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Full text of "O amante emprestado: comedia en 1 acto"

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ÍI.J 



Mi IHSTÂDO 

i ' . . • • ■ 

COIHIA II i km , ' 
DIOGO JOSÉ SEROMÊNHO 

CmU H Ê n ào c— ■ — rtalbt te atrito 









*/**#< 



• r .atroa .r - • . - : ; : . f i 
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LUIZA 

*>Á*VA*» C0LLE8E umiO CONDE DE CHAVES 
COUNT OF SANTA EULALUPAULINA 

coLLECTie* ONOFflE' ; •*-> 

«íftof ^ BARNABÉ 

JtNmtTETSWi,* ANDRÉ 

9 DEC 1924 

Convidados de ambos os sexos 

Gli:;j.,0.: a JoGl OL>Q! r J 

A scena passa-se n'uma casa de campo 



ACTO ÚNICO 

A scena representa um jardim, com um pavilhão a um 
dos fados, ao fundo á esquerda, um bosque 

Onofre e andre 

Onofre— Faz o -que te digo, e deixa-te de re- 
flexões. Bem sabes que a menina tem o cominan- 
do em chefe. 

André —Mas isto brada aos céos; fazer-me ar- 
mar os canteiros das flores, porque se lhe met- 
teu na cabeça dar aqui um baile. 

Onofre — E tu que tens com isso. A menina 

Lutza é últywW^iiW» ftw^AaffflP lhe deixa 

fizer todas as^Mtaae&.tfiá&^ai* mesmo, e nao 

te mettas em camisasnd*o«e varas (André safú. 

«CEí^ffíl ^ 

Onofre e lèpéis Barnabé v* x | 

Onofre— Olá! ahi vem Barnabé. 

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Bahnábé (mêr<m4ô)-*Jbn& á\m, meu attrfgb. 

Onofre— Bons dia», então fizeste negocio? * 

Barnabè—NSo perdi a jornada, comprei al- 
guns cavallos; a feira esteve' mtii to' contiòrridff. 

Onofre— E's o homem mais feliz qoè conheci 
novo, rico, por morte de teo pae ficas éenhór de 
uma boa fortuna... Admiro~me como não léus 
pensado em casar* T&das és raparigas eídaterra 
devem morrer por th • - >••< 

Baunabé-Jsso § verdade; maá eu tão èètou 
resolvido a casar-rae. Não amo nenhuma. 

Onofre— Tenho-te visto fóflar amtadfrdâfS vezes 
com Paolioa, %$$a rapariga quê o,sr. b&rto -con- 
serva em easa por caridade* * 

Babnabé— Eu lhe digo, fallo com ella qoandt 
a encontro, porque ér afllbada de minha tia 6r*L 
gorip. E além disto tem muito foorw planos, quê 
eu sempre aproveito. Olhe, hontem" me deu alta 
orna ideia magnifica, 'para atfgraentar a minha 
fortuna, e é isso préfciaamente o que ím trás por 
cá hoje. Diga-mfe, está por cáfffiuita gente? 

Onofre— Estão todos o&' aspíranteá á mJò dt 
menina, acompanhados "das t*as, ! ihní$y primas, 
ete. • .. • .;.-*.. %«• ., - 

Barnàbó — E almtó O8o se^doeèdid^a^meoiM 
Luizioba? - • »: r > ' 

Onofre — Quer escolher, hoje é o dia desigttt- 
do para a eleiçSo. O sr. barão quer quê ell* case 
quanto antes, porquê está telho e cheio de gota. 
Mas apesar tftes*"» menina ptttta :os seus 4ias a 
aborrecer os^rtehdentes, çoflflOdsen^caprMhos 
e estra*agancias. •:•.. j.-i "i> o .<:fvu» 

Barnabê— Mas desemHto que eiítre esee^càva- 
Jheiros, ha um kjoe 1te . patwdtoai^amtwjt Ao 
que os outros. _• • ;*•! ' '.^H- 'd\\i**i\\ 



•ar»- — - 



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_4~ 

Oíwre— Bçna sei, 4 o coàd* d* Chaves^ filho 
d'uD9, antigo amigo do barão: évm booito rapaz, 
jftpitg atencioso, e muKo ricq. 

BjvRNABÉn-E tem uma grande propriedade* 
<pa está por arrendar» aegtwdo me disse Paulina. 

Òikwre— Apesar d'iss© duvido que seja a prtr 
ferido, porque a menina diz que elle tem ideias 
jwíIq exqueeitas; quer que asr mulheres tiva^ 
sujeitas aos maridos, o que eu acho justo. 

JBàiwabé— Pois eu queria que o; conde forte 9 
preferida ■*>:*.-. 

Onofre — Tu protegel-o? i 

Barhabé— Quero que elle me proteja, qtte vem 
a ser o mesmo. Conviobarme muito qua urora» 
tentasse a. sua propriedade áo Mogaeirah que 
fie» perto d'aqoi; entío é q$* eu ficava oooaide^ 
fado, e podia escolher noiva entre aè maia jao**- 
tas- 

Qhofre^B's ambiciosa 

Barnab*í— Vamos amigo Onofre» failepormim, 
leuho em casai um barril de- magnifico moscatel 
4e Setúbal, fas-lhe couta? 

QiWRBT-Hoíuam, taHa baião,; aioda qo* ni© 
me fizesses esse presente, estava sempre promplo 
a 9&wr*ta< porque» é& muito boa rapu; '. 

Paulina (dentro chamando)— Sr. Onofre... Sfl. 
CHy>fre.. 

Onofre— Silencio,., abi vemíaoltoa* 
SCBNAHl 
rife mesmos e Paulina (com um mio com flore*) 

Pàuuna (entiramdd)— Sr- Onofre?... 

Onofre — O que ha de novo?. 

fòuJLiNÀ-^Yeob* depressa... to uctalwa que 
* preeoro*,, Ah! estava afui o-Barasbé! 

JJArnabé— Bons dias, Paulina. 

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s 



• -«- . 

Omofre— Procura va-roe para que?... 

Paulina {olhando fára Barnttbé)— Sito, párt 
daer4he;.i Estás bonito Barnabé. ■ '* 

Onofre — Para dizer-me o que?... acabas bàí ' 
não? < 

Paulina— Benito, esquecefc«me. 

Onúfri— -Olhai que patela, ficou paítaêdá $í|ra 
ti a ponto de se esquecer do recado. 

Paulina— 0*e, os senhores estão almoçando* 
e falta lhes ofio sei o que... 

Onofre— Já sei, é vinho. Tétaho aqui a chafe 
da adega. Vctt n*uto wfctante. (aparte a Barnabé) 
Depois fadarás com 4> conde, " 

Paulina— Vá dèj^ess», p&t causa das visitas, 
e dê lhe bom vinho, d'aquelle que você bebé.' w 

Onofre— Forte pateta... até logo (m%). - ?/ 
SCfâíA IV 
Barnabè e Paulina 

Paulina —Barnabé' eà> <j»e pensas? 

Baenabé—AM e&tavas ahi* 

Paulina— E's $Q\1M tftavel. 

Barnabé— Penso ^a taberna do Leio verte/ 
aonde almocei esta maohã. 

PAULiNAv-Gr^nde motivo para pênsil: 
•Barnabé— Imagina tu, que todos os meu* - 
amigos/ queriam por força que éu eaàassíô; * /.í) 

Pauuna~B* o que eu te tenbo aconselha**. 

Barnabé— E è essa a minha intenção, assim 
que me dereih de renda a propriedade do Nb- 
gueiral. Eu bem sei que não preciso esperar p<tt* 
isso, mas antes de mais que de menos, e te h 
que me fizeste ter desejos de arrendar a quinta. 

Paulina— B, não la deves descuidar em. esco- 
lher esposa, «iha que as raparigas cá do sitíè 
vão casando toáaf* 



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Barnabé— Tens raaão.., Vamos a vôrv :q«al t* 
parece que me convém* A Júlia? -. -'w- . 

Paulina — E' tifo magra, que parece um «s- 
guetyto.- ' • .•!.'». 

Barnabé— E da Thomazia o que dizes? 

Paulina— Não t é feia, mas coxeando pé direito. 
. Barnabé ^-Aiud a aia tinha dado por isso. Já 
sei, como na terra não faa nada que preste, es» 
p^ro pelo dia do mercado para ver o que vem 
de fora. Olha ahi vem a menina, coma sua corte 
de apaixonados. Vou .ter com o Onofre, para me 
apresentar ao ar, conde. Até logo Paulina (soe). 
SCENA V 
Paulina (só) 

Paulina— Em todas pensa menos em mim. 
Mas agora reparo» que qs meus ramos estão por 
fazer, {leva o cesto ias flores e entra no pavi- 
lhão). 

SCENA VI • . 
Luiza, o Conde, convidados de ambos os sexos, 

depois Pauuna . , 

s . Luiza— Minhís amigas, em que -passaremos a 
manhã? 

Convidado— Não sei quem .propoz 4ima di- 
gressão até aos lagares. h\. •- >:• 

Conde-tIsso não tem graça neobtrma. , 

Luiza — Basta que nos queiramos di vir ti r, 
para o sr. conde logo se oppôr» E' um.' espirito 
de -contradicçãol Ainda ha bocado, ifaHando-se de 
ipeu primo Polycarpo, qoe vae casai! com a filha 
4'uma simples lavradora, todos o censuramos 
pQr um casamento tão desigual, menos o sr. con- 
de* que o defendeu, dizendo; que a /desculpa 
d'*lle está na belleza da nom.: (Sue /Paulina Ao 
pavilhão, e fica pensativa a um todo da sema). 

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— 1 — 

CQNOfrt-Bu disse, e repito/» que é muito des- 
culpaveL seu primo, porque está seriamente apaii 
xonado. .. (>» . ! . . * : * 

Lhiza— NaaáB pôde* discutir com acead&tfw* 
parando em Pawtímar). Qoe tens, rPaulina? 

Paulina— Nada, minha senhora, ettora choraih 
do a dtinha m& sortes \ r <■ .» 

Lúiza— Zangaste -te com o teu namorado? - 

Paúuna— E' <eouaa-qutiitâo tenho, v, . í 

Luiza— E é por isso <Jue. choras? 

PAUUNA-^Se >;lh& pareoe .que • é: pequeno mo- 
tivo. Sou a única n'esta terra que n5o tenho quem 
me queira. : * » - •; .í ; • i 

Luiza— EntSo ninguém te (juer? ' 

Conde— Isso è muito mal feito. i 

Pauuiía^Ui»» iDjvrtttía, « .ha taataô qua teem 
mais de um preteadoBte! Por exemplo, v: ex/* 
tem mais de cinco adoradores, o que è muito 
mal feito, querer ttiffô pata st. 

Conde— Tem/ muiti rasaaa» ■ "> 

Luiza— Devoras?- Pois Bem, , *ou> «auxiliaHe, 
roo arraojar-tè «Diamante. r0s ricos devem soo* 
correr os pobres. Ouve, eu nio te posso dar unr 
amante, mas posao*t ; o emprestar. .»• •(•:-->, 

Paulina— Oh! que grande pechincha, com ia&e» 
me contento, mesmo emprestado, qoe leja servirá 
para chamar os mais. - • .,* .*•) 

Luiz A~Ona^' muito bem, to<tos 'estes senfowes 
me galanteam, olhais bem et eseolb* aquelle fldft 
mais te agradai;. . 5 * r ; :.■ 1 :Y • ; 

Paulina (depbis (kásiexànkinari indica o eohv 
dé)—E$&. 'V>r. t'.:íj ',b m..-. * 

Luiza (aparte) — Boa occasião parti: me vingar 
ffelle. (To/to) Med amigos ordenovlhe que faça a 
c&rte a essa rapariga peio espaço 4e fluas borasu 



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Paulina (batendo a$ palmas)— }b tenho em!... 
Jé tenho umt... j» 

Luiza— Vamos, sr. conde, isto não é brinca- 
detòa tem de amar Paulina por duas boras^E se- 
ja muito obsequioso, ntfcito tèroo e sobretudo 
mito sufemiaso. ' 

Conde— Mas que caprichei... (aparte) tín nío 
me sbbmettai 

Luiza (baicsú vo conde) -^ Quero ver wmo sou 
obedecida, sr/ sonde, e Jembre<se que bojeéque 
heide escolher marido, veja iá ie tjtter ficar éx- 
etoid*>. 

Conde— Porém, Luiza... ô impossível.,, onça... 

Luiza— Basta, e*fjo. x ! 

Conde— Obedeço. 

Lúixa (ás senhoras)— Esí& desesperado. Conde, 
abi o deixo com a sua dama, E nós vamos pas- 
sear (saem). 

SCENA VII 
O Conde e Paulina 

Paulina (aparte)— Estou com curiosidade de 
saber como namoratn os cofides; bonitas coisas 
iliedeve dizer*, (alto) Sr- conde!... 

Conde faparftf)*-Estjava capaz de deixar esta 
pobre rapariga, e ir-me eraDora... mas Luiza oon- 
òa me perdoaria, (setn a olhar) Multo beca, Pauli- 
na, muito bem... 

Paulina — Nem para mim olhai Isto è da 
ffiaisf... (zangada) Repare, sr. conde que estou 
aqui, e que se n3o se porta methor irei quei- 
xar-ine á meáina. Já ô infelicidade mioha* aem 
ao menos me faliam de amor aquelles que tem 
Obrigação disso... 

CoNdê qépttéte)—E' melhor telhado moa parti- 
do; (alte) Bstás «oito boaíta, Paulina- (éparté) 



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Ainda não linha rapando bem nfella, é eacaatado- 
ral... (aho) Paulina, sop pondo quesorços aman- 
tes, deve reinar entre nós uma confiança sem Um\+ 
tei. Dizime? tens oolro amante sem ser eu? Niò 
me enganes, que te podes arrepender. Eu d'sq«i 
a doa* horas deixarei de ser teu amante, mas pôs* 
ao ser sempre teu amigo. 

Paulina— O ar* «ode é .lio boi pessoa, que 
seria mal feito eogeoata. Maçantes, que *to res- 
ponda, o qoe .entende o sr. conde por amante 
Um que nos ama, ou um qoe nós amenos? 

Conde — Um que nos ama. 

Paulina— Eotlò nio tenho nenhum» Porquê; só 
eo penso n'elle, elH alo pensa em mim. NSo soo 
rica» e por mo -me despresam. 

Conde (aparte)— E' modesta 6 eogiàfads. fal- 
to) Dize-me a quem «nas mais, avesse r^pac ou 
a mim? 

Paulwà— Eu, senhor*... Cite é ignorante* e v. 
ex. A é inteiligeote*.. è rústico, e v« ex. a cortesão* 
cheira a cebola, o v. ex.* a jasmim e violetas^, 
porém se elie dissesse que me tinha amor seria 
a mulher mais feJrz d'este mundo. 

Cokde— Pofcre rapariga. (dparte\ Assim Lniza 
pensasse a meu respeito^ ■ 

Paulina-- V. ex. A zangou-se por eu Jhe díeéf o 
qoe sentia? 

Coram— E' moito desagradável para mim» o 
gostares dentro. 

Paulina— Afflige muito não é verdade? V.e*.* 
sabe-o por experiência, v. ex. a qoe ama tanto a 
menina Luiza, está agora longe d'ella. Custame 
muito o tel-o escolhido, e estou arrependida, por 
qoe não gosto de fazer padecer ninguém. Se v. 
ex.* quer eo reti?o*me, restftoo*the a Uberdade. 

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Conde— NâlQ^ tuíífiaeíretós. que se ioterasísam 
por ti, e já que*ne r déste a preferencia, sou obri* 
gado a proteger- te, e a assegurar o teu futuro, 
Se/nio se mudar a iadiflfereoça d^quelle que 
amas* esòDlhe-se outro, e copo és?bonita nâo.te 
faltarão adoradores, começando por mim. e para 
t'o provar dá cá um abraços, (abraça-a). . 

Paulina— Então;ijue faz, sr. oande? 

Conde— Desempenhar o papel que me distri- 
buíram. ; » '. f 

PAtJLiNA-— E eu tão simplória que me deixo 
abraçar. 

< Gôííde (repafmdo em Batnabé);^-Q*m és tu? 
■ ■• »?> •• SGENATIH .-,;■. 

OS MESMOS, ONOTRtíe BARNABÉ 

BAiSABÉt— Perdoe, v. ex>! 

. P*uuna (ápmrtéjfi-E' rBarntbéf ... 

Conde — O que queres? 

Onoíre— Este ráj»z é' Ba*aabé Pires,; rendeiro 
do sr. barão. Deseja fallar com v. ex.V sobre o 
arrendamento. da propriedade do Nogueira I, que 
moita conta lbe fazia. E' muito bom rapaz, e 
atrevo-me a recommendal-o a v. ex.* 

fMjuofk-^E' verdade é muito bom rapaz, e 
atrevo-me a recommendal-o av. ex.* 
' Conde— Comprebendo,..iBteressas-te por elle... 

Barnabé (aparte)— Será minha a propriedade 

Conde— Porem, sr. Oacíre* antes de tudo que- 
ria mandar uma carta ao meu tabellião. 

Onofbe (aparte a Barnabé) -£• Para que faça 
a escriptora arrendamento* (alto) No pavilhão 
encontrará v. ex. a tudo que deseja. 
" Conde— IVfei to beto; entremos (entra mo pavi- 
lhão tom Onofre), 

Barnabé (aparte) — Estou pasmado!... A ifh 



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— II — 

fluência que Paulina tem sobre a conde... eeomo 
elle a olhava... (alto) Paulina, que te diria o sr. 
conde quando eu cheguei? 

Paulina— Dizia-me que sou bonita, elegante;*. 

Barnabí: (rindo)*— Ah! ahlahí «luacredUasfl... 
Umrfidalgof.w I •..•*.■ * 

Paulina — E' que os fidalgos vêem mais que 
os rústicos. 

Barnabé— Que mau gosta tem o sr. coàdeh 

Paulina (aparte)— Que estúpido! 

Baknabé— Ah! já me esquecia. Tomei o teu 
coaselbo. Caso-me. 
. Paulina (sobr esaltada)^-Com quem? 

Barnabé— Com Antónia- Kncontrefone ir pou- 
co em casa da tia Rita, com a mâe d^Antonia, € 
disse-me que bavia mui tos pretendentes^ mão da 
filha, o que foi para mim um raio de luz, . : • 

Paulina— Declaraste-le? •* 

Barnabé^-Nq mesrpo instante, e a tia Rita di*> 
se-me que a filha seria nimba, logo que o sr. 
Conde me arrende a propriedade do Nogueira!. 
- Paulina— Oh! meu Deus (á parte) Casar-se 
com outra! -. . . rú 

Barnabé— Ahi vem o sr. Conde (saem do pa- 
vilhão o Conde eOnoíre) \*'\ y-f. 

Onofre — V. ex.* é que paga os caprichos dà 
menina, quinhentos mil réis A» dote a es&a pobre 
rapariga. Não lhe faltario noivos. (Entra André.) 

Conde— Calle-se... Dê esta carta aa. tabel- 
ião. /' ' í 

André— Ás ordens dè V; ex.* ($ae.) 

Conde— Venha cá Bárnabé, * fallemos... 

Paulina (ao ffondej-^Entãodeix almeja, sen- 
do meu amante?! 

Conde— Por um momento. ' 



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— « — 

Paulina— Antes d*isso quero dar doas pala- 
vras a v, ex.\ \ 

Conde— Estou ás toas ordens, dfce lá a que 
queres. 

Paulina.— Quero— (peta Rarnabé >e &mfr& 9 
que se affastam) Deixem-nos sós..*' V* ex.* k 
mm amante» i>âo è? Pois os aipaales de^em obe- 
decer. Essa propriedade, que Barnabé pediu a *. 
exi* Ibe arrendasse..,^ necessário que.,. 

Conde— Não tq éé cuiOfedo, a propriedade Jsc- 
ri'<Pelto» • 

Paulina— Ao contrario, é necessário que V. «•* 
lha negue. Assim o <|eetú 

Conde — Isso é outra cousa (olhando para Bar- 
nab4) Pobre rapaz, enw que jtolgava que era alie... 
fiuafdataffaei para outro. Más com uma condição^ 
Ao meio s dia em ponto hades-me esperar, no bôa* 
que junto ao rio. (á parte) Quero ser o primeiro 
a annuflciar^lbe o que faço por ella. ^àtie) Teiiho 
que ^drxer-te... Em lavor do outío. Não te esque- 
ças» ao meio dia. 

^aíjlina— Bemy íiâo faltarei (em alta wz, olhan- 
do para Barnabé) Adeus, sr. Conde, não me faça 
eapertr. 

Conmg— Ande, Barnabé (mtra no pavilhão) 
Bamabl segue-ó) -. • 

Barnabé— Ati vo* «r. Conde (d parte) Parece* 
mt qaft vou gostando um pffuco de Paulina. 

Paulina— Se Antónia tasar com eite, não será 
por causa da herdade do Nogueiral. 
fiCENA IX 
Onofre e Pauuna 
- Onofre (d parte) Que magnifico dotei Eo Voa 
um rústico mas não deixava de toe fazer conta, e 
depois, ella não sabe nada T e sendo efu o primeiro 



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— 4S — 

pretendente... Nada perca eifr experimentar. Otite) 
Paulininha? 

Pauuna—O maWic&H vtpmpÈ&er zaafAn. 

Onofre— Paulininha, sabes quanto me iolèrMÍe 
por li, «i-te nasceb, e $empf e te tenho qutòrido 
muito. { ^y 

Paxjuna— A mim! EaiSé omito o tem dissimu- 
lado, sempre chamando-me tola. esUipWa^v 

Onotoe— Ifsa é brincadpira (peganfaih* na 
mêo) Anda para aqui, qoé nfio quero que- s# pa- 
vilhão ouçam o que se diz. (falla-lhe ao úwrifo) 

ftautiNA— (rw^Teiq gPJfiH... &aarooi&ègo... 
eol um» pobre; rapárigstw •« 

^OnctruE-^Naocà é pobre unia raparia boiife, 
ra tfotaeè 4 nrafe porqi^^Qéà^ifio tmta r*p*- 
rado D'essa hnda carinha. Então que dize*t*> 

'Paulina — VeraAoá/flftr;digo, nem que sim 
nem que n**«^ecipkf)f6xJfe d'esm átoor. 
- Qhckrê (<tj<ieUumdú)-*kaa)-te por ferotobotira. 

Bàrnabé (entrando) — Outro mouro na cosftil; 

ONDFBK^-Máléteto MntftiadorJ *t«è ootrâúdo) 
SCENAX / •» 1^ 

>RADLir«4—- Oatr*i^z par aqei? ..•* . ; •* 

Barnabé— (de mau humor) Por algm*a<ftrto 
havia de passar**: j i ^ * 

ÍIÀUSINA— EMES ípilgWl^ : 

iBàRKABã^Sft te patafB que uioitenho mtâflfc 
O €oBde> panfce qaa alo ai|bei fritar sea5(* dl 
ti» acfaa-te liada* «^legwU;.. e negouma a Cru». 

Paulina tr-Negacbé^ pobre rapa*! (áp&ltyv 
muito obediente d AHMONQte emprestados 
Barnabé.— E quando venhocurtar-ftOB! 



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_ U — 

desgpstoft, encootro-te a nanpo^ar esse velbo mal* 
dito. '■ «í 

ííaulika.-kÊ porque aflo te arrenda a propHe- 
dróe? - • .H. ,. •• : .■ ?:. .« p : -u /O 

BAf^NABÊ.— NIo aae: quic «diaar 09 moti?o»4t 
Qae te dizia o Onofre? '- • 

Paulina.— Dizia... Bjoilir.iQQBda prowettéb a 
fazenda a outro? • o». \ .^«i .. o(:s! 

o Baanabé — Creio qbe nio, porque nt tltese 
cVeceniOB issoudepBnie*» .Eiilío quente dizia ^ 
Onofre. .* . -.* ,; .. • J 1 

Paulina— DissêKBM qoeTqdériè casar -coKilgo. 

BarnabÉ— (querendo, duavàar) Casar qoonigolau 

Mm tte não lhe -dósteí iiteoçã^ Aím veto* -tão 

<feHu,.:(trit pataèke pegar na nwo, aturado *niwi 

ilwdrí). .-.,. • - { "...1 . ' •• ■ fib-i-i .-. . ... i 

.-•< r : «•. /jSOHNA-.JUi V -- a* --«'l 

Pauuna, Aarnabé, e.ANDBK: 

; André— Para ai ;nada, e*» carias .ptra*:Paa- 

..fiâwiAfiátr-BOBi^ r«tiprte< (Abtfré 4*0) Gaitas 
para ti? De quem sçrãp> ; .i? . 

Paulina— N8o sei. \A to! r 

Barnabé— Cttin 'àfmtò fjfJÀ6*\jpga nas cartas 
e lê uma) «Minha amada Pauirda.» qae maJJes- 
crip^Obqro estala ( ^ .. V ^;.t ^ .• :>tf 

Paulina— Não acho... contumaz ; 'i . n-.J 

Barnabé— «Muito festMÇftquftceUs curlasikífcas 
tt acham com asau4e <|ee quodeaejo.^shi.alJrve 
pira te ^ecUrarljue Jfr aap.-tSe queres èfetòti 
puttpto.tiCtsar comtigfe/NfcKie encommodo 
mais, teu Matbeus. Forte tolo... (vendo as outras 
ttzftot), ^ Todos diaem p Mesmo « Jéronymó o 
Braz» o Camillo, J^oe imunidade de noivos!.^ 
{fffjptraarfo) Paalioa : i •;..- '' . . ..• '../ai 

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— 14 — 

pAULiNA^-(#Hipirfliirfo) ftanwbét^f partt) D v e8- 
ta vez declarai. * * / , 

Barnabé—^ quem pensas* escolher (d pdrfe) 
E o caso ó qoe a amol e» a Anteniar a quês» eu 
prometli... (^'meúMta). ; -- ; 

Paulhía— Meto dia, espen-meo meu manto 
no bosque. Adeus (doto a corre* , e Barnabá) 
quer detel*a). » . . r. n> 

Barnabé— Paulina, também eu lenho que te 
dizer. ■ o*i> .. ■ ' i/. ».> 

. . SOENA^XII. .». .- •* • 

Barnabí, depieiSiLmiA • «» i 

barnabé^(oé^?íiv!o parr 9&40fft*)<E to estSo 
janto*. i. ... r »•.: . * / k is, n*.' .>;.. 

Loba— (ewwwKto) Vistes passar* 10 Caole»' :, 

BABNABÉ-^stá namorauta Paulim^ ; : 

Luiza— Beáa saí, ó/uni fmsttesjpo;^ > 

B^RNABé— Passatempo!^, abraçar Rapariga* 

Luiza— Atraçsu-a. . •«/.-' ■■ : .h-m... t .i| .is ,/ .. 

BarnabjMCoaio .treta dois sStiictoéo,>s depoft 
dissd-me a ml» mesmo qw*eita^e&ií*ado**A 

Luísa— (sorrindo) .0 quefcBaa tipi pouco démJ 

Barnabé— Ria, ma^ierá^rô elie fte-qoskfter 
debatioo pòr causa de- Pailio»- ; u ;F i, .o; 

Luiza— Que me disaaf.u «aidoaeabo de €Oftr. 
ifeessr a meu pa*, que ó a ellé» aueleti /profiro. 
^BARNABÉ^Quamas «quer esse eèfifoorl 

iuizA— Uieahrtem^iwece^qalmu: i •* 

'•••ii 'Mil! » aíjEW^Kliidí-q fimirb :^: - 

.vi',.. .. Oe mesmos B» Coima > «M .uLiso-; 

&1ltom&~*(jt.' parte) *eu,paa>swtai a esigapa só 

por este preço, consentirá no casamento i* c~ .* 

Luiza— (d pafltua iBtsrmxbé) Véu-cwuteàtar 
como merece, (a/ío) Seja bem vindo sr. Conde, 
(commotwfa) Paliou a meu pae? 

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— 4» — 

GoNDB^C^ m /ãrt eas«> JNSa» iwbora. 

Luiza— (ri parte) Ainda bem, morreria de ver- 
gtrohp, >ser«tíft soufeaaaft que o tioba e^rolíndo. 
£a/4o) ^ #*-* P^ftcura afeiaem? S*rá Pauliaa? 

Conde— Acabo de mj| separa* dtaUa. 
■. , UmLA^xftrçattdo-M p&smir) Adfiwro aui- 
to<* atia doaiaiidade. Gomo se resignou a uma 
brincadeira, que sem duvida lhe batie ler iip 
«ícHtp) pano». 

Conde— Não tanto como v. ex.* pensa. Tento 
qae agradecer muifU>a/v, efe* pois foi ama brin- 
cadeira que iniiiti^tioâkEiavmiaha vida. Cada 
xttto tem *>a ftfi^taprkbofi- Vi que jamais caqse- 
goiria agradar a v. ex/. Não a culpo, o amor é 
cego, Sc» J qera eai dissera {tourão cooteoplar 
essa pobre, jaidineira.., que é eoemtadar*. 

BAmABÈ*™(9ÊÊ$pir(md0} 6 vírdade* 

6o^raett*Qor mtíbor eleição padia eiv laser?, 
joven, formosa, sensível, tão taça* tio graciosa. 
Scniò eedefoitati fanada soSrar quakn *a**a... 

-Ettítkró-((íA«ra«b) £ vetdade, não bi w 
mprio rapariga tt^ls! betlu.n . 

. Liuth^O st*. Gotdé am*«tf 

Conde— Não julgo v. ex.* aoi^ireéto de saber 
. «segredes do aawp coraçia, - 
«nBwxjà^Bu adíinho-ds*) et n^&qorantireFstgii- 
lbante efitaBâato em casa- d* ma» •pat^Itodaiu ex* 
amar qotwquisqn potóp arquaôew» é voiíanpela 
sorte d'uma pobiai rafrtttiga; confiada á nossa 
guarda. Eu cemprêhamdíí^o^ desmaios de v. ex/. 
•' G<aqfe-~5ngaa*>s* y.. iffc.fr alminha inteoflo 
é casar «om eHa* r. ';,• .*•:,» 

Lfflz*-*iPire<* incrêftl. |*<w^ 



y Google 



-*7 — 

S€ENA XIV 
O Conde, Paulina e Barna^ 

Paulina (entr<mdo)~Aqn\ estoo, Qoaudo é o 
casamento? , . -. 

Conde —Espera-me aqui, que eo já venho ($00) 

Paulina — Porque choras Baroabé ? Quem te tm 
mal? 

Babnabè— E aioda m'o pregUMas, ingrata (cot* 
primentando-à) Senhora condessa... 

Paulina— Sen bora condessa ! Cem qnfcffl falias? 

Baruabé— En b*m sei q*e ocoède easacom- 
tigo. ....... 

Paulina (com a&êgria) — Eostt rauthcr ,i. Será 
possível i 

Barnabé— Então não t'o disse- no tftsifM? 

Paulina— Dtese-roe qoe me ia caiar, mm bSo 
me disse com quem. Maf* nlote deacetisoles, dar* 
te-bei de arrendamento a herdade. 

Barnabé— Pira qoe a q«fero eof D?rfatbdas 
as herdades do lanado, para tiestnanehar tosse èa- 
zamenlo. Porque to amo mirilo. ■-.... 1 

Paulina (etonahÇrk)-*^ aflftS-níe?... Pdrqae 
nfo nlt> disseste ba mais teto po? ' • 

Babnabé — Porque n3o sabia que te amava, mâfc 
assim que te vi rodeada >%ê pertehdétttèS,'*pai- 
xoneMie lego. • :<•' -1 • « --a^: 

Paulina — Sempre fatiaste, mas faltaste tarfte. 

Bab*abà— Visi* qoé-rfio fe* rénrtdf*, '8d 4 me 
resta eoforcar-me. • \ *» * -* t 

SCENA ÍJLttMA ""^ 

Os mesmos, Luiza, e depois o Coh*#- ■• ' 

Luiza fá partej-fisteu áesesperááâ f "meu bae 
diase-me que eo é qoe tioba a culpa, {dito a mu- 
Una) Estás nitiilo contente com o teu triumplvo? 

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— tê **- 

Paulina (com embMr<WQ)-+Meu Deus ! V. ex. a 
está zaoga&u*. íOMs^Hirôo tenho-a eutpa. 

Luiza— À toa ctmdnota iòi redigo**, nío le «digo 
isto porque me importe com a mão do conde, 
*ejo que tem sentimentos <mo»ta baixDs. Agora o 
teu precedinseirt© -é *foe mo tem jia^fkiafiãa. 

Paulina— Bem sei que me portei mal.., V. «.* 
aém'0*tinba emprestado. 

Bárnabé— Ahl minha senhora quem se lembra 
tl'empneetar estas cousas !... 

Paulina-— £u (tevía-íh'0 restituir coeso jne £um- 
pria, mas elle Dão quer. 

buizA-HNfto qoecl Qtm Paaline, *u alo gosto 
do conde, desprezo-o. 

BAaifAflÈ^-Tambem e». 

LoiaA— Agora ío que .não posso softw é que 
me ultoaje d'*sta maneira. 

Barnabé— lm> é «ma infâmia, 

íLviza — Também ma queria vingar d>eAle, Oteu 
futuro cerre por miaha .couta. Dsotar-teijhei» casar 
rás com quem quiseres, se consentires em decla- 
rar deante de meu pae, e da todo* os ooq>ida4os 
que não queres caiar «om o aonde, que amas ou- 
tro. 

Babnabé— Issp mesma. 

Luiza — Seja a quem fôr, isso «io me im- 
porta. 

Baenabé— A mim, por exemplo, (o conde, up* 
parece ao fundo) 

Paulina— Eu, a dizer a vaidade, bem conheço 
que nSo estou namorada d'élle... porque gosto 
tfoutrW"' * *• 

Luiza— Então sendo aaaii»... 

Pf ^lusA— N5o queria affligir o ar. oond*, que 
à tao amável. JE de mais a v~ ex.* pouco ibe dwe 

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-19 — 
importar qoe eu caze com elle, visto que o nio 
ama. 

Luiza— E se eu o amasse?... 

Paulina— Então, renunciava. . . 

Luiza — Pois bem, atada u amo. 

Conde (lançando-$$ aos pés de Luiza) — Soa o 
mais feliz dos homens. 

Luiza — Estava eseoodido... 

CONDE — Sim querida iLuiza. Taflo iito foi uma 
ficçlo. Foi todo feita de combinação com tfio pae. 

Luiza— Ah! como voo ralhar com elle, e ao 
mesmo tempo abraçai o. 

PAUUtHA-4tólâo^wattau-tee, 'fefeo ttfflante I 

Conde— Não aúAaffltU.JRépeseDtei até ao fim 
o meu papel. Acabam de terminar as duas horas. 

Paulina — Pois com «oito gosto lhe restituo o 
seu amante, porqae tenho estado com muita pena 
do meu poto£aiiiftaMfeE»8* «lie *ae quer, ainda 
que pobre. 

BAHNUriK-Atndfl qm eittaeftsafittrpeAir esmola. 

Conde— Eq me encarrego do dote. 

Luiza— JE eu sen* sua madrwba. 

Conde— E em quanto á propriedade... (a Pau- 
lina) Tu 6 que di$põw iTella. 

Paulina (a Barnabé)—NS(o feldisse que te daria 
a fazenda. 

Luiza— Não te fltttéè' ntà com o amante em- 
prestado. 

Paulina — Melhor me irá com um marido de 
propriedade. 

(Cae o pano) 



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NO PRELO 

CONTOS SEM POESIA 



NARRATIVAS, CONTOS, LENDAS, 
TRAWCÇÕRS, ETC. 



■»!•*• Some Seronaênfe» 

(Condecorado com a medalha ao mérito) 

Um volume nitidamente impresso 

Preço 500 rs. 

Reçtbem-se assinaturas 



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■-amor e Interesse 

COMEDIA EM UM ACTO t 

POR ' 

DIOGO JOSÉ.SEROMÊNHO 



, Condecorado com a medalha ao mérito, 
Sócio honorário do Grémio Litterario porttigueí 
do Pará, da Associação dos Jornalistas e 
Ebcriptores, .etc. 

Representada com applauso nç tkeatro Camões 



D. J- s- 



TMEATRO CONT£M*OKANE0 ."'. 
3FTT2TI>.A.:DO EM 1869 

DIOGO SEBOMÊNHO-EDITOB 
Escbiptowo da Empreza, Rua Nova do Almada, 24, S,* 

LISBOA -1883 



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PERSONAGENS 

Ameúá— Jayme— Pedro— Jorge 
Actualidade 

< — — •- : ^ « 

ACTO UNiCO 

Sala mobilada tom elegância. Portas ao fundo e Internes ^dan- 
do d do fundo para outra sala, também mobilada com ele* 
gancia. 

SCENA I 

Pedro e Jorge 

pedro— Sao estas horas e ainda o sr. administrador não 
appare?eu. K' incrível que a senhora o aturo. E o caso é 
que só elle é que mandai 

jorge— (entrando) Aonde está a senhora? Não veio nin- 
guém? 

pedro— Bem sahe que ninguém procura esta casa! 

jorge — Appoiado, emauantoeu fòr do numero dos vivos 
ninguém aqui "virá ; e tique sabendo amigo Pedro, que se 
alguém procurar a senhora, ponha-o logo no olho da rua. 

pedro— E se for algum parente ? 

jorge— Só ha um sobrinho, Jayme d'Ornellas, que vive 
no Porto, e que recebe uma mezada. Se elle vier não ha 
remédio senão recebei -o. - ' 

pedro— E' então o seu herdeiro? 

jorge— E'. . - se a tia não casar. 

pedro— Câsar-se!.". . Uma senhora tão religiosa, que não 
vô homem algum a não ser o sr., e eu. . . nao acredito! 

jorge — As mulheres são caprichosas, como diz Stael. .. 
Ora imagine que o meu amigo, como seu cueado Antigo, 
que a conheceu creánça, lhe diz que ha um homem que lhe 
convém e que está apaixonado por cila. . ., ; 

pedro— Aposto que é o ár!?. 

jorge— Adivinhou. . . 



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— 3- 

SCENA n f 

Os Mesmos e Jayme 

jàyme— (entrando) Muito bons dias. 

jorge— (ápartej Alerta t 

jàyme— E* aqui a morada da sr.* D. Àmelia d'Ornellas f 
Sou seu sobrinho e procuro-a para a abraçar, (aparte). K 
agarrar- lhe algum dinheiro. 

jorge— (aparte) Os diabos te levem f (alto) Tenho mui- ; 
to gosto em o conhecer, sou o administrador de sua tia,. . 
ella ficará muito contente de o ver. 

jayme— (aparte) Isto tem o aspecto de um. convento, de- 
que minha tia seja a abbadessa. * 

jorge— Desculpe ter de me retirar. De caminho avisarei* 
sua tia. (me). 

SCENA m 

Jayme e Ped^io 

pedro— Ha muitos annos que não vô sua tia? \ 

jayme— Não tenho o gosto de a conhecer ; tenho vivida • 
sempre no Porto, apesar de em tadas as cartas me dizer 
que desejava ver-me. Diga-me, minha tia demorar-se-ha 
muito? Sinto-me fraco, nada comi no caminho de feiVo. ... ^ 

pedro— Terá de esperar para a hora da ceia; oito horas 
e meia. Ahi vem sua tia, 

jayme — Aquella de luto carregado? , ' «» 

pedro— Veste sempre assim. 

SCENA IV * 

Os mesmos e Amélia (entrando) 

pedro— Minha senhora, aqui tem .seu sobrinho, que aca- 
ba de chegar do Porto . . . (sae) 

ameua — Louvado seja Deusf 

jayme — (querendo ,abraçal-a) Adorada tia!... 

kMEu\—(fugiiido-lhe) Deus te abençoe. Estás um homemj 
Senta-te ao pé de mim. (Jayme scnta-se) Emquanto conver*. * 
*as vou fazendo meia. . . ouço o que tu me dizes, e vou 
trabalhando para os pobres. Então qual é o motivo da tua, 
visita? 



yGooQle 






fATME— E' que tenho *«pe<lir-H#. . . 

amelia— O que? 

jatme— Que me aconselhe... (aparte) Não sei o quedi^o. 

amelia— Um conselho ! E sabes se estou no caso de i*o 
dar? Até aos 21 annos estive n'.u\> cou vento, depois vim 
para aqui, aonde estou encerrada ua mesma maneira. Nâo 
tçnha espenencia do mundo: mas no «mianto dize. 
..jApiE-rfíro.jíí hypQcnsia) Em primeiro iogar agradeço-ího 
* minha mezada ... 

.amelia,-— Nào.ha logar para agradecimentos. E's o iyipu 
Unfco parente: Deus permitia que. gastes bem atua meznda. 

•JATME"— Perfeitamente, faço bem a todos que posso, {ápar* 
tejf. Pandega e mais pandega! (aho) Mas agora, se a procu- 
ro, ó por causa d'uma paixào. Estou louco, desejo única-, 
xnentechamar-lhç minha.. . 

'ÀtoELiX-^NãO' posso* ouvir essas confidencias.. . . 

jatme— làparti) Máo!. . . (alto) E&tá encadernada primo- 
rosamente... 

amelia— Não entendi?. -Falia claro; a qne te referes ?. . . 

jatme— A obra a que •me refiro é o Fios Sw.torum. do 
padre Diogo .do llosario. (áparje) Que gramie mentira! '(aí* 
to) E só custa' quarenta e cinco mil reis. (âv.-ne) Dez iou- 
raètrarVo/pãgúde? 

AÀéliÀ— E nàô tens algum dinheiro jnnio? 

íàtme— Dinheiro juatcfl O ultimo ficou-me no Dafundo. 
antes apontem. 

'Amelia— O que? 

jatme— (aparte) Lá disse asneira! falto) E' um estabele- 
cimento de caridade, que tenho grandes desejos de prote- 
ger, fundado por uma associação de senhoras que não teia 
que fazerí... (aparte) E' tolice grossa. 

amelia— Visto ser uma obra meritória vou buscar- te o 
dinheiro. 

jatme— Adorada tiaí. . 

• "> •• • 5 • SCENA V 

Çfs Mesmos e Jorge 

jouge— (entrando) Chego a tempo. Acabo de descobrir 
cousas bonitas! V. ex.* sabç quem é este homem? 

Xmelia— É' meu sobrinho, que veio para o auxiliar n'u- 
má obra meritória 1 : 



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~3 — 

jokge — Enão tem o sr. vergonha de enganar sua tia?Tu« 
tfo quanto seu sobrinho tem dito é falso; o que elle quer 
e dinheiro para partir para Madrid, com uma cantora do 
Colyceu. Tudo soube par esta carta que lhe caiu do sobre- 
tudo, quando o deixou numa cadeira pa casa 'íTentrada i 
Qrá queira ouvir, minha senhora. 

jayme— Quem q auciorisou a apoderar-se d 'ama carta 
que nào é para o sr.? 

jorge— O interesse que tenho por sua tia. Ora queira, ou- 
vir: «Querido Jayme': Desojo safar- me quanto antes; estou 
farta de cantar, -só quero gortin *a /adirias do amar, nos 
teus braços. Apanha dinheiro «i tua tia e passemos o pé. 
Tua, — Cármen.» .... 

1 Amélia— Meu Deus* que horror! V . . . • . \ •: 

jayme— (aparte j Tirou o diabo a manta, (alto) E' verda- 
de, gosto d'ella, preciso de din>hciro para ser feliz, eis a ver- 
dade. 

ameliv — Estás ppxdido*! ; ' 

jayme— Não me atrevia a dizer-lhe a verdade, por isso 
menti para nhíer o di.-iheiro quç preciso; mas «rtsto que tu- 
do se desço! -rif), .vou-me, esmera, e viva a pandega !.\ : 

AMELiA-— Tu nào s.aes d 'aqui-- . Sou tua tia^ .0 teu imico 
parente, e hei-de salvar-te u'èsse trilho errado em que tens ' 
andado mettido. ' • 

jayme— Nào, estmi rsolvido a ficar aqui n'esta casa, que 
mais parece um convento negro e austero. Aqui nào se pô- 
de amar, nào se pôde viver?... . 

amelia— Nào sahiras d aqui. senão (Jepois de teres juizo. 
(toe com Jorge, fechando a jwtuj. 

SGJENA VI 

Jayme, depois Pedro e Amélia - 

jayme — Só depois de ler juizo! Kntão nunca sahirei. Mas 
por força é que uào u>o aqui. E-íou fechado... em que me 
hei-de entreter? Jpegauda n^^ Urro} Vou \èr. (léndoj Ser- 
mão de S. Custodio, rnartyr. (h^a o linv). Bonita ."leitura! 
Estou a cair com somno. que Vera feito da minha gentil 
cantora? (adormece). . ' » 

amelia— (entrando) Pouca hulha, está dormindo í Talvez 
o offendesse. Paciência, heide cumprir a minha missão, * 
o caso é que sympalhiso verdadeiramente com elle... 



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— G — 

• 

pedro— Pois olle também a estima muito. E diga-me, ^ 
$r. a tem muito a peito que seu sobrinho não tenha vontade 
de sahir d 'aqui? 

: AMELU^-Immensa, não imaginas! 
, i>edro— Então para se não aborrecer, vamos tornar esta 
casa alegre e risonha, (tira as cobertas das cadeiras, acende 
luzes e pòe flores nas jarras que vae buscar á sala immedi- 
ata) * 

AMÉLIA— Está tudo muito alegre e risonho; se conseguis*, 
scmos conservai -o. . . 

peoro— Tenho a certeza d'isso. Agora â rosinha, arran- 
jar uma ceia expJeadida, e trate-o com carinho, com amor; . 
ç preciso que o ame. . . Para não se aborrecer só precisa' 
uma companheira. . . (aparte) Vencerei ? . . . (saem), 

SCENAYII ; 

Jayme e depois Pedro 

jayme— (acordando) Bonito,, emquanto dormia mudaram- 
ine de casa! Estarei sonhando? (toca a campainha) 

pedro — (entrando de casaca e gravata branca) V. ex. a cha- , 
moti? 

j\yme— Que quer dizer esta transformação? 

pedro— V. ex. â ' chegou tão precipitadamente. . . , 

jayme.— Então minha tia não é inimiga do fausto ? E eu 
co:o as luvas na algibeira f (calça-as) . 

penaò.— Agora se V. ex. a quer, sirvo a ceia. (vae fora e^ 
traz unia meza completamente servida) • 

jayme— Emquanto me tratarem assim, não me vou embo- 
ra. Que magnifica ceia ! Ô sr. administrador é que man- 
dou ? 

pedro— Isso sim, o' sr. administrador deseja administrar 
a fortuna de sua tia, por conta própria. 

i*xw,—(zanuado) Patife! E minha tia é muito rica? 

pedro— E' milionária. 

j vyme— (bebendo) Á saúde dos milhões x3a lia! 

pedmo— Vê como fcstá aqui bem?. . . Só o que lhe falta é 
Uma mulher. ' - 

jayme— K* verdade. .. 

p&pfloV-Mas "sna tia . . . 

j|rYMtí:-^(;om aquelle aspecto beato, afazer meia para os 
pobres'? E' d'tim ridículo!. . . 



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SCENA VIII 
Os Mesmos e Amélia 

AMELix—jeiegantemenle vestida) Se Jorge me procurar que 
espere. 

pedro— (a Jayme) E agora ainda é ridícula? 

jayme— (a Pedro) Adorável ! . . . % 

pedro— Parece-me que venci ! (me). 

jayme — Com franqueza a lia é ao mesmo tempo a dama 
moralista e austera e a belleza elegante! 

amelia— Sou a mesma, e segundo o que tu dizes ganhei 
com a mudança. Estavas já aborrecido? pois podes relicár- 
io, vae gosar os teus prazeres. Darfc-hei bastante dinheiro 
para satisfazeres todos os teus caprichos, (senta-se no sojihà) 

jayme — Vou-me já embora, (senf.a-se no sophá junio de 
Amelia) Ah! tia! (pega-lhe na nulo e beija-a) Que màosinba 
ue fada! E' encantadora ! 

SCÈXA ULTIMA 

Os Mesmos e Jorge 

jorge— (da poria) Que atrevimento! Felizmente cheguei 
a tempo. (Amelia volta-se de maneira que Jorge não lhe ré a 
cara) Retire-se d aqui e leve também essa cantora, que não 
devia profanar com o seu hálito peçonhento esta virtuosa 
casai E Deus queira que sua tia nada saiba. . . Se a*> me- 
nos essa cantora fosse uma mulher honrada, casava e... 

jayme — Pojs é isso mesmo que eu quero. 

jorge — Com esta senhora? 

jayme — Com esta senhora, a quem amo com idolatria, 

jorge— (áparie) E assim' vejo-me livre d'elle. (alto) Es- 
tá dito, approvo o casamento com procuração de sua lia. 

JAYME — (mostrando- lhe Amelia. que se volta para elle) En- 
tão abra os olhos ! E como cá em casa nào quero quem 
mande mais do que eu e minha esposa, está despedido. 
i jorge — Fui vencido. 

amelia— Tem graça í - . . os nossos filhos serão teus pri- 
l»os I . . . 



Cae o Panno 



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li 



UMaíuAEQSTA 

/.íft-.i.i .:•! 

POR 

OOIKU OTOA , 

DIOGO JOSÉ SEROMENHO 

4 i -■ i 4- íj»I o M'í;*jí • . • ..'4 .;»...-• . - 

.•. .1. ;i 

Condecorado com a nfedtóHíid? mérito, Sócio honorário 
do Grémio LitterarioPortuguez noPará, etc. 

--■''. ' ••' .< ''•»!<! '!>"• M "«uiíi. / :?'•/. '* 
• . -:•:••} ; \ "■•*> "!•«.!.! --iii!». . ii. £.)') •„ í !• is 
Representada com gera^^laps^ ftimWtyHlMfW-' 4 
• \iiifjj. in-i Mivtlji u ..a ■• ,/j ,!Íu »T .; /.• i 

-" U .•/!*> TíSÍL 1 •!•■■ ,j :»•• •! -i 'í"A «••Si../:' * 

. • .. 1 1j»ai-»<| . j* u •. .'1 u. ;., .. Í.5IÍM *. 

.KjímÍ ^Íl." ] jj^r--- " , irT t " l! w '"í- 

!, 'H ! " : É ,; b /Mi' 1 '' 1 ' '"' ! 

\* •1i*rIlT>Ílí ><-h '•••'*! '» •' 

EDITOR 




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. , ' . —2— 



Enm«, «lalio, Bernardo, Carneiro 

ACTUALIDAÍiB^írtJMl QÍJI^f À : Í>©S AfRREDORES 
* • DE LISBOA 

• « ACTO UNIDO 

Sala elegante. Porta ao fundo e lateraes. Ao fundo um 
formoso jardim. 

'.i. -^k -.,*■. «TOM- 

Emittft e Carneiro 

Carneiro. Vamos filha é preciso decidires-te; já estás 
em edade de casar, apresento-te dois pretendentes para es- 
colbefes, e^âlíelfe&o melhor. - 

Emma. Tenho cá o meu ideal) em quanto não o encon- 
trar não càzo. 

Carneiro. Is t so é poesia, quer dizer creaucissa. 

Emma. Descreva-me lá os meus pretendentes. 
- Carneiro. Olha o primeiro é o sr. Bernardo, muito ri- 
co, esteve mu.to*^aimo&.«»ln^lat8rja, é um typo muito 
correcto, baixoTf&rdOjjpuito ruivo «Urrado. 

Emma. Um \ pko. VltaQlafrUutro^ 

Carneiro. oÃrfr-és*?n b Jnl i# y ^roprietario, vinte o 
cinco annos, muito alegre e devertido, alto, magro, e tri- 
gueiro. 

Emma. Mas o meu ideal é louro. 

Carneiro. Ha um mez me disseste o contrario, gosta- 
vas mais dos trigueiros. 

Emma. Em/m, ffwdflidepaceceiU-.. 

Carneiro. írsr M^loTÍca, mas òM-%fe te deves ir ves- 
tir mais chie, $titqjM os' teus pretendentes não tardam 
ahi. T j 

Emma. Que aborfggipaAfti fafj 



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— 3 — 

SCENA II 

Curaefcr» (bó) 

E* um anjo esu minha filha, muito feiii deve «ero roa,- 
rido. Mas o difícil é que não se resolve a escolher o dito- 
so mortal. 

/ SCENA III 

Cmeiro, 4 alto e BerMtrtfo (que apparecftn 
aporta) 

Bernardo. Posso entrar? 

Júlio. Posso entrar? 

Carneiro. Entrem senhores, e sentem-s* . (tira-llm os 
chapéus.) .1 

julio. (sentando-sé) Muiio obrigado. ,^ 

Bernardo, (sentando-se) Com, licença. ^ 

•" Julio. Ora aqui me tem, vim logo assim que recebi a 
sua carta. Muitas recoramendaçoes do meii tia Aflonjo, 
Elle disse-me que já era tempo de eu ter juizo, de acabar 
com a extravagância. Porque eu tenho um génio muito 
folgazão, muito pandego. E sua filha nao apparece, $ttoa 
morrendo d'impaciencía por contemplar esse agregado de 
primorosos encantos, (tirando uma ihotographtn da algi- 
beira.) Aqui está o seu retrato, desde que o m$u amigo 
m'o enviou nunca mais me separei d'ellel 

Carneiro. Pois se me dão licença vou avisar minha fi- 
lha da sua checai: 
. Bernardo. Não se incommode. 

Julio. Sim, desejava vel-a quanto antes. 

Carneiro. Então com licença, (sae.) • 

SCENA IV.- . • -! V 
#ulft* e Bernardo . 

Julio. (aparte) Já voa embirrando com este homens E* 



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— 4_ 

a minha sombra! Meto-me em Santarém no comboi, e 
encontro logo este figurlo, que dorante toda a viagem nào 
oi capaz de dar ama palavra, veiu sempre a dormir. Eu 
não sou fallador, mas aboivee^nt a gente callada... Che- 
ÇO ao hotel Pelicano, lavo-me, peço d'almoçar, dirijo-me 
«casa de jantar, * ao seAtar-me á mesa deu com este fi- 
fttrSo sentado a almoçar, acabo de comer, pego do chafcéo 
e saio, elle que sae logo atraz de mim, e quandb suia 
esta escada elle atrás de mim, bato á porta abrem,- e elle 
entra também, irra é o meu cabiion. 

Bernardo, (aparte) Faftla sôsinhoí Seri matocoí 

Juuo. Senhor já estou farto de ser seguido pele sr. Sai- 
ba que venho aqui para me «asar. 

Bernardo. E eu também. 

Juuo. E desconfio que a noiva é só uma. 

Bernardo. E eu também. 

Júlio, (tirando o retrato) Aqui está o seu retrato. 

Bernardo, (tirando um retrato) Aqui está o seu fé^ra- 
to. (trocam os retratos.) Dé-me licença. É a mesma! 

Juuo E* a mesma! N"este caso creio que nenhum de 
Afa cederá. 

Bernardo. Eu nio cedo. 

Julío. Nem eu. 

fe rn ardo. lias' cuidado commigo que tenho muito máo 
£èmo. ' 

Jtjlio. Também eu. 

Bernardo. Que sou muito bruto. 

Júlio. Também eu. 

Bernardo. Deixemo-nos por hora 4c (Jueslôe. Examine- 
mos o caso. Ambos viemos para casar com a mesma mulher. 
E não me convém que seja ella que escolha. Por isso só 
temos um meio, 

Júlio. Váe propor-me algum duelo previno-o que tôo 
posso aceitar. 

Bebnardo. Porque ? ** 

Juuo. Porque sou membro da associação pttrtectora da 
humanidade, tetfdò por isso' de conservar a minha yida. 

Bernarpo. E' entãQ uma sociedade de valentões. 
* • Jtouo. Duvida ? Deíte-se ão tio e Yera como o salvo. 



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Bernardo. Muito obrigado. Não gosto de banhos. Mas 
não é essa a questão. E' percizo que um de nós ceda o 
campo. 

Juno. A pequena, é para mim. 
. Bernardo. Ou para mim. 

Júlio. Vou propor-lhe uma concordata. 

Bernardo. Diga. 

Júlio.- Fazemos uma aposta, o que perder perde a pe- 
quena. 

Bernardo. Qual ô aposta? 

Jráio. A aposta é a seguinte. Nem eu fallo diante do 
ar., nem o sr. diante de mim; 

Bernardo. Aceito; eu áou capaz de estar um mez sem 
faliar. 
k Juuo. Eu o faiei faliar. 

Bernardo. Duvido. - 

Juuo. Veremos. " 

Bernardo. Não tem que duvidar. " 

Juuo. Ah! ella ahi vem, para não lhe criar dificulda- 
des^ deixo-o só t (Sáe.) 

..SCENAV 

Bernardo, Carneiro e Brnna 

Carneiro, (entrando.) Então está só! 

Bernardo E' verdade 

Carneiro. Minha filha, tenho a honra de te apresentar o 
sr. Bernardo' da Silveira. 

Bernardo. Minha senhora, tenho muito prazer em tra- 
var conhecimento com y.* ex.' (aparte.) E' muito boa, 
muito chie. 

Emma. (comprimentando-o.) Tenha a bondade de se sen- 
tar. - 

Carneiro. Então o outro cavalheiro sahio, pois vou ao 
seu encentro. (a Emma.) Faze as honras da caza a este 
sr. (sáe) 



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SCENAVÍ 
Emma c Bernardo 

Bernardo. V.* ex.' sabe sem duvida o motivo da minha 
vizita" 

Emma. Sei. ' 

Bernardo. Pois muito bem minha senhora pela minha 
parte, com certesa não haverá duvida. 

Emma. Duvida, em que ? ' 

Bernardo. Emcazarmos. 

Emma. Devagar senhor, meu pie aQrma que eu esto» 
em edade de cazar, &eu penso exactamente o contrario. 
Propoz-me um dos senhores para meu marido, conforme 
a minha livre escolha. Por isso eu é que heide decidir. 

Bernardo. Mas decida. 

Emma. Não tenho pressa, ainda não os conheço bem* 
De mais a mais o sr. falla-me com um modo, com uma 
superioridade, que nada authoriza. 

Bernardo. Tem razão, (cahindo de joelhos.) Vel a e 
amal-a foi obra d' um momento. 

Emma. (rindo.) Tem graça. (Júlio aparece ao fundo) 

Bernasdo. (vendo Júlio, á parte) Cá eítio maldito. 
Safo-me. (sahe rapidamente.) 

Emma. Mas... (admir<(da) E foi-se embora I (reparando 
em Júlio , á parte.) Agora o outro ! 

SCENA VII ' 

Emma, e «Jalio 

Júlio. Minha senhora, a cazualidade fez com que eu a» 
visse, antes que seu papá me appresentasse, por isso me 
apresento eu: sou Júlio de Mello, pertendente á sua mão» 
e namorado da sua gentil beileza. 

EMMA.Senhor. 

Júlio. E aproveito a feliz casualidade, de poder /aí/ar- 



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— 7 — 

lhe sem testimunhas, para lhe dizer tu9o quanto sinto. 
▼.* ex." não me conhece bem. 

Emma. Nem bem, nem mal. 

Jclio. A pouco e pouco me irá conhecendo. Eu soa - 
homem de ffmcas palavras. seu papá propôz-me como 
candidato á pussuidor d'essa màosinha de neve, d'essa 
mSosinha ideal. Mandou- me } seu encantador retrato, /< 
que eu trago sempre aqui junto ao mea coração. (Bernar- 
do aparece e desaparece oltçinadamtnte, á parte.) Lá está 
o nosso amigo. 

Emma. E qu$ mais. (p^uza.) , ,. . ; 

Júlio. Jure-te que me hás de pagar. 

Emma. Está encomjnodado ? Caí I ou -se de repente 1 (Mio 
fáz signal que não.) P?ra onde está olhando ? (Bêrnçpdo 
esconde- se.) 

Júlio, Estava pensando. 

Emma. Veja lá se está ipcommodado. Quer uma cb^^ena 
de chá? 

Júlio. Muito obrigado, é que . 

Emma. (á parte.) Estará doido? Está convulso,, atrapa- 
lhado, perdeu a côr ! 

Juuo. V.' ex*não deye estranhar. . . (Bernarda aparece.) 

Emma. (vendo que Mio não falia* á parte) Outra vez í 
(Bernardo escondç-se.) , 

Júlio. Dizia "eu que V.* ex/ nao deve extranhar, a mi- 
nha perturbação, é uma prova do meu amor e. . . (aptrt? 
ce Bernardo) ^ 

Emma. Adivinho o que vae dizer-me, que essa pertuha- 
çâo é Olha do amor que me consagra, não é verdade., Qu- 
ito diz que sim cem a cabeça) Que desde que vio o aiea 
retrato ficou louco por mim. (Mio diz que sim com a ca- 
beça) Então está mudo ) (Mio diz que nao.) 

Juno. (á parte) Se não fallo rebento. 

Emma. (á parte) Está doido não tem que ver. E que 
olhares me deita ! Nem me atrevo a gritar. Sr., tenho a 
onde ir, (levánta-se e vê Bernardo) Ah !o sr. entre, entre. - 
(Bernardo entra) Vem do jardim ? (Bernardo diz qm sim 
com a cabeça, á parte a Bernardo) Ah f meu Deus, estava 
com medo d'elle, é um doido f 



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— 8 — 

Júlio, (aparte.) Não faltarei, apezar de.se estar dever * 

tindo á minha casta. 

/Ovx. Emma. (á parte a Bernardo-) Então passeiou jáuifo ? 

^ (Bernardo diz que sim com a cabeça.)\\o o jardim? E o 

&v?(a Júlio ãizaue simporsignal.) Mais diga alguma couza 

(aBernardo.) Falle. (Aparte.) Meu Deus ! Também este! 

; (Ambos lhe estendem a mio, ella dá um grito e foge.) Ah! 

; aif ai! 

SCENA VIII 
«lulio, Bernardo e depois Carneiro 

Júlio, (á parte.) Parece-me cjae isto vae acabar triste. 

Carneiro, (entrando, a Mio.) Graças a Deus que o en- 
contro. Estão de pé ) (Mio e Bernardo voltam as costas 
* dirigem-se para a porta.) 

Carneiro, (aparte?) Isto é uma grosseria, e logo os 
dois I (agarra cada um por seu braço, e trd-os á scena.) 
Senhores hão-de-me explicar o seu procedimento. 

Júlio, (á parte.) Isto está bonito i 

Bernardo, (á parte.) Isto hade ser bom t 
v Carneiro. Não mereço tal disconsideração. Saem quando 
eu entro (Mio e Bernardo durante esta falia, dizem sem- 
pre por signaes, sim ou não.) Qual o motivo ? Apposto 
que minha 6lha lhes fez alguma desconsideração ? Tratou- 
. os mal ? Não gostou dossrs.! é ainda muito criança, mas 
fará a felicidade do homem que casar com ella. Espero que 
não se retirem, esta quinta é muito bonita, e os seus 
quartos estão preparados. 

Júlio, (aparte.) Se me podesse safar. 

Emma. (aentra chamando.) Papá? 

Carneiro. Estou aqui! 



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' — 9 — 

SCENAIX 
Os mesmos e Emana 

Emma. (entrando, baixo a Carneiro.) papá está s4 co m 
elles f 

Carneiro. Então o ,que tem isso ? 

Emma. São dois doidos. 

Carneiro. Explica-te. 

Emma. Estão a fallar e no meio da conversa, param o 
ficam mudos. 

Carneiro. mesmo aconteceu commigo ! Isto não é na- 
tural I 

Juno. (á parte.) Se me safo, fica o outro. 

Bernardo, (á parte.)Se o meu rival, se fosse embora. 

Emma. (a Carneiro.) Falle com elles a ver. 

Carneiro. Diga-me cá, gostam ao almoço de ovos fritos? 
(Júlio e Bernardo dizem com a cabeça sim.) E de café com 
leite (p mesmo.) E de assorda ? (o mesmo.) Se não querem 
fallar não fatiem, eu não os obrigo (a Emma.) Talvez se- 
parando-os. Olha íeva o Bernardo para o jardim, que eu 
fico aqui com o outro. 

Emma. (a Carneiro ) Está dito. (alto.) sr. Bernardo 
quer dár uma volta pelo jardim? (Bernardo diz com a 
cabeça que sim eoffereçeo braço a Emma que o aceita com 
receio inhindo pelo fundo. Carneiro agarra se ao braço de 
Mio.) 

SCENA £ 

Júlio e Carneiro 

Carneiro. Desejo preguntar-lhe. 
Júlio. Não lhe posso responder. Fas-me nm favor? 
Carneiro. O que quizer. 

Júlio. Pois bem, vá immediatamante chamar o sugeito 
que-d'aqui sahio, que lhe precizo fallar. 



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— 10 —> 

Carneiro, (á parte.) Estou com medo d'elle (alto.) N'um 
instante venho aqui comelle. 

Júlio. Que venha só. Percizo fallar-lhe sem testimunhas. 
Oatro favor. 

Carneiro. O que quizer. 

Júlio. Traga-me papel, penas e tinta. 

Carneiro, (á parte.) Estou tem arranjado, meido com 
um doido, (alto.) Vou buscar o que me pede (sáe) 

Júlio. Muito desgraçados devem ser os mudos de nas- 1 
cença t Não tenho paciência para continuar com esta fol- 
ia apposta. 

Carneiro, (entrando.) Aqui está tinta, pena, e papel. 
(colloca em cima da secretana, e sáe correndo.) 

SCENAXI 
«falto e depote Emma 

Júlio. Vamos a isto. 

Emma. (entrando, á parte.) Vamos a ver se a este lhe 
sucede o mesmo, (alto.) Sr., . 

Juno. Oh ) minha senhora, peço-lhe mil perdoes. 

Emma. Então : já falia 1 

Júlio. Sim minha querida Emma, e creio que fallarei 
até ao dia do juizo. E' nessesario que saiba o que a con- 
tece. Está por abi o outro, o meu rival ? 

Emma. Ficou com o papá. 

Júlio. Então posso foliar. Saiba V.* ex. a que-sou victi- 
ma d'uma extra vaganeia d'essc sr., eu que sou o homeia 
mais bem educado que conheço, commetti uma falta, e 
com quem ? Com a pessoa, aos olhos de quem eu queria 
apparecer mais delicado e sympathico. Antes de a ver, 
e ao saber que ambos vinha- mos com o mesmo destino. 
(apparece Bernardo e Carneiro, Júlio tapa a bocca, Emma 
zanaada dirige-se aos dois-) Façam favor de sahir. 

Carneiro. Mas filha, foi o sr. Júlio, que me pedio para 
chaaar este sr. ♦ 

Emma. Saiam, tenho que faltar aestesr. 

Carnçiro. (a Bernardo.) Vamos dár mais uma volta pe- 
lo jardim, (saem.) 



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—11 — 

I 

SCENAXII 
folio e Emma 

Emma. Diga-me tndo d'ama vez, sem rodeios. 

Juuo. Appostá-mos que aquelle que primeiro fatiasse 
deante um ao outre, uma única palavra que fosse, renun 
ciaria á sua mão. 

Emma. (rindo-se.) Que extravagância. 

Jouo .Foi o mesmo que eu penei. Mas para pussuir a 
sua mão de tudo seria capaz, e a tudo me sugeitaria. 

Emma. (á parte.) Vou começando a gostar d'el)e (alto.) 
Pois se não é mais do que isso, eu me obrigo a fazer fal- 
tar o outro. 

Juuo. (com alegria.) Então ama-me f 

Emma. Não tratemos agora d'iss^. Deante d'elle esteja 
callado, succeda o que succeder. 

Júlio. Has se v.' ex. a me ama, vou já declarar-Jho e a 
cabamos com isso. 

Emma. E a apos/a t Quer perder a appasta ? 

Juuo. Tem razão. 

Emma. (atitando.) Soccorro f . . . acudam I . . . 

Júlio. Vao julgar outra cousa. 

Emma. Calle-se t (gritando.) Acudam í acudam f 

SCENA ULTIMA 
Todos 

Carneiro, (entrando.) Que é isto f O que aoconteceu ? 

Emma, Ai 1 ai 1 ai t 

Carneiro, (a Julho.) O jjue é que o sr. lhe fez i 

Emma. Ai ! ai f ai f (caé desmaiada.) 

Cabnbiro. Valha-me Deus ! Minha querida filha torna 
a ti. (a Bernardo.) Vinagre ! . . . qualquer cousa. 

Bernardo, (correndo aporta.) Agua. 

Emma. (levantando-se.) Já não é percizo ! (a Bernardo.) 
Perdeu o sr. a apposta. 



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-12- 

Bernardo, (admirado.) Pois sabia 1 

Carneiro. Mas ta não me explicas ? 

Emma. Tem pouco que explicar, escolho o sr. Júlio pa- 
ra meu marido. 

Bernardo. Eu então fiquei a chuchar' no dedo ! 

Carneiro. Nada chega á astúcia d'uma mulher, quan- 
do se tracta de negócios d'amor. 



CAÉ O PANO 



FIM 



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t 




\I.« 




ilílll 



COMEDIA EM UM ACTtf 

POR 

Diogo José Seroménlio 



Condecorado com a medalha, ao mérito, 

Sócio honorário do Grémio Luterano português 

do Pará, da Associação dos Jornalistas e 

Escriptores, etc. 



Rtpresentada com applauso no theatro da rua dos Condes. 



D. J- S 





THEATRO CONTEMPORÂNEO 

BIBLIOTHECA FUNDADA EM 1869 

DIOGO SEROMÈNHO - EDITOR 

ESGRIPTORIO DA ÉMPREZA, RVA NOVA DO ALMADA, 24, S." 

LISBOA -1884 



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iPERSOisrj^GHBiKrs 

Aniceto— Josis— António— Andub— Anna— Júlia. 

ACTO ÚNICO 

Jardim. Á esquerda uma casa, ao fundo um caramanchão. 

SCENA i 

Júlia e António 

antonio— {ralhando eom Júlia) Ainda não vi maior des- 
carada ! .\ào fazes senão namorar os soldado» do destaca- 
mento. Agora alé o corneta! * 

ji.ua— E' irisupportavel I lá vio o sr. André hoje? 

antomo — Deve estar a dormir. 

jiua— Tem graçaí Dormir a estas horas, «o dia em que 
se «levem assiguar as escriptoras de casamento ccmíi a me- 
nina Anna, que é lindíssima e muito rica. Aposto que o 
sr. José não era capaz de praticar um acto d'estes. 

antoniu — Uso si;n; levauta-se <le ma-1rugada. parece que 
vae armar aos pássaros. E* para se encontrar eomtigò e 
dar-te cartinhas, como fez hontem. 

mu v— E que tem o sr. com isso ? Nào tem também re- 
parado como o sr. José veio bonito e elegante? Eu noio- 
gar da menina antes queria casar com eile do que com o 
sr. An»l ré. 

antomo— Forte tola! Um não tem vintém, o outro é ri- 
quíssimo. A escolha é difficil. 

Júlia— E' pobre porque o pae metteu-se em especula- 
ções ruinosas, e o pouco que deixou, empregou-o elle em 
pagar as dividas para que a memoria do pae não ficasse 
manchada. Olhe, ahi vem a menina Anna. (António saej. 

SCENA II 

Anna e Júlia 

anna— {entrando) A carta de José? Entregaste-a em se- 
gredo? Dar uma entrevista a um homem é caso muito se-; 
rio. . . O que me anima é que José*é um amigo de infan- \ 
cia. Hoje tem de ser assignadas as escripturas do meu ca- ; 
samento com um homem que detesto, ao passo que amo .* 



^j » 



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— 4 — 

anna— Esses elogios para mim não servem. Quer fazer 
a felicidade do seu amigo a custa da minha ventura I Pois 
bem, se Cetso com elle, morro! 

josé— Mas eu quero que viva, daria todo a meu sangue 
para a fazer venturosa. 

anna— Nào parece. 

josé— Na minha alma trava-se uma lueta cruel. O ho- 
mem a quem tanto devo e que tão meu amigo é, o seu noi- 
vo, o sou futuro marido... isto épara enlouquecer. O céu 
não é justo! 

anna— Olhe, sei que me ama ; deixe o caso por •• inha 
conta, era isto o que lhe queria dizer. Nào se retire o con- 
serve-se neutral. 

josé— Vem gente. Fujo! (pega-the tta mão e beija-a. Anna 
segura- ih* a). 

anna— Já não é preciso fugir; olhe quem ali vem. 

josé— Meu* Deus, seu pae! Se elle visse! 

anna— Beijar a minha mão, de certo que viu. 

josè— (fugindo a correr, F.) Não diga issol 

SCENA IV 

Anna e André 

% anna— Pobre amigo. 

