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Full text of "Noticias de Portugal, offerecidas a el rey N.S. Dom Ioao o IV"

McKEW PARR COLLECTION 




MAGELLAN 

and the AGE of DISCOVERY 



> 




PRESENTED TO 

BRANDEIS LJNIVERSITY • 1961 



N O TICIAS 

DE PORTVGAL, 

OFFERECIDAS A ELREYN.S. 

DOxM IOÂO O IV- 

POR MANOEL SEVERIM 

De Faria. 

DECLARÂOSE AS GRANDES COMMODIDADES 

que tem para crcfccr em gente, induítria, comercio, 

riquezas, & forças militares por mar, & terra. 

oAS ORIGENS "DE TODOS OS ATTELLWOS, 

Cf armas das Famílias nobres do Reyno. 

** - 

As Moedas que correrão nefta Prouincia do tempo dos 

Romanos ate o prefente# 

Efe referem <vmo$ El&çios de Trincipes, (^ Vtrcens 

Jlíujires fortuouefes* 




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LISBOA. 
Na Officina Craesbeeckiana* 



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LICENÇAS. 

LI eiras Noticias de Portugal , nao íichii matéria em que 
fe poíTa reparar , porque a iem do útil do politico 3 tudo íe 
encaminha à maior exfençaõ da Fè , que ncfte noíío Reino fè 
profcíTa . Em Noíía Senhora do Deííerro 18.de Dezembro 
de i6u> 

Doutor Fy.FrancifcoIBrancléto. 
íbromjia mur. 

Or mandado doConfelho Cera cc Sartc CfFciouicíle 
livro das Noticias de Portugal, doutros varies tratados, 
cujo Authorhe Manoel Severimde Faria ? bem conhecido por 
íuas letras, & noticias ,& o nome do Author o qualifica, nelle 
nao hàcoufa repugnante a noíía Santa Fè , ou bõs coílumes, 
antes hc obra mui curiofa , 3c proveitoía para íê alcançarem 
muitas noticias , proveitofas ao bem deftc Reino. Lisboa no 
Conuento da Santiílima Trindade em ?.de Ianeiro de 6j-f . 

Doutor Frey ^AdrtáíTedro. 

VIíTas as informações podeíê imprimir efte livro,qUe tem 
por titulo 'Nottaas de "Portugal , Author Manoel Severim 
de Faria, & depois de impreíTo tornará ao Corifctho párafe 
conferir com o original, 3c. fe dar licença para correr ,&íèm ellâ 
naõ correrá. Lisboa 8.de ianeiro de 1654* - 

Tedro dd Sih>4 de Faria* Fréncifco [ardo/o de Torneê. 

Dtogo de Soufa* Freyfcdrode MógS)*es. 

Podefe imprimir. Lisboa 13.de Fevereiro 65^4. 



c 



OBifpodeTárgti 

EStzsNoticiasdePortuçal revi ja pelo Tribunal do Santo 
Cfficiojde prefente naõ tenho que dizer mais , íenaÕquc 
a abonaçaô de íèu Author as qualifica, & que fempre quedera 
luz obras íuas,teraõ a eftimaçaõ que merecem , affi pela erudi- 
ção comepeasexorna, como pelo zelo do feniço deVoíTa 

Ma 



LICENC,AS. 

Ma2eílade,& da pátria, cjue lhe reconheço há muitos annos. 
Em Noíía Senhora do Defterro /.de Março de 16)4 

O 2)outêr Fr.Frdnàfco Brandão. 
\Chramfid mor. 

QVe fe poffa imprimir cftc livro viftas as licenças do Or- 
dinário ,& Santo OflScio,& impreflb tomará á rneza 
pai a íc taxar , 6c fèm iílb naõ correrá . Lisboa iS.dc Março 

V.TJP % ^indrdie. Cdfdd*. 

Eftas noticas de Portugal,por Manoel Senerim de Faria es- 
tarn comformecom íèu original Lisboa no Conaento da 
Sanítifima Trindade a 16.de Setembro 6$ j. 



¥ 



O P. F. ^driao Pedro. 

ifto eftar coforme com o original pode correr efte liuro* 
' Lisboa if de Setembro de i<5; j. 

'Pedro da Sihd de Faria. Frdncifco Cdrâofo fa Tornes* 

Pdfitaledo Rodriges Pdcheco. Diogo de Sou^a. \ 
F.Pedro de Mdgálhdes. 

fTT"*axão efte liuro em quoatro centos ílncoenta reis em pa- 
tJL pdLisboa22.de Setembro de 6 j^ 



2- ?• y : €**$: ^ ac ^ { . 



CO, 




F I 




»■... 





NOSSO SENHOR. 



SENHOR 







Oraó tam admiráveis os íuc 
ceifo s com que NoíTo Se- 
nhor reftituio a VoíTa Mage- 
ílade à Coroa deílesíèusRei- 
nos, que por excederé a pro* 
vidência dos homês,confeíTa toda Europa 
fer acçaô mais divina, q humana , & como 
as obras de Deos faõ fempre de todo per- 
feitas,podemos ter por certo,queaífi como 
atègora as Armas de VoíTa Mageílade al- 
cançarão prodigioíasviótorias nas quatro 
partes do mundo,affi avemos de ver a Por- 
tugal illuílrado na paz,com feleciífimo go- 
verno , mais eílimado entre os Políticos, 
que a conquiíla de novos Senhorios. 

Eíles deíèjos me fizeraõ advertir algúas 
coufas,que a juízo de muitos podem acref- 
centar os vaííallos de VoíTa Mageílade, fa- 
zendoos enriquiccr. com a cultivaçaõ , ôc 
abundância da Província , com o exercício 

( a 3 das 



tias Artes Politicas, & com maior numero, 
Sc valor de foldados;& íòbre tudo, que nos 
Eirados, que Deosconceceo a Voíia iVh- 
geíladeem Europa , Africa , Afia i & novo 
mundo , floreça , & íe augnciente o Divino 
Culto,a propagação de noífa Saneia Fe , q 
foi o intento com que os Senhores Reys 
deíleReinofe empregarão em tam grandes 
emprezas ; & pois Voífa Mageílade foi ef- 
colhido do Ceo para dar perfeição a eflas 
obras,oíFereço aos Reays pès de Voíia Ma- 
geílade eíles motivos, confiado que Voífa 
Mageílade os receberá coma benignida- 
de coítumada.por fer meu intento nelles o 
maior ferviço de VoíTa Mageílade, & o 
augmento do bem publico deites Reinos. 
Deos guarde a Real Peífoa de Voíia Mage- 
ílade. Évora ^.de Fevereiro de 6j ;, 



MmoclSéMrim de F#rfa. 






AOS LEITORES. 

/ 

|íp^fO annode íózy.dei a eííampa aU 

'ÍTam^£® s ®?P*t*fiP* &* Elogios para in» 

^%M li Ill ífrftcfvotolitica dm Artes. cm qui 

SsjaJfR h ao de fer doutrinadas os mancebos 

^ÍIJ^S!? nobres da Republica . conforme os 

preceitos do thilofophol B tendo eu 
naquelle tempo hna obra jr ande ^ queintitula^va^ 
Noticia de Portugal , & íuas conquiftas : pÊ quafi 
em e fiado p$ra fe poder imprimir , como teííifcao os 
Doutores Fr. António Brandão \ G^alque foi ///Fr.Anw 
Aleobafd í &* António de Soufa de Maceao^queen- ™*£T 
tao a <virao; com tudo como as cottfas daquellesan* f 1 ? 1, 'j 4 
noipara quati^ueraotam grande mudança % recref Monârq* 
c cr ao tais inconvenientes , 27$£ Cobre eííi^ve na exe» Antoêio 
cuçaí de jte intento. Porem entendendo eu , qut nao UZi ^\ %$ 
feriaode menor fer^uiço do bem publico algus Dif deHeí P* 
curfos dos muitos , f &* #*/?# obrafe contmkaofobrt 
dirvtrfas matevi&s,afsi politicas \como de njavia li- 
çao^mspzreceo cõmunicallos a todos } &*pelo quepar* 
ticipad de feuprimeiv '0 orijinaf darlhe o titulo d t 
Noticias de Portugal. TL ainda que pode a<verfo- 
jeitos, cf tíe façao maior efimaçao dos Unjros pela 
quantidade, que péla qualidade delles^com tudo para 
os que fao<vsr fados na lição das boas letras ^fei que 
nao tem em menos as obras por pequenas , quando 
neUasfe contem a doutrina neceffaria ao afumpto de 
qmhatao; antes njtmos , que em todos os eferitores 

a 4 [ao 



fao mais prezados eííes pequenos tratados, que os 
maiores <volumes y que fcus uuthores compofcrao ; co~ 
mo fe *v'e entre ês Philofophos nas obras de Platão, 
&> Arilfot eles, nos Morais de Plutarco , & neis de 
quafi todos osPadres,principalmenteS. B afilio \ S. 
Gregório Nazianzeno ■, S. Hieronymo , <êr n% mor 
parte das de S.Agoflinho.E ainda que os Scholafti- 
cos ti<veraopor argumento principal as matérias de 
TheoUgia ; com tud+ttao fuo menos eííimudos os 
Opufculos de S.Thomas,$r DionjfioC^rthtifmno, 
que as outras fuás ohvas Theologicw y <crEfcritura- 
yias. Pelo que ufiaz fica appro nj a do eífe género de 
efcritos i quando por outra» cuufaonao dcfmerece- 
rem* 

Os motinjos.quc tiwepara comunicar e fies Dif- 
curfosjkoosfejuintes . O primeiro Difcurfo hefo- 
bre o augmento du po^voaçao deííe Reino - y por que 
fendo a multidão da gente o fundamento de todos os 
ceados, em Portugal he iíío muito mais necefíario, 
pois tem mais conquiffas, que nenhum outro Reino 
de Europa-, ér afiinecejiita mais de tr pitar desía 
matéria. 

No fegundo fe refere a ordem da Milícia , com 
que eííe Reino fe defendeo defeus contrários por efi* 
paço de quafi^eo. annos, (Sr os meios, <$r forças , qtse 
agora tem , para poder melhor confernjarfe , que de 
antes. 

O terceiro he o du Nobreza , em que fe molíra a 
erigem dos Appelli dos , <B* Bru^oes de quuda hua 
das famílias do Reino , noticia tam defemftfe aiego* 

ra, 



. ra, &* t amo catita a qnafi todos os queda Nobreza 
tra tarao,comoje ve de j eus efcrit os. 

Segue fs outro Difcurfo fobre as Aíoedas Por- 
tuguef as, tratado mmto neceff&riopara a intelligen* 
cia das hiííorias, computações i ér noticia dos tem- 
pos ; o am neííe Difcurfo fe afofía com a pontuali- 
dade fo$H*veh$èis fe faz feios textos dasmefmas h~ 
is ,<ã* authoridade das Chronicasdeííe Remo. 

O Catalojo das Vniverfidades de Hefpanha 
fera agradável aos efiudiofos • principalmente por 
fer manifelío,^e a noticia das fciencias de Hefpa- 
nha teve principio na noffa Lufetania. 

A. advertência fobre a pregação do Evangelho 
nas Províncias de Guine he cjuafi devida, nao fá 
por eh ar idade, mas também por [wgular obrigação- 
poisem tantos annos fe tem feito tam pouco, ainda, 
que fe tem trabalhado tanto , por fe na§ accom&da- 
rem os meies d conveniência da obra , coufa que fa- 
cilmente parece fe pode alcançar. 

O Difcurfo fobre fe evitar agrande\a das nãos 
dalndia,phde fer que fe tenhapelo mais importan- 
te;Poispor eííacaufa padece Portugal , quafe todos 
os annos tam grandes perdas de gente, fazenda, em- 
barcaçoes,<£r do principal cabedal deííe Reino, ten- 
do a demafe&dagrandeza das nãos contra fe tantos 
txemplos,<cr Provifoes Reais , êr opi^o dos mais 
defentereffados homes,queneãas navegarão. 

O difeurfo fobre os inconvenientes da Peregri* 
nação f ode fervir para nos aproveitarmos do tem- 
po, procurando empregallo mais no conhecimento da 
nefía pátria, qttedas alheas* E debaxo do titulo 

deíh 



deííe mefmo difcurfo ?v&o(por inadueritciadlm- 
prejfor^os Elogios feguint es y afitber- 

O Catalogo dosCardeais efe efcreui ha muitos an 
nosdtoríJL <vulgarmetefe nao jabia deães fendo^Jà* 
roes taoinfignes y &r Príncipes da Igreja; <êr ainda 
L aoprefentcnos Authores modernos fe faz men- 
ção de algus delles,cotudo na o hede todos^nemfe a- 
shao juntos como aqui <vao~ 

O Elojio do P. Fr. Bernardo de B ri tt o fiz en- 
tre outros muitos^ deííe argumento tenho copof 
tos:£rpareceo tambeao R"° P, Fr. António Bra- 
dao Abb e - de Alcobaça^^r Geral neííe Rejnodos 
Reltgiofos de Cifter, ^ mo pedio para aprimeira, 
&* fegunda parte da 2\/Lonarquia Luftana.a que o 
P .Fr.Bernardo deuprincipio. Nao ' teue o P e - Ge- 
ral tempo, para dar á execução o Íl defejau^mas ne 
for tffo he razão ^por $§£$ caufa falte ao P F Ber 
nardo a demonííraçao do agradecimento $l todos os 
Portuguefes deuemos afua bo& memoria* 
A inclyta cidade deEuorahe dignijfima dèfcbera 
nose/ojioslpoisa ella reconhece cfteReyno oprincipiô 
de fua liberdade, ^rmerecepor iffs eternos louuores. 
0R U Abb e de Pêra quis referir parte deíítE/ojio 
noifeusfnccefíos militares;ma> comoeflÁaliimpref 
fo tão diminuto, &> co tatos erros^mePareteofede- 
uiapublicar na forma jê qprimeiramete foi eferito. 

O Elogio delRey Dom Io ao ^.he feito por An- 
tónio de Castilho Chroniíía mor que foi deííe 
Rcyno, &* do Confelho delR ej D. Sebaíítao, &* 
feu Embaixador em IngUt rra, ê^ hum dos ho - 
mes , que melhor fallaraoalinjua Portuga efe* 



<* « 



a juiz o de todos os doutos*. Ô* afsimpor eífa caufa, 
como por Çer de hum Rey, que gouernou com maior 
acerto , &* felicidade a Portugal, mê pareceo mui 
conveniente t ir alio das tre?v%s do efquecimento em 
que eííatvafepulíado; pois ht digniffimo de fair a 
l<4z,&* andar nas mãos de todos. Efe antigamente 
como afirma Plinio, era maispré\ada a Corúa de * n ™ Ui 
Carvalho , quefe concedia ao que confer<vanya a 
cuida de hum Cidadão Romano, que as dos mais p rt 
ciofos metais, .<§■* Séneca di^della: Nullum orna- st*ec*ik 
mentum Principis faftigio dignius, pulchriufque cu *' 
eft, quamilla corona ob eives fervatos; camra\ao 
dente fer efEimada eíta minha diligencia-, pois com 
ellafe conferia, nao fomente a memoria quufiuca* 
baia de tal Cidadão, ér» tam Illuííre eferitor; 
mas ainda a do governo de hum nofío Príncipe na- 
tarai, cujos frudentifjimos diôlames podem fer exe* 
pios aos melhores Políticos do mundo. 

Nomefmoelfadopafaua efquecidoo Panegy- 
rico da Senhora Infanta D . JUaria digna dos ma- 
iores louvores entre as Princefas dofeu tempo por 
fuás infignes virtudes ,<Sr por a excelUnciafingnlar 
defeu engenho. Foi compofiçaõ do nojo gr ande Io ao 
de Barros-, o qual como feupay era morador de Vi- 
feu> celebrou coeííe Panegírico a boa forte da quel- 
la Cidade, quando elRcy Dom loaoa deu d Senho- 
ra Infanta com titulo de Duque fa delia. He obra 
ijual ao Panegyrico de Trajano, quefe eííima pila 
melhor de Plinio: ainda que para o engenho dele- 
ao de Barros fepode ter eíta por hua pequena Unhai 

com 



com tudo quando ella he lançada feia mao de A fel* 
les, naõ fie a fendo de menor eífima, que a mais fo- 
rno fa imagem de Bhidias. Euora a 24. de Outu- 
bro deió^. 



iíflUsK**»*'»^ 



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Manoel Severim de Faria. 



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Foi. 




D I S C V 

PRIMEIRO. 




O 



DOS MEIOS, COM QVE PORTV- 

gal pode crefcer cm grande numero de gen- 
te, para augmento da Milícia, Agri- 
cultura^ Navegação. 

% ». 

VEREN D O Salamaõ encarecer, quanto 
importava ao Rey , & ao Reyno haver muita 
gente nelle,diz no cap f .ctffuas Parábolas : In 
multituiint populi dignitús %egisj&» inpducitateplehis 
tgmmim Trmapis. Que he o mefmo quê dizer; 
A grandeza dos Reys eftà na mu idaõdo po- 
vo , & dos poucos vaííà lios nafce a falta da reputação <do Prín- 
cipe. A razaõhe,porque a multidão dos fubditos. defencfeo fe- 
nhorío próprio, & pôde conquiftar o alheo. A multidão da geíV- 
te cultiva o terreno , de maneira que naõ fomente bafta para oí* 
naturais, mas pode prover os eftranhos. Da muita gente Ce colhe 
a riqueza do Príncipe pelos direitos, queíepagaõdos fruitos 
da terra,obras de maõs,& mercancias. Acontece ifto natural ■* 
mente ; porque como quadahu procura a fuftentação de fua 
prGpria vida por preceito natural, tanto que chega a idade con- 
veniente, de força a ha de buícar pelos meios, com que me- 
Ihor,& com mais commodidade a polfa alcançar , Eftes com- 

A mum- 




- 

z Noticias de Portugal. 

mummente fe 1 - rr n a quatro , que iaõ Agricultura , para a 
fuftentaçaõneceiLiíi às artes mechanicas , para ávida politi- 
ca,& á Mercancia , pata levar os fruiros próprios ás Províncias 
alheas,& trazer das alheios cjue nos faltaõ,& à Milícia , para 
defeníàõ da pátria. Pela qual razão fica claro,que onde houver 
muita gente,haverà muita Ag*,, 'mra, muitas Artes, & muita 
Mercancia, & muitos Soldados» - faõ as quatro couíâs , em 
que fe funda , & confiftea riqueza ~>odcr , &afelicidadede 
humReyno. 

Tratando primeiramente da bv>)ura,& Agricultura , he de 
notar,que para por efta via íè tirarem íd!a muitas riquezas, he 
neceffario haver muita g^nte.Gj ande a xeniplo temos difto em 
noííaHeípanha no Reynode Granada ,♦ porque no tempo que 
os Árabes efta vao fenhores deite Rey no- por kr então habita- 
do de muitos Mouros^que lançados de todas as mais partes de 
Hefpanha , íe forao recolhendo nelle , todos os tnontes íè via5 
cubertos de vinhas,& arvores frutíferas, os valles, & campinas 
de fementeiras,& hortas, de maneira que n?õ íè podia ver no 
S raundo terra mais abadada , 8c abundante de todas as coufas. 
dacoro4 E era tanto ifto afli, que fomente as folhas das z oreirâs da 
ÀeCajítl- Veiga de Granada rendia a elíUy mais de $oV cruz ios,& as 
rendasdas fedas, cpe íê creavaõ uo Reyno., -endiaÕ hiaisde 42. 
*Botero tit. contos,& punha o Xvcy de Granada mais home ; r allõ em 
Granada. C amp 0l que os outros Rey nos de Hefpanha omít^nios mais 
Ganb. na delles muito ryia<ores,queo deGranad u ^ uai agoiv ?ela fal- 
H4. de ta, que tem gente, eftá taõ defTemelhante daquelle tempo, 
39**40* come íè áflfó fora o mefmo torrão de terra: & por efta cauía vie- 
rar ■& fendas dei Rey naquelle Reyno a tanta quebra , qu enaõ 
c uegaõ hoje a ametade do que dantes vai iaõ. 

Na China por fer infinita a gente, he tanto o mantimento 
que da a terra , & tanta a induftria com que a cultivao feus na- 
iurais,que fendo ellcs tantos, que por nao caberem naspovoa- 
çoês,habitaõ em barcos nos rios,& enfeadasjcò tudo não pade- 
cem falta delles ; antes os levaõ delia continuamente de marca <• 
dória para outras partes. 

Nem contra ifto fe pode dizer, que ainda que haja muita 
gente naõ haverá cultívaçaõ da terra, fe ellafor de íi infru&r- 

ferr:, 



Difcurfo primeiro. 3 

fera, & eíleriljpcrque conforme aos naturais , & o que fe cota 
nas íeis das Partidas^nenliuã terra he infruetifera; antes he cou- ^f- 2 *» 
fa certa, que fe alguã terra naõíor boa para dar tiigo,ierá para t 
produzir cevada,centeio,cu milho- & quando naõ, íerá cenve- 
niente para vinhas, paílos de gado, mel, £s cera ; & a que naõ 
poder produzir arvores de fiuito,daiá arvores fiiveftres, ou pi-.. 
nheiros para madeira ; conio temos por cíiempk) nas íerras,que 
eftaõ da outra banda do Tejo defronte de Lishoa,onde vemos 
huã área íblta dar cxceílentes vinhas, & produzir infinidadede 
pinheiros,& lenha, fera a qual íeoaõ poderia fuftentar o grande 
povo de Lisboa. O Author das Chiíiadasdiz que as campinas C ^'W< 
de Barbante kò de arca efterii , mas que os naturais com lua 
multidaõ,& induftria as, fazem abundar qç trigo, moít.^ndò a 
experiência contra o provérbio, que naõ hx trabalha baldado 
lançar femente na área: In r £arbantia,à\z elie, funt agncoU tam in+ 
duftrij tf uifitiennf simas dretMscoountffr tritiemn ferre Bem fe ve lo- 
go que onde houver muina o^nte baterá todes os frui tos , 8c 
proveitos, que da terra fe podem tirar 5 #; ou: a falta da gente 
íieacaufada cariftiadelles. \ " . 

Quanto às artes,& induftria ,%orn que grande parte do po- 
vo fe mantém • eiras naõ as pode fi£ ver , Km podem florecec 
onde naõ houver muita gente ; porque hGs erfiinaoos outros, 
Sc inventando quada hum novas couíãs , fica aos outros mài* 
fácil aperfeiçoarem a arte , conforme ao que íè diz : Faciíius 
eft wruentis addere . E affi vemos , que depois que os eftados de 
Flandes creíceraõ em multidão de gente , floreçeraõ entre el- 
les irais artes , & induftria , que entre todas as mais nações de 
Europa. Forque nefta Província fe tecem as ricas, 8c ma- 
raviihofas tapeçarias , de que fe uíâ em todo o mundo ; que 
por eftacauía fe chamarão pannos de Arras, tomando o no* 
meda principal cidade, em que íe principiarão; nella fe fa- 
zem as mais , & as melhores impreffoêsde livros^della vem as 
pinturas,as oíandas,os cofres,& caixas.os eípelhos , 8c milhares 
de meudezas,cS: brincos, que em nenhuã outra parte do mnn-. 
do fe fazem 5 íènaõ nefta: donde vem aíerhuãdas mais ricas 
Provincias de Europa - y íendo affi que naõ tem minas, de ouro, 
cem prata. 

A % Era 



4 Noticias de For tugal. 

Em Alemanha, por haver muita gente, florece tanto a 
mechanica, que aella fe attribue a invenção da impreífaõ, 
pólvora , & artelheria , as maravilhofas fabricas dos reló- 
gios, & dos mais dos inftrumentos Mathematicos j de entre 
elles íàhio a artificioía invenção do papel, de que hojeu- 
íamos , das quais couíàs todas os antigos naõ tiveraõ no- 
ticia. 

Ifto naíce da multidão da gente de Alemanha , que por 
fer muita , quada hum buíca por íua induftria , & arte feu me- 
Jhoiamento, &de maneira tem em honra eira oceupaçaõ, 
quedesdoEmperador, ate o ultimo homem da Republica 
profeSa algum ofEcio mechanico , & íè preza muito de fazer 
obras dt maior preço. Efta foi a cauíà porque antigamente 
cm Grécia chegarão a tanta perfeição as artes da pintura , 8c 
-*— cículptura, porque íêgundo Plínio toda a nobreza fe oceu- 
pava nellas : cque durou tanto rempo naquella região , que a* 
• . inda fe refere de Emperador T^eodofio 1 1 . que as illumi- 
nações que fazia ,veadia por grande preço, 8c íè prezava mui- 
to i : $Q. 

O muaio fuecede na Chi/a , a qual por fer a mais povoa- 
da Província do Cnênce, tem mais artifícios , 8c obras me» 
chanicas, que todas as outras ; porque delia vem os lei- 
tos, eferitorios, bofetes , & meíás douradas , as camas bor- 
dadas deouro, &íèda, asperçolanas finas, as telilhas , da- 
roafcos , tafetás , 8c outras mil invenções de fedas em tam 
grande quantidade , que todas as Províncias do mundo 
eftaõ cheas deitas mercadorias ; & ainda conforme á opi- 
nião de algus modernos , elles acharão primeiro, que os Ale- 
mães o papel, aimpreífaõ, a pólvora, 8c fundição da arte- 
lharia. 

Da copia da Agricultura , & das Mechanicas naíce a mer- 
cancia $ porque naõ íendoos fruitos da terra, 8c materiais 
communs a todas as Províncias , procurao os mercadores 
levar os fruitos , & obras , que nas pátrias tem de fobejo a ou- 
tras partes, onde as tais coufas faltaõ; & trazerem delias as 
que íè naõ daõ nas fuás terras j o que naõ pôde fer , fenaõ ha- 
vendo abundância de gente, que fe poíía oceupar neftes tratos, 

ôc via- 



D iftw fç p 'inteiro. y 

ôc viagem :como vemos em Alemanha , Fiandes , Inglaterra, Mendes 
ítalia , & na China j que com a multidão de íeus baixeis rner- V fí ' rtr 
cantis correm o mundo todo, & o enchem de fuás merca- /.3C.15. 
dorias. ■ &i&. 

Porem paranenhua coufa he mais neceífaria a muitidaõ de 
gente, que para a Milícia; porque como c* íd dados íaõ ordina- 
riamente a gente íuperflua da Republica, naõ havendo deites 
muitos,naõ pode haver exércitos grandes,com os quais fomen- 
te fe fundarão as quatro Monarquias . Dos AíTyrios, Sc Per/as 
lemos , que os exércitos ■eràÕtaõgrandes,que lhe na Õ bailava 5 
para beber as aguas dos rios. Osíiicceííores de Alexandre,-que 
podemos dizer foraõ os poíTuidorcs da Monarquia Grega tam- 
bém fe valerão de exércitos grofillimos,&a Republica Roma- 
na adquirio o fenhorio do mundo, naõ menos com o grande 
numero das íuas legiões, que com fua prudência, & valor. A 
ruina do Império de Romafoimais cmfada das innumeraveis 
gentes , que do Norte fahiraõ, que naõ de íua deftreza militar; 
o mefmo experimentamos no fenhorio dos Árabes, que com 
íua muitidaõ fubjugaraõ o Império Grego, o Egypto, & Africa» 
& tivera 5 muito tempo tiranizada a Heípanha. Pelo queícm 
grande numero de gente, naõ fe pode adquirir, ou confervar, 
grande Senhorio. 

Como agente naturalmente fe multiplica, <§■* # 

deite Reynofe <vai diminuindo do anno da 

joo.a elía parte, &* as eaujas 

porque* 

SEquifermos confiderar o que ordinariamente lemos nas 
hiftorias antigas,naõ poderemos deixar de confeflar , que 
do tempo do diluvio , ate o prefente fempre a geração hu- 
mana foi em grande crefeimento , & que de quada vez vai 
cm maior augmento, & multiplicação, Porque deixadas as 

A 3 ^?3- 



6 Noticias de Portugal. 

hiftorias muito antigas , & da Sagrada Efcritura , onde vemos, 
que de outo peífoas, que eícaparaõ do diluvio,fe encheo o mun- 
do de gente , 8c de 70. que da família de Iacob entrarão em E- 
gypto,íahiraõ depois 600000. foldados de peleja , a fora as mo- 
lneres,& mininos. Quem Ier,& vir as tabòas da Geographia de 
Ptolomeu , & depois os Mapas , que traz Àbraham Ortelio no 
íèu Theatro do mundo , verá claramen te como em quada Pro- 
víncia eraõ íèm comparação muito menos as villas, & cidades 
no tempo de Ptolomeu,que as que fabemos eítaõ hoje edifica- 
das^ habitadas. Nem contra iítoíè pôde dizer, quenaquelle 
tempo fe naõ fabia tanto das Províncias, como hoje íè íàbe ; 
porqueiflo feriada índia, & de outras terras incógnitas, de que 
Ptolomeu naõ podia ter perfeita noticia ; mas o que trazemos 
. por exemplo 5 faõ as Províncias da noífa Europa , como Itália, 
França, Heípanha^nas quais ha agora em quada húa muitas 
iriais povoações do que dantes havia. Bozio contra Machavelo 
iib. 3. cap. 1. nomea fó noReyno de Nápoles muitos milhares 
de povos mais que os que tinha toda Itália antigamente fe- 
gundo Eftrabo, Ptolomeu, & Plinio,o qual chega a contar ate 
os caiais, 8c Bozio naõ conta lugar de menos de 300. vizinhos, 
plandes que hoje contem em fy 17. eftados nobiliflimos , nos 
quais (e contaõ 2o8.cidades,& mais de 6300. villas fcm contar 
as aldeas 5 caftellos,& fortalezas, que faõ em grandiífimo nume- 
^ihmíi <l*rA fabemos que no anno de 878. o Papa IoaõVlII. no Synodo 
pKff^u deFroyesconcedeohumfóBífpoaFlandes, por fer terra ate 
doMbra- aquelle tempo cheade bofejues , & pouco povoada , & que en- 
çode Hm taõ fe começava a cultivar,& habitar . E as Ilhas de Holanda,& 
!?í?jf78 2Lelanda,queíaõ as mais povoadas deíles eftados , quafi nefte 
mefmo tempo eftavaõ ainda cubertas do mar Oceano,do cjual 
íè foraõ deícubrindo pouco,& pouco,& agora eílaõ todas che- 
as de foitiílimas,& riquiflimafc cidades. Colligeífe também efta 
mefma verdade dos livros das cidades de Ioaõ Brahum,onde fe 
vem quafi todas com duas cercas,& muralhas j as primeiras, & 
mais antigas mais pequenas,& quafi interiores, 8c as modernas 
iriuito mais grandes,& capazes ,que por ps povos crefcerem em 
grande nu mero, & naõ caberem nos primeiros muros , vem a 
ler neceífarios outros maiores . E para que nos naocanfemos 

com 



Dlfcurfõfrimciro. . 7 

com exemplos éftrsngeiros , venhamos a efte noííbReyno,- o 
qual do tempo delRey Dom Afonío Henriques, ate o em que 
eílamos ,naõ creíceo menos que qualquer das outras Provin- 
cias,que acima nomeamos.O que fe collige evidentemente das 
villas , & cidades fundadas pelos Reys Poi -tagueíès , aífi nefte 
Reyno,como fora delle ( alem das muitas que particulares Se- 
nhores edificarão, & lhe deraõ ít.u.s forais ) fundou elRey Dom 
Afonfo Henriques de novo as villas *de Almada, ' Villafranca, 
Villaverde, Azambuja^ Lourinham.No tempo delRey Dom 
Sancho fe povoarão por íeu mandado as villas de Penamacor, 
Sortelha, Valença do Minho, Montemor o Novo, Penella, Fi- 
gueirò,Covilham,Folgozinho, &a cidade da Guarda . elRey 
Dom AfoníòoIII.fez novas povoações' em muitas partes do 
Reyno,que eraõ deshabitadas j entre as quais edificou de nova 
Eftremós , & reformou, & povoou de novo a villa de Pinhel, 
Vinhais,Villaflor, Mirandella, Freyxo de efpada na cinta, Vil- 
lanova de Cerveira, Villareal, Muja, Salvaterra, Atalaya, Ace- 
teira, Montargil,& outros muitos lugares, que por todos palTaõ 
de 40. Atodosíèus anteceílbres excedeo elRey Dom Dinis, 
porque podemos dizer,que povoou meio Reyno . E depois que 
o Infante Dom Henrique começou o defcobrimento da cofta 
de Africa,& Ilhas do mar Oceano, & fe continuou ate chegar 
à índia , foi efta multiplicação da gente Portuguefa em muito 
maior crefei mento,- porque íe povoarão todas as ilhas, Braíil, 
Cofta de Africa,& fe fundarão de novo todas as cidades,& for- 
talezas^ mais povoações do Eftado da índia, pelo que confta 
que tem os Portuguefes fundado da Barra para fora hum nu- 
mero immenfo de povoações, em que entraõ muitas > & gran- 
des cidades. 

Comtudo de preíênte experimentamos nefte Reyno falta 
degente,aíli para a milícia, como para a navegação, Sc muito 
mais para a cultivaçaõ da terra ; pois por falta da gente Portu- 
guefa íè fervemos mais dos lavradores de eícravos de Guiné,& 
mulatos . Pelo que apontaremos as cauías, -porque nefte Rey- 
no falta a gente do povo , 8c da nobreza, que parece faõ as fe- 
guintes. 

A primeira caufa da falta da gente,que fe padece nefte Rey- 

A 4 no 



8 'Noticias de Portugal. 

no fao as noífas conquiftas; porque eftas ainda queforaõde 
grande utilidade, aífi para a propagação do Evangelho ,como 
para o comercio do mundo, toda via defraudarão muico efte 
Reyno da gente,que lhe era neceííaria.E affi naõ fomente defte 
tempo por diante naõ crefceo a gente nefte Reyno , como era 
conveniente para as muitas povoações , que ja nellehavia.,& 
para fe poder defender, & offender aos inimigos , mas alem di- 
fto fe foi defpovoando com as muitas armadas cheias de gen- 
te,que quada anno partem de Portugal para eftas conquiftas; 
&corn as muitas colónias, que fe tiraõ para eftas povoações. 
Pelo que ainda que agente naturalmente và em creiam doto, 
como temos provado- com tudo a noíTanaçaõ Portugueía de- 
pois que houve eftas conquiftas,íe foi diminuindo,naõ por falta 
da multiplicação namral , fenaõ por os Portuguefes fe irem de 
lua pátria a povoar , & fundar tantas cidades , & lugares 3 como 
temos dito cm terras taõ remotas , Ú taõ largas . Por onde do 
mouro tit tem P° deites deícobrimentos para quà naõ fe fundarão de novo 
fortuiah, no Reyno, nem villas/nem lugares , como ate entaõ fe tinhaõ 
fundado . E paflandp elRey Dom Ioaõ I. à tomada de Ceita 
d[°a{!%, com ma ^ s & e 2 ©2y.homes, & elRey Dom Afonfo V.ás emprefas 
í*fc *£*• dc^frtea com exércitos de 3 o£>Uiomês,no tempo delReyDom 
Sebaftiaõ era ja taõ pouca a gente , que com levar os mais dos 
foldados por forçarão pode ajuntar mais que onze mil Portu- 
guefes.Donde claro fe moftra naõ fomente que ha falta de gen- 
te em Portugal - y mas que a primeira cauíà delia faõ as conqui- 
ftasjpois do tempo delias a efta parte fe foi íentindo efta dimi- 
nuição. Daqui veio o fer neceííario trazeremíè Cafres, & índi- 
os para o ferviço ordinário . E ja em tempo delRey Dom 1oí?õ 
III.paíTava ifto em tanto crefeimento , que diffe Garcia de Re- 
fende numacopla da fua Mifcellania. 

Vemos no Reyno meiter 
Tantos cativos crefcer y 

E iremfe os naturais . í 

Que fe af sim for,f trai mais 
Elles que nós a meu<~uer. 
r A fegunda caufa porque falta a gente defte Reyno , he por naõ 
terem officios , com «pe ganhem de comer por fua induftria, 

■ que 



JDifcurfo primeiro. 9 

que he o meio,que Deos deu para a íuftentaçaõ de quada hum; 
& como os homes naõ cem de que fc fuiientem, naõ fe querem 
cafar: 8c muitos com efta occafiaõ fe fazem vadios andando pe- 
dindo efmola pelas cidades, 8c villas , homês , Sc molheres em 
taÕ grande numero, que parecem exércitos • & a deículpa que 
daõ para pedirem, he dizerem que naõ achaõ era que trabalhar/ 
Outros íe paíTaõ a Reynos eftranhos,principalmente para os de 
Caftella pela facilidade da vizinhança,onde antes da acclama- 
çaõ havia tantos Portuguefes , que muitas peíToasaffirmavaõ, 
que a quarta parte dos moradores de Sevilha,eraõ naícidos em 
Portugal, & que em muitas ruasdaqueilacidadefefallavaa 
noíTa lingua,& naõ a Caftelhana . Quafi o mefmo le podifi di- 
zer de Madrid; & por todaCaftelIaa velha, 8c Eftremaduta he 
notorio,queosmaisdosmechanicos eraõ naturais defteRey- 
no , os quais por naõ terem quà em que trabalhar hiaõ là ga- 
nhar lua vida. 

A terceira caufâ porque falta a gente popular,he por naõ te- 
rem nefte Reyno terras,que cultivem, 8c de que poffaõ tirar fua 
fuftentaçaõ,porque a província de entre Douro,& Minho,& as 
mais ate o Tejo eftaõbaftantemente povoadas, 8c naõ ha nel- 
las lugar para íe fundarem novos povos , que poíTa cultivara 
gente, que crefce. E Alentejo,que poderá focorrer a efta falta; 
porque hequafitaõeípaçoíò,como o refto do Reyno,- como 
eftà todo dividido em herdades , 8c as mais delias muito gran- 
des,nem íe povoa,nem fe cultiva. Porque fendo as herdades de 
muitas folhas, ficaõde ordinário as três partes delias por íème- 
ar faltando por efta efta caufa os muitos fruitos, que fe delias 
poderão colher,&: a commodidade , que poderão dar a tantos 
homés,quenaõ achaõ lugar,onde poder fazer hum recolhimen- 
to em que fe mettaõ : 8c por ifto íe embarca tanta gente para 
fora da Barra, obrigandoos a neceffidade a ir buícar terras , em 
que vivaõ a outras partes do mundo $ pois lhe faltaõ em fua 
própria pátria. 

Èftas três íaõ as caufas da falta da gente popular defte R?ey- 
no;mas as da falta da gente nobre íè podem reduzir a duas. A 
primeira he a uniaõ de muitos morgados numa peíToa^porque 
quando lè confètva hum morgado per íi, quada poííuidor caía,, 

Ôc pro- 






jo , Noticias* de Tortug&L 

Sc propaga fuafamiliajmasjuntandoíè muitos morgados numa 
,fó peííoa.eíTa fómente caía, & as mais famílias ■-■ para que os ou- 
.tros morgados foraõ inftituidos,fícaõ extinctas.Ifto tem acon- 
tecido em Portugal a grande numero de morgados; & he tam 
grande eíle danno , que ja os Reys lhe quiferaõ acodir , como 
íe ve no 4. livro das Ord. t. 100. onde lê diz que com efta uniaõ 
dos morgados fe ficaõ extinguindo as cafas, & famílias, & fal- 
tando agente nobre para a defeníàõ, & confervaçaõ do Rey- 
no,Peloqueeftahe a principal razaõ da falta da nobreza. 

A fegunda he a grandeza , a que tem chegado os dotes das 
molheres nobres j pois vai em tanto exceííò; que poucos faõ os 
fidalgps,que podem caiar hua filha, & qúaíi nenhum duas - y co- 
forTfs do tnof^i diífe no capitulo das Cortes do Eftado da nobreza a el- 
'anuo de Rey NoíTô Senhor pedindolhe remédio para efte danno , por 
I ^ 4 ^;fergraviffimo ) 3c que extinguia grandemente a nobreza de 
fado da Portugal. 

Do remédio fava afaltt da gente da fritneira cptu* 

ftí, y qitefaom con^niííçis, 

/A Sconquiftas, que efte Reyno intentou fora da Barra, 
/jHj^ huãs naõ paíTaraõ do Cabo de Boa eíperança , como as 
Ilhas Terceiras,Madeira,&Caboverde,Coftas de Guinc.,&Pro- 
Vincias do Brafil ; outras foraõ alem do Cabo , 8c pertencentes 
ao Eftado da índia. Das Colonias^que naõ paíTaraõ o Cabo, pa 
decemos menos prejuizo-porque comoéftaõ mais perto, 8c neL 
las naõ intentamos guerras com Príncipes confinantes, naõ nos 
occuparaõ tanta gente ; 8c os que a cilas foraõ , tornarão a vir 
com mais facilidade ao mefmo Reyno .E aiTi deftas Colónias 
louva muito íoaÕ Botem aosPortuguefes, dizendo que elles fós 
entre todos os povos de Europa fe íouberaõ aproveitar das Co- 
lónias^ levando a gente, que no Reyno naõ tinha com que vi- 
ver,povoaraõ a Madeira, & Caboverde,a Ilha de S.Thome, 8c 
q Brafil membros importantes de feus eftados,donde agora ti- 



•iH, 



rao 



Difcarjo primeiro, x t 

raÕgroífos retot nos de gente, mantimentos, & riquezas: /?V- 
tugue/j (à\ze\\c\f & h tratutijpõpuh de Europa y fífonfapunnjaler de que* 
fia artetfer che con lagente pm po<zera } e bijognofa^cltefcífetn fiquei Regno 
ano populatola Maderajl Capo "verde, la ínjola de S. Thomajo, te/ 2?raji( 
membri impor*ante de g&ejlmloro. Onde hora Cabano adjuti grofsi } & de~ 
gente ^ de ^uetf» agite , g^ de ikèfirii j 

Das nofías Colónias das ilhas Terceiras , & Madeira foi íb- 
corrido eftè Reyno por vezes comgente , & com cavallos , Sc 
com muito trigo. De Angollaíe tem tirado innumeravel gen- 
te,que ferve nao fomente nos engenhos do Brafil ; mas ainda 
nefte Reyno,affi na cuítivaçaõ do campo,, como no ferviço òr- 
dinario.Da povoação do Brafil reíultou a mercancia do açuca r 
em tanta abundância, cjue delle provemos cjuali toda Europa* . 
Donde íèvecjueeftas Colónias nao nos faõ de tanto prejuizò- 
porque nós levaÕ menos gente. 

Porem na conquifta da índia naõ fuccedeo aflím j porquê 
eftando tantas mil léguas diftante de Portugal, Sc com navega- 
ção tam perigoía, foineceííario tiraríêdo Reyno muita gente 
tornando pouca,ou nenhua della^porque fe intentarão povoar 
muitas cidades poftas nas fronteiras dos mais poderoíbs Prín- 
cipes do Oriente,como foi Ormus naPerfia,Dio,& outros por- 
tos na Carnbaya, Goa junto ao Idalcaõ', Columbo, & outras 
forças em Ceilaõ,Malaca defronte de Samatra,as Malucas no 
eítremodo Emifpherio,& Macio h pcrtas da Chinajalem de 
outras muitas fortalezas , quef • naõ referem . para as quais íè _ Á , ] 
requeria grande numero de loldados , Sc nua deípeza infinita. / #I . 
Pelo que foi de opinião D. Franciíco de Almeida primeiro Vi- 
íòrey da India,que naquelle Eftado naõ nos convinha ter mais B °** ro *c? 
que hua,ou duas fortalezas nos portos , em que haviao de in« # 4ít / iI0 ; 
vernaras noíTas nãos, Sc armadas para poder continuar livre- 
mente o comercio:& que fora difio , quantas mais fortalezas M 

r /l rr 7 • V r> • r^ n r C ontmett ~ 

luítentaíiemos-tanto mais fracos ficaríamos. Deite parecer to- i0 ^ e A ^ 
raõ muitos confelheiros delRey Dom Manoel, de maneira que àe Aib.f 
chegou a dizer o Governador Afonío de Albuquerque, que 3 c '* u 
mais merecia a elRey,por lhe defender Goa dos Portuguefes, 
que pola tomar duas vezes aos Mouros. Com tudo o contra-* 
no le feguio ; povoandofe pelos noíTos tantas terias, & Ilhas em 

Afia, 



• 



1 2 .Noticias de Portugal. , 

Afia 3 como íe fo^e hua Província confinante com Portuga!; 
fendo couíà notoria,que a navegação dalndia fe intentou para 
comercio,& naô para conquifta . Porque a conquifta íó con- 
vém, quando he para íègurança do Eftado próprio . Mas íèndo 
a índia tam Jonge de Portugal, & as forças tam eípalhadas, 8c 
divididas , naõ podia fervir para confervaçaõ defte Reyno , fe 
naõ para diminuição delle. 
'António Porem éftas razoes politicas foraô vencidas da Providencia 
Soecarro Divina^ue obra íuas acções contra as cauíàs naturais.para mo» 
n laíMdDe ^ rar 9 ue na õneceííita de noííos meios para produzir íeus eíFei- 
*ad* d* tos;& aííi querendo que fe promulgaífe a Fé naquellas Provin- 
hdtáfjaU cias,ordenou que os noflbs Reys, 8c feus coníèlheiros approvaf- 
intcvtjj*', ^ em e ^ a conquifta,& com milagres evidentesficaraõ os Portu- 
^Ht *q*ci- gueíès quaíi íenhores de todos os mares do Oriente,& dos prin- 
fawfgB cipais portos de fuás coftas, ganhando fama immortal com o 
feufYinei- foberano esforço/jue neftas heróicas impreífas moftraraõ , 8c 
pwttntisdi prégandofe o fagrado Evangelho por efte meio a todas aquel- 
uUz.4s, las gentes com grande gloria de Deos , 8c proveito de innume- 
w^;.Ogrã raveis almas,que fe bautizaraõ.Mas andando otempo , ou por 
J^qu^fç alguãs daquellas nações fe fazerem indignas daquella doutri- 
do comer napor fua contumácia, cu por culpa dos noffbs,a quem acobi- 
Cl ° "iêftà ^ a ^ ez ^ a ' tar na koa adniiniftraçaõ dos feus governos , íe foraõ 
para nb$ perdendo as praças mais diftantes ,• porque por eftarem muito 
quafx de apartadas de Goa , naõ poderão fer a tempo focorridas : & aílí 
tin&oTôc fefenhorearaõ noííos inimigos das MalucaSjOrmus.Malaca, & 
íenaõtern Mafcate. Deite modo ficou o Eftado mais proporcionado teu- 
icfpcito j Q meri p S fortalezas^ naõ tam definem bradoj pois as princi- 
*(UChti- paisfe reduzem agora a Moçambique,Goa, Cochim,Colum- 
ftaddadc, DO> & Dio. Pelo que eftà hoje a Índia naõ peor para o trato das 
nomedt efpeciarias, que he o principal comercio; 8c juntamente eítâ 
Chrifto mais defenfavel,íè houver nella milicia paga; porque tirando o 
ícu Evao t em P° do Veraõ, em que os foldados andaõ nas armadas , os 
gdho fao invernos fica õ na terra, íêm terem quem lhes dê de comer, 
Í Qao *s° chegando muitos a pedir efmóla pelas ruas, 8c portarias dos 

es remo- o n . i . i i ~ i rrjin ^ 

tu, que o conventos.Pclo que obrigados nus da neceíiidade, 8c outros da 
cooheçtõ cobiça,íè pafTaraõ muitos os annos atrazados a terra firme a 
fcffcnT fènrir os. Reys Gentios daquellas Províncias j os quais dando- 

lhes, 



Difíurfo frimeiro. i$ 

lhes Toldos aventajados , vieraõ a ter muito maior numero de 
Portuguefes em teu ferviço do que elíley de Portugal tinha t . 
na? fuás armadas , ou fortalezas. Com efte mao exemplo fe ro- c ^„ 
raõ muitos viver nasmefmos povoações dos Gentios acrefcen- {eHfodg- 
tandoas em opulência, como foi a de Meliapór, & outras; de ^{^!** 
modo que podemos dizer , que muitos portos das Coftas da e ^,6. 
índia íe povoarão de Portuguefes cafados na terra em tanto 
numero , & poder, que muitos delles fe intitularão Reys , & 
Senhores dos mefmos lufares, como foi na Ilha de Sundiva 
nosBandeisde Bengalla.ern Siriaõ,& em Camboja ,& outras 
partes ; pofto que todos elles acabarão as vidas miíèravelmen* 
te , caftigandoos Dcos com grande rigor , por deixarem as c 1 
terras dos Chriftaõs , & iremíe viver entre os Gentios. Efta foiàsdt 
hea cauíà porque affirma Diogo do Couto , que em tempo p™ tfl0 <<*p 
de elRey Dom Sebaftiaõ avia na índia 1 60 . Portugue- ^ g 
íes j & com tudo naó fe poderão mandar 800. a Mala- c* p . xl & 
ca,para a ir governar António Monis Barreto, nem Dom Leo- 16 \ 
nis Pereira. 

Eftedefamparodosíòldados na índia ,pofto quefempre íe 
experimentou, ategora íè naõ tem remediado, & em quanto 
fè naõ atalhar, avendonaquelle Eftado huã milicia com nu- 
mero certo de companhias com íèus capitães, & pagas amna- 
lacbs , nao pode deixar de feíèguir efteciannograviílimo: que 
he pedimos a índia íèmpre gente, & naõ fe valer o Eftado 
delia. Porque no principio os Governadores mandavaõ dar 
meia aosloldados no inverno,- porem de muitos annos a eira 
paite^naõ ha mefas,fenaõ em quanto íè curaõ no hoípital. 
pe ra o que he de íaber , que de dous mil foldados , que vaõ or- 
dinariamente em três nãos para a índia quada 5 anno, morre 
grande parte delles na viagem ,• porque como vaõ íete centos, 
& oito centos, & inda mais numa nao , naturalmente adoe- 
ce, &fallece gram numero delles , por fe corromper o ar den- 
tro das cubertas com os bafos, &immundicias; de maneira, 
que o meímo hedefcer aellas, que entrar em hum lugar pefti- 
lente.E o pobre do íoldado, que adoece , naõ tem cama , nem ^ tmte 
limpezajnemregallojnemconíolaçaõalgua. Diogo do Couto 
na 9. Década cap. 1 1 . diz que na nao , em que o VifoRey Dom 

B Anto- 



3tt 



14 Noticias de Portugal. 

António de Noronha paíTou á índia , em que o mefmo Diogo 
do, Couto hia embarcado, partirão de Lisboa o©o. peíToas, de 
que na viagem morrerão as quatro centas , 8c fincoenta; 8c 
que quafi o mefmo foi pelas outras nãos ; porque de âfij , íol- 
dados, que o ViíbRey nell as levava falleceraõ na viagem os 
Duart: tV.ôc Duarte Gomes nas Informações íòbre a companhia 
6ow./c/, Oriental, diz quenanaoS. Valentim morrerão quatro cen- 
tas peíToas,&ifto tem acontecido muitas vezes . Pelo que che- 
gando efta foldadefca ja tam dizimada â índia, 8c naõ achan^ 
tio provimento algum , com quefe fuftente , hus inficionados 
do mal da viagem,outros do grande deíamparo ç pobreza , òc 
miíèria^ apalpados da terra caem em maiores" infirmidades; 
Sc aíTi vaõ quafi todos parar ao hoípítal > onde fe diz que mui- 
tas vezes fallecem mais de 600. & 700 * homés deftes : de ma- 
neira que d efta íoldadefca, que tanto cufta à fazenda Real a 
pór na índia,fe perde a maior parte, fendo a caufa o deíampa- 
ro com que fe trataÕ os Toldados naquelle Eftado * Pelo que 
femaver na índia gente paga, & pratica para andar nas ar- 
madas^ preíidiar as fortalezas , naõ fepòue efperar nenhum 
bom eífeito danoíTa milicia^pois alem do que temos dito , to- 
da elláhe feita quadaanno em Goa tumultuaria mente , &de 
foldados armados com toda a defiguaidade , aííi no numero, 
como nas armas, porque quada hum traz as que quer : de ma- 
neira que em hum navio os mais levaõ efpadas, & rodellas, & 
vaõ poucos tiros de fogo, 8c nenhus mofquetes* Alem diffo os 
meímos loldados íaõ de. ordinário bizonhos, & -naõ quais 
convém à milícia j porque os foldados, que em Lisboa íe af- 
íèntaõ nas noíTas naos,íaõ os mais delíes moços de quinze , 8c 
dezafeis annos , que vem a íèr huã infanteria pueril: & por 
iíTò vindo a pelejar com os inimigos de Europa í ficamos 
cjuaíl íèmpre na índia inferiores nos fucceíTos pela gran- 
de ventagem , que nos levaõ na efeolha dos foldados , nas 
armas , 8c ria ordem da milícia .* o que nos naõ tem 
acontecido na Ethiopia , Sc Brafil , onde muitas vezes 
vencemos aeftes mefmos contrários, por termos milícia or- 
denada. 

Contra efta nofla deíordem nos podem íèr vir de exemplo os 

meímos 



Difcurfo primeiro. iy 

mefmosHolandefes j pois era quada embarcação naõ levaô de 
ordinário mais de 300 . homes,nem fuftentaõ na índia mais 
portos, que ode lacatra ; & Malaca, & os que lhe convém em 
Ceilão para o trato da Canella : de maneira , que naõ tem em 
coda a índia comummente mais de mil homes pagos , pouco 
-inais,oumenos,& eftesandaõ divididos , comerceando , & mi- s*caf*t 
litando . Do mefmo modo os Caftelhanos luftentaõ as Phi- dáS phll fc 
lippinas com hum terço de 400. homês pagos com íeus of« deMor^ 
(iciais 5 & naõ aíTentaõ governo em Provinda alguã, fem pri- *<* 
.meiro ordenarem nella milícia certa. Pelo que heimpoíTivel 
defendermos na índia tam grande numero de cidades,^ forta- 
Iezas,que neceílitaõ de muitos mil Toldados j fendo os noflbs 
íèmpre poucos , & bizonhos , & fem nenhuã ordem . Nem fc 
pôde re/ponder , que fempre na índia íe militou defta maneira, 
porque antigamente naõ avia nella inimigos de Europa,íena5 
de ordinário piratas Malavares. E feouve na Índia armadas de 
fora, como as do Soldaõ,& do Turco, foi nos primeiros 
annos , em que as noíías armadas eraõ tam numerofas , que ex- 
cediaõ às deftes contrários ; o que agora totalmente naõ ha." 
Eaííim avendo milícia certa, ^eícolhida, poderá o Eftado da 
índia tornar a florecer,fe as nãos forem menores, & da grande- 
za,cõ que fecomeçou o comercio , como adiante fe moftrarà; 
porque defte modo chegarão os foldados com faude, & ellas 
voltarão com eípeciarias a falvamento ,&naõ íè levara tanta 
gente todos os annos iofrucluofamente defte Reyno. 

Qpmofe remediará a fecunda caufa da falta 

Aagentc com aintroducçao de aU 1 

gms artes mecha* 
nicas. 






í. 4* 



O Remédio para a íègunda caufa, porque falta a gente ne- 
fte Reyno, fera exercitaremfe nelle as artes rnechani- 



B % cas. 



- 

* 



1 6 No ti pi as de PertHgaL 

caSjdequecarececAffirmaõos Políticos, que naõ ha coufaque 
importe mais para fazer huã Província numerofa de habitado- 
res^ rica de todos os bês,que a multidão das artes ; das quais 
huãs faõ neceíTarias , outras com modas á vida civil $ porque 
delias fe legue o grande concurio de gente, que ou trabalha, 
ou menea o trabalho , ouadminiftra a matéria aos trabalha- 
dores, compra, vende, & leva as obras de hum lugar a our 
tro . £>e maneira que importa muito mais a induftria do ho- 
mem para fazer hum lugar populoíò, que naõ a fertilidade 
do terreno j porque as coufas produzidas da induftria huma- 
na íàõ muitas mais, 8c de muito maior preço, que as couías 
geradas pela natureza . O exemplo que difto trazem os Po- 
líticos , he a Iam , a qual he fruito íímples , & groíTeiro da na- 
tureza , mas a arte, quam excellentes pannos, quam vários, 
& de quanta diverfidade fabrica delia matéria ? íuftentan- 
dofe delia, naõ fó o que a cria, mas os que a cardaõ , fiaõ, 
urdem , tecem , tingem , cortaõ , cozem ,'" & a fof maõ em 
mil matérias , & a levaõ de hum lugar a outro . O mef- 
mo fe diz da feda, que he fruito fimples 5 & com tudo 
quanta variedade forma delia a arte ? Bem fe ve em Floren- 
ça, Génova, & Veneza > onde com a arte da feda , & da 
Iam íè mantém qu a fidous terços dos habitadores. O meí- 
mo acontece em toda a outra matéria. Itália he província, 
na qual naõ ha mineral de importância de ouro , ou pra- 
ta, como também o naõ ha em França 5 &com tudo nua, 
& outra he abundantiílima de dinheiro , 8c de theíõuros 
pela induftria das artes, & mercancia . Flandes também 
naõ tem veas deites metais ; & por fua muita induftria, 
naõ ha província em Europa mais habitada , nem onde 
haja tantas cidades , 3c tam grandes , 8c tam frequenta- 
das de Eftrangeiros , 3c tam florentes em riquezas . Por- 
tanto o Príncipe que quifer fazer populofo o feu Rey- 
no , deve introduzir nelle toda a íõrte de induftria , 8c 
de officios ; o que fará com trazer officiais excellentes 
de outras Províncias , & darlhes fallarios , 8c commodi* 
dades convenientes , 8c com favorecer os bõs engenhos, 
õc eftimar as invenções , 3c as obras , que patticipaõ do 

fingu- 



Difíurfo f vimeiro. ■ 17 

fiflgular,Sc do raro > & com hnalar prc mios à perfeição } 8c ex* 

cçlíenóá* 

Mas íobre tudo he neccífario , que naõ permittã, que íe le- 
vem para foi a de (eus Eftados os materiais crus, como íãõ as 
lans^èdajmadeira^metais^em outras Jèmelhantes coufas^: or- 
que com os materiais vaÕ também os oírkiais , que os lavraõ. 
E alem. de viver muito mais gente do trato da matéria lavra- 
da, que da matéria fim pies, como 2pontamos,asrendasdoPrin-i 
cipe faõ com exceílo mais ricas pelas íàcas das obras , que dos 
materiais. Mais tirados veludos , damafcos ; & femelhantes 
teas, queda íímples feda, maisdospannos,queda Iam toíca; 
mais ctes teas de linho,que do linho 5 mais da cordoalha , que 
docanamo. O que vendo ha annos os Reys de França, & In- 
glaterra , prohibiraõ levar a Iam para íóra de íèus Efta- 
dos . O meímo fez também depois elRey Catholiço 5 ain- 
da que eftas ordêsnaõfe obfervaraõ com o eífeito , que con- 
vinha. 

NefteReyno também ouve efta prohibiçaõ ; mas efta~ 
va tam eíquecido o cuidado do bem publico pela falta dos 
Príncipes naturais , que toda a Iam fe levava para fora 5 de 
maneira que no anno de 1645. fó em Évora em poucos dias 
fe comprarão com dinheiro de mercadores eftrangeiros ©&>. 
arrobas . Pelo que fua Mageftade, que Deos guarde man- 
dou de novo prohibir eftas compras 5 porem naõ bafta fo- 
mente eftaprohibiçaõ,- mas o que importa, & o para que 
trazemos eftes exemplos , he que íe introduzaÕ co Reyno 
eftas mechanicas , & teares ; fazendo que deftas noíTas lans 
fe teçaõ no Reyno os meímos pannos , que os Eftrangeiros te- 
cem delias nos íèus, & nos trazem depois a vender. Por- 
que difto íe nos íèguiràõ duas grandes utilidades ; a primei- 
ra que ficará no Reyno todo o dinheiro , que ouvera de ic 
para fora por razaõ deftes pannos,a íegunda que naõ depende- 
ra da vontade dos eftrangeiros trazeremnos efta mercadoria, 
de que totalmente neceffitamos, & porlhe os preços à íiia von- 
tade tendoa nós em nolfa caía. Ifto íe pôde ordenar fazendo cj 
fe lavrem nefte Reyno as baetas , que vem de Inglaterra ; pois 
faõ tecidas com as noílas mefmas lans . Agora no principio 

B 3 fef * 



1 8 Noticias de Portugal. 

fç poderá fazer conduzindo com prémios algus officiais, man- 
dandoos vir de Londres, ou de outras partes ; & fazendo aífen- 
tar efte trato nos lugares , que parecerem mais convenientes, 
como em Eftremós, Borba, Portalegre, Covilham 5 8c com ifto 
íè daria principio a hum trato de grandiílimo proveito, adi 
para as rendas Reais,porc]ue comedes direitos creíceriaõ mui- 
to, como para o bem comum,- porque teria o Reyno as baetas 
muito mais baratas,& em mòr abundância, & para a fuftenta- 
çaõ do povo j porque muita parte delle íè manteria com efta 
occupaçaõ. 

O me fmo que digo da baeta íè pôde fazer com às farjas; 
por quanto eftes faõos dous géneros de mercancias , de que 
mais neceííitamos. Da feda também íè poderiaõ introduzir ne- 
fte Reyno teares de veludos lavrados,damafcos, fetins, 8c tafe- 
tás dobrados j pois emnenhua parte de Europa fe dá a íèda com 
tanta perfeiçaõ,comoem Portugal ; como notaõos Authores 
, vr . t Italianos.& ió falta occuparemfe mais nefte arteficio . Diz Ef- 
DecA. de cholano nahiltona de Valença , que naõ avendo em Heípa- 
Vdm.i. jj^ ate tempo dos Godos íèda , nem aííucar , nem arroz, os 
'* ** Ct ' Mouros depois que nella entrarão , trouxetaõ quà eftas íemen- 
tes,as quais fecultivaõhoje em Valença com tanta utilidade, 
que affirmaõ importar quada huã deftas coufas hum milhão 
quada anno.Em Murcia , 6c Córdova todas as molheres fe oc- 
cupaõ com a creaçaõ da feda. E a feda , que o Marques Fernaò 
Cortes introduzio no México , tem crefcido de maneira , que 
agora he a maior mechanica,que ha naquellaProvincia,como 
íè ve da arte que eícreveo da fua creança Gonçallo de las Ca- 
iaque anda no fim da Agricultura de Herrera.O meímo íè po- 
de fazer em outras artes,que nos faõ neceffarias para a milícia, 
8c navegação. 

He o ferro de Portugal o melhor do mundo, delle fe lavrarão 
as mais prezadas efcopetas pedidas pelos Principes,& que fe lhe 
offereciaõ por peças de muita eftima , íèndo nos tam neceffa- 
rias eftas armaSjhe erro grande mandarmolas bufcar de outras 
Provincias,fendo as eílrangeiras muito inferiores às noífas , co- 
mo íè ve nas muitas,que arrebentaõ quada dia nas fronteiras^ o 
que as noffas naõ fazem . 

Na5 



Difcuvfo primeiro. 19 

Naõ he menos importante o lavor cta linho canamo,deque 
íè fazem as amarras,cordoalhas,& enxarceas, excedendo o nof- 
fo a todos os de Alemanha,de maneira que huã amaria de Por- 
tugal íuftenta mais,que duas, & três de Flandes , E íendo eítas 
couíàs tam neceffarias para a navegação 3 que lèm ellas íenaõ 
pôde fazerjhelaftima, que íeja talo nolTo deícuido, que vamos 
bufear eítas couíàs ás terras de noííbs inimigos 3 dandonolas 
Deos em noíTacafa. E o peor he que confeífa hum Contratador D U(ine Q 
dosnoíTos num livro, que apreientou ao Confe!ho,que todas as mehfo^re, 
amarras>& cordoai has.que nos mandarão de Flandes , naõío- aCiim P' 
mente erao as peores,mas de prepolito , & por índuttria falh- 138./. 
ficadas 3 & fallidas,paraque naõ pudeísé íervir,ienaõ cõ aappa- l6 & 
rencia.ElRey Dom Manoel, & Dom loaõIII. tiveraõ feiturias 
deite lavor do Canamo nos lugares do Reyno, em que íè dá 
com mor abundância . O meímo íè poderá tornar agora a fa- 
zer dando privilegios,& com modos aos oficiais, que nifto fe 
occupaíTem. 

O lavor dos pannos de algodão fe poderá introduzir nefte 
Reyno com muita facilidade ; pois íamos fenhores do algodão 
do Braíi!,& Caboverde,que he infinito, & finilTImo.E para me- 
dres íe poderão mandar buícar os tecelões da índia , que faò 
os melhores do mundo, & fazer em Lisboa oscanequins ) & bo- 
fetás, que lá imos buícar com tanto trabalho,& perigo. 

O papel também hecoufa de muito uíò, & que iodo nos 
vem de fora . Sua Mageítade , que Deos guarde elRey DOM 
IO AM o I V.quis ja introduzir eíta arte no Reyno, & mandou 
para iffo fazer huã oficina em Villaviçoía , que cõ as occafioés 
prefentes tem celTado. 

Diz o Doutor Laguna no íeu Corrimento de Diofcorides, La^ua 
quando falia da gram,que a gram que nafee em Portugal, he a^'^* 
melhor que íe conhece em Europa,& como tal he buícada dos ^j e dV- 
eítrangeiroscom grande culpa noffaj pois dandonos Deos eíta °/" r * 
tinta tam excellente nefte Reyno, naõ fe tece nelle hum covado 
de gram ; & os eftrangeiros nos tornaÕ a vender o que he pró- 
prio noííb, a ttkms fobido preço, podendo nos vendello aelles. 
O meímo fe pôde dizer do pao do Brafil,& paítel das Ilhas,que 
fendo quafi mercadorias eftanques , nòs as damos em matéria 

B 4. íimples 



2o Noticias de Portugal* 

fimples a todas as nações de Europa para com ellas tingirem 
os íeus pannos , podendo nós uíâr dos mefmos tratos , & íer os 
vendedores dos pannos,& naõos compradores. Eftas,& outras 
m echa nicas íe poderão obrar com grande utilidade do bem 
pubIico,aíiim para as rendas Reais,como para a multiplicação, 
& fuftentaçaõ do povo. E naõ ha que reparar em parecer,que 
íèrá ifto couíã difficultofa.ou muito cuftofa, fenaõ ordinária , 8c 
k».p!i. fa^k poiso grande trato das fedas de Cicilia teve principio em 
&4*k,& elRey Rogério trazer de Corintho , & Athenas, quando as en- 
trou algus oficiais de feda para Cicilia : Sc eftes baftaraõpara 
fazerem naquelia Ilha hum trato de feda,quea tem tanto em* 
io a às requecido.Damefma Cicilia mandou vir pnoffolníante Dom 
i./.2,r itf Henrique os meftres para eníinarem a plantar , Sc beneficiar o 
açúcar ná Ilha da Madeira . Efte principio bailou para fazer 
aquella Ilha a mais rica do mar Oceano, Sc para delia fahirem 
depois os meftres,que introduzirão efte trato na Ilha de S.Tho- 
jnè,& em todo o Brafil,que fc naõ fuftenta de outra coufa ; Sc 
heo maior rendimento,que agora tema Coroa de Portugal^ 
Pelo que pois temos ja em cafa o exemplo,& experiência, naõ 
nos pôde parecer efte arbítrio novo,ou de pequeno effeito. 

Poucos annos ha que hum oleiro , que veio de Talaveíra a 
Lisboa,vendo a bondade do barro da terra , começou a lavrar 
louça vidrada branca,naõ fó como a de Talaveira^mas como a 
da China^porque na fermofura, & perfeição podem competir 
as perçolanas de Lisboa com as do Oriente ; Sc imitandoo ou- 
tros oíSciais,creíceò a mercadoria de maneira, que naõ fomen- 
te eftà o Reyno cheo defta louça^mas vai muita de carregação 
para fora da Barra. Do mefmo modo quafi por efte tempo co- 
meçarão pelo diftri&o de Coimbra a fazer fearas de milho 
groflò de maçaroca,que vem de Guinèj&aos primeiros íègui- 
raõ outros em tanto numero , que he hoje o mantimento mais 
ordinário para a gente vulgar, quaíi em toda a Beira , Sc entre 
Douro,& Minhojde que íè íèguio grande beneficio a eftas Pro- 
víncias; porque como as fearas íaõ de regadio,nunqua fakaõ,- Sc 
fundindo muito , vem aíêr o mantimento muito barato, com 
que o povo fica;de todo abaftado.Pelo que íe eftas mercadorias 
fe introduzirão em noflb tempo ío pela indtrflria dos particu- 
lares^ 



f)ifcurfo primeiro. zi 

lares-com quanto mor facilidade \ & felicidade íè poderão in- 
troduzir as outras,que apontamos peio poder , & authoridade 
dos Príncipes? 

Do remédio da terceira cattfa da falta da gente com 
fífozerem noivas Colónias no Rejno, 

b - . - ■■■' ■ 







tofti 

Otaõ os Políticos, que os Romanos antigos^affi para cul- 
tivarem todaltáhajCcmo para coníèguirem a multipli- 
cação da gente,que íempre pretendéraõ,ufaraõ muito defte re- 
médio das Colónias } porque fó de Albajulia íahiraõ trinta , & 
de Roma íetiraraõquafi infinitas, como que opovo Romano 
íe foi multiplicando em grande maneira • porque aííi como as 
abelhas crèfcem com felhe tirarem das colmeias os novos en- 
xames quada anno ; da meíma maneira acontece tirandofe de 
hum povogranáe huã Colónia ; porque fe dà occafiaõ para 
creícer muito mais gente, do que crefcera,fe íè nao tirará; por- 
que muitas daquellas pelToas por naõ terem terras , nem còm- 
modidadepara viver/enaõcafariaõ ; & aííi fe perderia toda a 
geração delias ; o qiie ézõ acontece, quando fe tira a Colónia; 
porque entaõ o Rey,ouoSenhor,que a Colónia funda,lhe con- 
cede na terra para onde a manda habitar,campos,& herdade!, 
dequefepoffafuftentar. Defte remédio das Colónias fe tem 
lambem ufado nefte Reyno de feu principio . Porque desde 
o Conde Dom Henrique ate élRey Dom Dinis, naõ fomente 
òs Reys fundarão muitas villas, mas os Prelados, Camarás, & 
Fidalgos particulares 1 , repartindo às herdades, que tinhaõ aos 
moradoí es,que queriaõ ir para êllas,dandoa quada hum terras 
para cultivar com a penfaõ dos quartos, ou oitavos na forma, 
que íe concertavaõ.De modo que muita parte do Reyno fe po- 
voou por eftemeio,& principalmente Alentejo , que ainda que 
por fer a ultima Provinda de Portugal, que fe conquiftou , ficou 
menos povoada;Com tudo quáíi todos os lugares, que nella ha, 
foi aõ fundados pelo Bifpo,&.Cabido deEvora,& pelos Meftres 

de 



2i Noticias de Povítigd. 

de Avis,& Santiágo,& outros Fidalgos . Pelo que pois por efte 
meio das Colónias teve a povoação do Reyno principio, naôfe 
lhe pode bufcar outro mais proprio,nem mais fácil, para fe po- 
voar,principalmente Alentejo; quecomíèr quafi tanta terra, 
como o reftante de Portugal^ftá quafi dcfertaj&cpm mui pou- 
4 cas villas,& lugares. A razaõhepor eítar todo Alentejo dividi- 
do em herdadeSjdas quais os lavradoiés naõ íaõ íènhores ; mas 
fomente arrendadores^ & ainda que muitos homês defejaõ ia- 
zer caías novas nas mefmas herdades, naõ lhe podem os lavra- 
dores dar para iflb licença ; mas antes quando os íenhorios o 
querem,ellesonaõconfentem,pelodaano,qufe temem , que os 
tais moradores lhe haõ de fazer nas fuás fearas, & nem huã ajr- 
vore de fruito.ou parreira ouzaõ plantar na terra; porque logo 
o vizinho lança fobre elle no novo arrendamento para ficar me- 
lhor accommodado.Donde vem eftar agora efta Província tam 
defpovoada;fendo affi que em tempo dos Romanos tinha mais 
9f$ifm\ l u g are s,que as outras da Lufitania. Pelo que para a povoarem, 
flTébM naõ fera neceffario aver força ; porque fe derem aos homes 
Iftfcft terras , & algum modo de commodo para o principio, de fua 
vontade averà muitos que folguem de íe vir viver a eftes no- 
vos lugares. 

Duas objecções fe pedem apontar contra eíle meio. A prí- 
meirahe fer a terra de Alentejo de charneca areenta, Sc efteril. 
Afegunda quehe falta de aguas, fem as quais naõ pôde aver 
povoação. Porem ambas eftas dificuldades tem fácil repoíta. 
A primeira fereíponde negando íer todo Alentejo de terra in- 
frucl:ifera,& de charneca; porque a maior parte, deita Provín- 
cia he de terra muito fertil,& abundante;& a parte que tem de 
> charnecas,naõ he toda de roim terra,-antes parte delias he ter- 
ra boa. Alem difto como temos provado, nenhua terra fe pôde 
chamar infruótifera , porque a que naõ he boa para trigo , he 



osGeographos,naõ fervem de outra couía mais, que de partos, 
& com.iftoeftà riquiffima. O mefmo fe vè na Eítramadura de 
Caílella,cujas terras naõ fervindo mais,que de paftos aos reba- 
nhos 



Difcurfoprimeiróé 2j 

nhos de paftores, que lá chamaõ de ía Meíla , dâõ grofiíTmias 
rendas aos íenhores d aquelles lugares. Pelo que nos poftos 3 onde 
a terra naÕ for boa,íèuaõ de charneca, pode íèrvir do que dize- 
mos;ou aíTi mefmo de excellentes cofraeares , como íe vè na 
íerradeSerpa-,nade Portel,& no termo de Palmella. Por onde 
ô mefmo fora em toda a parte , como tem fido neíles íítios : Sc 
naõ he menos rendoía a novidade da cera, que qualquer outra 
mercancia , poisa imos buícar ao Caboverde , & á Berbéria. 
Exemplo do que temos dito , feja o que vemos nas Vendas no- 
vas,onde a charneca he de área m m íol ta } 8c que parecia mais 
infrutífera; & com tudo naquelle fitio íe tem plantado vinhas, 
pomares,& hortas muito boas. 

E quanto í íegunda objecção , que íe diz de Alentejo , que 
naõ cem fontes,naõ faz ao caio • porque íe podem abrir muito 
bõs poços j & naõ he novo beberem delles cidades , 8c povoa- 
ções muito nobres, como vemos hoje a cidade de Beja , 6c El# 
vas ,antes da agua da Amoreira;& a cidade de Évora, antes que 
lhe trouxefísm a agua da prata: & de preíênte de poços bebe a 
cidade de Fáro,asvíIIas de Serpa,Monremoro Novo, as Alcá- 
çovas ê Alcácer doSa!,&Therena;&romeímGpaífanaEítre- 
madura,como em a Alhandra, em CaftelloBrancOj&em mui- 
tas viilas daqueila Província. 

A outíá dificuldade que fe podia apontar do cabedal ,que' 
era neceífario da fazenda Real, para íè começarem eftas viilas. 
&íè introduzirem eftas Colónias , íè feíponde^que iiaõhene- 
cefíario , que Sua Mageftade faça nefta matéria gafto algum; 
mas que lamente conceda aos que hoje as fundárefn , òs privi- 
légios 3 com que antigamente fe fundarão as outras pelas com- 
munidades,ou fidalgos particulares *. que foi o titulo do íènho* 
i io delias, porque com ilio íè faráõ.Os dous poios, fobre que fe 
movem todas as coufãs do mundo, íaõ honra, 8c proveito,- ôc íè 
por alcançar aqualquer deitas vaõos Portugueíès ao fim do 
mundo.çom quanta mais facilidade Jè empregarão nefta obra 
os que tiverem para iífocommodidade , quefaõ muitos , corri 
íe lhes dará juriíciicçaÕ do lugar,que fizerem. A elRey Dom 
IoaòoLaconfelharaõ,que íè fe queria fazer íenhor de Por tti- 
g^!,quedeíTeoque naõ tinha^ pfornettefTe o que naõ era íeu; 

que* 



24 Noticias de Fortttgal. 

que eraõ os lugares, que naõ pofluia; & por efte meio fe fez Se- 
nhor de tudo. Pelo que em certo modo dando eiRey agora li- 
cença para quada hum poder fazer eftas novas povoações nas 
u as terras com alguãjurdiçaõ, ou privilegio honrpío; bem 
podemos dizer que dá o que naõ tem 5 pois tais lugares naõ os 
ha,& depois que os ouver, ainda que conceda efte leve titulo 
do fenhorio delles,com elRey ficaõos novos varTallos ? os novos 
tributos,& fifas, 8c o novo creícimento de todas ascouíàs, que 
fe nos tais povos cria 5 & juntamente fe ficará coníèguindo o ef- 
feito da multiplicação da gente, de que tratamos. 

He efta matéria tam fácil , que naõ eftà mais o poríè por 
cbra,que em fe dar efta licença, por quanto naõ falta gente que 
defeje ter terras para cultivar: & por a utilidade, que difto íè fe- 
gue aos fenhoriosdas terras, fer tam notória , que lhe naõ fica 
ièndo gafto,íènaõ beneficio* grande defua fazenda.Exemplo fe- 
,ja a povoação da Caía Branca , que o Conde do Sabugal Dom 
Duarte de Caftelbrancofez numa herdade íua,que tinha junto 
á Avis,a qual dividio em Courellas, & dandoaa vários foreiros 
com obrigação de certo foro, 8c os quartos s vcioafazerhua 
povoação de algus cem vizinhos,que lhe rendem hoje o dobro, 
que a herdade lne rendia. 

O Conde Dom Eftcvaõ de Faro pedio licença para fundar 
hua villa para delia tomar o titulo em huãs herdades, que tinha 
junto a Alvito,mandou fazer efta divifaõ,& edificando a quada 
morador fua caíã,&dandolhe certas Courellas de terra,fez huã 
nova villa , que intitulou Faro de Alentejo, de que tomou o ti- 
tulOjíem perder nada de fua fazenda , antes acreícentando mui- 
to nella. 

Em todo Alentejo he tam grande o numero de homes , que 
defejaõ aforar titulo para huã cafa,que na freguefiadaCharida- 
de termo de Monçarás tem o Cabido de Évora huã aldeã de 
muitos moradores numa herdade fua defte nome,& quada 
hum deftes moradores aforou ao Cabido fomente o fitio para 
fazer a caía , dando cjuada anno de foro hum cruzado por el Ie. 
E porque o lavrador da herdade lè queixava, que eftes vizinhos 
lhe podiaõ fazer danno ao feugado,& fearas, lhe poíèraõ clau- 
fulas no afforamento,que queixandoíè o lavrador do tal foreiro, 

lhe 



Difcurfofrimeiro. iy 

lhe derrubariaõ as caías, fem por iíTo lhe tornarem nada . E he 
tal a neceífídade , que os homês tem de acharem hum lugar 
próprio , em que viver , que com eftas obrigações tam peíadas 
aceitaõ os foros, & vem outros quada dia aos pedir. 

O meímo acontece na aldeã de S. Mancos, 8c na de Santia- 
go de Efcoural; & he tam grande a neceffidade , em que^eftàa 
gente do campo de Alentejo de cafas,em que íe recolhaõ,que 
haõ hà lavrador , que naõ metta na fua herdade algús deites 
fèareiros partindo as próprias calas com elles. Pelo que íe com 
tam grandes encargos aceita agente do campo fazer huã caía 
âfua cufta; quantos averá que aceitem a commodidade de 
quem lhas quiíer dar , & juntamente acreícentandolhes terras 
para as poderem cultivar ?Por onde podemos ter por certo,que 
emíe dando efte privilegio , a maior parte das grandes herda- 
des,que hoje hà em Alentejo, & quaíi eítaõ feitas em defertos, 
fe veraõ povoadas, & cultivadas de todo o género de plantas, 
Sc feitas hGs jardins . De maneira , que com efte beneficio naõ 
íbmente creícerà a multidão do povo, mas a abundância do tri- 
go,de que efte Reino carece, naõ por defeito natural,mas pola 
cobiça de aígíís , que procuraÕ ter, & acrefcentar a grandeza 
das íuas herdades, as quais quanto maiores faõ , tanto menos fe 
cultivaõ , aíli porque naõ hà lavradores tam poffantes,que te» 
tihaõ cabedal para tam grandes lavouras , como porque quan- 
to maior hea herdade,em tantas mais folhas fe reparte; & ten- 
do huã herdade muitas folhas ,naõ fe íàmea mais que hua,& as 
outras ficaõ (em dar fruito,&faõ cauía de faltar o trigo no Rei- 
no. Difto íè queixava Plínio. em íeu tempo dizendo : LmfundU pim,l.\$. 
perdidere Italiam ,• que a grandeza das herdades tinha feito a lta- '•$• 
lia efteril-5c que avia paffado efta cobiça tanto à vante , que ate 
Africa,queera a may da abundância, neceííitava de trigo,- por- 
que íeis íènhorios poíTuiaõ a ametade daquella Província em 
tempo de Néro./dmrverá, ffi fritowáasfex 22cmmijèmtffetn ^ifru 
cxpõffidehantfHi» tnterfecit e$s 'Nero . Efta era a Magica , com que 
Furio CreíTino dizia , que avia maiores novidades na fua her- 
dade, por íer pequena, & bem cultivada , que feus vizinhos nas 
muito maiores , como nefte lugar refere o meímo author ., E 
por efta caufaíe fez aquella lei Agraria, que naõfoííe maior 

C nenhua 



>Í6 : Noticias dt Portugal. 

nenhuã herdade , que o que fe podeíTe lavrar com dous bois 
lAfianut quadaanno,comoafíirmaApiano Alexandrino. Todos eftes 
k*é exemplos provaõ mais noflbintetojpois mandando eIRey Dom 
Fernando computar as terras de íèmeadura , que avia nefte 
Reinp,fe achou, que fe todas íecultivaíTem,averia paõ de fo« 
bejo para toda a gente, 8c naõ feria neceílario trazello de fóra. 
Pelo que fez leis, em que mandou que nenhuã herdade, ou ter- 
ra ficaffe de voluta , porem efta pregmatica ?tegqra fenaò 
pode executar, como convinha; mas fazendofe eftas novas 
povoações , de força íè coníèguiçà efta ctltivaçaó , lavrando 
quadahum afua terra, de maneira que lhe façaõ dar naõ fo- 
mente hum,mas muitos fruitos , como vemos nas mais das ter- 
ias,que eftaõ juntos âs villas, & lugares em todas as Comarcas 
do Reino, 

'De outro rtmtdio para a falta dajjentt popular, 

quzhe o amparo dos orfaõs. 



i 



S. 6, 



H 



Vã das coufas", que tem dado mais cuidado aos Princi» 
pes,& Reípublicas,he o defamparo dos orfaõs , & allim 
em todas as Províncias há íòbreeftas matérias muitas leis, 8c 
ordenaçoés,porque íê mandaõ crear,& acodir a fuás fazendas. 
Porem ifto toca mais aos ricos,quc aos pobres^porque eftes co- 
mo naõ tem com que íê íuftentar,perecem de ordinário os mais 
dellesà fome,&deíamparoj&osque daqui melhor efeapaõ, 
jhefazendoíe mendigos,com que naõ tem nenhuã creaçaõ,nem 
doutrina,& daqui procedem tantos vadios , & fingidos pobres, 
como andaõ nefte Reino; 8c o que peor hc muitos ladroes faci- 
norofos: 8c por mais leis, que íéfaçap contra efta gente tam 
pernicioía à Republica , naõ ha executallas ,• ainda que fe- 
bre ifto íe fizeraõ muitos difcuríòs, 8c livros, que andaõ im- 
preffos por muitas partes de Heípanha . Pelo que o me- 
Ihpr remédio de todos he acudir a efte mal em feu prin- 
cipio , recolhendo eftes orfaõs , 8c engeitados , em quanto 

íaõ 



Eifcurfô primeiro. i? 

faõ pequenos , & dandolhe boa creaçaõ . A Senhora Infanta 
Dona Iíabel Clara Eugenia filha delRey Felippe o Prudente 
por íua muita charidade, tinha devaçaõ de mandar em Ma- 
drid pór a todos eftes orfaõs, & engeitados a officios mechani- 
cos,como refere o Lecenciado Herrera no diícurío do Ampa- 
ro dos verdadeiros pobres . Epara o meím o effeito ha na cicia- a o7p!b r et 
de de Valença hum bom Collegio. Porem muito mais antigo deHe m - 
hê efte cuidado , pois nas leis Imperiais fe faz menção da pri- r4 ' 
meira caía, cjueíe fundou em Constantinopla para eftes ór- 
fãos fe recolherem, Sc enfinarem, a que chamavaõ Orphano- 
trophia.Com tudo modernamente fe.faz ifto em Itália, &Fran- 
ça com muito mais fruito ,• porque ha muitos Collegios, Hofpi- 
tais,& Hofpedarias,onde eftes orfaõs íecriaò , 8c eníiaaõ a to- 
das âs artes mechanicas , tendo dentro dos mefrnos Collegios 
apofcntos,onde vivem, & enfinaõ os medres , que procuraõ fe- 
j v5 iempre os melhores daquelles officios . Aqui fe lavra com 
mais perfeição a madeira, macenaria , & efeulptura ,.& todos 
os inftrumeatos de ferro neceíTario» á vida politica , & milí- 
cia: aqui as excellentes pinturas, os teares de todas as fe- 
das : aqui as impreífoes mais correctas : aqui as fundições 
mais apuradas j & por ilTo íãõ mais bufeadas as obras mecha- 
nicas deftes Collegios dos orfaÕs , que dos outros oficiais das 
cidades. . 

Defte meio nos convinha muito valer em Portugal , vifta^a 
grande multidão de engeitados , 8c orfaõs, que há nefte Reino, 
os quais creandoíèem boa doutrina, ate íe poderem pór aos 
officios,ficariaÕ íendo de grande utilidade à Republica. Nos 
lufares marítimos convinha mais uíãr defte remédio , como 
faõ Lisboa , Setuval , Porto , Viana , 8c no Reino do Algarve; 
porque deftesorfaõs,&defampara dos, affi recolhidos fe po-* 
diaõprovèr os navios degrumetes,& pagês das nãos, ^ma- 
rinheiros , que he gente,que muito falta nefte Reino • & corn 
a boa doutrina , & criação feriaõ de grande conveniência para 
as noflas navegações • por quanto ordinariamente falta a crea- 
çaõ devida aoshomes do mar, como fe tem vifto em tantos 
rjaufrpgiosj&perdiçoés^cujashiftoriasandaõ cheias deitas quei- 
xas. Per onde com efte remédio fe evitaria grande parte dos fin- 

C 2 gidos 



2 % Noticias de Portugal. • 

gidos pobres,&: vagabundosjque ha nefte Reino , & fe occupa* 
riaõ em exercícios honeftos,& proveitoíbs á Republica^&creí- 
ceria com iífo o numero dos moraflores doslugares, &amuf- 
tidaõ do povo do Reino. 

He efte meio do recolhimento dos orfaõs tam notório, que; 
os povos em Cortes o pedirão já a Sua Mageftade no anno de^ 
ad+i.cap 53x0111 eftas pala vras:&ní degrdnite untidade, que n* 
recolhimento dos Mininos orfoos , ou no que cúamao de Santo ^íntotúo je\ 
tu olhdÕ muitos moçosffifelbes applíjuerendap4rafiufuilemo^porj ahi 
çs eníinem da ar te de marear^com que a^eráfempre mareantes em ahun* 
Jlancú/eme^tZeimeíú mmfalto.N&z capitulo fe traz por exe* 
pio o hoípital , quefeza Rainha de Caíteíla em Madrid para 
enfinar moços a mareantes^ela fa!ta,que delles aviaE a repe- 
lia de Sua Mageftade, he que mandara ordenar ò que nefte ca- 
pitulo fe lhe pede, 

O mefmo que diífemos para. o amparo, & remédio dos mo- 
ços orfaõs,he razaõfediga das órfãs moças , ou para melhor 
dizer mui to maior cuidado fede vede ter de 11 as, affini porofeu 
defamparo fèr mais perigo íb^co mo por terem as rnolheres mui- 
to menos modos de vida,que os ho mes. Pelo que convém que 
íe procure o fèu remedio,applicando todosos meios,que pode 
aver para que eftas órfãs do povo fe caiem : porque alem do 
grande ferviço, que fe faz a NoíTo Senhor em fe tirar a occafiaã 
de fe perderéjficaífe alcançando o intento da multidão da gen- 
te com a multiplicação dos matrimónios. Difto pode íèrvir de 
exemplo a cidade de Mftlaõ, que he das mais populofas de Eu- 
ropa;^ huãdas cauías de feu creícirnento he dotaremíe todos 
os annos^iella mais de 8oo . órfãs . O mefmo íè vè no augmen- 
to,que a cidade de Sevilha teve de algús annos a efta parte- por- 
que ainda que muito delle foi cauíado do comercio das Indi- 
as^com tudo também fe pode dar por fundamento cafaremfe 
ern quada hum anno muito grande numero de orfas ., por aver^ 
naquella cidade as capellas deMicer Garcia de GibraIeon,& do< 
àtvdha àt Arcebifpo Dom Fernando Valdes,& do Cónego Dom Fernam- 
Afrrgtfr. do de Menchaca.que fomente íbraõ fundadas,para das groíías 
rendas que tem,íè cafàrem muitas orfás : alem de aver muitos 
outros hofpitais, cAoo de Deos Padre, de S, Ifidoro , de S„ 

Clemen- 



Diftnrfo frimciro* 29 

Clemente,de S. Hermenigildo, & o da Mifericordia, que caíaõ 
quada anno muitas donzellas,a fora outros muitos , quedo íò* 
bejode íuas rendas fazem efta obra de Mifericordia. 

Parafe por por obra efte meio , quedizemos,fe poderia ap- 
plicar alguã parte das rendas das Cameras, aonde as ouveife 
grandes ,ou aílinarfe hua renda das queentraõ no Cabeção, cu- 
jo rendimento feapplicaífe fomente a efta obra pia . Podiaflfe 
também mandar a todos os Provedores das Comarcas, que 
onde quer que achalíem dinheiro, ou legados deixados para fe 
gaitarem em obras pias , que naõ foífem nomeadas pelo tefta-* 
dor,íe gaftaífe rudo neftes cafa mentos. E aíli fe poderiaõ orde- 
nar outras coulàs feraelhantes, para que efte intento podeífe 
ter eífeito. 

Do remédio dnfrimeirti cmfo dâ extitocçno d# Uú* 
brez&pefa unmo dos morgados* 



O Mais efficaz remédio pata a primeira cauía dá falta c?á 
nobreza 3 he fazerfe huã lei, pela qual fe diíponhà,que íè- 
naó pofíaõ ajuntar dous morgados numa sò peffoa ; & que íè 
por via de caíamento , ou íucceífaõ de parente mais chegado 
acontecer que íe venhaòa unir duas caías , & morgados de di& 
ferentes inftituidores,& gerações em hum sò particular,o filho 
mais velho deite ultimo poííuidor , íucceda fomente em hum 
deites morgados, qual elle quifer efcclher,& o filho íègundo fi-* 
que íuccedendo no outro. Porque defta maneira aveia muitos 
mais cafamentos para as molheres nobres , 8c fidalgas , para as 
quais nefte noíTo tempo fe achaõ mui poucos ; porque fe vaõ 
ajuntando em huasò peflòa muitas cafas , 8c morgados, que fc 
eftiveraõ apartados , de força feus polTuidores aviaò de caiar 
com molheres de fua qualidade $ o que agora acontece pelo 
contrario.Porque tanto que por qualquer via fe vem a ajuntai", ' 
8c unir eftes morgados, o poííuidor delles nao cafa mais que cõ 
huã, Sc efta quer que tenha outro morgado, que fe lhe ajunte, 

C 3 ou 



^o Noticias de Portugal. 

ou hum dote tam grande,quehe neceífario fe mettaõ freiras to- 
das as de maisfilhas,para íè poder ajuntar . Eheefte remédio 
tamevidente,&bem confiderado, que jaem parte eftà pofto 
por lei nas noflas Ordenações novas no liv.4.tit.ioo.§.j. 8c íe- 
guintes:onde diz a lei que d efta defuniaõ de morgados fe íègui- 
rà efte mefmo proveito a eftes Reinos , que he aver nelles mui- 
tas caías,& famílias para melhor defenfaõ da Republica, &con- 
íèrvaçaõ das gerações. E aíli naõ difTere efta lei, que digo fe fa- 
ça,daquella da Ordeoaçaõ,que ja eftà feita, íènaõ em me pare- 
cer,que feja efta muito mais larga . Porque a Ordenação diz, 
queifto fomente averàlugar,quando hum dos morgados ren- 
da quatro mil cruzados;o que parece coufa muito larga,&pou- 
to contingente: & affi o vemos,porque depois que íè fez,atego- 
ta. naõíe praticou, por aver muito poucos morgados nefte Rei- 
fique cheguem a efta contia de renda: & alem difto aconte- 
cerá poder hum fó particular ter quatro , & finquo morgados, 
que quada hum delles naõ chegue a ^CAcruzados de rerjida; Sc 
aflí naõ ficar obrigado a deixar a feu irmaõ mais moço nenhum 
delles,& ficar por efte modo fruftrado o intento da lei , que foi 
naõfe ajuntarem as caíàs,nem fer hum sò particular poííurder 
de grande, & exceíliva renda . Porque em huã Republica mais 
convemÇafli para aver muita gente , como para defenfaõ delia, 
£c bom íerviço do Rey ) aver muitos morgados } 8c cafas , que 
commodamente fe poííaõ fuftentar , que aver poucos , que te- 
nhaõ em fi muitas cafas deftas,& fejaõ por iítò muito ricos. 
Pois vemos por experiencia,que os que deftes tem dez,ou doze 
mil cruzados de renda,nem por iífo íuftentaõ tanta família jun~ 
ta,como fuftentariaõ os fucceííores dos morgados,que elles em 
fi tem juntos; antes ordinariamente vivem empenhados pelos 
muitos, & exorbitantes gaftos,que fazem defneceífarios em jo- 
gos , moveis, edifícios , 8c outras coufas, que naõ pertencem à 
neceífaria , 8c conveniente fuftentaçaõ de íiias peífoas , da qual 
fomente trataraõ,íètiveraõ menos renda. 

He outro fi efta uniaõ de cafas, 8c morgados occafiaõ de 
muitos gaftos defneceífarios na Republica . Porque como to- 
dos particularmente deíèjaõ de fe igualar com os outros de fua 
qualidade,hum sò que tenha muita renda^om os demafiados 

gaftos, 



■Difcurfoprimeiro. p 

gaftos, que faz, quafi que obriga aos outros a gaitarem o que 
naõ podem, por íe naõ moftrarem inferiores . 

Pelas quais razoes feria de parecer , que efta noífa Ordena- 
ção quanto ao que diípoem de render hum dos morgados 4 CA 
cruzados fe eftenda , em que baile render hum morgado iZJ. 
cruzados para o filho fegundo ter logo dereito de herdar o ou- 
tro . E quando acontecer que íè ajuntem três morgados , ou 
mais; & que dousdellesrendaõ os ditos 1U \ cruzados > o filho 
fegundo pofla logo fucceder no outro. 

Defte remédio fè íeguirá logo acharemíè muitos cafamén- 
tos convenientes para molheres fidalgas, & nobres, &que naõ 
íejaõ neceíTarios tam grandes dotes para poderem caiar . Por- 
que a razaõ de íè pedirem grandes dòtes,he aver muitas mol he- 
res para caíamentos,& poucos homés , por nelles eftarem jun- 
tos^ unidos ordinariamente muitos morgados , E daqui vem 
que fe lhe naõ querem dar grandes dotes, naõ querem calar, 
porque achaõ muitas molheres , que pretendem cafar cõ elles. 
Por onde nos vem a acontecer o contrario do que íuccede em 
toda Africa, Afia, & boa parte de Europa , onde fabemos , que 
caíaõ todos com as molheres íèm dote ai aum .«antes entre elles 
he ordinário compralías a íeus pays-, porque como quada hum 
tem muitas molheres, fica avendo grande falta delias • 8c por 
iíTo naõ faõ neceíTarios dotes. 

Do remédio dafegundt cimfa da falt* da nobreza* 
com n diminuição d&grandõzft dos dotes. 

i. 8. 

O Prejuízo, que cauíà a grandeza dos dotes â nobreza de- 
fte Reino,he coufa tam notória, que ja íe pedio o remé- 
dio defte danno nas Cortes de 619. 6c a Sua Mageftade, que 
Deos guarde, nas do anno de 64 1 .pelo Eftfdo dos nobres. E Sua 
Mageftade proveo em parte aefte inconveniente , como íe vê 
na declaração, que fez ao cap. 31. do Eftado da nobreza à foi. 
•Sz.deftas Cortes, 8c fuás reportas impreíTàs > mandando que íè 

C 4. fizeífe 



3 1 Noticiais de Portugal. 

fizeíTe hua lei , para que os dotes naõ paflàíTem de \iV. cruza- 
dos,naõ entrando nefta conta as legitimas,& heranças.Efta de* 
terminação fora muito jufto que íe cxecutaflejporem como as 
penas faõ para a fazenda Real, faõ de muito pouco effeito, por- 
que os Principcs^nem íèus Mniftros naó attendem a eftas meu- 
dezas.Por tanto importa , que as penas fejaõ para os outros fi- 
lhos,& filhas, a quem fe faz o danno,dandofe muito mais a hu, 
que aos outros . Pelo que em corroboraçaõ deite tam impor- 
tante intento íè poderiaõ ordenar os meios feguintes , com que 
ícachariaõmaiscafamentos convenientes para as molheres 
nobres,& fidalgas, 

O primeiro hefazerfe outra \è\\ que nenhum pay, oumay 
poíTa dotar a huã filha mais que a legitima da filha , 8c da fua 
terça a parte,que prorata lhe couber: convém a làber, fe tiver 
duasfilhas,ametade da terça, & íè tiver três filhas^ terça parte 
da terça , & aííim das mais : 8c que ifto fe obferve com as meí- 
mas condições, com que hoje naõ pode o pay dotar mais , que 
a terça a huã filha. Porque defte modo averà muito mais com- 
modidade para fe caiarem muitas molheres . Nem contra ifto 
íè pode dizer>que fe affim for,naÕ quererão os homes caiar com 
tam pequenos dotes, porque como todos forem deita íorte, 
forçofamente os haõ de aceitar,como vemos,que acontece ho- 
je a todos os morgados defte Reino , os quais ainda que tenhaõ 
muitos mil cruzados de renda,nem por iíTo pretendem molhe- 
res tam ricas,como elles$pois he coufa averiguada , que nos ca- 
famentos nobres fempre os homês Íà5 os mais ricos; 8c por iffb 
lhes he forçado aceitarem os dotes, que cõmummêtefeachaõ, 
que de ordinário naõ vem a montar a terça parte das rendas 
dos morgados,& ainda eftesíãõ os maiores. Pelo que naõ íe 
achando entaõ outros dotes de maior contia , forçado fera que 
íè aceitem eftes : 8c aílim averà mais poííibilidade para fe dota- 
rem as filhas. E para que fenaõ poíía fruftrar o intento da lei cõ 
os pays meterem as filhas freiras , concertandofe com os mo- 
fteiros , que naõ herdtm mais que os dotes , que lhes derem na 
entrada.para effeito de poderem mais dotar à filha,que fomen- 
te querem cafar,íê deve de prohibir,que naõ valhaõ íemelhan- 
tes contratos feitos com os mofteiros 9 fenaõ quando o pay , ou 

mãy 



■ 

Difcarfo J>ritntiro. $3 

may,que os fizer, tiver pri-meiío caftfdoduas 3 ou três filhas^por- 
que defte modo parece,que íe atalhará a fraude, que a efta lei fe 
pode fazer. 

O terceiro, «Sc ultimo meio parece que podia fer,quando Sua 
Mageftade prove ofícios grandes , Ôc rendoíòs , & alguãscom- 
mendas de muita renda , que feja com claufula de caiarem os 
deípacbados com as filhas de fidalgos, que Sua Mageftade no- 
meanporcjue defte modo Te ficaõ accommodando muitas de- 
itas donzellasfem cufto dè feus pays,nem delRey. E afíi como 
Sua Mageftade coftuma ter nefte Reino muitos lugares é mo- 
rteiros para freirasjparececonvenientiílra que tenha outros 
muitos mais para eftes cafamétos, pois delles reíultaõ tom gra- 
des bésaefte Reino . E do mefmo modo devia Sua Mageftade 
deapplicar outros lugares menores deofficios, & commendas 
para as filhas de outras peíToas nobres , & de menor qua- 
lidade. Epoftoque qualquer deftes meios parece ^ 
eítícaz para fe remediar o mal de*que trata- , ' 
mos j com tudo todos três juntos de-, 
vem fazer muito maior, & mais 
notável effeito. 




d is- 1 



n 



blSCVRSO 

SEGVNDO 

SOBRE A ORDEM DA MILÍCIA, 

que antigamente avia em Portugal, & das for- 
ças militares , que hoje tem para íè con- 
fervar, & ficar fuperior a feus 

contrários. 



E tamneceffariaaconfervaçaõdas coufas, que 
igualmente as produzio a natureza com os me- 
ios convenientes para íiia defeníaò . Ifto vemos 
naÕ sò na contrariedade, com que o s Elementos 
repugnaõ hús aos outros para íe coníervaremj& 
nas plantas , muitas das quais a natureza defendeo, armandoas 
de efpinhos nos troncos, nos ramos, nas folhas , & nos pomos; 
mas mais manifeftamente nos animais,aos quais naõ sò a natu- 
reza deu armas, com que íè defendeíTem , mas ainda lhe com- 
raunicou conhecimento para íè unirem os de quada eípecie, & 
particulares aftucias , còm que íe defendeíTem melhor de íeus 
inimigos. Deftai militar induftria, com que a mefma natureza 
creou aos brutos animais , fe vê claro , quam necefíarios faõ os 
íòldados na Republica, pois fem a força da Milícia naõ podem 
permanecer as leis, nem profeífarfe asíciencias,ou exercitarem- 
íe as arte5,nem finalraente confervarfe a paz,& a liberdade.Por 
tanto hum dos maiores caíligos, com que Deos ameaçava an- 
tigamente feu povo, era dizendolhe, que deixaria aquella Re- 
publica íèm Capitaés,Sc Soldados. 

Inclue emlio exercício das armas três maravilhofas virtu- 
des, que faõ Charidade J Fortaleza 3 & Prudência. Com a Chari- 

dade 





ifcutfo-fyjmdo* 3j 

dadeofferecem os particulares a vida própria pdo bem coran 
mum de todos,que he o maior aclo deita virtude, como teftk u<matf 
ficou NoíTo Senhor no Evangelho, dizendo; Matarem âtieãtonem 1 !* 
nemhtíétfu ammamjuam ponat fiiipre. amiç?s{uH& aífi ate os Gen* 
tios tivçraõ o morrer pela pátria, & d.efeniaõ delia peia mais 
gloriolã acçaõ da vida,donde pelas leis de Licurgo íè mandava r\ HtmCt i{ 

3ue em nenhum íepulchrofe pofeíle epitaphio , ou nome fenaõ Lriurg. 
aquelles que morreííem pela. pátria , Coma Fortaleza íe def. 
prezaõ os perigos, &fe vencem as injurias do tempo,as incorri* 
roodidadesdos alojamentos,as íomes,íedes, & hnalmête as for- 
ças, Sc ar mas, dos contrários, Com a Prudência íe ufa deitas vir-* 
tudes a íeu tempo, aprovei tandofe das occaííoês , & efcolhendo 
íítios avantejados,& providos para alojar, & combater, ou for- 
tificandoos para fe defender . Por eftas , Sc outras razoes tendo 
oshomes todos hum só principio,aquelles, em que eftas virtu-; 
des mais reíplandeçeraõ,ficaraõ íuperiores aos outros: E o mek* 
mo era antigamente íer Rey,que defeníòr da Republica, o que 
ainda hoje fignificap v ceti;o > que os Reys ti azem ; o qual teve íèu 
principio dalança,a que chamavaõHaftapura.Eem Hefpanha 
conforme eraoas armas,com que os íoldados ferviao,íelhe da- 
va o grão da nobreza.Daqui nafceraõ os títulos dos Efcudeiros, 
de Cavalleiros,de Fidalgos,de Ricos homés, Condes, Marque- 
fes,& Duques j ôc vieraõ a fèr os mais nobres cargos da Repu- 
blica aquelles que pertenciaõ á Milícia , principalmente nefte 
Reino. Porque como os noíTos Reys alcançarão pelas armas o 
lènhoriodelle , libertando quafi toda a Província da$ maõsdos 
Mouros,que a fenhoreavaõ, Sc defendendoo dós Reys vizinhos 
para confirmarem mais lèu Eftado , poíèraõ toda a honra na 
gloria Militar,dando nova nobreza aos do povo, quefaziaõ fei- 
tos aííinalados nella, Sc os nobres acrefcentandoos a maiores 
eftados,de maneira, que raros faÕ os Senhores de valTallos ,que 
hoje hà em Portugal, que naõtiveífem efte heróico principio. 
E para fahirem infignes nas armas creavaõ todos íêus filhos com 
grande parfimonia nos veftidos,& manjares^dandoos mefmos. 
Reys aos outros exemplo nefta matéria. De modo,que na virtu* 
de da Temperança fe poderá comparar efta noíía Republica 
ate o tempo de noflbs avôs com a tam celebrada dos Lacede- - 

momos. 



j* Noticias de TúrttígttL 

xnonios. Por eftâcaufà uíavaõ ainda na paz dos exercícios Milt- 
%\ tares, podo que fingidos ; para que quando lhe foíTem neceífa- 
rios íènaõ achaflèm bizonhos,mas deftròs nellas. Sendo os íèus 
jogos,& paííàtempos tirara tabolado, ou bordear, juftas, tor- 
neos, touros de ca vaílo, montarias, exercícios todos , em que fe- 
moftra tanto esforço^ galhardia , como nas verdadeiras bata* 












Ihas,& recontros de guerra. 

A Milícia, que os noflos Reys antigos procuravaõ ter preftes 
para defeníàõ , 8c fegurança da danno, qiie^podfcõ receber dos 
outros Príncipes confinantes , era hum exercito com todos os 
Capitães, officiais, &ibldados neceflarios , com que podeíTc nv 
acudir em continente atodasasóccafioés ', que fe offereceíTeirv 
onde foíTe neceffario. E porque o fundamento da guerra íaõ Úsí 
forças dos naturais da Província , aífrda gente de pê,como dei 
cavallo;& a ordem,cora que a Milicía íe exercita , me pareceo 
conveniente apontar ò modo ,que os noíTos Réys tivera 6,aííi na 
defeníàõ dos lugares,como nos exércitos, com que andarão em 
campanha, & o numero de gente,de que nelles uíavaõ, porque 
ainda que íe mudou o eftilo da Milícia com as novas armas, 8c 
inftrumentos de pólvora , com tudo as forças , 8c a ordem / 8c 
meios para alcançãllas fempre faõos mefmos: & por eftes prin- 
cípios íe hà de difpor o que na nova Milícia íe há de ordenar. 
Nem íe me pode eftranhar efte argumento por alheo da prohf- 
íàõEcclefiaftica,por quanto a Milícia he parte da PoIiticá;&co- 
íno tal trata delia Santo Thomas em muitos lugares de fuás 
obras^poronde a theorica he commuà a todos ; & aííi a eftaó 
lendo muitos reiigioíòs nas efcholas publicas, naõ sò fora defte 
Reino, mas ainda nelle. Quanto mais>que eftando as forças de 
Portugal na occafiaõ preíente todas oceupadas nefte exercício, 
obrigação nos fica também a todos de trabalhar nefta matéria; 
«juadahumnoquelíie tòcaemconfèrvaçaõ dobem publico.. 
Mas porque aguerrafe divide em terrefte,& maritima,faHare- 
inos primeiro da da terra,como mais principal,diícorrendo pe- ; 
los maiores officios do exercito , dando particular noticia de 
quada husjcom tudo o que pertence á Milícia antiga,ate o pre~ 
fcnte , feguindo nefta matéria os noflbs hiftoriadores , 8c parti- 
cularmente o Regimento da guerra, que fez elRey Dom 

Afon- 



Diftnrfofejjmdo. 37 

Afonfo V . conformandoíè com os eftilos antigos defte 

Reino. 

• 

DoofficiOtqttefazwclReynojxercito, <S» dos mi* 

nifiros^mfn<viPio}^pjfo(tKepi,lnaguerret y Qr 

da dignidade dcGondtííçihle. 

§. 2. 

OS exércitos defte Reino foraõ fempre governados pelos ^ mm f 9 
Reysdelle. Porque como os rnefmos Príncipes faziaõ 4*fftm* 
proHffaõde guerreiros,naõqueriaõdar aoutrem efta honra . E ]$*$%; 
aíli ouve poucos Reys, que naõ feachaífem por fuás peífoas nas 
emprefas maisimportantes 3 que em feu tempo íè fizeraõ,como 
lemos do primeiro ReyDom Afonfo Henriques, & deíèu filho 
Dom Sancho, Dom Afonfo III. Dom Dinis , Dom Afonfo lV„ 
Dom Ioaõ I.Dom Afonfo V. Dom Ioaõ II. & Dom Sebaftiaõ. 
O ofr7cio,que no exercito faziaõ, era o fupremo ; & delles rece- 
biaõ as ordés os Condeftables. Para o ferviço, & guarda de fua 
peífoa tinha elRey hum Guarda mòr,que era dos fidalgos prin- 
cipais do Reino,o qual trazia configo 2o.cavalleiros nobres pa- 
ra guarda da peífoa delRey . Eftes na guerra o acompanhavaõ ° **#*&* 
em toda a parte,& na paz afliftiaõ no Paço, & dormiaõ junto à rauu*'* 
Camará Real. Porem depois ufaraÕ os Reys de fidalgos em lu- 
gar deftes Cavalleiros , & tinhaõ as entradas livres , como os' 
Gentis homês da Camará na caía de Borgonha . Naõ avia del- 
les numero certo , mas em tempo delRey Dom Sebaftiaõ o fo- 
raõ fomente doze . Eftes Cavalleiros da guarda no tempo da 
guerra andavaõ no exercito com o íèu Guarda mor armados,& 
acavallo,feguindo a peífoa delRey,& íègurandoo ; alem do c . ~ ,, 
qual teve também depois o Capitão dos Genetes parte defte Çe*etes 
cuidado,como adiante veremos. Tinhaõ os Reys hum Arma^ dixo ***• 
dor mòr , cujo principal cargo era guardar as armas da pef- . c y 9tl dd 
íòa Real : também algus moços fidalgos ferviaõ de Pagés da Rey iom 
lança. ^M'7* 

D Ama- 



38 Notúfas de Portugal. 

A maior dignidade do exercito depois da pefloa Real , era o 

lãgum* Condeftable,cujaorigem,porfer pouco conhecida,tocaremos 

r. do con- brevemente . Os Eraperadores Romanos, & à íua imitação os 

JtítM. ãnt [g 0S j^ e y S fe Hefpanha, & França introduzirão nos feus offi- 

ciais do Paço o titulo de Omites, ou Condes -, aos quais conforme o 

minifterio,a que prefidiaõ,felhe dava o nome,com quefe diffe- 

rençavaõ hus dos outros, chamando Comes ràfrMtt ao Veador 

da czia^Comes domefticorum> ao Mordomo mor , & aflí aos mais. 

Por efta razaõ chamarão ao Eftribdro mor Comes flalmU.Q mais 

antigo Author onde fe acha efte nome, he em S.Gregorio Tu- 

. , . roneníè:&aííííeentende,que teve efta dignidade principio em 

emirato França,& que aquellesReysforaõuíando deftes léus Eitnbeiros 

naifàmi& móres^u Condeftables nas coufas de guerra . No principio fen- 

*l£*u* "^° ° Condeftable Capitão decavallos, Sc depois General da 

Condêjiá' Cavalleria , ate o virem a fazer General da Milicia de todo o 

?*• Reino , 8c proverão efte cargo nas peífoas mais iliuftres delle. 

De França,parece que veio efte officio a Italia,& a Inglaterra; a 

cuja imitação elRey Dom Fernando de Portugal o creou de 

novo nefte Reino,quando o Conde de Cambris com os feus ín- 

glefes o veio a ajudar a fazer guerra a CaftelIa.O primeiro que 

efte cargo teve em Portugal, foi Dom Álvaro Pirez de Caftro 

Conde de Arraiolos, 8c ate entaõ fazia nefte Reino o officio de 

Condeftable o Alferes mór,*& de entaõ ategora tiverao fempre 

o titulo de Condeftables , ou Infantes , ou os mais principais Se« 

nhores do Reino; 

He o Condeftable em Portugal o General da Milicia, íèu lu- 
gar no exercito he o da vanguarda ; 8c conforme ao feu titulo, 
que eftà no Regimento da guerra ,• a elle dá elRey as ordés do 
que fe deve fazer no exercito, & elle as comette ao Marichal, 
para que as execute,& a elle pertence fazer os Coudeis dos Be- 
fteiros,& dos homés de pè,quada hum cõ 3o.íoldados. Affinaõ 
os Quadrilheiros,que haõ de repartir os deípojosdas batalhas, 
Sc íàcos dos lugares. Antes de partir o exercito,manda os Defec- 
bridoresdo campo,& Almocadêsa fegurar os caminhos, & dà 
as guias para a vanguarda, 8c Capitães para cavaIgadas,apoíen- 
tador para alojar o campo,5f guardas,& roídas, & cicutas para 
de noite,& lhe dà o nome. Por fua ordem íè reconhecem os lu- 
gares, 



xDifcnrfopjundo. 39 

gares,que íê haõ de cercar. Em todos os cafos,que fuccedem no 
exercito,affi civeis,como crifnes,hefuprerna jfeftiça,para o que 
nomea Ouvidor , Sc Meirinho ; 8c a elle vèm por appellaçaõ os 
feitos do Marichal: em os eiveis naõ há do Condeftable appel- 
laçaõ,Eftas,& outras coufás diípoern o Regiméto antigo,& lhe 
concede gajes no exercito de quada mercador,ou regataõdoze 
reais brancos quada íòmana > & dos c] íèr virem a eftes,tres reais: 
8c todas as penas deDereito,oq Condennaçoês,que fe no exerci- 
to fizeíTem,eraõ para elle, & íi carceragem dos que foííem pre- 
íos na prifaõ do feu Ouvidorias prefasdas cavalgadas eraõtp- ., 
das as cavalgaduras,que naõ andaflem em bandos. 

