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Full text of "Novo orbe serafico brasilico : ou Chronica dos frades Menores da provincia do Brasil"




4^|H 





mgm 






LIBRARY 

TOÍIVERSITY Oí' CALIFÓRNIA 
• DAVIS 



NOV:0 UPE SERÁFICO 



01 



CHCRO]NíTO!Á. 



1>0S 



FRAOES M[iR[S DAfROUHiCm- 00 BRASIL 



FHEI AMOMO DK SANTA MAIIK UHOTAM 



PARTE SEGUNDA 

— ■ — . 



# 



VOLUME I 



RI» nr: jaki^iro 



NOVO ORBE SERÁFICO 

BRâSILlCO, 



ou 



DOS FRADES IIENORES DA PROVÍNCIA DO BRASIL. 

POR 

IR. ANTOMO DE SANTA MARIA JABOATAM.^ 

PARTE SEGUNDA 

( INÉDITA ) 

IMPRESSA POR ORDEM 
DO 

Instituto ^istoric0 z Geográfico íBrasildro. 
VOLUME I. 



RIO »C JAlVCIIRdl 

typ. BRASILIENSE ,DE MAXIMIANO GOMES RIBEIRO 

»f nu A DO SABÃO N. 114. 



mi 



LIBKARV 

ONIVERSITY OF CALIFÓRNIA 



nAVIS 



'J 



AIIVERTEI^CIA. 



No Frontispício desta obra se lò o seguinte titulo que 
por extenso naõ transcrevemos no lugar competente. 

Orbe seráfico^ fiovo, brasílico, parte segunda, da chro* 
nica dos frades menores da mais estreita, e regular ob* 
servancia da Província de Santo António do Brasil^ 
Consagrada ao mesmos Santo como patrão, epadroeyro 
desta sua Provinda, mandada imprimir pelo M, R, P. 
Mestre FR. JACINTO DE SANTA BRIZIDA, ex^ 
leitor de tkeologia, ex diffinidor, e ministro provincial 
existente desde o i,"" de Dezembro de 1764, até 21 de 
Maio de 1768. Nunca appareceo impressa, como ainda 
o naõ foi até o presente anno de 1 826 ; e por isso deve ser 
guardada no Archivo da Provinda, que lie na cella dos 
Ministros Provinciaes no Convento Capitular da Cidade 
da Bahia, a fim de se adiar a todo o tempo que sepre- 
cizar algum dos documentos, que nella se contêm juntos 
com tanto trabalho por seu Author, Escripta por Fr, 
ANTÓNIO DE SANTA MARIA J ABO AT AM, 
Pregador, e Ex-Diffinidor. 

Do Archivo da Provinda de Santo António do Brasil^ 
no Convento de N, Padre S, Francisco da Cidade da 
Bahia, 



**áà 



'h. 



ADDITAHENTOS 



A algAâs Estancias do Preambulo da 1.^ parte desta chronica ja impressa, 
com a emenda de erratas da mesma, e descuidos da Escripta. 



ADDITAMENTO I. 



Sobre a vinda de Américo Vespucio, e Gonçallo Coelho á demarcação das 
costas do Brasil, dos quaes se falia no PreambulOf e livro Ante-Primeiro 
da mesma chronica, e novo Orbe Seráfico, 



Por falta de Authores, que tratassem tx-professo dos 
primeiros, e segundos Exploradores, que, descuberto o 
Brasil por Pedro Alvares Cabral no anno de 1500, mandou 
o Rey D. Manoel á demarcação das suas costas, e portos, 
como foraõ Américo Vespucio, e depois deste a Gonçallo 
Coelho; e por naõ declararem laõbem as chronicas da 
Ordem, fallando dos Segundos Religiosos, que mandou 
o Sobredito Rey D. Manoel no anno de 1503 ao Brasil, 
e foraõ terá Porto Seguro, donde haviaõ estado os pri- 
meiros com Pedro Alvares Cabral, formamos, assim no 
Preambulo da I. p. como no seo livro Anteprimeiro 
alguas conjecturas, que ahi se podem ver, concluindo 
sempre que ellas só teriaõ lugar, em quanto naõ appa- 
recesse Author, que ao certo mostrasse os annos 
daquellas expediçoens. Para as taes conjecturas nos deo 
a principal occasiaõ o descuido, ou pressa, com que 
chegamos a ler, o que diz Ozorio no seo livro de Rebus 
Emmanuelis Regis, que foi só, o que sobre esta matéria 
vimos, assiguando este o anno para a expedição de Gon- 
çallo Coelho ao Brasil, sem fallar na de Américo Ves- 
pucio. O descuido nosso esteve, em que virando a pag, 
83 para 84, sem fazermos reparo em a terceyra regra 
desta pag. 84, donde diz Principio insequentis anni que 
este era o de 1503, fomos lendo athc o meyo da dita pag. 
donde achamos, hoc anno^ que neste anno mandara 



SOTiSâTli 



ElRey D. Manoel seis náos para a índia, e logo depois 
mandara taõbem outras seis para o Brasil, e por seo ca- 
pitão a Gonçallo Coelho. E na suppoziçaõ ou engano, 
de que este — lioc atino, que falia em Gonçallo Coelho 
nesta pag. 84, era o mesmo — hocanno, que na pag. 
atraz 83 relata de 1502, entendemos, que neste de 1502, 
fora o mesmo, em que despachou para o Brasil a Gon- 
çallo Coelho. Com esta equivocaçaõ, e naõ tendo visto 
Author, que dicesse o anno, em que foi taõbem ao Brasil 
Américo Vespncio, e entendendo pelo que escrevem 
outros, comohe Mariz nos seus Diálogos, que partindo 
Gonçallo Coelho para o Brasil mandado pelo Rcy D. 
Manoel, e andando por estas costas muitos mezes, e re- 
colhendo-sejaem tempo do Rey D. Joaõ III que entrou 
no governo em 1521, naõ nos podendo capacitar, que 
hindo Gonçallo Coelho ao Brasil em 1502, como en- 
tendíamos do que diz Ozorio, andasse por estas costas, 
e mares algús vinte annos alhe o Reynado delRey D. 
Joaõ 111, concluímos seria equivocaçaõ de Ozorio pôr 
alii a partida de Gonçallo Coelho no referido anno do 
1502. E assim naõ nos parecendo ser attendida esta tar- 
dança de quasi vinte annos nalaljornada,enaõ achando 
apontado o anno, em que foi ao Brasil Américo Ves- 
pncio, e dizendo as chronicas da Ordem, que no de 
1503 mandara ElRey D. Manoel ao Brasil Missionários 
nossos, concluímos, que estes só podiaõ hir com Amé- 
rico Vespncio desde o anno de 1501 athe o de 1503*» 
como no lugar a margem citado da nossa chronica se 
pode ver. Com tudo isto sempre assentamos, como ja 
fica advertido, que quando houvesse Author, que assi- 
gnasse ao certo, que no anno de 1503 fora alguã Es- 
coadra do Reino ao Brasil, entenderíamos, que nesta 
podiaõ hir os taes Religiosos, c neste caso naõ linhaõ 



* lâv.Aniep. fõl. 21.n.22. 



vigor as nossas conjecturas. £ assim se impriíúio a pri« 
ujeíra parle desta chronica. 

Mas, vindo depois a nosso poder liu«1 Relação impressa 
do cerco da nova colónia do Sacramento pelos castelha- 
nos em tempo do Senlíor Rey D. Joaô V, nella dizosea 
Autlior, que no anno de 1501 fora mandado pelo Rey 
D. Manoel á demarcação daquelias costas do Rio da 
Prata entre Portuguezes e Castelhanos, Américo Ves- 
pucio. E vendo nós laõbem depois era a chronica do 
mesmo Rey D* Manoel, escripla por Damião de Góes, 
e novamente impressa^ que no anno de 1503 mandara 
este Rey ás costas do Brasil Gonçallo Coelho para des- 
cobrir e demarcar os seus portos, e tornando a fazer 
revista do que na sua diz Ozorio, como ja fica notado, 
e achando concordarem ambos estes Authores, que no 
anno de 1503 foy Gonçallo Coelho ás costas do Brasil, 
com elles assentamos se pode dizer foraõ aquelles Reli- 
giosos Missionários, que affirmaõ as chronicas da nossa 
Ordem neste mesmo anno mandara ElRey D. Manoel 
ao Brasil, e foraõ ler a Porto Seguro, onde obrarão e 
liveraõ o íim, que em seo lugar fica referido*. 

He bem verdade, que sobre esta hida de Gonçallo 
Coelho ao Brasil, ficamos sempre com bastante duvida, 
naõ absolutamente sobre passar a estas partes no anno 
de 1503; mas sim acerca do tempo que por ellas andou, 
e quando feitas as suas demarcações^ e mais diligencias 
se recolhco ao Reyuo. Os dous Escriplores allegados, 
que saõ o Bispo Ozorio, e Damião de Góes, dizem, que 
sahira do porto de Lisboa no anno de 1503**; a dez do 
mez de Juuho,assigna Damião de Góes, e Ozorio põem 
o mesmo auno, mas naõ mez, nem dia ; com seis Náos, 
das quaes^ concordaõ ambos, por ainda terem pouca 
noticia da lerra^ perdeo coatro, e as outras duas trou\e^ 

* Paft. l.a Liv. Antep. pag. la, n. 13« 



8 

ao Reyno com mercadorias da terra, que eiUaõ oaõ eraõ 
outras, que páo vermelho, a que chamaõ Brasil, bugios, 
e papagayos, diz Damião de Góes, e o mesmo escreve 
Ozorio, sem nenhum delles assignar o anno desta volta, 
nem o tempo que em tal jornada gastarão. 

Com huã differença muy notável falia nesta jornada 
de Gonçallo Coelho, Mariz em os seos Diálogos, a quem 
segue, e cita o P. Vasconcellos em a chronica da Com- 
panhia do Brasil, pois sem apontar o anno em que sahio 
do Reyno Gonçallo Coelho, concluem ambos, que sendo 
mandado a esta diligencia pelo Rey D. Manoel se reco- 
lhera com perda só de duas Náos já em tempo delRey 
D. João III, que tomou posse do governo em 1521, 
tendo andado muitos mezes pelas costas do Brasil. Aqui 
parece se deve notar, que quem diz muitos mezes, 
naõ quer dizer muitos annos^ antes quer mostrar, que 
nem a hum só anno chegarão estes muitos mezes, porque 
a ser assim diria, tendo gasto nesta jornada hum anno, 
e se passara de anno, accrescentaria, e tantos mezes; 
mas dizer — muitos mezes — dá a entender, que seriaõ 
athe onze com pouca differença. Mariz imprimio a sua 
obra em 1594. enaõ podia deixar de ter visto o que es- 
creverão e imprimirão Damião de Góes vinte e oito 
annos antes, no de 1566; e Ozorio vinte e três taõbem 
antes, no del571, e se os vio, como se deve suppor, 
pois eraõ todos físcriptores Portuguezes, e assistentes 
na mesma corte de Lisboa, e tratarão da mesma ma- 
téria ; porque affirmando que chegou Gonçallo Coelho 
ao Reyno da volta do Brasil, quando ja governava D. 
Joaõ o III, e que partira para estas costas em tempo 
delRey D. Manoel, naõ diz taõbem em que anno partio, 
e só, que gastou nesta viagem muitos mezes, enaõ muitos 
annos? Acauza, ou motivo desta differença desejara eu 
ver decidida, porque de oulra sorte o que destas naõ 
assignaturas de annos, Mariz naõ dizer o em que partio 
do Reyno Gonçallo Coelho, Ozorio c Góes o cm que se 



9 

recolheo, sempre nos deixa em supposiçaõ de que, ou 
liiim, ou outro cstaõ equivocados; podendo quem assim 
os vô discursar, que ou os dous naõ acertaõ era o auno, 
em que Gonçallo Coelho saliio do Reyno para o Brasil; 
ou que Mariz erra em assignar, que foi ja em tempo 
delRey D. Joaõ o líl. E com fundamento; porque quem 
haverá, que com bom discurso se possa persuadir, que 
sahindo Gonçallo Coelho a demarcar as costas e portos 
do Brasil gastasse nesta diligencia desoilo para vinte 
annos, desde o de 1503 athe o de 1521, e sem descobrir 
todos, porque naõ entrou no da Bahia, Rio de Janeiro, 
e outros mais ; naõ conquistou, nem chegou a levantar 
Povoações. Nem he para admitir o discurço, que bem 
podia Gonçallo Coelho gastar todos estes annos na quella 
diligencia, repetindo do Brasil avizos para a corte^ e 
recebendo outros, mandando ao Reyno algum dos Na- 
vios, que trazia comsigo, e que bem podia ser hum des- 
tes, aquelle que affirma o mesmo Góes chegou do 
Brasil á corte no anno de 1513^ com varias drogas da 
terra, e alguns índios, como escreve o mesmo Góes, 
que os vira. Se isto assim fora, que era esta Náo huã 
das que trazia em sua couducta Gonçallo Coelho, assim 
o devia explicar aquelle Author; pois elle era hum dos 
que linha escripto havia partido dez annos atrás, no de 
1503 para o Brasil Gonçallo Coelho, e devia por con- 
sequência dizer; chegou este Navio ácorte^ e era hum 
dos que trazia Gonçallo Coelho na demarcação das costas 
do Brasil. Nada disto explica, antes diz, que era da- 
quelles, que EIRey trazia á conducta do páo Brasil pela 
terra de Santa Cruz, sem duvida de alguã Feitoria que 
ja alli linha naquelle tempo em Porto Seguro, que era 
o lugar próprio de Santa Cruz, e onde ja assistiaõ algús 
Portuguezes, entre os quaes viverão aquelles Religiosos 

* Góes, ib. foi. 70. 

JABOATAM. PAUT. II. VOL. I, ^ 



10 

nossos que no anuo de 1503 alli foraõ dar, e mortos pelos 
Índios no de 1505, como em seo lugar se disse*. 

Taõbem se nos offerece notar aqui, que íailando os 
nossos Escriptores Porluguezes, e alguns dos Estranhos 
que temos visto, nesta parte do Brasil, e dizendo que 
mandara ElRey D. Manoel a Américo Yespucio de- 
marcar as costas e seos portos, delle tomara esta quarta 
parle do mundo o nome de America. Que este nome o 
tomasse ella de Américo Vespucio naõ ha duvida ; mas 
que fosse poc esta occasiaõ, ou jornada de Américo Ves- 
pucio ao Brasil, mandado por ElRey D. Manoel taõbem, 
Íjo equivocaçaõ, ou inadvertência do primeiro que assim 
o escreveo, e foi origem de que assim o seguissem os 
mais. Primeiramente porque ; como podia ser, que 
sendo o Brasil, pelas suas costas, huà limitada porção 
a respeito de toda a America, tomasse esta o nome da- 
quelle cosmógrafo, só porque discorreo por esta pequena 
parte do Brasil? E quando esta razaò naõ baste para 
impedir aquelle discurso, ha outras maiores e mais con- 
vincentes; e vem a ser, que as costas do Brasil pela 
parle dos Reys de Portugal foraõ descobertas no anno 
de 1500 por l^edro Alvares Cabral, havendo ja coatro 
annos, que no de 1496 havia ChrislovaõGolòn pelos Reys 
de Castella descoberto este novo Mundo pela parte do 
Norte, Ilha de Cuba, e estreito de Panamá, por onde se 
divide a America Meridional, em que fica o Brasil, da 
outra Septentrional; e quem se pode persuadir, que 
devia estar lodo esle Mundo novo esperando desde o 
anno de 1496 athe o de 1502, em que ao Brasil foi Amé- 
rico Yespucio mandado por ElRey D. Manoel, para por 
este Américo, e parte pequena do Brasil, tomar toda 
a do novo Mundo o nome de America? He certo, que 
naõ foy assim ; e para entendermos o como foi, se deve 
advertir, confod^mc aos Escriptores Ilespanhoes, que logo 

* Liv. Anlep., pag. li, n. 10. - 



11 

-qne Chrislovao Colõn dcscobrio este novo Mtindo pela 
parle, que fica referida da Ilha de Cuba, e tornou a Cas- 
tella com esta nova, despachou o seo Rei, que era neste 
tempo D. Fernando V o calholico (primeiro, que me- 
receo este nomej a Américo Vespncio á demarcação da- 
quelia parte; na qual diligencia repelio coatro viagens, 
como refere D. Francisco Giusliniani Author do novo 
Alhlas A!)reviado, por estas palavras, fallando do desco- 
brimento por Colón, e da America Meridional*: y Amé- 
rico Vespncio, que hixo coatro viages por orden de Fer- 
nando Rey de CasttlUi, y de Manuel de Porliigal, le dia 
el Jtoinbre de America. E sendo coatro estas viagens, 
e a ultima delias no anno de 1501 depois de descobertoo 
Brasil no antece lente de 1500, haviaõ de ser por força, 
e seguindo-se buas ás outras, as três primeiras desde o 
anno de 1496 athe o de 1501, e por estas três ante- 
cedentes e a primeira delias, em que Américo Vespncio 
foi ao novo Mundo pela parte de Castella, e naõ pela ul- 
tima do Brasil, be que devia tomar, como tomou todo 
este novo Mundo, o nome de America ; e por conse- 
quência jaelle tinha este nome, quando ao Brasil foi Amé- 
rico Vespncio a ultima vez, mandado á sua demarcação 
peio Rey D. Manoel. 

Para maior clareza do que fica ditto, pomos aqui buas 
palavras do referido Author do novo Athlas, fallando do 
primeiro descobrimento da America, ou novo mundo 
pelo Colõn no anno de 1492, diz assim**. — Desde en- 
tonces, (islo he daquelle anno de 11x^2,) se líiamô Mundo 
nuevo, y tambien^ aiin que impropriamente^ índias 
occidentales por el mucko oro, que alli se lialla, y final- 
mente America de Américo Vespncio Florentin, quien 
embiô ailá despuesElRey D, Manuel. — Duas couzas 
se podem perceber desta Escripla ; e be aprimeira, que 

' Tom 2.0 pari. l."» pag. i. 

'* M., lom. 2.^ Parte l.^, Pag. 9;i. . 



12 

liuãsó vez fora mandado ao novo mundo Américo Ves- 
piicio, e esta por EIRey D.Manoel; e a segunda he, o 
que ja escreverão muitos, e he, que de Américo Ves- 
pucio mandado pelo Rey D. Manoel tomou o novo Mundo 
o nome de America. Mas assim só o poderá entender 
quem ler isto sem mais reflexão, que a pressa da leitura; 
pois o que fizer alguã mais judiciozae com vagar, vendo 
e reparando o que ao diante diz este mesmo Author, 
como fica escripto, quecoatro vezes fora mandado Amé- 
rico Vespucio ao novo mundo, ou America por EIRey 
D. Fernando, e D. Manoel; deve entender, que o nome 
de America o tomou o novo mundo por Américo man- 
dado as três primeiras veses pelo Rey de Castella, ainda 
que na ultima, que isto he o que quer dizer o Author com 
aquellc seu termo — Despuòs — fosse taòbem mandado 
pelo Rei de Portugal. E assim aquelle — Despuès — con- 
forme o percebemos, se deve entender, naõ porque huã 
só vez fosse mandado o Yespucio ao novo mundo, e esta 
pelo Rey D. Manoel; mas que esta vez, que he a quarta, 
foi depois daquelias três primeiras. E assim como assima 
concluimos, naõ se deve supor, que hindo o Vespucio 
ires veses antes pelo Rey de Castella ao novo mundo, 
estivesse este esperando pela ultima do Rey D. Manoel 
para de Américo tomar o nome de America. 



ADDITAMENTO 11. 



Sobre a í.^ Estancia da Digressão II í, que trata de Diogo Alares 
Caramurú, e descobrimento primeiro da Bahia. 



Conforme ao que em o numero 2.° do Preambulo da 
primeira parte desta chronica deixamos assentado, que 
foi o descrevermos nella primeiro os descubrimentos, 
fundações, progressos, eludo o mais, que fosse de nota, 
e dizia respeito ás capitanias deste Estado naquelles 
princípios, como couza necessária para maior clareza 
da historia, que escrevíamos desta Província de Santo 
António do Brasil, pois em todas ellas, e em muitas 
partes de cada huã tínhamos conventos, e pedia a razaõ 
da historia, como he estilo em todas as chronicas par- 
ticulares, tratar primeiro que tudo dos lugares donde 
ha conventos, e casas Religiozas, e nesta nossa chro- 
nica com mais razaõ devíamos cumprir, e naõ faltar a 
esta ordem, e methodo de escrever, pela falta que ha 
destas noticias. E suposto deixarmos ja na sua Estancia 
tratado do descobrimento da Bahya, e fundação da sua 
cidade, em que agora entramos com esta segunda parte 
a descrever o seo convento, nos he precizo fazer alguâ 
repetição do que lá dissemos por razões particulares, que 
de novo se offereceraõ. 

No annodel759, no principio, chegou a esta cidade 
da Bahya o Doutor Jozeph Mascarenhas Pacheco Pe- 
reira Coelho de Mello, hum dos três Ministros conse- 
lheiros, que Sua Mageslade Fidelíssima o Senhor Rey 
D. Jozeph I destinou para vários negócios do seo Real 
serviço. Sem faltar a este, julgando com a vastidão da 
sua grande litteratura naõ ser menos para credito das 
Monarchias, e seo augmento as leis, e regras porque se 
governaõ politicas, do que as litterarlas e scientificas, 
em que se devem exercitar ; antes, para serem aquellas 
mais ajustadas e conformes se devem fundar e dirigir 



por estas, para esle fim melhor e gloriozo emprego dos 
entendiknentos, seresolveo a erigir nesta mesma capital 
huã nova Academia debaixo da Regia protecção, e feliz 
auspicio do nosso Fidelíssimo Monarcha Reynante, á 
qual se deo principio em linm aclo pnblico em seisde 
Junho deste mesmo anno, dia em que se celebravaõ os 
felicíssimos de Sua Magestade, Fuy eu hum dos pri- 
meiros nomeados para o numero desta, incumbindo-se- 
me pela sua Mesa censória o mesmo emprego que ja 
tinha pela Pieligiaõ de seo chronista, e dar para a mesma 
Academia as noticias, que deste meo trabalho lhe pu- 
dessem servir para a historia deste Estado, que pelos 
mais collegas se liavla deslribuido, 

Huã das que dey, e ja havia escriptona l."* parte desta 
chronica, e se achava na imprensa foi, fatiando sobre 
Diogo Alvares o caramurú, assentar, que hindo este 
da Bahya á França com a sua índia Paraguaçú, como 
vulgarmente a chamavaõ, ou Qnaijabím-Pará, como 
a tratavaõ os mais polidos, ainda que tudo vinha a dizer 
o mesmo, que era chamar-lhe, Mar ou Rio grande ; q 
bautizando-se naquella corte tomara o nome de Catha- 
rina naõ como athe agora suppunhaõ lodos assim os que 
ja escreverão sobre isto, como o que se acha em o MS. 
em obsequio de Calharina de Medices, Rainha de França, 
que aífirmaõ fora sua madrinha, e a molher de Henrique 
de Yalois; porque isto por nenhum principio podia ser, 
como ficará patente aquém, como nós, tiver o trabalho, 
ou impertinência de computar os annos, e medir os 
tempos desde o primeiro descobrimento da Bahya pelo 
caramurú Diogo Alvares Correia, athe o em que entrou 
a reynar em França Henrique de Valois, e Gatharina de 
Medices; Mas sim, que o tomar o nome deCaiharina 
foi por respeito da Senhora D. Gatharina Rainha de 
Portugal, que em sinquo ae Fevereyrodo anuo de 1525, 
cm o qual o caramurú se achava ja em França, havia 
casado em Portugal com o Senhor Rey D. Joaõ o III. 



16 

Esle meo juizo, e discurso seguirão os dous Acadé- 
micos a quem foi eucarregado escreverem as noticias, 
naturalidade e descendência de Galharina Alvares, ou 
Paraguaçú. E como elles naõ obstante tudo isto, ainda 
discordaõ alguã couza entre sy, naõ só no tempo e 
annos em que com o seo consorte passarão á França; 
mas taòbem no em que chegou á Bahya a primeira vez 
Diogo Alvares; quando a esta veyo taòbem Christovaõ 
Jaquez, mandado por ElRey D. Joaô III, e quando esle 
mesmo Monarclia fazendo doação da Babya a Francisco 
Pereira Coutinho a veyo elle fundar: e os taes collegas, e 
Académicos citarão, por me fazerem honra á primeira 
Parle da minha chronica, donde, como Oca dilto, no seo 
Preambulo tralei estes pontos, me pareceo ser necessário 
fazer neste lugar alguã repetição do que naquelle fica 
tratado, com alguã reflexão maior, e acabando de mos- 
trar, como de nenhuã sorte podia ser a sobredilta Ga- 
lharina de Medices madrinha do baulismo e casamento 
de Galharina Alvares. Além deste ponto tocaremos taò- 
bem de passsagem outros mais conducentes ao descobri- 
mento e fundação da Bahya. Para clareza de tudo 
devemos assentar, como fundamento, duas couzas ; 
huã absolutamente certa nos escriptores e historias, 
outra tirada taòbem do que se acha escripto, e fundado 
só em tradições, ainda que continuadas e seguidas, 
e seja esta a primeira. 

He a Bahya a capital do Brasil ; e assim como este foi 
descoberto a primeira vez por Pedro Alvares Cabral sem 
deligencia dos homens, e só a cuidados de Deos ; assim 
esta parte que lhe havia servir de cabeça, foi taõbeni 
entrada a primeira vez por impulsos superiores, mais 
do que por deligencias humanas. Foy o primeiro Por- 
tnguez^ que entrou nella, pisou as suas prayas aterras, 
que lhe Gcaò á margem, Diogo Alvares Correia, que 
• aqui chamarão caramurú os seos Gentios, naõ mandado 
a esta cmpreza pelos seos Reys e MonarchaS;, mas guiado 



16 

por destino da sua sorte, e a Providencias do Allissiríio, 
Os acertos da sua fortuna, e o que a esta ficou elle de-« 
vedor, ja se acliaõ impressos no Preambulo da 1." parte^ 
com tudo o maiSj que ao descobrimento e fundação 
desta capital tocava uaquelles seos princípios, para onde 
remetemos ao leitor curiozo. E assim o que aqui himos 
assentar por indubitável he o seguinte. 

Primeiro, o que na outra parle deixamos em opinião, 
e vem a ser; Que a viagem de Diogo Alvares caramurú 
nesta occaziaõ, naõ podia ser, como escreverão algús, 
para a capitania de Saò Vicente no Brasil ; porque esta 
foi fundada, como em seo lugar se disse na 1/ parte, do 
anno de 1525 por diante, e o naufrágio de Diogo Al- 
vares, e a sua viagem aconleceo, como taõbem lá dei- 
xamos assentado pelos annos de 1516 para 518, c naõ 
era possível, que sette ou nove annos antes, que a tal 
capitania de Saõ Vicente tivesse principio, e a sua fun- 
dação, houvessem pessoas particulares, ou navios com 
elles, que fossem alli, pois o primeiro, que consta pelos 
Authores foi a ella com navios, e gente para a povoar, 
foi Martim Afonço de Souza a quem ElRey D. Joaõ III 
a deo, e fez seo Donario, e a foi fundar pelos annos de 
15*25. E assim fica taõbem certo, ou mais provável ser 
a viagem do Navio, que conduzia a Diogo Alvares Correia 
para as partes da índia, que era a conquista de Por- 
tugal mais frequentada naquclles tempos; e para lá, dizem 
algús, hia Diogo Alvares Correia em companhia de hum 
seo tio. 

O Segundo he, que quando nesta sua derrota aportou 
Diogo Alvares no continente da Bahya, foi elle o pri- 
meiro homem, naõsóPortuguez, mas de outra qualquer 
Naçaõ, que pizou esta terra, e viraõ aqui os seus Gen- 
tios; como se colhe pela tradição e successos seguintes 
á sua vinda, pois a naõ ser elle o primeyro, como po- 
deria cauzar admiração tanta, e taõ notável espanto nos 
bárbaros Gentios a sua prezeuca, e os fçilos, que delle 



17 * A 

Se escrevem. He sem duvida, que pelos aanos de 1500 
foraõ a Porto Seguro ospriaieirosPorluguezes, que des- 
cubriraõ o Brasil, com Pedro Alvares Cabral; e depois 
destes nos annos de 1502 para três Américo Vespuclo, 
e annos adiante Gonçalio Coelho, todos pelo Rey D. 
Manoel, a descobrir e demarcar os portos^ e barras; 
mas nenhum destes fundou^ nem estabeleceo Povoa- 
çõens^ uera ainda entrarão por terras a dentro, nem 
consta tratassem, ou tivessem communicaçaõ com o 
Gentio, e ainda que estes os vissem, e conhecessem ser 
gente de outra Naçaõ, que elles nunca viraõ, como isto 
naõ foi em toda a costa, e só em algiias enseadas, ou 
portos mais accommodados para a sua deligencia, esta 
noticia, fora daquelles lugares se naõ communiçou a 
outros, por falta taõbem da pouca correlação, que esta 
gente linha huns com os outros, pois naõ havia trato, 
nem commercio entre sy e cada huã das Nações vivia 
nos seos dcstrictos, e sempre em guerras e differentes, 
ou discordes, e assim naõ podiaõ saber huãs do que pas- 
sava entre as outras, e ainda em lugares taõ distantes, 
e muy poucos, era que haviaõ aportado, e postos seos 
marcos aquelles segundos e terceiros Exploradores 
Américo Yespucio, e Gonçalio Coelho. 

Taõbem he certo, que desde o anno de 1500, em que 
o primeiro Descubridor do Brasil Pedro Alvares Cabral 
foi ter a Porto Seguro athe o de 1516 a 1518, era 
que deixamos assentado foi ter á Bahya Diogo Alvares 
Correia, cara muni, fora de Américo ,Vespucio, e Gon- 
çalio Coelho, naõ mandou mais El Rey D. Manoel na- 
vios, nem Exploradores á Costa do Brasil, porque òs 
segundos, que mandou este Monarcha foi o sobredito 
Gonçalio Coelho com seis uáos, o qual como escreve 
Marií, e outros, depois de andar por ella muitos mezes, 
e com a perda de duas embarcações, se recolheo ao 
Reyno, achando ja no throno aElRey D. Joaõo 3/, como 
escreve o mesmo Mariz, que entrou a reynar em 1521 

JABOATAM. PART. Hj VOL. I. 3 



18 

no principio, donde se segue, que andando pela Costa 
do Brasil o capitão Gonçallo Coelho, muitos mezes, e 
naõ annos^ e recolliendo-se no de 1521, poderia sahir 
a esta dT^ligencia no anno antecedente de 520, ejaa 
este tempo estava o cararauni na Bahya, aonde taõbeni 
naõ entrou Gonçailo Coelho^ nem taõ pouco Américo 
Vespucio, pois nenlium deo relação desta Enseada ; e 
assim se conhece com evidencia certa, que antes de 
Diogo Alvares cararauni chegar á Bahya no anno de 
1516 para desoito com pouca diflerença, naõ havia apor- 
tado a ella homem Portuguez, nem ainda de oulra 
Naçaõ, motivo porque com a vista do caramurú, e do 
que alli obrou^ como em seo lugar se disse na 1/ parle, 
se admirou aquelle Gentio. 

Com isto se responde taõbem aos que querem viesse 
á Bahya primeiro, que o caramurú Christovaõ Jaquez: 
porque este foi mandado pelo ditto Rey D. Joaõ 3.* 
depois que entrou no governo este Monarcha, e depois, 
que Gonçallo Coelho lhes trouxe as noticias daquelles 
descobrimentos, ejá quando o caramurú, da Bahya tinha 
partido para França pelos annos de 1524. Yejaõ o que 
dissemos sobre isto no Preambulo da 1." parte e Estancia, 
que trata do caramurú, e ahi se verá taõbem a razaõ, 
porque naõ deo, ou naõ quiz e lhe conveyo dar Chris- 
tovaõ Jaquez a noticia, que podia achar na Bahya do 
caramurú, se he, que a teve, e alcançou do Gentio. A, 
este chamou taõbem o Gentio na sua lingoa. — Abata tà, — 
que quer dizer honid^m de fogo; pela razaõ que se disse 
na mesma primeira parte pelo verem com muito es- 
panto disparar huã escopeta, e sahir delia fogo; e só 
nos faltou escrever alli este nome, que depois achamos 
em hum manuscrito como taõbem em hum caderno antigo 
dos óbitos da Sé da Bahya o assento seguinte. — Aos 
sinquo dias do mes de Outubro de 1557 falleceo Diogo 
Alvares Correia, caramurú, da Poaçaõ do Pereira; foi 
enterrado no í\losteiro de Jesus. Ficara por seo testa- 



ia 

menteiro Joaõ de Figueiredo seo genro; o cura Jeaõ 
Lourenço, a folhas 70. — A Povoação do Pereira, de que 
falia o referido assento, era Villa Velha, a primeira, que 
fundou o seo Donatário taôbem primeiro Francisco 
Pereira Coutinho no sitio da Victoria, contíguo a nossa 
Senhora da Graça, em que tinha o caramurú a sua mo- 
radia. O Mosteiro de Jesus, era o collegio e Igreja dos 
Padres da companhia, que asim era nomeado naqueiles 
tempos. Joaõ de Figueiredo era o Mascarenhas, genro 
do caramurii, cazado com a filha legitima Apolónia Al- 
vares. 

Com o que assima fica ditto assentamos taõbem na 
mesma Estancia desta capitania, fora seo Donatário e 
fundador o sobredito Francisco Pereyra Coutinho, 
a quem a deo o Rey D. Joaõ 3.° e suposto naõ assi- 
gnamos alli o anno fixo, em que elle chegou á Bahya, 
porque o naõ achamos em escriptor algum, dos que 
vimos, com tudo pela computação de alguns aconteci- 
mentos do tempo, que alli assistio, e outros antes e 
depois^ se poderá saber com pouca diff*erenca o anno, 
em que chegou a esta sua capitania. He sem duvida, 
que no de i6òk ainda naõ era chegado á Bahya; porque 
neste anno consta por certo, que aportando á Bahya 
Marlim Afonço de Souza, que navegava para a Índia, 
como em outro lugar se disse^, ainda a Bahya estava, 
na posse e conserva de Diogo Alvares caramurú, com 
algúsPortuguezes mais como eraõ Afonço Roiz', e Paulo 
Dias Adorno, que ahi haviaõ aportado vindo fugidos de 
Saõ Vicente, e nesta conjunção de Martira Afonço de 
Souza com quem vinhaõ o P. Fr. Diogo de Borba, eseos 
companheiros Religiosos Menores, primeiros Sacer- 
dotes e Ministros do Evangelho, que vio a Bahya, ca- 
zaraõ estes dous.sugeitos assima com duas filhas natu- 
raes do caramurú. Taõbem he certo, como se disse no 
mesmo lugar daquella Estancia, que no anno de 1547 

* Preamb., P. 1, pag. /i8, n. 39. 



20 

era fallecldo Francisco Pereira Coutinlio ; e asseoUndo 
as iiiemorias M. S. e algus, que ja escreverão, que este 
Donatário viveo na sua capitania dez ou doze annos, 
segue-se^ que devia cliegar a ella logo no anuo seguiuiê 
ao de 153/i, que na Baliya estava Marlim Aíonçít de 
Souza^ que vinha a ser no de 15â5, que saõ os dez ou 
doze annos que podem correr entre o de 153/!^ que 
estava naBaliya Martini Afonço de Souza, e o dei5/i7, 
quG nella falieceo Francisco Pereira Goutinho. 

Por morte deste capitão e Donatário, mandou El- 
Bey D. Joaõ o.° fundar pela coroa a cidade da Bahya. 
No anno de l5/[9 a vinte e nove de Março chegou ao 
porto de Villa Velha da Bahya Thomé de Souza a pôr em 
execução as ordens delBey, como em a primeira parle 
fica assentado, em a sua própria Estancia. E supposlo 
iiaõ as^íignamos alli o dia emez em que se deo principio 
a esta obra, e estabelecimento da nova cidade pelo naõ 
acharmos declarado em memoria alguã, nem em os Au- 
Ihorcs que vimos^ e disto trataõ, com tudo succedendo 
depois como ja notamos, a erecção da nova Academia dos 
llenascidos da Bahya, e sendo nomeado para hum dos 
seos censores o Bev. Doutor Joaõ .Borges de Barros, 
Cónego Thesoureiro Mór da Sé da Bahya, e Dezembar- 
gador da Belaçaõ Ecclesiastica, sugeito de notória lille- 
ratura, e -fazendo este para satisfação dos empregos 
que lhe foraõ encarregados^ revista de algús papeis e 
livros da camará da cidade, em hum cathalogo antigo 
dos Governadores da Bahya, achou o prezeule assento, 
no 1." § ddle. 

Thomé ds Souza veyo com patente delRey D. Joaõ 3." e 
com iitulo de capitão mòi\ cm quanto naÕ fundasse a cidade, 
trazen'(tot,em sua companhia ao Dr. Pedro Borges para ou~ 
vidor Geral, e a António Cardozo de Barros para Provedor 
€la Fa'xenda Real, e desembarcando na ponta de S. António 
da Barra em o mez de Março de 1549, tomou lo ff o posse da 
ditla capitania mór da Villa Velha de N. Senhora da Vic- 



21 

loria • e preparando nthe o mez de Julho a gente de guerra^ 
que havia trazido de Portugal, escolhido ja o sitio por Diogo 
Alvores, marido de Catharina Alvares, que he o em que 
está hoje fundada a cidade, por ter porto accommodado para 
os Navios, e ser a terra levantada, que a faz participante de 
todas as viraçõens, marchou o ditto capitão mór com mil 
homens de guerra, e quatrocentos índios, e com e /feito fi- 
zer aõ despejar as três Aldeias do Gentio, que se achavaõ es- 
tabelecidas onde he o terreiro de Jesus, o convento do Carmo f 
e o Desterro; e a primeira couza^ que fez foi a Igreja de N. 
Senhora da Ajuda para os Religiosos da Companhia ^ e logo 
se continuarão as casas para o capitão mór e para o Ou- 
vidor Geral, Provedor da Fazenda, e casa para o Senado da 
Camará e mais Povo •, e no primeiro de Novembro, dia de 
todos os Santos, se estabeleceo a Cidade do Salvador — Bahya 
de Todos os Santos, tomando o ditto capitão mor no mesmo 
dia a posse de Governador por Patente, que taõbem havia 
trazido, assistindo- lhe o Senado da Camará, Nobreza e 
mais Povo da Cidade ; e fazendo continua guerra ao Gentio 
ciMumvizinho governou athe os treze de Julho ífe 1553. 

Deste assento naõ só consta o dia e mez em que no 
anno sobreditto de 15i9 se estabeleceo, e formalizou a 
nova Cidade da Bahya, que foy ao primeiro de Novem- 
bro, dia de todos os Santos, sendo este o fundamento 
certo, porque assim se intitulou, e naO como era a outra 
parte assentamos na sua Estancia, seguindo aos mais, 
que disscraõ fora porque neste dia o primeiro de No- 
vembro entrou na sua enseada ou bahya Christovaõ 
Jaquez a primeira vez; mas taõbem do sobredito as- 
sento consta, que no mez de Julho daquelle próprio 
anno de 1549, lançados os Gentios do lugar escolhido 
para a nova cidade, se deo principio á sua fundação. 

Por este mesmo assento poderá hum dos nossos col- 
legas e Académicos, mudar taõbem de parecer, no que 
seguio em a conta que deo dos seus estudos em huã 
conferencia, na qual affirmava que a Igreja de N. Se- 
nhora da Ajuda, da qual aqui falia o sobredito assento, 



22 

fora a primeira em a cidade, que a fundarão, diz* elle, 
ainda antes muito, que Thomé de Souza chegasse á 
Baliya^ os Mercadores de Villa Yelha ; o que certamente 
naõ podia ser, nem era possiveU que estando o lugar 
ou plano da nova cidade (que he o mesmo, em que íoi 
levantada a Igreja da Ajuda^ quando á Bahya chegou 
Thomé de Souza) occupado ainda pelo Gentio, que nelle 
linha Aldeia, e foi necessário para se dar principio á 
Cidade Nova e sua fundação, despejar o tal Gentio á 
força de armas, como era possível terem já alli entre 
estes inimigos, os Mercadores de Villa Velha levantado 
Igreja á Senhora da Ajuda? Nem era necessário para 
se saber que esta Igreja foi levantada depois que á 
Bahya chegou Thomé de Souza, e deo principio á fun- 
dação da cidade, ver ou ler lido este assento ; bastava 
ver os mais Escriptores, e especialmente ao Padre Vas- 
concellos, na Ghronica da Companhia do Brasil, donde 
escreve foi esta Igreja da Ajuda das primeiras obras em 
que se occupou em a fundação da nova Cidade da Bahya 
Thomé de Souza seo primeiro Governador, e naõ os 
Mercadores de Villa Velha. 



ADDITAMEnO III. 



À' Capitania de S. Vicente. Sobre o assucar, canas, cacáo» e chocolate 
[ser achado no Brasil, j 

Na Estancia desta capitania assentamos, seguindo es- 
pecialmente o AiUhor da nova Lusitânia, que no seo 
terreno, quando a elle chegarão os nossos primeiros Por- 
tuguezes, com o seo Donatário, e Fundador Martim 
Afonço de Souza, acharão naõ só a planta dascanas^mas 
taõbem o modo de fazer o açúcar. Diz elle assim*. — 
Agui se achou o modo de fazer o açúcar, E aqui 
acharão primeiro as canas em que se cria^ donde sahio 
a planta, que inmmdou ulillissimaj?iente a nova Luzi^ 
tania, — Isto mesmo com pouca differença de palavras, 
disse antes o Padre Yasconcellos na sua Chronica da 
Companhia, e primeiro, que estes o tem assim o M. S. 
antigo que temos eja outras vezes apontamos. E sup- 
posto naõ citamos estes Authorcs em a nossa primeira 
parte ja impressa, quando tocamos este ponto, por jul- 
garmos naõ ser necessário em matéria taõ commua, 
agora o fazemos para com elles dar satisfação á honra 
que nos fez hum dos nossos Doutos Académicos, a quem 
foi encarregada huà Dissertação sobre a fabrica do 
açúcar do Brasil^ cilando-nos como Aulhor ou sectário 
deste ponto, e juntamente ao do anno histórico. Para 
contrariar este nosso Académico a opinião que seguimos 
com aquelles Authores, traz o que escreve o da Historia 
Insulana**, que o Infante D. Henrique de Portugal^ 
quando se descubrio a Ilha da Madeira, mandara vir 
do Reyno de Gecilia para ella a planta das canas, e os 
Mestres para fazer o açúcar, e que isto mesmo se fez da 
Ilha da Madeira para S. Vicente; concluindo assim com 
este seo parecer, e juizo : — Donde fica evidente ser ver» 

* Brit. Freir., Nova Lusit., Pag., 26, n. 47, liv. 1,« 
** Cordeiro, Pag, 73, n. 3G. 



2i 

dadeira a tradição, que temos de que da dilía Ilha da 
Madeira vieràò as canas, e o modo de fabricar o açúcar 
para a Província çle Saò Vicente^ da qual passarão para 
as mais partes do Brasil, 

Que haja tradição virem da Ilha da Madeira para a 
capitania de S.Vicente as canas,eomodo de fazer açúcar, 
naõ o queremos absolutamente negar, ainda que a nós 
nunca chegou essa tradição; mas, que seja evidente, 
e certa, naõ he certo nem evidenie; porque a ser assim 
taõbem, e primeiro chegara a noticia da luelles escri- 
ptores, que como primeiros a haviaò de ouvir e ex- 
plicar assim, e especialmente andando elles e pizando 
as terras, e naõ escrevendo por informações; e naõ 
affirmaria acertivameute o da Nova Lusitânia^ fallando 
da Villa de S. Vicente : — Aqui se achou omodo de fazer 
açúcar, e aqui se acharão primeiro as canas, — 

O fundamento melhor, que podia haver para que 
fosse certa a tradição de que da Ilha da Madeira vieraõ 
as canas e o modo de fazer o açúcar para São Vicente, 
era se houvesse taõbem evidencia e certeza de que 
quando a Saõ Vicente chegou Marlim Afonço de Souza 
a fundar esta sua capitania, ja nella houvessem Por tu- 
guezes e colouios a mais tempos antecedentes, nella ha- 
bitadores, dosquaes se pudesse dizer foraõ estes antigos 
os que mandarão vir da Ilha as canas, e o modo de fazer 
açúcar. Isto naõ foi assim; porque todos os que escrevem, 
e as mesmas Memorias antigas, e M.S. dizem, que 
Martim Afonço de Souza, e os que com elle acompa- 
nharão foraõ os primeiros Portuguezes que aportarão 
a S. Vicente; logo, os que escrevem, que estes pri- 
meiros fundadores com Martim Afonço de Souza acharão 
alli as cauas, e o modo de fazer açúcar, naõ he porque 
este viesse de outra parte, nem as canas fossem trans- 
plantadas dat^uella Ilha para Saõ Vicente; mas sim, he 
affirmar que alli foraõ achadas^ como natures, e planta 



25 

nascida da própria terra e producçaõ do seo mesmo 
clima. 

Nem ainda, quando se achasse em alguã memoria, 
ou escripla, que antes de Marlim Afonço de Souza liir 
fundar esta sua capitania, ja em Saõ Vicente liaviaõ 
Portuguezes, que por incidente de algum naufrágio ou 
outro qualquer acazo alli fossem ter, quem se poderá 
persuadir que estes fizessem de tal sorte habitação na 
terra, e se mostrassem taõ senhores delia, e tivessem 
tantas posses e cubedaes, que mandassem logo á Ilha 
da Madeira buscar canas e Mestres de açúcar, para 
que quando alli chegassem os seos fundadores e Dona- 
tários, achassem ja este grande beneficio. Isto naõ he 
couza que caiba em discurso; logo he manifesto e evi- 
dente, que achando alli Martim Afonço de Souza canas, 
sendo o primeiro que consta com certeza aportou na 
sua capitania, certo c evidente he que as naõ man- 
darão vir da Ilha da Madeira. 

A duvida toda, que forma este nosso douto Acadé- 
mico de que pudessem haver canas em Saõ Vicente sem 
virem de outra parte, parece assenta na infecundidade 
da terra; como se isto fora impossível a natureza dar 
estas e outras semelhantes produções por força do sco 
clima, ou por outro qualquer principio da mesma na- 
tureza, ou do creador de todas as couzas.Nem era couza 
nova que a terra do Brasil produzisse de sy as canas 
que ja se davaõ em outros climas, quando neste do 
Brasil se achaõ tantas e taõ estranhas produções, e 
muitas delias novas, que as naõ ha, nem se daõ em 
alguã parte do mesmo mundo. Antes podemos dizer 
que achando-se esta planta em outras partes do mundo, 
como na índia. Azia, Africa, e na Europa; porque em 
todas estas houve, e ainda ha canas"^, e se fazia açúcar 
deste ou daquelle modo, com mais ou menos perfeição, 
com tudo no Brazil he taõ própria e natural sua esta 

* Bluteau, Vocab. Port., Verb. Açúcar. 

JABOATAM. PART. 11. VOL. 1. 4 



26 

planta da cana, que nelle dá e produz melhor, e com 
mais venlageni que em outra alguã Região, naõ só no 
crescimento e multiplicação da planta, mas nos effeitos 
e produções delia, como lie o mel e açúcar, que he sa- 
bido ser o das canas do Brasil o mais puro, saborozo, 
Ibrte, claro, e de melhor pezo do que o das outras partes 
do mundo, em que se daõ esta planta e se faz delia 
açúcar. 

Taõ própria, digo, e natural he do terreno do Brasil 
a planta da cana, que naõ só se acha nelle esta de que 
falíamos e se faz delia o mel e açúcar ; mas ha outras 
muitas e varias espécies a que chamaõ canas bravas, 
as quaes lendo a mesma formatura das doces, saõ com 
tudo mais crescidas e duras, e ainda que naõ estillaõ 
sueco algum, tem outras varias serventias. Huã espécie 
destas bravas, e saõ as mais commuas, brotaõ entre as 
ultimas folhas do seo olho as chamadas frechas, que 
todos sabem a sua formatura e serventia; e taõ pare- 
cidas neste fruto com as mesmas canas doces, ou as 
doces com ellas, que taõbem as do açúcar c doces ás 
vezes, e especialmente em terras fracas ecançadas, naõ 
crescendo multo as suas canas, e havendo grande veraõ, 
e forte sol, taõbem coslumaõ produzir e lançar frechas 
dos seus olhos, ainda que mais pi quenas e delgadas do 
que as daõ as canas bravas. E nós vimos alguâs vezes 
Das partes de Pernambuco partidos quazl inteiros destas 
canas doces com frechas, e sem nenhum proveito de 
seos donos ; porque as que chegaõ a dar estas frechas 
flcaõ sem sueco e sustancia alguà, ainda que naõ taõ 
secas e duras como as bravas. E haverá quem possa 
dizer que estas canas bravas, que as ha em lodo o 
Brasil, ou nas mais partes delle vicraõ taõbem da Ilha 
da Madeira, ou de outras partes do mundo para o Brasil? 
Sem duvida que naõ; porque naõ poderia haver quem 
transplantasse para o seo Paiz semelhante planta, sem 
fruto, antes com prejuízo das mesmas terras; porque 
occupaõ muitas que podem servir para outras lavouras. 



27 

E se estas teiíi tanta semelhança com as doces, e snõ 
liuã espécie das que chamaõ canas, lie sem duvida certo 
e evidente, que assim como estas bravas sem vir de 
outra parle do mundo se acharão nas do Brasil, no 
mesmo se acharão taõbem as doces, como era SaO Vicen- 
te sem ser necessário manda-las vir da Ilha da Madeira. 
E se contra isto ouvio o nosso collega alguã tradição, 
lie menos veridica e sem fundamento, e contra o que 
dizem os primeiros Escriplores destas partes que na 
capitania de São Vicente se acharão primeiro as canas, 
e que dalli se passarão para as mais partes do Brasil. 

Assim como se acharão ahi as canas, laõhem se achou 
o modo de fazer o açúcar delias, sem ser necessário 
virem de fora para isso os Mestres. A diíTiculdade desle 
ponto está, na opinião dos que o duvidaõ, cm que oGentio 
da terra soubesse ou tivesse discurço e habilidade para 
esta fabrica, e assim era necessário buscar-Ihes para 
ella Mestres. Mas isto só o pode suppor quem naõ li ver 
inteira nolicia do trato desta Gente, porque he certo, 
que elles sabiaõ fabricar dos cajus da terra, e outras 
varias frutas os seos vinhos e bebidas, compostas de 
vários ingredientes da mesma terra, expremendo-os e 
lançando os seos licores em vazos, e postos a ferver, 
huns ao fogo, e outros ao tempo; assim a mesma expe- 
riência lhes podia ensinar a expremer as canas, cozer o 
seo caldo e fazer de hum pouco deste o seo mel para 
comer logo e guardar, e outro pouco deixa-lo engrossar 
mais, e lançado em vazos de barro maiores para coalhar, 
e fazer o açúcar^ e em outros vazos menores, a que 
chamaõ cuyas, ou cuyatez as rapaduras, ensinando-lhcs 
a mesma experiência que para ficarem mais claros os 
maiores lançarem-lhe em sima o barro, e deixa-los a 
purg r as suas humidades. lie sem duvida que naõ era 
isto, nem podia ser com aquella perfeição e singulari- 
dade com que depois o executarão os Portuguezes, ou 
ensinados pela mesma experiência, ou buscando para 
isso Mestres dos que o fabricavaõ na Ilha da Madeira^ 



28 

quQ íie o mais, que de lá podia vir, o que ainda assim 
duvidamos e lie só conjectura ; pois os hoiiens com o 
tempo e experiência tudo vaõ aperfeiçoando, como a 
mesma experiência e tempo tem mostrado; pois sendo 
a ultima parte do mundo, em que se fabricou o açúcar a 
do Brasil^ be o mais perfeito de Iodas, e com maior abun- 
dância e commercio, do que em outra alguã, o que tudo 
se deve aos Portuguezes seos babitadores; pois o Gentio, 
nem o fazia, como dissemos com abundância, nem 
perfeição; porque naõ usava delle para negocio, e só o 
que Ibe bastava para a sua gulozina e bebidas. 

Neste ponto das suas bebidas foraõ sem duvida os ín- 
dios do Brasil e America muy curiozos, c apurados. 
Huã das mais selectas, ou celebradas em todo o mundo 
he a do — Chocolate ; — e supunbo sabem muito bem os 
que lem as historias, que dos índios destas partes foi 
invenção esta bebida ; pois para se naõ duvidar fosse 
assim, alhe o nome que ainda hoje lem e conserva be 
o que lhe deoomesmo Gentio*; porque a palavra. — Cho- 
colate — he própria, originaria e natural desta Genle. 
Assim chamavaõ elles a esta sua estimada bebida, que 
compunhaõ do cacáo, taõbem nascido nas suas terras, 
nioido em pó, ajuulando-lhe o mel de abelhas, ou 
de páo, com outros ingredientes da mesma terra ; ainda 
que depois a Naçaõ Ilespanhola e outras o eompuzeraõ 
com mais perfeição, por cauza da baunilha, e mais con- 
leiçoens aromáticas com o açúcar, e formando a maça 
de que compõem os bolos, ou páos nas formas, em que 
os vemos. E quem sabendo isto, e que na America foi 
achado pelo Gentio o modo de fazer o chocolate, na 
forma que fica ditto, poderá negar o mesmo do açúcar 
e canas; e muito melhor, quando assim o estaõ dizendo 
os primeiros que escreverão da capitania de Stào Vi- 
cente, no Brasil. — Aqui se achou o modo de fazer 
açúcar \ e aqui se acharão primeiro as canas, em que 
se fabrica . — 

* Bluteau, ibi Verbo Chocolate. 



ADDITAMEPiTO IV. 

A' Capitania da Paraíba, 

Na Estancia desta capitania a pag. 176 do Preambnlo 
na l."* parte desta Chronlca^ faltando dos fillios de Joaõ 
de Barros^ nosso faniozo liistorlador, assentamos qne 
mandados por seo Pay a fundar esta sua capitania, foraõ 
naufragar todos nos buyxos da Ulia do Maranhão, levados 
de ventos contrários. Assentamos taõbem alli para esta 
sua derrota o anno de 1539, seguindo o Autlior da Vida 
de Gomes Freyre, e o que escreveo a vida do mesmo 
Joaõ de Barros, que anda no principio do livro inlilu- 
ladOy o Emperador Ciar imundo, da quarta impressão, 
aíTirmando ambos, que naquelle anno de 1539, mandou 
Joaõ de Barros a seos filhos em companhia do capitão 
Ayres da Cunha a fundar a sua capitania da Paraiba, 
ainda que o da Vida de Joaõ de Barros, se equivoca 
dizendo, era esta a do Maranhão; e accrescentando o 
da Vida de Gomes Freyre que a mandara Joaõ de Barros 
fundar no sobreditto anno de 1539, havendo-lhe feito 
ElRey D. Joaõ o 3.° a mercê delia no de 1535. Seguimos 
a estes dous nomeados por naõ podermos alcançar a pri- 
meira parte das Décadas do mesmo Joaõ de Barros. 
Mas depois de se mandar imprimir a Primeira parte 
desta nossa Chronica, e vindo taõbem ter á nossa maõ 
aquella primeira das Décadas do sobreditto Joaõ de 
Barros, novamente impressa, nella achamos, diz o 
mesmo Author, que no anno de 1535 mandara elle fun- 
dar a sua Capitania*, faltando assim sobre esta Pro-. 
viucia de Santa Cruz do Brasil. — Os feitos da qual por 
eu ter Imã destas Capitanias me tem custado muita sus- 
tancia de fazenda^ por razão de Imã armada, que em 
praçaria de Ayres da Cimlia e Fernão D' alvares de 
Andrade, Tliesoureiro mór deste Rey no , todos fizemos 
para aquellas partes o anno de 1535, A qual armada foi 

* Barros, Decad. I., p. 101 



30 

de novecentos homens, em queenlravaò cento e treze de 
cavalío, couza que para taò longe nunca saído deste 
lieyno, da qual era capitão mór o mesmo Ayres da 
Cunha. — Taõbem com esla primeira parte das Décadas 
nos vieraõ á maO os Diálogos de Mariz novamente im- 
pressos, que se antes os tivéramos^ nelies \iramos o 
mesmo que diz Barros na sua Década, e assentaríamos 
em a Estancia do Preambulo do nosso Novo Orbe, ou 
primeira parle da nossa Glironica para a fundação da Ca- 
pitania da Paraiba este anno de 1535, queassigna o seo 
próprio Donatário, e naõ o de 1539 que põem os Au- 
tliores que alli seguimos. 

Fazemos esta repetição ou accrescenlamento ao que 
na Estancia referida deixamos assentado, naõ só para 
emenda c verdade delia ; mas laõbem para que assim 
se veja melhor, e fique mais firme o que no mesmo lugar 
assentamos, de que foraõ estes filhos de Joaõ de Barros 
á Ilha e terras do Maranhão, primeiro que lá chegasse 
Luiz de Mello da Silva, contra a opinião dos mais, que 
escreverão, e querem fora este o primeiro. Porque, se 
como lá dissemos, hindo os filhos de Joaõ de Barros 
ao Maranhão de arribada no anno de 1539, sempre 
pelas razões que apontamos alli, foraõ primeiro que 
Luiz de Mello da Silva ; mais evidente fica esta sua pri- 
mazia hindo elles ao Maranhão ainda antes do anno de 
1539, no de 1535, como agora se diz seguindo a verdade 
do seo próprio Donatário e verdadeiro historiador. 



ABDITAMINTÔ V. 

Á" Capitania do Maranhão. 

A pag. 205 num. 190 do Preambulo fallando de Je- 
rouymo de Albuquerque^ Restaurador do Maranhão, se 
diz assim. — Naõ achamos fosse cazado Jeronymo de 
Albuquerque ; mas conforme a certo Genealogista, 
a quem este dá o titulo de capitão do Rio de Janeiro, 
com outra Índia chamada taôbem D. Maria de Arco 
Verde, e seria parenta de sua Mãy, leve Jeronymo de 
Albuquerque entre outros filhos a António de Albu- 
querque, etc. Isto dissemos seguindo o thealro Genealó- 
gico na Arvore 223, na qual se acha que de Jeronymo 
de Albuquerque capitão do Rio de Janeiro e de D. Maria 
de Arco Verde nasceo António de Albuquerque conquis- 
tador do Maranhão, o qual foi cazado com 1). Catharina 
Feyo, filha de António Pinheiro, Feytor Mór da Armada 
que foy ao Maranhão; e que deste António de Albu- 
querque e sua molher D. Catharina Feyo foi filho outro 
António de Albuquerque, comendador do Ervedal, 
Governador do Maranhão e Paraiba, e que fora cazado 
com D. Joanna Luiza de Gastello Branco, filha B. her- 
deira de D. Joaõ de Gastello Branco. — Seguindo nós 
a planta desta Arvore, e reparando que em outra do 
mesmo livro, que a 213, fallando em Jeronymo de Albu- 
querque, o 1/ e cunhado de Duarte Coelho Pereyra, 
primeiro Donatário de Pernambuco, e em D. Maria de 
Arco Verde, só o trata allipor Jeronymo de Albuquerque 
sem o additamento de capitão do Rio de Janeiro. E 
sabendo nós por outra via que o 2.* Jeronymo de Albu- 
querqueouMaranhaõ fora capitão mór do Rio Grande 
donde se fundou a cidade do Natal, como o escrevemos 
em a Estancia desta Capitania, supondo serequivocaçaõ 
da tal Arvore pòr-se nella em lugar do — Rio Grande, 
Rio de Janeiro ; e sobre tudo termos visto em outras 
Memorias^ que António de Albuquerque fora filho de Je- 



52 

ronymo de Albuquerque o 2.°e uaõ do 1.** fundados em 
tudo isto, dissemos no tal num. 190 naõ achávamos, 
com quem fosse cazado Jeronymo de Albuquerque, este 
segundo ou de Maranhão^ supondo ser aquelle capitão 
do Rio de Janeiro, que leve por filho a António de Al- 
buquerque, que se acha na referida Arvore 223. 

Naõ obstante assim o assentarmos alli, sempre fi- 
camos com duvida neste ponto* Para a tirarmos recor- 
remos ao Sargento Mór António Jozeph Victorino Borges 
da Fonceca em Pernambuco, por sabermos ser sugeito 
douto, e versado nesta matéria, e que tem composto 
para dar a luz, com muita indagação e clareza, as Ge- 
nealogias das Principaes Pessoas daquelle Estado. Esta 
diligencia a fizemos por via do P. Uiífinidor Fr. Ludo- 
vico da Purificação, Religioso do nosso Instituto^ assis- 
tente no convento de Olinda, e por este nos foi remetida 
huâ Arvore da Ascendência e Descendência do sobre- 
dito Jeronymo de Albuquerque Maranhão, pela qual se 
vô que de Jeronymo de Albupuerque, cunhado do pri- 
meiro Donatário de Pernambuco Duarte Coelho Pereira 
e de D. Maria Arco Verde foi filho B. Jeronymo de Al- 
buquerque, conquistador do Maranhão e naõ António de 
Albuquerque; e que naõ este mas Jeronymo de Albu- 
querque, conquistador do Maranhão foi o que cazou com 
D. Catharina Pinheiro ou Feyo^ filha de António Pi- 
nheiro que foi taõbem ao Maranhão por Feitor Mór da 
Armada. E deste Jeronymo de Albuquerque conquis- 
tador do Maranhão foi filho António de Albuquerque, 
que era Governador da Paraiba em 1630, quando o 
Olandez entrou em Pernambuco, e da Paraiba mandou 
a seo Irmaõ Mathias de Albuquerque Maranhão com 
hum soccorro de Gente a Pernambuco, donde chegou 
a 24 de Fevereiro do mesmo anno*. 



* Meraor. Diárias, pag. 27. 



33 

Do que passou Jeronymo de Albuquerque, quando 
foi por capitão Mor do Rio Graude, ja fica assentado na 
Estancia desta capitania da I parte desta Chronica, e 
taõbem na do Maranhão donde falleceo, deixando no 
governo a seo fillio António de Albuquerque, o qual 
exerceo este cargo por catorze niezes^ desde onze de Fe- 
vereiro de 1618 que foi o da morte do seo Pay^. Dali 
passou logo António de Albuquerque a Portugal donde> 
diz o Âulhor dos Annaes históricos do Maranhão, se 
attendeo bem ao seo merecimento no prompto despacho 
da capitania mor da Paraíba, com a mercê de huã com- 
menda. Pelos annosde 1621 chegou a esta sua capitania 
e a governou por mais de treze annos ; porque no de 
163i ainda rezidia nella pelos fins do mez de Dezembro, 
em que tomada pelos Olandezes a cidade da Paraíba a 
24 deste mez, se retirou António de Albuquerque com 
muitos dos Moradores de dentro, e fora da cidade para 
o cabo de S. Agostinho, donde se achava o General Ma- 
thias de Albuquerque. .Era companhia deste, como se 
entende das Memorias Diárias**, sahio da Alagoa An- 
tónio de Albuquerque a 16 de Dezembro do seguinte 
anuo de 1635 por terra para a Bahya, a embarcar-se 
dalli para o Pieyno. Na corte cazou António de Albu- 
querque algús annos depois com D. Joanna Luiza de 
Castello Branco, filha B. Erdeyra de D. Joaõ de Gas- 
tello Branco, da Illustre casa dos Meyrinhos Mores do 
Reyno. Deste matrimonio depois de algús abortos lhe 
nasceo a coatro de Agosto de 1652 huã filha a quem cha- 
marão D. Antónia Margarida de Albuquerque, da qual 
se pode ver a sua vida em todos os estados, que teve de 
solteira, cazada, e Religiosa, e sempre digna para se 
admirar na III parte da Chronica da Província dos Al- 
garves, que trata do Mosteiro da Madre de Deos de Xa- 

* Num. 148 e 173. 
-* Pag. 209. 

J ABO ATAM. PART. II. VQL. I. S 



54 

bregas, Liv. 16, pag. 409. Falleceo Autonio de Albu- 
querque com boa opinião pelos aniios de 1667. 

Teve mais António de Albuquerque de sua espoza D. 
Joanna Luiza de Caslello Branco segundo filho chamado 
Afonço^ o qual embarcando-se no anno de 1671 para o 
Brasil com o Governador da Bahya Afonço Furtado de 
Mendonça, falleceo na allura de Pernambuco, e sendo 
lançado ao mar em hum caixaõ, as agoas o levarão ás 
Prayas do Meyrepe, entre o Reciffe ecabo de S. Agos- 
tinho, e D. Francisco de Souza senhor daquellas terras 
o fez sepultar em huã capella, que alli tinha, inferindo 
ser cadáver de Pessoa distincla. 



ADDITAMENTO VI 



A' Estancia 3." da Digressão V. 
Dos Ministros Provinciaes. 

XXX. O M. R. P. Pregador Fr. António de Santa 
Izabel, natural da Arafana de Souza no Bispado do Porto^ 
e professo nesta Província em o convento de S. António 
da Yilla de Iguaraçú nas partes de Pernambuco a 16 
de Fevereiro de 1725, em idade de vinte e sinquo annos. 
Depois de Guardião anno e meyo no convento de Igua- 
raçú e trez annos no de Paraguaçú, das partes da 
Bahya, vindo votar ao Capitulo de dous de Dezembro de 
1752, nelle ficou por hum dos seos Diffinidores^ e no 
seguinte de seis de Dezembro de 755 o elegaraO Guar- 

" 1758. 



55 

diao da casadaBahya, que occupou por três annos, e 
110 outro Capitulo de dous de Dezeuibro de 1758 em o 
qual prezidio com patente do R.'"" Padre Geral Fr. 
Pedro Joaõ de Molina o P. Ex-Provincial Fr. Manoel 
de Jesus Maria foi feito Ministro Provincial, e fez con- 
gregação a 24 de Maio de 1760. 

XXXI. O M. R. P. Pregador Fr. Manoel de Jesus 
Maria*, segunda vez eleito em o Capitulo de 1761^ cele- 
brado aos sinquo de Dezembro, em o qual, por patente 
do R."*° Commissario Geral Fr. Pedro Joaõ de Molina, 
presidio o P. Ex~Provincial Fr. Ignacio de S. Félix. 
Fez congregação a 4 de Junho de 1763. 

XXXII. OM. R. P.M.Fr. Jacinlho de S. Brígida**, 
natural da Freguezia da Victoria da Cidade do Porto, 
e professo nesta Província em o convento de S. An- 
tónio da Villa de Iguaraçú em Pernambuco aos 23 de 
Janeiro de 1731. Foy leitor de hum curço de Theologia 
da Bahya, e depois Mestre de outro de Philosophia com 
a Theologia de prima no mesmo convento. Guardião 
anno e meyo, por duas vezes no convento da Yilla de 
S. Francisco de Serégipe do Conde e DiíTinidor no Ca- 
pitulo de 5 de Dezembro de 1761, e secretario anno 
e meyo, sendo Diffioidor do P. Provincial Fr. Manoel 
de Jesus Maria, taõbem o havia sido outro anno e 
meyo do P. Provincial antecedente Fr. António de 
Santa Izabel ; e no Capitulo seguinte em que acabava a 
DiíTinidoria, celebrado ao primeiro de Dezembro deste 
anno de 176/1 em o qual presidio o P. Ex-Provincial 
immedialo Fr. António de Santa Izabel, por Patente do 
N. R"". P. Geral Fr. Pedro Joaõ de Molina, eleylo era 
Ministro Provincial ; e fez congregação aos 31 de Maio 
de 1766. 



4761. 
170Í. 



A' Estancia 4.^ da Digressaa V. 
Dos Estudos, 



XL. No convento da Babya sendo Provincial o P, 
Fi\ Anlonio de Santa lzabel\ Foy Mestre de Artes Fr. 
António da Annunciaçaõ^ c leo a Tlieologia com Fr. Joaõ 
dos Martyres e Fr. Manoel de Santa Anna. 

XLl. No convento de Olinda ao mesmo lempo. Foy 
Mestre Fr. André de S. Joanna, e leo a Tiíeologia com 
Fr. Manoel doMonle do Carmo e Fr. Cypriano de S. 
Bernardo. 

XLII. No convento do Reciffe no mesmo tempo. 
Foy Mestre Fr. Joaõ do Rozario^ e leo a Tiíeologia com 
Fr. Manoel da Conceição eFr. Jozeph deS. Bernardo. 

XLlll. No convénio da Cidade da Paraiba no mesmo 
tempo. Foy Mestre Fr. Manoel de Santa Elena^ e leo a 
Theologia com Fr. Félix do Rozario e Fr. Francisco 
Xavier de Santa Tliercza. 

XLIV. No convento da Cidade da Baliya, sendo Pro- 
vincial o P. M.Fr. Jacinto de Santa Brizida^*, sahio para 
Mestre de Artes Fr. André de Santa Joanna que aca- 
bava de ler o curço de Olinda. 

XLV. No convento de Olinda ao mesmo tempo. Para 
Lente de Artes Fr. JoaD do Rozario que acabava de ler 
o curço do Rccilfe, 



' 17oS. 



ADDITAMENTOVllI. 

A' Estancia 5." da Digressão V. 
Dos Escriplores. 



Fr. António de Santa Maria Jaboalaõ, (prcamb. L. 
p. folhas 347 do 1.° vol. dal/Partej. Além das obras, 
que ahi vaõ^ deo mais a luz. 

Sermaõ da Restauração de Pernambuco pregado na 
Sé de Olinda. Na Imprensa de Miguel Roiz' 1762. 

Sermaõ da Rainha Santa Izabel de Portugal, Na Im- 
prensa de Anlonio Vicente da Silva, 1763. 

Chronica da Província 2, p. hic. 

Fr. Bento da Prezentaçaô, Pregador, natural de 
Lisboa e professo nesta Provinda no convento de S, 
António^ Yilla de Iguaraçú a 21 de Janeiro de 1722. Deu 
a luz. 

Catágrafo Epipompeutico, ou breve narração da 
pompa, com que celebrou a Villa de Seregipe do conde 
os despozorios Augustos da Snr.^Princeza do Brasil. Na 
officina de António Vicente da Silva, 1764. 

Fr. Leonardo da Conceição, natural da Cidade de 
Lisboa, e professo nesta Província no convento de Pa- 
raguaçú aos oito de Março de 1714 cm idade de 17 
annos. Foy Guardião três vezes, DiíFinidor, e actualmente 
commissario de Terceiros no convento da Bahya, desde 
o anuo de 1754. I3a sua discreta, louvável e bem 
acceila applicaçaõ ao púlpito sahio á luz : 

Sermaõ de Santa Izabel Rainha de Portugal, pregado 
na capella da Ordem Terceira do convento da Bahya 
de quehe Padroeira a Santa, no anno de 1762. Naim- 
prensa de Francisco Borges de Souza, 1763. 

Fr. Manoel de Sanla Maria Itaparica, (tom. I, folh. 
370 do 1." vol. da 1 .* V,) tem mais promptas para dar á 
Imprensa. 



38 

Eustachidos, Poema Heróico, Sacro-tragicomico em 
que se escreve a vida de S. Custodio ou Plácido, sua 
iDulher e Glhos em seis cantos de 50 oitavas cada lium. 
M. S. 

Manifesto das grandes festas que se fizeraõ na capital 
da Paraiba aos faustissimoscazameutos dosPrincipes de 
Portugal e Gastella no anno de i728, dedicado a Joaõ 
de Abreo Gastello Branco, Governador ahi neste tempo; 
canto heróico, e panegyrico em oitavas 45. M. S. 

Descripçaõ da Ilha de Itaparica, Pátria sua, em 72 
oitavas com hum soneto no fim á mesma Ilha, outro 
ao sitio de N. S. do Loreto na ponta do Norte da Ilha 
dos Frades. 



ADDITAMENTO IL 

Á' algúas faltas da Imprensa, e descuidos da Escripta de maior nota, 
e necessidade de emenda da 1.* parte, que já está impressa. 

No Preambulo a pag. 159, num. HU três regras antes 
de acabar este numero donde diz — vinte e sinquo — se 
deve accrescentar — Legoas. — Estas — Legoas — se 
devem accrescentar. 

A' Pag. 204 num. 190;, no fim onde vay dizendo^. 
— EMathias de Albuquerque taõbem Governador da 
Paraiba, quando em Pernambuco entrou o Olandez. — 
Se devem emendar estas ultimas palavras, e dizer ; — 
Depois da Restauração de Pernambuco do Olandez. 
— porque quando o Olandez entrou em Pernambuco 
era Governador da Paraiba António de Albuquerque 

* A' pag. 176/ n, 15b, na 4 regra donde diz nove de comprido— Nove 
legoas. 



89 

irmaõ de Mathias de Albuquerque. A pag. 378, num* 
271, regra 1." que principia — Doze — se diga — Dez. 

A' Pag. 386, num. 278, na 3 regra donde diz — sempre 
a lerra, — falta-llie antes a palavra — cortando sempre 
a terra. 

A' Pag. 397, num. 291, linha ou regra 27— á Sur.** 
do Rozario — se emende — da Conceição. 

Na Chronica a pag. 17 do livro Anteprimeiro, num. 
17, na regra 21^ onle tem — 1523, — se deve emendar 
em — 1525, — como está a margem. 

A' Pag. 90, num. 77, no Gm donde diz — Quando a 
Yictoria — se deve accrescentar no meyo — Quando accla- 
mava a Vicloria. 

A' Pag. 283, num. 291, no fim em lugar de — 1610 — 
se deve pôr— 1618. 

A' Pag. 371, num. 383, na regra 5 da ultima co- 
lumna em lugar da palavra — Potentes, — se deve ler 
— Pontes. — 

A' Pag. 385, na decima quinta regra onde 
se diz. — Escriptura feita no anno de 1595;— ha de 
ser — 1585. 

A equivocaçaõ de se pôr alli em a Chronica este anno 
de 1595 pelo de 1585, nem foi da imprensa, porque 
assim o tinha o transumpto que se lhe deo, nem taõ 
pouco nossa que assim o escrevemos em oseo original; 
procedeo somente de quem nos conferio esta noticia, e 
teve o trabalho de a tirar de papeis pertencentes ao Re- 
colhimento da Conceição de Olinda, e no trasladar dei les 
esteve o descuido ou equivocaçaõ em pôr hum por 
outro numero ou anno, como muitas vezes succede nos 
algarismos. E conhecendo depois o mesmo sugeito esta 
equivocaçaõ, quando delia nos deo parte foi a tempo 
que a naõ podemos reformar. E' sendo assim, como 
he, que no anno de 1585 deixando Maria da Rozaassuas 
casas e Igreja da Senhora das Neves de Olinda em Per- 
nambuco aos nossos primeiros Fundadores desta Pro- 



^:^ 



4 



ao 

víncia do Brasil, e passando-se para a Conceição, lhe 
foi feita logo a sobredita escriptura e doaçaõ pelos Ir- 
mãos da sua confraria, esciizaramos as conjecturas ainda 
que ajustadas ao que hiamos a dizer, e concluiraraos 
sem ellas, como lá aíTirraamos que, quando os Irmãos 
da Conceição fizeraõ a Maria da Roza aquella escriptura 
no anno de 1585, naõ havia alli mais que a Igreja da 
Conceição e algúas casas a elia contíguas das quaes se 
serviaõ os mesmos irmaõs para as suas funções, e Ro- 
magens^ e nellas só assistia algum dos mesmos irmaõs 
para o tratamento e cuidado da sua Igreja. E por con- 
sequência desta doaçaõ feita no referido anno de 1585, 
se segue o mesmo que la concluímos e com maior evi- 
dencia do que se fosse feita dez annos ao diante no de 
1595, ehe que Maria da Roza e as mais senhoras, que com 
cila entrarão na posse da Igreja e casas da Conceição 
foraõ, ou ella só, a dispêndio seo a que fez e poz em 
forma o Recolhimento da Conceição que era o ponto 
principal da duvida que la tratamos. 

A.' Pag. 415, num 4'26 na segunda columna regra 7 
do principio do cap. 36, donde diz — e Povoador do 
Norte — falta-lhe a palavra da — Paraiba — e se deve 
dizer — E Povoador da Paraiba do Norte. 



IPROTTESTAÇAÔ, 

Conformando-me com os Decretos Apostólicos, especialmente do santís- 
simo Padre Urbano VIII, protesto, que quando nesta Chronica dou alguns 
elogios de Santidade, Martyrio, Revelações, Milagres, ou outros similhan- 
tes a Pessoas de que escrevemos, naõ canonisadas nem beatificadas pela Sé 
Apostólica, naõ he meu intento se lhe de mais fé, que a que merece huã 
narração puramente humaua, e fallivel, c assim nisto como cm tudo o 
mais me ponho com humildade de obediente filho aos pés da Santa Madre 
Igreja, sugeitando-me em tudo ao seu juizo, e correcção. Assim o protesto c 

ratifico. 

Fr. António de S. Maria Jáboataõ, 



mn ORBESERAFICO 

brasílico. 

PARTE SEGUNDA. 

LIVRO I. 

Traia da fundação do Convento de S, Francisco da cidade da Bahya, Reli* 
giosos que florecerao em virtude, e ahi estaõ sepultados, « do mais, qu« 
ã esta casa diz respeito, e he digno de memoria. 

Fundação^ e princípios deste Convento, 

1. Foy o Convénio da Bahya o segundo na erecça9 
desta Custodia de S. António do Brasil*, e he hojeopri- 
meyro da Provinda por casa capitular, e assim o guar- 
damos para dar por elle principio a esta segunda parte 
da sua Chronica. E ainda que muy cançada e enfra- 
quecida a vista pela distancia dos objectos, e muito 
mais pela debilidade da sua perspicácia receava entrar 
segunda vez pelas dilatadas esferas deste seráfico e novo 
orbe a indagar as alturas, aspectos, gráos, luzimentos 
e situações dos mais Astros e Estrellas, que o illustraõ 
e adornaõ; isto he, descrever as vidas de outros muitos 
Beligiozos de opinião e boa fama, as operações do es- 
pirito, a economia de todo o mais corpo Regular com 
as fundações dos conventos que se foraõ seguindo, como 
lugar e sitio donde desça nsaõ, viverão e operarão 
tantos varões dignos de fama; fortalecida com tudo a po- 
tencia a vigores do preceito^ e só com a mira no astro- 
lábio da obediência, torna na demanda de taõ laborioza 
em preza. 

• Anno 138T. 

JABOATAM. PART.II.VOL. I. 6 



42 

2. Tem os Varões Apostólicos a propriedade de luz, 
as suas vozes o som de trovões e as suas virtudes a eífi- 
cacia dos Aromas. Estes^ quanto mais recluzos^, mais 
respiraõ ; no uiais remontado retnmbaõ mais os tro- 
vões, e a todo o mundo se participaõ as luzes. Astros 
do Emisferio do Brasil eraõ os Padres Fundadores desta 
Custodia, e huns como Apóstolos mandados a esta 
parte taõ notável do Novo Mundo, luzes a sua doutrina, 
trovões as suas vozes, e aromas as suas virtudes^ e attra- 
bidos do suave cheiro destas, que naõ se podendo conter 
«o recôndito da clausura, respirou logo por fora, naõ 
se ouvindo as vozes do seo bom exemplo só ao perto, 
taõbcm no mais distante, e naõ chegando a luz da sua 
doutrina só aos povos vizinhos, mas ainda aos mais re- 
motos. Foy a Buhya a primeira, que se deu por avizada 
das suas luzes, movida das suas vozes e sentida da sua 
suavidade. Era a cabeça de todo o estado, e como esta 
parte no corpo humano he donde rezidem as potencias 
perceptivas e de que dependem os seus movimentos, 
assim aquella, como capital do Ci)rpo Monarchico do 
Brasil devia ser a primeira que se movesse a piedoza 
e calholica acçaõ que executou. 

3. Logo que naquella Metropoli chegou a noticia de 
que em Pernambuco se achavaõ Religiozos Menores 
a fundar conventos, e que ja em Olinda tinhaõ hum, e 
da boa acceitaçaõ em que estavaõ de todo o Povo, des- 
pacharão os da Bahya seos Procuradores com cartas do 
Bispo e camera para o P. Custodio Fr. Melchior, convi- 
dando-o para que fosse ou mandasse Pieligiozos á sua 
cidade ao mesmo eíFeito, oííerecendo cada hum da sua 
parle todo o favor, ajuda e soccorro que necessário 
ibsse. Naõ recuzou o P. Custodio a oííerta, e só se exímio 
de a poder executar com a brevidade que requeriaõ c 
elle dezejava ; mas que da sua parte promettia passar 
áqucila cidade o mais depressa que o tempo lho permi- 
tisse, e a accommodaçaõ da casa de Olinda que ainda 



m 



43 

eslava muito nos seos princípios, falta de obreiros suin. 
cientes para se repartirem por outras, e necessilada da 
sua assistência. 

4. Havia entrado o anno de mil equinlientos e oi- 
tenta e settc, quatorze mezes depois que os Padres Fun- 
dadores se linhaõ passado para a casa da Senliora das 
Neves^ e quasi dons annos que eraõ cliegados a Per- 
nambuco, acliava-se na Viiia de Olinda o lilustrissiaio 
Bispo D. António Barreyros que da Bahya era ali vindo, 
desde o anno passado de 1586 á vizita daquella Pro- 
víncia sua suíTraganea ; era Prelado devoto, e zeloso 
do bem espiritual das suas ovelhas, via o quanto as 
daqiiellas parles aproveitavaõ com o pasto e doutrina 
de laes Pieligiozos, e levado do Santo dezejo de que 
para as da sua Metropoli tivesse taôbem a estes coad* 
jutores, avivando com a sua Pessoa e aulhoridade o 
que ja anles por caria havia procurado, a instancias e 
rogos deste bom Pastor, e teu lo ja o Padre Custodio 
posto na melhor forma e commodo que podia ser a casa 
de Olinda, no principio deste anno de 'l587emcom- 
panliia do lllm. Bispo se embarcou para a Bahya, levando 
comsigo ao P. Francisco de S. Boaventura, o Irmaõ 
Fr. António da Ilha e outro Beligiozo mais, de quem 
nos naõ dizem as memorias o seo nome. 

5. Com breve e prospera viagem, percorrerem ainda 
por este tempo na costa favoráveis as monções, chegarão 
ao porto da Bahya. Na cidade, com universal aplauzo, 
foraõ recebidos de todos os Moradores, e muito em 
particular do Governador do Estado, que entaõ era Ma- 
noel Telles Barreto, que falleceo depois neste mesmo 
anno a dez de Agosto, como consta do cartório da ca- 
mará da mesma cidade ; e naõ D. Francisco de Souza, 
como dizem algúas Memorias ; porque este entrou no 
governo em 1591^, e no meyo tempo da sua posse, e 
morte do outro, que foraõ quatro annos, ficou gover- 

* America Porlug., pag. 195, n. 87. 



44 

liando o 111."'" Bispo D. António Barreiros^ e o Provedor 
M-ór da fazenda Gbrlstovaõ de Barros. Taõbem con- 
correo para o recebimento dos Padres a camará, e Pes- 
soas Principaes. Todos os queriaãpara hospedes, epre- 
ferio a todos o III.""" Prelado com elle, e em companhia 
de innumeravel Povo de toda a cidade se recolherão ao 
seo Palácio, e nelle foraõ agazalhados por vinte dias, 
em quanto se lhes assignava lugar para a sua habitação. 

6. Iluã noticia exlrahida do cartório daProvincia de 
S. António de Lisboa, diz, que depois de feitos alguns 
discursos sobre o lugar para a fundação do novo con- 
vento e sitio para os Religiozos, vieraõ elles a aceitar 
o que lhes ofíereceo a camera,e chamavaõo Monte Cal- 
vário, fora dos muros da cidade donde hoje se vê si- 
tuado o convento de Nossa Senhora do Carmo, e que 
a cauza de fazerem a acceitaçaõ delie foi por haver alli 
hnã Igreja ou capelia perfeita de Nosso P. Saõ Fran- 
cisco, fabricada pelos Moradores a instancias de hum 
Religiozo Menor que viera ter alli, e nella assistira 
algas annos, e que nesta capellinha feitas buas chou- 
panas de palhas e barro, morarão os Religiozos a qua- 
resma daqnelleanno, mas que pela disconveniencia do 
Gentio, que habitava aquelles arredores e inquietavaõ 
o lugar;, e os Padres com os seos assaltos, largarão 
aquelle sitio do Monte Calvário, passando-se para onde 
agora estaõ. 

7, Esta noticia tem contra sy muitas incoherencias, 
ou contrariedades. He a primeyra suppor, que naquelle 
tempo em que os nossos Frades chegarão á Bahya 
a fundar convento^ estivesse esta cidade taõ diminuta 
de Povo^ e contrahido este ou reduzo dentro das suas 
cercas e muralhas, e no seu Arrcbalde, e circumvizi- 
iihança^ como era o Monte Calvário que apenas se di- 
vidia da cidade por hum breve inlervallo, ou meya 
bayxa, que se forma entre esta e aquelle, houvesse 
ainda Gentio bárbaro que pudesse inquietar aos Reli- 



55 

giozos a sua fundação, e os progressos delia no annõ 
de 1587, quando jaanlesdesle, trinta annos, no de 1558* 
naõ havia nos arredores e terrenos da cidade Gentio 
bárbaro, e só alguns pelos interiores dos Sertões, e seos 
Recôncavos para onde sahio neste mesmo anno o seo 
Governador Mem de Sá a doma-los e fazer guerra a 
alguns que se haviaõ rebelado para as partes de Para- 
guaçú. É se neste anno de 1558 os naõ havia ja nos ter- 
renos da cidade, nem vizinhos a elle, como os podia 
haver trinta annos depois no de 1587 ? 

8. Nasceo sem duvida a equivocaçaõ do que era fama, 
havia acontecido no anno de 154^ para sinquoenta, 
quando no principio da fundação da mesma cidade, e 
mudança de Villa Velha para aonde agora está, pelo 
primeiro Governador Thomé de Souza se deo a este lugar 
que depois se chamou Monte Calvário, aos Padres da 
companhia, primeyros que com o mesmo Governador 
chegarão á Bahya, e ainda ao Brasil para a sua situação, 
laõbem primeira, os quaes a pouco tempo o deixarão 
passando~se para onde hoje residem, pela inconveni- 
ência de ficar fora dos muros ou cerca da nova cidade, 
e sogeito ásiflvazões continuas do Gentio que habitava 
por aquelles Arredores, e linhaõ huã boa Aldêa, no 
mesmo sitio de donde o lançarão á força os novos Po- 
voadores da cidade, como fica notado ao principio desta 
segunda parle na Advertência; e isto que entaõ sue- 
cedeo com aquelles Padres, transferio sem duvida para 
os nossos a antiga tradição. 

9. Taõbem naõ concorda a noticia quando diz que 
os nossos Padres fizeraõ a acceitaçaõ do lugar do Cal- 
vário por haver nelle hua perfeita capella de S. Fran- 
cisco, a qual alli levantarão os Moradores, e nella assis- 
tira algum tempo certo Religiozo Menor que acazo viera 
ter á Bahya. Naõ concorda, dizemos, naõ só porque ha- 
vendo capella no lugar do Calvário, e fabricada pelos 

:" BarbozO; Meraor. Del-Rey D. Sebast., pag, 188/ n. 117. 



46 

Moradores ja de tempos mais alrazados, como poderiaO 
neste em que ahi chegarão os nossos a fundar^ serem in- 
quietos pelos Gentios os Frades, se os Moradores muito 
antes naõ sentirão essa turbação para a sua fabrica, 
manterem-na e viver nella hum Religiozo algiis annos? 
Naõ concorda taòbem, porque hindo logo nos seguintes 
annos de 1591 a fundar na Bahya os R[\. PP. de Nossa 
Senhora do Carmo neste mesmo lugar do Monte ou 
Bua do Calvário, consta dos seos assentos que a ca- 
pella^ que nelle acharão e lhes foi doada, era do titulo 
de Nossa Senhora da Piedade, motivo porque se deno- 
minava o sobredilto lugar Monte ou Rua do Calvário 
pela capellinha da Senhora da Piedade, e pela qual tem 
aquelles Padres obrigação, como a Padroeyra da casa 
rezarem na Sexta Feyra das Dores o seo oíficio da Pie- 
dade e irasferirem o das Dores para o Sabbado seguinte, 
e naõ consta dos seos assentos achassem no lugar outra 
capella. 

10. Naõ concorda finalmente este assento da Pro- 
vinda de Portugal com o do cartório desta Custodia do 
Brasil. Diz este assim fallando da fundação deste mesmo 
convento da Bahya : cliegando áquella cidade (o P. Fr. 
Melchior,) com seos companheiros procurarão o sitio 
donde agora está o convento, por estar já feita a Igreja, 
qne hum Reiigiozo Ilespanhol passando por aquella 
cidade fez edificar da invocação de Nosso P. Saõ Fran- 
cisco, E he o que sobre o sitio e lugar para a fundação 
do convento pudemos descubrir. E supposto pelas razoes 
apontadas nos naõ inclinamos ao assento da Província, 
seguindo o desta Custodia, sempre deixamos livre a 
melhor discurço ou a outra melhor evidencia e certeza 
a decizaõ da verdade, e em quanto naõ aparecer esta, 
siga cada hum o que mais quizer. 



47 
CAPITlJIiO II. 

Quem fez a data do sitio para a nova fundação, 

11. Do sitio principal para o convento^ que como 
himos dizendo, he o mesmo donde lioje está assentado 
quiz fazer doaçaõ a camera aos Padres Fundadores, mas 
houve sobre esta suas duvidas com hum António Fer- 
nandes, morador na Ilha de Maré, Recôncavo da cidade 
que no mesmo lugar, ou laõ pegado a elle que impedia 
o commodo e largueza para o terreno necessário á for- 
matura do convento, havia já fabricado algúas cazinhas, 
e lhe fora dado isto em dote por seo Sogro Pedro de 
Ciebra. Assim este homem como os oííiciaes da camera 
linhaõ sobre o lugar cartas de cismarias passadas pelo 
Governador Mem de Sá, sendo que as da camera eraõ 
anteriores as de Pedro de Ciebra ; mas depois de alguãs 
duvidas havendo entre estas partes boa compoziçaõ, 
dezisliraõ ambas do que lhes pertencia, a camera gra- 
tuitamente da sua, e António Fernandes convindo em 
queselhe dessem pelas bemfeitorias duzentos cruzados, 
os quaes pagou o 111.'"'' Bispo D. António Barreiros, fa- 
zendo aos pobres Religiozos esta esmolla, que naquelle 
tempo naõ foi taò piquena, e huà boa demonstração do 
seo grande zelo ás couzas de Deos, e singalar affecto 
aos Filhos de Francisco. Foy feita a escriplura desta 
doaçaõ aos oito dias do mez de Abril deste mesmo anno 
de mil e quinhentos e oitenta e sette, e delia consta todo 
o referido. 

12. Supposto tinhaõ ja os Religiozos pela data refe- 
rida bastante lugar para o convento e Igreja, naõ era 
com tudo o de que se necessitava para a cerca e cir- 
cumvalaçaõ dos muros, e assim se comprou mais aChris- 
tovaõ Albernaz huãs casas cora seo terreno por settenta 
mil réis, os quaes pagou o mesmo III."'" e devoto Pre- 
lado, de que se fez escriplura aos vinte e quatro de ou- 



m 

tubro (lo anno de mil e quinhentos e oitenta e nove* 
Para augmentar o mesmo terreno da cerca se com- 
prarão outros chaôs e casas a Martlm AíTonço Moreyra 
por preço de trezentos e sincoenta mil réis, os quaes 
pagou o syndico, das esmoilas do convento, de que 
taõbem se fez escriplura de sinco de Dezembro de mil 
e seis centos e vinte dous» 

13. Mas porque nos diz o cartório desta Custodia 
que no mesmo lugar da capellinlia do Santo Patriarcha 
se deu principio e fundou o convento, supposto este se 
acha com nova e avantajada fabrica^ tanto em corre- 
dores como na Igreja, ficando esta nova, como he 
certo, no mesmo lugar da primeira cantiga, vinha a ter 
esta o seo assento ao leste do collegio dos Padres Je- 
suítas, ficando este ao oeste, e ja sobre o despenha- 
deiro que íiiz o alto da cidade para a Praya, e Bahya, 
e o nosso para o campo, e aonde começa a fazer outra 
descida, ainda que uaõ precipitada para o que charaaõ 
Brejo. Corre esle entre o nosso convento e o de Santa 
Clara do Desterro ao mesmo leste, e em frente hum do 
outro, e só os divide este Brejo e as meãs subidas para 
huã e ou Ira parle. Corre o tal Brejo por dentro do 
nosso muro, e a parte desle, que sobe para o Desterro 
a devide de hum e outro a estrada ou Rua somente 
que atravessa por entre ambos, a saber entre o nosso 
muro e amuralha que cerca o pateo e fronlispicio do 
Desterro. 

li. Fica hoje a nossa Igreja com o Fronlispicio para 
a Rua que vay dar ao ditto collegio, pela qual andados 
cento e oitenta passos se sahe ao canto do seo terreyro, 
que busca a maõ dereita para Saõ Domingos, e as portas 
principaes destas duas Igrejas, Collegio, e nossa corres- 
pondentes, sendo que na sua primeira fundação ficava a 
porta principal da nossa para o nascente e Rua que 
vay hoje para os Terceyros, e a porta travessa para a 
Rua que vem do collegio, e fazia naquelles teaipos as 



49 

vexes de principal. E porque parecerá contra o eslillo 
e praxe das nossas Igrejas terem portas travessas para 
as Ruas, nos pareceo devíamos ajuntar aqui huã peliçaõ 
feita pelo Syudico do convento, e despacliada pelo Go- 
vernador do i^>stado D. Francisco de Souza ; porque deste 
papel autentico por hum escrivão publico^ assignado 
pelo Governador e oíTiciaes da camera, tiraremos algum 
discurço mais certo e evidente, ou ao menos melhores 
conjecturas sobre o que fica ditlo, e diremos ainda, e lie 
na forma seguinte. — 

Diz Chrixtovaõ de Barros, Syndico do Mosteiro de 5. 
Francisco desta cidade da Bahyaf que os annos passados de 
oitenta e oito^ sendo elle supplicajite e o Senhor Bispo, Gg* 
remadores deste Estado do Brasil, juntamente com os offi- 
ciaes da camera que entaõ eraõ, foraõ ver huã Bua, que 
vay ao longo do dito Mosteiro de S. Francisco para a casa 
de Marlim Afjonço Moreira, e estando todos prezentes, e 
alguã Gente do Povo, disseraõ os Padres que se parecesse 
bem darem-lhe aquella Rua, edificariaÕ o Mosteiro de ma^ 
neyra que a poria travessa da Igreja ficasse na frontaria 
principal, que vem dar no terreyro de Jesus ^ doutra ma- 
neyra que forçozamente aviaõ de afastar- se com a obra de- 
traz, e além de ficarem muito grandes entulhos, naõ ficava 
ennobrecendo tanto a cidade, e que elles darião outra Rita 
pelos chãos que se comprarão para a ditta casa, saõ ao longo 
da casa de Vicente Roiz Pedreyro, que fosse sahir junto da 
porta do diito Martim A/fnnço Moreyra ; o que visto por 
todos ser cotiza, e ficar o ditto convento authorizando mais 
a cidade, assentarão os ditfos officiaes que a ditta Bua do 
conselho se mudasse, e que os Padres se taxassem com o canto 
da casa de Martim Affonço, porque lhe davad a Bua toda 
assim como corre junto do seo quintal athe o canto da ditta 
casa, sobre o qual assento os dittos Padres edificarão a casa 
onde hora está, e se comprarão assim as casas do contador 
como as do outro canto mais a bayxo, por ficarem, o que 
puderaõ esciizar-se se afastarão para traz com a obra ; e 
porque do sobreditto assento se naõ fez auto por parecer des- 
necessário, e os dittos Padres dizerem que bastava, e ora o 

JABOATAM, PART. II. YOL. I. 7 



50 

dítto Mar Um Affonço repugna a se laxarem os ditos Padres 
por o canto da sua casa ao longo do seo quintal. — P. a V. S. 
se informe cios officiaes cia camera, que alli se acharão que 
forad Enrique Moniz^ Sebastião Luiz, Jorge de Magalhães, 
André Monteiro, Pedro de Payva e outros, e achando ser 
verdade, mande que sem embargo de qualquer duvida que 
a isso se ponha, se cumpra o que estava assentado, visto naÕ 
poder ficar o Mosteiro em outra forma por ficar muy de- 
vasso. E. R. Justiça e Jf% 

Despacho. 

Informem os officiaes da camera que nesse tempo forad, 
e com sua resposta torne para nisso prover, como for Justiça. 
Na Bahya í^ de Janeiro de 1592. 

O Governador. 

Resposta dos Camaristas, 

O conteúdo nesta petiçnõ passa assim, e da maneyra, que 
o supplicante diz na Bahya a quatro de Fevereiro de 1592. 

Jorge de Magalhães. 

Ânrique Moniz. 

He verdade, que no anrto de oitenta e nove, sendo eu ve- 
reador com Enrique Moniz, Jorge de Magalhães, Pedro de 
Payra e Juiz André Monteyro, demos a Rua da contenda 
aos Padres de São Francisco. 

Sebastião Luiz. 

Pa^sa na Verdade o que os RR. Padres dizem na sua pe- 
tição, 

Pedro de Payva. 

Certifico eu Gouçailo Batista, cavalleyro fidalgo da casa 
de sua Magestade, que sendo eu Escrivão da camera desta 
Bahya do Salvador, vim com os vereadores a ver a Rua de 
que na petição atraz se faz mensaõ, e ouveraõ por bem e 
serviço de S. Magestade dar a ditta Rua aos Padres^ e man- 
darão^ que se lhe passasse disso sua data; e porque os mesmos 



51 

Padres, clizendo-lhes eu tirassem disso a data, o naõ fizcraò, 
por lhes parecer desnecessário, e os dltlos Vereadores ou- 
veraõ por dada a dilta Rua da maneijra que em sua pe- 
tição dizem, testifico a se passar na verdade pelo juramento 
que tive do ditto officio de Escrivão da camera. Bahya a 12 
de Fevereiro de 1592. 

Gonçallo Batista, 

Com estas informações tornarão ao Governador j e res- 
pondeo. 

Aja Vista Mar tim A/fonço Moreyra, contendo nesta pe- 
tição, ediga de suaj'ustiça em termo de clous dias, e com sua 
resposta torne. Na Bahya 6 de Março de 1592. 

O Governador, 

Aqui se seguia huã atteslaçaõ do o/ficial, que foi fazer esta 
deligencia a Martim Affonço Moreyra, e deu por fè que o 
naõ achara em casa, e só recado que tinha hido para a sua 
fazenda de Passèj a qual atteslaçaõ deixamos e só escre- 
vemos o ultimo despacho do Gorernador. 

Sem embargo de Martim A//'oriço Moreyra naõ ter res- 
pondido^ hey por bem e serviço de S. Magestacíe, que os 
Padres capuchos corraÕ com a sua obra por diante, e a isso 
se naõ ponha duvida alguã. Na Bahya 6 de Março de 1592. 

O Gorernador. 

15. Com este despacho e ordem do Governador, se 
continuarão as obras do convento, que vinhaõ a ser o 
corredor por detraz da capella niór pela Rua que co- 
meça a descer para a parte de S. Bento, buscando as 
casas da contenda de Martim Affonço, as quaes pelos 
obstáculos referidos, e impedirem taõbem a poder-se 
alargar mais a cerca por aquelle lado da descida se vieraõ 
a comprar, de que se fez escriptura aos sinco de De- 
zembro de 1622, que já fica apontada. 

16. Mas tornando ao principal motivo de trasladar- 
mos aqui esta petição do syndico do convento, que foy 
só por ver se delia tiramos alguã clareza ou maior evi- 



52 

dencia sobre algús pontos duvidozos de que ella e nós 
tocamos, como pcrlcncenles a esle ligar, vem a ser 
o primeyro, qual fosse aquella — Poria travessa — de que 
faila a dita petição, quando affirma dlsseraõ os Padres 
Fundadores aos officiaes da camera — ■ Que se lhe dessem 
aquella Piiia, elles edi ficar iaò o Mosteiro de maneyra 
que aporia travessa da Igreja ficasse na frontaria prin^ 
cipal^ que vem dar no terreyro de Jesus, Parece sem 
controvérsia ser esta porta aquella que costuma ficar 
ao lado ou ilharga das Igrejas, porque a estas lie que 
chamaõ vulgarmente — Portas travessas, — nem haverá 
quem queira dizer sejiò outras, e que esta de que aqiii 
falia a petição assima fosse a dn Igreja, assim além da 
mesma petição, o testificaõ muitos Religiozos que sendo 
ainda seculares e criados nesta cidade, huns que ja 
falleceraõ e outros que ainda vivem, e chegarão a ver 
esta Igreja primeyra e a sua porta travessa para a so- 
hredilta Paia, e terreyro do collegio, fazendo as vezes 
de porta principal^ e que para se entrar por ella se des- 
ciaõ alguns degráos a huíu piqueno pateo que fazia a sua 
entrada, porque ja dalli com:^:çava o terreno a fazer de- 
clinação sobre o Brejo, í:,ue por fugir o precipício que 
este a pouco distancia hia continuando, pediaõ os Padres 
aquella Rua, dando lugar para outra, comosedeo, e he 
a mesma (jue hoje corre a par do convento para a parte 
do Sul, como laõbem prometiaõ pôr a porta travessa da 
Igreja de sorte que ficasse fazendo as vezes de principal 
para a frontaria, e ílua dereita que sahe do collegio. 

M. Supposto naõ haver duvida, que esta porta tra- 
vessa fosse a (ia Igreja^ o que se oíTerece averiguar he, 
qual seria o motivo porque rezoiveraõ os Padres Fun- 
dadores coulra a praxe e formatura das nossas Igrejas, 
que ricnhuã tem porta travessa, a houvesse nesta e fi- 
casse para afrontaria da Rua^ e naõ a porta principal 
ou frontispício, como pedia a razaõ, e devia ser o mo- 
tivo ou razaõ, que para isto poderia lia ver mostrará o 
capitulo seguinte. 



53 
CAPITIII-O III. 

Se havia no Lugar, em que se fundou o convento a capella nomeadade 
S. Francisco. 

18. Ja apontamos as razões, e fundamentos pelos 
quaes consta com toíla a evidencia naõ assistirem os 
nosso Padres Fundadores no Monie Calvário logo que 
chegarão á Bahya, nem haver alli capella alguà de S. 
Francisco, motivo porque diz a noticia que referimos 
da Província de Portugal acceilaraõ elles primeyro 
aquclle sitio, que deixarão depois pela inconveniência do 
Gentio; segue-se agora averiguarmos taõbem se neste 
cm que ao prezenle estamos e se fundou o convento 
havia esta capella dedicada ao Seráfico Patriarcha, como 
se affirma no cartório desta Custodia. Naõ consta isto da 
Escriptura principal que he a de António Fernandes; 
poissó falia esta nos chãos que doava, nos quaes linha 
levantado huãs casinhas de taypa e palha, e na compo- 
ziçaõ que houve entre os oíTiciaes da camera sem outra 
slguã explicação, nem ainda dos termos e limites a 
que se extendia aquelia data, esódosdittos chãos e 
Buas que entre elles estavaõ. Bem poderia ser que o 
naõ fallar esta escriplura na data da capella, fosse por 
estar sita naquelle terreno que pertencia á camera, e a 
raznõ para assim ser parece evidente, porque sendo esta 
capella feita a despeza e esmollas do Povo e Moradores 
do lugar, como diz o cartório do convento, e tendo alli 
a camera asna parte nesta com beneplácito dos seos 
oíTiciaes, seria edeficada cntaõ, e dada agora pela mesma 
camera aos Pieligiozos. Nem obsta o naõ se fazer disto 
escriptura, como a naõ ha nem houve sobre a data da- 
quella parte de terreno que pertencia aos dittos oíli- 
ciaes; e nem os Pieligiozos a procurariaõ julgando-a por 
desnecessária com o mesmo descuido ou sinceridade 
com que a naõ quizeraõ da mesma camera, ainda quando 
lha oíTereciaõ sobre a mudança e troca da Rua, que de- 
pois lhe foi bem necessária. 



54 

19. O que sobre este ponto nos fez algum pezo, e 
poz por vezes era bastante indifferença a darmos assenso 
ao que diz o nosso cartório de haver no lugar esta ca- 
peila, foi a petição assima do syndico do convento, pois 
tratando estado lugar em que se elle devia erigir, e da 
porta travessa a da sua Igreja, naô explica se estava 
esta Igreja feita ou naõ. Mas fazendo sobre isto repe- 
lidas reflexões, e lendo muitas vezes esta petição, viemos 
a assentar por certo^ e sem duvida, que assim como 
aquella porta travessa naõ devia, nem podia ser se naõ 
a da Igreja, assim esta naõ era a que se havia levantar 
de novo, mas só a que ja estava fabricada ; e o principal 
fundamento para isto ser assim, he porque a naõ estar 
feita a Igreja, era supérflua a concordata de se obrigarem 
os Religiozos a pôr o convento de sorte que a porta tra- 
vessa da Igreja ficasse para a Rua dereita, e frontaria 
do collegio, porque entaõ se devia dizer que o fabri- 
cariaõ de modo que o fronlispicio e porta principal da 
ditta Igreja ficasse para aquella parte do ditto collegio. 
Nem se poderá dizer que quando se tratou este ajuste 
foi depois de estar ja levantada a Igreja nova, pois naõ 
havia ainda tempo para isso, porque neste anuo em 
que advertirão os Padres Fundadores na sobre ditta cir- 
cunstancia, que foi no anno de 1588, como o diz a 
mesma petição do syndico, naõ havia aiuda mais que 
hum anno com pouca diflereuca que alli chegarão 
em Abril do passado de oitenta e sette os dittos Padres, 
e naõ era este curso de tempo o que bastava para que 
pudessem ter dado principio e concluído a tal Igreja, e 
aiuda naquelles tempos, em que tudo se havia fazer de 
esmollas, e sendo taõ notória como he no lugar a diíTi- 
culdade dos materiaeS;, e especialmente a sua condução, 
e sendo taõbem certo, como logo veremos, que a pri- 
meyra obra em que cuidarão foi na fabrica dos corre- 
dores e Recolhimento para a sua moradia. Por estas 
e outras razões que facilmente se deixaõ perceber, po- 



55 

demos concluir que esta obra, que os Padres Futída-^ 
dores queriaõ continuar, como se collie da mesma pe- 
tição do syndico, naõ era a da Igreja, mas sim a dos 
corredores ou Mosteiro por aquella parte que liia ter 
ao quintal ou canto da casa de Martim Affonço Moreira 
que pelos embaraçar a proseguir ao diante, deu motivo 
á petição referida. 

20. De lodo o referido, o que por ultimo devemos 
assentar he que no lugar dado pela camera aos nossos 
Religiozos para a nova fundação, havia ja nelle huã 
Igreja do Seráfico Patriarcha, e que delia se servirão 
para o seo convento, e que esta foi a total razaõ porque o 
acceitaraõ. Assim o affirma o cartório desta Custodia ja 
notado, e o do mesmo convento nesta forma. — E se 
entregou aos Religiozos o ciilto sitio ^ e casas em que elles 
se recolherão, e logo começarão a ajuntar pedra e ma- 
deira para a edificação desta casa que edificarão neste 
sitio, assim por razaõ da Igreja de Nosso Padre Saõ 
Francisco, que ja estava feita, como da conveniência 
da agoa, — O melhor padrão que achamos para fazer 
de todo patente, e sem controvérsia solido o que athe 
agora parecerá só dlscurço, he vermos ainda hoje dentro 
dos muros e cerca do convento huã capellinha com seu 
copiar, ou alpendre sobre assentos e columnas de pedra, 
e taõ antiga que nem por tradição ou memoria alguã 
pudemos descubrir quando tivesse o seo principio, con- 
sagrada ao Seráfico Patriarcha co « a sua Imagem em 
hum só altar, que tem, e na qual em a Dominga que cahe 
entre o oitavario do Santo desce a communidade a can- 
tar-lhe a missa, e ha Sermão. Está sita esta capella no 
fim da quebrada abayxo do convento e sobre a margem 
do Brejo, fazendo frente a casa da fonte, fabricada na 
mesma forma do copiar da capella. Fica a fonte da outra 
parte do Brejo, pelo qual se passa para ella por hum 
aterrado de cento e sincoenta passos de comprido, e 
algus nove de largo, com suas guardas, ou parapeitos 



56 

de tijolo demais de liuà braça de alto, com seu aque- 
dueto ou cano de abobeda no meyo, pelo qual passaõ 
as agoas que vem de sima para baixo. 

21. O naõ terem os outros conventos desta Província 
(ainda que taõ praticado em outras) capclla alguã em 
as cercas, parece bastante prova para se discorrer que 
houvesse para ella algum particular motivo, e taòbem 
parece naõ poderemos descubrir outro mais ajustado, 
do que julgarmos quererem aquelles primitivos Padres 
conservar com a erecção e culto desta capellinha a me- 
moria da outra qne acharão no lugar do convento, e lhes 
sérvio de igreja para elle, que por este mesmo principio 
o intitularão com o nome do Santo Patriarcha, conser- 
vando a casa que de novo funda vaõ o titulo que para 
ella lhe deu a Igreja que alli acharão. Isto he o que 
sobre a capellinha, ou Igreja de S.Francisco, de que 
fallaõ os cartórios da Província de S. António de Por- 
tugal e desta nossa do Brazil pudemos alcançar, o muito 
menos ou nada sobre o Religiozo que dizem os taes 
cartórios a fundara 5 porque sem outra expressão alguã, 
50 affirmaõ era II espanhol. 

CAPlXlJIiO IV, 

Da-se principio a fundação do convento, 

22. Em huàs casas das que havia no lugar^e eraõ sem 
duvida de palha e barro, e das que estavaõ fabricadas 
no terreno da doação, que fez António Fernandes, como 
declara a sua Escriptura que alli tinha levantadas so- 
mente huãs casinhas de palha, se accommodaraõ os 
Padres Fundadores logo quesahiraõ do Palácio de S ua 
Illustrissima, passados os vinte dias de hospedes e feitas 
as Escripturas da terra, e compozicaõ do dito António 
Fernandes com os oíficiaes da camera. Para o culto 
Divino e funções Religiozas se foraõ servindo da Igreja 
do Santo Patriarcha em quanto naõ tinhaõ para con- 



57 

veiUo a formalidade necessária. Todas as direcções 
assim do governo como do mais corriaõ á dispoziçaõ do 
P, Custodio neste tempo qiiealli assistio. E assim tendo- 
se junto o material necessário, sendo pelos fins do anno 
referido de 1587 se deo principio á fabrica do convento, 
e foi ella delineada toda pelas regras da Santa pobreza, 
e conforme as apertadas linhas que ainda naquelles 
tempos lançava a estreiteza da Seráfica Reforma, pois 
sendo taô gigantes aquellcs primitivos Architectos que 
naõ cabendo nos âmbitos e esferas largas de todo o 
mundo os seos Espíritos para accommodar os corpos 
ainda o mais estreito e apertado Retrete lhes parecia 
casa sobeja, e mais que grande. Bem o mostra ainda 
hoje hum pedaço de corredor antigo que ficando de- 
sembaraçado do novo para a parte da Rua, e serve athe- 
gora deagazalho aos Escravos da caza, que em sinquo- 
cnta palmos de comprido e vinte de largo, havia nella 
quatro cellas que ainda se divizaõ pelas janellinhas 
que melhor se podiaõ dizer postigos, pois naõ tem mais 
que dons palmos de largo e trez de alio, e este era o 
restante do corredor que em outro lugar diremos mandou 
fazer o venerável Fr. Gosme de S. Damião sendo Cus- 
todio, com o tilulo de collegio de S. Boaventura para 
moradia dos Mestres e Esludantes dos cursos. Para 
esle se fazia passagem da ultima quadra que acabava 
de traz da capella mor que ficava donde he hoje o arco 
que sahe da Igreja nova por debaixo do choro para a 
casa da portaria, e á proporção deste em quanto á sua 
estreiteza de cellas e obras materiaes, eraõ os outros 
corredores que forma vaõ a quadra^ a qual ficando a 
Igreja antiga atravessada com a porta principal para 
onde he agora o Antiporlico dos Terceiros, vinha a ficar 
o claustro que formavaaditla quadra por donde fica hoje 
o corpo da Igreja nova. 

23. E esle foi emquanto a formatura e seu material 
o primitivo convento da Bahyn, ao qual tendo dado 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 8 



58 

principio o P. Custodio Fr. Melcliior pelos fius do anno 
de 1587 como fica ditto, no de 1588 voltou para Olinda 
donde o adiamos ja no ultimo de Novembro deste mesmo 
anno assignado em Imm termo de profissão feita por 
elle. Foy sem duvida muy conveniente e necessária na 
cidade esta larga assistência do Padre Custodio^ tanto 
para o fervor e applicaçaõ da obra e dispozicões para 
eila, pois cora a sua prezeuça e agrado se movia o Povo 
com mais devoção a concorrer com as suas esmollas 
e adjutorios ; como para satisfazer a vontade e gosto 
do lllustrissimo Prelado, que sobre ama-lo, o venerava 
muito, e a seo exemplo se accendia mais em os do Povo 
o dezejo deverem aos Religiozoscomocommodo, e aga- 
zallio conveniente. Concorrerão taõbem para a dilatada 
assistência do P. Custodio naquella cidade outros negó- 
cios pertencentes á conversão do Gentio em algumas 
Doutrinas que de varias partes se llie liiaõ oíTerecendo, 
e era necessário assentar com a camera e Bispo, que 
neste tempo fazia taõbem as vezes de Governador do 
Estado, como ja se disse, o modo e pratica que em as 
novas Doutrinas se devia observar, conforme as ordens 
Reaes e Decretos Pontificios. E como para effeito de 
ludo occurriaõ alguâs duvidas, para adecizaõ das quaes 
se necessitava de novas determinações e consenso Real 
como taõbem de mais Obreyros Evangélicos, assim para 
as doutrinas que se acceitassem, como para as funda- 
ções de novos conventos que se oíTereciaõ. Para tudo 
isto, e tratar taõbem do estado, accrescenlamento, e 
confirmação da nova Custodia, vistos os bons princí- 
pios, em que estava, e augmentos que prometia, des- 
pachou o P. Custodio da Bahya para o Reyno ao Padre 
Fr. Francisco de Saõ Boaventura, como ja se disse na 
primeira parte desta Chronica*, e elle retirando-se para 
Olinda, como aqui fica taõbem ditto, deixou por Pre- 
lado primeiro desta casa da Bahya, e agente das obras 

* Parte Í.S vol, 2." foi. 167, n. IH. 



50 

ao IrQiaõ Fr. António da Ilha, e por seo companheiro 
outro Religiozo, que com ambos tinha vindo de Pernam- 
buco. Estes foraõ, os que alli assistirão alhe voltar do 
Reyno Fr. Francisco de S. Boaventura, que trazendo 
com sigo doze companheiros, chegou a l^ernambuco nos 
principios do anno de 1590, com o soccorro dos quaes 
se proverão as ires casas, que ja havia fora a de Olinda; 
e vinhaô a ser a da Bahya, Iguaraçú, e Paraiba. 

24. Gonlinuava-se a obra dos corredores com grande 
fervor, e vontade de todos, assim Religiozos, como Se- 
culares, mas servia-lhe de grande embaraço para se 
avançar, e crescer adiante o material da pedra, que lhes 
era necessário hir busca-la ao bayxo da Bahya, e costas 
do mar das pederneyras, que cercão as suas prayas, que 
supposto abundantes e em distancia não muy prolon- 
gada, com tudo diíTicultoza a sua condução, por naõ ser 
possível traze-la assima em carros por se naõ uzarem na 
Cidade os boys pelo empinado, e diíTicil da sua subida, 
e era precizo, como ainda hoje se faz, conduzi-la em 
carretas, ás mãos e força de braço as maiores, e as co- 
muas a cabeça de Escravos, c servia isto de hum grande 
estorvo e vagar, além do muito gasto para a conti- 
nuação e presteza da obra ; mas como era esta sem du- 
vida do Serviço de Deos, e bem do Povo, assim catho- 
lico como Gentio, permitio o céo acudir a esta falta ; 
porque no mesmo lugar, em que se hia continuando em 
abrir os alicerces para ella, se descobrio pedra em 
tanta quantidade, que foi a que bastou para se prose- 
guir, e acabar a obra do convento todo com menos custo 
e trabalho, o que se attribuhio por couza prodigioza no 
commum, e em todos por Providencia ; pois concluída 
a obra no precizo, laõbem leve fim a pedreira, que lhe 
ministrou o material, mais diííicultozo, e necessário. 

25. Nesta forma se foraõ continuando as obras depois 
da auzencia do P. Custodio, e na direcção e cuidado 
do Irmaõ Fr. António da ilha alhe os fins do anno de 



60 

1e590, em que pelo meado deste cbegaiulo do Reyno o 
Irmaõ Fr. Francisco de S. Boaventura, e confiruiado 
ou reeleito em Custodio o mesmo Padre Fr. Melchior de 
8. Calharina, fazendo nomeação neste mesmo anno de 
novos Prelados para as casas, mandou para a da Bahya 
ao Irmaô Fr. Francisco dos Santos, que acabava de 
Prelado primeiro de Olinda, e chegou á Bahya já nos 
íins deste sobreditto anno de 1590, e governou esta casa 
mais de seis annos ; três e alguns mezes por esta no- 
meação do Custodio Fr. Melchior, e Ires com pouca dif- 
íerença pelo segundo Custodio Fr. Leonardo de Jesus, 
que entrou em Olinda em Junho do anno de 1594, e 
loi Prelado Maior athe o fim do anno de 1596. 

CAIPITtJIiO V. 

Continua-se a matéria do capitulo precedente, 

26. Nestes tempos que foraõ correndo desde o de 1587, 
athe o de 1596^ que fazem com pouca dilferença nove 
para des annos, e pelos dous Prelados ja referidos se 
completou no essensial a obra dos corredores, pois ja 
nos últimos do Guardião Fr. Francisco dos Santos, 
houve tempo e dezem baraço para se fazerem os Retá- 
bulos da capella, obra sem duvida por a lueiles tempos 
de nota, pois faltando destes o cartório da Custodia no 
assento dos Guardiães da Bahya, diz assim no do Padre 
Fr. Francisco dos Santos, — Sendo Guardião segunda 
vez mandou fazer os Retábulos da Igreja, obra perfei- 
tissima, que quebrarão os Olaúdezes . — E foi isto, quando 
alguns annos depois no de 1624 tomarão por interpreza 
a Cidade, e a dominarão por hum anno, com a pouca 
diíTerença de alguns dias menos^ como mais adiante se 
dirá. 

27. Contra isto dos Pietabulos está, o que escrevemos 
na primeira Parte, e Estancia dos Custódios, e fica aqui 
repetido, dizendo com o cartório da Custodia, que estes 



Gl 

Retábulos os mandara fazer o dillo Fr. Francisco dos 
Santos sendo segunda vez Guardinò da Bahya, e em 
lempo do Custodio Fr. Brás de Saô Jeronymo, que 
exerceoeste cargo desde o anno de 1597 atlie o de 1603^ 
que chegou a Pernambuco Fr. António da Estrella, que 
lhe veyo succeder ; e seguimos nisto o tal assento. Fa- 
zendo porém agora mais considerada reflexão neste 
ponto, e revendo com advertência o livro das Profissões 
deste convento da Bahya, achamos com evidencia, que 
o Padre Fr. Francisco dos Santos naõ foy Guardião da 
Bahya mais que huã só vez por espaço de seis para setle 
annos, como fica dilto, e naõ foi aili mais guardião em 
outro tempo, porque no do Custodio Fr. Brás de S. Je- 
ronymo, que diz o tal assento fora Guardião segunda 
vezo Padre Fr. Francisco dos Santos, he certo que o 
naõ foi, porque o foi olrmaõ Fr. António da lusua, lodo 
o tempo do tal Custodio, que foraõ alguns seis annos 
como se vc do mesmo livro das profissões, que em todos 
esses annos se acha nelle, como seo Guardião, e por estes 
mesmos annos era Guardião de Olinda segunda vez o 
Padre Fr. Francisco dos Santos, como taõbem se vê, 
não só do livro das profissões daquella casa, mas ainda 
do mesmo cartório de Olinda, e no da Custodia, nosquaes 
se diz, e concordaõ ambos assim : O quarto Guardião 
desta casa [áe OVnvh) foi olrmaõ Fr, Francisco dos 
Santos segunda vez, sendo custodio Fr, Brás de S. Je^ 
ronymo, — Foraõ eleytos estes dous Guardiães na Junta 
do Sobredilto Custodio Fr. Brás de S. Jeronymo, a 
saber, Fr. Francisco dos Santos, que acabava da Bahya 
para Olinda, e Fr. António da In ua, que assistia mo- 
rador em Olinda para Guardião da Bahya. 

28. Foy este livro cartório da Custodia por donde se 
tirarão os dos mais conventos feito, como ja outra vez 
se adverlio, pelo Padre Fr. Manoel de Santa Maria, 
sendo Custodio pelos annos de mil e seiscentos e trinta 
c nove por diante, que foi este o anno eoi que chegou á 



6-2 

Babya, e naõ podia escrever esta obra logo neste anno 
de trinta e nove em que chegou, se naõ nos seguintes, 
e de quarenta por diante atliG Agosto de quarenta e dons 
que pôz termo ao seo oíficio de Prelado Maior, tempo 
em que esta Custodia contava jamais desincoenlaesinco 
annos da sua fundação no de 1585. E bem pode ter des- 
culpa o Padre Fr. Manoel de Santa Maria, como ja se 
lhe deo em outra semelhante querendo fazer ao Padre 
Fr. Francisco dos Santos primeiro Prelado e fundador 
da casa da Paraíba, se naõ he que o ser este Padre seu 
Irmaõ duas vezes^ huma na Religião e outra no Século, 
e a obrigação em que lhe estava de o trazer da Pro- 
víncia donde era filho a esta Custodia, sendo ainda cho- 
rista quando veyo a ella por Custodio o ditto Padre Fr. 
Francisco dos Santos, manda-lo cá aos Estudos e cuidar 
dos seos augmentos, lhe naõ captivou se naõ o enten- 
dimento, ao menos a vontade em lhe querer dar mais 
do que ellc teve, ainda que pelo seo zelo e virtude 
muito mais se lhe devia; e por isso em lodos os as- 
sentos que o P. Santa Maria fez e tocaõ a este seu 
Irmaõ sempre os escreve algum tanto encarecido, e que 
fora sempre escolhido para Prelado e director das novas 
fundações, sendo que só o foi, primeiro para a de 
Olinda e para a da Bahya o segundo, e terceyro 
para a Paraiba. Este aíTecto ou incoherencia se está 
vendo neste mesmo ponto, em que estamos, pois ao 
tempo que escreve era o Padre Fr. Francisco dos 
Santos Guardião de Olinda a segunda vez, sendo Cus- 
todio Fr. Brás de S. Jeronymo, e que o fora todo 
o seo tempo ou do seo governo de Custodio, naõ lem- 
brado deste assento feito por elle mesmo, íaz outro 
dizendo que o Irmaõ Fr. Francisco dos Santos fora 
Guardião do convento da Bahya desde a congregação do 
sobredito Custodio Fr. Brás athe o fim que foi pelos annos 
de 1602 para seiscentos e trez, estando nestes mesmos 
annos assignado nos termos das profissões de Olinda^ 



63 

como seo Guardião o Padre Fr. Francisco dos Sanloâ* 
Taõbem para accommodar este seo Irmaõ na segunda 
Prelatura da Bahya, de que himos fallando, deixou fora 
delia ao Iruiaõ Fr. Manoel de Porta-Legre, que foi o 
septimo Prelado desta casa da congregação para o fim 
de Fr. Leonardo de Jesus a segunda vez que foi Custo- 
dio, devendo pôr em lugar do Padre Fr. Francisco dos 
Santos a Fr. Domingos deS. Boaventura, que põem de- 
pois, e no de Fr. Domingos de S. Boaventura a Fr. Es- 
tevão dos Anjos, e no lugar deste a Fr. Manoel de Porta- 
Legre, que deixou de fora. Tudo isto se vê com clareza 
pelas assignaturas dos termos das profissões da casa da 
Bahya, naquelles annos, que saò só os aulhenlicos que 
para a verdade pudemos allegar. Mas com tudo naõ que- 
remos negar, que o Padre Fr. Francisco dos Santos 
mandasse fazer para a Igreja aquelles Retábulos, e só 
himos a concluir que naõ em a sua segunda Guardiania 
nesta casa, porque a naõ teve, e nem taõ pouco em tempo 
do Custodio Fr. Brás, e so o poderia fazer na primeira 
e para o fim do Custodio Fr. Leonardo de Jesus da pri- 
meira vez que o foy. E se os taes Retábulos foraõ feitos 
em tempo do Sobredito Custodio Fr. Brás de S. Je- 
ronymo^ como he o mais conforme ao tempo e annos 
que se necessitava para cuidar em semelhante obra, de- 
pois das mais precizas do convento, também os naõ podia 
mandar fazer o Padre Fr. Francisco dos Santos, pois 
completou, como fica evidente, esta sua Prelatura da 
Bahya pelos fins doanno de 1596, tempo em que se cui- 
dava em continuar com a fabrica dos corredores, que 
havia sinquo para seis annos a que se lhe havia dado 
principio, como se colhe da petição do Syndico e con- 
serto com a camera, como ja outras vezes fica repelido. 



64 
rAPITBI.O \t. 

De outras ohras, que seforaõ seguindo. 

29. Concluida a obra dos corredores, entrando por 
Gnardiaõo P. Fr. Vicente do Salvador no anno de 161^ 
se fez a obra da Enfermaria. Pelos de 1622 se alargou 
o choro da Portaria athe os arcos, sendo Guardião Fr, 
Bernardino de Sant-lago. I^epois desta sendo Custodio 
o venerável Fr. Cosmo de S. Daiuiaõ pelos annos de 
1633, ordenou ao Guardião do convento Fr. Joaõ da 
Assumpção de Lisboa levantasse o corredor, de que ja 
lallamos, chamado de S. Boa ventura, para moradia dos 
collegiaes e Mestres, o qual permaneceo alhc os annos 
de 1686, em que se deu principio ao convento novo. 
Sendo Guardião o Padre Fr. Daniel do S. Francisco, 
que depois foi Custodio, se fizeraõ as obras seguintes, 
como diz o assento da casa, quando falia nelle. O ditto 
Guardião mandou fazer o sacrário e os dous Retábulos 
collaleraes e os dourou, e o arco, e fez Custodia. Pedio 
a Francisco Pereira de Paripe, c a seos írmàos a es- 
molla para se pagar o Retábulo maior, e a Francisco 
Fernandes da Ilha a paga do ouro, com que se dourou, 
e letra para mandar vir do Reyno as três Imagens dos 
Betabulos, e as das Reliquias. Os dous Retábulos colla- 
leraes se fizeraõ de tudo á custa de Philipe de Moura, 
e Diogo de Aragão, e em premio se lhe deraõ aquelles 
lugares para suas sepulturas. Estes Retábulos se dou- 
rarão no tempo do Guardião seguinte. — Este foi o Padre 
Fr. Jacome da Purificação, que depois, sendo Província 
esta Custodia, foy seu Provincial, primeiro com este 
nome, do qual faltando este mesmo assento dos Guar- 
diães desta casa, continua assim: — Neste tempo se des- 
pojou o Dique, e se levantarão os dous lanços de muro 
da parte de S. Bento, para o que o Doutor Francisco 
Barradas deu toda a csmolla. TaObem se foz a casa da 
fonte na perfeição em que esta, e o muro que esta 



65 

sobre a agoa do lagadiço, sobre grade de páo, couza de 
iiuiilo custo, para o que deu grande ajuda o ditto De- 
zembargador. — 

30. Este Dique de que falia o assento assima, era 
hum dos que para melhor guarda do corpo da Cidade 
formarão os Olandezes na sua tomada, ou interpreza 
no anno de 1624, e era das agoas que começaõ a correr 
das bayxas de S. Bento, e se augmentaO com os do Brejo, 
que nasce ao pé do nosso^ e vaõ discorrendo por diante 
entre os altos da Cidade sobre o mar^ e os que lhe ficaõ 
da parte da terra. Destas agoas formarão os Olandezes, 
quando Senhores iotruzos desta capital*, Ires grandes 
reprezas ou Diques, tomando-as em varias partes con- 
venientes, e onde se chega vaõ mais huns altos aos 
outros. Hum destes era abayxo do Carmo, e com elle re- 
prezavaO as agoas por aquellas bayxas athe assima da 
quechamaõ quinta do Maciel. Outro abayxo do nosso 
convento, entulhando hum estreito, que fica entre a Rua 
deS. Miguel, e a que sobe, e se diz da Poeyra. O ter- 
ceyro para Saõ Bento, com outro entulho entre a des- 
cida da Palma e a Bua, que sobe para a cadeya. Estes 
entulhos ou paredões fortalecerão com artelharia, e Pre- 
zidios para defender naõ pudessem os nossos romper e 
evacuar estas reprezas. 

ol. Ou por descuido ou por outro qualquer motivo, 
que se naõ expressa em as nossas Memorias, se conser- 
varão estes Diques, especialmente o que occupava o 
Brejo do muro do nosso convento athe os annos de 
1654, que foi o da Restauração de Pernambuco, e esta 
poderia ser a cauza de se naõ evacuar antes este Dique 
por terem assim a Cidade mais segura contra algúa in- 
vazaõ do mesmo Olandez por terra, stndo precizo con- 
serva-lo por alguns trinta annos depois de restaurada a 
Bahya no de 1625 a três de Maio, com hum grande e 

Restauracion de Ia Bahya pag. 

J ABO ATAM. PART. II. VOL. I. O 



66 

íiotavel detriniento nas agoas para o serviço do con- 
vento, em particular nas de beber^ porque as da fonte 
por Gear aiuy raza, e bem na margem do Brejo ficarão 
taõbem alagadas com a repreza deste Dique. Isto mostra 
com evidencia o mesmo assento, pois diz que despejado 
o Dique se fez a casa da fonte. Nem se pode conjecturar 
fosse esta a primeira, que alli se feZj pois quando en- 
trarão na Cidade os Olandezes no anno de 1624, havia 
ja mais de trinta e sinquo tinhaõ os Ueligiozos fundado 
nella convento, e deviaõ ter taõbem casa para a fonte, 
como buã das obras mais necessárias para a sua vivenda, 
e serventia, da qual os privou aquelle Dique, atlie que 
evacuado^ foi preciso fazer a casa, que aquellas agoas 
reprezadas por força de tantos annos deviaò ter con- 
sumido. Taõbem se fez entaõ, diz o ta! assento, o muro 
que está sobre a agoa do lagadiço sobre grade de páo, 
obra de muito custo. Mas naõ declara se foy este muro 
da parte de Saõ Bento^ ou da outra parte debayxo, pois 
ambos passaõ sobre as agoas do lagadiço, ou Brejo^ ou 
se foy, como julgamos ser, aquelle aterrado, queja dis- 
semos, pelo qual se passsa sobre o tal Brejo^ e lagadiço 
da capellinha de S. Francisco da parte do convento para 
a casa da fonte da outra parte. Julgamos, digo ser este 
muro de que falia o tal assento, aquelle aterrado, ou 
caminho para a fonte, por fazer neste meyo o Brejo maior 
bojo, o que naõ tem os outros por terem menos lagadi- 
ço, e o soco da terra mais chegado hum ao outro, e 
juntamente por naõ declarar^ como devia aíjuelle as- 
sento, se era este muro o da parle de sima, ou da parte 
debayxo, e fallar nelle logo immediatamente, que aca- 
bava de tratar da caza da fonte. Esta se tornou a re- 
novar sendo Guardião o ir. Pregador e Ex-Difllnidor 
Fr. ^ilvaro da Conceição, pelos aimos de mil e setecentos 
e trinta. Está a casa desta fonte sustentada pela parte da 
fronteyra, que olha para o convento, e responde a capel- 
linha do S. Francisco, sobre duas columnas de pedra 



67 

inteiriça de basianle altura com suas l)azes, c capiteis 
correspondentes, e pela parle de trás, ou do muro em 
hum paredão de pedra, e cal. No baixo, e meyo deste 
vem entrar hum cano de tijoUo, e abobeda pelo qual 
corre a agoa por mais de sincoenta passos, começando 
este ja bem pegado ao muro, a par do qual vay a estrada, 
ou Bua pela frontaria da nova Igreja de S. Anna 
e íviatriz do Sacramento para o Desterro. Logo da casa 
da fonte começa a levantar-se a terra por huã e outra 
parte, a esquerda para o Desterro, e a dereita para S. 
Anna^ fazendo huà meya bayxa por aqueiles sinquoenta 
ou sessenta passos athe quasi junto ao muro donde aca- 
bando a abobeda por donde vem a agoa, levantando 
a terra da mesma baixa alguã cousa mais nos deixa em 
duvida se este canal de pedra e abobeda continua por 
bayxo da terra e muro, buscando a nascença da agoa 
para o mais levantado entre S. Anna, Desterro e casa 
da pólvora, ou se alli donde o cano acaba, terá o seo 
nascimento. Dentro da casa da fonte desagoa em bas- 
tante quantidade, e sempre sem accrescimo ou dimi- 
nuiçaõj, por hum cano de bronze embiitido em pedra 
com suas carrancas, e molduras lavradas n modo de la- 
vatório^ e cahe dentro de huâ pia taõbem de pedra, e 
desta corre para fora a incorporar-se com as do Brejo. 
Tem a caza seus poyaisde tijolo, e azulejo donde se assen- 
lavaõ os Religiozos, quando alli hião, ainda que hoje 
ja o naõ podem fazer, por naõ ter a agoa sabida bastante 
parafôra, e estar o lagedo todo cheyo delia por respeito 
de se achar o Brejo muy intupido, e naõ despedir como 
ao principio as suas agoas, e pelo inverno com qualquer 
enxorrada chegaõ ja aoccupar a boca do cano de bronze, 
e impedir o tomar-se delle agoa, que se naõ houver algúa 
providencia na expedição destas do Brejo, como se vay 
sempre a intupirmais, virá pelo decurso dos annos, ainda 
sem inverno, a impedlr-se de todo esta da fonte. No 
meyo, e alto da parede, sobre o lavatório por donde sabe 



68 

o cano de bronze tem nicho de pedra lavrada, e uelle 
collocada Imã Imagem taõbem de pedra do nosso glo- 
riozo Sanlo António. Em 16^7, diz o assento ja referido, 
que neste anno, entrando por Guardião o venerável 
Fr. Cosme de S. Damião mandara levantar o arco, e 
fazer a abobeda da capella mór. E foi esta a ultima obra, 
que achamos notada, e com a qual se deraõ por com-- 
pletas as precizas, e necessárias, assim da Igreja, como 
do convento^ que nesta forma permaneceo athe o anno 
de 1686, em que se deo principio á fabrica do novo, que 
ao prezente existe, como em seo lugar veremos. 

De algúas graças, e favores feitos a este convento pelos nossos Monar- 
chas, e Soberanos. 

32. Foy oRey das Espanhas PhelipeII,e primeyroem 
Portugal, o que com piedade catholica, zelo da Ghristan- 
dade do Brazil, e muito em particular do seu Gentilismo 
concedeo a licença ao devoto e incomparável Jorge de 
Albuquerque Coelho, para passarem, como já outras 
vezes se disse, a rogos deste grande Heróe^ os Frades 
Menores a estas partes, e conquistas do Brasil, de que 
entaõ se acclamava Senhor aquelle Monarcha. A esta 
graça ajuntou outras da sua liberal e Regia magniíl- 
cencia, em especiaes esmollas^ e soccorros para a sus- 
tentação dos Religiozos, conservação e augmento do 
culto Divino, porque além do Subsidio que para tudo 
isto deu ao Padre Custodio Fr. Melchior ainda antes de 
sahir da Província para a primeyra caza que se devia 
formar em Olinda, como em seu lugar se disse; para 
esta da Bahya fez a mesma graça; e vinhaõ a ser oitenta 
mil réis de ordinária^ reduzidos ou pagos nas Alfan- 
degas em húa pipa de vinho, hum quarto de azeite, outro 
de farinha para hóstias, e duas arrobas de cera lavrada 



69 

para os Altares, a qual ordinária recebeo o convento alhe 
o anno de 1625, em que occupando os Olandezes a Ci- 
dade da Bahya no seguinte, e queimando o-u consumindo 
os papeis dos cartórios e camera, entre elles desapa- 
rcceo a Provizaõ Real, de que constava esta data ; e 
assim naõ podemos assignar o dia eanno da sua con- 
cessão. Mas he certo, que ao prezente se cobra esta or- 
dinária, e já se arrecadava desde os annos de 1639, 
como consta de hum assento do Archivo desta Província 
o qual diz, que com certidão do Ministro da Fazenda, 
de que os livros do Registo da camera se liaviaõ per- 
dido, por virtude delia se mandou lançar outra vez na 
folha, e se cobrou dahi por diante, como se continua 
athegora. 

33. O mesmo Monarcha Pheli[)e l.^^em Portugal con- 
firmou por húa ordem sua^ a esmoUa de hum cruzado, 
que a camera da Cidade por acordaõ seu determinara 
se desse todas as Semanas para sustentação dos Reli- 
giozos, logo que tomarão a posse e deraõ principio á 
fundação deste convento. Naõ vimos esta Provizaõ, mas 
consta de outro assento do mesmo Archivo, e se veri- 
fica por outra Provizaõ do segundo Pbelipe passada a 
vinte e três de Julho de 1620, por suplica, que se lhe 
fez, em virtude da primeyra, prorogou esta esmoUa, 
por seis annos mais, ordenando se pagasse no fim de 
cada anno por quantia inteira de vinte mil e oitocentos 
réis, e correo assim athe o de 1626. E porque, ou por 
descuido dos Prelados^ ou porque por estes annos se 
acharão as conquistas do Brasil notavelmente inquietas 
com as guerras dos Olandezes se naõ cuidou em haver 
nova prorogaçaõ para a tal esmolla, se naõ cobrou por 
algús annos. Mas fazendo-se depois suplica ao Terceyro 
Phelipe, por Alvará seu de vinte e dons de Junho de 
1634, a concedeo por outros seis annos que se comple- 
tarão no de 1610, e naõ consta se cobrasse mais athe 
o de 1671, sem duvida por cauza das guerras, e inquie- 



70 

tacões, que se seguirão pela acclamaçaõ do Rey Por- 
tuguez. Neste sobreditto anuo de settenta e huui, go- 
vernando a Bahya AíTouso Furtado de Castro do Rio e 
Mendonça o requerimento dos Religiozos^ e Syndico, 
em que se relatava liavereui recorrido taòbem a Sua 
Alteza o Senhor Rey Dom Pedro II, ordenou o ditlo Go- 
vernador á camará se desse a tal esmoUa, e o conse- 
guirão só por aíjuelle anno. Deste atlie o de mil e sette 
centos e trinta e quatro taõbem naõ ha clareza que 
se cobrasse, e só que neste anno a vinte e hum de De- 
zembro, fazendo-se novo requerimento ao Senhor Rey 
Dom Joaõ o V, remeltéra elle a petição assignada pelo 
seo Secretario de Estado Manoel Caetano Lopes de 
Lavre aos officiaes da camera para que o informassem, e 
com attestaçaõ destes mandou continuar a dilta es- 
moUa, applicada para a Enfermaria do convento, por 
carta sua de 14 de Fevereyro de 1748, por seis ânuos, 
que se cobrou athe o de 755, em o qual por outra Pro-^ 
viçaõ do Senhor Dom Jozeph 1, nosso Reynante Mo-^ 
narcha, de três de Agosto do sobredito anno a mandou 
continuar., e se vai cobrando. 

34. Por híia ordem do Governador do Estado D. Ro- 
drigo da Costa se assentou Praça de capitão intertenido 
do Forte da Barra do titulo de S. António ao mesmo 
Santo, e para que conste do motivo, que houve para 
esta resolução, que naõ deixa de ser digno de nota, nos 
pareceo o devíamos transcrever aqui, que he o seguinte: 

Por quanto o Senado da camera desta cidade me repre- 
sentou por caria de dez de Junho deste anno, que no de mil 
seiscentos^ e quarenta^ e sinco se resolvera no mesmo Se- 
nado mandar dizer todos os annos no Gloriozo Santo An- 
tonio da Barra da diíta Cidade huã capella de missas^ e se 
lhe fizera voto, de que restaurando-se Pernambuco se lhe 
faria huã Imagem de prata, e no dia da Restauração huã 
festa, e procissão solemne, como consta do termo feito em 
o livro do mesmo Senado, e restaurando-se aquella capitania 
do poder dos Olandezes, [que por espaço de vinte, e quatro 



71 

annos a iyrannizaraõ, e opprimiraõ,) se naõ satisfizera em 
todOi nem em parte o clitto voto ; e 'porque hoje mais que 
nunca necessitamos dos favores do clitto Santo, naõ só pelas 
grandes guerras, que de prezente ha em Portugal, se naõ 
taõbem pelas que se prezume poderá haver na Bahya, e ser 
o ditto Santo o primeyro Protector desta Cidade : Me pedia 
o ditto Senado, que em commutaçaÕ do ditto voto mandasse 
sentar Praça ao Glorioso Santo António de capitão Inter- 
íenido do Forte de S. António da Barra donde tinha a de 
Soldado razo, athe se dar parte a sua Magestade, que Deos 
Guarde, e que naÕ o havendo assim por bem o ditto senhor, 
(o que se naõ devia esperar da sua Real Grandeza,) restitui- 
ria logo o mesmo Senado ao Thesoureiro da Infantaria, 
(cada hum pro rata,) tudo o que se tivesse despendido. E á 
vista da Informação, que sobre este particular me deu o 
Provedor Mor da Fazenda Real deste Estado, lhe ordeno por 
esta mande sentar praça ao Glorioso Santo Antotiio de Ca- 
pitão Intertenido do ditto Forte de Santo António da Barra, 
€ se entregará todos os annos ao Syndico do Conve?ito de S. 
Francisco desta Cidade o mesmo soldo, que se costuma pagar 
aos mais Capitães Intertcnidos desta Praça, Bahya, e Julho 
16 de 1705. 

D. Rodrigo da Costa, por sua rubrica. 

Despacho do Provedor da Fazenda, Cumpra-se, Bahya 16 
de Julho í/e 1705. Villas Boas. 

Joaõ Corrêa Seyxas a registou em o ditto dia. 
Alvará del-Bey 

35. Officiaes da camará da Cidade da Bahya. Eu El-Rey 
vos envio muito saudar. Havendo visto o que me escrevestes, 
e o assento que tomastes para se dar ao Glorioso Santo An- 
tónio Sito em o convento de Saõ Francisco desta Cidade o 
soldo de capitão Intertenido do Forte de Santo António da 
Barra, assentando-se-lhe delle praça, e o que se me repr^e- 
sentouem nome do mesmo Santo para e ff eito de se continuar 
€om ella: Fuy servido resolver se continue com a ditta praça, 
como se assentou nesse Senado; com declaração porem, que 



Tl 

n imporlanciã desses soldos se appUcaraõ, ou á festa em que 
se celebra o mesmo Santo, ou para ornato da sua mesma Ca- 
pella. De que me parece avisar-vos para terdes entendido a re- 
solução que fui servido tomar nesta matéria^ advertindo-vos 
quenaõ deveis fazer semelhantes despezas pela vossa autho- 
ridade, sem primeiro me dares conta, pois os effeitos, que 
adminisíráes saÕ da Fazenda Real, que naõ podeis distribuir 
sem permissão minha. Escripta em Lisboa a sette de Abril 
de mil e se lie centos e sete. 

Rey, 

Registrada no liv. 6, foi., 198 da camera da Babya, 

36. Por outra ordem de vinte e dons de Janeyro de 
mil settecentos e quarenta e dous mandou dar este 
mesmo Senhor seiscentos mil réis para doura mento do 
altar, e capella de Santo António de Arguim, que se 
havia traspassado para a Igreja nova do convento, de 
que era seo lugar se fará mensaõ, 

CAPlTUIiO VIII. 

De outros Bemfeitores particulares deste tcnvento. 

37. Entre as Pessoas Illustres, que se especificarão 
com particular affecto aos pobres filhos do Seráfico 
Pátria rcha foi o Senhor Bispo Dom António Barreyros, 
naõ só com as largas esmollas que ficaõ referidas, mas 
€om a muita estimação e bom conceito, que dos Beli- 
giozos fazia e linha^ trazendo-os com sigo de Pernam- 
buco para a sua Metropoly, recolhendo-os no seo Pai- 
lacio,ajudando-os cora o seo auxilio e amparo em todo 
o restante de sua vida, que completou pelos annos de 
1596; e muito particularmente nos quatro, que subs- 
tiluhio o Governo Geral do Estado por morte de António 
Telles Barreio, como ja fica ditlo. 




73 

58. De outras muitas Pessoas Priucipaes, e ricas da 
lerra receberão senipre os Religiozos desta casa, assim 
como de todas as outras, desde o seo estado de Cus- 
todia athc o pi-ezeote, aléai das comrauas e quotidianas 
esmollas, com que se sustenta e mantém taò dilatada 
e crescida Familia, outras mais particulares e avanta- 
jadas, de doações e deixas, assim para as suas obras ma- 
teriaes, como pias, para os Altares, culto Divino, e 
alampadas do Santíssimo ; pois se não pode negar aos 
Naturaes, e habitadores destes Payzes a piedade, e de- 
voção para com Deos, seus Santos, e Ministros Sagra- 
dos, e em especial para com os Frades Menores, e Filhos 
de S. Francisco. Mas, como os bens e propriedades do 
Brazil tem a natureza de pouco duráveis, com a falta 
destes empobressem os Possuidores, acabaõ-se os pa- 
trimónios, diminuem-se as rendas, e por conseguinte 
tem fim tudo quanto nelles se fundava. E assim não re- 
petiremos muitas destas doações, porque ja naõ existem, 
e só nos ficaraõ as Escripturas. A que ao prezente existe 
he a que se segue, e apontamos em resumo. 