* andrk— Quanto sou feliz, por encontrar aqui a minha 
encantadora noiva. 

anna — (seccamentê) Bom dia. 

andrk— (aparte) Parece que está zangada, (alto) Em bre- 
ve começará a nossa eterna ventura. (Anna sae) O amor 
que lhe consagro é/d'aquelles.. . (reparando que está sô) 
fiem digo eu, está zangada, retirou -se sem dar cavaco. 

SCENA V 
André e Aniceto 

anicbto- (entrando, E) Estavas aqui cem Anna? 

andr:— Eslava. 

aniceto— Pois senhores, acho graça que andem em c.ol- 
loquios polo jardim. 1'eixa estar que cu me vingarei... Eu 
estava perto conversando, e vi. . . 



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— 5- 

anpré— O que? v 

aniceto— Beijar a mão a Atina. 

andré— Essa é melhor ! Declaro- lhe cathegorieament* 
mie sè aljrnem beijou sua filha, não fui eu. 

aniceto— Homem, então tu dizes isso? E' o mesmo que 
l»úr em dúvida a honestidade de minha filha. 

andríí— O gr. é que a está pondo em duvida, com essa 
historia do beijo. 

aniceto— Expliquemo-nosí Tu estavaa aqui? 

andré— Eu estava. 

aniceto— Beijaste-lhe a. mão? 

andrjí —Já lhe disse terminantemente que não. Sua filha 
iieni me respondeu ao que eu lhe disse; voltou-me as cos- 
tas e foi -se embora. 

aniceto— Homem, eu parece-me que não sou cego. (dia- 
mandoj Annal Annal 

SCENA VI 

Os mesmos, Anna, depois António 

ANN a— (entrando) Aqui estou, papá f 

aniceto— Anda cá, e dize-me : ainda agora beijou-te al- 
guém a mão? 

anna— Não me recordo. 

aniceto — Pois o André não te beijou o mão? 

anna— Se alguém me beijou a mão, não foi com certe- 
za o $r. André. 

aniceto— Pois se não foi o André, então quem foi? 

kktokio— (entrando) Foi o sr. José! 

aniceto— Isso é impossível! 

andré— Tu estás doido! 

antonio— O sr. José mette-se com todas as mulheres. 

aniceto— Fará elle a coite a miuha filha? 

antonio— E á Júlia também. Todo se faz tolo com ella, 
que anda com a cabeça no ar. 

aniceto— Tudo quanto lhe dizem é inacreditável. 

andhíí— E' necessário que a verdade triumphe. Sr.* D. 
Aima, o José leve o atrevimento. . . 

anna— -Atrevimento, nào, porque é verdade. 

aniceto - Essa agora! 



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— 5- 
SCENA Vlí 

Os mesmos e Júlia 

imAA—(entrando) Uma carta para o sr. Aniceto. 

aniceto — De quem será ? íabre»a e lê) Como se entende 
isto? Uma carta de José. e dactada de Lisboa, d'csta ma- 
nhã! Então não estava elle aqui. 

andré— Isso é verdade. 

anna— («parte; Transtorna-me todos os planos, (vae es- 
curecendo pouco a pouco) 

aniceto— Dize ao portador que fica entregue, e dá-lhe 
um copo de vinho, (sae Júlia com Anna, António e Aniceto). 

SCENA VÍII 

António e André 

antonio— (entrando a correr) A mim não me fazem o ni- 
nho atraz da orelha f A carta era uma cantiga. Ahi vem o 
sr. José, occulto pela escuridão; dirige-se para aqui. 

andré— Viste bem? 

ANTÓNIO— Vi. 

andré— Pois bem, vigia-o, a ver o que elle faz. (António 
sae). 

* SCENA IX 

André, depois José e António 

andré— Este mysterio rala-me. Estará combinado com 
Anna para rne enganarem? Como seria ridículo í E' preci- 
so esclarecer tudo; sinto passos. . . farei como nos antigos 
melodramas. Occultemo-nos. (escondesse atraz d* uma arvore) 

josé— (entra com cuidado) Ninguém me viu, está tudo re- 
colhido. A mentira da carUrtteu um resultado magnifico. 
Desejo ver Anna, para lhe supplicar pela ultima vez que 
case com Anoré, porque é um marido diguo. Vamos a ver 
se Juha lhe transmite o recado, (dirtge-se ájanella do fundo) 

andrk— (aparte) Está junto da janella de Júlia. Guereim 
ver que o António não se engafiou. / 



yGooçk 



-7- 

antonio — (dirigindose com cuidado a André} Então tinha 
razão. 
josé — (chamando) Júlia, Júlia ! 
julia— (chegando à janelln) E' o sr. José? 
josé— Sou. Desejava foliar a Anna. 
julia— Eu vou avisal-a. (sae dajanella). 



SCENA X 
Os mesmos, Anna e Juua 

andrk— Oh! meu Deus, Anna sae de casa com Júlia. 

Anna— Deixa-nos sós, e não esqueça o que te disse. 

julia— Fique descançada. (sae). 

josé— Ahi vem Anna, oh! meu Deus, dae-me forças pa- 
ra o sacrifício! 

anna— D'esta vez não me hade escapar, (tentame). 

iosÁ—(apvoxima}ido-8e) Aqui estou. 

anna— Deseja fallar-me? 

josé— Hogar- lhe mais uma vez que faça a felicidade do 
meu amigo André. 

andré— (aparte) O que ouço ! elle advoga a minha cau- 
sa? - . . 

•anna— Sim, mas eu não amo esse homem, só amo o sr. 

josé— Esqueça-me. Eu vou partir para sempre. Seria 
um infame se trahisse o meu amigo. 

andré— E eu que o acusava. 

anna — (chorando) Como sou desgraçada! 

josé— (commovido) Nào me tire a coragem de que tanto 
preciso. 

andrê — (commovido) Santo amigo. 

anna— Pois bem, parta, mas nào casarei com o seu ami- 
go, morrerei solteira. 

josé— Tenha compaixão d*elle, do meu amigo. 

anna— Só se me pedir de joelhos: . . 

josé — (ajoelhando) Obedeço. 

anna— Até que emflm. (toca uma sineta) 

josé— Meu Deus, vem gente! 

anna — (nem o deixar levantar) Vem, vem. 

andré— O' António, ajuda-me a earregar. (carregam am- 
bos nos hombros de José, para que não se levante). 



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— 8 — 
SCENA ULTIMA 

Todos, * alguns errados (com lanternas) 

aniceto— Que vejo, um homem aos pés de minha filha ! 

anna— D'esta vez nào me escapa. 

ANiGKTo— Que infâmia, José de joelhos diante de minha 
filha! 

íosk— Sr. aeredite. .. 

andré— Nem uma palavra, quem falia sou eu! Ouvi tu- 
do e quero-te abraçar e agradecer. 

aniceto— Entào «lie agradece-lhe! E* doidol 

andré— Saibam que o José ô o melhor dos amigos ; es- 
tava aos pés de sua filha, para que o meu casamento se 
efectuasse. Sim o meu casamento com a mulher que elle 
ama, e pela qual é amado. 

josb— Nào acredite. 

anna— E' tudo verdade, papá. 

andré— Em vista da sua nobre acção, renuncio n'elle 
todos os meus direitos. 

josè— Impossível! Eu sou tão pobre. ,. 

aniceto— (abraçando Anna e Josè) Que importa isso?. . . 
eu tenho riqueza para os dois. 



CAE O PANNO 



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CORTOi SER POESIA 



POR 



DIOGO JOSÉ" ftEROMfNWO 



UM VOLUME NITIDAMENTE IMPRESSO 

CONTERDO OS SEGUINTES ORIGIHAES 

I Valfeí noé desbragados. 
II As reuniões do sr. Procopio. 

III Uma tragedia em fan&ilia. 

IV -A. navallxa. r ^ ,' ^ 

V Ajs filha» àk ãr.* Ifipiez. 
VI Fiem-se em mulheres. 
VII Martyrios soeiaes. 
VIII Penft de taM&o. . > ^ 

Á VENDA EM JFQDAS AS LIVRARIAS 

i»reçjo 

Portugal!; . v . ; . .. . .. . . .... 500 réis 

Brasa .^.l.^ v « M 1^000 » 



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M CAMPO DA OPPOS1ÇÃO 



COMEDIA El IH ACTO 



POR 



DIOGO JOSÉ SEROMÊNHO 

Condecorado coi á medalha ao mérito, etc. 



» ' i * ' • • • • ' 

LISBOA — 18*& : '■•«• :: ;, : f : ;; " r 



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PERSONAGENS 

A CONDESSA DO LARANJAL. 

carlos de sousa, capitão <T artilheria. 

DR. FREDERICO TASQUES, advogado. 

UMA criada. 
À scena passa-se em Lisboa, em casa da condessa. 



ACTO ÚNICO 

Gabinete hm casa da condessa, bem mobilado, porta ao 
fundo, e ditas lateraes. 

SCENA, I 

IBBBBBICOt SÔ 

(Entra pelo fundo com um rolo de papeis). Disseram- 
me que a elegante condessa tinha ido assistir a um casa- 
mento, e que Dão deve tardar... (Põe os papeis sobre a 
mesa.) Esperai abei n'este delicioso gabinete, com a im- 
paciência d'um verdadeiro namorado. (Senta-se>) Oh! co- 
mo eu te amo! rainha entre as formosas! 

SCENAH . 

VBBDBKICO, COMlMtiMA 6 a CKIADA 

coiidissa (entrando pelo fundo com a criada). Se 
me procurar o sujeito do costume dise-lhe que sai. (Ti- 
ra o chapéo e dá-o á criada que sae feia esquerda.) 

imdbbico (Uvantando-se). Divina condessa! 

coudkma* Não sabia que estava aqui. Venho de as- 
sistir a um casamento: maJB outra viçtiçaal 

iBisiiuil Que severidade! e 6 isso que a contrista? 

MMDVMAvNty), çstou çn/adada, por caysa d'um ia* 
discreto, qué ha dias me persegue obstinadamente com as 
suas visitas, deixandcHne Mllfelte, sob pretexto de queé 
meu inquilino novo.. 



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— 3 — 

mubdbbico. Talvez tenha que pedir a v. ex: a alguns 
concertos na casa. 

condbma (sorrindo-se). Maior motivo para não o re- 
ceber... E é também possivel que seja algum novo ado- 
rador que o céo me envie. 

ibvdkbico. N'eáse caso não o receba v. et. a 

coiramas*. A que devo boje a honra da sua visita? 

iBBDiBico. A um assumpto importante... que direi 
av. ex.* depois de me haver extasiado perante a sua bel- 
lesa... 

comiibmsu Basta de galanteios... Já lhe disse que me 
desgostam as lisonjas. 

vbbdbbico. E ó culpa minha ser v. ex.* encantadora? 

condbma. Não é, mas... não gosto que m'o digam. 
Jã está convencionado entre nós que não se falle em se* 
melbantes assumptos, porque é cousa que me desagrada. 
, iBBDBBico. É verdade que fizemos e3se tratado, 
mas, como cumpril-o, se ha três annos que a presença de 
y. ex. a me desenvolve n'atma uma paixão irresistível. 

coiiDBUA. Mais devagar, ha três annos vivia meu 
i marido. 

iBBBBBirB. Isso é uma ctrcumstancia attenuante... 
Porém ha um anno que v. ex. ê está livre... 

ctRMiiA. Não mais quero ser escrava... Renunciei 
para sempre ao casamento;.. que soffri com ornem pri- 
meiro consorcio, fai com que não me torne a casar. 

mkmbico. É quê naturalmente v. ex.* foi sacrifi- 
cada. 

OBiBitsA ( levantando-se). Como todas a* mulheres. 
Convenho em que meu marido tinha excellentes qualida- 
des, desgraçadamente já pasáavt doa cincoenta e sete an- 
nos, e tinha uma gota hpmwU cpnModaa m auaa P rer °- 
Sitivas. Háo humor,., impaciência... ira,... cholera... etc. 
uanto ao mais, era muito amável, quando naò estava 
doente, o que só lhe acontecia dois meses por anno. Já 
f pôde vér que tal foi a minha felicidade. ' 

í vmmbioo. Mas o que esperava v. elx.* de cincoenta 
I e sete annos, e d'uma gota horrível? 



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coKDMSA. Ppr. desgraça todos os maridos se pare- 
cem, quer sejam novos ou velhos. 

fkedkhico. Triste conclusão! 

cokpbma. (animando-sej. Todos são orgulhosos, pér- 
fidos, e déspotas... E se alguma vez são amaveisyé quan- 
do exigem de ijôp a satisfação dalgum capricho, ou 4uan- 
do necessitam, per^o para algum delicio grave. N.'esse 
caso tornam-se^a essência da doçura, o .extracto 4aa «a- 
rici^s, nem o gsto é jaaifí traidor nem o cão mais. submis- 
so, porém assim que conseguem o que querem, voltam 
outra vez átyr?npia do costume. Por isso, roeu amigasse 
não quer que o deteste, aconselho-.lhe sinçeraroeate que 
não me ame. (Smtfase junto áty&a 4a direita,). . • 

ibbdebi^p. Farei calar o meu coração- . ,.».*>* i 
. c»w»e»«a. Quanto antes. -..; 
. jFRCDE^ica. \>mp5 aa,motivo. da minha visita. Ne- 
cessito <jue v. e^ jae dô uma procuração,. cam#ped«re8, 
de trapsigjr^para ajjquidáfiãQ que. sabe, aqui. tem, v. ex.* 
assiga*, jau, f^çoria^qo^epecp»^ seu taheU&Oyfcestâ. tu* 

doJjrQpjpíO* , u, r -, } ,.,, .:..:.;.,'•: : s .***:".«?.«¥<- 

condessa. Àssigno sem ler (assigna). Não eatfcmlo 
nada dfoto, »f j^/AQ 4W 4»TOP4«« que o.dootòff+àeflflabre 
na herança de.n^jiparjdp,., ,v vi ,•.••< in, ••■• ::-•.•■« •• 

ô-p meipjipiço A$* v^r com.ííequeacia:. • r \ V u-. *•-. 

€owiHptA/(^an^iúf9-^ lO^omoré iaoorfigit^i 
^W^^»ÍWÇ^*<i<>;Ad€i»fl,;dftutef!^ í *<!•»< * ,«*«ív 

iBBDBBico (comprimentando-a, á parte). Ausenta-, 
se. flue|.pr^ld84eJ H , íl /ii(?^eí«^íarptíai€ífuaf<í#>> 

■ ■ .ij y» K w (A. >, .. irttWiMBiíitcèfi id '•• l -" v : ?: -!,' i; "" /" 

. ,A*«nM. qpfti$ft,a9 nrçdhereg, sedi*ctora& ft.e$gi4i5&&... . 
mas porqaç i^e.f^ellew, Sj^e^fpçse, feio, e?^ tivesse 
talento, vá; mas ^tConf^o, a n^uresç^ faYQrqeftu*jne> 

.;. >Mii".í * .', ., , - r -...i...c -í:->> -• 



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— 5 — 

I SCENA IV 

1 cabloí e niiiosBico 

cabloí f entra pelo fundo, foliando para fora.) Bem, 
esperarei que volte a senhora. 

fbedbbico. Não me engano, é Carto*. 
1 cabmi* Frederico!... fAbraçam-se.) Ha dois annos 
que Dão te via. 
iBBoBBicd. Então voltas d'Africa? 
CABLos. Ha três meies; conclui o méu tempo deser- 
j viço do ultramar, e sai capitão... E tu? 
> fbsbsrico. Eu sou advogado como sempre, e estou 
apaixonado como nunca. 
CARiiBt. Apaixonado! 

iBKBBBico. E o que é peior, repellido pela dama dos 
meus pensamentos, que entre muitos dotes, tem ode cem 
contos de réis... Inutilmente a persigo/ a condessa doLa- 
; ranja! é inexpugnável. 

cabi.os« A condçss% áo laranjal? Uma viuva encan- 
tadora ? 
fBEoBBico. A mesma, deves conheeél-a... 
cabulo». Não; é esta a primeira visita qtie lbè faço 
eomo seu vísinho, e inquilino, ha oito dias que moro na 
: sobreloja do seu pfedio. 

j iBBnBBico. Pois visto que lhe Retendes fallar, dei- 
xa dar- te um conselho â f amigo, se queres ser bem reçe- 
; bido, não lhe falles d'amor. A condessa é uma mulher in- 
comprehensivel... Diz que todos os homens são déspotas, 
e tjrannos... e despresa as noásas homenagens. 

cabblos. Magnifica coqquista, e,qne deve dar muitas 
glorias. 

nMBDKiftico. Tu ri te... pois Dão ha nada mais exa- 
cto... Se lhe dizem que ó linda, ea^Xaltam, tenhoacèr- 
i tesa de que desejaria ser feia para tios provar o nosso er- 
ro. É una espirito de coutradicção, e não sei que meio hei 
I de empregar para conseguir que esteja d'accordd com- 
migo. 



y Google 



— 6 — 

cablob* Ser da sua opinião, é regra geral; as mulhe 
res amam só os que as odeiam*. 

ibbbbbico. Não acredito. 

cablo0. Não, pois tenbo um meio infallivel, e se qui- 
zesse conquistar o seu coração, em três assaltos tomava a 
praça. 

iBBDBBico» Queres tu ser meu alliado? Formemos 
uma alliança offensivji ç defensiva. Vô se a convences de 
que tenbo talento, que sou amável... 

cablob. É o mais diflScil da empresa. 

ybbbbbico. Nas tuas mãos ponho a minha felicida- 
de... falia com a condessa... elogia*me... conquista para 
mim.*. 

cablob. Tratarei de justificar a tua confiança. 

ybbpbbico. Não exageres tanto o meu mérito, que... 

cablobi* Fica descansado. 

vébdbbico. Não digas mais que a verdade, adeus. 
fSae pilo fundo.) 

SCENAV 

CABLOB» SÓ 

que me disse a respeito da condessa incita- me a ten- 
tar eu a aventura, uma mulher adorável e riquíssima!... 
Creio que estou seriamente enamorado... Pobre Frederi- 
co!... Que diabo hei de dizer em seu favor?... Perderia o 
tempo... Nada, renego o meu alliado, e vou trabalhar por 
minna conta... pondo em pratica o systema de fazer oppo- 
sição para chegar ao poder... 6 sempre um meio infalli- 
vel. Blla abi vem. 

SCENA VI 

COBDBBBA 6 CABLOB •' 

cobdbbba fpela esquerda). Quem será este sugeitoí 
E não me avisaram,.. A quem tenho a honra de fallar? 

cablob. A Carlos de Sousa, capitão do exercito. B 
novo visinho e inquilino de v. ex, 1 (Á parte.) t encanta- 
dora!... 

. fcomfriesa). Já tive o gosto de receber de 



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— 7 — 
V. a.* uma boa porção de bilhetes de visita.,. Não lhe dis- 
seram que eu não recebia? 

cablos. Sim, minha senhora, porém como eu insis- 
ti... tenho que pedir a v. ex.\.. 

condbma. Algum arranjo na casa? 

CABLoa. É verdade, a chaminé mette muito fumo. 

comdima (seccamente). Mandarei lá o procurador, 
eir não me intrometto com concertos dè chaminés. 

CABLés. V. ex.* desculpe... 

€ordb8»a, Era tudo que tinha a pedir-me? 

cabloh. Tinha tantas cousas que pedir a v. ex.*... 
porém. *. 

cemimA. N'esse caso... tenho a honra... 

oamim fá parte J. Assim não me faz conta, seria a vi- 
sita muito curta. (Alto, com resolução, e indicando uma 
cadeira. ) Queira v. ex. a ter a bondade de assentar- se. 

coM»BSBA (admirada). quê!... 

CABi.et. Não posso consentir que v. ex. 1 esteja de pé. 

condessa. Porém, parece-me que sou eu quem de- 
veria... 

cabloi. Recusar seria um grande desgosto para mim. 

coitDKMAL (com ironia). Seja... para o não desgos- 
tar... (Senta- se á direita. ) 

cabiai, D'este modo me proporciona v. ex. a o pra- 
zer de lhe fazer uma visita. 

c+nbbma (aparte). Que homem! 

cabloi fá parte). Comecemos o ataque. (Senta-sena 
cadeira opposta á da condessa, esta pega no bordado, 
Carlos no livro, momento de silencio.) 

comdima (á parte). Será importuno, mas não é fal- 
lador... Ouve-se voar uma mosca. (Repara em Carlos que 
lê.) Ah! está lendo?!... Que grosseria!... 

caulo» (kndo). Manual de Civilidade... Capitulo pri- 
meiro... Das attenções que se devem ter para com as se* 
nhoras... 

coudisma» Que dizia?... 

cario». Eu... nada... 

commsma. Sinto tel-o interrompido..* 



yGooQle 



_8 — 

carlos, Não ha de qué. fToraa a. ter, £.a,c<w«tessa 
abordar.) 

condem a /depois de silencio, tossindo). ,£i,xwx mo- 
delo de delicadesa. fi/tá.y Senhor?*.. 

€ablos. Minha senhora?.., 

condessa Que. está fazendo? 
, carlos* Uma visita a v. ex/ , r , ,, ■• .• 

condkíaa. Ninguém o ha de dizer M parte J É .um 
original. /Oá/ío.y Eu julgava que quando se fazia :Uma : visit a 
a uma senhora, era costume fazer mais alguma coisa : .do 
que.lér. .:.-..-.■. 

cabloi. Como v. ex. a bordava... eu pensei % ...... . 

coiDBts^ bordar não me impede d&faUfiuu. 

carlos { fechando. o livro). Pois fallemos... não de- 
sejo outça cousa. (Levanta-seJ 

cosbbssa* Graças a Deus! * 

cablos (depois de pausa). Parece-me que, temos mu- 
dança de tempo... Vae chover antes da noute.. . 
: conobssa* senhor 6 astrólogo?! . 

Carlos* Não, minha senhora... (Outro íom./Rece- 
teu noticias da guerra do Orieute ? . 

coNDBviA. Julga que me correapondQ como suiMío. 

Carlos* Hoje todos estão em correspondência com o 
Oriente, o porteiro de v. ex.* disse-me que; tiAha -nomeias 
muito recentes da Porta. 

coADBtiA. Não admira que o meu porteiro tenha re- 
lações com a porta... eu não. 

Carlos. Peço desculpa. «* • 

condessa. Não ha de que. (Novapawa, Carlos c#n- 
ta.) senhor é musico? 

cablos. Toco flauta.. 

condessa . Conhece - se logo ... 

carlos fá parte). Parece-me que não gosta de mu- 
sica. 

condessa. Cantava alguma romanza nova? 

carlos* Não, minha senhora, conhece v. ex. 1 a Tim- 
bale d'Argentt 

condessa,, Não costumo ir senão a S. Carlos. Amu- 



y Google 



ica para mim é um a. cousa sagrada. Atas. valtemesá nossa 
encantadora conversação. . 

cAftLot» Já esgotei todos os assumptos. ••>: 

coxb^sa, Depressa !..* 

cabloci (levantando -se). Que quer v. ex.*? Fallo de 
politica, não iheconveoiw.K consagro-me ô iMaifia* gou 
censurado... CoHoque-se v*ex/ no.meu logarw. . , , 

cojiDEiiu (levant&ndose). Então a uma seabara não 
se falia seaão em politica ou musica... e isto quando se é 
bqmem de boa ; sociedade, e alguma cousa syaipatbieo?! 
(A parte.). É uma lição. 

CABbos. Muito obrigado, minba senhora. • «■•••■ 

co»imbma* Os. senhores assim; que se dedicam* ãs ar- 
mas,. esquecem os seus princípios amáveis, a não são ca- 
pazes de dizer uma galanteria* ••,.• . 

cablos. Isso é bom para os ociosos, ou idiotas... 

coni*«ma. Não obstante, conbeço um muito. amável, 
o dr. Frederico Vasques. . . ; 

cabloi. Frederiço^é uío lupatico, umdoido.;. • . 

CO.IDEMA, C0«UçceH)?;-.^» *-•'.'. - 

cabi4>». É o meu meibor .amigo. ? - , 

€qmd«8sa. Lisoogeta os :seu* amigos!... . 

oa»lo«« Pu, não lisotogeio. ninguém. . .> 

coxdmsa. Meio infallivei de desagradar a\todos... 
Pois o seu amigp ó o poatrario da senhor, não é capa& de 
vér-me cinco minutos, sem me dizer que sou linda,, ado- 
rável 

cabloi. Faz mal... Eu já disse a v. ex/ que elle é 
doido. Assenhoras não estão dispostas a julgarem -se ado- 
radas, se lb'o dizem com muita frequência! 

coideíía. Porém existem cortezãos sincerosw; : 

cabilos* Os cortezãos sinceros vão perdendo todos os 
seus poderes. 

cwvdb»**. Só o nosso é imorredouro. 

cabloí. Emquanto dura a bellesa, para aquellas que 
atem. 

c#m»kma« Tenbo a desgraça de não lbe parecer bo- 
nita. 



yGooQle 



— 10— 

CARIO». Não 4irei Unto... mas... 

condessa. Os desgostos é que me teem abatido. Sof- 
fri tanto durante os dois annos que foi casada... Foram 
dois annos de inferno. Nunca substituirei o defunto. (Sen- 
ta-sej ■ ■• ' 

carlos. É um actfr de caridade cbristâ. 

condessa. Porque diz isso? 

cabias* Porque o defunto devia ser muito desgraçado. 

condessa* E em que se funda para tal dizer? 

€abhos. Na sorte de todos os maridos em geral... 
Não creio que o de v. ex. a fosse mais favorecido do que 
os outros. ■■ 

condessa. As mulberes é que são as desgraçadas. 

cabloi. Não, minha senhora, são os homens... Te- 
nho uma triste experiência... 

condessa. O senhor é!?... 

cardos. Viuvo... Esta desgraça aconteceu-me dois 
annos depois de casado... Dois annos que espero me se- 
jam contados por dez de purgatório^ 

coiiDBssâ. Talvez escolhesse mal... 

cabloí. Gomo sempre; casei com uma mulher im- 
possível, cheia de ataques de nervos, de que padecia du- 
rante os doze mezes do anno. Deus me livre de substituir 
a defunta... (Senta-se.) 

condessa. Não obstante... senhor?... 

cablos. Carlos de Sousa. 

comdbssa. Sr. Carlos, ha mulheres que não teem 
ataques de nervos, nem defeitos. 

cablos. Alguns espíritos crédulos assim o acreditam, 
porém mulher sem defeitos, seria como um ministro sem 
afilhados. 

condessa (levantando-se). Pois acredite que ha mu- 
lheres perfeitas. 

cablos (levantando- se). Não acredite... Leia v. ex. â 
Buffon, Plínio e todos os naturalistas. 

condessa. Os naturalistas são homens!... A despeito 
de todos os sábios, sustento que ha mulheres perfeitas. 

cablos. Na lua, talvez, agora no nosso planeta é uma 



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—11 — 

espécie desconhecida... Pôde ser que com o tempo um no- 
vo Colombo a descubra. 

coubisia. Isso é de mais!... 

cabioi. Peço a v. ex/ perdão pela franquesa, mas 
eu suppuz que jà a tinha avisado que fallava muito claro: 
■desculpe se a feri involuntariamente, e retiro-me... 

coumma. Quando quizer. 

cablos (pegando no chapéo). Tenho a honra de a 
cumprimentar. 

.com oem a (seccamente). Adeus! . < . f Passa á esquerda. ) 

Carlos (voltando-se). Quando terei o gosto de a tor- 
nar a vôr?... 

CONDBMA» <JUé?... 

cablol D' aqui a três semanas... um mez?... quan- 
do quizer. 

coudbmíi. Para a outra vez espero que saberá algu- 
ma cousa nova em musica sem ser a Timbale d'Argent. 

CARLoa. Mudarei parsf o tbeatro de S. Carlos. 

coif »E00A* Àbi ouvirá a boa musica. 

cablos. Renovo os meus comprimentos. (Sae pelo 
fundo.) 

comiibma* Adeus. (Cumprimenta .) 

SCENA VII 
cokdkbba, agitada 

Singular visita! Que veio este homem fazer a minha ca- 
sa? Se foi pára dizer-me que sou feia, que ha mulheres 
amáveis na lua, e cantarolar, é deveras uma impertinên- 
cia de primeira ordem... Fiz mal em não lhe fallar mais 
claro. Se tiver outra vez o atrevimento de procurar-me... 
(Sentase junto á mesa da esquerda^ pega n f um livro, que 
logo arremefa com impaciência.) 

SCENA VHI 

4OKDE0BA e VBEDEBICO 

vrbdkbico (entra pelo fundo). Muito estimo encon- 
trar a v. ex.\ sr. a condessa. 



yGooQle 



— 12— 

coxMsgM, Chega mesmo a propósito. 

ybedebico. Estranho o som d 'essa voz qtie é sem* 
pre tão harmoniosa... 
vCoauesm. que pretende, doutor? ' '. 

fffeftKftKHico. Venho por causa d'u ma circumstancia 
bem extraordinária!... Tinha: encarregado o meu ama- 
nuense de fazer um relatório dos documentos respectivos 
á causa que vamos intentar, e por isso não aabia ainda 
quem era o réo, hoje porém ao ler esse relatório, é que 
vi quem é. Mal sabe v. ex." contra quem pleiteamos? Con- 
tra um dos meus melhores amigos.», um rapaz chamada 
Carlos... .. - ■"'» ' 

condessa. Que mora n^este mesmo predktf 
. v&swbico. Justamente^ ^ > 

co.iokíma, Saiu agora d'aqui. 

, tkkukbico. É um moço interessante, amável, e so- 
.bretudo de uma galanteria. . . ± ■ • \ 

condessa. Gavalleiresca. \ 

ibedebico (á parte). É preciso elogiar ty meu pro- 
tector* '{Alto.) E não lhe /aliou em mim? • V =•■ * > 

cosdkssa (sorrindo). Fallou... disse -me... s p)usas 
muito agradáveis. • .*.-.«. " 

ibedebico (á parte). Excellente amigo! esperto^pu 
eu... (Alto.) Peço-lhe a sua píotèôção, sr. 1 condessa, es\e 
pobre rapaz tem sido vietiipa da desgraça. 

condessa» Sim?! 

vbidkbico. infeliz já devorou a herança de um^ 
tio e duas tias. ., 

çondeswa. Que apetite! 

vbedebico. É upa maganão de primeira força. Res- 
ta-lhe ainda um tio, com quem não poude ainda metter 
dente, e que nos propõe agora uma composição vantajo- 
sa, comtanto que seu sobrinho case... 

condessa. Quer que elle case? 

ibedebico. È uma idéa fixa a do ta) senhor. 

condessa flevantando-se). Mas então Carlos não é 
•viuvo? 

vbcdebico. Sem ter c asado acho difficil. 



d p y Google 



— 13— 

oobdema (á parte). Zombou de mim? 

fbboebico. Por consequência venhopropôra v.ex. 1 .. 

comdbum /$em o escutar). Mas com que fim... 

vbsdbbico. Venho propor av. ex. a ... 

coivm00a. (o mesmo jogo de scenae passa â direita). 
Adivinho! Quiz dar-se ares de homem serio... 

FBK»BBic0. Propor a v* ex. a uma composição. <> 

cmmcMA /"d partó, passando á esquerda). E fui vi* 
ctima de um tal brinquedo. Botou furiosa! 

vbbdebico fá parte). Senhores! em que estará pen- 
sando? ,' f • ' - 

coiDBitA (aparte). Se voltar eu me vingarei. (Passa 
á direita e senta-se junto a mesa.) ' 

jnMowico. Proporího a v. ex/que nos oonoilienios 
com esse mancebo v.. : ;>: 

• • ' "•'• V &CBNÀ'1X • 

OS MESBfQS 6 CAHfcOB .,.,ifi,V» 

cabloi fpefo fundo). Peço a v. ex.* um milhão 4e 
desculpaà..: • r cíé'-..); . /i / ..*-••:* o *•«» > 

vbkdkbico, Que fortuna!. E9-o a propósito: v <- » • ' 
- coxj»m«a ( aparte)*, itãftifcefe!* -' *« «j«* ■ 

•• cA^ii«i»Yápar^:i£ie^te.'f]iftteta&inda aquií :•.:;<: n 

vbedcbico. Não podias cfcegar inumei horoccísi^J 
lajeava a teu uespcitòí-coai âtoudeasa, ••ê'àimmm%mr*n * 

cablos (baixe* &• Frederica): <]a*a**$ que meèfifádaèi: 

vbedbbico (admirado)*- (faé éfesestu?! •**>.■»** 

• ctauBm**»' Ohi hwBtfm,'vaMe*imtorèL .*•»**«»*« * 

• is^KJB^KBc^^Marsehâq» tenho agora que^asefv; 1 .- - <' 
cABLot. Não importa, vae passeiar, preciso falkiNHiè 

a SÓS. Iíi ". 'i. •:•;!•. i íJ-r* à /-■./ 1; ••;»*•! j "i . •' .«mj.iii*'* 

.) D* taioba paixãté ^-'«'^ 

fiÉmyLvàé-teííénaèora. 1 -- ' .hmiiai 

Bem, n'esse caso vou dar uQHr-veM»;» 
Até breve. .vVt.v'^ íí--*- j- *••? j- 1 /.'! ./*««;t*i#«» » 

coivmma fá parte). QueesJaiJôo «HiferidoW»* » * •» 

Já sei tudo* íâéiijqye^ibeeBt^devmkb cansas rowt#*«<*i- 



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— 14 — 

geiras. És um excellente amigo! (Alto.) Desculpe v. ex/ 
o retirar-me, mas é precisa a minha presença n'um nego- 
cio de que me havia esquecido. Fica para me substituir 
este meu amigo, que saberá defender os meus interesses... 
(Baixo a Carlos.) Firme* não cedas terreno, 

cabloa. Descança, vae socegado. 

coafDis«ff9A (aparte). Agora nós, senhor mentiroso! 
(Frederico sae pdo fundo, Carlos aeompanha-o â porta; 
_a condessa passa á esquerda.) •» 

SCENAX 

COMDBSfA e CABLOB 

coitDBssA. Sabe que estou deveras surprehendidade 
que voltasse tão depressa?... Pois já passou um mez des* 
de a occasião em que esteve aqui?... Jesus! como o tem- 
po vôa? ! 

CAR1O0, Perdoe v. ex.% mas esqueceram-me as lu- 
vas e venho buscal-as. 

condbbma. As luvas? pois não são essas?. (Indica « 
luvas que Carlos tem calçada?;) 

cabloí (surprehéndido). Ê verdade! A. mas que dis- 
tracção! Emfim, já que voltei pentoitta-me v. ex. â que lhe 
faça a minha segunda visita. ; 

comi»k»«a, Deixou*me tão satisfeita a primeira, que 
não tenho rasáo para recusar a segunda. ^ 

CAai.oi. Se acaso incommodo... . •«. 

coRDiBtia. De modo algum. Agora estou disposta a 
recebel-o ao senhor.,, ou a qualquer outra pessoa. *($ên* 
ta-se.) 

cablo». Agradeço a y. ex. a tanta amabilidade. 

coHBEtvA. Já sabe qhe fatiei com Frederico? ■>:■? 

cabloh. N'ease caso não lhe foi muito agradável a 
conversação. *••>•>• ,... ,..-,, 

coitiiBBBA. Falíamos a seu respeito. * 

caritos. Retiro a expressão. * 

. «mhdbma* Como é modesto! • m - - •• < 

ca*i*«, É uma ta. anilhas boas qualidades. 



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— 15 — 

cosDMfiA. E diga-me v. s.% senhor philarmonico, 
sua esposa também era professora de musica? 

CARITO». Como Rossini, minha senhora* 

€oiiDB«ti a. Tocava pandeiro ou tambor ,nào é verdade? 

cABtot (rindo). Pois que, v. ex. 1 chegou a suppor que 
minha mulher.,. (Fax mensão de tocar tçmborj 

comdbma. Assim como o senhor toca flauta... 

CABLot. Isto é de família. 

co*i»b»b%. E sua esposa era branca ou trigueira? 

cABLot. (chegan&o-se á condessa). Muito se interessa 
v. ex.* por minha mulher... 

ooibima. Mas, muitíssimo! Frederico, o seu amigo, 
não me soube dizer nada a seu respeito... 

cabloi. E não é de estranhar, elle não a conheceu. 

commbba» senhor tinha a n'alguma estufa? 

cail«h. Quasi, na America é isso costume..., por caus a 
dos mosquitos. 

cbmbisia. Ah! o senhor casou na America* (Levan- 
ta-sc.) Seguramente ligou«se a alguma creoula... 

cablos (com seriedade cómica). Casei com uma des- 
cendente de Arauco! 

cimbb««a. Família celebre, em verdade! Era então 
negra a esposa de v. s. a Ab! abí ah! . . , -. , 

cabmii. Perdão! era parda. 

ceumueA. Bonito! E 03 meninos? côr dfrrato... 

cajbi*»«. Não m'os concedeu o eéo. 

midissa. Que pena! Quem sabe k tajjre» íowen*... 
amarelios, côr de canário. ' .-•» ■ - * 

ca»i.^8/ápar^.Diverte-Becommigo,paoi«ncia!(i4iií)^ 
Não foi à falta de... desejal-os, minha mulher era estéril 
como o deserto. 

cBMDEMtA. Ora ahi esta como se extinguem as mais 
bellas raças. (PêHMi) 9 flêràà!tíeri áiúdá hão pude esque- 
cer-me do que me disse ha pouco. Greia quç ,«0, oÇeadeu 
pretendendo provar que não ha mulheres awweia e capa- 
zes de fazerem/a felicidade de b^b amidos**? Rwoívi, 
senhor sceptico, attrabil-o a sentimentos mfrgiMtef» « 
Seradifficik 



' Digitizedby GOQQle 



coMirens/i, Quem sabe?! 

CABLos» E que meios couta v. éx.* empregar? 

coif»iç»»A. Pregar o exemplo, tornando a casar-âe. 

cABKOi. É um meio heróico! 

cortine»**. 'Assim mostrarei aos incrédulos quetétfho 
rasão no cpie aifirmo. Caso*me couTtim homèifl a quem 
hei de amar e fafcer feliz:... por deápeito, por TingaUÇa! 

cablos. Oh! mortal predestinado. Vãoapparfecel^èr- 
tendentes ás durias... . .-.y 

coiinKfWA. É inútil; já fixei a minha escolha. Latofcei 
as minhas vistas para um homem cujd affecto será difflcil 
roúbarertMné. Os foôtrfens sãt> : muito- levianos-, éprefcteo 
escolher bem. ■■..>..•>■■ . r 

éÁTRuò» (vivamente).' Há muitõsque não ■Oslo-.;". * 

cottbiátaA (rihdò-ée}. Já os 'vier; o senhdt? ' fr ' r 
' -kMàiÊibn* Gfcrtatftéftté. ' • ■ •■ • ..-•">- < 

conbmsa. Na lua, talvez... .-;;•'«:. -• 

câúlém-fcóirí teftitomj. S& tttfnea' fá fui..; 8;põ(!teHa 
sem ser-infeáCrièto, tfábèrquem è'o feli2 escolhido' por 
ti "è*:*? 1 ""'■ ! '"" ' '"" ,MV >í% " • «"v*u#» 

cowo«*»a. Adivinhe. ••;.■]•«<•». 

^èA^iiowl^ò^tSq^iòucò^drte etó< i eh*àradafr:.V R *" » 

commsha. É umii&válh&íb,' £ejtt tionito t*em' feto, 
de estatura vulgar, rosto d#pfcsfeáp0rtó; í tòm uttftáíèiKê e 
uns meflteiftfenbs (jta^<agMt5dáveiá. -«" ;: - > " "«'^ 

cablos. Tem tòaaê as- qualidade» *p&rá martéer/» 

^o*teiié*àU : -Edtôo v jâ-adíV)tíiioô? ^<v <"'«* , «» , > 

carmim. Não, minha senbofa^-'' 1 ■ ,; ' n< "' ^!1-i:í;í!;j 

' ' :>•♦« iivi v«í'!hí:: i: !• ::i: .>.•-..■ ■!• .. ••'• .' JÍj.' ?, .».* u'£ 
SCENAXI _."^»».«. ...w. 

-*«**>*»**>*!' ^frte p^/tirttf^JBott eul : J. vfoéirít v:> 

e*;*tifcatítílía*i '-••" « :;: < fí - ; *'' » * ■' ■ í 5 !' '•:•' <■ : '. ■■•' ••' •»■ ••" ,M ^i 

•«A^os^íftWfeJtíBHeíttefttóò *te'deéláNffl. : ' }> '" r 

Yrtfttyttft» ^òtò^ éíCttríos'). talttt jâ porqtfethove» 

a cântaros. ^ ,flí b * 11 "" -* •****#•» 



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coffDiiM* forDeufl, doutor, olbe^aemefttogâfêfc- 
pete. 
ybkdkbicb. Desculpe senhora ôotrfeajísfjWft^l-o 

em outra casa,.. (Sàc pelo fmdffi/ - * • -• ' - 

cablos ftom ar de mo/ijy. Dou-lhe orpâ*abetiB 4 pela 

escolha. . •■ ..•■••• . . . ; :., * 

coMDE«iA. MuUÒ agradecida. ' ' 

cario*» Nem mandado fa^er de propósito.' > 

cpwDissA. Sou da mesma opinião. !> 

fBBBSBico (voltando). Dequeoplniao?Qaalétttfpi* 

aiâo de t. ex.* se me permitte. .; ' '- * -■'* 

cbxdkbba. Que devo deixai* os por álguta tempo. : 
cablo». N§o faça v. ex. a cerimonia comigo. !> 

covbbaba fpasscmdojwtiô a Frederico). Nió se Hô- ; 

tire, meu caro Frederico, preciso falhur-lhe a sós.' * ' ' 
cABM« t Permittir-me-ha v. ex: - que volte a vfe^á? : 
coboeua» Pois não! Mas nio 86 irrcottimode, d'a<jtíl 

adoue, três ou quaitro mezes, quando quizer. 
cabloi (inclinando-se). É uma graça inextimavel, 

senhora condessa! (Offerece o braço ácohdessa èe&a toma 

o de Frederico saindo- pela esquerda.) 

SGENA XII ."''., : . ' /*" 

vubpbbvcb e cablo* • * 

vbebebico (m\iito contente voltando a Gãtlós depois 
de acompanhar a condessa atéá porta). Nôo viste com 
que graça me disse meu caro Frederico, preciso fallar-rae 
a sós? ■ ■ '- 

cabum (á parte/. Já te arranjo. 

vbbdbbico. Deixa-me contar-teo qUe ha pouóò des-í 
cobri. Ês devedor á condessa. 

CABLOI. EU? 

fBEDEBico. Quem váe perseguir- te judicialmente é 
ella. Pois não leste acontra fé? :;1 . (: , g t 

* cablos.'E'u leio cá essas cousas... 

vbbimbb^co. Mas descança, tudo se ha de arrattjèr^ 
é a compensação dos serviços que me prestaste, bem' vês 
que os meus amores Tão de vento em popa. ' J " 
2 



yGooQle 



— 18- 
. f*RLO*. Bnganai-te, nada poude conseguir em teu 
favor. 
. mbp»«bico. Então como se explica uma tal ternura? 

carloi. É para te custar menos a engulir a pílula. 
; vnfl»enico P OhI.com a breca! pois isso é verdade? 

cÀRiiOs* Se quizeres seguir os meus conselhos... 

fbbdebico. Falia,. falia depressa. 

cabloçu Sem perda de um segundo, procura occa- 
sião de dizer-lhe que não a amas. 
^mki»b»ico« Mas isso é para ella ficar furiosa. 

cabiiOs. Pateta! Não conheces as mulheres. Cumu- 
ladas de elogios se queres .vel-as despresarem-te com mil 
desdéns, e perder-se tudo; mas se ao contrario não repa- 
ramos n'eHas,. se nos mostramos indiferentes a seus en- 
cantos, se chegamos até... até a despresal-as, de certa 
maneira delicada já se sabe, então o caso é outro, torna- 
mp-oos uns fátuos, uni impertinentes, temiveis merece- 
dores de ódio, mas aquém precisam castigar fazendo com 
que as .-adoremos, 

iroGVEBico. Que raio de luz, vejo, vejo agora claro. 
Para começar vou dizer á condessa... Que o casamento é 
um estado em que ha a temer diversos perigos. 

Carlos. Maravilhoso! 

ibedbbico, Que todas as mulheres são coquettes! 

CABiof • Esplendido! 

ibebsbico. E que os maridos... 

CABioM. Sâo estúpidos!... 

vbkoebico. Exactamente! 

cabiíOs. Emquanto collocas as cousas no seu verda- 
deiro pé, vou fumar um charuto. Adeus, sô feliz! (Sae.) 

fbedebico. Obrigado, meu salvador.. 

SCENA XIII 

BBEDBBIC*» CO* DEI* A G depOIS a CBIADA 

cosubma (entrando pela esquerda). Desculpe caro 
doutor, se 'o fiz esperar muito. 

ifá parte). Firme, sentidol Nadadequartel. 



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— 19 — 

condmba. Esperava- me a modista e... Masque vejo, 
que aspecto tão carregado?! 

FiniBic*. Qual? é o effeito da reflexão, em quanto 
esperei por y. ex. a , estive pensando ao casamento, e nas 

mulheres... 

COMDBB0A. Sím? 

fBKMBico. E nem por isso lhes foi muito favorável 
o resultado das minhas reflexões. 

com>i»8A. À quem? 

vBioBBico. Às damas. 

co*b»bs«a. Não o entendo. Depressa mudou d'opinião. 

fbcdbbico. É cousa frequente. Esclarecenao-nos, 
instrnindo-nos... eu estudei um pouco, eenhora condessa. 

coidbma. Confesso- lbe que estou admiradíssima. 
senhor achava todas as mulheres tão amáveis. [ Vi ' 

fbbdebico. Ora!... 

coubkbsa, Tão encantadoras. 

fbbdbbico. Pois não, todas... 

comi>e0sa. Sem defehos. 

rBBBEBico (rindo), Ah! ah! ah! 

condem a. Que quer dizer essa gargalhada? 

vbedbbico. Quer dizer que modifiquei as minhas dpi** 
niões. 

comi» ema. E de que provém essa modificação? 

FBEDBBticd. Provem de ter comprebeddido que as 
mulheres, são entes demasiado frágeis. 

condessa. A expressão é delicada. 

fbcdebbco. E que os maridos são a maior parte das 
vezes... parvos! 

coiidesba. Sublime! De modo que seguindo etee pen- 
sar deixa de preetar-me homenagem? 

ibebbbico. É de suppor, uma vez que modifiquei 
as minhas opiniões. 

coibdbma. Ora veja o doutor como é difficil ás vezes 
entendermo-nos! Se eu pela minha parte tivesse reflexio- 
Dado também e dissesse «Q dr. Frederico, não é bonito... 

fBEBEBico. V. ex.* disse... 

co*i>ema. Não é amável, nem tem talento.,. 



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-20- 
jrfUfWVftico. Jfeiunitterme v. ex.* que Ibedigarque 

essa apreciação á voí d 9 oiseaík> . . 

( , ; , cow ij>£S00l. Tem todas as qualidades precisar para se 
íajer dVUç.um.ibQ» parido, e jem virtude d ? essas quali- 
dades... negativas, decido-me a dar-lhe a mão.., 

vbedebico. V. ex.* decide-se? 
hvf *JW"W#fc Eu que(riadizer> se roé decidisse?... 

fbedebico. É umjt pergunta? 

condes»*. Simplesmente. 

ibedebico (á parte). Prudência, Frederico, que te 

Serdes! {Atio^&vx Uj.€»sQ, pediria algum tempo para re- 
^ioií'arrpar?t sondar. .o.roett coração., . 
,. cainde****- E se <?i* erigisse uma resposta immediata? 
i Y EjBtEDKjiicar. Era uma atrocidade! Deve dar^se a um 
bobem todoo.^empQ da-. pensar antes de dar os pulsos ás 
cadféias que o hão de algemar por toda a vida. 
condessa, E se não me agradasse concedermn praso? 
fbedebico. Então. ^fliMne-ia obrigado a. .-. • ' • 

CORBEMA» A... 

fbedebico. Aj;La' {&»#* exfotço) & reeusar. 
condem*: y^nd^J., Muito bem. (Toca* oampmi- 

vbedebico. Safa! Custou-me, mas estou contente 

de mim!, -Vm: j;: .; .. • .:;; •'• ". .■ - 

, : , condensa (á criada).. Acompanhe. este-aeabór. 

fbedebico (íparte)* que? põe*me na rua. (Alto) 
Senhora condessa, a minha intenção /não foi... antes ao 
coutaria-., 

condessa (á criada). Não ouviu? (A criada dá-lhe 
o.çhapéo>) 

vbedebico {agarrando no chapéo e saindo rtspei- 
tospj* Obedeço, minba senhora. (Á parte.) Fui trahido. 
Dar-me-has rasão de tudo, pérfido Carlos. (Sáe pelo fundo 
seguido da criada,) 

SCENAXIV 

CONDE9SA, SÔ 

Não sei coíbo pude conter-me! sr. capitão traisfor- 



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— 21- 

mon esta- pateta em. insolente. Pois bem, apesar do orçu- 
Ibe do joYBn Marte, cairá nos minhas redes e satisfarei o 
meu amor próprio offendido. 

SCENAXV 

CAELOI Ò a CONDBSQA V . 

carlos Centra ewpawmào peio fundo comvehapéo 
na cabeça). Perdoe v. ex. a senhora condessa, mas... 

condes**, (d parte). Outra ve&L. •' 

caiilos. Não se incommode v. ex. a Onde o poria eu? 

conbes*a« Que procura o sèahor? : 

cABMf. cbapéo. Estou certo que o deixei aqui, 

cokdessa (rindo). Pois não o tem na cabeça? 

CARIO*» E é verdade? Outfarôistracção. (Detcobrin** 
dose.) Acredite v. ex. â que suppunha teKô $$?did0i 

corbkssa. Éfengano, a cabeça ó qaev.r» perdeu, 

cabl^i. Também começo a descontar qw? assim 
seja. Já encontrei o chapéo; Tciáro-afie.' IMnlwrseCTBora.,. 

condema. VÍ3to que está aqui* outra vez, foque... a E 
será esta ©terceira arisha; • . • . n •• ! ** ••:."*'•; x 

cablos (pousando o chapéo). Nâopei como hfcide- 
significar á v. es/ « minha gratidão;;:! > - ••: 

cmdbsra* • Saber da epidemia quet relha agora?: • ; 

carldr. Q cbotera? / • ,w i ••• ■ •••;»'" 

condessa. Qual?! 

carlos. Bfeirigas?: . 

combbssa. Nada, é muita mais terrforel, a imperti- 
nência! 0*seu amigo Frederica teve há pouco^wn ataque 
formidável. 

cablo» /temntfrse). Vou saber se está melhor. 

condessa. É inútil, posso dar-lhe noticias d'elte,.. 
Acreditará que me disse uma boa porção de... disparates? 

cabiiOs. Um advogado não pódeexpressar-se.., 

coRDEtsA. Como um capitão de artilheria? 

carlos. Exacto. 

cos dessa» Se não frequentou as casas da guarda, 
não sei aonde foi beber as doutrinas que expendeu ha 



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— 22 — 
pouco a respeito do matrimonio e das mulheres; doutri- 
nas verdadeiramente... absurdas, as suas doutrinas, se- 
nhor capitão. 

cABLoa ffíngindo-se admirado). Minhas, minha se* 
nhora? 

condessa. Já vê que o mal faz progressos. Chegou 
até a recusar a minha mão! 

carlos. Ahi está uma cousa que eu nunca seria ca- 
paz de fazer. 

coNDBtgA. Acredito. De modo que estou sem ma- 
rido... 

car&os. Se a v. ex. 1 lhe fosse indiflerente... 

cojvressa. Agora quem ousará apre?entar*se?... 

CAWLiom. Pôde ser que á falta de um marido que viva 
com os defeitos de v. ex.\ encontre outro digno das suas 
boas qualidades, 

, coudcm a. Boas qualidades? Pois tenho-as? 
<6ari*os. Eu. disse isso? 

condessa. Com todas as letras. 
; ca«í,os. Escapou-me. < 

coiiDKitA, É o mesmo, ao menos reconhece que po* 
demos ter ;boas qualidades? 

cabíos. Ha efectivamente excepções... Quando sé 
reúne aos encantos do talento os attractivos do rosto; quan- 
do se possue uma dislincção nada vulgar, um sorriso divi- 
no... 

condessa. Aonde encontrou tudo isso? 
-carmmu Em... em v. ex.* 

condessa. Então agora sou linda? 

cablos. Sempre o foi. 

condessa. Não tenho ares de pessoa edosa? 

carlos. Oh! minha senhora! 

chvdema. Como a gente remoça. Parece me que 
n'este (comento me está vendo peio primor da juventude. 

carlos. Bastam-me os meus olhos para contemplar 
a v. ex. a 

condkisa. Ora esta! v. s.* está quasi galanleador. 
Que milagre! 



Digitized byV^OOQlC 
vfc_ ^Yw • 



— 23 — 

cai*lo*. É que talvez esteja curado da snfermkiade 
reinante. . ' .. ■*»..: > - - 

condessa. Tão depressa?... 

cablqí. Creia v. ex,* que fez uma oura mara r! lho^a.. 

condessa» Pois que» sem ser facultativo? 

carlos. Talvez por essa rasão, ••»,-. > . 

condessa. Não espalha a noticia, concorreriam todos 
os doentes. 

cablos. Não divulgarei o milagre da cura (Vaz are- 
tvrar-se.) - \ ' ■ 

condessa. No entanto precisaria de mna prova para 
acreditar... 

carlos, E r que f proYíi.q!jer v. ex. a ? 

condessa, uma profissão dê fé; a confissão das suas 
faltas e o reconhecimento da per feição do toda* a» mu- 
Ibea-efe. • «;:.: ■ ,'••«••-:,,.) . 

cablos. De todas?! • - ••>' . 

. condessa* Duvida, .vacila? i 

carlos. Não, senhora condessa, mas não sei como... 
. condessa. De joelhos, a meus pés*. 

cabidos. Com ambos os joelhos ou com um só? ' 

condessa. Com ambos que p peccado é mortal. (Á 
parte.) Já é meu! ■->•■■ 

carxos /pondo um joelho em terra}* Estou aos pés 
de v. ex.* 

condessa. Aindj não, falta o outro joelho. 

carlos. Sim? (Olhando.) É verdade. [Ajoelha.) Cá 
estou. 

condessa (com orgulho). Venci! (Alto,) Agora repita 
o que eu digo: «Abjuro da minha heresia e. reconheço as 
minhas faltas.» 

carlos (á parte). Ora esta! (Alto, humildade fingida) 
«Abjuro da minha heresia e reconheço as minhas faltas.» 

condessa» Continue «peço perdão ás mulheres de to- 
do o mal que tenho dito d'ellas». 

carlos. Peço perdão ás mulheres de todo o mal que 
tenho dito d'ellas. 

condessa. E prometto... 



y Google 



— ai— 

; : *ÂBMi».iAiada maifif . • -t *" .*»** <> <"> . 

condbssa. Vamos «e prometto para o futuro respcí* 
tal-as e adorai as.* . s ;--.--. . • ..^-v... ?..-; 
.. c abi. w»:/ícw»iamí)r/, 'N&tf, issc/náo> reapMtakas e 
amar uma'àô. ; Ato; «i;f»a quem' mjoràréi aterás ?n ente. 

eoM»K«dAé Que e8íá«dttzendoR'i > T >-..*.^.«. ' 
. LdAMom i Que «ou. um *culpádo; eoKveHUkMftteimptora 
o seu perdão» (Agarra-lhe na mão e beija lhaj 
- c0N»*s«4ft> ;ffla»>guÍB:faa,Í9eDbor? : i : 



,:•'/ 



.*!» ' 



cABLos, Estou-me flagellando, faço penitencia-, fft^ 

SGENA XVI ^ . ., ••:••. 

, os Mtísfcôà è , !OT^ikl^t?ò• , •^ J " "'* 

-.•:omnÉM[obi'Qpeié>ipto9 oi»: iís.í.-iIivj^.s <■ ■ 

C4blo8. Chegas a tempo para ser testemunha datmU 
nha felicidade. '.^J^ .:* ,*■«*«-* ■> 

irbdebico. Qual felicidade; (A condessa./ fíondessa, 
y.enhQjusiáfixÉarí-inejioi elie... : 

cordkma. Que ferce mais.espirity do xjoe o senhor. 
Heu <?att> para a outra veí sejamais prespicazy por espiri- 
to de. contrãdkção de perde e se ganha. .Pergunte*© ao 
meu futuro esposo. '. ;; 

, PMiHBifcxÉow Futuro esposo! Misericordial -Ah! «spe- 
rem que' eu já me vingo. (Canta J 

Que applausos nâo pedisse 
Recommendou-me ò auctor, 

Para Telles nie vingar * 

Dispensae vosso favor • * 

Ma» s& a mim que fui victima^ - - 
De pérfida insinuação > ' - 

Dae- ma palmas muita» palmas* 
A mim só, a ellés hão. 

(Cae opànno.J .■ . : 



^ -'V _* w ■■■■■ »■■ _^ - a _ 1CV 



TSEATBp, COroOMEO 

OBRAS PUBLICADAS 

Hfeogpo «Tose *eron*èitíhò 

A doida, drama em 5 actoe.; :••."..,> •...."' 

A vida de um bapaz bico, drama epv&^acjtos. • V 

Scekas do Brasil, drama em 3 actos. 

A orphã, drama em 1 acto. 

A ultima crença, êramaem 1 1 acto. * * ' - 

Restauração**» Portugal, «cena; dnÉaatifea. 

Simplicidade e.espertesa, entre-acto., 

Pob causa de vú retrato, comedia em 1 acto; '' J ' 

Viva o bxebcito! e viva o duque! comedia em 1 acto. 

Doidos... políticos, comedia em 1 acto. 

A noite dos noivados, comedia em 1 acto. 

Mariquinhas a ESTALAJAD&ralpComedia em 1 acto. 

Aventuras de um gabão, comedia em 1 acto. 

O que faz o medo, comedia em 1 acto. 

O legado, comedia em 1 acto. s 

Pobtugal e BÍESPANttâ, 1 cómetfíÀ eô 1 acto. 

Â. M. O., comedia em 1 acto. 

SoMMA^#B^uE^onMdk^e»-l aato. * •--.- 5 .. à ^ 

Os pfciMQS, eczema , ém r4retg*/\ _r . v ../ X. 

A furiosa de amor, comedia em 1 acto. 

O amante emprestado, comedia em 1 acto. 

Casar ou morrer, comédia ém 4 aéto? 

A mosqudíha mobta, comedia em 1 acto. 

V. Ex.*»bscú»*VcosNR*h^?í1 &&. -■? * 

No campo da opposição, comedia em 1 acto. 

Mestre BASNABE^soana comioft. j ) 

Ajwrshmm±o César de Vasconcellos 

pacusm bei, com edm «ml acto. i . ■?. 

cura Santa Cbuz, drama em 1 acto. 

Dispa essa pabpella, comeéíaem l^acto.' 1 - v. 

I>iogfo «Tose Seromênho e Augusto 
César de Tasconoellos 

Os stn è ÊB8Tie&8o& 1 o&mdfazm ãaetos. - •> > -• 

Au R. I*ai1iaes 

Por seb económica, comedia ém 1 acto. f 



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NÓPRELO 



Um bafaz tímido, comedia em láéfco. 

Maldita casaca, -comediam 1' acto. : , l 

Diogo J^fjè^eroMAônÍAO 

A CABBA-cEGA y ^^çziie^á f em .2 actos, traducçao.. , ; 

<í, j i :• * "ifírí ! .* . .. / • '■.••• « 

.,1;,,. : ..-«• , *• ' .!■•■•>-'■ 

"'■ «. : .'•*• ■ ií - • ■ . *; •. •• 
.» »j f ,.,, •*' m - - m*<- ' ... * 

.. ., r - .►..•;, '...-,« í- :_ 

• • J j.- « : '* -' .- * 

EM 4 ACTOS, ORTGIlfAIi ' '^ < 

Representada repetida* -Tefees com geraes applau 
sós no theatro do (ry^pasi*^ 

-" :/:;/ "■ <'■' " : ' '.-?. ■■.-• 

Todas estas peças sfe> próprias, para. se íeprssstttar ei: 
tfaeatros públicos § paj$$fda*fs.-- j4 veqda em todas as ] 
vrarias e agencia doatbeairoa, ,.-. 



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o 



CASAR OU MORRER 



COMEDIA EU 1 ACTO ' 

(ilflTfAÇio) 



DIOGO JOSÉ SERÒMÊNHO 

Condecorado com a medalha ao mérito 



THEATRO CONTEMPORÂNEO 
•IO«0 •■■•HÉIKt 

1DITOB 
XJBBBO.A.— 1870 



Digitized byV^OOQlC 



i PEftSOtf/KJENS T • 

? . ••'::; f . r . . f . . 

FERNANDO 

ÁLVARO 

ARTHUR „ - 

LUIZ A 

SOPHIA 

UM TABELLIÂO 

JOSÉ 

Aldeãos 

A acção passa-se na America 



ACTO ÚNICO 
SCENAI 

SOPHIA 6 ÀRTHUB 

Sophia— Já lhe disse que estou só, entre, não 
seja lesma, que tenho muito que lhe contar. 

Arthur — Sim, pois conte lá. 

Sophia— Mas enrqtratrto- eu fallo, não podia 
deixar esses modos sérios e bruscos, essa posi- 
ção sempre direita, que parece um camello. 

Arthur — Deixa-te de comparações por mais 
exactas que ellas sejam. 

Sophia— Pois fique sabendo que ha mouro na 
costa, e que lhe querem furtar a noiva. 

Arthur— Vamos, explica-te, que mouro é esse 
que me qaei<W*ttW"LMiid9 ' ■'■* 

SoPHU-*B««i(M)tf(»ní)«ço^maé#4)atr5o hoje 
levantou-se muito cecU), & Io\ ao quarto da me- 
&ina dizer-lhe qm ^aha^araiejado um bom noivo 



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— 3 — 

e qoe haviam de casar hoje mesmo. E a culpa 
(Tisto acontecer é suai Porque n8o casou com a: 
D. Luiza, quando o pae lh'a offereee»? 

Arthur — Se elle m'a tivesse dado completar. 

Sopeia —Então qoe lhe faltava? 

AurauR—tO principal, o dote. . - ": 

Sophia— Todos são o mesmo, menos o mea ; 
Fernando. 

Arthuh— Quem é esse Fernando* 

Sophia— O meu noivo, que Mm n'esla lerra 
em tio muito rico, e qoe brevemente» virá casar 

COBMgO. , * 

Arthur — Mas que me importa a wim lado is-, 
so! Com que então querem hoje mesmo cawM. 

Sophia— Hoje mesmo. « « : 

Arthur— Muito bem, eu inventafiei aJgum es- 
tratagema. ; .: t 

Álvaro— (dentro) Sophia, b meu casaco! \- :; 

Sophia — Safe-se, .qiitf ifrltám o velho. 

Arthur— Fico, à proximidade do perigo me il- 
Itraráará. TiQha graça, se eu, um tiéadBoiiftre 
d' Ame ri ca, me deixava burlar pior um hesçaobo* 
Kto de má :morte. * :»•: l 

kvvA.viQ~r{dentro) Então, vem esse casaoo, «& 
não? 

Sophia— Já vae 9 estou acabaado de o ^escovar. 
(baixo a Arthur) Eu vou lá a vér se o detenho," 
ma? «por Deus saíe-se -(mm^« ■ * -- »l 

Arthur— (pensando) A qual doMre$ matarei 
primeiro? Ao^pae, á fltfia, ou ao noivo?- iPneciso 
pensar (sae). i .* .>• ' ■'< 

. /Scena/«-í •» ; 

i • • - Sophia* Álvaro a tfOàé < / ' .;.;** 
Álvaro— fewírawtojLGvaa uéalboi* para e*l 



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— 4 — 
corar o casaco., (chamando) José! O' José. Toma- 
rei iodas as minhas medidas para que o pássaro 
caia na rede, depois tudo irá bem. 

Sophía— Aqui está o José! 

Álvaro— Cheguem-se aqui os dois. D'aqui a 
bocado ha de chegar 'um cavalheiro que pergun- 
tará por mim» tu vaes avisar-rae, e depois pegas 
n'uma espada, e collocas-te á porta» de sentinetla, 
não o deixando ; sair, seja com que pretexto fôr. 
Qs srgBaes do sugeito são: estatura regular» na- 
riz pardo» quero dizer nariz regular, e olhos par- 
dos. Conta com uma boa gratificação se cumpri- 
res á. letra erqne digo. 

Josjê— Gonte comigo. 

Sophía— E comigo. 

hw hftò- (aparte) Agora vou convencer minha 
filha, o que não julgo difficil! Obl fortuna, prote- 
gei-mô (sae)* 

SCENAffl 
-„• * Sophía e José 

Sophía— Que quererá isto dizer. Estou mor- 
rendo de curiosidade. 

José— Pois eu não me importa com isso. To- 
mara já que viesse o homem do nariz pardo, (ou- 
ve-se chamar) Quem será? (*aé). 

Sophía— Será este individuo? Algum mysterio 
envolve esta visita. 

José— (entrando) Pôde esperar n'esta sala» que 
<* pátrio já vem. 

Sophía— É o tal, vou espreitar (esconde-se). 

SCENA IV 

Fernando e Sophía 

Fernando— Ora ei^cne em campanha. Deas 
faça com que tudo corra bem. 



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— 5 — 

Sophíà— (apparecendoj Senhor! Que vejo, será 
possível? Ta! ta aqai... 

Fernando— Sophia!.. . Tu aqui! que encontro 
t5o inesperado... 

Sophia— Fernando, querido Fernando, . então 
sempre viestes? 

Fernando— Assim parece. • ••'< 

Sophia— li u bem sabia que tu vinhas, ninguém 
resiste ao amor verdadeiro. 

Fernando — Nem a um tio rico. 

Sophia— Mas como voltastes tão depressa? 

Fernando— Porque meu tio me escreveu, mifc- 
dando-me, partir, e enviando-me diõheiro para a 
passagem. 

Sophia— E elle está bom? 

Fernando— Julgo que sim, porque ainda o 
não vi. 

Sophia -Então quando chegidte? • 

Fernando — Hontem á noite. 

Sophia — E como soubeste aonde eu estava? 

Fernando ~- Ignorava qoe estivesses aqoi. 

Sophia— Ah! já comprehendo, foi o leu. cora- 
ção que te guiou. 

Fernando — Também não foi isso, queifi me 
trouxe aqui foi uma carta d'um tal sr. Álvaro, 
com quem teaho uma conta a saldar. 

Sophia— Esse é meu amo! Então já o conhe- 
ces, e tens contas a ajustar com elle, chegando 
hontem 3 noite! 

Fernando — Caprichos da minha má fortuna. 
Joguei sobre palavra, contando com o dinheito de 
meu tia, e em menos de meia hora, teu amo 
ganhon-me sete contos de réis. 

Sophia— Pobre rapaz! Em bonita te metteste. 



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— 1~ 

Ffrn ando— Agora não tem remédio, dize ateu 
amo que estou aqui, 

Sophia— Eú vou, mas díze-rae quando é o dia 
do nosso casamento? 

I» Fernando ♦*- Segundo os meus cálculos para 
d'aqui a três annos. 

Sophia— Tu mangas comigo! 

Fernando— Nío, mas bem vés os meus apu- 
ros, as minhas dividas... 

Sophia — Teo tio as pagará. 

Ternàndo— Pois sim, será o que tu quizeres. 
Mas avisa teu amo da minha chegada. 

Sophia— Vou correndo, meu amor, lembra-te 
sempre de mim (sae). 

SCENA V " : 

Fernando e Álvaro 

Fernandot-Poís senhores, aventuras nunca ma 
faltam. Não esperava encontrar aqui a Sophia. Ve- 
remos que tal se porta o meu credor, Elle ahi 
vem. Convém mostrar um certo ar de superiori- 
dade. 

Álvaro— Tenho a honra de o cumprimentar 

Fernando— A's ordens de v. s. a 

ALvaro- Recebeu a minha carta? 

Fernando— Recebi; ' 

Álvaro— Tem a bondade de assebtar-se. 
t Fernando— Com muito gosto (assenta-se). 

Álvaro — O senhor disse-me hontejn que se 
chamava Fernando Pimenta. 

Fernando— E' verdade. 

Álvaro — EntSo o senh.r é sobrinho do sr. An- 
tónio Pimenta. 

Fernando— E' verdade. 



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rr=7-rr 

Álvaro— Também me disse que. era solteiro. 

Fernando— E' verdade., 

Álvaro— Tem a bondaâe de me deixar vér o 
sen passaporte, se o traz çomsigo. 

Fernando— [aparte) Será o comjpissario d$ 
policia! (alto) Trago o na minha -carteira (tirpn- 
doa). .. : ' 

Álvaro— (arrebatando-lh'a). Deixe vér, . . de}- 
xe vêr. 

Ferrando— Com -cuidado, que a carteira conr 
tém objectos muito frágeis. , [ 

Álvaro— jLetras?; . . Notas dp banco?.... 

Fernando— Não senhor, cartas demores, e re- 
tratos. 

Álvaro— E mais nada? 

Fernando— E a minha certidão de baptismo. 

Álvaro— (procurando-a com ancipdade) Aonde 
está?... 

Fernando — (ápaxte) E' muito curioso!... 

Álvaro— (aparte, depois de ter lido a certidãq) 
Não me enganei, é elle. 

Fernando— Como me olha! ... 

Álvaro — Pois, meq cara senhor, sabe qae as 
dividas do jogo, se pagam no praso de 24 horas, 
por isso espero me embolse do que kootem me 
ficou a dever. 

Fernando— O que? 

Álvaro— Que me pague o que me deve. * 

Fernando— (tirando dinheiro d y algibeira) Eo 
oio tenho senão isto (mostra 10 réis). 

Álvaro— Então o senhor manga comigol 

Fernando— Não tenho mais, nem ciuco réis, 
mas vou ter com meu tio, para elle pagar (quer 
levantar-se). 



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— 8-^ 

Álvaro— Deixe-se estar. Com que então não- 
pôde pagar^me. 

Fernando— Nao tonho dinheiro; 

Álvaro— Pois bem, eu estoa um pouca dis- 
posto a seu favor. 

Fernando — Simf 

Álvaro— Eu tenho uma filha, e acaba de me 
lembrar uma cousa. E' o senhor casar com ella. 
O dinheiro que o senhor me deve constituo o do- 
te. Não lhe parece que é uma ideia muito lumi- 
nosa? 

Fernando— Parece-me antes orna ideia muito 
escora. 

Álvaro — Então acceita o contracto. 

Fernando— Não acceito. 

Álvaro— Então, pague-me. 

Fernando— Tenho que pedir o dinheiro a meu 
tio. Pois o senhor bem sabe que meu tio é mil- 
lionarto.o senhor deve o conhecer; porque quem 
tem dinheiro é conhecido de toda a gente. 

Álvaro— Não conheço. Mas simplifiquemos a 
questão. 

Fernando— E* o que eu quero. 

Álvaro— Dô-me dois comos de réis. 

Fernando — Agora é impossível. 

Álvaro— Então case com minha filha. 

Fernando — Não me .convém, e o melhor é aca- 
barmos com essa chalaça. 

Álvaro — Chalaçai . . . Sabe alguma oraçSo? 

Fernando — (aparte) Quer-me examinar em 
doutrina. 

Álvaro — Ah! está resando entre dentes. E' o 
mesmo! Tome lá a chalaça (Ura um estoque da 
bengala e faz gesto de o furar). 



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■Mlll II, 



_i9 — 

Fernando — Meu ;i peu$f Q que vae fazer? 

Álvaro— Depois de morto se convencerá de 
que eu não estou brincando. 
1 Fernando— Bem, çom essa prova me dou por 
convencido. 

Álvaro — Casa com minha filha? > • \. 

Fernando— Deixe-me ao menos pensar. 

