag. 90: It B. Faceio per calunnie stá prigione ove fá diversi 
miracoli. 

Todas estas gravuras teem nos ângulos inferiores, á direita e á esquerda, 
os dizeres: Franc. Vieira Lusitano inv. — Cario Gregori scol. Boma. 

As sete composições restantes são de Agostino Masucci, Andrea Oratij e 
Plácido Costanzi. 

Entre os livros litúrgicos para uso da capella de S. João Baptista na 
egreja de S. Boque ha um Canon Missw Pontificalis, impresso em Boma em 
1743, adornado de estampas gravadas, segundo os desenhos de diversos ar- 
tistas, entre os quaes se conta o nosso Vieira Lusitano. 

O meu illustre amigo e incançavel escriptor Prospero Peragallo, aceusan- 
do-me, em carta de 23 de junho de 1903, a recepção da primeira serie d'esta 
Noticia, teve a amabilidade de me enviar a seguinte nota: 

«A respeito do celebre Francisco Vieira encontrei na Vita dei Cav. Giam- 
battista Bodoni, vol. 1.°, p 47, 48, Parma, Stamperia Ducale MDGCCXVII, 
uma noticia, que não sei se já foi aproveitada na biographia do grande pin- 
tor, e por isso lh'a communico. 

Outubro, 1906. 11 



82 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



«Fervia em 1694 em Parma uma questão entre os artistas, se as pintu- 
ras da Camera dita dei Correqgio erão cTelle, ou do pintor Tinti. Então o Duque 
Ferdinando nomeou uma commissão para julgar em ultima instancia; e d'esta 
commissão quiz que fizesse parte = il Portoghese giovinetto Francesco Vieira, 
che da qualche tempo stavasi meditando e ricopiaudo le opere Correggesche = 
Emquanto os commissarios, cheios de admiração, estavam observando as porten- 
tosas pinturas, quem rompeu o silencio foi o Vieira, o qual disse = a che ci 
stiamo noi ammiratori inoperosi di tante bellezze, e non cerchiam piuttosto, 
prevalendoci. . . delia luce, di trarne copia fedele colla matita (note o amigo 
que a tal Camera era no Mosteiro de Freiras de S. Paolo), affinchè un qualche 
vestígio alraeno ci rimanga sensibile di cosi peregrina pittura? = E poiché ve- 
locíssimo era nel diseguare, che detto avreste ch'egli scrivesse, nel breve giro 
di sette ore, ventisei pezzi ne ebbe formati=» 

A data apontada de 1694 é visivelmente errónea, sendo possível que ti- 
vesse havido engano ao copial-a. Assim o demonstram algumas ephemerides 
da vida do nosso artista, que nasceu a 4 de outubro de 1699 e falleceu a 13 
de agosto de 1783. A sua primeira viagem a Roma effectuou-se em 1712, e 
a segunda em 1722, regressando a Portugal, respectivamente de cada uma 
d'ellas, em 1719 e 1728. 

Além do trabalho do sr. visconde de Castilho, a que me referi no prin- 
cipio d'esta Noticia, cumpre mencionar um interessante opúsculo do meu bom 
amigo o sr. António César Mêna Júnior, primitivamente publicado no Archivo 
histórico portuguez, e mais tarde no Boletim da Real Associação dos Architectos 
civis e Archeologos Portuguezes, sob o titulo de Um esboceto de Vieira Lusitano. 
D'este estudo se fizeram duas tiragens, em separado, extrahidas d'aquellas re- 
vistas, sendo uma de 21 e a outra de 50 exemplares. Ambas são acompanha- 
das: a primeira da reproducção do esboceto em tamanho natural; a segunda 
do mesmo, reduzido a metade. Este esboceto era para o retrato do primeiro 
cardeal patriarcha de Lisboa, D. Thomaz de Almeida. 



LVI. — Vieira Serrão (Domingos). — Em carta de 1 de julho de 1624 foi 
nomeado pintor do convento de Christo de Thomar, talvez na successão e por 
fallecimento de Simão d'Abreu. 

«Dom Phelippe etc. Como gouernador etc. faço saber que auendo res- 
peito ao que na petição atraz escripta diz o Dom Prior do conuento de Tho- 
mar da ditta ordem e visto o que allega Hey por bem e me praz que Domin- 
gos Vieira pintor o seja do ditto conuento e peuturas que n'elle se fiserem 



NOTICIA I)E ALGUNS PINTORES 83 

etc. Hey por bem que valha como carta supposto que o effeito delia aja de du- 
rar mais de hõ anno sem enbargo de qualquer prouisão ou regimento em con- 
trairo e se cumprira sendo passada pella chancellaria da ditta ordem EIRey 
Nosso Senhor o mandou pellos deputados do despacho da mesa da consciên- 
cia e ordens os doutores dom António Mascarenhas e Diogo de Britto. Ma- 
nuel Pereira de Castro o fez em Lixboa ao primeiro de Julho de 624. »' 



i Torre do Tombo. Cartório da Ordem de Christo. L.° 12, fl. 367 v. 



LISTA ALPHABETIGA, 



POR APPELLIDOS, 



DOS 



ARTISTAS CONTIDOS NA l. a E V SERIE D'ESTAS MEMORIAS 



Abreu (Simão de). 

Affonso (Fernando). 

Affonso (João 1.° e 2.°). 

Ajfonso (Jorge). 

Affonso (Pêro). 

Affonso (Simão). 

Almeida (Pêro de). 

Alvares (João 1." e 2.°). 

Alvares de Andrade (Luiz). 

Andrade (Lazaro de). 

André (Manuel). 

Anes (Gonçalo). 

Anes (João). 

Anes de Leiria (Francisco). 

Alies (Rodrigo). 

Anes ou Eanes (Vasco). 

Antoninho (Mestre). 

Armõe (Reymão). 

Aves (Francisco das). 

Azevedo (João de). 

Baccarelli (Vicente). 

Barco (Gabriel dei). 

Barreto (Jorge). 

Barros (António de). 

Barros Ferreira (Jeronymo de). 

Le Bault (Claude). 

Borges (Manuel). 

Brandão (Eduardo Emilio Pereira). 

Browne (D. Izabel). 

Campos (Lucas de). 

Cão (Gaspar). 

Carducci ou Carducho (Vicente). 

Carvalho. 

Carvalho (Gaspar). 



Castelli (Bernardo). 
Castro (Affonso). 
Castro (Pedro de). 
Cerveira (Fernão). 
Coelho da Silveira (Bento). 
Coimbra (Pêro de). 
Contreiras (Diogo de). 
Correia de Araújo (Manuel). 
Côrte-Rcal (Jeronymo). 
Costa (António da). 
Costa de Rezende (Thomé). 
Cunha (Domingos da). 
Dantes (Luiz). 
Delerive (Nicolas). 
Dias (Gaspar). 
Dias (João). 

Dias de Oliveira (Manuel). 
Dioll (Jacomo). 
Eduardo ou Duarte. 
Espinhosa (António). 
Espinosa (João de). 
Fernandes (Álvaro). 
Fernandes (Bartholomeu). 
Fernandes (Diogo). 
Fernandes (Garcia). 
Fernandes (Gomes). 
Fernandes (Lourenço). 
Fernandes (Luiz). 
Fernandes (Pêro). 
Fernandes (Vasco). 
Figueiredo (Christovão de). 
Figueiredo Seixas (José de). 
Florentim (António). 
Fonseca (António Manuel da). 



85 



NOTICIA I'E ALGUNS riNTORKS 



Francesco (Nicoloso). 

Franco (Manuel). 

Furtado (Manuel). 

Gallego (Pêro Affonso). 

Gentileschi (Francesco). 

Gil (Vicente). 

Góes (Manuel António de). 

Gomes (Affonso). 

Gomes (Diogo). 

Gomes (Fernão). 

Gomes (Francisco). 

Gomes (Gonçalo). 

Gomes (Manuel). 

Gonçalves (Affonso). 

Gonçalves (Álvaro). 

Gonçalves (André). 

Gonçalves (João 1.° e 2.°). 

Gonçalves (Nuno). 

Guarienti (Pietro). 

Henriques (Francisco). 

Joliane. 

Kloet (Willelm van der). 

Landrofe (António de). 

Lassere (Prospero). 

Leal (Jorge). 

Leitão (Antão). 

Leitão (António). 

Leonardo 

Lisboa (Fernão). 

Lobo de Moura (Eduardo). 

Lopes (Christovão). 

Lopes (Gregório). 

Luiz (António). 

Manuel (Diniz) 

Martins (João i.° e 2.°). 

Martins (Lourenço). 

Malta (António da). 

Mattos (Francisco de). 

Mendes (Álvaro). 

Mendes (Jorge). 

Moralles (António de). 

Negreiros (José da Costa). 

Nicoloso (Francisco). Já mencionado sob 

nome de Francesco (Nicoloso). 
Nogera (André). 
Nunes (Miguel). 

Oliveira Bernardes (António de). 
Oliveira Bernardes (Polycarpo de). 
Oliveira de Louredo (António de). 
Oort (J. Van.) 
Paiva (António de). 



Paiva (Miguel de). 

Paulino dos Reis (Máximo). 

Pedro (Álvaro de). 

Pegado i Bernardo Pereira). 

Pellegrini (Domenico). 

Pellereau (Frédéric). 

Pereira (António). 

Pereira de Miranda (Braz). 

Pires (Affonso). 

Pires (Álvaro). 

Pires (João). 

Rabellu. Vide Silva Rabello (Manuel). 

Rezende (Thomé da Costa de). 

Reinoso (André de). 

Rite (D. Izabel Maria). 

Rodrigues (António). 

Rodrigues (Fernão). 

Rodrigues (Pêro). 

Rodrigues (Simão). 

Rodrigues da Silva (José). 

Sanches (Affonso). 

Santa Cruz (Francisco de). 

S. José (Frei Luiz de). 

Serra (Victorino Manuel da). 

Silva de Figueiredo (Thomaz da). 

Silva Paz (Lourenço da). 

Silva Rabello (Manuel da). 

Silveira (Manuel). 

Simão. 

Sousa (António de). 

Soiwa Maldonado (Theodoro de). 

Sousa Vdlar (Thomaz de). 

Straten (Joozis Vander). 

Taveira. 

Teixeira (Diogo). 

Tomasini (Luiz Assencio). 

Trosylhos (Fernão de). 

Utrecht (Christovão de). 

Vanegas (Francisco). 

Vasco 

Vaz (Diogo). 

Vaz (Gaspar). 

Vaz (Pêro). 

Vieira (Domingos). 

Vieira (Gaspar). 

Vieira de Mattos (Francisco). Mais conhecido 

por Vieira Lusitano. 
Vieira Serrão (Domingos). 
Visete (Vicitor ou Victor). 
Ximenez (Fernão). 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



87 



LISTA AIJPHABETIGA, 



POR NOMES DE BAPTISMO 



Affonso Castro. 

Affonso Gomes. 

Affonso Gonçalves. 

Affonso Pires. 

Affonso Sanches. 

Álvaro Fernandes. 

Álvaro Gonçalves. 

Álvaro Mendes. 

Álvaro de Pedro. 

Álvaro Pires. 

André Gonçalves. 

André Nogera. 

André de Reinoso. 

Antão Leitão. 

Antoninho. 

António de Barros. 

António da Costa. 

António de Espinhosa, 

António Florcntim. 

António de Landrofe. 

António Leitão. 

António Luiz. 

António Manuel da Fonseca. 

António da Matta. 

António de Moralles. 

António de Oliveira Bernardes. 

António de Oliveira de Louredo. 

António de Paiva. 

António Pereira. 

António Rodrigues. 

António de Sousa. 

Bartholomeu Fernandes. 

Bento Coelho da Silveira. 

Bernardo Castelli. 

Bernardo Pereira Pegado. 

Braz Pereira de Miranda. 

Carvalho. 

ChristovSo de Figueiredo. 

Christovão Lopes. 

ChristovSo de Utrecht. 

Claude Le Bault. 

Diniz Manuel. 



Diogo de Contreiras. 

Diogo Fernandes. 

Diogo Gomes. 

Diogo Teixeira. 

Diogo Vaz. 

Domenico Pellegrini. 

Domingos da Cunha. 

Domingos Vieira 

Domingos Vieira Serrão. 

Eduardo ou Duarte. 

Eduardo Emilio Pereira Brandão. 

Eduardo Lobo de Moura. 

Fernando Affonso. 

Fernão Cerveira. 

Fernão Gomes. 

Fernão de Lisboa. 

Fernão Rodrigues. 

Fernão Trosi/lhos. 

Fernão Ximenez. 

Franeesco Gentileschi. 

Francisco Anes de Leiria. 

Francisco das Aves. 

Francisco Gomes. 

Francisco Henriques. 

Francisco de Mattos. 

Francisco Nicoloso. 

Francisco de Santa Cruz. 

Francisco Vanegas ou Venegas. 

Francisco Vieira de Mattos. 

Frédéric Pellereau. 

Gabriel dei Barco. 

Garcia Fernandes. 

Gaspar Cão. 

Gaspar Carvalho. 

Gaspar Dias. 

Gaspar Vaz. 

Gaspar Vieira. 

Gomes Fernandes. 

Gonçalo Anes. 

Gonçalo Gomes. 

Gregório Lopes. 

Izabel Browne. 



88 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Izabel Maria Rite. 

Jacomo Dioll. 

Jeronymo de Barros Ferreira. 

Jeronvmo Cdrte-Real. 

João Affonso, i.° 

João Affonso, 2.° 

João Alvares, 1.° 

João Alvares, 2." 

João Anes. 

João de Azevedo. 

João Dias. 

João de Espinosa. 

João Gonçalves, 1 ° 

João Gonçalves, 2." 

João Martins, 1." 

João Martins, 2." 

J. Van Oorí. 

João Pires. 

Johane. 

Joozis Vander Straten. 

Jorge Affonso. 

Jorge Barreto. 

Jorge ira/. 

Jorge Mendes. 

José da Costa Negreiros. 

José de Figueiredo Seixas. 

José Rodrigues da Silva. 

Lazaro de Andrade. 

Leonardo. 

Lucas de Campos. 

Luiz A/rares rf> .4)!ífi'í7ííp. 

Luiz Assencio Tomasini. 

Luiz Dantes. 

Luiz Fernandes. 

Luiz (Fr.) de S. José. 

Lourenço Fernandes. 

Lourenço Martins. 

Lourenço da Sf/ea Paz. 

Manuel Arcrfré. 

Manuel António de Góes. 

Manuel Borges. 

Manuel Correia de Araújo. 



Manuel Dias de Oliveira. 

Manuel Franco. 

Manuel Furtado. 

Manuel Gomes. 

Manuel da Silva Rabello. 

Manuel Silveira. 

Máximo Paulino dos Reis. 

Miguel Nunes. 

Miguel de Paira. 

Nicolas Delerive. 

Nuno Gonçalves. 

Pedro de Castro. 

Pêro Affonso. 

Pêro Affonso Gallego. 

Pêro de Almeida. 

Pêro de Coimbra. 

Pêro Fernandes. 

Pêro Rodrigues. 

Pêro Vaz. 

Pietro Guarienti. 

Polvcarpo de Oliveira Bernardes. 

Prospero Lassere. 

Reymão Armõe. 

Rodrigo Anes. 

Simão. 

Simão de Abreu. 

Simão Affonso. 

Simão Rodrigues. 

Taveira. 

Theodoro de Sousa Maldonado. 

Thomaz da Silva de Figueiredo. 

Thomaz de Sousa Villar. 

Thomé da Costa de Rezende. 

Vasco. 

Vasco Anes. ou Eanes. 

Vasco Fernandes. 

Vicente Baccarelli. 

Vicente Carducci ou Carducho. 

Vicente Gil. 

Victorino Manuel da Serra. 

Vicitor ou Victor Visete. 

Willelm van der Kloet. 



HISTORIA E MEMORIAS DA ACADEMIA DAS SCIEHCIAS DE LISBOA 
Nova serie. 2. ' Classe. Sciencias moraes e politicas, e bellas letras 

Tomo XXII. Parto I 



NOTICIA 

DE 

ALGUNS PINTORES PDRTUGUEZES 



E DE 



OUTROS QUE, SENDO ESTRANGEIROS, 

EXERCERAM A SUA ARTE EM PORTUGAL 



MEMORIA APRESENTADA Á ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA 



SOUSA VITERBO 

SEU SÓCIO CORRESPONDENTE 



TERCEIRA SERIE 

(PUBLICAÇÃO POSTHUMA) 




COIMBRA 

Imprensa da Universidade 

1911 



NOTICIA 



DE 



m mm fobtdgdezes 



OUTROS QUE, SENDO ESTRANGEIROS, 



EXERCERAM A SUA ARTE EM PORTUGAL 



NOTICIA 



DE 



ALGUNS PINTORES PQRTUGUEZES 



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OUTROS QUE, SENDO ESTRANGEIROS, 

EXERCERAM A SUA ARTE EM PORTUGAL 



MEMORIA APRESENTADA Á ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA 



POU 

SOUSA VITERBO 

SEU SÓCIO CORRESPONDENTE 



TERCEIRA SERIE 

(PUBLICAÇÃO POSTHUMA) 




COIMBRA 

Imprensa da Universidade 

1911 



R. 6666 



IINTTRODTTCÇAO 



A bem temerária empresa se abalançaria quem pretendesse escrever a 
historia da nossa pintura, desde os primórdios da monarchia até t>s annos 
que vão decorrendo. O talento, por mais robusto, a vontade, por mais enér- 
gica, sossobrariam com frequência deante de obstáculos insuperáveis, pela 
falta de elementos necessários para levar a bom cabo a árdua e espinhosa 
tarefa. Uma obra d'esta natureza não se realisa de um jacto, pois exige con- 
tínuos e prolongadissimos esforços, á similhança aproximadamente do que 
succede com os terrenos sedimentares, que se vão formando, camada por ca- 
mada, na lentidão dos séculos. O espirito humano não attinge desde logo, em 
qualquer das suas multimodas manifestações, a meta da perfectibilidade, antes 
se desenvolve gradualmente em esboços rudimentares. Desde Volta e Galvani 
até Edison, desde a pilha voltaica até ao phonographo e ao animatographo, a 
distancia é enorme, sendo immensos os estádios percorridos, incessantes as 
locubrações dos sábios e dos inventores. A espectativa indefinida, na esperança 
de encontrar os elementos definitivos, além de estéril seria ridícula, e por 
isso nos devemos contentar, acolhendo-a com benevolência, qualquer tenta- 
tiva, por mais modesta, por mais insignificante, que pareça á primeira vista. 
Lançados os alicerces, erguidas as primeiras construcções, o edifício, primi- 
tivamente acanhado e rachitico, ir-se-ha ampliando suecessivamente, formando 
depois um vasto conjunto, ainda que irregular e de estylos differentes. de 
aspecto verdadeiramente pittoresco. E se o monumento se julgar disforme, 
incompatível com as necessidades modernas, poder-se-ha derruir, aprovei- 
tando os seus materiaes para mais gigantesca e adequada mole. O caso é 
haver um ponto de partida ou um ponto de referencia, que nos sirva de guia, 
que norteie o caminho, que mais amplamente devemos traçar. Alexandre Her- 
culano, por exemplo, encontrou já rasoavelmente aplanado o terreno em que 



O NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

devia manobrar, mas se, por um excessivo escrúpulo de consciência, conti- 
nuasse a percorrer os archivos, a juntar os documentos como provas das suas 
asserções, teria baixado ao sepulcro, vendo ao longe, sem a ter attingido, a 
Jerusalém da sua peregrinação histórica, e apenas teria augmentado os the- 
souros da erudição e da critica diplomática, legados á posteridade pelo génio 
profundamente investigador e analytieo de João Pedro Ribeiro. A sua Historia 
de Portugal, quando veio a lume, foi como que uma revelação inesperada, 
um revolucionário grito de alarme no campo litterario. onde ainda estavam 
armadas as tendas de alguns miraculosos chronislas. O novo emancipador da 
historia ergueu o braço de ferro e a golpes de gigante, penetrando na floresta 
druidica das superstições, derrubou os carcomidos troncos das crenças erró- 
neas. Hoje a sua Historia já não causa sobresaltos, parece até anodina, está 
um pouco atrasada, e persuado-me que o eminente escriptor se podesse voltar 
a proseguir na sua obra, teria de refundi-la em grande parte. No entanto, 
nas suas linhas geraes, ella conserva-se ainda de pé, não só pela boa quali- 
dade dos materiaes, como pela sua boa disposição, assentes num inatacável 
fundo de probidade. Quaesquer que sejam os defeitos que se lhe notem, e 
que infalivelmente teem de corrigir-se, seria imperdoável desacerto pô-la de 
lado, quando é justo que se tome por modelo. 

Não obstante estas considerações, muitas das quaes se me afiguram axio- 
máticas, quer-me parecer todavia que ainda é cedo para estabelecer a larga 
synthese artística do nosso pais, e que seria mais proveitoso e conveniente pro- 
ceder ao estudo por épocas e por indivíduos, redigindo monographias especiaes, 
como fez ultimamente, com tanto brilho, o sr. Dr. José de Figueiredo, que, 
tomando por base os quadros de Nuno Gonçalves, não duvidou fazer consi- 
derações geraes sobre a primitiva escola portugueza de pintura. O sr. vis- 
conde de Castilho (Júlio) também iniciou uma serie de biographias de pintores 
e oxalá que a sua louvável tarefa não se limite a José Rodrigues e a Yieira 
Lusitano. O que importa fazer-se, o que é de urgente e inadiável necessidade, 
é entrar com desassombro na elaboração do inventario dos objectos artísticos, 
disseminados por todo o pais e ainda fora do continente. Foi grande o nosso 
desleixo e é necessário recuperar o tempo perdido. Actualmente está-se mani- 
festando uma corrente de enthusiasmo pela esthetica portugueza e cumpre não 
a deixar afrouxar, fazendo, pelo contrario, que os esforços isolados se con- 
centrem poderosamente, convergindo para o mesmo fim. A área do estudo 
alargou-se consideravelmente, graças á facilidade dos transportes e de com- 
municações, que permittem que os santuários da arte sejam visitados com 
mais frequência. Desde Raczynski e Robinson até hoje, os focos artísticos 
teem augmentado, mas são ainda bastantes aquelles que restam desconhecidos 
ou inexplorados. Convém, por conseguinte, se nos é permittida a phrase, bater 



INTRODUtÇAO 7 

mato em todas as direcções, percorrer todas as províncias, penetrar nos loga- 
res mais recônditos e inaccessiveis e trazer á luz do dia tudo o que mereça a 
admiração ou reparo. Missões de estudo, methodicamente organisadas, sem 
prejudicar a independência da analyse individuai, .devem quanto antes redigir 
Índices ou catálogos das preciosidades dispersas, fazendo-as pliotographar ou 
reproduzir por qualquer processo graphico, que é a meilior maneira de as 
salvar do abandono, do esquecimento, da immiuente mina. Nem todos os que 
se dedicam a estas especialidades podem dispor do tempo ou possuem os in- 
dispensáveis recursos para fazer estas viagens, e por isso é de toda a justiça 
e de toda a utilidade que se ponham ao seu alcance, nas escolas e nos mu- 
seus, quando não seja nos seus modestos gabinetes, os elementos de estudo 
comparado. descobrimento de uni S. Pedro similhante ao da Sé de Vizeu, 
é um d'es!es factos que impressionam profundamente e produzem considera- 
ções de não pequeno alcance. Este caso não será único, e é possível que sur- 
jam outros análogos, dando logar a curiosas deducções. 

As missões de estudo, não só no nosso pais. mas até no estrangeiro, onde 
a arte portugueza se foi aperfeiçoar e até lançar raízes, o inventario dos 
objectos artísticos e a sua descripção mais ou menos desenvolvida não são to- 
davia os únicos recursos, de que podemos e devemos lançar mão, antes ou- 
tros existem, que são indispensáveis complementares d'aquelles. Refiro-me 
principalmente á investigação dos archivos e cartórios de diversas corpora- 
ções, especialmente as religiosas, onde se depositam silenciosamente, como 
num museu secreto, occultos aos olhos dos profanos, materiaes do mais 
subido alcance. São os documentos que discretamente revelam, a quem os 
sabe explorar e investigar, os segredos dos séculos e a vida intima das ge- 
rações extinetas. Foi pelos documentos que se fixou a existência histórica e a 
actividade artística de Nuno Gonçalves, de Vasco Fernandes e de outros, que 
estavam até agora sujeitos aos vae-vens das pbantasias lendárias. Isto é axio- 
mático, mas se fosse preciso uma demonstração cabal, te-la-hiamos na impor- 
tante iconographia da Capella da Universidade de Coimbra, publicada em 1908 
pelo douto professor António Garcia Ribeiro de Vasconcellos. O exame dos 
documentos deu-lhe sobretudo a explicação de um problema relativo á pintura 
em Coimbra no primeiro quartel do século xvu, onde exerceram a sua acti- 
vidade Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão. Muitos quadros que pas- 
savam até agora por anonymos. teem a sua paternidade reconhecida. Outros 
nomes de artistas tirou do limbo do esquecimento o mesmo illustre eseriptor. 
Sabe-se hoje quem é o ourives que lavrou a bellissima lâmpada da Capella 
da Universidade, cujo estylo, do mais puro renascimento, estava demonstrando 
uma época de fabrico mais antiga. É possível que Simão Ferreira, o habilis- 
simo artífice, não fizesse mais do que reproduzir algum modelo anterior. 



O NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

É ainda pela inspecção dos archivos que nós vemos patenteada a flores- 
cência artística de certas épocas, entre as quaes avulta o século xv e parti- 
cularmente o reinado de D. Affonso V, que se pôde orgulhar de ter produzido 
em Nuno Gonçalves um mestre comparável aos mestres estrangeiros de re- 
putação universal. Por um documento de 1431 se liça sabendo quaes eram 
as pinturas, de carater histórico e religioso, que o infante D. Henrique or- 
denou que se executassem, talvez a fresco, nas aulas das Escolas Geraes 
ou Universidade de Lisboa. Assim na aula das sete artes liberaes, gram- 
matica, lógica, rethorica, arithmetica, musica, geometria e astrologia, se pin- 
tariam as mesmas, talvez allegoricamente; na de medicina Gualliano, isto é, 
Galleno; na de theologia a Trindade; na de decretaes um papa; na de philo- 
sophia natural e moral Aristóteles e na de leis um imperador. Devia ser uma 
galeria curiosa, permittindo ao artista ou artistas o desenvolverem as suas 
aptidões e conhecimentos. 

Mestre Fernando, phisico de D. Affonso V, residia em Óbidos, onde era 
prior da Collegiada de S. Pedro. A 27 de maio de 1468 fez testamento, pelo 
qual mandava que fosse sepultado em um muimento grande, que estava na 
capella que fizera construir na mesma igreja. Ao mesmo tempo ordenava que 
se colloeasse nella um painel, cujo assumpto elle próprio delineava na seguinte 
curiosa verba: 

«It. mando que sse ponha na dieta capella huu Retavollo da ffegura de 
nosso Senhor Jhesuu Ghristo cozifficado (sic) posto no meo d'ella e de hfla 
parte ssanta Ana com sseu marido abraçados. E o anjo em eyma e da outra 
parte nossa ssenhora ssanta Maria.» 

Desta cédula testamentária, pela qual se ficam sabendo muitas particula- 
ridades curiosas, inclusive o recheio artístico da casa do testador, existe uma 
certidão de 1470 entre os pergaminhos da Collegiada de Óbidos, que vieram 
para o Museu Etimológico, onde tem o numero 139. Tinha uma filha única, 
Maria Fernandes, casada com Pedro d : Alcaçova, que não sei se será o mesmo 
que figura entre as testemunhas, como exercendo o officio de porteiro da ca- 
mará d'el-rei. A outra testemunha é João de Flandres, clérigo. 

Estes factos não deixam a menor duvida de que existia no pais uma 
atmosphera favorável ao desenvolvimento da arte portugueza, o que não im- 
pedia que ella fosse fortemente influenciada por mais de uma corrente ex- 
tranha, algumas das quaes, como a italiana, exerceram uma incontestável 
hegemonia. Não só vieram estabelecer-se entre nós muitos artistas estran- 
geiros, como também muitos dos nossos foram e continuam a ir estudar e 
apurar-se lá fora, variando, segundo as épocas, os pontos escolhidos para 
essa romagem artística. Além d'isso encommendavam-se obras que vinham 
enriquecer as igrejas e mosteiros, os paços dos reis, as residências dos fidal- 



ÍNTIIODUCÇÃO 9 

gos e das pessoas endinheiradas. Livros de horas, arvores genealógicas illu- 
minadas, manuscriptos preciosos, tapeçarias e outros objectos mais ou menos 
análogos eram importados com frequência. 

Num livro de visitações da Urdem de S. Thiago, existente na Torre do 
Tombo, vem mencionada a que se efiectuou em 1312, sendo mestre D. Jorge, 
filho de D. João II. na igreja do Espirito Santo da villa de Aldeia Gallega. 
Ahi se lê a seguinte verba: 

«Visitamos a dita Igreja a quall tem na capella moor huu alltar de huua 
pedra grande e estaa detrás d'elle huu Retavollo pymtado de pymtura de 
fraudes e nelle lio esprito samto quando descendeo sobre os apóstolos...» 

O respectivo documento foi commuuicado pelo sr. Pedro À. de Azevedo 
no sr. José de Sousa Rama, que o tornou publico nas suas Breves noticias da 
villa de Aldeia Gallega do liiba Tejo. 

O retábulo actual já não é o mesmo, sendo muito para sentir que se per- 
desse o antigo, o qual muito ajudaria, pelo seu confronto, ao estudo dos qua- 
dros contemporâneos, contribuindo para determinar as suas procedências. 

A igreja conventual dos dominicanos de Lisboa, assim como as suas 
dependências, a ajuizar pelas descrípções que nos ficaram, ainda assim 
muito perfunctorias, podia considerar-se um museu, tão bem ornamentadas 
estavam as suas capellas. Na dos Reis Magos havia um retábulo mandado 
fazer por D. Diniz em que na imagem de Nossa Senhora estava figurada sua 
esposa, a rainha D. Isabel, depois canonisada, e na do menino seu filho o 
infante D. Affonso, que depois foi quarto rei do mesmo nome. Eis o que a 
este propósito se lè na chronica da Ordem ou Historia de S. Domingos, parte 
primeira, capitulo xxvn: 

«Merecião primeiro logar por qualidade as confrarias, de que tratamos 
nos capitulos precedentes. Dos que restão, iremos agora fazendo relação se- 
gundo suas antiguidades. A que mais annos conta entre todas as que ha nesta 
igreja é a dos Santos Reis Magos, que tem seu altar pegado com o de N. S. 
do Rosário contra a porta da igreja. A capella e retábulo foi mandado fazer 
e pintar por el-rei D. Diniz, quando depois de Rei mandou fazer de novo 
algumas oflicinas neste convento e reparar outras. E assim tem a pintura 
mais de 320 annos de antiguidade, visto como D. Diniz começou a reinar 
no de 1279 em que D. Affonso III, seu pae falleceu; e os mesmos tem a 
confraria. Ha neste altar unia curiosidade muito digna de ser sabida. E é que 
a Imagem de N. Senhora, que está no meio do retábulo cercada dos Reis 
temos tirada ao natural a Raiuha Santa Dona Isabel, mulher de el-rei D. Di- 
niz; e na do menino Jesu, que tem nos braços, o Principe seu filho, que então 
se criava e depois suecedeu no Reino com o nome de D. Affonso Quarto. 
Quem fosse autor de tal memoria não consta, mas bem é de crer que seria 
2 



10 NOTICIA de alguns pintohks 

El-Rei, pois o foi da obra do retábulo e sem a sua ordem não se atreveria o 
pintor.» 

Seria com effeito esta pintura contemporânea de D. Diniz? Faltam-me os 
elementos tecbnicos para o poder assegurar. Fr. Luis de Sousa foi um pri- 
moroso musico da palavra, mas não foi similhantemente um critico de arte, e 
portanto não sei o credito que mereçam as suas palavras ou a confiança que 
nos devam inspirar. Além d'isso o seu mavioso estylo não é senão o finíssimo 
esmalte, recobrindo a prosa metallica — sabe Deus de que metal!— de Fr. Luis 
de Cacegas, de modo que é difíicil apurar a quem pertence a ideia primitiva. 

Fernando Correia de Lacerda publicou em Lisboa em 1680 a Historia da 
Vida, Morte, milagres, canonisação e trasladação de Santa Isabel... e refe- 
riu-se também ao assumpto mencionado nos paragrapbos antecedentes. Pa- 
rece todavia que não faz mais do que parapbrasear Fr. Luis de Sousa, como 
se pôde inferir do seguinte trecho: 

«Deste Infante ha hua memoria digna de grande respeito, na Capella dos 
Reys sita no Convêto de S. Domingos da Cidade de Lisboa, aonde El-Rey seu 
Pay celebrava todos os annos a festa de S. Diniz, antes de edificar o Real 
Convento de Odivellas: costumava-se naquelles tempos copiarem-se os rostos 
das Imagês Santas, pelos de alguas pessoas formosas, e sendo o Infante 
D. Affonso menino, a Santa Rainha de pouca idade, fazeudo-se, para se co- 
locar naquella Capella a Imagem de Nossa Senhora com o menino Jesus nos 
braços, o rosto do menino foy tirado pelo do Infante, o da Senhora, pelo da 
Rainha, e não teria a da Gloria por indignidade, tendo a Santa tanta virtude, 
equivocarem-lhe com ella a fermosura.» 

Não obstante todas essas influencias extranhas, cuja parte de leão será 
um pouco difficil discernir, eu estou todavia convencido de que se não pôde 
negar a existência de uma escola nacional de pintura, cujas tradições se man- 
tiveram, mais ou menos gloriosas, mais ou menos viciadas, até aos nossos 
dias. O que me parece, porém, é que essa escola ficou restricta aos limites 
regionaes e que, se ultrapassou as fronteiras, foi apenas para deixar, aqui e 
além, como em alguns pontos de Hespanha, vestígios meramente individuaes. 
Não chegou a haver, creio eu, permuta de influencias, a endosmose artística. 
e só agora é que os críticos estrangeiros começam a dedicar mais attenção 
aos productos dos nossos primitivos pintores, cujo talento disperta justificada 
admiração. Por maior que seja a nossa tendência para o cosmopolitismo, as 
qualidades estheticas do povo portuguez não são de modo nenhum negativas 
e a nossa individualidade irrompe através da camada de verniz exlranho. 
A nossa alma sentimental, o nosso temperamento de raça, o nosso clima e a 
nossa natureza, transparecem através das obras, onde se afigura haver menos 
originalidade. 



INTIlODUCr.ÂO 1 1 

Esquadrinhemos pois os factos, acumulemol-os, ainda i]ue desordenada- 
mente, numa desordem pittoresca, para sobre elles assentar as mais racionaes 
theorias e deduzir os mais naturaes corollarios. Mais tarde se fará a selecção, 
joeirando cada um segundo o ponto de vista da sua especialidade. 

Convém outrosim não desprezar as noticias acerca das galerias ou collec- 
ções já reaes, já publicas e particulares, que teem existido e existem no nosso 
pais. Esta será a craveira por onde se avalie o amor pelas bellas artes, o 
gosto geral e as flutuações d'esse mesmo gosto. 

Guarienti visitou Portugal nos annos de 1733 a 1736 e teve occasião de 
examinar as riquezas artísticas de Lisboa naquelia época, de que chegou a 
dar um esboço em a nova edição do Abecedario pittorico de Orlandi, publicada 
em 1753. Por aqui se pode fazer uma ideia aproximada das galerias exis- 
tentes em Lisboa e das principaes obras de arte contidas não só nas igrejas, 
como nas diversas casas de fidalgos. 

Num oflicio do sr. De Montagnac dirigido de Lisboa á corte de França, 
no 1." de dezembro de 1722, referindo-se á inclinação de D. João V pelas 
letras e artes, diz que elle, acompanbado de artistas e pessoas entendidas, 
fora visitar a casa de campo do cônsul francez Duverger, que havia fallecido, 
e era grande amador de cousas de arte, e ali adquiriu quarenta e um qua- 
dros, além de um retrato de Luis XIV que o embaixador abbade de Mornay 
havia deixado em poder do cônsul, dando por elle 6.000 cruzados l . 

Em 1739 publicou-se em Lisboa, numa elegante edição, um poema latino 
em dois livros ou cantos, devido ao estro de José de Mattos Rocha, medico 
em Azeitão. Intitula-se: Descriptio poética villw Calarisianw, isto é, Descrição 
poética da quinta do Galhariz, propriedade hoje do sr. duque de Palmella. 
A quinta e casa ornavam-se com estatuas de mármore, representando impe- 
radores e outras personagens da historia romana, e com varias pinturas. 
Eram seis as salas em que se ostentavam numerosos quadros e talvez algu- 
mas pinturas a fresco. A primeira denominava-se de D. Quixote e continha 
cinco quadros. A segunda, sala de Hercules, tinha vinte e quatro quadros. 
A terceira, dos Turcos, com vinte e um quadros, atribuindo-se um delles a 
Ticiano. A quarta, denominada a casa do Papa, era enriquecida de trinta 
quadros, em alguns dos quaes se fixou o pincel de Miguel Angelo e Rubens. 
A quinta intitulava-se a casa das Ratalhas e tinha vinte e quatro quadros. 
A sexta, finalmente, a casa das Naus, com vinte e três quadros. 

É curioso que a denominação d'estas salas não corresponde exactamente 
ao seu conteúdo. Assim na primeira não se descreve nenhum episodio do 
immortal romance de Cervantes, e na ultima, a das Naus, são muito diffe- 



1 Visconde de Santarém, Quadro elementar, tomo v, pag. ccxlii. 



12 NOTICIA DK ALGUNS PINTORES 

rentes os objectos representados. Apesar (Testa incoherencia de títulos é inin j - 
gavel que era brilhante e numerosa a collecção, sendo os seus assumptos de 
grande variedade, entre os quaes predominavam todavia os mithologicos. Os 
olhos poderiam deleitar-se na contemplação de paisagens, costumes populares, 
scenas rústicas e domesticas, caçadas, vistas de edifícios, natureza morta, etc. 
Salientam-se dois, um dos quaes. de 1). Luis de Sousa, que foi primeiramente 
bispo de Lamego e depois arcebispo de Braga. Foi enviado a Roma como 
legado extraordinário ao papa Innocencio XI e naquella cidade se encontrou 
com Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo, que lhe dedicou diversas 
composições panegíricas, em prosa e verso, no livro intitulado Trifams, im- 
presso em Pádua em 1677. A este encontro e a esta obra se refere o Dr. 
Mattos Rocha, quando falia do retrato do arcebispo, reproduzindo o ultimo 
verso do canto de Macedo. 

Mattos Rocha descreve com bastante minudência a maior parte dos qua- 
dros, cujos auctores, infelizmente, deixa de mencionar, exceptuando apenas 
uns quatro casos, em que se refere a Filipe de Rezi, Ticiano, Miguel Angelo 
e Rubens. É um catalogo em verso, que talvez seja único no seu género. Se 
não tem um caracter technieo e artístico, recommenda-se comtudo pela sua ori- 
ginalidade e elegância. 