39. Em hum Morgado, como o intitula a sua escrip- 
tura de três de Novembro de mil seiscentos c sessenta 
e quatro, ou doação Ad causas pias, instituída pelo Li- 
cenciado Jeronymo de Burgos, e sua mulher Maria Pa- 
checo, sobre huã Rua de casas, sitas e fronteiras ao 
Terreyro e collegio de Jesus, e começaõ no canto da 
Rua da parte direita de S. Francisco athe á nova Igreja 
de S. Domingos, entre os seos encargos, que tem para 
a Santa Casa da Mizericordia, Enfermos e Orphãs, he 
hum o de darem seos Descendentes e Administradores 
todos os annos para a Alampada do Santíssimo da Igreja 
do convento de S. Francisco da Cidade da Bahya, dez 
canadas de azeite doce, pedindo elles instituidores pelo 
amor de Deos ao Guardião do convento lhes mandasse 
dizer todos os annos sinco missas rezadas, conforme 

í ABO ATAM. PART. II. VOL. I. 10 



74 

a tenção que na dilla escriplura se declara, e alhe opre- 
zente se tem satisfeito este encargo de liuã e outra parte. 
40. De outros taõbem antigos, que sem deixarem em 
escripturas os seos nomes lembrados, continuarão em 
sua vida, e ficou como por herança em sec s Descen- 
dentes o cuidado e charidade a este convento^ sabemos 
por tradição e assentos particulares os houve sempre. 
Destes, porque ainda era nossos dias saõ continuas as 
suas csmollas, merecem o primeyro lugar os que chamaõ 
Morgados e Senhores da casa da Torre. Desde que os 
nossos Frades fundarão aqui convento acharão nesta 
casa boa aceitação, e avantajadas csmollas, que se foraõ 
continuando, como por herança, alhe quenella succedeo 
o coronel Garcia de A'vila Pereyra, terceyro desle nome 
na sua Ascendência, Fidalgo cavalleyro, e coronel da 
Ordenança desta Cidade, o qual adiantando-se aos seos 
Ascendentes no amor e charidade, foi cspecialissimo 
Bem-feitor da Ordem. Além do afável e commnm aga- 
zalho, que em sua Pessoa e caza achavaõ todos os Re- 
ligiozos, que por aquelles destrictos vagavaõ ás csmol- 
las e outros benefícios mais, dava comboy, e ajuda 
aquelles Missionários, que eraõ mandados assistir ás 
Doutrinas e Aldôas dos Índios que ficaõ pela Ribeyra 
do Rio de Saõ Francisco assima nas fazendas de gados, 
que por essas mesmas partes e outros Sertões tinha, e 
ainda hoje possue a caza, que saõ muitas, mandava dar 
hum boy de esmolla em cada huã, além dos muitos que 
por ordem sua se repartiaõ pelas missões. Aldeias e 
comboys dos Missionários e Aldeianos que todos pela 
sua conta dizia elle, e o testificaõ algus Religiozos, vinhaõ 
a montar as Rezes em tantas cabeças, quantos dias tinha 
o anno, vindo assim a dar hum boy para cada dia. Por 
todas estas graças se lhe fez na Província a de o nomearem 
na congregação de quatorze de Agosto de mil e setle- 
centos e seis, por nosso irmaõ da confraternidade. Fal- 
leceo na Freguezia de Saõ Pedro da Cidade no primeyro 



de Agosto de mil setteceiUos e Iriuta e quatro, e foy se- 
pultado em j;izigo próprio ao pé do Altar da Senhora da 
Conceição da Igreja nova, como em seo lugar se dirá. 
Descendem os desta Familia pelo Apellido de Dias de 
Vicente Dias de Beja, Fidalgo da caza do Infante D. Luiz 
Duque de Beja, e íilho terceyro do Segundo Matrimonio 
do venlurozo, e memorável Rey D. Manoel, o qual Vi- 
cente Dias passando á Baliya no principio da sua fun- 
dação, cazou ahi com Genebra Alvares íiilia Segunda le- 
gitima de Gatharina, e Diogo Alvares Garamurú, bem 
celebrado e famozo na Bahya. E pelo de A' vila trazem 
a sua Ascendência de Garcia de A' vila, Pessoa nobre, 
que veyo á Bahyacomoprimeyro Governador e fundador 
da Gidade Tliomé de Souza ; porque deste Garcia de 
A'vila foi filha natural Izabel de A'vila, que sendo pri- 
meyrocazada com hum fidalgo Genovez que a tirou por 
justiça, por morte deste cazou a ditta Izabel de A' vila 
com Diogo Dias, filho primeyro de Vicente Dias de Beja, 
e Genebra Alvares sua molherassima nomeados. 

41. A esta caza se segue ainda, que naõ na antigui- 
dade, a de D. Izabel Guedes de Brilto, viuva que ficou 
de António da Sylva Pimentel, e se continua em âua 
filha D. Joanna Guedes de Britto, molherque foi de Dom 
Joaõ Mascarenhas, filho do Conde de Caculim, e por 
morte deste cazou com Manoel de Saldanha da Gama, 
filho de Joaõ de Saldanha da Gama, Vice-Rey que foi 
da Índia. Fora das particulares e comuas, coslumaô dar 
taõbem os Senhores todos os annos pelas suas fazendas 
de gados, que naõ saõ poucas pelos Sertões hum boy 
de esmolla em cada huã. Também a estes últimos Ma- 
noel de Saldanha, e D. Joanna sua consorte, que vivem 
ainda, se fez a graça de serem nomeados nossos irmãos 
da confraternidade no capitulo Provincial de dous de 
Dezembro de 1752. A mesma graça se havia feito a D. 
Izabel Guedez de Britto sobreditta no capitulo de trinta 
e hum de Dezembro de 1707. Falleceo a 13 de Julho de 



76 

1733, e foi sepultada no collegio em capella própria, 
Foy D. Izabel filha hcrdeyra do Mestre deoampo Autonio 
Guedes de Brilto, e por esta via, era quarta Neta dos 
assinia nomeados Gatliarina e Diogo Alvares Caramurú 
pela lerceyra filha legiiima destes, chamada Apolónia 
Alvares, a qual cazou com Joaõ de Figueiredo Masca- 
renhas, Fidalgo da caza de Sua Magestade, e natural 
da Cidade de Faro do Reyno do Algarve. 

[\% D. Joanna Gavalcanly de Albuquerque foy huã das 
que nesta escripta merece particular memoria. Era filha 
do coronel Ghrislovaõ Gavalcanly de Albuquerque, ramo 
illuslre dos Albuquerques e Cavalcaniys de Pernambuco. 
Porque era este Christovaõ Cavalcanty de Albuquerque 
filho legitimo de Phclippe Gavalcanly de Albuquerque, 
o qual retirando-se de Pernambuco com outros Parentes 
seus na guerra dos Olandezes para aBahya, nella cazou 
cora D. Antónia Pereyra Sueyro^íilha legitima de Martim 
Lopes Sueyro natural do Reyno, e descendente da nobre 
íamilia de Sueyros, e de sua molher D. Anna Pereyra, 
Sobrinha legitima de D. Miguel Pereyra, cavalleyro 
professo da Ordem deGhristo, que falleceo em Lisboa, 
eleyto Bispo da Bahya, da nobre fainilia dos Pereyras 
de Viana. Era o ja referido Phelippe Cavalcanty de Al- 
hu luerque Pay de Gliristovaõ Cavalcanty, íiiho de D. 
Catliarina de Albuquerque^ mulher de Ghrislovaõ de 
Olanda, natural de Ltre ue, e Qlho de Arnaõ de Olanda 
e Brites Mendes de Vasconcellos, e bisneto de Enrique 
de Olanda, Baravilo de R!ie-iNeuburg, e de Margarida 
de Florença^ Irma do Papa Adriano VL Foy a sobredita 
D. Gatharina de Albuquerque, molher do ja nomeado 
Ghrislovaõ de Olanda, filha de Phelipe Gavalcanly, Fi- 
dalgo Florentino, e de sua molher D. Calharina de Al- 
buquerque, a qual era filha bastarda de Jeronymo de 
Albuquerqtie, cunhado de Duarte Coelho Pereyra, pri- 
meiro Senhor, Donatário e Povoador de Pernambuco, 
e (\q D. Maria do Espirito Santo Arco Verde, filha do 



77 

Principal, ou como dizem outros, Priíiceza dos índios 
Tobayaraz de Pernambuco, e estes dous D. Maria de 
Arco Verde e Jeronymo de Albuquerque vinhaõ a ser 
os quartos Avós Paternos de D. Joanna Cacalvanly de 
Albuquerque, por via de Pernambuco. Pela da Baliya, 
e parle Materna vinha a ser D. Joanna Gavalcanty por 
sua Mãy D. Izabel de Aragão cazada com seo Pay Ghris- 
lovaô Gavalcanty, neta de Francisco de Aragaò de Ara- 
hujo, e de sua molher D. Anua de Barros Sueyro, que 
era neta do ja nomeado Marllm Lopes Sueyro, bisneta 
a sobredita D. Joanna de Bailliazar de Aragão o Bángala 
bem conhecido na Bahya, donde morreo pelejando em 
huã Náo contra Olandezes no anuo de 1613, e de sua 
molher D. Maria de Arahujo ; e por esta era a mesma D. 
Joanna quarta neta de Maria Dias, que foi cazada com 
Francisco de Arahujo*, fillio natural de Gaspar Barboza 
de Arahujo, natural de Ponte de Lima, da nobre família 
dos Arahujos. Desta Maria Dias foi mây Genebra Al- 
vares, que cazou com Vicente Dias de Beja, de quem ja 
assima se fallou, sendo Genebra Alvares a quinta Avóde 
D. Joanna, e porque Genebra Alvares era a segunda 
filha legitima de Gatharina, e Diogo Alvares, o cara- 
murú, vinhaõ estes a ser os Avós Sextos Maternos de 
D. Joanna Gavalcanty de Albuquerque. 

43. Gazou D. Joanna Gavalcanty Ires vezes; a pri- 
meyra com o coronel Francisco Pereyra Botelho, de que 
leve huã única filha, por nome D. Maria Francisca Pe- 
reyra de Albuquerque, a qual cazou com seo Primo Fran- 
cisco Pereyra Botelho, Juiz de Fora que foi da Baliya, 
de quem teve varias filhas Freiras em Portugal, e bua 
lá taôbem cazada, e o Doutor Jozeph Pereyra Botelho 
e Albuquerque, que exisle cónego na Sé da Bahya. Se- 
gunda vez cazou D. Joanna Gavalcanty com o Doutor 
Jozeph de Sá de Mendoça, ouvidor do civcl, e terceyra 

' Thealro Genealógico. 



78 

com o Dezenibargador Bernardo de Souza Gslrelhi, e 
destes na õ houve geração. Foy sempre esta Senhora 
huã especialissiiiia bem feitora de todos os conventos 
desta Província, porque a todos chegava a sua aíícctuoza 
e liberal charidade> Tinha deportas a denlro huà vasta 
e bem criada Família de Servas, e famulas, destras e 
officiozas em todo o género de custuras, e rendas, e neste 
exercício as trazia sempre occupadas, naò por lucro^ ou 
interesse temporal do seo trabalho, mas paradelle fazer 
offertas ás Igrejas, e culto t}ivino,como o fazia a muitas 
e especialmente ás de Saõ Francisco. Parecerá a alguém 
encarecimento! Só para a nossa da Bahya desde oanno 
de 1714 athe o de 17/|5, em que passou á outra vida, 
deu mais de sinquoenla Alvas, que chamamos da pri- 
meyra ciasse, esquarteadas de largas rendas, e espe- 
ciozas bordaduras sobre panos de finas bertanhas. Ser- 
virão as primeyras de que fez oíferta á Sa-Ghristia, para 
a festa da abertura da Igreja nova no sobredilto anuo 
de 1714, que destas ha ainda algilas com bom vio, e de 
outras, que pelo discurso do tempo foy dando, em quanto 
viveo, se guardaõ ainda vinte e quatro intactas, como 
aíTirma o Irmaõ Fr. Francisco da Conceição Religiozo 
LeygOj que administra, e serve na Sa-Ghristia. Para 
todos os conventos assim das parles da Bahya, como de 
Pernambuco, mandou hum terno desta qualidade, e 
obra, e para alguns chegou a repetir esta offerta, pondo 
em todas além da obra, naõ só as linhas de caza, taõbem 
o pano. Foy lrm<ã da confralernidade por carta que se 
lhe passou no capitulo de 7 de Janeiro de 1741, e fal- 
leceo a seis de Novembro do anuo de 1745, e no de 1758 
falleceo a doze de Dezembro o seo ultimo consorte Ber- 
nardo de Souza Fstrella, que taõbem foi Irmaõ da con- 
fralernidade eleylo no capitulo de seis de Janeiro de 
1749, cambos foraõ sepultados no claustro novo do 
convento, era lugar próprio, como em o seu se dirá. 



ií. António Corrêa Seyxas, natural do Reyno, Mer« 
cador conhecido na Praya da Baliya, foi hum dos que 
deve entrar em o numero dos particulares Bemfeitores 
desta caza. Entre as varias esmollas que lhe fez, foi 
huã bem notável e importante em muitos quintaes de 
ferro^ que deo em barras, das quaes se forjarão mais de 
quarenta travessou linhas de vinte e sinco palmos de 
comprido, e grossura competente, sobre cada huã das 
quaes se estabelecerão, e firmarão os quarenta barretes 
de abobeda, que armaõ o peitoril do claustro novo do 
convento, dez por cada huà das suas quadras. Isto^ e o 
mais se lhe gratificou com o haverem nomeado Irmaõ 
da confralernidade no capilulo de doze de Janeiro de 
1732. Falleceo no principio de Junho de 1758, e foi 
sepultado no mesmo claustro em jazigo próprio. 

45. António André Torres, ainda que ultimo em lugar 
pelo tempo, faz-se accredor de hum rauy recomraendavel 
pelo liberal, e continuado das suas esmollas. Naõ repe- 
timos muitas de menor quantia, só o faremos de outras 
de maior substancia, de que se pode tirar huã boa prova 
para as mais. Para douramento das Estantes, forro e 
pinturas dos Payneis da caza da livraria deu aigús Ires 
mil cruzados. Para accrescentamento do corredor da 
Enfermaria, por primícias da vontade, com que persua- 
dia muitas vezes esta obra laõ necessária para melhor 
commodo dos Fieligiozos, que a ella vaõ curar-se, e con- 
valecer, aqual se começou o anno alrazado de 1757 
deu logo quatrocentos mil réis, no segundo outros tan- 
tos, e a própria quantia no terceyro. Neste mesmo que 
foi o de 1759, nas vésperas do Seráfico Patriarcha veyo 
collocar na capella mór desta Igreja huã Alampada de 
Prata, taõ perfeita em obra, como avultada em corpo, 
c crescida era pezo, pois chegou com este,e feitio a mais 
de seis mil cruzados, rezervando para sy o dominio, e 
posse delia, por hum termo feito por Tabaliaõ, e assig- 
nado por elle^ e o Syndico. Nem o serem taõ largas as 



80 

suas csmollas para este convento o divertirão a qne che- 
gassem a aigús de fora. Por tudo foi espiriíualmenle re- 
munerado pela Província com o fazer filho seo^ e nosso 
Irmaõ da confraternidade em o capitulo de dons de De- 
zembro de 1752. b^alieceo na Enfermaria do mesmo 
convento pnra onde se recoiheo, com moléstia grave, 
aos qnatorze de Janeiro de 176/i, e foi sepultado ao pé 
do Altar da Senhora da Conceição. 

CAPITlIIiO IX. 

Da prodigioza Imagem de Santo António de Arguim Venerada muitos 
annos na primitiva Igreja deste Convento, 

46. Sendo o nosso Santo António Patrão universal de 
lodos os Portuguezes por hum só titulo, dos Frades Me- 
nores o vem a ser por dons, por Porluguez, e por Re- 
ligiozo ; e entre estes naõ sey se com alguã especiali- 
dade mais o devemos conh cer por tal os desta Pro- 
vincia do Brazil ; e naõ só os Pieligiozos delia, mas geral- 
mente todos os que com o Portuguezes saõ seos habita- 
dores, e naturaes; ao menos o Santo assim o tem mos- 
trado, se naõ pelos nossos merecimeníos, pela nossa 
necessidade; pois como laõ grande, e perfeito charita- 
livo, naõ pode faltar a onde a vô maior. Muitas, e gran- 
des eraõ ás que ameaçava a fortuna, ou castigo a estas 
conquistas nas invazões, guerras, roubos, e lyrannias, 
que nellas haviaò ja executado, e setemiaõ para o diante 
de Inimigos Piratas e Hereges, por ficarem excluídas 
na paz de Castella com Holanda, e outros Aliados as 
conquistas de Portugal ; e como estas do Brazil eraõ, e 
haviaõ ser aonde mais descarregasse o golpe fatal, deste 
insulto, e ainda que comum e geralmente para todos, 
haviaõ ter nelles os Frades Menores huã boa parle, para 
ellas se quiz passar o nosso Portuguez S. António, para 
que assim os seos Irmãos, e filhos c os mais devotos, que 



81 

smii duvida o sa<5,e foraõ sempre todos os do Brazil, 
achasseai nelle soccorro e alivio, como em seu Palraõ 
primeyro. Naõ foy necessário para este discurso outra 
conjectura, mais que o mesmo tempo, que assim o foi 
mostrando depois. Naõ veyo o Santo em Pessoa, mas 
mandou-nos huã Imagem sua, que bastou a desempenhar 
quanto por sy próprio podia fazer. Pomos a relação do 
cazo, como se conserva no Archivo do convento, assim 
se guardara, a inda que fora em algum Sacrário apro- 
digioza, e veneranda Imagem : — Sahindo do Reyno de 
França huã armada de doze vellas para tomarem, e des- 
Iroirem a Cidade da Bahya, terra do Brazil no anno de 
1595^ em a qual vinhaõ por capitães principaes três 
Francezes lutheranos, cujos nomes eraõ os seguintes, 
O Pam de Milho, o Mal virado, e o Eliscio, e entrando 
de caminho em huã fortaleza de Portuguezes, que se 
chama o castello de Arguim na costa de Berbéria, ma- 
tarão a todos os que acharão, tendo-lhes dado palavra 
de lhes naõ fazer notável damno, e destruirão e quei- 
marão athe as Igrejas, e as Sacro-Santas Imagens de 
Christo nosso Senhor, e sua Santíssima May, e mais 
Santos, excepto huã Imagem de vulto do gloriozo con- 
fessor Santo António, que estava em huã Ermida, a qual 
vendo o capitão Pam de Milho mandou a levassem ao 
batel, e dahi a Náo; e sendo posta no convéza Santa 
Imagem nella fizeraõ os Francezes taes anatomias, e taõ 
sacrílegas, quaes a gente hitherana lhe parecia convir ; 
pois hereticamente negaõ o culto e veneração, que ás 
Sacro-Santas Imagens os verdadeiros Calholicos daõ, 
e porque aqui se pretende he dar summaria relação das 
muitas injurias, e blasfémias, que a esta Santa Imagem 
se disseraõ, e fizeraõ, naõ se nomearão testemunhas de 
Portuguezes, e de outros, que na mesma Náo vinhaõ, e 
dos mesmos Francezes lutheranos, que para mais sua 
confuzaõ o confessarão diante do Senhor Pêro de Campo 
Adaiaõ, e Provizor da mesma dita Cidade; por tanto 

í ABO ATAM. PART. 11. VOL. I. 11 



82 

por se evitar prolixidade somente se contará alguãcouza 
das muitas, que esta lullierana gente fez na Náo a este 
Santo em desprezo, e aniquilação da nossa Santa Fê; e 
passou desta manéyra. Chegando o Santo á Náo hum 
Francez o tomou, e o pôz em pé no convéz^elheaGlavaõ 
hum caõ grande, que traziaõ, dizendo-lhe muitas bla- 
femias, cliamando-lhe cam, e zombando dos Portugue- 
zes porque em lai criaõ, e veneravaõ ; e era ja o cam taô 
continuo, e importuno a morder o Santo, que parecia 
faze-lo mais por malicia, que excitado. Além disto es- 
grimia com elle hum lutherano, dando-lhe muitas cutil- 
ladas, como foraõ, huã na cabeça, que chegou da parte 
da face dereita, e outra que parece lhe tiravaõamesma 
mas arcando-se, desviou, e deu no capello, entrando 
nelle, e outra cutillada lhe deraò no braço esquerdo, que 
lhe cortou fora muita parte delle com amaõ do mesmo 
braço, de tal maneyra, que lhe naõ ficou muito piquena 
de livro. Outra lhe deraõ na maõ direita, que de todo 
lha deceparão. Outras naõ taõ grandes lhe deraõ, como 
nos pés que vinhaõ sem dedos, e na cabeça huã como 
estocada, ou buraco de prego, que lhe meterão outras 
duas feridas nos Narizes ; e depois de se enfadarem de 
esgrimir, e o acutillar lhe pregarão huns grandes três 
pregos nas costas, e o ataraõ a huãs cordas pelos pregos 
no gurupés, e balançando com elle, diziaõ, Guia An- 
tónio, guia, guia para a Bahya. E elle os guiou laõbem, 
que para que elles soubessem que as afrontas, e injurias 
feitas aos Santos, Deos as tomava por suas, e como taes 
as castigava com castigos espantozos, ainda nesta vida, 
âconleceo, que como elles andavaõ enfrascados nestas 
abominações, nem alinavaõ, nem sentiaõ cura de Deos, 
que oculta e calladamente os castigava e ameaçava a 
o mais, que por seos grandes pcccados mereciaõ ; e foi 
que os arcos das pipas, em que Iraziaõ agua, e vinho 
de tal sorte se moeraõ, que destampadas se derramou 
pela Náo sem remédio algum, e para que tirassem toda 



a suspeita de cuidarem succeder isto por via ordinária 
de ser a madeyra podre alhe nas pipas, que tinliaõ os 
arcos de ferro aconteceo o mesmo. O que elles naõ attri- 
buiudo ainda a seus peccados, e blasfémias lullieranas 
em que eslavaõ, como de repouzo assentados, tendo as 
conciencias calejadas com calos das perfídias heréticas, 
naõ havia compunção^ que molificasse seos corações 
obstinados a pedir perdaõ^ e arrepender-se da actual 
offensa de Deos, e do seo Santo, em que vinhaõ, e con- 
linuavaõ, nem este taõ grande castigo, nem a doença 
mortal, que subitamente lhes sobreveyo de que a maior 
parte delles morreo, sem ficar quem veilejasse vella, 
nem levantasse anchora, nem a morte espantoza, que o 
lutherano Francez, que acutillava o Santo houve, que 
foi bebendo huã pouca de agua rebentar pelas ilargas, 
e assim aquella iufelice alma como outro Judas, e Ario 
ignorou a commum carreyra dos mortaes para a outra 
vida, nem a sombra da morte eterna que os assom- 
brava e cubria, bastou a os persuadir, que naõ atigmen- 
lassem mal sobre mal, como foi, que vendo-se elles de 
lodo desamparados de commum acordo de alguns deter- 
minarão de enlregar-se aos que vinhaõ com propósito 
formado de destruir e matar; e porque vindo como 
vinhaõ á maõ de Christâos, naõ vissem os calholicos 
o máo tratamento do Santo, acordarão de o lançar ao 
mar, perto da altura de hum Rio que se chama o Morro 
de Saõ Paulo, quatorze legoas da Bahya. L\!las sendo elles 
tomados em huã Cidade, que se chama Seregippe, oi- 
tenta por terra, da dilta Bahya, donde foraõ surgir; 
o capilaõ os mandou prezos ao Governador D. Fran- 
cisco de Souza, em cujo tempo tudo isto aconteceo. 
E vindo os Francezes lutheranos com o seo capitão prin- 
cipal o Pam de Milho, em cuja Náo tudo ojadittoacon- 
teceoaoSanto, acompanhado da Gente Porlugueza,viraõ 
ao Santo Gloriozo na Praya do mar doze legoas antes de 
chegar á Bahya, em pé de maneyra que lhe naõ podia 



84 

chegar a maré se naõ fosse preamar, e admirados c 
atónitos os lulheranos especialmente o capitou"), confes- 
sarão, como o liaviaõ trazido do casiello «ie Arguim, 
e o lançarão ao mar mais de trinta legoas donde esta- 
vaD, o que ouvindo os calholicos, para tirar Ioda a du- 
vida, que pudesse contradizer a taõ grande n>aravill)a, 
olharão^ e buscarão muy de propozito, se por ventura 
alguã Pessoa huma»a o lia via levantado em pé, o que 
naõ achando, nem pegadas na arêa de homem, nem de 
animal, por ser caminho naõ seguido, tomarão o Santa 
com muita devoção e veneração, e o traziaò, mas adiando 
hum homem honrado no caminho, que lho |>edio com 
muita importunação para o pôr cm huã sua Ermida lho 
deraõ. E chegando á Bahya na Cidade publicarão as 
maravilhas do Senhor em seo Santo ; o que sabido dos 
Frades capuchos da ditta Cidade o foraõ buscar a caza 
do ditto homem e o trouxeraõ com muita solemnidade e 
o puzeraõ em o Mosteiro de S. Francisco dos diltos 
Frades capuchos aonde está em seo próprio altar. He 
huã Imagem muito formoza, e muyto mais o parece 
martyrizada com as culiiladas, e feridas rubicundas. 
Domingo, Vesi>era do Natal do sobredillo anno, foi o 
Santo trazido em procissão, E note-se, que vindo o 
Santo á Praya aonde estava em tal tempo, foy hud grande 
maravilha de milagre, por os ventos, monções e ondas 
serem muy contrarias, mas parece, que quiz elle vir 
aguardar ao caminho seos inimigos e contrários, que 
sabia muy bem por aili passariaõ por seu mal ; e porque 
de todas as vellas naõ se acharão mais que huã Náo, e 
bum Pataxo, que vieraõ entregar, naõ deixou aqui de 
resplandecer a Divina Justiça ; e assim dizem, que naõ 
foraõ todas ao castello de Arguim, masyinhaõ-se pôr 
em parte para todos se ajuntarem; segundo se diz alguns 
Daõ souberaõ do acontecido ao Santo ; mas nem com 
tudo isso deixou cada hum de sentir onde quer que es- 
lava o castig.0 de Deos; porque se desgarrarão, e huns 



85 

se foraô ao fundo, oulros naõ appareceraõ. Em fim que 
se viraõ de todo o que perlendiaõ frustrados, e ultima- 
mente os mais delles enforcados publicamente na praça 
da Batiya. A camará, e toda a Cidade tomou o Sanlo 
por Padroeyro, e elle tomou á sua conta adefeza da Ci- 
dade de tal maneyra^ que sendo a Barra desta Bahya 
occupada continuamente com ladrões Francezes^ allie- 
gora era de noventa e oilo naõ apparece ladraõ que 
naõ dê á costa, ou se vaõ confuzos e desbaratados, sem 
os Moradores nisso gastarem couza alguã. Sua Mages- 
lade sendo cerllGcado do sobreditto muy encarecida- 
mente encommenda a seo Governador faça muitas festas 
ao Santo, por cuja intercessão queira o Senhor livrar- 
nos dos inviziveis inimigos. Amcn. 

47. De tudo o que nesta Relação se contém mandou 
logo tirar hum Sumario autentico o lllm. Bispo D. An- 
tónio Barreyros^e o remelteo ao Guardião do convento, 
que era a este tempo o Irmaõ Fr. Francisco dos Santos, 
que depois foy Custodio. Mas vindo dahi a pouco hospe- 
(iar-se a este mesmo convento certo Religiozo Espanhol, 
e achando fresca a noticia deste successo, pedio para 
lêr este instrumento, e descuidando-se o Guardião de 
lho pedir, elle o levou com sigo ; e naõ sey qual merece 
maior censura, se a lençaõ deste frade Castelhano, se 
a singeleza do nosso Guardião Porluguez. A esta falta 
se pretendeo de alguã sorte remedear, porque dahi a 
quatorze annos no de 1609, sendo nomeado pelo Cus- 
todio, que ja era a este tempo o sobreditto Fr. Fran- 
cisco dos Santos o Ir. Fr. Francisco dos Anjos, Guar- 
dião actual da Parahyba por commissario para tirar 
pelos conventos da Custodia inquirição de alguãs couzas 
notáveis, chegando a este da Bahya, com o juramento 
do Irmaõ Fr. António da Insua, seu Guardião actual, e 
mroador que era no mesmo convento, quando a con- 
leceo o cazo da Imagem do Santo, e com o dos Irmãos 
Fr. Manoel dos Anjos, e Fr. Bernardino de S. Ago, 



86 

taõbem assistentes na Bahya naquella occaziaõ,os quaes 
attestaõ ser verdade todo o referido na Relação assima^ 
e que a Imagem do Santo da mesma sorte com as fe- 
ridas e ciitilladas se venerava no seo altar, e se lhe 
fazia festa todos os annos na quarta Dominga do Ad- 
vento, e com a mesma Relação recorreo ao Vigário 
Geral e Provizor por huã petição, que diz assim : 

Fr, Francisco dos Anjos, Pregador e Guardião^ e 
hora commissario para e ff eito de tirar em esta costa do 
Brazil alguãs couzas notáveis , tocantes á nossa Sagrada 
Religião, como milagres etc. E como em esta Cidade do 
Salvador, Bahya de todos os Santos fizesse Deos pela 
Imagem do nosso Santo António hum milagre taò no- 
tavely de que se acha este Relatoiio em o Archivo do con- 
vento, donde está a imagem do dilto Santo, o qual Re- 
latorio contém folha e mega, como consta; e como a Vm, 
foi comettido o tirar as testemunhas, que forad os mesmos 
delinquentes, que fizer ao as afrontas e injurias á Ima- 
gem do Santo, e hora lhe he necessário justificar este 
traslado simples — P, a Vm. lhe mande dar huã cer- 
tidão affirmada com juramento como tudo, o que este 
Relatório diz, he verdade, visto tirar Vm, outro, que 
naõ apparece, que estava actuado com testemunhas, no 
que receberá mercê, etc, 

O Lecenceado Pedro do campo, Daiaõ da Sé desta 
Cidade do Salvador, Bahya de todos os Santos, Pro- 
vizor, e Vigário Geral nella etc. Aos que esta minha 
certidão virem, e o conhecimento delia com dereito per- 
tencer. Saúde em Jesus Ghristo nosso Senhor. Faço 
saber, que servindo eu os dittos cargos em vida do 
Senhor Bispo D. António Barreyros de boa memoria, e 
ouvindo as couzas qxxQ apregoavaõ as Pessoas, que 
vieraõ cm a Náo do capilaõ Francez Pa n de Milho, assim 
hum Portuguez, como alguns Flamengos que nella 
vieraõ, como taõbem os mesmos lutheranos Francezes, 
acerca das maravilhas, que Deos nosso Senhor obrou 



87 

pelo seu grande Servo o P. Santo António, o qual oS 
(littos lutheranos trouxeraõ do castello de Arguim athe 
esta costa onde o lançarão ao mar, me piiz logo com o 
Escrivão da camará do ditto Bispo, que entaõera An- 
Iobío Gomes, que haja gloriada perguntar todas as Pes- 
soas que das sobredittas pude fazer vir ante mim; e 
de seos ditlos se fez sumario pelo qual segundo minlia 
lembrança se provava tudo o contendo no Relatório 
assima, escripto na folha e meya de papel atraz; o que 
certiGco passar na verdade pelo juramento <le meos 
cargos, e me reporto em tudo ao próprio summario, 
que entaõ logo entreguei ao R. P. l^r. Francisco dos 
Santos, que nesse tempo servia de Guardião da caza de 
Saõ Francisco desta Cidade, a qual passei a petição do 
R. P. Pregador e Guardião da caza da Parabyba, com- 
missario eleyto nestas partes para semelhantes deligen- 
cias o P. Fr. Francisco dos Anjos. Dada nesta Cidade 
do Salvador sob meo signal,e sello da chancellaria do 
Senhor Bispo, que ante mim serve. E eu o Diácono 
Gonçallo Roiz', que o escrevi por mandado do Senhor 
Provizor e Vigário Geral, em ausência de Belchior da 
Costa, Escrivão da camera do Senhor Bispo, e dante o 
Senhor Provizor, em seis de Fevereiro de mil seiscentos 
e nove. 

Fedro de Campo, 
Grátis 4* ao sello. 

Domingos Roiz\ 

CAPlVUIiO X. 

Do que mais se obrou em obsequio do santo e culto desta sua prodigioxa 
Imagem, 

48. Em reconhecimento de hum laõ nolavel, e es- 
tranho cazo, prodígio que naõ sey se nos annaes do 
tempo, e antigas historias terá semelhante, querendo 
gratificar ao Santo hum taõ grande e singular bene- 



88 

ficio, asseutaíaõ de comraurn consenlimealo o Gover- 
nador, e camera cora o Bispo, que lodos os annos se 
lhe fizesse festa solem ne com procissão, sendo a pri- 
meyra que se fez com muito alvoroço e alegria de lodos 
quando foi trazida para o nosso convento a Sagrada 
Imagem. Do sitio e capella da Torre para onde havia 
conduzido a mihigroza, e peregrina Imagem Francisco 
Dias de Ávila, primeiro deste nome dos Senhores da 
caza da Torre, que esle diz outro assento^ foi o homem 
honrado que encontrando no caminho aquelles soldados 
com a Imagem a pedio com muita instancia para a col- 
locar em huà Ermida sua, a foraõ buscar alli os Reli- 
giozos, e a vieraõ depozitar em a Igreja de Nossa Se- 
nhora da Ajuda desta Cidade. Dali foi transportada para 
a nossa com a maior pompa e fausto que pôde ser, e 
pedia o milagre, e taõbem para confuzaõ dos mesmos 
hereges. Epara que vissem clles com quanta veneração, 
e reverente cultu tratavaõ os catholicos aquelle Simu- 
lacro, que elles com tanto desprezo e desacato haviaõ 
ultrajado, ordenou o Governador, que ao passar pelo 
corpo da guarda do seo Pallacio, que fica em frente da 
cadeya publica, em a qual se achavaõ prezos os luthe- 
ranos Francezes, lhe abatessem as bandeyras, e dispa- 
rassem as armas. 

49. De tudo se deu parte a ElRey, que era entaõ em 
Portugal o segundo Phelipe, e terceyro em Gastella, que 
havendo por bem ordenou seconlinuasse lodos os annos. 
No dia, que he o ja referido, da quarta Dominga do Ad- 
vento, c o mesmo, em que da Igreja de N. Senhora da 
Ajuda se transferio em procissão para a do nosso con- 
vento a Sagrada Imagem, se faz a festa com assistência 
da camera e cabido, os quaes juntos na Igreja a horas 
competentes de menhà se ordena a Procissão que se 
costuma fazer antes da Missa Solem ne. Para ella desce 
a communidade á Igreja, e depois de recebidos á porta 
principal os RR. Cónegos e Vereadores, para estes 



89 

salie logo Imm Roliglozo a dizcr-llies missa, qne aca- 
bada se distribue a cera, c salie o Santo cm sco Andor, 
que conduzem coatro camaristas, e o R. cónego, que 
hade solemnizar a Missa leva o Santo lenho debayxo de 
Pallio, que sustcntaõ outros oíBclaes da mesma camera. 
A nossa communidadeacompanhaathe a porta da Igreja, 
ficando alii da parle de dentro, c de fora aond e está 
formada a de Nossa Senhora do Carmo a continua, e 
dando volta ao cruzeiro, se torna a recolher a Procissão 
que os nossos proseguem, e os RR. PP. do Carmo de 
fora da porta se tornaõ na mesma forma. No fim se so- 
lemniza a Missa pelo mesmo R. Cónego, e Capellães da 
Sé c a sua Muzica. Faz o Sermaõ hum Religiozo dos 
nossos, e por toda esta acçaõ naõ recebe a communidadc 
mais que a cera que se gasta nos altares, e serve aos 
Religiozos na Procissão. 

50, Este he todo o culta e í\iuslo, com que ao pre- 
zente se solemniza ao gloriozo Santo. Se em algum 
tempo houve outro maior, naõ chegou á nossa noticia, 
nem delle ficou memoria, ainda que o naõ duvidamos 
do fervor e devoção do Povo, avivada com o credito 
dos seos prodígios e soccorros, pois elle os foi continu- 
ando. A' poucos aiinos depois sabendo-se em Franca o 
que na Bahya fora acontecido com estes, despacharão 
os seos outra armada a tomar satisfação do que com 
clles se havia obrado. Mas esta teve quasi o mesmo fim; 
porque derrotados huns por outra Olandeza, e os mais 
perdendo-se por estas Gostas do Brazil c Bahya, ficou 
desvanecido o seo projecto, e elles com advertência 
para naõ continuar ; e os nossos mais devedores a S. 
António reconhecendo ser tudo etfeito da sua protecção 
como o confirmarão outros casos mais por estes mesmos 
tempos, que ja na primeyra parte, tratando da Villa do 
Gayrú, e Boypeba ficaõ referidos. 

51, Mas se esta protecção, e cuidadoza vigilância 
faltou alguã vez em o nosso Santo, como foy na tomada 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 12 



90 

da mesma Baliya por Olanclezcs, annos adiante no de 
1624 ; no roubo notável, que na mesma Cidade Gzeraô 
os próprios Olandezes, levando do seo porto em huã 
noite todos os Navios da frota, que nelle estavaõ carre- 
gados, e ja com o pano metido para fazerem viagem para 
o Reyno no anno de 1628, c eraõ mais de vinte, com 
outros semelhantes damnos, destruindo pelo seo Recôn- 
cavo, Kngenlios e fazendas com perda considerável em 
commum, c particular, naõ o devemos attribuir a des- 
cuido do nosso Santo, e só á falta da nossa lembrança, 
e devido reconhecimento, e especialmente daquelles 
mesmos, que estavaõ mais obrigados a se naõ olvidarem 
da escolha, voto e promessa, que lhe haviaõ feito. Es- 
colherão por Patraõj e primeyro desta cidade ao glo- 
riozo Santo, e isto por eleição da sua camará, como 
consta da Ordem do Governador do Estado, Rodrigo da 
Costa que ja fica lançada, reconhecendo o favor, e 
graça, que lhes havia feito em os vir buscar á sua cidade 
com huàs taes e taõ extraordinárias circunstancias, como 
as que ficao repelidas no Relatório assima, lhe fizeraõ 
voto de perpetuar esta memoria em huà Imagem sua 
de prata com outras promessas mais, e de tudo isto se 
olvidarão, e ludo com o tempo ficou no esquecimento, 
pelo qual sem duvida, e justo castigo seu Ihessobrevieraõ 
estes e outros trabalhos, e perseguições semelhantes. 

52. No convento foi collocada a Imagem no altar do 
mesmo Santo, que era, como em todas as nossas Igrejas 
a onde elle naõ he titular, o da parte da Epistola. Alli 
permaneceo muitos annos, ainda que naõ achamos no- 
ticia individual athe quando, e só huà tradição cons- 
tante, que certo Guardião, levado de zelo indiscreto, 
(quando naõ fosse a cauza alguã das que aponta hum 
Ghronista da nossa ordem) vendo a veneranda Imagem 
naquelle estado, e parecendo-lhe indecencia estar nos 
altares, ou pelo mutilado dos Inimigos ou carcomido do 
tempo, mandando féizer outra, que he a que bojo vemos 



91 

dizem liiiiis,que a mandara enlorrar, onlros aíFiraiaõ, 
que a dera a hum devoto, ao que uos inclinamos mais, 
uaõ só pela experiência que ha eulre Nos, de serem 
alguns Prelados liberaes, ou pródigos de semelhanles 
graças, como porque ouvimos^ que Joaõ Garneyro de 
Couros, Escrivão proprietário da camará Ecclesiastica 
desta cidade, ja fallecido a algús annos, fallando sobre 
esta mesma Imagem com o Irmaõ Fr. Francisco da Con- 
ceição, Religiozo leygo, que foi algús annos Enfermeyro 
desta caza, e ha muitos he Sa-Ghristaõ da Igreja, lhe 
disse, que a tinha em seo poder, que por devoção par- 
ticular a pedira ao Prelado, e que naõ obstante estar a 
Imagem muy derrotada, elle a linha reformado no 
melhor modo, que pôde ser. li he certamente digno de 
reparo, e outros diraõ melhor que de huã grave censura, 
chegasse a devoção de huã Pessoa particular, eleyga, 
aonde naõ pode a de hum Religiozo e Prelado, que 
devia, quando a tal Imagem estivesse taõ derrotada, que 
parecesse indigna de occupar os altares, ou manda-la 
reformar, que naõ faltaria modos para isso, ou guarda- 
la, como Reliquia em algum decénio e particular de- 
pozito ; e naõ da-la para fora, ou manda-la enterrar, que 
ainda parece maior indecencia. Succedeo esta segunda 
transmigração da veneranda Imagem ainda antes que 
se desse principio á Igreja nova. 

CAí^ITtJIiO XI. 

Milagre que obrou o glorioso S. Bcnediclo de Palermo por meio <Je huã 
Imagem sua venerada no Aliar de S. António desta primeira Igreja. 

53. Desde os princípios, e fundações destas Capita- 
nias, foi sempre em todas ellas tido em huã grande ve- 
neração, e servido com especial culto o gloriozo Saõ Be- 
nedicto de Palermo ou de S. Fralello, geralmente de 
lodos os Galholicos, e com particular e devoto obse- 
quio da Geule d'4 sua cor, ou seja por affecto da natu- 



92 

reza, ou por sympaliu dos accideutes. Naõ ha Cidade^ 
Villa, Parocliia oii lugar aonde esla Gente naõ tenha 
Igreja sua, consagrada á Senhora com o titulo do Ro- 
zario, prhneyro objecto c movei das suas adorações, 
e (jiie nestas taes Igrejas naõ dedique altar próprio ao 
seu Saõ Benediclo, com confraria e Irmandade sua. E 
iiaõ satisfeitos com estes expressivos do seo aííeclo, e 
devoção, ainda em os nossos conventos, em que os Do- 
mésticos e Escravos da caza levantaõ Altares, e ca- 
pellas ao Santo, como o hiremos vendo em seos lugares, 
com suas irmandades c confrarias, para estas con- 
correm taõbem muitos Irmãos c Pretos de fora, naõ 
obstante o terem nas suas Igrejas e nos mesmos lugares 
outras em que servem ao seo Santo. 

5/4. Tinha elle nesta nossa primeyra Igreja hum muy 
especial culto, ainda (|ue naõ pudemos averiguar com 
certeza se era ja em confraria publica, ou só com parti- 
culares votos, e estava collocada a sua Imagem no aliar 
do nosso Porluguez Santo António; e com esta succedeo 
o cazo prodigiozo, que consta do processo aulhentico, 
que a requerimento do Guardião, e por ordem do lllm. 
Bispo tirou o seu Vigário Geral, e he o seguinte : 

Fr, Bernardino de SanC Ago, Guardião da caza do 
Seráfico P, Saõ Francisco da Cidade da Baliya, que a 
eile í/ie pjdiraõ licença para levarem o vulto de S. Be- 
nediclo, que está no altar de Sanlo António da dilta 
caza a hum Enfermo, que eslava no ultimo da vida em 
caza de Joaò de Ara/iujo, e depois de o levarem^ e o 
terem lã, encommendando-se o Enfermo muito a elle al- 
cançou por sua intercessão perfeita saúde, de que ja os 
Médicos desconfiavaõy e lançou hum bicho d maneyra de 
cobra pequena, que lhe parecia tinha ferrado no coração, 
de que muito se queixava, e mandou fazer huã de prata 
á maneyra da que botara, c a trouxe a esta caza em me- 
moria do milagre, a qual se apprezenta com esta aV.S. 
E porque por honra e gloria de Veos em seos Santos 



95 

lie bem^ que este milagre conste a todo tempo. P. aV,S. 
mande fazer delle inquirição pelas Pessoas^ que se 
achar aò prezentes.e de seos ditlos passar instrumento 
autentico em modo, que faca fé, 

R. E. M. 

O nosso Vigário Geral perguntará as testemunlias^ 
que por parte do P. Guardião forem appresentadas, e de 
seos dillos lhe mandará passar lodos os instrumentos^ 
que necessários forem. Em dez de Novembro de iÇ>2^, 

O Bispo. 

Aos onze dias do mez de Dezembro de seis centos 
e vinte e três em esta Cidade do Salvador, Bahya de 
todos os Santos, nas ponzadas do lllm. Senhor Bispo^ 
estando alii o Senhor Yigario Geral comigo Escrivão 
tirou as testemunhas abayxo assignadas. Sebastião de 
Bulhões, Secretario do ditto Senhor o escrevi. 

Luiz Forreyra Pereyra, Sergueiro^ eazado em a Ci- 
dade do Porto, hora rezidenle em esta Cidade da Bahya, 
de idade, que disse ser de quarenta annos pouco mais 
ou menos, testemunha jurada aos Santos Evangelhos, 
em que pôz a maô dereita e prometteo dizer verdade. 
E perguntado pelo conteúdo na petição, disse elle teste- 
munha^ que hindo aos Ilhéos, distancia desta Cidade 
trinta legoas, pouco mais ou menos a vender mercado- 
rias, certo homem deu a elle testemunha^ estando almo- 
çando com outros, três ostras em huà casca, e dizendo 
que as naõ queria comer, por ter ja almoçado, o ditto 
homem instou e porfiou^ que as comesse, e lhas melteo 
na bocca contra sua vontade, elle testemunha as comeo 
e sobre ellas bebeo huã gota de vinho, e logo em conti- 
nente elle testemunha sentio em sy tal afrontamento no 
coração, que lhe parecia morria, e apartando-se delles 
se foi embarcar^ e chegou a esta Cidade com muito tra- 
balho, donde foi tirado do barco e trazido á caza de 



Joaõ de Ârahujo desta Cidade, e cm cbegaudo ihc deo 
hum grande accideutedemorle^c foi vizilado de lodos os 
Médicos e Cirurgiões da Cidade os quaes desconfiarão 
da vida delle leslemunha, e o dezarapararaõ. E vendo- 
se elle testemuuiia assim desconfiado da vida, cora 
grandes e excessivas dores de coração, e que tolalmente 
morria, huã noite a huá liora pouco mais ou menos, 
elle testemunha estando ja quazi fora do seu juizo, com 
dores, e agastamcntos, (por na Cidade do Porto liaver 
sido Mordomo do Bem aventurado Saõ Benedicto, e 
liaver dado a sua Imagem para muitas enfermidades^ e 
doenças, eliavendo-lhe feito muitas festas) cliamou por 
o Bem aventurado Saõ Benedicto, que lhe valesse, e 
pedio lho fossem buscar ao Mosteiro de Saõ Francisco, 
e elle testemunha se abraçou com o Santo fortemente, 
e o teve em sua companhia alhe as oito horas do dia, 
110 qual tempo elle testemunha teve hum assombramento 
de sono breve, e acordando delle lhe vieraõ grandes 
vómitos, e trazendo-lhe huã bacia de prata vomitou 
muitas corolas entre as quaes lançou hum bicho a modo 
de cobra de comprimento de hum palmo e quatro dedos 
a qual não era grossa antes chata e na bacia deixou 
hum sinal de sy, o qual por mais de quinze dias se naõ 
quiz tirar, por mais que lavarão a bacia, e em continente 
elle testemunha se achou melhor, e foi melhorando no- 
toriamente athe o prezente, que está com saúde, sendo 
que estava no fim da vida, a qual alcançou por inter- 
cessão do Bemaventurado Saõ Benedicto, que nelle tes- 
temunha fez taõ evidente e notável milagre á vista de 
muita gente, que disso pode testemunhar; e mais naõ 
disse, e se assignou com o ditto Senhor. Sebastião de 
Bulhões o escrevi. 

O Vigário Geral Themudo. 
Luiz Fcrreyra Pereyra, 



95 

Adam Carvalho, Mancebo soUeyro, rezidenle nesta 
Cidade do Salvador, de idade, que disse ser de vinte 
anoos, testeraunlia jurada aos Santos Evangelhos, e pro- 
meteu dizer verdade. E perguntado pelo conteúdo na 
petição, disse, que era verdade, que estando elle teste- 
munha pouzado em caza de Joaõ de Arahujo viera ler 
alli Luiz Ferreyra Pereyra, Sirgueiro do Porto, o qual 
vinha taõ doente e taõ mal, que sendo assim que elle 
testemunha o conhecia do Porto e da viagem, por virem 
ambos em hum Navio, e estarem pouzados ambos de 
dous na mesma caza nesta Cidade, o naõ conhecia ; e 
sendo vizitado o ditto doente dos Médicos desta Cidade 
entre sy averiguarão, que sua doença tora peçonha, que 
Ihederaõ; e estando muito mal e desconfiado dos Mé- 
dicos, pedio lhe trouxessem Saõ Benedicto o qual, sendo 
trazido do Mosteiro de S. Francisco, se abraçou com 
elle, e depois de haver espaço que o tinha em caza, 
foi vencido de hum sono leve, e acordando logo delle 
pedio huà bacia para vomitar, como com eíTeito vomitou 
muitas corolas, entre as quaes deitou hum bicho a modo 
de cobra, que em comprimento mais de hum palmo, e 
era delgada, a qual deixou na bacia hum signal de sy, 
que por muitos dias se naõ tirou da bacia, por mais 
que a lavavaò, e logo que deitou o bicho de repente se 
achou bem, e foi sarando, e hoje anda saõ, sendo que 
esteve no ultimo da vida, e foi manifesto a todos, os que 
o viraõ, que fizera Deos nelle grande milagre por in- 
tercessão do Bem aventurado Saõ Benedicto, e elle tes- 
temunha assim o entende; e mais naõ disse, e se as- 
signou com o ditto Senhor. Sebastião de Bulhões, o es- 
crevi. 

O Vigário Geral, Themudo. 

Adam de Carvalho, 

O mais deste Auto consumio o tempo, ou o descuido. 



96 
CAPIXUIiO XII. 

De nlgúas Relíquias, que houve nesta primilÍTa Igreja, e de huã mais 
moderna, que ainda existe. 

55. No anno de 1649 sendo Guardião deste convento 
Fr. Daniel de S. Francisco, Mestre que foi, e depois 
Prelado Maior desta Custodia, consta do seu assento 
dos Guardiães, mandara vir do Reyno os três Imagens 
dos Retábulos, huã de Nosso P. Saõ Francisco para o 
do Altar Mór, a outra da Senhora da Conceição, e a ter- 
ceyra de S. António para os dons collateraes, os quaes 
Retábulos havia mandado fazer o mesmo Guardião, como 
em seu lugar fica ditto. Mas pelas grandes alterações, 
que por este tempo houve, e continuadas guerras sobre 
a Restauração de Pernambuco, que se concluio no de 
1654, naõ puderaD chegar á Custodia estas Imagens, 
certamente as das Reliquias, de que aqui falíamos, se 
naõ da hi a selte para oito annos no de 1657, e as trouxe 
o P. Fr. Pantaliaõ Baulista na volta que fazia da Cúria 
Romana sobre a confirmação desta Custodia, ja sepa- 
rada em Província. Assim se colhe do que na Estancia 
dos Custódios fica referido deste Padre, onde áiz— Entre 
outras obras que fez, trouxe muitas Imagens de Santos 
com suas Relíquias, Naõ, porque estas Reliquias vi- 
essem ja incorporadas naqtielias Imagens, mas só prepa- 
radas nellas os lugares, em que se haviaõ collocar. Nem 
eraõ Imagens inteiras, mas meyos corpos, de dous para 
três palmos, como ainda agora vemos alguns, mas ja 
sem as Reliquias, que as decoravaõ, por varias Estan- 
cias do convento, e no Altar do Monte Alverne, assim 
chamado, por hum paynel grande que tem deste mi- 
lagre, no fim do corredor mayor para a parte dos Ter- 
ceyros, estaõ as duas de S. Franquilino Martyr, e Santa 
Tecla. Estas com outras mais, que faziaõ o numero de 
oito, consta por três certidões juradas em 19 de Abril, 



97 

27 de Jalho^ e vinte de Setembro de 1631^ do P. Do- 
mingos Coelho, Reytor, que era neste anno do collegio 
da companhia desta Cidade as dera este Religiozo ao 
guardião do nosso convento da Bahya Fr. Yicente do 
Salvador, as quaes Reliquiasattesta oditto P. Domingos 
Coelho as pedira de rosto a rosto ao Sanctissimo Padre 
Urbano Vlll, no anno de 1627, achando-se em Roma 
a negócios da sua Religião, e que lhe respondera o Santo 
Padre, que as Relíquias, que lhe dava eraõ piquenas, 
mas verdadeyras, e estavào autenticadas por taes com 
os seos sellos pendentes. E como nos dous meyos corpos 
que assima referimos eslaõ escriplos na orla do assento, 
ou peanha dos taes corpos os nomes de S. Franquiliuo 
Martyr, c San la Tecla, dous dos oito, que relataõ aquellas 
certidões, por isso afflrmamos serem as Relíquias, que 
em alguns delles estavaõ as mesmas que dera o Reytor 
do collegio ao Guardião do convento, naõ obstante o ha- 
verem-se passado alguns desoito annos entre a data 
delias, e a rezolucaõ de se mandarem coUocar em seos 
corpos ; porque assim o permittiaõ, como dizíamos, 
aquelles tempos, e principalmenle, porque neste mesmo 
anno de 1649 se assentou o Retábulo maior, donde ellas 
se deviaõ accomodar, naõ só as que deu o P. Reytor do 
collegio, como as mais que trouxe de Roma Fr. Panta- 
liaõ Bautísta, como fica ditto. 

56. Tinhaõ estas o seu lugar no primeyro corpo, que 
logo, conforme a Architectura, se seguia sobre a ban- 
queta do altar, em que assentava o Retábulo, a modo 
de Santuário, com mais de des palmos de alto, ficando 
no meyo delle o sacrário, e pelos lados vários Nichos 
em duas, ou três ordens por cada lado, dentro dosqua^s 
como em oratórios particulares estavaõ collocados os 
meyos corpos destas Relíquias, e faziaõ todos hum vis- 
lozo, e devoto Santuário: collocada laõbem no alto, ou 
corpo, que corria por Sima do Sacrário, e no meyo a do 
Gloríozo, e Santo Patríarcha. 

JABOATAM. PART. II, VOL I. 13 



95 

57. Â' algum génio melancólico parecerá imperíí- 
iiencia indiscreta ameudeza desta Relação, e outras se- 
melhantes, mas será talvez por naõ ser tocado o seo 
génio do zelo Santo, e devoção pia daquelles bons Relí- 
giozos, que por tantos annos soubcraõ guardar estas 
Santas íleliquias, atlie que houvesse tempo conveniente 
de se exporem á publica, c decente veneração, que de- 
pois se veyo a perder, e ellas taõbem por outros, que 
adoecem do mesmo achaque destes, que tudo o antigo 
c velho perde para com elles a estimação, que por isso 
mesmo e por sy merecem. 

58. No anno de 1700, hindo votar, como Custodio 
desta Província o Irmaô Pregador Fr. Vicente das 
Chagas no capitulo Geral celebrado em Roma neste 
mesmo anno, cm o qual foi eleito em Ministro de toda a 
ordem o Reverendíssimo Fr. Luiz da Torre, Ilespanhol, 
c sendo Ponlifice que ao tal capittilo prezidio, o Sanctis- 
simo Padre Innocencio XII, este Summo Pastor, que 
foi aííectuozissimo a lodo o Rebanho da Religião dos 
Menores, merecendo a honra de lhe beijar o pé o Irniaõ 
Custodio, e pedindo-lhe alguâ Relíquia para que cons- 
tasse á sua Província desta graça, e do seo especial 
agrado, lhe mandou dar o Santo Padreacalvaria inleyra 
de hum Santo Marlyr, que por se naõ saber com certeza 
individual qual fosse o seu próprio Nome, Sua Santi- 
dade lhe impôz o de Saò Fídelis, sem duvida bem me- 
recido pela fortaleza e constância deste fiel Servo do 
Senhor. Taõbem lhe concedeo pudesse rezar este con- 
vento, como alheo prezente se faz da Santa Relíquia, 
como Notável, e com Rito de Duplex Maior, era o dia 
vinte e seis de Março todos os ânuos. 



90 

De alguãs Pessoas graves, e aulhorizadas, que escolfacraõ jazigo na priíai- 
Uva Igreja deste convento. 

59. Ainda pede o discurso nos detenhamos hum 
pouco pelo interior deste regular e antigo Sanctuario, 
que bem pudemos, (sem passar a encarecidos,) dar-Ihe 
este sagrado epíteto, naõ so porque regulado lodo pelas 
justas ideas do Seráfico Fatriarcha, e courorn)e as me- 
didas da Santa pobreza, mas sim porque ainda que taõ 
acanhadas as suas cellas, que melhor se poderiaò dizer 
covas, ou sepulturas de mortos, do que habitação de vi- 
ventes, nellas fizeraõ morada Espíritos muy avultados. 
Ainda que taõ humildes e rasleyros os seus claustros, 
nellcs tiveraò jazigo e descançaraõ os corpos de muitos 
sugeitos, e muy crescidos em Santidade, e virtudes. E 
suposto, que taõ pobre e estreita, ou para o dizermos 
melhor, pela (Vaze commua, taõ capucha a sua Igrejinha, 
ainda assim sérvio a sua capella mór, se naõ de levan- 
tado e rico Mausoléo, de decente e sagrado Monu- 
mento em que quiz fosse depozilado o seo corpo o Illm. 
Senhor Dom Constantino Barradas, quarto Bispo do 
Brazil, que governando a Melropoli da Bahya alguns 
desoito annos, falleceo nella ao primeyro de Novembro 
de 1618. Na mesma capella mór escolheo Sepultura 
Afonso Furtado de Mendonça, Governador da 13a hya, 
que falleceo alli a 27 de Novembro de 1675. 

60. Por assentos de dons guardiães snccessivos desta 
caza pelos annos de 16i9 athe o de 1657, que foraõ Fr. 
Daniel de S. Francisco, e Fr. Jacome da Purificação, 
consta, que dos dons Altares colleteraes da Conceição, 
eS. António foraõ seus Padroeyros Phelippe de Moura 
e Diogo de Aragaô, e como laes linhaõ ao pé delles se- 
pulturas; graça que se lhes fez além de outras especiaes 
esmollas, por haverem os diltos Senhores mandado fazer 



100 

e dourar á sua custa os Retábulos daquelles Aliares^ 
como ja em outro lugar íica notado, tlraõ estes sugeilos 
de lllustre e conhecida nobreza. Phelippe de Moura 
por Descendente dos Mouras e Rolins, que nos prin- 
cípios da capitania de Pernambuco passarão do Ileyno 
ao Governo delia, e alli communicados por cazamenlos 
com os Albuquerques, e Gavalcantes deixarão numeroza 
Descendência da qual era hum este Phelippe de Moura, 
retirado com outros de Pernambuco para a Bahya, nas 
guerras dos Olandezes, pelos annos de 1535. Da mesma 
sorte era Diogo da Aragão Pereyra, natural da Ilha da 
Madeyra, homem Fidalgo, diz huã Memoria, que temos, 
o qual passando a esta Bahya, cazou nella com Dona 
Izabel de Aragaõ, sua parenta filha de Dona Maria de 
Arahujo, molher que foi de Ballhazar de Âragaõ o Ban. 
gala, bem conhecido e celebrado nesia terra. Foy esta 
sua consorte Dona Maria de Arahujo da nobillissima 
Família dos Arahujos de Ponto de Lima, porque era fiiha 
de Francisco de Arahujo, que de Portugal havia passado 
á Bahya, e nella cazou com Maria Dias íilha de Vicente 
Dias de Bej-a, natural do Alentejo, como ja outra vez se 
disse, c Moço Fidalgo do Infante D. Lniz, e de sua 
molher Genebra Alvares, filha segunda legitima dos ce- 
lebrados eja laõbem repetidos Gatharina e Diogo Al- 
vares, o Garamurú. 

61. Outras muitas Pessoas graves e bemfeiloras do 
convénio, escolherão jazigo para seos corpos nesta pri- 
mitiva Igreja, dando avantajadas esmollas pelas sepul- 
turas, mas como naõ foraõ por modo delegado, e per- 
petuas para seos filhos e herdeiros, naõ houve escrip- 
luras, nem ficou individual noticia, mais que acommua, 
se bem confuza tradição. De alguas que se achaõ mais 
modernas faremos revista, quando chegarmos ao con- 
vento novo. 



101 
CAPITlJIiO XIV. 

Dos Rcligiozos, que com fama de virtude, e santo fim illuslraraõ este 
convento. 

62. Entre as Estrellas Menores^ que fazendo do Ori- 
ente e Província de Santo António de PorUigal para 
este occazo e Custodia do Brazil o seu curso, o vieraõ 
consumir para esta parle mais Austral do nosso Novo 
Orbe Seráfico, como he a Bahya a respeiío de Pernam- 
buco, donde primeyro tomarão assento na caza de Olinda, 
tem o primeyro lugar o Irmaõ Fr. Antouio da Insua. 
Esta piquena porção de terra pelo limitado do silio, que 
occupa, ainda que rauy notável pelo prodigiozo Santuá- 
rio da Mãy de Deos, que nelle se venera, e he convento 
que pertence boje á Santa Província da Conceição do 
Minho nas fozes deste Rio, suppomos^ por uaõ termos 
outra individual certeza, deu ao Irmaõ Fr. António o 
seo Sobrenome; naõ porque fosse natural deste Sitio, 
mas sem duvida porque naquella Sanla caza, deixando 
a varia fortuna do mundo^ quiz melhorar de sorte para 
o céo, fazendo nelle a profissão de Religiozo Menor, e 
tomando em obsequio da Senhora sua Padroeyra, aquém 
particularmente se consagrava, o sobrenome da Insua, 
como o haviaõ feito ja outros Religiozos de boa fama 
e celebrado nome em as Ghronicas da Ordem, que neste 
mesmo convento haviaô professado. Quando o fez taõbeu^ 
o Irmaõ Fr. António naõ chegou á nossa noticia, mas 
por boas conjecturas podemos assentir tomaria o habito 
e faria a profissão ainda em tempos que aquellá caza 
era Recollêta, ou pouco depois que com ella e outras 
mais deraõ os Padres de S. António principio á sua 
Custodia pelos annos de 1565. Ou fosse em hum ou em 
outro estado os assentos desta nossa o trataõ por filho da 
Província de S. António de Portugal ; porque esta era ja 
Província separada desde o anno de 1568, quando no 



102 

de 1590 delia para o Brazil passou o Irmão Fr. Anlonio 
da Insua. 

63. Eqi companhia do Padre lh\ Francisco de S. 
Boaventura fez para cá esta passagem, e foi hum dos 
doze Religiozos, que trouxe o venerando Padre na volta 
que fez segunda vez do Reyno para o Brazil, como outras 
vezes fica dilto. Na caza de Olinda, onde tomarão des- 
canço das fadigas e perigos do mar estes novos traba- 
lhadores da vinha do Senhor, fez pouca assistência este 
bom Operário ; porque vindo o P, Fr. Melchior conti- 
nuado em Custodio e fazendo eleyçaõ de Prelados para 
as Irez cazas que ja linha, e nomeando ao P. Fr. Fran- 
cisco dos Santos, que acabava de Olinda para esla da 
Bahya, pedio elle elevou com sigo ao Irmaõ Fr. An- 
tónio da Insua, ou por conhecimento que ja tivesse 
delle na Província, ou pela sua boa fama e capacidade 
Pieligioza; eeste o ajudou muito para a continuação das 
obi*as do novo convento; porque o Irmaõ Frey António 
da Insua tinha génio especialíssimo para agradar, e 
attrahir aos Seculares, movendo a lodos forte e suave- 
mente com o grave, e modesto da sua Pessoa, com a eífi- 
cacia e brandura das suas praticas, com o bom exemplo 
da sua vida, e com o total desapego dascouzas terrenas, 
graças especiaes, que achamos notadas em algús breves 
assentos desta Custodia, que nelle fíillaõ. Era filho, e 
foi creado com a Beligioza doutrina daquelles Será- 
ficos P^spiritos, habitadores do Santuário da Insua, que 
liveraõ sempre por maior e lodo o cuidado copiarem 
sy a perfeição melhor, e assim havia de sabir o seohum 
expressivo Retraio daquella copia. 

64. Neste trabalho, e cuidado de ajudar e concor- 
rer para os progressos e fabrica do novo convento, por 
quazi selte annos se achava o Irmaõ Fr. António da 
Insua, quando no de 1596, chegando a Olinda por Cus- 
todio o P. Fr Brás de S. Jeronymo a 17 de Julho, e ffi- 
zendo neste mesmo anno a sua Junta, nella foi eleyto 



eh) Guardião de Olinda o Irmaõ Francisco dos SafttoSi 
que o eslava seudo ua Bahya, e para esta caza o Irmaõ 
Fr. António da Insua, com huma grande acceitaçaô, e 
aplauzo do seo Povo. Pela boa vontade, e largas esmol- 
las com que concorreo este para as obras era o seo 
lempo, que foraò alguns selte annos com pouca diífe- 
rença allie o de 1603;, em que por Mayo chegou a Per- 
nambuco o Custodio Successor Fr. António da Estrella, 
e nomeando para Guardião da Bahya a Fr. Domingos 
de S. Boaventura, deixou o Irmaõ Fr. António da Insua 
quazi concluidas as obras materiaes,que locavaõ a caza. 
Feita a entrega della^ aby se deixou Gear, porque já os 
seos annos, e idade avançada lhe naõ permeltiaõ largos 
discursos. Naõ obstante porém ósseos adiantados annos, 
no de 1608 entrando por Custodio o P. Fr. Francisco 
dos Santos, attendendo aos méritos deste bom Religiozo 
epela larga experiência, que delle tinha, e sabendo o 
muito que havia operado com o zelo nas obras do con- 
vento, e com o exemplar da vida na edificação dos Povos, 
o tornou a eleger Guardião da mesma caza. Neste cargo 
continuou alhe o seguinte anuo de 1609, em que na 
congregação foi provido o lugar de novo Prelado, pe- 
dindo elle o desviassem destas impertinentes, porque 
era tempo de se applicar todo ás mais importantes da 
sua alma. 

65. Quando esta, soltas as prizões do corpo, e dei- 
xado o desterro deste mundo, sahissem a gozar como 
piamente podemos crer, do socego, e descanço da ce- 
leste Pátria, nâo consta ao certo ; porque nem o dia, 
nem o anuo do seo tranzito achamos notado, e só hum 
assento, que diz, fallecera neste convento, e já vt lho. 
O que achamos ao certo he, qne no anno de 1616 vivia 
ainda pelo vermos assignado em hum termo de proGssaõ 
feita nesta caza a vinte e três de Junho. E como em 
lodos os mais, que uella se fizeraõ, desde o tempo, que 
alli entrou por morador athe este de 1616, ainda em 



104 

súbdito assignou sempre nestes termos, e deste por di- 
ante o naõ fez mais, parece evidente que, ou falleceo 
neste mesmo anuo, ou logo era algum dos seguintes^ 
privando-o daquclla custuraada assiguatura, ou a morte 
ou a ultima enfermidade, que delia se lhe seguio. Por 
esta razaõ, e dizer aquelle assento, que fallecera velho, 
que seria ao menos dos sellenta annos por diante, dis- 
semos ao principio, tomaria o habito e faria profissão 
no convento da Insua, estando esta caza ainda no Es- 
tado de Recolleta athe os annos de 1565, que para 1616 
ou dezasette, em que viria a fallecer, vaõ sinquoenta e 
hum, ou sincoenta e dous annos de Religiozo, dando- 
Ihe ao menos os vinte^, que faltaõ para ossettenta e dous, 
idade capaz e sobeja para os ter quando tomasse o ha- 
bito e fizesse profissão. E nem porque a tivesse feito na- 
quella caza, sendo ainda Recolleta, embaraça a que se 
diga, era filho da Província de S. António de Portugal; 
naõ só porque desta Província era, quando passou ao 
Brazil, mas também porque era filho de hum convento, 
que entrou a compor e formar aquella Província, e 
nelle como em outros Recolletos ficarão muitos dos Re- 
ligiozos seos habitadores, no da Insua, ficaria taõbem o 
Irmaõ Fr. António. 

66. Isto he, o que dos assentos desta Custodia pu- 
demos colher em abono, e comprovação do que dizem 
elles fora Religiozo de conhecida virtude, e acabara com 
boa fama, e por esta alistado no catalogo dos que como 
taes se devia escrever. E porisso, ainda que deste e de 
outros mais nos naõ deixarão referidas acções porten- 
tozas, nem outros cazos notáveis, porque estes ainda que 
mostrem no Sugeito que os obra a Santidade que tem, 
pode com tudo haver muita Santidade, e muito grande, 
sem que obre milagre, ou prodígio algum o que he Santo 
e virtuozo ; por esta razaõ e justo fundamento nos re- 
zolvemos a escrever o pouco, que deste e de outros Re- 
ligiozos nos deixarão em memoria os nossos Antigos, ou 



105 

por descuido seo^ que he o mais certo c commum, ou 
porque bem podlaõ ser muy Santos, ainda naò obrando 
milagres. Nem he muito deixasse sigilladas no Archivo 
do esquecimento tantas acções particulares e progressos 
espirituaes década hum, obrados em sua vida, quando 
athe o dia e anno, em que falleceraõ, o deixarão com 
eiles enterrado na própria Sepultura. 

67. Com a mesma incerteza do anno, e dia do seo 
fíUIecimenlo encontramos algum tempo depois o do P. 
Fr. Vicente do Salvador; porque affirmando o mesmo 
assento, que fallecera nesta mesma caza^ e já velho, 
taõbem naõ assigna o quando. Mas uaõ obstante esta 
falta temos evidencia certa de que ainda era vivo pelos 
fins do anno de 1636, porque em hum auto de Inquiri- 
ções para se ordenar de Sacerdote Jeronymode Lemos, 
que vimos na camará Ecclesiastica da Bahya se acha 
huã certidão sobre vita et moribus deste ordenando, 
assignada por letra do P. Fr. Vicente do Salvador, e 
feita a dous de Outubro do referido anno de 1636. 
Taõbem temos por conjectura verosímil, que no anno 
de 1639 era já fallecido ; porque começando no seguinte 
o primeyro livro, e único, que ha dos óbitos desta Pro- 
víncia em quanto Custodia, se naõ acha nelle o do P. 
Fr. Vicente do Salvador, indicio certo, de que já no 
sobredilto anno de trinta e nove era fallecido. Mais se 
conQrma por certa esta conjectura; porque achando-sc 
este Religiozo antes do sobreditto anno de trinta e seis 
assignado em todos os termos de Profissões da caza da 
Bahya, donde ficou por assistente depois de Custodio, 
deste ditto anno de trinta e seis por diante se naõ acha 
mais o seo signal, e nem outra noticia sua, prova evi- 
dente, de que do tal anno de 636, athe o de 639 foi sem 
duvida o seo fitllecimento. 

68. Era natural da Bahya, no lugar de Matuim, Fre- 
guezia do Recôncavo, seis legoas ao Norte da Cidade. 
Foraõ seos Pays Joaõ Rodriguez Palha e Messia de Lemos, 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 14 



106 

e elle chamado Vicente Roiz' Palha, baptizado ua Sé d-a 
mesma Cidade pelo cura delia Simaõ Gonsalves, a vinte 
e oito de Janeyro do auno de 1567. Nas Aulas do col- 
logio da Cidade estudou a Gramática e Filosofia, e na 
universidade de Coimbra foi graduado em ambos os Di- 
reitos, c formado ahi Doutor, sendo -o com vantagem 
na Theologia e canónico, e já neste tempo de vida 
excmplarissimo. Voltou á Pátria, e ordenado de Sacer- 
dote, alcançou o ser cónego da sua cathedral, e o Ulm." 
Prelado delia o nomeou para seo Vigário Geral. Nestes 
empregos se achava com honras e eslimações^ que taes 
lugares trazem com sigo, quando Deos, que o queria 
para consequências mais seguras da sua Salvação, e 
bem espiritual de outras almas, com aquella Providencia 
que tanto tem de mais venerável, quanto he pelo dis- 
curso humano menos perceptível, dispoz, que locado 
interiormente de Divino impulso, deixando ludo, o se- 
guisse na Religião Seráfica, e achasse na companhia dos 
pobres. Bem se deixará perceber, quanto edificativa- 
mcnte ruidoza seria aos daquella cathedral e Povo da 
Cidade, e que espiritual e alegre para a Custodia do 
Brazil a conversão deste Pi. Doutor ; mas nem porisso 
ainda que ficassem bastautemente invejozos, se deviaõ 
queixar da Custodia os que oqueriaõ para fora; porque 
a todos acreditou e sérvio com o seo exemplo, e com 
as suas letras ; assim como o tinha já executado a mesma 
Providencia com o Doutor Irrefragavel Alexandre de 
Ales, ordenando ficasse possuidora deste Thesouro de 
leiras a Religião Seráfica, ainda que se mostrasse quei- 
xo/a a universidade de Pariz. 

69. A vinte e sette de Janeyro do Anno de 1599, 
lhe lançou o habito no mesmo convento da Bahya o 
P. Custodio Fr. Brás de Saõ Jeronymo, e a trinta do 
mesmo mez do Anno Seguinte de 1600 lhe fez a profissão 
o Prelado do convento Fr. António da Insua. Os Eth- 
nicos pela sua philosofia cnsinaõ, que o acazo he aqnillo, 



107 

que simplesmente aconloce por cauza de algum exlrin- 
seco, como no que obraõ os Irracionaes e osMininos 
sem discrição; mas na verdade Chrislà, todo o acazo 
procede da dispoziçaõ Divina. Pareceo acazo ficasse cego 
o velho Tobias, pelo que das Andorinhas lhe cahio nos 
olhos, mas foy particular vontade de Deos para dar 
exemplo de paciência^ e comprovar em Tobias a sua 
virtude. Neste juizo bem o podemos fazer, de que para 
demonstração do quanto nesta Custodia havia aproveitar 
em virtudes e créditos para ella o Irmaõ Fr. Vicente do 
Salvador, naõ foy acazo, mas alguã Providencia que 
dous Sugeitos de taõ notória virtude, como foraõ o Irmaõ 
Fr. António da Insua, e o P. Custodio Fr. Brás de Saõ 
Jeronymo,este o acceitasse na ordem lançando-lhe o ha- 
bito, e aquelle o confirmasse nella dando-lhea profissão. 
Quem fosse o Irmaõ Fr. António da Insua já fica mos- 
trado pouco antes. Do P. Fr, Brás de Saõ Jeronymo, 
fora o que em commum e de passagem dissemos na 
sua Estancia de Custodio, delle, comodeReligiozo con- 
sumado em virtudes, escreverão já o Agiologio Lusitano 
e o Padre Ghronista da Província de S. António de Por- 
tugal, concluindo este que parece conheceo ou vio a 
morte quando o vinha buscar, porque se foy ao Guar- 
dião, e lhe disse assim : — Irmaò, viande-me dar os iil- 
timos Sacramentas ; eu vou para a Enfermaria, ede-me 
licença para morrer, — Recolheo-se áquella caza, e rece- 
bidos os Sacramentos últimos, sem outro achaque, que 
o dos annos, de joelhos, abraçado com huã Imagem do 
Santo Christo lhe entregou a alma aos dez de Junho de 
1633. 

70. Acazo, como Providencia foi sem duvida, que 
estes dous fossem os Prelados, que concorressem para 
o estado de Religiozo, que escolheoo Irmaõ Fr. Vicente, 
e elle como Religiozo neste estado pelo perfeito, e ob- 
servante delle assim o comprovou. Tanto assim, que 
naõ tendo bem completos os seis annos de professo, vindo 



108 

por Custodio o P. Fr. Leonardo de Jesus a segunda vez, 
e fazendo a sua Junta na caza de Olinda a vinte e dous 
de Outubro de 1606, c feita nella aacceitaçaô de fundar 
convento na Cidade do Rio de Janeyro, foy escolhido 
para este emprego o Irmaõ Fr. Vicente do Salvador, 
com o mesmo Custodio que logo de Olinda partio para 
a Baliya, se embarcou dali para o Rio de Janeyro com 
Ires Religiozos mais, donde chegarão a vinte de Feve- 
reyro do seguinte anno de seiscentos e sete. Na Santa 
Caza da Mizericordia foraõ agazalhados, e nella assis- 
tirão athe o dia da Senhora dos Prazeres daquclle mesmo 
anno, obrando alli o írmaõ Fr. Vicente, o que na fun- 
dação desta caza se dirá, como em lugar próprio, con- 
segíiindo tudo o que para elia lhe era necessário com boa 
vontade, e gosto dos Moradores; porque alem de dczc- 
jarem os Religiozos cm sua companhia, accendia-se-Ihes 
a devoção com o bom exemplo e proceder que nelle viaõ 
porque, como diz hum assento do cartório daquella caza 
fallaõ do seu Prelado Fr. Vicente^ — Obrava elle com 
muito zelOy e exemplo por ser muito grande Religiozo^ 
e bom letrado. 

71. Ao tempo em que as obras da nova fimdaçaõ 
hiaõ assim correndo, era já no anno seguinte de seis- 
centos e oito, chegou áquella Cidade segunda vezo P. 
Custodio Fr. Leonardo, e achando as couzas bem dis- 
postas, se lançou a primeyra pedra ao novo convento a 
quatro de Junho com grande Solcmnidade, e applauzo 
de lodos, ainda que a este se seguio logo bastante senti- 
mento, porque havendo determinado o P. Custodio 
abrir curso de Artes na caza de Olinda, e fazendo eleição 
de Fr. Vicente para Mestre, pondo alli outro Prelado 
o levou comsigo neste mesmo anno para aquelle con- 
vento. Abrio-se logo nelle o curso; mas chegando a 
OPmda no principio do anno seguinte de seiscentos e 
nove o P. Fr. Francisco dos Santos por Custodio Suc- 
cessor, e trazendo da Provincia outro Mestre, chamado 



* 109 

Fr. Sebastião de Braga, e algus EsUulanles mais, sus- 
pendeo-se na Custodia o que havia aberto o P. Fr. Leo- 
nardo, e continuando o novo Mestre ficou absolto da 
leitura o Irmaõ Fr. Vicente^ levando com resignação 
de bom Religiozo, sábio com prudência e súbdito obe- 
diente esta determinação dos Prelados; porque sem du- 
vida a sua sciencia naò padecia aquelle ventozo achaque 
de que dizem as Divinas letras adoecem commumente 
os sábios do mundo. 

72. De Olinda se retirou logo para a Bahya, aonde 
assistio por súbdito athe o anno de 1612 no principio, 
em que retirando-se para a Província o P. Fr. Francisco 
dos Santos, completos os seos três annos de Custodio, 
sem lhe haver chegado Successor, ficou por seo com- 
inissario com vezes de Custodio o P. Fr. António da Es- 
trella, que já outra vez havia exercido este cargo. Fez 
junta, e nella foi nomeado o Irmaõ Fr. Ticente para 
Guardião da caza da Bahya. Nella dezempenhou o lugar 
com créditos da Pessoa, zelo da Pieligiaõ, e bem dos 
súbditos, pois vendo os discommodos, que athe-li sescn- 
liaõ em commum^ por naõ haver ainda caza deputada 
para os Religiozos doentes, mandou fazer a Enfermaria 
naõ só necessária, mas muito perfeita para aquelles 
tempos, e com todo o adorno e providencia conveni- 
ente. Nestas e outras operações do seo espirito, e letras^ 
como foi acompoziçaõ de huã chronica de que já se deu 
noticia no cathalogo dos Escriptores desta Província, 
líia correndo pelos trcs annos, quando no de 1614 pelo 
fim lhe chegou a nomeação de Custodio. Parlio para 
Pernambuco, e no convento de Olinda a quatorze de 
Outubro do mesmo anno fez junta, e foy a primeyra com 
voz de capitulo, e nella a eleyçaõ de Prelados para os 
conventos da Custodia com as mais determinações or- 
denadas pelo Bv. P. GeraU como na sua Estancia dos 
Custódios fica referido. Abrio taõbem curso de Artes 
para que applicando~se os súbditos ao cultivo das letras 



110 

crescessem os operários para a cultura da vinlia que 
lhe havia entregado o Pay de Famílias, da qual muito 
cuidava este vigilante Pastor. Completo o seo triennio se 
retirou para a Provincia^ deixando inconsoláveis aos 
súbditos, a quem taõbem tratou como Irmãos^pela falta 
e auzencia de hum tal Prelado, e Pay. Chegou á Cidade 
de Lisboa, e celebrando a Província o seo capitulo a de- 
zaseis de Novembro de 1619, o admitliraõ a votar nelle 
como Custodio que acabava, e ahi foy eleyto outra vez 
em Guardião da caza da Bahya. Voltou para a Custodia 
obediente, e chegando ao seo convento fez renuncia do 
lugar, deixando assim a obediência illeza, e naõ pouco 
mortificada a ambição vaidoza dos que com anciã appe- 
tecem tanto, o que elle deixava sem repugnância. 

73. Quazi dez annos eraõ passados, que havia feito 
esta renuncia^ e celebrando o seo capitulo Custodiai o 
P. Fr. Simaõ de Santo António no de 1630, o elegerão 
lerceyra vez Guardião para a mesma caza da Bahya, e 
sem violência fez agora acceitaçaõ deste próprio lugar, 
que tantos annos antes havia renunciado. Sem duvida, 
que have-lo renunciado entaõ, e acceito agora o naõ de- 
vemos attribuir a inconstância do seo Espirito, ou le- 
veza do seujuizo; antes bem a huã discreta e muy 
discursada circunspecção dos tempos, e suas circuns- 
tancias occurrentes. Naquelle, naõ faria falta ao bem 
commum da Religião, e serviria de detrimento grande 
ao seo espirito, e era acertada entaõ sobre necessária 
a renuncia do cargo; neste ainda que com algum dis- 
commodo da Pessoa-, poderia ser de grande importância 
ao Estado Religiozo, e já era discreta e ainda preciza 
a acceitaçaõ do lugar. E assim pedindo a occurrencia 
do tempo mudasse de parecer em obsequio do commum, 
e prevalecendo em seu ponderado juizo esta razaõ as 
particulares do recolhimento, e socego da sua Pessoa 
e Espirito, subio a cruz penalizado, para servir a Deos, 
e ao Próximo rendido. Boa advertência poderia ser esta 



para alguns daquelles, ainda que poucos, que fogem es- 
piritualmente medrozos ao traballio regular do governo 
da ordem, só porque antepõem^ guiados pelo amor pró- 
prio, a sua quietação particular ao bem commum. A. 
prudência para discernir estes pontos em matérias se- 
melhantes, he dom particular, que o participa Deos, 
a quem he servido ; mas deve quem servir uelles fazer 
muito da sua parte por merecer ao Senhor esta graça, 
eutregando-se todo, com humilde resignação nas deter- 
minações da sua Altíssima Providencia, que nunca falta 
a quem submissamente e de coração a sabe pedir. Assim 
acceitou e exerceo com os costumados acertos esta ul- 
tima Prelazia, o Padre Fr. Vicente do Salvador^ que 
depois com huã longa e bem empregada velhice dos 
settenta annos por diante falleceo^ e foi sepultado no 
mesmo convento da Bahya com a boa fama de Religiozo 
de virtude, com que viveo. 

74. Com a mesma opinião, e no próprio convento 
pôz termo aos seos dias aos desanove de Abril de IQlií 
o Irmaõ Fr. Bernardino de S, Ago, nome que tomou na 
profissão feita ao primeyro de Mayo de 1592 na caza de 
Olinda, em idade de vinte annos^ deixando ode Gon- 
çallo, que tinha no século. Foy natural da Villa de Viana 
na foz do Lima, filho legitimo de Pedre Annes, e sua 
molher Anua Gomes. Seis vezes o achamos Prelado em 
outros tantos conventos, dos oito que já havia na Cus- 
todia, quando no de 1606, entrou a ocupar estes lugares. 
No de 161/1, celebrando-se nesta Custodia o seo pri- 
meiro capitulo^ foi eile taôbem hum dos seos primeyros 
Diffiuidores. No seguinte capitulo, em que acabava de 
Diffinidor o fizeraõ Guardião para a caza do Rio de Ja- 
neiro, e no seo tempo, que foi athe o outro capitulo, diz 
o assento daquella caza se acabou a Igreja. Passados 
anuo e meyo, na congregação de Fr. Manoel de Christo, 
Custodio em 1625 foi eleyto Guardião da Bahya, Aqui, 
para que com as mais obras do seo merecimento tivesse 



11^2 

â de padecer e sentir mais, vio a perda deste convento^ 
occupado de Hereges pela invazaõ dos Olandezes nesta 
cidade desde o dia doze de Mayo do anno de 162/1^ alhe 
o primeyro do próprio mez do seguinte anno. Foy o da 
entrada do Inimigo, e posse da cidade o ultimo em 
que taõbem completava Fr. Bernardino o de Guardião 
do seo convento, sobrevindo- lhe por fim, além de outras 
moléstias e trabalhos corporaes a excessiva da sua alma 
em ver profanada a caza de Deos, ultrajadas as sagradas 
Imagens, e outros semelhantes desacatos, que a perfídia 
herética des(a Gente sabe e costuma executar em o dia 
da nossa Santa Fé. 

75. Nesta derrota passando os mais dos Religiozos 
para os conventos das partes de Pernambuco ; porque 
para os do Recancavo da mesma Bahya lhes era difi- 
cultozo, por estarem os seos mares occupados do ini- 
migo, ficou o Guardião com alguns dos seos súbditos 
assistindo e administrando ao Povo no Arrayal, que 
se levantou no Rio Vermelho, huâ legoa distante da ci-n 
dade, lodo^aquelle lempo que delia estiveraõ de posse 
os inimigos, que foi hum anno menos dez ou doze dias. 
Era dos primeyros, que se achava nos Rebates, e assal- 
tos, animando aos catholicos na defensa da Fé e liber- 
dade da Pátria, e assistindo-Ihes em as necessidades da 
alma, e mostrando-lhes o muito, que lhe dohia na sua, 
o que a lodos via padecer. Restaurada a Cidade, se res- 
tituhio ao convento, para o qual já desde osfinsdaquelle 
mesmo anno de seiscentos e vinte e quatro, se havia 
elegido Guardião no capitulo que fez em Olinda o novo 
Custodio Fr. António de Braga. Entre as obras que 
havia feito no convento, foy huã alongar o choro da 
porta da Igreja athe os arcos, antes que nelle entrassem 
os Olandezes, Depois de restituído a eile, entre as obri- 
gações de bom súbdito e perfeito Religiozo se exercitou 
alli quatro para sinquo annos sem mais empregos, que 
os do seo espirito, athe o de 1629, em que fazendo>se 



# 



113 "^ 

acceitação de fundar taõ bera caza na Villa de Sere- 
nlialiem, destriclo de Pernambuco, para esta foi no- 
meado na Congregação do Custodio Fr. António dos 
Anjos o Irmaõ Fr. Bernardino. No mes de Janeiro 
do seguinte anno de 1630 llie deu principio. Mas 
chegando neste mesmo anno o Padre Custodio Fr. 
Simaõ de S. António, celebrando o seu capitulo, nelle 
foi nomeado para Guardião da Paraiba o Irmaõ Fr. 
Bernardino. Ahi o foi alhe o capitulo futuro de 1633, 
em que hindo votar, foi feito segunda vez Diffinidor. 
Com a entrada dos Olandezes pela Campanlia e des- 
trictos de Pernambuco se retirou com a maior parte 
dos Religiozos, e o seo Custodio Fr.. Cosme de S. Da- 
mião para a Bahia. Nesta caza assistio o restante da 
vida, que foraõ ainda alguns dez, ou onze annos athe o 
de 1644, em que cheio de merecitaentos, e dias, com- 
pletou os da vida aos desanove de Abril, deixando-uos 
só nos Annaes da tradição, e no cathalogo dos Reli- 
giozos, que nesta caza acabarão com boa fama, vida 
regular, e ajustada, ser elle hum dosque aillustraraõ 
com as suas virtudes por aquelles tempos. 



CAPITUIiO JLW. 

Faz memoria do Irmão Fr, Francisco do Rosário Religioso Leygo. 

76. Seis annos depois, com pouca diíTerença, foi 
o ditozo tranzito do Irmaõ Fr. Francisco do Rozario. 
Era natural da cidade do Porto, Freguezia Digus na rua 
de S. Miguel, filho legitimo de Gaspar da Maia, e de 
sua mulher Margarida da Costa. Exerceu em Secular 
o officio de Tabaliaõ alguns poucos annos na Villa de 
Olinda, e já neste tempo, com tal occupaçaO mostra- 

MBOAIAH. PART. II. VOL. 1. J5 



U4 

va coai o bom juizo^ de que era dotado^ liuã vida muy 
ajustada. Estas boas partes o moverão a deixar aquel- 
le arriscado exercício, e buscar outro emprego mais 
coherente ao seo discurso, e muy conforme ao seo es- 
pirito, e foi este o de Religiozo, Leygo no Estado, que 
por humilde escolheo, tendo para o de Sacerdote so- 
brada intelligencia da lingoa Latina. Em o convento 
de Olinda fez a profissão ao primeiro de Mayo de 
1592, quando contava os vinte cinco annos de idade. 
Os melhores annos da sua mocidade os gastou appli- 
cado pela obediência nas Aldeãs, e Doutrinas dos Gen- 
tios, dos quaes fallava a sua lingoa taõ bem como a 
entendia. Por esta cauza, e pelo grande zelo, que ti- 
nha ásalvaçõj e aproveitamento espiritual desta gente, 
o mandarão os prelados desta Custodia ás partes do 
Maranhão, donde fez muitas e diversas entradas pelos 
seos destriclos, e taõ bem pelos Rios das Amazonas, e 
Gram-Pará, cathequizando, bautizando, e trazendo 
muitos delles a luz da fé, e grémio da Igreja. Dos 
Ritos, costumes, trages, e Povoações desta Gentes 
compoz hum livro da sua própria maõ, escrito em a 
nossa vulgar, de que se aproveitarão os Olandezes 
quando entrarão em Pernambuco. Também ordenou 
hum cathecismo na lingoa Brasilica, em que se vê o 
espirito, fervor, e zelo de seu Author, diz huma Me- 
moria do Archivo desta Custodia, em que mostra quem 
a escreveo, andava entre as maõs, dos que naquelle 
tempo exisliaõ, pois falia com termos de prezente, e do 
qual aos que existimos só ficou esta memoria. 

77. Sobre a hida deste Religiozo ao Maranhão, fal- 
íamos ja em a primeira Parte desta chronica, no seo 
Livro Ante primeiro. Naõ lhe assignamos alli o anno ao 
certo, em que a fez, e só por conjectura^ que poderá 
ser do de 1600 por diante, athe o de 1615, e por esta 
cauza accrescentamos logo, (jue quando naõ houvesse 
chegado lá athe o sobredito de seis centos e quinze, 



115 ■ 

isto naõ obstava a lirar aos Frades Menores a primazia, 
que tinliaõ de serem os Annunciadores primeyros do 
Santo Evangelho ao Gentio daquellas conquistas; pois 
logo no anno de 1612 o haviaõ feito na Ilha de S- Luiz 
os Religiozos Capuchinhos Francezes, Irmãos nossos, 
e Filhos do mesmo Patriarcha. E se não quizessemos 
estes por Estrangeiros, dos Portuguezes logo no anno 
de 1614 para quinze o venerável Fr. Cosme de S. Da- 
mião, e seo companheiro, o Mestre Fr. Manoel da Pie*- 
dade, hindo com Jeronymo de Albuquerque áquella 
conquista, e sendo estes os primeyros Religiosos, e Por- 
tuguezes, que naõ só na terra firme, como fica ditto 
no lugar citado, mas dentro da mesma Ilha do Mara- 
nhão, como logo se dirá na vida, que segue do mesmo 
Fr. Cosme de S. Damião, prégáraõ ao seo Gentio, e 
converterão muitos delles ao grémio da Igreja. 

78. Sendo assim certa a hida do Irmaõ Frey Fran- 
cisco do Rosário ao Maranhão, e duvidoza, como a ve- 
mos no tempo. O que sobre este pudemos descobrir, 
seguindo em parte as Memorias desta Custodia, que 
affirmaõ obrara no Maranhão o que com o Gentio fica 
referido, e que fundara o convento da Ilha de S. Luiz, 
donde hoje estaõ os Religiosos de S. António da Pro- 
víncia de Portugal, e que taõbem dera principio ao do 
Grani Pará, he o seguinte ; Que sem duvida foi ao Mara- 
nhão este Religiozo, e que na doutrina do seo Gentio 
se occupou alguns annos, com grande aproveitamento 
desta Gente ; mas isto naõ podia ser seuaõ depois da 
conquista daquella por Jeronymo de Albuquerque ; pois 
naõ achamos em as nossas memorias, nem em as quede 
fora trataõ desta matéria, que quando alli chegarão os 
Padres Fr. Cosme, e seo companheiro descobrissem 
rasto, ou noticia alguã desta viagem, e assistência de Fr. 
Francisco Bo Maranhão, nem signal de que houvesse alli 
Gentio com noticia da Fé, e pregação do Evangelho ; mais 
que alguns poucos da mesma Ilha pelos Religiozos Ca - 



116 

puchinlios que nos annos autecedenles haviaõ entrado 
nesta com os Francezes. 

79. Consta taõbem ser certo hir ao Maranhão este 
Religiozo, e obrar alli com o Gentio de terra, o que 
fica ditto ; porque, além de o escrever assim o Author 
do Agiologio Luzitano no dia vinte e nove de Junho 
om a Lenda, e sco convento, affirma este, que toda 
aquella noticia o havia participado em Lisboa do Padre 
Fr. Sebastião do Espirito Santo, (o mais antigo, e grave 
Padre da Provincia do Brazil accrescenta o mesmo Au- 
thor). O P. Fr. Sebastião do Espirito Santo era Custo- 
dio actual do Brazil no anno de 1650, em que nesta 
Custodia fallecco o IrmaO Fr. Francisco do Rosário, e 
ambos filhos delia, em aqual viverão alguns trinta an- 
nos, desde o de 1620, em que professou o Padre Fr. 
Sebastião athe o de 1650, em que falleceo Fr. Francis- 
co do Rozario; e passando depois a Portugal o P. Fr. 
Sebastião no de 1655 lá teve communicaçaõ com o so- 
bredito Author, que actualmente estava concluindo o 
seo terceyro torao^ que deo á luz no seguinte de 1666, 
ao qual participou todas as noticias, que elle alli escre- 
ve deste Religiozo, como o mesmo Author confessa. E 
he sem duvida, que sendo o dillo Padre Fr. Sebastião 
Prelado maior da Custodia, e vivendo nella tantos an- 
nos com o Irmaõ Fr. Francisco, devem ter o maior, 
e mais abonado credito, todas as noticias que delle deu, 
e a escreve aquelle Author, e muito mais, quando to- 
das ellas concordaõ^ e saõ as mesmas em sustancia, e 
quasi na escripta, que se achaõ nas memorias, e assen- 
tos desta nossa Custodia. Assim naõ houvera nestas 
como nas do P. Fr. Sebastião, o grande descuido de as- 
signarem os annos, em que foy, e se deteve no Mara- 
nhão este Religiozo no* trabalho, e doutrina do Gentio 
da terra. Só naõ concordaõ as noticias do P. Fr. Sebas- 
tião com as da nossa Custodia, quando dizem estas, que 
110 Maranhão fundara Fr. Francisco aquelle convento, e 



117 

que dera principio ao do Pará ; nem nós laõ pouco, que- 
remos assentir a estas ; pois a ser assim se naõ esque- 
cera de as referir o ditlo Padre custodio áquelle Escri- 
ptor, quando lhe communicou as mais, e se a repetimos, 
he só por vermos se delias tiramos alguã conjectura 
menos violenta para podermos assignar o tempo, em 
que podia hir ao Maranhão este Religiozo, e mostrar- 
mos, como ao menos em alguã parte se pode entender, 
ou explicar, o que dizem demais os assentos da Custo- 
dia sobre o fundar este Religiozo aquelles conventos. 
80. Sendo pois certo, que o convento do Pará, ou 
mais propriamente Rezidencia, e hospicio teve a sua 
origem, e fundação no anno de 1617, por quatro Reli- 
giozos da Provinda de S, António de Portugal, sendo 
hum destes o P. Fr. António da iVierciana, que hia por 
comissário dos mais, e o do Maranhão, por outros da 
mesma Província no de 1624, com estes últimos, he, 
que podia passar áquellas partes o Irmaõ Fr. Francisco 
do Rozario ; e as razões, que para isso se offerecem 
naõ deixaõ de parecer evidentes. Porque fallando as 
Memorias da Província de Santo António de Portugal 
desta fundação, dizem, que sendo mandado para ella 
o P. Fr. Christovaõ de Lisboa, levara em sua compa- 
nhia dez Religiozos mais, e que partindo do Reyno a 
vinte e cinco de Março do ditto anno de 1624, chega- 
rão a Pernambuco a quatro de Mayo do mesmo anno; 
e que tomando alli mais sinquo Religiosos desta nossa 
Custodia, com os seos fizeraõ o numero de desaseis por 
todos com o seo Prelado Fr. Christovaõ; e que partin- 
do de Pernambuco a doze de Julho, a desasette do mes^ 
mo chegaraõo ao Seara, aonde a rogos do capitão da- 
quelle Presidio Martim Soares Moreno, deixando alli 
dous para a doutrina do Gentio, partirão do Seara a 
trinta de Julho, e chegarão ao Maranhão a sinquo de 
Agosto. Eraõ os Religiozos desta Custodia, diz o sobre- 
ditto assento da Província de Portugal, Fr. António do 



118 

Calvário, Religiozo já velho, e grave, e linha sido mui- 
tas vezes Prelado, e era excellenle Lingoa dos índios; 
Frei Manoel Bautista, e Fr. Joaõ da Cruz, Pregadores, e 
dous Leygos Fr, Junipero, e Fr. Domingos, ambos offi- 
ciaes, hum de carpinteiro, e outro oleyro. Isto diz o 
assento, ou memoria da Província ; e supposto que as 
desta Custodia nao dizem couza alguã sobre este ponto ; 
Nós^ seguindo o que sobre o mesmo se acha em os nos- 
sos Annaes históricos do Maranhão, escriptos por Ber- 
nardo Pereyra de Berredo, Governador, que foi daquel- 
le Estado, de quem já demos noticia em a primeira par- 
te desta chronica^ diremos aqui, que desta Custodia uaõ 
foraõ só sinquo os Religiozos nossos, que delia sahiraõ 
para a tal empreza, mas sim que foraõ seis, e este, que 
falta para os seis, e se naô nomea pela Província, devia 
ser o Irmaõ Fr. Francisco do Rozario ; e o fundamento 
he ; porque a serem só sinquo, com os dez, que vieraõ 
da Província em companhia do Padre Fr. Christovaõ de 
Lisboa, seo Prelado, e Commissario, faziaõ o numero 
de quinze, e assim com quinze companheiros, e naõ de- 
saseis diria o Author dos referidos Annaes, partira de 
Pernambuco o Padre Fr. Christovaõ. E pois diz elle fo- 
raõ desaseis os companheiros, o que falta para encher 
este numero, he o que himos a concluir, devia ser o Ir- 
maõ Fr. Francisco. Dizem assim os Annaes em o nume- 
ro 519, e seguintes, — E o Padre Fr. Christovaõ de Lis- 
boa, Religiozo capucho de S. António com o emprego 
de primeyro custodio da sua Sagrada Religião naquellas 
Conquistas. . . partio do ReciíTe em 12 de Julho (de 1624 
que he este o anno de que escrevem aqui estes Annaes,) 
assistido só de desaseis Missionários da mesma Ordem . . . 
Com feliz viagem tomou o Seara no dia 17 do mesmo 
Julho, e a instancias do capitão daquelle Prezidio Mar- 
lim Soares Moreno, deixando alli dous dos seos Missio- 
nários, continuou em 30 a sua derrota, athea Cidade de 
S. Luiz, onde entrou em sinquo de Agosto. 



119 

81. Chegado ao Maranhão o Padre Fr. Christovaõ de 
Lisboa, diz a Memoria da Proviíicia de Portugal, * 
tratou logo de dar principio á fundação do Convento, 
que era a primeyra, diz a mesma Memoria, daquella ci- 
dade; e começarão a edificar huã caza e Igreja de taypa, 
e com tanta brevidade, que em dia de Nossa Senhora das 
Candèasa dous de Fevereyro do auno seguinte de 1625 se 
disse a primeyra Missa nella com toda a solemnidade. 
Com isto concordaõ os mesmos annaes, ainda que com 
alguàs expressões de mais nota ; pois dizem, «Que che- 
gando os taes Religiozos á Ilha de S. Luiz *^ a sinquo 
de Agosto, se recolherão todos nas cazas do Feytor de 
Gaspar de Souza, que generosamente lha offertou, por 
estar incapaz de habitação o convento, que haviaõ fun- 
dado os Padres Capuchinhos Francezes totalmente des- 
feito com as ruinas do tempo, e naõ haver quem nelle 
habitasse depois que dalli sahiraõ os Capuchos Fr. Cos- 
nie de S. Damiaõ, e Fr. Manoel da Piedade, porém a 
milagres da sua deligencia no brevíssimo tempo de sin- 
quo dias se levantou Igreja no mesmo sitio com varias 
ofíicinasReligiozas, tecido tudo de palmeira brava, para 
onde trasladado cora os seos companheiros se celebrou 
a primeyra missa na festividade de S. Lourenço, e en- 
trando logo na fundação de mais capacidade, lhe lançou 
a primeyra pedra debaixo do nome de Santa Margarida ; 
e no primeyro de Fevereyro se passarão os Religiozos 
Capuchos para o novo convento com huã solemne pro- 
cissão de todos osEcclesiasticos, e moradores, nomean- 
do para Prelado da caza a Fr. António da Trindade. » 
Assim os Annaes assima. 



* Viridario Antonian. Liv. 7, cap. 5. 
** Annaes, num. 528 e 329. 



120 
CAPITUIiO XTI. 



Prosegue a mesma meteria sobre a hida de Fr. Francisco do Rosário a 
WtaranhãOy e Pará, volta ao Brasil, e termo da sua vida. 



82. Seguindo Nós o juizo, que temos formado, de 
que este Religiozo demais dos sinquo, que tirarão desta 
Custodia os que vieraõ da Provincia, foi o Irmaõ Fr. 
Francisco do Rozario, pois para esta empreza o fazia 
muy útil, e proveitozo, e ainda necessário, a experiên- 
cia, que tinha dos Gentios^ por haver tratado com el- 
les muitos annos, assistindo nas suas Doutrinas, e Mis- 
sões e em particular por ser o melhor lingoa, que havia 
Da Custodia, desta Gente, trazendo sobre isto o Padre 
Fr. Ghristovaõ de Lisboa, Ordem do P. Provincial para 
se lhe darem em Pernambuco, Pieligiozos lingoas para 
levar comsigo, sendo o Irmaõ Fr. Francisco do Rozario 
hum destes, e o mais especial, parece, naõ pode haver 
contradição a que fosse elle o que entrou de mais em o 
numero daquelles sinquo, tirados desta Custodia. Da 
mesma sorte se faz taõbem verosimel, e naõ pode cau- 
zar muita duvida, que por estas suas boas parles, ainda 
que naõ como Author, mas como particular Agente, 
teria muito na fundação daquelle convento ; e por esta 
mesma canza aífirmaõ taõbem as sobredictas, que cá te- 
mos, dera elle principio ao convento do Pará. Naõ de- 
vem fallar estas, em consequência do que himos discor- 
rendo, do primeiro convento, ou mais propriamente 
hospício, que tiveraõ os nossos Padres de S. António 
de Lisboa na cidade do Pará logo quando esta se fun- 
dou, e deu principio ao conventinho o Padre Fr. Antó- 
nio da Merciana pelos annos de 1617, mas devem fallar 
sem duvida do segundo. 

83. Para esta conjectura nos deixaõ taõbem livre o 
discurso as Memorias do cartório da mesma Provincia 



111 

ílc S- António de Portugal, pois naõ explicaô por quaea 
Religiozos dos seos foi feita aquella mudança, se pelos 
mesmos^ que lhe haviaõ dado principio com Fr. Antó- 
nio da Merciana em 1617, ou em 1625 pelos segundos 
com Fr. Christovaõ de Lisboa. Mas esta circunstancia, 
que naõ declararão as Memorias da Província, de alguã 
sorte a explicaô ós já referidos Annaes do Maranhão, 
fallando assim do Padre Fr. Christovaõ de Lisboa.— £'m 
sette de Março de 1625 par tio para o Pará, e nos últi- 
mos de Abril chegou á Aldeã de Una com dous compa- 
nàeiros, e em Ik de Maijo chegou á cidade do Pareis e 
naõ havendo ainda convento se recolheo em huã caza 
particular, * Estes Annaes estaõ escriptos com taes cir- 
cunstancias de cazos c tanta individuação de dias, e 
annos, em que acontecerão, que he certo naõ podem ter 
contradição; e assim affirmando elles, que no anno de 
1625, naõ achou na cidade do Pará o Padre Fr. Chris- 
tovaõ de Lisboa, nem convento, nem ainda Rezidencia, 
ou caza pertencente aos seos Religiozos, em que se re- 
colhessem ; e sendo taõbem certo pelas Memorias da sua 
Província, que já desde o anno de 1617 haviaõ chega- 
do alli Religiozos seos com o Padre Fr. António da Mer- 
ciana por Superior^ e dado principio a huã Rezidencia, 
ou Convento, como o dizem as taes Memorias, o que so- 
bre isto se deve colher; visto naõ assignareíií as da Pro- 
víncia o tempo, e anno^ em que affirmaõ se fez a mu- 
dança da Rezidencia, que tinhaõ dentro da Povoação do 
Pará para o seo Arrebalde ; he, que, como aquclles 
Religiozos primeyros eraõ poucos, e o Geníilismo da 
terra muito, e dispersos por todas as Ribeiras, e Ser- 
tões daquelle Paiz, e seos Rios, estavaõ a este tempo 
esses poucos Missionários repartidos pelas suas Doutri- 
nas, e Aldeãs, e assim haviaõ deixado a Rezidencia da 
Cidade, e ella de lodo já abandonada do tempo ; e por 

" Ann. hist. n. 529, 832, e o33. 

JABOATAM. PART. II. VOL. !. ÍG 



122 

isso na Cidade naõ achou caza, ou Rezidencia de Reli- 
giozos, era que se recolhesse o Padre Fr. Ghristovaõ de 
Lisboa, quando alli chegou no anno de 1625. Islo se 
comprova melhor, com o que já apontamos, dizem as 
Memorias da mesma Província de Portugal, que os seos 
Religiozos, que neste mesmo anno chegarão alli naõ 
achando conveniência no lugar primeyro dentro da Po- 
Toaçaõ, deixarão este, e se passarão para outro no seo 
Arrebaide, e alli se edificou o convento, qnç, agora exis- 
te ; e a esta segunda edificação, e propriamente pri- 
meyra de convento, deu principio o Padre Fr. Ghristo- 
vaõ de Lisboa, depois, que alli chegou ao Pará no anno 
de J625, por naõ existir já a primeyra. E assim naõ 
aquelles Religiozos, que primeiro tinhaõ hido ao Pará 
com Fr. António da Merciana cm 1617, mas estes se- 
gundos que alli chegarão com Pr. Ghristovaõ de Lisboa 
em 1625, forao os Authores daquella mudança, e pro- 
priamente fundadores do convento do Pará; e deste he 
que devem taõbem fallar as noticias desta nossa Gnslo- 
dia, quando dizem, que ao convento do Pará dera prin- 
cipio o Irmaõ Fr. Francisco do Rozario ; naõ, porque 
fosse o seo Author, como o naõ foi do outro do Mara- 
nhão; mas, porque assim em hum, como em outro teve 
muita parte o seo cuidado, e agencia. 

81. Isto discorremos, porque estamos no conceito, 
de que o Padre Fr. Ghristovaõ de Lisboa sahindo do 
Maranhão a esta empreza do Pará, naõ deixaria de con- 
duzir comsigo este Religiozo taõ necessário para ella 
por bom lingoa, e interprete do Gentio, de quem, e da 
sua conversão, paz, e tratamento era o principal empre- 
go do P. Fr. Ghristovaõ, e ao que se encaminhavaõ to- 
das as suas disposições, e este devia ser hum dos dons 
companheiros, com quem dizem os referidos Annaes * 
sahio em huã canoa do Maranhão para o Pará o ditto 

* Num. 329. 



iâ3 

Padre Fr. Ghrislovaõ. Sste devia ser laôbem^o próprio, 
com o qual chegando ao Pará, continuou na conversão, 
e doutrina do mesmo Gentio, navegando por aquelles 
Rios em canoas, fundando novas Missões, e vizilando as 
que já tinlia, como conlinuaõ os próprios Annaes fal- 
lando do Padre Fr. Clirislovaõ, e o confirmaô^^as nossas 
Memorias ser lium dos seus compaulieiros neste Santo, 
e penozo exercicio, quando dizem, que o Irmaõ Fr; 
Francisco do Rozario^ fizera muitas, e diversas entradas 
pelo Maranliaõ, e taõi)em pelo Rio das Amazonas, e 
Gram Pará, catliequizando, e doutrinando aos Genlios, 
como ficaditto, eo aííirmaô tiõbem do Padre Fr. Ghris- 
lovaõ de Lisboa, os sobredittos Annaes, concordância 
evidente de que cora este Prelado passou de Pernam- 
buco ao Maranhão, e dahi ao Pará o Irmaõ Fr. Fran- 
cisco do Rozario ; e isto he o que nos pôde occorrer, ou 
dictar o discurso previstas todas estas circunstancias, 
uaõ sobre a hida deste Religiozo aquellas partes porque 
esta naõ tem duvida ; mas acerca do tempo, em que foy, 
e como se pode entender o que dizem as nossas Memo- 
rias sobro ser elle o fundador do Gonvcnto do Mara- 
nhão, e dar principio ao do Pará, porque só podia ser 
isto no sentido, em que o deixamos explicado, e assim o 
seguimos, emquanlo naõ apparecer outra .noticia, ou 
escripta mais evidente, e infallivei. 

85. Taõ pouco pudemos asseniar ao certo o tempo, 
que gastou nestas jornadas, e assistências do Maranhão, 
e Pará, nem o anno, em que se recolheo a esta Gusto- 
dia, esó temos por sem duvida, que no de 1630 já se 
achava nella, e havia composto aquelle seo livro, ou 
tratado sobre os Gentios, de que se faz mcnsaõ, pois 
entrando neste anno os Olandezes cm Pernambuco, 
entre elles foy parar esta obra, de que muito se aprovei- 
tarão, como dizem as nossas Memorias, e o afíirmaõ as 
de fora, que deste Religiozo já escreverão. Retirado 
para a Custodia o Irmaõ Fr. Francisco, consumido de 



124 

trabalhos, e cheyo de merecimentos, c carregado de 
annos, pois a este tempo lho naõ fallavaõ muitos 
para os settenta, ficou assistente em Pernambuco, athe 
o de 1635, em qna, tendo-se apoderado de toda a Cam- 
panha daquelle Paiz o Inimigo Olandez^ e fazendo a sua 
retirada, por ordem dos nossos Generaes, o venerável 
Custodio Fr. Cosme de S. Damião, com a maior parte 
dos Religiozos seos súbditos, com elles se passou para 
o convento da Bahyao Irmaõ Fr. Francisco do Rozario, 
e alli assistio os mais annos, que lhe restarão de vida, 
e sempre com a mesma de Rcligiozo Menor, e exacta 
observância da Santa Begra. A sua pobreza era summa, 
a charidade notória, e sem reserva de Pessoas, e a sua 
abstinência rara. Nunca repouzou em cama igual ; por- 
que sendo esta de ordinário cm taboa nua, assentava 
sobre ella vários pedaços, ou troncos de páos, huns mais 
altos que outros, e as vezes pedras, taõbem desiguaes, 
para assim lhe servirem ao corpo de mortificação maior, 
e o despertarem mais depressa para as suas costuma- 
das vigílias, de oraçaõ, disciplina, e outras semelhan- 
tes, em que era continuo de dia, c de noite. Nau largou 
das maõs as contas, emquanto viveo, e naõ houvesse 
outra occupaçaõ preciza, e necessária, que o divertisse, e 
assim as deixou pelo exercício, e antiguidade de taõ 
carcomidas, e gastadas, que entravaõ huãs pelas outras. 
Nunca o virão senão lendo aigum livro espiritual, ou 
rezaiado pelas contas, por evitar o oclo, que tantos es- 
tragos cauza pas almas, e ainda nos mesmos corpos. 
Era o seo principal exercício, especialmente depois de 
velho, ajudar as missas, e taõ devoto e sôfrego, que aca- 
bada huã elvlrava com outra, temcrozo de que lhe ti- 
rassem o lugar, e por isso era o primeyro, que logo 
demanhã se achava na Sa-Christia. 

86. Com estas, e outras muitas virtudes, c graças 
espcciaès, lhe communici)» taõbem o Autor de todas, a 
de conhecer, c proferir antes alguõs couzas, que de- 



125 

pois se comprovarão por profecias, e prevízões do seo 
espirito, como — Além de outras, que observarão em 
sua vida, e observaõ ainda depois de morto assim Religio- 
zos como Seculares, (acrescenta a Memoria, que segui- 
mos desta Custodia,) foi a suspirada Restauração do 
TXeyno de Portugal, do dominio, e poder de Castella, e 
ainda das Capitanias de Pernambuco dos Olandezes, 
com alguãs circumstancias suas particulares, especial- 
mente da acclamaçaÕ. — E tudo isto ja quando retirado 
para a Bahya nos annos próximos ao de 16i0. Paliando 
sobre esta sugeiçaõ dos Porluguezes a Gaslella alguãs 
vezes, dizia, — Eu nasci forro, e hei de morrer forro. — 
E se acazo os Religiozos o contradiziaõ, ou por modo de 
graça, ou por tirarem delle alguã couza mais individual, 
pondo-llie duvidas, só lhe tornava ; — Quem nasceo cap- 
íivo naô sabe estimar a liberdade ; e por isso a naõ co- 
nhece. — No seguinte anno ao da Acclamaçaõ, que foi 
o de 1641, chegando a dous de Março esta noticia á ca- 
pital da Bahya, governando o Estado o Marquez de 
Montalvão, D. Jorge Mascarenhas, e guardando por al- 
guns dias este segredo^ como lhe era recomendado, em- 
quanto se rezolvia o acto publico da Acclamaçaõ, ao 
^mesmo tempo, e logo, que alli chegou o Navio, que 
trouxe o avizo, começou o Irmaõ Fr. Francisco, como se 
tivera cartas do Reyno a publicar tudo, o que nelle ha- 
via passado, do que huns se riaõ, e outros duvidavaõ. 
Feita a Acclamaçaõ pelo Marquez, e tendo noticia do 
,que no Convento havia proferido antes, Fr. Francisco, 
o mandou chamar, e pcrguntou-lhe — Quem lhe descu- 
brio Padre Fr. Francisco as Ordens Reaes a mim so- 
mente reme t tidas das quaes dependia a obediência de 
tad importante Praça a coroa de Portugal? Respondeu- 
Ihe o Religiozo : Muito ha. Senhor, que eu o sabia, e 
por isso o publicava, mas ninguém me dava credito, tendo- 
me por louco; porque nascer^aõ captivos, e naõ sabem 
que cousa Jie liberdade: Segundo isso, (disse o Marquez) 



126 

bem pode Vossa R, dizer : Niinc diminis etc, Naò Se- 
nhor^ (tornou Fr. Francisco,) porque eu tenho ainda 
minto que ver, e Vossa Excellencia muito que passar : 
valicinando-lhe como novo Profeta, o que depois injus- 
tamente passou este Fidalgo na mesma Baliya, e ainda 
depois de passar ao Reyuo, tanto a sua custa, e do que 
era devido ao seo merecimento. E naõ menos foi pro- 
nostico taõbem para o mesmo Beligiozo esta sua propo- 
ziçaõ; pois em os nove annos, que lhe restarão ainda de 
vida, supposto já livre do captiveiro, naõ lhe faltou que 
ver, e ouvir nos vários acontecimentos do Reyno de- 
pois da sua acclamaçaõ, athe o de 1650, em que a vinte 
e quatro de Fevereiro, dia do Apostolo Saõ Mathias, 
completou os da vida, no mesmo convento da Bahya, 
com alguns oitenta e quatro de idade, e opinião de Re- 
ligiozo Santo, e sentimento commum do Povo da cida- 
de, concluo a Memoria que seguimos, Que em vida se 
encommendavaò a Deos em suas orações, e na morte lhe 
pedem soccorros, e favores, por seos merecimentos. Está 
sepultado no claustro, na quadra da Sa-Cristia, junto 
á cruz do cemitério dos Frades. Assim conclue com a 
memoria deste Religlozo a desta Custodia, que athe aqui 
seguimos, e só naõ concorda esta com a do Agiologio 
Luzitano, e outros que o seguirão, em dizerem, que fal- 
leceo a vinte e oito de Junho de 16i9. O mesmo dia, e 
anuo, que aqui lhe assignamos, além da referida me- 
moria, que seguimos, se acha taõbem em hum livro de 
óbitos antigo, e o primeiro, que ha dos Religiozos, que 
fulleceraõ nesta Custodia desde a sua separação no anuo 
de 1639 por diante. 



127 

* VIDA 

DO VENERÁVEL SERVO DE DEOS 
FREY COSME DESAÕDAMIAÕ 

Pátria, nascimento, e primeiros annos do Servo de Deos, 



87. Ura novo Astro ou Estrellà novamente creada 
para o Emisferio deste nosso Seráfico Orbe taõbem 
novo, se nos oíTerece a vista do discurso para lhe me- 
dirmos as alturas, e indagares luzimentos. Nem foi cou- 
za nova nas Celestes, e antigas Esplieras crear o seu 
Supremo Artífice Estrellas, e Astros novos com avanta- 
jadas luzes aos que primeyro havia produzido. Naquel- 
Je Antigo o comprovaõ as Escripluras Sagradas com a 
Estrella dos Magos, apparecida nelle para norte e guia 
dos que era vontade do Creador Supremo de todas, 
trazer ao seo conhecimento. Neste novo o mostrará o 
discurso na vida do Venerável Servo de Deos Frey 
Cosme de S. Damiaõ, posto nelle pela Providencia do 
Altíssimo, como Astro de mais activo ardor, para dar 
luzes de exemplo, e doutrinas aos Povos destas Con- 
quistas do novo Orbe do Brazil. 

88. Foi com toda a propriedade, e proporção, que 
permitle na historia o Methaphorico, huã das Estrellas 
de mais activos resplendores, que se vio no céo do Ins- 
tituto Seráfico para illustrar, e accender os corações, e 
espíritos dos habitadores do Brazil^ discorrendo nes- 



128 

tas partes, como em Esphera deputada para os seus lu- 
zimentos,emhum contiauo, e incansável gyro, toda a sua 
meridional circumfereucia^ por mais de quinhentas le- 
goas, desde o Maranhão ao Norte, athe d Sul do Rio de 
Janeyro, pelos Conventos, pelas Aldeãs, e Missões dos 
índios, ja nos lugares Povoados, ja pelos dezertos e bre- 
nhas dos Sertões, ja perseguido de Hereges Olandezes, 
prezo, sentenciado a morte^ degradado, navegando ma- 
res a impulsos furiozos de Inimigos, e correndo terras 
a influxos benignos da sua charidade. Mas entre tanta 
variedade de Successos, sempre Astro puro, Estrella 
brilhante, taõ benéfica nas influencias, como apurada 
nas luzes. Sugeito finalmente de tanto bem, e proveito 
para este Estado, como conhecido nelle por virtuozo. 
Com este elogio conclue o Illustrissimo Arcebispo da 
Bahya D. Sebastião Monteyro da Vide, o que dá a hum 
dos seos antecessores D. António Barreyros no calha- 
logo, qnedelles faz na sua Constituição, dizendo, — Or- 
denou de Sacerdote ao Venerável Padre Fr, Cos me de 
São Damião, Varaõ de conhecida Virtude, e quasi Pay 
desta Provinda do Brazil. — Como querendo acreditar 
com esta advertida expressão, assim a glorioza memo- 
ria daquelleillustree benemérito Prelado, como afama, 
e virtude deste Religiozo. 

89. Em Saõ Joaõ de Guelhufe, lugar pequeno, e fre- 
guezia de poucos vizinhos, sinquo legoas da cidade do 
Porto, caminho para a Villa da Arrifana, no Reyno 
de Portugal, teve o seo Oriente esta Estrella, e foi o 
berço deste grande Servo do Senhor, no dia desoito 
de Novembro de mil e quinhentos e settenla e qua- 
tro. Sem appellido, ou cognome de geração alguã, e só 
com dons nomes próprios, cada hum, achamos a Gon- 
çalo Manoel j c Comba Luiz por seus Pays no termo da 
sua profissão. Sem duvida, porque, naõ pelas arvores 
da sua geração, e ascendência, mas só pelos fructos 
desta Rama haviaõ ser mais conhecidos cm algum tem- 



129 

pò. A natureza, e a fortunaosfez comuns com os niíiis; 
o procedimento das vidas, e as virtudes próprias os dis- 
tinguirão entre todos, com acções de piedade, e devo- 
ção Christan davaõ vigores ao espiritual de suas almas, 
e com o trabalho de suas maõs sustentavaõ a vida do 
corpo ; e naõ podiaõ deixar de concorrer, assim a na- 
tureza, como a graça para a produção de algum fruclo 
muito seu semelhante. Este foi o que no dia, mes, e 
anno ja referido, deu a luz Comba Luiz, em huma crea- 
tura, que bem mostrou logo que teve o uzo de razaõ, que 
nascia, filho de taes Pays. Sem dilatarem estes muitos 
dias fizeraõ dará vida da graça pela regeneração do Sa- 
grado Bautismo ao que elles haviaõ gerado pela ordem 
da natureza. Segundo a de seus Pays, sem aflectareni 
outros Parentes, lhe puzeraô taôbem dous nomes de 
Cosme, e Manoel, para que ficasse descendente só de 
seus Pays. E se assim, como escrevemos historia, fizé- 
ramos panegyrico, naõ faltavaõ conceitos, que formar 
de hum Individuo, que nascia, como filho de Pomba, 
por sua May Comba, ou Columba, e por seu Pay, como 
Manoel, trazia a Deos comsigo, com outras muitas gra- 
ças. Elle assim o mostrou tanto, que em sua alma co- 
meçou a rayar a luz da razaõ, ajudado pela boa doutri- 
na de seus Pays ; porque era applicado aos exercícios 
devotos, e Christaõs, como a rezar, ouvir missa, e con- 
fessar-se. Aprendeu no lugar a ler, e escrever, e na ci- 
dade do Porto em caza de hum cónego, que dizem, era 
Parente de sua May, alguâ couza da Grammatica, por- 
que ainda que lhe naõ faltava a luz do entendimento 
para se aperfeiçoar nas suas regras, as do seu espirito 
o guiavaõ para outra Sciencia de mais aproveitamento 
para a sua alma. Taõbem lhe sérvio a isto de total 
estorvo, o haver-se de retirara poucos annos para sua 
caza a despedir-se da May, que se achava na ultima 
enfermidade, de que falleceo, c logo depois taõbem o 
Pay, ficando Cosme e Manoel, mancebo de dezasseis 

JABOATAM. PART. H. VOL. I. 17 



130 

annos cora pouca differença oiTaõ de ambos, lierdando 
só delles o senlimenlo da sua falta, sem outros bens da 
fortuna, de que se pudesse aproveitar, e llie craõ laõ 
necessários para aqudla idade. 



Passa do Reino para o Brasil o Moço Cosme, occupações em que cd 

se exercita. 



90. Já era chegado o tempo, em que esta nova Es- 
trella deixando o seu Oriente, e correndo vários, e di- 
latados rumos, fosse buscar para as partes do meyodia 
o lugar da sua exaltação. E assim vcndo-se Cosme Ma- 
noel, Mancel)o , erra a sua primeira idade^ sem Pays 
para o seu arrimo, sem berança de bens, e sem modo 
de grangear a vida, que naò fosse adquirido com o ])ro- 
prio suor, e considerando sem duvida, que lie a Pátria 
Madrasta dos Naturaes, e sempre mui indignada contra os 
mais dezam parados, rezolvcu, e com acerto buscar na 
Estranha, com esperanças bem fundadas, melhor sorte 
da que na própria lhe difficultava a praxe comua da va- 
ria fortuna. E sendo-lhe notório, que no Brazil, e es- 
pecialmente na Província de Peruam huco por aquelles 
tempos haviaõ conseguido outros muitos com mam lar- 
ga, e curtos princípios grandes cabedacs, se embarcou 
para aquella Conquista pelos ânuos de 1589 para no- 
venta. 

91. Na povoação do Reciffe tomou porto, c adver- 
tido por seu Pay em vivo, e guiado agora pelo Piloto 
do Navio, em que fez viagem, que muito se havia afei- 
çoado ao Moço Cosme pelo seu bom geniq, c ve-lo oíli- 
ciozo, e devoto, e ambos estes, assim o Piloto, como 
o Pay de Cosme linhaõ bastante couhecimenlo de Joaõ 
Paes Barreto, o Velho; o Pay de Cosme por haver as- 
sistido alguns annos em sua caza. vindo taObem do Rey- 



131 

no a Pernambuco, e o Piloto por outras razões, foi cn- 
tregueo Moço a este homem. Eile o acceitou comaqiiel- 
le auimo piedozo, e boa vontade^ que sempre acharão 
os Europôos, com privilégios de Estrangeiros, em os 
Naturaes, e habitadores da terra ; ainda que estes com- 
mumeute, ou pela maior parte mal pagos, e correspon- 
didos. Do laço e arremeço desta trivial ingratidão, em 
quecahem tantos, mais por humor de naturalidade, do 
que por erro de entendimento, escapou^ como pruden- 
te, e agradecido, ou por menos cego, e falto de razaõ 
Cosme Manoel, pois, ainda quando Pieligiozo, confessa- 
va, naõ dever tanto amor, e carinho a quem lhe deu o 
ser, como a este homem, em quem achou sempre, di- 
zia elle, affectos de Pay, e estimações de honrado, naõ 
se mostrando nisto menos o Venerável Padre, cm sa- 
ber reconhecer desde aqucUe tempo o bem, que havia 
recebido. Na terra era Joaõ Paes Barreto hum dos seus 
primeyros colonos, naõ só em nobreza, mas em bens 
da fortuna, e o mais rico, que naquelle tempo habita- 
va em Pernambuco ; morador e assistente na Fregue- 
zia de S. António do Cabo, aonde tem ainda hoje larga 
descendência de oito filhos, que deixou, sette varões, e 
huã fêmea, chamada D. Gatharina Barreto, que foi ca- 
zada com D. Luiz de Souza Henriques, Governador em 
Pernambuco, lilho de D. Francisco de Souza Henri- 
ques, commendador da Commenda de S. Euricio, c 
Saõ Fins da Ordem de Christo, e de quem descendem 
os Condes do Prado. Foi Joaõ Paes Barreto Senhor 
de dez Engenhos de fazer Açucares,* os quaes repartio 
em sua vida por seos oito filhos, e era o que chamavaõ 
o Engenho Velho do Cabo, onde fazia maior assistên- 
cia. Falleceo no Hospital de Olinda, de quem foi gran- 
de Bemfeitor, e dos seos pobres, entre os quaes pedio 
queria morrer, e para onde o levarão alguns dias antes, 

* Mcm. Diárias Pag. 192. vers. 



4m 

dizendo taôbem a alguns dos nossos Religiozos, havia 
ser o seu Iranzito^ como foi no dia da Sautissima Trin- 
dade, que naquelle auno, que era o de 1617 caliio a 
Tinte e hum de Mayo. Delie escreveu ja o Aulhor do 
Agiologio Luzitano, * e faz laõbeni especial memoria 
nas Diárias que escreve das Guerras de Pernambuco 
lios primeyros oito annos, que a ellas assistio contra 
Olandezes, Duarte de Albuquerque Coelho, seo Dona- 
tário, e Senhor. 

92. Recebido Cosmo Manoel em caza deste honrado 
homem, e conhecendo nelle boa capacidade, o accom- 
niodou em huã fazenda sua de Roças com o próprio 
exercício, que nella tivera o Pay de Cosme, quando alli 
assistio taõbem em Moço, por seo Administrador. Neste 
se mostrou o Moço muy deligentc,e destro, como o que 
ja tinha alguâ experiência do uzo da lavoura naquelle 
pouco tempo, que em Guelhufe acompanhara a seu Pay 
jíieste exercicio e trabalho. Naõ ignoramos, que este em 
caza de seu Pay naõ degenerava de Nobreza ; ^^ por ser 
em própria granja, ainda que naõ sua, do seu dominio ; 
mas agora servindo Cosme a outrem por estipendio, 
taõbem sabemos passa a mecânico, e vil, o que nelle se 
occupa. Mas daqui mesmo devemos tomar outro funda- 
mento de maior nobreza para as virtudes em o nosso 
trabalhador, que foi o saber-se abater, e humilhar tan- 
to. E naõ faltará algum prezumido, senaõ de letras e 
virtudes, ao menos de vaidades, que nos queira repre- 
hender, e arguir, por que naõ passamos ao silencio, e 
deixamos de escrever, que este Venerável Servo de Deos 
sérvio neste, ou naquelle oífício mecânico depois, que 
veyo ao Brazil. He sem duvida, que o deixáramos de re- 
ferir, como circunstancia pouco necessária, senaõ en- 

* Agiolog. Luzitan. Tom. 3. díe 21 Mai. 

"* Tiraquel. de nobilit. cap. 10. n. 6. id. cap. 37, n. 49, et de Primo- 
geait. quaest. 89. Mascard. de probat. CodcI. 1098, n. 8. 



i33 

tendêramos, attendida a sua grande liuniildade, que isto 
mesmo lhe poderia servir de muita gloria accidental por 
este lai abatimento, de que elle muitas vezes> como quem 
disso fazia particular estimação, se gloriava dizendo : — 
Eu fui Lavrador, e filho de Lavrador, na minha terra, 
e o fui taõbem em Pernambuco, aonde gastei o tempo 
em Secular neste, e naquelle officio , — E nomeava aquel- 
les^ em que se havia occupado ; e quando mais se tiu- 
iciliiava, dizia: — Quem sou eu? B eu quem sou? Sou 
hum pó da terra muito vil, e muito abatido. Eu sou hum 
guzano muito piqueno^ com espirito de vivente ; e mui- 
to melhor direi, que sou nada ; pois nada sou na consi- 
deração do meu ser, — E com estas palavras laõ San- 
tas, e verdadeiras, fazíamos nós do Servo de Deos, e 
suas virtudes maior conceito, diz deste Venerável Ser- 
vo do Senhor, o Padre Fr. Damião de S. Francisco, Re- 
ligiozo de letras, e taõbem virtude. Custodio, que foi 
do Brazil, o qual o conheceo, Iralou com elle muitos 
annos, assistirão ambos em alguns Capítulos da Custo- 
dia, e ainda víveo depois delle, e assim merece todo 
o credito, o que este Religiozo deixiou em memoria, 
e da sua letra em hum breve papel, sobre o Servo de 
Deos Fr. Cosme de S. Damiaõ. 

S 93. Alguns sette para oito annos assistio no Cabo 
de Santo Agostinho Cosme Manoel, dous occupado em a 
lavoura da terra, e os outros era exercício mais suave e 
menos amargozo, servindo no Engenho Velho, de que as- 
sima falíamos, de Purgador de Açúcar; e este era hum 
dos officios, de que fazia memoria o Servo de Deos se 
havia occupado em sua mocidade. Não só consta isto pelas 
noticias, que se achaõ entre os nossos, taõbem se contes-* 
ta pelas de fora. Na Sa-Christia da Capella dosobreditlo 
Engenho Velho, que he consagrada ao nosso Gloriozo 
S. António, de quem em seo lugar daremos mais extensa 
noticia, se conserva ainda ao prezente, supposlo muy 
damniíicado do tempo, hum painel com molduras, que 



134 

mosiraõ ser douradas, com a efígie deste Servo de Deos 
em estado de Religiozo, feito depois da sua morte, cora 
lium letreiro aos pés, que por estar a efígie debuxada em 
pano, e muy antiga, e carcomida, se não podem ler 
mais que alguàs palavras avulsas ; mas diz o senhor do 
mesmo Engenho, que ao prezente he Joaõ Paes Barre- 
to, descendente do primeyro, que se lembra dizia assim, 
com pouca diíTerença de palavras: — Efígie do Padre 
Fr, Cosme de S. Damiaò, que foi Purgador deste En^ 
genho do Morgado do Cabo, — E que sendo necessário 
proceder na matéria com inquirição jurídica, será elle 
testemunha, pois vio com seos olhos, e leu, ainda 
tudo o que affirma. Já ao tempo, que nestes taes em- 
pregos seoccupava Cosme Manoel, era sugeito de eleva- 
do Espirito, ao qual naD embaraçando os seos acelera- 
dos voos as distracções continuas daquelle trabalho cor- 
poral, com elle parece refazia, ou alentava o mesmo es- 
pirito. Em huma occasiaô entrando Joaõ Paes Barreto 
na caza de Purgar, e buscando ao Moço Cosme, o foi 
achara hum canto, posto de joelhos sobre as taboasdos 
Andames, em que se assentaõ as formas do açúcar, em 
oraçaõ, e naõ só todo absorto nella, mas levantado no ar 
bastantemente. Admirado o homem, porque, ainda 
que fazia no Moço bom conceito, pelo seu modo de 
vida, composto, e fora do trato coramum da mais gen- 
te, naõ era tanto, quanto agora viaõos seos olhos. Sahio 
da caza sem lhe fallar, e buscando depois occasiaô op- 
portuna, lhe disse, como por conselho, que a experiên- 
cia lhe havia mostrado pelo seu modo de vida, que 
aquelle, em que laborava, naõ era o mais accommoda- 
do ao seu espirito, e que para emprego deste melhor 
lhe parecia alguâ Religião, em que menos distrahido, e 
cançado o corpo, pudesse aproveitar melhor a alma, 
promettendo-lhe o seo favor, e patrocínio para o bom 
eífeito de o conseguir. Acceilou Cosme Manoel o con- 
selho, como couza, que tanto se ajustava ao seo génio, 



ê bons dezejos, e com estes foi continuando na mesmd 
occupaçaõ, e çafra daquelle anno, em que se comple- 
lavaõ ossetteque assistio naquelle Engenho, antes, que 
entrasse por Operado de outra mais nobre, e aprovei^ 
tada vinha. 

Toma o hábito para Religioso Menor, e dos seos virtuosos progressos 
neste estado athe o de Sacerdote. 

94. Todo o homem nasceopara o trabalho; mas nem 
lodo o trabalho convém ao homem ; porque cada hum 
se deve occupar naquelle, que lhe estiver mais a propo- 
zllo ; e do contrario nasce o trabalharem huns com mais, 
outros com menos fortuna. A melhor consiste em saber 
ajustar cada hum a pensão ao seu génio, ou em acertar 
na escolha daquelle, de que lhe venha melhor sorte; e 
como toda a do homem está na maO de Deos, que a dá, 
a quem he servido, ou lho merece, da nossa parte eslá 
o saber dispor-nos para a conseguir. Esta mereceo ao 
Senhor o seu Servo Cosme Manoel, sem duvida, porque 
soube ajustar ao seu génio, ou espirito aquella opera- 
ção, que com elle mais se acommodava. Achou, que lhe 
faltava a propençaõ de Martha para o trabalho manual, 
que turba o socego da alma; e acommodou-se ao de 
Maria, que lhe era mais conveniente para a quietação 
do seu espirito ; e assim sahio melhor, que a de outros 
a sua escolha; achando prostrado aos pés do Supremo 
dador de toda a Sorte, aquella boa, que elle sabe repar- 
tir, pelos seos com maõ liberal, e nunca a tira, aquém a 
dá, e a soube bem escolher. 

95. Selte annos qual outro Jacob ao antigo Labaõ, 
mais pela formozura de Rachel, do que por interesse de 
outra paga, sérvio Cosme Manoel, quando Moço ao ve- 
lho Joaõ Barreto, naõ com os olhos no lucro, que dclle 
esperava, porque só lhe possuía a consideração o Esta- 



136 

do, que mais lhe era conveniente a sua alma, que era 
» estimada, e pretendida Rachel do seu cuidado. Com 
este se creou desde que lhe naseeo o uzo da razaõ, 
achando sempre pouca já naquelles primeiros annos, nas 
conveniências do mundo, e predominando nelle huã só, 
que era a de servirão Senhor pelo caminho da Religião, 
como o mais seguro, e certo, para o fim de o achar mais 
desembaraçado; e como agora se viaja solto daquelles 
apertados laços da natureza, e da fortuna, que eraô a 
falta de bens, e sem Pay, e May, que tanto detém os 
passos para o acerto das eleyções, mais se acendia em 
seu coração este dezejo. Avivava-se nelle cada dia mais 
com a continua communicaçaõ de alguns Reiigiozosdos 
nossos, que por aquelles destrictos do Cabo andavaõ 
pelo Instituto aos communs pedidos, e era para eltcs 
receplículo, e agazalho certo a caza, e fazendas de Joaõ 
Paes Barreto, em quem achavaõ sempre com avantaja- 
das esmollas, charidade, respeito, e boa acceitaçaõ. A 
estes communicou Cosme Manoel os seos bons dezejos, 
e clles conhecendo-lhos por legítimos, e ao Moço por bem 
inclinado, de boa fama e ajustado proceder no commum, 
e com as boas informações, e taôbem supplicas do seu 
Patrão, o encaminharão ao Convento de Olinda, 

96. Achava-se alli por Custodio o Padre Frey Leo- 
nardo de Jesus, Prelado de espirito, e grande zelo do 
estado da Custodia, e tendo apurado com maduro con> 
selho o do novo Pretendente, e conhecido por de boa 
prova, o admittio ao Noviciado, lancando-lhe o habito 
aos dezanove de Janeyrode 1597, no mesmo convento 
de Olinda. Em o anno da approvaçaõ a deu de si taõ 
cabal, que mais parecia querer servir de exemplo a lo- 
dos, que aprender delles ; porque em as acções virluo- 
zas, ede Religiozo, mostrava ser mais quediscipulo, já 
perfeito. Para o choro era o primeyro, como o foi sem- 
pre. Na Enfermaria com os doentes o mais charitativo; 
nos Oífícíos da humildade o mais prompto, nas commu- 



137 

nidades o mais composto^ para o de Deos o mais devoto^ 
aos Religiozos o mais altenlo, para todos sempre hu- 
milde^ e sobre tudo do silencio taõ perpetuo observa- 
dor, que já pareceo excesso, e chegou a ser notado de 
extremo. E tanto, (|ue certo Religiozo de espirito, e vir- 
tude, que neste tempo havia chegado a Olinda da Pro- 
víncia, temendo fosse em o Noviço aquelía notada mu- 
dez, alguã illuzaõ, ou melancolia, pedlo licença ao Mes- 
tre para ter alguãs conferencias espirituaes com aquel- 
le Irmaõ, a quem este tal Religiozo chamava o Mudo. 
Mas em poucas, que o provou, conheceo logo, ser muy 
elevado, e superior c seo espirito, e ter muito de des- 
cripçaõ celeste, e nada de melancolia, ou iiluzaõ Dia- 
bólica. Gomo havia dado taõ boas provas das que se 
costumaõ fazer dos Noviços naqueile primeiro anno para 
serem admiltidos a profissão, a fez no seguinte de 1598 
a vinte de Janeyro nas maõs do Prelado da caza Fr. 
Francisco dos Santos, quando contava de idade os vinte 
e quatro annos, dous mezes, e hum dia. 

97. Do seu estado de novo Professo, ou Ghorista 
naô lhe achamos ao certo o numero dos annos, mas por 
bons fundamentos vimos a entender naõ poderia chegar 
a hum anno inteiro. Diz hum assento desta Custodia, 
que estando em Olinda o Irmaõ chorista Fr. Gosme de 
S. Damião, lhe chegara Ordem do P. Gustodio Fr. Brás 
de S. Jeronymo, que se achava na Bahya para que par- 
tisse para aquelle Convento, e que lá recebera as ordens 
de missa pelo Illmõ Bispo D. António Barreiros. Isto 
confirma o Illmõ Arcebispo da mesma Bahya, D. Sebas- 
tião Monteyro da Vide, dizendo, como ja notamos, que 
o li Prelado assima ordenara de Sacerdote ao Venerá- 
vel Fr. Cosme de S. Damiaõ. Taõbem diz este Rmõ Ar- 
cebispo, no mesmo Catbalogo dos seos Antecessores, ja 
allegado na sua Constituição, que o dia, e anno, em que 
faliecera o Bispo D. António Barreyros naõ constava ; 
mas sendo certo, que foi o seu transito a oito de Mayo do 

JABOATAM. PART. II, VOL I. 18 



138 

auno de mil e seis centos, como uós o víqios em hum li- 
vro antigo dos Defuntos da mesma Sé a foliias cento e 
vinte donde diz: — Aos oito de Mayo de seiscentos fui- 
leceo o Bispo D. António Ban^eyros, foi enterrado no 
Collegio, Fez testamento : ficar aò por seos testamentey- 
ros o Deam Pedro de Campos, e o Chantre Jorge de 
Pina, — O Licenciado Manoel Rodrigues, Cura da Sé.— 
íi sendo laõbem certo, que no anno de 1598, para o se- 
guinte de 599 se achava o Custodio Frey Brás de S. Je- 
ronymo na Bahya, de donde diz o nosso assento mandara 
obediência ao Ghorista l^'rey Gosme de S. Damiaõ para 
se hir ordenar com aquelle Bispo, <í assim por todas es- 
tas contas^ professando Fr. Gosme de S. Damiaõ em Ja- 
neyro de 1598, e fallecendo em 1600 por Mayoo Bispo^ 
que o ordenou de Sacerdote, o que mais podia terdecho- 
rista eraõ os dous annos, ou ainda menos. 

CAMTUIiO XX. 

Das operações do Servo de Deos no estado de Sacerdote. 

98. Quanto mais se vaõ afastando os Astros do ponto 
do seu Oriente para o do meyo dia, ou Zenilh, tanto 
mais se vai ateando nelle o activo de seus influxos, e o 
vistozo das suas luzes. Taõ vivas, e notadas, como temos 
visto foraõ em o Servo de Deos Fr. Gosme de S. Da- 
miaõ logo desde os seus principies as suas virluozas 
operações, que como nova Estreita deste Seráfico Orbe, 
hia sempre com ellas assistir e buscar o mais alto da 
perfeição. E vendo os Prelados os fervorozos incêndios 
do seu espirito todo abrazado no caminho de Deos, e 
bem do próximo, que por mais que os queria reprimir 
no centro da sua humildade, naõ se podiaõ occulíar pelo 
activo, com que ardiaõ, tratarão de lhe dar matéria 
suíficieute, em que se empregassem. A que por aquel- 
les tempos se oíferecia mais a propozito, era a Doutri- 



130 

na, e Missão dos índios. Para alguãs destas nos destric- 
tos de Olinda^ e Paraíba o determinarão os Prelados 
logo depois, que se ordenou de Sacerdote; e elle se 
applicou a este trabalho com muito agrado delles, e 
grande consolação do seo espirito; porque dizia, que 
esta gente, como por sympalia occulta lhe arrebatava 
muito as atteuções da alma, por três particulares, ena- 
turaes virtudes, que nelles via, de singelleza, humilda- 
de, e desprezo das couzas temporaes, e riquezas do 
mundo, que ainda que nelles^ naõ eraõ graças acquisi- 
tas, sempre foraõ dotes da mesma natureza dados pela 
maõ de seu Author, e sempre mereciaõ alguã reflexão. 
Sinquo para seis annos trabalhou nesta vinha, tirando 
para o Senhor delia muitos lucros, e para sy grande 
merecimento, pelo que por sua via aproveitava para 
Deos aquelle Gentio^ achando taõbem nelle novos mo- 
dos, e regras mais estreitas de se aperfeiçoar a sy na 
mortiQcaçaõ e trato da sua Pessoa, naõ aprendendo 
delles mystica para a alma, mas achando, em que to- 
mar muitas lições para a mortificação do corpo, vendo 
o pouco, ou nada, que nisto cuidãõ, sem que lhes occupe 
a consideração, a caza, a cama, o vestido, e nem ainda 
o sustento, vivendo continuamente aos arbítrios da pro- 
videncia, e sustentando-se como os nossos prymeiros 
Pays no estado da innocencia, do que provida lhe oíTre- 
cia a lerra, sem o cultivo do seu trabalho. 

99. Das Rezidencias, e Doutrinas dos Gentios, que 
assim lhe servirão de eschola para se hir aperfeiçoan- 
do mais o seu espirito, passou a exercitar os cargos da 
Ordem^ começando pelo de Mestre dos Noviços, e Pre- 
zidente do convento de Olinda pelo Custodio Fr. Leo- 
nardo de Jesus, da segunda vez, que exercitou este 
cargo, no Capitulo celebrado naquella caza em meyo do 
anno de 1606. Foy esta huã das melhores forjas, que 
podia ter, o fogozo espirito deste Apostólico Varaõ para 
se hir estendendo, e apurando mais era todas as virtu- 



140 

des,e para que delle, como perfeito molde de hum verda- 
deiro Qlho de Saõ Francisco, sahissem ajustadas muitas 
copias nos que lhe dava a Religião agora por seos fllhos. 
Creados com a doutrina e exemplo do Venerável Mes- 
tre, sahiraõ alguns taõ aproveitados, que depois dos 
primeiros fundadores desta Custodia, foraõ elles as co- 
lumnas, que forte, e exemplarmente a sustentarão no 
seu primitivo vigor, sendo a baze^ e fundamento de to- 
dos o Venerável Padre seu Prezidente, e Mestre. A dou- 
trina do Seráfico Doutor Saõ Boaventura para a boa 
educação dos Noviços, era o Espelho, que lhes punha 
diante dos olhos, sendo elle o primeiro, que se deixava 
ver inteiramente a sua luz para melhor os incitar, e mo- 
ver ; ja na compostura exterior da Pessoa, ja para a in- 
terior da alma ; assim para a oração, e exercícios da vir- 
tude, como para todos os mais da Ordem, ainda os muy 
humildes^ e desprezíveis ; mostrando ao mesmo tempo, 
que ainda que Mestre, era bom companheiro. 

100. Por costume desta Província se observa nella 
desde os seos principies de Custodia, o de se absterem 
os Irmãos Noviços em as Sextas Feyras da comida de 
peixe, uzando só do mais alimento do pam da terra, 
ervas, e frutas, conforme ao arbítrio dos Prelados, e 
Mestres, que o moderaõ, quando lhes parece pede a ra- 
zão, ou necessidade. Mas o nosso Fr. Cosme de Saõ Da- 
mião, que naõ só era Mestre, mas companheiro dos seos 
Noviços, sempre lhes fazia sociedade nesta ceremonia, 
querendo começasse por elle, sendo o primeyro, como 
o foy sempre, em todas as outras mortificações, que 
neste anno se costumaõ a praticar na Religião para 
prova dos que vem a ella. Assim imbuhia, e doutrinava 
o Venerável Mestre a seos Filhos e Discípulos em Santa 
doutrina, e Religiozos costumes, e vieraõ a ficar taõbem 
instruídos, que pelo discurso do tempo mostrarão mui- 
tos delles, foraõ discípulos de tal Mestre. 