Efte oíficiode Condeftable exercitarão com eftas leis,&co- 
ftumeso Conde de Arraiolos Dom Álvaro Pirez de Caftro íer- 
vindo a elRey Dom Fernando, 8c depois a eIRey D. Ioaõ I.fen- 
do ainda deíeníbr do Reino $ o qual por morte de Dom Álvaro 
Pirez deu efte cargo ao Grande Dom Nunalves Pereira,que o 
ièrvio com grande vaior,& boa fortuna.E quando elRey pafíon 
a Caftellaem ajuda do Duque de Lancaftro, ounqua o Conde- 
ftable quis dar a vanguarda ao Duque; mas íèmpre ufou de íiia 
preeminência. Succedeolhe no ofício o Infante Dom Ioaõ , 6c 
por lua morte o Senhor Dom Pedro Meftre de Avis filho do In- 
fante Dom Pedro } depois o Infante Dom Fernando filho dei- 
Rey Dom Duarte , Dom Ioaõ Marques de Montemor filho do 
Duque Dom Fernando de Bragança o primeiro, o qual exerci- 
tou o ofício, acompanhando el Rey Dom Afonfo V. nas guer- 
ras de Caftellaj no que tocava às velas, 8c caufàs judiciais,q nas 
mais preeminências do cargo corriaõ com o Duque de Gui- 
marães feulrmaõ . Por morte do Marques foi Condeftable el- 
Rey Dom Manoel, íêndo ainda Duque de Beja-, 8c depois que 
entrou na íucceíTaõ do Reino,deu efte officio a D. Afoníò filho 
natural do Duque de Viíèu Teu Irmaõ . Succedeolhe o Infante 
DXuis,depois o fenhor D.Duarte,& por íua morte os Duques 
D.Ioaõ,& o SereniílimoD.Theodofio lí.feu filho.He agora efta 
dignidade mais exercitada cÕ titulo honorário , q cõ exercício. 
Porq des do têpo delRey D.Ioaõ II. para quà íè foi mudando a 
ordem da Milicia , de maneira q tirando as preeminências das 
Cor tes,ê q há levantamétos dos Reys,ou juramétosdos Princi- 

D i pesj 



4o Noticias de Portugal. 

pes^nos quais os Condeftables tem o eftoque diante dos Reys, 
Sc em outras prerogati vas femeihantes de honra naõ fe deu ca- 
io em que exercitarem a jurdiçaõ dos exércitos* 



Do MarichaL 






S. 



3 



sàptá A Segunda dignidade da Hofte ( que afli fe chamava anti- 
*Jmir.»9 ,/j^gamenteem Portugal o exercito)heMarichal.Seu nome 
dâNêh a ^ rma ° ' er Todelco,& que lè corrompeo de Marigal, que fig- 
za dcNZ nifica juftiça da Corte,&cafa Imperial.Pontano diz,que nalin- 
pei. ttt. gua Fr ancefa quer dizer Meftre de Campo , & ambas eftas fig* 
^ftí*' nificaçoês caem bem ao officio,que nefte Reino faz.Efta digni- 
dade creou elRey D. Fernando de novo em Portugal juntamê- 
te cò a de Condeftable,à imitação dos Reys de Inglaterra,quã- 
^do quà andava o Gondede Cambris.E foi o primeiro Marichal 
Gonçallo Vaz de Azevedo. Ao Marichal pertence pelo Regi- 
mento da guerra repartir os alojamentos de fèu exercito ; de- 
pois q pelo Apoíentador do Gondeftable for affinado o lugar, 
onde íèouver deaflentar;& paraiíío tê também o Marichal íeu 
Apctíèntador,& provê de outros para ascavalgadas$manda ter 
cuidado das velas ao têpo decomer,afli de dia, como de noite, 
Tem o Marichal Ouvidor,diante do qual íe podem pòr to- 
das as acções eiveis, & crimes no exercito- tem affi mefmo Mei- 
rinho,Carcereiro,Prifoês,Aguazis, para exercitarem juftiça: a 
alçada he nos feitos eiveis ate três mil reais brancos: daqui para 
cima há appellaçaõ para o Condeftable.Nos crimes naõ pôde 
executar penas de íângue,ou açoutes: todas as execuções de ju- 
fiiça íè manda5 fazer por feus miniftros > & os pregoes fe daõ em 
nomefeu,& do Condeftable. As gajes,que tinha, eraõdaspre^ 
fãs das cavalgadas, que fe faziaõ,todas as cavalgaduras mezela- 
das,& caftradas.De quada tenda, ou logeade mercador, rega- 
Êaõ,barbeiro,aflacalador dozereais brancos quada fomana. To- 
das as penas, que por via de graça, ou mercê mandar elRey 
pagar no exercito aos condennados , perdoandoíèlhe a pena 

prin- 



. Difcnrfo fecundo. 41 

principal,-afíi mefmo a carceragem, & armas, cjuefè tomarem 
aos que forem preíòs na cadea dó íèu Ouvidor , & às decimas 
dos prifioneiros do exercito ■, que fendo fugidos depois de huã 
noite,& diá,faõ tornados ao campo. Os que ategora tiveraõ efta 
dignidade.foraõGonçalIo Vafques de Azevedojeu genroGoní. 
ça Ho Vaz Coutinho fènhor de Leomil,Vaíco Fernandes Cou- 
tinho primeiro Conde de Marialva, Dom Fernando Coutinho 
íeu fegundofilhojDom Álvaro Coutinho, Dom FernandoCou- 
tinho,o que morreo em CaIecut,Dom Álvaro Coutinho 3 Dom 
Fernando Coutinho,Dom Fernando Maícarenhas filho de D. 
lorge Maícarenhas Marques deMontalvaõ, 

. ■ ■ ■ 

DoAlftrtsmbr,Capitaodos Genetes&C0p- ; 

taodaGftardã* 






; 




Te o tempo delRey Dom Fernando ò Alferes mordei* 
Rey era o General do exercito,como ja apontamos, afa- 
zia o ofício de Condeftable,& Marichal,como confta do feu ti- 
tulo no Regiméto da guerra. Entre os ricos homês era dos pri- 
meiros,que conhrrnavaõ as eícrituras cõ titulo de Stgnifer Regis\ 
&o mefmo fe uíou emCaftelIa.O nome de Alferes he Arábigo* 
q quer dizer tanto como Cavalleiro.Seu oflicio he ao prefente. 
terá bandeira Real no acto do alevantamento dos Reys, & le- 
valla nos exércitos cõ a peffoa Rearmas naõ eftéde a bandeira, 
íènaõ em batalha campal. Coftumaô os Alferes mores ter outro 
Alfcres,que chamaõ pequeno,a que entregao a bandeira,quan- 
doeílaõ impedidos para a poder levarjComo felè,que íuecedeo CÍ3réfí * & 
na batalha de Touro, em que a Duarte de Almeida Alferes pe- rjeoL*. 
queno,cortaraõ as roaõs,para lhe tomarem a bandeira. O pri- Nun.c^Z 
meiro Alferes mosque ouve emPortugal/oi D.Favez Luz,que 
viera de França com o Conde Dom Henrique.Os mais que efte 
cargo ferviraõ, íégundo tenho alcançado* foraõT). Pedro Paez 
da SiIva,fidalgo illuírre 5 & grande cavalleiro.Em tempo delRey 
Dom Afoníò II. confirmao com titulo de Alferes mòr Mar- 

D 3 tim 



4fi Noticias d* Portugal. 

«tm htimsfiz I?o$* Suejro R,ey moae}o: no delRey Dpm Afonfo 
III. Dom Ioaõ Pirçz de Aboi*n> & Dom GonçaUp : no delJR.ey 
IJam Afoj^folV. fervip ^fte cargo na batalha do Sala4o Dor# 
Pedro Paez,nèto do Meftre de Santiago Dom Payo Corrêa.- x$ 
batalha de Aljubarrota levava a bandeira Real I-opç Vaz 4§ 
Cunha por íèuirmaõ Gil Vaz da Cunha: & nas n^i$impreía$ 
delRey Dom Ioaõ I» exercitqu o ofício Ioaõ Gomez da Siíva; 
& por fua morte ? o deu elRey ao Conde de Viana D,pm Peqjço 
de Mençíes,queo teve em todo o tempo delRey Dom Duarte, 
cujo Alferes moí era íèndo Infante: 8c na jornada de África 
com os Infantes fezo officio em feu lugar Dom Duarte de Me- 
neies pelo Conde íèupay , por cuja morte lhe fezelReyDom 
Duarte mercê delle : daqui íè continuou íêmpre na família dos 

Ainda que o officio de Capitão dos Genetes parece deve íêr 
mais antigo nefte Reino ,• todavia naõ fefaz delle mençaõ nas 
hiftorias,íenaõ de pouco tempo aefta parte j & a primeira vez, 
que achei nomeados Genetes deícpbridores de campo nos exer- 
. eitos de Portugal,foi em tempo delRey Dom Duarte ; quando 
^DuJte os Infantes Dom Henrique , & Dom Fernando pafl&raõ a Tan- 
wki^&zi gere,onde o Chronifta diz,que Ruy de Souía,& feu filho Gon- 
çallo Rodriguez de Souíà hiaõ diante do exercito com 3 qo.Gc- 
netes a deícobrir o campo, & que efte Gonçallo Rodriguez foi 
depois Capitão dos Genetes . Pelo que parece, que o primeiro 
que introduzio efte cargo na Milícia do Reino, foi elRey Dom 
JLfoníò V. por aver na íiia hiftoria muita mençaõ delle. Seu pró- 
prio officio he íêr Capitão dos Genetes da guarda delRey , a 
que dizem fe annexou fer General da cavallaria do Reino , 8c 
como tal exercitou efte officio Vafco Martins de Soufa Chi- 
chorro, acompanhando a elRey Dom Afonfo V. em as guerras 
de Caftella; depois entrou efta dignidade na caiados Mafcare- 
nhas por Dom Fernando Martins , que fervio de Capitão dos 
Genetes aos Reys Dom Ioaõ H,&Dom Manoel.Os Cavalleiros 
defta guarda dos Genetes eraõ da qualidade dos mefmos Ca- 
valleiros da Camera,&guarda delReyro numero era de 2 00. & 
ufavaõos Reys delia naõsó na guerra,mas també na paz, prin- 
cipalmente quando faziaõ caminho , como fe vè das hiftorias 

delRey 



Difturfoftjundo. 4j 

delRey Dom loaõ H. & Dom Manoel. A guarda dos Alabardei- 
ros introduzio elRey Dom Sebaftiaõ , aííi para refpeito da pef. 
foa Real,como para íègurança delia /pelos muitos eftrangeirbs 
Heregesjque avia em Lisboa, mas naõ eraõ de Todeícos,íènaõ 
de Porltuguefcs , 8c foi feu Capitão da guarda Francifco D eííà 
Camareiro mó* delRey Dom Henrique, Sc Conde de Matozi- 
nhos: depois elRey Dom Felippe Prudente , deixando por Go- 
vernador defte Reino ao Archiduque Alberto,lhe deixou guar- 
da Todefca,& por Capitão ddla Dom Franciíco deSouia, a 
qual fe foi continuando com os Governadores, & ViíòReys^ue 
lnefuçççderaõ,ar,eSua Mageftade,que Deos guarde^ue admi|- 
tio os Todefcos,que-ainda achou com os outros Alabardeiros 
de fuaguarda,que dantes tinha. * * -v 

Dos Annadeis, ér Coudtis mores* 



$. j. 



. 



■■x 






* . ■ ■ • • . 

NAs hiftorias deftes Reinos ha muita menção de Annads- ■ 
is,ainda que naõ excedem o tempo delRey Dom Fernan- 
do. Pelo que parece entrarão eítes officios no Reino juntamen- 
te com os de Condeftable, & Marichal;ao que ajuda o mefmò 
nome,que dize m fer Inglês . O mais antigo , que íè acha com 
efte titulo , he Afonfo Furtado de Mendoça , Sc em tempo del- 
Rey Dom loaõ I.feu filho Afonfo Furtado, Aos Annadeis per- 
tencia fer Gapitaõ dos Befteiros,affi de cavallo , como da gar- JjTJ^jjJ 
rucha do Cbnto , Sc do Monte, que chamavaõde Fraldilha,& Mamei <k 
também dos Efpingardeiros,os quais cargos durarão ate o tem Gots.fá. 
po delRey Dom Manoel, que só deixou os dos Eípingardeiros, e **" 
Sc os de Fraldilha,& extinguio os mais à petição do Reino eftã- 
do em Cortes. 

Ordenou elRey Dom Afonfo V. que oshomes de armas E£ 
cudeiros,que íerviaõ a cavallo nos exércitos, foífem reduzidos 
à Capitania de hum Capitão, que os repartitle por Coudeis, 
dando a quadaCoudel vinte: pelo que chamarão ao Capitão 
defla gente, & Coudeis,Coudel mòr. 

D 4 Deri- 



44 Noticias âeToYtttgnL 

Derívoufe o nome do Coudel do nome antigo C^WJ^ deri- 
vado de Capar, palavra latina , que íignifica Cabeça ,• donde íè 
diíTe também o nome de Capitão . E dos Caudilhos trata o !i- 
vro4.tit, 23-das Partidas de Caílella, onde íeapontaõas quali- 
dades,que para os Caudilhos íèrequeré. ComooCoudel mor 
poro Regimento da guerra ficava capitaneando a gente deca- 
vallo -depois fe veio a encarregar ao Coudel mor a execução 
das leis,queíêfizeraõ para confervarasboas raças dos cavai- 
los do Reino,como adiante veremos. 

. 1 ■ ' 

Do Admlmór^r Almocadeis^cer^onifís com 

■ 

que era o cr ca dos. 









'Çvàmm A Dail he palavra Arabiga,íègundo Dom SebaíliaõdeCo- 
KT*'" JljL v arruvias,& fígnifica Guiadecaminho encuberto.Deti- 
Caft.pat* vaíle de 2)eltJ,çpc he Moílrador. Em Caílella hà muitos annos 
*j*ààML fe ufou eílé nome à imitação dos Mouros: & no tit. 22 .da 2 .Par- 
tida fe trata largamente deite officio.Em Portugal íe coftumou 
depois da tomada de Ceita,onde,& nas outras fronteiras deBer- 
beria, & no Algarve ainda hoje os Adais fao Capitães do cam- 
po,que he o leu próprio offício. No Regimento da guerra fè re- 
lerem as ceremonias com que antigamente eraõ creados os 
Adaisjo que tudo he tirado das Partidas de Caílella , & fao as 
feguintes. Oi: 

Avia de íèr eleito para Adail.hum libmem, que tiveíTe gran-? 
de pratica de guerra,esforço, prudência, & lealdade: Sc depois 
de efeolhido tal, mandava elRey por doze Adais tirar informa- 
ções com juramento do Adail, que eftava para fe fazer , & af- 
irmando elles , que tinha as quatro qualidades requiíícas , lhe 
dava elRey efpada, cavallo, & armas, & mandava a hum Rico 
homem, que lhe cingiíTe a eípad aíem peícoçada,- 8c pofto então 
oelcudo no chaõ com o concavo para cima,íè punha íobre elle 
pqueaviadefer feito Adail,& elRey lhe tirava a e/pada da cin- 
tado: lha dava nua na maõj& entaõ os doze Adais allçvantavaõ 

o ef* 



; Difturfo fegunhí -45 

oefcudono aro maisaltoque pqdiaõ; & olhando para o pri- 
ente dava com a efpada dous golpes cm cruz dizendo: Eu foaó 
defafio todos os inimigos da Fé,& de meu Senhor elRey, & da 
terra j 8ç p mefmo fazia para as outras três partes do .mundo. 
Depois mettia a efpaíia ha bainha y 8c elRey lhe mettia na maõ 
huã bandeira dizendo,que lhe outorgava, que foííe Adail, dalli 
em diante. E com ifto ficava novamente creado nefta dignida* 
de, 8c podia trazer armas, & cavallo, 8c aflentarfe a comer com 
os Cavalleiros dclRey , 8c podia capitanear os Almocadeis , 8c 
Almogavares,& qualquer outragente de pè,& de cavallo, que 
lhefoííeaííinada.EraõIuizes das cavalgadas, para as dividirem, 
&julgaremtudooque nellas aconteceííe. Nos exércitos do 
Reino avia também Adail mór , que hia cora algQsgenetes di- 
ante do arraial descobrindo o campo , como íè vè da hiftotia 
delRey Dom Afoníb V.o qual parece que foi o primeiro , que 
ântroduzio efte officio , trazendoo de Africa , onde como diíje- 
mos,fe uíâva delles des de o tempo da tomada de Ceita. O pri- 
meiro que teve o officio de Adail mor, foi Pedro de Bairros, 8c 
fervio eíte cargo nas guerras de Caftella : de prefente anda efte 
officio na família dos Peixotos fenhores de Penafiel. 

Também o nome de ^Almocddem he Arábigo , 8c fignifica 
Capitão: & o que vai diante. ^/,he o articulo, mo, particula for- 
mativa do nome,£*íta»,he do verbo Quedem, que fignifica Adi- 
antaríeipor quanto o officio dos Almocsdês he ferem guias , 8c 
encaminhadores dos exércitos: em Caftella trata delles a 1. j. t* 
n.da 2. pai tida,dondeparece íè tomou o titulo,que delles faz o 
Regimento da guerra defte Reino 5 & diz que os Almocadês 
eraõ antigamente os Coudeis dos piaes:& o modo,com quediã 
iè elegiac^era defta maneira „ O que queria íèr feito Almoça* 
dcm,requiria ao Adail,& o fazia certo das qualidades,que para 
iííb tinha, que avia de fer pratica da guerra, 8c noticia da terra, 
8c esforço, ligeireza , 8c lealdade: Sc entaõ vertido de fefta fe 1 he 
dava huã lança com hum pendaõ pequeno, 8c chamando ou» 
tros doze Almocadés, punhaò duas lanças no thaõ ao compii- 
mento,& elleíè punha em pé fobre ellas,& o levantava© os ou^ 
tros,quatro vezes da terra para as quatro partes do mundo, di- 
zendo as palavras, que ja referimos do Adail ? tendo a lança 

feita 



4 « Noticias de Portugal. 

feita na imõ. Deftes officios fe ufa ainda boje nas fronteiras de 
Africa. JÍ>0 

Das gmtês t ãt%w tonmw* owmto. a 

■ 




Epoisde ditos os ofícios dos Capitaes^eguefe tratar dà 

m qualidade,& numero dos foldados. Conftava o exercito 

de gente de cavallo,& de pè.Os de cavalgou éraõ fidalgos vaf* 
fallos delRey,ou lanças, que os Senhores da terra traziaõ , ou 
Cavalleirosda Ordenança dos povos do Reino . Oshomês de 
armas eraõ principalmente os fidalgos delRey , a que também 
chamavaõ vaflalloSjOS quais eraõ obrigados a fervir com certas 
lanças, por quadahuã das quais lhe pagava elRey certa contia 
de livras conforme às lanças , com que aviaõ de fervir , 8c erao 
obrigados aeftar preftes com ellas, quada vez que foliem cha- 
xnados.E fe na occafiaõ da guerra levavaõ mais lanças das que 
eraõ obrigados,nem por i(To lhe davaõ mais.O foldo deitas lan- 
ças, ou íè dava a dinheiro quada anno das rendas delRey! , ou o 
recebiao os fidalgos vaffallos em terras, que lhe os Reys tinhao 
dado,como fe vê dos Regiftros delRey Dom Fernado, no« qua- 
is cftà huã doaçaõ,porque elRey deu a Martim Vaíques da Cu- 
nha as terras de Tarouca , 8c Valdigem com condiça5 que íêr- 
viffe cõ tantas lanças armadas de todo ponto ao modo de Fran- 
ça, & Inglaterra , quantas fe montaflem nas rendas deftes luga- 
res a razaõ de i je.livras por lança . Porem aos fidalgos , que 
naõ ferviaõ mais que com íua própria lança , lhes dava elRey 
por ella 75 , .Hvras,que era a contia ordinária: & elRey Dom Pe- 
. dro os acreícentou a cento . Deftes vaffallos 3 que elRey aífi pa- 

Aey<D<m g ava > levava, quando morriaõ o cavallo , 8c loriga de luduofa 
itmo i.r. para ter íempre os Cavalleiros armados, & providos: 8c a todo o 
7*. * i3°« filho de fidalgo vaíTallo,que naícia, íe mandava logo huã carta 
de contia de feu pay, com que creíceo efte numero de vaífallos 
acontiádos em grande maneira ate o tempo delRey Dom Fer- 
nando; o qual querendo evitar huã tamanha defpefa , mandou 

aue 



Difcuvfo fecundo. 4? 

que íènaõ dèíTe a carta de contia , íenaõ ao filho mais velho do 
fidalgo vaflallo ; & que em cafo, que morreíTe o primeiro entaõ 
fuccedeíTe o mais chegado . Vindo depois eIRey Dom Ioaõ I, 
porás alteraçoés,que em tantos annos teve no Reino, naõdeu 
contia aos fidaIgos,mas fomente foldoj ate que depois fcguindo 
a uíànça antiga , pós de contia a quada fidalgo mil livras para 
a lança de fua peíToaj & por quada huã dos que o feguiaõ 700. 
& que o filhp naõ ouveíTe contia,fenaõ co mo podeílè íervir. 

A outra gente de cavallo fe fazia de todos os povos do Rei- 
no, mandando quada lugar o numero de moradores, que con- 
forme à fazenda que tinhaõ,eraõ obrigados a ter cavallo,& ar- 
mas. E para que podeífe aver maior nu mero de lanças,mandou 
eIRey Dom Fernando,que nenhum fidalgo, queouveííe de íèr- 
vir com certas lanças,levaífe defta gente de cavallo do Ccnce- 
Jho.Epara aver mais cavallos,naõ podiaõ ter ofh cios da gover- 
nança dos povos, os que na.õ fuftentavaõ cavallo. O numero da 
gente de cavallo ,que ouve no Reino , naõ confta qual foíTe ate D r * a ° r * 
o tempo delRey Dom Fernando : mas no delRey Dom íoaõ íe 
ordenou em Cortes,que ouveíTè 3500. preftes;convem a faber 
de vaffallos, ou cavalkiros de huã lança 2360 . & pelas Ordes 
Militares 300 A faber à de Chrifto 100. pela de Santiago outras 
oo.pelade Avis 80. & peladoHoípitaldeS. íoaõ 20. & pelos 
Capitaês,ou Senhores 50p.a fora os de cavallo dos Concelhos. 
E aíli quando eIRey Dom íoaõl. eatrou em Caftella, levou 
4EAS00.de cavallo. EIRey Dom Afoníò V". paíTou também a 
Caítella íobre a pretençaõ da Excellente Senhora comyÊ^co. 
decava!lo,& 14iy.de pè.ElRey Dom íoaõ íí.teve em íeu tem- 
po 7cVooo. lanças. EIRey Dom Manoel teve 6V000. cavallos c y 
preftes para parlar a Africa, como logo veremos; a fora os que R e y T>om 
eílavaõ nos lugares das fronteiras daquella Provincia,que con- M *»odi % 
fia paífavaõ de zZJooo . como fe refere em muitas partes da * 47 * 
ChronicadelRey Dom Íoaõ III. 3c o repete Francifco Pereira oW^ 
Peftana em hum difcurío íobre a guerra de Africa,em que mo- D - l9fi0 3. 
ftra ao meímo Rey quanto contra íèu Eirado era fuftentar rjos c .66^° 
lugaresde Africa 2^000 lanças,que naõ faziaõ força mais.çjâe 
de ioo.Porem alem deitas 2^ooo.lanças,orTereceo eIRey à fu- 
ftentar em Arzillaa eIRey de Bailes com outras 2cVooo.lanças ; 

com 



1 



48 Noticias de Portugal* 

com tanto que deCaftellaoajudaíTem com outras iUqoo. 
o que o Emperador,que entaõ reinava , diíTe cjuc naõ podia fa- 
zer . Por eftes exemplos íè pôde ver , que paliou o numero de 
cavallos,queouve nefte Reino de 8.ou oZ>ooo. & que pondofe 
agora nefta matéria a diligencia, que convem,fe poderá chegar, 
& paffar de femelhante numero; pois pelas liftas das Coudela- 
ria$,que Sua Mageftade mandou fazer , confta que há nas Co- 
marcas do Reino mais de 1 3^/00 . éguas , & com os cavallos, 
que eftaõ na fronteira, fe vê claro, que naõ he menor o numero 
da Cavalleria , que hoje temos no Reino , do que ouve antiga- 
mente. 

Da gente de infanteria naõ avia numero certo , mas era ma- 
ior,ou menor o numero , íegundo as occafioés do tempo , ou 
vontade dos Reys o ordena vâo . Porem conhecidamente foi 
creícendo com a multiplicação , & maior fenhorio desdo tem- 
po delRey Dom Afonfo Late Dom IoaõL Porque na batalha 
cio Campo de Ourique teve o noílo primeiro Rey doze mil ho- 
mes } 8c elRey D. Ioaõl. paííou á tomada de Ceita cõ ioVooo. 
& feu neto Dom Afòníò V.levou 30^000. quando foi à con- 
cjuiftadeArzilla. 

Efte numero de gente cuidaõ algus , que fe foi diminuindo, 
porque crefeendo grandemente as noflas conquiftas,foi necef. 
fario dividirfe agente Portuguefa por ellas:de maneira, que em 
Hoti deS* tempo de Damião de Goès pagava elRey 2oc7ooo . foldados 
l»Otyf* fora da Barra$& aífi naõ he muito, que fizeflem eftes no Reino 
falta.PorondeelReyDomSebaftiaõ naõ levou maisdenuooo. 
Portuguefes, quando ultimamente parlou à empreíâ de Africa. 

Das leis militares y qttefegMrdarvao 

no exercito. 

§. 8. 

AS leis Militares,que antigamente íe guardavaõ nos exér- 
citos, eftaõ ao largo referidas no Regimento da guerra; 
& para que naõ fiquem de todo e#i efquecimento,apontai emos 

aqui 



— 

Difcwfo fejjitndo. 49 

aqui alguas brevemente. Antes de partir para a empreza, no dia, 
cm que avia de marchar o exercito,fe mandava dizer huã Mif- 
fa foléne no lugar mais accommodado,preíente o Príncipe, òu 
General , 5c íê benzia a bandeira para com efte religiofo princi- 
pio poder ter a empreza ditofo fim, o qual coftume ainda agora 
íè guarda . Depois diftofe dividia o exercito , para poder mar- 
char,em vanguarda,retaguarda,a!asjos quais nomes k introdu- 
zirão nefte Reino em tempo delRey Dom Fernando,&fe toma- cbron. dei 
raõ dos Inglefes,que quà vieraõ com o Conde de Cambris-por- &yT>.u- 
que antes fe chamavaõ Dianteira, Saga,& Coftaneiras. Manda- a c \[ t p,2% - 
va aííi mefmo o Regimento,que os Capitães deíTem memori- 
as da gente,que quada hum levava,& armas,que tinha,para fa- 
ber o General,como fe delles avia de íèrvir ; & que ouveííe no 
arraial oficiais de todos os mifteres. Ordenava,que o Apofen- 
tador do exercito foíTe diante eícolher o fitio com certo nume- 
ro de pendoésjcom os quais dividia os quarteis^m que as com- 
panhias , & íènhores do exercito fe aviaõ de alojar . E para o$ 
caminhos ordenava,queouveíTeguias,com os quais fe determi- 
naíTe o dia dantes para onde íè avia de caminhar j & que íe eÇ- 
colheíTe fitio para íèaíTentar o arraial, onde ficafTe fortaleci- 
do, & provido de âgua,herva,lenha,& outras couías neceíTarias. 
Affentando o arraia!,mandava fe pofeíTem eícutas, & que mar- 
chando foíTem fempre as batalhas huãs à vifta das outras* 8c 
que as bandeiras dos fidalgos fenaõ eftcndelTem, falvo quando 
feíòltaíTea Real^que ninguém podeíTe ir na carruagem ;& 
que antes que o arraial íe abalaííe , fahiíTem 20 . de cavallo a 
deícobrir o campo . Ordenava,que os que naõ quifeífem fazer 
guarda,ou velaJbíTem condennados no cavallo,armas, & pri* 
íaõ : & os que appelidaífem outro nome , mais que o delRey, 
na vig!a : & que o que derrubaíTe o inimigo , 8c o naõ prendeí- 
fe,partiria ametade do preço, com o que de novo o prendeíTe, 
&oq fobrevieííe ahú íoldado,q tinha outro preíòj&maraíTe o 
prifioneiro íòbre a partilha,perdia armas,& cavallo, para o Cõ- 
deftabkj& era prefo ateíàtisfazer ao primeiro prêdedor, & de 
todaapreza,qosfoldadostomaísé 3 pagafsêoterçoafeuSenhor, 
ou Capitaõ:& q os prifioneiros foísê trazidos diate do Cõdcfta- 
ble,ouMarichalfobpenadeosperder.lEospníioneiros naõ po- 

E diaõ 



yo Noticias de Portugal. 

diaõ fàir do arraial,né a buícar ícu refgate 3 fem licença do Con~ 
deftable,o qual só podia dar os falvos condutos,que fe aviaõ de 
dar íòbpena da vidaj&que os q foífem à forragé,ou fe aloj aflem 
fora da ordem fem licença,perdeífem as armas, & cavallos . E 
fendo achado algum prifioneiro fugido , avendo mais de hum 
dia 3 & noite defapparecido a íèu Senhor, feria de quem o achaf- 
íè 5 & averia o Marichal a dizima delle ; & fendo achado den- 
tro no primeiro dia,& noite/eria tornado a íèu primeiro amo. 
O mefmoíè ordena de quaifquer coufas, que do arraial tomaf 
íèm os inimigos; porque fendo pelos noífos no primeiro dia,8ç 
noite recuperadas^riaõ dadas a feus primeiros fenhores ,• mas 
paífado efte termo , ou recuperandoas depois dos inimigos as 
terem poftas em íalvo,ficariaõ dos que as tomaffem. Efta era a 
ordem da antiga Milícia Portuguefa ; 8c com ella , & com feti 
natural valor , alcançarão os Portuguefes grandes vitorias, & 
desbaratarão muitos exércitos de poderofiffimos Principes,fen- 
do fempre os noíTos muito inferiores em numero , como fe vio 
em tempo delRey Dom Afonfo Henriques nas batalhas do 
campo de Ourique contra elRey Ifmael ; na de Santa- 
rém contra o Miramolim de Marrocos ,- na de Xarrate 
contra elRey de Sevilha ; na tomada de -Alcacere do Sal 
contra os quatro Reys Mouros , que a vinhaõ deícercar . 
Do # mefmo modo elRey Dom Afonfo IV. venceo elRey 
de Granada na batalha de Tarifa ; 8c em Africa fe al- 
cançarão muitas vitorias contra o poder dos Reys de Mar- 
rocos , Xarifes , 8c Reys de Fez em tempo delRey Dom 
Manoel, fendo todas eftas nações bellicoias, & praticas na 
guerra. 

DagucrradeCaffellft. . * 

A Guerra de Portugal com Caftella he tam antiga,que co- 
meçou juntamente cõ o mefmo Reino , & feus primei- 
ros Principes,& há mais de joo.annos,q dura. Pelo q nem efta 

guerra 



Diftítrfofejtmdo. 51 

guerra íê deve de ter por couía nova , nem íè deve de fazer da 
noíía parte por modo novo 5 mas termos por certo , que fe- 
guindoíè os meios , por onde fe coniervaraõ os noífos Reys, 
teremos na occaííaõ prelènte a mefraa íegurança , & 
bõs íucceífos contra Caftella , que por tantos iècuios tive- 
mos. 

Nefta guerra íè hao de confiderar duas coufas. A primeira o 
poder da gente , com que íê fez de quada huã das partes, A íè- 
gunda o modo,que foi,huãs vezes com exercitos,& outras com 
entradas.No numero da gente nos ievaraõ antigamente os Ca- 
ftelhanos muita ventagem , porque como os Reys de Caftella 
íènhoreavaò mais Províncias, & maiores que Portugal , tinhaõ 
muito mais gente . Por ondefe diz na ChronicadelRey Dom (hronJel 
IoaÕ I. queíempreos exércitos de Caftella tiveraõ dobrada Rí / D/í ^ 
gente,que os nofíòsjporem agora experimentamos o contrario; I ' 2,p,G ' 71 
porque com a povoação do novo mundo , que os Caftelhanos 
tem feita com tantas Colónias , & com os prefidios de Ciciíia, 
Napoles,i& Millaõ,& Eftados de Flandes , foi tanta a gente, que 
fe tirou das Provincias,que tem em Heípacha, que fe achaõ os 
Reinos de Caftella quaíi todos defpovoados. He ifto coufa tam 
manifefta,que confta pelo livro intitulado: TcbUaones de Hefpa- Rodr 'w 
^impreílbnoannodeió^j.por humHiftoriadorde Caftella, Syiva.tm 
o qual no titulo de Medina dei campo, diz que antigamente era « v»hi*~ 
habitada de 14C/000. vizinhos \ & que agora naõ tem mais de h°TJ^ 
1200. E de Salamanca refere \ que avia na Vniveríidade mais 
de ijcVooo.eftudatites ; & agora raõ chegaô a iV. E fobre tu- 
do,que a cidade de Toledo,cabeça de Cafteila,& de toda a fua 
Monarquia tam rica,& populoía,que alem da grande multidão 
da Nobreza, Clero, Mercadores,& Povo 5 só deoíficiaisde feda, 
& Iam tinha em tempo dos Reys Catholicos mais de 10U. te- 
celões ; & agora confeíla o dito Chronifta , que naõ paííàõ de 
ju. todos íeus moradores . Defemelhantes exemplos podera- 
mos trazer muitos, mas eftes baftaõ j por ferem dos principais 
lugares de Caftella . Por onde fe vc, que naõ tem hoje aquel- 
les Reinos a decima parte da gente, que antigamente tinhaõ. 
Eíobre efta matéria íè tem impreííos muitos livros moder- 
namente 9 como íaõ: Las Jhquo qualidades de hs He/f aneles , 

E 2 que 



j i Noticias de Fortugal. 

quedefputkUnâHefpanâ. ODoutor Navarrete intitulado: Confer* 
Uç4ú das Mênarqmas$& o que mais he o mefmo Rey Dom Felip- 
pe nas Pregmaticas,que fez para a reformação defte danno,em 
<jue chegou a dizer, que eftavaõ os feus.Reinos de Caftella defc 
povoados , & a Monarquia boqueando, termo que fecenfurou 
ao Conde Duque,noscargos,que contra ellederaõj naõ por íèr 
falfo,fenaõpelomanifeftar ao mundo todo. Pelo que naõ fo- 
mente naõ poderão hoje os Caftelhanos por contra nós os nu- 
merofosexercitos,que antigamente poferaõ,mas muito meno- 
res.E pelo contrario, ainda que também nefte Reino íetem 
íèntido a falta da gente,pela que vai para fora da Barra para as 
tioflas conquiftasjcom tudo vemos, que em íua proporção eftà 
o Reino muito mais povoado , que o de Caftella . E aííi com 
muita facilidade fez elRey NoíTo Senhor hum exercito no an- 
uo de i 6 4 3. que fãhio de Elvas com 1 iptooo . Infantes , 8ç 
iZJ. cavallos : & no anno de 4 j. fez outro na mefma frontei- 
ra dè 7U000. Infantes ,8c ijoo. cavallos, Sc que no trem 
da artelheria, 8c bagagem levava 132/000. E na batalha de 
Montijo ouve quafi a mefma gente : 8c com tudo neftas oc- 
cafioés naõ juntarão os Caftelhanos mais gente, que a noífa 
em numero coníideravel . O mefmo vemos agora nas guer- 
Liberuno ras j e Catalunha , que sò o primeiro exercito foi de z 6^000. 
homês ; dos quais mais de ametade naõ eraõ Caftelhanos, 
8c os outros exércitos , que depois làforaõ, naõ paflaraõ no 
numero de àmetade defte primeiro. Pelo que íè quando Ca- 
ftella tinha dobrada gente da noíTa , fe coníèrvou Portu- 
gal ,& ficou fuperior , agora que o poder de Caftella he tan- 
to menor , com mais razaõ podemos ter efta confiança . Don- 
de podemos entender , que o íeu poder he hoje muito me- 
nor do que antigamente experimentávamos ; &queonoflb 
valor naõ he hoje menor , que aquelle , com que antigamen- 
te nos coníêrvavamos ; pois nos recontros , que muitas vezes 
tivemos com a fua gente de cavallo , ficarão os noííòs vence- 
dores, fendo os contrários quafi dobrados em numero ; 8c que 
alem diflò o que mais importa , he , que temos por nòs 
a caufa jufta , defendendo a legitima fucceíTaõ dos noííos 
Reys Portuguelês , 8c a liberdade da pátria, que Noííò Senhor 



com 



Difctirfofejundo. jj 

com tantos favores do Ceo tem patrocinado. Pois vemos,que 
nefta guerra lhe temos arrazado, & tomado muitas praças, 
queeítaõemnofTopoder;oque ellesnao poderão fazer em 
tantos annos dos noíTos lugares, ainda que abertos • porque íe 
a!gúsentraraõ,logo foraõ recuperados , & fortificados melhor 
do que eftavaõ . Donde íè vê claro o favor de Deos , que te- 
mos da nolTa parte; pois naõíomentenosconfèrva, mas ainda 
nos faz fupenores a eftes contrai ios,dandonos delles glorioíãs 
vitorias. 

No modo deita guerra fe ha de íèr por exercitos,ou por en- 
tradas, &entrcprefas,he muito para coníiderar,que avendoRey 
em Portugal, todos os exércitos Caftelhanos, que entrarão ne- 
fte Reino,& vieraõ a batalha,foraõ desbaratadcs.Exemplo faõ 
difto ^ batalha de Agua de Mayas junto a Coimbra , que ven- 
ceo o noíTo Rey Dom Garcia,que reinou antes do Conde Dom 
Hemique,& depois a deSantarem,em que o mefmo Rey Dom 
Garcia prendeò a feuirmaõ Dom Sancho Rey de Caftella; Sc 
íè depois fe mudou a forte das priíoês , foi por culpa delRey D. 
Garcia,que naõ pós a íèu irmaõ a bõ recado, & íe foi sò feguin- 
do o alcance. ElRey Dom Afonfo Henriques desbaratou a el- 
Rey Dom Afonfo íeu primo nos Arcos de Valdevès. Entrando 
elRey Dom Fernando o II. deLeaõcom íèu exercito ate Ce- 
rolico,foi desbaratado pelos Portugueíesjde que ainda hoje há 
memoria nos votos deNoífa Senhora dos Affores. Os fidalgos 
da Beira alcançarão a vitoria de Trancofo contra outro exerci- 
to Caftelhano.O mefmo fezoCondeírableDom Nunalvresna 
batalha de Fronteira.E ultimamente elRey Dom Ioaõ I. na de 
Aljubarrota. 

Omefmopodemosquafidizer dos exércitos Portugueíês, 
que foraõ a CafíelIa.Pelo que mais íe fez efta guerra entre am- 
bos os Reinos por entradas , & entreprefas , que por batalhas. 
ElRey Dom Afonfo Henriques, & feus íúccelTores tomarão a 
Tuy tantas vezes,& a retiveraõ tantos annos, que desdo noííb 
primeiro Rey ate Dom Sancho o II. efteve por elRey de Por» 
tugal. ElRey Dom Ioaõ I. a tornou a tomar, & o meímo 
fez a Badajoz ; & tantas entradas fizeraõ os noíTos por a 
terra de Coria ate Salamanca , que por iífo fortificarão 

E 3 os 



54 Noticias d* Portugal. 

os Caítelhanos tanto a Ciudad Rodrigo, temendoíe das nonas 
entrepre{as,& correrias.E por efte território, & pelo de Gallizá 
fòraõ fempre as noíTas entradas de mòr effeito , que por outras 
fronteiras Pelo que parece que efte eftilo he o mais facil,& ma- 
is íèguro^porque eftando huã praça com bom prefidio,naõ pò- 
^eíer entrada por hum grande exercito ,fe tiver outro em feu 
favor,aindaqueícjademuito menor numero, como fe tem vi- 
fto nas guerras dos Turcos com os Polacos, 6c nas delorge Ca- 
ftripto,& nas modernas de Flandres, & Itália. 

Segundo eftes exemplos,podemos ter por certo,que avendo 
Rey em Portugal, tinhaõ conhecido os Caítelhanos claramen- 
te,que naõ podiaõ fair cõ efta impreí^como fe refere na Chro- 
picadelRey Dom Felippe o Prudente de Cafteíla l. t. cap. 9. 
Porque dizendolhe o Duque Dalva (quando lhe mandou fazer 
as exéquias por elRey Dom Sebaftiaõ em M^dVíâj que melhor 
fora villas fazer a Bellem,reípondeo elReyf &/ tiem.10 os mo/Irara^ 
yuan errados fueramos: &fegue!ogoo Chromfta com eítas pala- 
vras:j conraçon , porque entrando con exercito contra el lardmal pi tio, 
quejuraron brevemente como a efeondidas , el Êeino todofe avta de emplear 
tnfudefenfajiombrando por Ceneral para la guerra el Duque de TSragan- 
Ç4 y o a Von António frior de o Cratto inter ejfadôs en Ufufoffton , yfc l?a- 
ilaran enfery con exercito en la muerte del(ardenal,que luego^im , con 
que mejoraronfu partido , como lo hizo en Francia defpues Henrique de 
Norton. 

Efte juizo delRey Dom Felippe foi tam acertado , que só 
com ellç alcançou a fuapretençao fem difficuldade , eftando 
dantes deíconríado delia. Porque deixando elRey Dom Henri- 
que o Reino feiuRey , & os Governadores para Iúizes da fuc- 
ceíTaõ,faltouno Reino a cabeça ; porque os Governadores naõ 
fjzeraõ ofício de defeníores,fenaõ de interceíTores . Os Serenit 
íimos Senhores da caía de Bragança como tinhaõ a juftiçacía- 
ra,naõ fe quiferaõ mover^por naõ prejudicarem a feu Dereito. 
E elRey de Caftella por lhe dar competidores, & prolongar o li- 
tigio,eícreveo ao Duque de Sabóia, & Príncipe de Parma , que 
íè oppoíeíTem à caufa da fucceífaõ , 8c entre tanto comprou as 
vontades dos nobres do Reino com dadivas , 8c promeílas • 8c 
aíli íem refiftencia metteo em Portugal o íêu exercito , (\ desde 

a mor- 



\< Difcnrfo fecundo. 5j 

a morte delRey DomSebaftiao tinha junto da mais pratica 
Milícia de toda Europa ; contra o qual exercito naõ ouve mais> 
que hua fombra de reíiítencia do Prior do Grato : o quaj ven- 
do que tinha huãíèntença contra fi fobre a íucceíTaõ; & que 
naõ tinha por ííjíènaõ algús amigos,& íeus criados,íè fez levan- 
tar tumultuariamente em Santarém, ao tempo que ja o Duque 
D alva marchava por Alentejo . Pelo que faltando ao Prior do 
Crato a áuthoridade pubIica > Gapitaés,Soldados i & dinheiro,^ 
íbbre tudo o tempo,naõ pode n?> brevidade de tam poucos dias 
fazer niais refiftencia,cjue com alguá pouca gente popular,que 
entaõ avia em Lisboa , por eftar a cidade,quafi dcípejada por 
caufa da peite ; & affi naõ merece nome de batalha a. pequena 
briga , que tiveraõ em Alcântara, como diz lufto Lypfio ca 
fua Politica cap. 3. Sipr&lium aixenm -veteram -exercitas cmnferni- 
mrmi\ ffi urbana turba congreffíonem.VAo que bern o o to riam ente íè 
vé,que hum Rey tam prudente,como Dom Feíippede Gaílel- 
la,naõ teve confiança de fair com a imprefa de Portugal, a ven- 
do nelle Rey, como temos dito, fenaóvendoofemçajeça, 3c 

dividida. 

Efte parecer delRey Dom Felippe naõ foi só confiderajaõ 

politica,fenaõ pura experiência, por íèr efte meio , por onde os 
outros Reinos de Heípanha,c]ue foraõ Aragaõ^Granada,^ Na- 
varra,tiveraõ entrada na fua Monarquia. O Reino de Aragaõ 
naõ fendo maior, antes menor, que o de Portugal , os Reys dê CaYi ^j 
Caftella ti veraõ muitas vezesguerra com elle, íeguindò a em- 14^.32. 
prefa com tam grandes exércitos, que eIRey Dom Pedro de 
Caftella entrou em Aragaõ com 9u000.de caval!o,a tora age- 
tcâe pé,quecra muita,& cl Rey Dom Ioaõ íí.com 7ÍA)Oo.ho- ç ar ^ tt 
mês de arnias,& 3&/600 genetes,& óocVooo .infantes ; & com 16.C.18. 
tudo íendo os exércitos dos Aragoneíes muito inferiores , ferri- 
pre Aragaõ íè coníèrvou inteiro fem poder fer rendido pelo po- ' 
derde Caftella, ate que pelo cafamento da Rainha Catholica 
de Caftella ficarão ambos os Reinos unidos, O Reirio de Gra- 
nada fe coníèrvou por muitos centos de annos contra muito 
maior poder do com que foi conquiftado pelos Reys Cathoíi- 
cos. Porque eIRey Dom Henrique III. continuou a guerra contra GaríVu 
Granada com 10^000. homesde armas , & ^Vooo^ genetes, J vM7* 

E 4 & 



5$ Noticias de Torttigal. 

& yo5/ooo.infantes,& por mar com 3o.galés,& jo.navios; co-., 
tra tudoifto refiftiraõ os Granadinos. Pelo que naõ perderão o 
Reino pela força dos Caftelhanos,íenaõ pela divifaõ,que entre , 
íi tiveraõ , levantando três Reys juntos dous irmãos $ o mais ve- 
lho dos quais era pay do Rey Cnico : faziâõ eftes todos entre fi 
tam cruel guerra,que elles per fi íe confumiraõ; & por iflb fen- 
do cativo o Rey Chico pelos Caftelhanos duas vezes , os Reys 
Catholicos o tornarão logo a porem íua liberdade, para que 
tornaífe a fuftentar o feu bando, o que foi de tanto effeito , que 
morto (eu pay pelo tio , elle entrou erti Granada , & dentro da 
cidade íe eftiveraõ por muito tempo degollando, aíTaltandofe, 
êc dandofe batalhas, & naõ pararão neftas diviíbês,íènaõ no ul- 
timo anno,em que Granada fe rendeo , eftando ja tam coníu- 
xnidos da guerra civil,quenap tinhaõ ja em todo o Reino mais 
de 300 .cavallos , começandoíè as parcialidades com 20^000. 
O Reino de Navarra com fer tam pequeno,<jue naõ tem mais 
cjue três cidades,íè coníêrvou por mais de^oo.annos^fendoaífi 
que naõ fomente os Reys de Caftella, mas também os de Ara- 

útribj. 1 g a õ lhe fizeraõ guerra ho mefmo tempo, com tudo fempre per- 

2?i c '*6» maneceo,em quanto teveRey,que o governaíTe . O que nao 
querendo fazer Dom loaõ de Labrit caiado com Dona Catha- 
rina Rainha proprietária delle , defamparou o Reino , 8c íè foi 
para França , dando licença aos de Pamplona, que íè entregaf. 
ièm aos Caftelhanos. E defte modo entrou Navarra na Coroa 
de Caftella, tendoíè ate entaõ defendido de muitos maiores 
exercitos,& por iflb lhe diíTe à Rainha Dona Catharina: Si <v*s 
fuerades Reyna t y yo Reyjiunqmfe perdiera Navarra. Bem íè verifica 
legodeftes exemplos o acertado parecer delRcy Dom Felip- 
pe.Equehecertiífima aquella celebre ftntença de Vegecio, 
, quediznaõavernaçaõ tam limitada, que unida fenaõ defenda, 

óf\L % ainda que fej a com metída de muito maior poder: 2sT ulU qu&m- 
tismmma n4rio,diz ellefoteft ah adverfarijs deltn y nifiproprijs jimul- 
tariíusfe ipfam confumpferit.Vç\o que fendo efta máxima verdadei- 
ra,ainda numa naçaõ mínima ; quanto por mais certa íe pôde 

r ter na noíía naçaõ Portugueíà ; a quem em certo modo pode- 

mos chamar máxima ; pois no valor , & lealdade he íuperior a 
todasj&em poder he tamanha, que reinado elRey Dom Afon- 



Difcnrfo fecundo. j 7 

íb o Ill.guerreou Portugal juntamente contra todos os Reinos 

de Hefpanha,& Berberia.E rio delRey Dom Ioaõ III. fuftentou 

a India,fazendolhe guerra no meímo tempo três Emperadores, 

queforaõ Carlos V. Emperador de Alemanha nas Malucas , o 

Gram Turco Emperador de Conítantinopla em Caiíibaya , & 

oSamorim,que também tem a fupremadigtidade,6u Império 

dos Nayres no Malavar, & de todos élles alcançou gloriòfas vi- 

torias.Pelo que tendo Portugal Rey,naõ ha que temer nenhum 

poder eítranho , como teftificaõ os exernplos de todos os íècu- 

los,osdiótames mais verificados dos Políticos, 8c fobre tiudo os 

divinos Oráculos. 

Da Milícia da Ordenança. 

S. io. 

MVdandofe com o tempo a orderri da Milícia antiga de- 
fte Reino , & ficando fomente os òfficíòs rnáiores, quaíi 
sò com os títulos honorários , preterídeó elRey Dom Manoef 
melhorar,& aíTentar por lifta a gente, que avia em todos os lu- 
gares do Reino 5 8c elRey Dom Sebaftiaõ trabalhou mais neftá 
materia a fazendo hum largo Regimento , que mandou guardar 
com grande obfervancia , para adeftrar o povo na difeiplina 
Militar, &oterprefíes para quando foífe neceffario ferviríè 
delle. 

Ordenou que os Alcaides mores , Sc Senhores dos lugares 
foíTem Capitães mores delles;& que onde os naõ ou vefle, fof- 
íèm eleitos cm Camera pelas peíToas dogoverlnoj &dò meímo 
modo os Sargentos móres,os quais depois com os votos da go- 
vernança elegeflemos Capitães , & oficiais das companhias: 
que o Capitão mòr repartiíTe a gente de feu lugar, & termo em 
companhias de 250. & quequada Domingo fâhifferri ao carrpo 
aíèexercitarjConforme asarmas,que quada hú* trouxeíTe,aven- 
do prémios para os maisdèftros, 8c penas aos que fáltáffem ; 8c 
queoshomêsdecavallo fizeílem quada mes reíènha debaixo 
dos Capitães de quada lugar; 8c que quada ânao íè fizéíTem dó- 

us 



58 Notícias de Portugal. 

us alardosgerais,hum pelas Oitavas da Pafcoa,& outro por dia 
de S.Miguel j & que fe ajuntaífe toda a gente do termo na ca- 
beça daCapitania ; onde pelo Capitão mór,& Sargento mor fof- 
fem ordenados, Sc íè exercitaram* a gente de cavallo,como de 
pé . E para bom governo da Milícia tinha o Capitão mòr feu 
Regimento 3 que mandava executar pelos miniftros das compa- 
nhias,em quada hua das quais avia feu Meirinho , Eícnvaô , & 
Recebedor. Efta ordem fe guardou em tempo delRey DomSe- 
baftiaõ,ate todo o delRey Dom Felippe o Prudente , & depois 
íè renovou alguls vezes,& depreíènte íè obíèrva com cuidado. 
Porem nos lugares marítimos, & no Reino do Algarve eftá ifto 
em maisobfervancia. 

O numero da gente , que fe aliftou nefta Milícia foi grande, 
pois sò na villa de Barceílos, 8c íèu termo fe eícreveraõ defaíête 
]Di/irr#^ti)ilhomês,& tantos fahiaõ aos alardos m Na Chronica delRey 
vu«r.Nv® om Manoel i.p.c.47. diz Damião de Goès, que das liftas de- 
msç^. fta gente da ordenança eícolheo elRey huã Milícia de óuooo. 
decavallo,& 8oo.acobertados,& 10U000 depè, para fefer vir 
delles com prefteza 3 quando foífe neceífario , como aconteceo 
fio cerco do Caftello de Arzilla, em que o Conde de Borba foi 
cercado,a quem elRey querendo focorrer em íinquo dias ajun- 
tou no Algarve paíTante de 20^000. ho mês de pè,& de cavai- 
lOjComoíè refere na mefma Chronica 2. p. c. 29. A ordem ^ue 
diíèmos avia da gente decavallo, 8c vaííalIos,que os Reys anti- 
gos pagavao, parte ie guardou íòmente ate o tempo delRey D, 
Afonío V.porque de entaõ para quà naõ ha expreíía menção de 
os Senhores de terras acudirem com numero cerro de gente de 
cavallo,ou de pc-mas fica no arbítrio de quada huir^com o que 
fcnaÕacrelcentou pouco no ferviço delRey,por quanto trazem 
agora os Senhores de terras muito maior numero de gente vc- 
luntariamentcdo que antigamente davao por obrigaçaõ^como 
íevio emalguãsoccaíioes de entaõ para quá,-&particularmen- 
te na ultima vez,q os mandarão vir a Lisboa no anno de 1 596. 
onde só os que alli fe ajuntarão , que foraõ poucos , trouxera 5 
mais de 16^000. decavallo, que heo dobro , que antigamente 
davaõos Senhores do Reino . Para aver maior numero de ca- 
vallos, mandarão os Reysprohibir as mullas,quartaos, 8c facas, 



como 



Difcuvfo fcgunâo. 5$ 

como foi elRey DomloaõII. Dom Ioaõ III. & Dom Sebaftiaõ; 
Sc fizeraÕ particulares leis, para que fempre fe coníervaífem no 
Reino as boas raças dos cavallos , as quais executavaõ os Cou- 
deis mores. Mas eíRey Dom Felippe o Prudente mãdou extin- 
guir eftas Coudelarias nas Cortes de Tomar , as quais Sua Ma- 
geftade,queDeos guarde, tornou a renovar, com que haja mui- 
tos^ bõs cavallos no Reino, por ferem os defta Província tam 
afamados em Europa, que por iflb os nomeavaõ por filhos do 
Vento. 

Dm ítrmas. 

OS vafTallos delRey nao podiaõ teftar de fàas armas, m as 
ficavaõaelReyporluótuofa,que as dava ao vaííallo, que 
entrava em lugar do morto, como fica dito. Depois vindo elRey 
Dom Ioaõ I.ordenou ter 500. arneíès preftes ; & foi o primeiro, 
que coqjeçou afazer almazê de armas : de modo,que quando 
herdou elRey Dom Afotííò V. avia boa copia de armas em os 
almazes : & íèus fucceííores os acrelcentaraõ de maneira , que 
refere Damião de Goês , que tinha ellUy Dom Ioaõ III. armas ^ a M% 
para 40^000. homês .Os almazes para eftas armas fez em Lií- sn.Ofyf, 
boa elRey Dom Manoel, & Dom Ioaõ III. onde fe guardavaõ to- 
das as armas, & munições do Reino, aflí para a navegação das 
armadas.como baftimento das fortalezas de fóra,obra magni - 
fica,& digna de fua grandeza. Aqui aviagrãde numero de acu- 
bertados, coffoletes, arGabuzes,lanças,efcudos,& todas as mais 
armas de guerra : no de artelheria avia muitas mil peças grof- 
làs,& meudas, que depois íe gaitarão no ferviço de Caftella, 8c 
defte Reino. 

As lanças,& mais gentes,com que os Senhores de terras íèr- 
viaõ os Reys na guerra,elles tinha õ meímo obrigação de os ar- 
marem, como fe lé na Chronica delRey Dom Fernando , quê ^ onM 
prohibio aos Senhores naõ podeffem levar os Acontiádos dos^^ 
lugares^em fuasarmas em fatisfaçaõ das lanças,que eraõ obri- 
gados 



ío Noticias de Portugal. 

gados a dar,Em alguãs cartas delRey Dom Fernando fe expli- 
caõ as peças a como jaíè apontou. E com tudo para aver maior 
ThrYn à abaftança de armas , ordenou elRey Dom Ioaõ I. em Cortes, 
d.ioaõ i. que os Senhores foílem obrigados a ter certo numero de arne- 
?f*S?* lès 5 convém a íaber o Condeftable, & o Senhor Dom Afonfo 
Conde de Barcellos,o Meftrede Chrifto,& de Santiago,o Ar- 
cebifpodeLisboa,odeBraga, &osBifpo$deEvora, ôc Coim- 
bra a jo.arnefesquadahum,oMeftre de Avis 40. os Senhores 
da Cafade Marialva com o Bifpo do Porto , & Prior de Santa 
Cruz 3o.quada hum. O Prior do Cratto , o Bifpo de Sylves, o 
de Viíeu, o da Guarda, o de Lamego , o Abbade de Alcobaça 
20.quada hum,que fazem ójo.arneíès. 

Para o povo do Reino ordenarão os Reys antigamente,que 
quadahum tiveíTe certas armas, fegundo a contia da fazenda; 
& particularmente elRey Dom Fernando obrigou,que ouveííe 
a contia dos de arnefes,& outros de lanças ligeiras; & da gente 
de pé avialanças,béftas,dardos > & fundas . E quando os acon- 
tiàdos, ou por velhice , ou por impedimento algum,naõ podia5 
irá guerra', eraõ obrigados a dar armas aos que em feu lugar 
hiaõ > ôc para que os acontiàdos em cavallosos fuftenftíTem c5 
r <jhmM menos deípeza , mandou elRey Dom Fernando applicar o di- 
jieyD.Fet zimodoíèu quinto,& hum díadefoldo,dos que com licença íe 
.**»«**; aufentavaõ do campo,- ôc deite dinheiro fe proviaõ de cavallos, 
os que por alguã occaííaõ eftavaõ fem elles no exercito , ElRey 
Dom Afonfo V. fez novas leis de Contias das fazendas , que íe 
guardarão ate o tempo delRey Dom Manoel , as quais reno- 
vou elRey Dom Ioaõ III. ôc ultimamente elRey Dom Sebafti- 
aõ,que íaõ as que hoje íè guardaõ; porque íè manda,que os que 
tiverem 1 jo&tooo . reis de fazenda , tenhaõ cavallos , 6c os de 
ioouooo.reis,arcabuz,&os moradores dos lugares chaõs,me- 
ias lanças.Para maior abundância de armas, ôc o povo fe poder 
armar com maior facilidade, mandou elRey Dom Manoel, ôc 
depois delle elRey Dom Sebaftiaõ,que ouveííe officiais, de faze- 
rem armas,guarnecelas , 5c alimpalas ; ôc de fazerem ferros de 
lanças,& lanceiros,& efpingardeiros com ordenados dos Con- 
celhos, ôc privilégios nas cidades deEvora.Bej 3 , Elvas, Portale- 
gre, Ta villa í Lagos,Coimbra,Porto,Lamego,Viíeu,Guarda^& 

nas 



Difcurfo fejjundo. 61 

msvillasde Santarém, 1oíiiar,\ iana deFozdeLimaJJarcel- 
Ios,Guimaraés, Pinhel, Torre de Moncorvo; 8c ainda fóra defte 
Reino, nas cidades do Funchal,, da Ilha da Madeira, Ponte Del- 
gada,da Ilha de S. Migel, Angra da Ilha Terceira, Ribeira gran- 
de.em Santiago do Caboverde , Cidade da Ilha de S.Thomè, 
no Salvador do Brafil, no Rio de Janeiro, na villa de Olinda de 
Pernambuco.E para eftarem íempre eftes lugares providos de- 
ites officiais,foi inftituido oofficiode Armador mor , que alem 
de ter a feu cargo as armas da peííba Real , tinha por (eu Regi- 
mento nomear eftes officiais,& darlhes os privilégios, como tu- 
do confta do Regimento do dito cargo, que elRey Dom Ma- 
noel proveo em Dom Gonçallo da Cofta , & anda em íeus de£ 
cendentes. Ecomefía diligencia naõ deixando ir armas para 
fóra,ouve naquelle tempo grande abundância delias em todo 
Portugal «. E para o Reino eftar íempre provido , íêm as e/perar 
de fóra , mandou eIRey Dom Manoel fazer hua officina delias 
na ribeira de Barcarena, junto a Lisboa , onde com engenhos 
de agua íê lavrarão muitas por meftres , que para iííò mandou 
vir de Bifcaya. Também ordenou outra officina de pólvora na 
cidade de Lisboa,que durou ate noflbs tempos; 8c governando 
Dom Diogo da Silva Marques de Alenquer , fe tornou a refazer 
a mefma caía antiga • 8c junto com ella ao longo da ribeira de 
Barcurena,ordenou outra de pólvora , para evitar os defaftres 
dos incêndios , que alguãs vezes em Lisboa tinhaõ acontecido: 
&fefe continuar a obra, fera de grande proveito para todo o 
Reino-porque para armas hànelle muita abundância de ferro,' 
8c para a pólvora temos, fegundo muitos , da noíía maõ a 
maior quantidade deftes materiais,que hà no mun- 
do,que he o falitre do Brafil, & o enxó-, 
fre das Ilhas, 









F 









■ . 



) 






• ■ ■ 



. 



Dos 



6z Noticias de Portugal. 

v Dos Fronteiros do Remo fir Alcaides mores 

das fortalezas. 



p 



Si iz. 

Ara defenfãõdo Reino avia em quada Comarca huFron- 
teiro mosque fazia o oíficio de Capitão geral da gente da 
tal Comarca,para affi fe poder acudir com preíTa,& boa orcksiti 
às entradas,que fe fizeílem no ReinoDeftesFronteiros hà mui- 
ta mençaõ nas hiftoriasde Portugal principalmente nas Chro- 
thionM nicas delRey Dom Afonfo IV . Dom Fernando , Dom íoaõ L 
Triu.D. Dom Afonfo V. E eraõ os Fronteiros mores pefíeas de grande 
J **9.\\Í* eft a do,&qualidade$ de modo, que até aos Infantes fe deu efte 
titulo. 

Nos lugares grandes , ou de fítio forte em que avia caílello, 
polêraõ os Reys Alcaides mores ^o qual coftume , & oíficio foi 
introduzido em Hefpanha,depois da entrada dos Árabes . Por 
quanto os Romanos , comoeftavaõ fenhores pacíficos de to- 
das as Províncias do Império, só nos confins tinhaõ a Milícia 
das íúas legiões alojadas em fi tios avantejados, mas no campo, 
êc naõ nos povos ; & neftes exércitos confiftiaõ as forças da Re- 
publica,^ naõ nas fortificações dos lugares : donde veio a faci- 
lidade , com que o$ Capitães deites exércitos íê rebellavaõ , & 
faziaõ fenhores dolmperiojpqrque como naõ avia lugares for- 
tificados,em que os vencidos fe reparaífem,roto hum exercito, 
fèí ficava logo o vencedor fenhor abíoluto de tudo, O mefmo efti- 

lo tiveraõ osGodos,& as outras nações do Norte , que fenho- 
rearaõ Heípanha. Porem depois da entrada dos Mouros, fendo 
o poder dos Reys Chriftaõs muito pequeno, & naõ podendo re- 
íiftir íêmpre no cãpo,fè recolhiaõ às cidades,& como eítas efta- 
vaõ fempre em fronteira, aíTi como as tomavaõ, lhe nomeavaõ 
Capitaõ,para que cõ os moradores,q tambê faziaõ o officio de 
lbldadoSjfe defendeífem,& vigiafsé perpetuamente, &o mefmo 
faziaõ os Mouros,pela cõtinua guerra,q lhes os noífos faziaõ;& 
daqui veio aver em todos os lugares fortes capitães ordinários 

cha- 



' Diftnrfo fejjundú. 6$ 

chamados Alcaides; o qual nome recebemos dos Árabes, &he 
derivado de Cahaâ , que tanto vai , como Governador j & afli 
íèndo o,J,o articub; o mefmo he dizer Alcaide, que o Prefí- 
dente,que governa ; porque o Alcaide entre os Mouros tinha 
juntamente o governo da guerra, & da juftiça. No Regime nto 
da guerra delRey Dom Afonío V.hâ particular titulo cio Alçai* 
demòr,no qualíèordenava.que os Alcaides foífem fidalgos da 
parte do pay,&may,& que viveíTem fempre nos feus cafrel- 
losj&fallecendo algum , lhe fuccedeíle o parente mais cbega- 
do,que eftiveífe no caftello,& quando eíle faltaíTe , entaõ fe fa- 
ria eleição de Alcaide,ate elRey prover . O ofício de Alcai- 
de mór era defender o ca(tello 3 & tello íempre provido de gen- 
te, armas, 8c bafti mentos, & quando fahiífe do caílello , o que 
nelle ficavadhe avia de fazer omenagem delie. Os direitos dos 
Alcaides mores eraõ as carceragês, as penas das armas prohi- 
bidas,& as dos que mal viviaõ, & dos excommungados, forças, 
tabolages , cafas de venda : & nos lugares marítimos , os das 
barcas,& dos navios,quefe carregaítemno porto^conforme às 
toneladas , dous íòldospor quada huã : 8c podia prover o Al- 
caide pequeno com feus eícrivaês , efeolhendo os dos apreíen- 
tadosda villa,& podiaõ trazer íèu contador diante do Corre- 
gedor da Corte. E alem deites direitos,em muitas partes tinhaô 
groíTas rendas de herdades, 8c próprios applicados às Alcaida-? 
rias. Pêra mòr fegurança dos lugares marítimos mandava oRe- 
gi mento, que tanto que chegaífe qualquer navio eftrangeiro, o 
Alcaide pequeno,& íeu eícrivaõ foffem a elle, 8c eícrevelTem as 
armas,que trazia-& antes quefe partiíTem , tornaífem a fazer a 
mefma viííta, para ver fe levavaõ alguãs mais do Reino , que as 
que trouxeraõ.,& os que eraõ comprehendidoSjas perdiaõ para 
o Alcaide mòr,& de tudo o dito muita parte eftá ainda em íua 
obíèrvancia. [. 

Nas Cortes tem lugar os Alcaides mores dos caftellos del- 
Rey^ quem daõomenagem,&os mais a fazem aos fenhores,de? 
quem os recebem. As principais fortalezas, q antigamente avia 
no Reino,eraõ as do Eftremo, q ficavaõ fronteiras de Caftella, 
8c Galliza:& o primeiro Rey,q nefta matéria merece louvor,he 
elRey D.Sancho o I.& depois delle elRey D.Dinis,que cercarão, 

Fi os 



* :. v 



: 



64 Noticias de Portugal. 

os mais dos lagares do Reino.Os muros de Lisboa,& Évora fe 
fizeraõem tempo delRey Dom Fernando , & os de Setuval no 
delRey Dom Àfoníò IV. E fendo muitas deitas fortalezas dan- 
nificadas do tempo , elRey Dom Iôaõ ll.as mandou reformar. 
ElRey Dom Manoel aperfeiçoou efta obra de todo, deman- 
dou tirar em planta,& monteaa todos os lugares fortes do Efc 
tremo,& Coftadomarjqueforaõ^aroinhajVillanova de Cer- 
veira, Valença do Minho,LapelIa,Monçaõ,Melgaço,Caftrole- 
boreiro, Piconha,Portello, Montalegre, Chaves, Monforte de 
Rio livrejVinhaiSjBragança, Outeiro, o Vimioíò, Miranda do 
Douro, Penarroxa, Mogadouro, Freixo de efpada na cinta, Ca- 
ftello Rodrigo, Almeida , Cartel bom, Caftello mendo, Villa- 
itiaior,Sabugal,Penamacor,Mon(ànto, Penagarcia, Salvaterra, 
Segurajdanha a Nova,Caftellobranco,Montalvaõ, Nifa, Mar- 
vaõ,Caftello de Vide, Alpalhaõ, Portalegre, Alegrete, Aífumar, 
Wonforte,Arronches,OugeIla,Campomaior, Elvas, Olivença, 
leromenha , Alandroal ,Terena, Monçai às, Mourão, Noudàr, 
Moura,Serpa,MertoIa, AlcoutimjCaftromarim. Das plantas ,& 
iiionteas deftes lugares fefizeraõ dous livros,que mandou elRey 
por na torre do Tombo,onde ainda eftaõ, para a todo o tempo 
€Ílar prefènte no que convinha aos ditos lugares , para o focor- 
to delles-alem dos quais hà no Reino mais de 400. povos cerca- 
dos, 8c acartei lados ,pofto que ao antigo. 

A fortificação dos lugares marítimos começou nefte Reino 
mais tarde; porq como naquelle tempo avia poucas mercanci- 
as^ comércios cõ os eftrangeiros, naõ tinhaõ os CoíTarios em 
<j fizeílem fuás prezas*, com tudo elRey D.Ioaõ o I. começou a 
fortificar os portos de Lisboa , & Setuval, fazendo no Tejo ao 
pè davilla|de Almada atorre Velha$porque naõ tiveíTem abri- 
go os inimigos daquella banda , afli como o naõ tinhaõ da de 
Lisboa. A mefma diligencia fez em Setuval,edificando a torre 
de Oitaõ fòbre o Canal do porto , de modo, q fenaõ pódeen-» 
trar,fenaõ por baixo da íua artelheria: é ambas eftas fortalezas 
pos peças , capitaés,& íbldados para as guardaré. Poré começa- 
do o defcobriméto de Guinè,& védoelRey D íoaÕ II. os Reys 
jpjjjs* vizinhos poderoíòs no mar,como Príncipe prudére começou de 
wf.80. ' tratar de íègurar mais a entrada da Barra de Lisboa,& por ifto 

fez 



Difturfofejimdo. 6^ 

fez a Torre de Caícais: & depois para melhor defenfaõ do rio, 
melhorou a Tone velha de Caparica; & tinha determinado fa- £* r ™ mdê 
zer da outra parte a torre de BqIíclu no lugar, em que agora eílàj di ?.*$$. 
a qual naõ pode acabar por íua incempeítiva morte^mas elRey 
Dom Manoel, quelhe íuccedeo , dos por obra eíle íeu intento 
na boa forma,em que agora a vemos. 

A fortaleza de S.Giaô começou elRey Dom Ioaõ Hl.na bo- í/#e» dei 
ca do Tejo,para maior íègurançado porto 5 & depois fe acabou % y ^ e °' 
com grande perfdçaõ,de maQurá>quehe tida por huadas me- Cafulko. 
lhores forças de Europa . O meímo Rey fortificou Lagos , Si- 
nes , & Peniche • & depois íefcz em Lisboa o forte da Cabeça 
Seca, que fe começou em tempo dos Governadores, & no dei- 
Key Dom Felippe o Prudente, ode Santo António para íegu- 
rançada Bahia de Cafcais;& em Setuval a fortaleza de S.Felip- 
pe,& reformou a Torre deQutaõ$& em Aveiro, villa do Con- 
de; no Porto, & Viana, Lagos , & Villanova de mil fontes , fez 
novas fortificações. De modo, que toda a Cofta eftâ hoje bem 
fortalecida ,- mas muito mais depois da reítauraçaõ deikry 
DOM IO A M IV, que Deos guarde , o qual tem íortificadp 
todasas praças da fronteira de Caftella , & as da entrada da 
Barra de Lisboa íua còíta,com tam iníignes fortifica çoéXque íe 
.pôde dizer eftàhoje Portugal com as mais fortes praças de to- 
da Heípanha. 

Para maior fegurnnça dos portos de mar 5 ordenouelRey D. 
Sebaítiaõ no Regimeto moderno da Milícia do Reino v oue nos 
lugares mais commodos,& onde melhor fe defcobriíle o mar, 
cuveííe perpetuas vigias, as quais elege cõ es officiais da Cama 



ia es Capitães mores de quada lugar^em numero baftante para 
vigiarem dousde dia, & três de noite- começando hu pela ma- 
nhã,& entrando outro ãõ meio dia ; & q vendo yèlas ao mar, ftl 
zeffem final com fumos j fe eítivefíem longe; 6c com íachos,íe 
eítiveíTem perto , dando tantos fumos aos fachos , quantos fof» 
fem os navios : & os três que vigiaflem de noite , fe repaf tifierri 
aos quartos.^ & que vendo navios ao mar , que fe delTe aviío 
delles ao Capitão mor ; & faindo gente em terra , deííem final 
com arcabuzes,para que fe acudiííè com preíleza ao rebate. E 
para que citas vigias de dia, & denòite foííem díh>entes,orde* 

F 3 nou 



66 Noticias de Portugal, 

nou o Capitão mór,que elegeííem fobre roídas, que os vifitaf- 
fem,para que compriííem com fua obrigação ; o que ainda fe 
guarda em muitas partes,principalmenteno Reino do Algarve. 



N 



Da Milícia marítima^ &> do officio de 

Almirante. 

§. 13, 

Ao foraõ menores as forças marítimas defte Remo,que 
as da terra,antes por fer a Provincia quaíi toda cofta do 
mar, & o principal de Hefpanha , excedeo nefta parte aos mais 
dos Reinos delia. Começouíe a exercitar a Milícia Portugueíã 
no mar, depois queelRey Dom Afonfo Henriques tomou LiC- 
boa,aíG pela grandeza, & capacidade do porto, como pela abu- 
oancia que ndle há da madeira,& mais materiais, que para ar- 
mar navios íaõ neceíTarios . A primeira armada,queneíte tem- 
po de Lisboa íahio, foi de gales, com as quais Dom Fuás Rou- 
pinho desbaratou nove gales de Mouros no Cabo de Eípichel, 
& depois defta vitoria teve outras na Cofta do Algarve , & no 
Eftreito de Gibaltar.Efte poder fe foi íempre acreícentando ate 
o tempo delRey Dom Dinis,avendonefte entre meio algus Al- 
mirantes, íègundo parece das hiftorias do Reino. Porem o pri- 
meiro que teve efte titulo dejuro,& herdade,foi MiíTer Manoel 
íaçanha fidalgo Genoves,como logo diremos, 

He efte nome almirante Arabigo,fegudo finte Scipiaõ Ami- 
f?°<UNo- rato,8ço moftra Dom Sebaftiaõde Covarruvias,o qual diz,que 
brezAdt ^Àlmir ale ,tznto vai como Principe,ou General do mar. As cere- 
is monias , com que fe efte officio antigamente dava, íegundo el- 
Rey Dom Afonfo V. no feu Regimento da guerra , era prece- 
dendo a vigília ordinária na Igreja , que primeiro em todos os 
aótos graves dos Cavalleiros fe faziaõ, por offerecerem a Deos 
íiias acçoés,& com efte pio principio terem felice fueceflb . Ao 
outro dia veftindofè de fefta hia da Igreja ao Paço o mefmo Al- 
mirante bem acompanhado, &elRey recebendoo em íalla pu- 
blica, lhe mettia hum anelno dedo da maõ direita, & lhe dava 

huã 



Difcuvfo fecundo. 67 

hua eípada curta , & lhe entregava na efquerda hum eftendarte 
comas armas Reais.Eo novo Almirante fazia preito,& home- 
nagem a elRey de o fervir bem, & lealmente ,° com que ficava 
General de todas as frótas,& armadas do Reino,& tinha jurif- 
dicçao fobre todos os que nellas hiao embarcados , para fazer 
juftiça em todos os cafos,que fuccedeíTem, & feus mandados fe 
cumpriaõ em qualquer lugar,onde chegava com a armada no 
que paraella pertencia:& paraiífo tinha íèus Ouvidores, Alcai- 
des,^ Meirinhos , Carcereiros , & mais oficiais da juftiça, Sc 
dos Alcaides íè appellava para o Almirante,ácdo Almirante pa- 
ra elRey: Sc efta juriídicçaõ começava do dia,que fahia do por- 
to com a armada,ate que fe defembarcava. Os direitos, que ti- 
nha o Almirante , eraõ a quinta parte do que cabia a elRey de 
todas as prezas , que tomava dos inimigos, tirando navios , ar- 
mas^ priíioneiro de mercê,- o qual quando elRey o queria to- 
mar,era obrigado a dar cem livras Portuguefas, Sc delias tinha 
o Almirante a quinta parte. 

Alem diftoíe contratou Micer Manoel Paçanria com eiras 
condições particulares. Primeiramente,que elRey lhe daria huã 
villa, &depreíéntelhedeulogoolugar da Pereira com todos 
os direitos Reais , que nelle tinha , & três mil livras em quada 
humanno,ate lhe dar a dita villa , que foííe defte rendimento. 
Que o officio de Almiranteandaria íèmpre nelle, ôc em feus le- 
gítimos defcendentes ; & que faltando ellcs , entaõ poderia el- 
Rey eleger para o officio quem lhe pareceífej& que indo elRey 
em exercito por terra, íeriaõ obrigados os Almirantes aacom- 
panhallo.mandandolho elRey,& doutro modo naõ.Enaõ feria 
obrigado a íè embarcar em peíToa com menos de três gales, 8c 
o Almirante fe obrigou a ter 20. homês práticos no mar para 
Alcaides , & Arrays das galés , aos quais em quanto andaflem 
nellas,daria elRey ao Alcaide doze livras,& meia por mes,& ao 
Arrays outo,& agua, & biícouto , & fallefcendoalgum dos di- 
tos homês,dava ao Almirante outo meies de tempo , para pro- 
ver o tal lugar . Efte contrato fe guardou ate o tempo delRey 
Dom Ioaõ I. 

A Micer Manoel Paçanha primeiro Almirante, fuccedeo 
feu filho mais velho Carlos Paçanha , 8c a efte por morrer fem 

F 4 gera- 



<Í8 Notícias de Portugal. . 

geraçaõ,feu irmaõ Bartholameu Paçanha;oqual também naõ 
deixou filhos, & lhe fuccedeo o terceiro irmaõ Lançarote Pa- 
çanhaj& em quanto elle efteve prezo em Caftella, teve o titu- 
lo de Almirante Dom Ioaõ Tello irmaõ da Rainha Dona Lea- 
nor. A Lançarote Paçanha fuccedeo feu filho Manoel Paçanha, 
a quem,por naõ deixar filho macho, fuccedeo íèu Irmaõ fegun- 
do Carlos Paçanhajo qual teve duas filhas, Dona Genebra, que 
caíòu com o Conde Dom Pedro de Meneies primeiro Capitão 
de Ceita,com quem ouve o Almirantado: & por naõ ter delia 
filhos fuccedeo no cargo Ruy de Mello íènhor de Mello, cafado 
com a fegunda filha de Carlos Paçanha; & por naõ ter delia fi- 
lhos fuccedeo Nuno Vaz de Caftelbranco, por fer filho de Ca- 
tharina Paçanha,netta do Almirante Lançarote Paçanha , & a 
efte fuccedeo feu fobrinho Lopo Vaz de Azevedo filho de íua 
irmã Iíabel Vaz Paçanha, 8c de Gonçallo Gomez de Azevedo 
Alcaide mór de Alenquer , o qual teve a António de Azevedo, 
que foi Almirante, & efte,a Dom Lopo de Azevedo,em cuja li- 
fiha fè conferva efta dignidade ategora. 

Do Capitão mor, (Sr General das Galés. 






. • . ... 

E LRey Dom Fernando creou de novo o Capitão mor do 
mar do Reino, oquaífegundo parece do Rèrri mento da 
guerra no tit.do Capitão mór do mar , devia fer ordenado em 
aufenciado Almirante. Porem ainda que tiveíTeefte nrincipio, 
depois fe continuou pelos Reys adiante; & parece oue em anun- 
cia dos Almirantes devia fazer o ofício, Sua jurdiçaõ era igual à 
do Almirante , 8c executava fuás íèn tenças fem apoeliàcaõ , tii 
rando em caio de morte, no qual era obrigado daíla para er- 
Rey.O primeiro que teve efte cargo,foi Gonçallo Tenreiro em 
tempo delRey Dom Fernando , que depois fe intitulou Meíhe 
deChrifto.Succedeolhe Afoníô Furtado de Mendoca,& deno- 
is Álvaro Vaz de Almada primeiro Conde de Abranches, & a 
elle íèu filho Dom Fernando de Almada.E aílí fe foi confervari- 

do 



- T>ifcUYfofe^imâo. 6$ 

do em fua deícendencia por outras íucceíToes. 

• As galés para defenfaõ da Cofta faõ mais antigas no Reino, 
Sc foraõ as primeiras embarcações , que para a guerra mari ti- 
nia íe ufaraõ em Portugal . E na tomada de Ceita , & outras c *rta dá 
jornadas,que os Reys por mar fizeraõ,levaraÕ fempre bom nu- àzim* vt 
mero delias j a chufma das quais fe provia até o tempo delRey T* 



feixe. 



Dom Ioaõl.dos homésdo mar peícadores, & barqueiros, para 
o que eftavaõ todos aliftados;& quando íahiaõ as galés , toma- 
va© a vintena defta gente,que era hum de vinte , para os por ao 
remo,& o Annadel mòr tinha cargo de os mandar aíTentar ne- 
ftes livros , quechamavaõ de Armação \ Sc os conftrangia a vi- 
rem por meio de íèus oficiais , a quem chamavaõ Vinteneiros. 
O que fendo de grande oppreíTaõ para os mareantes , & feme- 
Ihantegentefizeraõcom elRey Dom Ioaõ,que aceitaífe de 
novo outra dizima do peícado,a fora a que ja pagavaõ,para co 
o tal dinheiro prover as gales de remeiros , Sc que os defobrl- 
gafle de tam pefado encargo,& aííi íê fez. O primeiro, que em chrofl ^ 
tempo delRey Dom IoaõIII.fe acha com titulo de General,ou D.i a h 
Capitão mordas gales, parece que foi Dom Pedro cía Cunha. M ,UI °' 
ElRey Dom Sebaftiaõ o continuou por todo o tempo de feu 
governo , trazendoas ordinariamente na Cofta do Algarve , Sc 
alcançou da Sè Apoftolica , que íe podeiTem nellas ganhar as 
Commendas dasOrdés Militares do Reino, 

As tomadias, que fe fazem no mar pelas armadas delRey, 
pertencem em parte ao Fifco Real, como fe vé do titulo do Al* 
mirante. O coftume antigo,que fe nifto guardava , fegundo pa- 
rece da Chronica delRey Dom Ioaõ I. 2.p.c. 128. era quedas , 
embarcaçoé^que eraõ entradas por força de armas,avia qua^ 
da hum dos foldados para fi o que tomava/alvo o ouro, pratáj 
aljôfar, pedraria,& as peças inteiras de tellas, fedas, ou panoòs; 
porque eftascoufas pertenciaõ a elRey com o cafcodo navio, 
aparelhos,armas do almazem delle,& pfifionciros. Porem fen- 
do a embarcação preza de 26 toneis para baixo, eraõ do Pâtrao 
dagalé,que a tomava, Sc os Alcaides tinhaõ huã amarra j mas 
os prifioneiros,& dinheiro eraõ delRey.Das prezas que fe fazi- 
aÕjfaindo em terra dos contrarioSjOS priíioneiros , Sc todo o fa- 
ço eraõde querao tomava, laivo o prifioneiro de $Uooo. do^ 

bras 









7© Notícias de Portugal. 

■ 

bras para cima, que efte podia tomar elRey, dando por eile 
luooo.dobras . E fe efta preza íe tomaffe na terra por homés 
de armas,ou bèfteiros,aviaõ a terceira parte os Patrões das ga- 
lès,& do que tomavaõ aos galeótes, aviaõ o terço os Alcaides. 
Porem do que aviaõ,& ganhavaõ os Marinheiros 3 &Arrays,na5 
tinha ninguém parte,& era tudo feu . As armas do Capitão da 
galé contraria , 5c íua baixella, & vertidos eraõ do Capitão da 
galè,que a aíFerrava.Para fe fazer efta partilha mandava elRey 
íctrouxefletodaatomadiaamonte, & delia fe fízeífem três 
partes, das quais eícolheriaõ os tomadores a primeira, &afe- 
gunda os Capitaés,& a terceira os tomadores. Deftas couíàs 
naõ tinha o Almirante, ou o Capitão mor direito algum , fenaõ 
que da parte delRey,levava fomente o quinto, ficando lempre 
a elRey os pavios,armas do almaze,& prifioneiros demerce. 

l £)#s armadas ordinárias do Reino , ér da grande 

hr equidade jom que em Lisboa fe arreliarão to- 

derofosfocorros para fora da Barra* 

A Armada ordinária, que antigamente avia nefte Reino, 
para defenfaõda Cofta,era de três gales, & íinquo navi- 
\Rtpb7m os,comofevê.nahiftoriadelReyDom Afonfo IV. ainda que 
t£f-4.<fc elRey Dom Pedro favoreceo a elRey de CaPcella com dez ga- 
ffljíffi lès por alguãs vezes ;de modo que efte numero, pouco mais,ou 
menos,era o ordinário . Porque como os inimigos , que por o 
jraar entaõ avia>eraõ de pouca importância ,nap procuravaõ os 
Reys trazer contra elles maiores forças. Com tudo andando et* 
SjSnflfc Rey Dom Fernando de Portugal de guerra com Caftella, ar- 
vu<t.Nm. mou 3i.galés,& 3o.naos -, mas quem pòs maior numero de ve- 
las no mar, foielRey Dom Ioaõl. o qual fendo ainda defenfor 
vlol/i do Reino, mandou vir da cidade do Porto huã armada de 35. 
fci.c.i^i, vélas,em queentravao i8naos,& i7-galés. E depois na toma- 
da de Ceita foi o numero maior, poisisò, <Jo Porto íahiraõ 70. ve- 
lassem que entravaõ i7.galês . Na tomada de Alcacere paífou 

elRey 



Vifcurfo fecundo. 7 \ 

elRey Dom Afonfo V.a Africa com 2 20. vèlas,& nade Arzil- 
h com 338. Daqui em diante como o comercio dastcmsfè 
foi abrindo , aíli íe foi acreícentando efte poder de modo , que 
caõ fomente defenderão os noííos Reys as Coftas marítimas de » 

íêus Reinos , mas mandarão poderoías armadas afocorreros chr0ndel 
eftranhos, como foi a que levou a Itália Dom Garcia de Mene- mJ^u. 
fes Biípo de Évora para a recuperação de Otranto , & â que el~ *•*. 15- 
Rey Dom Manoel mandou em favor dos Venezeanos,& a com c , 
que ajudou elRey Dom Ioaõ III . ao Emperador Carlos V. na p./^j! 
tomada de Tunes, &elRey Dom SebaíiiaõaelRey de Caftel- P -3 c*5. 
la para a tomada de Pinhaõ.Na índia íe vio mais efte nolTo po- H 
der maritimo,pois desbaratamos naõ soas armadas daquelies Htô/ge- 
Reysdo Oriente ,• mas as do Soldaõ do Cairo , & as do Gram wr/ -5M 
Turco,cheiasde Genizaros, & Mamelucos . Por onde diz Da- De SitH 
miaõ de Goés,que emfeu tempo trazia elRey Dom Ioaõ III.no Ohfi^ 
mar,affiqoReino í comoemfuasconquiítas3oo. velas. ElRey 
DomSebaftiaõ palTou a Africa com íuooo, embarcações, Afce* & 
que foi a maior armada , & mais poderofa , que íè vio no mar Mcndoç* 
Occeano. c '*' 

Porem o que mais admira he a abundancia,com que os Re- 
ys defte R eino tinhaõ provido os almazês de Lisboa, para com 
toda a prefíeza poderem lançar ao mar huã armada poderofa, 
quando lhe convieíTe,comoíe vé dos exemplos íèguintes. 

Os Mouros de Granada cercarão a cidade de Ceita cõ huã r , 
armada de 64. velas, em que entravaõonze galés. Soube elRey cZi*%* 
Dom Ioaõ I. por recado de Tarifa , que fahira efta armada íò« p <dro c .6Í 
bre Ceita,& mandou em Lisboa apreftar o íocorro com tanta 
brevidade , que quando o Conde Dom Pedro de Meneies avi- 
fõuaelReyJaa embarcação de Ceita achou no caminhoo 
noíTo íocorro tam poderofo, que rendeu a armada inimiga 3 Ôc 
defcercou a cidade. 

Quando os Mouros cercarão á fortaleza da Graciofa , que chron : & 
elRey Dom Ioaõ II. mandou fazer íòbreo rio de Larache , lhe W/p!»* \ 
mandou elRey íocorro no meímo dia , & depois quafi por ho-'? 8 - ar>ri0 
ras ate fazer pazes com o Muleixeque. úf4" m 

Entrou elRey de Fez em Arzilla, ôc cercou o Conde de Bor- Damiáde 
ba no caftello 5 em linquo dias ajuntou elRey Dom Manoel o */<*'/>.*• 





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íocor- ' 



yt Noticias de Vortugul. 

(ocorro de hum poderoíò exercito, 8c fe achou com elle no Al- 
garve com huã numeroíâ armada para paliar o Eftreito , co- 
mo j a tocamos. 
Cerco de Cercando Xarife a Mazagaõ na tituria delRey Dçm Seba- 
Maz^ao ftj a 5 em ^dc Março fe lhe mandou em 20. dias tam grande íb» 
- çorro,que fez levantar o cerco ao inimigo, 

AíTaltaraõ hus piratas Francefes a cidade do Funchal a 2. de 

'jilfiortA Outubrode i56"6.chegou a nova a Lisboa a o. do mefmo , & o 

JeFrnauo- f° CQ ^° fe apreítou com tanta diligencia, que aos 2 2» chegou a 

/W.1.Í.4Q noflfa armada á Ilha ; a qual conftava de outo galeões t alguãs 

zauras,& muitas caravelas , com medo da qual os Franceíes fe 

tinhaõ partido da ilha a 1 7. 

Deftes exemplos fe vé, que as forças marítimas defte Reino 
faõ das maiores de Europa,quando os Reys quiferem ufar del- 
las^porque aífi como a natureza deu a Lisboa aquelle excellen- 
te porto,& fido, com que a fez Rainha do mar Oceano , como 
lhechamaõgraviílimos Authores ; aíli também aproveo-em 
feu território de grande copia de madeira para embarcações, 
como íê vé nos pinhais de Leitia ate o Mondego , & em todas 
as ribeiras do Tejo í Sadaõ,& Setuval , a que também ajuda to- 
da a mais coita do Pot to atè Viana, donde , & do Algarve tem 
íàhido muitas vezes grandes armadas . E aííi por razaõ deitas 
commodidades,& dos mais materiais,que faõ neceífarios para 
as frotas, fe fez no porto de Lisboa a maior parte da armada, 
que o Duque de Medina Sidónia levou contra Inglaterra , & a 
com que depois o Adiantado de Caítella intentou a mefma 
_, . impreza. Sendo a obradas embarcações, que fe fazem em Por- 
C4»T«4 tugal,a melhor do mundo ,como confeífaõ os Eftrangeiros.Po- 
Arte de f* rem deixando eítas particularidades , os Reys Dom Manoel , & 
J&Ab D om loaõ III .dividirão as armadas ordinárias do Reino em três 
cfquadras,hua para guarda da Coita , outra para o Eftreito , Sc 
Algarve ,& a terceira para as Ilhas. A armada da Cofta era de 
navios, em que avia ate 300. homés de peleja; porem creícendo 
o numero dos Piratas , foi neceílario acrefcentarfe também o 
-numero dos noífos navios ; ate que entrando no governo de 
Portugal elRey Dom Felippe o Prudente,& vendo o rriuiíò que 
tinha deípendido do património Real com fuapretençaõ , fn- 

trodu- 



V 

6 






Difcurfo fejjimdo. 73 

troduzio neíte Reino no armo de 1 591 .0 tributo novo do Con- 
fulado,que íàõ três por cento nas Alfandegas , para com elle fa- 
zer todos os annos hua armada grofla de doze galeões, que po- 
deife guardar a Coita, & trazer íeguras as frotas das conquiítas 
das Ilhas ate Lisboa . A Capitania mór deita armada deu com 
titulo de General ao Conde da Feira , & dahi por diante fe foi 
provendo de três em três annos;& ncíta ordem íè coníerva ate o 
prefente ; ainda que no fazer deitas armadas ouve grandes in- 
tercadencias,ficando muitos annos as Coitas do Reino , & fuás 
fronteiras fem guarda; de que reíultaraò vermos em tempo dos 
Reys de Caítelía tantas perdas de nãos , & navios tomados pe- 
los inimigos , & o que peor he muitos lugares deite Reino rou- 
bados^ deítruidos por elles.Porem continuandoíè eítas arma- 
das do Coníiilado , para guarda da Coita cõ hu terço de íolda- 
dos,que dè veraõ andem embarcados, & de inverno íèalogem 
no Caftello de Lisboa,ficaràõ as Coitas do Reino feguras, Sc as 
frotas das conquiítas chegarão livreméte a noífos portos,&ave- 
rànas armadas foldados praticos>& coíiumados ao mar,& naõ 
bizonhos,& enfermos; por quada anno íèr gente nova , 6c que 
nunqua fe embarcou;& terá íèmpre Sua Mageítade força com- 
petente em Lisboa para rebater qualquer fubito accidente, que 
ineíperadamente acontece . A armada do Eítreito huãs vezes 
era de fuítas, outras degalès,&às vezes de caravelas.VafcoFer- ^ rwa ^ 
nandes Ceíar andando com hua fofta em guarda do Eítreito, ° * wt * 
pelejou ? & tomou íeis galeotas deMwos.E D.PedrodaCunha 
com quatro gales rendeo outo de Turcos. As caravelas ordiná- 
rias naó paffavaÕ de feis,& ainda affi faziaõ muito bem à guar- 
da contra os Piratas Berberifcos . Porem fe eíte numero de ca- 
ravelas fe reduzira a galeoes,entendem os homés mais práticos, 
que com elles poderão os Reys de Portugal ficar fenhores de 
todo o comercio de Europa, comofe aponta nos Difcuríòs Po- 
liticos,que imprimi no anno de 6 2 5. Porque fendo notorio 3 que 
todas as nações do Norte,naõ fe fuílentaõ mais , que do trato 
das obras mechanicas, em que todos os moradores daquellas 
Prvinciasfeoccupaõ, &q de força os haò de vir a vender nos 
Remos de Caítelía, & em Italia,& Levante; avendo para iífo de 
paííar forçofamente pelo Eítreito , ficarão os noílos fenhorean- 

G do 



74 Noticias de Portugal. 

do todos eftes navios mercantis, com que obrigaríamos feoáas 
eftasnaçoésaneceflitaremdenoiTa amizade, ou a trazerem 
tam grandes armadas,que lhe veriaõ a fer de mor cuílo , que o 
proveito da mercancia ; pois tendo os noflos galeoés,a retirada 
íègura nos portos do Algarve , & Africa, ficavaõ fenhores do 
Eíireitoro que íè fe hoje fizer, íèrà de maior proveito , & repu- 
tação , que nenhum outro meio para os reduzir a noífa amiza- 
, de,como bem adverte o Doutor António deSoufade Macedo 
f Q i ma Embaixador, que foi de Holanda,na íiia Harmonia Politica,que 
foU6 T §. dedicou ao Sereniíiimô Príncipe DOMTHEODOSIO 

A Tl *■ 

laiela^.' Noífo Senhor . A armada das Ilhas era ordinariamente de fin- 
45. quo,ouíeis vélas,em que entrava hum galeão: efta armada fer- 
via de guardar as Coftas das Ilhas , que naõ foflem infeíladas 
dd í ilhas ^ e CoQ&âóSjêè efperarem ahi as nãos , que vinhao da índia , 8c 
daríhe guarda ate Lisboa . Muitas vezes íè encomendou a Ca- 
pitania móc deita armada a algum fidalgo das Ilhas , pa- 
ra que com outros Capitães, & gente nobre daqueiies Ioga-» 
res íe exercitaíTem na Milícia , & ajudaíTem com luas peí- 
íoas , & com as embarcações , que là íe faziaõ , as forças deite 
Reino. 

Eftas faõ as armadas, que conda andavaõpara guarda dos 
noflos mares em tempo delRey Dom Manoel, 8c delRey Dom 
loao III . & porque o poder dos piratas hia quada vez creícen- 
do mais , communicando elRey efta matéria com o Empera- 
dor no anno de 1552. fe aíTentou pelos Confelheiros mais prá- 
ticos de Eftado,& Guerra, que as noílas coftas marítimas íe Je- 
fendeiTemneftaforma.QueelRey mandaria armar 20. navios 
latinos de 25. ate 30. toneladas quada hum, que andaííem íern- 
pre à vifta da terra,tres delles aviaõ de eftar em Caícais, quatro 
na Atouguia, quatro em Caminha, quatro em Lagos, dous em 
Villanova de Portimão, tresem Cizimbra', ou Sines ,queeraõ 
os lugares, em que os navios armados coftumavaõ vir : 8c alem 
deftes,andariaõ quatro galeões correndo a Cofta mais ao mar,- 
& ajuntariaõ aíTi quada vez, que cumpriíTe os 20 . navios re- 
feridos: alem difloandariaõ na Cofta do Algarve quatro navi- 
os de remo, hum navio groíTo , &tres caravelas, Sc íè uniri- 
aõ, quando convielTe , com os outros navios da mefraa Cofta ^ 



os 



Difcmfo fejj lindo* 7$ 

os quais andariaõ, aíTI no inverno,como no veraõ no mar , & sò 
os do remo iè poderiaõ recolher.Para as Ilhas íè mandar iaõ dez 
navios armados,tres deJles galeoés,& os 7.caravellas 5 & que ò$ 
navjos,que aviaõ de caminhar para a Coita de Guine, S. 1 ho- 
me^ Braíil/on r em,& vieíTemem tresmonçoésjhua em lanei- 
ro,outra em Março,outraem Setembro, 8c que todos elles fof- 
íém armados. A ordem, que o Emperador deu para as guardas 
das Coitas de Caílclla,naõ íèrve aqui,mais que os Capitães dás 
armadas iefavoreceíTemhiís ajs outros ; quandò cumprilTe* 

Do modo y com qm fe ordenou andaffem armados os 
n&cvios do Comercio do Reino, 

$.- lá* 

A ' Lem das armadas, que os Reys mandavaõ trazer no màr 
.Xj^Afn defeníaõ de íèus vaiTalIos,ordenou elReyDom Seba- 
ltiaó hum Regimento, para com maior íègurança fe poder na- 
vegar^ comercear.Neíte Regimento mandou,q todos os na- 
vios Portugueíès,q partiííem deite Reino^ou defuasconquiftas* 
ao GomerciOjfuíTem armados de armas,& de gente para íua de- 
feníaõjde maneira,queos navics de 200. & mais toneladas trou- 
xeííemi4.peçasdeartelheria,&certonumerodepiques,íanças i 
* Sc arcabuzes,& quintais de polvora;& os de 1 jò.ate 200 tone- 
ladas,onze peças, & as mais armas em fua proporçaõj& aííi nas 
mais embarcações , ate as de 2 j. toneladas $ & o numero avia 
de íer ate dous homés por quada dez toneladas . Ê para fe iftò 
inteiramente cumprir, mandava que nenhum navio Portu- 
guês podelTe partir deite Reino às fuás conquiftas , íem primei- 
ro o fazer a faber ao Provedor dos Almazês, eítando em Lif- 
boa ; ôc nas outras partes , aos Capitães , Alcaides mores, Cor- 
regedores , ou luizes dos tais lugares ^ diante dos quais aviaõ 
de fazer certo as toneladas , que o navio tinha , 8c as armas , êc 
gente , que levava , fegundo eíte Regimento 3 de que fe lhe pal- 
iava certidão, a qual ofTereciaô aos tais offíciais dentro num díá 
noporto } aque chegavaõ, fendo da jurdiçaõ deite Reino • para 

G % Véf 




6 Noticias de Portugal. 

ver fe cumpriaõ com a obrigação defta lei j & fendo compren- 
didos nella^tinhaõ graves penas. 

E para melhor governo mandou, que alem de naõ poderem 
navegar os navios,íènaõ com eftas armas, foffem juntos» & em 
co,níèrva,para ferem melhor defendidos , & fe ajudarem hús a 
outros:de modo que para S*Thomé J Brafil,& Flandes, naõ par- 
tiriaõ menos de quatro velas ; dos Capitães das quais aviaõ de 
eleger hum para Capitão rpòr,& lhe aviaõ de obedecer em tu- 
do tocante à navegaçaõ,& defenfaô^que lhe elle ordenaffe , íê- 
guindo fua bandeira, & forol, pondo graves penas aos que o cõ- 
traríofizefTem. 

E para poder aver mais navios armados no Jleino , dava el- 
Rey de ajuda de cufto 7 J. cruzados por quada hum aos que 
cjuiíèffem fazer navios para andar ás prezas na Cofta de Guiné, 
ouBrafií,de i4.brancos,& dahi para cima,& que as prezas fof- 
fem íuas.E aos que fizeffem navios de alto bordo, ou remos pa- 
ra andar na Cofta do Algarve,& de Portugal em coríb, lhe cõ- 
cedia també as prezas jjuftificando depois que fahiííetfflem ter- 
ra,corrio eraõde CoíTarios,& tomadas em boa guerrf ,para o q 
aviaõ de dar fianças, antes de partirem diante dospfficiais, que 
aviaõ de vifitar as mefrhas embarcações. Com eftas or d es fe 
acrefcentou grandemente o comercio em tempo dei Rey Dom 
Sebaftiaõ , & navegavaõ os navios defte Reino com grande íe- 
gurança de coíTarios. Mas acontecendo a efta boa ordem o qnfe 
he ordinário nos decretos dos Príncipes , que quanto tem mat 
rigoroíòs princípios } tanto tem depois mais defeuidados fins* 
aífro veio aver nefta matéria, & nos que andavaõ às prezas; 
algus excertos , pelos.quais foraõ publicamente caftigados , &■, 
fe lhe tornou a prohibira licença. O que fenaõ íuecedera, 
foraõ de naõ pequeno proveito , tanto para defenfàõ dos lu- 
gares do Reino, como para os comércios delle. De preíèn- 
te acudio elRey NoíTo Senhor ao grande defamparo,com 
quede muitos annos a efta parte andavaõ os noíTos navios do 
comercio feitos continuas prezas dos CoíTarios, ordenando 
a Companhia da BoJía do Brafil para que todas as embar- 
cações mercantis vaõjuntas, & guardadas com huã boa e-fqua- 
dra de galeões de guerra j com o que fica-feguro o comercio 

ern 



Difcwfo fecundo. 77 

em grande beneficio defte Reino, Sc em maior danno de noflos 
inimigos, os quais comasricas^ continuas prezas., que nos to- 
mavaõ,nos faziaõ guerra à noíTa çufta. 









)te*o ra~ 



Da inííituiçao das Ordes Militares -pára 

defender o Reino* 

■ 

DEixei para o fim deita matéria da guerra tratar das Or- 
des da CavaJlaria deite Reino 5 porque ainda que íaõ a 
mais antiga Milícia delle , com as mudanças do tempo, fe mu- 
dou em parte o exercício de feu inftituto . O que com razaõ Bof 
notou IoaÕBotèro a & Bozio,& outros eftrangeiros , dizendo q .> nde 
avendo em Heípanha tantas Commeridas , & particularmente *$":* l & 
em Portugal,com que os Reys fem dar nada de Tua cafa,podeii} £ zu , } m 
trazerem ièu ferviçotoda a nobreza do Reino ; por partícula- 3. <«w 
res reípeitos íè deixa perder elle meio , que redundaria em tam^ ** 
grande beneficio de íeus Reinos, de fuás rendas, & de íua repu- 
tação. 

Foraõ as Ordés Militares de A#U,& Santiago, & Chrifto, & 
do Hofpital de S.Ioaõ inflituidas,& admittidas nefte Reino pa^ 
radefeníàõ de feus moradores, &para recuperar dos infiéis ás 
terras,que tirannicamente tinhaõoccupado aos Chriítaõs idí*. 
litando contra os inimigos da Fé, aíli por mar, como por terra, 
ícgundo o dizem largamente osSummos Pontífices nas B tilas 
de fuás inftituiçoés , 8c nas que depois em feu favor paífaraõ ; 8c 
para efte effeito lheapplicaraõ cantos bés, 8c dízimos dai Igre- 
jas defte Reino. 

A Cayallaria,quehojeeítàem Avis, hea mais antiga de 
Portugaí 3 & ainda pódeierquede Hefpanhajpoisfe acha men- 
ção deites Cavalleiros, antes do anno de 1 150, em que come- 
çarão os de Calatavra, que fe tem pelos mais antigos de Caílel- 
la.ElRey Dom Afonfo Henriques inftituioeíta Ordem á imita- 
ção da doTemploj&HoípitaldeS.Ioaõ.quealgus Cavalleiros 
zeloíòs da exaltação denoífa Santa Fé, fundarão em Ierufa- 

C J " ~" r lem. 



y& Noticias tíe Portugal. 

Mon*rq; lem .Na batalha do Campo de Ourique , que foi no anno de 
p.s./.io. i^.jahàmençaõdeftesCavalleiros; como também depois 
tfiI ' na tomada de Lisboa,que foi no anno de i 147. A ifto fe acref- 
centou, que elRey Dom Afoníb Henriques inftituio outra Mi- 
lícia no anno de n 60. em graças da vitoria, que alcançou por 
maõdo Anjo S.Miguel no campo de Santarém de Albaraque 
Rey Mouro de Sevilha , que o tinha cercado com grande exer- 
cito,como fe conta largamente na 3.p.daMonarq. Luíit.De- 
ftes Cavalleiros, & dos prim.dros,que elRey inftituira,fezelRey 
hum convento em Évora no Caftello antigo da cidade,dando- 
lhe por orago o mefmo ArchanjoS.Miguel,cuja Igreja perma- 
nece ainda hoje no mefmo fitto antigo do Caftello, que ao pre- 
lènte faõçafasdo Conde de Bafto, & o bairro fe chama Frey- 
ria,pela habitação dos Freyres , & Gavalleiros , que alli mora? 
raõ muitos annos,ate que pafíaraõ o Convento a Avis,para aju- 
darem a libertar aquella Comarca do poder dos Mouros, de 
que ainda eítavaõ apoderados ; o que elles fizeraõ com muito, 
valor , ajudando a lançar fora os Árabes desde Coruche , ate 
LandroaI,& Ierumenha ; em gratificação do qual lhe deraõos 
Reys i8.villas,queíaõ,Cabeçaò, Mora, Ierumenha, Landroal, 
Noudâr, Veiros, o Cano, Fronteira, Figueira, Cabeça de Vide, 
Avis, Galveas, Alter Pedrofifc, Seda, Albufeira, a villade Coru- 
che^ Coníelho de Serpa, Alcanede, & 4.8. Commendas, que 
rendem paííante de 13. contos. 

Os Cavalleiros daOrdemde Santiago floreceraõ em Ca- 
Oráí» de ftella com grande nome pelejando valerofamente contra os in- 
Sanitago. g^. ^ íabendo comoelRey Dom Afonío Henriques eftava 
cercado em Santarém por elRey de Sevilha com hum podero- 
ío exercito deMouros,o vieraõ focorrer,&fe ouveraõcom tan- 
to valor , que elRey Dom Afoníb os recebeo em Portugal , fa- 
zendolhe muitas doações ; & os Cavalleiros continuarão na 
guerra contra os Mouros do Reino, de modo, que ajudarão aos 
lançar fora de Riba Tejo,& do Campo de Ourique,& ultima- 
mente do Algarve, em cuja remuneração os Reys deite Reino 
lhe deraõ 47.villas,& lugares,que faõ Torraõ^Canha^erreira, 
Aljnftrel,as EntradaSjMefejanajCafeveljPanoyas, Cafrro Ver- 
de, Alvalade, Ourique, Mertola, Almodouvar, Collos , a Com- 

men- 






Sacro. 



O ifcnrfo fecundo. 79 

menda dos Padrcês^Santi^gode Cacem, Villanova de mil fon- 
tes,Sines,Cacella,a villade Aljezur, Mdjaõ frio,o Concelho de 
Cidadelhe,o Concelho de Villamarim, o Concelho de Meijaõ 
friOjLivaiSjCãnaveíes, Amarante, Veiros de baixo , Veiros de 
cima, Alpedris, Arruda , Setuval , Palmella , Couna , Barreiro, 
Alhos Vedros, Aldeã Gallega, Alcochete, Cezimbra, Cabrella, 
CamoraCorrea, Benavente, Alcacere do Sal, a Horta do Ami- 
zio, Concelho de Campo bem feito,a Horta da Serra do Mon- 
te,© Conceiho de Caiai, & i jo.Comendas, que rendem todas 
paíTante de 3Ó. contos. ^ 

A Ordeni dos Cavalleiros de Chrifto,como fe fundou fobre Ordem dt 
as doações, & herdamentos,que a Ordem do Templo tinha em i hriíl °- 
Portugal,delIa devia tomar íèu principio» 

Dos primeiros nove Cavalleiros , que inftituira5 a Ordem cmui- 
do Templo.dous delles foraõ Portugueíès,por quanto diz o Ar- mm Tm- 
cebifpo de Tyro,que efta Ordem feinftituio no anno de m8. HsdeB(ll ° 
&quedahi a o.annos fe confirmou pela Sè Apoftolica , que ve 
a fer no anno de 1 1 27. & que em todo efte tempo naõ foi o nu- 
mero maior dos nove primeiros . Com tudo confia da 3. p. da 
Monarquia LuíitanaJ.p.cap.9.queja no anno de 12 26. D. Gal- 
dim Paiz , & Arnoldoda Rocha com outros intitulados todos 
Cavalleiros do Texnplo fizeraõ concerto íòbrea villa de Fer- 
reira com Pedro Fernandes^ Payo Perez. Pelo que íe fica de- 
monftrando, que ao menos eftes dous eraò dos primeiros nove- 
& parece que tornandoíè para a pa ia, ajuntarão a d outros 
CavalleiroSjComo em Confraternidade,& foldados íèus, que os 
ajuda vaõ a pelejar com os Mouros,eft^ndo ainda a Milicia fem 
a confirmação Apoftolica, & elles fojeitos , ou aos Ordinários, 
ou aos Príncipes. 

Trabalharão os Cavalleiros do Templo em libertar a nave- 
gação do Tejo,depois que entra nefte Reino em Montalvão, 8c 
o território a elle vizinho. 

Depois extipguindofe a Ordem do Templo,elRey Dom Di- 
nis fundou dos bês,que ella tinha em Portugal , a religião Mili- 
tar de Chrifto no anno de 1319.3 14.de Marçoj Sc como tiverao 
os Reys deite Reino a efta Milicia por fua , a honrarão , 8c enri- 
quecerão mais , que a nenhuã das outras,até que ultimamente 

G 4 clRey 






8 o Noticias fb Portugal. 

eIRey Dom Manoel fendo Meftre della,lhe applicou em Com- 
mendas todos os bés Ecclefiafticosdas ConcjuiPcas fora da Bar- 
ra 5 & afTi podemos affirmar , que he a mais rica Religião Mili- 
tar,que nunqua ouve^ainda que nefte numero entre adosTeu- 
tonicos. 

Em remuneração dos fèrviços, que fizeraõ a efte Reino, lhe 
deraõ os Reys delle z i . villas , & lugares , que faõ asfeguintes. 
Alpalhaõ,Nifa, Tomar, Pombal, Soure, Ceras, Pias; Ferreira, 
Domes, Áreas, Villaflor, Montalvão, Caftromarim, Arenilha, 
Villada Reigada, a Villa de Paipelle, a Villa de Caftellobran- 
co,a Villadeldanha a nova,a Villa de S. Vicente da Beira,Pro- 
cnça,a Villa do Rodaõ,a Villa do Rofmaninha1,a Villa de Bem- 

Íofta, a Villa de Penagarcia , a Villa de Segura , Salvaterra , a 
r illa do Touro : fora da Barra a Ilha Terceira, queporíerda 
Ordem,chamaõdeChrifto,& 454. Commendas, que rendem 
pelas avaliações mais dep^contos/era o que teríifóra da Bar- 
ra . Pofto que na Apologia hiftorica de Calatrava , íè diZjque 
rendem agora eftas Commendas joouooo.cruzados, porque a 
avaliação he antiga, & fe fez muito baixa. 

Começou a Religião do Hofpital de S. loàõ em lerufalem 
faHvMt «o anno de jt 1 1 p.entrou no Reino em tempo delReyD.Afonfo 
Hênriques,& foi herdada pela maior parte emre Douro,&Mi- 
nhojos Reys lhederaõ 21. villas, & lugares,que faõ Montoito, 
oCrattO',Toloíà, Amieira , Belver , o Concelho da Margem, 
Couto da Coutada,queanda na Commendade Santa Maitha, 
Carvoeiro, Proença a nova,aCertam, a villa de Oleiros, a villa 
de Pampulhoía, Pedrógão pequeno, Elvira, o Concelho de Al- 
vers,o Concelho de Ranhados,o Cõcelho de Lobelhe do mat- 
to,o Concelho de Cafal do monte, a villa de Ferrajos , a Corn- 
jnenda de Cores/) lugar de Aguilheiro,& Z4.Commendas,que 
paffao de 35. contos . Ainda que eftes Cavalleiros tem por íèu 
próprio infti tu to militarem agora na ilha de Malta contra os 
Turcos jcom tudo eftando no Reino tem obrigação de acompa- 
nharem os Reys, Sc acudirem à defenfaõ delle. 

Eftafoia inílituiçaõ deftas nobiliífimas, 8c importantes Mi- 
lícias, as quais os Reys enriquecerão , por exarem íèropre pre- 
ftes para osfervirem na defenfaõ deftes Reinos, Porem vindo a 

deíca- 




dcfcaircom o tempo c JReu exercicio,para aver neíías Milíci- 
as afgua regra certa do poder, com que aviaõ de íèrvir ha guer- 
ra^ naó ficar efte íervicio arbitrário , íe ordenou nas ultimas 
Cortes dclRey Dom loaõ I. cjue asejuatro Ordes Militares ícl- 
fêm obrigadas a terpreftes por fi,& íeus Commendadores34o. 
lanças,& ióo.arnezes,a fora agente de pè , como ja fica referi- 
do . Com tudo elRey Dom Afoníò V. teve maiores intentos, 
porque quis tornar eftas Ordes a íèu primeiro principio: & pa- 
ra iffo impetrou do Papa Pio ll.no anno de 1463, que íe fiztf- 
íèm na cidade de Ceita três conventos das Ordés Militares ■> 8c 
que os Meítres delias obrigaííem a terça parte dos Çavallei- 
ros por giro aíèmpre reíidirneilas àíuacufta. Eftatam excel- 
Jente ordem (que,íe (e fizera, íem duvida fora caufa de grande 
acreícentamento defte Reino ) perturbou a avareza , que he a 
caufa, & a raiz de todos os males, como lhe chama o Eípiíito 
SmtoiRadix omniummAoYum áixtritia 5 porque por naõ deixar de 
dar as Commendas á íeus criados , o Meftre , que entaõ era , íè 
opposa tamíànto intento, de modo, que naõ teve effdto . Po- 
rem vindodepois elRey Dom Manoel, acrefeentou muito.a 
Ordem de Chrifto com as Commendas, que de novo impetrou 
do Papa Leaõ X.& guardou a condição, com que íe concede- 
raõ,dandoas aos que íerviaõ contra infiéis : o que depois naõ fe 
guardando com tanta obfervancia ate o tempo deJRey Dom 
SebaftiaÕ, querendo ellejuftifiear ta m larga concefTaõ de ren- 
das Ecclefiaílicas,vendo juntamente os grandes dannos , que os 
Piratas de Berberia,& Hereges fazia õ nos mares de Heípanha, 
ordenou reformar de novo os Eftatutos das ditas Ordes. & im- 
petrou para iíío indultos Apofíolicos; por virtude dos quais or- 
denou, que o provimento das Commendas íefizeííena forma 
íeguinte. Primeiramente, que as Commendas , que rendcííem 
loouooo.reis livres de encargos,&: dahi para baixo,fe naõ pro- 
v-eííem por antiguidade nos queferviflem de tempo, íènaõ por 
numero de homes decavallo ; contando os homes de cavai- 
lo de todo o tempo de fua refidencia em Africa, naõ contan- 
do por homem de cavallo,fenaõ o que folie de iS.annos com- 
pridos. 

Que as Commendas, que renderem de 100, ate zooV, reis 

k 



8 1 Noticias de PõpHgal. 

k provefiènVpor antiguidade no lei viço da guerra , íenaõ com 
carta d^Commencla:& concorrendo dous iguais no tempo,foÊ 
lè preferido o que tivefle ícrvido com mais cavallos. 