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa existe um manuserinto (cod. 325), em 
que se relaciona a mesma galeria, o qual não é mais que uma traducção quasi 
passo a passo da obra do medico-poeta. Nem sempre nos dá o decalco exacto, 
mas é muito aproximado. O seu auctor, quem quer que fosse, muito provavel- 
mente D. Thomas Caetano de Bem, ou examinou os quadros, ou teve quem lhe 
fornecesse mais alguns pormenores, pois nos declara as suas dimensões. 

É muito plausível a hipothese que fosse D. Luis de Sousa o principal ini- 
ciador da galeria e que trouxesse da Balia os quadros que a adornavam. Não 
é hoje possível affirmar-se o valor real d"essas obras, algumas das quaes, 
porventura, não passariam de copias, pois se todas fossem originaes a bem 
alta somma se elevaria o seu custo. Como quer que seja, a galeria do palácio 
Calhariz devia ser importante sob mais de um ponto de vista, ainda que nem 
todas as suas producções fossem de primeira ordem e de indiscutível mereci- 
mento. Em um dos quadros estava representado o luxuoso apparato e a magni- 
ficente comitiva com que o arcebispo percorria as ruas da Cidade Eterna, 
quando era recebido em audiência pelo papa. 

Reproduso no final d'esta lntroducção a descripção em portuguez, por ser 
mais accessivel ao comnium dos leitores, sem deixar de recommendar a lei- 
tura do longo trecho poético de Mattos Rocha que bem merece ser apreciado 
pelos entendidos na lingua latina. Reproduso. igualmente, como subsidio va- 
lioso para a historia da pintura em Portugal, o Regimento da respectiva classe, 



INTRODUCÇÃO 13 

que estava abandeirada, como tantos outros ofíicios mecânicos. Este Regimento 
acha-se incorporado na collecção, que se conserva no archivo da Camará Mu- 
nicipal de Lisboa e de que obtive copia, devido á extrema amabilidade do sr. 
Eduardo Freire d'01iveira, o benemérito archivista, que tão proficientemente 
tem dado á estampa os Elementos para a historia d<> Município de Lisboa. 
Este Regimento, assim como os seus congéneres, não é o primitivo, tendo 
sido reformado em 1372, em virtude de uma ordem do Senado por Duarte 
Nunes de Leão. Acha-se a folhas 122 do Li ur o dos Regimentos tios o/fiçiaes me- 
cânicos da mui excelente e sempre leal Cidade de lix." refromados per ordenãça 
do Illustrissimo Senado delia pello L. d " Dr.' e nane: do liam. Afio MDLXXII. 

Estes regimentos teem uma parte disciplinar, que é commum a todos 
e outra, essencial e que mais nos interessa, a technica, a qual nos indica o 
processo dos examinandos em qualquer arte ou officio e quaes as obras que 
deviam executar, para serem admittidos na respectiva classe e exercitarem 
o seu officio. É pena que no archivo da Camará não existam os livros em que 
lavravam os termos d'esses exames, pois. em face d'elles, feriamos pelo menos 
a lista dos artistas e artífices. Ouvi dizer, postoque vagamente e sem que a 
afirmação me inspirasse completa confiança, que numa dependência da antiga 
parochial de S. José existe o cartório, não sei desde que época, da Casa dos 
Vinte e quatro. Seria bom que se procedesse a alguma investigação n'este 
sentido. 

A par da historia da arte, na sua luminosa synthese, como complemento 
indispensável, como índice ou guia, deve egualmente elaborar-se o Diccio- 
nario dos pintores, que muito auxiliará os que se dedicam ao estudo d'esta 
especialidade. As noticias documentadas que vou colligintlo podem conside- 
rar-se, sem assomos de pueril vaidade, as bases fundamentaes dessa obra, 
para o adeantamento e perfeição da qual é de esperar que venham a concorrer 
outros mais habilitados ou mais enthusiastas. Não me restringi exclusivamente 
a enumerar os cultores da arte de Raphaer, e não escrupulisei em incluir, além 
dos miniaturistas, os nomes de alguns debuxadores, que talvez se tenham 
também exercitado no pincel. Quando se julguem deslocados, poderão apro- 
veitar-se para um Diccionano artístico. Excluídos de uma parte, acharão o 
logar competente em outra. Se alguém me taxar de superflo ou prolixo, ou- 
trem porventura folgará de respigar aqui o que se lhe não deparou em outra 
parte. 



Lista dos Quadros que estão nas casas da Quinta de Calhariz 

que deu D. Thomas Caetano de Bem The atino 

ao Dr. António Ribeiro dos Santos 

Casa de D. Quixote com cinco quadros 

Sendo esta casa a primeira contando pelo pateo he a guarda roupa mais 
interior do quarto dos homens, rasão porque não está ainda tão ornada de 
pinturas como as outras. 

Três quadros de notáveis pinturas que fazem diffe rentes representações. 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três d'alto com o roubo de 
Helena. 

Outro quadro da mesma medida com o roubo das Sabinas. 

Casa de Hercules «com vinte e quatro quadros 

Dose quadros em que se pintam os dose meses do anno com os trabalhos 
e exercícios rústicos que se fazem em cada hum d'elles. Os 12 signos são os 
12 trabalhos de Hercules. 

Hum quadro que representa o Monte Parnaso em que estão as nove musas 
com Apollo, com o cavallo Pégaso no cume do Monte, correndo nas faldas 
d'elle a fonte Hipocrene. 

Outro quadro em que se exprime a Deos Pão, offerecendo um vello de 
Lam (sic) á Lua, e para eolhel-o vem baixando da esfera. 

Dous quadros que constam de varias flores e frutos. 

Hum quadro de tella de imperador, em que brigam um rapaz e uma ra- 
pariga sobre quem ha de levar um cacho d'uvas. 

Dous quadros de tella de imperador de Felipe Resa l com vacas e outros 
animaes. 



1 Provavelmente Filipe Peter Rosa, chamado também Rosa de Tivoli. O texto latino dii 
somente— egrégio Filipe. 



16 NOTICIA I)E ALGUNS PINTORES 

Outro quadro de tella de imperador cora a Deusa Tetis, sobre uma concha 
passeando o mar. 

Outro com Neptuno. 

Um quadro de nove palmos dal to e seis de largo em que está pintado um 
turco que tem preso por uma cadeia a Melampo que é um cão de que faz 
estimação o sr. Arcebispo; está nu o turco da cintura para cima e o mais 
do quadro é um paiz em forma proporcionada. 

Outro quadro egual que contem outro turco com outro cão a que está ao 
mesmo tempo assolando e reprimindo, em um paiz semelhante ao primeiro, 
e mn arco e frecha que são armas do mesmo turco. 

Outro quadro de cinco palmos [de largo e quatro d 'alto em que Perseo 
está degolando a Medusa a quem Minerva por ella haver com Neptuno pro- 
fanado o seu templo converteo os cabellos em serpentes, infundindo-lhe tal 
efficacia que quem chegasse a velos se transformasse em pedra, cujo encanto 
se eommunicou egualmente a Estioni e Euriali, irmãos de Medusa. Está Per- 
seo tendo os talares de Mercúrio, que também assiste aquelle castigo, cortan- 
do-lhe a cabeça com a espada que o mesmo Mercúrio lhe havia dado. Perseo 
por não errar o golpe nem olhar para Medusa, a está vendo no escudo de 
Palias. Foi o successo em occasião que Euriali e Estioni estavam dormindo e 
assim se representam no mesmo quadro. 

Casa dos turcos com vinte e um quadros 

Quatro quadros de nove palmos d'alto e seis de largo, em que se repre- 
sentam os quatro celebres antigos cavallos do principe da Palestrina. Tem um 
dos quadros um cavallo murzello e outro um russo com remendos negros de 
raça Polaco, que o mesmo Principe ainda conserva. A cada um dos três ca- 
vallos primeiros guia um turco com habito entre si diverso, mas todos ao seu 
uso; e ao quarto um etiope com vestido estravagante como entre a sua nação 
costuma usar-se. 

Dous quadros que constam de varias flores e frutos. 

Um quadro de tela de imperador que contem um paiz; foi do cardeal 
Raspone. 

Quatro quadros de cinco palmos de largo e quatro d'alto com as quatro 
estações do anno expressas em quatro figuras, cada uma formada das horta- 
liças que costuma haver na estação que se quer exprimir e assim se vê pro- 
porcionalmente: tem por mãos e unidos em forma de dedos, o verão uns pe- 
pinos; a primavera umas favas, o inverno uns rábãos; o outomno uns bagos 
duvas compridos e egualmente todas as feições do rosto corpo e ornato do 
vestido de cada figura se forma do que produz a terra no tempo que cada 



NOTICIA DE ALGUNS PI.NTORES 17 

quadro retrata. A cada uma destas tlguras está organisando uma Dama que 
com curiosidade e galanteria procura compol-a e assemelhal-a á estação que 
representa. 

Outro quadro com a fabula de Leandro e Ero. Vè-se o mar Hellespouto 
teudo duma parte a torre de Sesto em que vivia Ero, e da outra Habido pá- 
tria de Leandro; representa-se a noite e a tempestade que foram cúmplices 
d'aquelle successo. Vae nadando Leandro guiado por Cupido. No alto da torre 
está Ero tendo na mão a luz que servia de norte ao seu amante. Estão so- 
prando alguns ventos procurando apagar a luz e alterar o mar e forceja 
Leandro pello vencer. 

Quatro quadros de quatro palmos d' alto e três de largo, cada um com 
um vaso de flores todas entre si diversas e das que o trabalho dos agricul- 
tores ou a curiosidade dos Príncipes ha feito mais estimáveis. 

Dous quadros de sete palmos de largo e cinco d' alto que eonstão de guarda 
roupas e nellas muitos moveis vários e custosos, dos que. costumam usar os 
principaes cavalleiros, como são peitos de armas, capacetes, espadas, talis. 
vaso douro e prata, roupas bordadas, e muitas outras alfaias semelhantes a 
estas. 

Dous quadros de varias finitas e quasi todas diversas das que vão pintadas 
em outros fructeiros que adiante vão referidos. 

Outro quadro da fabula de Narciso. Pinta-se uma fonte a que chegou Nar- 
ciso andando á caça e namorando-se da sua figura que vio nas aguas se vae 
precipitando nellas; visinhos ás fontes se vêem os cães com que Narciso ca- 
çava e pouco distante uma montanha de que se deriva um pequeno regato, 
cuja corrente também cooperou para o engano e morte de Narciso. 

Casa do Papa com trinta quadros 

Um quadro de sete palmos de largo e cinco d'alto em que se pinta Troya 
abrasada e junto das muralhas da cidade já destruída se vê Helena (causa 
daquella ruina) repugnando voltar á Grécia com temor de que Menelau cas- 
tigue a sua injuria e como de novo roubada a condusem os vencedores vio- 
lentamente para a armada da Grécia. 

Outro quadro de seis palmos dalto e nove de largo em que se representa 
a praça Navona com o Palácio Pamíilio, as igrejas de Santa Ignes, de S. Ja- 
come dos Hespanhoes e todos os mais edifícios e fabricas que a cercam; a 
mesma praça Navona e no meio d'ella estão as fontes de Bernini e Michael 
Angelo e outra mais antiga. Vè-se nella carroças, passageiros e multidão de 
gente diversa como ordinariamente succede n'aquella praça. 

Um quadro de sete palmos d'alto e cinco de largo em que se retrata a 
3 



18 NOTICIA Dli ALGUNS PINTORES 

tragedia de Policena, filha d'El-rey Priamo e de Ecuba que havendo sido 
causa de que Achilles fosse morto por Paris foi depois sacrificada junto ao 
sepulchro de Achilles, cuja sombra fez que seu filho Pirro vingasse a antiga 
injuria com a morte de Policena. Representa-a o quadro próximo ao monu- 
mento de Achilles, rodeado de ciprestes sentada em uma almofada como em 
desmaio, esperando o golpe, com os cabellos soltos e peito descoberto. Está 
Pirro assistindo á execução d"aquelle insulto com os sacerdotes que hão de 
receber o sangue e lançal-o no fogo do sacrifício e Ecuba, que depois das 
calamidades que padeceo em Troya, está vendo a morte de sua filha, exagera 
com acções e lagrimas a sua impaciência. 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três d'alto em que se vê a 
Princesa Andromeda, a quem as Nereidas ataram a um escolho para ser de- 
vorada de uma baleia, castigando n'ella a culpa de sua mãe Casiopèa que se 
havia jactado de que excedia as Nereidas na formosura. Está o monstro ma- 
rinho próximo a tragal-a; exprime ella a sua angustia. Na praia opposta se 
vêem os reis Sefeo e Casiopèa pães de Andromeda. lamentando aquella temida 
tragedia. Apparece Perseo no ar, voando sobre o cavallo Pégaso para chegar 
a evital-a, mata-lhe a baleia, mostrando-lhe a cabeça de Medusa e livra a 
Andromeda que depois se deu em casamento a Perseo por agradecimento e 
premio de a haver livrado. 

Outro quadro da mesma medida com a fabula de Calisto, filha de Licaonio, 
a quem achou Júpiter em um logar retirado e querendo que ella não fugisse 
ao seu galanteo tomou a forma de Diana de quem Calisto era ninfa; logrou 
Júpiter o seu engano e achando-se depois a ninfa em um banho com Diana 
mostrou indicios de que havia concebido, com que Diana a excluiu logo da 
sua companhia por haver offendido as leis do decoro que professava. Repre- 
senta-se o logar do banho, a expulsão de Calisto, o sentimento que ella mes- 
tra e a indignação de Diana. 

Outro quadro de sete palmos de largo e quatro d'alto em que se vê um 
navio que anda fluetuando e parte d"outro já naufrago. Cercam de uma parte 
do mar umas montanhas com algumas choupanas humildes que parecem de 
pastores. 

Outro quadro de sete palmos de largo e cinco dalto que representa a fa- 
bula da Lua e Endimião a quem a Lua em Lanciomonte de Casia fez ador- 
mecer para livremente o abraçar sem elle lhe resistir. Exprime o quadro o 
monte e o acto em que a Lua abraça a Endimião que ao mesmo tempo está 
dormindo, e Cupido com o dedo na boca, guardando-lhe o somno. 

Outro quadro da mesma medida em que se representa a fabula de ícaro; 
pinta-se a torre de Creta em que estavam presos ícaro e seu pae Dedallo: 
vae voando Dedallo já visinho ás praias da Sicília para onde fugiu de Creta, 



NOTICIA Dfi ALGUNS PINTORES 19 

mas como sobresaltado do perigo em que ao mesmo tempo via seu filho; 
ícaro se vem despenhando de muito mais alto vôo com as asas parte desplu- 
madas e parte derretidas, caindo-llie já d'ellas cera e pennas. Estão na praia 
da Sicília um pescador velho e alguns lavradores d'aquelle campo, todos em 
acto atónito, observando o atrevimento de ícaro e de Dedallo, e a desgraça 
de ícaro. 

Outro quadro da mesma medida em que se exprime a caida de Faetonte. 
Está pintado o Iridano com as armas e gado que costuma haver nas ribeiras 
d' aquelle rio; pelo ar se vê Faetonte no carro do sol com os cavallos já des- 
enfreados e precipitando-se no Iridano cujos pastores estão admirando aquelle 
successo e no Géo se vè Júpiter fulminando a Faetonte por castigo da sua te- 
meridade. 

Outro quadro da mesma medida que contem o rapto que fez a Aurora a 
Sefallo. Está pintado o carro da Aurora guiado por cavallos quasi brancos 
mas mellados. Procura Aurora conduzir a Sefallo no carro, resiste elle ao 
roubo e por outra parte se vè a lança inevitável e o cão Lelape que Diana 
havia dado a Procres mulher de Sefallo que elle trazia sempre comsigo. 

Outro quadro de quatro palmos d'alto e três de largo em que se vè no ar 
Júpiter sobre um trono de nuvens, fulminando ao mundo. Está Eollo aos pés 
de Júpiter desatando os ventos, e íris visinha a Eollo procurando aplacal-os. 

Outro quadro da mesma medida em que se vê o como havendo Júpiter 
namorado de Yo e suspeitando Juno de que elle lhe fazia aquella offensa, bai- 
xou do Céo a averigual-a, e Júpiter, por encobril-a converteu a Yo em vacca. 
Pinta-se Júpiter já com Yo transformada, desculpando-se com Juno e ella acom- 
panhada dos seus pavões, descendo sobre nuvens, impaciente d'aquelle deli- 
cio. Estão junto a Júpiter dois Cupidos, um o avisa de que Juno o busca e 
outro está brincando com a águia, trepado n'ella. 

Outro quadro em que está o Papa (Innocencio XI) - dando ao sr. Arce- 
bispo o Breve do Santo Officio. 

Outro* quadro de quatro palmos (falto e três de largo em que se repre- 
senta a dolência que Neptuno, andando sobre as ondas, quiz fazer a Gorones, 
que se divertia junto a ellas. Appareceu no mar o carro de Neptuno, que elle 
havia deixado para fazer aquelle roubo; Corones, por fugir áquella injuria, 
implora o favor de Diana, que a converteu em gralha, e, já principiando-se 
de transformar-se, vae fugindo e voando com as pennas que lhe iam cres- 
cendo. Infurece-se Neptuno de que ella lhe fuja e egualmente com os glaucos 
Palemos e Gopidilhos maritimos se admira de ver que vôa. 

Outro quadro da mesma medida em que a Águia de Júpiter leva arreba- 



1 No texto primitivo esta descripção é muito mais desenvolvida. 



20 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

tado a Ganimedes. a quem Júpiter, havendo excluído a Hebe de seu copeiro 
mandou levar ao céo para lhe succeder n"aquelle ofíicio. Pelo ar se vê o roubo 
e na terra o monte Ida em que foi executado e porque snccedeu andando Ga- 
nimedes caçando, se vêem no monte retratados Espileto e Baguinha, que são 
dois galguinhos do sr. Arcebispo, mui pequenos e galantes e se fingem os 
com que caçava Ganimedes. 

Outro quadro de sete palmos d'alto com a historia ou fabula da Rainha 
Dido sobre a pira em que já começa a atear-se o fogo e tem junto a si as armas 
de Eneas, sobre cuja espada se está lançando, e Baven sua ama a acompanha 
n'aquella agonia. Egualmente os Aulicos e Damas de Dido se estão lastimando 
d'aquelle espectáculo, e no alto do quadro apparece a Deusa Juno que manda 
a íris cortar o fio vital a Dido para que lhe dure menos aquelle tormento. 

Outro quadro de seis palmos dalto e nove de largo em que está pintada 
a praça de S. Pedro e nella o frontespicio d'aquel!a igreja na forma em que 
ultimamente a aperfeiçoou Paulo V; o Palácio Vaticano, a columnata de Ale- 
xandre VII, as fontes de Clemente VIII e Clemente X e o obelisco de Sixto V. 
Em todo o mais campo da Praça se representa o cortejo que o sr. Arcebispo 
embaixador levava quando ia ás audiências do Papa com os seus lacaios, e 
cocheiros vestidos da sua libré, com as suas carroças, fielmente retratadas e 
parte das allieas que costumavam a aeompanhal-o n'aqnelles dias. 

Outro quadro de sete palmos de largo e cinco d'alto com a fabula de Pi- 
ramo e Tisbe. Pinta-se a fonte e valle da Babilónia em que succedeo aquella 
tragedia. Está Piramo morto e dessangrado e Tisbe esmorecida aplicando-se 
ao peito a espada de Piramo. Vè-se a toalha de Tisbe ensanguentada da bocca 
do leão de .que Tisbe se amedrontou, e para outra parte se vae retirando o 
mesmo leão. Está o cadáver de Piramo junto d'uma amoreira, cujas raízes se 
banham n'aquelle sangue com o que a còr das amoras começa a transfor- 
mar-se, aparecendo umas ainda brancas, outras já vermelhas, outras não de 
todo transformadas, parte vermelhas, e parte brancas. 

Outro quadro de sete palmos de largo e quatro d'alto em que se vê um mar 
tempestuoso e se vê um baixel e outro naufragando entre umas penhas. 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três dalto que mostra que 
achando um sátiro a Vénus dormindo, atraído da sua formosura, procura 
descobril-a sem despertal-a. Cercam-na alguns Cupidinhos e um pouco dis- 
tante se vêem como bailando um sátiro e uma serrana entre um arvoredo. 

Outro quadro da mesma medida com um bosque em que está Vénus com 
alguns faunos e um d'elles se chega a Vénus detraz de um trono; e lhe offe- 
recem um cacho d'uvas para Cupido. 

Outro quadro de sete palmos de largo e cinco d'alto que contem peitos 
d'armas, capacetes, espadas, talis e vasos d'ouro. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 21 

Outro quadro em que se vê Hercules substituindo a Atlante e sustentando 
nos Iiombros o globo celeste. Está Hercules coberto com a pelle do leão Ne- 
meo, ajoelhando, e encurvado com a gravesa d'aquelle peso e nos dois cantos 
inferiores do quadro estão Arcliimedes com a esfera e Euclides com o com- 
passo fazendo estudos e observações no globo. 

Outro quadro da mesma medida que representa o jardim com as ruas, 
estatuas, paredes vestidas e todas as flores e plantas de que um jardim bem 
asseado costuma compor-se. No meio d'elle está uma fonte e junto a ella se 
vêem merendando uns passageiros que se supõem foram a buscar entreteni- 
mento na amenidade d'aquelle sitio. 

Outro quadro da mesma medida com a fabula de Prometeo, a quem, por 
se atrever a ir ao céo a buscar o fogo que antes não havia no mundo, atou 
Mercúrio, por ordem de Júpiter, ao Monte Cáucaso, com uma águia que lhe 
roesse o peito, e para o poder fazer perpetuamente, tudo o que a águia de- 
vorava de dia, crescia de noite; bem que depois matou Hercules a águia com 
uma seta, e rompeo as cadeias com que Prometeo estava preso e o livrou 
daquelle castigo. Representa-se no quadro o Monte, Prometeo baixando do 
Céo, trazendo nas mãos uma facha de fogo que roubou. 

Outra guarda roupa que contem o mesmo que a já dita. 

Outro quadro de cinco palmos de largo, e quatro d"alto em que se vê Jú- 
piter transformado em touro, levando pelo mar a Europa, e conduzindo-a de 
Sidon a Creta. Vae Europa chorosa olhando para as praias de Sidon em que 
fora roubada e n'ella se vêem as damas de Europa impacientes, da sua perda 
e d'aquella injuria. Sulca o mar o mentido touro, coroado de flores, cingido 
de festões cercado de Cupidinhos triunfaes dos quaes um dispara uma seta 
d'ouro a Europa, para que ella não passe saudosa, mas namorada. 

Outro quadro da mesma medida em que se pinta Sirce no seu palácio 
sentada sobre um trono; tem na mão direita a vara magica, com a mão es- 
querda está dando a Ulisses o poculo suave, que lhe havia persuadido que 
bebesse, e conhecendo Mercúrio que elle era contagioso, tocando-o com umas 
ervas o purifica do veneno. Por outra parte se vè um homem com a cabeça 
de javali; em que começava de transformar-se, que é um dos companheiros 
de Ulisses, reduzidos aquella infelicidade pelos encantos de Sirce. 

Outro quadro da mesma medida em que se vêem as três sereias, Parte- 
nope, Lisia e Lencosia sobre um logar marítimo da costa siciliana que Ulisses 
navegava, esperando que Ulisses e seus companheiros chegassem para com 
a suavidade do canto os atraírem e vencerem. Vae Ulisses em uma gallé, 
atado ao mastro d'ella, para não poder seguir aquella harmonia; levam os 
seus soldados os ouvidos tapados por se livrarem de escutal-as; patrocina 
Palias esta cautela e com seu conselho vence Ulisses o encanto das sereias. 



22 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Outro quadro da mesma medida em que aparece Galatea, acompanhada 
de algumas Nayadas, passeando as aguas em uma carroça de conchas. Em uma 
penha imminente ás ondas vè-se o Cyclope Polifemo, com aspecto disforme 
e bárbaro, com um surrão pendente a um lado. tendo por bordão o pinheiro, 
e vendo a Galatea, desejando lisongeal-a toca o seu horrisono alvogue de que 
ella se não atrae, antes se estremece. 

Casa das Batalhas com vinte e quatro quadros 

Um quadro de sete palmos de largo e cinco d'alto que contem o porto de 
Palio; tem pintado a ribeira e castello do dito porto, em que está uma galé 
junto da fortalesa e d'ella saindo e embarcando gente armada. No mesmo 
quadro e a tão grande distancia que apenas a comprehende a vista, está re- 
presentado o porto de Civita Vechia. 

Outro quadro da mesma medida com a fabula de Arião a quem quizeram 
matar os vassalos de Piranto e por conselho de Apollo se salvou sobre um 
golfinho. Pinta-se o mar a que Arião se arrojou e a barca que o conduzio. 
Na proa d' ella se vê a inveja, ameaçando-o e seguindo-o. Yae o golfinho van- 
glorioso de conduzil-o e forcejando por livra-lo e Arião tangendo a Citara, 
cuja melodia seguem as ondas e os peixes ambiciosos dos concertos d'aquellas 
vozes. 

Outro quadro da mesma medida em que se representa o porto de Liorne 
e está no meio d"elle a estatua do grão duque, com quatro turcos a seus pés. 
tudo de bronze; vè-se uma fonte para outra parte, pintada na mesma forma 
da que está iraquella ribeira. O mais do campo está oecupado com barcos, 
galés e gente de varias nações, que forma o concurso ordinário que costuma 
haver n"aquelle porto. 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três d'alto em que se repre- 
senta uma batalha. 

Outro quadro da mesma medida em que se representa uma gruta em que 
se vende vinho e estão vários apetitosos, uns comprando outros bebendo. 

Outro quadro da mesma medida em que se vè uma venda humilde e 
rústica, a cuja porta se encontram alguns passageiros a pé e a cavallo e dos 
primeiros uns estão bailando; outros tangendo e fazendo outras acções pró- 
prias de quem vae de caminho. 

Outro quadro da mesma medida em que se representa uma batalha. 

Outro quadro de cinco palmos d' alto e sete de largo, que contem um fes- 
tejo que se fazia ao Deos Baco. Pinta-se um bosque e no meio d"elle uma es- 
tatua de Baco em que andam festejando homens, mulheres e sátiros, uns be- 
bendo, outros bailando. Por cima de uma ponte que se encaminha por onde 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 23 

está a estatua, vem correndo mais gente e toda com ramos nas mãos em acto 
alegre para fazerem mais aprasivel aquella solemnidade. 

Outro da mesma medida que contem a fabula de Diana, quando Ateon a 
achou no valle Gargaglia, banliando-se com as suas ninfas na fonte Parthenia, 
e ella o transformou em veado para não poder revelar os segredos que havia 
visto. Representa-se o logar do banho cheio de arvores e sombras, e Diana, 
e as ninfas despidas; Ateon vendo-as, ellas sobresaltadas escondendo-se umas 
com as roupas, outras nas aguas e começa Ateon a tomar a forma de veado 
em que Diana quiz convertel-o. 

Outro quadro da mesma medida que exprime a sentença que Paris por 
ordem de Júpiter, deu no pleito do pomo d'ouro, que Eride, no dia das bodas 
de Tetis, lançou entre os deuses, sobre que disputaram a formosura Palias, 
Vénus e Juno. Pintam-se as três deusas quasi despidas; Mercúrio junto a 
Paris a quem trouxe a commissão de Júpiter; Paris dando o pomo a Vénus; 
Palias e Juno encolerisadas de não serem preferidas e no terreno do quadro 
se vê um bosque solitário e frondoso que figura o valle de Ida em que foi 
aquella contenda. 

Outro quadro de sete palmos d'alto e cinco de largo com o roubo que 
fizeram os Romanos das donzellas Sabinenses na occasião dos festejos e jogos 
equestres. Estão os soldados romanos arrebatando-as furiosamente, e ellas 
defendendo-se, e Rómulo, em um trono, dispondo a ordem com que devia con- 
tinuar-se aquejle rapto. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e quatro d'alto que representa a 
Erminia, quando, depois de Tancredo e Argante sairem a desafio, passou 
occultamente do exercito Pagão ao Catholico, a curar as feridas de Tancredo, 
e, sendo depois assaltada, se desbocou o seu cavallo, e a levou a um valle 
solitário e pacifico, em que vivia um pastor velho e sábio. Está Erminia ves- 
tida das armas de Clarinda, em que se disfarçara, como fazendo reverencia 
ao velho, que cortezmente a recebia, mostrando admiração de ver armas na 
sua cabana. Occupa-se o serrano em tecer vimes e tem junto a si três filhos 
também pastores. Vê-se o valle povoado de plantas e ovelhas. Estão todos á 
porta duma humilde alqueria e pouco distante de Erminia corre o rio Jordão 
que lava aquella campanha. 

Outro quadro da mesma medida em que se pinta voar pelo ar uma carroça 
em que a grande magica Armida, depois de Renaldo lhe haver fugido do seu 
palácio, e vencido o seu encanto, intenta roubal-o, achandô-o dormindo; vão 
os ministros de Armida levando-o para o carro, ficando no logar em que foi 
achado a sua espada, o seu elmo e o seu escudo, e Armida com cuidado e 
império procura encontrar apressadamente o roubo antes que espertasse Re- 
naldo. 



2Í NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Outro quadro de sete palmos de largo e cinco (Falto que é uma guarda 
roupa. 

Outro quadro da mesma medida em que se finge um convite que Tritã» 
fez a Vénus, levando-a a passear ao mar. Vae Tritão abraçado a Vénus, de- 
traz d'ella vão as três graças todas a cavallo sobre golfinhos e focas. Pelas 
ondas e ar visinho vão nadando e voando os domésticos cupidinhos de que 
se acompanha e serve Vénus. Diante de todos vae sobre uma orca um trom- 
beta simifero, soando um busio com que acrescenta o ruido e triunfa d'aquelle 
acto. 

Outro quadro da mesma medida que contem uma guarda roupa. 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três dalto em que se repre- 
senta a Meleagro, filho de Eneo e de Altèa, ao qual nascendo profetisou 
A tropos que elle viveria tudo o que durasse, sem se queimar, uma acha 
que naquella occasião se lançara no fogo, em que estava já ardendo. Tirou 
Altêa apressadamente a acha e guardou-a para assim conservar a vida de 
seu filho. Namorou-se depois Meleagro de Atalanta, a quem offereceu a 
pelle do javali que Calidonio matara, e querendo roubar-lha Ideo Plexippo e 
Lincio, tios de Meleagro e irmãos de Altèa, se queixou Atalanta a Meleagro 
que matou a seus tios, antepondo o amor ao parentesco. Irritou-se tanto Altèa 
d'esíe insulto, que, ainda que a suspendeu um pouco o amor de Meleagro, 
quis finalmente vingar a morte dos irmãos, ainda com perda do filho, para o 
que tirou a acha, do logar em que a tinha, e a consumio em. um braseiro e 
n'ella a vida de Meleagro. O que se vê no quadro he estar Meleagro com 
mostras de cólera e impaciência, ao mesmo tempo que a acha ardia.. Sua mãe 
Altèa a está queimando, desviando os olhos de seu filho, para que assim 
possa castigal-o, e se não internecer com vel-o. Em uma campanha visinha 
aparecem os cadáveres dos irmãos de Altêa, a quem Meleagro matara por 
lisongear a Atalanta. 

Outro quadro da mesma medida, que contem a Ticio , filho da terra, a 
quem Juno mandou que violentasse a Latona, queixosa de que Júpiter a offen- 
desse com ella, e, intentando- o Ticio, o fulminou Júpiter com um raio, e no 
inferno o mandou atar a um monte, onde perpetuamente lhe estivesse roendo 
as entranhas um abutre. Vê-se na pintura Ticio impaciente e desesperado, e 
o abutre executando n'elle aquelle castigo. 

Outro quadro de sete palmos de largo e cinco d'alto em que se mostra 
um paiz largo, em cuja campanha estavam caçadores e libreos perseguindo 
a um urso, que está procurando livrar-se d'aquelle aperto, e quebrando com 
as mãos e dentes algumas das lanças, com que se lhe tem atirado. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e quatro dalto de Apollo e Daphne, 
que, não tendo outro meio de livrar-se da violência de Apollo, implorando o 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 25 

auxilio da terra e de seu pae o rio Peneo, se está já convertendo em loureiro; 
tem já os pés transformados em raizes, em folhas os cabellos, as mãos em 
ramos e dos mais crescidos forma Cupido a grinalda com que Apollo se coroa, 
Yê-se n'outra parte Peneo entre espadanas, derramando agua d'uma urna e 
vendo como atónito a transformação de sua filha. 

Outro quadro da mesma medida em que se vê Vénus, galanteando a 
Marte e convidando-o ser seu hospede. Estão com ella diversos cupidinhos, 
um a tem abraçada, outro 1 lie corre uma cortina e os mais se estão entre- 
tendo graciosamente, brincando e aplicando-se ás armas de Marte. 

Outro quadro de sete palmos de largo e cinco d'alto, com outro semi- 
lhante paiz em que caçadores a pé e a cavallo seguem um veado que lhes 
vhe fugindo, outros por diante procuram embaraçal-o para todos o colherem. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e três dalto, em que se pintam as 
Sabinas passando o rio Tibre, quando vieram a Boma a vêr as festas, em que 
furam roubadas, e se vê. no principio de um bosque, o Tibre coroado de louro, 
tendo uma loba consigo, que eStá fazendo afagos a Rómulo e a Remo. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e quatro dalto, em que Perseo 
está degolando a Medusa a quem Minerva, por ella haver com Neptuno pro- 
fanado o seu templo, converíeo os cabellos em serpentes, infundindo-lhes tal 
eflicacia, que quem chegasse a vel-os se transformasse em pedra, encanto 
que se communicou egualmenle a Estioni e Eurialo, irmãos de Medusa. Está 
Perseo tendo os talares de Mercúrio, que também assiste aquelle castigo, cor- 
tando-lhe a cabeça com a espada Argem, que o mesmo Mercúrio lhe havia 
dado. Perseo, por não errar o golpe, nem olhar para Medusa, a está vendo, 
como em espelho, no escudo de Palias. Foi o successo em occasião que Eu- 
rialo e Estioni estavam dormindo e assim se representam no mesmo quadro. 

Casa das Naus com vinte e três quadros 

Um quadro de sete palmos de largo e cinco d'alto em que se pinta um 
paiz deserto, e nelle uma pendência entre uns cães e um urso, que recipro- 
camente se estão ferindo e ensanguentando 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três d'alto no qual se vê um 
gallo, uma gallinha, três pombos e dois coelhos e um gato que está esperando 
furtar alguns dos pombos. 

Outro quadro de nove palmos dalto e cinco de largo que é o retrato do 
sr. Arcebispo. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e quatro d"alto que é uma perspe- 
ctiva d'um edifício antigo e quasi arruinado, dos que fabricaram em Roma os 
imperadores gentios. Vèem-se alguns arcos sumptuosos, parte conservados, 
4 



26 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

parte caidos; umas columnas caidas e outras levantadas e parte dumas e 
outras cobertas de era e musgo e d'outros effeitos que produz o tempo. O 
mais do quadro consta d'uma galante variedade com que aquelle terreno se 
occupa competentemente. 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três d'alto, em que se vêem 
diversos peixes como são raias, pescadas, trutas e de outras castas; junto 
d'elles estão umas laranjas partidas, umas limas, uns cardos e outros seme- 
lhantes engredientes dos que ordinariamente se costumam ver naquelle logar. 

Outro quadro da mesma medida em que se mostra uma estalagem com 
os trastes que costuma liaver n'ellas, em que se acham diversos passageiros 
conversando e comendo. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e quatro d'alto que é a fabula de 
Orfèo. Está elle pintado ao pé dum frondoso plátano, tangendo a lyra que 
lhe deu seu pae Apollo, e convocando com a suavidade d'ella a todos os brutos 
d'aquella montanha, que estão juntos a elle, arrebatados da sua melodia. 
N'aquella arvore, e no ar que lhe está eminente, estão as aves suspensas para 
ouvil-o, e se vêem vir baixando algumas serranas d'um monte visinho, atraí- 
das da harmonia d'aquelle instrumonto. 

Outro quadro de sete palmos de largo e cinco d'alto que contem um paiz 
occupado com um espesso arvoredo; no fim d'elle se vè uma fabrica quasi 
arruinada e junto d'ella uma venda, a cuja porta haviam parado e estão con- 
versando uns passageiros a cavallo. Outro se havia apeado e está tratando 
d'uns cães de caça que levava consigo. Em outra parte mais distante se vê 
um rio que banha parte d 'um bosque por entre cujas ramas aparecem as 
cúpulas e capiteis d'um palácio que está ao meio d'elle. 

Outro quadro da jríesma medida que é um fruteiro, com melões, figos, 
ameixas cerejas, e outras fructas diversas. 

Outro quadro da mesma medida que é um paiz em que uns caçadores com 
lanças, e uma Dama com Venabulo, vão correndo a cavallo atrás d'uns javalis, 
que, perseguidos, se lançam em um lago, que está ao pé d'uma montanha, e, 
ainda dentro delle, vão os Lebreos e caçadores, continuando aquella fadiga. 

Outro quatro de quatro palmos de largo e três d'alto que contem uma batalha. 

Outro quadro da mesma maneira. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e quatro d'alto que é outra perspe- 
ctiva d'um edifício antigo, quasi arruinado,- dos que fabricaram em Roma os 
imperadores gentios. Vèem-se alguns arcos sumptuosos, parte conservados 
parte caídos, umas columnas caidas e outras levantadas e parte de todas 
cobertas de era e musgo e de outros effeitos que produz a diuturnidade do 
tempo. O mais do quadro é uma galante variedade com que se occupa aquelle 
terreno. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 27 

Outro quadro de nove palmos d'alto e cinco de largo que ê o retrato do 
sr. D. João de Sousa, grão Prior do Crato. 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três d'alto em que se vê um 
sabujo, uma lebre pendente duma arvore, alguns tordos e lavancos e outros 
pássaros que costumam achar-se na terra e nos rios. 

Outro quadro da mesma medida em que se vêem differentes peixes e al- 
guns mariscos d"entre os quaes se vê sair com fúria um gato com um salmo- 
nete na bocca. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e quatro d'alto em que se mostra 
que andando Prosérpina nos Campos Eneos, colhendo flores com Vénus, Mi- 
nerva e Diana, vem Plutão a roubar a Prosérpina e a leval-a para o inferno 
pela bocca do monte Etna. Resistem ella e as três deusas ao roubo, e vêem 
Plutão arrebatando-a para o seu carro que conduzem cavallos liorriveis, que 
respiram fumo e fogo. Procura a ninfa Cyane dissuadir a Plutão. d'aquella 
violência, que elle continua, mandando guiar o carro para o Etna, e pouco 
distante aparece aquelle monte tendo flores nas fraldas, na subida neve e 
chammas no cume. 

Outro quadro de quatro palmos de largo e três d'alto em que se vê uma 
estrada em que, d'entre umas montanhas, vem baixando caçadores, e, dos 
que tem chegado ao plano, uns estão comprando cogumelos, que ali se ven- 
diam, outros dando de beber em um regato aos cães, que levam. 