141 

Elegem os Prelados Maiores ao servo de Deos Fr. Cosme em Guardião do 
convento da Paraíba, seo procedimento exemplar, e contradições, que pa- 
dece com notável socego de seo espirito, 

101. Dizia certo Philosofo dos Antigos^ que tanto 
necessitava o mundo de exemplos bons, como de rigoro- 
zos preceitos. Isto, que no Século he sentença verdadei- 
ra, para o Estado das Religiões lie Aforismo necessário. 
Sobejaõ nellas os que ensinaõ o caminho da virtude com 
as* vozes, e razões, assim houveraõ outros tantos, que o 
mostrassem com as obras. Todos queremos aos mais 
muy reformados^ e naõ sey se será porque nós o seja- 
mos menos. Todo o governo da Religião se forma com- 
raumente do modo, e regras de viver do que he Supe- 
rior, nem ha ley, que com mais doce e suave armonia 
leve apoz de sy o animo dos Súbditos, como he a regu- 
laridade do viver de hum bom, e perfeito Prelado. He o 
exemplo hum edicto, que se intima á vista para se guar- 
dar melhor. He como o Iman, que tem virtude para 
atrahir a sy naõ só hum, mas muitos anéis de aço, com- 
m única ndo esta pedra certa força, que se vai diffundin- 
do de hum a outro alhe formar de todos huã cadeya 
sem solda. He como o carbúnculo, que sendo superior 
a todas as pedras, imprime em qualquer das outras, por 
mais preciozas, que sejaõ, a sua Imagem. Assim os Pre- 
lados, e Superiores, muito facilmente estampaõ nos 
Súbditos as suas virtudes, e boas acções. 

102. He verdade ensina taõbem a pratica, que em 
todas as Gommunidades, assim como se compõem de 
muitos Sugeitos diíferentes em natureza, assim ha nel- 
les variedade de affectos, ainda naquelia parte, que 
toca ao espirito, para seguir a virtude, e abraçar o bom 
exemplo. E assim como o Iman naõ atrahe a sy todo o 
metal, nem o carbúnculo imprime em todas as pedras a 
sua Imagem, porque falta nestas, que daquellas se apar- 



142 

taõ, a natural sympalia, que as obriga, e arrasta a esta 
forçoza uuiaõ, assim pode taõbem acontecer, como or- 
dinariamente succede, entre Súbditos e Prelados, que 
por muito Santo e virtuozo que seja algum destes, naõ 
se imprima em todos os Súbditos o seo espirito e virtu- 
de, mas sempre, como de pedra mais precioza, que o 
carbúnculo, e como melhor attractivo, que olman, se 
se naõ diffundir a todos, se communicará a muitos; e lie 
assim conveniente, que seja sempre o Prelado exemplar, 
e virluozo. 

103. Tudo conhecerão os Superiores, e Prelados 
Mayores em o Venerável Fr. Cosme de S. Damião ; e 
para o estamparem por modelo, e forma Regular em os 
corações^ e almas dos seos Súbditos, a quem desejavaõ 
ver perfeitos, o elegerão varias vezes em Guardião, e em 
diversas cazas da Custodia. Foy a primeyra eleição para 
a da Paraiba. Três annos com pouca differença occupou 
o lugar de Mestre de Noviços desde o de 1606 athe o 
de 1609. Neste fazendo o seu capitulo, ou junta, o cus- 
todio Fr. Francisco dos Santos o elegeo Guardião para 
o convento da cidade da Parahiba, e foi o septimo Pre- 
lado daquella caza. Teatro este, que havia preparado a 
Divina Providencia para que começasse nelle a sahir a 
publico do mundo as luzes de hum Astro, que athe en- 
tão anda vão como reduzas pelos claustros da Custodia, 
sem sahirem dos seus Orizontes. Mais repugnante, e sa- 
crificado á voz dos superiores, do que por vontade pró- 
pria, fez a acceitação do lugar, com alguã nota dos mes- 
mos Prelados, de que para a de Mestre de Noviços o 
havia feito sem contradição alguã, antes com bastantes 
mostras da sua vontade. Mas elle com a costumada 
descripção do seu elevado espirito, satisfez ao reparo, 
e pela differença notória, que havia entre huã, e outra 
occupaçaõ; a deMestre,retrahida toda dentro dos claus- 
tros, e ainda no mais retirado de hum convento ; a de 
Guardião, que por força do cargo se hade estender fora 



lAB 

delles. Aquella, tendo por sugeitos a sy huns taes, 
que nem bocca parecem ter para as respostas necessá- 
rias; a de Guardião, tendo por Súbditos a alguns, que 
respondem muitas vezes, sem serem perguntados. 
Aquelles tem ao Mestre por alvo, e objecto das suas ac- 
ções ; estes, querem que o Guardião seja o sugeito das 
suas vontades, ainda em couzas, que contradizem ao 
seu estado ; e nas consequências praticas desta diíTeren- 
ça, fundava o servo de Deos os justos motivos, que ti- 
nha para abraçar a outra sem contradição, e sugeitar-se 
a esta como violentado. 

104. Tomou posse do lugar, e uelle deu evidentes 
mostras do bom acerto da sua eleição, naõ só nas obras 
materiaes da caza, em que se deixou conhecer o seu 
talento, e cuidado para ellas, mas muito melhor no que 
devia a sua Pessoa, e cargo assim dentro, como fora ; 
naõ sendo menos, o que tinha de zelo do bem das al- 
mas daquelles Povos, por onde ja corria a boa fama da 
sua virtude, como o que mostrou de novo na exemplar 
edificação, que dava aos Súbditos. Foy para com elles 
hum vigilante Argos, tomando por empreza, que as ac- 
ções de todos correspondessem ao estado, que profes- 
savaõ. Nenhuã passava sem que elle, ( como ao descui- 
do, ou que a naõ queria notar) naõ advertisse. Louvan- 
do em huns o que obravaõ de bem, e arguindo aos que 
o mereciaõ. Para tudo tinha graça, em duas muy parti- 
culares, que lhe deu o Autor de todas, e muito necessá- 
rias a hum Prelado, e eraõ saber guardar o respeito da 
Pessoa, onde esta o pedia, e mostrar-se afável, e beni- 
gno, quando era necessário. Com estas se fazia amado 
dos bons, e temido dos que o naõ eraõ tanto ; e assim 
aproveitava a todos, ainda que com diííerentes effeitos, 
conforme a constituição de cada hum; porque se dos 
bons se fazia amável pela correspondência dos espíritos, 
dos díscolos e mal satisfeitos naõ deixava de padecer 
censura, chamando rigor demaziado ao que só era ob- 
servância regular. 



1A4 

105. Nesta foi exacUssimo, sem variar em Prelado 
aquella mesma regularidade devida, que guardava em 
Súbdito. Era, como sempre o primeyro no] ciioro, nas 
Communidades; e assistência dos enfermos. Com suas 
próprias maõs lhes ministrava o comer, e os servia em 
as mais necessidades. Os Officios, que na Religião cha- 
raaõ de humildade se acazo via algum por fazer, naõ 
chamava para elle a quem lhe tocava por taboa, com 
rara alegria o tomava por seo. Por estes, e outros se- 
melhantes actos da sua grande humildade, que alguns 
dos Siibditos menos regulares julgavaõ por pouco de- 
centes a sua Pessoa pelo lugar em que estava, chegou 
a sentir dos taes bastante censura, aggravada com al- 
guãs acções menos decentes, ou de desprezo. Mas elle 
buscando occaziaõ de se intrometer com elles em pra- 
tica, os soube com discripçaõ, e prudência deixar ad- 
vertidos, que se pelo espirito da SeraGca Regra, devem 
os Súbditos servir huns aos outros, assim como que- 
rem ser servidos, por conselho, induzo na mesma Re- 
gra, o Prelado, e Superior, entaõ mostra melhor que 
he tal, quando serve, e ministra aos^Subditos, e In- 
feriores. 

106. Para com estes cahio taôbem em outra censura 
o bom Prelado. Erao^Servo de Deos de geniointerior- 
mente compassivo, ainda que no exterior naõ deixava 
de mostrar alguã secura. Hermanava-se aquelle com o 
zelo do bem commum, e aproveitamento dos Próximos, 
Foraõ estes logo experimentando nelle alguns effeilos 
desta sua grande, e universal charidade. Porque os 
que lhe pediaõ conselho para o acerto dos seos particu- 
lares, e seguiaõ o seu parecer, viaõ o bom logro dos 
seos dezejos. Os que o buscavaõ para director de suas 
almas, achavaõ-se com grandes luzes, e conhecidos 
adiantamentos no caminho da virtude. E assim por es- 
tas e outra'S operações do seu espirito o acclamavaõ to- 
dos por Varaõ Santo, homem illustrado por Deos, naõ 



145 

lia vendo algum, que para a sua necessidade o iiaò bus- 
casse, e a quem o Servo de Deos, e de lodos se pudes- 
se negar. Tanto era o applauzo, que conseguia do Povo, 
quanto foi crescendo no commum dos Súbditos a cauza 
para a censura, de que se abstivesse tanto do trato in- 
terior com os Religiozos, e de caza, sendo para os es- 
tranhos, e Seculares taõ prompta e continua a sua as- 
sistência, e communicaçaõ, accrescentando alguns, que 
naõ podia deixar de haver alli algum ar de mundana 
vaidade, ou apreço de própria estimação. Naõ achamos, 
que a esta tal censura, ainda que delia foi certo, e no- 
liciozo por Religiozos taõbem Súbditos, e filhos do seu 
espirito, buscasse o Servo de Deos, como para a passa- 
da, alguà absolvição, nem deixasse de continuar neste 
modo de servir ao próximo ; sem duvida, porque co- 
nhecia, que isto era servir taõbem a Deos, e que n^sie 
modo de agradar a Deos servindo ao próximo vay mui- 
ta diíTerença entre o que pôde o Prelado, e deve o Súb- 
dito, ou lhe he permittido. 

CAPIVUIiO 31^X11. 

Continua o Venerável Prelado a sua guardiania, e com ella lhe sobrevem 
novas contradições. 

107. Se os Súbditos davaõ muitas occasiões de me- 
recer ao Venerável Guardião, naõ lhe sérvio de menos 
pezo, o que lhe era Superior. Logo que entrou no con- 
vento o Servo de Deos, como seo Prelado, vendo naõ 
havia ainda nelle cerca, ou muro levantado, com o seu 
Santo zelo, grande acljutorio, e boa vontade de todo o 
Povo, com maior dispêndio destes do que da própria 
communidade, e a cuidado e disvelo seu, começou a 
fazer hnã segura, e boa cerca, ou muro de pedra, e 
barro, a qual depois andados os tempos se reformou de 
cal, e pedra, capnz de se poderem recolher nella alguãs 
cabeças de gados, ou Rezes, que os devotos davaõ de 

JABOATAH. PABT. II. VOL I. 19 



146 

esniolla para siislentaçaò dos Religiozos. Naõ deixou de 
ler para isto cauzas forcozas, e baslaotes. Foy a pri- 
meyra, por se evitarem os descaminhos, ou furtos, que 
se cxperimenlavaõ uas taes Rezes pelos pastos alheyos> 
onde se iançavaõ a descrição, e cuidado, de quem isto 
llie naõ pertencia, e quando muito de hum Escravo da 
caza^ que pouco importava a sua guarda, c vigia. Nem 
aquelle gado se podia dispor a ordem do Syudico^ pela 
pouca conta, que fazia ; porque he costume, ainda hoje 
praticado poraquelles Sertões vizinhos, darem bezerros, 
e garrotes de esmolla, que postos em preço montaõ em 
pouco, dançados nos pastosa criar, crescem, e tomaõ 
substancia, e delles se mantinha o convento de carne, sem 
lhe ser necessário compra-la nos açougues, para o que 
naõ chegava o procedido delles, nem t)ara a terça parte 
do anuo. Por evilar estes discommodos, arbitrou o Syu- 
dico, com parecer do Guardião, e Discretos, e ajuda do 
Povo fazer aquella cerca mais dilatada. Outra necessi- 
dade concorreu taõbem, e foi ter dentro delia a lentia 
preciza para o gasto da caza, sem o delrimento de a hir 
buscar fora, naõ o podendo fazer os Religiozos, e haver 
ainda naquelles principies pouca pruvizaõ de Escravos, 
ou carros para a poder conduzir de mais longe. 

108. He verdade que tudo isto, com a carreyra dos 
annos se veio a frustrar, porque nem os gados daijuellas 
esmollas vizinhas se pôde conservar dentro da cerca, 
porque ainda que entaõ fosse bastante para os recolher 
por serem as esmollas taõbem menos avantajadas ; cres- 
cendo ao depois estas com o tempo, se tornou a lançar 
pelos pastos de fora, e assim se foi conservando athe os 
próximos annos passados, em qtie se naõ podendo mais res- 
guardar dos furtos, e descaminhos^ orcienaraõ os Prela- 
dos as dispttzesseo Syndico, aindaque por pouco, pelos 
mesmos Sertões de onde se liraõ, (içando sempre o con- 
vento defraudado nademazia da que se compra demais, 
o que athe agora lhe naõ era necessário. 



147 • 

109. Mas com ser isto assim, ainda a cerca, se dis- 
corre ao prezeiUe, devia ser maior pela necessidade, 
que ha de se conservarem nella sempre ao menos dez, 
ou doze bois mansos para um carro, que forçozamenle 
hade haver para conduzir a lenha, que serve ao gasto 
da caza, a qual naj era possivel a houvesse dentro por 
muito mayor que fosse a cerca, para lodo o tempo, e se 
hade hir btiscar fora huã legoa, e mais, e esta pedida de 
esmolla aos Senhores das terras, que a daõ com a cir- 
cumstancia de que se não hade derribar madeyra, ou 
páo verde, e só algum já seco, que se acha pelos matos, 
ou das que ell s corlaô, e lançaõ abaixo para as suas 
lavouras, e naõ he possivel conduzi-la de taõ longe a 
cabeça de Pretos, porque nem estes saõ tantos que bas- 
tem para isto e o mais, e a distancia incompatível com 
as forças. Estas foraõ as justificadas razões, e canzas 
forçozas, que leve o Venerável Guardião para mandar 
fazer aquella cerca com maior circunferência, do que 
as mais daquelles tempos ; e se havemos dizer o que 
na verdade he, quem lhe deu a largueza, ou demazia, 
de que foi arguido o que o mandou fazer, he sem duvi- 
da, que a vio com maiores olhos, dos que pedia o cam- 
po, que ella occupa, e que lhe daria taõ grande fundo, 
como o julgou, mais que a extensão do terreno, que tem 
alguã inlensaõ, ou lensaò contra o seo Aulhor. E tanto 
assim, que ainda em tempo de inverno para conservar 
oito ou dez boys mansos para o carreto da lenha para a 
cozinha, he necessário traze-los de dia pelos pastos de 
fora, e recolhe-los de noite, que nem para estes poucos 
pôde bastar a erva, que nella produz. 

110. Goncluida a cerca, e hindo visitar o convento 
o Padre Custodio já pelos fins do seu triénio, e he sem 
duvida ser esta a primeyra vizita, que por si próprio 
fazia naquella caza, porque a ter feito ^lle mesmo an- 
tes outra, ou se naõ continuaria com a obra, ou se fa- 
ria pela sua idéa, ou demarcação, julgando por esta 



148 

havia passado o Padre Guardião os limites da Serafka 
Reforma em liuã ol)ra laõ desmarcada, e quebrado as 
regras da Santa pobreza nos gastos, que cora ella havia 
feito além de llie parecer muito larga, e espaçoza, foi 
oseuprimeyro projecto, que a cerca se lançasse abaixa, 
no que era demaziada, e se reduzisse a mais estreiteza. 
Naf) se ajustou o Guardião com esle seu discurso, dan- 
do-lhe com humildade, e respeito as razões que havia 
para a fazer assim. Taôbem naõ agradarão estas ao Pa- 
dre Custodio. Fallou em parlicular aos Discretos e ve- 
lhos da caza^ e vindo-os neutraes, ou ambíguos na re- 
solução, quiz tomar os seos pareceres era acto de com- 
muuidade. Antes que se executasse esta acçaô, conhe- 
cendo aquelles Religiozos o acerto dos conselhos do seu 
Guardião, lhe foraõ dar parte do que havia, pedindo- 
Iheoseu parecer para a devida resposta. Gora a sua 
costumada modéstia, e com aquella reverencia, que 
devia ao seu Prelado, lhes respondeu assim : Os in- 
tentos do nosso Irmaõ Custodio bem se vê serem nasci- 
dos dos fervorozos incêndios do seo espirito; mas a exe- 
cuçaò do que pretende laõbem parece ser em notável de- 
trimento da Santa pobreza que elle mais zela. Aquelle 
muro de pedra tem custado o sangue dos Pobres ^ e mui- 
tas fadigas a esta communidade ; e naõ parece justo se 
percaò, por inconvenientes, que podem cauzar outros 
maiores, E assim convém agora y que obremos , como po- 
bres, sem desperdissarmos o que tanto tem custado. Eu, 
Irmaõs, digo, porque assim o entendo, que se naõ serve 
Deos entre pobres de desmanchar para tornar a fazer ; 
quanto mais de fazer para desmanchar, — Este foy o 
conselho do Venerável Guardião, e este seguirão aquel- 
les Religiozos, e todos os mais; porque todos eraô do 
mesmo parecer, e assim o fizeraõ, quando em coramu- 
iridade lhes pedio o seu o Padre Custodio, concluindo 
os mais antigos, que o muro eslava feito, e naõ parecia 
acerto, antes serviria de escândalo áquelle Povo o tor- 
nar se a desfazer. 



149 

m. Notavelmente resentido se mostrou o Padre 
Custodio por esta acçaô, e muito mais em que naô con- 
cordassem com o seu os votos dos outros, defeito fatal, 
e quasi comnium nos que saô, e querem ser em tudo 
superiores, que muy cazados com o próprio dictame 
tem por aggravo o votar livre nos Súbditos, e naõ se 
conformarem com a sua vontade. Sérvio de aggravar 
mais a sua payxaõ, ser-llie logo revelado por hum da- 
quelles espiritos de discórdia, que nunca faltaõ destes 
em as communidades, que os principaes da(|uelles Re- 
ligiozos linhaõ liido antes a cella do Guardião tomar 
conselho, e que inspirados por elle haviaõ votado con- 
tra o parecer do Padre Custodio. Levado deste influxo, 
naõ lhe bastando Ioda asna capacidade, e prudência, 
que em outros pontos a tinha bastantemente mostra- 
do, a pode-lo exteriormente reprimir, rompeu em ex- 
cessos. Goncluio a vizita, e posta a communidade com 
o seu Guardião em capitulo, lhes fez huma breve pra- 
tica, em que com gravidade, e discripçaõ lhes intimou 
o amor da Santa pobreza, taõ estimada do Santo Pa- 
triarca, como Morgado da sua Religião, e que o zelo 
da sua observância o havia movido a determinação, 
que tomara em pretender se demolisse aquella cerca, 
que mais servia de padrasto da sua ruina, e quebra, do 
que de muro para a sua guarda, e observância ; pois 
quando elle Custodio lhe lançava os olhos, melhor lhe 
parecia Tapada de algum rico Senhor, do que horta de 
huns pobres, e Reformados Capuchos. E chegando o 
Guardião a dizer a culpa, como este era o termo do 
seu assumpto, concluio dizendo: — O Irmaõ Guar- 
dião parece estar muy cazado com a sua vontade, e muy 
sugeito ao seu próprio dictame, e queira océo naõ fosse 
esta cerca mais obra de alguma vaidade, do que conve- 
niente para os fins, que se allegàò, esquecendo-se com 
estes pretextos do estado, que professamos, e da quieta- 
ção da sua cmtmunidade. O espiritual deve antepor-se 



150 

ao temporal, obrar o contrario he opposlo a toda a ra- 
zão; e assim o sen parecer nunca pôde ser b^tm funda- 
do; e infundi-lo a outros foi presumpçaõ demaziada do 
seo aceno, quando ao meu parecer anda muy errado. 
E já que V. C. foi a cauza desta rezoiuçaò, ainda que 
eu pudera tomar outra em contrario, porque esta naò 
podia deixar de sahir fora dos claustros, por evitarmos 
discursos, e opiniões vutqares, e porque se naò enten- 
da, que eu taòbem sou possuído do meu parecer, em 
pena, e castigo do seu, vá fazer esta e aqnella peniten- 
cia, ele. Assim ficou satisfeito em parte o escrúpulo 
do Prelado maior, e bem compensado o zelo do Guar- 
dião, que com estas e outras coutradicçôes, que expe- 
rimentou nos soos, ea boa fama, que adquirio do Povo, 
concluhio com muitos créditos seos e da Religião esta 
primeyra Prelatura. O que delia fica escripto, emquaa- 
lo a ser castigado o Servo de Deos pela factura, ou 
largueza daquelle muro, além de ser ainda hoje couza 
vulgar entre os Pieligiozos velhos participada a estes 
por outros niais antigos, assim o deixou taõbem em os 
seos apontamentos o Padre Custodio Pr. Thomas da 
Prezentaçaõ, de quem ja outras vezes falíamos, que 
sopposlo naõ vio ao S.rvo de Deos, porque entrou Re- 
ligiozo aos três ânuos depois da sua morte, ouvio isto 
como couza moderna, e muy fallada naquelle tempo. 

He nomeado o Venerável Fr. Cosme de S. Damiaõ para hir em companhia 
de Jeronymo de Albuquerque de Pernambuco ao Maranhão lançar os 
Francezes daquella conquista, como voltou, e foi promovido a outras 
Prelazias, 

112. Da Paraíba concluidos com pouca differença 
os três a unos de Prelado se iTtirou o Servo de Deos 
Fr. Cosme de S. Damiaõ para o convento de Olinda, 
aonde assistio nas Doutrinas dos índios outros três 
annos atheo de 16là, em que, conioja fica diilo em 



seu hitçar, * foi mandado pelos Superiores com Jero- 
nymo de Albuquerque quaudo foi lançar da Ilha de 
S. Luiz do Mnranhíiõ aos Fraucezes^que nella se baviaõ 
estabelecido, e na sua particular Estancia do Preambu- 
lo da priuieyra Parle, se poderá ver o que nesta em- 
preza obrou, que por evitar repetições passamos ao 
mais. 

ii3. Tendo assistido no Maranhõ alguns dous aa- 
nos, ainda que contra a vontade do sobredilto Capilaõ 
e Governador Jeronymo de Albuquerque, que lhe fa- 
zia força, e instancia a Gcar-se algum tempo mais com 
elle, ao menos, emquanlo lhe cbegavaõ Religiozos Ca- 
puchos da Província de Portugal, que havia pedido 
para substituírem o Recolhimento, que baviaõ deixado 
os Padres Capuchinhos Francezes, se partio para Per- 
nambuco, dando por escuzas naõ tinha licença de seos 
Prelados para fazer ali mais dilação, do que aquella, que 
pedisse a necessidade da Empreza a que fora enviado, 
e como eslava concluída ella, era precizo seguira obe- 
diência. Pelos fins do anuo de 1616, ou princípios de 
1617 chegou a Pernambuco, e celebrando o Custodio 
Frey Paulo de S. Calharina, que a este tempo havia che- 
gado de Portugal a Olinda, o seo capitulo; nelle foi 
eleyto o Servo do Senhor Fr. Cosme para Guardião do 
convento da Villa da Victoria na Capitania do Espirito 
Santo, e nelle rezidio por todo o tempo do sobredilto 
Custodio, que foraõ Ires ânuos com pouca diíferença. 
Fora das operações do seu Religiozo e reformado espi- 
rito, cuidou íaõbem com o mesmo zelo das obras mate- 
riaes do convento, e entre outras mandou fazer os Rela*- 
bulos da Igreja, conforme se acha em o assento dos 
Guardiães daquella caza. Dali passados alguus dous 
annos, na congregação do seguinte Custodio Fr. Manoel 
deChristoem 1622 foy eleito segunda vez para Guar- 

* Part. 1*, IVeamb. Digres. IV, Eslanc. XIV, num. 1G7. 



152 

diaõ da Paraíba, aondo assislio ailie o capitulo seguinte 
do Custodio Fr. Autonio de Braga pelos fliis do anno de 
16'21. Descançou os três annos seguintes do cuidado de 
mandar, nifis naõ das penções deobdecer, a lhe os fins do 
anno de 1627, em que enlrando por Custodio o Padre 
Fr. António dos Anjos, no seo capitulo foi eleilo o Ser- 
vo de Deos Fr. Cosuie para Guardião da caza da Baliya. 
Aqui residio atlie a congregação do mesmo Custodio, 
na qual o transmutarão para o convento da cidade do 
Rio de Janeyro com o mesmo cargo de Guardião da- 
quella caz-i alhc o capitulo seguinte do Custodio Frey 
Simaõ de S. António pelos fins do anno de 1630, em 
o qual saliio Fr. Cosfne de S. Damião por Diíliiiidor. 
114. Quem não admira, senão a inconstante fortu- 
na deste Servo de Deos, ao menos a sua constância era 
tanta variedade. Sinco vezes o fizeraõ Guardião para 
chegarão fim, que outros com três, e as vezes duas 
vieraõ a conseguir, e em todas estas correndo de pólo 
a pólo o âmbito da Custodia, e taõ dilatado como era, 
e ainda passou os seos limites chegando athe o Mara- 
nhão, concluída a primeyra da Paraíba. Do Maranhão 
a Pernambuco, dali ao Espirito Santo, de onde voltou 
outra vez á Paraíba, daqui tornando a voltar como em 
retrógrados chegou a Bahia, passou ao Rio de Janeyro, 
e outra vez á Bahya, e tudo isto em o espasso de doze 
para treze annos. Muitas destas viagens como as da Pa- 
raíba, e volta do Maranhão por terra, as outras por 
mar, com os perigos, que nestas se experimentaõ, e em 
huãs taes embarcações, como as que cursaõ estas costas, 
expostos os seos passageiros a todo o rigor do tempo, 
e sendo elle um Beligiozo summamenie pobre, mal pro- 
vido do necessário, e só com o soccorro da obediência, 
que mandava, e viatico da Divina Providencia, que as- 
sim o dispunha. Tinha esta, conforme ao nosso discur- 
so, poslo a este seu servo fiel, como hum novo Astro 
nesta Esfera do Brazil para o alumiar com as suas lu- 



153 

zesj e encher e edifica-la com as operações do seo espi- 
rito, e era forçozo, que como tal andasse de pólo a pólo 
em liuraa continuada carreyra, athe chegar aquelle 
ponlo mais alto do seo Emisferio^ que como aos Astros 
do céo, a este se» Fiel Servo tinha taõbem determina- 
do o Altíssimo para se deixar ver nelle toda a exube- 
rância das suas luzes, como iremos admirando em os 
seguintes capítulos. 



CAIPIXIÍJLO XULIV. 



He eleyto Custodio do Brasil o Servo de Deos Frei Cosme de Saõ Damião, 
suas operaçõss, c novos trabalhos, que com esse cargo lhe sobrevem. 



115. Quando hia a completar os três annos de Difli- 
nidor, e de assistência no convento de Pojuca o Servo 
de Deos Fr. Cosme de S. Damião para onde se havia 
retirado da caza capitular de Olinda, desamparada esta 
pela intruzaõ dos Olandezes em Pernambuco, alli lhe 
chegou da Província a nomeação de Custodio, feita no 
capitulo celebrado em S. António de Lisboa a vinte e 
dons de Janeyro de 1633. Neste mesmo convento de 
Pojuca tomou o Servo de Deos a posse do lugar, fez o 
seu capitulo, e nomeação de Prelados para as cazas da 
Custodia. Que neste convento de Pojuca tomasse a 
posse, e fizesse o seu Capitulo o Venerável Custodio as- 
sim o diz hum assento do cartório desta mesma caza 
sem declaração do dia, mes, e anno, em que isto foy, 
mas por outras razões de conjecturas evidentes assen- 
tamos na sua Estancia dos Custódios foi feito este car 
pitulo pelos fins do sobreditto anno de 1633. Naõ con- 
cordamos fez congregação^ posto achamos alguns as- 
sentos, que nomeaõ Guardiães, feitos na sua Congrega- 
ção, porque nenhum delles expressa taõbem quando 

JABOATAAI. PART. II. VOL. I. 20 



esta fosse feila^ anles conforme aos mesmos assentos 
dos taes Guardiães, entendemos com melhor discurso, 
que o sobredilto Custodio naõ fez congregação, e que 
isto a que os taes assentos chamaô congregação, foi 
huA junta, ou mais propriamente nomeação de alguns 
Prelados, como o declaraõ outros. Fundamo-nos para 
isto, porque a congregação naõ podia ser feita antes de 
passado o anno e meyo do seo capitulo; isto naõ podia 
ser, porque supposto naõ ha certeza do mez, e dia des- 
te capitulo, e só, que fora no anno de 1633 do meyo 
para o fim; que vem a ser de Julho athe Dezembro. 
Para correr anno e meyo depois de Julho de 1633 ha- 
via de ser em Janeyro de trinta e sinquo ; isto naõ podia 
taõbemser; porque como consta das duas certidões, 
que já ficaõ impressas na primeira Parte^ passadas pelo 
General Malhias de Albuquerque a seu successor o 
conde de Banholo, retirando-se Mathias de Albuquer- 
que no mes de Março de 1634 para o cabo de S. Agos- 
tinho coQi alguã gente de Guerra para defender a For- 
taleza de Nazarelh do Inimigo Olandez, diz elle na sua 
certidão, que consigo levara dous Religiozos nossos ti- 
rados do Arrayal de Paranamerim, e outros do con- 
vento de Pojuca, os quaes assistirão alli sempre com 
elle hum anno, que alli esteve, que foi atlie Março do 
seguinte de 1635. Diz mais, que feito em Nazareth hum 
Oratório* — O Padre Custodio, fsaõ palavras suasj 
que hoje he, (Fr. Cosme de S. Damiaõ,) se foi a morar 
nelíe com alguns Religiozos, para que naõ houvesse fal- 
ta na administração dos Sacramentos, Sermões, e ser- 
viço de Deos, e de Sua Magestade ; e vindo nós para 
soccorrer o Arrayal de Nazareth á villade Serenhaem ; 
fque foi isto como as Memorias Diárias ** pelo mes 
de Março de 1635,) o ditto Cutsodio, com alguns Reli- 

' Part. i^., Preamb. Folhas 97, num. 88. 
"* Pag. 17^. 



155 

giozos vieaão taòbem para a ditta Villa, detonando na 
Oratório de N azarei li quatro Religiozos, que assistirão, 
atlie que a ditta força se rendeo, E vindo o Inimigo 
Olandez em onze deste prezente anno [de 1635,) 
com grande poder para me desalojar da ditta Vil- 
la de Serenhaem, eu lhe sa/ii ao encontro, e foi Deos 
servido, que o desbaratássemos ; em minha compa- 
nhia sahio taòbem o Padre Custodio a fazer o cos- 
tumado officio de exhortar, e confessar aos Solda ^ 
dos com seis ou oito Religiozos de sua ordem ; e vindo- 
nos esperar a armada do soccorro a esta A lagoa do Sul, 
veyo o sobreditto Padre Custodio Fr, Cosme de S, Da- 
miaò com trinta Religiozos de sua Ordem, e actual- 
mente faz hum Oratório para delle acudir as necessida- 
des, que se offerecem, — Era isto pelo mes de Agosto 
em viate de 1635. E se desde o principio do anno de 
1634, era que ainda uaõ fazia hum inteiro, que o Cus- 
todio Fr. Cosme de S. Damião iiavia tomado posse 
deste cargo se achava no Oratório de Nazareth com o 
General Mathias de Albuquerque, e com elle passou a 
Serenhaem por Março do seguinte anno de 1635, e da- 
hi a quatro mezes em três de Agosto do mesmo anno sa- 
hio de Serenhaem com o próprio General, e os mais 
dos Religiozos seos Súbditos para a Alagoa do Sul, aon- 
de fez outro Oratório, e Recolhimento, e dalli em Ja- 
neyro do seguinte anno de 1636 sahio com o General 
D. Luiz de Roxas para Pernambuco, e morto este, Qcou 
elle Custodio prezo pelos Olandezes, desterrado, como 
logo veremos, por onde andou athe o fim do anno so- 
breditto de 1636, certo he, que gastando nestas jorna- 
das três annos ou mais desde o de 1633, em que entrou 
por Custodio, e fez o seu capitulo, certo he, que nes- 
tes três annos, nem fez nem podia fazer congregação. 
Confirma-se tudo isto com o que diz o assento de hum 
Guardião da caza de Seregippe do Conde, que he o se- 
guinte, — O quarto Guardião foi o Jrmaò Fr, Manoel 



156 

da Cruz, filho da Custodia, eleito em huma Junta, que 
fez o Irmaõ Fr. Cosme deS. Damião, porguanto se di- 
latou o tempo do seu Custodiado, e eraÒ passados três 
annos depois do seu capitulo. O ditto Fr, Manoel da 
Cruz foi Guardião aos dous annos at lie o capitulo futu- 
ro. — Deste assento se colhe clara e distintamente, que 
o Venerável Custodio Fr. Cosme naõ fez congregação, 
porque como fica assima mostrado naõ teve para isso 
tempo, e que esta junta, que foi para prover o tal Con- 
vento de Prelado por haver já três annos, que occupa- 
va o lugar o Antecessor, foi depois de restituído do seu 
degredo a esta Custodia nos fins do anuo de 16^6, em 
que faziaõ, ou eraõ feitos os três annos do seu capitulo, 
naõ só se fez nesta junta este Giiardiaõ, senaõ outros 
mais, que taõbem tinhaõ completos os três annos, de- 
pois do total capitulo, c a esta Junta, lie sem duvida a 
que nos mesmos assentos se chama em huns Junta e 
em outros Congregação. 

116. Contra tudo isto parece estar o que se acha em 
outro de Guardiães, fallando nos que foraõ na caza da 
Bahya no tempo do sobreditto Custodio Frey Cosme de 
Saõ Damiaõ: — Diz assim — O Guardião 21 foi o Ir- 
maõ Fr. Joaõ da Assumpção de Lisboa, filho da Custo- 
dia, no capitulo do Irmaõ Fr. Cosme de S. Damiaõ ^ e 
foiathéasua Congregação, por haver sido já de Se- 
regipe. — o 22 foi o Irmaõ Fr. Manoel Bautista de 
Óbidos, Pregador filho da Custodia no tempo do sobre^ 
ditto Custodio. Neste tempo foi subrogado em Diffinidor 
por morte de Fr, André de S Francisco. — O Guardião 
23 foi Fr. Manoel do Espirito Santo, eleyto em Junta 
que fez o Irmaõ Fr. Cosme deSaõ Damiaõ — O que este 
diz, he, que o sobredito Custodio fez congregação, mas o 
que diz fallando deste, o desfaz quando falia do seu Suces- 
sor, porque aííirma, que fora feito no tempo do mesmo 
Custodio, mas naõ diz em congregação, que é o que se 
seguia dizer. Diz mais, que neste mesmo temi)0, isto 



457 

he, sendo Guardião o sobredilto Fr. Manoel de Óbi- 
dos, fora este subrogado em Diffinidor, por morle de 
Fr. André de S. Francisco, e que em seu lugar fora 
posto Fr. Manoel do Espirito Santo, feito em Junta que 
foia mesma, que se fez para aquella Subrogaçaõ. E tudo 
isto he sem duvida, foi antes da prizaô do Venerável 
Custodio, a eleyçaõ de Fr. Manoel de Óbidos em Guar- 
dião, ao anno e meyo de seu capitulo^ para excluir i^ 
outro, que entaõ fazia os Ires annos das duas Guardia- 
nias, anno e nieyo de Seregipe de onde passara para a 
da Bahia oulro anno e meyo. Mas naõ obstante dizer o 
lai assento, que o sobredilto Guardião fora feito no ca- 
pitulo do Custodio Fr. Cosme de S. Damião athe a sua 
congregação, se naõ segue houvesse a tal congregação, 
e por duas razões; a primeyra, porque havê-la diria 
logo fallando do seguinte Fr. Manoel de Óbidos, que 
fora feito em congregação, e naõ em tempo do sobreditto 
Custodio. A segunda porque affirma fora feita entaõ, 
por ter ja completos os três annos do huà e outra Guar- 
diania ; e para isso naõ era necessário congregação, 
como o faziaõ naqueiles tempos os Padres Custódios, 
quando por alguns impedimentos se naõ podia proceder 
a outra forma de Eleyções, o executou o mesmo 
Custodio naõ só nesta occasiaõ com outros Prelados 
locaes, e depois do seu desterro, achando alguns, 
que haviaõ completado os Ires annos, e naõ po- 
dendo fazer mais congregação, transgredido o tempo 
delia, em alguàs Juntas particulares foi elegendo no- 
vos Prelados, para substituir os que ja havia três 
annos, que o eraõ. Taõbem naõ declara nenhum dos 
referidos assentos o lugar, ou caza, em que foraô feitas 
estas Juntas ; mas pelos motivos que ficaõ apontados de 
naõ poder o Venerável Custodio passar ás partes da 
Bahya depois que occupou este cargo, só as devia fazer 
ou no convento de Serenhaem, ou mais certo no de Po • 
jucá, por ser a este tempo o mais opportuno para estas 



158 

operações, por naõ ter chegado ainda a clle a iuvazuõ 
dos Olandezes. 

117. Visto tocarmos aqui por occorrencia em ser 
subrogado em Diffinidor o Guardião da Baliya, Fr. Ma- 
noel de Óbidos, suppomos dezejara saber algum versa- 
do nos Estatutos e Leis da Ordem, por que razaõ devia 
ser o Subrogado este^ e naõ outro qual Padre dos que 
determinaõ as mesmas Leis? A isto se responde^ c^ue foy 
assim, por naõ haver na Custodia Padre algum dos que 
nella foraõ Prelados mayores, aos quaes primeyro lo- 
cava por sua antiguidade a tal Subrogaçaõ, porque todos 
os que completavaõ este cargo se retiravaô para a Pro- 
víncia, e hum que na Custodia havia ficado, e era o 
P. Vicente do Salvador, achava-se morador no Con- 
vento da Bahya, e já velho, e impossibilitado a poder 
passar a Pernambuco por terra donde se achava o P. 
Custodio. Dos Padres Diflinidores habituaes^ aléai de 
serem muy poucos ainda entaõ, huns eraõ fallecidos, 
ou embaraçados com as guerras dos Olandezes, como 
era o Padre Fr. Luiz da Anunciação cercado pelos mes- 
mos Inimigos em o nosso Arrayal de Paranamerim de 
Pernambuco. O Guardião actual de Olinda, que se se- 
guia como Prelado da caza principal, prezo e desterran- 
do pelos Hereges desde o anuo antecedente de 1633, e 
era este o Irmaõ Fr. Francisco da Esperança, eleylo 
para aquella caza pelo mesmo Custodio Fr. Cõsme de S. 
Damiaõ. Seguia-se o Guardião da Bahya o sobreditto 
Fr, Manoel de Óbidos, que sendo eleyto Prelado da- 
quella caza pelo mesmo Custodio, como fica dilto, foi 
logo depois subrogado em Diffinidor, e posto em seu 
lugar Fr. Manoel do Espirito Santo. He o que sobre este 
ponto parece concludente pois, delle naõ consta outra 
maior evidencia. 



159 
# CAPITUIiO XXV. 

Retira-se de Pernambuco para a Alagoa do Sul o Venerável Custodio com os 
seus súbditos, e mais Povo por ordem do General Mathias de Albuquerque, 

118. No convento de Serenliaem se achava o Vene- 
rável Custodio desde os princípios do mes de Março de 
1635 retirado do Oratório de Nazarelh, como fica dltto> 
sendo ja taõbem pelos princípios do mez de Junho des- 
te próprio anno. Nesta mesma Povoação estava taõbem 
fortificado o General Mathias de Albuquerque (em com- 
panhia do qual sahira de Nazarelh o Padre Custodio,) 
com hum corpo de tropas, para que dali pudesse soccor- 
rer melhora varias partes da Campanha, accomellidas 
de continuo pelos Olandezes, e especialmente ao do Ar- 
rayal do Paranamerim, cercado, e combatido pelos 
mesmos contrários, e taõbem a Fortaleza de Nazarelh. 
Mas entregue esta, e o Arrayal a nove de Junho deste 
próprio anno de 635, e visto naõ se poder sustentar mais 
a campanha pelos Porluguezes, rezolveo o General se 
retirassem os Moradores para a Villa das Alagoas^ dos 
quaes se achavaõja muitos na mesma Villa de Sere- 
nhaem refugiados a sombra das armas daquelle corpo 
das Esquadras, que assistiaôao General. E este ordenou 
taõbem ao Venerável Custodio mandasse retirar todos 
os seos Súbditos, que se achavaõ ainda nos três conven- 
tos da Puraiba, Iguaraçu,e Pojuca, que supposto esta- 
va ja o Inimigo apoderado daquellas Ires praças, e seos 
destrictos, ainda nos conventos delias residiaõ alguns 
Religiozos, assim como os mais moradores, por consen- 
timento dos próprios Inimigos, e expostos todos aos pe- 
rigos, sustos, e necessidades, que em tal cazo, e tempo 
se experimentavaõ, por naõ dezampararem de todo aos 
pobres Moradores, que sugeitos ja ao jugo, e servidão 
dos Olandezes, naõ tinhaõ outro refugio para o espiri- 
tual mais, que os nossos Religiozos, pois eraõ só elles 



160 

os Sacerdotes, e Mioistros da Igreja, que haviaõ ficado 
entre o Povo. 

119. Assim como foi esta huã das maiores afflicções 
daquelle miserável Povo, porque supposto que com a 
vontade do General concordavaõ muitos, naõ deixou de 
haverá esta retirada grandes contradicçòes. Huns, por 
pobres, outros por ricos. Estes naõ queriaõ iargaroque 
tinliaõ; aquelles naõ linhaõ com quç fazer taò arriscada 
e comprida derrota. À huns detinha-os, o que possuiaõ, 
a outros a falta dos Comboys ; e assim naõ foraõ poucos 
os que por necessidade, ou conveniência dobrarão o 
joelho, e sugeilaraõ a liberdade ao jugo do Olandez. 
Assim ao Venerável Custodio lhe sérvio esta ordem do 
General de huã grande turbação para a sua alma ; naõ 
porque houvesse elle, e ósseos de deixarem alguns bens, 
ou haveres temporaes, porque os naõ possuhiaõ; mas, 
porque lhes ficava outro maior ihesouro nas cazas de 
Deos, e conventos, que via ficavaõ, para serem ultraja- 
dos por taes Inimigos, e tanta multidão de Povo, tan- 
tas Ovelhas do Rebanho da Igreja ao dezamparo, entre 
lobos sobre Inimigos Hereges; pois quasi lodos os Pa- 
rochos, e Sacerdotes Seeulares acompanhavaõ ao Gene- 
ral. De outras Religiões faziaõ o mesmo todos os de Nos- 
sa Senhora do Garmo com o seo Prior Fr. António do 
Vencimento. E dos Padres da Companhia ja naõ havia 
em Pernambuco, mais que alguns poucos, que rezidiaõ 
nas Aldeãs do Sertaõ. E assim naõ podia o zelo piedozo 
do Venerável Custodio acabar de rezolver-se em exe- 
cutar inteiramente aquella ordem; mas tomando conse- 
lho com o mesmo General, e fazendo-lhe patentes estas 
forçozas e Catholicas razões em serviço de Deos, e bem 
do Povo, ajuntando alguns dos seos Súbditos, que di- 
zem as Memorias, que seguimos, foraõ mais de trinta, 
e as nossas, que chegarão a quarenta, ordenou fi- 
cassem ainda alguns pelos mesmos Coo ventos para reoie- 



461 

(lio, e consolação espiritual do dezamparado Povo^, que 
se naõ podia retirar. 

120. Mais de quarenta foraõ estes, que Gcaraô pelos 
conventos, e alguns espalhados por fora, pois só destes 
dos conventos, eraõ os trinta e sette, que nos annos ao 
diante de 1639, governando ainda o mesmo Custodio 
nas partes da Baliya, por ter chegado a ellas oseu Succes- 
3or, que ja se achava nas do Rio de Janeyro Fr. Ma^ 
noel de S. Maria, tirarão prezos, e desterrarão para as 
índias de Espanha os mesmos Olandozes. Dos que es- 
caparão deste insulto^ foraõ taõbem aquelles poucos, os 
quaes ja antes com o Padre Fr. Luiz da Annunciaçaõ se 
haviaõ retirado para o Engenho dos Reys da Paraíba, 
que eraõ de Francisco Camello Valcacer, donde levan- 
tarão Oratório, e assistirão alguns annos^ como ja se 
disse em a primeyra parte. E assim desamparando todos 
os Parochos, Sacerdotes Seculares, e Religiozos das mais 
Famílias a conquista de Pernambuco^ menos hum, ou 
outro, desde o anno de 1635, athe o da Restauração 
daquelle Estado, como relataõ as historias daquelles 
tempos^ só os Frades Menores do Saõ Francisco, sem 
temor da morte esem respeito ás conveniências do mun- 
do, foraõ o Moyses, e Aram daquelle mizeravel, e de- 
zamparado Povo, para o que lhes podiaõ aproveitar, 
que era particularmenteo bemespiritual de suas almas, 
em tantos trabalhos, e necessidades do mesmo Povo, c 
naõ menos nas suas próprias. 

121. Naõ foraõ poucas as que padecerão aquelles, 
que com o seo Custodio acompanharão nesta transmi- 
gração ao mais Povo, nem menos o espiritual consolo, 
que a todos resultava do seo consorcio, em taõ longa, e 
trabalhoza jornada. E como nella teve bem, em que se 
exercitar o ardente zelo do Venerável Custodio, e seos 
Filhos, nos pareceo naõ ser fora da ordem desta Histo- 
ria fazermos delia, e das principaes pessoas, e Famílias, 
que seguirão esta derrota, huã breve relação, conforme 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 21 



m Memorias Diárias, que sobre isío escreveo, e iinpri- 
mio, quem sem (liivida teve em liuioa maior parle, o 
mesmo Donatário, e Senhor de Pernambuco, Duarte de 
Albuquerque Coelho, que nesta jornada acompanhava 
ao SCO Povo, e era Irmaõ do General Malhias de Albu- 
querque, que governava o exercito. 

122. Da Paraíba, de donde logo, que o Inimigo no 
fim de Dezembro do anuo passado de684occupou aquel- 
la Cidade, ^ e se haviaò muitos dos Moradores e grande 
parte do Povo acolhido a sombra do General Malhjas de 
Albuquerque^ eraõ os Principaes — Jorge Lopes, e Lins 
Brandão, Irmãos, e Francisco Cawello Brandão, seo 
Sobrinho, Manoel Perez Corrêa; e Manoel Quaresma 
Carneyro; deixava cada hum destes o seu Engenho, e 
outra muyta fazenda. De Gogana: eraõ os Principaes 
Jerónimo Cavalcanly de Albuquerque, que deixava três 
Engenhos, e dous seo primo Lourenço Cavalcanly de Al- 
buquerque, 

De Pernambuco, em que se comprehendem as Fre- 
guezias da Varge, S. Amaro de Jaboataò, Muribeca, 
Cabo de S. Agostinho, e Pojuca, eraõ Joaò Paes Bar- 
reto, o Moço, que deixava dous Engenhos, muito gado, 
e outra muita fazenda, por ser dos mais ricos do Era- 
zily e ainda pôde retirar trezentos e sinquoenta Escravos, 
Seu Pay teve drz Engenhos de açiicí/r, que repartio por 
seoa filhos, que taòbem naõ foraõ poucos, e eraõ EsteiaÕ. 
Chrislovaõf Miguel, Diogo. António^ Phiiippe Paes, e Dona 
(jtlharina Barreto, mura de Dom Luiz de Souza. Taõbem 
se retirou Dona Izabet de Moura, viuva de António Ri- 
beyro de Lacerda, que o Liimigo matou. {Eoy isto em 24 
de Março de 1630, estando Já o Olandez de posse da Po- 
voação de S.Anntonio do Beciffe, ** hindo António Ribeyro 
de Lacerda, que assistia de prezidio no passo dos Afogados 
com huã Esquadra dos Moradores de Pojuca aonde era as- 

* Mcmor. Diar., Pag. J69 c 193. 
•' BriUo Freyre, Jib. 5, n. 379. 



163 

sistente^ e tinha Ires Engenhos, sobre o Forte dê S. Ânlo^ 
nio, de que servia ao Olandez o convento do mesmo Santo. 
Foy ferido de huã baila f de que morreu a poucos dias.) 
Sua Irmã Bona Mecia de Moura^ mulher de Cosme Dias da 
Fonceca, deixando dous Engenhos. Francisco do Rego, hum, 
e outra muita fazenda. Assim Ambrozio Machado de Carva- 
lho, Manoel de Noralhas, Luiz Lopes Tenório, Luiz Marrey- 
ros, António de Sá de Maíria, que tinha dons Engenhos, 
Brás Barbalho, e outros muitos. 

De Serenhaem eraõ os seguintes: Romaõ Perez, que dei- 
xava hum Engenho, e assim outro, Francisco Viegas, c 
Pedro Fragozo de Albuquerque, e sua Irmã Viuva Dona 
Brites, que levava, ires fdhos machos, e outras tantas fêmeas. 
D. Phi/ipa de Mello e Albuquerque, tuõbem levava fdhos e 
deixava dons Engenhos. Joaõ de Albuquerque e Nuno de 
Albuquerque e Mello, Dona Sebastiana de Albuquerque, 
mídher de Jacintho Freyre da Sylva, D. Magdalena, 
Viuva de Philipe de Albuquerque, deixava hum Engenho, 
e levava huã filha e três fdhos, Manoel, Leonardo, e An- 
tónio. Dona Catharina Camello, Viuva de Pedro de Al- 
buquerque, com duas fúhas, deixava hum Engenho, e ou- 
tro, sua sobrinha do mesmo nome, Viuva de Jeronymo de 
Atayde, 

De Porto Calvo, só se rezolveraõ a seguir esta derrota, 
Rodrigo de Barros Pimentel, deixando a mulher e fdhas, 
com dous Engenhos, e Christovaõ Botelho, que deixava^ 
outros dous, e nelles hum seu Irmaõ. 

123. De lodos estes, e outros muitos mais entre ho- 
mens, mulheres, mininos, e escravos se compunha huã 
multidão de mais de três mil almas^ quatro mil índios, 
e alguns duzentos carros de comboy. Juntos todos em a 
Villa, e Arrebalde de Serenhaem a três de Julho do re- 
ferido anuo de 1635, se deu principio a esta triste, e 
lamentável transmigração, taõ sentida para os que a fa- 
ziaõ, como chorada dos que os naõ podiaõ acompanhar. 
No sobredilto dia ordenou o Geueral Mathias de Albu- 
querque se marchasse na volta da Povoação de Porto 
Calvo. Os soldados, que haviaõ guarnecer esta multidão 



16/t 

seriaõ duzentos, dos que se chamavaõ pagos, e cem os 
das emboscadas; alguns índios com o seu capitão maior 
Anlonio Philippe Camarão, e marchavaõ lodos da forma 
seguinte. * Hiaõ diante sessenta índios com os seus ca- 
pitães António Cardozo, e Joaõ de Almeyda, desco- 
brindo os caminhos, e bosques, por ser nisto Genle pra- 
tica, como os que entre os mesmos maltos haviaõ nas- 
cido, e eraõ creados. Seguiaõ a estes os Capitães D. 
Fernando de Riba Aguero, Affonsode Albuquerque, Leo- 
nardo de Albuquerque, e outros três mais. A estes se se- 
guiaõ os Moradores, em o numero dos quaes entravaõ 
taõbem os Religiozos alguns quarenta, a quem servia de 
Cabo Fr. António de S. Clara, Guardião do convento da 
Villa de Sereuhaem, e depois foi Diífinidor, natural de 
Pojuca, filho de Cosme Dias da Fonceca, e D. Mecia de 
Moura, e por General de lodos o Venerável Custodio 
Fr. Cosme de S. Damiaõ. Ao Povo seguiaõ os Capitães 
D. Pedro Marinho, Martim Figueira, Joaõ de Magalhães, 
e outros coalro. Por retaguarda o capitão dos Índios 
D. António Philipe Camarão, com oitenta dos seos, ar- 
mados de mosqueies, e arcabuzes. Desta sorte se come- 
çou a marchar de Serenhaem para Porto Calvo, e dali 
athe as Alagoas. Trinta dias desde ires de Julho, que 
sahio da Villa de Serenhaem athe dous de Agosto, que 
se alojou na Alagoa do Sul, caminho, que os mais vaga- 
rozos andantes tomaõ em oito dias, e no commura se 
gastaõ sinquo athe seis. 

i2/i. Mas, emquanto assim vay fazendo as suas va- 
garozas jornadas, taõ digno de compayxaõ, como de Su- 
geitos, que naturalmente o estaõ movendo a ella, este 
exercito; parecejusto nos detenhamos taõbem hum pouco 
aqui trazendo á memoria, ou renovando alguãs das cir- 
cunstancias, que mais se fazem accredoras de toda a 
piedoza ponderação, ^upposto que alguãs taõbem de 

• Memor. Diárias, Pag, 192, e seg. 



165 

admirar. Isto o pedem prioGÍpalínenle, e sobre tudo a 
constância, e esforço mais que varonil, e heróico, de 
tantas Matronas, e Senhoras Viuvas; que as< mais, ousaft 
arrastaria o amor dos maridos^ ou as obrigava a obe- 
diência dos Pays, c companhia dos Irmãos, e Parentes. 
Mas, que aquellas Senhoras, livres, tomem a rezoluçaõ 
de deixar as fazendas, largar as cazas, e outras muitas 
conveniências, que nellas tinhaõ, sem reparar nos in- 
commodos, perdas, e o mais, que daqui se lhes seguia, 
foy sem duvida, desmentindo a falsa opinião de muitos, 
quererem mostrar, que nem sempre he puzilanime o 
coração das mulheres, e que taõbem cabem na fraqueza 
deste sexo, excessos de valor, e operações de animo. 
Este o mostrarão naô só as de que agora falíamos, que po- 
deriaõ ser ajudadas taõbem da nobreza, eimpulso^ do seo 
sangue illustre, mas outras muitas de menos qualidade, 
e esplendor nativo como entre estas se achavaô, e tem 
com ellas, ou entre todas hum grande e especifico lugar, 
e vem a ser aquellas de S. Lourenço, ou Tojucupapo, 
freguezia entre Goayana, e Iguaracú, que cercadas com 
seos maridos, e filhos em huà Estancia que haviaõ feito 
para seo resguardo dos Olandezes, quando ja desfalle- 
ciaô os homens no terceiro combate, ou assalto destes 
Inimigos, prevalecerão ellas, que a ferroe fogo tendo ja 
rompido o Olandez a Estacada, souberaõ rebater, ven- 
cerão, e triunfarão maneando as armas de huã grande 
multidão de contrários, que ja presumiaõ cantar a vic- 
toria, que lhe tirarão das màos com os seos varonis, e 
fortes ânimos, merecendo estas e as mais, que assima 
se notaõ naõ menos louvor, que as Pantaziléas antigas,^ 
Symiramisdo Egypto,ou outras como Amazonas do Bra- 
zil, donde escrevem alguns, que taõbem as ha, e quando 
naõ houvesse outras bastariaõ estas para desempenhar, 
e merecer-lhe o nome. 



166 



Continua-se com o que de Serenhanhem athe Porto Calvo obrou o Venerável 
Custodio, e seus súbditos em beneficio daqnelle Povo, sendo o maior a con- 
versão do Mameluco inflei Domingos Fernandes Calabar. 



125. Da Villa de Serenliaem, como fica dillo^ ^ co- 
meçou a fazer esta sua derrota o niizeravel Povo de 
Pernambuco a três de Julho do referido anno de 1635, 
e a doze do ditlo mez pelas onze horas do dia chegarão 
á Povoação de Porto Calvo. Na mesma se achava o Ini- 
migo Olandez fortificado com hum corpo de Gente, ser- 
vindo-lhe de caza forte a Igreja Matriz, com outras Es- 
tancias, guarnecidas de soldados, e petrechos de guerra. 
Era precizo aos nossos naõ passarem dali muy desvia- 
dos por ser o caminho a estrada que havia para os car- 
ros ; e assim rezolveo o General para melhor seguro do 
Comboy, e passagem do Povo que se retirava, fazer alto 
com a gente de guerra no outeyro de Amador Alvares, 
fronteiro, e a tiro de peça da Povoação, da qual foraõ 
logo vistos pelos Olandezes. Em duas emboscadas^ que 
armarão os nossos alli foraõ tomados dous homens, e 
hum tambor dos Inimigos. Por estes se soube, que ao 
mesmo tempo entrou taõbem na Povoação hum soccorro 
de duzentos Olandezes; e por seu Cabo Domingos Fer- 
nandes Calabar. Logo diremos, quem era este Calabar, 
que agora se lhe antepõem outro de melhor nome, como 
fiel, e verdadeyro Portuguez. Chama-se este Sebastião 
de Souto, Mancebo de brio,e valor. Achava-se entre os 
Inimigos, havia algum tempo^ e agora com elles em 
Porto Calvo, confiava o Inimigo nelle, c elle só se fiava 
dos Portuguezes, e como em outra occaziaõ, o fez taõ- 
bem nesta, vindo em a noite antecedente com cautella 
fallara Mathias de Albuquerque, dando-lhc parte, de 

* Memor. Diárias, ibi. 



107 

que o Olaudez se achava alll só com trezentos e cin- 
coeiUa homens, supposlo esperava a cada hora soccorro, 
que havia pedido. Chegou este no dia seguinte, como 
fica dilto ; e naõ sa!)endo Sebastião de Souto, que Ma- 
thias de Albuquerque fosse noticiado deste soccorro, 
como havia sido por aquelles dous homens que colherão 
as suas espias, determinou o mesmo Souto dar-lhe este 
avizo. Para isto pedio ao Governador Olandez hum ca- 
vailo, segurando-ihe, queria dar fé do poder dos Portu- 
guezes, ainda que fosse com perigo seo. Mandou-lhe o 
Governador dar o cavallo, e o Souto se chegou tanto as 
nossas sentinellas, que pareceo muito naõ oífenderem 
cilas com alguns tiros de arcabuz, que lhe fizeraõ. Aludo 
se expoz o seu animo só por lançar huà carta, em a qual 
avizava a Malhias de Albuquerque do novo soccorro, 
que havia chegado ao Inimigo, mas que confiasse, que 
elle os meteria em suas mãos. Assim como o promettia 
o executou; porque voltando aos Olandezes soube de tal 
sorte persuadir ao seo Governador a impossibilidade dos 
nossos para a defeza por poucos, mal ordenados, e en- 
fraquecidos dos caminhos, e que só vinhaõ a fazer alli 
huà apparencia para os divertir, de que intentassem al- 
guã facção os Olandezes contra a fraca multidão do 
Povo, que hiaõ conduzindo, e que elle se offerecia, a 
guialos de sorte, que se lhos entregasse todos. 

126. Persuadido o Cabo Olandez, que era Alexan- 
dre Picard, das razões do Soutto, no mesmo dia pelas 
quatro horas da tarde saliio elle próprio com duzentos 
soldados, aos quaes servindo o Soutto de Guia foi meter 
esta esquadra por aquella parte, em que estava de em- 
boscada o Capitão Rebellinho, passando-se ao mesmo 
tempo o Soutto para os nossos, que animados com este 
exemplo, e soccorridoslogo pelo General Mathiasde Al- 
buquerque, que vendo-os da emboscada mettidos na pe- 
leja, desceo do alto do oiteyro, e apertou o Inimigo de 
tal sorte, (jue se houve de retirar. Seguiraõ-no os nos- 



168 

SOS com tanto valor, e ouzadia, que ao pôr do Sol es- 
tavaò ílenlro da primeyra fortificação. Óefendirõ esta, 
cento e dez Soldados, e seis peças de artilharia. Assim 
como este, se renderão no diadesoilo outras d ias cazas 
fortes na mesma Povoação. Restava a principal, em que 
estava fortificado o mais resto do Prezidio, com o seo 
Governador, que vendo-se no dia seguinte desanove, 
impossibilitado para a rezistencia, capitulou a entrega. 
Em ajustar os partidos desta se gastou parte daquelle 
dia. Sobre Domingos l^ernandes Galabar foi toda a con- 
trovérsia; porque ambos os Generacs o queriaõ para 
sy; o Olandez em premio do que os havia servido con- 
tra os Porluguezes, o nosso para castigo da sua infide- 
lidade. Mas, prevalecendo em o nosso o empenho, e no 
Inimigo o aperto, naõ se quiz perder de todo a sy por 
Galabar, nem este eslava ja em tempo de querer, que 
nenhum se perdesse ; porque tocado de superior im- 
pulso, vendo as duvidas do ajuste entre os dous Gene- 
raes, ainda que da parte do Olandez naõ foy taõ forte a 
contuu)acia, a este disse o Cala bar — Naò repares. Se- 
nhor, * em accomodar-te pelo que a ruim loca ; porque 
eu naò quero perder a lioi^a, que Deos me quiz dar^ para 
salvar- me, que assim o espero da sua immensa bondade, 
e infinita misericórdia, — Gonsenlio o Olandez na en- 
trega do Galabar, e ajustou-se a dos mais. E porque 
esíe foi o principal motivo de fazermos esta digressão, 
deixando o mais, que naõ toca ao nosso intento, vamos 
a concluir cou) o que pertence ao Calabar. 

127. Foy este sugeito hum Mulato, ou Mameluco'de 
grande astúcia, e valor, ajudado de huã inclinação per- 
versa, e malévola. Era natural, e nascido em o mesmo 
Porto Galvo, aonde a este tenjpo tinha ainda Mãy, cha- 
mada Angela Alvares. No" principio sérvio aos nossos 
com esforço e ouzadia alhe o anuo de 1632 em que te- 

'* 3Vl€mor. Diar. Pag, 200. 



169 

oiendo ser castigado por alguns crinies atroces, que ha- 
via commelido^ se passou aos Olandezes. Estes o fizeraõ 
logo Capitão, depois Sargento Mor, e agora remeltido a 
Porto Calvo com o soccorro referido. Tudo soube bem 
merecer, pelo muito, que contra os seos naluraes, e a fé 
que devia ao Rey, e a Pátria, servia ao Inimigo. Todas 
as entradas, que haviao feito emcampanba os Olandezes 
pelos Rios, e portos, tomada de Tamaracá, Rio Grande 
e Paraíba, nas quaes receberão os nossos excessivos 
damnos, e estragos em fazendas, vidas, e honras, foraõ 
de seo conselho, servindo de guia, e ajudou com o braço, 
e €spada. Com a forca, os quartos pregados em quatro 
estacas, e a cabeça em o alto de hum páo, veyo a pagar 
todos estes desconcertos, e alli mesmo, donde para es- 
cândalo dos seos havia nascido. Mas, segundoas circuns- 
tancias, e modo com que se dispôz a levar aquelle tor- 
mento, epena, deixou aos que lhe assistirão grande con- 
fiança, de que por aquelle meyo o quiz Deos salvar. As- 
sim nota, e adverte Duarte de Albuquerque Coelho, que 
acompanhava aquelle Povo, e Moradores, que se retira- 
vaõ ; e ainda que se naõ achou prezente a este acto, es- 
tava muy perto, e o escreveo nas suas Memorias Diárias 
desta Guerra no dia vinte e dous de Julho do sobreditto 
anno de 1635, em que foy executada esta Sentença, e 
informado de tudo pelo mesmo General Mathias de Al- 
buquerque seu Irmaõ, que a deu, e mandou executar, e 
taõbem pelos mesmos Religiozos, que lhe assistirão a 
morte. E ainda que nas taes Memorias se naõ declara 
quaes foraõ estes Religiozos, com assistência dos quaes, 
mediante Deos, e o seu Divino auxilio se dispoz este Pa- 
decente para acabar assim, conforme, e ajustado a von- 
tade de Deos, na sua cerdidaõ, que ja aqui fica repe- 
tida, e impressa na primeyra parte diz o mesmo Gene- 
ral, que a passou, que os Religiozos, que se acharão 
com elle ditto General na tomada, e rendimento deste 
forte de Porto Calvo, que he o mesmo, em que Geou 

JABOATAM. PART, II. VOL. I. 22 



170 

prizionciroo Calabar, craõ os Rcligiozos de S. Francis- 
co, c naõ uienos do que coalro; saõ estas as palavras 
da certidão, — E vindo eii agora a dar no Forte, que o 
inimigo tem no Porto Calvo, e foi Deos servido o ren- 
desse em minha companhia se acharão quatro lieligio- 
zos da sobreditta Ordem, e fizeraõ o mesmo com muita 
inteireza, e charidade — Estes coatroReiigiozos eraõdo 
numero daqueiles trinta, que liiaõ com o seu Custodio 
Frey Gosme de S. Damião, e mais Povo seguindo o ca- 
minho das Alagoas ao lado da Povoação de Porto Calvo, 
subindo estes quatro com o General Mathias de Albu- 
querque^ e a sua Escuadra ao Oileiro de Amador Alva- 
res, como fica ditto, e dalli ao ataque do Forte de Porto 
Calvo, que era na mesma Povoação, como taõbem fica 
ditto, e tomado o qual, succedeo a entrega, e castigo do 
Calabar. 

128. O Aulhor do Valerozo Lucideno, * fallaudo deste 
cazo, diz, que o P. Fr. Manoel do Salvador, Religiozo de 
S. Paulo, que he o mesmo Autiior do tal livro, com o 
nome de — CallaUo — , fora o que assistira ao Cala- 
bar naquella hora, e que para esta acçaõ o mandara 
chamar ao Malto, onde eslava retirado, ou escondido 
com alguns Moradores, o General Mathias de Albuquer- 
que. Naõ pretendemos negar a sua verdade, porque 
tudo poderia ser, que com os nossos assistisse taõbem 
elle e assim ficava certo, dizer Duarte de Albuquerque, 
que escreveo esta noticia, e hia com aquelle Povo, que 
o Calabar acabara bem, quanto ao da sua alma, — con- 
forme affirmaraò os Religiozos, que o assistirão -^ Mas 
quem deixará de entender, que se esses Religiozos o 
affirmaraõ naõ podiaõ ser senaõ os nossos, que hindo 
com Duarte |de Albuquerque e os mais se apartarão 
delle, acompanharão a Mathias de Albuquerque á Po- 
voação de Porto Calvo, assistirão com elle á entrega do 

* Pag. 21. 



171 

Forte, e morle do Calabar, e voltando outra vez a acom- 
panhar o mais Povo, daríaõ esta noticia a Duarte de 
Albuquerque, e não o Padre Fr. Manoel do Salvador, 
que conforme o que elle mesmo escreve, e se colhe 
da sua narração, naõ vio, nem falluu nesta jornada 
com Duarte de Albuquerque. Diz mais o ditto Pa- 
dre, que para esta funçaô de assistir a morte do 
Mulato Calabar, o mandou Mathias de Albuquerque 
chamar ao Matlo aonde estava escondido com alguns 
Moradores; porque naõ era muito longe, mas sem- 
pre eraô sinquo legoas da Povoação^, como elle mes- 
mo diz em outra parte ^ ; porque assim lhe era 
necessário estar em tanta distancia^ e em Matla taõ 
inculta, que o naõ entendessem os Inimigos, c fi- 
casse difficultoza aos índios, que comsigo Iraziaõ os 
Olandezes a sua pesquiza. E se isto era assim, como o 
diz o mesmo Padre, quem naõ ve que mais difficultozo 
era, ou para o explicarmos em própria fraze, quem 
naõ adverte, a pouca, ou nenhuã necessidade, que ha- 
via de mandar sinquo legoas aos escondrigios do Matto 
buscar hum Religiozo para assistir a hum Padecente, 
havendo quatro no mesmo quartel do seu Suplicio? Para 
concluzaõ desta contrariedade de que o tal Religiozo, 
nem foi chamado, nem com os outros assislio aquellc 
acto, na própria narrativa das Memorias de Duarte de 
Albuquerque, achará o melhor fundamento : porque a 
ser elle só, devia p )r força, ainda quando lhe naõ ex- 
pressasse o nome dizer : — E conforme affirmou o Reli- 
giozo, que llie assislio ; — c naõ, os Beligiozos, que lhe 
assistirão. E se estes^ que lhe assistirão o affirmaraõ, e o 
naõ podiaõ affirmar, sem faltarem com Duarte de Albu- 
querque, que o escreve assim ; naõ falia ndo com elle o 
Padre Fr. Manoel do Salvador, como se pode ver do 
que o ditto Padre neste lugar escreve, bem se pode en- 

* Pag. 29. 



172 

tender, que de nenluiã sorte, nem por si, nem junta- 
mente com outros assistio ao prezente cazo, mas só 
aquelles Religiozos. 

129, E sendo assim como íica advertido, que o naõ 
pretendemos de propozilo negar, e só apontamos as ra- 
zões de duvida, que se podem oíferecer, e que naõ ob- 
stante ellas sempre o sobredilto Padre fosse o Ministro 
daquelle catliolico e piedozo aclo, muyto grande queixa 
podia ter elle de quem escreveo aquelias Memorias diá- 
rias, da pouca, ou nenhuma, que dellefez, naõ só nesta 
acçaõ, e assistência á morle do Calabar, tanto do ser- 
viço de Deos, como em outras taõbem nolaveis, obra- 
das pelo ditto Padre em beneficio do Povo, e Capitania 
da ditto Donatário Duarte de Albuquerque Coelho, Au- 
thor das taes Memorias, os quaes serviços, que taõbem 
diziaõ ordem ao Rey, relata o mesmo Padre em toda a 
obra do seu Valerozo Lucideno, desde a entrada dos 
Olandezes em Pernambuco, donde elle assistia no anno 
de 1630, athe o de 1646, em o qual se retirou para o 
Reyno. E que destes primeyros oito annos, que foraõ os 
mesmos, que em Pernambuco assistio taõbem o seo Do- 
natário, naõ faça nas suas Memorias, alguã dos grandes 
serviços do P. Fr, Manoel do Salvador, que especial- 
mente os mostrou neste passo do Calabar, como taõbem 
o havia mostrado ja antes ; e depois deste o foi conti- 
nuando desde que D. Luiz de Roxas chegou a Alagoa 
comosoccorro deCastella, e Portugal, e dali a Porto 
Calvo, tempo em que relata o Padre Callado, que estan- 
do no matto escondido com alguns Moradores, e lan- 
çando os Olandezes hum edital para que, com pena de 
morte, todo o Povo de Porto Calvo se retirasse para as 
Freguezias de Serenbaem athe a Varge de Pernambuco, 
elles o deixarão de fazer por conselho do ditto Padre, 
pois elle, (assim o escreve), tinha cabedaes, fazenda e 



475 

viole esinquo escravos, com que os sustentar, * e nido- 
ter a sua custa os queria defender, e que logo armara 
setteuta e sinquo Mancebos atrevidos, entre os quaes 
entravaõ dez Mulatos, e seis crioulos todos de clavinas, 
espadas, e rodelas^ e que com esta Esquadra de Solda- 
dos, sendo elle o capitão^ que ordenava, e alguãs vezes 
acompanhou taõbem, fizeraõ emboscadas, deraõ assal- 
tos, matarão, e prenderão mui tos Framengos, e que com 
vinte destes Soldados fora esperar ao caminho a D. 
Luiz de Roxas, que se achara na Batalha, em que foi 
morto este General, que carregara para o matto o seu 
corpo, e que por suas maòs lhe dera sepultura com ou- 
tras acções do seu cuidado, zelo, e dispêndio da sua fa- 
zenda. Dos quaes serviços lodos, vai elle dizendo, além 
de serem públicos, e notórios está qualiGcado tudo por 
instrumentos públicos, e Sumários de testemunhas, e 
por certidões autenticas dos que governavaõ o nosso 
exercito, o que tudo deve estar ja apprezentado a Sua 
Magestade, ou a seos Ministros, conclue o sobreditto 
Aulhor. 

130. E que obrando todas estas acções heróicas, e 
dignas de memoria, e achando-se a este mesmo tempo 
prezente, e na mesma Campanha, se naõ lembre nas 
que escrevco Duarte de Albuquerque de alguã delias, e 
que a elle mais que a outro algum diziaõ respeito, como 
a Donatário, e Senhor da terra? Ou se deve dizer, que 
foi ingratidão notável neste cavalheyro, ou o que? A 
conclusão, tire -a quem o entender melhor. Comprova- 
se, que naõ podia ser ingratidão, nem menos esqueci- 
mento do Author destas Memorias, naõ fazer alguâ do 
P. Fr. Manoel do Salvador, e dos seus grandes feitos, 
pois se naõ esqueceo nellas de outras de menos nota, 
como de muitas miudezas, que nellas relata, e neste 
mesmo tempo, e especialmente fallar três vezes em o 

• Pag. 27. 



17/i 

nosso Custodio Fr. Cosme de S. Damiaõ, e seos Filhos 
e Súbditos, a primeyra, que fora com elíe de Serenha- 
nliem atiie a Alagoa, como ja fica ditto, a segunda, que 
voltara outra vez com D. Luiz de Roxas * athe Porto 
Calvo, donde fora prezo este Padre pelos Olandezes, e 
a terceyra, que ao cabo de nove mezes fora mandado 
pelos mesmos Inimigos lançar na Capitania dos Illiéos 
das partes da Bahya. E se nestas Memorias se naõ ol- 
vida o seu grave e verídico Autlior de dar nellas todas 
as noticias, que de alguã sorte diziaõ respeito a guerra, 
que escrevia; ainda as de menos nota, como deixaria 
em olvido as do P. Fr Manoel do Salvador taõ impor- 
tantes, e necessárias ao mesmo assumpto, de que escre- 
via, e taõ notórias como o elle diz? Julgue-o quem me- 
lhor o entender, que nós himos a concluir com o mais, 
que sobre a conversão do Mulato Calabar> dizem as nos- 
sas Memorias, e se colhe das Diárias, e certidão do Ge- 
neral Mathias de Albuquerque. Esta diz, que foraõ qua- 
tro ; as Memorias affirmaõ que eraõ Religiozos, que he 
o mesmo, que dizer, eraõ mais de hum, e assim se naõ 
conformaõ com as do Padre Fr. Manoel do Salvador, 
pois escreve fora elle só o que lhe assistira, e por con- 
cluzaõ de tudo, que sendo quatro os Religiozos Meno- 
res, queestavaõ assistentes com o General Mathias de 
Albuquerque, e se achavaõ todos naquella funcçaõ, 
naõ só era escuzado, mas ainda parecia pouca politica 
em tal Pessoa, e menos altençaõ á aquelles Religiozos, 
mandar conduzir do matto, e dali sinquo legoas outro 
Ministro para confessor, e dispor para a morte a hum 
Justiçado. Finalmente dos apontamentos, que achamos 
para a vida do Venerável Custodio Fr. Cosme de S. 
Damiaõ se diz, que ao ditto Custodio, e seos fiihos. fi- 
cou devendo o Mulato Calabar cora a sua assistência 
lodo o bom termo da sua conversão. E nós accrescen- 

* Memor. Diar. Pag. 218 e 123 vers. 



175 

tamos, que quando desla cmpreza do Geueral Mathias 
de Albuquerque naõ rezultassem outros créditos á sua 
Pessoa, e armas de Pernambuco, para mayor gloria 
delias bastava-lhe só a desta conversão, e lucro espiri- 
tual daquella alma; Geasse ella devendo-a a este, ou 
aquelle, e fosse quem quer que fosse o seu Director; 
que por isso concluo o Author das suas Memorias, per- 
miltio o mesmo Deos estivesse o nosso General taõ fir- 
me em naõ concluir as condições da entrega com o Ini- 
migo, sem que fosse a primeyra a do Galabar. 

CAPlTUIiO xxirii. 



Do gue mais obrou o Venerável Custodio em companhia do Povo desde a 
Povoação de Porto Calvo athe a da Âlagoa do Sul. 



131. Com o bom successo assim da victoria conse- 
guida contra o Olandez, como a daquella alma tirada 
das garras do commum Inimigo, como piamente se pôde 
crer, e conseguidas ambas na Povoação de Porto Calvo ; 
que por este motivo, sem duvida, estando ainda Duarte 
de Albuquerque Coelho, Senhor e Donatário de Per- 
nambuco na Povoação da Alagoa residindo no anuo se- 
guinte de 1636, a doze de Abril, foi por elle creada em 
Villa com o nome de Bom Successo esta Povoação de 
Porto Calvo ; como taõbem no mesmo dia e anno e na 
mesma Povoação da Alagoa, com o titulo da Magda- 
lena foi creada esla em Villa, e taõbem a do Penedo * 
com o nome de S. Francisco. Assim o escreve elle mes- 
mo nas sobreditlas suas Memorias Diárias, dando a 
cada huã destas Villas seos termos e jurisdições, con- 
forme aos poderes e privilégios, que linha delRey para 
fazer as que lhe parece, diz elle mesmo. Daqui de Porto 

* Memor. Diar., Pag, 22o verso. 



176 

Calvo foy continuando a sua derrota o desterrado Povo, 
a quem acompanhava o Venerável Custodio, fazendo-se 
communs a todos os grandes trabalhos, e necessidades 
continuas em huã taõ prolongada viagem, que ainda a 
fazia muito mais custoza, e sentida a conjunção do tem- 
po por ser de inverno ; passagens de Rios caudalozos, e 
outros notáveis inconvenientes, que deixamos a piedoza 
coosideraçaõ dos que na lamentável transmigração 
deste affligido Povo se quizerem deter hum pouco. 
Porque, sem duvida, fallando só do sexo mais frá- 
gil, assiui como nos pôde admirar, conforme já no- 
tamos, o animo varonil, com que tantas Matronas, Se- 
nhoras, e livres se rezolveraõ a este desterro da Pá- 
tria, taõbem devem mover aos mesmos corações, por 
mais varonis, e fortes que sejaõ, a lastima ecompay- 
xaõ. Porque, vêr hum numero de Gente taõ excessivo 
de todas as idades, os tristes prantos dos Mininos, os 
suspiros das Mãys, o desamparo das Donzellas, descal- 
ças por lamas e agoas, passar os Rios com menos com- 
postura, por caminhos ásperos, dormindo sem agazalho 
por matos e bosques, donde viaõ sepultar huus, e nas- 
cer outros ; ja cançadas pelo descosiume, ja com sustos 
pelas vizinhanças dos Inimigos, ja faltas do necessá- 
rio, mortas a fome as mais desamparadas, e pobres, 
sem duvida, que assim como todas se lastimariaõ entre 
sy, devia em todos entaõ, e ainda hoje nos que consi- 
deradamente o recordamos, ser isto tudo cauza de huã 
grande e laslimoza compayxaõ. 

132. Como se hiaõ continuando as marchas e jor- 
nadas^ cresciaõ as angustias e mizerias, seudo a maior 
a falta de sustento ao commum dos pobres, e mais de- 
zamparados. Acudiaõ estes commummente aos Religio- 
zos, e em particular ao Venerável Custodio, huns pela 
experiência, c outros pela noticia, que corria da sua 
charidade e compayxaõ. Naõ tinhaõ os Religiozos o 
sufficiente para sy, e era-lhes necessário pedi lo taõbem; 



177 

e assim o andavaõ mendigando pelos mais ricos, e 
abastados para huns, e outros pobres. Com o alimento 
do corpo miuistravaõ laõbem o espiritual das almas ; e 
nisto fizeraõ aquelles Religiozos, e especialmente o 
seu Custodio muito maior serviço de Deos naquelle 
atribulado Povo. Saõ os traballjos, as mizerias e ne- 
cessidades, comroummente o maior abalo, que pôde ler 
huã alma christâ para se chegar a Deos; e tanto se 
fazem mais conformes com a sua Divina vontade, os 
que os padecem, quanto tem de maiores, e saõ mais 
communs os seos males; pois quanto mais locaõ estes 
a lodos, mais se chegaô elles para o mesmo Senhor, 
que lhos quer dar ou para seo castigo como recto 
Juiz, ou como Pay piedozo para a sua emenda. Desta 
houve huã notória demonstração do commum daquelle 
Povo ao loque de tantos males, e foi laõbem para todos 
o melhor e mais prompto antídoto o Venerável Gus- 
dodio; porque ao echo da sua fama, a luz da sua 
doutrina, e as vozes do seu exemplo se moviaõ todos 
a buscar nelle o remédio para aquillo, de que mais 
necessitavaõ. Eraõ continuas as confissões por aquelle 
dezerto. Alli se desterrarão muitos ódios antigos, e se 
compuzeraõ muitas consciências erradas. 

133. Foy laõbem grande motivo para a espiritual 
commoçaõ daquelle Povo a voz e fama que entre elle 
começou a correr, que o Padre Custodio de S. Fran- 
cisco via o interior das consciências, por alguns cazos, 
que com elle aconteciaõ por aquelles caminhos; por- 
que foi taõ grande nesta parte o zelo do Venerável 
Custodio para com os próximos, que para satisfação 
deste mostrou o Céo lhe era participado superiormente 
especial conhecimento do que se occultava em alguãs 
almas ; e por isso naõ só se exercitava a sua chari- 
dade, com aquellas, que se chega vaõ a elle, taõbem 
elle hia buscar a muitas das que tinha previzaõ viviaô 
mais descuidadas, e em maiores perigos. De alguns 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 23 



178 

cazos destes só repetiremos hum, ou outro sem ex- 
pressarmos os nomes dos seus sugeitos, cotno o acha-^ 
mos escripto, por naõ ser circunstancia esta neces- 
sária. 

13/i. Em huã occaziaõ, sendo ja entrada a noite 
tomando o Venerável Custodio outro Religiozo por com- 
panheiro, se foi á barraca de certo morador de Per- 
nambuco, pessoa alli das mais avultadas, e chaman- 
do-o a parte, lançado a seus pés, lhe rogava que para 
bem da sua alma dezistisse do máo intento, que linha ; 
porque além de ser huâ grande oíFensa de Deos^ o vi- 
nha a ser taõbem contra o próximo. Confuzo ficou o 
homem ; entendendo logo, o que podia ser ; pois na- 
quella mesma noite estava determinado a fazer hum 
execrando homicídio em notável detrimento da con- 
dução daquelle Povo, e paz entre os seos Gabos. Mas 
certo de que athe alli o naõ havia communicado, se 
mostrou de algufl sorte áspero e duro com o Padre; 
como arguindo-o da sua impertinência. Pois saiba, lhe 
disse o Padre, taõbem espirituamenlel severo ; que se 
executar o que intenta, poderá preparar-se para hum 
grande castigo da maõ do Deos ; e se retirou para a 
sua estancia. Muito mais turbado o deixou esta intima- 
ção do Padre, e formando comsigo mesmo hum largo 
discurso, veyo a concluir, que naõ podia deixar de ser 
obra superior aquelle avizo, o confirmando-se com isto 
mais na virtude do Padre, e boa opinião, que delle ou- 
via-se, deixou do seu intento, A poucos dias se encon- 
trarão ambos, c fallando-lhe o Padre com melhor agra- 
do lhe disse : — Ja sey, que lia obrado muylodifferente 
do que me respondeo, — palavras, que de lodo acabarão 
de mover aquella alma a buscar ao Servo de Deos, 
confessar-se com elle, c agradecer-lhe com a emenda, 
o avizo. 

135. O mesmolheaconteceo com outro de menos esfe- 
ra nesta mesma derrota ; o qual por suspeitas falsas, c 



179 

mal averiguadas estava resoluto a matar a mulher, com^ 
quem era cazado. Quasi ao mesmo tempo que o deter- 
minava executar, se achou atalhado com a prezeuça do 
Servo de Deos. Taes couzas lhe soube dizer, e com ra- 
zões taõ claras, e efficaces, que Geou o marido bem satis- 
feito, ea mulher, como innocenle, livre do perigo, e dali 
por diante em paz e socego. Divulgada, por estes, e 
outros semelhantes cazos a opinião, de que o Venerá- 
vel Custodio linha conhecimento interior das cons- 
ciências alheas, fugiaô de lhe apparecer os muy apega- 
dos aos seos vicios ; mas outros muitos o busca vaõ para 
os encaminhar, e dirigir ; e por isso eraõ laõbem conti- 
nuas as confissões por aquelles caminhos, e outras 
acções de boa christandade em o commum daquelle 
Povo, devido ao ardente zelo, c charidade inflammada 
do Venerável Custodio. 



CAPlVtJIiO HLXTIII. 



Chega o Venerável Custodio com os seus súbditos e mais Povo á Povoação da 
Álagoa, e do que alH obrou athe a chegada do General D. Luiz de Roxas, 



136. A dous de Agosto deste mesmo anno de 1635 
começou a entrar na Povoação da Alagôa do Sul o des- 
terrado Povo, e com elle os Religiozos, e o seo Custo- 
dio. Naõ tinhaõ ainda os nossos habitações; e deraõ 
ordem a hum Recolhimento de palha e ramagem donde 
assistirão alguns mezes, naõ todos, os que se haviaõ 
retirado ; porque os mais delles passarão logo para os 
Conventos das parles da Bahya, ficando só alli o Padre 
Custodio com o seo Secretario Fr. Joaõ Bautista, que 
depois foy laõbem Custodio, e alguns mais, que muitos 
naõ era possível accommodarem-se no lugar, tanto 
por falta de agazalhos, como pela do sustento, e o mais^^ 



180 

que dizia respeito á vida religioza. NaO deixavaõ com 
tudo os poucos, que ficarão, como escolhidos por hum 
tal Prelado, de o fazer multo exemplarmente no modo, 
que lhes era possível, dizeudo missa^ confessando, e as- 
sistindo a tanta multidão de gente, em particular aos po- 
bres, que eraõ os mais, assim em numero, como em as 
necessidades. Foraõ muitas, e grandes as que padeceo 
aquelle Povo, e a mayor a falta dos mantimentos com- 
muns da terra, porque ulém de outras circunstancias, 
a fazia estéril a multidão de gente, que lhe sobreveyo. 
Nisto teve bera, em que se exercitar a grande charida- 
de do Servo de Deos, vendo tanta mizeria, e sem haver 
com que lhe acudir, pois athe para os seos lhes faltava 
o necessário. Mas desse poico, que lhes davaõ de es- 
molla acudiaõ aos mais necessitados. Naõ satisfeita cora 
tudo a sua cbaridade mandava dos Súbditos, que lhe 
haviaõ ficado alguns pelos contornos, e arrebaldes a 
mendigar, e pedir, e ainda que tudo andava falto, e fa- 
minto, desse pouco, que se colhia, o repa rtiaõ confor- 
me a necessidade de cada hum. Andava o Venerável 
Custodio pelas Cabanas e Alvergues, a ver, e vizitar os 
enfermos, e oiitros, que por impossibilidade naõ podiaõ 
sahir delias, e a todos conforme a penúria do tempo 
deixava, se naõ satisfeitos de tudo, o que lhes era mis- 
ter, espiritualmente conformes, e consolados. 

137. Nestes disvélos de acudir ao mizeravel Povoem 
huãs, e outras necessidades, assim do corpo, como da 
alma, se hia cada vez apurando mais o ardente zelo do 
Servo de Deos, com outras demonstrações expressas do 
grande fogo, em que se acendia a sua charidade. Só 
dous cazos repetiremos aqui sobre este ponto, em os 
quaes bem se deixa ver lodo o referido, e acontecerão 
a este raesmo tempo, e cora os quaes se compro vaõ taõbem 
asprevizões do seu espirito. Vizitava hum dia o capitão 
Luiz Barbalho ao Servo de Deos em a Barraca, ou Ora- 
tório da sua assistência, e estando em pratica com elle. 



181 

chegou lumi soldado do dillocapilaõadar-lhe liuã carta. 
Naõ tinha conhecimento do tal homem o Venerável Cus- 
todio, mas emquanlo o capitão lia a caria, chama a parte 
aquelle homem, e depois dchiiã breve pratica, que tra- 
çou para o fira que pretendia, lhe disse : — He possível. 
Filho, que taò errado quereis andar ? Se tendes mulher 
própria, porque naõ deixaes, a que naõ he vossa? Tor- 
nai para a que Deos vos deu, e deixai a que o Demónio 
vos tem buscado; abri os olhos, attendei ao perigo da 
vossa alma, se naõ quereis experimentar de Deos o cas- 
tigo, que merece a vossa culpa, — Era este homem ca- 
zadoem a Villa/le Serenhanhem, e largando la sua pró- 
pria mulher, trazia outra em titulo de escrava. Foy esta 
advertência hum forle despertador para aquella alma ; 
porque atlendidas as circunstancias do cazo, que elle 
tinha por muito occulto, como só reservado para sy, 
com a opinião do Servo de Deos, e conhecendo, que o 
naõ podia elle saber naluralmenle, naõ achou escuzas, 
que lhe dar; e assim tornando a busca-lo no outro dia, 
com lagrimas de arrependimento, e temor da perdição 
de sua alma, se confessou com o mesmo Padre, e dei- 
xando aquelle caminho errado que hia seguindo, voltou 
a Pernambuco á sua caza. Alhe qui a noticia, e de crer 
he que dali por diante viviria mais ajustado. 

138. Neste mesmo oratório da Alagoa retirado ja alta 
noite, e posto em oração, foi taô vehemente, e extraor- 
dinário o influxodo seu espirito, que naõ podendo con- 
ter-se nos interiores da sua alma, rompeu em vozes, e 
suspiros. Assistia mais pegado ao seo retrete o Irmaõ 
Fr. Francisco do Bom Sucesso, outro Religiozo laôbem 
de boa nota e opinião, e cuidadozo de que fosse aquillo 
algum accidente, que houvesse dado em o Servo de Deos 
pela fraqueza, e debilitaçaõ corporal, em que continua- 
mente andava pelas suas mortificações, e penitencias, 
accendeo luz, e chegando a registrar o Retrete, yío, com 
huà grande suspensão da sua alma ao Venerável Custo- 



182 

dio, lavados os olhos em lagrimas, de joelhos, e elevado 
no ar em baslanle distancia da terra, e lodo alienado, 
e fora dos seos naluraes sentidos^ e deixando-o assim, 
se retirou. Dizia depois este Religiozo, que entre as vo- 
zes do Padre ainda percebera alguãs palavras, de quem 
como compadecido pedia a Deos pelos trabalhos emi- 
nentes daquelle Povo. E seria sem duvida, pelos que 
de próximo o ameaçarão, e lhe estavaõ por sobrevir na 
jornada, que daquelle lugar estava determinado a fazer 
o General D. Luiz de Roxas. Havia este tomado porto 
na Barra de Geraguá, distante três legoas da Povoação 
da Alagoa a vinte e oito de Novembro deste anno de 
1635^ e no ultimo de Dezembro se achava ja alojado na 
ditta Povoação, com aquelle taõ dezejado^ como mal 
succedido soccorro de Gaslella, e PortugaU que para a 
conquista de Pernambuco contra os Olandezes vinha 
destinado. 



CAMTlJIiO ILIlIX. 



Sahe da Alagoa o Venerável Custodio Fr. Cosme de S. Damiaõ em campa- 
panhia do General D. Luiz de Roxas, morto este, e vencidos os nossos, fica 
prizioneiro dos Olandezes o Servo de Deos. 



139. Havendo o Venerável Custodio Fr. Cosme de 
Saõ Damiaõ assistido na Alagoa sinquo mezes, e alguns 
dias mais, desde dons de Agosto do anno passado, *que 
alli chegarão athe seis de Janeyro do seguinte de 1636, 
neste dia, dando principio á sua marcha o General D. 
Luiz de Roxas e Borja para as partes de Pernambuco, 
o seguio, e acompanhou o Padre Custodio Fr. Cosme 
de S. Damiaõ, com o seo Secretario Fr. Joaõ Bautista, 
e outro Religiozo Sacerdote^ chamado Fr. Manoel das 

* Memor. Diárias, Pag. 212 vers. 



183 

Neves, A quinze do dítto mez de Janeyro chegou este 
exercito á Povoação de Porto Calvo, em busca do Ini- 
migo, que alli se dizia estava arranchado, com o seu Ge- 
neral Segismundo ; mas havendo-seja este retirado dali, 
receozo do encontro, e sahindo o nosso em seu segui- 
mento, chegou a desasette ao lugar, que chamaõ Mata 
Redonda, entendendo podia por alli tomar ao Inimigo 
pela retaguarda; mas encontrou-se com outro de maior 
corpo, o qual se compunha de mil e quinhentos Solda- 
dos, trazidos da fortaleza, que linhaõ na Paripoeyra, 
costa do mar, correspondente a Porto Calvo, guiados 
estes pelo seu Coronel Archichofle,evinhaò em soccor- 
ro de Segismundo, suppondo estar em Porto Calvo, cer- 
cado pelos nossos. Mas, tendo a noticia, que Segismun- 
do se havia retirado, e os nossos o seguiaõ, se foi em 
a nossa retaguarda, e nos alcançou ao dia seguinte de- 
sasette, e no outro, que foraõ desoito no mesmo lugar 
da Mata Redonda se deo a batalha, em a qual levando 
os nossos ao principio annuncios da victoria^ a fez in- 
fausta, e meteo nas maõs dos contrários o impulso in- 
fiel, e traidor, de huà bala que dando pelas costas do 
General, e Mestre de Campo D. Luiz de Roxas, esahin- 
do-lhe pelos peitos, o deitou do cavallo morto, aos nos- 
sos deixou vencidos, e entre os prizioneyros, entregue 
aos Inimigos o Venerável Custodio Fr. Cosme de S. Da- 
mião, com os dous Religiozos, que o acompanhavaõ. 
140. Com alguã variedade ainda que naõ em substan- 
cia, fallaõ nesta prizaõ do Venerável Custodio as nos- 
sas memorias; porque concordando todas, em que foi 
prezo, nenhuã declara o lugar, e o tempo ; e nem o 
Irmaõ Fr. Manoel das Neves, que com o mesmo Cus- 
todio foi prezo, fallando em outras circunstancias, ad- 
vertio nesta principal, em hum Assento, que deixou 
da sua letra. Nós seguimos as que deste cazo se achaõ 
impressas, e escriptas por Duarte de Albuquerque, e 



18/1 

diz assim : * — En este tiempa fue prezo el Padre Fray 
Cosme de S, Damian^ Custodio de los Descalços de San 
Francisco, que en compania dei Maesse de Campo Ge- 
neral le parecia iva seguro a visitar três cazas suyas, 
que estavan entre los Enimigos , una en la Parahiba y 
las dos en Pernambuco, Guaraçu y Pojuca. — E com 
isto nos tiro» a duvida assim das aiais, como da do 
mesmo Fr. Manoel das Neves, que he a seguinte da sua 
letra: — Alguãs vezes assisti no Arrayal de Pernam- 
buco, estando em guerra viva, entre os Soldados com 
algum trabalho. Depois disto vindo com o Custodio, 
que no tempo era Fr, Cosme de S. Damião, e seu com- 
panheiro, e Secretario Fr, Joaò B autista para aparte, 
donde assistia a nossa Infantaria, nos tomarão os Olan- 
dezes, na campanha, tratando-nos com grandes rigores, 
despindo-nos nús, ameaçando-nos de morte, tendo-nos 
perto de hum mez com Soldados de posta noite, e dia ; e 
depois disto enviando-nos para as fortalezas de Per- 
nambuco, adonde nos tiveraõ alguns dias, padecendo 
muy grandes fomes, e sedes; de donde depois nos en- 
viarão, e dividirão cada hum para a sua Náo de guer- 
ra, donde andamos sette mezes prizioneiros com os tra- 
balhos, que em tal prizaò se podem considerar ; depois 
sendo enviados a entregar aos seos Estados da Olanda 
para nos sentencearem ; para nos livrar -mos, e passar- 
mos outra vez a Portugal, padecemos grandíssimos tra- 
balhos, etc. 

I/4I. Prezo oVeneravel Custodio com os dous compa- 
nheiros, foy comelies mandado entregar ao General Si- 
gismundo,que da Barra grande, distante sinquolegoas de 
Porto Calvo, de donde saliira fugindo dos nossos, lia- 
via voltado á Villa de Serenbanliem, logo que soube da 
perda de D. Luiz de Roxis, e victoria dos seos, e aqui 
os tiveraõ por quazi um mez prezos, despidos, e com 

' Memor. Diar. Pag. 218. 



185 

guardas. De Sereuliaahem foraò reoiellidos prezos estes 
Religiozos, com o seu Custodio para as Fortalezas do 
ReciíFe á ordem dos do seu Gooselho. Neste leve o Ve- 
nerável Custodio, como cabeça dos mais, alguns votos 
para forca ; masassistindo naquella consulta InimdeHes 
de animo menos protervo, movido sem duvida por ou- 
tro maior impulso, foy de parecer, se commutasse a 
pena de morte em degredo, e determinarão todos fosse 
este para a Serra Leoa na Gosta de Guiné, donde li- 
nha mais certa a morte-, que os outros queriaõ, do 
que a vida, que aquelle lhe havia otorgado. Foraõ se- 
parados huns dos outros, e sendo os dous remeitidos á 
Olanda aos do seo Estado, o Venerável Custodio, em 
outra Náo, que sahia a pilhagem, partio nella a cum- 
prir o Ímpio, e cruel degredo. Mas, em o recto, e Su- 
premo conselho do Altíssimo^ em que outra couza esta- 
va decretada, assim se dispôs, que a Náo em sinquo, 
ou seis mezes que cursou, e deu volta aquelles mares, 
nunca lhe permiuiraô as suas correntes, e ventos con- 
trários tomar o porto, que buscavaõ, nem ainda dar 
vista de terra alguã da Costa de Africa, ou Guiné, no 
cabo da qual, que lhe fica ao Este, demora a chamada 
Serra Leoa. A estes contratempos dos mares sobrivie- 
raõ outros contra a saúde dos seus Navegantes. Foraõ 
tocados muitos dos Hereges pelo mal contagiozo da 
Costa, que dá na bocca e gengivas, e chamaõ de Loan- 
da. E como a verdadeyra charidade naõ faz distinção de 
Sugeitos; porque tudo o que he próximo, fica sendo 
termo proporcionado dos seos espaçozos âmbitos, naõ 
faltou ao Servo de Deos, em que se exercitar com os 
enfermos locados daquelle achaque. Naõ só lhes servia 
de Enfermeyro, applicando-lhes os remédios com suas 
maõs, e servindo -os com a sua Pessoa, e cuidado, taõ- 
bem o conhecerão Medico nus melhoras, que experi- 
mentavaõ. Daqui rezultou começarem taõbem elles a 
tratar ao Servo de Dcos com mais afabilidade, e me- 

lABOATAM. PART. II. TOL. I. 24 



186 

nos desprezos, e rigores, como uzaõ com lodos os ca- 
lliolicos, e especiulmeute Ecclesiasticos. Na melhora 
deste novo tratamento se adiantou sobre todos o capi- 
tão da Náo, que como homem de mais discurso, e ja 
no daquella viagem laô dilatada, linha formado algum 
bom da paciência, austeridade, e modo de viver do 
Servo de Deos, agora mais confirmado no seo conceito, 
taõbem lhe mostrava outro agrado. Ja lhe advertia tra- 
tasse melhor a sua Pessoa ; ja o brindava com alguã 
couza mais especial da sua meza, que acceitava, naõ 
sendo de carne, ou outra alguã bebida ; porque fora 
da pequena porção de agua, que lhe davaõ pro rata, e 
alguã pouca de farinha da terra, ou broa comraua, naõ 
gostou de outro sustento, ou bebida em toda aquella 
jornada. Nunca teve nellacama, nem para o descanço do 
corpo a buscou ; porque para tomar algum pequeno re- 
pouzo por noite o fazia recostado a qualquer reparo, 
que se oíFerecia, levando o mais tempo em os seus cus- 
tumados exercícios de rezas, e oraçaõ no modo, que lhe 
era possível ; e da mesma sorte se deixa ver, que só 
por Providencia Divina se poderia ter em pé hum corpo 
laõ macerado, e attricto de fomes, sedes, nudez, e tra- 
balhos, e que só por milagre se poderia conservar huã 
vida laõ penitente, e maltratada, assim a impulsos do 
seo próprio espirito, como do ódio, e furor de huns taes 
inimigos, e contrários. 

142. Ao mesmo tempo, que estes melhoravaõ do 
achaque da Gosta, se achou tocado delle o Servo de 
Deos, e se assim como foi dos últimos, houvera sido o 
primeyro, sem duvida, que á violência do achaque, o 
dezamparo, e falta dos remédios, e de quem lhos mi- 
nistrasse, ou correria perigo a sua vida, ou seria muy 
vagaroza a sua cura ; mas, para esta, e o seu tratamen- 
to achou ja nos mesmos inimigos algum cuidado ; ao 
menos por retribuição, do que pelo mesmo mal haviaô 
recebido do Venerável Padre. Assim com esta carga de 



187 

moléstias, eoccorrencia de trabalhos, qiic sempre saã 
especiaes toques da maõ de Deos, ou particulares mi- 
mos, que elle tem de rezerva para os seos escolhidos, 
sem permittir soçobrasse com elle o espirito do seo 
Servo, o hia o Senhor apurando, e puliudo cada vez 
mais. Alguns sette mezeshiaõ correndo depois, que sa- 
hiraõ do Reciffe, sem poderem tomar porto naquella 
costa, e vendo que se hiaõ consumindo os mantimentos, 
e o mal de todo os naõ deixava, rezo! veraõ voltar a Per- 
nambuco, e o conseguirão com huã viagem muito pros- 
pera 



CAPITlIIiO ULTILIL. 



Chega o Venerável Custodio do seo degredo a Pernambuco c he mandado lan- 
çar pelos inimigos nas Praias da Bahia, 



143. Logo que no Reciffe tomou porto este Navio, fo- 
raõ os seos Cabos dar parle aos do Governo do que na 
viagem lhes havia acontecido, e especialmente com este 
Degradado ;'de sorte que os do Conselho o mandarão hir a 
suaprezença, eo que delia rezultou foi, dizerem-lhe, que 
davaõ por cumprido o seo degredo, e que brevemente 
o mandariaõ lançar entre os seos, e assim o executarão 
mandando-o lançar nas Prayas da Itapoã, distante sin- 
quo legoas da Cidade da Bahya. 

144. Sobre o mez, e anuo em que foi a soltura do 
Venerável Custodio naõ ha certeza. As nossas Memarias 
dizem, que quem o mandou restituir á Bahya fora o 
Conde de Nassau Joaõ Mauricio. Mas este naõ podia ser; 
porque o Conde chegou a Pernambuco, como dizem os 
que delle escrevem, especialmente Barleo nas Guerras 
do Brasil, a vinte e três de Janeyro do anno de 1637, 
e neste mesmo anuo c dia do mez, tivemos acazo o en- 



188 

coutro do achar no cartório da Gamarn lícclesiaslica 
desta Cidade daBaliya luiã certidão anlenlica assignada 
pelo Venerável Custodio nas Inquirições de Genere do 
Ordenando Domingos Yarèlla de Moura, na qual attes- 
lava o Padre Custodio, que o sobreditto ordenando que 
havia sido antes Noviço nesta Custodia, deixara o ha- 
bito Religiozo por sua livre vontade e naõ porque fosse 
expulso, ou lançado fora por crime algum, ou nota con- 
tra a limpeza do seo sangue, justificada esta certidão 
pelo Licenciado Francisco da Silva, coadjutor da Sé, e 
Escrivão da Camera, e pelo Doutor Joaõ do Couto Bar- 
boza, Dezembargador da Relação do Porto, Ouvidor 
Geral com alçada na Bahya. E assim, sendo este dia 
vinte e três de Janeyro de 1637, em que na Bahya se 
achava ja restituído do seo degredo, o mesmo em que a 
Pernambuco chegou de Olanda o Conde Joaõ Maurício» 
naõ podia ser este, o que o mandasse lançar na Bahya, 
e lhe desse a liberdade. Por este fundamento e os mais, 
que se seguem assentamos foi esta sem duvida pelos 
flns do anno antecedente de 1636 de vinte e setle de No- 
vembro athe o ultimo de Dezembro deste mesmo anno. 
Naõ só porque entaõ faziaõ os nove para dez mezes, com 
pouca differença, que dizem as nossas Memorias, que 
andou desterrado, depois de prezo; como taõbem, por- 
que assignando as Diárias os dias certos do que acon- 
teceo neste sobreditto anno de 1636 athe vinte e settc 
de Novembro, daqui por diante naõ assigna dia para os 
acontecimentos, e diz assim, entre os que escrevessem 
dia certo, fallando deste Religiozo : — ^ Tambien dexã- 
ron alli, (logo diremos aonde,) ai Padre Fray Cosme 
de S» Damian, Custodio de los Descalços de S. Fran- 
cisco. — Evidencia de que de vinte e sette de Novembro 
athe o fim do anno de 1636, foi a restituição do Venerá- 
vel Custodio. 



* Iferoor. Dior. Pag. IIS rert. 



189 

145. O lugar, em que foi lançado, diz o mesmo Au- 
thor, foi nas partes dos Ilheos, junlo com outros Cabos 
Porluguezes, * a quem deraõ liberdade nesta mesma 
occaziaõ, dizendo assim : — El Inimigo llevó a los Ca- 
pitanes D. José de Sotto Ponce Leon, e Gomes de Abreu ^ 
y ai Sargento Maior Pedro Corrêa da Gama a los Isléos, 
vinte y sinco legoas ai sur de la Baliya ; tambien dexa- 
ron alli a Fray Cosme de S, Damian, etc. Nem fuça du- 
vida dizerem estas Diárias, que o Inimigo lançou o P. 
Custodio nos llliéos, e afflrmarem as nossas, que foi na 
Itapoan, junlo á Bahya, porque tudo podia ser, bir com 
os mais aps llhéos, e lançar em hum porto aos cabos, e 
dizer-lhes hiaò lançar ao Padre em outro, e darem com 
elle na Praya da Itapoan, por naõ faltarem os do Con- 
selho a sua palavra, de que o haviaõ restituir aos seos 
Frades, que os naõ havia nos llhéos, e seria dar-lhe 
outro degredo ; e nesta suppoziçaõ, tornando dahi a 
tempos aquelles cabos a Pernambuco, assim dariaõesta 
noticia a Duarte de Albuquerque; suppondo lançariaõ 
ao Religiozo em outro porto dos mesmos llhéos; por- 
que a naõ ser assim, e vindo dos llhéos para a Bahya 
o Padre Custodio em alguã Embarcação Porlugueza, 
o lançaria esta no porto da Cidade, e naõ nas Prayas 
da Itapoan, donde he certo foy lançado, e só o podia 
ser pelos Inimigos, como foi sempre constante entre os 
Religiozos. 

CAPlTUIiO XHLXI. 

Do que mais obrou na Custodia o servo deDeos Fr. Cosme de 5. Damião de- 
pois de restituído a tila. 

Ii6. No mesmo dia em que o lançarão era terra os 
Inimigos, chegou ao Convento o Venerável Custodio, e 
foy nelle recebido de todos os seos Súbditos com aquel- 
las demonstrações de gosto, e rendimento, que se llje 

* Ubiiupra. 



t90 

deviaõ, como a hum tal Prelado, e Superior, que era 
obedecido sem violência pelo benigno, e affavel, que 
mostrava a todos, amado, como hum Irmaõ, e atlenili- 
do, como virtuozo. Gomo a tal lhe entregou logo o go- 
verno da Custodia o Irmaõ Fr. Manoel Bautistade Óbi- 
dos, a quem os Padres da Meza da Diffiniçaõ haviaò 
substituído em seu lugar, supposla a morte, ou dester- 
ro do Venerável Custodio, e naô haver noticia do fim, 
que lhe haviaõ dado os Inimigos. Havia sido Fr. Ma- 
noel Bautista de Óbidos, como ja notamos, Guardião 
da Bahya, eleyto pelo mesmo Custodio Fr, Gosme, na- 
quella Junta, que fez das partes de Pernambuco, e con- 
vento de Pojuca, depois de passado anno e meyo do seu 
Capitulo, pela razaõ, que taõbem fica declarada, e sendo 
Guardião, foy posto outro em seo lugar, e elle subro- 
gado em Diffinidor peloraesmoGustodio em outra Junta, 
e em falta deste» posto em seu lugar, de que agora fez 
dezistencia, e entrega ao Venerável Custodio. Este o foi 
continuando com os mesmos acertos, com que o havia 
antes exercido, sendo huã das primeyras acções desta 
vez, em junta particular por novos Prelados em alguàs 
cazas por haverem completado jaós três aunos de Guar- 
diães, e naõ haver chegado á Custodia novo Prelado 
mayor, e assim o foi mais de dous annos ao diante 
elle athe o mez de Junho de 1639, em o qual a 
vinte e três chegou á Bahya, depois de varias es- 
calas, feitas ás partes do Rio de Janeyro. Foy todo 
o tempo, que exerceo o Venerável Custodio este 
cargoalgunsseisannoscom pouca differença. Naõ cons- 
ta, que depois de restituído á Custodia deste seo de- 
gredo, discorresse por toda ella em vizita, por evitar 
os perigos, e se naõ expor a outros semelhantes ; por- 
que a Pernambuco, ainda que por terra o podia fazer, 
estava ja a este tempo toda a Campanha na posse dos 
Olandezes; e para o Sul e Rio de Janeyro, naõ poden- 
do ser, senaõ por mar, andavaõ estes, e todas as suas 



191 

costas continuamenlo infestadas^ e batidas dasNáos iui- 
migas. Mas nos conventos das partes da Baliya, uaõ 
faltou a esta obrigação, com aquellas mesmas penções, 
e detrimento da própria Pessoa, laõ enfraquecida, c ate- 
nuada com as asperezas de taõ longos caminhos, e as 
grandes moléstias, e trabalhos do seo desterro, além 
das mortificações, e penalidades corporaes, applicadas a 
medida do vigorozo do seo espirito ; pois sem afrouxar 
neste, foy continuando aquellas mesmas operações, em 
que antes se exercitava, quando mais robusto. Assim 
concluio agora o emprego de Custodio, e daqui athe o 
anno de 1653 naõ achamos tivesse mais outro algum, 
de que o de Prezidir, sendo Viziíador Geral, nomeado 
pelo Rmõ Fr, Pedro Manero, Ministro de toda a Ordem, 
no Capitulo de qualorze de Septerabrodo referido anno, 
o segundo, que celebrou esta Custodia, ja separada, ou 
independente da Província de Portugal. 

147. Por huma certidão assignada da própria letra 
do Servo de Deos,emseis de Julho de 1657, e antes 
do Capitulo seguinte deste mesmo anno celebrado em 
vinte e seis de Agosto, consta fizera este Venerável Pa- 
dre renuncia de todo o direito^ que linha, como Padre 
mais digno da Custodia para entrar nelle por Yogal. As 
cauzas que allegava para eíTeilo dcj o haverem por escu- 
zado, constaõda mesma cerlidaõ, ou renuncia, que aqui 
se traslada^ porque além do que fica dillo, nella achamos 
taõbem ao certo o dia, mes, e anno do seo nascimento ; 
diz assim; — Fr, Cosme deS. Damiaõ, Custodio^ que 
fui desta Santa Província, antes de ella o ser, certifico 
in Verbo Sacerdotis, que eu tenho de idade oitenta e 
ires annos, que se faráõ em desoito dias de Novembro, 
próximo vindouro ; Certifico mais, que eu sou surdo, e 
cego, e que digo missa com muito trabalho, descompo- 
ziçaõ, e indecencia ; falto de memoria, e entendimento, 
€ finalmente totalmente decrépito : Peço humildemente 
aos Padres Visitador, Provincial^ e Diffinidores, que 



i92 

visto as impotencias assima me escuzem de entrar nó 
Capitulo, que ora com o favor de Deos se espera cele- 
brar, e de ter voto nelle, sendo Vogal ; e se alguã per- 
tenção nisto podia ter^ por este prezente a renuncio^ 
quanto em direito posso. Neste Convento de N. P. S. 
Francisco da Bahya em seis de Julho de mil seiscentos 
e cinquoenta e setteannos, 

Fr. Cosme de S. Damião. 

Entendemos naõ foi acceila pelos padres da Diffínlçaõ 
esta renuncia, pois se acha no livro antigo dos actos 
capitulares, que feita a eleyçaõ de Custodio no Padre Fr. 
Panlaleaõ Bautista, que havia hldo a Roma sobre a 
cauza da separação, e vindo de lá nomeado Vizltador, e 
Prezideute deste Capitulo, com aulhoridade Apostólica, 
e letras do P. Geral Fr. Pedro Manero, e faculdade ou 
dispensa para que sendo Prezidente do tat Capitulo pu- 
desse ser eleyto em Prelado mayor, ou Custodio, como 
succedeo, foi confirmada esta eleyçaõ pelo Servo de Deos 
Fr. Cosme de S. Damião, como Padre mais digno da Cus- 
todia. Neste anno sobreditto de 1657, faziaõ desoito com 
pouca diíferença, que havia concluído o Servo de Deos o 
de Prelado mayor desta Custodia, e foraõ estes annos com 
os dous, que viveo ainda depois deste Capitulo, todo o 
tempo que o seo espirito desafogado das penções, e tra- 
balhos, que padeceo em todos os do seo governo, desde 
que entrou de Guardião a primeyra vez athe Custodio 
pelo fim, pôde com mais descanço da sua alma applicar- 
sede todo aos seos espirituaes, e Religiozos empregos. 



195 

í)a sua humildade, e paciência ; zelo da honra de Deos, e salvação d(is almas. 

1Z|8. Bem conlieceo era a himiildade o principio, e 
fundamento de todas as virtudes, *quem disse, era ella 
a May de todas ; porque lie certo se uaõ podem susten- 
tar as boas obras sem os alentos da humildade. He esta 
como a corrente, c saõ aquellas como as flores ; aquel- 
las parecidas ás luzes, cestas semelhantes ao sol; se 
morre o sol espiraõ as luzes, se acaba a corrente des- 
mayaõ as flores ; estas porque na suspensão das agoas 
lhes faltaõ as forças para rezislir ao ardor do Estio ; 
aquellas, porque na auzencia do Planeta se achaõ sem 
vigor para triunfar das sombras. Assim taõbem se fal- 
lece a humildade, espiraõ as virtudes, porque morrem 
como flores desflguradas a Ímpetos da vaidade, e des- 
luslraõ-se como luzes ao obscuro da tentação. Taõ im- 
pressa trouxe sempre na memoria o Servo de Deos Fr. 
Cosme de S. Damião esta verdade, que em lodo o edi- 
fício das suas operações virluozas, e boas obras sempre 
lhe lançou por alicerce solido o profundo abatimento de 
sy mesmo. 

149. Sendo certa esta máxima em todo o estado, no 
de Religiozo he absolutamente preciza ; porque sem a 
virtude da humildade, naõha Religiozo perfeito, nem se 
podem cabalmente dezempenhar as obrigações do esta- 
do. Em lodo, o que teve na Religião o Servo de Deos, 
ou fosse de Noviço, Sacerdote, Súbdito, ou Prelado, foi 
o seo mayor desvelo chegar ao mais fundo desta admirá- 
vel, e principal virtude. Era todos os sobredittos em- 
pregos, sempre que lhe foi opportuuo para desvanecer, 
e obviar algum jacto de vangloria, que por esta, ou 
aquella acçaõ do seu proceder, em beneficio do próximo 

* S. Gregor. Mor. 27. 

/ABOATAM. PART. II. VOL. I. 25 



194 

lhe queriaô contribuir os agradecidos, a todos reba- 
tia com o forte escudo daquellas humildes e discre- 
tas razões^ que ja em outro lugar ficaõ referidas: — 
Quem sou eu? E eu quem sou? Sou hum pó da 
terra muito vil, e muito abatido. Eu sou hum guzano 
muito pequeno com espirito de vivente ; e muito melhor 
direi, que sou nada ; pois nada sou na consideração do 
meu ser? — Cora este forte e largo escudo de vcrdadey- 
ro humilde, embaraçado na sua alma com os duros cor- 
déis dehuã paciência invicta, com que se soube portar 
em todos os trabalhos da sua vida, que foi toda huã oflíi- 
cina da paciência mais apurada, como podem notar os 
que com attenta reflexão a lerem, soube receber em Súb- 
dito opprobrios de particulares, sem queixas das oíTen- 
sas, pôde cubrir em Prelado menos preços tios Súbdi- 
tos sem satisfação das calumnias; e como virtuozo sus- 
tentou acclamaçòes universaes, sem que da mundana 
vangloria lhe pudesse locar o minimo átomo, ou mais 
leve sopro. E como acertou a lançar as suas virtudes 
taõ sólidos fundamentos como os da Religioza humildadev 
e Sanla paciência, naõ podia deixar de crescer muito 
diante de Deos, e subir ao mais alto na estimação do 
mundo as suas virtudes, e fazerem-se publicas aos olhos 
do todos as suas boas obras. 

150. í''óra daquellas^ que como crealura reconhecida 
a Deos executava pelo que dizia ordem a sy, e ao seu 
estado, todas as mais se dirigirão, e encaminharão sem- 
pre ao bem do próximo, zelo da Religião Galholica, 
credito, e honra do mesmo Senhor, Naõ apontamos ca- 
zos particulares, tanto por naõ amontoarmos a escripta, 
como porque, além de que alguns ja ficaõ referidos em 
seos próprios lugares, quem com atteuçaõ reflectir no 
largo discurso da sua vida, achará, que naõ pôz pé, que 
naõ fosse com reparos de humildade; naõ deixou pega- 
da, em que naõ imprimisse fundos de paciência, naõ 
deu passo, que se naõ dirigisse para edificação das ai- 



195 

mas, nem moveo acçaõ, que se iiaõ encaminhasse para 
gloria de Deos. Com taõ sólidos, e avançados funda- 
mentos, como os destas duas virtudes, humildade e 
paciência, naõ podia deixar de crescer em todas as mais 
o Servo de Deos^ como além do que fica notado iremos 
vendo nos capítulos seguintes. 



CAFITtlIiO IILX.11^111, 



Da virtude da Oraçaõ do Servo de Deos, e da sua grande conformidade 
em alguns trabalhos, e securas do seu espirito. 



151. Das Eslrellas as que mais se avizinhaô ao sol, 
saõ as que participaõ mais das suasluzes. Aonde he mais 
intima, e chegada a uuiaõ, ahi saõ mais intensos^ e se 
participaõ melhor ósseos effeitos. Nas almas justas, Es- 
lrellas fixas do firmamento da Igreja, como era huã des- 
tas o Servo de Deos Fr. Cosme de S. Damiaõ, he a ora- 
çaõ a via láctea por donde se chegaõ, e unem mais ao 
Divino Sol, e pela qual participaõ suave, e abundante- 
mente dos seos Superiores^ e Divinos influxos. E sendo 
o Servo de Deos Fr. Cosme de S. Damiaõ taõ particu- 
larizado nos mimos do Céo, naõ tem duvida, que como 
Astro luminozo deste Seráfico Orbe tivesse por empre- 
go o avizinhar-se mais que todas as suas mysticas Es« 
irellas aos illuminantes rayos do Divino Sol. A toda a 
hora, e a todo o tempo parecia absorto na contempla- 
ção daquelle enextinguivel Luzeyro. Os seos resplendo- 
res, ou as suas perfeições enefaveis, eraõ successivo 
objecto deste ardente, e aífectuozo espirito. Ainda que 
as vizitas, falias, e outras acções necessárias tivessem o 
exercício, que lhe dispensou a natureza, e lhe era pre- 
cizo satisfazer emquanto creatura, ou por politica, ou 
por officlo, ou por obediência, nada disto lhe occupavaj,. 



196 

ou divertia as do enteiidimenlo, occupado sempre no 
coíiimercio da graça. Foyo Servo de Deos hum pasmo 
nesta Angélica applicaçaõ, porque neniiuni acontecimen- 
to da Babilónia do mundo o divertia das lembranças da 
Celeste Sion. 

152. Além deste arrebatamento, ou abstraçaõ con- 
tinua, com que era admirado dos que o viaõ, foi a ora- 
ção o seu mais commum e especial exercício^ gastando 
nella a maior parte das noites, e muitas horas nos dias. 
Nella, assim como foraõ superabundantes as consola- 
ções internas, que sentia^ n? õ deixarão de ser muitas, 
e rigorozas as secaras, que por alguns tempos chegou a 
padecer o seu espirito. Sobre estas trasladamos, o que 
nos apontamentos para a sua vida está escripto; e diz 
o seu Author, de quem outras vezes temos fallado, o 
ouvio assim ao P.Fr. Jacome da Purificação, confessor, 
que foi do Servo de Deos; diz elle : — Neste par íicu-' 
lar pode ser boa testemunlia o Padre Fr. Jacome da Pu- 
rificação^ de quem fomos súbditos muitas vezes ^ e a quem 
servimos de Enfermeyro na sua ultima doença. Fatian- 
do pois este Religioso das securas interiores do nosso Vene- 
rável Padre FreiCosmede S. Damiaò, em huã lhe ouvi di- 
zer estas razões. Quando demenhã entrava naCella do Pa- 
dre Fr, Cosme^ por muitas vezes o achei taõ prostrado, 
e quebrantado com as afflições, securas, c desamparos, 
que havia padecido, que me parecia hum moribundo em 
os últimos paroxismos, e taõ transportado, e desfigura- 
do estava, que para defunto lhe naõ faltava mais que ter 
o pulso perdido, e só este era o signal, quedava de vivo, 
e era tanta a sua humildade, e cuidado em occultar es- 
tas singulares a/flições, que nunca quiz lhe devêssemos 
a noticia da cauza porque isto padecia. Porém, o que eu, 
e todos os ReligiozGs, que o conhecíamos, eternamente 
confessaremos, he, a. valente resignação, e conformidade, 
que tinha com estas penas, securas e affições ; e o satisfeito, 
que estava com ellas ; pois lhe naÕ concedia o mais ligeiro 



197 

alivio i nem ainda com o desafogo de hum leve suspiro. — 
Qiiasi o mesmo, equem próprios dizia sobre este ponto, 
(affirma o Aullior da referida memoria,) O Jrmaò Fr. 
Francisco de S, Clara, que taõ bem foi confessor do Vene- 
rável Servo de Deos, e seo companheiro, e vizinho da cella, e 
ambos esíes Beligiozas confessores seos, taõbem de virtude^ 
o qual Fr, Francisco entrando muitas vezes a vê-lo deme- 
nhã o achava, corno em agonias de morte, — 

153. A. eslas accresceraõ outras sobre temores de que 
naõ fosse esta amargoza secura, ou espiritual solidão em 
castigo do seo pouco aproveitamento diante de Deos, 
(receio que seujpre combale os espíritos anciozos de 
voar a altura da perfeição,^ e ainda que ao principio 
lhe cauzava este racional escrúpulo alguã turbação in- 
terior á sua alma, como esta estava prevenida com a 
graça de Deos, que a punha nesta forja^ para depois 
de melhor apurada a illuslrar mais, como pratica com 
os seos escolhidos este Senhor, sonhe o seo Servo levar 
com a conformidade devida á sua Divina vontade o pe- 
nozo deste trabalho, e fiizer-se merecedor dos celes- 
liaes, e superabundantes eflúvios, a que o dispunha. 
Assim o deu elle a conhecer pelo discurso do tempo, 
porque ainda que em maneira alguã o manifestou de 
bocca, comtudo no sereno, e alegre do homem exterior 
dava bem a entender as illuslrações, e illapsos Superio- 
res, que daquelle manancial perenne de luzes da Divina 
face reverberavaõ na sua alma, e lhe alumiavaõ o ho~ 
mem interior. 

154. Taõbem o inimigo commum com as suas cos- 
tumadas travessuras cuidou sempre em perturbar o Ser- 
vo de Deos do exercício da Santa oração, ja com varias 
distrações, que para isto sabe armar, ja chegando a tanto 
a sua raiva, que vendo sem eíTeito os seos estratagemas, 
se quiz taõbem despicar por obras, querendo-lhe suíFo- 
car, se naõ a vida, porque lhe faltava a licença, ao me- 
nos o espirito, para o que teria permissão, com lium 



198 

arroxo qiie lhe deo pela garganta, com a violência da 
qual cahio por terra. Foy o choro a palestra deste desafio. 
Achava -se alli outro Ueligiozo taòbem em oração, e ou- 
vindo o estrondo da queda acudio ao lugar suspeitando 
a cauza, e achou o servo de Dcos todo trespassado, e 
fora de sy ; e por inais que elle tornando a seu acor- 
do intentou persuadir ao outro fora certo accidenle 
aquelle acazo, elle por alguãsexperiencias^ que ja tinha, 
e reparando demeuhã para o Servo de Deos, vendo-lhe 
pelo pescoço huns signaes, como pizaduras, se veyo a 
confirmar no seu pensamento. Outros semelhantes ata- 
ques assim antes, como depois deste foi vulgar entre os 
Religiozos dos conventos em que assistia o Servo de 
Deos, tivera elle muitas vezes com este tyranno^ e per- 
seguidor das ahnas Justas ; pois estando em oração va- 
rias vezes seouviraõ estrondos, e outros motins na Igre- 
ja, ordenado tudo, ja que naõ podia mais, a infundir- 
Ihe pavor externo, ou ao menos perturba-lo no interior 
do espirito, e continuou esta guerra alhe os últimos da 
vida, como se colhe, e confirma tudo pelo depoimento, 
que depois de sua morte deu o Irmaõ Ghorista Fr. Fran- 
cisco de S. António, que foi seu Enfermeiro na ultima 
doença, e vai incluso no Processo adiante. 



CAPITtlIiO XXXIV. 

De alguns cazos^ em que mostrou a Providencia do ÂltissimOt que o seo 
Servo tinha participadas as graças de curar Enfermos, conhecer interio- 
res, e prevenir futuros. 



155. Estas graças dispensa o Altíssimo, a quem se- 
gundo os seos inexcrutaveis juizos mais lhe parece, e he 
do seo agrado; e sendo todas ellas dons gratuitos, saõ 
daquelles^que Sua Divina Magestade tem reservado para 
sy nos thesouros inexhauriveis da sua imcomparavel Sa- 



199 

bedoria, e poder infinito. Entre os que merecerão a 
este Senhor huã coramunicaçaõ muy particular destes 
Gelestiaes favores, foi hum o seo Servo o Venerável Fr. 
Gosme de S. Damião. Da virtude miraculoza nas curas 
de varias enfermidades, servirão de provas evidentes as 
muitas Pessoas de todos os Estados, que de achaques, 
assim antigos, como adventicios, recorrendo a elle, se 
acharão ao mesmo tempo livres. Naõ referimos todos 
por evitar alguã repetição; e só o faremos dos mais no- 
táveis, e de que naõ pôde rezultar duvida o terem cir- 
cunstancias evidentes de miraculozos. 

156. O Padre Fr. Álvaro de S. Maria, Religiozo as- 
sistente no Convento de Paraguaçú, donde falleceopelo 
rnez deFevereyro de 1663, sendo ja de idade avançada, 
entre achaques vários, que padecia, era o de maior mo- 
léstia hum defluxo asmático, que por muitas occaziões o 
chegava a pôr em perigo de vida, soffocando-Ihe com 
vehemente anciã o peito, especialmente se se desmazia- 
va na bebida de agoa fria. Por huã vez, que excedeo a 
quantidade desta, e estava prezenteo Servo de Deos, di- 
zendo ao Enfermo, que temia o Ímpeto do achaque na- 
quella noite, lhe tornou o Servo de Deos : Naõ quer dei- 
xar a agoa, Irmaõ Fr. Álvaro, e entaõ queixa-se, que 
vem a noite! Prometia naõ beber tanta agoa, que eu da 
parte de Deos lhe prometto taõbem, que descançará e 
dormirá de noite. Assim se comprometteraõ, e recolhi- 
do á sua cellao Enfermo, passou a noite socegado,esem 
que a moléstia o accoramettesse, como nas mais, que as 
passava sentado com notável perigo, e resguarda ndo-se 
dali em diante do excesso da agoa taõbem naõ sentio 
mais em quanto viveo a repetição do achaque. Sobrevi- 
veo este Religiozo depois da morte do Servo de Deos 
alguns três annos, — E ásua morte (diz o P. Fr. Tho- 
mas da Aprezentaçaõ, de quemhe, o que fica referido; J 
assisti eu sendo Noviço no Convento de Paraguaçú y e 



200 

ouvi algiiãs vezes da sua bocca este cazo, o qual succe^ 
deo muitos annos antes, — 

157. Jeronymo Rugeiro, devoto especial do Seivo 
de Deos, achando-se em perigo com liuã erisypela an- 
tiga; Francisco Rodrigues, lerceyro nosso na Bahya de 
huns vómitos contínuos, e Domingos da Gosta, taõbem 
Terceyro, e vigário do Culto Divino muitos annos, de 
achaque mortal ao parecer de Médicos, todos se acha- 
rão em differentes tempos, e da noite para o dia, livres 
d;i moléstia, e dos perigos, mandando chamar ao Servo 
de Deos para os coufeásar, e naõ podendo elle por impe- 
dimento urgente satisfazer aos seos rogos^ lhes respon- 
deo,queno outro dia demeuhã os esperava no convento^ 
que lá se confessariaõ; e assim succedeo, achando -se 
os Enfermos demanhã com saúde, e forças, e de todo 
sem as graves moléstias, que os havia posto em descon- 
fiança, succedeo isto em diversos tempos. 

158. Jorge de Sá, morador no Sitio da Gachoeyra, 
hoje Villa do Destricto da Bahya, foi levado a esta ci- 
dade com doença, quea juizo dos Médicos julgada por 
incurável lhe ordenarão tratasse dos remédios da alma. 
Era devoto particular do Servo de Deos, a quem deu 
avizo do estado, em que se aciíava ; rogando-lhe o qui- 
zesse ver para o confessar, e dirigir nas ultimas acções 
da sua vida. Satisfez o Servo de Deos a supplica do seo 
devoto-, c depois deo confessaria ter com elle huã breve 
pratica, pergnntando-lhe o Enfermo se seria ja tempo de 
tomar o Santíssimo por Viatico, lhe respondeo o Padre, 
que esperasse no Senhor, como elle taõbem confiava, que 
no dia seguinte o iria buscar, e receber por seos pés á 
sua caza, e que assim se preparasse para demenhã hir 
ouvir missa, ecommungará Igreja da Conceição da Se- 
nhora, Parochiada Praya da Cidade, que lhe ficava mais 
vizinha as cazas em que assistia, e assim se dispedio o 
Padre do Enfermo, ficando este muy conforme, e con- 
fiado nas razões do Servo de Deos. Passou aqueíla noite 



201 

comsocegOj e conhecida melhora, e tanta, que ja de- 
menhã achando-se naõ só livre da moléstia, mas com 
forças bastantes, e robusleza,se veslio, e foi para a Igre- 
ja, a cumprir o que o Padre lhe havia aconselhado, com 
notável espanto, e admiração assim dos de caza, que 
prezenciaraõ o deplorado termo, em que estava, como 
dos que na Igreja o viaõ, e tinhaõ noticiada sua perigosa 
enfermidade. Ao tempo, que se achava na Igreja, entrou 
na caza o Doutor Cabral, bem conhecido na Bahya, 
Medico, que o curava, e querendo vizita-lo, lhe dis- 
scraõ, que naõ só se levantara saõ naquella menhã, mas 
fora para a Igreja a ouvir missa, e comungar, como lhe 
havia ordenado oP. Fr. GosmedeSaõDamiaõ. Fez bera, 
respondeo elle, porque este Padre he melhor Medico, 
do que eu ; e assim se despedio, mais ratificado no bom 
conceito, que todos tinhaõ do Servo de Deos, que por 
virtude do Senhor fazia estas, e outras semelhantes cu- 
ras, que naõ podiaõ deixar de ser avaliadas por miracu- 
lozas. 

159. Naõ menos foraõ conhecidas no Servo de Deos 
as outras duas graças de penetrar interiores, e antever 
futuros. Estes, como fica manifesto naquella displicên- 
cia, que sempre mostrou do projeto da separação desta 
Gust )dia pelos inconvenientes, que o tempo mostrou, 
e aquelles no cazo que fica referida do Soldado das Ala- 
goas, e alguns mais. E além destes em outros vários 
da vida do Servo de Deos se ha de achar, por quem nel- 
les com attençaõ refletir, que foraõ muito particulares 
deste Rcligiozo, por dispensaçaõ Divina estas duas gra- 
ças. Tudo pôde merecer hum Sugeito, que em sua vida 
foi todo hum exemplar de virtudes. 

160. Além das que ficaõ notadas nunca faltou ás ho- 
ras do choro, e Refeitório, e ainda quando chegava de 
fora por taõ dilatados caminhos^ e jornadas, e de pé, 
nunca deixava de hir ás Matinas daquella noite, sendo 
Custodio. Nas vizitas, naõ só pelos conventos de Per- 

XÁBOATAM. PART. II. VOL. I. 26 



202 

nambuco, que iodas se fazem por terra, e mais de trinta 
legoas do Reclffe á Paraíba, e dali voltando á Bahya 
por mais de duzentas, que sempre as tomou de pé, e 
cora elles descalços de todo, sem uzar nem ainda das 
Sandálias, ou Solas comrauas, sendo ja nas ultimas vi- 
zitas de mais de sessenta annos de idade. Nestas jorna- 
das, nem em tempo algum uzou de chapéo, expondo a 
cabeça, e mais corpo a todo o rigor das calmas, e chu- 
vas, assim como os pés aos golpes dos espinhos, e pe- 
dras. Nunca bebeo viuho> e agoa só ao comer nas cora- 
munidades. As Gèas, ainda nos dias, que naõ eraõ de 
jejum, sempre foraõ collações de abstinência. Taõ parco, 
e austero, que ainda estando enfermo se abstinha, em- 
quanto lhe era possível de carne. Era profundamente 
humilde, sobremaneira obediente, e taõ modesto, e re- 
colhido^ como aquelle, em quem resplandecia com ad- 
miração a virtude da castidade. Parecia Anjo em pureza. 
Taõ pobre, como aquelle, que nesta parte por excel- 
lencia guardou sempre a letra e o espirito da Santa Re- 
gra. Fora das communidades de dia, e denoite nunca 
largou da maõ as contas, pelas quacs, fora da oraçaõ, 
rezava continuamente; costume louvável, e exemplar, 
que observou athe a morte. 



Passa desta para a outra vida o Servo de Deos Fr. Cosme de Saõ Damiaõ. 

161 . Hum varaõ consummado em virtudes, hum corpo 
consumido de trabalhos, huà idade carregada de annos, 
no de 1659, ao priraeyro de Novembro permittio o Céo 
tivesse fim ; e quiz Deos fosse o termo de huã alma, que 
piamente se faz crivei entrasse a augmenlar na Celestial 
Corte o numero dos Bemaventurados, que como Santos 



203 

venera a Igreja nesle dia ; ten lo o seo occazo esla nova 
Estrella^e passando destapara a outra vida em hum Sá- 
bado das três para as quatro horas da tarde. O Venerá- 
vel Servo do Senhor Fr. Cosme de S. Damião contava 
a este tempo oitenta e sinquo annos de idade, menos os 
dias, que correm do primeyro de Novembro, em que a 
desoilo do dilto mes, no qual dia pelo termo, que flcou 
assignado da sua letra, e ja trasladamos aqui, havia sa- 
bido á luz do mundo por consequência delle no del57i; 
e com sessenta e dous, dez mezes, e dezanove dias de 
Religião, e habito, que havia tomado no de 1597, a de- 
sanove de Janeyro. 

162. Alguns dias antes havia ditto ao Religiozo as- 
sistente na enfermaria, que este primeyro de Novembro 
o esperava para ultimo da sua vida ; e assim neste mes- 
mo de menhã, tendo-se antes varias, e repetidas vezes 
confessado, pedío ao Guardião o Santíssimo por Viati- 
co, elogo depois, a Sagrada Unçaõ, e com reverente hu- 
mildade por esmolla o habito e sepultura para descanço 
do seo corpo, sendo a ultima acçaõ pedir taõbem licen- 
ça para dar as contas pelas quaes rezava, queathe aquel- 
la hora naõ havia largado das maõs, ao Irmaõ chorista 
Fr. Francisco de S. António, que lhe assistia na sua En- 
fermidade. Qual fosse esta naõ declaraõ os assentos, 
seria sem duvida a commua, e incurável dos muitos 
annos, que trás a morte. O que depois desta se seguio 
athe se entregar o seu corpo á sepultura, trasladamos 
aqui fielmente, como se acha escripto: — No ditto dia 
(primeyro de Novembro, era que falleceo,) das três 

fará as quatro horas da tarde ^ se acordou ficasse o corpo 
para no seguinte dia, que era Domingo se enterrar ; e posto 
em a Capella Mor, como he costume, começarão os Religio' 
zos o Officioy a que acudirão os Religiozos mais graves, e 
Prelados das outras Religiões, que o solemnizaraõ com sua 
assistência, e disseraõ suas lições ; porque todos eraõ seos 
amigos, e lhe tinhaÕ particular devoção^ por ser sua virtude 



deites bem conhecida^ e experimentada. Em esse comenos co- 
meçou a correr tanta gente da Cidade a ver o corpo do Ser- 
vo de DeoSf e com tctuta fé, e devoção, que vinhaõ providos 
de tezouraSf e canivetes, e com grande reboliço, e porfia in- 
crível lhe coftavaõ do habito, e corda, que advertindo do 
choro o R. P, Fr. Bernardo de Braga, Provincial que ha- 
via sido do Patriarcha S. Bento, acudirão os Frades á ca- 
pella, porque naÕ descompuzessem o corpo, que iinhaõ por 
bemaventurado : e com irem os Religiozos o nad poderão 
defender, se nad foraõ afudados do Provedor Mor Matheos 
Ferreira Villasboas, e do Dezembargndor Bento Rabello e 
dos mais Dezembargadores, e Pessoas graves desta Cidade. 
Querendo os Religiozos dar sepultura ao corpo ; porque, se 
bem se consolavaÕ com a sua prezença, eraja tarde, pedirão 
muy encarecidamente todos os circunstantes ao P. Guar- 
dião, e Diffinidores, que para consolarão do Povo deixassem 
estar taÕ ricothesouro alhe a tarde, que elles o guardariaõ. 
Vencerão os piedozos rogos aporfin, com que os Religiozos 
saudozos intentavad dar-lhe sepultura logo ; e começou a 
concorrer tanta gente, assim homens, como mulheres, e Re- 
ligiozos a lhe beijarem os pés e a tocar cantidade grande de 
contas, e a tomar medidas da estatura do seu corpo, que os 
que nad podiaó alcançar retalhos do seo habito por lhe ser 
prohibido, se contentavaõ com levar das flores, e ramos, 
eom que estava cuberto, e ornado, que foi necessário prover 
de outras, sendo postos dous Sargentos d porta da grade da 
capella para defender do tumulto da gente o corpo, que por 
Santo o canonizava o Povo ; e foi continuando o concurso 
delle cada vez mais athe a tarde, em que veyo o Governador 
Francisco Barreto, o qual sendo ja sinco horas da tarde, e 
o fim das laudes, mandou chamar os Médicos, e Cirurgiões 
da Cidade para que vissem o corpo se tinha algum mão 
cheiro, ou corrupção. O que visto de todos elles, o acharão, 
como na hora, em que espirara, sendo passadas, [em tempo 
de maior calor,] vinte esette horas, antes, como alguns teste- 
munharão, sahia dclle suavíssimo cheiro. Outras muitas cou- 
zas succederaõ dignas de memoria, de que se nad trata neste 
epilogo, porque se reservaÕ para a lenda maior da sua vida. 



205 

163. Bem pudera advertir o Autor deste epilogo, que 
se elle naõ relata aqui estas outras couzas^ dignas de me- 
moria, como se poderiaõ ellas depois em tempos vin- 
douros reduzir a lenda mayor, se naõ ficava noticia, ou 
assento delias. Notável descuido, e de que- sempre nos 
devemos queixar, ainda, que sem remédio. Os seos mi- 
lagres autênticos fconclue o tal epilogoj saò os seguintes, 
— os quaes nós aqui trasladamos no capitulo^ que se 
segue. 

Processo autentico de alguãs notabilidades acontecidas no dia, em que esteve 
exposto o Corpo do Servo de Deos, e de outras, que se foraõ seguindo pelo 
tempo adiante^ com as quaes se fez mais celebre, e venerada a sua fama 
posthuma. 

164. He propriedade das Estrellas fazerem mais pu- 
blicas ao mundo as suas luzes, quando como obscuro 
das sombras parece lhes queria servirde tumulo a triste 
noite. Ja exposto para a Sepultura se achava o corpo do 
Servo de Deos Fr. Cosme de S. Damião, mas como na 
carreyra da sua vida Religioza leve huã muito analogia 
ca proporção com o curso natural das Estrellas, sendo 
superior a todas para illuslrar com os rayos das suas 
virtudes este novo e Seráfico Orbe, quando se repre- 
zentava, que a Sepultura lhe serviria naõ só de lhe es- 
conder o corpo, mas taõbem de obstáculo as luzes, foi 
Campa, em que se começarão a ver gravadas para a 
memoria^ e mais activos os seos resplendores em os no- 
vos, e admiráveis prodígios, que se foraõ vendo. Foraõ 
obrados commumente por meyo de alguns retalhos, ou 
relíquias, que do seu habito cortarão muitas pessoas no 
dia do seu enterro, e outros com a terra da sua sepul- 
tura. Foy esta na claustra do convento antigo, que ser- 
via de Cemitério commum aos Religiozos, donde tive- 
raõ jazigo athe o anuo de 1709, em que demolido este 



206 

claustro, e os seos dormitórios sedeo priacipio á Igreja 
nova, que, como em seo lugar diremos, occupa lodo o 
âmbito das quadras do convento, e Igreja antiga. Naõ 
leve no seo principio esta sepultura differença^ ou dislin- 
ctivo algum das mais; mas crescendo a devoção dos Fieis 
a tirar delia terra pelos eífeitos prodigiozos^ que experi- 
mentavaõ, bebendo da agoa, em que se lançavaõ alguns 
dos seos pós, ou applicados, como emplastos; por se 
naõ andarem a arrancar os lyjolos continuamente, se 
mandou pôr no meyo liuã pedra lavrada, com seo orifí- 
cio quanto coubesse por elle iiuã maõ^ cuberto com huã 
lamina de cobre, e por aqui se tirava aterra para aquel- 
les, que a pediaõ. E sendo nos seos princípios, em que 
a devoção andava mais viva com os repetidos cazos, ou 
milagres em bastante quantidade a que se retirava, sem- 
pre a achavaõ sem diminuição no lugar, de que se seguio 
no vulgo o discorrer^ que bem podiaõ tirar a que qui- 
zessem ; porque o lugar se tornava a encher com acres- 
cente da maré. 

165. Fallecido ao primeiro de Novembro o Servo de 
Deos, logo a sinco do referido mez e anno, foy celebrado 
em o Convento de Olinda o capitulo, no qual foi confir- 
mada pelo Santíssimo Padre Alexandre VII a separação 
desta Provincia, e por letras do mesmo Pontífice nomea- 
do para primeyro Provincial o P. M. Fr. António dos 
Marlyres. Era Religiozo de letras, e virtudes ; e achan- 
do-se na Bahya ja nos principies do mes de Julho do se- 
guinte anno de 1660, movido do zelo, honra de Deos, e 
credito da Religião, vista a fama notória dos muitos 
prodígios, e maravilhas obradas pelo poder do Senhor, 
e méritos do seo Servo, para confirmação da sua glo- 
rioza fama, e perpetua memoria, fez Supplica ao R. Ca- 
bido, que se achava em Sede Vacanle, por morte do seu 
Bispo D. Pedro da Sylva, desde quinze de Abril de 1649^ 
e teve o despacho seguinte: — Damos nossas vezes ao 
R. Arcidiago Francisco da Sylva ^ para que com o Es~ 



207 

crivaò do Auditório Ecclesiastico, o Lecenciado Antó- 
nio da Fonseca Carneyro faça o Summario das testemu- 
nhas que o Supplicante apprezentar, em modo, que faça 
fé; para se lhe darem os treslados autenticas, que forem 
necessários, Bahia em Cabido, oito de Julho de mil seis- 
centos e seltenta. 

Viegas, Melio, Pereyra, Leitad, Vieyra, 

166. E logo no seguinte dianovedosobreditto mez, e 
anno, feitos os termos Judiciaes, e tomados os jura- 
mentos de fidelidade, e inteireza entre o Escrivão, e Juiz, 
em o mesmo Convento, e capella dos nossos Irmãos Ter- 
ceyros^ se começarão a tirar as testemunlias, das quaes 
s6 trasladamos os seos ditos. 

António de Britto Corrêa, Cidadão desta Cidade, e 
Tabaliaò publico do judicial, e notas delia, de idade de 
sessenta e sinquo annos, disse que ouvindo dizer que era 
fallecido o Padre Fr, Cosme de S. Damião, Religiozo 
da Seráfica Ordem de S, Francisco neste convento da 
Bahya, accudio elle, e veyo a esta Igreja do ditto con- 
vento, e se chegou ao corpo do ditto Padre Defunto, que 
na Capella mor estava para se enterrar, e lhe beijara os 
pés com devoção, e com a mesma lhe tocara com as suas 
contas em o rosto, bocca, e pés, e como andava doente 
naò podendo estar ao seo enterro se fora para caza; e 
succedeo dar-lhe huã dor muy grande no caminho, com 
a qual dor lhe sahio para fora da virilha direita hum 
inchaço do tamanho de hum ovo com tantas dores, que 
as naò podia suportar; e chegando ásua caza, o leva- 
rão em braços para sima, e o lançarão sobre a cama, 
onde esteve muy atribulado das muitas dores j a deter- 
minado a mandar chamar confessor ; lembrando-se en- 
tão do Padre Defunto, que havia ido vizitar, pedío as 
contas, que nelle tinha tocado, e hum pequeno retalho 
de seo habito, que lhe deràò, e pondo o retalho do ha- 



bilo, e contas sobre aquelle inchaço^ com grande fé, pe- 
dio a Deos nosso Senhor, qae pelos merecimentos de seo 
Servo Fr, Cosme lhe acodisse a taõ grandes dores, e an- 
gustias, em que se via, e logo immedialamente sentio, 
que aquelle inchaço mais duro, que huã pedra, se mo- 
vera na virilha, e lhe pareceo, que lhe abrirão a carne 
quasi com os dedos, mais sobrenatural, que natural- 
mente; e acudindo ai li aquella parte, achou e sentio, 
que o ditto inchaço se lhe tinha metido para dentro, e 
apalpando com a maò achou a ditta virilha, sem lezaò 
alguãy nem tumor, e elle ficou livre logo naquelle ins^ 
tante das dores cruéis, que tanto o haviaõ molestado, 
levantando-se rijo, sam, e valente, e athe o prezente lhe 
nàà tornou a doer a ditta parte, de que dera muitas gra- 
ças a Deos, crendo bem, e firmemente, que pelos mere- 
cimentos do seo Servo lhe fizera esta mercê ; e ai naò 
disse, etc. 