Que asCommendas de 2oocV. reis para cima íe proveriaõ 
tio que tiveíTe fervido com maior numero de homês de cavai- 
lo, & osque íèrviííem eftas Commendasem Africa, ièriaõ obri- 
gados a fervir como tal numero de cavallos íinquo annos in- 
teiros-mas íêndo as Commendas de 8ooZ/reis, & dahi para ci-* 
ma,ordenaflè íèrvifle por ellas mais hum anno. 

Aílimefmona guerra do mar ordenou elReyfepodeffem 
também ganhar as Conímendas , contando os que as íèrviííem 
os meies, que andaílèm embarcados ate perfazerem o tempo, 
que eftava aflinacjo para a refidencia de Africa, conforme ás 
rendas das Commendas ,• & em lugar de hum homem de ca- 
vallo, íèriaõ obrigados levar dous íoldados embarcados à íua 
cuíta. 

As Commendas,que chamaõ da Graça , que íaoas que va- 
gão em quinto lugar, de qualquer valor, & rendimento* que íe- 
jaõ,ordenou elRey, que livremente as podeíTe dar aos beneme- 
ritos.Efta foi a ultima reformação, que íè fezdasOrdés, a qual 
eftà hoje tam pouco em uío,que as mais dasCommendas íe daó 
por diípeníãçaõ ; íèndoaííi, que íeíè ganharão as Commendas 
nasfrodteiraSjOU armadas,fòbejariaõ íoldados, & fe exerci t. ir a 
grandemente o valor. Porque íè hua coroa de louro, ou de gra- 
ma fazia aos Romanos aventurar a vida na guerra tantas ve- 
zes ; com quanta mais razaõ íè aventurariaõ os Nobres por 
cftoutro premio,que alem da honra , lhe traz também provei- 
to.He baftante a eíperança de alcançar hua Commenda de S. 
Ioaõ de Malta,para trazer boa parte da nobreza da Chriftanda- 
deoccupada em íèu íèrviço , ainda que íèja com tam grandes 
encargos para os íeculares^como íâõnaõ caiar, andar defterra- 
do da patria,& encommendar depois de velho , & íer a Religi- 
ão fuaherdeira,& nao feria poderoíã eftoutra efperança , íendo 
certa,para trazer todos os morgados , & fenhores de Portugal 
nefta Miliciaà fua eufta , íèndo providos por fuás antiguidades? 
Se quando fc ferviaõas Commendasem Africa em tempo del- 
Rey Dom Manoel,& Dom Ioaõ IH,avia mais de 3oo.lancas fu- 

ftenta- 



Difcurfo fecundo. 83 

ílentadas pelos Fronteiros ( porque todo o homem nobre hia 
cingir a primeira efpada àquelias partes ) como naõ fuccedeiia 
agorao meímo avendo certeza de íerem providos fEo que fe 
entaõ gaftava com ^oodauças.montara agora nas armadas em 
dobrado numero de Toldados. Pelo que em uíir deftes prémios 
para o intento, com que forao inftituidos , eftá o podermos fer 
poderoíòf, & ter grande numero de íoldados voluntários , 8c 
naõ forçados,com que vençamos noíTos inimigos. Ifto naõ tira 
dar Sua Mageftade as Cornmendas a quem lhe parecer,- porque 
alem das de graça, que faõ livres, pode dar as outras para fi- 
lhos^ netos, & aceitar renunciaçoes , como fe ordena naquelle 
ultimo capitulo acima referido • pondolhe por condição, que 
antes de tomarem poíle delias ,as firvaõ primeiro, & deíle mo- 
do os pretendentes das Cornmendas fe averáõ por bem deípa- 
chados , & o Reino naõ ficará privado de defenfores ; para fu- 
ftentaçaõ dos quais fomente íe concederão tantos, 8c tam ren- 
doíos dízimos das Igrejas , que importaõmais de hum milhaõ, 
fe os cem contos quafi , em que eftaõ avaliadas as Ordes de 
Avis 3 8c Santiago,& Holpital , fe haõ de acrefeentar proporcio- 
nalmente aos quinhentos mil cruzados da Ordem de Chri- 
fto. 

Aforç3 deftaMilicia das Ordes íèconíídera em duas íir- 
masj porque ou ccnfiíle nos que pretendem militar à fua cuíla, 
para ganharem as Cornmendas , como íãõ , 8c eraÕ os Frontei- 
ros de Africa , &naõíaõ ainda religioíos Cavalleiros ; ou nos 
meímosCavalleiros , 8c Commendadcres ; dos primeiros naõ 
pôde aver numero certo, mas fendo as Cornmendas em Portu- 
gal mais de 6yo como fica apontado,- porque a Religião Mili- 
tar de S.Bento de Avis tem 4 8. & de Santiago 150, &ortftoa 
Ordem de Noílo Senhor I E S V Chrifto^ue íaõ 454. alem das 
24. daOrdemdoHofpital de Ierufalem , que agora affifte na 
Ilha de Malta . E provendoíê conforme aos Indultos de Pio V. 
8c de Gregório XIII. jaapontados,naõ háduvida,que averia 
mais de 300. íoldados entre os preteníores, & os foldados , que 
trouxelTem àfua eufta ,• porque naõ averia peíToa nobre neftes 
Reinos,& ainda em feus Eftados, que naõ empregaffem os pri- 
meiros annos de fua idade nefte vhtuoíò, & honrado exercício. 

Na 



84 Noticias de Portugal. 

Na fegunda confideraçaõ fera pouco menor o numero dos 
HiflM Commendadores, & Cavalleiros, pois contra Barcellona levou 
Cjithdun. Marques d e los Veles 600, Cavalleiros de habito de Caftella, 
uubeni- Sc em Por tugalnaolaonoje menos os que tem hábitos com 
voL+fil. ten ç a . os quais todos pelo juramento de íua profiflaõ, 
çftaõ obrigados a terem armas, & cavallos, para 
acudirem em defeníaõ do Reino,& contra ps 
infieiSjOnde quer que forem 
mandados. 



9$*v* 




.*' - 



DIS 



DISCVRSd 

TERCEIRO. 

D A NOBREZA D AS FAMÍLIAS DE 

Portugal com a noticia de fua antiguidade -, ori- 
gem dos Appellidos,Sc razaõ dosBrazoés 
das armas de quada huã. 




E N D O a nobreza das familias a coufà mais 

prezada nas Republicas politicasse juntamê- 

te a menos conhecida, & bem entendida de 

^^Q^Ve^w muítos,que íè delia piezaô. E como os nobres 

Portugueíes eítimaõ, Sc com razaõ , tanto íua 
generofidade,& fidalguia, hejufto que naõ fal- 
te em noíío vulgar efta matéria particularmente eícrita . Pelo 
que me pareceo fazer efte diícurío, em que fe veja, que coufa he 
a Nobreza,de que partes confta , & da dr gem , que tivera õ os 
Appellidos,& Brazoés das linhagês nobres, & como fe illuftra- 
raõcom aclarezadas dignidades, Sc accoês das virtudes. 

Família he huã ordem de deícendencia , que trazendo tcusctpmoA» 
principio de huã peífoa , lê vai continuando , & eftendendo de w,r * f ° »« 
filhos a nettos , de maneira , que faz huã parentella , ou linha- ^Ziflmiu- 
gem^a qual da antiguidade,& clareza das couías feitas he cha- * rf#iV^ # 
mada Nobre. 

Efta palavra Nolrefe latina,& fe derivou de Nòtílb^ue tan- 
to val^como notável, & conhecido . Segundo Scipiaõ Amirato 
nos Difcuríòs , que faz antes das familias de Nápoles , Sc de ou- 
rros,que melhor íbbre efta matéria efcreveraõ,fe moftra, que a 
Nobreza confta de duas partes fomente , que faõ antiguidade, 
Sc clareza . A antiguidade fe moftra nas familias contando nel- 
Ias pelos tempos paliados muitos graos^idades^u gerações ; Sc 

H con- 



%6 Noticias de Portttgal. 

confoi me à melhor opiniaç, tpto val4iuã idade imoralmente 
fallanào^cpmo 34.ànnos deÇ|mpo. Porque cor eíUs anpos or- 
dinariamente coitfeçãõ os filhos a íueceder a'os pay4*& aífi qui- 
to mor numerp deftas fucceffoés,ou idades moftrarquada hum 
de noticia de íúa familia,ainda que naõ conte os gráos íuccelíi- 
vos de pay a filho,tantas idades,ou gerações mais moftrarà Os, 
grãos íaõ as fucceíFoés continuadas dí pay afhfiQíêm intéi- 
rupçaõ.Sendo duas famílias antigas , hu5 que çnoftfe mais gr^- 
os continuados de pay a filho,& outra menos ; porem que aja 
delia mais antiga memoria por Chronicas,ou outtos documen- 
tos certos,íêràefta tida por mais antiga,ainda que cõtinue me- 
nos fucccffoés. t ; 

A antiguidade das famílias de Hefpanha he das maiores de 
Europa,porque íe confervou fempre com feus Reys,que faõ dos 
mais antigos delia . E afli dos Godos para quá fe há de tomar a 
fua principal origem ; pofto que tau bem dos Romanos venhaõ 
alguãs das illuftres linhagés de Hefpanha , pois a pofluiraõ tan- 
tos íeculos. E ainda que os Romanos foraõexpellidos pelas na- 
ções do Norte, que aborreciaõ grandemente o nome La- 
tino • todavia ficarão muitos em Itália , França , & Hefpa- 
nha,como parece claro das leis do Fuero juzgo , que deiles fal- 
laõ. 

Depois da entrada dos Árabes em Hefpanha , ti Portugal 
hum dos primeiros Rejjios , que fe recuperou pelos i. hriílaõs; 
&os primeiros fidalgos, que de Leaõ, AÍlurias, & Galliza, 
os vieraõ povoar ,foraõem tempodelRey Dom Ramiro, co- 
mo fe vedo Conde Dom Pedro . Porem dando depois elRey 
Dom Fernando o primeiro de Leaõ efta Província a Dom 
Garcia íèu filho , entrarão outros muitos de novo corn fua 
Corte ,& ultimamente coma Rainha Dona Tereja mulher 
do Conde Dom Henrique j ao qual acompanharão também 
algús fidalgos Francefes ; alem dos quais viera 5 outros , que 
ficarão no Reino, por fe acharem nas tomadas de Lisboa, 
Sylves, & Alcácer do Sal, que íe conquiftaraõ com o favor 
das armadas das Províncias do Norte , quehiaõ à conqui- 
ftada Terra Santa. Entrarão depois alguãs famílias de Ca- 
ftella no tempo do noflb Rey Dom Pedro , & muitas mais 

tic$ 



Difcuvfo terceiro. %? 

nos delRey Dom Fernando pela pretençaõ,que teve de fe fazer 
íènhor daquelle Reino. A íervir eIRey Dom Ioaõ l.affi nas guer- 
ras de Caftella, como na tomada de Ceita, vieraõ muitos fidal- 
gos de França,& Inglaterra, que ficando no Reino , deraõ prin- 
cipio a alguãs linhagés delle. 

Tornarão a entrar novas famílias de Caftella em tempo del- 
Rey Dom AfonfoV. quando íè veio daquelle Reino, deixando 
a pretençaõ,que tinha delle por parte da Excellente Senhora. E 
com todas as Rainhas de Portugal vieraõ fidalgos, adi dos Rei- 
nos de Aragaõ,como de Caftella,& de Inglaterra, de que há li- 
nhagés illuftresno Reino. E ultimamente depois de deícuberta 
a índia, vieraõ alguãs famílias nobres de Itália por razaõ do co- 
mercio . Eftas íaõ as antiguidades, que com certeza podemos 
dar às linhagés de Portugal» 

A clareza , que como diííemos , he outra íegunda parte da 
Nobreza,íè moftra pelas dignidades^u honras,que os daquel- 
le Appellido alcançarão na Republica, como faõ os Eftados 
Titulares, ou Senhorios de terras , oflficios mores da caía Real, 
governos,cargosíupremos militares, & civis. Fazem também 
clareza as dignidades grandes Ecclefiaílicas, como Pontifica- 
dosXardirialados,& Bifpadosj & affi meímo as letras , o valor, 
&lealdade,liberalidade,juftiça, & fobretudo afantidade, pois 
excedendo todas as grandezas humanas, fe levanta às divinas . E 
aífi quando qualquer deitas coufas he infigne,naõ illuftra menos 
afamilia,que muitos Títulos, 

Tem a clareza íòbre a antiguidade , fegundo Scipiaõ Ami- 
rato, que ainda que feja moderna, vai mais, que a antiguida- 
de íèmella . Pelo que eftando hua família Titulada , ainda 
que íèja conhecida de pouco tempo , fica preferida à ou- 
tra mais antiga ,fê ate entaõ naõ alcançou íèmelhante digni* 
dade ; - Em iguais Títulos de dignidade fera mais clara a 
família , que tiver maior numero ; & a maior dignidade 
( ainda que menos em numero ) vence a multidão das 
menores . De modo , que vai hum Ducado por muitos 
Condados, & hum Senhor livre, mais que todos os avaííal- 
lados. 

Ha nefte Reino finquõ grãos de Nobreza,íègudo a Ord.l. j* 



O Doutor 



8 8 Noticias de Portugal. 

t.139.0 primeirOjíàõos VaíTallos,que tem cavallos,& ofegun- 
do os Efcudeiros, o terceiro os Cavalleiros , o quarto os Fidal- 
gos de Cottade armas,& geraçaõ,que tem infignias de Nobre- 
za , o quinto he dos fidalgos,que tem aííentamento , & foro na 
caía delRey .Entre eftes também hà differença •, porque as leis 
do Reino fazem menção de três géneros de folares , que faõ ío- 
lar conhecido,íòlar com jurdiçaõ, & folar grande . Os de folar 
conhecido,íègundo o Doutor António Franciíco , íàõ aquelles, 
^m.F™». *3 ue tem a Nobreza dos avós,& bifavós^de modo,que íenaõ pó- 
»o tratadê de pòr em duvida íèr o tal Appellido nobre, & de fidalguia an- 
daNtbrc- tiga.Os de íòlar com jurdiçaõ faõ os fenhores das terras, q por 
doaçaõ Real aspoífuem, & governaõ com íuas jurdiçoés . Os 
de íolar grande/aõ os Duques,Marquefes,Condes 3 Vifcondes, 
& Barões de Titulo , que faõ verdadeiramente grandes , & por 
efta cauía os chama a Ordenação fidalgos de grande folar . Os 
Reys defte Reino fizeraõ íèmpre tanto caio da Nohreza,que # só 
delia íê ferviraõ,afli nos cargos de Eftado, como nos da juftiça, 
fazenda, & milicia ; & noferviçoda cafa Real naõíaõ admitti- 
dos fenaõ os Nobres. 

; Da orijem dos Affellidos dos Nobres 

' de Portugal. 



2. 



OS nomes foraõ inventados entre os homês para diílin- 
çaõ delles , porem crefcendo o numero da gente , Sc fal- 
tando nomes Angulares para quada hum, vieraõaíèr muitos 
homês de hum mefmo nome, Pelo que paraevitar confuíaõ, 
acreícentaraõ os fobrenomes , ajuntando o nome dospaysaos 
feus, & por iílo fe chamarão patronímicos $ deftes ufaraõ mais 
os Gregos,que os Romanos ; mas nem por iílo tiveraõ os Lati- 
nos menor numero de nomes; porque muitas vezes tinha hum 
homem quatro nomes,que eraõ prenqme, nome, cognome, êc 
agnome. Exemplo difto {eja Quinto, Fábio, Máximo, O vicu- 
la . O primeiro podemos hoje chamar nome próprio , o 
fegundo fobrenome da famjlia j o terceiro Appellido , 8c o 

quarto 



Difcwfo terceiro. 8p 

quarto também Alcunha. . 

Com o Impeno Romano entrarão em Hefpanha feus co- 
ftu.raes; & aííi ufàraõ defta forma de nomes , como íe vê larga- 
mente das hiííorias latinas . Porem vindo os Godos , & extin- 
guindo quaíide todo os Romanos nella,fe tornarão a introdu- 
zir os nomes próprios íingulares fem íòbrenomes algus,que du*- 
raraõ ate a entrada dos Árabes jdepois da qual fe começarão a 
ufaros patronimicos,Dias, Efteves, Fernandes, Gonçalves, &ç. 
que íè derivarão de Diogo, EftevaõjFernandOjGonçallo. Porem 
naõfoi ifto baítante para os homês poderem íèr conhecidos^ 
porque de hum pay prccediaõ muitos filhos, & todos tór^avaõ 
o meímo patronímico . Pelo que ordenarão tomar por Appel- 
Jido os nomes das terras donde viviaõ, ou donde eraõ natura- 
is,ccmo fizeraõ nefte Reino os de Beja, Caftello Branco, Cha- 
ves, .Santarém, & outros, mas o mais ordinário foi tomar 
quada hum o nome da terra, onde tinha fenhorio, ou alguã 
jurdiçaõ. Etantoheiftoafíi,quemoftraoBifpo'Dom Piuden- 
cio de Sandoval , que Alvar Fanhes famofo Cavalleiro em 
tempo doEmperador Dom Afcníb VH.fè chamou deC,urira, 
quando a teve a cargo, & de Toledo,quando o fizeraõ Alcaide 
daquella cidade. 

Omeímofeaffirma das famílias de Aragão 5 & daqui vie- 
raõ es Appellidos de muitas Iinhagês, índole depois continu- 
ando em íeus fucceííores. A tilas terias chamavaõ Solares, 
derivando o nome da palavra latira yW&7»,que quer dizer 
terra , & aífento, donde o homem eííà . Edificarão aqui eíres 
fidalgos íuas torres, 8c cnfas fortes donde viviaõ ; aííi para íê? 
defenderem dos rebates dos Mouros, como por fer efte mo- 
do de edificar cafas fortes no campo, próprio das nações do 
Norte, como ainda hoje fe vè em toda França , Alema- 
nha , & Inglaterra . Pelo que nefte Reino fe naõ concedia li- 
cença para fazer eiras torres, Sc por ancas nellas, fenaõ a 
peífoas illuftres; como parece das que eftaõ regiftadas nos 
livros das Chancellarias dos Reys antigos . Deftes Solares, 
8c torres hà ainda muitos nefte Reino , como íaõ os de 
Abreu, Atahide,Bayaõ,Biitto , Carvalho, Cunha, Faria, Gó- 
es , Lima , Nóbrega , Pereira , Sampayo , Soufa , Silva , Vaf- 

H 3 concel- 



;?' 



f>* Noticias de Portugal. 

conceitos, 8c outros muitos, donde eftes Appellidos tiveraõ feu 

principio. 

Alem dos Solares fe tomarão também owrosAppelhdos de 

algus feitos affinalados na guerra , como fizeraõ os Bandeiras, 
Machados,Mouras, Menagés; 8c outros os tomarão das Provín- 
cias,^ deícobriraõ,ou fojeitaraõ,como os Babares, Minas, Ca- 
marás ; outros da Cafa Real donde defcendem, como faõ neíte 
Reino os de Aragaõ,Lancaftres, Portugal. 

Tomaraõfe também os Sobrenomes de Alcunhas , que íe 
poferaõ a vários homés de animais da terra, peixes , & aves, aífi 
como Perdigaõ,Pegas,Falcaõ,Touro, Coelho, Rapozo, Sardi- 
nha,Salema.Das cores,como os Prectos, Trigueiros, Morenos- 
De alguã qualidade do corpo, como Barrigas , Calvos, Delga- 
dos,Ftyos,Magros,Peftanas,Velhos,Vnhas . Outros de inftru- 
mentos,como Caldeiras,CaIças,Correas,Lemes, Pontes . Ou- 
tros de arvores,hervas, & flv>ies, como os Figueiras , Oliveiras, 
Pinheiros, Mofeiras,Carvalhos,Flores,Rolàs,Carraícos . E aííi 
outros . Eftas faõ as origés,a que íe reduzem todosos Appelli- 
dos,quehoje hànefte Reino, como particularmente em quada 
familia veremos . E porque os Appellidos íãõ os finais hoje da 
deícendencia das familias,& nobrezas dellas,foraõ os Reysde- 
fte Reino tamdeíêjoíòs de quada linhagem coníèrvar o íèu, 
quefabendo elRey Dom Ioaõoll. que Simaõ Gonçalves da 
Camará, filho herdeiro do Capitão da Ilha da Madeira Ioâõ 
Gonçalves da Camará fe chamava Simaõ de Noronha,que era 
o Appellido de fua mayjhe mandou dizer, que logo íe chamaí- 
íê do Appellido de feu pay ,• pois avia de herdar a íua caía,fenaõ 
Reunis que pafTatia a íucceílaõ delia a Pedro Gonçalves da Camará 
^&dU o ^ u * rma õ- ^° S ue Simaõ Gonçalves obedecendo , lhe foi bejar 
a.wp, a maõ pela mercê. Porem elRey Dom Manoel procedeo niílo 
mais rigurofamente, porque mandou nas Ordenações compe- 
lias graviflimas,que ninguém tomaíTe o Appellido de nenhuã fa- 
milia,que lhe naõ pertenceiTe;& o mefmo íe ordena na ultima 
reformação, que íè fez das leis deite Reino. 



'Dât 



' Difcwfo terceiro. f%í 

Dm eriges das armas , que trazem os fidalgos, 
&* nobres de Fort ngaL 

§i 5. 

A Sinfignias militares foraõ inventadas para diflinguiras 
companhias dos exércitos. De maneira,que conhecendo 
quada íòldado a íiia bandeira , ainda que,nas batalhas fe deíor- 
denafTem as cohortes,podeííem acudir a ellas,& com facilidade 
recuperar feu lugar. Para efte efkito uíòu Rómulo do Manipu- 
lo^ depois fe introduzirão, o Lobo, Aguia,Minotauro, & lava- 
li,cjue os Romanos trouxeraõ porinfignias, como os Aflyrios a 
Pomba,&aLuaosEgypcios,osBizancios o Cacho de uvas ,os 
Thebanos a Tartaruga , os Africanos a Efpiga;& afli outras va- 
rias couíàs. Porem os íbldados particulares coftumavaõ trazer 
os efcudos brancos,ate quefaziaõ algum feito iníígne, cuja hi- 
ftoria pintava 5 nelles,ao qual coftume alludio o Poeta , quando 
diíTe de Heleno. ***** 

Enfelevis nuJo^arma^ inglórias altaj&c. 
E o Satyrico fignifica pelo meímo termo ter fahido da idade ju- 
venil,dizendo: 

TermifufparftJJc óculos jdmcandiittsumho. Satyr^, 

Eílas pinturas dos efcuaos eraõ varias , & naõ ficavaõ depois a 
filhos^pofto que alguãs vezes,quando o predeceíTor era mui in- 
íigne,ufavaõíeusdefcendentesdatal figura, como empreza, íê- 
gundofe vê de Virgílio, fallando de Aventino filho de Her- 
cules. 

— Clypeofcnfignepaternum ^£ 

Centum Argues^cinBdm^geritferpentilus byiram. 
Entreos Romanos uíàva a familia dos Torcatos do collar de, 
ouro,& os Cincinnatos da cabe!leira J porem naõ como armas; 
porque como confia de toda a hiftòriajatina , as armas das fa- 
mílias Romanas foraõ as imagês , & eftatuas de íèus maiores, 
que tinha õ nos pateos â entrada das cafas. 

H 4 WÀ 



$z Noticias de Portugal^ 

Da origem dos Leões ^Sr Agmas&* outras mi: 
mm , quefe trazem tm efcndos. 



DEpois que entrou o governo dos Cefàres* 8c foi neceíía 
rio acreícentaremfe os exércitos , &avellos lempre nó 



k ffa- 

-. 

nos 
confias do Império , ipultiplicandoíè as legiões , foi neceflario 
darlhe também novos nomes,& iníignias.Ecomoos Romanos 
eftavaõ jamais polidos, naõefcolheraõeítes nomes 3 & finais a 
caio, mascommuitaconfideraçaõ, denotando em quada hum 
delles algum bom peofamcnto . E porque quada lòldado fcííé 
conhecido de quecihorteera.raandavaõ , que lego nas . ffici- 
nas de ai m aquando íè Éuiaõos efcudos , lhe pintarem , ou ef» 
culpiffemnomeio a meíma imagem da meíma cotize, de 
pela parte de dentro eílriviaõ o nomeio loldado,& a cohorte^ 
& centuria,de que era. Tudo ifto diz claramente Vigecio neftas 
jU^.tS*. palavras:?Sfa rmlttes abunde in pr<xltj tumultu àfuis csntttbemaii m ah* 
err4rent % dn>er(is cobombus Uwrfainfcmo fgna pingebant y cjU<t f/i n mi* 
fMtotf>egnut4,fictêt eeum morn eftfieri . Frrtterea in a)>erjo u tuscuwsr^ 
militts et At nomen adfcnptum , tddito ,' ex tjtta efjent coburte r $ exqna, 
cenmn* . E Claudiano allude ao mefmo, dizendo dalegiaõ ia- 

(lana de ; 

Belo dU * • '■"' ' - *Nom en ^ proba vtes 

à' n * ' Inytfti) dypeoj^ mtmoji refie hems . 

Tanehêl. [> e ft e coíhime diz Guido-Pancirolo fe introduzirão as armas, 
itiufui/m que agora te mos.Porque vindo depois a profcíTarem a' Milícia 
p^a.caoos filhos, & net tos dos n eímos Capitais, & Soldados , ulavaó 
Tempre das próprias infignias,& depois que fe perdeo o Império 
Romano , fe ficou continuando o mefmo ufo , pondo ft guncio 
aquella imitação quada hum no efeudo o animaljOu figura, cjuc 
melhor lhe parecia^ denotando fempre com eftes hieroglypbi- 
cos alguacouíà de valorjconftancia,ou virtude, por onde iè al- 
cança a honra militar. E aíli daqui nafeeraõ os Lcoês , as Agui- 
as, os Touros , Serpentes , que trazem as f amilias de Europa , & 

parti- 



ssr 




Xifcurfo terceiro. p j 

particularmente as defle. Reino. As que uíàõ de Leoês nos efcu- 
dos,faõasíèguintes. 

Achioles illuftres Florentinos , que vicraõ povoar a Ilha da 
Madeira ; & dahi paíTaraõ a efte Reino.Alvos, Arnaos, ou Erna- 
os,Barroíbs,Betancor,Brittos, Cayados, Campos, Caftelbran- 
co, Cerqueira, Chanoca, Çoneftagio, Efmeraldes, Frotas, Ga- 
lhLardos,Gamboa,Giraldes,ÍGondim, Gramaxo, Gravas, Groy* 
mis,Morel,Netto,OíTem, Pains, Pó, Ribeira, Rolaõ, Salvagos, 
Santarém , Serraõ , Simões , Tofcanos , Valladares , Valentes, 
Vnhas, Vogado. 

As que trazem Aguias,íaõ: Abul,Abreu, Azevedos, Botados, 
Bovadilha, Carregueiro , Serrabodes , Coronéis , Correaõ, Da- 
gram,Guivar,Iacome,Lemes (Marletas íèm pès ) Maciel , Me- 
deiros,Montarroyos,Ourem,Penha,Proença,.Ro drigues, Sam- 
payo,Tinoco,Villanova. 

As que trazem Serpe, faõ, Alfaros, Brandões de Inglaterra, 
Covas, Dragos, Mendaos, Moutinhos, Rebaldos , Roboredos, 
Regras,Serpes,Villasboas. 

As que trazem Lobos , faõ , Ay alas , Haros ., Lobos ., Villa- 
lobos. 

As que trazem outros animais, íãõ: os Carreiros hum Gatto 
caçando,os Garros huã Onça, os Leaes entre íète eftrellas dous 
libieos negros armados de prata , alludindo à fidelidade deftes 
animais, os Oíòrios dous Touros , os de Valdês hum Elephan- 
te. 

• • .... 

Da origem das Taxas > Bandas, Barras , &>Efca- 
quês, que fã trazem nos e feudos. 

- - , 



. . 



• 









. 









AS Barras,Faxa$ 3 Bandas,& Efcaques , tiveraõ origem dos 
Alemães, que como affirmaõ algus Authores coftuma* 
vaò trazer liftrados os efeudos de cores , & fe prezavaõ muito 
diito.Efenhoreandofeeftes das Províncias do Império , intro- 
duzirão feus coftumes nos povos, queíojeitaraõ j $c como com 

elles 



?4 Noticias de Portugal, 

ellesíê acabarão as boas artes, foi fácil por falta de pintores, 
ufarem os foldados nos efcudos daquellas bandas , & pinturas 
íimpliciflimas . Donde vem íegundo diz Scipiaõ Amirato, que 
as mais das familias antigas temem Europa eftas infignias, co- 
rno fevè nos eícudos das Faxas da cafa de Auftria, das Bandas 
de Borgonha,Barras de Araga5,& Efcaques dos Duques deNi- 
TatitêA* vers . Ifto íê confirma com a author idade de Cornelio Tácito no 
uaU.z* fegundo dos Annais,que diz dos eícudos dos Alemaés,que eraõ 
Taclt. de ^u^s taDoas ^ e pinturas fimples: Ténues^ &fucata$ colore tabulas. E 
Mor^Gmno livro de Moribus Germanorumrefere,que pincavaõ osefcu- 
, dos com varias cores ; Scuta tantum Uãt/fímis colonhus dijfwgumt. 
mlratof* ^ e '° 4 ue COQ clue Scipiaõ Amirato , dizendo que deitas fimples 
miías de pinturas argue a antiguidade das armas: Onde io,d\z elle , fono in» 
&<*?.*• & d Q tto a Credere anelo chs etiam dm ^vabarmente Veço ddcum a fer tenu- 
tôfhc quanto le arme/onopiofempiect fiufiem mtKm y ffle. D eltes prin- 
cípios fe pode conjeiturar, que tenhaõ origem as armas de mui- 
tas familias de Portugal, que trazem Faxas, Bandas /Barras, & 
ícaques. 
Faxa he hum Hftaõ entre duas linhas , que atr aveíTaõ o efeu- 
do ao largo. As famílias , que trazem faxas,íãõ: Almas, Avelar, 
Auftria, Cio, Durmaõ, Eícrocios, Ferreiras , Landins , Leitão, 
Mafcarenhas,Matela,Mexia,Pamplonas t Pedroíòs,Peftanas,Re- 
bellos,Sylveiras, Vargas. 

Banda he hum liftaõ entre duas linhas, que atravefla o efeu- 
do de canto a canto. 

As que trazem Bandas , íaõ Almadas , Albarnofes 1 , Ataides, 
f Azambujas,Azeredos,Barbato, Barbofas, Bardes, Bairros, por 
Bandas três troncos,Barreiros, Barros, Belchiras, Bembos, Be- 
ringes,Bivares,Botelhos, Bracamonte, Calados, Caminha três 
baftoés de prata em Banda , Canto , Carvalhais, Caftanhedas, 
.CjUnigajFeijòs.FeyoSjFrazaõ^Freyres, de Andrade a Banda da 
Ordem Militar da Banda de Caftella.de que foraõCavalleiro% 
LeySjLimpoSjLyrajLordelIOjMendanhas trazem huã cottade 
armas paífada com fettas,Mouzinhos,Nugueiras,Ornellas,Pe- 
gados,Pegas,Privados, Quintal, Sandòvais, Tovar, a Banda da 
Cavallaria da Banda/Varellas. 

Barra de hum liftaõ, que toma o efeudò de alto a baixo . As 
L que 



Difcurfo terceiro. ?, 

que trazem Barras ? íi.õ: Aragaõ,Barrayola, Contreiras, França, 
Godinho^GuimaraéSjNobregas^PatalinSjPattOjRefoyos. 

Eícaques he hum efeudo pintadoxom as cafas dotaboleiro 
doXadreSjOuem parte,ou em*todo. 

As que trazem Efc3ques,faõ: Aboins,Alcaforado,A|tro,Are- 
as,Avinhal,Barban-ça,Barbuda,Bermudes,Buzios,CotrimDan- 
te^fpindolajFafes.FoIgueiro^uzciro, Gamas, Godins, Maga- 
IfaaeSiMaracote^egreiros^egros^aviajPeixoto, Porto car- 

jeiro ) Pretto < Quadios,Raporos ) Sá,Sandes,Severim,SoutoMa- 
ior,Toledo,Velafques,Vtre,Xarce de Valença. 



;-. u 






Da origem das Cruzes fioreteadas, Cruzes da 
Cru{ada,ér* de S.lorge, que fe trazem 

noseícr J - 




■ 
S. 6. 






1 ■' 

DEpois da entrada dos Árabes em Heípanha, fè começou 
a ufar das inÍTgoias nos eícudos mais ordinariamente em 
tempodonoíTo primeiro Rey Dom Afoníb Henriques,& deíeu 
primo elRey Dom Afoníb VII. de Caftella ,como o moftr^ Mor*kt 
dodtamenteo Chronifta Ambrofiode Mcrales,& o Arcebifpp '^ h ^ m 
Dom António Agoftinho -> &porií!o íe pôde dar com razaõ ^flSDtai. 
principio às de Portugal desdo tempo delRey Dom Afoníb i> d * sme - 
Henriques para cjua.E íendo certo , que em Caitella , & em ou- pJ 0Cm 
trás partes de Hefpanha fe tomarão as Cruzes, Afpas, Luas, fy. 
Eftrellas pelas occafioés da guerra , que naquellas Províncias 
ouve com os Mouros, podemos ter por conjectura provável, Ôc 
quafi certa,que nas que íe offereceraõ nefte Reino femelhantes, 
fe deu principio ás que quâ íè trazem. 

O primeiro, que pintou Cruz nos eícudos , foi o Emperador 
Conftantino,o qual depois, que lhe appareceo efte divino final 
no Ceo,o mandou pintar nas bandeiras,& dahi nos eícudos . E 
porque os Capitães antigos eraõ muito pios , traziaõ os mais 
delles ordinariamente Cruzes por diviías. Difto temos em He£ 
panha aííás de exemplos^porque a primeira infignia, que tive- 

rao 



Notícias de Têrtugah 

< raõ os Reys de Àragaõ,foia Cruz,&^es primeiros Reys de Le- 
aõ , que íuccederaõ a elRey Dom Afonío o Cafto /a trouxerao 
também por armas ; & do meíipo modo o Gonde Dom Henri- 
que, cjue trouxe huã Cruz cham . Daqui tiveraõ origem as ar- 
mas de Portugal , porque trazendo a mefma Cruz íèu filho D. 
Afonfo, depois que ganhou a batalha do Carnpo de Ourique, 
em memoriadas finquo Chagas,com queNoffo Senhor lhe ap* 
pareceo Crucificado, partio a Cruz em finquo eletídós ', pondo 
dentro dequada hum trinta círculos , que denotaõ os dinhei- 
ros,porque Chrifto Noflb Senhor foi vendido. Alem difto para 
ficar lembrança da grande vitoria , que alcançara dos Mouros, 
atraveflbu quatro cordoes noefeudo , dous em Cruz de meio 
a meio ; & dous em aípa de canto a cauto, fazendo de outro 
cercadura , & por todos elles pendurou muitos eícudos ; pofto 
que quatro,que ficaõ dentro no efeudo, & o do chefe da borda- 
dura , íaõ notavelmente maiores , & feitos a modo de adargas^ 
«ftes parecem dos finquo Reys , que alli foraõ vencidos ;8c os 
mais leriaò de outras pefloas principais , ou dos queelReypor 
lua maõ alcançafle.Efta me parece a origem , que tem eftes ef- 
cudinhos l & cordoes delRey Dom Afonfo,osquaisíèvem neíta 
forma^íli nafua fepultura em Santa Cruz de Coimbra , como 
cm todos os íèus privilégios, depois da batalha, dos quais eítaõ 
algus no Cartório do Cabido de Évora. Porem Dom Sancho I. 
defpejou logo o eícuáo deftes efcudetes,como parece entre ou- 
tros exemplos pelos cunhos dos (eus maravidis 5 hum dos quais 
tenho de ouro do tamanho de hum toftaõ , no qual elle eftà ek 
culpido de huã parte armado a cavallo com efpada na maõ, & 
da outra os finquo efeudos em Cruz, que nós chamamos Qui- 
cas, & dentro em quada hum finquo dinheiros naõ mais. 

Hà com tudo nas mefmas Cruzes , qtíe fe trazem por mais, 
varias differençasjporquehuãsíàõ chãs,como asdeS,Iorge,ou- 
tras florete adas,co mo as de Avis,outras com as pontas quadra- 
das,comoas da Cruzada ,& finalmente outras feitas em aípa. 
tcêiHm, ^ s armas <jo Morimundo Convento Ciftercieníe, eraõ huã 
liiy.r.e. Cruz floreteada^quero dizer,era huã Ciuz,cujosbraços,& ha- 
ftea rematavaõem flores delis . E porque Cala ti ava foi de fua 
jurdiçaõjficou àfua ordem huã Cruz femílhante por armas • & 

depo- 



depois a Alcântara, 8c a Avis,ppríèremOrdêsMilitares>quelhe 
eftiveraõfcjeitas. íóqõfii 

Mas km embargo difto dizem muitos authores ,qqe asCru* 
zesfloretéadas,queíe trazem, nas armas em Heípanha , ti verão 
principio da batalha das NavasdeToloía, porhuã íemelhan* 
te,que appareceo no Ceo o dia da peieja,como diz largamente 
GonçalIç*Argóte: &pofto queelle rnoílra ifto mais própria- -ftff** 
mente dos Caftelhanos, & Navarros , como íeja certo, que de de Andai. 
Portugaf mandou eIRey Dom Afonfo II. grande focorro ael- '-M-4&* 
Rey íeu primo DomAfonfo JX.de Caftella, confia que muitos 
fidalgos Portugueies,íe achai aonella, aííi por acudirem ao ur- 
gente perigo, cjue toda Heípanha corria pelo grande poder dos 
JVÍouioSjque contra os Chriftaosvinha,como por moítraremo 
valor de íuas peífoas,para o cjue fahiaõ da pátria a bufcar feme- 
lhantes imprefas,quando quàavia paz,& particularrr éte a Ca- 
ííella,como o teítifica o Conde Dom Pedro, dizendo, cjuando ^"j< D - 
trata da tomada de Sevilha: Em a qttel temfo es. fidalgo* Poreuguefes 
hão a CaflelU muitas nje^es porfie pm arem pelos corpos, quando em Ter* 
tugal mefieres nao a^ia s &c.Dcães foi hum o Conde Dom Rodrigo ^ ott 
Fioyas Pere.ira;& aííi tomou por armas eíía Cruz; & o mefmo-*^/<p. 
íê pode entender dos Al madas, Albergarias , Farinhas , que tra- 
zem eftas armas, que provavelmente íè deviaõ lá achar , flore- 
cendo entaõ neftas fcmilias Cavalleircs de muito nome , cemo 
em íuas linhagês fe refere ; & o meímo íê pôde dizer das outras^ 
que há no -.Rei no. 

As Cruzes da Cruzada tomavaõpor inílgnias os que hiaõ í 
conquifta da Terra Santa , & faõ como as de Chrifto ; como fe 
vé nos Cavalleiros Gaitanes de Caílella,& quà as trazem os Pi- 
menteis , & Teixeiras. 

Outras Cruzes há, como as de S. Iorge , que tomaõ os efeu- HM.doi 
dosde alto a baixo, &deilharga a ilharga. Eftas íè introduzi- Coa ^ de 
raõpor devaçaõ do Santo,por fer advogado da Milicia, 8c par- J?p e *'J e 
ticularmente o invocavaõ os Ingleíès , 8c Portuguefes nas pele- <D, a go 
jas. As que hà em Portugal deita forma, parece íè deviaõ tomar l ' 2 * c -7- 
na batalha, que fe deu em Alcacere do Sal aos quatro Reys chron ^ 
Mouros,que o vinhaõ defeercar ,* porque antes da peleja viraõ K<y d. 
os noííos no Ceo hu homem mui refplandecente com huá Cruz A íh Ct ?i 

I verme. 



prefentes k acharão , tomarão por infignia eftc diviàó final na 

As ramilus,què trazem 'C rtòBefc &mtéàá&$foB:&\út<£aè y &fc 
bergária.Leaõ, Meira, Mcií^f MorciAsÇ#Cftòa^Siar«-*t 







frrfcentèís/Teixeirâ. [<*9Q*d\ ) zpb cn 

As 







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-Jtfilx. A S Crtòésem Arpa ffi trazem nás átóàspdr ! tíeVaçaõ de 
?'7V ? XX ^ anto Aridre ; còmo moftra Atgôfcè fia conqifrftà de Bà&- 
ça^uàl fcidàdé tòrríou no dia defié Satííò Apòftofo ò Conde 
Dom Lopo Dias de Haro com joo.Ca^álltrir^s , ^oèforáõáò 
Tòcrorrddo Caftèllo,que os Mouros tíriríãó cercado, & em me- 
jííoHado favor,que de Sahttf André rèfcfebfèraõ néftâ tam gran- 
de vitôria,pintarao todos asHÍpas nos éíétràòs,a}em dás divifè*, 
m ár manque quadà irum jâirázia. Os Nàvàrros daô efta méf- 
ma origem ás Afpas , que muitas famílias daduèlle Reino tra- 
èem , pòfto que nao cohfte porhiftorrâs -, queelles feachaflem 
lieílb feito .Pelo que com ¥$t$S pòderrío%%ntehdet ] que as AF- 
pas,qáèTtiuitós fidalgos defte fcèmò tracem p8F8f ftfeí \ fe ttí- 
anaraõ por outro femelhante cafo , que úconteceo na tomada 
de Béja,a qual foi recuperada pelos Cftíiflíàõs vefpora de Santo 
Ancfrècorn notável bsfbrço,por fer eftè hum dos maiores Itíglr- 
res, & mais fortes da Luíitania. 

As famílias que trazem Afpas,faò: Araujos 3 AzeVbdos,Pelip- 
pes,Gago/Gúariço$,&: Miranda, Palameqtte, Orofcos ; Rochas. 
A. Arpa dos Miranda^ pode fer pela ráz;àííj a 'ditáVfenâÕheem 
teèrhoria do feufojà- de Miranda , qtfe feftà ern AteiásJuntoa 
S^ntÒAtóre. 



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Difcnrfo terceiro^ $9 

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Vieiras* 

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%Q 

COnta Dom Mauro Ferrer na vida dó Apoftolo Santiago, 
cjue trazendo os diícipulos do Santo feu Apoftolico Cor- p^jfj? 
po em hum navio,quando hia para Galliza , íe eííavaõ fazendo a.&K 
capraya huãs grandes feitas pela celebração do caíãmento de W* l h 
hum principal íènhor da terra de Maya , & que o cavallo , em 
que andava,íè metteo pelo mar^te chegarão navio , deixando 
fuípeníbs a quantos o viaõ , & muito mais o Cavalleiro , por fè 
achar todo cuberto de Vieiras aíy,& ao ca vállo,-& dizendo aos 
diícipulos o que lhe tinha acontecido ,elleslhadeclararaõ , que 
com aquelle milagre quiíera NoíTo Senhor honrar o Corpo 
do feu Apoftolo,& depois de o baâféizaré/oou bua voz do Ceo, 
que diflTe como aquellas Vieiras^fiíõ de fer a infignia doSantor 
ôc tornando o Cavalleiro a terra com tam grande milagre , foi 
occafiaõda converfaõ de todos . O qual cafo alem de fe conrar 
no Santoral de Alcobaça/e confirma pelos veríbs de hú Hym- 
no,que canta a Igreja de Oviedo a z j.de Iulho, que diz affi; 

CmBis maré cernentihus^ 

Sed aprofundo duatur, 

Narus Ttegis fubmergitur, 

Totusplenus conchúibus* 
Diz o Author , que daqui vem muitas famílias nobres de Hef- 
panha , trazerem por ene cafo Vieiras nas armas. 

Por razaõ defte principio os Cavalleiros da Efpada , que fe 
dedicarão a Santiago, logo depois da gram vitoria de Clavijo, 
trouxeraõ nas bandeiras por fua devsçaõ as Vieiras,& ornarão 
cõ ellas os templos,q ao Santo dedicaraõ.Pelo q como efte glo- 
riofo Patrão deHefpanha foífe o principal advogado dosíblda- 
dos,por devaçaõ fua tomarão muitos efta infignia. E aflí tenho 
por mui provavel,q as Vieiras,q íè trazé e Portugal,fe tomarão 
da batalha do Campo de Ourique , per fe alcançar efta vitoria 
vefpora deSantiago,q por fer em tal dia, aderaõos noflos com 

I % certa 



io& ItSoticitis âe FortHgftl. 

certa confiança de vencimento,&vendo que elRey tomava ar- 
mas novas por memoria defte feito, faria quada hum o mefrao. 
As famílias, que trazem as Vieiras nos efcudos ,faõ os Barbo- 
íbSjBarrofos^Barradas^alças.Calvos^alheiroSjCamellos^à- 
rizes^imenteiSíRochas^eraiva^queira^VelhoSjVieyras.Pela 
mefmadevaçaõ de Santiago tomarão os Falcões os Bordões, 
que çoftumaõ trazer os peregrinos do mefino Santo, 






$• 9* 



Bõtir.Xtl. A S meias loas íâõ infignias próprias dos Mahometanos, 
*»M /.x ^n^ como moftra loaõ Bolero , & o Padre Frey Marcos de 
dl'otaZ- Guadalajara na íua Expulfaõ dos Mourifcos, onde dà largamei> 
itiarac. teasjazuéSjque para iflb teça,^ afli as trouxeraõ íempre: por 
12 ' finajs cm íuas bandeiras todfl%§$ Príncipes daquella Seita,como 
'jirtêtt /.i ^ C notorio,& fe vè de Argòte. Pelo que os Cavalleiros , que nas 
*.44.tf* batalhas tomavaõ alguas bandeiras aos Mouros , pí&tavaõ nos 
74? efcudos para memoria,& tropheo as mefmas meias luas, como 
fe vè em muitas famílias de Caftella . Nefte Reino íe tomarão 
muitas nas batalhas com os Mouros ,& principalmente na de 
Sevilha.Exemplo íèja Gonçallo Mendez de Soufa.que acompa- 
nhou ao Infante Dom Sancho, quando foi fobre Sevilha , & na 
batalha de Guadalquibir, tomou aos Mouros quatro bandeiras; 
MM . *«• 8c porque quada huã delias tinha huã meia lua , tomou por ar- 
mjdfâin* ^^ no e f cuc Jo huã quaderna feita das quatro meias luas , 8c as 
Tr*t.i*c. bandeiras mandou ao morteiro de Pombeiro, onde ainda hoje 
8 ^2. fe confèrvaõ. 

Deíèmelhantes caíòs podemos dizer tiveraõ origem as me- 
ias luas,que trazem nos efcudos as famílias nobres defte Reino, 
que íâõ Alardos , Alpoem, Amaral, BeíTa, Caffena, Carvalho, 
Froes,Goes,Homem, Lemos, Peflbas, Pintos, Queirós, Soufa, 
Taborda, Valentes^Zagallos. 

* 



Diftwvfo terceiro; 
BSfrtlfas." 



101 






AMefma occafiaõ tiveraõ as Eftrellas ; porque ordinaria- 
mente uíaõ os Mouros , alem das luas de finquo Eftrellas 
nas bandeiras, por denotação dos finquo Planetas, que tem 
EftrelIas,aquechamaõ:Errantes,comoíèvènas armas do Mir 
ramolim Rey de Córdova, Granada,& Baeíía,que traz Argóte. f H r ^ e c "' 
Exemplo íeja difto Memmonis , que acompanhou ao Infante ta%. 
Dom Sancho,quando foi na batalha de Sevlha, do qual k con- 
ta na Chronica dei Rey Dom Afonfo Henriques , & o refere 
Duarte Nunes na mefraa, foi. ji. verf. que efte fidalgo tomou a 
bãdeira delRey de Sevilhana qual tinha pintado finquo Eftrel- 
las,como refere Gonçallo Argòte de Molinalib, i . c . 44 . da 
nobreza de Andaluzia , & aífi tomou por armas as mefrr^as fin^ 
quo Eftrellas . Por íemelhante occafiaõ trazem os Fonfecas ou» 
trás finquo Eftrellas por armas, por as trazer nas bandeiras 
elRey de Lamego , a quem os primeiros defta geração cativa* 
raõ,& tomarão a cidade . E dahi as tomarão também os Cou- 
tinhos^que delles deícendem . As famílias , que as trazem , faÕ 
Alvellos, Avelares, Barbedos, Barbudos, C,acoto, Coutinhos,. 
Freytas, Macedo, Pereíírellos , Rojas , Salazares, Tavares, 
Leais. 



■ 1 



Arruelas. 

§. it. 

A Rruelasfaõ círculos redondos , que muitos tem "para fi 
fignificarem efcudosjpor quanto foi cofturce entre os 
antigos tomarem por final do inimigo vencido o efcudo,ou el- jrgót. n<? 
mo.Poré Gonçallo Argóte de Molina no liv. 1. daNabrezade^M^' - 
Andaluzia cap.xoj. diz que elRey Artus de Inglaterra ; quando lQ . * * 

• I 3 infti- 



toa Noticias de Portugal. 

inftituio os Cavalleiros da Tabula redonda , que he o mefmo, 
que meia redonda,deu por armas a lanazio o Forte(que era hu 
dos mais valer ofos)treze Arruelas,fignificando na figurada Ar- 
ruela a mefa redonda, & o numero de treze {êrem outros tantos 
os Cavalleiros; porque doze Fòrafrfcfcolhidos à honra dos doze 
ApoftoloSj& o decimo tercio era o mefmo Rey Artur . Depois 
o Emperador Cario Magno fez outra companhia de doze Ca- 
^fmip. valleiros,a que chamou Pares,que quer dizer iguais ; & por iíío 
+§ i. também comiaõ em meia redonda,onde naõ hà cabeceira.Pe- 
lo que muitos fidalgos,ou por deícenderem deites Cavalleiros, 
ou por íè moftrarem femelhantes a elles no valor , & mereci- 
mento , tomarão por armas as mefmas Arruelas , variando no 
numero ; mas de ordinário eraõ lèis^porque parece,que ulando 
do vocabulo,?^r,que naõ fomente ílgnifica igual,m as também 
douSjíèndoas Arruelas de pares,as íeis montavaõ por doze. Da- 
qui parece>que tiveraõ principio as treze Arruelas,& as íeis dos 
Caftros , & as íeis Arruelas dos Mellos , & Almeidas , as ^uais 
cftaõ mettidas entre duas Cruzes dobradas^que tambemdeno- 
tam o mefmo nome de Tar. As famílias, que trazem Arruelas, 
faõ Almeidas^aftroSjDoutis^FerraSjGouveacom Cruzdobra- 
da,Mellos,Taveira,Teives. 

T lotes de lis. 

5. 12. 

mnM A Origem dos lírios nosefeudos , parece que fe tomou do 

ftê»s*. jT^ fucceíTo delRey de França Clodoveo, o qual antes que 

fe bautiza(Te,dizem que trazia no eícudo hus íapos,depois que k 

bautizou , lhe appareceo hum Anjo com hus lírios de açucena 

, na maõ,a que os Franceíes chamaõ Flor de lis - y Sc lhe mandou, 

<jue tirados os fapos, poíelTem por iníígnias aquellas flores . Sao 

os lírios hieroglyphicos da perfeição da pureza , & da efperan- 

TitrMU* Ça do bem publico, como moftra largamente Pierio Valeria- 

deííl 5 ' n ° n ° S ^ eUS Hiero g l yphicos,& por fer a mais fermofa flor de to- 

das^e NoíTo Senhor nos Cantares comparado a ella.E no Eva- 

gelho 



Difíurfo terceiro, ioj 

gelho difTe Chrifto,que nem Salamaõ em toda ííia gloria íè ve- 
ítiratam ricamente, que chtgaííe à belleza de hum lirio . Por 
eftas razoes tomarão muitos Cavalleiros as flores de lis por ar* 
mas , & as deixarão a feus deícendentes , como foraõ os Albu- 
querques,os Gouveas , Ac. Os de Faria tracem as flores de lis 
fobreoCaftello /porquanto em cima do monte , donde o Ca- 
ftello de Faria eftá , permanece ainda hoje huã Igreja antiga de 
grande devaçaõ, & romagem, que chamaõ NoflaSenhora da 
Franqueira,a qual fundarão alii hús monges Bentos , que foraõ 
osprimeirós,que de França vieraõ a Portugal; & alli tiveraõ hu 
celebre mofteiro,& por krem eftes Monges Francos, & deFran- 
çapo/êráõ nas armas flores de lis Franceías. Os de Miranda 
também trazem Flores de lis Franceíàs no vaõ da Aípa, a ra- 
zão he,porque fe prezaõ de virem de huã Senhora da càfa de 
França , cuja figura trazem por timbre do Brazáõ numa ima- 
gem de Donzella , 8c em íuà memoria poíeraõ também os liíès 
Franceíes no efcudo. 

As mais familias,que trazem flores de lis, faõ: Aldana, Atou- 
guia, Borges, Carrilhos, Cafal, Frafoes, Guedes, Leytes,Toro« 
nhas,Madureira,MaIdonado, Marinhos,Martines,Matta, Mot- 
tas,Moitinhos,Pavias,Rangeis,Reymondo,Rodrigues,Soaresde 
Toledo, TravaçoSjVarejola. 

- 

Caffellos. 

i ■ 

OS Caftellos faõ antigas diviíàs das meímas terras , como 
fe pode ver largamente na noticia dos Impérios. Pelo 
que os mais dos Alcaides,& Senhores , que os tiveraõ por fola- 
res, ou os tinhaõ a feu cargo ,os tomarão por armas. As famílias, 
que os trazem em Portugal, faõ Alcacevas, Afturias , Barrigas, 
Benambia, Berredos, Botos, Cameras, Carvalhofa, Caftilhos, 
Celemas,Correlhas,Cotifer,Coutos,Eíparragofa,Farias, Frias, 
Flores, Giroès, & hus Guzmaés com arminhos , por virem dos 
Duques de Bretanha , que os trazem por armas j ainda que ou- 

I 4 eros 



io4 Noticias de Portugal. 

tros trazem Caldeiras de Ricos homés.HortajLarzedoSjMala- 
faya, Menagem, Mouras, Pinas, Rolins, Saldanhas, Sobrinhos, 
TangerejTernatepVelleSjVelofos^Zufarte. 

Cifras dos Appllidosl 

/A ^ i n »gnias mais ordinárias de todas as armas de Heípa* 
Jt\. nha faõ a cifra do mefmo Appellido,como confeífa Ar- 
gòte de Molina I.1.C4.Z. & +3. aonde diz, que os ReysdeLeao 
tomarão por armas hum Leaõ,como cifra do titulo de feu Rei- 
no de Leaõjâc os de Caftella hum CaftelIo.Eaííi vemos em qua- 
fi todos,os Appellidos, que fignificaõ algum animal , ou inftru- 
mento os daquella linhagem tomarem por armas a meíma fi- 
gura do Appellido . Os qéie trazem em Portugal nos efcudos 
por armas as peças,que fignificaõ os Appellidos,por cifra,íaõ as 
feguintes.Os de Abreu,ouAvreu,os Cotos deaves;Alvernazes, 
ramos de Carapeto,alludindo ao verde perpetuo do Veraõ; os 
de Arco,o arcoj os de Agumias, gumisj os de Aguiar, aguiasj os 
Araqhas, hua aranha ; osde Azinhal, azinheira; os Azambujas, 
hum azambujeiro ; os Bacellares,hus baccllos verdes; os do Ap- 
pellido de Badajoz,a imagem de S.Ioaõ Bautiftacom a meíma 
cidade na maõ,que tomaraõ,por aSéde Badajoz fer do orago 
de S.Ioaõ Bautiita , & fer o Caftello da cidade ; Bayaõ, cabras 
por averem fido Senhores*de Cabris^os de Belliagua , as acuas- 
Bicudo derivado de ? pecudum,que he gado, hum carneiro^ Bií- 
caya,as armas de Biícaya ; Biveiros, Caldeiras de Ricos homés; 

BorrecOjborregosjBotilher^húas botelhasiBrandoés , brandões- 
os Cáceres , trazemhua palmeira , que he inficrnia de vitoria* 
porque ainda que a parte delRey Dom Pedro, que feguiraõ, ft- 
cou vencida,& elles foraõdefterrados de Caftella,ficaraÕ com 
a vitoria de íè na5 íbgeitarem à parte contraria^ confervando 
íua lealdade. Também íè trazem as folhas de Golfaõ, por final 
da vitoria do campo,onde íe deu a batalha,como íe vè nosFur- 
Udos^iontoyos,^ TaveiraSiCabraUabras^Caldeiras- Camõ- 
es 



Difcnrfo terceiro. 105 

és a íèrpente,que Cadmo matou,por (c prezarem de defcendè- 
rem deile;C,apatas,huãs çapatas; os Cardoiòs,cardos; os Car- 
neiros,carneiros;Carrafcos,hum carrafco;Carvalhais, hum car- 
va!hpjCarvoeiro,matta para carvaõjCarvalhos^çárvalho^Cer- 
veirasjçervas jChaejns jOs arminhos por antiphrafij Chaves, cha- 
vesjCirnes,hum cirne;Coelho,coelhos;Cordovil, oliveira cor- 
do vil; Cordeiros, cordeiros; Gorvachos, corvos ; Cofta, coftas 5 
Correa,correas; Cotas, huã cota de armas; Couros , a íerpe aífi 
chamada;Cugominhos,Chaves, por terem por folar efta villa, 
& averem fido feus Alcaides mores ; Cunha,cunhas ,• os Delga- 
dos,hum limoeiro com hús limões de ouro, alludindo â celebre 
Albergaria de Payo Delgado , que fundarão em Lisboa no fi- 
tiodo Limoeyro -, Dragos, dragos ; Evangelhos, as figuras dos 
quatro Evangeliftas ; Fagundes pelo folar de Chaves , trazem 
chaves;Farinha,bolos de farinha;Fialhos,tres mundos, alludin- 
do à palavra://*/ /^Figueira,huãs figueiras^ Figueiredo, folhas 
de figueira; Fogaças, duas fogaças - y Fragofos , que em latim fe 
chamaõ; Fulgofos^ três Soes relplandecentes; Galvão, hum gavi- 
ão; Gaviaõ,hus gavioês^Garcés, garça; Gatachos, & Gatos, hus 
gatos,os Guantes trazem manoplas (que faõ guantes) de prata- 
Lagartos,! agartos;Lagos,huã torre com huã ribeira ao pèjLan- 
çcês, lançoês:Laras,caldeiras de Ricos homês : óc do mefrno 
modo os Manriques.Lobatos,lobos:Lobura, lobos: Lobia,cor- 
deiros,por íèr a relê dos lobos: Lobos,lpbos: Loufadas, as louíãs 
dos lagartos: Lucenas trazem hum Sol, alludindo ao nome da 
luz,da qual he o Sol a fonte: Lucio,o peixe lúcio: LunaSjhuãs lu- 
aSjMachadoSjmachados.MattoSjmattacõ leoês; Morais, a/no- 
jeira; Monceiros,cornetas de montaria: Nabais, & Novais, no* 
vellos.OHveiras,oliveira:os deOrtis trazem hum Sol,pela equi* 
vocação dc:Oríus 9 quc por antonomafia, quer dizer o nafeimen- 
to do Sol,& pela aíluíãõ do veríò do Píalmo: Ortus eji foi: Pache- 

cos,caldeiras de Ricos homés:PadiIhas,huãspàs,Paçanhas,huã 
banda vermelha com dentes deíerra pelo feu folar em Génova 
íè chamar Penha, ou Serra roxa , que em noífa linguagem he 
vermelha.os Pedrofos,finc]uo pedras em afpa; Perdigão, perdi- 
goés:Pereftrellos,eftrellas: Pinheiros, pinheiros; os Porras, huãs 
cachaporras: os Puges, huãs eípóras quafi pungentes , ou pican- 
tes; 



W Notkitts de TortPigítL 

tesiRegOjrego.-Ribafria^aftello (obre ribeira; Ribeiros, ondas, 
SardinhaSíhum ribeiro de íàrdinhas: Rio, & Rios,faxas de agua; 
Sarmento,hus farmentos:Seixos,Pombas fcixasrSeiniches.huãs 
ferras: Serpas,Serpe:os Sylvas , aíylva: Távora, o rte> Távora: 
Torquemadas, huã torre abrazada: Tourinhos, touros: Sodres, 
yun/t/oírij , & temperados,tres gomis;Trigueiros,ef pigas; VaP- 
conccllos,as ondas dos nbeiros^or defcenderem delles : Segu* 
radoSjfinquo machadiohas,cjueos latinos dizem SecumiTones^ 
. torres.os Correas da Sylva trazem huã pelle de Leáõ, álludin- 
do fer própria morada de Leaõ a fylvajCOriforme áquillo da Ef- 

ffitrim, cútmx.HtreJitas mea qi*afileoin/y()>a:õc <jue de pelles de JLeoés íao 

— as faas correas. 




j < 



cm. 



M 



Vitas familias tòmaraô as armas daquella cafa,êr Famí- 
lia donde tiveraõ íèu tronco, de que podem íer ex^rnplo 
&s quedefcendem dos Reys. 

Os de Souíà trazem as Quinas Reais , por cá/âr Dom £on- 
^allo de Soufa com Dona Hurraca Sanches , que era netta del- 
Rey Dom Afonío Henriquesj& aflí meímo o Leaõ, por deícen- 
derem de hum filho baftardo dei Rey Dom Fernando o Gran- 
de de Leaõ^que foi o primeiro de Cafteíla. 

Os Sylvas trazem o Leaõ por armas , por íèrem defcenden- 
tesdelRey Dom Afonfo de Leaõ , pay que foi de Dom Rodri- 
go Afonfo da Sylva , cuja may era Dona Aldonça Martins da 
Sylva,como refere oGonde Dom Pedro tit.j 8.§. t. das fuás li- 
ohagés. 

O mefmo Leaõ trazem também os Telles , por ferem def- 
cendentes de huã filha delRey Dom Ordonho de Leaõ. 

Os Limas trazem o meímo Leaõ , por íèrem defcendentes 
de huã irmã delRey Dom Afonfo Henriques , filha da Rainha 
Dona Thereía,& netta delRey Dom Afoníõ Vi. de Leaõ, & 
Caíleila, como íèrefere na 3.p.daMonar.Luíit,l.Q.cz3. 
""/ Pela 



Peíà nlèfoa eauf^tf arttias Reais, 

pordefcendbfemdehuíft ftlho baffardaáeÍR-ey D&m Dinis. 
*;■ Os de Èfík corno defcerMéntes delRey DoftPPédro de Pbr* 
ttígál tvaz:em às arma^ááítígás Reatscorti os-èò*doês , coroe as 
trtiuxeraõ òé primeiros Reys defte Reynó. • 

Aííí mefmo o^l^òriòhhas^Hé^ifkluès por : íe%efrfr defeèridetn 
féfde Dom Afoflf^hó-naturrfd^IRey Dotf& Hmríqut cíNo- 
bre Rey de Cáftêlla , & DonaBrWÉtíítlharíátu^aí deIRéf E>bm 
Fernand^cféPth-tugalvtrazem o efciKÍo quarteaídè das at<mâs dê" 
Portugal > & Caftelia. i; 

Õs Senhores dá ca£i de Bragarrça-ate a Duque Dom : Ge- 
mes^ os que delles deíccndem , que faõ os Duques de-ííada- 
val,os Condes de Vimioío,Cor^es de Odemira, &osd^Fâro, 
trazem asarmas de Portugal em âfpa> por defeeiídérem delRey 
Domloaõl. 

OsLadcâftres trazem as armáá de Portugal, por defcende- 
retndelRey Dorriloaõ II. 

Os MariõeiSjOtf de Vilhena , como deícendentes do Infante 
Dom Manoel , filho delkey Dom Fernando o Santo de Caftel- 
la trazem as armas s queo mefmo Infante tornou , que foraõ hu 
dcudò quafteado,rruma parte hum leaõ,qúé fignificà óbrazaõ 
dos Reys de Leaõ,& noutra hum braçocom 885? aíâ,& ría mao 
huãeípadá,qUe vem a fera maõdehim Anjo , alludindo a fua 
may,que età defcétldente de Ifacio Angelo Emperador de Gõ- 
fíantinopla 

OsLacerdasvemdo filho mais velho delRey Dom Afbnfo 
o Sábio de Caftella, & por iífotrazem as armas de Caífefíâ, St 
Leaõmifturàdas comas de FrariçaVque por fua mayMhe per- 
ténriaõ 

Os de Mendoça trazem o eícudo dividido em campo verde, 
& banda vermelha ? em quada parte hum S negro :o eícudo ver- 
de tómaraõdò Cid Riiy Dias> de quem muitos Authores affir- 
maõ,que os deita família faõ deícendentesjo qual como confta 
do Conde Dom Pedro , quando falte da batalha delRey Dom 
Garcià,& Dom Sancho fobre Santarém , refere que vendo cl- 
Rey de Caftella hum pendão verde jdiff^que tinha em fua aju- 
da o Cid.por ler mui conhecida eftadivífa por fãa ;■ fifc os S< Si 

r tra- 



1 0% Notícias de Portugal. 

trazem por fuzis de cadea, como defcendentes dos Furtado^ de 
Mendoça, que em Caftella trazem íobre o efcudo as cadeas, 
<jue, tomarão na rompi mento da batalha das Navas de Tolofa, 
Sc as folhas de golfaõ por outra grande vitoria, que alcançarão, 
tomando por armas eftas hervas do campo, como refere Argo- 
le de Molina 1. 2 .c. 1 1 o.da Nobreza de Andaluzia, 

Os Vafconcellos defcendem dos de Ribeira; os quais toma-; 
raõ por armas as ondas 3 alludindo à Ribeira . Ecomo os Vaf- 
conceilos (uccederaõ no Senhorio grande dos Ribeiros ,& feu, 
illuftre fansue,trouxeraõ também luas armas. 

Os de Alvarenga trazem as rrjiefmas, por ferem defcendentes 

dos Vaíconcelios. :ri 

Os Barbudos pela mefma razaõ. '' \ 

Os Barretos tomarão as armas dos Arminhos , por ferem 
deícendentes dos fenhores de Chacim , que foraõ fidalgos mui 
principais deite Reino^os quais por contrapofiçaõ do nome do 
íblar que tinhaõ de Chacim,que quer dizer porco, por denota- 
rem fua pureza em toda a matéria contra a immundiciado por-] 
co,ufaraõ de arminhos no eícudo,que faõ os anirnais, de quem 
faz mençaõ Plinio 1.8cap. 37. que faõ brancos como neve ; & 
delles fe diz , que eftimaõ tanto a brancura de feu pello , que ih 
lhe cercão o lugar,onde fe recolhem,delodo,ou coufa,com que 
lê poflaõ manchar , íè deixaõ antes prender do caçador , que fi- 
carem çujos:Donde naíceo a celebre emprefa : Maio mori^uám 
fadarv. Tomarão os Barretos eftas armas dos Chacins , por dei- 
cenderem de Nuno Martins de Chacim, & de Dona Maria Ro- 
drigues Chacim fua filha, com quem caiou Martim Fernandes 
de Barreto,como condado Conde Dom Pedro tit.39. J.ult.Os 
Arminhos dos Caftanhedas,Botetos,Gayos, &Goyos procede 
da mefma dcfcéndencia. 

OsFonfecas trazem por timbre hum bezerro , por detcen- 
derem dos Bezerras de Caftella , como confta do Conde Dom 
Pedrotit.d6.§,2. 

Os Peixotos trazem por timbre hum corvo pordeícende- 
rcm de Mem Corvo Alcaide mor de Lanhoío , fidalgo mui co- 
nhecido nos tempos antigos • por quanto íoaõ Vaz Peixoto ca- 
iou com D.Guiomar Armes netta de Mem Corvo., 



■■ 



Os 



JDifcurfç terceiro. i © % 

Os Reíèndes trazem duas cabras por armas , por defcende- 
rem dos Senhores de Cabris. 

Os Palhas trazem as armas dos Almeidas, por defcenderern 
delles. . 

Armas tomadas forcafos particulares. 

S. ií. 



Ertenderaõos Emperadores de Alemanha , que todos os 
Reysde Europa fe reconhecefíem por feus vaíTallos : 6c 



t 22. 



• 



P . 

avendo em Roma hum Cavalleiro Alémaõ,que pelas armas de- 
fendia efte Dereito,íêgundo o Conde Dom Pedro conta, Dom c p on / e ; 
Sueiro Mendez da Maya o Bom entrou com efte Alemão em ^ et \L 
deíafio,& vencendoo libertou oDereito de Heípanha do feudo, Ramiro^ 
que pertendia olmperio . E dizem os de Amaya íèus deícen- 
dentes , que por efte caio tomara Dom Sueiro por arrr/as a 
Águia negra do Império , que era a que o Cavalleiro Alemão 
defendia. 

Conta o Conde Dom Pedro no tit.64. em que falia na famí- 
lia dos Valles,qúe Martim do Valle, chamado da Efpada 3 fer- 
vindo a certo Conde,outroCondeíèu inimigo o matou;&Mar - 
tim do Valle tomando a eípada do Conde feu amo , lidou com 
o matador,& o matou,donde dizem feus deícendentes,que tra- 
zem por armas as três eípadas , quéíaõ a íua , a do Conde íèu 
arao,& a que tomou ao Conde,a quem elk venceo y Sc por ilTò 
foi chamado o da Eípada. 

Osdo Appellido Corte Real trazem fobre as armas dos 
Coitas huã Cruz branca , que dizem ganhara Vafque Annes, 
Corte Real a hum Cavalleiro 3 que viera pedir defafio à Corte 
delRey Dom Duarte; & porque o venceo com grande valor, di- 
zem que diíTe elRey,que a íua Corte era Real, quando Vafque 
Annes eíiava nella^ daqui tomou elle o Appellido , & o açret 
centamento da Cruz nas armas! 

Quando elRey Dom Afonfo V.paífou a Africa a tomar Ar- 
zilla, o acompanharão íinquo Irmãos da familia dos Pi- 

K menteis 



íi o Noticias de Portugal. 

menteis naturais 3e Villa Real • & como fendo entrada a cidâ- 
de,os Mouros íe fizeífem fortes na Mefquita,donde faziaõ gra- 
de refiftencia/em poderem fer entrados : eftes irmãos , tirando 
os cintos,& atados liús nos outros, os lançarão a huã ameya, & 
fobindo por elles acima , levantarão huã bandeira , & por alli 
foi entrada a Mefquita,& mortos os Mouros. Por efte feito tam 
honrado,lhe deu elRey Dom Afonfo V. por armas em campo 
de ouro finquo cintos vermelhos com fivellas de prata, & ta- 
chões^ huã bordadura azul com fete flores de lis,por I imbre 
hum meio Mouro com huã azagaya na maõ, & hua bãdeira de 
prata,& por Appellido o mefmo nome de Melq uít". 

Eftando o noíío exercito fobre Tangere , veio hum Moura 
â fazer grandes algazares , & pedir defaíío , ao qual fahio 
logo Gabriel Gonçalves Tirrmdo, & correndo com a lança, 
o derrubou do cavallo a baixo , & lhe cortou a cabeça , 8c ap- 
preíèntandofe com ella diante delRey Dom Afonfo,lhedeu ern 
memoria por armas huã Águia de duas cabeças , com huã ca- 
beça dé Mouro aos pès , 8c cercado o efeudo com hum cordão 
de S. Franciíco -pdt aver acontecido em feu dia eíle vaierofo 
fucceíTo. 

Gonçallo Pirez Bandeira jiâo sò íê ouve na batalha doTou- 
UJ04Õ2. ro com grande valor, mas vendo, que hum Cavalleiro Cafte- 
MDuartc lhano levavaprefa a bandeira Real de Portugal , inveftio com 
2****- elle,& lha 1 tomou das maõs,5c a libertou 5 8c por efte fiito infig- 
iieelRey Domloao II. lhe d,eu por armas huã bandeira branca 
com hum Leaõ nella de prata , denotando na bandeira a Real, 
que libfertara,& no Leaõ o valor, & esfórço,que neíte caio mo- 
ftrara.E affi lhe deu também o Appellido de Bandeira, co que 
hoje fèus delceridentes fe nomeaõ. 
Decai. i. Femaõ Gomes natural de Lisboa, íê obrigou a elRey Dom 
d» Bar™*, Afonfo V. a contiritfâr o deícobrimento da Coita de Africa ; q 
?**•?«*• tinha começado o Infante Dom Henrique . E porque comprio 
cfte intento com grande diligencia, 8c defcobrio a Mina, donde 
veiatantacopiãdeouro a Portugal, lhedeu elRey Dom Ioaõ 
II.o Appellido de Mina, 8c por armas hum efeudo em cam- 
po de prata, & ríelle três meios Ethyopesde pretto dos bra- 
ços para cima em ròquete, com collares de ouro ao pefcoço, 



Difcurfo terceiro. 1 1 1 

arrecadas nas orelhas, & nos narizes. 

Diogo Caõ Capitão de valor indo por mandado delRey D, ©'**«£ *r 
Ioaõ íl.deícobrir a Coita de Ethyopia , foi o primeiro, que deu ' Jé 
noticia do rio Zaire,em cuja boca pos hum padraõ; por razaõ 
do qual íe chamou também Rio do Padraõ , & foi o primeiro 
que defcobrio o Reino de Congo, Sc deu noticia de noíla Santa 
Fè àquelle Rey. Em memoria deite feito lhe deu elRey por ar» 
roas duas colunas ,. ou padrões de prata com duas Cruzes em 
cima pelas que pos neíte deícobti mento, em que chegou ate o 
Cabo de Boa Efperança. 

Depois que o grande Vafco da Gama veiododeícobrimen- ^c.t,de 
to da índia entre outras mercês , que elRey Dom Manoel lhe c *£' * 4 * 
fez em remuneração de tam* heróico feito", foi hua, que elle 
podeífe trazer no meio de íuas armas as Quinas Reais de Por- 
tugal jporque aífi como com eíle defcobrimento íè acreícenta- 
va o Reino de Portugal por aquclla parte do mundo de Afia, 
aílí era razaõ , que quem abrira caminho a eíte novo íe-» 
nhorio de Portugal , participaííe das Reais infignias dei- : r 
le. 

Vafco Fernandes Cefar andando guardando o Eftreíto Cp rh-w.âel 
huãcaravella^lhe fahiraõfeis galeòtas de Mouros , que aparta- ^gJT 
dasemduasalasoinveítiraÕ, porem elle com incrível valoras 4.C.58. 
venceo todas. Pelo que elRey Dom Ioaõ lhe^mandou acreí- 
centar aoeícudo de íuas armas as féis galeòtas, & a fuacom que 
elle venceo por Timbre do efeudo. 

Em huiníòcorro,queeiRey Dom Manoel mandou a Arzilla 
foi Chriítovaõ Leitaõ por Capitão de Infanteria , onde por íeti 
esforço , & induítria defendeo hua torre , que quaíi os Mouros 
tinhaõ entrada. Pelo que elRey Dom Manoel lhe concedeo , q 
fobreas armas dos Leitões poíeffea torre de Arzilla encravada 
de fettasem campo jyermelho,& noutro quarto duas bombar- 
das,que tomara aos Mouros. 

♦ Nicolao Coelho foi hum fidalgo de grande valor , a quem Tee u dê 
elRey Dom Manoel deu a Capitania dum navio,para ir em cÕ> Burv ° - 
panhia do Grande Vafco da Gama a de/cobrir a índia , no que 
eile fe ouve cõ grande esforço, & prudência; & quando voltou, 
chegou primeiro a Cafcais ; q Vafco da Gama. E por elle foube 

K z elRey 



44 % fflúticitts de Portugal. 

elRey todoofuccedidonaquelledefcobiimento. Pelo qae en- 
tre outras mérces,queelRey Dom Manoel lhe feZjlhedeu por 
armas em campo vermelho hum Leaõ rompente entre duas 
colunas de prata, que eftaõ fobre hus montes verdes , ôc em ci- 
ma de quadahuã,hum eícudo com finquo dinheiros, & ao pé o 
marino que fignificou os padrões } q deixou poftos no novo def- 
cobrimento do mar , Sc terra do Oriente ,• & no Leaõ o valor, 
com que nefte heróico feito íè ouve. 
mn .44 Levantandoíè o Rey de Barem contra elRey de 0rmus,cu- 
Í^^Çjo tributário era,foi mandado António Corrêa por Capitão da 
e.^lc\6o noíía gente,para quereduziíTeo Mouro à obediência delRey 
de Ormus . António Gorrea íè ouve neltaimpreza com tanto 
valor,que tendo oRey de Barem muita mais gente,elle o desba- 
ratou, 8c matou, & fenhoreandoíè da Ilha, a reftituio à èlRey de 
OrmikPor efte heróico feito lhe deu elRey o Appellido de Ba- 
rem, & lhe acreícentou nas armas hua cabeça de hú Rey Mou- 
ro coroada,cortada em vermelho com a Coroa de ouro, 
O mtfma Duarte Coelho foi hum fidalgo de grande esforço na índia, 
pr*xú. & hum dos primeiros noíTos Capitães, que chegou â China. 
Pelo que cl Rey Dom Ioaõ III . lhe deu a Capitania de Pernam- 
buco para a povoar^ pacificar; o que elle fez com grande va- 
lor, 8c trabalho, 8c com tanto fruito, que ficou íendo Pernam- 
buco a mais rici,& populoía Capitania doBrafilj. E áííi elRey 
Dom Ioaõ III. nevannode 15-36*. entre outras mercês , que lhe 
fez , lhe deu novas armas, que foraõ em campo de ouro hua 
Cruz cham affirmada em hum pé de verde f , & 4ium LeaÕ de 
purpura paíTante,& hum chefe de prata com íínquo efti cilas de 
ouro,& hua bordadura de azul com finquo caftellosde prata., 
* A Cruz denota íêu folar , 8c fenhorio de Pernabuco na terra de 

Santa Cruz,que efte nome lhe deu íèu defcobridor; 8c as finquo 
eftrellas fígnificaõ o Cruzeiro do Polo Aatartico , por o BraíU 
ficar no outroEmiípheriojo Leaõ,o valor, com que fe ouve na 
conquifta daquella Capitania , & por íer próprio dos CoelhSs 
os finquo cafteilos por outras tantas povoações, que na Caoi- 
tania fizera. 
@BrAx.*9. ^uis Loureiro foi hu m fidalgo mui celebrado neíte Reino 
por leu grande esforço, o <jual fendo Capitão de Mazagaò, foi 

fobre 



Difcurfo terceiro. 1 1 j 

íòbre a cidade de Azamor,& lhe deu o affalto fobindo elle pri - 
meiro pela efcada ao muro, & levantando afua bandeira y foi a 
cidade entrada,& faqueada.Pdo que elRey Dom Ioaõ o III.no 
anno de 1 5 j 1 . entre outras mercês lhe deu por armas o campo 
eíquarteladojao primeiro em campo vermelho hum caftello de 
prata,&elle arrimado a hua efcada de ouro,&ao contrario huã 
bandeira branca com a haftea de ouro , como trazem feus des- 
cendentes juntamente com as armas dos Figueiredos,de quem 
elledeícendia. 

Lopo Rodrigues Camello foi mui aceito a elRey Dom Se- 
ba(liaõ,pelas boas partes 3 que nelle avia de erudiçaõ,&cortefia, 
& aver viíío muitas Províncias de Europa . E quando elRey foi 
a Coimbra vindo de S.Marcos por Tentugal,achou a ponte do 
Mondego quebrada 5 & querendo paíTar a valia , Lopo Rodri- 
gues,que hia sò com elRey, lhe diíTe, que aquelle paffo era peri- 
gofò. Ao que elRey tornou:Hora paíTaiprimeiro.ReípõdeoLo- 
po Rodrigues : Se VofTa Alteza me engana , ditofo engano he 
eííe.Entaõ fe deitou na valia , & ficou cravado só com o peíco- 
ço,& hum braço fóra.Quando elRey o vio em tam grande pe- 
rigojhe pedio a maõ , ôc tomandoo elRey por ella , em pouco 
eípaço o pos em terra, Lopo Rodrigues,porque defte cafo fica f- 
íè a feus defcendentes memoria,lhe pedio,que lho deíTe por ar- 
mas,elRey lhas concedeo,& as mandou debuxar noefcudo de- 
fiafcrma : O campo de agua com hum braço veftido de ouro, 
& outro braço,como que fae da agua,de cor azul,& o braço do 
Rey o tem apertado pela maõ, como fe vé efculpido fobre o 
feu fepulchro na Igreja de Nofla Senhora da Luz. 

Origem dos Timbres. 
$. ir. 

SA5 parte das armas os Timbres,que hoje fe trazem íòbre 
osElmoSjOqualufoheàntiquiffimOiafíi entre os Gregos,& 
RomanoSjComo nosAlemaês,fegúdo fe vede muitos lugares de 
Virgílio na guerra Troy ana, &no Catalago da géte, q veio é fa- 

K 3 vor 



ii4 Noticias de Portugal. 

vordeTurnocontraEneas. E Plutarco eícrevendo a vida de 

F/MtAYC 

Vit,M*rij Mario,dizque acavallariados Cymbros fazia terrível appa- 
rencia tanto pelo reíplandor das armas, que traziaõ veftidas, 
como pela variedade das cimeiras,ou timbres,que cahiaõ fobre 
as celadas, querepreíèntavaõdiverfas figuras de feras : Çaleds, 
diz ellc iCrMtasíorrendis hi antium^imalíum/ormisfereíant^cíTc" 
ve efte coítume principio dasgaleas,ou capacetes,que era arma- 
dura da cabeça feita antigamente de couro ; à qual para maior 
bravoíidade,& fortaleza ornavaõ por cima com a cabeça do 
animal , cujo elle fora : Sc depois vindole a ufar a mefma galea 
de ferro, naõ perdeo com tudo a forma antiga , ainda que mu- 
MexAK ab dou à materia,comofe vè em Alexandre ab Alexandro,& pare- 
-^•^•ceaindadas medalhas, &eftatuas antigas dos Romanos, & 
Gregos. Os paquifes,ou folhagés,que acompanhaõ os timbres, 
tiveraõ principio dos penachos dos elmos,como parece do mef- 
mo author. 

Também os Principes,& Senhores Titulados trazem coro- 
néis em cima dos elmos , o qual coftume , fegundo íè vé de Pli- 
nio,era ja introduzido em feu tempo. Porque tendo as famíli- 
as nobres de Roma nos pateos das caías por iníignias as ima- 
gês de feus antepaífados de pao , ou cera com as cores , êc pro- 
porções de quada hum mais natural, que podia fer • diz Plinio, 
que em íèus tempos uíavao ja em lugar deitas imagés , hús ef- 
cudos de bronze ,no meio dos quais entalhavaõ de meio relevo 
em prata os roftosdefeus maiores,ornandolhes as cabeças com 
as iníígnias triumphais , ou qualíquer outras Coroas , que lhes 
competiaÕjComo coftumavaõ às imagês de vulto , Porem vin- 
dofe depois a perder as artes com a entrada das nações barba- 
ras do Norte,íe contentarão de pòr em cima dos eícudos pinta- 
dos os elmos fomente em memoria dos roftos,com as coro- 
as , criftas , ou cimeiras, que he o meímo,que os Franceíes cha- 
maõ Timbre 3 que lhe competiaõ.Do elmo defcem penduradas 
duas correas , que parece tiveraõ principio do Baltheo, ou tira- 
colia,infignia própria da Milícia Romana. 



Ttos 



Difcurfo terceiro. ny 

Dos officittis, que os Reys de Portttjal crearaopara 

confercvaç&o das infignms dos Nobres ,<cr da 

cafa dm mm pis de Cintra. 

§. 18, 

NA confervaçaõ das armas da Nobreza poíèraõ os Reys R , ? ; WMÍ - 
muito cuidado, entendendo , que foraÕ ganhadas pelo ''d** offi- 
valor dos fidalgos deite Reino,na recuperação delle. E como a aa ' s ãa 
grandeza , & íegurança de íeus eftados confiítia no valor dos 
Nobres , por galardão , & agradecimento de tantos ferviços, 
procurarão confervar as armas de cjuadafamiiia.Foi efl e inten- 
to tam antigo nos ReysdePortugal,queíè conta na Chronica 
delRey Dom Fernando cap, 30 cjue mandou fazer hum rico pa- 
ramento todo bordado de aljôfares com as armas dos fidalgos 
de Portugal, de modo, que naõ tiveraõ menos cuidado da con- 
íervaçaÕ dos íeus brazoês,que dos AppelIidos;querendo,que sò 
aquelJes,a quem de déreis tocavaõ,foílem honrados com ellas. 
Para ifto ordenarão os Reys de Armas , em cujos livros man- 
darão pintar as iníignias de todas as hnhagés do Reino. 

Começarão eftes officios em tempo delRey Dom Ioaõl. 
porque ate entaõ, pelas poucas mudanças, que ouve em Portu- 
gal,eraõ todos os nobres conhecidos; & pacificamente poíTuia 
quada hum as heranças , & honras , que de ft us paíTados alcan- 
çara. Porem como por morte delRey Dom Fernando fe fegui- 
raõ tam largas , Sc continuadas guerras íobre a fucceífaõ deita 
Coroa, fuílentandohús as partes da Rainha Dona Brittis filha 
do morto Rey Dom Fernando, 8c mulher delRey Dom Ioaõ de 
Caftel!a,& outros,as do Mcftre de Avis,& Rey Dom Ioaõ I. de 
Portugal/oi tanta a variedade,& alteração das couías,quc com 
razaõ diz o Chronifta,que começou entaõ nefte Reino,em cer- 
to modo,afeptima idade do mundo;poro ( ue gram parte das fa- 
mílias nobres,que feguiraõ a opíniaõ de Caítella, ficarão extin- 
clas , & acabadas de todo; & alguãs , que fuftentaraõ as partes p 3 
delRey Dom Ioaõl. foraõ de novo levantadas a grande lugar. 

K 4 Èftes 



1 1 6 Noticias de Tortugal. 

Eftes como naõ eraõ dantes conhecidos , para fe acreditarem 
comopovo, tomaraõem muitas partes os Appellidos,& ar- 
mas de outras familiasantigas,que lhe naõpertenciaõ.E afíi diz 
o mèfmo autor , que no dia da batalha de Aljubarrota eftavaõ 
as bandeiras dos Aventureiros cheas de varias armas, & infigni- 
as,que a muitos naõ competiaõ. Pelo que confiderandoelRey 
Dom Ioaõ I. depois de ter o Reino pacifico , como a confufao 
defta matéria era de gram prejuízo à Nobreza, movido do exé- 
plodos R^ysde Inglaterra, com quem eftava aparentado ,intro- 
duzioo officio dos Reys de Armas,- & de cntaõ para quâos hâ 
em Portugal. Provaííe ifto, porque Fernaõ Lopez na 2. p. cap. 
39.da Chronica defte Rey dà a entender claramente , que ate o 
tempo da batalha de Aljubarrota os naõ ouve^ & o meíino pa- 
rece das hiftorias dos outros Reys ate entaõ, nas quais íè naõ 
acha feita mençaõalguãde Reysde Arraas;& com tudode en- 
taõ paraquà fe trata delles nas Chronicas dos Reys ordinaria- 
mente nos lugares, que lhe cabe . Pelo que he evidente , que ek 
Rey Dom Ioaõ foi o primeiro , que os mandou vir a Portugal. 
Porem vendo elRey Dom Manoel, como aindaefta matéria 
naõ eftava em ília perfeição, mandou António Rodrigues íèn 
Rey de Armas ás Cortes dos mais dos Príncipes Chriftaõs a ia* 
ber em particular as obrigações, & ufos, que os officiais da No- 
breza tinhaõ.& deptíis que aííentou a ordem,q íè avia de guar- 
darmos o nome,ou(comofe diz nos livros de Armaria) baptizou 
de novo fallando equivocamente,com grande íolemnidade nos 
Paços da Ribeira três Reys de Armas com íèus Arautos,& Paí- 
làvantes- Sc mandou ver varias íèpulturas do Reyno para delias 
íe notarem asarmas,&iníignias dos fidalgos; de muitas das 
quais fez pintar os elcudoscom fuás cores, & Timbres em huã 
C %?tr* kivs\oÍ2L falia, que para iíío mandou edificar nos Paços de Sin- 
tra^ deu comprido Regimento aos officiais da Armaria para 
a confcrvaçaõ da Nobreza, & armas das famílias, de modo que 
naõ ouveífe mais a confufao antiga. 

Na cafa de Sintra naõ eftaõ todos os Brazoés, porque naõ 
cabiaõ,& só íe pintarão os das familias,que entaõ parece anda- 
vaõ na Corte,& no íêrviço do Paço. 

No meio do teólo dá íalla eftaõ as armas Reais de Portu- 
ga 




vntlo Ur uma. Ut *? 

gal,ao redor as do Principe,Iyf^ntes, Dom Luis, Doro Fetnan- 
do,Dom Afonío^Dom Henrique, Dom Duarte,Dona Iftbel, D. 

Brittis. a 

Em baixo íè vem 74. Brazoes, com o que eftá íc£>re a porta 
de diveríos Appeliidos pendurados, quada hum do collo de hu 
Veado,que nos cornos tem oTimbrej eftaõ em dous círculos, 
que poro ferem/rtáo hánelles p*écsédencia fác^por iffótvaõ aqui 
pela ordem das letras. 

-À 

Abreu,Aboim, Aguiar, Albergaria, Albuquerque, Almada, Al- 
meida, Andrade, Área, Aze vedo, Atahide. 

B 

JBarreto^etancor^Borges^Britto. 

Cabral, Carvalho, Caftelbratico, Caftro : de íeis Arrueías, Ca- 
ftro de treze, Coelho,Corte Real^Cofta,Coutinho,Cunha. 

E 

Eça. 

F 

Faria,Ferreira. 

G 

GamajGoes^Gouvea^oyos. 

H 

Henriques. 

x 

Lemos,Lima,Lobatos,Lobeiras,Lobo. 

M 

Malafaya,ManoeI,Mafcarenhas.,Meira, Mellos, Mendoça, Me- 
nefes,Miranda,Monis,Motta,Moura. 

N 
Nogueira^oronha. 

P 

Paçanha^PachecOjPereira^Pimentel^Pinto. 



/ 



! ! 8 Noticias de Portugal. 

CL 



v 



Queirós." 

R 

Ribafria,Ribeiro; 

s 

Sà,Sampayos, Sequeira, Serpa, Serveira, Sylva,Sylveira, Souto» 
Maior, Souíâ. 

T . 

t Tavar es.Tavora. Teixeira. 

V 

Valente, Vafconeellos, Vieira. # 

Por baixo ao longo da aba do forro deite tedto eítaõ efcritos 
cites quatro veríòs nos quatro lados das paredes da cafa com 
letras palmares de ouro. 

Tois com esfor^ogp leais 
Serviços for a*o ganhados ? 

? Com ejlesffi outros tais 

Devem de fer conferidos. 

Deíta caía faz mençaõ Damiaõ de Goés na Chronica delRey 

Dom Manoel quarta parte cap. 86iol. 112.com eftas palavras; 

Jfóanâou njer todalas j epulturas ao Regno , fará delias fe notarem as ar* 

masfi* wfígmas y &' letreiros y que nelUs avia , das quais armas mandou no 

Paço de Sintra pintar to dolos ejcudos com fuás cores , &* Timbres em hua 

fermofa falia tfue para iff o mandou fazer : alem do que mandou fazer hum 

livro muito bem luminado^ em que ejlao pintados os mefmos e feudos âa /;- 

nbagem da Nobreza d efes Regnos,ffic. 

fyhnLât Succederaõ eftes Reys de Armas modernos aos antigos Fe- 

Hor»a».tri cialesRomanoSjqueeraÕos que publicavaÕ as pazes, &guer- 

W*t*: hf ras no£ exercitos,de que faz mençaõ muitas vezes Livio,& ou~ 

tros authores latinos. Efte cargo tinhaõ entre os Gregos os Ca- 

duceatores,& entre Garthaginefes os Trombetas, & outros em 

outras Provincias,íegundo o ufo de quada naçaõ. Diogo doMõ- 

ThefJe la te citado por Dom Sebaftiaõ de Covarruvias affirma , que Iu- 

Uvg.caji. Ho Cefarinítituio certas dignidades, que íè davaòa doze Ca- 

valleiros antigos depois de jubilados na Milícia $ os quais leva- 

yaõ nas veftiduras as infignias do Príncipe, & nenhuãs armas of- 

fenfi- 



Diftnrfo terceiro, np 

fenfívas; porque eftes naõpelejavaõ, mas advertiaõ,& notavaõ 
fomente os feitos valerofos dos íoldados jpara que depois fe 
deíTe o premio aos beneméritos, & esforçados , & lhes deu no- 
me de Heroes j & diz que Carlos Magno renovou eftes cargos 
com as mais couíâs do Império latino; &do nome Heroes fe 
diíferaõHeraldos, & Heraos , como os chamaõ em França . E 
allitiveraõ antigamente grande authoridade , & dellesufarao 
os Principes de Alemanha, Inglaterra, Caftella, & Portu- 
gal. 

Hàtres eípecies delles,os primeiros,& menores faõ chama- 
dos PaíTavantes , os quais tem o nome da principal villa dafua 
Província. Eftes antigamente tinhaõ por orneio andar por vari- 
as Províncias vendo os ufos,& coftumes delias . Os fecundos le 
chamaõ Arautos , & eraõ ordinariamente os interpretes dos 
Reys,& osquelevavaõ (eus recados na guerra , dequehàaíTaz 
de exemplos naliiftoriàdelRey Dom AfoníòV. & na deDorh 
Carlos V.Emperador, &Rey de Caftella : para o quequaíi de 
todas as gentes tiveraò íalvo conduóto.Tomaõ o nome da prin- 
cipal cidade do Reino.Vltimâmente faõ osReysde ArmaSjque 
íè intitulaÕ ào nome da Província. 

Nefte Reino hà três ofliciais de quada Provincia,quada hum 
de ília efpecie.Os nomes de que uíaõ 3 faõ Rey de Armas Portu- 
gal, Arauto Lisboa^aííavante Santas ri>,Rey de Armas Algar- 
ve, Arauto Sylves,Paílavante Lagos,Rey de Armas índia. Araii- • 
to Goa,PaíTavante Cochim. Os Reys de Armas: tem obrigação 
nefte Reino , íègundo o Regimento , que' lhes deu elRey Dom 
Manoel , de quadá hum em íua Província fazer hum livro , em 
que íe efcrevaõ todas as famílias dos Nobres , & fidalgos , que 
nella vivem,apontando os cafamentòs,& hlhos,que quada hum 
. hà;& fazendo dilTo arvores certas, & diftinótas com íeusnomes; 
& por eíle trabalho manda elRey lhe demos fidalgos fuás ga- 
jas.Tem mais obrigação de fazer, que quada hum traga as ar- 
mas,que lhe pertencem de dereito, 8c de vifitar quada qual fua 
Província de dous em dous annos.Mano^alhe affi mefmo elRey 
fe appliquem ao eftudo da Armaria , de maneira que entend^Õ 
as cauíàs,porquefederàõ as armas a quada família • &aspolTaõ _ 
explicar, quando lhe pedirem as declarações , áffentando tudo 

em 



1 2o * Noticias de Portugal. 

em íêus livros J Obrigaos a pòr em lembrança todos os feitos 
de armas , que em luas Províncias paíTarem -, & aíli mefrrio as 
meníagés,recados,torneos,juftas,retos, & deíafios, efpecifican- 
do os aòtos de quada couíà,como na verdade paíTaraõ. Manda 
que elles sóspoiTaõ paflar as cartas de Armas , que fe pedirem 
de novo,apreíentando as petições aos Deíembargadores doPa- 
çojhum dos quais fará exame de teftimunhas,porque confte, cj 
o que pede a carta de armas, he daquella linhagem , & lhe per- 
tence^ que sò o Rey de Armas as alíinarà. 

Tem também obrigação de aíliftirem nos levantamentos 
dos Reys,nos a&os das Cortes , nas entradas íòlennes das cida- 
des^ nos exercitos,quando osPrincipes fe achaõ nelles. Acom- 
oanhaõ nos aótos públicos aos fidalgos , a quem os Reys dao 
novos Títulos, affiítem nas meias ao comer dos Reys , & quan* 
do vaõfóra pela cidade, 8c finalmente nos enterros, oc exéquias. 
Eílas faõ as obrigações dos Reys de Armas, muitas das quais 
naõ feifeíè cumprem, &íe he por deícuido, ou pelos poucos 
premios,que recebem de íèu trabalho^ porque tirando a aífiíté- 
cia,que fazem aos Príncipes nos a&os públicos^ acompanha- 
mentos,^ o paliar as cartas ordinárias de Armas,no apontar as 
geraçoés,naõ vi memoria algua.Porem acudirão a efta obriga* 
içaõ algús particulares, movidos do zelo do bem commum, por 
naõ íè acabar a memoria da Nobreza de todo. E deixando o 
primeiro, que ifto fez em Portugal, que parece foi conhecida- 
mente o Conde Dom Pedro,filho delRey Dom Dinis [a quem 
deve a Nobreza de Heípanha iíTo,que fe delia fabe,como con- 
feflaõ os hiftoriadores Caftelhanos) . Depois delle feguio eíla 
emprefa no que toca a efte Reino fomête Xifto Tavares Quar- 
tanario da Sé de Lisboa continuando alguãs famílias, de que 
tratou o Conde * Porem ainda que o fez com diligencia , êlcre- 
veo de poucas. Imjtouo Damiaõ de Goès Chronifta mòr,<3«: fez 
o livro de Gerações, que hoje eftà na Torre do Tombo imper- 
feito, por lhe naõ dar a vida lugar ao acabar de todo, & affi tra- 
tou fomente de poucas famílias. O Cardeal Dom Henrique co- 
mo Príncipe tam zelofo encommendou efta imprezaa Gafpar 
Wajjm Barreiros Cónego de Evora,naquaI elle confeíía,que trabalhou 
fenÉtt muko ; porem naõ lhe deu firq : & por fua morte encarregou o 

Car- 



Difcurfo terceiro. ■ m 

Cardeal o livro ao Biípo Hieronymo Oforio,que o acreícentou 
dealguãscoufas;& por íeufallecimentoorecolheooBifpoCa- 
pellaò mor Dom Iorgede Àthaide.Dom António de Lima fez 
também hum Nobiliário collegido dos livros dos Regiftos dos 
Reys mui apurado, & bom . Outro livro compôs também de 
Gerações Diogo de Mello Pereira Prior de Tentúgal, parte do 
qual chegou a le imprimir,mas por judos reípeitos,& defeitos, 
que tinha na compofiçaõ/oi mandado tirar da imprenfa . De- 
ites livros,& doutros ,que nefta matéria rizeraõ muitos fidalgos, 
fe tem tirado muitas arvores de Getaçoêsj as quais para íerem 
perfeitas,coírumaõ os Italianos fazer comos retratos naturais 
dequada peíToa dentro no íèu circulo, 8c â roda deiielhe elcre- 
vem o nomej&^em cima lhe põem a infignia da dignidade,que 
teve,como o Coronel,fendoTitulado,a Mitra, ou Cri3peo,fen« 
do Cardeal, ou Pontífice : aos Santos cercão os círculos de ref* 
plandores; aos Generais dos exércitos põem por infignia o Ba* 
ítaõjaos Capitães da CavaIleria,o Elmo; & aos Cavalleiros das 
Ordês Militares aííentaõ os círculos íòbre as mefmas Cruzes; 
& do tronco da arvore penduraõ o efcudo das Armas da tal 
família» 

Na explicação das armas fizeraô os officiais da Nobreza 
pouca mais diligencia ; porque uíàndo fomente de certos livri- 
ijhoseftrangeiros,que trataõ das cores , & metais dos efcudos, 
todo íèu intento poferao em explicar eftas cores$dizendo que o 
vermelho fignificaíaogue,© branco pnreza, 8c affi outras cou« 
fas vulgares^que de quada cor , 8c metal ordinariamente fe ói- 
zem,&por aqui explicao com regras gerais todos os Brâzoés.O 
meímo quafi fazem das peças dos efcudcs,dizendo que os ani- 
mais fao mais nobres,que as plantas , 8c eftas, que os metais , 8c 
os metais,que os edifícios, 8c outras couíàsíemelhantcs contra 
toda a boa razão . Porque defte rhodo ficavaõ fendo mais no- 
bres as armas de hum particular,que tiveífe no eíçudo hum Lo- 
bo,ou hu Leaõ,que naó as de hu Rey,que tiveífem hu Caílello, *Prazzjt 
cu huã cadea-como íaõ os de Caítella , & de Navarra , ou hús "»' vn f , 
eícudos ? comoosdePoitugal.Peloqcõ razaõreprovaõefta opi- 
nião Thomas Garíònena fua Praça univer(ál,&Gregor.Lopez Excel Je 
Madeira nas Excelíencias da Monarquia de Hefpanhaj os quais ^ ^T r% 

L reíol- ca?. 4* 



,22 Noticias de Portugal. 

reíblvem,que a Nobreza das armas naõ fe hà de regular pelas 
cores, ou materiais,de que cõftaõ^mas pela dignidade de quem 
as tras,ou pela bondade do a&o,em que foraõ ganhadas. Sò na 
ordem de trazer as armas poferaõ maior cuidado, ordenando 
que só o$ Chefes tragaõ as armas direitas, que he o mefmo, 
que íèm differença , & a todos os outros filhos íègundos íè lhe 
põem alguã peça mais no efcudo para differença . Efta peça fe 
toma ordinariamente das armas dos avôs . E fendo muitos ir- 
maõs,o primeiro tem a efcolha para tomar a melhor differen- 
ça. Vefleifto mui diftin&amente na cafa das armas de Sintra, 
onde mandou elRey Dom Manoel pôr as fuás no meio, & à 
roda as de todos os (eus filhos ; das quais hum tomou por dif- 
ferença as de Caftella , outro as de Aragão , outro as de Çran- 
ça , Inglaterra , &c . quada hum por fua precedência . Quan- 
do pintaÕ os eícudos , os põem fempre inclinados para a parte 
direita ; pofto que os Chefes os trazem hoje direitos com os 
elmos ftonteiros , avendo algjm animal no eícudo , ou outra 
peça , fe põem também por Timbre: ninguém fendo Chefe 
pode trazer alarmas com outra miftur^, tirando fe o for de 
muitas gerações 5 porque entaõ as poderá trazer juntas . Os? 
outros podem ufar das dos quatro avòs,quarteadas, ou das de 
fua may fomente. As mulheres trazem as armas em eícudos 
quadrados poftos com a ponta para cima, partindo o campo 
em palia, & deixando a parte direita delle para as armas do 
marido* , s 

Do modo, com que fito Coitos os nomes aos 
officiais da Armaria. 

§. i9. 

ELRey Dom Manoel depois q mandou fazer o Regimen- 
to dos officiais da Armaria , diz Damiaõ de Goès no cap. 
'vai'/" 1 8o.da 4.p.da ííia Chronica,queem Lisboa nos Paços da Ribei- 
é rntar J*» rafez hum aóto publico muito íoIene,emq deu nome a todolos 
Reys de Armas , Arautos , 6c PaíTavantes deíles Reinos , a qua- 
da 



Rifcurfo terceiro. 1 2 j 

dahumdellesfeparadarnente da íua Província . Pelo que me 
pareceo bem«pòr aqui as ceremonias com que eíles aótos fe fa- 
zem^porque alem de pertencerem a efte lugar, acegora asnaõ 
vi eícritas em outra parte . Eitando eiRey Tentado debaixo do 
docel em íalla publica,vem o novo PaíTavante, Sc o Rey de Ar- 
mas o apreíènta fem cotta , nem Brazaõ diante dei Rey , & po- 
fio o PaíTavante de juelhos faz o juramento feguinte .• Fcaõ 
PaíTavante juro a eftes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ 
Rey de Armas, que bem , & verdadeiramente , 8c com todo o 
cuidado,& diligencia aprenda todo o que neceíTario for ao nò- 
bre oiScio das Armas , para que dignamente poíTa paííar , Òc 
íèr acreícentado ao oíiicio de Arauto , & de Rey de Armas, 
quando elRey NoíTo Senhor diíTo ouver por feu íèrviço de 
me prover. ÈaíTijuro em todo o que pelo dito Senhor, 8c 
por aquelles, que para elle feu lugar tiverem me for manda- 
do, que de meu officio de PaíTavante faça, Sc farei toda a fi- 
delidade, cuidado , Sc diligencia, affi como devo , 8c fao 
obrigado fazer ao ferviço de meu Rey natural , 8c Se- 
nhor, 

Acabado o juramento,© Copeiro már traz huã taça de pra* 
ta branca com agua, &íèmcubertura, «Sc o Veador huã toalha, 
Sc dando o Copeiro mor a taça a elRey, lhe lança por cima da 
cabeça hua pouca,& lhe põem o nome da villa, que quer , Sc o 
principal Senhor , que eítà na falia , toma a toalha da rnaõ ao 
veador,& a dà aeÍRey para alimpar as maôs. Feito ifto,o Rey 
de Armas lhe põem o Brazaõ no peito à parte eíquerda , Sc ve- 
,fte a cotta de armas atraveífada,como he coftume trazerem os 
PaíTavantesj&depois de veftidos,afli elles.como os mais oficia* 
is de Nobreza , 8c o Rey de Armas beijaõ a maõ a elRey , 8c o 
Copeiro mor dá ao PaíTavante a taça de prata em que efteve a 
agua, a qual leva na maõ,porquededereito lhe pertence. 

O Arauto vem a efte a&o veftido, ainda como PaíTavante, 
&acompanhandoo diante todos os officiais da Nobreza, levao 
pela maõ o principal Rey de Armas , o qual o aprefenta dianíe 
delRey : o Arauto entaõ pofto de juelhos com a maõ em hum 
MilTal , que o Rey de Armas tem aberto, faz o juramento fe- 
cuinte. 

L z luro 



l24 Noticias de Fôrtugal. 

luro aos Santos Evangelhos, nas maõsdo Rey de Armas Fo- 
àõ,que bem, & fiel, & lealmente íèrvirei a elRey NoíTo Senhor 
toda a minha vidí^Sc me naõ mudarei,nem paíTarei para nenhú 
outro Rey,nem Príncipe, nem mudarei o nome , que pelo dito 
Senhor me he pofto , refalvando, íè para elleo dito Senhor me 
der licença. 

luro affi mefmo,que em qualquer maneira , & em qualquer 
tempo,que íèntir danno^ou proveito do dito ReyNôííbSenhor, 
que a meu officio toque, & pertença , o revelarei , & direi a fua 
própria peíToa,ou a quem por elle me for mandado, refalvando 
cm guerra , íè o dito Rey NoíTo Senhor com algum Rey , ou 
Principe a tiveíTe,ou com qualquer outra pefloa,a que por meu 
officio íaõ obrigado guardar fegredo,aííi a meu Senhor,como â 
parte contraria. 

luro affi mefmo,cjue em todas as meíâges,recados 5 embaixa- 
«ks,de que for encarregado, affi pelo dito Rey NdíTo Senhor, 
como pelos queíèu lugar,& mandado para elle tiverem, como 
de qualquer outro Rey,ou Príncipe; pofto que eftè em imizade 
com o dito Rey Noífo Senhor farei verdadeiras, & fieis relações 
inteiramente darei,& fallarei o que me for dito,& mandado, & 
caõ acreícentarei,nem minguarei difíò coufa alguã porbdio da- 
-dívas,nem prometimentos , nem por outro reípeito algum , 8c 
«m tudo farei verdade, fervirei Gelmente,&c. 

luro affi meímo , que quando me achar em alguas juftas,' 
ou torneos , oiiem guerras , eícaramuças , defafios , afaltos, 
ou em quaiíquer outros actos de guerra de qualquer forte, 
& qualidade que íèjaõ ^íèmpre diga fiel , & verdadeiramente 
tudo aquillo , que vir por meus olhos á boa fé , 8c íèm engano, 
nem malícia , 8c íèm acreícentàr , nem diminuir algua coufa 
cm nenhum modo que íèja ,• & de tudo farei Verdadeiro , & fiel 
teftimunho , íèm tirar , nem minguar, nem acreícentar a hon- 
ra, 8c louvor ,& fama de nenhuã peífoa por nenhum reípeito 
*jue íèja. 

luro affi mefmo,que ferei verdadeiro,&leal,fiel,íècreto a to- 
do o Eílado deNobreza^& tudo o que for dito em fegredo,na5 
fomente neftes Reinos, & íèus Senhorios, mas em qualquer ou- 
tro Reino,em que me achar,ou Senhorio. 

luro 



Difcwfo terceiro, nj 

luro aflí mefmo,que naó farei defafio , nem antervirei nelle 
entrenenhuãspeííoas de qualquer qualidade, & condição que 
fejaõ,íèm mandado efpecial delRey NoíTb Senhor. 

luro affi mefmo,que qualquer dadiva,bem,ou honra, que re- 
ceber, qualquer Rey,Principe,ou Senhor, a que porelRey Nof- 
íò Senhor for enviado,ou por quem feu lugar, & mandado para 
elle tiver, o direi a elRey NoíTo Senhor : êc aíTi a quaifquer ou- 
tros Reys,& Príncipes, íè por elles por ifíò for perguntado, naõ 
direi mais, nem menos, do que receber , nem me for feito por 
tal, que verdadeira,& fielmente notifique a nobreza de quada 
hum. 

Acabado o juramento traz o Copeiro mòr hua copa doura- 
da ícm cobertura com agua,& o Veador a toalha; Sc elRey na 
forma ja dita lança a agua pela cabeça ao Arauto , Sc lhe põ- 
em o nome da principal cidade , que hà por bem , Sc tomando 
elReya toalha na for ma ja dita ? o Rey de Armas vira a cotta 
ao novo Arauto,& lhe põem o Brazaõ à rnaõ direita, publican- 
do todos os ofliciais da Armai ia em voz alta por três vezes o 
nome do mefmo Arauto.O que feito beijaõa maõaelRey, Sc 
o Copeiro dà a Copa ao novo Arauto , que a leva na maõ por 
fer de dereito ííia. 

Quando o Rey de Armas fe lhe põem o nome, vai também 
ao Paço acompanhado de todos os officiais da Nobreza verti- 
dos com fuás còttas , Sc poítos de juelhes diante delRey , faz o 
juramento feguinte em hum MiíTal ; que o principal Rey de Ar- 
mas tem na maõ,dizendo: 

luro a eftes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de 
Armas ) quebem,& verdadeiramente darei do livro de meuRe- 
gimento das Armas aos Nobres as armas, que direitamente íè 
lhes pertencem,íègundo a ordem, Sc Regimento , que para elle 
me he dado por elRey NoíTo Senhor , que em tudo guardarei, 
cumprireir&quepor temor, nem por amor, nem por dadiva, 
nem por prometimento , nem por outro nenhum reípeito , nao 
farei niffo couíà, que naõ deva ,* Sc finalmente guardarei niffo a 
juftiça,& dereito da parte a que tocar. 

í luro aíTi mefmo,que quando for enviado com algum Embai- 
xador, que elRey NoiTo Senhor enviar, fereicõ todo o cuidado 

L 3 dili- 



nó Notícias de Portugal* 

diligente a feu ferviço , & fielmente farei, cu n^prirei todo o que 
me for mandado, & com minha cotta de armas vertida entra* 
rei onde quer que me for mandado por elRey Noílo Senhor, 
ou por feus Embaixadores. 

luro de em todo cumprir,& guardar o juramento, que feita 
tenho, quando fui feito Arauto, & todas as coufas , obrigações 
do dito juramento,& quadahua delias cumprirei, & farei fiel, 
Sc verdadeiramente,como no dito juramento he conteúdo. 

Feito o juramento ,o Copeiro mòr traz outra copa dourada 
com fua cobertura,& o Veador huã toalha, & tomando elR ey 
a copa,lança ao novo Rey de Armas a agua pela cabeça,& lhe 
põem o nome da Província , que hà por bem . E depois de lhe 
ciarem a toalha na forma referida , os oíficiais da Nobreza pu- 
blicaõ logo o nome do novo Rey de Armas , & recebe a copa, 
<jue teveaagua,da maõdo Copeiro mòr, & a leva, por fer ga- 
ja fua. , 

Dos Títulos , que antigamente fe da<vaoaos Gran* 
des do Reino , <§r* particularmente dos 

Ricos homes. 



', 



t 



j. 



20. 



OS Titulos,que os Reys concederão à Nobreza,fora5 vá- 
rios^ que o tempo tem mudado muito . Porem come- 
çando dos mais antigos,trataremos fomente de três , por ferem 
os mais communs , & que durarão ate quaíi noíTos tempos , a 
que fuccederaõ os Duques,Marquefes , Condes , Vifcondes , & 
Baroês,que de prefenteíè uíàõ. 

O nome de Ricos homês,diz elRey Dom Afonío fe lhes deu 
porque alem da riqueza temporal, foraõ também ricos de par- 
tes naturais.Porem ifto he moralizar ; & afli me parece mais 
Xepubl 2. certo ° c l ue diz Fr.Hieronimo Romano, o qual affirma, que no 
fpJ^Jaè tempo daquelles primeiros Reys, que fuccederaõ a Dom Pela- 
yo pelas miferias em que todos eftavaõ, naõ avia Titulos , & a 
quada hum fe dava o nome dascoufas, com que fervia aosPrin- 

cipes 



Difcurfo terceiro. 1 27 

cipes,& ajudava na gucira contra os Mouros , chamando EC 
cudeirosaos que peiejavaõ com efpadas , &efcudos ; & Cavai- 
leiros aos que íèrviaò a cavallo. E aquelles, que por riquezas de 
bésíe avantaja vaõ aos outros, mantendo â íua cufta gente de 
guerra,osintitulavaõ Ricos homés . Eftes depois foraó os Me- 
ítres de Campo, & Generais na guerra, que só podiaõ fazer gê- 
te , & trazella a feu cargo , & naõ reconheciaõ outro Capitão, 
íenaõ o mefmo Rey . Era eíle nome de Rico homem, íègundo 
fe colligedos Foros de Sobrearve, pelos quais em íèu principio 
íè governarão os Navarros,& Aragoneíès 3 generico, & o dava o 
povo a quem lhe parecia . Porem depois que os Reys vierao a 
maior crefci mento, & mageftade, tomarão para fi o concedel- 
lo.E aííi vemos no livro das linhagés do Conde Dom Pedro,co- Cênde D. 
mo elRey Dom Afonío fez Rico homem a Dom Ruy Gomez T,í/ 75- 
de Briteiros,& lhe deu Pendaõ.& Caldeira. E na Chronica dei- 
Rey Dom Afonío iV.fe fez mençaóde como concedeo efte ti- 
tulo,^ infigniasa Lopo Fernandes Pacheco. E nas de Caftella 
íè lé,que Dom Afonfo Fernandes Coronel , com íêr ít nhor de 
muitas viílas deíèjavao titulo de Rico homem , & o alcançou 
delRey Dom Pedro. 