Outro quadro de sete palmos de largo e cinco d' alto em que se vê junto 
d'uma lagoa um leão, luctando furiosamente com muitos lebreos; uns lhe estão 
pegando e outros tem elle já despedaçado. Em outra parte vae um caçador a 
cavallo, correndo atraz d'um veado e em outra vae fugindo um javali que se 
levantou com o ruido. No alto do quadro se divisa ao longe uma povoação, 
de que se suppõe sairem os caçadores, e, em correspondência d'ella, se vê 
um monte coroado de cabanas de pastores e arvores silvestres. 

Outro quadro da mesma medida que é uma guarda roupa. 

Outro quadro da mesma medida que é um fructeiro com melões, melancias, 
figos, ameixas, marmelos, cerejas e outras fructas. 

Outro quadro da mesma medida em que está um tapete a uma parte e a 
outra varias fructas. 

Outro quadro de cinco palmos de largo e quatro d'alto, em que Hypomenes 
vae correndo atraz de Atai anta, procurando detel-a com as maçãs d'ouro que 
Yenus lhe dera. Corre Atalanta, tendo já nas mãos uma e olhando para as 
duas que Hypomenes ainda levava. Está El-rey Seneo, pae de Atalanta, vendo 
aquella contenda, sentado em um trono, tendo consigo a Vénus e a Cupido, 
e, em uma distancia, se vêem os cadáveres de dois mancebos, que haviam 
sido degolados, porque entrando em egual exame foram vencidos. 



28 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Cap. XXXIII. Do Regimento dos Pitores 

No mes de Janeiro de cada hu anno os offiçiaes do ofliçio dos pitores 
assi de óleo como de tempera se ajuntarão em hua casa q elles para isso 
ordenarem E os juizes que então acabão cõ seu escriuão darão Juramento 
dos Sanctos Evangelhos a todos os que presentes forem que bem e verda- 
dèiramête sem ódio nem afTeição dee cada híl sua voz a dous offiçiaes -s s-a 
hu pintor de óleo e outro de tempera que seião Idóneos e.. pertencentes para 
esse anno seruirem de Juizes e Examinadores do dito offiçio, E sendo assi 
dado Juramento aos ditos offiçiaes, os ditos Juizes. cõ o escriuão se apartarão 
para hu cabo da dita casa onde terão posta hua mesa E aly perguntarão a 
cada hu dos ditos offiçiaes per sy sob cargo do dito Juramento que receberão 
a quaes dão sua voz para aquelle anno vindouro seruirem de Juizes e exami- 
nadores do dito offiçio, e o que cada hu disser em segredo .o escriuão o 
escreueraa E acabado assi de perguntar os ditos offiçiaes elles Juizes alim- 
parão a pauta cõ o dito escriuão E em outro papel poerão per, letra aquelles 
dous offiçiaes que mais votos teuerem para aquelle anno seruirem de Juizes 
e examinadores do dito offiçio. 

1. E pela mesma maneira e no dito dia que elegerem os ditos Juizes e 
examinadores elegerão outro offiçial do dito offiçio por escrivão para seruir 
aquelle anno cõ os Juizes. E despois de os ditos Juizes E escriuão assi serem 
eleitos irão aa Gamara para lhes ser dado Juramento dos Sanctos Evangelhos 
que bem E verdadeiramente Simão seus cargos, e para os assentarem no 
Livro da camará como he costume. E aquelles Juizes examinadores E escri- 
uão q cõ esta solenidade não forem eleitos não vsarão dos ditos cargos, sob 
pena de qualquer que o contr. fezer pagar mil rs ametade para as obras da 
cidade E a outra para quê o aecusar. 

2. E o offiçial que sair por examinador hu anno nãoseruira o mesmo 
cargo dahy a três annos cotados do dia em q acabar seu anno E pela mesma 
o que sair por escriuão. . . , . 

:i. E nenhua pessoa assi natural como estrangeiro que do dito offiçio dos 
pintores assi de óleo como tempera quiser vsar e poer tenda p pqderaa fazer 
sem primeiro ser examinado pelos examinadores que para isso são eleitos. 
O qual exame se faraa em casa do examinador que for do offiçio de que se 
faz o exame a que elles serão presentes para que vejão se o tal offiçial faz, 
obra conueniente por que mereça ser approuado. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



29 



4. E o que se ouuer de examinar de pintura de óleo traraa bua tauoa de 
quatro ou cinco palmos em quadra e em casa do Juiz pintara a Imagem que 
lhe elle disser em modo que na dita tauoa aja maçenaria, paisagem e alguãs 
menudençias para que entudo se veia sua suffiçiençia. E o que assi for exa- 
minado pela sobredita maneira ficara examinado de todas as outras cousas 
aa pintura necessárias E ao ornamento delia. 

5. E o que de tempera ou fresco quiser vsar faraa em parede a fresco È 
em panno ou tauoa a tempera figura ou lauor romano ou grotesco querendo 
vsar de tudo E fazendo o sobredito ficara examinado de todas as cousas aa 
dita pintura de tempera ou fresco imferiores. 

6. E o que de dourado ou estofado somente quizer vsar por mais não 
poder alcançar faraa bua peça de ouro bornido êmate em a qual baueraa 
algu plano ou tauoa per si de dous palmos em que faça alem do dito dou- 
rado dois palmos de rapado e faraa mais híi pao de branco bornido E encar- 
naraa nu rosto de vulto de bua virgem de encarnação polida. 

7. E ao que assi for examinado na maneira sobredita E for hauido por 
babíl E pertencente para poer tenda lhe passarão sua carta de examinação 
assinada pelos examinadores E feita pelo escrivão de seu cargo. A qual 
leuarão aa Camará para la ser vista E confirmada E se registrar no Liufo 
em q as taes cartas se registrão. 

S. Da qual examinação o ofíiçial que se assi examinar quiser pagaraa 
trezentos rs E sendo estrangeiro seiçentos rs de q serão as duas partes para 
as despesas do dito offiçio E a terça parte para os examinadores. 

. 9. E qualquer pintor que daquy endiante tenda poser sem primeiro ser 
examinado da maneira sobredita seraa preso E da cadea onde jaraa quinze 
dias pagaraa dous mil rs ametade para as obras da Cidade E a nutra para 
quem o accusar. E sendo. os Juizes os aecusadores seraa para as despesas do 
offiçio. E a mesma pena haueraa qualquer ofíiçial a que se prouar q fez 
algiias obras ou peças de que não for examinado, ou não sendo examinado 
tomar obra do. dito offiçio para fazer da tenda do ofíiçial examinado. 

10. E quando algu ofíiçial do dito offiçio se poser a examinar se não 
souber fazer o que se contem em seu exame, os áditos examinadores o não 
examinarão E lhe mandarão que vaa. aprender, e do dia que se poser aa tal 
examinação a seis meses o não tornarão a examinar E passados os ditos 



30 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

seis meses emtão se poderaa poer outrauez a examinação. E sendo apto lhe 
passarão sua carta, e não o sendo o tornarão outrauez a mandar aprender 
outros seis meses, e assi o farão tantas vezes quantas acharem q não sabe 
fazer como o cõteudo ém seu exame. 

11. E os examinadores que o assi não fizerem E antes do dito tempo o 
tornarem a examinar pagarão dous mil rs ametade para as obras da Cidade 
E a outra para quem os accusar. 

12. E sendo caso q os ditos examinadores fauorauelmête ou por peita o 
por qualquer respeito ou maliçia derem por suffiçieníes aquelles que o não 
forem, E lhes derem lugar q ponhão tenda da cadea onde estarão trinta dias 
pagaraa cada hu quatro mil rs ametade para as obras da cidade E a outra 
para quem os accusar. 

13. E os examinadores do dito offiçio, não examinarão seus filhos, paren- 
tes, cunhados, ou criados. E quando qualq'' dos sobreditos se quiser exami- 
nar faraa petição aa Gamara para lhe ser dado hu dos Juizes do anno pas- 
sado qual aa Cidade bem parecer para o examinar em lugar do examinador 
suspeito. E qualquer dos examinadores que o cõtr fezer pagaraa dous mil rs, 
ametade para as obras da cidade E a outra para quem o accusar E a tal 
examinação não seraa valiosa. 

14. E serão avisados os ditos examinadores que nenhu per si soo examine 
offiçial algru senão sendo ambos juntos sob a mesma pena. 

15. E os Juizes do dito offiçio terão cargo de trinta en trinta dias visitar 
as tendas dos offiçiaes E fazer correição cõ o escriuão E assi todas as mais 
vezes que necessário lhes parecer. E as obras que acharem que não são feitas 
como deuem tomarão e leuarão aa Camará para se fazer nisso o q for Jus- 
tiça e se dar o castigo ao offiçial cõforme aa culpa que lhe for achada. E 
esta diligêçia farão sem ódio nem affeição nem outro algu modo ou espécie 
de maliçia. E os Juizes que nas ditas obras emganoe falsidade acharem E a 
dissimularem per qualq r via que seia e não fizerem diligencia para se fazer 
a dita execução contra os culpados pagarão dez cruzados ametade para as 
obras da cidade E a outra para quem os accusar. 

16. E mandão aos offiçiaes do dito offiçio q quando qr q os ditos Juizes 
chegarem a suas tendas para lhas visitarem lhes obedeção E mostrem as 
obras de seu offiçio íj quiserem para verem se ha alguas mal feitas e como 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



31 



não deuem para se fazer nellas execução sob pena de qualqr q desobediente 
for a cidade lhe dar por isso o castigo que lhe bem parecer. E da desobe- 
diência que o tal ofíiçial cometter contra os ditos Juizes ou qualquer delles 
o dito escriuão faraa auto E o leuaraa aa Gamara para se nella ver E man- 
dar o que for Justiça. 

17. E qualqr ofíiçial que for chamado pelos ditos Juizes E examinadores 
para aigu ajuntamêto que toque ao dito offlç.io ou para ver algíías obras 
sobre q aja differença E for reuel E não vier pagaraa mil rs ametade para 
as obras da cidade E a outra para as desp. as do ditto offiçio E a mesma pena 
hauerão os Juizes ou cada hil delles que sendo chamados para algú ajunta- 
mêto não vierem. 

18. E nenhu ofíiçial do dito offiçio seraa tão ousado q tome nê recolha 
em sua casa aprendiz nem obreiro q estiuer cõ outro oííiçial emquãto durar 
o tempo q o tal obreiro ou aprendiz for obrigado a estar cõ seu amo, nê lhe 
fallaraa nê lhe mandara fallar per outrê, sob pena de qualqr q o cõtr.° fezer 
pagar vinte cruzados ametade para as obras da Cidade E a outra para as 
despesas do offiçio, E o tal obreiro ou aprendiz tornara para casa de seu amo. 

19. E per este mandão aos Almotaçees das execuções m. ro da Cidade e 
alcaides delia q hora são E ao diãte forem q sendo requeridos pelos ditos 
Juizes para algua cousa q seia necessária para cõprimêto E execução do q 
toque a este regimêto lhes acudão cõ diligencia E facão nisso justiça. 

20. E mandão outrosi a qualqr portr. do concelho E homês dos alcaides 
desta cidade q sendo requeridos pelos ditos examinadores para fazerem 
algua execução de sençã ou mandado da camará ou dos almotaçees ou 
qualqr outra cousa q outrosi toque a comprimêto e execução deste regimêto 
o cumprão E lhes serão obedientes, e não o fazendo assi a cidade lhes dará 
por ysso o castigo que merecerem. 



I. — Aguiar (Agostinho de) — No Caderno 3.° dos Promotores do Santo 
Offiçio apparece este pintor em uns termos de 4 de abril e 6 de maio de 
1609 lavrados a propósito de um escripto que foi encontrado por elle e 
outros artífices, que andavam armando o sepulchro para as Endoenças, na 
igreja de Nossa Senhora da Conceição, o qual julgaram conter uma heresia. 

Ahi se diz que elle era christão velho, casado, e morava na Jubetaria 
Velha. 



32 NOTICIA DE ALGUiNS PINTORES 

Eis os respectivos documentos : 

«Aos vinte e quatro dias do mes de Abril de mil seiscentos e noue anos. 
em Lisboa nos Estaos na casa do despacho da Santa Inquisição estando hi 
em audiência da tarde o senhor licenciado Manoel Alvares Tavares inquisi? 
dor perante elle apareceo por ser mandado uir o padre Geronimo Luis cura 
da igreia da Conceição desta cidade, e sendo presente pêra em tudo dizer 
verdade er ter segredo lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos em que 
elle pôs sua mão e sob carrego delle prometeo de assi o fazer. Perguntado 
se sabe a causa por que hé chamado. Disse que lhe parecia que devia ser 
sobre hum escrito que se achou na dita igreja da Conceição donde elle hé 
cura. Perguntado que hé o que sabe do dito escrito? Disse que segunda feira 
da semana santa que forão treze dias deste mes de xYbril ás noves horas da 
manhã estando elle declarante confessando em hum confessionário da ditta 
igreja ueo ter com elle Agostinho dAguiar pintor casado com hua molher a 
que não sabe o nome christão uelho morador nesta cidade na Jubetaria Velha 
freguesia da ditta Igreja da Conceição e trazia na mão hum escritinho que 
tem quatro dedos de comprido e dous de largo no qual estauão escritas as 
palavras seguintes, s. Virgem madre de deos da Conceição uão, as quaes 
palavras estão escritas em duas Regras e sendo-lhe mostrado o dito escrito 
nesta mesa, dise que aquelle era o próprio escrito que o dito Agostinho 
d'Aguiar lhe dera e o dito Agostinho d'Aguiar deu a elle declarante o ditto 
escrito e lhe disse que lho dera Lourenço Pires masaneiro morador nesta 
cidade a São Roque e que lhe disera que aquelle escrito achara o ditto 
Lourenço Pires no altar principal de Nossa Senhora da dita Igreia da Con- 
ceição andando concertando o dito Altar para as endoenças e elle decla- 
rante não falou com o dito Lourenço Pires sobre o ditto escrito o qual 
Lourenço Pires e o dito Agostinho dAguiar e Manoel Lobato carpinteiro 
morador a São Roque, os quaes não sabe se são christãos velhos se 
christãos novos e todos três andauão na dita Igreja fazendo o sepulchro 
pêra as endoenças o qual fazião no altar mor e andauão ali também 
ajudando dous mordomos da confraria do Santíssimo Sacramento da dita 
Igreia a que não sabe o. nome mas erão os que servião neste mes e 
logo elle declarante tomou o ditto escrito e o leo e não conheceo a letra 
somente lhe pareceo que era letra de molher, e logo o leuou ao licenciado 
Diogo Soares que seruia de vigário geral nesta cidade no dito tempo e lhe 
deu conta do sobredito e lhe mostrou o ditto escrito o qual disse a elle decla- 
rante que procurasse saber cuja era a letra do dito escrito e quem o lançara 
ali, e elle testemunha tem feito diligencia e uão conhece a dita letra do ditto 
escrito, nem sabe quem o deitou no ditto altar e isto hé o que sabe do ditto 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 33 

escrito e disto dirão as dittas pessoas as quaes conhece o dito Agostinho 
d'Aguiar e sabe onde morão porque elle os troixe ali e que isto hé o que 
sabe do dito escrito e não sabe mais nada e lhe foi mandado que com o 
resguardo faça diligencia pêra saber quem pos o ditto escrito no dito 
altar e cuja hé a letra delle e elle prometeo de assi o fazer e declarou que 
elle deu oje o dito escrito ao padre Rodrigo Fernandez tesoureiro da ditta 
Igreia que o troixe a esta mesa e sendo lhe lido este testemunho disse estar 
escrito na uerdade e assinou aqui com o senhor Inquisidor. Simão Lopez o 
escreui e do costume disse nada. — Manuel Alvares Tavares — Jerónimo 
Luís». 

«Aos seis dias do mes de maio de mil seis centos e nove annos em 
Lisboa nos Estáos na casa do despacho da Santa Inquisição estando ahi em 
audiência o senhor Licenciado Manuel Alvares Tavares Inquisidor perante 
elle pareceo sendo chamado Agostinho d'Aguiar pintor testemunha referida 
que disse ser christão uelho da idade de trinta e três annos morador nesta 
cidade e sendo presente lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos 
em que elle pos a mão e sob carrego delle prometeo de dizer uerdade 
e ter segredo. Perguntado se sabe ou sospeita o para que hé chamado e se 
lhe faltou alguém para que uindo a esta mesa dissesse ou deixasse de dizer 
algua cousa do porque fosse perguntado. Disse que nam, mas que lhe parece 
poderá ser chamado para acerca de hum escrito que foi achado na Igreja 
da Conceyção desta cidade. E perguntado que hé o que sabe do dito escrito 
que o diga e declare na uerdade. Disse que elle foi a dita Igreja segunda 
feira da somana Santa pela manhâa para dar ordem pêra se assentar o 
sepulchro na dita igreja e estando nella para o fazer no altar mor na dita 
igreja com Lourenço Pires carpinteiro morador nesta cidade na Rua de São 
Roauentura a São Roque christão uelho e com Manuel Lobato carpinteyro, 
christão uelho morador na Rua da fiarroca a São Roque, arrimados ao altar 
por quanto lhe estaua dizendo a paixão e nam querião que batessem e ja o 
altar estaua sem toalhas nem frontal para effeito de nelle fazerem o sepul- 
chro estando assi o dito Lourenço Pires espirrou e com isto olhou com o 
rosto baxo para o altar e tirou hum papelinho dobrado que elle. declarante 
lhe uio tirar de antre duas taboas do dito altar que estauão por cima delle 
e estaua o dito escrito dobrado de modo que parecia escrito de confissão, e 
o abrio e o deu a elle declarante que o lesse e elle declarante leo o escrito, 
o qual tinha duas regras não mais e pequenas e dizia assi : Virgem madre 
de Deos, e era nua regra e dizia logo da Conceição e adiante dizia nam e 
elle declarante disse logo pêra o dito Lourenço Pirez que aquillo era heresia 
e o dito Lourenço Pirez uendo o disse o mesmo e estando nisto lhes pareceo 
S 



34 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

bem a ambos de dous e ao dito Manuel Lobato que o leuassem ao Cura da 
dita igreja a quem nam sabe o nome, e foi elle declarante com o dito escrito 
ao dito cura e segundo sua lembrança estaua assentado em bua mesa e lho 
deu dizendo lhe que uisse aquelle papel no qual estaua hila heresia o qual 
naquelle tempo se achara no altar de nossa senhora; e o dito cura tomou o 
dito escrito e o mostrou ao uigario da dita casa a quem também nam sabe 
o nome e praticando no dito papel aly todos concluirão que o leuasse o dito ■ 
cura ao uigario geral desta cidade, e que isto hé o que sabe e o que passa 
acerca do dito escrito. Perguntado se conheceo a letra do dito escrito e se 
sabe quem o escreueo. Disse que nam. Perguntado se o dito escrito estaua 
antre as ditas taboas de modo que parecesse que estaua aly de pouco tempo 
ou de muito ? Respondeo que nam sabe disso mas que o dito Lourenço Pirez 
que tirou o dito escrito dará razão disso. Perguntado se uio elle algua pessoa 
ou pessoas que esteuesse junto do dito altar de que se podesse collegir quem 
posesse o dito escrito. Disse que gente andaua de hua parte a outra ; mas 
que nam uio pessoa de que se podesse collegir que posesse o dito escrito. 
Perguntado se lhe parece que o dito escrito estaua aly posto de muitos 
dias ou de poucos. Respondeo que nam sabe disso mas que lhe parece que 
deuia de se por aly depois de tirado o frontal e toalhas do dito altar. Per- 
guntado se ouuio dizer a algua pessoa que se dizia ou presumia que posera 
aly o dito escrito algua pessoa e que pessoa hé esta? Disse que não. Per- 
guntado se lhe mostrarem o dito escrito se o conhecera e se conhecera a 
letra dellè. Disse que se o uir que o conhecera e sendo lhe mostrado e por 
elle uisto. Disse que aquelle era o ditto escrito que elle uio e que nam 
conhece a letra delle e nam se afQrma se he de homem se de molher. Per- 
guntado se sabe que pessoa ou pessoas podem conhecer a dita letra e saber 
cuja hé, e que pessoas podem saber do dito caso. Disse que nam sabe nada 
do contheudo na pergunta e mais nam disse de tudo o que lhe foi pergun- 
tado e do costume disse nada e assinou aqui com o senhor Inquisidor. Fran- 
cisco de burges o escrevi. — Manuel Alvarez Tavares — Àguostinho d' Aguiar. 

«E logo appareceo Lourenço Pires testemunha referida e sendo presente 
disse ser de idade de trinta e seis annos christão uelho morador a São Roque 
na Rua de S. Boaventura e lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos 
em que elle pos a mão sob carrego delle prometeo de dizer uerdade e ter 
segredo. Perguntado se sabe ou sospeita o para que hé chamado e se lhe 
fallou alguém para que uindo a esta mesa deixe de dizer cousa algua do 
porque fosse perguntado. Disse que nam, mas que lhe parecia que era chamado 
acerca de hum escrito, que se achou na igreja de nossa Senhora da Con- 
ceyção. Perguntado que hé o que sabe do dito escrito que diga a verdade. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 35 

Disse que segunda feira da somaria santa pela manhãa estando elle decla- 
rante na dita igreia com Agostinho d'aguiar pintor e com Manuel Lobato 
carpinteiro que mora na Rua da Barroca, junto ao altar mor da dita igreja 
que estaua já sem frontal nem toalhas para armar em o sepulchro somente 
estava forrado por cima de canhamaço ou bocaxim, e estando assi por que 
mandarão que nam batessem por que estavão a paixão, uindo lhe um espirro 
se abaixou para o dar, e uio que da banda da epistola junto a pedra dará 
a qual não estaua no altar estaua hum escritinho deitado en cima do altar, 
o qual escrito era pequeno e estaua dobrado e se tinha descuberto, porque 
poserão huns paos em cima do altar para descansar nelles o sepulchro e 
puxando hum pouco por elles uio escrito que ficaua descuberto por se puxar 
o canhamaço para a parte dos paos e uindo o dito escrito o tomou e o abrio 
e o deu ao dito Augustinho d'aguiar que o lesse, e leo o dito escrito no 
qual tinha duas regras en nua dizia virgem madre de deos da conceyção 
não e tanto que o ouuio ler disse ao dito Augustinho daguiar que o leuasse 
ao cura e elle o leuou ao dito cura e disse a elle declarante que tinha dado 
o escrito ao dito cura e nam sabe o que mais passou. Perguntado se conheceo 
elle a letra do dito escrito ou sabe cuja bé. Disse que nam nem sabe se hé de 
homem nem de molher a dita letra, nem sabe quem a pode conhecer. Pergun- 
tado se quando uio o dito escrito e o achou entendeo que estaua aly de muito 
tempo ou de pouco respondeo que nam entendeo que o dito escrito estaua aly 
posto de pouco nem de muito, mas lhe pareceo que estaua posto de dias porque 
a letra estaua ia parda. Perguntado quando achou o dito escrito se estaua 
algua pessoa ou pessoas junto ao altar de que presumisse que podião aly 
pôr o dito escrito. Respondeo que nam nem podiam polo então porquanto 
Unhão posto muita madeira ja no altar e nam podião aly chegar no dito 
tempo. Perguntado se sabe ou ouuio dizer que pessoa pos aly o dito escrito. 
Disse que não. Perguntado se lhe mostrarem o dito escrito se o conhecerá 
disse que sim. E logo lhe foi mostrado e sendo por elle uisto disse que 
aquelle era o dito escrito que elle uio e achou no dito altar como tem dito. 
Perguntado que pessoas podem saber disto disse que as pessoas acima 
declaradas e mais nam disse e do costume disse nada e assinou aqui com 
o senhor Inquisidor. Francisco de Burges o escrevi. — Manuel Alvares 
Tavares — Lourenço Pires». 

« Aos sete dias do mes de Maio de mil seis centos e nove anos em Lisboa 
nos Estaos na casa do despacho da Santa Inquisição estando ahi en audiên- 
cia da tarde os senhores Inquisidores perante elles apareceo sendo chamado 
Manoel Lobato e sendo presente pêra em tudo dizer uerdade e ter segredo 
lhe foi dado juramento dos santos evangelhos em que elle pos a mão e sob car- 



3G NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

rego delle prometeo de assi o fazer e disse ser christão velho marceneiro mora- 
dor nesta cidade na Rua da barroca do bairro de São Roque, de idade de trinta 
e sete anos casado com Maria Ribeira christan uelha. Perguntado se sabe o 
para que hé chamado ou se alguém lhe fallou para que disesse ou deixasse 
de dizer algíia cousa do por que fosse perguntado ? Disse que nam nem 
lhe falou nem sabe o pêra que vem chamado nem no sospeita. Perguntado 
se sabe ou ouuio dizer que na igreja da Conceição desta cidade na semana 
santa se achasse hum escrito no altar mor e quem o achou e que escrito 
era? Disse que hé uerdade que em hum dia da semana santa não se lembra 
qual era mas era polia manhãa as noue horas do dia andando elle testemu- 
nha na dita igreja da Conceição ajudando o sepulcliro em conpanhia de Agos- 
tinho daguiar pintor, que mora nesta cidade á Conceição e de Lourenço 
Pires marceneiro o dito Lourenço Pires achou sobre o altar mór junto á pedra 
d'ara da banda da epistola hum escrito piqueno de duas regras o qual elle 
testemunha uio e ouuio ler ao dito Lourenço Pires e dizia segundo sua lem- 
brança o seguinte: Virgem madre de Deos da Conceição não, e elle teste- 
munha não leo o dito escrito porque não sabe ler. o qual escrito se deu ao 
cura da ditta igreja da Conceição e não sabe o que mais se fez do dito 
escritto, nem sabe quem ali o pôs nem quem o escreueo, nem vio ali pessoa 
de que se podesse sospeitar que o posesse ali, nem conheceo a letra delle 
nem sabe quem o conhecesse, e mais não disse de tudo o por que foi per- 
guntado e do costume disse nada e sendo lhe lido este testemunho disse 
estar escrito na uerdade e assinou aqui com os Senhores Inquisidores. Simão 
Lopes o escreui.. — Manuel fernandes lobato — Manuel Alvarez Tavares — 
António Dias Cardoso» K 



II. — Almeida (Brás de) irmão de Félix da Costa, de quem se trata no 
logar competente, e para cujo artigo remetto o leitor. 

Foi uma das testemunhas de defesa, no processo inquisitorial de Pedro 
Serrão, sendo o seu depoimento do teor seguinte: 

«E logo no mesmo dia (24 de março de 1677) e audiência atras escritta 
mandou o ditto senhor Inquisidor vir perante sy a Braz d'Almeida, pintor, 
natural e morador desta cidade de Lisboa, na rua dos Calafates, e sendo 
presente lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos em que pos a mão 
sob cargo do qual lhe foi mandado dizer verdade e ter segredo o que elle 



Torre do Tombo. Caderno 3.° do Promotor da Inquisição de Lisboa, fl. 598. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 37 

prometteo cumprir e disse ser Christão velho e de vinte e oito annos de 
idade. Perguntado pelos geraes? Disse nada. Perguntado se conhece algumas 
pessoas prezas pelo Santo OÍIicio, quem são, quanto tempo ha e porque via 
e rezão? Disse que conhecia o Reo Pedro Serrão desde minino por ter com 
elle amizade e andarem ambos no estudo. Perguntado em que conta tem ao 
ditto Pedro Serrão no particular de sua Ghristandade, vida, costumes e reli- 
gião? Disse que sempre teve ao ditto Pedro Serrão por mui bom Christão 
pela frequência que lhe via ter na congregação do Padre Quental e fazer os 
exercidos que nella se costumão e ainda estando elle testemunha em Gastella, 
lhe escrever lá o ditto Pedro Serrão, encommendando-lhe o viver limpa e 
castamente e por mais não dizer lhe forão lidos os artigos i." e 2.° da defeza 
do Reo, a que foi nomeado testemunha, que sendo por elle ouvidos e enten- 
didos. 

Ao 1." artigo 

«Disse que o que se conthem no ditto artigo passa na verdade, excepto > 
não saber elle testemunha se se confessava e commungava nas quintas feiras 
de toda a semana. 

Ao 2.° 

«Disse que segundo ouvio principalmente ao mesmo reo passa na verdade 
o deduzido no ditto artigo, porque elle testemunha não vio nada do que 
nelle se conthem e ai não disse e do costume disse nada e assinou com o 
ditto senhor Inquisidor sendo-lhe primeiro lido este seu testemunho. Fillippe 
Barbosa o escrevi. — Estevão de Britto Foios — Brás de Almeyda» l . 



III. — Alvares de Andrade (Luis). — Volvo a falar pela terceira vez d'este 
artista, apresentando mais documentos relativos a trabalhos de pintura e 
douradura executados por elle para a Armada Real. 

«28 de agosto de 1616 recebio Del pagador general geronimo de Vittoria 
a buena parte de mayor suma que se le deue y a de hauer por las pinturas 
flocaduras, brolas e cordones de seda Carmesi que hizo en vn estandarte 
grande de damazco para la capitana Real y. . . 

«Por librança dei prouedor don fernando Aluia de Castro fecha en 8 de 
outubre 1616 se le libraron mill y trecientos y setenta e nuebe Reales a 



1 Processo de Pedro Serrão, n.° 9797, da Inquisição de Lisboa, fl. 24. 



38 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

cumplirnento de 3^í>70 que inportaron las pinturas y gastos que hizo en el 
dicho estandarte de damazeo eon los quales queda enteramente Pagado e 
satisffecho las cargas de las três partidas ultimas de arriba que inportan dos 
mill y seiscentos Reales que recevia a buena quenta. 

«Por libranza dei prouedor de la Armada D. fernando Aluia fecha en 10 
de Junio de 1619 se la libraron en el dicho pagador general Geronimo de 
Vittoria seis mil Reales a buena quenta de lo que hubiere de hauer por la 
pintura de canlidade de vanderas flâmulas e galerdetes que a de hacer para 
serviço de los galiones de la Armada y este quenta se le haçe aqui en el 
ynterin que se le acauã de pagar y entrega las dichas banderas. 

«Qui el dicho luis alvarez de andrade quedo libre dei cargo de los 6000 
reales de en frente por hauer se le hecho librança de 577 reales y un quar- 
tillo fecho en 25 de agosto dei dicho anuo 6190 cunplimiento de 66577 e 4- 
que ynporta la manifatura de seis banderas y 30 flâmulas que Inço para la 
capitana y almirante y demas galiones de la dicha Armada Real las quales 
entrego ai tenêdor de vastimentos como arriba se dice quedo satisfecho el 
dicho cargo» '. 

«Luys Alvarez Pintor. De lo que se le libera a buena quenta de lo que ade 
hauer por coser y pintar treze banderas vna família y 3 estandartes que esta 
haciendo para capitana almiranta y falua de la armada. 

«Por librança dei prouedor Don fernando aluia de castro de primero de 
Junio de 1618 se le libraron en el pagador general geronimo de Vitoria mil 
y doseientos Reales a quenta de lo que ha de hacer por coser y pintar treze 
banderas una famula y 3 estandartes que esta haziendo para capitana almi- 
ranta y falua de la armada — Una rubrica. 

«Por librança dei dicho prouedor fecha en 17 de agosto de 1616 se le 
libraron nuevecientos y cinquenta y siete reales y 4- a cumplimiento de 2152 
reales 4- que importaron as pinturas que hijo en 13 banderas y una famula 
para la capitana y Almiranta con que da enteramiente pagado. — Una rubrica. 

«Por otra libranza de lo dicho prouedor fecha em 12 de julio 1616 se le 
libraron mill Reales a quenta de lo que a de hauer por las pinturas que 
esta hazendo en un estandarte grande de damasco para la capitana Real de 
la dicha armada. - 

«Por otra dei dicho prouedor fecha en 6 de agosto 1616 se le libraron 
otros mil Reales a quenta de lo que ade hauer por el dicho estandarte. 

«Cargo se le mas seiscientos Reales que por libranza dei dicho proueedor 



1 Torre do Tombo. Corpo ChroDologico. Parte II, Maço 331 n ° 37. 



NOTICA DE ALGUNS PINTORES 



39 



de Luis albarez de andrada Pintor, veziho de Lisboa. Cargo. De los maraue- 
dis que se le libro a quenta de lo que Hubiere de hauer por banderas que 
baçe Para la armada y otras cosas de su officio. 

«Hace se le cargo ai dicho Luis Albarez de andrada pintor de mill sete- 
cientos reales que valen 57$800 marauedis Portanto que Por librança 
dei proveedor don fernando de albia fecha en 26 de março de 1618 se le 
libraron en el pagador general Geronimo de bitoria a buena quenta de lo 
que Hubiere de hauer Por ocho banderas que hade açer y Pintar las quatro 
delias de a 36 Baras y las otras quatro de a 30 medida de porlugal Para 
serviçio de ocho nabios que esta primabera ande salir a navegar. — Una 
rubrica. — Reales 1$700. 

«Notta. Por libranza de el proveedor D. fernando aluia de castro de 20 de 
mayo 618 de suma de 30 reales 10 marauedis que le libraron en el pagador 
general geronimo de Vittoria a cunplimiento de 2^303 reales 10 marauedis 
que inportaron el balor de 1 1 banderas de ruan que hizo junto (sic) Para 
los galeones. .. de la armada con que se satisfizo el quenta de emporte e 
quedo inteiramente. 

«Por otra librança dei dicho Proveedor fecha en 19 de abril de 1618 se 
le libren ai dicho luis Alvarez de andrada en el dicho Pagador general seis- 
cientos reales a buena parte de lo que hubiere de hauer por três banderas 
de rruan que ade haçer Para seruiçio delos capitanes de la dicha armada — 
Una rubrica. — 600 reales. 

«Nota. Satisfecho hestes 600 Realles en virtude de la libranza que dise en 
la partida de rriba. 

«Por otra de 19 de Júlio 1618 se le libraron en el dicho Pagador general 
dos mill y quinientos Reales a quenta de lo que... para 21 banderas de 
Ruan que ade hazer para la armada 2$500 Reales. 

«Nota. Satisfecho para por la nota que esta en la vuelta deste oja. 

«Por otra libranza de 42 de agosto 1618 se le libraron Al dicho Luis 
alvarez en el dicho pagador general Hieronimo de Vittoria cinco mill Reales 
a buena quenta de lo que Vbiere de hacer por la pintura que ha hecho y 
ba haciendo a la popa y Corredores de la capitana Real de la dicha armada. 
Mas se le hace, cargo de dos mill y quinientos Reales que por esta librança 
dei dicho proueedor de 26 dei dicho Agosto se le libraron en el dicho paga- 
dor general ai quenta de lo que huuiere de hauer por las pinturas que ba 
haciendo en la popa de la dicha capitana y en la Almiranta Reales y dorar 
los fanales delias. 

«Por libranza dei Proveedor D. Fernando Aluia de castro de 9 de Septem- 



40 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

bro se le libraron en el pagador general geronimo de Vittoria 3$477 Reales 
29 marauedis j que inportaron las pinturas que luzo en las cameras corre- 
dores y popa de la capitana Real y por viente y dos banderas y 14 famulas 
que liizo para ella y por hauer dorado de oro mate el fanal grande de la 
almiranta Real con que quedo enteramente Pagado y satisfecho los 10&000 
Reales de cargo de las dos Partidas desta plana y otra de 2#500 ultima 
desta» J . 



IV.— Amatucci (João Carlos)— Nem Taborda nem Cyrillo falam d'este artista 
como pintor. Em 1821 era discipulo de Taborda. Em conferencia dos profes- 
sores da Ajuda a 5 de julho de 1823 foi apresentado como prova da sua 
aplicação escolar a copia de uma cabeça de Torccachini, designada com o 
n.° 1, o que lhe valeu ser considerado digno de passar a praticante de pin- 
tura de l. a classe com o vencimento de 500 reis; tinha nessa época 17 annos 
de idade e quatro incompletos de estudo. Vencia então 300 reis diários. 

Não sei que relação de parentesco teria com o esculptor Carlos Amatucci, 
de quem Volkmar Machado deu a seguinte declaração bibliographica : 

«Carlos Amatucci, italiano, também fez em 1818 para o mesmo paço 
(o da Ajuda) a estatua da Liberalidade. Veio para Lisboa pelos annos de 
1804, retratava em cera; em 1807 estando já admittido no real serviço, com 
400&000 reis annuaes, fez a medalha do Principe para os órgãos de Mafra. 
Era muito moço e bem disposto, quando no anno de 1809 morreu repentina- 
mente de uma aneurisma, que o suffocou». 

Esta noticia precisa de ser lida com todo o cuidado, applicando-se-lhe o 
indispensável correctivo a algumas datas, que foram certamente viciadas pela 
impressão. Se o artista falleceu em 1809 não poderia ter feito a estatua da 
Liberalidade em 1818. 

Existe um documento que prova que elle residia em Lisboa, no largo do 
Rato, em 1811. Na Gazeta de Lisboa, de 6 de setembro d'aquelle anno, vem 
um interessante annuncio seu com relação a um retrato do marquez de la 
Romana que elle desenhara e estava sendo gravado por Rartolozzi. Reproduzo 
este annuncio, porque offerece particularidades dignas de nota. É do teor 
seguinte : 

« Carlos Amatucci, Escultor da Camará de Sua Alteza Real, annuncia que 
Francisco Bartolozzi, Abridor da Camará de Sua Alteza Real, e de Sua Majes- 



Tone do Tombo. Corpo Chronologico. Parte II, Maço 335, n.° 141. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 41 

tade Britânica, está abrindo por conta delle Amatucci a estampa do Retrato 
do Excellentissimo Senhor Marquez de la Romana, segundo o modelo feito 
da Mascara, que elle tirou na Casa do Excellentissimo Senhor Marquez, a 
qual estampa hé para fazer parallelo com a do Excelleutissimo Senhor Lord 
Wellington de corpo inteiro, também aberto pelo dito Professor Bartolozzi. 
Quem quiser subscrever para a dita estampa, pôde dirigir-se a sua Casa, no 
largo do Rato, N.° 22; para cujo fim já concorreo o Excellentissimo Senhor 
D. João dei Castillo, Enviado de Hespanha neste Reino, com muitas assigna- 
turas da sua parte, e outras da mesma Nação. O preço de cada estampa hé 
de 6í>i30 reis, e os provas sem letras a 126800 reis cada huma em dinheiro 
de metal». 

Conheço um requerimento de Carlos Amatucci, no qual pede que se lhe 
paguem os seus ordenados em atrazo. Infelizmente não tem data, mas vé-se 
que é posterior ao intruso governo francês, do qual, diz elle, não quiz rece- 
ber emprego ou exercício algum, preferindo soffrer, com sua mulher e filhos, 
urgências gravíssimas, a ter de desmentir os seus sentimentos de lealdade. 

Este documento vem também rectificar algumas das asserções de Volkmar 
Machado, reconhecendo-se que já em 1803 trabalhava na obra do Real Paço 
d" Ajuda para a qual fora admittido por um Real Aviso de 23 de fevereiro 
daquelle anuo. É possível que João Carlos Amatucci fosse seu filho. 