— Jorge Gomes Mouraõ, capitão de Infantaria do Ter- 
ço Velho desia Cidade, de idade de quarenta e sette 
annos, disse, que de nove annos a esta parte se sentio 
muito achacado da perna dereila, e sempre muito mo- 
lestado por razaõ de huã grande chaga, que llie toma- 
va a dil la perna pela parte de dentro desde a barriga 
alhe o artelho; e por mais medicinas, que lhe applicara, 
e curas, que lhe Gzera, se naõ achara nunca bom, e no 
tempo, ou dia, em que fallecera o Servo de Deos Frey 
Cosme de S. Damião acudio a esta Igreja ao seo enter- 
ramento, onde achara grande concurso de gente em 
companhia do Governador Geral do Estado, se applicou 
a beijar, como de facto beijou os pés do ditto Servo de 
Deos, e o tocou com as suas contas, e tomou a medida 
do seo corpo em huã fita verde, e vendo o grande aíFe- 
cto, com que todo este Povo concorria assim a beijar-lhe 
os pés, e cortar do habito, e tirar as flores do seu Es- 
quife, como a venera-lo com outras demonstrações de 
devoção, se alentou a valer-se com grande fé do seu va- 



209 

limenlo, e palrocinio com Deos nesla sua enfermidade, 
e achaque ; e succedeo^ que depois de enterrado o Servo 
de Deos, pela grande dor, e affliçaõ, que de novo lhe 
sobreveyo na perna, que lhe botou tanta humidade, 
que com nenhuns panos, nem remédios se podia evitar^ 
e o fazia asquerozo, impossibililando-o a se poder cal- 
çar, nem acudir ás obrigações militares, se veyo a este 
convento de S. Francisco, e tirando a espada, chapéo, 
e gineta, se deitou sobre sua sepultura, que ainda uaõ 
tinha campa, e lhe pedio com grande affecto da sua al- 
ma lhe alcançasse de Deos -saúde, e o livrasse daquelle 
achaque ; e continuando mais vezes a o vizitar com gran- 
de fé, conheceo em sy ter melhoria, de maneira que em 
quatro, ou seis dias, que assim continuou com esta de- 
voção, se achou saõ, sem dor, nem chaga ; e outro sim, 
disse^ que tinha no mesmo joelho a rodela fora do sen 
lugar, e nesta occasiaõ se lhe tornou ao seu lugar, fl- 
cando laõ sam, e livre destes achaques, que athe huã 
fonte, que linha por sua cauza, a cerrou ; e tudo o so~ 
breditto attribue a favor^ e mercê, que nosso Senhor 
lhe fizera pelos merecimentos do ditto seo Servo etc. — 
—Manoel da Gosta Moreyra^ Ajudante do Terço Ve- 
lho, da Infantaria desta Praça, de idade de quarenta e 
sinco annos, disse, que havia três annos, que padecia 
hum achaque muito perigozo, na rotura de huâ virilha, 
que o molestava muito, quando tinha fora a funda, com 
que se apertava, e ouvindo as muitas maravilhas, que 
por merecimentos do Servo de Deos o Padre Fr. Gosme 
de S. Damiaõ o Senhor obrava, pedio alguã couza sua 
para a ter por Relíquia, e lhe deraõ hum pedacinho de 
emplasto, que o ditto Padre trazia em huã ferida, ecom 
grande aíFecto, e muita fé, o cozêo na funda de que uza- 
va, e pedio a nosso Senhor, que pelos merecimeetos de 
seu Servo o ajudasse, e sarasse da tal enfermidade; e 
desde o dia, que uzou do emplasto, a menos de quinze 
dias se achou sam, e o tumor, que lhe costumava sahir 

JABOATAM. PART. H. VOL. I. 27 



210 

da dilla quebradura, com grande moléstia, lhe naõ sa- 
hio maisalhe o tempo prezente, de que da muitas gra- 
ças a Doos, que por mereciuiontos do dilto seo Servo 
lhe fez a mercê sobredilta.— 

— Manoel Gonsalves Deyra^ oíiicial de Pedreyro^ 
morador nesta Cidade, de idade de quarenta annos, 
disse, que liavendo tido Iiuã grande doença do estôma- 
go, em que o vizitaraõ dous Médicos, cliegou a estado 
de fazer testamento, depois de receber os Santos Sa- 
cramentos da Igreja ; e meiliorando tornou a recahir 
com tanto excesso, que lhe parecia acabava a vida, e os 
Médicos desconfiavuõ delle. Succedeo,que huma Pessoa 
sua conhecida, lhe mandou hum pedacinho do habito^ 
com que foi enterrado o Servo de Deos Fr. Gosme do 
Saõ Damião, e tomando elle testemunha o ditto habito, 
e pondo-o na boca do estômago, onde padecia grandís- 
sima dor, e com viva fé, e grande affecto de sua alma, 
pedio ao Servo de Deos, que o soccorresse, e livrasse 
de taõ gFande mal. Gouza maravllhoza ! Que daquella 
hora athe o outro dia se achou sani, e livre, sem dor 
alguã, dando a Deos as graças pela mercê, que lhe fez^ 
por virtude do ditto seo Servo. — 

Testemun/ms inquiridas em 19 de Juílio do sobrediíto 

amio, 

— Pedro Vaz da Fonseca, mancebo solleyro, mora- 
dor nesta Cidade de idade de trinta e sinco annos pouco 
mais, ou menos; Disse, que estando elle no Engenho 
de Manoel Brandão Pantoja, succedeo cahir, e da queda 
quebrou a i3erna esquerda desde o quadril athe o joe- 
lho, e a caua se lhe fez em pedaços, de que veio para a 
Cidade para se curar, e esteve em maõs de Pessoas, 
que o sabiaõ, ecostumavaõ fazer; mas naõ lhe aprovei- 
tou a cura; porque mal podia andar sobre duas muletas, 
e depois de passados três mezes cora grandes dores, ou- 
vi^ dizer as raaravilhozas obras, que Deos nosso Se- 



m 

nhor fazia por virtude, e mereciniciUos do seo Servo a 
Padre Fr. Gosme de S. Damião, e se veyo trabalhoza- 
meiUe com as mnlelas á scpulUira do dilto Servo de 
Deos, promeltendo-lhe fazer liuã novena, e se prostrou 
no pé da sua sepultura de joelhos, e lhe começou a pe- 
dir, que o favorecesse^ e sarasse daquelle grande tra- 
balíio, e dôr^ que tinha, pedindo juntamente a Deos 
nosso Senhor, que pelos merecimentos daquelle seo 
Servo lhe desse saúde ; e continuou com esta oração, 
rezando juntamente pelas contas tempo de duas horas, 
o qual passado, graças a Deos, se levantou saõ, e sem 
dores, nem lhe lembrou pegar em muletas ; mas pela 
promessa, que tinha feito da novena continuou os nove 
dias dando graças ao Senhor pela muita mercê, que lhe 
fizera em lhe dar saúde, e livrar daquelle aleijão pelos 
méritos do seo Servo ; o que tudo succedeo depois do 
Servo de Deos sepultado, oito dias, ele. — 

— Diogo Rodrigues de Sequeira, morador no Bayrro 
do Desterro^ Arrebalde desta Cidade, de idade de qua- 
renta e oito annos, disse, q^ie de huã grave doença,, 
que leve de huns fluxos de sangue lhe vieraõ taõ gran- 
des puxos, que rendeo pela virilha esquerda, e pela ro- 
tura lhe sahio a tripa, e lhe dava grandes dores, e mui- 
tas anciãs, e lhe durou este mal por tempo de oito 
mezes ; e ouvindo as maravilhas, que Deos obrava 
pelos merecimentos de seo Servo o Padre Fr. Cosme de 
S. Damião, se veyo com fé, c grande devoção á sua se- 
pultura, e se prostrou nella, pedindo-lhe se lembrasse 
delle, eo livrasse de taõ cruel mal, e levou para caza 
huã pequena de terra da ditta sepultura, e a botou 
em hum pequeno de algodão, e a pôz sobre a verilha, e 
parte leza, apertando-lhe por cimaa funda, de que uza- 
va, e a trouxera alguns dias rezando em cada hum del- 
les três Padre nossos, e Ires Ave Marias, e com muita 
fé os offerecia a Deos nosso Senhor para que lhe desse 



212 

saiide, em virluclc do seu Servo, e no íiiudelles se acho» 
sam e sem dores. 

Disse mais, debayxo do mesmo jnrameiUo, que achan- 
do-se na Freguezia de Jagoaripe; em caza de liuã sua 
Parenta Luzia de Figueiredo, cazada com Amaro da 
Cruz, alii aciíara elle testemunha huã Escrava da ditta 
sua Parenta do Gentio de Guiné, que eslava de parto 
havia sinco dias lendo a criança morta no venlre, e vio 
elle testemunha a ditta Negra com taõ grandes dores, e 
angustias, que naõ podia socegar, lembrando-se que 
trazia comsigo hum retalho do habito do Servo deDeos 
Fr. Gosme de S, Damião^, disse á Senhora da Preta, 
que com fé, e devoção lhe lançasse ao pescoço aquella 
Relíquia, (que por tala tinha, e trazia comsigo,) e tanto 
que a deitou ao pescoço, logo immediatamente lançara 
a criança, sem perigar a ditta sua May, e appellidando 
iodas as Pessoas da ditta caza, que nosso Senhor obrara 
aquella maravilha pelos merecimentos de seo Servo o 
Padre Fr. Gosme de S. Damião, e lhe pedirão o ditto 
pedaço de seu habito com. grande influencia, e devo- 
ção para se valerem delle em suas necessidades, e assim 
lho deu, e ai naõ disse. — 

— António Alvares Velho, morador no Rio de Joan- 
nes, termo desta cidade, e ahi cazado, de idade de ses- 
senta e selte annos, disse, que succedeu em sua caza, 
estar huã negra sua do Gentio de Guiné, por nome 
Luiza para parir, a qual teve a criança morta no ventre 
quatro para sinco dias, e com muitas anciãs, e dorfes a 
naõ podia lançar fora, e sua Senhora com grande aflli- 
çaõ sem poder descobrir-lhe remédio para que parisse ; 
a este tempo chegou da cidade hum sobrinho delle tes- 
temunha, por nome Gaspar Velho^ o qual disse a sua 
Tia, que se naõ aífligisse, porque elle trazia comsigo 
huã Relíquia, que era hum pedacinho do habito do Pa- 
dre Fr. Gosme de S. Damiaõ, que havia hum mez pouco 
mais ou menos, que era fallccido com opinião de Santo, 



213 

edeilando-lhe ao pescoço o pedacinho do habito com 
fé, e devoção para que nosso Senhor se lembrasse delia ; 
tanto, que a Negra o teve no pescoço, logo neste ins- 
tante lançou a criança feita em pedaços, e ficou livre do 
perigo, conhecendo todos o favor e mercê muito grande, 
que nosso Senhor lhe fizera, pela intercessão, e mere- 
cimento de seo Servo Fr. Gosme de S. Damião; pelo 
que lhe deraõ muitas graças, etc, — 

— O Licenciado Melchior da Costa, Sacerdote do 
habito de S. Pedro, morador nesta Cidade, de idade de 
trinta e seis annos, disse, que em sua caza está hum 
Mulatinho, por nome Bento, filho de huma sua Escrava 
do Gentio de Guiné, o qual de huã enfermidade, que 
teve, chegou á hora da morte, antes como morto o car- 
pirão, e prantearão a May, e mais Gente de caza em huã 
noite, em que chegou áquelles termos, e levantando-se 
elle testemunha ao outro dia demenhã para mandar dar 
ordem a se enterrar, achou o ditto Menino vivo e saõ, 
fora do perigo; e perguntando pelo que tinha succedi- 
do, porque teve a novidade o havêlo ouvido prantear na 
noite próxima, e estar elle realmente para dar a alma a 
Deos, c acha-lo depois sam no estado, que tem ditto, 
lhe contarão os seos familiares, que a May do ditto Mu- 
latinho nas horas da noite ja ditlas, vendo o filho morto, 
ou a pique disso tomou huã pouca da terra, que tinha 
da Sepultura do Servo de Deos o Padre Frei Cosme de 
S. Damião, e a desfez em huã pequena de agua, e abrin- 
do a boca com huã colher ao filho, por ja ter os dentes 
fechados, lha deo a beber, e succedeo abrir logo os 
olhos, tomara mama, por ser de hum anno, eficar saõ 
como ditto he, e entende elle testemunha, e crê, que 
foi vizivel, e manifesto milagre, que Deos nosso Senhor 
obrou pelos merecimentos do seo Servo o Venerável 
Padre Fr. Cosme de Saõ Damião, etc. — 

— Francisco Pereyra do Porto, morador nesta Cida- 
de, de idade de sinquoenta e hum annos, disse, que no 



•21 A 

(lia em que fallecera o Padre Fr. Gosme de S. Damião, 
Religiozo de S. Francisco desta Província do Brasil, 
dera laõ grande dor de pescoço á sua mulher Calharina 
de Oliveyra, e com tanta vehemencia, que ja naõ po- 
dia dobrar, nem menear a cabeça para parte alguã, e 
neste tempo chegou elle testemunha á caza, e contando- 
Ihe da morte do ditto Padre, e da muita Gente que con- 
corria a lhe beijar os pés^ e tocar contas no seo corpo, 
e como taõbem elle lhe beijara os pés, e tocara as suas 
contas no seo rosto, ouvindo isto lhe pedio, que lhe lan- 
çasse as dittas contas no seo pescoço^ e com grande fé, 
e devoção pedio a nosso Senhor, que pelos merecimen- 
tos do seo Servo lhe tirasse aquellas dores, que tanto a 
molestavaõ, e logo de improvizo se levantou sem dor 
alguà, dando graças a Deos da mercê que lhe fizera, 
por a haver sarado pela virtude do seo Servo. Disse 
mais elle testemunha, que achando-se ao enterramento 
do Servo de Deos, e levando o seo corpo no Esquife da 
Igreja para o Glauslro, sen lio taõ grande cheyro, e taõ 
suave, que lhe pareceo de alguã precioza caçoula, ou 
couza semehante; e perguntando assim aos Religiozos 
deste convento, como aos Terceyros, se havia alli alguã 
caçoula, ou outra couza, lhe responderão que nada disso 
havia em caza, nem ainda incenso para o altar, e julga 
elle testemunha proceder e sahir a ditta suavidade do 
€orpo do dillo Servo de Deos, etc. — 

Outivas tiradas a vinte e sinquo de Agosto do mesmo anno 
de 1660. 

— O Gapitaõ António Saraiva da Fonseca, morador 
na Freguezia de Itaparica termo desta Gidade, de idade 
de trinta e três ânuos, disse, que no mez de Dezembro, 
estando moendo o seo Engenho de Itaparica huã ta- 
refa de canas, estando para moer outra, que se estava 
descarregando, se intupio o cano do tanque do Engenho 
de tal sorte, que logo peijou, e acudindo cora toda a 



215 

Genledo Engenho^ e ofliciaes delle, a desentupi-lo^ por 
muito, que nisso insistirão, e trabalharão por largo 
tempo com todos os meyos, traças, e caminhos, que em- 
prenderaõ, athe com negros bons mergulhadores, naõ 
se conseguio couza alguã, e se julgou de todos impossí- 
vel o remédio, salvo abrindo a parede, que era de pe- 
dra e cal, e de sinquo ou seis braças de grossura, o que 
se naõ podia fazer sem grande risco de se arruinar alguã 
parte da fabrica do ditto Engenho, por ser o ditto cano 
muito profundo, e o tanque muito alto, e estar neste 
tempo cheyo de agoa, além de ficar perdida a cana, que 
estava cortada. E vendo elle testemunha, que em dons 
dias, que havia gasto debalde em querer desentupir o 
cano, e tirar a pedra, que nelle estava entallada llie naõ 
tinha aproveitado remédio algum humano de muitos, 
que tinha experimentado, se valeo dos merecimentos do 
Servo de Deos o Padre Frey Cosme de S. Damiaõ, de 
quem tinha ouvido contar muitas maravilhas, que nosso 
Senhor por eile obrava; e assim com muita fé, e con- 
fiança nelle, tomou hum pedacinho do seo habito, que 
estimava por grande Relíquia, e lançaiido-o, depois de 
se encommendar a elle, elhe rezar alguãs orações, em 
huà parle do cano entupido, diante de muitas Pessoas, 
que com elle testemunha assistiaõ, e tinhaõ trabalhado 
no ditto successo, logo immediatamente sahio a agoa com 
tanta fúria, como antes sahia, e ouvirão os prezenteshir 
rodando a pedra, que athe li tinha o cano entupido, fi- 
cando logo livre daquelle inconveniente o ditto Enge- 
nho, que logo moeo, e os circunstantes admirados do 
milagre evidentíssimo, que portal foi de todos acclama- 
do, que nosso Senhor havia obrado taõ notória, e vizi- 
velmente pelos merecimentos do ditto seo Servo Fr. 
Cosme de S. Damiaõ, e dando-lhe graças por taõ singu- 
lar favor, apezar de tantas, e taõ exquizitas diligencias 
humanas, que havia feito, como ditto tem. — 



216 

Nesta mesma Inquirição estàò induzas as certidões 
seguintes^ 

— Nós os Doutores da Medicina abayxo assignados, 
que aclualmeute curaaios nesta Cidade, dizemos e da- 
mos fé, em como Domingo, segundo dia do mez de No- 
vembro de mil e seiscentos e sinquoenla e nove, sendo 
chamados do Governador Geral deste Estado do Brasil, 
Francisco Barreto ao Convento de S. Francisco dos Ca- 
puchos desta Cidade, o achamos no ditto convento, as- 
sistindo com a Nobreza da Cidade, Prelados dos Con- 
ventos, e Clero ao enterro do Padre Fr. Cosme de S. 
Damiaõ, Prelado Mayor que tinha sido desta Província 
de Santo António do Brasil, e nos mandou, que com 
diligencia víssemos o corpo do ditto Padre se tinha al- 
guã corrupção, ou máo cheyro, o que logo fizemos, es- 
tando ja para o meter na sepultura, tocando-lhe nari- 
zes, bocca, orelhas, cabellos, e os emuntorios do seo 
corpo, e uaõ achamos signal algum de máo cheyro, ou 
corrupção, o que julgamos ser couza mais que natu- 
ral, em razaõ de serem passadas vinte e sette horas de- 
pois que falleceo, e ser tempo de maior calor, que ha 
uesla terra, sendo accessorio a este accidentc, o que 
faziaô as muitas luzes, e grande tumulto de Gente, de 
que sempre o corpo esteve cercado, e principalmente 
a observância de vida regular, e exercício de virtudes, 
em que vulgar e geralmente todos dizem se exercitou 
secenta e três aunos, que viveo na Religião. Em fé do 
que passamos a presente jurada aos Santos Evangelhos, 
e assignada de nossos signaes. Bahia, Julho da 1660» 

André Rodriguez, 
O Physico Mor, Francisco Vaz Cabral. 

— Paschoal Teyxeira Pinto, Cavalheyro Fidalgo da 
Gaza de S. Magestade, Cidadão desta Cidade do Salva- 
dor, Bahya de todos os Santos nas partes do Brazil ; 



217 

Declaro, e certifico por esta por mim feita, e assignada» 
que conheci muyto liem, por espaço de muitos anoos, 
ao Venerável Padre Fr. Cosme de Saõ Damiaõ, Ueli- 
giozo da Ordem do Bemaventurado Saõ Francisco, e 
sempre o tive por varaõ de grande virtude, e exemplo, 
e por esse era lido, e conhecido geralmente de todos, e 
sey que falleceo da vida prezente sabbado, o primeyro 
dia do mes de Novembro de mil seiscentos e cincoenta 
e nove annos, ás ires horas da tarde, e ao outro dia, 
que foi Domingo, esteve (como he costume) na Capella 
maior da Igreja para logo o sepultarem ; porém a pe- 
dimento de Pessoas graves, assim Ecclesiastlcas, como 
Seculares, o deixarão estar os Religiozos do Mosleyro 
alhéas seis horas da tarde; e sabendo-se na Cidade o 
seo failecimenlo, acudio a gente em grande quantidade 
a beijar-lhe os pés, tocar contas, e tomar n)edidas do 
corpo, e lhe cortarão pedaços do habito, em que estava 
amortalhado, que levavaõ, venerando-os, como Relí- 
quias Santas, e eu dos que alcancei faço a mesma esti- 
mação. Acharaõ-se prezenles a seo enterro o Governa- 
dos, e Capitão General deste Estado Francisco Barreto, 
e Dezembargadores da Relação, Religiozosde S. Bento, 
do Carmo, e da Companhia de Jesus; o R. Vigário Ge- 
ral, e alguns dos RR. Cónegos da Santa Sé; e a vista 
de lodos antes de seo enterro o viraõ o Physico Mor 
do Estado, e outros Médicos, e Cirurgiões approvados, 
que para este eíTeilo alli foraõ juntos, e depois de faze- 
rem visloria, e exame no dilto corpo, me cheguei eu ao 
dillo Physico Mor que he o Doutor Francisco Vaz Ca- 
bral, Cavalheyro Professo do habito de S. Âgo, e lhe 
perguntei, que achara clie, e me respondeo, que estava 
o dilto corpo incorrupto, sem máo cheiro, que anles 
parecia estar vivo, sendo que havia vinte e selte horas 
que fallecera, com tempo de grandes calmas por ser 
veraõ nestas partes. A tudoo que refiro me achei prezen- 
te, e o vi por meos olhos, e o juro aos Santos Evange- 

JABOATAM. PART. II. VOL. l, 28 



218 

lhos passar assim na verdade, fiz este termo por minha 
maõ:, e o assignei. Bahya, hoje dous de Fevereiro de 
mii seiscentos e sessenta annos. 

Paschoal Teijxera Pinto, 

— O qual traslado do Snmmario, das Testemunhas, e 
certidões insertas, eu o Licenciado António da Fonceca 
Carneyro, Fscrivaõdo Auditório Ecclesiastico nesta Cida- 
de da Bahya, e seos termos, fiztresladar bem, e fielmente 
do próprio, que ficaeni meo poder^ a que me remetto, e o 
concertei, subscrevi, e assignei de meo signal costuma- 
do, na Bahya aos trinta de Agosto de mil seiscentos e 
secenta annos. — Concertado por mim Escrivão — An- 
tónio da Fonseca Carneyro. — António da Fonseca 
Carneyro. — 

Depois deste termo de conciíizaõ se tirarão peio mesmo 
Juiz, € Escrivão as testemunhas seguintes em sette de 
Dezembro do mesmo anno de 1660. 

— Gregório do Canto, liomem Pardo, forro, mora- 
dor na Freguezia de S. António nos Arrebaldes desta 
Cidade, de idade de vinte e dous annos, disse, que ha- 
verá três mezes, andando elle testemunha trabalhando 
com huã Eyxada na maõ lhe deo taô grande dor no hombro 
direito, e lhe correo de repente todas as partes do corpo, 
que ficou tolhido de pés, e maõs, de maneyra, que o 
levarão em braços para caza; e nesta affliçaõ de dores, 
que eraõ grandes se encommeudou de veras ao Servo 
de Deos Frey Cosme de S. Damião pela virtude, que 
linha ouvido delle, e que acudia a quem se a elle en- 
commendava ; e com confiança pedio huã pouca de terra 
da sua sepultura, e fez hum pequeno de lodo, e com 
elle untou as maõs, braços, e pernas por alguãs vezes, 
c iio.cabo de três dias, sem fazer outro medicamento, 



219 

se achou sam e livre de todas as dores, que atlribuhio 
a terra da sepultura do Servo de Deos, e a virlude de 
seos merecimenlos, ele. — 

— O Irmaõ Fr. Francisco de S. António, Religiozo 
Cliorisla do Patriarclia Saõ Francisco, de idade de 
vinte e doiis annos: disse, que foi Enfermcyro, e com- 
panheiro por algum lempo do Irmaõ Fr. Gosme de S. 
Damião; e porque andava doente assistia na Enferma- 
ria, lhe mandou o Irmaõ Fr, âleyxo Vizitador, que o 
dillo P. Fr. Gosme naõ fosse ao choro porque naõ 
desse alguã queda; ea elle testemunha mandou que 
naõ consentisse sahissedacella. Succedeo, que huâ noite 
apagando-lhe a candea, para repouzar pelas onze da 
noite; e depois das duas horas, vindo á Gella a saber 
como estava, e se queria alguã couza, vendo-lhe a can- 
dea acceza, lhe perguntou quem lha accendera; e elle 
ditto Padre respondeo, que elle testemunha lha dei- 
xara ; e por escrúpulo, que tivera, foi perguntar ao 
Irmaõ Guardião, quem lha accendeu, e o Guardião lhe 
respondeo, que nem lha accendera, nem lha mandara 
accender ; e finalmente naõ sabe elle testemunha quem 
lha accendeo, e só sabe^ que lha apagou, quando se 
sahlo pelas onze horas, e disto está bem lembrado. E 
na mesma noite succedeo, querendo-se elle testemu- 
nha encostar, vio ao ditto Padre Fr. Gosme hir para o 
choro, e por fraqueza da doença^ que tinha, e cegueira, 
o vio subir pela escada do choro, que tem coalro, ou 
sinco degráos de gatinhas, como huã criança, e assim 
se foi athe o pé do Ghristo, que está no choro, o que 
elle testemunha vio, sem que elle o sentisse^ e o vigia- 
va, porque naõ desse alguã queda. E depois de estar de 
joelhos algnm espaço, fazendo sua oraçaõ, disse as se- 
guiptes palavras,^ Deixa-tne, para que mç perseguem? 
E vio elle testemunha com seos olhos saliir do choro 
pela porta fora correndo huã íigur^, como de gato gran- 
de, e inuy negro, e elle leslefpqpha se arjipiqn cpfi) 



220 

medo, e se lhe levantarão os cabellos ; c depois foy elle 
testem linha dizer ao I*adre, que viesse para a Cella, 
que lá ftiria sua Oração. Sahindo-se do choro, vindo 
pelo corredor^ disse as mesmas palavras^ que no choro 
linha ditto. Disse mais elle testemunha, que depois da 
morte do P. Fr. Gosme de S. Damião o mandou a obe- 
diência tirar esmoHas de frangos para os Doentes, e na 
Fregueziade Paripe, hindo sahindopor hum caminho es- 
ireito, huâ cobra negra muito coniprida Ihedeo huã volta, 
ou duas pelas pernas, e hum Negro, que hia atraz delle 
testemunha, lhe gritou, que visse huíi cobra, que se 
guardasse a tempo, que elleja estava delia prezo ; como 
com grilhões; e vendo-se neste estado, pegou cm hufi 
cruzinha de metal que levava comsigo, que tem hum 
pedacinho do Santo Lenho, que lhe havia dado o ditlo 
Padre Fr. Gosme, e disse estas palavras por duas ou 
três vezes. — Irmaõ Fr. Gosme, nesta occaziaò se vem 
os amigos; e ditlas ellas, sentio, que a cobra se desenro- 
lou, e se foy embora, e ficou louvando a Deos, que por 
virtude do seo Servo o livrou daquelle perigo, ele. — 
— Manoel Dias Anchiela, morador na Pirajuyá des- 
tricto desta Cidade de idade de seccnta e sinco annos, 
disse, que ouvindo as obras maravilhozas, que Deos 
fazia por virtude de seo Servo o Padre Fr. Gosme de 
5. Damião, veyo a esta caza, e convento de S. Fran- 
cisco, á sepultura do ditlo Servo de Deos, e lhe rezou 
alguãs orações, e lhe pedio com humildade, que o sa- 
rasse de hum achaque, que tinha, o qual era, que pa- 
decia, havia vinte e dons annos, huã chaga com grande 
inflamação na barba, que lhe chegava athe a ponta do 
beiço, e veyo a crescer tanto, que lhe abrio a carne 
athe ás gengivas, e padecia grandes dores ; e succedeo, 
qne depois de rezar as orações assima ditlas, e de bei- 
jar o pé esquerdo da sua Eííigie, que está sobre a sua 
sepultura, hindo-se para sua cazo, quizDeos lembrar-se 
delle, que julga seria por virtude do seo s^ervo Fr. Gos- 



me, lhe deraò hu5s febres, e hum destempera mento, 
com que ficou som do ditto achaque, e lhe naõ tornou 
mais athe hoje. Disse mais, que a hum Rapaz seo es- 
cravo, o qual gadecia muitas febres, depois de muitos 
dias, cm que naõ teve delias melhora, pedio neste Con- 
vento huã pequena de terra da sepultfira do Servo de 
Deos, e com huã Relíquia do seu habito, que lhe deraõ, 
a qual terra bebeo o Rapaz delida em agoa, e lhe lan- 
çarão ao pescoço a ditta Relíquia^ e com isto sarou to- 
talmente, sem lhe applicar outro medicamento algum, 
o que attribue ser por virtude do dito Servo de Deos, 
etc. — 

Outras em 21 do ditto mez, e anuo, 

— António Henriques morador no Sertão de Tapicu- 
rú-Mirim, de idade de viule e três annos, disse, que 
partindo em Dezembro do anno passado para o Sertão, 
aonde he morador, adoeceo gravemente de maleitas, 
que lhe deraõ com tanta força, que se achou impossi- 
bilitado a proseguir viagem, e seos companheiros o per- 
suadirão a que ficasse na Matta de S. Joaõ, tratando da 
sua cura, que de outra sorte se punha a perigo de mor- 
rer no caminho ao desamparo; e vendo-se clle neste 
aperto, e necessidade, se lembrou que levava da terra 
da sepultura do Servo de Deos Fr. Cosme, e tomando 
delia, a bebeo em agoa com muita fé em seos mereci- 
mentos, pedindo -lhe alcançasse de Deos saúde para 
proseguir sua viagem, e naõ perder a companhia de seos 
companheiros; e logo que bebeo da terra se achou per- 
feitamente sam, rijo, e valente, e proseguio seo cami- 
nho, como se naõ tivera tido enfermidade alguã, de que 
deraõ lodos muitas graças a Deos, que pelos mereci- 
mentos de seo Servo obrou esta maravilha; e ai naõ 
disse, etc. — 

— António de Siqueira, morador no Rio Real, de 
idade de quarenta annos pouco mais ou menos : disse, 



222 

que estando no Serlaõ, aonde he morador, maliralado 
de moléstias, com cezões continuas de frios^ e febres, 
destituído de todo o remédio humano, se valeo dos Di- 
vinos, e encommendando-se muito de coração ao Servo 
de [)eos, Fr. Cosme de S. Damiaõ, tomou com muita 
devoção da terra da sua Sepultura, que tinha levado, e 
guardava cora muita estima, e a bebeo, pedindo a nosso 
Senhor, que por seos méritos lhe desse saude^ e o Se- 
nhor foi servido dar-lha, e muito perfeita dalli por 
diante, indo-se-lhe as maleitas^ e ficou reconhecendo 
ser isto favor do Servo de Deos, e por tal o tem, etc. 
— António Gomes de Almeida, morador nos Irara- 
zes, termo desta Cidade, de idade de quarenta annos 
pouco mais, ou menos ; disse, que huã filha sur de nove 
para dez mezes, lhe deo hum mal nos ollios, taõ ter- 
rível, que lhe tirou a vista e lhe revirou para fora as 
capellas, com que ficou disforme, sem se lhe achar re? 
médio, que valesse para este mal, de muitos que lhe 
applicaraõ; antes com sua occaziaõ, naõ quiz mais to- 
mar a maaia, com hum desasocego, e inquietação mor- 
tal; e estando uesle estado desconfiada dos remédios 
humanos, lhe deraõ huã pouca de terra da cova do Servo 
de Deos Fr. Gosme de S. Damiaõ, coulando^se-llíe os 
muitos milagres, que o Senhor por elle obrava, man- 
dou desfazer a dilla terra em huã pouca de agoa, e pro- 
melteo mandar-lhe dizer duas missas, se desse saúde a 
sua filha, e a livrasse daquelle perigo, e feito este voto, 
mandou lavar os olhos da criança com a dilta agoa, o 
que feito logo a criança se achou bem, e livre do peri- 
go, com os olhos restituídos a seo primeyro estado ; e 
por taõ grande mercê, e maravilha, veyo elle testemu- 
nha logo do Sertão a esta Cidade a dar delia noticia, e cum- 
prir o que lhe promeltera, e foy notório este milagre a 
todos os Moradores do districto donde vive, com grande 
gloria de Deos, e do seo Servo, etc— 



223 

— O Capitão Salvador Corrêa do Amaral, morador 
na Freguezia de Passe, termo desta Cidade, de idade de 
secenta aouos ; disse» que liuã Escrava sua do Gentio 
de Guiné, por nome Catherina concebera, e depois de 
prenhe quatro mezes, comeo terra, com que veyo a in- 
char de todo, de maneira, que estava disforme, e a juí- 
zo de todos incapaz de poder viver, nem no discurso 
da imprenhidaõ melhorou couza alguã, por muito, que 
em sua caza se fez pela saúde e remédio da ditla Ne- 
gra. Vendo elle testemunha a impossibilidade, que ha- 
via nos humanos, recorreo aos Divinos, e se pegou for- 
temente com Saõ Gonçallo promettendo-lhe alguns vo- 
tos e serviços se a livrasse, mas todavia sem eíFeito, 
por quanto a doente se achava peor, e mais inchada, e 
impossibilitada. Neste estado pario, com que o perigo 
de sua vida cresceo mais por naõ evacuar couza alguã 
nos doze dias seguintes, em cada hum dosquaesse te- 
mia, que fcillecesse. Lembrou-seelle testemunha, entaõ 
das maravilhas, que nosso Senhor obrava pelo seo Servo 
o Padre Fr. Cosme de S. Damião, e que tinha hum pe- 
daço do seo habito, que muito estimava e mandou ahua 
filha sua lhe puzesse em huã bolça ao pescoço da en- 
ferma, o que se fez qnasi a horas de cêa ; succedeo logo 
naquella noite, e dois dias seguintes romper a enfer- 
ma em hun grande desenteria, e com esta evacuação 
ficou depois dos Ires dias livre do perigo, e desinchada, 
e com a mesma proporção de suas carnes, que antes li- 
nha, havendo estado antes toda inchada com huã figura 
monstruoza; ecUe testemunha, quando a vio sã, e sem 
inchação, reconheceo ser obra maravilhoza, e effeito 
dos merecimentos do Padre Fr. Cosme, pela applica- 
caõ do seo habito, e assim o crê, e confessa, etc. — 



Continua a matéria precedente. 

167. Naõ só na cidade da Bahya, e seos contornos 
linha obrado Deos os cazos referidos para credito da 
virtude, e boa opinião do seo Servo ; taõbem permittio, 
que esta se fosse divulgando, e se estendessem os pro- 
íiigios a outras partes mais remotas, e assim passados 
sinco para seis annos, que se tirara na Bahya o processo 
escrito, se authealicaraò outros fora da Cidade, como 
consta do que segue : 

— Eu o Padre Fr. Gregório Mucliado, Monge da Or- 
dem do Patriarca S. Bento, assistente neste Tapicuru, 
dei o juramento dos Santos Evangelhos, cm que pôz a 
sua maò direita o R. 1\ Sebastião Vasques Pacheco, 
Sacerdote do habito de Saõ Pedro, Capellaõ da Gapella 
de Nossa Senhora do Monte, sita neste Tapicuru da 
Fregu^zia de S. Amaro da Pitanga, o qual juramento 
lhe dei por huã commissaõ, que lhe veyo da Bahya do 
B. P. Joze de Oliveyra Serpa, Goncgo Prebendado da 
Santa Cathedral deste Estado do Brazil, Juiz pelos Se- 
nhores do B. Cabido, Sede Vacante, dos milagres, que 
Deos nosso Senhor obra por virtude do seo Servo Fr. 
Cosme de S. Damiaõ da Ordem de S. Francisco, o qual 
elegeo logo por seo Escrivão a Francisco de Souza, mo- 
rador neste Tapicuru, a quem encarreguei taõbem o 
juramento dos Santos Evangelhos, cm que pôzsua maõdi- 
reita,e ambos prometleraô de bem, e verdadeiramente 
inquirirem os milagres do ditto Fr. Cosme de S. Da- 
miaõ das Pessoas a quem os haja feito. Aos sinquo de 
Outubro de mil seiscentos e secenta e sette. — 

Fr. Gregório Machado, 
O P. Sebastião Vaz Pacheco. 
Francisco de Souza, 



225 

Em vime e quatro do sobreditto mez, e anno assima 
jurarão as testemunhas seguintes. 

— Joaõ Nunes Bello, morador no mesmo districto 
de Tapicuru, homem cazado, e natural de Alverca ; 
disseque na era de mil seiscentos e secenta e dous^ 
estando de morada na Alagoa do Norte em as partes de 
Peroaml)uco, comera um Mancebo, por nome Gonçallo 
Martins, hum bagre, peixe, que tem huns ferrões peri- 
gozos, se lhe metteo hum pela garganta, de que esteve 
desasete dias em perigo, e vendo que naõ linha remé- 
dio algum, lhe dera a beber huã mulher por nome Anna 
Pinta, cazada com Joaõ Dias, morador no ditto distric- 
to^ hum pequeno do habito do P. Fr. Gosme de S. Da- 
mião, e terra taõbem a beber, dizendo-lhe qje tomasse 
com grande fé, que o diíto Servo de Deos lhe havia dar 
vida; o que o ditto Gonçallo Martinsbebeo com grande 
fé em sua virtude, e logo immedialamente botara fora o 
ditto ferraõ, e licara o ditto Gonçallo Martins saõ, sem 
achaque, o que o ditto conhecera obrara Deos aquelle 
milagre por virtude do ditto seo Servo Fr. Gosme de S. 
Damiaõ; o que vendo todas as Pessoas, que prezentes 
se acharão, lhe ficarão com particular devoção, o que 
jura elle testemunha vira, ea diltasua mulher por nome 
Philippa Marques, etc. — 

— Philippa Marques deo o mesmo juramento^ ac- 
crescen laudo vira o dilto ferraõ de peixe, que sahira 
da garganta do ditto Gonçallo Martins-, aos pés de Nossa 
Senhora do Rozario em hum Oratório^ que a ditta Anna 
Pinta tinha em sua caza, etc. — 

— Mathias Antunes, morador no Piio Real, disse, que 
sendo na era de mil seiscentos e secenta annos, vindo 
dos campos do Rio Real para a Praya do ditto Rio, em 
hum Sitio, que chamaõ o Japaõ, cahio o cavallo, em 
que elle vinha sobre huã perna, a qual se lhe fizera em 
sinco pedaços, e vendo-se elle com a ditta perua que- 

XABOATAM. PARI. II. VOL. I. 29 



226 

brada, e em parte dezerla, aonde naõ linha Pessoa al- 
gnã^ que lhe acudisse, chamara pelo dilto Padre Fr. 
Gosme de S. Damiaõ, que llie sarasse a perna, e lhe 
amarrou huã fitta, que trazia comsigo locada no ditto 
Servo de Deos^ e sem lhe pôr couza alguà mais que a 
fitla, sarara, e lhe tornarão os ossos quebrados para seos 
lugares, e vendo-se elle saõ, conhecera, que obrara 
Deos aquelle milagre nelle por virtude de seo Servo o 
Padre Fr. Gosme de S. Damiaõ, elc. 

— D. Maria, mulher de Francisco Dias Maciel, mo- 
rodor neste Tapicuru, disse que sendo na era de mil e 
seiscentos e cincoenta e nove ainda solteira, e moradora 
na Gidade da Bahya, e muito sugeita ao mal, que cha- 
maõ asma^ estando muito mal da ditta enfermidade^ 
quasi sem esperanças de vida, lhe deraõ hum pequeno 
do habito do Servo de Deos o Padre Fr. Gosme de S. 
Damiaõ, da Ordem de S. Francisco^ e bebendo ella da 
agoa com o habito se achara bem, e athe hoje lhe naõ 
tornara o ditto mal, etc. 

— Gracia Fagundes, viuva que ficou do defunto 
Diogo Dias Pacheco, moradora nesle Tapicuru; disse^ 
que na era de mil seiscentos e secenta^ estando seo ma- 
rido, que Deos haja, tolhido da vista, c com os olhos 
inchados, e lendo-lhe feito alguns remédios, se naõ 
achara bem em couza alguã; e hindo Manoel das Puias 
Enis, em companhia de Francisco de Souza a \izila-lo, 
o acharão cego, e sem vista alguã, e lhe dera Francisco 
de Souza, Fscrivaõ desta Inquirição hum pequeno do 
habito do Padre Fr. Gosme de S. Damiaõ da Ordem de 
S. Francisco, e lhe dissera^ que o botasse em huã pe- 
quena de agoa, e que com ella lavasse os olhos^ o que o 
ditto seo marido fizera^ e logo tornara a ter sua vista 
perfeita, e se lhe desincharão os olhos, c ficara como 
dantes, o que conhecerão obrara Deos aquelle milagre 
por virtude de seo Servo o Padre Fr. Gosme de S. Da- 
miaõ; o que eu Escrivão nesle Tapicuru dos dittos mi- 



227 

lagresjuro laòbeoi assim passar na verdade, cdaraa 
ditlo Diogo Dias Paclieco, ja defunto o dilto pedaço de 
liabilo para curar os olhos com elle, e depois o vi saõ, 
sem mal alguQi nos olhos^ ele. — 

— Manoel da Rua Ennis, morador no dilto Tapicu- 
ru, testifica o mesmo, que as duas testemunhas acima 
referidas, e disse mais, que do dia, em que vizitara ao 
enfermo dos olhos, em companhia do sobredillo Fran- 
cisco de Souza a trcs dias vira ao ditto Diogo Dias Pa- 
checo saõ, e sem achaque algum nos olhos, e o ditto 
enfermo lhe dissera, se achara bem cora a ditta agoa, 
em que botarão o pedaço de habito do ditto Servo de 
Deos Fr. Gosme de S. Damião, etc. 

— Izabel de Almeyda, mulher de António do Rego, 
morador neste Tapicuru, disse, que sendo na era de 
mil seiscentos e sessenta e sinco, estando muito mal 
de asma, a qual lhe costuuiava dar muitas vezes, e 
desta lh<3 dera de lai maueyra, que a leve o ditto seo 
marido nas maõs de Deos, e vendo que morria, lhe deo 
a beber huã pouca de agoa, em que lançara o ditlo seo 
marido hum retalho dos panos, que chamaõ bragas do 
Servo de Deos o Padre Fr. Gosme de S. Damião, da 
Ordem de S. Francisco, e logo tornara em sy, e jura 
ella testemunha lhe naõ tornara a dar o dilto mal ; e o 
mesmo juramento deo aqui o dilto seo marido Antónia 
do Rego, etc. — 

— Thomé Fernandes Ramos, morador neste distric- 
to de Tapicuru, disse, que sendo na era de mil seiscen- 
tos e secenta e hum, tivera hum crioulo seo por nome 
Manoel, muito mal de huã grande enfermidade, estan- 
do com desoito sangrias, confessado, e chorado de to- 
dos os seos Escravos por verem que elle morria, e lem+- 
brando -lhe, que tinha huã pequena de terra da Sepul- 
tura do Servo de Deos Fr. Gosme de S. Damião, a bo- 
lara em huma pequena de agoa, e a dera ao ditto 
seo crioulo, o qual bebendo-a se levantou dali a poaca&. 



2^28 

horas depois, e sahindo para fora, lhe dissera naõ ti- 
nha, nem sentia mal algum, e assim vive athe o pre- 
zente, etc. — 

— Joanna dos Santos, mulher de Manoel da Rua En- 
nis, e este mesmo como testemunhas juradas, disseraõ, 
que sendo na era de mil seiscentos e secenta e hum, 
estando a ditta Joanna dos Santos cozendo, lhe dera 
huã dor debaixo de hum peito, a qual dor lhe tomara 
logo a respiração, e tolhendo-se-Uie as maõs, equasi a 
falia por tempo de duas horas, e donde morava ser a 
paragem dezerta, por naõ haver quem lhe desse remédio, 
vendo seo marido o perigo, em que estava, lhe dera em 
huã pequena de agua a beber do habito do Padre Fr. 
Cosme de S. Damião, e no mesmo instante se achara 
sã, e sem mal algum, e ficou como de antes, o que 
conhecerão obrara Deos por virtude do seo Servo Fr. 
Cosme, c elles, e toda a sua caza ficarão com grande 
devoçí)õ ao Servo de Deos, porque em febres, maleitas, 
e outros achaques recorrem ao ditto Servo de Deos, 
etc. — 

— Gaspar Fernandes, morador no Tarary do Tapi- 
curu, disse, que sendo na era de mil seiscentos e se- 
centa c sinco, estando huã Rapariga de sua caza muito 
mal, e tendo-lhe feito vários remédios para o mal, que 
linha, se naõ achou bem com couza alguã, e vendo elle 
testemunha, que a ditta enferma morria, lembrando- 
Ihe que linha hum pequeno do habito do Servo de Deos 
Fr. Cosme de S. Damiaõ, e terra da sua sepultura, to- 
mou ambas as couzase as botouem huã pequena deagoa, 
e a deo d beber á ditta enferma, e depois de a beber, dali 
apoucas horas se achou com muita melhora, e a poucos 
dias sã, sem o mal, que padecia; e disse mais, que 
quando os de sua caza padecem algum achaque se re- 
correm ás dittas couzas, e uzando delias se achaõ bem, 
todos, e ai naõ disse. 



229 

— Aos sette dias do mez de Fevereyro de m\ seis- 
centos e secenla e oito^ nesta Cidade do Salvador, 
Bahya de lodos os Santos, nas pouzadas do Licenciado 
Joseph de Oliveyra Serpa, Cónego Prebendado da Santa 
Sé desta Cidade, Juiz dado pelos Senhores do M. R. 
Cabido para esta inquirição, que se tira dos milagres, 
que Deos nosso Senhor obra pelos merecimentos de seo 
Servo Fr. Cosme de S. Damião, comigo Escrivão abay- 
xo assignado, tiramos a testemunha seguinte. — 

— O Alferes Joaõ de Lima Freyre, official de Alfaya- 
te, morador nesta Cidade, deidade, que disse ser de 
sincoenlaannos, pouco mais, ou menos, testemunha ju- 
rada aos Santos Evangelhos ; e prometteo dizer verda- 
de ; e perguntado pelo que sabe acerca dos milagres, 
que Deos nosso Senhor obra pelos merecimentos de seo 
Servo, o Venerável Fr. Cosme de S. Damião, Religiozo 
da Ordem do Seráfico Padre S. Francisco; disse, que 
estando elle testemunha enfermo de vários achaques, 
que padecia por todas as partes de seo corpo, e ten- 
do-o todo cheyo de chagas, que muito o maltratavaõ, 
sem lograr couza alguã do que comia ; por cuja razaõ 
desconfiado da saúde, por naò digirir nada do que co- 
mia, os Médicos, com quem se curava o largarão des- 
confiados da sua saúde, estando elle testemunha todo 
inchado de pés, corpo, e barriga, sem achar remédio 
algum, de tal forma, que se metteo alhe em maõs de 
Negros curadores; succedeo, que naquelle tempo foi 
Deos servido levar para sy da vida prezente ao Vene- 
rável Fr. Cosme de S. Damiaõ, e querendo elle teste- 
munha hir ao seo enterro, ao qual concorria muita 
copia de gente desta Cidade, lhe naõ foy possível hir 
naquelle dia por se naõ poder calçar, nem vestir, em 
razaõ da inchação, além de taôbem naõ enchergar couza 
alguã por cauza da mesma doença ;e ao dia seguinte 
começoa~se a vestir pela menhà, e acabou as quatro 
horas da tarde, que foi á sepultura, aonde ja estava lao- 



"200 

çado o corpo do dilto Venerável Fr. Gosme, hindo em 
liuã rede, acompanhado de dous homens, que tirado da 
rede, o sustinhaõ por se naõ poder ler, e se lançou 
sobre a cova de bruços, rezando ao dilto Servo de 
Deos Fr. Gosme intercedesse por elle a Deos nosso Se- 
nhor, que fosse servido aplacar-lhe as insoporlaveis 
dores, e doença, que tinha, de que naõ esperava remé- 
dio; e rezando uesta forma nove Padre nossos, e nove 
Ave Marias, foi Deos servido, que dali se levantou por 
seos pés, andando, e se tornou, sem necessitar, nem de 
encosto dos dous homens, nem da rede, que trazia 
atraz de sy; antes veyo por seo pé ; e dahi por diante 
comeo, e bebeo, e se achou cada vez com maior dis- 
poziçaõ, e saúde ; o que tudo altribuhio a milagre, obra- 
do pelos merecimentos do Venerável Fr. Gosme de S. 
Damião, e foi dali por diante continuando com huã no- 
vena, que logo prometteo, ficando sempre muito devoto 
ao ditto Servo de Deos, e ai naõ disse, e assignou com 
o ditto R. Juiz; e eu Diogo da Fonseca Freyre, Escri- 
vão, o escrevi. — V 

Jozeph de Oliveyra Serpa. 

Joàò de Lima Freyre, 



CAPlTUIiO XXXVIII. 



Estado presente, em que se acha toda a memoria do Servo de Deos o Venerá- 
vel Fr. Cosme de S. Damião. 



168. Foy sepultado, como ja se disse, o corpo do 
Servo de Deos Fr. Cosme de S. Damiaõ na Claustra do 
Convento antigo, a qual corria pela parte do Sul, e S. 
Bento de Leste a Oeste, e por donde ficaõ hoje as Ca- 
pellasde S. Pedro de Alcântara, Santa Luzia, e S. Be- 



2âi 

nedicto da Igreja nova, e na de S. Luzia, que occupa o 
ineyo das duas, era o lugar desta Sepultura. Com a fun- 
dação da nova Igreja, se tirarão com os dos mais os 
ossos do Servo de Deos Fr. Gosme. Foy o motivo prin- 
cipal para se retirarem os ossos sepultados nesta claus- 
tra antiga o haver de passar a parede da Igreja nova, 
que fica para a parte do claustro do novo convento por 
cima destas sepulturas. Conforme ouvimos a Religiozos 
daquelle tempo, foi opinião de alguns mais devotos, ou 
Religiozos, que visto ser necessário para a obra correr 
aquella parede assim, quando chegasse á sepultura do 
Servo de Deos, attendidas as circunstancias, que havia, 
se armasse alli hum arco, ou abobada sobre ella, de 
sorte, que sem embaraçara obra nova, ficasse sempre a 
sepultura, como estava com sua grade, echave, ou para a 
parte do Claustro novo, ou para dentro da Igreja, que 
era o melhor, e o que he hoje Capella de S. Luzia, fosse 
tumulo do Servo de Deos; porque assim se conservava 
sempre na memoria o seo Culto, e veneração. Mas este 
discurso naõ foi acceito, e seguio-se o voto, dos que só 
cuidaõ no material destas fabricas; e assim se tirarão 
dalli os ossos de lodos. Repuzeraõ os mais em huã se- 
pultura da nova Capella mór, e os do Servo de Deos Fr. 
Cosme de S. Daniiaõ, com os de outro Religiozo Leygo, 
de que ao diante se dará noticia, postos em dons cay- 
xôes, que tinhaõ servido á corpos de Seculares enterrados 
em a Igreja velha, sem mais resguardo, nem clareza de 
quem eraõ os de cada hum, se mandarão lançar em hum 
corredor subterrâneo por debaixo da classe e Sa-Chrislia, 
para o qual naõ havia entrada, nem descida por dentro 
dos corredores, mas era necessário sahir fora destes, e 
entrar pelas janellas razas da parte da horta, patentes 
a quem láquizesse hir; porque as taes janellas naõ ti- 
nhaõ portas, nem grades, que o podesse impedir. As- 
sim o vio quem isto escreve, porque sendo coUegialaqui 
pelos annos de 1720, levado naõ sey se de devoção, oucu- 



232 

riosidade, sahimos a horta, e entrando pela ultima ja- 
nelia pegada aos Terceyros, e quasi frente coma lerra, 
ali notamos os dous cascos dos caixões podres, e car- 
comidos, cada hum com sua calvaria^ e dos ossos ja bem 
poucos; porque só alguãs canas de pés, e braços, huãs 
inteiras, e outras partidas, e alguns pedaços mais. 

169. Nesta incoherenle catacumba, ou urna do es- 
quecimento, por lhe naõ darmos outro Epitáfio menos 
decente, se conservarão desde o anno de 1708, em que 
se desfez o claustro antigo, athe o de 1746, em o qual 
sendo Guardião o P. M. lh\ Boaventura de Saõ Jozeph, 
mandando fazer neste corredor subterrâneo alguãs Cel- 
las para os Religiozos Leygos, com escada interior para 
se descer a elle, no seo ultimo recanto, para a parle 
dos mesmos Terceyros, se deixou hum pequeno Retre- 
te, com porta, e sem fenestra alguã, que lhe possa dar 
luz, e aqui em outro cayxaõ, taôbem sem cubertura, ou 
resguardo algum sedepuzeraô estes despojos da morte, 
e para maior confuzaõ juntos lodos com as duas calva- 
rias, A este obscuro, e triste camarim, chamaD hoje a 
caza dos ossos; sendo com mais propriedade, ou inde- 
cencia, despejo, e paradouro de varias, e desprezíveis 
bacatellas, que como naõ tem chave, alli as vay lançar 
quem quer, e lhe sobejaõ, ou naõ tem serventia. Aqui os 
fomos ver ao tempo, que isto escrevemos, e sendo dia 
claro pelas três horas da tarde, nada pudemos divizar 
sem luz. Applicada esta, com muita diificuldade, por 
estar este cayxaõ com outro por cima, ficando a cabe- 
ceyra, em queestaõos ossos algum tanto descuberla, 
supponho qjie a diligencias de outros curiozos, vimos 
tudo o que fica referido. E quem tendo racional discur- 
so, deixará de fazer alguã breve reQexaõ sobre o tra- 
tamento, a que depois de extrahidas do Sagrado da Se- 
pultura, ficarão expostas huãs taes partes, que como Re- 
líquias havia obrado Deos por meyo delias tantos prodi- 



233 

gibs, e alcançado do Povo huã uoloria, e publica vene- 
ração, e authorizada por instrumentos públicos. 

170. Parece antevia o Servo de Deos com espirito 
Superior este indisculpavel descuido dos Prelados desta 
Província nestes, e em outros semelhantes pontos, naõ 
só do espiritual, mas ainda do económico governo 
delia, particularmente depois da sua separação, e 
que preocupados só em temporalidades, e outras má- 
ximas de se perpetuarem nos governos se olvidariaô 
de tudo o que fosse augmento, e credito delia e do 
que se lhe seguiria de gloria, como a que nesta parte 
podia rezultar a esta Província no culto, e veneração 
da Santa memoria de hum tal varaõ^ e filho seo como 
foi o Venerável Padre Fr. Gosme de S. Damião. Elle, 
como notamos, parece, que o antevia assim, pois con- 
forme a huma memoria, que deste Servo de Deos 
deixou escripla o P. Custodio Fr. Thomas da Apresen- 
tação, que diz elle lhe foy participada pelo Padre Fr. Ja- 
come da Purificação, Provincial que foi laõ bem desta 
Província, e confessor muitos annos do Venerável Fr. 
Cosme, nunca este Servo do Senhor, diz a Memoria, 
foi de parecer, que esta Província se separasse da de 
S. António de Portugal, sua May ; e poderá ser, (nota 
o author da mesma memoria) fosse este o principal 
motivo, com que, alem das impossibilidades allegadas 
ua certidão ja escripta do Servo de Deos, fizesse elle 
a renuncia de ter voto naquelle capitulo do P. Fr. 
Pantaleaõ Bautista, em que via quasi concluída esta 
separação, que tanto temia o Servo de Deos, só por 
este respeito dos governos perpétuos, e parciaes, e das 
suas perniciozas consequências. Trasladamos ad litte- 
ram a referida Memoria. Diz assim — Muitos annos 
havia, que os Religiosos desta Província desejavaõ se- 
parar-se da sugeiçaõ da Província de S. António de 
Portugal de quem era Custodia. Para isto se fizeraõ 
muitas diligencias e sempre os Padres de Portugal 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 30 



2â4 

impedirão eslas com as suas. Nunca O Venerável Pa- 
dre (Fr. Cosme) foi do voto da separação; e assim dizia 
muitas vezes ao Padre Fr. Jacome da Purificação, Pro- 
vincial que foi desta Provincia, e seo confessor, que 
uaõ era serviço de Deos esta separação ; porque total- 
mente se havia de arruinar a disciplina regular com a 
ambição dos Pretendentes, de que liaviaõ resultar 
grandes escândalos aos Seculares. Esta profecia taõ 
certa, como verdadeira está ainda gritando ás portas 
da nossa desconsolação, e naõ só experimentamos gran- 
díssimas turbações interiores, mas taôbem pouca edi- 
ficação nos seculares, cauzado tudo de ambições de 
governo, etc. — 

171. Bem estou antevendo naõ ha de faltar quem 
censure de impertinente ou demaziada esta digressão, 
mas taõbem estou certo, que só o quererão fazer aquel- 
les, que nella se acharem incursos, e lhes falte de mais 
o saberem a obrigação, que tem elles, e os que escre- 
vem semelhantes historias. Elles, em obrar o que 
devem, como bons Prelados, e os que escrevem em naõ 
faltar a verdade, assim no qtte he de bem, como do 
mal ; porque as virtudes escrevem-se para exemplo, e 
imitação dos bons ; e os erros, ou desordens para 
emenda, e escarmento dos que o naõ saõ. E nem o 
repetir estes pode servir, e nem serve de infâmia ou 
deslustre ás commuuidades Religiosas, porque de 
outra sorte será faltar o Escritor á pureza, e verdade 
da Historia. E senaõ quizerem estar por este ditto, 
cuidando seja só da nossa vontade, leaõ o Autor abaixo 
citado, e acharão esta verdade. A mais sagrada e ver- 
dadeira Historia, que se acha cscripta, he a do tes- 
tamento Novo, composta por quatro Evangelistas, e 
deixando alguns delles de escrever muitas das virtudes 
dos Santos Apóstolos, nenhum dos quatro deixou de dar 
noticia da trayçaõ de Judas, e negações de Pedro ; 
e nem por isso ficou menos perfeito, e Sagrado o col- 



2â5 

Icgio Apostólico. E [K)rquo naõ lenliaò só por nossa 
esta máxima, e a naõ lhes deixarem os negócios munda- 
nos tempo para lerem todas as chronicas da Ordem, os 
remettemos a liuma só das mais modernas^ e de Pro- 
víncia laòbem reformada, a de N. Senhora da Arrá- 
bida, na qual em Segunda Parte desde o numero 342, 
da pagina 288 por diante, e ainda no seo Prologo, 
verá naõ só a obrigação dos que escrevem, ^ mas as 
infaustas consequências de Prelados parciaes e am- 
biciozos de se perpetuarem nos governos, ** sem at- 
tenderem ao escândalo dos Seculares, descahimento 
da Religião, e distúrbio das Províncias. 

172. A nossa naõ ficou izenta deste abominável 
contagio, pois logo desde a sua total separação e do 
triénio do seo segundo Ministro Provincial Fr. Aleyxo 
da Madre de Deos, athe o do Padre Fr. Pacifico de 
Jesus, por quazi trinta annos contínuos, vio sobre 
sy esta execranda praga da ambição dos governos, 
como fica apontado em a primeira parte desta chro- 
nica, e no cathalogo dos seos Ministros, havendo no 
intermeyo daquelles annos, Provinciaes iutruzos, go- 
vernos divididos em duas cabeças, chegando a ha- 
ver, em hum mesmo dia dous Capítulos, e sendo prin- 
cipaes fomentadores destas desordens aquelies mes- 
mos, que pelos Ministros Geraes eraõ mandados de 
outras Províncias por seos commissaríos, e Reforma- 
dores. He verdade, que desde o sobredítto Provin- 
cial Fr. Pacifico de Jesus alhe o prezente se tem a 
Província conservado em pacifica paz, ao menos, em 
quanto a fazer os seos capítulos, e congregações sem 
controvérsias, e como querem os que a maudaõ, e 
governaõ, sendo hum dos motivos principaes desta 

* Chron. À.rrab., ibi. 

" Sôledad., Part. 4. Pag. 449, n. 805. 



2â5 

chamada quielacaõ o serem os seos Prezidenles, e 
Visitadores da mesma Província. 

173. Mas he sem duvida muito necessário, que para 
a conservação desta paz, e para que possa ella merecer 
o nome de verdadeira, e Religioza, seja como aquelia, 
que com a vinda de Christo ao mundo, annunciaraO aos 
Pastores, vinha a toda a terra ; isto he, huma paz 
de boa vontade ; como querendo advertir aquelles An- 
gélicos Ministros aos Pastores, ou Prelados, que seja 
a sua paz de boa vontade, e o seo governo sem ten- 
ções, que naõ sejaõ parciaes, que se naò inclinem para 
esta, ou aquelia parle, para este ou aquelle natural, 
que se atlenda só ao merecimento de cada hum. Que 
naõ queiraõ, os que huma vez governarão fazerem-se 
perpétuos no mundo, e cabeças maiores, de que de- 
pendaõ os que lhe succedem e que sejaõ subordinados 
ao seo arbítrio, e diclame aquelles, que lhes saõ su- 
periores no officio, e character ; pois naõ pode haver, 
nem quer paz de boa vontade, aquelle que sendo su- 
perior quer governar sem dependência, e que quando 
o he o outro, esteja este sujeito ao seo arbítrio. An- 
tes o que daqui se segue he tudo desordem ; porque 
para se perpetuarem os governos he percizo fomentar 
parcialidades ; * para se manterem estas acarretaõ-se 
commummente os raais indignos; estes fomentados fa- 
zem-se insolentes, e porque se naõ castigaõ, por se naõ 
perderem, desprezaõ-se os beneméritos, e ainda se per- 
seguem ; turbaõ-se as communidades, escandalizaõ-se 
os Povos, perde a Religião o credito, e vem a descahir, 
naõ só em o essensial da sua primitiva observância, 
mas em tudo o que para sua regular, e económica per- 
feição diz ordem ; pois os que governaõ arrebatados 
desta natural, e cega paixaõ que lhes occupa todo o 
tempo, e o discurso, (e se esquecem de tudo o mais, que 

* S«lcdad., Chronic, Part. 4., Pag. 449, num. 808. 



257 

está a seo cargo), sendo o que muito se deve sentir o 
façaõ aihe daquillo, que loca ao lustre, e credito da 
Religião. E porque se não cuide, (tornamos a adver- 
tir), que este discurso he taõbem de alguma parlicular 
payxaõ, deduzido só da própria vontade, e naô de ver- 
dadeyro, e Religiozo zelo^ podem ler a S. Bernardino 
de Sena, donde em liuma grande parte do 1.* tomo das 
suas obras acharão consequências muito mais notáveis 
dignas de se temerem, e cuidar com vigilante adver- 
tência em as evitar, e por se fugir assim da ultima, e 
tremenda Sentença, * que no Divino Tribunal está 
lançada contra os fomentadores, e cabeças de parciali- 
dades. 

174. Naõ queremos com tudo concluir fosse alguâ 
couza disto a causa total do grande descuido, que houve 
com as veneráveis memorias do Servo de Deos Fr. 
Cosme de S. Damião, fque foi o que nos arrastou a este 
discurso;) particularmente desde os annos de 1708 
para cá, que com a fabrica da nova Igreja foraõ tirados 
da claustra antiga os seos ossos, que sem que a penna o 
queira exprimir, elles por si parece querem fazer certa 
a sua profecia, que por tal a traz o treslado, que fica 
referido, e só o repetimos como advertência, precau- 
ção, ou cautela. 

CAI*lTUIi€l XXULIIL. 



vitimas memorias f que ao presente se conservaõ do Venerável Fr, Cosm$ 
de Saõ Damiaõ. 

175. Taõbem senaõ deixou profecia, (como a trata 
aquella memoria,) do Servo de Deos, ou ajuizado dis- 
curso do seo espirito^ supposto, que cora alguà diífe- 

* Impanitens culpa. Daranatio sempiterna. Priralio Eeclesiasticw 
sepultura. D. Bernardin., tom 1, pag. 146, et seg. 



238 

rença do culto dos seos ossos depois de extrahidos da 
terra, com o que por alguns ânuos se tratou hum ca- 
pello, que foi seo. No culto, com alguà desmonstraçaõ 
demais; porque se guarda em huã bolça de veludo 
pardo, e lie fama constante, e vulgar tem obrado o po- 
der de Deos por elle vários prodígios com a sua appli- 
caçaõ a Pessoas Enfermas, que o mandaõ pedir em os 
últimos apertos, especialmente em partos perigozos, ou 
para se lançarem as crianças depois de mortas no ven- 
tre alguns dias, ou para sahirem á luz com vida, tendo 
precedido difficuldades, e naõ aproveitando antes outras 
diligencias, mas sempre com a notada incúria de se 
mandarem fazer autênticos, nem ainda escrever nos 
livros, que para isso há com os nomes das l^essoas, 
e circunstancias concorrentes, que os faziaõ notáveis, 
ou miraculozos. 

176. Gonservaô-se mais ao prezente dons Retratos 
em Paynel do Servo de Deos hum no convento de 
Olinda, outro no da Bahya nas varandas conventuaes 
das cellas dos Prelados, com rotulo de serem todos da 
verdadeyra eíTigie, e estatura, a qual he de corpo me- 
diano, algum tanto declinado pela idade, e macilento, 
comas contas na maõ direita, e na esquerda o Breviá- 
rio, que nunca deixou de levar ao choro, e lhe servia 
de psalterio por naõ enchergar bem o da Estante, e as 
contas pelas quaes fora do choro continuamente rezava, 
Foraõ extrahidos estes dous Retratos de outro mais 
antigo, que se copiou logo que falleceo, estando ainda 
o corpo prezente, e se conservou a cabeceyra da sua 
sepultura, todo o tempo, que nella estiveraô depozitados 
os seos ossos no claustro antigo, com a devoção dos Fi- 
eis, que alli vinhaõ vizilar esta sepultura, oscular e to- 
car os pés deste Retrato, (como depõe a testemunha 
Manoel Dias Anchieta), e á continuação dos annos se 
corrompeo pelo» pés o pano sobre que era formada a 
sua pintura, e por este se mandarão copiar os que as- 



Í2â9 

síma dissemos, Mas ainda que tirados esíés coíd toda 
propriedade, e semelliança do primeiro em quanto á 
Imagem, e figura do corpo, tem alguã differença em 
quanto aos seos Rótulos, ou letreiros, porque no da 
Bahya tem da bocea do Servo de Deos para liuã Imagem 
de Ghristo, que Ibe fica defronte, o seguinte : — Quid 
mihi esl in ccelo, et a te, quid volui super terram ; e 
aos pés esta outra — Vera venerabilis P , Fr, Cosma à 
S. Damiano effigies, et statura, — sem mais declaração 
do dia, e anno, em que falleceo, incúria, ou pouca ad- 
vertência, naõ tanto do Pintor, que tirou a copia, como 
de quem a mandou fazer, sem duvida por achar extensa 
a do primeyro, e antigo, que lhe sérvio de original. 
Tem este na parte Superior, e da bocca para o Santo 
Ghristo a mesma letra assima, eaos pés a que abayxo 
se segue, que supposlo extensa, eja parle corroída, 
ainda se lê o mais de sua escripta, que aqui traslada- 
mos por inteyro pela acharmos toda, e com os pró- 
prios termos, e fraze latina em um papel, que entre 
outros pertencentes ao Servo de Deos, se guardarão 
no Archivo desta caza, em o qual, além deste Rotulo, 
está relatado taõbem em latim, e compendio, o que nos 
dous dias, que esteve exposto o seo corpo, aconteceo 
demais nota. Diz assim o papel — Elogium ad pedes 
Venerabilis Patris, partim ex D, Gregório Nansiazeno 
desumpium, — E continua assim aos pés do Retrato. — 
Ejus vilce cursus perpetua virtutis agitatio; con- 
tiniiis incrementorum gradibus, In vigiliis, etDeilau- 
dibus Angelicus cemiilator^ sicut et pudicitice, Nudi- 
pes tota vita incessit, Nudavit paupertatem^ absti" 
nentiam admiravit, Vixit mirum prodiguim, moritur 
miraculum, in Monas terio Sancti Francisci Bahyensi 
prima die Novembris, anni 1659, cetatis 85, Religionis 
62. Pheretro mane in Ecclesia exposito, miro interni 
spiritus impulsu a fidelibus, (et quod maius est, á Ma- 
gistris^ et Religiosissimis viris societatis Jesu, et alia- 



2à0 

rum Reíigionum deos culatione pedum abcisione 
habilus pro religutis,) publice veneralur. Exposlulalio 
censorum pro devotione fidelium ad noctem protraxit 
sepidlurum, Ad tumulum thensam /mmeris geslant 
duo prwclari canonici, et ex Benedictina, et Carmeli- 
tana Familia graviores Magistri, Funerationi inter- 
fuit Dinasta Illustrissimus Franciscus Barre tus, totius 
Baliiensis Status fidelis moderator, cum omnibus Mi- 
litice Principibus^ mirantibus super liis, quce dice- 
bantur de ipso, 

177. Deste Servo de Deos, além de bum breve re- 
sumo de sua vida que se acha induzo no livro cartório 
desta Província, donde tiramos o que fica referido no 
seo enterro, se achaõ mais dous cadernos pequenos, 
hum em rascunho, que pouco se pode ler delle, e outro 
em sinquo, ou seis paginas postas em limpo pelo Pa- 
dre Mestre Fr. Daniel de S. Francisco,. Custodio que foi 
taõbem depois pelo tempo adiante em 1054, outros mais 
se achaõ taõbem principiados pelo Padre Custodio Fr. 
Thomasda Presentação, de quem ja outras vezes falíamos, 
nos quaes sem tratar da sua morte se referem muitos, e 
vários cazos, milagres, e profecias, como se diz nos mes- 
mos quadernos, mas de tudo isto, excepto hum, ou 
outro acontecimento, naô tiramos couza alguã, naõ só 
por naõ amontoarmos escripta, como por julgarmos, 
que para a probabilidade da virtude do Servo de Deos, 
bastava o que depois da sua morte fica relatado, como 
autentico pelo Processo, que ja trasladamos. 

178. Para concluzaô deste capitulo, e de tudo, o 
que achamos de mais nota para a vida admirável do 
Servo de Deos Fr. Cosme de S. Damiaõ, naõ podemos 
deixar de repetir o que, cora quem isto escreve acon- 
leceo, que supposto o naõ queremos canonizar por mi- 
lagre, no que loca á nossa parte, e em quanto obrado 
a beneficio nosso, pois o não merecíamos; com tudo 
pelo que nelle entendemos ser devedores a este Venera- 



vel Servo do Senhor, nos achamos obrigados a esta de- 
vida, e grata demonstração. Completa a primeyra parte 
desta Chronica pelos fins do anno de 1758, logo pelo 
mez de outubro, e véspera do Seráfico Patriarcha de- 
mos principio a esta segunda, e ja pela Semana Santa do 
seguinte anno de 1759 tínhamos chegado com ella á vida 
deste venerável Servo do Senhor, e estávamos no capi- 
tulo^ que trata da sua restituição a esta Custodia, sendo 
seo Prelado maior, depois doseo degredo, c captiveiro 
pelos Olandezes. Mas a este tempo nos foy preciso 
parar com a continuação da obra, tanto por uaõ faltar- 
mos á opinião da Pessoa, que seria o menos, como ao 
credito da nossa occupaçaõ, que era o mais ; pois pela 
razaõ de sermos Chronista da Província;, que da nossa 
parte naõ achamos outra cauza, fomos nomeados por 
hum dos Académicos do numero da Academia Brasílica, 
que nesta cidade da Bahya se erigio no mesmo anno 
de 1759 com o titulo dos — Renascidos, — e ainda per- 
maneceo por hum anno inteiro, com muito credito, e 
aproveitamento da Naçaõ, e seria sem duvida huma das 
mais celebres de toda a Republica Litteraria, seb Fado, 
ou destino dos Naturaes a naõ reduzisse, ou puzesse na 
constituição, ou catástrofe triste da outra sua ante- 
rior, chamada dos — Esquecidos, aqui mesmo insti- 
tuída, e sem permanência pelos annos de 1723. Em 
alguãs operações, de que para ella fomos encarregados 
pelos seos Director e Censores se foi passando aquelle 
anno athc o mez de julho de 1760, em que augmentan- 
do-se huã queixa grave, e antiga, que padecíamos de 
fraqueza, e dores de estômago, se diíFundio repentina- 
mente para as pernas fazendo-as dormentes dos joelhos 
para bayxo, com algua resecaçaõ dos nervos, e outros 
symptomas mais, que causarão nos Médicos desconfi- 
ança do seo remédio, prenunciando-nos alguã parlezia 
espúria por fim. Nesta grande consternação, que con- 
tinuou por alguns mezes, vendo-nos quazi deplorados, 

JABOATAM. PART. 11. VOL. I. 31 



2/|2 

entre os Sanlos da nossa devoção, a quem recorremos, 
nos occorreo depois, interpormos taõbem por media- 
neyro diante de Deos, o seo Servo Fr. Gosme de S. 
Damião, reprezentando-se-nos muitas vezes naõ fosse 
este tormento, castigo de alguã sorte, do nosso, ainda 
que naõ de todo culpável tal, ou qual descuido de inter- 
rompermos com outras operações, supposto laõhem lit- 
terarias^ e que nos servirão sem duvida para esta mesma 
obra, a da sua escripta, que tinhamos entre maõs; e as- 
sim lhe fizemos promessa, de que melhorando do acha- 
que, emendaríamos o descuido, de que nos confessá- 
vamos culpados. 

179. Deos sabe o porque ! Nós emOm melhoramos, 
ficando livres naõ só do aggregado daquellas moléstias, 
mas taõbem de outra mais antiga, e naõ menos perigoza, 
de huã rotura, que hia por oito annos padecíamos da 
parte direita, sem acharmos funda que a pudesse sus- 
tentar o naõ sahir para fora, e descer a bayxo, especial- 
mente estando sentados ; mas por mercê de Deos e me- 
recimento do seo Servo, a quem na mesma occaziaõ 
com o soccorro, que imploramos para as mais queixas, 
fazendo taõbem para esta particular supplica, depois 
de estarmos recolhidos na Enfermaria por quazi seis 
mezes desde o de julho alhe véspera do Natal do anno 
sobreditto de 1760, sahindo dali com a conhecida 
melliora, que ja confessamos das outras, desta nos acha- 
mos de entaõ para cá de todo livres, sem applicaçaõ de 
outro remédio algum, seja sempre Deos Louvado, como 
admirável que he em seos Santos, entre os quaes piedo- 
zamente podemos crer, está numerado o seo fiei Servo 
Fr. Gosme de São Damião. 



243 



De outros fíeligiosos, que neste Convento completarão os seus dias com 
opinião de virtude, e deixarão boa fama. 



180. A' veneranda memoria do Servo de Deos Fr. 
Cosme de S. Damião^ de quem alhe agora tratamos, se 
segue a de seo confessor, que foi muitos annos o P. Fr. 
Jacome da Purificação. Deste Religiozo falíamos já, não 
só na vida do sobredillo Fr. Cosme de S. Damiaõ nesta 
segunda parle, mas taõbem, e mais largamente na 
primeyra, e catlialogo dos seos Ministros Provinciaes 
desde outubro de 1605, athe fevereyro de 1672, em 
que a vinte e dous pôz termo aos dias de vida, com set- 
lenta e hum annos de idade, lendo de Ministro Provin- 
cial canonicamente eleito hum ann-o e três mezes, de- 
pois de o haver sido outro anno e dez mezes em duvi- 
das, e controvérsias da Província entre os Padres da 
Bahya, e Pernambuco, como fica expendido na mesma 
Estancia dos Provinciaes. Foy o P. Fr. Jacome o ter^ 
ceyro Ministro canonicamente eleyto depois das referi- 
das e primeyras controvérsias desta Província. Nesta 
occupou repetidas vezes vários lugares, como se acha 
na mesma Estanqia, e em todos sempre com ci^edito da 
Pessoa, e satisfíiçaõ do emprego. Foy hum destes, e de 
que se não fez alli memoria o nomea-lo o custodio Fr. 
Gabriel do Espirito Santo, logo que entrou neste cargo, 
que foi no principio do anno de 1648, por Commissario 
Enquiridor dos Pieligiozos, que nesta Custodia athe 
aqueile tempo haviaõ florecido em virtudes, c de alguãs 
coíizas mais notáveis, e dignas de memoria, por deter- 
minação e Pastoraes, que para este eCfeito havia man- 
dado o Geral da Ordem Fr. JoaÕ de Nápoles, que en- 
trara neste Ministério no anno de 1645. No de 1648 aa 
primeyro de abril, deo principio a esta diligencia pelos 
Conventos de Pernambuco o P. Fr. Jacome, e no seguinte 



de 16ÍÍ9, em que a vinle e quatro de fevereyro tomou 
posse Fr. Joaõ Baulista, como Custodio ja independente 
da Província, sendo seo Secretario o ditto Padre Fr. 
Jacome, acliando-se ambos pelo mez de outubro deste 
próprio anno no Convento de S. Paulo do Rio de Janeiro, 
consta do seo instrumento fizera naquelias parles do 
Norte esta diligencia. No fim deste mesmo anno falleceo 
no Convento de Santos o P. Custodio Fr. Joaõ Bautista, 
e entrando por successor seo logo no principio do anno 
seguinte de 1650 o P. Fr. Sebastião do Espirito Santo, 
que se achava Guardião do Rio de Janeiro, e vinha no- 
meado no Breve de Sua Santidade, e letras do Padre 
Geral para succeder por morte ao sobreditto, tomando 
alli posse do Governo, e achando-se ja a vinte e dous 
de abril do mesmo anno de 1650, no Convento de Gal- 
sarabú em vizita, confirmou ao P. Fr. Jacome a pa- 
tente para continuar a que linha de seo antecessor, 
com aquella inquirição, como o fez athe desanove de 
junho deste sobreditto anno no Convento do Rio de Ja- 
neyro aonde a completou. Se assim como se encarre- 
gou desta diligencia, fora ella executada com todas 
aquellas circunstancias requizitas para o emprego, mais 
tivéramos que dever hoje ao seo cuidado, e ficaria ca- 
balmente satisfeito o bom zelo do P. Geral, que a pro- 
curava, e o dos Prelados desta Custodia, que lhe havião 
conferido esta incumbência. 

181. Deste Religiozo fallando o P. Fr. Thomas em 
outro apontamento fora dos que ja repetimos, na vida 
do mesmo Servo de Deos Fr. Gosme de S. Damiaõ, diz es- 
tas palavras. — Era nesta occaziaõ seo companheiro o 
Religiosíssimo, e humilde Padre Fr. Jacome da Puri- 
ficação, o qual nesta nossa chronica terá huã mui grata 
lembrança de suas heróicas virtudes, e se outra indi- 
viduação de quaes fossem ellas nos deixou só esta lem- 
brança, a qual nós assim como a achamos a referimos 



245 

laõbem por naõ deixar neste lugar a sua memoria sem 
esta breve com memora çaõ. 

182. Da mesma sorte a fazemos, e ainda mais breve 
do P. Fr. Estevão dos Rcys, do qual só achamos em hum 
livro de óbitos antigo este assento; — Em quinze de 
agosto de 1676 falleceo no Convento da Bahya o Irmão 
Pregador Fr. Estevão dos Reys, Diffinidor habitual, as- 
segurando a todos os Reiigiozos, que havia morrer em 
dia da Assumpção da Virgem, como com efleito succe- 
deo. E se os íins bons saõ as melhores provas de huã 
vida Religioza, e perfeita, tal devia ser a deste Padre, 
pois só com muitas virtudes, e grandes merecimentos 
podia conseguir huã graça taõ especial, como a de lhe 
ser revelada a hora, em que sua ditoza alma havia dei- 
xar a vida caduca pela eterna, e em hnm tal dia, como 
aquelle, em que subindo triunfante aos Céosa Rainha 
dos Anjos, e May dos Peccadores, naõ podia deixar de 
ter taôbem nelle a sua boa parte aquelle filho, que, se 
peccador, como homem, estaria justificado, como bom 
Religiozo. Foy nascido no lugar de Gutigype, termo da 
cidade da Bahya, filho legitimo de Gonçallo Fernandes, 
e de sua mulher Maria de Viveyros. No Convento da 
mesma cidade fez profissão a desoito de Dezembro de 
1640, em idade de vinte e hum annos. Foy Guardião 
duas vezes, a primeira no Convento de Saõ Paulo, a se- 
gunda no da Villa do Cayru, e Diffinidor nomeado pelo 
R,'"° Padre Geral Fr. Alonso Salizanes nas controvér- 
sias dos dous capítulos antecedentes, que se haviaõ 
dado por nu lios, e mandado por esta cauza pelo mesmo 
Geral a esta Província por seo commissario Reforma- 
dor ao Padre Fr. António de S. Clara, da Província de 
Portugal, e nesta por virtude das sobredittas letras fez 
capitulo a vinte e dous de Novembro de 1670, e nelle 
declarado por hum dos seos Diffinidores, o Irmaõ Fr. 
Estevão dos Reys, que vinha em segunda plaina por 
morte do da primeyra o Pregador Fr. António dos San- 



246 

los. E lie tudo o que deste Religiozo podemos alcançar, 
que por naõ deixarmos em silencio esle pouco, que 
delle em quanto sujeito de boa fama, e virtude se* acha, 
o escrevemos aqui. 

183. A este se segue, e com a mesma falta individual 
das suas vlrtuozas acções o Pregador Fr. Francisco da 
Conceição. Foy oriundo da cidade da Bahya, filho legi- 
timo de Simaõ de Oliveira Serpa, e de sua mulher 
Agoslinha de Negreiros ; esta natural da cidade de Lis- 
boa, e elle de Lamego. No mesmo convento da Bahya 
fez profissão a oito de Dezembro de 1651. Foy Guardião 
do Convento de Iguaraçú e naõ consta tivesse mais 
cargo, nem delle outra expressa memoria, do que huã 
que se acha esr^ripta no livro dos óbitos do mesmo Con- 
vento da Bahya e he a seguinte : — O Irmaõ Pregador 
Fr. Francisco da Conceição falleceo em Porto Seguro 
com boa opinião; profetisou a sua morte muitos dias 
antes, e falleceo a oito de Dezembro de mil seis centos 
e oitenta e hum. K este he todo o motivo, que lemos 
para numerar este Religiozo enlre os que neste Convento 
acabarão com opinião de virtude. Nem pode obstar a 
isto o naõ ser aqui sepultado ; porque além de o naõ 
ser em outro algnm da Província, mas em a Parochia 
daquella villa, aonde falleceo, era morador deste Con- 
vento quando delle sahio, e a elle he sem duvida, que 
pertence. Taõbem naõ achamos declarada a cauza por- 
que fosse ler áquelle lugar. Mas o que se pode colher, 
da nota de outro livro de óbitos do Convento de Sere- 
gippe do Conde, que declara ftiUecera o tal Religiozo de 
mal de Saõ Lazaro, he, que pelo tal acha({ue, com li- 
cença dos Prelados se retirara para alli, ou por ter 
Parentes no lugar, donde passasse com melhor com- 
modo, ou por outro qualquer motivo, e cauza justa ; por- 
que de outra sorte, se naõ poderia compadecer bem 
aquelle Santo fim, que se suppoem, com qualquer dis- 
curso vago, ou voluntário em um Religiozo que deve 



247 

estar sugeito á voulade, e obediência dos Superiores. 
A esta pia, c arrezoada consideração nos move, e mo- 
verão a qualquer discurso racionavel o dizer-sc que 
profetizara, ou previra muitos dias antes o do seo 
tranzito, o que não podia ser sem grande participa- 
ção de Deos ; como taõbem ser o dia em que falle- 
cendo, renasceo para a Pátria celestial o mesmo em 
que professado havia nascido para a Religião, o dia oito 
de Dezembro, em o qual foi concebida em graça Maria 
Santíssima ; por meyo da qual Senhora poderia conse- 
guir todas estas grandes, e espirituaes felicidades o 
Irmaô Frey Francisco da Conceição. 

18/l. Aqui se offerece para concluzaõ deste capitulo 
a memoria de hum Provincial, pois a de culro lhe deo 
principio. Foy aquelle o Padre Fr. Jacome da Purifica- 
ção, lerceyro em nnmerodos Ministros desta Província, 
e he este o oitavo na continuação delles o Padre Fr. 
André de S. Boaventura. Taõbem fica ja assentado na 
sua própria Estancia o que deste Padre achamos con- 
forme, e verosímil pelos assentos capitães dos Archi- 
vos de Olinda, e Bahya, declarando hum destes, 
como cauza notável e particular, que vizitára toda 
a Província três vezes, e sempre de pé. E este vem 
a ser todo o motivo, que nos obrigou a collocar este 
Padre entre os que com nota de virtuozos comple- 
tarão os seos dias neste Convento. Assim o suppoem 
o mesmo assento ; nem suppomos poderá haver quem 
o contradiga, pois assim o está declarando por es- 
pirito de muita virtude, grande humildade, e summa 
pobreza aquellaacçaõ quasi impraticável por difficultoza 
-de vizitar toda a Província que consta de muito mais de 
duzentas legoas desde o seo primeyro Convento da Ba- 
hya alhe o ultimo da Paraíba em Pernambuco^ por ca- 
minhos ásperos, pouco habitados, e perigozos, naõ só 
huã, mas Ires vezes, e iodas de pé. Se isto he ou naõ, 
mostra de hum espirito agigantado, e crescido em vir- 



ludes, fiíjue ao discurso da iiiellior prudência. Naõ re- 
pelimos aqui o dia^ e anuo, em que falleceo, nem o 
quando tomou o habito^ e professou, e de donde era 
natural, porque tudo fica assentado na sua própria, e 
ja referida Estancia dos Ministros Provinciaes. 



CAPITUIiO Xlil. 



De alguns Religiosos Leygos que neste convento com boa fatna puzeraõ 
termo aos seos dias. 



185. Foy lium destes o Ir. Fr. Manoel dos Anjos, a 
quem vulgarmente assim os de dentro, como os de fora 
chamavão o Pay, sem duvida pelo afago, meiguice, e 
boa vontade com que acudia e tratava a todos. Era na- 
tural de Tibaens no Reino de Portugal, de donde pas- 
sando ao Brazil para a cidade do Rio de Janeyro, e fa- 
zendo renuncia dos interesses do século, que alli o le- 
va vaõ, foi taõ efficaz a sua vocação para o estado Reli- 
giozo, que depois de repetidas instancias aos Prelados, 
e naõ sendo admittido por naõ saber a lingoa Latina, 
se applicou ao estudos. Mas vendo que assim se lhe 
dilatava muito o seo dezejo, insistio em que o accei- 
tasseni para leygo. Foy assim admittido, co m con- 
dição porém, que aprendesse primeyro algum officio. 
Com cuidado se applicou ao de Alfayate, e tendo 
ja delle aquella instrução, que lhe bastava para o Es- 
tado que pretendia, e com boa opinião de vida ja na- 
quelle tempo lhe lançarão o habito, e fez proflssaõ no 
mesmo Convento do Rio de Janeiro, no qual, e em ou- 
tros mais daquellas partes viveo alguns ânuos com cre- 
dito da Religião, e exemplo dos Seculares, e progressos 
de virtuozo, athe que achando-se desta parte da Bahya, 
a tempo, em que se fez a divizaõ das duas Províncias, 



2/|9 

ficou encorporado nesta^ era que permaneceo allie o íiiu 
da vida. Foyseaipre Religiozo mui recolhido, afastado 
do ócio, pois ainda na idade decrépita de mais de 
noventa annos sempre estava entrelenido em utilidade 
do Convento, ou de seos Irmãos, em remendar os hábi- 
tos vellios^ fazer outros novos, e para os Defuntos^ con- 
forme lhe ordenava a obediência, unindo com esta a 
charidade para com os próximos. Foy devoto cordialís- 
simo da Rainha dos Anjos. Destes havia tomado o Ap- 
pellido, ou sobrenome, e desempenhou sempre o amor, 
que lhes tinha com os obséquios, que lhes tributava. 
Da Payxaô de Ghristo foi em extremo devoto. Todo o 
tempo, que lhe restava das obrigações precizas do choro, 
communidades, e officios humildes do sco Estado, o 
gastava nestes espirituaes exercidos, sendo o da Via- 
Sacra o principal, a que nunca faltou, gastando neste 
boa parte da noite, tempo que escolhia por ser menos 
visto dos Religiozos, dos quaes se naõ podia absoluta- 
mente occultar ; vindo a fazer assim por estes, e outros 
effeitos mais publica, e notória a sua virtude, quanto 
mais a procurava occultar, e venerado de todos por 
varaõ Santo, e Apostólico. 

186. Nos de fora cresceo tanto em opinião, quecom- 
mummenteo buscavaõ para consultar com elle os acer- 
tos da alma, edos estados, quedeviaõ, ou queriaõ tomar, 
conseguindo os dezejados fins, os que seguiaõ os seos 
conselhos. Com este se fez taõbem prezumir lhe havia 
participado o Senhor alguãs luzes de sciencias maiores, 
pois naõ cursando as humanas, explicava as Theologi- 
cas, e Divinas, como se as houvera aprendido. Daqui se 
seguia dizerem alguãs Pessoas Doutas, ouvindo as suas 
respostas, que [h\ Manoel dos Anjos tinha sciencia 
infuza. 

187. Para se fazer condigno de taõ especiaes graças, 
teve além das mais virtudes commuas a da Santa ora- 
ção em gráo taõ superior, e elevado, que estando nella, 

JABOATAM. PART. 11. VOL. I. 32 



250 

foi visto por muitas vezes em extazis, absorto, e alie- 
nado dos sentidos, e taõ rozado, e encendido no rosto, 
sendo por natureza de cor pálida, e macilenta, que pa- 
recia outro do que era, o que tudo se attribuhia a fogo 
do amor Divino, em que se abrazava. Neste chegou a 
tal extremo, que nos últimos annos da vida padeceo em 
lodo o corpo hum tal excesso de calor, que para o re- 
frigerar, lhe era necessário meter-se muitas vezes em 
banhos de agoa fria, mas perdendo esta logo o seo na- 
tural, e ficando quent.e, se fez sobre o cazo exame por 
Médicos, e Theologos, e rezolveraõ ser por cauza supe- 
rior, e confirmarão ser este do Padre, incêndio inte- 
rior da alma, e fogo de amor Divino, em que ardia o seo 
Espirito. Purificado este em taõapurada fragoa, e gasto 
o corpo com os annos e penitencias, pôz termo aos dias 
da vida em o primeyro de Fevereiro de 1701, com sig- 
naes evidentes, de que o Senhor o havia prevenido de 
ser este o ditozo dia da sua morte ; porque havendo-se 
confessado, e recebido a Sacra da Eucharistia, e tendo 
taõbem ajudado a missa ao seo confessor, o que sem- 
pre costumava, se recolheo á Cella, ePielreteda Enfer- 
maria. Perguntou lhe o Enfermeiro se queria alguã 
refeição, e respondeo-lhe que só queria fosse dizer ao 
Prelado lhe mandasse dar a Exlrema-unçaõ. Poz-se a 
isto alguã duvida, por se naõ descobrir nelle outro ac- 
cideute, ou achaque, mais que o da velhice ; mas fa- 
zendo -se sobre o cazo alguã reflexão se lhe foi dar. De 
joclaos a recebeo, dizendo aos Pieligiozos, que lhe assis- 
tiaõ : — Para que saõ essas velas acezas ? naõ vem que 
está a cella chea de luzes, e alli a Sanclissima Trin- 
dade? concluída esta Santa ceremonia, na mesma pos- 
tura, em que estava de joelhos, repetindo as ultimas pa- 
lavras dos Agonizantes : In manus tuas, Domine ^ co- 
mendo Spiritum meum, o entregou a seo creador, plá- 
cida, e socegadamente, permanecendo por algum tempo 
depois na mesma postura, e conQrm?ndo-se em todos a 



:251 

boa opinião da sua virtude com huà taõ Santo, e pre- 
cioza morte. 

188. A's vozes desta se commoveo para assistir ao 
seo enterro hum grande concurso de Povo, que ancio- 
zos de ficarem cora prendas do Servo de Doos lhe leva- 
rão em retalhos por Relíquias a maior parte do habito ^ 
e com tanto excesso de devoção^ que intentando o Ir- 
maD Enfermeyro Fr. André dos Anjos, qile assistia a 
guarda do seo corpo, evitar a descompostura, em que 
o hiaõ deixando, entre a confuzaõ, e o tumulto, o feri- 
rão na cabeça cora huã tezoura. Da capella levarão o es- 
quiíFe com o corpo para a Sachristia, a vestir-lhe outro 
habito, e aqui acharão os Religiozos, que lhe assistiaõ, 
estava o corpo todo Qexivel. Assim o depuzeraõ os mes- 
mos, sendo hum destes o Irmaõ confessor Fr. António 
da Conceição, que muitas vezes o aífirmou assim, c 
pedia se fizesse disto instrumento publico; mas sem 
eflfeito, pelo notado descuido, que há nesta parte, de que 
se eslaõ a queixar desde o principio, e o faraõ athe o 
fim as cinzas de tantos varões de espirito, sepultados 
nos claustros os seos corpos, e no esquecimento as suas 
virtudes, e santas operações, com as quaes tem o pro-. 
prio jazigo o muito, que deste Religiozo se podia 
escrever. 

189. Em quanto se revestia de novo habito, sahiraõ 
da Igreja alguns daquelles, que se naõ p'uderaõ aprovei- 
tar das suas Relíquias, e foraõ á cella do Defunto, cui- 
dando achar alli alguns despojos mais, com que satisfa- 
zer a sua devoção, e achando ueila só as paredes, e a 
porta, levarão esta em pedaços, o que lhe naõ custou 
muito por estarem os Religiozos no choro ao oíficio, e 
a cella, em hum pedaço de corredor do Convento velho 
muy corroído do tempo, e de pouca fortaleza. Nesta 
mesma cella havia fallecido, por não haver a este tempo 
Enfermaria, por ser precizo lançar abaixo a antiga, e 



252 

formar por elia, que ficava para a parte de S. Benlo 
huâ das quadras dos corredores novos. 

190. Entre estas acclamacôes de virtuozo e Santo, se 
deo a Sepultura a seo corpo^ sendo fama constante 
obrara Deos pelos merecimentos deste seo Servo vários 
prodígios, assim neste dia, como antes, e depois. Só de 
i)um podemos dar mais individual noticia, como de 
caza. Era neste tempo, em que falleceo. Provincial o P. 
Fr. Jozeph de S. Calharina Roda, tinha hum sobrinho 
Estudante Philosofo no collegio dos Padres Jesuitas pe- 
rigozamente enfermo de hum cancro, e confiado o Pa- 
dre seo Tio na experiência, e merecimentos do Servo de 
Deos, e prodígios obrados com as suas Relíquias ou 
despojos, lhe mandou huãs bragas, que foraõ suas, as 
quaes pondo o Eufermo sobre a cancerada ferida, sem 
mais outro remédio ficou perfeitamcnle sam. Em teste- 
munho da boa fama deste Religiozo ainda em sua vida, 
dizia o Irmaõ Salvador, Leygo da companhia, que fora 
seo companheiro no estado de Secular, que ja naquelle 
tempo o conhecia por virtuozo, e especialmente dado a 
oraçaô; pois levanlando-se alguàs vezes de noite acazo, 
e outras de propósito ja fora de horas, o achava sempre 
neste Santo exercício. Taõbem testificarão alguns Reli- 
giozos deste Convento, que o Illuslrissimo Arcebispo 
desta Metropoli D. Joaõ Franco de Oliveira, repetira 
multas vezes tinha no Archivo de sua Sé três milagres 
aulhenticos, que bastaria qualquer delles a beatificar 
por verdadeyro filho do Palriarcha dos Pobres ao Ir. 
Fr. Manoel dos Anjos. Mas esta noticia, tem contra sy 
alguâs implicâncias. A primeyra he ; porque estelllus- 
írissimo Prelado, passou desta para a cadeyra de Mi- 
randa no anno de 1700, e o Irmaõ Fr. Manoel dos An- 
jos falleceo no seguinte de 1701, no principio, e sendo 
certo aquelle instrumento, e mandado tirar por aquelle 
Prelado, só o iDodiade alguns cazos acontecidos em vida 
do Servo de Deos, eisto tem contra sy a praxe commum, 



253 

que se executa depois da morte doSugeito. A outra he, 
que com alguãs diligencias^ que fizeuios, e revista do tal 
Arcliivo, nada se achou. Taõbem poderá ser se equivo- 
quem os que daõ a memoria com o nome do Arcebispo, 
e que fosse este o seu Successor D. Sebastião Monteiro 
da Vide. E assim, com esta mesma incerteza, o escre- 
vemos, por naô faltarmos á verdade, e naô por querer- 
mos diminuir a constante fama do Servo de Deos. 

191, A este se seguio o Irmaõ Fr. António da Pie- 
dade, ou do Mar, como vulgarmente era tratado. Diz 
bum assento, que vimos, era natural de Chaves; mas 
sem declaração de seos Pays^ nem do anno, e dia da sua 
Profissão, ou do Convento, em que a fez, e seria das 
parles do Rio de Janeiro, como assima se diz do Irmaõ 
Fr. Manoel dos Anjos. Foy Religiozo de conhecidas vir- 
tudes, e na vida exemplarissimo. Na probreza singu- 
lar ; porque despido de todo o affecto ás couzas terrenas. 
Na obediência cego, porque só discorria, quando esta 
o mandava, na presteza, com que a havia executar. 
Na castidade taõ puro, e limpo, que chegarão a conhe- 
cer nelle os mesmos Religiozos o especiozo desta Angé- 
lica virtude ; pois para defensivo do seo opposto, ves- 
tindo occultamente huã túnica sua, se viaõ livres dos 
seos estímulos, como o depoz especialmente hum des- 
tes. Sua humildade, e paciência foy a mais sofrida ; 
pois sendo alguãs vezes bem apurada, porque nunca 
falta, quem aos bons dê, que merecer, tudo recebia 
com semblante pacifico, e socegado. 

192. Entre todas resplandeceo mais a sua charidade ; 
não soem commum — com todos, mas muito especial para 
com os Pobres no officio de Porteyro, em que se occu- 
pou por muitos annos, unindo-se a esta taõbem a sua 
forte, e sofrida paciência, muy necessária ao Religiozo 
em todas as suas virtuozas operações, e muito mais nas 
de Porteyro, distribuidor, e esmoler de pobres, econo- 
mia, que para satisfação de todos se naõ pode praticar 



254 

sem milajjre. Eslc se enlendeo sempre havia entre o 
Irmaõ Porleyro Fr. António e os seos pobres ; pois a 
conformidade, com que estes se accommodavaõ, era evi- 
dencia, de que das suas para as mãos daquelles crescia, 
e se multiplicava o pouco que sem Providencia Superior 
naõ podia chegar, quanto mais satisfazer a multidão dos 
pedintes, que tanto crescia, quanto era o prodígio mais 
notado. Athe asinnocentescreaturas, os mininos pobres 
chega vaõ a reconhecer no Irmaõ Porteyro esta suma 
charidade para com todos, pois alegres em concurso o 
festejavaõ, e como agradecidos lhe oíTereciaõ alguãs ga- 
lantarias daquellas, que costuma fazer mais estimação a 
sua simplicidade. A estes com o pam para o corpo dava 
juntamente o alimento da alma ensinando-lhes primeyro 
a doutrina christan. 

193. Sobre esta sua charidade para com os pobres, 
acrescentava o Padre Diffinidor Fr. Miguel dos Anjos, 
que falleceo neste mesmo Convento a oito de Março de 
1752, Religiozo exemplar, e de boa nota, o que sendo 
chorista, e Refeitoreiro aqui Iheaconfecco com o Irmaõ 
Porteyro Fr. António da Piedade. Houve pelos fins do 
século passado de 1698, para noventa e nove huã 
grande falta de mantimentos na terra, tanto, que chegou 
o alqueire de farinha a dessaseis tostões, e dahi para 
sima. Estava o Irmaõ chorista no Refeitório, pondo na 
meza para a cea dos Religiozos a ultima, que havia em 
caza ; entrou o Porteyro pedindo-lhe alguã para certa 
pobre, que estava na porta com dousfilhinhos. Escuzava- 
se delia dar pela falta, instava o Porteyro por acudir á 
necessidade da pobre, e com taes razões, fundadas na 
Providencia Divina, que lhe deo faculdade o chorista 
para tirar a que lhe fosse necessária. Levou a esmola a 
portaria, e dahi a pouco entrou pelo Refeitório com 
huà carta na maõ dizendo assim : Ora vede ; vós me es- 
táveis regateando hum prato de farinha para huã pobre, 
aqui está esta carta de Fr. Manoel de S. Lucas, que 



255 * 

nianda a esmoUa de farinha no Cayrú em que diz, nos 
manda vinte e sinco cyrios delia. Estes cyrios saõ huns 
alforjes fabricados de pallia, e montavaõ tanto, como 
vinte e cinco alqueires. 

194. Taôbem com os seos Irmaõs Religiozos não foi 
menos praticada a sua cliaridade. Sendo Refeitoreiro, 
officio qiie excrceo nos annos mais robustos, alguns Fra- 
des moços por tirarem provas da sua cliaridade, c pa- 
ciência, vendo-o ja recolhido na cella, e a horas incom- 
petentes, muitas vezes lhe batiaõ á porta, pedindo-lhe 
fosse a bayxo dar-lhe alguã refeição, porque se achavaõ 
necessitados, e sem repugnância, e com semblante ale- 
gre lhes fazia a vontade, com estes mesmos, que eraõ 
commmumente os Irmaõs choristas, repartia tudo o que 
lhe mandavaõ algumas Pessoas devotas, e ainda estando 
doente na Enfermaria, do que lhe mandavaõ as mesmas 
tudo applicava para os mais enfermos, sem rezervar 
para sy nada, o que notavaõ todos, admirando-se da 
muita cliaridade, que tinha para com os mais, e taô 
pouca para comsigo. 

195. Na oraçaõ foi taô continuo, e elevado, que to- 
cando-lhe na Portaria, quaudooccupava este officio huã 
e muitas vezes, nada ouvia, e succedendo algumas bus- 
ca-lo os Religiozos, o achavaõ na capella de joelhos, e 
adverlindo-lhe, que acudisse a porta se retiravaõ, pare- 
cendo-lhes, que os tinha ouvido ; e como dantes perse- 
verava na mesma postura ; e assim chegando~se a elle 
outra vez, os mesmos» que o haviaõ chamado o abala- 
vaõ, dizendo-llie, que fosse á Portaria, e como absorto 
lhes respondia, que sim, como se antes o naõ houves- 
sem chamado; outras vezes estando por noite recolhido 
na cella, lhe ouviaõ dar vozes, como de agastamento 
conlraalgucm ; e julgavaõos de fora, sabendo estar elle 
só, eraõ palavras aquellas contra o Demónio, que com 
alguãs vizões exlranhas o intentava molestar^ c divertir 
dos seos costumados e espiriluaes exercidos. 



256 

196. Assim cheyo de merecimentos, e annos^ pôz 
lerrao aos da vida iio de 1702, aos desaseUe dias do mez 
de Junho, com opinião universal de Religiozo de Santa 
vida. Foy numerozoo concurso da gente a vizitar o seo 
cadáver, expostoem a Igreja para se dará sepultura, e a 
impulsos da devoção, lhe levarão em retalhos o habito, 
succedendo neste confuzo tumulto darem-lhe por des- 
cuido hum golpe no corpo, de que lançou Sangue, como 
se estivera vivo; e como tal, taòbem se admirou todo 
ílexivel. Dos retalhos do habito, que levarão os devo- 
tos depoz huã mulher, por nome Maria Marinha, que 
applicado a vários Enfermos hum que lhe coube, tiveraõ 
repentina melhora nos achaques. Outros muitos seme- 
lhantes foi fama vulgar e o diz o assento de hum livro 
dos óbitos, fallando do deste Religiozo, obrava Deos 
assim no dia do seo enterro, como depois, por este seo 
Servo. 

197. Certo homem morador em Jagoaripe, Recôn- 
cavo da Bahya, estando no trabalho de huã Roça, com 
hum escravo seo, foi este picado de huã cobra, entrando 
logo em anciãs de morte á força do veneno, e naõ lendo 
alli com que o atalhar, lembrou-se trazer comsigo hum 
cordão que fora do Servo de Deos, de quem era parti- 
cular devoto, e o atou na perna do escravo assima da 
mordedura, em quanto hia a caza buscar modos de o con- 
duzir. Voltou a toda a pressa, e chegando ao lugar, se 
vio livre do susto, mas lodo admirado ; porque achou 
o escravo trabalhando, como dantes. Perguntou-lhe, 
quem o havia curado com tanta brevidade ? Respondeo- 
Ihe, que naõ sabia, e que estando naquelle desacordo se 
chegara a elle hum Frade Leygo de S. Francisco, e o 
mandara levantar, o que fazendo, se achara naquelle 
estado. Entendeo o homem quem podia ser o Frade, e 
partindo logo para a Bahya com o mesmo escravo a ren- 
der as graças ao seo Bemfeitor, e relatar o cazo aos 
Religiozos, chegando ao Convento foi a primeyra dili- 



^257 

geiícia vizitar a Sepuilara do Servo de Dcos; e ve»do o 
Preto escravo liuni painel de meyo corpo, em que es^ 
lava retratado á cabeceyra da sepultura, exclamou di- 
zendo, que aquelle mesmo era o Frade, que o havia li- 
vrado da morte. Este cazo, que nem foi autentico, 
como requeria o devoto homem, nem ainda lançado nos 
livros de memoria, repetia muitas vezes o Irmaõ Leygo 
Fr. Manoil de Saõ Lucas, que succedeo no officio de 
Porteyro, e esmoler dos pobres ao Ir. Fr. António do 
Mar, e faileceo neste Convento a quatorze de Agosto de 
1721, lleligiozo dos nossos tempos, e taõbem de boa 
opinião, e credito de virtnde. 

NolugardosobredittoFr. Manoel de S. Lucas, entrou 
por Porteyro, e esmoler dos pobres o Irmaõ Fr. Sebas- 
tião de Espirito Santo, athe o prezente taõbem Leygo 
no estado. Este testifica que por morte do Arcebispo 
D, Sebastião Monteiro da Vide, que foy a 7 de Setembro 
de 1722, tendo a certeza de que este 111.""' Prelado con- 
servava em seo poder hum manto velho, que havia sido 
do Irmaõ Fr. António do Mar, com muita instancia, e 
repetida diligencia o tornou a h^iver de Domingos Car- 
dozo, a que Sua III.'"' o havia deixado entre os despo- 
jos da sua camera. Este manto, diz o mesmo Fr. Sebas- 
tião, que tirando delle alguã parte para distribuir por 
particulares devotos, o mais entregara ao Guardião 
do Convento para o guardar, como merecia ; mas o íim 
que teve se uaõ alcança, e nem do que sobre elle se re- 
fere se fez memoria alguã, e nem do principio, ou mo- 
tivo porque foy dar ao poder do 111."'" Arcebispo. Este 
Prelado chegou á Bahya em vinte de Maio do anno de 
1702, e a vinte e dous do ditto tomou posse, e falle- 
cendo logo no mez seguinte de Junho o Irmaõ Fr. An- 
tónio, correndo a fama dos prodígios, que Deos por elle 
obrava, sem duvida pediria taõbem alguã prenda sua, 
e naõ havendo ja outra, porque a do habito se consu- 
mio no mesmo dia do seo enterro, lhe oíFereceriaõ a do 

JABOÂTAM. PART. H. VOL. I. 33 



258 

manto, que elle conservou em quanto vivo. O que delle 
só se conserva ao prezente, saõ alguns, dos seos ossos, e 
e calvaria, confuzos, e misturados, como fica ditto, com 
os do Padre Fr. Cosme de S. Damião. Este foi o ultimo 
Religiozo de virtude, que com os mais ja referidos tive- 
raõ o seo descanço em o cemitério de claustro do Con- 
vento velho e primitiva Igreja. 



LIVRO IT. 



Trata do Convento novo, c sua Igreja, com o mais, que lhe toca athe 
o presente. 



CAPlTlJIiO I. 

Descreve-se o Convento novo com a sua Igreja, 

198. No anno de 1686 aviule de Dezembro, quarta 
Dominga do Advento, dia memorável, era que se cos- 
tuma celebrar nesta caza a festa do gloriozo Santo Ao- 
lonio, com o titulo de Arguim pela Camará, e motivo, 
que em seo lugar flca relatado, e deraô principio á obra 
do Convento novo. Lançou a primeyra pedra o Senhor 
Marquez das Minas D. António de Souza Telles de Me? 
nezes, Governador Geral do Estado. Levaraõ-na em 
maõs o Conde do Prado filho do mesmo Governador, 
Gaspar de Brito, Morgado do Engenho, que chamaõ dQ 
Fidalgo, o Mestre de campo António Guedes Brito, Syí\- 
dico do Convento e seo enteado Ruy Dias de Menezes, 
sendo Guardião Fr. Thomas da Presentação, e Ministro 
Provincial o Padre Fr. Domingos do Loreto. 

199. Formou-se a quadra dos corredores para a 
parte du Sul, ou S. Bento, começando o primeyro da 
esquerda, e fronlispicio da Igreja, que fica para a rua 
principal do culiegio, e corre para o mesmo Sul este 
corredor, o segundo atravessa de Leste a Oeste, e o 
terceyro voltando da ponta deste vay feichar a claustra 
pela capella mor; mas muito avantajado aos mais, por 
que cortando adiante por detrás da mesma capella, con- 
tinua com outra igual distancia para onde ficaõ os Ter- 
ceyros, ainda além da sua Igreja ; de sorte que bem 
podia do fim deste correr outra quadra igual á primeyra 
a feichar com o fronstipicio da Igreja pela parte direita, 
ou do Norte, e ficar esta no meyo de dous Claustros, 
ambos iguaes, e da mesma formatura. E bem o mostrou 



260 

o tempo seria islo o mais acertado, tanto para maior 
numero de Cellas, e agazalhos aos Religiozos, que com 
o mesmo tempo foraõ crescendo, e principalmente nas 
funções de capitulos, que para accpmodar os vogaes, 
que se ajuntaõ de lodos os Conventos, e hospedes re- 
gulares, que sempre os ha, he percizo desaccommodar 
moradores; e muito mais^ porque largando-se aos Ter- 
ceyros a ponta deste corredor, com cinco Cellas * em 
cada hum dos scos sobrados, e outras pelos fundos, da- 
qui nascerão as grandes turbações, eainua escândalos, 
que nossos Irmaõs, e filhos do mesmo Pay nos tem 
cauzado assim dentro como fora. 

200. Como havia tempos se cuidava nesta obra pela 
necessidade, que se tinha delia, tanta diligencia, e fer- 
vor sedeo a isso que no capitulo seguinte de li de Sep- 
tembro de 1689, naõ havendo ainda três annos, que se 
lhe havia dado principio, diz o Guardião, que lhe lan- 
çou a primeyra pedra no termo da entrega da caza, que 
ficava a obra dos três corredores toda engalgada, e no 
segundo sobrado, que foi sem duvida hum trabalho de 
vantagem, pois só o corredor grande, que atravessa 
por de trás da capella mór orcupa a distancia de mais 
de secenta braças, com vinte e cinco Cellas^*, de desa- 
seis palmos de largo cada huà fora duas janellas con- 
ventuaes da mesma largura. Assim com esta mesma 
pressa se foi continuando toda a obra, de sorte, que dahi 
a dcsaseis annos, no de 1705, diz o assento do Guar- 
dião Fr. Manoel de S. António Bexiga, que o foi três an- 
nos, que acabara as obras do Convento, isto se en- 
tende, o formal de dentro para poderem servir, a sa- 
ber Cellas, todas as oíTicinas debaixo. Refeitório, Pozo, 
cozinha, c caza de oratório para as graças depois de 
jantar, e rezar pelos defuntos, seis Cellas, que ainda 

* 5 Cellas, e naõ 4 como diz a Escritura de Concordato. 
** 2a CeUas linha o Monte Âlverne. 



261 

faltavaò no corredor segundo ; como taõbem a Enfer- 
maria, que he outro corredor separado da quadra^ e 
na ponta do que vay da portaria para S. Bento, forran- 
do-a e perfeiçoando-a de retábulo, azulejo^, e tudo o 
mais, que lhe era necessário. Mas he sem duvida, que 
ja alguns annos antes se haviaõ passado os Beliglozos 
do Convento velho para este novo, especialmente para 
os corredores de sima, em todas as suas três quadras, 
e para o segundo sobrado, só para o que corre da por- 
taria, e pelo andar sobre o Refeitório ; porque pelo 
tal assento as seis Cellas, que mandou fazer o sobre- 
ditto Guardião, eraô as primeyras do corredor grande 
debayxo, no mesmo segundo sobrado, ficando o res- 
tante deste para Sachristia, despejos deste, e classe 
para os estudantes, que tudo se veio a concluir pelo 
tempo mais adiante. 

201. Seguio-se a este Guardião assima o Irmaõ Fr. 
Vicente das Chagas, e diz o seo assento, mandara elle 
soalhar a Sachristia, os seos despejos, e a classe, 
e outra caza neste mesmo andar determinada para ca- 
pitulo, que com a formatura do claustro novo se mudou 
para a outra quadra, que corre da portaria. Com isto 
se concluirão todas as obras dos corredores e Con- 
vento, menos o claustro, que por se cuidar na Igreja, 
como obra mais necessária, depois do agazalho dos 
Frades, concluída de todo, como logo veremos sendo 
Guardião o P. Fr. Gervazio no capitulo de 1758, sedeo 
principio ao claustro, e se concluhio no triennio do Pa- 
dre Fr. Manoel de Jesus, que entrou por Guardião no 
capitulo de 1749. 

202. Funda-se todo o claustro do Convento sobre 
que assenta, o peitoril com barretes de abobeda, em 
trinta e seis arcos, nove por cada lanço com desoito pal- 
mos de vaõ, que dividem trinta e duas columnas de 
pedra inteira com dez palmos de alto, fora as bazes, e 
capiteis c quatro pilastrasnos cantos. O seo pavimento 



262 

he lageado todo da mesma pedra, e as paredes de pay- 
neis de azulejo da nova fabrica comoosaõ taõbem os do 
peitoril de sima, pelo qual corre huà cornija lavrada em 
pedra, sobre que assenta oulra ordem de columnatas, 
que sustenlaõ os telhados que vem dos corredores, e 
forma com tudo isto, e pelo espaçozo, huã alegre, e vis- 
loza perspectiva aos que vem de fora, e entraô pela por- 
taria, e ainda aos que dentro vivem, e podem taôbem 
com o seo honesto, e recolhido passeyo divertir alguãs 
vezes as payxões cazeyras. 

203. Na quadra, que corre ao entrar da portaria a 
maõ direita, eslá no meyo a capellinha do capitulo, com 
portada de arco de pedra, e grades de madeira, com 
balaustres de torno, e pilastras de talha, que servem de 
porta. He consagrado o soo altar á Senhora com o ti- 
tulo da Saúde. Tem retábulo de talha, forro de mol- 
duras, com payneis de bom pincel, como taõbem pelas 
paredes, e tudo dourado com a maior perfeição, e or- 
nato de altar, a expensas de pessoas devotas. A oito de 
Septembro se faz festa á Senhora, posta na capella mór 
da Igreja em huã charola a sua Imagem, que se leva era 
procissão ao redor do cruzeyro do Convento, depois da 
missa solemne, e pregação com o Senhor exposto, o que 
tudo se faz a dispêndio dos muitos, e particulares devo- 
tos, que tem a Senhora. 

204, A quadra fronteyra a esta, e vay correndo do 
Sul para o Norte athe a Sachristia, que fica por detrás 
da capella mór, mediando entre estas huã Via Sacra, 
que dá passagem para a caza da classe, e Terceyros, he 
a que serve de cemitério aos Religiozos; e nella eslaõ 
taõbem as sepulturas de Dona Joanua Gavalcanty e Al- 
buquerque, e a de António Corrêa Seixas, nossos Ir- 
mãos da confraternidade, a deste no principio da qua- 
dra da parte da Sachristia, e aquella da outra parte, e 
ambas ao pé das duas pilastras da quadra, com campas, 



263 

e sanefas de mármore, e seos letreiros, ficafldo as dos 
Religiozos, que saõ desoito, no meyo destas. 

205. Como estamos ao entrar da Saclirislia, scguc- 
se dizer, que fica esta por debayxo do sol)rado do cor- 
redor de sima,'que vay do Sul para o Norte, epor detras 
da capella mór, mediando entre esta, e a Sachristia a 
Via Sacra, que ja se disse, dar passagem para os Ter- 
ceyros. Occupa a Sachristia toda a largura do mesmo 
corredor, com distancia de sinco janellas, que corres- 
pondem a outras tantas de todo o corredor, e Cellas. 
Na do meyo tem lavatório de mármore, dons cayxões 
da outra parte de páo Jacarandá preto com seos espal- 
dares do mesmo, tudo 4e entalha, emolduras, altar 
com nicho dourado no meyo, em que se venera a Ima^ 
gem do Senhor crucificado ; e nas ilhargas dous Alma- 
rios com gavetas para os amictos da mesma escultura, e 
madeyra, que tomaõ do pavimento ao tecto. Este ite 
forrado de molduras douradas, e payners de grave pin- 
tura, e outras pelas paredes com os passos principaes 
da vida, e acções do Seráfico Patriarcha. 

206. Da Sachristia se sahe por duas portas, corres- 
pondentes ás duas Via-Sacras, que guiaõ para a Igreja, 
ficando todas as paredes destas Via-Sacras, e Sachristia, 
como as do claustro, athe a mais do meyo compostas do 
mesmo azulejo, repartidos em quadros com varias, e 
divertidas pinturas. Destas duas Via-Sacras se entra 
para a Igreja, ou pelo seo cruzeyro por duas portas, huã 
por cada lado, ou por outras duas do mesmo modo para 
a capella mór. Tem esta quarenta palmos de fundo^ 
desde o pé do arco athe o primeyro degráo do Presbi- 
tério, e com este primeyro se sobem mais quatro athe 
o plano do altar mór ; e assim estes degráos, com os 
painéis, e o mais do mesmo Presbitério, he tudo de 
pedra mármore vermelha e branca. Taôbem o pavi- 
mento de toda a capella mór he lageado da mesma, em 
forma de alcatifa, com ramajesdecor vermelha, brancas. 



264 

preta, e aniarella de curiozo, e vistozo lavor. Tem seis 
tribunais, ou janellas rasgadas, três por cada lado, com 
Retábulo, forro do seo tecto, trono, e tudo o mais, que 
cobre as paredes da coruija das janellas, ou tribunas 
para sima de rica, e perfeita talha dourada, e só de 
azulejo apaynelado da cornija das janellas para bayxo, 
athe o pavimento. He a largura da capella mór de trinta 
e seis palmos. No altar maior tem nicho á parte da 
Epistola a Imagem do Seráfico Patriarcha ; e na do 
Evangelho a de N. Padre S. Domingos, ficando no 
meyo o Sacrário, ou tabernáculo do Sacramento. 

207. Tem o cruzeiro da Igreja quarenta palmos en- 
tre as grades do corpo, eas do arco da capella mór, e 
cento e oito de largura, que he a mesma que tem o 
corpo da Igreja, e assim o corpo desta, como todo o 
cruzeyro he lageado de mármore, rapartido em sepul- 
turas cora sanefas do vermelho, e campas do branco. 
Nelles íicaõ os dous Altares collateraes, o da parte da 
Epistola do gloriozo S. António, e da parte do Evange- 
lho o da Senhora da Conceição. Aos seos lados tem ou- 
tros Altares, ou captllas^ a da parle da Conceição, con- 
sagrada á mesma Senhora, com o titulo da Gloria, que 
está em throno superior, e ao pé em nicho do meyo a 
Senhora S. Anna, resguardada a sua Imagem em for- 
mozo caxilho de vidraça ; e á parte da Epistola o Se- 
nhor S. Jozeph, e da outra parte o gloriozo S. Joachim, 
em duas perfeitas, e avultadas Imagens. A outra ca- 
pella, que corresponde a esta da parte do altar de S. 
António se consagrou desde o seo principio ao gloriozo 
S. Luiz, Bispo de Toloza, e collocada no throno a sua 
Imagem, donde permaneceo athe o anno passado de 
1761, em que com nova idéa foi tirada, e em seo lugar 
se coUocou em o dia de todos os Santos, com sermaõ, e 
festa solemne para se continuar todos os annos a nova 
Imagem do Senhor Santo Ghristo, com o tilulo da Boa 
Sentença, e ao pé em seo nicho pela mesma formatura, 



^65 

que o da Senhora S. Anna, foy collocada taõ bem ne^ta 
mesma funçaô a nova Imagem da Senhora da Soledade, 
dando-se lugar á de S. Diogo, que nelle estava a hum lado 
c a outro á de S. Luiz, que oceupava o throno alto, e 
do meyo, para que sem duvida nos dezenganemos que 
neste mundo athe os Santos ao menos nas suas Imagens 
se naõ izentaõ de subir, e descer pelas idéas, e máximas 
dos homens ; sendo, que o Santo Bispo se devia gloriar 
muito com esta troca, vendo, que aquelle mesmo lugar, 
que servia de assento á sua Imagem, em quanto Santo, 
passasse a ser throno do Sagrado Prototypo de hum ho- 
mem Deos. e Senhor cruciflcado por seo amor. Assim 
estas duas capellas do cruzeyro, como a maior se divi- 
zaõ por três grandes e espaçazos arcos, que occupaõ 
lodo o vaõ das mesmas capellas, de igual proporção, e 
archilectura, com boa e sabida lalha, como saõtaõbem 
os retábulos destas duas capellas. Da mesma fabrica, 
e talha saõ laõbem os dous púlpitos. Estaõ coUocados 
nas duas bazes dos primeyros arcos, que começaõa cor- 
rer do cruzeyro, e grades da Igreja para a porta prin- 
cipal, e se sobe a elles por escada aberta entre o corpo 
da mesma baze, ou pé do arco. 

CAPITUIiO II. 

Do mais corpo interior da Igreja . 

208. Consta a Igreja de três Naves ; a principal^ ou 
do meyo, que forma o seo corpo tem de largo secenta 
palmos, e está repartida em sepulturas com sanefas, 
comoja se disse, taõbem de mármore, mas as campas 
de soalhado. Nas duas Naves, que correm aos lados 
desta primeyra, se vem quatro arcos por cada banda, os 
dous primeyros logo ao entrar da porta principal da 
Igreja, e por bayxo do choro, daõ sabida, hum para a 

JABOATAM. PART. II. YOL. I. 34 



"266 

porta, que vai ter ao alpendre da Igreja dos TerceyroS;, 
o outro para a poria, que sahe ao interior da portaria 
do Convento. Nos outros tres^ que correm por cada 
hum dos íados das mesmas Naves para a Igreja, e ja 
fora do espaço, que occupa o clíoro, se deixaô ver por 
elles outras tantas capellas dedicadas a vários Santos da 
Ordem. 4 primeyra dá parte dos Terceyros, e se entra 
para ella pelo arco, e capella do cruzeyro, e Senliora 
da Gloria ; he consagrada a S. Vicente Ferrer ; a se- 
gunda, correndo para bayxo, a Santo António de Ar- 
guim ; a terceyra a S. Efigenia. A que corresponde a 
esta da outra parte do Convento, a S. Benedito, a do 
meyo a Santa Luzia, e a ultima, que salie por esta 
banda para o mesmo cruzeyro da Igreja pelo altar, e 
capella do Santo Christo, he dedicada a S. Pedro de 
Alcântara. A todos estes Santos se lhes faz festa nos 
seos dias, com sermaõ e Senhor Exposto. A Santo An- 
tónio de Argui m a camera, como fica ditto, aos dons 
Santos Pretos a Gente da sua cor, e tem suas confrarias 
com missa, suffragios, e sepulturas. Aos mais Santos 
das outras capellas solemnizaõ vários devotos. Todas 
estas dittas capellas se dividem pelo interior com seos 
arcos de barretes de talha, e toda a mais fabrica sobre 
que assentaõ, assim estes arcos de dentro, como os que 
correm pelo corpo da Igreja, e esla toda athe os rema- 
tes das portas das suas tribunas, que tem três por cada 
lado, e assentaõ sobre cornijas de predra lavrada, cor- 
rendo na mesma altura do choro; estaõ cubertas da 
mesma talha, primoroza, e dourada, com retábulos em 
todos os altares destas capellas, sendo os dous dos al- 
tares do cruzeyro ao lado, pelo alto e espaçozo de vis- 
toza, e admirável perspectiva. E a mesma pede com at- 
lenta reflexão todo o mais corpo da Igreja, que se naõ 
vê nella desde o pavimento athe a cornija do tecto mais 
que huã pequena face de parede nua, e despida, de 
cinco ou seis palmos entre os remates sobredittos das 



267 

portas das tribunas, e a cornija do t€clo. He este de 
raeya volla junlo ás paredes, e o mais corpo de esteyra, 
aquartelhado com payneis de molduras douradas com 
avultada pintura de destro, e apurado pincel. 

209. A' imilaçaõ, e facturadas do corpo da Igreja 
estaõ todas estas capellas, tanto pelos vãos dos arcos, 
que delias olhaõ para o corpo da igreja, como pelos 
que para ellas se entra pelo cruzeyro, ou se salie para 
baixo do choro, circuladas com grades de pao preto de 
torno, e retorcido, obra perfeilissima, e fabrica do Ir-r 
maO Fr. Luiz de Jesus, Religiozo Leigo, filho desta Pro* 
vincia, bem conhecido, e chamado por lodos o Tor^ 
ueiro, pelo singular da idéa, e perfeição, com que ope- 
rava estas, e outras semelliantes obras. Deste mesmo 
Mestre, e da própria matéria saõ taõbem os cayxões da 
Sachristia, estante do choro, e suascadeyras. He o cor- 
redor, e Naves, qae occupaõ estas capellas de vinte e 
quatro palmos de largo, e com tal capacidade que por 
elle passaõ todas as procissões, que fazemos em caza, e 
taõbem as que de fora vem ao nosso Convento, especi- 
almente a que chamaõ dos Fogaréos, em Quinta Feyra 
Maior, a qual entrando por huã das cinco portas, que 
tem o Fronslispicio, e he a que fica por baixo da torre 
da parle do Convento, desta vay pelo corredor, e Nave 
das capellas desta mesma parle, sahe ao cruzeyro da ca- 
pella mór, volta pelas outras capellas, e sahindo pelo 
arco, e portados Terceyros, para asna capella, passa 
todo o grande concurso de gente, que acompanha esta 
Procissão pelo vaõ, ou Nave destas capellas, sem inquie- 
tação, ou dcscomodo do muito povo, que se acha junto 
em o corpo da Igreja. 

210. Está o choro no lugar, em que commumraente 
o tem todos os nossos. Fica na altura, e andar da cor- 
nija sobre que assentaõ as tribunas da Igreja, com a 
largura do corpo, ou Nave do meyo, que saõ sessenta 
palmos, formando-lhe de huã, e outra parte dous ante- 



268 

choros as Naves das ilhargas, que correm sobre as ca- 
pellas debaixo, e por sima os sobrados, e corredores 
das tribunas da Igreja. Sustenta-se pelo vaõ sobre 
quatro columnas^ as duas do meyo de pedra inteira de 
desoito palmos de alto, fora a baze, e capitel, e as duas 
dos cantos de nieya face, unidas á parede ; e como 
estas duas, saõ as outras quatro, que lhe correspondem 
pela parede interior do frontispício. Sendo a largura do 
choro de secenta palmos, vem a ter de fundo só qua- 
renta e cinco, e foi forçozo assim, por naõ occupar mais 
corpo adiante^ e fazer, com que parecesse o da Igreja 
ainda mais curto, e desproporcionado, a respeito da 
sua latitude ; para que naõ deixasse de haver em tanta 
obra algum notável defeito. Teve este o seo principio 
logo dos primeiros fundamentos, que se lançarão aos 
corredores novos; porque, devendo o maior, que atra- 
vessa por detrás da capella, hir mais afastado para que 
desse taõbem lugar, e mais campo ao corpo da Igreja, 
ou fosse isto inadvertência, ou o que he certo^, por fu- 
gir aos grandes entulhos, que de se afastar o corredor 
para o despenhado se seguiaõ ; pois ainda assim veyo 
a levar a Igreja pela parte da capella mor quarenta e 
oito palmos de enCulho, e outros tantos de alicerce, se 
naõ cuidou, ou adverlio no que depois se veyo a conhe- 
cer. Este defeito da longitude da Igreja se pretendeo 
remediar, quando se continuou a sua fabrica, lançando 
adiante da parede principal do fronlispicio huã parte do 
choro para fora sobre arcos, mas oppoz-sea isto huã, e 
outra difficuldade. Foy a primeira, por que assim se to- 
mava parte da rua^ que atravessa da bayxa da cidade 
para os Terceyros, e ainda que a esta ja consentia aca- 
mera, a que a parte do choro, que ficasse para fora as- 
sentasse sobre arcos, de sorte, que de todo se naõ im- 
pedisse a rua, ainda que se servisse parte delia pelos 
mesmos arcos, naõ chegou a eíTeito esta faculdade, por 
que a embaraçou outra, ainda que particular de maior 



269 

vigor, e foi que ao mesmo tempo continuava laôbem a 
fabrica de liuãs cazarias, que pegavaõ do canto da rua 
junto ao nosso frontispício da banda dos Terceyros, 
correndo para o Terreyro do Collegio, hum Francisco de 
Oliveyra Porto, e como sahindo o choro da Igreja mais 
fora emparelhava com o canto da sua caza, foi mais vi- 
gorozo o capricho de hum homem particular, do que o 
poder da camará d'El-Rey a fazer defectuoza toda a fa- 
brica de hum templo, e caza de Deos; e o que aqui se 
deve mais notar, he que este homem servia de Syndico 
actual do mesmo Convento. 

211. Tem o choro três ordens de cadeyras por 
banda, e huã boa Estante de madeira, e fabrica do já 
fallado Irmaõ Torneiro. No meyo, e sobre a cornija da 
grade, que olha para a Igreja, se levanta hum grande e 
formozo oratório, em forma de retábulo de talha dou- 
rada que serve de repozitorio á Sagrada Imagem de Santo 
Christo. Aos dous lados tem sinco nichos pequenos por 
cada parte, huns sobre os outros por sua ordem, com 
outras tantas relíquias de vários Santos, e no meyo ao 
pé da cúpula, que lhe serve de remate outro nicho 
maior, em que está depozitada a notável da calvaria de 
S. Fidelis Martyr, de que ja em outro lugar se fez me- 
moria. Tem três grandes janellas pela parte do frontis- 
pício; duas portas pelas quaes se entra, e sabe pelos 
dous antechoros, que ja notamos ficaõ sobre os sobra- 
dos das duas Naves, que formão as tribunas sobre as 
capellas. Para o antechoro da parte do Convento se 
sobe por escada de nove degráos, que está no meyo de 
hum salaõ repartido em duas partes, huà maior, que 
occupa parle do vaõ da Portaria sobre que corre, e ou- 
tra sobre o corredor, que do Convevto busca o choro, 
isto he pelo sobrado de sima, que pelo pavimento e 
andar de claustro o vaõ da Portaria occupa todo o do 
corredor, e outro tanto mais. Nos dous cantos do choro 
da parte da Igreja junto ás primeyras janellas das tri- 



270 

biinas; no mesmo andar se formarão agora dous taber- 
náculos em forma de varandas sabidas para fora, de 
facie rolunda, com a mesma formatura de cornijas^, 
correspondentes ás que correm do choro, de molduras 
de raadeyra, e da mesma forma das de pedra do assento 
das portas das tribunas donde se accomodou no da 
parte dos Terceyros, hum orgaõ de boa, e vlstoza fa- 
brica, com duas entradas para elle, huã por dentro do 
mesmo choro, por donde entra quem o toca, outra pela 
parte da tribuna, na qual fica a cayxa dos folies. O da 
outra banda que só se fez por correspondência, serve 
para accomodar nelle em os dias Solemnes as Pessoas 
de mais distinção, que entraõ para elle por huà parte da 
mesma tribuna, que Geou correndo igual em grades 
com as varandas destes retretes. 

212. Todas estas obras, como pertencentes á Igreja, 
liveraô principio depois de concluída esta pelos annos 
de 1723, havendo-se começado no de 1708 pela capella 
mór. Neste a uno estando acabados de todo os corredo- 
res do novo Convento, e havendo-se passado para elles 
alguns dos Puligiozos, que ainda assisliaõ no Gonvenli' 
nho velho se lançou este abayxo, com o seo claustro, 
ficando somente a Igreja antiga para a celebração dos 
officios Divinos, e reza do choro. Em o primeyro de 
Novembro do sobredilto anuo de 1708, benzeo a pri- 
meyra pedra para a capella mór^ e todo o mais corpo 
da Igreja o Senhor Arcebispo Dom Sebastião Mon- 
teiro da Vide, e justamente com o Governador Geral do 
Estado Luiz Gezarde Menezes, a lançarão no fundo do 
alicerse ao canto do crtizeyro da parte do Convento, 
coma solemnidade costumada em semelhantes actos, 
sendo Guardião da caza o Irmaõ Pregador Fr. Vicente 
das Chagas, Custodio, que foi depois desta Província, 
e votar por ella a capitulo Geral, como ja se disse; Mi- 
nistro Provincial o P. Fr. Estevão de S. Maria; Rey de 
Portugal D. Joaõo quinto, Protector desta mesma Pro- 



271 

víiicia, e Pontífice da Igreja Romana o Santíssimo Padre 
Clemente undécimo. 

213. Gomo se trabalhava na obra com cnidado, e 
applicaçaõ dos Religíozos^ zelo e cliarídade do Povo, 
quando se hiaõ completando os cinco aunos, que se lhe 
havia dado principio, sendo-lhe necessários grandes en- 
tulhos, e profundos alicerses, estava ja ao primeyro de 
Outubro de 1713 a capella mór com as suas tribunas, 
Via-Sacras sobre arcos, e todo o cruzeyro alhe os púl- 
pitos, que ficaô na primeyra baze dos arcos, que come- 
çaõ a formar o corpo da Igreja, concluída, e capaz de 
se poderem celebrar nella os officios Divinos, c assim 
se deo ordem a benzer o novo templo. Fez-se esta fun- 
ção no dia três de Outubro do sobreditto anno de 1713 
pelo mesmo 111.™" Arcebispo^ que lhe havia lançado » 
primeyra pedra. Neste mesmo dia se tirarão dos Alta- 
res da Igreja velha as sagradas Imagens para os Ando- 
res em que haviaõ sahir na Procissão, e do seo sacrário 
o Sacramento Santíssimo para ser collocado como foy 
no mesmo Sacrário, que se Iransferio para a nova ca- 
pella. Para isto seabrio na Igreja velha hum arco, ou 
passagem pelo meyo das suas paredes do corpo, por 
ficar atravessada por diante da nova, e poder sahir por 
ella o Povo e Procissão, que se fez pela tarde deste pró- 
prio dia com a mayor pompa, e fausto, que athe-lí se 
linha visto, especialmente em hum carro triunfal, que 
conduzia a sagrada Imagem do Seráfico Patriarcha. Le- 
vou o Sacramento acompanhado dos seos RR. Cónegos 
o 111.™° Arcebispo, e por elle collocado depois em o Sa- 
crário, que passou para a nova capella. Gompunhaõ a 
communidade, debaixo de huã só cruz, igualmente com 
a nossa os RR. Padres de S. Bento, os quaes, excepto a 
missa do prymeiro dia, que foi o do nosso Santo Padre, 
e a solemnizou de Pontifical sua 111.'"" com os da sua Sé, 
as mais com os sermões, que foraõ seis, hum de manhã, 
e outros de tarde nos três dias da festa, foraõ officiados 



272 

pelos Religlozos Beiiediclinos. Hum destes sermões, pre- 
gado no dia de tarde do Seráfico Patriarclia pelo M. R. 
P. Mestre Doutor Fr. Joseph da Natividade se acha 
impresso. Era Guardião da caza o P. Fr. Hilário da 
Vizitaçaõ, e Ministro Provincial o P. M. Fr. Agostinlio 
da Assumpção. 

214. Posta nestes termos a obra da Igreja, se foi 
continuando no mais corpo delia com o mesmo cuidado, 
e zelo, de sorte que dahi a dez aunos no de 1723 eslava 
concluída de todo, sendo o seo frontispicio de pedra 
lavrada. Foy o choro a primeyra obra interior, que se 
poz em forma, servindo-Ihe inda entaõ as mesmas ca- 
deyraSj. e estante do antigo, e se entrou logo a rezar 
nelle, o que depois de derribado o antigo se fez no íim 
do corredor, que chamamos do Monte Alverne, pelo 
altar, que alli tem com hum grande paynel das chagas, 
quando as recebeo de Ghristo naquelle Monte o Santo 
Patriarcha. Depois de feita a capella mór se passou 
este choro para o salaõ das suas tribunas da parte do 
Convento, donde se continuou athe se passar para o da 
nova Igreja. Depois do material das suas paredes, se 
cuidou logo no seo interior ornato, mandando-se fazer 
retábulos, forros, douramentos, grades, sepulturas de 
mármore, e o mais na perfeição, e grandeza, que se vê, 
e Gca relatado, e tudo a benefícios, e esmollas dos Po- 
vos em commum, e de muitos bemfeilores em particu- 
lar, para que assim seja melhor servido, e mais glorifi- 
cado Deos em sy, e nos seos Santos, que lie o princi- 
pio, e fim para que se ordenaõ os templos, e se trata 
tanto, e com particular zelo no seo ornato, e adorno, 
especialmente naqnellas cazas, ou Igrejas, que estaõ a 
conta e tem cuidado os Religiozos. 



273 
CJLMTUIiO III. 



Cewcíwe-íe a matéria precedente com alguãs cousas mais notaveiSj qu$ 
dizem respeito a esta I§reja, 



215. Ja se disse em outro lugar, tratando de alguàs 
Pessoas particulares, que ua amiga Igreja tiveraõ ja- 
zigo, que dos dous Altares da Conceição, e Santo An- 
tónio, foraõ seos Padroeyros, Philippe de Moura, e 
i>iogo de Aragão ; e que ao pé delles tíveraõ sepulturas ; 
mas deste Padroado, e das suas circunstancias se naõ 
acha mais clareza, nem outra escriptura, que o assento 
dos dous Guardiães, que fica no mesmo lugar apontada ; 
donde se colhe, que aquellas sepulturas, e a sua doa- 
ção foi meramente gratuita, e só em voz, e para suas 
Pessoas somente pelo beneficio, e esmolla, de manda- 
rem fazer, e dourar á sua custa os retábulos das taes 
capellas, o que tudo assim se confirma^ porque, além 
de naõ haver escriptuca, que disto conste, desman- 
chada a Igreja antiga, e feita a nova, o altar, e capella 
da Conceição se deo ao coronel Garcia de Ávila Pe- 
reyra, terceyro deste nome nos Senli,ores da caza da 
Torre, por escriptura de nove de Septembro de 1718, 
sem se fazer nesta mensaõ alguã de outro Padroado, e 
só com as condições seguintes : — Que elle ditto Garcia 
de Ávila Pereyra, mandaria fazer á sua custa, e dourar 
o retábulo da ditta capella na mesma forma, e corres- 
pondência do outro, que se assentasse na capella, e 
altar de Santo António ; que daria para o da Conceição 
todos os paramentos, conforme aos dos mais altares, e 
isto só pela primeyra vez, o que assim feito em dous 
annos, poria a juro no fim delles, por via do Syndico do 
Convento quatro centos mil réis, e o seo rendimento, 
que eraõ sinquoeuta todos os annos, fosse para guiza- 
mento do mesmo altar, e capella, e em quanto os uaõ 
pazesse, passados os dous annos pagaria elle os cinquo- 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 3$ 



274 

coenla mil réis de juro, para o que se lhe dava, ou 
doava, sem outra mais pençaõ a ditta capella com as 
coatro sepulturas, que correm iguaes na largura do seo 
aliar, desde o ultimo degráo deste athe ás grades da 
Igreja podendo elle fazer gravar em a campa de huã as 
suas armas, e escudo, de sorte, que nas duas primeiras 
immediatas ao degráo do altar senaõ poderiaõ sepultar 
mais que elle, ou seos Ascendentes, e Descendentes 
por linha recta, e nas outras duas todos os mais por li- 
nha transversal. E dado cazo, que pelo discurso do 
tempo falte herdeyro de linha recta á sua caza, e passe 
esta a algum Parente transversal, estes se naõ poderão 
enterrar nas duas primeiras, ficando assim reservadas 
para sempre, e só o faraõ nas outras duas abayxo des- 
tas. — Era Syndico do Convento Francisco de Oliveyra 
Porto, Guardião Fr. Hilário da Vizitaçaõ, e Provincial 
o P. M. Fr. Gonçallo de S. Izabel. Tem a campa da 
sepultura primeira, que he de mármore^, a seguinte ins- 
cripçaõ ao pé do Escudo das suas armas. 

Aqui jaz o coronel Garcia de Ávila Pereyra, cavai- 
leyro professo da Ordem de Caris to, Fidalgo da caza 
de Sua Mageslade, e de sua mulher, e herdeiros. Falle- 
ceo em 13 de Junho de il^!\, 

216. Por rescriplo do Sanlissirao Padre Benedicto 
XIV de desasetie de Dezembro de 1749, e a instancia 
do Ministro Geral Fr. Rafael de Lugagnano, concedeo 
Sua Sanclidade em todos os Conventos da nossa ordem 
hum altar quotidianamente privigiliado, dittas as mis- 
sas por Religiozos, e assignado este pelo ordinário, e 
pelo Arcebispo desta Metropoli foi nomeido este da Se- 
nhora da Conceição em o anuo de 1750, naõ s6 nesta 
Igreja, como taôbem em as dos mais Conventos da sua 
jurisdição. Assim este altar da Conceição, como o de S. 
António, quando a Igreja estava somente levantada 
athe o cruzeyro, se costumavaõ armar de boas sedas, 
galões de ouro^ e outras semelhantes, e ricas alfayas, 



275 

que para isso se pediaõ a Pessoas devotas. Com as que 
se armarão por duas vezes o altar de S. Anlouio para 
o seo dia succederaõ os cazos seguintes. De huã peça 
de galaõ de ouro, que havia pedido o Rellgiozo, que 
disto cuidava a Pedro Gomes, Mercador rico da Praya 
da Cidade, e morador ao corpo Santo, furtarão da ar- 
mação huíls poucas de varas. Vio-se o Religiozo com 
bastante turbação, e depois de vários discursos, deter- 
minou levar o Galaõ ao homem, sem lhe declarar o seo 
temor, nem o furto ; disse-lhe que o pezasse, como o 
havia feito, quando Ibo pedio. Pezado o galaõ, naõ se 
achou falta aiguã. Entaõ lhe declarou o Religiozo, o 
que havia succedido, louvando ambos a Deos «os pro- 
dígios do seo Santo. Ainda aqui naõ parou o cazo. 
Antes que se despedisse o Religiozo, chegou á loge 
hum comprador procurando Galões e levou todo o que 
havia servido, a Santo António. Outro succedeo taõ- 
bem com huã peça de seda, que para a armação do 
mesmo altar do Santo por aquelle tempo se havia pe- 
dido a António Corrêa Seyxas, Mercador na mesma 
Praya. Succedeo, que estando ja o altar armado na 
véspera do Santo houve hum grande chuveiro de agua, 
e cahindo do telhado de sima bastante sobre huã peça 
da seda foi molhando grande parte delia. Achava-se 
prezente o mesmo Mercador, e querendo os Religiozos 
tirar logo a que estava molhada, por naõ ficar taõ des- 
truída, o naõ quiz o homem consentir, e assim ficou 
athe o terceyro dia. Desarmou-se o altar, e viraõ a 
seda, sem nódoa, ou signal algum de que fosse molhada. 
Levou-a para caza e a poucos dias a vendeo, tendo ou- 
tras de mais estima e naõ sendo aquella das procura- 
das athe-li. 



276 
CAPlTlJIiO IV. 

Prosegue com a memoria de outros Religiozos de boa fama, que foraõ ja 
sepultados em a Igreja nova, e falleccraõ aqui com opinião de virtude. 

217. Foy entre esles muy celebrada, ainda em nos- 
sos dias a do Irmaõ Fr. Francisco de Santo António. 
Em ura livro antigo, em que se escreviõ as idades dos 
Religiozos pela profissão, se acha a de Fr. Francisco 
de S. António para leygo a doze de Novembro de 1674, 
mas naõ em algum o termo da sua, e por isso lhe naõ 
assignamos o lugar da pátria, esó, que era oriundo das 
partes de Portugal. Sendo de estatura menos que me- 
diana, era de condição algum tanto colérico, mas aqueU 
les primeyros ímpetos, que a natureza por sy prompla 
arrojava, os sabia elle brevemente reprimir com a força 
do espirito. Foy o seo dotado de muitas virtudes, 
sendo huã destas, e muito particular o fugir do ócio, 
poisja mais se achava em hora alguã do dia, cumpri- 
das as suas obrigações da communidade, sem que esti- 
vesse occupado, ou era ler livros espiriluaes para as 
suas devoçôes> ou em obras cazeyras, fazendo cilícios 
de arame, disciplinas de ferro, e colheres para dar 
aos Religiozos por rezas, esuffragios para as almas, de 
quem era particular Bemfeitor. Nem este trabalho lhe 
extinguia o espirito da devoção, pois as noites Iodas 
levava huà boa parte delias na Igreja, ou choro em ora- 
ção, tomando depois taõ ásperas disciplinas, sendo de 
ferro as de que uzava, corria o sangue tanto, que 
desde o lugar, em que a tomava athe a sua cella se 
achava o rasio delle, pelo qual se vinha no conheci- 
mento, de quem era o Penitente que o derramava. Isto 
viaõ os Religiozos do Convento, era que elle assistia, 
especialmente os da caza do Noviciado. Estes mesmos 
exercícios de oração, e disciplinas publicavaõ d'elle os 
seculares, quando em suas cazas o recolhiaõ, e andava 
aos pedidos, e esmolas. 



277 

218. Taôbem foi indispensável observante da Santa 
pobreza, a qual resplandecia nelle mais com huã sim- 
plicidade Santa, e huã obediência cega. Esta ultima lhe 
remunerava o céo alguàs vezes, permittindo lhe rendes- 
sem taôbem cega obediência irracionaes crealuras ; 
porque andando ás esmolas dos gados pelos sertões do 
Recôncavo, e dando-lhe alguas Rezes, que os donos as 
naõ podraõ trazer aos curraes, por amonladas, elle 
com facilidade, e admiração dos mesmos, que talvez 
por ceremonia lhas offereciaõ, as punha a caminho, e 
ajuntava com as mais. A alguns destes, e a outros, que 
conhecida a simplicidade do Religiozo, o intentavaõ en- 
treter assim, ou zombar, e lhe faziaõ alguns desprezos, 
foi fama vulgar naõ deixou o céo sem castigo ; assim 
como naõ flcaraõ sem premio os que o tratavaõ com 
respeito, e charidade, e lhe naõ faltavaõ com as suas 
esmolas. Andando na do alforge, em que por muitos 
annos, alhe os últimos da vida, se occupou quotidiana- 
mente, hindo em hum dia á da Povoação da Praya, 
desta cidade, disse a certo Mercador, daudo-Ihe a es- 
mola, sem duvida que com bom animo, e vontade : 
Tenha confiança, que neste dia lhe naõ hade succeder 
mal algum. — O effeito comprovou o dilto ; porque a 
pouco que se havia apartado da loge, chegou a ella 
hum Preto, perguntando ao Mercador, se tinha pólvora 
para vender! Respondeu-lhe o homem que sim ; ao que 
replicou o Preto ; pois esconda-a vossa mercê muito 
bem ; porque eu sou espia, mandado pelos da Correição 
a saber por este modo, quem a tem para o virem con- 
demuar. Agradeceo ao mensageiro o avizo, reconhecendo 
juntamente dever aquelle favor ao Servo de Deos, que 
por tal o publicava depois ; e deste cazo dava teste- 
munho o Irmaõ Fr. Alexandre da Assumpção, taõbem 
leygo, que fora naquelle dia o seo companheiro do al- 
forje, e a quem o mesmo homem relatou este cazo. 
219. Joaõ da Costa Pereyra, natural da Villa de Saõ 



278 

Miguel de Lavradez termo da Marca ^ Arcebispado de 
Braga, assistente na Praya da Bahya, estando para se 
embarcar para Lisboa era a Náo Sacra- Família, aonde 
havia metido todo o seo facto, e o mais que possuhia, 
depoz a vários Religiozos neste Convento, que o Irmaõ 
Fr. Francisco de S. António, hindo á caza do Padre 
Joaõ de Azevedo, clérigo do habito de São Pedro, 
aonde o ditto Joaõ da Costa assistia, lhe requerera da 
parte de Deos, e de nosso Padre Saô Francisco, que 
fosse ao Navio tirar o seo facto, e naõ Gzesse viagem 
nelle. Ao que o homem replicou : E tem vossa P. espi- 
rito profético por onde alcance o máo successo, que 
heyde ter? Mas elle surrindo-se, lhe tornou : Oh Irmaõ, 
da parte de Deos e de nosso Padre lhe digo que se naõ 
embarque; e se o fizer, cedo se arrependerá ; ainda 
que hade chegar, e voltar, e conseguirá fortuna. Vendo 
o homem o que lhe annunciava o Religiozo, e naõ se 
rezolvendo a deixar a viagem, se embarcou, rogando-lhe 
o encomniendasse a Deos. Havia este homein communi- 
cado a alguns amigos o que com o Religiozo havia pas- 
sado, sendo hum delleso R. Vigário de S. Jozeph das 
Tapororocas, Thomé da Rocha e Mendonça, o qual 
lhe disse, se pegasse com Saõ Joseph, que o havia li- 
vrar de todo o perigo pela prenda do cálix dourado, 
que havia oíFerecido ao Santo para o seu altar, porque, 
ainda que o Padre era hum Servo de Deos, delle se naõ 
haviaõ visto milagres. 