Fazijtõ os Reys eíle acto com grande íblennidade- porque o 
que avia de receber tal titulo, veiava primeiro as armas com as 
ceremomas da Cavaílaria para fer armado Cavallei ronque era o 
fundamento fobreque todas as dignidades militares antiga- 
mente aífentavaõ . Depois o levavaõcom grande acompanha- 
mento aonde elRey eftava,& pofto de juelhos diante delh?, lhe 
entregava hum pendaõ,ou bandeira em final, que o fazia Gene- 
ral , & lhe dava poder para capitaniar , Sc governar a gente na 
guerra.No pendão hiaõ pintadas huãs Caldeiras,- pelas quais fe 
demonftrava , que podia trazer gente na guerra , Sc íuftentalla. 
Defte pendaõ,que davaõ aos Ricos homês; ficou, parece, o co- 
ftume de darem aos Condes , & Titulos , que depois aos Ricos 
homés íuccederaõ (como quer elRey Dom Afonío o Sábio ) as 
bandeiras, quando com íblennidade íè lhedáainveílidurade 
fuás dignidades,como o fente Garibai. As Caldeiras,que o pen- G4 p^ at P- 
daõ levava por divifa,tiveraõ fua origem do pouco dinheiro,que 
entaõ avia em Hefpanha • por cuja caufa fe naõ dava aos íòlda- 

L 4 dos 



1 2 % , Noticias de Portugal. 

dos íôldo de dinheiro,mas mantimento, b como para o poder 

guifar a tanta gente eraõ neceífarios grandes vazos , ufavaõ de- 

ftas Caldeiras de notável grandeza, como ainda hoje fevem 

cos conventos da Batalha, & Alcobaça, onde ficarão alguãs da 

vitoria de Aljubarrota. Continuouíè o Titulo de Ricos homes 

nefte Reino por muitos annos,& ainda elRey Dom Manoel faz 

mençaõdelles,& das Ricas Donas,que eraõ fuás mulheres. Po- 

Orà. l. r. rem nas Ordenações he mais nome genérico, que naõ particu- 

í.56.^.22 j ar Titulo,-& com tudo hoje eftà jade todo extin&o, fuccedea- 

f!'* 4 '*' do em feulugar os outros Titulo s modernos. 

DosVaJfdlos. 

ttfAml TH 1 Ste nome VaíTallOjCOnforme diz Scipiaõ Amirato,íe de- 
no prmci- f^ rivou de J/ajJo^ç, fignifica inferior; & moftra com varias 
f^J^authoridades > q^ e °s Vaffallos fe diziaõ antigamente VaíTos, 
Napoku poreftarem íògeitos a algús Senhores. Daqui podemos enten- 
der,quefeintroduzioefta palavra em Heípanha com o Impé- 
rio Gottico,pois a Italia,&França o trouxeraõ as nações doNor- 
te.Debaixo defte nome fe comprehénderáÕ antigamente nefte 
Reino mui diíferentes géneros de peífoas ; o que naõ advertin- 
do algús Authores , fe enganarão grandemente , cuidando que 
sò os Grandes, & Senhores de terras tinhaõ tal Titulo,como af- 
Fr. Hier. firm a F**- Hieronimo Romaõ , & em parte o Doutor Iorge de 
2ty»./>.». Cabedo, dizendo , que o nome de Vajjalb ate o tempo deiRey 
d* RefubL p om Afonfo V.era só de grandes Senhores; mas que de entaõ 
para quàfe deuahomês de grande qualidade , chamados Vaf- 
Cabedo i. failos acontiádos; fendo aífi , que de todos eftes géneros de vaf- 
hJ et h_* fàllosfe fazmençaõnasChronicas antigas, muitos annos antes 
deiRey Dom Afoníò V. Para o que he de faber , que de baixo 
defte nome fe comprendiao três géneros de gente,os primeiros 
eraõ Senhores de terras . & Alcaides mores . os fecundos Fidal- 
Vrfrtif.4. gos,& os últimos gente rica Popular.De todos elles faz menção 
bv>* itb elRey Dom Afoniò Sábio nas partidas^com eftas palavras: //<?/- 

failos 



-- 



Difcwfo terceiro. 1 29 

fallosfon aquellos, que recém honra , obuenecho de los Senores^ afficcmo 
Cavalleria^otierras^dmeros , por femao feíialado , que le ayan de fazgr. 
Do primeiro género de VaíTalIos falia o meímo Rey cm outra 
Partida , efpecialmente ordenando, que elles só confirmem as 
Doações dos Reys,com tudo nefte Reino os Grandes,&Senho- 
res deterras,& Alcaides mores tinhaõ efte titulo, coroo moftra 
largamente o Padre Frey Hieronimo Romano ; onde vemos, 
que a Dom Afonfo de Meneies Conde de Barcellos , ao Conde- 
ftable Dom Nunalvres Pereira, a Vafque Annes de Caftelbrã- 
co,a IoaõCefar,& outros íemelhantesderaõ os Reys efte no- 
me.Pelo que parece claro,que todos osSenhores^hoje chama- 
mos de terras,fe diziaõ entaõ VaíTalIos dei Rey abíòlutamente* 
O fegundo género de VaíTalIos íè chamavaõ Acontiâdesj 
porque eftavaõ preftes para íèrvir a elRey com certas lanças na 
guerra por certa contia de dinheiro,que dos Reys aviaõ^á: por 
iflb íè chamavaõ Acontiàdos.Delles,& do modo, com que erao 
aceitados por vaflallos,íê faz muita mençaõnas Chronicasdo 
Reino,& particularmente no primeiro Capitulo da Chronica 
delRey Dom Pedro, fallando das condições do mefmo Rey, chonje 
diz: E lie foi gr am cr ead&r de fidalgos de linhagem $ porque naquelle tempo 
todofe cojlumava/er rz/ajfallo fendo filho, ffi netto, & bijnetto de fidalgo de 
Imhagem-fip por ufania afridoos tais a contia, que agora chamai mar awdtf) 
dar/e no berço logo , que o fidalgo nafeia, ffi a outro nenhum ndo . Efle 2tey 
acrescentou muito nas conttas dos fidalgos depois da morte delReyfeu padre, 
que nao embargante , que etReyf eu padre Dom ^Afonfo fofíe cumprido no 
dar de muitas, <$* boas bondade s , tachavdono porem defere/cafo muito em 
grandeza, &c . Pelo dito fe moftra a qualidade deites VaíTalIos, 
os quais ainda,que eraõ fidalgos , diffeiiaõ dos outros Senhores 
de terras,que temos dito. Efte coftume , como ja diílemos no 
Diícuríò da Milicia,moftra depois o Chronifta,que innovou^l- 
Rey Dom Ioaõ , mandando dar à lança do fidalgo icVooo . li- chron.de 
vras,& à do que o acompanhava 700. & q«e os filhos naõven- D - ,MiS ** 
cedem contia,fenaõ depois de terem idade para poderem íèr- ?' ' 75 * 
vir;&entaõ lha aífentavaõ nos livros, a refpeito do que o pay 
avia,porem íempre mais pequena,para dar lugar aos acrefcen> 
tamentos ordinários. 

O terceiro género de VaíTallos^eraõ tirados de quada povo, 

confor- 



ijo Noticias de Portugal. 

, , ^ conforme á contia das fazendas , por razaõ das quais eraõ obri- 
Rty Dom gados a ter cavaIlos,& armas; & tiveraô origem das liftas, que 
Fem. os R e ys mandarão fa^zer de toda a gente do Reino , conforme 
íè coítuçnou em todos os grandes Eftados, & o uíàraõ os Ro- 
manos 3 elegendo para iífo os feus Ceníòres . Neítasliftasíèat 
lenta vaõ os nomes dos moradores dequada povo, & a fazenda, 
& renda de quada hum,& a reípeito delias ie mandava pór ley, 
que os que tiveíTem tanta çontia de fazendas, foílem obrigados 
ater ca vali os, 8c. certas armas,0 tempo,em que efte género de 
VaíTallos teve origem , naõ confta das hiftorias , porem ja na 
Chronica delRey Dom Fernando fe faz mençaõ deUes. Pelo 
c fH que íè enganou o Doutor íorge de Cabedo , cuidando que no 
k tempo deiRey Dom Afonfo V.começaraõ . Fizeraõíe eítas In 
ftas no Reino por muitas vezes , & particularmente em tempo 
delRey Dom Fernaado,Dom Ioaõ I.Dom Afonfo V . Dom Ma- 
noel,& de entaõ pai a quâ ficarão por lei cxpreífa . O Doutor 
VompM António Francíícu diz,que eftes VaíTaílos tem o primeiro grão 
Verb. Pa[ ^ a Nohreza • fazendo a Ordenação (èmpreeftadiftincçaõ.to/flr 
*(ip< l/dflalloi&dakpártcimâymfefôrpiaÕ^&c de 

j/^/Z^parece que nefta particular fignificaçaõ eftà extinóto,&; 
de eípecial fe fez geral , & comprehende hoje todos os fubditos 
do Reino,aíIigrandes,como pequenos. 

I 

Dos IwfMfoes. 

« 

$• 22. 

tAntonlè qP! Obre o nome,& qualidade de Infançoês naõ hà menor ai- 
Franc, ^ teraçaõ entre os Authores, afirmando muitos, que fe dava 
fomente efte titulo áquelles,que dos Infantes deícendi ao, & que 
por iflb eraõ aííi chamados . Ediftoháíèntençasemfavordos 
cidadãos de Lisboa, Sc do Porto , que todos tem privilégios de 
Infançoes,concedidos pelos Reys paífados . Porem o contrario 
defta opinião confta claramente das hiftorias dos priviIegios,&: 
das mefmas Provifoés Reais. Porque íabido he, que o nome de 
fafante naõ paíTa aos filhos dos Infantes- mas acaba juntamen- 
j te 






Difcurfo terceiro. 13 1 

te com elles-& fe paíTara,& íe chamarão Infançoes, como eftes 
J\uthoresquerem,fc:m duvida maior hqnrafora a de Iofançaõ > 
que a de Rico homem. Porem confta 3 que fendo os Ricos ho- 
més Senhores particulares , ern quem naô avia íangue Real, 
precediaõ em tudo aos Infançoes, logo naõ podiaõ Ter filhos de 
Infantes. VeíTe ifto em muitos lugares do Conde Dom Pedro,o Conde d, 
qual refere nos livros das linhagêsde Heípanha,que íèndo Ruy p *• *3- 
Gomezde BritteirosInfançaõ,o fizera elRey Dom Afonío Ri- c d 
co homem^como atraz deixamos efcrito . E tratando de Dom p.t 9 §,[ 
Diogo Lopez o Bom Senhor de Biícaya , quando veio de ven- 
cer hum gram torneo,que fe fez entaõ em Caítella,diz que dei? 
armandoofua mulher Dona Toda com as Donas , 8c Donzel- 
las de Tua caía,íhe acharão hum ferro de fetta em hua perna; 8c 
e/pantandoíe Dona Toda de como o poderá íòfrer tanto tem- 
po,lhe diíTe clkitíonrada efiíágora afilha do Infamom. Ao que ella 
reipondeo:£yí<í Infancom, que ^vbs dizjdes^por 'Rico homem era tido em 
ywd/mvtPorondefevéclaro^que mor dignidade era a de Rico 
homem,que a de Infançaõ.O mefmo coníla dós privilégios , 3c, 
em s pamculardodelRey Dom AfonfolV. que traz o Doutor 
lorge de Cabedo-porque nas apoíèntadorias, que entaõ era co- 
ítumedarfe nos morteiros aos fidalgos , manda que íe dem aos 
Ricos hornes 30. reis , & aos Infançoes ij . & aos Cavalleiros 
io.Ediftohà outros muitos exemplos, que naõ refiro poref- 
cufar moleftia.E afli tornando á origem deite nomejdeixadasas- 
opiniões , a mim me parece mui provável o que eícreve Vidal 
CanhelasBiípodeHueíca author antigo de Aragaõ, de quem 
Hiercoymo G,ui ita faz muita conta^oqual affirma, que affi cc^ Amaii de 
mo os hinos dos Reys,que naõ herdavaõ, íe chamavaõ ^^-'c^uut 
tes^affi aos filhos dos fidalgos, que naõ herdavaõ as cafas , & 2.^.64. 
morgadosde feus pays,!he chamava o vulgo à lua imitação, In» 
fançoês,^ o mefmo a íeus deícendentesjo que também affirma 
Cjóii s alio Argòte de Molina y dizendo na Nobreza de Andalu- 
zia li. c.77.que os infançoes eraõ filhos dos Ricos homes E affi 
me/mo Efcolano na Hiftoria de Valença . Pelo que ainda , que híHM 
lhefaltavaõ as riquezas, 8c grandeza , por naõ ferem os princi- maio* 

Fis de íua cafa.naõ deixavaõ de fer muito privilegiados,^ hon r [ c ' I ' 
rados.Aeíta opinião favorece muito elRey Dom Afonfo, quá- 

do 



L 



\f% Noticias de Portugal, 

paru 2. t° foliando dos Infançoés nas Tuas Partidas, diz : E como quer que 
iXi 3. ejlos ^vengan antigamente de buen image& bayan grandes heredamientos> 
ferino jon en cuenta deftos grandes Senores y que de/ufodiximos.YL bem íè 
vè lerem de boa linhagem , poiscafavaõ luas filhas com Ricos 
homês,& os Reys lhe davaõ com facilidade o mefmo titulo , & 
osavantajavaõaos Cavalleiros ordinários. Pelo que muitos im- 
petravaõ dos Reys os privilégios , & titulo de Infançoês , como 
iòraõ as cidades ja nomeadasjo que os Reys cõcediaõíèm mais 
•ceremonias,que paíTarlhe diíTo íuas cartas. 

D ] n. antiguidade dos Duques em Portugal , &do 
que ufuu dignidade pertence* 

• >ã ?" T"\ Vque-fe derivou da palavra 2>uxl quedem latim fígnifíca 
cZCe, * MLr g u * a > & Capitão. Sendo efte nome genérico , fe foi fazen- t 
155). No~ ao eípecial em tempo dos Emperadores Romanos.Porque Àu-« 
íf */ U p£S u ^° Ceíar depois de jè ver fenhordo Império, dividio as Pro- 
pj! vindas delle entre fi,& o Senado;& dando a Republica as pari* 
ficas, tomou parafi aquellas , cjue confinavaõ com os inimigos, 
8c tinhaõ neceífidade de preíidios; & alTi fez nove fronteiras nos 
confins do Império, onde conftituio outros tantos exércitos» 
Eftasforaõ Hefpanha, Alemanha Baixa, Alemanha Alta , Dal- 
mácia, Panonia,Syria } /Egypto, Africa,Mifia c A quada exercito 
deftes nomeou hum General , que chamou Capitão , ou Dux, 
que he o mefmo , Eftes exércitos íê multiplicarão depois pelos 
Emperadores íucceíTivos . Mas daqui foi a primeira origem de 
tomarem os Duques o nome das Provindas , & terem o gover- 
no dellasjcom tudo eíle cargo naõ durava entaõ fempre,mas era 
por tempo limitado. Porem entendendo depois os Emperado- 
jres,que os Capitães, ^Soldados fariao melhor ofEcio de defen- 
der os limites do Império , íe tiveíTem dahi particular proveito > 
concederão affi aos Duques , como aos Soldados dos exércitos 
todas as terras,& campos,que tomaíTem aos inimigos , para os 
poderem poíTuir em íua vida fomente^ou de feus filhos , quan- 
do 






Difcurfo terceiro. ijj 

do lhe fuccedeíTem na Milícia . Com efta occafíaõ íè ficarão Lampa. 
aproveitando os Duques, & principais Capitães de muitas t^ ^ dem ' 
ras nos confins do Império , logrando o Senhorio delias , & os 
governos por toda a vida. Pelo que de ofícios fe ficarão fazen- 
do dignidades,como aconteceo cjua fi aos Capitães defte Reino 
nas Ilhas,& no Brafil,que de cargo ordinário íè lhes deu em vi- 
das,& fez heredicariojde modo que tanto monta agora chamar 
a hu home Capitão de huã Capitania do Brafil,ou de huã Ilha, 
como Senhor,& Governador delia. Paliado o império a Grécia, '• 
aindaque os mais deites Capitães ficarão com nomes de Con- 
des,pelas razoés,que logo diremos; cÕ tudo em muitas Provín- 
cias íè coníêrvou o nome de Duquesas quais tinhaÔ particula- 
res infignias^cõ que andavaõ,porq os veitidos eraõ vermelhos, 
o baltheo,ou cinto Militar de prata,ou ouro,no dedo traziaõ hu 
anel cõ duaspedras,& húcollar lançado a tiracollo, capacete, 
&eícudo dourado,& só elles podiaõ trazer gente armada cõíi- 
go,& diante hu eftendartejCoufajCj a outréíènaõ cõcedia. Algus 
dos Governadores;, qosEmperadores Gregos mandarão a Ita- 
Iia,Duquesfe chamarão; pollo que depois tomarão o nome de 
Exartos.Hú deítes 5 q foi Longino (iègundo Sigonio) introduzio 
o nome de Duques mais comúmente em Italia ; borq tirando os ?" 

T7 Z •-» /• í r, í-l i i gontus de 

Varões Conluiares ,ou Rectores, que avia nas cidades , pos em Regnoital 
quadahuâieuPrefidentecõ nome de Duque, & lhe deu grande 
jurdiçao para cobrar os tributos Imperiais & adminiftrarjuíti- 
ça.Nefte tempo entrarão ê Itália os Longobardos trazidos por 
Narzetes Exarco,q fora de Ravena,os quais achado eíle modo 
de governo,o feguirao,& pí fe;aõ em lugar deites Duques,Capi- 
taês íeus,cõ o mefmo nome,fazendo eííe oficio dignidade, du- 
rante a vida de quada hum; 8c principalmente fizeraõ naquella 
Província quatro Ducados maiores, q foraõo Eípoletano,Foro- 
julieníe, Benaventano, & Taurinenfe ; a que depois fe feguiraÕ * 
os de Perufia,Romano,Tofcano,& Campano.Ò mefmo eííylo 
tíveraõos Godos em Heípanha;porq imitando em muitas cou- 
fas os Emperadores Romanos,poferaõ é fuás frõteiras Capitães M*i*l i 
gerais cõ o nome latino de Ducespn Duques • os quais governa- I2tí '3 I - 
vaõ osíèus territórios, & Províncias, como agora fazem os Vi- 
ío-Reys,& delles fallaõ muitas leis do Fuero juzgo. Vindo de- 

M pois 



i %4 Noticias de Portugal. 

pois Cario Magno a Italia,& vencendo o ultimo Rey dos Lon- 
gobardos, tomou para íl a maior parte da Província > & deu os 
ducados delia áquelles principais,que o ajudarão a ganhar a ter- 
ra,- porem com mais liberalidade s que os Reys Longobardos, 
porque naõ fomente lhes deu eftes Senhorios em fua vida , co- 
mo entaõ muitos tinhaõjmas para íèus deícendentes, com con- 
dição que lhe guardaíTem fidelidade, & reconheceflem vaífala- 
gem . Daqui tiveraõ nafcimento os Duques na forma , em que 
hoje os vemos 5 porque como muitos Senhores Grandes de Itá- 
lia ficarão com efte Titulo,fe eftimou mais, que o dos Condes, 
pofto que mais antigo . A ifto fe ajuntou dar o Papa Nicolao 
Il.a Roberto Gufcardo titulo de Duque de Apulha, & Calábria 
Ttnàulf. C om ceremonias quafi Reais,dandolhe cetro,eftoque, & barre- 
i>z.c. 3, te vermelho cuberto de pedraria com licença para fazer moe-» 
dajdo que fizeraõ tanto caio outros Senhores , que largando os 
antigos títuloSjOjUe tinhaõdeCondes,& Marqueíès, fe chama- 
rão Duques,como foraõ os Condes de Saboya,Borgonha, Mo- 
ravia,Bavaria,Saxonia,& outros muitos ,• dando aííi os Empera- 
dores,que íuccederaõ a Carlos Magno,cofno os Reys de Fran- 
ça^ Inglaterra à ma imitação em feus Reinos efte Titulo a 
muitos. E de Inglaterra veio efta dignidade a Hefpanha muitos 
annosadiante em tempo delRey Dom Ioaõ I, quando Dom lo- 
aõ Duque de Lencaftre filho fegúdo delRey Dom Duarte paf- 
íou a Heípanha a pretêder o Reino de Caftellajpor ííia mulher, 
que era filha delRey Dom Pedro de Caftclla o Cruel. Pelo que 
onoffoRey Dom Ioaõ I.feu genro âíua imitação deu a meíma 
dignidade de Duque aos Infantes Dom Pedro, &Dom Henri- 
Tomada ^l ue ^ eus ^' los > quando veio de tomar Ceita ; & foraõ os pri- 
deÇàt* meiros^que ouve nefte Reino, & quafi no meímo tempo elRey 
c«p. ante- £) m ioaõ I. de Caftella fez Duque a feu íègundo filho D. Fer- 
* en ' nando,que depois foi Rey de Aragão. 

As ceremonias com que fe efta dignidade dava em Portu- 
Sàpmo gal,nao achamos nas noífas Hiftorias . Porem fegundo ScipiaÕ 
Nobn^t emirato , 3c fe collige do Regimentodos Reys de Armas defte 
deNapol, Reino : Vem o novo Duque acompanhado dos principais Se- 
tJosD*- chores da Corte,íèus amigos,& parentes, precedendo diante os 
Reys de Armas, 3c mufica de Miniftreis, 3c levaõlhe huã 

ban- 



Difcurfo terceiro. i j j 

bandeira , & coronel os maiores fidalgos , que o acompanhaõj 
chegando afli ao Paço,entraó na falia Real, onde elRey eílá em 
feu trono,& lhe fazem huã pratica em leu louvor; dando as ra- 
zoes porque elRey lhe concede aquella dignidade/depois pon- 
dofe o novo Duque dejuelhos diante delRey, lhe mette a ban- 
deira na maõ,& lhe põem o Coronel na cabeça : feito iílo , íè 
torna outra vez a cavallo com as infignias poftas na cabeça 
atefuacafa. O livro chamado Ceremonial de Príncipes , diz 
que os Duques podem trazer eítoques diante de fi com a pon- 
ta para baixo à differença dos Reys,que o trazem com a ponta 
para cima,&ufar Coronel na cabeça ,&veftir huã oppa verrrKS 
lha forrada de arminhos aberta pela ilharga, 8c que em fuás ca- 
ías tem dcceis,& nas Igrejas íitiais , & fe lhe dà a beijar o Evan- 
gelho naM íTa 5 8c diante dos Reys fe aíTentaõ em cadeiras ra- 
zas com coxins encimarem Arautos, & Maceiros para os aco- 
panharem. Em Itália , & Alemanha ufaõ os Duques livres em 
lugar de Coronel , de hum barrete vermelho redondo forrado 
dearminhos.que parece íígnifica a liberdade, por fer o barrete ^^ 
antigo hiercglyphico delia. 

Nefte Reino íe teve íèmpre eíla dignidade em muito , 8c íè 
naõ deu íènaõ a filhos, 8c nettos dos Reys, ou a parentes chega- 
dos à Caía Real . E os que os Reys ategora fizeraõ fem repetir 
os Títulos mais, que huã só vez, inda que depois fe reformat 
fea merce,faoosíeguintes:Os primeiros como vimos, foraõ 
o Infante Dom Pedro, a quem elRey Dom loaõ I. íeupaydeu 
Titulo de Duque de Coimbra, 8c ao Infante Dom Henrique 
de Vifeu ; elRey.Dom Afonfo V, fez Duque de Bragança a 
Dom Afonfo Conde de Barcellos filho natural delRey Dom 
loaõ II. & ao Infante Dom Fernando feu irmaõ de Vifeu- & 
de Guimarães ao filho mais velho do Duque de Bragança 5 el- 
Rey Dom loaõ II. fez Duque de Beja ao Senhor Dom Mano- 
el,que depois foi Rey; o qual deu Titulo de Duque de Coirn* 
bra ao Senhor Dom Iorgefilho baílardo domefmoReyDom 
loaõ II. & ao Infante Dom Luis feu filho, o fez Duque de 
Beja j & ao Infante Dom Fernando , da Guarda - } elRey 
Dom loaõ III . concedeo aos primonegitos da caía de Bra* 
gança Titulo de Duques de Barcellos , & mudou o Titulo 

M z de 



i £ Noticias de Portugal. 

de Duque de Coimbra em Aveiro ao fucceflòr do SenhorDom 
Iorge 5 & deu à Senhora Infanta Dona Maria o Titulo de Du- 
<juefa de VifeujelRey Dom Felippe I.deu ao Marques de VilU- 
Real Dom Manoel de Menefes Titulo de Duque da mefma vil- 
la, que depois feu filho teve com Titulo de Caminha ; elRey 
Dom Felippe III. concedeo aos primos genitos dos Duques de 
Aveiro fe chamaflem Duques de Torres Novas, donde tinhaõ 
Títulos de MarquefesjelRey Dom Ioaõ IV. fez a Dom Nuno 
Alvres de Mello,que era Marques de Ferreira , Duque do Ca- 
daval. A efta dignidade aconteceo o que a nenhuã outra, que 
foi acreícentamento de grão no mefmo nome» como fizeraõ 
os Duques de Auftria , chamandoíe Archiduuues , & outros fe 
açrdcentaraõ como nome de Grandes , como o de Lituânia, 
& o de Tofcana, 

Dos Marquefes , qm h% no Reino , ér das ceremo- 
nins, com que evaocreados antigamente. 

M Arques fe diíTe de Marca , que em língua Alemã fignifi- 
ca termo,& limite.Naõ foi efte nome dignidade conhe- 
ci f*m ^ados Romanos, mas entrou com os Príncipes do Norte .os 

lia de Na I ' 

pai* Tit. quais deítruindo o Império, &dividindoo em muitos Reinos, 

doiMar- punhaõ nos limites , 6c marcas de íeus Eftados Fronteiros , que 
as defendeflem; & porque a eftas fronteiras chamavaõ Marcis, 
intitularão aos Capitães Marchwnes ,• Sc depois corruptamente 
Marqueíès . Deite tempo ficarão em Itália os Marqueíàdos de 
Mantua,& Ferrara,& as Províncias ditas Marca de Ancona, & 
Trivizana.EmHeípanhaufaraõtambé os Godos dos mefmos 
noàies^omo íe vè das hiPcorias dos Reys Godos , 8c os aponta 

M**l /. Morales,& particularmête nefte Reino, onde nos deixarão a pa- 

i2. e»iu | avra c om4 rca y c[ue ainda hoje coníervamos. 

Sendo efta dignidade de Marques ofício, íè foi também de- 
pois naõ fomente fazendo Senhorio das mefmas Marcas , mas 
ainda Dignidade, & Titulo. O primeiro,que ouve nefte Reino, 

foi 



Dífturfo terceiro. 137 

foi Dom Afonfo filho do primeiro Duque de Bragança,a querrt 
elReyDom Afoníò V.deu efte Titulo. Foi efte Senhor, fendo r 
ainda Conde de Ourem ao Concilio de Bafilea por Embaixa- 
dor de Portugal com grande acompanhamento, & dahi , antes 
de tornar para o Reino,correo grande parte de Europa, & Afia,- 
Sc afli em remuneração de íèus íerviços o fez elRey Dom Afon- 
fo V. Marques de Valença. 

As ceremonias , com que efta dignidade fe dà , conta larga. Cí > r ' r '& 
mente Garcia de Reíènde na Chronica delRey Dom Ioaõ o 11^ j e ^j- €n \ 
quando elRey fez ao Conde de Villa Real Dom Pedro de Me- «.7 8. 
nefes Marques da dita villa,& foi nefta forma: ElRey eftava em 
íeu eftrado Real veftido ricamente, em pé com a maÕ na cadei- 
ra,debaixo de hum docel de brocado , acompanhado do Prín- 
cipe^ Grandes da Corte,veftidos todos de fefta. O Conde ve- 
io de fua cala acompanhado de muitos fidalgos, precedendo 
trombetaSjCharamellas/acabuxas, &osReysde Armas, 8c hu 
dos principais fidalgos,que o acompanhavaõ , levava diante hu 
Eftendarte das armas do Conde na maõ com pontas , 8c outro 
huã efpada rica embainhada, & o terceiro huã carapuça de 
íeda vermelha forrada de arminhos, pofta em hum prato de 
prata ricamente lavrado 5 com efta ordem entrou na falia , 8c 
chegou ao eftrado , em que elRey eftava,- 8c o Chanceler irór 
por mandadodelRey fez huã pratica, em que contou os muitos 
íerviços do Conde,& como em gratificação delles, o queria el- 
Rey acrefcentar à dignid ade de Marques. Acabada a pratica,íe 
chegou o Conde diante delRey,o qusl tirou a carapuça do pra- 
to^ lha pos na cabeça,& tomou a eípada,& lha cingio por ci- 
ma dos veftidos 3 & da cinta lha tirou nua,&cõella lhe cortou as 
pontas do eftendarte,& ficou em bandeira quadradaj & tomou 
hum anel de diamante , & lho metteo no dedo annular da maõ 
direita. Feito ifto, o Marques fe pos de juelhos , & lhe beijou a 
xmõ,& o mèfmo fizeraõ logo o Principe,& os mais Grandes, & 
fidalgos,queahi eftavaõ prefentes. Convidou elRey o Marques, 
8c jantou com elle aquelle dia à mefma meia , eftando elRey 
debaixo do docel no lugar do meio,& à íua maÕ direita o Prín- 
cipe ,& logo o Marques, 8c à maÕ eíquerda elRey Dom Manoel 
Duque de Viíèu,que depois lhefuccedeo noReino. Acabado de i 

M 3 comer 



f jg Noticias de Portugal. 

comer . fc reçolheo elRey , & o Marques com o mefmo acom- 
panhamento tornou para cafa.Nefte Reino, & no de Itália eo- 
ftumaõ trazer coronéis de pérolas fobre asarmas$pofto queco* 
jno vimos.elRey Dom Ioaõ lhe deu o barrete Ducal. 

Os Senhores,a que os Reys defte Reino deraõ titulo deMar- 
ques,fèm repetir duas vezes numa familia o mefmo Ti tulo,fa5 
os feguintes. ElRey Dom Afonfo V.fez Marques de Valença a 
Dom Afonfo , como ja vimos , & a íèu Irmaõ Dom Fernando 
^íarques de Villaviçofaj elRey Dom Ioaõ II. a Dom Pedro de 
Meneies Conde de Villa Real fez Marques da mefma villa $ el- 
Rey Dom Manoel concedeo aos primogénitos dos Duques de 
Aveiro oTitulo deMarques de Torres Novas ; & Dom Ioaõ 
III. fez Marques de Ferreira a Dom Rodrigo de Mello Conde 
de Tentugal;& elRey Dom Felippe III. deu o mefmo Titulo a 
Com ChriPcovaõ de Moura , fazendoo de Conde de Caftello 
Rodrigo, parques da mefma villa ; & a Dom Diogo da Syl va o 
de Marques de Alanquer;ao Conde de Portalegre Dom Felip- 
pe da Sy Iva fez elRey Dom Felippe o I V. Marques de Gouvea; 
Sc ao Conde de Caftelbom Dom Iorge Maícarenhas Marques 
deMontalvaõ;&elRey DomloaõlV. ao Conde doVimioíb 
Dom Afonfo fez Marques de Aguiar 5 & ao Conde de Moníãn- 
to Dom Álvaro Pirez de Caftro fez Marques de Cafcais ; 8c 
ao Conde da Vidigueira Dom Vafco da Gama fez Marques 
de Niza. 

Da origem dos Condes, Sr fua antiguidade , Sr 
preeminência em Portugal. 

§. ij. 



COnde íè derivou de Comes, palavra latina,que fignifíca co- 
panheiro^r^w/V^^companhia.Sendo efte nome gene- 
'£7»it7u r ico, íe fez também efpecial , quando os Emperadores Roma- 



cfr oflfcr/í nos começarão de uíâr dos Nobres da Republica para os offi- 
fbfverh" c i°sdoPaço. Introduziofeeftecoítumeem tempo de Valeria- 
Com«. nojo qual como íè trataffe ja mais como Rey, que naõ feus an« 

te ceifo- 



Difcurfo terceiro. 1 3? 

teceííbres,trasferio o Senado para o paço,-& efcolheo dos prin- sàp.Ami. 
cipais Senadores hum Coníelho , com o qual determinava tu- *'*?*% 

de 11 r i- 1 1 Msféimih 

o . fcporqu< clle de íua condição naõ eítava nunqua em hum dtjsi^u 

lugar,& caminhando íempre, & trazendo íempre configo eftes 
Senadores,lhe chamarão Comites,ou Companheiros de Cefar;& 
aos Contínuos da Corte , & à Cafa Imperial , Comitatus (xfam. 
Foi logo de grande eftima efte Titulo de Companheiro do Em- 
perador-& concedi alie aos ConíêlheiroSj&àquelles, q no Paço 
tinhaõiuperintendenciaem algum particular miniíterio; 8c 
precediaõ a outros miniftros inferiores , chamandoos Condes 
daquelle officio . De maneira, que ao que agora dizemos Vea- 
dor da caía, chamavaõ eiíes: Comes mprivat*: ao Guarda roupa; Pandroi, 
Comes facr a <-ueftis:zo Veador da fazenda: Comes Urgietonum, 8c affi *W H h 
aos de mais^como íe pode ver largamente pelo livro da noticia 
VÇ ambos os lmpeno$ r Depoiseftéderaõos Emperadores Mar- 
co Aurelio,&Lucio ComodoVro efte nome de Cowites ,ou Cõ- 
^es 3 aos Governadores das Províncias , aos quais deraõ Titula 
de Condes delias . E no Império Occidental fe gove\ naraõ por 
Condes,ltaíia, Africa, o dcftri&o de Argentina em Alemanha, 
Inglaterra,o IíIyrico,& asHeípanhas.Pelo que vindo os Godos, 
& nações do Norte a apoderarie das Províncias Romanas,ufa- 
raõ do mefmo eftiío;& feus Reys querendo imitar o faufto dos 
Emperadores, deraõ também nomes de Condes aos Senhores, 
8c llluftres,queos ferviaõ nos officios do Paço;& pa»ticularmê- 
te vemos iíto nos Reys Godos de Hefpanha,cujas Hiftorias, 8c L9a ; za 
Concílios de íeus tempos eftaõ cheos deftes nomes de Condes, comti. 8. 
como era o que chamavaõ:Gw^ efcancurum , que fervia de Co- J**' Áe 
j)áro:Cmes cufaculijãeCamarenoiCcMes patrimowj, de Veador à& p a ian»or. 
fzzznàxComesfpatbdriorum, de Capitão da Guarda : Comes Jlaíuli, Merai.no; 
de Eftribeiro wóv.Cemes 'Notammm, o Secretario ; Comes Thefauro- H ^ Y Clt * 
mm,o Theíoureiro mòr,& affi outros muitos. 

Alem deftes Condes , que ferviaõ no Paço aos Reys Godos, 
avia outros nas cidades principais das Provincias,que as gover- 
navaõ, & feus territórios , como agora os Corregedores ; pelo 
que lhe chamavaõ Conde da fegunda ordem , por naõ ferem 
da qualidade dos primeiros,que andavaõ junto à peííòa doPrin- 
cipeJPorem nenhum deftes Condes era perpetuo , mas ferviaõ 

JM 4 os 



i4o Noticias de Portugal. ■ 

os ófficios a tempos , & defte modo fe coníèrvaraõ ate a entra- 
da dos Árabes emJhJeípanhaj os quais concederão aos Chrifta- 
õs,que entre elles ficaflem feus Condes,que como juizes os go- 
, vernafle,como íè pode ver largamente na 2. & 3.p. da Monar- 
Lh}u}a, <p a Lufitana , onde fe nomea Theodoro Conde de Coimbra 
/.7.C 10, muitos annos antes que fe ganhaíTe efta cidade aos Mouros.De- 
tuAnt. P°^ s os Reys,que fuccederaõ a Dom Pelayo, deraõ também ti- 
de Tepts tulo de Condes aos Governadores,que punhaò nas cidades, co- 
C ^°Bmo mo - v ^ ^° Privilegio , que elRey Dom Afoníb Magno deu á 
tom^m- Igreja de Santiago de Galliza ; onde alem de outros , fe nomea 
9# noj, Álvaro Condeda Idanha,Ermigildo Conde de Tuy, & do Por- 
vir»/./. ío > Árias íeu filho Conde de Eminio , Pelayo Conde de Bragan- 
èí? \*h Ça,Odoario Conde de Caftella, & Vííèu. Eftes íàõos primeiros 
Condes de Portugal, que fe achaõern confirmações, depois de 
feir recuperando do poder dos Mouros. Daqui veio dar elRey 
Dom Afoníb Vi . efta Província a feu genro Dom Henrique 
com titulo deConde.Em feu tempo, & em quanto feu filho D. 
Afonío efteve fem Titulo de Rey,naõ lemos que ouveífe algum 
Senhor no Reino com efta dignidade 5 porem tanto que foi le- 
vantado por Rey, logo devia dar o titulo de Conde a outros pa- 
ra grandeza de fua Corte , como parece dos quê achamos no- 
meados na jornada de Sevilha, que acompanharão o Infante 
Dom Sancho . Eftes títulos de Conde eraõ entaõ íbmente em 
^ida^depois fe fizeraõ hereditários, dandoos os Reys â imitação 
do que ja tinha feito o EmperadorCarlos Magno,o qual fenho- 
reandoíe de toda ítalia,França,& Alemanha , deixou eftes , & 
outros titulos aos mais dos Senhores,que os adminiftravaõ, por 
herança, para elles, & feus deícendentes , comoja temos dito; 
uíàndo nifto de hua grande razaõ de eftado ; porque dividindo 
nefta forma as Províncias em muitos Senhores particulares va£ 
lãllos,ficava íèguro de fe lhe naõ poderem rebellar^porquequa- 
da hum por fi naõ tinha forças baftantes para o fazer ,• & uni- 
remfe todos, era quaíi impoílivel , pela grande multidão delles. 
Alem do que íè íeguia outro grande beneficio ao bem publico, 
Sc era,que adminiftrando quada Senhor fua cidade , & territó- 
rio como couíà propria,ficava fendo muito maior o acreícenta- 
mento das couíàs publicas , como íe vé no campo mais peque- 
no. 



- Difcurfo terceiro. 141 

no, que he melhor cultivado,que a herdade grande: & afli reful- 
taraõ depois deitas divifoes, maravilhoíos angmentos em to- 
das as cidades, & povos,que tiveraõ particular Senhorio , tanto 
em Itália, & França, como em Alemanha j de que faõ boas te- 
itimunhas em Itália as cidades de Mantua, Vjbino , Ferrara, 
Millaõ ; em França PariSjOrliensJBezaníom, Gray, Nantes, Me- 
tZ} nos Paizes baixos, Cambrai , Arráz , Lieg! ; em Alemanha 
CIevis,CoIonia,Afpurg,Gratz,& infinitas outras, quedefte tê- 
po para quá floreceraõ admiravelmente , De modo , queaefta 
imitação começarão os Reysde Heípanha,por íua liberalidade 
dar por herança os titulosde Condes juntimente com o Se- 
nhorio das tenas,que governavaõ,Porem iito íe naõ fazia ordi- 
nariamente,íenaõ a peífoasmuiconjunctas em fanguecoma 
caía Real. Pelo cjue dando elRey Dom loaõ o I. titulo de Duques 
a íeus filhos Dom Pedro,& Dom Henrique, como ja deixamos 
ditOjficaraõ lendo de mor dignidade, que os Condes^aindaque 
eíles eraõ muito mais antigos no Reino depois da reftauraçaõ 
deHefpanha. 

Em Itália naõ trazem Coronéis , & íâõ chamados Efpe&a* 
veis 3 & naõllíuítres, porem em Portugal tem Coronel de pêro- 
las.Em Caftella osqueíàõ Grandes , precedem aos Marqueíes, 
que o naõfaõ.Quando elRey Dom Pedro de Portugal fez Cõ- 
de de Barcellos a Dom loaõ Afonío TVIlo,çonta o Chronifta a 
folennidade,com que velou as armas, porem naõ diz a com que 
o fez Conde . Com tudo parece , que em Portugal feguiraõ o 
coftumede Italia,como fizeraõnosMarquefes;& oquefepcSde 
colligir nefta matéria era , que hia o Conde com acompanha- 
mento dos fida!gos,Reys de Ai mas,& inílrumentos muficos ao 
Pnço,onde elRey dizendolhe: Venhais embora Conde,& met* 
tendolhe na maõoeftendarte, lhe dava a inveftidura doEfta- 
do.E fendo convidado aquelle dia delRey, fè tornava depois 
para caía com o mefmoacompanhamento.OsSenhores,aquc 
os Reys de Portugal deraõo Titulo, referirei como fiz nos paf- 
fados ícm repetir duas vezes o mefmo Condado ,• ainda que ao 
fi lindou netro fc tornaíTe a fazer mercê delle . O primeiro que 
achei ,he o Conde de Bragança Dom Fernaõ MendezoBravo, 
que caiou com Dona Thereía filha delRey Dom Afonfo Hen- 
riques. 



"i^z Noticias de Portugal. 

riques . O íegundo o Conde Dom Pedro - y na hiftoria do qual 
Rey íe nomeaõ também o Conde Dom Ramiro , & Dom Pe- 
dro das Afturias, que fe acharão como Infante Dom Sancho 
na batalha,em que venceo aelRey de Sevilha.Na Chronica do 
mefmo Dom Sancho ol.fe nomeaõ o Conde Dom Mendo o 
Soufaõj& ná delRey Dom Afonfo HI.o Conde Dom Garcia de 
Soufa,que cafou com huã filha baftarda do mefmo Rey. EIRey 
Dom Dinis deu o titulo de Conde de Barcellos a Dom Pedro, 
Sc de Albuquerque a Dom Afonfo Sanches feus filhos baftar- 
dos . EIRey Dom Pedro fez Conde d, Barcellos a Dom Ioaõ 
Afonío Tello de Meneíès;& depois elRey Dom Fernando o fez 
Conde de Ourem 5 o qual fez também Conde de Barcellos a 
Dom loaõ Afonío Tello irmaõ da Rainha Dona Leanor , & a 
Domloaõ Tello Conde de Viana ;& a Dom Gonçalo Telles 
Conde de Neiva,& Faria; a Dom Henrique Manoel Conde de 
Cea,& Sintra ; & a Dom Álvaro Pirez de Caftro Conde de ai> 
rayolosj & Conde de Ourem a Dom Ioaõ Fernandes Andeiro. 
EIRey Dom Ioaõ I. deu o mefmo titulo a Dom Nunaivres Pe- 
reira,&o de Barcellos a Dom Afonío feu filho natural, 8c ulti- 
mamente o de Villa Real a Dom Pedro de Meneies primeiro 
Capitão daCeita; Dom Afonío V. fez Conde de Monfantoa 
Dom AlvarodeCaftro;&aDom Afonío de Vafconcelíos Cõ* 
de de Pendia; a Dom Duarte de Meneies Conde de Viana, 8c 
depois de Loulqa Dom Henrique feu filho Conde de Valença j 
a Dom Lopo de Albuquerque Conde de Penamacor ; a Dom 
Fernando de Noronha Conde de Odemira ; a Dom Fernando 
Coutinho Conde de Marialva • a Dom Álvaro Gonçalves de 
Ataide Conde de Atouguia j a Dom Pedro Martins de Mello, 
Conde de Atalaya^a Dom Afonío filho do Duque de Bragança 
Dom Fernando I, Conde de Fará õ j a Dom Lopo de Al meida 
Conde de Abrantes ,• a Dom Rodrigo de Mello >Condede Oli- 
vença; a Dom Ruy Vaz Pereira Conde da Feira-, a Dom Pedra 
de Meneies CondedeCantanhede ; aDom PedroAlvres deSou- 
to Maior Conde de Caminhada Dom Ioaõ Galvaõ Biípo deCo- 
imbra Conde de Arganil . EIRey Dom ioaõ o Il.deu o Conda- 
do de Borba a Dom Vaíco Coutinho,que depois fe trocou pelo 
do Redondo^elRey Dom Manoel deu titulo de Conde de Por- 
talegre 



Difcurfo terceiro. 1 4^ 

talegre a Dom Pedro da Sylva ,• & aos primogénitos do Mar- 
ques de Villa Real, o de Alcoutim • a Dom Rodrigo de Mello 
fez de Tentúgal j aDomloaõ de Meneies, de Távora; a Dom 
Francifco de Portugal,do Vimioíoja Con Mai tínho de Caílel- 
loBranco,de Villanova; aDcni Vaíco da Gania, da Vidiguei- 
ra.ElRey Dom Ioaõ lll.deu o Condado da Caftanheira a Dom 
António de Athaide;& a Dom Diogo da Syíveira, o da Sorte- 
lha.elRey Dom Sebaíiiaõ a Dom Simaõ Gonçalves da Gama- 
ra fez Conde da Calheta. EiRey Dom Felippe I,a, Dom Fran- 
cifco de Sà Conde de Penaguião ,• a Dom Fernando de Caílto, 
do Bafto^a Dom Duarte de Caileí branco, do Sabugal - y a De tn 
Rodrigo Gonçalves da Camará, de Villafranca ; a Dom Fran- 
cifco iManoeljda Atalaya;aDom FrancifcoMaícarenhas,de Sar> 
ta Cruz . ElRey Dom Felippe III, deu titulo de Conde de Fica- 
Ihoa Dom Carlos de Aragaõ^de Lumiaresa D.LuisdeMoura, 
& Corte Realjde Villaflor , a Dom Luis Henriques ; a Luis Al- 
vres de Távora , de S. Ioaõ da Pefqueira; a Henrique de Souía, 
de Miranda do Corvoja Dom Francifco de Faro, do Vimieiro; 
a Dom Eftevaõ de Faro , de Faro de Alentejo . E1K ey Dom Fe T 
lippe lV,deu titulo de Conde de Óbidos a Dom Vaíco Maíça* 
renhas;& de Conde da Torre a Dom Fernando Maícarenhas; 
& de Conde de Caftelbom a Dom Iorge Mafarenhas ; & de 
Conde de S.Miguel a Francifco Botelho ; 6c de Conde de Ca- 
ítelmelhor , aRuy Mendezde Vafconcellos,- Sc de Conde de 
Sarzedasa Dom Rodrigo Lobo da Sytveira;& de Conde de 
Aveiras,a Ioaõ da Sylva Tello- Sc de Conde de AíTumar,aDoni 
Francifco de Mello } & de Conde de S. Lourenço a Luis da Syl- 
va,- & de Conde da Ilha do Príncipe a Luis Carneiro de Alcá- 
çova; 8c de Conde de Armamar , aRuy de Mattos de Noro- 
nha. ElRey DOM IO AM o IV. Conde de Serem a Dom 
Fernando Mafcarenhas; 8c de Alegrete, aMathias de Albu- 
querque- Sc Conde de Viliapouca a António Telles • Sc de Vil- 
larmaior a Fernão Telles ; Sc Conde de Soure a Dom Ioaõ da 
Cofta. 



. 



Vo* 



i 4 4 Noticias de ToYtugaU 



E 



Dos Vifcondesj& Bwçts. 

M toda a parte coftumaraõ os Reys, & Monarcas darem 
a feus primogénitos algum Titulo ainda em vida, para 
com iíío os introduzir no governo das coufas publicas, & alcan- 
çarem maior authoridade com o povo,-& como todos osGran- 
des procurem imitar os Reys , alcançarão também muitos Se- 
nhores de Titulo de feus Príncipes outros Títulos tam bõs ,ou 
menores para os filhos morgados . Difto vemos hojeaílazde 
exemplos em Hefpanha, onde os mais dos primogénitos dos 
Duques tem Titulo de Duques,ou de Marquefes,& os dosMar- 
cjueíès de Condes . Pelo que querendo também algus Condes 
de Alemanha,França,& ltalia,que a feus filhos íe delTe eíta pre- 
eminência^ naÕ avendo outro Titulo inferior,lhe concederão 
os Reys nome de VicecomiteSjOU Vifcondes ; encomendando- 
Ihe juntamente com o Titulo o governo de algum lugar, con- 
forme o affirmaõ o Ceremonial de Príncipes feito por Mofem 
çf. Hitr\ Diego de Valeía > Garibai,& o Padre Fr. Hieronymo Romano, 
^«p^. gc EIRey Dom Afoníò V.vindo de França, querendo gratificar os 
%l * Cf niuitos ferviços,c]ue Leonel de Lima lhe fizera, lhe deu o Titu- 
lo de Viícondede Villanova da Cerveira5& foi o primeiro que 
ouve em Portugal , coníêrvandofe ategora eíla dipnidade nos 
Senhores deita cafa: ElRey D O M 1 A M iV. fez Vifconde 
de Caftel branco a Dom Pedro de Caílelbranco. 
, .,-, Baraõíè derivou de 3aro } nome latino /que conforme àme- 
i^princí ^ 10r fignificaçaõ,quer dizer homem prudente , 8c grave. Pelo 
fio das fa- que com razão ufou o noílo Luis de Camões deixa palavra, 
*£, Uas f* quando na propofta dos feus Cantos dos Lufiadas diífe : *As <ir~ 
mdsj&Ttarces afhaUJos , & nao varões como algus inadvertida- 
mente querem. Os italianos deraõ o nome de Barão a todos os 
Senhores de lugares vaíTallcs doutro Principe > & afilhe genéri- 
co naquella Provinciano que parece tem também lugar em Ale- 
manha^ França pela grande multidão de Barões , que hà na* 

quelles 



Difcurfo terceiro. 1 45 

qneíles Reinos, Em Portuga! introduzi eHv Titolo elRey Dom 
Ah ío V.que o deu a ioaõ Fernandes da Syhdra, depois que 
veio de Itália, onde foi acompanhando a ÉmperatnzD. Lea- 
nor.moiherdeFederico III . É aíTi neíte Reino he Titulo pai ti- 
colar, & íe diz tem obrigação de íahir em lugar delRey a defa- 
fichem caio que íeja chamado a campo. 

í\s ceremonias , com que íe eííes Títulos daõ , naõ conftaò 
de alguã Efcritura , mas íòmeute íe collige do Regimento dos. 
Reys de Armas,queíè celebra efte acto , indo os novos Titula- 
dos ao Paço , acompanhados de muitos fidalgos , parentes , 8c 
amigos com os Reys de Armas diante, & que elRey lhe dizrpV- 
nhaís ernb^ora 'Utfconde^ou 'Barão de tal parte» 

Eiras íaõ as dignidades, que há no Reino, as quais moderna- 
mente os Reysnaócoftumaõa dar com as folennidades anti- 
gas. Pelo que o uíò ordinário he fomente ir o que há de fer Ti- 
tulado ao Paço bem acompanhado % & entrando ondeelRey 
eità,dtzerlhe elRey as mefmas palavras , que agora referimos: 
Venhais embora Duque,Marques,ou. Conde; <fc comifto rece- 
be a inveíiidura do Titulo ; & lhe fallaõ , & eferevem dahi por 
diante, como a tal.Ifto porem he nos Títulos , que elRey fazde 
novo,ou a quem renova a mercê ; porque os que o tem de he- 
rança,!^ mais ceremoniafe intitulaõ da dignidade, em que 
fuccedem,& faõ ávidos por tais. 

Do Titulo de Senhor. 



17 Ste nome Sénior Sc derivou do hútio:Smor,cpc quer dizer 
_j o mais velho;& conforme a Scipiaõ- Amirato fecomeçou £*iL ar * 
a uíar deite termo,pelo de Vommus y depois da entrada dos Lon- «<**** oh 
gobardos emltalia^porq era lei entre elles, que tendo o Senhor Ul 
de hu lugar muitos fiihos,fe repattiifepor todos a fazenda apo- 
rem o governo do lugar ficaffe íèmpre com o mais velho • pelo 
que lhe chamavaõ vulgarméte: 3V»w Sus tó-q he o mefmo,q o 
mais velho do lugar^ao que ajuda o q diz lobre efta palavra: J>- 

N wr M 



'ijfi Noticias dt Portugal. 

mor, Santo Agoftinho Epift. 1 74. Efte meimo coftume guarda- 
vaõ,fegundoparece,as mais das naçoêsdo Norte; porque to- 
das ellas os tiveraõ quafi femelhantes,& por ellesfe governarão 
muitos tempos em lugar de leis. Pelo que affi o deviaõ fazer os 
Godos em Heípanha^ fe prova claramente da hiftoria de Io- 
aõ Abbade de Valclara, & Bifpo de Girona noíío Português ; o 
qual chama a Afpidio Senhor dos montes Agarenfes , Sénior lo- 
c*,que quer dizer:Senhor do lugar . E nos Concílios de Heípa- 
nha aos que huas vezes chamava'õ:?W»*« , & Optimties j igual- 
mente os diziaõ outras vezes: Seniores-, 8c em todas as Eícrituras 
dos Reys de Navarra de joo.annos atras feda o nome de Seni~ 
er y z.o Senhor de qualquer lugar,-& íe ufava nas Eícrituras igual- 
mente pelo de;29<JWJflrfr0r;como moftra largamente Morales, 8c 
repesto6 t Efc^QiariQ ? & padre Frey António de Yepes na Confirma- 
tap. 2, çaõ da entrega do morteiro de S 4 Torcato , diz que confirma 
Moral.i entre outros , Diogo Alvres,nefta forma : Sénior Diogo ^ihres . O 
Efekoi. * ipefmo confia de França,& Italia,fegundo Gregório Turonen- 
Peci.de íè,& Scipiaõ Amirato . Pelo que delia lei dos Longobardos,& 
^4 en. .1, g 0( j os p^ rece teve origem o antigo coftume de Hefpanha de 
Scip.Ami chamarem fempre aos irmaõs mais velhos , aíTí Reys , como 
;*bt[Mp % Títulos : Senhores 5 & ifto com tanta particularidade , que íe 
prohibio por lei, que ninguém podeífe chamar meu Senhor 
ao Rey , fenaÕ as peíToas Reais , ate o quarto grão , & Duques 
do Reino ; pofto que darem os mefmos Títulos os Fidalgos , Sc 
Nobres aos paysfoi ordinário em tempo de noffos avós , & aos 
avos também por iílo diziaõ: %)onos,os antigos , que era o mef- 
mo que:Dominos , 8c Senhores - y com tudo o nome de Senhor 
de terras fe veio aufar tanto , que os que as poífuiraõ com jnr- 
diçaõ,deixaraõ por elle o nome de VaíTallos; 8c principalmen- 
te desdo tempo delRey Dom Afoníò V.pàra quá , chamando- 
os elRey em fuás Provifoês , & Alvarás; Senhores dos ta- 
is lugares ;& tem affento nas Cortes depois dos fidalgos do 
* Coníèlho. 



2>a 



* JDifcurfo terceiro. 1 47 

Da dignidade da Ca^valUria. 

S. 28, 

CQncluamos efta matéria das dignidades da Nobreza com 
a da Cavalleria , a qual foi antigamente tam eftimada, 
que ate os maiores Príncipes de Europa procuravaõ corri gran - 
de cuidado recebella, entendendo que ficavaõ com ella mais 
acrefeentados em reputaçaõ,& authoridade,& aífi lemos,que a 
Heípanha viera õ Conrado Duque de Suécia filho do Empera- 
dor Federico 1.5c Dom Raimon de Flacada Conde de Tolofa a C ho -* & 
fe armar Cavalleiros da maõ delRey Dom Afonfo lX.de Caftel-^' f***** 
la,& Eduardo Príncipe de Inglaterra , da delRey Dom Afonfo cbronM 
Sabio,-& do mefmo modo,só para efte eífeito vieraõ a Portugal c ° u ** D - 
outros Grandes Senhores em vários tempos. Porem os que ne- 1.6o. ' 
fta parte a meu parecer alcançarão mor gloria , foraõ os noílos chron.d e 
Infantes filhos delRey Dom Ioaõ I. porque sò com efte intento Dé lo *f r * 
imprenderaõ a expugnaçaõ de Ceita ; & elRey Dom Ioaõ II. ch*òn' dei 
fendo Príncipe , a de Arzilla . Davaííe também efta dignidade Rt y Dom 
em tempo de paz, & com grandes feitas , quando alguã Períò- *b*«itt 
nagem fobia a novo Titulo,como o fez elReyDom Pedro,quã« Wmes* 
docreouCondedeBarcellosDom AíoníoTelIo ,feu grande 
privado, para o qual acto mandou fazer finquo mil cirios , que 
outros tantos homêstinhaõ na maõ toda a noite, que o Conde 
velou as armas em S. Domingos de Lisboa , eftando portos em 
prociííaõ, des do Convento ate os Paços de Alcáçova . ElRey 
Dom Afonfo V.armou a feu irmaõo infante Dom Fernando ^ Yon : Á * 
Cavalleiroçom tanta folennidade,que quarto menor apparato ' c DJoll^ 
defta pompa foi precederem diante defte magnifico a<5tò mil 1 * 
tcchaSjquatro centasdas quais Ievavaõ Cavalleiros , & as íeis 
cehtas Efoudeiros dos mais luzidos da Corte,todos vertidos de 
hum trage,& libre. -'* ' 

• Para padrinhos fe bufeavaõ Cavalleiros de grande nome, 8c 
linhagem,como alem de outros, parece do Cõde D.Pedro,qne 
conta ordinariamête deites antigoaSenhores,quais fidalgos ar- 

. N z maraõ 






marao para Cavalleiros. Os mais dos Reys antigos de Caftella 
coftumavaõ armarfè Cayaltetros a fi meímos, antes defe coroa- 
rem:& do noíto Dom Àfonfo Henriques à\t a hiftoria dos Go- 
dos,que elle meímofe armou Cavalleiro , tomando as armas 
HiU Got^ fritar: fnfanswcly tus Domímic^ipfíón/usComitis Uenrictj& t Regin* 
D.Thardjiafilws Z>. ^ilphonfi nepos babem atam anos fere matuorde- 
cim apud fedem Zamorènfem ab jdbdrio Sanai Safottms tpfè /tèitftãUtà : 
própria fumpfit militaria arma ab ^Altarii Oibidemín ^h*rim$utus ejl/ 
& accintusmúitaribus ar mis ^[icut mor is ejl Regibtés f acere in dte Sanffyj 
'pèntecoftes. 

As ceremòniasque ríeíle Reino Te ufavaõ nefte a&o,confor- 
itie ao Regimento da guerra delRey Dom Afoníb V.erâõ, ejuè 
o Cavalleiro novel vigiava em hua Igreja desdò mero dia de an« 
teSjfèzando , & eneõmendandoie a Deos j que aeéitaíTê aquelle 
âòto para feu ferviço. Vinda amanhíí,3£ acabada a vigia 3 fc ve- 
fcia ricamente, & ouvia na mefma Igreja Miíía cantada mm ío- 
lennejd -pois da qual pofto de juelhos diante do pádi tubo , er i 
pergu«cado,íè queriaréceberáquella hanra?Edito^irefr y ihe fj- 
2ia húã prática explicandolhé as novas obrigàçoésjem^ire eh- 
trava;&como em todas as acções de armas devia favateeer,&: 
ajudar a juftiça. Acabada a pratica,lhe calçávaõ as eípòràs do- 
ais CavaIieiros,& outro lhe cingia a eípada^em que fefigni fica- 
va o antigo baitheb^àfignia própria dos foíldados ,' dat-inta lhe 
arrancava o Padrinho a eípada/Scdandolhélcòm eltatreis veze^ i 
por cima do capacete diziaio armava Cá valkiroj em noitie á&{ 
Padre,& do Filhoj& do Eípinto^anto. Feiíx) ifto, o abraçavam 
Padrmhb,&lhe dava, paz • &éllé fa<zia o mefoio a todos os ontfòg r 
CavaIteiros,<juealKfe achavàõ. Eítascerernonias kúí^úiiúàa.^ 
hoje cernias quélfaãadmittidos nas OrdesMrlitaresjrior^jUefcél 
naõ lançaõ o habito fem primeiro ferem armados GavaWèíf^sp 
>pqr<)u6fp3G^valleÍT<5sda meíma Religiaiõ Militar . Eracoftèfàb 
me defte a&o naõ íèr *) Gavalièiro menor de 1 4iannôS^ f ée fefri 
fencia ter jaíidoíarmado Cavalleiro o Padrinho , tmúbíè pú^ 
*f 'rn*** g ou no ca *° delRey Dom Fernando 5 quando eftandó^oxarrípBfí 
JF?m. d? de Caya para dar batalha à; eHl£y Doráflòaõ í.de Gaftellâ, ir- 
Zfuartc mou muitos fidalgos CavaUeirps ; tporem a veriguandofê ípfatf 
N*k los quealli eftavaõ, que por clle naõ fk,Cavaltó»ò , $iai>> 

da 



JDifmrfo terceiro. 14? 

da que Rey.foffe,os naõ podia armar, & podo que elle íè devia 
armar a fi meímo, parece que por dar eíta honra ao Conde de 
Cambris , lhe ( pédio que o armaíTe > & entaõ tornou a fazer de 
novo os mefmos Cavalleiros,que ja tinha armados com outros 
mais. 

Começou efta dignidade da Cavallaria a íèr nefte Reino C hron ^ 
mais ordinária depois da temada de Ceita , & Alcacere, como V ,T i H f rte 
diz Gomez Eannes de Azurara j porque ate entaõ comoo/r^o.jo 
Reino eftava íèm conquiftas , naõ avia occafiaõ, íenaõ rara, de 
alcançaríèmelhante honra,& cscjuehiaõfóra doReinoabuf. 
calla , eraÕ poucos; porem de tntaõ para quà com asoccafíoes 
da guerra^afli de Africa, como de Afia , íaõ tantos os que rece- 
bem a Cavallaria da maõ des Governadores, & Capitães da- 
quellas partes, & eftados, que os nofTos R^ys lhes poíeraõ li mi- 
re no 2. 1. das Ordenações t. 60. mandando, que os privilégios 
da Nobreza concedidos aelles Cavalleiroslhenaõ valfeíTem, 
íem primeiro ferem confirmados péla pcíToa Real,de maneira 
que podemos dizer,que nefte Reino ficaíèndo a Cavalleria nos 
iníeriores o primeiro grão da Nobreza, &*nos Príncipes o ulti- 
mo ai reícentamento delia. 

Eitas ceremonias da Cavalleria naõ íeuíaraõ entre os Gre- 
gos,& Latinos/enaõ depoiSj que as Nações do Norte fe íênho- 
rearaõ das Províncias do Império . Pelo que parece, que delias 
teve priocipio,por íer coftume feu,como fe \ è de Cornelio Tá- 
cito, ninguém poder trazer armas , íem primeiro íer approvado 
pelo Magidrado;& para iíío era ceremonia juntaremfe os prin- 
cipais dó povo,&o pay,ou parente mais chegado, ou mais no- 
bre^ dar ao moço o eícudo, ou efpada, & armallo com cila, 
& que efta era a primeira honra , que os mancebos recebiaõ, 
tendoíe ate entaÕ por«parte da cafa de feu pay , & dalli por di- 
ante por membros da Republica. As palavras de Tácito faoTacií.Ldt 
eftas : ^ArmafumeYenonantecuiqudrn moris , qmm owas fujfeclurum ^ or) ' 
probáverit. Tum in ipfo Concilio ^Prwcipum alijuis > <~vel pater > ruelpropin* 
qum , fcutOyfrdmeaáju^cnem erntret^ h<ec apud illos y hic primus jtftent & 
hunos 3 <mte hoc domm ptirs r videmm' 'fnoxReiftíb&c*. ' 

N 3 D IS* 



t]o 




DISCVRSO 

áV.AR.TÒ- 

SOBRE AS MCTEDAS DE 

Portugal. 

Si i. 



.'N O TI Cl A, & ponderaçaòdas moedas , 8c 
medalhas antigas tem occupado a grandes 
engenhos,& vemos hoje muitos volumes, que 
trataõ fomente defte argumento , por quanto 
nas images das moedas > & fuás inicripçoês íe 
confervâ a memoria dos tempos mais , que 
em nenhum outro munumento.Os livros depreíTafecodíumê, 

íeíènaõ copiãõ,as fabricas, & eílatuasnao paííaraõ de hum lu- 
gar^ ahimeímo acabaraõ,as pyramides ) & obeliícos ,em que 
íeeículpiraÕ os hieroglyphicos myfteriofos,quecontir)haõa? 
propriedades occultas,j a delles naõhà memoria . Pelo que ne- 
nhua coufa confervâ tanto a antiuuidade, como as moedas ; Sc 
medalhas, que pela incorrupçaõ dos metais perfeveraõ perpe- 
tuamente,^ por feu grande numero eftaõ em toda a parte, or - 
de repreíèntâõ os verdadeiros roftos , que tiveraòos mais ant - 
gosPrincipeSjíêusnomeSjíuasvitorias/uasfabricas^&fínalnier- 
te o valor de todas ascouías ; porque todas ellasíè reduzem au 
pezo,& valia da moeda . Exemplo feja difto a hiíioria dos Em- 
peradores , que fez Roberto Herbipolita tirada só das fuás me- 
dalhas. A religião, milícia , & exercícios damefrna Republica 
íe moftraõ noutro volume de Guilhelme de Choul tirado d & 
moedas antigas. Túlio Orfino pelas meímas medalhas eícreveo, 
& deduzio as gerações das antigas famílias de Roma. O Arce- 
bifpodeTarragonaDom António Àgoftinhoj&Sebaftiaõ Eri~ 
íò ruoftraraõ em grandes volumes as emprefâsjhieroglyphicos, 

8c 



Diftnrfo quarto. i j i 

8c myfterios, que noutras muitas medalhas os Príncipes, & Ref- 
publicas quifèraõ fignificar ao mundo, Sobre os Siclos, Sc moe- 
das naôfaõde menos erudiçaõ,& eftima os doutiílimos Budeu, 
Sc Covarruvias,& outros mui£os,cjue nefta matéria efcreveraõ. 
Por onde ate no Evangelho Sagrado iè nos dá por exemplo da 
Sabedoria o Perfeito pay de famílias, cujo theío jro íe compõ- 
em das moedas antigas,& modernas :Qui proferi de thefturojuo no- 
rz/a,& metera E porque naõ há ategora quem cuvulgaffe inteira- ^ ttb - l 3' 
mente o que toca as moedas deite Reino . & ca aatiga Luíita- 
«ia, me pareceo fazer deilas eile breve Diícurío. 

Moedas Romams, 

§. u 

ANtes da entrada dos Romanos em He/panha, ou os Hei. . 
panhoes naõ ufaraõ de moeda própria^ ou íe as ouve,nao , 
chegarão a nos ^porque alguãs , que íe acharão com letras Gi e- 
gas , ou Carthagineías , íàõ mais das Colónias, que quà tinhaõ 
eftas naçces,que de Heípanha . E a razão hc,porque como nao 
avia quá Príncipe univeríal ; Sc os que mandavaõ varias Reipu- 
píicas J eraõmais como Capitães, & Governadores , que con o 
Reys abfolutos , naõ avia quem obrigaíTe aos povos a aceitar 
moeda eículpida com íeu rofl:o,& nome, mas vindo eítepcdcr 
a maõs de Sertório, corno fua intenção foi fazeríè Senhor de 
Heípanha, como Mário, a quem elleíèguio , intentara fazeríe 
de Roma,foi o primeiro que achamos,que bateo moeda^a qual 
tinha de nua parte o feu roftocom huã vífta menos,& da outra 
parte huã cerva,que*fcra a fua divifa ; porque huã branca , que 
configo trazia,fingio que lha mandara a DeoíaDiana.Em Évo- 
ra fe achou huã moeda de prata com efta eljcu!ptura ; que eu tf> 
nho na forma,que aqui eftá eftampada. 




N 4 OMe : 



1 5 z Notícias de Portugal. 

O Meftre Ambrofio de Morales refere outra íêmelhante , que 
lhe veio às maõs , que era de bronze , & tinha o nome de Ser- 
tório. 

Outra teve o Arcebifpo Dom Rodrigo da Cunha de prata 
achada em Almeida com o mefmo nome de Sertório, &eículp« 
tura. Porem com a morte de Sertório reduzida Hefpanha aPro- 
vincia da Republica,&.do Imperio,naõ teve mais Príncipe par- 
ticular,quebatelTe moeda; 8c alli todas as que ouve desde iulio 
Cefar ate a entrada dos Godos em Hefpanha, naõ pertencem 
particularmente a efte Reino ; porque ainda que em alguãs dei- 
las íe acha o nome de Hiff?ama y era mais como empreía , que 
como particular moeda. Também as cidades particulares ba- 
tiaõ moeda com o nome da cidade ) & fua infignia, & da outra 
parte o rofto do Emperador. Deitas tenho eu muitas de Meri- 
da,queera cabeça da Luíitania , as quais de huã parte tem as 
torres fobre aponte com ainfcripçaõ: Emérita colónia ^Augujláu 
E da outra parte o rofto do Emperador Augufto , & Tibério, 
Mas eftas moedas mais faõ particu!ares,que tfníverfais, & íe ba- 
tiaõ com particular privilegio , como íè vè de huã da mefma 
Merida , que de hua parte tem huãjunta de hum touro , & de 
huã vaca,com a letra: ^fugujla Emerita-fii da outra: l<efaris ^Auotffti 

Das moedas dos Emperadores Romanos fetem achado em 
Évora ,& lua diocefi grande numero, & a minhas maõ? tem vin- 
do mais de 3U000. moedas de ou ro^prata, metal Corinthio, & 
bronze de todos os Emperadores, coufadifficultoíà de achar, 
ainda em huã cidade de Itália j o que denota bem a grandeza, 
<jue entaõ teve a noíTa Evora,-pois ainda depois de tantos íècu- 
los conferva tara inteiras memorias da Monarquia Romana. 
Porem como eftas moedas íêja 5 univeria# a todas as Provín- 
cias do Império, naõ me parece fazer delias particular men- 




) 



.(• 



Moedas 



1 




los Kéys,qirè èfles eli^raó - y cóVr; WAb *íe ótêíri pcráe íièáfeil 
dò tl^htfJn^^Hcs btrteo nlceda^br íeretó SfáB CaW^êi/qife 
Prrbcrpes . Wrèhrtóm LeôvigiHÒ apôderandòfe ifó ^éfiáS 
dos Stievò^òndé fòí^ftMtòdo para íbcorrô, ficou abfoliítò Sé^ 
i>hordetòya HeípM^ ;M ó ^rrrneirò, tftíé tomou SffliSWS 
Re ais,& batendo moeda, fè fenhoreou de tudo ; & aííi de etítifâ 




lAoreS aÉRáíftf H8pfflS^ÇB^3^|fiírciflàT effi'r%àS dk 
Lufitania-p^rqúè^óv^HdotíèbfttufoWlley dcM aô Santo 
Martyr«ê¥tôaèg^o5ai Rlhò, querefidia em Merio^de rii*.' 
rrà*a,qu^óH}^^^ maior hufófeto .'dé J 

aírt&*^$zér y 'i^ftftí s#cèttif»l com todas â§ 'otftrás 

fitanas, & próprias; alem das quais também fe apontarão aU 
guas,que trazem outros Au thores > gara ficar a noticia deita ma- 
téria mais inteira. 



*>-m>23 %? 



Leo^vmldò. , ^ 

?c ziidíiicsbcn^ - n 

-oj J obnsrjp tw 

NAs mtêSii dõsReysGòdosfe vé melhdr;qdeemriérihíía 
outra eòufaÒ 7 aVètfé pendido quáfi de todo a efcuíritura 






I • 





&- 



7' 



1:54 

rofto humano , o que nellas eífá efculpido , mas com tudo iflb 
por ellas fe averiguam muitas coufas,que de outra parte naõ fe 
poderão faber : 8c poderamos attribuir eílà falta da etculptura 
a fer os Godos géce pouco amiga de tais policias, íènaõ íe acha- 
ra a meíma barbaria nas moedas dos Emperadores de Con- 
ftantinopla por eftes tempos. 
, DelRey Leovigildo dizem muitos Efcritor es, que foi o.pri- 
WotaL u tneiro , que acrefeentou os Dereitos do Fifco Real , & ajunto» 
a .Lu. c. grande theíòuro de bês confifcados, & deípojos de inimigos , 8c 
com foberba também , 8c altivès fe veftio de roupas preciofas, 
& afentandofe ê alto throno,tomou infignias Reais^porque an- 
tes,como apontamos,& o diz Santo Iíidoro,os Reys dos Godos 
naõfe differençavaõnotrage, nem em outra pompa da gente 
eommum. 

DefteRey tenho huã moeda de ouro com rofto de ambas 
as bandas Jetra:Z>w]j^ /. 

T. S. P. Eftas letras naõ achei quem as interpretaíTe ,. por ferem 
letra pqr parte,- mas parece fe pôde dizer : tnm Vominwm ofúnit 
Sfmifi . Bem vejo, que nefta interpretação fica o latim errado; 
porque ouyera de ícr y oíiwet. E Spam^ouvera de ler com H. po- 
rem os Godos eraõ tam bárbaros , que neftes letreiros comet- 
tiaõ outros erros, eferevendo lufltos por lujfcuyfic Xecarepus^or &r~ 
€âtedus\Como notou o Arcebiípo Dom António Agoftinho , 8c 
efcreveraõ:£w?ratt,por Emérita-, 8c aílí naõ lera muitoeftar érte 
letreiro errado no. latim. A qual moeda he a íèguinte. 






% f 




• 



i"3Í 



~s - 



Outra moeda trás deíteReyGafparÈftaço nas Antiguida- 
des de Portugal cap.68. num. i$. 8c 14. a qual tem de ambas as 
bandas a fua imagem,& ktrSLiLeftigiUiêsXex: & da outra parte: 
pracharâfyftftor-fl qual moeda parece que fe lavrou quando Leo- 
vigildo foi íòcorrer os Suevos,& lhe uíurpou o Reino-, & como 
Braga era cabeça de Galliza,intitularjdoíè vencedor de Braga, 
que era a Metropoli dos Suevos, íe ficava intitulando Senhor 

do 






D Hfc mfo quarto. ijj 

do Reino. 

Naõ vio o Medre Ambrofio de Morales nenhua moeda de 
Leovigildo ,• pelo que he de notar,que eftas duas , que aponta- 
mos deite Rey, pertencem ambas a Portugal,- porqjjea que eu' 
tenho,fe achou em Évora , & aíli denota mandalla Leovigildo 
lavrar depois, que unio.a fio Reino dos Suevos,& ficou Senhor 
de toda Heípanha. 

A terceira he a que traz ô Arcebifpo Dom António Agoíli- 
nho ,que diz: Ehôrafaft os , que quer dizer, Iuíto em Évora ; & fe Dta H *• 
devia bater, por alguã acçaõ iufigne de juftiça, que eIReyfez 
na noíTa cidade de Evora ; por onde parece, que neftas partes de 
Portugal foi a lua refidencia maior. 

Hermenijildo. 

ELRey Leovigildo deu ao Príncipe Hermenigildo íeu fi- 
lho o titulo de Rey,& por aflentode fua Corte a Merida, 
como aponta o Arcebifpo de Turs ; 8c porque Merida era a 
cabeçada Lufitania,podemos ter a eíte Santo Príncipe por par- 
ticular noíío.O titulo de Reyíè vê numa moeda fua de ouro, 
que tenho , & íe achou em Almeida *, & de huã parte tem o íeu . 
rofto bem efeulpido com huã Cruz nos peitos; & a letra Herrrit* 
nigúdus .Da outra huã figura aífentada com coroa na cabeça, 8c 
ná maõ huã couíà, que parece cetro , & a letra à roda , que diz: 
Tíex imlytus^Sc ao pè do affento,/^ M. que parece: Emérita : Eíta 
moeda parece íè lavrou,quando íè lhe deu logo o titulo deRey . 




O Medre Ambrofiode Morales faz menção de outra moe- ^t'i 
da deite Santo Príncipe, que mandou lavrar , quando fe levan- u,*,* j. 
tou contra íeu pay em favor dos Catholicos,dizendo: EJlo eferi- 

<uen 



1 5 á Noticias de PortqgaL 

<ven exprejfamente elPapa San Gregmo,y otros autores y y parece claro en: 
fina moneda de oro y queyo tengo defle Santo Príncipe de las que batió en eftú 
rebelion y ballofe cagando cerca de Córdoba en una dehefa , me llaman Ca/k« 
idanca^oiídeparecen/enales de grandes edifícios antigos: es una infigne an* 
tigualla y y que tiene cofas muy notables- y aun queyo la tengo y y la preá o mau 
for etros refpetos Chnttianos ,y por my dex>ocionconefie Santo. K I)elaun& 
farte e/ta el roftro dei Príncipe jobre un trono con una fruz, en médio de\ y y 
ai derredor daren las letras .Erittenegildi. 'Por donde fe entiende comofu 
rverdaderêfwnbre defle Príncipe es Ermenegildo y y no Ermergúdopi Er- 
vnegâdotcom* en muchos hbros corruptamente fe li y y commumente fe pro* 
rmnciapor elitfe muy antiga de Hefpana en corromper fiempre todos los rio- 
três próprios conmudarlos,j acortarlos algodefwverdadera origen.yprin* 
âpioyfuesfiendêyé cabeça de los Catholtcos el Príncipe \toda\ia tiene efie no- 
bre y no es creib/e y que lo mudo\anu e/de Turs eú^ia: de la otra parte tiene Is 
mtneda una njttmâfor poner et Príncipe en losfuyos confu Tnfla buen ef- 
futrco y y efperanca en ZJtos de alcançaria : la letra y que ejlaal dtrredorem 
tíis reuerfo y es excelente , y ciertâ parece fer lo que San Ernienegildo em 
AquelU guerra apellidéya,pues <//<? :Reg£ devi ta j^ en íajiellano quiere di~ 
çr;Huyc ddKeyyíueço en oyendofeefia letra./ntienden los^DoBos mann 
fieílamente como fue tomada de laspalaíras de San Pablo a Tito/u "Dijci- 
fulotfuefoneflastHxrcúcú homioé poft unã t &fecúodã corre&io- 
né devita: bt&ye dei bereje(dizjt el^fpofol)deípues que una, y dos <r?eze* lã 
hévieres amonefiado\ ^Afsi el Santo Príncipe apellidando con ejl l as pala- 
IraSjjufltfica el alçarfe contra fu padre, muejlra el intento Cathohcê y que ta- 
yo en U rebeíton y ye/lo mifmopone en los fuyos , para que lefean leahs \ y. 
amonefia a hs demas y como devenfeguirle* y parece que con mucha inode- 
Ília refpctode bijo no dixo;Hxrcticú devita^ tanpçco: Patré devita^ 
fino quefe bisfco elnjocablo , que con menos nota defupadrefepudo ufar - y y. 
todo et k tan ddnurablemente penfado ,y aplicado y quefe puede iien cr ar 
jue in\>encion de San Leandro y y de Santo Ijldoro , tios dei Príncipe y que con 
fu fantidad y y alto juizj» dieron en un tal acrefeentamiento . Tf endo ioda s 
Í4$m$nedas>quefe ballan y de los fíeyes Cjodos y de oro baxo y efía es de muy //-. 
no.Porqueeonuquientenia necefsidad de atraher gentes a fu panejas com- 
iida^a con efia riqueza. ^4fsi con fer (fia moneda dei mifmopeç? y que las de 
mas de aquellos tiempos folenfer y tiene qualí doblida Hf entale en el malar 
poria fineza. 

Recame- 



Difwrfo quarto.* 1 57 

Recaredo. 
§. 6. 

* 

DElRey Recaredo irmaõ do Santo Príncipe Hermenegil- 
do íè tem achado muitas moedas de ouro em Evora,que 
me vieraõ á maõ ; huã delias tem de huã parte a imagem de 
Recaredo armado com a tetrxRecamks Rex 3 Sc da outra a mel- 
ma iniaçemJetra.^wfrà* Tm. 

o * 




Efta moeda parece mandou lavrar eiRey em memoria de fuá. 
infigne clemência ; porque numa grande conjuração, que íe 
fez contra elle em Merida ; perdocu a todos os culpados benig- 
namente. 

Outra moeda tenho do mefmo Rey com a íua imagem de 
ambas as partes, & a letra de huã diz: Rccarcdus Rex j & da ou- 
tra : Ementa Viclod -, pondoíè barbaramente o 2). por X. a qual 
parece íè lavrou depois da gram batalha de Carcaílona , onde 
Cláudio Governador de Merida com 300. des íèus eícolhidgs 
clisbaratou milagroíamente o exercito des Franceíes , que era 
de6c27cco . homes , como diz o noíío Abbade Biclareníe . li 
porque Cláudio governava a Merida, & delia devia de le- 
var a principal foldadeíca, parece que em agradecimento de* 
ita cidade , & do leu Capitão, quis que ficafle efta memoria , & 
triumpho delia. Defta moeda tenho mais quatro copias tam- 
bém de ourojainda que todas citas tem : Emérita Vi flor, com R. 
no fim» 

Outra moeda tenho do mefmo Rey de ouro, que de ambas 
as partes tem a íua figura, & de huã a letra: Rccareáts Rtx: 8c da 
outra Htfpali Tms.Eiia moeda parece íè lavrou,quãdo S.Leãd: o 
cõ favor dcfte Rey celebrou em Sevilha o primeiro Concilio. 4 
naquella cidade ouve^poi iffo lhe dâ efta moeda titulo dcPio e 

O Se vi- 



1 58 Noticias de Portugal. 

Sevilha.O Arcebifpo Dom António Agoftinho Dialogo 8. traz 
huã medalha defte Rey , de huã parte diz : Recaredos Kex ; 8c da 
outra: Emérita UiBor.Outn moeda traz o mefmo delRey Reca- 
redo,que de hua parte tem feu rofto, & a letra: Recarepus Kex: 
ubi P.pro Z>.pofitum,& da outra parte:Ehoya Iuftos, que parece 
diz: Iufto em Elvas. 

Das primeiras moedas 5 que aqui refiro , teve também copia, 
mrd.t.2 fc not i c j a Meftre Ambroíío de Morales , o qual faz mencaõ 
& 4/ * de outras moedas defte Rey ; huã com o feu roíio de ambas as 
partes,mas as letras faõ as mefmas em todas.as do rofto dizem: 
KeeareJus Rex,8c da outra parte: Tohto PiuiOàz. moeda mandou 
lavrar elRey em memoriado Concilio III . Toletano , em que 
abjurou a heregia Arriana , & profcílou a Fè Catholica,& foi o 
terceiro Concilio,que fe ajuntou em Toledo. 

Outra moeda traz do mefmo Rey de prata,que de ambas as 
partes tem o feu rofto , & de huã eícrito o nome do Rey , & da 
outtxToleto /»/?«j;Iufto em Toledo, a qual parece fe lavrou era 
memoria do caftigo , que elRey fez em Toledo de Argimun- 
do,que fendo da Camará delRey , fe quis levantar contra elie, 
Sc com o Reino:o qual fendo prefo , 8c confeífando íèu delicio, 
foi decaluado , esfollandolhe apelledatefta,&moleira,& lhe 
cortarão a maõ direita,& aos outros caftigaraõ. 

Outra moeda de ouro traz o mefmo Author defte r<ey 5 cjue 
tem o feu rofto de ambas as partes , 8c de huã eícrito o feu no- 
me^ da outxxElbora JujlusSox onde parece, queefta moeda ih 
devia de bater por alguã obra infigne de juftiça, ou de bom go- 
verno,que elRey fez na noíTa cidade de Évora. 

DEfte Rey,q foi filho,& facceíTor de Recaredo, tenho hui 
moeda de ouro com fuaimagé de ambas as partes, letra: 
Zt.N.Lwva R^&da outra: EmeriraPius ;quer dizer: ElRey Liuva 
N.S. Pio ê Merida 3 fer efta moeda defte Rey,& naõdo primeiro 

Liuva. 



; D ifcurfo quarto. 15? 

Liuva,conftj; porque antes de Leovigildo, os Reys Godos naõ 
baterão moeda,como ja diílemos. 

Eíh devia de íer feita em memoria de alguã obra infígne 
religioía , ou Concilio por fua ordem feito naquella cidade , de 
que as hiftorias naõ daõ noticia. 

O mefmo diz o Meftre Ambrofio de Morales de outra Mor * 1 * h 
moeda deite Rey, como íè vè deitas palavras : En fu úempo lltC ' 9% 
desle 'Key no [demos fe biçiefie Concilio en StWla j mas el fin duda hiço en 
aquella cmdadalgunx c»fa como Xey (atbolico , y buen Cbnfttano , ftgunfe 
bazj memoria en una monedajua de aro , queyo tengo . '£)e ambas partes 
ejla en ella fu rofiro con diadem* Real -^y de la una cliçe . D . N . Li uva 
Rcx: eíKey Liuva nuejlroSenor , yde U cera: Pius Hifpalij iWi- 
giojo en Senlla ; yo tengo esla moueda for dtjle Key , y no dei pri* 
mero defle nombre ; por tener ya diadema , que no fe avia ufado eu 
tiempo dei otro ; y principalmente por b.tzer memoria de la bue- 
na CbrtJliamdaddelR.ey, la qual no pudo aver en el otro , fiendo ^yír* 
riam. 

Vrviterho 






i. 8. 






." 



D Vas moedas de ouro tenho defle Rey> que fuecedeoâ 
Liuva, de ambas as partes tem a íua imagem com gran- 
de cabelleira j a letra de Ima diz: // Vi i eriças Kex\<k da outra par- 
te ; Ementa fius . A outra tem também o mefmo nome doRey, 
& da outra: IfpahTius , A primeira moeda^ue fignifica Pio em 
Mei ida,parece devia de fazer bater efte Rey * quando quis tor- 
nar a introduzir a feita Arriana^ dando principio deftafuci mal- 
dade em Merida;& pode fèr,que dando nome de piedade áfuít 
herefia, mandafíeeículpir efta moeda Com o titulo de Religio-» 
íò, Sc Pio ; ou também pode fer o que diz Morales , que vendo, 
que naõ podia tomar a introduzir a íèita Arriana , fe moftraífe 
em alguas obras Catholico. 

Da outra moeda que diz : Pio em Sevilha , teve também ou- Mml /, 
tra copia delia Ambrofio deMoralesjpoíto éj o nome de fíi/pa/i, **■'•*»* 

O z na 



Noticihs-âe PwPHgal. 

na raócáà;^[uè í éu terjhó,he com 7. Sc tiâ de Mòíates hé com B. 

Sc defta ; & doutra,que tevefeita era Taniâgona-, diz o íeguiòte: 

To úoml^ofièmpre^Vviterko I .indèfftrentefftebtetfòr aver-vi~ 

Jlo monèdasdeorofuyasflonde eftà de dmbas mineras efcftio ^Uunaàohflt 

roflrotiene eftas letr 'as de fu mmbre^S] "vi t ter j cus R»e& -*y 4e h bt ra ffàrlre 

conèlmifmo roftro J^/.Tàrraco Vvàsireliviofo enTarraMd^j ) frendo tan 

inalo forno tfia dichofafe puedè entender, forme fe lefufo ffit letra. Tue- 

Úefe con\eBi4rdr^Heno acendo podido ^ heregia , /efihgfy 

muyVdtboltço^y aio algunamHèftraJeflõ en àquella ctudady taUfonj& como 

fuetecon ^érdad^yjínellayCekbroenelRey lo quem a)?td:ja la rmfmd cu» 

l enfafe ftiede ponerotra moneda de óro t quey$ be ^vifiò : déjíc-&y conju ro- 

fíro^y nomhrede Unafarte,y de U otra con elriftrodizs ; Hifpali Pius Q 

id nombre delRey en eftd moneda]/ útt ene ? es con I M con E :cmio enla otrd y 

hfsifdrtxefefuedenemífrÁr delambas maheYds* 






■m*A* 



■ 



J. O, 

AVvitterico íuccedeo Gunderríáro. Defte Rey traz o Me- 
ftre Ambroíio de Morales huã moeda , de que diz citas 
lh f A h palavras ; He <uifto una monedd de oro defte Rey con fu roftro de una par* 
te ,ylds letras : Gundemàrus Rex $ enelre)>erfo tambien efta\>a el roftro^ 
y dizjdn las letras : Pius Illiberri . ^Iguna luena cofa de\>íb é L- 
t£r en aquella ciudad , que eftuvo junto a Çranada llamada: Ilibe ri; 
dè donde felcpu/ò et titulo Picdofoyi Keligiofo en íliberi. Eíla cida- 
de, cjue eftéve junto a Granada,naõ íe chamava; Illtbems, fenaó 
IthterfySc a càufa de eftaraqui o nome de Illtberi com dousr.r, 
lie forque os Godõs,como gente do Norte ; pronúnciaõ todo o 
#*dobradoi& âííí por fllibert jdizizò Illiberri. 



5tM 



e'£fii- 



Difcnrfo quarto. 161 

Sifebnto. 
$• i o« 

EM Évora fe achou huã moeda de Siíèbuto fucceiTor de 
Gundemáro de ouro , que eu tenho , de ambas as partes 
com feu rofto;& de^ua as letras: fáfebmm Ktx; & da outra; Imi^ 
mo fmsfi qual he a feguinte. 





Efta moeda parece mandou lavrar elRey depois da vitoriaque 
teve dos íòldados Imperiais de Heraclio , na qual fe ouve com 
tanta piedade 3 que naõ fomente libertou os feus prifioneiros, 
mas ainda reígatou aos que eftavaõ prelos em maõs de particu* 
lares.Eftas vitorias deviaõ de íèr na Lufitania,por quanto o que 
os Emperadores de Conftantinopla poífuiaõ porefte tempo em 
Heípanha, era a parte , que cahia junto ao mar pela coita de- 
ite Reino 5 8c como quá foi a guerra , & Eminio eílá perto de 
Aveiro,no lugar donde agora chamaõ Aguada , podeíè enten- 
der,que ahifbíTe eílaíua piedofa magnífictnciajpela qual fe lhe 
deu o titulo de Pio em Eminio^u Aguada,a qual pela vizinhan-» 
ça,que tem com Aveiro,mukos lhe daõ o mefmo titulo . Ou- 
tra moeda de ouro tenho do mefmo Rey com rofto de ambas 
as partes, & de huã a IttYxSifdtitus Kex- y 8c da outxz: EmeYmftus m 
Foi efte Rey mui religíoíò , & em íèu tempo íe celebrou hum 
Concilio Provincial em Agàra na Província de Narbona,& ou- 
ti o em Tarragona.Pelo que bem íè pôde cuidar } que o mefmo 
fuccederiaem Merida,Metropoli da Lufitanbj & que também 
íê faria ahi algum Concilio Provincial dos feus Bipos, em me* 
moria do qual fe lavraria eftamoeda ; chamandolhe;PioemlVíe* 
rida^que he o titulo,que outros muitos tomarão por razaõ de fa- 
zerem celebrar Concilios,como ia temos vifto» 

O 3 A 



t 



! 



i St Noticias de Portugal. 

A ifto fè acrefcenta , que a refidenciadeiteReydeviadefer 
mais frequente nefta pai te da Lufitania^affi pelas guerras, que 
teve com os Imperiais, que poííuiaõ o marítimo de Portugal, 
como pela memoria , que ainda hoje ha delle em Évora; cha- 
rnandoíe torres de SifebutoydousCobelos grandes , & muito 
fortes , que ainda hoje fe fuftentaõ inteiros no muroantigo da 
cidade,queeftà na tua chamada Alcarcova. 

O Meílre André de Reíende teve outra moeda defte Rey de 
prata lavrada «a meíma cidade de Évora, que dehuã parte ti- 
nhao feu rofto com eftas letras:£>.2V. SiJebutusRex. El Rey Sife- 
butc noffo Senhor ,& da outra huã grande Cruz,& dentro eftas 
httzs\Cmtas Ebora^fk ao tedor:Z)eus adjMormeusiDços he minha 
MoraLL ajuda.Por efta moeda entende Refende,& o approva Morales, 
i2,W q ue ouve em tempo defte Rey cafade moeda em Evora;& que 
asfcrtificaçoés/jueSifebutofez nas torres dos íeus muros ,fo- 
raõ contra os Imperiais,quecomotinhaÕo diftrióto mantimo, 
Jhe ncavaiendo Evorafua fronteira . O Arctbiípo Dom Anto- 
^* nio Agoftinho traz huã moeda ácàc Rey,que de huã parte tem 
iiia imagem,letra:^^w Re^Jk da outra: Emérita f-ius. 

S<vinthiU. 

EM Évora fe achou huã moeda de ouro dei Rey Svi nthi! a 
filho delRey Recaredo Segundo,&nettodeSiíebutocom 
o feu rofto de ambas as partes , & de huã o letreiro , que diz: 
SwnthhRex-Jk da outra: /uftusTucá. RefereS. lfidoro,queeíle 
Rey teve grande prudência , &íeapphcavacom grande cuida- 
do a fazer juftiça a feus íubditos . Pelo que com razaõ fe podia 
prezar defte excellente titulo de íufto.O lugar de Tucci naò fe 
pode affignar com certeza, por aver muitos defte nome em 
Hefpanha ; porem podeíTe conjeiturar,que foííe hum,que eftava 
junto a Sevilha no caminho para Merida , como Rodrigo Ga- 
ro aponta no feu Principado de Sevilha debaixo do titulo de 
Tucci. 

Outra moeda de ouro tenho também defte Rey com o feu 

rofto 



y 



Diftnrfo qmrto. *<% 

rofto de ambas as parces,& de huã o íeu nome, & de outra: 1/pali 
Tius.Sãnto lfidorodiz tantos bê> do governo dos primeiros íin- 
quo annos deite Rey, que facilmente le pôde entenderfaria em 
Sevilha , onde elle era Prelado , alguã obra iníígne de piedade, 
por oade mereceo efte titulo de Pio em Sevilha. 

O Meítre Ambrofio deMorales traz três moedas defleRey, Moral, i- 
de que diz as palavras íeguintes : El mmbre defte %eyi e/ia' efcrito a% 12 ' c " l6 ' 
Ver/ameme en los likros % mas el^verdadero es , et que aqui le damos , coma 
parece en dos monedai de orofuynSjqueyobe r z/iBo ; tienmde ambas pare es 
fu ro(lro 3 y de la una dizen las letras ai derredor. Svintila Rexj las letras 
dei reverfo dtzjn: Pius Eliberi :y en faftellano : Religioío en Iliberia: 
Efta ciudades la quejegn^ almnas ^uezes fe ha ãicbo^efla^a caie Cravada. 
Uamada entoces Eliberi.//^ <-vi(lo otra mmeUa de oro defle Tíey , que tiene 
de la una parte fu roffro y yfu nomhre -y de ia otrafu mfmo roflro con >ffas 
letrasíTaxvzQo PiuSj^^j nofparticu\aridaial^nafuya % en aquellaciu- 
dadfor donde fele atrtíuy a tal titulo? 

Sijfenando* 

S* 12. 

SIíTenandofoifucceíTordeSvinthila;os Authores Caftelha- 
nos naõtrazem moeda nenhuã deite Rey ; porque parece 
a naõ alcançaraô\,porem eu tenho duas de oui o,que íe acharão 
em Evoia,ambas com as meímas letr: s,& figura; pofto que huã 
delias he lavrada muito mais grofteiramente , que a outra : de 
ambas as partes tem o rofto do Rey com a letra. Sifíenanàus7lex> y 
& da outrxEmenta Ttus. Pela hiftoria defte Rey naõ íè pode al- 
cançar couíà notavel,que fizeíTe em Merida,por onde mereceí- 
feo titulo de Pio em Merida,que lhe daõeftas moedas;fo men- 
te podemos entender,que o Concilio Nacional terceiro deTo- 
ledo s tinha ordenado,que quada anno íè fizeftèm Concílios Pro- 
vinciais nas Metrópoles , poderia fer, q íè celebráiTe algum em 
Mcrida governando efte Rey , como íe celebrou em Toledo ô 
quarto ; que foi Nacional. 

O 4 Tu!gdn. 




•ffi'V«V 



,^4 Noticias âz Fertngnh 

Siffenando fuccedeo Chintila,& a eHe TuIgan () deíleRey 
naõ viraõ os Authores Caftelhanos moeda alguãjfc nao 
te muito , porque elle viveo tam pouco tempo , que naõ pode 
aver muitas memorias fuás j porque naõ foraõ mais de dous an- 
>nos.Poremeu tenho huã moeda de ouro,que íè achou ernEvo- 
jra,que de ambas as partes tem o feu rofto, &de huã as letras, 
-que dizem: 7tt^w#ixj& da outra: Cor Ma fms . Santo íiíefonfo 
louvou muito a Chrifendade,juftiça,Íiberalidade J & prudência 
deite Rey , Pelo que bem podia fazer em Córdova alguã obra 
de virtude infigne,pela qual mereceílè o titulo de Pio em Cor- 
dova,que a moeda lhe dà • ' pofto que nos Authores naõ fe acha 
imençao delia. 

Çhindascvwclo* 
j. 14- 

DETulgan foi fucceíTor Chindasvindo , defte Rey tenha 
hua moeda de ouro como íèu rofto de ambas as partes; 
Sc de huã diz a letra:£Wrfyfa?. S. %> que he:elRey Chindasvindo^ 
& da outrx/fpdli P/w.Efta moeda parece mandou lavrar elRey* 
quando fez ajuntar hum Concilio contra Theodifelo Grego, 
queíèndo Arcebifpo de Sevilha,começoua publicar muitas he- 
teíias naquella cidade ,• acudindo cl Rey a efte mal , fez que no 
Concilio fe examinaíílm fuás culpas , & lhe tiraíTem o Arcebii- 
padoj&defterrafíemde toda Hefpanha . Pelo que com razão 
íè podia prezar el Rey de acção tam glorioíà , & mandar bater 
eíta moeda, que fj achou em Évora ; naõ avendo memoria de 
outra alguã nos Authores Caftelhanos, 



Xecefi 










■qmfpj^mfw. 16 j 



RÍ£tS<VWtO. 

-ir - i 

A Chindafvíndò fuccedeò. léu hino Kecefvín to. Dèfte Rey 
JfjL tenho três moedas de ouro, que fe acharão em Evòra; 
hu I tem. dè huã parte o feu roílo com capacete na cabeça , & 
íetrá,que diz : Zcce*vintus Rex ; que quer dizer elRey Recefvlnto; 
neftè home em lugar do Tla"ttnò,uíaráõ do T,"G regos da outra 
parte tem íòbre três degraos huã Cruz grande de Feiçaõ das dà 
'Ordem dè fcfinrtõ/àc a letra 'kv^Egitima Tmxom o u. virado. 




Efta moeda devia mandar lavrar elRey por àigúm Concilioí 
que fè fizeíTe em feu tempo na ídâhha ,'cidade da Luíitania,què 
era Epifcopal , cuj a fede íè páíTou depois pai a a Guarda ; onde 
ainda retem o nome de Egitarieníè» 

As outrasduas moedas ambas faõ femeihântes ; porque dè 
huã parte tem o rofto do Rey armado com feu nome,& da ou- 
tra a Cruz íòbre o mèímo tllrono, & letra; Ifpali fius : O Arce- lUfogo 8. 
bifpo Dom António Agoflinho traz huã moeda dèfte Rey,que 
de huã parte tem feu wfto f lnra:Recefpmtus /fe*r,-& da outra parte 
hua Cruz íobre degraos, letra: Ementa ?ws, 

Deoutrafemelhanteaeíias teve copia o Meftre Ambrofio Morat. i- 
de Moralesjdas quais,& de outras niais, que viodefte Rey ,diz ■ 
eftas palavras^/Tw/^m? nombre dejle Rey es eLque yo aqui ujo> como 
parece enuha moneda de oro y queyo tenoojuyacon fn rojlro en ambas pUr- 
tes^adornado de la diadema acoílumbrada^mas debaxo delia úene armadu- 
ra de cabeça } quàl enmnguna otra morieda (joticayo he ijifio , las letras dl- 
X.en de la una parte: Reiefvinctus R èx; y dela otra : Córdoba Patrí- 
cia ;jy quieren dtztrja audad de Córdoba-, quefue tambien llamada Colónia 
de Ca)>alleros ; adelante tambien pareceran otrâs buenas comfrobaciones de 
fer ejle elnserdúdèronombre'deíÊn:p'or las letras desle rever/o creo yoct- 



erta 



,<já Notícias dt Portugal. 

trtofeUbro efla moneda en Córdoba, que en tiempo deles Romanos tu)>o dos 
nombres,el/uyo antigo MUtfue Córdova >y otro , que lepoperon los Roma* 
nos Jiamandola : Colónia Patrícia; queqmere diz.tr Colónia de Cauller 'os 
frincipaleSyComo enfu lugar fe ha enteramente tratado. Tor el Concilio, que 
celebro en Merida a lo queyo tengopor ciertofe bano otra moneda de oro 
Jejte Rey , queyo he "Vtjio, tiene de una farte elrcfíro delRtyçonJH nombre 
puejlofobre un trono Imperial feme jante ai que efláen la moneda dei Santo 
Jfáartyr el Príncipe Hermenegildo, de que/e ha dicho : elreterfo tiene una 
Cru^confupiè;y ai derredor dizjn: Emérita Pius^j en fafallano : Reli- 
giofo en yizúà&iypõrejlamonedafe comprue^a tambien el n/eràadero 
nombre delRey. 

Sin las monedas deJleRey, que. fe ha>hpue$o *Je hallan otras mnchas de 
4ro,yo hetenidootra con f/dfcCordoba Patri' adorno la éch. , mas de 
muy dijferente Cunho, y tan malo y quejè puede creer, que para mejorarjle hi* 
ZJeron et otro defpues,yporefias hs mmçdas fe entiende como en Córdova 
Avia cafa Xeal de moneda. donde felabrava y y aquella ciudad era ahorá. 
íomofempre tan principal, que ejio ,jy mas podia ha^er cneíla, Qtrdmone* 
daht isijfoconel refiro delRey } yfu nombre -, yen d reVerfo: Brachara 
Pius,^' algun Concilio flueen aquella ciudad de 2?raga/e celebro enfu ti- 
tmpo.Otra he ^iílo^que tiene en el rever fo : Hiípali Pius,- y parece huvo 
atro Concilio allt enfu tiempo. En o'ra tiene elnomlre unpoco diverfo, pites 
Àize: Receívinthus-™ elreverfo tiene: Tolero hirtos : y parece fe le pu+ 
fo en el titulo por las muchas leyes^que en eloèlavo Concilio de Toledo , yftif* 
ra dei hizo\ y hajje de notar, que en muchas dejias monedas 7 donde yopomê 
Th } ejià la cita Criega. 

V<vamba. 
§. \6. 

ARecefvintho íuecedeo Vvaroba. Três moedas tenho de 
ouro do noffo Rey Vvamba,huã delias he maior , & de 
melhorouro : na qual de huã parte eftà oíeu roíío com ror.is 
clara eículptura , cjue todos os outros paílados ; eftà armado de 
capacete^ hombreiras;&a letra: /.Z).N. N. N. & V^imba'Re^ 
& da outra humthrono com três degraos,& ê cima huã Cruz, 
&aIetra:£wm>*?;0.r.En;es N.N. intrepreta o Meftre Ambro- 

fio 



Difcwfo qmrto. 1 6 ? 

fio de Morales://* 7)ei nomme,nomwe, nomine J/vamla Rex: Em no- 
íne,nome 5 nome de Deos^pondo rres vezes o nome Divino, pa- 
ra denotar o myfterio da Santiíííma Trindade.oreverfo diz.Pio 
em Merida; a qual he a íèguinte. 





As outras duas tenho com íèu rofto naõ também efculpidOjtms 
com tudo tem huã Cruz na naaõ , o que a outra naõ tinha , 8c 
com o mefrno letreiro do nome em ambas; da outra parte: Tole~ 
to •?***; Pio em Toledo, o qual titulo tomou pelas muitas obras 
de Religião^ piedade,que fez em Toledo,que fe efcrevem lar- 
gamente na fua hiftoria. Porem he de advertir, que o nome de- 
ite Rey naõ fe há de ler pronunciando os dous V* V- do princi- 
pio quada hum de per fi , como faz o vulgo erradamente , por- 
que heortographia própria de todas as gentes do Norte uíarem 
de dous V- aquando querem.que feja í / .confoante í & naõ vo- 
gal^ porque elRey íèchamava Vambacom ^coníoante, el- 
les como Godos,poíeraõ os dous V. f^parâ denotarem, que era 
coníbante , & que íe avia de pronunciar juntamente com o ^. 
& M íeguintes tudo numa íyllaba per fi . O mefrno íehà de di- 
zer do nome de ]/wifa ) Sc Vntenco , que por efta razaÕ eftaõ ef- 
critoscom í/,dobrado,comoíevé nas íunsmoedasE porque o 
Meítre Ambroíío de Morales teve copias deitas moedas^eferi-* ^ t j 
rei íuas palavras:^ ^ueràadero nomhre no es 2?ambd,cúmô corron,fien- i2,f.i^ 
d& el ijocaílo^cômmummemi pronunciamos ,JInó: VvaTtihâ) como parece 
en dés monedas de oro fuyas % queyo he <-ui(lo , y nenen aun mas muefiras 
de Chrijliamdaa \y devociónMuejuele aver en o trás monedas Caóticas. Su ro* 
firo de la una farte es differente de los ordinários , que je njeen en tales 
monedas^pues conlos ojos alçados eftà mirando con attenáon una Cru^ypa- 
rece tenerla en la mano -ai derredor dtzjn las letras: Vvamba R ex . EJlo 
efldbien claro y mds antes eslan todas eslas letras :l. D. N.N.N, de las qua» 
/es no tenoo cofa curta que dizjrpara hien declararias. El Maeflro^h^t 
Comez^cuya es ejla moneda^quandome la moflro , me dixo una/u declari,- 
cion harto aguda } yfunl • qmere que diga tlli : In Dei nomine ; y que el 

nom* 



I t 

1 68 Ncticias (k F-ortugnh 

nombrar a Diosjiofepufouna N.fola } fne treinara denotar el myjieriodè 
la Santifsima Trimàad. T)e la ocra parte de la moneda ay una Cruz^en me» 
dto ? y ai derredor dtze U ordinarioiT o\c to Viusjtcligiofo en Toledo, per el 
folenne Concilio ^que mando alh celebrar ejleRey.EHo ay en la una moneda,. 
En la otra,que tambien es de oro , ejlk de la una parte el nombre delRey en 
têdas las letrdsya dicbas enelre\>erfo:con la Cruz. ordinária dize:Emer'\tzi 
Piusj yo no be njifioporquefe le aja podido poner tal titulo y y tambien de fit 
nornbre ferk forcado tratar otr a rvezjtdelante con admnr abora , que en 
toquei Concilto^m en otr aparte no ah que [ele di elprenombre de Fl&io, //* 
nofolo el Fuero ju^go. 




IMÚs 



SEguiofè a Vamba Ervígío . Duas moedas de ouro tenho 
defte Rey,huã achada em Evora ? outra no termo de Viíeiíj 
mas ambas do mefmo modo, de hua parte temo rofto peor cí-i 
culpido, quetodosos deíèusantepaíTadoscom as letras ; /. D^ 
n> n. n. Emgitis Rex$ que quer dizerem nome de Deos, repetia-, 
do três vezes o N.como o fez íèu anteceífor Vamba : & de oiw 
tra huaCruz fobre os três degraos,Ietra:£z?3mA*?W.Eftas moc-J 
das parece fe lavrarão por algum Concilio,que íè fez era Meii-f 
da com o favor defte Rev^pois em feu tempo fe celebrarão ti es?' 
em Toledo,ou pelas grandes obras, com queilluftrou Meriday 
pois como refere Morales,eIíe reparou os muros , &reformoir 
a ponte de maneira, que parecia avella feito de novo , como tu- 
do confta do livro velho , dondeeftaõ as obras de Santo Eugc- 
nio,onde fe põem hum epigrama feito em louvor dei Rey,& de 
Sala Governador, & Capitam General, que era de Merida . O 
£, . g Arcebiípo Dom António Agoftinho traz também huã moeda 
defte Rey,quafi com as meímas letras das noflasjque !aõ: /. V.u 
NJN.v.ErvtgiusXex:quç elle Ic.In Deinemw Enigius Kex: Em no- 
me deDeos elRey Ei vigio . Morales também teve defte R oy 
duas moedas diverías,como fe vé deftas palavras : Su ^vtrdaàe>o 
nombrecs Evigio,^»0 Ervicio, ni Eringio , comoenmuchos hbros cor- 
ruptamentefe lee^porquejo be <~uifio monedas de orojuyas en me tle a?n^ 

Lai 



Vifcurfoqmrto. 169 

bas y artes efiafu rQ$ro\y de la una drç/:Ervigius Rexj y dela otra:To~ 
leto Pius-^/g/yi en Toledo } bor los Concílios Jsfk en aquellaciudadbizp ce- 
lebrar. 

Otra moneda de oro be "T/ifio Jefte Rey confie refiro yj nombre de una Mer*L l, 
f ar te ,y dela otra (a Cruzjcon las letras .Naxbona, Pius ; y conjeílura muy i *.«.}$•. 
íien el Maejlro y4lvar Cornei, cuya es efta moneda , quefe lepudoponer 
efte titulo for a^er rebelado ajuella ciudad dealgunos nums tributos , que 
elRey ^yamba poria rebelion le aviapuejlo. 

kgtca. 
S. 18. 

FOi fucceíTor dc.Ervigio feu genroEgiea.Em Évora fe acha- 
rão duas moedas de ouro deite Rey,c]ue eu tenhojem huã, 
eílà o íèu rofto muito mal efeulpido com capacete na cabeça, 
& huã Cruz na maõ,& ktvas:3/N.M. N.Egtca Rex: & da outra 
a Cruz (obre três degracs,& huxElbora Tjus, nefta forma. 










Naõ conda da hiíloria deite Rey , por onde merece/Te tam e%- 
ccllente titulo , como o de Pio em Évora ; íenaõ he,que na re- 
belião , que contra elle moveo Sisberto Arcebiípo de Toledo, 
quando elRey o venceo, poderia fêr que foííe neíta Provinda 
da Lufnania; & que em Évora fe fizefíe juftiça dos culpados. 
Também confta , que no íègundo Concilio de Toledo , que íè 
celebrou em tempo deite Rey,que foi o 16 . pedio que íe man- 
daffe recopilar o livro do Fuero jnzgo, & íe reduzio â forma, 
em que agora o vemos,como o íente Morales 1. 1 2, cap. 1 6. ôc 
poderia íer fazerfe eíta recopilaçaõ em Évora: & como por 
eítas leis feavia de governar a juftiça, lhe dariaõ o titulo de 
Pio em Évora , que lie mais notável 5 porque tem de huã par- 
te huã Cruz, que divide de alto a baixo a moeda, & apar- 
ta dous roítos muito mal eículpidos j & as letras dizem : /. 



%7o Noticias ;dt 'Portugal. 

27.2ST.N./. Egica &ex . Em nome de Deos Egica Rey;& da outra 
eftáhuãCruzneftaforma: M & á roda:/.2?.£.N.2s^i/w<4 
tf^quequer dizer, elRey *-pA Vvitiza;& as letras da Cruz 
eftaõ quafiécifi^&dizê: r .\ Emérita, começãdopcloE Ao 
braço direi to, 6c logo o M.que eftà em cima,& o R.debaixo,& 
o Ta do braço efqucrdo Efta moeda mandou lavrar Çgica,qua- 
do deu titulo de Rey a feu filho maior Vvittiza 5 Sc por iíTo fe 
poferaõ os roftos, & nomes de ambos na meíma moeda $ o no- 
me de Merida fe pos ahi por fer o lugar,fegudo parece,em que 
amoedalebateo. 
Mor*l l P Meftre Ambrofio deMorales traz também hua moeda 
ii.c. $7/ defte Rey com as palavras (eguintes.Zflfe <viflomoneda de oro fia f 
& *l é me de una parte tienefi rofiro congran barba ,y tiene ejlas letras 4 der* 
redor. IJ)^ N. N, Egica Rex:£/ nomhre iserdadero efik ntamfiejio ; las 
ctras letras dei principio pueden dizir : In Dei nomine nofter Çgica. 
Rexjj continuandofe en lafeguientesydiran todas: En nomhre de Dwm* 
ejiro Rey Egica. 

Conforme a efioaqueUa moneda de Egica , queyahe dicho , tiene de la 
etna parte cierta manera de Cruzjn medio^y dizg la letra ai derredorN \VL-~ 
tiza Rex.íV donde feda a entender que la moneda fe batio en tiempo, 
que ya padre, yfitjos remawn ambos. 

V^vittiza* 

r. r 3 íq di í>: 

M*r*l 1 T\ ^ Egica foi nlhò,&fucceíior Vvitfiza.Outra moeda traz 
I2.C.*;." I J - Moráles dei Rey Vvittiza j a depois de governar sò, por 
morte de íêu pay,de que diz eftas palavras ; Su ^verdadero nomhre 
es elaus aquileponemos, como en aquella moneda de Ju padre parece , par- 
que tiene tamhien en el reverfo oiro rojlro^y dizen las letras: V vittiza R c x . 
El^iuthor y queefcreviola Cbromca de Toledo affirma ayer ^vifio.moneda 
de oro dejle Rey con letras j que en la parte donde efla\>afu rofiro y iizian: 
Vvitigius Rex,-^ en re»erf> :T?olcto Pius;^ efle nomhre el mjj mo es^qite 
Vvitiza ; fino que el primero efld conformado enla lengua latina , alaimi- 
tacion de un Rey de los Ofih^ogoàos en Itália , que fe -mmbro ; y 
ejlotro eflà mas accommodado a la pronunciacion de mejlros l/iz?- 

godos 



Difcurfo quarto. i^í 

godos de Hefpana>corforme a/u lenguage.O Arcebifpo Dom António 
Agoftinho traz huã moeda deite Rey no íèu Dialogo 8 . cõ efta 
letra;//» DNJW.lfwtk* %**&à Dei nomine Vvittiza Rex, 

Dom Rodrigo. 

§. 20* 



DÈlRey Dom Rodrigo fucceflbr de Vvittiza ,à uttimtí 
Rey dos Godos 3 diz o Meílre Ambrofio de Morales as 
palavras íeguintes: Su ^verdadero nomhre es RoJerico^ como mamfefla- ^£**h 
mente parece en una mmeda de orofuya, me yo l?e thSIo , ttene de ia una 
parte fu ro/iro harto dtfferente de los que en las otras moneàas defios Rey es 
parece, Ttene manera de eíiar armado 7 y fale n por ctm* la celada unaspun* 
tas como cuernos pequenos , y derecbospor ambos lados , que lo bazjn e/lrd- 
no } ye/pantat/e:las letras diçen ai derredor: In Dei nomine Rodericus 
Rexjj^/In Dei nomiúzefláen cifra travadas las letras : elreverfo ite* 
ne en médio una Cru^/oíre três geados , las letras dei redondo por deftiêfn 
fonejias: Egitania Pius : dizcn en nuejlr o romance : Religíoío en Egi- 
tania . Efta era la Trovinctade Igedttania en Tortugal , de que algunas 
*x;ezes avemosdtcbo-y cfíavaya corrompido/u nombrejnas no/e tiene noti- 
cia de cofa notable y que ejie Rey alli btzjefíe , por donde fe le pofiefe en (a mo- 
neda el tal titulo. 