Eis aqui o requerimento: 

«Senhor. — Diz Carlos Amatucci, Escultor e Retratista de V. A. R. que 
pelo Real Aviso de 23 de Fevereiro de 1803, foi V. A. R. servido Mandar 
arbitrar ao supplicante o competente Ordenado para ficar no Real Serviço, 
em consequência do que se lhe arbitrou o Ordenado de 36oí>000 reis por 
anuo, pagos pela Folha da Real Obra do Palácio d' Ajuda, á qual foi o suppli- 
cante applicado logo desde o dito anno dezempenhando ao mesmo tempo 
outras Obras Reaes, como foi a dos Órgãos de Mafra, e outras, sendo-Ihe 
concedido aquelle ordenado não só como criado de V. A. R. para o emprego 
da sua Arte, mas até com alimentos, visto ser hum Professor Estrangeiro 
demorado neste Paiz para o Real Serviço, e impossibilitado por isso de pro- 
curar outro qualquer interesse ou destino apreciando tão justamente a fede- 
lidade e honra de ser criado de V. A. R. que antes quiz soffrer com sua 
mulher e filhos urgências gravíssimas do que acceitar emprego ou exercício 
algum em o intruzo Governo Francez. Deve-se pois ao supplicante o Ordenado 
de dezoito mezes e quando se trata de pagar a todos os filhos da Folha da 
dita obra d' Ajuda, se vê o supplicante excluído do pagamento cuja exclusão 
porem deve considerar-se contra a razão porque este Ordenado lhe foi não 
6 



42 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

só dado por V. A. R. mas confirmado inteiramente quando em Salvaterra 
pertenderão desfavoráveis intenções privar ao supplicante do dito seu orde- 
nado foi V. A. R. servido Determinar ao Inspector da dita Real Obra José 
Diogo de Rarros se pagasse ao supplicante. e se lhe continuasse efectiva- 
mente a pagar na forma determinada e porque se hua Ordem Regia pode 
derogar outra da mesma natureza e não consta que V. A. R. tenha determi- 
nado o contrario fica sendo portanto a privação do ordenado ou alimentos 
do supplicante hua violência ou injustiça repugnante essencialmente á sobe- 
rania e Innata Piedade de V. A. R. aos Pés de cujo Real throno o supplicante 
humilde e submisamente P. a V. A. R. seja servido Ordenar que o sobredito 
Inspector João Diogo de Rarros informe sobre o conteúdo, para que conhe- 
cida a verdade e justiça do supplicante se lhe facão seus respectivos paga- 
mentos: ou concedendo V. A. R. ao supplicante dous annos de licença para 
ir fora do Reino se lhe pague tudo quanto se lhe deue e faz igualmente a 
mesma rogativa no cazo de estar considerado fora do Real Serviço; pois que 
o supplicante se vê sem meyos alguns de poder subsistir com sua família 
por cauza da falta dos ditos pagamentos. E. R. M. ce » '. 



V. — Anes (Gonçalo) — Já tratei do artista aqui designado, na l. a e 2. a serie 
desta Noticia. A sua actividade exerceu-se por longo espaço, pois o vemos 
figurar nos reinados de D. João I e D. Affonso V. Accrescentarei agora uma 
particularidade curiosa, a qual se refere aos seus primeiros tempos. 

Tinha D. João I duas casas, pequenas, na freguesia da Sé, no sitio cha- 
mado Bancos da Sé, uma das quaes andava emprazada a Gomes Eanes escri- 
Yão da Camará da cidade, e a outra a Gonçalo Anes, pintor. O primeiro 
residia ao lado, num prédio seu, que desejava alargar á custa das duas casas 
pequenas, e por isso propoz a el-rei a troca destas, por outra propriedade 
sua, que possuia na freguesia de S. João da Praça, contigua ao chafariz 
d'el-rei. Apesar de ser de maior rendimento, o dono promptificou-se a melho- 
rá-la, mandando construir uma sacada sobra a rua contra o chafariz. El-rei 
acceitou a proposta, e, depois de ouvidos os louvados, Ruy Gomes e Gomes 
Lourenço, pedreiros, e Gonçalo Domingues e Estevão Gonçalves, carpinteiros, 
foi assignada a carta approvando o escambo a 20 de julho da era de 1452, 
isto é, anno de Christo de 1424. 

A carta é do teor seguinte: 

«Dom João etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que Gomez 



Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. 



NOTICIA EE ALGUNS PINTORES 43 

Eanes scrivuam da camará da cidade de Lixboa nos dise que el tem huas 
casas suas em que mora na freguesia da see da dita cidade onde chamam os 
bancos da see E que junto com ellas stam duas .casas nossas pequenas que 
parlem de duas partes com as ditas suas casas e com Ruas pubricas das 
quaaes duas casas nossas el Gomez eannes traz bua delias de nos emprazada 
por quatro libras e vj soldos e viij dinheiros da moeda antijga. E que pagava 
em cada huu ano duzentas e dez e seis libras e xiij soldos e quatro dinheiros 
desta moeda corrente de Real de três libras e mea contada cada hua libra 
da moeda antijga a l. la por bua segundo per nos hé mandado. E a outra traz 
Gonçalo Ànes pintor emprazada de nos por xviij libras da moeda que pagaua 
em cada huu ano quatro libras por hua desta de três libras e mea peça que 
som lxxij libras desta moeda segundo he contheúdo na nossa hordenaçam E 
que elle Gomes Eanes auja huas suas casas junto com o chafariz nosso da 
dita cidade na freguesia de sam Joham da praça que partem com uutras suas 
casas e com casas da dita igreja de sanhoanne que traz francisco cortidor e 
com chouso de maria afonso mulher que foe de Joham afonso contador que 
foe delrrey dom fernando as quaaes rendiam em cada huu anno nove libras 
da moeda antijga que som desta L. la por hua iiíj c l libras e que as nossas 
ambas nom rendiam mais de ij c lxxxviij libras xiij soldos e quatro dinheiros 
assy que as suas rendem mais que as nossas clxj libras. E dizia que auendo 
el as ditas nossas casas pêra ssy que com as suas entendia a fazer buas boas 
casas E que nos pedia por mercee que lhas desemos em scambo polias ditas 
suas casas, E nos veendo o que nos assy dizia e pedia nos mandamos 
a Joham Àfomso veedor da nossa fazenda que visse se o dito scambo era 
jgual que lhe mandasemos fazer carta do dito scambo o qual Joham Afomso 
em comprimento do dito nosso mandado foe veer as ditas nossas casas e as 
do dito Gomez Anes com Ruy Gomez e Gomez Lourenço pídreiros e com 
gonçalo dominguez e steuam gonçalvez carpinteiros os quaaes pedreiros e 
carpinteiros diserom per juramento dos auangelhos que fazendo o dito Gomez 
eanes nas ditas suas casas que nos da em scambo hua sacada de sobrado 
sobre a Rua contra o chafariz que entendiam que a dita casa do dito Gomez 
Eanes era tão boa e milhor que as nosas. E nos visto o dizer dos ditos 
pedreiros e carpinteiros entendendo o por nosso proveito e serviço scamba- 
mos e damos por scambo as ditas duas nossas casas que assy stam junto 
com as dei dito Gomez Eanes por a dita sua casa e sotam e sobrado que elle 
ha na dita cidade freguesia de sam Joham da praça apar do dito chafariz 
como dito he sob tal preito e condiçom quê o dito Gomes Eanes faça nas 
ditas casas que nos assy da em scambo a dita sacada contra a Rua e as 
solhe e Repaire assy as ditas casas como a dita sacada de to'do aquello que 
lhe Gzer mester e que nos de e pague a nos e a todos nossos sucesores que 



44 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

depôs nos vierem pêra sempre das ditas casas de renda e pensom em cada 
huu ano nove libras da moeda antijga per esta guisa em quanto esta moeda 
correr 1. por Ima segundo per nos hé ordenado ou segundo nos mandarmos 
ou hordenarmos que se paguem daquj en diante a qual conthia o dito Gomez 
anez se obrigou a pagar a nos em cada liuu ano sob obrigamento de todos 
seus bêes e de todos seus herdeiros que depôs elle uierem que para esto 
obrigou e as pagar em cada huu ano per dia de sam joliam bautista e come- 
çar de fazer a dita paga por esle sam joham que viinra e dhi en diante em 
cada hum ano por o dito dia. E se as ditas casas perecerem per fogo ou 
agoa ou per terremoto ou per outro qualquer caso fortuito posto que aqui 
nom seia expresso que o dito Gomes eanes e herdeiros que depões el vierem 
as façam e refaçam e adubem e aproveitem aas suas próprias despesas em tal 
guisa que sempre seiam melhoradas e nom peioradas o qual Gomez Eanes a 
esto presente outorgou as sobre ditas cousas e recebeo em ssy o dito afora- 
mento e se obrigou a o eomprir e manteer e guardar e dar e pagar a dita 
conthia per o dito dia como dito lie. E porem mandamos que o dito Gomez 
Eanes e herdeiros que depôs elles vierem aiam a dita casa de aforamento 
pella guisa suso dita. E que outrosy aia as duas casas nossas que lhe assy 
damos em scambo polia dita sua pêra sempre pêra ssy e seus sucessores e 
herdeiros descendentes que depôs elle vierem e façom delias e em ellas o que 
lhe prouuer como de sua cousa própria e corporal posisom E mandamos ao 
nosso almoxarife ou recebedor do nosso almoxarife ou recebedor do nosso 
almazem da dita cidade que faça registrar esta carta ao scripuam de seu 
officio pêra per ella em cada hum ano recadar pêra nos a sobredita conthia 
e o dito Gomez Eanes a tenha pêra sua guarda unde ai nom façades. Dada 
em a dita cidade de Lixboa xx dias de julho elrrey o mandou per Joham 
Afomso dalamquer seu uassalo e ueedor da sua fazenda. Afomso Annes a fez 
era de mjl iiij c lij annos» l . 

VI. — Assis Rodrigues (Francisco) — Foi lente da Academia, tendo res- 
taurado cinco quadros da egreja da Misericórdia de Lisboa, o que em acta 
de 29 de fevereiro de 1844, a Misericórdia agradeceu. 

Archivo da Misericórdia, Actas de 1844. 



VII. — Avellar Rebello (José de) — Foi na primeira metade do século xvu, 
quando o prestigio das armas e da politica hespanhola declinara sensivel- 



1 Tone do Tombo. Chancellaria de D. João I, L.° 3, fl. 171 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 45 

mente, que o génio artístico e litterario da nação vizinha se expandiu com 
mais entliusiasmo e brilhantismo. Na comedia e no romance satyrico e pica- 
resco possue a litferatura hespanhola os mais invejáveis modelos. A Hespanha 
dramática de Lope de Vega não receia o confronto com a França dramática 
de Molière nem com a Inglaterra dramática de Shakspeare. 

Com a pintura deu-se phenomeno idêntico, bastando citar os nomes de 
Murillo e de Velasquez para se ter o convencimento do estado florentissimo 
a que chegou esta arte na península ibérica. Sevilha era o centro principal 
d'esta irradiação e foi d' ali que partiu para Madrid, a fundar a brilhante 
escola naturalista, o insigne Velasquez, filho de pae portuguez. 

Não obstante a emulação e a inveja de alguns rivaes e detractores, elle 
soube conquistar não só a estima e admiração da corte, como o enthusiasmo 
dos seus contemporâneos. A posteridade, longe de contestar esse juízo, con- 
firmou-o, e a supremacia do mestre é talvez ainda hoje mais omnipotente 
do que era na sua vida. 

Portugal, a esse tempo, formava parte da monarchia hespanhola, com- 
pletava-a, como um dos mais notáveis elos da cadeia da união ibérica, e por 
isso não admira que o espirito de nacionalidade, embora longe de se extin- 
guir, tivesse afrouxado alguma cousa, não apresentando, por conseguinte, 
as producções do nosso engenho uma accentuada e inconfundível caracte- 
rística. 

A producção litteraria foi bastante intensa, mas diversas causas contri- 
buíram para a desvalorisar em grande numero de casos. A influencia do 
culteranismo e a imitação exagerada de Gongora contaminaram quasi todos 
os espíritos, ainda os mais superiores, sendo raros aquelles que escaparam 
ao funesto contagio. Além d'isso deu-se a circumstancia de grande numero 
dos nossos escriptores preferirem a língua de Cervantes ;i lingua de 
Camões, 

Na arte é muito de suppôr que succedesse a mesma cousa. Não faço esta 
afirmativa em absoluto, porque julgo a matéria pouco estudada ainda e digna 
de mais minucioso exame. Torna-se, por conseguinte, necessário proceder 
a um estudo reflectido, passando em revista os quadros que nos ficaram da 
época, comparando-os não só entre si, mas com as escolas estrangeiras, 
sobre tudo a hespanhola. Os cultores da arte de Raphael. não escassearam e 
até alguns delles exercitariam os seus pincéis em Hespanha. Estou comtudo 
persuadido que não nos é dado apresentar nenhum que emparelhe honrosa- 
mente com o genial Velasquez, que na fecundidade se pôde comparar a Lope 
de Vega e na originalidade das suas concepções a Cervantes. Oxalá que o 
meu juizo seja erróneo e infundado e que o nosso patriotismo consiga 
demonstrar que o movimento artístico em Portugal não soffreu deplorável 



46 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

solução de continuidade, antes se robusteceram as tradicções herdadas de 
Nuno Gonçalves e de Vasco Fernandes, os dois mestres supremos da pintura 
portugueza nos séculos xv e xvi. 

No século xvu apontam-se alguns artistas, cuja actividade, além de 
intensa, seria também de incontestável valor se déssemos crédito aos elogios, 
que nos parecem retumbantes e hyperbolicos, dos seus thuriferários. No rei- 
nado de D. João IV registram-se, entre outros, os nomes de José de Avellar 
Rebello e Bento Coelho da Silveira, o primeiro dos quaes foi equiparado por 
um poeta a Miguel Angelo, Raphael e Ticiano, e o segundo, num trocadilho 
bombástico, denominado pintor do rei e rei dos pintores. Isto era então 
moeda corrente, e raros eram os poetas que não fossem Apollos e raros os 
pintores que não fossem Apelles. 

Occupar-me-hei hoje de José de Avellar Rebello, de quem já se encontram 
noticias em Félix da Costa, José da Cunha Taborda e Cyrillo Volkmar Ma- 
chado. Todos estes três indivíduos manejaram o pincel e a penna, deixando-nos 
algumas commemorações históricas dos que professaram com elles a mesma 
arte. Félix da Costa, que tinha também o appellido de Meesen, entrou para 
a Irmandade de S. Lucas em 1674 e falleceu em 1712. 

A sua obra, em que se mencionam apenas 19 artistas, é portanto a pri- 
meira da sua especialidade, sendo o seu auctor o nosso Vasari em miniatura. 
Ficou manuscripta e a sua perda seria bastante sensível, se Volkmar Machado 
a não tivesse explorado, embora nem sempre se aproveitasse d'ella com 
escrupulosa minudência. Volkmar confessa o serviço que lhe deve por estas 
palavras: «Devemos a este Artista e Escriptor uma série de memorias de 19 
pintores, sem as quaes teríamos de começar o espectáculo d'este Theatro 
Pintoresco no 2.° ou 3.° acto». 

Raczynski, quando andava na elaboração dos seus trabalhos sobre a 
historia artística de Portugal, fez diligencias para encontrar o manuscripto, 
mas não foi bem succedido nas suas buscas, suppondo-o extraviado. 

Felizmente não succede assim e ha uns poucos de annos tive occasião de 
folhear um manuscripto, que não me recordo bem se seria copia ou auto- 
grapho, e do qual tirei algumas breves notas, na espectativa de o poder um 
dia mais circumstanciadamente analysar. Hoje estou arrependido de o não 
ter feito porque o seu possuidor, o sr. Jeronymo Ferreira das Neves, acha-se 
ha muito ausente do nosso pais, ignorando eu a paragem e destino da sua 
magnifica livraria; preciosa por mais de um titulo, não só pela raridade e 
valia das obras, como também pelo seu excellente estado de conservação, 
achando-se a maior parte cFellas ricamente encadernadas. 

A obra de Félix da Costa não se denomina Memorias, como diz Volkmar 
Machado, mas sim — Antiguidade da Arte da Pintura, sua nobresa, Divino e 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 47 

Humano que a exercitou e honras que os Monarchas fizerão a seus Artífices. 
Uma segunda parte tem o seguinte titulo: 

aRezume. Difinição da Pintura e <} lie Arte liberal e nobre. Partes que 
deite ter o perfeito Pintor. Diferença dos Pintores e igualdade da Escultura 
com a Pintura*. 

A terceira, finalmente, é sobrescripta por esta maneira : Index tios Liuros 
que tratão da Pintura e do Debuxo, como de outros das ridas dos Pintores e 
suas obras. 

Félix da Costa era pouco versado no conhecimento da língua portugueza, 
a ajuizar não sú pela redacção dos títulos transcriptos, mas por outras pas- 
sagens da sua obra, na qual dedica dois artigos ao pintor José de Àvellar, 
duplicando á primeira vista a sua personalidade. Parece-me interessante 
reproduzir os dois artigos, no primeiro dos quaes escreve sob a epigraphe 
de Joseph de Avellar Rebello: «A Joseph de Avelar, Pintor, fez mercê o pru- 
dente Rey Dom João o 4.° do habito de Aviz de Sam Bento, declarando em 
seu Aluará, a causa porq o honraua, que dizia assim: 

«Faço mercê do habito de Sam Bento de Aviz a Joseph de Avelar, pof 
Pintor o melhor do seu tempo, para que outros á sua imitação o sigão: 
folgaua m.' conuersar com elle, em a ocazião que pintou em Palácio a casa 
dos instrumentos de musica, a fresco, passando el-Bei parte do tempo em o 
uer pintar, morreo antes antes (sic) de pôr o habito no peito, não por negli- 
gencia sua, mas por lhe faltar este Monarcha por a Parca lhe cortar o fio, e 
serem os bens que possuhia de Pintor Portuguez e assim ficou desamparado 
da boa fortuna qne o esperaua». 

Adeante consagra-lhe as seguintes linhas: «Joseph de Auellar Pintor, 
bomem de gr. de talento, discrição e génio; o seu pintar foi mera curio- 
sidade, com graça particular adjunta ao exercício. Faltou-lhe os meios para 
os fundamentos sólidos da Arte, comtudo pintou muito bem seu painel na 
Igreja de Sam Roque, do menino entre os Doutores; que foi honrado com 
o habito de Auiz pello seu saber>-. 

Procurei em tempos nas chancellarias da Ordem de Aviz e de D. João IV, 
alguma coisa a respeito de José de Avellar, mas as minhas diligencias foram 
infructiferas, o que não é para estranhar, sabendo-se que as honras conce- 
didas por aquelle monarcha não chegaram, por sua morte, a eumprir-se. 
Félix da Costa todavia não phantasiou e duas portarias assignadas em Almei- 
rim a 14 de novembro de 1654 authenticam a veracidade das suas informações. 

N'uma d'ellas manda D. João IV lançar-lhe o habito d'Aviz, e na outra 



48 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

ordena que se lhe dêem trinta mil réis de renda nos bens dos confiscados 
ou ausentes em Gastella. Nesta ultima lêem-se palavras que bem mostram o 
alto apreço em que o tinha o rei, e que raras vezes se encontram em docu- 
mentos de tal ordem. Aqui transcrevo o paragrapho inicial, que resa assim : 
«El-Rey nosso senhor tendo consideração a José de Avellar Rebello, sendo 
homem nobre e de bons parentes, exercitar a arte de pintura e n'ella se 
ter adeantado tanto aos mais, que n'este reino a professam, que para exemplo 
de outros o imitarem, seria razão recebesse de Sua Magestade honra e 
accrescentamento, etc». 

O alto conceito que d'elle fazia o rei, seu protector e amigo, era compar- 
tilhado pelos seus comtemporaneos. 

N'um folheto impresso em Lisboa, em 164o, por Lourenço d'Anvers, e 
intitulado: Poesias compostas na Universidade de Coimbra na ovcasião da 
felicíssima e milagrosa avela mação de D. João IV, etc. vem o seguinte 
poemeto que transcrevo com a competente epigraphe: 

Ao pintor José de Avellar Rebello, auvtor do quadro dos Reis Magos que 
d- rei lhe mandou fazer: 

Soberano piuzel, (sic) tu te condenas 
A não pintar jamais, pois que chegaste 
Rei dos pinzeis, nos Reis, que nos mostraste 
Onde chega o juizo humano apenas. 

Das linhas de Protogenes ordenas 
Grossos cordéis, nas linhas que lançaste 
E em garrote d'invejas lhe trocaste, 
O sutil, em borrões, a gloria, em penas. 

Tudo contemplo Trino em teus primores; 
Painel de três, Pintor, Rei, verdadeiro 
Monarcha, em te oceupar, comtigo humano, 

Elle imita três Reis, tu três pintores, 
Elle Aflbnso, Manuel, 4 João Primeiro, 
Tu Miguel, Raphael, & Ticiano. 

As «Poesias» sairam anonymas, mas são attribuidas a Fr. Thomaz Aranha, 
dominicano, como se pôde vèr a pag. 336 do volume 7.° do Diccionario 
Bibliographico. 

José da Cunha Taborda na Memoria dos mais famosos pintores por- 
tuguezee e dos seus quadros, appensa ás Regras da Arte da pintura, 




S. JERONYMO 
Quadro de José de Avellar Rebello 



Cliché .ie Raphael .l/ivj.» 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 49 

mpressas em. Lisboa em 1815, consagra a pag. 201 um artigo, onde diz que 
ielle fora um dos pintores do seu tempo de maior séquito, e que por suas 
obras não só conseguiu grande reputação, vindo-lhe de todo o reino encom- 
menda delias, mas até tantas riquezas que cnegou a comprar muitas casas, 
e a fabricar outras, de sorte que uma rua inteira era sua, e tomou d'elle o 
nome. 

Creio que Taborda estava sonhando, ou então deixou-se illudir pelas chi- 
meras de algum fabulador, o que é tanto mais para estranhar, quanto é 
certo que elle era um espirito criterioso e amigo de apurar a verdade. Logo 
direi os motivos do meu septicismo, aliás comprovado pelos documentos. 

Taborda não sonhava, deixou-se enganar de boamente, limitando-se a 
traduzir um trecho do Abecedario pittorico dei pelegrino António Orlandi acres- 
cinto de Pietro Guarienti, sem lhe oppôr o indispensável correctivo, nem 
sequer fazer a devida citação. Este trecho reproduziu-o Raçzynski, a pag. 324 
das suas Lettres sur les Arts en Portugal. 

Em seguida Taborda aponta os quadros de Rebello, de que houve noticia, 
ou que ainda chegou a examinar. 

Entre estes últimos avulta o de S. Jeronymo no convento de Santa Maria 
de Belém, o qual estava na livraria, e hoje se encontra no refeitório, pas- 
sando de assistir á mesa do pão de espirito, para presidir á mesa do pão 
corporal. 




Fac-simile da assignatura de José de Avellar Rebello no quadro de S. Jeronymo 

Taborda fala com grandes elogios d'este quadro, já não assim dos da 
vida de S. Caetano, existentes na igreja do convento dos Theatinos, mos- 
trando que Rebello tinha duas maneiras bem differentes de pintar, uma das 
quaes pouco louvável, apreciação que supponho justa. Um d'estes quadros 
que ainda se observa hoje na casa do despacho, tem a seguinte rubrica: 
«Avellar fecit 1655». 
7 



50 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

A debilidade d'estas pinturas explica-se talvez pelo estado enfermiço do 
auctor que d'ali a um anno soltava o derradeiro suspiro. 

Taborda, guiado pelo testemunho de Guarienti e de fr. Apolinário da 
Conceição, dá conta de duas obras importantes de Rebello que haviam des- 
apparecido 1 os quadros da Livraria da Patriarchal, ou antes paços do arce- 
bispo, pintados com muito louvor e applauso, segundo o artista italiano, e 
os quadros ornamentaes do tecto da egreja dos Martyres. Felizmente que 
d'estes últimos nos ficou um elenco, ainda que breve, curioso, na Demonstra- 
rão Histórica, do sobredito fr. Apolinário, trecho que passo a transcrever : 

«Elegerão para esta obra o melhor Pintor que havia então em Lisboa, 
José de Avelar Rebello, que em sua manufactura levou quasi nove annos, 
pondo-se os últimos painéis no tecto da Igreja no de 1648. Erão por 
todos setenta e dois, e cada um de onze palmos de comprido, e oito de largo, 
distribuídos em oito fileiras cada uma com nove, que firmavão sobre as 
cimalhas das paredes, e contestavão com os frontespicios interiores do corpo 
da Igreja. Estavão com largas molduras, e nos repartimentos com pinhas, ou 
florões tudo sobredourado que, junto com o singular da pintura, represen- 
tava-se aos olhos um devoto Ceo, no qual estava historiado toda a vida de 
Christo nosso Redemptor desde a Annunciação até à vinda do Espirito Santo. 
De cada um destes quadros levou o Pintor onze mil e duzentos réis». 

Estes quadros não foram destruidos pelo terremoto, mas sim apeados 
anteriormente em 1746, para se proceder ao levantamento do tecto da egreja, 
que foi construído em gesso pelo notável artista italiano João Grossi. Não se 
sabe o que fizeram dos quadros de Rebello, pois, se estivessem em bom 
estado de conservação, muito bem se poderiam aproveitar, collocando-os em 
outro sitio. No novo tecto executou Vieira Lusitano um grande painel, re- 
presentando a tomada de Lisboa por D. Affonso Henriques, obra que pouco 
tempo durou, sendo destruída pelo terremoto. Felizmente no cartório da 
actual egreja dos Martyres conserva-se um desenho a sanguínea, em que 
ficou perpetuada a ideia do vigoroso trabalho de Vieira. O sr. visconde 
de Castilho reproduziu-o no volume V dos Bairros Orientaes da sua Lis- 
boa Antiga, onde o leitor encontrará curiosas informações sobre este as- 
sumpto. 

Taborda termina declarando que ignorava o tempo da sua morte, quem 
fosse o seu mestre e os discípulos que estudaram com elle. 

Cyrillo Volkmar Machado, na sua Collecção de Memorias (Lisboa 1823) 
quasi que nada mais adeanta no breve artigo que lhe dedica a pag. 76, e no 
qual fundiu os dois de Félix da Costa, utilisando-se egualmente do de Ta- 



NOTICIA DE ALGr.NS PINTORES 51 

borda. Apenas accrescenta um pormenor, quando diz que na portaria do 
convento de S. Bento ha um grandíssimo painel do Triumpho de N. Senhora, 
pintado em 1636 e em cujo friso, segundo ouvira a Pedru Alexandrino, 
estava o nome de Avellar. 

Se esta informação é verdadeira e a data incontestável, deixa de ter fun- 
damento o reparo que fiz acerca dos quadros da vida de S. Caetano, sendo 
uns e outros do mesmo anão. 

Cyrillo parece ter visto ainda na portaria de S. Bento a tela do Triumpho 
ile N. Senhora a qual de certo, pela extineção das ordens religiosas, pas- 
sou para a Academia de Bellas Artes, onde deve existir, se não se extra- 
viou ou destruiu. Quanto seria para estimar que no catalogo da galeria do 
palácio das Janellas Verdes se procurasse indicar com o máximo escrúpulo 
a procedência dos quadros, para assim se ficar melhor sabendo a sua 
historia ! 

O conde de Baczynski, no seu livro Les Arts en Portugal, faz concisa- 
mente varias referencias a José de Avellar. A paginas 289 fala muito lisonjei- 
ramente do quadro da egreja de S. Roque, O menino entre os doutores, dizendo 
que é um dos melhores, que se observam naquelle templo. Accrescenta que 
elle lhe deu uma boa ideia do seu auctor. pareeendo-lhe estar em frente de um 
Brusasorei ou Farinati de Verona. O artigo que lhe consagra no Dictionnaire 
é uma compilação do que se lè em outros auctores. 

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa existe uma tela, representando D. João 
IV, a qual está subscripta (Testa forma: Avellar. fecit. 1643. 

O rosto do livro Applausos da Universidade a el-rei Nosso Senhor D. João IV, 
impresso em Coimbra em 156!, é do buril do gravador Floriano, sendo o 
desenho de Avellar. 

Expuz as noticias que me deram alguns escriptores acerca de José de 
Avellar: deduzirei agora dos documentos algumas informações, parte das 
quaes ampliam o eme já se sabia, e outra parte o rectificam. O documento, 
sem duvida, de maior importância é o seu testamento, que se acha registado, 
entre milhares de outros, no Archivo da Relação de Lisboa, d'onde gentil- 
mente me foi communicado o seu conteúdo, pelo sr. Augusto de Castro, ze* 
loso funecionario d'aquelle tribunal, a quem patenteio aqui o meu reconhe- 
cimento. 

Por elle se verifica que José de Avellar residia numa casa, á Cruz da 
Pedra, estrada de Bemfica, freguezia de Nossa Senhora do Amparo. Ali, a 
13 de outubro de 1657, determinou exarar a sua ultima vontade, no que foi 
coadjuvado pelo padre Armão Goosens, com toda a probabilidade allemão, que 
escreveu e assignou a cédula testamentária, por o testador não o poder fazer, 
embora se achasse em pleno uso das suas faculdades. Effectivamente, o estado 



52 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

do enfermo era tão melindroso, que pouco mais tempo duraria, vindo a fal- 
lecer no dia 14, conforme se mostra pelo termo de abertura, effectuado pelo 
cura da freguezia, o padre Domingos João. 

Segundo o formulário dos instrumentos d'esta natureza, José de Avellar 
principia por tratar do que mais convém á sua alma, ordenando que o seu 
cadáver, envolto no habito dominicano, seja sepulto no visiono convento de 
S. Domingos de Bemíica, a cujo prior e confrades manda dar a esmola que 
se ajuste, por elle testador ser muito pobre. 

Á primeira vista .esta clausula produz extraordinária surpresa, repugnando 
admittir que um individuo, falho completamente de recursos, queira fazer 
disposições testamentárias, quando tem legitima herdeira sua mulher, a quem 
bastaria deixar alguns apontamentos particulares, que lhe servissem de orien- 
tação nos seus nogocios pendentes. A phrase todavia explica-se, ou por 
excessiva, ou porque José de Avellar desejasse tornar bem publicas certas 
cousas. Além disso, o caso não é insólito, e até talvez fosse vulgar. Tenho 
aqui á mão o testamento de Francisco Velho, mestre das ferrarias de Barca- 
rena, feito a 16 de janeiro de 1633, o qual, apesar de bastante extenso, só 
encerra verbas insignificantes, declarando por ultimo o testador: não trato 
de erdeiro, por que não tenho que se possa erdar, mais que o que aqui tenho 
dito. 

Avellar refere-se ao habito de Aviz com a respectiva tença de trinta mil 
reis, mercê que se não effectuára, não só pela prolongada doença do agra- 
ciado, como também por occorrer o fallecimento d'el-rei. Pede, portanto, ao 
novo monarcha que, em attenção aos seus serviços, transfira a tença para 
sua mulher «D. Joanna de Andrade, por quanto é uma mulher de muita quali- 
dade, e não fica em estado de casar se não muito pobre, etc.» Esta supplica, 
feita á hora da morte, parece não ter obtido [despacho favorável, pois não 
se encontra nas chancellarias registo de resolução a tal respeito. A mercê, 
porém, muitos annos depois foi concedida a um descendente do supplicante, 
como abaixo direi. 

Avellar nomeou por testamenteiro ao seu amigo o licenceado Jorge Car- 
doso, o conceituado auctor do Agiologio Lusitano, obra ainda hoje digna de 
merecido apreço. A elle, em recompensa do seu trabalho, lhe deixou o painel 
de S. Thomé, que el-rei lhe encommendára para a cape lia real, tendo-lhe 
dado vinte mil réis, para ajuda de custo. 

Jorge Cardoso tinha um irmão, Francisco Cardoso, que figura também no 
testamento.. 

Um dos trechos mais curiosos do testamento é aquelle em que Avellar 
enumera os seus credores e as peças que lhes deu para garantia das dividas 
— algumas jóias e objectos de prata entre os quaes um cálix com sua patena. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 53 

Este inventariosiiiho parece demonstrar que o nosso artista não era tão 
pobre como se dizia ou fazia e que, se porventura cairá na penúria, já 
possuirá alguma coisa, pelo menos a dourada mediania decantada em 
Horácio. 

O testamento foi approvado pelo tahellião Luis do Soveral perante algumas 
pessoas, cujos nomes merecem ficar aqui apontados, mostrando as boas re- 
lações do testador. São ellas: o capitão Manuel de Vasconcellos de Amaral, 
morador em Palma de Baixo; o dr. Manuel da Silveira Correia, morador na 
Cruz da Pedra, na quinta de Francisco Fernandes Furna; Manuel Serrão, 
barbeiro, morador no logar de Carnide ; Filipe e Manuel Serrão Pimentel, 
moradores na quinta das Laranjeiras de seu pae Jeronymo Serrão Pimentel ; 
António Correia dWzevedo, arcediago de Penella. 

A quinta das Laranjeiras, dos herdeiros do conde de Burnay, e onde se 
acha estabelecido o Jardim Zoológico, pertenceu, como se vê, á família de 
Luiz Serrão Pimentel, cosmographo-mór do reino. Seria curioso estabelecer 
a serie dos seus possuidores, até o conde de Farrobo, que tanto a embellezou, 
tornando-a celebre pelo esplendor das festas que ali deu. 

Já acima me referi ás duas portarias de D. João IV, concedendo o habito 
de Aviz a José de Avellar. N'uma d'ellas lè-se uma apostilla importante, onde 
se declara que D. Pedro II, por portaria de 9 de maio de 1692, concedera 
aquella mercê a Manuel de Avellar de Sousa, filho natural de José de Avellar 
Hebello, cujos serviços levaram trinta e cinco annos a ser compensados. 

Em 28 de abril de 1702 o mesmo monarcha permittiu que os trinta mil 
réis de tença fossem repartidos por Maria da Conceição e Maria Josefa, ca- 
bendo dezesete mil á primeira e treze mil á segunda, isto a pedido de Ma- 
nuel de Avellar de Sousa, sem todavia se declarar quem ellas fossem, e por 
que motivo se fez a partilha. 

Infelizmente não existem as provanças, a que decerto procederia Manuel 
de Avellar para receber o habito de Aviz, ficando nós assim inhibidos de 
alcançar qualquer particularidade da sua vida. 

No termo da abertura do testamento, depois da assignatura do cura Do- 
mingos João, lê-se a assignatura de Manuel de Avellar de Sousa, que talvez 
fosse quem apresentasse aquelle instrumento. Esta circumstancia indica, em 
meu fraco intender, que o filho de Avellar Rebello, ou vivia na companhia 
do pae ao tempo do seu fallecimento, ou era ali recebido com intimidade, 
desempenhando-se d'aquella incumbência. 

Graças á gentilesa do meu velho amigo e condiscípulo o rev. prior de 
Bemfica, que franqueou o seu cartório a pessoa intendida, posso dar uns 
retoques mais, e accrescentar mais alguns apontamentos na biographia do 
nosso artista. 



54 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

O exame recaiu sobre o «Livro terceiro dos baptismos, matrimónios e 
óbitos da freguezia de Nossa Senhora do Amparo de Bemfica». É um volume 
in-folio pequeno, com capa de pergaminho cortada de algum livro de coro, 
cuja notação musical conserva. Cada uma das partes tem numeração espe- 
cial, principiando todas em 1633, e acabando a primeira em 1673, a segunda 
em 1671 e a terceira em 1678. 

Na ultima, na fl. 7, é que vem o assento do óbito de José de Avellar, 
substituído o appelido «Rebello» pelo de «Carvalho», substituição que não 
sei explicar, a não ser por equivoco do padre cura Domingos João, que 
foi quem lavrou este termo, assim como lavrara o da abertura do testa- 
mento. 

Outro equivoco commetteu ainda, exarando que elle fallecera a quinze de 
outubro, quando a cédula testamentária foi aberta a quatorze. Grande falta 
de memoria, ou grande falta de attenção ! Diz mais que elle morrera com 
todos os sacramentos, que «está enterrado» no convento de S. Domingos de 
Bemfica e que fizera testamento a sua mulher D. Joanna. 

José de Avellar, bem poucos dias antes de expirar, soffreu um golpe 
cruel com a morte de sua mãe Sebastiana de Avellar, que falleceu a cinco 
do mesmo mez e anno, segundo se lè no respectivo assento exarado na pagina 
anterior do referido livro, sem declarar o seu estado, ou outra qualquer par- 
ticularidade. 

O padre Armão Goosens, que foi quem escreveu o testamento de José de 
Avellar, deixou de existir a seis de dezembro de 1671, como se deprehende 
do respectivo assento inscripto a fl. 12 v. do mesmo livro. Foi enterrado no 
convento de S. Domingos de Lisboa e fez testamento a favor de seu irmão 
António Goosens. 

Fecharei esta lista funerária com o padre Domingos João, que não havia 
de ficar perpetuamente a dar baixa no livro da vida aos seus freguezes. 
Coube-lhe também o sorte a dois de novembro de 1677. 

Foi enterrado no meio da egreja defronte da porta travessa. 

Fez testamento nomeando para seu testamenteiro a Manuel Soares de 
Brito. O seu termo de óbito foi lavrado a fl. 41 pelo padre Francisco Jorge 
da Costa. 