220. Seguio o homem viagem felizathea altura de 
Pernambuco, e no lugar do Páo Amarello, abayxo da 
cidade de Olinda lhe sahio ao encontro huã Náo de le- 
vantados de vários Nações, a qual cuidando elles haver 
sabido da Frota de Pernambuco, se puzeraõ á capa 
para a salvarem. Mas a dos levantados fazendo contra a 
da Sacra Família huã arribada lhe desparou toda a 
mosquetaria, com que lhe deixou morta muita gente, 
e outra ferida. Entaõ levantou Estandarte negro com a 



279 

sua costumada deviza de huã caveira, e hum cutello e 
abordando a Náo lhe lauçou dentro huã esquadra de 
soldados, que com alfanjes nas maõs matavaõ a huns, e 
outros se lançavaõ ao mar. Entre estes foy Joaõ da 
Gosta hum dos que se achou em as agoas, e livrando-se 
o melhor que pôde se pegou a hum cabo da mesma Náo, 
esperando occaziaô de algum pedaço de laboa em que 
pudesse escapar pela corrente das agoas. Senhores ja 
da Náo os Inimigos, mandarão subir para ella os que a 
bordo andavaõ pegados ás cordas sendo hum destes 
Joaõ da Costa. Foy logo malsinado pelos companheiros, 
que levava dinheiro, e para confessar aonde, o pendu- 
rarão de hum mastro, dando-lhe com as cata nas de 
pranxa, e apontando-lhe aos peitos duas pistolas. Ap- 
pareceo o dinheyro, e assim a elle, como a outros mais 
metidos em huà lancha os lançarão fora, e foraõ tomar 
o Navio Nossa Senhora da Candelária, que era da 
mesma frota. Chegou a Lisboa, e estando recolhido em 
haâ estalagem veyo ter com elle hum homem de aspe- 
cto venerando, e naõ conhecido, e lhe offerlou sinco- 
enta moedas de quatro mil e oito centos, dizendo-lhe, 
que pois estava taõ necessitado se servisse delias, e que 
se algum dia as tivesse lhas tornaria. Agradeceo-lhe a 
esmolla, que naõ acceitou. Pergunlou-lhe donde mo- 
rava, para lhe hir agradecer o beneficio, e a graça, e 
respondeo-lhe, que junto a S. Francisco daquella ci- 
dade. AlU o procurou, e naõ achando noticia delle al- 
guã, ficou entendendo, que toda esta fortuna lhe vinha 
pelo Pay dos pobres o Seráfico Patriarcha, segundo, o 
que esteseo filho lhe havia annunciado, como taõbem o 
de chegar á cidade da Bahya outra vez, donde esperava 
todo o bom successo, e fortuna prometida pelo Servo de 
Deos, como em tudo o mais o havia achado verda- 
deiro; e que sendo necessário juraria aos Santos Evan- 
gelhos todo o referido. Quando aqui chegou haviaõ 
poucos dias era passado desta para a outra vida o Ir- 



280 

maõ Fr. Francisco, e este cazo, como fiea escripto; de- 
pôz o homem diante do Padre custodio Fr. Cypriano de 
Saõ Juliaõ, commissario, que era de Terceyros, e ou- 
tros Religiozos mais, entre os quaes era hum delles o 
Irmaõ Porteyro Fr. Sebastião do Espirito Santo, a quem 
oditto horaem, vindo a esle Convento pedto queria 
fallar ao Irmaõ Fr. Francisco, e elle o levou á sua se- 
pultura, que ainda estava fresca. Tudo isto assim tes- 
tifica o mesmo Fr. Sebastião, que ao prezente vive. 

221. Com esles, e outros muitos signaes da sua vir- 
tude, conhecidi, e praticada assim nos do fora, conío 
entre os seos mesmos Irmãos, falleceo aos treze de 
Abril de 1720, e foy sepultado na Via-Sacra que corre 
a par da capella mór, pela parte do Convento, por naõ 
estar ainda em forma o claustro novo. Ao seo enterro 
assistimos nós, que entaõ residíamos no Convento por 
collegial, e supposto nos naõ lembra vissemos eouza de 
maior nota, naõ deichou de haver hum grande concurso 
ao seo enterro, satisfazendo-se os mais devotos, como 
levarem por memoria sua das flores, com que se havia 
ornado o esquife, e cuberto o seo cadáver, os Irmaõs 
choristas, que taõbem lhe haviaõ assistido toda a noite 
por seos turnos, rezando-lhe oíficios, e querendo sem 
duvida compensar com este obsequio alguãs repentinas 
turbações, que como moços haveriaõ causado ao seo 
espirito. 

222. Estes saõ todos os Religiozos, que com signaes 
externos, e obras ao parecer sobrenaturaes acabarão 
com boa fama, e opinião commua de virtude neste Con- 
vento, e uelle estaõ sepultados. E porque nelle tiveraõ 
taõbem descanso outros de boa opinião, ainda que sem 
aquellas demonstrações, que se julgaõ por milagres, e 
estes como ja em outra parte notamos, naõ fazem San- 
tos, e só os mostraõ, julgamos, que de todos devemos 
fazer aqueíla lembrança, que se lhes deve, ainda que 
naõ dessem de sy estes signaes, e só aquella boa, e Re- 



281 

ligloza vida^ que sempre fizcraõ, e com que acabaraê. 
Entre esles pode ler lugar o Padre Fr» António do Ro- 
zario^ a quem chamavaõ o Missionário, pela ra«aõ, que 
ja flca exposta na estancia dos escriptores da primeyra 
parte desta chronica, para onde reraettemos ao leytor, 
pois ahi além do que toca á sua litteratura, fica em 
breve resumo ditto taõbem da sua virtude, o que pude- 
mos alcançar, e pela qual merece aqui esta breve recor- 
dação. 

223. Naò a merece menos o Padre Mestre Prey Je- 
ronymo da Resurreyçaõ. Deste Religiozo se fez taõbem 
já assento na referida Estancia dos Escriptores ; o que 
aqui se accrescenta sobre o particular da sua virtude^ 
he, que sendo commissario de Terceyros neste Govento 
poralguns onze annos, com o exemplarissimo da sua 
honesta vida, e Religiozo proceder edificava a todos 
juntamente com o desapego total das couzas terrenas, 
como davaô testemunho os mesmos Terceyros do seo 
tempo; porque tendo a sua Meza determinado alguãs 
offertas pecuniárias para fardamento étis seos commissa- 
rios, e por aquellas missas, que elles dizem na Ordem 
nos Domingos das Razouras, e alguãs mais, dizendo 
elle, como seo commissario as taes missas, naõ quiz 
receber nunca o estipendio delias, nem o do seo far- 
damento, e ordenava ao secretario da Meza levasse tudo 
ao Sindico do Convento para o incorporar com as mais 
esmollas da communidade. E assim com estas, e outras 
acções semelhantes se fez estimado delles, e sentida por 
morte a sua falta, e venerado por sugeito de virtude, da 
qual, além da opinião commua podíamos dar taõbem 
testemunho, pois vivemos com elle por mais de seis 
annos neste mesmo Convento, e assistimos á sua 
morte, e enterro, que foi na Via-Sacra, que sahe da 
capella mór da Igreja nova para a Sachristia. Foy na- 
tural do Reciffe de Pernambuco, chamava-se Jeronymo 
Coelho de Estrada, filho legitimo de Manoel de Estrada, 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 36 



282 

natural de Oeyras, e de sua mulher Margarida Ma- 
deyra, natural do mesmo Pernambuco. Fez protissão no 
Convento de Pojuca a treze de Abril de mil seis centos e 
setenta e cinco e naõ no de 1666, como se acha impresso 
por erro da estampa na Estancia já referida da Primeyra 
Parte. 

224. A este se seguio o Irmaõ leygo Fr. Melchiorda 
Soledade, chamado antes Melchior Pinto Brandão. Foy 
natural da Freguezia de S. Miguel do Couto de Gan- 
dufe, termo de Barcellos, Arcebispado de Braga. Sendo 
Mancebo passou ao Brasil, e na cidade da Bahya fez 
residência bastantes annos em o trafego do negocio. Mas 
naõ se accoraodando com este, buscou o de Religiozo. 
Foy acceito para leygo e fez a profissão no Goii vento 
de Paraguaçu a vinte e quatro de Abril de um sette 
centos e vinte c hum, sendo de quarenta e sette para 
quarenta e oito annos de idade. Do Noviciado passou 
para a caza da Bahya, e uella viveo em quanto Reli- 
giozo, occupado os primeyros annos nos officios com- 
muns do seu estado, e depois o continuou no quoti- 
diano das esmollas do alforge na mesma cidade, sem- 
pre com bom procedimento, zelo da communidade e 
credito da Religião como sngeito, que a buscou dezen- 
ganado. Com trinta e três annos de habito, e mais de 
oitenta de idade, poz termo aos da vida no de 
1753, aos três dias do mez de Julho, mostrando nos 
antecedentes ao seo fallecimento, que tinha empregado 
os mais como virtuozo, conforme a hum memorial, que 
nos deo o Irmaõ Enfermeyro Frey Francisco do Santo 
Cosme no principio do mez de Septembro deste anno 
de 1762, que isto escrevemos, e falleceo taõbem neste 
mesmo mez e anno a vinte e sette. Diz assim o memo- 
rial, sem accrescentarmos couza da nossa parte : 
Achando-se nesta Enfermaria o Irmaõ leygo Fr. Mel- 
chior doente, em hum dia me pcdio licença para hir á 
sua cella, e quando tornou trouxe huâ vella, e duas 



283 

cartas, e chegando me disse: Irmaõ enfermeyro; Ja me 
despedi da cella ; aqui trago as chaves, e esta vella 
beuta, para quando morrer ma meterem ua maõ ; e estas 
duas cartas, fallecido que eu seja, para me mandarem 
huà á minha ordem Terceyra, e a outra á Irmandade 
do Sacramento, para se me fazerem os meos suffragios, 
e peço a vossa charidade me chame o P. M. Fr. Antónia 
de S. Ritta, que tenho, que lhe communicar matéria 
de minha consciência. Assim o fiz; e vindo oditto Padre 
fez huã breve reconciliação, porque ja se tinha geral- 
mente confessado, e ao mesmo pedio lhe assistisse á ul- 
tima hora. Mandou depois chamar o Prelado, e lhe pedio 
viesse dar o viatico, e assim o fez; e lhe pedio taõbem 
a Santa-Unçaõ quando fosse tempo, com as mais cere- 
monias, que neste acto se costumaõ. Passados dons 
dias tomou a Santa-Unçaõ, e lhe ficarão assistindo os 
Religiozos iuterpoladamente, e mudando-se de duas em^ 
duas horas. Ja alta noite vieraõ dous a mudar os ou- 
tros, e ouvindo o enfermo a hum delles alguãs palavras^ 
de menos prudência, eenfadadopelo inquietarem aquel- 
las horas, chamou elle pelo enfermeyro, e me disse: Ir- 
mão enfermeiro ponha-me aquella Imagem do Santa 
Christo aqui sobre esta meza de sorte, que eu daqui a 
possa ver, e diga aquelle Padre que vá descançar^ que 
ainda naõ he tempo de eu dar contas a Deos ; quanda 
for hora, eu o avizarei. Assim o fez o enfer- 
meiro. Amanheceo o dia, e quando foraõ onze ho- 
ras, me disse fosse descançar, mas em parte, disse 
elle, que fique perto ; e quando me vir dar duas> 
ou três pancadas em síma desta mesa, acuda, e chame a 
Padre para me assistir, e peça logo me cantem a 
Evangelho de S. Joaõ, c accenda esta vela para a maõ» 
Alli, junto á cama fiquei recostado; deu meyo dia, e 
sendo hum quarto para huã hora ouvi as duas panca- 
das na meza, acudi, e chegando-me a elle, me disse, he 
tempo; fui tocar a campa, e como ja estava de accorda 



284 

o Padre confessor, acudio com acommiinidade ; entrou 
aajuda lo na agonia, e cantando-se o Evangelho, nas ul- 
timas palavras delle expirou. Estas referidas acções- 
sendo taes, como ficaô expostas, e praticadas por hum 
espirito em aquelles últimos termos, compróvaò sem 
duvida outro maior conceito, e huã muy grande vir- 
tude, e summa perfeição, com que viveo este Reli- 
giozo, e soube occiíltar a sua alma. Foi sepultado o 
seo cadáver no claustro novo do Convento. 

225. Com este mesmo dote, ou graça particular de 
se fazer publica na morte aquella virtude, e perfeição^ 
que occultaõ em vida muito* Varões Justos, dando só 
de sy bom exemplo, sem outros signies externos das 
graças, de que saõ dotadas as suas almas, falleceo taõ- 
bem neste Convento a seis de Septembro de 1755, o 
Irmaõ Fr. António da Luz, Religiozo leygo, natural da 
Freguezia deS. Maria de Villa-Cova, termo de Braga, 
eofficial de carapina. No Convento de Paraguaçu, fez 
profissão em vinte de Julho de 1719, quando contava 
os vinte e oito annos de idade. Neste da Bahya assistio 
o mais tempo depois de Religiozo occupado nas opera- 
ções do sieo oíficio, sempre com bom exemplo, pobre, 
obediente, e zelozo do seo trabalho ; e este que lhe gas- 
tava as forças do corpo, lhe cortou a vida, porque no 
desmantellar de huãs paredes velhas lhe cahio sobre as 
pernas huã viga podre, molestando-lhe de tal sorte 
huã, de que rezultou dar-lhe nella erpes, grangrenar 
a chaga, e fallecer a poucos dias. E sendo esta a que o 
privou da vida temporal, lhe fez publica, como piedo- 
zamente podemos crer a fruição da eterna, porque ficou 
o seo corpo tralavel, e aquella chaga, que antes enfas- 
tiava o olfato dos que a elle chegavaõ, sem horror de 
máo cheyro, lançava de sy depois de morto, hum muy 
suave, e como de flores. Assim o testificou o mesmo 
enfermeiro assima, o percebeo elle, e alguns mais, 
quando compuzeraõ, e lhe amortalharão o corpo, e na 



285 

fé desle testemunho^ pelo teraios por fidedigno o es- 
crevemos aqui^ e por sal)ermos viveo sempre este Re- 
ligiozo com boa opioiaõ. 

Gonclíte a matéria precedente com a memoria de outro Beligiozo leygo. 
e deus Irmaõs, hum Donato, e outro do Cordaõ, 

226. Neste mesmo Convento está sepollado^ e taõ- 
bem no seo claustro novo o Irmaõ Leygo Fr. Joaõ do 
Loretto. Falleceo a desaseis de Mayo do anno do 1759, 
com oitenta e oito de idade por certidão da qual 
consta foi baulisado a vinte e dons de Outubro de 1671 
pelo Padre Bento Corrêa, Vigário de S. Bartholomeo 
do Mar termo da Viila de Espozende, do Arcebispado 
de Braga, donde era natural, filho de Francisco Gon- 
çalves Ló/a, e de sua mulher Domingas Gonçalves. A 
sua vida foi em todo o tempo, muy penitente, muyto 
exemplar^ e naõ pouco trabalhoza, ou trabalhada, naõ só 
no estado de Religiozo, mas taõbemnode secular. Nesl» 
certamente, trabalhada, e trabalhoza; porque, logo 
desde os primeyros annos se applicou a mareante, ser- 
vindo em os Navios aquelles lugares, por donde come- 
çaô todos, os que nelles entraõ para o seo ministério, 
em que navegando varias vezes de Viana a Lisboa, e 
dali a Bahya, se occupou alhe os vinte e oito, ou vinte 
e nove de idade; porque no de 1700 do Jubileo Santo, 
sendo Pontífice Innocencio duodécimo, consta de hum 
maço pequeno de papeis impressos, que deixou (e foraõ 
todos os seos despojos), que sahindo da sua Pátria, por 
voto particular, que havia feito, ou fosse por mera de- 
voção, ou por outro qualquer motivo, que o naõ de- 
clara, vizitara a sette de Mayo deste mesmo anno a 
Igreja de S.Ago de Compostella, deste Santuário passou 
a Madrid, donde alcançando Rescripto do Cardeal 
Joseph Archinto, Legado a Latere, passado a 28 de 



28G 

Junho para poder, como Peregrino passar a Roma, pe- 
dindo esmoUas, ser recebido, e Iratado portal, vizi- 
tando de caminho todos os mais Santuários, que se 
achaõ por aiguãs Cidades da Itália, estava ja era Roma, 
donde se confessou, commungou duas vezes, e huã des- 
tas a desasete de Septembro, tendo já a sinco deste 
mesmo raez vizitado o Santuário de Loretto, e a vinte 
alcançou de Sua Santidade o costumado Rescriplo de 
Indulgência plenária para o artigo da morte a elle e a 
seos parentes por consanguinidade, e affinidade den- 
tro do primeyro gráo, e taõbem para doze pessoas mais 
nomeadas por elle no mesmo rescripto. A três de Ou- 
tubro vízitou na mesma RomaLiminaÂpostolorum aonde 
se confessou, e commungou nesta occaziaõ, e duas vezes 
mais. De volta vizitou a vinte e dons de Novembro 
Nossa Senhora do Pilar de Saragoça. No seguinte anuo 
de 1701, voltou á Pátria, e sem muita detença nella 
passou ao Brasil, e no Convento da Bahya foi acceito 
para Donato no outro anuo de 1702, sendo Guardião 
do Convento da cidade Frey António do Rozario, o Mis- 
sionário, de quem há pouco falíamos. Emquanto Do- 
nato, foi o seo exercício andar em hum barco, que con- 
duz dos Recôncavos a lenha para o mister do Convento. 
Neste conhecido o seo zelo, e bom exemplo, que dava 
dentro, e fora, o mandarão a instancias suas para a 
caza do Noviciado de Paraguaçú, e ahi com approvaçaõ 
de lodosos Religiozos foi professo a quatro de Novem- 
bro de 1707, quando completava ojs trinta e seis annos 
de idade. 

227. Logo que professou o passarão os Prelados para 
a caza da Bahya, e ahi o occuparaõ na officina do Re- 
feitório, que exerceo athe poucos annos antes da sua 
morte, e sempre com demonstrações de Religiozo te- 
mente a Deos, e inimigo declarado da ociozidade. Este 
vicio, como porta principal por onde entraõ outros 
muitos, foi contra o qual cuidadozo combateo, e sempre 



287 

vigilante, como filho verdadeiro do Seráfico Patriarcba^ 
porque excepto aquellas poucas horas, que repouzava 
de noite, e lhe reslavaô da oração, e outros exercícios 
espirituaes, as do dia gastava todas sempre occupado, 
ja ensinando a doutrina aos escravos de manhã, logo, 
que se abriaõ as portas da clausura ; dali em varrer o 
Refeitório, preparar as mezas, e o mais para o jantar, 
depois deste torna-las a compor para a cêa e tudo por 
si próprio, sem ajuda de outro, e o mais tempo que 
deste trabalho lhe restava assim antes do jantar, como 
depois athe ás três horas o levava em cozer sacos, toa- 
lhas e guardanapos, eem remendar os velhos. Depois 
de assistir ás vésperas, descia para o Brejo, onde gas- 
tava toda a tarde no cultivo da horta, com a enchada 
na maõ, levantando canteiros, plantando, e alimpando 
athe as horas de cêa, que vinha tocar o Refeitório. 
Mas com ser assim taõ continuado este seo trabalho, 
eraõ taõ vigorozas as forças do seo corpo, que naõ ex- 
tinguiaõ, antes parece davaõ alentos ás do seo espirito, 
para que naõ afrouxasse nas suas operações; pois 
nunca faltou aos actos da communidade, e ás horas do 
choro: especialmente de vésperas, e matinas, assistindo 
na Igreja a accender as vellas, ajudar as missas do 
dia rezadas, ou entoadas, e além disto a maior parle 
da noite, assim antes como depois de matinas a oraçaõ 
no choro, capella, ou tribunas. . 

228. Daqui lhe rezultou, que ficando huã noite de- 
pois de matinas na oraçaõ em huã das tribunas da nova 
capella mór, ao sahir para fora devendo tomar a parte 
do corredor do Monte Alverne, para onde se fazia en- 
tão o choro, por estar desmanchada ja a Igreja velha, 
e esta tribuna da capella mór estar-se preparando para 
isso, sahio o Ir. Fr. Joaõ pela outra parte, que buscava 
o terreno, que havia de servir de claustro, e esta sem 
reparo algum, cahio do novo sobrado abayxo, donde 
depois de alguãs horas, e quasi de manhã por estarem 



288 

recolhidos os Rcligiozos, o foraõ achar além de outras 
amassaduras de pedras, e páos, com a perna direita 
deslocada do quadril, que naõ a podeodo a Arte resti- 
tuir ao seo lugar, ficou coxeando delia com bastante 
deformidade por toda a vida, mas sem arrimo, ou en- 
costo algum. 

229. Neste exercício da oração foi constante entre 
os Religiozos pelo ouvirem alguns seos particulares a 
elle mesmo, que estando na capella, ou no choro, ou- 
vira vários estrondos ou reboliços, do choro na Igreja, 
e da capella no choro, com bastante rumor, e inquieta- 
ção; e que seriaõ sem duvida estratagemas do Demónio 
para o perturbar e divertir. Com esta da oraçaõ se lhe 
notarão outras mais virtudes, sendo huã destas, c a 
mais notável, o seo recolhimento, e abstracção do com- 
mercio secular naõ sendo visto sahir á rua, nem do 
Convento desde o dia, que nelle entrou depois de pro- 
fesso athe que concluhio os da vida. Alguns três annos 
antes que puzesse termo a estes, por enfraquecido, e 
velho, e naõ se poder ja servir a sy próprio se rebolheo 
a caza da enfermaria, donde sem novo achaque, que o 
da natureza, deitando-se por noite, o acharão de ma- 
nha com symptomas de moribundo, e recebidos os úl- 
timos Sacramentos deo a alma ao seo creador poucas 
horas depois plácida, e socegadamente, completando 
a<isim huã vida, que bem considerada foi toda, como 
ao principio dizíamos, cançada de trabalhos, assim em 
hum como em outro Estado; mas em todos sempre pe- 
nitente, e exemplar, deixando por tudo a boa opinião 
de hum verdadeiro filho de Saõ Francisco. 

230. Neste mesmo tempo, em que succedeo a Fr. 
Joaõ dõ Loretto o desastre da perna, que foi com pouca 
diíferença pelos annos de 1712, vivia taõbem hum Do- 
nato, a quem chamavaõ o Irmaõ Gil ; sendo, que o seo 
próprio nome era o de Francisco, e o de Gil o seo cog- 
nome ; mas por este só conhecido, e tratado. Estava 



28y 

fBsle na capeíla mór em oraçaõ, quando ao sabir da tri- 
buna da uiesma capella cahio a bayxo pela parte de 
fora Fr. Joaõ; e ouvindo Francisco Gil o estrondo da 
queda, e os gemidos, e vozes de Fr. Joaõ a nada se 
commoveo, ainda que continuarão por algum espaço 
de tempo. Deste descuido ou pouca charidade foy ar- 
guido o Irmaõ Gil pelos Religiozos, que o acharão em 
terra da parte de fora, e a porta da capella, em que 
ainda estava taõbem de joelhos o Irmaõ Donato. Mas 
da sua resposta, e desculpa, ficaraõ entendendo, que a 
repetição de semelhantes vozes, e estrondos, que ou- 
tras vezes tinha ouvido, o flzeraô naõ attender a esta, 
attríbuindo as elie, como as mais, a travessuras do ini- 
migo, que assim o queria perturbar do exercício Santo 
da oraçaõ. b'oy natural das partes do Reyno, passou 
ao Brasil, e nos seos sertões havia consumido os melho- 
res annos da idade, mas dezenganado ainda a tempo do 
pouco trafego que, havia lucrado para a alma, buscou 
o Convento, caos pés dos Prelados lhes pedio lanças- 
sem ó habito para Donato, pois para Religiozo era a 
sua idade muy avançada. Foy ouvida a sua suplica, fez 
entrega ao Syndico de dous escravos, que poMuhia, e 
mostrou naquelles annos, que viveo recolhido, ser le- 
gitima a deixaçaõ do mundo, cuidando só iKis melhoras 
do espirito. Servia ao Convento no que lhe era possí- 
vel, ajudando as missas aos- Sacerdotes, e aos Irmaõs 
Ghorislas as cozinhas, especialmente de noite, e o que 
desta lhe restava^ depois de algum pequeno repouzo o 
gastava na oraçaõ, c outros espirituaes exercícios. As- 
sim viveo alguns annos^ c veyo a fallecer no de 1718, 
com boa opiuiaõ. A eUe tempo se achava na Villa de 
Jaguarippe o Irmaõ Pregador Frey Manoel das Mercês 
á esmolla da louça para o Convento, e vio entre sonlws 
ao Irmaõ Donato Gil, o qual lhe pedia dicesse missa 
por sua alma ; observou o Padre a noite, e vindo para 
caza achou ser a mesma, em que havia fullecido o Ir- 

JABOAXAM. PART. II. VOL. I. 37 



290 

maõ Donato Gil ; o mesmo aconteceo com outro Reli- 
giozo Sacerdote, que andava taõbemaos pedidos em ou- 
tra Ribeyra dos Recôncavos, Outra vizaõ teve no mesmo 
Convento o Irmaõ leygo Fr. Manoel de S. Lucas appa- 
recendo-lhe em sonhos o Irmaô Gil na mesma noite em 
que folleceo, naõ tendo aindao Reiigiozo noticia, de que 
elle era morto^ pedindo-lhe fosse advertir ao Prelado 
ordenasse aos Sacerdotes lhe dicessera as missas. Al- 
guãs reflexões se podiaõ fazer sobre este cazo, na sup- 
posiçaô, em que se refere, pelas circunstancias de repe- 
tido ; mas o que fazemos, hc, formar o mesmo discurso, 
que fizeraõ muitos dos Religiozos, e vem a ser, que per- 
mittindo Deos, que assim succedesse, o que se seguia 
«ra estar no Purgatório a alma daquelle Irmaõ ; e que 
quando elle vivendo, e acabando com taõ boa opinião, 
€ pratica de virtuozo, se via em tanta necessidade, qual 
naõ será a dos que vivem com menos resguardo ; e que 
talvez para nos advertir a todos, os que somos Religio- 
zos, o como devemos viver, permittisse a sua grande 
Misericórdia semelhante processo. 

231. Pelos ânuos de 1720, sendo Guardião deste 
Convento o Irmaõ Ex-diffinidor Fr. Joscph de S. Antó- 
nio, lançou o habito e cordaõ a Ignacio da Rocha, ho- 
mem Pardo, que vivendo alguns vinte e quatro annos 
na Bahya neste estado, com o nome de Irmaõ Ignacio, 
deixou nella hua grande, e celebrada fanta, pelo modo 
de vida, que ahi praticou, conforme a informação, que 
nos dá d Padre Pregador Fr. António de Nazareth, a 
quem pedimos sobre a naturalidade do Irmaõ Ignacio 
alguã noticia pela que tínhamos de ser este Irmaõ nas- 
cido naquellas partes de Seregippe d'El-Rey, donde taõ- 
bem o he, e assiste este mesmo Reiigiozo, nos certifica, 
por inquirição, que mandou fazer de Manoel da Rocha, 
morador no serlaõ do Piaguy da Praya, Irmaõ do so- 
breditto Ignacio, e disse aquelle, eraõ ambos filhos na- 
turaesde António da Rocha, sendo diversas as Mâys ; 



291 

porque a do Trmaõ Tgnaclo, era huã mulher Parda^ e 
forra, a qual havia sido escrava dos senhores da caza 
da Torre, aonde nascera o Irmaõ Ignacio. Disse o 
mesmo Manoel da Rocha, que seo Irmaõ Ignacio foy 
cazado no lugar do Inhàbupe de Sima, desU icto do 
mesmo Seregippe d'EI-Rci, e que suppunha naõ conhe- 
cera o dito SCO Irmaõ Ignacio por mulher a esta sua ; 
porque, além de ser isso fama vulgur, o seo modo de 
vida o publicava assim ; pois leve por costume desde 
pequeno levar o mais do tempo do dia, c noite rezando 
continuamente de joelhos com huã cruz nas maõs ; e 
isto mesmo observava depois de cazado ; e só dava 
acordo de sy chamado pela mulher para tomar alguã* 
refeição ; e esta naõ vinha a ser de carne, ou peixe, 
mas só huã pequena porçaõ do que no paiz chamaõ os 
naturaes Mingau, que saõ huãs como papas ralas, feitas 
da mandioca da terra, ou em lugar deste huãs poucas 
de Beldroegas, cozidas em agoa, e sal. 

232. A poucos tempos lhe falleceo a mulher, e ven- 
do-se livre deste laço, deixando a Ribeyra do Inhàbupe,. 
se passou á cidade da Bahya, e conseguio o ser Donato 
do Convento, como Oca dito, 

233. Foy a vida do Irmaõ Ignacio, emquanto a suar 
pratica, e tratamento exterior sempre digna de todo a 
reparo. Nas palavras simplex, mas sempre poucas, e 
encaminhadas ao que era de Deos ; humilde, desprezí- 
vel, e sobre tudo desapegado dos interesses do mundo. 
Fora do habito, e eordaõ, que vestia exteriormente, 
naõuzava de camiza, nem outro reparo algum, a ca- 
beça descuberta, eos pés descalços. Nunca appareceo, 
em publico, nem largava das maõs a sua cruz. Era 
esta formada de huà vara de pouca grossura, algum 
tanto mais alta que a sua pessoa, no fim da qual tinha 
hum pequeno braço, que formava a cruz de hum palmo 
com pouca differenca. De manhã gastava o tempo pelas 
Igrejas em ouvir, ajudar as missas, e outras devoções,. 



29-2 

ft rezas. Fora destes exercícios, ou ainda estancio neU 
les, em qualquer parte, que ouvia tocar o Senhor aos 
enfermos, acudia logo, ou fosse de dia, ou de noite, a 
qualquer hora desta a acompanha lo com a sua cruz 
nas maõs, entre os que entoavaõ as Ladainhas, que 
comraummenle saõ os rapazes, convidando-os para isto. 
Sobre esta sua grande devoção repetiremos o que foy 
notório lhe aconteceo. Entrou huã manhã em caza de 
Manoel de Oliveira Bessa, Pay do Cónego Joseph de 
Oliveira Bessa, que ainda vive, donde costumava hir 
muitas vezes, e alguãs taõbera se agazalhava de noite 
pela charidade, que lhe faziaõ a lhe darem hum pouco 
de leyte, e paô, que era o seocommum sustento, quando 
lho davaO. Trazia o habito todo molhado por haver cho- 
vido muito aquella manhã, e elle naô cuidar no reparo 
da chuva, que lhe naõ era diíficultozo em huã cidade. 
Pedio á senhora da caza, era D. Leonor de Jesus, ir- 
mã do Pregador Fr. Joseph de S. Félix que ao prezente 
vive neste Convento, e comprova com o B. Cónego seo 
tio este cazo, que lhe desse com que se cobrir, em 
quanto se enxugava o habito. Mandou-lhe ella dar huã 
cazaca velha, e esfarrapada, que íôra de seo marido. 
Vestio-a o Irmaõ Ignacio, cingio-se com o seo cordaõ, 
e assentou-se junto a hum fogareiro de brazas a tomat 
calor. Tocou-se a este tempo o Senhor na Sé, de que 
eraõ freguezes os seos hospedes, bemfeitores, e o Irmaõ 
Ignacio sem cuidar em mais roupa para vestir, sahio 
para rua com a sua cruz na maõ, acompanhou o Senhor 
com bastante rizo dos menos attentos; mas cora grande 
edificação dos mais sizudos, e considerados. Nesta 
mesma caza aconteceo com elle o cazo seguinte. Levan- 
tou-se huã noite fora do costumado, estando ja todos 
recolhidos, chegou ao quarto donde se agazalhavaõ os 
donos da caza, e bradou, dizendo, acudissem, que na 
caza havia incêndio. Inquietaraõ-se todos, e feitas as 
diligencias por vários apozentos, foraõ dar em hum 



293 

mais retirado^ com fugo qiie ja se liia ateando ; atribuiu- 
do-se á virtude do Irmaõ Ignaeio o ficarem livres 
daqjiielle perigo, pois só por participação do céo o podia 
saber por ficar o seo aposento muy distante do outro, 
e sem communicaçaõ entre elles. 

234. Nunca leve domicilio, nem caza própria, em 
que de continuo assistisse, passando o resto dos dias, e 
das noites pelas de alguãs Pessoas particulares, e conhe- 
cidas, como Romeyro, e Peregrino ; e se lhe faltavaõ es- 
tas, pelos alpendres das Igrejas fazia as suas pousadas. 
Depois dfls que fazia nos princípios em caza dos devotos 
assima referidos, foi nos últimos annos alguãs mais con- 
tinuadas em huãs cazas que tem no sitio de Nazareth 
fora das portas desta cidade o P. António de Brito ; don- 
de lhe tinha reservado um apozento para se recolher a 
elle, quando, e as horas, que quizesse. Mas, para demons- 
tração, de que, nem esta queria ter por própria, muitas 
vezes a naõ tomava. Com este modo de vida chegou a 
huã Terça-Feira^ desaseis do mez de Junho, do anuo 
de 1744, em que, prevendo, se suppoz, lhe era chegado 
o t^rmo dos dias, hindo por noite á caza de huã devota 
mulher por nome Maria de Souza, moradora á Fonte 
dos Sapateiros no lugar dos corèumes, lhe pediu por 
charidade agazalho por três dias, dizendo se achava mo- 
lesto e lhe dohia todo o corpo. Quiz a mulher vendo a 
fraqueza, e debilidade, em que estava, preparar-lhe 
gaHinha,como a doente, mas elle a impedio, dizendo-lhe 
que só tomaria por caldo algum mingau. Assim chegou 
ao outro dia, e logo de manhã pedio confessor, e junta- 
mente o viatico, que recebeu de joelhos. Taôbem pedio 
a extrema unçaõ, e preparado com todos estes divinos 
soccorros, ao lerceyro dia que era Quinta-Feira dezoito 
do sobredito mez de Junho, dia consagrado ao Santíssi- 
mo Sacramento, de cujo suavíssimo myslerio, foi publico, 
e aíTectuozo devoto, e venerador, pelas três horas da 
tarde entregouao mesmo senhor com osocego dos justos 



294 

o seu espirito^ fioando com o semblante alegre, e cod)o 
queQi se estava rindo dos enganos do mundo. 

235. Três dias esteve o seo corpo sem se dar á se- 
pultura, por algumas duvidas, que dizem se oífereceraõ 
sobre o lugar, ou Igreja donde o havia de ser; porque, 
como naõ teve caza própria, nem domicilio certo, suc- 
cedeu-llie o que acontece aos que tendo de que naõ fa- 
zem testamento, que para a posse dos seus bens, appa- 
recem muitos herdeiros. Assim ao Irmaõ Ignacio, ainda 
que naõ possuia bens da fortuna, e todo o seo thesoura 
era o seo corpo, em que se depozitavaõ tantos dotes da 
graça infundidos na sua alma ; lodos o queriaõ para si. 
Os pardos, por ser elle da sua cor ; os Religiozos de 
Nossa Senhora do|Carmo por ser Irmaõ do seo Bentinho, 
os nossos pelo habito e cordão da ordem, e a lhe os da 
companhia, dizem entrarão nesta competência, pela cruz, 
que trazia nas maõs. Propoz-se ao 111.""' Prelado, e re- 
solveo com acertado acordo, que sendo o seo corpo lodo 
o seo thesouro, e visto achar-se em prédio, ou caza per- 
tencente á nova Freguezia do Sacramento, fosse guar- 
dado na sua Igreja matriz taõbem nova, e assim nella o 
foraõ depozilar. Levarão o esquife seis RPi. sacerdotes 
com hum uumerozo concurso do povo, mandan lo o go- 
vernador gei^al, huã companhia de soldados com seo cabo 
pira evitara indiscreta devoção do povo, que a porfia lhe 
queriaõ tirar em retalhos o habito por Relíquias. Arma- 
raõ-lhe huíi grande, e bem composta eça, e na Sexta- 
Feira de manhã dia seguinte ao seo fallecimento se lhe 
fez um solemneofficio e missa. De tarde mandou o FiX.""* 
Prelado por Médicos fazer a costumada vistoria em se- 
melhantes cazos, e acharão o corpo flexivel em todas as 
suas partes movendo-se, e dando estalos os dedos dos 
pes e maõs. A esta por ordem do mesmo Arcebispo, as- 
sistio o R. Promotor António da Costa de Andrade, que 
ainda hoje vive, o P. Mestre Fr. David dos Reys, Reli- 
giozo Menor, e o R. Vigário de S. Anlonioalem doCarmo> 



295- 

ambos ja fallecidos. Ao dilto P. M. Fr. David, ouvimos 
islo mesmo, que fica referido, quando no anno de 1758, 
em que o dito P. Mestre falleceo, e nós começamos esta 
escripta, o consultamos sobre ella ; e o mesmo nos diz 
laõbem oR. Promotor neste anno de 1762, fallando-llie 
sobre esta mesma matéria, accrescentando, queelle com 
suas próprias maõs lhe dobrara os dedos das maõs, e 
pés, lhe ouvira os estalos, e que eslava o corpo todo 
flexível e sem sentido algum, e que estava prompto para 
depor com juramento todo o referido, ainda que disto 
senaõ fez instrumento publico. 

236. Havendo-se feito neste dia da Sexta-Feira o 
oííicio e mais que fica relatado, no sabbado de manbã 
antes de rempero dia, se deo a sepultura o seo cadáver, 
por evitar novo concurso da gente. Ao tempo, que, se 
Ília fazer esta diligencia do enterro, dizem dera o sino 
da torre da Igreja três badaladas, como costumaõ ao 
sabbado de manhã, quando se quer entrar a missa da 
Senhora, que se celebra nos taes dias, e que roandando- 
se á torre ver quem tocara o sino, se achara a sua porta 
fechada e não havia pessoa alguâ da parte de dentro. Foi 
o seu corpo sepultado ao pé da grade da capella-mór, 
que serve para o commungatorio, e foi o primeyro, que 
na tal Igreja se sepultou ; e aqui, dizem taõbem se fez 
certo, hum dilto, que elle aiguâs vezes repetira, e o ti- 
nhaõ por variedade do seo discurso, quando se fallava 
na tal Igreja, que de novo se fazia ; aíiirmando elle, havia 
de ser a pedra fundamental daquella Igreja ; e parece que 
foi não no sentido, em que o toma vão os que o ouviaõ, 
mas no que se vio de ser o seo corpo o que nas sepul- 
turas daquella Igreja, como primeyro havia servir de 
fundamento para os mais. Fica esta Igreja na rua, que 
chamaõ do passo, a qual tem principio subindo da rua 
dos Sapateiros pela ladeyra do Carmo, e travessa que 
toma a maõ esquerda pela parle de sima ao poente. 
Nesta rua, se diz laòbem, e foi notório aos seos vizinhos 



296 

q4ie morando alli certa moça pobre eai coaipanhia de 
sua mãy, compadecido da sua pobreza, lhe costumava 
por cliaridade levar todos os sábados o Irmão Ignaclo 
de alguàs esmolas, que lhe davaõ, duas patacas. Em hum 
destes chegou á janella ; porque dentro da caza nunca 
entrava ; veyo a moça a receber a esmolla, e olhando 
para ella o Irmaã Ignacio, lhe disse, todo turbado : — 
Til nàò estás como eslavas outro dia, vai te confessar ;— 
e alirando-lhe dentro cora as duas patacas, se voltou, 
(í íiaõ repetio mais aquella diligencia. E nós taõbera 
deixamos de repetir outros cazos mais dos vários, que 
se contaõ da sua vida^ por naõ lermosdelles outra cer- 
teza, do que a voz vaga do povo, no qual ainda per- 
manece, especialmente nos que o conhecerão, a sua boa 
faipa, e opinião. 

Do Hospício ãa Boa Viagem no arrébalde da Bahya, 

237. Huã legoa, com pouca diíferença, distante da 
cidade á^ Bahia, junto á ponta, e Forte de Monserrate, 
assim chamada, por hum hospício, e capella da Se- 
nhora «om este titulo, da administração dos RR. PP. 
de S. Bento, está o nosso, que se diz da Boa Viagem, 
por ser consagrada a sua Igreja a esta Senhora, situado 
sobre a costa, e salgado da Praya, que da parte do 
Norte da cidade vay correndo athe o lugar do hospício. 
Fez data da terra para elle, que he toda a que hoje está 
cercada de bom muro de pedra, e cal, huã devota mu- 
lher por nome D, Lourença Maria, senhora, e possui- 
dora das terras de Tapagipe de bayxo, e moradora no 
chamado Porto dos Pescadores no mesmo Tapagipe, 
por escriplura de 19 de Novembro de 1710, só com 
a pensão de lhe mandarem dizer annualmente sinquo 
missas, três por sua alma, e duas pela de sua fdha D. 



mi 

Maria Pereyra de Negreiros, sendo Guardião da Bahya 
Frey Vicente das Chagas, Provincial Fr. Eslevaõ de S. 
Maria e syndico André Nunes de Souto. 

238. Por esta mesma Escriptura, consta, que quan- 
do foi feita, ja o Convento da Bahia linha ali huãcaza, 
a qual, diz a própria escriptura, servia para guardar a 
ferramenta, com que se tirava a pedra para as obras 
do Convento, que se fazia de novo, especialmente as da 
Igreja, a que poucos annos antes se havia dado princi- 
pio ; e lie sem duvida, que para se fazer a la! caza 
antes da escriptura, e data da terra foi concedida a li- 
cença pela mesma Doadora. Na congregação de 1712 
se ordenou em meza, levantar a caza de pedra, com so- 
brado, como se fez, com se» oratório, e pelo tempo 
adiante Igreja em forma de hospicio, com varandas aos 
lados do corpo da Igreja, e três corredores pequenos em 
modo de claustra, pelas duas bandas, e detrás da ca- 
pella mór, com dez, ou doze ctllas pelos sobrados de 
sima, e alguãs no andar de bayxo, caza de Portaria, 
Refeitório, e as mais officinas necessárias para a for- 
malidade de huã caza Religioza, Sachrislia com cayxões 
do páo preto, espaldares de talha do mesmo, e almario 
de amictos, tabernáculo de talha dourada para o Santo 
Christo; forro com payneis de molduras douradas, la- 
vatório de mármore e tudo o mais cora perfeição e 
adorno. 

239. Tem a Igreja três altares, e no maior com tri- 
buna, e retábulo dourado tem lugar a Senhora da Boa 
Viagem, titular da caza; enos dous collateraes, taòbem 
com retábulos dourados, no da parte do Evangelho a 
Senhora das Necessidades, e no da Epistola o Gloriozo 
S. Gonçallo. A todos se fazem annualmente as suas fes- 
tas com Senhor Exposto, e pregação. A da Senhora ti- 
tular, que he a primeyra, se solemniza na Dominga se- 
guinte á festa dos Reys, na outra Dominga a da Se- 
nhora das Necessidades, e a terceyra, que he a do glo- 

JABOAXAM. PART. II. VOL. I. 38 



298 

liozo S. Gonç^llo ; e nesla lia procissão, em que vay a 
Imagem do Santo, para a qual, (que lie no seo dia de 
tarde) vay da cidade hum grande concurso de povo, e 
tem o Santo obrado vários prodígios a favor dos seos 
devotos, e pelos quaes logo desde os princípios que alU 
se collocou a sua Imagem foi buscado, e servido com 
grande devoção. Fazem-se estas festas todas a esmoUas, 
e concurrencia dos devotos, e com muita especialidade 
dos navegantes a da Senhora da Boa Viagem. 

240. He a capella mór lageada, de pedra mármore 
branco, e preto, em forma de alcatifa ; tem a capella 
huã tribuna, ou janella rasgada em cada um dos lados, 
e a Igreja duas por banda, com púlpito de talha dourada, 
forro do tecto lizo de boa pintura de perspectiva, grades 
da Igreja, e capella de páo preto torneado como laõbem 
as do choro com nicho, e oratório para o Santo Chrislo, 
de boa talha dourada, cadeyras em huã só ordem do 
mesmo páo prelo, com seo orgaõ. Está a Igreja e Sa- 
christia com todo o ornato necessário e rico, e tudo a 
despeza dos Devotos e Bem feitores. 

2M, Assiste neste hospício hum Religiozo Sacer- 
dote, com outro companheiro ; mas sem titulo algum 
de Prelatura, c só dependente do Guardião da cidade, 
emquanto a mandar-lhes o sustento necessário, e quoti- 
diano ; porque no mais, que toca ao económico, está su- 
geito á dispoziçaõ dos Provinciaes, e dos que gover- 
naõ a Provincia. 

CAPlTUIiO VII. 

Da Venerável Ordem Terceyra da Penitencia do Convento da Bahya. 

242. Gomo foy o Convento da Bahya o segundo e«i 
fundação aos desta Provincia, a mesma sorte coube 
taõbem, como filha sua á Venerável Ordem Terceyra 
da Penitencia, que nelle se erigio. Mas esta razaõ de 



299 

secundaria, a naõ priva de outras muitas accessoria^, 
que llie podem dar entre as mais da Provincia algiiãs 
primazias. Podem ser estas o numero avantajado de 
seos írmaõs, e sem duvida numerozo a respeito das 
mais de lodos os outros Conventos ; ainda que este 
excesso, naõ lie tanto eífeito da mesma Ordem, como 
fructo da immensidade do povo ; pois sendo taõ cres- 
cido o desta capital, assim como dá tantos para os en>- 
penhos do mundo, laôbem dá muitos para os empregos 
do que lie de Deos. Daqui se segue ter taõbem a ordem 
hum bom, e abastado Património: naõ só por este cres- 
cimento de seos írmaõs, como por serem muitos delles 
de avultados cabedaes, e haverem feito grandes doações 
á mesma ordem ; tanto para suprimento delia, como 
para obras pias, suffragios, esmollas para pobres, dotes 
para as orphãs e outras semelhantes de piedade, e zelo 
christaõ. Daqui vem mais terem a sua Igreja custoza, 
e ricamente ornada, celebrarem com aceyo, lustre, e 
custozos apparatos a sua Procissão de cinza, e todas 
as mais celebridades annuaes, que determina a sua 
ordem, e nesta as costumaõ, por terem separada, offi- 
ciar nella, excepto o Descendimento da cruz de Sexta 
Feyra Maior, que só o faziHo em a nossa Igreja. 

243. He, verdade, ( e por naõ faltarmos a esta o ex- 
pressamos, pois he justo, naõ deixando nós de repetir 
em os fllhos desta venerável ordem nesta sua caza, o 
que he digno de louvor, callemos aquillo, em que se 
tem feito acredoresde alguã reprehensaõ.) He verdade^ 
que há muitos annos a esta parle, tem faltado os írmaõs 
Terceyros a todas as funcções sagradas, que costuma- 
vaõ naõ celebrando festa alguã, nem ainda a da própria 
Padroeyra da sua Igreja. Naõ me intrometo a julgar, se 
com razaõ, ou sem ella ; porque sey, que para o do 
mundo há opiniões para tudo ; mas, como para o de 
Deos naõ pode haver opinião, que por despique de pay- 
xões particidares se possa privar a este Senhor e ao& 



300 

seos Santos dos cultos, e venerações, que se lhes de 
vem, uuibeni podemos fazer opinião que disto teraõ 
dado a conta os principaes motores, e que a naô deixa- 
rão de dar, os que sustentaõ, e apoyaõ aquellas máxi- 
mas. Por estas, e outras particulares razões; e por naõ 
acharmos em os assentos da Provincia alguã de que 
constasse o principio e creação da Venerável Ordem 
Terceyra da Penitencia neste Convento, entrou o dis- 
curso em varias idêas sobre este ponto, athe que re- 
zol vemos recorrer ao P. Commissario e Vizitador da 
mesma ordem o Ir. Ex-DiíTinidor Fr. Leonardo da Con- 
ceição, fallasseaos da sua meza do anuo de 1749, no 
principio a ver se nos queriaõ participar a revista do 
livro (la sua ordem, e daquelles papeis do seo Archivo, 
que nos pudessem servir de luz, e guia para o que de- 
víamos escrever da ditla ordem. Acabou aquella meza, 
entrou a outra, no íim delia nos apprezentou o seo Se- 
cretario o Ir. Luiz Gomes Coelho hum papel na forma, 
em que aqui o trasladamos, sem mudança, ou aceres- 
centamento algum ; porque nesta parte naõ queremos 
dizer mais, nem menos, e só aonde naõ concordar com 
algum assento da Provincia, faremos pelo explicar., e he 
o seguinte. 

BREVE NOTICIA. 

De alguãs memorias da Venerável Ordem Terceira de 
N. S. P, S. Francisco desta congregação da Bahya^ 
tiradas peia meza no anno de 1760. 

244. A venerável Ordem Terceyra de N. S. P. S. 
Francisco desta congregação da Bahya, foi creada no 
anno de 1635 pelo venerável Padre Fr. Cosme de Saõ 
Damião, (de cujas singulares virtudes fará mençaõ a 
chronica da Religião Seráfica deste Brazil), o qual sendo 
custodio desta Provincia, e achando-se na Alagoa do 
Sul de Pe,rnambuco, passou a patente da sua fundação 



301 

em qnalro de Seplembro do dito anno, dirigida ao Pa- 
dre Guardião, que entaõ era deste Convento da Baliya 
Fr. Manoel Baptista de Ol)idos, e na mesma patente de- 
terminou alguns Estatutos para o seo governo. Encar- 
regou a observância delles ao P. Pregador Fr. Panta- 
leaõ Bautista, passando-llie patente de primeiro Com- 
missario da Ordem, o qual exerceo o dito cargo athe o 
fim do anno de 1636, no qual entrou o mesmo venerá- 
vel Padre Fr. Cosme a occupar o mesmo lugar. 

215. Elegeo-se por Padroeyra da Venerável Ordem 
Terceyra a glorioza Santa Izabel, Rainha de Portugal, 
e se coUocou no altar de Nossa Senhora da Conceição 
da Igreja velha do Convento dos Religioaos, em quanto 
se naõ fez capella particular na mesma Igreja, e em 
vinte e oito de Dezembro do mesmo anuo se fez a pri- 
meyra festa solemne da Ordem, com Vésperas, Sermão» 
Missa contada, e muzica a três choros, e assistências de 
todo o lustre, e governos da cidade. Foy esta fundação 
confirmada pelo Summo Ponlifice Alexandre Septimo, e 
enriquecida de muitas graças, e indulgência no seo 
Breve, passado em Roma a treze de Junho de 166G, 
em o qual concede aos Irmaôs Terceyros desta venerá- 
vel ordem indulgência plenária no dia da recepção do 
habito, e io articulo mortis, e além destas, outras in- 
dulgências e jubileos nos dias de S. Izabel, Saõ Joaõ 
Evangelista, N. Padre S. Francisco, e outros. O Santís- 
simo Padre Clemente X, concedeo outras indulgências 
para a irmandade de Santa Roza de Viterbo, cuja Ima- 
gem se acha collocada na Igreja da nossa ordem, no seo 
Breve passado em Roma no anno de 1674. Tem mais 
o altar de nosso Padre privilegiado com indulgência ple- 
nária, e inteira remissão da alma, por quem se applica- 
rem as missas nelle celebradas por Sacerdotes da pri- 
meyra, e terceira ordem. Tudo, alem das infinitas gra- 
ças, e indulgências geraes por outros muitos Santos 



3a2 

Pontífices, concedidas ás Religiões, e ordens seráficas, 
e commnnicaveis a esta. 

2i6. A primeyra canónica eleyçaõ, que se fez para a 
naeza do Governo da Ordem foi em vinte e três de De- 
zembro de 1635, e nella saliyo eleylo por Ministro o R. 
Cónego Francisco Soares Corrêa, e depois lhe succede- 
raõas principaes pessoas desta capitania do Brasil, De- 
zembargadores. Coronéis, Mestres de Campo, e atlie o 
mesmo General do Eitudo Luiz Gezar de Menezes sér- 
vio de Ministro nos annos de 1707, 1708 e 1709 ; e já 
no anno de 1673 linha servido no mesmo lugar o Gover- 
nador AíTonsso Furtado dos Rios e Mendonça . 

247. No tempo prezente se compõem a meza de treze 
Irmaõs professos, os quaes occupaõ os lugares se- 
guintes: O 1." he o Ministro ; O 2.° o Vice-Ministro ; 
O 3.» o Secretario; O li." o SynJico, ou Thesoureiro 
do cofre da ordem ; O 5." o Procurador Geral ; O 6.** o 
Vigário do culto Divino ; O 7." o Mestre dos Noviços, ou 
enfermeiro mor ; e os seis, que se seguem saõ os consul- 
tores da meza, os quaes todos se costumaõ occupar no 
bom governo, e serviço da ordem, cuja eleyçaõ se pu- 
blica a qua-tro do mez de Julho. Fora destes Irmaõs se 
nomeaõ quatro Thesoureirosdos defuntos, ou recebedo- 
res dos annuaes, que pagaõ os irmaòs vivos para consig- 
nação das missas dos defuntos, cujo annual he de mil 
duzentos e oitenta cada Irmaõ. Nomeaõ-se mais quinze 
Zeladores, que servem de avizar aos Irmaõs para os 
enterros, encoramendações, e mais funcções, e exercí- 
cios da ordem, os quaes Zeladores se repartem pelos 
bairros da cidade. 

218. Em treze de Janeiro de 1636 determinou a 
meza fazer caza de consistório, por bayxo do dormi- 
tório novo do Convento dos Religiozos, cuja determina- 
ção se poz logo por obra, e se concluhio esta no anno de 
1644. No de 1645, a dous de Fevereyro se benzeo, e se 
determinou, que nesta caza se fizesse hum altar, que 



303 

taõbem se benzeo^ e se lhe coUocou a Imagem de 
Christo Senhor nosso. Nesta caza se faziaõ as razouras, 
entradas^ e profissões, penitencias, e mais santos exer-^ 
cicios da nossa Regra, e estatutos, e taõbem neste mes- 
mo lugar se dava sepultura aos nossos Irmaõs defuntos. 

Correrão os annos, e no de 1697 por occaziaõ 
do augmento das obras assim da Igreja dos Religíozos, 
como do seo próprio Convento, com as quaes se occa- 
zionou grande escuridão á dita nossa caza de exercí- 
cios, de sorte, queja nella se naõ podia celebrar o Sa- 
cro Santo Sacrifício da missa, se assentou fazer a nossa 
própria Igreja, e mais cazas necessárias do nosso ins- 
tituto, e para este oíTeito se mandou pelos mestres mais 
peritos da cidade fazer plantas, das quaes conferida, e 
approvada a melhor pela nossa meza, e taõbem pela do 
diffinitorio do Convento em dezoito de Dezembro de 
1701, se rezolveo dar-se principio á obra com toda a 
promptidaõ. 

249. O dia primeyro do anno de 1702, era que go- 
vernava a Igreja de Deos o santíssimo Padre Clemente 
XI, e o Reyno de Portugal D. Pedro 2.% toda a ordem 
e Religião Seráfica, como Ministro Geral Fr. Luiz de 
La Torre, o estado do Brasil D. Joaõ de Lancastro, a 
Mitra deste Arcebispado o cabido por cauza de Sé va- 
canle, e a nossa Venerável Ordem, como Ministro ler- 
ceyra vez o Coronel Domingos Pires de Carvalho, foi o 
em que se lançou a primeira pedra fundamental da 
nossa Igreja da parle do nascente, donde se havia de- 
terminado, segundo a planta fazer cunhal da mesma 
Igreja ; mas, porque depois se rezolveo faze-la maior 
dez palmos, veyo a ficar debayxo da porta travessa, 
que existe do lado direito, que vay para o corredor do 
púlpito, cuja pedra, em forma de procissão, collocada 
aos pés do Menino Deos, em hum andor, se lançou pelas 
maõs do R."° Padre visitador Geral Fr. Miguel das Ne- 
ves, edo R. P. Provincial, Fr, Josephde S. Catharina, 



e do Irmaõ Ministro o Coronel Domingos Pires de Car- 
valho, e pelo Irmaõ Vice-Miuistro António de Azevedo 
Moreyra, e para memoria se llie esculpirão as pala- 
vras seguintes. 

St aulem fundamentum nosíriím in ccelo est, ad coe- 
lum cedificemur, S. Aug, in Psalm, 121. Anno Dnú 
1702. die 1." Januarii, 

250. Foy esta obra de tanto agrado ao altissiim), 
como devemos entender, e pôz neíla tanto os olhos o 
seo supremo Protector, o Menino Deos, a quem se con- 
sagrou, que dentro em hum anno, siuquo mezes e 
vinte e dous dias se vio concluída, e se benzeo pelo 
1^ mo p Piovincial Fr. André da Conceição, e disse a 
primeira missa solemne o R. P. Guardião Fr. Luiz de 
Jesus Quaresma cora procissão e grande festividade no 
dia vinte e dous de Junho de 1703, pondo-se-lhe o titulo 
do mesmo Menino Deos, que a principiou a fundar. He 
esta Igreja de grandeza sufficiente, e bem ordenada ar- 
chicteclura. Occupa de frente sessenta e dous palmos, e 
de fundo cento e trinta e siuquo. Tem selte altares, seis 
pelos lados, em que se veneraõ os Santos da Ordem ; a 
saber, nosso Santo Patriarcha, S. Izabel Rainha de Por- 
tugal, S. Roza de Viterbo, S. Izabel Rainha de Ungria, 
S. Luiz Rey de França, e S. Ivo Doutor. No aliar mór 
se adora a Christo Crucificado, N. P. S. Domingos, S. 
António, e a Puríssima Conceição da Senhora. Todos 
estes altares se achaõ muito bem ornados, e com todos 
os paramentos necessários. Nelles se costumaõ celebrar 
annualmeute para sima de vinte mil missas, nas quaes 
entraõ as que se dizem pelas obrigações, c encargos da 
ordem, pelas almas dos Irmaõs defuntos, que determi- 
naõ em seos testamentos se mandem dizer em a nossa 
Igreja. O tecto, e as paredes delia estaõ cubertns todas 
de talha dourada, e ricos payneis. Tem hum formozo 
orgaõ no meyo do choro, e athe o próprio frontispício 
he de pedra entalhada toda, com grande custo. Da 



305 

tiiesma rorma he ornada a Saclirislia, consistório, caza 
de Noviciado, e santuário, naõ lhe faltando todas as 
oflicioas necessárias, como são cemitério, ou carneyro 
de abobada por bayxo da capella mor, claustros para a 
Via-Sacra, moradias pata os serventes, e Sacliristaõ> 
caza da fabrica — Alegrete com poço, e nora de agoa, e 
todas as mais accommodações necessárias. 

251. Possue esta Venerável Ordem o melhor de cento 
e dez contos de réis, cujos rendimentos applica na ad- 
ministração de sessenta e nove capellas, que administra 
de missas, esmollas, dotes, e outros encargos, que ins- 
tituirão vários defuntos nossos Irmãos, as quaes capellas, 
no anno de 1758 próximo passado pelo juizo delias se 
tombarão, fazendo-se a cada huã património particular 
em propriedades, e dinheiros de juros. Distribuo a ordem 
annualmente por esta conta para sima de três contos de 
réis, fazendo celebrar pelos seos encargos sette mil tre- 
zentas e sinquoenta e oito missas, consigna doze, ou treze 
dotes, e distribue mais pelos Irmãos pobres enfermos, 
trezentos e dez mil réis. Por cada Irmaõ defunto applica 
cento e seltenta e oito missas, que no decurso do anno 
fazem o numero de sinquo mil pouco mais ou menos. 
Pelos Irmãos vivos taõbem applica perto de duzentas 
missas annualmente ; e pelos Irmãos defuntos em geral 
pouco mais ou menos quinhentas. Os mais sobejos se 
applicaõ ao gasto da Igreja da ordem, hábitos e tumbas 
para os Irmaõs pobres, e tudo se dá conta geral e publi- 
ca na mesma igreja no dia de quatro de Julho na publi- 
cação da nova meza. 

252. Tem mais esta Venerável Ordem huâ capella 
íMial, com o titulo de S. Miguel, e o Senhor Jesus da 
Via-Sacra, que nella se veneraõ, com sua Igreja, e cazas 
contíguas, e todos os paramentos necessários. Foi fun- 
dada por hum virtuozo Irmaõ chamado Francisco Gomes 
do Rego, o qual, sendo homem de negocio, o largou, e se 
poz a viver espiritualmente na mesma caza junto á capei- 

JABOATAM. PART. II. VOL. I. 39 



300 

la, e aoles da sua morte, no auno de illxli fez doaçaõ 
á mesma Ordeai assim da capella, e seos pertencentes, 
como mais, de onze moradas de cazas, que com outras, 
que se foraõ fazendo, tem formado um bom património 
á capella, e os seos rendimentos pertencem á mesma 
Ordem doada, com obrigação de mandar dizer annual- 
mente setle missas votivas, e fazer visitar duas vezes em 
cada semana a Santa Via-Sacra por quinze pobres, dan- 
do-se-llies, para este effeilo esmolla, em ordem a perpe- 
tuar este Santo Exercicio; que foi a intenção principal, 
e única do dillo instituidor, cujas disposições cumpre á 
risca a mesma Ordem, e serve a mesma capella de caza 
de oraçaõ, e penitencia a lodos os que se querem empre- 
gar em taõ santos exercícios. 

25Ô. O numero dos Irmaôs vivos, de que esta Vene- 
rável Ordem se compõem, anda ordinariamente em dons 
mil pouco mais ou menos ; a saber, mil e quinhentos re- 
sidentes nesta cidade, e subúrbios; e quinhenhos, au- 
zentes, no recôncavo, certòes, minas, e em Portugal. 

254. Dos defuntos falleceraô alguns com boa opinião 
de virtude; e entre elles se singularizou huã Irmã fal- 
lecida em o anno de 170/i, em quatro de Septembro, e 
abrindo-se a sepultura no de 1707 em occasiaõ em que 
se andavaõ repartindo com paredes as sepulturas da 
nossa Igreja, se achou seo corpo sem corrupção inteiro, 
no qual se fez exame autentico por mandado de sua Hl.'"" 
com assistência do R. Doutor Vigario-Geral Ignacio de 
Azevedo, e de dous médicos principaes da cidade, os 
Doutores Miguel Soares Henriques, e António Pinhei- 
ro de Lemos, e o cirurgião Luiz Farto, os quaes 
resolverão, com probabilidades medicas, e phisicas, e 
attençaõ do clima da terra, e a constituição do corpo, 
e a vida da defunta, ser a tal incorrupiibilidade por 
cauza miraculoza ; cujo corpo se tornou a sepultar no 
mesmo jazigo athc nova rezoluçaô do mesmo senhor, a 



307 

/j«al a decadência dos tempos, e o descuido lem poslo 
em esquecimeuto allie Deos ser servido. 

255. Os actos pnl)licos, e funções desta Venera vel 
Ordem saõ os que dispõem a regra, e estatutos geraes, 
e o de maior expectação que costuma he a procissão da 
cinza, que se faz na primeyra Quarta-Feira da quaresma 
com todo o lustre, e grandeza ; e por ser liuã acçaõ, que 
dá brado em muitas partes, faremos delia liuã breve me- 
moria. No anno de 1649 em desasette de Fevereyro se 
deo principio a este santo costume, publicando-se neste 
dia o jubileo, e na tarde delle sahio a procissão da peni- 
tencia, a qual perdurou, e se faz ao tempo prezente na 
forma seguinte. Primeiramente vai a figura do paraizo 
terreal, que se demostra em liuã arvore frondoza, com 
os pomos prohibidos, e aos lados Adaõe Eva, nossos pri- 
meyros pays, com as insígnias do seo trabalho, ja despi- 
dos da primeyra graça, e vestidos de pelles,e detraz dei- 
tes o anjo cherubim, lançando-os fora do paraizo, cor» 
huã espada de fogo, o qual vay vestido rica, e especioza- 
mente, cubertasas roupas de galões finíssimos, peças de 
diamantes, e ouro batido. Segue-se logo a figura da 
morte, com as insígnias da brevidade da vida ; e depois a 
Santa Cruz com as armas da Ordem Seráfica, acompa- 
nhada de dous anjos com brandões nas maõs. Seguem-se 
mais sette figuras, vestidas de sacco penitente, com iosi- 
gnlas nas maõs, que declaraõ as virtudes, que reprezen- 
taõ, como saõ a penitencia, confissão, contrição, satisfa- 
ção, obediência, memoriada morte, e desprezo do mun- 
do, levando cada huã delias adiante de sy um anjo, com 
tarja na maõ, e letreiro do seo significado, levando a ul- 
tima dous pagens mais aos lados, com peças de ouro em 
salvas, e outros despojos do seo desprego. 

256. Segue-se huã figura á Mourisca, com sua larja 
em forma de bandeira, e nesta escripla a sentença de 
morte dada contra os vinte e três martyres do Japão, 
nossos Irmaõs, os quae? vaõ atrás, em figuras peque- 



308 

nas, vestidos com os hábitos das nossas Ordens, e ernz^s 
nas maõs com os alfanges nas partes, em que foraõ mar- 
lyrizados, lodos passados com huã corrente pelo pescoço 
que leva o algoz mouro na maõ, mostrando huà summa 
arrogância, e deshumanidade. Ao lado dos martyres vaõ 
dous anjos com as palmas do triunfo, e coroas do mar- 
tyrio, e atraz do mouro vay o anjo da guarda, vestido 
á maneyra de cberubim, com lança na maõ resguardando 
aos martyres da mayor violência do tiranno. Logo se 
segue outra figura da mesma sorte enriquecida, com 
balança na maõ, e espada, que symboliza a Justiça 
Divina. 

257. Por bum, e outro lado vaõ os Irmaõs terceyros 
de nossa Ordem, encorporadoscomos de Nossa Senhora 
do Monte do Carmo, e pelo meyo da procissão vaõ vinte 
andores bem ornados, cubertos de tella de ouro roxa, e 
nelles collocados os Santos da Ordem de estatura ordi- 
nária, com toda a propriedade e aceyo, e os passos 
principaes das suas virtudes. Da mesma sorte vaõ em 
andores Christo Senhor Nosso com a cruz ás costas, par- 
ticipando as chagas a Nosso Santo Padre^ e os passos 
principaes do mesmo santo patriarcha pertencentes ao 
nosso santo instituto. A diante de cada andor vaõ dous 
anjos com tarjas, c nellas escripto o nome do santo, e 
virtude, em que mais se exercitou, e aos lados dos 
mesmos andores quatro tocheiros com tochas acezas. 
Por ultimo vay o andor da Conceição da Senhora 
Padroeira da Ordem Seráfica riquissimamente orna- 
do, e a diante delle dous fermozos anjos, com capellade 
flores, e palmas. Sobre o mesmo andor vaõ os Santos 
Doutores, que defenderão a Conceição Puríssima collo- 
cados de joelhos aos pés da senhora, tudo com a maior 
grandeza. Segue-se outra figura, que reprezenta a Ordem 
Terceira da Penitencia, vestida de sayal por cima, en- 
•riquecidade ouro, e diamantes. Pelos lados fazem corpo 
as du IS mezas das Ordens Terceiras Franciscana, e Car- 



809 

melitana, que por convite annual, e que leve principia 
no anno de 1702, nos acompanha ena a nossa procissão, 
e lhe correspondemos acompanhando-a na sua, do en- 
terro do Senhor, que fazem na Sexta-Feira mayor. 
Depois das Ordens, vay a communidade Franciscana, 
que por breve apostólico, que para isso tem sahe com 
esta procissão, a qual se feixa com o Palio, e debayxo 
delle vay o sacerdote com o Santo Lenho^ acompanhado 
de seis anjos fermozos com incensários, seis Irmaõs com 
lanternas, e oito com tochas. Faz a Ordem por sy, e por 
despeza dos Irmaõs Noviços de gasto nesta procissão 
annuaimente ao pé de quatro mil cruzados, supposto que 
tem próprios os principaes ornatos de que se reveste a 
mesma procissão, como taõbem tem todo o necessário 
para os mais actos da sua observância. E assim temos 
dado noticia diminuta de alguãs particularidades da nos- 
sa Venerável Ordem Terceira ; e agora a daremos dos 
ministros, e RR. Com missarios, que a tem governada 
nas seguintes: 

SERIE l.« 

Dos Irmaõs Ministros, que tem servido esta Venerável 
Ordem Terceira. 



Annos. 






1635. 


OR. 


Cónego Francisco Soares Corrêa. 


1636. 


Irmaõ o Gap. Melchior da Fonceca, 


1637. 




Naõ consta houvesse eleyçaõ. 


1638. 


OIr. 


António Gamello. 


1639. 


OIr. 


Manoel de Morgado. 


1640. 


OIr. 


Francisco de Castro. 


1641. 


OIr. 


Manoel da Maya. 


1642. 


OIr. 


R. P. Manoel Cardozo. 


1643. 


OIr. 


Rafael Soares da França, 



310 

1644. O Ir. Manoel da Silva ; que sérvio de secre- 
tario 8 annos. 

Diogo de Aragão Pereyra. 

Paulo de Barros. 

M* de campo Joaõ de Araliujo. 

Diogo de Aragão Pereyra, 2" vez. 

Paulo Antunes Ferreyra. 

Cap. António de Souza de Andrade. 

António Simaô de Castro. 

M% de campo Nicòláo Aranha. 

Diogo de Aragaõ Pereyra. 3." vez. 

M.« de campo Joaõ de Arahujo. 2." vez. 

Cap. Francisco Fernandes. 

Joaõ Velho Godinho. 

António Alvares Silva. 

O mesmo 2.* vez. 

M.« de campo Nicoláo de Andrade. 

Balthazar de Aragaõ. 

Domingos Joaõ. 

Francisco Rodrigues Dousim. 

O mesmo 2." vez. 

M.« de campo Joaõ de Arahujo. 3." vez. 

R. Vigário António Corrêa. 

Amaro Machado Borges. 

Pedro Borges Pacheco. 

Jeronymo Rogeiro. 

M.^ de campo Nicoláo Aranha. 2." vez. 

Cap. Manoel da Costa Camera. 

Balthazar de Aragaõ de Arahujo. 

Jeronymo Henriques Tourinho. 

Governador do Estado Aífonso Furtado 
dos Rios, e Mendonça. 

R. Vigário geral Manoel Antunes. 

Cap. Pedro Camello Pereyra de Aragaõ. 

Manoel Alvares Milhaõ. 

Joaõ de Mattos de Aguiar. 



1645. 


OIr. 


1646. 


OIr. 


1647. 


OIr. 


1648. 


OIr. 


1649. 


OIr. 


1650. 


OIr. 


1651. 


OIr. 


1652. 


OIr. 


1653. 


OIr. 


1654. 


OIr. 


1655. 


OIr. 


1656. 


OIr. 


1657. 


Ir. 


1658. 


OIr. 


1659. 


OIr. 


1660. 


Ir. 


1661. 


Ir. 


1662. 


Ir. 


1663. 


OIr. 


1664. 


OIr. 


1665. 


OIr. 


1666. 


OIr. 


1667. 


OIr. 


1668. 


OIr. 


1669. 


OIr. 


1670. 


OIr. 


1671. 


OIr. 


1672. 


OIr. 


1673. 


OIr. 


1674. 


OIr. 


1675, 


OIr. 


1676. 


OIr. 


1677. 


OIr. 



3il 

1678. Naõ consta houvesse eleyçaõ. 

1679. O Ir. Egas Nunes Barreto. 

1680. O Ir. Manoel de Oliveira Porto. 

1681. O Ir. O mesmo. 2." vez. 

1682. O Ir. Coronel Pedro Camello Pereyra de 

Aragão. 

1683. O Ir. R. P. Sebastião da Rocha Barboza. 

1684. O Ir. R. P. Gregório Antunes. 

1685. O Ir. Cap. Domingos Martins Pereyra. 

1686. O Ir. Coronel Francisco Dias de Ávila, senhor 

da Torre. 

1687. O Ir. António Martins de Azevedo. 

1688. O Ir. Joaô Alvares Fontes. 

1689. O Ir. Cap. Francisco de Arahujo e Azevedo. 

1690. O Ir. António Maciel Teixeyra. 

1691. O Ir. António do Rocha Pitta. 

1692. O Ir. Cap. Manoel Telles de Menezes. 

1693. O Ir. Naõ consta houvesse eleyçaõ. 

1694. O Ir. Manoel Alvares Milhão. 2.' vez. 

1695. O Ir. Sargento mór Domingos Pires de Car- 

valho. 1." vez. 

1696. O Ir. António de Amorim Corrêa. 

1697. O Ir. R. Vigário Sebastião Teixeira Pinto. 

1698. O Ir. R. Vigário António Filgueira. 

1699. O Ir. R. Vigário Sebastião Teixeira Pinto, 

reeleito. 

1700. O Ir. Manoel Ramos Ayres. 

1701. O Ir. Coronel Domingos Pires de Carvalho. 

2." vez, 3,'* e 4.^ 

/'Este Irmaõ foi insigne bem- 

1702. O Ir. O mesmo. '■«'',«■■ ''^ O-^íJ^"' P^V"» 

1703. O Ir. O mesmo. P"<'«<=''"„""':f' "■?''" ''"?' 

|e com ella dispendeo mais 

^de vinte mil cruíadoK. 



►12 



1704. 




/Nestes ires aunos naõ cons- 


1705. 




|ta houvesse eleições pelos 


1706. 




(distúrbios da Ordem. 


1707. 


Ir. 


Governador do Estado Luiz Cezar de 
Menezes é 


1708. 


OIr. 


mesmo 2.'' vez. 


1709. 


OIr. 


mesmo 3.* vez. 


1710. 


OIr. 


Coronel Pedro Barboza Leal. 


1711. 


OIr. 


Cap. mór Baltliazar Carvalho da Cunha. 


1712. 


OIr. 


Domingos Maciel de Britto. 


1713. 


OIr. 


Coronel Joseph de Arahujo Rocha. 


1714. 


OIr. 


Rafael Gomes Abreo. 


1715. 


OIr. 


Dr. Joseph de Arahujo Pinto. 


1716. 


OIr. 


mesmo 2." vez. 


1717. 


OIr. 


António Ferreira Lisboa. 


1718. 


OIr. 


Dezembargador Caetano de Brito Frey re. 


1719. 


OIr. 


mesmo 2* vez. 


1720. 


OIr. 


Jeronymo Jorge. 


1721. 


Ir. 


Ignacio Alvares. 


1722. 


OIr. 


António Velho Maciel. 


1723. 


Ir. 


mesmo 2." vez. 


1724. 


Ir. 


mesmo 3.** vez. 


1725. 


Ir. 


Bento de Magalhães Pereyra. 


1726. 


Ir. 


Manoel Jorge Caçaõ. 


1727. 


Ir. 


Coronel António Alvares Sylva. 


1728. 


OIr. 


mesmo 2.* vez. 


1729. 


Ir. 


Dezembargador Bernardo de Souza Es- 
trella. 


1730. 


OIr. 


Coronel Simaõ Alvares Santos. 


1731. 


OIr. 


Miguel de Passos Dias. 


1732. 


Ir. 


Coronel Joseph Pires de Carvalho. 


1733. 


OIr. 


Joaõ Gomes Ribeyro. 


1734. 


Ir. 


Cypriano Machado. 


1735. 


OIr. 


Salvador da Sylva. 


1736. 


OIr. 


Manoel Fernandes da Costa. 


1737. 


OIr. 


Cap. Ambrozio Alvares Pereyra. 



i738. O Ir. Coronel António Alvare<i Sylva. 3.» vez. 

1739. O Ir. Cap. Veríssimo de Freytas. 

1740. O ir. Manoel da Fonseca Lisboa. 

1741. O Ir. M.^ de campo Joaõ dos Santos Aia. 

1742. O Ir. R. Cónego Joseph Ferreyra de Mattos, 

Thesoureiro mór da Sé. 

17i3. O Ir. O mesmo 2." vez. ^ 

174/i. Naô consta liaver eleyçaõ, 

1745. O Ir. Dezembargador Bernardo de Souza Ês- 

irella^ 2.' vez. 

1746. Naõ consta haver eleyçaõ. 

1747. O Ir. Cap. Manoel Ferreyra da Costa. 

1748. O Ir. Alcayde mór Anselmo Dias. 

1749. O Ir. Doutor António Duarte Syiva. 

1750. O Ir. António de Castro. 

1751. O Ir. António Luiz do Valle. 

1752. O Ir. Thomaz da Sylva Ferraz. 

1753. O Ir. Simaõ Pinto de Queiroz. 

1754. O Ir. Domingos Lucas de Aguiar. 

1755. O Ir. Lourenço da Sylva Niza. 

1756. O Ir. Manoel Velho de Leaõ. 

1757. O Ir. Manoel Rodrigues Rios* 

1758. O Ir. Thomaz da Sylva Ferras. 2.* vez. 

1759. O Ir. Manoel Dantas Barbosa. 

1760. O Ir. R. Vigário geral Gonçallo de Souza 

Falcão, cura da Sé. 

1761. O Ir. Joaquim Ignacio da Cruz, Conselheiro 

de Estado, Provedor mór da Ribeira. 

1762. O Ir. Pedro Rodrigues Bandeira. 

1763. O Ir. Francisco Teyxeira Alvares. 

1764. O Ir. Joaõ da Costa Braga. 



JABOATAM. PART. 11. VOL. 1. 40 



SERIE 2/ 

Dos M. RR. PP. Commissarios da Venerável Ordem 
Terceira da Penitencia no Convento da Bahya. 

Annos. 

Í6â5. O R. P. Preg. Fr. Panlaleaõ Baptista. 

i636. O V. P. Gust.« Fr. Cosme de S. Damiaõ, fun- 
dador da Ordem. 

1637. O R. P. Preg. Fr. Manoel Baptista. 

1638. O R. P. Preg. Fr. Joaô de Braga. 

1639. O R. P. Preg. Fr. Jacome da Purificação. 
1611. O R. P. M. Fr António dos Marlyres. 
1645. O R. P. Preg. Fr. Manoel da Conceição. 
1649. O R. P. M. Fr. Daniel de S. Francisco. 
1657. O R. P. Preg. Fr. Jacome da Purificação. 

1666. O R. P. Preg. Fr. Francisco do Desterro. 

1667. O R. P. Preg. Fr. Francisco da Conceição. 
1671. O R. P. Preg. Fr. Joaõ Gapistrano. 

1682, O R. P. Preg. Fr. Thomaz da Prezenlaçaõ, 

Ex-cuslodio. 
1691. O R. P. Preg. Fr. Gaspar de S. António. 
1703, O R. P. Preg. Fr. Luiz de Jesus Quaresma. 

1707. O R.P. Preg. Fr. Vicente das Chagas, Ex- 

Gustodio. 

1708. O R. P. Preg. Fr. Domingos dos Anjos, Ex- 

Diffinidor. 
1711. O R. P. M. Fr. Jerooymo da Resurrei- 

çaõ, Ex-Diffinidor. 
1723. O R. P. Preg. Fr. Vicente das Chagas, Eít- 

Custodio. 
1725. O R. P. Preg. Fr. Cypriano de S. Julião, 

Ex-Custodio. 
1735. O R. P. M. Fr. Manoel da Resurreiçaõ, 

Ex-Diflinidor. 



Sl5 

Í7â8. O R. P. Preg. Fr. Arcenio da Madre de Deos, 

Pro-Gomiiiissario. 

1739. O R. P. Preg. Fr. Manoel das Mercês, Ex- 

Diffinidor. 

1745. O R. P. M. Fr. JoaõdaPrexenlaçaò Gam- 

pelly. 

1751. O R. P. M. Fr. Boaventura de S. Joseptiv 

1753. O R. P. M. Fr. Joaõ de Deos. Pro-Com- 

missario. 

1754. O R. P. Preg. Fr. Leonardo da Gonceiça/),, 

Ex-Diffinidor. 

CAPlTUliO TUI. 

Sobre a matéria precedente. 

258. Esta he em summa Ioda a inetnoria, qiieexlra- 
hida dos seus livros, e assentos, nos foi comraunicada 
pelo secretario da meza da sua ordem do anno de 1760 , 
que assim a ujuntamos aqui na mesma forma, em que 
nos foi conferida, e só llie faremos agora alguã explica- 
ção ou additamento, ao que falta na tal memoria sobre 
alguns pontos precizamemle necessários. He o primeyro, 
em que dizendo tomarão elles por protectora da ordem 
a Santa Izabel Rainha de Portugal, fora collocada a sua 
Imagem no altar da Senhora da Gonceiçaõ da Igreja Ve- 
lha do Gonvento dos Religiozos, em quanto se naõ fez 
capella particular na mesma Igreja. Quem diz,eai quanto 
senaõ fez capella, dá a entender, que depois se fez^ e 
devia por consequência explicar quando se fez ; e em 
que lugar da Igreja Velha. Mas isso que naõ declara a 
sua memoria, o diz a nossa em hum assento do livro das 
eleyçôes Gapitulares desta província, quando outro dia, 
feito no Capitulo, que ella celebrou nesta caza da Bahya 
aos qualarze de Septembro de 1653, Dh assim — Assen- 
tou-se em meza de Diffiniçaõ, que se concedia liceoça 
aos nossos Irmaõs Terceiros para fazerem capella «1 Rai- 



SI 6 

nlia Santa Izabel no lugar dos confessionários, pela qual 
poderáõ entrar por dentro para o seo consistório. — E 
tendo elles a licença neste anno de 1653, he sem duvida 
que logo nelle, ou no seguinte levantarão a tal capella ; 
porque conforme ao lugar, e terreno, que occupou, naõ 
podia ser obra de grande corpo^ e muito custo ; e assim 
o teslificaõ alguns Religiozos, que ainda hoje vivem neste 
mesmo Convento, e a virão quando seculares, pois per- 
maneceoathe o anno de 1713, em que se demolio a nos- 
sa Igreja antiga para se uzar da nova^ que neste ditto 
anno estava já feita alhe o cruzeiro ; e alfirmaõ os taes 
Religiozos era a referida capellinha muy pequena. Nem 
podia deixar de ser assim ; pois ficava entre as grades 
do corpo da nossa Igreja Velha, e a sua poria travessa, 
que olhava para o terreyro do collegio c servia como já 
se disse, de porta principal, por ficar a Igreja atravessada 
com o frontispício para onde hoje he o alpendre dos mes- 
mos Tcrceyros; e sendo a nossa Igreja antiga muy pe- 
quena naõ podia ser muito grande a capellinha da Santa 
que lhe ficava entre a porta travessa, e as suas grades. 
259. Neste meyo, c parede da nossa Igreja para a par- 
le da rua, se abrio arco, e no seo pequeno vaõ se levan- 
tou a capellinha da Santa Rainha com a sua porta para 
a Via-Sacra da mesma parte, pela qual Via-Sacra pas- 
sava5 os Irmaõs Terceyros da sua capellinha para a caza 
do consistório, donde tinhaõ altar do Santo Christo, fa- 
ziaô as suas Razouras, e mais exercícios, servindo-lhes 
taõbem de ceniiterio. Ficava este consistório, ou caza 
por debayxo do dormitório novo do mesmo Convento 
Velho, o qnal dormitório, pouco antes no anno de 1633, 
havia mandado fazer o venerável Custodio Fr. Cosme 
de S. Damiaõ, que havia passado a patente para o esta- 
belecimento dos Irmãos Terceyros, e o havia mandado 
fazer para moradia dos estudantes e mestres, com o titulo 
de collegio de S. Boaventura, como ja era outro lugar &e 
disse. Deste se vê ainda hoje hum pedaço, que serve de 



S17 

moradia aos escravos do Convénio^ e na parede, que 
corre pela parle da rua, e lhe serve hoje de muro em 
hum pednço descoberto, entre o que permanece em pé, 
e a caza da nova portaria, no lugar da qual ficava a ca- 
pella mór da Igreja Velha, se vê ainda algum azulejo, e 
o lugar aberto na parede, que servia de pequeno armá- 
rio, ou deposito de alguãs couzas que serviaõ para o altar 
do seo consistório. Naõ consta dos assentos da província 
o anuo, em que se lhes fez a graça, ou data deste con- 
sistório ; mas a memoria prezente que nos deraô, aífir- 
ma, que em treze de Janeyro de 1636 determinou a sua 
meza fazer esta caza, ou prepara-la, porque ja estava 
feita, e se concluhio, benzeo, e collocou a imagem do 
Santo Ghrislo no seo altar a dons de Fevereyro de 1645. 
260. Deste consistório, e pela sua data, como taõ- 
bem pelo lugar para a capella de S. Izabel, he certo se 
lhes naõ pedio, e nem elles deraõ, ou se obrigarão a pen- 
são alguã, pois, como dissemos, nada consta dos assentos 
da custodia. Nem he muito, que os nossos Padres se 
houvessem para com estes seos Irmãos com tanta fran* 
queza, e liberalidade, em couzas de menos vulto, quando 
depois em annos ao diante, no de 1692, lhes fizeraõ 
outra doação de muito mais crescido corpo, e de que se 
seguirão para os mesmos, que lh'a fizeraõ as turbações 
publicas, e particulares, com tanto escândalo do povo, 
e que ainda hoje estaõ brotando, mas só da sua parte, 
alguns effeitosdos passados abortos ; como foy, darem-- 
Ihes toda a terra, em que hoje lera a sua Igreja, e mais 
cazas necessárias para a ordem como confessaõ na sua 
memoria, e tudo por pouco mais de nada, como se pode 
ver do termo da meza da Difflniçaõ dos nossos Padres; 
que lh'a concederão ; diz assim : — Aos vinte e três de 
Outubro de 1692, * unanimes, e conformes estando le- 
gitimamente congregado o Diffinitorio com o discriplo- 

' Este termo acha-se taõbem a fls.139, n. 3.« do Livro Miscelânea Qtt 
aclas, e Breves. 



318 

rio, que seudo cazo, que os Irmaõs da Terceyra Ordem 
de N. S. P. S. Francisco, congregados neste Convento 
da Cidade da Bahya quizessem fazer nova capella, con- 
sistório, claustro, e mais cazas necessárias para seus 
exercícios da banda do Ginipapeiro, que graciozamente 
lh'o permiltiamos, e dávamos toda a terra, que lhe ne- 
cessário fosse para a parle do Ginipapeiro, dos alicerces 
que estaõ feitos para dentro, com obrigação e condição, 
que em nenhum tempo abririaõ sepultura nenhuã em o 
seo claustro, capella, e mais cazas sem consentimento 
do guardião deste Convento, correspondendo com suas 
esmollas todos, os que se enterrarem nas taes sepulturas, 
a este Convento, como fazem os mais fieis ; porque, naõ 
he razaõ, que sendo ricos, e poderosos, e nós pobres e 
mendigos, nos privem das nossas esmollas, com que ge- 
ralmente concorrem lodosos fleis ; pois naõ temos outra 
couza, mais que o amor de Deos. Em fé do que fizemos 
este termo, dia mez, e anuo ut supra — Naõ consta a 
tempo, que perdurou a observância desta determinação, 
e supponios foi em quanto se naõ concluhio a sua Igreja, 
pois nella se enterraõ os seos Irmaõs, dando de esmolla 
ao Convento pela sepultura de cada hum dous mH réis. 
261. Isto he o que achamos nos assentos da provín- 
cia sobre estas novas, e antigas fundações dos Irmaõs 
Terceyros; e se elles tem nos seos alguas clarezas mais, 
as deviaõ expressar nesta sua memoria, ou noticia. Na 
mesma nos parece, que fazendo elles alli as dos seos 
gastos aniiuaes, senaõ deviaõ esquecer do que despen- 
diaõ taõbem com a nossa communidade, isto he, quanto 
costuma vaõ dar pelas festas, e outras fuucções, que os 
nossos hiaò fazer á sua capella, porque se estes gastos 
annuaes os mandavaõ ler com os mais no dia da publi- 
cação da sua nova meza, era justo, que com os outros os 
declarassem taõbem nesta sua memoria ; e sendo este o 
seo estillo, e naõ o fazendo agora, he sem duvida, que 
o naõ deixarão sem alguã circumslancia, digna taõbem 



M9 

da nossa memoria ; ou ao menos de nos darem por este 
seo descuido occasiaõ a que a supponbamos ; e poderia 
ser que por naô declararem na tal conta (vay por mais 
de vinte annos) que naô fazem festa, ou funçaõ alguã da 
sua Ordem só por privar a nossa eoramunida le daquellas 
esmoUas que lhe costumavaõ dar por ellas; deixavaõ de 
repelir as passadas. 

262. O que sobre tudo mais appeteciamos, era ver 
ampliGcada a referida memoria desta Venerável Ordem 
Terceyra com o numero dos seos Irmaõs de virtude, e 
boa fama, que he o principal objecto de semelhantes 
escriptas; mas se a sua memoria as naõ dá a quem es- 
pecialmente compelia, ficaremos só com este desejo 
ainda que em parte satisfeito com a de buâ só irmã sua 
que relata. 

263. Taôbem devemos explicar mais o que repete a 
tal memoria na serie dos seos RR. Commissarios, e he, 
que o segundo pela eleyçaõ do anno de 1636 fora o 
mesmo Venerável Fr. Cosme de S. Damiaõ, que no anno 
antecedente de 1635 havia erigido a sua Ordem sendo 
Custodio. Se isto foi assim, e elles fizeraô a sua eleyçaõ 
a 23 de Dezembro de 1636, dia, em que se completava 
hum anno no qual haviaô dado principio a esta sua Or- 
dem, e feito a primeira eleyçaõ, evidente fica, o que ja 
di^semos, e he, que pelos fins do anno de 1636 havia 
chegado o Venerável Custodio á Bahya do seo degredo 
pelos Olandezes. Mas isto tem contra sy algumas impli- 
câncias. A primeira he fazerem elles esta eleyçaõ segun- 
da em Dezembro, sendo uzo em todas fazerera-se nos 
dias antes dos seos Titulares, e sendo a Rainha S. Iza- 
hel a Titular desta Ordem logo do seo principio, e o dia 
da sua festa em Julho, parece, que neste se devia publi- 
car a sua eleyçaõ como a lhe agora costumaõ. Contra isto 
só poderão dizer, que seuaõ fez no dia da Santa, mas em 
Dezembro, porque entaô completava o anno da primeira, 
e que pelo tempo adiante he (juc viera a emendar e:la in- 



320 

congruência. Mas ella sempre tem contra sy a praxe 
commua de Ioda a Ordem. A. segunda incongruência he, 
sendo, que assim fosse feita a tal eleyçaõ em o niez de 
Dezembro a tempo, que ja na Bahyase aciíasse reslituido 
do seo degredo o Padre Custodio, elegerem a este por 
seo Commissario, sendo naquelle tempo o Prelado 
mayor ; porque ainda que como tal, o vinha a sertaõbem 
dos Irmaõs Terceyros, naõ era pratica em toda a Ordem 
elegerem-se para Commissarios semelhantes Prelados. 

264. Por decreto do Senhor Rey D. Joaõ V. passado 
em nove de Septembro de 1744, ordena Sua Magestade 
naõ sejaõ mais reeleitos os ministros desta ordem Ter- 
ceyra se naõ depois de passados três annos, por ser 
assim conforme em direito, expressa o mesmo decreto. 
Acha-se registrado a íl. 364 do livro 5. de ordens de 
Sua Magestade, que serviu no concelho ultramarino. 

§. Outra ordem como esta expedio taõbem o mesmo 
Senhor para os Terceyros do Convento de S. António 
da Villa do Reciífe em Pernambuco, passada em nove 
de Março de 1747. 

CAPITUIiO IX. 

De huã capella de S. António com o titulo da Mouraria no Bayrro da 
Palma da cidade da Bahya. 

^65, Naõ pertence esta capella ao regimen da ordem^ 
mas como da sua creaçaõ sempre se segue para esta 
algum credito, e rezulta em gloria, principalmente de 
hum tal filho seo e Patraõ desta Província, como he o 
nosso gloriozo Portuguez Santo António, nos pareceo 
por este respeito, darmos delia neste lugara sua noticia. 
Governando este o Vice- Rey, Conde da Sabugoza, 
Vasco Fernandes Cezar^ por devoção sua particular^ e 
concordando com ella os moradores do Bayrro da Pal- 
ma, no contorno da cidade da Bahya, e fim delle, junto 
ao Trem, e sitio, que chamaõ do Tororó, districto da 



321 

treguezia de Nossa Senhora do Desterro naquelle 
tempo, e hoje de S. Anua, e Sacramento pela nova 
Igreja, e Matriz, que com este titulo levantarão os an- 
nos passados de 1750 para cá, se erigio a capella do 
gloriozo S. António, que chamarão da Mouraria. No 
dia vinte e nove de Outubro do anno de 1724 se lançou 
no seo alicerce a primeira pedra pelo Vice-Rey, com 
assistência das principaes pessoas da cidade, benzeo-a 
o R. Cónego Doutor António Rodrigues Lima, Dezem- 
bargador da Relação Ecclesiastica, por despacho do R. 
cabido, de vinte e coatro de Outubro do mesmo anno 
de 1724, em Sede vacante, tendo alcançado primeiro 
para se erigir a dita capella Provizaõ do mesmo cabido 
de vinte e nove de Julho do sobredito anno, na qual se 
declaraõ as condicções necessárias para o seo eíTeito, e 
na mesma se expressa tinha ja património de cem mil 
réis a juro, feito com escriptura pelo adjudante Joseph 
Lopes Craveiro. Passados anno e meyo com pouca dif- 
ferença, no de 1726 a doze de Junho, concluída a 
obra, por despacho do R.*"" Arcebispo D. Luiz Alvares 
de Figueiredo, que havia chegado á Bahya a vinte e 
seis de Novembro de 1725, benzeo a capella o B. 
Chantre Joaõ Calmon com as ceremonias costumadas, 
assistência do Vice-Rey, e primeiras pessoas, celebran - 
do-se no seguinte dia, que era o do glorioso Santo a 
primeira Missa com toda a solemnidade. Pelo mesmo 
Vice-Rey Vasco Fernandes Cezar, Mestre de Campo 
Joaõ dos Santos Ala, e vinte e sette Irmãos mais da 
ditta confraria se acha no seo compromisso termo as- 
signado, e feito na Camará Ecclesiastica ádesoito de Ja- 
neiro de 1727, com juramento de subgeiçaõ ao ordiná- 
rio para tomar contas, vizitar, e o mais por sy ou 
pelos seos vizitadores : e por outro termo de desoito do 
Fevereiro do mesmo anno conflrraado o tal compro- 
misso pelo mesmo ordinário. 

JABOATAM. PART. II. VOL. i« H 



322 

266. Tem capellaõ, a qnem paga a Irmandade lodos 
os annos oito mil réis, e liuã pataca por cada missa que 
diz aos Domingos, e dias Santos pelos Irmãos vivos, e 
de dez em dez dias huã coarta de farinha para sustento 
do escravo, que varre a Igreja, e entra na conta do 
soldo do Santo, que lhe dá El-Rey pela praça de Alfe- 
res de Infantaria, cobrando o Procurador de ires em 
três mezes trinta mil réis á conta. Daõ de entrada os 
Irmãos coatro mil réis^ e meya pataca annualraente. 
Tem os defuntos cada hum doze missas, e hum officio 
anuual com dez clérigos, e os ires que vaõ ao altar e 
muzica. Saõ os juizes os Vices-Reis do Estado ; celebra- 
se a festa no próprio dia do Santo, com a sua Trezena, a 
qual fazia com pratica o Conde das Galveas, e tudo o 
mais á sua custa. 



nu DO VOLUME l .° DA 2/ PARTE< 



I]\DEX 



DO QUE SE CONTEM NESTA SEGUNDA PARTE. 

Pag. 

ADDITAMENTO I. 5 

ADDITAMENTO II. 13 

ADDITAMENTO III. 23 

ADDITAMENTO IV. 29 

ADDITAMENTO V. 31 

ADDITAMENTO VI. 34 

ADDITAMENTO VII. 36 

ADDITAMENTO VIII. 37 

ADDITAMENTO IX. 3g 

PARTE SEGUNDA. 

IIYRO PRIMEIRO, 

Trata da fundação do Convento de S. Francisco da ci- 
dade da Bahya ; Reíigiozos, que floreceráò em vir- 
tude ^ e ahi estão sepultados, e do mais, que a esta 
caza diz respeito, e he digno de memoria, 

Pag. 
Cap. 1. Fundação, e princípios desle Convento. 41 
Cap. 2. Quem fez a data do sitio para a nova 

fundação. 47 

Cap. 3. Se bavia no lugar em que se fundou o 
Convento a capella nomeada de Saõ 
Francisco. 53 

Cap. 4. Da-se principio á fundação do Con- 
vento. 56 
Cap. 5. Continua-se a matéria do capitulo pre- 
cedente. 60 
Cap. 6. De outras obras, que se foraõ seguindo. 64 



Gap. 7. De alguàs graças e favores feitos a este 
Convento pelos nossos Monarchas e 
Soberanos. 68 

Gap. 8. De outros Bemfeitores particulares 

deste Gonvento. 72 

Gap. 9. Da prodigioza Imagem de S. António 
de Arguim, venerada muitos aunos 
na primitiva Igreja deste Gonvento 
da Bahya. 80 

Cap. 10. Do que mais se obrou em obsequio do 
Santo, e culto desta sua prodigioza 
Imagem. 87 

Gap. 11. Milagre, que obrou o gloriozo S. Be- 
nedicto de Palermo por meyo de huã 
Imagem sua^ venerada no altar de 
S. António desta 1.* Igreja. 91 

Cap. 12. De algumas Relíquias, que houve nesta 
primitiva Igreja, e de huma mais 
moderna que ainda existe. 96 

Gap. 13. De algumas pessoas graves, eauthori- 
sadas, que escolherão jazigo na pri- 
mitiva Igreja deste Convento 99 

Gap. 14. Dos Reiigiozos, que com fama de virtu- 
de, e santo fim illustrão este Gon- 
vento. 101 

Cap. 15. Faz memoria do Irmão Fr. Francisco 

do Rozario, Religiozo leygo. 113 

Cap. 16. Prosegue a mesma matéria sobre a hida 
de Fr. Francisco do Rozario ao Mara- 
nhão, e Pará, volta ao Brasil, e 
termo da sua vida. 120 

VIDA 
Do Venerável servo de Deos Fr, Cosme de S, Damiaõ. 

Gap. 17. Pátria, nascimento, e primeiros annos 

do servo de Deos. 127 



III 

Cap. 18. Passa do Reyno para o Brasil o moço 
Cosme, e occupações, em que cá se 
exercita, 130 

Gap. 19. Toma o habito para Religiozo menor, 
e dos seus virtuozos progressos neste 
estado athe o de Sacerdote. 135 

Cap. 20. Das operações do servo de Deos no es- 
tado de Sacerdote. 138 

Cap. 21. Elegem os Prelados Maiores o servo de 

^ Deos Fr. Cosme de S. Damião em 

Guardião do Convento da Paraiba, 
seo procedimento exemplar, e con- 
tradições, que padece com notável 
socego do seu espirito. 141 

Cap. 22. Continua o Venerável Prelado a sua 
Guardiania ; e com ella llie sobrevem 
novas contradições. 145 

Cap. 23. He nomeado o V. Fr. Cosme de S. Da- 
mião para hir em companhia de Je- 
ronymo de Albuquerque de Pernam- 
buco ao Maranhão, lançar os Fran- 
cezes daquella conquista ; como vol- 
tou, e foi promovido a outras pre- 
lazias. 150 

Cap. 24. He eleito Custodio do Brasil o servo 
de Deos Fr. Cosme de S. Damião ; 
suas operações, e novos trabalhos, 
que com este cargo lhe sobrevem. 153 

Cap. 25. Retira-se de Pernambuco para a álagoa 
do Sul o Ven, Custodio com os seus 
súbditos, e mais povo por ordem do 
General Mathias de Albuquerque. 159 

Cap, 26. Continua-se com o que de Serenha- 
nhem athe Porto Calvo obrou o V. 
Custodio, e seos súbditos em bene- 
ficio daquelle povo, sendo o maior a 



IV 

conversão do Mameluco infiel Domin- 
gos Fernandes Calabar. 166 

Cap. 27. Do que mais obrou o V. Custodio em 
companhia do povo desde a povoação 
de Porto Calvo atiie a da Alagoa do 
Sul. 175 

Cap. 28. Chega o V. Custodio com os seus súbdi- 
tos, e mais povo, á povoação da Ala- 
goa, e do que alli obrou athe a che- 
gada do general D. Luiz de Roxas. 179 

Cap. 29. Sabe da Alagoa o V. Custodio Fr. Cosme 
de S. Damião em companhia do ge- 
neral D. Luiz de Roxas ; morto este, 
e vencidos os nossos fica prizioneiro 
dos Olandezes o servo de Deos. 182 

Cap. 30. Chega o V. Custodio do seo degredo a 
Pernambuco, e he mandado lançar 
pelos inimigos nas praias da Babla. 187 

Cap. 31. Do que mais obrou na Custodia o servo 
de Deos Fr, Cosme de S. Damião 
depois de restituído a ella. 189 

Cap. 32. Da sua humildade, e paciência ; zelo da 

honra de Deos ; e salvação das almas. 193 

Cap. 33. Da virtude da Oração do servo de Deos 
e da sua grande conformidade em al- 
guns trabalhos; e securas do seo 
espirito. 195 

Cap. 34. De alguns cazos, em que mostrou a 
Providencia do Altíssimo, que o seo 
servo tinha participadas as graças de 
curar enfermos, conhecer interiores, 
e prevenir futuros. 198 

Cap. 35. Passa desta para a outra vidão servo 

de Deos Fr. Cosme de S. Damião. 202 

Cap. 36. Processo autentico de algumas nota- 
bilidades acontecidas no dia, em que 



esteve exposto o corpo do servo de 
Deos, e de outras que se foraõ se- 
guindo pelo tempo adiante^, com as 
quaes se fez mais celebre^ e venera- 
da a sua fama. 205 

Cap. 37. Continua a matéria precedente. 224 

Cap. 38. Estado presente em que se acha toda a 
memoria do servo de Deos, o V. Fr. 
Cosme de S* Damião. 230 

Cap. 39. Ultimas memorias, que ao presente se 

conservâo do V. servo do Senhor. 237 

Cap. 40. De outros Religiozos^ que neste Con- 
vento completarão os seos dias com 
opinião de virtude* 243 

Cap. 41. De alguns Religiozos leygos, que neste 
Convento com boa fama puzeraõ 
termo aos seos dias. 248 



LIVRO mmm. 

Trata do Convento novo, e sua Igreja, com o mais que 
lhe toca athe o prezente. 

Pag. 

Cap. 1. Descreve-se o Convento novo com a sua 

Igreja. 259 

Cap. 2. Do mais corpo interior da Igreja. 265 

Cap. 3. Conclue-se a matéria precedente com 
algumas couzas mais notáveis, que 
dizem respeito a esta Igreja. 273 

Cap. 4. Prosegue com a memoria de outros 
Religiozos de boa fama^ que foraõ 
sepultados em a Igreja nova, e falle- 
ceraò com opinião de virtude. 276 



VI 

Cap. 5. Conclue a matéria precedente com a 
memoria de outro Religiozo leygo, e 
dons Irmaõs^ hum Donato, e outro 
do cordão. - 285 

Cap. 6. Do Hospicio da Boa Viagem no Arrebal- 

de da Bahya. 296 

Cap. 7. Da Venerável Ordem Terceira do Con- 
vento da Bahya. 298 

Serie í. Dosirmaõs Ministros^ que tem servido 

esta Venerável Ordem* 309 

Serie IL DosM. RR. PP. CommissariosdaVen. 
Ordem Terceira da Penitencia do 
Convento da Bahya. 314 

Cap. 8. Sobre a matéria precedente. 315 

Cap. 9. De huma capella de S. António da Mou- 
raria no Bayrro da Palma da cidade 
do Salvador. 320 



TYP. feRASILlENSE DÉ MAXIMIANO GOMES RIBEIRO 

RUA DO SABÃO N. 114. 



NOVO ORBE SEIIMICO 

BRASÍLICO, 



mm 






'AmMÉMâMâ 



DOS FRADES mMm U PROVBCI V DO BRASIL, 



FR. AíiTONIO DE SANTA MARIA JABOATAM. 



IMPRESSA EM LISBOA EM i761^, 

E REIMPRESSA POU ORDEM 



Snstitnto <5istorico e ©cografica ÍBirn0Ílcivcr. 
VOLUME M. 



RIO »£%Alir£IRO. 
TYP. BRASILIENSE DE MAXIMIANO GOMES RIBEIRO 

BUA DO SABÃO N. 114. 

1858. 



sovo ORBE SERÁFICO 

brasílico. 

LIVRO ANTEPRIMEiaO. 



Mostra como este Novo Orbe foy descoberto, cultivado, e estabelecido por 
Religiosos Menores, sendo nelles os primeiros, seus progressos espirituaes^ 
desde o anno de 1500 do seu descobrimento até o de 1385 em que fun- 
darão a primeira Casa em Olinda, suas Missoens, morte preciosa de al- 
guns, e outros vários accasos daquelles tempos, c também hum breve 
Resumo do mais até o presente. 



CAPlXiJIiO PROIOIRO. 

Dá-se noticia do Estado do Brasil, primeiro tio que toca ao da natureza 
para melhor conhecimento do espiritual, sua breve descripçaõ, prodigioso 
descobrimento, e de algumas cousas mais notáveis do seu Pviz. 

1. O Brasil, porção uotave'1, deliciosa, e rica da 
grande America, (a qual entre as partes do Mundo^ por 
ser a ultima, que uelle appareceo, levou o nome de 
Quarta, naõ desmerecendo, por outras excellencias par- 
ticulares, sO de Primeira, assim como a competências^ 
e ainda a excessos do antigo, se lhe appropriou o de 
uóvo mundoj he o Iheatro glorioso, em que havemos 
ver representadas scenas prodigiosas, successos admi- 
ráveis, e feitos heróicos, obrados a esforços da graça, 
e valentias do espirito, por muitos dos Religiosos Me- 
nores da Seráfica Familia^, na Espiritual Conquista 
desta, como diziamos, Rica, Deliciosa, e Notável Por- 
ção de terra. Notável pelas circunstancias particulares 
do seu descobrimento, ^ tantos mil annos occulta á no- 
ticia dos humanos discursos, e que a julgavaõ por inha- 

* Anno 1500. 



bituvcl, quando era ja possuída, e cultivada de taiUas, 
e taõ varias Naçoens de gentes : muy nolavel pela na- 
tureza de seus habitadores^ e pelo incerto da sua ori- 
gem, e muito mais notável pela barbaridade de seus 
costumes e pela fereza do seu natural. Deliciosa pelo 
salutilero de seus ares, peia frescura de suas viraçoens, 
pelo benigno de seu clima, e pelo fértil de seu terreno, 
que a iníluxos dos Astros propícios, e a vigores da na- 
tureza próvida, dá ludo o que conduz^ naõ só para a 
sustentação precisa da vida liumaiía^ lambem para o 
seu melhor regalo com menos f^idiga, e trabalho de seus 
Naturaes, do que o que para isso põem as mais gemes : 
porque a fertilidade da terra tem o cuidado de produzir, 
e dar por si mesma o necessário para a conservação dos 
que nella vivem. Rica pelos infinitos thesouros de ouro, 
prata, pedras preciosas, e outras varias drogas de esti- 
mável preço e appelecido custo, com que, desentra- 
nhando-se a si, tem enriquecido as mais partes causan« 
do-lhe estes fructos do seu ventre, o que na víbora, o 
íilho ingrato, a morte, e destruição da mãy ; pois as 
riquezas do Brasil, quem naõ sabe forao^ saõ, e seraõ 
sempre, a causa motiva da sua mesma ruina, e a de seus 
próprios Naturaes. 

% Está, como reclusa^ esta nolavel Porçaõ de terra, 
entre os dous famosos Rios, que como duas preciosas 
chaves, a fechaò Ioda ; huma de prata^ nome que Uie 
pode dar esse, que a demarca pela parle do Sul, o cha- 
mado Rio da Prata ; e a outra de ouro^ de que a pode 
formar aquelle, que pelo Norte a cerca^ o celebrado das 
Amazonas, ou Gran-Pará^ de quem diz hum discreto 
Hisloriador, * sem encarecimento de Poeta, corre este 
imperador dos Rios sobre pedras preciosas, feixos de 
ouro e arêas de prata. Também podem ser ambos duas 
como formosas coiumnas de crystal, que a demarcaõ, e 

* iííit, FreJr. Nova Lusilan. 



lhe servem de balisas, ou dous, como Gigantes, que naõ 
só parece querereui tragar o mar com o deforme, das 
suas largas bocas, lauibem com o crescido de seus ro- 
bustos corpos a deíeudcm, e com o extenso de seus for- 
tes braços a abarcaõ toda pelo centro dos Serloens, de- 
pois que formando hum prolongado circulo de quasi 
cinco mil legoas, hum de huma parle, e outro da outra 
se vem dar as maõs, como amigos, ou nascer, como 
irmaõs, do mesmo ventre, ou daqueiles grandes lagos 
das serranias do Chilli^ formando daqui, ou deste berço, 
em que tem principio, ao Meyo dia, até o Oceano do 
Nascente, que vem buscar ambos, hum taõ avultado 
bojo de terra, que he este continente do Brasil, de que 
foliamos, que ainda se lhe naõ sabe ao certo a sua 
gi^andeza. 

3. Das agoas do mar Athlantico, ainda que com dif- 
ferentes rumos^ saò lavadas todas as suas Gostas. Tam- 
bém saõ cortadas de outras muitas, e caudalosas cor- 
rentes, álòm de hum grande numero de menos cabedal, 
que humas, c outras se jactaõ todas, de que, ou lhes 
corre pelas vêas o sangue daqueiles dous^ ou que do seu 
grande seyo lhe sahem lodos, ou como sobejos do seu 
regaço, ou como emulos da sua grandeza. 
" 4. Sendo tanto para notada a terra do Brasil, pelo ex- 
tenso do seu corpo, naõhe menos agradável |)ara a vista, 
pela variedade da sua perspectiva. Ja a veraõ levan- 
tada em montes empinados, ja abatida em valles esten- 
didos, ja ornada de verdes, e frondosos avoredos, taõ 
incorruptíveis huns, que presumem igualar a duração 
dos tempos, c resistir á voracidade do fogo, e taõ fru- 
cllferos outros, que se jactaõ apparecer com os seus po- 
mos a qualquer estação do anuo ; ja matizada de taõ 
alegres, e distiuctas flores, que sem mais cuidado para 
o seu cultivo, que o da natureza, e do tempo, humas só 
servem de divertimento ao inquieto dos olhos, outras 
lambem daõ que sentir ao delicado do olfacto ; ja po- 



6 

voada de volaiiles aves, luimas, que rccreaõ a vista com 
o vario^ e lustroso das penuas, outras^ que satisfazem o 
gosto com o saboroso, e desenfasliado das carnes; mui- 
tas, que divertem o humano com o suave do canto, e ai- 
gumas, que imitaõ o racional com o parleiro das vozes, 
Taõ fecunda de gados de todas as espécies, que assim 
como sobejaõ para o gosto, e sustento^ abuudaô para o 
serviço, e servem para o lucro. Taõ cheyas de ouro, 
prata, e pedras preciosas as suas entranhas, que naõ 
inveja os diamantes da Ásia, o Potosi do Peru, nem o 
Ophir de Salomão. Taõ aromáticas as suas plantas, que 
podem emprestar excessos aos bálsamos da Arábia, e 
aos aromas de todo o Orbe. Hum terreno fértil, hum 
clima salutifero, huns ares alegres, huns Geos propí- 
cios, e hum novo Mundo, em que parece quiz emendar 
iielle o seu Author alguns avessos do tempo, e dos As- 
tros do Mundo antigo; porque aqui falia o dia, e corre 
igualmente coma noite; a viração tempera o calor, o 
Inverno naõ resfria, nem o Veraõ abraza. Hum novo 
Mundo em fmi, e huma taõ bem disposta Estação para 
viver o homem, que naõ merecia muita censura, quem 
quizesse plantar nella o Paraíso terreal, ou ao menos 
descrevê-la com as e\celiencias, e prerogativas de hum 
terreal Paraíso. 

5. Deste tomou posse, como fica dito, Pedro Alvares 
Cabral, para o Monarcha Portuguez, accrescentando, 
qual outro novo Golon, á sua Coroa esta grande parte, 
que lhe faltava, e deixando nella para seus Príncipes 
abertas as portas de muito mayores, e menos distantes 
interesses, que os da índia Oriental, para onde entaõ 
levava a proa de seus desígnios e o mandava aquelle 
Rei. E porque nestes a melhor, e mais segura máxima 
para augmenlar os Estados, he a da propagação da Fé 
em as novas Conquistas, para isso mandava também o 
mesmo Senhor para a Índia, com Pedro Alvares Cabral, 
Operários Evangélicos, Foraõ escolhidos para este es- 



pirilual emprego^ o P. Fr. Henrique de Coimbra, da 
Regular Observância, com sete companheiros mais da 
mesma profissão, os quaes, tendo-se occupado nas fun- 
çoens ja referidas, ^ por tempo de hum mez, continua- 
rão com aqueile Capitão a viagem da índia, onde o P. 
Fr. Henrique obrou progressos admiráveis naquellas 
Conquistas, filhos do seu Apostólico espirito, e alguns 
de seus companheiros colherão pelo justo premio de 
seus trabalhos a coroa do martyrio. ^* Era este Vene- 
rável Padre natural de Coimbra, eleito, depois da volta 
da índia, em Confessor do mesmo Piey D. Manoel, Bis- 
po de Ceuta na Africa, e se naõ o primeiro Inquisidor 
Geral do Reyno^ como tiveraõ alguns, o primeiro que, 
como taU fez abrazai^com fogo aos Apóstatas da Fé. 

6. Este era em quanto ao natural a estado do Brasil^ 
quando nelle entrarão a primeira vez com os seus des- 
cobridores os Religiosos Menores ; e daqui se deixa 
ver o que seria em quanto ao espiritual. Huma Regiaõ 
taõ habitada de Indivíduos humanos, como de animaes 
ferozes, taõ nocivos muitos destes, como inhumanos 
aqueiles ; índios selvagens, taõ brutos como os mes- 
mos irracionaes, e ainda ao parecer mais irracionaes 
que os mesmos brutos; píis destes^ ainda os muy vo- 
razes, nenhum chega a comer o individuo da sua espé- 
cie: naõ assim o Gentio do Brasil, taõ tragadores de 
carne humana, que naõ só comem a outros quaesquer 
indivíduos do homem, mas também aos seus próprios, 
e ainda aos mais amigos, e parentes. Gentes em fim 
sem Rey, nem Ley^ nem Fé, que por isso dizem com- 
mummenle os que athégora tem escrito deste Gentio, 
que naõ tem na sua lingua as três letras, que lhes con- 
respondem, que saõ, F, L, R, que sendo certo em 
quanto ás duas primeiras, F, e L, em quanto ao R^ naõ 
he assim, antes he esta letra huma das mais usadas na 

* Preamb. Digr. I. pag. 3. 
** HIst. Serap. 4. p. n. MO. 



8 

sua linguagem; e repelidas vezes em luima só palavra, 
especialmente as que saõ compostas de duas, como nesta 
Aracajurú, que quer dizer, Casa do Sol ; lie verdade 
que se naõ acha na tal lingua esta letra como áspera, 
ou dobrada, porque naõ pronunciaõ palavra alguma com 
dous RR, e por isso naõ tem o seu idioma dicção, que 
comece por R, pelo naõ poderem dobrar com a lingua, 
ou fazer áspero; e como este R, assim, he inicial de 
Rey, só neste sentido se pôde verificar^ que por se naÕ 
dobrarem ao áspero, c duro império de algum Prin- 
clpe^ ou Rey, como principio deste, naõ quizeraõ na 
sua lingua a letra R, e só nisto naõ pareceo cega a sua 
barbaridade, sendo em tudo a mayor do mundo. Mas 
entre tanta cegueira naõ se lhe pôde com tudo negar 
huma singularidade muy notável, e na qual naõ teve si- 
niilhança com outra alguma, ainda a mais cega, e bar- 
bara ; pois nenhuma, por mais ignorante que fosse das 
cousas sobrenaturaes, e naõ tendo conhecimento del- 
ias, nem do Author de Iodas, deixou de dar adoração 
a huma, e ás vezes a muitas Divindades, fazendo-se as- 
sim idolatras: o que naõ teve a Gentilidade do Brasil • 
porque, na opinião dos doutos, naõ cahio em erros de 
Idolatria, i)ois naõ adoravaõ a Divindade alguma parti- 
cular, e só reconheciaõ a huma Excellencia Superior, 
que he o mesmo, que Deos, chamada na sua lingua 
Tupã; masalé esta, sem adoração, ou culto algum^ e 
só SC deixavaõ enganar dos seus Feiticeiros, a quem naõ 
guardavaõ mais que hum simplez respeito, 

7. Supposto que prodigioso, naõ he só aquillo, que 
sobrenatural, ou miraculosamente succede, senaõ tam- 
bém que he prodigioso o que naturalmente acontece 
fora da ordem commum das cousas; neste sentido cha- 
mamos prodigioso ao descobrimento do Brasil : e naõ 
erráramos, parece, se também o explicáramos com a 
fraze de miraculoso, e sobrenatural, pelas circunstan- 
cias, que no seu descobrimento ficaõ notadas, ao me- 



nos em {jiianto por disposiçaõo superior foraõ aconteci- 
das todas, e' como ordenadas por particulares, e occul- 
los juízos da Altíssima Providencia daquelle Supremo 
Entender, que tudo dispõem para os seus determinados 
íins. E assim dizemos, que deste, sobre o natural, pro- 
digioso descobrimento, se deixa bem ver quaes sejaõ os 
inexcrutaveis Arcanos do Altíssimo, que tendo esta dila- 
tada Região do Brasil occulta aos discursos dos homens 
tantos mil annos, quiz agora que os pobres filhos^de 
Francisco fossem os primeiros, que descobrissem para 
a Igreja este importante thesouro, de que havia colher 
o Ceo multiplicados lucros, arvorando por parte de 
Deos aqui a bandeira da Fé, e expondo em suas maõs 
aquelle Paõ dos Anjos, e Divino Manná Sacramentado 
aos olhos da sua Gentilidade, para que ao depois em 
outros tempos lho repartissem liberaes, espalhados por 
toda ella, e para que naõ incorressem descuidados na 
queixa do Profeta, * de que os pequenos, e famintos 
pedirão paõ, e naõ havia quem lho distribuísse, ouvindo 
elles agora, como feliz annuncio desta promessa, e satis- 
fação daquella queixa, as primeiras trombetas do Evan- 
gelho no seu Paiz, e licando aqui lambera acceza a pri- 
meira tocha da verdade, descoberta, e tomada a posse 
desti espiritual conquista, por parte do Ceo, pelos Fra- 
des Menores, assim como Pedro Alvares Cabral tempo- 
ralmente a havia tomado pelo Monarcha da terra. 

CAPIXUIiO II. 

Mostra como se verifica dos Frades Menores, depois de Descobridores da 
espiritual Conquista do Brasil, serem elles só os primeiros também qua 
a cultivarão, pelo dilatado espaço de cincoenta annos. 

8. Alguma cousa sobre esta excellencia dos Religio- 
sos Menores, nu espiriluul Conquista do Brasil, fica 

* Trcnor. i. y. 4. 

JABOATAM. VOL. U. 2 



10 

apontado na Estancia III. da 1. Digressão do nosso 
Preambulo, e aqui accresccntaremos agora, como em 
lugar próprio, tudo o que achamos ser bastante para 
que delles se possa verificar naõ só a sua primazia nesta 
espiritual Conquista, mas também como a cnllivaraõ 
desde aquelles princípios, por espaço de cincoenla an- 
nos, e dos grandes trabalhos, que nisto padecerão. 

9. Elles foraõ os primeiros, que a descobrirão, como 
Oca advertido ; elles os primeiros, que a santificarão 
com o tremendo Sacriíicio do Altar, celebrando a pri- 
meira Missa hum daquelles Religiosos, companheiro do 
P. Fr. Henrique; elles os primeiros, que plantarão 
nella a semente do Evangelho, e palavra de Deos, pre- 
gando na mesma occasiaõ este Venerável Padre, primei- 
ras íunçoens Ecclesiasticas, e Divinas, que viraò com 
espanto, e assistirão com admiração os Naturaes do Bra- 
sil^ e celebrarão com jubilo excessivo da alma os Filhos 
de Francisco. Elles foraõ os primeiros, que para que a 
sementeira da Pregação se multiplicasse fructuosa, a 
regarão logo com o próprio sangue, derramando-o pela 
Fé dons Religiosos Menores no mesmo lugar de Porto 
Seguro, poucos annos depois. Elles os primeiros^ que 
levantarão nella Templo, e Casa para Deos, e para que 
fosse o Senhor servido, e louvado nellas ; sendo lam- 
bem os primeiros elles, que na terra do Brasil adminis- 
trarão os Sacramentos do Bautismo, Penitencia, Matri- 
monio, e os mais da Santa Igreja, naõ ficando final- 
mente Capitania, menos huma, ou outra, ou Lugar 
notável em que naõ fossem os Religiosos Menores os 
primeiros para a Pregação do Evangelho, Luz da Fe, 
e conhecimento de Deos, como o iraõ mostrando os 
Capítulos seguintes. 



li 

CAPITUIiO III. 

Dos segundos Religiosos Menores, que passarão ao Brasil. 

10. Como o Gentio da America, e com muita espe- 
cialidade este das partes do Brasil^ era, entre Iodas as 
naçoens do mundo, aquella gente, que só se podia cha- 
mar naturalmente pobre, ou pobre por génio da sua 
natureza, pois vivendo, e dando- lhe Deos para moradia 
huma Região a mais rica, e abastada do mundo todo, 
elles entre o ouro, e prata, pedras preciosas, toda a 
mais, e grande riqueza do Brasil, viviaõ entre eila com 
hum natural desprezo de tudo, como verdadeiros po- 
bres; assim determinou também o Geo, que para a primei- 
ra, e principal conversão de huns taes pobres como es- 
tes, fossem outros pobres os primeiros; e com huma taõ 
alta rrovidencía, como sua : porque, se a similhança he 
causa do amor, e as virtudes humas com outras tem 
sua sympatia, com que, respirando influencias, unem 
entre si os seus sujeitos ; que melhor Pregador para hum 
pobre, que outro pobre, e que mais eíficaz attraclivo 
para arrastar a huns homens nus de todos os bens da 
natureza, como era o Gentio do Brasil, do que huns 
homens despidos, e desapossados de todos os interes- 
ses tio mundo, como os Filhos de Francisco : o mesmo 
Gentio o manifestava assim quando ja para a sua dou- 
trina concorriaõ também outros Evangélicos Operários, 
abandonando-se destes para os nossos, e confessavaõ 
que os movia, e arrastava a este excesso a grande in- 
clinação, que nos tinhaõ, pelo desapego, que em todos 
viaõ, de bens da terra, e cuidados de temporalidades, 
que tanto se coadunava com o seu próprio génio ; o por 
isso sem duvida que a estes nossos, entre todos os mais, 
deo o mesmo Geo a primazia na conversão deste Gentio, 

* Seguniíos Missionários. 



12 

e que elles no largo lempo de quarenta e nove para 
cincoenta annos, desde o de 1500, em que aportou em 
Santa Cruz o P, Fr. Henrique, e seus companheiros, 
até o de 1549 que chegarão á Bahia os PP. Jesuítas, 
fossem os cultivadores desta vinha, como agora iremos 
vendo. 

11. Assim como permitia Deos saciar o desejo santo 
do piedoso Rey D. Manoel, em dilatar-lhe o seu Impé- 
rio Portuguez com o descobrimento de novos Mundos, 
naõ menos se desempenhava o zelo deste grande Mo- 
narcha em introduzir, e augmentar o culto, e Ley do 
mesmo Senhor, em as novas Conquistas, que lhe oíTe- 
recia. Para a das almas, achamos, mandara logo^ de- 
pois daquelle primeiro descobrimento por Pedro Alva- 
res Cabral, e em companhia dos segundos Indagado- 
res destas Costas do Brasil, a dons Religiosos Menores 
da santa Provincia de Portugal Observante. Seus 
nomes, que só estarão escritos no livro da vida, deixou 
no do esquecimento o descuido dos nossos, nesta parte, 
sempre fatal. Só nos daõ alguma noticia de que no anno 
de 1503 passarão do Reyno para o Brasil estes Se- 
meadores do Santo Evangelho ; e que nesta Conquista 
começarão a plantar com o seu Apostólico zelo a se- 
mente da palavra Divina, e a regá-la com o seu san- 
gue, colhendo por premio do seu trabalho o fructo do 
marlyrio. 

12. No lugar de Porto Seguro, em que ires annos 
antes haviaõ aportado o P. Fr. Henrique, e os mais, 
de que ja falíamos, primeiros descobridores da nova, c 
espiritual Conquista, tomarão terra estes segundos. 
Aqui ajudados dos próprios naturaes, de quem foraõ 
bem recebidos, e com mostras de agrado^ como os que 
se naõ esqueciaõ ainda do bom tratamento^ que lhes ha- 
viaõ os nossos dado da primeira vez, e de alguns Por- 
luguezes, que levavaò comsigo, deraõ principio, e con- 
cluirão com pressa uma pobre casiiíha, com sua pe- 



13 

quena Igreja da invocação do Seráfico Palriarcha S. 
Francisco, e foy esle o primeiro Templo dedicado a 
Deos, que se levantou em todo o Brasil. Dons annos 
com pouca differença assistirão neste Recolhimento 
aquelles Ministros do Altíssimo, exerci tando-se com o 
Gentio do lugar em actos de verdadeira cliaridade, e 
amor do próximo, de que colhiaõ copioso fructo na con- 
versão de humas ovellias por tantos mil annos separa- 
das do grémio da Igreja. Acharaò-nos para receber os 
rudimentos da Fé^ e seus mysterios, laõ bem dispostos, 
como a terra nova, quando se llie applica a primeira 
semente, que a abraça benigna, nasce com vigor, e IVu- 
ctifica com lucro : tudo acharão «este Gentio os novos 
Semeadores. 

13. Mas o lobo infernal^ que começava a verir-lhe 
fugindo das garras hum rebanho, em que tanto havia 
se tinha cevado ; e temendo que, pela facilidade, com 
que lhe escapavaõ do regaço^ e se acolhiaõ ás abas da 
Igreja, a poucos passos ficaria destituído de toda a pre- 
za, semeou no coração, e animo dos mayores, e mais 
antigos, taõ grande ódio contra os Religiosos, que as- 
sentarão entre si tirar-lhes as vidas. E para o poderem 
melhor fazer, sem que os Portuguezes, que havia, o 
pudessem impedir, também consultarão malá-los pri- 
meiro. Para isso ordenarão huma feira (como algu- 
mas vezes costumavaõ) e para a qual concorriaõ muitos 
delles com vários géneros das suas caças, fructas, e 
mel, a vender aos Portuguezes estas drogas, e a trocá- 
las por outras de pannos, ferramentas, e simiihantes. 
Chegou o dia, ajuntaraõ-se em grandes ranchos, e ma- 
gotes, e quando os colherão mais embebidos naquella 
golosina, e baralhados huns com outros, dando hum es- 
trondoso urro, sinal costumado nas suas guerras para 
avançar aos inimigos, e ao som deste, sahindo dos ma- 
tos visinhos huma grande multidão, que tinhaõ de em- 
boscada, cora arcos, frechas, e os seus páos de Jucar, 



14 

que he o mesmo que páos de malar, qiiebrando-lfies 
com elles as cabeças a huns^ e traspassaudo a outros 
com seitas, assim acabarão coui todos, que para a feira 
linhaõ coucorrido^ e que cuidando achar nella refei- 
ção para os corpos com illes, incautos sempre como 
Portuguezes, vieraõ servir áquelles bárbaros^ e falsos 
Gentios do seu mais saboroso manjar. 

14. Mortos assim estes, com um grande alarido de 
vozes desentoadas, bater de arcos^ e pés, partirão de 
corrida para a casinha dos Padres, que avisados pelo 
estrondo, e alvoroço do que podia ser se recolherão á 
Igrejinha, e postos de joelhos com as maõs levantadas 
ao Ceo, em acçaõ de graças, nesta postura lhes tirarão 
as vidas com o mesmo género de morte, com as cabe- 
ças quebradas á força de malhos, e os corpos traspassa- 
dos á violência de settas, que, feitos depois em postas, 
lhes deraõ em seus ventres a costumada sepultura dos 
brutos, ficando a terra regada com o innocente sangue 
destes bemaventurados, e Santos Pieligiosos ; e cotn 
esta morte, e género de martyrio, com a laureola de 
Proto-Martyres do Brasil, e primeiras victimas da bar- 
baridade Gentílica de seus naturaes, e elles assim na 
sua antiga cegueira; que depois de terem saciado o seu 
mais que brutal appetite nos despedaçados corpos dos 
servos de Deos, se lhes faltou a humanidade para os 
devorarem, sobejou-lhes a astúcia para o fingimento ; 
porque antevendo a justa vingança, que da sua falsi- 
dade poderiaõ tomar os mais Portuguezes, que se naõ 
acharão naquella feira, quizeraõ, antes que a experi- 
mentassem, ou encobrir a morte dos Religiosos, ou se- 
gurar com o disfarce mais prezas nos incautos Ghris- 
taõs, vestindo-se como lobos nas pelles das ovelhas, 
que comerão; porque meltidos depois nos hábitos, que 
despirão dos Religiosos defuntos, e que elles haviaõ 
morto, passeavaõ na casinha, e appareciaõ na hermida, 
aonde pudessem ser vistos, e com esta farça enganar 



15 

aos que ficarão, como succedeo; porque acudindo a el- 
les alguns Porluguezes^ como a Ueligiosos amigos, en- 
contravaõ com Índios lyrannos, que logo lhes tiravaõ 
as vidas, e os engoliaõ a pedaços : mas pouco llies du- 
rou esla cruel^ e enganosa scena ; porque advertidos os 
que se seguirão, do que acontecera aos primeiros, á 
custa de vidas de bárbaros rebeldes resgatarão os há- 
bitos dos Religiosos mortos, de que se seguio entre ín- 
dios, e Portuguezes huma porfiada guerra, que aturou 
por muitos annos. Dizem as Ghronicas da Ordem acon- 
tecera o martyrio, ou morte destes Pieligiosos a deze- 
nove de Junho de mil e quinhentos e cinco^ * das quaes 
o tirou o Agiologio Lusitano neste dia^ e o Padre Telles 
nas Ghronicas da Companhia no lugar citado. 

CAPIXUIiO IV. 



Vaõ a Porto Seguro outros dous Missionários Franciscanos, e do que alli 
obrarão, morte prodigiosa de hum, e ausência do outro. ' " 



15. Sendo laõ fértil para os fructos da terra, esta, 
em que estamos de Porto Seguro, naõ se mostrou me- 
nos fecunda para a semente da Pregação (1515), que 
começando a brotar aqui com tanto fervor ao rego da 
Doutrina daquelles dous Veneráveis annunciadores do 
Santo Evangelho, de quem ja falíamos, e podemos dizer 
ainda, que o seu sangue derramado alli foy huma como 
suave inundação, que embebendo pela terra vay vivifi- 
cando, e dispondo para que a seu tempo a faça redun- 
dar em novos fructos. Assim se vio neste próprio ter- 
reno de Porto Seguro, aonde, ainda que com dilação de 
alguns annos, que fariaõ dez com pouca differença, de- 
pois do martyrio daquelles dous Religiosos Francisca- 

" Part. I, liv. 3, cap. 3, foi. 43Í, ,§ ii. 
** Tercemos Missionários. 



16 

nos PorUiguezes, aportarão outros dons de naçaõ Ita- 
lianos, e lambem filhos do Seráfico Patriarclia. Foy o 
seu primeiro cuidado^ levantar outra Igrejinha no mes- 
mo Ingar, em que esteve a primeira, que o tempo, e o 
Gentio havia consumido, e com o próprio titulo do Se- 
ráfico Palriarcha. Naõ custou tanto como aos primeiros 
esta obra, pois havia ja alli mais concurso de Portugue- 
zes, que a fama, ou ambição das riquezas da terra por 
todos os modos os levava a ella. Naõ nos consta porém 
o tempo, que alli assistirão; mas soque com grande 
exemplo, e edificação dos Gatholicos, e aproveitamento 
daquelle Gentio. 

16. Mas, ou porque naõ fosse taõ grande o fructo, 
como esperavaõ, ou porque entendessem naõ eraõ vin- 
dos a partes taõ remotas para cultivo de huma só Aldeã, 
ou pequeno Rebanho, como o do Lugar do Porto Se- 
guro, e tendo noticia que da outra parte de hum Rio, 
que da povoação ficava para a parte do Sul, habitava 
multidão de Gentio, aonde ainda naõ havia chegado o 
brado do Evangelho, determinarão passar áquella co- 
lheita. Chegarão ás suas margens, e acharão ser bas- 
tantemente caudalozo ; e na consideração talvez, de que 
aonde he grande o fogo da charidade, nem as agoas, 
por muitas, o podem extinguir, intentou vadear o seu 
profundo o fogozo espirito do principal destes Religio- 
sos, e ficou submergido no seu pego*; porque também 
ha agoas, que, se por muitas naõ podem extinguir o lu- 
me da charidade, podem por muy altas apagar a luz da 
vida. Triste, e magoado volton o companheiro ao Po- 
vo, daudo-lhe a noticia do cazo, e pedindo auxilio 
para tirar dalli o defunto corpo. Concorrerão muitos 
ao Lugar, e achando ja as correntes com menos agoas, 
por estar a maré de todo vazia, viraõ ao cadáver, posto 

'*' Aquae multa! non potuerunt cxlinguere charitatem. Eccies. 8. 6. 
Veoi in alliludiuem maris, et tcrripestas deraersit me. Ps 68. 3. 



v'%T-yu''mc''* 



17 

de joelhos, e com as uulos levantadas ao Ceo^ como 
(lando-lhe as graças, de que também para aqnella santa, 
e superior Cidade, subia a sua, á imitação de outras 
muitas almas, sobre inundaçoens, e correntes de aguas. 
Foy tirado delias o seu corpo, e com muita devoção, e 
piedade lhe deraõ sepultura na própria Igreja, que 
havia erigido, ou renovado do Seráfico Patriarcha, com 
laõ grande opiuiaõ de bemaventurado, e servo de Deos, 
como o mostrou com as muitas virtudes, com que os 
tinha edificado em vida, e como o certificava a porten- 
toza postura do seu corpo depois da morte. O compa- 
nheiro, que ficava só, e desconsolado, voltou para a sua 
Província. Qual fosse esta, nos naõ deixarão noticia 
certa os nossos Escritores, e só dizem, que para me- 
moria deste cazo se ficou chamando até hoje aquelle, 
o Piio do Frade. 

Vaõ a S. Vicente Missionários da Ordem, e do ^ue aíli obráraõ. * 

17. Cuidadosos disvélos dava ao Senhor esta sua 
vinha, e como sabia melhor o tempo, em que lhe havia 
distribuir convenientes Operários para o seu cultivo, 
dispôs assim, que passados alguns annos, (depois des- 
tes segundos, de quem acabamos de fallar) que seriaõ 
oito, neste, em que agora estamos de 1523, foraõ ter a 
S. Vicente dous Religiosos da Familia Seráfica, e Por- 
tuguezes. E parecia razaõ, fosse esta Capitania a se- 
gunda colheita destes Operários Franciscanos, pois era 
lambem a segunda, que depois da de Porto Seguro ha- 
bitarão Portugirezes, porque dizem foi esta de S. Vi- 
cente das primeiras que positivamente se mandarão fun- 
dar, e teve Donatário, como em seu lugar se disse. 

Quartos Missionários. 

JÂBOATAU. VOL, II. ,1 



18 

Nella fizeraõ os novos Missionários a sua liabitaçaf). 
Naõ alcançamos o^^tempo, que alli assisliraò, mas só^ 
que com vida exemplar^ c muilo aproveitamenlo espi- 
ritual do Gentio da terra. Era este mais domavel, e 
obrava nelle com melhor eíTeito a Doutrina dos novos 
Pregadores, e vendo a estes do lugar taõ bem dispostos, 
e aproveitados, e porque naõ ficassem os mais, por dis- 
tantes, excluídos deste espiritual bem, sabendo que 
para a parte do Sertão, além de hum Rio, que por alli 
corria naõ muy longe da Povoação, habitavaõ muitos 
daquellcs bárbaros, quiz" passar aquella colheita hum 
Heligioso destes. Atravessou o Rio, que ainda que 
abundante de agoas se passava a pés e de váo, e antes 
que tomasse a outra margem, foy morto ás frechadas, 
pelo Gentio, que alli o esperava, servindo-lhe de fea, e 
insaciável sepultura o ventre daquelles inhumanos rácio - 
naes, e tirando só por fructo deste seu ardente zelo, 
fartar-llies o brutal appetite com as suas carnes, tingir 
aquellas correntes com o seu sangue, e dar-lhes por 
memoria deste cazo, o nome, que também conserva, 
como o outro de Porto Seguro, de Rio do i'rade. 

CAPITUE.O VI. 



Áveriguaõ-se para mayor clareza desta historia algumas duvidas, que po- 
dem occorrer sobre o que nos Capitulas passados deixamos dito destes 
Religiosos Missionários, c não concorda com o que se acha delles nos 
mais Escritores. 



18. lie a verdade alma da historia, e he a clare- 
za a vida desta alma, e hc certo que virá a ser alma 
sem vida, historia, ainda que com verdade, sem cla- 
reza. Dizem os escritores da Ordem commúmente, que 
estes Religiosos foraõ seis, e que vieraõ todos juntos, 
mandados pelo Rey D. Manoel, logo na primeira occa- 
siaõ, que, depois de descoberto o Brasil por Pedro Al- 



19 

vares Cabral^ enviara as suas Armadas á investigação, 
e descobrimento das suas Costas, e que lodos seis foraò 
ter a Porto Seguro, e alli lhes succedera o que fica refe- 
rido, sendo os mais destes de naçaõ Italianos. Outros 
escrevem, que naõ vieraõ juntos^ mas divididos, dous 
na primeira Armada, depois de descoberta a terra, e 
estes eraõ Poríuguezes; e dous na segunda, e estes Ita- 
lianos,* e por esta conta vem a concluir, que foraõ só 
quatro, fazendo também duas Missões das que os mais 
haviaõ feito huma só. 

19. Nós porém dissemos, que sendo seis aquelles 
Pieligiosos, foraõ três as Missoens, e que esta terceira 
fora em S. Vicente, c que alli acabara hum daquelles 
Religiosos, como o de Porto Seguro, ao passar de outro 
Rio, mas com diíTcrente morte, porque naõ aíTogado 
acazo, mas morto nelle pelo Gentio. Assim consta este 
segundo successo de huns manuscriptos antigos, que se 
achaõ no Archivo desta Província, onde, fallando destes 
Missionários^ diz o que fica escrito destes de S. Vicente, 
o que nós aqui também seguimos, por acharmos para 
isto hum muy grande, e notório fundamento nos Ro- 
teyros, e Mappas Geraes destas Costas, nos quaes po- 
derá ver o curioso, que delles entender, que assim 
junto a S. Vicente, como em Porto Seguro, se achaõ 
notados estes dous Rios, com o mesmo nome do Rio 
do Frade, e melhor que todos no Mappa particular das 
Gostas do Brasil, lavrado cm Amsterdão nas taboas de 
Porto Seguro, e S. Vicente : e como o de Porto Seguro 
lhe foy posto, como concordaõ todos, pelo caso de se 
aff'ogar nelle aquelle Religioso, a mesma razaõ corre, 
para que fosse a causa de se chamar também Rio do 
Frade o de S. Vicente, pela morte do outro, que nelle 
aconteceo. 

20. Dizem mais, os que escrevem, que aquelles fo- 
raõ seis, c enviados todos pelo Rey D. Manoel, que 
eraõ a maior parto delles Italianos; ao que nós, pelo 



20 

que dissemos, e diremos ainda^ em quanto a serem de 
outra Naçaõ, c mandados pelo dito Rcy, naò assenti- 
mos^ c a razaò do fundamento, lie a que ja deo a isto 
mesmo o Author do Agiologio Lusitano, falia ndo destes 
próprios Missionários, uocommento do dia desanove 
de Junho, em que padecerão Martyrio os de Porto Se- 
guro, por estes termos : Naõ he crivei, que mandasse 
Eí-Rey D. Manoel ao Brasil na primeira Missão Reli- 
giosos Estrangeiros, guando linha tantos Naturaes, 
pois em sen tempo se dividirão os Observantes, por 
serem muitos, em duas Provindas, Com este bem 
fundado discurso, concluímos que os Religiosos Estran- 
geiros, que naquelles principios passarão á Missaõ do 
Brasil, naõ foraõ mais que dous, como o escrevemos no 
Cap. IV^, e estes naõ mandados pelo Rey D. Manoel, 
mas da maneira, que agora diremos. 

21. lie sem duvida^ que tendo a posse da Coroa de 
Castella Carlos \, que depois no anno de 1519 foy 
declarado Imperador da Alemanlia, c reconhecido por 
Carlos V, sahio fugitivo do nosso para aquelle Reino 
hum Piloto Portuguez, chamado Joaõ Dias Golis, ou 
Solis, como dizem alguns, e que em Castella persuadira 
a alguns Mercadores lhe dessem duas Náos, que elle as 
Iraria á Província de Santa Cruz do Brasil, e as carrega- 
ria do Páo vermelho^ e outros haveres da terra ; o que 
conseguio, e com effeito no anno de 1515 foy com cilas 
ao Porto Seguro, de donde voltou com o seu negocio no 
de 1517. Disto foy noticiado o Rey de Portugal, e se 
queixou ao de Castella, e foraõ castigados os cúmplices 
(laquelh armação. E sendo isto assim, mais congruên- 
cia tem, que nestas duas Náos passassem a Porto Se- 
guro os taes Religiosos^ sendo Estrangeiros, Italianos, 
ou Ilespanhoes, do que de Portugal. Este he o dis- 
curso mais provável, que formamos sobre o transporte 
destes Missionários Estrangeiros a Porto Seguro. Dos 



21 

Portuguozcs (ilreuios agora^ o que alcançamos dos pri- 
meiros. 

22. Os Escritores da Ordem só dizem, que no anno 
de 1503^ enviara o Rey D. Manoel ao Brasil estes Mis- 
sionários, mas naõ declaraõ na conducta de quem. Os 
de fora escrevem^ que só duas Esquadras mandara ao 
Brasil o sobredito Rey em todo o tempo do seu governo, 
a primeira com Américo Vespucio, a segunda com Gon- 
salo Coelho; mas nenhum dos que vimos declara o anno 
em que sahiraõ do Reyno estes Exploradores^ menos o 
lilustrissimo Ozorio, que no seu livro de Rebtis E?nma- 
nuelis Regis, * diz^ que no de 1502 fora o em que sa- 
hio Gonsalo Coelho. Mas ha sem duvida nisto sua equi- 
vocação, e muy evidente, pela razaõ, e fundamento se- 
guinte. Deste mesmo Capitão fallaõ outros muitos^ e 
sem assignarem o anno, em que sahio do Reyno a esta 
empreza, concordaõ todos, que quando se recolheo do 
Brasil, com as noticias, que de cá levava^ achara ja 
sentado no Throno ao Rey D. Joaõ 111 por morte de 
seu Pay o Rey D. Manoel, que fallecera a 13 de De- 
zembro de 1521 ; e assim, recolhendo-se ao Reyno 
Gonsalo Coelho, como affirmaõ todos, no principio do 
Reynado de D. Joaõ 111, havendo sabido dalli, como 
tem o lilustrissimo Ozorio, em 1502, vaõ neste entre- 
meyo vinte annos, ou mais, e naõ he para se crer an- 
dasse este Capitão tantos annos pelas Costas do Brasil, 
quando escrevem os mais, que sendo mandado pelo 
dito Rey D. Manoel, se recolhera em tempo de D. Joaõ 
111, tendo gasto nesta diligencia naõ muitos annos, ^* 
mas muitos mezes, como se diz ; e assim se deve sup- 
por foy equivocaçaõ dizer, que sahira Gonsalo Coelho 
do Reyno naquelle anno de 1502. Antes bem podemos 
assentar, que esta Esquadra, de que neste anno falia o 
referido Author, he aquella, em que foy conduzido ao 

* Lib. 2. p. 85. 

'* Mariz, Dialog. 5. p. 40. 



22 

Brasil Américo Vcspucio, cie qucin aflirniaò lodos fora 
enviado pelo Rey D. Manoel, logo que recebera as no- 
ticias mandadas pelo Cabral do novo descobrimenlo da 
terra do Brasil, e esle logo podia ser ale o principio do 
anno de i50o, que a todos estes vagares poderiaõ dar 
lugar os empenhos deste Monarciía com a Conquista da 
índia, que lhe levava os cuidados, e requeria dispên- 
dios ; Daqui se pôde tomar lambem hum grande fun- 
damento, para se dizer, que aquella Esquadra, em 
que diz o lllustrissimo Ozorio viera Gonsalo Coelho, 
era sem duvida esta do Américo, pois o mesmo eslá in- 
citando a que assim se diga; porque escreve, que de- 
pois de recebida pelo Monarcha a noticia do Cabral em 
1500, logo no de 1502 mandara a Gonsalo Coelho, sem 
fazer memoria de Américo Vespucio, que dizem todos, 
sem controvérsia, fora o primeiro, que enviou o Bey, 
depois do Cabral, e naõ o Coelho, como suppõem este 
Author ; donde se segue, que assim como se equivocou 
com o Capitão da primeira, se podia enganar também 
com o anno delia, sendo o de 1503, o que elle aífirma 
de 1502. E assim, sendo mandados, como dizem as 
Chronicas da Ordem, aquelles primeiros Religiosos pelo 
Rey D. Manoel a esta Missaô no anno de 1503, e naõ 
podendo vir ao Brasil até o dito anno outra Esquadra, 
mais que a referida do Vespucio, he sem duvida serem 
conduzidos nella aquelles Missionários. 