Saõ eftas moedas , de que Mor ates j & o Arcebifpo Dom 
António Agoftinho fazem menção 1 3.& as que íè acharão em 
£vora,& eííaõ na minha livraria , paílaõ de trinèa. De maneira 
que sò em Évora íè acharão tantas cjuafi , como em todo o re- 
ílo de Hefpanha ; por onde parece, cjue Évora floreceo em tem* 
po dos Godos mais,que nenhuS outra cidade, fegundo moftraõ 
eftes veítigics, & finais de íua grandeza: ao que também favo- 
rece ver ,que as moedas,que trazem eftes doas Authores,as mí*« 
is pertencem a Lufítania ; de quem era cabeça Meiida ; porque 
das 62.moedas,que extaõ do tempo dos Godos^como íe vè das 
memorias aqui eícritas/aò de Merida deanove-, de Évora qua- 
tro -, de Elvas huã; de, Braga duas ; da Idanha duas } de Emi- 
nio , que era junto a Aveiro , huã . Por onde fòmaõ^ as 

P i ÉGea&* 



íji Noticias de Portugal. 

tocantes a Portugal, 29. & para o refto de Hefpanha, 26*. afaber 
oito,q pertêcê a Toledo; a Sevilha nove ; duas a Tarragonajtres 
a Córdova jhuã a Tucd-tres a Granada ; porque a de Narbona 
toca a França $ a fora as 6* que naõ tem lugares próprios ; & aífi 
confta, que Merida cabeça da Lufitania tem mais que todas- 
Pelo que íè pode entender , que os Godos des de Lufitania íê. 
nhoreavaô Caftella,& que neftá Província afliftia a fua grande- 
za^ maior freqUendã. Donde com razaô fe pode dizer do té- 
po dos Godos o que ja diiTe Auíonio no dos Romanos, q a Me- 
tida íe íòjeitava toda Hefpanha. 

jéufbnij Emérita 4quoYÍHs y au4mfr ater UhitUY iAnn&$> 

\^Xl*m Suímittit cm totajuos Htjjmafafces. 



*ehli#wtò 



Moedas Arábigas* 
Sé 21* 

COmeçou o Senhorio dos Árabes em Hefpanha no annó 
de 714.com a grande viítoria,qu2Tarif,&Muça alcança- 
rão de D. Rodrigo,ukimo Rey dos Godos; porque como acha- 
rão .Heípanha toda debaixo do governo de humPrincipe,vinci- 
do eíte,fícavaõ todas as Províncias , rendidas, &os Árabes Se- 
nhores de iodas ellas^ò que naõ acontecera íe Hefpanha tivera 
mais Reys naquelle tempo, como íe viò depois nas entradas, q 
fizeraõos Almoravides,Almoâdes,&Benemerines, qpaíTando 
aHefpanhacõ muito maior poder, do que foi o de Tarif- SczU 
cançándo algudelles dos Chriftaõs grandes vitorias , nem por 
iíTofenhõre^raõaPiovincia,poreítar poffuidapor mais de hu 
Príncipe. Pelo que introduzindo os Mouros,q comTarif vieraõ, 
& os que íè lhefeguiraõ em Hefpanha/uas leis* & coftumes, as 
moedas,que corriaõ^ eraõ todas fuás ; deftas há inda hoje grad- 
diífima quantidade é Portúgal,& eu tenho muitas, q principal- 
mete íè acharão no território de Evora,& Beja ; muitas delias de 
*ouro,as maiores dá grandeza de huRealdeprata,&depezode 
500. ate 6oo.reisjoutras,qtcriaõametadedefl:e valor,&outra$de 
gradeza de pequenos vintes. Os nomes deftas moedas naopode- 
mos faber^é ncnhuãdellas hà figura alguã,por lhe fer prohibida 

em 



Diftnrfo quarto. i fy 

em fuaSeita/enaõ letras de ambas as partes.de hua poe o nome 
de Deos com os feus attributos de Grande^omjOmnipotente, 
&c. da outra o nome do Principe,que a mandava bater com o 
de íeu pay,& avò,& outros afcendentes, como he coffcume dos 
Arabes,que tem ifto por a clareza de fuás afcendécias.Das moe- 
das de prata tenho também muitas , as maiores como toíloês; 
mas tam delgadas,que tem sò de pezo meio toíraÕ, outras me- 
nores^ alguas tam pequena?, como meios vintes , todas tem o 
mefmo modo de Ietrciros,porem alguâsde mui perfeita eículp* 
tura,que deviaõ de íer do tempo dos Reys de Cordova,que fio- 
recerao em muita grandeza, & policia . As.de cobre naõ exce- 
dem o tamanho das deprata,ainda qnelàõ muito gròlTas; mas 
também as há meudas , & muito pequenas de pefo dos noííos 
feitijs. 

Éfta he a noticia, que poíTo dar deitas moedas,das quais nao 
fepòde faber,íè alguã toca a Portugal, pofto que como fe achaõ 
na mefma terra,parece que devem de íèr dos Reys Arabes,que 
então a íènhoreavaõ* 

Que nome tivelTem eftas moedas 3 naõ pude alcançar em par* 
ticular,mas em commum , as que íe achaõ nas noiTas Chrooi-> 
cas,íàõ três géneros de moedas de ouro 3 huãs chamadas Dobras 
Mourifcasjoutras Dobras VaÍidias,outras Maravidis de ouro* 

AsDobrasMouriícastinbaõa vaiK* da Dobra Cruzáda,que 

d/Y* ^ r ' n ■ r rt • Cbt9t},dèl 

a noíía moeda faz agora 2?o . reis; poiío que no peio paliaria R(y ú6m 

de 600. íè agora íe achaíTe,corno entendo que o he huã de ouro Tc&e.ih 

que tenho entre outras^ue íe acharão modernamente em Be* 

rineel. 

Dobras Validias erao moeda de Berbéria, que lè batia ê Tu* 

nes de 23/quilates,& terçodepeío*&diza Ordenação velha,q 

valia doze Reais brancos dos primeiros, pelo que vinha a mõtar 

dancíTa moeda tiójk deftas Dobras fe faz particular menção 

na hiftoria do primeiro Capitão de Ceita c. 8 1 .da p. 1. onde fe cb&n. <b 

falia tãbéde outras Dobras MoúriícasjCÕ eftas palavras: Vohras Cottde ®* 

Validias era moeda Mourifca, Q* comunalmenteejla era a moedide ourô y fá eoe r es 

íjfe mais corria co ejles Reinos ,&• iflú éra quaji em todo los Tempos dos Reys i./».c $i< 

pa fiados . Sempre os Mouros date mar tratarão xâftcs Reinos de mercado- 

na comprando pela, maior parte toddos annos afrmta do ^Jg^ne ,oque 

P 3 m% 



i 74 Noticias de PortHgtiL 

naípagaVaó ,/èndS em wroffr a maior -parte daqttéllas Deras fam feitas 
em Tunes j&er ao 13. quilates , & terço de peço . E outras Dobras trazjao 
aquelles Infiéis } afaber Dobras de Trazida,®* de Sdgilmenfa j &de Mar- 
roços ^de que efle Remo foi afa^fornido^fpecialmente os t besouros JosReys, 
xomo no começo dos feitos defle Keyfica contado ^c. 

Maravidim hemoeda,que os Mouros introduzirão cm Hefc 

panha,cujos Authores dizem, que foraõ os Almoravides, que 

f/13.*» SF 1 ** v ieraõ,de maneira , que antes obíèrva o Meftre Ambrofio 

prtncipui de Morales,que fenaõ acha mençaõ defta moeda,nem da con- 

" v ' t T?m* ta dos Maravidis nas memorias de Caftella ; & pelo contrario 

çao ao Ma ,j ; -j* t 

rAvedim. de então para qua foi ta m ordinária emCaiteila a contados 
Maravidis , quepor elles íêfaziaõ todas as computações dos 
preços das coulàs,& das moedas,o que ainda hoje permanece; 
porque para figniíícar a valia do real de prata , dizem que tem 
3Ó.Maravidis,& o dobrão deouro oão.Maravidis ; computan- 
do o Maravidim pela valia do noílo real de cobre 5 porem quà 
em Portugal ainda que fe ufou defta moeda,parece que naõ foi 
mais que a de ouro;6o.das quais faziaõ hum marco . Pelo que 
íègundo o preço ,vinhaõ a montar hoje joo.reis; com tudo elte 
nome de Maravidim íè veio eftender também às moedas de ou- 
ro Portugueíàsjde maneira, que fe diz na Chronica delRey D. 

t Sancho I. que deixou a íèu filho elRey Dom Afonfo iouooo. 

Mar avidis de ouro, 

lílo que eftà dito dos Reys Mouros,que fenhorearaõ Portu- 
gal,íè entende principalmente atè o tempo delRey Dom Fer- 
nando ol.de Leaõ, porquanto efteRey tomou Coimbra, 8c 
Santarem,& deixou a feu filho elRey Dom Garcia quafi toda a 
terra,que pertencia a Portugal,ate o Tejo ; & poucos annos de- 
pois íèguindoíelhe elRey Dom Afonfo Henriques com a toma- 
da de Lisboa,Evoray& vitoria do Campo deÕurique,& de ou- 
tros lugares de Alentejo , ficou elRey quafi Senhor de todo o 
Reino- & aííí elle^omo feus deícendentes, foraõ os que manda- 
rão bater moedas com fèus nomes,& infignias^como fe irà ven- 
do de quada hum em particular* 






■♦ i.. 



Moe 



Difcurfo quarto. 17% 






jMocdas dos Reys Portfijtttfes* 

$. 22. 

A Primeira caía de moeda , que ouve em Portugal , foi nô 
Porto,onde os primeiros Reys deite Reino fizeraõ ba- 
ter moeda, mandando vir officiais eítrangeiros , porque os naõ 
aviário Reino, & por iíio lhe concederão tantos privilégios^ _ 
como ainda hoje tem. Avia cambem caía de bater moeda em 
Valença, & em Lisboa,como tudofe vè do cap.57. da Chroni* 
ca delReyDomFernando;& também a ouve em Évora, como 
íê diz na i.p.da Chronica delRey Dom íoaõ Ixap.j. 

Por razaõ de eftar a caía da moeda bo Porto , íè vem hoje 
Os Seitis j 8c boa parte das moedas antigas com huãs torres por 
diviíà,& hum rio por baixo , que íãõ as armas Haquella cidade; 
depois parTando a Corte dos Reys para Coimbra, faz mençaõ 
muitas vezes o Conde Dom Pedro à & paiticularmeníe no tit, 
36. §.3.dos Moedeiros de Coimbra ; por onde parece,que tam- 
bem alli os avia. Vltimamente íe pos efta cafa em Lisboa,onde 
ao preíente eftà,-coafta efta cafa, 8c íè governa por huã meia, dê 
que he prefidente o Thefourfciro da moeda , 8c aífftem nellá 
rnais d us luizes dabâlança,& dous eícrivaês da receita, & def- 
pezâjos outros cargos pro^ è todos 1 jo Theío|)reiro,que Íà5 Futi 3 
didor,Affinador,Enfa'yador,outo Contador es,outo ferânqúidõ* 
res,íèis Fornaceiros antigos, & trinca modernos, que acreícen- 
tou elRey Dom Ioaõ Ill.dezaíèis Cunhadores, dous Porteiros, 
hum da cafa do Theíburo,outro da porta. He efta caía fogéita 
ao Tribunal da fazenda, 8c o Veèdor da fazenda da repartição 
da índia he o que particularmente prefide nefta mefa quando 
lá vai. 

Iftohe o que íe pode colher do principio das moedas , qdé 
baterão os Reys deite Reino- ainda que naõ confta, fe elRey D* 
Áfonío Henriques bateo moeda, nem os nomes particulares 
dellasjsóconPcaque todas as computaçoês,que antigamente fe 
faziaõ,eraõ por livras -> 8c quedefte nome ouve moedas de pra- 
ta^ de còbre,ate a de menor valia^porque afli como agora nós 

P 4 faze- 



jyé x Noticias de Portugal. 

fazemos as contas por reais 5 aífi fe faziaõ naquelles tempos por 
livras;mascomo des delReyDom Afonfo Henriques,ateelRey 
Dom Afonfo iV.naõ íè pode averiguar,quais forao osReys,aue 
baterão eftas livras,deixaremos affi as mefmas livras , como as 
outras moedas,que delias procedem,para o ultimo titulo deite 
Difcurlò, por continuarmos com as moedas , que os Reys fize- 
raõ ategora conhecidamente. 

Dobras de IR ey Dom Sancho I. 

Moeda mais antiga , que lê acha neíle Reino, he hua de 
ouro do tamanho de dous vintés,& de peio. que 6o, del- 
ies faziaõ hum marco , que vem a íer 5 00. reis da nolla moeda, 
de huã parte tinhaõeículpidoelRey Dom Sancho acavallo ar- 
mado,^ da outra as armas de Portugal, na forma que aponta- 
mos no Difcuríb da Nobreza. Deftas moedas tenho eu huã , & 
%9-àáUo j e j| a ç c f az m ençaõ na 3.p,da Monarquia Luficana, a qual he a 
fZlioX <F<2 fe ícgue. 





Outra femelhante anda eículpida nos Difcurfos vários do Co- 
Vifcmfos nego GafparEítaço;& alem deftas vi jà outras duas femelhan- 
diEítap* tes,eftas parece que eraõ as noíTas Dobras antigas, ate o tempo 

delRey Dom Pedro , porque naõíe àchaõ outras moedas da- 

quelles Reys. 



e 



■ . 



Moedas delRey Dom Afonfo IV. 



;x ** 



s 



. 






Egundo parece do cap» 56. da Chronica delRey Dom Fer- 
nando , naõ ouve mudança na moeda defte Reino, ate o 






tern- 



Difcurfo quarto. \?f 

tempo delRey Dom Afonfo IV. o qual com coníèntimçnto do 
Clero, 5c povo,fez os Dinheiros Alfoníis , mandando valleflçrii 
doze dos outros,no que ganhou muito jporqtie viriha a faíer errí 
quada marco de ganho quatro li vras,& quatro foídos $ ôc éftaâ- 
livrasas que parece temos agora com nome delRey Dòm ÀíôV 
ío huas batidas em Lisbòá,porque tem hiirn L. ao pè dó nome 
delRey, & outras lavradas no Porto ; porque tem hum f . erri 
lugar cré £.Deftâs moedas tenho rriuitas,& pára exemplo fijè 
aqui eículpir huã. ^^^ 






Sm 



Opefõ,c[ueriojeterae(tà moeda de prata pela valia prefenté* 
he 40.reis ,• & efta he a mais antiga moeda de prata dos nolTo§ 
Reysjque tenho viíta 

Mo t das delR ty Dom Pedrói 

NO cap. 1 1. da hiftoria delRey Dom Pedro le diz, que efte 
Rey mandoiífazer Dobras deouro fino , que 50 . delias 
faziaõhum marco- Sc quadá Dobra deíTàs tinha quatro livras, g^ 
Sc dous loldos.Efte marco era de ouro,& valia entaõ 7380. por- putaçvidó 
que tanto vem a montar ás ^d,-Dòbrasj que di2 ô Chroriifta fá- hare9 ãc 
ziaõhum marco,contatidoa 82. íbldos quadá Dobra^ quetàn jou.™,, 
to íaõ as quatro livras j & dous íoldõs , que valia quada Dobra, f* ° ?** 
contando a 2ó.íoIdo$ quada livra ± Èafíiíe tornarmos eiras Do- ^~ e % 
bras conforme o que edtao valia o marco de ouro , erao agora fafe fa 
da nolTa rrioeda lufeis, Sc três quintos de Real ; porque valiá^ Di J c «t 
quada Dobra 82 .íòldôs dos priínéiros^os quais a dezSeitijs , Ôc mVfô *í 
quatro qtíintos de Setil quadá hum , vem á fizer os ditos i$?. fàfy/jk 
reis, ôc tr es quintos de real ; porem fe fizermos a ccntá conforme f idò ^£í 
á valia do marco de ouro , que íaõ 30U000. réis ; tinha cjfcâda tàé pra- 
huã deftas Dobras Moereis de peíb 5 pois ja.ddksp&lâjfê&hâ'** 

ffraí-» 



i ?8 Noticias de Portugal. 

marco,& tanto pefaõ as Dobras daquelle tempo^que ainda ho» 
jc íè confervaõ,de que eu tenho huã. 

Fez o mefmo Rey Dom Pedro outra moeda", que chamoa 
meyas Dobras, & tinha 41 .foldos,que conforme à computação 
acima dita,valiaõ 73. & meio,& tres décimos de real; das quais 
meias Dobras 1 ooiaziaõ hum marco de ouro, & affi teraõ ho- 
jedepeíc>30Q.reis é 

N9 mefmo cap. 1 1 . íè diz , que lavrou efie Rey huã moeda 
de prata,a que chamavaõ Torneies, que 6y. faziaõ hum marco 
de Jiga,& peíò dos reais delRey Dom Pedro de Caftella. 

Outros Torneies fez mais pequenos , que entravaõ num 
marco 1 30.& de huã banda tinhaõ as Quinas,& da outra o ro- 
ftodelRey com Coroa,& as letras de huã parece diziaõ; Tetrus 
. ItfxTertugallte \& ^4lgaríi:8c da outra : Véus adjuva me $ que eraõ 
os mefmos cunhos,&letras,quetinhanas fuás Dobras, Valia o 
Tornes grande fete íòldos , & o pequeno três íòldos , 8c meio. 
Eítç nome de Torneies parece que deu elRey Dom Pedro a 
eftas moedas à íêmelhança de huã moeda Franceíà , que entaõ 
corria por toda Europa, & íè fôvrava em Turs , cidade de Fran- 
ça^ por iííò fe chamavaõ íòldos Turonenfes. 

Outra moeda mandou bater elRey Dom Pedro , que cha* 
mavaõ Dinheiros Alfonfis de liga,dc eraõ do valor, que fizera 
elRey Dom Afoníb íêu pay. 

Dos Gentis , Barbítdas,Gracves y TiUrtes^ &* 
Fortes delRej Dom Fernando. 

t 

ELRey Dom Ferrtando fez huã moeda, que chamou Geti- 
til,que mandou valefe quatro livras,& meia,& depois ou- 

foaí Tu tra S ue va '* a tres > ^ meia, & depois outros Gentis , que valiaõ 
1 .p*c. w* tres livras, & finquo foldos.Pelo que contando as livras a 3 5. re- 
is^ porque eraõ das antigas, valiaõ os primeiros Gentis 161. reis, 
& os fegundos 144. reis , & os terceiros 126. reis , 8c os quartos 
iirf.reis j &iftoporema refpeitodo pouco que valia entaõ- a 

marco 



Difcurfo quarto. 17a 

marco de prata. 

Quando elRey Dom Fernando fez a guerra a Caftella fer- &»*§». M 
virap a elRey Dom Henrique o Nobre , muitos foldados Fran- ^. J^J? 
celès , que vinhaõ armados de celadas , a que elles chamavaõ.tf- cw 
Barbudas ; 8c traziaõ lanças com pendões , que chamavaõ, Cr.4r, i' 1 ^ Dt 
ves ; 8c traziao contigo pages para as celacJas , a que chama vap % tC 50. 
Tilarias-, 8c querendo elRey Dom Fernando deixar memor,ia de* 
fta fua impreza , pos elles nomes , & iníignias nas moedas , que 
mandou lavrar de novo. 

A Barbuda era moeda do tamanho de quatro vintes , ainda 
que mais delgada ,• de huã parte tem huã ceiada com huã Co? 
roa em cima,& o peito de malha,&à roda efte letreiro; SiDa? 
nnnus mihiadjwor , non ttmebo •> 8c da outiui parte hua Cruz das da 
Ordem de Chrifto , que toma todo o vaõ; nos quatro cacttoiç da 
Cruz quatro Caftellos , & no meio da Cruz hum eícudinho c$ 
as Quinas, & a letra : Femmdus Rex fonugdlU ; como fe vé cm 
alguãs deftas moedas, que tenbq era meu poder ? de que a^ui 
vai o exemplo. 





Era a Barbuda moeda de prata muito ligada de lei de três 
Dinheiros,& elRey lhe pos preço de lo.íokios, que eraõ huã li- 
vra de 36. reis dos noffos. 

Dos Graves no.faziaõhum marco^ vallaõ 1 ^foldos.,^^ 
vem a íèr 2 1 .real dos noííos , 8c tinhaó por diviía huã lacça ífo 
bre os cunhos.Os Pilartes eraõ também de prata de lei de dor t j 
Dinheiros, 8c vaíiaõ finquo foldos , que íàõ da noíía moeda 1 & 
reis,&dousSeitijs. 

Fez elRey Dom Fernando outra moeda ,que chamou For- 
tes,que valiaõ 20.foldos,quefaõ 2Q.reis , 8: dous feitijs; 8c rçe- 
iosFortes,quev.aliaõi4.reis, & meio, & hum íèitil: alíí meímo 
mandou bater outros Torneíès,a que chamarão Tetttê* ,palavi a 
Francefa,quefignificapequeno;dondefevé , que de França to- 
marão o nome,como tudo confta.do cap. 56 . da Chronica do 
mefmo Rey . E afli lavrou outras moedas antigas , das quais fè 

ÇQÚ° 



,8<* Noticias de Portugal. 

confervaõaíguSs , que eu tenho ja referidas com valores fobi- 
dos\; 8c queixandofe os povos do grande preço, que eftas moe- 
das tinhaõ, & do pouco que pefavaõ , lhe abateo a valia a mais 
accommodados preços,como íèdizno cap.57.da mefmaChro- 
iiica,convem a faber,que os Graves de iy. foldos dos Dinheiros 
Alfonfis, naõ valeíTem mais de7. & a Barbuda de 2o.foldos va* 
leffe 14.&QS Pilartes de j.valeffem tres,& meio,& os Reais de 
prata de icíòldos valeíTem 8.E porque ainda eftes preços eraõ 
grandes,tornou elRey a fazer outra baixa, & mãdou que a Bar- 
buda,quejaeftava em i4.íoIdos,valeííesó doas, bc 4. Dinhei- 
ros,que vem a íèr quatro reis dos noiTo$j& o Grave 14. Dirihei- 
ros,que faõ dous,& dous íeitijs- & o Pilzvièj, que he hum real, 
3c hum fèitil;& os Fortes io.íoldos,queíaò 16, reis, 8c 4. ídtijs, 
Sc os Dinheiros, que de novo lavrara,que valeííèm como Mea- 
lhas. 

Das moedas dtlRty DowflLoaõo I. 

ELRey Dom Ioaõ I. lendo defenfor do Reíno , como íè vè 
f no cap.49.5c jo.da 1. p. de fuaChronica, mandou lavrar 
Reais de prata de lei de o.Dinheiros , que 71. delles faziaõ hum 
3narco;& depois mandou lavrar outros de lei de 6. Dinheiros, 
Sc depois outros de j. ficando íempre na mefma valia, 8c ga- 
nhando o mais.E com tudoiílò o povo, pelo amor, que tinha a 
clRey reípeitou tanto eíta moeda , ainda que chea de tanta li- 
ga, que diz oChroniíta,que muitos traziaõ depois eftesReais de 
prata ao pefcoço, como coufa íànta , afirmando que lhe vali. i 
contra as infírmidades. 

Depois mandou o mefmo Rey, íèndo ainda defeníor, lavrar 
Reais de lei de hum Dinheiro,que valia quada hum dez íoldos, 
Scdepois deftes mandou fazer outros Reais de três livras,&me- 
ia,& de dez Dinheiros,& meio- 3c o mefmo íè vê do cap. j.da 1. 
p.defua Chronica. 

Quando depois clRey quis tomar Ceita,mandou lavrar os pri- 
meiros Reais brancos,que quada hum delles valia dez Reais de 

tre$ 



Difcurfo quarto. 181 

três livras,& meia,& eraõde lei de dez Dinheiros, 8c6i,hz\zõ 
hum marco. 

Depois que veio de tomar Ceita, dizem algús mandou la^ 
vrar,os Seitijs,a quem deu efte nome, em memoria do nome de 
Ceita,que entaõ conquiftara,ainda que outros dizem , que por 
valerem a fexta parte, do Real, íè chamarão Sextijs,&corrupta- 
mente Seitijs. 

Moedas delRey Dom Duarte* 
§. 28. 

DEpois que as Livras chegarão a grande diminuição , co- 
mo a diante veremos , mandou elRey Dom Duarte la- 
vrar outra moeda mais groffa , que chamarão Reais iramos • os 
quais eraõ de cobre com liga doutro metal, que os fazia mais 
brancos,do que faõos noíTos Reais de cobre , tal 5 & por iíío fe 
chamarão trancos 9 como fe colligeda É Ord.§. 1 6\Mandou elRey Ordamigl 
DomDuarte,que quada Real branco deftes valeíTe hum Sol- UIi '*' 
do dos antigos ; &aíu" quada hum delles valia 3 5.Livrinhas, ôc 
20. Reais brancos faziaõhuãXivra antiga das 7oo.aeftereípei- 
to valia quada Real deftes da noíTa moeda dezSeitijs,& quatro 
quintos de feitil; pois 20. delles valiaõ 36.que he huã Livra das 
maiores. 

Quando o mefmo Rey mandou bater cftes Reais íranccs } pa- 
rece que mandou juntamente bater outra moeda, a q chamou 
Tretas; dez dos quais valiaõ hum Real branco; porque j a que fe 
mudavaõos foldos em Reais brancos,pareceo conveniente, q 
fe mudaífem os Dinheiros em Pretos-& efte nome de freto, pa- 
rece que foi pofto por differcnçados Brancos , & deviaõ tambê 
fer mais pretos , porque naõ teriaõ a liga de metal, ou de efta- 
nho,comotinhaõ os brancos. A valia, que*eftes primeiros pre- 
tos tinhaõjConforme ánoífa moeda , he amefma de hum Sei- 
til,& quatro finquoentavos de Seitil. Porque a mefma Ordena- 
ção diz,que hum Real deftes brancos valiaõ dez Seítijs,& qua- 
tro quintos de Sei til; & como dez Pretos valiaõ hú Real brãco, 
bemfe infere,quehum Preto deftes primeiros tinha hum Seitil; 



r%t Noticias de Portugal. 

8c o que lhe cabia dos quatro quintos do Seitil , que fao quatro 
finquoentavos de Seitil. Também efte Rey mandou lavrar ef- 
cudos de ouro baixo. 

Das moedas dtlRty Dom Afonfo V. ' 

NA Chronica delRey Dom Afonfo V.cap. 1 38.fe diz, que 
em tempo delRey Duarte íe lavrarão eícudos de ouro 
baixo,que nos Reinos eííranhos fe tomavaõ com aiuita difficul- 
dade.ÉelRey Dom Afoníò quando aceitou a Cruzada , para ir 
aterra Santa j mandou lavrar de ouro fobido de toda a perfei- 
ção a moeda dos Cruzados , a qual mandou fobir em peio , 8c 
naõ em preço dous graõs íbbre todos os Ducados da Chriftan- 
dade,para aííi poderem correrem todas as partes onde ellefbflTe. 
Deites Cruzados hà ainda hoje muitos, & faõ bufeados para 
dourar com elles pela fua muita fineza j& algús, que me vier.aõ 
á maõjtem de huã parte huã Cruz , como a de Saõ Iorge com 
letras, que dizcúi: ^Jjfétúrmm noflrum in nomine Domini ; Sc da 
outraoeícudo Real coroado , mettido ainda na Cruz de Avis 
com eftas letras : Cruzjtus ^tlfonfí Quinti R . O nome de Cruza- 
do parece lhe deu por fer feito para a emprezada Cruzada^que 
aceitara. 

Hum Real tenho defte Rey com a figura de fua empreza, 
que era hum rodízio de hum moinho correndo com o impero 
da agua,a qual empreza uíòu em muitas partes , ôc principal- 
mente no morteiro de SrFrancifco de Varatojo junto a Torres 
Vedras,onde íe elle retirou, por fer fi tio mui aprazível com a vi- 
dado mar,& muita caça da Coutada de Cintra,aonde eíla em- 
preza fe vé pintada em muitos lugares da Igreja , Sc das offici- 
nas da caía ,• as letras da empreza dizem o que eftava na mefma 
figura : Herodizio-, porque fe prezava efte Príncipe de tâm co- 
medido, que queria íer advertido dos erros para fe emendar 
delles. 

FezelRey Dom Afonfo V . huãs moedas de cobre chama- 
das Efpadins do tamanho de Real, que de huã parte tem 'no- 
meio 



Difcnrfo quarto. \ 8 3 

meio huamaõcom huãefpada coma ponta parabaixo;& pela 
roda efte letreiro: ^ilpbonfus TJeigratia Rex T. & da outra parte o 
eícudo Realíòbre a Cruz de Avis 5 & as letras dizemi^ífjttcorium 
noftrum m nemine Dornini. 

Efta moeda mandou lavrar elRey Dom Afoníò V. em mé- *>.■&?*** 
moriada Orolem daEfpada , que inftituio para aconquifta de ^"J\ m 
Fez , na mais alta torre da qual íe dizia , que eftava huãe:pada Chttjt-.Ls* 
engaftada por hum antigo Aftrologo dos Mouros, com prono- 
ftico,que quem pelo valor das armas dalli a tiralTe i avia de fetf 
Senhor do mundo. Deitas moedas tenho muitas ^ affi de prata^ 
como de cohre ; como íê vè na preíènte* 





Outra moeda há deite Reyde prata do tamanho de hmn 
Vintem,que de huã parte tem as Quinas fomente, Sc o letreiro 
à reda diz: ^Ipbtmfe Qumn Regts for. de da outra hum ^4. grande 
Gótico , que he a primeira letra do nome delRey , & em cima 
huã Coroa, & à toàà^djutôritm nojirum in nomine 'Dornini, 

Outra moeda de prata fe acha íiia do tamanho de quatrd 
Vintêsjmas naõ de tanto peio , a qual de huã parte tem o efeu- 
do Real íobre a Cruz de Avis ; & o letreiro á roda diz : *Àlphon~ 
fus DeigramTtex P#\Da outra banda eftaõ as armas quarteadas 
de Caftella , & Leaõ $ & o letreiro à roda diz : ^il^bonfus Veigra* 
tiaRexTor. Efta moeda fe lavrou no tempo, que elRey Dom 
Afoníò pretendia o Reino de Caftella pelo caíamentoda Ex- 
cellente Senhora; 8c por ilTo ufava das armas de Caftella , & do 
titulo do mefmo Reino. 

Outra moeda tenho fua de cobre dagrofifura de hum Vin- 
tém pouco maior,de huã parte tem hum^Gotieo grande de* 
baixo de huã Coroa,& o letreiro : .Àlphonftis Tlex fortu-uíu - dá 
outra as Quinas fomente com as letras gaftadas. 

Outra moeda fe acha de cobre do tamanho de Meio vinte, 
mas de maior groffura com outro ^.Gotico^ huã Coroa por 

Q^i eimai 






i 8 4 Noticias de TovtugaL 

cima, & da outra banda as finquo Quinas em Cruz , 8c ambos 
os letreiros dizem: ^Alphonfus Rex Tortuga.UU. 

Outra forma de moeda ha, que de huã parte tem huã Cruz 
da maneira das Commendas de Chrifto, com o letreiro: JàU 
fhovfus ; & da outra os finquo efeudetes em Cruz atraveíTados: 
& tam largos , que os quatro fazem entrar os braços da Cruz 
pelo lugar do letreiro da borda até o fim, & o letreiro, que vai 
entre os quatro efeudetes, diz : 7íex fortugal . Outras moedas íe 
baterão em tempo do mefmoRey,de que adiante com asLivras 
íè faz particular mençaõ. 

JMoedas delRty Dom loaoo IL 

$. jO. 



y 



IJ LReyDom IoaõII. mandou lavrar moedas novas no 
^ annode 1485. a primeira foi huã de ouro , que chama- 
t-tf. raõ lufto de lei de 2 aquilates ,& peio de 600. reis, que eu tenho, 
& de huã parte tem nellao eícudo Real jacomas Quinas di- 
reitas fem a Cruz de Avis;& foi efta a primeira vez,ero que aífi 
appareceo o eícudo Real,depois delRey DomloaÕ I. o qual co- 
mo foi Meftre de Avis, pos o eícudo Real no meio da Cruz da- 
quelta Ordem;& as letras dizem: /oarmes Secunâm R. 'Portugal. ^Al- 
gar. Dominas Cuw^cpe he.Ioaõ II. Rey de Portugal, Sc Algarve, 
Senhor de Guine • o qual titulo tomou tamb.m no mefmo an- 
uo: da outra parte eftava elRey armado , aífetado em cadeira 
Real com huãefpada na maó,& as letras à roda diziaõ: íuflus ut 
palmaflcrehr.o lufto florecerà como a palma,defte letreiro pare- 
ce lhe deraÕ a efta moeda o nome de lufto. 

Mandou lavrar também Efpadim douro da lei dos íuftos , 8c 
da ametade da valia,que eraõ 3 00. reis, & tinha de huã parte as 
meímasarmas,& títulos , que os íuftos, &da outra huã maõcõ 
huã efpada nua com a ponta para cima ,• 8c por ietra : "Dommus 
proteBor njtt^ me<e y d íjuo trepidaío? 

Fez também meios Reais de prata de lei de onze Dinheiros, 
a que depois chamaraõVintês,por valerem 2o.reis;&fez meios 
Vintes, & Sinquinhos , que valiaõ íinquo reis : tambero lavrou 

Reais 




ifcurfo quarto. i8j 

Reais de cobre da valia dos que agora correm, Deftes Reais há 
al^Qs , em que eftá eículpido o Pelicano dando a beber aos fi- 
lhos o fangue de íèu peito , cjue foi a empreía deite Rey com a 
lçtravPeUlgy,Ofe/agrey:dàtido a entend er,que derramaria o lan- 
gue em defenlaÕ da Fé,& de íeus vaííallos. 

Os Pelicanos íàõ aves quafi nuhqua viftas em Europa - y com 
tudo eu vi hum em Évora cm cafa do Senhor Dom Duarte tio 
de Sua Mag;eftade,qtieDeos guarde, que lhe viera de Angolla;& 
ainda que eílava morto, tinha, todas as pennas,& sò lhef altavaÕ 
osintciiinos, que para o confervarem , lhe tirarão; era maior 
que huã Cegonha ,& quafi com as meímas pennas brancas , 8c 
negri-no peito tinha hum calío,tamanho como humCruzado, 
àos que agora correm, vermelho, Sc naõ muito duro ; por onde 
parece que pôr alli rompe alguãs veyas com o bico,que hemui- 
to grande,paM naturalmente íuílentar feus filhos; como dizem 
es Éícritores,de maneira, que naõ lhe deve de cauíar efta acçaõ 
môrte ? porque parece coufa natural. inoZ 

Outros hípadins fez bater prateados, que valiaõ quatro reis. 
Mandou lavrar Cruzados, que valiaõ 390. & el Rey Dom Ma* 
nbeíos acrelcentoua400.no valor annode 1 517. 

y.^XUwv- nbil ob tuátiL 

Das moedas dtlRty Dom Manoel. * 

í. 31. 

: Soe] i; ; nb- .aoirj *• 

Amiaõde Goés aponta nocap.ult. daGhronicadelRey 
Dom Manoel as n,òedas que íez,que íaõ as íèguintes. 
No anno de 1499. mandou bater os Portugueíèsde ouro de 
24. quilates, que era à meíma lei dos Cruzados des do tempo 
delRey Dom Afonío V. & quada hú delles tinha dc$ Cruzados 
de valor; & de huã parte tinbaõ a Cruz da Ordem de Chrifto 
com letras,q diziaõ:/»/V fgnorvwetfii da cutraoeícudo Real 
coroado, <& dons letrcii cs^o do circulo maior dizia: frimm Em- 
manuelftex ? ^wtitgaliitt^igAthtcruryifUra t O s ultra in ^fríca^Domi* 
nus Cume. O do circulo XT^i^xu^thyopi^^rÀu^^etfi^JrÀm. 

No meímo anno mandou lavrar huã moeda de prata de tei 
de j j j Dinheiros, que 70. faziaõ hum marco , & valia 35. 

Qj quada 







• 



t g# NôUiiâs ât Tonugpil. 

quadà hu!>Éftá morda chamarão him ; & tinha de hul patte 
a me íiiià Cruz> & letreiro -, que os Portugaeíès , & da outra as 
ármãs dó Reido com o letreiro:?*Ãw0í BwmameL 

No âftnòde i $04. fez os Portuguefes de prata de valor de 
40o;reis quada hum com 0$ meímos letreiros ,& cunhos^ue os 
Põrtuguèles de ouro- & deftes mandou Fazer meios, Sc quartos, 
que faõ os Tdftoés com o mefmo efcudoj&letreiírQique os Por- 
tuguefes douro. Chamar aõfe ToftoêVá imitação doutra {eme- 
ihâhte moeda de França, a qual por ter por divifa huã cabeça, 
quéõsFrancefès chamaõ7^?í , í felhedeuo nonje de TeftaÕ, 8c 
corruptamente Toftaó. 

Depois no anno ty 17. fez meios Tofto&> quede hiia parte 
fcem os finquo efeúdos das Quinas fem Caftellos ^Sc da cutra 
huã Gruz à & de ambas as bandas diz o letreiro : fnmm £mm<t~ 
««í/X.^.^^Z^.Ç.KtanoelprimeiroRey de Portugal^ Algar- 
ve Senhor de Guiné. 

Continuou os Cruzados do mefmo peio, & lei delRey Dom 
Àfoníõ V.& delRey Dom Ioaõ 1I.& nos vintò,&fótij$. 

Fez Reais <lè cobre de féis íèitijs quada Real, que de huã par- 
te tinhaõ hum R. debaixo de huã Coroa , & da outrao efeudo 
das armas do Reino com eftas letras : EmmanuelRcx Toreugalue, 

Teve elRey Dom Manoel por emprefa a Efphera , que vul- 
garmente íè chamava entaõ Efaèrijk lha deu elRey Dom Ioaò 
II. como em pronoftico da Coroa . Pelo que depois de fer Rey, 
mandou lavrar huã moeda de ouro ;;que de huã parte tem ef- 
culpida huã Efphera, &: da outra huã Coroa com huã letra , que 
úiziMea^com que parece quis denotar,que a Efphera que elRey 
Domíoaõfhe dera por empreía^lcançoíu elle por pbra,deíco- 
brinda,& rònquiftandoa lndia,& o Brafil; de maneira , que fi- 
carão fendo fua Coroa as quatro partes do mundo , que com- 
prebende a Eíphera , Pelo que allúdindo a efte Senhorio , ufou 
da palavra Jtár^fegundo parece^ por íèr de S,Paulo, quec hama 
âos Pbilippenfes,a quem ConyetteoiCauMum meum& Corona mea : 
meu contentamento;^: noutra parte i.aos Philippenfes i.Çm 
enim eftnoftrafpes y aut Gandimn aut Carona glorta^wtme evos &c. Don- 
de parece que, quis dizer, que a fuagbria > & coroa , foi o novo 
B fp defeo- 



Difcmfo qwvto. \%r 

defcobrimento > & con verfaõ dp mundo.Na índia depois de to* 
madaGoajmandpuo Governador Aíbnfo de Albuquerque fa- 
zer alguãs moedas com o nome delRçy Dom Manoel , afíi de 
ouro ,como de prara,& cobre,às quais pos nomes Bfpbèrts^ot- 
que de huã tinhaõâ Gruz da Ondeai de Chi títo , & da outra a 
Eíphera, que eraemprefadelRey , como ja diíTemos ,• pelava & 
Efphera de prata doús vintes, 8c outra amaade, a que chama- 
rão Mm EffherA) nefta eonformiá a fita 






i-' 







i 



As moedas de cobre pos nome Leais, & outras Dinheiros; três 
dos quais valiaõ hum Leal ; & de ouro mandou lavrar Cruza? 
dos^omo fe vè nos Comentários de Afoníb de Albuquerque 
p.2,cap.z6. 

■ 

Dm moedas dtlRey Dom lôáoo III. 

POfto que na Chronica delRey Dom Ioaõ I II. fenaõ faz 
mençaõmaisjque das moedas de cobre, que elle mandou 
lavrarjcom tudo confta de outras muitas , que fez bater de to> 
dos os metais, & particularmente amoeda de ouro chamada 
S. Vicente,que era de peíòde i Uooo. reis,- & de huã par te tem 
a figura de S.Vicente com huã oao na maõ efejuerda , 8c huã 
palma na direita com letras à roda: ZtUw Fideiufcjuead mortem; 
êc he;ZeladordaFè ate a morte;& da outra o efeudò Real co- 
roado com as letras: loannes Tirms RexÊorm.&^AL Defta moe- 
da fe lavrou outra de ametadejda íua valia , & com as mefmas 



-, — -. - . w — 

iníígnias,que por iílo lhe chamaõ Meyos Saõ Vicentes , como 
fe vé da feguinte. ^ 






k ífiLlUfl Í- 



- ■■ [ ; 



"••■■' 







Q_4 O ti- 



i${ Noticias de Portugal. 

O titulo de Zelador da Fè, que teve nefta moeda; ufou elRey, 
por lho dar o Papa Paulo ill.por o grande/zelo,&inftancia,com 
que pedio o Tribunal do Santo Orneio da Inquiíiçaõ para eíte 
Reino, & como titulo hereditário ufou também delle elRey 
Dom Sebaftiaõ nas mefmas moedas , que em feu tempo man- 
dou lavrar. 

Fez outra moeda de ouro do pefò dos Cruzados, a que cha- 
marão Calvários , por terem de huã parte huã Cruz comprida 
pòftaíobre hum monte,como ordinariamente a pintaõno Cal- 
vário com eftas letras: In hocjigno linces j & da outra pat te o ef- 
cudo Real com Coroa, & o Icutho: tomes Tertitts fort&„Al. r  m 
7í)*Cuine* 

Também na índia lebateo outra moeda no anno 1^8. go- 
vernando Garcia de Sà,era de ouro de 20. quilates, & hu quar- 
to ^entravaõ num marcou, de huã parte tinhap as armas de 
Portugal com a Icixxíiknnes UUPonug.&^iU. %ex- y 8c da outra 
parte a imagem de S.Thomè com a letra: Índia úbiiefM^ delia 
fefaz meâçaõna 6«Dec.l.7.c.i. 

Também anno ifjf: governando Dom Pedro Maícare- 
ohas , íe lavrou em Goa outra moeda de prata, chamada Pata, 
caõ,que foi a maior deite metal, que ouve naquelle Eftado , co- 
mo (e refere! na z.Dec.cap. dcoí.tf. 

Fez Reais de prata , a que vulgarmente chamamos moedas 
de dous vintês,que de huã parte tinhaõ huã Coroa , 8c debaixo 
o nome delRey nefta cifra: /*.///.& por baixo XXXX 8c à roda 
eftas letras ; Rex Torrutalh* ^Al. 8c da outra huã Cruz de S. lorçe 

Ao O 

- com aúetrzs; /nbocjgno linces* 

Fez também outra moeda deites Reais de prata dobrado*, 
a que ordinariamente chamamos quatro vintes, & tem as -mef- 
mas infignias , que os outr os ; só debaixo do nome delRey tem 
hum numero de 80. que he a valia dos So.reis; 8c na cercadura 
áir.KexTortugaílU^l.Zf.C. 

No cap.jS.da^p.da Chronica delRey Dom íoaõ-III/e d iz f 
que mandou continuar em Lisboa no lavramento dosSnrij ;, 
que quada hum deites?" tinha 18. graõs , 8c com os mefmos cu- 
nhos^ueate entaõcorriaò. EaíTi rpefmo mandou fazer Reais, 
que valeffem féis feitijs , & tinhaõ meia oirava de pefb quada 
O hum- 



D ifcurfo quarto. 18 9 

hum ; & de huã parte tinhaõ nomeio letreiros , que cm breve 
ã\z\zõ:Ioannes Tertíus Tortugalli*, O ^Aigaríicrurn Tíex^ & da outra 
parte hum tf.com huã Coroa em cima,que he a primeira letra 
do nomeda meíma moeda,que he:Real. 

Outra moeda mandou fazer de pefo de oitava , & meia , & 
.tem huã Coroa por cima,& huãs letras no circuito, que dizem; 
'Portugalli* , ffl ^Algárhwum Rex^ifnc* j & da outra hum eícudo 
de armas Reais. 

Fez Patacoes de cobre de ílncjuo outavas,que valia dez reis; 
& de hua parte tinha o eícudo Real coroado com letras , que 
em breve dmaõ: /oarmes ler nus Tortutrallta, ffi \yilgdríiorum ; & da 
outra parte hum X.& ao redor: 2Í ex Qmntus Decimus. 

Moedas ddR ey Dom Schaífiaõ. 

/• 35- 

DElRey Dom Seba(lia5 hà varias moedas de ouro , como 
faõ ás de 500. reis , que tem de huã parte huã Cruz da 
Ordem de Chrifto com as letras: In hoc jgno<z>wces; & da outra o 
efcudo com Coroa , & na cercadura : SebdftanusLRex TòrtugaU 
//rf.Fez também a moeda dos Portugueíes de dez Cruzados; 

De cobre mandou lavrar os Meios Reais, os quais tem hum 
R.de hua parte com huã Coroa em cima } 8c da outra éftas 
letras: Seháftianus. 

Outros Meios Reais tem de huã parte hum S.grande debai- 
xo de huã Corcâ,& da outra eftas letras : # . Sehafttanus I. Man- 
dou o mefmo Rey por huã Proviíaõ fua de 17 . de Iunho de 
15 58.fr por outra de 22.de Abril de 1570 . que fe lavra ííem de 
prata fomente Toftoés,Meios toftoes, Vintes, & Meios vintes, 
8c que 24<Toíl:cés fizeííem hum marco de prata, valendo qua- 
da Toftaõ 100. reis de íeis íeitijs o Real,& que tiveíTem as ditas 
moedas os meímos cunhos, 8c letras, que ate entaõ coftumavaõ 
ter as íemelhantes; & do lavramento de quada marco de prat a 
em moeda fetiraflem 80 .reis para os euftos. 

Também mandou abater as moedas de cobre, que elRey 

Domloaõ lèu avô lavrara^de maneira, que a moeda de dez reis-, 

que 



ipo Noticias de Portugal, 

que chamamos Patacaõ , valeffe fomente três , & a moeda de 
Sinquo reis,que tem hum f/. valeíTe Real>& meio. 

MoedasdelRej DOMIOAMo M 

Sn J4» 

ELRey D O M I O A M o IV. Noflo Senhor, que t)eos 
guarde,quando tomou pofle do Reino, mandou lavrar os 
Cruzados de prata , que tem 4oo.reis j & os Meios Cruzados, 
Toftoé"s,& Meios toftoés com o mefmo preço antigo , mas de 
menos peio : porque como a prata tinha em todas as Provind- 
as do Norte muito maior valia, que nefte Reino , levavaõ os 
Eftrangeiros tojàaa prata de Portugal . E aííi para fe remediar 
eíledannoForneceííàrio levantar o preço do marco de prata, 
& diminuir o pefo das moedas. 

As moedas de ouro de quatro Cruzados , que elRey de Ca- 
ftella Dom Felippe,que chamarão o Bom,mandou lavrar nefte 
Reinojfcz recolher no anno de 1641. & batellas de novo com o 
íèu nomeilomnes 1 1 IL&. Ç. Rex TortugAlia, & ^Algarb. & da ou- 
tra parte a Cruz de S.Iorge-& nos quatro vaõs o anno de 16*42. 
ôc à roda : Inbacfigno linces > 8c mandou que valelíem três mil 
reis. 

Outras íè lavrarão, que tem ametade deite peio 7 8c valor c5 
âs mefmas ktras,& outras de quarto. Ê porque qúatdo levan* 
touo preço do marco de prata ,íènaõ pode recolher todo o 
dinheiro que entaõ corria , & trocallo por moedas novas , fe 
mandou cunhar com o algarifmo do novo vaíor , eículpindo nò 
Toftaõ 120, reis, & nos quatro Vintes 100. Sc no Meio toftaõ 
60. 8c nos Reais íingelos , que chamavaõ de dous Vintes 50* 
De novo íè lavrarão Vintes com hum I. no meio , que 1k a pri- 
meira letra do nome de Sua Mageftade por cifra: & também 
íè lavrarão Dous vintes com o mefmo nome, 8c huã Coroa em 
cima,& da outra parte a Cruz de S. lorge. Èftas moedas fe ba- 
terão naõ fomente em Lisboa,mas em Évora, & no Porto, nas 
quais cidades SuaMageftade mandou de novo levantar caía de 
moeda, 

Demos 



Difturfo qmrto. l 9t 

Demos felice remate a efta matéria com a infígne moeda, 
que Sua Mageftade mandou lavrar , depois que fez tributário o 
Reino de Portugal á Igreja da Conceição de NoíTa Senhora de 
Villaviçofa»mandou lavrar hua moeda grande de prata de ma- < 
ior circumf erencia,que os Cruzados de prata, que de hua par- 
te tema imagem de NoíTa Senhora da Conceição com os pès 
na meia Lua íbbre o globo j & de huã\,& outra parte o Sol , & ou- 
tros attributos metaphoricos,porque he invocada da Igreja,co- 
mofaõo Sol,o Eípeiho^Horto concíuío,a Cafade ouro,a Fon« 
tefelada,a ArcadoSanruario ? & as letras : Tutelaris Regm ; 8c da 
outra as armas Reais com Coroa cerrada poftas no meio <ía 
Cruz da Ordem de Chrifto ; & as letras : loannes Quartus 2).C. 
Tortugahoeffr ^4lgarbt<e Rex .Pefa efta moeda4jo,reis;outra man- 
dou lavrar de ouro com a mefma eículptura , & letra , de valor 
denuoop.reis. 




DasLicvrots. 
.5. jjp. 

Livra he a moeda,de quefe acha mais antiga relação , co- Toam as 
mo fe vé da Ordenação Velha IÍV.4.C. 1 .Efta moeda pare- C°™P Hta * 
ce,que era de prata, como ainda hoje o he em França , & Ale- \ t ^ t ? r4m 
manba,donde os oficiais da moeda parece vieraõ a efte Reino; taâofefa- 
8c a fua imitação a deviaõ introduzir quá os noíTos Reys, como u ™ t j£ m 
fizeraõ outras muitas coufas à femelhança de Inglaterra, tetras com 
Fraoçajalem de trazer de lá principio o Conde DomHenrique/'?""^ 

o • 1 r 11 o rr r ~ r 1 i ra cerrem, 

& muitos dos leus com elle: oc alli nos ncarao muitas couías à%f e ente n4? 
lingua,& coftumes dos Franceíès. O nome de Libra he latino, « f *If*** 



i p 2 Noticias de Portugal. 

d* valia & fignifica pelo de doze onças 5 defta quantidade lavrarão os 
demarco Romanos a primeira moeda , como diz Plínio lib. 33-cap. $.& 
tuóoo?' ° tem Covarruvias de Numifmate,Gregor. Agricola ) Budeu,& 
& do ouro htm . Donde parece quedo Ura latino íe derivou o nome as 
*?v.j*e Livras das outras Províncias, & a eftas de Portugal. 
dítftcTr* Todas as Livras,queíe lavrarão ate o anno de 1395. em que 
uàoftco- reinava elRey Dom Ioao IJforaõ da mefma valia. Por tanto mã- 
dlfetcl d° u e ^ e y Dom Duarte por Ordenação , que pelas Livras ate 
aectama- efteanno fe pagaíTemio. Reais brancos dos primeiros,os qua- 
wôdeSua j$ Reais brancos,como diz adita Ordenação liv.4-.t.i.§. i7.va- 
LH * e ' jj a q aac j a [j Um fez Seitijs, & quatro quintos de Seitil:& affi io. 
Reais deftes brancos vem a montar i i6.Seitijs,que a íeis Seitijs 
o Real tornaõ agora 36. Reais dosnoííòs y & tanto valia quada 
Livra ate efte tempo. 

Porem vendoíè elRey Dom Ioaõ I. apertado pelos muitos 
gaftosdas guerras,fez lavrar as Livras de menor pefo ; & com 
tudo lhe deu a meíma valia, como também fizeraõ antigamé- 
te os Romanos,íègundo Plinio no lugar referido; porque fendo 
a íua primeira Livra de doze onças de pefo,& valorjdepois pe- 
las necelUdades da Republica , as mandarão lavrar de duas cn« 
ças de peio , & depois de huã onça fomente , mas todas com a 
valia de 1 2.onças. E aíli ficou a Republica ganhando tanto di- 
nheiro,quefe deíèmpenhou . O mefmo fe conta delRey Dom 
Henrique de Caftella o Nobre no 4. livro da fua Hiftoria cap. 
Io , Pelo quedefte meio fc quis valer o noflb Rey Dom íoaõ; 
porque valendo as Livras, como diíTemos 20. Reais brancos dos 
primeiros,que fazem dos noíTos 36. Reais. Eftas íegudas Livras, 
que mandou bater,naõ tinhaõ de verdadeiro pefo mais que : j . 
reis,& três Seitijs. 

A eftes dous géneros de Livras chamaõ nas Efcrituras do 
tempo delRey Dom Duarte para quà> Antigas, á diíferença das 
outras,que depoisfe lavrarão de muito menor valia. De manei- 
ra,que vieraõ a tanta diminuição , que pelas primeiras Livras 
antigas fe mandarão pagar 700 . das Livrinhas pequenas ate o 
anno de 1 395,8c defte anno por diante fe mandarão pagar por 
eftas fegundas Livras antigas yoo .Livras das pequenas. 



2>ds 



'Diftttrfot[mrto.\ ip» 

~Vtvp\ [ Das Livras de dez Soldos. 

S. 3 tf. 

PAra fe entenderem bem as efpecies das Livrasse que tra- 
tamos,avemos de prefuppor,que aíli como elRey D. Du* 
arte mandou pagar pelas duas difterenças de Livras mais no- 
taveis,& antigas a 700. Livrinhas por huã , & a 500. Livrinhas 
por outra 5 aiti para entenderem bem,& evitarem embaraços, 
reduzirão outras quaiíquer eipecies de Livras a. eítc género de 
Livrinhas, 

Depois das Livras antigas já ditas fe lavrou huã moeda,que 
chamarão Livra de dez Soldos,a qual era de cobre , & tinha a 
decima parte da Livra maior, & mais grande de 700. E aíli va- 
liaõ dez Livras de dez Soldos 700, Livrinhas; Charoa- 
vaífe de dez Soldos , porque quando fe baceo , fe lavrarão hús 
Soldos, dez dos quais faziaõ efta Livra * ProvaíTe iftopor 
muitas Efcrituras antigas;& em particular pelo livro dos Anni- 
veríarios velho da Sè de Évora , q começou no anno de 1442. 
em que eftà huã verba em iy.de Agoíto, que diz: Nefte dia fa- 
zem Anniverfariopor N.& faõ paraeíte Anniverfario 50. Sol- 
dos antigos.& outo Livras de moeda de dez Soldos ; & diz o 
Contadortm baixo, como coftuma, que por efte Dinheiro re- 
cebe 1 8 1 o. Livrinhas . Pela qual conra fe moílra o que temos 
dirojporque os £0. Soldos antigos valiao a 25. Livrinhas quada 
hum, como diremos em íeu lugar. E aíli íbmavaÕ 1 25*0. Livri- 
nhas ; & as outo Livras de dez Soldos , contadas a 70 . Livri- 
nhas quada huã,vem afazer jóo.LivrinhaSjquecom as 1250, 
dos Soldos antigos ja ditos , vem a íomar as 18 10. Livrinhas, 
que o Contador diz^que recebeo. 

Refta averiguar quanto valia efta Livra de dez Soldos a res- 
peito da noífa moeda hora corrente , que facilmente fe moftra 
da vaiia , que temos provado acima na Livra grande de 700. 
Porque fe a Livra grande valia 36.reis;eíta,que he a fua decima 
parte/valeria a tres,& meio,& três quintos de Real. 

R V* 



i P4 Noticias de Portugal. 

De outras Jjhvrds.íjm nmiikodfà Lwri- 

nhasfommte* 



S. 



l 7% ifiii 



r 



. 






COnfta também por eferituras antigas que avia outras 
Livras, quada huã das quais valia fomente dez Livri- 
nhas das pequenas. O que fe vè claramente do livro das concas 
dos Anniverfarios da Sé de Évora , que fervia no anno de 1464. 
na addiçaõ de o.de Setembro ; 6c aííi ficavaõ valendo eftas Li- 
vras,conforme anolla moeda, quada huã meio real,&feis fe- 
timos de Seitil. 

Outra moeda avia de cobre chamada de três Livras , & 
meia, porque valia três Livras, & meia deites de dez Livri- 
nhas , que agora diflemos . E aííi valia efta moeda Jj . Livri- 
nhãs das pequenas. Nefta moeda fallaõ muitas eícrituras an- 
tigas ; & em particular o livro das contas dos Anniverfarios 
do Cabido de Évora no lugar acima referido de 9 . de Setem- 
bro de 1464. & outro em 17 . de Dezembro , em que diz 
íe davao para aquelle Anniverfaiio 80. Livras de três Livras, 
Sc meia ; 8c diz o Contador abaixo , que recebeo por eftas 80 . 
Livras 2 800 . Livrinhas . Pelo que confta que valia quada huã 
deftas,3j.Livrinhas, como fica dito . EaíTi ficavaõ valendo d. 1 
noíia moeda hum Real,& meio^hum Seitil,& quatro quintos 
de Seitil. 

As u! timaSj& mais pequenas Livras *foraõ eftas , a que cha- 
mamos Livrinhas.Eftas foraõ cam diminuídas , & de tam pou- 
co valor,quecomo ficadito,mandou elíley Dom Duarte , que 
íè pagaííem 700. delias por huã das mais antigas ate o anno de 
1395 . & 500 . por quada hua das Livras antigas do dito anno 
por diante. O que quada huã deitas Livrinhas valia a reípei- 
todo noíTo Real,íe pode provar defta maneira. Setecentas de- 
ftas valiaõhua Livra antiga,que diflfemos tinha 36. reis da noí- 
la moedajogo he neceífano,^ repartamos 3Ó.reis por 700. par- 
tes, Sc o que vier a quada parte,iíTo fera o que valia quada Livri- 

nha. 



Difcwfo quarto. 1 p y 

nha.Para efta repartição fe fazer mais cõmoda, faremos pri- 
meiramente quada Real dos 3^.em 2o.partes,que montaÕ72©. 
partes.Eftas partidas por 700 . Livrinhas , vem a quada bua 20. 
partes de Real , & dous íetentavos de 20. partes de Real . Efta 
he a valia, que tinhaõ, nem he de eíbatar aver moeda tam me- 
uda,pois auia Mealhas,como adiante veremos, que valiaõ me- 
io Seicil;& aííi hum Real valia doze Mealhas. E aliem diíTo po- 
de bem fer,que no pefo folTem tamanhas como Seitil, ou Mea- 
lha^ a valia foíTe efta fomente, ou o que mais he de crer , eftas 
moedas modernas foraõ as que creíceraõ na valia, fendo de pe- 
queno peio. Eftas Livrinhas parece que jà as naõ avia em tem- 
po delRey Dom Duarte,- porem para mòr commodidade re- 
duziaõ a ellas todas as contas , como hoje fazemos dos Reais, 
naõ auendojâquafinenhus entre nòs.E aííi durou contaríê por 
ellas muitos annos adiante. 

Dos Soldos. 
S. 38. 

A Via antigamente, antesdoannode 1395-. outra moeda 
mais meuda,a que chamavaõ Soldos, 20. dos quais va- 
liaõ huã Livra antiga de 36. reis; o que fe collige da dita Orde- 
nação §. 1 .em que íc diz , que elRey Dom Duarte mandou pa- 
gar 2 o. Reais brancos por efta Livra mais antiga, Sc mandou 
que quada Real branco valeiTe hum Soldo . Bem fe infere logo 
que 20. Soldos,era huã Livra. O mefmo conftado livro pri- 
meiro das Siíàs, em que elRey diz , que lhe pagarão de Sifa do- 
us Soldos por Livra . E na AddiçaõdelRey Dom AfoníòV. fc 
explica logo, que efta conta vem a íer a decima parte: por 
quanto huã Livra tinha vinte Soldos . Valia efte Soldo da not 
íã moeda hum Real, Sc quatro Seitijs, Sc quatro quintos de Sei- 
til. ; 

Também avemos de preíljppor , que as outras Livras ,que 
fe foraõ lavrando , como foi a Livra antiga de 500. Sc a Livra 
de io.Soldos^tiveraõ também feus Soldes ao meímo rc (peito. 
E aííi quando íè lavrou a Livra de joo. fe lavrarão os fe« 

R 2 gun- 



i $á Noticias de Fortugal. 

gundos Soldos,que também eraõ 2 o. por Livra.O que fe prova 
por muitas Efcrituras antigas,particularmente da Sé de Évora 
do armo de 1441 . & do de 1461, nos quais fe contaõ todas as 
Livras antigas a razaõ de 500. Livrinhas , & os Soldos a ra- 
zão de 2e. Livrinhasj& affi 20. delles fazem as joo. Livrinhas, 
& valiaõ eftes Soldos da noíía moeda bum Real , & dous (éti- 
mos de Real. 

Depois íe lavrarão outros Soldos,que valiaõ 7.Livrinhas fo- 
mente. E aífí, porque dez delles valiaõ a terceira efpecie de Li- 
vras de 7oo.Livrinhas ) chamavaõ a dita terceira eípecie de Li- 
vras, Livra de dez Soldos, os quais Soldos valiaõ da nofTa moe- 
da dous quintos,& hum vigefimo de Real , que vem a fer quaíí 
meio Real. 

Efte nome Soldo íê tomou dos Latinos , os quais chamavaõ: 
Soltdum y àquillo que era totalmente perfeito j & por iflb deraõ 
efte nome a certo género de moeda,que tinha na valia aquillo^ 
que verdadeiramente pefava . Efta moeda correo por todo o 
Impcrio^omo as outras de Roma . E aíliS. Ifidoro nas Ethy- 
mologias moftra,que corria em Hefpanha no feu tempo . Em 
França ainda hoje hà moeda defte nome, pofto que de difTe- 
rente metal,& peíòj&defte principio nos devia de ficar o nome 
Soldo. 

Dos Dinheiros. 
S. 39. 

ONome,Z?wfcí^, fe corrompeo de Denâtcus , moeda Ro- 
mana^ quem íe deu efte nome,por valer dcz^fsis.E ain- 
da hoje emHeípanha há em Valença certa moeda,que chamaõ 
2)inhetro y zs .dos quais valem hum Real de prata Caftelhano. 
Eftcs noífos de Portugal antigos valiaõ ate o tempo delRey 
Dom Ioaõ I. doze delles hum Soldo daquelles, que 2o.faziaõa 
Livra mais antiga , como confta da Chronica delRey D. Fer- 
nando Cap.yy.Nem obfta o que diz a Ordenação ja dirá §.17. 
cm que affirma,queo Soldo valia dez Dinheiros, & 24. quintos 
de Dinheiro , porque a Ordenação falia pouco mais^eu menos; 

Sc 



JDifturfo qtmrto. 19? 

& naõ avia para que fe fizeffè moeda meuda , que ao jufto naõ 
vieffe a montar o Soldo em 1 x .ou 1 2 . ou 14. Pelo que k vê cla- 
ramente, que mais aviaõdeíeros Dinheiros, que dez:& pe- 
la Chronicaja dica confta, que eraõ doze;& affi mefmo dos 
livros das contas dos Anniverfarios do Cabido de Évora a 20* 
de Novembro de 1464. De modo que o jufto preço defte Di- 
nheiro era humSeitil menos hum decimo. 

Ouve outros Dinheiros, doze dos quais valiaõ hum Soldo 
de zy. Livrinhas, como íe prova pelas Efcrituras antigas, 
& quada Dinheiro deites valia duas Livrinhas, & hum duo- 
décimo de Lívrinha: &aííidoze Dinheiros deites valiaõ hum 
Soldo de 2 j. Livrinhas , & ha noíía moeda valia efte fegun- 
do Dinheiro meio Seitil, & hum quadrigehmo fegundavode 
Real. 

Ouve outra moeda chamada Dinheiro Alfonfim , pela 
mandar bater elRey Dom Afonfo o IV. como fe veda Chroo 
nica delRey Dom Fernando cap* jj . & referefe no mefmo 
lugar, que elRey Dom Afonfo mandou, que nove deites Di- 
nheiros valeíTem hum Soldo ,& 20. Soldos hua Livra das 
mais antigas de $6. Eftes Dinheiros eraõ do mefmo pcíb, que 
os velhos , mas na valia lhe levavaõ os velhos ventagem, 
pois nove delles mandou elRey que valeíTem hum Soldo j 8c 
dos velhos doze valiaõ hum Soldo. Suppcfto iílo, podemos 
dizer , que eítes Dinheiros Aifoníis fe os con liderarmos, íegun- 
do o pefo , valeràõ da noíía moeda hum Real menos hum De- 
cimo ; porem íè os tomarmos íègundo a valia que lhe elRey 
deu , valeriaõ da nofla moeda hum Real, & hum quinto de Re* 
ai,- porque todo o Soldo antigo, vai, como fica dito, dez Sei* 
tijs , 8c quatro quintos de Real , que íaõ J4 . quintos -, os qua- 
is repartidos por 9. vem a quada hum íeis quintos , que he 
hum Real, 8c hum quinto de Real; & tanto he a íuaju/la va- 
lia , conforme à noíía moeda . Eíta moeda parece que naõ 
correo mais $ que em tempo delRey Dom Afonío IV . 8c que 
tornarão logo a valer doze deites Dinheiros hum Soldo ; por- 
que a eíte preço os mandou pagar elRey Dom Duarte ateíèt» 
tempo. 

. K Depois diíto no annode 144^/e baterão outros Reatsbran- 

R 3 cos 7 



*! $& Noticias ât Portugal. 

cos,alem dos que tetros dito >que bateo elRey Dõm Duarte,os 
quais ainda que tinhaõ a mefma valia, eraõ de menor peíò , & 
quantidade de metal. 

E no de 1453. fe baterão outros Reais brancos de menor pe- 
íò,qué os primeiros,& íègundos,imas da meíma valia. 

E finalmente no anno de 1461. fe fizeraõoutros Reais bran- 
cos, que tinhaõ a mefma valia, que os acima ditos , lendo dé 
muito menor peío,que os primeiros,íègundos,& terceiros . De- 
lia diveríidade de Reais naíceraõ grandes queixumeSjporque li 
peilbas , que tinhaõ contratado antes do anno de 1 446. diziao 
que fè lhe naõ fatisfaziaõ os Reais brancos , que lhe deviaõ por 
quaifquer outros Reais brancos modernos dos íègundos ,011 
terceiros, ou quartos ; porque íèmpre íe lhe ficava defraudando 
a divida. De maneira que fe hum homem tinha aforado no ati- 
no de 1 440. huãs caías por 20. Reais bratico$,aaõqueriâõ acei- 
tar no anno de 1463. 20 Reais brancos dos ultimas ; diíebdd 
que quando ellé aforara por 10. Reais, eraõ outros >*jue pefà* 
vaÕ mais. Querendo elRey Dom Afonfo V. acudir a eftus duvi* 
das , ordenou em Évora no anno de 1 473. que pelos primeiro* 
Reais brancos íè pagaífem a razaõ de 1 8. pretos/que então cor* 
riâõjOS quais Pretos valiaõ três quintos de Seitil > & aííi vinha a 
ter quada Real deites brancos dez Seitijs,& três quartos deSei- 
til,como temos dito. 

Pelos fegundos Reais brancos mandou elRey pagar 1 4. dos 
últimos , com que vinha a ter quada hum deites dous Reate 
brancos,a valia de hum Real, & dous Seitijs > & dous quintos de 
Seitil. 

Pelos terceiros Reais brancos mandou elRey íê pâgaíTem 
doze pretos dos últimos,- & affi valia da noífa moeda quada hu 
delles hum Real,& hum Seitil,& hum quinto de Seitil j o que fe 
achará multiplicando os três quintos de Seitil , que dizemos vai 
quada preto,pelos doze pretos 3 que vai quada Real,viráõ a ma- 
tar 36.quintos, os quais feitos em Seitijs, vem á fornar 7. Seitijs, 
& hum quinto de Seitil,que he o que temos dito. 

Pelos quartos ^ & últimos Reais brancos mandou èlRéy pa- 
gar fomente dez pretos,que vem a montar íeis Seitijs;& áííi tu 
nhaõ a mefma valia, que hoje tem hum Real dos mffús rpor- 

• que 



Difcnrfô quarto* « 99 

que multiplicando dez vezes três quintos de Seitil , que valiaõ 
aquelles Pretos , faõ trinta quintos de Seitil ; os quais feitos em 
SeitijSjfazem íeis Seitijs,que he o que valo noííò Real,que ago- 
ra corre. 

Paífados algus annos^andou elReyDom IoaóoII. lavrar 
outros Reais de cobre fem liga alguã $ & aílí perderão o nome 
dé brancos, &íè chamarão Reais correntes • 5c eítes faõ os qufc 
âo prefente correm néfte Reino ,, qu e quadâ hum delles vai feii 
Seitijs. 

Com os fêgundos Reais brancos fe baterão também %ua* 
dos pretos ,- dez dos quais valiaõ hum dos Reais brancos fegun* 
dos. 

Provaíle ifto,porqoe elRey Dom Áfonfo V. mandou pagai 
i8.pretospor hum Real branèoprin7eiro i & fe duraflemos pá* 
rnêiros pretos,naÕíê podia ordenar éfta leijpois o feii primerrc^. 
preço foi valerem dez dellês hum Real brânCo primeiro. Por 
efta razaõ íe collige,que ouve outros pretos de fêgundos, & ter- 
ceiros Reais brancos; porem eftes^ conforme o que fica dito, na© 
eraõ Reais tam bõs,como os primeiros. E áííí os de£ pretos dcs 
primeiros valeriaõ mais , que hum Real branco defks fégufí»- 
dos,&terceiros^& dez pretos deites quartos,& últimos naõ che* 
gavaõà valia deites Segundos, &tei ceiros Pecais brancoSj& por 
iffo mandou elRey pagar efies Reais araxaõ de 14, 3c 11 ^pretos 
deites últimos. Logo de força avefriOsde~dizcr,queafíi como íe 
batiaõ novos Reais brancos, fè bàtiàõ Icço rióvos pretos. Reíta 
agora reíblverque vaiiaquada preto dtítes ,conforn-e á ncíía 
moeda. líto fica claro pelo que differr os, que quada Rea! deites 
tinha. Os primeiros R.eais valiaõ dez Seitijs 4 & quatro quintos 
de Seitil; os fêgundos Reais brancos valiaõ 8. Seitvjs, & deus 
quintos de Seitil ; por onde o fcU preto valia quatro qui8to$de 
Seitil, & dous finquoentavos de Seitil ; os terceiros Re&is bf$b~ 
cos valiaõ 7. Seitijs, & hum quinto de Seitil,& por eíTa v ra£aõ Vâ~ 
liaÕ feu preto três quintos deSeitil,& íeis firqueentá Vos deSfri- . 
til.Os quartos, & últimos Reais brancos vaiiaõ féis SeiíijSi ffé a 
qual rázaõ valia O feu preto três quintos de Seitil , ccr&ó atraz 
diffemos. ^ ■ 

5 

R .4 ^2)4$ 



200 Noticias de "Portugal. 

Das Mealhas. 
i. 40. 

COnftadocap. j& da"Chronica delRey Dom Fernando, 
em que fe falia de muitas moedas, que dos Dinheiros ul- 
timos,em que jà temos fallado,fe fizeraõ as Mealhas j de modo 
que quem queria fazer moeda mais pequena que eftes Dinhei- 
ros partia hum Dinheiro pelapmetade com huã thefoura , oa 
com qualquer outro inftru mento , 8c àmetade defte Dinheiro 
chamavaõ Mealha , ouPogeja , & compravaõ com ella alguã 
coufa meuda.E aíli que Mealha naõera moeda cunhada per fi f 
tnas era ametadedo dito Dinheiro,& com tudo a dita Ordena* 
.çaõ falia nella,dizendo que valia meio Seitil ; o que he confor- 
me temos dito, porque íe hum Dinheiro daquelíes valia hum 
Seitil,& a Mealha,que era ametade do Dinheiro,bem fe infere, 
que teria ametade de hum Seitil j pofto que a Ordenação falia, 
pouco mais , ou menos ; por quanto o feu verdadeiro he dous 
xjuintos,<fc hum vigeííimo deSeitil,que he ametade do que dif- 
íemos,que valia o dito Dinheiro. 

- 

De outras moedas eSfrangeiras^ae corri ao 
no Reino conforme a Ordenação. 

$. ih 

ALem das moedas Portugueías,que temos referido, diz a 
Ordenação velha , que também corriaõ outras, ainda 
que eftrangeiras,pela bondade do ouro , 8c peio, que tinha 5, ôc 
nomea,alem das Mourifcas,que diíTemos,as Dobras de Sevilha, 
as de Leaõ,ou Maravidis Leonefesj as Dobras da Banda , as de 
D.Branca. 
> ^ As Dobras de Sevilha fe diziaõ Sevilhanas por elRey Dom 
ReyT>om ^ on ^° ° Sábio as mandar lavrar em Sevilha, nas quais eftava 
£<.xi. efculpidoelRey armado a Gavallo comaefpada na maõ com 

hua 



Difcurfo quarto. 20 1 

huã letra à roda , que dizia: Votnims mihi aJjufor ; & da outra as 
armas de Caftella , & Leaõ ; & à roda : ^ílfhonfm Deigratia Kex 
Cj/^Efta peíâva quaíi tanto como a Dobra da Banda , fegundo 
confta de huã,que tenho em meu poder* 

As de Leaõ,ou Maravidis Leoneíès peíaõ hoje 600. reis, co- 
mo fe vê de dous de ouro, que tenho de huã parte com hú Le- 
aõ efcu!pido,& as letras,que dizem:? *etrus Dei gratU Rex LegtontS; 
Sc da outra hum Caftello com as mefmas letras; Sc parece, que 
ou pela eículptura,ou por íerem batidos cm Leaõ íe chamarão 
Leoneíès. 

As Dobras da Banda eraõ Caftelhanas, & c|iamavaõlhe af- 
ííjporque de huã pirte tinhaõ as armas Reais de Caftdla,&Le- 
aõ quaiteadas em Cruz,& da outra hum efcudo com huã Ban- 
da,queo atraveíTava do canto direito para o efquerdo , que foi 
aempreíàdelRey Dom Afonío VndecimodeCaftellajChama- 
dodas Algeziras,como jadiííemos nos Andrades,que trazem 
a mefma Banda por armas . Efta moeda valia entaõ 120. reis 
brancos dos primeiros , que conforme à noíTa moeda , fazem 
2 1 6\porem o ouro da moeda, íègundo o valor que tem o rnar- 
co,pefa mais de óoo.como íè vé por experiência em duas deitas 
Dobras,que tenho em meu poder,huã, que fe achou na villa de 
Alhandra no anno de 611. & outra junto a S. Mancos em huã 
herdade,que chamaõ a Mefquita , as quais tem as infignias ja 
ditas- & de huã parte dlzi/oannes T>eigrattu %ex ÇaftelUfic da ban- 
da do e feudo: loanncs TteioratU 'R.ex LenowS. 

As Dobras de Dona Branca fe batiaõ em Sevilha, Sc fe cha- 
mavaõ Dobras Cruzadas de Dona Branca ; porque dizem íè íi- 
zeraõ com o dote da Rainha Dona Branca de Borbom,que el- 
Rey Dom Pedro engeitou.Deftas Dobras fefaz menção noC, 
n.daChronicadelRey Dom Pedro, Sc valiaõ tanto como as 
Dobras inteiras, Sc que o meímo Rey Dom Pedro mandou la- 
vrar,que como diíTemos,peíàõóoo.reis. 

Outras mandou bater o meímo R ey , que pefa vaõ ametade 
menoSjComo íè vè de huã que íè achou é Evora,q eu tenho ef- 
culpida de huã parte cõ o rofto do meímo R ey cõCoroa sê bar- 
ba^ da outra cõ hu Caftello; as letras do primeiro círculo faõ: 
TetrmfteigranaRexLegionisiScàZQUUtâetrHsIseigrattâ 

D IS* 



201 



18. 




DISCVRS 

QVINTO- 

SOBREASVNIVERSIDADES 

deHefpanha, 



í. 



i. 




EFERESEna Sagrada Efcriptura , que era 
provérbio em Paleftina. Qui interrogam ^interro- 
gene in^Abeílà^Qom que fe dava a entender, que 
quem quifeíle ter verdadeira fciencia , & co- 
nhecimento das coufas , a foííe aprender a 
Abellá; porque efta era a cidade daquella Pro- 
vincia,onde avia eícholas publicas de todas as Artes.O meímo 
podemos dizer das noífas Vniverfidades de Hefpanha ; pois a 
ellas reconhecem todas as fciencias grande parte de fuás per- 
feitas noticias>& neftas Academias fe exercitarão os engenhos 
Heípanhoes de tal maneira , que naõ ficarão no mundo menos 
famofos pelas letras,que pelas armas. Àlgús Authores procura- 
rão efcrever deftas Vniverfídades,particulares Tratados, entre 
os quais foraõ mais largos o Licenciado ArTonío Garcia Mara- 
Mouros,cuja obra anda no fegundo tomo da Hífpdnia Itlafrata, 
êc o Padre AndreEfcoto no principio da TÀblmbeca Hífpana, Eíle- 
vaõ de Garibai no leu Compendio Hiftorico lib. 1 6. cap. 10.& 
o Meftre Eugénio de Robles na vida do Arcebifpo Cardeal D, 
Franciíco Xemenes cap. 1 1. Porem oceupados eftes Authores 
com referir algus Varões Doutos,que nas Vniverfidades flore;- 
ceraõ^dellas quafi naõ dizem mais } queosnomes } & ainda neít 
faltaõ . Pelo que em graça dos eítudiofos das boas letras a 
tarei nefte Cathalogoas Vniverfidades^uehâemquada Pn ~ 
vincia de Heípanha ; quem foraõ os fundadores, quando come- 
çaraõ^q faculdades nellas fe enfinaõ,&os Authores,que de que- 
da huã mais particularmente eícreveraõ. 

^rimh 



CS 



LpO! - 



D ifctírfo quinto.- zo 3 

Principio das f ciências n& Lufei mia. 

$. 2. 

ELyía neto de Noé,que he o mefmo que Lufo ( porque o 
I T^wpronunciavaõ os Gregos por //. ) foi o primeiro Arte Grc- 
que povoou Heípanha,dando principio à íundaçaõ de Lisboa, i a doBfa * 
que delle tomou o nomeíElyfea , & os íeus campos: Elyfeos j & a ** 
Provinda Lyfítama , & Lufitania , corno o provaõIoaõGoro- 
pió.Chamaraõfe depois eftes habitadores de Lisboa Turdolos^ 
& multiplicandoíe pelo tempo adiante, povoarão toda a terra 
de Andaluzia,onde retiveraõo mefmo nome de Turdolos , 8c 
depois deTurdetanos,quafi Turdoletanos,ouBolitanos,como 
os chama Apiano Alexíriârino, ficando íempre aos de Lisboa 
o nome de Turdolos V ateres , ou antigos, por delles procede- 
rem os demais. Por onde , conforme aos antigos Geographos, 
naõ fomente fe chamou Lufitania, 8c pertencia aefta Província 
toda a terra,que eftava entre Douro, &Guadiana;mas do Ocea- 
noSetentrional,ate o Meditarraneo de Valença: 8c por ilTo cha- 
ma Eítrabo aosLufitanos : Cens awplifsima t fuás palavras fàõ: E * , 
Tagi\>ero régio ad ^Aqmlonemfpeclans Lufitania ejl , inter Hífpanos gens B.$ m 
ampkfsima fir anms plurimis Romanorum armis oppugrata^ bujus regtoms 
ídtns AuflraleTagus cingit^bOccafwxxro, &* óep/eztncne Oceanus - y ab 
^Aurora Carpetam. Da outra parte da Turdetania confeífa o mef- 
mo Piinio^aflSrmando que os CelticosdeHeípanhaeraõ Coló- 
nias dos Celtiberos da Lufitania , como fe vê deitas palavra?; 7/; 7 
Quat autcm régio ii&tti adJíuMum^An^m tcndit, extra praditla, 'Beiuria c.i. 
appe lia tur y in duas dm/a partes y totidem^ gentes , feitim , cjui Luptaniam 
attwgunt Hjjfalenfs Ccnventus \Turdulos tfut Luftaràam^ TarraccKtn- 
femaccoluntyjura Cordub&mpetunt . Célticos d(eltilens ex Lufitania ad- 
ijemfíe ^mamfejlum e(l \facri±Jwçuis ^opmdcrum r vocaíú/ts.Quzfo dizen- 
do : A região , que fe eftende des de Betis ao Rio Guadiana , fe 
chama Beturia, dividida em duas partes, 8c em outras tantas 
gentes,Celticos,que confina õ com a Lufitania do termo de Se- 
vilha , 8c os Turdolos , que habitaõ a Lufitania , 8c a Tarraco- 
nenfe,& pedem fuajuftiçaem Ce rdova.Coufa certa he, terem 

vindo 



> 



204 Noticias de Portugal* 

vindo os Célticos dos Celtiberos daLuficaniajprovaíTe, pela re-. 
ligiaõ, pela língua , Sc pelos vocabuios-dos povos . Ifto mefino 
Reàri o confefla ° Doutiífimo Rodrigo Cao nas Antiguidades do 
Caro 1 3. Principado de Sevilha, dizendo : 3eturiapor ^ventura tomo el nom* 
í.68. & y re j g i r ' lQ fêetisJUmofe afsy mifmo Uetonia y y con nomhre mas general 
Lujitania , m ellafue úluftrifsima la cmdad de Merida , quefue comenta 
juridicâ,y tmo eflendida jurdicion y y finalmente fue cabeça de la Lufita* 
ma.Ji Ortelio no íêu Theíouro foliando de Olitiogi^iz que efta- 
Vã na Luíitania entre as fozes de Guadalquibir ., & Guadiana: 
Oíiúngi fíifpaniec oppidum Pomponia m Luftania intra 2>etis Oiti a , O* 
^ntiftitmimm<-uideturX)£&as authoridades fe moftra claro,que 
osLuíitanos povoarão também toda a Turdetaniajporem que 
a Vetonia,como mais vizinha , reteve mais o nome de Lufita- 
nia; & aííi na Vetonia ficou fendo cabeça da Luíitania Merida, 
& dentro da mefma ProvinciaCordÒVfi,Icalia,Hiípalis, ou Sevi- 
lha. Os Príncipes que governaõ podem eftender, 3c diminuir os 
limites das Províncias para mor commodidade^ mas nem por 
iflb deixa de íèr a gente a que era dantes. 

Turdetanos, diz Eftrabo , como logo veremos , que em feu 

tempo tinhaõ leis eícritas em verfo de íeis mil annos ; donde fc 

r ~^J vè,que os Lufitanos foraÕ os primeiros pi ofeíTores das letras, 

queouveem Heípanha, 8c tam antigos no exercício dellas,que 

Cidade <k Santo Agoftinho na cidade de Deos os põem entre os primei- 

Deos deS. ° r- j í t * \r* r 

u4<ro(lJ, ros ; que as enunarao no mundo , como rerere Luís V íves nos ie* 
$*c*9* us Commentarios . Eftes Turdetanos foraõ íempre continuan- 
do com a doutrina, & crefcendo nas-íciencias de maneira , que 
avia entre elles Vniveríidades , & grandes volumes de antigui- 
dades . Pelo que foraõ eftimados pelos mais polidos povos de 
Hefpanha,comodizo mefmo Eftrabo nefte lugar : Hi inter Híf* 
vanupopulos (diz ç\\e)fapientia putantur efâelíere , O* literarumfludijs 
jíldreiè utuntur, &mtmorand<£-uetujlaús ijolumina hahent peematajeges quoq 
r a (l% m rver fi^ Ui confcnptas efex annorum milhb^s^ut aiunt. Eftes annos fehaó 
tiai.u c. de entender de três mefes, íègundo o antigo computo dos Hef- 
^2/.i48. panhoes,que referem vários Authores: 3c afli vem a fazer eftes 
r.48. ^ CIS m i' annos ,os que avia depois da povoação deHefpanha,ate 
Mact.hu o tempo de Augufto^em que Eftrabo efcreveo. 
Saryr. c N e ft es eftudos deTurdetania floreceo,& enfinou Afclypia- 

des 



. Difcwfo quinto. 20 % 

des Merliano,que eícreveo a Navegaça5,& naufrágios deOlyf. 
íes^de quem o mefmo Eftrabo faz particular menção. 

Vendo pois Sertório nos Lufitanos eíre antigo amor das 
Sciencias,quis ufar delle pára utilidade fua corno excelIentePo- 
Iitico,& fendo chamado pelos Lufitanos por feu Capitão , 3ç 
Goverriador 5 lhes mandou vir novos Meftresdas Artes y que en- 
taõfè profefTavaõ, inftituio huã Vniverfidade em Guefca cida- 
de deAragaõ, onde foraõlogo eftudar os filhos dos principais 
Lufitanos, que lhe ficarão fei vindo de reféns para íenaõ pode- 
rem levantar contra elle,como conta, & nota particularmente 
Plutarco na fua vida; mas fendo depois morto, & íenhoreando* 
fe de tudo Metello, levou eftes Luíitanos , como por trqpheos a T ™ A * % 
Roma,por íèrem excellentes Poetas, íègundo refere Tullio, ain- 
da que diz delles,que era 5 pingttelqtticlciamfontntiíus :porque pare- 
ce naõpronunciavaõ bem a lingua latina ;.& com tudo pouco . 
depois foi Meftre da mefma Roma António Iuliano,de quem<;. 4( ^ /.' 
faz mençaõ Aulo Gelio,& Quintiliano. E pois q nome de Lufi- I 5- C - I 5 a 
tania alcançava a Córdova, como os Authoresallegados con- 
feííaõ, bem podemos chamar nofíos Lucano , Séneca, & Silio 
Itálico, que tanto floreceraõ em tempo dos Romanos. 

Aqui nefta Provinda dos Turdolos antigos fe devia coníèr- 
var mais a Sciencia, pois atinhaõ tam antiga , principalmente 
em Beja, & Santarém, onde pelos tiibunais das ChancelleÉi- 
as , que os Romanos ncllas inftituiraõ , fe deviaõ praticar mais 
as letras , como parece bem pelos Authores , que deíles. con- 
ventos jurídicos da Lufitania íàhirsô, ainda em tempo dos 
Godos, como de Santarém Ioaõ Abbadede Valclara ,& Bik 
po deGirona 5 5c de Beja Ifidoro, Aprigio,Pacenfes, & outros 
muitos , que no Cathalogo dos Authores Portuguefes íahiràõ 
a luz com grandiffima honra de íuas pátrias , & de toda Lufi- 
tania. 

Depois dos Godos fobrevieraõ as innundaçoês dos bárbaros 
Árabes, que confundirão , & desfiz-ernõ as memorias de todasj 
mas tornando cõ grande trabalho a reftaurar o perdido,os Re- 
ys de Oviedo, &Leaõ, foi a Província de Portugal huã das pri- 
meiras,q coníêguio a liberdade. Deoíè Portugal por etRey D. 
ArToníb VI. (que ganhouToledojemdote ao Con de D.Henri. 

S 



ioá Noticias £b Portugal. 

que com lua filha Dona Tharefa ; donde começou a clariflima 
fucceflfaó de noflbs Reys Portugueíês,de cuja virtude, & esfor» 
ço tivéramos grandes memorias, feas continuas guerras dos 
primeiros Dom ArTonfo, & Dom Sancho na conquiftado Rei- 
no naõ tiraííem o lugar à curioíidade ; 8c dos outros dous, fuás 
particulares difcordias, os naõ tiveraõ inquietos quafi todo o 
tempo,que reinarão, & por juntamente fe prezaré mais naquel- 
le tempo as armas, que as (ciências , temos delles tam poucas 
memorias. 

Porem vindo o Infante Dom ArTonfo Conde de Bolonha de 
França para governar efte Reino de Portugal em lugar de feu 
irmaõ, trouxe configo alguã mais policia,com a pratica,que em 
França tiver^que entaõ era o mais florente Reino de toda Eu- 
ropa^ affi mandou crear os Infantes,feus filhos Dom Dinis, & 
Dom ArTonfo na boa difciplina de todas as Artes , em que fahi- 
raõ tam excellentes , que nenhús Príncipes do feu tempo fe lhe 
avantajarão, principalmente elRey Dom Dinisjo qual teve gra- 
de conhecimento das boas letras , em que pelo tempo adiante 
fez varias obras , & ferveo nelle tanto o defejo de ver as fcien- 
cias em PortugaI,que foi o primeiro, que fez Vniverfidade ne- 
fte Reino,para íè lerem nella todas as diíciplinas % & artes libe- 
rais; da qual, 3c das outras de Hefpanha o Catalogo he o íè- 
guince. 

Catalogo das Vniverfídades de Helpanha. 

Yni^ver [idades de Portugal. 
Vninjerfidçide de Coimbra. 



/j 






A Vniverfidade de Coimbra foi a primeira Vniverfidade, 
que em Hefpanha foi creada com privilégios Apoftoli- 
cos,a qual fe inftituio à inftancia de muitos Prelados do Reino, 
que offereceraõ para os fallarios dos Meftres os rendimetos de 
alguãs Jgrejas,& elRey D.Dinis é feu nome,& de todos fez iup- 
plica para fua creaçaõ êRomaanno 1 1 88.dco PapaNicolaoI V. 

paííou 



D ifcurfo quinto. io? 

paílou as Bulias no atino 1290 .que faõ 44. atinos primeiro, 
que o Papa loaõ XXII paíTafíe os Bulias para a de Salaman- 






ca. 

Foi eira Vniverfidade fundada em Lisboa por elRey Dom 
Dinis,& depois paííada por elle a Coimbra , donde em tempo 
de feu filho Dom Affoníõ IV. íe tornou para Lisboa, & nella 
efteve muitos annos,& foi mui acrefcentada, por o Infante 
Dom Henrique, Meítre de Chrifto, filho delRey Dom loaõ I. o 
qual lhe deu as fuás caías ; que agora chamaõ Efcolas gerais 
para aulas das Sciencias; porem dRcy Dom loaõ III . a ampli- 
ficou mais que todos , & a tornou a Coimbra , trazendo para 

Meftres os mais eminentes lojeitos , que entaõ avia em Eu- 

■ • - 
topa. 

Lemfe neíla Vniverfidade todas as faculdades. De Theolô- 
gia há fcis Cadeiras,de Cânones fete, de Leys outo, de Medici- 
na íeis ,de Mathematica huã , outra de Mufica, de Artes qua- 
tro Curíòsjde linguas,huã de Hebraico, outra de Grego , onze 
deLatim,& duas de ler, Sc efcrever , Sc Gontar. A Philofophia, 
& línguas feeníínaõno Collegio dos Padres da Companhia,^ 
elles laõ oslcn/es. 

A Vniverfidade íè governa por hum Rekor , õ qual prefide 
aos Confelhos* que faõ quatro, hum de Confelheiios,outro de 
Deputados 3 o terceiío dos Coníelheiros, & Deputados , queíe 
chama Clauftro;o quarto que íe chama Clauílro pleno*, conda 
de todos os Lenres,Coníelheiros,& Deputados; & aqui fe pro- 
vem muitos prazos , & benefícios rcndofos , todas as Coneíiaá 
Doutorais do Reinojalguas das quais ehegaÕ a dous,& três mil 
cruzados de renda. 

Defta Vniverfidade fcrao Meftrès , êc te fahido Doutiffimos 
Varões, como entre outros na Theologiao Padre Francifco 
Soares da Companhia, o Padre Frey Egídio da Foníeca Reli* 
gioío de Santo Agoítinho. 

Na Sagrada Eíèripturao Padre FreyHieronymo de Azarn* 
buja,chamado Olcaftro , Frey Heytor Pinto da Ordem deS. 
Hieronymo , Frey Luis de Sotto Maior Dominico , o Padre Se- 
baftiaõ Barradas daCompanhia 3 cujos livros correm com gran« 
de applaufo por toda Europa. 

S % Nos 



2o8 Noticias de Fort ug&L 

Nos Cânones o Doutor Martim de AÍpilcueta Navarro ,. & 
o Arcebifpo primas Dom Rodrigo da Cunha, DomSebaftioõ 
Gefar de Meneíès,os D.D.ChriftovaõIoaõ 3 Luis Correa,Diogo 
de Brito,Francifco Vaz de Gouveajoaõ de Carvalho, o Bifpo 
Vgentino. Agoftinho Barboía, & outros.Nas leis o grande Pe- 
dro Barbofa,o Subtilillimo Manoel da Cofta,Miguel de Cabi- 
do,© Doutor Pinhel, Álvaro Vaz,Luis Pereira,& outros. ^ 

Na Medicinao grande Thomas Rodriguez , o Doutor Gar- 
cia d ? Horta, &ChriftovaõdaCoftaefcritores das Drogas do 

Oriente. 

Na Philofophiao Padre Manoel de Góes, Author dos Cur- 
iós Conimbricenfes,& o Padre Pedro da Fonfeca clariffi mo in- 
terprete de Ariftoteles ,& feu Commentador,& que foi Meftre 
ca Philofophia,& Mathematica do Padre Chtiftovaõ Clavio, 
que tanto tem illuftrado com os feus numerofos , & exa Uentes 
efcritos eftas (ciências, que aprendeo.env Coimbra , lendo o Pa- 
dre Pedro da Fonfeca os Curfos. 

O numero de Autiiores,que em todas eftas profiffoês efcre- 
veraõ,he tam grande,que sò os que fe poderão colligir com no- 
ticia particular,paíTaõ de i joo. como íè verá do Catalogo dos 
Efcritores Portuguefes , que eftà quada hora para fahir a luz. 
Mas naõfaõ menos de ponderar as acções eftudioíàs dos Op- 
pofitores ordinários defta Vniverfidade,os quais naõ contentes 
com as lições de ponto , para que fe daõ nas mais Vnivei fida- 
des 24.horas, todos elles oftentaõ, que vem a fer lerem quafi de 
repente,naõ íè detendo mais,que em quanto lhe moftraõ o põ- 
to,& fe vaõfubirá Cadeira: & outros por moftrarmaisa flor 
de feus engenhos^epetiraõ, & leraõo pontoem veríos hitincs, 
coufa naõ vifta nunqua em nenhua Vniveríídade do mundo ate 
aquelle tempo . Defta Vniveríídade de Coimbra trataõ parti- 
cularmente Pedro de Maris nos Diálogos de Varia rnftori;i 
Dialog. j.cap.3»fol.5 53.& AíFonfo Garcia Mata-Mouros,no (ca 
Tratado de Acadernijs,que anda na Hifpania ilíuftrata foi, 8 iy. 
o Padre André Eícoto na Biblioteca Hifpana tit. i . cap. 2 . foi, 
28.Frey*Hieronymo Romam na Republica Chriftã L5.cap.2i. 
foi. 299.0 Doutor Francifco de Monçaõnofeu Eípelho de PrinT 
cipesl.i r c.36.fol.8j. 



Difturfo quinto. zo? 

Vni<verfidade de E<vora. 
$• 4- 

AVniverfídade de Évora foi fundada pelo Cardeal,&Rey 
Dom Henrique a 20.de Setembro de 15 jS.annos, como 
íèvéno Anacephaleofezi.do Padre António de Vaíconcellos 
fol.331.faz delia mençaõo Padre André Efcoto tom. i.cap. 2. 
foi. 25>.LeíTe nella Theologia,Philofòphia,& Latinidade, 

Da Theologia Efcholaftica hà três lições, 8c huã de Eícritu- 
rajduas de Theologia Moral $ há quatro cadeiras de Curiós de 
Philofophia;enfina(e a Rhetorica, Humanidade , & lingua lati- 
na em ouro claiTes;& duas mais de ler,& efcrever . Floreceraó 
neftaVniveríidade grandes Theologos,PhiIofophos J & Huma- 
niftas : aqui enfinou muitos annos o Padre Molina , & compôs 
os feus livros de íuftitia , o Padre Fernão Rebello íbbre oscon- 
tratos,o Padre Brás Viegas , que cfcreveo íõbreo Apocalypfe, 
o Padre Bento Fernandes,que efcreveo fobre os Genefis , o Pa- 
dre Sebaftiaõ do Couto iníigne Philolopho , Sc Autor dos 
Commentarios da Lógica , o i^adre Manoel Pimenta enpditif- 
íimo nas letras (agradas , 6c humanas , 8c o Padre Franciíco de 
Mendoça,cujos livros íbbre os Reys faõ cm toda a parte muito 
celebrados. 

Leaõ,& Câftella. 

Sftlctmwia* 



> •: 



5. 



5< 



OS eftudos de Palencia foraõ fundados por elRey Dom 
AfFonío de Leaõjmasefta fundação foi só dar privilegi- ^J' l0 / 
os aos Meftres,que quifeiTem enfinar os eftudantes, no anno de ' 
1200. Omefmo fez elRey Dom Fernando o II. deLeaõem 
Salamanca 5 de modo que nenhua deitas Vniveríidades teve 
fallarros , nem lições certas, íènaõ voluntárias •> & porifíoíè 

S 3 extin- 



2íè Noticias de FõrtHgal. 

extinguirão de todo as lições de Palcnça,& naõ íè mudarão pa- 
ra Salamanca,como algús querem dizer. 

A (egunda fundação de Salamanca foi feita por elRey Dom 
Afonfo o Sábio no anno de 1254 . aílín alando fàllarios para 05 
Meftres j porem naõ teve efta Vniverfidade authoridade Apo* 
ftolica ate o anno de 1334. em que o Papa Ioaõ XXII. deuíua 
authoridade ao Meftre efchola para o governo da Vniverfida- 
de, 8c dar os grãos nas fcienciasjpor onde de encaõ para quá co- 
meçou a antiguidade da Vniverfidade. E por quanto a noíTâ 
Vniverfidade de Coimbra foi inftituida pelo Papa Nicolao IV. 
anno 1290 ficaõíêndo as Bulias de Salamanca mais modernas, 
que as de Coimbra 44.annos . Efta opinião porem da antigui* 
dade da Vniverfidade de Salamanca naõ he tam certa , que íe- 
naõ diga delia na Biblioteca Hiípana do Padre André Eícoto 
tom.i.c. 2. foi. 30. que antes do anno 1404^0 há couía certa 
flerta matéria, como fe vè deitas palavras : Salmanticenfs in Reono 
CaflelUy de cu jus inflittitionis tempore par um cdnjlâre affirmat Sabarellus 
Card.Clem. 1 . de Magifiris-, ali] tdmen anno jÇomtnt 1404. eretlam ajje- 
rum. Efta Vniverfidade floreceo em maior numero de cftudan- 
tes,que nenhuã outra de Hefpanha,& pòdefer que fora delia; 
porque chegarão apaffar de ifUooo.ôc coroo eraõ tantos 5 foi 
neceíTariò mulciplicareníè as lições , porque naõ avia aula , cm 
que coubeífem todos os ouvintes de huã profiíTaÕ ; & aíli acreA 
centaraõ duas lições de Prima,& Veípera,& chegou o numero 
dos Lentes a 60. Os homes eminentes, que defta Vniverfidade 
temfahido,& Authores infignes, podemos dizer , que faõ íèm 
numero, por fua grande multidão; o mais fe pôde ver largamé- 
te na hiftoria de Salamanca de Gil Gonçalves de Ávila 1 . 2. 
C.17. 

Toledo. 
S. 6. 

Cjartb fttp. 

£obi. na A Vniverfidade de Toledo foi fundação do Meftre efcho- 
*Arceí°Stf> «^JL ' a Dom Francifco Al veres de Toledo anno 1490. fegun- 
«f/.ci. do o Padre Frey Barnabe de Montaívo na Chronica de Cifter 



D ifturfo quinto. m 

i.p.l.y.c.43. Rodrigo Mendezda Sylvano feu livro da Povoa- 
ção geral de Hefpanhal. i.c. 6. diz que a fundação deita Vni- 
verfidade foi feita no Collegio de Santa Catharina no annò 
148^. &quefefezcornauthoridade doSummo Pontífice In- 
nocencio VI1I.& depois com Bulias deLeaõ X.& Paulo Ill.ap- 
provando tudo o Emperador Carlos V.o qual a amplificou, & 
no anno de 1 j 2 o. lhe concedeo os privilégios da Vni verfidade 
de Salamanca. 

Signença* / 

§. 7. 

FVndou a Vniverfidade de Siguença o Arcediago de Al- . 
mazan Dom Ioaõ Lopez de Medina no Collegio de Santo 
António de Porta caeli de Religioíos Hieronymos da meíma 
cidade;& ainda que a dotação fe fez no anno de 1 471 . acabouíè 
de ordenar o Collegio no anno de 1 501 . Leííe aqui Theolo- 
gia>& PhiIofòphia,& íè daò os mais grãos por privilegio. Trata 
deita Vniverfidade o Padre Frey lofeph de Siguença na hifto^ 
ria de S. Hier.L3.c6. foi. 17. 

Ale ai» de He fiares. 
J. 8. 

A Vniverfidade de Alcalà de Henares foi fundação do Ar- 
cebiipo de Toledo Dom Franciíco Xemenes anno de 
j jo8.Lemfenella todas as feiencias, & letras humanas, &as 
linguas Grega, & Hebraica , como refere largamente o Meftre 
Eugénio de Roble na vida do Arcebifpo fundador cap.i6.pag. 

O governo da Vniverfidade eítàno Reytor do Collegio de 
Santo lllefonfo, a quem o Arcebifpo, nomeou por advogado 
della,pela devaçaõ, que tinha a eíle Santo, por aver fido Arce- 
pifpo de Toledo,& mui douto em todas as feiencias. 

Saõ as cadeiras da Vniverfidade 42 . féis de Theologia , (às 

S 4 de 



2 \ 2» Notícias de Portugal. 

de Cânones ] quatro de Medicina,huã de Anatomia , outra de 
Cirurgia,outo de Artes, huã de Moral, outra de Mathematica, 
quatro de Grego, & Hebraico , quatro de Rhetovica , & íeis de 
Grammatica latina. 

He efta Vniverfidade de Alcalá illu(trifíima,por mjuitas pre- 
rogativas ; porque nella fe compôs , 8c publicou primeiro a Bi- 
blia,que de íeu nomeie chama Corapluteníè com os Textos 
das quatro línguas Hebraica, Syriaca,Grega,& Latina .Tem o 
Collegio trilingue com 3<>.CoIlegiais , para que eítudê Hebrai- 
cOjGrego, Latim. A Igreja da ViHa tem o titulo de S.Iufto , & 
Paftor,por eftarem nella íeus fagrados corpos , 8c he Collegia- 
da de fetedignidades,3o. Cónegos, 8c 19. Beneficiados, que to- 
ados lâõ providos, 8c graduados pela Vniverfidade , as Dignida- 
des^ Conefias em Doutores , 8c os Benefícios em Medres em 
ArteSjfazemíéos provimentos nos Graduados afllftentes,que le 
achaõ na Vniverfidade a tempo das vacantes,entrando nas pre- 
bendas por íiias antiguidades^o que hc occafiaõ para fe agradu- 
arem muitos,& refidirem nella continuamente grande numero 
delles; 8c íòbre tudo para eftar aquella Igreja ornada com tan- 
tos Varões Doutos. 

Ofm%. 

OBiípo Dom Pedro da Cofta.íòbrinho do noííb Cardeal 
Dom Iorge da Coita , fundou a Vniverfidade de Ofma., 
êc legundo parece de lua vida y que anda eferita por Frey Bai - 
tholomeu Ponce,pag.73. ordenou a Vniverfidade no Collegio 
de San ta Catharina, que edificou namefmacidade,oannonaó 
explica ; mas íèndo a entrada do Biípo de Ofma pelos de 1 5 39. 
8c fallecendo no anno de 1 563 nefte meio tempo devia fer a lua 
fundação , a qual refere o Arcebifpo Dom Rodrigo da Cunha 
nos Biípos do Porto p.2.addiçaõ ao cap.34.fol.449. A Vniverfi- 
dade parece que goza de privilegio de poder dar grãos. Rodri^ 
goMendez da Sylva na fuaPoblacion general de Hefpanha 
x j.diz,que a fundação da Vniverfidade foi no anno de 1 j j . 



Jrui- 



Difcwfo quinto. I z t $ 



NO Convento de Religiofos Dominicos de Ávila eftà irj- 
ftituida a Vniverfidade por Bulias do Papa Gregório 
XHI.anno i^ò-LeíTe nefte CoIlegioTheologia,& Artes j&pe* 
lo privilegio Apoftolicoíè daõ cambem grãos em ambos os 
Dereitos,& Medicina. O convento foi fundado por Frey Tho* 
másdeTorquemadalnquifidor mor de Cafteíla, & comas 
efmolas do Fifco^que osReys Câtholicos applicarao.Trata de- 
ita Vniveríidade o Biípo de Monopoli Dom Frey Ioaõ LopeZ 
na3.p.daHiftoriadeS,Domingo$I.3.c.3j\fol,274. 

Valh&dolid* 

..• J 

3. iii 



DA Vniverfidade de Valhadolid faz tnençaõ o Lecencla- (jAril f«p 
do Affonío Garcia Mata- Mouros, mas naõ diz delia 
mais que nomealla por Pinciana . O Lecenciado Medina na 
Deícripçaõ de Heípanha eícreve delia largamente , mas naõ 
diz o Fundador,nem o anno,em que foi fundada. RodrigoMen* 
dez da Sylva no livro,que intitulou Pcblacicn de Hefpanha,di2 
que eíta Vniveríidade foi inftituida pelo Papa Clemente VI. á 
inftancia de Dom Afonío XII . Rey de Cafteíla anno 1 346 . 8c 
ampliada no anno 148.3. & 84A i^oj.masnaõallega Author. 
Lemfe nefta Vniverfidade todas as f aculdades,& tem o meímo 
eftylo no governo,que a de Salamanca . O Collegio de S. Gre- 
gório Dominicano na mefma cidade florece grandemente em 
letras: & ntllefe podem também dar grãos por particular pri- 
vilegio Apoftolico , porque foi feito Vniverfidade no anno de 
1608. como íe vè do Biípo de Monopoli 4.p. da Hift. de S. Do- 
mingos I.3.C38. 






2i 4 Noticias de Portugal. 

Oropefa. 
$; 12, 

NEfta Villa fc diz no livro intitulado Poblacion de Hefpa- 
nha,que hà Vniverfidade com outo Cadeiras,inftituid^ 
, por Dom Francifco de Toledo, VifoRey das índias, & naõ apõ* 
ta o anno , nem dá mais razaõ delia. 

Andaluzia» 

Ofítona. 

J. tu 

A Vniverfidade de Qffuna foi fundada pelo quarto Conde 
deVrenha Dom Ioaõ Telles Giron, no anno .1440. con " 
íifte em hum CollegiOjOnde fe lem todas as fciencias,& oRey- 
tor delle o he da Vniverfidade, da qual trata o Doutor Hiero- 
aymo Gudiei na hiftoria dosGirones cap.34.fol.n8. 

Se^vilha. 
s 

S. 14. 

JídadoAr A Vniverfidade de Sevilha fe chama CoIIegio de Maeftro 
seb.Sifner* J^"j^ Rodrigo , cujonomeera Rodrigo Fernandes de Santa 
fc! 1 » Ella Arcediago de Reyna, &, Cónego de-Sevilha , que ordenou 
íelefleTheoIogia, & Cânones * ao qual Collegioíe juntarão 
depois outras doaçoes,com que fe lem também Lcys,& Medi- 
cina. Seu principio foi pelos annosde 1/09 . em que morreo o 
fundador, como íe veda hiftoria de Sevilha de Alonío Morga- 
do 1.2.c.7.fol. 4y.N0 Collegio de Santo Thomas dos Pregado- 
res da mefma cidade, que he fundação do Cardeal de ElTa,fe 
podem dar graos,como os de Vniverfidade, por particular pri- 
vilegio , aíli fe refere na 4. p. da hiftoria de S. Domingos do 
Biípo de MoaopoliJ. i.c.43. 

Cr An a* 



Difcmfo quinto. 1 1 j 

Granada. 

* Sé ijé 

FOi fundação de Carlos V.anno 1531. ainda que nao teve 
efTeito,fènaõ depois no anno de 537. Lemle nella todas as 
Sciencias,& trata delia Dom Francifco Bermudes de Pedrada 
naHift.Eccl.de Granada ^p.c.fj. 

$. i6é 

■ 

NA Vniverfidade de Baeçâ fe lê Theologiá , Philofophiâ/ 
& letras humanas,ordenoufe anno ijó^dellafe trata nâ 



M 



hiftoria de Iaem cap.10.fbi íèu Author o Doutor Rodrigo Lo 
pes,& o Venerável Padre Ioaõ de Ávila a deu á execução. 

Murcift* 

Vrcia tem dous Collegios \ 3c em quâda tiurri delíes fe 
lè Theologia J Philolbphia,& letras humanas. O mais an* 
tigo he dos Dominicos, que começou pelos annos de 13 10 .& 
ultimamente fe reformou por Frey Fernando de Caftilho Au- 
thor da HiftoriaDominicana,como fe vè da Hiftoria deMurciâ 
Difcur.ió.c. i.fol.i68.verf.O íègundo heda Companhia,orde- 
nado por Dom Eftevaõ de Alnieida Bifpo de Carthagena Por- 
tuguês anno 1 563. Porem, nem hum , nem outro parece Vni- 
verfidade,íènaõ Collegio particular > ainda que as lições fâõ pu- 
blicas,como fe vedo meímo Difcurfo foi. 2 71. poftocjue o Pa- 
dre André Eícoto fe períuade, que he Vniverfidade t & por ilíd 
a referimos aqui. 

GâU 



aí i & Noticias de Fertngah 

Galliza* 

ComfofieUa* 

S. 18. 

.. . ^ 

- 

DA Vniverfidade de Compoftella faz 'menção o Padre 
André Eícoto na Bibliotheca Hifpana , ]naõ apontando 
mais que o gome. O Lecenciado Molina no livro das Grande- 
zas de Galliza 1. 2 . cap. 1 27. diz que há nella todas as Sciencias, 
mas naõ refere o anno,em que fe fundou , nem o Author delia. 
Porem o Padre Frey Fernando de Oxea na hiííoria de Santia- 
gOjdizqueDom Alonfo da Fonfeca Arcebifpo de Santiago 
fundou dous Cojlegios em Còmpoftella , hum maior de doze 
ColIegiaiSjOutro menor de outros doze , a quem dotou magni- 
ficamente^para que nellesfe leffem todas as faculdades , o que 
parece foi pelos annos 1462. ate ijo^em que governou aquell$ 
Igreja,& ainda que elle imagina a efte eftudo maior antiguida- 
de, por dizer o Bifpo Ptlagionoannodc 1073 . quenafcera em 
Compoftella,& nella aprendera Theologia, parece que fe deve 
de entender do eftudo particularmente dos Monges , & naõ de 
Vmverfidadeformada ; como ainftituio o Arcebiípo Dom Af- 
foníb,Rodrigo Mendez da Sylva na fuaPoblacion deHeípanha 
cap.2,do Reino de Galliza,díz que a Vniverfidade começou no 
annode 1J32 . em que avia muitos annos que Dom Áloníò 
da Foníêca naõ era Arcebiípo - 7 mas poderfehia fazer por íua 
ordem. 



• 




Bifcaya. 

- 

Onhate. 

1 

Oi fundada a Vniverfidade de Onhatecom o Collerrio do 
Eípirico Santo pelo Bifpo de Ávila Dom Rodrigo de Mer- 
cado 



t 



D ifcnrfo quinto. i\f 

cado anno 1 J43 . oomo refere o Padre Frey Luis Arls Monge 
Bento nahiftoriade Ávila g.ij.fol.j^.Nefta Vniverfidade pa- 
rece naõhà mais lições, que de Philofophia, & língua latinaj 
como fe collige do Lecenciàdo Affoniò Garcia Mata- Mouros 
no íèu Tratadode Academijs, que anda no fegundo tomo da 
Hiípania Illuftrata,fol.8i7.Nefta Vniverfidade aprendeo Efte- 
vao de Garibai Author de 4o.livros,que intitulou; Gompendic* 
hiftorial de Heípanha , que por conter toda a hiftoria delia he 
obra de muita eítimaçacx;& por a qual todos os Reinos de Heí- 
panha devem muito a eira Vniverfidade , delia faz particular 
menção cite Author 1. 1 6. c10.fol.44z.. 

Afturias* 
Orvicdô. 

A Vniverfidade de Oviedo foi fundação de Dom Fernão 
do de Valdês Arcébifpo de Sevilha, Inquifidor Geral , êé 
Prefidente de Caftella,de que fe faz mcnçaõ na hiftoria dos Af- 
cebifpos de Granada de Dcm Fi ancifco Bermudes de Pedràza 
4.p.c.]6o.fol.zpp.R'odrigo Mendez daSylva ha fua Poblation 
general de Hefpanha c.o.do Reino de Leac,dizque a fundação 
da Vniverfidade foi no anno de 1580 &quefelem nella todas 
as Sciencias. Porem na vida do Biípo de Oviedo Dom Fernan- 
do de Valdês, que anda no Theatro Êeclefiaftico da Igreja de 
Oviedo fe diz,que nefta Vniverfidade fe começou àíemo ah-* 
nodei6c8.& que tem 17. Cadeiras^. de Theolcgia,3. de Ar- 
tes,^, de Cânones /& j.de Leys,com renda de hum conto, & fe- 
íènta , & outo mil reis ; & fe apontaõos primeiros Cathedrâtij 
cos,que nella começarão a ler. 






U?& 



2\% Noticias de Portugal. 

Aragaõ. 

Huefta, 

/ A Vniverfidade de Huefca foi fundada pelo Biípo da meí- 
jfjL ma cidade Dom Pedro IH.do nome com privilegio del- 
Rey de Aragaõ,de eftudo geral de todas as fciécias anno 1 3 54. 
como íè refere no Catalogo dos Prelados de Aragão do Dou- 
tor Martim Carrilho, no Catalogo dos Biípos de Huefca foi. 
3i8.onde íèdiz^que deita Vniverfidade efcreveo hum particu- 
lar livro o Doutor Monter. Nefta cidade fundou Sertório a 
primeira Vniverfidade, que ouve em Hefpanha, como refere 
Plutarco na fua vida ; mas os Meftres, que nella enfinavaõ , eraõ 
da lingua Grega,& Latina, como íè vedo mefmo Plutarco, & 
o nota Aldretc lib.i .da origem da lingua Caftelhana cap.20. 

1B » J. tu 

FOÍ fundada á Vniverfidade de C,aragoça por 'Dom Pe- 
dro Cerbuna Prior da Igreja de C,aragoça, & depois Bif- 
podfc Tarragona anno 1 jSj.Lemíè nella todas as (ciências, co- 
irio j coofta da Hiftoria de NoíTa Senhora do Pilar de Qarago- 
ça^e Frey Diogo de Morilho tr.2.c. 24. 

Cathalunha, 

Ltrida. 

$. 2J. 

FVndou a Vniverfidade deLerida elReyD.Iaime II.de Ara- 
gão pelos annos de 1 300. cò confirmação Apoftolica ; & 
prohibio/jue naõ ouveííe outra Vniverfidade é* feus Reinos,co- 
morefereHier.de C,urita lib. j.dos Annais de Aragaõ cap.44. 

Tcrffr 




< Difturfò quinto* up 

3. 14. 

MPerpinhaõhà Vnivcrfidade ení que fe lem todas as 
faculdades, ainda que nenhum Author dos referidos faz 
xnençaõ delia j sô Rodrigo Mendezda Sylva, dizqueelRey 
Dom Pedro de Aragão a fundou annoi34p. &afíi naõpode* 
mos faber mais dellacorn certeza, . c > v 

Camará de Barcellona, óc o Sabio.Concelho de Centro 
faõ fundadores, & padroeiros deita Vniverfidade , & do 
erano publico p3gaõ eftipendios aos Lentes. Em tempo desaf- 
ios V. íe lançou a primeira pedra no edifício a ) 8 . ae Outubro 
de 1536. debaixo da invocação de Santa Cruz, & Santa Eulá- 
lia. Lemíè ndla todas as faculdades, & a lingua latina. EIRcy 
Dom Felippe II. de Caftella a reformou com novos privilégios 
noanno ij-ói .como refere Rodrigo Mendezda Sylva nafuâ 
PoblaciondeHeípana,cap.2.dó Principado de Cathalunha* 



TarragMtfté 







5. 26. 