Registo do testam. 10 de Joseph de Avelar 

«Em nome da S. ma Trindade P. e F.° e Espirito S. t0 em que eu bem e ver- 
dadr a m. te creio faso saber eu Joseph de Avelar m. or na freg. a de Nosa Snãr do 
Emparo de Bemfica como estando eu doente em cama mas com todo meu pre- 
feito juizo q Ds noso Snõr medeu não sabendo quando Ds noso Snõr será ser- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



55 



vii In levar me p. a si temendo a hora de minha morte p. a descargo de minha 
consiencia quero e ordeno este meu testam. 10 na forma seg. te primeiram. 10 emco- 
mendo minha alma a I)s noso Snõr q a criou e remío com seu presioso sange e 
tomo per avogada a virgem nosa Snãr e a todos os S. tos da corte do ceu, digo, 
do paraizo p. a q Ds noso Snõr me perdoie meus pecados e leve minha alma a 
sua S. ,a gloria p. a q foi criada Amen. Sendo Noso Snõr servido levar me 
p. a si desta doensa prezente quero q meu corpo seja sepultado no Conv. 10 de 
São domingos de hemfiqua e me acompanhem os religiosos dele e peso ao 
R. do prior e mais religiosos me dem o abito do' glorioso São domingos a 
esmola será o çj meus testamenteiros ordenarem per eu fiquar m. t0 pobre o 
mais toquante a sepultura e sufrágios pela minha alma fará dona ioana 
declaro q entre meus bens me tinha sua Mg. dc feito merse de trinta mil rés 
efeitiuos p. a aver de os ter com híí abito de São bento e me tinha mandado 
lansar e por q a merse não teve ifeito per causa de minha doensa ser tão 
prelongada e sobrevir a morte delrei noso Snõr q Ds tem em gloria peso a 
sua mg. dl ' q Ds g. de visto os servisos q fiz a seu pai elrei q Ds tem em gloria 
será servido fazer esta tensa a minha molher dona Joana de Andrade e o 
mais q se me dever de meus servisos por q. 10 he nua molher de m. ,a eali- 
dade e não fica em estado de casar senão m. t0 pobre e v. las as grandes con- 
siderasois com q Sua Mg. de me fes merse conforme o seu decreto q deixo a 
minha molher declaro q não tenho pai nê mai nê erdr. algfl forsado e por- 
tanto pelas m. las obrigasois q devo a minha molher dona ioana de andrade 
ordeno e quero q seia minha erdr. a universal de tudo o q se achar meu e 
de todos os meus bens ávidos e per aver e testamentr. a de todos eles e 
iuntam.' 6 ordeno por meu testamentr. ao l. d0 iorge Cardoso a quem peso 
m. t0 a acompanhe em tudo e fasa o mesmo ofisio per me fazer esmola e 
merse conforme nosa m. ta amisade deixo hu painel do apostolo São Thomé 
q sua mg. de q Ds tem me tinha mandado fazer p. a a sua Capela real a conta 
dele me tinha mandado dar vinte mil rês p. a o pano e ainda de custo declaro 
q em casa do capitão Ant.° pinto do rego ia defunto tenho empenhado hu 
prato de agoa as maõs com seo jaro em vinte mil rês as quais pesas são de 
prata mais em casa de rui de ceita ferão tenho empenhada huã cadea de 
ouro de huã volta soldada em quinze mil rês tinha dado alexandre de re- 
zende huã palangana de prata de pontas e outra mais piquena e quatro 
tijelas taõ bem de prata sobre o q me tinha dado dezouto mil rês na comfor- 
midade de hu escrito meu q ele tem seu poder tenho mais nas desimas outra 
palangana de prata em poder de iose vãs procurador das desimas a qual 
esta empenhada, até pagar nove mil rês seis sentos e noventa rês ou com- 
forme se achar pelo escrito do feitor de fr. co de melo mais outra palangana 
de prata em casa de m. a coresma por seis mil rês mais em casa de iorge 



56 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

lopes da gama o qual lie de prata hu saleiro de prata en seis mil rês mais 
em casa de iorge dias brandão hu calis de prata com sua patena em seis 
mil rês em casa do mesmo iorge dias brandão hu anel de sinco esmeraldas 
em crus e huã sortiga de três diamantes no q toqua a Imã quarta de prata 
e hu ioa de pérolas grande q dei a fr. c0 cardoso irmão do p. e iorge cardoso 
p. a dar satisfasão per mi a dona anna leitoa q Ds lhe perdoie deixo na ver- 
dade de nosas contas asi mais alguas contas q com o p. e iorge cardoso tiver 
deixo na sua verdade devo a m. el da silvr. a na rua nova dous pares de meãs 
de seda tive com tomas lopes ia defunto hu xesso de contas em q ouve ero 
e como dando se com minha molher deixo se lhe page tudo o mais q se 
achar dever deixo a minha molher me tire a pas e a salvo e desemcarege 
minha consiensia por q ela tudo sabe a quem he e constava por meus escritos 
e por aqui hei per acabado este meu testam. 10 o qual quero q tenha vigor em 
iuiso e fora dele por ser minha ultima vontade e por este revogo qualquer 
outro q em algu tenpo tenha feito por q so este quero q tenha forsa e vigor 
e por não poder escrever toguei ao p. e Armão Goosens q este por mi fisesse 
e como test. a asinase oje trese de outubro do 1657 annos o qual fls e asinei 
a rogo do testador iose de avelar rabelo Armão Goosens diz a entrelinha 
asima na seg. da regra em casa de iorge lopes da gama hu saleiro o qual he 
de prata». 

Approvação 

«Saibaõ q. ,os este istrum. 10 de aprovasão ultima vontade virem q no aimo 
do nasim. 10 de noso Snõr Jhesu xpõ de 1657 anos aos trese dias do mes de 
outubro do ano em a estrada de bemfiqua aonde chamão a Cruz da pedra 
em as casas da morada de iose de avelar rabelo sendo ele presente em 
sua pesoa lansado em cama doente de doensa q ds noso Snõr lhe quiz 
dar mas em todo seu siso e iuiso e emtendim.' segundo pareser de mi t. am 
e das tes. las q presentes estavão ao diante nomeadas e logo das suas mãos 
digo e logo das mãos do d. iose de avelar rabelo as de mi t. am me foi 
dado o testam. 10 atras escrito em duas laudas e quase meia de papel atras 
escritas e respondendo me o d. iose de avelar rabelo ao q eu t. am lhe pre- 
guntei dise era seu e q lho fizera a seu rogo o p. e Armão Goosens clérigo 
de misa e dipois de feito lho lera a sua vontade e per estar tudo nele escrito 
q. 10 ele testador mandara e quiria o asinase com ele e portanto o aprova e 
ratefica e ha tudo nele declarado por sua boa e firme vontade pelo qual dise 
revoga e anula e ha per de nenhu efeito forsa nê vigor outro qualquer tes- 
tam. 10 sedula aprovasão codesilho q antes deste tenha feito e so este quer tj 
valha e se cumpra e guarde tanto inteiram. le q.*° nele se contem e pede as 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



57 



justisas de sua mg. 116 q ds g. Je lho fasão cunprir e guardar por esta ser sua 
ultima e deradr." vontade test. Us q presentes estavão chamadas e rogadas 
por p. le dele testador q todos o conhesemos o capitão m. el de Vasconcelos de 
amarai m. or em o lugar de palma de baixo o doutor m. el da silvr. a Coreia 
ora m. or a Cruz da pedra na quinta de fr. co Fernandes Furna e m. el serão 
barbr. m. or no lugar de Carnide e filipe serão pimentel m. or as larangeiras 
na quinta de seu pai ierolimo serão pimentel e m. el serão pimentel f.° do d. 
ierolimo serão pimentel e ant.° corea dasevedo arsidiago q dise ser da vila 
de penela da see de Coimbra q todos aqui asinarão com o testador e eu 
Luis do Soveral escrivão e t. am em o iulgado de Carnide e bemfiqua pela 
Camará m. t0 senpre nobre leal c. de iaques alves o asinei de meu p. co sinal 
e raso e custumado dia mes e anno. Comtiudo no prensipio daprovasão iose 
de avelar rebelo m. el da silvr. a corea m. el róis filipe serão pimentel ant.° 
corea de asevedo m. el de vasconselos e amarai m. el serão pimentel. Em test. 
de verdade Luis do Soveral». 

Abertura 



«CerteGco eu o p. e d. ' ioão cura da igr. a de nosa Snãr do emparo do 
lugar de bemfica q eu abri o testam. 10 presente o qual estava cosido com 
linha branqua e lacrado escrito em duas laudas e meia sem emtrelinha nê 
boradura nê cousa q duvida fasa aprovado pelo t. am Luis do Soveral em fe 
do qual pasei a presente oje quatorse de outubro de 1657 annos. O cura 
domingos ioão. M. el do Avellar de Souza». 



«El Rey Nosso Senhor tendo consideração a Joseph de Avelar Rebello 
sendo homem nobre e de bons parentes exercitar a arte de pintura e nella 
se ter adiantado tanto aos mays que neste Reino a profeção que para exemplo 
de outros a imitarem seria rezão recebesse de S. Mg. de honra e acrescenta- 
mento Ha por bem fazer-lhe mercê de 30;)000 reis de renda em alguns bens 
de confiscados ou absentes em Castella que elle apontar para os ter com o 
habito de S. Rento de Avis que lhe tem mandado lançar. Almeirim 14 de 
Novembro de 1654. 

«El Rey Nosso Senhor Ha por bem de mandar lançar o habito de São 

Rento de Avis a Joseph do Avelar Rabello para o ter com 30#000 reis de 

renda em bens de confiscados ou abzentes que elle apontar dos quais lhe tem 

feito mercê de promeça e manda que para haver de receber o habito se lhe 

8 



58 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

facão as provenças e habilitações de sua pessoa na forma dos estatutos e 
definições da Ordem. Almeirim a 14 de Novembro de 1654. 

«Á margem: Em satisfação da mercê que conthem esta Portaria a fes S. 
Mg. de a Manuel do Avelar de Sousa, filho natural do dito Joseph do Avelar 
do habito de Avis e dos 305000 reis os quaes se lhe mandarão assentar nos 
almoxarifados do Reino tudo por Portaria de 9 de Mayo de 692b*. 

«Ouve S. Mag. de por bem tendo respeito a pertencer por sentença do 
juizo das justificações a Manuel de Avelar de Souza, filho natural de Joseph 
de Avellar de Rebello a aução de poder requerer a mercê do habito de Aviz 
e 30)5000 reis de renda em alguns bens de confiscados ou auzentes em Castella 
com que o dito seu Pay foi respondido por portaria de 14 de Novembro de 
654 que não chegou a lograr; houve S. Mag. de por bem fazer-lhe mercê que 
nelle tivesse effeito a dita mercê do habito de Aviz que lhe tinha mandado 
lançar e os 30#000 os quais se lhe asentassem em hum dos Almoxarifados 
do Reino em que coubessem sem prejuizo de terceiro e não houvesse prohi- 
bição cujo vencimento seria na forma da sua ordem e delles lograsse 12 a 
titulo do mesmo habito ; e tendo respeito S. Mag. de outrosim ao que se lhe 
reprezentou por parte de Manuel do Avellar de Sousa em razão de ser deffe- 
rido pela portaria asima escrita com 305000 de tença effectiva doze delies 
com o habito de Aviz e sendo-Ihe feita esta mercê no anno de 692 não ter 
effeito athe o prezente pela sua muita pobreza e idade e dezejar renunciar 
hiia e outra couza em quem lhe parecesse e que tendo S. Mag. de conside- 
ração e ao mais que por sua parte se reprezentou: Hei por bem fazer lhe 
mercê que os 30-5000 reis refferidos seja delles 17 para Maria da Conceição 
para que os pedio por quanto dos 13 que faltão a cumprimento dos 30 se 
ha de passar padrão delles a Maria Josepha para quem também os pedio, os 
quaes 175000 reis de tença lhe hão de ser assentados em hum dos almoxa- 
rifados do Reino em que couberem sem prejuizo de terceiro e não houver 
prohibição e o vencimento delles de 23 de Novembro do anno passado de 
1701, dia em que S. Mag. de lhe fes esta mercê the o do asento será na forma 
que o dito Senhor for servido rezolver na consulta que se lhe fes pelo Con- 
selho da Fazenda e esta mercê lhe fazem (sic.) a clauzula geral na forma do 
decreto de 17 de Janeiro de 689. De que lhe foi passado Padrãoo qual foi 
feito a 28 de Abril de 1702. 

«■Ouve S. Mag. de por bem pelos mesmos respeitos declarados no assento 



1 Livro II das Portarias do Reino, pag. 511. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 59 

asima fazer mercê ao mesmo Manuel do Avellar de Sousa que os trinta mil 
reis refferidos sejão delles treze para Maria Josepha para quem os pedio por 
quanto dos 17 que faltão a cumprimento dos 30 se passou padrão delles a 
Maria da Conceição para quem também os pedio os quaes 13&000 de tença 
lhe hão de ser asentados em hum dos almoxarifados do Reino em que cou- 
berem sem prejuízo de 3.° e não houver prohibição e o vencimento delles 
de 23 de Novembro do anno passado de 701 dia em que S. Mag. de lhe fes 
esta mercê thé o do asento será ua forma que o dito Senhor for servido re- 
zolver na consulta que se lhe fes pelo Conselho da Fazenda e esta mercê lhe 
fez com a clauzula geral na forma do decreto de 17 de Janeiro de 689. De 
que lhe foi passado Padrão, o qual foi feito a 29 de abril de 1702» '. 

«Aos quinze doutubro de seis centos e cincoenta e sete, falleceu Joseph 
de Avellar de Carvalho, o Pintor, com todos os Sacramentos da Igreja, está 
enterrado no Convento de S. Domingos de Bemlica, fez testamento á sua 
mulher D. Joanna. O cura D. os João». 

«Aos sinco de oitubro de seis centos e sincoenta e sete faleceo Sebastiana 
do Auellar may de Joseph de Auelar, morador a Crus de pedra, está enter- 
rada no conuento de S. Domingos de Bemfica não fez testamento. O cura 
Domingos João» *. 

«Aos seis de Dezembro de mil e seis centos e satenta e hu faleceo o 
padre Armão Gonces (Gooscns) está enterrado no convento de São Domingos 
de Lisboa, fez testamento a seu irmão António Gonces. O Cura Domingos 



«Aos dois dias do mes de nouembro de seis centos e setenta e sete fale- 
ceo o Padre Domingos João, está enterrado no meio da igreja defronte da 
porta travessa, fes Testamento, foi Testamenteiro Manoel Soares de Brito. 
— O padre Francisco Jorge da Costa» 4 . 



VIU. — Ayres de Andrade (Caetano). — Trabalhou nas obras do Real Paço 
d' Ajuda, primeiramente como ajudante de Domingos António de Sequeira e, 



1 Registo de mercês de D. Pedro II, liv. li, fl. 418 v. 

2 Livro dos óbitos da freguesia de Bemiiea de 1657 a 1678 ti. 6 v.° 

3 Id... id., fl. 32 v." 
» Id., id., fl. 41. 



60 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



mais tarde, quando este artista saiu do reino, sob a sua própria inspiração. 
Conheço d'elle dois requerimentos, um de 22 de setembro de 1825, outro de 
29 de julho de 1830, nos quaes, expondo os trabalhos que executou na re- 
ferida obra, pede melhoria de situação. 

Raczynski inscreve-o no seu Dictionnaire, como sendo professor na 
Escola de Bellas Artes em 1843, e de 56 annos de idade approximada- 
mente. 

«Senhor, diz Caetano Ayres de Andrade, Pintor de Figura classificado em 
Ajudante na Obra do Real Palácio da Ajuda, para onde foi a ter exercicio 
por Ordem de Vossa Magestade, em Agosto de 1823, que obteve em 1817, 
em virtude do seu préstimo, o vencimento de 800 reis diários, por Portaria 
da Regência do Reino datada de 26 de Agosto do dito anno, como discípulo 
do Artista Sequeira primeiro Pintor da Real Camará de Vossa Mag. de , e que 
sempre desempenhou com actividade e perícia os trabalhos de que tem sido 
encumbido no referido exercicio de Ajudante, sendo os mais notáveis os que 
tem praticado na referida Real obra entre os quaes tem executado alguns de 
que tem sido directamente encarregado por determinação do Illustre Inspector 
da mesma, cujos trabalhos o suplicante tem dezenvolvido de si sem direcção 
de nenhum dos Professores ali empregados, pelo que os considera como pro- 
ducções suas ; e tanto pelas expostas razões como por não ter sido emportuno 
a Vossa Mag. de no decurso de oito annos já completos, em cujo prazo só tem 
ambicionado destinguir-se afim de milhor poder servir a Vossa Mag. de Vai 
reverente aos Pez de V. Mag. de , a exemplo daquelles seus colegas a quem 
em idênticas sirconstancias se tem dignado atender, a rogar a V. Mag. de a 
graça do assçço no seu ordenado, como for compatível com as sirconstancias 
do Estado, e com a justiça de que o Suplicante se fez credor, pede a V. 
Mag. de se digne atender as justas razoens e mérito do suplicante, conferindo-lhe 
a graça que mui respeitozamente emplora. — E. R. M. ce . — Em 22 de Se- 
tembro de 1825. — Caetano Aires de Andrade». l 

«Senhor — Diz Caetano Aires de Andrade Pintor de Figura Histórica ao 
Real serviço por Portaria da Regência do Reino datada de 26.de Agosto de 
1817, na conformidade do Decreto de 29 de Julho de 1802, que regula a 
admissão dos Pintores da referida classe para a obra do Real Palácio da 
Ajuda que sendo desde 1803 Descipulo do Primeiro Pintor da Real Camará 
e Corte Domingos António de Sequeira mereceo pela sua aplicação e perícia 



Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



6i 



o dito despacho e bem assim que tendo sido empregado como Ajudante do 
referido Artista em varias obras do Estado foi pela sabida do dito para fora 
do Reino e por Ordem do Augusto Pai de V. Mag. de de saudoza Memoria, a 
ter o exercício de sua arte na mencionada Obra, aonde tem dezempenhado 
com disvello os trabalhos que existem nas sallas da mesma, sendo os mais 
recentes os que executou nos Quartos do andar nobre entre os quaes ha hum 
gabinete de seu dezenho do qual dirigio a exicução. 

«O supplicante a exemplo do quanto na dita Real Obra tem sido aumentado 
por vezes successivas, Praticantes de bem pouco estudo e idade e Ajudantes, 
estando nuns igualados ao vencimento deste e outros com pouco menos, bem 
como em confronto com o que percebem os Pintores Ornatistas para quem o 
suplicante tem riscado, e encaminhado vários trabalhos, se reconhece muito 
atrazado em entereces sendo portanto dos do seu Ramo quem tem menos, o 
que lhe promove precizão, podendo fazer serto a V. Mag. de que nem a falta 
de préstimo manifestado, nem a de assiduidade, tenhão sido cauza contri- 
buinte, mas sim o respeito a V. Mag. de não lhe querendo ser emportuno e 
debaixo de tão verdadeiros e sinceros princípios o suplicante se perçoade 
que sendo as retas intençoens de V. Mag. dc , o evitar-se o abuso nas repar- 
tições, são igualmente as de que se não falte ao premio a quem tem mere- 
cimento, razão pela qual P. a V. Mag. de se digne conferir-lhe hum aumento que 
sendo compatível com as sircunstancias da mencionada obra, o possa ser 
com a justiça de que se julga credor. Em 29 de Julho de 1830. Caetano 
Aires de Andrade. E. R. M. ce » *. 



IX. — Azevedo (José Joaquim de). —Em 1772 pintou, por 7jJ200 réis, a 
bandeira que se fez para uma das tumbas da Santa Casa da Misericórdia de 
Lisboa. Passou o respectivo recibo em 7 de outubro do mesmo anno. Archivo 
da Misericórdia, Papeis antigos, maço 1.° Tmnbas. 



X. — Baptista Ribeiro (João). — Vide Ribeiro (João Baptista). 



XI. — Barreto (António). — Era pintor e morava em Lisboa na rua dos Pi- 
cheleiros. Sua mulher, Genebra Mendes, grandíssima coscovilheira, apresentou-se 
em 4 de outubro de 1553, perante o tribunal do Santo Ofticio a denunciar, 
como judaizante, uma christã-nova, sua vizinha, Catharina Lopes, com quem 



1 Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. 



62 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

dias antes tivera umas desavenças, ficando depois amigas, — que amizade f 
— e além de Catharina Lopes outras pessoas da vizinhança. 

As culpas attribuidas áquelles suppostos delinquentes parecem-nos hoje 
mesquinhas e ridículas, fazem-nos sorrir desdenhosamente, mas n'aqnelle 
tempo levavam aos cárceres e aos potros inquisitoriaes, quando não levavam 
á fogueira. 

Do depoimento de Genebra Mendes, apesar de bastante extenso, não se 
colhe nenhum pormenor que nos revele que qualidade de pintor seria 
António Barreto. 

Eis o documento : 

«Aos quatro dias do mes de outubro de mil b c liij anos em Lixboa na 
casa do despacho da Santa Inquisyção estando hy o Senhor Licenciado Pedro 
Alvarez de Paredes Inquysidor perante elle pareceo Gineuora Mendez molher 
de António Barreto pintor morador nesta cidade na Bua dos Pechaleiros pollo 
Juramento dos Santos Avamgelhos em que pos sua mão denunciou e disse 
que defronte delia denunciante viu hiia Caterina Lopez christaa nova casada 
cuyjo nome do marido nam sabe soomente ouvir dizer que hé batifolha e que 
averá quatro ou cinquo meses pouco mais ou menos veyo a ter a dita Bua 
lulu gemro da dita Caterina Lopez que se chama Amryque Fernandez solici- 
tador de demandas, o qual mora ao chafariz dos cavallos e he casado com 
lula filha da dita Caterina Lopez e estando na Bua a porta da dita sua sogra 
ouue Bezões com a dita Caterina Lopez que estaua a sua porta entendendo 
em sua fruyta que he vendedeyra e o dito Amryque Fernandez dise a dita 
sua sogra que qual era o deus que tal Judarismo sofrya que ella faria serto 
que não sabia o pater noster nem ave marta nem credo nem salve Regina nem 
filha sua, e disse mais pêra saberdes como hê Judia e cadella attentay a sesta 
feyra e veres aquy vir que lhe traz híiu negro pão pêra dar graças ao sá- 
bado, o qual hé christão nouo e dise ahi a bozes que auia de hir a Santa 
Inquisição acusalla e ella declarante chamou o dito Amrique Fernandez e lhe 
dise que elles mesmos erão os que se accusavam e que nynguem os conde- 
nava senam elles mesmos se comdenavão e que nam podia ai fazer ella se 
nam villos acusar e então o dito Amrique Fernandez lhe disse e lhe afirmou 
que era ella hiia grande Judia e que oulhase ella denunciante e viria a sesta 
feyra vir hua negra * e trazer lhe pão pêra o sábado dar graças a deus e 



1 Á margem: do qual dise despois a dita testemunha que a dita negra era da filha de 
mestre Thomás que hé casada com hum letrado e viuem a Sam Joam da Praça e o moço 
que iras lambem pão as ditas sestas feiras a tarde se Recolhe em húas casas junto da 
Conseyção e assy leva o dito moço também pão a húas molheres que vivem a calçada de 
Pay de Nabaes. 



NOTICIA DK ALGUNS PINTORES 



63 



que ella declarante se pos as sestas feiras de emtão a' esta parte e os outros 
dias pella somana pêra ver quando lhe vinha o pão de fora como ouvira ao 
dito Amryque fernandez e via que todas sestas feyras aly junto da boca da noyte 
vinha nua negra ora huu moço pequeno e lhe trazia emvolto em huu pano e fazia 
soma como que era pão e ella denunciante asy lhe parecia que era pão e que 
o dito Amryque Fernandez lhe dysse a ella declarante que lhe mandavão buas 
enristas novas dizendo : aquellas Judias da Conseyção lhe mandam aquelle 
pão nam lhe nomeando quem eram as ditas christãs novas nem como se cha- 
mavão e que a dita Catarina Lopez sua vizinha defromte nunqua a vee aos 
domyngos e festas hyr a myssa a Sam Nycolao nem a outra Igreja de mais 
de huu ano a esta parte que atenta por isso soomente que hua vez foy la 
que a o cura fez hyr por força por o dito seu gemro hir dizer ao cura que a 
fizesse hir a Igreja e quando ella denunciante vay a Igreja diz a hua sua 
filha que tem em casa que será de vimte anos que oulhe se a dita Catarina 
lopez vay a Igreja e a dita sua filha lhe diz que nam e vendo ella declarante 
que a dita christãa nova nam hia a Igreja lhe disse por que nam hia a 
Igreja e ella lhe Respondeo que nam hia porque nam tinha manto e avera 
quatro ou cinquo meses pouco mais ou menos que tem manto e que despois 
que o tem nunqua a vio entrar na Igreja se nam que agora avera três so- 
manas pouco mais ou menos que lhe ella denunciante Rogou que lhe fosse 
fazer christão do (sic) negros pequenos que lhe vieram então foy ser sua ma- 
drinha dos ditos negrinhos, e a dita Catarina Lopez antes de ter manto e 
asy despois de o ter sempre vay a Ribeira em corpo com huu balaio na mão 
buscar as cousas pêra sua venda e que quando por hi passa o Santíssimo 
Sacramento se esta á porta se põem de Joelhos com as mãos alevantadas, 
mas se esta la em cima no sobrado nam na vee chegar a Janella por que 
ella declarante tem muito temto nysso e lhe parece mal o que faz em nam 
acudir a ver ao menos da Janella e acerqua de ella nam hir a myssa poderá 
saber Ana Borges molher de Thome Fernandez pychaleyro e Eva Luis sua 
vizinha molher de Jerónimo Fernandez piehaleyro e Marya de Bragança, e 
que hé lembrada que quando o dito Amryque Fernandez dizia a dita sua 
sogra que lhe trazião pão de casa das Judias, a dita Caterina Lopez respon- 
deo que lho mandava sua ama por esmola e que isto hé verdade pollo Jura- 
mento que tem Recebydo e que o diz por descarego de sua consiencia e ai 
nam dise e do costume dise nada soomente que ha dias que teve com ella 
deferenças de palauras e despois forão amygas e o sam e lhe foy mandado 
ter segredo sobre carrego do juramento e ella asy o prometeu. Manuel 
Cordeyro o escrevi e asiney por ella a seu Rogo. — Manuel Cordeyro. 

«E dise mais a dita Ginevora Mendez que na dita sua Rua na casa onde 
pousa a dita Catarina Lopez christãa nova pousa huu christão novo alfayate 



64 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

que se chama Gaspar Nunez o qual auerá dez annos que pousa na dita casa 
pouco mais ou menos e que aueraa ciuquo que ella denunciante pousa de* 
fronte delle os quaes fará pêra Sam Joam, ver que sempre aos sábados co- 
mumente elle e sua molher comem ao sol posto e os outros dias da somana 
comem como comem os outros cliristãos e vee que aos sábados trabalham 
asy elle como a dita sua molher e que aos domyngos e festas nam na vee 
hir a myssa se nã algua ora por maravilha e porem que ella hé molher que 
crya e porem tampouco quando nam crya nam vay a myssa senam de grande 
maravilha como dito tem e que vay a casa de sua may com seus filhos que 
vive a boa vontade e que na Rua ouue com o dito Gaspar Nunez Rezões 
Ana Rorges e lhe chamou Judeu Judeu que se eu a Santa Inquisyção vou 
dizendo eu direy como vos vejo fazer adefinas (sic) e fazer comeres de di- 
versas maneiras de Judeus e que vio e ouvio que a molher do dito Gaspar 
Nunez cuyjo nome nam sabe estando pêra parir nunqua nomeaua o nome de 
nosso Senhor nem de nossa Senhora e dizendo lhe a parteyra e ella denun- 
ciante que chamasse por o nome de nossa senhora e que ella alumyarya e a 
dita molher de Gaspar Nunez dizia que fará ora o Senhor meu tio, senhora 
tia, e a dita tia a Reprendia que deyxasse seu tio e que chamasse por nossa 
Senhora a dyta molher tornara a dizer que farya ora o senhor seu tio e nun- 
qua nomeou o nome de nosso senhor nem de nossa senhora, e sendo per- 
guntada quanto tempo averya que fora o do parto que nam querya chamar 
por nossa senhora, disse que averya nove anos e o Senhor Inquisidor lhe 
disse que soomente lhe perguntão a ella por o que sabe de cinquo anos a 
esta parte acerqua do que vio fazer e dizer a christãos novos por que o de 
mais tempo lhe estava perdoado por Sua Santidade e ai nam disse e do cos- 
tume disse que já muitas vezes bradarão sobre filhos e porem que agora que 
sam amygas e se falão. Manuel Cordeyro o escrevy e asiney por ella a seu 
Rogo. — O licenciado Pedroallvarcz — Por ella Manuel Cordeyro». ' 



XII. — Barreto (Carlos José). — Delineou de 1730 a 1734, o Antipho- 
nario, em 4 volumes, da Sé do Porto. Veja-se o artigo Rocha de Magalhães 
(PantaleãoJ. 



XIII. —Bernardes de Carvalho (Francisco). — Em 19 de setembro de 1814 
foi admittido como ajudante de pintura na obra do Real Paço d' Ajuda, tendo sido 



1 Torre do Tombo. Livro 3.° de Denuncias da Inquisição de Lisboa, fl. 151. (N.* 104).. 



NOTICIA OK ALGUNS PINTOKES 



65 



discípulo de Archangelo Foschini e ajudante de Bartholomeu António Calixto. 
O governo de 1821 expulsou-o, tendo sido mais tarde readmittido com di- 
minuição de vencimento. Em o de abril de 1830 requereu para que fosse 
melhorada a sua situação, sendo o seu requerimento abonado com os attes- 
tados dos dois artistas acima referidos, que louvam a sua intelligencia, appli- 
cação e bons costumes. Estas certidões são datadas do paço d'Ajuda, a de 
Foschini a 20 de setembro de 1819, e a'de Calixto a 20 de dezembro do 
mesmo anno. 

«Senhor — Diz Francisco Bernardes de Carvalho, Pintor de Figura His- 
tórica, que sendo, nomeado em 19 de setembro de 1814, Ajudante de hum 
dos Professores da mesma Arte Empregado na Decoração das sallas do Real 
Paço d'Ajuda com o vencimento de 800 reis aonde o supplicante trabalha 
effectivamente á 15 para 16 annos tendo sido expulso pello governo de 1821, 
e depois admetido com diminuição de vencimento, como de tudo se pode 
mandar enformar; sempre de então athé ao presente executou segundo seus 
talentos os objectos de que tem sido encarregado com aquella assiduidade 
própria de hum empregado zeloso, o que fás vêr pellos Decomentos juntos 
não tendo no decurso de tantos annos que serve com actividade e préstimo 
como mostra pellos dittos Decumentos augmento algum para mais de tal no- 
meação havendo outros que teem sido augmentados por differentes vezes 
athé ao vencimento de 1000 reis e alguns destes mais modernos que o Sup- 
plicante e prestando menos serviço em utelidade da dita Real Obra : O sup- 
plicante conhecendo de perto as rectas intenções de Vossa Magestade em 
dezejar remunerar os vassallos fieis que de tão boa vontade se prestão no 
Real Serviço (o que fás ver pello 1.° Decumento induzo) e que nas Artes se 
mostrão assíduos, motivo porque o Supplicante se prostra aos Reaes Pés de 
V. Mag. de , supplicando a Graça de mandar por Real Decreto ou Aviso con- 
firmar-lhe como ordenado o dito vencimento de 800 reis que pella ditta no- 
meação de tão decoroso emprego lhe foi conferido pella Nobre Arte que exerce 
(como ja se tem praticado, o que Sub-Inspector da Real Obra poderá Infor- 
mar: Portanto P. a V. Mag. de que attendendo ao que o Supplicante tão hu- 
mildemente expõe e Supplica se digne mandar (em attenção a seu prés- 
timo e antiguidade) como requer, ou como for de boa intenção de V. Mag. de 
Em 5 de Abril de 1830. Francisco Bernardes de Carvalho. E. R. M. ce ». 

«Archangelo Fosquini Cavalleiro na Ordem de Christo Mestre de Pintura 
do Sereníssimo Senhor Infante D. Pedro Carlos que Deos haja em Gloria e 
Pintor da Camera de V. Mag. de Fid. ma que Deos Guarde. Attesto que Fran- 
cisco Bernardes de Carvalho prencipiou a ser meu Descipulo em 1 1 de Ja- 
neiro de 1813 cujo sendo dotado de muito talento e applieação para esta 
9 



66 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Bella Arte tem feito progressos consideráveis no Dezenho e Pintura a óleo a 
proporção do tempo que tem de Estudo e das obrigações que tem como Aju- 
dante do meu Collega Bartholomeu António Calixto cuja obrigação dezempenha 
com cuidado e attenção e no pouco tempo restante que tem para se dedicar 
ao Estudo desta tão nobre Arte procura de aproveitar fazendo Desenhos e 
tirando diversas copias de Painéis Antigos debaixo das minhas vistas e dire- 
cção imitando tanto o Desenho como o dorido dos dittos e segundo o tempo 
que o ditto meu Descipulo tem de Estudo acho que tem aproveitado e adian- 
tado muito e portanto se faz digno da Benigna Contemplação de V. Mag. de 
porque tem qualidades necessárias para esta Bella Arte e huma Conducta 
irreprehensivel e morigerados costumes submissão e respeito ao que lhe 
tenho determinado: E por ser verdade e esta me ser pedida e o mesmo meu 
Descipulo a merecer lhe passei o presente o que certifico de baixo de minha 
palavra de honra. Beal Obra do Novo Paço da Ajuda 20 de setembro de 1819. 
— Archangelo Fosquinh. 

«Bartholomeu António Calixto, Pintor de Historia ao serviço de V. Mag. de 
Fid. que Deos Guarde e hum dos seus Pintores da Camera etc. Attesto que 
Francisco Bernardes de Carvalho Estudante da Arte de Dezenho e Pintura 
(a qual tem frequentado com assiduidade fazendo progressos consideráveis) 
se acha empregado na Beal Obra de Palácio Novo da Ajuda no lugar de meu 
Ajudante por huma Portaria do 111." 10 e Ex. mi> Sr. Visconde de Santarém de 
data de 19 de setembro de 1814, prehenchendo sempre com o Maior cuidado 
e attenção possivel as obrigações do dito lugar que vem a ser dispor em 
grande os cartões dos modelos por mim dados seja nas Paredes seja nos 
Panos apparelhados e diversos outros preparativos necessários para a exe- 
cução das obras ou trabalhos de que sou incumbido para a ditta real Obra 
pertencentes no exercício da mesma Arte fazendo pois o dito meu Ajudante 
caprixo em dezempenhar com muita deligencia e grande satisfação minha 
tudo o que acabo de expor comportando-se com bom procedimento, costumes 
e qualidades. E no pouco tempo restante da sua obrigação se dedica a Es- 
tudar procurando aproveitar fazendo Desenhos e tirando diversas Copias de 
Painéis Antigos imitando escrupulosamente tanto o dezenho como o Clorido 
dos dittos ; E portanto em attenção ao seu modo de proceder, estudo e obri- 
gação que dezempenha se faz merecedor da Benigna Contemplação de V; 
Mag. de : Por ser verdade e esta me ser pedida lhe passei o que certifico. 
Beal Obra do Novo Paço d' Ajuda 20 de Dezembro de 1819. Bartholomeu 
António Calisto». ■ 



' Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. 



NOTICIA DÉ ALGUNS PINTORES 67 

XIV. — Bruneti (Caetano). — Em carta de D. Luis da Cunha, dirigida de 
Madrid á corte portugueza em 8 de dezembro de 1719, lè-se o seguinte 
paragrapho: «e pelo que toca aos setins pintados de Caetano Bruneti farei 
o mesmo». 



XV. — Capisani. — Pintor italiano auctor de um bello retrato de Carlos 
Alberto, offereeido por seu filho Victor Manuel, rei da Sardenha, á Camará 
Municipal do Porto. 



XVI. — Carneiro da Costa (José). — 'Apesar de ser um simples artífice, pare- 
ce-me curioso inserir aqui o seu nome, que resalta de um documento, em que 
vem um attestado de Manuel Piolti, attestado que se torna recommendavel não 
só por ser assignado por aquelle artista, como também por se n'elle fazer 
referencia ao benemérito pintor António Ignacio Vieira, de quem não acho 
noticia em outra parte, trabalhando elle nas obras do palácio d' Ajuda. 

José Carneiro da Costa era empregado na casa das Untas daquelle pa- 
lácio, exereitando-se em as moer. havia já cerca de dez aunos. Em outubro 
de 1826 requereu elle ao director da obra, o architecto Rosa, que lhe fosse 
passado um attestado do seu bom comportamento e serviço. Piolti foi quem 
o passou, como atrás digo. 

«Ulustrissimo Senhor. — Diz José Carneiro da Costa que elle suplicante 
se acha ha nove annos a dez empregado na Casa das Tintas da Real Obra 
do Pallacio, de que Vossa Senhoria hé dignissimo Inspector; no exercício de 
as moer, o qual por certas circumstancias que o acompanhão se lhe fãs pre- 
cizo que Vossa Senhoria haja por bem mandar ao Senhor Manoel Piolti como 
mestre e Arquitecto que hé da Pintura passe ao Supplicante huma attestação 
do bom ou mao serviço que tenha feito na referida Obra. Nestes termos Pede 
a Vossa Senhoria seja servido de assim o mandar. E R. ra Mercê». 

^Despacho. Passe querendo Real obra 27 de outubro de 1826. — Roza*. 

«Attestado. Ulustrissimo Senhor. — Em observância do seu Despacho 
Attesto que conformando-me com o parecer e esperiencia do Benemérito 
Pintor António Ignacio Vieira, que comigo está adjunto nesta Real obra do 
Novo Palácio d'Ajuda acho que o Suplicante Jozé Carneiro tem procedido 
sempre com bom comportamento em seus costumes e com o bom préstimo 



68 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

que hé bem notório. Real obra do Novo Palácio d' Ajuda, em 31 de outubro 
de 18-26. — Manuel Piolti*. l 



XVII. — Carvalho (Domingos).— Pintor, que residia em Lisboa, próximo da 
Sé. Pelos annos de 1337. estando em sua casa Pêro Rodrigues, carpinteiro de 
marcenaria tiveram uma pratica sobre comida, na qual pratica enterrem 
Christovam de Utrecht. Consta isto de um depoimento feito por Pêro Rodri- 
gues no tribunal da Inquisição, a 8 de janeiro de 1541. Censulte-se o artigo 
concernente a Christovam de Utrecht. 



XVIII. —Conceição (Manuel da). — Tendo falleeido Manuel António Silva, 
desenhador de productos uaturaes no Museu e Jardim Rotanico dAjuda, um dos 
pretendentes ao logar foi Manuel da Conceição, a quem António Pedro Lara 
de Carvalho, em officio de 25 de junho de 1833, dirigido ao Conde de Rasto, 
considerava como um dos mais habilitados, já pelas suas aptidões artísticas, 
já como pelo seu comportamento e leaes sentimentos de fidelidade ao sr. 
D. Miguel Primeiro. 

A comprovar estas asserções encontram-se três certificados adjuntos ao 
officio de Lara de Carvalho, sendo dois de Archangelo Fosehini e outro de 
João José Mascarenhas de Azevedo e Silva. O pintor da real camará attesta, 
a 6 de março de 1820, que elle era seu discípulo desde outubro de 1819, 
e que mostrava grande propensão para a nobre arte de pintura, em cujo 
exercido se applicava com egual zelo e gosto. Fosehini morava então na 
rua do Giestal. O segundo attestado tem a data de 23 de junho de 1833, 
foi passado em Relem e n'elle confirma Fosehini o bom juizo que formara 
do seu discipulo, asseverando que elle aproveitara sempre muito no estudo, 
desde que entrara como praticante para a obra do Real Paço d'Ajuda. O 
terceiro attestado, finalmente, de João José Mascarenhas de Azevedo e Silva, 
refere-se aos bons costumes de Manuel da Conceição e á sua fidelidade á 
causa de D. Miguel. 

Em conferencia dos professores que trabalhavam e ensinavam na obra 
do Real Paço d'Ajuda. celebrada em 5 de julho de 1823, vem a seguinte 
apreciação a seu respeito: 

«Manuel da Conceição, idade 19 annos, e de estudo 19 meses;- fez um 
desenho tirado da cabeça de Antino em gesso : foi julgado pelos Artistas 



Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. 



NOTICIA PE ALGUNS PINTORES 69 

digno de passar a praticante de Desenho de l. a classe com o vencimento de 
300 reis: actualmente não tem vencimento». 

Yeja-se o artigo referente a Silva (Manuel António da). 

«Ill. ra0 e Ex. m0 Sr. — Tendo proximamente fallecido Manuel António da 
Silva o único Artista Desenhador destes Reaes Estabelecimentos, e tornando 
este lugar assas necessário, hé do meu dever levar ao Alto Conhecimento de 
V. Ex. a , que entre os Pertendentes, que se me tem appresentado, eu me 
persuado, que deve preferir Manuel da Conceição, que pelo seu bom com- 
portamento, fieis sentimentos, e boa applicação merece a primazia pelos 
motivos que passo a expor. 