Alv Aho-^ftirando o relógio, e vende ar horas) 
Tem um minuto para pensar. . .. ■'• . 

Fernando— Isso 6 pojíco. Precisão pra&ad'um / u - 
mez. 

Álvaro — (picando o) Infame. 

Fernando — Olhe que me picou. 

Álvaro— Ou casar, ou morrer. 
> Fernando— Não sei qual da» cousas é pear. 

Álvaro — Escolha. i 

Fernando— A morte. 

Álvaro— Como o queres... (vae para o fe- 
rir). 

Fernando — Esteja quieto! Caso. . . caso. . . 

Álvaro— Isso é outra cousa. 

Fernando — D'aqui até lá. . . 

Álvaro — Dentro d'uma hora estará aqui d ta- 
bellião. * . 

Fernando— O quel tão depressa? 

Álvaro— Tornas a 1 vaciltar? 

Fernando — Não, quando qoizer. 

Álvaro— Devera^. 

Fernando — DeVéíasf 

Álvaro — Vou aviàar a noíva. 

Fernando— (aparte) Cahi em boa. (alto) Vá, 
vá, meu sogro. Eu espero. I 

Álvaro— (com carinho) Até logo,. meu. filho. 



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8.1 



— «a— 

sceíná vr 

Fernando, José, e degois Álvaro 

Fernando— E agora. . • pernas. . . para que te 
quero (quando vae para sair, encontra-se com 
José que o detemh • ■ 

José*- Não se pôde passar. 

Fernando— Nio se tyide passar? Isto è orna 
prisão. Retira -te, estafermo; 

José— (grilando) — SenhorI . . ." Senhorf. . . 

Fernando — Calla-te, maldito! 

José— Senhor,.© honieín <juer-se safar. 

Fernando— Caila- te .. . 

José --Senhor! • .. 

Álvaro— (entra correndo com' um tsteque na 
mão) O que é? O que é?!. ... 

Fernando — Acudam t Soccorro! qae me ma- 
4àm. 

Álvaro— Então o senhor queria fugir? 

Fernando^Euí nSo senhor. 

José— Sim senhor, queria eseapar-se. 

Fernando — Calla-te estúpido. 
- Álvaro— Bem, por esta passa, usas se tornar. 

Fernando— Prometto solemnemenie. 

Álvaro — Veremos (soe). 

SCENA VII 
Fernando e Sophiá 

Fernando — Aonde eu me melti. Ou casar ou 
morrer. 

Sophia— (entrando)- Então o qutf ha de novo? 
i tratastes o toa negocio? 

Fernando— Está tudo combinado. 

Sophia — Faço idefo de que o patrão te poz en- 
tre a espada e a parede. 



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Fernando— Nato/ p©i me: entre o estoque e a 
filha. 

Sophia— Não entendòf 

Fernando— Que me deu a escolher entre otoa 
«tocada, e o casamento. 

Sophia— E tu o que escolhestes? A «stocada? 

Fernando— Não, o casawoto. 

Sophia— Tu casado com outra! Antes te tira- 
rei eu. os olhos. 

Fernando— Não fsças bulha, qúè a cufprnão 
é minha. 

Sophia— Quero descobrir tudo. 

Fernando— Olha que pôde dar em twutfado 
o ser atravessado por um estoque. 

SoraiA—Aotes quero que te mate. 

Fernando— (aparte) Lanço mão dos prandes 
recursos, (alto) Tu não imaginas quanto te adoro. 

Sophia— 42 eu tattobãm. E é por isso que não 
quero que cases com outra, Mas como iemlroo 
: a meu amo similhante ideia? Tu és pobre, efle 
muito avarento. Aqui ha algum mysteriol E por- 
que não te aafas? 

Fernando — Já o qu : z fazer, porém essa porta 
está guardada por itui cerbero, que está. armado. 

Sophia— Salta pela janella. 

Fernando— Salta tu, e se chegares li com vida 
salto eu. Ates agora me lembrou uma taboa de 
salvação, eu estou preso, mas tu estás livre. Por 
isso corre a casa de meu tio, porque em eu pa- 
gando o qtie devo já posso sair. Sabes aonde 
-mora meu tio? 

Sophia— Eu nãe. 

Fernando— Chama» se António Pimenta, e mo- 
ra ás Cruzes da Sé. 



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— 1*— 

Sophià— Sei quem ó, conheço-o, é amigo de 
meu amo. 

Fernando— Mas elle disse-me que o Bio co- 
jdiecia.t 

Sophia— Por isso mesmo me convenço dô que 
aqui ha mysterio* 

Fernando— Deixenao-nos de averiguações, corre 
a casa de meu tio, piata-lhe a minha horrível 
situação, a vér se lhe apanhas o dinheiro. 

Sophia^E se voltar com o dinheiro?... Ca- 
sarás comigo? 

Fernando — Com certeza. ■*■•-: 

« Sophia— Ai! meu querido, Deus me dê boa 
sorte (saé). 

Fernando— Corre, salva o. teu futuro marido. 

SCENAVHI 
Fernando, Álvaro e Luiza 

Fernando— Deus a leve em bem, e depressa. 
Ahi vem o pae e a filha! Ail que mulher tão feia! 
-E o pae ainda não largou o estoque. 

Álvaro— Minha filha, aqui te apresento teu 
futuro marido. 

Luiza— E' tão feio, papá? 

Fernando— O que? 

Álvaro — Não faça caso, são gracinhas d*ella. 

Fernando — Eu creio que esta senhora não 
quererá casar com um homem feio. 

Álvaro— Isso nada vale, foi graça. 

Fernando— Pois estimo muito coahecel-a, e ao 
meu lado sempre ha de estar bem... {aparte) quan- 
do não estiver mal. fabo) Mas parece-me que pa- 
ra nos conhecermos bem, devia ser mais espaça- 
do o praso para o casamento. 



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— 13 — 

Álvaro— (tossi ndo 4 mostrando a bengala) Q 
que?... 

Fernando— Tem mão, n3o devem ser demo- 
rados os momentos d'àmor.. • (aparte) e de mír- 
tyrio. i 

AtvARO-r-BaSU, que me commovo. 

Luiza— Pois a mim me di vontade der rir. '. 

àlvàro— Detxo-os sós por um momento, pára 
que vão tendo confiança um com o outro. >4M' 
vou pôr todo em ordem 4>ar* que d'aqui a uma 
hora. . . (baixo a .Fernando) ou casar ou mor- 
rer (sae). 

SCENAIX 
Fernando e Luiza 

Fernando— E' indispensável que v. ex.* te ie- 
goe a casar comigo. 

Luiza— Sim?. . . 

Fernando— Sou moito pobre, amo outra, efv. 
ex. a já disse que eu era muito feio. • 

Luiza— Isso nada quer dizer, porque eu tam- 
bém amo outro. 

Fernando— E' que eu sou pouco paciente côm 
ciúmes, e algum dia partir-lhe-bei um braço. 

Loiza— Ainda bem que me preveniu, porquê 
bei de pedir a meu pae a bengala d'estoque. 

Fernando — Conheçoa pessoalmente • . . 

Luiza— E em me querendo bater, atravesso-o 
com ella. 

Fernando — Com que enfâo nio ba remédio? 
(aparte) Eu me vingarei, (alto) Visto que vamos 
casar dê cá um abraço. 

Luiza— Olbe pará«s&e espelho, se estivesse no 
meu logar, deixar-se-ia abraçar por um homem 
tão feio como o senhor é? 



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Fernando— Eu 1A0 «* deixaria abraçar, nem 
por um homem bonito, nem feio. 

iuifcA— Pw um hoamam booilOilsiml»; / /... . 
- Fwnando— SfitvUâo. me abraça por bem, ha de 
fazelo á força. 

Lvizk— (correndo) Esteja qpietoL ; . 

FzwAxbo ~(seguindo>a) Quieta* digo ea^,.: 
í;ÍíUiza^0' Arthur (deixa-se cair nos krafos 
diArlkur, que mtra faio funda). ? .; . ' 

;.. . ■-...- SfiENàX < ■ > :'"'! ••• 
-. .i .; . OS MESMO» 6 A&THUB i <••• 

Arthur— Luiza! ■'-*:• 

Fernando— Entãa^of 4ttê^cavalheiro deixa-se 
abraçar? / : kI *, >t/a>:;i..'-i 

. Luiza ;*Se elle . é o íineu, amor. a ;/..•: 1 
Arthur— E o senhor é? .,;.:. 
Luiza— que vae casar comigo.i y xi .* 
. Aj\Tffiía~Estimo mu|to iconheoei-o. >'.:•'[ 
Luiza— Que lhe parece ia meu amor? . •*. / * 
FHRNANDO^-Divkwmeiite; * ;x; kI 

Arthur —Então casas com elle? . ;•. • 

i Luiza— Meu paeassim o qufr. 3taa GiaHaahas 
duvida; jqub o roeu coração Jia èeaer sempre teu*. 
Até já p disse aqui aa mm futuro. (aiFermnâo) 
Não ^ vprdade que. já ílíi'o djsse? .. -: i.i 

FERNANBO^-^.verdwJe;' teve o dbsearameatoíde 
tt-'o áiíer na minha cara; £ já me^vae sutúudoí a 
mostarda ao nariz. .*l - ■■ \\\ -> 

■ X*ímun-^T-(dãnd(hlhe nmp <pál mada)/lzm'i o 
que eu .qipero... >>\> : .i.i ;.„«■..•' '^i * '' v u -^m 
Luiza— Agora é que vae -ser bonito (sat)i ■.;*•> 

•,u:i ».iij iFfRNANDO e Arthcb : , i i 

Arthur— (dando-lhe outra pancada) Senhor í 



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Fernando— O senhor falia com a língua, ou 

com as mãos? . . ■ < 

Arthur— Siga-me. . . . 

Fernando-*- Aonde? 

Arthur— Ao campo, para nos balarmos. 
Fernando— Com esie sol, é loucura. 
Arthur— Sabe que amo Loira. 
Fernando— Sei, que lbe faça bom prefeito. 
Arthur— Isso quer dizer què ienooefa i nião 

«Telia, li 

Fernando— Não renuncio* . 
Arthur — O senhor è um cotará». > ' 

Fernando — Não sou da sua opinião. f 

Arthur — Então vamo-nos bater, Siga-m-j- < 
Fernando— Nio posso, ie& casar primeiro/ 
Arthur— O senhor cassôa? . . : ; I 

Fernando— Nio posso sair d'a()ui~ • .. : : 
Arthur— Eu o obrigarei (dá-lhe uma ba fétida). 
Fernando— Cavalheiro, isto pão «Sb bfiooadfci- 

ras. > . •■■•■O- ■ »/a/..í.. i 

Arthur— Isto não é brincadeira, é sério- "Qumí 

bater-se? y.jjpi < 

Fernando — Já lbe disse qtio rilo qwíoy i ) 
Arthur— Vô isto* : i .* * 

Fernando— Vejo, é uma píatotW.- ! i »*'" & 
Arthur— Quando pegar ôa'ipÍDna -para í*isi- 

goar o éewlracto, mato-o. > • v '« • : >-^ 

FteRNANDO— ísso é uma granda fórbaridáddiMii 
Arthur— Cá váe a ;p&tollaf fsae)í ■ •«* :A mviv* 
•■' ■' ■ SOEÍÍA^H ^ '■<■> --/.:»•!•.* 

FÉRíWÍNfaé é^MlÀ '-.fiVBl 

FEtTNÀNDCHi-0 qW-è ^e^Sbpbia^^íWO^Ocho- 

rando? : - / ^ ,; :ij.;í-:i/. . /.m.h8at mo 
Sophia— Prepara-te^fe* um*' mii ^teweotàra. 



yGooQle 



— Ift— 

• Fernando— ^Fatl a, eiplica-te. 

Sophia— Teu tio morreu. As pessoas que esta-. 
vam em casa do defunto, ao ouvirem que eu ia 
da tua parte» fizera m-rae mil perguntas a teu res- 
peito, e exighratn que eu lhes dissesse aonde ta 
estavas. 

Fernando— E quando morreu? 

SopHiÀ—Hontèua. 

Feknando— Estou bem arranjado. 

Sophia— Então não ha remédio nenhum? 

Fernando— Não, minha filha. Estou condem- 
nado a pena ultima, e d 'aqui a meia hora exoçu- 
tam-me. 

Sophia— Pois bem, uma vez que casando te 
salvas da morte, casa-le, eu sacrifico*me por ti. 

Fernando— Eu, casar-me! O namorado da me- 
nina jurou matar-me com um tiro, na occasião 
em que rtsigoasse o eontracto. 

Sophia— E^> capaz d'isso. 

Fernando— Queres dizer com isso, que o oq- 
tro tâo o é. 

Sophia— Meu amo, também. 

Fernando— Bonito, se caso, morro, se não ca- 
90, morro da mesma maneira. Bonito futurot • . . 

Sophia— Pobre Fernandol 

Fernando— Tem valor, minha querida! Vamos 
escolher qual dos dois géneros de morte é me- 
lhor. Morrer d'uma estocada, ou d'um tirol (abra- 
ça-a) Ai! minha querida Sophia! 

Sophia— (abraçando a) Fernando do meu co- 
ração! SCENA ULTIMA 

Os MfiSM08, Aívasq, Luiza, depois José, 

um tábellião, Arthur, e homens do povo •• 
. Alvauo— Que vejo infame. 



yGooQle 



_i 



-17- 

Fernando — Deu-me ama tontura, e para n5o 
cahir,tive... 

Sophia— É verdade, fez-se tSo palíido! 

Álvaro— Ah! então desculpe. Está melhor? 

Fernando— Um pouco melhor. 

José — (entrando pelo fundo) Senhor, o tabel- 
lião já vém na escada. 

Alvabo— Chega o instante da tua felicidade, (a 
José) Até nova ordem não deixes entrar ninguém, 
seja porque motivo fôr. 

José — Não entrará nem uma mosca (sae % feio 
fundo, na occasiâo em que entra o tabelliâo e 
Arthur). 

Álvaro— Seja muito bem vindo. sr. tabelliSo 
(falia baixo com elle). 

Fernando— fá parte) Se n3o deixam entoai* 
ninguém, estou livre do homem do tiro, e assim 
qae se assignarem as escripturas safo-me. 

Arthur— (tirando um lenço que lhe encobria a 
cara) Conh6ce*me? 

Ferrando— Mau Deusl ... 

Álvaro — Vamos á leitura do contracto. 

Tabelliâo— Se querem, póde-se dispensar, foi 
feito conforme a minuta que recebi. Agora pôde 
a noiva assignar. 

Álvaro— Anda dssigiftr. minha filha! {conduz 
á nteza Luiza que áisigna). 

Arthur— (a Fernando) Cá está a pistolla. 

Tabelliâo— Agora, o noivo. 

Fernando— Chegod á minha ultima -tora. 

Álvaro— Assigne. 

Febnando— Já vou. 

Arthur— NSb resigne'. 

FERNANDo^fr^ando) Creio earDette padre to- 
do poderoso... 2 

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-18- 

Álvaro— Eniío morre. 

Abthur— Morre. (Um pucha o xstQque e outro 
aponta a pistolla). 

Fernando — (gritando) . Accudam ! Oh ! da 
guarda! 

Álvaro — (a. Arthur) E o sr. com que, direi- 
to... 

. Arthur— (tirando o lenço que lhe encobria a 
cara) Basta d'iocognilo. 

Álvaro— O namorado de qaioba filbgl 
. Arthur— Eu mesmo. 
, Álvaro— E quer raataUo porquei se ca$a. 

Arthur— E o sr. porque elle se não casa. 
: Álvaro — Pois veremos quem vence. 

José — (entrando a coxrer). Senhor!; . . se- 
nhor!.... 
t, Álvaro— O que é? 

josé— Entraram á força. . 
, , Álvaro -Quem? (entram differentq$ #ldçãos, 
e outros ficam fora tocando e cantando). » . , 

Um Aldeão— Quem. ê .o sobriíího dOy&r. Anto- 
tonio Pimenta? - _ ;:/ 

•... Fernando— Sou eu. ---«■/■•:.. 

.. Todjqs — . Viva ,o sr. Feroaqdo! Vivai (todo» o 
abraçam). . u j ; ,, P; ; . • 

Álvaro— Mas que qu^r isto dizer? . 

Um aldeão— Que. a ar- Fernando «fiw herdei- 
ro de seu lio, e doa? de iodas as quinta* e pré- 
dios, .o : :.p ( ; t , _•. . . 

Fçrnandp — (admirado)* Eu herdeiro 4e : jneu 
tio! Eu millionariot...Que alegria;, diga que des- 
graça, morrer meu tio. 

Álvaro— Eu arrebento de raiva* 

Fernando -r Coopo sabia que eu, erahenjeiro 



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-19 — 

de meu tio, queria que casasse com sua filha. 
Mas enganou-se nos seus cálculos. 

Luiza— Então o senhor é millionario! Então 
casemos depressa. . . vamos. .'. 

Fernando —Já não lhe pareço feio? 

Arthur — Traidora! fv . 

Sophià — Está arranjada! Com quem elle se ca- 
za é comigo. 

Fernando— Também é impossível. Fh voto de 
castidade!, porém . offe.reçp-nje para J$ dotar, e 
também á sr. a D. Luiza, com a condição de casar 
com Arthur. 

luiza — Deveras, com muito gosto. 

aAthur— Será possivelf . . . ; ! ' ' - •- 

Fernando —Visto que acceilam... (a Arthur) 
Dê-me essa pistolla (dá-Wa) (a Álvaro) Dê-me essa 
estoque. (áá-Wo) Muito obrigado. Agora sou eu 
o mais forte, (ameçando os dois) 

(Ao publico) 

Se uma herança tão inesperada 
. Vçio dár- me. coniotae&i ....:>>'/ ^-\J 
A tluvida de vos agradar 
Põe minh'alma em tribulação. 

Acceitae-a, eu vol-a cedo, 
E dáe-me a vossa approvaçSo: . 
Centento-me comdua» paknav- 
Fique a herança em compensação. 



CAE O PANNO 



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NO PRELO 

CONTOS SEM POESIA 

NARRATIVAS, CONTOS, LENDAS, TRADICÇÕES, ETC 
por 

Diogo #o»é Beromènlio 

Condecorado com a medalha ao mérito 

Um volume nitidamente impressa 

PREÇO SOO BÉM 

Recebem-se a&signaturaa 
/ 



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CONTINUA... 

COMEDIA KM UM ACTO 



POR 



DIOGO JOSÉ SEROMENHÕ 



Condecorado com a medalha ao mérito, Sócio honorário 
do Grémio Littererio Porluguez no Pará, etc. 



Representada com applauso em diferentes theatros 
i e escripta expressamente para os distinctos amadores D. laria do Carne, 
! Pedroso, c SaiitMnna 



<^| D. J. S. É> 






THEATRO CONTEMPORÂNEO 

DIOGO SEROMÊNHO 
EDITOB 

LISBOA-^1882 



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2 

PERSONAGENS 

©. Aníoasãa de «ousii.— AlTonso de Sousa.- 
e Francisco Carneiro. 

actualidade 

A€T0 único 

Sala bem mobilada Um guarda* vestidos á direita. Cartei- 
ra com todos os pertences para escrever. 

SCENÀ I 
Bi. Antónia, 

(Lendo um jornal.) «Sào numerosas as cartas que re- 
cebemos, pedindo-nos para publicarmos o, nome da nota- 
bilissima escriptora que"assigaa o nosso folhetim com o 
pseudónimo de, Ceres. Sentimos não estar auctorisados a 
satisfazer a curiosidade dos uossos leitores.» (levantan- 
do- se.) E' horrível ! Vér-me no cumulo da gloria, e ter a 
triste necessidade de occultar o meu nome. E tudo por- 
que ?, Pur estar casada com um homem que aborrece as 
escriptoras. Que julga que a mulher que escreve não cose. 
E' um erro! Eu sei tào bem fazer um folhetim ou um 
soneto como sei fazer unia camisa ou umas ceroulas. Ahi, 
vem meu marido ! (esconde o jornal.) 

SCENA li , 

D. Antónia e Aflbnso, 

Affonso Vou á vida. ' 

D. Antónia. Se vens buscar-me para passear, não 
venhas muito tarde. 

Affonso. Em sahindo da secretaria.. (a parte.) E' me- 
lhor fallar-lhe agora, e assim sahireide duvidas, (alto.) Te- 
nho que te fallardeuma cousa que me traz muito pre- 
occupado. 

D. Antónia. AA$ustas-me í Falia. 

Affonso. E' uuia tolice ! Mas preocupa-me. Ora ou- 
vo. . . Hontem á noite. . . Mas primeiro que tudo não vás 
julgar que suspeito. . . 

D. Antónia. Acaba com as reticencias. . . Falia claro.. 



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.JJ I . iJ i ^. J UW i 



— 3 — 

Affonso. Lá vai. . . A noite passada acordei, quando 
ta dormias. . . ♦ 

D. Antooíia. Não vejo nada para admirar ! 

Affonso. Ouve. Tú dormias, e souluvas, movendo os 
Braços, e fazendo muitas «arotas. . . Depois deste um sus- 
piro, muito baixinho. . . e disses-te. . . 
^ D. Antónia. O.que? Que foi que disse ? 

Affonso. Antes de te dizer devo novamente advertir- 
te, que não suspeito de ti... Disses-te «querido Ar- 
thur.» 

D. Antónia (á parte ) O heroe do meu romance. 

Affonso (aparte.) Perturbou-sc. (alto.) «querido" Ar- 
thur.» 

IX Antónia. Pois não me lembro. 

Affonso. Gora franqueza, o ta! ««querido Arthiir,'» in- 
comodQÚ-rae ura poato, mas agora, 

D. Antónia. Agora estás tranqnille. • 

Affonso. Agora <^ton. (a parte) estarei alerta. 

D. Antónia, (á parte. )%z\w\-ine bem. 

Affonso. A gente sonha couzas tão ratonas f 

D. Antónia. Foi algum pczajicllo.. 

AFrONSo (á parte.) Ca-la vez estou mais- desconfiado.- 

J>. Antónia (á. parte.) Mo nào pode continuar. Vou 
dizer- lhe a verdade, (alto.) Affonso tenho que te dizer uma 
conza. 

Affonso. Dize lá. 

D. AxTomx. (mvstranda-lhe o jornal.) Ouve o que diz 
este jornal. 

Affonso. O que»? Cahio o ministério? 

D. Antónia. Não, falia, d'uuu eoiua que te hade inte- 
ressar, muito, \è (dá-1he o jornal.) 

Affonso (lendo.) «São numerozas as cartas que rece- 
bemos, ped» iido-nos para publicar-mos o* nome da notabe- 
lissima escriptora qué assiama e nosso folhetim com o 
pseudónimo de Ceres.» A mim nada d' Isto me interessa* 

D- Antónia^ iá parte.) Nãe o interessa! 

Affonso. Quem hade ser essa escriptora .¥ Alguma 
egaal ás outras, metade homem, metade mulher; uma 
preteneioza ridícula; no gosto das que Moliére immortali- 



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— 4— 

zou. Bem estúpido deve ser o marido para consentir que 
a mulher perca o tempo, em taes bagatellas. 

D. Antónia, (a parta.) Pobre Affonso. Não sabe que o 
estúpido é elle. 

Affonso. E era então este o assumpto interessante (à 
parte.) Fm um pretesto, para não fallar mais no sonho. 
Más eu estarei alerta. 

D. Antónia, (á parte.) E' o único a quem não interes- 
são os meus triumphos. 

Affonso. Adeos, vou para a repartição, (á parte.) 
Quem será o tal Arthur ! (alto.) Adeos, até logo. (sae) 

SCENAIIÍ 
Antónia só . 
E' horrível ! ê horrível ! Que homem ! ainda bem que 
não insistiu em perguntar-me quem era o Arthur, com que. 
sonhei. Algum dia vejo-me em séria entallação. Não tdnho 
remédio senão continuar a guardar o incógnito. Vamos a 
aproveitar o4empo para ver se scabo o capitulo 48 (senta- 
se á mesa a escrever) A's 11 horas vem buscar o original. 
Vamos a vér aonde fiquei, (lendo) «Arthur suspirou. Au- 
«rora comprehendeu que aquelle suspiro encerrava ura 
«poema d'amor, de ternura, desentimentp, de paixão, de 
«enthusiasmo, de poesia e de outra porção de cousas mais. 
«E retirou-se ao seu quarto decidida a tudo A. vista do ty- 
«ranno parecia empurrai -a para um abysmo profundo. Ti- 
«rou uma folha de papel com cantos dourados, pegou em 
«uma penna, e molhando-a em tinta violeta, escreveu o se- 
«guinte. . . (deixando de ler .) Esta carta é preciso ser es- 
«cripta com todo o cuidado, (escrevendo.) «Arthur, idolo 
«adorado. . .» 

SCENAIV 
D* Antónia e Carneiro 

Carneiro, (detendo-se á porta. A parte.) Está escrevendo ! 
Não reparou em mim. Eslá com a febre da inspiração! Não 
a interrompo, (entra nos bicos dos pés e senta-se numa ca- 
deira.) Com que rapidez escreve I E' um talento admirá- 
vel ! 



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D. Antónia, (escrevendo) «O teu amor ou a morte. Fe- 
«chou a caria e atou-a ao pescoço da innocente pomba, que 
«se lançou ao espaço, orgulhosa por levar a um amante a 
«felicidade tanto tempo esperada.. . Felicidade, lelicidade I 
«Palavra angélica rodeada dVspinhos. . .» 

Carneiro Muito bem ! 

D. Antónia. Ah! não sabia que estava ahil. . . 

Carneiro. Desculpe-me, mas não a queria interromper. 

D. Antónia. Tenho pena cuie me visse escrever. 

Carneiro. Então porque? 

D. Antónia. Porque quando escrevo deixo me guiar pelo 
fogo da inspiração, e faço acionados, gestos, rio, choro, 
suspiro identifico-me çom a situação em que se acham os 
meus. personagens, e naturalmente a quem vir a sangue 
frio, parecerá ridículo. . . 

Carneiro, (fumando incessantemente.) Parece-me ridícu- 
la! Não digaj£sso. Todas asescriptoras notáveis teem tido 
suas excentricidades quando escrevem* as suas obras. Re- 
montando-tíosá antiguidade, vemos Sapho,que só escrevia 
versos ao compasso da sua lyra ; depois temos a celebre 
romancista Anna Radeliffe, que só escrevia á luz d'uma 
vela metida num craneo, depois temos M me de Girardin a 
qual Dãcr podia escrever sem ter almoçado costelleta com 
tomates, e a inimitável Jeorge Sand, que não era capaz 
de escrever sem beliscar a ponta do n%riz. 

D. Antónia. Vou daHhe o original para o próximo nu- 
mero. 

Carneiro. Já leu o que dissemos, no ultimo numero, 
aos que estão interessados em saber o seu nome ? (aparte.) 
maldicto charuto I (accende-o.) Porque não consente que 
descabramos o incógnito? 

P. Antónia. E' impossível! Sabe perfeitamente a causa. 
Aqui tem o original* Ahl deixe-me o ultimo quarto, (cotio- 
ca-o em cima da mesa.) 

Carneiro. E o drama,, quando o acaba? 

D. Antónia. Está muito adeautado. Mas também não 
tenciono pôr-lhe o meu nome. 

Carneiro. Mas isso é um crime. Renunciar a uma gloria 
certíssima, aos applausos do publico, ancioso porá conhe 



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cei\ Sabe que desde que os jornaes anunciaram o seu dra- 
ma, não se falia n'outra cousa. Imagino a primeira repre- 
sentação. (Uvanta+se.) Na primeira noite, o theatro estará 
completamente cheio. "No iim do primeiro acto a ovação 
será immensa, o p.uhlie.» dando palmas, gritará «Fora o 
auctor! . . . fora o auctor! ...» o panno subirá, e v. ex.* 
apparecendo. em scenà, será coberta de applansos e de flo- 
res..^ 

D. Antónia. Sinto a voz de meu marido I . . . Escpnda- 
se. . . (Carneiro sae pela porta da esquerda. Affonso entra.) 

SGENA V 

I>, Antónia e Afifou so» 

Affonso. (collocando o chapéo sobre uma cadeira.) Aqui 
me tens! Dei com as ventas na porta. Não me lembrava 
que hoje era feriado. 

D. Antónia. Não tornas a sahir? 

Affonso. Não. Mas que tens lu? Pareces preoccupa- 
da! . . . 

D. Antónia. Euf Não tçnho nada. (aperte.) Estou em 
torturas. 

Affonso. Vou despir o casaco. Já não saio senão de 

tarde, em, tua companhia, (pega no chapéo de Carneiro. 

Aparte.) Desconíio da preóeeupação de minha mulher, (sae 

pela direita.) . . 

SGENA VI 

B>. Antónia, depois, Carneiro* 

D. Antónia. Pode sahir. , 

Gárnèiro. Até amanhã. . . (colloca na cabeça o chapéo 
de Affonso: que lhe entra até ao pescoço.) 

D. Antónia. Saia. Olhe que me compromette. 

Carneiro. Este chapéo não o meu! 

B. Anotnia. Elle ahi vem! . . . Eseondft-se aqui. (eeconde-o 
no armorio, neste momento entra Affonso.) 

SCENA Vil 
E>* Antónia e Affongo»' 

Affonso. Viste o «Diário de Noticias»? 
D. Antónia. Não. Talvez esteja no quarto. 



yGdÓQle 



■à 



— 7 — 

Awtoxsú. (procurando na mesa.) Paroce-m« que., estava 
•aqui. (reparando n uma ponta de charut-).) Que:!» esteve 
aqui? 

D. Antónia, (assustada.) Ninguém. . . Parque? 

Affonso (aparte.) Fez-s^ pallida! (alto.) Exijo que me 
digas quem esteve aqui, depois liYu sahir. 

D. Antónia. Já te disM 1 , que ninguém . . 

Affonsoo. Tenho a cerlesa ijue aqui esleve um homem. 

D. Antokia Porque? 

Affonso. (mostrando -lhe a ponta de charuto.) Por i>tof 

D. Antónia. Isso. não pmva r.ada. seià leu. 

Affonso. Eu não fumei ainda hoje. 
• D. Antónia. Pois bem. v<m dizer-te a verdade: temia 
que te incommodasses. . . e por isso. . . 

Affonso. Falia, falia. . . * 

D. Antónia. Pois Leni. . . eu fumo. . . Tenho este vi- 
cio... e julgando que nào te agradaria... fumava so- 
mente quando tu sabias. 

Affonso. Sim. (a parte.) Nilo me illudes. (alto.) Pois 
podes fumar. Não me icominodas, ao contrario, acho ele- 
gante uma senhora a fumar, (a parte.) Espera traidora 
que já te arranjo, (alto.) Vamos fumar os dois um charuto 
de companhia, como dois Lons amigos, (tirando a charu* 
-eira e offerecendo-lhe.) 

D. Antónia, (a parte.) Valha -me Deus, cuidava ^p& 
estava salva. Não tenho remédio senão sacrificar-me. 
(tira nm charuto e accendeo. ) 

Affonso. Sào muito bons,. são da «Tabacaria Central.» 

D. Antónia. Tahacaria Central?! f - ê 

' Affonso. Sim. No Gonçalves, do Largo d/ Camões, fé 

D. Antónia, (tossindo) É muito forte! . ' ' 

Affonso. É mais fraco do que tu estavas a fumar. En- 
gole o fumo. 

D. Antónia, (á parle.) Agoaia-m^. . * nâo sei. . . 

Affonso. Estás uma fraca fumadora, (á parte.) Nunca 
fumou na sua vida. 

D. Antónia, (deixando se cahir no sofá e deitando o cha- 
ruto fora.) Não posso mais. 

Affonso. O que é isso, estás agoniada? . 



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— 8 — 

D. Antónia. Alguma cousa. . . mas isto nassa. . . vou 
beber agua. . . (levantando-se.) Sinto-me tonta! (sae.) 

ICENA VIII 

AflFtango e Carneiro 

Affonso. Infame ! Mas quem estaria aqui?. . . 'Preciso 
descobrir tudo! (sae pelo fundo.) 

Carneiro, (sahindo do armário.) Toca a fugir, ainda 
que seja sem chapéo. (deixa o chapéo de Affonso sobre uma 
.cadeira.) Elle ahi volta, (sae ? ela esquerda.) % 

Affonso. (entrando.) Aqui ha um mysterio que devo 
aclarar. Fingirei que de nada suspeito. É o melhor meio. 
E tudo isto no fim de dez^annos de casado! Mas quem es- 
taria aqui? Será possível que minha mulher me engane-? 
senta -se e repara no quarto escripto que D. Antónia dei- 
xou.) O que é isto? E' a sua letra, (lendo.) «Arthur, idolo 
adorado.» «Estou decidida a tudo.» Ingrata, heirde vin- 
gar-me. (lendo.) «Meu marido é um tyranno cujo jugo não 
posso su r )portar por mais tempo » Oh! quanto son des- 
graçado! E eu que tanto quero a esta falsa. Oh! mas serei 
um Otello. (lendo.) Teu amor ou a morte. Dispõe tu<}o pa- 
ra a nossa fuga. . . continua. . . Que quererá isto dizer ! 
Que continuação será esta í Serão capazes de um crime. 
Ella ahi vem. (esconde a carta.) 

SGENA ULTIMA 
Ht Antónia, Affonso* e depois Carneiro 

D. Antónia, (á parte.) Não abrio o armário, respiro. 
%Aenta-se a coser.) Estás preocupado. 
\ Affonso (\ parte) Continua... O que quererá. dizer? 

D. Antónia (a parte.)Terk algumas suspeitasl 

Affonso. (a parte.) Se náa fali o rebento, (alto.) Antó- 
nia? 

D. Antónia, (assustada.) Que queres? 

Affonso (a parte.) Assustou-se! Tem a inquietação do 
culpado, (alto J Já estás melhor! 

D. Antónia. Já. 

Affonso. Infame! Sei tudo. 

D. Antónia. Tudo quô? 



yGõbgk 



mm 



-9 — 

Affonso. Qae és tão vil que pagas o meu amor, enga- 
nando- me. 

D. Antónia. Que dizes? 

Affonso. (mostrando -lhe o quarto ascripto.) Vê. 

D. Antónia. Oh! perdão, . 

'Affonso. Então é verdade? 

D. Antónia. Sim perdoa-me por te ter ocultado a cul- 
pa é tua. 
. Affonso. Minha. > 

D. Antónia. Sempre t^ onvi dizer que uma mulher ca* 
sada-não se devia dedicar a isso. 

Affonso. E dizia muito bem? 

D. Antónia. Foi por isso que temendo desgostar-te na- 
da te disse. 

Affonso. A minha vingança será horrível'. 

D. Antónia. Mas isto na.da tem de espantoso. Já que 
descobris-te deixa continuar. 

Affonso. Tu estás doida. 

D. Antónia. Guardarei o maior segredo: nimguem o sa- 
berá. Que te pode importar. Outros maridos o consentem 
Julgas que por isso te heide amar menos, E consentindo 
tu, não me esconderei, como até hoje. Eu te mostrarei o. 
que hei dado á luz ■ 

Affonso. Estás doida! O teu crime fas-te perder, a cabe- 
ça.. 

D. Antónia. Mas que tens? Porque me olhas assim? 

Affonso. Desgraçada! 

D. Antónia. E' possível que me julgues com tanta dure- 
za. 

Affonso. Quem é o infame que esteve agui! Agora não 
o podes negar. * 

D. Antónia. Não t'o quero ocultar, p homem que esteve 
aqui é o proprietário dô jornal a Constituição. 

Affonso. Vou matai ^o. 

Carneiro. (Deitando a cabeça de fora da porta. )T£stoxk 
arranjado? (occidta-se*) 

Affonso. Dize-me aonde é a rédação do jornal, (põe o 
chapéo, e vendo que não lhe serve, atira' -com elle.) Este 
chapéu não é mèu! De quem é este chapéu? 



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—10 — 

D. Antónia. E' cTelle. 

Affonso. Então está aqui. . . aqui! Agora vae pagar tu- 
do. Dize-me aorçde está! 

D. Antónia, (fechando o armário à chave e guardando- 
a.) Nunca. 

Affonso. An! está ahií Dá-me a chave. 

D. Antónia. Nunea. Esse homem está inoocente. 

Affonso. Quero a chave por força, (dirige-se a D. Antó- 
nia para lhe tirar á chave. D. Antónia recua até àjtmel- 
la, que abre, deitando a chave à K rua.) Sou um tigre! Oh! 
que ideia! (gritando junto do armário.) Yáes pagar o teu 
crime, (tira uma pistola da gaveta da mesa, e dirige-se ao 
armário.) Vou dar-lhe um tiro. 

D. Antónia. Que fazes! 

Affonso. Morre, infame, (dispara sobre o armário e em 
seguida cae desfallecido em uma cadeira.) 

D. Antónia, (cahindo também sobre wna cadeia.) Ai! 

Carneiro, (apparecendo aporta.) Estou morto, (occul- 
ta-se.) 

Affonso. (levantando-se, e escutando junto do armatio ) 
Nada, silencio espantoso. Está morto, e bem morto. Eu í 
Assassino ! meu Deob í v 

D. Antónia. Que fizeste, desgraçado! 
• Affonso! Sim, desgraçado e bem desgraçado. Por tua 
causa me levarão preso, me julgarão, me condemnarão, o 
meu retrato de criminoso apparecerá nas caixas dos phos- 
phoros. 

D. Antónia. É agora que vaes fazer? 

Affonso. Agora? Matar-te, e depois matar-me. 

D. Antónia. Pobre homem, tão honrado, tão digno, tão 
innocente, sacrificado por um homem sem sentimen- 
tos. 

Affonso. Era innocenteí E ainda tens a infâmia de di- 
zer isso dum homem que me roubava a minha horixa. 

D. Antónia. Que dizes? 

Affonso. Do homem com quem querias fugir. 

D. Antónia. Estás dbitk)! 

Affonso. Tenho ã carta que lhe escreveste, aqui a tens. 
(lendo.) «Arthttr, idòio adorado.» 



Digitized by viHE)OQ IC 

PdÉHi ■!■■■ mi 



_~d 



— 11 — 

D. Antónia. Oh! é um engano horrível! Isso é uma car- 
ia do romance que estou escrevendo..'. Pois não sabes 
que sou esoriptoraí Era isso que te tinha occultado. 

Affonso. É então uma carta de um romance! Esse ho- 
mem não era teu amante? Quem era então? ' 

D. Antónia. proprietário de jornal aonde se pablioa 
o meu romance. 

Affonso. E matei oí Mas quem sabe se estará só ferido! 
Dá-me a chave. 

D. Antónia. Deitei-a fora. 

Affonso. Arrombemos o armário. Desgraçado! 

Carneiro (que entra.) Aqui estou í 

Affonso e D. Antónia. Ah!. . . 

Carneiro. Francisco Carneiro, que lhe pede a fineza de 
consentir que' esta senhora continue a escrever para honra 
da litteratura portugueza. 

\Affonso. Sim, minha querida esposa, dou-te licença até 
de pores em verso a conta da lavadeira e da mercearia. 

D. Antónia. Agora é que sou completamente feliz. 

Affonso. Já que és poetisa, improvisa uns versos e de- 
dica os áquelles senhores, {indica a platéa.) 

D. Antónia, (canta.) 

Depois de um qui pro quo 
Que acabaste is de vér 
Nao posso bem com certeza 
Um improviso fazer. 

Mas como a vossa bondade ' 
Continua a proteger- me 
Farei versos amanhã 
Se amanhã vierdes ver-me. 

fCAEOPANNO; 



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f 
O DENTISTA 

PÒH 

•• .1 > .■••:- - • t i .♦ 

DIOGO JOSÉ SEROMÊNHO 



(cOHDECOEjUK*O0ar A^íMttoit AO MKR1TO, 
■ÓCIO HONORÁRIO COBBB8POHDENTK DO GHEMIO LlTTRRARlO 



BJSPrWkNTAJD^ NO THEA^BOÔp .VaBiÈdÀDES ' 




D.J.S.M 




1 t^&p' wnmvf oRANEft 

ÍWOOO SBaOMÊNHO 

EDITOR 

LISBOA «1881 



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Joanna — Pedro — Lucas —Miguel e — -Theodoro. 

o 2£Cto xrmoo - 

Sala em uma casa modesta, um tremo á esquerda, com 
espelho, tendo em cima alguns instrumentos cirúrgicos, 
frasco* com remédios, utensílios para escrever. 

Jimtq ao espelba unia.cad«u'ra'antig^ op* wi*>coi»da ata- 
da a riu* dst bcafM^aiSei/á», quadros 'Ctcl ■-' - • * 1 

SOENA I 
PEDRO E^JOAfWA 

Pedro. (Limpando as ferramenta*) 'Joanna ) Limpaste 
o pó ás cadeiras e ao espelho? És capas de te esquecer 
de tudo com as tuas leituras. 

Joanna. Que mal faço em ler ? 

Pedro. Fazes mal a ti mesma, porque todas essas men- 
tiras qliê contêem os romances se te encaixam na catfeça, 
e de noite não sonhas senão asneiras. 

Joanna. Ora dsixe-me. 

Pedro. Não te zangues. Dize-me gostas de Lisboa? 

Joanna. Muito. 

Pedro. Também eu; ao menos aqni tenho sempre que 
fazer, não é como na provmria, orttle.ttfdps téem os dentes 
magníficos.. Mas eu. bem s>i pprqini tu castas muito de Lis- 
boa . . . E' por catiza dVssê pírsjfaTfino. \ 

Joanna. Outra vez! Não diga esses' nomes. Olhe que el- 
le é um homem de bem, e tem um bom emprego. 

Pedro. E oueres X\\ comparal-o ao tilho do tio Procopio, 
que é podre de rico. 

Joanna. Mas é um grande estúpido. 

Pedro Quem te disse semelhante couza? p rapaz tem es- 
tudado muito. E had*s por* força' ètttàé coni elle. 

Joanna. Mas istoé ítitta tyrâma^Ctóffto sou desgraça- 
da! JH."-: \ 



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— 3 — 

OS MESMOS £ LUCAS ; 

Lucas. (Fica á porta^com u&lemç* atado ntí cara, fin- 
gindo dores de dentes.) 

Pedro, (á parte) Não chores, que é vergonha. • 

.^(us. ,(4ijjwr/4Pl*r«c<5 qu0ínm passou a? dér, hastwt a 
vista ao dentista > .. . . ., . .. : . 

Pkdro. H^tos ban& dias, pode estirar.* pode êUtrar e?sen- 
t^-se. . .: â ., , ,. , ..•♦.:: . *, . • .- : i. . ■ 

Lucas, (sentando-se.) Muito obrigado (á parte}. Troto 
inm*ps©,,nje4o dpUef. . ..-.,;, .,...., i . . ; 

Pedro. Eui ^^. po^so ^yir? Quer qi*Mk$ iitfe neia 
dúzia de dentes? 

Lucas. Meia dúzia! Safa^nem úm, bastou a sua vista 
para me passar a dor. 

Pedbo. Não faço tfuèstaô e» taftfcHThe levo por tirar um 
dente, como por Ifie tirar todos.. ,.;.,••. .'...•• 

Lucas .[(apprajsimando-se de Joanina , que está chorando) 
Fez-Thé doer muito, menina? . ' ,,,..... .; . '. . s 

Joanna. ,Deixu-mi\ 

Lucas. % (baixo a Joanna) ' Eu só queria saber, (á parte) 
Está ditój nap tiro o dente. 

. Paulo. \á parte) Fali aram baixo, será este urso b na- 
morado de minha tilhaf : . ■- 

Lucas, (a Joanna) Quantos dentes lhe tirou? 

Joanna. (pancada) Nenhum. 

Paulo. Mas í%a-me o sr. veio cá para fallar comigo, ou 
com «tóntoafillw. :t< : * 

'- Lucas. ÀhJ '4 &À filhai ê nmfao stmpathicá. 
- íPbdroi (á ftirttf E* por' força este o apaixonado diémi- 
nba filha, e as dores dê dentearão ungidas. 

Lucas. Está a chorar coitadinha com dores de dentes. 
E < sempre ;assiro, etfi eafca de ferreiro ...■■•' '• 

i-' Pttniko. ; Eu' »5o* so« ferreiro, ouvio, mas acabemos- conV 
isto, o que veio o sr. aqui fazer? j ' : '; 

Lucas, (preplexo) Eu vinfeârpará uma couâà, 1 mas ja fes- 

tM^àmpètfdjiilo." • : r . . . , .■•«. 



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— 4 — 

Pedro, (á parte) Comffre&entft^ vinha ver a filha e en- 
controu o pae. fc/.aytl i hr ' v 7?í .-10 

Lucas. E' verdade, arrependido. . . A carne é fraca. . . 
(á^artt) M8o'iei*o qtyr<íi£0. *férlrt))>E&tbtí çí&mOfádcJ de 
uma donzela. ^. .,.*..•.-. « ■•..» a\ , v 

Pedro. tftatófitso.""' • t 1 -» «■■ f. • a »-\ » .«■•.tt--i 

* IwjteAsl .0'quftf Sabet EtitSo fcôtoAfece á? Dijpirfé iive 
bom gosto ou não? ni > -í 

• i Pedi© } Mas "O pafr é vpie i dfcspréza* fc que Ih^agáttà por 
ama orelha e o põe no meio da rua. Que mais tem a dí* 
«Mè? \^\ • • : r -'■■••••• -.» . 

Lucas. Doia-me um dente, mas a àét\i pbsaòflf. P*£Sé 

..', - ,;•-'. ji I-. .«SQEtfAXtt! *.:{•:.. 1/ -i 

,„., ., ,. , ,, ,; jfWWK JOANNA •■'... .'/ : ,.'.' V"' 

,Pbdro. Maroto! tu hadçs voltar e ! então tè arranjai'. 

Éibe% cj&è's"ou IHèxò^Véi;* hajje-se fazer o què eq ma^do, 

Joanna. E' uma tyranma. '. '■ • ' ,V-'',a 

Pedro. Silencio, não me. obrigues a tirar- té os dentes 

tôlft)#i *CasTâtá!s'cbm 'ífàWkrfcú mii.zerf fc em quanto a í£se 

vil seductor. Eu o arranjarei. (Saépela eMtieíila:) \ ',.' 

Vn-.í.f .:■ -:•• .[» >tiitfr.i ,# • «mu.- V. u, ><t uj 
. JOANNA £ MIGUEL (gmèrtrá coh* pwttiiuçâo) t í 

Miguel. Joanna, querida Joanna tens estado dnthom? 

Joanna. JSãp ; queres ym.ieu cbtirpl Meu !ptw oppoeí-se 
ay, , ,nj*ssK>{ . ^asamema. .Diz. qw, tendei casar <çain um. Jtffpa 
d'um ricasso, filho d , um ( aQ»ig<> i 4teHfc.^n .!• ,. «> .n!^ i.jIí? 
.>K^jE^|M*14ito seja o.jWJieiro.!.:. ..|- 1. . .; . .. a 

Joanna. E verdade,, : é»Oi dmhw^ qtie.me separa 4e tfl 
mw, ant®* qu/iro morrer, do. que casar con» <JUlra,k4>Wm 
que não sejas tu. ; • . «. ; 

.,^<5u^^,vir4.íaJhr ; ft i t^a|ía > i v i .'. > .\. Ux U, ui 

Joanna. Não faças tal, que elle promeMgiHiiWrteiftft 
dentes todos. 



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- é — 

Miguel. É esse o seiioftteio. 

Joanna. Aif Miguel sç meu pae nos encontra juntos! 

Miguel. Não tenhas lifedo, isto é um estabelecimento 
ppJbjico e ejjp uão,me ( co^bece : .É. preciso cpm bater «e 86 
noivo. » .*'•.. , 

joanna, Tenlio, medo, que. venha meu pie, saíste. 
Adeus. ''■ ' ' ' .,.-... ,"- -j, 

Miguel. QejjanflQ-lhe a ttjõq) í^o. me, esqueças anjpque- 
rido. (Sai? esturrando çom Lucas.) .:■..:••' '. .* 

SOENA V ', m . . ,.V 

Lucas. Safa que bruto! ,..,.'.; . / , % \ 
Joanna. Fez-líie mal? ' ''.*'! .,;, 

Lucas. Hia atirando comigo #o obãp A flem^sta, uâoino- 
der parar com dores de dentes. Mas espera, tem graça,, 
já me não doem os. dentçs? B^sta a/idfja ag,íieptistaí Para 
a 1 djw me :i passar, '...:', .. / .'..,•! 

Joanna. Eu vou chamar meu pae. H .. : . 

Lucas. Não chame, não chame,, peço -lhe de joelho^ f 

{^N^JMas,jporquj5?. ííão vem o sr. para tirar p den}e? 
«ucas. E verdade, más' assim que chego aqui pass^-jn^ 

^p^NA^.Naq tçui. rç^tuo senão tirar p d*nte, <t p*ra 
nunca maisjer (Jprés^.. , t ■ • 1 . \-.. ',. 

Lucas. Diga-nie já lhe lira^m .algum deptefy ^ . , 
Joanna. ^.ffWJOotf nunca. ..." , . j , j 

Luca$> E jjafoe se d<^ ro^ito? ir ., >: . ,j 

Joanna. Ja çe. yè, Icu^e doe^, , ,-• . 1. / , } y,. i'q 

dõr. Esta decido,,, tefllfp ipçdq,' nao tyçq fl.oepje^ Ç safo T 
me antes qués^.pâ^.y^pn^, ,'.,/. .', ^J, Vl ,,./ j 



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- O - 
SOENA. VI i . r 

OS «ESMOS E PEDRO ' ,' '.,"..»." 

Pedko. (entrando, áffarte) Outra vez este maroto, (altcj 
Olá amigo tenho que llje dizer. ''j' 

'"Lucas/ Agora estou coifo muita 'p rcsssa .' ' IMá s eiiAFni èstoç 
ás suas ordens . ■ , . \ './" 

Vtàò/éxt: (wtoi giaiidàde) Joàflna deixa-nos jtòs: ! (/páWM 
*a*.) Meu caro sr. a pacietieia tem limites. Etí sei tudo E 
fique sabendo que me opj>onlio fortemente a taes relações. 

Lucas. Quaes relações? * : ' - 

Pedro. Você man^a comjpjo! r Ainda me quer impingir 
que lhe doem os dente>ff)fg;Miic *d cfma vez para sempre 
o aue quer aqui. ... 

Lucas. A verdade, é que não pqbo paraV com dores de 
dentes. ., ' il 

] fEVÚ&. ''• (indo briieár OS ferros.) Não fáilemos mais 
N nisso f '';• ■ ■ ■ 

; Lucas.' (ásiuxtaâo)': Mas o que tâè faíerff 

Pedro, ríão diga mais nada, vou-lhe' tirar os derites 
que lhe doem .. . «enle-Sél : '.' : i "- ,,t - ''•' l '*' * } 

Lucas'. Ha*' só ja ntónão doe. ;. f ■ ' ,l '"' u [ '"' < '*' 

'PfeDRò. * hentandqM â farra): Silencio. Qnantoé ' dérites 
IhédocmT ■■ l - fl ' ": • ■ *'■•» •" <• •'- '^"~ 

Lucas, (ievantando-se de repente,) Nenhum, '. ' 

Phdro. Bfcrtf sairia eu, ojue "o srènlior ,; me enganava; irias 
afianço-lhe que não sae d'aqui com os dentes ^odos. 

Lucas. Maslsfrh é íima 'barba rédâdef' ' K j 

Pedro. Jura-me que rentpicia à éssés amores? ,f ' 

Lucas. Quaes amorrs. (frpàrífy O fiomem è doido. '* ! 

Pedro. Não se faça <le nova*; s© quer qft4 x>' d-é*ik'é e ir 
embora hadé jurar : me quer náo contiittiará a transtornar, 
a cabeça á rapáHgii; \\Mè não tocará a vél-a. ';' : , f ;' !í,! ; 

Lucas, (saindo a correr) Smr, ! júro,jàfb. /l 1 '! J :i 



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. — 7- 
BOENA VII i 

PEDRO £ PCPOIS JJAWIA 

i- 

Pedbo. (dtamajkfo) Joanna, Joanna, vem cá. 

Joanna. Aqui csiou. 

Pbobo. Ctiegou o momento supremo, esgotas-te a mi* 
nla paciência, agora prepara -te para o sacriCcio. Vou 
immedialamente escrever ao tio Pioeopioj para que nos 
mande o filho, o teu noivo. . . 

Joanna. isso ntinca! 

Pidbo. (sentando-sc a escrever) «Meu bom amigo». Es- 
timo que esteja bom, . . 

SOENA vra 

OS1IESMOS, £ MIGUKL (que se dirige, nas patifas dos 
pês, para Joanna, sem vêr Paulo.) 

Miguel. Já me lembrou um meio. 

Joanna. (assustada) Esíá alti meu pae. 

Miguel. (surprekeiufrdo) Ah f Cabina ratoeira. 

Joanna. (á farte) Peio amor de Deus, finge, senão 
estamos perdidos. 

Pedro, (toitando-se) Otá meu amigo, estou ás suas 
ordens. Tem algum dente cariado ? 

Miguel. Cariado t Olhe para lhe dizer a verdade não seii 

Pedbo, isso já se vae vér. Sente- se. (Vaeámeza buscar 
ferramenta.) 

Joanna. (aparte) Vaes deixar que te tire um dente !? 

Miguel, (aparte) Que remédio, é pelo teu amor? 

Joanna. Mas papá, náo bia escrever? 

Pedro. Primeiro que tudo a obrigação. 

Miguel, (querendo escapar se) Nào, se tem que fazer, 
envolto amanha. 

Pedro. De modo algum. 

Miguel, (aparte) Estou bem arranjado. 

PfcDRO. Eu éra rapaz de lhe tirar os dentes todos e <fyn 
Ioda a perfeição. 



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— 8 '— 
• . * 

Joanna. (aparte) Pobre Miguel! E Dão lhe poder valer? 

Pedro. Yamos a vêúy&tài H>£tòeta (examinando e apar- 
te) Os dentes parecem estar todos bons, qual lhe tirarei? 
(alto) Então qMq\krx[fàMM\ri. ■' •• - 1 •* f 

Miguel. Qual cpiizer. . • . 

Pedro. BràV^gos^o desáátíòrágem. ,l,; ') ['^\ ' - 

Joanna. Mas, papá, é possível qnu a é > jà > > pàísásse A â'ã^| > a 
este Penhor j' : è hão seja preciso' fim b dente. 1 " i1 * 
"° f «tòufiLyÉ wdádeijá^Ã-énaódobV " " ' .-; ** ■< 
'"Pedro. ^["d Joanna, zangado) , Càllk : te < d^sto íjkd : p"erèié- 
bes nada. (aparte) Este homem' parec^ hao^bèr ó ,: Aaè 
vejo aqui fazer,, (examinando-lhe ds dentes)' Com quçpn- 
lao posad tlrar-Ilíe b que me patVèr? Mas cornei etí hão 
sei qual é o que lhe dóe, vou-lhos troando âtê (juéB àiHí- 
go diga basta. ,.-,«.. -^ 

Joanna. Que horror! 1 ; ' ' 

JIJiguel. Então, se me tira o^djaqte^ todp^p^O/Po^ço 
mastigar *} comid^. . V ,,,'.. ( . 

Pedro. Não perde nada com isso. Ponho-The uma den- 
tadura nova. Isto é um #( niomentq^ Quer qu,<} o .a^te ^ca- 
deira para não perder o animo., \ ^ ' , w /./ ^ ^ ■ 

i 

...... -.. ..... . •.,..,.wa.f„ •..'■'..r; 1 ,;:;.; i' ' 

(^ mespQS e X.HEQDQE ftog denhvinciapòflpalirj/Mo 
\ ' e aepbiaTitTCAS) "' . . 

Thepdoro. ílajíjuL que, mora um dentista? " " " % *\ * 
Pedro, (> (ápartfi ,'Que typo tao analeraado ! 'j^fcrf/ É 

aqui, o que deseja* *. ,' ./ .' /' j t t ' f ' . " " 7 J ;." ,, 
Theodoro. Eu vinha,..,,, yinpa... T| porque spu.. , «. 
, I^ucas, ( entrando rpn tio ''depressa, • percorre a^ èce/pa, 

aparentando uma cirande dôv) íénho o inferno dentro da 

boccai ...... t p . : ,,, ; , .;;, ,, v:í;';; i t " 

Pedho. (7i /,tica*)Eu pjjojh^ílisscjjue .naqVoljV^se^á. 
. Lucas. Disse, riiásàgora venho qecididò. jil . \, 
Pedro. Que atrevimento! 



Miguel, Já m^ passou , a, duri. nao queroV r . , , i,- 



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Lucas. Sei que é atrevimento! porém estou decidido, 
não posso viver assim! 

Pedro, (ao ouvida.de Lucas) Ròis>espere, que já vamos 
tratar d'isso. 

Lucas. Miirto bém r eu espero. 

Pedro, (a Miguel) Vamos a isto que é um instante. 

Miguel. Eu não tenho pressa, sim; aípielte senhor.; 

Lucas. NãQ» seutiDr, ,eu soi o- que são dores* de denfes, 
não posso permittir que me. ceda a »oa voz.- s « : : • « •• 
...MlGUíX.iEu.cedo.de^oavoiíiade. . • -.« - : - • 

Pedro. «Ali! estão com oerenionias,' ppis mm um nem 
otttrite (a* Tlmnlom). Yenitè cá,»*e\nte*-s»e aq«i«. (Tkeoàbro 
que estava destruindo, e com modos innocentes). '■ ; • 

Theodoro. Bom, cá estou sentado. '. ■■ ■ ■ - " < í 

Pedro, {aparte a.MiguefyiA^otVíYàe vercortiose op£ra 
por surpresa ! (a< Theodom) Abra* a bocea, já &i éo talti- 
mo 4e baixo l Perfoitoaumte.(áp*rt/> a Miqntft Vé-cchio 
este tem coragem. ' .: .■•'.. j 

Theodoro. Sfaftioquetvaeo senbar fazer f ' "' .- a J 

Pedro. Nada, unicamente curiosidade f (##0 aboeêa e 
iftgytl mete-thâia-íotieãQi -The&dtko gesticula equertêván- 
tw-&* ?«** ^«dtw*; Sés^ttraro fritando) Unv, dois, -trôS f 

Theodoro. (levanta-se rapidamente, gritando, e tapando 
a cara com um lem/p.} Ai'! ai l-asfa quebfiifo ! 

Pedro. Estava muito agarrado. : ' 

Theodoro. Brutal eu: ria® wuba ticar netihum dente. 

Pei ro. Então o qiieviafoa-eáifaaer? 

Theodoro. Eu sou filho do fio Procopioí 

Pedro. Do tio Procopio ! Meu filho? Vem a meus braços. 

Theodoro. Arrede para lá, eu não sou seu filho nem 
craero ^el-o, e venho declarar-lhe que apesar da vontade 
ae meu pae, não quero casar com stía iilha. 

Pedro. Não queO«4|&fífSet) A A * 

Theodoro. Porque me dedico á igreja e por isso não 
quero casar. Se não fosse por engano eu o insinaria, por 
- me tirar o dente. É muito bruto, (sae.) 



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SCENA ULTIMA 
1 O* mesmos, menos THEODOttO 

Joanna. Ouviu, papá? « 

Pedro. Ouvi, e julgas^ue por este disistir, te dou li- 
cença para casares com o ta) maroto, 

Miguel. Tenho a honra de lhe pedir a mão de sua filha. 

Joanna, Meu pae consinta na nossa felicidade. 

Pedro, (indicando Lucas) Mas não é este o teu namo- 
rado ? 

Joanka. Não senhor. 

Lucas. Quero eá saber de namoros. 

Pedro. Então o que quer o senhor aqui ? 

L':cas. Ouero (jue me tire um dente, que não me deixa 
parar com dores ? 

Pedro. Pode-se sentar, isto é uni momento 

Joanna. Então papá? 

Pedro. Pois bem, podem easar e sejam felizes. Agora 
vou tirar o dente a este senlior, mas antes. (Ao publico.) 

Quatro palmas só vos peço, 
Sejam dadas por favor, 
Para applaudir o dentista 
Que tira dentes sem dor. 



CAE O PAMMO 



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PERSONAGENS 

António Ribeiro— Adélia. Ribeiro— Joaquim, carteiro. 
N'uma aldeia— Actualidade. 

* 

ACTO ÚNICO 



Casa de Cantar, mobilada á antiga; portas ao fundo 
e lateraes. 

SCENA I 
António e Adélia 

adeua— Agora que tudo está prompto e que não preci- 
sas de mim, vou á egreja ao sepienario das Dores. 

antonio— Vae, vae, primeiro os deveres de boa christã ; 
apesar de que fico tão só... Ainda se cá tivesse o retrato 
de Jayme. 

adelia — (assustada) O retrato!. . . Nunca te esquece! 

antomo- Ha tanto tempo que lhe mandaste fazer uma 
moldura nova. .. J 

adelia— Mandei-o para o Porto. 

antomo— Um anno quasi para pôr uma moldura n'um 
retrato! Se tu fosses franca comigo, dirme-hias que pouco 
te importas com o retrato d'esse ingrato. E tens razão ! 
Foi grande a sua ingratidão, queria-lhe como filho, tinha-o 
visto nascer, e contava que me visse morrer. N'um dia, 
sem motivo algum justificável, despede-se com frieza, e 
elle ahi vae para Loanda, fazer não sei o que. . . Fiquei 
abatido, soíTocado. Nada lhe disse; só quando o vi retirar, 
chorei, chorei como uma crcança. . . 

adkua— -DeiXa c^as recordações que te magoam. 



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-4- 

do; traz muitos sellos; vem da costa d* Africa. . . não sabia 
que tinha lá conhecimentos. 

antonio— Um quadro! Da Gosta d'Africai Dê cá. . . Será 
d'elle? 

joaquim— Aqui tem, e adeus, que ainda tenho muito que 
dar as pernas, (sae)* 

SCENA III 

António (só) 

antonio— (fecha a porta, dirige-se á meza. hsembrulha o 
quadro que colloca sobre o fogão e examina-o) A mesma mol- 
dura! E ? exquisito! No fim demezes vem o retrato na mes- 
ma! Aqui ha mysterio í Vamos a ver se encontro alguma 
cousa que me dô a chave do enigma, (procura nos papeis- 
que embrulham o retrato) Duas cartas ! Que será? Não sei 
que me adivinha o coração! Pressentimentos de fatal des- 
graça, (senta-se e lê) «Ex. ma sr.* D. Adélia Pinto da Silva 
Ribeiro. Loanda 27.» Não conheço a letra! Mandaria Adé- 
lia o retrato para Africa! Vejamos o que dizem as cartas, 
pois é onde deve estar a chave do enygma. (abre uma car- 
ta e lê) «O amor. A Adélia.» O amor, acho exquisito! Ver- 
sos! E a leira de Jayme; vamos ler tudo; principiemos pe- 
los versos, {lendo} 

O amor é sonho da vida, 
JKeiga nuvem de bonança, 
Pharol de infinita esperaóça,. 
Harpa eólea de canções! 

O amor é doce bálsamo 
Que a existência perfuma, 
Flor perdida entre a bruma, 
Vivido sol dillusões! \ 

Ó amoré estrella errante \ 

Que no céu gentil reluz; 
Arehanjo que nos conduz. 
Ao i rilho da salvação. 



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G amor é harmonia 
D 'um mysterio peregrine,. 
D'alma poema divino 
De divina inspiração! 

G amor é um sylpho aéreo, 
"" Luz etherea que se apaga, 

G amor é nota vaga 
B'um encautado alaúde; 

G amor é ente occuito 
Que nos dá um goso ameno, . 
Mas que ás vezes tem veneno 
Com que mata a juventude! 

G amor ó vaporoso enleio, 
E' partícula de innoceucia, 
K' pura e sagrada essência ! 

Num eaiix de crença e fé. 

Cada vez çomprehendo menos, (pega n'outro papel e lê) 
•Ex. ma sr. a D. Adélia. Tenho a honra de enviar a v. ex. a 
o retrato do nosso amigo e empregado Jayme de Mello, as- 
sim como a carta que o acompanhou. Quando o retrato 
aqui chegou tinha o sr. Jayme faUecido havia dois mezes. 
Juntamente lhe enviamos esses versos que o nosso empre- 
gado tinha escripto para v. ex. a , e que se acharam entre 
os seus papeis depois do seu faliecimento. Remettendo- 
lh'os, julgamos cumprir um desejo do fallecido.» Ghl meu 
Deus! Mortot morto! e longe da pátria, e longe d'aquelles 
que tanto o amavam! Vejamos mais, quero esgotar o cálix 
até ao fim. (lendo) «Depois da morte do sr. Jayme entendi 
que devia abrir o pacote para saber a quem havia de re- 
metter tudo. Conte v. ex. a com a minha discripção, serei 
calado como um tumulo.» G que quererá dizer com o seu 
silencio? (pegando na outra carta) Vejamos esta, a letra é 
de Adélia! Que vejo, meu Deus I (lendo) «Jayme. Desde o 
dia em que te obriguei a partir e a quebrar ks criminosas. 
cadHas que nos uniam. . .» Estarei sonhando! Meu Deus! 
«o motivo das minhas letras hoje, no fim de oito annos 
de silencio e expiação, éo teu retrato; envio-t\>, porque o 



yGooçle 



— 6- 

teu olhar me perseguia e me atribulava a vida com remor- 
sos.» Meu Deus 1 E vivo aindal (lendo) «Adeus, Jaymé, 
adeus para sempre. Separamo-nos para nos punirmos, mas 
esta cruel separação também fez soíTrer um ente adorável 
que nós cobardemente enganamos durante quatro annos. 
(com lagrimas na voz) E durante quatro annos, n'esta ca- 
sa viveu o adultério a meu lado, manchando-me os cabei- 
los brancos. Oh I Deus não é justo ! (cae na cadeira, cho- 
rando). 

SCENA IV 

António e Adélia 

adelia— (entrando pelo fundo) Aqui estou; demorei -me o 
menos possível. Mas o que tens ?. . . Choras ? I (Antonto 
aponta-lhe para o retratq. Adelia dá um grito) E* este retra- 
to que te faz soffrer? 

António — O amor é sonho da vida, 
Meiga nuvem de bonança, 
Pharol d'infinita esperança, 

adeuá— (chorando) Oh ! basta ! 
antonio Harpa eólea de canções. 

adelia— /de joelhos) Perdoa, perdoa. . . 

antonio— A sua carta matou-me !. .. eis a razão porque 
mandou o retrato ! O meu corpo ha muito tempo que es- 
tava morto, só vivia a alma, e essa acaba de ter morte 
infame dada peias tuas mãos! Irrisão da sorte! Quem es- 
peraria isto í 

adelia— (chorando) Ha seis annos que sofifro, choro e 
mewrependo contricta. 

antonio— O meu soffrer de momentos equivale ao teu 
arrependimento d'annos! Não equivale, não. 

adeua— Meu Deus, matae-mel 

antonio— Viverás, é preciso que vivas. Quero saber tu- 
do! Soffreste muito quando elle partiu? 

adki.iá— Torturas- me. . . 

antonio— Ainda o amas? 



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-7 — 

adelia— Ainda e sempre. 

antonio— E porque não partiste com elle? 

adelia —Oh! nunca; tu és bom, e morrerias. 

antonio— Singular coração f (peqando na carta) Queres 
saber como foi devolvido o retrato? 

adelia— Não, nada quero saber. 

antonio — Infames ! (pega no retrato e atira com elle ao 
chão) Vou sahir d'esta casa que detesto ! Prohibo-te que 
me sigas, (sae pelo fando e fecha a porta por fora). 



SCENA V 

Adélia (só) 

adelia— Meu Deus, meu Deus, valei-me! Que tremendo 
castigo ! Eu que julgava o passado esquecido, e o nosso 
crime expiado! Maldita lembrança que tive em devolver o 
retrato! A sua prezença fazia-me soífrèr. Devia ter a cora- 
gem para soffrer, assim como a tive para cornrnetter o de- 
licto. Sou uma mulher perdida, uma adultera, o meu to- 
gar não é aqui. Deixarei esta casa para sempre, (quando 
$e encaminha para a porta, esta abre-se e apparece António 
muito pallidoj. 

SCENA ULTIMA 

Adeua e António 

adelia— Obrigada, vieste dar-me o adeus da despedida, 
és bom, o teu coração é sempre generoso. Adeus, adeus 
para sempre... 

antonio— Não partirás ! • 

^delia— Que dizes, meu Deus? f 

antonio— Quando d'aqui sahi ha pouco, tencionava nun- 
ca mais voltar ; dirigia-rae sem destino, quando deparei 
na minha frente com a egreja. Entrei, porque a religião é 
um bálsamo consolador para os desgraçados. Joel hei e orei, 
o espirito illuminou-se-me; chorei, as lagrimas alliviaram- 
roe a dôr. Erguendo os olhos, deparei com o quadro de 



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—*— 

^Santa Maria Magdalena, banhado de luz. Encarei-a, eu San- 
ta disse-me ao coração: «Perdoa, peidôa. Deus também 
me perdoou, e o homem não tem direito a ser mais justo 
do que Deus». Comprehendi. e aqui estou. 

adeua — (beijando-lhe a mão) Perdôas-me? 

antonio— Perdoo ; Christo também perdoou à Magdale- 
na, porque ella muito tinha amado. A culpa foi minha, era 
muito velho para ti, porque 

O amor é sonho da vida, 
Meiga nuvem de bonança, 
Pharol d 'infinita esperança, 
Harpa eólea de canções. 



CAE O PANNO 



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DIOGO J08* SIIOItNHO 



OZ2fOO AGFVOB 



Úfferecido ao ex. Mo ir. çommendador António Josó 
Rodrigues Loureiro 



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SEflOlÊtfBO fc PALHAES 

EDITORES 
LISBOA 



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í • i ÓTOtriAlintito ÔU I 



ANDRÉ 

O CONDE DE S. JORGE 

VISCONDE DE S. JORGE (seu filho) 

MARCOS 

A DOIDA 

BRANCA (sua filha) ^ 

MAJRA (sMPHUa dò corfte & 7o*jg$ ,£T* 

t^PR^I» . ..,.:*- v..í7 

A scena passa-se em 1816, n'um castello perto de Greno- 
ble. 4.° e 3.° acto no castello do conde de S. Jorge, o %• 
4.°, e 5.° na cabana de André. 

ACTO PRIMEIRO 

Salão gothico, com i anel las para o parque, portas aos 
lados, uma meza a direita, chainjné a esquerda. Ma- 
ria borda ao pé do bastidor. 

SCENÁ I 
VISCONDE, MARIA, UM CRIADO 

VISCONDE (entra pelo fundo, dá o ehapeu ao criado) 

Visconde . Já estão a jantar ? 

Criado. Ainda não, sr. visconde, o sr. conde ainda está 
no gabinete com o sr. André. 

Visconde. Adeus querida: -prima foae á chaminé ver as 
horas). Diz-me, Maria, que fará meu pae todos os dias fe* 
chado no seu gabinete durante seis horas com esse estúpido 
André. 

Maria. Pergunta-Ih'o. 

Visconde. Foi o que fiz. Meu pae respondeu-me que eu 
não tinha nada com isso, e André disse^ne, como seu modo 
agradável, que era um segredo. 

Maria. Devia ter-t'e respondido como teu pae. 

Visoonde. Que queres, embirro com elle... Entretanto 
existe um segredo entre efles.iJm segredo entre o conde de 
S. Jorge, e o sr. André, mestre escola^ parece-me que é cu* 
riosof 



yGooQle 



Maria. E é a, mim que té dirijes para sabereát ?,- 
Visconde* É, minha adorada prima, e esposa. 
Maria. tio nunca me confiou os seus negócios. 
Visconde. A confiança não é o forte de meu pae, por isso 
me admiro da maneira como trata esse rústico, 

liaria. (levantando-sé) N2o deixarás dte injuriar esse ra- 
paz. Nâo é um janota, que piandtí Vir o fato de Paris, mas 
é um homem honrado, e p primo. aa^ç que o tio não .gosta 
que fellem assim òVelle. 
Visoonde. Nem a pHma, ' 

Maria. A mim, é verfade, os'insti|tos que diryes a André 
vem recair etmjpw. ..;,,. ». 