23. Outro fundamento se oíferece também para as- 
sentarmos, que só nesta Armada podiaõ vir estes Mis- 
sionários, e vem a ser, porque he sem duvida, que antes 
delia, menos dous Portuguezes degradados, que em 
Porto Seguro deixou o Cabral com o Gentio, naõ tinhaõ 
ido áquelle Lugar outros alguns, nem Navio de Merca- 
dor, ou pessoa particular, que lá os pudesse conduzir : 
e he certo que estes Missionários alli assistirão com 
Portuguezes, e naõ taõ poucos, que naõ fizessem oppo- 
siçaõ ao Genlio, como consta do que fica dito na morte 



^3 

(los primeiros Missionários, e sendo lantos^ que ja lhes 
davaõ temor, só podiaõ ter ido alli mandados pelo Rey, 
e em Esquadras suas ; estas naD foraõ outras até o anno 
de 1503, mais que as de Américo Vespucio. Certo fica, 
que nesta Armada foraõ sem duvida os taes Missio- 
nários. 

"III. Quando haja porém outra Escritura^ pela qual 
evidenlemenle conste, que Américo Vespucio foy ao 
Brasil antes do anno de 1503, sempre estamos na opi- 
nião, de que em sua companhia foraõ conduzidos aquel- 
les Religiosos, naõ obstante dizerem os Escritores da 
Ordem^ que no sobredito anno; porque bem poderá 
ser que o tal anno de 1503 ou fosse posto por equivo- 
caçaõy e falta de verdadeira noticia, ou que seja naõ o 
em que elles sahiraõ do Reyno, mas o em que chegarão 
ao Brasil ; porque como aquelle Cosmógrafo Américo 
hia demarcar portos, e altm\^s, bem podia partir de 
Lisboa em 1501, ou em 1502, ir correndo as dilatadas 
Costas do Brasil, até o Rio da Prata^ como he certo 
que foy, e na volta, que faria em 1503, chegar a Porto 
Seguro, e largar alli entaõ os taes Missionários, trazen- 
do-os comsigo^ todo este tempo pela necessidade que 
teria delles; e* assim se verifica o que dizem os nossos, 
que em 1503, foraõ a Porto Seguro aquelles Missioná- 
rios, e também fica provável, que esta viagem a fizerão 
em companhia de Américo Vespucio, visto naõ haver, 
como fica notado, desde o Cabral em 1500 até 1503 
outra Esquadra, mais que a deste Capitão, que fosse ao 
Brasil. E esta he a melhor, e mais accommodada pas- 
sagem, que podemos achar do Reyno para o Brasil a 
estes seus primeiros Missionários Portuguezcs. Dos se- 
gundos Italianos, ou Hespanhoes, ja dissemos lambem 
o como, c com quem passarão, segue-se agora os ter- 
ceiros. Desapontamentos do Archivo desta Província, 
de que tirámos a noticia de haverem ido a S. Vicente 
estes Missionários, como neste mesmo Capitulo fica no- 



tado, e do íiiii que alli liveraõ^ consla lambem, foraô 
em companhia do primeiro Donatário Martim Aílbnso 
de Sonsa, quando foy fundar esta Capitania^ e nem an- 
tes o podiaõ lazer ; porque lic certo» que os primeiros 
Portuguezcs, que alli aportarão, foraõ os que conduzio 
comsigo este Capitão; e por isso assentamos aportarão 
em S. Vicente os laes Picligiosos no anno de 15'25, que 
Iby o mesmo, em que lá chegou o seu Donatário, e com 
isto tomos satisfeito, no melhor modo que pode o nosso 
discurso, as duvidas, que no principio deste mesmo 
Capitulo ficaõ apontadas» 



CAPITUIiO VII. 

Como aportarão na Bahia Religiosos do Seráfico Instituto, e do que ahi 

obrarão, * 

25. Mui cuidadoza he a Divina Providencia na repar- 
tição dos seus benefícios. Ja para as Capitanias de Porto 
Seguro^ e S. Vicente havia mandado Mensageiros do 
Evangelho, nasmonçoens passadas, e nesta agora desti- 
nou também outros para o districto, e Bahia de todos 
os Santos. Foraõ estes o P. Fr. Diogo de Borba, que 
hia por Prelado da nova Custodia de S. Thomé da índia 
Oriental, com outros companheiros mais, na conducta 
de Martim AíTonso de Sousa, mandado nesta mesma oc- 
casiaõ pelo Bey D. Joaô III, por Capitão Mór do mar 
da índia no anno de 1534, e tomarão por arribada o 
porto da Bahia, e o que pareceo contrariedade do tempo 
foy disposição do Ceo, qtie quiz trazer com estes Reli- 
giosos aos seus Moradores hum muy grande, e neces- 
sário bem ; porque no tempo, que alli assistirão, cuida- 
rão em todo elle no augn)cnto da Fé, calhequizando ao 

* Quintos Missionários. 



^5 

GciUio da terra, ja mais humanos^ e domáveis com as 
persuasoens, e exemplos de Diogo Alvares Caramurú, 
e sua consorte a devota Gatharina Alvares, baiUizando 
a muitos delles, entre os quaes receberão este primeiro 
Sacramento de suas mãos muitos filhos^ e filhas, assim 
nuturaes, como legitimes^ que de sua própria mulher, 
e de diversas índias, filhas dos Principaes da terra, 
tinha o sobredito Yiannez Diogo Alvares. Aqui for aõ 
também os mesmos Religiosos, os que receberão como 
Parochos os primeiros noivos, e contrahentes, que, 
conforme a Igreja Romana Calholica, celebrarão na 
Rahia o Sacramento do Matrimonio, e foraõ AíFonso 
Rodrigues, nalural de Óbidos, homem nobre, como 
fica dito e Paulo Dias Adorno, este com Filippa Alva- 
res, e aquelle com Magdalena Alvares, filhas naturaes 
de Diogo Alvares Caramurú aos quaes receberão aquel- 
les Religiosos na Igreja de nossa Senhora da Graça, 
Templo, que havia edificado a esta Senhora o mesmo 
Caramurú, e pelo milagre, que fica dito, e a primeira 
Igreja, que houve em Villa Velha, que naquelle tempo 
era só pequena Povoação, ou Aldêa, em que habitava 
o celebrado Caramurú, com a sua familia, e íilguns 
poucos Porluguezes, que alli haviaõ ido parar, de outras 
partes. Naõ nos declaraõ os que daõ estas noticias o 
tempo, que aqui se detiveraõ os taes Religiosos, mas, 
que continuando a sua viagem para aludia, quando 
foy tempo, deixarão a todos aquelles habitadores muy 
saudozos com a sua ausência, edificados com o seu 
exemplo, e sentidos cora a sua falta ; pois lhes naõ fica- 
vaõ na terra outros Médicos espirituaes, a quem pu- 
tltssem recorrer em as precizas necessidades de suas 
almas. 

26. Como em alguns Authores se acha, que o Santo 
P. Francisco Xavier fora para a índia em companhia 
de Martim Aífonso de Sousa, e eu ja li em hum Roteyro 

JABOATAM. VOL. II. 4 



26 

destas Cosias do Brasil, do qual me iiaõ occorre quoin 
era o seu Antlior, c este escreve, íallando da arribada 
deste Capitão a Balda, que os Padres da Companhia, 
que levava comsigo, bautizaraõ, e cazaraõ os sobredi- 
tos filhos, e fdhas de Diogo Alvares Carauiuru, julguey 
ser precizo tirar a duvida, ou erro deste Author, e 
advertir aos mais, que o lerem também, que Martini 
Affonso de Sousa navegou para a índia duas vezes ; a 
primeira por Capitão Mór daquelles mares no referido 
anuo de 1531, e levava entaõ aos Religiosos Menores, 
de quem falíamos, e arribou á Bahia, como fica dito ; a 
segunda vez, que foy á índia, hia por Vice-Rey daquelle 
Estado, e esta viagem a fez no anno de 1541, e nesta 
occasiaõ;, he que levava aos Padres Jesuítas, e a sua 
arribada que também a fez nesta viagem, naõ foi á Ba- 
hia, mas sim a Moçambique, como se pôde ver huma, 
e outra, nos que escrevem as historias da índia, e os 
grandes feitos deste Capitão, e Yice-Rey daquella Con- 
quista. Também se faz precizo advertir aqui aos Leito- 
res, que o erro do Roteyro referido acima, em que diz 
que os Religiosos, que levava comsigo Martim AíTonso 
(le Sousa, quando arribou á Bahia, eraõ da Sagrada 
Companhia, nasceo todo da equivocaçaõ, ou corrente, 
ou advertida, com que fatiando destes a sua Chronica 
diz assim ; * Trazia comsigo Religiosos, os quaes entre 
as cousas do serviço de Deos, que aqui fizeraò, foy baii- 
tizar na mesma Igreja os filhos, e filhas destes dous 
devotos da Senhora, E quem ler esta passagem facil- 
mente pôde entender, que estes Religiosos eraõ seus, o 
que o Author devia evitar acrescentando á palavra He- 
ligiosos, a de Menores, ou Franciscanos; por naõ dei- 
xar equivoca aos Leitores a sua intelligencia. 

^ Vasconccl lib, I. fui, 4t n. íl. 



Vaõ a S. Vicente outros Missionários Franciscanos. * 

57. De algumas JNáos de Hespanlia, que no anno de 
1538 navega vaõ para o Rio da Prata^ e naufragarão 
nas Costas do Brasil, livres do seu estrago com as pes- 
soas, foraõ aportar no Rio dos Patos, que corre pelo 
districto da Capitania de S. Vicente, e entra no mar 
em altura de 28 gráos, o P. Fr. Bernardo de Armesta, 
com quatro companheiros mais, todos Hespanlioes, e 
da Seráfica Familia^ ainda que naõ consta de que Pro- 
víncia eraõ. Alli acharão três Castelhanos, que por ou- 
tros similhanles acontecimentos do mar haviaõidoter á 
mesma paragem. Sabiaõ estes ja muito bem a liugua da 
terra, porque habitavaô com os naturaes delia haviaõ ja 
três annos. A estes tomarão por companheiros, guias, 
e linguas, e dando principio á sua pregação, com muito 
fructo, e aproveitamente do Gentio, que eraõ de Naçaõ 
Carijós, gente muy mansa, e a mais domavel de toda a 
do Brasil, convertendo e bautizando a muitos^ por toda 
aquella Capitania até o Pyraguai, e Rio da Prata, para 
onde faziaõ de Hespanha a sua viagem. Estes saõ aquel- 
les Padres Missionários, de quem diz a Chronica da 
Companhia, ** fallando dos seus Religiosos, que no 
anno de 1549, em que chegarão á Bahia, mandarão 
logo a S. Vicente : Foraò^ diz^ especialmente acudir aos 
índios, sendo muitos destes Christàos, bautizados por 
Religiosos do Patriarclia S. Francisco, Castelhanos^ 
que por successos de viagem tinliaò estado com elles na 
paragem, que cliamad dos Patos. O mesmo repete ou- 
tra vez : E em especial os Christãos (índios) que tinhad 
doutrinado, e bautizado os Religiosos de S. Francisco, 
Castelhanos, 



Sextos Missionários. 
** Vasconcel. lib. I. n. 58. 



28 
CAPITUIiO IX. 

Vay a Olinda de Pernambuco um Religioso Menor ^ e do que alli obrou. * 

28. Em a Villa de Olinda, ou Murim de Pernam- 
buco, assistio muitos annos hum Religioso Menor, de 
quem nos naõ deixarão noticias individuaes os daquel- 
les tempos, nem de que Província era, nem como alli 
veyo ter; mas só que fora o instituidor de huma Capei- 
linha de S. Roque no Lugar em que hoje está fundado o 
Mosteiro do Patriarcha S. Bento, e que ncUa dera prin- 
cipio a huma Irmandade de Terceiros da Ordem da Pe- 
nitencia, que foy a primeira, que houve no Brasil, 
donde muitos daquelles moradores vestirão o seu ha- 
bito, faziaõ os exercícios, e mais obrigaçoens desta 
Venerável Ordem, a qual por auzencia sua ficara admi- 
nistrando o Vigário de S. Pedro Martyr, por estar no 
disiricto desta Parochia a tal Gapellinha, que pela sua 
muita antiguidade mostrava ter a fundação logo nos 
princípios, ou pouco depois, que foy povoada a Villa de 
Olinda, sendo este Religioso também dos primeiros, 
que alli foraõ, ou logo em companhia do seu Donatário, 
ou alguns annos depois. 

29. Estes saõ todos os Religiosos Menores^ de que 
temos noticia passarão ao Brasil no dilatado curso de 
cincoenta annos, antes que a estas Conquistas viessem 
outros alguns Missionários de qualquer Ordem, e por 
isso lhes damos o distinclivo do primeiros Operários 
Evangélicos ao seu Gentio, e só segundos, se dermos 
credito á constante tradição dos mesmos Naturaes, que 
de huns a outros, como de escritura, de que só uzavaõ, 
se foy transferindo, que o primeiro fora o Sagrado 
Apostolo S. Thomé, do qual consta nas historias, e se 
achaõ em varias partes da America muitos sinaes da sua 
vinda a este novo mundo, e deixados os que ja se achaõ 

" SeUimos Missionários. 



29 

escritos, assim da parte que ocGupaô os Hespanlioes, 
como da que habitaõ os Portuguezes de Cruzes, fontes, 
pegadas, ou rastos de pés lumiauos, impressos em pe- 
dras, e attribuidos, ou venerados com o nouie deste 
Santo Apostolo das índias, diremos aqui o que também 
vimos, e notamos. 

30. No lugar que cbamaõ de Gorjahú de Bayxo, pelo 
Rio^ que o rega, e be fazenda de Engenbo de fazer açú- 
car, districto da Freguesia de Santo Amaro de Jaboataõ, 
selle legoas distante do ReciíTe de Pernambuco para o 
Sertaõ, em bumas espaçozas lages de pedra á sua mar- 
gem, e sobre as quaes corre por largo espaço^ e be pas- 
sagem commúa dos seus moradores, quando de Veraô 
leva menos corrente, está gravada uma estampa de pé 
bumauo, e be o esquerdo, e taõ admiravelmente impres- 
so, que á maneira de signete em liquida cera, entrando 
com violência pela pedra, fez avultar para fora as fím- 
brias da pegada, arregoar a pedra, e dividir os dedos, 
íicando todo o circuito do pé a modo que se levanta mais 
alto, que a mesma pedra sobre que está impressa a pe- 
gada^ que representa ser, como de menino de cinco au- 
nos, com pouca difíerença, que nós vimos muitas vezes 
em outro tempo, e ainda no estado presente o tornamos 
a ver, e admirar com mayor reflexão da que pedia 
aquella primeira idade, e era fama do vulgo ser aquella 
pegada de S. Tbomé, ou de bum menino, que andava 
em sua companhia, e seria talvez o seu Anjo da Guar- 
da. Escrevemos o que vimos, e ouvimos. 

31. Do que dos nossos até aqui flca dito se vê a ra- 
zaõ>que temos para lhes darmos a espiritual Primazia 
da Goiiquista do Brasil. E de tal sorte, e com tanta pro- 
priedade lhes compete esta, que naõ recuzou escrever 
hum Douto, e grave Author, * que Assim como disse 
Tertulliano, que com o sangue dos primitivos Marty^ 

' Agiol. Lusit. t. 3. f. 449. 



30 

res fora fundada a Igreja universal,, assim também, 
(accresceiUa elle) se pôde dizer ^ que com o sangue dos 
Franciscanos foy fundada a Igreja particular do Es- 
tado do Brasil, E iiaõ só no Brasil, mas também nas ou- 
tras Conquistas dos Reys Portuguezes, foraõ os Religio- 
sos Menores sempre os primeiros; porque passando des- 
ta para a da Índia o P. Fr. Henrique de Coimbra^ com 
os mais, de quem ja falíamos, foraõ também os primei- 
ros, que accenderaõ a tocha da Fé, e semearão o graõ 
do Evangelho nas terras do Oriente, discorrendo pelo seu 
vasto Império, e rubricando-o alguns delles com a tin- 
ta do seu sangue. No Archipelago de Malaca foraõ tam- 
bém os Frades Menores as primeiras trombetas da Pre- 
gação, como também nas Ilhas de Macaca^ Molucas, e 
em outras muitas o fizeraõ, favorecidos do Capitão sem- 
pre grande Affouso Galvão, o qual fez muy esclarecidas 
as suas victorias, naõ só com a fortaleza do seu braço, 
mas, com o ardor do zelo Catholico, com que conduzia 
comsigo os nossos Religiosos, para converterem ao gré- 
mio da Igreja aos que elle rendia ao Império dos Mo- 
uarchas Portuguezes, como o fizeraõ a innumeraveis al- 
mas. E se em alguma parte, como no Japaõ, foraõ os se- 
gundos ua cultura da vinha do Senhor, naõ consentio 
o seu Apostólico zelo, que se naõ fizessem primeiros em 
derramar o sangue, e sacrificar as vidas, onde o P. Fr. 
Pedro Bautista, com cinco Religiosos mais, e vinte e 
dous Irmãos Terceiros, foraõ os primeiros Martyres, e 
ja declarados pela Santa Igreja, uaquelle dilatado Impé- 
rio, secundo Jardim de outros muitos encarnados ly- 
rios, que foraõ brotando depois daquelles. Esta prima- 
zia a mostrarão também os Religiosos Menores nas ín- 
dias Occidentaes, e da outra parte desta America, aonde 
o Padre Fr. Joaõ de Marchena, Portuguez de Naçaõ, e 
filho da Santa Província da Andaluzia em Castella, indo 
em companhia de Ghristovaõ Golon;, com outros Religi- 



31 

osos mais, foraõ os primeiros» que naquellas grandes 
partes deste novo Mundo accenderaõ a luz do Evangelho 
contra as trevas do Gentilisrao. 

CAI»IXtJI.O JL. 

Vai ter á Capitania do Espirito Santo o Servo de í)eos Fr. Pedro de Palá- 
cios, sua vida penitente, e exemplar no Monte da Penha. 

32. Até agora mostramos nos Capítulos passados os 
Religiosos Menores, que a estas Conquistas do Brasil 
chegarão, * antes que a ellas viessem Missionários de 
outras Ordens, por espaço de cincoenta annos ; nos se- 
guintes daremos noticia dos que se foraõ continuando 
por tempo de trinta e seis mais, desde o de 1549, em 
que no Brasil aportarão os primeiros Missionários Je- 
suítas, até o de 1585, em que os nossos fundarão em 
Olinda o seu primeiro Convento. E assim como o Se- 
nhor da vinha universal desde o principio da sua Igreja 
dispôs sempre, que os Operários para a sua cultura, 
naõ entrassem a ella lodos juntos^ mas huns apôs dos 
outros, cada hum ás suas determinadas horas, huns 
logo de manhã, outros a hora da Tercia, e assim os 
mais, como lhes prescreve a Ordem o primeiro Evan- 
gelista^*; esta mesma guardou nesta sua, certamente 
muito escolhida vinha, ou Conquista do Brasil. A' hora 
de Prima, e taõ, primo mane, como ao romper do dia, 
e na mesma hora, em que descobrio a luz do Ceo a terra 
do Brasil, lhe mandou logo Deos os primeiros trabalha- 
dores a esta vinha, o Padre Fr. Henrique de Coimbra, 
e seu« companheiros, como fica outras vezes repetido, 
no anno de 1500; e assim se foraõ continuando outros 
mais da mesma profissão, por este espaçoso terreno, no 
dilatado espaço de quarenta e nove para cincoenta an- 

* 1358. 

'** Mat, 20, V. 1, et seq. 



nos, ou ale a hora da Tercia, que he as nove do día^ 
em que quiz mandar para ella a segunda Ordem de Ope- 
rários, os RR, PP. Jesuilas, no anno de 1549, e nem 
porque viessem estes algum tempo mais tarde, Iraba- 
Iharaõ menos, antes como emulosdosque bem trabalha- 
rão, ou como invejosos dos que sabem lucrar mais almas 
para o Geo, tanto trabalharão, como os primeiros ; por 
que sem duvida, a estas duas Famílias Jesuita, e Fran- 
ciscana, e aos seus oíTiciosos Operários, deve a vinha 
do Brasil o seu espiritual cultivo, augmento, e estabili- 
dade, pois o fizeraô naquelles primitivos tempos, quando 
nellas só haviaô espinhos, e abrolhos, perigos, e diífi- 
culdades. Muito depois destes, e como a hora de Sexta, 
qtie he do meio dia para a huma, chegarão os Religio- 
sos Carmelitas Observantes no anno de 1580, e mais 
tarde ainda, como a hora de Nôa, que he de huma para 
as três da tarde, os do Grande Patriarcha S. Bento no 
de 1581, e por isso ja a tempo de menos trabalho, tanto 
pelo seu grave Instituto, como por estar ja o terreno 
quasi preparado. E ainda muito mais tarde ; porque 
como á undécima hora, que he quasi ao concluir do dia, 
os RR. PP. de S. Filippe Neri, que como últimos, ja 
acharão o trabalho vencido, e a vinha preparada, e só 
disposta para colher o fructo, igual, ou superabundante, 
aos mais Trabalhadores. 

33. Em o numero dos nossos, com os quaes come- 
çamos agora, depois que ao Brasil chegarão os PP. Je- 
suítas, tem o primeiro lugar hum Religioso Menor, por 
nome Fr. Pedro de Palácios, ou do Rio Secco, por ser 
natural de Medina do Rio Secco, junto a Salamanca. 
Dos títulos da sua ascendência, naõ achamos outro mais 
authentico, que o do seu appellido de Palácios, por 
trazer do nobre Solar desta familia a sua origem, e por 
ella Hespanhol por nascimento, e no estado de Reli- 
gioso Leygo por profissão. Esta havia feito na Provín- 
cia de S. Jozé de Reformados cm Castella, de donde se 



passou para a da Arrábida eai Portugal, que naquelle 
tempo começava a florecer com assooibro dos humanos 
discursos, e inveja de espíritos Seráficos. Era hum des- 
tes o de Fr. Pedro de Palácios, e lauto o arrebatou o so- 
litário daquella Serra, muy accommodada ao elevado 
dos seus voos, que para ella quiz mudar a sua h:ibila- 
çaõ. Nesta se encorporou, sendo ja de idade provecta, 
á instancia da Rainha D. Catharina, e a rogos do Dou- 
tor Paulo de Palácios, seu Pregador, e Esmoler, pa- 
rente muy chegado de Fr. Pedro, e bem poderia ser que 
fossem Irmaõs, como o está persuadindo a confrontação 
dos nomes de Pedro, e Paulo, e identidade dos cogno- 
mes de Palácios. Passado ja para a Arrábida, e tendo 
servido no Hospital Real de Lisboa de Enfermeiro al- 
guns annos, assistindo aos doentes com grande amor^ e 
charidade, havida licença do Padre Custodio da Arrá- 
bida, Fr. Damiaõ da Torre, passou ao Brasil. Em huns 
Autos, que no anno de 1640 mandou o Custodio Fr. 
Manoel de Santa Maria trasladar dos que em publica 
forma foraõ tirados em o anno de 1616, á instancia do 
Custodio Fr. Vicente do Salvador, e se guardaõ no Ar- 
chivo do Convento da Vicloria, Capitania do Espirito 
Santo, temos huma Certidão jurada do Irmaõ Fr. Si- 
mão da Apresentação, na qual attesta tivera em seu po- 
der hum Cartapacio, que fora do uzo de Fr. Pedro de 
Palácios, no qual entre outros assentos da sua letra, se 
achava hum, que dizia ser filho da Província de S. Jozé, 
e encorporado na da Arrábida. 

34. Gomo o espirito deste Servo de Deos era tao ar- 
rebatado, querendo sempre subir de mais a mais, deo 
outro vôo, e foy elle taõ prolongado, que, da Serra da 
Arrábida em Portugal, passou á Penha do Espirito Santo 
no Brasil. Era nos princípios, em que se dava calor ás 
Conquistas destas partes do novo Mundo, e assim como 
a fama, ou fome das suas riquezas arrastava a muitos, 
dos que as servem, a passar a ellas, o zelo da salvação 

JABaATAU. TUL. II. 5 



3/1 

das almas dos seus Naluraes movia aos Servos do Se- 
nhor ao mesmo transito. Aquelles a esquadrinhar as 
entranhas da lerra, para lhe arrancarem o ouro, a pra- 
ta, e outros temporaes haveres: estes a abalar cora- 
çoens frios, para lhes introduzirem o fogo da charidade, 
e amor de Deos: áquellcs incitava-os o interesse pró- 
prio: a estes o bem alheyo. Este trazia agora, como a 
outros, a Fr. Pedro de Palácios. Da sua passagem do 
Reyno para o Brasil só achamos escrito fora no anno de 
4558, e que sendo o Navio, que o transportava, accom- 
mettido na viagem de huma rija, e furiosa tormenta, nos 
últimos apertos, recorrendo os navegantes a Fr. Pedro, 
pelo bom conceito, queja haviaõ formado da sua vir- 
tude, e tomando-lhe o manto o lançarão ao mar^ e foy o 
mesmo estender-se sobre as agoas, que abaixarem logo 
a soberba das suas empoladas ondas: auzentarem-se os 
ventos, que as moviaõ contrários, e soprando outros 
mais favoráveis, tomarão porto com feliz viagem no de 
Villa Velha, Capitania do Espirito Santo. Com os mais 
desembarcou também Fr. Pedro de Palacins, e cada hum 
cuidou de si, sem darem acordo do Servo de Deos. Era 
o Lugar de poucos vizinhos, e procurando depois os 
companheiros por todo elle a Fr. Pedro, nem o acha- 
vaõ, e nem quem deile desse noticia ; e como o seu bom 
trato, e suave conversação, com o exemplar da vida. 
lhes tivesse ja no coração grangcado aíTectos, e na von- 
tade dezejos de o ver, entrarão em mayor cuidado pela 
sua falta. Esta se divulgou logo pelos moradores da Villa, 
e huns, e outros se deraõ á pressa de o buscar ; e depois 
de feitas debalde algumas diligencias, lhes veyo ao pen- 
samento ao terceiro dia, ja temerosos de algum accazo, 
de subirem a hum alto Morro, e Serrania de Penedos, 
quealli ao pé da Villa se levanta sobre hum empinado 
Monte, e no mais alto deile, como simplez Pomba, que, 
para se segiirar do caçador, vay fazer o ninho nas aber- 
turas da pedra, chamada pela voz do seu destino, acha- 



raõa Fr. Pedro em hnma das daquelia Penha muy des- 
cançado, qual alma solitária, a quem o Divino Esposo 
chama com voz interior para nas concavidades da Penha 
fazer a sua perpetua morada. Saudaraõ-no admirados, 
perguntando-lhe todos: O que he isto Padre Fr. Pe- 
dro? E elle os recebeo alegre, dizendo-lhes : Ja amigos 
achey o que buscava. E, ou fosse com elles para a Yiila, 
naquella occasiaõ, ou se deixasse alli íicar, este inculto, 
c solitário Monte escolheo Fr. Pedro para a sua habi- 
tação. 

35. Começa esta admirada Montanha a levantar-se 
moderadamente em pouca distancia jimto ao Cães da 
primeira Villa do Espirito Santo, chamada ja naquelle 
tempo Villa Velha, pela nova, que depois se levantou na 
Ilha, ese chama da Victoria, pela causa^ queja fica re- 
ferida em seu lugar, e depois de ir crescendo, e esten- 
dendo-se para q alto por huma ladeira de bastante dis- 
tancia, no collo desta se levanta o que chamaô Penha, 
ou Morro, que forma hum como pavilhão, ou coruchéo 
daquelia Montanha. Neste collo, ou fim da ladeira, e 
principio da Penha, em huma gruta, que alli se for- 
mava^ deo ordem Fr. Pedro a lavrar huma Capellinha 
com o titulo do Seráfico Patriarcha S. Francisco, com 
seu altar^ e neste, com a Imagem do Santo, collocou 
também huma muy devota da Senhora da Pena. Este 
foy o titulo, com que primeiramente foy venerada nesta 
Capellinha do Santo Padre a Imagem da Senhora, e este 
logrou em vida do seu instituidor, e ja collocada na ou- 
tra hermida, que depois desta levantou no mais alto do 
Morro, ou Penha, e este mesmo de Senhora da Pena 
conservou muitos annos, ainda depois da morte do seu 
Devoto Servo Fr. Pedro. Porque nos autos authenti- 
cos, de que ja falíamos, das testimunhas, que jurarão 
nelles^ e tirados no anno de 1616 á instancia do Cus- 
todio Fr. Vicente do Salvador, e á ordem do Adminis- 
trador o R. Matlheus da Costa Aborim, e pelo Vigário 



36 

Gonsalo Vás Pinto, esle mesmo litnlo da Pena se dá 
nelles á Imagem da Senhora, tanto pelo Tabelliaõ, que 
osapprovon, como pelas íestimunhas, que nelles jura- 
rão. Com este mesmo titulo de Pena era venerada a 
Imagem da Senhora, quando no anno de 1589 foraõ 
os nossos Religiosos tomar posse da Gapellinha por or- 
dem do Administrador o R. Bartholomeu Simoens Pe- 
reira, achando-se elles alli ja neste anno para a funda- 
daçaõ do Convento da Villa da Victoria. E porque nao 
ficasse duvida, naõ só que este foy o titulo, que teve a 
Senhora alli naquella sua Imagem desde o principio ; 
mas também que esta Pena, que inculca o titulo, naõ 
he a com que se escreve, como querem dar a entender 
os que nas mãos da Imagem da Senhora põem por tim- 
bre, ou divisa huma penna ; mas que era Pena, que si- 
gnifica dor, angustia, e tormento, como o que espiritu- 
almente sentio a Senhora em sua alma; por isso o P. 
Custodio Fr. Manoel de Santa Maria, que no anno de 
1640 trasladou de sua maõ, e própria letra, aquelle 
Instrumento, em toda a sua escritura, e nas vezes, que 
falia em o nome Pena, como titulo da Senhora, sendo 
em Portuguez, sempre o escreve com o dithongo de oe, 
Latino, para tirar a equivocaçaõ, que de huma, e outra 
Pena se poderia originar. Este mesmo titulo, finalmente, 
conservava ainda a Imagem da Senhora no anno de 1650, 
como consta do Cartório desta Província no titulo da 
fundação do seu Conventinho, que neste mesmo anno 
teve principio com o de Senhora da Pena, que o tempo, 
que tudo muda, com pouca corrupção, e muita proprie- 
dade, pela do lugar, em que está, transferio de Pena 
para Penha, como hoje he conhecido. 

36. Concluída com brevidade a Capellinha do Será- 
fico Patriarcha, tanto pela pequenhez da sua fabrica, 
como pela concurrencia dos devotos do Servo de Deos, 
entrou na diligencia de fabricar outra para a Senhora da 
Pena, no cume da Serra, e sobre aquella altíssima Ro- 



37 

rJia, ou Penedo, que serve de coroa áquelle Monte. Tu- 
do conseguio com ajuda dos devotos, e especialmente 
de Melchior de Azevedo^ homem rico, e muito particu- 
lar aílecto de Fr. Pedro. Nem podia deixar de ter nesta 
obra muitos coadjutores ; porque o Servo de Deos era 
o primeiro, que, pegando nas pedras, ás suas costas as 
conduzia por aquelie áspero, e alto monte, em quanto 
durou a obra, que completa, collocou nella a Imagem 
da Senhora, com singular jubilo da sua alma, e grande 
consolação de todo o povo. Assim o depõem todas as 
testimunhas do seu processo, humas, que o viraõ, ou- 
tras, que o ajudarão. Hum destes foy André Gomes, 
que sendo moço acompanhava o Servo do Senhor, 
quando fazia pelas ruas da Villa a sua doutrina, e de- 
põem que seus dous Irmãos, Amador Gomes^ c Braz Pi- 
res, ajudarão a Fr. Pedro a fazer a obra da Capellinba da 
Senhora da Pena ; e assim attestaõ as mais, que nos ditos 
autos jurarão^ e concordaõ todas sem discrepar, que o 
Servo de Deos Fr. Pedro de Palácios fora o fundador 
das duas Gapellinhas primeiras daquelle monte, a de S. 
Francisco no collo da ladeira, eade N Senhora da Pena 
sobre a Penha alta, que nelle descança. E assim Gca ti- 
rado também o engano de alguns, que cuidarão^ e ainda 
escreverão, que quando alli chegou Fr. Pedro, ja havia 
aquella Capellinha, da qual pelo zelo do Servo de Deos 
lhe fizera a entrega delia o seu fundador, ou os que por 
este a administravaõ. 

37. Todo o referido se conflrma por indubitável pela 
Escritura da doação, que da dita Capellinha da Pena, ou 
Penha, fez D. Luiza Grinalda Viuva de Vasco Fernan- 
des Coutinho, segundo Donatário da Capitania do Espi- 
rito Santo, a qual Senhora, como sua Governadora, e 
Proprietária, com a Camera, e Povo da Villa fez a tal 
doação aos nossos Religiosos, quando chamados pelo 
mesmo Povo, e Senhorio, chegarão á Villa da Victoria 
para fundarem Convento alli ; passada esta Escritura em 



:^ 



publica forma a seis de Dezembro de mil quinhentos 
noventa e hum, na qual se expressa, se dava aos Reli- 
giosos Menores a administração daCapellinha de N. Se- 
nhora da Pena. Por respeito^ (saõ palavras formaes da 
própria Escritura) de a haver fundado hum Religioso de 
sua Ordem chamado Fr. Pedro ^ que aííi viveo com li- 
cença de seus Prelados muitos annos, com muito exem- 
plo de vida, e edificação do Povo, e ahi acabou virtuosa, 
e santamente, e foy sepultado em huma Hermida . e Ca- 
pella, que a esse tempo tinha feito. Tirada parece fica 
toda a duvida de quem foy o fundador desta Gapellinha 
da Senhora da Penha do Espirito Santo. 

CAPITtJIiO XI. 

Dos exercidos espirituaes do Servo de Deos Fr. Pedro de Palácios no 
Monte da Senhora da Penha. 

38. He a solidão o suave descanço das almas devo- 
tas, a melhor officina dos seus espirituaes aproveita- 
mentos^ e a forja ardente, em que mais se apuraõ no 
amor Divino. E porque este, para ser perfeito, assim 
como se deve exercer com Deos, se ha de juntamente 
exercitar com o próximo; porque nestes dons eixos, ou 
bazes, se funda toda a ley, e preceitos do mesmo Senhor, 
este foy também o termo do seu Servo Fr. Pedro de Pa- 
lácios. Dos exercícios espirituaes, e particulares deste 
bom Religioso na solidão, e retiro daquelle Monte, naõ 
temos individual noticia, mas, se havemos estar por 
aquelle aphorismo certo de que os sentimentos da alma 
se explicaô, ou daõ a conhecer pelos sentidos corpo- 
raes, ou exteriores, e o que tem o coração manifesta a 
boca; do que pregava, e persuadia Fr. Pedro áquelle 
Povo, e do mortificado, e penitente do seu corpo, bem 
se deixa vêr, que os seus exercidos contínuos eraõ ora- 
ção, jejuns, disciplinas, e mortificaçoens, naô só porque 



âo 



isso inculcava o exterior da pessoa ; inas^ porque este 
era o repelido lliema das suas practicas, e doutrinas. 
39. Todos os Domingos, dias Santos, e festas mayo- 
res da Igreja, saliia do retiro da sua Penha, e indo ter 
a Uesidencia dos Padres Jesuítas na Vi lia da Yictoria, 
alli se coníessava com o Padre Braz Lourenço^ primeiro 
que achou, e com os mais, que se lhe foraô seguindo, com 
actos de verdadeiro penitente^ commungava com affe- 
closde consummado justo, ouvia Missa com devoção, e 
dahi se retirava para o seu domicilio. Nestes mesmos 
pela tarde, e nos mais, por muitas vezes, o seu exerci- 
cio era pregar ao Povo pelas ruas^ doutrinar os meni- 
nos nos Mysterios da Fé, e persuadir a todos a que jeju- 
assem, se confessassem^ e fizeséem penitencia de suas 
culpas, para alcançarem de Deos o perdão delias, e este 
era o thema commum, e assumpto geral de toda a sua 
doutrina, e praclicas^ assim publicas, como particula- 
res. Para ellas se vestia de sobrepelliz, com huma Cruz 
nas mãos, e acompanhado dos meninos do Lugar, e da 
Villa, assim Velha, cómoda Victoria, corria todas as 
suas ruas, com hum taô entranháveis como conhecido 
zelo do bem das almas. Outras vezes, quando pedia a 
necessidade, sahia a pedir esmola, e tendo aquella que 
julgava preciza para os dias, em que se havia occupar 
em outros exercícios, e naõ podia tornar a Yilla^ ou 
para acudir com ellas a necessidade de outros pobres, 
naõ acceitava mais nada, ainda que para isso fosse im- 
portunado. Quando sahia do seu Monte para a Villa, 
desembarcando no porto delia, o primeiro caminho, 
que seguia, era o da Igreja Matriz, a adorar o Santís- 
simo Sacramento, o que fazia com a boca em terra, por 
grande espaço, e huma dilatada, e devota oraçaõ, a qual 
acabada hia direito á caza do Parocho, e posto de joe- 
lhos lhe beijava a mão, tomava a benção, e pedia licença 
para continuar com o seu exercício^ ou de pedir esmola 
ou fazer a sua doutrina. Se lhe era precizo pernoitar 



40 

na Villa, o fazia em caza de algum devoto, e mais conlí- 
nuadameute na do Capitão Melchior de Azevedo, muito 
seu particular, e affectuoso, e a quem o Servo de Deos 
amava muito. Este devoto homem o ajudou com parti- 
cular cuidado, e esmolas nas obrasdassuasGapellinhas, 
e ja quando Fr. Pedro se achou mais envelhecido, lhe 
deo hum negrinho, seu escravo, para assistir com elle 
no retiro do Monte. Para passar a noite lhe mandava o 
seu devoto fazer cama, como a hospede, mas elle a 
acceitava só por obsequio seu, e naõ para descanço do 
corpo ; porque, quando ja recolhidos lodos, e feitos os 
seus costumados exercidos, se deitava no chaõ, pondo 
á cabeceira algum tronco ou pedra, ou outra qualquer 
dureza, que se lhe oíjerecia á maõ. Esta mesma era a 
sua cama na Hermida de S. Francisco do Monte, aonde 
de ordinário assistia ao pé do Altar do Santo ; sobre 
huma taboa áspera passava os breves intervallos da 
noite, que lhe restavaõ da oraçaõ, e mais exercícios, 
com huma pedra dura por cabeceira. Por companheiros 
mudos, mas fieis da sua solidão, conservou por todo o 
tempo, que alli viveo, hum gato, e hum cachorrinho, 
e quando sahia aos seus exercícios de esmola, ou dou- 
trina, tantos dias determinava estar auzeute, quantos 
montinhos de farinha lhes deixava alli, e fallando com 
elles, lhes dizia, apontando-lhes os montinhos da fari- 
nha: irmaõ Gato, ('assim o tratava, e mais ao compa- 
nheiro) eu hei de estar tantos dias fora, aqui ficaô estas 
raçoens para vós-outros ambos ; huma para cada dia 
e esta ultima a haveis de comer depois que eu aqui 
chegar ; e assim o faziaõ: e assim o depôs a lestimunha 
André Gomes, que sendo Rapaz, acompanhava ao Servo 
de Deos nas sabidas, que fazia á doutrina das Missoens, 
e Aldeãs, dizendo, que vindo muitas vezes de fora com 
elle, completos os dias, achavaõ ainda a ultima raçaõ, e 
na mesma forma, em que ficara, a qual, com a sua che- 



ai 

gada, chegando-se lambem a ella os dons companheiros, 
entaõ a comiaõ. 

40. Eslas viagens do Servo de Deos, em as quaes se 
detiníia aquelles dias, eraõ commummenle para as Al- 
deãs dos Gentios, qne iiabitavaô por aquelles arredores 
das Viilas do Espirito Santo, que depois de tantas, e taõ 
continuadas guerras, e destroços, como íicaõ referidos 
alguns, na sua fundação, viviaõ ja em paz por este tem- 
po com os PortuguezeSj mas ainda naõ aggregados ao 
grémio da Igreja, e a estes se lerminavaõ as visitas do 
Servo de Deos Fr. Pedro. Alli se detinha entre elles al- 
guns dias, cathequizando a huns, bautizando a outros, 
em especial aos meninos, e crianças, e fazendo em to- 
dos admiráveis fructos de conversão ; e este era hum 
dos maiores empregos do seu abrazado, e Apostólico 
zelo. Elle foy o primeiro Pregador, e Annunciador do 
Santo Evangelho, que liveraõ os Gentios desta Capita- 
nia, na qual elle só por muitos annos foy o maior ins- 
trumento da conversão de muitos, naõ só para a Igreja, 
também para a mais fixa, e verdadeira amizade com os 
Portuguezes ; porque, supposto que ja quando no anno 
de 1558, chegou ao Espirito Santo Fr. Pedro, tinhaõ 
nesta Yilla huma Residência os PP. Jesuítas desde o 
anno de 1551, e nella Religiosos de assistência, haven- 
do alguns sette annos, ainda naõ haviaõ até este tempo 
dado principio á conversão do Gentio. Naõ he discurso 
este da nossa vontade, he expressão de duas testimu- 
nhas, que assim o expõem com esta explicação no ins- 
trumento juddico, que ja dissemos se tirou na mesma 
Villa. He a primeira. Amador de Freitas, Capitão da 
Âldea de Reretiba, e morador em Villa Velha, de idade 
de sessenta e nove annos: — Disse que conhecera ao P. 
Fr. Pedro Religioso Leygo, da Ordem de S, Francisco^ 
haverá cincoenla annos, nesta Capitania, o qual era tido 
de todos por Varaò Santo, e de muito exemplar vida, 
andando pelas Aldêas desta Capitania, aonde ainda en- 

JABOATAM. VOL. 11. Ô 



taò naò residiab Padres da Companhia, e bauiizava, e 
doutrinava aos Índios , ensinando outro sim a doutrina 
Càristãa pelas ruas, ele. A segunda he Nuno Rodri- 
gues, morador na Villa do Espirito Santo, liomeni de 
idade de cento e dous annos, e adverte a leitura do la! 
instrumento, que lendo Ioda esta idade, estava em seu 
juizo perfeito^ e andava ainda pelas ruas por seus pés, 
iè bem disposto, indo lodos os dias ouvir Missa^ e Ira- 
lando com quem lhe convinha: — Disse, que conheceo 
aqui na Villa do Espirito Santo ao P. Fr, Pedro Reli- 
qwso Leygo da Ordem de S. Francisco, haverá cinco- 
enta annos, ao qual tratou particularmente, e lhe disse 
que era Castelhano de Naçaõ, natural de Medina do 
Rio Secco, perto de Salamanca, e ovio ordinariamente 
andar pelas ruas, ensinando a doutrina Christãa aos 
meninos, e a todos, e o mesmo hia fazer pelas A Idêas 
dos índios, aonde ainda naò residiaò Religiosos da 
Companhia, senaõ aqui na Villa, e lã nas ditas Aldeãs 
bautizava aos índios ^ que se convertiaò á Fé Catholica, 
e era muy zeloso da salvação das almas. Este he o dito 
destas duas teslimunhas, acazo expressado por ellas, e 
muito a propósito para justificar, que se Fr. Pedro naõ 
loy o primeiro Religioso, que chegou á Capitania do 
Espirito Santo, porque antes delle chegarão outros; foy 
o primeiro Pregador, e Annunciador do Santo Evange- 
lho, que deo o conhecimento da Fé, e luz da verdade 
Catholica ao Gentio da terra; porque naõ perdessem os 
Filhos de Francisco esta Primazia nas Conquistas do 
Brasil, ainda quando naõ saõ os primeiros, que a ellas 
chegaõ. 

41. Naõ só os Índios das Aldeãs, e moradores das 
Villas do Espirito Santo, e Victoria, [íarticipavaõ da sau- 
dável doutrina do Servo de Deos, laml)em sahia a com- 
municar este espiritual pasto aos Colonos Catholicos de 
outros Lugares, e Povoaçoens visinhas. A huma cha- 
mada o Engenho dcTocoari, visitava mais vezes, e quei- 



43 

xaiulo-se-lhc os moradores de padecerem continuada- 
mente o achaque de febres, e sezocns, pela humidade, 
e intemperança do sitio, de que perigavaõ huns, e ou- 
tros ficavaõ com os ruins efíeitos, que este impertinente 
mal, a que chamaõ vulgarmente maleitas, costuma dei- 
xar, e das quaes morriaõ muitas crianças; lhes dizia 
Fr. Pedro, com a sua santa singeleza, e graça divina de 
dizer : Quereis que o mal fuja do Lugar, fazei aqui huma 
Capellinha de S. Francisco, que ha de o Santo alcançar 
de Deos, e permittir o Senhor, que este inimigo naõ 
possa tornar aqui, nem vos ha de perseguir. Isto lhes 
dizia algumas vezes o Servo de Deos, e elles assim o vi- 
eraõ a experimentar; porque feita com brevidade a Ca- 
pellinha do Santo Palriarcha, desde entaõ até o pre- 
sente, nenhum mais enfermou daquelle achaque. 

42. Em certa monção chegou ao Porto do Espirito 
Santo hum Navio de Lisboa, e topando-se o Servo de 
Deos com Gomes de Ávila, que alli morava, lhe per- 
guntou se tivera boas novas do Reyno, (era este homem 
de lá natural,) edizendo-lhe que sim, accrescentou Fr. 
Pedro, e que feito ha de humas velas, que sua Mãy man- 
da para Nossa Senhora? Ao que o homem respondeo, 
naõ sabia de tal ; e Fr. Pedro lhe tornou, que sua Mãy 
mandará do Pieyno humas velas para a Senhora da Pe- 
na : e assim era, porque elle as entregou depois; e ad- 
verte este mesmo, como lestimunha, que o naõ havia 
dito a alguém ; para que com as mais graças, e dons da 
sua alma, mostrasse, lhe tinha Deos communicado tam- 
bém o conhecimento do passado, e ainda a previsão do 
futuro no que se segue. 



44 
CAPIVIJIiO ILII. 

Do santo fim, e fama gloriosa do Servo de Deos Fr. Pedro de Palácios, 
e trasladação dos seus ossos. 

43. Gora estas, e outras obras admiráveis do seu es- 
pirito, com o exemplar da sua vida^ e a grande cliarida- 
de para com os próximos, era o Servo de Deos Fr. Pe- 
dro tido por todos que o conheciaõ, e tralavaõ, por Va- 
rão de Deos, iiomem santo, e como tal querido, e vene- 
rado daquelle Povo, com muito singular, e reverente es- 
timação : e tudo isto lhe quiz coníirmar o mesmo Senhor, 
concedendo ao seu fiel Servo o conhecimento anticipado 
da sua morte. Alguns dias antes, sahindo eile do retiro 
do monte á Villa, ao despedir-se de alguns seus devo- 
tos mais particulares, perguntando-lhe estes, quando 
havia tornar, lhes respondeo, que lhe parecia naõ tor- 
nar mais alli. E porque elles mostrarão entender que 
fallava assim com intelligencia de ser chegado o tempo 
da sua morte ; lhes tornou dizendo, que elle havia pe- 
dido a Deos, que o naõ matasse em quanto naõ fizesse a 
festa da Senhora da Pena ; e assim aconteceo, por que 
fazendo-se na Segunda feira a festa da Senhora, na 
Quarta desceo do monte á Villa o negrinho, que com 
elle assistia, com a noticia de que o P. era fallecido. 

44. Concorreo para o Monte em numeroza muUidaõ 
o Povo da Villa, e acharão o seu cadáver de joelhos, en- 
costado ao Altar da Capellinha de S. Francisco, sua com- 
múa habitação, com as mãos levantadas ao Ceo, como 
quem orava, e para onde podemos crer voara sua alma, 
e junto a elle o animalsinho gato, seu fiel companhei- 
ro : com lagrimas, e suspiros, e hum geral sentimento 
de todos, depois de lhe beijarem enternecidos os pés, 
lhe deraõ sepultura no Alpendre, ou copiarsinho da 
Hermida da Senhora da Pena, junto ao portal, que en- 
tra para ella, aos dous de Mayo do anno de mil qui- 
nhentos e settenla. 



45 

45. Por morte do Servo de Deos Fr, Pedro, confor- 
me consta da Escritura ja referida da doaçaõ da dita 
Gapella aos Religiosos Menores, ficaraõ com a adminis- 
tração delia os Donatários da terra, e para o cuidado, e 
culto os Irmãos da sua Confraria, sendo o principal des- 
tes hum Nicolao AíTonso, homem rico, e particular de- 
voto de Fr. Pedro, a quem sendo ainda vivo o Servo de 
Deos havia rogado com instancia tomasse a seu cargo a 
Capellinha da Senhora para a melhorar de fabrica, e 
accrescentar de obra ; e este mesmo devoto, depois da 
morte de Fr. Pedro, naõ se esquecendo do que lhe ha- 
via pedido elle, fez de novo a Capellinha da Senhora na 
forma em que estava, quando se entregou aos nossos 
Religiosos. Assim o depõem algumas das lestimunhas 
do referido summario da sua vida. Esta reforma da Ca- 
pellinha se fez no mesmo lugar da primeira, sem mu- 
dança mais que na perfeição da obra. 

46. Passados trinta e nove annos (1609), sendo Pre- 
lado mayor desta Custodia, segunda vez, o Irmaõ Fr. 
Leonardo de Jesus, como zeloso de que a memoria do 
Servo de Deos Fr. Pedro ficasse mais viva no coração 
dos seus devotos, e confiado em que sem duvida o Se- 
nhor para a conservar firme nos vindouros, naõ deixa- 
ria de o mostrar com os novos prodígios na trasladação 
dos seus ossos, ordenou ao Guardião do Convento da 
Yilla da Vicloria Fr. António da Estrella, fosse á Iler- 
mida da Senhora da Pena, e delia os trasladasse para o 
dito Convento. Aos dezoito de Fevereiro de mil seis- 
centos e nove, o Guardião com alguns Religiosos mais 
passarão da Victoria para a Penha, e aberta a sepultura 
do Servo de Deos, delia foraõ tiradas as suas Relíquias; 
os ossos limpos, e a calvaria com os seus miolos intei- 
ros, e seccos, sem corrupção alguma, hum pedaço do 
cordão, e outros do habito. 

47. Huma memoria, que vimos, tirada do Archivo 
de Santo António de Lisboa, escreve, que no cuidado 



ft6 

de se fechar esta sepultura se gastarão três dias, diligen- 
cia sem duvida escusada; porque a mesma diz, como as- 
sim he, que o corpo da Capellinha está lodo em rocha 
viva ; e só no Alpendre, ao entrar da porta principal da 
mesma Capellinha, havia huma gruta a modo de sepul- 
tura *, que ao fazer da Capella se encheo de terra, e 
nesta he que foy metido o seu corpo, para elle sem du- 
vida guardada pela Providencia desde o principio ; pois 
naquelle coruchéo, ou Penha superior, onde está fun- 
dada a dita Capella, por ser, como fica dito, toda em pe- 
dra viva, naõ havia mais terra que esta, com que se en- 
cheo aquella gruta, ou cova ; e assim era impertinência 
buscá-la em outra parte. Também tinha pouco que es- 
quadrinhar esta sepultura, pois era taõ patente; e naõ 
havendo ainda quarenta annos completos da morte do 
Servo de Deos, e muitas pessoas vivas, que assistirão ao 
seu enterro, e a fama dos seus prodígios, que a naõ po- 
diaõ ler muito oculta, sendo alli continuamente buscado 
para as suas necessidades, pelos de fora, e da Villa. Ou- 
tro registro havia mais notório para se naõ duvidar onde 
jazia o corpo do Servo de Deos, e era a campa, ou pe- 
dra, que sobre ella estava assentada, e com a inscrip- 
çaõ, que logo veremos. O certo he, que na diligencia 
de se achar a sua sepultura, se naõ pôs cuidado algum. 
Mayor o devia haver em se executar aquelle acto com 
mais cautela ; mas, ou fosse beneplácito do Senhor, para 
mayor credito do seu Servo, e confirmação da sua santa 
opinião, e boa fama, ou porque se naõ cuidasse no seu 
resguardo, o concurso do Povo foy igual á sua devoção; 
porque se achou o monte occupado de toda a sorte de 
gente sem distinção de pessoas. De todos foraõ venera- 
das, com lagrimas de devoção, e júbilos da alma, as de- 
funtas Relíquias, naõ como despojos tristes da morte em 

* Hist. Seraf., t. 4, p. 48, n. 91. 



47 

commum ; mas como insígnias gloriosas da imraortàli- 
dade, e bemaveuturança nos juslos. 

48. Entre tantos alvoroços de prazer, e alegria, naõ 
deixou de haver algum dissabor, ou desconsolação es- 
piritual naquelle Povo da Yilla Velha, do Espirito Santo, 
que com lagrimas, e razaô rogavaõ aos Religiosos, os 
naõ quizessem absolutamente privar de hum tal thesou- 
ro, do qual por tantos annos estavaô de posse, e de que 
para o lograrem tinhaõ da sua parte o beneplácito de 
Deos, que de taõ longe trouxera á sua terra aquelle 
bem, o serviço, e honra da Senhora, em que elle tanto 
se havia esmerado em sua vida, e com assistência do 
seu corpo alli seria continuado com o mesmo affecto de 
todos, e á vontade do Servo de Deos, que nelle quiz es- 
colher o descanço para o seu corpo* 

49. A estas arrezoadas queixas do devoto Povo, sa- 
tisfez facilmente o Prelado, com o discurso, de que o 
primeiro intento dos Religiosos naõ era priva-los da- 
quelie bem, e consolação, era sim perlenderem dar 
áquelles venerandos ossos mais decente jazigo, e tê-los 
em sua companhia, naõ só como a despojos communs 
de Irmaõ, mas para a decência, e culto devido aos me- 
recimentos do Servo do Senhor, o que tudo se conse- 
guia melhor no Convento da Villa da Victoria, onde, co- 
mo era mayor, e mais frequente o concurso do Povo, 
também seria mais publica, e continua a veneração das 

í^^ suas Relíquias, das quaes deixaria alli também algumas, 
para desaíTogo, e objecto da sua piedade, do que naõ 
consta, se assim como se prometteo fora executado. 
Com isto se deraõ por satisfeitos, e com novos alvoro- 
ços de devoção se fez aquelle acto de transferir os ossos 
do Servo de Deos do Monte da Penha para o Convento 
da Victoria, sendo levados em procissão solem ne aos 
hombros dos principaes do Povo, com hum numeroso 
concurso de ambas as Villas, entre muitas luzes, e cân- 
ticos sagrados, e recolhidos em hum Tumulo de pedra 



48 

lavrada ua Capella do Seráfico Doutor S. Boaventura, 
deixando para memoria de que a sepultura da Penha 
fora jazigo primeiro do corpo de Fr. Pedro de Palácios, 
sobre ella a mesma campa de pedra, que antes linha, 
e que ja apontamos com a seguinte inscripçaõ : 

Sepultura do Santo Fr, Pedro Palácios, natural do 
Rio Secco em Castella, fandmlor desta Ilermida, 
que assim na vida, como depois da morte^ floreceo 
com milagres, Falleceo na Era de 1570. 

50. Assim como naõ quiz o Senhor que a trasladação 
dos ossos do seu Servo se fizesse com o silencio, que se 
devia; assim permitlio que ao toque delles se renovasse 
na terra a fama dos merecimentos, que lograva no Geo. 
Achava-se gravemente enfermo de febres continuas o 
Irmaõ Ghorista Fr. Joaõ dos Anjos, era o mesmo Con- 
vento da Villa da Victoria, e tendo tomado alguns remé- 
dios sem eífeito, lhe aggravavaô mais o achaque ; e indo 
naquelle mesmo dia o Guardião aonde estava o enfermo, 
e levando hum dos ossos do Servo de Deos, lhe lançou 
ao pescoço, advertindo-lhe, que se encommendasse 
com fé viva a Deos na protecção do seu Servo, e que 
esperasse ler melhora, a qual o enfermo logo conse- 
guio. Com a fama deste prodígio concorrerão logo ou- 
tros vários, a pedir Pieliquias dos ossos, que sendo-lhes 
dadas, sararão todos. Na mesma occasiaõ Duarte de 
Albuquerque de huma enfermidade grave, que se naõ 
explica no processo : e nos dias seguintes, Joaõ Gon- 
çalves, a mulher de Lourenço AíTonso, e huma menina 
sua, e Gomes Fernandes, lodos estes, e outros mais, 
por depoimentos seus próprios, e de varias testimunhas, 
sendo huma destas Fr. Joaõ da Assumpção, que de- 
põem o milagre do Religioso enfermo, sendo elle nesta 
occasiaõ o Presidente do Convento da Victoria, e pre- 
senciou o cazo. Todos estes e outros similhautes cons- 



49 

iaõ por depoimento das teslimuuhas referidas no alle- 
gado Instrumento, sendo três destes o mesmo Lourenço 
Affonso, Gomes Fernandes, e Fr. Joaõ da Assumpção, 
o qual, álòm da milagroza saúde do Religioso enfermo 
no Convento da Victoria, depõem que achando-se de- 
pois assistente no do Rio de Janeiro, indo em hum dia vi- 
sitar a Gaspar da Cunha, que se achava enfermo grave- 
mente de febres na Cidade, em caza de Ballhazar de Se- 
rás, e pedindo o enfermo ao dito Padre algumas Relí- 
quias do Servo de Deos Fr. Pedro, que ouvia dizer 
obrava com ellas muitos prodígios, e lançando lhe huma 
ao pescoço, que era dos seus ossos, em continente ficou 
livre o enfermo daquelle mal. De outros simílhantes di- 
zem as mesmas testimunhas ouvirão fallar obravaõ os 
ossos do Servo de Deos, sarando com applícaçaõ delles 
muitas pessoas de varias enfermidades, e especialmente 
de febres, e sezoens, de que o Servo do Senhor, na- 
quella Capitania, he particular advogado, tomando dos 
seus ossos algumas Relíquias desfeitas em agua, ou tra- 
zendo-as ao pescoço. Com estes prodígios, e maravi- 
lhas, quiz confirmar o Senhor os merecimentos do seu 
Servo, pelos quaes naõ só nos certificamos da bemaven- 
turança da sua alma no Ceo, mas também a de o poder- 
mos venerar na terra entre os Varoens Santos, como a 
hum delles; porque he certo que os milagres e prodígios 
nos Servos de Deos, se a naõ fazem, mostraõ nelles a 
sua santidade. A esta podemos por concluzaõ ajuntar 
o grande teslimunho de outro Servo do mesmo Senhor, 
o seu grande Operário nesta mesma vinha do Brasil, 
o Venerável Padre Jozé de Anchieta, da Sagrada Com- 
panhia de Jesus, que em huma carta sua escrita no anno 
de 1572, e se guarda em Coimbra no Cartório do seu 
CoUegio, diz estas palavras, faltando de Fr. Pedro de 
Palácios : ^ Varaò Evangélico, que viveo, e morreo san- 
tamente, 

* Agiol. Lusit., t. I, p. iíoí), lit. g. no Commcnt. a 18 de Fever, 

JABOATAM. VOL. II. 7 



50 
CAPlTlJIiO XIII. 

thi outros Missionários Seráficos, que por estes tempos vieraõ ter á Bahia, 
S. Paulo, e Pernambuco, e do que obrarão nestes lugares. 

51. Sem nos assignarcQi tempo, nem o como, nos 
dizem algumas noticias viera ter á Cidade da Bahia iuim 
Religioso da Seráfica Família. Foy taõ bem acceito do 
seu Povo, e liie sérvio de tanto aproveitamento para as 
suas almas, e utilidade espiritual de todos, que reco- 
nhecidos a este beneficio, e em gratificação delle, e do 
amor, que lhes tinha, querendo perpetuar naquella Ci- 
dade a sua companhia, o ajudarão a edificar huma Ca- 
pellinha em honra do seu Seráfico Patriarcha, em que 
viveo, e assistio, o tempo^ que com elles tratou, de que 
naõ ha certeza também ; mas que nella lhes administrava 
os Sacramentos da igreja, nelle busca vaò a sua espi- 
ritual consolação, e dalli sahia, depois de lhes pregar 
as verdades Calholicas, a vizitar os enfermes, a commu- 
iiicar-lhes outros bens, e allivios para as suas almas, 
e conforto de outras tribulaçoens desta vida. Naõ acha- 
mos deste Religioso mais individual noticia, e só que 
vindo depois os nossos fundar Convento a esta Cidade*, 
rejeitando o sitio que lhes davaõ, chamado o Monte Cal- 
vário, onde hoje esta o dos Religiosos Observantes do 
INossa Senhora do Carmo, fizeraò eleição do lugar, e 
GapellJnIja de S. Francisco, residência primeira deste 
Apostólico Missionário, ( o qual diz o Cartório desta 
Provincia no titulo da Caza da Bahia, era o tal Reli- 
gioso de Naçaò llespanholj aqui deraò principio á sua 
fundação, com o mesmo titulo do Seráfico Patriarcha, 
que he o próprio lugar, onde ao presente eslá o Con- 
vento. 

5^2. Outros dous Religiosos Menores vieraõ por estes 
tempos, salvos de hum naufrágio, tomar terra na Ilha, 

'■ GonzHií. fipnri.?. Ser. Ilclig., p. í; p. 1302. 



#. 



51 

que por cslc sucresso chaniaõ dos Frades, no Recôn- 
cavo da mesma Bahia, sello le^oas á parle do Norte^ 
onde, com outros Portugnezes, íbrau comidos pelo Gen- 
tio da terra. 

53. Na volta que fazia o General Diogo de Flores 
Baldes do Estreito de Magalliaens (1583), aonde fora 
com armada por ordem de Filippe í em Portugal^ to- 
mando o porto de S. Vicente^ três, ou quatro Religiosos 
Castelhanos, que comsigo trazia, saltarão em terra, e 
suppondo teria o General alli detença larga, arrebata- 
dos de vehemente impulso, e fortaleza de espirito, cora 
dezejos de se empregarem na conversão do Gentilismo, 
deixando os Lugares vizinhos a S. Vicente, c subindo 
as fragozas Serranias da Piralininga, buscarão a Villa 
de S. Paulo, hoje Cidade populoza, e Capital de toda a 
Província de S. Vicente, e Santos, e a pouca distancia 
da sua povoação, na Hermida da Senhora da Luz, as 
margens do Rio Guaré fizeraõ pausa das compridas jor- 
nadas, que traziaõ, e deraõ principio á sua Missão, qna 
este era o destino, que os trazia da Europa a estas par- 
tes. Aqui, para onde os guiou maior providencia, cum- 
prirão a vontade do Altíssimo, exercitando-se na con- 
versão dos naturaes Índios, e outras obras de charidadc 
com os seus habitadores no decurso de dous annos, que 
alli assistirão. 

54. A hum destes, de profissão Leygo, e no zelo Apos- 
tólico, chamado Fr. Diogo, de vida exemplar, e santa 
simplicidade, quiz dar o Geo aqui mesmo, o que ne- 
gou aos outros. Era o seu commum exercício, com a re- 
feição espiritual, que communicava a todos, tirar tam- 
bém as esmolas para suslentar-se a si, e aos companhei- 
ros. Neste trabalho lhe sobreveyo o encontro de certo 
homem, que sendo na milícia soldado razo, era por blas- 
femo ministro do Inferno, perjuro á Ley de Cliristo, e 
publico diffamador do estado Ecclesiastico, com escân- 
dalo notável do Povo, c oftensa grave de Dcos. Acazo 



52 

se achou Fr. Diogo a huin acto destes, andando na peti- 
ção das suas esmolas^ ou porque chegasse ja em occasiaõ 
que o homem estava neste máo, e continuo exercício, ou 
porque o tal o buscasse de propósito, pelo ver Religioso 
de boa fama, e conhecida virtude, iuvrja que commum- 
menle causa nos máos o exemplo dos bons. Como hum 
destes, ezelozo da fama do próximo, da veneração, que 
se deve ao estado Ecclesiaslico, e muito mais daquella 
alma taõ perdida, com palavras humildes, mas profun- 
das, com admoestação severa, mas amoroza, advertio ao 
blasfemo o mal que fazia, pedindo-lhe da parte de Deos^ 
que o naõ oífendesse taõ gravemente, que tivesse emen- 
da daquelle enorme defeito, e naõ quizesse ver execu- 
tado em si hum exemplar, e rigorozo castigo da pode- 
roza maõde Deos, como o haviaõ experimentado outros 
por similhante culpa. Mas aquelle perdido homem^ 
cheyo de hum furor infernal, mais accezo em ira de vin- 
gança, naõ só continuou na pratica do seu erro, tambem^a 
ameaçou com a morte temporal ao que da eterna o per- 
tendia livrar. 

55. Seguem os vicios na opposiçaõ, ás virtudes ; e 
assim como estas vaõ humas atraz das outras, até subi- 
rem o Justo ao mayor cume da perfeição ; assim aquel- 
les, huns arrastão aos outros, até porem ao peccador 
110 ultimo despenhadeiro da maldade. Era o homem, 
sobre blasfemo, facinorozo, e hum aggregado de abomi- 
nações ; e estas o levaraÕ ao ultimo precipicio, que leve 
de mais aggravaute, o ser muy considerado. Porque ao 
outro dia recolheu-se Fr. Diogo para a sua Estancia da 
Ilermida da Senhora da Luz^ com a esmola, que havia 
tirado, á margem de hum Regato, que entre ella, e a 
povoação corre, lhe sahio ao encontro o perverso sol- 
dado, e depois de aíTrontar ao bom Religioso com mui- 
tas injurias, e opprobrios, que elle ouvia alegre, e com 
os joelhos em terra, e as mãos levantadas aoGeolhe 
pedia perdaõ, de que se desse por aggravado do que lhe 



5;^ 

havia dito para seu bem, com repelidos golpes, e liior- 
laes feridas lhe tirou a vida. 

56. Causou no Povo particular sentimento a sua 
morte, tanto pelo desastrado della^ como pelo amor que 
tiuhaõ áquelle Religioso. Seu corpo foy conduzido pelo 
R. P. Preposito da Sagrada Companhia, com grande 
concurso de toda a Villa, e no seu Collegio com Iodas as 
honras foy sepultado. 4'lém do que suppomos deo o 
Seuhor á sua diloza alma no Geo, pelo particular zelo, 
com que defendeo a sua honra, e dos seus^ quiz também 
mostrar na terra, por virtude do seu corpo, o premio 
dos seus merecimentos ; porque ceria mulher da mes- 
ma Villa, tendo ja desesperado dos remédios humanos 
para hum fluxo de sangue, que havia muitos annos a 
molestava mortalmente, recorreu aos Divinos, por meyo 
do Servo do Senhor Fr. Diogo : e indo á Igreja do Col- 
legio, sentando-se com grande confiança sobre a sua se- 
pultura, se levantou do lugar sãa, e livre da fatal molés- 
tia, accrescentando-se com este prodígio a opinião, e 
boa fama da santidade, e virtude daquelle Rehgioso, que 
sem duvida estará rubricado com o seu innocente san- 
gue em o numero dos Marlyres do Senhor. De todo o 
referido tirou hum summario aulhentico o M. R. P. 
Provincial de Nossa Senhora do Carmo Fr. Jeronymo, 
do qual nos naõ dá mais conhecimento quem escreveo 
esta noticia, nem tampouco do anno em que aconteceo 
a morte deste Religioso, nem o em que se tirou aquelle 
processo, e adonde se guarda, ou porque via, e como 
lhe veyo a noticia delle. 

57. Pelos annos de mil quinhentos settenta e selte, 
estando de assistência na Ilha da Madeira o P. Fr. Ál- 
varo da Purifjcaçaõ da Regular Observância de Portu- 
gal, e sendo chamado ao Reyno pelo seu Provincial o 
R. P. Fr. Diogo de Geráes; por impulso devemos con- 
trários foy ter ao Porto de Pernambuco, e Villa de Olin- 
da. Era Pregador dos famosos de seu tempo, e esta pre- 



54 

rogativa, germanada com o sen grnnde espirito, e zelo 
da salvação das almas, conciliou de tal sorte a vontade 
daquelle Povo, que naõ podendo consentir se auzenlassc 
delles, lhe rogavao, quizesse ficar em sua companhia^, 
eacceitar para asna Ecligiaõ fundar alli Convento, para 
o que lhe oíTerecia p, on mostrava dezojo disso, huma 
devota mulher, chamada Maria da Roza, a Igrejinha, e 
Gaza da Senhora das Neves, que havia fundado, com 
intentos de a dar aos Religiosos Seráficos, quando alli 
chegassem, como depois o fez aos nossos l^adres Refor- 
mados. Naõ podia o P. Fr. Álvaro por si só fazer aquella 
acceitaçaõ, e assim a propôs aos seus Prelados, dos 
quaes naõ só teve repulsa a sua proposta, mas junta- 
mente preceito para que voltasse á sun Província ; o que 
executou, deixando com o hom exemplo da sua vida, 
sohrc edificados muy saudozos aquelles moradores. 

Dá-se principio ao breve resumo do que mais ohraraõ os Religiosos Menores 
nas partes do Brasil desde o anno de ioSo, até o presente. 

58. Assim foraõ continuando nesta espiritual Con- 
quista os 1'rades Menores até que no anno de 1585 dei- 
xando ja de ser luzes errantes neste novo Orhe, se fize- 
raõ nelle Estreitas fixas, com a posse, e fundação do 
seu primeiro Convento em a Vilbi de Olinda, e dilatan- 
do-se daqui para o Norte desde a Capitania até a do 
Rio de Janeiro ao Sul, fundarão nesta distancia, que 
comprehende mais de trezentas legoas de Costa, vinte 
e dous Conventos no decurso de seltenta e cinco annos, 
desde o de 1585, em que se fundou o primeiro em 
Olinda, até o de 1660, no qual se lhe pôs o fim com o 
da Alagòa, que foy o ultimo, tálèm de muitas Missoens, 
ou Doutrinas pelos Lugares mais remotos, c desertos 
dos Sertoens, das quaes, depois de separada a do Rio 



55 

de Janeiro clcsla Província, ainda conserva Ireze dellais, 
distando algumas peio Rio de S. Francisco acima cem, 
duzentas, e trezentas Icgoas, com as quaes fundaçoens 
se foy continuando com o espiritual cultivo desta Con- 
quista, cora o fructo, e aproveitamento de tanta raulli- 
(laõ de almas, assim dos mesmos Catliollcos, como de 
innumeraveis Gentios, convertidos á Fé, aldeados, e 
imbuídos nos dogmas da Igreja, e conservados nellaj ú 
custa de fadigas, trabalhos, e ainda perseguiçoeus, iiaâ 
só dos Bárbaros, em que alguns dos Religiosos perde-' 
raõa vida, como fica referido, lambem com detrimeDlo 
da reputação, e credito, aborto da inveja de pessoas,- 
que pelo seu estado naõ estavaõ menos obrigadas a ía-^ 
zer boa sociedade ao cultivo desta seara, que á conser- 
vação reciproca, e Religiosa uniaõ, |)ara o seu mayor, 
e espiritual augmenlo, sem attençaò, ou só respeito aa 
temporal, de que os Frades Menores, por sua profissão, 
naõ tem cuidado, e só como o mostrarão sempre, da 
conservação, e aproveitamento es|3Íritual do Bárbaro 
Gentio. Destas contradições lhes sobrevieraõ logo al- 
gumas ao segundo, e terceiro anuo da fundação de O- 
linda, crescerão com excesso nos seguintes na da Paraí- 
ba, e se augmentaraõ cm grande maneira mais adiante 
na de S. Paulo. Das que houve em Olinda, tocarcoios 
em seu lugar, por serem de menos escrita, e ficarem lá 
mais correntes» Das outras, como mais diflusas, c de 
mayor vulto, e nos naõ embaraçarem depois o fio da 
historia, as pomos neste lugar. E porque naõ pareça 
que escrevemos com penna apaixonada, ou encarecida, 
iremos trasladando, adonde for necessário, o que j )or 
outras achamos escrito em quanto ao muito que li*a- 
balharaõ, e padecerão os Religiosos Menores, sobre 
a doutrina dos Gentios naquelles primeiros temp<os, 
nos seguintes Relatórios, feitos por Religiosos contem- 
porâneos a elles, e que presenciarão o que escreveijn* 



56 
RELATÓRIO I. 

Do que passarão os Religiosos Menores na Paraíba sobre as 
doutrinas dos índios. 

59. Primeiramente, depois qne Fr. Melchior de Santa 
Catharina veyo a estas parles do Brasil, entendendo o 
mnito fructo, que os Religiosos nellas fariaõ, e grande 
serviço a Deos Nosso Senhor, assim pela falta, que cá 
havia delles, como também pela particular devoção, que 
havia provado cora a continuação de alguns annos, que 
haviaõ passado, insistindo em a petição, a qual como 
vissem cumprida, pertenderaõ Geassem os Religiosos em 
a terra, para cujo eíTeito os ajudarão com suas esmo- 
las para se nizer Caza. O que Fr. Melchior vendo, como 
digo, enviou a Fr. Francisco de S. Boaventura ao Rey- 
no (1587J a pedir Religiosos para jiovas povoações. 
E como os Religiosos, que trouxe o dito It. Melchior, 
eraõ poucos, só pertendeo as duas principaes do Estado, 
que eraõ a Bahia, e Pernambuco. Sem embargo, que 
todas as mais pediaõ com muita instancia Religiosos, a 
que se satisfazia com esperanças dos que viessem. Neste 
meyo tempo (1588) chegou Fr. António de Gampo- 
Mayor com mais cinco Religiosos, Eraõ ja cá recebi- 
dos alguns Noviços, e feito Profissão, pelo que se via 
copia para poderem prover outras partes. Principiava- 
se neste tempo huma povoação em a Paraíba terra del- 
Rey, á qual por recado de Filippe I se haviaõ mandado 
Religiosos, (1589J assim para morarem em a Cidade com 
os brancos *, como também para doutrinarem os índios, 
e os instruírem em a Santa Fé. E posto que ja os PP. 
da Companhia tinhaõ Igreja em huma Aldêa do Braço 
de Peixe, todavia, ficavaõ cinco, que nunca os ditos 
Padres quizeraõ acceitar; as quaes, tanto que viraõ os 

* Fr. Melchior. 



57 

nossos Religiosos, de suas próprias vontades, sem os 
ninguém constranger, pedirão, qiieriao que nós os dou- 
trinássemos, declarando, que posto que ao presente, 
pela continuação das guerras, que entre mãos traziaõ, 
elles se naô podiaõ logo fazer Cliristãos, que lhes dou- 
trinassem seus filhos, que elles pelo tempo tariaò o que 
os Religiosos quizessem ; e isto, porque o nosso modo 
lhes parecia muito accommodado ao que pregávamos, 
dizíamos, e pertendiamos ; convém a saber salvar almas, 
nem fazermos cazo das cousas da terra, Abalaraõ-se os 
índios doutrinados pelos Padres da Companhia, e pedi- 
aõ-nos também os quizessemos doutrinar; o que naõ 
quizeraõ os nossos Frades acceitar, antes lhes disseraõ, 
tinhaõ^bons Pastores; mas que a outros^, que naõ tinhaõ 
doutrina, elles acceitariaõ: e fazendo logo Igrejas, os 
começarão a doutrinar com muito applauso, assim dos 
mesmos índios, como também dos brancos, que sum- 
raamente se alegravaõ com isso, por entaõ se terem por 
seguros ; porque até áquella hora estavaõ muy receo- 
sos de os ditos índios se irem para os Sertoens, e os 
deixarem em poder dos seus inimigos, e com islo fica- 
rão seguros, e entregando os P^lncipaes os filhos aos Re- 
ligiosos para a certeza do que diziaõ. (1590). Era laõ 
grande a alegria dos índios, que quando os Religiosos 
hiaõ de humas Aldeãs para outras, muito longe os sa~ 
hiaõ a receber com danças, assim homens, como mu- 
lheres, varrendo os caminhos por onde elles haviaõ pas- 
sar, pondo-se de joelhos para lhes tomarem a benção, 
chamando-lhes pela sua linguagem Padzu que quer di- 
zer, Pay, ou Pays. Em o primeiro ajuntamento, que 
fizeraõ, (1590J todos os Principaes em terreiro, tratan- 
do, que pois elles, como ja tinhaõ dito, naõ podiaõ con- 
responder com as obrigaçoens da Igreja, que ja tinhaõ, 
entregassem seus filhos aos Padres, pára o que manda- 
rão chamar ao Guardião Fr. António de Campo-Mayor, 
e depois de darem muitos agradecimentos, e mostras 

JÂBOATAM. VOL. II. 8 



58 

€om palavras de alegria, que recebiaõ, se desculparão 
de logo naõ desistirem de seus rilos ; mas, que daquella 
hora por diaute lhes haviaõ por entregues seus filhos, 
pedindo lhos ensinassem, e castigassem, como faziaô 
aos filhos dos brancos. Gontinuou-se neste exercicio 
dous annos (1593J, naõ se fazendo força, mais que aos 
moços, fazendo doutrina publica pela manhãa, (dita pri- 
meiro Missa muito cedo) e á noite. AtTeiçoaraõ-se tanto 
os filhos aos Frades, que em nenhuma maneira se apar- 
tavaõ delles, e tanto^, que quando, em razaõ de doutri- 
narem os outras Aldeãs distantes, os Religiosos se aba- 
lavaõ da caza, que tinhaõ em as fronteiras, todos se 
hiaô apôs elles; e juntamente com isto incitavaõ aos 
Pays, até que os obrigavaõ a juntamente com elles irem 
á doutrina, em forma que em menos de seis mezes, naõ 
ficava velho, homem, ou mulher^ que todos os dias naõ 
fossem á doutrina. Logo começarão alguns a pedir o 
BautismO;, a que se naõ deferio, por algumas razoens. 
A primeira das quaes foy, para com mais dezejo^ e an- 
ciã o pertenderem; a segunda, porque ainda havia pouco 
tempo que tinhaõ comido carne humana. Assim os fo- 
raõ entretendo dous annos, em cujo tempo mais crescia 
o fervor, naõ obstante que neste meyo tempo nenhum 
índio morreo, que naõ fosse Ghristaõ baulizado in ex- 
tremis, cujas mortes naõ menos causavaõ de alegria em 
os Ministros dos Sacramentos, que inveja; do que re- 
sullavaõ grandes louvores, que todos davaõ a Deus Nos- 
so Senhor, vendo-se mais isto em os brancos, que co- 
nheciaõ a soberba arrogância de muitos Principais, os 
quaes^ vivendo em sua Gentilidade, tinhaõ senhoreado 
muitas povoaçoens de seus inimigos, pondo a ferro, e 
fogo todo o género de gente contraria^ e por derradeiro 
em a hora da morte tanto arrependimento, pedindo a 
Deos perdaõ, e juntamente o Baulismo, passa vaõ desta 
vida; naõ uzando ja em seus enterramentos de suas 
costumadas brutalidades. Era tanta a fé;, que tinhaõ em 



59 

os Religiosos, qne á hora de sua morte lhes encommen- 
davaõ suas mulheres, e filhos, para que elles os cazas- 
seni, encommendando-lhes^ nada fizessem sem seu pa- 
recer, e mandado. Naõ parava isto aqui^ senaõ que 
ainda em soas contendas se punhaõ em as mãos dos Pa- 
dres; e quando hum mnito apertado, e affrontado se via 
com outroj dizia : Eu o direy aos Padres ; tinha tanta 
força este ameaço, que logo a parte contraria desistia 
do seu intento. Tiuha-se isto em muito ; porque natu- 
ralmente os índios saõ vingativos, e muito contra o seu 
humor podem soffrer algumas aífrontas, especialmente 
o adultério, que sobre tudo soífrem muito mal ; e até 
isto naõ castiga vaõ, antes se satisfaziaõ com a repre- 
bensaõ, e castigo^ que lhes davaõ os Padres^ sem depois 
se failar mais nisso, sendo cousa, sobre que de antes se 
niaíavaõ, e comiaõ. Com estas, e com outras muitas 
mostras, os Religiosos se anima vaè muito, e occupavaõ 
em doutrinar os índios como digo, naõ fazendo mais 
Christãos, que os moços até á idade de vinte annos, nes- 
tes dous annos. E como o diabo soífre mal similhanles 
obras, mayormente qriando vê tanto ganho a Deos, e 
perda sua, uzando de suas obras, e invenções, inter- 
rompeo o fio, ordenando, que entre os Índios que dou- 
trinavaõ os Padres da Companhia, e os nossos, houvesse 
divisão, de maneira, que cada qual das cabeças perten- 
di-i adquirir á sua parte mais gente, do que resultou in- 
quietação nos Religiosos, donde procedeo que o Gover- 
nador da Paraíba, Fructuoso Barbosa, pertendendo ata- 
lhar alguma dissençaõ^ avizou a Sua Magestade, ao que 
El-Rey respondeo com a forma seguinte. 

Por quanto por Fruduoso Barbosa fiiy avisado, que 
entre os Religiosos de S, Francisco^ enviados a essas 
partes por meu mandado, e os Padres da Companhia^ 
havia diffèrenças, do que resultava escândalo entre os 
novos Christãos, vos mando, que tirada inquirição, e 
achando que os Padres de Saõ Francisco saõ os culpa- 



60 

dos, os concertareis, em forma, que nad haja matéria de 
escândalo; e se os Padres da Companhia, os despedi- 
reis, para nunca mais tornarem a morar a essa Capita- 
nia, e os ditos Religiosos de S. Francisco doutrinarão 
todo o Gentio, o que favorecereis em tudo o que vos for 
possivel, etc, 

Esta he a forma da carta sobre este particular ; raas 
ha-se de advertir, que ja eraõ passados quatro aniios 
(1595) ; e posto que estas couteudas duravaõ, naõ havia 
falta nenhuma em a doutrina, antes hia em muito cres- 
cimento, e ja havia a maior parte dos índios Ghristãos, 
dos Grandes. Logo que o Capítaõ Feliciano Coelho de 
Carvalho despedio os Padres da Companhia (1593), os 
nossos Religiosos acceitaraõ as Aldeãs dos Padres, e Fr. 
Melchior, Prelado, que ainda entaõera, proveo as di- 
tas Aldôas, e os Religiosos correrão com suas obriga - 
çoens, como em as primeiras, e logo todos os Índios fi- 
carão muito quietos, e sem nenhum alboroto. Estavaõ 
ainda muitos índios por íiizer Ghristãos, os quaes com 
muita instancia aperta vaõ aos Religiosos os bautizassem, 
e os Religiosos o faziaõ a huns primeiro que aos outros^ 
conforme a disposição, eapparelho, que nelles se via ; 
de modo que em dous annos seguintes^ depois da en- 
trega das Aldeãs dos Padres, assim nellas^ como nas nos- 
sas, naõ ficarão cincoenta, que naõ fossem Ghristãos, 
sendo mais de duas mil almas. Crescia juntamente o 
numero dos Ghristãos, a devoção em os moços, criados 
com os nossos de pequenos, que ja homens sustentavaõ 
o pezo, e governo das Aldôas, mandando quietar os Pays 
velhos ; e como elles ja tinhaõ muito uzo de nossa com- 
panhia, em toda a maneira aborreciaô os Rittos antigos, 
tanto, que^ sendo elles filhos, pediaõ fossem os Pays cas- 
tigados^ quando se achavaõ comprehendidos em algum 
erro Gentilico, tendo tanta obediência, que, se por festa 
sejuntavaõa beber, por naõ se embebedarem, os Re- 
ligiosos lhes mandavaõ naõ bebessem mais^ logo se abs- 



61 

tinhaõ, sem mais ir por diante. Alguma vez se acertavav 
que os tomavaô em tempo, que o vinho linha ja mais 
força nelles, que arazaõ, e naõ faziaõ cazo do recado 
dos Religiosos, os filhos quazi aiTrontados, se hiaõ, e 
reprehendendo-os, lhes quebravaõ as vazilhas, derra- 
mando-Ihes o vinho, e se algum se soltava em palavras^ 
o Iraziaõ ao tronco ; onde, sem outro castigo, estavaõ 
huma noite, com que ficavaõ taõ corrigidos, que per- 
tendia, o que huma vez lá hia, naõ ir outra, e sentiaD 
muito este castigo, naõ por ser rigoroso, senaõ pela 
affronta, que padeciaõ. Era isto tanto freyo para elles, 
que se evitavaõ, por este respeito, muitos peccados^ em 
que como fracos cahiaõ, acceitaudo em satisfação o cas- 
tigo de muito boa vontade, e sem intervir outro género 
de prizaõ ; os Religiosos diziaõ a hum Índio, que com- 
mettia qualquer erro, fizeste tal cousa, vai-te ao tronco, 
acceitava-o sem mais recusar. Aos moços se castigava 
com huma dúzia depalmatoadas, sem por isso nunca 
haver escândalo entre elles, antes depois de recebido 
o castigo, se deitavaõ aos pés dos Religiosos, pedindo 
perdaõ da culpa. Em os mancebos, como digo, se via 
claramente o fructo, que se fazia ; porque em as con- 
fissoens eraõmuy contínuos, e em ouvir Missa, e pré- 
gaçoens, e apertavaõ os Linguas lhes pregassem, e elles 
de noite em suas cazas aos Pays recitavaõ os sermões 
declarando-lhes mais de vagar o que lhes convinha 
saber. Tinhaõ os Religiosos repartidos pelas cazas moços, 
que ajuntando todos os a elles encommendados, lhes 
ensina vaõ a doutrina, e diziaõ cousas de Deos, que elles 
ja muito bem sabiaõ. Costumavaõ lambem os Índios 
cantar muitas cantigas brutaes, e gentílicas ; e como, 
elles naturalmente sejaõ afieiçoados á musica, alguma» 
vezes de noite cantavaõ as ditas cantigas, ao que os Re- 
ligiosos acudindo, lhes compuzeraõ algumas devotas, 
que elles cantavaõ. De modo, que em suas cazas, quem 
pelas ruas lhes passava de noite, naõ ouvia dizer senaô 



62 

doutrina, ou cantar aquellas cantigas. Também cos- 
tumavaõ, quando hiaõ á guerra, levar certas divizas, 
que o seu Feiticeiro lhes dava, e com isto liiaõ muy 
seguros ; e posto que muitas vezes lhes succedesse mal, 
©Feiticeiro lhes dava tal sentido que nunca ficava eíle 
em descrédito. Mas os Religiosos lhes mandarão^ que a 
diviza fosse o sinal da Cruz, pintada em suas rodelas ; 
o que elles fizeraõ. Succedeo, que as primeiras vezes, 
que isto fizeraõ, estavaõ sobre huma Aldeã de inimigos 
huma madrugada, duas horas ante manhãa, e cuidando 
ser mais longe, seanticiparaõ de maneira, que cuidando 
naõ chegassem á Aldêa, do Lugar onde partirão, senaõ 
pela manhãa, elles se acharão mais cedo duas horas. 
Corriaõ perigo se se deixassem estar, e fossem sentidos, 
pelo que determinarão dar a batalha, como fizeraõ, ainda 
que muy arriscados, por ser muito escuro. Mas N. 
Senhor, que ja como afilhes os guiava, lhes mostrou 
huma Estrella, que allumiando o circuito, lhes parecia 
ser Lua, e com ser tempo, que a naõ havia, no fra- 
gante naõ advertirão ; mas depois de feito o negocio, 
em que matarão, e captivaraõ todos, sem lhes escapar 
nenhum^ese tornou a escurecer, advertirão na mercê, 
que nosso Senhor lhes fez, e daqui ficarão certificados 
da Cruz, de maneira, que sempre dalli em diante naõ 
faziaõ jornada, sem a levarem esculpida em as rodelas, 
aonde de antes pintavaõ mil superstiçoens. Cresciaõ as 
cousas da Fé, e doutrina em estes seis annos, que 
airaz digo, (de 1589 até 1595) era esta forma, e de 
vantajem, porque naõ pode a penna, nem a lingua ex- 
plicar obras de Deos, pois que nem o juizo as compre- 
hende. Só direy que era em forma, que os Religiosos 
se admiravaõ, reprehendendo muitos brancos, e dando- 
Ihes com elles em rosto. Soffriaõ isto mal muitos Ma- 
melucos, que saõ filhos de negros, e mulatos, que como 
as índias, como parentes seus, queriaõ morar com elles, 
a voltas disso, inquietavaõ as índias, amancebando-se 



,63 

com ellas, e pertendendo lirá-las a seus maridos. Re- 
prehendiaõ os Religiosos estes peccados, e outros pú- 
blicos com muito rigor^ assini pela offeiisa de Deos, 
como também pela ruim doutrina, que com isto davaõ 
aos novos Christãos. SoíFriaõ mal os Mamelucos estas 
reprehensoeos, donde veyo, que começarão a semear 
zizanias entre os Religiosos, e o Capitão (de 1590 por 
diante) . E posto que os Prelados ao principio perten- 
deraõ atalhar isto, com tirarem das doutrinas, ou Al- 
deãs, os Religiosos, que ao Capitão naõ contentavão, 
naô foy bastante ; porque a mesma occasiaô linha hum, 
que hia de novo, que o outro que vinha, que era repre- 
hender os vicios, e tanto, quanto mais reprehendia, 
era mais mexericado ; e quanto mais mexericado, mais 
odiado ; de sorte que vinha a fazer-se de muitos actos 
habito, e o dito Capitão Feliciano Coelho de Carvalho, 
capital inimigo do habito de N. P. Saõ Francisco, sem 
que para remédio disso fossem bastantes nenhumas jus- 
liGcaçoens da parte dos Religiosos. Era tanto, que as 
prégaçoens, que elles faziaô em a Igreja publica, para 
extirpação dos erros, e vicios dos índios, os ditos Ma- 
melucos as convertiaõ a seu modo, a fim de inimizar ao 
dito Capitão com os Religiosos. Dezejava-se tanto a 
paz, que para atalhar a hum mayor mal, se escolheo o 
menor, e foy, que mandou o Prelado se naõ fizessem 
prégaçoens. Naõ bastou nada, porque ja o diabo tinha 
botado a anchora, e bem afferrada nos coraçoens, que 
de sua maõ tinha, e ouzo dizer isto, pois os taes estavaõ 
da sua mão, pois taes obras faziaõ. Continuou dous 
annos este martyrio (de 1596 até 1598), taõ pezado 
para os Religiosos, mas adoçava-se, com que a dou- 
trina hia por diante, e cada vez mais, e ja as povoaçoens 
dos índios pareciaõ de moradores brancos: e com serem 
costumados, e de seu natural andarem nus, ja nenhum 
dos mancebos andava senaõ vestido, e todos cobertos. 
Aleou-se neste meyo tempo este fogo de maneira, que 



m 

ja descoberto, e sem nenhum véo, n dito Gapilaõ se 
apregoou por inimigo descoberto dos Religiosos, fa- 
zendo, debaixo de huma queixa universal de todos, 
muitas em particular, sem nenhum resguardo da honra 
do habito de N. P. S. Francisco, aprovando-as com os 
que foraõ causa de taõ grande ruiua. De maneira que 
«hegou a estado, que naõ somente se satisfez com os 
damnos particulares dos Religiosos, mas ainda subio a 
mais, e foy, que aos índios fez huma praclica, que mais 
adiante se escreverá. (Cuja liçaõ, quem com olhos de- 
sinteressados, e fora de paixaõ ouvir, claramente, sem 
ler necessidade de outro nenhum meyo, entendera ser 
cega, e doutrina prejudicial. Que digo prejudicial ! Di- 
reitamente contra a Ley, e doutrina, que os Religiosos 
tinhaõ pregado, até áquella hora, quebrando com isto 
o tronco, por affrontar os Religiosos, e os desacreditar 
com os Índios, mandando-lhes pregar liberdades, do 
que resultou a cabida, que se verá adiante). Posto que 
durante os ditos dons annos, fazendo praça publica 
com as falsidades, pelos ja ditos inventadas, todas elles 
soífriaõ. E como aos Religiosos o soíFrer affrontas he 
merecer, e ajuntar a huma muitas coroas, naõ trato 
delias em particular, só concluo, com que em a tal per- 
seguição se consolavaõ com se lhes representar o per- 
mittia nosso Senhor, e tomava a elle Capitão por ins- 
trumento para abater alguma jactância, que os taes Re- 
ligiosos podiaõ tomar por em seus tempos as cousas 
florecerem, e serem taõ venerados da gente da terra, 
que taõ pouco tempo havia naõ conheciaõ outro Deos, 
que o supérfluo comer, e beber, pondo sua felicidade 
em matar muitos, ter muitos nomes, ter mayores talhas 
de vinho, e embebedar-se mais. E soíTriaõ digo, em 
quanto naõ chegou mais que ás suas pessoas ; mas logo, 
que o dito Capitão pregou liberdades taõ próprias á 
nossa natureza, pertenderaõ os ditos Religiosos acudir 
de longe, vendo ja a ruina, c queda, que se seguia. E 



65 

porque he ja lempo que digamos o meyo, que o diabo 
tomou para contrariar huma taõ exemplar doutrina em 
a nova Gíiristandade, he a que se segue. Satisfaziaõ-se 
os índios, com que as suas demandas, e contendas os 
Religiosos lhas concertassem, como acima digo, que 
bastava dizer hum ; Eu odirey aos Padres, para cessar ; 
e quando alguma hora hia por diante, chegando á pre- 
sença dos Religiosos, ouvidas, e dadas suas razoens 
estavaõ pelo que lhes diziaõ os Religiosos ; e com isto 
se satisfaziaõ muito. Fundava o Capitão Feliciano Coelho 
seu ódio em que os Religiosos lhe usurpavaõ a juris- 
dição do seu governo, sentenciando, o que naõ somente 
naõ era verdade, mas ainda se naõ sonhava ; porque as 
taes contendas, eraõ verbaes, a que os Religiosos acu- 
diaõ, apaziguando, como medianeiros, e conselheiros de 
paz, e com isto bastava : donde se segue, que he escu- 
zado demandas, onde há paz; o que o dito Capitão naõ 
queria admittir, nem foy bastante nenhuma razaõpara 
deixar de proseguir seu intento. Muitas vezes ameaçou 
aos Religiosos, lhes havia quebrar os troncos, castigo 
de malfeitores ; para serem certificados os índios, de 
que os Religiosos os naõ podiaõ castigar, e elles fizessem 
suas vontades. Fê-lo em tempo, (1597) que os índios 
da Capitania de Pernambuco, e muitos da Bahia estavaõ 
juntos para dar guerra aos Potyguarés, ajuntando para 
isso seus apaniguados, e hum dia, sendo os Religiosos 
fora, de assuada entrarão na Aldeã de Santo Agostinho, 
e quebrarão o tronco, ajuntando logo todos os índios, 
e elle dito Capitão lhes mandou fazer a practica, que 
acima apontamos : Que informado de como os Reli- 
giosos os castigavaò, e compelliaò com castigos a ser 
ChristãoSj, elle, por fazer o que ElRey lhe mandava, 
quebrara aquelle tronco, para que naõ houvesse castigo, 
nem queria dalli em diante os Religiosos castigassem 
mais nenhum índio, eque dalli avante nad fosse nenhum 
Christão, senaò muito da sua vontade, e que para os 

JABOATAU. VOL. II. 9 



60 

cazamenlos naò linhaò necessidade de mais. que de se 
cazarem elles entre si, e depois irem aos Padres os re- 
cebessem, e que naò cazassem senaò por sua vontade : e 
que os Religiosos os naò podiaõ obrigar a cazar em ne- 
nhuma maneira ; e os que quizessem ir ver a Deos, e 
doutrina, fossem, e os que naò quizessem, naò fossem : e 
que se por isso os Frades os quizessem castigar, que se 
acolhessem a elle dito Capilaò ; e mais que naò consen- 
tissem que alguém os castigasse, que naò havia para que 
ser taò sujeitos aos Padres, e que ja eraò Christãos 
como elles, emais, que o seu Vigário naò tinha cuidado 
de saber delles, e sobre tudo, que fizessem seus potes 
muito grandes, como antigamente, para fazerem suas 
festas, e que se os Frades lhos mandassem quebrar, elle 
dito Capitão acudiria a satisfazer seus aggravos. E como 
o Prelado visse se desbaraíava tolalmeiUe a messe, e 
doutrina com tanto trabalho posta naquelle estado, 
apresentou o Creve em favor da doutrina concedido, o 
(jue elle acceilou para responder: e como porhuma 
pessoa lhe fosse declarado, elle se retractou em as pa- 
lavras, mandando em as mais Aldeãs fazer a mesma 
falia, com palavras paliçadas. Houve entre os man- 
cebos, e velhos divizaõ, porque os velhos, como fosse 
dar-lhes liberdades, e tornarem a seus ritos, em que 
tanto tempo linhaò vivido, acceitaraõ; os mancebos, 
conhecendo sua perda, com muitas lagrimas pediaõ aos 
Religiosos remédio, o qual elles esperavaõ de Deos, 
porque em :i terra o naõ tinhaõ ; porque o dito Capitão, 
confirmando seu feito, disse que no Brasil naÕ havia 
quem lhe tomasse conta, eque ÊiPicy estava em Madrid, 
e Deos em o Geo. Ratificou bem isto, com que man- 
dando o Governador do Estado D. Francisco de Sousa 
duas Provisoens, para que os Religiosos fossem adaiit- 
tidos á sua posse, elle nunca as quiz cumprir, antes se 
jactava de ter feito hum grande serviço a ElRey. Gom 
todas estas (jucbras conlinuaraò os Religiosos susten- 



67 

lando o trabalho coni só os mancebos por espaço de 
bum anno, (1597) qne os velhos logo se pnzeraõ a 
inonte, usando de seus ritos» e costumes ; e como viaõ 
que os Religiosos naõ os podlaõ castigar, foraõ cada 
vez para peyor, e apôs de si levando seus filhos, que 
posto que de vagar, toda via pode mais nelles a carne, 
e o sangue ; e assim ficarão todos huns, em hum andar, 
com suas supersliçoenS;, como quando antigamenie vi- 
viaõem o Sertaõ, amancebados com sette, e oyto mu- 
lheres das portas a dentro, naõ indo nunca á igreja, 
nem Domingo, nem dia Santo, nem se confessando 
pela Quaresma, fazendo-o de antes todos os Jubileos ; 
assim que de alto cahiraõ, tanto, que com muita razaõ 
digo, hoje os tomarão os Religiosos antes Gentios, que 
taes Ghristãos ; porque os erros entaõ erão de ignorância. 
Gentilidade, e hoje de malicia, e heresia. O que visto, 
e publico^ o dito Gapitaõ se contenta muito, e satisfaz, 
dizendo, que saõ soldados, e que para soldados naõ ha 
mister sei santos. Sendo muitos certos, que naquelle 
prospero estado, todas as cousas lhes succediaõ muy 
prosperamente, e hoje ao contrario. Entaõ muito obe- 
dientes a Deos, á Igreja, e a ElRey, e hoje perdida a da 
Igreja, a tem também perdido a ElRey, eaj modo, que 
nada fazem senaõ o que lhes vem a bení. VIo-se isto 
muito chro na volta da guerra, que o Gapilaõ foy dar 
em este annd de 1598, ao qual os índios deixarão, e 
se vieraõ ; e posto que o Gapitaõ os mandava esperar, 
clles se retirarão, sem ter dever com isso, o que d'antes 
naõ faziaõ, antes se punhaõ em a retaguarda, trazendo 
os brancos diante. Em íim, que, perdida a obediência, 
perderão o medo, e vergonha, e com isso a charidade 
para com os brancos Ghristãos. E assim perseveraõ com 
tanta dor,, e lastima dos Religiosos, quanta he a lem- 
brança do muito que ííoreceraõ ; e tanto mais he para 
sentir, quanto se ve serem favorecidos por Ghristãos, 
e haver a quem lhe pareça bem, quehumaChristandade, 



68 

que ElRey, e o Papa tanto encommendaõ, e favoreceo), 
se perca assim á mingua. E porque estas cousas mais 
se explicaõ com lagriaias, que com palavras, acho por 
acertado correr a cortina, deixando a que ellns por si 
se divulgem, abrindo-a porém em as lastimas^ misérias, 
affrontas, e vexaçoens dos Religiosos. Naõ tratando das 
minguas, e necessidades corporaes, que essas chegarão 
a estado, que o que aos Turcos, e Mouros naõ he de- 
feza, em os Christãos na Paraíba be lido por sacrilégio. 
Os Turcos patentemente daõ suas esmolas aos Reli- 
giosos. Os Christãos na Paraíba naõ as daõ senaõ á 
meya noite, por matos, e caminhos, que naõ sejaõ de 
ninguém vistos ; e se nas ruas vêm os Religiosos, os 
que naõ saõ da parcialidade, e bando contrario, fogem ; 
porque em o ponto que se entende algum morador com- 
munica, trata, ou vizita os Religiosos, logo saõ perse- 
guidos, e vexados até os porem em o ultimo. Assim que 
para hum morador fallar a hum Religioso dos que naõ 
saõ do bando contrario, ha de ser de noite. Naõ trato 
nisto, que tudo soíFrem, como bons Religiosos. Mas, o 
que mais sentem he, que humas vezes saõ ameaçados 
de traidores, outras por levantados ; assim que se al- 
guma causa de mal acontece na terra, a culpa a elles 
se refuta ; e aquelles, que d'antes serviaõ de media- 
neiros da paz, refugio de desconsolados, hoje são causa 
de discórdia, e desconsolaçoens ; eisto em quanto a 
particular devoção a algum incita a mostrar a sua, 
logo he desconsolado, inimizado, corrido, e affrontado* 
De modo que este he o fim dos muitos trabalhos, que 
os Religiosos passarão na nova povoação, e Christan- 
dade, naõ sendo elles os derradeiros nos perigos, antes 
os primeiros. O que tudo haviaõ por bem empregado, 
seguindo~se o grande fructo das almas, que era o pro- 
veito, e interesse, que de tudo tinhaõ. Pelo que com 
muita razaõ chorão os Religiosos, naõ escândalos que 
hajaõ dado, nem peccados que hajaõ commettido, que. 



69 

pela bondade de nosso Senhor, nenhum índio se queixa 
de Religioso algum, nem morador, senaõ aquella par- 
cialidade de Mamelucos, ajunlando-se-lhes outros, os 
quaes ás escondidas confessaõ, que por viverem saõ 
constrangidos a dizerem, e perseguirem aos Religiosos. 
Naõ chorão, digo, senaõ algum castigo de nosso Se- 
nhor, eo mais, que he, a cegueira grande, de que naõ 
ha ainda conhecer taõ grande mal, que nosso Senhor 
remedêe por sua misericórdia, para que tantas almas 
se naõ percaõ. 

E para que melhor se entenda o fundamento da pra- 
ctica, que fez o Capitão Feliciano Coelho, e como con- 
vertiaõ a seu modo toda a doutrina, advirta-se, que 
mandou quebrar o tronco, porque naõ queria que os 
Religiosos castigassem índios, nem índias. O castigo 
das índias, que como de Mamelucos fossem inquietas, 
e os maridos as quizessem matar, os Religiosos acudiaõ, 
e as mandavaõ prender, durante o tempo da cólera dos 
maridos, a qual passada, admoestada a India^ a faziaõ 
amiga com seu marido, eficavaõem paz. Cahia alguma 
vez em sujeito que naõ se satisfazia o índio com isto, 
e era necessário deixar-lhe dar alguns açoutes, com 
que se evitavaõ outros daranos. Soffriaõ mal os Mame- 
lucos, fossem castigadas por seu respeito, e daqui pro- 
cedeosegundariamente, que os que quizessem ser Chris- 
tãos^ o fossem, e os que naõ, naõ, accrescentando, que 
alguns fazíamos Christãos por força, e medo ; o que 
naõ era assim. Succedeo, que alguns índios Cathecu- 
menos faziaõ algumas ceremonias, ás quaes também 
inquietavaõ alguns índios Christãos, aos quaes os Re- 
ligiosos castigavaõ, e emendados dos erros, os faziaõ 
Christãos, depois de castigados : donde procedeo dizer, 
faziaõ aos índios Christãos por força. Também diziaõ, 
compelliaõ os Religiosos aos índios, com castigos a vir 
á Missa, e doutrina, com os castigar, sendo remissos, 
o que era verdade ; porque gente nova, era necessário 



70 

vigiar sol)re ella, para quo naõ desça hisscm logo em os 
princípios; sendo certo, que ainda em os nossos brancos, 
os Curas, e Vigários tem cuidado de perguntar pelos 
que faltaõ, e apenar os negligentes, o que nós naõ la- 
ziamos; sendoque se lium era muy rebelde, se castigava 
com o tronco hum dia : e isto he o qwe diz os íaziaõ 
vir á Igreja por força, fim quanto a dizer os Religiosos 
os castiga vaõ por força, foy, que algumas vezes, alguns 
que se queriaõ fazer Gliristãos, deixavaõ as mulheres, 
querendo escolher outra, que naõ era a primeira, que 
também se queria fazer Ghristãa, e os Religiosos os naõ 
queriaõ admittir ao Bautismo, senaõ casando com a pri- 
meira, que lhe pertencia por Direito, visto também se 
queria cazar. Também alguns Índios, que tinhaõ obri- 
gação em o foro da consciência, e juntamente se pro- 
vava, a algumas Índias, aos quaes os Religiosos obri- 
gavaõ a recebê-las, e cazar com ellas. E quanto aos 
potes, e vinho, que lhes mandou fazer, he direitamente 
contra a Ghristandade ; porque em isso consistem todas 
as ceremonias Gentílicas dos índios. Dahi procede 
muito ódio, e desejo de vingança ; em as bebidas se 
cazaõ com suas sobrinhas, filhas de irmãos, que em sua 
gentilidade saõ suas mulheres por Direito, como hoje 
fazem ; e assim as demais liberdades, de que procedeo 
a soltura, e largueza, em que hoje vivem, que ja todos 
desampararão a Igreja, nem vem á Missa, nem á dou- 
trina. 

60. Tudo o que no sobredito relatório se contem, 
como nelle fica ás margens notado, passou na Cidade da 
Paraíba por espaço de nove annos, desde ode 1589, 
que alli chegarão os nossos Religiosos, até o de 1598, 
cm que se conclue a sua narração, a que se deve todo 
o credito, pois he escrita por Religioso, que, pelo que 
raostraõ os termos com que se explica, presenciou o 
que diz, e escreve, pois o faz por frazes de presente, 
como pôde notar o Leitor, especialmente, quando refe- 



7i 

riudô a falia de obediência no Gentio ao mesmo Ca- 
pitão^ que dava a causa ao seu desconcerlo, diz assim j 
como se vio neslcanno de 1598, donde se colhe também, 
que neste mesmo anno foy feilo o sobreescrilo relatório, 
que todo pertence ao fructo, que íizeraõ naqueile Gentio 
os Religiosos Menores, e o que disso lambem tirarão, 
que foraõ perseguiçoens injustas. No seguinte, que 
agora trasladamos, se verá o mais de trabalhos, e ser- 
viços a ElRey, a Republica, e Povoadores da nova Ci- 
dade da mesma Paraíba. 

RELATÓRIO II. 



Dos successos, e encontros com os inimigos Patyyuarés, em que se acharão 
os Religiosos de S. Francisco na Paraíba^ trabalhos, e do mais que 
obrarão em serviço del-Rey, e daquella Conquista, desde o tempo de 
Fructuoso Barbosa seu Capitão, até o de Feliciano Coelho de Carvalho, 
seus Governadores. 

61. Primeiramente depois de acceitas (em 1589J as 
Aldèas, scilicet, a do Almaga, e Praya, quedistavaô 
huma legoa da Cidade, e meya avante huma da outra, 
e em as fronteiras três legoas da Cidade, três, scilicet, 
a do Assento do Pássaro, que agora se chama de D. 
Francisco, a do Joanne, e Mangue : os Religiosos postos 
pela obediência do P. Fr. Melchior de Santa Catlia- 
rina, Gommissario, que entaõ era do Reverendíssimo 
Geral Fr, Francisco Gonzaga, doutrinavaõ as acima 
ditas cinco Aldeãs, que até áquella hora naõ tinhaõ 
noticia alguma da Fé, e lhes prégáraõ o Evangelho de 
Ghristo, com muito applauso dos índios, e moradores 
brancos. E como o bem da Capitania consistia em a 
conservação das Fronteiras, o Padre Fr. Melchior 
mandou se fizesse Igreja em as Fronteiras, como logo 
se fez, aonde residirão sempre Religiosos, quedoutri- 



72 

navaõ as ditas Aldeãs, assistindo, e vizitando as duas, 
que por serem pequenas^, e incapazes de sustentar Re- 
ligiosos^ ficarão sujeitas ás Vizitas dos Religiosos mora- 
dores, os quaes continuarão em forma, que bastante- 
mente eraõ providas de doutrina ; e assim adminis- 
tra vaô os Sacramentos aos soldados do Presidio, vi- 
zinho das ditas Aldeãs, e Igreja, e assim aos moradores 
dos dous Engenhos, e Escra varia delles, os quaes En- 
genhos se fizeraõ á sombra dos índios doutrinados, sem 
a qual ajuda deiles era impossível fazer-se, como bem 
se prova das demais fazendas, que pelo decurso do 
tempo se fizeraõ, para as quaes os ditos Religiosos 
deraõ a ajuda necessária, como se provará em seus 
lugares, com os moradores, e Senhores das ditas fa- 
zendas. E correndo, como digo, os Religiosos com a 
obrigação de ensinar, tendo passado hum anno, pouco 
mais, ou menos, ^em 1590) pareceo bem ao Gapitaõ 
Fructuoso Barbosa passar hum Forte, que estava na 
Ilha da Gamboa, do tempo de Joaõ Tavares, Gapitaõ, 
que fora da Paraíba, (em 1578 ou 1579) para o Ga- 
bedello, barra do Rio, e entrada das Náos, e navegação 
da dita Cidade, para o que se concertou com o Braço 
de Peixe, que estava sujeito á doutrina dos RR. PP. 
da Companhia, pagando-lhe seu trabalho. E tendo o 
dito Forte sarrado, lhe faltava hum forro do mesmo 
modo do Forte, assim em altura, como em grandura, 
e mais hum terrapleno, para jogar a artilheria, para o 
que o Gapitaõ Fructuoso Barbosa fallou ao P. Fr. An- 
tónio de Gampo-Mayor, Guardião, que entaõ era na 
Paraíba, (em 1590) mandasse os seus índios lho fi- 
zessem, vista a necessidade do Forte, e ser a chave da 
terra, e guarda delia, e visto naõ haver fazenda delRey 
para se lhe satisfazer ; e logo o dito Padre Guardião 
mandou ao seu Língua incitasse os índios a se fazer o 
dito Forte^ como logo fez, e para em tudo conresponder 
cora a obrigação do bera commura, augmento da terra, 



75 

serviço grande de Deos, e delRey, o mesuio Padre 
Guardião, com o seu Lingua, se foy assistir no dito 
Forte, acompanhando ao Gapitaõ Fructuoso Barbosa 
até se acabar, dizendo Missa aos índios, e soldados, 
que alli estavaõ, e disto pôde testiniunhar Pedro Coelho 
de Souza, Capitão que entaõ era da Galé delRey, e 
Vereador na Cidade, e Joaõ António Pamplona, Juiz, 
e Sebastião de Araújo, também Juiz, e Gaspar Manoel 
Machado, Vereador, e António Annes, Procurador do 
Concelho. O que acabado, decorrendo o tempo avante 
seis mezes, ordenarão, o Capitão, que entaõ era da 
Villa de Olinda, Filippe Cavalcanty, e os Oíficiaes da 
Camera, mandar Joaõ Tavares, Capitão que fora da 
Paraíba, fazer guerra ao Gentio Potyguar fiSQO) com 
cento e tantos soldados, á custa dos moradores da dita 
Villa, e tendo ja o dito Capitão partido, e andado huma 
Jornada, adoeceo, e morreo, em cujo lugar o Gapitaõ 
Filippe Cavalcanty elegeo Pêro Lopes Lobo, Gapitaõ 
da Ilha deltamaracá, por Capitão, eo mandou em 
lugar do dito Joaõ Tavares, e chegando á Paraíba o 
dito Pêro Lopes, pedio ao Padre Guardião Religiosos 
para o acompanharem, para consolação dos soldados, 
que sem elles naõ queriaõ ir, e o dito P. Guardião lhos 
deo, que foraõ : Fr. António da Cruz, P. Confessor, e 
Fr. Gaspar, os quaes acompanharão o Arrayal até tor- 
narem, exercendo sempre seus oflicios de confessar, e 
animar, como bem se provará pelos que lá se acharão, 
se: Gapitaõ, e soldados. E acabada esta guerra, ordenou 
o Gapitaõ Fructuoso Barbosa passar hum Forte a Inho- 
by, sobre a Várzea, para á sombra delle se fazerem En- 
genhos ao que o Gapitaõ Pêro de la Gueva, Ga- 
pitaõ de Infantaria, e Presidio das Fronteiras, naõ quiz 
dar ajuda, por dizer, naõ tinha ordem delRey : o que 
vendo o Capitão Fructuoso Barbosa, pedio ao Padre 
Guardião (Fr. António de Campo-Mayor cm 1591) o 
acompanhasse, e ajudasse, o que elle fez, assistindo 

2 ABO ATAM. VOL. M. JO 



74 

com o sen Língua, e Gentio, até se acabar o dito Forle, 
como bem se provará pelo Capitão, que era do Forte, 
Pedro Coelho de Souza, Joaõ António, Juiz, e Balthazar 
de Macedo, Lingua, António Lopes Brandão, Senbor de 
iiuma das fazendas situadas á sombra do dito Forte, 
sem por isso os índios levarem estipendio algum, mais 
que serem incitados pelos ditos Religiosos. O que aca- 
bado, correndo o tempo, vindo António Coelho de 
Aguiar, tomar informação sobre os negócios da Paraíba, 
lhe pareceo bem dar guerra ao Gentio Potyguar, para 
o que pedio aos Padres da Companhia o acompa- 
nhassem, ao que elles recuzaraõ, dizendo, lhes man- 
dava o seu Prelado naõ fossem a nenhuma guerra, e 
logo pedio ao P. Fr. Melchior, vista a necessidade, o 
provesse de companheiros para a jornada convenien- 
tes (1591J, o que elle fez, e mandou a Fr. Balthazar de 
Santo António, e a Fr. Manoel de Portalegre, o que elles 
íjzeraõ, acompanhando-os todo o tempo durante a 
guerra. E despedido ja o dito António Coelho da Pa- 
raíba, os inimigos em vingança, deraõ em o Forte do 
Cabedelo, e matando a mayor parte da gente, quei- 
marão o Forte ; ao que pertendeo acudir o Capitão, 
que ja era neste tempo Ci591) André de Albuquerque, 
pedio juntamente ao PP. da Companhia, e aos nossos 
de S. Francisco, incitassem os índios a fazerem o Forte, 
que concertando-se entre si, os dos Padres concertarão 
íizessem huns ametade, e outros outra ametade, o que 
se fez, assistindo sempre os nossos Padres em com- 
panhia dos índios, e Capitão até se acabar, sem por 
isso se levar nenhum estipendio ; e nesta conjunção 
cahio o Forte de Inhoby, arruinando-se os muros, por 
causa do pouco cuidado, que houve para se resguardar, 
o que os ditos nossos índios das Fronteiras, incitados 
pelos nossos Padres, e mandado do Capitão António de 
Albuquerque, tornarão a fazer, sem por isso levarem 
iiatisfaçaõ, ao que se acharão presentes, até se acabar 



75 

o dito Forte, os Religiosos, que lhes ensínavaõ a áoii- 
Irina, que, posto que nestes lugares, e occupados, naõ 
lhes fiiltavaõ, como que se estivessem na Aldêa, e Igreja, 
do que tudo pôde lestimunhar o dito Gapilaõ André de 
Albuquerque. E logo Duarte Gomes da Silveira, Se- 
nhorio de outro Engenho na mesma Várzea de Inhoby^ 
pedio aos Religiosos o acompanhassem com o Gentio 
oito dias até fazer huma caza forte para se recolher^ 
por ser terra perigosa, o que elles Religiosos fizeraõ, 
até se recolher, como se provará por seu lestimunho. 
Estavaõ ja os inimigos por este tempo com grande 
animo contra os nossos, e tanto, que ás fontes vinhaõ 
matar agente, quehia buscar agoa, e era tanto o aperto^ 
que em a Cidade os Religiosos moradores delia naõ ou- 
zavaõ ir á horta, por se acharem muitas vezes espias 
nella : e visto o perigo provável, poucas esperanças 
de remédio taõ cedo, os Religiosos determinarão reco- 
Iher-se para as Fronteiras, onde havia mais segurança , 
ao que os Officiaes da Camera acudirão, com requeri- 
mento, que tal naõ fizessem, porque se despejava a 
Cidade, visto alli naõ estavaõ por outro respeito ; o 
que elles vendo, se deixarão estar com todo este risco 
até que o Capitão Feliciano Coelho chegou (1591 no 
fim), o qual logo ordenou pôr as Aldeãs por partes 
accommodadas para a defensa da terra, para o que 
ajuntou os índios Principaes, e os Padres da Com- 
panhia, que doutrinavaõ os índios do Rraço, e aos 
nossos de S. Francisco, que doutrinavaõ as demais 
Aldêas, e propondo o Capitão a sua practica, da divizaõ 
das Aldêas, os Padres refuzaraõ, e assim os seus índios, 
ao que acudio o P. Fr. António de Campo-Mayor, e 
disse que visto a necessidade, que Sua Mercê partisse 
as Aldêas da Fronteira (que ja neste tempo estavaõ em 
liumaj para onde lhe parecesse bem, e que os Reli- 
giosos estavaõ prestes para acompanharem aos índios, 
a elles encommendados ; e o Capitão respondeo, di- 



76 

zendo que as Aldéas da FroiUeira estavaõ bem, e se naõ 
escusavaõ onde estavaõ, e que com tudo, para guarda 
da nova fazenda de Duarte Gomes, era necessário Inima 
Aldeota, a qual logo se tirou, e na qual os Religiosos 
acudiaõ á doutrina a tempos necessários ; e logo o dito 
Capitão ordenou muxlar a Aldeã, e Igreja mais avante 
meya legoa, por assim parecer bem aos moradores da 
terra^ e os Religiosos acompaniiaraõ ao dito Capitão 
todo o tempo (de 1591 por diante) durante a muda, e 
feitura da cerca, que os Índios fizeraõ para seu apo- 
zento, incitando-os de dia, e de noite sem haver falta 
da parte dos Religiosos^ nem índios da sua adminis- 
tração. E acabada a muda, o Capitão se passou (em 
1592) álèm dos Rios da Paraíba, e Iguaraguaig, a cercar 
a Aldêa do Braço, passada por sua ordem, contra 
vontade dos PP. da Companhia, em cujo meyo tempo, 
(1593) o Capitão por mandado de S. Magestade des- 
pedio os Padres da Companhia, entregando as Aldeãs 
aos nossos Frades, o que elles acceiíaraõ, por mandado 
de Sua Magestade. E indo os Religiosos para come- 
çarem a Igreja em a nova Aldêa de Iguaraguaig, e es- 
tando ajuntando a gente, para lhes ensinarem a dou- 
trina, os inimigos subitamente deraõ sobre elles^ e 
pondo-se os índios em fugida, o Religioso língua e seu 
companheiro os recolherão para hum Forte, onde es- 
tava o Capitão recolhido, sem sahir fora, e as derra- 
deiras pessoas^ que se recolherão, foraõ os Religiosos, 
ja mny aífrontados das frechadas^ que milagrosamente 
escaparão, e recolhidos^ durante a briga, os Religiosos 
animavaõ os poucos índios, que, vista a grande força 
dos inimigos, por três vezes commetteraõ fugir, e des- 
amparar o Capitão, com treze soldados, ao que os ditos 
Religiosos acudirão, tendo-os sempre a que naõ fu- 
gissem, por onde naõ somente se defenderão, mas antes 
com soccorro dos índios da Fronteira, mandados de 
outros Religiosos da mesma Ordeni^ os puzeraõ em fu- 



77 

gifla, e malaraõ muita somma de índios, de que re- 
sultou grande animo aos nossos, e medo nos inimigos, 
e logo ordenou o Capitão Feliciano Coelho dar guerra 
aos Potyguarés, para o que pedio ao Padre Fr. Anlonio 
da Ilha, Prelado, que neste tempo era, (de 1593 para 
1594) o acompanhasse em a guerra com sen compa- 
nheiro, e Lingua ; o que elle fez até o dito Capitão 
tornar, chegando até á lagoa, huma jornada atraz do 
Piio Grande^ de cuja volta, por ordem, e provizaõ do 
Governador Geral D. Francisco de Sousa, veyo á Villá 
de Olinda o dito Capitão Feliciano Coelho a fazer gente 
para a guerra do Sertão de Cupaguaó (em 1594 no 
principio), e pedio ao Padre Fr. Melchior de Santa Ca- 
tharina, que lhe desse Religiosos, a saber : confessor 
para os soldados brancos, e Língua, que corresse com 
os índios, o que elle fez, mandando o Padre Fr. An- 
tónio de Campo-Mayor, e seu companheiro, os quaes 
fazendo seu officio, em nada houve falta de sua parle, 
c tanto, que ao tempo de abalroar huma cerca, em 
que eslavaõ recolhidos três mil e quinentos índios de 
peleja, e cincoenta soldados Francezes, elle dito Ca- 
pitão Feliciano Coelho se recolheo em hum repairo, 
que se fez para a bagajem, com a gente de cavallo, sem 
sahir delle, mandando ao Pieligioso Lingua fizesse chegar 
o Gentio ajudar os brancos, que aboiroados na cerca 
por falta de ordem da parte do dito Feliciano Coelho, 
naõenlravaõa cerca, cahindo muitos mortos, e feridos 
sem remédio, por naõ terem pavezes, nem fouces, nem 
machados, para romperem a cerca : o que vendo o dito 
Religioso Lingua, logo admoestando os índios Princi- 
paes, os mandou acudissem aos brancos, e juntamente 
com elles, acudindo os Francezes, e mais inimigos, fe- 
rirão duzentos e tantos índios da companhia do dito 
Religioso, e matarão alguns: o que vendo, e o pouco 
remédio, que havia para entrar a cerca, por naõ haver 
fouce, nem machado, com que cortar hum pao, se re- 



78 

liraraõ os demais índios, e brancos, com trezentos e 
settenta índios, e brancos feridos, e nove mortos ao pé 
da cerca, que os inimigos recolherão, e comerão em a 
noite seguinte ; e ficando toda a gente destroçada, o 
Padre Lingua se chegou ao Capitão^ que estava em o 
repairo, e lhe disse, que remédio dava a se pôr cobro 
na gente, que visto o destroço determinavaõ fugir ; ao 
que respondeo o Capitão, que elle por entaõ naõ sabia 
o remédio, que poderia ter, e que elle visse o que era 
necessário; e conforme a isso provesse, visto os ín- 
dios naõ corriaõ com outro, senaõ com elíe ; e logo o 
Religioso pertendeo recolher dentro os feridos, e fazer 
se curassem ; e pelo desbarate naõ se tratou ter outro 
encontro, antes se procurava a naõ fugida dos índios^ 
para o que o Religioso Lingua ajuntando os Principaes, 
toda a noite lhes esteve pregando, quam necessário era 
acompanharem o Capitão delRei, e ajudarem-no, e mor- 
rendo com elle ; com a qual admoestação, elles se quie- 
tarão, e naõ fugirão, antes incitados pelo Religioso Lin- 
gua, era a madrugada fizeraõ huma cerca muy forte, 
abarbada com a do inimigo, onde a gente estava segura; 
o que vendo os inimigos, e que naõ obstara o desba- 
rate para deixarem de se regular com elles, se puseraõ 
em fugida : o que vendo o Religioso, que andava dando 
ordem a se acabar de reparar a cerca, bradou sahissem, 
e commettessem a cerca ; o que se naõ fez por se cuidar 
seria manha dos inimigos, e o dito Religioso commet- 
tendo a cerca, foy o primeiro que a entrou, com o Ca- 
pitão Manaya, e obra de cento e cincoenta índios, que 
saltarão a cerca por respeito do Religioso, que viaõ 
fora, e seguindo-o, entrarão apòz elle em a cerca, e 
levando o restante dos inimigos, que sahiaõ, e osFran- 
cezes diante, foraõ matando nelles por espaço de meya 
legoa, sem escaparem dos Francezes mais que seis, ao 
que o Capitão naõ acudio, nem deo ordem alguma, 
senaõ a que o Religioso Lingua acaso deo, e logo os In- 



79 ■^:^^"^' 

dios se quizeraõ recolher para suas cazas^ o que, a rogo 
do Capitão, os Religiosos naõ consentirão, antes acom- 
panharão o Capitão lodo o tempo que andou na guerra^ 
e por falta do mantimento, e muitos feridos, e doentes, 
os índios se recolherão sem dar conta ao Capitão, nem 
aos Religiosos, pelo que o Capitão se recolheo, vindo 
sempre os Religiosos em sua companhia, e se recolherão 
em suas Aldêas, nas quaes havia Igrejas, e doutrina 
continuamente, fazendo Christãos, e ensinando os 
moços a lêr, e escrever, ajudar á Missa, e mais cousas 
necessárias ao homem Christão, pelo que em breve 
tempo se converterão á Fé toda a gente, e viviaõ em 
toda a guarda da Ley de Deos, e bons costumes, no 
quedavaõ grande exemplo aos moradores, e Religiosos. 
Em meyo deste tempo os inimigos Potyguarés, vendo-se 
vexados dos nossos índios Christãos, que como a taes 
nosso Senhor os animava, e dava forças sobrenaturaes, 
e taõ claramente visto, que os mesmos índios confes- 
savaõ, naõ temerem os inimigos, ainda que eraõ mui- 
tos, só pela grande constância que tinhaõ em Deos, e 
em a Cruz de Christo, a qual elles traziaõ por diviza 
em as rodelas para se differençarem dos inimigos, que 
assim afifrontados do que passavaõ, determinarão dar 
na Aldêa da Fronteira^ da Invocação de S. Francisco, 
da qual era Principal D. Francisco, Assento do Pássaro, 
e dando nella subitamente, sem serem sentidos, os ín- 
dios Christãos se puzeraõ em defensa ; e como os ini- 
migos fossem muitos, se recolherão em a Igreja com 
os Padres, os quaes recolherão a gente que puderaõ, 
e com elles dentro da Igreja, e caza^ apozento dos 
mesmos Religiosos, se defenderão até que os inimigos 
queimarão a Igreja, de maneira, que ja naõ havia mais 
que huma pequena cazinha, que defendiaõ os índios, 
até que chegarão outros Religiosos da Aldêa de Santo 
Agostinho^ com o Gentio Christão, morador da mesma 
Aldêa, que vinhaõ acudir aos Religiosos, os quaes. 



80 

como os inimigos fossem muitos, uaõ piulcrao romper 
por elles^ antes matando-llies os inimigos alguns índios 
da sua companhia, os puzeraô em desbaraie, de ma- 
neira que botarão os Fieligiosos, que com elles vinliaò, 
pelos matos sós, onde andarão grande parte do dia^ e 
milagrosamente escaparão. Ja neste tempo o Capitão 
Feliciano Coelho estava perto, mas naõ chegava, e 
assim os Religiosos eslavaõ arriscados, na forma que 
digo, porque ja ardia a cozinha, e varanda dos Reli- 
giosos, e neste tempo acudio hum índio morador da 
Aldeã, que se achava fora ao tempo da entrada dos ini- 
migos, e tomando hum soldado pela maò, o metteo por 
meyo dos inimigos dentro na caza dos Religiosos, que 
ja ardia, e os índios, que se achavaò dentro, e a defen- 
derão, ja desesperados a queriaõ largar, com a entrada 
do qual soldado, os inimigos se foraõ affastando, e 
ajuntando-se os nossos índios, deraõ S. Thiago nos 
inimigos, e os puzeraõ era desbarate; e posto que o 
Capitão estava perto, naõ acudio, nem deo ordem al- 
guma para aquella defensa, sahindo donde estava para 
isso, e tendo tempo, naõ chegou. Estes saõ os trabalhos 
brevemente resumidos, encontros, e sucessos com as 
doutrinas dos Gentios da Cidade da Paraíba, em que se 
acharão os Religiosos Menores desde o anuo de 1589 
em que chegarão á Paraíba, até o de 1599 para seis- 
centos, em que se terminarão as perseguiçoens do Go- 
vernador, e Capitão Feliciano Coelho, que ficaõ refe- 
ridas no antecedente Relatório, e tiveraõ principio, 
depois do que neste vay resumido. 



81 

Continua-se a matéria do Capitulo passado. 

f)2. E porque até este t^mpo naõ liaviaõ chegado Mis- 
sionários alguns á Capitania do Maranhão, logo que os 
Prelados mayores se acharão no anno de 1600 com 
cinco Conventos formaes, e muitas Aldêas, e doutrinas 
pelos interiores da terra, e crescido numero de Reli- 
giosos, cuidarão lambem em acudir com Operários 
Evangélicos ás mais remotas, e distinclas. Para o Ma- 
ranhão foraõ destinados dous, hum Sacerdote Pregador, 
de quem nos naõ declaraõ o nome, e o Irmaõ Fr. Fran- 
cisco do Rosário, Leygo, de estado, que escolheo, naõ 
por ignorante das letras humanas, porque era bastan- 
lemenlií douto nellas ; mas por discrição, e humildade 
do seu espirito, e como lai colheo |}ara o Ceo, em 
alguns ânuos, que cultivou aquelle Genlilismo, hum 
copioso íVuclo. De tudo daremos mais extensa noticia, 
quando escrevermos a sua vida. A.' mesma Província 
do Maranhão foraõ alguns annos depois no de 1615, o 
Venerável Padre Fr. Cosme de S. Damiaõ, e o Servo 
de Deos Fr. Manoel da Piedade, nomeados pelos Su- 
periores para Gapeliaens espiriluaes de hum corpo de 
exercito, que por hum áspero, e prolongado Sertaõ de 
muitas legoas, e terra quasi invia, que á íbrça de pro- 
dígios lhes dava passagem, ioy lançar daquelle Estado 
os Francezes intruzos ; assisliraõ ás batalhas, e por 
dous annos, que alli se demorarão, entre trabalhos, 
necessidades, e perigos, obrarão conversoens admirá- 
veis, assim no Gentio da terra, como de Hereges Cal- 
vinistas, e Lulheranos Francezes, dos que na Ilha íi- 
caraõ prisioneiros. 

63. E porque o Graõ Pará, como parle taõ prin- 
cipal do Brasil, e huma das suas Capitanias, ainda que 
das ultimas que foy povoada, naõ íicasse por isso de^- 

JABOATAU. VQL. II. 11 



82 

lituiJa dobem espiritual, que participarão as miis, de 
que os seus primeiros Operários Evangélicos, fossem 
os Frades Menores, logo no anno de 1617, e segundo 
da fundação desta Capitania^ foraõ mandados alli como 
fica escrito em seu lugar*, quatro Religiosos Menores da 
Província de Santo António de Portugal, que lá deraõ 
principio a hum Recolliimento, que com a divizaõ da- 
quelle Estado do Maranliaõ, e Pará deste do Brasil, por 
ElRey Filippe, o I neste Reyno, ficarão também separa- 
dos desta Custodia, e sujeitos á Província de Santo An- 
tónio. E ainda quando ja feita esta divizaõ, por ordem 
do segundo Filippe, mandarão os Prelados da Província 
fundar Custodia no Pará, no anno de 16*24, vindo o 
Padre Fr. Cliristovaõ de Lisboa por primeiro Custodio, 
e tomando o porto de Pernambuco, desta nossa Custo- 
dia levou cinco Religiosos, três Sacerdotes, e dous 
Leygos, para completar o numero dos que Ibe eraõ 
necessários para aquella fundação. 

64. Aqui nos suspende os voos a penna, e os passos 
a proseguir adiante o vigoroso ccbo de huma saudoza 
voz, que attendida com reflexão, parece soar contra o 
que deixamos proferido no intróito deste Capitulo, em 
serem os Religiosos Menores os primeiros Pregadores 
do Evangellio"^ ao Gentio do Maranhão. Deixasse per- 
ceber este opposlo echo nas Vozes saudosas do Padre 
Vieyra, onde na sua primeira voz, histórica, fatiando 
dos seus RR. PP. Francisco Pinto, e Luiz Figueira, 
mandados pelos seus Superiores de Pernambuco a pre- 
gar ao Gentio, diz a foi. 5. estas palavras : Sendo elles 
os primeiros Pregadores da Fé, e ainda os primeiros 
Portuguezes, que do Brasil passarão ás terras do Ma- 
ranfiaò : o que hesem duvida opposto ao que deixamos 
dito. Mas se bem reflectimos, das mesmas vozes do 
Author, e logo no principio, em que ellas começaõa 

* Preamb. p. 126. 



83 

fazer som, se percebe a sua contrariedade, oti oppo- 
ziçaõ pelas nossas ; porque afiirma, que rebelando-se 
outra vez, do anno de 1605 por diante, de Pernam- 
buco até o Siará o Gentio daquellas Gostas, e Sertoens, 
foraõ destinados para os paciíicar, á ordem dos seus 
Prelados, os ditos Padres, e á instancia do Governador 
do Estado Diogo Botellio. Este completou o seu governo 
no anno de 1607, e assim neste mesmo, ou no outro 
antecedente de 1606, deviaõ ser despachados aquelles 
Missionários : e ja desde o de 1600, dissemos nós, 
foraõ ter ao Maranhão Religiosos Menores. Deixaõ mais 
expressadas aquellas vozes, que partindo os laes Padres 
com intentos de irem ao Maranhão, chegarão á Serra 
da Ibiapaba, e dalli naõ passarão ; porque achando no 
seu terreno, e districto boa messe, se occuparaõ no seu 
cultivo, tirando por fructo delle o Padre Francisco 
Pinto a morte, que lhe deo o Gentio ; e o companheiro, 
o voltar outra vez para Pernambuco, e naõ pode tornar 
ao Maranhão, senaõ pelos annos de 1623 conclue a 
mesma voz ; e como poderiaõ pregar nas terras do Ma- 
ranhão, os que naõ chegarão a passar a Serra da Ibia- 
paba ? Esta Serra, como sabem os noticiosos das Cos- 
tas do Brasil, * e confessa a mesma voz, está situada 
na altura da Barra do Rio Camuci, vinte e cinco legoas 
ao Sertaõ, distante da Fortaleza do Siará para o Norte 
sessenta legoas, e mais de cento e trinta diz a mesma, 
e outras dizem ainda mais distante do Maranhão, e só 
por milagre nunca visto poderiaõ ser ouvidas as vozes 
dos Pregadores da Ibiapaba pelo Gentio do Maranhão. 
65. O certo he, que os BR. Missionários jesuítas naõ 
chegarão ao Maranhão, e Pará senaõ, como diz a mesma 
voz no §. IV, do anno de 16*23 por diante, publicando 
ella mesma, aqui, que até áquelle tempo se naõ ouvio 
no Maranhão a voz dos seus Pregadores, senaõ só na 

* Pag. 33. s. vin. 



84 

ibiapabn, aos GeiUios daqnella Serra, Primicras da 
Missão do Maranhão, fl por csla mesma se percebe, que 
quando chegarão 5o Maranhão, ja haviaõ pregado alli 
há rauilo os Religiosos Menores; pois a mesma con- 
fessa acharão ia Gentios Christãos. Porque quando naõ 
fosse o Gentio Christão reduzido á Fé, e doutrina, pela 
do Irmão Fr. Francisco do Rosário, de quem deixamos 
dito foy o primeiro que alli aportou, por lhe naõ assi- 
gnarmos anno determinado do referido de 1600 por di- 
ante, certamente consta, como ja dissemos, que no de 
1615, ou de 16l/i, como aíTirmaò outros, no Maranhão, 
e na mesma Cidade hoje, e Ilha de S. Luiz, alli pre- 
garão por dous annos contínuos os dous Padres Fr. 
Cosme de S. Damião, e Fr, Manoel da Piedade ; eja 
antes destes, oíinhaõ feito na mesma Ilha, dous Reli- 
giosos Capuchinhos, e Francezes, como na Estancia da 
fundação desta Capitania fica escrito, e alli fundarão 
Hospício. E porque estes, posto que Religiosos Me- 
nores naõ eraõ Portuguezcs, ainda que Missionários, 
só ficaõ sendo primeiros Missionários, e Portuguczes, 
que fossem ao Maranhão do Brasil, ou o Irmão Fr. 
Francisco do Rosário de 1600 por diante, ou em 1615 
o Venerável Padre Fr. Cosme de S. Damião, e seu 
companheiro. 

66. Tomada por interpreza a Cidade da Bahia no 
anno seguinte de 16'24^ pelos Olandezes a primeira 
vez, e retirados os moradores com os Religiosos do 
Convento para o lugar do Rio Vermelho, huma legoa 
de distancia donde levantarão Arrayal á ordem do Illus- 
trissimo Bispo, D. Marcos Teixeira, que tomara o 
mando pela prizaô, e falta do Governador Diogo de 
Mendoça Furtado em poder do inimigo, em hum dos 
encontros, e assfiltos^ que houve com elles, depois de 
estarem senhores da Cidade, e foy ordenado por hum 
Religioso Menor chamado Fr. Franscisco de Santo 
André, com tanto acerto o dispôs, e pelejou nelle com 



85 

lai esforço, e taõ destro Capitão, que entre os Militares 
adquirio nesta, e em outras occasioens o renome de Fr. 
Francisco Valente, sahindo daquelle encontro, para 
credito deste, com linma bala na cabeça, e cortado o 
dedo pollex da niaõ esquerda, assistindo assim este, 
como os mais Religiosos^ a todos os combates, e pelejas, 
que houve neste cerco, e durou por hum anno, assim 
ás confissoens, como ao mais que lhes era possível para 
a restauração daquella Praça, Capital de lodo o Brasil, 
que viraõ conseguida ao primeiro de Mayo, do seguinte 
anno de 1625. 

67. Passados cinco annos, no de 1630, e havendo 
quarenta e cinco desde a fundação primeira do Con- 
vento de Olinda, achando-se ja com muitos avanços es- 
piriíuaes na Conquista do Brasil os Religiosos Menores, 
com a erecção de dez Conventos nos principaes Lu- 
gares, e muitas Aldeãs pelos Sertoens, de que se co- 
Ihiaõ para o Ceo copiosos fructos, quando o inimigo 
commum do bem das almas, intrometteo nella, com a 
entrada dos Olandezes na Provincia de Pernambuco, 
a mais forte, e vigorosa zizania, que, se naõ suffocou 
de todo eslanova sementeira, a deixou taõ apoucada, e 
submergida, que pouco lhe faltou para a ver totalmente 
secca, e mais que mortificada, quasi morta, achando- 
se os seus Operários em novos, e contínuos desasso- 
cegos, e trabalhos ; desapossados dos Conventos, huns 
prezos, outros desterrados, mortos alguns, e perse- 
guidos todos, no decurso de vinte e quatro annos, em 
que foraõ os Olandezes dominantes no Brasil, desde o 
Rio Grande do Norte até Seregipe delRey ao Sul, nao 
lhes ficando, neste districto todo. Convento, de que se 
naõ apossassem, fazendo delles estrebarias de aniraaes, 
quartéis de soldados, e estalagem dos seus Cabos, des- 
pojando-os de tudo o que achavaõ, e se naõ podia 
occultar, roubando o precioso das alfayas,e ornamentos 
das Igrejas, profanando o Sagrado dos Altares, e ultra- 



86 

jando o venerando das Imagens, com magoa inexpli- 
cável da alma, irremediável senlimenlo, e dor fatal do 
coração, em verem naõ só contrastada, mas quasi per- 
dida esta espiritual conquista, plantada, e conseguida 
por tantos annos, e á custa de taõ repetidos desvelos. 

68. Postos assim nesta inexplicável consternação, 
naõ affroxaraõ por isso no primittivo fervor dos seus 
agigantados espíritos; antes agora, que viaõ o campo 
do Evangelho taõ feamente eml^araçado com os mortí- 
feros abrolhos, que produzirão os fomentos dehuns taes 
inimigos, que para serem mayores^ tinhaõ demais o 
ódio de Hereges, misturado com a perfídia do Gentio 
rebelde, creavaõ novos espíritos, se naõ para adefeza 
dos corpos, para alento das almas, repartidos pelos 
Prelados por todos os Presídios dos Portuguezes, e no 
principal do Arrayal, onde residia, em Oratório, que 
se havia levantado, o Guardião do Reciffe, e dalli sa- 
liiaõ para a administração dos Sacramentos pelas Es- 
tancias, assistência, e conforto espiritual nos assaltos, 
baterias, e avançadas, que se davaõ, e recebiaõ dos ini- 
migos, nas quaes, e em todas as partes, se achavaõ 
sempre para os artigos da morte, confessando, e dando 
consolo aos que perdiaõ a vida, ou se achavaõ nesse 
perigo, e em que alguns a perderão também para premio 
talvez do seu grande zelo, e charidade. 

69. Gora estas duas Apostólicas virtudes, foraõ estes 
trabalhadores da vinha do novo Orbe continuando até 
a sua total restauração ; os quaes, em todas as batalhas, 
e na miraculosa das Tabocas, que foy a primeira cam- 
pal, e nas duas ultimas dos Guararapes, como também 
na entrega de Pernambuco, naõ obstante, que nem o 
Author do Gastrioto Lusitano na entrega de Pernam- 
buco, e com elle o do valoroso Lucideno na das Tabo- 
cas, se lembrarão destes nossos irmãos, como o naõ fi- 
zeraõ em outras occasioens similhantes, naõ se esque- 
cendo nunca dos seus; pois, sem defraudar a gloria pro- 



87 

pria, podiaõ naõ occultar o credito allieyo, e nem isto 
feito, era suíTiciente desvio a embaraçar na Corte os re- 
querimentos, do que cada lium dos seus merecia por 
premio condigno do que liaviaõ servido ao Rey nesta 
empreza ; porque o zelo Apostólico dos Frades Menores 
sempre attendeo mais para o bem espiritual das almas, 
do que para o interesse particular das próprias pessoas, 
e por isso obrarão os nossos sempre sem attençaõ a 
outro respeito mais que o de servir a Deos, e aprovei- 
tar ao próximo : e supposto certa esta verdade, e máxi- 
ma Calholica, e porque o muito que padecerão, e obra- 
rão os Religiosos Menores em todo o tempo do duro ca- 
tiveiro de Pernambuco debaixo do pezado jugo dos O- 
landezes, naõ fique, como até agora^ lambem por des- 
cuido, e negligencia dos nossos, reservado só para os 
que cá vivemos dentro^ e chegue, ainda que tarde, á 
noticia de lodos, pomos aqui no seguinte Relatório^ hu- 
ma breve lista, ou epilogo, e resumo das suas mais no- 
táveis operaçoens, em todo o tempo do domiuio Olan- 
dez, na Província do Brasil. 

RELATÓRIO IIÍ. 

Dos trabalhos^ perseguiçoens, desterros, mortes, e outros acazos, que SíÂre" 
vieraõ aos Frades Menores da Custodia do Brasil, e do que elles também 
obrarão em todo o tempo, que foy tyrannizada pelos Hereges Olandezes 
a Capitania de Pernambuco, e suas confinantes» 

70. Cinco annos se hiaõ completando, que sahira 
destroçado, e vencido da Capital da Bahia o pérfido 
Olandez, quando, com outro similhante projecto no de 
mil e seiscentos e trinta se fez Senhor da Província de 
Pernambuco. Foy a Villa de Olinda, como cabeça desta 
rica Província, aonde se deo o primeiro golpe da furiosa 
ambição destes inimigos. De Olinda passou o Olandez 
a tomar posse da povoação do Reciffe, depois que no 



88 

dia seguinte de desasette de Fevereiro lhe pnzeraõ fogo 
os mesmos Portuguezes^ vista a impossibilidade de ser 
defendida, Geando prisioneiros na entrega das Fortale- 
zas ires Religiosos, dous na de terra, e hum na do mar. 

71. Em 4 de Março se deo principio ao Arrayal dos 
Portuguezes, e nelle erigirão hum Oratório os Religio- 
sos Menores, no qual se recolherão os que haviaõ lar- 
gado o Convento de Olinda, e daqui se repartirão para 
assistir pelas mais Estancias. Para este mesmo Orató- 
rio se passarão também os Religiosos moradores do 
Convento do Reciffe, do qual flzeraõ logo os inimigos o 
seu primeiro quartel (í6oi), e Presidio naquella Ilha, 
que pelo Convento se chama de Santo António, e elles 
lhe deraõ o nome de Fortaleza de Arnesto pelo Príncipe 
de O range. 

72. Do Convento de Tguaraçú, quando foraõ dar sa- 
que a esta Villa, em o primeiro de Mayo do anno de 
1632, tirarão prezos a lodos os seus Religiosos, e assim 
os levarão a Tamaracá, e os lançarão na Ilha, menos 
hum velho, e muito enfermo, que ajudado da violência, 
e máo tratamento dos Hereges falleceo nesta jornada, e 
o Irmão Fr. Boaventura, Sacerdote, que levando-o para 
o Reciffe, dallí o mandarão lançar cm huma das Ilhas 
Terceiras. 

73. Queimada a Villa' de Olinda da noite t^ara ama- 
nhecer o dia 23 de Novembro do sobredito anno^ e re- 
tirados os inimigos para o Reciffe, foy a primeira victi- 
ma dos Frades Menores da Custodia do Brasil, sacrifi- 
cada a Deos nos Altares da Fé pela perfídia dos Olande- 
zes, logo no seguinte mez de Dezembro, em onze, o P. 
M. Fr. Manoel da Piedade, o qual no piedozo exercício 
de acudir, e confessar os moribundos, com huma Ima- 
gem de Christo nas mãos, traspassado com huma ala- 
barda pelos peitos, foy posto em o numero dos mortos, 
no ultimo assalto, que deo o Olandez aos nossos, que 
defendiaõ o Forte do Cabedelo na Paraíba da primeira 



89 

TeZj que iiílcnlou aquella cmpreza, reservando Dcos a 
este seu grande Operário de outros similliantes perigos, 
em que se linha achado, assim nesta guerra em Pernam- 
buco, como na do Maranhão, para que agora com du- 
plicados méritos lhe augmentasse o mesmo Senhor o 
premio do seu grande zeto^ e charidade. 