«Pelos documentos que me entregou; e que incluzos levo â Presença de 
V. Ex. a consta que em outubro de 1819 principiou a praticar a arte de Pin- 
tor de Figura no Real Palácio d' Ajuda, sendo Discipulo do hábil Fuschini, 
Pintor da Real Camará, com cujo Professor tem athe hoje continuado, con- 
tando de exercício, e pratica 14, tendo neste longo período approveitado como 
consta das duas primeiras attestações, mostrando a terceira a sua adzão á 
Real Pessoa de S. Mag. de : por todos estes princípios, eu o julgo nas circun- 
stancias de occupar o lugar proximamente vago, para o exercer, e disfrutar 
da mesma maneira que o antecessor fallecido e por isso o faço presente a 
V. Ex. a para deliberar como for servido. 

«Deos Guarde a V. Ex. a Real Muzeo e Jardim Rotanico 25 de Junho de 
1833. — IU. m0 e Ex. m0 Sr. Conde de Rasto. — António Pedro Lara de Car- 
valho». 

«Arcangelo Foschini Mestre de Dezenho e Pintura do Ser. m0 Senhor In- 
fante D. Pedro Carlos que Deos ha em Gloria, cavalleiro professo na Ordem 
de Christo, Pintor da Camará e Corte de S. Mag. de Fidellissima. Attesto que 
Manuel da Conceição hé meu Discipulo desde principio do mez de outubro 
do anno de 1819 próximo passado mostrando grande e natural propensão para 
a Nobre e Bella Arte de Pintura ; por cujo motivo lhe comecei a dar os pri- 
meiros Elementos de Dezenho, que tem trasladado com exacção e fidelidade, 
sendo muito assíduo na applicação e atento ás Regras que lhe tenho dado: 
o que tudo dá indicio de ser nascido com o dom e génio próprio para esta 
Bella Arte; e adiantamento e progresso que tem feito hé superior ao tempo 
que tem de estudo; e une a isto numa boa conducta submissão e respeito, 
fazendo-se digno de toda a Protecção para poder continuar a dezenvolver as 
innatas disposiçõis de que a natureza o dotou ; visto ser de Pais pobres e 
faltos de meios próprios para este desenvolvimento, e por ser verdade pas- 



70 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

sei a prezente que certefico debaixo da minha palavra de honra. Rua do 
Giestal. Hoje 6 de Março de 1820. — Arcangelo Foschini». 

«Reconheço o signal supra de Arcangelo Foschini. Lisboa 17 de Mayo 
de 1821. — Em testemunho da verdade Martiniano José Vicente». 

Logar do sello da Causa Publica. «Arcangelo Fosquini Cavalleiro Professo 
na Ordem de Ghristo e condecorado com as Medalhas de Fidelidade e Pintor 
da Camará de S. Mag. de etc. 

«Attesto que Manoel da Conceição Praticante de Pintura no Real Paço 
novo d' Ajuda tem sido meu Discípulo desde o principio que para lá entrou, 
tendo aproveitado as minhas lições tanto no Dezenho como na Pintura com 
grande adiantamento, e continua applicação unindo a isto huma boa conducta 
e óptimos costumes, e por me ser pedida passei a prezente, o juro se ne- 
cessário for. Relem aos 23 de Junho de 1833. — Arcangelo Fosquini. 

«Reconheço o signal supra. Alcântara na Calçada da Tapada, 23 de Junho 
de 1333. Logar do signal publico em testemunho de verdade. — Luiz António 
de Lemos». 

Logar do sello do Censo Publico. «João Jozé Mascarenhas de Azevedo e 
Silva do Conselho de S. Mag. de Fidelíssima e do da Real Fazenda e Estado 
da Casa das Senhoras Raynhas, Vereador do Senado da Camera, Juiz do 
Tombo da Fazenda da Cidade e Prezidente do Deposito Publico, tudo pelo 
Mesmo Augusto Senhor o Senhor D. Miguel Primeiro, que Deos Guarde. 
Attesto e juro sendo necessário, porque sempre juro o que attesto que co- 
nheço com muita particularidade e frequência o Senhor Manuel da Conceição 
e toda a sua família que elle ampara, vivendo com muita regularidade, e sendo 
tão fiel a S. Mag. de o senhor D. Miguel Primeiro, e tão firme em seus puros 
sentimentos de Realeza, que seria muito para dezejar que nenhum Portugnez 
tivesse menos adhesão ao Mesmo Augusto Senhor, por que então nenhum 
Portuguez seguiria parte do contrario, nenhum Portuguez se deixaria allu- 
cinar para seguir rebeldes. E por esta me ser pedida, a passei em abono 
da verdade. Lisboa, 24 de Junho de 1833. — João Jozé Mascarenhas de Aze- 
vedo e Silva». l 



XIX. — Costa Meesen (Félix da). — Já tratei d'este artista no artigo con- 
cernente a José de Avelar Rebello. O apellido Meesen não o encontro nos 
documentos de que tenho noticia, e só o vejo mencionado em Cyrilo Volkmar 



Torre do Tombo. Maço 444 dos papeis do Ministério do Reino. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 71 

Machado (Collecção de Memorias, etc. pag. 82). Accrescentarei agora mais 
alguns interessantes pormenores biographicos. 

Pedro Serrão, estudante de theologia na Universidade de Coimbra, filho 
de António Serrão de Castro, auctor dos Ratos da Inquisição, poema publicado 
por Camillo Castello Branco, padeceu como aquelle os rigores do terrível tri- 
bunal, sendo para notar que as declarações do pae e outros membros da familia 
contribuíssem não pouco para a sua eondemnação. Os laços da mais intima 
consanguinidade não obstavam a estas miseráveis delações mutuas, já pro- 
vocadas pelo medo, já pelo rancor, pervertidos pelo fanatismo ou pelas mais 
desvairadas sugestões, os mais puros affectos, os mais nobres sentimentos, 
os mais piedosos deveres. 

Os processos do pae e do filho merecem ser lidos e cotejados não só 
porque se completam, como também porque offerecem um quadro vivo da 
sociedade da época, quadro em que se destacam algumas personalidades que 
é justo não fiquem em obscuro esquecimento. 

Pedro Serrão que estava preso em 1673 apresentou um rol, bastante ex- 
tenso, de testemunhas de defesa, algumas das quaes todavia não foram inqui- 
ridas. Eis a sua enumeração: 

O padre Bartholomeu do Quental, da congregação do Oratório, de 49 
annos. 

O padre João Lobo, da mesma Congregação, de 45 annos. 

O padre Domingos Martins Vianna, de 35 annos, morador na rua dos 
Escudeiros. 

António Botelho, ourives de ouro, de 42 annos. 

Domingos, latoeiro. 

Francisco de Coimbra, de 45 annos, imaginário, morador na rua dos Ga- 
legos. 

Manoel de Oliveira, livreiro ao Colégio. 

Luis Félix, moço da Capella. 

António de Moraes. 

Maria Boiz. 

Jerónimo Gomes, de 30 annos, violeiro, morador na rua dos Escudeiros. 

Félix da Costa e Brás de Almeida, seu irmão, pintores. 

Francisco Nunes, de 29 annos, latoeiro, morador aos Caldeireiros. 

Manoel Carvalho, de 25 annos, idem, idem. 

Pedro da Bocha, de 30 annos, espadeiro, morador na rua dos Douradores. 

Todos estes indivíduos, os que directamente se filiam com o assumpto de 
que venho tratando, são os dois pintores Félix da Costa e Brás de Almeida, 



72 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

seu irmão, o ultimo dos quaes era completamente desconhecido, ignorando-se 
por conseguinte esta fraternal correlatividade. Ambos moravam, ao que pa- 
rece, na mesma casa na rua dos Calafates, hoje transformada em rua do 
Diário de Noticias. Abaixo dou o depoimento de Félix da Costa e no logar 
competente o de seu irmão Brás de Almeida. 

Ha tempos uma pessoa das relações do meu particular amigo general 
Brito Bebello, foi-o consultar sobre o valor de alguns manuscriptos que dese- 
java vender e a quem o general lhe indicou a conveniência de os apresentar 
á Bibliotheca Nacional de Lisboa. Esta, certamente por motivos muito pon- 
derosos, não os adquiriu, offereeendo uma quantia inferior ao preço que se 
julgava valerem. Entre elles havia um autographo e original de Félix da 
Costa, do qual aquelle illustre escriptor teve a feliz ideia de fazer, para seu 
uso, uma descripção minuciosa, que amavelmente me facultou agora, para a 
poder reproduzir aqui. Vè-se que Félix da Costa, como tantos outros seus 
contemporâneos, aliás pessoas de merecimento, era um sonhador messiânico 
do rei Encuberto e da fundação da monarchia universal, ou quintu império, 
sob o sceptro da Lusitânia. Eis aqui a alludida descripção : 

«Exposição do xi, xn 

e xm Capitules do 

iv livro do Propheta 

Esdras. 

Sobre os acçidentes passados, presentes e futuros 

da resulção do grande, e tremendo Império Othomano 

significado em visão a Esdras, em hua 

Águia, que viu sobia do 

Mar.— 

Igualada a visão e suas particularidades com 

os suecessos que tem havido em o 

mesmo Império, 

E mostrando o fim delle, em o presente Ma- 
hometh quarto que hoje Regna 

Por 
Félix da Costa, Pintor Theorieo, e Pra- 
tico. Didicado ao Augusto varão 
Rey Encuberto, que hade des- 
truir esta Águia, Otho- 
mana, Como Leão. 
Em Lix.» an" 1687 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 73 

4. u de 235 foi. numeradas até a 72 e sem numeração dahi em diante. Com 
uma arvore genealógica dos reis e imperadores turcos desde Sulyman que 
deu principio á conquista em 1230, até Mahomet 4." a pag. 39 e 40. 

Encerra seis figuras da águia da visão de Esdras, com diversas modifica- 
ções das phases do império otliomano. até apparecer com uma só cabeça, e 
a distancia o Encuberto em forma de leão, desenhadas a sépia, e nas folhas 
113, 132, 139, 141, 143, 143 e 14(5. E mais uma a fl. 117 da quarta besta 
da visão de Daniel; e a 11. 129 uma grosseira carta geographica desde o 
meridiano 39° a 91°, isto é da Itália á Pérsia. 

A dedicatória è como segue: 

AugUStO é J£pa;'.avuu 

Supremo Mouarcha, Magnânimo, Invicto, Reservado, transplantador da fee 
catholiea e Rey Encuberto. Leão sem temor, vento velox, homem prudente, 
varão singular e filho amado. Como Rey, logrando o titulo de único Empe- 
rador ; como Leão, despedaçando inobedientes ; como vento, sumergindo no 
abysmo incrédulos; como homem, convertendo pertinazes; como varão, lo- 
grando aplauzos de soberania ; e como filho amado, e querido de seu creador. 
A vos Augusto dedico este cansaço de tantos dias, e a narração de vossa 
conquista; destruindo o Otliomano Império; restaurando a Santa cidade, e 
unindo tudo em híia geral paz: para q vendo o Mundo vossa presença vos 
obedeça todo ; e manifestadas aos incrédulos vossas maravilhas, fiquem cren- 
tes, no que duvidavão: porque destruídos tantos soberbos, fiquem postrados 
a vossos pés; e convertidos tantos pagãos, fiquem livres da pena eterna. 
Logrando vós Soberano Mouarcha os aplausos de todo o oniuerso e senhorio 
de toda a terra: Conçervando em socego (adjunto com o Pastor da Igreja) 
o rebanho de Jesus Christo ; e por fim pesuindo o Trono que vos está apa- 
relhado na gloria admetindo a oferta, e afecto deste vosso esperante e desejoso 

de vos ver 

E bejar vossas plantas 

ainda q indigno 
Félix da Costa. 

No verso da fl. 18 começa a Historia geral dos Turcos Rey nos que houve 
delles Império Otliomano e Reys delle, acabando a fl. 113; começa então a 
paraphrase da visão d'Esdras e sua concordância com os successos do Império 
Otliomano, até fl. 206 ; onde principiam varias prophecias. Termina a obra 
com estas palavras : 

«Em muito grande falta tenho cahido para com o leitor; por que prome- 
to 



74 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

tendo em o principio desta 'obra ser breve por não ser molesto fui tão per- 
longado, que considero causaria enfado, porem tenho a desculpa em meu 
fauor que me liure desta censura. Aquilo que se ama com afecto causa aliuio 
ainda que penoso, principiei com tanto amor este volume que todo o trabalho 
delle me pareceo descanço, e sendo a matéria a que muito amo me fuy em- 
golfando em sua narraçnm, que mais dissera se mo não atalhara o tempo 
considerando ser tão breue o que falta para o comprimento desta uizão que 
poderia narrar o perterito, e não o futuro desta marauilha da omnipotência 
Diuina; a quem 

Soli Deo honor et gloria 
Matrique sute.» 

É autographo. de boa letra e os desenhos são bem feitos. 

O depoimento inquisitória] de Félix da Costa é do teor seguinte: 

«Aos vinte e quatro dias do mez de Março de mil seiscentos settenta e 
sette annos, em Lisboa, nos estaos, e caza primeira das audiências da Santa 
Inquisição, estando ahi na de tarde o senhor Inquisidor Estevão de Britto 
Foios mandou vir perante sy a Felis da Costa, pintor, natural e morador 
desta cidade, na rua dos Calafates e sendo prezente lhe foi dado juramento 
dos Santos Evangelhos em que pos a mão, sob cargo do qual lhe foi mandado 
dizer verdade e ter segredo, o que lhe prometteo cumprir e disse ser Christão 
velho e de trinta e seis annos de idade. Perguntado pelas geraes? Disse nada. 
Perguntado se conhece algumas pessoas prezas pelo santo officio, quem são, 
quanto tempo há, que rezão tem de conhecimento e de que tempo a esta 
parte? Disse que alguns conhecia, e entre ellas nomeou o Reo Pedro Serrão, 
ao qual diz conhece desde minino por se crearem ambos e se tratarem sem- 
pre com amizade. Perguntado em que conta tem ao dito Pedro Serrão no 
particular da sua Christandade vida, costumes e religião? 

«Disse que tinha ao ditto Pedro Serrão em conta de bom Christão pelo 
ver muitas vezes na Congregação do Padre Quental, com muita devação e 
ainda em caza delle testemunha onde assistia ordinariamente se dava sempre 
á lição da Vida de Christo, em hum livro que trataua delia, e de outros 
livros espirituais, que também tem e por mais não dizer lhe foram lidos os 
1.° e 2.° artigos da Defeza do Reo, a que foi nomeado testemunha, que sendo 
por elle ouvidos e entendidos. 



JV0TIC1A DE ALGUNS PINTORES 75 

Ao 1.° e 2. n artigos 

«Disse que da matéria delles não sabia mais que o que tem deposto ás 
geraes, e ai não disse e do costume disse nada e assinou com o ditto senhor 
Inquisidor, sendo lhe primeiro lido este seu testemunho. Filippe Barbosa o 
escreui — Esteuão de Britto Foios — Félix da Costa *. » 



XX. — Cunha Assucar (José da). — Na lista de 10 de novembro de 1821 
dos empregados da obra do Paço da Ajuda figura este como discípulo de 
Piolti, com o ordenado de 200 reis. Tinha sido nomeado a 30 de maio do 
mesmo anno. 



XXI. — Cunha Taborda (José da).— Vide Taborda (José da Cunha). 



XXII. — Espirito Santo (Xuis de). — Executou a seguinte obra: 
«Compromisso da Confraria e irmandade da Beãventurada S. Anna, sita 
na egreja de S. Giam, desta cidade, de que são administradores os tanoeiros. 
1610". No fim: «Foi feito por Luis do Spiritu Sancto; cónego religioso vi- 
vente em commum da ordem de São João Evangelista. Anno de MDCXVIu. 
Folio pequeno, em papel, de calligraphia apreciável, com letras illumina- 
das e uma estampa. Vi este exemplar (outubro de 93) em mãos do fallecido 
alfarrabista Rodrigues, com loja ao Pote das Almas. Estava em mau estado, 
por causa da ruindade da tinta, que tinha çorroido em parte o papel. Não 
sei a quem foi vendido, nem que destino levou. 



XXIII. —Fernandes (Balthasar). — Em carta de 11 de junho de 1515 
D. Manuel I nomeou Balthasar Fernandes, pintor, recebedor das sisas de 
Trevões e Várzeas. Esta carta, estropiada talvez por quem a registou, está 
escripta em termos pouco explícitos, não se podendo avaliar por ella, que 
qualidade de pintor seria Balthasar Fernandes. 

«Dom Manuell etc. a quamtos esta nossa carta virem fazemos saber que 
comfiando nos da bondade e descriçam de belthesar fernandez pymtor mora- 



Torre do Tombo. Processo de Pedro Serrão, n.° 9797, da Inquisição de Lisboa, fl. 2)S. 



76 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

dor em tomes que em esto nos servira bem e como a nosso seruiço conpre 
temos por bem e o damos ora daquy en diamte por Recebedor das nossas 
sisas da dita villa de trouoes e Varzias ambos de bua fregesia com o quall 
oficio avera o mantymento proes preealços a ele direitamente ordenados per 
noso Regimento e porem mandamos ao noso comtador em a dita comarca ou 
a quaes quer outros nosos oficiaes e pessoas a que o conhecimento pertemcer 
e esta nosa carta for mostrada que lio metam em pose dele e lho leixem 
seruir e vsar e aver o mantymento proes e preealços asy e pela maneira que 
lhe pertencer aver per noso Regimento como dito he por quanto nos lhe fa- 
zemos delle mercê novamente ao quall dará fiamça abastante ao noso almo- 
xarife da dita comtadoria pêra o poder Receber e ele Jurou em a nosa 
chamcelaria aos samtos avanjelhos que bem e verdadeiramente o sirua guar- 
dando a nos noso serviço e as partes seu direito e pagou duzentos reaes 
dordenado delle segundo per eertydam de pedro gomez esprivam dante o 
noso Recebedor delle que lhos carregou em Receita e por sua guarda lhe 
mandamos dar esta carta. Dada em Lisboa a xi dias de Junho el Rey o man- 
dou per o baram dalvito etc. do seu comselho e vedor de sua fazenda ano do 
nacymento de noso senhor Jhesu Christo de [ b c xb e semdo a Renda emfjada 
pelos Rendeiros e Receberem fsic) nom avera nenhum mantimento nem a 
nossa custa nem a dos ditos Rendeyros o qual mamtymento sam mil b c reaes 
por ano e Rendemdo a Renda dezoito mil reaes para cyma porque ate dezoito 
reaes adaver a Rezam doutemta e três por milheiro. E posto que a mais 
Remda nom avera cada anno mais dos mil b c reaes posto que mais Renda 
nom avera mais que os ditos J b c reaes» ( . 



XXIV. — Fernandes (Domingos). — Era pintor e morava na freguesia de 
S. Nicolau. Em 20 de maio de 1562 apparece a confirmar um depoimento 
da Santa Inquisição. Veja-se o artigo que publiquei nas Curiosidades mit- 
sicaes sob o titulo de Um fabricante de cordas de viola no século XVI. 



XXV. — Fernandes (Martim). — Pintor, pae de Domingos Ferreira, clérigo 
de missa. Residia em Cintra, e em casa d'elle assistiu Peio Rodrigues, carpin- 
teiro de marcenaria, a diversas praticas religiosas, em que entravam também 
outras pessoas de família, as quaes praticas lhe pareciam contrarias á nossa 
fé. Isto consta do seu depoimento feito perante o tribunal da Inquisição, a 8 



Torre do Tombo. Chaueellaria de D. Manuel, iiv. 2i, d. 8i. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 77 

janeiro de 1541 e que o leitor poderá apreciar no artigo referente a Chris- 
tovão de Utrecht. 



XXVI. — Fernine (D. Júlio César de). — Italiano, domiciliado em Lisboa, 
professor de André Gonçalves e talvez também de Vieira. Vide Castilho 
Amores de Vieira, pag. 143. 



XXVII. — -Firmo Duro (Manuel). — Eis a nota que a seu respeito exararam 
os professores da obra do Real Paço d' Ajuda, em conferencia de 5 de julho 
de 1823 : 

«Manuel Firmo Duro, idade 24 aimos e de estudo 1 anno completo; fez 
um desenho tirado da cabeça de Leonardo da Vinci; foi julgado pelos artis- 
tas digno de passar a praticante de Desenho de I." classe, com o vencimento 
de 300 reis; também não tem vencimento.» 



XXVIII. — Fonseca (António Manuel da). — D'este pintor, de quem já 
tratei, existe mais um opusculosinho, que escapou ás deligencias bibliogra- 
phicas de Innocencio Francisco da Silva. É em 8.° pequeno, de 15 paginas, 
e intitula-se: 

Explicação eollectiva de quadros d' invenção e copias executados por António 
Manuel da Fonseca, Lisbonense, durante o progressivo curso dos seus estudos 
nas academias de Roma. Lisboa, 1835. Na typ. de M. de Jesus Coelho & Comp. a 
Rua da Rosa n.° 163. 

Na folha immediata lêem-se as três seguintes quadras que não attestam, 
em grau elevado, o talento poético do seu auctor: 

Rainha Augusta, Imperatriz Excelsa 
Que dais Valor, e Amparo às Artes Bellas; 
A que auge irão com Vosso Amparo, tendo 
Protectoras, quaes sois, Amantes delias. 

Annual Exposição de óptimos quadros 
Ostenta o P.mtheon, sagrado Templo; 
Assim da Igreja o Chefe honra a Pintura, 
Qual Roma, Portugal adopta o exemplo. 

Dos moveis Batalhões aos mutilados 

Da Exposição reverte o donativo; 

Que mais, porque exabunde. e avulte a somma, 

Aos Lusos corações, que este incentivo. 



78 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

D'estes versos se collige que a exposição tinha um caracter philantropico, 
revertendo o seu producto a favor dos mutilados dos batalhões moveis. 

A pag. 5 começa a Explicação collectiva ou a lista dos quadros executados 
por Fonseca a qual passo a transcrever por a julgar curiosa para a vida 
artística do auctor: 

'l.° Retrado de S. M. I. O Senhor D. Pedro, apresentado no seu perfeito 
estado de saúde, como appareceu em Paris, antes dos encommodos, e tra- 
halhos que soffreu em promover a Restauração da Pátria. — Pertence a S. M. I. 

2.° Retrato de S. A. R. a Duquesa de Leuchtemberg. — Idem. 

3.° Retrato do Papa Pio vm. — Pertence ao Excellentissimo Conde do 
Farrobo. 

4.° Copia degual tamanho do seu original, o qual representa a Commu- 
nhão de S. Jeronymo: d'este chefe dobra foi seu autor Domingos ZampierL 
deito il Dominichino Bolognesi; elle o fez em Roma expressamente para a 
Igreja de S. Jeronymo da Caridade: o papa Pio vii o transferiu para a sua 
galeria do palácio Vaticano, onde actualmente existe: recommendamos pois 
aos Amadores da Relia Arte da Pintura queiram maduramente observar a 
copia, que tenho a honra de lhes apresentar para gloria do seu autor, e 
illustração de meus compatriotas: 1.° Observarão como seu autor expressi- 
vamente demonstra na figura principal de seu quadro, a qual é S. Jeronymo ; 
a caduca velhice, sujeita ao abandono das forças fysicas, mas ainda que seu 
corpo parece quasi innanimado, em sua fisionomia se observa vivamente seu 
espirito virtuoso, que ao Filho de Deus Sacramentado se entrega; 2.° A ex- 
pressão com que o Sacerdote lhe offerece a Hóstia, e a ternura com que o 
exhorta, demonstrando-lhe a boa fé, de que elle mesmo é penetrado; 3.° A 
attenção do Diácono, que, tendo o cálix na mão, espera respeitosamente a 
accasião dõ offerecer-lhe a agua sancta; 4." A devoção com que o Acolitho 
observa o mysterioso Grupo ; 5.° O respeito e devoção d'aquelle que sustem 
o Sancto, que communga ; e a magnifica cabeça do velho, que o admira ; a 
compunção do Turco ; a piedade, veneração e amor da mulher que a mão 
lhe beija ; e o lião feroz, que prodigiosamente repousa como manso cor- 
deiro: passando pois ao alegre do quadro se observa a graciosa Gloria 
de Anjos de tal maneira grupados e pintados, que na verdade excede a hu- 
mana representação dos objectos materiaes; mas eleva perfeitamente o nosso 
intellecto á poética ideia dos Espiritos angélicos. 

5.° Quadro dinvenção. e composição do mencionado Fonseca Lisbonense, 
o qual representa allegoricamente a Sacra Família; seu autor para dar a 
cada uma das figuras variedade de sentimentos, serviu-se symbolicamente 
da flor do martyrio; pois que em todas as línguas tem a mesma significação; 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 79 

elle figura no seu quadro, que S. João oíTereceu ao Menino Jesus, um cestinho 
de diversas flores, offerta própria de uma criança predestinada a profetisar a 
vinda d'aquelle a quem as ofíereria: o .Menino Jesus com aquella penetração 
divina transmittida por seu Eterno Pae, escolheu dentre ellas a flor de mar- 
tyrio; e olhando para a dita com a penetração própria de sua virtude, fas 
vêr em seu semblante o presentimento de tudo quanto deveria soffrer. Sua 
Santíssima Mãe o abraça com aquella delicadesa, e modéstia própria de uma 
Virgem, offerecendo-o á contemplação d'aquelles que o observam. S. José, 
Pae adoptivo, se apoia tranquillo á cadeira, onde a sua predestinada Esposa 
está sentada, olhando para o Menino Jesus, como seu Redemptor. Sancta 
Isabel, como devota mulher, submissa se humilha respeitosamente á mys- 
teriosa acção do Filho de Deus. — Pertence ao Excellentissimo Conde do 
Farrobo. 

G.° Meia figura, retrato de um peregrino porluguez, que appareceu em 
Roma, chamado Manuel Docinho, natural d'Aveiro; o qual no momento em 
que eu o retratava, começou a chorar a enormidade dos seus peccados; tal 
foi a sua resposta, quando lhe perguntei a rasão por que chorava. — Pertence 
a Mr. Anth. 

7.° Outra dita. retrato de uma Sonineza, perigrinando, em oração offerece 
sua perigrinagem. — Idem. 

8." Um São João no estado de sua juventude, annunciando aos povos a 
vinda ao mundo do Filho de Deus: por acabar. — Pertence ao Cavalheiro João 
Bernardo da Costa Seromenho. 

9." O retrato de um Cavalheiro Portuguez bem conhecido. — Pertence ao 
Cavalheiro José Street d'Arriaga e Cunha. 

10.° Esbocêto de um quadro, que deverei fazer para Mr. Anth, represen- 
tando a morte de Virgínia, facto da Historia Romana. 

H.° Esbocêto de um quadro, representando a luz de noite, um Turco que 
lamenta a morte da sua Sultana. 

12.° Outro dito representando uma família Turca em perfeita tranquili- 
dade. 

13.° O retrato em pequeno do filho do mesmo autor. 

14." Quadro d'invenção, meia figura, representando a Musa da Pintura: 
não acabado. 

15.° Um paiz, representando a caida do Rio Aniene, que atravessa a an- 
tiga Cidade de Tivoli; o Templo da Sibila, o qual se observa á esquerda do 
quadro. 

16.° Outro paiz d'egual tamanho, representando as montanhas da Sibila 
cobertas de neve. 

17.° Um quadro que representa a Sibila Oltomana, obra de Dominichino 



80 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Zampieri, Bolognesi; seu original existe na galeria do Príncipe Burguês em 
Roma. — Pertence ao Excellentissimo Conde do Farrobo. 

18.° Outra dita, réplica do mesmo original. — Pertence ao Cavalheiro 
José Street d'Arriaga e Cunha. 

19." Copia em meia figura, representando o retrato da Forneirinha, pin- 
tado pelo grande Rafael Sansio d'Urbino; seu original existe na galeria do 
Gram-Duque de Toscana, em Florença. — Pertence ao Cavalheiro José Street 
d'Arriaga e Cunha. 

20.° Copia de um quadro existente na galeria do Príncipe Borguès em 
Roma, representando Christo na Agonia ; obra de Van Dyck. — Pertence a Mr. 
Anth. 

21.° Copia de um quadro que existe na galeria do Gram-Duque de Tos- 
cana, em Florença, que representa a Virgem da Soledade; obra de Sasso- 
Ferrati. — Pertence ao Excellentissimo Conde do Farrobo. 

22.° Copia de um quadro pintado por Carlo-Dolci, que representa Sancta 
Luzia, matrona Romana ; existe em uma galeria particular em Nápoles. — 
Pertence a Mr. Anth. 

23.° Copia em meia figura, representando a Virgem; obra do mesmo 
autor; seu original existe em Londres na galeria de Mr. Pultnei. — Pertence 
ao Excellentissimo conde do Farrobo. 

24.° Copia de um quadro do mesmo autor, representando a Musa da 
Poesia, retrato da filha do mesmo autor; existe na galeria Pitt em Florença. 
Idem. 

25.° Um pequeno quadro que representa o cardeal Zurla, protector das 
Bellas Artes em Roma; Camoncini, Turvalson, e muitos outros distinctos ar- 
tistas, e antiquários, que compõem a Academia de S. Lucas, presidindo ao 
descobrimento do esqueleto do grande Pintor da era de 1500, Rafael Sanzio 
dTJrbino ; o qual por sua ultima vontade se fez depositar debaixo do Altar de 
Nossa Senhora, Capella que existe na Freguezia de Nossa Senhora dos Mar- 
tyres, do antigo edifício chamado o Pantheon, em Roma ; este solemne desco- 
brimento foi praticado no anno de 1831, em virtude da incerteza em que 
estava a sobredita Academia de Bellas Artes por falta de documento, que 
indicasse a precisa localidade em que havia sido depositado aquelle memo- 
rável artista supra referido. 

N. B. — Que os primeiros quadros que fiz em Boma existem na galeria 
do Excellentissimo conde do Farrobo, e são os que se seguem: 

1.° Copia da parte superior d'um quadro, que existe na galeria Pontifícia 
em Roma, representando Christo, coroando Nossa Senhora, chamado vul- 
garmente: La Madona do monte lúcido. 

2.° Copia de um Almirante hespanhol; obra de Van-Dick. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 81 

3.° Copia, réplica de Sancta Luzia: obra de Carlo-Dolci. 

4.° Copia de um quadro, que existe na galeria da Academia de S. Lucas, 
em Roma; obra de Sasso-Ferrati. 

5.° Um alto relevo pintado, e copiado do natural em mármore antigo 
grego; representa amor em triunfo, condusido pelos amores. 

6.° Retrato do sobredito Fonseca, Lisbonense, executado por elle mesmo.» 

Segue-se uma pagina com a descripção de dois quadros, copiados por 
Domingos Pereira de Carvalho. Vide Pereira de Carvalho. 



XXIX. — Foschini ( Archangelo). — Os pintores não eseaeeiaram nunca em 
Portugal e até se notam épocas de superabundância. Assim succedeu no período 
decorrido desde a segunda metade do século xvm até ao primeiro quartel do 
século xix, embora as circunstancias não fossem das mais propicias para 
as artes. As duas invasões francesas, de tão funestos resultados, os abalos 
políticos que deram causa â guerra civil, que nem sequer na convenção de 
Evora-Monte teve o seu ponto final, tudo isto devia concorrer desfavoravel- 
mente para a educação esthetica e para o desenvolvimento artístico de um 
povo. A realidade dos factos contradisse, porém, mais uma vez a verosimi- 
lhança, o que ao nosso espirito se afigurava mais plausível. 

As obras do palácio da Ajuda congregaram ali, durante largos annos, as 
aptidões de diversos artistas tanto nacionaes como estrangeiros, convertendo-se 
numa escola pratica, cujos resultados não foram todavia dos mais profícuos, 
devido por certo ao mau gosto predominante. Atravessava-se uma época de 
decadência, cujo dominio fatal difficilmente poderiam evitar os mais robustos 
talentos. A par da escola pratica estabeleceu-se também uma escola theorica, 
uma espécie de academia, onde se professavam diversas disciplinas. 

De uma relação dos empregados da obra do paço da Ajuda do mês de 
novembro de 1821, extraio a seguinte lista dos pintores e seus ajudantes, 
com os respectivos ordenados: 



Arcangelo Fosquini, Pintor d' Historia: 1:000^000 — 9 de abril de 1803. 

Januário António Lopes da Silva. 
Domingos Clementino, Ajudante do dito: 800 — 4 de abril de 1814. — 

Visconde de Santarém. 
José da Cunlia Taborda, Pintor d'Historia': 800^000 — 9 de abril de 1803. 

— Januário António Lopes da Silva. 

li 



82 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Norberto José Ribeiro, Ajudante do dito: lj>000 — 9 de agosto de 1814. 

— Visconde de Santarém. 

Francisco Bernardo, dito: 600— 19 de Septembro 1814. — Visconde de 

Santarém. 
José Carlos Amatuci, Discípulo do dito: 260 — 9 de Maio de 1819. — 

Joaquim da Costa e Silva. 
Máximo Paulino dos Reys, Pintor de Historia: 576^000 — 10 de março 

de 1815 — Visconde de Santarém. 
Alexandre Simplício, Ajudante do dito: 600 — 21 de Julho de 1814. — 

Visconde de Santarém. 
Cyrillo Wolkmar, Pintor de Historia — Percebe pelo Erário. 
Bernardo de Oliveira Góes, Ajudante do dito : 600 — 9 de agosto de 181 4. 

— Visconde de Santarém. 

Joaquim Gregório Rato, Pintor de Historia — Percebe pelo Erário. 
Gregório Luis Maria, Ajudante do dito: 400 — 10 de Março de 1818. — 

Joaquim da Costa e Silva. 
Manuel Piolti. Encarregado das Decorações: 15600 — 18 de Março de 

1816. — Visconde de Santarém. 
José Joaquim, Ajudante do dito: 400 — 2 de Março de 1805. — Joaquim 

da Costa e Silva. 
Francisco de Paula Rocha, dito: 400 — 4 de Fevereiro de 1817. — Joa- 
quim da Bosta e Silva. 
José da Cunha Assucar, Discípulo: 200 — 30 de Maio de 1821. — Fran- 
cisco Duarte Coelho. 
Real Obra, 10 de Novembro de 1821. — Filippe Nery Rodrigues Sotto 
— António Francisco Rosa l . 

Em 5 de julho de 1823 reuniram-se os professores, e ampliando a con- 
ferencia de 24 de maio, assentaram na classificação a dar aos seguintes alu- 
mnos, dos quaes me limitarei a dar os nomes, reservando-me para tratar de 
cada um d'elles em seus respectivos logares: 
João Carlos Amatucci. 
Gregório Maria Rato. 
Manuel da Conceição. 
Manuel Firmo Duro. 
Joaquim Luis Maria Rato. 

A allegoria que foi para as Bellas Artes o mesmo que o gongorismo para 
a litteratura, continuava a exercer a sua nefasta influencia, não se esqui- 



1 Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 83 

vando ao seu jugo tyrannico homens de incontestável valor como Domingos 
António de Sequeira e Francisco Vieira, o portuense. Este não possuía, como 
aquelle, a centelha do génio, ou pelo menos em grau tão vivo, mas em com- 
pensação era dotado de grande delicadeza e sentimento poético, o que talvez 
contribuísse para tornar menos sensíveis os seus defeitos. O mal, porém, 
já vinha de trás e Vieira Lusitano não foi dos que menos abusaram do estylo 
allegorico. 

Do núcleo de pintores da Ajuda Archangelo Foschini foi um dos que 
mais praticaram o género, podendo talvez considerar-se o' coripheu ou o cha- 
radista mór da especialidade. Raczynski, avaliando as suas producções no 
palácio da Ajuda, julga-as porventura com excessiva severidade. 

Referindo-se á pintura que representa a volta de D. João VI do Brazil a 
Portugal, escreve estas palavras condemnatorias : 

«Le roi se tient debout sur une conque, et il est accompagné de sa nom- 
breuse famille. On ne peut rien voir de plus ridicule. Cest Foschini qui 
s'est rendu coupable de ce crime de lèse-majesté» '. 

Existe a descripção d'este pensamento, feita pelo próprio pintor, a qual 
acompanha uma sua petição em que requer que seja encarregado de o exe- 
cutar. O leitor avaliará do talento inventivo de Foschini, lendo o primeiro 
dos documentos que vão em seguida a este artigo. 

Ha ainda outra descripção da mesma penna de um quadro allegorico aos 
inauferíveis direitos, isto é, aos suecessos do dia 5 de junho de 1823. Vae 
transcripto em seguida ao que se acabou de mencionar. 

Anteriormente já a actividade de Foschini se tinha manifestado em outras 
obras, de algumas das quaes remettera os projectos para a corte do Rio de 
Janeiro onde foram discutidos, modificados e ampliados, segundo se vê da 
lista que elle apresentou, ao que parece, na conferencia de 10 de janeiro de 
1822. Esta conferencia, em que tomaram parte, além do inspector Duarte 
José Fava, e do architecto António Francisco Rosa, os pintores Archangelo 
Foschini, José da Cunha Taborda, Máximo Paulino dos Reis e Joaquim Gre- 
gório da Silva Rato, foi muito interessante, já por se tratar do processo a 
seguir na ornamentação das três grandes salas da fachada leste do paço 
da Ajuda, já pelas lisonjeiras explicações a respeito de Manuel Piolti, pintor 
e architecto, que parecia susceptibilisado com a divisão dos trabalhos, ade- 
gando os seus collegas que não desejavam privar-se da sua companhia e 
prestimosa coadjuvação. 

Em 21 de desembro do mesmo anno assignava um ofGcio, em que de- 



Raczynski, Letíres, pag. 268. 



84 NOTICIA DE ALGUNS PINTOnES 

clarava estar satisfeito o pedido das drogas vindas de França para a execu- 
ção das obras de que estava incumbido e que para o mesmo effeito requeria 
a remessa, pelo menos de um manequim de mulher, o que, para o estudo 
das roupagens, era tão necessário e vantajoso, como o estudo do natural 
para as figuras. 

Tendo sido pela invasão francesa destruído o painel da boca da tribuna 
da capella-mór da egreja de Marvilla em Santarém, Foschini fez o modelo de 
um quadro para substituir aquelle. O prior de Marvilla, padre Anlonio Joa- 
quim Martins, mestre de cerimonias da Sé patriarchal, requereu a S. M. que 
o referido artista fosse encarregado de executar definitivamente a obra. O 
requerimento foi á consulta do architecto do paço da Ajuda, que deu parecer 
favorável em 22 de maio de 1828. 

A petição foi despachada consoante os desejos do requerente, como se 
verifica pelo painel que ali existe agora, representando a Assumpção de 
Nossa Senhora. O actual prior, illustrado sacerdote Rev. António Augusto 
de Sousa Refoios, cujo nome recorda saudosamente o de um medico dis- 
tincto, teve a amabilidade de me esclarecer sobre este facto enviando-me a 
seguinte descripção do painel. 

«O painel representa a Assumpção de Nossa Senhora, estando o tumulo 
aberto, com os Apóstolos em volta. No fundo, junto ao tumulo, vê-se um 
anjo com um joelho em terra, segurando com a mão direita sobre o joelho 
direito um escudo com as armas reaes circumdado da seguinte legenda: — 

MUNIFICENTIA D. MICIIAELIS I. PORT. ET ALG. REG. # 1829 * . IstO é, Munificeil- 

cia de D. Miguel I Rei de Portugal e Algarves = 1829=». 

O quadro não é subscripto por Archangelo Foschini, mas tudo leva a 
crer que seja obra do seu pincel. 