Visconde, Nao comprehendo. i 
Maria. Farei a deligénria para me comprehenderes; meu 
tio e teu pae, afastado de Paris, pela volta dos Bourbons, 
veio refugctr-se n*ésté casteUò, que, como sabes, fica a al- 
gumas léguas de Grenpble. 
Visconde. Comprehendo. 

Maria. Tíraram-me do eollegíó em que estava, e trouxe- 
ram-me para aqui, e declararam-me, logo que aqui chejgueí, 
que em três mezes teria logar o nópso casamento, . 

Visoopda. Até ajhi comprehendo, e poderás ajuntar que 
já lá vão dois mezes depois da nossa chegada, e que essa 
pocha fatal se aprbximà. 

Maria. Fatal, é o tenho próprio e não o 'encontraria 
nelhon ' >. •' ' :■» " r ^ 

Viacon4»«Oí9ue? ••-;. / 

Maria. Realmeale qual tem,' sido a tua conducta para 
ommigo durante estjes dois mezes? Nos primeiros tempos 
s nossos divertimentos não eram muito variados> é verdade, 
orque meu tio niao queria recebe* ninguém. Mas, emflm, 
-avia da toa parte? a delicadeza de tomares parte na solidão 
-n que eu vivia, mas ha oito semanas, desae a epoçtía em 
ue o sr. André entrou para aqui como secretario, o que 
■i feito de ti? . 

Visconde, {fingindo admiração) E destes pela minha àu- 
encia. " 

Maria. Seria difficil, sabias todasas manhas, enao entravas 
enão á tarde. 
Visconde. Sou desejado. 



j 



yGooQle 



4 a pon>^ 

Maria, Resulta d'abi, que passo os, dias todos sósinha. 

Visconde. Esquece-se, encantadora primai, qtie durante 
as duas horas efue meu pae consagra todos os dias aos seus 
negócios; sempre flie deixa a cotopapina do' seú querido 
André. , l , . ' 

Maria. $ein dtfyida, querido primo, e como me deixa 
sétíipre n'esèa companhia, devo ftcar-lhe multo obrigada da 
estima em que me tem, pois jujgaque me dero contentar 
ciom acomparihía de tim rústico, cotiao lhe chamas^ creio 
que compnehendes açora o que èji (jpçria diíer? 

Visoonde. Muito bgip, despeito?, epígrammàs, nao jul- 
gava que fosses ciúmèhtá: ' " *• ' 

Maria. Ciumenta t Se traduzes d'essamátfèira ôs meus 
sentimentos, renuncio a la^timar-mè. '".';, 

Visconde. Do meu abandono; . " ' ' r 

r M$ria, (voltando-sé pqra á rqesttj Já disse o quentinha a 
dizer-t'e. ' ' ' , [/, 

Visconde, (á parte) Pobre Maria í Sê élla sòribesse, tenho 
muitas culpas, mas, Branca, é encantadora! fbòitanão-se) Ah! 
Api Veto meu pae com 'o sr. André, (mirando Ândrfy Quem 
poderá iiriagiflàr que este glande estúpido é itmao'da mulher 
mais encantadora da França!.,. . . '*'; \ ' 

Maria, (â paftè e, sentarujb-se) Queria amàl^ porque hade 
sèr meu marido, mas hadè-me' ser ejifficil. ' , , 
... < &GpNA i Ii: : . , : 1 ': , 
VISCONDE, CONDE^ ANDRÉ, E MARIA 
O Conde e Andró (entram por uma põfta* íaftfat, êa di- 
: k ; ' +eifa,vmbohvmtàdó)'< '* • 

Conde. ÁmanhShà-de trázer-mè túdp posto em brdem, 
copiado, deíxándo-mè margem. Põdé ser que. junte alguma 
cousa. " ' ■ '"', ', ."' . ' ' , li r ' • 

A^dró. Este iégóció da jsn niarqúétfaMé Pinhel é' espan- 
toso, e deve ter a peito destiliir todas as caiúmniás qrie ella 
tem àttrahido sobre v. ex.\ ' ' \ s 

Opmie. Silenciosa Maria que se levanta) A<táHs Maria, 
manda pôr õ : jantar na ihesa. (Maria vaè aó furiâo ê toca a 
campainha). . t 

Visconde. O Seiíhor André 'dá-nòs o prazer de jantar 
comnosco. , l 



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i 



DOIDA 



Ajidré,. Minha iíma e minha í^eesperâm-me, sr, vis- 
conde, e quando não estou a horas, minha pobre mãe aflfli- 
ge-se, e ; o ^majjauimienta. -. 

Conde, (examinando oé jornaès na mesa) J^ sua razão 
está completamente perdida. /., ".'i . ,'; \ 

André, Completamente, 

, Conde, ríaò na esperanças de a curar? 

André. Ai de mim,, ha 20 ànnod que está assim. 

Conde. É triste, mas o senhor é um bom filho, e um ho- 
mem honrado. 

Maria, (baixo ao visconde) Ouviu? 

Visconde, (olhando André) Olha para o fato, está ado- 
rável. .:. f .. r .. 

Maria, (vivamente) Débàixá aíuJueHe fato grosseiro ha 
um bom coração. , ,. * .- 

Visconde, (rindo) E v preciso que áhi haja alguma cous^u 

Conde. O que foi mie disse? ,, .*,,., . 

Visconde. E' Maria que me cita umV bocado da Escri- 
ptura.' , / 

Maria, (á parte) E chama a André estúpido I... 

SCENA IH 
OS MESMOS E UM CRIADO (pelo fundo) 

Criado. A menina chamou? 

Maria. 0. jantar na mesa. • 

Criado. Tío mesmo instante. Porém devo prevenir, sr 
conde, que. esta manhã o moleiroMarcos ?e apresentou para 
pagar ao sr. conde a renda vencida, que elle deve a v. ex.\ 

Conde. Ou antes aue elle te deve, querida Maria, porque 
é o rendeiro de uma das tuas propriedades, (ao cpiado) E 
quando voltará. 

Criado. Ainda está no eastello. ' ' V 

Conde. Porque me não avisaram inais èedo? 

Criado: V. ex.* tinha prohibido que o incommodassem. 

Conde. E' verdade, e ha mais de $eis horas que elle está 
esperando! 

Visconde. E com a demora do jantar, faz. * . " . t , s . 

Conde. E' muito, e áe Maria me da ámda : um (juarto de 
hora vou despachal-o. 

Maria. Ohl meu tio. ..*■«- 



% r 

~ < w m~ mim II . . — ~ JJ-' 



Conde (ao viscoade)- Acompanha-uiQ. 
Visconde, (baixo a Maria) ftetéhi mu .Jpoúco o nosso 
.amigo/ e vô se sabes o famoso sjpferedo. , 
Maria, (á parte) Não é d'iss<rque eúlne M 'de fcfllaf . 
Conde. Até' amanhã* André. ' ,;, % , " 

André. Até amanhã sr. conde. v ' : / V ' 

Conde, fao visconde que ficou jUntoi bhatàitiê) Anda, 
d'entro de um mez/na qualidade de marido, terás a gerên- 
cia dos bens que eu adihmistro como tutor deMáriá^ e qiiçro 
qnè comprehendas os seus négòdofc. (a Maria) Até ja. fiám^ 

JCAfll* £ AJR}IÇ$ . ;', v.- 

André. (perto da mesa. aparte) Seu marido; elleí... Meu 
Deus L: (voe para sair, Mdtià ãétém-ò). 
• Maria. Tenho que lhe dizer, 

André. A mim?' 

Maria, (indo ver aa fundo se estão sós) Ao senhor. , 

André, (á pafte) E* um segredo I ' 

Maria, (aproxirnando+se) .Acaba de ouviro que meu tio 
disse? .-/ . > ] . 

André. Disse que dentro dé um mez, o.sr. visconde, será 
seu marido. " '" . -"' " .; ' ' 

• Maria. E' preciso que durante esteíefhpo eu tottle uma 
resolução. ., 

André. A melhor resolução paTéce-me que é esposar seu 
primo:' 

; Maria. A minha determinação pôde depender do qúe o 
sr. disser. " ' * ' ■ J ' • ' '•' ' 

André. N'estas cousas não, tenho que lhe daí' conselhos, 
é cousa que lhe diz respeito'. ' ' ' 
1 Maria. Não é um conselho que éu t Ihe peço §.:. {hesita) 
O que lhe vou dizer é hem extraordinário; não 'era assim 
que uma menina devia fazer, mas 'as' circumstancias for- 
çam-me. 

André. E' possível que alguém a faça soffrer? Se ea o 
soubesse... . •- 

Maria. O que faria? 



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ADOIDA V 

Jtfrôró. ^t«ttitófman^ Nadaiu nadai. <»•**•" 

Maria. Ouça, sabe que sou orphii, não tenho outros pa- 
rentes senão o conde de & Jorge* e seu filho." ... t. a 

André. Já o desconfiava. Quando* se tem uma mie, hão 
se pódp viw senàotfuptQ d'ellã. . *'«*■ 

Haria. (suspirando) O sr. comprebende totow ,,; • • '* 

André. Não é de mim que se ti^ta, minha ífmã não me 
ama, e minha laae não estima senão» miÉha irtó*. 
. júuia, E é oisenhop que as sustenta com o proâúci^ do 
seu trabalho, e não se mostram gratas. ....!... i«\l> 

André.. F o meu dever, sou- homem/ e nasci para fra- 
bathar» Elias não tem precisão tf eme amaram por tão p*ouco, 
em quanto que v.^x^se titesap sua/ínãe, se' tivesse uma 
urmã, ellaa a amariàm;*tenho a certeza;.. ' '-,••" <• 

lúiíiak//rwfei»etó^(0uem8abe?' .•• •'-• 

Aiidré^Ycom.oowtcfãc^ Asseguío-lhe. • ■: -«í » 

MlUfiftt Quem íctôl^y mas i)eus> recúsou-rafe essa Jelici* 
dado, e acho-me só, sem apoio, sem protecção, no momento 
ojnais criJticadaminl\a:Yida- ' < 

André. Mas de que tem. tanto medo? " '■ 

Maria. Não tem notado qtte meu pritíio^haihai» d^um 
mes deixa toda os dias o caetello, &...>>' r 

, André, (com satisfação) &$$, tenho jiotado, e> muitas ve- 
zes- lh'o tenho agradecido em silencio. , ' . ' 

M«riaJ O que? (Agradece- lhe o elle ahandonar-me, des- 
prezar-me, muito obrigado. /' 

André, (com embaraço) Sabe que nSo^ra isso qúe eu 
<peria dizer. E' quô> quando v. ex> edtá tíò, escutá-mé, fal- 
la-me, conversa-mbs juntos, e se o sr. visconde aqui eátii- 
▼esse seiapre, eu >nioí teria éimánha felicidade. ^ • - ■ - 

Maria, (sorrindo) Faz consistir a felicidade em bem poUco. 

André. E' verdade, quando se não está acostumado...4Jm 
pojico hasta. 

MarUu (com* vivacidade) Um pouco ? ÁgrádeçíMhe ú cjpth* 
primento* 

Aoidré. Sou muito desgeitosof 

Maria, Ás vezes*--. 

André* Sempre* mas falle-me de»sett pfhno, db Seueasà*- 
mfâBto^estâ- toste, não sei qrie^àiga, mas isto perturba-mé, 
faz-me perder a cabeça, já não' Bei o que faço í Tenha pie- 



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9 a nona i 

dade de mim, diga-mè o que me quer, e faile-me cora bon- 
dade, sem escarnecer de minti : 

liaria. Porque, já eacarnçci do^sr*? ' ' • 

André, (sorrindo) Muitas vezes; .:■'.*/ 

Maria, (com affecto) Antigamente,' mas agora* derijoVme 
ao sr. como a um ami£o. .- ■•'* 

André. Eu, seu amigo?... . ».. ■ 
C Maria. E para là- o pnovar pesfio-lhe um favor. 
) André, (com entusiasmo) UnTTavor, vihte, para-a<êe*vir 

daria a minha vida, o meu sangue, 

Maria. Devagar, tenho medo. Gcmheço-o e sei qa&è are- 
eiro tomar, sçotido. com o< que se lhe pede, ha poucos mas 
passeando nós no alto.d'aquelle barranco. escalpado, sé por* 
que eu tive a extravagância de. achar bonita uma flor que 
estava do outro lado, o sr. desceu o precipício em risco de 
vinte vezes perder, a vida, apezar dos meus gritos, com o 
fim apenas de me trazer unia miserável flor que não ttúia, 
com certeza, o susto que me causou. • ■ 

André. Cada um faz o que pôde, estou ao seu dispor, « 
prometto-lhe que serei prudente. 1 , ,;. • 

Maria. Prudente e discrepto. 

André. Tenho muitos segredos no .coração, e v. ex.* não 
os sabe, isto basta para lhe ptfovar que sou discrepto../De 
que se trata?; 

Maria, É preciso que me informe habilmente do qtte faz 
meu primo. ■■...« 

André, (recuando) Eí|piao^ Nunoal 
. Maria. Recusa. (André faz signal que sim) Pois bem. (eáe 
para sair). «t»: • * 

André, (retenfa-a) NãoL; Não-. Recuso, mas peça-me 
outra cousa... Tudo o quequizer. 

Maria. Tudo menos o que me pôde salvar? 

André. Salval-aL. (silencio) É uma má acção, mas; por 
sua,causa;nãoo farianempor nunhamle,nem por minha irmã. 

Maria. E é por isso mesmo, que o nào faz por ellas> que 
espero o fará por mim, poíque hão (|uero çue tenha remor- 
sos da sua boa acção... Escute! Se sua irmã, próxima a 
casar, , suspeitasse que o seu noivo & enganava, que amava 
uma outra, pão desejaria esclarecer esta duvida, antes de a 
deixar envolver,. n!uma uniãorindossnluvel?. 



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k DWDi Ô 

André. Iria ter com esse homem o obrigaria a decfep- 
rar-se. 

Maria. Com soa irmã teria esse direito, mas commSgo, 
dir-lhe-hiam que com isso nada tinha. 

André» Oh 1 sim, importa-me que Seja felfc 

Mari*. É preciso ser 1 prudente e discrepto. 

André. Pois bem, d'entro de uma hora, saberei se o sri 
visconde a engana. 

Maria; E se assim fosse... O que feria? 

Orlado, (entrando pela ejquerda) O senhor conde e o sf. 
vMGOAde; esperam t. èoc*. 

Maria. (àespedindo-se) Bem!... fã AnêréJ Até amanbp, <é 
não se esqueça que se trata da minha felicidade. 

André. Ate amanhã, é impassível que a não amem! '., 

SCENÀ V ' 

ahbr& ftò) 

Parece-me que o visconde está mais namorado de si mesmo 
do que de sua prima. Ella ama-o, e a prova é que tein ciú- 
mes d'elle... Gumes... (pausa) E qué tenho eu com isso? 
Ella ama-o, será felií com eíle... Exijo eu outra cousa?..: 
Vou fazer o que ella me pediu. (Saindo dá um encontrão em 
Marcas que vem entrando). 

iSCENA VI 

ANDRÉ E MARCOS 

André. Ah! é o sr. Marcos, perdaò por o ter empurrado. 

Màroos. Estou desesperado, este$ fidalgos são uns infa- 
mes, não me quiz acceitar os peouenos escudos senão a 55 
soldos. De que nós serviu a queaa do usurpador, è a volta 
dos Bourbons, se ficou tudo como dantes. Bem se vé que 
este conde de S. Jorge é um velho jacobino. 

André. O sr. conde um jacobino?! 

Maroos. Pensa que o nao conhecem? Estava em tyon, 
miando élie commandava cóm Fouché, e Canthou, fez o 
diabo, o velho judeu!... N'esse tejnpo ainda Bonaparte Jhe 
não tinha dado o titulo de conde de S. Jorge, e aunava qué 
q papel moeda valia dinheiro, è hoje pretende que os pe- 
quenos escudos não tem peso í... Bebedor de sangue. . 
André. Oihe que ò podem ouvir. - 



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: ; -:^-> 



AO A. IXHDA 

. JUroofih Repetil*a-h©i, diante d'elte, .•.•_•..': 

André. Mas não diante de mim. . . ( 

. Marcos. Olhe nao Utie ficam o? (njvidoa t- . 

André. Falle á sua. vontade, não tenho aqui o direito dç 
Ih'o pedir, ma» nao quero .ouvir as insultos qge 4&rij0 aflum 
homem que devo coi^iderar. cònop^meu ^ntfeiíof , ^?ae 
ffimmif^ .:. , ....,• 

Maroos. (seguindo-o) Bemfeitor t... Não sabia,,. Opae pror 
teçeo ao sr., e o filho quer proteger sua irmvferà qsaalK)- 
i^ fortuna, feço-lhe Qs^neus eoiçprim^oe.^ > 

André, (parando, e á parte) Seu filho prpíege jnioba 
irmâU fa Março*) que foi qgp dis$e? :. 

Marcos. Ô qi# tydosf.fjjiseja. 1; 

Amdré r O senhor .fallou de mroh$t irmã. 

Marcos. Nao se poder^ falia?. n'elia? 

André. Mas, o sr. disse. ■• • ' 

Marcos. Disse e digti tíjnâfr-iqtíéA uma boa menina, mas 
qqe, se julga mais úo que ó. • - r : 

André. E depoii Pf • /. [ 

Maroos. Im&ginoj que p$ra uma costureira. que foi edu~ 
cada' n^con^ntp, ior caridade, uíp deiriaWtao altiva 
pára com um homçm honrado que lhe offereoia o que Unha» 
casando com ella. „. , 

André. Ella fez mal em regeitaJ : o, mas o sr. quiz-me fazer 
comprehender... t{ 

Marcos. Quiz ià£tír4hfc comprehender que quando se 
consente que a& meninas adquiram hábitos sqperâwes ao 
seu estado, succedem de^gràçias, e que se em togar de- se 
deixar conduzir por ella cquío un?a criapja, lh^tivessedadp 
de quando em quando liççes de moral, nao teria cbegadoao 
estádQaquechegom , .... 

André. Mas a que, estado? . , «. - 

Maroos. O srl visconde póde-lh'© dizer, melhor do que«u. 

André, (admirado) Conhece elle pôr ventura minha irmã ? 

Marços. Basta só te.r olhos, para o ver entrar todos o» 
flií*s eúi sua casa, ... 
. André,. Todos os dias? 

Marcos Sim, 

André- Vasa que lioras. i 

Marcos. Deve saoel-o porque se ha.ajgui^xme diwa 



yGooale 



que elle escolhe para ir a sua casa a hc>ra em que o sr, vem 
ao castellQ, ha outros tamnem que dizem. íflie o srl escqlbç 
parasair a hora em que sabe que elle deve chegai;. , 
André, (com cólera) E quem é que <H? l ^^ '""...-- ' 
Marcos. Águelles que vepdo-o tao orgulhoso, o sr.ljue 
nao èra senão um itiau mfefctíe escola, pensam que or irtíiaq 
aproveita do mau comportamento dA.irmã.. >t ' , r 
, i André, (approximando-se) É qtfém é que pensa issof 
J Marcos. Éu, é outros. 

André, (furioso,, agarrando-o pefa f garganta) PoSs bqm, 
tu primeiro; veremos depois os òutroS. ' '" : , 

Marcos. Deixe-me. . ~. , , , ,'' 

André. Vamos ter com minha írmX pára repetir o que 
ouzaste dizer... e treme aô ê Mm. (èeixa-o). 
Marcos.^: Qqijieé oue me iam t .->• .,---, 
André. Fostes soldaap 1 ,\.- / . * .* . * 

Marcos. Quer dizer, fui ôbn^cripto, contra miàha tontaue. 
An<Jr$. Dar,-mé : has uma satisfação^ ' \ " " 

Marcos. Ào sf f , a um mau ba&áfdo que veiu naq.sei 
d*onde... ò filho der ifcaa velha doida. ' 

André. Insultas minha mãe l 
Marcos. O innão d^má.*. . ' "J'/V 

André, (agarra-o e làiiçá-o no chão)'Ah\ misèraveíf „ 
Marcos. Soccorro... soccorro:!. ' ' > 
André. CalJa-íeJ, „ . ' ' / \ ; 

Marcos. Sofccorirô; soècorró, quemeâfiòganit ,\ u 
. SÇENA YjK ■... ' ' '' n 
rOS MESMOS, O GQNDE, a VISCONDE JB MÀBIA.. 
(entram feif pítia dp /«neto á esf^erdá) 

Conde. O que é iíto ? - * • 

André. (4 parte) Maria ! Ah ! que ella hão eaibá nada. 

Maroos. (ao Conde) Meu bom» senhor, era este homem 
que me queria aífogar. porque lhe disse qu&o^sr. visconde.- 

André, (baixo a marcoêj Se dizes uma palavra, mato-te. 

ViAotínda; O que é que diziam de mim, patife* 

Maroos. ](Cra a respeito. (André ataca-oe elle dc^um grito) 
Éile quer-itíé assasinar, porque âua irmã... . 

A^dré, Cala-te. . / , „ \~ 

Conde. Anfoê que' significai isto em minha casa? . 



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12 ADOIDA 

Ánàrô. Queira déseulpar-mó, sr. conde, e&te miserável 
in^ultou-me, pedi-lhè uma satisfação e reçtíãou-se como 
um cobarde* . 

yisoonde. Batê-se? 

ànãrè: (com altivez) Quando, acho pesâoas honradas que 
me respondam. 

Marpos. Porque eu ljxe dis^e... 

André, (com violência) Senhor conde, diga a esse homem 
queseçalé. . 

Conde', (a Marcos) Silencio, vá espeíar-me. ao meu ga* 
binete. 

Mfircps.. (aparte) Tfu m'o pagarás, (sáhe pela direita). 

'■ SC^NA Vffl . : 
OS MESMOS, MENOS MARCOS 

, Con£e. Agora poderá dizçr-nos? 

André, (aparte) Òh... não diante d'ellá. '''.', 

Conde. Que espécie de insulto lhe dirigiu esselioínem? 

André. Não tnò pergunte, e queima Deus que seja ca- 
lumnia. 

Maria . É então uma desgraça para o sr. 

Andró. Queria que fosse só para mim. ^ 

Conde. Ameaçou sua mãe? ; 

Visconde. Sua irmã. ..',,. 

Andró. Ameaçoji-nos a todos. Ame^a htfttivel 1... (coto* 
primenta e $ahe). 

FIM DO 1> ACTO 

ACTO SEGU1SD0 

.1 ;. - Uma cabana, portas de todos as lados ■ 

.../ •••• sqena J, - ' ' >-... . - 

, VÍsfaQNlMS (atrás d% poria ào lado jtiwító) ; 

BRANCA E A DOIDA {assentadas, a Poida agitada) 

I ou- Èranca. (ao Visconde) Escopda-se qje mínjlá. mãe poda 
vel-o. '* * ' V'\ ' .' : * •' ' 

Visconde. Veja se faz coin. que dia v^ paia o quarto». 
Branca. Não é facH, no estado em que está!... 



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A. DOIDA 13 

Doida, (lepantando-sé) Que horas são? . f 

Branca, fiei toras, minha mãe., 

Dotida. Dez horas, e André ainda Jião veio!... E$temiáe- f 
rarel, quer-me inat^r!... Deixa passar a hora. .,, 

Branca. Não se deve demorar, não se atormente. . 

Doida. Tu bem sabes, depois da hora passada jà hão há 
esperança, quando se espera para o dia seguinte, morre-se. 
Tpaososabem. .;; . r 4 

Visconde. ' (escondido), A doida; diz v betó, dão é predôo es- 
perar pai*a o dia ^feguinte» , x . 
. Doida, (empurrando á porta qué' vê mechér) Fechaessà' 
porta, nío é' preciso excitar a curiosidade oop òriádps... 
est£s miseráveis só querem âenunciaj-a^ e ent3o> então can- 
tá-se a canção dá morte .. \. 

Branca. Bem, ahi começa ejlarl' ; 

Doida, {cantando) Trá, la, lá. ' l 
* Branca. Gállè-se. ' - 

Doida, (acabando gradualmente) Trá, lá, li Não me lein- ' 
bra mais, (com -^vivacidade}. Ma!á tu. Branca» deveá-te lem- . 
brar„ r antes d^sedia,.', ; ; ' \\ ..- ' 

Branca. Mas de que dia?,.. "* * M ' \. % 

Doida. Atites/ nlo comprehendési Àhtigáràenté aòtide es- ' 
tavamós^.. mas rès#òhde-me.., omas jyarç mim cqijid sè eu 
estivesse doida. '} '/"." 

Visconde, (escondido) Não a pôde ol^ajcd^QUtrâmaneiçá. 

Branca, (á parte) Agora é, p$rá toda a noite,' 15 preciso 
não a contrariar, pôde se* qtie consifea affastal-à um ího- 
mento. (á doida) Olhe, mUihafl&Sev devia ir ao encontro de 
André... sabe, eflfr-ve^ seqipiee pekfrbefaiesinho, vá es- 
peral-o. ■','.'/ , '*. , 

Doida, (caminhando agitada) Não,, não. é impossível jçflie 
ó encontre ahi,;está em easa de alguma celebridade artís- 
tica, com pdefâs, músicos, e* philosophok. í) aqui está como 
a nobreza se perde misturando-se coin todo. 0sse lodaçal,; Aja- ' 
dr8 faz o mesmo.« ' •'!' ..''" '';' ' '" ,. 

Branca. Vá prpcural-o elfeihe Q^dgcerá; 

Doiáa. Não, eilè nâd tem o coração dé ujn fidalgo, hão ' 
traz espaSa... (com desdém) O teuiris , condedè'S. Jòfge tam- t 
bem nao traz espada; pequena no^rçza, nobreza de loga^e" 
de parlamento. , , 



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44 A WH3DA 

Branca. É verdàíe, e ^nidré è bastante culpado, . a 

Doida, (com cokrql .Os parlamentos sao p& mais pal- 
pados, fórámelles que semearam o espírito da rèvo% no. 
povo; elles perderam á mcmarcJii^íe.Apdjpé ãaò afofa 
senão com 4 essa gente, ' ; ,. _ 

Branca. Naturalmente ficou com élles, Nalguma taberna» 
a beber. ' ' ' 

Doida. Xantámell\or. sç trouxer vinho que o dê ao dis- 
penséiro. (jMuma badalada nò relógio), AhJ ; está Jbpm., (efe-, 
rije-se para o quarto uondçestá q t tiscomè). ' . 

Branca) tquerendo-a fazer .ArJ Aonde viàe, por ani? ( 
3 á nora ? "DéYO estar presente ao deitai 4 



Doída. Nao ouviste ánora ? jpévo estar presente i 
da rainha, (abre a poria e vê o visconde) Porfèiro, ànnunr, 
cie-me, estou apresentada* . m t ' y ,\ *, ' ..'./'.. 

Visconde. O que diz eÍTà?. '' ,' ' '; \ ' " 

Doida. Estou apresentada, tenho odireitp i^^çr axuiuii» 
ciada. . , •. ti . ' "'" ' 

Visconde. Fôisbent/fóo/focà-^ de Itodoè eleva p voz como 
para annuticiar) A $f* condessa de André. , ' . . , 

Doida, (recuando e indo para Branca) Atrevido! Con- 
dessa ! Chama-me cpn/iQssa \. n Tudoestá.perdiáo, vês <}es<#- 
rihecem os títulos... àèaboú-se, ohí ^^sita/sim^Xdgárra i 
Branca e puxa-a) é pteciso fugir, é preciso emigrai 4 , v&mos> 
vamos, vamos. ; . t . . , . ,i tl .,, v , '., ,,' .' V r 

Branca. Uàs, mtnha mãe..'., . . ;. , ." 

•'..'• "Vi,- msg»nà*h ' ' i->'*.v •■ '.ff 

BBAltàA B VtSOTOTÉ < 

Vifi|conde. Está magnifica a mae André* \ ' .-," 

Branc*. Há muito fémpo que jjâlp esta ^agitada, che- 
gou a ponto de' o.nâo conhecer, (vaè vèr pela 1 porta) Anda 
passeando na cêròa. / ..; ,, '.', ' 

vteóonde . (á parte) Os momentos são preciosos; está na '. 
minha mão aproyeital-os, André está au^èntej^isegunabine' 
disse Marçps, qtfç encontrei a doiity foi-sft, estamos $&...*a 
noite ésta'e!?curaJ Mi aiuádo^.' Àhl pobre ílána, ainda esta 
tralho t. ' ;: , ; ' \.." ;; " , . ; 

Branca . (fedm affeciàda'qraviâaàe) x Agorai , sr* visconde, 
dir-me-ha porque veio a semilhante hora... apezardòs nossos 



>-^>^,.. ^>..g ^^ sLJgeLw» 



Á &QIDJL w 

coB&rafetos, quando meu irmão pôde entrar de uminomento 
para o outro. 1 

Visconde. Não entrará. • 

Branca. Como o sabe? . "' '» 

Visconde. Tenho a certeza. 

Branoa (á parte) Parecé-me <jue toihou precauções. 

Visconde, (d parte) Comprehendeit-me, e procura jk~ 
fender-se ■ : " 

Branoa. {á parte) Ahf se Jeiíe não tivesse pwmettMo 
casar commigo, (descendo) eu o faria pagar caro a sua im- 
pertinência. - ' 

Visconde. (olhati4o-4 y 4 parte) Pobre criança, está toda 
a tremer. 

Branoa. (é parte) Que ar dê segurança com que -eHe 
está! 

Visconde, (d parte) Que encantadora amante, se fajia 
d v este'anjo! 

Branoa. (d parte) Que bom homem para marido. 

Visconde* (com paixão) Branca* 

Branca, (baixando os olhos) Senhor visconde. 

Visconde. Metto-lhe medo? • , • « 

Branoa. (fingindo-se atrapalhada) Não completamente... 
mas não seií o qtte sinto. "•• ' 

■ Visconde; Está iintindo o mesmo que eu sinto' n'este 
momento, é um amor que está sequioso de felicidade..: uni 
amor que arde em desejos de ser 'satisfeito. 

Branca. É justamente o que eu queto. ' •• 

Visconde, (com olearia) O que disse? Consentirá ?_- ' 

Branca. Em ser sua esposa. t • * 

Visconde, (d parte) Metteu-se-lhe isto na cabeça, 

Branoa. Ou haverá contracto, ou então nada, isto lhe as- 
seguro eu. 

Visconde, (aproximando-se) Querida Branca, já lhe dtóse 
que este casamento não se pôde realiâar agora, tenhd gfòndes 
considerações a guardar. 

Branoa. É justo, quando como o sr. 'se é herdeiro de 
uma casa nobre, deve-se ter muitas eonsiderações a guardar, 
mas quando se é uma pobre rapariga como eií, deve-se ter 
também muitas precauções a tom». •, v ' 

Visdonde. É preciso ser prudente Branca; meu pae não 



b- 



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16 * ADOIDA. 

está apwon&do, e mo lhe posso faaer esquecer de repente 
o explendor e a autiguidade do seu nome. E' preciso açus* 
tumal-o á ideia d'este casamento desigual, mas um dia virá» 
em que senhor de mim, pagarei o teu amor com un* titulo 
eumafortuua. 

Branca. Pois bem, esperámos esse dia. 
. Visoonde. Branca. 

Branca . Senhor visconde ? 

Visconde. Qupr-me cojnprehender? ••• . ... v .. .: 

Branca. Faço o possível. .. , 

Visconde. Ê comtudo recusa acreditar nas minhas pro- 
messas, nos meus juramentos. Branca juxo-lhe que será con- 
dessa de S. Jorge. , 
. Branca. Os homens juram Judo, mas estou certa que 
nao se attreve a escrevel-o. 

Visoonde. psçrever o gue? 

Branca. O que jurou* 

Visoonde . E uma promessa de casamento que me pede ? 

Branca, (requebrando-se) Não lhe peço nada. 

Visoonde. (á parte) Nao mudraá de parecer. 

Branca, (á parte) E' preciso que não. se afiaste da 
questão. ., 

Visoonde: (á parte) Isto não me pó^e compcometter, e 
ella Jgn^a, que graças M possas leis,, isto não é um con- 
tracto serio. . . . ., -. . 

Branca, (á parte) Nao é valioso em justiça,, mas, não .é 
d ? ella que me servirei. ,,,.... 

Visoonde, T . (ççmi affago) Se eu fizesse o que me pede- o 
que poderia esperar. 

Branca, (requebrando-se), Âh 1 -ar. visconde o que me está 
pedindo? .,.->. . ■ • ' • . ■ 

Visconde, (agarrando-a pela cintura) Responde-me, 
Branca.- x ; , 

Branca* (fofewknfa-se. fracamente) Responde.- se por 
acaso o essas questões. ' L » .; 

Visconde, (aparte) Pertencerme. , \ 

Branca, (á parte) Tenho*o seguro. 

Visoonde. (á parte, escrevendo sobre a mesa á direita) 
Naò é bonito o que estou fazendo, más hei de obtel-a a todo 
o custos . «., lf ... , • - 



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jA DÔIftA |7 

Branca, (á parte) Só teré o que elle merece. 

Visconde, {damdo-lhe o papei) Aqui tem» esqueço tudo 
Branca, a antiguidade da minha estirpe, o orgulho d' uma 
família... tudo calco aos pés... Acredit^que a amo ? 

Branca, (tomando o papel) Não duvido. 

Viscondo. Agora meu anjo, minha Branca» 

Branca; (úffasta^ com a mão, com ar serio) Agora sr. 
visconde escute-me... Amo-o, e creio que nâo quererá des- 
honrar aquella a quem quer dar o seu nome. . 

Visconde. Branca 1 Branca 1 É á sua generosidade que 
inederijo. x ; 

Branca. E um esforço digno do.sr., da sua virtude. 

Visconde. Branca, escuto só o meu amor, ha de ser 
minha. 

Branca. Grande Deus! Visconde... Píao mo reduza ao 
desespero, não me obrigue a odeal-o, 
' Visconde. Branca... nunca... 

Doida, (ájamlla) Branca. 

Branca., (á parte) Ahi está minha mie. 

: ACENA III ''•; ) ' 

OS MESMOS £ A DOIDA (apparecendo á janella) 

Visconde, (á parte) O diabo leve a doida. 

Èranca. (á parte, indo ter com suà mãe) Já era tempo. 

Doida, (dando-lhe alfjuns papeis) Olha Branca... vês, en- 
contrei um thesoiiro. ; ' '* 

Branca. Um thesouro..: isto? 

Doida. Sim, elle estava deitado por terra», reníexi-o... 
esconde bem isto... vôs, agora serqmos ricas... Espera^ es- 
pera, quero ver se elle ainda ahi está. (dèsdppafece) 

• SCENA IV . > "• 

BítAlTOA E O VISCONDE 

Branca. Que quererá ella dizer «Elle esiaYíMleitado por 
terra, remexi-o.» Talvez seja algum desgraçado que esteja 
ferido. 

Visconde. Ou algum bêbado que tivesse cahido. , , . 

Branca. Estes papeis nos explicarão. 

Visconde. Deixe os papeis e respoujla-me, , 



/.«- 



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> 



18 • a Dom*. 

Branca. Nao... isto fàz-me medo {á parte, passandopara 
a mesa aonde está a tampada) Isto livrar-me-aad^lle. (appro- 
xinw-se da luz, e lê), t Negocio da marqueza de Pinhel.» , 

Visconde, (á parte) Hbáes-me pertencer. (Cwrva-se para 
abraçar Branca, que lê, e pára de repente) Hein! A letra 
de meu pàe! 

Branca, (á parte, enrolando os papeis) A letra de seu 
pae I Isto é bom guardar. . - 

Visconde. Dê cá, deixe-me ler. 

Branca. A letra de seu pae ! Não é possível. 

Visconde. Entretanto esta é com certeza á sua letra. 

Branca. Ha tantas letras que se parecem umas com as 
outras... vou enrolar, e guardar estes papeis para os entre- 
gar a quem nVos vier reclamar. 

Visconde, (á parte) São os mesmos que meu pae entre- 
gou esta manhã a André, comprehendo agora. Marcos tel-o-ha 
embebedado completamente, e sem duvida, está-a cosendo, 
n'algum canto do jardim. A çccasiao é favorável, e agora 
quero saber o segredo das suas conversações... vejâ-inos se 
a doida com effeito se affastou. (vai examinar ao fundo se 
estão sós, durante este tempo Branca approxima-se da lâm- 
pada ê lê). . 

Branca, (á parte) É exquesito; serão por acaso as me- 
morias do conde de S. Jorge, que meu irmão se encarrega 
de copiar ? Mas se isto é verdade... o que quererá o sr, 
visconde dizer coma antiguidade da sua geração e de sua 
família ? (mette os papeis no armário). 

Visconde. Então Branca, deixe-me ver esses papeis. 

Branca. Enganou-se, não é a letra de seu pae. 

Viscondo. Porque? , 

Branca. Trata-se da historia de uma certa marqueza. 

Visconde. Naturalmente alguma mulher da antiga corte, 
com a qual a nossa família travou relações de amisade. 

Branca. Engana-se que não é isso. 

Visconde* O que é então. 

Branca. É simplesmente, pêlo inenos segundo o que 
está escripto n'aquelles papeis, uma grande senhora, cujo 
marido estava durante os tempos revolucionários nas pri- 
sões de Lyon. 

Visconde. Nas prisões de Lyon... dô-me esses papeis. 



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g fj ' m j:je : jj muj~ ..*»-. ^^^^jblw^.-^^jm^ 



i 



A ÍDOIHA tt 

Branoa. Parece que esta Cobre mu^ier, querendo obter 
o perdão de seu marido, foi a casa do representante do 
povo um tal Bernardo..* ' , 

Visconde: Entregue-me esses papeis, não vê que per- 
tencem a meu pae* ■.'..: 

Branoa* Ah ! O sr. eonde de & Jorge* chamou-se o ci- 
dadão Bernardo ? 

Visconde, (embaraçado) Sim... &im... no tempo da revo- 
lução, quanda a.melíwr, nobreza era obrigada a esconder 
os seus titulos. ■ 

Branoa. Otí que a nova não tinha ainda ganho os seus* 

Visconde . Que diz ? 

Branoa. (depois de silencio) Quero dizer, que me enga- 
nou indignamente sr. Bernardo. 

Visoonde. O que ! Bernardo 1 

Branca. Sim, sr. Bernarda., e ha um mez que o sr, m- 
eompromette, fallando-me sem cessar da sua grande famí- 
lia, que não queria que fizesse um casamento desigual... 
É indigno. 

Visconde. Eslá enganada. 
I Branca. Gomo se Branca, irmã de André, não valtosse 
tanto como o filho do cidadão Bernardo. 

Visconde. Juro-lhe... Branca. . 
| Branca. Perdão, chame-me, « Minha Senhora i peço-lhe. 

Visconde . És uma criança, e o meu amor... 
I Branca. Deixe^me senhor ! Deixe-me ! E eu que o amava 
tanto ! .. * . 

f Visconde. Branea!.^ 

Branca. Eu, que acreditava em tudo que me dizia. 

Visconde. Querida Branea. 

Branca. Eu, que lhe teria confiado a minha honra! A 
íninha vida L. 

Visconde. Ah I Sempre sou digno. 
1 Branca, (com altivez) Saia, senhor, ou chamo para me 
|iefender, minha mãe... meu irmão... qualquer pessoa. 

Visconde. Pois bem, faça o que quizer, não saio d'aqui 
sem que tenha obtido o meti perdão... 

André, (fora) Branca L. Minha mãe ?... 
[ Branca. E' meu irmão, (é parte) Não quero que ô en 
irontre aqui. 



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- . ■ - y ^ 



M A DOIBA 

Visconde, (á parte) E* André, não importa que me en 
contre aqui. 

Branca. Compromette-me, meu irmão é capaz de < 
-matar t... -• 

Visconde. Sim, bem sei que $ um pouco brutal, (á parte , 
- Mas o que eu temo; sobre tudo é que elle não falle no castello 

Branca. E' preciso esconder-se... 

Visconde. Mas aonde?... 

André, (fora) Minha mãe... Branca t... 

Branca. É elle que se approxima, 
. Visconde. Aonde quer que mo esconda? 

Branca. Ahi, no meu quarto, ha uma porta que dá pari 
o jardim, pode fugir em quanto vou ter com elle. 

Visconde, (atraz da porta, á esquerda) Fugir, não mí 
nha querida, não fugirei, o lobo está no redil... 

' SCENA V ' " 
. ANDRÉ, BRANCA E VISCONDE (escondido durante 
scena) 

André, f entra cambaleando, vem coberto de poeira, e fi 
rido no rosto) Uma pouca d'agua!... Cobarde !... (Deixa-i 
cahir sobre uma cadeira). 

Branca, fá parte) Em que estado !... Deixou-ge fiei 
n f alguma taberna, (alto) Donde vens, desgraçado ?... 

André. Dá-me agua Branca,., agua... 

Branca. Cahiu e feriu-se, se minha mofe visse isto. 

Visconde, (á parte) Advinhei, Marcos embriagou-o. | 

André. Infame, vingar-se por uni assasinato. 

Branoa. Não «abe o que dtó. 

André. Atacar-me pelas costas quando estava sem defesa 

Branca. Atacarám-te? 

André. Tinha deixado o castello ao escurecer, quan< 
chegava ao angulo, do bosque, um homem escoo' 
por detraz de urnas silvas, tevantou-se, e antes de 

tetnpo de nje voltar, descarregou-me uma pancada tita^ 

sobre a cabeça. 

Branca, âahias do castello?.;. 

Visconde, (aparte) Marcos, não roe disse nada!... 
< Branca; Conhecesses quem te ferio?.*; 

André. Não, porque cahi logo com a violência da panea 



yGooQk 



— ■ -*«! 



k DOIDA Si 

Branca, (querendo rir) Que historia tão esquisita <jue 
me contas. Quem queres tu que tenha interesse em te atia- 
car ? Nào tens nada que te roubem. 

André. Não era. para me roubar, mas uma vingança. 

Branca. Vingança, alguém a quem fizeste mál ? 

André. Quiz castigai -o por ter dito mal de uma pesáoa 
que tu conhece9. . / 

Branca. Para que te compromettes por causa dos outros* 

André. Porque me dizia respeito, e a ti também. 

Branca. A mim ! Tenho alguma cousa com essas pes- 
soas?!... 

André, (levanfemda-se) .Espero, que não, & oxalá> que 
Marcos tenha mentido. 

Branca, (á parte) Marcos, parece-me tel-o visto girarem 
volta da nossa casa* (alto) O que foi que te disse ?... 

André. Disse -me que todos os dias durantô a minha au- 
sência, recebiam aqui uma pessoa. 

Branca. Eu L. E quem ? 

André. O visconde d& S. Jorge. 

Branca, (á parte) O visconde, (alto) E tu soffreste isso ? 
Nào és um homem ! 

André. Não, minha. irmã, não ò soffri, porque foi então 
que na minha cólera, o quiz arrastar até aqui, para o oKri- . 
gar a pedirão perdão. 

Visconde, (escondido, á parte) Já sei o motivo da zanga. 

Branca, (fingindo chorar) Julgar-me capaz,.. . 

André. Não, a cólera apoderou-se de mim. 

Branca, (toluçandç) Meu Deus i Quanto se é desgraçada, 
<]uando se está exposta a semilhantes caiumnias. 

André. Oh! Jurò-te que te vingarei^ tem confiança lem 
mim. (estefidendo-lhe a mão) Obrigada, nao sabes o bem <|ue 
me acabas de fazer.v. que grande incerteza me arrancastes 
do coração, porque se é verdade que o sr. visfconde engana 
sua prima, nao te perdoaria de teres sido a eausa. 

Branca, (com vivacidade) O que é que dizes, o sr. Vis» 
conde engana sua prima. 

Visconde, (á parte) Isto vae mal ! ') 

André. EUa ama-o, e receia, é bem simples. 

Branca. Ah ) Eila ámá-o... e èlle ?... 

Visconde, (á parte) Diabo, ahi temos as explicações. 



yGooQle 



32 A» DOIDA 

André v (vendo mecher a poria) Hein? O que é isto? 

Branca. que? * 
> André. Pareceu-me ver mecher a porta doeste quarto. 

Branca, (á parte) Ainda se não foiepabora t 

André. Talvez seja minha mãe,.. 

Branca, (fatíendo-o parar) Não é nada.... o vento... (ele- 
vando a voz) Dizes então que a menina Maria, ama o sr. 
visconde. > 

André, (triste) Sim, ama-o, se assim não fosse não se 
eec«paria tanto d'elle. 

Branca. £ elle ama-a? 

André . Deve amaliâ, poTqpe Tae easar com ella. 

Branca, (com vivacidade) que ? EHe casar ? 
. André. Ha muito tempo que este casamento está fixado, 
e como se deve effectuar antes de um mez... 

Branca. Antes de um mez. 

André. Foi para isso que eila me encarregou de saber, 
se seu primo a enganava. : > ; 

Branca. A ti? Ella encarregou-te... 
. André. Sim, a. mim, mas veio bater a má porta... 

Branca. Melhor do que tu imaginas. 

André; Eu, apenas sei o que se pas&a em casa. 

Branca . Não< é necessário ir mais longe, e podes^lhe dizer 
' da minha parte, que o sr visconde é um monstro, e que não 
6. ella só a enganada. 

André, (espantado) Ali ! E d'onde o sabes ? Falla«se n'isso 
porca? 

* Branca, (elevando a voz) O que te posso assegurar, é que 
elle não casará com sua prima. 

André. Quem o impedirá? 

JBranca» Oh ! Alguém que não se deixa conduzir facil- 
mente, (alto, e appnoximando-se da porta) Não sou um ho- 
mem, mas saberei conseguir que me façam justiça. 

André . Que te façam juâtiça ? 
- Branca, (á parte) Disse mais do que era necessário. 
m André, (encolerizado) Que te façam justiça, dissestes 
tu? 

Branca. Eenjão? 

André, (acalmando-sé) Não, não é possível, minha irmã, 
que queres tu dizer, não me quero zangar... mas explicaste. 



yGoode 



TTTrnnpji 



A DOIDA í$ 

Branoa. lá está tudo explicado. '; ? 

André. O que? , 

Branca. Que o sr. visconde de S. Jorge, me. enganou, 
como enganou sua prima. .< \ 

André. Ah I Marcos não mentiu ? 

Branoa. Conforme o que eite te disse. '; 

André. E' verdade. que o sr* visconde todos os dias aqui 
vem. 

Branca. E que viesse ? 
. André. Então mentiste-me ainda agora! 

Branoa. Pergunt0-te os teus segredos ? 

André, (com um grito de cólera) Branca ! (acalmando-se) 
Oh 1 Não me falles cTessa maneira... E's quem . governas 
aqui... fazes o que queres... o pouco que ganho és tu que o 
gastas... já é muito quando n*esta casa me dão um&ipá cama 
para dormir e um pouco de pão para não morrer de fome* 
sofíro tudo sem me queixar;., mas se por acáao tivesses des-. 
honrado o nosso nome... % 

Branca. E quem te falia em deshonra?... Parece-me que 
uma rapariga honesta pôde receber Um rapaz... que vem 
vel-a na intenção de casar com ella. - 

André. Acredit&s-te n'esse miserável? 

Branca. Fez mais do que promettér, assignou ! 

André . E deante de semilhante escriptura esquecestes os 
teus deveres ! 

Branca. Não sou tão tola... nada esqueci .. 

André. Tu mentes... menteâ ainda... Ohl meu Deus, e 
Maria vae dizer que eu o sabia, como os outros o acredit- 
tam, e o dizem.-. Oh ! meu Deus... Branca, diz-me a ver- 
dade, Marcos teria ainda foliado verdade quando disse que 
tu eras a amante do visconde, (bulha fora de scena) 

Branca.. Ah ! Em quanto a isso prometto-te... 

SCENA VI 
ANDRÉ, BRANCA E A DOIDA 
Doida, (no quarto) André, André, acode tenho-o seguro, 
Branca. Meu Deus t 

André. O que é isto ? (abre a porta) Minha mãe ! ? 
Doida, (entrando rapidamente) Escapou-me... fugiu... 
André. Quem? 



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tt A DOIDA 

Doida. EHe... o carrasco.- o visconde de S. Jorge... éra 
elleí... 

André, (a Branca) EHe estava aqui ! A esta hora i... Ah ! 
Branca... 

Branca. Juro-te. 

André. Não jures, não juntes o perjúrio, á deshonra. 
■"• Doida. A deshonra... a deshonra... anda minha filha ♦'* 
preciso fugir... deshonrei o nome de teu pae... 

André . (querendo fazel-a parar) Minha mãe. 

Doida, (olharido-o) Sangue... sangue... morreu... morreu... 
mataram-no e estou deshonrada )... Ah t é preciso morrer 
também... quero morrer !... 

André, (querendo-a fazer parar) Minha mãe... minha* 
mãe. 

Doida, {recuando, com gritos) Ah! sangue... sangue.- 
sangue. 

André, (deligenciando fazel-a parar) Minha mãe... minha 
mãe. (Sahem, Branca cae desmaiada rívmi cadeira) 

FIM DO !• ACTO 

ACTO TERCEIRO * 

■ A mesma ecena do l. f acto 
SCENA I 
O Conde (só) - 
Antes de tudo, hei- de arranjar as. cousas de forma, quedo 
acontecido nada chegue aos ouvidos de Maria. Ha mais ai* 
tivez da que eu pensava, debaixo d'aquelle ar leviano, e 
pueril. Até aqui lenho-a achado submissa ás minhas ordens, 
mas basta a estúpida imprudência de meu filho, para re- 
bentar uma guerra sem quartel» e eu não estou em posição 
para obrigar Maria a um casamento que devia assegurar a 
meii filho uma das mais ricas fortunas da França. Obser- 
vando attentamente a minha conducta politica, gostariam de 
achar na minha vida privada razões plausíveis para me 
atormentar, por isso é preciso abafar este negocio, antes 
que elle se manifeste. Fiz ausentar hoje o visconde por todo 
o dia, com o fim de evitar algum escontro, d'este lado posso 



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AJNMDÀ W 

estar socegadov.. Pobre André ! E* elle quem deva sacrificar-, 
que hei-de fazer ?... E' preciso obdecer ás cireumstanoia* 
quando se não pôde dominal-as, elle ahi vem; um poucot 
de destreza, e se houver necessidade um pouca de severi- 
dade, e fará o que eu quizer, é a temidez, o o caracter de 
uma creança, no coração de um homem. 

SCENAII 

CONDE, E ANDRÉ (entrando) 

André. Sei que me mandou procurar muitas. vezes, sr. 
conde, queira-me desculpar o não ter vindo immediata- 
mente. 

Conde, (assentado perto da mesa á esquerda) Já sei da 
desgraça que lhe aconteceu.. Disseram-me que suspeita de 
Marcos, como áuctor da emboscada. 

André. Talvez que elle não seja senão o instrumento ; 
mas não foi isso o que me impediu de, me apresentar m 
eastello. 

Conde. Então o que foi ? 

André. Gomo eu esperava, minha mãe affligiu-se muito 
da minha demora... e circumstancias que eu não podia pre* 
ver levaram esta exaltação até, um delírio terrível. Fugiu de 
casa, e passei toda a noite á sua procura. 

Conde. Achou-a, 

André. Segui -a toda a noite, até que consegui trazeis 
próximo do eastello, e minha irmã que tem sobre elia mai* 
império, veiu-mc^ substituir, e foi então òlla que me disse» 
«pie v. ex.* me tinha mandado chamar. 

Conde, (levantando-se) E apressou-se a obdecer, está 
iem. % > 

André. Nada, sr. conde, me fará esquecer o bom acolhi- 
mento que tenho recebido de v. ,ex.*, e aconteça o que acon- 
tecer, o reconhecimento que eu lhe devo, será a regra da 
minha eondueta. 

Conde., O que fiz pelo senhor, não vale a pena fallar, m> 
cessitava de um secretario, encòntrei-o. Pagando-lhe quatro 
vezes mais do que lhe daria o logar demestre escola n'«sta 
aldeia, não avaliei os seus serviços em mais do que ellas 



<V .*:-'• * ' ■ ■* ' ■•■---' Di ! :dbyVjO )£l£ 



26 A BOfDA 

valiam. Por conseguinte s© aeceito o seu reconhecimento, 
não é porque elle me seja devido, más porque o quero me- 
recer. 

André. Estou prompto a escutal-o, senhor conde. 

Conde. Por razões, que não lhe posso explicar, não pôde 
continuar a exercer aqui as funcções que eu lhe tinha con- 
fiado. 

André, (com dignidade) Por razões que eu desejo que 
v. ex* nào saiba, eu mesmo tenho de renunciar a essas 
funcções. ' 

Conde, (examinando-o) Ah !.., 

André. Essas razões... 

Conde, (interrompendo-o) Não 4h'as peço. (depois de um 
momento de silencio, e com um começo de altivez) Mas já 
que nós temos acertado tão beta, nas nossas resoluções 
até hoje, desejo saber se será o mesmo para aquellas, que 
dizem respeito ao futuro ? 

' André-, (digno, mas submisso) Ainda não pensei n'isso, 
sei o sufflciente para comprehender que a minha presença 
é impossível em sua casa, mas ignoro como a devo deixar. 

Conde, (com intenção ameaçaaora) Pois bem, posso dar- 
Ihe sobre este assumpto um conselho, que penso ser tão 
útil para o sr. * como para mim. Aqui tem o que eu deter- 
minei fazer, possuo... entende não se trata das propriedades 
da minha pupilla,as quaes devem passar para as mãos de 
meu filho... possuo entre Grenoble e Gap, uma floresta, cuja 
administração foi confiada a um homem, de que eu não 
reeeiava senão a incapacidade, mas que acabo de saber que 
é um tratante. 

André. É uma desgraça qu/í só presegue as grandes for- 
tunas. 

Conde. Pois bem, André, é esta administração que de- 
sejo dar-lhe, necessito de um homem honrado e inteliigente, 
parece-me que escolhi bem. 

André» Sintome orgulhoso, mas devo fazer-lhe ver... 

Conde. Segurarei os apontamentos convenientes a esta 
-administração^ com a condição que partirá immediatamente. 

André. Mas. sr/ conde... 

Condo, (insistindo) Tem aqui 300 francos, parta, eeu 
elevarei esta quantia a mil escudos... 



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a doidX 27 

André. Senhor.., 

Conde, (com vivacidade) Eleval-a-hei a... 

André. Pôde elevar até toda a sua fortuna que eu não 
partirei. 

Conde. Senhor... 

André. Não desempenhemos por mais tempo esta come* 
dia. V. ex. a sabe agora porque me retiro, como eu sei porque 
v. ex.« me despede. 

Conde, (coro altivez) Pois bem, já que noa comprehen- 
demos, deve ver que as minhas offertas são mais do que 
podia esperar. 

André. Pôde ser, se eu tivesse vindo aqui para fazer 
negocio... 

Conde. Parece-me que não seria o primeiro que tem 
havido entre nós. 

André. É verdade, sr. conde, o pobre vendeu o seu tra- 
balho ao rico, e o rico pagou o trabalho do pobre. v. ex.* 
era o senhor, e eu o servo, mas aqui não ha mais nem servo 
nem senhor, há um pae que se responsabilisou do procedi* 
mento de seu filho, ha um» irmão que vem proteger a honra 
de sua irmã, e h'este terreno somos iguaes, sr. conde. 

Conde, (com cólera) Iguaes? Engana-se; ha ainda entre 
nós toda a distancia que separa o homem honrado que quer 
paternalmente occultar uma falta, em que elle não é cul- 
pado, do insolente que quer fazer um escândalo para apro- 
veitar. 

André., (dando um grito) E tu também í Ah \ (depois de 
ter socegado) Sr. conde enganei-o... quando aqui vim era 
menos para obdecer ás suas ordens, do que para encontrar 
alguém que não ousou fallar-me como v, ex. a acaba de fazer 
a quem eu teria respondido conlo devo, se elle tivesse sido 
imprudente. Permitta-me, pois, que me retire. 

Conde. E' uma ameaça t 

André, Para v, ex.* não, e retiro as minhas expressões 
se ellas hYo poderam fazer acreditar. 

Conde, (á parte, em quanto se quer retirar) Nem o inte- 
resse, nem o medo o farão ceder ; e preciso empregar outro 
meio. (com amabilidade, reconduzindo André) Vamos André, 
não é preciso encolerisar-se, fui eu o culpado. 

André. Sr. conde... 



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28 h DOIDA 

Conde. Veja a minha posição e a sua» vae procurar meu 
filho que é honxem de coração, epor consequência : havorá 
um duello ; o senhor mesmo m' o acabou de dizer :•—• Diante 
de uma questão de honra todos os homens sào iguaôs. Que 
resultará d'ahi?... Que ambos commetterão tima impru- 
dência ! 

André. Pensa isso, sr. conde ? 

Conde. Já interroguei meu filho que me jurou que sua 
irmã era digna da sua estima. 

Andró. Desejava náo duvidar. 

Conde. Mas... que disse ella ? Interrogou-a? ! 

Andró. Sim.., quiz deflender-se... 

Conde. Nos movimentos precepitados do coração nem 
sempre se reconhece t o verdadeiro... quero vel-a... fid- 
lar-lhe... e se está innocente, como eu julgo, consola-la de 
uma esperança que se deve desvanecer. 

André. V. ex. a deseja ver minha irmã ? í 

Conde. Não acha este passo conveniente da parte de um 
paef 

André. De um pae ! Pôde ver minha irmã, e Deus queira 
que ella esteja innocente como v. ex.» julga ! 

Conde, (a parte) Ella o será. (alto) Diga-Ihe que lhe de- 
sejo faltar. Irei Jogo a sua casa. Parece-me que ahi vem 
Maria, é inútil dizer-lhe que ella devo ignorar tudo. 

André. Senhor... 

Conde, (á parte) Segundo o que me disse Marcos... pa- 
rece-me que me entenderei melhor com a irmã. 
. Maria, (ao fundo) Ah ! Eil-o, até que emfim. 

André, (á parte) Vem sem duvida interrogar-me, e não 
posso, não quoro responder-lhe. 

Conde, (á parte) Tenho ali necessariamente o dinheiro 
que Marcos me trouxe. 

Maria, (entrando) Bons dias, sr. André. 

André, (cumprimentando e sáhindo) Minha senhora (sake). 

Conde, (á parte, derigindo-se ao seu gabiaete) Vou to- 
mar as minhas medidas para que clles partam esta 
tardo. 

Maria, (querendo fazer parar o Conde) Diga-me, meu tio.*. 

Conde. Perdão minha filha, tenho que me òccupar da 
um negocio muito importante, (sahe pela direita) . 



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ADOIDA 19 

SCENA IH 

MARIA (só) , 

O que tem elles? Deixam-me sósiíiha. Pela príiiíeira vez, 
depois de dois mezes, meu primo queria passar o dia no 
castello, naturalmente meu tio encarregou-o de alguma eom- 
missão para Grenoble, não foi isso o que me contrariou, 
porque pensei que André merpqderia fallar mais livremente 
e dar-me as informações que lhe pedi, e agora sáhe côto- 
primentando-me friamente, talvez fosse melhor. Fiz talvez 
mal em me derigir á elle> abusa talvez da confiança que lhe 
dou. Odeia meu primo, por julgar que elíe é adorado... e 
quem sabe se André,.. Estarei eu doida ?... Pensar que al- 
guém se interessa por elle. Está mais disposto a julgar-se 
como todos o julgam, e sou eu sem duvida, a única pessoa 
que comprehendeu tudo qdanto ha de nobre e bom, de- 
baixo d'aquelle vestuário grosseiro (meditando) É uma cousa 
exquesita, meu tio precisa de um secretario, derije-sé a um 
pobre mestre escola> e ei4o que encontra um homem de 
instrucçâo profunda, este homem, desgeitosô e mal vestido, 
fica um dia n'esta sala, abro por acaso o meu piano, e ei-lo/ 
que ás primeiras notas, me critica, e depois toca como um 
eximio professor. BT verdade, h'este momento, pensei -que 
fosse um disfarce, ou artificio da parte d'elle ? mas a ver- 
dade elle mesmo a mostrou, uma criança abandonada, edu- 
cada n'um asylo por um velho religioso, que tinha sido um 
bom organista de convento. Foi-se o tempo das revoluções 
e das fortunas rápidas, como a da minha família, e talvez 
. fosse melhor para André ficar pobre. E' possível que eu ti- 
vesse sido mais feliz, se meu pae em logar de se enrique- 
cer por especulações atrevidas, me tivesse deixado ficar na 
classe em que nasci... Então, se tivesse encontrado André. 
E élle me tivesse amado, talvez eu o tivesse amado também... 
e íiào soffrirja o que estou seífrendo. (asssnta-se e medita). 

■ . SCENA IV 

MARIA E A DOIDA 
Doida, (entrando, è olhando admirada) Ah \ Como eu fiz 
bem em fugir, como isto é bonito !... E'coknd n'outró tempo. 
Diária, (meditando) Pobre André L. 



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30 -A DOTOX 

Doida, (com vivacidade) Mo chamou por André ! ? 

Maria, (levantando-se espantada) Meu Deus L. 

Doida. Teimará em me perseguir, para entrar n'essa casa 
tão feia ! Oh 1 Nunca 1 

Maria* (com medo) Meu Deus, quem é esta mulher ? > 

Doida. Esta-se bem aqui... sinto-me feliz. 

Maria, (chamando) José, Manuel. > ' 

Doida. Oh ! Não chame ninguém, não me expulse d'aqui 
há tanto tempo que. não tenho estado em minha casa... Ah! 
É porque sou muito feliz... não me expulse. 

Maria, (examinando- a com medo) Pobre mulher I 

Doida. Oh ! Não tenha medo, nao sou má, e a menina é 
tão bonita, (examina-a) Ah ! conheço-a. 

Maria. A mim?... 

Doida. Sim, não me engano... um diavi-o... André guar- 
da-o com grande cuidado. (Maria approxima-se) mas uma 
manhã em quanto elle dormia* vi-lho sobre o coração. 

Maria. que t 

Doida. seu retrato feito por elle. 

Maria. meu retrato ? 

Doida. Também conheço seu irmão. 

Maria. Meu irmão ? 

Doida, (olhando á roda) Sim» seu irmão, o visconde de 
S. Jorge, vem ver-nos amiudadas vezes, gosta de Branca, e 
prometteu casar com ella. 

Maria, (com altivez) A irmã de André?... Está certa do 
que diz ? 

Doida. Uma tal pergunta é um insulto. 

Maria, (á parte) Esquecia-me que é uma pobre doida.- 
(pensanda) E comtudo... 

Doida, (dando um grito) Ah ! Elle ahi vem. 

Maria. Quem ? 

Doida. André, é elle que sempre me persegue. Oh ! es- 
. conda-me, não quero tornar a entrar n'esse. casebre... Não, 
salva-me. 

Maria, Esteja tranquilla é seu filho, não lhe faz mal. 

Doida, (fazendo passar Maria á esquerda) Pois bem, 
visto que elle a ama, veja se obtém òVelle o meu perdão. 

Maria. Sim, farei o possiveL 

Doid%. (empurranào-o com doçura) Vá... (Maria dá um 



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■A DOIDA 31 

t 

passo para André) Não me poderão achar. (Entra no quarto 
da esquerda) 

SCENA V . 

MARIA E ANDRÉ 

André, (entrando rapidamente) Perdão, minha senhora, 
entrando em casa, disse-me minha irmã que minha mãe, 
passando por diante de uma das portas do parque, entrou 
por eila furtivamente, Branca não ousou seguil-a, mas vindo 
procurada ao parque... (Maria fazrllie signal que se tale, 
e volta- se para lhe mostrar a doida), 

Maria. Mas elia estava aqui. . . vi-o. 

André. *E fugiu, com tanto que os criados não saibam 
que ella está aqui, iriam á busca d'eHa, como já fizeram 
tuna vez, « se soubesse em que terrível delirio a mergulha* 
ram, os gritos que dão contra ella. (Durante este tempo Jfe- 
ria, olha para todos, as portas, e fita a vista na da esquerda. 

Maria. Eil-a n*aquelle salão, veja como olha para tudo 
com curiosidade. 

André, (passando á esquerda) Pobre mãe, quero ir abra- 
çal-a, 

Maria. (Jazendx^o parar) Não, olhe pegou n'um livro, 
assenta-se, o aspecto d'estes togares parece fazel-a feliz, 
deixe-a socegar, está tão fatigada, (depois de um silencio) E 
nós podemos conversar. 

André, (voltando-se, á parte) É preciso affastar-me. . • 
(alto) Minha senhora, permitta-me. 

Maria, (que viu o embaraço de André) Tem muita pressa 
de deixar o castello ? 

André. E' por causa de minha mãe. . " 

Maria. Por causa de sua mãe?- £' verdade o que diz? 
O seu embaraço, as palavras que deixou escapar. * . Foi' 
também por causa de sua mãe, que o senhor sábio ainda 
agora sem me fallar ? 

André, (com embaraço) Minha senhora. 

Maria, (com vivacidade) £ queres retirar, será verdade 
o que sua mãe me dizia. 

André. Minha mãe, esquece- se de que. as suas pala- 
vras... 

Maria. São de uma doida, tudo i?ie vem agora à memo- 



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32 A DÔIIU 

ri*. . . a sua questão de hòntem á tarde, algumas palavras 
que esse homem deixou escapar, a forma com que o senhor 
lhe impoz silencio, o reoeio que tinha de se encontrar com- 
migo. . . sim, trahida e enganada por todos. 

André. Por todos ? 

Maria. 'Tanto pelo seiibor, como pelos outros, porque 
vejo que não podia ignorar que meu primo ia todos os 
dias a casa de sua irmã, que prometteu casar com ella, 
o senhor sabia tudo isto, e quando hontem lhe perguntei. . . 
/ André. Oh ! jNão o sabia ainda, juro-lhe. 

Maria. Mas, será verdade ? 

André, (tristemente) Sim, minha senhora, e ainda que 
tenha de eôrar diante de v. ex. a , não quero que me jul- 
gue cúmplice de uma tão covarde traição. 

Maria, (soluçando) Nao acho que seja uma traição, não 
tekn de que corar, meu primo prefere sua irmã, promette 
casar com ella. .. é muito simples. . . 

André. Nao escarneça, sabe muito bem que isso é im- 
possível. 

Maria, (chorando) Porque? 

André. Porque ? (depois de sileivcio) Porque chora. Olhe 
quando soube d'iessa sedução, não senti senão raiva e in- 
dignação. Quando aqui vim esta manhã, era para pedir 
a seu primo uma prompta reparação, ou uma satisfação 
sanguinolenta. . . Quando seu tio mie quiz pagar, para que 

• eu e minha irmã partíssemos, recusei os seus offerecimen- 
tos com horror, mas agora, agora, que a vejo chorar. 

Maria. Que quer fazer? 
André. O que me ordenar. 
Maria. Eu? ' ■ 

André. V. ex. a Quer quoeu parta? Partirei... Parti- 
rei com minha irmã... conduzil-a-hei... partiremos to- 

• dos; já í|ue sotnos asu^k desgraça. 

Maria. Ai de mim, o senhor não a pôde impedir. 

André. OhíTel-tehia impedido, mais de uma vez notei 
que a ausência de seu primo a consternava. Deveria ter.-me 
informado, (oont mpla Maria) Podendo ficar perto de f. ex.* 
-e deixada, era impossível que não amasse uma outra. 

Maria, (com tristeza) Então ? Se ama uma outra que 

• posso esperar ? 



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*D0a>4 33 

André. Oh! O visconde, não pôde amar minha irmã. 

Maria. Sei que é nobre, e bom, agora está*o defendendo 

André. Oh l Sim, elle amara,, v., e^.* B^rdoar-lhe-haj • 
será feliz. 

JUlaria. (commvida) Feliz» ♦ . nupca, elle não me ama. 
(suspirawlo) Como o senhor talvez me. w ass& 

André, (exaltando-se) Ohl Se eu a podesse amar, seria 
com um amor sagrado, um amor dp <jeo, um ^mor que se 
prendesse á religião. Se eu pqijlesip amal-a, perime], abando- 
nado, que 930 • fui deâpresado aem repellido pcir v, sx.» 
como todos. . . Se eu podesse amal-a, v, ex.* pura e santa 
como os anjos. Ah ! Pensei que a amava. . . mas sinto-o. . . 
não é ainda como o merecia*.. (4e joelhos) Perdoe-me... 
não sou culpado, tinha jurado de nunca o revellar. 

Mariá^ tysteméfafalhê amaS) NIò lhe queromal por isso. 

André. #evantcmdQ-$e) ^.jq^^quermltsobrigado ppr 
tanta indulgência. Tenho necessidade <Tella porque é agora 
pe vou ser desgraçado. Pprquç èrçi qupato guardei q meu 
segredo, podia ficar perto de v. ex.*, essa felicidade que 
constituía toda a minha vida, a feUeylfUie de a ver, de me 
fallar, v. ex. a concedia-m'a porque não sabia. . . que aqui. *<* 
no meu coração ... . . . . > .•«..,. 

Maria, (com doçura) Sàbià-.Q, • 

André. Sabia-oL e nã&. me expulsou?, 

Maria. Já m*o disse, e ainda está ahi. • , 

André. Ah t Não me torne doido, ^ j\feria (^e-terviâp) 
| Maria. É algueni que se aproxima è talvez meii tio» 

André. Oh! Meu Deus, agora <ptôlíei-de weç..* qúft 
hei-de dizer-lhe ?..... . ,.« , v . ., 

Maria, (com vivacidade) Fique qu pai^ maa o gqye.Hjie 
posso assegurar, é que. uío, serei Juuoca esposa de meu 
primo. (ouvem-M gritos) 

sceiíA'^.... .;: , 

MARIA, ANDRÉ, E O CONDE (gritos 00 fundo) 

Maria. Que será isto ? Gritos ! 

André, (olhando para o salão) E minha mãe, que sahitt 
[1 aquelle quarto, e que os seus criados perseguem, para a 
fazer retirar. 
, Maria. Accuda, que desappareceu para o lado do tanque. 



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&Í i DOID* 

André. Oh ! Meu'Deus (sahe correndo) ' 
' Condem (entrando) Para que é este barulho, estesgritos ? ! 

* Maria, (áo /tttuto) ; Essa pobre doida, a mãe de André, 
introduziu-se no parque, e perseguem-n'a. 

• Conde. E porque é que elle não toma conta em sua mãe. 
Maria. Talvez tivesse deveres mais importantes a cum- 
prir.' •*- : .-••«. 

Conde l-jtá parte) Que quererá dizer, fallaria a André. 

* Maria. Ei-lo, ainda ctíegou atempo. 

Conde: (d parte) Eátevè aqui í Desgraçado se faltou; 

• Maria. Ella ahi vem, pobre mulher ! Derije-separa aqui . . . 

§ ':"'■. . scena w 

MAMA, AOTRÉ, DOIDA, É O CONDE 

Doida* (etotrmdo a cárter e escondétido-se atroz do conde) 
Salve-me,. salve^mé, aquelíes homens querem matar-me. Es- 
cote, cantam a horrível 'canção,* que tantas vezes ouÇo, para 
meu castigo. » 

•Conde, (surpréhendido) O que ft que esta mulher quer 
dizer? | 

Doida. Cantaram-n'a quando.entrei em/Leio. 

Conde, (inquieto) Em Leão í 

Doida. Ainda a cantaram quando fui pedir o perdão do 
cpndemnado. 
v Condo . (espantado) De que* fcondemnado ? 

Doida. Òantaram-i^a sempre, mesmo ao pé da guilhotina, 
qttatndo o infame abriu aquelia janella,e que vi... (olho 
para e conde e dá um grito) Ah f (càhe desmaiada). 
' Contlè. Quem é esta ttiàlher ?. 
: André. Minha mãe, que está doida. 

Conde, (á parte) Sua mãe, ! . „ . Ah ! Foi etitão o inferno, 
que lhe deu este semblante, è festa voz. 

1 FIM DO 3.'ÁCTQ 



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L'J.'- A W^uSa^rJâL. 



A D0IDJ* 3S 

AOTO QtJAETO 

** A, cabana 

• sçenai .-. '• .' •:•./'•.' •> 

CONDE E UM CRIÁÍ)Ò. /„ 

Conde. Ninguém f Gomo pôde ser que André tenha sa- 
hido? 

Criado, (mostrmdd aporta da direita) Perdão sr^eonde, 
pareee-me que ouço fallar n'aquelle quarto, que ó da doida.' 