FOi fundação a Vniverfídade de Tarragona do Cardeal 
Gafpar de Cervantes pelos annos de 1570. Lemíe nella 
todas as faculdades,como refere André Efcoto na Bibliotheca 
Hifpanatom.i.cap.i.fol.jS. 



ijfw 



ti* Noticias de Portugal. 

Gjrona. 

m 

NO livro intitulado Poblaciones de Hefpanha fcdiz , que 
nefta cidade de Gyrona há Vniveríidade fundada por 
elRey Dom Fclippe o Prudente anno i jtf i . 

Reino de Valença, 

Valença. # 

§. 28. 

s 

A Vniverfidade de Valença foi fundada pelo Mâgiftrado 
da mefma cidade ,& confirmada com privilégios dcl- 
Rey Dom Fernando o Catholico í & do Papa Alexandre Sexto 
anno x44$).Lemfe nella todas as faculdades. Deita Vniverfida* 
de trata o Lecenciado Gaípar Efcolano na 1. Decad . da Híft. 
de Valen.lj.c.22.& Robl.na vid.do Arceb.Franc. deSifn.cap. 
11. 

Ltíchente. 
S. 19. 



OMofteiro dos Padres Pregadores da Villa de Luchente 
eftà fundada no lugar, em que fe diíTe a Miíía, & donde 
íè efeonderaõ as formas Confagradas milagroías , que fe guar- 
daõ com os corporais de Daroca . Foi fundado o Moftdro no 
anno de i42 3.EoPapaXifto IV. àinftanciadeDomNicolao 
de Proxita,filho do fundador,fez a efte Convento Vnivcifida- 
de, donde íe podeíTem agraduar os frades da Ordem , como re- 
fere o Biípo de Monopoli cent. 5 . da Hiftoria de S. Domingos 
c.24. 



j 



Omue* 




Viftwfo quinto* ut 

Origmla* 

Arcebifpo de Valença Dom Fernando de Loaíes furi- 
dauhum CoIIegio de Religioíòs de S. Domingos , coni 
xmisdfcdez mil liVrasde renda, & alcançou privilégios dos 
Sumtnos Pontífices paia fe poderem nelle graduar . Diz o Ler 
cenciado Gafpar Eícolano na i.p. da Hiíloria de Valença cap^ 
7.I. tf.que ifto foi em íèusdias, íem nomear anno % 8c como ellç 
imprimio pelos de 611. leria poucos antes . Também o Bit 
po de Motiopoli na 3. p . da Hiftoi ia de S. Domingos faz men- 
ção deita Vniverfidadel^.cap, 91. & diz que foraõ feus Efta* 
tutos tirados do CoIIegio de S/Gírégorio de Valhadoíid. O 
me/mo Author diz, que no anno de 1551 .confirmou o Papa 
Iuliolll.tudoocjueo Arcebifpo tinha dado, 8c concertado corri 
a Ordem íòbre efte CoIIegio , 8c concedeo aos que nelle eftu- 
daííem , que pôdeflerri íèr graduados nas faculdades , <]ue nèlle 
áprendeíTem ; porem que o Papa Pio V. no ânno de 1568. dtyt 
licença para que todas as peííbas,aí7i Eccleílafticãs, como fecu* 
lares,ainda que eftudaffem em qualquer outra parte, podeíTerâ 
fer nelle graduados em Artes, Medicina , 8c em ambos os De* 
reitos ,& Theologia,- & concede aos ráis graduados os privilé* 
gios,q tem as Vniverfidades de Salarnanca, Valhadolidj & Le- 
rida» Vivem nefte CoIIegio mais de 100 . Religioíòs t dos quais 
ao menos 60. liaõ de íèr do corpo da Vniverfidade ,Regen* 
tes , Leitores , 8c Eíludantes , como tudo refere o Bífpo de Mõ- 
nopoli na Hiftoria de S. Domingos 5.p.L 2.C.2 j. Rodrigo Men«* 
dez da Sylva na íua Poblacion de Htípanha , diz quefua funda* 
çaõ foi anno 1 j j j-. 



T 3 



222 



J^oticUs dt FovtttgaL 



-. . \ 



J. 31. 

FOi fundada a Vniverfidade de Gandia pelo Santo Fran. 
ciíèo de Borj acendo Duque daquella cidade , no ànnoáe 
a^4áXen3ÍènellaTheologiajPhilofophia,5c Latinidade. De. 
raõlheos Summos Pontífices , 8c o Emperador Carlos V. privi* 
legios de Vniverfidade para graduar neftas duas (ciências , co. 
mo refere particularmente o Padre Pedro de Ribadaneira na 
vida do Santo Francifco de Borja l.n»c* 13. 
■ 

Navarra. 

■ 

>£ítli HíY&che. 

\$r 32. 






* a? 

A Vniverfidade de Hirache eftà fundada no mefmomo- 
íiçiro de Monges Bentos, intitulado Santa Muia a Real 
de Hirache , que he Abbadia celeberrima em Navarra * Leífè 
oella Tbeologia , & Philofophia , & por privilegio íè daõ nelU 
os grãos em todas as fciencias. O Padre Frey António de Ye- 
pesefcreveahiftoria defte Convento no 3. tomo da hiftoria 
Geral de S.Bcntocent.4.annoChriíti 8iy. cap. 1. & ainda qu« 
refere largamente odito privilegio foi. 338. com tudo naõdi? 
o anno,em que íè lhe concedeo , nem por quem foi concedido* 
mas em commum diz, que o privilegio he de Summos Ppntifi- 
ces,& Reys. 

NO livro das Povoações de Hefpanha fe diz, que nefta ci- 
dade hà Vniverfidade em hum Collegio fundado anno 
ijtfj.por Dom Aloníò de Córdova, & VelIaíco,Conde de Al- 
çaudete, & VifoRey de Navarra. 

fátn 







Difctirfo quintúi 

... »■,»■-- ^— ..... 



ii 



•- V 






- 



NO dito livro intitulado Poblaciones de Hefpanha > no tU 
tulo defta cidade fè dia> que tem Vniverfidade itòituidâ 
anno i6o8>&naõ dà mais razaõdèlla* 

Do cjue eftà dito confta , que as letras em Heípanha tiveraõ 
íèu principio nos Luíitanos * & que feas outras Províncias de 
Europa levâraõ ventagem á noíla Heípanha em fundarem pri-* 
meiro Vniveríidàdes,por eítarem os Heíparihoes occupadoá 
Cóíii as guerras domefticàsdosKloUros,nem poriíTo fetem 
moftrado os Heípanhoes menos amadores da Sabedo- 
ria ; pois em tam poucos átinos tem ornado a toda 
Heípanha com maior numero deVniverfida* 
des,& itoais celebres, que nenhuã 
outra Província, 




T 



DÍS- 



224 






DISCVRSO 



SEXTO. 






■ 



f^w 



SOBRE APROPAGAC.AM DO 
Evangelho nas Províncias de Guiné. 









Dm còndkoês 1 com qtte os Swntnos Pontífices dí- 
mo aos Reys de Povtujjd o Senhorio 

de \jtiwe. 






§* i» 



I 




ENDOá préga^aS do Evangelho na Pro- 
vinda de Guiné , a primeira que os Portugue- 
fes fizeraõ , 8c a mais vizinha a eítc Reino , he 
muito para fentir fer efta a que tem dado me- 
nor fruito . Pelo que me pareceo neceflario 
apontar as cauíâs, que impedirão naõ fe redu- 
zir efta obra à íua perfeição > para que remediados os impedi- 
mentos produza a íêara Evangélica neftas regiões os grandes 
augmentos, que fe delia podem efperar ; pois efte lie o intento, 
com que os Reys Portuguefes imprenderaõ as íuas conquiftas, 
êc contentem que íèus naturais íe defterrem da própria pá- 
tria^ oceupem fuás forças em habitar,& cultivar as alheas. 
•pjoát de O Senhorio,que os Reys de Portugal tem em Guinè,em que 
vtilúls fe i nc ' uem os Eftados do Caboverde,Mina,S t Thomè, Angoíla, 
jFranafco & parte de Congo , foi primeiramente concedido aos Reys de 
Xavttrj. Portugal por huã Bulia do Papa Martinho V & depois por ou- 
tras de Eugénio iV.Nicolao V. Xifto IV. & Leaõ X. nas quais 
dizem os Summos Pontifices,que daõo dominio daquellas ter- 
ras a efta Coroa com condição , que os Reys delia provejaõ de 
Sacerdotes,& Miniftros do Evangelho, que bautizem, & enfí- 
nem noíla Santa Fé aos naturais da terra , encarregandolhe íô- 

bre 



Difcurfoftxto. tij 

bre iflb fuás confciencias , coroo fe vê do teor de todas éllás $ 8c 
por o mefrrio refpeito deraó também aos Reys o padroado dé 
todas as Igrejas dãquelhs Provindas ■, 8c os dízimos deíUs áp- 
plicaraôá Comenda Meftraí da Ordem de Chrifto i pára ínáís 
largamente acudirem os Reys a eftasdeípezas jo que por (et 
notório, de largp de referir % íènaõ aponta com as mefmas pala- 
vras das Bulias Apoftoíicãs. 

Foraõ os Reys defte Reino ta m pios, & zeloíbs da honra dé 
Deos,que o principal intento,com ^ue imprendíraõeítas cori- 
quiftas,foi a propagação da Fé Catholica,& converfaõdaqueí- 
la gentilidade : & acreícentandofe de novo a eftefeudeíejoá 
obrigação de que íè encarregarão aos Surtimos Pontífices aci- 
ma referidos , procurarão com muito cuidado defencarregarfe 
deita promeííâ $ & por iíTo erigirão Igrejas Cathedrais na llhã 
de Santiâgo,de Caboverde,& na Ilha de S.Thome,& na cidade 
do Salvador de Congo , & em outras partes levantarão Igrejas, 
& poíerâõ Vigários paraadminiftrâr os Sacramentos , & enfi- 
nar a Doutrina Chriftam;& mandarão muitas vezesReligiofoâ, 
áquellás partes , particularmente ao Reino de Congo a fazer 
efta converfàõj& paraaver maior copia de miniftros>fez eíRcy 
Dom loaõ III. o Collegio da Companhia de Coimbrá,& elRey 
Dom Henrique á Vniverfidade de Évora, donde fâhifaõ, Sc íâ- 
em muitos Relígiofos , 8c Varões Doutos nas letras Sagradas* 
queempregaõ as vidas nefta glorioía emprefa . Ô primeiro ÍU« 
oar,que os Portugueíès povoarão na Coita de Guiné, foi a Mi- 
na no anno de 1482. nellcíe fez a primeira pregação, como o 
dá a entender Ioaõ de Barros Dec.i.l 3. c. 2. 8c com aver mais 
de 1 50. annos ao tempo que íe perdeo, naõ avia tnaís naturais 
Chriftaõs,que os de três , ou quatro aldeãs junto das fortalezas 
deS Iorge,&: Axem,fendoo diftriéto defte governo tam gradei 
que paífa de 2oo.legoas. 

A fegunda pregação íe fez em Congo,& começou no anno jjjjj * 
dei^i.em que clRey Dom loaõ II. mandou os Religiolôs de fcóif**. 
S.Francifco,que bautizaraõ os Reys, & principais Senhores dá- f*& i§ < 
quelle Reino: Sc por eftes Religtolõs morrerem em poucos an* 
nos,enviou depois dRey Dom Manoel à mefmaemprefâdoze 
Padres dos Azues , a que nefte Reino chamaõ de S, Ioàõ Evân- 

gelíftái 



â i& Noticias de Portugal. 

gelifta.E elRey Dom Toaõ III. quatro Sacerdotes da; Campa-, 
nhia, que hus, & outros acabarão em breves dias nefta empre* i 
íà^a qual continuarão depois os Biípos , Gonegos , & Clérigos,- 
queô mefmoRey Dom IoaôlII. mandou, fazendo hua Igreja;, 
Cathedral na. cidade do Salvador. Porem de todas eftas prega- r 
£oês fe tirou pouco fruito , ainda que foraõ feitas com grande 
zelo da falvaçaõ das almas, & concorrendo Deos nellas com 
obras maravilhofas,& fem aver reíiftencia nos naturais da terra 
para receber o Biútifmo ; porque como a Província he muito; 
grande, & os Miniftros muito poucos , a maior parte dos natu- 
rais do Reino naõ tem maisqueonomedeChriftaõs,&os ma- 
is delles nunqua viraõ Sacerdote : 8c tirando o Bautifmo , 8c os 
nomes,quedos Santos tomaraÕ^nos ritos , nos coftumes, 8c na 
doutrina,faõ como de antes, quando eraõPagaõs.E aííinaícem 
íèm aver Sacerdote^que enfine os filbos^nem quem encaminhe 
os pays , nem quem leve por diante a obra de Deos naquella 
terra.De modo que fendo efta huã das grandes Ghriftandades,« 
de que fe poderá colher copioío fruito,eftà toda bravia, por faU 
ta de quem a cultive, (em valer a íèus Príncipes pedirem por 
tantas vezes ao Papa , & a Sua Mageftade o remédio deite 
mal. 
chion. áel A Ilha de S. Thomé fe povoou noanno de 1493 . que há 
J y 2 c \ 'g 159. annos \ & em todo efte tempo fe doutrinarão fomente os 
Negros Cativos dos moradores da Ilha;& na terra firme,sò em 
Gere , porto onde refidem Portuguefes , hà algus Chriítaõs da 
terra. 
_ Em Angollades do anno dei j7J. em que começou acon- 
de Bouro quifta,ategora tudo foraõ guerras, & da converfaõ dos natura- 
p*l.t.Aw is fe tratou poucó,ainda que tem em Loanda hum Gollegio da 
** - - Companhia, 8c outro Convento dos Padres Terceiros,- porque 
o Evangelho de Chrifto he de paz , & naõ íê há de pregar com 
as armas nas maõs. Eaffi tirando os Negros de Loanda, & Maf- 
íãngano,naõ há na terra outrosChriftaõs,íenaõ os efcravos,que 
íàem daquelle porto de refgate para Europa , 8c Novo mundoj 
aos quais bautizaõ,fem os cathequizarem de maneira,que moiv 
rem nas mefmas embarcações como brutos. Os outros mora- 
dores daquella gr ande Província, aíli eftaõ como quando nella 

entra- 



Difcurfofexto. 227 

entramos,antes eicandalizados de noíTas armas, que edificados 

da noíTa doutrina. R ^ [a ~ . 

O CaboVerde, & fuás Ilhas fe deícobriraõ no atido de 1440. j a l7 
que há mais de 2oo.annos ; & aconverfaõ , que fe fez em todo Ç* e '*t"* 
efte tempo,foi fomente nos eícravos das Ilhas de Santiago > & t °g^* 
do Fogo,onde eftaõ asnoíTas povoações, & na terra firme nos 
portos do Rio de S. Domingos, Guínalla, Biguba, Rio das Pe- 
dras,BiíTao,Cacheu,&Ioala,em que osnoílos Portugueíês reíí- 
dem. Fazem do mefmo modo bautizar os Negros , que com- 
praõ,ou de que íe fervem, &nunqua íe pregou o Evangelho ge- 
ralmente a nenhuã daquellas Províncias, ate que no anno de 
1 60 j.por ordem do Concelho de Portugal fe mandarão àquel- 
las partes algús Religiofos da Companhia , de que foi por Su- 
perior o Padre Balthefar Barreira Varaõ Apoftolico, quenel- 
las fez grande fruito,convertendo algús Reys da Serra Leoa,& 
doutros diftrictoscom muitos dos íeus principaisj porem mor- 
rendolhe logo os íeus companheiros, & elle pouco depois, fica* 
raõ outra vezos novamente convertidos deíàmparados de to* 
do o focorro eípiritual,para continuarem no t:onhecimenÊo dê 
Deos,& aproveitamento de fuás almas., 

Das caufasfoY 'que em tantos annôsfe tem feito tatn 
touco fruiío na con<vevfa>odosf)Q*uos 

de Guiné. ^ ' 

§* 2. 

DO que eííá dito fe tem vífto baftanteriiente o zelo , com 
que continuarão os Reys deite Reino na converíaõ dos 
povos de Guine, 8c o pouco Iruito, que defte trabalho fe tem 
colhidojas razoés,que para iiTo hâ,faõtres:a primeira naícedos 
miniftros Ecclehafticos, aíegunda dos Portuguefes, que frataõ 
naquellas partes , 8c a terceira.da malignidade dos clymás da- 
quella terra. 

Os Ecclefiafticos,quealli vaõ ter, ou íâõ Biípos, ou Religíd- 
fòs,ou Clérigos :dosBiipos, ainda que ouve algús zelofosdo bê 

de 



2 li Noticias dt Portugal. 

de íúas ovclhaS;Com todo os mais delles as deíèmpararaõ, vin- 
doíê dos íeus Biípados pouco tempo depois de là chegarem: de 
maneira que os mais delles viverão, 8c morrerão nefte Reino,& 
naõ nas fuás Igrejas ; & ainda ouve algus que depois de as acei- 
tarem,foi neceffario ufar com elles do rigor de juftiça , para os 
fazerem embarcar para irem reíidir nellas ( que com tam pou- 
co animo de refidir íè aceitaõ às vezes eftas Preladas ) a eauíã 
difto he por a terra pelamaior parte fer muito doentia,habita* 
da de Negros barbaros,& fem policia alguã, de modo* que naõ 
querem viver nella , fenaõ aquelles , que pretendem tirar diflo, 
ou grande interefle para a alma^ou para o corpo.Os Religiofos, 
queforaõ àquellas partes,eraõ poucos,& como naõ tiveraõíuo- 
ceííbres (porque as fuás religiões naõ aceitarão a impreza) aca- 
barão em breve tempo , depois de gaitarem a mòr parte delle 
cm aprender a lingua dos naturais: & alli hà muitos annos,que 
tirandoos das duascafas de Loanda , íenaõ vem naquellas ter- 
ras Religiofos,fenaõ he a cafo } &mais a bufear remédio tempo- 
ral para fcU bem próprio , que naõ o efpiritual da gente delia* 
Por tanto os Eccleíiafticos , que máíscontinuaõ neílas Provin* 
ciasjíaõ Clérigos ; deftes recebem os naturais pouca doutrina, 
porque muitos delles íâõ degradados defte Reino ; ou quando 
fiáõjfaõ os que naõ podem ter quâ outro remédio de vida . De 
modo que lendo eftes os que lhe haõ de dar exemplo , 8c dou- 
trinado impedimento para a íalvaçaõ dos naturais ; porque al- 
gús delles com feuscoftumes eícandalizaõ aquelles povos , que 
com íiia virtude, 8c doutrina ouveraõ de edificar , 8c converter* 
qJénàf E afli diz deftes o Padre Balthefar Barreira, que sò fe oceupaõ 
*4»ReUço em comprar,& vender,& que nunqua dizem Miíía,nem fazem 
60660^ officio^lg^tn de Sacerdote,tendo o intento principal envíè tor* 
narem logo para o Reino,como lè vem ricos,ou com algum re- 
médio para o fazerem. 
o mefaa A fegunda caufa da converíâõ naõ ir avante he o mao exem- 
?*dic pio, que de ordinário daõos noíTos Portuguefes naquellas par- 
titodC tes íP or 4 ue ainda que nellas vivem algus bõsChriftaõs, &ze!o- 
fos do íèrviço de Deos,com tudo os mais dos que nellas moraõ f 
íâõ degradados do Reino por delitos graves ; 8c os que andaõ 
no comercio.ou faõ tratantes , ou foldados , gente pela maior 

parte 



JDifcurfo ftxto. ií9 

parte cativa do interefTe,a quem refpeitaõ mais que a tudo . E 
affi muitas vezes eftes íaõ os que fern temor de Deos fazem na- 
quellas partes grandes enganos,roubos, & extorfoes , por cati- 
varem os naturais contra juíliça , & íatisfazerem a íua cobiça. 
Pelo que naõhe muito que fej a efteroim exemplo dos Chti- 
ftaõs impedimento para fe os naturais converterem . Affi pro- 
cedem muitas vezes os ncilos mifturados entre aquelles Gen- 
tios , paliando muitos annos íem MiíTa , (em Sacramentos, 
fem ouvir a palavra de Deos, & pòdc fer que íèm íè lembrar 
delle. 

A terceira caufahe a malignidade do clyma de muitas da- 
quellas Províncias, que por ferem de ares peftilenciais , em bre- 
ves dias confome,& mata a mais da gente 3 que defte Reino íà 
vai ter,& os que eícapaõ, depois de os apalpara terra, andaõ 
fempre com cores de bom es mortos,ate que pouco a pouco os 
acaba de matar de todo aquelle Anjo percuciente ,' porque co- 
mo diz o noffo Ioaõ de Barros pos alli Deos por feu oceul I to jui- Dec.t. L 
zocomJiuãefpadanamaõ de mortais febres,com que nos im- 3»«»»*« 
pede aquella habitação . Por tanto os mais dos Religiofos , & 
Bifpos,que âquellas partes paífafaõ,duraraõ muito pouco tem- 
po, principal mente os que quiíèraõ tomar mais trabalho abra- 
zandoíe com febres , ou exhalandoíèlhe os efpiritos pelos poros 
abertos com a grande inflamação do calor , de maneira que o 
Biípo do Caboverde Dom IoaÒ Parvi eípirou citando Chri£ 
mando,afrontado com o trabalho da muita gente; & Dom Fr, 
Sebaftiaõda AíTumpçaõ por fazer hum Pontifical,& pregar ju- 
ramente acabou ao outro dia a vida. 

Faltando pois aos naturais a prefença dos Biípos,& o exem- 
plo dos Sacerdotes , Sc eícandalizandoos alguãs vezes o trato 
ordinário dos lèculares,& matando a terra os Pregadores, que 
aviaõ de dar lòcorro a eftes males, naõ he muito que frutificai» 
fetam pouco eftafementeira; porque como diz o mefmo Se- 
nhor no Evangelho; Pouco importa femear, fe a femente cae 
no caminho , Sc he pifada dos que paííaó , ou comida das aves, 
fem aver quem a guarde, ou he affbgada das efpinhas , faltando 
*quem a monde . ES. Paulo confeíia, que .íua pregação em Co- 
rintho fora fem fruito, ie Apollo feu diícipulo a naô regara: 

V Peia 



2l0 Noticias de Portugal. 

Pelo que carecendo efta Sementeira da çultivaçaõ neceílaria, 
naõ he de efpantar,fe fizeífe bravia, & de trigo tenha degene- 
rado em zizania. 

Decomofe podem remediar todas eTías três 
canjas a?vendo Seminários deífas 

nações. 






TOdas eftas três caufas acima referidas da falta dos Sacer- 
dotes, efcandalo dos tratantes , & infirmidades da terra, 
fe podem remediar facilmente com hum só meio,o qual He or- 
denar Sua Mageftade, que aja Seminários nos lugares, que pa- 
recer mais.convenientes,como Loanda , & Cacheu, que he na 
terra firme do diftrióto de Caboverde,em que íè crie certo nu- 
mero de moços de quada huã deftas Províncias , onde eftaõ os 
noífos governos, os quais moços aprendaõ , & fejaõ enfinados 
nos mefmos Seminários em bõs coftumes,& virtudes por algus 
religiofos , que só por ferviço de Deos fe entreguem deite cui- 
dado,& efpiritual empreza;de maneira que ojuando os Semina- 
riftas tornarem para fuás pátrias , polTaõ fazer o ofEcio de Piè- 
gadores,&íuccedendo hus aos outros,continuem na çultivaçaõ 
efpiritual daquellas Prorincias,atè as converter de todo . Efte 
remédio he tam notorio,& a obrigação tam precifa , que ja íè 
mandou fazer hum Seminário na Ilha de Santiago doCabover- 
de ; mas como naõ fe lhe applicou governo conveniente , ficou 
quaíí como íè o naõ ouveífe. Por onde íè vc que eftas coufas fo- 
ra da Barra naõ podem tereffeito , fenaõ forem adminiftradas 
por huã Religiaõ^uenunqua morre , como íè vê no Seminário 
deGoa.Todos os inconvenientes apontados íeremedeaõ com 
eftes Seminários. Primeiramente evitaríèhaõ cõ os Sacerdotes 
defte Seminário as faltas,que diífemos dosnoífos Miniftros Ec- 
clefiafticos, porq os do Seminário ícràõ mais em numero para 
podere diícorrer por todas as povoações de fuás Províncias , &. 
feráõ tambê de bõs coftumesjpois os levaõ da creacaõ do reco- 
lha 



'• . Difcurfoftxto. . *p 

Jhimento,& boa doutrina.Poderàõ os do Seminário muito me- 
lhor fazer o officio de Pregadores ; porque efcufaõ interpretes 
na doutrina,&prégaçaõ,que he hum dos grandes empedimen- 
tos, que os noílos Clérigos té paraenfinar; porque gaílaõ mui- 
to tempo em íãber a lingua, & ainda quando a alcançaõ, nun- 
qua a podem também faber como os naturais. SeráÕ os Sacer- 
dotes de maior eíFeito na pregação j porque como naturais da 
terra,haõ de permanecer íèmpre nella , & naõ virle logo como 
fazem es no[Tos;& com o natural amor, que tem aos de fua na- 
ção , Te moveràõ com natural zelo aos eníinar,& elies os ouvi« 
ràõ com muito melhor vontade;por verem que os que lhe piè^ 
gaõ,& daõ exemplo,íao de íua mefma pátria , 6c gente, & que 
naõ hâ nelles outro íntereíle. > 

Naõ íè remediará menos com eftes Sacerdotes do Semina* 
rio a íêgunda cauíà , que apontamos do mao exemplo de algus 
noíTos naquellas partes; porque vendo os mefmos Portuguefes 
a virtude que refplandece neftes de novo convertidos , confun- 
diríehaõ confiderando a vantagem , que lhes levaõ nos ccftu- 
jres,íèndo os noiTos os que lhe enfinaraõ a Fè. E quando toda- 
via fueceder algum efcandalo,os do Seminário tiraràõ a opini- 
ão aos naturais da terra deferem todos os noiTos femelhantes 
na vida.dizendolhe da grande Chriílandade defte Reino,&que 
porhus íenaõhaõde julgar todos os outios. 

Finalmente fazendoíe os Seminariosjíè evitarão com iffo as 
doenças, & mortes, que padecem o; n< fFos,q vaõ pregar a Gui- 

• néjporqcomo eíles moços íèjao naturais da terra , feguraméte 
pode andar, 8c viver neila. Por eftas razoes íe fez em Goa o Se- 
minário da Santa Fé,em que fe criaõ os íojeítos de todas as na- 
ções Orientais. Enefte Reino o vimos por experiência no meí- 
mo Guinê ; porque em íe deícobrindo o Reino de Congo,rr!an- 
douelRey D.loaõ II doutrinar logo algus moços nobres; porq 
depois de enfinados na Fè , tornaflem a pregar a feus naturais. 
Eo meímofezelRey D. Manoel aos filhos, netos, 8c íobrinhos 
delRey D. AíFoníò de Congo, 8c outros mcçcs nobres , os quais 
aprenderaõ,naõ íomere as noíTas letras,mas ainda as latinas, 8c 

• íagradasjde maneira q delles fahiraÕ muitos Sacerdotes 5 prcga- 
dores^ dous Biípos 3 q exercitado feu officio/erviraõ aDeos cõ 

V 2 gran- 



( 



£|f Noticias de Portugal. 

grande aproveitamento efpiritual daquelle Reino , comotdíí- 
íca IdaõdeBarrosDec.ij^x.io^Peloquenaõhi duvida.que 
aprendendo eftes íojeitos, faràõ agora os mefmos cffdtos, prin- 
cipalmente íè os Governadores, Biípos, ou Religioíòs , a quem 
Sua Msgeftade cometter a eícolha dos íojeitos , que haõ devir 
para o Seminário , fizerem boa diligencia em eícolhci em os de 
engenho mais vivo,& melhor inclinação: & pofto que em algdii 
naõ aja ta m bom íucceíTo (como acontece em todos os Semi<- 
narios,& Collegios de qualquer naçaõ que íèjaõ ) iíTo naõ tira^ 

3ue de ordinário nos mais k acerte , principalmente fendo to* 
os efles povos de Guiné muito differentes de Novo mundo» 
& mui dóceis, & capazes para toda a doutrina , como o experi* 
mentaraõ ja por vezes os que enfínaraõ os de Congo , & Cabo*. 
verde,& o confeflaõ de todos os Olandeíès nas íuas navegações 
Orientais p.ó.cap.p.dizendo: Um omnes baíent proprutates j quilwt 
*uirum cor datam , ctratnfteclum , d* prudentem ornatum ejjecori^emt^ 
mgeniofmt , &*intelleãtê óptimo , tfrfacile yuodmelfemelfaltem^táe- 
runt , apprebendentes imitart , <& amulart non infelicitér conantm J&c \ 
Edehumdellescontao Author Gotardo que lia, & eícreviâ 
tia lingua Portuguefa , & que foi argumentar com os Olande- 
íes,para lhe confutar fuás herefias,allegandó muitas authorida- 
des do Evangelho , & livros Apoftolicos , como refere p 6 . c. 
2 i.neftas pa lavras: Qnin &* unus in^entus eíí , yui linguam Lujrtani- 
cam legereffi feriíere perfettè potuit , inane facris iiteris adeo rueríatus 
fvity ut de re/igione cum e B<ita r v is conferre , d^ fi qmd contrariam pr ofer- 
tem jpfe refutatunem ejus ex Eijangehflarum, <9* ^Apojlolorum fcrwns ' 
fufapere non dubitaret ; unàe lidere tjl\ ingenium ejuidem eis mn deetie, 
quoadijeritatis dgnationem pertingerent jnodo baíerent ah quem ; a imo -n 
captriíus pietatis , d> riligionis Llmfium pnnapijs recle emrftrerttK^ 
Qt4o magis ettam opeandttm , ut taíia Deus ipfs media largiatur ; qu# aà 
fropagationem ^erli fm , (gjr faUtem ipforttm f acere , g^ pvodt&e 
fofíint. 



Dêpro 



Difeurfo fexto. zj$ 

i 

JDopro^veito temporal, que rtfultark Á Coroa dt 
Portugal de fe fazerem eSíes Seminários. 

• 

NOtorio he a quem tem noticia dascoufas deite Reino, 
que a contratação, & dereitos da Cofta de Guine foraõ 
por muitos annos a principal renda da Coroa de Portugal, & a 
com que ella feenriqueceo , & lhe deu cabedal para poder fa- 
zer as conquiftas do Oriente, & Novo mundo, pelo muito que 
importavaõ os dereitos de Caboverde, & rios de Guine, Mina, 
S.Thomè,& Angolla,como íè pôde ver dos Con 4 tratos,em que 
muitas vezes andarão arrendadas. Eftas rendas, nas quais os ré- 
deiros ganhavaõ ainda muito,& eraõ tam certas , que diz Ioaõ D«*U 3. 
de Barros delias eftas palavras: Quanto ao acrefeentamento dopatri? ttlu 
monioReal } eu vdõfeinefte Reino jugadayportagem^izjma, fiz* y ou algum 
outro der eu o t eal mais certo , nem que regularmente quadaanno afsirtf? 
ponda ^fem rendeiros allegarem esleriiidades , ou perdas, do que heo rendi* 
mento do comercio de Cuinè $ porque dd ouro y marfim , cera, coura» 
ma, afjucar : pimenta jnalaguet a ffi dana mais coufas,fe tanto quifeffemos. 
delia defcõírir,como defe ohr imo s , alem dos po^os lapões } que pafíao acerca 
de nos por yintitodas. 

Porem he muito para fêntir,que eíte tam grande rendimen- ! 
to da Coroa Real efteja quafi de todo acabado dealgús annos a guerreiro 
efta pai te. A caufafaõos Olandeíês, & nações do Norte, que^W 4 ' 
navegando aquellas partes ê íuas naosjevaõ là as mercadorias, * ° 5 ' 
que nòs levávamos ê muito maior abundância: 8c naõ conten- 
tes cõ ifto,roubaõ todas as r oíías embarcações , cj por aquellas 
coftas andaõ : de maneira q eftaõ hoje quaíi fenhores daquelle 
comercio,& tirão delle tãto proveito,q lè julga por homês prá- 
ticos lhe ve a importar o trato perto de dous milhoés:&efta foi 
a fonte das riqueza^q hoje poííué osOlãdeíès.Pera remédio de- 
fte mal íe tê applicados algih meios, mas nenhu delles foi de ef- 
feitojporqcomo aquellas Províncias faõ tam diftantes,& tenha 
quada hua tatos cêtos de legoas d'- Cofta he impcflivel deféde* 

V 3 remíe- 



2 j 4 Noikhs de Portugal. 

remfelhe todos os portos com armadas noíTas,nem com forta- 
lezas^ áííi fenâõ acabarmos com os mefmos naturais da ter* 
ra, que os naõ queiraõ receber em feu$ portos, nem comerci- 
ar com elles , naõ poderemos íèr reftituidos a noffb antigo Se« 
nhorio, 

Pará íê ifto alcançar daquella gente , parece que naõ pode 
aver outro meio mais poderofo,& fácil, que o dos Seminários, 
que dizemos ; porque com elles fe alcançaõ dousimportatmf- 
fimos effeitos. O primeiro he fegurarmos em noíla amizade os 
Régulos confederadosjporque tendo eftes entre nos feusfilhos, 
& parentes , quaíi como em refés, naõ poderão declararfe em 
favor dos Olandeíès em pub!ico,nem em íècreto . O íègundo 
he a univerfal benevolência , que adquiriremos com aquelles 
Príncipes , 8c povos de Guiné , ps quais vendo o grande benefi- 
cio,que faz a íèus filhos , 8c parentes em os mandar Sua Mage- 
ftadeenfinar ) & doutrinar á (ua cufta,honrandoos,& engFande- 
cendoós com a dignidade Sacerdotal, adnlittindoos aos Bene- 
ficios,Conefias,& Dignidades de fuás Igrejas, forçofam ente ha õ 
de ficar obrigados a tam grande mercê, & unidos comnoíco 
^m paz , Sc amizade ; 8c feitos inimigos de noflbs contrários, 
principalmente depois que os Seminariftas feus naturais lhe 
começarem a pregar, êc períuadir, que íè apartem de fua com- 
guerreirâ municaçaõ.Difto temos jà viftohum grande exemplo em eU 
no i»g<tr j^ e y p om p e lippe de Serra Leoa , o qual íem receber beneficio 
algum temporal da Coroa deite Reino, mais que o eípiritual 
do Bautifmo , foi efte baftante para lançar fora de feus portos 
os Olandefes , 8c prender os que depois a elles chegarão . Pelo 
que mais fe pôde efperar que façaõ os outros daqui por dian- 
te, vendoíè obrigados a Sua Mageftade com lhe mandar enfi- 
nar,& honrar feus filhos,& naturais. 

He efte meio de tam grande importância , que naõ pode 
aver outro maior, nem mais certo para as Nações do Norte 
deixarem aquelle comercio j porque nenhua couía cria tam 
grande ódio entre as gentes , como a differença das religiões. E 
afli ainda em razaÕ de eftado efte he o meio mais principal, cõ 
que os Reys fazem mais obedientes os vaflallos, 8c inimigos de 
íeus vizinhos,como conta a Efcritura Sagrada de Iercboaõ, 

que 



Difturfofexto. 235 

que fez idolatrar a gente de Samaria,para ficar firme no Reino 
novo. Pelo que íè eítes, òc outros muitos alcançarão eítefeu im< 
tento pregando falfá douti inajcom muita mais razaõ devemos 
pretender a converiaõ deita Gentilidade;pòis com ellaalem dó 
bem de fuás almas fe confirmará em perpetua obediência b 
íènhorio,que eíta Coroa tem naquellas partes ,fazendo aborre* 
cer , & odiar neMas os Herejes,dc maneira que naõ fejaõ nellás 
mais admittidos. 

Seguirfebá também* deites Seminários a paz de Ángoílâi 
deixandofe o meio das armas,que bâ tantos annos a ándaõ dé-, 
ftruindo , das quais iènaõ tem colhido fruito algum ; porque ú 
penfamento de nos íenhorearmos das Minas ,a experiência o 
tem moftrado impoílivel ,naõ sò porque as naõ há da fineza,& 
abundância, que fe requerem para íerem de proveito; mas pela 
grande difficuldadej que averia em fe coníervar o domínio dei* 
las tantas léguas pelo fertaõ dentro ; o que na5 poderia íer íèm 
muitos prefidios. Onde os inimigos, & doenças eraõ baftantes, 
paraconfumir toda a gente de Portugal . E aíTi deftes metais 
nunqua poderemos ter mais, que aquelles que os Negros nos 
trouxerem a reígatâr , movidos pelo intereíTe do ganho > & as 
guerras ,que por eíte reípeito fe fazem,sò íèrvem de gaitarem ã 
fazenda de Sua Mageftade há muitos annos , por cúítar muito 
naquellas partes a íuftentaçaõ dos íòldados , & naõ para algum 
bom effeito.Porque ainda que fèmpre tivemos vitoria , naõ fe 
contentaõ muitos Capitães com eíle vincimènto por ganha- 
rem mais com Sua Mageíbde neítas guerras , do que as m?£ 
mas rendas de íua Mageítade podefiaõ ganhar com o Comer* 
ciodapaz.Eíendo aíTi que a conquiíta de Angolía naõ íe in- 
tentou para povoarmos aquella Provincia(pois neíte Reino nos 
fobejaõ terras muito melhores 3 que por falta de gente íe deixaõ 
de cultivar )íenaõ por refpeitoda converiaõ dos naturais dá 
rerra,& do comercio. Naõ lei q efpirito de guerra tem entrado 
naquelle EíTado,que o tem deítruido quafi de toao. E feito cef- 
íàr huã , & outra coufa , por íèr a guerra a deítruidora dos co- 
mercios,& da promulgação do EvangelhOjque fendo còmò te- 
mos dito, de paz, naõ fe pôde pregar com as armas na maõ . Ê 
por iíTo dizem os Santos , que ordenou NolTo Senhor ouveílte 

V 4 huS 



2 j6 Noticias de Portugal. , 

huã paz univerfal no mundo, quando quis que fe conyerteíTe,&, 
prcgarTe nella íua Santa ley . Eo que em Angolla eftá feito de 
converfaõ, & comercio , íe deve aos que a governarão em paz, 
& naõcom guerra.Por tanto fe devem mandar extinguir eítas 
infauftas guerras,& trazer aquelles povos a noffa amizade com 
benefícios, & boas obras, enfinandolhe os filhos , 8c honrando- 
lhos por meio dos Seminários i 8c por efta via lè alcançará 4 
benevolência daquellas gentes , & naõ com as mortes de feus 
parentes, & aflblaçoés de feus povos, que quada hora recebem 
de noífas maõs , em lugar dos favores , & caricias , com que os 
aviamos de attrahir para fe converterem ,& eftimarem noíTa 
communicaçaõ. 

Finalmente com efta obra dos Seminários alcançara Sua 
Mageftade hum nome gloriofiffimo de Pio,& Religiofo Princi- 
pe, porque vendo as outras nações eftes Seminários , 8c o gran- 
de zelo da honra de Deos,com que Sua Mageftade manda tam 
longé,& a terras tam barbaras doutrinar,íbgeitos para a prega- 
ção do Evangelho , 8c fazer politica hua das maiores partes do 
mundo,naõ poderão deixar de lhe dar grandes louvores , edifi- 
jttdvig*- candofe de tam grande zelo da íalvaçaõ das almas . E com ifto 
tmti O- fe calaràõ de todo noífos inimigos, que vendo noífo defeuido, 
** naõ deixaõ de nos calumniar, dizendo que naõ himos áquellas 
partes,por eftender o Evangelho, fenaõ por fazer noífo provei- 
to. As quais calumnias falfas , 8c outras femelhantes , de que an- 
daõ íèus livros cheos,ceíTaràõ de todo, vendo c om eftes Semi- 
narios.queaíalvaçaõdasalmas heo principal intereííe^ que Sua 
Mageftade pretende deitas conquiftas. 

Como fe poder ÁÕ fazer os Seminários com 

forno cttíTo. 

$. 5. 

DO que temos ategora dito , confta que efta obra da con- 
veríàõdosEthyopes deita Coita, naõ fe pôde fazer íèm 
ajuda dos mefmos naturais da terra doutrinados , & enfinados 

por 



DifcUrfofcxto. 1^7 

por nós. Pelo que reíla fomente vermos os meios, corri que iito 
?è há de fazer.eftes faõ notoriamente ctaus, ou vindo os fogeitos 
de Guiné aprender a Portugãl,ou indo os Pregadores de Portu^ 
gala Guiné a enfinallos. 

Bem íèi que de muito mòr proveito fora fazer eftes Semi- 
nários em Portugal,applieandoíèa creaçaõ delles a algus Reli- 
gioíòs; porque quà íèria de mòrfruito a doutrina , & aprende- 
riaõ juntamente a policia, como aconteceo aos primeiros So* 
geitos,que de Congo vieraõ, que chegarão a (er depois Bifpos. 
Mas fe pelas occafioês pi cientes naõ pôde ifto agora ter inteiro 
efieito, ao menos bem íc podei iaó repartir algús a dous âdous 
a dous pelos conventos de Religioíbs com ordem de Sua Ma- 
geftade,para que foíTe.m doutrinados nas boas letras , & podeÊ 
lem c epois ir fazer o mefmo officio com íèus naturais . O qual 
meio com muita facilidade íè podia executar . Porem quando 
ifto agora naõ poiTa /èr,faciImenteíèpoderàõ ordenar emGui- 
nè;porqueasfabricas,que le u/aõnaquellas partes,faõ tampou- 
co cuftoías,& do meímo modo a fuírentaçaõ dos fugeitos pela 
barateza dos mantimentos da terra , que clRey Dom Affonfo 
de Congo fez huã cerca, em cjue tinha mil moços nobres corri 
Meílres,que os enlina vaõ,& delles íàhiraõ Mcftres,que poíèraõ 
eícholas por todo o Reino, & por eíie meio fe veio a convertei 
todo elle^como íc diz na Chronica delKey Dom Manoel, p.4. 
c 3 Pelo que tornando as rendas da jueilasPiovinciasa feuefta- 
do com huã moderada ordinária, íe pocjeriaõíuftentar osíegei* 
tcs,que parece/Tem convenientes. 

Para fe fazerem eftes Seminários, alem do ie Loanda erri 
Cacheu, ouemBiguba ha a maior commodidade, que pôde 
íèr,naõ *ò para os diícipulos, mas para os Meftres , que naõ faô 
naturais da terra Cacheu , diz o Padre Baltheíar Barreira nas 
caitasdoannode 1607. Sc ióo8.que he o mais compofto.que 
fe [ óJe eícolher ; porc|iie he porto frequentado de todos os na- 
vios de Europa, & Ca boverdc > pelo grande reígate , que aqui hà 
de eícravos,os quais antes deíc embarcarem íc bautizaõ,& por 
jfío he alli mais necelTat h huã cala de Religioíòs doutos. Con- 
feria o Padre,que aqui fez maior fruito , que em nenhua outra 
parte de Guiné , com citar, alli menos tempo . Ecom tudo era 

grau- 



*j8 Noticias de Fortugal. 

grande a magoa , & dor que fcntia de ver a perdição de tantas 
almas, que fe poderão fàlvar,fe defte Reino lhe mandarão quem 
os doutrinaflejporque com o bom entendimento que tem,(e iò- 
jeitaõ tanto ás razoés,que lhedaõ,que fem duvida fe converte- 
xiaõtodos.E heefta Província tam perto defte Reino, que naõ 
difta de Portugal mais que 2o.dias de navegação, E o que mais 
he de notar, que diz o Padre em muitos lugares, que os ares da* 
Serra Leoa,& dos mais lugares daquell a cofta levaò ventagem 
aos melhores de Portugal -, & qte fe naõ morre naquella terra 
de doença,íènaõ de velhice j porque naõ tem exceílo nos frios, 
nem nas calmas pela frefcura que fempre corre ; & afli naõ he 
neceíTario no veraõuíàr de remédios de aguaras cafàs, nem de 
avanos.E aííirma o Padre , que tem efta terra por mais accom- 
«iodada â vida humana,que todas as de Europa. 

A facilidade da converfaõ he tanta,que diz o Padre Baltha- 
íàr Barreira,que naõ há Rey dos que vivem pela Cofta.que naõ 
queira receber o Evangelho com toda a fua gente: exemplo fe- 
ja^que os mais delles lhes deraõ os mcfmos filhos , para que es 
levaííe configo, & os enfinaíTe ; & alli entre outros trazia deus 
filhos delReydeTora,& outros dous da Serra Leoa. 

O Comercio he tam grande, que excede o que fe tira de to- 
das as outras partes, porque diz, que sò os Olandeíes tino del- 
le todos os anoosdous mil arráteis de ouro. Na terra há melhor 
paode tinta,que o do Braíil, mais algodão, & mais fino,amhar, 
roarfim,cera,malagueta,courama. As canas de aííucar na Icem 
naturalmente, grande a*bundancia de mantimentos, ferro yár 
outros metais , muitas arvores de eípinho , as uvas íê daõ pelo 
campo,bananas,arróz,milho,caftanha,a que chamaõ Ceia, de 
que íe leva para todo Guiné , Sc naícem em ouriços fem eípi- 
nhos,palmeiras, toda a forte de aves,& animais , muitos , & boi 
peícados.Pelo que naõsò avendo pregadores, íè ficaria ganha- 
do hum numero quafi infinito de almas para a Igreja Cathoii- 
ca,mas hum mui rendoíò comercio para efte Reino. 

Para Sua Maçeftade mandar contribuir das rendas de Gni- 
né efta ordinária, hàaífaz de razoes ; porque alem dennoíer 
muita a porçaõ, he efta obrigação impofta pelo Sagrado Con- 
cilio Tridentinoàquelles dízimos , alem de o Saramos Pontífi- 
ces 



■ 



Difcurfoftxto. 2}9- 

ces concederem com efta condição à Coroa defte Reino o Se- 
nhorio de Guine ; da qual sò AngoJIa rendia quarenta contos. 
Pelo que naõ he muito, que para Jfcfta obrade tanta obrigação, 
& proveito efpiritual , & temporal feacrtícente efta Ordinária 
ás outras de AngQHa>& Caboverde , a qual naõ íervirà de deí« 
peza,íenaõ de gcrefcentamento delias; porque como diíle mos, 
naõ fe pôde fazer maior guerra aos Hereges naquellas partçs, 
que por meio do Seminário . Dç maneira que continuandoíe 
elle,em poucos annos íe colherá íem comparação muito maior 
fruito temporal ,do que f óde fero gafto ; mas ainda que feefte 
naõ feguiík,aíTazfe alcança com a íalvaçaõ de tantas almas: 
íèndo quadaqual de tanto preço , que sò por huã delias , veria 
Noflb Sçnhor de novo do Ceo á terra a le fazer homem,fe iflo 
fora neceííario para fua falvaçaõ. 

.;• Efte zelo da honra de Deos foi o que dilatou o Senhorio de 
Portugal pofto num canto de Hefpanha ate os fins da terra, 
dandolhe as riquezas de Africa, Afia,& America Efta grandeza 
irá fempre em crefeimento íè fe continuar o zelo da eonvei faõ 
das mefmas gentes. Para o qual minifterio Noflb Senhor eíco- 
lheo por íua particular graça ,& mifericordia aosPortuguefes, 
como o certificou ao noíío primeiro Rey Dom Aífoníò Henri- 
ques.Efte he o fundamento de noíías vitorias, efta he a caufa de 
fe fuftentarem as Colónias de Portug ij per todas as coftas da 
redondeza da terra; o que naõ pôde íer ler aõ milagrofamente, 
porque naõ ouve nunqua Monarquia, que tagto fe cftendeíTe, 
nem Império algum,que ti vcííe poder para defender tantas mil 
léguas de fronteira confinantes contra os maiores Príncipes do 
mundo. A efta divina obra deraõ principio o-s Portugueíes , co« 
mo outros novos Apoftolos , por ella derramarão tantas vezes 
o fangue,& íacrificaraõ as vidaSjComo tem vifto o mundo todo 
no grande numero de Martyres , aííi Religiofos , como Secula- 
res,que padecerão no IapamjChina^iamjIndia^afraria, & no 
Brafil. 

Botero no livro intitulado: Del officio Di Cardinali 1. 2. foi. 
1 3 8. eftranha grandemente aos Portuguefcs o eíquecimento 
que tem de pregarem na Ilha de S* Lourenço; tendo tanto zelo, 
que íè empregarão na converfaõ elpiritual da índia, Malucas, 

Ia. 



V 



• 24° Noticias de FovtugaL 

Iapam , 8c China, que lhe ficava muito mais longe . Pelo que 
com quanta mais razaõfe poderá queixar de faltarmos com 
efta doutrina aos povos cfeikiiné , fe fora informado dascom- 
jmodidades,que para iffo temos muito maiores , que naõ para a 
Ilha de S.Lourenço,fuas palavras faó: "Mon ^voghopero lafeiar dedi- 
re cbe to mi maranjigho grandtmente^cbe i fortuguefi^be con Iode 7 econ 
glgrialoro immortale an aportai o la Ince de Enjangelio a la lniia y ale 
Jtfalucbe , a la China >t d Cia fone , ffi che no banno incio ri/parmtaeo, ne 
fpt<*>ne trarvaçliofiefericHio alcmo y lafeino, m abandono Ja Jfoía di San 
Lorenzo^otta máfia media e/Irada de le na^egadom toro. 

Finalmente íedeíèjavaS.Franciíco Xavier de ir pregar aos 
?* Itíceha Doutores da Vniverfidadc de Paris a obrigação , que tinhaõ de 
?:*•*: , S- exercitar o talento na converíàõ dos povos da índia , que por 
falta de íèmelhantes obreiros íe hiaó à perdição ; com quanta 
mais razaõ podem temer efta conta aquelles^a cujo cargo eftU 
ver procurar a con verfaõ de tantas almas, que por efta 
falta íè perdem quada dia?Eaffi parece íê deve man- 
dar entender nefta matéria com muita diligen- 
cia,&confideraçaõ; pois delia reíulta 
tam grande ferviço de Deos , Sc 
de Sua Mageftade. 




D is- 




DISCVRSO 

SEPTIMO 

SOBREAS CAVSASDOSMVITOS • 
Naufrágios, que fazem as Nãos da Carreira 
da índia, pela grandeza delias. 

ENDO as >íaos da Carreira da índia as 
embarcações em que Portugal mete a prin- 
cipal íubft anciã de feu cabedal em Dinheiro, 
Armas , Soldados, & Fidalguia delle, para em 
retorno lhe trazerem as riquezas do Oriente, 
he notório a todo efte Reino , quantas deitas 
Nãos íê perdem quafi todos os annos. Pelo que parece obriga- 
ção mui precifa tratarfe do femedio,de taõ grande danno, pois 
em quadaNao deftas,alem da gente fe perdem muitos milhões, 
& fendo efta perda tamanha he a mais ordinária que padece- 
mos , & ainda por vezes fe tem apontado varias caufas deite 
mal,parece que de todas ellas he a maior, & mais perjudicial a 
demafiada grandeza das Nãos ,&omao concerto que íe lhe 
faz com a querena^S: porque fabido o principio,que eftes erros 
tiveraõ lè poderão mais facilmente remediar ^apontarei a noti- 
cia que delles tenho. 

Todos os que tem lido as hiítorias da India,fabem como no 
tempo,que elRey Dom Manoel viveo , naõ palTavaõ as Nãos 
da Carreira de 400. toneladas , ífto fe vé affi , pelo dizerem os 
mefmos Hiftoriadores , como pelo numero da gente, que nel- 
las hia. 

Morto elRey Dom Manoel , 8c querendo elRey Dom Ioaõ informa- 
pelo tempo adiante acrefcentar o Comercio das Drogas ,acref- w^f 1 4 
centou também para iíTo a grandeza das Nãos a 800. & 900. oíiemau 
Toneladas , parecendo aos que deraõ efte alvitre, que poupa va 
muito em naõ acrefcentar o numero dos vafos,&que fe ganha- 

X ria 



1AfZ Noticifis de Portugal. 

ria tanto mais na pimenta,quanto mòrquantidade delia fç trou* 
xefle 5 porem em lugar deites dous proveitos , íê fegairaõ ael- 
Rey duas grandes perdas . A primeira de gente , porque como 
as Nãos fe fizeraõ tam grandes ; & a índia eftà fempre pedindo 
Soldados,embarcaõle neftas Nãos de ordinário 70o.&8oo,ho- 
mês , & ainda mais , os quais tom a variedade dos Climas , in- 
commodidades da embarcaçaõ,immundicia,& aperto daNaa 
vem a adoecer na viagem quafi todos. Na vida doinfigneMar- 
tyr dolâpaõ Carlos Eípinola§.2,fediz,quenaNao,emquepar- 
tio de Lisboa,ouve tantos enfermos, que chegarão num d ia a fe 
darem 400. fangrias: & aili vem a fallecer grande numero de 
gente , perdendofe os Soldados, & a deípeza , que paraelles íe 
tem feito. A fegunda perda a que deraõ caufa as Nãos grandes 
foi a vinda, & por iíío foi muito maior , porque com efta occa- 
fiaõfe perde ofruito, & retorno de todo o Comercio da índia, 
a razaõ he porque quanto maiores faõ as Nãos, tanto concorre 
a ellas mais gente,cuidando que vaõ mais íeguros , 8c as carre- 
gaõ com tanta confiança de roupas , & caixaria , que naõ fo- 
mente vem entulhadas , 8c quafi maciças com orrecheyo , mas 
ainda no Convés he às vezes tam grande o numero de caxis 
poftas huas fobre as outras, que fica a caixaria mais alta que o 
Caftcllo da Popa,& para fahir da Proa á Popa,he ncceííario fu- 
bir pelas caixas como por hum monte.Ifto naõ fomente lemos 
em muitasrelaçoésde naufrágios, mas de preíènte mo teíli fi- 
cou o Senhor Biípo eleito de Cranganor Franciíco Barreto, 
que parlou na Nao em que veio.Pelo que, ou eftas nãos fe per- 
dem totalmente, ou padecem grandes perigos nastromentns, 
chegando quà por miIagre,depois 'de ter alijada toda a fazenda 
ao mar,como íè tem vifto por experiência tantas vezes, óc par- 
ticularmente no annodfQi , 8c 91 . em que partirão da índia 
copa»hiM iT.Naos, i.Galeoês.&huã Caravella,& 2.Naos novas,& deitas 
foLiS* v * nce >'& ^ uas embarcações , só chegarão a Lisboa as Nãos S. 
Chriftovaõ,& S. Pantaliaõ,que por íerem as peores vinhaõ def. 
carregadas, 6c as outras vinte fe perderão. 

Eftàs duas perdas caufadas pela grandeza dasNaoSjfbraó de 
tanto pezo, que puferaõ a todo o Reino em grandes apertos, 
porque com morrerem tantos Soldados na viagem, foi neceífa* 

rio 



«* : Difiurfo ftpimo. , 24J 

rio mandar todos os annos muita mais gente â índia, & com os 
muitos naufrágios,' que em todo o tempo delRey D òm Manoel Co 
íènaõtinhaõ vifto, ficou eIRey Dom Ioaõ tam falto de cabeda- OritMni 
is , & drogas , que veio a quebrar no anno de i J44. com três f oUlo 9* 
milhoêYde divida eríi Flandez , para cuja fatisfaçaõ em-**'^ 
penhouo Património Real na maior parte dos juros, que lhe 
hoje vemos. 

Conhecido efle grande mal da grandeza das Nãos pelos do 
CònfelhodelReyDomSebaftiaõ, quefuccedeoa eIRey Dom 
Ioaõ feu Avô, procurarão remediar, & atalhar tam manifefto 
danno , porque nao fomente fe perdia em huã Nao ineftimâvel 
riqueza, mas muita gente, Fidalgos, Soldados de grande valor, 
Pilotos,Meftres,Marinheiros, Artelharia,& Bombardeiros, gé- 
te toda feita nefta Carreira,que tanto nefte R*eino,como na In- 
dia/aziaõ muito notável mingoa^Sc afíí ordenando eIRey hum 
Regimento para a caía da índia, que anda impreíTo no anno de R > tnfttlt9 
1570 . mandou nelle as folhas 2 1 7. que nenhuã Nao da índia, da c«f a d* 
foíTe mais que de 300. ate 4oo.ToneIadas,como íè vé das pala- Indl * f° l » 
vras feguintes: E porque fam informado, que as Nãos que hdode andar 
na Carreira da índia fon^ em ferem de menos porte ào que erao as que ate- 
gora fervido 'por fe poderem mais facilmente aparelharão* carregar , &* 
acerem mi/ler menos gente para as marear , O infernando Caírem àef 
peças ,queferdcaufa defepoàeremfaçer , O* armar mais iSíaos para an- 
darem na dita Carreira.Ordeno,& mando ,por -efíes, O outros refpeitos, que 
me a ifío movem. que todas as e Naos,que daqui em diante fefizjrtmpor con- 
ta da minha / acenda ,ou de partes , ajn nefte Reino , como na índia, para 
acerem de andar nefta navegação, naofafíe quada hua delias de 4 jo To- 
ne laias, nem fejaàe menos de$co. quefuim/otmado, que era o porte, & 
que devido ter para m ais commodamente , & 1 cem menos rife o , O de/peça 
navega/Titia ordem dtlReyfefeguio em quanto elle viveo com 
tam aceitado íucceílo, que nenhuã deitas Nãos em feu tempo 
padeceo naufrágio , como fe vé da memotia das viagês 
das Nãos , tirada dos livros da caía da índia , que an- • 
da impreíTa , & íè aprefentou ao Confelho no anno de 

IÓ22, 

Depois delRey Dom Sebaftiaõ,, entrou eIRey Dom Felippe 
o Prudente , que quando íe tornou para Caftellaquis deixar 

X i arren* 



244 í ' Noticias de Portugal. 

arrendada a pimenta a mercadores,& afli mefmo a fabrica, 'x 
conceito das Nãos , para faber com certeza quanto lhe r.aíj^ 
á cafa da India.Com eftaoccafiaõdefejando os Contrai .: 
da pimenta lograrfe dos annos dosfeus contratos, pretendera^ 
mandar vir grande quantidade delia, & para iflb acréícentarâ^ 
a grandeza dasNaos,ccmo íè tinha feito em tempo delReyp, 
Ioaõ y & porque o concerto de Nãos tam grandes era notorio ? 
que lhes avia de euftar muito maiscaro, aos Contratadores do 
apreílo*dellas , porque fenaõpodiaõ tirar a moate para íeconi 
certar,como as Nãos menores,introduziraõ a querena Italiana, 
para que íèm tanto cufto feu , remendaíTern as Nãos , eftando 
dentro ria agoa. 

Deites dous princípios íè tornarão a feguir os inconvenien- 
tes antigos,& ainda maiores,- porque com a grandeza, & carga 
íõbeja das Naos,tornaraõ a íer tantos os naufragios,que de três 
Nãos, que partem da índia, raramente chegaõ as duas a ialva- 
mento,& o concerto da querena, he de tam pouca importada, 
q ficaõ as Nãos verdadeiramente íemremedio,& reparadas fo- 
mente no exterior. Eftas íãõ as caufas de íe terem perdidas tãtas 
Nãos do tempo delRey Felippe para quà , que fc veio a cuidir, 
que era ifto algum mifterio , naõ avendo outro mais que 
efte erro fatal da grandeza demafíada das Naos,& do fuperfici- 
al concerto das querenas. Po* razaõ deítedanno taõperjudici- 
al,por muitas peífoas praticas deite Reino , íeefcreveo por ve- 
zes contra elle , fendo o primeiro Ioaõ Baptifta Lavanha . no 
. naufrágio da Nao S. Alberto , onde diz eftas palavras . Tal foi d 
S.dibertofw^Ç^ de/ld Nao Santo ^Albert optais os fucceffos de feu naufrágio , cafijkt 
fol.i$, fo n tQ das tromentas dò Caio da boa ejperança 7 pois fem chegar a elle com 
frofpero tempo feperdeo , mas da querena , ^/-/ebrecarga , que como a c/f 4 
"Nao , afíi a outras muitas no profundo de mar hai Jepultado , ambas pós 
em pratica a cobiça dos Contratadores , (efr Navegantes ys Contratadores , 
forque comofeja de muito menos gaslo , dar querena a bua 'Nao , que tirai 'a 
a monte yfolgao muito com a mnjenzio Italiana \a qualpoflo que ferroe p a r4 
aquelle mar de le~uante , a cujas tromentas y &* temp(jiaàes podem pairar 
CaleS' y & aonde quada outodiasfe toma porto . Nefe nofo Oceano he ofuc~ { 
ceffo bua das caufas. da perdição dasN aoftfo* que alem d efe apodrecerem 
as 'madeiras ,pçft o que Jejao colhidas em fia fzjm , ama cmtmua 

ejUn- 



Difturfo ftÇtimo. 24 j 

eftancta no marffi defencadermremfe com as soltas da quereria & gr an- 
depezo de tamanhas carraças t caletandoas psr ejle modo receiem mal a 
eflopa por efiar em húmidas fir* pouco enxutas , ffi quando depois na^egan* 
ao,fàÕaí aladas de grandes mares , & comi/atidas de rijos mentes , defpe- 
demnafi* abertas doo entrada a agoa^que asfofobra > @r afsi tem moílrado 
a experiência, que quando de fia dano f a intenção fcnalt ufa^va , fazia bua 
*Nao de^., ou dozj cinges a Índia , & agora cem ella t/ao faz^ duas . O 
meímo diíleraõ outros muitos zelofos do bem commum , atè 
que ultimamente fe deraõ no Confeiho dous grandes memori- 
ais imprefios no anno de 162 2. em que fe moftrou com evide- 
cia,que a grandeza que fe uíàva nas Nãos era em danno da fazê- 
da,da Milicia,& do Eftado do Reino. Pelo que viftoseftes me- 
moriaiSjfe mandou deixaífem as Nãos grandes, & fe tornaííem 
a fazer Nãos pequenas, & em eífeito fe fizeraõ,& tiveraõ excel- 
lente fucceíTo,& no anno de 1 653 . as Nãos pequenas que íe fi- 
zeraõjfòraõà índia em quatro mefes,& meio,& voltarão ê finco 
mefeSjCOUÍâ que nunqua aconteceo a Nao alguã grande . Porê 
os homêsdo mar,& mais officiais^como faõ intereííados na grã- 
deza das Nãos , porque quanto faõ maiores , tanto maior he o 
eípaço de fua liberdade,ou de feu lugar,pera o venderem, tor- 
narão a perfuadir aos Miniftros, que convinha fazeremíe Nãos 
grandes,& naõ pequenas,& afli o diraõíempre, porque faõ fuf- 
peitos na matéria i & elles fizeraõ fazer a terceira cubertataõ 
aIreroza,que enfraquece as Nãos, & os Camarotes, íe tem tor- 
nado em cameras . Com tudo por fe dar fatisfaçaõ á gente do 
Mar/e deve fazer boa conta dos Soldos,& Fretes,que fe lhe de- 
vem dar nefta viagem,que naõ convém fejaõ menores,q osln- 
gleíès,&01andeíèsdaõ aos íeusMarinheiros,antescõventagé". 
Eíè nas Nãos pequenas ficaõ defraudados, & levando menos^q 
os eítrangeiros,iííò fe lhe deve fuprir em dinheiro, & em os for- 
rar de algus dereitos, mas naõ em lhe acrefeentar os lugares cõ 
que elRey perca as fuás Nãos, pois maisintereífa a fazenda real 
em irem as fuás embarcações a íalva mento, que nosíuprimen- 
tos,quea efta gente fe lhe pode acrefeentar. 

Finalmente as ventagês ; que as Nãos pequenas levaõ às Na - 
osgrandes,faõ muito notórias , porque as Nãos pequenas , faõ 
muito mais ligeiras, navegaÕ em menos quartas , & com qual- 

X 3 quer 



246 Noticias de Portugal. 

quer vento 5 8c pedem menos fundo , 5c para as pelejas faõ de 
muito mòr effeito . As nãos grandes pelo contrario andaõ me- 
nos,porque navegaõ em mais quartas, naõ íè movern íènaâ 
com vento largo , pedem muito fundo , com que perigaõ em 
muitos portos, & naõ fervem para a guerra , como henotorio> 
ôc o nota Ioaõ Botero,quando trata das forças delRey dê Poló- 
nia , dizendo que por as Armadas daChriftandade porem de 
ordinário fuás forças em vaíos grandes , perderão muitas vezes 
asoccafioés, que ouveraõ de alcançar , íê foraõ embarcações 
mais ligeiras , & o meímo nos tem acontecido com osOlande^ 
fes,que por os feus Baixeis ferem Galeões , íempre ficarão fupe- 
riores as noffas naos.quando fe encontrarão coro ellas. 

Õ cafo heque finco Galeões ,ou nãos pequenas,cuftaõ tanto 
como três nãos grandes,& vindo finco Baixeis deites que dize- 
mos juntos, vem huã Armada muito poderofa , & vindo três 
naos,vem três Carraças muito fracas , as quais depois de duas 
viagésjfe mandaõ desfazer na Ribeira,& osGaleoês poderii fer- 
vir depois de muitos annos,aíIi nas viagés , como nas Armadas 
da Cofta • porem o que fobre tudo fe pôde confiderar, he que de 
finco Navetas, que partem da índia todas chegaõ ao Reino, íe- 
naõ quando Deos conhecidamente nos quer caíligar,& partin- 
do ti es nãos de Goa,he quafi milagre chegarem quà todas, por 
quanto do mefmo porto de Goa, por fua grandeza, & immeofa 
carga faem ja perdidas , como aconteceo à nao Relíquias , que 
dando à vella , fe foi ao fundo , antes de iàhir do porto de Co- 
chim. 

Por conclufaõde tudo nos pôde fervi r de demoftraçaõ drfla 
verdade o exemplo,que vemos nosOlandeíès , os quais com os 
Galeões eftaõ feitos Senhores do Comercio da India,porque as 
embarcações ordinárias em que navegaõ , naõpaííaô de jco. 
Toneladas. E ainda que alguãs vezes uíaõ de outras maiores , ãs 
que cheg 10 a 8oo . podemno fazer íèm tanto riíco , como nòs, 
porque a fua carga, naõ he de roupas, ou caixaria, fènaõ de Dso- 
*gas cofidas em fardos , & nenhuã fazenda vai fora de feu lug ^, 
porque a carregação corre pelos Miniftros de íua bolíà , Sc km 
pela cobiça dos noífos Marinheiros , que coítumoõ carregar as 
noífas Nãos à fua vontade. Pelo que naõ excedendo ordinarh- 

s me.ite 



Diftttrfoftpimo. m? 

inen te os navios de fuás Frotas de 450 . Toneladas ,hà mais de 
jQ.annos,quc fazem viagem , íêm iaberem quaíí,que couía he 
nauff agios,nem perderem Galeaõ da Carreira,& todas as vezes. 
quefe encontrarão com asnoflâs naos,ficaraõ íuperiores na pe- 
leja,como temos dito,aíIi por lerem mais os íèusí Galeões, que 
asnolTas naos,comopela ventagem da ligeireza. Por eftas razo- 
es lhê rende tanto o Comercio da índia , que íaõ hoje os mais 
poderoíòs mercadores de Europa ; St íêm algo Príncipe entrar 
cm fua companhia, só com os ganhos do Comercio , que todos 
òs annos lhe chega a fal vamento nos Galeões , faõ baftantes , a 
fuftentarem a guerra na índia , Sc no Brafil contra Sua Mage- 
ítade,com tam grandes Armadas, & numero de Soldados, que 
naõ há Príncipe fora de Heípanha , que ategora pudefíê fazer 
outro tanto. 

Alem deitas caufas bem fei,que há outras muitas,para íê as 
Nãos perderem : porem a demafiada grandeza , Sc as querenas 
íaõ os deífeitos mais ordinarios,& mais fáceis de remediar , Sc 
que tem occafionado mais naufragios,que todos os outros jun- 
tos.Pelo que totalmente convém, aíTi,para confervarmos 0C0- 
*hercio,como para pervalecermos contra os Olandefcs, que íê 
deixem eftas fatais nãos de ííimma grandeza , & tornemos aos 
Galeoé"s,,& Nãos pequenas, com que eíle Reino alcançou o Se- 
nhorio da lndia,pois he axioma certifiimo dos Philoíbphos, & 
Politicos,que as coufas permanecem , em quanto íê coníervaõ 
as c<iufas,queas produzirão . E defte modo evitará Sua Mage- 
ftade^ver quada anno perder as fuás Nãos com tantos milhares 
de cruzados de cabedal,& tantos vaíTallos íêus , que tanto lhe 
euflaraõ aos por na índia, Sc tornar embarcar para Portugal . E 
os Oíii ciais, Marinheiros , Sc Paíageiros das Nãos, eícuíaraõ de 
botar com feus mefmos braços ao mar, aquellis riquezas , que 
adqueriraõ com taõ compridos trabalhos,& riícos,& o que he 
mais,perder as vidas,eípedaçados nos penhaícos dasCoftas bra- 
vas da Etiopia,ou eícapando daqui , às maõs dos Cafres , Sc dt 
crueliffimas fomes, dando íêpultura a feus corpos , nos ventres 
dos Tigres, Sc outras femelhantes feras > dos ardentes defertos 
daCafraria. 

X 4 DIS* 




248 

DISCVRSO 

OITAVO 

SOBRE APEREGRINAC.AM, 

5 defejos de peregrinar por diveríasProvio« 
cias , faõ quafi commum a todos na primeira 
idade; por onde convém íàber as occafiocs, 
emqueíòmenteeítareíòluçaõ pôde íèrutil; 

6 os grandes inconvenientes, qucfefeguem 
do contrario , para com efta demonítraçao fe 

atalharem íeme^faantes intentos, que muitas vezes defordenaõ 
o curíb mais acertado das acções da vida.Opiniaõ recebida hc 
entre os Philoíòphos naturais,que as varias conftellaçoés,& fiti« 
os das terras íàõ a caufa da differença dos engenhos , & inclina- 
ções dos homês. Porque como quada regiaõcria naturalmente 
particulares plantas, &fruitos , da mefma maneira produz em 
léus habitadores diverfbs temperamentos^dos quais procede fc* 
rem a certos coftumes,artes, & (ciências inclinados . O méfmo 
affirmaõ Plataõ,& Ariftoteles, & particularmente o Poeta La- 
Uno,quando apropriando sò aos Romanos a Politica,diz; 
Excudent alij fpiramia moílius terá, 
Credo equidemiji^os diteent de mármore cultas ', 
Orabuttt caufas rn e/tus, ccelij^ meatus 
ÍDefcribent radio >&* fnroentufy dera dicent^ 
Th regere Império terras ^omane t memento, 
Ha tibi erunt artes firc. 
Por efta razaõ, vendo antigamente algus Varões de grande en- 
tendimento quam limitada era a noticia^que quada hum podia 
alcançar na patrra, 8c que as fciencias ) & artes floreciaõ em vari- 
as partes do mundo, emprenderaõ grandes peregrinações; 8c 
correndo muitas Provincias,tornavaõ à própria terra cheos de- 
itas mercadorias, & verdadeiras riquezas. 

Eítes foraõ , como diz Plataõ , os celebrados trabalhos de 

Hcrcu- 



Difctfrfo oitarvo.-- 249 

Hercules,que fendo grande Philoíòpho, & querendo âícançar 
a perfeição de todas ás ícienciaSjCÍcolheò por companheira, an* 
tes a virtude mal veítida , que a laícivia enfeitada ; & vencendo 
em fi 0$ affeitos animais de leaõ, javali,& ceivo, que fe lhe op- 
punhaõ ao caminho, bufcou a Promettheono Cauoaíò, a quem 
dizem tomou a Aguiá pela noticia s queelle lhe deu deita con- 
ftellaçao celefte . E paííando a Africa , apréndeo de Áthlante o 
curíò dos Ceos , 3c Planetas , comonafeimento , & ôccaíò das 
eítrellas, figuradas dos Poetas naquellas maçãs de ouro , que só 
podia colher Athlantéjo qual por eira caufa dizem , lhe pos os 
Ceos às coítas.E affi foi elle o primeiro,de,cuja boca íahio o co* 
nhecimento da via láctea , ate entaõ haõ alcançado dos Aftto- 
logos,& outras muitas coufas^que os Poetas nos conta õ,disfar* 
çadàs em fuás doutas fabulas. Ifto mefmo fizer aõ Sólon, Liciír- 
go > Democrito,& outros muitos. Pelo que nenhum homem era 
tido por grande entre os antigos, fenaõ depois de largas peregri- 
naçoês.Por onde Homero preferio efte titulo a todos os outros 
de OlyfTes^uando invocando Caliope,lhe diz: 
jpic mihi Mufa nsirum capupoã têmpora Trou y 
Qui mores bommum muítorum r vicíit y á» urbes.&c. 
Porem ninguém peregrinou com tanto frui to , nem merecea 
mais gloria nefta matéria, que Pythagoras, 8c Platão , os quais 
tratando com os Sacerdotes do Egypto j 8c Chaldea , com os 
Magos da Pe'rfia , Gymnofophiftas da Ethyopia , Bracmanes da 
]ndia,&comosmais infignes Varões de fua idade,nos deixarão 
o conhecimento das (ciências tam perfeito,que eícuíarap depo- 
is a íèus diícipulos Ariftóteles,& Architas outro femelhante tra- 
balho.Donde daquelle tempo por diante floreceraõ as (ciênci- 
as em Grecia,& naquella parte de Itália , que também chama- 
rão Magna Grsetia com tanta ventagem das Províncias, em 
que naíceraõ, como ordinariamente fazem as plantas difpoftas 
noutra terra ; & como íè vio nos pomos Períícos ,oliveiras,cerei- 
geiras,& platanos,que antts,& depois delia vieraõ. 

Com eftesexemplos íe moftra claramente,queíòpor razaõ 
de'alcançarasfciencias,& artes neceíTarias aocommum,&par- 
ticular,fe deve íair da pátria, & que íendo*o lugar , em que as le- 
tras fe profeífem , perto, fe efe a la bufearo apartado, & longe-, 

jois 



2 5 o Noticias de Portugal. 

pois aiR ojfizer^os^Ç regos, & os Romanos, os quais com o 
domínio ido muq^p trouxer aõ também á cidade os melhores 
engenhos delle,- de modo que em tempo de Trajano os mais 
aprendiaõ em Roma j 8c no de Theodoíio ninguém ja hia a 
Athenas^eomo no lo dà a entender S.Hierony mo,& outros dá- 
quelle teiripo.O mefmo fe vio em França, depois de fundada a 
Vniverfidade de Paris , & em Hefpanha , quando fe reformou 
pelos Reys Catholicos a de Salamanca, & em Portugal a de 
Coimbra ppr elRey Dom Ioaõ III . Conhecidos fàõ do mundo 
os Illuftres engenhos,que em todas eftas Vniverfidadcs florece- 
raõjfem fahirem delias a outras partes.Pelo queavendo na Pro- 
víncia de cada hum efcholas, onde com conhecido louvor lè le- 
ão , 8c eníinem as (ciências , naõ he neceíTario illas buícar com 
peregrinação a outras partes : Fruflra enim fie per plurajpêod pote/l 
fieri per pandora - y como diz o Axioma doPhiloíopho , que neftc 
parricular,como em todas as coufas moraes,tem íeu lugar. 

Com tudo alguãs artes hà,que ainda,que o eípeculativo del- 
ias íèpofTa enfinar nas efcholas , he neceíTario totalmente para 
íua perfeição praticaremíè com o exercició;deftas he huã a ar- 
te Militar,a qual ainda ; que fe pofía ler nos eííudos por parte da 
Politica, naõ íe pode alcançar perfeitamente , íèm primeiro íe 
exercitar. Donde dizem Tuiio,& Plutarcho, que com razaõ íe 
rio Annibal em Ephefo da oraçaõ,que o Philolòpho Phormiaõ 
lhe fez fobre o officio de Capitão , 8c doutrina da guerra , íèm 
ter nunqua ido a ella, como também elegantemente o refere o 
C*moh noflò Poeta Português a elRey Dom Sebaftiaõ,dizendo, 
tanto io» %)e Phormiao Philojôpho elegante 

t*i ?5 h Vereis como ^Annibal efearnecia 

Quando das artes íellic as diante 
T)e elíe com larga r vozjrata»aJ& lia. 
uA difeiplina Militar prejlante, $•" 

[ *NdÕfe aprende Senhor na phantafia. 
Sonhando jmaginandoycu e/iudando, 
Senão <V endojr atando \ou pelejando. 
Por tanto os que ouverem de íervir a Republica na Milícia^ 8c 
quiferem alcançar nella a reputação, devem de a hir exercitar, 
8c aprender nos exércitos > íeguindoos fora da pátria , quando 

nella 



Difturfooitti<vo. 2ji 

nella os naõ ouver , ou embarcandofe moitas vezes nas Galãs * 
do mar Mediterraneo,& nas armadas do Oceano,& IndiaOri- 
cnta^que faõ as efcholas em que hoje florece efta pratica. 

O meímo diremos daquelía parte da eloquência , que trata 
da linguagem ordinaria,a que os Latinos chamaô jSermoanatfo, 
& da Ethica, que pertence aos coftumes próprios urbanos com 
que hum homem te faz perfeito cortefaõ , os quais íèprofeffaõ 
com prefeiçaõ na Corte do Príncipe fomente (donde o mefmo 
Cortefaõ tomou o nome ) ou quando a Corte he totalmente 
diverfa da lingoa,& coftumes do outro Reino,na Metròpoli da 
Província; porque aqui eítaõ em feu ponto os eftylos , & corte- 
íias,com que os homês te devem tratar hus aos outros . Aqui 
nafeemos trajos polidos, de que íe deve ufar na cidade, caía, & 
campo , & aqui fomente te pratica a pureza da lingoa natural. 
A perfeição da qual,como quer o Conde Balthafar Caftilhioní, / 1 .Satml 
eftà no uío mais recebido , & praticado da Corte; pois nos ou- n,c 5* 
tros povos fora delia vemos contervarem te outros vocábulos, 
& tais,que quando íeus moradores vem à Metròpoli uíàõ tam 
neceííariamente das palavras do tempo de Evandro ( por dizer 
aiTi)comoooutroemMacrobio asufavadeprepofito. 

Também he parte eílencial da Politica a noticia da Provinv 
cia em que cada hum nafceo 3 &cuja adminiftraçaõ lhe pôde em 
todojòuem parte cair em forte. Porque malte pôde governar 
aquillo,que tenaõ conhece. Pelo que importa grandemête ver, 
& andar todo o Reino 3 ou a melhor parte delle,& faber dequa- 
da regiaõ,& lugar ofitio, peder, abundância, comercio, & co- 
f;umes,&tudo o mais necelTario para poder depois ufar de qua- 
da coufaem feu lugar . DelRey Francifco de França (e conta, 
que andando à caça lhe deraõ aviíb, como o Emperador Car- ry ntcaí 
losV. vinha marchando com hum poderoío exercito contra deCarb 
elle j o que ouvindo, reparou hum pouco cuidando , 8c fubita- *'*"£a 
mente deípachou recados para varias partes do Reino;mandan- 
do trazer de huas Provindas gente, 8c de outras armas , de ou- 
tras bafiimentos, apontando os caminhoSjrios, 8c portos ? por- 
que quada coufa avia de vir , como íe tivera todo o Reino pre- 
íente a hnâ sò vifta ; & aííi dentro em meia hora , & tem defcer 
do cavallo,em que eftava.ordenou outro exercito, com que re- 

íiítio 



1 J t Noticias de TortagaU 

fiftio a potencia do Emperador, & confervou feu Reino . O que 
mal poderá fazer fem grandes dificuldades , & muito eípaço 
de tempo,feo naõ ti vera andado, 5c paflado todo, & notado as 
particularidades delle com grande confideraçaõ.A mefma no- 
ticia pois, hc ncceffaria no confelheiro do Principe,ou em qual- 
quer outro miniftro fuperior da Republica. Eftas peregrinaço- 
ês,que temos referido, íaõ fomente as que quada hura/cgundo 
fua profiífaõjhp obrigado a fazer; & com que poderá fair varaõ 
perfeito nas letras , na corte , & nas armas . Porque fem outras 
maiores alcançarão nasletras efte louvor , Ariftoteles , & De- 
mofthenes em Grecia,& Virgílio, Torcato, & Ariofto em Itá- 
lia, dos quais o ultimo o confeffa de fi mefmo claramente , di- 
zendoem huã das íuas Satyras. 

Qnel monte chedeúiej que/ che ferra 

Itédiaji un maré, ti altro que la bagna 

Qíteffomtídfldytlrefto de la terra 

òenzjmai pagar Cboftejindrocercanàê. 

Çon Tolometiyfia ilmondo m faceou inguerrd. 

Etuto ilmarfenzdfar rvoúfliêando 

Lampeggia il Ciei f curo mfule carte % 

TJerrotfM ckefuj, legninvolteggtando. 
E por deixar os eítranhos , o mefmo íuccedeo aos noíTbs loaõ 
de Barros,& a Luis de Camões nefte Reino ( porque a jornada, 
que efte fez à India,naõ foi para aprender as letras,fenaõ sls ar- 
massem o Conde Balthafar Caííilhioni obriga ao feu Corte- 
faõ a maiores jornadas, fendo aííi, que o orna de tantas perfei- 
ções , que parece impoíTivel acharíè íògeito daquellas partes. 
Do mefmo modo foraõ ridos antigamente por infignes Capi- 
tães Pirrho , 8c Felippede Macedónia fem verem mais Provin- 
cias,que aquellas, em que fe exercitarão nas armas j & moder- 
namente em Heípanha , ogram Capitão Gonçallo Fernandes, 
António de Leiva ;& dos noíTos o Conde Dom Nuno Alvres 
Pereira,Nuno Fernandes de Ataide, Dom Franciíco de Almei- 
da, AfFoníò de Albuquerque , & outros ; deixando os Italianos, 
que feria largo referir.E na Corte Hypolfto de Efte , Lourenço 
de Medicesj& lacobo Senazaro em Itália, Pelo que confta cia- 

ramen- 



.- Difcurfo ait&wò. ^5j 

ramente,que todas as outras jornadas,que alem deftas íè inten- 
tarão íaõ voluntárias, & ordenadas, naõpor obrigação, íènaó 
pelo gofto de quada hum. 

Com tudo fazendoíè efta perigrinaçao voluntária em tem- 
po,& idade conveniente,&por pelíoas,que fe faibaõ delia apro- 
veitar, íem duvida lhe fera de muito fructo ? & ornamento; porá 
riellas le aprendem muitas coufas ; &: principalmente o fofri me- 
to dos trabalhos,& paciência, & o tiver com temperança , co- 
mo ja diíTe Demócrito .(/ u* fritPáiuatem docentjjfáqmppej& thoms 
berbdceus, fornis >& iaíoris dulcijiimit medulUfunt^ 

A idade,& tempo em que tftes caminhos (e devem intentar* 
hà deíerate os 25.annos,em que fe acaba a dolefcêaa,aíTi por- 
que ate entaõ dà a natureza forças para íuftentar o trabalho do 
caminho,alegria,& vigor paia íe continuarjcomo porcj tambê 
efta he a idade própria de aprender. O tepo há de fer deíòcupa- 
do de outro maior encargo,como o moítra Plutarco > quando 
àiz.Quibus mhúdomi bomefi^dulctsefl perigrtnatioJ>Ao q faõ mais di- 
gnos de repreheníaõ osq deixaõ os minifterios públicos*, que te 
aleucargoj por efta curioíidade,cõtra os quais diz Túlio aRufo: 
l/rbê mi Rufe cele^r in tjla luce vive^mnis enimpei tgrinatic^uod ego ab 
adolefcencia judiC4n)obfcura J &fordida efl ijs^mrtí wàuftria RemApoiejl 
iíhjlris eJJe.De maneira, qcõ eftas cõdiçoês poderá fer de bõefTei» 
to a perigrinaçaõ,ainda q asq fe fazê i cr caufadeReligiaõ,&de 
venerar os Sãtuarios^e todo o tepo,&idade íaõ louváveis, &pijf* 
íimas.Pofco q ate os m^ges Giravagos^avia antigan1ente,&s 
gaftavaõ toda a vida vfftando as Celas dcs Anacoretas por di* 
verias Províncias do mudojforaõ mui reprehêdidos dos Santos 
Patriarcas. Bêto,& Bruno,&éoppofiçaõíua 3 ordenaraõogrãd8 
recoihimêto de íeus mofteircs.Pcré o bõ fucceffo nasvageaço* 
es .volutarias acõtece rariíTimas vezes • pcrq como eftes defejos 
nafçaõ pela maior parte de animo vago ; inquieto,&incõftãte fin- 
cão sedo os mcios 3 & fís das jornadas íemclhãtes aos princípios 
é" q fe fundarão. E aff húa dascouías/jSeneca louva a feu amigo 
Lucilio,he naõ lhe ver eftes interos^^/c^diz elle, de te çoapio^ 
cjuod no difcurris nec locoru mutduombus inquietar is : agri ammi laBttio 
tjlaeft.frimuargtimenuibenecopo/ií^ mentir exijlimopojfe cífftere^O* fccu 
iwtfM^.Mas porque muitos encobrem efte viciofo appetite com 

Y o lou* 



Xtt erroréjedutpueru ignota mirante ad breve tepus rerualiqua noyitate 
detimtt- y cateru inconfiantia^u» maxime agra efi lacefat mobilwrejíenore^ 



254 Noticias de Portugal. 

o louvável defejo de alcãçar perfeitamête aEthica cõ o conhe- 
cimétoproprio,&melhoraméto decoftumes.Serà neceíTario,q 
particularmente vejamos o pouco ftuito,q delias fe colhe,& os 
grades males,q daqui naícé, para q fe acabe de enteder quanto 
fè enganaõos q cuidaõ , q neftas perigrinaçoés fomêteconfifte 
toda a fabedoria, &boa reputação de hu homê.De hua,&outra 
coufa, tratado particularmête o meíroo Séneca infigne Phylo- 
íopho tnox%\ y à\z:Quid perfeprodefe periorwatio cuiqua 'potuitl "no volt** 
ptates tila teperavit y no cubiditates r e/r anavit y nÕ iras reprapupo indómitos 
amoris impitus fregit \mlla denta animo maio eduxit y nó mditíu dedit y no ex- 
cufíí 

nuit' y cateru wconftantiãrfux 
reddedtt ipfa jaclattojtaj qut petierant cupidifime loca y cupidius deferut 
& dvtu modo tranfuolant^citiusáqudm veneram abeunt. Tertgrinationo- 
titia dabitgentiu y nov as téi montw formas oflendttinufitata [fatia caporu^ 
O* trriguas perenibus a quis valles t & alicuiusjlumimsjubobjervatione na* 
turajhe ut 'Nillus <eslm incremento tumet y fiy>e ut Tigns eripitur ex ocu- 
lis, &* aBoper occulta turfa imigre magnitudini redditur^five ut Jfóaander 
Poetaru omniu exercitatto y ú>* hdus tmplicatur crebris y anfraclibus } &fe* 
fe in yicmu, alues /uo admotus y antequa fibi trfuat fleclitur .faerum neque 
melionmfactet y neque faniorem . Inter jludia vofahdum ejl , gjr inter ytu- 
tbores Sapientiá^t quafita dtfcamus non dum inventa quaramus. Stc exi* 
mendus animus ex mtferrimaferwute in libertate afferitur.Quandiu qui» 
denefcieris quid fugiendu y qutd petendu^qmd necefj anu , quidjupervacuu y 
quid iufium y quid koneftum non erit hoc &erigjmari y /ed errar e y nullam tibi 
epemferet tfíe difcurfus y perignnaris emm cunrajfeBibus tuis , ffi mala te- 
tua fequuntur: Ytmâm quid em fe quer entur longtus abefjent, nuncfers il/a 9 
non ducis. ftaj uéique te premunt J& paribus incornodis urunt . Medicina 
ergo non régio querendo, efi -fregit crus s aut extorfit artieulumnon yehiculu 
ndvemque confcendit y fed advocat medicum y ut fracla pars jungatur , ut lu- 
xata in locum reponatur . Quid ergo ammum tot Ucis fraclumaue extor* 
tum credis locorum mutationepofjefanari ? Maius efi úludmAum , quam 
Htgeflatione curetur. Terigrinatio non facit medicum, non orat orem , nul- 
laars Lco difcitur . Quid ergo faptentia res jpmrnmH máxima in itinere 



collipitur. 

o 



Êftas fentenças,q por fere próprias deita materia,quis referir 
tanto ao largo/aõ todas graviílimas y & dignas de as trazermos 

diante 




Hftptrfõoimcvo. 2jj 

diaote dos olhos, 5c: na memoria sepre. O mêfmo ^ Séneca quis 
tambê dizer Horácio r-tf^/í rièn <trH'rntímutdm y jwiransmare çurrme. 
Eo outro: C°n°reJJhs faptentuxotferr pruúentú ' m montes } aúsmarÍ4. E 
da mèfrÃàftjKniaõ íaõ quaír todos os modernos . Pelo q naõ há 
q duvidar, q os mais-deiles deítjos^de ver terras faõ vicio (os , 8c 
indigriostíevaraõpíúíféti.te . Quanto mais^feemalgú^êpo íe 
pôde eícufar a nótitfàSò mudo acquirida pefloalméte,h.e nefte 
nolío íeculo,ê cj ofeÔnfreciméto deíle eftà égrao tam fobido cõ 
^ntosjív^qúe^ò^nicítròõ aos olhos,na6sô asProviricias^ 
Kcirios,rriaVairidaàs próprias cidades, & povos cõ tanta perfei- 
ção^ cõ cal partitulandade,^ ^ 

mais curiòfo^&'intè^íçente,q fejaralcãçar a riienor parte deitas 
couras,vend"o ; & andíndojcomo é caía ie conhece todas.lendo, 
& e/tudandõ/Porq os 1 q caminhão naõ fe pode deter muito nai* 
terras por onde i páfráõ / í & c?outras';ne íempréachaõ , quê lhe dé 

?& repòí 
mStiSfifê 4 cada W 
eíludo,álcança perreitan 
rasvezesa aJgus dèftS]^ vê de Veaeía,Roma, Paris, doutras 1 
panes,perountàr£ihe os q quà leraõ/as coufas daquellas cidades' 
por particularidades delias: a q elles naõ ia bê rèfpòrá'der,hc ain- 
efa entender o cj lhes perguntaõ. Deixo ja os trabalhos immen^ 
íòs dos caminhóslçí pálios excélRvos,as inclemências do ar,& 
es perigos da vidajCjacõpanhaõeíta peregrinações, por razaS 
das quais couías copara ordinariamete o Spirito S.nklrfcritura 
Sagrada a vida húmana^i peregrinação^ chama pátria ao Pa- 
raiío Celefte,é q fe gofá a v i íà ÔjBe a t í ti c á >/?gri i fícariòlo çío nome 
da pátria à Bemavèntii¥açi r & no da peregrinação, toda a pena, 
&tormetO;poréhetnl a codiçaõde muitos, qeíhmaõtãto mais 
a me/ma coufa,quanto mais mecuíta, o q naõ he digno menos 
de condenação , que íè hú Capitão defpieíaííe a vitoria cerra 
por lhe naõ çuftar fatigue , $c a eílimaííe mais por a alcançar 
com morte de muitos Soldados; por tais podemos julgar hoje 
os que podendo facilmente ná Pátria. rU l 

Só por puro enoetM&porfcitná* : 2fi *$** ^0« 
Ver Ú muníocsíemâos $M0ft *'' P *° ' * 

" Y z Como 



2J 7 Noticias de Tsrttigeil. 

Como diz o noflp Poeta,os v.aõ buícar por. meio de tfntps rra- 
balhos,para depois de correrem o mundo contarem, que yiraõ 
o Labeiynto de Creta, & cidades inteiras com feus r^ofadorss 
de pedrà,& hum cárcere em cjueeítavaõtrelèntosmilprefos,5c 
que o Eípirito Santo apparece nas tormentas em forma de fo- 
go^ que viraõem certas paragés andaroSol,&al*uaasàveí- 
íàs,cõ outros erros íemelh a ntes,mo vidos sò das apparencias cty. 
vifta,de que elles tanto caíòíazc . Por tanto a verdade das rei**! 
tenças de Seneca,a mefma experiência moftrou sêpre ncítes pe- t 
regrinantes, hudos quais, tornando depois de largo carninho á 
Athenas,- & achandoíe em tudo tal como partira ,perguntou a 
cauía a Sócrates , o qual lhe reípondeo , que nafcia de le levar 
a fi fempre configo; & bem fora ainda, q^ íornara^^npre os 
xnefmos , & naõ pejorados . Porem deftçs.dezia Catam , que 
viera todo o mal a Roma lr & o mefmo entendia Antiftenes, 
quando affirmava , que toados os vícios de Grécia çrao peregri- 
nos j porque daqui nalcem os exceiTos dos trajos, a guíla, & fo- 
begidaõ dos banquetes , & folturados vicios , os jogos , as pom- 
pas^ ainda mil infirmidadescontagiofas, lavrando tanto mais 
depreça eftes vicios na Republica, quanto as peíToas em qge. 
fc vem íaõ mais conhecidas nella ; & pela noticia , que tem do 
mundo.mais authorifadas. AíTaz hàq fentir d.fto em qofla Hei- 
panha,& nelre Reino particularmente , onde corri oscoltumc* 
eftrangeiros vimos acabada a téperança,& inteireza antiga dos 



liadas fe prohibiraõ cõíèverillrmas leis eiras peregrinações. Na 
dos Lacedemonios fe coníêrvava efte coftume de modo,q mo- 
ftrando hú mancebo Lacedemonio faber o caminho, q hia pa- 
ra Pileas,foi diflb reprendido rigurofamente . Os nobres Athç- 
nienles íè prefavaõ tanto de naõ jfahir da pátria, que poriíío tra- 
7ia5 continuamente húa cigarra douro na cabeça por diviíi, 
moftrando com ifto , que eraõ tam contínuos ndla, corno cite 
animal,o qual entre todos os outros tem tal qualidade, quefo. 
naõ muda nunqua do íítio donejç naíceo.O meímo guardaõ em 
noíTos tempos as famílias clariílimas de Veneza,dos quais rarif- 
fimos íaõ os q vaõ fora da terra.íenaõ enviados da Republica. E 

ogran- 



Difcurfo oita<vo. 257 

o grande Império dos Chinas fefuftentou por mais dedous mil 
annos,com naõ admittir eftrangeiros no Reino,nê fe premittir 
aos naturais fair da Provincia,fenaõ cõ cftreitiffima licença. Da- 
qui fe poderá entender quanto mais dignos faõ de repreheníàõ, 
os que intentaõ eftes caminhos sò pelo gofto de ver vários lu- 
gares, pois tomaõ por deleite o deíterro da pátria , que todas a* 
gentes julgarão pela maior pena da vida; como pelo contrario 
o poder eílar na pátria por a maior felicidade delia , íêgundo o 
nota excellentemente Claudiano nefte Epigrama. 
Félix juipatrijs rtvum tranfegit mams % 

Jpjadomus puerum.quem <ii>idet ipfa/enem. 
Qui báculo nitensjn qua repta» ic arena $ 
l/mus numeratjacula longa ca/*, 
lllum non vario traxit Fortuna tumultu y ■< 
Nec bibit ignotas mobilis hofpes aquas. 
'Non freta mercator timuit, non clajtca miles. 

Non rauci lites pertulit ilíefon. 
Indocilis rerum <-uictn<t nefcius urbis } ( 

<jtdjpdlu fruitur líber; ore poli* 
Frugibus alternisfionConfuk ccmputat annum, 

iAutumnum Pomis njerjibiflore notat. 
] d em conda agerjoles^dem^ reducit y 
Jbíettturj Juo rujlicus orbe diem. 
Intentem meminit parto ,quigramine quercum, 

ALquáisumá rviàet ccnfermffe nemus. 
?roxima cm nigns Verona remoúor lndts y 

'Benacumci pmatlittora rubra lacum 
Sedtamen indómita ^vires firmif^ laceras - 

Altas robuftum tertia cernit a~vum. 
Err et \& extremos alter fcrutetur /beras, 
Tlus hàbet hic <i>it cetins balet il/e^vi*. 
Do meímo modo jà Sophocles chamou antigamente só bem- 
aventurado aquelle^q sépre efteve no lugar onde nafceo ; & diííe 
que a mor fortuna de todas era naõ ver nunqua a terra alhea.O 
mefmo confirmou o Oráculo de Apollo, que por eíta razaõ 
julgou por mais ditofo ao pobre Aglaõ.q nunqua fe apartara de 
hua pequena herdade em q naícera,qo grade poder,& riqueza 

Y 2 dei* 



258 Noticias de Portugal. 

delRey Gyges # E finalmente afli o entenderão todas as gentesj 
comofevé nos celebres Adágios: Domimanendam: Womus arnica: 
Vomus opnma.Pelo que com razaõ teve Euripedes por miíeravel 
o tempo em que fe deixa a terra própria. 

De tudo o que eftà dito , íè collige claramente 'como na pg» 
tria^ com pouco trabalho pode quada hum alcançar a repu- 
tação de grande, & coníúmado em qualquer faculdade, ou ar- 
te que profeíTe . E pelo contrario com quantos trabalhos , ga- 
ftos , & perigos íè pôde chegar a eftegrao pelas peregrinações? 
Por tanto deve quada hum de procurar de lançar de fi eftes 
penfa mentos, porque alem de naõ ferem de proveito em coufá 
alguã,naõ cahirà na fentença de Santo Agoftinho, que diz : íui 
ferigrmatio âulcis eftjion amat patriam. E em outra parte; Oâit pdiri* 
am y quifibi beneptitat , cum ferigrinatur . Sendo aíli,que o amor da 
pátria he tam natural aos homés,que de todas as gentes foi an- 
tepofto íèmprc a própria vida. 

MEMO RI AL DE ALGVNS 

Cardeais Portuguefes. 

OS grandes deíejos , que fempre tive de ver coníervada a 
memoria dos Varões illuftres defte Reino, me obrigou 
há annos a eferever o que pude alcançar dos Cardeais Portu- 
gueíês. E pofto que bem fe vè nefte Tratado a verdura da pri- 
meira idade , com tudo hc tam pouco o que íè tem alcançado 
nefta materia,que me naõ pareceo inconveniente dar com eiras 
lembranças principio ás vidas , que em varias occaííoês tinha 
comporto ,para poderem ufar deites notados , os que quiíèrem 
feguir femelhante argumento., 

S. Dpttnafo Summo Pontífice. 



F 



§. i. 

Oi S. Damaío Português , filho de António , nafeco En- 
tre Douro, & Minhoj unto a Guimaraês,ou no meímo po- 



vo, 



Difturfo oitanyo. i^$ 

vo, como claramente o teftificaõ os Breviários Bracharenfe, & 
Eborenfe antigos . E Ioaô Vaíeu varaõ doóto , Ioaõ de Barros 
Iurifconíiiltonas íuas Antiguidades de Entre Douro, & Minho 
cap.i3.fal!andode Guimarães, onde alem dos Authores, que 
por íi allega,diz que duas legoâs de Guimaraés,& huã de Braga 
eftaõno Coutode Pedralva huãs caías, & edifícios muito anti- 
gos^ arruinados,os quais tem por tradição antiquiflima os da- 
quelle lugar , que morou alli a may de hum Papa , que foi em 
Roma Santo,& que dalli fe foi para lá. O que alem de ter autho- 
ridade pela tradição , concorda com o que lemos em íua vida, 
que foi enterrado em Roma com fua may, & irmã; as quais pa- 
rece deixarão íua pátria, & afifento natural , por viver em com- 
panhia deite Servo de Deos . Porem invejoíòs algus eftrangei- 
ros do luftre,& honra,que a efta Província refultava de fer may 
de tam fanto filho,no lo quiíeraõ ufurpar, para illuftrar com elle 
fuás pátrias; como foi o Doutor Pedro Antaõ Beuter , que íêm 
fundamento,por engrandecer a íua, ofazdeBarcellona; 8c os 
Caítelhanos,que contendem fer nafcidoem Madrid,& allegaõ 
com Marineo Siculo,o qual ainda parece íèntir o contrariojpo- 
is tratando no feu quinto livro mui particularmente dos San- 
tos dos Reinos de CaftelIa^Aragacyiaõ põem efte,íêndotam 
notável j 8c fomente fallando de Madrid no íivro íègundo, a 
caio diz eftas palavras: E(lpr<ttereafel$ctfstmum Sdníh 'Damafi $u- 
tniToneifiás mertttsrfui Maiorttams fmfíe perbéetur dmultis é E d efta 
fua opinião naõ dá mais razaõ algua,nem moftra outros Autho- 
res,em que íè funda,fenaô huã pedra moderna (em author,nem 
authoridade.Pelo que íevéclaramente,quesò fuás paixões par- 
ticulares os faz defviar da verdade conhecida. Temos alem de 
tudo por nós Onufrio Panvino , o qual o nomea fempre Portu- 
guês. E poftoque no livro,que compôs de Vitis Pontirlcum, 8c 
Cardinalium, diga que era Egitanenfe, ultimamente no Chro* 
nico dos Pontífices Romanos diz , que he de Guimarães , E õ 
Doutor Gonçallode Ilhefcas em íua vida confeíTa efta verdade, 
8c diz eftar tido uni verfalmente por Português. O que parece 
he baftante para abonara parte denoflo,em que tanto intereí- 
íamos. De fuás acçoês,& ida a Roma , 8c o mais que paíTou , ate 
íèr pofto no Pontificado,hà pouca noticia.Onufrio diz,que feu 

Y 4 ante- 



i6o Noticias de ToYtugfil. 

anteceíTor Liberioofez Diácono Cardeal; por morte do qual 
foi promovido ao Pontificado no anno 3 66 , Foi iníigne Pontí- 
fice muito erudito nas Efcrituras Sagradas , & por iílo eftimou 
tanto a S.Hieronymo.xõdennou no Cõcilio Cõftantinopolita- 
no as heregiasde Eunomio,& Macedoniorfez outro Concilio é 
Aquileya:edificouem Roma,junto do Theatro de Pompeo hu 
infigne templo ao Martyr S. Lourenço Hefpanhol com hus 
fumptuoíòs paços , que fervem de Chancelleria , & fe chamaõ 
commummente.S.Lourenço in Damafo , 8c o enriquiceo com 
muitas doações . Edificou outro fora de Roma na eftrada Ar- 
deatina ad Catacumbas, chamado agora: S.Sebaftiaõ, onde 
coníàgrou a Platonia,fepultura que foi algum tempo dos Apo- 
ftolos S.Pedro,& SJ?aulo. Achou muitos corpos de Santos, cu- 
jos fepulchros illuftrou com elegantes epitáfios. Deixou muitas 
obras eícritas em profa , 8c veríb, principalmente de Virginita- 
te.O que delle exta hoje,fàõ finco Epiftolas Decretais : hú poe- 
ma às íepulturas dos Apoftolos S. Pedro ,& S.Paulo: 8c as vidas 
dos Summos Pontífices Romanos atè feu tempo ; a qual obra 
depois fupriraõ Anaftafio Monacho Bibliothecario da igreja 
Romana,& Guilhelmo também Bibliothecario,&Pandulfo PU 
lano, que também teve o mefmo officio, ordenou íècantaíTem 
nas Igrejas alternativamente os verfos dos Píàlmos ; & no fim 
de quada hum o Gloria Patri,&c. pofto que ja em alguãs Igre- 
jas avia eílecoftume. Governou i7.annos,dousmeícs,& 2 6. di~ 
as,Sc cheo de virtudes paíloudefta vida em Roma quafi de 80. 
annos,node Chrifto 383-foifepultado na Bafilica,que elle edi- 
ficou na via Ardeatina; 8c depois transferido para adeS.Lou» 
renço,quehoje íe chamaJn Damaíò , onde íobre ííia fepultura 
feposefte epitáfio, que elle em vida compôs. 

B^it^hium Pafá Dameife,tjPtodfibi ediditipfe. 

Qtti gr adiem pelagiflvãus comprefiit amaros. 
\/i<-vère qm frxjiat jnorienúaj emina terr^ 
Sol<-uere quifotmt Lazaro fua ^vincula mor tis 
'Poft tenelrasfratrempojl ter tia luminafohs. 
\s4djuperos iterum Maru donareforori, 
Tott cineres %)amafumfaaetflwaftirjpre credt. 

faie- 



Difítfrft çifâfVQ. zíi 



l J FiM*s/#jt/ I lau*.Hj(tia- 




4 u 

* 

Elos aanoi de 1 22 i .floreceo fc Cardeal Dom P&ya Ckffief 
gô Regular do morteiro da Cofta, junto a Guicnaca&U ^L 
foi legado nas guerras da Terra Santa em terapq d© loaõ Baúo 
no Rcy de Chipre- ôc por íer Português lhetffaaFceeo^cpibefiU tevà 
tempo Te avia de tomar a Terra Santa por ími propheliã , que 
dizem bà.gã^bum natural da ultiniaHefpanhaa biddreftítufô 
ir , fegundo fe vè da Hiftoria de Baíiiio loao Htlora na* (yomi* 
nuaçaõ da Terra Santa lib. 3. cap. 1. &(e confirma corr*;aíftoe*q 
raoria do livro dos Óbitos do mofteíro de iStMíjácúteè&íhtade? 
Lisboa no primeiro de Iunho, onde fèachadífteCaideaUx- 
prefía menção, a ob onÊ3£bfl3cncO 

-3r acijS-on ;«oiSfMóÍ3i& c i3Xfcl 

miii OCart/talDom hat u *™wd$ ** ot 

O Cardeal Dom loaõ Bifpo Sabincnfe, & Legado Apoito- 
lico foi Cónego Regular de S.mu Cruz de Coimbra, & 
cunlagrou a Igreja do meímo morteiro tm7.de Ianeiro de 
1 166 . como confta de hum letreiro da mefma Igreja , & pelo 
livro dos óbitos de Santa Cruz aos 9. de Agofto. A noticia deite 
Cardeal deu o Lecenciado George Cardoíò aefte Reino,çorno 
muitas outras de que eftâ cheo o íèu Ageologio , obra taõ in- 
figneAdetantoeftudo,quefepòdc admirar igualmente o zel- 
lo, & piedade com queeftà comporta , &oimmenío trabalho 
com que feq Autor tirou das trevas do eíqueci mento tantas 
noticias degloriofos Santos, com queDeos tem Illuftradp cfte 
Reiuo,& avantajado a muitos outros de Europa, g 0( j rj . r y 

biobí): tjvc 

1 1 >X£Í u * i4 ° 



ocl 



,é#* Ntititâivlé F*y$t&al. 



loao z9#M»^w« ■Pmipce. 

TT0cá3 td. ditto vulgarmeotc &t. foi sagrai d^U^oa-filbo-dç 
JkfaBsõ/dondê tomou o patfpniouçQ de íuliâês^ppíloscjue nas 
okwáJ cjQefcoàipqsrfemeniafe inticul^j^r^^^^ ,rE Odiiot 
frioiJJjc>ciifi?a^i?âflttlfeni' Pedro Perez. Foi do&iíTimo Yaraõ, 
pariiçalicnieoiícj na& Mathamaticas/ Philofopbi^ &? Medicinai i 
crcoííoiBiípo Gardeal Tufcjiílano Gregório X.nd Concilio Ge- 
ral Logdumenfôiid J£enfeeoíW$ do anno 1 274.era ja nefte tem- 
po* Accebrípo de Braga,como o djzloaõ de Barros Iurifçonful- 
to^emdium Prologo do certa obra que compôs , & dedicou ao 
GardeaUnfantfíftorri Aífonfo , fendo Arccbifpo de Braga , Sc 
Cõmendatario do morteiro de Pedroío , no qual ljhe mandou 
fazer, &refor mar o cartório; & nefta obra,que contem o nume- 
ro das Eícriturasda£ue]la£afa(que faõ muitas, infignes,& anti- 
gas)diz fallando em muitos defte Reino , que foraõ eminentes 
cm virtudes,& letras,eftas palavra . Da cidade de Lisboa foi 
natural o Papa Ioaõ XXI . que primeiro íe chamou Meftre Pe- 
dro Hiípano, & que primeiro foi Phyfico , & fez as Suii) mulas 
dáLogica.que hoje Fe lem ; & nffi outras muitas obras , do qitáí 
Pedro Hifpano eu achei nefte Cartório hua Epiftoiá , aííellada 
do feu fello,que elfe eferevia fendo Cardeal, eltando em Perofa 
aos" oficiais de Bfaga , fendo também eleito Arcebiípo de Bra- 
ga ;Cuj a Vida foi pelos annos do Senhor 1 270 . àtequi Iòaõ de 
Barrou * •• ^ «á ^ *>ijp:>b.' ta -Ur 

O tempo,em que parece fuecedeo neíta dignidade, devia de 
íer o primeiro anno de 1 2 74. porque efte foi o ulti mo do Arce- 
bifpô Dom Sancho de Braga, a quem elle fuecedeo. 

Por morte de Adriano I. foi eleito Summo Pontífice eW 
Viterbo aos 20. de Setembro de 1 2 76 . teve grande cuidado de 
prover os benefícios da Igreja a peífoas beneméritas por virtu- 
de^ letras. Intentou fazer nua infigne jornada para recuperar, 
ôc libertar a cafa Santa ; & a poíera por obra , íe a vida lhe naõ 
fáftara.Mandou fazer hús ricos, & fumptuofes paços em Viter- 
bo 



Diftttrfo oita<vo. i£$ 

bo ( que entaõ era o aííento ordinário das Cortes dos Pontifi. 
ces)o l ue foraõ acauía de fua morte ; porque eftando vendo hu 
quarto,que fe tinha acabado de novo, íe veio o edifício abaixo, 
&o maltratou de maneira, que d ahi a íeis dias deu o eípirito ao 
Senhor com grades móftras dedevaçaõa i7.deMayodèi277. 
viveotwto meies no Pontificado,& finquo dias: naõ creoú Car- 
deais. Deixou eícritas muitas obras cheas de grande erudição, 
principalmente em Medicina o livro, que íè intitula: Theíaurus 
pauperum;& outros Cânones Medicinarei outras algúasjcorn- 
pos também certos Poblemas, como os de Ariftoteles; & as 
Summulas , que íè lem em muitas eícolas de Philofophia Com 
íèunome. Viveo efte Pontífice em tempo delRey Dom Af- 
fonfollí. 

O Cardeal Dom Martinho* 



D 



Om Martinho Bifpo de Lisbqa foi criado Presbytero 
Cardeal no anno 1383 .aos 13 . de Dezembro em A vi- 
chaõ por Clemente Vil. que íe chamava Papa , da quar parcia- 
lidade era efte Bifpo, como fe vé da Chronica delRey Dam lo- 
aõ I. p. i . o qual foi morto pelo povo J por naõ querer mandar 
repicar os finos da Sè em favor do Mefl rede Avis em Lisboa. 
Onufrio no feu livfo dos Cardeais lhe chama Português, ainda 
que naõ falta,quemo tem por Caftelhano. 

O Cardeal Dom lonõ ' Affonfo de Atymhiilti. 

§. 6. 

V 
• 

DOm Ioa5 Affoníb de* Azambuja foi filhode AfToníò Efte- 
vês Cavalleiro , Repofteiro rr sòr delRey Dom Pedro , Sc 
irmaõ de Ioaõ Efteves o Primado. Foi feitura delRey Dom Ioaõ 
I.& da íua facção , em quanto durarão as guerras de Caftella. 
Em íêu principio foi Cónego de Évora , óc Prior da Igreja de 
MonçaõentreDouro,& Minho,- & depois da Alcáçova de San- 
tarém. 



2^4 Noticias de Portugal. 

tarem . ElRey Dom Ioaõ o mandou 4 Roma por duas vezes a 
bufcar a íua diípenfaçaõ para poder caiar: a primeira,íendo aia- 
da Prior da Alcáçova em companhia de Dom Ioaõ Bifpo de 
Évora; & a fegunda, íendo elleja Biípo de Sylves , juntamente 
com Ioaõ Rodrigues de Sa ao mefmo negocio. E naõ fomente 
oefte particular , porem em todas ascoufas importante, que 
naquelles tempos fuccederaõ , ufou fempre elRey muito* de íèu 
Coníèlho,& peíToa, por fer fojeito de muitas partes , & grande 
authoridade. 

FoiBiípo do Algarve dous annos, do Porto fete , de Coim- 
bra quatro,& ultimamente Arcebiípo de Lisboa fete , & meio: 
foicreado Cardeal de S.Pedro ad Vinculado titulo de Santa Eu- 
doxiaem Roma por Ioaõ XXII. anno 141 1 .a 6. deIunho,& 
lhe ficou o Arcebifpado em EncQmenda . Fundou em Lisboa 
íêndo Arcebiípo, o mofteiro do Salvador de Religioíàs da Or- 
dem de S.Domingos, a quem deixou por íèu herdeiro , cujo pa- 
droado tem hoje os defcendentes de IoaõEftevés o Privado ir- 
mão do Cardeal, poíto que ufao appellido de Noronhas. Mor- 
reo em B urges, .vindo de Roma para Portugal 323. delaneiro 
de 1 <j.i 3 , mandou trazer leu corpo ao mofteiro do Salvador, Sc 
nelle eftà fepultado na Capella mór da parte do Evangelho ; os 
Padroeiros apreícíitaõ l;um Vigairo,& dous Câpellaés, que di- 
zem MiíTa quotidiana pelo fundador ; na fepultura tem eíte le- 
treiro : Senhor Dom Ioaõ Arcebiípo de Lisboa, & Cardeal de 
Roma,Baraõ fabedor,& virtuofo. Na Sèdefvora fazem hnm 
Ànniverfario aos 14.de Ianeiro por efte Prelado,o qual lhe mã« 
dou dizer Álvaro Dias Peftana Cónego da mcíma igreja , Teu 
criado que foi,& feitura fua;no qual lugar do livro dosAnniver- 
íàrios fe refere muita parte deita relação; & diz que morreo a 
22.de Ianeiro de 141 j\ Sc que foicreado Cardeal a j^ieiuúho 
dei4ii. 

OCardealD.Pedto daFonfeca. 



■ 



S. 7. 







Om Pedro da Fcnfeca foi filho de Pedro Rodrigues da 
Fonfeca Alcaide mór de Olivença, Sc de Inês B. telha 

preá* 



DifcHVfo oitttrVÕ. 2(Sj 

parenta da Rainha Dona Leanor de Portugal; poroccafiaõdo 
qualparentefcofeguio Pedro Rodrigues as partes da Rainha 
Dona Beatris,& Dom Ioaõ o I. dê Caítella para onde íè foi , 8c 
lá o fez elRey íèu Guarda mor , deixando elle em Portugal 
muitas villas 3 & lugares, de que era Senhor. Quando fe Pedro 
Rodrigues foi de Portugália levava a Pedro da Fonfeca feu fi- 
lho,ainda que pequeno ; & aíli porto que fe criou em Caftella, 
lhe chama fempre Onufrio Portugaleníè,& os Authores Caftc- 
lhanos oconfeíTaõ. 