74. Em huma assaltada, que do Reciffederaõ os ini- 
migos ao Convento de Olinda no seguinte anno de 1633, 
achando nelle ao seu Guardião Fr. Francisco da Espe- 
rança, e o írmaõ Leygo Fr. Pedro Auzança, a este com 
hum tiro de Arcabuz, e muitas feridas de alabardas, ti- 
rarão a vida, pelo acharem na Gapella da Igreja em ora- 
ção^ e ao Prelado levarão prezo para as cadeyas do Re- 
ciíFe, e delias o mandarão degradado para Olanda. DallL 
passou a PorlugaL e tornando ao Brasil, outra vez foy 
prezo juntamente com os mais no mesmo Convento de 
Olinda, e mandado lançar com elles nas Índias de Cas- 
íella, e lá pôs o íim ao curso da vida. 

75. Em nove de Junho de 1635^ se reiídeo ao ini- 
migo o Arrayal de Bom Jesus de Paranamerim, e foy o 
Venerável Padre Fr. Luiz da Annunciaçaõ hum dos Re- 
ligiosos, que entrarão eai o numero dos prisioneiros. 

76. Neste mesmo anno se fez a retirada do povo de 
Pernambuco para a Alagôa do Sul, dandose principio a 
esla triste, e lamentável transmigração aos três de Ju- 
lho, e nesta entrarão também muitos dos Religiosos, que 
andavaõ despojados, e fora dos Conventos, e todos os 
que ainda habitavaõ o de Serenhanhem, com o seu Ve- 
nerável Custodio Fr. Gosme de S. Damiaõ, e em Porto 
Calvo se achou na batalha, que deo o General Mathias 
de Albuquerque ao Coronel Picard Olandez, em que 
este ficou vencido, e entregue aos nossos o Mameluco 
inflei Domingos Fernandes Galabar, que se havia passado 
aos inimigos com grande damno dos Portuguezes, e com 
assistência deste Padre, e disposto por elle, mostrou 
acabar arrependido, e levar como castigo justo dos seus 

MBOATAH. VOL. II. 12 



90 

insultos, e no niesQio lugar de seu nascimento, a morle 
de forca em 22 deste mesmo mez^ e anno. 

77. No de 1636, o Venerável Custodio Fr. Cosme de 
S. Damiaõ, saliindo da Alagôa paravizitar os Conventos 
de Pojuca^ Iguaracu^, e Paraíba, aonde residiaõ ainda 
alguns Religiosos, começando esta jornada em compa- 
nhia do General de Hespanha D, Luiz de Roxas, que 
com o soccorro de Caslella, e Portugal havia desembar- 
cado na barra de Jeraguá, se achou na batalha, que em 
Porto Calvo deo o Olandez Sigismundo a D. Luiz, que 
nella com lastima, e sentimento grande daquelle aíílicto 
povo, perdeo a vida a impulso aleivozo de huma bala^ 
quando a victoria, que levou o inivnigo, com a sua mor- 
le, tendo-lhe presagiado antes este infausto successo o 
Venerável Padre Fr. Gosme^ que também ficou prisio- 
neiro nesta derrota, com o seu Secretario Fr. Joaõ Bau- 
lista, e o Irmaô Sacerdote Fr. Manoel das Neves, que 
lodos foraõ remetidos ao Reciffe, de donde depois de 
estarem algum tempo prezos, separados huns dos outros 
foraò degradados para varias partes, sendo a do Servo 
de Deos Fr. Cosme a da Serra Leoa na Gosta de AíFrica, 
a qual em nove mezes de viagem nunca poderão tomar 
os do seu Navio. Voltarão a Pernambuco, e o Venerá- 
vel Padre á sua prizaõ. Delia o tirarão a pouco tempo, 
e o mandarão lançar nas partes da Bahia os mesmos 
inimigos. 

78. Também foraõ prezos no anno de 1659 doze Re- 
ligiosos, que se haviaõ recolhido ao Convento de Olin- 
da, os de Iguaraçú, e Paraíba, com todos os mais, que 
puderaõ haver, faziaõ o numero de trinta e sette, os 
quaes despidos, e maltratados com injurias, fomes, se- 
des, e outras similhautes vexaçoens, os mandarão lan- 
çar pelas Índias de Gastella, dos quaes nenhum tornou 
a esta Custodia, e por lá falleceraõ, huus em desterro 
por terras estranhas, ou lançados ao mar pelos Olande- 
zes com pedras ao pescoço ; tomando por occasiaõ des- 



91 

tas iíiipiedades^ ou tyranias, liaver remetido o Padre^ 
Fr. Joaõ da Cruz, Guardião do Convento de Iguaraçô, â 
Bahia hum Irraaõ Leygo Fr. Junipero, sem passaporte 
dos Senhores do Conselho : e como esta noticia se di- 
vulgasse com a volta de Fr. Junipero da Bahia, foy 
prezo, elle^ e o dito Guardião, e postos a tratos^ con- 
fessando a verdade, e apresentando as cartas^ que todas 
craõ dos Religiosos, e naõ continhaõ particular algum 
contra os Estados, ainda os sentenciarão á forca, da qual 
os livrou o Conde Maurício^ por particulares supplicas, 
que lhe foraõ feitas, ficando presos á ordem do Conselho, 
commutando-lhes a pena de morte em a de degredo^ que 
se executou como os mais, que acima ficaõ nomeados. 
71). No anno de 1643 foy á Capitania do Espirito 
Santo huma armada Olandeza do porto de PernamÍ3uco, 
e com pouca resistência o tomarão em a Villa da Vi- 
ctoria, (e era esta a segunda entrada^ que naquella Praça 
faziaõ estes inimigos, porque a primeira a haviaõ exe- 
cutado quasi vinte annos antes, nodel62/i, quando 
dominavaõ intruzos, e apoderados da Cidade da Bahia, 
de donde entaõ, como agora de Pernambuco, foraõ dar 
sobre a Villa daVictoria) achava-se no Convento, que 
alli tinha esta Custodia, hum Religioso Menor, por 
nome Fr. Gerardo dos Santos, que depois foy Comis- 
sário Provincial, quando ja separada esta da Provinciaj 
era moço, e sujeito acompanhado de disposição, e valor, 
c este junto com o Vigário da Villa, Francisco Gon- 
salves Rios, tomarão á sua conta a defensa da Praça. 
Ordenarão a alguns mancebos, e a outros poucos mo- 
radores mais animosos, que armassem huma embos- 
cada, e elle com o Vigário mandarão pôr duas peças 
de artilheria, que acazo alli havia sem carretas, nas 
entradas de duas ruas principaes, c por onde neces- 
sariamente havia passar o inimigo, cobertas com ramos, 
e tanto que elles por alli encaminharão, e a tempo con- 
veniente, deo fogo o Vigário a huma das peças, e Fr. 



92 

Gerardo a oulra, comtaõ boa pontaria, e sncccsso^ que 
fizeraõ hum grande estrago no Olandez : e saliindo a 
lempo os da emboscada, dcrao sobre elles, com lanto 
ímpeto, e esforço, que relirando-se o inimigo para as 
suas Náos desordenadamente, foraõ matando nelles até 
se recolherem lodos, ficando mortos alguns quatro- 
centos, a Villa livre, c Fr. Gerardo com hiima bala cm 
huma perna^ de que sempre vivco queixoso, e huma 
ferida de chuço, ou alabarda, na cabeça, sem que este 
Religioso, ou algum dos mais, com laÕ vivas, e auten- 
ticas cerlidoens, intentassem na Corte requerimento 
algum. 

80. Outra vez tornarão estes inimigos ao Espirito 
Santo, tomarão terra no seu porto de Villa Velha, e 
começando a fortiíicar-se aqui, foraõ forçados a largar 
oposto, a toda apressa, porque se lhes representou, 
viaõ descer do monte de nossa Senhora da Penha, que 
fica sobranceiro ao porto da Villa, (e lhes parecia a elles 
Inim formoso, e forte Gastello) muita gente de pé, e 
cavaílo, todos de armas luzentes, e bem preparadas, 
naõ havendo lá pessoa alguma ; porque até a Imagem 
da Senhora haviaõ os Religiosos retirado para o (k)n- 
vento da Victoria, e só se via a sua Capellinha no mais 
empinado da Penha, que a Senhora, para guarda sua, 
quiz que parecesse aos inimigos Gastello armado de for- 
tes muralhas, e cercado de hum bem disposto, e ordenado 
Esquadrão, para defender a sua Gaza, e atemorizar 
aquelles Hereges seus inimigos^ que na desordem, com 
qne se recolherão ás suas Náos, sendo accommettidos 
de poucos moradores, ainda deixarão alguns quarenta 
mortos, por despojo do seu atrevimento. E porque esta 
victoria foy conseguida a vinte e dous de Settembro, 
dia assignalado dos Invictos Martyres Thebanos, S. 
Maurício, e seus companheiros, Padroeiros da Villa 
Velha do Espirito Santo, tiveraõ por sem duvida os seus 
m">radores, foraõ os que armarão, como taõ experi'- 



i 



menta dos guerreiros, aqnelle lustrozo, e forte Esqua- 
drão, ao pé do Caslello, e Hermida da Senhora da 
Penha : depois desta Senhora, ficarão tamhem reco- 
nhecendo dever aos Santos Martyres aquella victoria, 
e assim na mesma Igreja da Penha, dedicarão Capella, 
e Altar aos gloriosos Martyres^ aos qnaes ficarão ser- 
vindo dalli em diante em huma devota Confraria. 

81. Procurando o Governador do Pastado António 
Telles da Silva soccorrer aos de Pernambuco, que no 
anno de 1615 haviaõ dado principio, em 19 de junho, 
á empreza da liberdade^ mandou logo por mar dcsasetle 
companhias de Infantaria a Tamandaré, com as quaes 
foraõ lambem cinco Religiosos desta Custodia^ tendo 
ja mandado por terra desde o anno passado, com dous 
Cabos mais^a António Dias Cardozo^ Henrique Dias, e 
D. António Filippe Camarão, e a lodos estes acompa- 
nharão Religiosos. Também despachou mais quatro 
companhias em soccorro de Pedro Gomes ao Rio de 
S. Francisco, e os acompanharão Fr. João do Dezerto, 
Fr. Sebastião dos Martyres, Fr. Masseu, e outro Re- 
ligioso mais ; e ficando estes com Pedro Gomes na- 
quelle Presidio, vencido em batalha o Olandez, os 
outros dous acompanharão os soldados até Pernambuco. 

82. Na batalha das Tabocas, em 3 de Agosto deste 
mesmo anno, se achou o Irmaò Fr. Luiz da Vizilaçaõ, 
por sobrenome, c mais conhecido por Fr. Luiz dos Ar- 
rayaes, pela continuada assistência, que sempre fez em 
todos ^os dos Portuguezes, e referia depois os particu- 
lares successos assim de animo, e esforço dos nossos, 
como prodígios do poder Divino^ que se naô puderaõ 
occultar, nem aos olhos dos Hereges inimigos, nem 
ao conhecimento dos Catholicos vencedores, naquella 
por tantos títulos miraculosa victoria. 

83. No de 1647 foy occupada pelo General Olandez 
Sigismundo parte da Ilha de Iiaparica, e sitiada pelo 
inimigo a sua Fronteira, com boa fortaleza, quatro Re- 



94 

duelos, e outros reparos, para defender se, e oíFender. 
Contra estes fizeraõ os nossos Arrayal no sitio da Yera- 
Cruz, fronteiro ao inimigo, para lhe impedirem o poder 
entranhar-se pelo corpo da lha ; e em hum assalto, 
que inconsideradamente se mandou dar á sua Fortaleza, ^^ 
depois de o deixarem fortificar-sc muitos mezes^ no ' 
qual tiveraõ os Portuguezes hum dos mais infeliccs suc- 
cessos de toda aquella guerra; nelle se acharão tam- 
bém os Religiosos Menores, e hum destes, por nome 
Fr. Domingos o Ruyvo, retirou ás costas, do pé da mu- 
ralha, ao Mestre de Campo o Rebellinho, onde o matou 
o Olandez morte amais sentida, pelo valor, e falta 
deste grande Cabo. 

84. Depois de levantada a Campanha, e entregue o 
governo de Pernambuco ao Mestre de Campo General 
Francisco Barreto, em 1648, naõ houve assalto, choque, 
marcha, ou peleja, em que os Religiosos Menores se 
naõ achassem, indo ao Rio Grande por varias vezes 
cora o Camarão, Henrique Dias, Joaõ Barbosa Pinto» 
e António Dias Cardoso. A todos estes acompanharão 
Religiosos Menores, por serem pedidos ao General, 
pela devoção dos Cabos, e porque outros Religiosos, e 
Sacerdotes Seculares se naõ accommodavaõ a estas jor- 
nadas, sem ajuda de custo, cavallos, e comboy para 
as suas pessoas, falo, e provimento, de que os nossos 
Frades por pobres naõ cuidavaõ. 

85. Nas duas memoráveis batalhas dos Guararapes, 
neste mesmo a uno, a ambas se acharão o Padre Fr. 
Simaõ das Chagas, que depois foy Provincial, Fr. Luiz 
dos Arrayaes, Fr. Gonsalo da Conceição, e Fr. Gaspar 
de S. Lourenço. Nos assaltos de Itapessima, e Tama- 
racá, alli se acharão os nossos Religiosos, nos ataques 
das forças do Rego, da Assêca, das cinco Pontas, e em 
todas as mais occasioens similhantes, e por todo o 
tempo que durou o Assedio do Recife, que foraõ nove 
annos, nas suas Estancias continuamente assistirão Re- 



9ã 

ligiosos Menores, especialmente Fr. Luiz dos Arrayaes, 
e Fr. Gonsalo da Conceição, por todo o tempo, que se 
foy seguindo de 1648 aié o ultimo da liberdade. 

86. No íim do de 1653, e ultimo do domínio Olandez 
em Pernambuco^ sahindo desle porto huma Náo inimiga 
á pilhagem pelas costas da Baliia até o Espirito Santo, 
guiados por hum máo Portuguez, e peyor Christão, 
saltando desta em terra huma escolta de Olandezes ao 
monte da Penha, levados das informaçoens^ quelhes 
havia dado o tal homem de ter a caza da Senhora muito 
ouro, prata, e outras peças preciosas. Dava-se neste 
tempo principio ao Conventinho, que alli tem esta Pro- 
víncia, e estava por agente das obras, e com titulo de 
seu Prelado, o IrmaD Fr. Francisco da Madre de Deos, 
chamado, o Enfermeiro das contas brancas, de quem, 
e das suas virtudes daremos mayor noticia em seu lugar. 
Achava-se na igrejinha em oração, e coma porta aberta, 
ou cerrada, por naõ haver ainda entaõ outra por onde 
se entrasse, e era alta noite, quando a vio occupada de 
soldados, e armas. Sem se assustar continuou na &ua 
oraçaõj e os Hereges, sem fazerem cazo delle, no saque 
dos ornamentos, alfayas, e tudo o mais que viraõ lhes 
podia servir, menos hum annel de ouro, que tinha a 
Senhora, que lho naõpuderaõ sacar, nem ainda fazendo 
diligencia por lhe quebrar o dedo ; Aqui acudio Fr. 
Francisco, e rogava com lagrimas naõ quizessem ul- 
trajar a Imagem da Senhora. Desistirão da empreza do 
annel, ou ja por temor, ou por compaixão, e querendo 
despir-lhe o manto de seda, o mesmo Religioso com 
suas mãos lho tirou, e lhes fez a entrega delle. Menos 
attençaô merecerão as lagrimas do bom Religioso com 
o perverso Portuguez, e guia infiel dos pérfidos Hereges, 
ao qual naõ pode persuadir o nao tirar dos braços da 
Senhora o seu Menino, dizendo ao Religioso, que o 
levava para o Reciffe, para brincar com outro, que lá 
tinha, e assim se foraõ, levando prezos alguns Reli- 



96 

giosos mais, que alli se achavaõ, c sollaraõ outra ve2 
ao embarcar-se, menos oito escravos, que serviaõ nas 
obras do Convento, que levarão comsigo para o Reciffe; 
dizendo o Porluguez a Fr. Francisco, que o deixavaõ a 
elle, para acabar aquella Obra, que estava muito bo- 
nita : ao que respondeo o Religioso, como em paga 
desta cliaridade, que lhe faziaõ, que cedo pagariaõ com 
o mais, o que agora executavaõ, e assim aconteceo ; 
porque indo dalli estes Hereges, e piratas a Gabo Frio, 
e saltando alguns em terra nu Bahia Formosa, a recolher 
huns gados, que por alli paslavaõ, dando sobre elles o 
Gentio, que o guardava, íoraõ mortos muitos: e os que 
escaparão, em Pernambuco acharão o ultimo castigo, 
com a entrega desta Praça, que logo se seguio em vinte 
selte de Janeiro de 165/i. 

87. Nesta, para premio condigno do Gatholico zelo 
dos Frades Menores da Província do Brasil, ja que naõ 
pertendiaõ outro, permiltio o Geo que hum Filho do 
Santo Palriarcha, e seu Custodio, neste tempo, o Padre 
Fr. Daniel de S. Francisco, fosse o que na entrega do 
Reciffe, e total Restauração de Pernambuco, tivesse a 
gloria de ser o primeiro entre os mães, que nesta con- 
junção entrasse, e ao hombro do seu General, naquella 
Praça, a tomar como o fazia elle pelo temporal, a posse 
desta espiritual Conquista, em a qual por todos os prin- 
cipies, tiveraô sempre nella o primeiro lugar, os Reli- 
giosos Menores. E porque se naõ julgue o que neste 
Relatório se escreve, só por dito, mas fique também 
confirmado com testimuniio de fora, ajuntamos aqui 
varias Gertidoens do Governador do Estado, Generaes, 
e Mestres de Campo, Cabos, e OiTiciaes Mayoresdaquella 
guerra, as quaes se achaõ autenticas em hum instru- 
mento reduzido a publica forma pelo Tabelliaõ Manoel 
da Silva, de treze de Agosto de 16/|8 na Cidade da 
Bahia. Nellas vaõ expressadas algumas cousas mais, 
do que se contem no Relatório acima, que sendo tirado 



97 

de vários papeis, e manuscriplos desta Custodia, nelíe 
vaô individuadas lambem outras muitas, que nas Ger- 
lidoens se tocaõ em commuiii. 

CERTIDàM I. 

88. Mathias de Albuquerque, do Conselho Supremo 
de Guerra de Sua Mageslade, Superintendente da destas 
Gapilanias do Norte do Estado do Brasil, &c. Certifico, 
que vindo no mez de 1'evereiro do anuo de 1630 sobre 
o porto, e Villa desta Capitania de Pernambuco^ huma 
muy poderoza Armada Olandeza, o Padre Custodio de 
S. Francisco, * que entaô era, com muitos Religiosos 
de sua Ordem, acudirão á praya^ ás trincheiras, e ba- 
luartes, a confessar, e animar os soldados, e gente da 
terra, para que sustentassem as ditas trincheiras, e ba- 
luartes, onde assistirão té de todo serem rendidos. E 
vindo nós para o Reciífe, vieraõ também muitos Reli- 
giosos da dita Ordem, alguns dos quaes foraõ assistir 
no fórle do mar a confessar, e no de terra fizeraõ o 
mesmo oílicio, té de todo serem rendidos : e fazendo 
eu Arrayal no silio de Paranamerim, para nelle formar 
huma fortificação, como formey, em que me defendesse, 
e oílendesse ao inimigo, os ditos Religiosos se retirarão 
para o dito sitio, e dentro no Forte fizeraõ hum Ora- 
tório, no qual sempre assistirão de seis Religiosos para 
cima, dizendo no dito Oratório Missa, e administrando 
os Sacramentos da confissão, e Sagrada Communhaõ, 
e fazendo Sermoens, quadno era necessário, com muita 
pontualidade, esem nisto faltarem hum ponto; e 3 annos 
contínuos os ditos Religiosos foraõ dizer Missa ás Es- 
tancias dos AíTogados, Salinas, e todas as mais, e nellas 
administrando os sobreditos Sacramentos com a mesma 
pontualidade, e diligencia ; e em todos os rebates, e as- 

* Fr. António dos Anjos. 

JABOATAM. VOL. II. 13 



98 

saltos, que tivemos com os inimigos^ se acharão pre- 
sentes os ditos Religiosos, em companhia dos nossos 
soldados, animando aos sãos, e confessando aos feridos 
com muito grandes trabalhos, e riscos, e assistirão no 
dito Oratório, e Arrayal, fazendo o mesmo oíficio 
denlro, e fora delle, até nove dias do mez de Junho 
próximo passado, em que o dito Arrayal se entregou, 
e com elle seus ornamentos, livraria, e alfayas, que 
deviaõ importar muito: e dando o inimigo Olandez o 
primeiro dia do mez de Mayo do anno de 1632 inopi- 
nadamente na Viila de Iguaraçii, na qual os ditos Re- 
ligiosos tem hum Convento, lhes levarão todos os or- 
namentos, livros, e alfayas, e dous Religiosos cativos, 
no que receberão mui grande perda. Gonsta-ine assim 
niais^ que indo o inimigo Olandez pelo mez de No- 
vembro do dito anno de trinta e dous com grande força 
sobre a l)arra da Paraíba, alguns Religiosos da dita 
Ordem se foraõ meter no Iu)rte do Cabedèllo da dita 
barra, para confessar, e animar aos soldados, e foy 
morto pelos Olandezes o Padre Fr. Manoel da Piedade, 
Pregador ; e vindo no mez de Mayo do anno passado 
de 1634 o dito inimigo Olandez sobre a barra de Na- 
zareth, áqual eu pessoalmente acudi, vieraõ dous Re- 
ligiosos em minha companhia do dito Oratório de Pa- 
ranamerim, e do Convento de Pojuca acudirão outros, 
c todos se acharão presentes no encontro, que com o 
dito inimigo tive, fazendo cada qual o seu oíficio com 
a mesma pontualidade, e diligencia ; e hum anno, que 
assisti na força de Nazareth, me assistirão sempre dous 
Religiosos, e ás vezes mais, do dito habito, e feito no 
dito Nazareth hum Oratório, o Padre Custodio, que 
hoje he, * se foy a morar nelle com alguns Religiosos, 
para que naõ houvesse falta na administração dos Sa- 
cramentos, Sermoens, serviço de Deos, e de Sua Ma- 

* Era o y. Padre Fr. Cosmo de S. Damiaõ, 



J9 

geslade; e vindo nós para soccorrcr o Arrayal, e Na- 
zarelh, á Yilla de Serenlianlieiíi, o dito Custodio com 
tdguns Religiosos se vieraõ lambem para a dita Viila 
de Serenhanliem, deixando no Oratório de Nazaretli 
quatro Religiosos, que assistirão, até que a dita Força 
se rendeo, onde também perderão seus ornamentos, 
livros, e o mais que tinhaõ ; e vindo o inimigo Olandez 
em onze de Abril deste presente anno, com grande po- 
der para me desalojar da dila Viila de Sereniianhem, 
eu lhe salii ao encontro, e foy Deos servido que o des- 
baratamos; em minha companhia sahio lambem o Padre 
Custodio a fazer o costumado cilicio de exliortar, e 
confessar aos soldados, com seis, ou oito Religiosos de 
sua Ordem, e vindo eu hora a dar no Porte, que o ini- 
migo tem no Porto Calvo, e foy Deos servido o ren- 
desse, em minha companhia se acharão quatro Reli- 
giosos da sobredita Ordem, e íizeraõ o mesmo com 
inuita inteireza, e charidade ; e finalmente, vindo nós 
esperar a Armada do soccorro a esta Alagôa do Sul, 
veyo o sobredito Padre Custodio Fr. Cosme de S. Da- 
mião com trinta Religiosos da sua Ordem, e actual- 
mente faz hum Oratório para delle acudir ás necessi- 
dades que se oíTerecerem, de maneira (|ue, na Viila, 
ReciíTe, e no Arrayal, em todas as Estancias, no Gabo 
de Santo Agostinho, em Serenhanliem, no Porto Calvo, 
e hora nestas Alagoas, senipre assistirão os Religiosos 
Capuchos desta Custodia, confessando, pregando, di- 
zendo Missa, e exhortando a lodos, sendo de grande 
importância sua presença, achando-se de dia, e de 
noite, em quantas occasioens, rebates, emboscadas, 
encontros, cercos, e assaltos houve, com tanto perigo, 
como os mais arriscados soldados ; e o mesmo sey que 
fizeraõ em Tamaracá, e na Paraíba, e que quasi tudo o 
que possuiaò seus Conventos, se lhes tomou pelos ini- 
migos, queimando-lhes a Caza principal da Viila, e 
íicando-lhes cm seu poder, e desbaratadas as mais caz-.xs 



100 

(Io Recifftí, Ignaraçú, Serenhanhem, e os mais Orató- 
rios do Arrayal, edoGal)o; e de liuma, e outra parte 
lhes levarão presos, e cativos por muitas vezes os ini- 
migos alguns Religiosos ; e na tomada do Arrayal, c do 
Cabo, os Prelados, e os mais Religiosos, que alli havia, 
levarão os inimigos, e os mandarão para onde quizeraõ; 
e sendo os Religiosos desta Custodia taõ pobríssimos, e 
havendo-lhes levado o que linhaõ em suas cazas, e o 
com que celebravaõ, e excrciaõ o Culto Divino, a huns 
mortos, c a outros cativos em serviço de Deos^ e do 
Sua Magestade, sempre assistirão, e perseverarão, c 
actualmente o estaõ fazendo ; pelos quaes serviços, e 
perdas será justíssimo satisfazer-lhes Sua Magestade estes 
merecimentos, com lhes mandar, com a recuperação 
destas Praças, demais da ordinária de todas suas Cazas, 
que se lhes de com eíleito, com que prefação cm seus 
Conventos, o que lhes falta para poderem assistir ncl- 
les, e continuar o exercício dos Oíficios Divinos, e o 
Cnllo Sagrado. E porque tudo assim passa na verdade, 
o juro pelo habito de Christo, de que sou professo. Dada 
nesta Àlagòa do Sul em Pernambuco sub meu signal, 
c signcte de minhas Armas, aos vinte de Agosto de mil 
seiscentos trinta e cinco aunos. E eu Pedro de Oscos y 
Turen a fiz escrever, e sobscrevi no dia, c anno. 

Malldas de A Ibiiquerque, 



4- 
CERTÍDAM 11. 

89. D, Juan Vinccncio San-Filice, Conde de Banôlo, 
General de la Ârtilleria, y Gavaileria, dei Consejo Gol- 
lateral de Nápoles, Loco-tcnlenle dei Marqiiez de Ve- 
lada, Governador General de la guerra de Pernam- 



101 

huco &c. Certifico^ que mandando-me SuMagcstad a Per- 
nambuco para soccorro, y rcstauracioii de aquella Ca- 
pitania, llegue ai Ârrayal de Paranamerim, una légua 
dislanle de la Villa de Marim, en el ano de mil seis- 
centos y treinta c uno, cn el qual liallô un Oratório de 
los Religiosos de San Francisco desta Custodia dei Bra- 
sil, que ellos alli íiizieron para assistir en todas las 
obras de charidad, como celozos de la Pieligion, que 
professan, y dei servido de Su Magestad^ en el qual 
Oratório estubieron siempre de seis Picligiosos para 
cima, administrando los Sacramentos de la conlession, 
y Cõmunion, diziendo Missas, y predicando, y por mas 
de ires anos continues fueron dezir Missa a las Estan- 
cias de las Salinas, y Afogados, y a todas las demas, y 
cn todos los assaltos, y rebates, quetubimos^ se hal- 
laran los diclios Pieligiosos con los nuestros soldados, 
confessando a los heridos, y animando a los sanes, con 
mucho trabajo, y riesgo suyo, y en el dicho Arrayal, y 
Oratório estubieron haziendo el mismo Oííicio, y den- 
tro, y fuera dèl asla nueve dias dei mez de Junio de 
mil seiscentos treinta y cinco, cn que el Olandez le 
rindiò, adò perdieron sus ornamientos, alfayas, y li- 
breria, y cautiraron algunos Religiosos, que dester- 
raron dei Brasil; y foy informado, que yendo el dicho 
inimigo i)or el mez de Noviembre dei dicho ano con gran 
fuerça sobre la Paraíba, algunos Religiosos dei dicho 
habito assistieron en el Fuerte de la dicha barra para 
animar, y confessar los soldados, y entonces fue muer- 
lo por los Olandezes el Padre Fray Manuel de la 
Piedad, Maestro de Theologia, y Religioso de mucha 
authoridad ; y que en un assalto, que el inimigo diò eu 
la dicha Giudad, cautivò algunos Religiosos, que des- 
pues tubo en prizioues estrechas, y a uno dellos enbiò 
para Olanda ; y que en otro asalto, que el dicho Olan- 
dez diò en la Villa de Olinda, despues que ellos la hu- 
\'ieron qucmado, mato otro Religioso dei dicho habito, 



10^ 

llamado Fi\ Pedro, y a sii companero ilevnron prezo, 
yenbiaron a Flandes ; y viniondo eti el niez de Março 
dei ano de 163/i cl dicho Olandez sobre Nazarelh, supe 
que vinieron dos Religiosos dei diciío Arrayal de Para- 
iiaQierin, y otros dei Convento de Pojoca, que se Iial- 
laron eri el enenentro, que los nueslros tiihieron con ti 
inimigo, haziendo lodos su oficio ; despues dei qual el 
Padre Cuslodio sefue a vivir en èl con aigunos Reli- 
giosos, haziendo alli Oratório para continuar con la ad- 
ministracion de los Sacramentos, como continuaron 
asta que la diclia Fuerça se rindiò, adò tambien per- 
dieron sus ornamentos, libros, y lo mas que tenian, y 
cautivaron, y desterraron los Religiosos, qtie alli se 
quedaron con los soldados ; y viniendo el inimigo Olau- 
dez en onze de Abril dei ano de 1635 con gran poder 
sobre la Villa de Serenhanhcm, estoi informado, que 
alli se hallò el dicho Padre Custodio con ocho Reli- 
giosos de su Ordcn, haziendo lo acostumbrado de ex- 
ortar, y confessar a los soldados : y que viendo los nues- 
lros a dar en el Fuerle, que el cnemigo lenia en el 
Puerlo Calvo, que Dios fue servido rindiessemos, se 
hallaron tambien alli quatro Religiosos de la sobredicha 
Orden, y hizieron lo mismo com mucha enlereza, y cui- 
dado ; y viniendo nòsotros a esperar la Armada dei 
soccorro a la Alagôa dei Sul, vino el dicho Padre Cus- 
todio con Ireinta Religiosos, y en la dicha Alagôa hizo 
un Piecogimienlo, para de alli acudir a las necessidades, 
que se ofreciessen. Llegando pues el soccorro dei Ge- 
neral D. Luiz de Roxas, en su misma companhia partiò 
el Padre Custodio com su companero, exortando los 
soldados, animandolos, y confessandolos, y llegados ai 
Puerto Calvo, con la rola, que huvo de los nueslros, 
y muerle dei dicho General, fui yo a socorrer la dicha 
Placa, quedando con el cargo dei dicho D. Luiz de 
Roxas, en la qual ocasion me acompanaron Religiosos 
de la dicha Orden, assisiiendo en dicho Puerlo Calvo 



105 

eii su Oratório a lodo \o conveniente, y necessário ; y 
viniendo el (^onde Nassau con seis mil hombres a los 
'juarteles^ y Fortalezas dei mismo l^nerto Calvo, los 
dichos Religiosos assislieron en la balalla, confessando, 
y cnrando los vivos, y amortajando los muerlos, por 
todo cl tiempo, que duro la pelea, y no haViendo con- 
fessor, que quiziessc quedar en la fortaleza con la In- 
fauleria, los dichos Religiosos se offerecieron ; y de 
efecto, quedo uno con los dichos soldados, que con 
ellos, despues de rendida la Fortaleza^ le enbiaron los 
Olandezespara las Índias, y los demàs me acompanaron, 
y a todo el exercito por caminos fragosos, e inhabi- 
tables àsta que tornamos à la Alagôa dei Sul, adò estu- 
bimos algunos poços dias con la assistência de los dichos 
Religiosos ; y parliendo nòsotros de alli para el Penedo^ 
y Rio de San Francisco, yde ahi a Seregipe, y ála Torre, 
en todos estos puestos los dichos Religiosos assistieron 
en el Exercito, haziendo su devida obligacion ; y teni- 
endo yo noticia que el mismo Conde Nassau vénia en 
persona a esta Ciudad de la Bahia con treinta y ocho 
velas, y con mucha fuerça, antes de su Uegada me viene 
a soccorrer la dicha Plaça, y en lodo el tiempo, que 
cl dicho Conde Nassau nos tubo en cerco, por mar, y 
lierra, los dichos Religiosos assistieron siempre con 
mucha satisfacion, y cuidado en todos los puestos, y 
ocasiones necessárias, confessando, y exortando nues- 
tros soldados, deraás de que algunos Religiosos con 
sus próprias manos, y con servientes deladichaOrden, 
assislieron en el trabajode las plataformas, y trincheras, 
que yo mande se hiziessen, en que los dichos Religiosos 
se avantajaron mucho, nò solo a los Religiosos de las 
demas Ordenes, mas aun a muchos seglares, mui cui- 
dadosos dei servicio de Dios, y de Su Magestad, asta 
que el dicho Conde Nassau confuso, y con grande per- 
dida de su exércilo, gloria nuestra, y afrenta suya, le- 
vanto el dicho cerco, y se retiro a Pernambuco, de suer- 



te, que cn lodo el processo de guerra lan prolixa, cii 
la Villa de Marim, Reciffe, Paraíba, Gabo de San Agus- 
lin, Serenlianlien, Puerlo Calvo, y en esta Ciudad, as- 
sistieroii los Religiosos Capuchos desta Custodia, con- 
fessaudOj y exortando de dia, y de uoclie cn todas las 
occasiones, rebates, emboscadas, y assaltos^ que huvo, 
con mucho riesgo de sus personas : por lo que será 
justíssimo, que Su Magestad (Scc. Y porque todo passa 
eu la verdad, lo juro por el habito de Santiago, de que 
soy professo. Dada eu la Ciudad de la Bahia cn 2 de 
Agosto de 1638. 

D, Jtian V incendo San Filice^ 

Gomle de Banolo. 4* 

CERTiDAM llí. 

90. Os Mestres de Campo, e Governadores da Guerra 
de Pernambuco etc. Certificamos, em como em todo o 
teuipo, que houve guerra nesta Capitania de Pernam- 
buco, e na que de presente mais viva temos, os Reli- 
giosos Capuchos, desta Custodia de Santo António deste 
Estado do Brasil, acompanharão sempre em todas as 
occasioens, e Cercos á Infantaria, e Exercito, como no 
cerco da Força de Paranamerim, e no de Nazareth^ e 
na Paraíba, sendo Mathias de Albuquerque, Gover- 
nador da guerra, acudindo sempre os Religiosos aos 
assaltos : e em huma batalha que houve junto ao Cabe- 
delo com os Flamengos, foy morto por elles hum Re- 
ligioso grave, c Pregador, por nome Fr. Manoel da Pie- 
dade, e outro Frade Leygo em a Villa de Marim em 
hum assalto, que o inimigo alli dco : e depois de to- 
mada, e possuída toda a campanha do Flamengo, ficarão 
cm quatro Conventos quasi de quarenta Religiosos, com 



105 



seus Prelados cm seu poder para exliortar aos Calho- 
licos, que ficaraõ entre elles a fé, e obediência Catho- 
lica Romana, os quaes todos pelos- ditos Hereges foraõ 
desterrados com muito descomniodo em navios para as 
terras mais agrestes, das índias, aonde muitos mor- 
rerão, e outros ficaraõ lá, de modo que ficando este 
Povo muy sentido, da ausência dos Religiosos Capuchos, 
mandarão da Bahia seus Prelados alguns poucos com 
passaportes para que a Messe da fé de todo em todo se 
naõ perdesse por falta de Obreiros, e assim prégavaõ, e 
confessa vaõ, e administra vaõ os Sacramentos a todos. 
Depois do levantamento, e intento da liberdade, vieraõ 
seis, ou oito Religiosos dos mesmos da Bahia, assim 
por mar, como por terra, que sempre acompanharão a 
Infantaria, e assistirão também no Rio de S. Francisco, 
com o Mestre de Campo Francisco Rebello, todo o tempo 
que alli esteve, achando-se em a victoria, que alli os 
nossos tiveraõ ; na Paraíba também em esta occasiaõ 
assistirão 4 Religiosos com o seu Prelado no Arrayal de 
Santo André, e Cidade, acudindo a huma, e outra parle, 
por estar a Capitania falta de Sacerdotes Clérigos, nem 
havia outros Religiosos, acudindo com muito cuidado 
aos doentes, e mortos, que houve em aquelle tempo, 
na peste que houve, de que morrerão dentro em três, 
ou quatro mezes mais de seiscentas pessoas, e na reti- 
rada da dita Capitania vieraõ os ditos Religiosos acom- 
panhando os aífligidos moradores até esta Varge, aonde 
o dito seu Prelado Fr. Jacome da Purificação, fazendo 
hum Recolhimento, assistio sempre com Ires, ou quatro 
Sacerdotes, confessando, e administrando os Sacra- 
mentos assim neste Arrayal, como também muitas vezes 
nas Estancias. Acompanhou hum a Infantaria na jornada 
taõ importante que foy ao Rio Grande, e na bateria que 
puzemos ao ReciíFe : e nas mais partes, ou Conventos, 
em que os ditos Religiosos Capuchos estaõ nesta Capi- 
tania, aonde há Infantaria, acodem com boa vontade 

JABOATAfil. VOL. H. 1Í 



106 

a administrar os Sacramentos aos soldados ; e ultiaia* 
mento se acharão os ditos Religiosos na insigne victoria, 
e successo, qjiie nosso Senhor nos deo contra o Fla- 
mengo, em vinte e três deste mez de Abril, Véspera de 
nossa Senhora dos Prazeres em os Montes dos Gnara- 
rapes^ em que lhe matamos quasi de mil homens, e fe- 
rimos muitos, exhortando nesta occasiaõ aos soldados ; 
pelo que n)erece esta Custodia que Sua Mageslade lhe 
faça favor. Era vinte e nove de Abril, do dito auno de 
1648. 

André Vidal de Negreiros, 
João Fernandes Vieira. 



GERTIDÂM IV. 

91. Lopo Curado Garro, Governador da Capitania 
da Paraíba em todo o tempo, que se fez guerra ao ini- 
migo Olandez pela liberdade Divina, e também na re- 
tirada ; e ultimamente em esta Viila de Olinda, aonde 
ainda assisto com o mesmo cargo, de Cabo, e Gover- 
nador das Companhias da dita Capitania retirados : 
Certifico, que em todo o tempo que durou a guerra na 
dita Capitania da Paraiba^ os Religiosos de S. Fran- 
cisco, de que era Prelado o Padre Fr. Jacome da Pu- 
rificação, Pregador, tendo sua caza dentro da Força de 
Santo André, para que dalli acudissem a confessar a In- 
fantaria, como de eífeito o fizeraô, cora grande zelo, 
edificação, e consolação de lodos os que assisliaõ na 
guerra, e mais moradores, e principalmente em o tempo 
da peste, de que morrerão em três, ou quatro mezcs, 
mais de quinhentas pessoas, acudindo elles de noite, e 
de dia, assim pelas fazendas^ como dentro no ArrayaU a 



107 

adaiinistrar os Sacramentos ; por quanto no dito Ar- 
rayal de Santo André naõ havia^ nem assistiaõ outros 
Sacerdotes, nem Religiosos, senaõ elles^ que pudessem 
dizer Missa, e confessar, e assim em este mayor tra- 
balho, e guerra de taõ agudas doenças^ elles ordenarão 
algumas solemnes procissoens, em que todos descalços 
pedimos auxilio, e misericórdia ao Ceo, confortando a 
lodos com seus Sermocns, e depois que pane do Exer- 
cito se foy apozenlar á Cidade, elles se forão para o 
seu Convento, e reparando naõ deixavaõ, ainda que 
naõ eraõ mais que quatro Religiosos, de acudir ao Ar- 
rayal de Santo André a dizer Missa, e confessar a gente, 
que alli liavia. Ultimamente, dividindo-se a gente da 
Capitania em a retirada em dous troços, para melhor se 
poder comboyar, os ditos Religiosos lambem se divi- 
dirão para acompanhar aos ditos affligidos retirados em 
seus Inbulhos, até esta Capitania de Pernambuco, 
aonde lambem assistem com a Infantaria dous em o 
Arrayal do Bom Jesus acompanhando a Infantaria em 
todos os rebates, e occasioens, que se oíFerecem com o 
inimigo Olandez, e dous mais em esta Estancia, e quar- 
tel da Villa de Olinda, aonde lambem com muito zelo, 
e consolação nossa fazem lambem sua obrigação, o que 
tudo passa na verdade pelo juramento dos Santos Evan- 
gelhos. E por me ser pedida a presente, a mandey pas- 
sar, assignada por mim, e sellada com o signete de 
minhas Armas, aos 18 de Mayo de 16/i7. 

Lopo Curado Garro. 4- 

CERTÍDAM V. 

92. Francisco Gomes Monis, Cavalleiro Fidalgo da 
Gaza delRey, hum dos ires Governadores, que assis- 
timos na Guerra^ que fizemos na Capitania da Paraíba : 
Certifico^ que tudo o conteúdo na Ger*idaõ atraz, do- 



108 

Governador Lopo Gurado Garro, passa na verdade, do 
quQ eu dou mais certa fé, por assislir seis mezes no 
Arrayal de Santo André, e outros seis na Cidade para 
a fortificar, em que o R. Padre fez tudo o que na Cer- 
tidão consta, como virtuoso Religioso que lie^ e pouco 
diz cm satisfação de sua virtude, e bom zelo, e assim o 
juro aos Santos Evangelhos. Cabo de Santo Agostinlio 
31 de Mayo de 1647, e me assino de meu signal, o sello 
de minhas Armas. 

Francisco Gomes Monis. 

CERTIDAM YI. 

93. António Telles da Silva, do Conselho de Guerra 
de Sua Magestade, Governador, e Capitão General de 
mar, e terra deste Estado do Brasil : Certifico, que os 
BR. PP. Capuchos da Custodia deste Estado do Brasil, 
em todas as occasiones, que se offereceraõ, assim por 
mar, como por lerra^ em que foraõ necessários Reli- 
giosos seus, os deraõ com muito gosto^ e em tudo o mais 
que se lhes ordenou da parte de Sua Magestade, o fizeraõ 
com grande zelo de seu Real serviço ; e por me ser pe- 
dida a presente, a mandey passar, e sellar com o signeíe 
de minhas Armas. Bahia dez de Dezembro de 1647. 

António Telles da Silva, 



94. Isto he o que em as memorias dos Conventos, 
e seus Archivos achamos acerca dos Religiosos desta 
Custodia do Brasil em o tempo, que a Capitania de Per- 
nambuco % lyrannizada pelo intruzo, e Herege Olau- 



109 

dez : c seos nossos, assim como experimentarão estes, 
e outros similhantes Iraballios^ os souberaõ escrever 
lodos, sem duvida nos deixarão noticias de outras 
muitas mais, que padecerão naquelles calamitosos tem- 
pos. E ainda depois da sua Restauração, três para quatro 
annos no de 1658, saíiindo da Capitania, e Villa do Es- 
pirito Santo o Custodio actual Fr. Pantaleaõ Bautisla, 
com alguns Religiosos mais, em luima embarcação pe- 
quena para a Cidade da Bahia, foraõ accommetlidos 
logo ao sahir por hum Navio Olandez^ que andava á pi- 
lhagem por aquella Costa, e tendo modo de escapar em 
huma canoa, oubateU o Custodio, os mais com o Pi- 
loto, e alguns Portuguezes ficarão prizioneiros. A Ires 
destes Religiosos foraõ lançar na Bahia da traição, 
acima da Paraíba, e a hum chamado Fr. Rafael de S. 
Boaventura, ja niuy velho, e com as pernas podridas de 
chagas, por lhe tomarem asco, e se enfastiarem da sua 
enfermidade, com iiuma pedra atada ao pescoço, o lan- 
çarão de noite ao mar ; e com este acazo damos também 
fim á breve lista do que obrarão os Frades Menores no 
tempo do Olandez : vamos agora a concluir com o que 
mais se foy seguindo até o presente. 

Do que mais obrarão os Religiosos Menores desta Provinda, desde a 
Restauração de Pernambuco até o presente. 

95. Achando-se em todas as occasioens do serviço 
de Deos, e dos Reys os Religiosos Menores do Brasil 
sempre promptos, e sem repugnância, como fica ex- 
posto, assim o foraõ continuando ainda depois da Res- 
tauração, nas entradas, e guerras, que ordenavaô os 
Governadores contra o Genlío rebelde, e bravo do Rio 
Grande, e Âçú ; para as quaes pediaõ Religiosos, e lhes 



110 

eraô dados, como consta de algiuiias Gertidoens dos 
Gabos, com quem acompanharão os taes Religiosos. 

GERTIDAM 1. 

96. Manoel de Avreu Soares, Gapilaõ Mayor da 
Guerra, e Conquista do Açu, por Sua Magestade etc. 
Certifico, que raandaiido-me o Capitão Mayor Paschoal 
Gonçalves de Carvalho, á Ribeira do Açúcom cento e 
vinte homens. Ordenança, como índios do Gamarão, a 
fazer guerra ao Gentio bárbaro, infiel, foy em minha 
companhia o R. P. Fr. Manoel de Santa Roza, Reli- 
gioso do Palriarcha S. Francisco da Província do Brasil, 
e todos encorporados marchamos para a dita Ribeira, 
onde habitava o Gentio delinquente das mortes, que 
lá tinha feito aos moradores daquella Ribeira. Chegando 
a cila, fiz logo meu Arrayal para segurança da gente, 
que levava a meu cargo, carregando madeiras dos mal- 
tos ás costas, e o mesmo Religioso naõ faltava neste 
exercício por nos dar exemplo. E acabado o Arrayal, 
tratey de franquear a Ribeira por todos aquelles sítios, 
e lugares, achando tudo queimado, e destruído, ajun- 
tando a ossada daquelles corpos, que o Gentio infiel 
linha morto atraiçoadamente, e sem piedade ; e o R. 
Padre com tanto zelo os ajudou a carregar para o Ar- 
rayal, donde lhes demos sepultura, dizendo lhes Missas 
pelas almas desinteressadamente : e feita esta obra 
de misericórdia, mandey descobrir campo para a parte 
do Rio Salgado, onde se achou trilha de Gentio brabo, 
que linha ido buscar sal ás salinas, e com avizo dos des- 
cobridores, marchey para lá com oitenta homens; pondo- 
me na trilha, a seguimos de dia, e de noite por ásperas 
serras, e dentro emires dias me puz junto aos seus 
ranchos, sem ser sentido, onde habitavaõ com o seu 
mulherio ; ao romper da manhãa lhes dey hum repen- 
tino assalto^ fazendo nelles grandc3 matanças, quei- 



111 

mando-lhes os ranchos, e mais despojos. Vendo eu a 
pouca gente que levava^ e que o sitio naõ era capaz de 
me defender, me retirey duas legoas para traz, bus- 
cando lugar accoramodado, para a peleja, que poderia 
iiaver, e para tomarmos alguma refeição que até alli 
naõ a tínhamos feito, e descançar a gente. Mal tinha 
provido sentlnellas, quando o Gentio^ que escapou, 
veyo com grande Ímpeto a reconhecer o nosso poder ; 
tivemos novamente travada peleja, havendo da sua parte 
quantidade de mortos, e feridos, onde me ferirão tam- 
bém Ires homens, dos quaes morrerão dous depois de 
confessados, havendo-se o dito Religioso com grande 
animo defendendo o ímpeto do infiel Gentio daquelle 
parte, onde estava. Vendo-se o Gentio derrotado, se 
retirou para o seu valhacouto do Carrasco, e eu me fuy 
retirando para o meu Arrayal, onde assisti passante de 
quatro mezes^ até que me mandou mudar o Capitão 
Mayor. Com que acho o dito P. de grande mereci- 
mento etc. Passa o referido na verdade, d'e que lhe dey 
esta jurada aos Santos Evangelhos, assignada, e sellada 
com o signete de minhas Armas. Arrayal, em 13 de 
Junho de 1687. 

4* Manoel de Avreu Soares, 

CERTIDAM lí. 

97. Manoel da Silva Vieira, Sargento Mayor de toda 
Ordenança da Capitania do Rio Grande por Sua Ma- 
gestade etc. Certifico, que mandando-me o Capitão 
Mayor Paschoal Gonçalves de Carvalho, com quatorze 
homens, e doze índios á Rfbeira do Açu, a render o Ca- 
pitão Mayor Manoel de Avreu Soares, que estava fa* 
zendo guerra aos bárbaros Tapuyas, me acompanhou 
o R. P. Fr. Francisco dos Anjos, Religioso do Patri- 



112 

archa S. Francisco^ por tempo de cinco mezes, que na 
dita Ribeira assisli, passando lodo o lempo sem soc- 
corro, assim de gente, como de farinhas^ e a carne 
sem ella a comiamos com muita miséria, e opprimidos 
da necessidade se retirarão os quatorze homens, ficando 
só, e seu Gllio o dito Capitão Mayor Manoel de Avreu, e 
o R. P. nos meltemos em huma caza forte, pouco mais 
de liuma legoa do Arrayal que tinha feito o dito Capitão 
mayor Manoel de Avreu Soares, por o naõ poder guar- 
necer sem gente, me pôs cerco oI)arl)aro Gentio, desde 
o romper da manhaa até á noite, donde me matarão 
quatro índios, que hiaõ a descobrir o fogo, que tinha 
posto o Gentio ao Arrayal, que estava despejado ; e indo 
a retirar os mortos me acompanhou o R. P. até es 
darmos á terra, e lhes disse Missa pelas almas, sem in- 
teresse nenhum mais, que do serviço de Deos, e de Sua 
Magestade-, e me relirey com multo risco de vida^ e me 
acompanhou sempre o dito Religioso^ com muito exem- 
plo, e virtude, naõ faltando aos Sacramentos. Passa o 
referido na verdade pelo juramento dos Santos Evan- 
gelhos, e lhe dei esta por mim assignada, e seHada com 
o signetc de minhas Armas. Cidade do Natal 28 de Ja- 
neiro de 1687. 

*f« Manoel da Silva Vieira» 

GERTIDAM lil. 

98. Manoel de Avreu Soares, Capitão Mayor da Guer- 
ra, e. Conquista do Açu por Sua Magestade ele. Cer- 
tifico, que marchando da Cidade do l\io Grande para 
a Ribeira do Açu em sette de Mayo de 1687 coma 
tropa, que a meu cargo trazia, por ordem do Capitão 
Geral, i^ara fazer guerra ao Gentio bárbaro infiel, que 
se havia levantado, e morto os moradores da dita Ri- 



beira, e deslruido immensa quaiUidade de gidos, e 
cavalgaduras, eai qiie receberão as rendas de Sua Ma- 
gestade grande perda, levey em minha companhia ao 
Pi. P. Fr. Francisco dos Anjos^ Religioso do Palriarcha 
S. Francisco^ de quem sou muilo devoto, e chegando á 
dita Piibeira com grande invernada, achando o Rio de 
monte a monte, tendo encontro com o bárbaro Gentio, 
cm que lhe fiz algum damno, havendo também da nossa 
parte alguns mortos, e feridos, me acompanhou sempr.; 
o dito Religioso, assim a confessar os feridos, como a 
enterrares mortos, sem nenhum interesse mais, que o 
do serv ço de Deos, e de Sua Magestade : e fazendo 
Arrayal no sitio do Olho de Agoa, assistio commigo, 
com grande exemplo de virtude, e acompanhando as 
tropas, que mandava franquear a Ribeira, naõ faltando 
aos Sacramentos, e exercícios espirituaes ; e melho- 
rando de posto, indo fazer outro Arrayal no sitio do 
Poço Verde, distante cinco legoas do outro, me acom- 
panhou o dito Padre, naõ faltando á obrigação do Es- 
tado Religioso ; e marchando eu para as Piranhas, a 
cncorporar-me com o Governador Paulista, e como 
Coronel António de Albuquerque, foy o dito Padre em 
minha companhia, acudindo aos enfermos com os Sa- 
cramentos ; e pondo-nos em marcha todos encorpo- 
rados, seguimos as trilhas do Gentio bárbaro com vinte 
e cinco dias de viagem, por ásperas, serras, e traves- 
sias, faltando-nos os mantimentos, nos sustentávamos 
com varias raizes, e fructas agrestts, e quando as acha- 
^ vamos, dizia o dito Religioso, déssemos graças a Deos, 
|pois nos las dava ; passando largas tr \vessias sem agoa, 
com grande animo, e zelo nos acompanhava o dito 
Padre, por serviço de Deos, e de Sua Magestade, ex- 
horlando aos soldados a que se animassem nos tra- 
balhos ; e obrigados de tanta necessidade nos foy for- 
cozo buscar a Capitania do Seara por nos acharmos 

1AÍ50ATAM. TOL. 11. la 



mais perto delia, do que dos nossos Arrayaes. E for- 
necidos de raantimeutos, me vim recolhendo para o meu 
Arrayal, franqueando a campanha, e gastando no de- 
curso desta entrada três mezes, e nas mais sette, e em 
lodo este tempo, que foraõ dez mezes, me acompanliou 
sempre o dito Padre Fr. Francisco dos Anjos, fazendo 
sempre sua assistência em minha companhia^ com muito 
exemplo, e virtude do serviço de Deos, e de Sua Ma- 
gestade. Passa o referido na verdade^ pelo juramento 
dos Santos Evangelhos, de que passcy esta por mim 
assignada, e sellada com o signcte de minhas Armas, 
neste Arrayal de Santa Margarida do Açu, em 9 de Fe- 
vereiro de 1688. 



Manoel de Avreii Soares, 



99. Assim foraõ também nomeados para acompa- 
nharem o Exercito, que no anno de 1695 mandou de 
Pernambuco o seu Governador Caetano de Mello de 
Castro, á expugnaçaõ dos Palmares de negros levan- 
tados, que hia por sessenta annos estavaõ fortificados 
neste lugar em huma Serrania, entre a Villa da Alagôa, 
e a Povoação de Porto Calvo, para onde se haviaõ re- 
tirado muitos, desde o tempo do Olandez, fugidos a 
seus Senhores, aos quaes depois se foraõ aggregando 
outros mais, assim cativos, como forros, crioulos, mu- 
latos, e facinorosos, causando notáveis damnos, e in- 
sultos de roubos, mortes, e outros excessos escanda- 
losos desde o Rio de S. Francisco até os coníins de Per- 
nambuco, e foraõ vencidos com grande resistência, 
a)ortos, e presos, e arrasada aquella taõ forte, como 
abominável colónia, assistindo a toda esta arriscada 
cmprcza Ueligiosos Menores. 



115 

100. Eja no anno de 1679, por ordem do Gover- 
nador de Pernambuco Ayres da Cunha de Castro, havia 
ido a esta mesma empreza com huma tropa de soldados 
o Capltaõ de Infantaria Joaõ de Freitas da Cunha, le- 
vando para ella da Aldêa da Alagôa, onde foy fazer alto, 
e tomar Gentio para guia, e guerra, ao P. Fr. Fran- 
cisco dos Anjos, Missionário da dita Aldêa, que os se- 
guio com grande trabalho de jornadas^ por brenhas, 
mattos, serras, e agoas, ainda que sem effeito ; porque 
só descobrirão hum Mocambo, e situação ja deserta, 
havendo-se os negros acolhido para este dos Palmares, 
por mais retirado, e forte. 

101. Nos levantes que houveraõ em Pernambuco, o 
primeiro no anno de 1709 em que o Povo de fora, por 
motivos que nos naõ tocaõ averiguar, entrou amoti- 
nado, violenta, e desordenadamente a Villa do Reciffe, 
soltou os prezos da cadêa, e commetteo outros ab- 
surdos, que costuma em similhantes, e pouco consi- 
derados Ímpetos, como este ; foraõ grande causa para 
a compoziçao, e ajuste de ambas as partes os Reli- 
giosos, e Prelados dos dons Conventos do Reciffe, c 
Olinda, fí muito mais concorrerão para este mesmo 
effeito, no segundo levante do anno seguinte de 1710, 
pelos fins de Junho, e durou alguns quatro para cinco 
mezes, tendo os de fora em apertado cerco aos da Villa, 
commettendo-se por huns, e outros todo o género de 
hostilidades, e estragos, que se podem considerar nos 
assédios dos mayores, e mais declarados inimigos ; 
porque álèm das necessidades, fomes, e perigos, a que 
se acharão neste largo tempo com os da Villa, os Reli- 
giosos moradores do seu Convento, tiveraõ estes huma 
boa parte na compoziçao, e ajuste das pazes, e concór- 
dia, que no fim, com a chegada do novo Governador 
Félix Jozé Machado, se effeituaraõ ; e tanto, que certi- 
ficado de tudo por outras vias o Senhor Rey D. João V. 



116 

se dignou mandar escrever ao Padre Guardião do Gon» 
vento do ReciíTe liuma carta, em que lhe gratificava o 
muito zelo, que com os seus Religiosos mostrara na pa- 
ciGcaçaO, c concórdia daquelle povo. Foy escrita em 
oito de Junho do seguinte anno de 1711^ e se acha re- 
gistada no livro 2 de cartas do serviço de Sua Mages- 
tade^ que sérvio na Secretaria do Conselho Ultrama- 
rino a foi. 330. A foi. 180 vers. do liv. 3 que sérvio na 
dita Secretaria, está registada outra carta para o nosso 
Provincial do Brasil, na qual lhe agradece o mesmo 
Monarcha o zelo, e amor, com que os seus Religiosos 
se applicavaõ á salvação das almas do Gentio, parti- 
cularmente dos negros, que vem de Angola, e lhe orde- 
nava continuassem em taõ santo, e louvável exercício. 
Foy escrita em 27 de Abril de 1719. 

102. E he sem duvida, que Iodas estas graças, c 
outras mayores mereciaõ aos seus Reys, e Príncipes os 
Frades Menores da Província do Brasil, pelo que nelle 
tem obrado no seu serviço, e dos seus povos, e isto só 
com os olhos em Deos, sem esperar, nem ainda per- 
lender dos Monarchas premio algum. O que naõ pade- 
cerão em si, e obrarão em bem do povo no grande con- 
tagio das bexigas do anno de 16GG, assim em Pernam- 
buco, como na Bahia, na assistência dos enfermos pró- 
prios, e de fora, sem temor da violência do achaque ! 
O mesmo passou por elles com o outro, ainda mais vio- 
lento dos chamados, males, ou bicha, do anno de 1686. 
O que naõ experimentarão de necessidades nas grandes 
seccas, e fomes, especialmente na dos annos de 1720 
por diante, em huma geral nas partes de Pernambuco, 
desde a Paraíba até o Gabo de Santo Agostinho, e com 
tanto excesso naquell J, e em Goyana, que ornais do 
povo de ambas desertou, buscando o districto de Sere- 
nhanhem, em que pela amenidade, e frescura do ter- 
reno, era só donde se achava alguma pouca farinha^ 



117 

e esla em tanta carestia, que chegou a quatro mil reis, 
e mais, o alqueire, morrendo pelos caminhos á fome, 
e pelos mattos muitas mulheres, meninos, e gente mais 
fraca, dos que sabirão da Paraíba, e Goyana, sem que 
destes extremos se livrassem os Religiosos, por naõ 
haver para onde se recorresse pelo commum sustento, 
tanto para si, como para os pobres, que frequentavao 
as portarias, sendo para elles isto o que mais senliaô, 
naõ ter para acudir a todos, quanto dezejavaõ, e de 
tudo só de Deos procura vaõ o premio. 




ORBE SERÁFICO 

NOVO BRASlllCO, 



DOS FRADES tlEPiORES 

DA província de SANTO ANTÓNIO DO BRASIL. 



LIVRO I. 



Mostra-se como, e por quem foraõ pedidos os Frades Menores, Reforma- 
dos para Fundadores da Custodia do Brasil, sua viagem para esta Pro- 
víncia, fundação do seu Primeiro Convento em a Villa de Marim, graças, 
que lhes concedem os Monarchas de Hespanlia, e Reys de Portugal, em 
que entr» cora particular memoria o lllustre Heróe Jorge de Albuquer- 
que Coelho. 

CAPIX1JI40 I. 

Saõ pedidos os Frades Menores para Fundadores de huma Custodia 
na Provinda do Brasil, e por quem. 

103. Contava o mundo 5588 annos da sua creação, 
gloriava-se o género humano, de que haviaô ja 1584 
que fora venturosamente remido : governava a Nao de 
S. Pedro, e Igreja de Deos o Santíssimo Padre, e Pon- 
llGce Summo, Gregório XIII : occupava o Throno de 
Portugal Filippe I, neste Reyno^ e segundo das Hes- 
panlias : moderava a Religião Seráfica o Reverendís- 
simo Frey Francisco Gonzaga, Ministro Geral de Ioda 
a Ordem, quando ella numerava também de sua anti- 
guidade 545, havendo ja cincoenta e quatro que estava 
povoada a Capitania de Pernambuco da Província do 
Brasil na America Meridional ; quando na Corte de 
Lisboa íoraõ despachados os primeiros Fundadores da 
Custodia -do Brasil, de Religiosos Menores da mais es- 



120 

treila, e Regular Observância, a rogos do llluslre Ga- 
pilaõ Jorge de Albuquerque Coelho, filho do grande 
Duarte Coelho Pereira, Senhor Donatário da Capitania 
de Pernambuco. Pora-lhe dada esta pelo Rey D. Joaõ 
III, em satisfação do que na Índia obrara em serviço 
da Coroa. No anuo de 1530 a veyo fundar, como fica 
dito. Por morte deste grande Heróe, a herdou seu filho 
Duarte de Albuquerque Coelho, que, por fallecer sem 
herdeiros, passou a seu Irmão Jorge de Albuquerque 
Coelho, de quem falíamos. Na infeliz Conquista de Africa 
se achou com o Rey D. Sebastião, e alli oíTereceo a este 
Mouarcha, para se pôr em salvo daquella batalha, o 
mesmo cavallo, que para divertimento na Corte, outras 
vezes lho havia negado ; ficando ahi este Heróe magnâ- 
nimo a pé, e com muitas feridas prizioneiro, de donde 
tornando ao Reyno, se achava neste tempo muy satis- 
feito com os augmentos da sua Capitania de Pernam- 
buco, ja muy florente em lucros, e crescida em povo : 
Só naquelles princípios sentia ella a grande falta de Mi- 
nistros Evangélicos, tanto para bem dos infiéis naturaes, 
como dos Catholicos moradores. 

104. Attendendo a isto o lllustre Heróe Jorge de 
Albuquerque Coelho, a quem, como a Senhor proprie- 
tário, tocava mais o sentir, e dar remédio a este incon- 
veniente, movido de zelo, piedade, e devoção ; de zelo 
da propagação da Fé aos Gentios, muy faltos de Obreiros 
Evangélicos naquelles tempos ; de piedade para com 
os habitadores Catholicos, carecidos em grande ma- 
neira de Padres de espirito para a refeição das almas, 
e devoção para com os Filhos do Seráfico Patriarcha, 
entrou a solicitar o seu grande, e dilatado animo com 
anciã, e Qoaseguio com felicidade do Reverendíssimo 
Padre Gonzaga, Ministro Geral de toda a Ordem, que 
neste tempo se achava de assistência na Corte de Lis- 
boa, os Religiosos Menores, Reformados, para Funda- 
dores de huiua Custodia no Brasil. Consentio de boa 



1^21 

voíUad(3 o nosso Uevereiulissimo a laõ piedosa supplica» 
como a cousa, que entendia ser muy concernente ao 
serviço de Deos, como era muito conforme com o seu 
bom animo, e religioso parecer, mandando passar as 
letras para a erecção de nova Custodia, que saõ as se- 
guintes. 

105. Fr. 1'rancisco Gonzaga Ministro Geral da Se- 
ráfica Religião de nosso Padre S. Francisco. Ao muito 
amado em Ghristo Fr. Melchior de Santa Catliarina da 
mesma Ordem, Pregador, e Confessor, Fillio da Pro- 
víncia de Santo António do Heyno de Portugal, saúde, 
e paz em o Senhor. Gomo sabemos que somos obrigados 
u todos com vinculo de charidade, e principalmente 
áquelies, cuja salvação está mais arriscada ; e reco- 
nhecemos a V. R. por Varaõ insigne em virtude, ma- 
duro eo) experiência, e dotado de zelo de salvar almas, 
tivemos por boa eleição, que mandássemos .a V. R. á 
Província do F>rasil, que pela mayor parte está habi- 
tada de idolatras, e Gentios^ ajuntando a isto a propa- 
gação do Culto Divino, que desde o nosso principio nos 
está muito encommendada, e o urgente mandado do 
Sereníssimo Gatholico Rey das Hespanhas Filíppe Fí, e 
a iustantíssima petição dos Fieis Ghrislãos de Pernam- 
buco du Província do Brasil, e de seu Governador, o 
valorozo Capitão Jorge de Albuquerque Coelho : pelu 
qual razaõ, com o theor das presentes letras instituímos^ 
e elegemos a Y. R, em Custodio, e nosso legitimo Com- 
missarío : ciim plemludine poteslatis in utroque foro, 
quanto lhe parecer a V. R. que lhe he necessário, e 
que possa levantar Conventos, e rjceber Noviços á 
Ordem, de que se deva ter boa esperança : e lhe assi- 
guamos por Companheiro ao venerando Padre Fr. Fran- 
cisco de S. Boaventura da mesma Província de Santo 
António, e (jue possa levar comsigo outros quatro 
frades provados em Religião, e virtude, até que todos 
façaõ o numero de seis. F álèin destes, lhe concedemos 

JABOATAM. VOL. II. 10 



122 

que possa ajuntar outros seis das oulras Provindas. 
Aos quacs lodos mandamos em virtude da santa Obe- 
diência, e sob pena de Excommunhaõ aròyov^ÍMtce seti- 
tetilice, e oulras penas por nós arbitradas, que em todas 
as cousas, que naõ saõ contrarias á sua salvação, e 
nossa Regra, com muita humildade lhe obedeçaõ. E 
queremos que, se acontecer que V, 0. mrrra, lhe suc- 
ceda no OíTicio de Custodio, e Commissario o dito Padre 
Fr. Francisco de S. Boaventura. E determinamos, que 
esta Custodia^ por nós novamente erecta, se chame 
daqui por diante de Santo António, e seja sujeita á dita 
Província de Santo António de Portugal. ^Vlòm disto, 
para que todas as cousas se façaõ com ordem, e se 
occorra a todas as diíliculdades, que pelo tempo acon- 
tecerem, queremos, e determinamos, que o Ministro 
Provincial, que de presente he, e pelo tempo for, tenha 
diligente cuidado desta Custodia, e com todas as forças 
a favoreça, e finalmente a proveja em os Capítulos Pro- 
vinciacs opportunamente de Custodio idóneo, e suílici- 
enlc. E mandamos sob pena de Excommunhaõ mayor, 
Ipso facto inciir renda, que nem o dito Ministro, nem 
outro qualquer súbdito nosso presuma ir, Directe, veí 
indirecte, contra esta nossa Patente, nem interpretá-la, 
ou declará-la de outro modo do que soa, E nas mesmas 
penas incorra todo aquelle, que intentar impedir a 
execução delia. E para que tudo o ordenado por nós 
tenha o seu devido eíTeito, e naõ careça de premio, 
mandamos a Y. Pi. por santa Obediência cm virtude do 
Espirito Santo, que em tudo o guarde, e faça guardar 
segundo a perfeição, e obrigação de nossa Regra. E 
poderá receber, c reter quaesquer Frades, que a elle 
forem de outras Províncias, com tanto que lhe possaõ 
servir, e distribui-los pelos Conventos, e lugares, onde 
lhe forem necessários. Dada em o nosso Convento de S. 
Francisco de Lisboa, sob nosso signal, e sello mayor 
do nosso Ollicio, aos 13 dias do mez de Março de 158/í, 



123 

106. O que se appelece com anciã, coai cuidado se 
deve executar, quando conseguido ; e o mais elTicaz 
modo de ol)viar ojjstaculos, que o possaõ divertir, ou 
ao menos motivar embaraços, deve ser a presteza, com 
que se busquem os meyos conducentes para o seu fim. 
Para o da erecção da nova Custodia do Brasil naõ 
deixou de conhecer o seu nobre Agente muitos, e fortes 
desvios em algumas pessoas, que os podiaõ causar, 
como o da a entender a sua supplica feita á Magestade 
Catliolica. Por esta razaõ, e por naõ dar tempo a que 
tomasse mais vulto o corpo desta repugnância, recorreo, 
logo que alcançou a Patente de Sua Reverendíssima, 
e com ella, ao Galholico Monarclia, assim para con- 
seguir o seu Pieal beneplácito, como para merecer o 
seu grande patrocínio^ na forma seguinte : 

107. Diz Jorge de Albuquerque Coelho, Capitão, e 
Governador da Capitania de Pernambuco nas partes do 
Brasil, que elle, pelo muito dezejo que tem de se au- 
gmentar nas ditas partes a nossa Santa Fé Calholica, 
impetrou do Reverendíssimo Padre Geral da Ordem do 
Bemaventurado Padre S. Francisco, huma Patente^ e 
com missão para deste Reyno irem Religiosos da Pro- 
vinda de Santo António ás ditas partes fundar Mosteiros 
da dita Ordem, e Provinda, e que ficassem súbditos ao 
Ministro da dita Provinda deste Reyno, de que V. Ma- 
gestade mostrou ser servido, e havê-lo por bem, como 
o Padre Geral declara na Patente, e commissaõ, que 
se oíTerece ; e porque se receya que alguns Religiosos 
da mesma Ordem, ou Ministro Provincial delia, ou 
alguns outros Religiosos de quaesquer Ordens queirafj 
pôr algum estorvo^ ou impedimeuto a esta taõ santa 
obra por alguns respeitos particulares : Pede a V. Ma- 
gestade que, havendo respeito ao que dito he, eo ser 
notório o fruclo^ que nas almas se ha de fazer com o 
elTeito desta santa obra, seja servido de mandar passar 
Provizaõ com graves penas contra toda a pessoa, de 



qualquer qualidade que sejn, que quizer impedir o 
eíFeito (la dila Patenle, para, com favor de Vossa Ma- 
íçeslade, secííeiluar, e se anjijmenl-ir a lleligiaõ Chris- 
i<ãa, c Culto Divino nas ditas partes, eom que ElRey 
D. João III, que está em gloria, as mandou povoar. 

E R. M. 



108. Aqui cstavaõ pedindo algumas clausulas desta 
suplica, com que se pede á Majestade Catholica o seu 
Real patrocínio contra as dissimuladas oppozicoens, que 
se faziaõ ao intento da fnudacaõ da nova Custodia do 
Brasil, alguma reílexaõ judiciosa; porque ellas por si 
inesmo estaõ incitando o discurso a huma Religiosa quei- 
xa, e Calholico sentimento: mas naõ pertendemos lançar 
agora toda a carga desta justificada censura sobre hom- 
bros alheyos, pois conhecemos ser iníluxo particular 
do commum iniaiigo esta contradição, que como as- 
tuto, e sagaz, na forja dos juizos humanos sabe infundir 
máximas perniciosas, para desvanecer progressos es- 
piriluaes, como os que aqui antevia subsequentes, tanto 
ao fructo das almas do Gentilismo do Brasil, como dos 
Calholicos destas partes, taõ faltos huns, e outras de 
quem os guiasse no caminho da verdade, e lhes desse 
hiz nas trevas da ignorância. Mas como a obra era toda 
de Dcos, o mesmo Senhor, que a introduzio no animo 
daquelle Heróc, sempre digno de eterna memoria, a fa- 
cilitou lambem no cííeito ; pois tudo se venceo com sua- 
vidade, pela ordem, e Alvará seguinte do Catholico 
Monarcha. 

109. Eu ElRey faço saber a vós, meu Governador 
das partes do r>rasil, e ás Justiças, Oííiciaes, e Pessoas 
das ditas partes, a quein o conhecimento pertencer^ da 
Capitania de Pernambuco, que Eu hey por bem, e me 
praz^ e vos mando, que deis toda ajuda, e favor, que 



125 

cumprir, e for necessário aos Padres da Ordem de .S, 
Francisco, de qne nesla pelicaò alraz escrita de Jorj;e 
de Albuqnerque Coelho, Capitão, e Governador da Ca- 
pitania de Perna inhuco^ se faz menção, para consegnir 
o efíeito nella declarado, conforme a Patente^ que os 
ditos Padres levaõ do Padre Geral da sua Ordem, qne 
a vós com este Alvará será apresentado ; o que assim 
cumprireis sem duvida, nem embargo algum, que a 
isto seja posto, por ser cousa tanto do serviço de Deos 
jiosso Senhor, e meu. E hey por i)em, que este Alvará 
valha, c tenha Forca, como carta feita em meu Nome* 
sem embargo da Ordenação do liv. 2, lit 20 que dispõem 
o contrario. Francisco Nunes de Paiva o fez em Lisboa 
aos 29 de Mayo de 1584 annos. 

110. Com este Alvará do Rey Catholico, e Patente 
do Reverendíssimo Padre Geral, recorreo este Prelado, 
e também o piedoso Jorge de Albuquerque á Sé Apos- 
tólica solicitando do Santissiino Padre Sixlo V. a con- 
firmação de ambos. Sua Bulia poremos quando che- 
garmos ao tempo, em que na Cúria foy passada. 

CAPITtJIiO II. 



Dos Religiosos nomeados para a fundação da nova Custodia do Brasil, 
• . seus nomes, quantos, e de que Provindas eraõ. 

111. Da santa Província de N. P. S. Francisco da 
Regular Observância em Portugal, havia desaseis annos 
se linha separado a Província de Santo António de Re- 
formados, ou Capuchos, como vulgarmente se diz. Foy 
erecta em Província por Rulla do Santo Padre Pio Y^ 
e á instancia do Cardeal Infante D. Henrique, que 
entaõ governava o Reyno pela menoridade de seu So- 
brinho o Rey D. Sebastião, e sendo Ministro Geral de 
toda a Ordem o Reverendíssimo Fr. Luiz Puteo da Pro- 



120 

vliicia dtí Bononia^ muy aíTeiçoado aos augmcnlos das 
Reformas. No auno de 1568 se Tez a divisão, como 
consta do Breve do Sanlissimo Padre, que começa : 
SacrcB Religionis sinceriLas^ passado a 8 de Agosto 
deste mesmo anno, e terceiro do seu Pontificado, ha- 
vendo só três ânuos que, depois de vários contratempos, 
gozava com socego o titulo de Custodia, que por dili- 
gencias do mesmo Cardeal Covernador lhe foy dado 
no Capitulo Provincial dos Padres Observantes, cele- 
brado no Convento do N. P. S. Francisco de Lisboa, 
110 anno de 1565. Desta Reforma da Província de Santo 
António de Portugal, foraõ escolhidos, e nomeados os 
Religiosos Fundadores da Custodia do Brasil. Eraõ 
estes o P. Fr. Melchior de Santa Gatharina, e Fr. Fran- 
cisco de S. Boaventura, nomeados na Patente de Sua 
Reverendíssima; Frey Francisco dos Santos, Fr. AíTonso 
de Santa Maria, e Fr. Manoel da Cruz, Sacerdotes, e 
Fr. António dos Martyres, Chorista, todos da Reformada 
Província de Santo António ; Fr. António da Ilha, Sa- 
cerdote da santa Província da Piedade, e Fr. Francisco 
da Cruz, Religioso Leygo, e Recoleto da Província de 
Portugal. E sendo estes os Fundadores, e escolhidos de 
huraa tal Província, que ainda estava tanto no seu prin- 
cipio, e primitivo rigor, e quando a Reforma, e per- 
feição Religiosa ílorecia no seu mayor auge, basta nle- 
meute encarecido fica, quaes seríaõ os fructos de Reli- 
gião, e santidade de todos os seus Filhos, e muito es- 
pecíaes os dos escolhidos Fundadores. Dos nomeados 
pelo Reverendíssimo P. Geral, claramente o consta da 
sua Patente, pois nella lhes dá o antídistinctivo de Ve- 
nerandos Padres, termos poucas, ou raras vezes usados 
em similhantes escritos, e muito menos em vida dos 
próprios sujeitos, e em letras a elles dirigidas, e por 
hum Prelado mayor, e de tanta authoridade, como 
devem saber os versados nas historias da Ordem era 
o Reverendíssimo Padre Gonzaga, bem conhecido em 



127 

letras, virtude, e prudência, e muito mais se adver- 
tirmos, naõ íalla aqui este Douto, e vigilante Prelado, 
por informação só, também por experiência, pois assistia 
neste tempo em Portugal, tinlia vizitado pessoalmente 
as suas Províncias, e Conventos, visto, e praclicado 
aos meiliores sujeitos delias ; e esta lie a mais alta qua- 
liíicaçaõ da virtude, e capacidade dos dons primeiros 
Padres Fundadores; e dos mais companheiros também 
he concludente prova serem Religiosos de especiaes 
virtudes, pois foraõ escolhidos pelo Padre Custodio Fr. 
Melcliior, que devia ter delles, como de Irmãos, e Fi- 
lhos da mesma Província, o melhor conhecimento. 

112. Também naõ he gloria pequena para a nossa 
Custodia do Brasil ser ella hum formoso, e florente 
Ramo de taõ pomposa, e fructifera Arvore, como hea 
santa Província de Santo António de Portugal, c que 
fossem taõ venerandos, e veneráveis Padres os seus 
Fundadores. E supposto se acha hoje este Ramo sepa- 
rado daquella Arvore, nem a Arvore perdeo por isso o 
seu ornato, e formosura, e nem o Ramo desmereceo o 
ser garfo de tal tronco : nem tampouco se deve ella 
desgostar, ou descomprazer ; porque ás vezes assim he 
necessário esgalhar a Arvore, e transplantar o Ramo, 
tanto para mayor crescimento do Ramo, como para 
robuslar melhor a Arvore, e também para que assim 
se possaõ multiplicar os fructos, e haver mais abun- 
dância delles ; pois he certo que, ou sejaõ estes da Ar- 
vore, ou do Ramo, tudo he fructo da própria espécie, 
e tudo redunda em abono do mesmo tronco ; porque, 
passando de humas a outras Arvores, sempre foraõ 
créditos para os Pays as glorias de seus Filhos. De Filha 
da santa, e Reformada Província de Santo Anlonio de 
Portugal, se jacta muito, e sempre se deve gloriar também 
desta honra, esta Província do Brasil ; pois a virtude, 
a sabedoria, e a perfeição Religiosa com que sempre 
floreceo, delia a trouxe, delia a herdou, e a ella a deve. 



1*28 

Nem qiiizomos» ainda que linliamos exemplar em ouira 
iàiuito mais moderna, e posterior a esla nossa, inven- 
tando novas linhas de genealogia, alVectar com a de 
Santo António» donde salnmos, gráos de Irmandade, 
que sempre acarretaõ eomsigo invejas, opposicoens, e 
precedências, só por naõ rejeitarmos os da íiliaçaõ, que 
respeitaõ a Maternidade, e respiraò sempre amor, ca- 
rinhos, e affagos. 

CAPlTUIiO III. 

Partem os Padres Fundadores de Lisboa, vau por derrota a Cabo Verde, 
e alguns succcssos mais desta Viagem até chegarem a Pernambuco. 

113. Com todos estes soccorros dos Principes Eccle- 
siasticos, e Seculares, Alvará Régio, e Patente do nosso 
Reverendíssimo, e com os que para a viagem lhes ad- 
ministrou a próprias e.vpensas o seu nobre Protector, 
sahiraõ do porto de Lisboa no primeiro de Janeiro do 
anno de 1585 os Padres Fundadores. Navegarão alguns 
dias com ventos favoráveis até a altura da Ilha da Palma 
íia Gosta de Africa. Aqui Ihessobreveyo huma taõ forte, 
c horrível tempestade, que, soprando furiosa por três 
dias contínuos, se julgavaõ ju no ultimo perigo, quando 
recorrendo temerosos, e allllctos, todos os navegantes, 
ao Padre Fr. Melchior, e seus companheiros, os acharão 
na sua camera, arrazados em lagrimas, prostrados di- 
ante de huma Imagem de Christo Crucificado, e de sua 
May Santíssima. Com esta lastimosa comitiva, começou 
o Padre Fr. Melchior a recitar a Ladainha da Senhora, 
com a devoção, e espirito que pedia a necessidade, e 
ao repetir no íim delia aquelle especioso, e primeiro 
verso do seu líymno : Ave Maris Siella, a influxos da 
Divina b^strella do mar, Maria, repentinamente serenou 
o ar, aclarou oCeo, c cessou a tempestade. Agradecerão 
lodos á Senhora o beneficio, deraõ a Deos as graças, 



129 



e o reconhecimento aos Religiosos, e em especial ao 
Padre Frey Melchior, * por quem enteudiaõ, lhes par- 
ticipara o Ceo tanto beueflcio. 

11/i. Pelo grande destroço, que a passada tormenta 
causou em tudo, lhes foy forçado irem de arribada a 
Gabo Verde. Em lerra acharão outra, e muito mais 
para temer do que a que haviaõ experimentado sobre 
as agoas. Laborava agora em toda ella hum daquelles 
mortaes contágios, que alli costumaõ assaltar muitas 
vezes os seus moradores. E assim como nos perigos do 
mar foraõ estes Religiosos toda a esperança dos nave- 
gantes, também em terra vieraõ a ser o refugio, remé- 
dio, e consolação de todo aquelle povo» Assistiaõ aos 
enfermos, confessavaõ aos moribundos, ajudavaõ aos 
agonizintes, e acudiaõ aos necessitados, pedindo a huns 
para dar a outros ; porque^ era nesta occasiaõ, para 
aggravar mais o mal, grande a penúria da terra, por 
falta dos mantimentos ordinários ; porque, commum- 
raente, quando dá Deos hum castigo, sempre vem 
acompanhado de outro : e esta era a mayor anciã dos 
pobres Religiosos, uao acharem suíílcientes esmolas 
para tanta necessidade. Naõ deixou com tudo de assistir 
o Ceo a esta falta com a sua ordinária providencia, para 
credito da charidade, e desengano de avarentos. Havia 
hum grande, e muy rico alli^ era dignidade daquella 
Sé, e dos mais abastados, e opulentos do lugar : com 
este travou huma boa amizade o Padre Fr. Melchior ; 
conheceo-lhe o génio, edezejando o remédio para aquelle 
seu insaciável achaque^ em todas as practicas, que com 
elle tinha, sempre encarecia os grandes bens, que se 
adquiriaõ pela virtude da esmola ; e de tal sorte se 
accendeo em huma occasiaò no zelo ardente desta vir- 
tude o seu abrazado espirito, á vista da tibieza, e in- 
sensibilidade daquelle coração frio, que arrebatado de 



Anno 1585. 

lABOATAM. VOL. I!. 17 



130 

superior impulso, levaiUando-se eoi pc, e pcgando-liie 
da niaõí llie disse assim : Senhor Cónego, faça bem 
para si em quanto pôde, que poderá ser que niuilo 
cedo queira, e naõ possa. Ficou o homem com este 
aballo taõ outro do que era, que pedindo aos pés do 
Padre o perdaõ do seu descuido, e rendendo-Ihe as 
graças pelo conselho, logo alli oíTereceo á ordem sua 
huma boa quantidade, para que a mandasse repartir 
pelos pobres, e advertido, para que, consumida aquella, 
recorresse por mais ; e assim se foraõ remindo entre 
tanta miséria muitas necessidades. Soas do Padre Frey 
Melchior hiaõ em crescimento ; porque tocou também 
o contagio a gente do mar, e loy precizo trazê-los os 
Religiosos para as cazas, em que habitavaõ, para que 
Tossem melhor tratados com a sua assistência ; e com 
isto crescerão os cuidados do piedoso Padre, e o mayor 
foy enfermarem também do próprio mal quatro Reli- 
giosos da sua companhia, e como se lhe diminuirão 
estes, cresceo o trabalho. Nelle o ajudoii muito o Padre 
Fr. Francisco de S. Boaventura, emulo em tudo do 
zelozo espirito do Venerável Padre. Também foy grande 
imitador seu o Irmaõ Chorista Fr. António dos Mar- 
tyres, que sendo moço, e robusto, acudia a todos os 
doentes com summa diligencia, e a este chamava o 
Padre Custodio o seu Enfermeiro mór. Também se 
notou, que nenhum dos enfermos, que se recolherão ás 
cazas em que assistiaõ os Religiosos, perigou de morte, 
emuy poucos daquelles, a quem particularmente vizi- 
tava por fora o Padre Fr. Melchior, pela diligencia do 
qual conheceo aquelle povo se remediarão nelle tantas 
misérias, entendendo também, que pela sua intervenção, 
cessara de todo aquelle contagio. 

115. Convalescidos os Religiosos com a mais gente 
do mar, tendo-se gasto nisto mez e meyo, continuarão 
todos a sua viagem com novos alentos. Mas como o Ceo 
também sabe suas traças para apurar muls, e mais os 



131 

que saõ sons, o servem ao Senhor fielmente, chegados 
que foraõ á alKna da linha, e entrarão no Signo de 
Cancro, começarão a ser mordidos muitos dos passa- 
geiros daquelle indómito achaque, a que chamaõ os 
mareantes, mal de Loanda, por ser oriundo daquelle 
Paiz, e dominante naquella altura a sua costa, aos que 
navegaõ mais chegados a ella do que convém, e por isso 
saõ avançados aqui commummenle deste voraz con- 
tagio. Hum dos que experimentarão a força deste can- 
cerado mal, foy o Padre Fr. Melchior^ com huma for- 
tuna porém, que elle padecia a dor do achaque, e eraõ 
os companheiros os que mais sentiaõ a sua moléstia. 
Mas como Deos nunca falta com o melhor allivio na 
mayor consternação, se agora viaõ prostradas as forças 
do Padre Fr. Melchior, conhecerão logo renascido no 
Padre Fr. Francisco de S. Boaventura, e no Irmaõ En- 
fermeiro mór Fr. António dos Martyres, o espirito do 
Venerável Padre, com o qual fortalecidos estes dous 
Religiosos, elles foraD os que neste enfadonho, e mortal 
conflicto sustentarão o campo, e resistirão ao inimigo: 
e quanto mais viaõ aos valentes fugir medrosos dos en- 
fermos, mais se chega vaõ a elles estes dous charítativos 
Serafins, que, como Médicos Angélicos, naõ só alie- 
viavaõ com o tacto das suas mãos as ulcerosas chagas 
dos doentes, também ser viaõ de toques^ que chega vaõ 
até as almas. Lavavaõ-lhes as roupas^ fíiziaõ-lhes o co~ 
mer, e temperavaõ coai o sal da discrição, e bom con- 
selho, aquelles dous espirites : o da vida do corpo com 
o sustento, e bom trato ; e o da alma com o do exemplo, 
e charidade. Assim foy perdurando o mal, até que sa- 
hindo do districto daquelle malévolo signo, e entrando 
as viraçoens suaves, c ventos largos, alleviaraõ de todo 
as queixas, navegarão com socego, c chegarão com 
huma prospera viagem ao dezejado porto de Pernam- 
buco. 



€Al»ITtJIiO IT. 

Chegau a Pernambucu os Padres Fundadores : como foraõ recebidos,^ ti 
adonde assistirão até tomarem posse do seu Convento. 

116. Corria ja com doze dias o niez de Abril, quaodo 
loQiaraò porto em Pernambuco os Padres Fundadores. 
Foraõ buscados ao desembarque, e recebidos na Villa 
de Marim, assim chamada ainda naquelle tempo^ com 
grande alvoroço, e alegria de todo o povo, e muito em 
particular dos parentes de Jorge de Albuquerque, pois 
sabiaõ serem pedidos, e enviados a diligencias suas, e 
a elles remeltidos ; e assim foraõ tratados com muito 
especial cuidado ^^ e carinho de Filippe Cavalcanty, e 
sua consorte D. Catharina de Albuquerque, prima que 
era do famoso Jorge. Em casa destes Senhores assis- 
tirão os primeiros dias em quanto se lhes preparava 
lugar conveniente para a sua habitação. Junto ás da 
Santa Misericórdia da Villa, lhes preparavaõ casas, c 
supposto lhes faltava nellas tudo o que era preciso para 
a vida regular^ naõ deixavaõ por isso de a observar no 
que lhes era possível. Levantarão nellas Oratório^ di- 
ziaõ Missa, e celebravaõ os Officios Divinos, ainda que 
com menos commodo, com muita perfeição ; guardavaõ 
a formalidade do choro, tinhaõ oraçaõ, disciplina, e 
lodos os mais actos interiores, e públicos de toda a Re- 
ligião, com tal aceyo;, modéstia, e devoção, e se por- 
ta vaõ em todas as suas acçoens^, assim dentro, como 
fóra^ que começarão desde logo a levar as attençoens^ e 
arrebatar os aífecíos geralmente de todos, queja eraõ 
tratados com respeito, e veneração, buscados como a 
Mestres, e admirados, como a mensageiros do Geo, e 
huus Anjos mandados á sua terra, para allivio das suas 
misérias, e remédio de suas almas. Atlrahidos assim 

* Anno ItiSo. 



153 

os moraíloixís do Olinda do bom cheiro, que rcspiravao 
estas novas dores do Jardim Seráfico iraiisplanladas 
da Europa para o Brasil, crescia de tal sorte o con- 
curso, e ajuntamento no pequeno Oratório, e pobre 
cazinlia, huns por devoção, e outros por necessidade, 
que ja foy preciso ao Padre Custodio acudir a destiar 
o demasiado commercio, e communicaçaõ menos ne- 
cessária, que se hia introduzindo entre seculares, e Re- 
ligiosos, traça, que ordinariamente costuma intrometer 
o demónio para divertir as operaçoens do espirito, e 
embaraçar o socego das almas. E porque naõ passasse 
aqui a devoção a divertimento, e o fervor a tibieza, 
buscou o Padre Custodio os meyos necessários, e tudo 
veiiceo o seu vigilante zelo, e especial prudência^ sem 
offensa da cbaridade nos súbditos, nem escândalo da 
devoção no povo ; e assim com a primitiva paz, e quie- 
tação, se foy conservando a espiritual harmonia dentro, 
e fora, com grande aproveitamento destes, e boa opi- 
Diaõ daquelles. 

117. Hum dos actos de virtude, em que mais se es- 
merarão aquelles Religiosos neste Oratório, foy o da 
charidade com os pobres enfermos do vizinho Hospital 
da Santa Misericórdia. Para alli corriaõ todos, com 
huma santa porfia de quem havia ser o primeiro na- 
quelle piedoso exercício. Para evitar nelles esta santa 
emulação, ordenou o Padre Custodio horas determi- 
nadas, em que fossem todos em Communidade, e assim 
se executou para o diante, acabada a Oraçaõ da hora 
de Prima, e ás três da tarde rezadas as Vésperas, mi- 
nistrando lodos nestes tempos, a huus o que lhes era 
precizo para o tratamento dos corpos, a outros o que 
necessitavaõ para bem das almas. Por estas, e outras 
similliantes obras, eraõ venerados do povo, estimados 
dos grandes, e todos sealegravaõ, dando-se os t)ara- 
bens de verem na suu terra a huns laes homens, que 



134 

mais cuidado lhes davaò as necessidades aiheyas^ do 
que a sua própria conveniência. 

118. Naõ se compraziaõ menos os Religiosos com a 
gente da terra, pois a acliavaõ benigna, aítavel, chari- 
tativa, e devota ; pelo que, íuins, e outros liospedcs se 
davaõ por satisfeitos. Neste Oratório recebeo o Padre 
Custodio, e lançou o iiabito, para Frade Leygo, ao 
Irmaò Fr. Gaspar de Santo ántonio, que pelo decurso 
do tempo mostrou muito bem ser Filho primogénito do 
espirito do Venerável Padre, que o gerou para a Pieli- 
giaõ;, e primícias bem logradas da nova Custodia do 
Brasil, como em seu lugar veremos. Cinco mezes assis- 
tirão os Religiosos nesle Oratório, que foy para elles 
neste tempo lodo domicilio de pobres, casa de Oraçaõ, 
e morada de espiritos Seráficos, que taes pareciaõ a 
todos os daquelle povo, de quem se faziaò admirados 
pelas suas obras^ e elles muy satisieitos da sua compa- 
nhia. 

CAPITtJEiO ^. 



Da Capella de nossa Senhora das Neves, da qual fez doaçaõ aos Padres 
Fundadores a devota Bem feitora Maria da Rosa. 

r 

110. Entre os mais cuidados, que occuparaõ o dis- 
curso dos Padres Fundadores neste Oratório, naõ devia 
ser o de menor importância o de melhorar de sitio para 
o Convento formal, que se havia erigir: e supposlo naõ 
achamos que o seu nobre agente Jorge de Albuquerque 
lhes fizesse doação de terra para elle, tampouco nos 
queremos persuadir, que o deixasse de fazer; porque 
quem com tanto empenho^, e charidade os havia pro- 
curado, e mandava para hum Paiz, de que era Senhor, 
e Donatário, naõ he de crer que nelle lhe naõ assi- 
gnasse lugar para a sua habitação, pois naõ vinhaõ a 



135 

ellc de vizita, e por algum deteroiiiiado tempo, mas 
muito de assento^ para nelle levantar casas, e fundar 
Custodia. E tal vez, que o naõ se tocar este ponto, seria, 
porque, como acharão de outra parte quem lhes desse 
Igreja, e casas ja feitas, e terra bastante para tudo o 
mais, que lhes fosse necessário, naõ lhes foy mister 
valerem-se da graça do seu bem feitor. 

120. Ja fica dito, que vindo ler acaso pelos annos 
passados de 1577 o Padre Fr. Álvaro da Purificação á 
Villa de Olinda, pelos grandes dezejos que tinhaõ os 
seus moradores de cnnobrecer a sua nova povoação 
com huma casa de Religiosos Seráficos, lha offereciaõ 
fazer, sendo a principal neste empenho huma devota 
mulher, chamada Maria da Pioza, que o brindava com 
huma, a que neste tempo dava principio, ou andava 
traçando para a oíferecer, como fazia, aos Frades de 
S. lYancisco, que aquelle Padre naõ acceitou por lhe 
faltar para isso o beneplácito da sua Província. Era 
iVlaria da Roza, Irmãa Terceira de JN. P. S. Francisco, 
que tomara o habito da Penitencia desta Venerável 
Ordem na Capellinha de S. Roque, coma fica dito. Era 
viuva honesta, exemplar, e rica, e fora casada com 
Pedro Leitaõ. Morto este, por particular devoção, que 
tinha á mãy de Deos, e naõ haver herdeiros forçados 
aos seus bens, edificou em terras próprias huma Gapella 
á Rainha dos Anjos debaixo do seu especioso titulo de 
Senhora das Neves, com intento de levantar á sombra 
desta Mãy de Piedade, e dos homens, hum liecolhiraento 
para si "*", e outras devotas mulheres, quando naõ hou- 
vesse eíTeito o particular voto seu de fazer doação de 
tudo aos Frades Menores, como ella mesmo declara em 
sua escritura. E supposto que nella se naõ diz expres- 
samente os termos em que estava o tal Recolhimento, 
quando delle fez entrega aos Padres Fundadores, he 

* Anno 158o. 



1S() 

sem duvida, que ja a este tempo lhe havia dado princi- 
pio, e o linha em tal forma de corredor, casas, e aga- 
zalhos, que nelle se puderaõ accommodar todos os Re- 
ligiosos, que ja quando alli entrarão eraõ nove, e neces- 
sita vaõ de outras tantas cellas, ou apozentos, álcm dos 
que eraõ precisos para refeitório, cozinha, e outras mais 
oíflcinas, que se não podiaõ excusar a huma Gommuni- 
dade. Nem devemos suppor que por conta dos taes 
Padres corresse a fabrica do Recolhimento, antes de 
entrarem nelle ; porque nem achamos disso clareza al- 
guma, nem se haviaõ metter nesse empenho, sem terem 
a posse de tudo por escritura, e esta foy passada seis^ 
ou sctte dias antes de sahirem das casas em que assis- 
tiaõ junto á Misericórdia para a da Senhora das Neves, 
e seu Recolhimento, que tudo entendemos vay incluso 
nos termos da mesma Escritura, tocantes á Igreja, casa, 
ou Recolhimento. 

121. Deste, com a sua Igreja da Senhora das Neves, 
e toda a mais terra necessária para acerca fez offerta 
aos Padres Fundadores^ para os quaes o seu espirito, 
como presagiozo ja do seu principio, mostrou que o 
traçava ; porque sendo também rogada para esta graça, 
por certos Religiosos de outra Ordem, a negou humilde, 
com a excusa de que o fabricava para os Filhos do seu 
Patriarcha S. Francisco, quando áquella terra viessem 
fundar Convento. 

122. Agora que ja a ella eraõ chegados, se executou 
a sua palavra^ ou porque voluntariamente fizesse ella 
esta offerta, ou porque noticiosos os Padres do seu de- 
zejo, fossem elles os que o solicitassem, conseguirão a 
graça, satisfazendo ella também liberal, o que havia 
proraettido devota, pela presente Escritura. 

123. Saibão quantos este publico Insiriimenlo de 
doação virem, que no anuo do Nascimento de N, Senhor 
Jesus Cliristo de mil quinkentos oitciiía e cinco, aos 
vinte sette dias do mez de Sctlembro, nesta Villa de 



137 

Olinda, de que he Capitão, e Governador o Senhor Jorge 
de Albuquerque Coelho ^ por ElRey nosso Senhor, na Igre- 
jade N. Senhora das Neves desta dita Villa, estando ahi 
a Senhora Maria daRoza D. Viuva, mulher, que foy 
de Pedro Leitão, que este em gloria, moradora nesta 
Villa, logo por esta foy dito, e disse em presença de 
mim publico Tabelliáò, ao diante nomeado, e das tes^ 
timunhas ao diante escritas, que tanto que o Senhor lhe 
levara para si seu marido, e filha, que este em gloria, 
logo ella determinara, e promettera de fazer huma casa 
da invocação de nossa Senhora das Neves, e a dar aos 
Frades da Ordem de S. Francisco para Mosteiro da 
dita Ordem, pela muita devoção que ella lhe tinha, para 
nella perpetuamente o Senhor ser servido, e louvado \ 
e nisto, depois de cumprir com suas obrigaçoens, mostrar 
o que o Senhor lhe dera ; e com esta intenção, e devoção 
a tinha feita, e posta nos lermos em que hora estava : e 
que por vezes tinha escrito ao Reyno, aos PP, Provin- 
ciaes da dita Ordem, mandando-lha o/ferecer, e pe- 
dindo-lhes, quizessem mandar Religiosos para a po- 
voarem, e acabarem, o que até agora naò teve effeito . 
e que hora vendo ella nesta terra o Padre Fr, Melchior 
de Santa Catharina, e seus companheiros com provisão 
de Sua Magestade , e Patente do Padre Fr, Francisco 
Gonzaga, Ministro Geral de toda a Ordem do P, S, 
Francisco, em que o faz Custodio, e seu Commissario, 
para em todas estas partes do Brasil poder tomar Mos-- 
tetros^ e fundar sua Sagrada Religião ; ella dita Maria 
da Roza dava muitas graças a N . Senhora por lhe mos- 
trar cousa que tanto dezejava : Pelo que, ella de seu 
próprio moto, e livre vontade, e sem constrangimento^ 
nem induzimento de pessoa alguma, dava, e doava á 
dita Ordem de hoje para todo sempre a dita casa assim- 
como está. Igreja com todos seus ornamentos, e com 
todos os mais, prata ^ chãos, e terras, que estaò junto 
com adita Igreja, assim cerca, como os que estaò fora 

J ABO ATAM. VOL, H. IS 



138 

delia ^ em que eslá a O liaria até o salgado^ para se po- 
derem metier na cerca^ assim, e da maneira que os ella 
tem, e possiie, com suas entradas, e sahidas : E logo 
disse, que renunciava, e traspassava todo o direito, que 
nos ditos bens tinha, em a dita Ordem de S. Francisco^ 
ou em quem conforme a Direito, e as declaraçoens, que 
os Papas tem feito sobre a Regra dos Frades Menores, 
devia, para que a Ordem, conforme a Direito, e seguras 
consciências, ditos Frades possaò gozar da dita casa, 
e ordenar delia, como das mais Casas, e Mosteiros da 
dita Ordem, e assim, e da maneira, que dito lie, e otor- 
gou, e mandou ser feito este publico Instrumento de 
doação, e que desta nota lhe se j aã dados os traslados, que 
pedidos forem, E logo. Eu tabelliaò, como pessoa accei- 
tante, e estipulante, acceitei esta Escritura, assim, e da 
maneira, que nella se contêm, em nome dos presentes, e 
ausentes, aquém convém, e deve convir \ estando pre- 
sente Lúcio Martins, Procurador do numero desta Villa, 
que assinou pela Senhora Maria da Roza, por não saber 
assinar, e Gaspar Nunes Leitão sobrinho da dita Se- 
nhora, e António Nnnes, alfayate, e António de Vai- 
ladarcs, todos moradores, e estantes nesta Villa. E eu 
Jorge Gonsalves Tabelliaò do publico Judicial, e notas 
&c, O mais desta Escritura são termos communs. 



CAPITlJIiO VI. 

Passaõ os Fundadores para a nova Casa da Senhora das Neves : ãescre" 
ve-se o Lugar y e Villa de Marim, e Cidade de Olinda, 

124. Está situada ao Nascente sobre huma elevada 
eminência^ e alto monte, que levantando-se cm humas 
partes mais, em outras menos, forma planícies, mostra 
quebradas, e deixa empinados ; donde veyo dizer hum 
douto Escritor, na sua descripçaõ ^, estava fundada a 

^ Brito Freire. Nova Lusitan. 



139 

Cidade de Olinda sobre cinco monlcs^ naõ sendo na 
realidade mais que hum, de que nascem os outros, ou 
como filhos, a quem elle sustenta a seus lados, ou como 
peanhas, sobre que descança, como capitel, e coroa 
dos mais ; taõ aprazível á vista, e agradável aos olhos, 
que o alegre^ e delicioso da sua perspectiva lhe gran- 
geou o peregrino, e especioso nome de Olinda, que a 
admiração gostosa do seu primeiro descobridor, e a li- 
zongeira affabilidade de seus companheiros lhe appro- 
priou, quando com a vista deste empinado, verde, e 
frondozo monte, exclamou dizendo: Ok que linda situa- 
çáòpara huma Víllale daquella interjeição admirativa, 
e do lindo que lhe pareceo para huma povoação o lugar, 
lhe deraõ o nome de Olinda á Yilla que alli fundarão ; 
unindo-se só aqui, sem violência a lizonja com a ver- 
dade, e podendo-se também dizer, que fallou a verdade, 
e acertou a lizonja; e foy sem duvida a vez primeira 
que acertou. Em oito gráos escassos da Equinocial para 
o Sul tem o seu assento, com mais de meya legoa de 
diâmetro, e duas grandes de circunferência, e distante 
cinco do Cabo de Santo Agostinho. Tão alegremente 
vistosa a sua eminência^ que delia para o Nascente se 
descobrem as agoas do mar até o mais alto dos Ori- 
zontes com o esprayado de suas costas, dilatando-se 
estas até onde alcança a vista^ tanto ao Leste, como 
Norte, e Sul. Para este lhe fica em distancia de huma 
legoa a aprazível Villa do ReciíTe^ para a qual se chega, 
e faz caminho, ou por huma lingua de arca de vinte até 
trinta braças de largo, ou por embarcaçoens de canoas 
pelo Rio Beberibe abaixo, que mettendo em meyo esta 
lingua, corre a parelhas com o mar, por toda aquella 
legoa, e taõ desenfadado aos que por elle navegao, que, 
ou se deleitaõ com o brando susurro das agoas do mar, 
que continuamente lhe vay batendo nas costas com a 
sua pancada; ou se recreaõ com o delicioso da terra, 
c salgado das Salinas, e Boavista, ornada de sitios, ca- 



sarias, hortas, e arvoredos. Pela quadra, que íhc fica 
entre o Poente, c Norte, vay conlinuando, como gar- 
ganta, e corpo restante, de quem he cabeça o monte 
alto da Cidade, tiuma cordilheira de serranias^ naõ muy 
altas, mas lào prolongadas, que repartidas pela terra a 
dentro, vaõ cercando ao longo a sua redondeza, depois 
que para o Meyo dia, e Sul, deixaõ humas espaçosas 
campinas, ou vargens de quatro, cinco até seis legoas, 
habitadas de multidão de vizinhos^, grandes Engenhos 
de Açúcar, fabricas de Ollarias, e diversas lavouras, qwe 
de mais perto daõ para a Cidade, e principalmente Re- 
ciíTe, o gostozo refresco de todo o género de hortaliça, 
e frucla. 

125. Do ultimo Cabeço do Monte, que para a parte 
do Sul cahe sobre a costa do mar, e onde fica assentado 
o Mosteiro de S. Bento, entre este, e o Palácio dos Go- 
vernadores, deixando a rua direita, se desce por outra 
pela ladeira abaixo, que vay cahir em pouca distancia 
sobre a faltada Ponte do Varadouro, que lhe fica ao 
Poente. Serve esta de dar passagem aos que entraõ, e 
sahem da Cidade, e recôncavos da terra, como Salinas, 
Vargem, Matias de S. Lourenço, Tracunhen^ e mais 
Sertoens. Fica esta sobre as correntes do Piio Bebe- 
ribe, que tendo a sua nascença algumas legoas pela 
terra adentro á parte do Noroeste, e vindo buscar, como 
os mais, o seu sepulchro no mesmo berço, em que 
nasceo, no mar, para o Oriente, por achar para alli o 
impedimento dos montes, que vaõ correndo da Cidade, 
Javandó-lhe os pés do seu, desde o que chamaO Fornos 
da caU e Ollarias, volta buscando o Sul, e correndo 
para este da sobredita Ponte do Varadouro, pela dis- 
tancia de huma legoa, como fica dito, emparelhado 
com a costa do mar vay fenecer no porto do ReciíTo ; 
vindo assim a ficar todo o Monte da Cidade, pelo Po- 
ente cercado das agoas doces do Beberibe, c pelo Nas- 
cente das salgadas do mar; começando para o Sul 



entre as agoas, que cabem do Varadouro, e as que cor- 
rem do mar pela costa em pouco mais de ciucoenta bra- 
ças de salgado, e arêas o pé da língua, que tendo as 
raízes na quebrada do monte, e muros de S. Bento, sahe 
para o Reciffe, e vay levantar na sua ponta aquella po- 
voação, e acabando para o Norte o circuito, e monte da 
Cidade, cm mais de huma legoa de distancia desde as 
Ollarias donde o busca o Beberibe pelo Meyo dia até a 
costa do mar ao Nascente. 

126. He a Ponte do Varadouro, da Cidade de Olinda, 
e foy sempre hum bom divertimento de seus moradores, 
e mais Colonios de outras partes, servindo também, 
assim aos da Cidade, como do Reciffe, de grandes con- 
veniências. A estes, como também a todos os mare- 
antes, por mandarem tomar de mais perto as agoas de 
beber^ que lhes faltaõ alli, e as hiaõ buscar algumas 
quatro legoas pelo outro Rio Gapebaribe acima ao En- 
genho dos Apepucos. Aos da Cidade, e seus vizinhos 
péla abundância de pescados de bom gosto, e pouco 
custo, que cria, e dá o Rio em hum grande lagamar 
que forma, quando represas as suas agoas. Só causao 
estas tal, ou qual descommodo aos que tem sitios a sua 
margem^ por lhes tomar algumas baixas mais frescas 
para as suas lavouras, e hortaliças^ de que se segue, 
como de todas as cousas deste mundo, que ainda quando 
agradaõ a muitos, desgostaõ a outros, sendo por pai- 
xoens particulares os mesmos do Reciffe os que mais 
se enfastiaõ destas agoas, ao mesmo tempo, que tem 
ncllas a mayor conveniência ; e assim sobre a conser- 
vação desta ponte, ou aberta em arcos, para que corra 
o Rio livre, como querem os debaixo, ainda que se 
naõ aproveitem das suas agoas, por que correm assim 
de mistura com as salgadas, ou posta em represa, como 
sempre pertendem os da Cidade ; tem havido suas con- 
tendas, de que ha resultado correr o Rio humas vezes 
livre, e outras ficar prezo. Ao presente se acha nesta 



142 

forma, desde osannos de 1744, em que sendo Juiz de 
Fora de Pernambuco o Doutor Joaõ de Sousa de Me- 
nezes, a diligencia, e cuidado seu, instancia dos Ve- 
readores de Olinda, e concurrencia do povo, se fez a 
sua nova ponte de pedra lavrada, com vinte três aque- 
ductos, parte destes em sangradouros de três palmos 
de largo, e mais altos para despedirem as agoas nas en- 
chentes do Rio, e a outra parte em bicas, ou canos da 
mesma pedra, e mais baixos que os sangradouros al- 
guma cousa, de sorte, que nunca a marc, por mais alta 
que seja, lhes possa chegar, e fique conveniente a po- 
der-se das canoas tomar a agoa, que por ellcs sahe; 
donde, com singularidade raras vezes vista, estando os 
debaixo sobre as salgadas agoas em suas canoas, e ba- 
teis, tomaõ da mesma corrente as doces, que lhe cahem 
de cima, e admirando-se, sem milagre de alguma poé- 
tica metamorphosi, dividirem-seas agoas de huma mesma 
corrente em doces para huma parte, e salgadas para a 
outra. Por cima do seu lagedo de 328 palmos de com- 
prido, que he todo de pedra lavrada, tem huma bastante 
casa de 74 palmos de comprido, e 27 de largo, formada 
sobre arcos, cinco por cada lado, com seus assentos da 
mesma pedra, em que descançaò os que passaõ, se di- 
verten os que passeaõ, e os que vaõ tomar seus banhos, 
ou por necessidade, ou regalo. Depois da ponte, que 
começa logo no fim da rua dita, que desce de Palácio, 
corre na mesma largura de 27 palmos hum aterrado 
por distancia de dous mil quarenta e sette palmos até o 
Adro da Igreja dos Padres Theresios, que ficaõ da 
outra parte para o Poente, e serve de muro ás agoas do 
lagamar, que formão as reprezadas do Rio, e de caminho 
aos passageiros, por ser aquelle restante de terra ala- 
gadiça, que se cobre de agoas na enchente da maré. 
Esta he a tosca, mas verdadeira descripçaõ desta ponte 
de Olinda, e Rio Beberibe ; e se acazo houver algum 
passageiro, ou Critico por paixão, ou enfastiado por 



143 

genio^ que naõ goste da sua passagem neste papel, sem 
muitos rogos, llie concedemos, que em chegando aqui 
ao seu principio, a tome de hum salto^ e se intrometta 
na Cidade, aonde nós também agora tornamos a entrar. 
127. Foy fundada por Duarte Coelho de Albuquerque 
no anuo de 1530, como ja se disse, e no de 1537 le- 
vantada em Villa pelo mesmo Rey D. Joaõ III, que lhe 
havia feito a mercê desta Capitania, e no decurso de 
cem annos, desde o de 1530 da sua fundação até ode 
1630, em que foy tomada, e destruída depois pelos 
Olandezes, chegou a tanta opulência de riquezas, e gran- 
deza de edifícios^ quo só de ruas passeavaõ os seus Co- 
lonios settenta e duas principacs. Esupposto se acha 
hoje bastautemente reedificada, ainda os que discorreu» 
por ella, ou se desviaõ para qualquer do seu alto, bai- 
xas, e quebradas, só lopaõ com ruinas dos seus an- 
tigos edifícios, e pedras, que servem de escândalo fatal 
a vista, e de magoa terníssima á memoria, que por 
força lhe ha de occorrer, que o nome de Olinda, que 
lhe deraõ, assim como foy presagio feliz da sua futura 
grandeza, foy também annuncio triste da sua vindoura 
fatalidade, em que só com a breve, e ligeira mildança 
de huma letra, se havia tornar Olanda, a que era Olinda; 
destino fatal, e que acompanha de ordinário as cousas 
grandes, que com o seu mesmo crescimento accrescen- 
laõ, e acarretaõ a sua própria ruina. Depois desta, e da 
sua total restauração em 1654, no de 1676 o Pacifico 
Monarcha D. Pedro II a elevou a Gathedral, condeco- 
rando-a com o primeiro Bispo D. Estevão Brioso de 
Figueiredo, Clérigo, por Bulia do Santissimo Padre In- 
nocencioXI, que começa: Ad Sacram Beati Petri Sedem, 
de 22 de Novembro de 1676, no primeiro anuo do seu 
Pontificado, e por esta mesma Bulia confirma o Santo 
Padre a honra de Cidade, a que, com a nomeação do seu 
primeiro Bispo, a elevava o mesmo Príncipe Regente ; 
o que tudo logrou o seu eíFeito em Olinda no seguinte 



anuo (Ic 1677 ; porque neste mesmo auno, por Cer- 
tidão autentica, que tiramos pelo Escrivão da sua Ga- 
mera, consta que se achaõ neila escrituras passadas no 
principio delle, em que se nomea Villa, e outras para o 
fim, em que ja se intitula Cidade. 

128. Daõ-lhe ainda lioje glorioso lustre^ mais que á 
sua grandeza, á sua devoção, as muitas Igrejas, e gran- 
des Templos, que mais a ennobrecem ; porque alèni 
de oito menos principaes, que saõ : o da Senhora de 
Guadalupe dos homens pardos, S. Joaõ de Soldados^ 
Rosado dos Pretos^ Amparo dos Músicos^ e moradores 
desta rua^ S. Sebastião da Camera, e Vereadores, S. 
Pedro Martyr Freguczia, a do Apostolo do mesmo no- 
me^ de Glerigos, e a Senhora do Monte, Hospício de S, 
Bento, e Santuário milagroso ; também conta outros oito 
de mayor nome ; e he o primeiro a sua Sé Episcopal, 
Templo bastanlemente avultado ao antigo de cinco na- 
ves, três das quaes sesustentaõ sobre duas ordens de 
boas columnas de pedra inteira; a Santa Casa da Mi- 
sericórdia, Igreja Gollegiada, com Hospital para po- 
bres ; a de nossa Senhora da Gonceiçaõ, Recolhimento 
de mulheres convertidas: o Mosteiro do Príncipe dos 
Patriarchas, o Convento do Carmo Observante, o de 
Santa Teresa ; o Gollegio dos Padres Jesuifas ; e a Casa 
de N. Senhora das Neves, principal objecto, que nos 
veyo encaminhando a toda esta digressão^ dilatada, mas 
necessária. 

129. He ao presente huma das boas, que tem a Pro- 
víncia, e foy sempre muy mimoza, e appelecida dos Pa- 
dres, c ainda hoje naõ perdeo de todo esta regalia, snp- 
posto que a fortuna, como a Esaú lhe tirou o morgado, 
e deixou de ser Cabeça da Província, que logrou por 
muitos annos, transferindo os Padres do Governo, naõ 
sey se com a mesma razaõ, que Isác para Jacob, de 
Olinda para Bahia, a Casa Capitular. Esta hoje todo de 
aovo, e heja o segundo, que no mesmo lugar do primei- 



l/i5 

ro se levantou^ e em tudo avantajado. Tem o seu as- 
sento ao descer do alto do monte, e principal fronteira 
para o Nascente, e sobre o mar, em iiura meyo razo, 
que íórma a ladeira, abaixo do Gollegio dos Padres Je- 
suítas Jium tiro de mosquete, e quasi dous da Sé Epis- 
copal, que está no principio do plano do mesmo monte^ 
€ rua principal para a Misericórdia^ donde acaba esta 
primeira planície, e cabeço mais alto de toda a Cidade, 
íicando-lhe o muro, e cerca pela quebrada abaixo, atè o 
salgado, que medeya entre o muro, e a pancada do mar, 
só com a distancia de hum combro de área de algumas 
cincoenta braças entre ambos. He o sitio, ainda que re- 
tirado, muy vistoso, participando mais do espaçoso do 
inar> que he o principal objecto da sua vista, e muy 
pouco da Cidade, por lhe Gear esta para o Meyo dia, e a 
mayor parte delia encoberta com o empinado, que vay 
formando o monte em circuito, desde a Sé quasi ao No- 
roeste, até S. Bento ao Sul, que como muralha opposta 
tira ao nosso a mais vista da Cidade, que cahe toda para 
o Poente, por lhe Gear para o Nascente o da Senhora das 
Neves, de que falíamos. 

130. Para este, assim, e na forma em que o tinha 
fabricado a sua Fundadora, se passarão das casas, em 
que até enlaõ assistirão junto á Misericórdia, os nossos 
Religiosos, no dia quatro de Outubro, Solemnidade fes- 
tiva do Seráfico N. P. S. Francisco, do ja referido anno 
de 1585. Junto hum, e outro povo, o Clero com o seu 
Reverendo Yigario Geral, o secular com o Senado, e 
Camera, e mais Nobreza em numeroso concurso na 
Santa Casa da Misericórdia, dahi sahiraõ em huma bem 
composta, e ordenada Procissão, a que presidia, com o 
Governador da terra, o Vigário Geral, e Padre Custo- 
dio, entoado o festivo Cântico do Te Deitm Laudamus, 
até o Convento, pela rua direita, que toda estava ornada 
de arcos triunfaes, e verdes palmas, annunciadoras fe- 
liccs das muitas victorias, que estes dovos Conquistado- 

JABOATAM. VOL. II. 10 



1/lG 

ros liaviaò alcançar do coiumum inimigo. Recolhidos ú- 
Igreja, depois de hiuiia breve, e devota Oração, e de 
outras Ecciesiasticas Cereiíionias, costumadas nestes 
aclos, Tez o Reverendo Yigario Geral hum largo^ e douto 
Discurso, em que ponderou discreto, e comelegancia o 
austero, penitente, e exemplar da vida Religiosa, dando 
parabéns a todo aquelle povo de ter chegado o ditoso 
tempo de lograrem a appetecida companhia de huns 
taes sujeitos, que serviriaõ ao Gentilismo de conver- 
são para a Fé, e aos Catholicos de exemplo para o apro- 
veitamento, e de huma grande gloria para Deos ; e que 
nas suas oraçoens achariaõ todos outros Moysés, e Aa- 
raõ para applacar as iras do Senhor contra os homens, 
reduzindo a estes a seu amor, e serviço : e assim se con - 
cluio, com hum universal applauso do povo, a acção 
deste dia. 

I3i. Logo no outro cuidou o Padre Custodio em dar 
providencia ao governo económico do Convento. Fez-se 
toda a instancia com o Padre Fr. Francisco de S. Boa- 
ventura, que vinha em segundo lugar para Custodio, na 
falta do primeiro, para que com a fortaleza do seu re- 
formado espirito, pobreza Religiosa, e observância re- 
gular, de que era enriquecido, e devia ter o primeiro 
i^relado de huma Familia, que aqui vinha ter a sua in- 
fância, e se nesta lhe faltassem os documentos essen- 
ciaes para a perfeição do estado, muy atrazada ficaria 
a disciplina regular para os vindouros ; pela qual razaõ, 
queria o Padre Custodio fosse este Religioso o primeiro 
Prelado da nova Familia ; mas nada se pode acabar com 
elle para este eíTeito; porque logo determinou com ou- 
tros companheiros mais, que escolheo do seu mesmo es- 
pirito, sahir á pregação, e doutrina dos Índios, em que 
obrou admiráveis conversoens : Em seu lugar acceitou 
o de Guardião, e Prelado da Casa, o Irmaõ Fr. Fran- 
cisco dos Santos, sujeito também de prudência, zelo, e 
actividade para obras, e por sua traça se ordenou a 



i/47 

formalidade material da casa, cm quanto aos agazaHios, 
officiíias, e o mais necessário, e preciso para o governo 
económico, e regular. 

CAPIl^lJIiO VII. 

Do mais, que óbraraõ os Fundadores depois que entrarão 
em o novo Convento. 

132. Muy satisfeitos, e espiritualmente gozozos se 
achavaõ todos elles com a posse de nova habitação, e par- 
ticularmente pelo grande consolo de terem por casa sua 
a daquella Mãy de piedade, que com singular cuidado lie 
especial Protectora dos Frades Menores ; pois desde a 
primeira casa, que teve a Ordem Seraíica no pequeno 
Valle de Porciuncula, os tomou esta Senhora tanto de- 
baixo do seu amparo, como o tem mostrado o mesmo 
tempo, e a experiência ; e naõ o duvidavaõ menos ago- 
ra, em que, por primícias das suas espirituaes felicida- 
des, era a pequena Casa, e Igrejinha da Senhora das 
Neves a primeira da nova Custodia. E como se achavaõ 
jaem (asa própria, e desaífogados de alguns inconveni- 
entes da estreiteza do primeiro domicilio, se applicaraõ 
também com mayor fervor de espirito^ e socego da alma 
ás pensoens do Choro, Oração, e outras mais domesti- 
cas^ e interiores com taõ indispensável assistência, sen- 
do taõ poucos, como se fosse em hum Convento de gran- 
de numero, fazendo assim certo, que o espirito, e naõ a 
quantidade, he que faz a Pieligiaõ. e sustenta a Refor- 
ma. Nem estas precizas occupaçoens de dentro lhes im- 
pediaõ as chariíativas de fora, acudindo ás vizitas do 
Hospital publico, e de outros enfermos particulares, e 
pobres, e a muitas necessidades daquelle povo, qu; 
taõ satisfeito se dava com estes seus solicitos, * e aman- 
tes bem feitores. 

* Anno JíiRfi, 



148 

13o. A fama voadora destes benefícios para com os 
próximos, e das próprias virtudes, e exemplares pro- 
cedimentos, formando as soas costumadas azas, ja era 
clarim, que por todas as partes as fazia publicas, eja 
era reclamo, que convidava a innumeraveis almas, 
assim dos Catholicos, como dos Gentios, a buscar nelles 
o seu remédio, e espiritual allivio, communicando-lhes 
as suas aíflicçõens, para o consolo, as suas diíficuldades 
para o conselho, e seus males para a cura das almas, 
de que se colhiaõ ja grandes, e sazonados fructos, assim 
noâ^ confessionários, como nos púlpitos, especialmente 
com as prégaçoens do Padre Custodio, e de Fr. Fran- 
cisco de S. Boaventura, que eraõ suas vozes em hum, e 
outro lugar, as deste nos confessionários, e as daquelle 
nos púlpitos, como dous trovoens de superior esfera, do 
Evangelho, que assim moviaôcom o estrondoso doecho, 
como allumiavaõ com as luzes do exemplo. Também 
hiaõ ja abalando muitos filhos dos moradores da Villa, 
e de algumas pessoas de mais distinção, a pedir o santo 
Habito, e abraçar o Seráfico Instituto, aitrahidos do 
suave cheiro, que ja por toda a terra respirava fra- 
grantes flores da Seráfica Reforma. 

134. Ja neste tempo era entrado o anno de 1586, e 
os Religiosos também em novos cuidados ; porque era 
forçoso receber a Ordem alguns Noviços, tanto para 
ministério da Casa, como para dar satisfação aos de- 
zejos do povo, e não havia ainda domicilio particular 
para este eíTeito. Também se devia fabricar na cerca 
huma casa suíTiciente, na qual se criassem dentro os 
filhos dos Índios, convertidos, como em Seminário, 
para que, bem instruídos primeiro nos rudimentos da 
Santa Fé, fossem depois Pregadores de seus mesmos 
naluraes ; porque he certo attractivo das vontades a si- 
milhança da natureza, e a propriedade das línguas ; e 
ambas estas casas se concluirão com brevidade, e per- 
feição, com as esmolas dos fieis devotos, e agencia do 



149 

Prelado, que^ como laõ zelozo da santa pobreza, em 
nada excederão estas obras ao precizo do seu mister, 
nem ao regular do nosso Instituto. 

135. Outro cuidado sobreveyo depois aos pobres 
Religiosos, que tanto era mais para sentido, quanto to- 
cava na parte mais viva da alma, que lie a opinião^ e 
boa fama. Vio o demónio a muita, que haviaô grangeado 
aquelles Padres cora o seu exemplar modo de vida, que 
deixamos referido^ e como picado de se vêr ir despo- 
jando de muitos sequazes da sua infernal milícia ; porque 
os peccadores emendavão os erros passados, e os Gen- 
tios se convertiaõ á Fé Catholica, crescia a sementeira 
do Evangelho, plantada por estes vigilantes Operários, 
no campo da Igreja, e que os celleiros desta se enchiaõ 
á pressa de redundantes fructos, entrou a semear huma 
forte, e vigorosa zizania, que, se naõextinguio, naõ 
deixou de suíTocar, em quanto de todo se naõ extirpou, 
huma boa parte da espiritual colheita. Incitou o animo 
ambicioso de alguns dos moradores da terra, para que 
nos tirassem do Seminário, que tínhamos erigido para 
Recolhimento dos novos convertidos, os fdhos dos ín- 
dios, que alli ensinávamos, e os levassem para suas 
casas, e que fazendo-os Deos livres, se serviaõ delles, 
como de escravos, contra as Leys Civis, e da natureza. 
Decretos PontiQcios, e Ordens Reaes^ o que uzavaõ com- 
niummente todos^ e abuzo, em que se tem trabalhado 
muito em toda a America para se arrancar, e ainda o 
naõ está de todo ; e para darem a esta antiga payxaõ 
nova cor, ajuntavaõ aos Religiosos calumnias, impos- 
turas, edicterios fabricados pela sua malícia, e alheyos 
da boa intenção daquelles Padres, que contrapondo o 
soffrimento á calumnia, e o desapego das temporalidades 
ao bem commum daquelle Gentilismo, o mesmo tempo 
foy mostrando, que os naõ admittiaõ á sua companhia 
com aquelle pretexto, com que os solicitavaõ para si 
os Calumniadores: e assim se foy desvanecendo aquella 



150 

ruidoza tempestade, e a sereno» de todo a tolerância 
em huns, eo desengano em outros. 

136. Era neste Seminário o principal cuidado dos 
Religiosos, depois de bem inslruidos nos princípios da 
Fé aquelles índios, ensiná-los a lêr^ e escrever para 
melhor intelligencia sua, e a poderem ensinar também 
aos parentes, e payzanos. E porque esta gente he nalu- 
ralmente inclinada á musica, em que passavaô a vida em 
cantos, e bailes a seu modo rústico, lhes buscarão Mes- 
tres, que os ensinassem a cantar, e tanger os instru- 
mentos, que na Igreja Gatholica se uzaõ, que foy de 
grande importância para a conversão de muitos, e para 
os obrigar a descer das suas Aldeãs, e Sertoens vizinhos, 
e trazerem seus filhos para aprenderem o mesmo ; porque 
be gente esta também amiga de saber, ouvir, e per- 
guntar, dóceis para serem governados, e fáceis para a 
crença, ainda que mudáveis, vários, e inconstantes, 
principalmente os que se convertem á Fé, depois de 
imbuídos nos seus falsos dogmas, e erros Gentílicos, 
que na opinião dos doutos naõ passaõ nelles a Idolatras, 
porque naõ adoraõ a Divindade alguma particular, que 
tenhaõ por Deos, e só reconhecem a huma Excellencia 
Superior, a que chamao Tupad, que he o mesmo, que 
Deos Grande, mas sem lhe tributarem culto, ou ado- 
ração alguma : e só se deixam enganar dos falsos agou- 
ros dos seus feiticeiros; e por isso se admiravaõ muito 
de vêr, e entrar em as nossas Igrejas, e tinhaõ grande 
consolação com a das Imagens dos Santos, especial- 
mente com as de Ghristo, e sua Santíssima Mày ; A' 
desta Senhora com o titulo das Neves, que era de pin- 
tura em painel, grave, e devota, com o sen Bendito Me- 
nino em os braços, e singular Padroeira do Convento, 
tinhaõ, e mostravaõ particular devoção, e reverencia. 
A vizitar este devoto Retabolo acudiaõ os índios em 
grande concurso, e para augmentar este, e o culto, 
e veneração da Senhora, ordenarão huma devota Gon- 



151 

Iraria^ ou irmandade, e faziaõ muito apreço, e esti- 
mação de que os assentassem nella, e a serviaõ muy 
promptos^ e obsequiosos^ ornando o seu Altar, e Re- 
tabolo de flores, e outros enfeites, que permittia a sua 
rude discrição, e natural pobreza, e mostra vaõ a sua 
muita vontade, e grande aíFecto. 

137. Para tudo linbaõ bastante, e exemplar incen- 
tivo no que viào áquelles Religiosos seus Mestres, e Di- 
rectores. Eraõ contínuos nas lunçoens do Choro ; gos- 
tavaõ os índios de os ouvir cantar os Divinos louvores, 
e com poucas liçoens entoavaõ juntamente com os Re- 
ligiosos as Missas Solemnes, Ladainhas, e outras simi- 
Ihantes funçoens Sagradas, elogo houve entre elles mui- 
tos, e muy destros no canto do Orgaõ, e hum, chamado 
Francisco, era bastantemente contraponlista, e panhaõ 
as leiras á solfa em a nossa lingua, que aprendiaõ com 
facilidade, e também na sua, convertendo nesta muitas 
das suas Gentilicas cantilenas em encoimos Divinos, e 
era certamente muito para dar graças a Deos ver em 
taõ pouco tempo a hum Indiozinho com destra harmo- 
nia entoar louvores ao Senhor na sua barbara lingua- 
gem, que sendo suave aos ouvidos, só Deos se sabia en- 
tender com ella, e só elle a podia entender. 

138. A Irmandade de nossa Senhora das Neves, que 
ja dissemos levantou a reverente devoção destes índios 
convertidos, foy com particular providencia, para vizi- 
tar, e servir aos seus enfermos, e dar sepultura aos seus 
defunctos ; e no dia em que a Igreja faz a geral comme- 
moraçaõ por todos, costumavaõ offertar suas primícias, 
carregados dos fructos, que colhiaô das suas lavouras. 
Estimarão muito a noticia deste dia ; porque saõ muy 
amantes dos seus defunctos, e delles bem lembrados, e 
davaõ a entender pelo seu rude, e tosco estylo, que fol- 
gavaõ de ser Gatholicos, porque os que guardaõ a Ley 
de Christo saõ taõ cuidadosos dos que partem desta vi- 
da ; e por isso no dia de Finados se ajuniavaõ na Igreja 



152 

em mayor concurso, como também em a noite solemne 
do Nascimento de Christo á Missa, que chamaõ do Gál- 
io, Domingo de Ramos, e em toda a Semana Santa, em 
que faziaõ muitas, e grandes penitencias, jejuando, vi- 
giando, e levando ás costas nas procissoens pedras, e 
troncos de extraordinário pezo, como se costuma nes- 
tes santos dias. 

139. Tinhaõ singular honra, a de que os admittissem 
á Sagrada Mesa da Eucharistia, e para esta se prepara- 
vaõ com terníssima devoção, e sobre todos dons velhos 
principaes, chamados António, e Joaõ, que parece os ti- 
nha Deos particularmente destinado para Pregadores 
daquelie Gentilismo; porque, depois de bem doutrina- 
dos, os admittiraõ os Religiosos a que cathequizassem, 
e doutrinassem aos mais, o que elles faziaõ com tanto 
zelo, e fervor, que foraõ innumeraveis os que se redu- 
zirão, tanto pela vehemente força das suas razoens, co- 
mo pelo grande respeito, que como a mais velhos, e 
Principaes, lhes tinhaô todos, e bem mereciaõ estes 
dons índios outra mayor demonstração, e mais larga 
memoria, pelo muito que trabalharão ajudando aquelles 
Religiosos na laboriosa Conquista dos seus naturaes, se 
os mesmos, que nos daõ delles esta succiuta noticia, a 
deixarão de todo completa. 

140. No dia em que commungavaõ, de nenhuma ma- 
neira, ou por grande necessidade que houvesse^ uzavaõ 
das suas commúas viandas, e potagens Gentílicas, e só 
comiaõ alguma ave, se a colhiaõ á frecha, ou em laco ; 
e quando esta lhes faltava, guardavaõ hum abstinente 
jejum^ mostrando esta surama veneração ao Corpo Sa- 
cramentado do Senhor, que haviaõ recebido em suas 
almas. Assim mesmo era grande a estimação, que fa- 
ziaõ daquellas mulheres, as quaes os Padres approva- 
vaõ por capazes da Sagrada Communhaõ. Eraõ também 
muy curiosos, e inclinados a ouvir as praticas, e prega- 



153 

çoetis> que os Padres lhes faziaõ especialmente na sua 
língua, que com ííicilidade aprenderão os PP. Custodio^ 
Fr. Francisco de S. Boaventura, Fr. Francisco dos 
Santos, e Fr. António da Ilha; porque he o seu Idioma 
muy amplo, e capaz para se lhe formarem nelle elegan- 
tes, e bem fundados discursos, com vários preâmbulos 
e Rhetoricas figuras. / 

141. De tudo o que fica dito colhiaõ aquelles Padres 
humas bem fundadas esperanças da total conversão 
deste Gentilismo ; pois ainda os que viviaõ apartados 
do commercio dos Gatholicos pelos Sertoens mais vizi- 
nhos á Costa do mar, se hiaõ facilmente domesticando 
com as continuadas prégaçoens do Padre Fr. Francisco 
de S. Boaventura, e seus -companheiros, que com in- 
cançavel zelo das suas almas trabalhavaõ em reduzi-los 
ao grémio da Igreja pela pregação do Evangelho, como 
com effeito o irá mostrando o decurso dos annos. 

142, Neste, em que agora estamos, (1586) e ja pelos 
fins de Novembro, ouvidas benignamente peio Santo Pa- 
dre Sixto y. as humildes suppiicas do devoto, e piedoso 
Jorge de Albuquerque, acompanhadas com a Patente do 
Reverendissimo Padre Geral, e Alvará do Rey Gatho- 
lico, foy passada na Cúria Romana a Bulia da Institui- 
ção, erecçaõj e confirmação da nova Custodia de San- 
to António do Brasil, e remetlida a sua execução, para 
lhe fazer dar cumprimento, ao Doutor Vigário Geral do 
Arcebispado de Lisboa, Official da Cúria, que a accei- 
tou, e deo á execução, como consta de hum iransumpto 
autentico, tirado do próprio original, e se guarda no 
Archivo do Convento de Olinda, na forma seguinte. 



143. Diz o Custodio de S. Francisco, que a elle he 
necessário o traslado de hum Processo, discernido so- 
bre a Instituição, e erecção desta Custodia do Brasil 
por vigor do Breve de Sua Santidade, encorporado no 

JÂBOATAM. VOL. II. 20 



154 

dito Processo, que offerece. Pede a V. S. lho mande 
dar, e corroborar com seu sigoal, e sello, pura que 
faça fé, oude quer que for presentado. 

ER. M. 
Passe do que constar. Olinda 12 de Setembro de 1609. 

O Bispo. 

144. O Doutor Joaõ de Lucena Homem, Vigário Geral 
nesta Cidade, e Arcebispado de Lisboa pelo Illuslrissi- 
1110, e Reverendíssimo Senhor D. Miguel de Castro, por 
mercê de Deos, e da Santa Igreja de Roma, Metropoli- 
tano Arcebispo da dita Cidade, e Arcebispado, ele. Juiz 
Goramissario Apostólico, e Executor da causa da con- 
cessão, confirmação, c determinação abaixo declarada. 
A todas as Pessoas Ecclesiasticas, e Seculares, de qual- 
quer qualidade, e condição^ que sejaõ, Clérigos de Mis- 
sa^ e de Ordens Sacras, Notários Apostólicos, Tabelli- 
aens, Escrivaens da Capitania de Pernambuco das par- 
les do Brasil, e de outras quaesquer Capitanias do Bis- 
pado delia, a que esta minha, c mais verdadeiramente 
Apostólica carta de Sentença de confirmação, concessão, 
determinação, e execução virem, saúde, e paz em Jesu 
Christo nosso Senhor. Faço saber, como por parte do 
Senhor Jorge de Albuquerque Coelho, Governador da 
Capitania de Pernambuco nas ditas partes me foy pre- 
sentada huma Bulia Apostólica de confirmação, e appro- 
vaçaõ da erecção, e instituição da Custodia dos Frades 
Menores da Ordem de S. Francisco da Observância, que 
o Reverendíssimo Padre Fr. Francisco Gonzaga, Minis- 
tro Geral instituio, e erigio na dita Capitania a seu 
requerimento, e instancia, que me vinha dirigida, c 
commettida m^o/íí/tí/;?. A qual, por ser sãa, inteira, e 



155 

iiaõ fulsiflcadaj nem viciada, nem em parle alguma de 
si suspeita, antes verdadeira, e carente de vicio, e sus- 
peição, escrita em pergaminlio, e expedida ; Sub pliim- 
bo in forma Jiistiiioe, segundo que todo delia, prima 
facie, parecia, com a reverencia, que aos mandados 
Apostólicos se deve, a tomei em minhas mãos, e a bei- 
jei, e puz sobre minha cabeça, e como filho obediente 
aos mandamentos de Sua Santidade, e ás suas commis- 
soens, e delegaçoens, a requerimento do dito impe- 
trante, a acceitei, e pronunciando-me por Juiz Com- 
missario Apostólico, e executor delia, prometti de dar 
em tudo o seu devido eíTeito, segundo seu iheor, e for- 
ma, cujo traslado de verbo ad ver bum he o seguinte : 

145. Sixtus Episcopus, servus servorura Dei, dilecto 
filio, OíTiciali Ulyssiponeusi, salutem, et Apostolicam 
benedictionem. Piis Fidelium votis, quae tum Religionis 
propagalionem, tum Divini cultus augmentum respi- 
ciunt, prout debitum Pastoralis oíRcii exigit, libenter 
annuimus; et utilia, qusepropterea factafuissedicuntur, 
«t firma perpetuo, et illibata permaneant, etiam liben- 
ter, cum à nobis petitur, mandamus Apostólico munime 
roborari : Exhibita siquidem nobis nuper pro parte 
dilectorum filiorum Francisci Gonzagae, Ministri Ge- 
neralis Ordinis Fratrum Minorum de Observantia nun- 
cupatorum, ac Georgii de Albuquerque, Gubernatoris 
Capitaneatus de Pernambuco in partibus de Brasil, pe- 
titio continebat, quo aliás clarge memorias Joannes Ter- 
tius Portugalliae Rex, quodam Duartem Coelho Pereira 
ipsius Georgii genitorem, ejusque haeredes, et descen- 
dentes, in perpetuum de ipso Capitaneatu sead sexa- 
ginta leucas mensurae illarum partium extendente in- 
vestivit, ut ipse Duartes Gapitaneatum hujusmodi de 
manibus Infidelium eriperet et in suam ditionem redi- 
geret ; quod postmodum magnis cum laboribus, variis- 
que vitae suae discriminibus, nuUo sibi ad hoc suffra- 



15G 

ganle Regiii Portugallise auxilio^ scd sola Dei Ooinipo- 
ieoUs ope effecit : Unde dictus Gapilaneatus ia spiritua- 
libus, et temporalibns, plurioium florere, et splendes- 
cere caepit ; cujus feliciori progressui prícdictns Geor- 
gius orani pietate, et charitate intcndens, et ad fidem 
Calhollcam inibi ad Divini Nominis Laudem propa- 
gandum, opem, et operationem suam adhibens ; et ad 
lioc dilectos filios dicti Ordinis Fralres, tum propter 
laudabilem eorum vivendi modum, tum etlam singu- 
larem ad Verbi Dei praidicalionis múnus obeundum pie- 
tatem plurimum saluti animarum Incolarum paitium 
illarum, profuturos foreconfidens, unam inibi eorumdem 
Fratrum Custodiam sub invocatione Sancti Antonii per 
praedictum Franciscum Ministrum Generalcm erigi cu- 
ravit. Eam sic erectam dictus Franciscus Provincial 
ejusdera Sancti Antonii in Regno Porlugalliie perpetuo 
subjecit, etsupposuit; ad quam nonnullos dilectos ejus- 
dem Ordinis Professores, vita, et eruditione Commen- 
dabiles destinavit, facultalem illis tribuendo domos 
conslruendi, etiii eis Novicios recipiendi, et alias prout 
ín patentibus literis dicti Francisci plenius dicitur con- 
tineri ; cum autem slcut eadem pelilio subjungebat ín- 
colas illarum partium eorumdem Religiosorum sic de 
novo destinatorum adventu maximam consolatioiiem 
recipientes eorum opera magnopere sedificati fueriut. 
Província vero de Brasil valde lata, seu eliam populo- 
rum multitudine benedicente Domino, abundans exis- 
lat; ipseque Capitaneatus amplam babeat jurisdictio- 
nem, multa populorum loca continentem, quae indies 
augetur multitudine Incolarum, qui malori numero Re- 
ligiosorum ad eos in viam reclam dirigendos, et chris- 
lianam doctrinam edocendos maxime Gentilium con- 
versionem indigeat ; dictusque Georgius Gubernator 
ad praemissa peragenda magnas subierit expensas ; ideo 
tam Franciscus Gcneralis, quam Georgius Gubernator 
praídicti, nobis humilitcr supplicari fecerunt, quatenus 



157 

creclionem, et insliuuionem Custodise^ ac literas hii- 
jusraodi^ et in eis contenta quaecumque perpetuo çon» 
firmare, et approbare, ipsorumque Incolarum spirituali 
consolationi, ac alias in proemissis opportune providere 
de benignilale Apostólica dignareniur. Nos igitur, qui 
Religionis propagalionem, et Divini cultus augmeutum 
nostris potissimuin lemporibus sinceris exoptaaius aíTe- 
ctibus, ipsosque Franciscum Generalem, et Georgium 
Gubernatorem praedictos, et eorum quemllbet à quibns 
Excõmunicationis^ Suspensionis, et Inlerdicli, aliisqiie 
Ecclesiasticis sententiis, censuris, et pcenis, àjurc, 
vel ab honiiue, quavis occasione, vel causa latis, si 
quibus qnomodolibet innodati exislunt, ad effectum 
praesentiura dunlaxat consequendum, barum serie ab- 
solventes, et absolutos fore censentes, necnou literarum 
praídictaruffi, ac iude secutorum quorumcumque teno- 
res prassentibus pro expressis habentes, bujusmodi sup»^ 
plica tionibus inclinati discretioni tuse per Apostólica 
scripta mandamus^ quatenus erectionem, et institu- 
liouem, literasque bujusmodi^ et in eis contenta quai-r 
cumque perpetuo confirmare, et approbare^ illisque 
plenarise, et inviolabilis firmitatis robur adjicere, ac 
onínes, et singulos, tara júris, quam facti, ac solemni^ 
latum defectus, si qui inlervenerint, in eisdem supplere, 
authoritate uostra procures, et insuper Custodiam prse- 
dictam eidera Pi^ovinciae Sancli Antonii, ita quod etiam 
ipsius Custodiai Custos pro tempore existens, per 
seipsum, vel per personas idóneas ad id ab eo deputatas 
ad Capitula Proviucialia dieta? Provincia? conferre, et ia 
Capitulum bujusmodi votum^ maximè pro rebus pur 
blicara utilitatem^ et commodum diclae Custodias con- 
cernentibus habere, ac tam ex dieta Sancti Antonii, 
quam ex alia quacumque Província ejusdem Ordinis 
Fratres, qui in dieta Custodia utiles sil)ifore videbuntur, 
assumere, et secum ducere valeant, dieta authoritate 
l)erpetuò subjicere, el supponere : quoque qui ex Fra- 



158 

Iribus ejusdem Custodiíc ad prsedicationis múnus obe- 
undum^ et Sacramenlales Christi fidelium confessioncs 
audiendum habiles, prícdicare, et confessiones hujns- 
modi audire : Qui vero in Presbyteratus Ordine con- 
stiluti fuerint baptismi, et matrimonii, necnon quaecum- 
quealia Sacramenta Ecclesiaslica ministrarei Ecclesias 
quoque, etin eis altaria in locis Christi fidelium noviter 
ad Christi fidem conversorum erigere, et in eis sacrum 
Officium celebrare, ac Oratória, et Eremitoria eidem 
Custodia? pro tempore concedenda regere, etadminis- 
trare. Pra3terea singularum domorum ejusdem Ordinis 
pro tempore canónico erectarum Ministri, et Fratres in 
sic erecta Custodia, etiam pro tempore existentes omni- 
bus, etsingulisprivilegiis, pr^rogativis, libertatibus, im- 
munitatibus, exemptionibus^ indultis^ iudulgentiis, et 
aliis gratiis, tam spirilualibus, quam temporalibus, 
quibusaliarum domorum ejusdem Ordinis quarumcum- 
que Provinciarum, et Custodiarum Ministri, et Fratres in 
dictis partibus de Brasil, et Regno de Peru existentes 
utuntur^ poliuntur, et gaudent, ac uti, potiri, et gau- 
dere possunt, et poterunt quomodolibet in futurum li- 
bere, et licite valeant, dieta authorilate concedas pariter, 
et indulgeas. Decernens ipsos, seu eorum aliquem à 
loci Ordinário, seu alia quacumqiie persona super prae- 
missis impediri, molestari, inquietari, vel perturbari 
minime posse : irritu n quoque, et inane, si secus super 
his, à quoquam, quavis authoritate scienter^ vel igno- 
ranter contigerit attentari, Non obstante, quatenus 
opus sit, felicis recordationis Bonifacii Papae VIII, prae- 
decessoris nostri Bulia, in qua, inter alia, cavetur ex- 
presse, ne cujusvis Ordinis Mendicantium Professores 
nova loca ad inhabitandum de novo recipere, seu re- 
cepta mutare praesumant absque Sedis Apostolicae 11- 
centia speciali de bujusmodi prohibitione expressam 
mentionem faciente, ac alias Apostolicis, necnon inuni- 
versalibus, Provincialibusqucv et Synodalibus Conci- 



159 

liis edilis generalibns, vel specialibus ConsUtutionibus, 
et Ordinalionibus, iiecnon dicti Ordinis Fratrum Mino- 
ruQi de Observanlia nuocupatorum, et qualeuus illius 
domorum juramento, confirmatione Apostólica, vel 
quavis firmitate alia roboratis, stalutis, et consuetudi- 
iiibws, prlvilegiis quoque, induUis, et literis Apostolicis, 
cliam eidem Ordiui, et doiiiibus, à dilectis filiis, illo- 
ruuique Superioribus, et personis sub quibuscumque 
tenoribus, et foniiis, etiam inotu próprio, ac alias in 
con irariam quomodolibet concessis, confirmalis, et in- 
iiovatis. Quibus omnibus, eliamsi de illis, eorumque 
lolis tenoribus, specialis, specifica, expressa, et indivi- 
dua, non antera per clausulas generales idem impor- 
tantes, mentio, seu quasvis alia expressio habenda, aut 
aliqua alia exquaesita forma ad hoc servanda foret, illis 
aliás in suo robore permansuris, liac vice dumtaxat spe- 
cialiter, et expresse derogamus, cselerisque contrariis 
quibuscumque. Datum Romae apud Sanctnm Petrum, 
Anno Incarnationis Dominica) millesimo quingentesirao 
octogésimo sexto, quinto Kalendas Decembris, Ponti- 
íicatús nostri anno secundo. 

Alexander Xemenes. 