Conde uoriheces esta easa? - 

Criado.< Sou da aldeia sr. conde, e antes tfesta casa ser 
habitada peto sr. André, entrei aqui muitas vezes. Quer que 
vá prevenir... i . 

Conde. Ainda não (o criado retira-se para o fundo ex* 
terior) Que miséria ! Que privação ! Tudo isto me dá espe* 
rança, que beMe conseguir, o que #iero, esta rapariga não 
ha-ae ser tão doida,' que recuse a fortuna que lhe venho 
offereçer; que partam eí que m não ouça fallar mais d'elles, 
sobre tudo d'essa mulher, a quem o acaso fez despertar em 
mim uma lembrança tão amarga. Coifr efleito, que singular 
fatalidade, e dia em 1 que me ocoupo 4as<minhás memorias, 
para me justificar d'esta negocio da marqueza de Çinhel, 
apresensentâ-se-me uma mulher, uma doida, que me falia 
de Leão, e de cadafalso í Por momentos cuidei ouvir a vôz, 
e ver as feições da desgraçada de quem eu queria poder es- 
quecer o nome (pensa) Dtiirio, esta mulher tornada a si do 
seu desmaio; fixou em mim olhares indifferehtes; eu mesmo 
procurei em vão, n'esse rosto enrugado, um vestido d'essa 
belleza que hie fez tão criminoso, (silencio) Dè mais a mais 
a marqueza ^ não tinha filhos. Não importa que partam, é 
necessário para os meus projectos, para o meu deseanço. 
(chamumdo) Jorge... 

Criado. Sr. «onde f ;« 

Oonde. Está todo prômpto? 

Criado. Sim, senhor, a carroça espera na estrada. Dou- 
lhe duas hora» para se arranjarem, e ainda rdfepondo que 
antes de amanhecer estaremos em Greiratfle. 

Conde. Tem pára com elles todas as altençôes. 



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36. X DOIDA 

Criado. Pela. minha parte, respondo pela carroça, e 
pelos cavallos, soa* temos que entrar nà montanha, e se a 
marqueza começa as suas corridas ?. . • . ' 

Conde . A marqueza ! Dizes tu ? ~ 

Criado. Perdão, sr. conde, é um nome de fantasia, que os 
rapazes dão á doida,, porque elia ás vezes toma ares de 
grande senhora ! 

Conde Está bom, vae prevenir a menina Branoa, que a 
espero (Jorge sahe) Na verdade deixo-me guiar por ter- 
rores pueris, ma» quando se está preocupado de uma ideia, 
vê-ae tudo através do mesmo prisma, e presto-se á* míni- 
mas cousas um sentido queeHas não tem. Por muitas ve- 
zes tenho outido aos meãs criados, chamaneia a. esía mu- 
lher marqueza, e eis que hoje esta nome me assesta. Tra- 
temos do que me conduziu aqui. Prevejo scenas de deses- 
pero, gritos, lagrimas, mas sou pouco sensível. (Jorge en- 
ím)E«Eao? , 

Criado. A menina Branca pede desculpa ao sr. conde, 
de o ter feito esperar, é sua mãe que afta demorar* porque 
quer uma cousa, que a menina não lhe quer dar, e a doida 
e teimosa. 

Conde. Conheceis? 

Criado. Ha mais de vinte annos, pouco mai& ou menos, 

r* ella está aqui, estamos em 1846, e veiu durante o tempo 
revolução. 

Conde. Durante o tempo da revoiuçSo ? 

Criado. Era ainda bem pequeno mas tembra-me como 
ae estivesse lá* ... Foi meu tio Jbôwa&.que indo ao campo 
encontrou a pobre mulher desmaiada n'um fosso, com uma 
criança noa hraços. . 

Conde. E dtonde vinha? * 

Criado. S& ella o podia dizer, o. quando tornou a si, 
nem ee lembrava como se chamada., queriam teval-a á casa. 
do Senado, porque, emfim, cada um temos seus pobres, 
mas um ex- religioso que se tinha retirado ,para: estes toga- 
res, encarregou-se d'ella, de sua filha, e em seguida de seu 
fflfeot' '; 

Ponde. (4e$pcdm<kH) cov%tm gesto) Bom. (aparte) Sem- 
pre me esquece que a marqueza não tinha filhos. 

Criado, {aparte} Não disse ao sr. conde; que o outro &• 



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A DOItóH 37 

lho ainda lhe não tinha nascido, e que o frade o educou 
como se fosse seu filho. 

SCENA H 

Sr 

CONDE, O CRIADO, E BRANCA 

Branca, (á parte, entrando) Meu irmão, dirá o que qui- 
zer, mas minha mãe quiz nor força aquelles papeis, e não 
me teria desembaraçado se Iuos não desse. 

Conde, (ao criado) Ê a menina Branca. 

Criado. Sim, sr. conde. (O criado retira-séb 

SCENÂ IH 

CONDE E BRANCA 

(Um momento de silencio, observam-se e comprimentam-s e 

Conde, (aparte) Parece-me que não ha-de ser difficil. 

Branoa. (aparte) Parece-me que não é tão tratavel como 
o filho. . . É o mesmo sr. Bernardo, conduzil-o-het por um 
J^om^caminho. (momento de silencio, appro$imam-8e) 

Conde. Minha senhora, seu irmão disse-lhe o motivo da 
minha visita. 

Branca. Sim, senhor, mas confesso que não entendi. 

Conde. Então seu irmão não lhe disse quaes eram as 
minhas intenções? 

Branca. Meu irmão, sr. conde, é um bom rapaz, a 
quem se pôde dizer tudo, sem que elle comprehenda o 
que se lhe propõe, foi por isso que quiz ouvir essas in- 
tenções. 

Conde. Já que as conhece, deve poupar-me o emba- 
raço que experimento em lh'as repetir. 

Branoa. O embaraço!... Não se experimenta senão 
quando se dizem cousas vergonhosas. 

Conde, (irónico) Tem razão, sobre tudo, quando ellas 
se derijem ás pessoas, com quem estamos fallando. 

Branoa. Tinha razão quando dizia a meu irmão, que 
o senhor não ousava dizer-me aá suas intenções, face a 
face. 

Conde, (colérico) Que eu não ousava!;.. Mas v. ex.* 
falla-me d'essa maneira, v. ex.* que levou a desordem ao 



.yGopMe 



38 jk DQIDA 

seio da minha família ! Talvez meu filho lhe dera h<?j£ a ro- 
ptura de um casamento, Qxado ha muito tempo. 

Branca. Não compreheudo. 

Conde. Não foi v. ex.° que o attrahiu a sua casa^. . E 
que lhe excitou uma paixão ridícula?' " : 

Branca. São singulares as suas accusações! Accusa"-me 
de ler attrahído aqui seu filho, queira aizer-ihe porque 
meios, eu o podia conseguir se o sr. visconde, se não apre- 
sentasse aqui. Diz que lhe excitei um amor ridículo. . . Mas 
v. ex. a ha-de achar natural, ípie eu não seja da mesma 
opinião. Desfiz, diz o senhor, um casamento ha muito tempo 
fixado, de quem o poderia eu saber, a não ser de seu filho ? 
E provavelmente esses projectos hão estavam ainda bem fi- 
xados, porque elle nunca me faltou n'issj>. 

Conde, (á parte) Discute como um advogado ! 

Branca. Em quanto a mim não podia suppor-lhe semi- 
lhantes compromissos, quando elle ine faUava constante- 
mente de casamento. • 

Conde. De casamento 1 .. . É impossível , 

Branca, (çom altivez) Se duvida, as cartas eseriptas por 
elle lhe fornecerão as provas. 

Conde. Quando digo que é impossível, não fallo no que 
meu filho prometteu, mas sim na realisação das suas pro- 
1 messas. * - 

Branca. Parece-me que seu filho não pensa como v. ex. a . 

Conde. Deve comprehender que não será a^ua opinião 
que me guiará n'este negocio. 

Branca. É provável que se dispense.de seguir a sua. 

Conde . A auctoridade de um pae. 

Branca. Esquece-se que seu filho está.n'uma edade aontV 
pôde facilmente libertassem , • 

Conde, (á parte) É iim procurador de saias, (alto) Mas, 
emfim, quaes são as suas^pertenções? ; 

Branca, (á parte) Eis o momento difficil... (alto) Nao 
tenho pertenções, sr. conde. . . tenho direitos, e é a v. ex.* qur 
me derijo para os reconhecer.; 

Conde. Direitos I... Mas, minha senhora, permitta-iiic 
que lhe diga, que semilhante palavra não corresponde á siki 
posição. 

, Branca. Sei, que a pobreza não tem nenhuns. 



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*mssm 



A, DOIDA ,39 

Conde. Não é isso... comprehendo .que um*- mulher 
indignamente trahida, possa fallar.de seus; direitos, mas se 
acreditando nos juramentos, de, içeú ífilty) .,,...; 

Branca; Séu filho riao se atreveu a dizer tudo, enganourO, 
como me enganou a mim,» (á parte) Quem não se arrisca. . . 
(alto) restituo-lhe a promessa qijè seu.filhp meiféz, fugirei 
(Testes logare$. " V. 

Conde. Tem razão, deve partir. pina carroag^m èspera-a, 
e aqui tem uma carteira que contém mais de 15:000 francas. 
(põe~na em cima da mesa) Seu irmão deve acompanhal-à, 
para proteger sua mãe, mas deve decidií-Q a partir no 
mesmo instanie*. : .' ,", 

. sceiíajy . .. :. ;.. .. 

BRANCA, CONDE, E ANDRÉ 

André, (entrando) Não partiremos, guarde essa carteira, 
não avaliou bem a honra de minha irmã, tudo .escutei, de- 
pois da confissão que esta desgraçada lhe fez; fico. para pedir 
a alguém a reparação da offensa. 

Conde. É uma" guerra de morte que nie proppé ? Pais 
bem, espero que terá probidade na 'suaconducta, confiei -lhe 
papeis de uma grande importância. .. .. 

André. Vão-lhe ser restituídos, Branca aonde estão ? 

Branca. Minha mãe apòderóu-se d'elles. 

André. Vou buscai -os. (sahe) ♦ 

SCENA V ■•" ; - ' •-/ "1 

CONDE E BftANCA 

Conde, (á parte) Hade-me pagar caro o que me disse, 
ha asylospara mulheres doidas, e perdidas, e*em toda a 
parte se abrem á custa de ouro. - " " * : ; 

. SCENA VI 

BRANCA, ANDRÉ, A DOIDA E O CONDE 

André, fsagmndo a doida) Minha mãe, dê;méessè& pa- 
peis, que são do sr. conde. 

Doida.. Tudo quanto dizem é falsa AmarquezadoPi- 
nhel x não achou proteção no carrasco de Leão- Tudo mais 
é falsidade. Quem escreveu isto ? 



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40 K BOTOA 

André. Poi o sr. conde. 
* Doida. Mentiram-lhe, se quer' escrever a verdadade eu 
lh'a digo, estava doida, quando acreditei no infame Ber- 
nardo ! 
André e Branca. fiernardo f K . . 
Doida. Henrique çue eu amava, queria salvaste, por ti, 
por Luiza, nossa umca filha. Disseram-me que um d'esses 
homens que traficava com a vida dos presos, podia salvar 
meu marido. 
Branca. Seu marido f 
Doida. Sou a marqueza de Pinhel. 
Conde. A leitura dos papeis transtornou-lhe a cabeça. 
André. Deixe-a fallar, e peça a Deus, que não tenha que 
me dar conta de mais uni crime. 
Conde. Ella m$nte. . . 

Doida. Minto ! Haviam-me ensinado a morada d'esso in- 
fame, fui lá, offereci-lfte quanto dinheiro possuia, o covarde, 
só 'me via a mim, não sao as tuas riquezas que eu quero, 
és tu ! . . . E como o malvado morava na praça aonde se 
erguia o cadafalso, abriu uma janella e para ella me arras- 
tou, para me mostrar a sorte que esperava o meu querido 
Henrique. . . Á primeira cabeça que cahiu, disse não... á 
segunda não ponde responder. . . a terceira perdi o juizo e 
disse... Sim. 
Conde. È falso!... 

André, (ameaçando) E o maprcftiez não foi salvo. 
Doida. Minha filha, Luiza. (olha o conde, e dá um grito) 
Carrasco, o 1 que fizeste de minha filha? 
André. Senhor, está em meu poder. 
Branoa. Minha mãe sou eu a sua filha, e foi fugindo 
d'esse horrivel espectáculo, que veiu errante, e doida até 
aqui, onde fomos recolhidas. . . 

Doida. Sim, és tu, minha filha. . . (câe desfallecida n'uma 
cadeira). 
André. Minha mãe. 

Doida. Mas eu não tinha filho, (derijindo-se aoòoftãe) 
senhor deve reconhecel-o. 
Conde. Que ella seja entre nós um penhor de perdão. 
André, (ameaçando-o) Aqui não ha perdão. Ha só vin- 
gança. 



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a douu *! 

Doida, (rindo) Bem se Té que é seu fiíbo. . . ainetça o 
pae, e quer assasinal-o. * 

André.-Elle meu pae r (cáhe desmaiado), 

PM DO 4.° ACTO 



ACTO QUINTO 



A cabana 

SCENAI 

ANDRÉ (só) 

Todos me deixaram. O cofrde de S. lofrre, tem escripto & 
marqueza. Arranjam sem duvida o perdão "do passado, e 
para que tudo fique no esquecimento sou aqui demais, par- 
tirei sem tornar a ver meu pae, a quem ameacei, e sem ver 
minha mãe que me amaldiçoou. Vem rompendo o dia, é 
tempo (agarra n'um páu) Vou caminhar, ao acaso, sem fa- 
mília, sem nome, sem amigos.**Todos me esquecerão. Ta^ 
bem tu Maria; anjo celeste, (agarra na sua trouxri) Adeus 
tudo que eu amava, (vae para o fundo, lentamente) 

SCENAII 
ANDRÉ, UM CRIADO 
Criado. O sr. marquez de Pinhel ? 
André, (admirado) É a mim que procura? 
Criado. O sr. visconde pede a v. ex. a 9e o recebe. 
André, (á parte) Meu irmão ! Bile pensa em mim l (alto) 
Que entre. (0 criado sake) 

SCENÁ IU 
VISCONDE £ ANDRÉ 

Visconde. Sr. marquez, pensei que frecusava receber-me- 

André, (á parte) Também elle. 

Visconde. Venho pedir-lhe explicações. Hontemmeupáe 
julgava-me culpado para com sua irmã, e no. momento 
em que vi que a sua reputação podia sonrer, consenti em 
reparar essa falta involuntária*; meu páe, pediu para mim a 
m£o de sua irmã. Eis aqui a resposta da sr.» marqum, 
leia: 



.DigitizedbyGÒQgle. .- 
- — 1 ^"TiJl^ÉB 



4$ A DOIDA 

Ajidré. (Iw4q) «Nunca a filha do nobre niarquez de Pi- 
nhel, fará parte da família do assasino de seu pae. » Oh J 
meu Deus!... /, > ..*■■: ..»'• 

Visoonde. Uma mãe não çscrçve semilhante ameaça, sem 
que o filho depositário âo seu home, áe tenha assosiado aos 
seur projectos. Depois da recusa de sua mãe; já nat* é ne- 
gocio entre ella^qaneu pae, p\as sim erçtrçe nós. 

André ., Que. dizt _ 

Visoonde. E' um duello que lhe proponho. 

André. Recuso, porque, ha um dever sagrado que a isso 
me obriga. * 

Visconde. Mas ha-de ptèrmittta que eu exija do senhor 
uma, garantia* quq ponha, a honra de meu páe)Sao abrigo de 
todas as aceusações. \> 

..Andrà. Que a honra de. seu páe.sejaisalv^ ôi Q meu 
jnjiior desejo. . , , A . i \ 

. Visconde. Escreva uma negação anticipada, dèvtudo 
qnanta pôde dizer sua mãe, diga que são as acusações d e 
uma doida... , - \ 

. André. Pe<jie-me <que deshoni?e minha mãe!... NunP- 

Viscopade. O senhor é um covarde. . N 

André, (á parte, com desespero) Meu Deus! Vinde eí 1 
meu auxilio, livrai-me dàs suas injurias. * 

Visconde. Repito; é um covarde. \ 

André, (com um grito içfarpr) Diga a seu parque m<\ 
chamou covarde., e que não o matei,. e se elle,lhe nao disser\ 
vá estenderrlhe^a mão, e pedir-lhe perdão..,. Oh! então" 
desgraça^ de ti t É,desgraçado d'elle K , . Ghamoii-me mar- v 
quez de Pinhel; pois bem é em seu nome que Uie fallò. Des- 
graça e vergonha a ambos I. . . Yergonha ao pae, que com- 
prou o adultério á força de sangue, e que nem mesmo assim 
cumpriu o seu iafame cofitràtd! Tergohha ao filho, que 
.desdourou, a filhfa 4a victima. . . morte, e vergonha a ambos í 

. ....•/. SCENAIV , ' '"* 

VISCONDE., MARQTJEZA, E AJÍDRÊ 

. Marçtueza* Muito beiíi meu filho. ,.' . 

Visconde* [saudando) Tenho alli,.fts minhas armas, es- 
pero-o, (sahe) 



tÇ°! ;: 



A DOIDA |3 

: SCENA V • ••:> . 

k MARQTJE2A E ANBRÉ * 

Marqueza. Ouvio, tem. armas» e espera-o. . -• • 

André. Miíiha mãe este homem é. meu irmão !. .. > 

Marquesa. Agora lembrasse .<.'.: mas á pouco,, €[?i$inélo o 
insulto sederijia a Bi, esquecesse qpe eile eraseq irmão*. . . 
e amaldiçoou-o ! . : . -, , : 

André. Minha mãe. 

Marqueza. Prohibo-lhe que me dê esse nome.. Edif-lhe- 
hei que quem hesita enU?e a riqueza, e a pobreza, entrei vi- 
ctimas, e o carrasco, é um covarde. , , . r 

André, (com desespero) Oh! meu Deus parece-'me que 
endoudeço ; . '-< ... • 

Marqueza. E' preciso soffrer muito mais p&ra perder o 

juizo.. ♦ , '. : - , ■ ..: ... j - . : . 

. SCEJÍA-VI .. ,;.;,. • , ,>.,. 

OS MESMOS, E BRANCA' ', "'''''''. 

Branca, (com rapidez) Chega o sr. conde, i . 
André, (indo á púrta) Que não entre. : 

Marquesa. Poderá depois expulsal-o .d'esfca.casa, como 
um infame, ou então. sahirei eu como uma pulher .per- 
dida. .". Escolha, (sahe com Branca) 

SCENA VÍ1 
CONDE E ANDKÉ 

Conde, (entrando) Meu filho, Jeu iripao^ contou-m^ tfido, 
e são as suas desculpas, e os meus agradecimentos qwe te 
trago. O senhor despreza-me, porque não sahe, o que é o 
delirio.das revoluções, o senhor não chegou ar> viver n*eçses 
momentos funestos^ oade a embriaguez do sajigue, nos perde, 
e nos torna insensatos. Não teve de fioffrer a. insolência 
d'essa implacável nobreza, que não nos mata do $íto das 
suas torres feudaes, mas que nos esmaga com os <$em des- 
prezos. - * /> • 
. André.. Eu nao o accuso. .: 

Conde. Mas o seu coração condemna-me. Diga-me ama 
minha sobrinha ? " * < . . 

Andró. Eul. ' 



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44 A DOIDA 

Conde. Ella disse-m'o, e eu digo-lhe que é amado, e 
- como nenhum perconçeito os separa, podes ser feliz, ca- 
sando com ella. 

André. Eu esposo de Maria. 

Oonde. Sim, ella também te jnlga marquei de Pinhel. 

André, (tristemente) Gomprehendo. 

Conde» E' preciso que esse nome seja uma verdade, nas- 
ceu em 94, e o marquez morreu em 93. A lei não exige 
mais. 

André. Senhor. 

Oonde. Escute-me, pois entre nós toma o partido de sua 
mãe. Aonde cuida chegar com os seus implacáveis resssenti- 
mentos. 

André. Serei justo. , 

Conde. Entretanto deshonrar-me-hia, não importa, sou 
um culpado; mas ajudaria á deshonra de sua irmã, e de 
sua mãe. . . Porque o senhor existe, e quando à marqueza 
exigir dos tribunaes o seu nome, e titulo, é preciso saber 
quem o senhor é, se não é o filho ao marquez de Pinhel. . . 
e o filho de uni crime. . . ou de uma falta. ... Eí uma iimo- 
cente mentira. Emfim, de um lado está o ódio, e a deshonra 
para todos, do outro o esquecimento, perdão^ fortuna, feli- 
cidade, e consideração, agora escolha. . . (sahe) 

SCENA vin 
MARQUEZA E ANDRÉ 

André. Oh f Meu Deus. 

Marqueza. (entrando) Então escolheu? 

André. Escoihi de viver e morrer, pòr si. 

Marqueza. Nao é preciso morrer, mas salvar. Ouviu 
esse homem, e elle mostrou-lhe quanto era fácil, se eu 
quizesse perdoar. Mas suppunhâmos que concedo o perdão, 
e salvo a, honra de seu pae... que será da honra cie 
minha filha? 

André. O visconde está innocente, e casará com Branca. 

Marqueza. E quem me salvará a mim. Que papel fi- 
cará o senhor fazendo a meu lado. Repita-me todos os 
projectos d'esse homem, e será marquez de Pinhel, será 
rico, esposo de uma mulher formosa, e para isso que é 



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A DOróÀ &$ 

pretiso? Uma innocente mentira, o filho do homicida hw" 
dará o nome da victima. . . ' 

André. Não lhe peço que consinta, e recuso com horror* 

Marquez». Talvez seja porque eu existo. Soppaaha que 
quando recuperei o iuizo, moirii de dese»pe*o, tudo se 
tornava fácil, e talvez já estivesse feito. Só ha um obsta* 
culo, é a minha vida. 

André, (com fona) Ou a minha, acaba de me mostrar 
a sahida d'este medonho labyrintho de desgraças, no qual 
eu me perco. B posso Mar-lhe como se o sacrifício já 
estivesse realisado. Porque estou resolvido. 

Marqueza. Morrer tul O único innocente. / 

André. E agora escutará, a voz de seu espos& que do f O 
céo lhe pede salve a honra de' sua filha. Escutará a mi- 
nha, que lhe pede salve a sua honra, acceitando para mim 
o titulo de marquez de Pinhel. 

Marqueza. (com desespero) Mas isso seria um rombo 
infame. 

André. Só o escreverá sobre uma campa. 

Marqueza. Sobre uma campa ! 

André. Acceite pois minha mãe, a sua honra, de seu 
filho morto, já que a não pôde receber de seu fiiho vivo. 
Morrerei feliz se á hora da morte, me abençoar. 

Marqueza. Abençoar- te. . . e apertar- te contra ò meu 
coração, (abraça-o) Meu filho, de quem me sinto orgulhosa, 
e que me perdoará a horrível prova, porque o fiz passar. 
(olhando para o céo) Henrique me perdoará de te dar o nome, 
que elle usava com tanta honra. 

André, (abraçando-a) Minha mãe. 

SCENA ULTIMA 

OS MESMOS, O CONDE, MARIA, BRANCA, 

E O VISCONDE 

Conde, (ao fundo) Agora meus filhos acabem, o que elle 
tão nobremente começou (Adiantam-se todos, André toma 
Maria pela mão). 

André. Minha mãe, abençoe sua filha. 

Mfcrqueaa. Da-me um a&raço* tniàfcà filtó, (éhraçam-se). 

Conde, (avançando) Até que a final é minha. 



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46 A DOIDA 

* Maifqueza. (com horror) Nunca. . . nunca. . . porque po- 
dia outra vez perder a razão, ou recordafr-me da minha 
vingança. 

€ond6. A sua vingança ;é esta, vou partir- êó, e deixo-a 
feliz, no meio de seus filhos. (Sahe; André beéja-lhe a mão 
com disfdPCê). 

OAHE O PANNO 

«•■.• FIM DO 5.« E ULTIMO ACTO 



m A propriedade d'esta peça theatral, pertence no Bra- 
sil T ao Dl. mo Sr* Antonip, Alexandre Lopes do Conto. 

TYP. EDITORA-Praça de D. Pedro, 67 



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OS DOIS MVAES 



COHEDIA EM UM ACTO 



DIOGO JOZE SEKOMENHO 



Condecorado com a medalha ao mérito, 

Sócio honorário do Grémio Litterario Portuguez 

no Pará, etc. 



Representada com geraes appiansos do theatro 
da roa dos Condes 




D. J. S. 




THEATRO CONTEMPORÂNEO 

DIOGO 8BROJCÊNHO 
BDITOR 
da tiniu, Ml WH 90 iUUM. 14 !• 
LISBOA— 1882 



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PERSONAGENS 

ACTO TJNIOO 

A scena representa uma estalagem, portas ao fundo e la- 
teraes. Á esquerda urna chaminé, etc. 

SCENA I 

Rita (só) 
(Apanhando os cacos à"uma panella de barro.) Boni- 
to!. . . estou arranjada! . . . quebrei a panella! E não te- 
nho onde fazer o jantar; de mais a mais já não tenho 
tempo d'ir á cidade comprar outra. . . Só se pedir uma 
emprestada. . . porque sem ella não posso dar de comer 
aos meus hospedes, e principalmente aos senhores Jacin- 
tho o Francisco, um sapateiro, outro funileiro, ambos 
apaixonados cá pela pessoa, e que vêem cá jantar todos 
os dias. Se não encontram o jantar prompto são capazes 
de se zangarem, e eu não os quero zangados. . . Deus me 
livre, elles que tanto me amam. (rindo) E teem um ciú- 
me um do outro! . . . Até já teem jogado á pancada algu- 
mas vezes por minha causa, (pauza) Ora não se me dava 
de apostar que elles se estão recordando agora de mim ; 
hoje é o dia dos meus annos, e é de mais a mais dia de 
S. Pedro; ha grande festança cá no sitio, fogueiras, sor- 
tes, bailaricos; mas agora por bailaricos; se eu tivesse 
uns sapatos novos, bem bonitos; ohl como eu dansaria, 
nem d'isso me quero lembrar!. . . Todos os meus desejos- 
agora eram possuir uns bonitos sapatinhos, e uma boa 

Íianella que nunca se quebrasse. E então! ... eu a dar á 
ingua sem me lembrar que tenho de fazer o jantar, não 
tenho outro remédio senão ir pedir a alguma visinha uma 
panella emprestada, e de caminho irei comprar hortaliça. 
(sae pelo fundo.) 

SCENA II 
Francise* (só) 
(Entra pelo fundo, com uma panella de folha na mão.) 
Oht ella não está cá! . . ♦ Onde iria glla?! ... que iria 



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— 3 — 

ella fazer?!. . . EHa faz-me doidot. . . A serpente d© <ehi- 
me dilacera-me o peito; ler-me-ha supplantado o maldito 
sapateiro!. .. Palavra de funileiro que o faço em postas... 
Mas não, Ritinha, a linda Kitinha não podia preferir a 
mim um sapateiro, um remendão, que nunca lava as 
mãos do serol. Mas emquanto ella não vem ponhamos 
n'aquelle prego esta panei la que fiz por minhas mãos, pa- 
ra lhe offerecer hoje que é o dia dcs seus annos. (pendura 
a panella.) Parece-me que é um presente muito delica- 
do?... O que dirá ella?!... Agora retiro-me, e volto 
d'aqui a pouco, para admirar a sua surpreza. . . Oh! mi- 
nha querida panella. . . Sé-me propicia! . . . (sue.) 

SCENA 111 j 

Jacintbo (entrando) 

Estou certo que Francisco me não tem vencido! .. . 
Bem. . . Agora offereçamos á deusa do meu coração estes 
sapatinhos novos, quo fiz para lhe offerecer; por ser hoje 
o dia do seu anniversario natalício; mas eu estou fallanao 
Beml . . . estou parodiando um meu freguez que é litte- 
rato, bellò moço!. . . com muito talento, mas com muito 
pouco dinheiro! . . . (tira um embrulho da algibeira e põe- 
no em cima da meza.) Aposto, que ella logo advinha quem 
lh'os deu. (saé) ' ~~ 

SCENA IV 

Rita e depois Francisco 

Rita. (Entrando pelo fundo.) Ninguém me poude em- 
prestar uma panella!. . . que miséria, naturalmente como 
é dia de festa todas as panellas são precisas, aqui ír.ago 
nabos, couves, cenouras; mas o peior ó a panella:; que 
hei de fazer? (reparando na panella) Oh! mas que, vejo, 
orna panella nova! ... e de mais a mais de folha, Aqui 
anda por força obra de Francisco. 

Francisco, > (entrando) Àdviahou. , 

Rita. Muito lhe agradeço, rfue boa ideia que teve $m L\^ 
me fazer tal presente. . . ' ^ 

Francisco. É a imagem do meu coração, e dos meus 



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sentimentos. Aceite também os meus parabéns por ser o 
dia dos se as annos. 
. Rita. Ora não faz senão doudices. 

Francisco. Eu gosto muito de doudices» e muito mais 
gostaria que as fizéssemos juntos. 

Rita. Então! . . . é precizo esperar. . . miais tarde !. . . 
mais tarde! 

Francisco. E porque não hade ser já! Não me acha di- 
gno de si!?. . . 
1 Rita. Não digo isso 

Francisco. Nada me falta, ganho bom dinheiro, tenho 
muita força: Olhe, antes de hontem por sua causa que- 
brei os queixos ao José; sim, ao valentão cá do sitio, só 
Jhe deixei três dentes. . . 

Rita. Eu bem sei que é valente. . . mas. . . 

Francisco. Então que mais lhe é preciso. 
, Rita. E necesssario amar -me. 

Francisco. Sempre a amei, agora o que eu quero é uma 
prova do seu amor, basta que me dê uml)eijo. (quer agar- 
rai- a, ella foge em roda da mesa.) 

Rita. Esteja quieto. . . pode entrar alguém. . . e eu não 
quero que se julgue. . . * 

Francisco. Não importa, venha quem vier, e princi- 
palmente que venha Jacintho, o maldicto sapateiro, que o 
faço em bocados e o metto n'algibeira. 

Rita. Se lhe tocar, nunca mais o quero ver. 

Francisco. Bem, não Jhe farei mal. . . mas, se se fizer 
tolo!. . . (mostra o punho cerrado.) 

Rita. Basta de conversa. . . Ajude-me a fazer o jan- 
tar.. . Vá buscar o toucinho. 

Francisco. Onde é que elle está? 

Rita. No armário. . . na primeira prateleira. 

Francisco. Bem, já sei. (vae ao armário) 

Rita. (aparte, deitando agua napanella.) Este demó- 
nio sempre a metter-me medo por causa do Jacintho. 

Francisco, (tira do armário um embrulho que dá a Ri- 
ta) Aqui está o toucinho. 

Rita. Dô cá (rindo) Ahí . . . ah! . . . ahl . . . então isto 
que é o toucinho?. . . Isto são vellas. 



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- 5 - ' 

Francisco. Àht euganei-me. . . mas isso é mais gos- 
tozo. 

Rita. Também não serve para nada, eu vou buscar o 
toucinho, mas antes vou buscar outra cousa; já venho. 
(soe.) 

SCENAV ' , 

Francisco e depois Rita 

Francisco. Creio que sou o preferido. Ella sempre me 
deitou uns olhos, (vendo o embrulho em cima da mesa) 
Mas o que é isto? (examinando) São uns sapatos, (tira 
um do embrulho) E sapatinhos de senhora, de mais a mais 
da ultima moda! Aqui anda obra do Jacintho, por força t 
Como hoje é dia de S. Pedro, dá-lhe os sapatos para que 
ella danse com elíe. E se eu os guardasse?. . . Isso nao í 
Passaria por ratoneiro, mas o que eu não quero é que 
elia os veja. (vendo entrar Rita) Elia ahi vem. (esconde o 
sapato átfaz das costas.) 

Rita. Aqui está o toucinho. 

Francisco. Se ella vé o sapato estou perdido, (esconde 
o sapato no panno onde está a hortaliça.) 

Rita. (pondo o toucinho em cima da meza) Vamos é 
preciso trabalhar: deite o toucinho na panella emqúanto 
eu vou escolher a hortaliça, (agarra no panno.) 

Francisco. Sim. (aparte) Comtanto que ella não veja os 
sapatos, (deita as velias dentro da panella em lugar do 
toucinho.) 

Rita. Vamos a escolher a hortaliça. 

Francisco, (aparte) Ella vae raas é ver os sapatos, (al- 
to) Para que hade escolher?..: Vae lhe tirar o me- 
lhor!... 

Rita. (admirada) Tiro-lhe o melhor?! 

FranciscoTE faz menos quantidade. 

Rita. Tem razão, (acaba d' arranjar uma parte da hor- . 
taliça que deita no pfnno.) j_ <*— 

Francisco, (aparte) E não vi^o sapato! . . . \Jjl* 

Rita. (vendo o toucinho ainda em cima da meza) Então . 
o que é isto, ainda não deitou o toucinho. 



yGoook 



-Francisco, (aparte) Ora esta! . . . deitei as vellas. (cito) 
Esqueceu-me, deilo-o já. (deita-o). 

Rita. Agora vou deitar a hortaliça. 

Francisco. Pois deite. 

Rita. (deita na panella tudo que o panno contem) Ifito 
deve fazer uma bôa sopa . . ... não lhe falta nada. 

Francisco, (aparte) Nada. . .Inclusivamente um sapa- 
to, o que deve torpal-a mais gostoza. 

„ .. ; SCENAVI 

Os mesmos e Vfíiclntlio 

.J,acjntho. (entrando pelo fmdo, e aparte) Gomemos a 
ama surpreza. (alto) Bons dias menina, Rita., 
. Rita. Ah ! é o senhor ! Bons dias. 

Jacintho. Sou eu, sou. . * 

Francisco, (aparte) meu rival !. . . 

Jacintho. (aparte) Aqui o patife do funilçiro I 

Rita. Vem já para jantar?. . . i . 

Jacintho. Não. . . venho para outra cousa, (aparte) E 
n5o me diz nada. 

Rita. Então para que ?!...* 

Jacintho. Para a felicitar pelo seu anniversari© 

(aparte) Se não estivesse aqui o maroto do funileiro fa- 
sia um discurso, (alto) Desejando que goze muitos e íeli- 
zes annos em companhia de quem mais desejar, (pausa) 
Então não me diz nada da prenda que lhe dei ? ! . . . Que 
tal achou os sapatinhos, gostou d'elles?. . . 

Rita. (admirada) Que sapatos ? ! . . . Eu ainda não vi 
graatps nenhuns. 

Jacintho. Pois eu colJoquei-os n'esta meza; ah I elles 
aqui estão embrulhados, (dirige-se á meza, abre o embru- 
lho, e tira um sapato que dá a Rita) Então ? 

Rita. Está muito bem feito E' da rrttima moda. 

Jacintho. (procurando em cima da meza) Mas aonde 
está o outro ? í . . . Eu não o vejo ! . . . 

Francisco. Talvez vosso nao trouxesse senão um. 

Jacintho. Fiz dois, e trouxe dois. 

Rita. E* original ! . . . Então onde está o outro?!.... 



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Francisco, (rindo) Já sçi ogue foi, é, que elle fez duas 
yezes o mesmo sapato. 

Rita. (admirada) 4)uas vezes o mesmo sapato ! 

Francisco. E' muito possível, estava dormindo quando 
o fez, b por isco enganou-seJ 

Jacintho. Estou certíssimo que fiz o par e que os trou* 
xe para aqui. 

Rita. Bem, bem, elle a^ppareceri . . . nem por isso dei- 
xaremos de dançar juntos. esta noite. 

Francisco. E' comigo que liade dançar. 

Jaclntho. Hade ser comigo. 

Francisco, (puxandoo para si) Hadè ser comigo. 

Jacintho. (o mesmo) Prohibo-te de dançar com ella. 

Francisco, (o mesmo) Eu prohibo-te também, (cada um 
puxa por Rita para seu lado.) 

Jacintho. (encolerizado) Irra ! 

Francisco, {zangado) i^arga t , 

Rua. Olhem que me desmancham os braços. 

Jacintho. Qual de nós prefere ?. , . 

Francisco Qual de nós quer?. , . 

Rita. (livrando-se íelles) O que dançar melhor, 

Jacintho. Sou eu. 

Francisco. Não é tal, sou eu. 

Jacintho. Vamos já vér. 

Btta. Logo direi o que prefiro para dançar comigo. Va- 
mos primeiro jantar, vou tratar de pôr a meza (soe pela 
direita.) 

SCENA VII 

a ac inibo e Francisco 

Jacintho. Não fiquei satis/eito com a resposta. i J 

Francisco. Nem ea^. ^ 

Jacintho. N'esse caso battamo-aos, como fazem os ver* 
dadeiros cavalheiros. 

Francisco, (aparte) Elle é mais valente, mas é o mes- 
mo, (alto) Battamo-nos. 

Jacintho. Como não temos armas, batter-nos-hemos ao 
soceo. (preparam-se para jogar o socco, na occasião em 
que Rita entra.) 



yGooQle 



— 8 — 

SCENA VIII 
Os mesmos e Bita 

Rita. Ai! meu Deus, que se vão matar f (mettendo-se 
' entre Ales) Fazem favor de se aceomodar. 

Francisco. Pois <pie me eeda elle o logar. 

Jacintho. Pois não ! Que m'o ceda elle ! 

Rita. Prohibo-lhes que joguem a pancada em minha ca- 
za. Não ha nada tão mau como dois homens jogarem a 
pancada n' uma caza d'estas. * 

Francisco. Tem razão, (a Jacintho) Fica para outra 
vez. 

Rita. Bem o jantar está prompto . Vamos para a meza. 

Jacintho. (a Francisco) Vamos primeiro jantar e de- 
pois falaremos. 
> Rita. Vamos. 

Jacintho e Francisco. Vamos lá. (assentam-se á meza ; 
Rita traz a panella, louça etc, e senta- se entre elles.) 

Rita. (servindo a sopa) Comam para terem forças. 

Jacintho. O que tem a sopa que sabe a rancho i Parece 
cabedal qneimado ! 

Rita. É da gcrdura. 

Francisco. Está bem boa ! 

Jacintho. Não ha ninguém como a menina para fazer 
comida. 

Francisco, (tirando do prato bocados de vellas de cébo.) 
Mas o que é isto?. . . 

Jacintho. Ài ! Eu sei o que é. 

Francisco. São vellas de cebo. 

Rita. Então o sr. deitou as vellas na panella. 
~ Francisco Dá-lhe muito melhor gosto, (acha um rami- 
Ihete no prato, mostrando-o.) E isto o que è? Um ramilhe- 
te ! Aqui ha de tudo f . . . Isto é uma famosa miscellanea. 
Rita. Mas como foi isso para ahi parar. 
Francisco 1 . Fui eu que ih'o trouxe, e que o me t U na 
panella, onde o deixei por esquecimento. 

Rita. É muito galante ! . . . Este ramilbete jamais o dei 
xarei. (deita-o na meza.) 



yGooQle 



— 9 — 

Jàcintho. (com cólera) Que demónio é isto f (tira um 
sapato do prato.) 

Francisco, (aparte) Oh I eom a breca, (alto) Eu sei o 
queé. 

Rita. É um sapato. , 

Jàcintho. O meu sapato t . . . reconheço-o. . . Quem foi 
que o poz aqui?. .. 

Francisco. Quem ? Talvez fosse eu f . . . 

Rita. Mas isso é muito mal feito. 

Jàcintho. Foi elle que o escondeu na panella. 

Francisco. É verdade que sim... Fui eu., para que Rita 
não dançasse com você. 

Jàcintho. (aparte) Tratante !.. . 

Rita. Ouçam, não cazarei com um homem, que teve a 
ousadia de me deitar os sapatos na panella, e que me obri- 
ga a ir dançar de, chinellos I de chinellos ! . . . 

Jàcintho. Tem muita razão. 

Francisco. Sim ! pois então vejam. 

Rita. (assustada) Oh ! meu Deus ! olhe que me quebra 
& louça. 

Francisco. Veja, veja. (pega nos pratos e attira-os pela 
janella.) Hão-de todos ser victimas do meu furor e da mi- 
nha vingança. . . 

Rita. Que furor ! 

Francisco. Hoje heide dar que fallar cá no sitio, adtus ! 
(vae até á porta e depois volta.) Não hade ficar com a mi- 
nha panella. Adeus interessante par, tenham saúde e for- 
tuna. (Agarra na panella e sae comendo.) 

SCENAUL/IIMA 

JBita, «iacintho e depois Francisco 

Rita. Então deixa-o levar a minha panella. 

Jàcintho. (que tem estado escondido a um canío) Eu ia 
agarral-o, mas elle não me deu tempo. 

Rita. Assim foi melhor í Ter-lhe-hja feito algum mal, 
mas agora que elle se foi embora só devemos pensar na 
nossa immediata felecidade. 

Jàcintho. Sim f sou muito feliz, (pega-lhe na mão) Por- 



y Google 



qpue te amo muito, (vae para lhe dar um beijo, na vtâo> 
quando apparece ao fundo Francisco, com um poucos de 
pratos, numa das mãos ; e uma paneila na outra; entra 
com aspecto triste; Jacintho larga a mão de Rita e Fran* 
cisco vae collocar a panella e os pratos em cima da me$u.) 

Rita, Então voltou ? 

Francisco. Voltei, assim que cTaqui sahi c&pbeci que,tj* 
nha feito mal, fui a eaza huscar bus pratospara substituir 
os que lhe quebrei. Aqui tem, taqtp os pratos, awno a pa- 
nella, peço-lhe que acceite. E peço lhe também qxm me 
perdoe os meus excessos, desejo-lhe ( militas .felecidades, 
não era digno de si^ por isso o ceu ca^tigou-ine. ... (diii*- 
gindo-se e Jacintho.) E tu desculpa-me, e continua a ser 
meu amigo. 

. Jacintho. (dando-lhe a mão, toca,) Seremos -eternauwiK 
te amigos, e para t'o provar serás o padrinho do nosso ca- 
zamento; acceitas ?. . . * • , 

Francisco, (apertando-lhe a mão) Está dilp, aceeito, 

Rita. Ora visto que todos estão satisfeitos, vou buscar 
umas gar ratinhas d um vinho muito bom, para festejarmos 
alegremente um dia tão feliz para nós todos. • (dirige-u aa 
armário d' onde traz garrafas e copos,) 

Jacintho e Francisco. Vamos ao vinho ! . . . ao vinho!,,. 

Rita. (enchendo os copos) Ao vinho ! . . , ao vinho?. . * 

Francisco. Proponho uma saúde. Á saúde dos noi- 
vos?... 

Rita e Jacintho. (bebendo) A vossa, á vo6sa. 



GÁE O PANNO 



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A GAIOLA DE OURO 

COMEDIA EX I ACTO 



DIOGO JOSÉ,5EflOMÊNHO 



tait Mevari» fo Creai» MterarM Péifegm <U Pará* 
condecorado co« a wçdalha ao mérito, ele. 



Representada com applauso no fcheatro Lethes, 
em Faro, eto. 




TKâXBO CWTBMPORANÍO 

MOOO- BKROMÍÍNHO 
ROITOR 

! UBBOÀ — 1880 



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■\ '-U\ ;. i \ 






PERSONAGENS 

Carolina — íufia— .áàtomio^ Rafael 
Dois criados (que não faliam) 

A acção em qualquer parte — Actualidade 

Sala elegantemente mobilada. Porta ao fundo, dando par < 
um salão tartatiém mobilado com grande iuw>* 

'' SCEtf A I 

ANTÓNIO E RAFAEL 

António. Cinco horas è meia é #sr. administrador sr»--: 
apparecer. Cazo raro ! Parece impossível que a senho . 
se sujeite aos caprichos d'este hypocrita. E é que p;í. 
se faz nesta caza senão o que manda aquelle santarr: 

Rafael, {entrando) Boas noites sr. António. 

António. Boas noites sr. administrador. 

Rafael. A senhora? 

António. Está na capella. 

Rafael. Não veio ninguém? 

António. Quew querâo lente qae viesse? Ningur .* 
procura esta caz*. ^ * - ? 

Rafael. Assim, assim é que. è, emquanto eu viver iv. 
entrará aqui pé estranho, (pausa) Amigo António vou *".: 
zer-lhe uma pequena advertência, se alguém se apresa 
tar dizendo querer fallar á senhora, é pol-o logo com : . 
das as attençoes na rua. 

António. Mas se fôr um parente da senhora? 

Rafael. Apenas tem um sobrinho, um tal Júlio que v 
ve em Lisboa é'á quem (fã uma tnèzadadè trinta mil n 
Esse se se apresentar, não ha remédio .senão recebei 
mas cautella.. . 

António. Sim, porque um hqrdeijojorçado. . . 

Rafael. Herdeiro. . .'se a tia não cazar. 



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— a — 

António. Cazar-se!... Uma senhora toda entregue a 
orações e obras de carfdadá,>o *ú& dos pobres, como por 
aqui lhe chamam, sempre encerrada em caza, tendo por 
companhias maieoSnas, is^nljOTeB^ çfeis creados. . . 
Dão me parece. 

Rafajsu A# mlhereMfio-wiwroeifeie pode muito iem 
acontecer-... Ora 6up|»ojO|l)«r.Ofdenhoff«que, como seuiáor- 
domo, pessoa em qae s. ,/ftf.*,. deposita. twb|a,ooofianç*, 
lhe dizia: minha, senhor*,: J>a «ai cavalheiro, aénr nqvo 
nem velho, bem parecido, tmuito. ao fae(adosr.«efocio da 
caza, quéé. ... <: j ; "• 

António. O senhor oaae&nw, •..;.-. . » 

Rafael.* Advinhou, eu alesn&o que desejava. . . 

Júlio* (á porí*>,Deu» eeteja aqui. .. ., i , 

.♦»• '• ' • • ■ <• i . • - •. i 

. • ■ k ' ■»• '..!•■ .. •■• .... • ■'•... 

OS MESMOS E JÚLIO 

Rafas**. Um hpmeoll AttençaO,:; • . . ' ' 

Júlio. MoraiAqui. a*** D^Cajrdlina Esteves, da Silva? 

António. Mo. . . • i \ . . . s 

Rafael. (atalhan4o) ■ Não é aqui, Haaidíga-.o.Êelmor 
quem é que talvez se lhe possa indicar. . . 

Júlio. Eu sou o sett-safaariahtó Júlio, venho expressa- 
mente de Lisboa para a abraçar, (á parte) e sacar-lhe ai- 
pim dinheiro^jQ:;.. V í :íC*;Ti : * 

Rajfael. (a ^arí^) Demónio, o sobrinho. A cara não é 
perigoza. (alto) Pois mancebo -teitfiQ a #Wto ( de- lhe dizer 
que está eííectivano wta em úHi&\do&mti&, de.quet» tenho 
a honra de senadsúntátrador 4 ' rt i '• .»■•■.. 

Jcjuo. (á parte) Mas que aspecto tão lúgubre que» tem 
festa caza, minha tia aetá alguma fnfcira? 

Rafael. Emquanto vou dar algumas ordeas,.*ste seobor 
Jhe Oca fazendo companhia. À senhora, nãb pode tardar. 
É verdade; trouxe; bagagem,?, i 

, Júlio. Apenas uma pequena mala, que me cahiu da 
Lfruofada do. irem e julgo <jue sa.arwmbou, pciço*lhe 
me a manda conduzir com cuidado. 



Soogle . ^m 



— 4 — 

SOENA ih 
OS HISIOS «ENOS MFIEL 

António. Ha muito que o senhor não vê stía tia? | 

Júlio. Nem a conheço, desde pequeno que vivo em Lis- 
.boa, meus pães levaraV-me pára a capital e nunca mais i 
aqui voltei, apesar de em toda« as suas cartas me dar a 
conhecer os- disejos que tem de ver-me. 

António. Saiba então que sua tia é um modelo de vir- 
tude a ponto de lhe chamarem * mõt ém pobres. 

Júlio, (á parte) Quererá Deus que me Considere seu 
filho, (alto) e tarda mui|o ? Não sei parque, jaus confesso 
que sinto assim. . . não sei se foi da viagem. 

António. Apetite. . . infetizmeste nada lhe posso servir, 
a senhora é que tem as chaves da dispensa, e até ás ho- 
ras da ceia.,. .;,. f. ..;'". | 

Júlio. E ceia-se muito tarde? 

António. A's oito. Ah í eis que chega a seahor» sua tia 

Júlio. O què^aqudll* senhora de v*tj, de coutas, e ves^ 
tida de luto, é minha tia? 

António, filia mesma, é o sen traje austero. i 

SOENA IV 
OS MESMOS E D. CAROLINA 

Cabolina. Santas, José. 

Anton*» As mesmas, minha senhora. 

carolina, (dando-lhe o itvro)' Que é isto, um estrari 
em minha «aza. 

António. Este senhor, é seu sobrinho Júlio, chegoxt^ 
pouco d* Lisboa. t 

Gabouna- EUe t Bendito seja Deus. *\ 

Júlio. Minha querida tia n$o pôde iihaginar.(tfa*>ci afrj 
çal-a.) 

Cj&tMHA.(t$fUivando»$0 e éfoitdotkeafnâo dbeyav-y&l 
te faça um santinho, (admwando-o) Estás um homem ai nj 

Digitized by VjOOQlC 



— 5 — 

(a António) Podes retirar-fe. Júlio íenta-te. (Júlio sen- 
tasse longe adia) Aproximaste. (Júlio senta-se mais per* 
to.) 

Júlio. Sim, minha tia. 

Carolina. Aproxima-te mais, aqui, ao pé de mim. 

Júlio, (levanta se e vai sentar •>$* junto aella com ar de 
beato) Sim, minha tia. 

Carolina Bmquanto conversas vau fazendo meia. Os 
meus ouvidos perteneem*ie, as mãos aos pobres. 

Juuo. Para fazer meia? 

Carolina. Justamente. Vamos, conta-me o motivo da 
tua inexperadá vizita. 

Júlio. O motivo é simples e reduz-se a pedir «-lhe. 1 . . 

Carolina. O que? 

Juno. Um conselho» . . {á carte) Diabo, aio sei como 
hei de começar. . . (alto) Um conselho, a sua sabedoria e 
experiência hão de guiar-me. 

Carolina. Sabedoria e experiência! onde quíeres que a 
tenha adquirido? ovfã, vivi encerrada em um convento 
d'onde sani aos vinte annos para esta caza, aqui passo 
uma vida austera e tranquilla, dedicando*me á caridade 
sem mais pensamentos do que o de fazer bem aos desgra- 
çados que. reclamam a minha protecção. No entanto falia, 
eu te escuto. 

Juuo. (kypoèritamente) Santa alma I Pertnitta-me, que- 
rida e boa tia, que lhe agradeça a sua mezada que é. . . 

Carolina. Agradecer-me, e porque? n3o és tu o meu 
único parente? Cumpro apenas iam dever, (reparando em 
Júlio) Não será acaso saffibiente para ocorrer ás neces- 
sidades da tua vkla? : ' 

Júlio. Tenho tantos infelizes a quem faço bem, (aparte) 
eazas de paito, hateqjfeini, credores ... 

Carolina. Sim, sim, então. . . 
JuLio.Emfim vou dizer- lhe tiidocom franqueza, (á parte) 
cabeça ao mato. (alto) O viver na corte é uma tentação; as 
ruas de Lisboa ofiètftá&ft tjmtós #1ttcfifos que, . . minha 

Íuerida tia eu via e concebi logo por ella uma paixão 
mca. Desde então? fixei ali ojueu pepsaiáenft, e mais não 
desej o do- que eljartiar-lhe minha. 



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— 6 — 

Carolína. Sobrinho. .-. essft$etaifid6nèfá& esesmíafizam 
o> meu pudor. . í : x * ' ^ 

Juno. Não são para estranhar quando se tracta de um 
objecto tão bello. Está encadernado e tem a aprovação da 
censura-:ecclesiastica. : ' J ■ - " 

Carolina. Que drces 'tu, home**!? r, «' T 
Júlio. Digo que é uma obra prima,' Awtuitis da'virtude 
pratica^ Êtaí o seu vator \\m< a alftia mais bem fofmâda 
tem ali que : aprender, e fca» desejava possui Na: 8&> trinta 
e sete tomos de moral, (á pa.rte) «que palSo ! •• '' ■■ ■ • 
, Carolina. Mas porque- nfto' lias de cumfrir fcfcfie dese- 
jo... custa muito?. . . •',»., 
Júlio: Qtíatuo ceniosimil reh.: . ' • • ' « 
Carolina. Como? que dizes? » ' • • ' ■ • • 
Júlio. Quarenta thil, dtgp, enganei-me. . . * • » 
Carouna. £ dizer que talvez té não cheguem as tuas 
economias. . . 

JirLK>., Economias, isso éborn de dizer, "ficaram -me as 
ultimas moedas de cxncò tostões, em Carrtefoe á semana 
passadav \ • • 

-Carolina, Gomo? aonde 9 

Juuo. (á yarte) Lá foi tolice,- *(alto) Skirmifiha tia um 
estabelecimento de caridade, uraa espécie tf&zylov que te- 
nho estrema devoção em proteger, fundado porttma asso- 
eèação protectora d'animaí»>; .'. (á^pmte) Lá wai mais^ to- 
lice. .• •-" •• ■ - . • • • •••' •' . •« i 

Carolina. <Mai(o bem, .a caridade primeiro que tudo, e 
visto quedHessa obra religiosa se «pede colher boa. lição 
femoral, vou busoar-te o* dinheiro e^venhajá. • » 
Júlio, (arrebatadamente) Oh ! An^eftca W. ' 
Carolirà.O que? -• '•'■• - ' ♦ • 

Júlio. Angélica creatora éa senhor*, aninha lia. 

. • j •« «BIMJ E MMÍL ..-: 

Rafael. «Améaaqot eró,ehe^(>a tempo, Aeatto de sa- 
ber cousas, minha senho»* 1 . (olhando para Jutio). 



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_ 7 — 

* Juwof. Bm, bomf •■ i ' 

Rafael. 'A senhora -•sabe quem é este cavalheiro? i 

Carolina. É meu sobrinho que veia viiitar-me, 'é que 
me proporciona com a sua visita a 'Satisfação do ihe-poder 
dar a posse... • .' ; • • * 

Rafael. De quarenta mil reis de que precisa» •.. » 

Cauólina. Batàctameiite, pára comprar amafobra.ediíi- 
cairte.-^ijba edtcção rara. ; i .• 1 

Júlio, (kypwritamente)' Triiila e seis totno9<dd mow^. 

Rafael ; CaUe-se,' ião tem pejo de enganar lesta Mtota 
senbora,?. . . «Sei 4ado. É- falso quanto lhe dia* este .se- 
nhor, qae* ao ifpe parece é uni moço de truz ! Finjense om 
santinha para lhe apanhar o flinheinvque a senhora com, 
tao boa fé íhe dá, tem relações amotoias <mm wfia 
ataafeona 4^ circo Priee a quenrrapteu e cout (foeoi.qiier 
ir para* Hespaflha: 

Carolina. É*erdadeii8*© y roeu sobrinho? . : . .< >>. 

Júlio. Nao minha tia, eu não a raptei., foi tfflá que me 
roubou o mwctfração. • •■■».. 

Rafael. Ouça, minha senhora^ ouça esta caria..»,- vj» 

Julto. ,Quem lhe manda ao senhor apoderasse. ia>n»Í- 
nhãs cartas? 

Rafael. A mala estava arrombada, a carta cahiu e. . . 
no interes.se da senhora tontef conta d'ella. . .Ouça, minha 
senhora. «Querido Júlio. — Desejo que quanto antes che- 
gue o dia feliáJéikíqiieÉídtf&ÍÉ^s^iltès^aií piruetas, para 
passar comtigo o arco do matrimonio.» Veja que língua 
gemf «Agora que tenho 'a' certeaa. deqt*e alcançarás- di- 
nheiro da beata de tua tia, disse já ao (empresário <]»e éa 
ultima vez. que ftratalho. Vem .poisoneu quetido,\ voemos 
a Madrid. Tua Angelioar.» » • 

Carolina. Ai! sobrinho qwe escândalo t 

Júlio. Ora, leve o diabo a hypocrisia e os fingÍMBnlds4 
Eu gosto d'Angelica, ellagosta de mim, sou noTomktfoo 
prazer, carieeode Jiberdade t de dinheiro para gozar» j Arai 
está tudo. . •«. i „ 'mv : . 

CknoLiWA.» Perdido I perdida «a sua alma paia sempre. 

Júlio. Suppondo que> lhe desagradaria o meu proceder 
franco e sincero, procurei, ajudado |>ela mascarada hy- 



y Google 



— 8 — 

pocrisia, obter o dinheiro de oue preciso, mas visto que 
nada consegui, recobro a minna liberdade e vôo ao pra- 
ser. Viva apandigal 

Carolina. Não,,tu não aáes daqui.. . 

Rafael. Deixe-o, minha senhora, deixerO lá ir com a 
sua amazona. 

Carolina. Não o, consinto. Sou sua tia, o seu único 
appoio, e hei de cumprir com o meu dever, impedindo 
que se lance, cego e desenfreado, em um obysmo. 

Júlio. Pretenderá a senhora fazer -me viver n este casa- 
rão lúgubre e tenebroso, sem outra luz mais. do que a da 
ignorância, sem outros prazeres mais do que sermões, je- 
juns, vigílias e orações? Aqui tudo é negro e austero, 
Aqui amesauinba-se o espirito, o pensamento, a fantasia 
e a mocidade; conservante encerrados em uma jaula de 
ferro. Não pôde existir n'estes Iogares nem verdade, qem 
amor, nem o encarto da iam ília. £ quer que eu aqui per- 
maneça? Nunca. 

Carolina. Já o disse e repito, não subirás daqui em- 
quanto aio estiveres curado d'as*a alucinação, (a JRa- 
jritatyYenha, deixemos este louco socegar^ (Sám, fechando 
a porta por fora.) 

SOENA VI 
JÚLIO E El SUVIOá MTOMO 

Juud. Sim, senhor, bonito! E que hei de fazer? Nada, 
minha, *ia,. á força é que me não obriga a ficar, (ou- 
vetu fechar a porta.)Ê o que se véj um verdadeiro cárce- 
re. Aht a janella (indo a ella.) Safay ae me atrevo a fal- 
tar quebro as pernas, (batem fora*) One será isto? Quem 
ettáaM? i 

AirtONio-f/óra.^ Eu, sr. Júlio. 

Júlio. Ahi o> mordomo» (pata fára). Faça favor de me 
abrir a porta. ' . 

Aamuou (fára.) Não posso, a sr.* é que tem a chave, 
más esteja aescançado que não tarda que saia d'ahi. Ahi 
tem livros, leia ou durma. 



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— 9 — 

fruo. (escutando) E foi-se. Ora que tombaria, Leia, 
ou durma. E o caso é que estou com somno. (sen- 
ta-$e junto á mesa onde estão Iwros.) Bem, tenhamos pa- 
ciência e vamos a matar o tempo. Cpéga num livro. )Vida 
de-S. Marcos. (pondo-o ie parte.) Santa Úrsula e as onze 
mil virgens, (ameacando-o.) bonita livraria para entreter, 
O melhor é ver sê durmo, (boceja.) O logàre a froaxjt 
luz não podem ser mais a propósito. Deveras que dá pro- 
va de bom gosto quem aiodíIou esta casa (boceja.) Vamos 
a isto (encosta a cabeça.) onde estará agora Angelina. . . 
a minha amazona) (adormece.) 

SOENA VII 

JBLIO, INTONIO E CftMLIM 

Carolina. Pelo amor de Deus não faça- bulha, está dor- 
mindo. 

ÀNtoifio. Não admira, o cansaço da viageto. 

Gauolwa. Quem sabe se o offenderia a minha delibera- 
ção! Tenho pena porque afinal é meu sobrinho, e acredita 
que, perdoae-me meu Deus, que não é para mal, sympa- 
tisei «com elle. 

António. Pois então elle com a senhora é mesmo uma 
loucura. 

Jomo. (smhanioi) Angelical Angetica. 

GâKOlina. Que diz elle. 

António, (aparte.) Demónio! (alio) Que v. ex.* é.ange* 
Uca, <um anjo; sonha com a senhora. 

hnjm. (sonhaniô). Voar, sim vod*. . . 

€ah«Lina. Voar; fugir d'aqui, e porque? 

António. É natural, tainha senhora, tuna ave costuma- 
da á liberdade e á luz não pode viver encerrada n* uma 
pequena gaiola de ferro, o de mais a mais só. 

Carolina. Mas que queres dizer com isso, que hei de 
fazer? 

António Figure v.-eft;* qo&éeu sobrinho é a ave, esta 
casa a gaiola. E quando a gaiola estiver bem provida 
e ategrc, * ave acostumasse a viver nella, e depois: pode- 



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— 10 — 

se-lhe abrir & pojctp. qae nao voará erii busca da perdida 
liberdade. * .» » 

Carolina. Nào 'percebo lá rouiWi bons, aji*inh*tfabeça 
desvairasse, vamos, aeoa selha -me. .• • . 

* . António. V.. èx.f tem muito a «peiio que seu ê&mké 
não tenha, raaisivonlade da (recobra* a* sua liberdade, 
como elle drcr? . , . • »• 

-», Carolina. Obl se* tenho. , . , • •• », 

António* Nesse, caio vámos.jfarnarategre a.gaiol* 4o 
pássaro. Queira ajudarane» { F<ira com as cobei*u*»ô desta 
mobília (executam.) Rello,.isto 4 ^gor>a jáUw» outra aparên- 
cia. Agora luzes, (indo aporta chamando cauteloso.) José! 
Francisco! para aqui flo/es, í q(gt;?andelabros acesos. Verá 
como fica surprehendido quando despertar, (entram os dois 
creados com jarras owh fíore^ptewfâlahrimycesos e os mais 
adornos que possam trazer, o que tudo collocam nas tnezas.) 

Càrolinav Efectivamente,' li&tojé mais bènUe* Se con- 
seguisse-mos conserva! -o. i.. 

António. Responda por i^oí EoAi$â^uíífe á;diepetisa, 
toca ú preparar, unia .refeição, digo qma «Ipiste^ agua e 
folhinhas verdes, tudo digno .dadive* ... - .».* 
.; Garolína.E nada mais. será preciso ltt , ■ • . », r„, . 

António (pensando.) Diabo í. . . oh! perdãti, minha se- 
nhora*, escapou-we* . . .; . .,. . / 

Carolina. Não tem duvida, mas dizias. . . • .< 

António. Dizia <(uew- pana tomar mais- dace o çapti- 
veiro aos pássaros é preciso tratal-os com «raor> ewx ca- 
rinho. . . • , '■ .. (. < .i 

Carolina, (sobresaltudui) Arnor I . . .. Uarinhqlu . »<tiredo ! 

António Sim, minha- se|*hor&, /dar4kes..iiua.«wtya- 
nheira... (ao ver .mover -s& ■ Jh*Uo.)> Desperta < ajamos. 
(apartei) A ave. terá companheira^! (saem, rápido.) > 

• ,,,•• . . - i . . • • 

" SOENAVIlf •• ■ « i 

*, JttUO» £ QSPOISJOSÊ. h ,. .../ 
Ji3Lie. Olá ! ! ! durmo ainda ou jáiestou acordado? Esta 



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não è a mama oasa efò que adormeci . . ; será isto algum 
conto das mil e uma noites. Nada preejso saber., (toca uma 
campainha,) M T ' 

Anto»ioí(í^ pcêsaca e lenço èranw etc) Y. ex.* quer 
alguma cotisa ? • ... 

Juuo. Caâftttó I que luxo l t. 

António. Y. ex. a chegou tão de improviso, qte nem 
tempo tivemos de limpar a gaiola. ... <$uero* dizer/ a casa. 

Jwo-oÍh aproveitaram c^niatt ^omno?. Bonita lembran- 
ça. P^Iq que.YeJQeBtãp/mmUi-tia não éi»ifftiga,du luxo 
e da commodidade- i / . . 

António. Ora qual. Ao contrario, a nossa divisa ó — 
Fausto e abundância, 'si /.'■: •'••> 

Juuo. Bonito! e aprescnto-me eu nesta figura, em- • 
poeirado, mal MRtJdH ^'opi^i |i|f^r na^ra^f^^tra^ . ) Ao me- 
nos cá estão as luvas, (calça-as á pressa, estala uma.) 
Bota, desgraçtt sohre desgraça. 

António* Àgora, ; se' v..ex.* pwrojttev ma^do. viiva.agua 
e a alpiste. .1 ' • 

JuLip. flein i que dlze^.? . ' t 

António. Perdão, eu quiz dUer, a ceia para v. ex/, é 
um modo de foliar figurai (i6<ffa,«s ffalnmty entram os 
creado$ toM Mm selador $ervi<do ^IwmostoHefate.) . , • - ; 

Júlio. Mas, wmj&il .demónios! te*n»pa£iè»cia. An#eJjca, 
mas em> q&aufb »e iraXarem assim não-ta© |ou enibora. 
lato é ntàgLa, Mas que arpmal i . , . , . . .1 . \ 

« AntowOj ftuaado v< ejc.f q*u««y\ $e,rvir : aeA ? . * 

JKít40^ -Mas. . , ji. . . -Quem. òíos .bavia, de/duer^quQ 
m'iuua eaqa d* aspecto tão lugabre^com >uoia^ tio aus- 
tera e um administrador que nã<^ tem lá bwUo. boa oara 
para santo, encontraria eu tudo isto! j 

António. R é que a respeko de, administrador. o^o. sa- 
be v. ©xv* o melhor? >Á força de administrai: $* immensos 
bens de sua tia, tal amisadell^esjiomqaqiw&^^refiarapa-- 
ra os administrar por conta própria.' t > . . - . , 

Jyu&. (tevtiUwdo-w de %& pulo.) AM fomajoto I pre- 
ymà& a m& de mj«ha tia. E ó miyto rica 2 ui : *. 

Axtona». Fabalosaawníe rica,. 

Juuo. Fabula. . . vamos, bebe um copinho, António e 



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— ia — 

©ii oatro á saúde do capital de minha lia; que se algum 
dia estiver doente muito desejarei ser eu o medico. 

António. Do dinheiro?! £ que v. ex. a dava -lhe tanta 
sangria que o matava, nada, nada t Então deterás não 
acha agora tão penoso o capliveiro. . . 

Júlio. Se eu tivesse aqui a meu liado uma mulher. . . 
Oh! Angélica. 

António. Mas sua tia parece-me que ... 

Júlio. Qual tia... com aquelte aspecto ridicuk>... 
presença grutesca, sempre de preto, contas na mão. Aquil- 
lo não é mulher ... a verdadeira mulher é. . . 

SCENA IX 
OS 1ES16S E D. CMOUM 

Carolina, (elegante e ricamente vestida.) Deixa-nos An* 
tonio. Se me procurar o sr. Raphael, que espere. 

António, (aparte a Júlio) E esta é mulher ! 

Júlio, (idem.) Soberba, elegantíssima 1 Mas quem é? 

António, (idem.) Sua tia. 

Júlio, (idem.) Maganão i zombas ée mim ) - 

António, (sahindo) Sim ! sim (aparte) O vinho é bom, a 
mplher bonita) Và o caso de vento em popa (soe.) 

Júlio, (afastado de Carolina que octulta aelle o rm* 
to) Continuo a convencer-me que sonho. £' preciso deci- 
frar este enygma. (dirige a Carolina) Minha senho- 
ra queira v. ex.° attender-me. Se continuo assim endou- 
deço. O qtte se tem passado ha mela hora? que casa è 
esta? quem 6 a senhora? ' 

Carolina. Tua tia* 

hiuto. (esfrega os olhos, baU na tosta, depois contem- 
phndo-a admiradíssimo.) Minha tia!!! Mas a outra, a do 
veô e dts contas; a beata, a velha? > • ' 

Carolina. Sou èu I 

Júlio. Agora é que eu endoudeço! com que a joreto<è a 
velha, a velha é a bonita, eu tio da joven, a jovewê minha 
sobrinha, a velha e eu, ai qúe trapalhada que efrfa.' 



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- u - 

Carolina. A oxplicaçao de quanto vás, é fácil. Ao Co- 
nhecer as, toas loucuras, a minha primeira inieoção foi 
mostrar-te o oaioinho do bem feia austeridade e^ felicidade 
eterna ganha pela reflexão e Fecolhinnento. Estava enga- 
nada, reflecti agora $ vejo que era inútil ertsinár o pensamen- 
to e a phantasia da juventude numa estreita gaiola de 
ferro. Ábfle.p9J£ as asas e voa para esse munda que cem 
tanto peaar abandonavas. Aqui tens nesta carteira com 
que entregar-te a mais prazeres do qu0 precisas para te 
saciam, Parte, é$ livrç. :..•.» 

Juuo» Sim', farto, vou já. .„ como ficar ãpcoatepfteâoâi 
meus credores! (senta-se no sophá er%qu£ ttfá Coron 
Una.) •• ,- ,r , :».i 'i . . ', , 

Carolina, (<fef»*a ie pausa) Vm aiqda, aq^i ,ôstá*„ & 
deligencia parte d'aqui a um quarto de hora. 

Júlio. Ai ! minha.tkl fiatãcr Jkn mais três horas. (Ca- 
rotina pega no bordado.) E que mão tão linda, tão pe- 
quenina. (beija-Wa^r^^' j jj:;' 

Carolina. Que fazes Ernesto! 

.' ' sgejk* x ',','', 

RftFAEL E ANTOKIO 

i; I- . * ... " .• 

Rafael, (da porta) Que. profanação! querescandalo ! Fe- 
lizmente estou eu aqw. (Carolina spnta-íe voltando-lhe 
as costas) Saia d'aqui sr. e leve também comsigo a 
sua amazona nãoi^fane «om aua& plantas impuras este 
templo de virtude. 

Júlio. Bonitas phras,e6, está hoje inspirado o sr. admi- 
nistrador. 

Rafael. Não zombe sr. Praza a Deus que sua tia, que a 
esta hora está recolhida em oração nada saiba de tudo 
isto, corromper os criados, transformar tudo, e por causa 
de uma tal paixão. . . se ao menos fosse por uma mulher 
digna casava e . . . % i{ , . 

Júlio. Pois é isso mesmo quê eu quero. 

Rafael. Mas entendamo-nos, com esta senhora? 

Júlio. Com esta senhora a quem adoro de todo o meu 
coração. . . 



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-14- 

Rafàeiw (á farte) Bravo, e livfO-mie tfellrf. (dto) Pego- 
Ihé na patàtfra; approro eom prôcuraçSo de soa tia. • 

JÚLKh fchiito bem; <wa pote abra ò sr. administrador os 
olhos t (mòstm-lfte Gwòlmit que sé volta para eile.) 

Rafael. (psínjip/bc^Misericordia! que me dá »ma.a^»*« 
pfexia. - *" • '• "•• 

Juu*:- E : como cá em eaáa nàoqaero q«em frrande mais 
do* que en e : minto esp^a', eotoece pôr sahir^r. admitíte-' 
trador , depois se* lhfc tomarão as «bntas. • 

António (rindo) Ah! ah! ah! milito bem patf ao (frito* 
/oel) E domo 'também ffce não fat contas a mim, fou acotn- 
panbal-oâtéá^ua: ••• ■■•'••••• ! • - 

Rafael. Perdi a partida, sou um pekisfmo jogador. {%** 
ãcomptmhtídbtd* Ântom& \ue ri a mtis não^ poder) • ' 

.: ■ ■■ < I • i- »• ' ■■■ •■«' :-.:.- 

■ •■..'.■ • = — :»CB1ÍA tlttJTÍMA ■'»• ! 1/ l 

JÚLIO E CAROLINA ' »- «n,. 

í . •:•• -í ..-. ■:• . . , . 
Carolina E agora n'esta gaiola de ouro. . . 
Júlio Serei o mais feliz &>s %iortaes . . . (recita) 

Em tetf átaóit, ftitidA^á^ 
Eu vou encontrar ventura 
1 • ' ' Amaiído esta db&sutà * ^ \ ■ ■■ i- ;? 
'' ' 4 '"Se tft fores a carcereiífe. • - 

MâHambem êStiMoe' aforo 

Que a par da sorte faguei#tt ; * \ - ^ 

■' •• -Este publico 1 aplaudir 'queiíá :;.'«. 