FoiBiípo Portueníê, & depois o creou Cardeal Benediclo 
XI que de antes fe chamava Pedro de Luna , nas Têmporas de 
Setembro,anno 1409. Era ja nerte tempo Benedicto declarado 
por naõ Papa,& deporto pelo Concilio de Piía,a quem elle naõ 
quisòbedecer.Durou Dom Pedro em fua parcialidade, ate ulti- 
mamente íer deporto pelo Concilio de Conftancia no anno de 
1417. ao qual pertinazmente reíiftindo , foi defaroparado de 
quafi todos os feus Cardeais, & D.Pedro da Foníèca íè foi para 
Martinho Iíl.(a quê ordinariamente chamaõ V.) o qualo con- 
firmou nadignidade,&conhecendo bê fuás partes,o mãdou por 
íeu Legado a Conftantinopla.quando o Eroperador Manuel lhe 
mandou dizer por fua embaixada , q a Igreja Grega queria vir 
em uniaõ com a Lacina.Nefta legacia le ouve o Cardeal cõ tan- 
to acordo,& prudencia,q trouxe os Gregos a Itália ao Concilio 
de Ferrara,q depois íe paíTou para Florença Contra os Prelados 
de Bafilea , q com grande inrtancia pretendiaõ levar os Gregos 
ao feu Concilio. Morreo depois em Vicovarro a 20, de Agofto 
de 141 i.ertà fepultado e Roma em húacapella junto da grade 
de Pio IV. que íèrve de Choro^tem a fcpultura finquo eíírellas 
em aípa,quefaõ as armas dos Fonfècas,&efte Epitaphio: 

Hortus in Hefperijs Tr<efu! digmfíimus eris 

Fonfeca è prole Tetras JuX, gloria rnagni 

Sanguimsfip patrij fuperexaltator bonoris, . r 

Hic jacetè facro titulum Micbaele receptt 

Cardmeum^cujusfapientM clarmt altas 

In laudes [enfan animi mtraíilis ifle 

2)oãor eratydmna colens y &* amator bonetfi y 

JíCcnte piHSfreãíprttdens, moderator^ <ztjvi. 

Z Venit 



x&6 Noticias de Portugal. 

í/emtámdra dtes^ua dir& fyncopa moreis, 
fíeipatrcm hmcrapatt^VominiUíentibus annis 
JbÇiflerfuadrwgenttsfa dems> at^ duohus y 
2)um migena, Z)ies uAuguJiipand^et afira* 
Sfiritus m CAotecum Jacer -Angele vhdt. 

O Cardeal D. Antão Martins de CM^cs. 

$. 8. 

DOm Antaõ Martins de Chaves fendo Deaõ de Évora, 
foi eleito Biípo do Porto pela vacância de Dom Vafco 
Bilpo darneímalgreja, quando foi transferido para ade Évora 
pelos annos de 14.24. ate 2 j . Foi Dom Antaõ infigne Prelado 
de muita virtude , & íciencia , & grande defenfor da liberdade 
Çcclefiaftiça,çomobemo moftrou em hum Concjlio^qo Papa 
Martinho V.mandou ajuntar em Braga noanno de 14.26. para 
a confeívaçaõ da izençaõ dos miniftros Ecclefiafticos ,os quais 
com a licença,q a guerra trazc5íígo,andavaõ mui opprim idos 
dos Capitaçs 3 & Soldados, em quanto as guerras delReyD.Ioao 
I.duraraõ com Caftella ; & para remédio de tam grandes males 
íè ajuntarão dous Concílios nefte Reino,hum em Braga , & ou- 
tro em Lisboaj& no de Braga,em quefe D. Antaõ achou pre- 
fente,íe ordenarão muitas couíâs tocantes à liberdade Eçclefi- 
aftica,& moftrou bem nelle efte Prelado o valor,queéfi tinha. 

Depois no anno de 1434. foi mandado D. Antaõ por elRcy 
D.Duarte ao Concilio Geral de Bafiiea em companhia doCon- 
de de Ourem D. AfTonfo, que depois foi Marques de Valença, 
AíTiftio cm Bafiiea todoo tempo , que durou aquelle Concilio, 
ate que o Papa Eugénio IV. o revogou , & transferio paraFer- 
rara,aonde íe veio,por obedecer aos mandados A poftolicos. Pe- 
la qual razaõ , querendolhe depois o Pontífice agradecer feus 
traba!hos,ocreou Presbytero Cardeal, eftando em Confift< rio 
no Concilio Geral de Florença noi.de lancho de 1439 .dando- 
lhe o titulo de S.Chryíògono. 

Viveo depois é Romaalgus annos,aõde edificou, Sc dotou a 
hoípedaria,& hofpital de S. António dos Portuguefes,& lhe deu 

es 



Difcwfo òita<vo. 267 

os eftatutos,que hoje guarda.-na qual obra merece certo gran- 
de louvor ; porque alem do ferviço ,que nella fez a Noílo Se- 
nhor ? applicandolhe muitas rendas para ajuda, & refugio dos 
naturais defte Reino,que naquellas partes andaõ , foioccafiaô 
para que outros Portuguefes , que naquella Corte viverão , dei- 
xaíTem fuás fazendas à mefma cafa^om o que quada dia fe vai 
augmentando mais , aíTi as boas obras 3 que nella fe fa2em , co- 
mo a reputação , & honra da naçaõ Portugueíã j na qual Igre- 
ja íè mandou fepuitar aquelle infigne Doutor , & Santo varaõ 
Martinho de Alpilcueta Navarro , o qual naõ fomente nos có- 
ftumesem vida, mas ainda na morte, quis moftrar comefta 
fepultura o amor , que íèmpre tivera a efte Reino , & a feus na- 
turais. 

No Cartono do Cabido da Sè de Évora eftà a copi a de hua 
carta , que o Cabido efcreveo a efte Cardeal , em que lhe man« 
dava pedir alcançaífe do Summo Pontifice hum Breve para o 
Cabido adminiftrar a fabrica da Igreja , lembrandolhe que os 
Biíposfaziaõefteofficio, comoelle vira no tempo quefervira 
efta Sé.E ainda que confta, queo Cardeal impetrou efta graça 
para o Cabido^naÕ parece que teve de todo érTeito,& os Prela- 
dos ficarão com a poífe delia. Morreo depois o Cardeal em 
Roma a ii.delulhode 1447. eftà fepultado em S.loaõ de Lere- 
is aô,ondeeftaõ hus orgaõs,que fegundo tradição deu elle àquel- 

]a Igreja. 

1 

m • * 

- 

DomLuis âo AniMttL 

LRcy Domloaõo I. mandou por leu Embaixador ao 
Concilio deBâfilea Dòtn Luis de Amaral Biípo de Vi- 
íeu,oqualie partio defte Reino no anno de 1433 . ( que foi o 
em que elRey morreo) avendo já dous , qué o Concilio era co- 
meçadojfezo caminho por Bolonha, aonde entaõ eftava o Su- 
mo Pontifice,& por occafiaõ da morte delRey D.Ioaõ,qo mã- 
dava,fe deteve naquella Corte,atechegareo Cõdfde Oure, 8t 
o Biípo do PortoD.Antaõ; aos quais, & a elle mefmo D. Luis 

Z 2 maa- 




zfà Naticiasdé Portugal. 

mandava elRey Dom Duarte por feus Embaixadores ao pró- 
prio Concilio. 

Partirão no anno feguintede i434juntos todos em Bafilea, 
foi tido em grande reputação entre aquelles Prelados , o Biípo 
Dom Luis por fua grande virtude > conftancia,& inteireza , pela 
qual razaõ o elegerão os Prelados deBaíilea por hum dos Em» 
baixadores.que mandarão a Grécia ao Emperador deConftan- 
tinoplaloaõ Paleologo > que a Manoel feu pay tinha fuccedido 
com intenção de reduzirem os Gregos à uniaõ da Igreja Ca- 
thfolica Romana,& os trazerem ao Concilio de Bafilea. Partio 
defta cidade o derradeiro de Fevereiro de i435„&oforaõacõ- 
panhando ate fora da cidade o Conde de Ourem, & o Bifpo 
do Porto com outros Padres do Concilio,como tudo particu- 
larmente fe refere em hum livro grande eícrito de maõ,que 
chamaò de Varias coufas , que foi da Guardarpupa do Carde- 
ais Rey Dom Henrique > & hoje eftà na livraria do Collegio 
do Efpirito Santo da Companhia de IESVS da cidade de Evóra, 
em que eftá eferita efta jornada do Conde de Ourem; & tudo o 
que em Bafilea paflbu muito ao largo por hum lèu criado, que 
cm todo o caminho o acompanhou. 

Vindo de Grecia^intentou levar o Concilio deBafilea por 
diante a defpeito $o Papa Eugénio IV. com outros Bifpos , que 
em Bafilea eftavaõ. Para cojô effeito foi mandado outra vez do 
Concilio ao Emperador de Alemanha Alberto II . no anno de 
143 8. mas por efte tempo andar o Emperador mui oceupado 
na guerra,que queria fazer ao Turco em favor dodefpotcda 
Servia 3 naõ fe pode tomar meio, em que os Concílios vieííem a 
concórdia ; antes com a morte de Alberto tomarão os de Bafi- 
lea oèva licença contra o Papa Eugénio, ouíaraõ a proceder 
contra elle com cenfuras; ate que ultimamente depois de parla- 
dos os termos delias, pronunciarão contra ellefentença de pri- 
vação da dignidade Papal ; & avindo a Sede por vacante , en- 
trarão em nova eleição de Pontífice , Mas vendo que dos Pre- 
lados,que no Concilio eftavaõ, fomente Ludovico. Arelateníi 
eraCardeaI,acordaraodedarlhe 32. adjuntos para Eleitores 8.., 
de quada naçaõ ; entre os quais na de Heípanha entrou o. Bií- 
po Dom Luis. Defta eleição fahio por Papa Amadeo Du- 
que 



Diferir fo oitatvo* . 16? 

que,que iinha fido de Saboya,o qual tendofe pôr legitimo Pon- 
tifice,íè quis chamar Feliz V.& le coroou neíte anno de 1430^ 
Depois creou por vezes Cardeais , & fez codas as maiscoufas, 
que ao Summo Pontífice convinhaõ. E na quarta creaçaõ , que 
foi a fua ultima anno 1443.no mes de Abril , creou Presbytero 
Cardeal ao Bifpo Dom Luis . Durou o cifma ate o anno de 1 
i449.em que o Emperador Federico III . acabou com o AntU 
papa Feliz cedeffe de algum dereito, que ao Pontificado podia 
tenEm gratificação da qual ceííaõo Papa Eugénio o fez Deaõ 
dos Cardeais, & lhe deu muitos outros honrados cargos. E dos 
24.Cardeais 3 que rinha creado,confir mou fomente três. Por. m 
ja a eíle tempo era depofto^ou morto o Bifpo Dom Luis • por- 
que noanno i444iDom Luis Coutinho era ja Bifpo de Viíèuj 
de modo ; que fua morte foi pouco depois de fua creaçaõ. 

O Cardeal Dom Gemes* 

O Cardeal Dom Gemes foi filho do Infanéé Ôôm Pedro 
Regente deites Reinos , Sc de Dona Iíabel íua mulher, 
filhado Conde de Vrgcl Dom Gemes, & netta deÍRey Dom 
AffonioIII.de Aragaõ. Depois de íer prelo na batalha de Alfar- 
robeira ( em que feu pây morreo ) lefoi para íua tia á Infanta 
Dona Iíabel Duqueía de Borgonha , fendo ainda de mui pou- 
ca idade . Vindo depois a Roma ouve a perpetua adminiílra-* 
çaõ do Arcebiípo de Lisboa; & foi creado Catdeal de Santa 
Maria in Porticu na primeira creaçaõ , que o Papa Calkto fez 
anno 1456.no primeiro dia de Outubro, em que creou fomen- 
te três ; convém a faber dous fobrinhos feus , 8c a efte Senhora 
Duarte Nunes do Leaõ , & outros horíies graves , & de letras^ 
dizem que foi Cardeal do titulo de S.Euftachio j naõ fei com cj 
fundamento,porqueQnufrioíempre lhe chama de Santa Ma-« 
ria in Porticu na particular hiftoriã, que dos Cardeais compôs* 
Porem íegundo todos os noíios,lhe daó o titulo de S.Euftachio» 
podia bem íer que fuccedeííe nelle por morte de algum outro 
Cardeal mais antigo, 

Z 3 foi 



27 o • Notícias de Portugal. 

Foi Príncipe de grande modeftia,gravidade,engenho,& eru- 
diçaõjde cuj^s partes Eneas Sylvio,que depois foi Summo Põ- 
tirke Pioli. fazhonradiiTImamençaõ, fallando da primeira 
creaçaõ do Papa Calixto na fua Europa cap. 58. com eftas pa- 
lavras 'Teráusfuit Jacobus deTortugaUa Régio fangume natus y inquo ea 
modeília^a gramas y id acumen ingenij, id ftudmm iiterarumjs amor úr~> 
tutis emtcmtyHt (ptantois juvenis tdbucjardius tamen opimone cmnium ad 
eam dignitatem a/cenderit. 

t Sendo de idade de 2 j. annos, & 9. meies', morreo em Flo- 
rença a 19.de Setembro de 1459, com nome ^ e caftiffimo ; & 
he tido nefta cidade em opinião de Santo. Iaz fepultado na Igre T 
ja de S.Miniato,que he dos Frades de S.Bento,fituado fora dos 
muros da cidade, na qual eftà o Crucifixo^que fe inclinou a Ioaõ 
Gualberto author dos Ermitães de Valumbrofa.Tem na fepul* 
tura efte letreiro: 

lacohus nomen } Lufitana propago, Regitfiirpsjnforàs forma, prudentia, 
moYesfoopnmarvitafardmeus ntulus , i&afitère m\bi: mors jwenem ra- 
fmannoXXi/JX.mens, 

O Cardeal Dom Gtorje da Cojla. 

i. 11. 

DOm George da Cofta foi naturalde Alpedrinha lugar 
do Biípadoda Guarda, nafceono anno de 1406. foi va- 
rão dotado de grande engenho, virtudes, & altos peníâmentcs , 
cm feus princípios foi lente em Santo Eloyo de Lisboa , doniie 
era Reitor hum tio feu varaõ de grande virtude, & Meíli -e que 
foi da Infanta Dona Catharina , filha delRey Dom Duarte: ôc 
por reípeito deite feu tio, & fuás boas partes,o admittio a Infan- 
ta à íua familiarfoi eíta Princeía de muita virtude , que nunqna 
quis cafar,nem fez alguahora mudança nes trajos; teve porem 
fempre grande caÍ3,& capel!a;& affeiçoandofe muito às letras, 
& procedimento de Dom George , lhe deu algúas Igrejas rco- 
doías^depois das quais fezeom elRey Dom Àffonío V. -eu ir- 
mão o aprefentaffe no Deado de Lisboa , donde krvindeíe el- 
Rey delie em couíàs de mais momento, o mandou a Roma 

co ai 



DifcurfooitPtnjo. u\ 

com negócios de muita importância , a que elle fòube dar tarrç 

bom defpacho , que vindo a efte Reino , movido eiRey de fua 

rara prudência, & governo , lhe deu grande parte na admirii- 

ítraçaôj& regimento delle, tendo fempre muito credito em feu 

Coníèlho,& uíàndo fempre delle em todos os negócios de paz* 

&guerra,queíèorTereceraõem feu tempo. Achquíè com elRey 

em Gibraltar, quando atino de 1464 . íe vio com elRey Dom 

Henrique o IV.de Caftella ; & em Tuas maõs jurarão ambos 0$ 

Reys de guardarem bem , & como deviao os acordos, que rio 

próprio lugar entre íifizeraõ;noqual tempo era já Dom Geor- 

ge Biípo de Evora^pofto que poucos méíes depois > & quafi no 

tnefmo anno foi transferido para o Arcebifpado de Lisboa - 9 n^ 

qual dignidade fez muitos íerviços a elRey Dom Aífoníb, q 

qual o enviou a Caftella por feu Embaixador , quando elRey 

Dom Henrique lhe pedio , que lhe mandaífe íeus Embaixado* 

res,para tratar os caíàmentos , que pretendia , convém a íabef 

entre a Infanta Dona Ifabel fua irmã comomefmoReyDom 

AífonfOj & a Princefa Dona loanna fua filha com o Príncipe D. 

loao. Aos contratos dos quais efpoíoriosja tinha fido preíènte, 

& padrinho em Gibraltar . Foi a efta Embaixada com todo o 

eftado, & acompanhamento conveniente ápeífoa , & dignidá- 

de,que reprefentava j pofto que naõ teve efte negocio erTeito* 

Dopoisnaempreza,queelRey Dom Arfcdfocomettcoda con- 

quiftade Câftella,o acompanhou fempre com muitas gentes à 

lua cufta,& com fua peíloa. 

Com eftes ferviços, 3c partes, crescendo quada dia mais era 
authoridade com elRey Dom Aífonfo , foi á íua inftancia crea- 
doPresbytero Cardeal do titulo dos Santos Marcelíino, & Pe- 
drOjporSixtolV.no primeiro de janeiro de 1476 . Com a gran- 
deza deitas dignidades,& coma valia,que com elReytinha^râ 
tanta fua authoridade no governo do Reíno 3 que veio a fer pou- 
co grato ao Príncipe Dom Ioaõ , como homem , qiie naõ quis 
fer nunqua governado por outrem . Pela qual razaõ íe lhe mo- 
ílrou contrario^ lhe chegou a dizer palavras tam aiparaSjque' 
por viver feguro,& fem moleftia , íefoi oceultamente para !<o- 
ma^pouco depois da chegada delíley Dom Aífonfo de Françj. 

Em Roma foi mui aceito aoPapaSixto IV.& lhedeuo Arv 

Z 4 cebif* 



4 

t j t Noticias de Portugal. 

cebifpado de Braga,que teve juntamente com o de Lisboa,ate 
que no annô de 1 487 . o renunciou em íau irmaõ uterino Dom 
George . Valeu também muito com Inpocencio VI. que a Six> 
to íuccedeo 3 & de Presbytero Cardeal o fezBifpo Cardeal Al- 
bano. 

Era janefte tempo tam grande fua authoridade no Colle- 
gio dos Cardeais,c|ue morto Innocen(So,efteve mui perto de o 
elegerem em Summo Pontífice ; porque dividindoíè todo o 
Collegioemduasparcialidades,huadellas íeguia a Aícanio Ef- 
força,que procurava o Pontificado para Rodrigo de Borja Vi- 
cecancellario,& a outra feguia ao Cardeal de S. Pedro , que de- 
clarava querer fazer Pontífice ao noílo Dom George. Porem- 
pofto que os que íeguiaõefta parte, foííem os mais antigos , 8c 
graves do Collegio ; a outra,que tinha grande poder, & mui tas 
Perfonages levarão ao fim íèu defignio , creando Pontífice ao 
Vice Chanceller,que"fe chamou Alexandre Vl.o qual lhe teve 
fempre grande refpeito , & o fez Bifpo Cardeal Tuículano , 8c 
depois Portuenfe,& de Santa Rufina. 

• Em vida deftePspa lhe manddfc pedir muito elRey Dom 
Manoel , que a Dom loaõ II. avia fuccedido > fe vielTe para efte 
Reino , para lhe ajudar a adminiftrar o governo delle ; conhe- 
cendo bem,que pela muita prudência, & experiencia,que nelle 
avia dos negócios daquelle tempo , & das coufas pãíTadas , lhe 
íèria de grande proveito tello junto configo . E tanto fez com 
clle por cartas , & meníageiros , que lhe prometteo de fe vir. 
Pelo q«e mandou elRey a Roma Pedro Corrêa fidalgo de íua 
cafa,pâra o acompanhar no caminho , & negociar com o Papa 
algúas coufâs por meio co Cardeal. Mas depois de Pedro Cor- 
rêa fer em Roma, achou ja a Dom George mudado do propo- 
íito-dando por efcufa fua idade, & má diípofiçaõ , & fobre tudo 
naò lhe querer o Papa para iíTo dar licença,& o querer ter apar 
de fi , pela neceíTidade que tinha de feu confelho , 8c ajuda nas 
coufas,que lhe compriaõ.E affiencõmendandolhe muito Pedro 
Corrêa os negocios,que levava, íe tornou para o Reino . Eraõ 
eftes negócios, cjueelRey lhe mandava encomendar as difpen- 
facões do vorodecaftidade , quefaziaõ os Comendadores da 
Ordem de Chrifto,& de S. Bento de Avis,o qual o Cardeal dei- 

pâchou 



DiftttrfooitaruQ. ' % 7 ^ 

pachou facilmente com o Papa , & as Bulias mandou depois a 
elRey , couía que ellc eftimou muito , porque ate entaõíenaõ 
pode nunqua alcançar; pofto que muitos deíeusanteceíTorésfir 
zeraõcom os Summos Pontífices grandes inítaricias nefta mà- 
teria. 

Com os grades redditos deitas PreÍacias,& de outras muitas; 
que teve em varias Provincial deHefpantu, & benefícios , que 
provia de todo Portugal , deixou a todos (eus parentes ricos > Sc 
çm grandes dignidades,a outro irmaõ íeu, chamado Dofcn Maí- 
tinho renunciou o Arcebifpndo de Lisboa j& do mefmó rnodò 
pi o veo em outros ricos benefícios muitos criados % & amigou 
íeus,& çafou fuás irmãs com fidalgos muitlluitres a & principais^ 
& feus irmaõs da mefma maneira. E em quanto a vida lhe du* 
rou em lembrança do que devia à Infanta Dona Càthárina* 
trouxe por diviíãhúas rodas de navalhas. As meímas vi eículpi^ 
das numa antiga ala mpada de prata, que inda alcancei na ca*- 
pella mòf dá Sè de Evora,a qual o Cardeal mandoU fazer fen- 
do Bi fpo deftâ í gr ej a . 

Também tenho húa medalha grande , em que eílá eículpk 
do ao natural com hum letreiro àroda,que diz: Ceorgius Cardina- 
hs^ortuvalen . Georae Cardeal de Portugal: & da outra bartá 
tem a imagem de húa mulher com hum Abjo defronte * qiiié 
numa maõ tem hum livro,& á outra aponta pata o Ceo com ò 
letreiro:7"W^4,dor)de parece que cila foi aíuaeni^reía,debo=» 
tando o grande arfeéto que tinha à feiencia da Theologia, êt 
contemplação das coulas divinas. 

MorreoemRòmáa 19, de Setembro de 1508. feácjo de ida- 
de de io2 4 anhos,' jaz íepultado na Igreja de NoíTa Senhora dé 
Po pulo nacapella de Santa Catharina • dentro da qtiál no altd 
da parede eílá hum vulto de mármore com efte letreiro. 

Ceorgius Epifcopus ^AlbdnenfCwd. Vh*f* dumfe mortaltm animo 
W ^utvensfibibojuit. 

Abaixodefte Vulto, &letreiro eftâ hua caixa grande de mârmil 
recomeltas letras, 

Ceorgius LufitáH.Epifc.Tórtuenf S. Tt.E* Card. Vlixb. ^z/irtuih i$t 
8rin*j 3 èrgoin^egUmddfcttus^c mulas dorm yforts^praicUrisfacínêr^ 
íus eduiSíadRegw^pncwéticnepwe&us i Xfio jy. m Sendttírh âdké 



>>< 






274 * Noticias de Portugal. 

Bus fiomam W aifcitus jmdgnam inoenij.pietans^ruJentU^ Uuâemáie* 
ptmfub IhIío ILfonnfice Maxim. fiem unicèélexit, O* oíferHW, an- 
mm agens fecundam fupra centeÇmnm obijt M. Vj/III. 

O Cardeal Dom Affonfo. 

O Cardeal Dom AfTonfo foi filho delRey Dom Manoel, 
fendo de idade deS.annos^he mandou o Papa LeaõX.o 
Capello de Diácono Cardeal do titulo de Santa Luzia , & jun- 
tamente o fez Protonotario Apoftolico 5 & Bifpo Targitano; 
foi creadoem Roma a 27.de Iunho de 1 J17. 

Depois teve o titulo de Cardeal de S. Brás , 8c ultimamente 
de S.Ioaõj& S.Paulo. Foi nefte Reino Bifpo de Vifeu , Arcebis- 
po de Lisboa,Abbade de Alcobaça^ perpetuo adminiftrador 
do Bifpado de Evora^cujo governo teve em íêunome Dom Fr. 
Henrique frade Franciícano Biípo de Ceita Primaz de Africa, 
eomo íe elle intitulava. 

Em todas as Prelacias que teve , íè ouve com grande gover- 
no , & uíòu de hornes eminentes em todas as matérias , & em 
feu ferviço . Foi Príncipe de grande virtude , & amou muito as 
letras,& feus profeíTores,de que elle naõ alcançou pequena par* 
te Morreo em Lisboa a 2 1 .de Abril de 1 540. & eftá íepultado 
no Real morteiro de Belém. 

O Cardeal Dom Miguel da Sytoa. 

Om Miguel da Sylvafoi filho de Diogo da Sylvade Me- 
neíes,& de Dona Maria de Ayala filha de Diogo de Fer- 
reira,Senhor das Ilhas de Lançarote, Forte ventura,& Gomcira 
nas Canárias. Era Diogo daSylva AyodelRey Dom Manoel, 
fendo ainda Duque de Beja,& alli depois que fuecedeo no Rei- 
no,em gratificação de (eus íerviços^o fez Conde de Portalegre, 
Senho£4&^QUvea.CdorLCo,& S.Romaó, & muitas outras viU 

las, 




Difcnrfo oitctevo. 275 

hs,& lugares;& lhe deu o oflfiçio de Mordomo mòr y Sc p fez íeu 
Veador 4a fazenda, & efcrivaõ da Puridade. Dom Miguel íeu 
filho lendo moço, o mandou elRey eftudar a Paris, aonde ne- 
fte tempo coftumavaòir aprender todos os nobres defte Reí- 
Bojparaoqualeffeitofuftentavaõ os noífos Reys hum Colle- 
gio naquella Vniverfidadejem que todos eftudavaõ. Sahio Dona 
Miguel mui douto na fciencia, que aprendia, & muito mais na 
humanidade, & elegância da lingua latioa.Pelo que naõ fe con- 
tentando de dar moíkas das flores de feus eftudos, fomente em 
Paris,fe foi a Bolonha, & depois a Roma no anno de 1 530 . on-s 
decommunieoutodosos homés eminentes daquelle tempc^ 
dos quais fendorecebido com grande applauíb , os deixou tam 
aífeiçoados a fua agradável benevolência , que lhe ficarão cha- 
mando em Roma, 11 noftro Michaleto. Aqui íe encontrou com 
Hieronymo Oforio(Biípo,que depois foi do Algarve) & como 
combinavaõ ambos naerudiçaõ,& elegância latina , fe fcraõ a 
Veneza,por faberem,que naquella cidade fe tinhaõ junto muk 
tos engenhos raros daquelle tempo lebre a correcção de Plí- 
nio , & chegados a ella , dizem que deu Dom Miguel grandes 
moftrasda viveza de feu engenho;porque ordinariamente em é- 
dava dous,& três lugares, em quanto os outros emendavaõ hS. 
Foi alem diftoinfigne Poeta latino , & tinha tal graça neíla fa- 
culdade, que diíTeraõ por elle em Pa.is^cjueaíTi como Hierony- 
mo Oforio levava a vantagem a todos em deícrever qualquer 
couía na profa , Dom Miguel a naõ concedia a ninguém em fa* 
zer o meímo no verío. 

Acabados os eftudos,vindo a efte Reino,aíí] pela valia de íêu 
pny , como por feus ptopiios merecimentos o fez elRey Dom 
loaôlll. do íeu Confelho , Sc lhe deu a AhbadiadeS.Tirfoem 
Riba de Ave,com outros muitos beneficios;. & ultimamente o 
prefentou no Bifpado de Viíeu , '& o mandou por feu Embaixar 
dor a Roma.ondeeíteve muitos annos, E tornando a efte Rei-? 
no, lhe deu elRey o mefmo officio de efcrivaõ da Puridade, que 
feu pay tivera. 

Movido nefte tempo o Summo Pontífice Paulo III. das par- 
tes,letras,& virtudes , que em Dom Miguel conheceo , o quis, 
fazer Cardeal j porem elRey Dom IoaõlIL por algús reípeitos, 

de 



2, 7 6 Noticias de Portugal. 

de eftado,o naõ cõfentio nunquaj de modo que pofto que Dom 
Miguel aceitou a mercê do Papa fendo creado Presbytei o Car- 
deal da Baíilica dos doze Apoftolosa j. de Setembro de 1539. 
na 7.creaçaõ,com tudo naõ íè publicou por entaõ,ate ver fe em 
algua maneira confen tia elRey aceitafíeefta dignidade. Porem 
nunqua fe pode alcançar delle efta licença.Peloquedefengana- 
do Dom Miguel,íe partio efcondidamente para Roma o anno 
de 1 j^i.naõ dando a elRey os papeis, que como efcrivaõ da 
Puridade em feu poder tinha , por fazer com maior fegredo fua 
jornada. El Rey tanto que foube delia, teve grande paixaõ,& pa- 
recendolhe,que íèmpre Dom Miguel defiriria ao que elle man- 
daífe,o inviou chamar por cartas fuás, em que lhe dizia íè vieí- 
fe logo para elle fem detença algua, & por lhe tirar o receo que 
podia ter , o fegurou por hum feguro Real , que para iílo lhe 
mandou . Mas Dom Miguel, que eftava bem inteirado do deí- 
gofto,que elRey tomara com íua ida, Sc quanto íèmpre lhe re- 
pugnara aceitar elle o Capello , naõ íè atreveo a apparecer ou- 
tra vez ante elle. Do que elRey fe ouve por tam desíervido,q!o- 
go o defnaturalizou de íèus Reinos,& o privou de todas as mer- 
cês , que lhe tinha feitas por hua caita\fua , dada em Lisboa a 
26. delaneiro de 1542. 5c nefta deígraça delRey ficou fem- 
pre. 

Chegado a Roma,foi logo publicada a fua creaçaõ,queate 
entaõ eítiveraíècreta,& o feftejou grandemente o Summo Põ- 
tifice Paulo III. 5: todoo Collegio dos Cardeais, com quem foi 
fempre mui grande fua authoridade,por as raras partes,que nel- 
le avia , com que levava a benevolência de todos ; & tal era a 
opinião com que eftava tido na Corte Romana (ou por me- 
lhor dizer ) em toda Itália, que naõ achou o Conde Balthaíar 
Caftilhon, a quem com maisrazaõpodeífe dedicar o feu livro 
do Perfeito Corte(àõ,que a elle;& afli o eícolheo entre todos es 
varões famoíbs (de qucaquelle tempo foi tam abundante) por 
elle repreíèntar mais ao vivo todas as perfeições, que no verda- 
deiro Corteíãõ imaginava. 

Depois difto foi muitos annos Legado de Ravena , hua das 
principais Legacias do eftado Ecclcíiaftico,& era tal a ordem, 
& expediencia,que dava aos negocios,que ainda hoje anda em 

prover- 




. Difcurfo oit(í<vo. 177 

provérbio na Cúria a audiência de Vifeu. Depois do titulo dos 
doze Apoftolos,com que foi criado, teve o de Santa Praxede,& 
Iulio Iíí. o fez Presbytero Cardeal de Santa Maria Trans Tibe- 
rim junto da qual Igreja viveo núsfumptuofos paços,que ainda 
hoje coníèrvaõ feu nome . Teve votos para o Summo Pontifi- 
cado. Morreo em Roma a j.de lunho de i J56.& eftà fepultado 
na mefrna Igreja de feu titulo. 

- 

O Cardeal Dom Hepriqm. 

í, 14, 

Infante Dom Henrique foi filho delRey Dom Manoel, 
& da Rainha Dona Maria, fendo de i4.annosfefezCle- 
rigo,& o primeiro Beneficio que teve , foi o Priorado de Santa 
Cruzde Coimbra. Depois no annode i^zx.lhederaõo Arce- 
bifpado de Braga , que polTuio com outros Benefícios , ate que 
por morte de feuirmaõ o Infante Dom Aífonfo foi feito Biípo 
deEvora^creando no meímo annoo Papa Paulo M.eíla Igreja 
em Arcebiípado Metropoli, de Sylves,& Ceita,& depois íe lhe 
acreícentouElvas.Foicreado Cardeal do titulo dos Santos qua« 
tro Coroados pelo Papa Paulo III.emRoma na undécima crea- 
çaõa 16. de Dezembro de 1545. Foi Legado á Latere neííe 
Reino,em que viveo.Teve do meírno modo o officio de Inqui- 
fidor mór,& levantou quatro cafas do Santo Officio ; convém 
a ísber^LisboajEvorajCoimbra/SíGoa. Reformou as Religiões 
netle Reino, & fez muitos mofteiros, & cafas de Oração , entre 
os quais foi celebre a Vniverfidade,& Collegio do Eípirito San- 
to da cidade de Evora.Por a infelice morte delRey Dom Seba- 
fiiaõ fuecedeo na Coroa defle Reino ,anno 1578 . & morreo 
em Almeirim no de 1580.no derradeiro de Ianeiro,onde 
efteve feu corpo depofitado ate o de 15-8 x, em que 
elRey Dom Felippe II.de Caítella o man- u 
dou levar a Belém, onde 
eftá fepultado. 

A a ELO- 




ELOGIO 

DO DOVTOR 

FREY BERNARDO DE BRITO 

Religiofo de Cifter , & Chronifta mor 

de Portugal. 

À Comarca de entre Douro , & Minho, faõ 
muito antigos os nomesde Britonio, Briteiros, 
& Brito: porque de Britonio cidade Epifcopal 
fe faz menção no Concilio de Lugocelebra- 
do no anno de 560 . a qual foi deftruida por 
Almançordc Córdova. O lugar de Briteiros 
deu efte appellido a fidalgos mui principais , de que trataõpor 
vezes as hiftorias Poi tuguefas,& os Regidos Reaes. E lobre tu- 
do a Ribeira,& fregueíía de Brito, que eftá entre o Rio Ave, 8c 
âPortdla dos Le;toês,he folar dtftailluftre familia dos Britos. 
Cuidaõ algús,que efte nome he dirivado dos Brutos Romanos, 
8c outros, que dos Britones, primeiros moradores de Inglaterra, 
a que parece alludem os Leoês rompentes , que os Britos tra- 
zem por armas,que faõ as mefmas infignias daquella Província 
poftas em três barras . Com tudo nefte Reino tem muita anti- 
guidade^ delles,& dos Briteíros(que todos íaõ os mefmos, íe^ 
gundo os que melhor entendem)há muita mençaõ no livro das 
linhagês de Heípanha do Conde Dom Pedro. Na principal va- 
ronia defta familia, que he a do morgado de Santo Eítevaõ de 
Beja,entraraõ por ca fa mento, 8c linha femeninaa caía de Lima 
com o Biícondado de Villa Nova de Cerveira , & Condado de 
Arcos de Valdeves , Sc a caía dos Nogueiras com o Morgado 
de S Lourenço de Lisboa , 8c por largos annos poíluiraõ a Al- 
caidaria mor de Beja,& em particular Affonfo Annes de Brito, 
que foi pay de dous Bifpos de Évora Dom Martim Gil de Bri- 
to^ Domloaõ ArToníò deBrito , cc Avo de Dom Diogo de 
Brito,que fucceffiva mente tiverao efta grande Prelacia. Pelo 

que 



~ Difcurfo oita<vo. 17? 

que de algus foi chamado Affoníb Ànnes o Clerigo.Em outras 
partes de Alem Tejo coníervaõ mui antigps morgados , parti- 
cularmenteem Evora,ondeoBifpo Dom íoaõ, ja referido , in- 
ftituio o morgado deFonte boa , com obrigação de ufar o ap- 
pellido \ Sc armas dos Britos , que fe pode ter por húa das mais 
antigas inftituiçoêsdeHefpanha, em quefe trate de femelhan- 
teclaufula. 

Deu efta linhagem homês iníignes noíerviço dos Reys , no 
governo da RepubIica J & no valor das armas, em que foi alíina- 
ladoIoaõArfonío de Brito na tomada de Ceita, & na índia 
Lourenço de Brito Gâpitaõ de Cananor j o primeiro que de- 
fendeo cerco de fortaleza naquelle Eftado , fendo ô que lhe pu- 
zeraõ os Malavares hum dos maiores, que os Portuguefes fu- 
ftentaraõ.E a/Ti ha nefta família outros Varões dignos de me- 
moria • porem quem em noíTos tempos illuftrou grandemente 
eftenomecomas exeellentes obras de feu engenho, foi o Pa- 
dre Frey Bernardo de Brito Chronifta mòr de Portugal,como 
fe verá nefta breve relação de fuás coufas , o qual eftimou tan- 
to efteappéllido; que o antepôs a outros muitos ,8c mui illu- 
ftres de que defcendia . Por quanto, fegundo fe vè na Hifloria 
de Noíla Senhora de Nazareth , de que adiante faremos men- 
ção, era íèu pay Pedro Cardoío , filho de Sebaftiaõ Fernandes 
Cardofo , & netto de Franciíco de Soufà, o qual eranetto de 
Gonçallo de Soufa Comendador mòr , que foi de Chrifto , Sc 
por fua may Maria de Brito de Andrade^cava no meímo grão 
com Nuno Freire de Andrade filho do Meftre de Chrifto Dora 
Nuno, 

Naíceo o Padre Frey Bernardo em Almeida , Villa notável 
diíte Reino ; dia de Saõ Bernardo 20 . de Agofto de ijóo. 
ftguio feu pay Pedro Cardofo a Milícia , & foi Capitão de 
nome em Itália , & Flandres , em íerviço delRey Dom Felip- 
pe o II de Caftella . Com efta occaíiaõ andou o Capitão Pe- 
dro Cardofo aufente defte Reino muitos annos, Sc temendo, 
que a falta de fua prefença foííe de prejuízo à criação de íèu 
filho, de pouca idade, o fez hir a Roma , Sc conhecen- 
do bem , que naõ bailava fomente a mudança do lugar pa- 
ra melhorar o animo(comoja odiíTeOracio,pelosque em feu 

Aa 1 tempo 



2 8o Noticia* de Portugal. 

tempo paflavaõ a Athenas ) lhe deu os melhores meftres , que 
cntaõ floreciaõ naquella Corte, que por cantos titules he a Nte~ 
tropoli do Mundo. Delles aprendeo o noíToAuthor a policia 
das lingoas , & ouvio a expofiçaõ dos mais illuftres Poetas , & 
Oradores . Aproveitou o Padre Frey Bernardo muito com 
cfta doutrina , & tornando em breve tempo ao Reino , veio 
muito acrefcentado das partes acquiridas , que pertencem a 
hum mancebo nobre, porque íâbia a lingoa latina com emi- 
nência, fallava a Italiana como natural, a Francefa expedita- 
mente, &naõ lhe faltava noticia da Hebraica , & Grega. Da 
hiftoria fazia particular profiflaõ, &fobretudo íè deu tanto 
áliçaõdos Poetas, que compôs naquella primeira idade mui- 
tos verfos , que nos conceitos, 3c eIlegancia»podem competir 
com os dos milhores Lyricos de He/panha . A todas cftas 
partes, & outras muitas naturais de que era dotado, foube 
acreícentar a maior perfeição de todas, que foi dedicalasa 
Deos : & como reconheceo íèmpre a S. Bernardo por íeu pa- 
droeiro, movido da devaçaõ que lhe tinha , deixou o mundo, 
& fe fez feuReligiofo no Real mofteiro de Alcobaça,mudando 
juntamente com o eftado o nome deBalthafar de Brito de An- 
drade,que ate entaõ ufara. 

Sentio notavelmente o Capitão Pedro Cardofo íèu. pay efta 
refoluçãõ, como ordinariamente coftumaõ fazer os parentes, 
que ficaõ no mundo,naõ lhe deixando ver a paixaõ, que fe tem 
por boa fortuna aceitarihe o Príncipe da terra hum filho em 
leu fervi ço > quanto maior felicidade he recebei lho o do Ceo 
por grande de fua caía . Porem como o Capitão Pedro Cardo- 
íb fazia conta de o deixar na Milícia com grandes ventagés, 
que efperava em fatisfaçaõ de íèus íerviços, & entendia por eíle 
meio fícavaõ accommodadas as couíàs de íua familia, fez tan- 
to,que impetrou hum Breve com que íè paííafTe a Religião do 
Hoíptal deS. Ioaõ,que vulgarmente chamaõ de Malta, & 
era taõ valido em Roma , que alcançou efta licença , couía que 
raníTímamente íè concede , Offendeíe Deos grandemente de 
os íèculares perturbarem as vocações dos Religioíos, & co- 
mo naõ queria que o noífo Author foíTe famoíò pelas armas 3 
mas que as armas foífem famoíàs por elle, levou para fio 

Capú 



Difcwfo oitft<vo. 1 1 1 

Capitão Pedro C?rdoío poucos dias, depois do Indulto chegar 
a Portugal, & feu filho naõ quis uíar do Breve , cõ que moftrou 
claramente, que fenaõ tratara a mudança por vontade fua,íènaõ 
pela de leu pay. 

Quando o Padre Frey Bernardo veio de Itália } cOmo cá* 
recia da inteira noticia da hiftoria da Pátria, procurou dar- 
íê a ella com toda a diligencia , porque ainda que qualquer 
hiftoria íèj a húa compendioía fabedoria , & fonte de prudên- 
cia ,íempre a da Pátria he mais proveitofa 5 pois tanto mais 
aprendemos homés, aprendem dos progreftòs , ou adver» 
íiíades da meíma Província, para acertarem na admini- 
ftraçaõ das couíaspa ticulares 3 & publicas , quanto os fucce£ 
los próprios enfinaõ mais , que os eftranhos. Com efte pri* 
meiro fervor j uvcnil , naõ fomente leoas Chronicas do Rei« 
no , mas movido com o de/ejo de ver aquella eícritura em 
milhor eftilo , as refumio num volume , que eícreveo de 
íuamaõ,acrefcentando alguas coufas de hum Author, que 
achou em Alcobaça , chamado Mendo Gomes . Porem con- 
siderando depois attenta mente a perfeição, com que os ibo* 
dernos hiftoriadores Caítelhanos , & Aragoneíès hiao ef- 
crevendo as hiftorias de fuás pátrias > averiguando pelas ef- 
crituras dos Arquivos as coufas incertas, & achando outras 
muitas de novo, de que os antepaftade s íè efqueceraõ, fobre 
efteve na publicação deílc volume, entendendo, que lhe era 
neceífario para íahir a luz fazer cl!e também a diligencia 
com os Cartórios de Portugal, que os outros tinhaõ feito 
em íuas Províncias . Mas porque a noíTa naõ ficaffe infe- 
rior a nenhúa , vendo que faltava eferitor , que trataííc 
as coufas de Portugal ordenadamente , & que por efta« 
rem divididas por muitos Authorcs,avia pouca noticia del- 
ias, movido do zelo do bem publico fe refolveo em ef- 
crever a hiftoria Portuguefa fucceííi vãmente desdo prin- 
cipio do mundo ate leu tempo . Efte heróico penfa- 
mento intentou primeiro Ioaõ de Barros na Europa, que 
prometteo , podo que por lhe faltar deícaníò , 8c tempo 
o naõ pode comprir . O mefmo pretendeo André de Re- 
íende , porem oceupado em outros eftudos , naõ pode 

Aaj mais 



I 

2 % z Notícias de Portugal. 

mais que começar a emprefa , deixando algus fragmentos do 
tempo dos Romanos^aiada que de muita importância. Menos 
parece obrou a intenção de Iorge Cardofo , como íè vè no 
Tratado,que Manoel Fernandes Cónego de Lamego fez da 
antiguidade daquella Igreja. Todos eftes Authoresíaõ dignos 
de graõ louvor por terem tais intentos; porem quanto vai do 
peníamentoaobra , tanto maiores graças íe devem ao Padre 
Frey Bernardo , pois o que elles fomente imaginando merece- 
raõ,elle reduzio proíperamente a effeito. 

Começou eftahiftoria em Alcobaça, & ainda que os Supe- 
riores o mandarão continuar na Theologia eiti Coimbra,naõ 
fe efqueceo da èmpreza,antes a proíèguio nas horas , que lhe fi- 
cavaõ livres com talcuidado,quea veio acabar no principio do 
anriode i j96.tendo de idade 27. & no de 1 597.0. imprimio.Foi 
efta obra recebida com igual applaufò,naõsò neíle Reino,mas 
ainda em toda Heípanha , affi por aquella certa novidade, que 
as antiguidades trazem còrifigo, como por fera primeira hiíto- 
ria Vniverfal Poi tugueíâ , que em vulgar íàhio imprefla , riella 
rnoftrou o Author grande liçaõ,& hum animo incanfavel;po:s 
no meio de tamanha occupaçaÕ,comoa dos eftudos,póde con- 
cluir hum intento taõ árduo , que ( como elle diz na fua clle- 
gantiíliroa Dedicatoriajsò o penfaméto delle/ez abaixar as vel- 
las a engenhos de muita eftima, porque íèndo por hua parte ra- 
riífimos os Authores,quefallaõ neftas matérias , era neceííario 
por outra hum infinito trabalho para buícar >o que íe avia de 
dizer em hua immeníâ copia de leitura. 

RecebeoelRey Feiippe o II. de Caftella efte íèrviço com 
particular benevolencia,por ver que o Padre Frey Bernardo lhe 
offerecia gracioíàmentenefte Reino, o que nò de Caftelia lhe 
tinha euftado muita dtípe{a,&cuidadOjpara aííi obrigar o Me- 
ftre Ambrofio de Morales a fe encarregar de íemelhantehifto- 
ria , por tanto naõ sò por fua carta agradeceo ao Padre Fi ey 
Bernardo o trabalho da obra , mas ainda lhe encomendou de 
novo.que continuaffe o que faltava delia, & mandou ao Padre 
Geral de Alcobaça lhe ordenaííe o mefmo. 

Efte favor animou ao Padre Frey Bernardo para naõ fazer 
cafodo defagradecimento de algús malcontentadiços.queera 

Jugar 



Difcwfooitttrvo. 285 

lugar do premio de hum tamanho beneficio lhe cenfuravaõo 
eftilo do Kvro,& a certeza das coufas delle, naÕconfiderando, 
que a lirigoagèm he accidente em femelhante hiftoria, & que 
tendo o Author a criação fora da pátria , na Õ podia eftar ainda 
taõ adiantado nos termos,que pede a gravidade da lingoa Por- 
tuguefejComo depois o eftéve; & nò qúe toca a hiftoria , fe no 
qfue paíTa em noflos tempos,& o que mais he,diante dos noííos 
olhos, faõ tantas as opinioés,que nenhúa eouíafe pôde quaíi fa- 
ber com infallivel cei teza^demafiado rigor he querer,que íe dé 
em couías tam antigas a firmeza,quenas prefentes íènaõalcan- 
ça.Pelo que com razaõ foi eíía obra muito eftimada dos Do- 
<ítos,& bem intécionados,& por ella íe podem dar os parabes â 
pátria com aquellés excelientes veríos , com que lhos dà húía- 
mofò Efcritor de noílo tempo,dizendo ao Tejo* 
'Xipis ecce tuisgenuit nbi pátria eivem 
Jlluftri egregiumpartufluo cíattor orbe 
Jatlabit nullo tellusfeLyfa tantnm 
^Artepotens opibusj 3 ammiyBernârdus aí alta 
jpucet Lyfiadum famamj&* monumentatuorum 
Ex cmopnma nons ^Aurora vmcBa cjuadrigis 
òplendtiit humano gencri, debinc arma triumpms 
IncUtajunc farSoi rejperes ab origine mores 
Longa njetuftdús y rerumá arcana move bit. 
Antes deite tempo lhe tinha a fua Congregaçaoerícomendado 
a compofiçaõ da hiftoria de Cifter, de que fora deíle Reino 
avia pouco eícrito,&em Portugal nada, íendo áíli que efta Or- 
dem floreceo entre nòs com grandes ventages a muitas outras 
Províncias da Chriftandade.Obedeceoo Padre Frey Bernardo, 
& pouco depois de três annos da impreíTaõ da Monarquia , fa* 
hio com a primeira parte da Chronicadetifter,què imprimi© 
no anho de 1602. Cofno ja neíle tempo eftava mais exercita- 
do na lingoa Portuguéfa, compôs efta hiftoria com tanta elle- 
gancia,,& pureza de palavras , que o Padre Frey Ioaõ Marques, 
hum dos mais doéios varões de noílo tempo , lhe dà por ella o 
titulo de Hiftoriádor infigne;& no que toca as coufas, efereveo 
com tal diligencia , que o Padre Frey António de Yepes honra 
da Religião de S.Bento,quafi tradds efta Chronica nos feus An- 

A a 4. uaes, 



284 Noticias dtFortngftL 

oaes,& podemos corri verdade dizer , que ao nofTo Author fe 
devepoíTuirmos agora as excelknteshiftoriasdeS.Bento,& S. 
Bernardo, que depois fairaõ a luz em Caftella,poiso Padre Frey 
Bernando abriocaminho,&deu exemplo para fobre eftas ma- 
térias efereverem taõ fingulares fugeitos. Alem da Chronica de 
Cifter fe mandou ao Padre Frey Bernardo por decreto do Ca- 
pitulo geral , que efcrevelTe outro livro dos privilégios da Or- 
denho que elle fez com immenfo trabalho , porque lhe euftou 
muitos tempos deperigrinaçaõ > & ver os Cartórios de todos os 
Conventos de Religioíos, 5c Religiofas, que a Congregação de 
Alcobaça tem nefte Reino,& outra muita leitura . A moleítia 
deita oceupaçaõ com o continuo eftudo dos annos paííados,!he 
foraõ caufa de húa grande infirmidade, que o teve nao íòmen- 
te rrjuito tempo impedido para continuar com a hiftoria Por- 
tugueíà,mas ainda defeonhado da vida. Com tudo tanto que a 
faudelhedeu lugar, tornou a Coimbra a concluir os eftudos, 
que a obediência lhe fizera interromper, &naquella Vnivcrfi- 
dade deu grandes moftras de feu engenho nos a&os que fez,ate 
tomar o gf ao de Doutor,quefoi ooanno de 160 6. Pouco antes 
compôs o livro dos Elogios dos Reys de Portugal , que impri- 
mio no antio de 1 603. Eira obra, ainda que breve he de grande 
confideraçao , porque na liDgoagem, & juízo, pôde fervir de 
modello a toda a boa hiftoria abreviada , Sc na perfeição com 
que fez abrir em brônzeos retratos dos Reys > & alcançou os 
originais mais apurados,mandando vir algos de panes remotas, 
com grande cufto , & defpeza , excedeo muito íuas forças , Sc 
moftrou o grande zello , que tinha de engrandecer a Pátria y jk 
de eternizar a memoria dos Reys Portugueíes, a quem nefte li- 
vro levantou hum honroíò trofeo , Sc tal , que a nenhfis çuij os 
Reys de Hefpanha vemos outro femelhante dedicado . Eíte li- 
vro quaíi traduzio em latim o Padre António de Vaíconcellos 
no feu Anac3efaleoíis,mandando abrir as mefmaseftampas dos 
Reys em maiores laminas , por eftas íeremasquesò merecem 
credito de verdadeiras. 

Deíèmpedido deftas digreflbes , tornou a continuar a hifto- 
ria da Monarquia Luíitana,que imprimio no annode 1609 ,Nc- 
fta fegunda parte ftguio humeftilo chaõ , Sc claro , ainda que 

grave* 



Difcurfo oitttwo. ii j 

grave ; & íe na ellegancia ficou inferior aos dous livros próxi- 
mos, que tinha publicado , foi a caufa por naõ dar mais lugar a 
xn ateria, pois o principal trabalho daquella hiftoria ,he deíco-^ 
bnr,& pôr em ordem as coufas daqueíles tempos das conquir 
ftas dos bárbaros, que ategora por faltade Authores eftiveraq 
eícondidas,& cheias de duvidas,&fabullas. 

Eftasforaõ as obras f que o Padre Frey Bernardo de Britp 
imprimioem fua vida , porem naõ eraõ menos illuftres outras 
muitas^que compôs, & naõ pode tirara luz com a morte ante- 
cipada. Deftas direi alguas,que chegarão a minha noticia. 

Compôs hum tratado,a que deu titulo Republica antiga de 
Lufitania,em que tratou dos coftumes,religiaõ, & governo dos 
antigos Lufitanos.Dedicou eftaobra á Senhora Infanta Dona 
Ifabcl Clara Eugenia a 21 . de Março de 1 596. era dividida em 
dezcapitulos,& continha hua maòde papel,íègundo mç infor- 
mou o Lecenciado Francifco Galvão de Mendanha ( grande 
benemérito dos eícritores Portuguefes , como em outro lugar 
diremos)quea vio,por lha comunicar hum Religioío, que aífi^ 
ília em S.Bento de Évora. 

Outro livro me moftrou o Padre Frey Bernardo , paíTando. 
por Evoraem Abril de 1 6 1 1 . intitulado hiftoria de NoíTa Se* 
nhora de Nazareth.Era hum juíto volume,& tratava da inven- 
ção daquella Sagrada Imagem, & das doações que os Príncipes, 
& devotos lhe fizeraõ corn a relação de teus milagres, & no 
fim de quada hum a linhagem , & deícendencia daquelle , em 
quem o milagre fora obrado , por cfta via ficava lendo o livro 
hum Nobilitario das principais famílias defte Reino,pareceo- 
meobraexcellente,& do mefrrio voto foi Luis daSylvade Bri- 
to Prior do Santo Milagre de Santarém, affaz cobhecido nefte 
Reino por fuás muitas letras ,0 qual lhe efcreveo na primeira 
folha hum ellegante Epigrama em louvor daobra, & Author. 
Levava o Padre Frey Bernardo eíle livro a Madrid para o ofie- 
recer à Rainha dona Margarida. 

No rneímo tempo me moftrou também húa Apologia, 
queefcrevera ao Arcebifpo de Braga Dom Frey Agoftinho de 
Caftro , em repofta de certas duvidas , que pelo mefmo Arce- 
bifpo lhe foraõ enviadas (obre a primeira parte da Monarquia, 

&no 



2 g <$ Noticias de Fortvgal. 

& no fim delia eftava hua carta do mefmo Arcebifpo ] em que 
fedava por fatisfeito de fuás perguntas , & o exortava , que na 
compofiçaõ da Monarquia leguiffe igualmente a hiftoriaSecu* 
lar,& Ecclefiaftica:& a das linhagés nobres do Reino,como cl- 
le depois fez. 

Alem deitas obras fonbe entaõ dejle , quetinha compofto 
dous Volumes em lingua latina, hum íobreos Profetas Meno- 
res^ outro de Duabus Hebdomadibus.que erao as duas foma- 
nasda criação do mundo, & iuaredempçaõ tl conceitonovo 1 & 
digno do grande engenho do íèu Author. 
' Na primeira parte da Monarquia Lulitana prometeo deef- 
crever hua hiftoria Ecclefiaítica deite Reino , o que em eífeito 
compriOjintroduzindoascoufas Ecclefiafticas comas Secula- 
res na íègunda parte da Monarquia , & affi tinha intenção de o 
hir continuando . Também quando tratou da Geographia an- 
tiga da Lufitania, prometeo ade Portugal com taboasda Pro- 
vincia,& plantas das Cidades,© que fem duvida fizera , fe che- 
gara com a Hiftoria as codas deííe tempò.Porem íè por lhe fal- 
tar a vida naõ podecomprireftapromeíTa,aiTazobrigadosihe 
ficamosjnaõ sópelos delejos, mas por asexcellentes obras que 
imprimio/com queeternizou a fama defte Reino.Pclo que com 
jufto titulo fe lhe pode applicar o nome dePheniz,que em hum 
Epigrama lhe dei , quando imprimio a íegunda parte da Mo- 
narquia: pois eftandonaquelle tempo jaquafiextin&o o nome 
dos PòrtuguefeSjelle o tornou a refufcitar,& fazer com fua pe- 
na mais famofo^que de antes, como fe vé deftes veríos. 
Cefmteodõr<tto c Pb*mxut Lyfidmmdo) 

EcafiafaBisigmbfís tijldperit y 
yttdperittgermni orbts opes> fecum ipfd cremaste 

Qua cadit Undifono Sol^ritur^ mdru 
ytt <velun pulchnsjit odoníus ipjdcremdtd efi y , 

Ly fia dum reftdt fie nifífolm odor. 
TZerndrde buncfpdrgts, Th#mxredw>MS odorem, 

Tulcbrior^ dtrts furgis dh exequtjs. 
Tanto mais próprio fica agora efte Epigrama ao Author depo- 
is de morto ,qu anto vemos,que fe tem levantado daquelie iníig- 
ne convento da Ordem de S Bernardo^ u por melhor dizer da- 

quella 



DifcurfooitPt<uo. zi? 

quellaPira,& Areolaaromatum,de virtudes, & fabedoria, quê 
com igual valor vai ieguindo, & renovando os heróicos inten- 
tos do Padre Frey Bernardo de Brito. 

Eftas obras fízeraõ julgar a feu Author por digno de gran- 
des premios,mascomo os que o mundo da, naõ fejaõ baftantes 
parafatisfazeríêmelhantesmerecimentos,permitte Deos mui- 
tas vezes,que ate eftes faltem , para que melhor conheçamos, 
que só he digno de fer íèrvido, quem naõ só paga com grandes 
ventagês todos os ferviços cpe ihe fazem, mas ainda galardoa 
ateospenfamentos delles. Com tudo por vezes foi nomeado o 
Padre Frey Bernardo para algus Biípados ultramarinos,que elle 
naõ quis aceitar, naõ só por fua humildade,mas por a cõtinua- 
çaõ dos eftudos lhe ter tirado a íaude própria, com que ficava 
impedido,para procurar a efpiritual alhea. Poftoque claramé- 
te fe entende,que os que o coníultaraõ antepuzeraõ o bem par- 
ticular do Padre Frey Bernardo ao bem publico do Reino, a 
quem importava, que lhe deíTem cõroodo para compor, & 
naõ que o defterraflem para onde naõ podeífe continuar fua 
Hiftoria . No que devem fer mui coníiderados os miniftros fu- 
periores,naõ premiando os beneméritos fora de feus talentos, 
pois alem defte danno fazem , que os providos comecem mui* 
tas vezes a aprender na faculdade alhea 3 quando pela idade , 8c 
experiência podiaõ com maior fruito enímar na própria. 

Por efta razão foi provido o noílo Author no officio de 
Chronifta mòr de Portuga! , no anno de ióió . quando vagou 
por failecimento de Franciíco de Andrade , naõ por faltarem 
partes no fugeito , a quem efte cargo podia competir, mas por 
naõ aver outro premio , que íe pudelTe dar ao Padre Frey Ber> 
nardo^mais próprio , & divido a íeus eftudos , o que naõ íe íè- 
guia na peífoa,que o podia pretender , pois avia muitos defpa- 
choSjCom que podia fer galardoado. 

Porem nem aííi ihe íervio efte cargo de premio , íenaõ de 
hua carga peíàdiííima , 8c de hum feminario de defgcftos , que 
nunqua teraõ fim, fendo efta a cauía de eícreverem hús contra 
elle,& outros em fua defeníâÕ. Infeliciffima empreza para taõ 
felices engenhos,pois podendo ganhar grande hora para a Pá- 
tria^ para ã cora feus eftudos. 



28 8 Noticiar dt Portugal. 

Ttella geriplacuit nullos balntura trwmpbos. 
Tomarão huainglorioíã contenda : Noncogit antes ( como diz a 
Sagrada Efcútuva^PrôJperitateadverfum cognatos malueffe maxim^ó* 
ifioncmUyfeàbofiiutYOfheacaptUYi . Eftava o Padre Frey Bernardo e 
Madrid,quando íe lhe encarregou efta occupaçaõ,& fe lhe en- 
comendou^ deixados todos os outros intentos,íe applicaíTe fo- 
mente à ChronicadelRey D.Sebaftiaõ,pelo que logo na Corte 
começou a obra,&a continuou ate a Embaixada deD.íoaõ de 
Borja.Como nefte tempo eftava ja tam exercitado na compo- 
íiçaõ 3 & preceitos da Hiftoria,dizem os q a viraõ,q levava efta, 
ventagê a todas as outras, qelle tinha compofto,&q fefe aca- 
bara fora hu illuftre ornamento da lingoaPortugueía.Porê a tu- 
do atalhou a pouca fortuna defte Reino,q tiradolhe outros bes 
lhe quis também roubar o engenho do Padre Frey Bernardo, 
cjuando eftava mais aífaíbado para dar perfeitifíi mos frui tos. 

Finalmente vindo de Madrid ia falto de faude.fe lhe aam-a- 
vou a iníirmidade no caminho , de maneira q naõ pode paílar 
de Almeida^onde continuando a doença, em pouco tempo lhe 
confumio as forças , & acabou a vida a 27. de Fevereiro , rece- 
bendo primeiro os Santos Sacramentos, Sc conhecédo íua mor- 
te cÕ moftras de muita devaçaõ,&de verdadeiro Religioío>Seu 
corpo foilevado ao mofteiro de S. Maria de Aguiarjunto a Ca- 
ftel Rodrigo, qhe de Religiofos de S,Bernardo,& fepuicado na 
capella mòr,ondefe vè hu letreiro de pedra na parede, que diz: 
xÀWJa^o muidoBo Tadre Frey 'Bernardo de 'Brito Cbronifl* mor y a foi 
âefteKeino , morreo no armo de 1617 . Foipeííoa de agradável pre* 
lènça,grande de córpo,bem proporcionado, Sc de robuftac o rrí-f 
preiçaÕ,íe a naõ eftragara com o demafiado eftudo,o q aconte- 
ce a muitos engenhos de Heípanha, q naõ faõ menos pródigos 
da vida no exercício das Ietras,do qSilo Itálico o confefla no das 
armas. Foi deíuave converfaçaõ,& de felice memoria . Pregou 
cõ muita fama,& em todos os eftudos, a q íè appíicou, moftrou 
grade taleto,o qual sépre empregou no ferviço publico, eterni- 
zando os Príncipes defte Reino^illuftrando a nobreza delle , Sc 
srefuícitandOjComo outro Deucaleonte, os Portnáguefes,ate das 
pedras efpadaçadas dos Romanos , para lhe dar perpetua vida 
na memoriados homês, Évora a 2. de Abril de- 1628. 

"ELO- 



N 



289 
ELOGIO DE EV ORA. 

I. Rep, 

O meio da Provinda de Alentejo eftàfituada a Cidade#7>. 

de Evora,em hum pofto tam eminente , que fica fenho- ^ p,.'^ 
reando os campos, que a cercão por toda a parte , ate pararem cr t ich, ijf m 
em quatroierras.com que a natureza em larga diftanoiaacer- *5 t ; Aim . 
cou,quaíi como co muro . Da parte do Oriente a ierra de Una; Herrs.a 
doMeiodiaade Portel, & Viana, do Norte ade Arrayolos, &*»' *à.& 
doOccidenteadeMontemuro . Heeftefitio tam agradável à/ljJl 
vifta,que aos de Itália lhe pareceo,que era Roma; & aos de Ca- 2r /. 45 . 
ftella,ofeuMadrid,& Toledo. Efta heaquellacidade,que fendo ^«g»* 
fundada por Elyía primeiro povoador de Hefpanha,tem fuften- p£ Um ff* 
tadopor tantos íêculos o mefmo nome, & lugar, quando das^ '• 
Metropolisdas maiores Monarquas , naõíèfabem jaós veftigi- L *™ e * 
os donde foraõ . A fama deite fitio trouxe a fida Gália os Cel- /.$. 
tas.a quem admittindo os Eboreníes por cidadãos, os dividiraõ^*^" 
depois por as Províncias vizinhas , reconhecendoie lernpre por/ ? , f# aj# 
colónias fuás todos os Celtiberos de Hefpanha . Efta he a cida- ^fen. 
de,a cuja vida Viriato levantou os primeiros tropheos dos def * f* ** 
baratados exércitos Romanos ;& Sertório edificou os muros, o ^ftc, 
aqueductos , & fabricas Corynthias dosdefpojos daquelle po f Jí o * m 
vo , que foi vencedor do mundo , acquiridos com os foÍdados #w J^ 
Eborenfes; & que ainda hoje permanecem porteftimunhos de^ &ih* 
tamanha gloria. Efte he o lugar,em cujo nome quis o primeiro^ 1 '"' 9 ' 
Emperador de Roma, que ficaíTe eternizada a memoria de íua Moral U 
liberalidade . Efta foi a cidade , que primeiro ouvio as alegres 1 }' C \ *4- 
novas do Evangelho,& delia, como de Sede propria,as recebeo H*Ji.Efo. 
porS.ManciotodaLufitania.Eftafoiopropugnaculo dos Re- ■*#•<*« 
ys Godos contra o Império. E naquella grande ruina ultima de c e £ ^ 
Hefpanhajpoftoquefeíometteo ao poder dos Arabes,inda de- D./mSi, 
pois de rendida íê temerão tanto delia, que levarão a principal * c *P m 
parte de feus moradores a Marrocos, cabeça defua Monar- , p / 
quia,onde os Eboreníes fundarão outro lugar, com o nome da chxan. de 
meíma pátria, em que confervaraõ a Fé , & a liberdade por s ' c ™' 
muitos feculos,ate que no tempo delRey Dom Ioaõ o I. fc tor- Mmmeh» 
naraõ a Hefpanha. Nenhua força pode recuperar eftainexpug- Lu ^ u 

Bb navel 



290 Noticias de Fortuàal. 

navel fortaleza j & affifoisóreftituida pelajnduftiia intrépida 
de Giraldo UluftreCavalleiro, que com ella deu aos Reys Por- 
tuguefes a maior parte da Lufitania. Efta foi a primeiía em de£- 
fender a liberdade de Hefpanha , naquella milagrola b ualha 
dotriumphoda Cruz, onde feus moradores fe ouveraò com 
tanto valor , que a meíma Cruz lhe ficou por premio em per- 
cho», ^petua memoria de tam gloriolò triumpho,Na confervaçaõda 
*?à^ m lib crQl ade Portuguefa foi ella a primeira , que fervio a elllcy 
Dom Ioaõl. depois que intentou a defenfaõdo Reino. Aqui foi 
a praça de armas do Condeftable,com cujos moradores alcan- 
A me[ma Ç ou tantas viótorias. Aqui permanece a primeira Igreja de ftfef. 
chron. panha , illuftrada com tantos Santos , & graviffimos Prelados. 
Efta foi a pátria de tantos varões infignes em letras , onde fld- 
recem todas as fciencias divinas, & humanas . Efta he aquella, 
que produzio a Real planta da Senhora Infanta Dona Catha- 
rina-jdondc refloreceo com maior felicidade a noífa Monar- 
f ; r M 1 quia.Efta foi a primeira, que teve valor para defprezar o po- 
der da Monarquia Caftelhana, a cujo exemplo deve Ca- 
talunha a coníèrvaçaõ de feus foros , 8c Portugal 
OCondt fua honroíà,& amada liberdade.E finalmen- 

LJhe f aM i teEvoraheaque com a reftauraçaõ 

de leu Rey, 8c natural Senhor tem 
Cípcziai deícuberto outro novo mun- 

E?ííSs do a todas s*3 Provín- 

cias de Eu- 



U-^. . a •* I 



ropa, 

(0 



neej 

ELO- 

oliufft 



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2ÇI 



ELOGIO 

DELREY DOM 

IOAM DE PORTVGAL 

Hl.donome. , 

POR ANTÓNIO DE CASTILHO 

do Confelho delRey Dom Sebaííiao , <Sr 
feu Chronifisí mor. 

OM Ioaõolll. defte nome, decimo quinto 



WmwM 






D 



1§Êgm. na ordem dos Reys de Portugal , foi filho del- 
: ^^Sç| Rey Dom Manoel, & netto do Infante D. Fer- 



"^UBM nando,qpor linha direita de vara5, em varaõ, 

^^S^^p vin ^ a ^° P l ' imeiro Re > T ^ e Portugal D. AfFonío 
^^MW i S^ll Henriques, filho de Dom Henrique Conde de 
Aftorga natural de França das partes de Vizançon,cujo Pay,& 
Avòsdeícendiaõ dos antigos Reys de Borgonha: naíceo o Prín- 
cipe D.Ioaõ das fegundas vodas entre elRey feu Pay, & a Rai- 
nha D.Maria filha dos Reys Catholicos nos Paços de Alcáço- 
va de Lisboa no anno de Chrifto NoíTo Senhor 1 5 1 1 .a 6.de Iu- 
nho ; naõ pode téperar o alvoroço,& alegria do.,povo híia gran- 
de trovoada, q a noite de feunafciméto fe armou, & hú rebate 
de fogo ateado dentro nos Páços,no dia é q foi bautizado,porq 
e tamanho fobrefalto naõ deixavaõ de o feftejarcõ todas as in- 
venções de jogos,&de prazeres públicos, como le aquelle lume 
fora hu agouro do refplador de fua virtude: fez feu bautifmo na 
Capella de S.Miguel D.Martinho da Cofta Arcebiípo de Li£ 
boa. Madrinhas foraõ a Rainha Dona Lianor viuva delReyD. 
Ioaõ XI. & a Infanta D.Beatris fua Avó: & é nome da Senhoria 
de Veneza efeolheo elRey D. Manoel por cõpadre hum gentil 
homem enviado por Embaixador a efte Reino , a quem elRey 
armara Cavaleiro,& dera a Ordem de Chrifto , ávida naquel- 
le tempo por maior honra. Tomou o Príncipe o primeiro leite 
de Dona Beatris de Pay va, cafada com Dom Álvaro da Cofta, . 
guardaroupadelReyD.Manoehmasvindoadoecerj&faltarlhe; 

B b z o lei- 



ip2 Noticias âiToYtugeíl. 

o leite,entrou ê lugar delia Felippa d' Abreu calada cõ B rtho. 
lameu dePayva cunhado do mefmoD. Álvaro, dizê algús,qíhe 
fora revelada ê fonhos efta criação do Príncipe, podia tabê íer 
força da imaginação. Como o Príncipe chegou a idade de hum 
anno , foi jurado pelos tresEftados , por futuro iucceílordeíle 
Reino nas Cortes , qelReyfeu pay fez em Lisboa no anno de 
i joj.naíalla dosLeoe"s:paífados os primeiros annosdamama, 
teve cuidado de lhe enfinar a doctrina Chriftã , & as primeiras 
letras Álvaro Rodrigues Capellaõ delRey feu pay , ajudado de 
hú MartimAlonío,q profeíTava efte officio,teve cuidado de lhe 
enfinar os princípios da língua latina D.Diogo Hortís deVilhe- 
gas Bifpo de Tangere,q depois cÕ Thomas de Torres Mathe- 
maticomui conhecido lhe deu alguas lições da Efphera J) & ten- 
do o Príncipe hua memoria eftranha,& tanto juizo,como sépre 
rndftrou, aprovei touíè maldefta doclrina,ou por culpa dos paf- 
fatépos, a q fe affeiçoava mais,ou deites Doctores, q o guiarão 
por caminhos torcidos, né quada hu delles,né Luis Teixeira fi - 
lho do Chanceler mor grade letrado , & criado nas boas letras 
de Itália lhe aproveitou na falta,q depois íèntío , porqdcaíía- 
mente (è enxergava nellc a sobra da Iingua latina.pofto que nas 
coufasdejuizo fe achava muito lébrado.aííi eraõ aspalavras del- 
Rey cheasde Mageftade,& igual bradura, q parecia criado na 
converfaçao dos melhores engenhos do mudo. Quãdo eIRty 
feu pay lhe deu caía,affeiçooufe logo a dous homês fidalgos de 
difercte natureza,hu delles foi Luis da Sylveira muito avifado, 
bõ cortefaõ cõ algua noticia das letras humanas, mas dtfcjoío 
de levar o Príncipe a íeu parecerão outro D. António de Tayde 
de menos idãde^as transformado no gofto delRey,de q (ursa 
muito mais cõta r q da própria medrãça,&aííi aíTegurou melhor 
quãdo o PrincipeD.Ioaõveo a Reinar. FalIecidoelRey D. Mano- 
el no anno de ipi.a 17. dias de Dezêbro: proveologo o Prín- 
cipe as honras,& exéquias da íepultura de feu pay , tanto q Foi 
obedecido,& jurado dos tresEftados do Reino,reformou com 
todos os Príncipes confederados a paz , & amizade , que ícu 
pay acordara com elles,& no mefmo tempo fuecedeo a morte 
do Papa Leaõ X . cujo íúcceíTor foi Adriano Vi . na Igreja 
deDeos. Deulhe elReyDom Ioaõ a obediência, antes que 

íàhifíe 



Difcurfo oit&evo. 19$ 

fahiííe de Hefpanha,piovendo juntamente nas coufas dapaz,& 
da guerra íèm alterar o governo, nem os miniítros na ordem 
em que as deixara feu pay . Começando após ifto a nafcer ai- 
guas diícordias entre elle,& o Emperador Carlos V.pela razaõ 
q quada hú tinha de averem por feu o dereito das Ilhas de Ma- 
luco,por culpa de Fernão deMagalhaés defnaturalizado dePor- 
tugal por aggravosdelRey D. Manoel ; entendeo quanto impor- 
tava a íeu Reino orepouíoda paz , & naõ fomente atalhou a 
deíavença defta caufa por honefto partido, mas renovou o devi- 
do atítigOjCjue tinha com a caía d' Auftria,dando a InfantaDona 
Ifabel íua Irmã ao Emperador , com hum dote deíàcoftumado, 
cafando a troco com a Infanta D Catharina d' Auftria. Revolto 
o mundo depois com as guerras do Emperador, &de Francifco 
Rey de França , & determinados porhua das partes todos os 
Príncipes da Éuropa,fendoelRey D. íoaõeíc aia mente de 24. an- 
nos deidade,aíTi fe governou neíta tormêtá do tépo, q naõ po- 
de fer levadode algu delles para feguir feu bando,antes guarda- 
do a hú o decoro,a outro a fé de confederaçaó\nuncjua defiftio 
de esforçar quada hu delles à paz da Chriftandadejpõdolhe di- 
ante a obrigação q tinhaõ de ajuntarê as forças,& virarê as ar- 
mas contra os inimigos delia, offerecendo o Infante D. Luis íèu 
Irmaõ para tratar efte acordo. Defejando depois ver rcftituidas 
ê Portugal as letras,q a ignoiãcia de algus,& deícuido dos-Prin- 
cipes tinhaõ degradadas do Rcino,eícolheo algús moços de boa 
eíperança para fazeré alicece defta obra,os quais mandou cri- 
ar ê Paris no Collegio de S. Barbara , onde íe affinalaraõ algus 
na eloquência, & doctrina, de íbrte que pode depois reformar 
a Vniverfid ide de Lisboa,& levala à Cidade de Coimbra,con- 
vidando Theologos,Iuriftas, Médicos de todas as partes de Eu- 
ropa,quefloreceraõ nefta Vniveríídade, Sc ganharão honra co 
o favor,& partido,q lhe fazia Quaíi no mefmo tempo recean- 
do o perigo, q as herefias dosChriftaõs novos,& dos Luteranos, 
q em Alemanha crefciaõ,tanto como as outras no Reino,antcs 
ój efte fogo feateaffe impetrou da Sè Apoftolica aauthoridade 
do Ofício Santo da Inquifiçaõ(pofto q em Roma contrariado) 
para atalhar os incendios,q em poucos annos abrazaraõ o mu- 
do, com tanto zelo da religião Catholica,que efeolheo para 

B b 3 o car* 



2P4 Noticias de Portugal. 

oCargodelnquifidormóro Cardeal Infante Dom Henrique 
leu Irmaó.Fez muita ventagemaos Reys íeus Avôs no zelo do 
Culto Divino, & acrefeentamentona religiaõ,porque no Reino 
fez três Igrejas Sés Cathedrais,Leiria, Portalegre, & Miranda, 
ôc nas Ilhas do mar Oceano , & outros Eftados da Coroa de 
Portugal; erigio novos Bifpados por authoridade Apoftolica, 
cujos Prelados , 8c Miniftros de quada Igreja, fez fuftentar dos 
dizimQS,que eftavaõ applicados á Ordem de Chrifto , no def- 
cobrimento deftas partes . Fez com a mefm,a authoridade a 
Igreja de Évora por morte do Cardeal Dom ArTonlb Metropa- 
litana,onde paííou com o mefmo favor do Arcebifpado de Bra- 
ga o Cardeal Dom Henrique, para reftituir com feu exemplo 
de vida a milhores coftumes os miniftros , que a riqueza da- 
quella Igreja hia afroixando. O mefmo titulo procurou à Sedo 
Funchal na Ilha da Madeira,com ordem,quefofle reconhecida 
ca jurdiçaõ efpiritual doBifpadode S.Tiago, & de S Thomè, 
& da Cidade de Goa na India.Epor tempo depois impetrou do 
Papa o Primado acidadedeGoa^uereconheciaõosBiípados 
deCochim , & Malaca . As ordés dos Religiofos esfriados do 
primeiro fervor foraõ a fua inftancia reftituidas a limpeza , & 
devaçaõ dos primeiros inftituidores , como foraõ a dos Fran- 
cifcanos,DominÍGos,Auguftinhos,CarnieHtas,a: Hieronymos, 
repairandoosEdificios antigosdos Religiofos, para fe exercita- 
rem naquella vida fanta,& recolhimento mais accoromedados, 
com o qual cuidado reformou o Convento dos Freires da Or- 
dem de NoíTo Senhor IESV Chrifto em Tomar, apertando 
aquella Religião Militar,quafi defatada com a regra de S. Ber- 
nardo, como fez no morteiro de Santa Cruzde Coimbra, que 
naÕ fomente mudavaÕ os coftumes , a vida, & recolhimento, 
mas foi acrefeentado de edifício magnifico, Sc digno de íua grã- 
deza Tinha a mefma tenção reduzir a Ordem de S.Bento a 
fualimpeza,&fantidade primeira, mas a morte rompeo eftc 
defejopofto que em fua vida o mofteiro de Alcobaça reíplan- 
deceífe em muita virtude, como depois fuecedeo a todas as ca- 
fas de Portugal defta Ordem , com o zelo que o Cardeal Dom 
Henrique moftrou a cfta ReligiaÕ,depois que lhe foi encomen- 
dada cm tempo delRcy Dom Sebaftiaõ,herdeiro dos peníame- 



tos de feu Avò,veio a lume a reformação, qucS. Bento lhe iní- 
pirou do Ceó, com que os mofteiros defua Ordem começarão 
a florecer em nova Religião, & com feu exemplo as outras Or- 
dés Militares de Avis,& Palmela,fe governarão melhor. Foi o 
primeiro Príncipe Chriftaõ, que tomou debaixo deíèu ampa- 
ro a Ordem da Companhia dos Padres, que em nome de IESV 
Noíío Salvador ordenou Ignacio de Lpyola com doze compa- 
nheiroSjOÍferecidos íèmear a palavra de Deos pelo mundo 5 com 
tanto proveito das alraas^omohoje vemos em todas as partes 
onde penetrou íua doutrina , & pode o favor delRey Dom Ioaõ 
fazer eftc beneficio à Chriftandade, fundando hum Collegio 
em Coimbra, depois defta Religião approvada, ondefecria- 
raõ em exercícios de virtude , & doutrina jChnftã muitos Sol- 
dados de Chrifto,que depois fe efpalharaõ por todo o Oriente, 
com muita gloria do nome Chriftaõ. As donzellas órfãs , que a 
idade,& defimparo podia eftragar, mandou recolher em húa 
cafa,para dalli lhe ordenarem vida , ou por calamento , cu por 
re!igiaõ,& o mefmo recolhimento fez nqutra paite para mu- 
lheres, que a própria fraqueza,ou deícuidodospays fez mal co- 
ftumadas^aranefte lugar com a penitencia, &oraçaõ reftau- 
rarem a honra perdida. Ente ndendo o pouco íolTego , que em 
Lisboa tinhaõ,os que fe exercitavaõ nas efcholasgeraes , defe- 
jofodeos íeus Vaflallos fe afíinalarem na doutrina das letras, 
paííou os eftudos a Coimbra, que dotou de muitas rendas do 
leu Padroado,com que ajuntou homés eícolhidos, dos que de- 
pois fe fizeraõ conhecer pelo mundo eilremados por eftranha 
doutnna,floreceraÕ em íèu tempo outras artes apagadas , que 
feu favor eípertou,como foi a Architcc1:ura,a que o mefmoRey 
fe inclinou, & a navegação dos íèus naturais conhecidos cm to- 
das as partes do mundo, pela noticia das couías do mar. Aos In- 
fantes filhos delRey D. Manoel íeus irmaõs , foi pay no amor, 
dando a quada hum tanta parte das terras da Coroa Prelacias, 
& mofteiros encomendados , quanta baftava a qualquer Prín- 
cipe para fuftentar o Eftado , & obrigações do fangue Real, 
porque naõ perdeo nunqua o cuidado do Cardeal Dom Aífon- 
íò , que em vida delRey feu pay fora provido em titulo do Ar- 
cebispado de Lisboa,<Sc da adminiftraçaõ do Bifpado de Évora, 

B b 4 & mo- 



2 §i Notícias de Pwtugal. 

Sc morteiro de Alcobaça. O Infante Dom Luís fez Condefta- 
ble de Portugal,Duque de Beja,& de outros Eftados, & perpe- 
tuo adminiftrador do Priorado do Crato. Ao Infante DomFer- 
nando deu em dote os Condados de Marialva, & Loulé , o Du- 
cado de TrancofojCom outras Villas no Reino, cafandoo com 
a Senhora Dona Guiomar Coutinha,unica herdeira da cafa de 
Marialva,como elRey íêu pay ordenara. Ao Infante Dom Du- 
arte caiou com a Senhora Dona Iíàbel , filha de Dom Gemez 
Duque de Bargança, a quem Dom Theodofío , herdeiro defta 
cafa,dotouo Ducado de Guimaraés,coníèntindoelRey no par- 
tido. O Infante Dom Henrique Príncipe fanto proveo primei- 
ro do Arcebifpado de B.raga,donde paííou para Évora, dando- 
lhe a adminiftraça5 dos morteiros de Santa Cruz de Coimbra, 
& o titulo de Cardèál,que lhe procurou. A Infanta Dona Bea- 
tris , caíàda em vida de clRey feu pay com o Príncipe de Sa- 
boya,& depois oíFerecida a muitos trabalhos,pelas guerras que 
ouve entre osFrancèfes, & Imperiais , com quem o Duque fez 
bando, favoreceofempre com tanto amor, como deviaaefta 
Princefa,& o devido que tinha com aquella caíà.Poucos annos 
depois,que começou a Reinar,cafou a Infanta Dona Ifabel com 
o Emperador Carlos quinto,& por fatisfazer á vontade delRey 
feu pay excedeoo dote ás forças do Reino . A Infanta Dona 
Maria derradeira filha delRey Dom Manoel procurou fempre 
caíàr com o Delphim de França , depois com Felippe herdeiro 
de Hefpanha , & finalmente com o meímo Emperador Carlos 
quinto,mas perdeo o trabalho, porque a vontade de Deos tinha 
cfcolhidaeftaPrinceíã para outra bemaventurança maior,quã- 
do a levou para fi, vivendo fempre em efte Reino com húa ca- 
fa, & eftado de muita grandeza. Algús bandos que íuccederaõ 
em feu tempo entre caías Illuftres, como foi entre a caía de 
Aveiro,& a de Marialva,o Conde do Vimioío,& da Caftanheí- 
ra,& outras caías defavindas entre fi, teve fempre cuidado de 
as departir com maior authoridade , & reípeito , que lhe todos 
tinhaõ,do que era otemordocaftigo, porque fua condição 
maviofa,era taõ affeíçoada a toda a clemência , & perdaõ, que 
tinha por honra folgarem os homês de lhe ferem aceitos :& 
por coufa indigna de fua grandeza ter os VaíTallos em feu íér- 

viço 



■Diftttrfo oita*vo. 197 

viço por medo do rigurofÒ caftigo . A certo fidalgo , que naõ 
confeatioa feu filho vifitar da parte delReyà CondeítableíTa, 
chamou doudo publicamente, & diíTclhe que mandaria fazer 
efte ofício por outro mais honrado que elle; o que fez logo por 
outro menos valido:dando com ido a entender, que os Vaííal- 
los foberbos naõ podem ter honra , & que os obedientes a feu 
Reysóa tem veràadeira; quando lhe enculcavaõ algúa peífoa 
para feu ferviço',& lho gabavaõ de homem rijo , óc que íe naõ 
deixava torcer,riafe deites louvores, 8c affirmava ,que eítes ri- 
gores^ eítremo da juftiça naõ nafeiaõ , íènaõ de fraqueza, 8c 
deíconfiança,que só a clemência , & diíTimulaçaõda vingança 
particular,podia caber em efpiritos grandes. Nos crimes enor- 
mes moftrava fobejo rigor,& diííimulando com a juftiça ordi- 
nária , valiafe algúas vezes da jurdiçaõabíolura, procedendo 
contra peíToas privilcgiadas,como era Dom loaõ Sotil Bifpo d.e 
C,afim,preío por culpas íecretas,Dom Bernardo Manoel mal- 
íinado por oíferecer á exccllente Senhora hum Galeaõ , Dom 
Duarte de Menefes, por governar a índia à fua vontade , Dom 
Miguel da Sylva Bifpo de Viíèu^ por fe ir deite Reino íem lhe 
entregar o íello da puridade , & negocear o Capello de Carde- 
al contra íua vontaderaííi que a brandura,&clemcncia,que íèm* 
pre moítrou nos deliétos , que mereciaõ perdaõ o faziaõ pare- 
cer mais rigurofo,&defiguaI,nos que procediaõ contra íeuíèr- 
viçodeíconfiãdosdeíua boa inclinação; deíejando com tudo 
fatisfazerâs obrigações que lhe carregavaõ, como herdeiro do 
Reino,& adminiftradorda ordem deNoíToSenhor IESV Chri- 
íto , ordenou hum tribunal chamado da Conciencia , onde fc 
proviaõ todos os defeargos delia, 8c faziaõ cumpriras obriga- 
ções deita Ordem,& das que depois fe ajuntarão á Coroa com 
grande fatisfaçaõ do Reino,& vigia dos bes das Ordes, que em 
íeu tempo foraõ fempre melhor governadas:foi ávido por def- 
cuidado de fua fazenda, mas na verdade quem lançar conta ao 
que ella rendia , o eftado em que achou , quando fuecedeo na 
Coroa os dotes de fuás Irmãs,que pagou da Rainha Dona Lea- 
nor viuva, as legitimas , 8c herança da Infanta Dona Maria , 8c 
de finquo filhos dei Rey Dom Manoel, a tranfauçaõde Malu- 
co,os roubos de feus miniftros que teve na índia , os naufrágios 

das 



29& Noticias de Portugal. 

das nâos,quefoccederaõemíeu tempo: achará que naõ ouve 
Príncipe no mundo,que fizefle tanto bem , como ellc fez a to- 
dos com tam pouca renda , como lhe fundia efta Coroa , 8c íe 
for mais avante também acharà,que alíi como teve a condição 
larga para gaitar dinheiro, & fazer mercês temporais ; teve 
muita prudência para confervar feu eftado , entendendo que os 
bês da Coroa eraõ devidos ao eftado Real, corao nervo princi- 
pal da paz,& da guerra , íèm os quais, nem os Reys podem ter 
authoridade,nem o Reino íoííego, como aconteceo em Portu- 
gal^ em Caftella,depois que os Senhores íerviraõfeus Reys a 
partido,& a grandeza de fuás cafas os fazia revolver quada dia 
Hefpanha com qualquer aggravo dos Reys . E por ido nunqua 
elRey Dom IoaÕ em íeu tempo dekou de reftituir à Coroa os 
bes que vagavaÕ por dereito das doaço és. A herança de Mari- 
alva vaga por morte da Infanta Dona Guiomar Coucinha, tor- 
nou a incorporar na Coroa , como fez ao Eftado do Infante D. 
Luis,& outros que foraõ vagando , principalmente os Medra- 
dos da Ordem de Noíío Senhor 1ESV Chrifto, de S. Bento de 
«Avis,& de S. Tiago, que a fuajnftancia íe unirão â Coroa per- 
petuaménte,entendendo quanto importavaaofoíTegodo Rei- 
no^ fatisfaçaõ dos merecimentos públicos da paz,& da guer- 
ra, virem as Comendas dasOrdesa quem tinha obrigação de 
premio , Sc caftigo : & com ter efte refpeito de naõ deminuir o 
património do Reino,&naõ perder occafiaõ de o acrefcentar, 
naõ teve menos cuidado de confervar em fua reputação as ca- 
fas dos Grandes,& a Nobreza antiga do Reino,abrindo mui ra- 
ramente entrada de novo a gente popular , quando naõ tinhaõ 
íerviços mui conhecidos , pofto que leu zelo foíTe defterrar de 
Portugal calidades de homés infames, porque eftranhou ao 
Príncipe Dom Ioaõ íeu filho chamar villaõ a hum toureiro , di- 
zendo que em Portugal naõ avia efta forte de homés , que ba- 
ilava a bondade, a fazenda ,a boa criação, 8c coftumes para 
honrar os homés de bem, & por iíío os previlegiava de boa* 
mente,entendendo quam bemaventurada he a Republica, on- 
de hum Príncipe iguala com amor , & juftiça , aquelies que a 
fortuna (às vezes cega) fez menores que outros . Fez três vezes 
Corte sem Torres Novas ; Evora,& Almeirim, em quereípon- 

deo 



Difcnrfo oit&tVQ. 2 pp 

deo a fèus VaíTalloscom muita fàtisfaçaõ delles, & proveoal- 
guas leis para bem da juftiça, & dos- povos } ainda que feus mi- 
niftros fedeícuidaíTem na execução delias : as rendas publicas 
naõdefejou nunqua ver acreícentadas , por naõcrefcer o preço 
das coufàs,que lhe eraõ neceííarias para íuas armadas,& em ne- 
nhum aperto do Reino fofreo nunqua lançar novo tributo, por 
naõ íer peíàdo a feus povos,& em quanto nelle foi , & as neceí- 
íídades de fua fazenda íòfreraõ,defejou fempre que fe pagafTerh 
as dividas com os intereííes corridos a feus acrédores, porque 
naõ foííe exemplo íèm pouco credito aos devedores quebra- 
rem , 8c íêpodeífem confervar o comercio entre feus naturais 
com verdade , 8c juftiça , pofto que poucos annos antes de feu 
fallecimento fatisfizeííe intereííes exorbitantes , & demaíiados 
aos íèus acrédores em tenças de juro, 8c de herdade na cafa da 
India,que depois de fua morte fe pagarão a quada hum , como 
teve a ventura,mas muita parte dclles fe toma em quada con- 
trato em pagamento aos intereííados , como fòfrem as neceííi- 
dades publicas. No coníelho de coufas mais importantes rece- 
beo fempre o parecer da Rainha Dona Catharina fua mulher, 
8c dos Infantes feus Irmaõs, ajuntando com elles algus Grandes 
do Reino de muita prudência, 8c inteireza , de quem podia fiar 
a deliberação de qualquer negocio por importante que foíTè, 
deixando fempre lugar aberto a outras peííoas de meam for- 
tuna,que tinhaõ noticia dos negocios,em que avia duvida, mas 
naõ fe obrigava nunqua a íèguir o parecer alheo, indaque. nelle 
fofle vencido,no que a parecer de algús acertava menos , por- 
que os Reys quando naõ tem revellaçoés divinas s que os guiem, 
íãõ obrigados aver feu coníèlho por fofpeito , 8c fiaremfe dos 
homésque votaõ mais livres , & naõ eípreitaõ feu gofto : aíTi 
como lhe eftranharaõ algús meter no confelho a Rainha com 
novo exemplo para os outros Principes,que naõ coftumaõ fiar 
tanto da condição das mulheres , que ainda que mui avifadas, 
8c virtuofas,faõ fempre mulheres . E porque em feu tempo co- 
meçarão encarecer os mantimentos com a efterelidade do 
paõ,deíejou muito acudir âsneceflidades do povo, dando or- 
dem para prover defóra o Reino , por induftria dos mercado- 
res, que feobrigavaõ fomente a fazer íèu proveito , favorecidos 

dei- 



^ oo Notícias de T&rtugaL 

delRey,mas com muito deícuido,& pouca vigia dos ofíiciais,a 
queefte cuidado fe encomendava, porque a falta da execução, 
& brandura das penas deíòrdenava a provifaõ dasleis,pela qual 
razaõ íc ouveraõpor eículas as taixas,conjurando todos os nier< 
cadores cm Monopolos particulares,& o povo com os oficiais 
do governo em fua própria defordem , & vida defacomodada: 
cm tanto naõ deixava elRey de mandar prover os campos do 
Tejo,& do Mondego com vallos, maranhões, & outros bene- 
fícios, que refreavaõ as cheas,& impeto daquelles rios, naõ fo- 
mente por culpa da natureza, mas dos lavradores do Reino, 
que íèmeavaÕ terras dependuradas íbbre as ribeiras, 8c a troco 
de pouco fruito corriaõ, Sc areavaõ os campos ,entupiaõ as bar- 
ras, 6c ficando rochas nuas, perdiaíè muito pafto do gado, 3c íè 
os miniftros do Reino acodiraõ nas Coi tes a hõa perda tama- 
nha, por ventura naõ íè alagarão os campos,& íobejarao pafto 
dogado.Algúas obras publicas começadas por mandado dei- 
Rey Dom Manoel fez acabar em feu tempo, como foi o Tem- 
plo de Nofla Senhora de Bethlem,com o morteiro dos Padres 
Hieronymos/undado por elRey feu pay , pela ordenança mo- 
derna,que aquelles tempos íbfriaõ , acabado por elRey Dom 
Ioaõ com igual magnificência, & deípeza, Sc maior fermoíura, 
qual fe moftra na forma dos edifícios Romanos . Refiituio o 
Cano da agua da prata de Évora , aqueducto antigo de Sei to- 
rio,quc o tempo em muitas partes tinha gaftado,a cuja confer- 
vaçaõ applicou renda publica , que bailava para íuprir o repa- 
ro:o mefmo fez no Cano de Elvas , ainda cjue naõ foi poííivel 
acaballo por algús eftrovos,que fe oífereceraõ^em quanto a obra 
corria. Do mefmo Rey he aquelle edifício illuftre s que fica íb- 
bre o mar em Lisboa,onde de húa parte fe recolhe o paõ, que 
vem de fora por mar, 5c por terra , Sc da outra todas as merca- 
dorias,que devem á Coroa direitosjedificou na mefma Cidade 
o Almazem,ondeguardaõ todas as armas, 8c moniçoêsdo Rei- 
no , aíll para navegação das armadas, como para baftimento 
das fortalezas de fóra,obra magnifica,& digna de fua grandeza. 
Edificou na mefma Cidade com fuás efmolas os ten.plos ime- 
recidos a NofTa Senhora da Graça, a S. Franciíco , aS.Rqque, 
começados em fua vida com a mefma Mageftade , com que 

depois 



Difturfo oitavo. 30 1 

depois íê acabarão: fora dos muros repairono mofteiro de San- 
ta Clara,& em todo o Reino , naõ ouve lugar em que naõ dei- 
xaífe pegadas de fuadevaçaõ; porquenoMofteirode Alcoba- 
ça,no de Santa Cruz de Coimbra , no Convento da Oi dem de 
Chrifto em Tomar,fez tantas deípezas com obras novas , que 
paiTaraõ avante de tedas , as que os Reys íêus avos ordenarão, 
naõ perdoando a defpeza algua, & favorecendo os miniftros, 
de que confiou o cuidado dellas.Em Africa, & na Índia naõ ou- 
ve lugar,que ou naõ fortificaffe de novo, ou naõ reformaííe es 
edifícios antigos, como fez também nos lugares marítimos 
deite Rciuo,& algus Caftellos da Raya,deforte,que com gran- 
de beneficio do Reino gaftou húa parte de íuas rendas na for- 
tificação de feu eítado, ornamento dos lugares fagrados , Sc re- 
médio de muitos pobres , que tinhaõ por melhor íervir neftes 
obras, que povoarem forcas, onde mereciaõ eftar os ociofes 
com outra forte de gente,que vive fomente da indufuia, Sc do 
engano albeo , Naõ fomente nefla magnificência mcftrou a 
grandeza de feu efpirito,mas no íofrimento, a que íaciificou leu 
coração , vendo quafi quada anno hum irmaõ, ou hum filho 
moi to,fem lhe ficarem de tantos,falvo dous nettos, o Pi impe 
Dom S baftiaõ , que lhe foccedoo no Reino . E da Princeía 
Dona Maria , Carlos herdeiro de Caílclla , íèm nunqua lhe 
enxergarem fraqueza em tanta magoa, como a perda defles 
Príncipes naturalmente lhe avia de fazer , antes abraçado cora 
Chriíto fazia lei da vontade Divina ; alem de tantas virtudes, 
como moftrou i>a paz, naõ lhe faltou coníelho na guerra, Sc 
tanta prudência para governar em feu tempo com muita hon- 
ra íua ; quanto pareceo mais impoífivel íazella longe dos 
olhos, nas mais afafladas terras do mundo: quando come- 
çou a reinar íez com diligencia hua efeola de íêus natura- 
is, que podiaõ adeftrarlenas armas, Sc repartidos em com- 
panhias , de que avia Coronéis em quada Comarca do Rei- 
no , Capitães , Sc Sargentos, Sc outros oficiais da Milícia par- 
ticulares em quada bandeira , proveo com muito cuidado eíta 
gente,fem queixume do povo, Sc enfinada nos dias de fefta,que 
dantes 'gaftavaõ em jogos , Sc paífatempos de pouca hon- 
ra^ proveito,obedecer a íêus Capitães a todo o exercício das 

C q arruai 



jot Noticias de Portugal. 

armas, levando o medo perdido ao eftrondo da Artclhai ia.quã- 
do fe offereceíTe neceílidade de aigua batalha, & aiíi com pou* 
ca defpeza de fua fazenda,& algum favor devido a virtudi*,cria- 
va na deftreza da guerra homês de bem,que depois íe aííinala- 
vaó nas armas,aiTi é fuás navegações , como na guerra de Afri- 
ca, & da India,com o meírno coníelho previlegiou os eicudeiros 
de boa linhagé, hús filhandoos por Cavalleiros de fua cafa,ou- 
tros por confirmação de cavallaría, merecida na guerra 3 coítu- 
mados em feu tempo nas cidades, & villas principais do Reino* 
efcaramuçar,& jugar as canas , & outras boas manhas por na© 
faltar oceupaçaõ honefta a toda a íbrte de varia tios feus, a fazê- 
dados quais fendo tamdelgada,comoquadahúem fua caía vè, 
poderia dar vida aos Portuguefes, tendo a navegação livre dos 
Coífarios,o q em íeu tempo fe fez com diligencia, & cuidado, 
pofto q os Franceíes coftumados a viver de roubo,ouveíTem os 
Caftelhanos > & Portuguefes por húa mefma naçaõ, & naÕ perr 
doaífem a hús,nem a outros, quando lhe cahiaõ na maõ , 6c à 
fombra de fazeré guerra aosCaftelhanos,tomaíTem noífos ná«- 
viosdeíârmados , & outros que ás vezes fe defendiaÕ valeroíà- 
mente com igual perda , mâs eIRey Dom loaÕ cõ armadas or- 
dinárias encomendadas a Capitães esforçados, & outros offici- 
os,q fazia por íèus Embaixadores em França,reparava aquella 
forçados CoíTarios com grande prudencia^endoeíle coníelho 
por mais acertado, cjue leguir húa parte dos bandos,entre Car- 
los quinto, Sc Franciíco , onde fe aventurava mais , 8c fegurava 
menos a navegação de que feus vaífallos viviaó . As fronteiras 
de Africa , queíeupay, 8c avós tinhaõ ganhadas aos Mouros, 
bus com tençaõ de criarem os Poitugueíes na guerra, Sc nao 
enfraquecerem norepoufodapaz, outros por lhe ficarem por* 
tos abertos para a eonquifta de Berbéria , fortificou de novo a 
maior parte delias, fuftentadas com grandes defpezas , gover- 
nadas por Capitães efeolhidos , provendo com muito cuidado 
naõ lhes falt afifem mantimentos, Sc moniç íõ para íoíler qual- 
quer cerco,nem navios nos portos para lhe acodir cõíòçorroj 
só a fortaleza de S.;Cruz*no cabo de Guè (de que era Capitão 
Dom Guterre de Monroi filho do Comendador mórd' Alcân- 
tara) cercada dos Xanfes ; quando começarão eonquifta* 
c ) BciBe- 



Difcmfo Qitftzvó* 303 

1 ... I 

Berbéria, & traziaõ a pos fi com o zelíoda fua Religião faiía a 
maior parte dos Alarves de Africa, poíto q (ocorrida das Ilhas, 
começou o inverno a crefcer , & es Mouros apertarão o cerco, 
de force que lhe faltou o focorrode Portugal pela injuriado te- 
po, 8c os moradores deíefpeiados delienaõ puderaõ ícíler o? 
imigos 3 n-ionendo algus valeroíamente,& outros entregues aos 
Mouros , perderão aquelie lugar com cjuebra de algus particu- 
lai es, como foi o Capitão D.Gutene,mas pouca culpa da gête 
de guerra, que fez quanto pode por naõíè entregar viva aos vé- 
cedores. Em lugar defraforça ordenou eIRey Dom íoaõ forti- 
ficar Maíagaõna meímacoílade Africa , o que fez com muita 
deípeza,& coníelho de grandes Capitães, & em parte compen- 
çou a perda do cabo de Guee com muitas viél:orias,queos Por- 
tugueles depois ouveraõ. Aquelles preíidios de gente , que eI- 
Rey Dom Manoel leu pay, & os outros Reys íeus avôs cò con- 
íelho de guerra,cjue aquelles tempos íòfriaõ 1 tinhaõ repartidos 
pelos lugares de Africa íem diferença do íitio, Sc comrnodida- 
de dos portos,acordou por parecer do EmperadorCarlos quin- 
to recolher em menos íortalezas,com muito melhor confelho, 
do que antes do feu tempo íeíuftentavaõ, aííi porque poucas 
forças juntas fica vao mais poderofaspara le defender , Sc os íi- 
tios eícolhidos á võcade delRey mais acomodados para focor- 
ro do Reino. Ao mefmo Emperador Carlos V. ajudou cõ hua 
armada poderoía na jornada de Tunes,dilíimulando como In- 
fante D.Luisíèu irmaõ , que íe achou ncíla com muitos fidal- 
& s principais, fèm pedir licença a eIRey , como quem /abia 
delle,que niífo lhe fazia íerviço . Aquella armada de Solimano 
Emperador dos Turcos enviada pelo eítreito deMequa,com 
grande efperança de lançar os Portugueíès da índia, desbara- 
tou duas vezes em Dio,metendo no fundo a mor parte delia, & 
recobrando as moniçoés , Sc artelhnria, perdida em tempo do 
Governador Nuno da Cunha, fendo Capitão em Dio António 
da Sylveira, & depois difío , governando Dom Ioaõ de Caftro, 
& fendo Capitão defta fortaleza Dom Joaõ Mafcarenhas, foi 
roto outro campo delRey de Cambaia, onde fe achou 
Cojefofir ', lançado de Europa naquellas partes com muitos 
Turcos defejofos de refazer a perda de Solimano, 8c lançar os 

Ce z Porta- 



J04 Núticias de Portugal. 

Portuguefes da índia. Em íèu tempo repartio o eftado da Santa 
Cruz^hamado vulgarmente Brafil,que Pedro Alverez Cabral 
levado da força dos ventos defcobrio nas primeiras prayasdo 
mundo novo.E para íe a povoação fazer com mais facilidade, 
& menor defpeza da fazenda real , repartio aquella Província 
em diferentes Capitanias, & governações , na forma q os Reys 
primeiros fizeraõ povoar as Ilhas achadas no mar Oceano,que 
em poucos tépos crefceraõ cõíeu favor prolperas,& ricas,onde 
erigio Igreja Cathedral , & enviou Governador íupremo para 
amparar em igualdade de juftiça os que a naõ podiaõ alcançar 
dos mais poderoíos,com q amaníou os Gentios daquella Cofta, 
& outros q fe eícondiaõ pelo íèrcaõ, repartidos em fuás CabiU 
das,fem mais outra policia,lei,ou coftume, que a vontade pró- 
pria: muita parte dos quais trouxeraõà noticia da noíTa Fé Ca- 
tholica os Religíofos da Companhia a inftancia delRey Dom 
Ioaõ.Nefte Reino fortificou no Algarve a villa de Lagos , offe- 
recida aos roubos, 8c aíTaltos contínuos dos CoíTairos , que em 
feu tempo infeftavaõo mar : começou também a fortaleza de 
S.Giaõ na boca do Tejo,com o mefmo confelho l & finalmente 
na paz,& na guerra foi hum Príncipe raro,naícido para bene- 
ficio dos homés, Sc amparo dos pobres, &eftrangeiros; verda- 
deiro confervadordo Culto Divino, & piedade Chrifta. Foi de 
cftatura meã, mui bem aíTombrado nos olhos, com muita graça 
na boca,brando nas palavras , de bom acolhimento aos peque- 
nos , temido dos Grandes , de grande juizo na efòolha dos ho- 
més bem inclinados , porque eir.es lheforaõ muito mais acei- 
tos, que os grandes engenhos, como foi o Cardeal Dom MU 
guel da Sylva , Dom loaõ Manoel , Luis da Sylveira , 8c outros, 
que afafeou de fi por terem fobeja noticia do mundo,& pouca 
da que convinha para tratar com o feu Príncipe. Adoecia pou- 
cas vezes, 8c nunqua de doença perigofa , tèoannodefinquo- 
enta,que o começou tomar hum fomno amadornado no meio 
dos negócios , doença criada de longe por falta do exercício, 
8c lifonjaria dos médicos, que lhe naõ proverão o perigo deita 
doença , de que veio a fallecer no mefmo dia em que íè lan- 
çou na cama , algús diziaõ,que fem teftamento , nem decla- 
ração de governador do Reino, & titoria delRey feu netto, 

outros 



Difcurfo oitctrvo. ^Ój 

outros affirmaõ, que Pedro de Alcáçova , que entaõ íèrvia de 
eícrivaõ da puridade, & Gaípar de Carvalho Chanceler mòr 
demo lua fé na primeira junta que fe fez depois de íua morte, 
que a vontade delíley era nomear para efte cuidado do Rei- 
no , & titoria do Príncipe a Rainha Dona Catharina d 3 Auítria 
íua mulher por alguas razoes, que a mor parte do Reino appro- 
vou, principalmente o CardeaMnfante Dom Henrique, a quem 
elta eleição delRey parecia devida, afli por fua virtude, & intei- 
reza mui conhecida,como por dereito das gentes, &coftume de 
He/panha , que coftuma dar efte cuidado aos Príncipes do Zan- 
gue mais chegado,primeiro que as fêmeas falleceo, finalmente 
depois dos Sacramentos da Igreja recebidos com de- 
vaçaõ , &avendo trinta, & íeis annos que reinava, 
tendo finquoenta, &fínquode íua idade, a 
onze dias de Iunho,no anno do Senhor 
de mil,& quinhentos, &fiaquo* 
enta,& fete. 










Ge 3 



Cfi 



PANE- 



3' 



PANEGÍRICO 

A MVI ALTA. E 

ESCLARECIDA PRINCESA INFANTA 

Dona Maria noíTa Senhora. 

Por lo ao de Barros. 



i 




O M M V M íèntença dos Philofophos 
he vido por experiencia(IlluftriííimaPrin- 
ccfa nofla Senhora ) o demafiado prazer, 
caufar nos corações dos homes mui gran- 
des alterações , que naõ podendo o fpirito 
íbfter em fi o aluoroço,c]ue dentro conce- 
be, parece que abafaria, fenaõ o communicaíTe,manifeftando a 
todos a novidade do que em fi fente . De que vem alguas ve* 
zes,que os homés eíquecidos de fi mefmos,íàem fora dos limi- 
tes,que a gravidade de feus officios pos em íuas peflbas , como 
lemos delRey David, que vencido do prazer, que tinha de le- 
var a Arca do Teftamento para íua cafa, hia diante delia dan- 
çando^ fazendo tam defordenados movimentos com ocor- 
po,que fua mulher Michol teve paixaõ^arecendolhe que naõ 
guardava o decoro , que fe devia â dignidade Real com aquel- 
les faltos, que via fazer a feu marido , de húa parte para outra, 
i E naõ fomente vemos caufar o prazer eítas operações 
nos actos corporais, mas ainda nas fazendas, tam eftimadasdc* 
homés,que porellas perdem as vidas , & aventuraõ as almas. 
Quà hus em alvifaras , outros em feftas , que quada hum faz 
como póde,gaftaõ muitas vezes em hum dia o que ganhaõ em 
muitos. Algus em vez de rir,choraõ com prazer , & de muitos 
lemos,a que o fobejo,cauíou morte fubita,naõ podendo com a 
força delle fufter a vida. 

3 De todos eftes movimentos,que aíTim a diíTc^m uito ai ta, 
& excellente Princeía) maior foi o meu,que com o prazer , que 

ao 



Difturfooit#nyo\ 307 

ao prefcnte tenho, ou temos todos íeus vafTallos em elRey nos 
dar a vòs por Senbora,fiquei como quem de grave enfermida- 
de íe levanta com grandedetrimento um ignorante , ou tam 
ouíado,que me pareceo poder louvar a Voíla Alteza, que he o 
maior aballo,que no coração de hum homem muito contente 
íe podia fazer . Que gaitar minha fazenda em celebrar couía 
tam grande,manifcíto he,qfora pouco , & muito menos mor- 
rer,pois a morte de húa peÃoa ta'm baixa , naõ ^odia manife- 
ílar prazer tam alto. 

4 Mas querer encher de papeis defeus louvores , hedar a 
entender , que em algos íe podiaõ elles comprehender . Qul 
certo confiderando a grandeza de leu citado, & abaixa quali- 
dade de minha peffoa , o ako cume de fuás virtudes , & a fra- 
queza de meu engenho,a gloria de íua fama,& a pouca noticia' 
de minha , naõhe outra couía querer louvara VoíTa Alte- 
za , fenaõ cuidar que fomente com eítender as maõs aos 
que eítaõ da outra banda de tam largo rio o poíTo paíTar a meu 
ia! vo como pelos penitentes das ribeiras ítygias dizia o Poeta 
Virgílio:* 

Tendei anfjue MAnus riptulterioris am$re. 
Que eftes enganos , & falfas imaginações , às vezes caufa , ou o 
grande deíèjo de aver húacouía,ou o goíto de a ter alcançada,, 
que faz eftimar as outras pouco . Dotíde vem que as grandes 
viótorias,que algus Capitães ouveraõ, foraõ cauía de íua de-* 
ftroiçaõ, eíquecidoscomo vencimenro preíente , do futuro 
provim ento,& forças de feus inimigos. A rfi eu tranfportado no 
alvoroço deite prazer,& eíquecido detam alta im preza, como 
hea que tomei.naõ fe deve aver *por muito ficar vencido delia- 
como aquelle,que com falfas azas de cerafe meteo no fogo de 
fuás pennas,& querêdo tomar o Ceocoma maõ,Gahio no mar 
de íua ignorância. 

j Masjaqueniíto eide íàtisfazer ao defejo, ja poíto de 
húa parte,fique vencido meu engenho , ao menos da outra en- 
ganarei por hum breveefpaçoa vontade , tè que a experiência 
me moítre,o que eníína aos enfermos, que tanto trabalhão por 
apagar com agua o ardor da febre , tanto mais augmenta as 
chamas do fogo * que os queima , & parecendolhe que fatisfa- 

Ce 4 zern 



jol Noticias de VovtíigsíL 

zem a feus deíèjos,com iíto os acrefcentaõ mais.E pelo melmo 
modo,querê*do eu moítrar,a razaõ q todos feus vaííallos temos 
de ferodia de boje muito cõtentes,quanto roais quiferfubir ao 
cume de feus merecimentos , tanto me acharei mais afaítado 
de os poder entender . E deita mingoa hum louvor me fiqua 
em naõ dizer os de Vofla Alteza, que naõ ferei ávido por lilbn- 
geiro dos que virem que minhas palavras naõ chegaõ ao ver- 
dadeiro louvor de íuas coufas.Nem recearei o que dizia Horá- 
cio a Marco Agrippa neítes verfos. 

Jmíeihsá Lyr* Mufapotens ^vetat 

Laudes egregij Cafaris , ffl tuas 

Culpa deterrere ingemj. 
Dandolhe a entender, que louvando mais a elle , Sc a Ceíar feti 
íogro desfazia em íèus louvores com falta de íèu engenho. 
Porque a pureza,& a claridade dos de Voffa Alteza,he tam ex- 
celente.^ ue fe lhe naõ pode pegar a ferrugem de minhas pala- 
vras,mas eítaraõ tam limpos entre el!as,como a luz do Sol,anda 
livre,& izenta dos peltiferos, & baixos vapores,que a claridade 
desfaz, íèm deite ajuntamento ficar mafeauada íua perfeição. 
Ou como o ouro, que lançado nos corruptos humores da terra 
fiqua tam puro em feus quilates , que nenhum perde de quan- 
tos tinha. 

6 Alem difto algua ouíadia me dá fer o género deita cauíâ 
de fua natureza tal, q poderei efcufar,o que coftumavaÕ os anti- 
gos,aquelles que floreceraõ na arte da Eloquência, que exerci- 
tavaõ o eítillo em louvor de coufas,que naturalmente careciao 
delle. Ao modo do bom lavrador, que a terra, a quem os bene- 
fícios da natureza fizeraõ eíquaça,faz elle com os da agricultu- 
ra liberal, tirando comfeu induftríofo artificio da eílerilidade, 
proveito,& fruito,dondeo naõ avia. 

7 Nem tenho neceílidade dos aguilhoés , que Péricles 
Athenienfe deixava pregados nos corações dos ouvintes, com 
que forçoíamente os levava ao deftjado fim de fuás palavras. 
Nem tanta eífícacia nas minhas , quanta tinha Thimoteo na 
mufica ,que com as cordas de fua viola levantava a cólera ao 
grande Alexandre,ou lha abaixava, produzindo em íèu coração 
tam diveríòs movimentos,como faõ paz,& guerra. 