Acceitada, como dito he, por parte dos ditos Reve- 
rendíssimos Padres Fr. Francisco Gonzaga, Ministro 
Geral da dita Ordem de S. Francisco, e Jorge de Al- 
buquerque Coelho, Capitão, e Governador da dita Capi- 
tania de Pernambuco, impetrantes, me foy enviado 
dizer por sua Petição, que o Papa nosso Senhor hou- 
vera por bem, pelos respeitos na dita Bulia declarados, 
de, á sua instancia, e requerimento, mandar-lhes passar 
a dita Bulia, a mim, insolidum dirigida, e commettida, 
para que eu por Apostólica aulhoridade confirmasse, 
e apj)royasse em seu nome perpetuamente a erecção, 



460 

e insliluiçaõdadita Cuslodia dos Frades Menores erecta, 
einstiluida na dita Capitania de Pernambuco nas ditas 
partes do Brasil, e ã Patente para isso passada pelo 
Reverendíssimo Padre Geral, e a sobmeltesse, e sujei- 
tasse a Província de Santo António de Portugal deste 
Reyno, de tal maneira, que o Custodio, que por tempo 
fosse da dita Custodia, pudesse por si mesmo, ou por 
pessoas para isso por elle deputadas, vir aos Capítulos 
Provinciaes da dita Província, e nos litos Capítulos ter 
voto, e tomar, da dita Província, ou de qualquer outra 
da dita Ordem, os Frades que lhe parecerem proveitosos 
lia dita Custodia, e leva-los comsigo ; e assim lhes con- 
cedesse, e otorgasse pela dita authoridade, que os Fra- 
des, que fossem capazes para pregar, pudessem pregar, 
e os que fossem para ouvir conflssoens, confessassem, 
e os que fossem Sacerdotes pudessem bautizar, e admi- 
nistrar o Sacramento do Matrimonio, e os mais Sacra- 
mentos Ecclesiaslicos, e erigir Igrejas nas povoaçoens 
dos fieis Ghristãòs, novamente convertidos, e nas ditas 
Igrejas levantar Altares, e dizer nelles Missa, elernelles 
administração, e governo dos Oratórios, e Hermidas, 
que por tempo lhes concederem ; e que os Ministros, e 
Frades da dita Custodia, e de qualquer outra parte, 
que nella por tempo estiverem, possaõ uzar, e gozar de 
todos os privilégios, prerogativas, liberdades, izen- 
Coeils, indulgências, e de outras graças espirítuaes, e 
tempòraes, de que uzaõ, e gozaõ os Ministros, e Frades 
de quaesquer casas da dita Ordem, de quaesquer Pro- 
víncias, e Custodias, assistentes nas ditas partes do 
Brasil, e no Pieyno do Peru ; e que naõ devem nas ditas 
casas ser molestados, inquietados, e perturbados pelo 
Ordinário do lugar, ou por outra pessoa alguma, segundo 
o que tudo mais largamente he conteúdo na dita 
Bulia, que eu tinha acceitado ; e por tanto me re- 
queriaõ, mandasse passar minha carta de sentença 
da dita confirmação, approvoçaõ, e supprimenlo, sub- 



ttíissaô, e íioncessaõj indulto, determinação, e defensão^ 
mandando-lhes em indo cumprir a dita Bulia, e dá-la á 
sua divida execução, segundo^ o que era tudo mais lar- 
gamente contendo em a sua Petição^ com a qual me foy 
outro si presentado o traslado em put)lica forma da Pa- 
tente do dito Reverendíssimo Padre Geral da erecção 
da dita Custodia ; e assim de hum Alvará dei Rey nosso 
Senhor passado em favor delia para o Governador, e 
Justiças das ditas partes do Brasil, e principalmente da 
dita Capitania de Pernambuco darem lodo o favor, e 
ajuda, que fosse necessária para conseguir-se o eíFeito 
da dita Patente, por ser cousa de tamanho serviço de 
nosso Senhor: E sendo -me ludo apresentado junta- 
mente com a dita Bulia, em cumprimento delia mandey 
passar a presente ; por theor da qual, pela authoridade 
Apostólica a mim concedida, commettida pelo Santíssi- 
mo Padre Sixto Papa V, nosso Senhor, hora na Igreja 
Presidente, approvo, e conflrmo perpetuamente a erec- 
ção, e instituição da dita Custodia, e dita Patente» e le- 
tras do dito Padre Geral da dita Ordem de S. Francis- 
co, e todas as cousas nellas conleudas> e lhes dou vigor 
de firmeza inviolável, e para o dito eíTeito, suppro, e 
hei por suppridos lodos, e cada hum dos defeitos, assim 
de Direito, como de feito, e de solemnidades, que nisso 
intervieraõ por qualquer via : E pela mesma authori- 
dade, sojeito^ sobmcito, e sobpouho á dita Província 
de Santo António, de tal maneira, que o Custodio del- 
ia, que por tempo for, possa vir pessoalmente aos Capí- 
tulos Provinciaes da dita Província, ou mandar a elles 
em seu nome as pessoas idóneas, que para isso nomear, 
e deputar : E qwQ assim elle dito Custodio, como as di- 
tas pessoas por elle deputadas tenhaõ voto nos ditos Ca- 
pítulos era todas as acçoensque nelles tratarem, espe- 
cialmente nas cousas tocantes, e concernentes á publica 
tUilidade, e proveito da dita Custodia : e possa o dito 
Custodio por si, ou pelas ditas pessoas deputadas, to* 

JABOATAM, VOL, U. 21 



162 

mar da dita Província, ou de outra qualquer da dita 
Ordem, quaesquer Frades que quizer, e lhe parecer se- 
rem proveitosos para viver na dita Custodia^ e fazer 
fruto nella, sem lhe poder ser contradiclo, nem estor- 
vado por Prelado algum de qualquer aulhoridade, e iu- 
risdiçaõ, que seja : E concedo outro si, ç otorgo, pela 
mesma Apostólica authoridade, que os Frades da dita 
Custodia, que forem hábeis, e idóneos para pregar, e 
tiverem para isso sciencia, e sufficiencia competente, 
possaõ pregar livre, e licitamente ; e os que forem idó- 
neos para ouvir confissoens, possaõ confessar, e os que 
forem Sacerdotes possaõ bautizar, e administrar aos 
fieis Chrislãos os Sacramentos do Matrimonio, e os mais 
Sacramentos Ecclesiasticos nas povoaçoens, e lugares 
dos novamente convertidos; e possaõ também levantar 
nelles Altares, e Igrejas, e dizer nellas Missa, e reger, 
e administrar quaesquer Oratórios, e Hermidas, que 
por tempo forem concedidos á mesma Província : E as- 
sim mais concedo, e otorgo, pela mesma Apostólica 
authoridade, que os Ministros, e Frades de cada huma 
das casas da dita Ordem, que forem por tempo, cano- 
nicamente erectas na dita Custodia, e nella por tempo 
estiverem, possaõ livre, e licitamente uzar, e gozar /^â5- 
riformiter de todos, e cada hum dos privilégios, prero- 
gativas, liberdades, immunídades, izençoens, indultos, 
indulgências, e outras graças, assim espirituaes, como 
temporaes, de que uzaõ, e gozaõ, e podem, ou poderem 
ao diante uzar, e gozar, por qualquer via os Ministros, 
e Frades das outras casas das ditas Ordens de quaes- 
quer Províncias, e Custodias das ditas parles do Brasil, 
e do Reyno do Peru: E determino pela mesma authori- 
dade, que naõ devem, nem podem por cousa alguma das 
acima ditas, ou qne a elias tocar, e delias nascer, e de- 
pender, o dito Custodio, Guardiaens, Religiosos, e mais 
pessoas da dita Custodia, que hoje saõ, e ao diante fo- 
rem, serem por via alguma molestados, inquietados, ou 



163 

perturbados pelo Ordinário do lugar, ou por oulra qual- 
quer pessoa EcclesiasUca, ou Secular, antes ser irrito^ 
vaõ, nullo, e de nenhum vigor, e effeito tudo o que de 
outra maneira contra o tlieor, e forma das Letras de 
Sua Santidade for attentado, sciente, ou ignorantemente 
por qualquer autliorldade que seja: E para que todas 
as ditas cousas se cumpraõ, e guardem inviolavelmente, 
et perpetuis futuris temporibus permaneçaõ firmes, e os 
mandados de Sua Santidade iiajaõ seu devido effeito; 
Vós, sobreditos Notários, Tabelliaens, e mais pessoas 
acima ditas, notificareis esta Carta aoM. Illustrissimo, 
e Reverendiseiíno Senhor Bispo das outras partes do 
Brasil, e ao seu Provizor, Vigário Geral, e mais Offi- 
ciaes, e Pessoas do dito Bispado, que vos requerido for> 
assim Ecclesiasticas, como Seculares de qualquer qua- 
lidade, gráo, ordem, e condição que sejaõ, e Officio^ e 
jurisdição uzem, cujos nomes, e cognomes, titules, di- 
gnidades, e Officios, hei aqui de presente por suíiicien- 
temente expressos, para que do dia da dita notificação 
a três dias peremptórios primeiros seguintes, que lhes 
dou, e assigno a elles, e a cada hum delles, hum dia por 
cada termo, e canónica admoestação repartidamenle* 
cumpraõ, e guardem em tudo a dita Bulia, e tudo o 
nella contendo, e naõ contradigaõ, nem impidaõ que so 
dê a ella a sua total execução em todo, e por todo; c 
deixem ao dito Custodio, e Religiosos da dita Custodiai 
de Pernambuco uzar, e gozar, quieta e pacificamente 
das graças, liberdades, izençoens, indulgências, indul- 
tos, e mais concessoens espirituaes, e temporacs, que 
lhes saõ concedidas pela dit-i Bulia ; nem os avexem,* 
molestem, perturbem per si, ou por outrem, directa, ow 
indirectamente, tacita, ou expressamente, quovis quee- 
sito colore, veí ingenia. Aliás a todos, e a cada ímm, 
que o contrario fizerem, e aos ditos contradictores, mo- 
lestadores, e perturbadores, derem ajuda, conselho, ou 
favor, por qualquer via, que seja, passado o dito teraio 



1G4 

dos (lilos três dias, ponho em suas pessoas, c de cadíi 
JiuiTi, pena de Excomniiinhaõ mayor, ÍMtce sententice, e 
o cito^ c chamo nestes presentes escritos para aggrava- 
çaõ^ e reaggravaçaõ dos mais procediment )S executivos 
de Direito necessários alé invocação da ajuda do braço 
Secular : E as mesmas penas hey por postas nestes mes- 
mos escritos aos muito Reverendissimos^ Padres Com- 
iiiissarios Geraes, Ministros, Guardiaens. e quaesquer 
outros Prelados, assim da dita Ordem de S. Francisco, 
como de qualquer outra, que contradisser, impedir, ou 
embargar, por qualquer via, o effeito das ditas Letras^ 
e sendo requeridos, naõ desistirem dentro do dito ter- 
mo de todo o impedimento, ou embargo, que por eiles, 
ou por sua via for posto neste cazo, e de todas as mais 
moléstias, que ao dito Padre Custodio da dita Custodia 
do Brasil, e seus Commissarios, e Procuradores, lhes 
íorem feitas sobre o cumprimento da dita Bulia, e exe- 
cução delia. Porém das ditas censuras naõ entendo, 
nem he minha intenção comprehender ao dito t\everen- 
dissimo Bispo do Brasil, antes deferindo a esta parte a 
sua dignidade Potiíical, requeiro da parte da Santa Sé 
Apostólica a Sua Senhoria Beverendissima, e peço da 
minha parte por mercê, e, quatenns opus sit, lhe admo- 
esto, e mando, sob pena de interdicto do ingresso da 
Igreja, que dentro no mesmo termo dos ditos três dias, 
se naõ intrometta, por qualquer via que seja, a contra- 
dizer, e perturbar as Letras Apostólicas acima ditas, da 
Confirmação da dita Custodia, e tudo o mais nellas con- 
ihsudo : aliás fazendo o contrario, (que de Sua Senho- 
ria Revereudissima se naõ crê, nem espera) passado o 
dito termo, o hey por incorrido na pena do dito Inter- 
dicto : Pela dita authoridade Apostólica, lhe mando ou- 
tro si, sob pena de suspensão á regimine et adminis- 
tratione, que dentro em outro termo de outros três dias, 
que de novo lhe assigno : modo, et forma prwmissis, 
desista logo, e com eíTeilo, de toda a contradição, mo- 



165 

leslia, e vexaçaD;, e obedeça ás ditas Letras, como se 
iiellas contêm ; em a qual pena de suspensão o liey por 
incorrido, ipso facto, passados os outros três dias se- 
gundos; e em cazo, que Sua Senhoria naõ queira obe- 
decer ao que dito lie, (como de Direito iie obrigado) lhe 
mando, et eadem autlioritate , sob a dita pena de Excom- 
munhaõ raayor, latoe sententice, que dentro do termo de 
outros três dias, que lhe assigno, no modo, e forma aci- 
ma ditos, cumpra, e guarde as ditas Letras, e este nosso 
processo, como nelle se contêm : Aliás, sendo passados, 
o hey por incorrido na dita pena de Excommunhaõ, e o 
cito, e chamo pelo theor das presentes para a execução 
dos mais procedimentos executivos, que de Direito fo- 
rem necessários ; e porque, em razaõ de minha resi- 
dência nesta Corte, naõ posso pessoalmente assistir á 
execução dos ditos procedimentos; pelo theor da pre- 
sente, eadem Apostólica authoritate, no melhor modo, e 
forma, que posso, e devo, commetto minhas vezes aos 
RR. Senhores Deam, Arcediago, Thesoureiro, Chantre, 
e Mestre-Escóla, e a quaesquer outras Dignidades, e 
Cónegos da Sé Cathedral do Salvador das partes do Bra- 
sil ; e assim aos RR. PP. Abbades dos Mosteiros da Or- 
dem de S. Bento, e S. Bernardo, Priores Convenluaes 
da Ordem do Carmo, de S. Domingos, e de qualquer 
outra Religião approvada, e a cada hum delles, para 
que sendo requeridos por parte do dito Custodio, ou 
Religiosos da dita Custodia, acceitem, e cada hum ac- 
ceite a dita execução, e procedaõ, e cada hum proceda, 
servatis servandts, contra os ditos contradictores, mo- 
lestadores, e perturbadores, com os mais procedimen- 
tos, que lhes parecer, até que com effeito obedeçaõ, e 
mereçaõ haver beneflcio de absolvição, a qual outro si 
lhes commetto, que o possaõ fazer, pariter judicato so- 
mente; porém pela ditacommissaõ, naõ entendo preju- 
dicar em alguma cousa a minha jurisdição, a qual sem- 
pre reservo sem prejuízo da dita.CQmmis^aQ ; Ç das di- 



166 

ligencias, que Vós sobreditos, e cada hum neste cazo fi- 
zerdes, me fareis certos por vossos instrumentos, oucer- 
tidoens, em modo que façaõ fé, para com isso se aduii- 
nistrar justiça. Cumpri -o assim. Dada em Lisboa sob 
meu sigual, e sello aos vinte quatro de Março. Tliomé 
da Cruz, Notário Apostólico, e Escrivão da dlla Conser- 
vatória o fez escrever, e soboscreveo, anuo do Nasci- 
mento de nosso Senhor Jesu Christo de mil quinhentos 
oitenta e sette. Joaõ de Lucena Homem. Tkomw San- 
clce Crucis. Ao signal, e scllo ^ Grátis. Thomaz. O qual 
traslado do processo decernido, e Breve nelle incluso 
da Instituição, e Erecção da Custodia deste Estado da 
Ordem dos Religiosos de S. Francisco, sul? invocalione 
Sancti Antonii do Brasil, Eu Domingos da Silva Apos- 
tólica autlioritale Nolario Apostólico approv do, em vir- 
tude do despacho de Vossa lllustrissima e Reverendís- 
simo Senhor D. Constantino Barradas, Bispo deste dito 
Estado, fiz trasladar do próprio processo, decerni do 
original, bem, e fielmente, sem causa, que duvida faça, 
mude, ou diminua o entendimento, e com o dito Origi- 
nal conferi este transumplo, e com eile concorda, e vay 
assignado por o dito Senhor Bispo, e corroborado com 
o sello de sua Pontifical dignidade, em Olinda, pridie 
Idus Septembris, anuo Dni MDCIX. E com meu signal 
razo consueto : 



ConstantmuSjf Episcopns Brasiliensis, Sello «^^ 

Domingos da Silveircu 



146. Quatro mezes havião corrido de vinte sette de 
Novembro, em que se passou na Cúria Romana o Breve 
da Confirmação da nova Custodia, acima referida, até 
vinte e quatro de Março, em que na Conservatória de 



167 

Lisboa^ como nelle ordenava sua Santidade, foy senten- 
ciada a sua execução, havendo ja quasi anno e meyo, 
que estavaô em Olinda os Padres Fundadores de posse 
do seu primeiro Convento. Mas nem esta posse, nem as 
Letras Apostólicas, com a Sentença executorial do Juiz 
da Cúria, foy bastante a f)oder conseguir a nova Custo- 
dia a acceitaçaõ da Província, pelas costumadas oppo- 
ziçoens, que similhantes emprezas trazem de ordinário 
contra si, que nesta, só poderão dilatar, mas naõ impe- 
dlr-IIie o seu eííeito, que mais adiante se veyo a con- 
seguir. 

1A7. Neste anuo, em que agora estamos no princi- 
pio, sendo o Padre Fr. Melchior convidado pela Camera 
da Bahia, e principaes pessoas da Cidade, e pelo Bispo 
daquella Diocesi, que se achava entaõ em Olinda de vi- 
sita, para fazer a acceitaçaõ da offerla de fundar tam- 
bém aili alguma casa, separtio com dous Religiosos mais 
e em companhia do próprio Bispo D. António Barreiros, 
para aquella Cidade. E como para eííeito da nova fun- 
dação, e outras, que se hiaõ oíFerecendo, necessitavao 
taml)em de mais Obreiros, da Bahia despachou o Padre 
Custodio para o Reyno ao Padre Fr. Francisco de S. 
Boaventura, sobre este particular, e outros mais perten- 
centes ás doutrinas dos Gentios, para a resolução de 
algumas duvidas, que sobre isto, entre os nossos, e 
Religiosos de outra Familia se biaõ movendo. 

148. Feita a acceitaçaõ da Bahia, como em seu lu- 
gar se dirá, voltou para Olinda o Padre Custodio, onde 
o achamos pelo mez de Abril do seguinte anno de 1588. 
e havendo ja no principio deste, chegado da Província 
á Custodia o Padre Fr. António de Campo Mayor, com 
cinco companheiros mais, com osoccorro destes novos, 
e desejados Operários, tomou o Padre Custodio pelo 
mez de Junho jornada para a povoação de Iguaraçú, a 
fazer acceitaçaõ da Casa, que alli lhe offereciaõ os mo- 
radores, e Camera daquella Villa ; e deixando Delia por 



168 

i^reJado, e agente das obras do Convento ao Padre Vv. 
António de Campo Mayor, voltou para Olinda outra vez, 
aonde se deteve até o fim deste sobredito anno. 

149. Neste mesmo havia ja chegado a Lisboa o Pa- 
dre Frey Francisco de S. Boaventura da Bahia, donde 
partira pelos fins do anno passado ; e foy bem recebido 
dos Padres da Provincia, e lambem do Cardeal Alber- 
to, que nesta conjunção governava o Reyno por seu 
Tio Filippe^ o primeiro em Portugal, o qual informado 
da sua capacidade, zelo, e prudência, em quanto se ef- 
feituavaõ os negócios, a que hiá, com a Provincia, pelo 
bom conceito que delle havia formado, o mandou no se- 
guinte anno á Ilha da Madeira, com commissaõ sua, e 
plenário poder para vizilar, e reprimir certas discor- 
dias» e controvérsias graves, que entre Mosteiros de 
Freiras, havia tempos, lhes perturbava a paz, com gran- 
de prejuízo de sua espiritual quietação ; o que elle com 
a sua presença curou com mansidão, compôs com pru- 
dencia* e com o seu exemplar proceder, deixando edi- 
ficado aquelle povo, que de outro Vizitador havia ficado 
em grande modo desgostozo, e mal satisfeito, de que 
recebeo o Cardeal muito prazer, e lho agradeceo com 
demonstraçoens de affecto, e offerecimentos de Prín- 
cipe. 

150. Em quanto na Corte cuidava o Padre Fr. Fran- 
cisco de S. Boaventura em dar satisfação aos mandados do 
Rey, eaos negócios coma Provincia, naõ se descuidava 
na Custodia o Padre Fr. Melchior no augmento delia ; e 
assim, sendo convidado pelo Governador, e Capitão da 
Paraíba, e mais povo^ e Camera com repetidas cartas, e 
supplicas, para que, como na Bahia, e Iguaraçú, qui- 
zesse também ir, ou mandar Religiosos para fundarem 
Casa naquella Cidade; para ella partio no principio 
deste anno de 1589, levando consigo alguns Religiosos. 
Foraõ recebidos com especiaes demonstraçoens de gosto, 
e agrado de todo aquelle povo, e feita a acceitaçaò da 



169 

Casa, como a seu tempo se dirá, a fez também logo de 
cinco Aldeãs de Gentio, que voluntariamenle se lhe 
vieraõ offerecer, como ja se disse em outro lugar *. 
Nestas piedosas acçoens do serviço de Deos, e bem 
commum de tantas almas, se deteve uaquella Cidade 
até o principio do seguinte anuo, deixando naõ só sa- 
tisfeitos, mas saudosos, assim os Christãos moradores 
da Cidade, como os Gentios pacíficos, voltou para Olinda, 
c chegando á povoação de Goyana, doze legoas dis- 
tante da Paraíba, e outras tantas de Olinda, e fazendo 
alli pouzada, o buscarão os principaes moradores do 
Lugar, e lhe reprezeutaraõ o grande serviço, que faria 
a Deos, e também áquelles habitadores, se mandassem 
alguns Religiosos para a conversão, e doutrina de huma 
grande Aldêa de Gentio, que alli demorava; para que 
reduzida á Fé, e encorporada na Igreja, como jamais 
domestica, e em paz com os Christãos, os ajudassem a 
defender-se melhor de outros muitos rebeldes, e Sal- 
vagens, que por áquelles Lugares arredores, e circum- 
vizinhos habitavaõ em muita quantidade, e embaraçavaõ 
em grande maneira o augmento, e progresso daquella 
Capitania, com contínuos assaltos, roubos, e insultos; 
que sem a reducçaõ desta Aldêa, como principal, e 
mais poderosa, era muy difficil aos moradores o seu 
augmento, e conservação. 

151. Era este da conversão do Gentio o principal em- 
prego do zelo, e charidade do Padre Custodio, e assim 
com boa vontade, e agradáveis razoens satisfez ás justas 
supplicas do necessitado povo, com promessa certa de 
serem servidos : e chegando a Olinda, logo no prin- 
cipio do anuo seguinte de 1590 despachou Religiosos 
para aquella empreza, que como era acceita a Deos naõ 
teve obstáculo, que embaraçasse de alguma sorte o seu 
dezejado eíFeito, e o surtio sem duvida muito bom pelo 

* Relat. 2., liv. Anlep. 

JABOATAH. TOL. U. 22 



i70 

abundanle fructo, que se coHjco para o Ceo |>elo lempo 
adiante nesta doutrina, na qual agora levantarão os Ue- 
Jigiosos Igreja, com o liliilo do Principe dos Anjos S. 
Miguel, e a aíiminislraraõ muitos annos. 

152. Neste, em que ainda estamos, e ]a pelos fins 
delle, se achava na Corte de Lisboa, como se disse, de 
volta das Ilhas o Padre Fr. Francisco de S. Boaventura, 
ao mesmo tempo, que também chegava áquclla Corte 
o Reverendíssimo Fr. Francisco Tolosa, ]\Finistro Geral 
de Ioda a Ordem, eleito em Roma no anno de 1587. 
F assim hiaò concorrendo com suave l)armoniaos meyos 
j)reordinados para o fnn, c estabilidade da nova Cus- 
todia do Brasil, querendo mostrar o Ceo o quanto era 
esta do seu agrado, como a que tanto havia de ser do 
heu serviço, c utilidade dos próximos, c especialmente 
do Bárbaro Genlilismo destas Conquistas. Vinha Sua 
Beverendissima ao Beyno para assistir aos Capítulos 
das Províncias Menores dos seus Regulares, e havendo 
a de Santo António de Portugal determinado o seu para 
a festa de Santa Luzia deste anno de 1589, ncUe propôs 
Sua Reverendissima, e obrigou, (assim o escreve a me- 
moria da mesma Provinda, signal indubilaveljda sua 
repugnância) c obrigou aos Padres delia, !;acceitassem a 
dila Custodia^ como íizeraõ, dando execução ao Breve 
de Sua Santidade, c Sentença do Ministro da Cúria ; 
havendo-se btm informado primeiro o Padre Geral de 
Vi\ Francisco de S. Boaventura, edejdguns papeis au- 
tênticos das Camcras, c principaes pessoas, dos pro- 
gressos espirituaes dos seu^ Fundadores, "^ejnais Reli- 
giosos, o quanto eraõ de proveito aos povoadores Ca- 
Iholicos, e muito necessários á conversão do Gentio, 
concorrendo para esla acceitaçaõ da Custodia do Brasil, 
com particular auxilio, o novo Provincial Fr. Pedro da 
Piedade, que muito a favoreceo sempre. 

153. l'ara esla se fez também no mesmo Capitulo 
(Iciçaõ de novo Prelado no l^adre Vv, Chrislovaô da 



171 

ConceiçuO, que l\izeiKÍo renuncia docargo^ por causas, 
que lhe foraõ acceitas, foy convidado para elle pelo Re- 
verendíssimo, o Padre Fr. Francisco de S. Boavenlura; 
mas este o naõ acceilou, tanto pela sua multa humil- 
dade, como em razaõ de que se naõ cuidasse fora ello 
ao Reyno a negociar para si a tal Prelazia, e naõ a tratai* 
do bem commum da nova Custodia, accrcscentando, 
eslava esta ainda nos seus principies, o que para o seu 
crescimento, c perfeição, necessitava muito de que o 
Padre Fr. Melchior de Santa Galharina, que a havia 
creado^ a sustentasse, e dirigisse ainda com a sua dou- 
trina, cuidado, bom exemplo, e calor espiritual ; e que 
só acceitava tornar para ella, e ajudá-lo naquella em- 
preza, para a qual fora destinado desde o principio por 
companheiro ; c assim ficou continuando no Oíílcio de 
Custodio o mesmo Padre Fr. Melchior, c o foy por 
quatro annos mais, c em todos com muito trabalho seu, 
exemplo dos t)ovos, bem das almas, e augmento da Cus- 
todia para a qual voltou no principio do anno seguinte 
de mil quinhentos noventa o Padre Fr. Francisco de S. 
Boaventura, trazendo comsigo doze Religiosos mais, 
alguns da Província de Santo António, e outros de va- 
rias Províncias, tirados lodos de própria vontade, e 
em virtude do Breve de Sua Santidade, ja referido para 
erecção desta Cuslodia, que para isso concedia aulho- 
ridade aos seus Fundadores. Com todos estes chegou 
a Pernambuco, e com socorro taõ necessário criarão 
novos espíritos aquelles Religiosos, e em particular o 
Padre Custodio; porque hiaò crescendo as novas fun- 
daçoens, e fallavaõ Operários proporcionados para ellas; 
porque ja a este tempo eraõ acceitas as casas da Paraíba, 
e Victoria, esperando por esta monção para as prover 
de Prelados, e Fundadores, como o fez nomeando para 
a da Paraíba neste mesmo anno de 1590 a Fr. An- 
tónio de Campo Mayor, com outros mais para súbditos 
dos que haviaO vindo; c para a da Victoria, a Fr. An- 



:* 172 

lonio dos Martyres, com Qiais companheiros nesle pró- 
prio anuo peio fim delie, havendo ja mandado alli no 
anno antecedente dons Religiosos sobre esta pertençaõ. 
A estes, que agora hiaõ fundar ao Espirito Santo, ou 
Victoria, lhes ordenou fossem antes á Cidade do [\io de 
Janeiro, donde lambem era convidado o Padre Cus- 
todio para outra fundação, para com seu avizo se poder 
determinar, e por este motivo, quando chegarão ao i's- 
pirito Santo, era ja em princípios do anno seguinte de 

1591. Neste se achou o Padre Custodio em Olinda gra- 
vemente molestado de huma enfermidade de olhos, aju- 
dada das asperezas, e longes dos caminhos^ viagens de 
mar, naufrágios de embarcações, máo tratamento da 
sua pessoa, e pouco reparo para ella, que o impedirão 
ir pessoalmente, como dezejava, e appeteciaõ os mora- 
dores do Espirito Santo, a fazer por si a acceitaçaõ da- 
quella casa. Para a da Bahia fez jornada no seguinte de 

1592, onde o achamos pelo mez de Dezembro, e ja em 
Olinda outra vez no principio de 1593, e aqui enlre os 
fins de Mayo, e principies de Junho do outro anno de 
1594 lhe chegou o Successor no Padre Fr. Leonardo de 
Jesus^ e se retirou para a Província o Padre Fr. Mel- 
chior de Santa Cathariua^ com nove annos completos, e 
pouco mais de hum mez de Prelado actual da Custodia do 
Brasil, onde com o seu cuidado, zelo, e bom exemplo a 
deixou fundada, com 5Casasformaes, dezoito Aldeãs, ou 
Doutrinas de Gentios, a todos saudosos, e edificados, e 
elle cheyo de merecimentos, credito, e gloria de seu 
primeiro, e santo Fundador, como mais largamente o 
veremos a seu tempo, pois a muito nos lemos apar- 
tado, por assim o pedir a ordem do mesmo tempo, do 
Convento de Olinda, e he precizo entrarmos por elle 
a dentro, e concluirmos com o mais, que ainda lhe per- 
tence. 



173 é 

CAPITVIiO YIII. 

Descrevesse o interior do convento, e Igreja da Senhora das Neves, 
como ao presente está, 

154. Como Titular, e Padroeira, que he, desta Casa, 
tem o seu assento a Senhora das Neves no Altar Mayor 
da sua Igreja á parte do Evangelho. Foy na fundação 
primeira a sua Imagem de painel, taõ devoto^ como an- 
tigo, e na mesma forma, em que se achou na sua Capel- 
linha; mas hoje he de vulto muy peregrina pela perfei- 
ção, e igualmente venerada pelo liberal dos benefícios 
com que acode aos que a ella chegaõ devotos, e buscaõ 
necessitados, o seu patrocínio, officiosos ao seu Altar, 
que da parle da Epistola lhe dá a maõ direita o Seráfico 
Patriarcha, e nos dons collaleraes o tem, como he uzo 
nosso, á parte do Evangelho a adorada Imagem da mes- 
ma Senhora no atlractlvo myslerio da sua Puríssima 
Conceição, e da outra parte, o nosso taõ amante como 
amado Portuguez Santo António. 

155. A Capella, que chamamos Capitulo em os nos- 
sos Claustros, he neste huma das muito perfeitas, e de- 
votas, que tem hoje esta Província, e só se lhe acha o 
dezár de ser mais pequena do que devia, pois a deixou, 
quem traçou o Convento novo, na mesma forma em que 
estava no antigo. Acha-se forrada toda, assim no tecto, 
como paredes, com bons painéis de molduras douradas, 
e de perfeita pintura, conrespondente a alguns passos 
da fuga para o Egypto, e Desterro da Senhora, objecto 
compassivo, a quem he consagrada esta Capella, nas 
três peregrinas Imagens dos que o executarão Jestts, 
Maria, eJozé, todas de perfeitíssima escultm^a, e ter- 
níssima devoção. 

156. Com huma muito particular, e grande affecto 
se ajuntaõ os Religiosos nesta Capelliuha todos os Sab- 
bados ao tocar das Ave Marias, e alli se entoa por elles 



* 174 

com a melhor suavítla<le, que se pódc, a Salve Rainha 
com seu Verso^ e OrnçaO, quo diz liuiii Sacerdote, re- 
vestido de sobrepelliz, e capa, depois de incensado o 
Aliar, e Sagradas Imagens ; acçaò devota, a que assis- 
tem lambem alguns dos secuhires mais piedosos, c niuy 
particulares, affectosa esla Senhora. NeslaCapella, co- 
mo Padroeiros seus, debaixo da campa de mármore 
bem lavrado das suas Armas, tem sepultura para si, e 
seus herdeiros Dona Archangela da Silveira, viiiva do 
Capiíaõ Francisco do [{ego Barros, por Escriptura de 
nove de Mayo de 1656 com a pensão fora duzentos mil 
reis, íjue deo de esmola, de paramentar perpetuamente 
o dito Capitulo, mandando ti-asladar para elle os ossos 
do dilo seu marido, c os de seu pay delia, por serem ju 
fallecidos quando se concertou a dala desla sepultura. 
Esta mesma se havia dado muito antes a Lopo Soares, 
marido de Dona Adriana Pessoa, da qual fez desistên- 
cia Joaõ Pessoa Baracho, seu herdeiro, por huma Es- 
critura de 19 de Março do mes no anno de 1656, por 
quanto os Olandezes, na tomada de Olinda, queimarão 
as casas, que diz a tal Escritura, valiaO quatro mil cru- 
zados, e rendiaõ para o dito Gapilido, e juntamente por 
que o referido Joaõ Pessoa Baracho naõ tinha herdeiros 
forçados, e accrescenta elle na sua Escritura, fazia esta 
desistência, naõ por falta de brios, mas de posses, por 
ficar destruído pelos Olandezes. Era este homem so- 
brinho de Dona Adriana Pessoa, e morava na Villa de 
Iguaraçú, quando fez a desistência desta sepultura, 
que, transferida para os novos Padroeiros, tem escrito 
em campa de mármore com brazaõ de Armas este le- 
treiro : 

Sepultura do Cap. Francisco do Rego Barros, e de sua 
mullier Dona Arcliangela da Silveira, e de sens fi- 
lhos, e herdeiros. 



Outra campa lambem de mármore com Armas, c Cfa^ 
zaõ, eslá no meyo do Cruzeiro da Igreja ao [)é do arco 
da Capella mór com a iiiscripçaô seguinte : 

Sepullara de David de Albuquerque Saraiva, e de sua 
mulher, e filhos, 1695. 

Assim destas, como de outras muitas, que liavia pelo 
corpo da Igreja^ c Claust o, naõ damos mais noticia, 
de que mostrarem ler titulo, que em pequena, e l)randa 
pedra o longo tempo lhes gastou escrita, e consumio 
os herdeiros, e por isso com a nova reedificaçaõ do Con- 
vento, e Igreja^ deslocados quasi lodos do seu corpOj 
e Claustro. 

157. Houve lambem na Capella mor hum carneiro, 
cu sepultura, que foy depozito do corpo de D. Filippe 
de Moura, Governador, e Capitão Mór de Pernambuco 
pelos annos de 159i, até 1600 e havia casado em Olinda 
desde o de 1572, com pouca differença, como em 
outro lugar diremos. Consta fosse sepultado neste car- 
neiro da Capclia da nossa Igreja, de hum pedaço de 
livro antigo de óbitos, rubricado por letra, e firma do 
R. Manoel Ferreira Nunes^ Vigário, que entaõ era da 
Igreja Matriz do Salvador de Olinda, que depois ficou 
sendo a sua Sé Cathedral, quando se erigio este Bis- 
pado, passando a Chantre da mesma o sobredito Pa- 
rocho, que escreveo este assento, com o dia, e era, em 
que fallecco, que foy a 28 de Junho de 1618, e sepul- 
tado no seu carneiro do Convento. 

158. De D. Filippe de Moura, passou a posse deste 
carneiro a Manoel (le Moura Rolim, seu parente, e Se- 
nhor, que era do Engenho, que chamao do Salgado 
para a parle do Cabo de Santo Agostinho, e nelle foy 
sepultado, como consta do Padrão do Convento, que 
conresponde a este carneiro, e diz assim, sem declarar 
o dia, eanno : 

Deposito de Manoel de Moura Rolim. 



176 

1 

159. Eslava fabricado este monumento, ou sepultura 
na mesma parede da Gapella mor da parte do Evan- 
gelho, que conresponde á porta, que sahe da dita Ga- 
pella para a Via-sacra do Convento. Pelos annos de 
il\í com a reedificaçaõ, e nova fabrica da Gapella, no 
lugar deste carneiro, se abrio porta, que sahe para a 
Via-sacra dos Terceiros, por fazer conrespondencia a 
outra, e o carneiro foy constituído sobre a mesma porta 
com o Escudo figurado á face da parede, significativo do 
Brazaõ, e Armas dos Mouras, e Rólins, á instancia, 
dizem os daquelle tempo, dos seus descendentes, e pos- 
suidores, que requererão do seu direito aos Prelados 
da Província. Mas até este se veyo a demolir no anno 
de 1751, por ser precizo rasgar nesta mesma parte 
liuma janella, ou tribuna para mayor claridade da Ga- 
pella, e com a clareza, de que todas as vezes^ que o 
requererem os possuidores^ dar-se-lhes outro em qual- 
quer parle, que o pedirem ; supposto que da inscripçaõ 
do antigo se colhe, pertencia só a Manoel de Moura 
Rólim, e que nelle acabava^ e porque também nenhum 
dos seus descendentes de entaõ para cá pertendeo nelle 
ser sepultado. 



CAPITlJIiO IX. 

De algumas graças, e izençoens, concedidas á Casa de Olinda pelos Monar- 
chas de Hespanha, e Reys Portuguezes, 

160. Apparecer^ e pedir, saõ os dous violentos mo- 
veis, com que melhor se abalaõ as vontades, e cora- 
çoens humanos para qualquer beneficio, ou favor. Do 
pedir o ensinou a piedade Divina a seus Discípulos, di- 
zendo-lhes, pedissem para receber ; e quem naõ appa- 
rece esquece, diz a sentença vulgar. Este foy lodo o 
motivo^ porque sendo os nossos Monarchas taõ amplos, 



177 

como Príncipes^ e PorUiguezes, naò foraõ niuy largas 
para com esta Província as suas Reaes mãos : porque 
sem duvida os nossos nem appareceraõ, nem pedirão ; 
ou lai vez, porque a muita distancia lhes sérvio de obs- 
táculo assim como succede com o Sol dispensador das 
luzes, que sempre parlicipaô mais dos seus influxos 
aquelles vegetantes, ainda Ínfimos, que mais se lhe che- 
gaõ. Tudo confessamos. 

161. Por Provizaõ do Rey Filippel. em Portugal, e 
a requerimento do Padre Custodio Fr. Melchior, es- 
tando ainda em Lisboa, mandou o Calholico Monarcha 
dar ao Convento de Olinda, para officiarem as funçoens 
da Igreja, huma pipa de vinho, duas arrobas de cera 
lavrada, hum quarto de azeite, e outro de farinha, pago 
tudo na Alfandega de Pernambuco, passada em 12 de 
Outubro de 1584. 

162. Por outra Provizaõ sua de 29 de Abril de 1620 
se extendeo esta graça a três Conventos mais, ao do Re- 
ciffe, Pojuca, e Rio de Janeiro. E por huma ordem do 
Provedor da Fazenda da Bahia de 24 de Novembro de 
1640 achamos mandou este Ministro se pagassem a di- 
nheiro de contado em quantia de noventa mil reis estas 
ordinárias ; por quanto diz nellaque os Reys Calholicos 
nas suas Provizoens mandavaõ pagar a dinheiro pelos 
contratadores estas ordinárias, que depois o Gover- 
nador do Estado Francisco Barreto ordenou se pagasse 
a metade em dinheiro, e a outra parte em açúcar, do 
que se seguia serem os Conventos mal satisfeitos, porque 
lhes davaõ os açucares de menos estimação, e valia 
pelos |) 'cços taxados, e ás vezes em outras varias drogas 
de po ico valor, e serventia, e por subido custo, pelo 
que orí^enava se pagasse a dinheiro toda a quantia dos 
noventa mil reis. 

163. Governando depois o Rey no de Portugal a Rainha 
da Gran Bretanha em ausência da Corte do Senhor Rey 
D. Pedro 11^ mandou esta Senhora dar livres dos sub- 

JABOATAM, VOL. II. 23 



178 

sidios seis pipas de vinho aos Conventos de Olinda, e 
Reciííe, como no auno de 1675 por assento da Camera 
de Olinda se liavia representado a Elíley, e que agora 
o confirmava por Trovizaõ sua de 13 de Agosto de 1704. 

164. Quando no anno de 1717 se arbitrou nas caixas 
de açúcar o novo imposto de pagar hum cruzado de 
cada arroba, mandou o Governador de Pernambuco, 
Manoel de Souza Tavares, ficassem isentas deste tributo 
as caixas das esmolas de lodos os Conventos da Capi- 
tania de Pernambuco, graça, que se estendeo depois 
aos da l^rovincia toda, e confirmada por Decreto Real 
do Senhor Rey D. Joào Y, de 24 de Janeiro de 1718, 
pelo qual se mandão lambem dar livres dos direitos da 
decima aos Conventos desta Província, tudo o que 
mandaõ vir do Reyno para seu provimento. 

165. D. Lourenço de Almeida, sendo Governador 
de Pernambuco, e muy aíTecto ao nosso Santo Portu- 
guez, lhe mandou assentar praça de Tenente da For- 
taleza da Barra, da invocação do mesmo Santo, e foy 
confirmada por Carta do Senhor Rey D. Joaò Y de 30 
de Abril de 1717. Tinha até eutaõ o Santo a praça de 
Soldado. 

€AI*ITtJIiO li. 



Faz memoria do Illustre Heróe Jorge de Âlbuquerqm Coalho, 
Senhor, e Donatário de Pernambuco. 



166. He o agradecimento a mais nobre, e cabal pensaõ 
de hum beneficio ; nem faz tanto, quem o retribuo com 
outro igual, e ainda mayor, como satisfaz, o que só re- 
conhece a divida, e confessa a obrigação ; antes he 
esta a paga mais generosa, que pode ler hum beneficio; 
porque, assim como naô reconhecer a graça recebida, 



.170 

he o mayor mal, que wse pôde dizer de litim ingrato ; 
assim por coDtrapoziçaõ, o confessar o beneficio, he 
ludo, quanto de bem se deve esperar de hum agrade- 
cido. Naõ se pôde negar ser muito do agrado de Deos, 
e do seu santo serviço a introducçaõ^ e augmenlo do 
Estado Religioso em toda a redondeza do mundo, como 
muy conducente para o mayor culto, e honra do mesmo 
Senhor, prosperidade da sua Igreja, bem espiritual dos 
seus povos, e para exemplar, e incentivo nelles, de 
bons^ e santos costumes. Por este motivo, cuidarão 
sempre os nossos Monarchas, como Gatholicos, e Por- 
tuguezes, em as suas novas Conquistas, ao mesmo tempo, 
que despachavaõ para ellas exércitos militares, e Capi- 
laens esforçados para descobrir terras, e dominar gen- 
tes, mandar também conquistadores de almas, e pes- 
soas Religiosas ; porque reconduzissem para o grémio 
da Igreja, aos que elles sujeitavaõ ao seu Império. E 
supposto que ao do Brasil naõ haviaõ faltado com estes 
soccorros, e em particular dos Frades Menores, como 
estes até o presente só hiaõ a elle de passagem, con- 
forme fica mostrado ; considerando nesta falta o zelozo, 
e Gatholico Jorge de Albuquerque Coelho, Senhor, e 
Donatário de Pernambuco, alcançou, como ja disse^ 
licença do Ministro Geral da Ordem, Decreto do Rey, 
e confirmação Pontificia para passarem os Religiosos 
de Santo António da Província de Portugal á sua Ca- 
pitania de Pernambuco, e fundarem Convento na Ca- 
pital de Olinda, e naquellas povoaçoens, e Villas, que 
achassem elles capazes para outros, e fossem admitti- 
dos, de que se seguio, andados os tempos, povoar-se 
naõ só a Capitania de Pernambuco, mas todo o Estado 
do Brasil de muitos Conventos^ e haver nelle hoje duas 
dilatadas Províncias de Frades Menores, uma nas par- 
tes de Pernambuco, e Bahia, e outra nas do Rio de Ja- 
neiro, com notório fructo de toda a sua Chrisiandade, 



180 

propagação da Fé aos Gentios, e augmenlo da Sauts 
Igreja. 

167. Nem se satisfez só o piedoso zelo, e Catholico 
dezejo, que linha este Illustre Heróe do i)em espiritual 
dos seus povos, com fazer nelles permanentes os Re- 
ligiosos Menores ,* lambem á instancia sua passarão a 
Pernambuco da Bahia os Padres Jesuitas, os de nossa 
Senhora do Carmo, e os do Palriarcha S. Bento, como 
de huQia escritura, feita a estes por elle, consta tudo, 
e nós transcreveremos em seu lugar. Pelo que^ deixando 
á parte o que toca a esta, e ás mais Religiosas, e Sa- 
gradas Famílias da gratificação, e reconhecimento, que 
cada hum deve ao devoto zelo, e grandeza de animo 
deste Heróe digno de toda a memoria, era obsequio do 
que lhe está obrigada esta nossa, e visto naõ ter ella 
paga justa, e equivalente a tanto beneficio, naõ quer 
faltar com o que pôde, que he fazer nesta Chronica 
huma particular, e breve memoria sua, dando-lhe entre 
lodos os que entraõ nella o primeiro lugar, condigno 
ao seu merecimento, e devido á nossa obrigação. 

168. Em a Yilla de Olinda, Capital de Pernambuco 
da Província do Brasil, e nova Lusitânia, nasceo para 
credito da Pátria, e lustre dos seus naturaes, o Illustre 
Heróe Jorge de Albuquerque Coelho a vinte e Ires de 
Abril de 1539, filho segundo entre os Varoens de Du- 
arte Coelho Pereira, e de Dona Brites de Albuquerque. 
Contava os quatorze annos de idade, quando falleceo 
no de 1554 a settc de Agosto, seu pay, e primeiro Do- 
natorio de Pernambuco, achandose a este tempo na 
Corte de Lisboa Jorge de Albuquerque com seu Irmaõ 
Duarte Coelho de Albuquerque, herdeiro, e proprietário 
da Capitania. Desta ficou por Regente sua Mày, e succe- 
deo nella, o que geralmente se experimentou em todas 
as mais, que por oppressoens, e violências executadas 
contra o Gentio, se levantou este, unindo-seos mansos 
com os bravos, e pondo em tanta consternação, e aperto 



181 

aos habitadores de fóra^ que destruídas muitas das po- 
YoaçoenSj Engenhos^ e fazendas, até os mesmos Colonios 
das Villas de Olinda, e Reciffe, naõ ouzavaô sahir delia 
muitas legoas, que naõ fossem salteados do Tapuya ini- 
migo. 

169. Gliegou a noticia desta desordem á Rainlia Re- 
gente Dona CaUiarinu no anuo de 1559^ que ainda go- 
vernava o Reyno pelo Neto Menino, e Rey D. Sebas- 
tião^ e cuidadoza em lhe acudir com o remédio, ordenou 
a Duarte Coelho de Albuquerque, Iierdeiro^ e successor 
da Capitania, passasse a ella. Por rogos seus, e bene- 
plncilo da mesma Rainha, couduzio comsigo a seu Irmaõ 
Jorge de Albuquerque, mancebo de esforço, e animo, 
e queja nos primeiros annos havia dado algfins iodi- 
cios de génio para as armas, e emprezas contra o Gen- 
tio, como criado entre ellas. Chegarão a Pernambuco 
no seguinte anno de 1560, quando contava os vinte de 
idade Jorge de Albuquerque. Por voto de seu Irmaõ 
Duarte Coelho, acceitou a empreza da Conquista do 
Gentio, constituído Capitão, e General da guerra, que 
110 mesmo anno se começou, dando-lhe principio com 
o dito seu Irmaõ pelo Rio de S. Francisco, descobrindo 
muita parte delle pelo Certaõ a dentro, de donde reco- 
lhido Duarte Coelho para Olinda, continuou Jorge de 
Albuquerque a Conquista do Gentio até Pernambuco^ 
com os trabalhos, perigos, e o mais^ que em sua parti- 
cular Estancia fica referido, gastando quasi cinco annos 
nesta arriscada empreza, e continua guerra. Nella dei- 
xou destruídas as principaes Aldeãs dos Gentios Caetés, 
e alguns Putyguarés, que ja a este tempo occupavaõ a 
mayor parte da Capitania, mortos muitos, aíTugentados 
os mais, e outros reduzidos á paz, e os moradores pa- 
cíficos, e socegados. 

:, 170. Posta nestes termos a Capitania toda, e que- 
rendo Jorge de Albuquerque voltar para a Corte a tomar 
descanço dos passados trabalhos, se embarcou no porto 



182 

de Olinda, em a Náo nova, Santo António, e a dezaseis 
de Março de 1565 deraõ á vela com vento favorável. 
Mas tornando-se contrario a pouca distancia, e concor- 
rendo a niaré^ que começava a vazar, levarão a Náo de 
travez sobre os baixos, que demoraõ ao entrar dabarra^ 
entre a antiga de Olinda, e a do Reciffe ao presente, e 
chamaõos baixos da Cidade, salva a gente com risco, e 
tirada a Náo com trabalho, depois de alliviada da carga, 
e cortados os mastros, havendo resistido por forte, e 
nova quiitro marés continuas, aos golpes do mar, elo- 
quês das pedras, a tornarão ao porto para se refazer, e 
a 29 de Jindio do mesmo anno se pòs outra vez em via- 
gem, e nella Jorge de Albuquerque, contra a opiniaõ, 
e conselho de muitas pessoas prudentes, e experimen- 
tadas, que lhe advertiaõ se naõ tornasse a embarcar em 
Náo, que, com principies taô infaustos, estava promet- 
tendo similhantes fins. Mas vencendo o animo ao dis- 
curso, no da viagem, experimentou no mar evidencias, 
o que em terra foraõ só vaticínios ; porque desde 29 de 
Junho, que sahiraõ segunda vez do porto, até quatro 
de Outubro, que aportarão em Gascaes, menos os seis 
primeiros dias de bonança, toda a mais viagem foy hum 
continuado naufrágio, sendo (por lhes naõ faltar con- 
traste algum, dos que costumaõ sobrevir aos que se en- 
tregaõ á violenta inconstância do elemento das agoas, 
como aqui) a destroçada Náo, no meyo da sua derrota, 
interpreza de cossarios Francezes, que álèm de estar 
ella ja taõ maltratada, que por isso naõ a levarão com- 
sigo os piratas, a deixarão roubada de tudo, sem man- 
timento algum, e sem agoa ; porque hum violento mar 
lhe havia desarcado Iodas as pipas, sem mastros, sem 
velas, até sem leme, sustentando-se algu nas quarenta 
pessoas desde 17 de Settembro até quatro de Outubro, 
com as relíquias de Ires cocos seccos, que se repartiaõ 
cada dia por todos os da Náo, com alguns ja mortos á 
fome, e sede, e os mais quasi acabando á necessidade, 



183 

miséria, etrabailio, com agoa aberta, desde o sexto dia 
de viagem alé á vista do Gabo da Roca, donde levados 
das correntes hiaô dar á costa, se lhes naõ acudira huma 
caravela Porttigueza, que daudo-llies cabo, a levou a 
encalhar no porto de Gascaes. 

171. Qual fosse o estado, em que a este tempo se 
achavaõja os miseráveis naufragantes, se deixa á con- 
sideração do piedoso Leytor, e se manifesta com evi- 
dencia do que aconteceo a Jorge de Albuquerque, quando 
ja desembarcado, e indo logo dalli em Romaria a nossa 
Senhora da Luz, com outros passageiros, e topando se 
com D. Jeronymo de Moura, seu primo, que, noticioso 
do como haviaõ chegado, o vinha buscar, o naõ conhe- 
ceo, fallando com elle de cara a cara, e havendo hum 
só anno, que se haviaõ apartado em Pernambuco, cria- 
dos ambos, e muy amigos, e foy necessário a Jorge de 
Albuquerque para o certificar de todo, que elle era o 
mesmo, mostrar-lhe sinaes mais particulares, conclu- 
indo assim, quando com lagrimas se abraçarão: Aqui 
podeis ver, e Julgar o trabalho, que passey, A seu tempo 
faremos, sobre outras circunstancias mais notáveis deste 
naufrágio, algum juizo em credito do animo varonil, e 
piedade Ghristaã deste Heróe, sempre digno de mayores 
expressoens. 

172. Do Reyno tornou ao Brasil Jorge de Albuquerque 
a governar a Capitania por mandado de seu Irmaõ, que 
no anno de 1572 havia voltado de Olinda para a Corte, 
deixando nella por Procuradora, e Governadora a sua 
May, em quanto do Reyno mandava a Jorge de Albu- 
querque. Naõ achamos ao certo em que anno fosse, mas 
consta por assento, que no de 1576 a cinco de Março 
se embarcou outra vez de Olinda para o Reyno, dei- 
xando era Pernambuco por seu Lugar-tenente, e Go- 
vernador a seu Tio Jeronymo de Albuquerque, Irmaõ 
de sua MSy. 



m 

173. Dous annos, e alguns mezes liiaô correndo, que 
na Corte gozava Jorge de Albuquerque^ entre os applau- 
sos de Heróe, as estimaçoens de Grande, quando se lhe 
offereceo acompanhar ao Rey D. Sebastião na infausta 
jornada de Africa, por Enfermeiro Mór do seu Exer- 
cito; e na batalha de Alcácer lhe aconteceo, entre os 
alfanjes, e lanças dos Mouros, o que a huma forte, e 
levantada torre, quando combatida de abrazadores rayos, 
que como alli achaõ mais resistência, nella causaõ maior 
estrago ; e assim, depois de dar o cavallo, em que mon- 
tava, ao seu Rey para nelle segurar a Pessoa, ficou 
quasi mortal, lançado por terra, com muitas, e pene- 
trantes feridas, prisioneiro, captivo, e resgatado, com 
outros feitos mais do seu esforço, e grandeza de animo, 
e dignos de se eternizarem nos pregoens da fama. Ou- 
çamos alguns delles, assim como voaraõ nas pennas dos 
Escritores daquelle tempo, e os repetem as de alguns 
modernos. 

illi. Jorge de Albuquerque Coelho, Fidalgo esfor- 
çado, e Governador, que foy de Pernambuco, comprou 
na Cidade de Évora hum cavallo ruço, e era cousa taò 
boa, que por isso foy muy gavado a El Rey, o qual o de- 
zejou muito, e pai a o poder alcançar se fizeraò grandes 
diligencias, sem lhe dar a entender quem o periendia, 
primeiro por corretores, com ordem para que lhe dessem 
quanto dinheiro elle pedisse ; ao que naõ deferindo, se 
deo ordem a Fidalgos, que lhe dissessem, como El Rey 
gavava, e dezejava o seu cavallo, parecendo-lhe, que 
isto bastasse para lho offerecer; porém naõ bastando 
isso, lhe mandou ElRey rogar pelos mesmos, que lho 
vendesse ; ao que dando também suas escusas, foy tal o 
dezejo delRey, crescendo mais ao passo da repulsa, que 
de cara a cara lhe disse que lho vendesse ; ao que Jorge 
de Albuquerque respondeo : Senhor, naõ quero vender 
a V. Alteza o meu cavallo. V. Alteza he Rey poderoso, 
e pôde mandar vir do cabo do mundo quantos cavallos 



i85 

quii5€í, e eu, Seúhor, quero este para vos servir com 
elle^ e poderá ser que vos tenhais por mais bem ser- 
vido em outra occasiaõ, do que se agora vo-lo desse : 
E dizem, que quando o comprara, tivera revelação em 
sonhos : Que com aquelle cavallo havia de acudir a 
ElRey em occasiaõ de muita necessidade. E podia isto 
ser certo ; porque este Fidalgo foy pessoa muito virtuosa, 
e liá quem lhe dá o titulo de Santo ; e quando naò fosse 
assim, o successo seguinte fez parecer a profecia verda- 
deira, 

175» Porque acompanhando Jorge de Albuquerque 
a ElRey nesta passagem, em que entendeo se verificaria 
o sonho, sendo ja a batalha desbaratada^ o encontrou 
ElRey todo crivado de feridas, com hum tiro por huma 
virilha, e huma seita pelo peito ^ com quatro cutiladas, 
e outras muitas feridas na cabeça, nos braços^ e nas 
pernas, e assim ainda teve alento para perguntar a El- 
Rey , que vinha só : Em que estado se achava? ElRey 
lhe respondeo ; Eu bom estou, mas este meu cavallo ja 
naõ pôde dar passada ; porque vinha ferido de morte. 
Disse entaõ o Albuquerque : Senhor, o meu cavallo ainda 
está muito bom para Vossa Alteza se servir delle, e se 
salvar. Ao que ElRey tornou: Ora dai-mo Jorge de 
Albuquerque. Disse elle : Senhor sim, que para esta 
hora estimo tê-lo guardado, para que vos salveis nelle. 
Salve-seV. Alteza, pois ja naõ ha remédio, nem que 
fazer. Pois apeai- vos, disse ElRey ; e o Albuquerque 
respondeo ; Senhor, mandai-me apear por aquelles Sol- 
dados ; porque eu naõ posso. ElRey ouvindo isto, ja 
naò queria o cavallo pelo miserável estado, em que via 
o dono ; porém instado por elle, e Ruy Gil Magro, que 
entaõ chegou alli, e lhe disse, quanto mais importava a 
vida do Príncipe, que a de hum, e muitos vassallos, 
conveyo, E foy logo tirado da sella ao collo, e em o lar- 
gando para ajudar a subir a ElRey, cahio de costas por 
se naò poder ter em pé, e ElRey, que^ de hum pullo 

JABOATAM. VOL, H. 2Í 



*86 

saltou no cavallo novo, olhando para elle magoado de o 
vêr estirado em terra, lhe disse: Quanto me peza Jorge 
de Albuquerque de vos vêr dessa maneira. E elle com 
animo forte, lhe respondeo : Senhor^ salve-se V. Alteza, 
que he o que mais importa, que eu contente morro aqui 
por serviço de Deos, e vosso. E partindo dalli ElRey o 
vio ir fora da batalha até desapparecer da vista. 

l^Q. E dalli do chaõ aonde ficara Jorge de Albuquerque 
de costas, pízado dos que passavaõ, o puzeraõ os mesmos sol- 
dados, que o descerão do cavallo, em huma carreta, aju- 
dando-os Francisco Alvares, Irmaõ Coadjutor da Coriipa- 
nhia de Jesus, que acertou de passar entaõ por alli, por naõ 
acabar a vida pizado dos que andavaõ discorrendo pelo 
campo, e aqui padeceo grandes tormentos com as pernas 
penduradas, mas com taõ grande valor, que nunca largou 
a espada da maõ, e passando alguns Mouros de pé, e cavallo, 
lhe aíiravaõ muitos tiros de escopetas, e lanças de arre^ 
messo, que quiz Deos nenhuma lhe acertasse, até que passou 
hum Renegado, e o levou, e curou ; o qual voltou depois res- 
gatado a este Reyno, ainda que sempre aleijado, e com mu- 
leias. 

177. Até aqui o que tirado da miscelania de varia 
historia de Miguel Leytaõ de Andrade *, que se achou 
na batalha de Alcácer, escreve o moderno Chronisla 
delHey D. Sebastião, ao que accrescentamos o que diz 
o Aulhor da Bibliotheca Lusitana, fallando de Jorge de 
Albuquerque. Igual, ou mayor valentia ostentou em 
Africa, á com que tinha admirado a America^ pois sendo 
nomeado por ElRey D. Sebastião Enfermeiro Môr do Exer- 
cito, com que passou no anno de 1578 ao campo de Alcácer, 
depois de ter recebido sette penetrantes feridas nas partes 
mais nobres do corpo, se encontrou com ElRey, a tempo, 
que estava reduzido á ultima ruína o nosso Exercito, e pe- 
dindo-lhe este o seu cavallo, promptamente lho deo para nelle 
salvar a vida de iaÕ fatal calamidade. Atropellado o Albu- 
querque pela cavallaria, foy conduzido do campo, qiiasi 



Bôyaõ 1, 5. c. 3o, p. 699. 



187 

fígonizante em hum carro até d Cidade de Féz, onde, para 
ser curado cias feridas, lhe tirarão vinte ossos, de cuja vio- 
lenta operação, que durou o largo espaço de sette mezes, to- 
lerou com heróica paciência horriveis dores, de que se seguio 
andar quatro mezes sobre duas muletas, e no fim delles dei- 
xar huma em 23 de Abril de J582, pendente do Altar de 
nossa Senhora da Luz, para memoria do beneficio, que da 
sua maternal clemência recebera. Casou duas vezes : a pri- 
meira em IS de Dezembro de 1583 com Dona Maria de 
Menezes, sua prima, filha de D. Pedro da Cunha, e de 
Dona Anna de Menezes, de quem teve huma única filha. 
Por morte de sua mulher, succedida a 12 de Mayo de 1585, 
f assou a segundas bodas a 25 de Novembro de í 587, com 
'Dona Anna de Menezes, filha de D, Álvaro Coutinho, filho 
de D. Francisco Coutinho, Conde de Redondo, e Vice-Uey 
da índia, e de Dona Brites da Silva, de quem teve a Dona 
Brites de Albuquerque, Duarte de Albuquerque Coelho, Mar- 
quez de Basto, herdeiro de Pernambuco, Mathias de Albu- 
querque, e Paulo de Albuquerque Coelho, 

178. Atliequi, o que de Escritores antigos, e mo- 
âernos, de que temos noticia-, pudemos colher da vida, 
e acçoens deste preclaro, e femoso Heróe, supposto 
naõ achamos em algum, o anno era que puzesse termo, 
£ passasse desta mortal vida, e caduca, pai^ a eterna, 
e perdurável. Mas temos certeza, que no anno de 1596 
era vivo, por hum papel judicial, que começa assim: 
» Pedro Homem de Castro, Fidalgo da Casa delRey 
» nosso Senhor, Capitão, e Governador Loco-tenente 
» nesta Capitania de Pernambuco da nova Lusitânia, 
» nesta Yilla de Olinda, partes do Brasil, pelo muito 
:» Illustre Senhor Jorge de Albuquerque Coelho, meu 
» Tio, Capitão, e Governador nesta dita Capitania por 
» ElRey nosso Senhor, etc. » Mas ainda, que da sua 
morte naõ lenhamos individual certeza, nos naõ lira 
.este accidente a boa confiança, que seria em paz na 
presença do Senhor, pois por honra sua, augmento da 
Igrejaj e Estado Pieligioso, propagação da Fé, e serviçQ 



488 

do Rey, trabalhou como Calholico, e esforçado em toda 
a vida, arriscando-a por isso tantas vezes, e fazendo- 
se por tudo muito acredor da opinião de virtuoso^ e 
santo, conforme ao quedelle fica escrito por outra penna. 
Por onde se lhe naõ pode negar ser hum dos grandes 
liomens, e sujeito de muita distinção entre os mayores 
da natureza, e graça, pois aquella o ornou de huma 
condição liberal-, génio piedoso, coração forte, varaõ 
constante, e sobre tudo nas acçoens magnânimo. A 
graça o prevenio também com aquellas três virtudes^, 
que saõ fundamento, e baze do bom Chrislão, e verda- 
deiro Gatholico, Fé, Esperança, e Charidade ; todas se 
faráõ evidentes, a quem cora maduro juizo reflectir 
com advertência em as mais notáveis acções da sua 
vida. 

179. Foy naturalmente benigno, liberal, piedoso, 
e magnânimo ; unindo estes dons pessoaes por aquella 
parte, que fazem harmonia com a charidade, em quanto 
diz ordem aos próximos^ e mostrando-o em muitas^ 
e varias acçoens ; ja nos cinco annos, que gastou na 
Campanha de Pernambuco, e Conquista dos Índios le- 
vantados, sustentando á sua custa^ álèm dos muitos es- 
cravos, e familiares seus, a todos os que naquelle Exer- 
cito o acompanhavaõ ; repartindo igualmente por huns, 
e outros tudo quanto era despojo de guerra, assim de 
índios cativos, como de toda a mais preza ; que sup- 
posto naõ fossem cousas de valor, naõ deixavaõ de ser 
para a occasiaõ de alguma substancia, sem reservar 
nada para si, de interesse, refresco, ou regalo. 

180. Melhor o experimentarão ainda os que depois 
de concluída a guerra do Gentio se embarcarão com 
elle do Brasil para o Reyno, na prolongada^, e lamen- 
tável derrota da sua viagem, antepondo em toda ella 
tio bem commum dos necessitados companheiros a com- 
iiiodidade da própria pessoa, repartindo por suas mãos 
o pouco, ou quasi nada, que havia de sustento, e ficava 



189 

sempre menos provido, sendo elle o primeiro, e o qoe 
mais trabalhava, o que era para ludo, e cuidava de 
todos. Varaõ constante, e de coração forte^ naõ só no 
agigantado do animo, e robustez do corpo, com que 
pode sustentar tanta carga de moléstias, sem affroxar, 
antes servindo de alento aos mais, quando ja de todo 
desmayados; mas também na constância de Varaõ, com 
que soube resistir aos dezejos de hum Rey, negando- 
Ihe de cara a cara aquelle cavallo, que elle lhe pedia 
com appelite de moço, e seria para outros gostoza li- 
zonja o mais leve aceno da sua vontade. 

181. Da sua grande fé, naõ deraõ menos teslimunhos 
as suas acçoens. Feita ja preza dos Cossarios Francezes 
a destroçada Náo, em que naufragante, ficou também 
prizioneiro, e o tiohaõ por noite, e dia sempre cora 
guardas, o convidava a jantar comsigo o Capitão pirata, 
dando-lhe por honra, e obsequio o primeiro lugar. Hum 
dia lhe rogou este^ ou fosse lizonja, ou por escarneo, 
benzesse a meza ao modo Portuguez; e fazendo sobre 
ella o signal da Cruz^ se indignarão grandemente contra 
elle alguns dos convidados, e o levarão muito a maU e 
com taes razoens, que entendeo Jorge de Albuquerque 
serem Luteranos. Abrazado entaõ em viva Fé, lhes res- 
pondeo, que aquelle « Era o signal do verdadeiro Chris- 
» tão, e filho da Igreja, que por elle se distinguia dos 
» que o naõ eraõ, que nelle esperava sahir sempre ven- 
» cedor de seus inimigos, e que com elle se havia armar 
» huma, e muitas vezes: e fazendo segunda vez o mesmo 
signal sobre si, remetteraõ contra elle alguns daquelles 
Luteranos, e sem duvida correra perigo a sua vida, a 
naõ metter-se em meyo o Capitão, e dons Francezes 
nobres, que alli vinhaõ. 

182. Tanto foy sem duvida do agrado do Senhor este 
vivo zelo de sua Fé por meyo da Santa Cruz, como si- 
gnal que he do verdadeiro Christaõ, que com a mesma 
Cruz, e alguns prodígios obrados com ella, o fez evi- 



190 

dente. No dia 12 de Setembro, depois de terem os 
Francezes feito a preza da Náo, sobrevindo-Uie a terrí- 
vel tormenta, que os pôs no uilimo desbarato, mandou 
Jorge de Albuquerque lançar ao mar, atado a huma 
corda, segura pelas duas pontas á popa da Náo, hum 
Relicário de ouro que trazia comsigo, e nelle hum pe- 
daço do Ligmim Crucis, seguro na mesma corda por 
hum cordaõ forte, e de retroz verde, de que pendia por 
buma argola a Cruz do Relicário. Passada a tormenta, 
x»o terceiro dia, mandou Jorge de Albuquerque alar a 
corda, e tirada com difficuldade, por se haver embara- 
çado com outras, ao mesmo tempo, que a lançarão em 
cima do convez, cahlo o Relicário sobre a tolda envolto 
em hum pouco de algodão, solta a Cruz da argola, e 
esta do cordaõ de seda, ficando elle amarrado na mes- 
ma corda, da sorte que o haviao posto. O como isto 
fosse, diz o Aulhor desta Relação, nosso Senhor o sabe, 
E este foy o primeiro prodígio. O segundo foy, conti- 
nua a mesma Relação : « Fazendo os nossos grandes 
» extremos de alegria por tamanho milagre, os France- 
» zes, que estavaõ em a Náo, se ajuntarão muitos a ver 
» o de que os nossos folgavaõ tanto ; e beijando todos os 
» nossos as Relíquias com muita devoção diante dos 
» Francezes, parece que permiltio nosso Senhor que 
» naõ as vissem elles; porque por sem duvida lenho, 
í) que se as viraõ as tomarão, por terem ouro, de que 
» elles saõ cobiçosos. E naõ somente as naõ viraõ en- 
» taõ, mas nem em outros dias, que Jorge de Albuquer- 
)) que as trouxe comsigo; porque apalpando-o muitas 
» vezes, por verse trazia alguma cousa escondida, nun- 
» ca lhas acharão; pelo que se devem dar muitos louvo- 
» res a nosso Senhor, por este milagre, e pelos mais que 
» fez por nósoutros, que neste naufrágio nos achamos. 
» Naõ deixámos de notar, entre os que éramos, que por 
» ventura quiz nosso Senhor fazer-nos esta mercê pelo 
i> Lenho da Santa Cruz, e pelo signal delia, que Jorge 



j^úe Albuquerque íez na meza dos Francezes, pelo qual 
)i signaU que fez, o quizeraõ malar, ou lançar ao mar. 
» Parece que permittio nosso Senhor que esta Cruz com 
» o Santo Lenho, e Relíquias^ que nella estavaõ, se naõ 
» perdessem, e tornassem á mão do dito Jorge de Albur* 
» querque, visto oíFerecer-se á morte por amor deste 
» santo signal da Cruz, de que sempre em toda a via- 
» gem se mostrou muito devoto, e nos dizia algumas ve^ 
» zes, que desde menino o fora sempre muito, e que lhe 
» vinha esta devoção por herança ; porque em todos os 
)) quatro Escudos de armas, que lhe pertenciaõ poc 
» parte de dous Avós, donde descende, todos tinhaõ 
» Cruz, como saõ as Armas dos Aibuquerques, Coelhos, 
D de que elle descende, Pereiras, e Bulhoens. 

183. Com estes indícios certos da sua muita fé^ ajun- 
tava outros de grande confiança em Deos, e com que 
atado ao mesmo Senhor, quanto eraõ mayores os traba- 
lhos^ em que se via, entaõ se achava mais seguro para 
escapar delles em virtude da bondade, e poder Divino^ 
certo de que os que nelle confiaõ com aquella esperan- 
ça verdadeira, que he virtude, iiaõ se confundem nos 
mayores perigos. Nos grandes, em que em sua vida se 
achou, como foraõ os da fatal batalha de Alcácer em A- 
frica^ e os do lamentável naufrágio nos mares do Brasil, 
nunca lhe faltou esta virtude^ e por ella, ou com ella se 
livrou de todos. Sobre as tragadoras ondas foy só a es- 
perança em Deos a anchora firme, que lhe ficou para se- 
gurar o porto que dezejava. Entre as lanças^ e alfanges 
dos Mouros^ foy a confiança no Senhor, se naõ escudo 
impenetrável para lhe desviar os golpes, mezinha eíTi- 
caz, que lhe curou as feridas, e deo saúde. E em quem 
era taõ firme a esperança, e taõ viva a fé^ naõ podia dei- 
xar de ser muito grande a charidade em quanto he amor 
de Deos, que pelo que diz respeito aos próximos^ ja fica 
visto aonde chegou. Do que lhe aconteceo assim nas ba- 
talhas da terra, como nas tormentas do mar, bastante- 



\ 



192 

iiiente mostrou o Ceo uelle o excellente destas viítudes, 
€ com o que nestas occasiones obrava, e dizia Jorge de 
Albuquerque, o dava elle muito bem a conhecer. Ouça- 
mos primeiro o que sobre isto diz o Relator do seu nau- 
frágio *; porque nas agoas deste„ ainda quando mais tur- 
vadas, temos hum claro espelho, em que tudo isto se vio 
a melhor luz: o leuior de Deos, que se funda no seu 
amor; porque he certo, que quem mais o ama, mais o 
teme : a sua esperança firme, e a viva fé. Diz assim o 
Aulhor : « Jorge de Albuquerque sobre todos estes tra- 
» balhos, a que ajudava irmaãmeule, tinha mais o con- 
)» solar^ e animar a seus companheiros, que taõ que- 
» brantados andavaõ das forças corporaes, e do espi- 
» rito, e ja naõ tinha com que os consolar, senaõ cora 
» lhes trazer á memoria a Sagrada Morte, e PayxaD de 
)3 nosso Senhor Jesu Ghristo, e o muito que por nós 
» padeceo^ para que com esta lembrança se lhes fizes- 
» sem mais leves os trabalhos em que estavaõ, e lhes 
» persuadia^ que pois estavaõ esperando pela derradei- 
» ra hora, sem poder ser [ajudados de remédio algum 
» humano, senaõ o da misericórdia de nosso Senhor, 
» que se encommendassem a elle, para que .por sua pie- 
» dade dispuzesse delles aquillo, que mais cumpria ao 
» seu serviço, e salvação de suas almas. A'lém de to- 
» das estas cousas, queatraz digo, dizia, que tinha tan- 
» ta confiança, e fé na Misericórdia de nosso Senhor, 
» que nos affirmava, como se o tivera por certo, que 
» nos havia nosso Senhor de livrar daquelle perigo, e 
» havíamos de ver a terra, como se a viramos^ ou tive- 
» ramos Náo, que nos pudesse trazer a ella. E conti- 
nua assim mais adiante: « Mas, se vos lembrardes do 
» que tendes nesta viagem passado^ e naõ vos esque- 
» cerdes daquelle terrível volcaõ^ que nos deo^, e dos 
)> mares, que nos cobrirão^ e de quantas vezes esta Náo 

* Histor. Tragic. Marit. t. p. 40, ele. 



195 

)> ficou amadoniada, e morta debaixo da agoa, e que to- 
») dos vos destes por mortos, vendo tudo, que parecia 
») ser conjurado contra vossas vidas, a agoa, ventos, 
» relâmpagos, até o nosso mastro, que nos queria ala- 
» gar : se nada disto vos esquece, vereis claro, quanta 
y) razaô tendes para confiar na grandeza da misericor- 
» dia de nosso Senhor, e terdes fé firme nelle, que vos 
» ha de salvar; porque, quem de tantos trabalhos nos 
» livrou até agora, muito certo deveis de ter^ que vos 
» ha de livrar dos que vos sobrevierem : e que sabeis 
» se saõ estes Iral^alhos, com que quer provar vossa fé, 
» mimos de nosso Senhor? Eu certo, como se o visse, 
)) espero que elle nos ha de levar a terra para que a 
» gente saiba este milagre, que comnosco uza ; porque 
» naõ fique isto sem ser sabido, e a gente, a cuja noti- 
» cia vier este nosso naufrágio, dê sempre louvores a 
» nosso Senhor, e glorifique, e exalte com graças seu 
» santo nome; e mais, que vos naõ ha de levar a qual- 
» quer terra, senaõ á Cidade de Lisboa, aonde possamos 
» contar cousas taõ novas, como estas ; e naõ he ne- 
» cessario, para irmos seguros, e confiados de isto ser 
» assim, mais, que fé em nosso Senhor; pois elle diz 
» em hum dos Evangelhos, que quem tiver fé fundada 
» em pureza de coração, tamanha, como hum graõ de 
» mostarda, fará mudar, e traspassar hum monte de 
)) huma parte para outra: por tanto. Irmãos meus, pos- 
» tos neste estado de fé, e confiança neste Senhor, es- 
» peremos que neste pedaço de páo nos livrará do pro- 
» fundo abysmo do mar.» Estas cousas, continua mais 
adiante o Aiiihor, e outras como estas, que «elle CJorge 
» de Albuquerquej dizia melhor do que eu o sey relatar 
» vinha dizendo á sua piedosa companhia, com que to- 
» dos nós muito nos consolávamos, e muito mais com o 
)) ver a elle andar taõ ledo, e com rosto taõ prazentei- 
» ro, que parecia naõ ser elle aquelle que padecia o&r 
» trabalhos, e fomes, que perseguiaõ a todos, e sempre 

JABOATAM. VOL. II. 23 



194 

» andava consolando a quem lhe parecia que mais fraco 
)) eslava^ sem dar a entender que sentia o perigo, em 
» que vínhamos; mas ninguém o entendia melhor do que 
» elle, porque algumas vezes de noite o achámos em lu- 
» gar apartado, com muitas lagrimas^ e exclamaçoens a 
» nosso Senhor, pedindo-lhe tivesse por bem de nos sal- 
» var^ e de dia a todos animava, e consolava etc.» E 
mais adiante diz « Vendo Jorge de Albuquerque tama- 
» nho espanto na gente, (foy isto na occasiaò em que de 
todo ficou a destroçada Não também sem leme para o go- 
verno) foy cercado de grandíssima tristeza, e dor; pôs- 
» se assim muito triste a cuidar que meyo teria para 
^) consolar seus companheiros, e subitamente se levan- 
)) tou taõ rijo^ e lédo^ como se sahira de alguma festa, e 
» começou a chamar a todos, cada hum por seu nome, 
» c tirando de hum livro de rezar seu, que escondera dos 
») Francezes, duas folhas, em huma delias estava nosso 
» Senhor Jesus crucificado, e em outra a Imagem de 
)) nossa Senhora, as quaes pôs pregadas ao pé do mas- 
» tro, que todos vissem, e chamando-os a todos Ihesdis- 
)) se em alta voz: Ora pois, companheiros, naõ haja quem 
)) enfraqueça, nem desmaye, ponhamos os olhos naquel- 
)) las Imagens, com cuja vista nos podemos alegrar, e 
» consolar^ conhecendo, que quem tanto padeceo por 
)) nós, pois he todo misericordioso, e piedosíssimo, nos 
» salvará deste temeroso perigo, e nos levará a salva- 
» mento ; e mais tendo nós por advogada, e intercesso- 
» ra a Sacratíssima Virgem Maria nossa Senhora, Rai- 
» nha dos Anjos, por cuja intercessão, rogos, e mereci- 
)j mentos, eu espero, e confio, que nos havemos de ver 
» fora de tamanho perigo ; e lorno-vos a dizer que naõ 
» havemos de ir a qualquer terra, senaõ, que pela in- 
» tercessaõ da Virgem nossa Senhora havemos de ir ter 
» a Lisboa, para que nossa chegada em salvo faça nolo- 
» rios os milagres, que por nós obrou. 



195 

18^^i. E he sein duvida, que Torao muitos e notáveis, 
ou hum continuado milagre, o que com estes naulVa- 
gantes em toda a sua derrota obrou ainexcrutavel Pro- 
videncia do Senhor, como consta do que se contêm na 
Relação, e aqui fica apontado, e o confirma o ultimo^ 
com o qual também teve fim o lastimoso deste espec- 
táculo, que foy de dons até quatro de Outubro, achan- 
do-se a destroncada Náo entre as Berlengas, e Roca 
de Cintra á vista da Casa da Senhora da Pena, como 
annuncio de que o verem-se livres das grandes, e in- 
consoláveis, que haviaõ até alli padecido, tudo se devia 
á piedade da Senhora, que para os navegantes foy sem- 
pre Estrella propicia, e que para logro desta felicidade 
concorreo muito a grande Fé, Esperança, Charidade, 
ou temor, e amor de Deos do lilustre Heróe Jorge de 
Albuquerque, que na mayor desconfiança do livramento, 
entaõ lhes segurava mais a dezejada terra, e porto certo 
da salvação. 

185. E se estas virtudes no homem Christào saõ todo 
o fundamento com que da pratica delias dá a conhecer 
o que tem de perfeito, e santo : com razaõ os que es- 
creverão deste Heróe o chegarão a collocar alguns na 
Classe dos Varoens justos, e Servos de Deos, ou Santos, 
conforme o avalia hum destes. E isto he o que delle 
achamos escrito com penna alheya. Mas porque á nossa 
mão veyo ter huma escritura, ou assento de doação, 
feita por sua própria letra, e signal aos Religiosos do 
Patriarcha S. Bento, quando á instancia sua passarão a 
Pernambuco, Capitania do seu dominio, a fundar Mos- 
teiros, trasladamos aqui os exórdios desta, porque delles 
constará melhor em resumo, tudo o que por extenso 
fica dito, como por testimunho próprio, e de sujeito, 
que naõ admitte suspeita em pontos de verdade, ainda 
que sejaõ em abono seu. Diz assim. 



196 

JESUS MARIA. 

186. (( Em louvor da Santíssima Trindade, Deos Pa- 
n ílve, Deos Fillio^ Deos Espirito Santo, três Pessoas, 
» hum só Deos, c da Gloriosa, Sagrada, e escolhida 
» Virgem Maria nossa Senhora, e do beniaventurado S. 
» Bento^ e dos mais Anjos, e Santos, e Santas da gloria 
y> do Paraizo ; e para mais accrescentamento do Estado 
» da Santa Igreja Catholica, e do Culto Divino, e bem 
)) da salvação das almas dos próximos ; e por dezejar 
» de fazer a Deos nosso Senhor os mais serviços que 
» puder, Iratey com o M. Pi. P. Fr. Francisco Gonzaga, 
» Geral de toda a Ordem de S. Francisco, que pois eu 
» era taõ devoto do bemaventurado Santo, me fizesse 
» mercê dos Frades da dita Ordem para irem á minha 
» Capitania fazer Mosteiros, era que de continuo se ser- 
» visse^ e louvasse a Deos assim como se fazia neste 
» Reyno de Portugal, e que eu os favoreceria, e ajudaria 
» em tudo o que pudesse, como até agora tenho feito; 
» o que me concedeo com mandar Frades Capuchos da 
» Província de Santo António deste Reyno de Portugal; 
» e pela devoção, que lambem tenho ao bemaventurado 
)) S. Bento, iratey deste mesmo negocio com o M. R. P. 
» Fr. Gonçalo de Moraes, Geral da Ordem de S. Bento 
» destes Reynos de Portugal, quizesse mandar Frades 
» da dita Ordem á minha Capitania de Pernambuco, 
» para nella fazerem os mais Mosteiros, que puderem, 
» porque os favoreceria, e ajudaria em tudo o que pu- 
)) desse^ da maneira, que ao diante irá declarado. E 
» por a dita Capitania nos ter custado tanto a meu Pay, 
» e a meu Irmaõ, que Deos tem, e amim em a ajudar a 
» ganhar, e a conquistar, pertendo, e dezejo muito, que 
» em cousas que taõ caro nos tem custado, se encha, 
» e povoe de Mosteiros de Religiosos^ e Religiosas, para 
)) que de continuo sirvaõ, e louvem a Deos : e para que 
» estes meus dezejos hajaõ o eíTeito, que pertendo, tenho 



197 

h feito aos ditos Frades de S. Bento as promessas, qne 
» nesta doação se veraõ : Considerando eu Jorge de 
» Albuquerque Coelho, terceiro Capitão, e Governador 
» da Capitania de Pernambuco da nova Lusitânia nas 
» partes do Brasil por ElBey nosso Seniior nas muitas, 
» e muy grandes mercês, que me Deos tem feito, assim 
» em me livrar de muitos, e muy grandes naufrágios, 
)) que passey no mar^ como das guerras, e trabalhos, 
)) que passey na Conquista da dita minha Capitania de 
» Pernambuco, e em outras partes: E assim em me li- 
» vrar da batalha, que ElRey D. Sebastião deo em Africa 
» aos Mouros inimigos da Fé, ficando estirado no campo, 
» em que se deo a batalha, onde escapey milagrosa- 
» mente, com ficar taõ destroncado de muitas, e mor- 
» taes feridas, que na dita batalha me deraô, que foraõ 
» causa de andar perto de quatorze annos sobre duas 
» moletas, ou encostado em dous criados : e por en- 
» tender as muitas, e muy grandes mercês que me nosso 
» Senhor tem feito em me livrar de tantos perigos, e 
» trabalhos, me pareceo razaõ, que em louvor de tantas 
» mercês, quantas me nosso Senhor tem feito, tenho 
» obrigação para fazer a Deos os mais serviços, que 
» puder com favorecer, e ajudar aos Religiosos^ e Re- 
» ligiosas para que vaõ fazer muitos Mosteiros á dita 
» minha Capitania de Pernambuco, como ja cora ajuda 
» de nosso Senhor estaõ feitos alguns [Mosteiros, assim 
» de Frades de S. Francisco Capuchos da Província de 
» Santo António deste Reyno de Portugal, e hum Col- 
» legio dos Padres da Companhia de Jesus, e Frades 
» da Ordem de nossa Senhora do Monte do Carmo ; e 
» agora pela devoção que tenho ao bemaventurado S. 
» Bento, faço o que posso, para que os Frades da sua 
» Ordem vaõ fazer muitos Mosteiros á dita minha Capi- 
» tania; e para que melhor o possaô fazer, tenho dito 
» ao Padre Geral da Ordem &c. » O mais, que contem 
esta Escritura, saõ os concertos, pactos, e pensões. 



198 

com que lhes doava as terras aonde os dilos Religiosos 
quizessem fundar os seus Mosteiros, e tudo concluía as- 
sim : « E para que os moradores, e povoadores da minha 
» Capitania de Pernambuco tenhaõ entendido com quanto 
» gosto folgo de favorecer aos Religiosos : e para com 
» esta fazer lembrança ao herdeiro, e successor da minha 
» Capitania, a razaõ, e obrigação, que tem para ajudar 
» a levar adiante estes bons dezejos^ acompanhados das 
» obras, que por esta doaçaõ se verá. E desta doaçaõ 
» lhe mandey passar trcs para irem por vias. Cumprin- 
» do-se huma, as outras naõ valerão nada. Luiz Mar- 
» reiros meu Escrivão a fez por meu mandado em Lis- 
» boa a seis de Abril de mil quinhentos noventa e dous 
» annos, no dia em que se faz a festa de nossa Senhora 
» da Esperança, e dos Prazeres, e da Incarnação, a 
» qual assigney, e mandey sellar com o sello de minhas 
» Armas. Fica registada no meu livro de lembrança a 
>» foi. 204. 

Jorge de Albuquerque Coelho, 

187. Quem com maduro, e discreto juizo fizer a de- 
vida reflexão nos termos expressivos desta Escritura, 
delles conhecerá com evidencia o catholico, piedoso, e 
santo zelo para as cousas de Deos, augmento da Fé, 
e estado Religioso deste Grande, e Illustre Heróe, a 
quem, pelo que nesta parte lhe he devedora esta Provín- 
cia de Santo António do Brasil, lhe naõ quiz faltar nesta 
sua Chronica com este devido obsequio, e grata remu- 
neração. 



LIVRO II. 



í)e algumas excellencias da Casa de N. Senhora das Neves da Villa de Ma- 
rim, e Cidade de Olinda, como também as desta Província, de que foy Ca- 
pital, e dos Religiosos, que com vida exemplar, virtudes Christaas, e 
santo fim illuslfaraõ esta Casa, e de outros acuntecimentos dignos de 
memoria. 

CAMXUliO I. 

Êaicellencias da Casa de Olinda, e tamhem as desta Provinda» 

188. Para fortaleza, e formosura da sua nova, e esli- 
macia Cidade de Sion, figura da Superior, e celestial do 
Empyreo, edificou o valente^ e esforçado David aquella 
taõ forte, como bem lavrada Torre*, da qual disse o 
Sábio, na sua descripçaõ, pendiaõ mil escudos, com que 
se ornavão ânimos varoniz, e a defendiaõ espíritos vi- 
gorosos. Torre espiritual de David, porque Casa dedi- 
cada a Maria^ jnystica Torre, foy com muita propriedade 
esta de Olinda da Senhora das Neves, da qual, como 
Escudos pendentes, que a qualquer aceno de suave vi- 
ração se movem, foraõ os Religiosos Fundadores desta 
Casa, e ainda os que pelo tempo se lhes foraô seguindo; 
pois como pendentes Escudos, e movidos a impulsos Su- 
periores, ;e que ella hia largando a todas as partes 
destas dilatadas Conquistas do Brasil, assim como or- 
navaõ com as suas virtuosas, e exemplares acçoensi 
Beligiaõ Seráfica, assim defendiaõ com as armas espi- 
riluaes da sua sciencia, e doutrina aos seus povos, e ha- 
bitadores, e especialmente aos que mais necessitavaõ 
de soccorro, como era o seu Gentio. A estes defenderão, 
como fortes Escudos das garras do inimigo commum, 
trazendo a milhares delles dos seus bárbaros erros para 
o conhecimento da verdade, e grémio da Igreja. A' Re- 
ligião Seráfica, graciosamente ornarão, compondo-a, 
augmentando-a, e dilatando-a com o espirito da sua 
fortaleza, e zelo, até lhe formarem hum perfeito corpo 
de Província. 

* Gautic. i, V. 4. 



200 



189. Para a boa compoziçaõ, e guarda mais segura 
deste corpo^ ou mais propriamente Fortaleza da Será- 
fica Sion, levantarão os seus Operários desde a Cidade 
da Paraíba ao Norte, até á Villa da Conceição de Ita- 
nlianhem ao Sul do Rio de Janeiro^ vinte duas Torres 
mais, em outros tantos Conventos, álòm de outras muitas 
Atalayas, em varias doutrinas do Gentio, a quecbamaõ 
Aldêas, ou Missoens, de que nos naõ deixarão o numero 
certo os daquelles tempos, e só para encarecimento de 
que foraô muitas, nos dizem que em os nove annos do 
primeiro Custodio Fr. MelcUior se erigirão, e conver- 
terão pelos PieligiososMenoresdezoito destas por aquelles 
dislrictosj e Sertoens circumvizinhos, aonde ja bavia 
Conventos. De todos os dísta Província assentamos 
aqui a sua lista pela ordem dos tempos, com que se 
foraõ seguindo huns aos outros, e das Missoens. 



Num. Títulos, 



Terras, 



1. N. Senliora das Neves da Cidade de Olinda. 

2. S. Francisco da Cidade da Bailia .... 

3. Santo António da Villa de IgUc\raçú. . . . 
l\. Santo António da Cidade da Paraíba . . . 

5. S. Francisco da Villa da Victoria .... 

6. 'Santo António da Cidade do Rio de Janeiro . . 

7. Santo António da Villa do Reciffe . : . . . 

8. Santo António do Lugar de Pojuca 

9. S. Francisco da Villa de Seregipe do Conde. . 

10. S. Francisco da Villa Formosa de Serenhanlien. 

11. Santo António da Villa de Santos 

12. S. Francisco, e S. Domingos da Cidade de S. Paulo 

13. S. Boaventura de Casserebii. . . . 
\U. Santo António do Lugar de Paraguaçii 

15. Santo António da Villa do Cayru . . 

16. S. Bernardino da Ilha Grancie . . . 

17. N. Senhora da Penha no Espirito Santo 

18. N. Senhora da Conceição da Villa de Itanhanhem 

19. Bom JESUS da Cidade de Seregipe delRey . . 

20. N. Senhora do Amparo da Villa de S. Sebastião. 

21. N. Senhora dos Anjos da Villa do Penedo. . . 

22. Santa Maria Magdalena da Villa da Alagoa . . 



Annos. 

1585 
1587 
1588 
1590 
1591 
1606 
1606 
1606 
1629 
1630 
1639 
1639 
16/49 
16/i9 
1650 
1650 
1650 
1655 
1658 
1659 
1660 
1660 



201 



MISSOENS. 
Num. Tiíulos. Terras, N. Titulas. 



Terras. 



1. Almága Paraíba. 8. 

2. Praya ibi. 9. 

3. Assento do Pássaro ibi. 10. 
U. Joannc ibi. M. 

5. Mangue ibi. 12. 

6. Braço do Peixe ibi. 13. Una 

7. Santo Agostiniio ibi. ík. 



Assumpção Paraíba . 

Jacóca ibi> 

S. Miguel Goayana. 

Ponta das Pedras ibi. 
Itapessima Iguaraçú. 
Pernambuco, 
ibk 



190. Com todos estes Conventos se compôs, e forma- 
lizou a Província de Santo António do Brasil desde o seu 
principio de Custodia, indo-se seguindo huns aos ou- 
tros, conforme a ordem, e carreira dos tempos ; estas 
foraõ as partes^ que formarão o seu corpo, ficando-lhe 
eólio, e cabeça a Casa de Olinda, e todos juntos liuma 
formosa, e levantada torre, com tantos Escudos de for- 
taleza, e honra, quantos Fillios de espirito, de virtude, 
e santidade, de sciencia^ e letras, de cargos e dignidades 
tem gerado, e produzido de si. 

191. Com estes Filhos de sabedoria, e letras, para 
credito seu, e da sua sciencia, se tem armado quarenta 
Estudos inteiros de Filosophia, e Theologia, dos quaes 
foraõ Mestres, e Lentes Filhos, e alumnos seus, menos 
o do primeiro Curso, que foy da Província de Santo An- 
tónio de Portugal, e o do segundo, que começando com 
Mestre, Filho ja da Custodia, foy continuando por outro 
da Província. E se ajuntarmos a estes os Leitores de 
Theologia, que, fora o de Prima, saõ commumente dous, 
ainda crescerá muito mais o numero. A estes pode- 
mos ajuntar Pregadores famosos, e outros muitos Letra- 
dos, e doutos, sujeitos versados em varias matérias, e 
faculdades, expozilívas, moraes, mysticas^ históricas, e 
poéticas. 

192. Com os de authoridade, se naõ honra menos esta 
Província ; pois tem havido nella Prelados, assim locaés, 
como mayores, de muita virtude, capacidade, e pruden- 

lABOATAU. TOL. II. 26 



202 

cia, unidas estas cm alguns, com as boas letras, pren- 
das merecedoras do seu emprego. Com os de virtude, e 
santidade, ainda se acha ella muito mais gloriosa, e 
tanto, quanto pôde exceder a santidade, e virtude^ ás 
letraSj e prelaturas. De tudo se tem mostrado muy 
abundante, e fértil esta Província, com tantos Filhos sá- 
bios, virtuosos, e aulhorizados, com tantos ííscudos des- 
tes pendentes do seu eólio, que ja foy precizo deixar ca- 
hir alguns fora de si, que, depois de lhe compor o pró- 
prio corpo, foraõ adornar lambem outros estranhos. 

193. Desta sahiraõ Escudos de authoridade. Prela- 
dos, e Superiores para outras Provindas. Para a de 
Santo António de Portugal, sua Mày^ deo muito ainda 
«os seus princípios, pois apenas contava pouco mais de 
trinta annos de creaçaõ, hum Filho seu para Prelado de 
dons Conventos, no P. Fr. Paulo de Santa Catharina, 
que depois veyo aqui por seu Custodio. Para a mesma 
Província de Portugal, deo mais adiante para Vizitador 
e Presidente de hum Capitulo ao Padre Custodio Fr. Se- 
bastião do Espirito Santo, qne retirado desta Custodia, 
onde fora seu Prelado mayor, e Commissario Geral, se 
achava naquella Província. Na mesma, por fallecimen- 
to do seu Vizitador Geral, e commissaõ do Senhor 
Núncio de Portugal, Miguel Angelo, Cardeal Conli, foy 
nomeado em seu lugar para concluir a Vizita de dous 
Conventos, que f^iltavaõ, e presidir no Capitulo de 1709 
o P. M. Fr. Gonçalo de Santa Izabel, E\-Leitor de Theo- 
logia, e Custodio actual desta Província, que a nogo- 
gocios delia se achava na Corte nesta occasiaõ. 

194. Na dos Algarves de Religiosos Observantes, foy 
seu Vizitador, e Presidente do Capitulo de 19 de Agosto 
de 1747, o M. R. P. Pregador Fr. Ignacio das Neves, 
Procurador desta do Brasil na Corte de Lisboa, adonde 
occupou este lugar por dezasetle annos continuados, 
com zelo, credito, e satisfação da Província, e suas de- 
pendências, o qual, como seu Custodio actual, indo vo- 



203 

tíir uo Capitulo Geral, celebrado em Roma, no aiuio de 
1750, saliio oelle por DiíTinidor Geral, sendo o primeiro 
Religioso Filho desla Provinda, a quem se deo esta 
honra. Gomo se lhe oíFereceo esta occasiaõ, cuidou com 
particular agencia, em que se adiantassem as perten- 
ções^ e requerimentos^ com que as Províncias Descalças 
de Espanha, de outros Capítulos Geraes passados, per- 
tendiaò ser admittidas em Tripartiia na Procuradoria 
Geral dos Descalços em Roma, com os Descalços de Es- 
panha, e Reformados de França, as quaes duas Nações 
iiaviaõ avocado a si alternativamente este lugar, e com 
eífeito tendo a seu favor este Padre o M. R. P. M. Antó- 
nio Cabral da Companhia, que nesta conjunção exercia 
os poderes de Ministro do Reyno de Portugal na Cúria, 
se conseguio do Capitulo Geral o despacho outras ve- 
zes pertendido, e foy logo confirmado por Breve do Se- 
nhor Papa Benedicto XIV, de 30 de Junho do dito anuo 
de 1750, em observância do qual foy eleito em Agente 
para a Guria o P. M. Fr. Francisco de Azurara, Filho da 
santa Provinda da Soledade, por Patente do Reveren- 
díssimo P. Geral Fr. Pedro Joaõ de Molina, expedida a 
seis de Março de 1751. Também concorreo muito cora 
a sua instancia, e diligencia, para que sua Revereudissi^ 
ma fosse servido crear de novo hum Commissario de 
Corte em Lisboa para as Provindas descalças de Por- 
tugal, e suas Conquistas, com vozactiva, e passiva nos 
Capítulos Provinciaes da sua, e mais regalias, na mes- 
ma forma, que as lograõ os Commissarios da Corte Ob- 
servantes, e este lugar foy dado ao Padre Provincial de 
Santo António de Portugal, que acabava, do qual tomou 
posse, e exerceo o P. Fr. Luiz de Jesus. Ja desde 15 de 
Outubro, era o P. Fr. Ignacio eleito Commissario do 
Santo Oíficio em 1739, sendo também o primeiro Reli- 
gioso desla Província, de quem temos noticia alcanças- 
se esta graça daquelle Santo Tribunal, 



'2U 

195. Na mesma Província dos Algar ves foy lambem 
seu Vizitador, e Presidente do Capitulo de 1753, o R, 
P. Fr. Bonifácio de Santo António, Commissario do 
Santo Ofíkio, Pro-Ministro em o Capitulo Geral de Ro- 
ma do anno de 1750, e Procurador desta nossa Provín- 
cia do Brasil na Corte de Lisboa, e abi mesmo nomeado 
também para vizitar, e presidir, como o fez, em o Capi- 
tulo da santa Província da Soledade da anno de 1755. 

196. Desta do Brasil sabiraõ lambem Escudos de le- 
tras para fóra delia. Para a da Observância de Portugal 
passou, sendo ainda Cborista, o Irmaô Fr. Ignacio da 
Graça, e continuando lá os Estudos, foy Leitor de Theo- 
logia. Para a mesma dos RR. PP. Observantes passou 
também o Irmão Cborista Fr. Francisco Xavier de Santa 
Teresa, tendo concluído o Curso de Artes no Convento 
da Cidade de Olinda, e ao tempo que se havia coulinuar 
a Theologia, deixou este, e foy ler á Ilha da Madeira, 
da Custodia Observante de Portugal, onde indo-se or- 
denar de Sacerdote, o mandarão outra vez para o se» 
Convento daquella Ilha, para ler nelle a Theologia, sem 
ter apostilado esta faculdade. Para a da índia dos mes- 
mos Padres Observantes passou também desta do Bra- 
sil o Irmaõ Sacerdote Fr. Jozé do Nascimento Honorato, 
tendo concluído hum Curso inteiro no Convento do Re- 
ciffe, e foy Leitor de outro no Collegio de S. Boaventura 
ao pé de Goa. Para a da Conceição do Rio de Janeiro 
foy mandado, porque pedido por ella, depois de ler 
concluído na Bahia seis annos de Leitura, o P. M. Fr. 
Francisco das Chagas, e lá foy Leitor outros seis annos. 
Da mesma foy pedido depois outro Lente, e lhe foy man- 
dado o P. M. Fr. António do Espirito Santo, e pedindo 
mais outro, lhe mandarão desta o P. M. Fr. Jozé da 
Victoria, o Lamego. 

197. Também para fóra de si, e para varias partes 
do Reyno, e outras mais remotas ainda, deo esta Pro- 
víncia, desde o principio de Custodia, alguns Escudos 



205 

íle santidade, e virtude, vivendo, e achando a morte a 
muitos de seus Filhos em vários lugares, e Conventos 
de fora, naõ porque houvesse lá necessidade do soccor- 
ro do seu bom exemplo, mas porque, com o que lá pra- 
licavaõ, acreditassem a esta sua Mày, fortalecessem a 
stia opinião, e augmentassem a sua gloria. Em Santo An- 
tonio da Castanheira da Província de Portugal, sendo 
alli Guardião depois de Custodio do Brasil, falleceo o 
P. Fr. Paulo de Santa Catharina pelos annos de 1620^ 
Religioso, tanto era súbdito, como em Prelado, de co- 
nhecida virtude, e vida exemplar. Com o mesmo exem- 
plo, como seu Irmaõ em carne, e espirito, viveo alguns 
annos, e jaz sepultado na Casa de N. Senhora do Am- 
paro de Via-Longa Fr. Manoel da Conceição. Da mes- 
ma sorte viveo alguns annos depois de Custodio do Bra- 
sil, e falleceo em Santo António de Lisboa o P. Fr. An- 
tónio dos Anjos. No mesmo Convento de Santo António 
de Lisboa esiá sepultado o P. Fr. Simaõ de Santo Antó- 
nio, também Custodio do Brasil, de donde retirado para 
a Província, ja cego, alli viveo pouco tempo; mas sem- 
pre Religioso, de bom exemplo, vida ajustada, e santos 
costumes. No Convento de S. Francisco de Moncorvo, 
viveo também, e morreo com boa fama o P. Pregador 
¥v, Boaventura de Santo Thomaz. Fr. André Barba- 
Iho, Pregador, e DiíTiiiidor desta Custodia, está sepul- 
tado em S. Francisco de Madrid, onde viveo algum tem- 
po com opinião de bom Religioso. No Convento de Me- 
nores da Ilha de Santa Martha das índias Occidentaes, 
viveo alguns annos, e falleceo nelle Religioso, e peni- 
tente o P. Fr. Aleixo da Madre de Deos, segundo Mi- 
nistro Provincial desta do Brasil. Na Barbaria, sem nos 
dizerem o lugar, falleceo captivo o Irmaõ Fr. Simaõ, 
Frade Leigo. Falleceo em Argel o Ir. Chorista Fr. An- 
tónio dos Martyres, que se naõ foy hum delles na exe- 
cução, naõ lhe faltariaõ, como piamente podemos crer, 
occasioens de o merecer no affecto. 



198. Outros muitos Religiosos Filhos desta Custodia, 
e Província saiiiraõ para íóra delia por vários acasos, 
especialttieule no tempo das guerras de Pernambuco 
com Olandezes, pelos quaes foraõ prezos, e desterrados 
muitos^ como ja se disse, e mandados lançar por varias 
Ilhas, e portos das Índias de Gaslella, dos quaes muy 
poucos tornarão á Custodia, e os mais falleceraô fora 
delia por Províncias^ e Rcyuos estranhos, mas sem du- 
vida exemplares^ e Religiosos, como aquelles, que ha- 
viaõ experimentado, e soffrido injurias, aíTrontas, fomes^ 
sedes, nudês, pancadas^ golpes, e outros géneros de 
atropellaçoens^ e desprezos, que esta gente cega costu- 
ma fazer em ódio da Santa Fé Calhoiica, e Igreja Ro- 
mana, e particularmente aos seus Ministros, que como 
a taes a muitos destes Religiosos, depois de todos aquel- 
les geuei os de martyrios^ que lhes naõ devemos negar 
este merecimento, lançarão ao mar com pedras atadas 
aos pés, e pescoço, que sendo mortos, e maltratados era 
ódio da Militante Igreja, naõ deixaria de os receber co- 
mo a Filhos, e Operários seus, e dar-lhes a Triunfante 
no Ceo aquelle premio, e coroa, que poderiaõ merecer. 
Doze, dos que entrarão nesta sorte, eraõ habitadores do 
Convento de Olinda, de que himos fallan !o, que como 
Esposa primogénita do Santo Patriarcha, no Estado do 
Brasil, e como vide fructifera desta Conquista, sempre 
se achou esta Casa com muitos Filhos do seu Seráfico es- 
pirito a seus lados, e nunca faltarão ao redor da mesa 
do seu santo Instituto outros tantos servidores da sua 
Regular observância, que crescendo, como florentes oli- 
vas de virtude, a coroarão depois de verdes, e gloriosas 
palmas de santidade. E pois temos mostrado no melhor 
modo que pudemos, as que acabarão fora dos seus Claus- 
tros, vejamos agora as que nelle tem o seu descanço. 



207 
CAPITlJIiO II. 



Descançaõ no convento de Olinda muitos Religiosos 
de virtude, e santidade. 



199. A.' Casa de N. Senhora das Neves da Villa de 
Olinda, como cabeça da santa Província do Brasil, 
pagou sempre o Estado Religioso delia com muitas,. e 
as melhores Primícias das suas virtudes, pois desde o 
seu principio houve nella sujeitos em todas avantajados, 
assim naõ fora tanto o descuido dos nossos em nos dei- 
xarem delias a necessária noticia. Nota he esta taõ an- 
tiga como a mesma Província. Em huma memoria sua, 
que se acha no cartório deste mesmo Convento, e dos 
seus primeiros tempos, achamos ja de entaõ formada 
esta queixa, que trasladamos aqui, para que do sincero 
da sua escrita se conheça melhor assim a razão da 
queixa, como da verdade do ponto, sobre que assenta. 
O ponto he, que neste Convento de Olinda, assim como 
nos mais de toda a Província, e Custodia, houve sem- 
pre, efloreceraô nelle muitos Religiosos de virtude, e 
santidade ; e a razaõ da queixa he, que também houve 
muito descuido nos que cá ficavaõ de nos deixarem por 
escrito esta verdade. Tudo expressa a referida memoria 
dizendo assim : Muitos saò os Religiosos dotados de 
grandes virtudes, e letras, que professarão, e morarão 
neste santo Convento de nossa Senhora das Neves, os 
c/uaes tem illustrado, e ornado esta nossa santa Pro^ 
vincia de Santo António do Brasil, e alguns delles estaò 
enterrados neste dito Convento, morrendo com fama de 
santidade, e grande virtude, dos quaes não escrevemos 
aqui suas vidas^ porque os nossos antepassados se es- 
queceraò de nos deixar delias memoria : só temos por 
tradiçaõt que saò muitos os Religiosos santos, e virtuo- 
sos, que descançaõ neste Convento : até aqui o que diz 
a memoria, e nós a faremos agora mais extensa de ai- 



SOB 

guns, que ella apoula, e tiramos de outros assentos, que 
se aclíaõ no Archivo da Província. 



VIDA DO P. FR. MELCHIOR DE S. CITHÂRIM, 

Primeiro Custodio^ e Fundador desta provinda de 
Santo António do Brasil. 

CAPITIJIiO III. 

l)a Pátria, nascimento, e primeira criação deste venerando Padre. 

200. Por todos os princípios devia ter o primeiro 
kigar entre os mortos, que descançaõ neste Convento 
da Senhora dus Neves de Olinda, aquelle^ que em vivo 
foy o primeiro no cuidado de preparar para os mais este 
jazigo ; e ainda que, como ao diante se dirá, naõ dorme 
nelle o seu corpo, sempre a sua veneração merece ante 
todos a nossa memoria. Ha verdade, que a que temos 
deste venerando Padre, nesta Província, de que elle 
foy Fundador em quanto Custodia, naõ deixa de padecer 
algumas confusoens, especialmente em quanto aos dous 
pontos, ou termos da sua vida, que foraõ o de Oriente, 
e o do seu Occaso : qual fosse o lugar da sua Pátria, e 
nascimento, como lambem em que anno, e dia teve o 
seu fim. Este ultimo tocaremos depois^, agora vamos cora 
o primeiro. 

201. Naõ adiamos em os traslados de algumas me- 
morias, que cá temos, tirados do Archivo de Santo An- 
tónio de Lisboa, donde fosse natural o Padre Fr. Mel- 
chior, antes diz hum destes as palavras seguintes, Naõ 
temos noticia donde era natural este Venerável Padre, 
sabemos sim, que era Diffinidor actual, quando foy eleito 



m 

èm Cmíodio, e he de notar, iiaõ soubesse quem escre- 
veo esta memoria, donde fosse natural o P. Fr. Mel- 
chior, que era cousa mais antiga, e de fora, quando pa- 
rece naõ acerta em dizer, que era Diííinidor actual^' 
quando foy eleito em Custodio do Brasil, o que he cer- 
tamente equivocaçaô ; pois, a ser assim, naõ devia o 
Reverendíssimo Padre Geral na sua Patente de Custo- 
dio calar este titulo^ e dar-lhe somente o de Pregador, 
o que naõ podia ignorar^ pois se achava Sua Reveren- 
díssima a este tempo na Corte de Lisboa, e havia assis- 
tido ao Capili^lo de Santo António, onde sendo, como 
diz a memoria, DiíTmidor actual, havia ser eleito nelle ; 
o que achamos por certo he, que o Padre Frey Melchior 
foy Diííinidor na sua Provinda, mas foy depois de Cus- 
todio na do Brasil, que antes, só lemos alguma infe- 
rência, fora Guardião a primeira vez ; e s€ tanta incer- 
teza ha na Província dos cargos, qtie nella occupou den- 
tro, como a naô haverá dos seus princípios f^ra delia! 
202. £m o Catalogo dos Custódios, que vieraõ da 
Província ao Brasil^ se acha escrito assim : O primeiro 
Custodio^ que veyo fundar esta Custodia, com titulo 
de Conmissario, foy o Ir. Fr, Melchior de Santa Ca- 
tliariíia, insigne Pregador^ natural da Cidade de Vizeu^ 
mas esta palavra Vizeu, está riscada na regra do as- 
sento, e accrescentaudo á margem por emenda, De Re- 
zende de Lamego; e esta emenda está posta da letra do 
P. M.Fr. Daniel de S. Francisco, e o assento foy feito 
pelo Padre Fr. Manoel de Santa Maria, Custódios am- 
bos, que foraõ do Brasil, o primeiro pelos annos de 
1637, e o segundo pelos de 1653, dezaseis annos hum 
antes que o outro. Naõ se me oíferecia muita duvida 
concordar com o primeiro assento, que faz ao P. Fr. 
Melchior natural de Vizeu^ álèm de outras congruên- 
cias, por ser o tal assento feito por hum Padre Custo- 
dio, Filho da mesma Província, donde o era também o 
Padre Fr. Melchior^ e que foy Religioso, em tempo, 

JABOATAM. VOL. II. ^7 



210 

em que o dito Padre vivia, e o pôde conlicccr, a naõ 
estar notado por hum laõ doulo, e noticioso sujei- 
to, como foy o P. M. Fr. Daniel: e se o Padre Santa 
Maria naõ fora também natural de Vizeu, sem duvida me 
accommodára ao seu partido; mas como naõ he a primeira 
vez, que os que escrevem, dezejaõ collocar no seu Paiz os 
melhores Thesouros, e se saô de santidade, muito melhor, 
íica-me o escrúpulo, de que naõ incorresse nesta Religiosa 
ambição, o Padre Santa Maria ; e por isso cotado pelo 
P. M. Fr. Daniel. Mas, com tudo isto, muito menos 
me accommodo com a cota deste P. M. de que fosse o 
P. Fr. Melchior natural de Lamego, porque he sem du- 
vida, que o Padre Fr. Melchior, conforme a computação 
dos annos, que viveo, que foraõ seltenta, ou alguns 
mais, c faileceo no de 1618, devia ser o do seu nasci- 
mento no de 1546, ou ainda anles, e tomando o habito 
de Pieligioso de dezaseis annos com pouca differença, 
como logo veremos^ e no de 1562, neste anno também 
he certo, que ainda o Convento de S. Francisco de La- 
mego, onde devia tomar o habito, por ser só o de Re- 
ligiosos Franciscanos, que havia naquella Cidade, es- 
tava na sujeição dos Padres Claustraes *, por quanto no 
de 1568, por exclusão total destes Padres, entrarão 
nelle os Padres Observantes, e no de 1569 o largarão 
estes aos Padres Reformados, ou Capuchos, quando 
neste mesmo anno a sua Custodia foy levantada em Pro- 
víncia ; e consta, que o P. Fr. Melchior foy Religioso 
Capucho, ou Reformado, e ja a este tempo era professo 
havia alguns annos, e assim parece, naõ podia ser na- 
tural de Lamego, porque, a ser assim, devia tomaro 
habito no Convento que havia na sua Pátria, eser Re- 
ligioso Claustral, e naõ Capucho, ou Reformado ; e por 
isto nos conformamos mais com o que sobre este ponto 
deixou apontado ^* o P. Fr. Thomaz da Presentação, 



** 



Hist. Seraf. t. 3. foi. í87. n. 66Í. 
Anliloq. 



2il 

como ja notamos cm outras partes. Pomos as suas pa- 
lavras, porque ainda que a seguimos, naõ queremos 
fazer absolutamente nossa esta opinião ; ainda que a 
julgamos mais conforme pela expressão de algumas par- 
ticularidades com que a escreve, que o naõ faria sem 
aquellas circunstancias, que pedia a sua obrigação, dei- 
xando sempre a melhor indagação desta verdade para 
o Padre Chronista da sua Província, a quem^ como a 
causa própria, e tanto de casa, lhe compete saber melhor 
o que nella passa : Foij, (diz a referida memoria) o P, 
Fr, Melchior de Santa CaUiarina^ natural da nobilíssi- 
ma Villa de Ponte de Lima, seus Progenitores foraõ os 
Chefes da Casa de Britiandos, Casa taõ nobremente fi- 
dalga, que se prezaõ de descender delia os mayores Ti^ 
tulos, e nobreza de Portugal, Esta, diz, foy a Pátria 11- 
lustre, este o nobre solar do Venerando P. Fr. Melchior 
de Santa Gatharina. Com este distinctivo de Venerando, 
o trataremos, sempre que nelle faltarmos ; pois com elle 
o achamos notado nas Letras Patentes de Sua Reveren- 
dissima, pelas quaes o nomea Fundador, e primeiro 
Custodio para o Brasil, e natural, como hiamos dizendo 
do lugar de Britiaudos. 

203. lie Britiaudos hoje o que em outros tempos 
foy Britonia, Cidade Episcopal na Província do Minho, 
entre Vianna, e Ponte de Lima, e há também entre os 
Escritores suas duvidas, se foy fundação de Bruto, Ca- 
pitão Romano, e por isso chamada por alguns Brutonia, 
ou se foy Britonia, como querem outros, por ser fun- 
dação dos Brilões, ou Bretões, antigos povos da Bre- 
tanha, mas, ou por huns, ou por outros, todos a assentaõ 
por muy florente em tempo dos Romanos, e Godos. De- 
pois de vários successos, em que foy vencida, e vence- 
dora, ultimamente Geou destruida pelo Rey Almançor, 
depois da invazaõ dos Mouros pelas Espanhas, e de Ci- 
dade Episcopal, e florente, que era Britonia, ficou re- 
duzida ao lugar, a que agora chamao BriliandoSy resi- 



212 

dencia, e solar dos Senhores deste appellido naqueíle 
tempo. Dcslcs descendia o P. Fr. Melchior, e neste lu- 
gar vio a primeira luz, nnscendo pelos annos de 15i6, 
como se deduz da memoria^ que seguimos, sem lhe as- 
signar o fausto dia do seu nascimento ; porque lhe naõ 
faltasse para sujeito grande, e celebre ciii virtudes, esta 
circunstancia. Foraõsens Paiy, António Pereira deVas- 
concellos, e Dona Catharina da Silva ; e entre cinco fi- 
lhos, que bouveraõ, sendo este o terceiro, o fizeraõ dis- 
tinguir dos mais, peia graça bautismal, com o Régio 
nome de Melchior, e naõ seria sem superior destino ; 
porque lendo esle Príncipe do Oriente lauta Estreita, 
que lhe allumiou a alma, e guiou os passos para achar, 
e ver a Deos nascido, o Padre Fr. Melchior foy outra, 
como nova Estreita, destinada pelo Ceo para guiar 
pelos dezertos do Brasil tantas almas á luz da Fé^ e co- 
nhecimento de Deos. 

204. Seus Pays, que^ sobre o caracter de nobres, se 
faziaõ mais conhecidos pelo illustre das virtudes, sou- 
beraD desde os primeiros passos da infância alentar 
com os mesmos espíritos esta nova planla, regando-a 
com as influencias do bom exemplo^ e santa doutrina, 
especialmente sua Mtày, que era Matrona em grande 
maneira espirílual^ e devota ; e assim criava a seus fi- 
lhos, que naõ s6 os alimentava, como Mày, também os 
íloutrÍ4iava como Mestra, ecomo a tal lhe ficou devendo 
esle, melhor que os outros, duas vidas, huma commúa, 
e da natureza, outra particular, e do espirito. Pelas 
muitas graças de huma, e outra, que com os annos foy 
descobrindo na boa índole deste filho, génio dócil, in- 
clinação santa, com huma presença agradável, e com- 
postura Christaã, de tal sorte foy crescendo para com 
elle o seu amor, e affecto, que ja sentia mover-se, como 
por huma occulta força de sympatia, a querer-lhe sem 
violência, e a amá-lo com veneração ; e era nella tal este 
cuidado, e taf) conhecida esta drííerença da sua incli- 



213 

naçaô para com ellc^ que os mais fillios, naõ sem emu- 
lação, o advertiaõ. 

205. Entre as virtudes, que mais se conhecerão nesta 
nobre Senhora, foy huma o summo cuidado na edu- 
cação de seus filhos, matéria muy importante para o 
aproveitamento destes ; pois, como o Senhor revelou a 
Santa Gertrudes, a terceira parte do mundo se perde 
pela má criação, que muitos Pays daõ a seus filhos, e 
por isso também muitas vezes castiga nos mesmos fi- 
lhos, o Senhor, este peccado dos Pays, reduplicando 
nestes a pena, que vem a sentir aquelles por culpa sua ; 
assim como accrescenta nos que lhes deraõ boa dou- 
trina, com a virtude dos filhos a gloria dos Pays. Muita 
soube merecer a Deos esta devota Matrona, premiando-a 
o Senhor liberalmente; porque todos os seus filhos 
foraõ, álèm de esforçados Capitaens, de conhecida, vir- 
tude, especialmente este, que como a tal, hum impulso 
superior parece que a governava, para que advertisse 
mais nelle, deserte, que raras vezes se achava sem este 
cuidado ; e sendo cuidado a descançava : tanto pôde o 
amor, que sabe fazer ailivio da pensão. E parece que 
lhe tinha escrito o Ceo na alma com inviziveis cara- 
cteres^ que seu filho Melchior nascera para obrar nelle 
a Divina maõ acçoens superiores. Ella assim o discur- 
sava, e o menino o foy mostrando assim ; porque logo 
o discurso foy desterrando as pensoens da primeira 
idade-, e dando luz para as operaçoens, e eleição do al- 
vedrio, conheceo nos empregos do filho as inclinaçoens 
do espirito ; porque, como douta Mestra, tirava pelos 
eíTeitos as causas. 

206. O primeiro^ que do espirito deste filho tirou, 
ou reconheceo neste discipulo do seu espirito, foy a es- 
timação notável, que começou a fazer de tudo, o que 
tocava ao culto, e veneração de Deos ; o gosto, e cui- 
dado, com que se applicava a tomar os preceitos da sua 
Ley, e a praticar sem violência, o que por elles apren- 



dia, o desvio das cousas mundanas, como divertimentos, 
jogos, e passeyos, para os quaes muitas vezes era con- 
Yídado por outros da sua idade, acliando-o estes sempre 
prompto, e ainda incitando elle aos mais, para a assis- 
tência das igrejas, e outras similhantes. Ajudava a isto 
muito o cuidado de sua boa Mày, que aproveilando-se 
da inclinação do filho cm taõ tenra idade, ministrava- 
lhe empregos decentes, em que suavemente o fosse em- 
penhando mais. Por sua própria pcí-soa lhe ensinou os 
rudimentos da Fé, e como o tempo hia correndo, e o 
menino aproveitava com o tempo o bom ensino, e cui- 
dado da May, eíla o hia dispondo com outros exercicios 
de Religião, e piedade Ghristaã, como eraõ, rezar o 
Oíficio menor, com outras Oraçoens, e Jaculatórias de- 
votas, em obsequio, e veneração da piíssima Mày de 
misericórdia Maria Santíssima, de quem foyo venerando 
Padre por toda a vida particular devoto, e recebeo fa- 
vores especiaes. Também o dispôs sua Mãy, e Mestra a 
ter Oração mental, depois de o prevenir coui outras vo- 
eaes a vários Santos, a assistir ao santo Sacrifício da 
Missa composto, e attento, a frequentar o Sacramento 
da Penitencia, compungido, e temeroso, e ao da Sagrada 
Communhaõ com pureza, e reverencia. Tudo lhe ad- 
vertia a devota Mãy, como Mestra, e o bom filho execu- 
tava tudo com tanta perfeição, e agrado seu, que ja llte 
parecia a ella mais Mestre do que discípulo. 

207. Referia o Padre Fr. Melchior, nos últimos annos, 
que nesta Custodia assistio, naõ sem huma grande ter- 
nura do seu coração, estes primeiros cuidados, e des- 
velos de sua Mày para com elle, e dizia com muita sin- 
geleza, e humildade estas palavras : Nunca me esqueceo 
a doutrina de minha Mãy em ordem ao aproveitamento 
de minha alma, porque era muito boa Mãy, e eu lhe de- 
via mais que todos os meus Irmãos ; porque, como eu 
era opeyor, lhe custou mais ensinar-me para aproveitar , 
€ certo, que o amor que me teve, e o cuidado mayor da 



215 

minha criação foy porque^ como era sanía^ conhecia a 
minha necessidade. Que entendida que he a humildade! 
Sempre acha razoens para desprezar-se a si, e abaler-se 
mais. O cuidado, que esta nobre Mãy mostrava naquelle 
tempo, como premio devido a virtude deste filho^ re- 
duzia este santo Varaõ agora em attençaõ da vida incul- 
pável desta Matrona. Teve em sua Mãy taõ boa Mestra 
de espirito, naõ podia deixar de ser este filho taõ bom 
discípulo. 

208. Naõ o foy menos em aprender as primeiras 
leiras, mostrando huma rara capacidade, para per- 
ceber, e exercitar os elementos desta Arte, assim 
os de ler, e escrever com perfeição, como nos con- 
seguintes de contar^ e todos os mais da Gramma- 
liça, e La tinida de, sabendo unir com graça parti- 
cular^ e como Mestre de diíferenles escolas, a appli- 
caçaõ aos Estudos, sem perder o exercício das virtudes. 
Para niayor incentivo destas^ quíz o Ceo que achasse 
também Mestre para o espirito no mesmo, que lhe bus- 
carão seus Paiy para as letras. Foy este hum Sacerdote 
de vida composta, e ajustados costumes ; e o discípulo 
Melchior^ que logo o conhcceo graduado nestas duas 
Scíencias taõ distínctas^ em ambas o quiz imitar como 
a Mestre. A'lèm de outros muitos actos de bom Ghris- 
tao, que via nelle^ reparou, que entrando na Igreja, 
prostrado por terra, com muita humildade a beijava, e 
pareceo-lhe taõ bem esta acçaõ, que dalli por diante, 
e em quanto viveo, inviolavelmenle a observou. Gomo 
lhe andava sempre na espreita das acçõens virtuosas 
para o imitar, alcançou também, que a sua melhor cama, 
era huma taboa, nua, e dura, sem outro algum adorno. 
Dezejava o devoto menino outiva -similhante, e teve occa- 
siaõ de descobrir huma muito ao seu intento, e foy esta 
huma manta muy áspera, e grosseira, e lançaudo-a 
sobre o leito, despido em corpo se deitava nella por 
noite, escondeudo-a de dia, para naõ ser sentido ; eas- 



âl6 

sim por algum leaipo maltratou de tal sorle o lenro, e 
delicado corpo, que llie ficou em chagas vivas, e se cu- 
rarão depois com muito vagar, e naõ poucas dores. 

209. Gomo se vio privado deste modo de mortificar 
o corpo, ofí'ereceo-lhe o discurso, e talvez o exemplo do 
Mestre, oulro maisocculto, e disfarçado, em hum largo 
cilicio decadeyas de agudas, e penetrantes pontas^ com 
que cingio o pequeno, e débil corpo, com grande dissi- 
mulação, e estranha paciência, deixando cevar o indó- 
mito ferro naquellas innocentes carnes, que primeiro 
souberaõ sentir a dor^ que conhecer a culpa. Foraõ cor* 
rendo os dias, e também o sangue, e por muito que o 
dissimulava a graça,, naõ deixou de o fazer patente a 
natureza na mudança da cor do rostro, e enfraquecido 
das forças, no que advertindo o bom Mestre, como ex- 
perimentado, tirando-lhe a causa, cessou o eíTeito. 

210. Como as virtudes andaõ sempre emanadas^ e 
unidas entre si, que aquella alma, que se affeiçoa a hu- 
ma, ja fica disposta para abraçar a outra, e outra, e to- 
das as mais : assim a deste menino, como lhe havia da- 
do Deos huns braços taô largos ao seu espirito, quantas 
entendia elle eraõ virtudes, tantas abraçava logo^ e as- 
sim/depois do de Deos teve muito lugar nelle o amor do 
próximo. Logo que os primeiros annos abrirão as por- 
tas ao discurso, para as operacoens da vontade, come- 
çou a mostrar a muita^, que tinha á virtude da pobreza, 
tomando por costume, o que era inclinação, repartir 
com outros meninos pobres parte do sustento, que lhe 
era administrado, reservando para si só o precizo ; e 
era o mayor gosto, que achava, ainda no mais saboroso 
de qualquer vianda, entendendo ja, sem duvida, na- 
quella innocente idade, "que sempre a alma se alimenta 
melhor, com o que se sabe negar ao corpo ; e este cos- 
tume guardou por toda a vida. Algumas vezes lhe cus- 
tarão naõ poucas lagrimas o ver sahir de sua casa al- 
guns pedintes naõ taõ satisfeitos, como queriaõ, e elle 



âi7 

dezejava. Em outra occasiaõ pedio com grande inslan- 
da á Ama que o havia criado Iiuma moeda de prata por 
empréstimo, e dizia-lhe, era para comprar Iiuma cousa 
multo de seu gosto» e promettendo que lha havia pagar 
muito bem^ quando fosse grande. Deo-lhe a Ama a 
moeda, e teve advertência de espreitar em que a gas- 
tava ; e vio que ao outro dia a deo a huma pobre viuva, 
que com huns poucos de filhinhos costumava vir alli por 
alguma esmola; e ainda que nisto pôs o menino algum 
resguardo, naõ foy tanto, que naõ fosse percebido pela 
Ama, que dando parte desta santa travessura a suaMãy, 
a celebrarão ambas, como certas premissas de mayores 
consequências no aproveitamento das mais virtudes, de 
que he a charidade huma como baze, e fundamento de 
todas, e de quem he objecto principal o mesmo Deos, 
quem ja dos seus primeiros princípios linha taõ radica- 
da no seu espirito a virtude da charidade*. 

211. Assim avultava nelle esta virtude^ como hia 
crescendo nos annos, e ja dos vivos passava aos mortos. 
Quando podia haver alguma esmola competente, hia á 
Matriz, e a dava a algum Sacerdote para que dissesse 
Missa pelas almas do Purgatório, com a pensaõ, de que 
elle a havia ajudar, e a ouvia com muit? devoção e ter- 
nura, encoramendando a Deos especialmente as dos seus 
defuntos, e acabada a Missa, se o Sacerdote se olvidava 
rezar no fim o Responso das Almas, lho advertia, e ro- 
gava o fosse dizer, e lançar agoa benta no iugar dos 
ossos comuns. 

212. Gomo a devota Mày foy conhecendo no filho esta 
natural inclinação, que tinha aos pobres, determinou 
pelo tempo adiante, que o soccorro destes corresse por 
sua conla, e para isso lhe dava o que por elles se havia 
repartir, e o fiizia com huma tal prudência, e equidade, 
que aos pedintes deixava satisfeitos, e admirados aos 

* I. Joan. 4, 16, 18. 

JABOATAM. VOL. H. 28 



218 

circunstantes, sendo ja conhecido de lodos por Pay da 
Cliaridade, e como a tal, a elle recorriaõ em as suas ne- 
cessidades, para as quaes naõ lhe bastando ja as ordi- 
nárias de casa^ sendo naturalmente humilde, e vergo- 
nhoso, a charidade o tirava da sua esfera, pedindo para 
dar aos pobres, o que para si naõ linha necessidade de 
mendigar, e deo-lhe a natureza para isso tanta graça, 
que parece lhe minorava o merecimento para com os 
homens, quando para com Deos lhe accrescentava o 
premio. 

2lo. Ja por este tempo havia bastante o tinha vestido 
sua Mãy por devoção cora o habito de S. Francisco, com 
grande alegria, e contentamento de seu fillio, que vendo- 
se no corpo com a vestidura do Patriarcha pobre, e pe- 
nitente, lambem se revestio o seu espirito de novos de- 
zejos de o imitar, e seguir nestas duas virtudes, que 
tanto se accommodavaõ ao seu génio, e ja havia mos- 
trado nellas indícios de admiráveis progressos. E se naò 
ha duvida, que os repetidos actos vestem ao sujeito de 
hum certo habito, que com diíBculdade se vera a des- 
pir ; neste menino parece se trocarão os lermos, assim 
como foraõ diíferenles os hábitos^ e quanto vay dos hu- 
manos aos Seráficos ; porque com este de Francisco, 
que havia vestido, cora elle se reveslio, como novo Se- 
rafim, de repelidos actos de naô parar no caminho da 
perfeição, c de naõ esfriar no exercício das virtudes, a 
que sentia dar-lhe calor, e influir suavidade o novo ha- 
bito. Com elle repelia os actos de fazer-se Religioso do 
Santo Patriarcha^ do qual pela vestidura do corpo^ ja 
se tinha por filho do seu espirito ; e assim arrebatado 
em huma occasiaõ de hum muy vivo, e elTicaz, pegou 
da penna, e escreveo estas palavras: Eu indigno pec- 
cador, e servo vosso. Virgem Santissima^ faço volo de 
servir a vosso Bendito Filho em a Religião dos Menores, 
e vos peço a Vós, Senhora, sejais minha medianeira para 
conseguir estes meus intentos, em fedo qual ponho o meu 



219 

dignai, e assignado do seu nome o collocoii nas mas da 
Sagrada Imagem da Senhora, venerada no Oratório da 
casa de seus Pays. Com o sen habito renovava ja os 
actos de amor de Deos, ja os da charidade dos próxi- 
mos, e ja os do desprezo de si mesmo, e de todas as 
mais virtudes, e especialmente a das suas mortifica- 
çoens, e penitencias. Para estas se lhe oífereceo logo 
no mesmo habito huma nova arte de as praticar. Cin- 
giraõ-lhe com elle hum cordão taõ perfeito, como forte, 
porque era de cordel torcido, e delgado, e este, dizia 
elle depois, foy a joya de mayor preço, e estimação, que 
teve em sua vida, porque naõ só lhe compunha o corpo 
naquelle tempo, também lhe servia de cilicio disfarçado; 
porque de noite apertava com elle, e os seus nós, ja os 
braços, ja as pernas, com tanta força, que da mortiíi- 
cada cor de cinza, de que era, de puro sangue, que da- 
quellas partes, tenras pela idade, fazia verter, se tingia 
de vivo nácar. 

214. Nem lhe faltarão com este habito repelidos actos 
de paciência, soíTrimento, e resignação com a vontade 
de Deos, de seus Pays, e Mestres, e ainda de pessoas 
particulares, e diíTereotes. Ou fosse causado destes ex- 
cessos das suas penitencias, ou por occasiaõ de outros 
humores desconcertados, padeceo nestes primeiros annos 
alguns achaques corporaes, e o principal foy hum gra- 
víssimo tumor, ou inchação em huma perna, que ja 
houve de ser precizo, para cura delle, rasgar-se-lhe a 
ferros aquella parte; e sendo esta taõ violenta, que aos 
mesmos, que lhe assistiaõ, fazia horror, elle a soíTreo 
com tal quietação, e socego de animo, que admirados 
mais da fortaleza do menino, do que da carniceria do 
agente, naõ faltou pessoa compadecida, que na occasiaõ 
lhe advertio, que deixasse a natureza formar alguma 
queixa, ou mostrar o seu sentimento, e dor, para que, 
quindo se naõ suspendesse com esta demonstração a 
cura, ao menino, se minorasse no ministro delia o rigor; 



220 

mas elle respondeo com liuma serenidade, e constância, 
iiaõ de menino fraco, mas de varaõ forte^ Que era von- 
tade de seus Pays, e havia preceito para lhe obedecer no 
que era para bem da saúde, e naõ encontrava a ley de 
Deos. Ainda naõ era bem applacada esla tormenta, 
quando novo accidenle, com o eíTeilo da sua violência, 
sobreveyo ao paciente menino, em liuma ardente febre^ 
e taõ continuada, que por alguns dias lhe naõ dava al- 
livio mais que a intermitência de algumas poucas horas. 
Mas era para ver, ou mais para admirar, que quanto 
era mayor o ardor da calentura, tanto se inflammava 
mais o seu espirito ; porque, sem pedir soccorros hu- 
manos para o refrigério^ só recorria aos Divinos, re- 
citando algumas oraçoens devotas, entoando a vozes 
outros Cânticos da Mãy de Deos, e especialmente os do 
seu Terço, convidando aos domésticos para que o aju- 
dassem naquella musica do Ceo, com a qual, desaba- 
fando os ardores do espirito^ só refrigerava o ardente 
da febre ; sendo, no mais acçezo delia, oraçoens devotas 
os seus ays ; Cânticos celestes os seus gemidos ; todas 
as suas queixas louvores Divinos, e o destro compozitor 
da sua musica, a total conformação com a vontade de 
Deos. 

215. Também com a de seu Mestre lhe naõ faitaraõ 
occasioens de multiplicar os actos de sua paciência com 
o novo habito^ em algumas contradiçoens, que achava 
nelle sobre as asperezas das suas penitencias : naõ por 
que o douto Mestre o quizesse absolutamente divertir 
delias ; mas porque sabia, como experiente, que na vida 
mystica^ todo o excesso no seu principio lhe serve de 
grande embaraço, e ainda de prejudiciaes consequências 
á sua continuação; mas o menino, que naõ penetrava o 
juizo do Mestre, só percebia a sua contradição ; e algu- 
ma vez lhe disse, como queixozo : He possível, que en- 
sinando-me meu Mestre a proseguir no séquito de todas 
as virtudes, só no das penitencias me prohibc os passos, 



221 

dezejando eu tanto adiantar-7ne neílas. Mas o Mestre o 
satisfez, dizendo. lhe, que o tempo seria o seu melhor di- 
rector, e cora elle aprenderia aquelle modo de adiantar- 
se nellas, que ainda era conveniente naõ o poder prati- 
car a sua idade. 

216. Em outra occasiaõ vendo-o o mesmo tratar fa- 
miliarmente^ e muito a miúdo com certas pessoas mais 
fingidas do que devotas, porque era naturalmente incli- 
nado aos que lhe pareciaõ taes, e sendo pobres, muito 
melhor, e a estes communicava com lhaneza, e elles o 
buscavaõ mais para o interesse das suas pessoas, e ne- 
cessidades ; e para acharem nelle boa acceitaçaõ se fin- 
giaõ devotos, e espirituaes : o que notando seu Mestre, 
lhe advertio se desviasse daquella gente ^, quevinhaõ a 
elle mais a buscar soccorro para o corpo^ do que com- 
municar-lhe alguma virtude ; o que elle ouvio resigna- 
do, e executou obediente. 

217. Com os estranhos pouco devotos, e outros con- 
temporâneos seus, e condiscípulos menos quietos, tam- 
bém lhe naõ faltarão com o seu habito muitos actos de 
merecimento á sua paciência. Porque, vendo-o estes 
mais espiritual, e todo applicado aos seus devotos exer- 
cícios, beijar a terra, retirar-se nos templos aos lugares 
mais apartados, fugir da communicaçaõ, e companhia 
dos travessos, e menos sezudos, com outros exercícios 
espirituaes, e ajustados, que se naõ conformavaõ com a 
idade, e génio dos mais companheiros, e de algumas 
pessoas distrahidas, huns se riaõ delle, outros o insulta- 
vaõ, e arguiaõ, dizendo-lhe que ainda era muito menino 
para Ixinto retiro, e santidade, que desse ao tempo o que 
era seu : mas elle tudo ouvia sem replica, e hia continu- 
ando, como se o naõ ouvira, mas na sua consideração^ 
sempre lhe deixava muito que sentir^ tanto pela turba- 
ção interior^ que davaõ ao seu espirito, como pela falta 

* Malh. 7, 15. 



c).)9 



deste, com que conhecia aos seus motejadores. Elle 
mesmo o explicava depois quando de idade provecta^ e 
dizia, que houvera padecido muito quando principiante, 
e que como era simplesinho o sentia muito ; mas que, 
por providencia de Deos, nunca o puderaõ divertir do 
que liunia vez havia emprendido no seu serviço, e jul- 
gava ser agradável a este Senhor. 

218. Gomo nesta alma innocente amanhecerão laõ 
cedo as luzes da graça para acertar no caminho das vir- 
tudes, indo aproveitando nellas ao passo que na carreira 
dos annos se hia adiantando a idade nos dias, tamhem 
hia recehendo do Ceo algumas superiores illustraçoens 
acompanhadas de particulares favores da maò do Altis- 
simo, ou ja como preniios das suas virtuosas, e exem- 
plares acçoens, ou como fomento para o incitar mais no 
proseguimento, e perseverança delias. Era notável a 
reverencia, compostura, e attençaõ, com que assistia ao 
Sacrifício da Missa, e sempre no mais retirado, onde o 
pudessem divertir os outros condiscípulos, quando era 
da classe destes, e ja qnando mais crescido, sempre oc- 
cupava aquelle lugar, onde tivesse menos obstáculos a 
sua devoção; e esta remunerou o Ceo com a repetição 
deste singular favor. Muitas vezes se lhe representou ao 
levantar o Sacerdote a hóstia Santa, que a via cercada 
toda de brancas, e engraçadas flores, como as que eraõ 
colhidas no jardim da gloria, e Paraizo celeste; e da 
mesma sorte ao levantar o caliz, lhe parecia ver nelle 
huma Gornucopia do Geo de outras muitas flores verme- 
lhas, e encarnadas, participando humas, e outras estes 
vários accidentes da cor daquellas Sagradas espécies do 
vinho, e paô, transsubstanciados em corpo, e sangue de 
Christo ; e ás vezes lhe parecia ferver no caliz o mesmo 
Sangue, com impulsos de querer derramar-se pelos seus 
lábios, e seria só para que visse com os olhos do corpo, 
o que adorava com affectos da alma : e ainda que se ale- 
grava interior;, e espiritualmente com aquella vista, e 



seiuia na mesma alma singulares gozos^ naõ fíízia com 
ludo a sua idade muito mysterio daquelles taõ altos, e 
inexcrntaveis, que alli offerecia a bondade de Deos mais 
á sua fé, que á sua intelligencia. 

219. Como estes favores eraõ prémios, que merecia 
j)ela pura intenção, com que se desvelava em fazer tudo 
aquilio, que era para cumprimento da Ley de Deos, ob- 
servância dos seus preceitos, dezejando fazer a sua santa 
vontade, e amá-lo como creatura sua, e assim lhe acu- 
dia o Senhor com eiles, como humas superiores luzes, 
que mais, e mais o hiaô illuslrando, e accendendo para 
proseguir, e aproveitar nos seus santos exercicios. Nem 
lhe faltou para avançar muito nestes progressos de sua 
alma, o tomar para norte de todos a Maria Santíssima, 
de quem foy por toda a vida cordial affecto, e recebeo 
especiaes favores, ainda nestes primeiros annos. Logo 
nelles, se costumou, por doutrina de sua boa Mãy, naõ 
só a rezar o Rozario, e Terço da Senhora, e trazer sem- 
pre comsigo as suas contas, mas também seaíTeiçoou de 
tal sorte a este exercício, e devoção, que a todos queria 
ver occupados nelle; e vendo algum dos seus compa- 
nheiros sem contas, lhes dava as suas, e elle em quanto 
se lhe naõ offereciaõ outras, as formava para seu uzo de 
hum cordaõzinho com seus nós, e este mesmo chegou a 
dar algumas vezes ; e indo isto por modo de queixa de- 
vota a sua May, tomando ella hum Rosário, o chamou á 
parte, ecom dií^simulada, e gostosa reprehensaõ, lhe 
disse : toma filho este Rosário, e ha de ser com adver- 
tência, que o has de ter, e guardar, como prenda mi- 
nha. Recebeo elle as contas, e tanta leve com ellas, que 
sem o apartar de si o conservava ainda, e dizia, que cora 
elle nas mãos dezejava o encontrasse a morte, como 
troféo da sua obediência, como testimunho da sua devo- 
ção, ou como premio ao seu merecimento. 

220. Grande foy o deste menino ja neste tempo com 
a piedosa Senhora, porque lambera foy rauy extremado 



em a saber servir. A'16m dos quotidianos exercícios, e 
devotos, coni que a venerava, ja á noite ao recolher-se, 
ja ao levanta r-se da cama de manhaã, muitas vezes entre 
dia, ou pelas tardes, reconduzindo a outros dos seus 
companheiros na idade^, e devoção, carregados de flores^ 
se hia com elles ao Oratório de casa, compunha rama- 
lhetes, e adornava as suas Imagens, e com particular 
cuidado a de S. Francisco, a quem, pelo seu habito, ja 
devia respeito de filho, a do menino Jesus, de quem foy 
também desde este tempo muy devoto, e com especiali- 
dade a de Maria Santíssima. Tudo lhe pagou a Senhora, 
conforme a boa tençaõ, com que a servia o innocente 
menino. Achava-se com seus Pays, retirados da Villa 
em huma casa de campo, como algumas vezes o faziaõ, 
e sahindo huma tarde com outros meninos pelos contor- 
nos do sitio, tanto se foraõ apartando delle com a diver- 
saõj ou divertimento, que quando deraõ acordo de si, o 
naõ tiveraõ para acertar com o caminho, que haviaõ se- 
guido, e entre algumas voltas, e bastante confuzaõ, se 
acharão com duas estradas, sem saberem resolver por 
qual deviaõ tomar, que os levasse a casa. E vendo o me- 
nino Melchior o grande susto, e temor dos mais, porque 
se vinha ja chegando a noite, lhes disse com muito so-^ 
cego, e quietação: o remédio, que ha, meus amigos, 
para sabermos qual destes dons caminhos havemos se- 
guir, he rezarmos á Senhora hnma Salve Rainha, e lan- 
çarmos por sorte esta Cruzinha, que alli formou logo de 
dous pedaços de vergonteas seccas, e donde ella cahir, 
este ha de ser o caminho para nossa casa. Assim o exe- 
cutarão, e seguindo a estrada, que lhes mostrou o signal 
da Cruz, a pouca distancia andada, encontrarão gente 
de casa, que, sentida a falta, e advertida a causa, ja vi- 
nhaõ em demanda dos que consideravaõ perdidos, mas 
bem achados á sombra da Cruz, e ás luzes de Maria. 

221. Com estes especiaes favores, que da piedade da 
Senhora, e da maõ de Deos recebia o menino, e eraõ 



demoiislraçoeiís do muito que á piedosa May, e seu 
amoroso Filho, lhes agradava a sua innocencia, e santos 
oxercicios, nelle vinhaô a ser incentivos para novos pro- 
pósitos, e mayores progressos, accrescentando a estes 
mais vivos ardores o Seráfico habito, que ja dissemos 
havia vestido nos primeiros ânuos. Mas porque hia ja 
passando os de menino, a que se concede o trazerem 
por devoção o santo habito de Religiosos^ ainda que por 
esta rozaõ o largou, naõ o despio da sua vontade, antes 
tendo esta sempre de abraçar o Instituto Menor, agora, 
que largava o seu habito das costas, tomava mais sobre 
si a vestidura desta tenção, e de naõ despedir delia nunca 
aquelle habito, com que tantos actos virtuosos havia 
exercitado ; e agora he que se verificava bem no me- 
nino, que os actos repetidos, e virtuosos, também fazem 
hum habito, que com difíiculdade se despe ; e tanto se 
havia agradado o menino do habito pela continuação, 
que naõ se dando por satisfeito de o abraçar elle só, 
outra vez, quando o permittisse a sua idade, linha hum 
grande dczejo de que outros moços do seu tempo o fi- 
zessem também ; e punha hum grande cuidado, e des- 
velo em os acariciar, e mover para o mesmo fim ; e era 
notável a graça, e eíficacia, que tinha para os persuadir, 
e animar a esta empreza. Ja lhes encarecia a perfeição 
do estado Religioso ; o seu socego, e quietação, pondo- 
ihes juntamente diante dos olhos os trabalhos, perigos, 
e enganos do mundo, e tudo isto com tanta discrição, 
suavidade, e evidencia, que a muitos fazia logo do seu 
partido; e a estes communicava dalli por diante mais 
intimamente, mostrava-lhes mayores caricias, e servia- 
os com melhor animo em suas necessidades ; e passou 
a tanto este trato, e communicaçaõ espiritual, que as- 
sentou com elles, para que se distinguissem entre os 
mais nos públicos, e se conhecessem huns aos outros 
como soldados de nova Milicia, trouxessem os que eraõ 
da sua vocação huma certa diviza ; e se acaso succedia^ 

JABOATAM. VOL. H, 29 



226 

que (lo numero destes seus escolhidos se divertia algum 
a outro estado, ou mudava de parecer^ o sentia em 
grande maneira; e occaslaõ houve em que se vestio de 
luto, como lamentando ao que, por seguir o do mundo, 
SC desviava do caminho seguro para melhor vida. 



CAff^ITUI^O 11^. 



Toma o habito de Religioso Menor, seus progressos, e espirituaes exercidos 
neste estado. 



222. Havia chegado ja com os dias ao fim dos quinze 
annos, e sabendo sor este o tempo competente para po- 
der abraçar o estado Religioso, sem ter aíTroxado o seu 
espirito no propósito da sua vocação, depois de repeti- 
das, o instantes supplicas a Maria Santíssima^ a quem 
havia desde o principio elegido por medianeira deste ne- 
gocio, diante de Dcos, para que, sendo do agrado da 
Mageslade Divina, assim como era vontade sua, lhe al- 
cançasse do Senhor o despacho delia, o communicou 
com sua May, rogando-llie como a tal o ajudasse agora a 
pôr termo aos seus bons dezejos, pois, como Mestra, lhe 
havia dado as santas direcçoens de sua alma ; e lhe pe- 
dia o conseguisse também de seu Pay. Eraõ aml)os estes 
consortes muy piedosos, conheciaò de largo tempo a índo- 
le, e inclinação do filho^ tinhaõ bastante experiência dos 
espirituaes, e calholicos empregos da sua infância, e o 
como eraõ obrigados a concorrer com elle para taõ santo 
estado, e assim se partirão logo para aVilla de Vianna 
a tratar com os Religiosos e Prelado mayor a sua accei- 
taçaõ á Ordem. Nem esta lhes custou muito, tanto peia 
authoridade, e nobreza dos Pays, como pela virtude, e 
merecimentos do filho, de quem tinhaõ os Religiosos t