Esta gaiola de ouro. ., * «»« * «•■ 



.(ÇAE O PANNO) ■ : i§ 



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mm^^^mm 



- 16 — 

O PREGO! 

: •CANÇONETA CÓMICA 

Maldito, jiejas tu, prego 

Que só me dás dissabores ! , . . 

Malditos os agiotas 

Que emprestam sobre pephores! 

Agiota — nome horrívpl 
Que me causa tetlie. e asco! . 
Agiota! homem vil ,, 

Inda mais vil -que o. carrasco» 

Quer dormindo ou acordado 
Estou sempre a peusar no prego!. 
És uma horrível visão , . 
Que detesto. . . que arrenegoll 

Antes caminhar p'ra forca! 
Antes perder na botota! 
Do que transpor^ 03 umbraes , . 
Da porta d'um agiota! 

Ha ali botas e luwag, 
Chapéus, vestidos, camizas, 
Fraks, casacas, colletes, 
Ceroulas, meias, e nizas!! 

Tentando descrever tudo 
Seria um nunca acabar! 
Té não escapa ao voraz prego 
Lenço humilde d'aseoar! 

Quem quizer que um objecto 
Fique logo sem valor; 
Deve conduzil-o ao prego, 
E deixai- o de penhor. 



i»i.. < < l 



yC^>0( 



— 16 — 

Chega a gente ao uzurario 
Chapéu na mâo por decência, 
Dá-se-lhe uma — Senhoria 
Ou melhor será — Excelkucia. ■ 

— Que quer Você —Meu senhor?... 
De ouro são estes botões! . . . 
Em bom «ao, e eu queria*., um, pinto 
— Só empresto dois tostões? 

—Dois tostões! . . . Que die senhor?. . 
Vamos, chegue-se a razão, 
Ao dinheiro que offereeeu 
Junte mais. . . mais Um tostão. 

—Vamos lá, é decidir 
Por mais tempo* não o aturo, 
Tome lá oito vinténs • 
Porque um ptftaoO^-é o juro! 

Acho pois mais rasoavel 
Segundo oá # meu vôr, 
Em logár de ir empenhar! 
Preferir antes o vender! 

Pte-ttfla 

Querem saber porque & prego 
J^e obriga a desabafar? 
E por nlo ter já em casa, 
Cousa alguma qne empenhar. 



(Cae o panno) 



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(I LIVRO A1IAREL 



su 



COMEDIA EM 1 ACTO 



POR 



Diogo José Seromênlio 



Condecorado com a medalha ao mérito, 

Sócio honorário do Grémio Litterario portuguez 

do Pará, da Associação dos Juriiaiisias e 

Escri piores, etc. 

Representada com geraes applausos em differentes íheatros. , 



*o(f U. J" O'' f>» 



THEÁTRO CONTEMPORÂNEO 
OPTJlSriD^.UO EDMC :i. 6 C '.^ 

DIOGO SER0M^\H0-ED:Tv?, 
Escritório da Empukza, Hl a JSova i><> A; / ^ ' 



..^._ ,_ _. ....--—.... " -^Dkjiíized b 



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A LOIRA 

COMEDIA EH 1 ACTO 

DIOGO JOSÉ 8EROMÊNHO 
Condecorado com a medalha ao mérito, etc. 



REPRESENTADA NO THEATRO BAQUET DO PORTO 
EM SETÚBAL, AVEIRO, ETC. 



0. J. s. 



DIOGO 8EROMÊNHO 

Knxxoxi 

LISBOA— 1878 



yGopole 



PERSONAGENS 



JAYME 

AUGUSTO 

ALICE 

ISABEL 

UMACREADA 

UM CREADO 

A acena em Lisboa. — Actualidade. 



Typ. de J. G. de Sousa Neves— Roa da Atalaia, 65. 



— r^-.— *-... 



Goôgk 



COMEDIA EM UM ACTO 



ACTO DNIGO 

Sala elegaàte.— Alice e Jayme sentados ao fogão. 
Sente-se chover. 

SCENA I 

ALICE e JAYME 

alicb* Era que pensas, Jayme? 

jatne. Eu! em nada! 

alick. Estou fallando comtigo e não me respondes! 

jaymb. Eu? 

alics. Tu. Cada dia estás hiais distraído. 

lAinis. Não; é a digestão. A digestão é a... 

alice. Eu que gosto tanto de conversar depois da 
ceia! 

jayme. Sim, eu também gosto muito. Foi uma coisa 
que me encantou sempre. 

ALicE. Não estás em ti. Não fazes o menor caso do # 
que te digo. 

jayme. que é que me dizias? 

alicc Nada, homem, nada. 

jayme. De modo que me não permittes .que eu pense 
em coisa alguma. 

ALICE. Bem, bem, pensa no que quizeres, não falle- 
mos mais n'isso, não quero que me chames importuna. 

jayme. Não, mulher, não. 

alice. Deveras. 

jatymk. Deveras. 

aldcb. Gomo chove! Ouves? 

jayme. Chove? 

alscb. Não ouves? 

jayme. Ê verdade. Chove a cântaros. 



zle 



ALICE* Ainda bem que não estamos fora de casa. Que- 
y res que deite mais lenba no fogão? 

JAYME. NãO. 

a&ice. Faz gosto passar assim um bocado da noite, 
ao calor do fogão, não é verdade? 

jayme. De certo. (Tira o relógio para veras horas.) 

alice. Para que vês o relógio? 

jayme. Para que bade ser? Para saber as horas. 

ALicE» Supponbo que não sairás com este tempo. 

jayme. Não; isto é... 

alice. Não saias, homem, não saias; passa esta noite 
em casa. Aonde irás que a passes melhor? Olha, nós es- 
tamos assim, ao calor do lume, conversando no que 
quiseres, dentro de uma hora vem o Jornal da Noite; tu 
lés todas as noticias; depois faremos aqui mesmo o chá, 
serves*me uma cbavena, eu sirvo-te outra, fumas o teu 
charuto com todo o socego, contas-me alguma coisa inte- 
ressante, alguns episodAs das tuas viagens, alguma des- 
sas historias que tu sabes referir com tanta graça, eu toco 
aquella melodia de Schubert de que gostas tanto, e quando 
fôr meia noite, vamos dormir. Não será isto um encanto?. . . 
Viver um para o outro, não ter era que peosar e passar 
as horas de inverno em tranquilla e celeste mansão, no 
lar domestico, felizes e invejados de todo o mundo; ai! 
Jayme, confesso-te que cada dia bemdigo mais a nossa 
união... (Jaymelevantase rapidamente e passeia preoc- 
capado.) Mas, homem que maneiras são essas? 

jayme. Hein? que dizes? 

alice. Ah, não ouviste nada! 

jatnl que foi? 

alice. Isto não se pôde soffrer, é uma offensa. (Chora) 

jayme. Não, mulher, não; é que... as coisas... eu... 

alice. Desconsiderar-me assim! 

jayme. Não, querida Alice; eu não te desconsidero. 

alice* Não é de hoje, já ba dias que te encontro preoo 
cupado... pensativo... Aqui ha coisa, Jayme. . 

jayme. Não ha coisa nenhuma, não... escuta... (Pára 
de repente sem ouvir o que diz Alice.) \ 






— 5 — 

alice. Sim senhor, sim; aqui ba o quer que seja. Não 
posso comprehender o que sigoifica tudo isto. Tu nunca 
foste tão distraído, nunca saiste de casa a certas horas 
nem... Emfim estou desesperada! 

jatm£ Socega Alice, socega; estás inquieta sem mo- 
tivo, eu... 

alice. Deveras que me não occuitas nada? 

jayme. Nada. 

alice. Bem, torna a sentar-te. fJayme senta-se ma* 
chinàlmente.) Vê que temperatura tão agradável. Ficamos 
em que não vaes sair, não é assim? * 

*ayme. Não; não saio. 

alice. Conta pie a causa das tuas distracções. Foi al- 
gum negocio que te saiu mal? 

jatme. Uma coisa assim!, 

Alice. Bom, pois não te mettas n'outro; para que que- 
res tu negócios?... Temos um rendimento que faz inveja 
a muita gente, e não precisas de te incommod^nrpara viver- 
mos com toda a commodidade que desejamos. Não pense- 
mos mais em negócios, fallemos d*outra. coisa; da nossa 
amisade, da nossa affeição, do nosso futuro, da nossa feli- 
cidade^ Se soubesses quaitfo gosto de ver- te alegre! Faz- 
me tanta pena o ver- te triste... muitas vezes dirás que sou 
importuna, mas acredita que tudo isto é effeito do ex- 
tremo affecto que te consagro, e por cujo motivo na oc- 
casiões em que... 

* ay»r (levantando-se repentinamente). Até logo! (Põe 
o chapéu e o sobretudo.) 

jllice. que? 

j.%t3ie Volto no mesmo instante. (Sae correndo.) 

SCENAII 

alice (levanta-se zangada e vae até á porta. Volta 
ú sema quer fatiar enâo pôde, olha para todos os lados, e 
começa a chorar comícamente dizendo): Isto nào se pôde 
ioffrer! 






-6- 

SCENA IH 

ALICE e AUCMDSTO 

i • , 

avc&vsvo. Safa! Por bem pouco que me não deita ao 
chão. 

alice. Ài! sr. Augusto! 

AccàugT*. Apnde vae seu marido com semelhante 
pressa? 

alicb. sçnbor eucontrou-o? 

aiicweto. Descendo as escadas, mas de que maneira, 
por bém pouco, que me não fez roiar até á porta da rua! 

alice. Porque não lhe perguntou aonde ia? 

aiovito. Não me deu tempo para nada Nem sequer 
me deu as boas noites. , ' 

alice. E aonde vae? 

AucwsTo. Não sei! 

alice. Que irá fazer? 

AvcwftTo. Não sei. 

alice. Nem eu. 

AuougTo. Estamos no mesmo caso. 

alice. Ai! sr. Augusto, eu quero morrer. 

augcuto. Morrer? i 

alice. Sim senhor; e hade ser hoje mesmo. 

Auctc«TO. Mas porque? 

alice. Porque sou muito desgraçada! 

AueutTo. Que aconteceu? , 

alice. Ha quantos annos me conhece? 

AvoíisTO. Desde que a senhora era assim. (Marca 
com a mão a altura de uma creança de seis ou sete «n- 
nos.j 

alice* E a minhas irmãs? 

AVGivro, Desde que eram assim. (Marca um pouco 
mais alto) 

alice. E a meu marido? 

AvctvsTo. Desde que era assim. (Idem.) * 

alice. Muito bem. E quantos namorados me conhe- 
ceu? 

aucwsvo. Mais nenhum que seu marido. 



alice* E a meu marido quantas namoradas? 

AsctijftTe* Maia nenbuma do que a senhora. 

Alice. Foi feliz a nos^a união? 

augusto. Assim ò julga toda a gente. 

alick. Tenho dado motivos de queixa a meu marido? 

alisto. Nenhuns! 

alick. Elie C bom? 

avgvsto. Excellente. 

Alice. E eu? 

accvsto. Exceilentissima. 

alice^ Pois bem... 

AUGUSTO. E depois? 

alice Agora é que começa a historia. 

AvetusTO. Qual historia? 

ALicc. Qual bade ser?... Elie... ella... emfim... aqui 
ba grande historia sr. Augusto. 

Aventuro. Supponho que a senhora não imagina qtte 
eu tenha a me^nor culpabilidade... 

a i.i ce. Não senhor, sei perfeitamente. 

AtGi)«To. Sim? Pois eu não comprebendo... 

alíce. Jayme não me ouve quando fallo com elie, não 
come; não dorme; anda inquieto, não é o mesmo Jayme, 
meu marido. 

AVcvsTo. Agora, agora. Pois senhora já o tinha no- 
tado. 

alice. Sim? 

Auevmro. Ha um mez que não sei onde traz a cabeça. 
Esquece se de tudo que diz, e fuma-eom um desespero... 

alice. É justamente o que me faz scismar. Acende 
um charuto no mesmo instante, elie abi vae, deitado fora. 
Acende outro e outro e todos vão pelo mesmo caminho. 
Que quer isto dizer? 

AUQu*To. Que % anda preoccupado. 

alice. Sim? 

avcwsto. De certo! Jayme pensa seja em que for. Hon- 
tem quando passeiavamos no Rocio, cumprimentava os 
amigos de um modo desconhecido. Fallava-lhe e não 
me respondia. 



yGooQle 



— 8 — 

alice E a que attribue o senhor uma tal preoccupa* 
ção? 

AVovgTo. Eu... não sei... 

alice. Sabe sim. senhor sabe-o tão bem como eu; 

o que não tem é o arrojo de m'o dizer, e não sei porque. 

' Parece-me que podemos fallar francamente. Vou dizer lhe 

o que suspeito. Meu marido tem por ahi alguma affeição. 

a vou «to. É o mesmo que eu supponho. 

ai,ice. Sim? (Chora ) Ai! quanto sou infeliz. 

augusto. Não se afflija minha senhora. • 

ALicB» Pois não heide affligir-me. Qner talvez que 
danse alguma poJka. 

augusto. N' estes casos a dissimulação é a melhor 
recurso. Vamos a pensar na maneira de o apanharmos. 

Alice. Justo. De o apanharmos em flagranle. 

av«iisto. Eu tenho tanto ou mais interesse do que 
a senhora. Estimo-o como se fora meu filho, e... 

SClflíA IV 

OS MESMOS e JAfMB 

Jayme entra precipitadamente e sem reparar em Alice 
nem em Augusto; vae direito a uma das portas latcraes 
e entra. 

alice. Já viu uma coisa assim? 

augusto. É exquisito! 

alice. Ai meu Deus, se estará doido? 
« augusto. Demónio! (Desviando-se a um lado.) 

alice. Já a noite passada estranhei que se levantasse 
ás três horas da manhã, e andasse pela saia fazendo gestos 
extravagantes? 

augusto. Não lhe dé a loucura para nos accommetter. 

alick. Não faltava mais nada! 

jayme (entrando á parte). Não veio de tarde... deve 
vir e6ta noite. 

alice. Vé, como falia só. 

JATM8 (á parte). Se não vem prega- me uma boa peça. 

alice (á parte a Augusto) Vae sair outra vez. 



•*-•..• — -"»"■■"■■ 



Googíe 



— 9 — 
augusto. Boas noites, Jayme. 
*ay«e. Olá! Augusto! Gomo vaes? Eu bera, obrigado, 
adeus, aié logo! 
ALicE* Olha! 

jAfffls. Dfesculpa, agora é impossível, é uma coisa ur- 
gente! Èu te contarei... eu lhes direi, adeus, adeus! fSae 
correndo») 

SCENA V 

A li ICE e AUGUSTO 

ALiCE. Meu Deus! Perdeu o juízo! 

augusto. Pois senhor, declaro que não entendo. 

ALICE. Que desgraça! 

augusto. Socegue minha senhora, socegue. 

alice. É impossível meu amigo. Parece lhe que não 
tenho motivos para desanimar? Um homem que nunca 
teve nada que o inquietasse, que nunca faltoti aos seus 
deveres, que mostrou sempre decidido empenho em com- 
prazerme e mudar agora completamente. 

augumto. Mas que será isto? Vamos a ver se pode- 
mos descobrir... diga-me, seu marido é affei coado á poli- 
tica? 

alice. À politica? 

augusto. Pôde ser que esteja metlido em alguma 
combinação ministerial. 

alkce. Não senhor, não. 

augusto. Não ha muito tempo que ]be deram uma 
commenda. que fez elle? 

alice. Nada. Foi por isso que lb'a deram. 

augusto. Ah! Basta! Sabe se perdeu dinheiro em a!* 
gum negocio? 

alice. Não sei; tenho-me lembrado d'isso, mas o se- 
nhor comprebende que a estas horas não podia ir tratar 
de negocio algum. 

augusto. Quem sabe! ^ 

alice. Que classe de negócios são os que se tratam"" 
de noite... Elle vae e vem mui preoccupado, entra e sae 
amiudadas vezes, nunca se demora um quarto d'hora em 



iby Google 



— 10 — 
ir e voltar; o negocio seja qual for deve effectuar-se bes- 
tas proximidades» 

augusto. Vamos a ver. Esta é a rua do Chiado... 
aonde pôde ir? Irá ao Grémio? 

alice. Não é sócio, nem o quiz ser nunca. 

augusto. Irá ao Gymnasio, á Trindade? 

Adieis. Não o creio. Bem vé o iocommodo que Ibe cus- 
taria vir a casa em todos os entreactos. 

augusto É devoto... santàtiario? 

Alies. Também não. 

augusto. Podia ser que fosse á novena aos Martyres 
ou ao Sacramento. 

ALicE» Não hade ser mà novena. 

augusto. Pois então não adiviubo. 

Alice. Talvez alguma visinba que lhe tenha poato a 
cabeça a rasão de juros. Vou contar tudo a minha mãe. 
Bile respeita-a muito e... 

augusto. Sim? 

alice. Sim, meu amigo. Diz que tem mais medo d'ella 
do que d'uma giboia. 

augusto. Porque motivo? 

alice. Porque minha mãe é temivel. 

augusto. Diga-me, não tem averiguado... 

alice. Sim, mas sem resultado. Tenho lhe aberto to- 
das as cartas que vem pelo correio, e nada de novo. 

augusto. Nem suspeita se quer?... 

alic^\ Nada. 

auct 'ró. Tem visto se no seu quarto ha algum in- 
dicio... v 

alice. No seu quarto? Tem rasão; agora mesmo squ 
remecber tudo. 

augusto. Mas cuidado que eu não... 

alice. Sim senhor, vou revolver tudo. Ai meu Dei 
estes desgostos hão de dar cabo de mim? 



t 



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— 11 — 

SCENA VI ' 
Auoijmro, depois jayme 

AfctviTo. A verdade é que Jayme nunca deu o menor 
motivo... o que será? 

ja y nKf entra de repente, pega riuma cadeira e deixa-a 
cair ao chão, senta-se, apoia os cotovellos em cima da me- 
sa e a cara entre as mãos, bate com o pé no chão, epuxa 
pelos cabellos.J 

avgíjsto» Parece que está doido... e o peior é que 
sendo tão arrebatado de génio... receio que... 

jayme (aparte). Mas que heide fazer? Que beide fa- 
zer? Quem podia lembrar-se de que não viria em toda a 
noite? 

Avctvi»To (aparte/. Se eu podesse... 

MfMi (aparte). Isto é impossível! 

avcweto. Jayme... 

jayme. E o demónio é que... 

aucwbto (aparte). Não ouviu. 

j%yme (aparte). Se com o pouco que me resta po- 
desse ir ver se apparecia... 

AuovMTo (com brandura). Jayme. 

JAYME. Augusto. (Uvantase de repente e corre para 
Augusto, o qual se desvia espavorido.) Escuta, meu amigo! 
< AVjctuiiTO (de certa distancia). que é que tens, ho- 
mem? 

jayme. Estou perdido! 

AiQVRio. Socega homem, socega, vens sufocado. 

jayme. Estou corado, não é verdade? 

AUGC4TO. Parece que acabas de sair d'uma estufa! 

jayme (vae ao espelho). É verdade! Que queres, não 
o posso evitar. Ha na vida fatalidades inevitáveis... Tu 
Dão és capaz de duvidar do meu pundonor? 

AVGotT«. Ah! derem- te alguma bofetada? 

JAYME. AugUSto! 

AUCW8TO. E foi do lado esquerdo. 

Augusto, não tornes a repetir essas palavras. 



-12- 

Uma bofetada! Não ha ninguém em Lisboa que fosse ca- 
paz de m'a dar. 

AvcitiaiTo. Não digo isso homem, eu bem sei que nem 
em todo o paiz haveria quem se atrevesse a dar-te um 
bofetão. 

iaimb. Nem fora d'elle. Se estou suffocado... é por- 
que... porque estou suffocado, 

auqvmto. Deve ser por isso mesmo. / 

jatme. Porque estou perdido! Porque estou arruinado! 

augusto. Arruinado, tu'Jayme! 

jay«k. Falia mais baixo. 
' AVGiiiTo. que afconteceu? Falia, homem. 

jaykie* Não o queiras saber. Ê uma coisa horrível, 
tremenda! 

augumto. Que desgraça! Mas dize-me... algum ne- 
gocio... 

jatjie. E que infeliz negocio! Toda a minha fortuna, 
a de minha mulher, a de tneus filhos... 

AiicvsTO. Que filhos? 

jiatme. Os que possa vir a (er, parece- me que não 
será nenhuma coisa do outro mundo. 

avgcsto. Não, não. ' 

jay*ik. À minha fortuna, a de minha mulher, a de 
meus filhos, o que heide herdar, tudo, tudo perdi. 

augusto. Mas homem, quem te manda a ti metter 
n'esses labyrinthos? Tendo meios para viver com todas as 
commodidades, para que te expões... 

jay.uk. Eu te digo. 

augusto* Foi em letras? 

JÍA1WK. Não. 

avgvíto. Em acções de companhias? 

jfAwrac. Não. 

augusto. Em commercio miúdo? 

JAT3IE. NãO. ' , 

acoiiiito. Talvez te acontecesse o mesmo que a mim; 
negociei uma vez *ein chapéus de chuva e não choveu em 
todo o inverno. \ . 

jATfflE. Não, não, não foi isso. Mas emfim os amigod 



7*„ , , "' bv C jOoqIc : "i*r '^é 



— 13 — 
são para as occasiões. Que Alice não saiba nada do que 
succede. N'este momento não tenho cinco réis de meu. 

augubto. Deveras? 

myiib. Deveras. 

augusto. £ que quantia necessitas de prompto? 

jatote, à que me possas prestar. 

AijfiviiTo. Recebi hoje as rendas da minha casa da 
Estreila, e julgo que devo ter comigo umas cem libras 
em papel, se as queres... 

iayhi. Venham. (Augusto entrega lhas.) Obrigado, 
eu t'as pagarei. 

augusto. Quando queiras. caso è que possam li- 
vrar-te da critica posição em que estás. Suppões que po- 
derás conseguil-o? 

jayhie. Não sei. 

AV6VSTO, Porque me não dizes de que se trata? Não 
tens confiança em mim? 

jayihe. Tenho sim, mas receio dizer-t'o... porque 
emfiip... é uma paixão de tal natureza... 

aíov8to« Paixão? 

jaymk. Furiosa, terrível. 

augusto. Essa mulher deve comer brilhante» segundo 
o que despendes com ella. 

iayiie. Mais que brilhantes! 

augusto. Deve ser alguma notabilidade. 

jatjie. Oh! se é! 

augusto. Alguma d'essas trigueirinhas... 

iatnb. Não. É loira! 

augusto. Loira? ' 

myhe Sim, loira. Eu venho já. 

AEfiiiTo. Aonde vaes? - - 

jAvns. Deixa-me. Eu te explicarei tudo. (Ãpnrte:) Se 
ainda não virá d'festa véz! (Sae.) 

SCENAVII 

AUGUSTO, SÔ 

Ai! minhas ricas cem libras, parecC-me quenôoé doesta 
vez que as torno a ver! Mas será possível que haja mu- 



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— 14 — 
lheres capazes de fazerem enlouquecer os homens por tal 
forma? 

SCENA VIII 

AIGVSTO e ALICE 

alice. Ainda não veio? 
augusto. Já. 

alice. Aonde está? 

ACGvsfo. Acaba de sair. 

ALice. Outra vez? 

augusto. Ai! minha senhora. 

alice. Ai, meu amigo. Não encontrei nada, absoluta- 
mente nada. Tudo vi, tudo remecbi e não dei com o me- 
nor indicio. 

augusto (aparte). Vou contar-lhe o que se passou. 

alice. Disse-lbe alguma coisa? A que veio a casa? 
Que significará isto? Poude descobrir?... 

augusto. Sim. minha senhora, descobri... 

alice. que? 

augusto. Que... que... em fim a senhora tem razão. 

alice. Está enamorado? 

augusto. De uma loira! 

Ai4ics« Ai! (Cae sobre um sophá.J Que chamem o 
medico, que chamem o medico. 

augusto. Mas, minha senhora!... , 

alice. Nada, nada, quero morrer... querd morrer, 
e por conseguinte o melhor é que venha o medico. 

augusto. É uma loucura. 

alice. Está então enamorado? 

augusto. Assim o disse. 

alvce. Bile mesmo? 
1 augusto. Elle mesmo! 

alice. E com que cara o disse? 

jlugusto. Com a sua! 

alice. Não pôde sert 

augusto. Não? Pois affianço-lbe que não cortou o bi- 
gode para m'o dizer. 



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— 15 — 

alice. Diga- me, o que deve fazer uma mulher nas 
minhas circumstancias? 

augusto. Não sei... . 

ai,ice. Viu-o sair? 

augusto. Perfeitamente. 

alice. Que caminho tomou? 

augusto. da porta da rua. 

alice. Ai, que homem este. fCorre a abrir a janella 
e olha para a rua.) 

augusto. Esta mulher é capaz de enlouquecer, tam- 
bém. 

alice. Bem o vejo» Volta para casa. 

AiicwftTO» Sim? 

alice. Sim, agora vae o meu amigo preseocear o bom 
e o bonito. 

augusto. Pois até logo, 

alice (agarrando-lhe pelas abas do casaco. ) Es- 
pere, espere! 

augusto» Mas quem me mandou a mim raetter n'estas 
balbúrdias? 

SCENA IX 
os niEsmos e u.« cbeado 

cubado. Minha senhora... 
alice Q sr. Jayme entrou? 
cbeado. Entrou, mas tornou a sair. 

"r.To.i° 1 UÔ? (Admirai.) 

cbeado. Disse que o não esperasse esfta noite. 

alice. Fica fora de casa! 

augvsto. Assim parece. 

alice (a Augusto). Vá depressa, vá depressa! 

augusto* Aonde?! 

alice» José, Francisca, um chapéu! 

augvsto. Vamos sair? 

alice* Immediatamente! 

augusto* Vamos seguil-o? 

alice. Vamos. Francisca! (Gritando $ batendo com o 



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-16 — 
pê no chão. A creada entra correndo com e um chapéu 
que Alice põe immediatamente.) VamoS por toda a rua 
acima até ao largo do Camões. 

ai]gchto. À noite está a propósito. 

ALicE. Vamos, veja se se mecbe! 

ai/cwsto. Estes meus callos! 

alice. Vamos. (Dá o braço a Augusto.) 

aucwsto. Ai! minha rica senhora! (Sae correndo com 
AliceJ 

alice» Malvado! 

SGENAX 

CBEADAf CBEADOí C IMADF^ 

cbeado, que será que aconteceu aos senhoresf 

cbeada, Eu sei cá! 

cbeado. Parece que andam doidos. 

cbeai>a« Veja se deixou a porta aberta. 

cbeado. Está fechada. (A creada vae aporta dopando 
examinar. Nesta occasiáò apparece Isabel que deve ser 
uma senhora extremamente loira.) 

iwabel. sr. Jayme, está em casa? 

cbeado* Não, minha senhora, saiu. 

isaibki,. Esperarei que venha. 

cbeado. Disse que não vinha esta noite. 

iwabbl. Hade vir. 

cbe«do. Deixou dito que não viria. 

iiíabel. Já lhe disse que vem, e eu que lb'odigo... 

cbeado. A senhora espera-o? • 

isabel* Espero sim. (0 creado sae.) 

SCENA XI 

ISABEL SÔ 

Deve estar no tbeatno com Alice. Espero o? NãQ sei o 
que faça. Se soubesse que tinba demora aproveitava esle 
bocado para activar certo negocio... Se terá dinbeiro? 
Elle deve estar endinheirado... Como sairei eu d'isto? Èu 
sei! Effifim Jayme é um homem de talento, e o seu ta- 



y Google 



— Í7 — 

lento... Que dirá sua mulher quaiyío me vir aqui, Deve 
surprehéoder-se! Como poderá imaginar que a estas ho- 
ras... eu... e elle... e ella... Sâp opze e meia o não pára. 
dê chover; que me imporia a mim esperar? Vou sentar -ipe. 
Que bom lume! Ah! aqui está-se optimamçntft!<tff$0}Se 
ao fogãQ e adormece/, t * .. . . , , 

•.SCENA XII "•'•'.' 

. AI.ICK, AUGUSTO MIABE1 

- , . " , • ■ ■>»»•••» ^ .r . 

Mfò* € iu^rusto tniram cansadíssimos.^ Ao chegarem 
ao meio da scena toda um se deixa eaii^ em sua poltrona 
distante de Isabel, a quem não devem ver emfwmiévnâo 
marca o dialogo./ i ., «. , 

ALICB, Ai! 
AUGUSTO* Ul! 

âuce (depois de uma longa pausa/, P^reçe-me que 
o melhor é mandarmos um annuncio para o Diário de No- 
ticias. ..,'.' 

augusto* Um annuncio? 

Ai,i€E. Sim; meu marido não apparece, e por couro* 
guinte não vejo outro meio de o encontrar, se.uãofocpor 
annuncio. 

augusto. Nunca vi um caso simjjbaotç. .,„.*. 

ai,ice. Meu Deus! Meu Deus! ( Chora e occulta o rosto 
com o lenço:) 

augusto. Eu enlouqueço! (Encolhe se na poltrona.) 

alicb. Não lhe pans^isto uai» «oisa horrível? (Au* 
gusto começa a dormir./ senhor saftjç a alegria, qoarei- 
nou sempre n y esta casa.? Sabe que nupca houve, aqui o 
mais pequeno desgosto? Jayme foi sempre o maia cari-: 
nhoso possível, o melhor homem do mundo, , A, sua edu- 
cação é exceilente, a sua conversação agradável, e o ata 
trato distincto.. S,abe que pertence a uma das wín.çipaKesía- 
milias da Beira, e que quer solteiro, quer casado, gojsouseflto 
pre da fama d'homem de bem? Não digo que não tivesse 
2 



yGppde 



-18- 
as suas rapaziadas, m^s nunca (oi libertino nem jogador, j 
nem homem de tranquibernias. B agora, como explica o 
setihor p que succedef (Augusto ressona, Alice levaM*st 
furiosa.) EM&o, não está ressonando, como um porco! Sr. | 
Augusto! , 

augusto. O que é? 

amcb. Não sei para que prometteu ajudar-me? I 

augusto. Eu?Ui! Onze e meia! A senhora ha-de des- 
culpar, mas, tenho de mereáiéa^-n&o estou costumado a | 
recolher a minha casa tão tarde. , 

axicb. E 4 tfettosHuaçto qw «ae abandona?! | 

Ai«iriTO. Perdão, minha senhora, mas... 

*mem* Bem, yô *sm Deus; ditosa anilhar a>qi>eesj)*rc ! 
por smi ij^kla. Passarei a noite chorando. 

august* (aparte). Ai! minhas cem libridtou! 

alice (aparte). Heide contar tudo a miobà mfte. I 

au«ijsto (aparte). Quatro centos e cinçQeçta mil réis! 

alice. Então não se detenha por mintfe causa. [Au- 
gusto está pensativo no meio 4a scenq, e daíídôvottasao 
chapéu.) Agradeço imipenso a sua amabilidade W<te re- 
tirar-se, coriheço perfeitamente o que ê esperar e.. (*'e& 
momento ressona Isabel.) Então, não se deixou dftnfr ou " 
tra vez. (Volta-se e vê Augusto de çé admirc&o eofMn* 
para todos os lados.) ' ; \ 

augusto. Qilem é queressonava^Yilmtos b& m 
por toda a sala com curiosidade.) Ui! úiqa mulher fT a * 

ali€i, Aí, é minha mãe! 1 , ?*'* ' i 

sceka xm l 

.• •■ f • • • 4 - .<• t ... 4 

AMCB $ ■•***» ..-+ - • < 

i«a*sl. Oh! minha blhaf J^ suppunhja que esll^ 
nolbeatroíB teu marido? Es()erel <çué viessem porque cf' 
ria falla^íties d f um assumpta que me interessa muif e 
aão quis esperar para amanhã. Então vaes bem, á\¥ 
te*te? i 

aucb, Ifciitò! Muitíssimo! Se soubesse coxno A- 
<*m*nte> / 



yGooQle 



I 



-19- 

. Ha seguramente quinze dias que náo. vejo 

Jayme. É verdade que a ultima vei que estere em minha 
casa preguei -lhe umlBermãosinho ejulgb que 'ficou amuado 
comigo. Continuas dominando*o? 

aucs. Muito? 

ibabei*. iá sabes o que te tenho dito; com os mari- 
dos deve fazer-se o que o meu faria com os pobipç, Poucas 
palavras e de certa distancia, (tas vamos ao meu negpcio. 
Tenho como sabes um génio especulador. Se fosse homem 
teria ganho fortuna iromensa ^ommerciamio^Hfi^Igdm 
tempo que fiaçocertos negociosinhos por se^updkpepsoa. 
Tenho um agente, um homem muito laoonop e enten- 
dido; caracter probo e honesto, irmão de dez írtbandadás, 
o qual tem feito grande fortuoe emprestando qinheíro a 
40 réis por ca(da cinco tostões, Chama-se BeotpCorqeiro. 
Desde o mez passadç que me administra os meus fundos, 
e temos augmentado consideravelmente! . 4 , 

alicb Sim? é , [, . 

isami*. Hootem me disse elle que tinná feito um 
empréstimo a uma pessoa distipeta que se víq em certos 
apuros, e de cujo negocio lucraríamos uas 55 jpqr cento, 
e com toda a segurança porque o tinha apanhadp de ma* 
neira que ou paga no praso marcado, op yjie direitinho 
para a cadeia. À este respeito vinha eu consulta Jayme. 
r Aonde está este homem? 

Amem. Jayme! Ài minha querida mãe! Jíiynje per- 

{iMpu. que dizes? 

Vucb» Úué estou afflictiãaima minha nA^esfô casa 

Inão é o que foi, Jayme ama uma loirai 
>S [Wbii. Uma loira! Méii çènro tem uma íòi^ljBu o 
j e (fanjarei! Já déstès parte á justiça? , .,1 * ,-\ 

]a íliucB. Para que? 
(jí^sAWBc. Para que lhe dêem uma lição. Aonde está 

Jk monstro? 
tituev. Não se sabe d'elle; julgo que anda por ahi. 

mama. Com ella? 

jtucx* Talvez. 



i 



y Google 



— 20 — 
i»abel. E que pensas fazer? 

• âEice;'0 qúe minha mãe entender../ . " f %rr ' v v 
isaae*,, Em primeiro logar as portas! devem desde jà 

fechar- fcè. ; 

Alies. Para que? 

isa»el. Para que quando recolha iiSo possa èhtfar em 

;cató,""V ,! ' ' " V"*" 

alice/Mbs eu queHa que vòltásste. 

ieabíb^. De nenhum modo! Serás tão pateta que lhe 
* perdoepT 

' ALICE. Eu... '' ' 

■ iiiiil Nada, nada! Tudo se acabout Dò contrario 
provas qtte ctjnserítes em Oue felte adore por ahi a todas as 
mulheres. , " . , : 

ALid. Teto rasto. 'Não* lhe abrirei a porta. 

maiiel. Elfe tém' necessariamente que recolher para 
/r dormir "e 1 quapdo vier então fallârèmos. " % 

alicb. Mandou dizer qtiè não vitíha. 

isajeel. Ah sim? não importa! Põe um challè v é 6 chaJ 
petí e acbmjrànba^me, ' % + *•*> 

Àtkckf Aonde vamos? 
""xn/imitisk polícia! ' 

ÃiiijcÊ/Pafa que o procurem? ' s 

i*abíbl. Sim. Outro dia sutaiu-sé-mé ò totó, e... 
' àléce.' E quer comparar Jayme com um èão, isso d« 
nenhum modo. 

íbà^ebl. Vamos, fámòs sein demora. * * ?f 

Alice. Que bonita situação! Uma mulher como eutei 
que andar por çssas ruas proi&randòò htiarldtfl * " 

ieabwl. Úma lbifo! iátd nãô se pôdjB tolerar "í^at) es si 
ajnplher de Augusto é tóirà?, 

alicb. Nsto, tainha mãe, ô grti: T / " ' ' 

i. Vamos, vámois. . ' ' "' 



yGoogk 



^33B 



— 21- 

SCENA XIV 
as mimai e Ai«vsf« 

aw. Está uma aoite d'agua! 

isâin. sr. Augusto! 

Aiwvm. Minhas senhoras! 

amec*. A esta» horas! 

Av«vm« Perdfeu-se minha mulher! 

alicb. que diz? 

Aueu**** Nada! Tem a bondade de tocar fofferece- 
ihe a mão) estamos em idênticas circumstaticias. 

âuor. Mas que acontece? 

atoum». Isto meômo que lhe digo ! Quando recolhi 
a casa dis»è-qje a creada, que minha mulher rondo què 
eu tardava, saiu coimo uma fera ém mihha procura. 

AEie». Fez mufyo b$m. 

amim»* Egraças que me nfto encontrou, porque 6 
«Taquettas que tem um geniò ferio» e... > ' • < ■ 

alice. E o senhor o que fez? 

ÁUtoMM. Andei por toda a visinbança indagando, 
como quando se perde um canário, mas sem 'resultado, 
sabe Deus (tilde irá procurar -me. : A 

Atra*. E qoe pensa fazer? 

augusto. Passar aqui o resto da noite, se m'o per- 
mittem porque eu é que já nfto entro para cata atar ser ília 
claro, e sem que um amigo me acompanha. Agoranvasmo 
etocotottei íayrne. •.••..--» 

alicb. Jayme? 

vMikWkw*. Jttyme? (Levanla-seJ 

augusto. Porque, já o tinham dado por morto? 

AxScÊ. Náo. E que disse? 

AUttuénN». Ia com outro. 

I9ABB1*. Diga, diga. 

augusto. Apenas me viu dirigiu-se a mim, pediu-me 
algum dinheiro e foi andando. 

aucb. Pediu*lbe dinheiro! 

augusto. Cinco libras. É quanto tinha comigo; disse- 



y Google 



— 22 — 
me que era para um negocio de momento, e... não tive 
mais remédio que despejar as algibeiras. 

isaibel. Que vergonha! 

alice. E o oiitfo quem eraf * * 

aij«ij0to. Conheço-o muito bem, mas não Ikesei o 
nome. • •« * • 

isabel. Ab! conhece o? - * . ... . 

augusto. Perfeitamente. Faz agora- um anão que me 
roubou o relógio, á saida do theatro de D. Mana. - 

isabel* Sr. Augusto! 

alice. Não creio que meu marido acompanha com essa 
classe de gente. 

ao«csio Acompanhe ou deixe d'acompanhari o< que 
posso asseverar-lhe é que o individuo com quam o acabo 
de encontrar era o anno passado um d^ssesgraftmos muito 
conhecidos da policia. Talvez que tenha mudado por den- 
tro, assim como mudou por fora por que o vejo mâgni6- 
Camente vestido, (Isabel senta-se no sophá & chorai 

alicie. Mas djga-me sr* Augusto, o que é que succe- 
deu a meu marido? .; » , t -. 

augusto* Não o sei; mas prevejo que ntôoajida por 
bom caminho. 

alicb. Porque não lbe perguntou onde ia? 

augusto. Vi que entrava para uma casa da arao do 
Bandeira., ' ** - 1 , . 

isabel. Ko arco do Bandeira? Iria visitar-me. 

augusto. V. ex. ê mora ali? 

isabbl. Sim senhor. Quer v. ex. a ter a bondade de 
nos acompanhar? . í ,„ - v. 

ALicB. Vamos, vamos. Aqui tem o seu chapéu de 
chuva^ .... 3 .^ 

augusto (aparte.) Outra vez em marcha!. NfcMnfe 
falta mais do que encontrar-me com minha multei. ■ \ 

isabel. Vamos de pressa. (Saem.) < -• , * • *• 



yGOQgft 



— ?3 — 
S.CÇNA. XV '' .'""' 

JATME» SÓ 

(Entra com q chapéu wçtinado para traz, a gravata 
solta, o chapéu de chuva aberto, e ao hombro pingando 
agua. Vem distraído e passeia de um a outro lado da 
sala.) Viote e dois, trinta e dois, quarentae dois, cinpqenta 
e dois, sessenta e doi$;.. seséenta e dois por? ym lado e 
cincoenta e ciqco por outro.., -si o), é isso mesmo, ,£js so 
mesmo... não haja duvida que a fizemos bonita^, t gO£so 
limpar a mão á parede! Parece que Unão chQve(...*Àb! 
estou em minha casa! Será possível? Ainda., tenbp casa! 
Minha mulher dorme a somnq solto; mal poderli/p^gipar 
que não tenho cimo réisp^va o dia d'á*naulxã! É por causa 
de quem? (Tira um retrato do bolso.) Por^àsa d, esta in- 
fame! És uma ingmta, uma pérfida. Arruineí-mê por 
tua causa, dei-te toda a minha fortuna, fiei-me em ti como 
se foras a minba salvação^ e tu... (Assustado.) Que é isto? 
Não Sfe^ferá deitado ainda^trtifunifltíery^^qw&tóe im- 
porta! Perdido por cem, perdido por foihOjesçand^lpéyie- 
vitavel, que venha, necessito do golpe finalj Ãgòra cpèsmò 
voo sair e não volta mais! Não jeqbo r casa ( , não tçnhplfa- 
milia, não tenho cinco réis de meu, não tenho i^tda^ You 
por esse. mundo de CbristjQ,e que Cbri&to me y^mdlJYae 
para sair no mesmo injstafyte em que miram, ' \sa$el[e Atice 
pelo braço d' Augusto) '. tJi! \'l ' é t 

SCENA XVI ,'"' ." ' \\-]', ,. 

IMBEIi» AIíICE» AUCWrTO, 'é éfk*Vi.k* l # 

haubi»» Senhor! Felicito-o, e feHcítpmç de (x, ^en- 
contrado. 

«atmei Senhora!. , *.»..■. 

amciu E em que estado veml . : 

Avelino. Parece que o socaram! 

xm»«i* Senhor,! , t ,., , vf/ 

I amcb* Estará doente? 



i .V** 



y Google 



-24- 

isabel. Para o senhor não sou senhora, sou o juiz que 
deve julgar o seu irreguWpíocetiíniento, e que o hade 
condemnar com todo o Mgpiv.flçç goerece. Apenas me de- 
rs|m conhecimento do dblorçso successp de que esta casa 
erâ thèétro^tfvè <juè intervir cbmò era natural, e viriba 
èiítír-lhèféstrictas contas do' séu irre^War cona porta- 
mento! 

íavjie. Senhora, eu governo em minha casa, e só a 
mínba mulher me éumpre revelar a minha vida privada. 
'íWÀBBit. Sua ínulhernâo pode nem dèveouvíl-p: 

Íxicb. Sua mulher, minha mãe, deseja oiívilo. 
«Abel. Mihha Blb;à... 
aijci70*o f aparte.) Qúe bèllfssímá noite! 
#à*áib. '^lipe, cbajtljfo é com quem tenbb que fatiar. 
(Aliei faz signal 'a hábil c a Augusto para que se retirem. 
Saem peia díreiija.) 

;;■'" ; ; ; ( ■ ^cbn^ tiLtWA 

ÂMCK. íáyme! ,* " 

'pAJihiR* fchegastê no momento decisivo. Um instante 
mais djéjxarià esta casa |)ára sempre! 
'^i^ircjé. Tu? 

$kipik*Jtá qúe 'èstõú lotoeo, que êstòu desgraçado. 

Alice. E querias àbàridonâr-çae? 

lATnc, Para sempre. 

ALICE. Ài meu Deus! Como são os homens! 

jatme Escuta. •'• " > 

aliçc^^i guç.wlte fa? , . t 

jAYWKp Escuta. 

ALtcB. Que motivos te déí para procederes 'dè*seme 
lhante modo? 

mthb. Escuta! Não me deixas failar? 

Alice. Sem pensares qúé ficara sô fco muudff, tíeêgr 
cada! '* 

jayhb. Mas se estou aqui, se não fui, rep&rfrque 
tou a teu lado. 



ra 



-^25 — 
alice. Que borr.qr! '^ 

*' in^nm, (chegando ápòriaidoquprlo.j Saio? 

#a*íwe., Não senhor, não é preciso, ^aes saber toda 
a verdqdç. ' " ( ,' '[J '".. " 
. alice» Sei tudo, hométa. sei tfadó! ' fí1 ' ' * 

.ALicE. Sift}. /Sei 4dé já iiâo íne* amas, qué todos ôs 
teus áffeclos' são para outra, . ^aVa outri qiíè jè vòltoq o 
juizo, que... ' : , : '' 

#atiÍ«. EntãoAfícefr /' " //. : : .:*" ( ,/ 
ALira. .Oúejii me dera deixar este 'mundo 7 , tara mim 
já nãò ba satisfação possNèl. "^"^ 

«ayrpe» Attepde... .V"'" ",' ' "j v " '' * : *'' : " 
alicie. Uma mulher cotòo eu, qtliè nãò penVàH ínais 
que em adorar-te, que U bprdaTacIúhélia? todos os iiià- 
bos, que, o m^u maior, prazer e^a acompanhar-fê àtóda a 
parte, ortiar-tè os lenços dirirciães e ler-té xítftáAode 
Noticias.., Que motivo tè dei parVquç prtfcurés d ámòr 
dWrasiiiúlberès?... '" < r '***- 

*a™v. '0 qiíe dizes?/ ; < / , ; } /:'..:" ' ",,'' '*" " ' 
alice. Outras mulbètés^ ^ítiávimíi^ijjas gif^iftô^sei? 
isabel (da poria tio quàftb!) Pofcso sajf? * * ' * * 
jayme. Sina senhora, d*ahí pa/a o iíiferpd.*' * # ** 
alice. Não, minha mãe. " ní 

aAYuiB. Adeu??,, . ^ : " • •; ;. • •"** 

ALtcE. Jayibé, fMqmehto, fie tifVrièioj : ' * ** ** 
mimb. Peçò-te que socegués. Vqh refeífcftTcóíírtoda 
a exactidão o que me succedeu. Estatiioá perdíddí/* 
ALicB» Perdidos? V , '" ' ? *• 

*ay»s. Sim querida, Alice, cottipletartíente # rfírBfdõs r 
arruinados, deçgf^çados, fiíà' fatalidades inevrtárefs'!.!; 

Alice. Dize anteà que nSosòubesteè evitaf a hdá&*des- 
gráça. Sei pérfeitátòente qdal é aorigèto de *tffri4ta 9 .e 
nãoé élla qtfe me faz tremer. Pòiíco me atormentaria a 
miséria, se ao mesmo tempo det?i'à àrintifitciarètf M^dig- 
sesses: Alice, .estamos desgraçados, mas^mo-WlâdtíH to- 
' das as coisas do* inundo^ e este sentimento irifeFdiífalor 
para recúpfchtf à perdido. Mas tu não me dizes fttb, pcfr- 



y Google 



-26- 
que o nfto gentes, Dizes-me que estamos arruinados ê ca- 
lasrte como se a estas palavras acresceUtàsseâ^est&taos 
em occasião <je nos separarmos para sempre! 

lAfiis. Para sempre?! Que estás dizendo?. íihaçinâs 
acaso que o meu coração fugiu com a.miqha fortuna? Es* 
tranho a tua linguagem. Pensava encontrar eriaYi paláVras 
de conforto e encontrp Tecriminàçòés. Julgas ^úè a causa 
da minha ruiúa foram mulheres, e.l - 

alicb. Pertendes negar que outra mulher jp\ qttem 
cavou o teu infortúnio, quçm te arrastou ão aí>jsfnbr 

«athi. Quem te disse simflhante coisa? Quem véió se- 
mear a discórdia n'esta casa? \ 
. aucs. melhor dos teus amigos, á queda' ty mesmo 
couféssasies quantp se passava. 

lâTKi. Àuí foi Augusto! 

AI.MB. £ náó çòrasidé vergobtia! nega! nega à paixão 
que gentes por essa loira que te fez perder o júizò! 

lATiB Pertlòa Alice, perdoa, e eu te explico tudo» 

amcis. Perdoar-te quando me não negas (jpe, a amas? 

JAYME* Ç se eu t'a íwsse conhecer? 

Atice* Bupliéaria a painha cÒlera! 1 ■ 

*&▼■«*,' E se ao vel-a ine perdoasse*? , . .' "' 

alicb. Impossível! ' "'"*•/•*♦ 

«athk. Aoui tens o seu retrato. ' ^ ' * 

Aiici. Ab!l!/Fiei|dò o rçtratoyue lhe dá fayme.) 

**Ym. teu perdão Alice! (Ajoelha./ 

Alies. Era esta*... 

#ATHB.Perdoas-me agora? A , , , , 

amcub, "Que vergonha!... , . '[ 

#ai<e. Que ninguém saiba!... 

ajjIcb. A ruina, ç talvez 9 descrédito! t M / 

iathi. Amanhã, ao meio dia devo pagar quatro cou- 
tos de réis, se os não pago... posso ir para a cadeia. 
. auce. Para a cadeia! 

nmAmmi, Para a cabeia! 

íaiiiib. Constítui-me jQel depositaria d*está quantia e 
o meq credor, o sr. Bento Cordeiro, é um bomem inexo- 
rável. 



_^ Digitized by VjOOQ IC 



-27— , 

ai«icb» Bento Cordeiro! 

mabbi*. Ai! (Coe desmaiada n'uma cadeira que deve 
atar entre a porta do lado diteitoj 

Mfní. que é isto? 

aucb. Minba mãe! 

accutsto. Agua, agua? (abana- a com as aba* do ca- 
saco.} 

imsiim Assassinou-mef 

j^TMi* que diz ella? 

itAni* Esse dinheiro.,, era. b ijaeu! 

alzcb. Ab! Bento Cordeiro... 

au«u«t«. Enganares assim tua sogra. 

alick. Minha mãe não consentirá que o prendam. 

mabbl. Não... 

lAinK. Senhora... 

mabbl. Quatro contos de r&sí.Toda a minha fjrtuha? 

auc*c»to. Eu conheço alguém que se contentaria com 
cem libras. 

jaymb. Tranquilisem-se. Minba mulher já me per- 
doou e juro de nunca mais lhe causar o menor desgosto. 
Amanhã deve sair no Diarioz minha nomeação de direc- 
tor das obras publicas de S. Thomé, d'onde lhe enviarei 
as quantias que lhes devo» [ ' 

aucwoto (aparte.) Do mal o menos. 

alicb. Juras que não tornas a ir procurar a loira? 

jaihb. Juro. E que ninguém saiba o seu nome, que 
todo o mundo o ignore. 

alicb. Isso não, porque o negro vicio a que rendes- 
tes culto, não tem melhor castigo do que o da reprovação 
da gente de bem. Quero que todos saibam... 

javhb. Então... 

Ai^icE. Que a loira era... 

mabbi,. Quem? 

mimb. Que humilhação! 

ALicc Era... a dama de ouros! (Mostra ao publico 
a carta de jogar, que indica.) 



y Google 



-23'-' 



x ., QÀOTÁ : 




Se a peça acaso agradou, 
• Duas palmas, mespao m«fis 
È pedido que vos faz, 
actor em casos taes. 


; ' . . <• * * > r *'j * a 


Certo da vqssa indulgência '; 
Com ellas pôde contar? 
Julga até quasi septit-as 
Aos ouvidoã echòár. 


[ , *> 1 tf !.*# » .-. 


Mas se quatro vós nos derdes, 
Será o caso melbor, 
.levaremos ent&o 'doas 
fresta peça ao imitador. 




CAE PAJiNO 


M • . 






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# 



DIOGO JOSÉ PROMENHQ 



-t ,- < 




COMEDIA EH 1 ACTO 



Representada com applauio do lheatro da Rua dos Condoí on 1870 



D. J. S. 



PREÇO 120 REIS 



DIOGO 8EROMÊNHO 

«nxxoxt 

LISBOA— 1879 



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CONTOS SEM POESIA 



POR 



DIOGO JOSÉ SEROMÊNHO 

Condecorado com a nedalha ao mérito, 
S(*eio booorario do Grémio litterario portuguez no Pará, rtc. 



UM VOLUME NITIDAMENTE IMPRESSO 

COHTENDO 08 SEGUINTES iUGIlfâES 
1 Valei aos desgraçados. 
II As reuniões cio sr. Procoplo. 

III Uma tragedia em família. 

IV A. navalha. 

V As filhas da sr. 1 Iffnez. 
VI Flem-fitc em mulheres. 
VII Martyrios soeiaes. 
VIII Pena cie talião. 

 VENDA EM TODAS AS LIVRARIAS 
PREÇO 

Portugal 500 réis 

Brasa 10000 » 



r^ . >• a. .. ~ - ~- 



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COMEDIA EH 1 ACTO 



POR 



DIOGO JOSÉ SEROMENHO 



Condecorado com a medalha ao mérito ele 



Representada no tbeatro da Rua dos Condes em 1370 




DIOGO SKROMÊNHO 
«»XXOR 

LISBOA— 1879 



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PERSONAGENS 



L*> 



RODRIGO, estudante de medicina 
JEROHYMO. seu amigo. 
FRANCISCO, alfaiate. 



DM EMPREGADO DE POLICIA. 
JOAQUIHA. costureira. 
ROSA, creada da hospedaria. 

A acção passa-se no quarto de Rodrigo, n'uma hospedaria.— Actualidade. 



ACTO ÚNICO 

Um quarto com portas ao fundo e lateraes, verdadeiro quarto 
de estudante, livros, papeis, quadros, um toucador, um cabide 
■> com fato, uma commoaa pequena, tudo de pouco valor. 

SCBNA I 
BODBieo em mangas de camisa examinando as calças 
fliAe indica ter acabado de vestir 
Não estarão "tauito más estas calças?... também apenas 
as vesti três vezes... E a rapariga sem apparecer, e o al- 
faiate sem vir. (Vae ao toucakor e alisa o cabelloj O ca- 
belleireiro fará o resto. (Vae á commoda, tira um lenço, 
uma gravata e um par de luvas J Belio, luvas, gravata, 
tudo do trinque, no lenço é de rigor uma pouca de essên- 
cia. (Deita essência de um frasco, cheirando. J Ah! ma- 
gnifico. E a casaca, senhores, e a casaca! Morro de impa- 
ciência, o coração bate-me apressado, parece querer sal- 
tar-me fóni do peito. Vou vel-a, vou fallar-lbe... que me 
dirá? «Li ;is suas cartas apaixonadas, amo-o?..., se assim 
fôr respomio-lbê ajoelhando a seus pés: Luiza, encanta- 
dora Luiza! Vejam lá, calças afortunadas! se vão agora 
romper-se, reparem que vamos ajoelhar diante da mulher 
mais formosa de Lisboa, de Portugal, da Europa. 

SCENA II 



e 

' BODBieo. E não a trazes. 

bóia* Pois se não está prompta... 

bodbicíÒ. Áfa! que se não fosse precisa para um ta 
acto, tinha alma de ir a /casa do alfaiate e fazelo em pt- 
daços. ^ 

boba. Disse-me que altaya passal a a ferro. 



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— 3 — 
kicio. Raça cTalfaiates, raça maldita! E não lhe 
disseste?... 

nos a. Que o senhor tinha pressa, que estava impa- 
ciente. 

BODBieo. E que mais? não lhe disseste que j 4 estava 
vestido? 

bóia. Disse, senhor, disse tudo. (À parte.) Que seca! 

■onniGo. Ha oito dias! é incrivell 

rosa. Não foi á falta de lhe dar pressa, eu bem via o 
desejo que o senhor tinha de ir a esse baile. E Deus sabe 
quanto eu quereria que o não houvesse. 

roobtoo. que? que tens tu com que eu vá a um 
baile? 

nos a. Ai! sr. Rodrigo, como o senhor se esquece de- 
pressa... ingrato! 

dodbioo. Oh! pequena, calla-te agora com isso. 

romã. Sim, calla te, calla-te, logo vi! Querem que uma 
pessoa tenha coração de pedra, e que nem se quer diga. . 

BODBifio (indo a cila com ternura). Mas menina, não 
é um baile como qualquer outro, é uma reunião, mas uma 
reunião scienlifica, de médicos... de médicos e nada mais. 

bosa. senhor engana~me. Pensa que não o ouvi 
dizer três ou quatro vezes que ia a um baile? É a um ver- 
dadeiro baile, que o meu coração não me engana. 

boobicio. PoÍ6 seja o que quizeres, mas deixa-me... 

bosa (com malícia). E dansam homens com homens? 

noDKicio. Exactamente, é muito melhor, dansa-se 
mais tranquilamente do que com senhoras, sempre a 
gente se distrae... 

nos a* Bem te percebo!... 

BODBieo. Faze favor de não me tratares por tu. Para 
a outra vez deves dizer: Bem percebo a v. s. a 

bosa (rindo). Pois não, espera por isso. 

bodbi«o. Olha, vé tu se me abotoas este colarinho, 

no«*. Proraette estar quieto? 

boi>bi6o» Prometto sim, que lembrança... 

no«A« É que ás vezes perco um tempo infinito com 
estas cousas... por culpa sua, já se sabe. Prompto. 



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_4 — 
bodbigo, Agora a gravata. 
boía. Também a gravata?! (Campainha dentro, Rosa 
deixa a gravata.) 
bodbicío. Corre, vôa, vê se é o alfaiate. 

SCENA III 

BODBIGO e VBANÇIBCO 

BODBifiOt Se não fôr elle, corro a sua casa e faço 
um escândalo. (Ao vel-o entrar.) Ora graças a Deus! 

FRANCISCO (entra apressado com mau modo, e atira 
de arremesso para cima de uma cadeira a casaca, en- 
volta rium panno preto). Ahi tem o senhor a sua casaca. 

BODnifio. Já não é sem tempo! 

niAHCMco. E que quer dizer o senhor com isso? 

bodbigo. Quero dizer que podia ainda demorar-se 
mais oito dias! pois não... 

vbaiichco* Ah! o senhor imagina que isto é o mes- 
mo que cavar com a enchada? 

bodrigo. Não senhor, mas. . 

ibanciico. Isto não é atar, dependurar e pôr ao Ca- 
rneiro. 

bodbigo. Com tudo, oito dias para fazer uma ca- 
saca!... 

Francisco. Uma casaca, uma casaca) Então pensa 
que por não ter as abas completas se faz mais depressa? 

bodbigo. que eu sei é que ninguém mais é tão 
demorado. 

tbamciico. Ninguém mais? senhor falia d esses 
estabelecimentos aonde se cose á machina, tudo tão bem 
cozido que em rebentando um ponto trrr... lá vae tudo. 
Quer comparar a minha casa com essas quitandas, das 
quaes disse com rasáo, um collega meu que era poeta : 
Nunca saem as cousas ás direitas 
De nenhum armazém de roupas feitas. 
bodbigo. Mas eu não comparei... 

Francisco (dramaticamente). senhor offendeu- 
me, ultrajou os meus sentimentos artísticos, e portanto... 
(Agarrando na casaca, e dispondo-se a sair.) 



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bodbigo. Que vae fazer? 

yramcisco. Levo-a. 

rodbigo. Nada, nadar, ouça cá, mestre. 

fRAwciNCo* Mestre?! mestre?! eu sou professor do 
nobre officio d'alfaiate. (Vae a sair.) 

BODBico. Venha cá homem! eu bem reconheço tudo 
isso... 

vbauciiico Os senhores fornecem-se d'esscs estabe- 
lecimentos que lêem o fato mettido em prateleiras, em 
que não ha mais que quatro medidas para toda a huma- 
nidade, pura obra de fancaria, tudo torto, tudo mal feito! 
E quando um dia se vêem em apuros e querem uma peça 
bem talhada, bem cosida, recorrem ao verdadeiro artista, 
e queixam-se de que elle não trabalhe depressa, e por 
pouco dinheiro... ah! (Com sentimento.), 

BOhBioo. Orávamos lá, socegue. (Aparte.) Ah! que 
se não fosse a precisão?! 

vrawcisco. Olhe para assas calças, não se envergo- 
nha de sair com ellas? 

bodbioo, Estas calças... t 

ffBANCiflco. Comprou-as no Nunes? / 

rodrigo* Não senhor. (Aparte.) Demónios te le- 
vem! (Alto.) Mas que tem as calças? 

fbaucisco. Parece que as talhou um barbeiro, todas 
tortas!... 

Bonmeo (zangado). Gosto d'ellas assim. Mas a ca- 
saca... 

vraacibco. Bem sei, se os senhores não tem inspi- 
ração artislica, como hão de poder apreciar... 

rodrigo (á parte). E elle a dar- lhe cem a arte. 

vrancibco. Sabe o senhor, quantas rectas e curvas 
tive que traçar para cortar- lhe esta casaca? 

noimicio (zangado, á parte). Ora a minha vida! 
(Alto.) Eu sei cá! 

yran cisco. Eu corto por geometria, porque estudei. . . 

rodri«o (zombando). Pois não, por geometria. 

WRAJVÇI8CO» Talvez o senhor não a saiba. Sabe acaso 
o que 6 um triangulo? 



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-6 — 
(á parte). Este diabo é doido! (Alto.) Sei 
que já tenbo a paciência apurada! 

fbamciíco* Sim? pois então adeus. (Dá meia volta 
para sair com a casaca.) 

bodbico (correndo para dle). Venha cã sr. profes- 
sor!... 

fbascisco. Não me faz favor nenhum. que quer? 

BODBieo. Então decididamente leva a casaca!? 

vpANCiftco. Vá lá, por dó do senhor eamor da arte, 
abi a tem! (Atifa-a para cima de uma cadeira). 

bodbiqo. Ora! graças a Deus! 

vBAit cisco (correndo á casaca, desembrulha a e 
mostra-a com orgulho). Abra-me bem esses olhos, veja 
estes pospontos, examine este caseado, admire esta ele- 
gância de corte. Mas que estou eu a dizer? senhor não 
percebe nada dislo. Se tivéssemos vergonha não traba- 
lhávamos para certa gente. Ahi tem a casaca. Adeus. 
(Atira com a casaca e sáe apressado.) 

SCENA IV 

BOBBIfiO e BOM 

bodbigo. Vae-te, e agradece a Deus o ser-me esta 
noite a casaca mais precisa do que o ar que respiro, que 
senão... (Indo á porta. J Rosa! Rosa! 

momA. Aqui estou senhorh 

BODiExcto* Anda cá pequerrucha, tens as mãos lim- 
pas? 

bóia. Estão puras. 

bobbicío (careta duvidosa). Sim?!... põe-me a gra- 
vata. 

bo«a (com malícia). E o senhor estará quieto? 

bodbigo. Oh! mulher não me enfades mais que não 
me causticou pouco esse artista alfaiate. Se não fosse 
precisar da casaca para esta noite!... 

boba. Para dansar com os médicos... bem sei. 

BODBifio. Não me deixarás também! (Campainha 
dentro.) Ai! Ai! (Agarra na casaca.) Se fôr o alfaiate , 
diz-lhe que não esto.! em casa. Salve-se quem poáer.fSáe.) 



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— 7 — 
SCENA V 

BOSA e JOAQUIN A 

joaqvina (mulher desenvolta, de cachenez, e cfiaile, 
todo de grisette, com um par de calças no braço). Então 
não está em casa? 

bóia findifferente). Não senhora. 

JOAQUIM*. À menina faça favor de não m'o negar. 

ro»a. Não sei para que, que interesse tenho eu com 

Í3SO? 

joaquina. Até agora ainda elle se me não negou... 
Naturalmente já sabe que entre nós... 

bosa. Não me metto com essas cousas. 

joaquina. Já vae para quatro annos que... e nãt> te- 
nho perdido pouco, sim! porquê com estes namoricos sèto- 
pre uma mulher perde. 

nofliA. Pois se perde não jogue. 

Joaquina. Não, é que eu tenho direitos adquiridos, 
e vendo que talvez não tarde muito que não se porte mal 
comigo, vim... ah! homens! homens! Mal sabe a menina 
quantos desenganos tenho soffrido! 

rosa Pois está visto! Quem anda à chuva molba-se! 

Joaquina. Tenho-lhe notado ha dias uma certa mu- 
dança. Por isso vim para ver se poderia dizer me uma 
cousa que desejo saber... 

BONA. EU? 

Joaquina Poiâ não sabe o que ha! 

bóia. Pois se ip'o não di?se! 

«oaquina. Eu sou costureira d'alfaiate e soube por 
uma de minhas collegas, que este senhor mandara fazer 
uma casaca. Mas para que quer elle casaca?! um homem 
tão commedido! 

rosa. Não acho extraordinário... 

joaquina. Sim, como a menina não está ao facto 
das cousas. Um homem que manda fazer uma casaca e 
que está nas circumstancias d'e)le, é um gastador, um 
libertino. Que diriam de mim se me vissem de sedas & 
v^udos, de chapéos á moda, rendas, fitas?... 



y Google 



— 8 — 

bom a. Eu cá não dizia nada. 

joaquima. Heide saber para que é a casaca, olá! se 
heide saber! Heide fazer tal gritaria que até ti hão de ou- 
vir os surdos. Se zombar de mim mando o passear, não 
supponha elle que me traz pelo beiço. 

boiia. E faz muito bem! 

joaquina. E agradeça a Deus não ser vu vingativa, 
tenho um coração de pomba, senão eu ItTo diria, não 
havia de faltar quem lhe tomasse contas do seu procedi- 
mento. Apesar da minha infelicidade ainda não estou tão 
abandonada como lhe parece. Finalmente se me não põe 
tudo em pratos limpos a respeito da casaca, pôde ir com 
Deus, era uma vez! 

iiosA. É o que a senhora deve fazer. 

joaquina (despeitada). A modo que se interessa 
muito porque o ceixe! Teremos mouro na costa? 

hosa (zangada). Não tenho que lhe dar satisfações! 

Joaquina. E mesmo não é preciso, bem se vé por 
Jini tal interesse; mas tome conta, tome bem conta. 

boba. Mas em que? 

joaquina. Nada, quem me avisa meu amigo é. De- 
pois disto sua alma sua palma. 

bo8a. Ora muito agradecida. 

joaquina. Deixa-me ir embora que não estou para 
exaltar me, senão sobem- me as cores ao rosto, e é um 
tormento, quando saio corada, com os endemoninhados dos 
homens: que bel lesa! como vae linda) que bellas cores! e 
outras que taes tolices... Voltarei mais tarde. (Vae a sair.) 

rosa. Viva. 

joaquina (voltando rápida). Faz-me favor de um 
copo d'agua. (De repente.) Não, não, da sua mão nem um 
copo d'agu&. (Sáe.) 

SCENA VI 

BOSA e BODBieO 

BODBiG* (entrando, traz a casaca e põe- a na ca- 
deira.) Ainda bem que se foi) Julguei que ficaria aqui 
eternamente! 



/ 

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-9- 

rosa. Sim senhor, bonitas cousas açabp de saber, e 
ainda ella Dão disse tudo... ingrato! monstro! a minha 
vontade era chorar... mas isso não, que fico com os olbos 
vermelhos. 

Rodrigo. Tens quasi rasão. Mas, que queres, nós ho- 
mens de sciencia não podemos ter amores fixos, comos 
como 4 borboleta, que ora piusa aqui ora acolá.. i é ape- 
nas uma distracção. 

bo»a. Que boa peça que o senhor é! 

rodrigo. Ora ainda bem que me coiuprebendésVfFpa 
para abraçal-a.J 

bou (fugindo-lhe). Abaixe o leque. (Ápparece o pç- 
lida. Rosa sáe.) 

SCENAVII * ■ "\. 

empregado e bodbi«o 

■MPBE6AD*. Viva meu senhor. Venho fa#er-lhe uma 
pergunta. 

noiMneo. Queira entrar e diga. 

EnpBCGAiDio. Ba pouco saiu (raqui um homeni. 

rodrigo. Úm. homem... 

emprega no. N^o negue senhor, não negue. 

RODRieo. Cuido que ainda não neguei .. 

empregado» Esse homem trouxe-lhé... não negue 
senhor! 

rodrigo (aparte). Cra esta! (Alto.) Pois eu já ne- 
guei ou affirmei alguma cousa? 

empregado. Que lhe trouxe esse homem? Umas cal- 
ças não é verdade? essas... deixe ver... (Fato andar de 
roda, e examina-lhe as calças.) Volte-ôe mais... 

rodrigo» Mas vamos nós a saber, o senhor veio di- 
*vertir-se á minha custa? 

empregado. senhor não me conhece, nem sus- 
peita quem eu sou? 

rodrigo* Que me importa! 

empregado. Mais respeito senhor, mais respeito! 
que lhe trouxe esse homem? 

rodrigo. Mas que tem o senhor com isso? 



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-10 — 

KMPBECAiH». Eu venho em nome da lei, fallo-lhe em 
nome da lei. Quer que lhe descarregue a espada da jus- 
tiça como a um receptador. 

BODBicio. £ quem foi que Ibe disse?... 

RnpBB«Abò. Vamos, que ibe trouxe esse homem? 

BOBBifio* Com mil dejponios ali está o que elle me 
trouxe. (Á parte,) Então bein! Por acaso mandariam sair 
os doudos de Rilbafolles? 

empbe«ado (lira da algibeira um papel, e olhando o 
voe ao mesmo tempo examinando a casaca). É isto mes- 
mo. Meu caro senhor, segundo as ordens que tenho, sou 
obrigado a áprehender esta casaca. 

BOBBifio. É o que eu digo. Serão hoje treze e terça 
feira? 

■«PBB6ABO* fisia casaca foi rouhadai 

BonitMO. Ui! com mil demónios! mas ouça, o senhor 
engana-se. «... 

EBPBEfiiiBo. Deram uma queixa.no commissariado 
do roubo de diversos objectos de casa de um alfaiate, e 
segundo os apontamentos que me deu o meu chefe tenho 
a convicção de que este é um d'elles. Comprehehde agora 
que está na presença de um empregado de policia. 

bodbigo. Mas senhor... esta casaca mandei eu fazer 
ha oito dias, tenho testemunhas, posso' ir com o senhor a 
casa do alfaiate, mandei-a fazer para ir esta noite a um 
baile d'etiqueta, um caso serio. (Rosa tem ouvido tudo 
entre portas e faz de lá signal ameaçador e retira-se.) 

Ei*ii»BeeAi>o. Tudo isso é muito bom, mas o meu de- 
ver obriga-me a levar a casaca. 

hodbioo. Mas... pôde haver engano... ha muitas ca- 
sacas parecidas... e emfim nós poderíamos entehder-nos... 
leve-a o senhor amanhã... deixe-me servir hoje d'ella. 

ihpbb«ado« Esse modo de fallar offende-me, o se- 
nhor suppõe que um empregado no exercicio de suas func- 
ções possa prevaricar? 

bodbigo. Não digo isso, mas repito, o senhor pôde 
ter-se enganado, supponha que se enganou ou que não, veio 
aqui, e por esse esquecimento, por esse engano dou- lhe... 



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-11- 

wn*mw6Ukmm (indignação cónica}. OW issa «moa! 

■oDBidê folhando- o, e em voz baixa). Dez tostões! 

i9ipbc«ad«. Nunca! eo já disse. . 

Bo»iii(i«. Quinze tostões... « < •", ..»- 

BffPRE«AD«. senhor está agra vande<««o<vp*8ii>ao! 
o senhor quer comprar a consciência de um empregado 
de policia, o senhor quer abusar do que ha qaais sagrado, 
do dever de cumprir qualquer as funeções«tofiau«aftigo. 
Nunca senhor, nunca » */►..•» >. 

■•»■!«• (á parte). Tratante! (AUo.) Bom y bem, ia 
a offerecer meia libra, mas desisto. ■»?.-.« 

EHPBECAsa famenisandosc). V. a^disse* jioie e 
cinco tostões! E na verdade, 4etn <rasao,< faa muita* casa- 
cas irmãs, e pôde haver engano! Deixo-lh'a agora e se 
mais tarde tiver Conhecimento de que é algiMM»4a»iou- 
badas voltarei a buscai a. 

Boaaica. Ora graças a Deus! fDá-lheéink&ir^Hal* 
dita casaca, que já me cosias cara. « - » 

BHraseAn*. Então padse v. s.« muito*befli. (Soe.) 

.SCBNA VIII 

»OB»RB«0 $6 

E que me dizem a esta! Vamos a sair de casa quanto 
antes. (Vê o relógio.) Mas isto é ainda cedo... raeti'Deu3, 
meu Deus, que impaciência! fVae ao cabide, tira um ca- 
saco e veste-o.) Esperaremos. ... 

SCENÀ1X 

• HBKftHO e «EBftOftYlM 

«bmbomy»* Pode-se entrar? 

moamicio f dando um pulo na cadeira). Outro. (Alto.) 
Entra. 

jbubonymo. Então como passas? 