Eaííí 



Difcurfo oit&<vú* ' 3 o ç> 

8 E aílí poffo efcuíàr neíie exórdio o captar benevolência, 
&as outras infinuaçoés do artificioío orador dascouías afperâs, 
as orelhas dos ouvintes, como era o louvor dos 7 irannos,5d o da 
febre,& da mofca,& da calva, que algús antigos louvaraõ,& erri 
noíTosdias,o da íandice. As quais couías fendo em fim uieftre i- 
tas 3 para nellas hum orador fe poder eíprayar cõ fuás palavras, 
com ellas lhe fizeraõ aquellcs doótos Barões, tam largos cam- 
pos, que íem nenhum impedimento íepuderaõ com louvores 
porelles eftender, porque a verdade naõ há mifter pincel de 
Apelles, para acrefeentar em fuafermofura,ca nua íem mais 
outro algum tr ajc\eírá eila no verdadeiro primor de fua bonda- 
de . E como dizia hum fabedor a elRey Dai io : todas as couías 
vence a verdade. A cjual íem os íyllogifmos de Fábio , & íem as 
palavras empoladas de Demofthenes , ou Tulíio eítende fuás 
raizes nos frios corações da gentilidade. Aííi que dado que me 
faltem as flores da Eloquencia 5 elIas duraõ tam pouco, que por 
derradeiro ficaõ pizadas , quando fe colhe o fruito da ver> 
dade. 

o Diz Marco Tullio,qu e os brutos naõ fe movem, fenao 
para as couíàs,que diante lhe faõ preíèntes, fentindo pouco as 
parladas, & futuras,&queos homés,como participem da razacv 
entendendo os efFeitos , que de outros fe feguem , & vendo os 
princípios, & cauías,comparaõas íemelhanças das couías, cote- 
jando as paííadas com as preíèntes , com que facilmente alcan- 
çaõ o curfo de toda a vida. Pois vendo o que Vofla Alteza ate- 
qui tem feito na íua,quaíi vou entendendo, o que delia pode 
íer ao diante. E porque eíte diícurfò que tenho feito,me vai def 
cubrindo grandes couías i creíceme quada vez tanto a admira- 
ção dellas,que naõ pude deixar de a por em tinta,& papel, pois 
com torvação, & alvoroço,o naõ poíTb fazer comalingoa.Por- 
que naõ he de crer , dandolhe a Divina Providenciáramos , Sc 
tam excellentes dotes,que foífe para lhe negar o fummo,& ma- 
ior de todos, 

io He certo que nos bês da fortuna , que os Philofophos 
chamaõ exteriores comummente ,Voflfa Alteza,os tem tam 
perfeitos, que afgõs de que os antigos fe eípantaraõ, diante dos 
íeus perdem toda fua admiração é Là Plínio entre os milagres 

da 



5 io Noticias de For tugaL 

da bemaventurança humana, conta de húa Rainha , que foi fi- 
lha, mulher,& mãy de Rey, avendo por muito eftas qualidades 
juntas em hfia peííoa. A qual bem creio , que de íeusavoengos 
naõ tiveíTeanobreza,& real limpeza de Tangue , que Voíía Al* 
teza tem de todas as partes, de tam altos , & tam eíclarecidos 
KeySjdequeachiiftianiíTimallainha de França voifa may,vem 
deícendendo.Em a qual, & em outras muitas Rainhas de volfa 
genealogia , reíplandece melhor cila gloria de bemaventu^ 
rança, que Plínio achou na outra, de que faz mençaõ. Que naõ 
fomente he filha de hurn tam glorie ío Prircipe, como foi ei- 
Rey Dom Felippe voífo avó, & mulher de outro,tam poderoíb, 
& chri'tian ílimo , como ao prcíentc he elRey de França , mas 
para melhor remate a fezDeos may de Vofla Alteza. 

li Pois vindo aelRey de gloriofa memoria voífo pay , de 
quem tendes o fatigue dos poderofos,&catholicos R^ys dePor- 
tug i 1 , tam antigos , que olhando para traz, nos cantaria a me- 
moriarão achando termo,onde defcanfaíTe,de cujos louvores, 
& viciorias tam cheo he o mundo -> acharemos que do princi- 
pio ,& fundamento deites Reinos, fempre tendes Reys voíTog 
avòs,-& ainda neftes naõ tem nacimento íeu fangue, que para 
chegarmos a efta fonte , avemos de revolver a antiguidade, 8c 
nobreza dos Reys de Vngria,de Caitella,& de Aragão, de Le- 
aó, Sc de Navarra , &os triurr.phos da guerreira gente dos Go- 
dos,juntamente com os Reinos de Inglaterra, Boémia, França, 
& do íacro império de Ale manha, em q de todos tendes parte; 
8c naõ palfarei por o que dizia o Emperador Maxímiliano vof- 
fo vizavó , que muitas vezes íe louvava ter riais limpo íangue, 
que todos os outros Príncipes . Porque naõ o tendo de menos 
valia que elles,tinha mais hum quilate , que fora criado aos pei- 
tos da Emperatris Dona Leanor voíía tiesavò. 

1 1 Pois quem foi el Rey voílo payrTor ventura hum Pha- 
laris, ou Dionyfio Siracufano? Certo naõ, mas aquelle em cujo 
coração ferveo íempre tal zello da Fè,que o m muito gaílo de 
fua fazenda, morres de íeus naturais, trabalhos defuavida,& 
cuidados deíèuefpirito , fez adorar o preciofofangue de Chri- 
fto,onde o dos brutos animais feíacn ficava. E ifto tam longe de 
feus Reinos,& Senhorios, quam perto elle citava da gloria , que 

por 



Difctirfô oitaevo-. 3 1 1 

por iílo mereceo . Deípregando bandeiras, to rr. ando cidades, 
ÍUgeitando Reinos , onde nunqua o vidrjrioío Alexandre , Sc 
grande HercoIes,de cujas façanhas íè eípantaraõ os antigos,pu- 
deraõ chegar. Achando novas eftrellas, navegando mares naõ 
conhecidos,deícubrindo a ignorância dos Philoíophos antigos, 
que o mundo tinha por meítres de verdades oceultas. 

13 Quá depois de íeus pilotos abrirão o mar Atlhantico, 
jpor tantas centenas de annos cerrado, tedos aquelles que na 
Philoíophia natural tinhaõ gaitado feu tempo , elle lhe gaitou 
feu louvor.Pois dos Geographos, que cuidavaõ ter o munda àf* 
foalhado com íuas pinturas, aos olhos dos que naõ andavaõ ptff 
elle, que poílo dizer? fenaõ o que íè vè , que rufticos' pilotos iáhí 
mais letras eípeculativas,que hua so doctrina praticada no ÇêS* 
vez de hum navio enderdtaõ asderrotãs,deminuem,òa aerèí» 
centaõos grãos , emendaõ as alturas , de tal maneira reprovao 
astavoas de Ptolomeo , como íe eftudaraõ em algiía iiíuítrô 
Vniveríídade,& elle naõ em Athenas,onde gaitou feus ®rk& 

14 Naõ fallo nas viclorias de Afiiea,cujo temor fez f iigíif 
os Mouros das faldras, & da fertilidade des mares Gaditano; 
Atlhantico,& os meteo por dentro das fecas áreas* do fertaô-dâ 
Mauritania,nem o que fez em Guiné,&toda a cofia de EthipiáJ 
pois he notório , que os negros que viviaõ tora de toda a poli* 
cia.habitando as cavernas da terra, fem lei,íèm juftiça, fem d^ 
reito humano,ou Divino, vivendo ao modo de brutos animais, 
agora deixadas as trevas,& tornados â luz com a pregação EK*P 
Rey noffo Piy , que para clles foi novo Apoftolo > levantarão 
templos a Chrifto,& àSan&iffima Virgem fua Madre, & neífbl 
pulpitos,emquepublicaõ, &exalçaõíeu nome ,.& altares ) hm 
queofferecem íeu Corpo Sanétiffimo,& Sangue prèéioíòjto-mí 
que parece ( Hluftriífima Princefa ) fer comprida a profecia dó 
Piai mo » que diz , que os eftrangeiros , 8c Tyro , 8c o povo dos 
Ethiopes, conheceriaõa Deos : 8c podeíTe dizer que feu ''do4íi4 
lhe foi pofto por Divino Myfterio,como lemos de âlgús S-sti* 
cios BarceSjCujas futuras obras conhecidas por Deos;fhe deráS 
riome.conforme o que ellcs aviaõ de obrar. S.íoaõ fiij)tffta'-jW? 
los Prophetas foi chamado , & por íeu pny Zncharias : IcanrièJ 
nomes que convinhaõ a íuas obras . E oMdlías preme tído^íS 



1 1 1 Noticias de Portugal. 

lei, ja tinha íèu nome eícrito nos livros de líaias , que difTe Ma- 
noel íè chamará, que em noffa lingua quer dizei : Dcos he com 
noíco,pela vinda,que fez a efte mundo, onde tomou carns hu- 
mana, por cos remir do peccado de noíío primeiro pay Adão. 
Pois aííi mefmo eu diria,que efte Chriftianiffimo Rey Kmanoel 
levou á índia , & Ethiopia fua Fè,com que os Crieis com muita 
razão lá podem dizenDeos he com noíco. 

iy PaíTo pelas victorias dos Rumes , pelos tributos que 
poderoíòs Reys da índia lhe pagaraõ,de que a Coroa deite Ket- 
no naõtem pequenos proveitos . Que tudo ifto celebrado he 
por Poetas,& Oradores,que em Rema, ôc outras partes publi- 
carão tam excellentes vitorias . Teftemunha he do que digo 
Camillo Porcio,que em húa magnifica oração, que fez ao Pa- 
pa Leaõ decimo, celebrou a tomada de Malaca , cujo treslado 
veio a eftes Reinos, por induítria do Doutor loaõ de Faria, que 
naquelle tempo íèrvia de Embaixador em Roma . Teftemu- 
nhas faõ Policiano, Felippe Beroaldo ,Blofio, Paládio, Pierio, 
CaíàIio,& outros,que em metro,& profa eípalharaõ pelo mun- 
do eftes triumphosdelRey voílo Padre, em cujo tempo fe fora 
o grande Homero , que tanto caio fez de hua tam pequena na- 
vegação, como he do Heleíponto té Sicília, que pode compre- 
hender pouco mais de trezentas legoas, em que mifturou can- 
tas fabulas , & acontecimentos , quam pouca conta fizera dos 
errores de Vlyftes, fe vira tantas mil legoas de mar , & coíia íè< 
nhoreadas de hum só Rey,nas quais íe contem as índias^ quê, 
& alem do Gange,& grande parte de Ethiopia, da Arábia , 3c 
Perfia,cujas forças afaíraraõ os Mouros , & Turcos , & os lan- 
çarão tèos fins doeftreito Arabico,onde tem íeus navios vara- 
dos em a pobre villa de Sues,fem ouzarem de levantar [nas veK 
Jas,quea força Portuguefa tantas vezes amainou. 

16 Que fizeraõ os Poetas Orpheo , ôc Apollonio ,quam 
poucoeftimaraõacõquiftado vellocino douro,& daquellepr> 
meiro navio Argos, que tanta admiração naquelle tempo rez ao 
mundo, navegando o eípaço, que hà deThefaiia, acè Coíchos, 
que ao mais podem íêr trezentas, & íinquoenta legoas . Em o 
gual mar por/èr muito povoado podiaõ tomar muitos refref- 
çoSpà fazer muitas agoadas, com que teiiao mais paííatempo 



-• - 



nefte- 



'Difcwfo oitanjo. 3 1 1 

nefte caminho,que trabalhos dignos de caníàr nellcs os Poetas 
íeu engenfio.^Vendo íeis mil legoas de rnar,tam hermo, & deA 
habitado,navegadas,& íenhoreadas por a gente Portugueíà , q 
em íuas tormentas nenhúaefperança té nos portos,&nas Ilhas, 
de que as agoas eftaõ deíòcupadas,a que poflaô fugir da brave- 
za de tam altas ondas,como nelle fe levancaõ?Certamente que 
olhado bem ifto,fe pode dizer,que eftas, & outras coufas , que 
os antigos contavaõ,como por exceffos da natureza, quanto a 
nos pelas que foraõ acabadas por induítria delRey voffo Pay, 
podem íer ávidas por hiítorias de patranhas. 

17 Naõfallo nas colunas de Hercules, poftas na Ilha de 
Cales entre o fogo de noiTas caías , que aílentou como no fim 
de toda a terra , que nefte tempo faõ rifeadas da memoria dos 
homes,& poftas era todo o íílencio, & eíquecimento, com ou- 
tras mais altas,que por voffo íàngue foraõ affentadas nas derra- 
deiras partes orientais do mundo , mais proveitolas a elle por 
lerem as em que Chrifto pos fuás efpadoas, do que foraõ as de 
HerculeSjCom quefe perderão tantas almas, 

1 8 Muito avia a cerca difto que dizer, mas bafta moítrar 
o caminho , para que vejaõo que tinha por paliar, íè diíTo qui- 
zera eferever. Mas deixaloei para dizer que de tais dous tron- 
cos como eftes,naõ podia nafcer fenaõ Voffa Alteza, é que cla- 
ra mente fe vê íer filha de ta! pay , por quem Deos tais coufas 
obrou,& irmã de tal irmaõ.confervador, & augmentador dei- 
las ; & fobre tudo criada na doétrina familiar , Sc exemplos da 
Rainha noífa Senhora voífa tia , em que tanto florecem as vir- 
tudes,que parece acharem nella defcaníâdo apozento.Em cuja 
cala,que podemos chamar efeola de fanóta docl:rina,Voíra Al- 
teza foi enfinada nos preceitos de noíla íànóta Fè, que inda ifto 
deveis á Divina Clemencia,que alem de vos fazer filha de Rai- 
nha Chriftianiffimajbifneta delRey Dom Fernando,que por ex<» 
cellente Chrifiã, mereceo o nome de Catholico, filha de outro 
Rey,que dos infiéis (como pouco ha diííe)foi novo Apoftolo, & 
irmaõ delRey noflb Senhor, maravilhofo reformador da reli- 
gião chriftãjifto como digo deveis a Deos.que vos deu tam fan- 
tta criaçaõ,com que pudeffes confervar efta inclinaçaõjherda- 
dade voflbs progenitores. 1 

D d O que 



3 1 4 Notícias de Portugal. 

19 O que bem claro femoftraem VoíTa Alteza, pois que 
fèu modo de vida fora de religião , pôde fer aos religioíos eípe- 
lho,& doctrina de bem viver. E certo eu naõ íèi , que mais vir- 
tuoíòscoftumes, fantas mulheres poííaò ter na clauíura dos 
morteiros, & vidaíolitariado hermo,que VoíTa Alteza nos Pa* 
ços Reais tem, onde vive em Corte, & ajuntamento de gente. 
Pois que a continuação de fuás orações , a muita participação 
dos Sacramentos da confiffaõ, & Euchariftia, de que cantas ve- 
zes por graça Divina (e faz participante , manireítaõ ter dentro 
em feu coração grandiílímo fervor da Fè de Chrifto . Coníà 
muito de eftimar nos Príncipes , que como fejaõ hua fonte pu- 
blica de que feus vaílallos haõ de tirar agoa de bõs cofturnes, 
& íàã doárina , & como a religião feja aquella , em que coníí- 
ftetodá a nofla bemaventurança , nenhua virtude parece dar 
tam grande fer à peíToa do Principe,como lie o zello, & amol- 
de Deos,em cuja maò eftaõ os eftados da terra . O qual no dar 
da lei,& mandamentos que deu,naõ fomente deíle preceito , q 
avia de fer fundamento de todas voffas obras começou,mas ain- 
da quis que o homem íè entregaífe todo a elle,dizendo: Amarás 
a Deos de todo teu coração, de toda tua alma , & de todas tuas 
forças,como íapientiílimo edificador , que para levantar o edi- 
fício de noífa alma, em íeu amor , mandou que todas as ache- 
gas de noílas potencias,& fentidos trouxeííemos para íua forta- 
leza. Porque derribado efte principal baluarte, pelas machinas 
com que o demónio nos combate , q aproveitaria ter juftiça, 
prudencia,fortaleza,& temperança, ou como eftes íè poderiao 
chamar virtudes, faltando a do amor de Deos, cunho com que 
noífa moeda ha de correr diante delle. 

20 O que vendo o Bemaventurado S.Ioaõ.& confideran- 
do a grandeza deita virtude da Charidade, quanto precedia às 
outras fuascompanheiras,naÕ achou com quem a comparaíTe ? 
fenaõ com Deos 3 dizendo: Deos he charidade. Por.que aííi como 
elle he infinito,aííi efta virtude tendo as outras feus termos , ha 
de permanecer com noíTa alma femfim, que a fé , & efperança 
íeustermos,& tempos tê,em q fe haõ de acabar,sò a charidade 
vive,& reina na gloria dos Santos , dando a quada hu os quita 
tes ; q com cila mcreceo,& fendo efta virtude a todos neceí^-na* 

mais 



DifcHrfooitftruo. 31 j 

mais o he aos Principes,q tem governança de povo,como nolTo 

Redemptor fignificou , preguncando trcs vezes a S. Pedro íè o 

amava,como quem íe queria affirrnar , no que fingio querer íà- 

ber para doóirina nofla,quà Deos como penetra ointrinfico de 

noíTos coraçoeSjbem fabia que o amava S.Pedro, mas pregun- 

tandolhe a derradeira vez: Pedro amaíme mais que todos? E ref* 

pondendo o Difcipulo; Senhor tu fabesbé que te amo,dando a 

elle mefmo por teítemunha de Teu amonentaÕ lhe encomedon 

a governança defeu povo,dizendo paíta minhas ovelhas; affi o 

Príncipe que naõ amar a Deos , mal pode governar as ovelhas, 

que dclle recebeo para o regimento das quais fe requere Divina 

íabedoria, cujo principio , como diz o Propheta , he temor de 

Deos,porque affi como oPsy de fami!ias,que encomendou ao 

fervo, a governança de lua fazenda, & família , pela boa conta 

que delia lhe deu,conheceo o amor que lhe tinha:affi no cuida- 

do,que o Príncipe tem de feu povo,vè Deos fe o ama, & lhedà 

o galardão, ou pena, conforme ao que merece. 

21 Donde vemos eftados de Príncipes desfeitos , por fe 
apartarem de Deos , Sc outros levantado^ por chegarem a elle. 
Exemplo pôde fer elRçy Saul , quep,erdeo feu eftado , Sc vida; 
& o çurraõ, Sc cajado de David , levantado em ceptro Real, o 
qual dizia : Jfáiki atitem adkxrere Êfèo honum efl . Lemos Constan- 
tino fer exalçado por exalçar a Fe , Sc luliano por delia apo* 
ftatar, morrer morte defeftrada , Sc deshonrado . Vimos der- 
ribada a foberba de Máximo por Theodofio , Sc a elle por 
obedecer aos mandados d$ Ambrofio feu paftor , darlhe 
Deos o fpiritoprophetico deíoanne Anachorita, como orácu- 
lo, porque fe règeífe em íeus trabalhos , Sc fortunas . Eos ven- 
tos acudirem ao fom de íiias trombetas , empuxando as ba- 
talhas dos inimigos , Sc pelejarem de fua banda , de que o 
Poeta Claudianofaz mençaõ neftes verfos, Sc AuguftinhotarK 
to celebra, 

Ommum auectè Deo cui funiit ab antro % 
Aeolus armatasbyemes cui militat <tther y 
Et cônjurati r vemunt ad clafsica ZJenti * 

22 E nao fomente vimos o pezo da maõ do Senhor , íb- 
bre aquelles ,que immediatamente foraõ contra a fua honra, 

D d 2 &o 



jiá Noticias dt Fort HgaL 

& o de/conhecerão por Senhor univeríàl,negandolhe a adora» 
çaõ de latria,que como a Deos lhe pertence,dandoa ao demo- 
nio,como o fizeraõ os que adorarão o bezerro no defeito em 
tempo do graÕProphetaMoyfes , & os que encurvarão feus 
joelhos diante de BaaI,no tempo do Santo Helias , & outros de 
que faz menção a Eícritura,mas ainda aquelles,que com pouca 
reverencia tratarão o Culto Divino , ou com defcuido , & ne- 
gligencia fe ouveraõ a cerca delle,naõ efcaparem de íua ira,co- 
mo lemos de Oza, que individamente tocou a Arca do Tefta- 
mento; de Nabab,& de Abiud,que oífereceraõ fogo alheo; de 
Dataõ , 8c Abiraõ, que rebelarão contra Moyfes ; 8c do outro, 
que apanhou a lenha no dia do íàbbadojde Ananias,& Saphira 
íua mulher, que defraudarão do preço do agro , mentindo ao 
Efpirito Santo, & de outros muitos,afíi Principes>como peíToas 
particulares,deque eftácheaa Escritura Divina. Em fim o cat« 
íiveiro de Babilónia , 8c dellerro univerfal de todo o judaifmo, 
com adeftruiçao do templo, &daquella cidade Real, fenhora 
das gentes,que foi fenaõ caítigodo apartamento de Deos , 8c 
da morte de feu filho, que vindo para as ovehas perdidas 
da caía de Ifrael o puzeraõ na Cruz em galardão de fuás 
obras. 

23 E naõ íômente entre os Iudeos,a quem íè Deos naqucl- 
le tempo quis communicarcom preceitos familiares, do mo- 
do com que o aviaõ de fervir,mas ainda entre os Gentios , co- 
mo Egypcios,AÍirios, Medos, Perfas, Gregos, & Romanos , & 
entre todos aquelles , que tiveraõ Monarquias , em todas fuás 
hiftorias,quafi naÕ lemos outra coufa , fenaÕ em quanta eítima 
era entre elles tida a religião , de que Valério Máximo efcre- 
ve tantos exemplos.E acjuelles, que mais aguardarão , 8c vene- 
raraõjpofto que foffe fem a fé , que ao prefeute temos , foraó 
poriííò, & por fuás virtudes, com que ajudarão a pátria mais 
favorecidos no eftado, 8c fortuna do mundo . Como Alexan- 
dre , que entrando em Hierufalem adorou o nome de Deos, 
que o Sacerdote maior trazia natefta; & como diz Auguíii- 
nho : receperunt mercedem fuam , por ainda a fombra da vir- 
tude naõ ficar fèm galardão . Por onde podemos crer 
que a religião , que entre eftes fe guardava , ainda que era 

contra 



Difcnrfo QÍta<vo. \ 317 

contra feulouvor,pois louvavaõ a criatura, naõ conhecendo ao 
criador/ofTe exemplo a nos daeftima , em que devemos terá 
noffa , porque quando nos falkceííe, charidade , ôc amor cie 
Deos tivefíe exemplo de gente çondennada, com que nos ca- 
ftigaííeda muita negligencia , & pouca obíervancia da reli- 
gião , como elle dizia aos Iudeos : Conheceo o boi íeu do- 
no, & as beftas a caía de íèu íènhor, ôc Iírael naõ me co- 
nheceo. 

24 Pois graças ao Eterno,& Omnipotente Deos, que tam 
boas raizes como he efte fundamento de feu amor , & obfer- 
vancia da religião criou em VoíTa Alteza , que nao podem dei- 
xar de produzir, íènaõ ramos maravilhoíòs , defanótos exerci* 
cios ; & virtuoíòs coftumes , corno íè vem, que o tempo que lhe 
íòbeja dos divinos Officios J & orações, gafta no eftudo das le- 
tras^ que tanto k da , naõ avendo reípeito a íua criação , que 
por naícer de tam alto lugar foi mais apartada dos trabalhos 
corporais, & das neceííídades,& míngoas com que a outra gen- 
te fe cria , decorando aquelles primeiros ,.& enfadonhos rudi- 
mentos da grammatica , que a força da palmatória aos outros 
engenhos enfina, com que alcançou inteiro conhecimento da 
lingoa latina , para daqui chegar ao fim de fua tençaõ , que he 
o eftudo da Sagrada Eícritura. Seguindo a doctrina do bem- 
aventurado S . Hierony mo , que dizia a Paula , & outras mu- 
lheres fanctas , que ieíTem muitas vezes 4 Divina Eícritura, 
Ôc nunqua foltaíTem da maõ os volumes fagrados . Movida 
tam fomente por húa inclinação virtuofa, afaftada dos parti- 
culares intereíTes com que muitos ufaÕ das letras ao modo 
de jornaleiros , como de qualquer rufticoinftrumento,com 
quefemeaõ o paõ, ôc cavaõ a terra , eftudando para comer, 
ôc nao para faber,&comoo fim feja efte, tais faõ os prin- 
cípios , com os quais le contentaõ cm qualquer feiencia ; que 
aprendaõ. 

2 j E quanto mais cobiçofas íaõ letras deite tempo , tan- 
to maior louvor he o de VoíTa Alteza, pois a caufa final de 
as querer entender naõ he falta de honr a , nem de outra coufa, 
fenaó hum fanóto defejo de faber . De que todos feus vaA 
íãllos devemos dar muitas graças à Divina Bondade , que 

Dd 3 por 



3 1 % Noticias de Portugal. 

por fua mifericordia nos chegou a tempo , que tiveíTemos tal 
Princefa por Senhora, qual o divino Plataõ defejava , que dizia 
bemaventurada ícrà a Republica,em que os Príncipes philufo- 
phaíTem,ou os Philofophos governaíTem. 

z6 No que íe conhece claramente quam alto engenho, 
quam altos, & verdadeiramente reais efpiritos faõ os de Vofla 
Alteza , que quer preceder as outras mulheres naquella parte 
em que os homês precede aos outros . Naõíe contentando de 
lhe fazer tanta ventagem nos bés, que teve de feu alto nacimé- 
to,câ nafceo Princefa,nafceo filha de Rey,& levantada em cita- 
do^ pureza de fangue fobre muitas . Mas como ifko fe deve à 
natureza,quis VoíTa Alteza, que lhe deveffem a fabedoria, ga- 
nhada por fuainduftria,& trabalho, que he a n elhor coufa,que 
nefta vida os humanos podem ter,com a qual muitos ganharão 
eftados,& outros por falta delia os perdei aõ, como podería- 
mos ver por exemplos,fenaõ foííe contar hiftorias,de que Vot 
fa Alteza tanto conhecimento tem, & fomente bailai a dizer 
como muitos Caefares ganharão, o queSardanopalos, Tarqui- 
cios,& Dionyzios perderão. 

27 Fazenda he a íabedoria izenta da jurdiçaõ da fortuna, 
aqualjComo diz Séneca, nao toma,fenaõo que dâ, o fogo gaita 
oferro,o mar alaga cidades, terremotos as derrubaõ , rayos ef- 
pantaõ o mundo,armaso fenhoreaõ, sò o faberde homem he 
livre deites perigos, porque nem o tempo, que o mefmo Séneca 
chama íepultura de todas as coufas,o gafta,ou a morte o íènho- 
rea,que com elle mediante a graça Divina fazemos o caminho 
para a gloria,que eíperamos.E aíli dizhByas Prienenfe fugindo 
da patria,que deixava tomada dos inimigos, naõ levando mais 
que fua peííoa,& hum bordaõ , que tudo levava configo . E fe 
quizermos particularmente confiderar as coufas , qual averà, 
que íem letras divinas,ou humanas fe pofla fazer? Como nave- 
garíamos as terras ignotas,que comercio, que noticia hua gen- 
te afaftadapor tantos intervalios de mar, & terra, teria das ou- 
tras, fem a íciencia da AftronomiVque communicaçaõ,ou que 
preílança das mercadorias averiafemnavegaçaõ?comofeedi- 
ficariaõ navios, cafas,templos, & fortalezas com íuas machinas, 
tam neceffarias á vida, & policia dos homês fem architectura? 

Como 



Difturfo oitanjo. ji 9 

Como fegovernariaõ as cidades, Reinos, & Reípublicas, íèm 
Philofophia moral.^Como (era a natural fe exercitaria , o uío da 
agricultura tam neceíTaria a rnantença dos homés . E dccendo 
ao particular dasartes mechanicas, como nos aproveitaríamos 
dellaSjfenaõfbíTe por meio das Mathematicas > Como tivéra- 
mos a mufica pratica íem a efpeculativa? Com tanta diverfida- 
de de eftromentos,tam neceíTarios,alTi a religião, & culto Divi- 
no,como para a guerra,& deleitação da vida? Que remédio pa- 
ra noílas infirmidades , com cjue os corpos humanos portam 
diveríãsvias faÕoffendidosJenaõfcraamedicinarTois vindo ao 
efpiritual,cjue fora de nolTas almas íem a divina Sciencia , cjue 
nosenfinaocarninho , queavemosde feguir para a falvaçaõ 
dellas,remate de noíía bemaventurança^em fim, porque meio 
os homês communicariaõ eíías íciencias com os prezentes , 8c 
futuros,fem letras? Certamente cjue examinando bem ifto, pare- 
cem indignos da potencia intellectual , cjue he imagem , 8c fe- 
melhança de Deos com cjue fomos criados,os cjue ckfptezaraõ 
o verdadeiro ornamento , & atabiodalma , que he a íabedoria. 
A quaI,comodiz Nazianzeno,he Princefa, & inventora de to- 
das as coufas,& em íí as comprehende.do nome da cjual íè quis 
Deos intitular, chamandofe Sapiência do Padre;& quam m cei- 
faria ellaíèja nos Principes } Salamaõ diz^Pormim reinaõos Re- 
ys, & os Príncipes fenhoreaõ, 

28 E para mais verificarmos ifto faremos hua parábola 
imitando aquelle, que para todos fe fez único exemplar , finja- 
mos hum Rey tam zelofo da paz , 8c liança de todos os brutos 
animais, que mandaíTe ajuntar quantos ahi ha diíferentes em 
género, 8c fpecie , para que metidos em hum curral juntos , os 
entregaffe a hum paftor,de que tiveííe experiência, 8c confian- 
ça,queos trouxeííe a tal concórdia , queoleaõ naõcomeffeo 
lobo,nem o lobo ao carneiro,o galgo naõfilhafTe a lebre, nem o 
açor a perdiz,de tal modo,que eíquecidos de fua braveza natu- 
ral uzaíTem de toda a brandura,& manfidaõ;& que Paftor ave- 
ria por muito atrevido que foflíe, que naõ diíTeíTe o que Moyfes 
dizia a Deos:Senhor manda quem as demandar > poro tal car- 
go requerer, naõ digo hum grande,& conííumadofaber hu ma- 
no, mas ainda a hum Divino inípirado por graça. Poiso Rey, 

D d 4 que 



;2 b Notlcks de Portugal. 

cue iílo quis fazer foi Deos Eterno,que ordenou na terra ó go- 
verno dos Reys,& Principes,ficandolhe na maõ o coração ácU 
Jes,como quem fabia que tamanho officio , íêm fua ajuda mui 
particular fenaõ podia bem adminiftrar.Eos animais, que tan- 
to lhe encomendou faõ os homês , que deixando o caminho da 
razaõ íeguiraõ o dos brutos . Qua, íègundo Paulo : juftis non eft 
lex pof ta. Donde nafcQO a meu juízo fingirem algíísPhílofophos, 
entre os quais foi Platão , que as almas dos homês Te trefpafla- 
vao em corpos de diverfas beftas^milhaveis aos coftumes,que 
tiveraõ o dos Tyrannos,& Principes em lobos, falcões , & mu 
lhanos,& os dados aos vicios da gula,& perguiça ê afnos, intro- 
duzindo aquelle Herpamphilio ,que diífe ter vifto a alma de 
Orpheo metida em hum Ciíhe 3 a de Aiax em hum leaõ,& a de 
Agamenon em Aguia,& em hum bugio a de Teríites Homeri- 
co,querendo íignificar , que nenhúa dííferença tem de brutos, 
os que vivem como brutos , 8c que a femelhança dos coítumes 
lhe faz igual a natureza . E dizerem as fabulas , que Acteon foi 
convertido em Corfo , naÕ he outra coufa, íenaõ , que pelo 
muito exercicio,& continuação da caça fe fez agrefte,& íeme- 
lhavel aos animais com que tratava,- & tornando ao propofito, 
aííi como entre eftes ha tanta differença quanta vemos,affi nos 
homês fç achaõ ainda mais differentes condições de vida , & 
coftumes,que na diverfídade dos brutos . Quà íaõ homês , Sc 
mulheres } cazados,& folteiros, leigos , &facerdotes , nobres, 8c 
baxoSjpobreSj&ricos^oços , 6c velhos , fenhores, & vaííallos, 
rufticos,& políticos, diferetos, 8c ignorantes , covardes , & ani- 
moíos,irolTos,& mancos. Alem deites mãos , 8c bòscobiçofos, 
roubadoresjhomicidasjonzeneiros^dulteros/acrilegos, perju- 
ros ,hereges 3 & blasphemos, como vemos e quantos géneros de 
maldades cabem no coração humano, a que he inclinado de 
feu naci mento , que quada couíà deitas obra differentes crTci- 
tos , 8c de hua maneira íe ha de tratar o fenhor , 8c de outra o 
vaífailo,de húao leigo,de outraofacerdote. Ecomo Hipocra- 
. tes manda aos Médicos, que conheçaÕ a idade dos enfermos , o 
tempo,a região, & ainfirmidade;aííio Príncipe no corpo miíti- 
coda Republica ha de ter tal regimento,que a medicina appli- 
cada a hum membro naõ dane o outro , que faõ as leis a q Pla- 
' p "• !. : taõ 






Difcurfõoittirvo. 321 

ta 5 chama verdadeiro mantimento do povo: como fazia Pau- 
lo na pregação do Evangelho , que aos fracos naFè dava leite, 
& aos criados nella paõ com côdea. 

29 Pois que animal mais indómito, & fero pôde íer , que 
ohomeminjulro.^quantos males, & danos, quantas deftruiçoes 
de povos, perdas de Reinos,& de almas naícem doshoméV A 
que o exemplo do caftigo alheo , naõ aproveita para emenda 
própria j quantos cutellos enfangoentados , quantas execuções 
de juftiça criminal vem quada dia ante feus olhos , os que fem 
temor deftas penas cometem crimes dignos de morte £ po- 
dendo nelles mais a malicia,que o temor ; pois qual faber hu- 
mano poderá governar tam differentes vontades , & trazellas a 
hua mefma concórdia das leisf 

30 Pelo mefmo modo cõtaõ os antigos,q foi hu certo te- 
po,em queoshomêsviviaõ nos campos , & íuítentavaõ a vida, 
como beftas feras, fazendo ascoufasmais por obra das maõs, 
queporartejnemrazaõ^arecendodareligiaõjíèmcazamento, 
nem amor de filhos,por os naÕ terem cei tos,fem conhecimen- 
to de leis,de tal modo,que com efta ignorância , 8c error anda- 
va a concupifcencia cega , (ênhora da razacV, ufando de forças 
corpora is,como de gente armada para fatisfaçaõ de íèus appe- 
tites.No qual tempo fe levantou hum homem fabedor,&ven- 
do quanta efficacia,& proveito para muitas couías jazia e/con- 
dida no animo dos homés,íè fe pudeíTe trazer a luz,& acreícen- 
tar com doctrina ; andando hus efpalhados pelos campos , ja- 
zendo outros metidos em covas íylveftres , as ajuntou em hum 
lugar, 8c lhe eníinou o caminho,queaviaõ de feguir, a cerca do 
que tocava ao prol commum de todos. Os quais pofto que no 
principio fofTem mãos de ajuntar, toda via pouco,& pouco , de 
feros , 8c falvaticos que eraõ, os fez domeftiéos,& racionais. 

31 A efte prepofito,cuido que diz a Efcritura,que a Sapi- 
ência edificou para íl húa caía, & cortou fete colunas, querendo 
dizer( naõfallo agora nos lentidos eípirituais ) quenaõ buícou 
quem lha edificaíie,& eícufou ajudas, 8c meftres , porque nella 
avia tudo, o que naõ tem a ignorância, que com todasàs ache- 
gas poftas em c afa a naõ levantaria de íobrado . Por efte home 
íabedor podemos entender o Príncipe, o qual poftbque tenha 

fua 



5 2 1 Noticias de Portugal. 

lua Republica unida cõ leis, & dereito Divino, fempre íe achaõ 
cm todo o tempo,& em todo o eftado homês( como puucoha 
diííe)defobedientes a toda a razaõ , que como aquellcs primei- 
ros andaõ fora de toda a leij naõ guardando a ordem matrimo- 
nial,fem religião, & temor de Deos , & nos manjares como be- 
ftas obedientes à Gulla, 8c ao ventre, vivendo fora da co m mu m 
habitação dos outros , matando , 8c falteando pelos defpovoa- 
dos , os quais o Príncipe por força,& por arte ha de levar a do- 
meftica doclirina da razaõ, 8c fazer com que o lobo ande em hQ 
jrnefçno pafto,com o cordeiro. 

3 z Aqui poderia eu dizer(prudêtiílima Prince(a) que nel- 
la fe pôde moftrar efte grande homem fabedor , que meteo os 
outros no caminho da verdade . Que dias ha , que efte voíío 
povo derramados pelos defertos deshabitados da razaõ, efpera 
por VoíTa Alteza. Grandes caminhos íe me a briaõ squi de íeu 
louvor, mas diraõ, que naÕ guardo o decoro, que devo à pátria 
cm publicar feus defeitos por fer may,que me gerou. OgrandiP 
íima prudência delRey nolTo Senhor entregar nefte tempo hu 
povo a quem o avia de reftítuir a eftado de maior quietação, 
&repoufo . Grandiffima clemência de VoíTa Afceza, aceitar a 
governança delle pelo falvar . Certamente que naõ íei , o que 
mah!ouve,íe a prudência de hum,íe a clemécia do outro,igual 
he a divida^igual o louvor,igual a obrigação. 

33 Jviuiro devemos a elRey , que nos deu a tam alta Prin- 
ceía,muito devemos a VoíTa Alteza , que nos aceitou por feus. 
O fingular , 8c nunqua ouvido género de liberalidade , tam di- 
verío,& tam igual à delRey noflío Senhor em dar, & a de VoíTa 
Alteza em aceitar . Naõ fei o que diga por efte tam bom dia 
como nos amanheceo, &fediíTer alguacoufa,que poíTo dizer, 
íenaÕ,o que diz o Poeta: Iam reâit , &*<~uirgo redevnt fatumia rcoria* 
E elleafeu propofito,& eu ao meu. Quem fera tam defeonhe- 

< eido, que íeja ingrato a efta mercê? Quem tam ignorante, que 
a naõ conheça ? Quem t3m cego , que a naõ veja ? Quem ram 

iraudo,que a naõ publique? Quem tam íofrido, que a cale? Que 
tam rufticò,queanaõ eftimerE naõ entenda o tempo , em que 

: clRey riosbuícou remédio denoíTas infirmidades, com que te- 

J mosaíàude certa, 8c a prolperidade fegura . Nem podia íâhir 

tal 



«■ 



/ 



Diftarfo oitacvo. 3 2 j 

tal cónfelho,fenaõ de Príncipe nm dado às letras,& tam favo- 
recedor delias. Nas cjuais como naõ tenha pequena parte, aíTi 
buícou quem a tiveffe mui grande,que as coufas naõ podem fer 
bem julgadas,fenaõ por aquelles,que tem verdadeiro conheci- 
mento delias. 

34 Vio bem Sua Alteza,que a jurifdiçaõ das letras, íê eíle- 
dia tanto pela Vnivei fidade das couías,que nenhua íè podia fa- 
zer fem eilas,que eiTes C^fares^ííes Scipioés^ Anibaes, & to- 
dos os mais, que nas armas floreceraõ, entre ellas íenaõ defpre- 
zavaÕ dos livros . Como de Alexandre fe lê , que achando no 
deípojo de Dário húa caixa muito ricjua de maravilhofo artifi- 
cio,que fervia dos cheiros,& perfumes delRey, mandou (con- 
tra opiniaÕ de algú>)que para outros uzos a deputavaõ,cjue lha 
guarduííem para a Illiada de Homero. Era tem íofrego das le- 
íras,que por Ariftoteles publicar hãslivros.quecompoz da Me- 
taphyíica, o reprehendeo diíío, querendo refèrvar para fi o uzo 
delles.fomente como diz Séneca, em eftudar Geometria errou, 
porque avia de faber quam pequena era a terra,da qual a ma«or 
parte tinha oceupada , com que ficava falío o nome de que íè 
intitulava de Grande Alexandre. 

35 E naõ lemos , que a Mathematica de Archimedes de- 
fendeo por muitos dias C,aragoça aos Romanos ? E que as ar- 
tes liberais de Gallo SuIpicio,como diz Valério Maximo,fbraõ 
cauía da grande viótoria , que Lúcio Paulo Capitão Romano 
ouve contra os Perfas, porque efpantado o exercito do ecclipíe 
daLua tinhaõ perdida a confiança da viâ;oria,oqual elle lhere- 
ílituio , provando pela ordem dos Ceos, que o desfallecimento 
deite Planeta era natural, & naõ prodigioíò. 

36 O Emperador António naõ foi bom Philofbpho, & bõ 
Capitaõ.Carlos Magno naõ trazia nos exércitos ao grande Al- 
cuino,cujas obras faõ hoje ornaméto da Igreja. A elRey Dom 
AfToníb de Caftella naõ lhe deraõ fuás tavoas nome de Sábio, 
Napoles-defte meímo nome, voííò tio filho delRey Dom Fer- 
nando de Aragaõ voíTo quarto avô tam excellente Cavalleiro, 
& finqular Capitão, de cujos louvores eftaõ cheas as Chroni- 
cas Napolitanas; que mais poíTo dizer em louvor das letras, Te- 
naõ que trazia por diviíà hum livro aberto : porque dizia Ioaõ 

de 



324 Noticias de Portugal. 

de IíTera, homem de mui grande juizo, que fe elle naõ fora R cy 
fora mui grande Philofopho. O qual lendo hum proemio , do 
que traduzioemlingoaCaítelhana , os livros de Santo Agofti- 
cho Wt Cmute 59«,achou hua fentença, que dizia que o Prínci- 
pe idiota,era hum bruto animal coroado. As quais palavras lhe 
parecerão tam bem,que nos negocios,na guerra,em fuás prizo- 
es,& adverfidades , nunqua deixou de ler, ouvir , argumentar, 
praticar em letras,& no Campo em feus exércitos trazia con- 
figo hum Meftre Martinho, com quem communicava leu eítu- 
do.Traduzio as Epiftolas de Séneca em Efpanhol,teve grande 
conhecimento das hiftorias, grande noticia dos Poetas, & Ora- 
dores,foube muitas concluíbés de Philoíophia natural, & tanto 
cftudou na Sagrada Efcritura , que fe louvava ter lido o Tefta* 
mento velho, & novo,quatorze vczes,com fuás grozas, & corri- 
mentos; refpondia , & praticava como Theologo confumado 
cm matérias theologais , árduas , & difficultofas, como fap da 
preíènça de Deos; de ítlero drbitrio^de Trinitate^e Inatmatione Veríi 
2)ei t Je SacrdmeHto EuchariftU.lE* dizia, que naõ avia melhores ho- 
mês deconfelho,que os mortos,que careciaõ de ódio, favor, ou 
temor, refpeitos, a que os vivos pela maior parte faõ fugeitos. 
Dizem delle,que nos facos dos lugares.nenhum defpojo lhe era 
tam agradável como o dos livros, os quais trazia íèmpre, como 
ja diíTe, nos caminhos , 5c exércitos , principalmente os Com- 
mentarios de Caefar,& Tito Livio, a que era affeiçoado . E na 
converíaçaõ domeftica fe ferviode Bertholameu Fafcio,fingu- 
lar hríloriographo,& orador,de GeorgioTrapezuncio,deLou- 
renço de Valia, do£tiflimos,hum na lingoa Grega, ontro na La- 
tina,de Ioaõ Auri/pa Siciliano,que efereveo muitas Epiftolas,& 
livros morais , & de António Panormitano Bolones , que ef- 
ereveo hum livro dos ditos, & fentenças domefmo Rey Dom 
Aflònlòjtodos Barões doemos, que no feu tempo ftoreceraõ. 

37 Quis fallar muito de tam fingular Rey, porque ília vi- 
da^ coftumes , parece que confirmaoo noíTo provérbio , que 
diz: As letras naõ deípontaraõ a lança. E certo naõ lei que fains 
mais amolados polTaõ íèr, que armas guiadas por confelho de 
prudenteCapitaõVEque muitos tragaõ em praticar^yW^»* 
?/i»/0 ; graça que hum homem dilTe em húa afronta a outro na 

vala 



DifcttrfoGít&ruo. pj 

villa de Alcácer Ceguer^faõ coufas favorecidas daquelles, 
que por naõ faberem letras, querem authorizar cííe defeito 
com ditos alheos,dignos de muita reprehençaõ, porque certo 
naõ ha ahi homês mais prejudiciais ás couías des q os q care- 
cem delias, que como efta privação íeja caufa de íeu abatimen- 
to,queremíefuftentar com graças, quando lhefalkeem boas 
razoes. 

38 Efta verdade confirmarão os Infantes Dom Pedro, Sc 
Dom Henrique voíTos tios , cujas armas tanto honrarão eftes 
Reinos,que inda hoje os livros, que hum compoz , authori- 
zaõ a livraria delRey noíío Senhor , & o mundo , que o outro 
com fua Mathematica começou a defcobrir q clRey voíío 
pay, com muito acrefeentamento conquiftou , eílá cheo de 
íèus louvores . E nifto cuido eu que o Infante Dom Pedro quis 
íignificar quam neceíTarias eraõnos Príncipes , a Philoíophia, 
Sc as armas, pois Tullio. deOfhcijs, Sc Vigecie , que de- 
itas duas coufas eícreveraõ , traduzio em lingoa Porta-» 
gaefa. 

39 Tornando ao propoíito bem claro moftra Voífa Al- 
teza nos Iivros,que tem por ornamento de íua Gafa, que pro* 
cededofanguedeftetam gloriofo Rey de Nápoles, que tam 
boa memoria de fi deixou ao mundo, & a íeus defeendentes, 
exemplo com que aprendeílem a fer Philoíòphos na paz,& Ca- 
valleiros na guerra , pois que os livros mais alimpaõ as armas * 
doqueasdanaõ,&que VofTa Alteza as naõ exercite por lhe 
naõ íèrdado,tem logo outras eípirituais de tanta força, que 
íem ella as matérias perderiaõ a íua . Quà o animo onde 
fe acha prudência, fortaleza, juítiça, Sc temperança com 
a verdadeira fé do que íe deve crer, que couías começara^ 
que naõ acabe f Ou como acabará a memoria das que co- 
meçar ? Obedece o ferro à induftria , as armas ao cotaíè- 
lho, agente ao Capitão, Sr como diz Saluftio muito tempo 
durouentre os homês efta perfia , em que confiftia mais a 
virtude militar, fe nas forças corporais, íe nas do animo, Sc 
pofto que huas tenhaõ neceíTidade das outras , todavia 
peio tempo , Sc experiência fe achou ; que na guerra / O 
faber valia mais. E certo que muitas vezes, lendo os notáveis 

E e feitos 



1 16 Noticias de Portugal. 

feitos das Amafbnas, que em armas fizeraõ , me faziaõ muita 
duvida, parecendome que em mulheres, que a natureza naò 
criou para o tal exercício , fe naõ podia achar tanta pcrfeiçaõ,a 
qual me tirou Valaíca , de que conta o Papa Pio fegundo , que 
com exércitos de mulheres íenhoreou fete annos o Reino de 
Boémia, vencendo muitas batalhas campais , & fazendo feitos 
em armas de mui esforçados cavalleiros.E Ioanna, de que con- 
ta Gaguino,que vulgarmente chamamos a Poncella, cujoef- 
forço ,& prudência militar reítituioo Reino de França a el- 
Rey Carlos feptimo deite nome, pofto que naõ acabaíle con- 
forme a íèus merecimentos , as quais ncs tirarão a duvi- 
da de outros mais alongados de noíla memoria , como Sy- 
miramis , que governou tantas Províncias, Dido , que edi- 
ficou húa tam nobre cidade , & Thomiris , que matou a elRey 
Cyro. 

40 AfTi que com eftes , & outros exemplos de mulheres, 
que nas armas floreceraõ,&adminiftraraõ Reinos, naõ duvido 
eu(illuftriíEma Princefa) que trazendo o tempo tais neceílida- 
des,que foíle neceflaria íua prudência, & confelho, para gover- 
nar gente armada , que fe acharia nella tam perfeito , como fè 
achou na Rainha Dona Ifabel voífa vifavò,cujo favor,& esfor- 
ço ajudou a lançar fora os Mouros de Efpanha,que de íetecen* 
tos annos,& mais a íenhorearaõ por força de armas, a qual foi 
vifta nos exércitos, & perigos da guerra: mas como o tempo 
naõ ordene tal couíã , VoíTa Alteza, o gaita em outras , de que 
naõ merece menos louvor do que citas tiveraõ , que pouco ha 
nomeei,as quais pofto que vencerão homés algQas delias , naõ 
vencerão a fi mefmas , íenaõ que o íèu tanto he maior , que a 
viófcoria dos imigos decafa,he mais louvada, que a dos de 
fora • Porque fegundo diz Marco Tullio , como poderá fer íe- 
©hor aquelle , que o naõ he de fuás paxoés , refree primeiro 
os vicios , deípreze as deleitações , reprima , & detenha a 
ira , vença a avareza , & lance de li as nódoas do ani- 
mo , 8c entaõ comece a íènhorear , depois que deixar de 
íervir. 

41 Dizia o grande Ageffilaõ , vendo que os Perfas lou- 
vavaõ,& fenhoreavaõ hum Rey da índia, que tinha gran- 
de 



Difturfo oita<vo. 3 27 

des theíòuros : porque íerà clle mais riquo , pois naõ he 
mais temperado ? Querendo dizer que as forças dos Príncipes 
naõ eftavaÕ nas pedras precioíàs , & Elefantes da índia, íènaõ 
em a temperança da vida, q he a verdadeira Philoíophia, &o 
verdadeiro fruito das letras, inventadas para aílentar os homes 
em hum honefto modo ,& boa ordem de viver. Mas como 
feus donos íè íèrvem delias para valer, & naõ para merecer, 
laõ como os vazos avinagrados do Poeta Horacio,que diz: 
e blifipHrum ejt vas omne mod infundis acrefcit. 

41 Ao qual propofito dizia o Philoíopho Fpitheto a 
hum homem de bom engenho , & mal inclinado, quede- 
zejava, & trabalhava por faber . O homem, olha íe he 
limpo o vazo em que tanta couía lances . E certamente, 
aííi como a ignorância dos Governadores idiotas he perju- 
dicial à Republica , aííi a malicia dos letrados he cauía de 
muitos males , principalmente a daquelles , que tem ofí- 
cio de enfinar bõs coftuir.es , que íe as obras naõ refpon- 
dem ás palavras , perdidas íaõ quantas lhe caem dos púlpi- 
tos abaixo . Por a obra íèr de tanta força , que mudo bra- 
da , & callando grita , com que comprehende eíias duas 
coufas , fazer , & dizer ; 8c a palavra íem obra he sô , 8c 
naõ tem virtude para dar raizes na terra , onde acertou ca- 
hir: contra eftes ,que efperdiçaõ a doctrina de Deos , fszendoo 
contrario do que dizem, 8c p; ègaõ,diz Paulo,que naõ efcaparaõ 
da íua juftiça,pois nas fentençasquedaõ contra os outros, con* 
denaõa íi mefmos. 

43 Como cheguei á altura defte conceito , 8c conhe- 
cimento , tudo o que deícubriforaõ louvores de VofTa Al- 
teza , porque em qualquer dos rumos, em que o tempo 
me pôs , em todos ouve vifta de fuás obras , tam juntas aos 
livros , que parece naõ íahir fora da margem do que nel- 
les lê : Quà fe o jejum tem merecimento diante de Deos, 
quem miíhor guarda efte preceito , & com mais louvor? 
Pois lendo criada na abaftança de todas as coufas f que, 
pertencem a feu eftado , fem o trabalho de as adquirir, 
por íèrvir a Deos , & merecer ante clle , fe põem em ne- 
ceííidade delias. Que notório he a todos com quanto trabalho 

Ee z fe 



3 1% Noticias de Portugal. 

íc refifte à criação , que padecem mais facilmente efia falia da 
mantença corporal os moradores da parte Meridion.sl , ene os 
doSctemtriam, porhús viverem em terra fria, & outros e;m 
quente,que obra diverfos erTeitos , mais o ruíHco , que o bem 
nafcido,pelo coftume, mais o velho, que o moço , pela demi- 
nuiçaõ de calor natural. AÍfi quer VoíTa Alteza , íòbejanddhe 
as coufas de fua própria vontade , exprimentar o careci mento 
dellas,por refpeito de virtude, certo he mui grande louvor , & 
merecimento,pois naõ tem neceflidade, a quer íèntir, forçando 
fua vontade por comprir a de Deos,defprezando tanta diver.fi- 
dade de iguarias,com tanto artificio comportas. Quem (era co 
tais exemplos mao Chriftaõ?E íe o for,que efeuza terá cõ Deos, 
eftando á conta com elle, que lhe ha de fer tomada tam cftrei- 
ta:podemos logo com muita razaõ dizer, que a liça 5 dos jejus, 
que Voffa Alteza lê da Rainha Hefter , de Hei ias , & S . foaõ 
Baptifta,&aobracom queosguarda, tudojuntoanda enqua- 
dernado. 

44. Efe viermos ao facrificio da oração tam louvado na 
Sagrada Eícritura^uul religioíbcom mais cuidado, diligencia, 
& continuação reza fuás horas por obrigação, que Voíia Alte- 
za fem algúa : naõ lhe faltando dia em que naõ ouça os ofticios 
Divinos ,confeííandoíe tantas vezes no anno , & tantas vezes 
recebendo oSantiíTimo Sacramento do Altar , A com muni- 
caçaÕ dos quais , como fabe que daõ graça , aííi trabalha pela 
merecer com elles . Certamente, que coníiderando muitas 
vezes a humildade de hum Príncipe bom ChriílaÕ , fe me 
reprefenta , a ventagem, quenofla Fé tem as ceitas, & fal- 
ias religiões, que foraõ , & faõ ao prefente : jrorque de quantos 
Príncipes, &Emperadoresnellas ouve , naõ fe lê a ver algum , a 
q a obrigação de fua religião fizeífe tam humilde ,& tam fo- 
geito,como faõ os noífos . Os quais vendofe de húa parte ro- 
deados de tantos criados, & fervidores com tanto rèfcuáfdo, 
8c acatamento às fuás peffoas, que es olhos naõ empregaõ 
em outro objecto , fenaõ em o do Príncipe , para que em ace- 
nando, os feus ja executem, naõ fomente o que dizem, 
mas o que adivinhaõ , que querem . E da outra po- 
fto de joelhos diante de hum pobre religiofo feu Coníel- 

íor, 



Difcn rfo oit&cvo\ 3 19 

foPj8c dê tal maneira , poíto que naõ fomente lhe diz as culpas, . 
êt pcccados, que commeteo , mas o peníàmento que teve > ou 
tem de as cometer, £>edindo!he fõbre tudo penitencia , & çafti- 
go delias; tam obediente , & aparelhado a comprir quanto íaõ 
íeus vaílallos a lhe obedecer , fomente nifto íaõ differentes, 
que elle o faz de coraçaõ,& os feus às vezes de má vontade,fin- 
gindoa boa por lhe ganharem a fua . Coufa he certo de muita 
admiração, vontade de tantas obedecida, obedecer a hua sò,íu- 
geitarfe a hum homem, aquelle a que tantos faõ fugeitos,redu- 
zirfe ahumsòlugarhuajurifdiçaõtameftendida, por Reinos, 
& Províncias. 

45 Pois notório he a todos , como ja diííe , quanto Voíía 
Alteza frequenta efte ac~to de humildade , defeendo tantas ve- 
zes de leu eftrado aos pês de feuConfeíTor,eíquecida donde 
vem , muito lembrada para oode vai . Paííandoíua vida cora 
tanta temperança , que íe algum exercício fóra deites aceita, 
naõhe íenaÕ fundado cm louvor de Deos,ou donde poffaõ 
nafcer occafioes de o íèrviv.Porque deixada a caça , a que mui-* 
tas Princefas em outros Reinos íaõ inclinadas,VorTa Alteza cõ- 
prehende os altos myfteiios do Solda juftiça , como aquella- 
águia, de mais fubida altenaria,q penetrou os raios do verdadei- 
ro lume, onde nenhúa plumagem de aves chega, por andar 
lempre efta garça tam eftrellada , quea naÕ filhaõ , fenaõ 
os que tem Tua converfaçaõ nos Ceos . Em lugar de caês, 
que defaíTocegaõ as alimárias , tirandoas de feus agaíàiha- 
dos , penetra com aífagacidade , & ligeireza de íeu eipiri- 
to , os cavados das pedras , defencovando aquella fermo- 
fa pomba de Salamaõ , que he a graça do Spirito Santo, 
& os fentidos da Efcrirura , verdadeiro mantimento da al- 
ma, & quando o tempo lhe nao dá lugar a eíta caça , porque 
em hum ha de íèmear , & em outro ha de colher gaita eftesin- 
teivallos no exercício da mufica , feguindoo Real Prophe- 
ta David , que com lua viola efpantava o efpirito mao, 
que atromentava elRey Saul. Levando no diícurlò de fua 
vida tal ordem , 8c proporção com que o demónio, inimi- 
go delia foge para onde naõ ha íènaõ deíbrdes, & horrores per- 
pétuos. E tanto fruitotem Yofla Alteza colhida das letras,que 

Ee j achas* 



3 jo Noticias de Portugal. 

achando ncllas quam eípiritual coufa he a muiic *, & quanto le- 
vanta os corações para o Ceo , nella fe exercita , como fizeraõ 
mui graves Philofophos . Que vendo aordemdosCtosdiíTcv 
raõ,que em luas continuas voltas com que rodeaõo mundo,fa- 
zem húa mui fuave mufica , de que os qoflos ícntidos íaõ inca- 
pazcs,por exceder fua potencia , atti ibuind.o a quada hum íuas 
vozes agudas,& graves. 

4o E os Platónicos difleraõ^que noíTa alma era compofta 
de proporções de mufica,por ondeie deleitava tanto com cila. 
E aííi parece que fentindo os Anjos a conveniência, que noííj 
alma tem com a ordem da mu(ica,com ella nos deraõ as novas 
do nacimento do filhodeDeos , de que o mundo eílava tam 
dezejofojCantando com fuave melodia . Nem fem cauía o Spi- 
rito Santo ordenou,que cantando fe celebraífem os officios Di- 
vinos para noífa alma os poder melhor comprehender . Orde- 
nando aííi meímo eftro mentos» cuja armonia inflamane noíTos 
íèatidos,como íaõ orgaõs , que ainda na oídem de fuás frautas 
imitaõa dos Anjos , que no Ceo impirio tem fuás precedências 
ordenadas por Deos. A differença das quais concer ta cõaquella 
ordenada compofiçaõ de Ifaias,quc fem ceifar çantaõ diante da 
Divina Mageftade de Deos. zfc 

47 E por a mufica fer coufa tam divina como he,nunqua 
fe lê que a Igreja de Deos eftiveííe íèm ella, aííi no tempo da 
lei da Eícriptura paíTado^como no da graça preíènte.Tcítemu- 
nbaheaquella trombeta , que. no dar. da lei retumbava pelas 
faldras do monte Sinai, teftemunhas faõos tímpanos, &-pan- 
deirosdeMaria,irroãde Moyfes,com que tanto feftej ou o nau- 
frágio dos Egypcios, & vencimento dos ludeos , & aííi as trom- 
betas deHiericò , com a mufica dos quais os feus muros, como 
adromecidos, fe deixavaõ cair na terra. 

48 Pois vindo ao tabernáculo , & ao templo de Sala- 
maõ,íêmpre nellesouveeftromentos de mufica, com que os 
íacrificios fecelebravaõ,que David tanto encomendava nos fe- 
us Pfálmos,o qual levando a Arca do Tefbmento para Hier u- 
falem,de que no principio fiz mençaõ,diz a Eícriptura, q-ue cl- 
le,& o povo de líracl dançavaõ diante delia,, cantando # |g tan- 
gendojviolasjpfalteirosjtrombet as , & outros eftromentos, E o 

meí~ 



/ Difittrfò oita<VQ. $31 

rrefmoRey David , quando repartio os officios dos Levitas 
lemos, que ordenou quatro mil deíles, cujo orneio foHe. tanger 
orgaõs. 

49 Chea eftà a Efcritura de muitos exemplos, porque cla- 
ramente confta deleitai íe Deos coma muíica; a qual por expe- 
riência fe vê tem muito grande força nos corações dosho- 
níés; por ondeos que delia tiveraõ conhecimento,vençJo quan- 
to podia em todas as coufas a levarão à guerra, ordenando trõ- 
betas,& outros eftromentos ,com que os homês, •& ainda, qs ca- 
vallos cobraíTem esforço no rompimento das batalhas , & no 
andar,& proceder dos eíquadroês, guardaflem a ordem , que 
cila em fi tem. 

jo E os que no exercício da caça fe deleitaõ,tambem en~ 
tenderaõ,que tè os brutos animais chega a doçura , & conhe- 
cimento da mufica , como dizStrabo dos Alefantcs , & Plínio 
dos Cervos, que hús com cantigas,& tímpanos, & outros com 
frautas paftoris íeamançaõ. Coufa notória he,& mui íabida,a 
que conta Herodoto,& outros Authores,dos golfinhos,que Ía5 
tam dados a efta deleitação , que o grande mufico Ariaõ foi li? 
vre do naufrágio do mar por hum golfinho , que o falvou , co* 
nhecendo fer aquellecuja voz ouvira em o navio,quelcguia. 

j 1 E naõ íè acha gente por barbara que íeja, que naõ te* 
nha fua mufica ,mà,ou boa , fegundo o que quada hum delia aU 
cança,como vemos em toda aterra de Ethiopia,cujos naturais 
entre nòs faõ teftemunhas deita verdade,levandoordem,cV cõ- 
paffo em íèu tanger, ainda que feja bárbaro , & os míticos da 
campo,a que naõ faltaõ fuás gaitas. 2 fia uoy 

5 1 Que poflo dizer dos palTarinhos , cuja mejodià tantq 
deleita as orelhas dos homés,que os té encarcerados, & prezas 
para efte fim . Entre os quais fe bem olhamos a diSèrença das 
vozes,& armonia,que oreixinolfazcomíua garganta,que Plí- 
nio por outra tanta diverfidade de palavras explicou ;> achará? 
mos,que todas as propoçoés da mufica eftaõ encerradas no pa> 
po de hum tam pequeno animal, como he efte paíTarinfaa. 

53 Nem as agoasparece , que carecem defte fentido nos 
rumores,& roucos eítropidos,que por entre os focos, 8c pedras 
dos rios vaõ fazendo , que a noíTos fentidos cauíaõ díleitaçaõ, 

Ee 4 & 



3 j z Noticias de Portugal. 

& faudade.E aííi mefmo nos ventos temperados do Vem õ com 
os zunidos,que fazem, movendo as folhas das ar vores,tambei.n 
fe acha húa certa femelhança de muíica. Donde nafeeo ( a meu 
juizo)fíngirem os Poetas,queOrpheo levava configoos bornes, 
& brutos animaiSjCom as arvores,&rios,dando a ente derruam 
geral he a força da mufica, que em todas cilas couíastemju- 

riídiçaõ. ioi 

54 -E vindo aos corpos humanos,que còuíahe aíaud^íV, 
naõhua concordância dos quatro humores, da dilcordia dos 
quais,qfe fegue, fenaõ infirmidades,& mas diípohçoés? Nos re- 
pôs do annonaõhe claro , que quando as quatro qualidades 
primeiras guardaõ entre íi boa,& ordenada temperança, que íe 
faz húa cxcellente muíica tam neceffaria à vida dos homês.co- 
mo faõ boas novidades de mantimentos . E quando íaem fora 
daquella regra,para que foraõ criados,naõ fazem ellas Sol,quã- 
do íe dezejava chuva? & chuva, quando he neçeííario Sol , com 
que os ares corruptos caufaõ pèftes,& outras infirmidades , aííi 
na gente,como nos animais neceífarios. E acerca dos dotes 
corporais,& graça,que maishe,& fermofura do roíto,que bua 
conveniente proporção dos membros?Que contem modo, or- 
dem, & figura na ordem dos intervallos das partes , no modo, 
a quantidade delias, na figura,as cores, & os traços . Das quais 
couíàs entre íi bem ordenadas , refulta húa certa armonia í*pai> 
tada da materia,a que chamamos fermoíura. 

yy A qual,íègundo os Philofophos , denota a bondade das 
virtudes interiores dalma» E naõ fem caufa Salamaõ tanto lou- 
vou na Sacratifli ma Virgem NoíTa Senhora a fermofura cor- 
poral. Porque olhadas bem as obras de Deos \ alli as efpirituais, 
como as corporais , todas faõ cheas de fermofura „ que n fpon- 
dem ao Author,& Criador delias • o que David quis figni ficar, 
quando jdiífe que aconfiífaõ, 8c fermofura cftavaõ diante de 
Deos.E quanto eftas obras íe levantaõ da terra, &fe chega 6 a 
clle,tanto mais aparece efte Divino dom nellas . A quem naõ 
fará mui grave admiração a fermofura do Sol , de que noffa vi r 
ftahe incapaz, vendo como eftendefeusrayospelare iondeza 
do mundo , fazendo tam fermoíã variação de ervas , flores , & 
íòmbras,com quea terra eftâ tam graciofa,& ufana noVei aõ, 

*. Quem 



Diftttrfo oitft^vô. } 3 j 

56 Quem íenaõ eípantaiâ dojefplandor dourado das 
e{trellas,dadaridadedaLua , & de coda a pintura do Ceof E 
oelcitarlè Deos com a fermoíura claramente fe vê no ornamê- 
to,aííi do tabernaculOjComodo templo, cjue de tantas pinturas, 
& riquezas de ouro, & prata, mandou emnobrecer . Donde 
vem,que o homem, por ler criado à imagem, & íemclhança de 
Dcos,naturalmente avorece as couías feas. Eira natural inclina- 
ção fe vê melhor nos mininos , em cjue inda o uzo dà razaõ he 
fraco , a cerca dos cocos , & medos, com que os acalentaõ íuas 
amas,que naÕíàõ outra coufa, fenaõ hum qualquer vulto íem 
ordem , & proporção , o qual medo naõ tem dos que lhe mo- 
ítraõ bem feitos, 8c proporcionados , 8c por efta razaõ fe defen- 
deo em o Teftamento velho , que ainda fe guarda em o novo, 
queoshomês manchados cm o rcíio de algua deformidade 
notavel,naõpudefTem uzar de ofício de Sacerdotes. 

57 E naõ he pouco de eíiimar ( esclarecida Princeía ) efte 
dom, 8c graça natural, q noíío Senhor ouve por berndetam 
particularmente lhe conctder,& de que tanto a quis dotar, po- 
fio que VoíTa Alteza delia naõ faça conta . Poi que como aci- 
ma diííe, os finais de fora pela maior parte arguem a bondade 
do animo, de que Ariftoteles , 8c Galeno fizerao feus pronoíli- 
cos . O meímo refpeito teve o Spirito Santo nas viftiduras dos 
Sacerdotes, cuja virtude , como avia de fer efpelho para os ou- 
tros, aíli trouxeíTem habito conforme ao que dellesle preíúmi- 
fe,como o rochete, q ílgnifica a inocência dos Bifpos , a Mitra 
diviía em duas partes, a íciencia dos dous Teftamentos , 8c o 
anel a cruz,a coroa,& aílí as outras iníígnias (por me naõ deter 
nellas)todas tem fuasíígniíícaçoês, denotadas por eftes orna- 
mentos exteriores. 

58 A mefma razaõ eníínou aos Pintores fazerem os efpiri- 
tos mãos tam feos , dando a entender por feu rofto fuás obras, 
de que entre nos naíceo hum provérbio , que diz; Guardevos 
Deos do homem mal aflinalado. Também parece que as leis a 
ifto tiveraõ refpeito , quando ordenarão maiores penas nas fe- 
ridas do roftojque nas de qualquer outra p3rte do corpo , car- 
regando mais a maõnas diformidadeç dtlle , por ficar danada 
aquella parte com que os homês aprazem , ou deíàprazem aos 

©lhos 



j!4 Noticias de Portugal. 

olhos dos outros; 

39 E deícédo aos particulares effeitos da fermoíura acha- 
remos tantos exeplos a cerca dos proveitos , q delia reíàltarao, 
qjiaõ baftáõ palavras'para os*cõprehender.Como dos íudeus a 
fermofa Iudic,a qual com nenhuas outras armas livrou fua pá- 
tria do cruel cutello de Holofernes/enaõ cõ a q íbe deu a natu-' 
reza,& o que grandes efquadroês de gente fazer naõ puderaõ, 
a graça de húa mulher acabou. 

6o A Rainha Efter íendo de baixa linhagem 3 com fua fer- 
moíura naõ fubio ao eftado Real.'' Vencendo com elh a crueza 
delRey Artaxerces , com que íèrvio o Povo de íírael . Abigail 
naõ livrou com a fua feu marido Nabal da ira dellley David, 
merecendo depois o ajuntamento real, a que foi chamada por 
matrimonio f Betíabe pelos meímos degraos naõ íubio a efta 
cadeira ? Merecendo (èr may de Salamaõ , figura de ooíío P^e- 
demptor IESV Chrifto . Quem livrou \ taha dos fortes eíqua- 
droês,exercitos , & grandes crueldades de Aníbal , íenaÕ a fer- 
anofura de hua moça de Capua , desbaratando com íèu poder 
aquelle,que as forças de todo o povo Romano vencer naõ pu- 
deraõ. 

6\ Por eftas, & outras razoes era tam eílimado dos anti- 
gos efte dom , que lhe deu occafiaõ para fingir, qne Meduza 
tornava os homêsê pedras,por ter taõ alto grão de fermoíura, 
que tranfportava , &faziaalheosdeíí,osque aviaõ, &tinhaõ 
por mao agouro topar com coufa fea : como o Emperador 
Adriano,que diífe fer chegada fua fim, por encontrar hum Ne- 
gro.E naõ calarei a graça de Phylopomenes , fiogular Capitão 
Grego, que por ter pouca no rofto lhe mandou hua mulher fa- 
zer o fogo,parecendolhe,que em tam fraca peífoa , naõ podiaõ 
jazer tamanhos eípiritos.É algus Philofophos diatónicos diffe- 
raõ,que a fermoíura era dom de Deos, o que entre nós em pro- 
vérbio cõ mummente fe diz : A quem Deos quis bem no rofta 
lho vem. 

6z Muitas coufas pudera dizer a cerca defta , mas como 
VoíTa Alteza delia faça tam pouco fundamento, pelo fazer ma- 
ior das que tenho feito mençaõ,& de outras, a que meu enten- 
dimento naõ chega,por ferem de tal qualidade, que as naõ pô- 
de 



DifcHrfo oitçi<Võ+ U 5 

de entender,íenaõ quem as tem: naó faltarei mais delias . Mas 
porque a opinião que todos geralmente,affi ncfies Reinos, co- 
mo nos eftranhos de Vuíía Alteza tem concebido,& a efperan- 
ça,quedaõ os finais,que nellarefplandecem de grandes coufas, 
lhe naõ impida o contentamento delias , vendo que he mulher* 
naõ deixarei de dizer,quam hábil, & íufficiente íempre foi o en- 
genho das mulheres, para grandes imprezas, começadas com 
grande esforço,& ouíãdia , & acabadas com muita diicriçaõ* 
Porque como diz Hieronymo,as virtudes haõ de íer pezadas 
cm o animo,& naõ em a condição da natureza. 

63 E começando das letras , clara coufa he , que naõ fo- 
mente fe igualarão com os homés nefta faculdade , mas ainda 
lhe levarão muita ventagem,como as dez Sybillas , que os Do- 
lores da Igreja tanto celebrarão , por muitos annos , antes da 
encarnação de Deos , deixarem prophetizado eít^ myfterio, de 
cujos livros os Romanos fizeraõ tanto fundamento , que os ti- 
nhaõ encerrados , como grande thezouro para os cazos duvi- 
dofos,& perigos de fua Republica , o que naõ fizeraõ dos livros 
de Plataõ ) Ariftoteles 5 Xenophonte,& de outros authores, que 
íèm chaves andaõ pelas maõs dasgêtes,comocoufa ? que muito 
naõ relevava fua perda. Nefte numero podemos contar Caífan- 
dra Troyana ,cujas letras, & faber , le fora de íeus naturais co- 
nhecida, nunquafe perderão, nem deraõ tanto que efcrever a 
Homero. 

64 Se viermos á magica naõ nos faltarão Circes 5 &Mede- 
as,que fizeraõ mais milagres nefta íciencia,que Zoroaftes , que 
a inventou. 

6y Seàmedicina,acharemosBrella , &Therbiía, irmaas 
da Rainha IrbuíTa , Boémias, hua mui docta no conhecimento 
das hervas,& outra nafcienciada Aftrologia. 

66 SeàPhilofophiaTheano mulher de Pitágoras, 8c Da- 
ma fua fiIha,expofitoras das eícuras fentêças do pay, & mai ido> 
Sc Dyotimadiícipulade Socrates,Mantinea,& Philefia difcipu- 
las de Plataõ,Gemina, Amphiclias, 8c 1 hemiftes, tam louvada 
de Lactancio ) & as outras de Plotina. 

67 E deixando as gentias , quem deu mais augmento à 
Igreja de Deos com fuás letras, que a Santa Virgem Catharina? 

Ven- 



I j 4 Noticias de Portugal* 

Vencendo a doétrina de tantos Philofophos,ern aftos,& corr 
ferencias publicas, fopeando com feu raartyrio as forças do de- 
mónio, merecendo tam honrada íèpultura,fabricada por maõs 
angélicas, co mo he a que tem no monte Sinai,oíide Deos deu a 
lei eícrita a Moyfes , parece que por aquelle monte ler monte 
de feienria permitioNoíTo Senhor, que nelle fotíc enterrada 
efta Santa Virgem,que tanta parte teve em todas, efpecialmé- 
te naquella,que manou do dito lugar íàgradode Tua íepultura. 
Também podemos contar quatro filhas de Feiippe Evangeli- 
fta,quenas letras Divinas,& graça de prophefiafloreceraõ, cu- 
jo ípirito Deos naõ reprovou , pois fallou* pela boca de tantas 
mulheres,quantas ouve, que merecerão efte nome de Prophe- 
tas.como Maria irmaã de Moyfes, de quê ja fallei,Delbora, Ql- 
da, Anna prophctiza,S.Elifabeth, & outras. 

68 Na poefia podemos contar a Mefia, Andrógina, Hor- 
tenfia,Lucera, Valeria,Copiola,Sapho inventora deites verfos, 
Corina,Cornificia Romana, Erimna,Thelia,chamada Epigra- 
matifta, Sempronia , de que Saluftio conta tantas habilidades, 
Calphurnia nomeada entre os Iuriíconfultos. Quem formou a 
eloquente lingoados Grachos , íenaó Cornélia fua may , pela 
qual razaõ Quintiliano inftituio nos íèuspreceitos,que as amas 
dos moços criados para oradores,foííem difcretas,&: eloquen- 
tes, porque delias aprendemos a fallar.E Sócrates julgado pelo 
oráculo de Apollo, pelo maior faber dos mortais , fendo ja ve- 
lho , nos quais o faber he mais crecido , naõ aprendeo alguas 
coufas de Afpacia , & Apollo Theologo dePriícilla ? Ddbora 
mulher de Cabidod prudentiííima, como lemos nos liuros dos 
Iuizes , naõ governou hum tempo o povo de lírael? A qual por 
lhe Barael defobedecer, fendo eleita por Capitamdo exercito, 
naõ alcançou viótoria mortos, & vencidos os inimigos.^Naõ le- 
mos , que a Rainha Attalia governou entre os Iudeos o Reino 
por efpaço de íète annos.^E Simiramis(de quem ja fiz menção) 
depois da morte do marido naõ governou o Reino quarenta!* 
Edificando hua tam nobre cidade, & tam foberba , como foi 
Babilónia de Meíbpotania ? As Rainhas chamadas Cajndaces, 
poderofas, & prudentiflimas , naõ governarão muitos tempos 
léus Reinos , de que Ioíèpho conta tantas maravilhas , &fe faz 
■ men- 



?>i & 



« 



Vifcnrfo oita n/ú. j j j 

menção nosa&osdos Apoílolos ? A Rainha Sabl, At quem ja 
filiei, por tam longos caminhos naõ foi ouvir aíàbedoriade 
Salamaõ,a cjual ha de condenar as dozeTribus de Ifrael oo dm 
da ira do Senhor . Thecuitcs íapkntilíima fêmea nas pregun- 
tas , que propôs a elRey Da?id,naõ deu grande íinal de Uu 
íãberi 

69 Pois nas armas notória coufa he,quantosReinos,quan- 
tas Provincias,& Cidades cònquiftaraõ,& edificarão mulheres,, 
como as Amazonas, Thomiris,Dido, Valaíca, de cjue ja fallei: 
entreas quais contaremos Camilla da geração dosVYlfccs, 
& Arthemifia,que íènhoreouos Rodeos,tomandolhes allha,a 
qual ediflcou,aquclle tam celebrado fepolehro Mauíoleo,con- 
tado por hum dos íete milagres do mundo . E a Poncella de 
França,de queja fiz menção, em memoria da qual no Ducado 
Dorlians naõ eftâ hoje nefte dia levantada húa Eílatua , em a 
ponte do RioLoure. 

70 Das Sabinas couía vulgar he, que nao temendo as ar- 
mas dos pães, & mandos, fe meterão entre os golpes de íuas c£° 
padas,& os amançaraõ, fazendo perpetua paz , & liarça cttre 
híis,& outros. De queexcellentc Capitam , & fingular Philofo- 
pho/e podem contar maiores couías , das que conta Trebellio 
Polio da Rainha Zcnobia , de cujo triumpho tanto fe prezou o 
Emperador Aurelio,o qual dizia,que as vic1:orias,que Ouenato, 
ouvera dos Perfas^naõ fe podiaõ attribuir , fenaõ ao esforço , Sc 
prudência da dita Rainha íua mulher. Com temor da quaI,co- 
mo conta o mefmo author^os Arabios,Sárracenos, Arménios* 
nao ouzaraõ a tomar armas . E depois que íeu marido merreo 
governou o Império em nome de feus filhos, por muitos annes^ 
veftindo armaSjgovernandoexercitcs^andando a pè longos ca^ 
minhos por esforçar (lia gente, & foi tam decta na lingoa Gre- 
ga,que a fecapitufou a hiftoria Alexandrina, & Oiiental,& fez 
muitas obras , que Nicomato traduzio. 

71 E quanto afama,que homés ouve,quc a deixaííem éc 
fí móivque E jropa,Aíía,& Libia, de crps roo es eftas três par- 
tes do mundo tomarão os feus ; & as ftieneias fingirão os anti- 
gos^ ulheres,& naõ homés. Eque faber mais varic,& coração 
mais esforçado fè poderia achar em homés, cj o de Cleópatra 
iok F f Rainha 



j 3 8 Notícias de Pêrtugah 

RainhadoEgypto ? Que conftancia maior,que a de Pantheu, 
que conta Xenophonte,a que a primeira,& grande Monarquia 
delRey Cyro naÕ pode comover , que quebrantafTe a fè matri- 
monial a feu marido A bradaras/ Qual caftidade fe igualara cõ 
a de Lucrécia, que eftimou mais a dor de lhe fer forçoíamente 
roubada,que a morte/ou com a da Rainha Dido defamada por 
Virgilio?naõ faltarão a eftas animo paia fe macaré,& conftan- 
cia , fè,& caftidade,q ê poucos homés íe acha, Entre as quais fe 
pôde contar na mefma virtude Argia mulher de Policinis Te- 
bano^UJia de Pompeo, Porcia de Catam, Cornelio de Gracefo, 
de que ja faílei em outro género de virtudes, Melicina deSuIpi* 
cio,Hypficratia mulher delRey doPonto^ulpiciadeLentulo, 
& a Rainha LibuíTa, que em quanto tempo per fi só governou 
o Reino de Boemia,naô íê viraõ as guerras, & dannos, que de- 
pois de íua morte íefeguiraõ ♦ Ajuftiça,& bom regimento da 
qual foi caufa de lhe fazerem efeolher marido,o qual pofto qut 
foífe tam íingula^como aquelle Prefmilam , que do aradoella 
cícolheo para o Reino, todavia foi vencido das meímas mu- 
lheres em batalha . A qual Li bulia, como diz iEneas Syl- 
vio , era grande fabedora nas (ciências divinas , & huma- 
nas. ^ 

71 Que façanha mòr em homês esforçados pòJe íèrda 
queíez Claudia freira da Ordem Veftal , que fahindo dO| mo- 
rteiro por focorrer a feu pay , que os Tribunos queriaõ lançar 
do carro, em que hia triumphando , o tomou nos braços , & o 
fuftentou de tal modo.que como diz Valério Máximo , o pay 
cõ ajuda da filha chegou aoCapitolio com íeu triumpho,& ella 
ao mofteiro com fua vi&oria? Que exéplode piedade mpr,do 
q conta o mefmo author de duas moças,hua q dava de mamar 
a íeu pay eícondidamente no cárcere, onde o Carcereiro por 
lhe nsõ dar a morte , que lhe mandarão , movido de piedade 
detreminou de o matará fome. E de outra,, que pelo mef- 
riiòíwodo manteve feu pay Gymon,cuja pintura naquelle -tem- 
po era fermofacoufa de verem Roma hum homem muiço 
^téího pendurado- do colo Ac bua moça fua filli£ ., mamando 
em feus pei tos o leite , que gerop . Do qtial cárcere fe fez hum 
templo dedicado, à Piedade, por razaõ da que tiveraõ eftas 

moças 



DifCHVp) OÍtA<Vô. j j 9 

moças com feus pays , & por experiência fe vê, o que diz Ari- 
íroteies no? livros dos animais , terem as mulheres mais grãos 
Delta virtude, que os homes. 

71 O que Salamaõ confirma,dizendo onde naõ eftá mu- 
lher geme o enfermo . Porque aíli como os homês em fua in- 
fância faõ alimentados com o leite tam fuftaicial das mulhe- 
res ; cjue os enfermos reftaura , & criados com a diligencia de 
fuás maés , & afagos de fuás palavras , apropriadas aquella fra- 
qua idade das crianças,aíli o enfermo na fraqueza , 8c debilita- 
çaõ dos membros , tornado aos primeiros dias de fua criação, 
parece que a cura da mulher lhe dà mais defcanfo,como que* fc 
acha napatria,& natureza onde naíceo. 

74. Vindo as couías da Fè lemos,que por homes foi noííò 
Redemptor acuzado , por homês vendido , por homes crucifi- 
cado, por homês negado , 8c dos homês deferoparado , sò as 
mulheres tè a Cruz,tè o fepulchio o acompanharão, tornando 
a elle de noite,perdido o temor dos que o guardavaõ,com chei- 
ros orientais para ungirem fêu corpo , & a Magdalena , que 
neíta parte mais mereceo com fuás prefeveradas lagrimas, 
naõfoiaquepedioaos Apoftolos alvifaras da Reíurreiçaõ de 
Chriíro í Porfèr a primeira a queapareceo . E ainda a mulher 
de Pilatos,fèndo Gentia, trabalhava com íeu marido por lhe ef- 
eufar a morte. 

7$ Depois da qual , quem eftendeo mais fua Fè , aíS 
com doctrina , como com martyrios ? padecendo por ella 
tantos géneros de tromentos , quantos a crueldade dos tyra- 
nos inventou para lha fazer negar . Teftemunhas faõ os 
dentes de Santa Âpellonia , as tetas de Santa Águeda, os 
olhos de S-anta Luzia , 8c as agudas navalhas , que corta- 
rão a carne da bemave murada Virgem Catharina. Quan- 
tos membros efpadaçados, quantas cabeças cortadas, quan- 
tos corpos de mulheres afiados celebra quadaanno a faneca 
Madre Igreja y qual efquadraõ de homês tam unido em cha- 
ridade, tam armadode Fe, fe ajuntou debaixo de algum Ca- 
pitam ; como lemos de Onze mil Virges, quefeguindo a Cruz 
de Santa Vrfula, todas morrerão por aquelle , que nella por 
daspadeceo ?Couíà deefpanto he,& de mui grande admi- 

Ef % raçacS 



3 4 o Notícias de Portugal 

raçaS entre tantas mil mulheres naõ fe achar hua a que o te- 
mor dos tromentos alheos,prefentes a feus olhos, fizeííe mudar 
de íeu íanto propoíito,como fe vio em tam piqueno numero de 
quarenta Martyres , hum delles negar a Fè,& em outro muito 
menos hum vender feu Meftre , outro o defconhecer, & final- 
mente todos o defemparai erruíòméte as mulhere.%como ja dif- 
íè,que prefeveraraõ com elle tè a morte» 

j6 E ti veraõ fempre tanta conftancia na Fè , em que hua. 
vez creraõ,que nunqua fe lê , apoíhtar Helena , ou outra algua 
Rainha Chnft ã,como luliano Emperador,& outros, nem naí- 
cer delias algua heregia,como dos homés , de antre os quais fe 
levantarão, & fe levantaõ cada dia contra a verdadeira , 3c Ca- 
tholica Fè . A qual fallecendo em todos, na morte de Chrifto, 
fegundo affirmaõ os Theoíogos^m nenhu homem ficou plan- 
tada, fomente ema Sacratiffima Virgem Noffa Senhora rema- 
te de todo o louvor das mulheres.Poisque Peoseterno,immé- 
fo,omnipotente,decuja grandeza o mundo he incapaz , nenhú 
lugar lhe foi tam aceito quando a elle veio, como o ventre vir- 
ginal defta Virgem Sacratiffima. 

77 Alevantem logo os fentidos todas as mulheres , con- 
cebaõ em fi húa humilde foberba,húa virtuoía prefumpçaõ, 8c 
gloria de fua natureza , que Deos fez digna , & merecedora de 
tanta honra , quanta nunqua homem puro teve ncfte mundo, 
nem terá no outro. Certamente,quehecoufadetal maravilha, 
qual ella foi , ver aquelle tam dezejado do mundo , tam denun- 
ciado dos Prophetas , tam eíperadodas gentes , tam venerado 
dos Anjos, tam tímido dos demónios , & Senhor univerfal 
das naturezas angélica , & humana , chamar a húa mulher 
rnay , & ella filho ao verdadeiro Deos , que a fez , Sc naõ 
fem cauíaa Igreja em fuás orações, rogando pelas mulheres, 
á\z:lntercedtte pn> devoto femineo fexu. Attribuindolhe e fie epíte- 
to de devaçaõ,& amor de Deos , como mui proprio,& natural 
íeu delias. 

78 E fe agora quizefTe contar as finezas , que em di verfos 
géneros de virtudes fizeraõ mulheres, como as Lacedemonias, 
Mileíías, 8c Thebanas, faltarmehia o tempo , & naõ os feitos , 
que acabarão. Cheoseftaõos livros de todos elles. E depois 

clara 



Difcurfo oita*vo. 3 4 1 

claramente fe vê pelos exemplos , que mais me reprefentou a 
memoriando que os buiquei,quanto as mulheres floreceraÕem 
todoo género de letras , nas armas, adminiítraçaõ de Reinos, 
fundação de cidades , & obras miraculofas , na conftançia da 
Fé,padecimentodemartyriospor ella, nas virtudes da caftida- 
de,piedade,& mifericordia , & aííi em todas as outras, em que 
naõ fomente ie igualarão comos homés,mas em muitas os ex- 
cederão. 

79 E como nenhum puro homem pode fer comparado 
por mais grãos de graça que tiveííe , com a melhor delias me- 
recendo íua natureza louvor fobre todos os louvores angéli- 
cos^ humanos^que razaõaverà para íer mais eftimado o man- 
do dos homês , que o das mulheres.' Maiormenteo de VoíTa 
Alteza,a quem tantas, & tam boas partes , a clemência Divina 
deu^queem mui poucos homés,porconfumados que foflêm fe 
poderiaõ achar. 

80 Agora fe nos reprcíentarà( iiluftriflima Princefa ) a to- 
dos íèus vaíTaliosotempoda;Rainha Sabà, ou Candaces; em 
Voíía Alteza íè renovará a memoria das esforçadas , caftiifí- 
mas,& prudentiílimas Rainhas Arthemizia, & Dido, & de to<» 
das quantas ennobreceraõfeus nomes com fuás obras . Nella, 
sò veremos juntas as virtudes, que neftas andavaõ apartadas* 
A Rainha fanta, cujo preciofo Corpo tem Coimbra , & íua al- 
ma a gloria de Deos,morta,ferà viva em VoíTa Alteza , Sc para 
ifto íer afli , que menos pode fazer , como diííe no principio 
defta oração > filha de tal pay, Sc de tal may, irmaã de tais ir- 
mãos, neta de tais avôs , fobrinha de tais tios, todos Reys, 
Bainhas, Emperadores, Principes , Infantes , de que toda a 
Republica Chriftã he chea na jurifdiçaõ fecular , Sc pro* 
vcííe a Deos , que aííi o folTe na Ecclefiaftica , que naõ fal- 
leceria em voíTa linhagem (mui alta Princefa ) quem eften- 
deífe a Fè pelas partes fetemptrionais , como fizeraÕ pe- 
las orientais , meridionais , Sc do occidente , pois que del- 
ia nafceo o Sereoiííimo Príncipe, Sc Reverendiífimo Senhor 
Infante Dom Henrique voíTo irmaó . Cujos coftumes , fan- 
ta virtude , Sc puriffima limpeza de vida nos reprefèntaÕ 
em noíTos dias o grande Gregório, Bafilio , ou Augufti- 

Ff 3 aho, 



j 4 2 Notícias de Portugal. 

nho. Naõ aviria em noffos tempos Luteranos , obedeceria 
ao Summo Pontífice Boémia, reduzirfehia Grécia com todas 
luas mifturasde Iicobitas,Georgiannos, Arménios, & Abexins, 
& quantas diverfi Jades de heregias ha pelo mundo ceçaiiaõ. 
Tornando ao prepoííto,efi:e feu povo,& vaífalioSjpoíto que em 
quantidade íejaõ poucos , & naõenchaõ a medida dos mereci- 
mentos de VoíTa Alteza,pois que grandes Impérios, & Reinos, 
demandafua prudencia,& alto nacimento . Agora com ferem 
feus, fera maior feu nome,& os ferviços,que os mais delles fize- 
raõ a elRey voffopay de gloriofa memoria, & a elReyvoíío 
irmaõ noflo Senho r,aíli em fua cafa na paz, como fora delia na 
guerra,fe por ventura andavaõ apagados, daqui por diante fe- 
raõ conhecidos, louvados, & galardoados, aíli por elRey com 
íeu favorjComocom merces,& acreícentamentos , que eiles, & 
feus filhos efperaõ receber de VoíTa Alteza, cuja liberalidade, 
& humanidade , que aos eftranhos he grande , maior fe efpera 
que feja aos naturais, & vaííallos , os quais para ferem fuftenta- 
dos,& governados com paz, mantidos em juftiça , ficaõ ro- 
gando à Divina Clemência, naõ por todos eftes bes,mas 
por a vida de VoíTa Alteza, que tam certos os tem 
comella,a qual noíTo Senhor coníèrve, 
acreícente , profpere por 



• 






muitos annos 
Amen. 








A 




O A 




A 




DO Q.VE SEGONTEM 

NESTE LIVRO. 
DISCVRSO I. 

Os meios com que Portugal pode crefcer em grande 
numero de gente y para augmento da Milícia % <^4pri- 
cultura ,d> Navegação pag . i . 
Como agente naturalmente fe multiplica fira deHeUeu 
nofe iyai dmimmdo } do anno de $ o o .<* etfa parte, & 
as caufas por que. ^.z pag. y. 
Do remeâio para a falta da gente y Ja primeira cauj a , quefo as conqui* 

flas.§.$.pag>io. 
Como/è remediará afegund a caufa da falta da gente com a introduccao de 

alguas artes mecbamcas . § . 4 pag . i y . 
D o remédio da terceira caufada falta da gente , quefáÕas novas ColonUs 

no Reino. § . j .pag. z 1 . 
De outro remédio para a falta da gente popular ; que he o amparo dos or* 

Jao~s.§.6.pag.i6. 
Do remédio da primeira caufa da extinção da Nobreza pela união dos 

gados.§.7pdg.i9* 
7)o remédio da fegun da caufa da falta da Nohrezjt > com a diminuição da 
grandezji dos dotes. §. %.p4g>ii. 

DISCVRSO 11. 

- 

SOlre a ordem da Milícia, eme antigamente avia em Portugal \ffi das 
forças militares que boje tem^para fe confervar, & ficar fupertor a 
feus contrários ^.l.pag.-$+. 
%)o officio, que fatia elRey no exercito, &* dos ministros , queferviao dpef 

foa Real na guerra J& da dignidade do Conde flaUe. §.. 1 •/>*£. 3 7 '. 
Do Jfrtarichal. § .3 pag. 40. 
Do aferes morffi Capital) dos Cenetes.Ç.q.pag. 4 1 . 

Ff 4 Dos 



mor^ 



Tafoada 

Dos ^nnadeis^Coudàs mires. §. 5.^.4.3, 

2)o .Adaii mor , &* ^Almocadeis , ffi Geremomas comqueeraocreáÀQS. 

$.6.^.4.4. 
2) as gemesse que confiará o exercito. §.j.pag.+6. 
Das leis militares ,quefe guirdavão no exercito. § . 8 .pag.^%. 
D a guerra de Cofiel/a, $ .y.pag.jo. 
Da Milícia da Ordenança.^ .10. pag.tf. 
2^as armas. §.ii.pag.^ç. 

Dos fronteiros do Remo & ^Alcaides mores das fortalezas, §.il ,pag.6i,>. 
Da Milícia maritima& do officio de almirante. §. 1 3 .pag,66. 
Do Capitão mór y ffi General das Gales , § . 1 4. pag. § 8 . 
Das armadas ordinárias do Reino , O da grande brevidade , cem que em 

Lisbsafeaprefiara^poderofos focorros parafontda 'Barra . § . ij. 

pag*70. 
T?o modo , c om que fe ordenou andajfem armados os navios do comercio do 

Reino. §. 16.pag.75. 
Da wjlituicdo das Çrdes Militar escara defender o Ràno. §. 1 7-pag.yj. 

DISCVRSO III. 

DvÀ Nobreza das famílias de Tortugal, com a noticia defua anti- 
j guiàadejrigem dos ^Appelliàos ,&* tazJÕ dos % razoes das armas 
de quada bua. § . 1 .pag. 8 y . 
Da origem dos sippellidos dos 'Nobres de Tortugal § . X . pag , 8 8. 
Das origes das armas, que trazjm os fidalgos f& nobres de Tortugal. $.3. 

Da erigem dosLeoesj&<AguiasJ$f outros animais, quefe trazem nos efeu- 

dos. §. 4pag.cz. 
Da origem das Faxas pandas y % * arras , <£* Efquaques , quefe trazjm nos 

efcudos.S.<).pagc)i. 
Da origem das Çruzjsfloreteadasfiruzjs da Cruzada , & de S Jorge 3 que 

fe trazjm nos efcudos.%.6 pág.yj. 
Da origem das ^Afpas. $ . 7 ,pag. 9 8 . 
Da origem das L/t eiras , § . 8 /> *g , 9 9. 
Da origem das meias LuasA.p.pag. 100. 
Da origem das EflrelksA.iQ .pag. 10 1 . 

D* 



Do que fe contem ntífz li*vrê. 

Da erigem das ^Arrue lias. $ . 1 1 .ibidem. 

Da origem das flores de Lis. §. \ z. pag. IQ2. 

Dos Caftellos.h* i \pag. 1 03. 

C i/r as dos^ppellidos .§.14 .j?ag. 104 . 

Dependência. § . 1 j pag. 1 oó . 

^rmas tomadas por cafos particulares. § .16 pag.iop. 

O igemdos Timbres. ^17. pag. 113. 

Dos ofjiciais rfue os Reys de Portugal crearao para confer\>açao das infig- 
mas dos 'JNo&res^ da ca/a das armas de Cintra.^. \ %p A g* 1 i $• 

Do modo com quefavpoílos os nomes aos officiais da firmaria . § . ip 8 
pag. izz. 

2) os títulos ^ue antigamente fe da^ao aos Grandes do Reino ,& particular- 
mente dos 'Ricos bornes. § . 20 .pag. 1 1 5. 

2) os l/afjaílos .§.z\ .pag. 1 2. 8 . 

Z>os /rfançees. §.22 .pag 130 . 

2) a antiguidade dos 'Duques em Portugal , &do que djfé4 dignidade per* 
tence.§.i$.pag.i$z. 

2)os MarquefèsrfuebanoReinofip das ceremênias corri que erao creados 
antigamente. §.z^pag.i^ 6. 

2) a origem dos Condes^fua antiguidade^ 'preeminência em fortugdt d 
$-2 ;./"j>i}& 

D os Uifcondes \ & 2?aroes . § ! zó.pctg. 1 44. 
X'o titulo de Senhor, § , 27 440, \ + j. 

Da dignidade da Ca)><illerta.§.i&p*g* 147. 

DISCVRSO IV. 

SObre as mudas de Portugal. §. i.pag. I Jo„ 
Moedas Romanas. §.z.pag % i$i 
Moedas Concas. §.$pag. i^j. 
Leovigildo. §.+.ibidem. 
Hermenegildo.^. Sp ã Z l 5$* 
Recaredo. § . 6 pdg 1 j 7. 
Lima.S.j W.158. 
&vuerico.§. 8 ^<g; 1 j 9. 
Çmdímaro.S.ypag. 160. 

Sifihih 



Ttboada 

Si[ebuto$.\o.pdg.\6u 

S\>entild . § . 1 1 .(*g. \6l. 

Sifjenando. §. i x .pag. i <f 3. 

Fulgarh §. 1 l>p*g.i 64. 

Chindd [vindo .§.14. ibidem. 

Recefnnto. § . 1 jr/<j. 1 6 j . 

ZJvamba. §.i6.pag. 166. 

Ertigio.$.t7*pag.i6%. 

Egica , j . 1 8 .$sg . 1 69. 

f £*/'$<<* §.19 .fdff.170 . 

D <?>» Rodrigo. $. i o J»4g 171. 

Moedas ^Arabigas.§. 11 .p*g.\7l* 

Moei as dos Reys fortuguefes .$.22 pag. t?f. 

"O obras delRey Dom Sancho. §.13 .pag.vy6. 

Moedas delRey Dom ^jfonfo l]/> §* * 4 ibidem* 

Moedas delRey Dom Tear o. §. 1 j pag.177. 

Dos Çentis ^Barbudas firaves > e PiUrees i @r fartes delRey Dom Femdndoa 

§. z6.pag.17i. 
Moedas delRey Dom lodíl. §. 17.pdg.S0l 
Moedas delRey Dom Duarte. §. itipag.iSx. 
Moedas âelRey Dom ^Àffonfo //. §. iç.pdg. ioz2 
Moedas delRey Dom /oao //.§. ^o. pag. 1Í4.. 
Moedas delRey Dom Manoel. §.$1. pag i8y. 
Moedas de/Rey Dom Io ao //lj.$i .pag i %7* 
Moedas delRey Dom SebaftiaÕ.§ .tf.pag.1ft9. 
Moedas delRey D0MlOstM/(f.§.}4.j>dg.iço, 
Das Livras.§.tf.p4g. tpu 
3) as Lmas de dez^foldos.S.^6 pdg.195. 
De outrds Livrasse isaliaí àe^Livrinbas fomente. § $7f*g.l94» 
Dos Soldos. §. $.pag . 19 f. 
Dos Dinheiros .§.39 .pag. 196. 
Das Mealhas. §. 40.pag.100. 
De outras Moedas tjlrarfgeirasrfue corria! no Reino .S.^i.ihdem. 



discVr: 



- j 



Do quep coutem neite ti*vrê< 



DISCVRSO V, 




Oh re as ZJwcrfidddes de He/pankt, §. t .049. ioi. 

'principie dasfciencias na Lufuanid. §. % pai*. 10$. 
Catalogo dai Uwerfdades de Htfpanbd;Z//tfperfidddes àe f^rtugahU^ 

r uerfiàade de Coimbra^* 3 pag . 206. 
XJnhtrfàadt de Evora.§.^..pag 9 zoç, 
J/mverjíddde de $afamanca.§ j .ibidem* 
f/mverjiâade de Toledo. §.6pag>2io+ 

SiguencaA.y p<*g. zií. 
tSíkaU de Htnares.§.%.ibidcm* 

OfmaA.9*p*g<lil. 
K s4vtlU.§*iop.ig.ii$. 

J/alha Johd.§.ii ibidem 



■ 



■ 



Oropifil .§, I X pag. H4, 

OjffiêMS.iypapiítf t ; :il \ 
òe)?ilbd,§.i$.tíidem. 

&aeça.§.l6 ibidem. 

*•■>•/■ j 

Jtâuraa .§.17. ibidem* 



■ 



CcmPúficlld.§.i$Pd?.zi6 m 

QnhtteS.içjhdià*.' -* * ' 2 W / • • . J U 

Qwtdo. §.zo pag^zlj* 

bdragoca §-. izMatm. ^ 

LmàtS.x+jMm. gj } Q Jg 

Teremhd». $ . 1 4-/'<<g.i 1 J>. 

2?rfr celo'i<tA- XJ .lítdem. 

T*rra,on4.<i.h Mèm. V ; W„ W 

Cww.§. 2 7.W.iió.'" a: '-' ' ; "* V * • ww *' '1 

V*Un<4§,i%d l Jem. - lò 

0w«^.§.5O.*4 ? .ti^'^ t4 i wô ' ; A 

; J£/W 



Taborda 

EHel\4\%.\yhidim. 

DISCVRSO VI. 

SObre a propagação do Evangelho nas Trovincias de Guiné . Das cm* 
diçoes^com <jue os Summosfontifices der ao aos %eys defortugal 
o Senhorio de Gu tné. § . x pag .114. 
Das catifas poraue em tantos annosfe tem feito tampouco fruito na con)>er- 

fao dos povos de Guiné. § . 2 .pag.nj. 
2)e como [e podem remediar todas eflas três caufas^ acendo Seminários de* 

fias na coes . § . 3 .pag .230. 
Do proveito temporal \aue refultard a Coroa de Tortugal de fe fazerem efies 

Semmar ios . § . 4 .pag .233, 
Como fe poderão fazer os Seminários com pouco cu/lo. §. j .pag. 2 j6# 



S 



S 



DISCVRSO VII. 

Ohre as caufas dos muitos naufrágios ■ que fazem as nãos iá Carreira 
da índia ^ela grandeza delias .pag . 2 4, 1 . 

? 

DISCVRSO VIII. 

Ohri 4 TeregrkêÇiií.pdg. 1 48. 

ELOGIOS, 



MEmorial dealgus Cardeais Tortuguefes.pag.lji» 
SaÕ D ama f o Summo Pontífice. §. 1 .ibidem. 
O Cardeal Dom Tayo . §. z .pag. lói. 
O Cardeal Dom loao.%. x .wtdem. „ 

João 1 o. dito. 1 1 .Summo Toneifice. §*4..pag. 1 6i* 
O Cardeal Vom %tamnho.§. J*pag. 263. 
O Cardeal Wom lodi.yíffonfo de \AzambHJaà£Míem* 

1, OCw* 



■ 



Do fiíefi contem nelíe li<vro. 

O Cardeal T)õm Peara da Fonfeca.h.j ,pag.z6$. 

O Cardeal Dom .Antío M-irins de Chaves, § $.pdg. 166. 

2) om Lms Je ^AmaralS ppag.zó?. 

O C arde ai "Dom Çemes . § . 1 o.pag.i 69 . 

O [àrdèul Dom Çeorge da Cofia. §.i 1 .pag.zyo: 

O Cardeal Vom ^fíonfo, §.1 1 .pag. 1 74. 

O Cardeal Dom Miguel da Sylva. §. 1 ^ibidem. 

O laràeal Dom Henrique §. l&f*g ly7' 

Elogio é Doutor Fr. Bernardo de 'Brito i Religzofo de Cijler , ffi Chrônjfia 

mor de Portugal.pdv . z ? 8. 
Ehgio dó Enn pag , 2 89 . 

Elogio dè\R.ey Dom lo ao de Portugal o terceiro do nome pdg.iyi. 
Panegtnci à mui alta y &> efclarecida frincefa a Infanta Dona Maria nof- 
JaòenhwapAg joó. 







Gs 



Index 



INDE 






DOS AP P ELLID OS 

DE CVIAS ARMAS 
explicados Brazoés. 



SE 



A 




Boim §. j. 

Abreu. §.14, 

Abul.5.4. 

Achioli.$.4» 
Agomia.§.i4. 
Aguiar. $.14. 
Alarcão. §.6. 
Alardo.§,o. 
Albarnos.§.y. 
Albergaria. j.6. 
Albuquerque § iy. 

Alcaçova.$.iJ. 
Alcatorado.§.j. 

AlJana §. 12. 

Alíaro.§4. 

Alroa.$. y. 

Almada.§.y. 

Almeida. f.iil 

Almeida.§.$. 

Alpoem.§.p. 

Altro.§.y. 

Alvarenga. §. iy? 

Alvello.§ 10. 

AlvernasJ.14. 

Alvos.§.4. 

Amaral.^. 

Aragaõ.§.y. 

Aranha. $.14.' 



j 



Araújo.^.?. 
Arca.§j. 
Arco § if 
Arnao.§.4. 

AfturiasXiJ. 
Ataide,§.j. 
Atouguia.§.6". 
Atouguia.?. iz„ 
Avclir.Ç.y. 
Avelar.§.io. 
Aveo.§.4. 
Avinhai § j. 
Auítria.§.j. 
Ayala.§4. 
Azambuja. 5. Í4. 
Azambuja. §.y, 
Azeredo.§ 5% 
Azevedo §.4. 
Azevedo.$.7. 
Azinhal.^. 14. 



B 



Bacelar. %\. ±4- 
Badajoz. 14. 
Bairo.y. 
Bandeira.itf. 
Barbança. j. 
Barbato.j. 
Barbedo. 10. 
Barboíã.8. 



Barb 



DO< 



I N D 

Biubofa.y. 

Barbuda. j. 

Baibudo.iy, 

Barbudo.io. 

Bardes j. 

Barradas.8, 

Barrayola.^. 

Barreira, j. 

Barreto.ij. 

Barriga.13. 

Barros. 5. 

Barroíb.8. 

Barroío.4. 

Bayaõ.i^.. 

Beja 6. 

Belchira.y. 

Beíhngua.14; 

Bembo.^. 

Benan bia. 13. 

Beringes.f. 

B rmudcs.y. 

Be íTa 9 . 

Betancor.4. 

Bicudo. 14. 

Biícaya.14. 

Bivar. j. 

Biveiro.14. 

Borges. 12. 

Borreco.14. 

Botado. 4. 

Botelho, j. 

Botilher.14... 

Boto. 13. 

Bovadiiha.4. 

Biacaroonte.y. 

Brandão de Inglaterra.4. 

Brandão. 14, 



E X. 

Britto.4, 
Bulhões, tf, 
Búzio. j. 



c 



Cabras. §. 14. 
Cacena.p. 
Cáceres. 14. 
Caçoto.io. 
Calças. 7. 
Caldeira. 14I 
Calheiro.j. 
Cam.ió. 
Calvo, jr; 
Camello.y. 

Ca mel lo.. 10.' 
Camerâ.13. 
Caminha. j„ 
Camoês.i4# 
Campo. 4. 
Canto y. 
C^apata.^J 
Cardoíò.14. • 
Carneiro. 14. 
Carraíco,i4. 
Carregueiro.4. 
Carreiro.4. 
Carrilho. 72. 
Carvalhais. 14J 
Carvalhofa.13.' 
Carvalho. 14. 
Carvoeiro. 14. 
Caítanheda. 7. 
CafrelbrãncQ^. 
Caítilho.13. 
Caílro.ii. 

Ga 2 

o 



Ca 



I K D 



Cayado.4. 
Cazal iz. 
Celeme.ij. 
Cerqueira. 4, 
Cerveira.14. \ 
Cefar.i<5. 
Chacina, I4.J 
Chaaoca.4. 
Chaves.i^. 
Cio.j. 
Cirne.i4% 
Coelho. 1 4. 
Coelho.16. 
Cogomenho.x*? 
Coneítagio.4. 
Contreiras,^ 
Cordeiro,i4. 
Cordovil.14. 
Coronel. 4. 
Corrêa. 14,. 
Correi. 4. 
Correlhas.13. 
Corte Real. 16. 
Cofta. 14. 
Cota.14. 
Cetife;.i<?J 
Cotrim j. 
Covas.4. 
Couro 14. 
Coutinho. I0« 
Couto.13; 
Cunha.14* 
Cjaniga.;. 

D 

Dagraõ . § . +. 
Dante.j, 



E X, 

DJga^o.r^ 
Doutis.n. 
Drago.4- 
Dragos. 14. 
Durmaõ^j. 



E 



Efcrecio . 5 . f. 

Efroeialdes.4.. 

Eíparragofa.ij.' 

Efpindola.j. 

EiTa»i/. 

Evangelho. 14, 



E 



F-ifes. §.5'. 
Fagundes. 14. 
Faria. 13. 
Farinha. 14. 
Ferraz. 11. 
Ferreira, j. 
Feyo j. 
Feyo.y. 
Fialho. 14J 
Figueira, 14? 
Figueiredo.^' 
Felippe.17. 
Flores. 13. 
Fogaça. 14. 
Folguei r o. $v 

Fonfeca.14. 
Frade, d, 
Fragoíôj*. 
França.y. 
Frazaõ. 12* 



Fra. 



I N D E X. 



Frazaõ.y. 

Freyrede Andrade, j. 

Frijs. 13. 
Froes 9. 
Frotas. 4. 
Fufeiro. J. 



G 



Gago . § . 7* 
Galhardo^. 
Galvaó. 14. 
Gama. 5. 
Gama. 16. 

Gamboa. 4. — 

Gançofo.6\ 

Ganço.7. 

Gaíces.14. " 

Garro. 4. 

Gatac.ho.14. 

Gatto.i4. 

Gaviaõ.14. 

Giraldes.4. 

Giraô.i ?. 

Godinho.y. \ - 

Godim.j. 

Goes.p. 

Gomes. 107 

Gondiir^4. 

Gouvea.n. 

Gramaxo.4. 

Gravas .4. 

Groymil.4. 

Guantes. 14. 

Guedes. 12. 



/ 






■ - 

1 ■ 



Guimarães, fl 

Guivar.4. 






Haro . § • 4. 
Henriques, ij. 
Homem.p. 
Horta. 13, ... 



1 



Iacome. §* 4* 






i 






1 



Lacerda •$**$* 

Lagarto, 14. 

Lago. 1 4. 
Lançaõ. 14,* í . 
Lancaftre.i4« 

Landim. c« .< 

Lara.14. /<.';: 
Lazedo r ij t it 

Leal.4« > t 

Leaõ.6. 

Lei.y* =,» jid :V[ 

Leitaõ.ií, ,êj3 

Leitão, j. #í ,; 
Leite. i2« .4 :. T M 
Leme. 4. 
Lemos. ?« .j 
Lima.ijr. 

Limpo. 7. b- .-'- 
H b Loba' 



N D 



Lobato. 14^ 
Lobeira.i^, 
Lobia, 1 4. 
Lobo. r 4. 
Lobo.4. 
Loja. 6. 
Lordelo. p 
Loronha. u» 

Loureiro. 16. 
Loufada.14. 
Lucena. 14. 
Lúcio. 14. 

Luna.14* x 



M 



Macedo . $k xo» 
Machado. 14. 
Maciel. j£l . " . 

Madureira.- fjU-' 
Ma^alhaéj j.. $.~ 
Mdafaya.ij. 
Maldonad^a*; 

Manoel. ij. -c- : 
Maracote.y. .f 

Marinho, i2#^i- 

Maris.8. 

Martinis.n. 

Mafcarcnhis fl 
Matta.tr. Jte.c 
Matela.y. .' ccih 
Mattos,!^, •£] 
Maya.r4. ,h. 

Medeiros. 4. 
Meira 6. 
Meiíeles. 16. 



£ X. 

Mello.S. 
Mv Ho. ir. 
Menagem. ij 
Mendao.4. 
Mendoça ífi 
Melquita. i£. 
Mexia, p 
Miranda.7. 
Montarroyo 4.» 
Monteiro. 14, 
Morais. 14. 
Moreira.6". 
Morel^. 
Motta.n. 
Moura. 13. 
Moutinho.4. 1 
Mouzinho, j-, 

N 

Nabais. §. 14. 
Negreiros 5, 
Negro „p 
Netto.4. 
Nóbrega, j. 
Noronha. if. 
Novais. 14. 
Nugueira.j., 



o 



*í<Vi 



Oliveira .5.14. 

Omela.r. 

Oroíco. 7. 

Ortis.14, 

OlTem.4. 

Ourera.4. 

Ozorio.4. 



Pache* 



Index, 



p 



Pacheco. §. 14. 

Padiiha.í^. 

Paim 4. 

Palameguç.js 

Pnlha.ij-. 

Pampiona.y. 

Pao.6. 

Pataliro.j. 

Patò.j. 

Pavia. 5. 

Pavia 11. 

Peçanha.14» 

Pedro lo. 5. 

Pedioío.14. 

Pegado.j. 

Pega.y. 

Peixoto.! y. 

Peixoto, j. 

Pearia 4,. 

Perdigão II. 

Pereira. 6. 

Perdlrelío.io, 

perdlrdio. 14. 

PeíTòa.9. 

Pcítana.r, 

Pimentel \Ã. 

Pimentel. 8. 
Pinheiro 14. :•- 
Pinto. 9. 
P00.4. 
Porra. 14: 
Portocarreiro.j. 
Preto. j. 
Privado.y. 
Proença.4. Puge.14. 



i 



Q 



Quadro. §. j, 
Queirós. 9. 
Quintal, y. 



R 



Rangel. § . xx. 

Rapofo.y. 

Rebaldo.4.» 

Rebello.y. 

Refoyos.y. 

Rego.14. 

Regras. 4. 

Rei mondo. i£ 

Refende.13. 

Ribafria.14* 

Ribeira.4. 

Ribeiro. 14. 

Roboredo.13.^ 

Rocha.7» 

Rocha.8. 

Rodrigues, itl 

Rodrigues^ 

Rojaao. | 

Rolaõ.4* 

Rolim.13, 



- 



s 



H 






•■" 



í 



Sâ.S.f. 

Salazar, io. 1 
Saldanha.i 3; 
Salvago.4.. 
Sampayo.4: 

Sandc.j. 
Sandoval.j% 

Santarém. 4^ 

Hh z Sarai* 









Saraiva.8. 
Sardinha. 14. 
Sarmento. 14. 
Sarzildes.6\ 
Segurado. 14. 
Seixo. 14. 
Sequeira. 8. 

SerDÍche ( i4. 
Serpa. 14. 
Serpe. 4. 
Serrão, 4* 
* Sevcrim. J. 
Simões. 4. 
Sifmeiros. 6. 
Soares de Albergaria.^. 
Soares de Toledo. 12. 
Sobrinho. 13; 
Sodré.14. 
Soufa. ij, 
Souíà.9. 
Soutomaionp 
Sylva.14. 
Sylva. 1 f. 

Sylveira 5-. 

T 

Taborda. §.9. 
Tangerei*. 
Tavares. 10. 
{ Taveíra.u. 
Tavora.14. 

I eive. n- 
Teixeira.*. 

* Ternate.13. ; 
Ti mudo. i& 



• 



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I 

* ■ 

... 

I 



■ .. . 



Tinoco. 4. 
Toledo, j* 



. 



■ 
■- 



• 



ff» 



Torquemada,i4« 

Torres. 14. 

Tofcano.4. 

Tovar.5. 

Tourinho.14. 

Travaços.12. 

Trigueiros. 14. , 

v 

Valladares.^4. 

Valdês. 4. 

Valente.4. 

Valente. 9. 

Valles.16. 

Varejola.ii. 

Varella.y. 

Vargas. j. 

Vaíconcellos.14. 

Veiga. 6. 

Velho.8. 

Vellaííjues.y. 

Velles.13. 

Veiolb.13. 

Vieira. 8. 

Villalobos.4. 

Villanova.4. 

Villasboas.4, 

Vnha ,£. 

Vogado.4. 

Vtre.j. 

Xarcc de Valença.§. y. 






Zagallo.J.j», 
F I M.