A petição do padre António Joaquim Martins é redigida por esta forma: 

«Sereníssimo Senhor. — Com o maior respeito e reverencia vai por este 
modo aos Pez de V. A. R. o P. e António Joaquim Martins, Mestre de Cere- 
monias da Santa Igreja Patriarchal fazer lembrado hum Memorial que teve 
a honra de entregar a V. A. R. na Tribuna da mesma Santa Igreja, em o 
qual declarando estar despachado prior da Igreja de Marvilla de Santarém, 
relatava em suma a destruição que a mesma Igreja padeceo pela Invasão dos 
Francezes, em consequência de que se acha a Capella Mor coberta na boca 
da Tribuna por hum Panno bem indecente, por hauer sido destruído hum 
Painel de Nossa Senhora, orago da caza, que ornava aquelle principal lugar, 
donde resulta insuffrivel indignidade ao culto Devino. Não podendo pois re- 
mediar tantos damnos, alias com bem magoa, pela penúria a que se acha 
reduzido o rendimento da mesma Igreja, recorreo assaz confiado' na extra- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



85 



ordinária Piedade de V. A. R. ao seu Magnânimo Coração, afim de que, em 
attenção ás refferidas razões, se dignasse mandar ordem ao Inspector da 
Real Obra d'Ajuda, para que este intimasse ao Pintor da Real Camará, Ar- 
changelo Fusquiui, a execução do dito Painel, porque este já fez o modelo. 
Sendo portanto o mencionado Painel sem moldura somente pregado em bua 
grade de madeira, feito por hum Professor de Partido como hé o hábil Fus- 
quini torna-se mui deminuta a despeza e faz desta sorte S. A. R. uma acção 
heróica, que bem dirá aquelle Povo, promoue o culto da Virgem Santíssima, 
e perpetua sua Memoria, collocando um Padrão de sua Piedade em hum 
Templo assaz memorável pela sua antiguidade, e milagres que Nossa Senhora 
ali invocada com o titulo das maravilhas obrou com o Senhor Rey D. Affonso 
Henriques, de quem V. A. R. hé o mais digno herdeiro. Tendo, pois V. A. R. 
annuido benignamente á pretenção do supplicante, este submissamente im- 
plora de V. A. R. a brevidade da ordem ao referido Inspector da R. Obra 
d' Ajuda a fim de ser em tempo oportuno, concluído o supradito Painel na 
forma que implora, e por cuja graça de novo tem a honra de beijar a 
Mam de V. A. R. o P. s António Joaquim Martins. E. R. M. em 23 de Abril». 

«Senhor. — Manda-me V. R. M. que eu informe sobre o incluso Reque- 
rimento do P. António Joaquim Martins, Prior da Igreja de Marvilla de San- 
tarém, em que pede para que o Pintor desta Real Obra Archangelo Fosquini 
lhe pinte hum Painel para a boca da Tribuna da mencionada Igreja. Cum- 
pre-me informar a V. R. M. que atendendo ao exposto na representação do 
supplicante parece-me muito de Justiça que o Artista mencionado Archangelo 
Fosquini, seja encarregado da pintura do dito Painel. Hé (manto posso R. 
Senhor informar a V. R. M. em cumprimento do mencionado requerimento; 
E V. R. M. Mandará o que for do seu Real Agrado. Secretaria da Sub Ins- 
pecção da Real Obra do Paço d'Ajuda 22 de Maio de 1828: — António Fran- 
cisco Rosa» ! . 

Foschini tinha um filho, de quem se não tem feito até agora menção, 
postoque seguisse também a carreira artística. Chamava-se Pedro Maria 
Foschini e dedicou-se á esculptura. Admittido nas obras da Ajuda, estudou 
sob a direcção de João José de Aguiar dando durante trinta meses sufficien 
tes provas de applicação e habilidade. Em conferencia de 28 de setembro 
de 1822, apresentou o modelo em barro de uma estatua de Ceres, de dois 



Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. 



86 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

palmos de alto, sendo os respectivos professores de opinião que o seu auctor 
merecia por este trabalho receber algum salário. Neste sentido representou 
elle a S. M. a fim de lhe dar alguma remuneração, como se praticara com 
outros em egualdade de circumstancias, o que seria um estimulo a seus es- 
tudos e um alivio a seu pae, sobrecarregado de numerosa família. O ministro 
Ferreira de Araújo em 11 de outubro do mesmo anno mandou informar o 
requerimento ao brigadeiro intendente das Obras publicas. 

Foschini padecia moléstia herpetica, como attestou José de Mattos, cirur- 
gião da casa do Cardeal patriarcha em certidão de 10 de agosto de 1830, 
que o artista juntou a um seu requerimento, em que pedia um mês de licença 
para se ir tratar aos banhos do Estoril. 

Cyrillo Wolkmar Machado (Collecção de Memorias, pag. 145) diz que Ar- 
changelo Foschini nascera em Lisboa em 1771, sendo filho de Francisco 
Foschini, bolonhês, pintor de historia. Não concordam com estes dados bio- 
graphicos os que se lêem no artigo do Diccionario Popular, de Pinheiro 
Chagas, no qual se diz que o pae de Foschini era natural de Faensa, e fora 
chamado ao nosso país, pelo marquês de Pombal, para exercer a pintura na 
fabrica de louça. Accrescenta que o filho morrera em Lisboa a 4 de abril de 
1834. Não declara, porém, onde colheu estas noticias, que foram reproduzi- 
das no Diccionario. intitulado Portugal. 

Em presença de dois attestados passados por Archangelo Foschini, em 
favor de um seu discípulo, Manuel da Conceição, vê-se que elle residia a 6 
de março de 1820, na rua do Giestal, e em 23 de junho de 1833, em 
Belém. 

Eis agora os documentos acima referidos: 



«Senhor. — Diz Archangelo Fuschini, Pintor da Camará de V. Mag. d % 
que tendo tido a honra de ser incumbido por V. Mag. de em Aviso de 1 de 
Maio do corrente anno de 1821, para a execução do Projecto, que tem por 
titulo = O Dia 26 de Fevereiro do presente anno = em hum grande painel 
que deve servir de decoração para huma das Sallás do Real Paço Novo de 
Ajuda, cujo modello em Pintura ja mereceo a benigna approvacão de V. 
MagA e dezejando o Suplicante aproveitar os intervallos que medeião na 
execução de lula obra tão complicada, tem a honra de levar á Augusta Pre- 
zença de V. Mag. de o Projecto aqui junto, que tem por titulo = A Feliz che- 
gada de V. Mag. de a estes Reinos no dia 4 de Julho do corrente anno de 
1821 = e merecendo a sua Real aprovação, dezeja ter a honra de ser encar- 
regado delle, a fim de apresentar em Dezenho, ou Pintura o modello pequeno, 
como praticou no antecedente, e portanto Pede a V. Mag. dc seja servido de- 



/ 



NOTICA DE ALGUNS PINTORES 87 

ferir ao Suplicante a Graça que pede segundo for do Beneplácito e vontade 
de V. Mag. de e a bem do serviço Real e Nacional. — Arcangelo Foschini. — 
E. R. M. 

«P. P. ao mesmo em 20 de Novembro de 1821». 

«Projecto Alegórico relativo ao Dia 4 de Julho de 1821 faustissimo pella 
chegada de Sua Magestade a estes Reynos, com a Familia Real. Dia em que 
os corações de todos os Portuguezes tresbordarão d'alegria e prazer. 

«Ver-se-á o nosso Augusto Monarca sentado sobre heróica concha Marinha, 
mui ricamente lavrada, acompanhado por Neptuno, e pello Pae Ocianno, 
vendo-se os Tritões de hum, e os Filhos d'oulro em regozijo extraordinário 
acompanharem a Nossa Augusta Soberana, e os nossos Amados Príncipes e 
Princezas da Nossa Augusta Familia Reinantes. 

«O Pátrio Tejo apparecerá sobre a Praia com hum feixe de Palmas em 
seos braços em acção d'as querer repartir pello innumeravel concurso de 
Pessoas de todas as classes que ambiciosamente disputão o lugar para serem 
as primeiras em cortejar, e saudar o seo Monarca, sendo precedida esta in- 
numeravel multidão por Lizia que sobresaindo a todas as figuras aqui repre- 
zentadas já oferece hum ramo ao seo Monarca, a fim de mostrar a saptis- 
fação de que se acha possuída pela dita não esperada, de ver restituídos a 
seus Lares os Augustos propugnadores da nossa felecidade prezente e 
fectura. 

«No alto do Painel se verá o Conselho dos Deozes prezidido pello altiço- 
nante Jupter, que ordena a Astréa venha prezedir aos sábios e elevados 
projectos do Augusto Congresso da Nação Portugueza, para consolidar e fazer 
duradoura a felecidade da Pátria, pois já se achão unidas ao seu Monarca 
que de tão bom grado concordou com o que a Nação fizeçe. 

«Ver-se-á hum Trono formado de hum grupo das trez virtudes que vem a 
ser : o Vallor formará o assento, e os lados serão formados pella Constância 
e Lealdade, todas com os seus emblemas competentes ellas poderão ser re- 
prezentadas em vulto de metal dourado. 

«No Espaldar do Trono ver-se-á esculpido a America, que saudoza entrega 
o Monarca á Luzítania, distinguindo-se que ambas ellas segurão os Emblemas 
do nosso Regimen Politico. 

«Entre Lizia e o Monarcha, ver-se-á Minerva suspença nos ares, aprezen- 
tando as Bazes da Constituição a S. Mag. de (alusivo á Deputação enviada 
pello Augusto Congresso, a Bordo da Náo D. João o Sexto) tendo antecipa- 
damente ordenado ás Tágides que com seos braços entrelaçados conduzão 
o nosso bom Rey á Praia da Casa Pátria, que á tantos annos por elle sus- 
pira. 



88 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

a O Pintor da Camará de S. Mag. ie Arcangelo Foschini o fez em 6 de No- 
vembro de 1821» l . 



«Projecto Alegórico de hum Quadro que Reprezenta o Sempre Memorável 
dia 5 de Junho do Corrente anno de 1823 em que recuperarão seus inau- 
feríveis direitos e explendor o Trono e o Altar. 

«No meio do Quadro se reprezenta em hum rico Carro Triumfal a Au- 
gusta Peçoa do nosso adorado Rey O Senhor D. João Sexto acompanhado 
de Suas Augustas Filhas; vendo-se Conduzido em Triunfo pellas oito Virtudes 
Características da incomparável e nunca assaz louvada Nação Portugueza 
que vem a ser: a Lealdade e o Valor, a Firmeza e o Amor aos seos Mo- 
narcas, a Obediência e o zelo da Religião, a Constância e o Respeito ao 
Trono. 

«Hé capitaneado este respeitável Grupo pello Anjo Costodio e Tetular do 
nosso Reyno que sustentando com a mão esquerda huma fiandeira com o 
dístico : Quis ut Deus? repelle com a direita armada de huma Espada de 
fogo os Vicios e Fúrias que com seu pestífero hálito assombrarão o nosso 
preciozo e feliz terreno ficando envolvidas em huma densa e espessa névoa de 
fumo, se distingue entre ellas com mais Clareza e Impiedade, o Atheismo, e'a 
Fraude. Ao lado de S. Mag. de sobresahe a Augusta Peçoa do Sereníssimo 
Senhor Infante D. Miguel montado em hum Cavalio branco, mostrando apezar 
de sua Juvenil Idade ser o Heróe desta tão brilhante Senna, e em attitude 
de Ordenar hum tão novo triunfo e vendo-se ao lado da Augusta Família 
Real a Religião Catholica Apostólica Romana debaixo do aspeto de huma 
veneranda Matronna que com a sua Égide a escuda sustentando na dextra o 
Símbolo da nossa Redempção. 

«No lado oposto ao dos Vicios, se vê o encanecido Tempo arrancar com 
suas nodosas mãos do Livro da Historia as folhas que pertencem á mal fa- 
dada Época do extincto Sisthema dezorganizador. • 

«Os Vãos do Painel se vêem oceupados por inumerável concurso de Povo 
de todas as Classes, esparzindo flores, e dando graças ao Altíssimo com as 
mais enérgicas e expressivas attitudes de alegria e enthuziasmo por tão rá- 
pidos e portentozos acontecimentos. 

«Na parte mais Elevada e Central do Quadro se descobre em huma aber- 



1 Torre do Tombo. Maço 281 do Archivo do Ministério do Reino. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 89 

tura de nuvens a Virgem Padroeira do Reyno agradecendo a seu unigénito 
Filho a graça do maravilhoso feito aqui expreçado. 

«Heste hé o bosquejo do dia mais assignalado nos Fastos da Historia 
Portugueza vendo-se exaltada a Virtude sobre o Completo abatimento do 
orgulhozo crime. ■ 

«Arcangelo Foscliini Pintor da Camará de S. Mag. de Fid. raa o fez aos 6 
de Julho de 1823» ». 



«Copia. — Aos dez dias do mez de Janeiro de 1822, na Obra do Palácio 
d' Ajuda em conferencia a que presidio o Brigadeiro Duarte José Fava, In- 
tendente das Obras Publicas, sendo prezente o Architecto da mesma Obra 
António Francisco Roza, e os Pintores abaixo assignados; e no mesmo acto 
aprezentou o Pintor Arcangelo Fosquini a Portaria de 20 de Novembro do 
anno passado, em que S. M. o Encarrega da execução do Projecto, em que 
se reprezenta allegoricamente a sua feliz chegada a este Reino no dia 4 de 
Julho do mesmo anno, cuja Portaria se transcreve neste Termo de Conferencia, 
assim como a reprezentação que igualmente aprezentou o Pintor Joaquim 
Gregório Ratto. Tratou-se na mesma Conferencia do Projecto das figuras 
que devem embelezar os dois tectos das Escadas do Vestibulo principal que 
dão serventia para o Plano nobre, e forão de accordo os Pintores assistentes 
á Conferencia, que o Pintor Arcangelo Fosquini se encarregue da figura de 
liuma das Escadas, e o Pintor José da Cunha Taborda da figura da outra 
escada, sendo para este fim necessário que o Pintor Manuel Piolti lhes en- 
tregue os desenhos que fez para ornato das ditas Escadas. Decidiu-se por 
unanimidade de votos que o Pintor Arcangelo Fosquini por já estar encar- 
regado do Quadro relativo ao acontecimento do dia 2o de Fevereiro do anno 
passado, servindo-lhe este de Thema, conforme o Projecto para a pintura 
da segunda salla, em que elle deve ser collocado, cujo projecto depois de 
ser discuttido pelos seus Collegas será o resultado prezente a S. M. para 
ter a sua Real Approvação. Pelo que respeita á primeira Salla, escolheo-se 
para Thema que se projectasse hum Quadro allegorico d'Acclamação do Se- 
nhor Dom João Quarto, e as pinturas do tecto relativas ao mesmo assumpto, 
confiando-se este Projecto, e sua execução ao Pintor José da Cunha Taborda com 



1 Torre do Tombo. Maço 282 do Arehivo do Ministério do Reino. 
12 



90 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

a cooperação de seus Collegas, pela forma que se julgar mais conveniente. 
E quanto á terceira Salla forão igualmente de commum accordo se escolhesse 
para Thema um Quadro ■ — O Conselho dos Ueoses — formando-se no tecto 
a allegoria correspondente, e encarregando-se este projecto e sua execução 
ao Pintor Arquitecto Manuel Piolti, sendo coadjuvado por todos os seos Col- 
legas, para que o seu contheudo suha á presença de S. M. para deliberar 
como for da sua Real Vontade. E de todo o expendido mandou o sobredito 
Brigadeiro Intendente lavrar este Termo, que assignou com o referido Ar- 
quitecto António Francisco Roza e Pintores e comigo Escrivão que o escrevi 
e assignei. Bernardino de Sena Lemos da Rocha — Fava — António Fran- 
cisco Rosa — Arcangelo Fosquini — José da Cunha Taborda — Máximo Pau- 
lino dos Reis — Joaquim Gregório da Silva Batto — Manuel Piolti». 

«Manda El Rey, pela Secretaria d'Estado dos Negócios do Reyno partici- 
par a Arcangelo Fosquini, que sendo-lhe prezente o seu Projecto para re- 
prezentar em obra da sua arte — A sua feliz chegada a este Reino no dia 
4 de julho do corrente anno — . O mesmo Senhor Ha por bem aprova-lo e 
Encarrega-lo da sua execução. Palácio de Queluz em 20 de Novembro de 
1821. — Filippe Ferreira d'Araujo e Castro. — Está conforme o original. 
Bernardino de Sena Lemos da Rocha». 

«Os abaixo assignados Pintores de Historia ao Serviço Nacional e Real, 
com exercido na Real Obra da Ajuda protestam a Vossa Senhoria os seus 
respeitos e reprezentão que na Conferencia do dia 3 de janeiro de 1822, a 
que Vossa Senhoria se serviu de nos chamar, a fim de nos ordenar o que 
se devia fazer para conseguir a pintura das três grandes Sallas nobres da 
Frontaria do Real Palácio que olha para Leste, depois de ter a bondade de 
ouvir-nos deliberou que ficasse cada hum encarregado de fazer os desenhos 
de numa ou mais das Sallas mencionadas, para depois entrarem todos pri- 
meiro em numa discussão artística, fazendo-se para isto uma nova confe- 
rencia e depois de discutidos serem levados á Real Prezença de S. M., de 
quem depende a escolha, e approvação e de tudo isto se formou Termo que todos 
assignamos. Os Pintores de Historia ficando como na certeza de que o bene- 
mérito Artista Manoel Piolti que foi igualmente chamado, e assistiu á supra- 
dita Conferencia ficasse também encarregado como elles, da factura dos 
sobreditos dezenhos e mesmo porque Vossa Senhoria lhe ordenou que os 
fizesse coloridos: não duvidarão que esta tarefa era de todos (digo em pre- 
zença) digo athe que o supradito Manuel Piolti disse em prezença de todos, 
digo em Prezença dei les Pintores que se enganavão; pois que elle não en- 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 9 1 

tendera ser comprehendido nesta Ordem, e asseverando isto mesmo com 
aquella probidade que forma o seu caracter, nos deixou summamente duvi- 
dosos e magoados e por isso representamos, esperando conseguir de Vossa 
Senhoria (cazo que o engano esteja em nós) de nos restituir este digno Ar- 
tista á nossa artística sociedade ; por quanto da sua separação se segue de- 
trimento á nossa honra, dando motivo a que se julgasse que huma desmedida 
ambição de gloria nos conduzia a perpetuar este acto de egoísmo a nosso 
interesse pessoal : pois sendo nos tam poucos, e o trabalho tanto, dividido 
por todos, ficando a cada hum menos, lhe ficão mais meios para bem o de- 
zempenhar, muito principalmente achando-se dois Pintores, que são Arcan- 
gelo Fosquini, e Máximo Paulino dos Reys, encarregados, o primeiro dos seus 
grandes Quadros, o segundo de hum grande tecto do Real Palácio de Belém, 
de cujas obras não foram eximidos; e por consequência devem entrar em 
concorrência á Real Obra, pois que a todos hé patente a falta que devia fazer 
hum Artista que aqui mesmo tem dado tantas provas do seu talento. Temos 
em segundo a requerer, e esperar que em quanto ao methodo que se deve 
seguir para conseguir não só a decoração das três mencionadas sallas, mas 
os desenhos feitos de hum certo modo que possa quem os viu fazer huma 
justa ideia do seu verdadeiro effeito na grande execução, quer seja feito pelo 
methodo já approvado por S. M. o hé; que a cada hum dos Artistas ao ser- 
viço se destine huma Salla para que este faça hum, dois ou mais dezenhos 
para a decoração da dita, e em conferencia artística se escolha o que se jul- 
gar melhor, fazendo-se huma nota por onde conste que foi approvado dos 
Artistas passem todos á Real Prezença de S. M. para que este como Senhor 
elleja o que Lhe parecer, e melhor gostar, mesmo apezar da sobredita es- 
colha dos Artistas, para isso se necessita que se dê a cada salla hum Assum- 
pto, seja o que sé acha dado, ou aquelle que melhor agradar a quem governa, 
porisso nós ajuntamos a esta reprezentação bua noção do que foi a este res- 
peito estabelecido na Corte do Rio de Janeiro, tirando deste modo o odiozo 
methodo de parallelos, que sempre vêm a terminar em perjuizo da obra, por- 
que fazendo todos os mesmos dezenhos será isto uma operação tão moroza 
que, antes, de se pôr em execução cansaria a paciência de quem espera e 
faltaria o tempo para o principal, que vem a ser a execução de hum. Já hé 
sabido que cada um dos Artistas que projectarem, e de quem o Projecto for 
acceíte o não pode executar sem o concurso de hum ou mais de seus Colle- 
gas, e tanto que se houvesse de entre nos quem se quizesse incumbir de 
huma ou mais sallas com o destino de o fazerem só, se deveria desde logo 
reprimir este Projecto, pois que a sua execução, quando se conseguisse, 
seria infenitamente morosa ou indecente por mal dezempenhada. Eis o que 
levamos ao conhecimento de V. Senhoria, esperando nos defira como sup- 



92 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

plicamos. Real Obra d' Ajuda 10 de Janeiro de 1822. — Arcangelo Fosquini 

— José da Cunha Taborda — Máximo Paulino dos Reis — Joaquim Gregório 
da Silva Ratto. Está conforme. Bernardino de Sena Lemos da Rocha». 

«Assumptos para os Pintores da Obra do Real Palácio d'Ajuda que forão 
remettidos por S. M. da Corte do Rio de Janeiro e que reprezentou em con- 
ferencia o Pintor Arcangelo Fosquini — A Clemência de Tito excedida — 
Hum Quadro das circunstancias dolorozas e criticas em que El Rey N- S. 
se vio no anno de 1807 assaltado da perfídia e da injustiça, sustentando po- 
rem a Dignidade de Sua Caza e Estado, e a heróica firmeza de manter a 
integridade dos Tratados apezar de tudo sem consentir no sequestro e re- 
tenção dos vassallos e bens do seu bom amigo e Alliado S. M. Britânica — 
O Conselho ou Reunião dos Deozes, com os episódios que parecerem con- 
venientes para guiarem e perseverarem os Soberanos da Dynastia da Sere- 
nissima Caza de Bragança — A prudência e Politica do Senhor Dom João 
quarto para fazer fáceis tantas coizas que paredão impossíveis para deitar 
mão, e conservar a septro que por tantos Titulos lhe tocava — A acclamação 
do mesmo Soberano extrahida do grande Quadro e coevo que comprou o 
actual Inspector e existe no mesmo Real Palácio. — Dez Quadros de Embai- 
xadas recebidas das Cortes Estrangeiras, e de outras que Portugal a ellas 
dirigio, para decorarem as tabeliãs da rica e ellegante Salla de Embaixa- 
dores. Lisboa 15 de Novembro de 181!) — Arcangelo Fosquini — Está con- 
forme. Rernardino de Sena Lemos da Rocha. 

«Está conforme. Intendência das Obras Publicas 14 de Janeiro de 1822. 

— Ricardo José Manitli» l . 



«Conferencia de o de Julho de 1823. 

«Aprezentárão os Mestres das diffe rentes olTicinas as relaçoens de cos- 
tume, nas quaes nada pedem para o regular andamento da Obra. 

. • Bellas Artes 

«Propoz o Architecto da Obra que, estando próximo a aeabar-se a Salla 
da Galleria nobre, confiada ao Pintor José da Cunha Taborda, seria conve* 



, '.Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reiuo. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 93 

niente antes de desmanchar o Andaime, se posessem os Caxilhos das Sobre- 
porias com vidros de aço; e determinou o Brigadeiro Intendente, que o 
Mestre Carpinteiro satisfizesse com a possível brevidade á supradita reque- 
zição do Architecto. Em ampliação ao objecto, que se tratou em conferencia 
de 24 de Maio do presente anno, relativo á applicação e adiantamento dos 
Praticantes de Bellas Artes, foi declarado nesta Conferencia o seguinte: 

«Primeiro: João Carlos Amatueci, idade de 17 annos, tempo de estudo 
4 annos não completos; obra que executou: Copia de bua cabeça de Porcca- 
ehini. designada n.° 1 : foi julgado pelos artistas digno de passar a Prati- 
cante de Pintura de 4. a classe, com o vencimento de SOO réis; vence, 
actualmente 300 reis. 

«Segundo: Gregório Maria Ratio, idade 18 annos, e de estudo 5 com- 
pletos: obra que executou: Copia de bua Cabeça de Vandicbi, foi julgado 
pelos Artistas digno de passar a Praticante de Pintura de l. a Classe com o 
vencimento de 500 reis: vence actualmente 400 reis. 

«N.° 3 — Manoel da Conceição, idade, 19 annos e de estudo 19 meses, 
fez hum Dezenho tirado da cabeça do Antino em gesso:» foi julgado pelos 
Artistas digno de Passar a Praticante de Desenho de l. a classe com venci- 
mento de 300 reis: actualmente não tem vencimento. 

«N.° 4 — Manuel Firmo Duro, idade 24 annos, e de estudo 1 anno com- 
pleto, fez um Dezenho tirado da cabeça de Leouardi dAvincci: foi julgado 
pelos Artistas digno de passar a Praticante de Desenho de 1." classe com o 
vencimento de 300 reis: também não tem vencimento. 

«N.° 5. Joaquim Luis Maria Ratto, idade 16 annos. e de estudo 3, fez 
hum Desenho tirado de bua Cabeça de Leonardi dWvincci: foi julgado pelos 
Artistas digno de passar a Praticante de Desenho de 2." classe com venci- 
mento de 200 reis: também não tem vencimento. 

«N.° 6. Pedro Ribeiro, idade 17 annos e de estudo 4, fez hum Desenho 
tirado da Cabeça em gesso da Minerva de Justiniani : foi julgado pelos Artistas 
digno de passar a Praticante de Desenho da 2. a classe com o vencimento 
de 200 reis: também não tem vencimento. 

«Apresentou o Architecto Pintor Manoel Piolti o Projecto para a pintura 
do Tecto da Salla quadrada do Torreão que mereceo a unanime approvação 
de todos os Artistas. E não se offerecendo mais nada a tratar na prezente 
Conferencia, a houve o sobredito Brigadeiro Intendente por acabada, e delia 
mandou lavrar este Termo, que assignou com o Architecto da Obra, Artis- 
tas, e Mestres, e comigo Escripturario que sirvo de Escrivão na Obra d 'Ajuda 
que o escrevi e assignei. — Bernardino de Sena Lemos da Rocha — Fava — 
António Francisco Rosa — Arcangelo Fasquini — Máximo Paulino dos Reis. 
John Johnston — Sebastião José Alves — António Joaquim de Faria — Manoel 



94 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Piolti — José Joaquim de Soma — João Pereira — José Pedro de Carvalho — 
Norberto José Ribeiro — João José d' Aguiar — Joaquim Gregório da Silva 
Ratto — José da Cunha Taborda-» i . 



«111." 10 Senhor. — Tendo sido preenchido o Pedido feito ao Governo rela- 
tivo ás Drogas de França que requisitei para os dous Painéis grandes allu- 
sivos aos Dias 26 de Fevereiro de 1821 e 4 de Julho do mesmo anno de 
que estou encarregado e tendo ficado em aberta, o artigo Manequim para 
vir depois, havendo-se as circunstancias dos trabalhos de Pintura augmen- 
tado consideravelmente, se me faz necessário lembrar a V. S. ria queira so- 
licitar a vinda pelo menos de hum dito de Mulher para o Estudo das Roupas, 
o que vem a ser de muita necessidade e economia para a Fazenda Nacional 
e Real, e melhor dezempenho do dito Estudo tão necessário como o Estudo 
do Natural para as Figuras, fazendosse ambas indispensáveis para a execução 
fácil e correcta das grandes Obras de Pintura de que estou encarregado. 
Obra do Paço Novo d'Ajuda em 21 de Dezembro de 1822. — O Pintor da 
Gamara de S. M. F. Arcangelo Fosquini» " 2 . 



«Senhor. — Diz Arcangelo Fosquini, Pintor da Gamara de V. M. dc em- 
pregado na decoração do Real Paço novo d' Ajuda, que elle Supplicante pa- 
dece moléstia, pela qual deve fazer uso dos Ranhos do Estoril, como consta 
pela attestação junta do Facultativo que trata delle e como o Supplicante não 
pode fazer uzo deste remédio sem licença de V. Mag. de esse o motivo por- 
que recorre a V. Mag. de afim de que haja por bem conceder-lhe a mencio- 
nada licença por hum mez com os seus vencimentos visto que o Supplicante 
não está em circunstancias de os perder, e fiado na Justiça e Rondade de 
V. Mag. de P. a V. Mag. de se digne differir ao Supplicante como umildemente 
implora. R. M. ce ». 

«José de Mattos cirurgião approvado e da Caza do Ex. m0 Senhor Cardial 



1 Torre do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do fieino. 

2 Idem, idem. » 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 95 

Patriarcha, ete. Attesto que o Senhor Àrcangelo Fosquini Pintor da Camará 
de S. M. soffre de moléstia herpetica, para a qual lhe são percizos os banhos 
do Estoril, como especifico remédio, por ser verdade paço a prezente que 
juro debaixo do juramento da minha Arte. Belém 10 de agosto de 1830 — 



«Senhor. — Diz Pedro Maria Fosquini, filho de Àrcangelo Fosquini, Pintor 
da ("amara de V. Mag; de que tendo tido a ventura de ser mandado admittir 
na Real Ohra do Palácio novo d' Ajuda pelo ex-Inspector, o Conselheiro Joa- 
quim da Costa e Silva, para debaixo da sabia direcção do Professor de Es- 
culplura João Joze de Aguiar, desenvolver as innatas dispoziçôes do suppli- 
caute para a ditta Bella Arte, e tendo no espaço de 30Mezes feito progressos 
consideráveis, mereceo ultimamente, que tendo aprezenlado um Modello em 
barro de numa Ceres de dois Palmos de altura, fosse visto na ultima conferencia 
de 28 de setembro próximo passado por todos os dignos Professores de Bellas 
Artes que ali costumão assistir prezedidas pelo Brigadeiro Intendente da re- 
ferida Obra, os quaes depois de o examinarem, concordarão unanimemente (que 
o Supplicanle vista a dispozição, e execução do referido Modello, merecia ser 
contemplado com o vencimento de algum salário afim de estimular a natural 
propensão do dilto) declaração esta que foi mandada lançar na Acta da refe- 
rida conferencia), para ser prezente a V. Mag. dc . Este o motivo porque o Sup- 
plicante se atreve a implorar o Real Patrocínio de V. Mag. Je afim de querei' 
dignar-se mandar deferir o Supplicanle com algum vencimento para o animar 
e de algum modo não servir de tanto pezo a seu Pay que se acha sobrecar- 
regado de numerosa família; e portanto P. a V. Mag. lle como Pay da Pátria e 
Protector de Talentos que se dedicão á cultura das Bellas Artes, seja servido 
deferir o supplicante da forma que pede, vistas as circunstancias que allega, 
e exemplos que existem ua referida Obra. Pedro Maria Fosquini. E. R. M. ce 
Informe o Brigadeiro Intendente das Obras Publicas. Lisboa 1 1 de outubro de 
1822. Ferreira de Araújo» -. 



1 Torre do Tombo. Maço 282 do Arcliivo do Ministério do Reino. 
* Idem, idem. 



96 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 



Rellação em rezumo dos Empregados da Real Obra do Paço d'Ajuda com os 
seus ordenados e seus vencimentos que levão a folha semanária 



Pintores de Historia: 



Arcangelo Fosquini 




1:000,5(000 


José da Cunha Taborda 




SOOáOOO 


Máximo Paulino dos Rej 


'S 


576^000 


Ajudantes dos ditos: 


i 


1#000 


» 


i 


800 


» 


3 


600 


Discipulos dos dittos: 








1 


400 




1 


300 




l 


260 




l 


240 




1 


200 



Real Obra do Palácio d'Ajuda 10 de outubro de 1821. 
Rosa l . 



António Francisco 



XXX. — Godinho. — Na Viagem de Francisco Pyrard, que visitou a nossa 
índia nos primeiros annos do século xvii, lè-se a seguinte descripção a res- 
peito de uma das salas do palácio dos governadores, onde estavam pintadas 
as armadas que tinham partido de Portugal: 

«No primeiro pateo á mão esquerda ha uma grande escadaria de pjedra 
mui larga e que conduz a uma sala muy espaçosa, na qual estão pintadas 
todas as armadas e navios que teem passado á índia, com seu numero, data, 
nome do capitão e até os navios que teem padecido naufrágio, alli teem sido 



1 Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. Esculptores mencionados são: João 
José d'Aguiar, Manuel Joaquim de Barros, Gaspar Joaquim da Fonseca, João Gregório e 
João Teixeira Pinto. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 97 

retratados. É cousa espantosa vèr tantos navios perdidos. Em summa não ha 
navio vindo de Portugal, por mais pequeno que seja, que alli não esteja re- 
tratado e não tenha o seu nome eseripto '.» 

Numa carta escripta de Gôa a 6 de janeiro de 1616 por Diogo do Couto, 
diz este chronista: 

«Os painéis das armadas que estavam n"esta casa da fortalesa apodrece- 
ram todos, e tiraram-se ; não ficou d'isto memoria ; ha três annos que. labuto 
com o Viso-Rey sobre se renovarem, até que depois d'estas naus vindas o 
acabei com elle, encommendou-me isto, e tenho já feito de um mez para cá 
mais de cem painéis de tintas muito boas, que faz o pintor Godinho, e por- 
que o painel da primeira armada, em que o senhor Conde Almirante veiu 
descobrir a' índia era muito pequeno e acanhado, como se aquelle capitão não 
fisera um dos mores feitos do mundo, mandei-lhe faser um painel tamanho 
como os dous dos outros em que lhe puz letreiros que merece». 

Esta carta foi publicada em Lisboa em 1808 por António Lourenço Ca- 
minha no opúsculo intitulado Obras inéditas de Diogo do Couto. 

Quem seria este Godinho? Acaso o Godinho de Heredia, descobridor e 
cosmographo ? 



XXXI. — Goterres (Mestre). — Poeta, calligrapho e porventura debuxa- 
dor e miniaturista dos fins do século xvi. A sua individualidade parece-me 
comparável á de Pinheiro Arnaud, de quem trato adeante. A sua biographia 
acha-se compendiada num soneto de André Falcão de Resende que transcre- 
verei aqui: 

Quem busca obras subtis d'engenho raro, 
D"artificiosa mão, felice veia, 
Da limpa ortographia a casta idáa, 
Goterrez veja, em fama e esp'rito claro. 

Fácil canta e compõe, qual Naso ou Maro, 
E de ricos characteres o arreia; 
Dá vida e lustro á letra, e d'isto cheia 
Vestil-a de mil cores não é avaro. 



1 A Viagem de Pyrard foi traduzida por J. H. da Cunha Rivara e publicada em Gôa 
em 1858. Trechos relativos áuuella cidade acham-se transcriptos no 3." vol. da obra do 
Dr. Teixeira de Aragão, Descripção Geral e histórica das moedas. 
13 



98 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

D'engenho tão sublime e peregrino 
Eseriptor Lusitano e tal poeta, 
Pedir o manda ao Tejo o Tiberino. 

Diz, pois não ha na pátria bom proplieta. 
Que de Orem passa ao Alpe e Apennino. 
A Roma honrar quçm cà a pobreza inquieta. 

Vê-se portanto que mestre Gotterres era poeta, calligrapho e illunrinador 
e não -só compunha como Ovídio ou Yirgilio, mas debuxava em excellente 
calligraphia as suas composições poéticas, enfeitando-as de arabescos e illu- 
minuras. Eseriptor lusitano lhe chama Falcão, mas não sei que exista qual- 
quer trabalho seu na nossa lingua, ou pelo menos memoria d'elle. Que mais 
nos diz o soneto? Que era natural de Ourem, e que ia passar a Roma, já 
que na sua pátria não lograva honrados meios de subsistência. E se inter- 
pretarmos á lettra o ultimo verso do primeiro tercetto, parece, que era da 
cidade eterna que lhe vinha o convite para lá exercer a sua profissão artís- 
tica. 

Áquelle tempo existiam em Roma notabilissimos illumiiiadores, e se Go- 
terres se animava a procurar a capital das artes para alli desenvolver o seu 
talento, é porque se reconhecia com forças para luctar com os émulos, que 
necessariamente havia de encontrar. Que papel exerceu alli? Qual foi a sua 
carreira? Eis o que não sei. É possível que na historia da arte italiana elle 
deixasse algum vestígio, mas por ora ainda o não pnde encontrar '. 

Da sua capacidade poética tenho aqui dois documentos que encontrei ca- 
sualmente, como tantas vezes me tem suecedido nos meus trabalhos de inves- 
tigação. Vou ás vezes no encalço de uma cousa e depara-se-me outra inteira- 
mente imprevista. Em mina extranha é que se encontra inesperadamente o 
grãosinho de ouro apetecido. 

Em ir>94 publicava em Coimbra o doutor Gonçalo de Cabedo, na offieina 
de António Rarreira, um tractado de direito ecclesiastico intitulado Diversorvm 
jvris argvmentvm libar primvs. A este livro andam appensas, como deleite de 
matéria fastidiosa, as poesias latinas do pae do auetor, o celebrado juriscon- 
sulto e humanista Miguel de Cabedo. No rosto do livro menciona-se que se 
juntaram alguns opúsculos: Accesserunt & alia queedam opusctda in gratiam 



1 Se Goterres terminou os seus dias em Roma e alli foi exhumado, não se nos depara 
commemoração sepulchral na collecção que o abade Caetano Frascarelli publicou em 1868 
n'aquella cidade sob o titulo de : — Iscrizioni Portoghesi che esistono in diversi luoghi di 
Roma. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 99 

stitdiosorum, mas não se especificam. Na approvação, o revedor Fr. Bartho- 
lomeu Ferreira, o que censurou os Lusíadas, diz que vira com toda a diligencia 
o livro, mm cceteris adiunctis, mas guarda egualmente silencio sobre a natu- 
reza d'elles e sobre a sua paternidade. Barbosa não reparou para estas decla- 
rações e, se folheou o volume, não notou o appendice poético. Não é todavia 
para causar reparo esta omissão, porque em alguns exemplares, como no da 
Bibliotlieea Nacional de Lisboa, não o encontrei. Entre as diversas composi- 
ções do appendice vem uma poesia latina dirigida por um Goterres a Miguel 
de Cabedo. Parece-me que não poderá haver a menor duvida em o identificar 
com o poeta elogiado por Falcão de Resende. A poesia é uma saudação e 
uma supplica, mas não esclarece a biographia do auctor. 

Eis o titulo: 

Ad clarissimum virum Michaelem Cabedium iuris vtriusq; consultissimum, 
Regii Vtyssceiqúe senatus senatorem grauissimum, Guterrii, carmen. 

O segundo documento é ainda outra poesia, escripta também em latim, e 
que se encontra nos preliminares da obra do celebrado jurisconsulto e ma- 
gistrado António da Gama, Decisiones Svpremi Senatvs, impressa em Lisboa, 
n'um grosso volume in folio, pelo typographo Manuel João, em 1578. A poesia 
vem a par de duas egualmente encomiásticas, de Diogo de Castro (Jacobus 
de Castro). O seu titulo é: 

Ad gravissimi Antonii Á Gamma prwclarissimum opus Guterrij Cármen. 