Re»BtB«o. Vae-se vivendo, um pouco entregue aos 
amores, outras vezes aos estudos, estuhdiando também... 
e tu? - ■ • . • 

jbbhhvym*. Eu? mal, muito mal, o peior qoepodeser. 

boinbicu» (À parte). A cantiga do costume! 



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*«tt»iiY9i*« Pois eu jA passei alguma vez bem, amigo 
Rodrigo? passo por ventura bem* meu Roõjrigo, virei ea 
algum dia a passar tem, caro Rodrigo!? . 

moimici*. Pois olha, sinto bastante. 

itaoMif». Por issa auuca nae perguntes como pas- 
sei, perçuiita»fne se tenho passado ainda peor e segura- 
mente te responderei que sim . 

Mtimictto, Estás, então em baixa de fundos? 

«kbomy m*. Fundos! Eu sei lá o que é dinheiro! Existe 
dinheiro no mu ado? a 

b«dbi««. Dizem que sim... ■ * 

*■*•<■»!■*» Uma veiz, foi ba muito (empo, recebi uns 
oofetes, tinira efetado* empregado uai me;ç, desde então para 
cá, se ha dinheiro igUoro-Q. 

ttMdmno /á parte}* Mudemos de conversa. (ÂlloJ E 
que novidades ha? 

^b«o»*»©. Jíi Ufc^e, .ftâo U^ dinheiro. 

Bmmicto. Não 6 isso, dizem que vae haver... 

snumnwimmí Não 9 acredites, isso $p boyatós que os 
do governo espalham. Ainda hontem para se trocar uma 
nota foi preciso reccorrer a ires easa3 bancarias. 

BtMia» (rindo): SiatfMw.&Pfiçal {Pausa J Partici- 
po*te que vou. a um baile... 

««uoirrnot Q mundo é assim, uns sem dinheiro, ou- 
tros... 

■*•■»«■«•• Fiz uma conquista melhor que a conquista 
do México! 

jBK«iifn«. Era de lá que vinham os galeões carre- 
gados de ouro in*ilh tewptrt*. 

koobicio. Ghama-se Luiza, que feições,, que olhos, 
que mãosinoasi 

«BBOiivmo. É rica? 

Boi»Bi««. Não sei, segui- a um dia e ao vej-a entrar para 

uma escada entendi-me com o gpsu* ia-portão, e por algum 

dinheiro que lhe dei, indicou-me em que andar morava. 

«««•nyiw*. Que porteiro tão feliz! deste-lhe dinheiro. 

*•■»«!«•• Escrevi-lhe, respondeu me... olha, lê. fJe- 

ronymo pega na caria e devolve-a sem a ler). 



^o o^_l— r 



— 13 — 
jKBoxvno. Nem vejo com fome. 
■oimieo. De modo que là vou boje de casaca e luva 
branca para o baile, onde me concede uma entrevista. 

iKsonTno (aparte). A um baile, e de casaca, espera 
Já... (Allo.t Pois amigo, ea vinba pedir-te... 
■odbi«o. que? 
jkrobysio. Dinbeiro... 
Roímveo* Sinlo não te servir, porém boje... 
»Rox¥no. Não digas mais, bastantes respostas des- 
sas teiibo eu ouvido., são todos o mesmo! 
BODRiso. Acredita que é verdade, nãotenhodinbeiro. 
iKBOKvno. Ku suppoubo que tu dizes isso deveras, 
lambem eu to peço deveras, já devo tanto! ... empresta-rae 
cinco tostões... 

BODB169. Mas com cinco toscões que diabo queres 
fazer? 

jkhonymo* Nada, que eu não os gasto, faço vista com 
elles em casa do alfaiate e dar me-ba, vendo que tenbo 
dinheiro, algum fato fiado; faço o mesmo na hospedaria 
e a dona da casadeixar T me-ba ainda lá dormir esta noite, 
e ca loja de bebidas, bato com elles sobre o balcão e em 
seguida digo -amanhã pago o café, não estou para trocar 
agora. Vés como se vive?! 

Booiftic2o. Sim senbor, não tens um real e tomas café! 
#KBO\mo. Não posso passar sem.elle... 
Bo»nicso. Pois filho, n'esta occasião não pôde ser. 
jEBowino, Queres que eu passe sem café, e tu, por- 
que não passas sem ir a bailes, sem ter amantes, sem fa- 
zer despesas loucas, comprar casacas, luvas, gravatas, 
perfumes, bugiarias? era melhor que estudasses, que tra- 
balhasses! 

Bioi»tti«o. Com a breca! e porque não trabalhas tu, 
meu parasita! 

jbbomyjio. Parasita! anda, insulta-me. Não trabalho 
porque não como, máo amigo! Tens alma de ir para um 
baile, e de casaca, e deixares estendido com fome no teu 
caminho, um amigo d'infancia, negando lhe uns miserá- 
veis cinco tostões! Oh! bárbaro! A culpa tenho-a eu que 



V 



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•~ w uiyiu^KU uy ■v_j 

— . * é >»_ 



J 

— 14 — 

venho humilhar- me a um amigo, para soffrer ainda em 
cima máos tralos. Nunca assim me portei comtigo! 
rodrigo (á parte). Pois sim, não me commoves. 

SCENA X 

OS MESMOS e JOAQUINA 

JOAQUINA* Viva, meu senhor! 

BODRiso (aparte). Bravo! agora esta! 

joaquiiva. Sabes a que venho? 

BODRioo, Se ainda não o disseste. 

Joaquina (a Jeronymo). senhor é amigo d'e!le? 

jKBONTno. Era, era, mas agora... 

joaquina. Sim, tem rasão, que este pérfido não me- 
rece ter amigos. Vae ver o bom e o bonito. Para que é a 
casaca? aonde vaesde casaca? Responde já, olha que es- 
tou como uma bicha» 

rodrigo (á parte}. Temos escândalo! (Alto.) A ca- 
saca é.. . é de Jeronymo. 

jeroitmo. É minha?... (Vendo dinheiro que lhe mos- 
tra Rodrigo.) É minha é, mandei a eu fazer. 

joaquina* E pensam que me enganam, eu não en- 
gulo patranhas, a casaca para aquelle? com cara de fome! 
calças é que elle precisa... 

jeronymo. isto é pirraça do alfaiate; como lhe devo 
muito, faz-me o contrario do que lhe peço para eu não fi- 
car com os objectos. 

joaquina. Não creio. É sua? pois vista-a a verse lhe 
serve. 

jeronymo. Não serve com certesa, pois se o maldito 
tudo me faz torto. 

joaquina (procurando). Aonde está a casaca?... ab! 
eil-a. (Agarrando- a.) Seja ella de quem for não a vestirá 
sem que eu a pise a pés. (Deita-a no chão e pi$a-a enfu- 
recida.) 

rodrigo. Jesus! que fazes mulher! (Levanta-a e sa- 
code a.) 

jeronymo (á parte). Agora é que ficou bonita. 

joaquina. Não tem vergonha! ultrajar uma mulher 



Googlff 



— 15 — 

como eu! Ah! quer-se embonecar de casaca para parecer 
bem?! Vistaa>se é capaz e eu irei ver para onde vae as- 
sim paramentado! 

Roonioo. Oh! mulher náo me faças perder a paciên- 
cia! 

joaquina (encontrando a carta que Rodrigo poz so- 
bre a mesa). Ah!' um papel. (Abre.) Orna carta!... 

jEMNino (á parte). Bom bom, hoje joga-se aqui á 
unhada! 

Joaquina. Baile, entrevista... assignadaLuiza...ah! 
malvado, que te arranco os olhos! 

BODBicio. Dá-me essa carta, Joaquina! 

joaqvina. Pérfido! monstròJ sacripanta! (Arremette 
para elle de murro fechado.) 

boorioo. Sacri... 

imoKTno, Paula... leão é ella, irra! 

Joaquina. Ai! ai! ai! que iufamia! (Chora em alta 
grita.) ai! que ingrato! ai que máo homem! nunca eu me 
fiasse n'elle; ai ai! (Senta-se em cima da casaca que Ro- 
drigo poz sobre uma cadeira.) 

bodbigo (desesperado). Levanta te d'ahi, que estás 
em cima da casaca. Demónios levem o baile, a casaca, e 
as mulheres! 

jbboniiio (a parte). Dá cà os cinco tostões. 

■•DBico. Homem deixa-me com um milhão de dia- 
bos' 

Joaquina (que tem estado a chorar). Levantar-me 
d'aqui, heide calcal-a. (Faz o que diz.) ai! ai! o meu ner- 
voso! (Desmaia comicamente.) 

bodbi«o (corre a ella). Bem, agora faniquito. (Aba- 
na a com a aba do casaco.) 

jERomno. Não te esqueças do dinheiro. 

noDBi«o, Homem, vé tu se me ajudas a erguel-a para 
tirar a casaca. Pobre casaca! 

jebonyho. Vá lá mais essa, mas depois venham os 
cinco tostões. 

iiopnicie. Sim, homem, sim, mas ajuda-me. (Agarra 
em Joaquina de um lado, e Jeronymo do outro oecupando 



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— 16 — 
tada um as mãos e levantam~n'a.) Agora pucha para fora 
a casaca. 
jeuostuio. Pucba tu que eu não posso. 
bodbigoi Safa! que peso! Pucba tu que eu teuho as 
tiuas mãos occupadas. 

jEBonno. Também eu, se a largo cae outra vez em 
cima da casaca. 

SCENA XI 

OS MEM9IOS e O KMPBEC1ADO I»E POLICIA 

KupBEfiAito (que tem entrado pouco antes e ouvido 
o dialogo, vae pè ante pé á cadeira pucha a casaca e ex- 
clama). Ah! ainda consegui apanbar-te! (Rodrigo e Jero- 
nymo largam Joaquina e foge cada um para seu lado.) 

bodbigo Outra vez, senbor? Para graça, jà basta. 

jEitoii violo. Este senbor é... 

BMPBEciADo. Empregado de policia. Aprehendo esta 
casaca porque é roubada, tenho agora melhores informa- 
ções. 

BODBieo (baixo a elle). Mas tínhamos combinado... 
(Empregado falla-lhe baixo.) 

jbboktbb (á parte). A casaca éroubada!...bembom! 

empregado. Tem de acompanhar-rae, e jà. 

BODBieo (exaltado). D'essa o livrarei eu. Paguei-lhe 
para me deixar a casaca até amanhã e bade deixar-m'a, 
corra por onde correr. 

joaojdiiva (que tem tornado a si). Ail ai meu Deus, 
quem nunca o tivesse acreditado e não me veria agora 
n'esta situação. 

BnPBEGADo (á parte). que diz ella. 

joaquina. Um homem que eu julgava tão serio ter 
uns taes instinctos... 

empregado (á parte). Cravo, esta mulher pôde aju- 
dar-me a desenvolver esta meada. 

joaqviiía (dando signaes de afflicção). Ailque me en- 
venenaste! eu morro. 

sapBCGiDO (deitando a mão a Rodrigo). Assassino! 
além de receptador de roubos... já para a cadeia. 



yGooQle 



— 17 — 

jeboiwmo. Áb! ah! ah! complica-se o caso! tem graça., 

boduigo. Ora diga-me, o senhor está doido ou quer- 
me endoidecer? Dê cá a casaca. (Tira4h*a da mão.) 

Joaquina (levantando se). Leve-lb'a, ou antes, cor- 
te-lhe as abas e que vá assim ver aquelia por quem me- 
atraiçoou, pregar-in'a a mim na menina do olho. é caso! 
(Finge affliçcáo.) Ai! ai! estou afflicta! agua, deem-me- 
agua. 

jbbonymo (indo ao fundo/. Holá! alguém, tragam ura- 
copo com agua. 

mPBBeADO (a Rodrigo). Diga, o que fez o senhor a. 
esta mulher? 

SCENA XII 

OS MRflUION e BONA 

bosa. que é preciso? 

jEnomno» Agua para aquelia senhora que está? 
doente... depressa 

BOBA. Pois que morra que nada se me dá. 

«oAQUiMA* Quem a chamou cá, menina? entre, pois. 
não! 

rosa. Eu não preciso entrar que já cá estou. Agora a 
senhora é que precisa sair. 

bodbigo. Então nâo estou bem divertido! 

joAQviitA. Nâo ouves aquelia delambida! Sahir, eu?! 

bosa (avança para ella). Delambida, oh! sua não sei 
que diga, espere que eu a ensino. 

4MBRONY29IO (mette-seno meio). Alio lá, se querem bri- 
gar e dar dinheiro á justiça, antes a mim que preciso» 
d*elle, e estejam quietas. 

joAQcisA (a RodHgo). E ficas-te ahi como um parvo, 
e não me acodes vendo que me insulta uma criada! 

ro»a (a Rodrigo). Pois não, morda-me, trinque-me* 
engula-me, para agradar ali á senhora. 

bodbioo. Então não estou bem feliz? 

bhpbkgado (que tem conversado com Jeronymo). 
É isso, (y senhor sae a chamar auxilio e eu Oco a tomar 
sentido n'elie. 



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-18- 

jeronymo (baixo). Apoiado. (Á parte.) Mas por ora 
Dão! 

«oaquina. Não tem vergonha, ter amores com o bi- 
cho de cosinba, e deixei eu as minhas conveniências para 
me dedicar a esle... farropilhas, desci eu até acceitaros 
mentirosos requebros d'este... cavalheiro. 

rodricso. Callas-te! 

bom. Desceu, ah! ah! ah! olhem a figurona! 

joaqvika (avança). Não me insultes, rapariga. 

bodricío (intromettendo-se, a Joaquina/. Tu está 
quietalYii Bosa.J E tu lá para dentro. 

ROM. Eu para a rua, nem mais um instante aqui, 
não. me comparo com essa... damal (Ameaça a saida). 

joaquina. Ai! adeus marqueza. 

boma (a sair J. Adeus, princesa. (Joaquina fica lhe fa- 
zendo mesuras á poria em ar de mofa./ 

SCENA XIII 
os dito», menos rosa 

(Emquanto o dialogo seguinte tem logar entre Jcro- 
nymo e Rodrigo, o empregado de policia contracma com 
Joaquina, indicando fatiarem a respeito do envenena- 
mento e da casaca). 

jBRONwmo. Venha o. que me promettesle. 

bodrigo. Pois eu prometti-ie alguma cousa? 

jEROiviuo. Cinco tostões para eu dizer que a casaca 
era minha. 

rodrioo. Náo te dou nada, vae para o diabo! 

jbroatmo (exaltado). Não me insultes por eu ser 
pobre! 

rodrioo. Tu és um debochado! 

jeroiwjio* Debochado és tu! basde dar-me uma sa- 
tisfação. Não te lembras já de quantas vezes te vali! 

rodrioo. Mentes, tratante. (Avançam um para o 
outro). 

jtoaqi/iiva (affosta Rodrigo, e o empregado a JeTo~ 
nymo). Senhor (A JeronymoJ não se deite a perder, va- 
mo-nos embora e tiniremos vingança. 



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— 19 — 
jreR95iT.no (a Rodrigo baixo). Uma, duas, três, vem 
os cinco tostões? 

». Não, não, e não! 

Bom, vae custar-te caro, envenenador e 
receptador! (Dá o braço a Joaquina.) Vamos senhora. 

**AQviii&. Vingança! oh! que nunca me houvesse eu 
mettido com tal homem! (Saem). 

SCENAXIV 

BOOBI0O e B»PBl«4PO 

BODBie«. Vão-se com um milhão de triliões de dia- 
bos! 

ejipbe«.%do (pondoAhe a mão nohombro). Agora 
nós, meu amigo! Tem que responder á justiça pelos seus 
actos. 

bodbigo. Quaes actos, senhor? 

emprboaoo* Os que o condemnam, e aquella ca- 
saca... {Vae para pegar lhe, Rodrigo adiantase epe- 
ga-lhe primeiro,) 

noimicso. Esta casaca, que forjou Satanaz para meu 
tormento, vae ter o destino conveniente. Veja e admire. 
(Rasga-a ao meio.) 

SCENA XV 

os MB9HO0 e rBAiciNco (que tem estado á porta um 
momento antes e exclama.) 

VBAxciftco. Misericórdia! que sacrilégio! que mons- 
truosidade! 

BODRKCio, Faltava sô o senhor. 

tnpBB«AM. Acaba de aggravar a sua situação. (Pu- 
cha-o aparte.) a menos que uma boa recompensa... 

RODRitto. Sim?! pois espere. 

Francisco (que tem pegado nos bocados da casaca). 
Senhor, esta casaca não era a sua, por engano lb'a trouxe 
e o senhor fez lhe... 

rorrico. O que lhe farei ao senhor se me apurar a 
paciência. 

vkancisco. Destruir assim uma obra d'artc e amea- 



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— so— 

çar-me, quero uma sat.sfação... sou antes de alfaiate, 
ura cavalheiro! 

Boonido (para os dois ameaçador). Ah! queres um 
duello? E tu queres mais uma gratificação? Esperem corja 
de tratantes! ( Vae a um canto traz um chicote oubengala.) 
Póra d'aqui marotos! rua! rua! 

bmpbcoado e fbawci»co. Aí! ai! aiJ (Saem cor» 
rendo. Rodrigo cae numa cadeira estenuado.) 

SCENA ULTIMA 

OS JIKgJIOf* e BOBA 

soift (com uma trouxa). Adeus senhor! 

bookicío. Anda cá, pequena, chegaste a propósito. 
Olha, eu já uão vou ao haile, a casaca ahi jaz desfeita... 
que a leve a hreca e mais á entrevista. 

bo«i (saltando rielie aos abraços). Ài! o meu rico pa- 
trão da minha ai mi! 

bodbioo. Eh! eh!, em paga canta ali o coupíet final 
que é do estylo 

(ao publico). 

Se a casaca o deixou tão massado 
Que afinal já não pôde cantar, 
Para auetor e adores eu venho 
Indulgência, applauso implorar. 

Que elle promette discreto e prudente 
Inda mais ser em peças futuras, 
Não havendo quem queira esta noite 
Assentar-lhe á casaca ás costuras. 



CAE o PANMO 



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IBEAT80 'UffHNMIll) 

OBRAS PUBLICADAS 

X>iog?o «José Seromênho 
A doida, drama em 5 actos. 
A vida de um bapaz rico, drama em 3 actos. 
Scenas do Brasil, drama cm 3 actos. 
Exemplo a casados, comedia em 2 actos. 
A obphã, drama era 1 acto. 
A ultima crença, dratoa em 1 acto. 
Restauração de Portugal, scena dramática. 
Simplicidade e espertrsa, entre-acto. 
Por causa de um retrato, comedia em 1 acto. 
Viva o exercito! e viva o duque! comedia em 1 acto. 
Doidos... políticos, comedia em 1 acto. 
A noite dos noivados, comedia em 1 acto. 
Mariquinhas a estalajadeira, comedia em 1 acto. 
Um poeta, comedia em 1 acto. 
Aventuras de um gabão, comedia em 1 acto. 
O que faz o medo, comedia em 1 acto. 
O legado, comedia em 1 acto. 
Portugal e Hespanha, comedia em 1 acto. 
A. M. Õ., comedia em 1 acto. 
Somma e segue, comedia em 1 acto. 
Os primos, comedia em 1 acto. 
A furiosa de amor, comedia cm 1 acto. • 
O amante emprestado, comedia em 1 acto. 
Casar ou morrer, comedia em 1 acto. 
A mosquinha morta, comedia em 1 acto. 
V. Ex.» desculpe, comedia em 1 acto. 
No campo da opposiçÃo, comedia em 1 acto. 
A loira, comedia em 1 acto. 
Maldita casaca, eomfedia em 1 acto. 
Mestre Barnabé, scena cómica. 2." edição. 

Augusto César de Vasconoellos 
O pagem rei, comedia em 1 acto. 
O cura Santa Cruz, drama em 1 acto. 
Dispa essa farpella, comedia cm 1 acto. 
X> logro José Serouiêxilio o Augusto 

César <le VaseonocHos 
Os supersticiosos, comedia em 2 actos. 



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A cabra cega, zarzuelki em 2 actos. 

A.m R. í*aíliaes 

Por ser económica, comedia eni 1 acto. 

«José Romano 
Tbaviata, parodia em 4 actos. 

Pedro Cabral 

Uma extravagância, comedia em 4 acto. 

Dr. Rodrigues Loureiro 

Os advogados, comedia-drama em 3 actos. 

«Júlio Rocha 

Tribulações d'uma solteirona, comedia* cm 1 acto. 

«J. R. Chaves 
A duqueza por um... sábio, scena cómica. 

«Júlio Ho^vortli 

Alugam-se quartos, comedia em 1 acto. 

Jorge Salgueiro 

Cupido e Mercúrio, comedia em l acto. 



NO PRELO 



IMogo «José Seroménho 
Um rapaz tímido, comedia em 1 acto. 
Casado e solteiro, comedia em 1 acto. 
A gaiola de ouro, comedia em 1 acto. 
Tem sobre* loja, comedia em 1 acto. 

A.. César cie Vasconcelloísi 

Preciosidades de família, comedia em 1 acto. 
K\ntos e comp.*, comedia em 2 actos. 
barro ê frágil, comedia em 1 acto. 

l?edx*o Cabral 

As cerejas, comedia em 3 actos. 
Marinheiros em terra, comedia em 1 acto. 

Júlio Rocha 

O Favorito d» affonso vi, drama em 3 actos, 



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MARIDO E MULHER 

COMEDIA EM UM ACTO 

PO» 

DIOGO JOSÉ SEROMÉNHO 



Condecorado com a medalha ao mérito, Sócio honorário 
do Grémio Litterario Portuguez ne Pará, etc. 



Representada com agrafo m tbeatro Garrett, «te. 




THEATRO CONTEMPORÂNEO 

DIOGO SEROMÉNHO 

EDITO* 

LÍS80A— 1881 



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# 



— 2 — 



PERSONAGENS .,.. 

Adblia Belmira 

Jorge Gosta 



ACTO ÚNICO 

Sala com porta ao fundo a á direita. A' esquerda orna 
jaaella. Duas cadeiras, ama mesa, • «a» oaaa para a 
pesca. # 

SCENA í 

Adélia e «Jorge (sentados) 

Adélia. Aborreço-te! 

Jorge. Odeio-te ! 

Adélia. Sou muito desgraçada) 

Jorge. Sou muito infeliz f (voltam as cosias um ao ou- 
tro, e affastam as cadeiras) Para que me caiaria eu? - 

Adélia. Para que me cazaria eu ? 

Adélia. Para viver n'este inferno é que cacei t 

Jorge. As mulheres são pantheras t 

Adélia. Os homens são tigres! (levantando-se e atiran- 
do com a cadeira) Não posso roais I 

Jorge, (empurrando a cadeira) IstD aao pode conti- 
nuar. 

Adélia. Jorge t 

Jorge. Adélia! 

Adélia. Não. nos zanguemos. 

Jorge. Está dito, não vale zangar. Racíocionemos com 
descanço e socego. (levantam as cadeiras e sentam-se.) 

Adélia, (gritando) Isto não pode continuar assim. 

Jorge. mesmo digo eu. 

Adélia. És insupportavelt 

Jorge. O mesmo digo eu t 

Adélia. Meu Deus quaato soa desgraçada! 



sgraçad 
(Adsiú 



Jorge. E eu, quanto sou infeliz ! (AdsUa levauta-s de- 



yGoogk 



sesperada, e dando uma bofetada em Jorge, soe peia direi- 
ta correndo.) E v o que me faltava !.. 

SCENA n 
«forge (só) 

U viram um azar aguai ao num ) Desde que ha seis "* 
meies me desempreguei, esta casa transformou^» a'um 
verdadeiro inferno, aonde ha ura coudenroado só, qoasou 
eu, e um só diabo, que é minha mulher. Actualmente a 
minha vida. é moita divertida, pafcso o» dias á parta da 
secretaria da fazenda, á espera do ministro, sem nunca 
oftáseguir eacootrai-o. For isso se suoeedem os ministros, 
mm conseguir empregar-ate, caJitram os progressistas e 
vieram os regeneradores, e nada, uao vejo meio de me 
.etapiegar. r *odos os dias poço o jornal emprestado ao meu 
visinho barbeiro, para ver se entre es annuncios vem al- 
gum que me faça conta, mas qual historia, ião consigo 
nada. (fica pensativo, batendo na testa) Oh \ que ideia í 
JBureka I adiei {pega na pena e escreve) «Alugasse um 
quarto, com comida ou sem etla. No quarto andar, lado 
asquerdo, se ajusta.» Está dito alago um quarto áo pri- 
meiro que apparecer, e assim arranjarei algum dinheiro. 
Vou pegar este atmuooto a porta da rua. Mas, espora, e 
jse flku&L mulher se oppõe* aada, vou pôr o annuncio sem 
fte alter nada. (procurando) Aonde estarão a» ohreias? 
(chamando) Àdelia f Adélia !.. 

" SCENA m 

«Jorge e Adélia 

ÂnttiA. Que queres? 

Jorge. Aonde estão as obreias ? 
Adélia, (com naturalidade) Gogjri-as. 
Jorge. Como ? 
Adeua. Comendo-a.é. . 

Jorge. Egoísta! E depois hasde queixar-te de que nãe 
jtaiats. Se aa menos, tivesse ma bocado 4a massa, . . 

- Amlia. Que maseada, massajara que í 

- Joa». Para pegar eíste papelT . 
JúMBia. Qm papei? 

* > 

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— 4 — 

Jorgb. Um annonoio. - 

Adélia. Que annuncio ? • * • 

Jorge. Irrat com tanta pergunta. Não tem precisão de 
saber o que é. vizinho sapateiro me dará um bocado de 
massa. 

Adélia. Quero já saber que papel é esse. Do contrario 
não te deixa sàhir. 

Jorge, (auerendo sahir) Adélia, tem prudência... 

Âdblia. mo saes. 

Jorge. Pois bem, sabes o que este papel contém? 

Adélia. Ainda me não disseste... 

Jorge. Contém a nossa salvação! Ora escuta, (lê) «Ata- 
ja-ae um quarto com comida ou sem ella, no quarto an- 

r lado esquerdo se dii.» Compreendes? 

Adélia. Comprehendol Eu doma de hospedaria*.. 
Nunca. 

Jorge. Só alugaremos um quarto... 

Adélia. Não, não e não 

Jorge. Bem me importa que tu não queiras, quero eu, 
e é o bastante. 

Adélia. Ahl traidor ! Indigno f Não posso mais, morro! 
{coe desmaiada) 

Jorge, (contemplandú-a muito socegado) Desde que es* 
tou desempregado é a primeira ves que estou a seu lado, 
sem a ouvir ralhar a gritar. Era bem bom que desmaias- 
ses vinte vezes ao dia. , 

Adélia, (levantando-se) Pois não desmaiarei. È oponho- 
me cora todas as forças a que transformes esta cazaem 
hospedaria. 

Jorge. Bem me importa com a tua epposição. (sac ba- 
tendo com a porta.) ~ 

SÒENA IV 
Adélia ($o') 

Sempra sou muito desgraçada! E sempre pegará na 
porta esse annuncio indigno. Como es meus conhecimen- 
tos mangarão comigo t Fico sendo hospedeirafèstatqoBei- 
ra, bonitos nomes. Sou bem digria dé lastimai, (cAera) 



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— OB- 
SCENA* V 
Adélia e Jorge 

Jorge. Está decretado que não conseguirei o mínimo 
dos meus desejos. 

Adélia. Pegas-te o annuncio? 

Jorge. Não me foi possível. 

Adélia. Ainda bem. 

Jorge. O senhorio a quem devo a renda d'este semes- 
tre, estava ahi defronte, e julgo que á minha espera. Nem 
aomenoajá posso sahir á rua ! 

Adélia. Foi Deos que assim o quiz, ainda bemj para 
que não pozesses esse infame annuncio, até desejava que 
os teus credores todos reunidos te esperassem á porta da 
rua. 

Jorge. D'isso não tenho eu medo. A policia os faria des- 
persar como manifestação tumultuaria. 

Adélia. Ahi tens as consequências do teu procedimen- 
to. Se não tivesses essas malditas ideias revolucionarias, 
ainda estarias empregado, e teríamos por conseguinte de 
comer 

Jorge. Ideas revolucionarias! Tens rasão, começo aço- 
ra a telas. Sou socialista e communista. Aborreço todos 
os governos e amo a anarchia, enthusiasmo-me pela dis- 
solução social. Tomarei uma vingança horrível aa socie- 
dade, e principalmente das auctor idades superiores, que 
Sela sua ignorância me lançaram na miséria: Eu estava 
esempregado, como estou agora, quando um amigo se 
lembrou de me propor um negocio industrial que me pro- 
porcionava o meu bem estar; o negocio era comprar e 
veiider azeite mineral refinado. Vou á camará tirar licen- 
ça, perguntam-me pela profissão e assim que respondo 
«petroleiro» põe-me na rua sem me darem a licença ; e 
aqui fiquei outra vez sem recurso algum, e o maldito se* 
noprio sém se tirar da porta. Sinto passos, (batem â por- 
fcj^não abras, fallemos baixo para julgar qufe não esli 
- alaguem em. caza. (fornam a bater mais forte.} 

i Abelià. Oht que ideia, ouvô. Se nao queres que abr* 



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a porta ao senhorio, dá-mo ega* papel e renuncia a ala-, 
garoquârtc. 

Jorge. Isso não. EsUHMtselvtfqi a uío renunciar á ml- . 
nha ideia 

Adblu. N esse caso vou- lhe abrir a porta. Dás-mea 
papel ? 

jorge. Não. 
% Adélia. E's teimoso ) pois vaes ver como vou abri? a 
porta! (toe.) 

Jorgb. E preciso ter coragem para arrostar com o 
broto do senhorio. 

Adélia, (entrando) Era o correio com esta cala pa- 
ra ti. 

Jorge, (pêganda na carta) E' do Custodio, mandeMhe 
pedir dei libras emprestadas, e naturalmente agora éqae 
m'as manda. Vivam os amigos E viva a amizade I (oW. 
a carta) E nao me manda o dinheiro) Que amigos!., eu 
sempre disse que não havia nem amizade, nem amigos. ' 
Pois não quero l«f a carta, (çolioca-a sobre a mem.) 

Adélia. E auem é esse Custodio? 

Jonas. Um nomem feliz. Um viuvo. 

Adélia. Não dizes senão grosserias, (soe.) 

SCENA VI 
Jorge (» ) 

Adeus minha ultima esperança. Contava com este di- 
nheiro, como se já o tivesse na algibeira. Sou bem digno 
de campaixão. (pegando na carta) E não mandando dá* 
nheiro escreve quatro laudas! Desculpas. «Querido ami- 
go. A tua carta commoveu-me; podéra, até era escripU 
em estylo de telegramma «Custodio ~ Estou desempro* 
gado. Mulher, furiosa. Casa um inferno. Ameaçado pelo 
senhorio, manda me dez libras. Não tenho mais recursos» 
Se não mandas mato-me com um tiro. Jorge. E não mau* 
dou nada ! Vamos ver o resto da carta.» Dizes que estás 
desesperado, e que tua mulher é intupportavel. Tenho * 
certeza de que o caracter d*ella não ó melhor do oue o da; 
minha defunta mulher, e sem embargo consegui aomesji- 
eal-a. Vou dar-te um conselho. Se queres mesmo rio 



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twfo dinheiro, ter ao metros paz e socego em tua casa, ' 
admitte n^lla tuna hospeda. E' fresee o teu ooiwbIW.í 
Dfsso já en me tinha lembrado, e é o tmico recurso que 
me resta, (tontínuando a ter) «Uma hospeda, que ní o co- 
me, e que paga com uiura a hospedagem qae lhe dão. 
Apresentar-se-ha em tua casa quando quizeres, chama*se> 
D. Prudência f» Já comprehendo, é uma metaphora; htm 
eats&u agora para brincadeira f (deita a carta para cima 
da mexa.) 

SCENAVH 
, Jorge * Adélia (entrando) 

Adélia. Lembraste Jorge, que ainda não almoçamos f 

Jorôe. Essa pergunta é inconveniente. Nunca se £sHa 
em corda em eaza de enforcado. Não faties em almoço a 
quem não ceiou. 

Aoblia. Já vou perdendo a paciência. 

Jorge. Esta mulher faz-me doido, (batoco) Que ideia! 
Se ella acreditasse que eu estava doido, as&ustar-se«ia, 
chamaria os vezinhos, teriam compaixão de mim, dar* 
me-ia a mania de comer, e provavelmente comeria. Nada. 
vou-me fazer maluco, (rindo alto) Ahl aht aht Que ma* 
gtóflca galinha! Que esplendido Bordeusf Dá eá mais 

•Adélia. Meu Deus! Que dizes, Jorge? 

Jorge. Esse bife tem poucas batatas; quero mais. 

Adélia, (aparte) A fome faro variar. 

Jorge. Se me não dás um bacalhau cozido. Vôu co* 
mel-o cni. (dançando) Que bém que almocei! Viva a pan- 
dega) 

Adélia. Está doido, e eu fujo. (&ae correvdo.) 

SCENAV1II 
Jorge (*ó) 

Tenho Ma vontade de dançar* É Adélia fugiu assusta-' 
aàr melhor, assim deixar-me ha socegado. Se eu áo menos 
tivesse uma mulher prudente, que me aconselhasse, què 
chorasse as minhas desventuras; que não augmentasse 
o meu suffrimento,. . . bem diz o ditado «caza aonde nãd 



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— 8— 

há pão., . Precisamos prudência, o mçu amigo Custodio 
tem laròo. Pois bem não tenho dinheiro, mas de hoje: 
avante a tal hospeda metaphorica a 1). Prudência viverá 
sempre aqui ao meu lado. Se minha mulher gritar, dei- 
xal-a-hei gritar até se fartar. Heide ser tão prudente e 
socegado como meu pobre tio o dono d'aquel(a cana de 
pesca (pegandoAhé) pobre tio, chamavam-te oengonha, 
porque passava os dias á beira do lago, sem nada pescar; 
mas dizendo sempre que se divertia muito. Uma occazião 
estive um mez sem o ver, e quando o fui visitar fiVlhe a 
pergunta do costume, então pescou alguma couza desde o 
ultimo dia, que nos encontramos? Sim, filho pesquei uma 
febre maligna por causa do muito soj, passados dias 
morreu, deixando-me o objecto que elle mais estimava, a 
sua cana de pesca. E agora me lembro, porque não heide 
utilizar a cana porque nã<* heide pescar! Pois está dito 
vou á pesca. E o senhorio que está á porta. Já vejo que 
hoje não posso pescar. Aqui só ha uma truta, que é mi- 
nha mulher, mas essa é má pesca. Se o vizinho me. 
quizesse comprar a cana. (abre ajanella, e chama) Oh! 
vezinho? vezinho! Não responde, sábio. Mas agora ireparo 
que bella porção de chouriços que elle tem pendurados ao 
pé da ianellal Oh! suculenta ideial vou pescal-os. Mãos á 
obra. (põe uma cadeira junto ajanella) Se alguém me vir 
digo que é brincadeira! . . . (começa com a cana a fazer. o 
que itz.) O que me atrapalha é a roupa que está na ja- 
nella a seccar, agora, agora, é como peza ! (pucha a fia- 
nae traz uma saia ae mulher pendurada.) Bonita pesca. 

SCENA ULTIMA 
Adélia e *orge 

Adélia, (sahindo com precaução, aparte) Já lhe pas- 
saria? (alto) Jorge? Jorge? * 

Jorge. Silencio que me fazes espantar a pesca. 

Adélia, (aparte) Não há duvida meu Deus, está 
doido. * 

Jonas. Já os apanhei, já os apanhei, (salta da cadeira 
prazendo a saia preza á canna.) 



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-»- 

Adhua. Pobre Jorge. 

Jorge. Jà temos almoço» olha vê. (reparando na saia) . 
Estava escripto que não almoçaríamos hoje. (aproximan? , 
dô-se da janella e vendo) Os chouriços embrulharam-se 
na saia e cahiram ao saguão. E que fome que tenho. 
(senta-se numa cadeira muito abatido.) 

Adélia. Então já não estás doido? 

Jorge. Nanca o estive. . 

Adélia. Tratante. 

Jorge, Parece que tens pena d'eu não estar doido. Pois 
minha -filha, não vejo outro recurso para não morrer-mo$ 
de fome, senão deitar-mo-nos da janella abaixo. E cá por 
mim não lhe acho inconveniente. - 

Adélia. Bem, de hoje em diante sei o que heide fazer. 
O marido serei eu. 

Jorge, (zangado) Adeliat . . . (aparte) Já me esquecia da 
D. Prudência. 

Adélia. Um tratante) 

Jorge, (aparte.) Valha-me D. Prudência. 

Adélia. Não soffrerei mais despotismos. 

Jorge, (aparte.) Socego. . . ,» . 

Adélia. Até que encheu a medida. (Deita a cadeira ao 
chão, a meza, e pai te a canna de pesca.) 

Jorge, (com voz muito forte) Adélia, isso é de mais. . f 
(cae sobre a cadeira e por meio Racionados indica que não 
pôde foliar.) 

Adblia. Que signaes são esses! estás brincando? (Jorge 
voe á meza, pega num papel escreve e entrega a Adé- 
lia, lendo.) Perdi o uzo da palavra. Temos nova comedia) 
tú queres mangar comigo. (Jorge pega-lhe por um braço e 
obriga-a a ir ler o resto que escreveu) Nãó é brincadeira; 
é um padecimento antigo, quando tenho algum desgosto, 
mezes antes de cazar, estive assim sem fallar muito tempo 
o medico aconselha- me, que pelo menos durante um mez, 
não faça exforço para fallar. Oh) meu Deos, isso é verda- 
de? Não me enganas, Jorge? 

Jorge. Já te disse. . . (tapando a boccm para não conti- 
nuar) Ah! . . . 

Adélia. Trapalhão) 



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— Ifr- 

Jorgb. Sabes porque fingi que nãa podia faltar. Ofca lé 
esta carta, e depois ralharemos á vontade, e tudo 10 et- 
pfíeartti (& %* d eorto) Anda lê. (aparto) S o efla não to- 
ma o conselho do meu amigo Custodio, emigro para o fim 
do mando para me ver livre d*ella. 

Adélia, (lenduj E* jK»s$ivelt (mttttòafejr*)AMquerito 
Jorge e não me dizias nada! . 

Jorge, (aparte) Então não está contentei («to.) Do hoje 
em diante mesmo qne não tenhamos que comer. 

Adélia. E porque não havemos do comer, parece-mc 
qne com trinta o seis mil reis mensaes de ordenado'. 

Jorge. Qne dizes?... 

Adélia. E' quanto tens de ordenado. Pois nio lestes a 
carta toda? 

Jorge. Não. (tira-lhe a carta da mão, elê) « Depois do 
conselho, vou dar- te uma boa noticia, na caia commercial 
de meu tio, havia um logar vago de primeiro caixeiro, que 
consegui para ti, o ordenado são trinta e 6eis mil reis 
mensaes. Quando quiseres, podes-te apresentar.» E ainda 
dirão que não ha amigos! Querida Adélia (abraçam- se.) 

Adélia. Querido Jorge, (batem á porta do fundo) Quem 
será? Sem duvida o senhorio. 

Jorge. Agora pode entrar, porque como estou empre- 
gado pagarei tudo. (Adélia %ae voltando hgo) 

Adélia. Não era o senhorio. 

Jorge. Quem era então? 

Adélia. O Seroménho auctor da peça que vinha saber 
se tinha agradado. 

Jorge, (indicando a platea) Pergunta aqueles seabores. 

Adélia (canta) 

O auctor d'esta comedia, 
Pede-vo* por compaixão, • 
Que antes de descer o patino 
Lhe deis um bom alegrão. 

CAEÒPANNO. 



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MARIQUINHAS 

A 

ESTâLAIÂMIRâ 

COMEDIA EM i ACTO 

OfelGIXAL DE 

Diogo «José Seroméntio 



Ç^^Gg) 



LISBOA 

HfP» TRAVESSA DA CRUZ DE SOURE N.° 33. 

1871 



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lARHfrlfflUS A ESTALAJADEIRA 



PERSONAGENS 



Mariquinhas. — Estalajadeira. ..-..• 18 annos* 

Manuel.— Sapateiro #........ 25 anão». 

António.-» Funileiro 30 annosfc 



A scena passa-se n'uma estalajem, j 

próxima de Coimbra. Epocha actualidade, | 



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Oleio rnixco 



A scena representa uma estalajem, portas ao fnnão 
e lateraes. A 1 esquerda uma chaminé. Ao meio da 
scena nma banca, com bancos deroda. A! direita 
um armário, louça pendurada tto. 

SCENA I' 

Mariquinhas (só) 

(Apanhando os cacos d 1 um a pane! la rje barro.) Bo- 
nito!., estou arranjada!. . . quebrei a panella: E não 
tenho onde fazer o jantar; de mais a mais já não te- 
nho tempo d'ir á cidade comprar outra. . . Só se pe- 
dir uma emprestada... porque sem ella nào posso 
dar de comer aos meus hospedes, e principal mento 
aos senhores Manuel e António, um sapateiro, outro 
funileiro, ambos apaixonados cá pela pessoa, e que 
vêem cá jantar todos os dia?. Se nao encontram o 
jantar prompto são capazes de se zangarem, e eu não 
os quero zangados. . . Deus me livre, elles que tanto 
me amam (rindo) E teem um ciúme um do outro! . . 
Até já teem jogado á paneada algumas vezes por mi- 
nha causa, (pauza) Ora não se me dava de apostar 
que elles se estão recordando agora de mim; hoje ó 
o dia dos meus annos, e é de mais a mais dia de S. 
Pedro; ha grande festança cá no sitio, fogueiras, sor- 
tes, bailaricos; mas agora por bailaricos; se eu tivesse 
uns sapatos novos, bem bonitos; oh! como eu dança- 
ria, nem d'isso me quero lembrar!. . . Todos os meus 
desejos agora eram pussuir uns bonitos sapatinhos, e 
uma boa panella que nunca se quebrasse. E então! . . 
eu a dar á língua sem me lembrar que tenho de fa- 



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4 

zer o jantar, não tenho outro remédio senão ir pcdiP 
a alguma vezinha unia panella emprestada, e de ca* 
minta irei comprar hortaliça, (sae pelo fundo.) 

SCÉNA II 

António (só) 

(Entra pelo fundo, com Uma panella de folha itti 
muo.) Oh! ella nào está cá!. . . Onde iria eila?!. . O 
que iria ella fazer?!. . Èlla faz-me doido!. . A scr- 
psiite do ciúme dilacera-me o peito; terme-ha supplrtn- 
tado o maldito sapateiro!.. Palavra de funileiro que 
o iaco em postas.,. Mas imo, Mariquinha^ a linda 
Mariquinhas nào podia preferir a mim um sapateiro, 
um remendão, que nunca lava as màos doaerol. Mas 
em quanto ella nào vera ponhamos n'aquelle prego 
esta panella que fiz por minhas màos, para lhe offe- 
recer hoje que ó o dia dos seus annos. (pendura a 
panella.) Agora ponho-lhe dentro este raminho ! . . . 
(mttte o ramo dentro da panella.) Parece-me qne ê 
um presente muito delicado?, . O que dirá ella?!* . . 
Agora retirome, e volto daqui a pouco, para admi- 
rar a sua sur preza. . . Oh! minha querida panella. . . 
Se-me propicia! . . . (sae.) 

SCESA III 

Manuel (entrando pelo fundo j cantando) 

Viva o vinho momlrchft do mundo» 
Viva o vinho divino licor, 
8ó o vinho nos torna felizes, 
Só o vinho nos falia d'amor. 



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(Declamando.) Estou certo que António me nao 
tem vencido ! . . Bem , , , agora offereçamos á Deusa 
do meu coração estes sapatinhos novos, que fiz para 
lhe offerecer; por ser hoje o dia do seu anniversario 
natalício; mas eu estou faltando bem! . . estou paro- 
diando um meu freguez que é litterato, bello moço! . . 
com muito talento, mas com muito pouco dinheiro ! 
(tira um embrulho da algibeira, e poe-no em cima da 
mezaj Aposto que ellá Jogo advinha quem lhos deu. 
(sae.J ' ** 

SCENA IV 

Mariquinhas e depois António 

Mariquinhas. (Entoando . pelo fundo.) Ninguém me 
poude emprestar uma panellal. . . que miséria, natu- 
ralmente como é dia de festa todas as panellas *ao 
precizas; aqui trago nabos, couves, cenouras ; mas o 
pcior é a panella; que hoide fazer? (reparando na pa- 
nella.) Oh! mas que vejo, uma panella nova!. . e de 
mais a ia ais de folha. Aqui anda por força obra de 
António. 

António, (entrando) Advinhou. 

Mariquinhas. Muito lhe agradeço, que boa ideia 
que teve em me fazer tal presente. 

António. E a imagem do meu coração, e dos 
meus sentimentos. Aceite também os meus parabéns 
por ser o dia dos seus annos. 

Mariquinhas. Ora não faz senSo doudices. 

ANTONro. Eu gosto muito de doudices, e muito 
mais gostaria que as fizéssemos juntos. 

Mariquinhas. Então!., é precizo esperar. ,, mais 
turdtl i • tnail tardei 



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António. E porque não hade ser já! Nao me «tcka 
digno de si ! ?. . . 

Mariquinhas. Nao digo isso'. . . 

-António. Nada me falta, ganho bom dinheiro, te- 
nho muita força: Olhe antes de hontem por sua causa 
quebrei os queixos ao José; sim, ao valentão cá do 
sitio, só lhe deixei três dentes. ... 

Mariquinhas. Eu bem sei que é valente.. . mas. . , 

António. Então que mais lhe é precizo. 

Mariquinhas. E necessário amar-me. 

António. Sempre a amei, agora o que eu quero è 
uma prova do seu amor, basta que me dê um beij.>. 
(quer agavral*a 7 ella foge de roda da meza, canta) ^ 

Pomo um beijo minha roza, 
Meu archanjo, minha flor, 
De-me um beijo minha querida, 
De me um beijo meu amor. 

Mariquinhas 

Nào dou beijos já lhe disse, 
Faz favor de me deixar, 
Só lhe darei muitos beijos, 
Quando comigo cazar, 

(declamando zangada) Esteja quieto... pode entrar 
alguém. . . e eu nao quero que se julgue, . . 

António. Nfio importa, venha quem vier, e prin- 
cipal mente que venha Manuel, o maldicto sapateiro, 
que o faeo em bocados c o nietto n 'algibeira. 

Mariquinhas. Se lhe tocar, nunca mais o quero 
ver. 

António Bem, nao lhe farei mal... mas, se se 
fizer tulu! . . . (mostra b puvto urrado) 



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Marquinhas. Basta de conversa... Ajude-me a 
íazer o jantar... Vá buscar o toucinho. 

António. Onde é que elle está? 

Mariquinhas. No armário..,! .na primeira prateleira. 

António. Bem, já sei. (vne ao armário) 

Mariquinhas, (aparte, deitando agua na panella.) 
liste demónio sempre a metter-me medo por cansa 
'do Manuel. 

António, (fira do armário um embrulho que dá a 
31(triqainhas)) Aqui está o toucinho. 

Mariquinhas. Dê cá (rindo) AhL. ah!... ah!..* 
>entâo isto é que é o toucinho?. . . Isto sao vellas. 

António. Ah! enganei-me. ... mas isso é mais gos- 
tozo. 

Mariquinhas. Também não serve para nada, eu 
<vou buscar o toucinho, mas antes vou buscar outra 
«cousa; já venho, (sae.) 

•SCENA V 
António e depois Mariquinhas 

António Creio que stu o preferido. $lla sempre 
í«e deitou uns "olhos, (vendo o embrulho em cima da 
meza) Mas o que é isto? (examinando) Sao uns sapa- 
tos, (tira um do embrulho) E sapatinhos de senhora, 
■de unais a mais da ultima moda! Aqui anda obra do 
Manuel, por força! Como hoje é dia de 8. Pedro, da- 
Ihe os sapatos para que ella danse com elle. E se eu 
os guardasse?. .. Isso nao! Passaria por ratoneiro, 
mas o que eu nao quero é que ella os veja. (vendo 
entrar Mariquinhas) Ella ahi vem- {esconde os sapa- 
tos atroz das costas.) 

Mariquinhas. Aqui está o toucinho* . 



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8 

António. Se ella vê o sapato estou perdido. («*- 
conde o sapato no pan&o onde esta a hortaliça.) 

Mariquinhas, (pondo o toucinho em cima da meza). 
Vamos é preoizo trabalhar: deite o toucinho na pa- 
nei la em quanta eu vou escolher a hortaliça, (agarra 
no patino.) 

António. Sim* (aparte} Gomtanto que ella, não. 
veja o sapato, (deita as vellas dentro da panella em 
logar do toucinho,) 

Mariquinhas. Vamos a escolher a hortaliça. 

António, (aparte) Ella vae mas é ver o sapato. 
(alio) Para q\ie a hade escolher?... Vae-lhe tirar a 
melhor ! 

Mariquinhas, (admirada) Tiro-lhe o melhor?!. .. 

António. E iaz menos quantidade* 

Mariquinhas. Tem razào (acaba aVavranjar uma 
parte da hortaliça que deita no pamio,). 

António, (aparte) E nao vio o sapato ! . . . 

Mariquinhas, (vendo o toucinho ainda em cima da 
meza) Entào o que é isto ainda nâo deitou o toucinho. 

António, (aparte.) Ora esta ! . . . deitei as vellas. 
(alto) Ksqueceu-me, deito-o já. (deita-o.) 

Mariquinhas. Agora vou deitar a hortaliça. 

António. Pois deite. 

Mariquinhas, (deita na panella tudo que o p^tnm. 
eontem.) Isto deve fazer uma bôa sopa. . . nào lho 
falta nada. 

António, (aparte.) Nada.. .. Inclusivamente U rç 
sapata o que deve tornai** mais go&tozã K 

SCENA VI 
Os n\esn)<i3 e Itfanuel 
Manuel, (entrando pelo fundo., * aparte) Gozamos 
a sua surpreza. (alto) fious dia* wquuui Mav^uMa*. 



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Mariquinhas. Ah i é o Senhor i Bons dias* 
Manuel. Sou eu, sou. 
António, (aparte) O meu rival ! . . . 
Manuel, (aparte) Aqui o patife do funiiefroí 
Mariquinhas. Vem já para jantar?. . . 
Manuel. Não . . . venho para outra cousa. (áparU) 
E não me diz nada. 

Mariquinhas. Então para que?í. . . 
Manuel. Para a felicitar pelo seu anniversarío. . , 
(aparte) Se não estivesse aqui o maroto 4° funileiro, 
fazia um discurso, (alto) Desejando que goze muitos 
e felizes annos em companhia de quem mais desejar. 
(pausa) Então não me diz nada da prenda que lhe 
dei?! . . Que tal achou os sapatinhos, gostou d^lles?. . 
Mariquinhas, (admirada) Que sapatos ? ! . . . Eu 
ainda não vi sapatos nenhuns. 

Manuel. Pois eu coUoquer-os n'esta meza; ah! elles 
aqui estão embrulhados, (dirige-se a meza, abre o em- 
hmlha, e tira um sapato que dà a Mariquinhas) Então? 
Mabiquinhas. Está muito bem feito.. . . E* da ul- 
tima moda. 

Manuel, (procurando em cirna da meza.) Mas aon- 
de está o outro ? ! . . . Eu não o vejo ! . . . 

António. Talvez vo^sê não trouxesse senão um. 
Manuel. Fiz dois, e trouxe dois. 
Mariquinhas. E' original!". . . Então onde está o 
outro ? ! . . . 

António, (rindo) Já sei o que foi, é, que elle fez 
duas vezes o mesmo sapato. 

Mabiquinhas. (admirada) Duas v«zes o mesmo 
sapato ! 

António. E' muito postive), estava dormindo 
quando o fez, e por isso enganou-set 

Manuel. Estou certiiwmo que fi» o pur* o qtw <m 
trouxe para aqui. 



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10 

Mariquinhas. Bem, bem, élle apparecerá.. . nem 
por isso deixaremos de dançar juntos esta noite. 

António. E' comigo que hade dançar. 

Manuel. Hade ser comigo. 

António. (puxamdo«o para si) Hade ser comigo. 

Manuel, (o mesmo) Prohibo-te de dançar com dia. 

António, (o mesmo) Eu prohibo-te tambcm. (cada 
4im puxa por Mariquinhas para seu lado.) 

Manuel, (encolerizado) Irral 

António, (zangado) Larga! 

Mariquinhas. Olhem que me desmancham os braços. 

Manuel. Qual de nós prefere ? . . . 

António. Qual de nós quer?, . . 

Mariquinhas. (Uvrando-*e d'ettes.) O que dançar 
aaelhor. 

Manuel. Sou ou. 

António. Não é tal, sou eu. 

Manuel. Vamos já vêr. 

Mariquinhas. Logo direi o que prefiro para -dan- 
çar comigo. Vamos primeiro jantar, vou tratar -de 
p$r a meza. (sae pela direita.) 

SCENAVn 
Manuel 4 António 

Manuel. Não fiquei satisfeito cem a resposta. 

António. Nem eu. 

Manuel. N'esse -caso battamo-nos, eomo fazem os 
verdadeiros cavalheiros. . 

António, (aparte) Elle è mais valente, mas é o 
mesmo, (alto) Battamo-nos. 

Manuel. Como nao temos armas, batternos-hemos 
ao socoo. (prepamm-se para jogar o sôcco, na oca* 
zião em que Mariquinhas eadra^j 



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11 

SCENA VIU 
Os mesmos e Mariquinhas 

Mariquinhas. Ai! meu Deus, que se vao matar! 
(mettendo-se entre elles) Fazem favor de se accomodar. 

António. Pois que me ceda elle o logar. 

Manuel. Pois nào ! Que ra'o ceda clle i 

Mariquinhas. Prohibo-lhes que joguem á pancada 
em minha eaza. Não ha nada tâo mau como dois ho- 
mens jogarem á pancada numa caza d'estas. 

António, Tem razão, (a Manuel) Fica para outra 
vez. 

Mariquinhas. Bem, o jantar está prompto; Yamoi 
para a meza. 

ManUel. (a António) Vanvos primeiro jantar e de- 
pois falaremos. 

Mariquinhas. Vamos. 

António e Manuel. Vamos lá. (assentam-se á me- 
za; Mariquinhas traz a panella, louça etc, e eenta-se 
entre elles,) 

Mariquinhas, (servindo a +opa) Comam para te- 
rem forças. 

Manuel. O que tom a sopa que sabe a ranço? Pa- 
rece cabedal queimado ! 

Mariquinhas. F/ da cordura. 

António. Está bem boa! 

Manuel. Nào ha ninguém como a menina para fa- 
z-er comida. 

António, (tirando do prato bocados de vella$ de 
cebo.) Mas o que é isto?. . . 

Manuel." At! Eu sei o que é* 

Avr Q.MO. Sào vellajB de cebo. 



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i2 

Mariquinhas, Então o ar. deitou as vellas na pa- 
pella. 

António. Dá-lhe muito melhor poste*, (acha vm ra- 
milhete no prato y mostrando -o.) E isto o que é ? Um 
ramilhete ! Aqui ha de tudo ! . . . Isto é uma fanhosa; 
miscellanea. 

Mariquinhas. Mas como foi }sso para ahi parar. 

António. Fui eu que lh'o trouxe, e que o metti na 
panclla ? onde o deixei por esquecimento. 

Mariquinhas. E* muitc galante!, . . Este ramilhe- 
te jamais o deixarei, (deiíao na meza.) 

ManUel. (c*m cólera) Que demónio é isto! (tira 
um sapato do prato.) 

António, (aparte) Oh 1 com a breca, {alto) Eu sei 
o que é.- 

Mariquinha». E' um sapafo. 

Manuel. O meu sapato f . . . reconheço o. . , Quem, 
foi que o poz aqui ? . . . 

António. Quem? Talvez fosse euí. . . 

Mariquinhas. Ma» isso ó muito mal feito. 

Manuel. Foi elle que o escondeu na panella. 

António. E* verdade que sim . . Fui eu. . , para 
que Mariquinhas não dançasse com vocô. 

Manuel, [aparte.) Tratante !. . . . 

Mariquinhas. Ouçam, não cazarer com um homem x 
que teve a ousadia de me deitar os sapatos na pa- 
nella, e que me obriga a ir dançar de phinelios ! de 
chjnellos ! . . . 

Manuel. Tem muita razão. 

Antoino. Sim! pois então vejam. 

Mariquinha*. (assustada) Oh í meu Dcua! olha 
que me quebra a louça. 

ANTÓNIO. Veja, veja. (pega nos pratos e attira-ot 
péla janella.) Hâo-de todos ser viçtiuuU &* UWft ÍW 
ror t e d* minha vingança. K ^ 



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13 

Mauiquínhas* Que furor ! 

António. Hoje heide "dar que íállar cá no sitiõ> 
adeus ! . . . (vae até à porta, e depois volta.) Não. hade 
ficar com a minha panella. Adeus interessante par, 
tenham saúde e fortuna. (Agarra na panella e «a* 
correndo.) 

SCENA It 

Mariquinha*, Manuel # depois António 

Mariquinhas. Então deixa-o levar a 'minha panella. 

Manuel, (que tstava escondido a úm canto) Eu ia 
agarral-o, mas elle uâo me deu tempo. 

Mariquinhas, Assim foi melhor ! Terlhe-hia feito 
algum mal» mas agora que elle se foi embora só de* 
vemos pensar na nossa immediata felicidade; 

Manubl. Sim ! sou muito feliz, (pega-lhe na mão) 
Porque te amo muito, (vae para lhe dar um btijo na 
mão, quando aparece ao fundo António, com uns pou* 
cos de pratos, n f uma das mãos; e uma panella na OU" 
tra: entra com aspecto triste^ Manuel larga a mão d$ 
Mariquinhas, e António vae collocar a panella e o$ 
ptúios em cima da meza.) 

Mariquinhas. Então voltou? 

António. Voltei, assim que d'aqui sahi conheci que 
tinha feito mal, fui a caza buscar uns pratos para 
substituir òs que lhe quebrei. Aqui tem, tanto os 
pratos, córnea panella, peço-lhe que acceite. E pe- 
yo-lhe também que me perdoe os mçus excessos, de- 
sejo-lhe muitas feíecidades, não era digno de si, por 
isso o ceu castigou- me. . . (dirigindo-se a Manuel) E 
tu desculpa-nfe, e continua a ser meu amigo. 

Manuel, (dando lhe a mão, toca.) Seremos eterna- 



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mente amigos, e para t*o provar serásr o padrinho do- 
nosso cazamento; acceitas?. . . 

António. (apertando~lke a mão) Está dito, acceito. 

Mariquinhas. Ora visto que todos estão satisfeitos, 
vou buscar umas garrafinhas dum vinho muito bom r 
para festejarmos alegremente um dia tâo feliz pnra 
nós todos, (derigese ao armário aponde traz garra- 
fas e copos,) 

Manuel e António. Vamos ao vinho!., ao vinho!.. 

Mariquinhas, (enchendo os copos.) Ao vinho!. . ao- 
vjnho ! . . . 9 

António. Proponho uma saúde. A saúde dos noi~ 
▼os ! . . . 

Mariquinhas e Manuel, (bebendo) Á vossa, á vossa. 

Mariquinhas. Um pedido, meu Manuel, venha uma 
cantiguinha das tuas ! . . uma cantiga das bonitas . . . ' 

António. Venha là uma cantiguinha. 

Manuel. Visto que tanto pedem, lá vae uma can- 
ção, á alegria, ao prazer, o á juventude, isto é ao 
vinho. 

Mariquinhas e António* A' cançSo! . . á cançãol . . 

Manuel, Lá va«, mas hão-de fazer-me o acompa- 
nhamento, (cada um tomd o seu copo, e hattem com 
tiles uns nos outros quando cardam o coro.) 

CANTA 

Viva o vinho monarcha do mundò r 
Viva o vinho, divino licor, 
St5 o vinho nos torna felizes, 
Só o vinho nos falia d 'amor. 

Coro 
Viva o vinho monarcha do muido». 
Viva o vinho divino licor, etc. 



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Í5 

W o vinho o meu roxo ideal",. 
Só o vinho nos sabe inspirar, 
Só no vinho àffogaraos tristezas 4 
Só no vinho aprendemos a amar: 

Viva o vinho monarcha do ratíndò j. 
Viva o vinho divino- licor, etc. 

E' o vinho meu sonho incessante, 
Quem nos faz esquecer dissabores,. 
Só o vinho enebria e dá vida,- 
Gòmó o orvalho dá vida ás flores. 

CORO 

Viva o vinho monarcha dò mundb r 
Viva o vinho divino* licor, etc. 

Só no vinho não ha inconstancias r 
Só o vinho nos pode alegrar, 
Só no vinho se affogam paixões, 
Só o vinho nos faz remoçar. 

coíbo 

Viva o vinfio monarcha' do mundo, 
Viva o vinfao divino licôr & etc. 

Só no vinho se apagam saudades, 
Só no vinho não ha desalento, 
Só o vinho nos guia e dá luz, 
Só no Vinho se acaba o tormento. 



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16 

CORO 

Viva o vinho monareha do mundo) 
Viva o vinho divino licor* etc. 

E' o vinho remédio efficaz, 
Que no mundo nos pode salvar 
£' o vinho consolo dos tristes, 
Só o vinho nos sabe alegrar. 

Coro 

Viva o vinho monareha do mundo* 
Viva o vinho divino licor, 
Só o vinho nos torna felizes, 
tíó o vinho nos falia d amor. 

Mariquinhas e António. Muito bem ! . i . múitó 
bem ! . . . Viva o vinho t • . . e viva a alegri&i 

TODOS 

Viva ! . . • Viva ! . . * 



Càe o panno 



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m i f i 



Goosle 



PEÇAS PUBLICADAS 

Por canga d'um retrato, comedia em 1 acto, origi- 
nal de Diogo Josó Seroniênho e A. da Silva Carva- 
lho, Preço 100 réis. 

Viva o exercito, e Viva o Duque!! .•_, ; grande be- 
xiga em '1 acto, original de Diogo José Seromenho e 
Augusto da Silva Carvalho, musica de Apparicio da 
Matta, representada com geral applauso no theatro do 
Príncipe Real em a noite de 28 de maio de 1870, e 
emdiâerentes terras da província. P;*eço 120 ruis. 

A noite dos noivados, comedia em l.acto, imita- 
ção, por Diogo Josó Seromenho. Preço 10.0 réis. 

Mariquinhas a Estalajadeira, comedia em I acto, 
original de Diogo Jqsé Seromenho. Preço 100 réis. 

EM VIA DE PUBLICAÇÃO 

í • 

O ultimo idolo, drama n'um acto, versão portugue- 
sa de Carlos Matheus Gonçalves dos Santos. Preço 
120 réis. v ^ 

Simplicidade e esperteza, entre-acto, imitação de 
Diogo José Seromenho. Preço 60 réis. 

Aventuras d'um gabão, comedia em 1 acto, imita- 
ção de Diogo José Seromenho. Preço 100 réis. 



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A MULHER BO PRÓXIMO 

COMEDIA EM UAÍ ACTO 

.POR „\.\ 

DIOGO JOSÉ SEROMÊNHO 



Condecorado com a medalha ao mérito, Sócio honorário 
do Grémio Litterario Portuguez no Pará, etc. 



Kepreseatada cam geraes applausos em diferentes thealrps 




THEATRO CONTEMPORÂNEO 

DIOGO SEROM^NHO 

EDITptt 

LISBOA— 1881 



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— 2 — 

PERSONAGENS 



Amélia» Jalia» Ernesto* José 

EM USBOA — ACTUALIDADE 

ACTO ÚNICO 

Gr&bhiele eiegafctq, vcnt thaminé <ra fogjo, spjnq efte anui 
cafeteira) livros, albtóís, etc. ' ^ ' - 

SCENAI 

«lalia e Brneste (sentados) 

Ernesto. Estou hoje mais triste dei que um inglez ata- 
cado dttseevknd. Naturalmente é do dia, não tem cessado 
de choverTUue aborrecimento. 

Júlia. Estás hoje de muito mau humor. 

Ernesto. E' verdade, e não sei porque. 

Júlia. Que queres que faça para te distrahir. Vou tocar 
piano? 

Ernesto. Aborrece me. 

Júlia. Então lé. 

Ernesto. Fatiga -rae a vista. Não quero. 

Júlia. Vae dar um paaseio. 

Ernesto. Chove murto. v 

Júlia. E' pouco lisongeiro para mira, aborreceres-te ao 
meu lado. D antes eras mais amável. 

Ernesto. Não me faças aborrecer mais do que estou. 

Júlia. E's insupportavel. Que hon?em! ($ae.) 

SCENÀ II 

Krne«f • (acenât um cigarro) 

Oh! minha querida liberdade de solteiro. Como suspiro 
por ti, como era feliznfosse tempe, ninguém me apoquen- 



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Uva quando estava aborrecido 6 zangado. Num iello diá 
Jembro-me de me enamorar de XaJia, e zás, entrei para o 
grémio dos homens^azados. Nos primeiros tempos, du- 
rante a famigerada lua.dô nelf toda foi bart, mas hoje 
von estando saciado de tanta felicidade, e vçu-ma abor- 
recendo horrivelmente de ter sempre diante dos <4hçs a 
mesma mulher, que me faz sempre as mesmas caricias. 
Oh! é demais, eu que em solteiro não podi> fttijrar uma 
amante faais de quinze dias, ser obrigado a aturar ipa 
mulher toda a vida. E cada vez chove mais ! que dia tâp 
divertido ! Agora tenho frio. (chamando) Amélia, 

SCÈNA III 

Amena e Krne»to 

àmklia. (entrando) O j$r.;cJhamou? 

Ernesto. Deita lenha no fogão, e aviva o fogo. 

Amélia, (depois de deitar lenha) Deseja mais ajgçma 
cousa? 

Ernesto Põe ess^t santeira ao pé do calor, para aque- 
ce? esse çafé.l .. .. , ; 

Amelta. (poiido a cafeteira ao fogo) PromptQ, d^cjui a 
^ifp rçó^nto fica qqeatç. %| 

Ernesto. Mas agora reparo que cara tao aaojigada mie 
esUa rapada teip, E que bonitos olhos, que cjtyuratao 
delgada \ de perfil ainda c diais bonita. E a boca tao.pç- 
quepipa está mesmo a pedir beijos. 

Amélia. O café está quente, jagorajrou buscar assear. 

EftNflsia. Vae car* bonita;. 

Amélia, (yottàndc-se) que! 

Ernesto. Nada, nada... 

Amélia. Pareceu-me.y (#««.) 

SCENA IV 
ferneato (só) 
, $ çu}ito syropatbiça* e muito elegante. Tem um oerto 
ar 4e çandpra que encanta. Uma doçura de voz-tãoaj?no- 
nioza que enleva. E sobre tudo que olhos, qpe dem$s, 
.pffewp pérolas de Ceylão, .J&yantmdo-se) Até já me 
passou o aborrecimento. 



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— 4 — 

SCENA V 
JBrHe«C« e Amélia (entrando) 

Amélia. Aqui está o assuear. 

Eknesto. Põe em cima da meza. Sabes que és muito 
sympathica. 

Amelu. O sr. está mangando. 

Ernesto. Não estou brincando. E* a terdade. Estás en- 
cantadora. 

Ameua. Vou-me embora. 

Ernesto. Espera... 

Amélia. O sr. esú çop.esp^ çon$^. . . e eu sou ca- 
sada. 

Ernesto. Então o que tem isso. . . 

Ameua. Retiro-me. 

Ernesto. Não, serve-me o cafél 

Amélia, (deitando café na chávena) Prompto. . . 

Ernesto. Dize-me de que teria és tu? 

Ameua. Oe Lisboa, nascida e haptisada na-freguezia de 
S.Lourenço. 

Ernesto. Logo se yè que ç&ee typo tôo elegante, só po- 
dia ser de Lisboa. 

Amélia. Não sei para que me diz essas cousas, que me 
envergonham. 

Ernesto. Não sejas «reança. (querendo abraçaf-a.) 

Adélia. Senhor, deixe-me. 
- Ernesto. Parece-me que gostar de ti não éfazer-te mal 
(corre em volta da meza e conseguindo agarrai- a abra- 
ça-*.) 

SCENA yi 

O* mesmo* e *#*é 



José. (á porta, detendo-sé) Esta é que eu não esperava) 
EfcNESTo. (largando Amélia) Hao te ebamei. Não pre- 
ciso agora de ti. 

José. (aparte) Creio perfeitamente que agora nio pre- 
cisava de mim. * 



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Bwíesto. (aparte) Está dito ffosto da Amélia. Se o p'a- 
«ett do José terá visto, (tnê pemâireita.) 

• Amélia e *o»4 •'.-.... 

José. Amélia, pelo que Tejo ta qtieres fazer de mim, o 
que efa â5o qaero ser, mas* toma muito cuidado porque 
vou ficar alerta... 

Amélia. Escuta... 

José. Sou teu marido, quer, dUer senhor absoluto. Tens 
de mó obdecer, porque me jurastes fidelidade e obediên- 
cia. , ^, 

Amélia. Falias sem razão. 

José. Eu bem vi. Não «meago. Não me faz conta con- 
tinuar a servir n'esta casa. Por isso contas e rua. 

Amiiía. Não sejas assim» Com facilidade não arraaja- 
ria-mos outra casa em aue podássemos servir juntos. 

José. Seja como for. Não fico aqui bom, não quero pe- x 
sadellos, que me façam peta na cabeça... 

Amélia. Descpnfcs <& min. I 

Josi. Não. Mas bem vi o patrão abraçar- te. 

Amélia. Sabçs; que sou urna mxdher honrada. 

José. Mas é bom evitar as occasiões. 

Amélia. Fica descansada, (soe.) 

SCENA VIII 

#Mêf«tfJ .* : 

Que é uma mulher honrad* sei eu, todas o são, até ao 
momento em que deixam dáó ser.» Porem o tal senhor 
roeu patrão, serapce i&asajtiu urça peça d'encommenda. 
Mas não tem duvida, estarei alerta, (pausa) E se eu me 
vingasse. Mas como. Obl que ideia, bile quer- me namo- 
rar a minha mulher, por conseguinte vou pamarar-lhe a 
d'elle. Olho por olho, dente por dente, Elle desce até a 
mim,. eu subo até elle. O n&eio mais bonito d^ fazer qma 
declaração, é escrever uma carta, eu não tenho lá grande 
gaito, mas toei a diligencia. Vou tratar da cartiaha f («o*.) 






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SCEÍÍÀlX 



Afinal não tomou o café; e íria-me eompf omettendo com 
meu marido o tal selrtfô^^lte^*aflf&! V bem atrevido; eu > 
pouco pe importa que me deegi ^braços* q qu* aãp gaçto 
é que m'os vejam dar; fui muito tempo creaaa dtjfniJu^ 
peaarià, e todos os hospedes me abraçavana> quaiwo*lhev 
hia arranjar os quartos. : . 

' ";'' , ., "" saetfA ; .x : . : . . ' , :'\ ; . 

Amélia e Ernesto 

• -. • ■•,,;• K 

AmêlIa. (reparando em Etkèstó) AM sr. ttio ttítk o 
café!? - ■ ■ -\ ■' • - •> - 

Ernbsh), (aparte) Cá esfalfo* fô/tó) Já tomo*. (Aftétóe 
enche uhtta chávena e fâz meUsãÔ de ie retirar) Tèmprès* 
sá? Detóà-f* estar. Não estás bem áO pé de mittí? • ' • •* 

Amélia. Nem bem, nétrt toftl* r ' •.- v: 

Ernesto. Isso é qqe é frtaftrçtièíi. DáM àdiav$ó*(4*n- 
ta-s*.) % ..•-•.. .- . ; ; . , ,- • .. •*:... <. 

Amélia, (da-lhe a ekaite*(é êe^òiigé} Aqttítèm. 

Ernesto, (aparte) Está ittUito «arisca, (attó.) ApfOxi- 
ma-te. 

Amélia. Para que? . , 

Ernesto. Toma uma gota de feáfét 

Ameua. Muito obrigado, f^z^ne mal aos nervos, não me 
deixa dormir, (sae.) 