Duas eircumstancias se offerecem aqui a notar: a primeira é o modo idên- 
tico com que as duas poesias principiam. A segunda é serem ambas dedica- 
das a dois desembargadores do paço. Accresce que Falcão de Resende foi 
também juiz. Isto me leva á indução de que Goterres, estando tão relacionado 
com gente de foro, fosse talvez empregado em algum tribunal. Mera supo- 
sição todavia. 



XXXII. — Leoni (Carlos António). — Pintor florentino que exerceu a sua 
actividade em Lisboa, no século xvm, no reinado de D. José I, e já porventura 
no de D. íoão V. Parece ter-se dedicado especialmente ao retrato, como o 
provam diversas composições suas n'este género. 

Na galeria de retratos da Bibliotheca Nacional de Lisboa, existem alguns, 
executados por elle entre os annos de 1760 e 1774. São em tela, sendo um 
de tamanho natural, o de Fr. Miguel Contreiras, (1766) e os outros em meio 
corpo a saber: Fr. Domingos Pereira; Fr. António dos Beis (1760), P. Esta- 
do d'Almeida, (1774), Pedro Troyano, P. João Col, D. Júlio Francisco d'Oli- 
veira (1766). 

Na importante Collecção Iconographica, organisada por Diogo Barbosa 



100 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

Machado, o eminente bibliographo a quem devemos a Bibliotheca Lusitana, 
e da qual está hoje de posse a Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, que 
a descreveu numa serie de volumes, vêem apontados os seguintes retratos: 

N.° 583 — D. João V— Carolus Ant. Leoni fecit. 

N.° 605 — D. Maria Anna d'Austria, — Peint à Lisbonne par Ch. Ant. 
Leoni, gravado pelo mesmo artista. 

N.°'612 — D. José I, pintura a aguada de nanquim — Carolus Antonius 
Leoni Floren. s inve: et delin. 

N.° 615 — Inverso do antecedente com a mesma inscripção e mais R. Gail- 
lard sculp. 

N.° 1044 a 1048 — Retratos dos primeiros cinco duques de Bragança, 
delineados por Leoni e gravados por Miguel M. Aubert, Petit filho, e Boberto 
Gaillard. 

Ha um Octávio Leoni, pintor romano e também gravador, que vivia no 
primeiro quartel do século xvu, 1623-1625, e que era cavalleiro de Christo, 
ou de Malta, segundo Barbosa. Vide n. os 1969, 1970 e 1973 do catalogo. Este 
ultimo é o retrato de João Lourenço Bernini, que também era cavalleiro de 
Christo. 

Até agora não obtive nos nossos archivos nenhum documento que diga 
respeito a Carlos António Leoni, pelo que nada mais posso accrescentar. 



XXXIII. — Leoni (Francisco Eloy de Paula). — D'este artista que não sei 
se terá alguma relação de parentesco com o antecedente, encontrei um reque- 
rimento em que se declara pintor de ornato e pedia para ser admittido como 
official da sua arte nas obras do Paço da Ajuda. Seria filho ou descendente 
de Carlos António? 

O requerimento, que passo a transcrever, não tem data, mas é reforço a 
outro de 4 de novembro de 1828, e n'elle declara que tem numerosa familia 
a sustentar. 

«Senhor — Diz Francisco Elloy de Paula Leoni Pintor de ornato que tendo 
pedido a V. R. Mag. de para ser admetido a official da sua arte de Pintura no 
Real Palácio de N. Sn." da Ajuda, V. R. Mag. de se dignou apor por despacho 
— Esperado — no requerimento de 4 de Novembro de 1828, cujo requerimento 
se acha na Secretaria de Pedro Vaz, o supplicante tem hido varias vezes á 
presença de V. R. Mag. de e lhe tem mostrado com justiça e com documento 
o direito que tem ao que implora em que o haja de admitir nas obras que 
efectivamente se continuão em o Real Paço de Nossa Senhora da Ajuda para 
meios de sua subsistência, e de sua numeroza familia, e no entanto Pede a 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 101 

V. R. M. de que por efeitos da sua Regia, e Augusta Piedade se digue mandar 
que o supplicante seja admetido com efectividade nas obras da classe de Pin- 
tura èm o Real Paço de N. Sr. dajuda como requer. E. R. M."» 1 



XXXIV. — Loo (Luis Miguel Van). — A expulsão dos jesuítas foi um dos 
actos mais audaciosos e de maior alcance politico do reinado de D. José I, 
e tanto que ainda hoje, volvido século e meio, desperta brados de indignação 
e de protesto nos lábios frementes dos sectários de Loyola. 

O marquez de Pombal parece ter querido assumir única e exclusivamente 
a gloria e a responsabilidade d*este feito, que revela simultaneamente a ener- 
gia do seu caracter e a ardileza do seu espirito diplomático. Isto não passa 
de mera supposiçfio, mas supposição que julgo ter um fundamento plausível. 
Se o poderoso ministro pensasse no seu intimo d'outra maneira, não teria 
acceitado sem reparos a apotheose que lhe consagraram duis estrangeiros, 
residentes em Lisboa, e que estavam no goso da sua intimidade. 

Essa apotheose consiste num quadro, onde, no primeira plano, avulta a 
magestatica figura do marquez, sentado numa cadeira, como que pensando 
na reconstrucção de Lisboa, cujos traçados se vêem sobre uma mesa, e ao 
fundo o embarque dos jesuítas. O sol da realeza parece ter-se eclipsado para 
brilhar somente o astro do cortezão. Este quadro é para o prepotente valido 
o mesmo que para o monarcha a estatua equestre do Terreiro do Paço. É 
certo que não foi o marquez que ordenou a pintura, nem foi sob as suas 
ordens directas que ella se executou, mas com certeza que não deixaria de 
vêr e de applaudir o plano primitivo, ficando satisfeito o seu orgulho, com 
esta honrosa e excepcional consagração. 

A ideia partiu de dois negociantes estrangeiros, cuja sede commercial era 
na rua Formosa, num prédio do marquez, pelo qual pagavam uma renda assas 
avultada. Esta circumstancia dava pretexto aos remoques dos seus collegas, 
que viam com ciúmes os favores dispensados pelo marquez aos seus inquili- 
nos. Nas memorias de Jacome Ratton lia reflexos significativos d'essa mordente 
rivalidade. Os dois negociantes chamavam-se David Purry e Gerardo Devisme, 
e tinham o privilegio do pau-brazil, sem duvida uma das fontes principaes da 
sua rendosa mercancia. 

Dos dois sócios, o que entre nós disfruetou maior e mais merecida fama 
foi Gerardo Devisme, cujos hábitos faustosos e cuja inclinação para a sciencia, 



1 Tone do Tombo. Maço 282 do Archivo do Ministério do Reino. 



102 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

para as artes e paca a litteratura, o distinguiram sobremaneira na sociedade 
elegante do seu tempo. O seu nome ainda hoje permanece nos annaes da 
botânica a qualificar um género de plantas, e as recordações das suas es- 
plendidas vivendas de S. Domingos de Bemfica e de Monserrate não se apa- 
garam de todo. Nem sempre a vida lhe decorreria grata no nosso pais, pois 
parece que alguns desgostos o obrigaram por ultimo a abandonal-o. Desco- 
nhece-se, porém, a verdadeira causa que motivou a sua ausência. 

David Purry, se não deixou em Portugal viva lembrança do seu nome e 
dos seus actos, se não mereceu por isso que lhe consagrássemos a homena- 
gem da nossa gratidão, já não succede o mesmo na sua terra natal, que en- 
cheu de benefícios, legando-lhe sommas importantes para estabelecimentos 
de ensino, caridade e para outras obras de aformoseamento. Natural de 
Neuchatel (Suissa) nasceu em 1709 e falleceu em Lisboa em 1788. Os seus 
concidadãos erigiram-lhe um monumento, sobre o qual a sua estatua campeia 
numa praça publica, que tem o seu nome. O artista que executou este traba- 
lho foi o distincto esculptor francez David d'Angers. 

Na face principal do plinto lè-se a seguinte inscripção: 

MDCCCXLHI 

David de Purry 

né Á Neuchatel, en 1709, mort á Lisbonne en 1788 

II légua á sa ville natale 

Sa FORTUNE ACQUISE DANS LE COMMERCE 

pour que les revenus en fussent appliqués 

á des oeuvres de charité, 

á l'lnstruction publique, 

á l'embellissement de la ville. 

Ses concitoyens ont eleve ce monument á sa mémoire. 

A biographia do generoso philantropo pôde lèr-se no tomo xm, do 
Diccionario de Larousse, onde todavia não se faz ainda referencia á sua 
estatua. 

O quadro alludido não foi producto nacional, antes se enviou para Paris 
a encommenda, encarregando-se da sua execução dois artistas de incontestá- 
vel merecimento e então muito em voga, cada qual no seu género, Luis 
Van Loo e Vernet. Çyrillo Volkmar Machado, na sua Collecção de Memorias, 
dá-nos curiosas, ainda que breves, informações acerca dos esboços que foram 
remettidos de Lisboa e que deviam servir de guia e de modelo aos pintores 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 103 

francezes. No começo do artigo a respeito de Padrão (paginas 114) diz o se- 
guinte : 

"Fez os esbocelos, que forão para França para por elles se executar 'o 
grande retrato do Marquez de Pombal expulsando os Jesuítas*. 

E mais abaixo accresoenta, tratando de Carpinetti: 

«Desenhou toda a Marinha de Belém, e o embarque dos Jesuítas para 
servirem de modelo á que se gravou em França, por ordem de Gerardo 
de Visme na famosa estampa do Marquez de Pombal, bem conhecida dos 
curiosos». 

O quadro, que ainda hoje se conserva no palácio pombalino de Oeiras, 
foi divulgado pela gravura, devido ao buril de Beauvarlet, e nella se lêem, 
além da dedicatória em latim, as indicações relativas a todos os artistas, que 
collaboraram na obra. Quanto não seria para desejar que o Estado empre- 
gasse as diligencias necessárias para obter este quadro, collocando-o na ga- 
leria nacional de pintura, onde ficaria perfeitamecte bem, pois o Museu das 
Janellas Verdes acha-se estabelecido num palácio, que também foi propriedade 
do eminente estadista 1 

Não devo omittir, competindo-me, pelo contrario, pôr em relevo, uma 
circumst anciã, que muito contribue para tornar mais interessante a historia 
do quadro. Refiro-me ás observações do nosso representente em Paris, D. Vi- 
cente de Sousa Coutinho, em officios dirigidos ao próprio marquez, em 6 de 
outubro e 8 de dezembro de 1766. Escreve elle no primeiro: 

«Um destes dias veio a minha casa um banqueiro de Paris, o qual me 
disse que um dos seus correspondentes de Lisboa o encarregara de mandar 
fazer aqui por um dos mais celebres pintores o retrato de v. ex. a , e que elle 
havendo escolhido monsieur Vanloo, me pedia fosse ver se estava similhante 
e que desse o meu parecer sobre os attributos de que se havia ornar o painel 
para melhor caracterisar o Heroe. Ainda o não vi, por causa de um fluxo, 
com que passei estes dias, mas para o correio saberei dar a v. ex. a uma 
completa informação desta matéria. Supposto que as acções de v. ex. a , gra- 
vadas nos corações dos homens, sejam monumentos mais gloriosos, sempre 
se deve muito a este bom portuguez, de que elle me não disse o nome, de 
dar o testemunho do seu reconhecimento e multiplicar aos seus compatriotas 
as imagens de um ministro, cuja memoria passará por tantos outros modos 
á posteridade». 



104 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

No segundo lè-se: 



J o v 



«O retrato de v. ex. a é muito similhante e eu tive o gosto de ver uma 
copia sua, que faz uma doce illusão á saudade. Determinou pintar na parte 
inferior do quadro o porto de Lisboa e nelle a nau que conduziu os jesuítas. 
Ainda que a extincção desta Sociedade perigosa seja uma das melhores épo- 
cas para Portugal, parece-me que se podia juntar a esta ideia outro qualquer 
ornamento, de que è capaz a excellente mão do pintor». 

Dois pontos essenciaes resaltam uesta correspondência do nosso ministro 
na corte de França e que nos obrigam a reflectir. Em primeiro logar não 
deixa de causar estranhesa o mysterio que se guardou, emquanlo ao nome 
do individuo, que desejou manifestar o seu reconhecimento ao benemérito 
estadista. Em segundo logar, parece que o diplomata portuguez não applaudiu 
incondicionalmente o episodio do embarque dos jesuítas, preferindo que se 
lhe juntasse qualquer outro ornamento, querendo talvez dizer que fora me- 
lhor substituil-o por coisa mais apropriada. O marquez sorriu, porventura 
contrafeito, ao lèr este reparo, comprehendendo a maliciosa ingenuidade de 
quem o fazia. 

Direi agora algumas palavras acerca dos auctores que executaram o qua- 
dro. Luis Miguel Van Loo fez parte de uma geração de artistas de reputação 
não vulgar. Filho e discípulo de João Baptista Van Loo, nasceu em Toulon 
em 1707 e falleceu em Paris em 1771. Por morte de Ranc, Filipe V, rei de 
Hespanha, o nomeou seu pintor. Vindo para Madrid, foi muito apreciado na 
corte, onde executou muitos retratos, género em que primava, alguns dos 
quaes figuram no Museu do Prado. Por morte do soberano hespanhol, re- 
gressou á sua pátria, onde exerceu o professorado, substituindo seu tio Carlos 
Van Loo na direcção da Escola Real dos aiumnos protegidos. Não me consta 
que Luis Van Loo viesse a Portugal, emquanto residiu em Madrid, e não sei 
se entre nós existirá mais alguma obra do seu pincel, além do quadro em 
que resalta a effigie do marquez de Pombal. 

Cláudio José Vernet nasceu em Âvinhão em 1714 e falleceu em Paris em 
1789. Foi nas marinhas e nas paisagens que mais sobresaiu o seu talento. 

Expuz concisamente, com tanta concisão como imparcialidade, baseado 
em factos e documentos incontestáveis, a historia do quadro, em que os dois 
negociantes quizeram perpetuar o seu reconhecimento ao marquez de Pom- 
bal, ao mesmo tempo que lhe inalteciam os feitos. O leitor, em presença 
d'esta singela narrativa, formará o juizo que julgar mais adequado acerca 
de uma obra que tanto se recommenda pelo seu valor artístico, como pelas 
suas intenções politicas e até mesmo de caracter pessoal. 



NOTICIA DF. ALGUNS PINTORES 105 

XXXV. — Marcelino Joaquim). — Era pintor omamentista na obra do 
Kcal Palácio da Ajuda. Tendo sido requisitado pelo conde de Redondo, para 
executar certo trabalho por ordem de Sua Magestade, o vice-inspector das 
obras do palácio da Ajuda, officiou em 24 de abril de 1830 ao duque de Ca- 
daval a perguntar-lhe se elle continuaria a receber pela repartição das obras 
do mesmo palácio. 

«Ill. ra0 e Ex. m0 Sr. — Tendo recebido bum Offieio do E\. m " Conde de Re- 
dondo com data de 23 do corrente me/., em que exige lhe mande aprezentar 
na segunda feira próxima futura o Pintor-ornatista Joaquim Marcelino em- 
pregado nesta Real Obra, para o encarregar de certa obra, para a qual o 
mesmo Ex. m) Sr. diz se acha authorizado por Sua Mag. de . Rogo a V. Ex. a 
queira ordenar-me se durante aquelle emprego deverá o mencionado Artista 
ser abonado por esta Repartição, visto que ignoro o objecto em que he em- 
pregado, tendo em tudo cumprido em numa tal requisição. Deus Guarde a 
V. Ex. a Real Obra d' Ajuda 24 de Abril de 1830. Francisco António Raposo, 
Rrigadeiro-Sub-Inspeetor. — 111. mo e Ex."'° Sr. Duque do Cadaval» '. 



XXXVI. — Mattos (Marçal de). — Era pintor e morava a S. Christovão. 
Em 1575, a 8 de abril, compareceu no tribunal do Santo Offieio a depor 
contra Filipe de Góes, estrangeiro, por elle dizer, entre outras coisas, que <> 
que entrava pella bocca não fazia mal nem era peccado. Eis o respectivo do- 
cumento : 

«Aos oito dias do mes de Abril de mil quinhentos setenta e cinquo ânuos 
cm Lixboa nos Eslaos na casa do despacho da Samta Inquisição estando ali 
o senhor Inquisidor Jorge Gonçalvez Ribeiro e o doutor Rodrigo Aires depu- 
tado deste Santo Offieio perante elles pareçeo Marçal de Matos pintor de idade 
que disse ter de vinte e bum annos pouco mais ou menos morador a Sam 
Cluistovam natural que disse ser desta cidade, ebristão velho ao qual foi 
dado juramento dos Santos Evangelhos em que pos sua mão e prometeo dizer 
verdade e denunciando disse que besta coresma passada estando elle denun- 
ciante na praia da Roa Vista omde estão as casas caidas no forno omde se 
coze a lousa vidrada omde mora hum estrangeiro que se chama felipe de 
Guois foi ali ter hum mancebo que se chamava Guaspar Carualho que diziam 
que hera natural do Porto e esta agora frade em hum mosteiro de Sam Fran- 
cisco de Serpa e estamdo assi todos três o dito Gaspar Carualho perguntou 



1 Torre do Tombo. Maço 282 do Arcliivo do Ministério do Reino. 
14 



106 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

ao dito Felipe de Guois em que tempo estevera elle em sua terra por lhe ter 
dito dantes que fora jaa Ia ter e o dito Guaspar Carualho lhe disse que es- 
tevera nella no tempo em que o duque dallua fora la matar aquella gente 
dizendo o dito Felipe de guoes que os matauão porque la na sua terra nam 
quiriam senão que dissessem missa em linguajem que a entendessem todos 
e que os clérigos que fossem casados pêra lhe não andarem com suas mu- 
lheres e -que o dito Guaspar Carualho respondeo que hera muito bem feito 
matarem nos porque aquillo hera lutheranismo e o dito Felipe de gois res- 
pondeo então agastado que os não matassem mas que os prendessem porque 
elles não queriam ser sujeitos a elrei Felipe e nam passaram mais nada e 
ficou fallando soo o dito Felipe de Gois agastado mas que elle testemunha o 
não entendia por fallar em sua linguoa e que isto foi depois de gentar e não 
sabe se tinha ja comido e bebido o dito Felipe de gois e depois disto disse o 
dito Felipe de gois a elle confessante hum dia em sua casa estando sua mo- 
lher presente e outro flamengo que se achou ali então a que nom sabe o nome 
que pêra que. jejuava elle denunciante tanto por ser na coresma e dando lhe 
um queijo pêra comer elle denunciante lhe respondeo que não comia aquillo 
na coresma e o dito Felipe de gois lhe disse que comesse que o que entrava 
pella boca não fazia mal nem era pecado e elle denunciante lhe respondeo 
que o não queria comer e nom sabe se o dito flamengo e sua molher ouvirão 
também isto mas que pode ser que o ouvirão porque falou allto e declarou 
que se uir o dito flamengo que o conhecerá mas que lhe não sabe o nome e 
que o dito Felipe de goes será de trinta e cinquo annos pouco mais ou menos 
ornem de boa estatura barba loura e hé mestre de lousa vidrada e elle de- 
nunciante estaua em sua casa quando lhe ouvio o sobredito pintando hum 
Arco pêra a capella de Nossa Senhora da Conceição e ai não disse e do cos- 
tume disse nada e lhe foi mandado ter segredo sol» cargo do Juramento que 
recebeo e elle assi o prometeo, dando elle denunciante conta do sobredito a 
hum frade de Nossa Senhora da Graça seu confessor o mandou que o viesse 
dizer nesta mesa e por isso o vem denunciar e assignou juntamente com elles 
senhores. Joam Campello notário aposlollico o escreui. — Jorge Gonçalves Ri- 
beiro — Marçall de matos — O Doutor Rodrigo Aires* '. 



XXXVII. — Mendes (Ruy). — Carla regia de 5 de julho de 1309 para 
que a camará inste com Ruy Mendes para concluir o «retavolo de santanto- 
nio», de que fora incumbido. 



1 Torre do Tombo. Livro de Denuuciações de 1560, d. u 106, fl. 320 v. 



NOTICIA l>li ALGUNS PINTORES 107 

O retábulo, a que se refere esta caria, foi depois de prompto collocado 
sobre a porta principal da egreja de Santo António *. 



XXXVIII. — Monte Alvão ou MonfAuban. — A affluencia de estrangeiros 
em Lisboa nos fins do século xv e durante o século xvi, é deveras considerá- 
vel, prehenchendo ou tornando menos sensível a lacuna deixada pela expulsão 
dos mouros e judeus, vielimas ao mesmo tempo dos preconceitos sociaes, da 
intolerância religiosa, e da avidez do fisco. 

Os nossos descobrimentos marítimos dando um fulminante derivativo ao 
transito das especiarias, transformando Lisboa num immenso bazar de produ- 
ctos orientaes, foram a principal causa d 'essa corrente migratória, que im- 
primiu tão singular cunho de cosmopolitismo á civilisação portugueza. 

A navegação e o commercio, os sonhados proventos das empresas mer- 
cantis não foram os únicos attractivos. Com os negociantes vieram também os 
artistas, os industriaes, e até os sábios, estes últimos chamados para mestres 
dos nossos reis e para professores nas escolas e Universidade. De envolta 
com tudo isto, já se vê que não faltaria a chusma dos aventureiros de toda a 
casta. 

As principaes colónias eram formadas pelos flamengos e outros povos de 
raça congénere, e pelos italianos, que tinham monopolisado em grande parte 
as operações commerciaes e bancarias. O florentino Bartolomeu Marchioni 
chegara a ser o topa-a-tudo do primeiro quartel do século xvi. Outras nações, 
como a hespanhola, sobresaindo os castelhanos e biscainhos, também estavam 
largamente representadas. 

Os artifices francezes abundavam egualmente exercendo variados officios: 
relojoeiros, ourives, serralheiros, lapida rios, marceneiros, oculistas, impri- 
midores, etc. D'este numeroso grupo destacarei agora um debuxador de que 
só se conhece o appelido, Monte Alvão, evidentemente aportuguezado, devendo 
talvez ser MonfAuban reduzido á sua língua natal. 

Antes de proseguir 11'esta brevíssima noticia, direi que ella me foi forne- 
cida pelo depoimento que se encontra num dos livros das denuneiações do 
Santo Offlcio, preciosa mina para o estudo dos costumes e do estado dos es- 
píritos cfaquellas épocas, tão cheias de effervescencia religiosa e de sobresaltos 
contínuos. O que admira é como os estrangeiros, tão expostos aos vexames 
inquisitoriaes, não abandonassem o pais, e aqui permanecessem, não obstante 
as ameaças do perigo. É verdade que lá fora a situação não inspirava mais 



1 Elementos para a historia do município de Lisboa, vol. I, pag. 408. 



108 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

confiança, graças ás lactas sangrentas e odiosas entre catholicos e protes- 
tantes. 

João de Paris, fabricante de relógios de marfim, apparece frequentes vezes 
no tribunal da Inquisição, já denunciando por conta própria, já servindo de 
interprete em denunciações e processos de alguns seus compatriotas. 

Monte Alvão foi denunciado por um João Luis, official de broslador (ou 
bordador), casado, o qual trabalhava em casa de seu mestre Estevão Lopes, 
residente na Rua Nova ao Pocinho. A denuncia effecluou-se a 8 de julho de 
L r >G0, em presença do doutor Ambrósio Campello, inquisidor. Dias antes acer- 
tara de passar por alli o Monte Alvão, levando um prato de peixe e uma 
rosca. Entrou e subindo a convite de Estevão Lopes, offereceu almoço aos 
dois bordadures, o que elles não acceitaram, alegando que era dia de jejum, 
que não queriam quebrar para ganharem o jubileu. A isto seguiu-se uma 
curiosa pratica, em que o francez chegou a citar um texto latino e passos do 
Velho Testamento, em que era lido, e de que possuirá outr'ora um exemplar. 
As ideias do francez, sem serem demasiado livres, tinham todavia resaíbos 
heterodoxos, que não podiam agradar a um fervoroso catholico e papista. 
Apesar de amigo de Monte Alvão, João Luis sentiu rebater na sua consciência, 
e para alivial-a do peso de taes escrúpulos, foi lançar-se aos pés do confessor, 
narrando-lhe a scena em que fora um dos protagonistas. O bom do padre 
aconselhou-o a que fosse sem demora desabafar com a Inquisição, o que assim 
fez, como fica dito. A denuncia parece que não teve seguimento, pois não 
apparece o respectivo processo sob o nome de Monte Alvão. 

Este era homem de mais de cincoenta annos, de barba encanecida, e 
casado com mulher, que o denunciante não sabia se era portugueza ou da 
naturalidade do marido. Murava na rua do Crucifixo, ao Santo Espirito da 
Pedreira, onde tinha tenda do seu officio. 

Pelas suas relações com os dois bordadores, sou levado a crer que a sua 
especialidade consistiria em fazer desenhos para bordados. 

Simples artífice, ou mais alguma cousa do que isso — um artista do lápis? 

Talvez algum dia, em face de novos dados e documentos, tenhamos satis- 
fatória resposta a esta pergunta. 

«Aos oyto dias do mes de julho de j b c lx annos em Lixboa na casa do 
despacho da Santa Imquisyção estamdo hy o Senhor doutor Ambrosyo Can- 
pelo Imquisydor perante elle pareceu Joam Luis Borlador, casado e trabalha 
em casa dEsteuão Lopez, broslador que vive na rua Noua ao Pocinho e lhe 
deu juramento dos Santos avangelhos em que pos sua mão e prometeo dyzer 
verdade e dise que quarta feira esta pasada estamdo elle na temda com o 
dito Esteuão Lopez pasou hy pela porta hum francês per nome Monte Aluão 



NOTICIA DK ALGUNS PINTORES 109 

debuxador morador ao Crosefixo de Santo Esprito da pedreira na qaela rua 
e aliy casado num sabe se com portuguesa se com franceza o qual leuaua 
debayxo da capa peyxe fryto em hum bacyo com hum pedaço- de rosca e o 
chamou o mestre pêra ovina e foy e estamdo em pratica lhes dise o dito 
francês se queryão almoçar e que elles lhe diserão que era dia de jejum e 
jsto lhe diseram por jejuarem emtão pêra ganharem o jubileu e elle Monte 
Aluão lhes dise então se elles se furtauão e elle denuncyaute lhe dise pojs 
nom ha de jejuar senão quem furta, e o dito francês dise então em latim que 
Deos nom querya a morte do pecador senão que se comuertese e viuese e 
elle denuncyaute lhe dise pojs por huua pessoa jejuar hum dia logo ha de 
morer dizemdo elle denuncyante majs que huua cousa como esta tão sancta 
que o Santo padre manda he Rezão que a tomamos e recebamos dizendo jsto 
pelo jubileu, e elle Monte Aluão lhe respomdeo damdo com o dedo e mar- 
chando: ha tem mamcebas, dizendo majs rimdose por que prendeo elRey Faraó 
O profeta Danyel e lhe dise elle denuncyante que diuya elle de ter o testa- 
mento velho em casa e elle lhe dise que sy tiuera e que avya muitos annos 
que lera por elle e que agora o nom tinha e pergumtandolhe elle denuncyante 
que era aquelle dito Daniel e elle lhe dise por que disera a ElRey Faraó de 
huus falsos profetas que tinha os quaes lhe queryão fazer cremtes que nom 
comyão e se mantinham das frutas que cayão per huus buracos abayxo e pa- 
reseu a elle denuncyante que querya dizer o dito Monte Aluão que ajnda agora 
avya falsos profetas posto que nom declarou jsto majs e que dizemdolhe elle 
deelaramte em certa parte da dita pratica ao proposyto delia que Nosso Senhor 
disera a São fero que o que elle íizese na terra seria feito nos ceõs e que o 
dito Monte Aluão respondeo a jsto dizendo jso, dise a São Pêro e que elle 
lhe dise Monte Aluão deyxamos jso e creamos aquilo que tem a Santa Madre 
jgreja de Roma e elle Monte Aluão dise sy, e elle denuncyante se deceo para 
baixo e o dito Monte Aluão ficou em cyma com o mestre o comfessandose elle 
hontem em São Francisco e damdo conta disso a seu confesor lhe dise que 
vyese dizer a este Santo officyo e por jso o vem dizer e do costume dise que 
he seu amigo e que o dito Monte Aluão tem a barba branca homem jaa de 
cinquenta annos pêra cyma e tem temda de seu officyo em sua casa e jsto 
pasou pela mynham e nom sabe com que tenção dise as ditas cousas somente 
lhe parecerem mal e nom estaua ahy majs que o dito mestre e ai nom dise e 
lhe foy mandado ter segredo no caso sob carego de juramento e elle asy o 
prometeo e asynou aquy jumtamente com elle Senhor Imquisydor António 
Rodriguez o spreuy = João Luis = Ambrosius Doctor» '. 



1 Torre do Tombo. Livro de Denunciações do anno de 1560, u.° 106, fl. 16 v. 



110 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

XXXIX. — Moraes (Balthasar de). — Era pintor e morava em Setúbal. 
A 22 de junho de 1552 compareceu no tribunal da Inquisição a denunciar 
Francisco Mendes, boticário e a 10 de agosto do mesmo anno era elle denun- 
ciado por um Sebastião Yaz, mercador. 

«Aos xxij dyas do mes de Junho de mill b c lij Annos em Lixboa na casa 
do despacho da samta Inquisyçam estando hy o Reverendo senhor padre 
mestre frey Jorge de Samtiago Inquisidor e os Senhores doutor Ambrósio 
Campello e licenciado Jorge Gonçalvez Ribeiro deputados do Santo officio 
peramte elles pareçeo semdo chamado*Raltezar de Morais pymtor morador 
na villa de Setuvall a que deram Juramento dos Santos Evangelhos e fizeram 
pergunta pello refferimento atrás e dise que era verdade que este dia do 
esprito samto agora pasado elle comtara a porta de Francisco Mendez boti- 
quairo dyamte de Rastiam Vaz o da louca e do dyto franeisco Mendez e dou- 
tros cristãos novos a quem nam sabe os nomes como em Alcacere ouuira 
a hum pregador de sam Francisco dizer que na sagrada espritura se não 
achaua que ouuesse ahy purgatoryo e que nyso se fundaram os luteranos e 
porem que despois dera certas Rezões em que mostrara que avya ahy pur- 
gatório, ao que respondeo o dito franeisco Mendez que sy que dera muy boa 
Rezam e porem que aquillo se nam aya de dizer senão antre leterados e des- 
pois descorrendo pella pratica vyera a falar naquelle artigo do credo que falia 
de condição inferos no qual dise que desejava de praticar com hum leterado 
e que inferos queria dizer as partes mais baixas que ho tromento que tinham 
as almas no inferno era carecerem da visam diurna e que disto era lembrado 
e que na dita pratica nam ouuera cousa de que fycase escamdalizado por que 
se ho ficara não agardara que ho chamasem. E dise mais que por vezes oimyo 
dizer a Micia de Rarquo niolher do dito Francisco Mendez que seu marydo la 
no Campo dourique com outro fazia suas cousas damdo a entender claramente 
que delia se queriam hir pêra fora do Reyno fazendo lhe dyso queixume e 
que Remédio tyria pêra o fazer a saber a esta mesa como de feyto o dito 
franeisco Mendez queria vemder tudo naquelle tempo, mas que agora o vae 
deytar em Rendas e estar asosegado e ali nam dise. Paulo da Costa que ho 
esprevi e do costume dise nada — Fr. Georgitts Sancti Jacobi — Baltesar de 
Moraes — Ambrosius — Jorge Gonçalvez Ribeiro» '. 

«Aos dez dias do mes de Agosto de mil b c lij Annos em Lixboa na casa 
do despacho da Samta Inquysiçam estamdo hy os senhores doutor Ambrósio 
Campelo e Licenciado Jorge Gonçalluez Ribeiro deputados do Santo officio 



Torre do Tombo. Livro das Dt?nuodações de 1550 por deante, n° 104, fl. 77 v. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 111 

peramte elles pareçeo Bastião Vaz mercador morador em Setuval na praça do 
pescado o qual per o Juramento dos Samtos Avangelhos denunciou e dise que 
dia do Espirito Samto este (jue ora pasou imdo elle denunciante pela porta 
de liííu Francisco Mendez boticayro morador na dita villa ouuyo estar prati- 
camdo o dito francjsco Mendez ahy a sua porta no seu tauoleiro com liuu 
pintor que se chama Moraes dalcunlia morador na dita villa e com liflu 
cunhado de Grauyel Fcrnandez sprivam da emmenta da Ribeira e que elle 
denunciante se chegou a pratica e se pos no lugar onde estaua hum Francisco 
Fernandez sirgueiro que se foy dahy pêra sua casa e que nom sabe em que 
pratica estauão os sobreditos somente ouuyo elle denunciante dizer ao dito 
Moraes pintor que nom sabe se hé christão novo se velho que ouuira dizer 
em huua pregaçam a hum pregador em Alcácer do Sal dya das vyrgens, 
que nom auya ahy purgatório, e que elle denunciante lhe respondera, que 
sempre ouuira pregar que auuya ahy purgatoreo e que asy o tinha por ffee. 
E que o dito Francisco Mendez botecairo acudio a isto dizendo sy que também 
eu ouuy dizer a huus caualeiros em presença do mestre de Santiago que nom 
auuyn ahy imferno, e que elle denunciante lhe Respondeo então que nenhuu 
caualeiro avya de dizer tal cousa que elle era demonyo que tal dezya e se 
benzeo, e que o dito franciseo Mendez lhe respondera que quando deos lan- 
çara os anjos do parayso huus ficarão no liar e outros descemderão a hum 
lugar que se chama Abiso, e que os que faziam bem hiam ao parayso e os 
que faziam mal hiam a lulu lugar omde nom tinham mais penna que carecer 
da visam devyna e que nom avya lugar onde cozesem nem asasem nem desem 
penna aas Almas que la hyâo. E que elle denuneyante lhe dise emtão e os 
meninos que morem sem bautismo, e que o dito franciseo mendez lhe Res- 
pondera que por a falta que tinham de bautismo nom participavão da gloria 
que tinham os que bem faziam neste mundo, e que estarem no lymbo que 
era huua certa escuridade, e que em esta pratica os deyxou e se foy ben- 
zendo delles e achou António Rodriguez Rombo esprivam e Estenam Lopez 
de Lagos e lhes deu conta do que se ally estaua dizendo, e o dito Esteuam 
Lopez lhe Respondeo: lie ese franciseo Mendez, e elle denunciante lhe dise: 
he huum deses homens que hy estaua, e deu diso conta a huum pregador que 
se chama Caruajales o qual o mandou ao vigário da vara, o qual vigário da 
vara lhe dise que nom podia tomar isto que se vyese a Lixboa e que lhe pa- 
rece que o cunhado do dito Grauiel Fernandez esteue atemto a dita pratica 
e porem que nom falou nada, e ai nom dise e do costume dise nada, e foylhe 
mandado ter secreto em todo o que tem testemunhado. Amtonio Rodriguez o 
esprevy. : — Jorge Gonçalvez Rybeiro — Bastião Vaz — Ambrósias» l . 



Torre do Tombo Livro das Denuneiações de 1550 por deante, n ° 10'i, (1. 76 v. 



112 NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 

XL. — Moraes (Christovão dei. — Tanto José da Cunha Taborda come Cy- 
rillo Volkmar Machado desconheceram a existência d'este pintor, que floresceu 
em meados do século xvi. Raczynski menciona-o brevemente no seu Dktion- 
naire e com mais extensão a pag. 214 do seu livro Les nrts en Portugal, dizendo 
que elle era pintor de ornato e dourador e que vivia no reinado de D. João III 
pelos annos de 1554. Estes apontamentos, tirados do Corpo CKronologico, 
fôram-lhe sem duvida offerecidos pelo visconde de Jorumenha. O extracto, 
porém, não é bastante desenvolvido, nem absolutamente exacto. Christovão 
de Moraes ainda existia no reinado de D. Sebastião, cujo retrato executou 
por ordem de sua avó a rainha D. Catharina. 

Dois mandados de pagamento fornecem-nos importantes subsidios para a 
historia do mobiliário real n'aquella época. Trata-se de um leito e de umas 
andas ou liteira. Esta, que devia ser elegante e luxuosa, apparece-nos em todos 
os pormenores da sua construcção, sem esquecer os nomes dos artistas e ar- 
tífices, que contribuíram para o bello conjuncto d'este primoroso artefacto. 

Em 3 de agosto de 1554 recebeu o pintor Christovão de Moraes a quantia 
de 26)51272 reaes pela restauração de um leito da recamera da rainha. Aquella 
somma repartia-se pelas seguintes verbas: 95600 reaes que custaram 3:200 
pães de ouro a razão de 35000 reaes o pão; 95600 reaes por estofar e assentar 
o dito ouro; 800 reaes de lavar, grudar e concertar o leito; 65000 reaes da 
pintura e lavor d'elle. 

N'este recibo deixaram de mencionar-se duas pequenas parcellas, que se 
accrescentaram immediatamente, a saber: dois tostões a um carpinteiro de 
marcenaria por armar o leito e dois reaes de prata que se deram aos moços 
que o trouxeram para o paço. 

Emquanto á liteira, essa tem mais que se lhe diga. pois o respectivo man- 
dado comprebende não menos de dezoito adições. 

As andas ou liteira foram construídas em Almeirim e restauradas em 
Lisboa no anuo de 1551, quando Suas Altezas vieram a Lisboa assistir a um 
sahimento. 

As andas eompunham-se: de um esqueleto em madeira, que nós hoje de- 
nominamos á franceza, carrosserie, o qual era lavrado, pintado, envidraçado 
e coberto de numerosa ferragem dourada. D'esta não se designa o serralheiro 
que a forjou, mas enumeram-se muitas e variadas peças, onde apparecem ter- 
mos technicos dignos de serem registados nos vocabulários, como, por exem- 
plo, golphãos; foram seus douradores Simão Dias e Gaspar Jorge. 

Diogo de Çarça foi o marceneiro que fez o corpo da obra pelo que recebeu 
415330 reaes, de madeira e feitio. 

António Ataca (certamente o vidraceiro da Batalha António Taça) poz os 
vidros, recebendo por isso 216000 reaes. 



NOTICIA DE ALGUNS PINTORES 113 

Christovão de Moraes recebeu 63M40 reaes, não só por dourar e pintar 
as andas, como também pelo ouro e tintas que empregou. 

Moraes não foi o único pintor a collaborar na obra. Um toldo de canha- 
maço, forrado de tafetá verde, pintou e dourou Simão Seco, que recebeu 
INiiOO reaes de ouro, tintas e feitio. 

Quando as andas foram restauradas em Lisboa em 1551 trabalhou n'ellas 
durante oito dias com vinte officiaes o pintor Ruy Soares, a quem se deram 
2#000 reaes, incluindo a importância das tintas e outras coisas necessárias. 

Assistiram lambem n'este concerto dois officiaes de Diogo de Çarça. 

Em 4 de abril de 1571 recebeu Christovão de Moraes iá#000 reaes ;i 
conta do que mais devia receber pela feitura de um retraio de I>. Sebastião, 
que a rainha D. Catharina mandara executar. Parece que este monarcha fora 
retratado frequentes vezes, e p