\\.V;\/ scèííaju " 

Erne«tae depàl* &émé ■ 

Erkbstò. \%em reparar que Amélia tahiô) Btobe. . . iss* 
é plègttitfs. . ;Se não fosses «O ârisoáf, lazia a Hty WM 
dade. Cpatisd á/wrírt Callá-ãe. Qtíem cállá v tôii$éitte. 

lotffe. (eitrrawA úevagm) Que dirá este sentor * . . 

E^bsto. Tema ideia ! Iibr* fftr&*i (Jo*iafiÊtPã#4i+ 
nheito nmsurpteto, tíhM^e #m**a òlfâtirarbéttefy 



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— 7 — 



guardou o dinheiro é bauv signaTy váe-se amansando. Age- 
ra é boa occasiâo de lh&dar w* abraço, (alto) Dá cá um 
abraço, (dá o abraço em José) Tu aquit Toma. (dá-lkeum 
pMtopé.) ; .' u •••*•• 

José. (ifyarte} Den-ine dinheiro, um abraça c um pott- 

ta Êf , ' 

onesto. (aparte) Teria elfe visto, (saí? ) 

SCE2U XÍI 

«tairó <«*) ^ 

f 
Este homem está.doidotHDesconGo qiíe o tal. abraço »ao 
tra pára mito, nem a nloía libra» agora o pontapé esse é 
q«fl m porteoee com toda a certeza. Naiuialo&eate julgou 
que era a AatoKa que estava aq»i. Mas vamos» & ^ta., 
Comprei uma folha da papel morte boaila, 4Qda».árrcn4a(la, 
e com um cotação* pintado de encarnado, e dois porabi- 
ahos A bajaitouirae, agora- einquanto á escripta fteouôbra 
aceiada. (lendo} «Desde o primeiro momento em que a vi, 
senti logo d'entro do jeito upiv^lcào a arder, que nem 
toda a agua da.fooipjkakia seria capaz de ag?gar. Adoro-a, 
não posso viver sem a senhora. Rosppnda por Deos acoste 
coração torturado pela duvida», que "nao pode vivef á#m 
a senhora. O seu amor eu a morte, a morte ou o Seu 
amor. D*aquclle que só por si sofre,» geme,, a cfiòrá, tóm 
esperança até á morte e ainda alérrç da morte. José.fa- 
rece-me que não ha nada a (fizer,, este obra fina. Êlla 
abi vem. , v " '.* ' * 

S6ÊNÀ Xtíf 
«loac e 



José. Minha senhora (ápart?) Nao me atJ?evo. fatto) 
ttnhsr MBfaanb 

hstu, (wpurajufe má José) Que qtteras. 

Job*, (áfãvty Aaimo* (âto) EntregaraniHae islã para 
a senhora, (enfrega-lhe a carta, e $iu.) 



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— 8 — 

SCENA XIV 
<Iulta(»ó) 

Parece carta d 4 algum saloio oa soldado, papel arrenda- 
do, vejamos a as3iguatara. José. E é para mim, pois foi 
elle quem m'a entregou, (lendo) Tem graça 1 Por esta é 
que eu não esperava í Mas não devo consentir tamanfto 
atrevimento, (chamando) José. 

SCENA XV 
anila e *«sé 

José. (entrando) A senhora chamou ? 

Julu. Qae significa esta carta? 

José. EHa está bem clara. Que a ámo. 

Julu. E atreves-te a dizer-m'ot Authorisei-te alguma 
vez, por qualquer medo, a fazeres-me declarações tontas. Sae 
da minha presença, e senão tiveres juizo ponho-tena rua. 

José. Pelo sen amor tudo sofrerei. 

Júlia. Heu marido vem aht e elle te ensinará. • 

José. Repito-lhe que a amo. Dé-ihe um abraço (verse- 
gue-a em volta da meza, até que consegue abraçal-aj 

SCENA XVI . 
6w meftaaò* e Erneato 

Julu e Ernesto. Aht.. 

Ernesto. Que quer isto dizer ?! ■ 

Julu. Que este homem me acaba de faltar ao respeito. 
. Ernesto. Canalha i 

Jjjlu. (contendo-o) Deixa-o, está embriagado. 

José. (aparte) Julga que estou bêbado. 

Ernesto. Sae, vae-te deitar. (Júlia sae.) 
SCENA XVII 
Ernesto é J*«é 

Ernesto. Vae-te detoar. 

José. Não tenho somno. 

Ernesto. Não me faças perder a paciência. 

José. Julga que estou embriagado, çois engana-ee aind* 
, hoje não bebi nada. Veja se doa bordes., (passeia mmto 
direito) Não quer crer que gosto desoa esposa, peta -en- 
gana-se gosto muito delia. 4 , 



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«m 



Ernesto. Se não «lás betado, estás doido» 

José. Admirasse de havar joguem que, 94)10 linda a sua 
esposa, e a razão ó ser casado cou eila, ninguém repara 
no thesouro que tem perto, aias todos gostam de . desco- 
brir e desviar o thesouro alheio, a galinha da minha vi- 
sinha é melhor do que a minha, diz o ditado. O patrão 
nunca tentou seduzir nenhuma mulher casada? 

Ebjíbsto. (aparte) Ohf que raio de luz. Será por causa 
da mulher d'elle, que me dirige eUa pergunta, (alto) Não, 
e já estou farto de te ouvir. 

Josá. O patrão é muito esquecida, eu conheço unia mu- 
lher casada a quem o senhor tentou seduzir n'esta mesma 
sala. Não se lembra? Era a minha t 

EaNKsro. O que? 

José. Não se admire de eu o saber! patrão rebaixa* 
se até á creada* eu elevo-me até á ama. 
. EaNEsfo. Mas.*. 

José. Deixe-me concluir. Tanto direito tem a minha 
mulher a ser respeitada, como tem a sua Em questões de 
honra não ha criado nem amo. (outro tom) Mas soa es- 
posa não tem culpa do qae o senhor faz; tudo isto foi uma 
vingança que eu (juiz tomar. Agora vou pedir perdão à 
patroa. O que quiz simplesmente foi dau-lhe uma lição, e 
mais uma vez provar-lhe que não ha nada mais . digno e 
respeitável do que a honra de uma mulher cazada. Epara 
que não tenha mais tentações eu e minha mulher sahimos 
a esta casa; tenho pena, porque apezar de tudo nós gos- 
támos des patroas... 

Ernesto, (aparte) Hade servir-me a lição. 

José. Quando o Sr. tiver essas tentações com as mulhe- 
res dos outros, apprexime*se da sua que bem merece as 
suas attençôes e o seu amor. Desculpe eu dizer-lhe isto, 
mas represento aqui a verdade, e essa falia sempre em 
toda a pante e de cabeça erguida. 

Ernesto. Tens razão José, desçulpa-me, não satas.de 
minha casa, dá cá a tua mão. Nunca mais me afastarei 
dos meus deveres. 

José. (dando-lhe a fftèV) Oh! senhor... desculpe... 

EaimsTo. (apertando-lhe a mão) Bem, não faltemos 
mais n'isao, o passado, passado. 

Digitized byV^OOQlC 



— 19 — 

• é* Míélrmo»» JNil*i* e Aitt«*l* 

JtftU. (^mífííío) Aii>dâ alif estás! ..»■*• 

José. (tonteio} Perdão, tâlàh* senhora.* 
•• E«W&tt>. Perdteiite. 

Julía. Be», ttèttfqHé já ésfáa cffl teu jufco, peritoiMf», 
mas, não to?ae a acontecer ottrfc, rião lia pewr víèi* attô 
* «a béMdt*"(« iífrttfía que antro) Não dáiea $* leu 
marido beb* è« exe*sso, póde-Mie ser pre^ttdteiâto' - 

Amélia, (admirada) que!... '' ! * • 

JM* (Ntfa* » ^MA0lA»> Gàta-té, depeis tr«arçUctf*iÍ< 

A*«lía. (aparto) Cottieío a còmprehétfAflr. : > : 

Ernesto, f faixo a Jone) Tanto mo éerori a HgSfrMe. 
me destes, que estou achando muito feia a tua màhet e 
▼èjoamiíiha encamaítoíra. 

José. (baixo a Ernesto) Véa Varitagewde meitsjfetèwa, 
também eu acho a sua muito feia, pois só gosto da mmfca. 

Amélia, (bàiw a Êrnéslô) Está c*ràdó éa *uâ*'pai*ÍD ? 

Ertobsío (faio^ a AnteNal E para áeftípre. 

Jbma (a Erneito) Já não^estás aborrecido 7 -i 

EEmttsT&. Ao pé éè ti DOúcà, anjo querido» 

SOLtÂ* (aparte) Voltou a lua éè ttttài * " 

José, (ápartéflSrtí(&* a mi». 

EttAÍesTO, (abtoçmtàMm -*? i;° j*»ttf) Está** titatii" 
tarifara f • o '• 

Job*, (abrtyundo Amélia no t* plano) Dá òá um abra- 
ço, porque fta todos feiftes. f 

Amélia. Todos! E o pobre auctor, o Seromínho qtf» 4 
tio bom rapas* 

"Uuimto. Léisttrêi 

Jtwx. Eu me *&&*!*<;$ <fe peftr por elle áçtHlto* se* 
&$m(t*ditoâpMèêê.y ' ; ■ 

■ Coapltet 
O auctor d'esta comedia E"por Uso sóvos-çeço*. 
Esti maito atrapuHiado, Quatro p*lmaã por fanrwk 
Julga ter esoripto mal, Promet tendo divididas, 

E teme ser pateado. Entre nós. e o auctor. > 

CÀEOPANNO 

•"'»?• FIM- " : - -1 



,r-v raRa*»»^'^*^^ 



O li» m ul unhhp 



COMEDIA EM DM ACTO 



DIOGO JOZE SEROMÊNHO 



Condecorado com a medalha ao mérito, 

Sócio honorário do Grémio Litterario Portuguez 

no Pará, etc. 



Representada com geraes aplausos ho theatro 
da rua dos Condes, etc. 




D. J. S. 




THEATRO CONTEMPORÂNEO 

DIOGO SEROMÊNHO 

EDITOR 

ISCKIf TOMO DA HFRIXA, IVA MU W AUtfi. 24 !.• 

LISBOA— 1882 



yGooQle^ 



PERSONAGENS 

1 «layme—JulIa— CnsSodá* 

A0T0UNI0O 

theatro representa um gabinete 

artístico, portas ao fundo e lateraes, utèncilios 

de pintura pela scena. 

SCENA I 
«layme e depois «Falta, 

Jayme. A gloria é o mais rice diamante da coroa do ar- 
tista ; mas o amor é a felecidade, é a inspiração t 

Júlia. É permettida a entrada no sanctuario da arte? 

Jayme. (aparte) E' ella t (alto) Oh ! minha querida vi- 
sinha, poi« não 1 

Júlia. Estava talvez entregue ao seu trabalho, e vim 
incommodal-o. . . não é assim ?.. 

Jayme. E' possivel que uma boca tão gentil profira tal 
blasphemial.... 

Julf\. Lisongeiro f... 

Jayme. Não sou lisongeiro. . . . não pôde incommodar- 
me o ente que é uma partícula da minha vida.. . 

Júlia, (envergonhaaa.) Olhe, senhor Jayme, se soubes- 
se que estava hoje disposto a cassoar comigo não vinha 
cá... 

Jayme. Não tenho por custume cassoar com aqueiles a 
quem amo, porque nunca pude mentir ao coração. . . 

Júlia. Coração í . . . o senhor tem lá coração ... ha ho- 
mem algum n esta vida que tenha coração. . . 

Jayme. Não ha, não, diz bem. Não ha homem algum 
que tenha coração, quando encontre uma mulher de gelo 
como a vi sinha. 

Jayme. Eu amo-a com todas as forças da minh alma. . . 
amo-a como posso adorar a gloria d artista que tanto am- 
biciono, mas que nunca alcançarei. 

Júlia. Não creio, todos os senhores homens são assim... 



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..hl ii immm 



— S — v 

mas se uma pobre rapariga cáe na asneira de os acreditar 
só encontra depois falsidades. . . e desenganos. . . 

JaymeMuUo Rena, visinha. . • é essa uma theeria com 
que muito hade aproveitar ... 

Júlia Não posso acreditar na verdade das suas pala- 
vras, sem que o tempo a venha corroborar. . . 

Jayme. Obrigado, ao menos dá-me uma esperança. 

Júlia. Veremos, Deus queira que um dia ou não tenha 
o desgosto de vér a hypocrisia disfarçada debaixo do do- 
minó da ingenuidade do artista. . .adeus até logo (me.) 
SCENAIl 
Jayme ($6) 

Que óptima escola ! . . . e que experiência f esta rapa- 
riga por mais que me digam ou tem sido uma grande na- 
moradeira... ou é uma victima infeliz de algurrf crime 
da mocidade^ ! . . . (pensativo) Oh ! mas seja como fôr, o 
que eu sinto é que a amo. (batem á porta Jayme voe 
abrir) Quem será? . . .• 

SCENA 111 
Jayme e Custodio 

Custodio. Tem a bondade de dizer- me se aqui é que 
mora um rapaz, que é pintor. 

Jayme. (atalhando). Sim senhor. Tem a bondade de 
entrar. 

Custodio, (entrando). Ah ! é o. senhor 9.. . muito bem 
pois eu, vinha aqui para pedir-lhe um favorsinho. . , 

Jayme. Pois não; meu caro... estou ás suas ordens, 
tem a bondade de sentar-se. . . (indica-lhê uma cadeira) 

Custodio, (sentando-se)- Eu venho aqui para pedir ao 
meu amigo um favorsinho. .. Sim. . . eu parece -me que 
já ainda agora disse isto. . . mas é a mesma cousa. 

Jayme. (aparte.) Já vejo que é massador. .'. " 

Custodio. Òra o que eu quero, é uma cousa muito sim- 
ples. . . jamais sabendo eu por tradição que o meu amigo 
é um perfeito artisla. 

Jayme. (interrdnpendo-o) Oh ! senhor. . . 

Custodio. Não senhor; o seu a seu dono. . . mas vamos 
ao que importa; eu preciso d'uma obrasinha. (puxa por 



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~4 — 

a catita do rapé e toma uma pitada.) 

Jayme. (aparte.) Custa lhe a desembuchar. . . 

Custodio. Ora como eu ia di sendo. . . preciso d'uma 
obrasinha feita a capricho . . . quero qufe o meu amigo em- 
pfegue com ellá todos os seus cinco sentidos. 

Jatmb. Parece-me que advinho. 

Custodio. Sim ? então o que é?T. . . o que? é ? f . . . 

Jayme. Provavelmente o retrato de v. s. a 

Custodio. Deu no vinte. . . não, não deu no vinte, che- 
gou só a desanove. . . inda lhe falta um ponto.: . é um 
retrato, é verdade, mas não é o meu. . . 

Jayme. O retrato d'alguma querida do seu coração?. .. 

Custodio, {levantando- se e abraçando Jayme com ale- 
gria). Ah !. . . agora. . . agora advinhou. fi vejo que o 
meu amigo é um rapaz de espirito, pois efectivamente é 
o retrato d uma pequena por quem eu ando louco demo- 
res, e a quem o desejo offeçecer na primeira occasião. 

Jayme. Pois emquanto ao meu trabalho, pode v. s. a fi- 
car descançado. (aparte) quando um homem d'esta idade 

se apaixona, o que deve então fazer um rapaz?) quem 

sabe talvez seja mais feiiz do que eu. . . 

Custodio. Obrigado, meu amigo, obrigado; ora agora o 
que eu tenho a pedir-lbe é muita descripção n'este nego- 
eio. {tirando uma photographia da algibeira), Isto são cou* 
sas muito simples. . . é verdade qce não comprometíeis 
ninguém, no entanto o segredo sempre é bom quando se 
prepara uma surpresa. . . Eis a photographia d'esse anjo 
que o meu amigo, graças ao seu talento, irá reprodusir 
n'um quadro primoroso. 

Jayme. (pegando na photographia e vendo. Aparte mui- 
to exaltado). O retrato de Júlia. . . oht. . . não). . . não é 
' possível. . . estarei eu sonhando, meu Deus. . . (affirman- 
dose) não, não-é um sonho; é a pura realidade. . . E' o 
retrato d'eíla não ha que duvidar. . . % 

Custodio. Ora diga-me uma cousa. . . o amigo tem ai 
guina cousa?. . . está tão pallido?... está incommoda 

Jayme. (affectando serenidade). Não tenho nada, se- 
nhor. . . uma pequena perturbação, (aparte) Ainda ne 



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.~ 5 ~ 

custa a acredUar que Júlia levasse a sua loucura a pofttp 
de dar o seu retrato a um velho tão imbecil . ... # Oh! roas 
se assim é, juro que hei de vingar- me.., e a primeira vi* 
ctima da minha vingança... será este monstro .,.'(corren- 
do.para Custodio mas detendo-se subitamente). Mas que 
vou eu fazer?, 

Custodio, (aparte) rapaz endoudeceu. . . por mais 
que me digam . . . (oito) Oh! amigo, agora com franqueza 
o senhor não está bom. . . precisa talvez d'alguma cou- 
sa?... Veja lá. . . uâo. . . não faça ceremotúa comigo,. . . 
(aparte) IJu estou morto, mas é por me safar. . . 

Jàyms. E' verdade; sinto-me um tanto indisposto... . e 
n esse caso, pedia a v. s. a o obsequio de cá voltar mais 
tarde. 

Custodio. Pois não . . já podia ter dito isso ha mais 
tempo. ... (apertando-lhe a mão) então adeusinho até lo- 
go. . . e heide estimar as melhoras. . . . sim?. . . (sáe). 

Jayhc. (aparte) Ah! que não sei como posso conter- 
me. . . 

SCENA IV 

«layme (só) 

Júlia engaúár-me d'esta forma. . . e eu que a amava 
tanto. . . eu. . . que toda a minha aspiração era grangear 
do trabalho, inspirado pelo seu amor, um nome brilhante 
de gloria para um dia lhe depor a seus pés um futuro ri- 
sonho de fetecidade. . . vôr ágorá destruídas n m momen- 
to as íllusorias esperanças de toda a minha mocidade, % . 
Oh!. . . . é horrível. . . . {depois de um momento, rindo 
despropositado) Ah! . . . ah! ... ah! . . . insensato que eu 
souf . . . ter a desfaçatez de me apaixonar por uma volú- 
vel que, escarnecendo talvez os meus senti mentos, se rirá 
á minha custa com o primeiro que lhe a p pareça. . . E so- 
hre tudo o pape! ridículo que eu tenho feito em tudo 
isto. . , sempre sou muito tolo. . . em crer no amor das 
multares! , 

SCENA V 
«layme e Julta 

Joua. Está * rir sosinho? o que quer isso dizei?. . . 



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Jaime, (d parte). Mau. . . elta comigo. . . vem em boa 
eecasião^. • (alto rindo) Ah!. . . ahf . . . ah!. . . ó visi- 
nha, inda me está a parecer impossível como eu ainda 
agora sustentei por alguns minutos o papel de apaixona- 
do, sem desatar ás gargalhadas . . . (rindo) Ah) ... ah! . . . 
ahí. . . Tinha cá minhas desconfianças que havia de ser 
um bello galan dramático, e quiz fazer uma experiência 
com a visinha.. . 

Júlia. Uma experiência comigo?. . . pois a declaração 
que o visinho me fez era. . . 

Javme. Brincadeira pois a menina acreditou. . . (rindo) 
Ah! ... ahf . , . ahí . . . Pareee impossível que a menina 
me julgasse tão tolo, a ponto de me crer apaixonado por 
uma mulher do século XIXI. . . 

Júlia, (zangada) Senhor! . . . (aparte) bem o propheti- 
zej. . . e eu que já o amava. . . em tudo sou infeliz. . . ja- 
mais conhecerei a verdadeira felicidade. . . 
. Jayme. Soffrâmos com paciência. . . (á parte) quer vér 
se me sensibilisa. . . 

Júlia. Bem m'o advinhava o coração ! . , . 

Jayme. que?. . . o que!... (rindo) Ah!., ah!... ah!... 
coração í. . . pois a visinha tem coração?!. . . 

Júlia. Não; é talvez o senhor com essas gargalhadas 
em face da mulher que teve a fraqueza de mostrar- lhe 
que o ama. . . é o senhor que tem coração?! . . . 

Jatme. E tenho sim senhora. . . e a prova que o tenho, 
é que o sinto aqui bater (indica o peito) como nunca o 
senti! 

Júlia. Basta de cassoada, senhor. 

Jayme. (á parte) Máu. . que temos mudança de scena 
(alto.) Mas... visinha, socegue... por dois dias que have- 
mos de viver, não vale a pena a gente alterar-se nem ura 
só momento. . . é necessário encarar este mundo com o 
maior sangue frio, para que um dia não tenhamos desos- 
sobrár vergonhosamente n'este oceano de desenganos. . . 
um ultimo caso que se deu comigo. . . a minha única illa- 
são perdida tornou-me o maior cynioo do mundo, . . se 
hoje faço uma declaração amorosa a uma mulher... ama- 
nhã dou o meu retrato a outra... po dia seguinte (aparte) 



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— 7 - 

não percebeu!,., nem amais leve perturbação (alta) no 
dia seguinte rojo- me aos pés (Fuma terceira... e se appa- 
recer uma quarta... uma quinta... uma sexta... e uma 
septima... a todas faço a minha declaração amorosa... 
sem eomtudo sentir amor algum porellas... a isto... visi- 
nba, é que se chama cumprir á risca as leis vigentes da 
moda?... 

Júlia. Bravo t é essa a theoria do aínor?... 

Jaymb. E' verdade, visinha; porém são as mulheres que 
fazem com que nós não creiamos no amor.,, pois no sé- 
culo presente a mulher é o synonymo da inconstância, 
. Júlia. Agradeço-lhe em nome do meu sexo tão lison- 
geira affir mação... 

Jayme. Esta solução nada tem de lisongelra; mas ver- 
dadeira e real. 

Júlia. D' essa forma encara as mulheres por um prisma 
bem vergonhoso. 

Jaymb. Que quer, visiuha... se eu perdi todas as iliu- 
sões da mocidade e do amor, num só momento, mas pa- 
ciência! foi mais nm desengano na minha vida, 

Júlia. Aposto que me não pôde provar o que tem 
dito... 

Jayme. Oh! se posso... bastava abrir-lhe o meu cora- 
ção... mas não... não quero... rir-se-hià de mim. v 

Júlia. Mão tem confiança em mim, já vejo... 

Jaymb. Ter confiança em mulheres que... fraqueza. . 

Juliat Acreditarmos ainda nos homens . . . que as- 
neira!... 

Jayme. Pois vou provar-lhe a verdade d'esta asserção 1 • 
ouça, foi um caso passado na minha infância, mas do qual 
bem me recordo, pois o archivei no meu coração. Perto 
da casado meus pais vivia um artista, com quem travei 
amisade, pobre, mas t honrado, sonhando com a gloria» 
ideal de todo o artista, quando uma manhã reparou que 
defronte de sua casa, morava uma mulher... amou -a lou- 
ca e apaixonadamente como se ama aos vinte anãos, foi 
corrospondido... acreditou em seus juramentos.*, n 'uma 
palavra, só teve uma aspiração, um desejo... desppsal-a... 
para isso trabalhava constantemente para adquerir glõfia 



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— 8 — 

e nome, pana tudo depor a seus pés... quando n'um dia.. . 
soube que um velho feio. .e ridículo... possuía o retrato 
do seu ideal, djsendo que era o retrato da mulher que 
amava... (falando Júlia e aparte) Nem o rubor lhe subia 
ás faces!.... é demais!... (alto) tíeou louôo de pesatf.. . ho 
sofrimentos ua vida que não teem descripção... No pri- 
meiro momento teve vontade de descarregar toda a sua 
colèra sobre o infame velho, mas sústeve-se, porque pen- 
sou que tal jrival era indigno íelle... Deixou de trabalhar, 
sofifreu moito... pois., um primeiro amor deixa recorda- 
fões para toda a vida... pas&ado algum tempo confessou 
a si mesmo que toda a mulher era falsa e inconstante... 
e descreu completamente do amor... tornando-se o maior 
eynicodo mundo... Eis uma historia verdadeira. Que diz 
a isto? terei eu também rasão para descrer das mulhe- 
res?... 

Jolia. Creio que não, um facto excepcional não lhe dá 
o direito de duvidar de duvidar de todas as mulheres. 
Quem sabe mesmo se essa mulher seria culpada?... quem 
sabe se seria a fatalidade quem encadeou todos esses fa- 
ctos tenebrosos para condemnar a pobre infeliz ? quem 
me diz que esse velho não passaria d'um fátuo, gabando- 
se de ser amado por uma mulher de quem unicamente 
possuía o retratoT... ' 

Jayme. Mas como explica a posse Ao retrato?... 

Júlia. Não sei!.. Em todo o caso, senhor Jaymé, nun- 
ca é bom julgar pelas apparencias, porque ás veies il- 
udem... 

Jayme. Oh) se assim fosse... (aparte) Gomo eu seria fe- 
Ket... 

JutiA (aparte) Ha grande mysterio na vida d*este ra- 
paz. . . (retira-se dará um canto ia sala.) 

SCENA VI 

Os mesmos e Custodio, sem reparar em «falia 

Custodio. Ora eis*me aqui ouira rez. . . 

Jatme. (A parte) Oh I ainda bem; ctogou em» boa- oeea- 



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. Custodio, (vindo até ao meiodaècena.) Então coroo vai 
o meu amigo? sente- se melhor? 

Jayme. (oom affectação.) Um pouco melhor... muito 
obrigado. . . 

Júlia, (á parte) Melhor ? 1 . . , pois elle estava doente ? 
Percebo... a historia que me contou... a enfado que 
mostrou quando me viu. .„ aquelle mysterioso cynismo... 
(chorando.) Adeus meus sonhos de felicidade 1. . . (soe a 
correr. pelo fundo y semque Jayme a heja.) 

SCENA VII 
Os mesmos, menos «falia 

Custodio. Pois creia que estimo tanto as suas melhoras 
como se fossem para mim. . . 

Jayme. Mas vamos ao que importa. Chegou n uma bella 
occasião para tratarmos do que lhe diz respeito. 

Custodio^ Sipa ? ainda bem, ainda bem. . . 

Jayme. É verdade... (á parte) vou desmascarai- a. 
(voltando-se para o logar em que tinha ficado Júlia, como 
surprehendido de a, não vêr.) Oh! . . . (aparte) já se foi I . . . 
é uma prova convincente da sua criminalidade ) . . . 

Custodio. ,(& parte.) Está-me parecendo que o pobre ra- 
paz, ainda não está de todo corado... (alto) Pois n'esse 
caso, meu amigo, desejo saber s em primeiro lugar, qual o 
preço, que tenho de pagar pela minha obra. . . 

. Jayme. O preço da sua obra ( . . . (á parte.) Eu mato 
este maroto... [alto, ironicamente.) Oh) pois não... 
muito barato. . . levar-lhe-hei o módico preço. . . (enfure- 
cido) d'um duello... 

Custodio. Dum duello? f ... (á parte) Não ha que ver... 
está doido... Pobre rapaz... (alto) Ora o amigo deu-lhe 
agora para cassoar commigo? I... 

Jayme. Não cassôo, senhor, fallo sério... Repito-lhe... 
ha de bafer-se eommigo n'um duello de morte. . . 

Custodio, (muito assustado.) De morte)... (aparte.) 
Então, hein?... não querem lá ver em que bons lençoes 
estou mettido )... (alto) Ma», venha cá... isso é impossí- 
vel.., bem vé que... 

Jaymk. Já disse... senhor... Não admitto réplicas. 



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— 10— . 

Custodio» Peis sim, sim... eu não ponho davida alguma, 
mas... mas... mas guarde isso lá para mais tarde... 

Jayme. Não, ha de ser hoje mesmo, se não quer que Ibe 
chame tão vil, como cobarde... 

Custodio. Pois sim, sim... serei lá o que o amigo qui- 
zer... n>as ha de concordar que... 

Jayme. Hesita?... pois bem, vou assassinai -o )... 

Custodio. Assassinar- me? mas, senhor, o corpo do ci- 
dadão é inviolável... e isto é uma barbaridade. . uma 
traição.., 

. Jayme. Neoi mais uma palavra, senhor... (abrindo uma 
yaveta da meza.) 

Custodio. Assassinar-me... que atroz situação a minha... 
que traição... Quem me acode...- oh da guarda... 

SCENA VIII 

Os mesmos e Julia, entrando pelo fundo, 
muito assustada 

Júlia. Que é isto?. . . senhor Jayme?. . . que é isto?. . . 
que aconteceu?... 

Jayme. (á parte) Meu Deus t que fiz eu ! . . . 

Custodio, (encarando Júlia.) Ai ! que estou perdido! .. . 
Agora percebo tudo. . . A rapariga de quem eu tinha o re- 
trato. . . é provavelmente a mulher do pintor. . . (lançan- 
do-se aos pés de Jayme.) Perdão, senhor... perdão... 
mas quem teve a culpa de tudo isto foi aquelle maldito re- 
tratista... 

Jayme, retratista ? t . . . 

Custodio. retratista, sim, senhor. . . (de mãos postas.) 
lias perdôe-me, sim ?. . . perdôe-me?. . . 

Jayme. Pois sim, homem, está perdoado; mas explique- 

Custodio. Ora lá vai: eu sou muito curioso em possuir 
retratos de carinhas bonitas. . . e tanto assim que tenho 
um museu lá em casa, p'ra onde destinava o quadro que 
lhe encommendei. . . Ora, a semana passada fui a casa do 
meu retratista, e vi lá o retrato d'esta menina. . • ora eu 
não o queria trazer. . . mas o maldito retratista começou 



yGooQle 



-11- s 

motter-nTo á cara* . . e eu nio tive remédio senão com- 
prar- IhV. . 

Júlia, (á parte) O meu retrato? . . . 

Custodio. Ora já vô que eu não tive culpa alguma. 

Jayme. (á parte) Júlia innoeente ) . . . e eu que procedi 
tio precipitadamente ! . . / 

Julià. Mas, senhor Jayme, eu não comprehendo. 

Jayme. Perdão, Júlia. . . eu lhe conto tudo. . . Este se- 
nhor apresentou-se-me aqui com o seu retrato, para ft eu 
lhe fazer uma reproducção a óleo. . - 

Custodio. Era p'ra figurar lá no museu. . . 

Javme. Dizendo que estava extremamente apaixonado 
pelo original, e por isso lh'o queria offerecer. 

Custodio. Mas isso era brincadeira 

Jayme. Imagine como eu ficaria, ao ouvir uma tal reve- 
lação, que me roubava o ideal da minha felicidade. . . 

Júlia. E o visinho acreditou que eu fosse capaz de. . . 

Jayme. Perdão, fui muito precipitado, 4 verdade. . . mas 
a luta terrível que se travo^na minh'alma era mais forte jL 1 *^ 
do que a voz da minha consciência. ... u 

Júlia. Agora percebo. PT esse caso, a historia que me ' 

contou... 

Jayme. Era a historia dos nossos amores, que eu julga- 
va perdidos para sempre. . . Agora sou mais feliz do que 
nunca. . . porque sei que me ama. . . 

Custodio. Pois, senhores, se eu soubesse o mal que ha- 
via d'aqui vir fazer com aquelle maldito retrato, nunca 
mais queria retratos lá no museus . . 

Jayme. Socegue, senhor, é verdade que me fe» bastante 
mal, mas ás vezes ha males que vêem por bens. . . Este 
facto veiu destruir todas as suspeitas que eu ousei faze 
recahir sobre o amor .de Júlia, e hoje julgo-me feliz por vé 
coroado este sentimento ijue em breves dias nos unirá pa- 
ra sempre.. . 

Custodio. O senhor não é ainda o marido d'esta meni- 
na? 

Jayme. Em muito pouco tempo lhe darei esse nome. 

O ustodio. Uma vez que fui o causador de o meu am.ig 



yGooQle 



/> 



— 12 — 

ter suspeitydo d'esta senhora,. qu, .1.0. «p compensação*- . 
ser o padrinho do casamento. . . Acceitam ?. . . 

Jatme. Boa lembrança. . . Será o padrinho do nosso ca- 
samento. 

Custodio ( Mas olhem que é com uma condição.. . 

Jayme. Qual é?... 

Custodio, à de me darem os seus retratos lá pYo mu- 
seu. 



CÁE O PANNO 



FIM 



_ J, )igitizedby VíEiOOQl 1 



mm 

NOVE RETMTOS DOIS TOSTÕES 

AWWfWITfr EM DM ACtO 

- i ...... ■ •.....• 

DIOGO JOSÉ SfiÊHOMÊNHO 

Condecorado com a medalha ao mérito, Sócio honorário 
do Grémio Littertrio Portuguez no Pará, ele. 

ftepeseatado cmr apflaasos em diferentes teatros 




D. J. S. 




.**. 



THEATRO GONTEMPOBANte 

DIOGO SEROMÊNHO 

EDJTOR 

ISIRIPT0R1Ô U IMPRilA, MA BOTA DO ALMADA, 14 !.• 

LISBOA— 1882 



y Google 



-*J 



— 8 — 



PttftSONAt&IKfc! 



/ 



tinia nenliora.— Uma vendedelra. — Uma 

laria+-Um cr€Sadó-^ plioífograplio.--llm 
•n\}elto«— Una creança de 6 annoi. — Una 
ama de leite. — Umaereada* (As duas ultimas 
não faliam.) 

i - .4<sjrfruieoo cr oio 

A scena representa uma galeria photographica, 
com todo* os seus pertence^ fàaehina, ek>.->~4}m 
letreiro em uma mvlàtto*ti ífizenéo: «Púgamento 
adiantado, a 

SCENA I 

PHorocttAPHé. (cpm um jornal m mão) Agpi&i com 
este annuncio, ó que os freguezes vão apparecer aos mi- 
lhares! Está explendidol (lendo) «Grande revolução phò- 
tographica» , retratos económicos e inalteráveis. — Preços 
nunca vistos) Nove retratos, dois tostões) E' uma verda- 
deira maravilha esta invenção) Entra o freguez, senta-se, 
tira o retrato, assoa-se e fica prompto. Mais depressa não 
é possível. Se <Pçsta vçz não consigo gwnde fjreguezia, 
então deixo-me d*ílto e ^ waQoítr» vida. 

SCfitfAII 4 

O photograpbo, Um rapai, 
depois uma «ennora e uma Creada 

Rapaz. Tenho a honra de o cumprimentar. 

PHOTOaRAPHOe^Jjl^Jpf^ , r . ; . V „ ^ 

r "" Rapaz. Não esta canjAguem? 

Photoguapho. Sim 1 senhor, estou eu. 
Rapaz. Ninguém a tiraVb ffetfato, é que eu queria di- 
zer. ; • »" •''* :•* -•• 

PHOTtKÍRAPHO. IsSO &MBLT& C*60. • . 



• T^ít^^by GoegI-»*-* * 



m—m—mmmmmm 



Rapaz. Então vou-lhè» diaer que podem entrar, (chega 
á poria e diz.) Entrem, estamos- sós. 

Senhora, (entrando com a criada, cumprimeulê com 
adankatnento e susto.) Diga-me, virá alguém ? 

Pí*>too*apho. Oqu* desejem? + 

Rapaz. Tirar-o w**ato> 

Photogiupho. Pava isso não i preciso taate mysterio, 
Janto segredo! Não é nenhum crime. » • • -~. 

Rapaz. senhor ainda não comprehendeta a histtria, 
esta raemita tem um pae. . . 

Photourapho. Gomo todas as meninas. 

Rapaz. Que se soubesse que tinha vindo comigo tirar o 
retrato/ era capaz de me matar. E f um malvado. 
- SRKHéRA. Não digas isso do j**pát 

Phôwgrapro. Querem tirar em grupo? 

Rapaz. Sim, em grupo. • 

Photographo. Pequeno ou grande? 

Rapaz. Para nos ó o mesmo* a questão é que seja mais 
Jbarato. 

Photosrafho. Então pequeno. 

Rmz. E' roais elegante. 

Photocrapho. Bois eutlo podem sentap-se, eentrete- 
rem-se com os álbuns, que eu já venho, (soe.) 

SCENAIU 

Os mesmos, menos o P *H « f g rmgifc» 

Senhora. Vae-se fazendo muito tirde f 

Rapaz. Não tenhas pressa meq aijo. Olha faltemos do 
nosso amor. 

Senhora. Calla-te, por causa da creada. 

Rapaz. Mas dize que me atoas. 

Sbnhoba. Para qne to ke**de repetir. Bem o sabe*. 

Rapas, (folheando o álbum.) Jtepara que cara tão bo- 
nita. 

Senhora. Nio gosto que deante de mkn*4)Dgies outras 
senhoras. 

Rapaz. Ciumenta. . . Bem- sabes quanto te amo. (dão 
ms mãos.) Desejava passar assim a rida, a contemplar-^. 



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~4— 

SfiNflORA, »Está-se lazendo tarde, o photographo não 
apparece e a mama á minha espera! 

Rapaz. Pouco se pode. demorar. 

Senhora. Que horas são? • 

Rapaz, (á parte} Estou arranjado! (altm)tim II horas 
pouco mais ou menos, (volta a$ cttías e finge mr o relo- 
fio.) Bem éwse, são ii horas e cinco minutos. 

Senhora. Deveras, não me enganas? > 

Rapaz. Omissa! 

Senhora, Desconfio que irie enganas, deixai vier o re- 
lógio. Til •»., .* ■ ' 

Rapaz, (aparte. ). relógio está empenhado no Vidal. 
(alto.) Pois duvidas de miml 

Senhora, (puchando-lhe pela corrente.) Duvido sim, os 
homens são todos falsos, (quando lhe pucba a amima ap- 
parecmem logar de relógio, uma caixinha redonda de pa- 
pelão.) Que é isto?. . . 

Rapaz. Eu te explico, é uma caixa de obrélas, 

Senhora. Mas para que a trazes? ^ 

Rapaz. Porque tenho o relógio a concertar,? ad&nt&va- 
-se muito, está no prego do relojoeiro, e pala segurar a 
corrente paz esta caixa» (tendú queella qwer abrir a cai- 
xa, tira-llie da mão rapidamente») <> 

Senhora. Deixa ver o que está dentro da caixa. ' 

Rapaz, (aparte.) Vaíba-me Deus, è a cautella do Ví- 
dal. (<dt+)Wkr%*àwÊÍm. 

Senhora. Não me enganas, deixa-me ver. 

Rapaz. Isso è oajfriokoí 

Sensqra. Já diew cpw quero ver. 

Rapaz. Não te zangues. 

Senhora. Aposto que é alguma capta de amor. 

Rapaz. Que tolice! ..-■;«*•■ 

Swphoua. (êangadi*) Pote «tonto nio qoéTes caem ve- 
ja, ik aio tipo o xçttlto. -E's um monstro, (para o crea- 
da.) Vamo-nos... 
- Rapai 4 Mameseufe. .. 

Senhora. Nada quero, ouvir. . . 

.V, • í* i !.;■».• *-'■ .- '< 



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— OB- 
SCENA IV 
Os mesmos e o Pfcotoffraplio 

Phçtographo. Qaanda quieerem esto* ás ordens. 

Senhos a. (haixo ao rapaz.) Agora pode-se netraiar sé- 
sinho. y 

Rapaz. Na» sejas má! 

Senhora. Deixe-me. 

Photograpko. Uoltoquem-se como'qmztrem. 

Sknhosa. Ea não quero tirar. 

Photographo. Como este senhor disse que queria gru- 
po, preparei o cliché maior. 

SsifHífltt. Pois já me passou a vontade de tirar o re- 
trato. 

Pnovogiupbo. V. Ex. a devia-me ter dito isco antes <de 
preparar o cliché, porque me cansa transtorno e diferen- 
ça estar a trabalhar debalde. 
. Rapaz, (á senhora.) Vamos, fax-te condescendente: 

Swmhora. Já disse que não. Se quer grnpe, tire-o com 
a creada. 

Rapaz. Isto faz typrderta paciência, (vão sentar- se nos 
dois extremos da scena, etía, abanando-se e elle batendo 
com a bengala no chão.) ' 

PaoTamavfl»». Caim, estou *«efeea> •* •' 

Rapaz, (levantando -se.) Vamos ao grupo, (á creada.) 
Anda cá rapariga, sentaste aqui e não* te mexa», (senta a 
creada na cadeira em frente da maifwna, aediê jsoetao la- 
do delia.) . * 

Photographo. N'um instantejfoa ptiempto. 

%ha+z< (á creaé*.) Nio te rias eelupida. (a eveada 
põe*se muito direita e mwiêo sériet.) 

Photwraw». Via vergue grupo tão artista». - 
ftiAPAZ. (á parte.) Em suo-roe e «ao page- * 

Photographo. Não se mesam. 

Senhora. Uma carta de amor. E' indigno) 
Photographo. Ficou maimiitol 
Senhora, (ao rapaz.) >wti tado acabado** ostra nós. 
Adeus para sempre. •••»•« 



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Rapàz. (ao photograpko.) Posso vir amanhã buscar os 
retratos? (dinginds-se para a porta.) 

Pbotograhjo. Pódeu. . mas antes tem a bondade. . . 
(indica-lhe oquúàrS:) de Ter o que está escripto. 

Rapa*. » (ti*?** * /^^-E' pr$ròU»te. (ápart*.) Ainda 
em. ete»4e»ho de pagar .' fato* danfo-lke dinheiro.) Aqui 
tem. 

Photographo. Muito obrigado, até amanha, (baixo.) 
Estimo que laçam as Dazes. 

Rapaz. Obrigado. (3a«m ralhawto um am o outro.) 

SCENAV . ' 

PHOXwnaPH^. (ító*^ K f preciso paciência, pajra exercer 
a minha profissão. Temos que aturar um grande numero 
de ridiewea, que nos desesperam, ou nos (azem morrer a 
rir. Uai que ó vesgo» auer ficar no retrato com os olhos 
direitos ^ outro que é peliadonqiierfiear copa utaa.graode 
trunfo . «witie (pie traz ao* peito um alfinete com pedras 
falsas, quer oue, ellas brilham no retrato. Emfím nãò me 
admira que algum dia veja em qualquer ka lendário: Sia 
Fuao de Enzóes, pbotegrafifao e «artyr. 

SCENÀVI 
O PHotogr*|»Mo e a Vemdtatfeir* 

Vem>em*ia. (mUrmndo .) B^a saúde e patacos. 

Photographo. O mesmo lhe deseje. 

Vendbdeira. Venho biftear os meus retratos. 

Photográpbo. Meia dqpia, aão é? 

Vbndbdejrà. Deixe ver se me chegam, (contando pttô$ 
dedo$.) Um para o Pedro, outee para o Jfanuel cocheiro, 
dois, outpe para o Cuatwho «das «oas, tree» outro para o 
Torto da Ribeira Neva, quatro, outro para o Vicente Bu- 
galho, cinco, e um para mias. seis. Eétá bem, não preci- 
se mais. 

Photographo. (dandè-lk'o*i) €ra vaja Já como saíram. 

Vbhmobira. Que cara é esta? ' » 

Phot*grapho. A sua. 



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— ? — 

Vendedeira. Isso não pode ser, você enganou- se, eu 
soa trigueira, não sou mulata, e este retrato é de uma 
mulata, e bem escura, parece a cara dum carvoeiro* 
Fiquei com um bocadtaho da sai* levantada para mostrar 
o meu pè, que todo* dizem ser muito pequeno, e alui re* 
presenta noa .pé enorme um verd^deilro pó iagle*. 

Photogràpho. (interrompendo-a.) Ficou um ífrorao es- 
curo, más j*so alo êV deleito, está até muito parecido. . » 

VBNWHWMaa* (Hhk*)-Nio*àig* isso, que me dá vonta* 
de de rasgaiKa retrato, fttttttfo.** retratos que estão pelas 
paredes) Veja, se enqoatra.aquí um retrato tào queimado 
como está o. me\x\ (afjkma&do-se num retraio) Mett 
Deus! • .r . < . . . .. ■.-,./ / • . 

Pho^oorapho. O qú* foi? 

YE*j*£DismA~ Estonteado, e. parte* que ó meitira) 

Photogràpho. Mas aqtxe.é? : ^ 

VenjwbdejoUíí EW aeu retratai E oe«fl outra mulher i Ca- 
nalha! Miserável! Tratante í Vou-te partir um braço. . » 

Photoqrapho. Mata <pam?; 

Vendedeira. (apontando um retrai»:) A easemwara^elt 
À esse>canalhal At! ea morro, em abafo, não posso mais. 
(cae $uffocada<a chorar. sobre o sopká )' 

Photqgbapho. Mae r êrogfelbe me eapiiqne ... * 

Vewdedeir*. Vá parço diabo! 

Photogràpho. Mas ... 

Vendedeira. Deixa*me desabafar. .** « 

Photogràpho. Pois desabafe! (aparfr) Acho-lhe graça... 

Vendedeira. Quando, fe que e lie veio tirar ess» o retra- 
to? 

Photogràpho. Qual ríatfato? 

Vendedeira. Pedro. m 

Photograího. Qual Pedre. 

Vendedeira. (indicando~lhe o retrato pendurado.) 
Àqueile maroto .que alii está» ao ledo daqueita delambi- 
da . (chorando,) 

Photogràpho. Já percebo. Vera ha quinze dias pouco 
mais ou menos. 

Vendedeira. E veio buscar os retratos? Quantos tirou? 

Photogràpho. Dois. Então conbece-o? 



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-8 — 

Ybndedeir*. Até de mais: Eia lhe conto. Ha dois ânuos 
a meio que nos amamos, e n&o imaginados saerifiajos que 
tenho feito por elle>. O -pouca querfenhe pwrten*e-lhe y te- 
nho*lhe dado, tedc*,-. (àèndê umuocca m> moldura,) Ca- 
nalha! \ • ...-• r i '* 

Photooiuubio» > Olhe çAe-mei parte*» vidro, e«u.nào te* 

nhoeulpju..* : • í .. .t-M.- »'• ..•!/■ 

. . Vhhd*m»a. Teanras&n desculpe, estou- fora <fe mim... 
nmmaroto que tanta tenho aaaaflo^iaror*meu**aq>artida 
é>eetasvv. -E\'-. pftia.Teèentar d© desespero. Mas de.xá es* 
fcua que náo- a&iperdesu Nrçoca m© passou pela* ideia que 
foese tãoMnalvada,qne mo enganasses, e<entâo com quem, 
com a vadia da Alexandrina* que não tem habilidade pa- 
ra nada, e que é a vendedeito» toairç pelinfcnona que» fre- 
3uet>la..aprã>çftu < Ma»eu^me vingaraigi ;»Câaaihat. Ven- 
a-me os retratos d'aquelle$ monstros. ». :. .. 
;- PMftroaftftBBO. Naeipesso^ nio me authonsara» a ven- 
da; épnohihide. » . t *» .-v...-. 

Vendbdeira. Vou procutataq* a hc&ide «ter que faltar, 
n»^afaem atada quctotett sou. -. . 
. PjBdweeaABBói AqaUeja ósseos i*etóafosj -j •.. >. 

Vendedeira. f^ofl&mdo-twij Nio pre&tóa, mas pa- 
ciência,, fichei ueo^/eiiea assim* Ágeri emquanto aquel- 
les dois (indica o quadro com o pim^o fechado.) Vamos 
ajustar as nossas contas. . . ••' 

Soldado, (á porta.) Vmsso peneirar? ! 

PnofDOoaAPiio. Penetrei •..,.!• 
. V«n»híeira- Não éféio a: penei wi dessoldado, (soe.) 

SCEM.WI1 .... 
• ••* ' 
O Ptioto^ aplift £ 4 AftfJ<l«flo 

1 V » ' «*,,/. i ♦ 1; 

m PíB)TpGftlWHOi;Be3BÍa|?.,. t t . . , .,. - 

Soldado. Tirar o retrato. . . , , 

) .^^fitíRA^Ho^Vaipoâ^is^o, . j ,.. 
Soldado. Djos mais baratos. * . > ■ 

) PH0T0C»i*J?90. JÍUítfDu - . 4. 

Soldado. Busto é l^m? . ;,,.* i ■■'....,• , 



y Google 



* PHOrooRAFHao fá parte.) Qm grande estúpido, (ai tê.) 
E' só meio corpo. m... • - • • 

Soldado. Não quero. Hade sen todo latejo qoeté para 
a minha noiva. »»■/ < . • < * 

Photgc»aího. Pois taipbem se arranja. .1 .- 
Soldado. £ qoero ser retratado a cavattoi »; •• 
Photograpu». Isso .não podeaer. » /, ■ -.1.. ,-... > 
Soldado. Ora essa! Pintagripho oaho.tí de maaire- 
gimemto tirou»}» remita ajjavaMt,- e;1i a«imaJ fieou itão 
bom que só lhe falta fallar. V .> 

Phoiogkaw». Quetft oPkfctagripho? - h ■ .1 , - 

Photographo. (4» p«ní*j> Já virftni&um,bni*© assim? (a^ 
|o) Bem sei qne sagram retratos,. a«cavaUo^mas. aqli o 
local não se*pr«bla»pa!»e3i«»uabâlho).poiir»*oeàih'o pos- 
so tiiar a pélhi •■ « - j ■ ■)■ » • ». 

Soldado. >Vis*o,róo poder* ser d'ooiia.1natiftfttu. , mas 
então quero ao fundo um castello coifc a; bandeira porta* 
meto, ádireita,unâa.pbatr«qa<le oatBp4iihft5 ? eaosimeus 
lados uns obuzes. Um verdadeiro >ret*a*iride militar em 
campanha, assim comp o retrato de Napoleão da França, 
n ? um quadro que se tènãe 'no bazar da rua Augusta. 

Çflcprflf ^»ho- Tjoi^B^não pôde $*>r> porq^ato^enho 
aqui. esses agtfreftm ^ÃifiUWW- fafflTttjM nruto e 
estúpido! (alto, mostrando lhe uma photographia.) Só lhe 
posso tirar ck jetratth «wo*eatár wteúwldwto da guarda 
municipal. 

• Soldado, Vistoso poder ,*er cpmpwirtHfcsro. ,Vá lá 
assim. , f .,,-■,,, M», ... ; -, ,.:. i-, ,.-.;{ ,. .,; •• 

Photographo. fcoíldWKfc^ ■>&** fmiçWr)>kgW& bade 
estar quieta... . : ,.,,. , .,- . ~ t , % ». , ,.> . /5 .i./ 
.. Soldado, $(*ê: #stá a meai^aw* N^ft^^u^o^nJpde, 
tenho um m^vo- e vinte. E tfç}^o,(3resci4ôv»Wto desde 
que sou militar, esj«cUlmea>e^ft^^[of0stwa.qavalJo. 

PHOTOGBAj?up M (ÍP^n|^#AíTfl.) Ê*te^,^eta<^S8aawãos 
mais atraz, a iw^çft.m^i^al^ , ., », , ; .• . - ..*...» , . . 

Soldado. Assim? :,..ui >; '■» .i ..«túi . -<• j ' 

. PeoT^B4tHo.,fetóibe#i*^g^afião.f%in(í^. u - 

Soldado. E fallar posso? .^ .* ..;,.. 



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— IO — 

x Photogramío. Não, esteja cálladoi Olhe para e& ' (co- 
bri* do-se com o pano.) 

Soluado. £ diga«me pode- se rir? 

Photographo. Quieto. ' 

Soldado. Estou, a suar, não posso estar assim, muito 
tempo até tenho comichão «o naria. 

Photographo. Não se mova, não pestaneje. 

Soldado, Estou fartos i . 

Photograpb©. Prompta. Agora *oa mettel-o no banho* 
(saeyela E.) -,.-•.- 

Soldado, (despindo a fitfdetn.) Bemy voo-me despindo 
para o banho, eu não sabia que quem tirava o retrato 
tinha de- se banhar, aprender, até morrer* 

PHGTOQttAPHO. (entrando.) Que <é isso, agora despe*se?J 

Soldam. Então quer qu» eatr e fie banho mtidol 

Photographo. Qual banho, nem qual diabo, banho é 
para o retrato. Agora só o que lhe resta é pagar e vir -de- 
pois buscar o tetrato. 

- Soldado. que quero é que fique bom. (pafa.) Adeus 
tou para o qtiftrtei. (soe ) . ' 

;":'.'' sgejía \iii ' l " ' ;""' 

O pJbQtoçraptio, uma velba, um atijéftfò, 

1 tifna criairça e utóa ama com outra a(> eoH.o 

Vtítov. (tom um c&o preso por im cordel.) Com liceu» 

Ça- 

Photographo. P»dèm entrar, (á parte.) Que eoítac^ão! 
Era digna de figurar no museu d'arte ornamental. 

Stlfeífrtti Queremoi tftar ofc retratos. • •* J 

Velha, (ao pkotograpkp.) Não faça bulha, para não 
aeordfeir '^'m^nirio' faama ) Ama, abafe bem esse ahjU 
Hho.' (tèweança.) Zi, zi, não mechas em nada. 

Ptíof oísha*pho. ET grupo qtae quer*». 

Velha. Sim, grutoy mas que não custe muito caro.' 

Photographo. Isso é segundo o tanianbo. r - 

Velha. Tamanho natural. 

Sujeito. -Não mulher, isfeò é muito caro. 'E ém grupos 
não se usa. i . ^ 



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Velha. Ora adens, nao teimes. As Silvas do Arco do 
Marquez de Alegrete, dão»se muito com a família do con- 
selheiro Pinto, qae é da marinha, e essa tem um sobrinho 
casado com uma senhora- qae 3 lhe trouxe ama boa fortu- 
na, e foi a semana passada tirar um grupo só de- pessoa a 
de faraàlUl, em que entrou a ama do pequeno, oprofessor 
de piano da D. Canstança, o major Pimenta, e o dr: Se* 
4jueira, aquetle que lu dizias namorava a Prodencla. 
Lembras-te^ 

Sujeito. Não me temb-o. 

Velha. Oh1 homem de Deus, o Sequeira que<era sócio 
do grémio, enjoe em casa das Paachoaes, da rua dos €a- 
valleiros, cantava modinhas á vioto, no dra da- procissão 
dos Passos^ Estás mesmo desmemoriado ... 

Sujeito, (â parte.) §e lhe digo que não me lembro, é 
capaz de me tirar os olWsv: . (alto.) Agora, agora lem- 
bro-me perfeitamente. • > 

Velha. E o grupo que tiraram foi em tamanho natural. 

Photoorapho. Corpo inteiro é que a senhora qtter 
dizer. » 

Velha. Exactamente. E quanto cuMta? 

PifffmonAWio.^ãocittco pessoas. 

Velha, (mostrado o ca&i) Seis. - 
• PHOTaaàjntaov Nãottinha ■ reparado. <(moHrandbrlhi nm 
tyitpopkoteyt-upkicOi) Assim u'este goste custa a primeira 
prova três mil réis. * ♦ ..■,;•.■>•• 

Velha. Issc+émui*) caro! ••"• - >. r 

Pnotoo»APBx>i As seguintes $ão a dez tostõtfs ../••>!' i / 

Velha. Pois está dito, o penhor fica com- a priunírra. 
pi-ova pára pôr era exposição, e nós levamos a segunda. 

Photographo. Já Vejo que não eotoprefoendeo.. O pri- 
meiro retrato que- tevar casta- lhe três mil réis. . v 

Vilha; Agora enteaaVE ficará com polimento ?' • 

PhotoorajphOv Fica. gelatinado* E* o systenia mais mo- 
derno. • ' ' » 

Velha. Ainda assim acho mtíito ca*o, • 

Photographo. E* por causa das crianças, nunca eslão 
quiejas. . . « - . .</ . 

Vblha„ Qe t meus £0. contrario estão, owi© hem odoca- 



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— 12— 

dos> - sábeèi >ebed*eeer que é a primeira obrigação dos* fi- 
lhos. >(á >t>tm*ça que* tom* subido a uma cadèira.)T\TMb 
d'ahr meninos ■ * 

Creawçai (deitondo a lingu* de fora.) Não quero» . ^ 
Hão-qeero. . . *-'• 

Phòtqorapho. (áyarte.y Bem 'se vê, que está bem «da- 
eadol' 1 ..-.*■* •■ * • < - »■•• * -i . 

. YuLííA/íEstas creaoça» são capazes de fezer perder à 
cabeça um santo, (ao sujeita.) Oh! homem parece qtiê 
estás a Bormir, faze descer essa ereánça. 

Sujiwo^MefiJiw, já para baixo. 
- Phot oaawPHO. Já venho, 1 vou preparar o etíché, nf o mè 
demoro, do entretanto portcm-se entreter cem o seu k\- 
bum. (dà-ikc o álbum eme) " " 

; : '..■".. , .".Jscenajx,. . .■.. 1 ,, ' . 

Os mesmos, menos o I»liotografk»lft* 

• •■,..<•• ' ■ •... • .. • 

Velha. 'Muito se parece 'este photographo com o Po1y- 
carpo de Corroios. 

Sujeito. Não acho. . . i ' ' 

Velha. E' a cara d'eHer Logo heide-lhe perguntar. . . 

Creança. Quero ver os bonecos. ... 

VstHA. Anda aqui para o meu lado e está Ifhieto. (sen- 
ta~$e junto ao pequeno ecomeçam a ver asphotographias.) 
Olha cá está o retrato da Quitéria. 

Sujeito. Qual Quitéria? tf - - ' 

Velha. Ade Cacilhas que ia todos òs dras aos batfhos 
á Mangueira^ e que namorava o- Chico, a quem puseram 
o akuntoa de Gaveta. ' f ■ ,( " 

:^tewowt'N»è meiembro. « • 

Velha. Oht homem de Deus. Aquelk rapariga alta > 
picada dtfs'bexigas, <jue dava bailes àmeudauas vere*, e 
qu* frequentava á neitè o cães trazendo á treNa um enor- 
me cão da Terra Nova. 

Sujeito. Agora/agorátembro-me. • ' ' 

VBLHAitMha cá está a Januarta? 

Sujeito. Qual Januaría? 

•TFtanr» A qfue andava muito com a Quitéria*, eqoe na* 



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-♦15— 

raorara>aqjUâH*rapa£$ago t que andava, sempre montada 
num bariK) tedâ prel*. r. . 

Siueito. (é vortt.) Quer por força que me' lembre, (ak 
/o.^) Sim lembro-me perfeitamente. '. 

Velha. Olha aqui tens o major Sousa, que foi do 7 
hoje está <r*formadb, «esse ena/ muite tepi aqigo . 

Sujeito, (á jiarfe JtNune* «o *i- mais goral«>. ; 

Velha. Está muito tpanectdor Eile ainda namorará a 
Germana, aqbeWa pequena, com cara de- alvar eoentn* 
ruídos- peta carie? :• 1 •• 

Sujbito. Eu sei cá. * ••«'• •■ 

Velha. Tamberirnãe sabes; nada, nem serve» para na- 

da- •;;,:'. » ... 

Sujeito. Em compensação tu sabes tudo, e lombrasm 
de tudo. . 11 • 

:■ SCENAX " 

Os mesmos e o Pbato.gi^ptplio 

Photocrapho. (entrando.) Estou >ás tQrdên6v<quaado 

«juizerem . . ' ■' n V ' / 

Velha. VaroosJ {deixa .0 aibumú óreançaque cúmeça a 
a arrancar Mrf»ika*j) Ora'diga-me>uma loukk o sr. .não 
se chama Pelycarpo e não ó de Corroios, e< não. tem*um 
filho que ó compositor, e anda sempre desbota* de mon- 
tar e esporas. < > . • -: 
Photoobapko< Ityãb tainha senhora. ' 
Sujeito. Eu bem te disse. « t 
Velb*. «Poie pafecé se muiio. Diga^ne 0001060 chamai 
Photog*a*ho, Caetano -Leal, paira servir a v M Ex/e.a 
todes que se queiram phetegraphar. . • • - • * ■ 
Velha. E de que terra é? . . , 
PHOTeoRAPHe. De Cedotana* . •> 
Velw*, Játeio quome encanei. Pois julgada que era 
de Corroios, e que pertencia íwuma,fa*njJia muito .da mb- 
nha amisade. A rfamilia Polycanpo é eoraio -ó «oonheeida. 
O mais reino |«ra muito cico^ tinha tido uma laja de pan- 
nos de linho na rua Augusta» parece- me que o estou venr 
do cem «s eotegrarides hartas tatorasi,seiaprB veeúdo de 
preto e com toda a gravidade. À irmã era viutadeura 



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— 14 — 

officíaí de veteranos, valente nriUtar que «deixou um bra- 
ço numa campanha, um olho numa acção, e ama perna 
numa Somada. Era um heroe, mas muito feio. . . 

Sujeito (á parte, sentando se.) Temos conversa para 
duas horas. 

Velha. E que péssima vida que elle dava á mulher, 
era damnado com ciúmes o mafarríoo do homem, assisti 
a scenas tormentosas entre os dois. Qoitada pobre* mu- 
lher, só acabou de sofirer quando o marido morreu. Ha 
casamentos bem desgraçados. Emfim cousas d' es te mal- 
fadado mundo. 

Photographo. (á parte.) E nio se cata. .- 

Velha Todas estas recordações me vieram aproposito 
da soa parecença com»a família da fuinha amisade. 

Photoorapho. Pois nada tenho com essa família. 

Velha, (reparando na criança.) Que estás fazendo, me- 
nino? (a creança foge e esconde-íe agourado ás saias da 
ama.) Vou dar»te urna tareia. 

Sujeito. que foi? / 

Velha, (mostrando-lhe o álbum.) Olha í . . . 

Photographo. Não faça caso, foi o álbum que o meni- 
no rasgou, são creaaças. . . Mas/enião vamos ao grupo. 
» Velha. Vamos. . ' • 

Photoôhapho. Querem que eu» o fowne? 

Sujeito. Sempre fica melhor. 

Photogbapho. Então venham cá! (todos s* agrupam em 
volta do photoarapho que os voe coliotomdo.) A *ma aqui. 
em pé, eem o menino, nos braços. . . [a ama sempre em~ 
balando* a creança) A outra creanç* aqui 110 banco, (ao 
sujeito.) senhor aqui encostado a esta oadmra, a senho- 
ra sentada com o cão no eólio: A ama olhando a -creança. 
menino do outro lado fazendo festas ao cão, e o senhor 
olhando sua esposa, com ar prazenteiro, com* q«em diz: 
<jue felicidade, que encanfo. 

Sujeito. Sahirei com pouca expressão? 

Photogbapho. Ao contrario, fica um grupo .verdadeira- 
mente artístico. 

Velha. Pois eu tinha-o imaginado á"ontBe atodo. (le- 
aantando-se.) 



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^^^^^mF-w^^^^^^^^^v^mr^^maim^i**!* 



JLS> 

^ToeiAPHO,. JSetao tenha a bondade de. o dizer . 

Vhlha. Não gutlo que fiquem uns olhando de Crente e 
outros de Jàdo. Desejo tudo a «ttiar-paraa frente* mesmo 
que olhem uns para cima e outros para baixo. , 

Photographo. Será como a senhora quiser. .. «. 

y/siuA. (aafoaridaj Tu lembr*s-te como as Gonçal- 
ves tiraram o grupo photogFapfaico, que team na sala 
pendurado por Ciesado piano? 

Su«fTO. (á. parte*) Nem de- tal cousa ine lembro, (al- 
io.) Sim, lembro-me perfeitamente* 

Velha, (ôo photographo.) pae estava, assim (indi- 
cando com o gesto.) em pé. A senhora ao lado d'eile em 
pé também.. As filhas sentadas adeante ena umsóíá com 
as mãos,)d«A*sv. *a© ktdo esquerdo Felisiniao, um so- 
brinlw», qiv elles teia, que., ó, boticário inventor dumas 
pílulas para desembaraçar o estômago, « que esteve pa- 
ra casar com uma das primas, qual d'erias não sei. . . 

Photowaphq. fáparí«,) t Poisé.peoa! : l 

Velha. Ora assim è que eitava ò gtopo. Todos de 
frente. 

Photographo. Pois seja assim, ficarão todos de frente 
ftfltíwo-ai.) , Q ar» aqui, a awa .aqui, agora a senhora 
aqui, quietos e olhem a machina. (Todos ficam, muito 
direitos, meto* a antajquéMntinua a> embalar a crmnóa.) 

V*f*u^Esperetyro:iu*t*irt6. . 

PttOTOOiMfPHo,.Qu« deseja v *■ . 

Vjílji.*;. YrjoJjne Pancracioinaa f»oa de frente-. • • >• ■ 

Photographo. Mas qual Pancracio. 

Ybusa O meu-íilbo. Acha o^iooie raro, pois foi gosto 
do- padrinho, que>é,úm homem de» muito talento, até es- 
-cjruye «peças. para o^theatros. ; ,. s : 

Photographo. (á parte.) Por isso elle poz ao afilhado 
tito- (tome <, de* coi&edia. (alto.) Pois volte para cá o me- 
nino. .-. J -.-<•' , '.•)., •," • 

Velha, (á arm.) Cuidado não. o acordes, (a avm vól- 
4m* eom todo o cuidado.) Assim, fica perfeitamente. 

Photographo. Tornem-se a collocar eseqli do. fcbUo* 
cam-hetomo ettowm*) Bem, agora quietos. l( . ;» i t 

Velha, (á creança.) Nâo te mechas menino. .<•.• «.■ 



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— 1£ — 

PhotooghíaphoÍ' Hw s&i mediam i (loâiloca^êf&r d¥ita z 
da maquina e CQbn-wúomwpamw freto.) ' 

Crbança; <{isconde-9t mis saim da m&e a chorar.) T«- 
nho medo.» /..>'.•« > : :v »?♦ ' ■ 

Vblha. Está quieto, tf: 

/PHofôâKAPHOi (aparte.) Maldito, (alto.) Amm não 
pode*ôr.4án»#:víio<aboiTeceiid©< . *u •.:•>!. i , • 

Vblha. Assustou-se, condo o yie tapado K5om<y patonOj 
Não tenhas hiedo; -este setofoiÉr râtffaztafel. v ^ - 

Photographo. (fazendo4ke >fostw:) Coitadinho* (apar- 
tai) Papeco.finriaacaco. -(toma pora tf wiacWwa.j A aóia 
que esteja traiéta.. ; /.-.■••. 

Veiíha. Não ppde, senão- acordar a ereairça. 

Phgtosbiaphoi Assim é< impossível tirar-réttlttoa. 

Vblha. iMasise» a/Ctfsanòa açorda, começa atchordive 
não «fica bom o retrato. -** 

Photographo. €hora/nc|o, também não o posso ilrar . 

Velha. O sr. éferaito vigente* (fapanlawfo*** J* ' 

Stí$aatèo.{4**tiulher.) Mas, 'menina v.v * ' » 

Vblha. Calla-te. •■* 

SiUEifro; Já festou dàllado. • • - - " 

PH0T6GRAPHOJ Sa nãt> <*9tã# quietos renuncio a tirar- 
Iheaa retraip; Estbu farto, j; i 

Vblha. Loiribro-se que está faH*ncto>c<Hn uma senhora. 

Photographo. Pois minha senhora vae-me* fatiando a 
paciência. Ha que tempos que thé «stou escutanckiima 
grande quintidatfe de historias/ a qòe não ligo a minima 
importância. .*;•.«.• 

Vblha (ao matido) Ouve® o que èh este hotaem? • 

Phôípographoj Sabe^ qoe mais, minha senhora, se sm 
marido lhe atura tudo, eu é que não estou resolvia* a atu- 
ral-ai iíí". t ^.h» •'.'- , • , , .■: ■-, .* .«• ,•..- :/i 

Vedbaí Homem, não vez que mra^stãoinéultaiidtt.É* 
um cobarde ! (ao photographo) Se eu fosse homem. . . 

Sujuto (ao photographo) Natffaçá eaa©« * 

Vklha. Ha^ád^ »me dar «ma satisfação. Ama,<*amft» 
nos embora;;^ mademoro^maifrflrebento. ' '• ; 

Photographo Vão* com 'Deos. (apmt$)\E com todo» «a 
diabos que os carreguem. ^ 



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— 17 — 

Velha (ao fUho) Anda- menino. * > . 

Creança Não .quero sabir, quero que me tirem o, re- 
trato. ■»!•■* / .-, " / 

Velha (ao marido) Pega-lhe ao colio ou dou^lhe ôrti 
puchio áorelbas. (o sngeito pega^nê^riança que chora e 
esperneia) Anda. 
Suíew* (u* photographo) Vitb assim ta dose annos V 
Photographo. Tenho dó do senhor. '■ 

Sdjhoto (iièm) Muito obrigado* • •» • ' ' 
Velha (sanufoj Anda (para o photographo) Eu o arran- 
jarei, heide -contar isto dob jornatef >(mmt) < 

8CENABLTIMA 

, ' i • i -.i • • i »• «* 

M*oto&rfc*fto» (só) e depois** Véndedeira '" 
e o C*ea*lo • ' 

/ » • 

Photographo. Nãolomô a tirtn refraws de íamiliasêro 
grupos, senão pelo dobro do preço, são- os que dSo mais 
massada e interesse nenhmnviFiaeramme perder um tem- 
po preciozo, para nada. . 

Vbndedbira (entrando €<m o Onado) Boas tardes. 

Photographo. f aparte^ Outra» vez f 

Vbndedbira On**qui «toa eu já 'de volt». 

Photographo Então, tjee ha dauovirt 

Vbndedbira Ora, o que hade haver. Aonde está o re- 
trato? ■«...•• 

Creado Sim, aonde está o retrato? Sempre o quero 
vér. •-;'■• ■' "' ' 

Vendbdeira Pois jtilgaá quef sonhei f (mostranio-lhe o 
retrato) Olha alli 04^^ malvado. ,» \ 

Creado Olha que eu não ^ou; para graças/ cuidado com 
esses modos. . • 

Photographo (aparte) JionitQ, . tqmçs, #utra : questão . 

Creado (ao photographo) Tire d'ahi esse grupo, e de-mo 
cá. (o photographo dá-lhe awtnto. Rasga o>rietrato) Aqui 
tens o cazo que faço d'elle, estas Bátisfeita ? ' 

Vbndedbira (muitowfogw) tetàto wáteitiê) (obroça-o). 

Creado Tens ahi diaheiío* 



Ttej? 



Vendbdiirá Tenho • -\ • 

Cubado Dá-me todo o que tiveres. 

Ybnokdbira (dando-lho) Aqui tens, não fico nem com 
^ipco réis. 

Crkado (ao photographo) Agora tirernos o retrato em 
grupo. Pago eu tudo. 

Photographo (aparte) Poderá, com o dinheiro d'ella. 
Ainda as ha f , > i 

Vkndedkira Agora estão as pazes feitas. Tá gostas muito 
4ç mim ? (abraça-o). 

Curado Muito, quero-te muito, havemo» tle ser muito 
felizes. Mas agora vamos ao retrato. 

Photographo Perdão, agora hão de esperar um pouco, 
poraue todos aquelles senhores e senhoras estão primeiro, 
(indicando o publiq») e querem tirar o raU^lQpele restema 
moderno (coiioca a machino, frente para o publico) mo se 
meebam... para os retratos ficarem-* bons. Assim ficam 
magnifico», e sobre tudo^muito bara/o*, nove retratos 300 
réis. (Ao publico) o 

C00PLET8 

Esta comedia parece, .»• • 
Tão somente «m bòm reclame, 
Mas não creio queae artista 
A concorrência elle -chame, . 

Não foi obra d'encommenda, 
É fructo d'observação, 
l)e muitas couzas ratonas, 
* Que por esse mundo vão. 

anthor quiz-vòs' mostrar, 

De typos a' galeria, 

Que podem ser encontrados l 

Em ama phòtographia. 

• * . . \ 

Fazendo sobresahir 
Dos typos originaes 
Os ridículos de. que soffre 
Certa casta de mortaes. . ■ • 



yGoogk 



— 19 — 

Se não conseguio com arte 
Provocar a gargalhada, 
JSêde indulgentes com elle, 
E não lhe deis ^ateada. 

E aos artistas que os ex Corços, 
Fizeram por agradar, 
Vos roga aqui submisso 
Que palmas lhes qaairaes dar. 

D'esta sua petição 
Elle espera se lhe dé 
Redondo deferimento 
E receberá mercê. 



Cae o panno. 



A 



i*6V*» 



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(v>> 




-O-O-O— O-O-O ta/TW E 
DIOGO JOSÉ SEROHÊNHO 



©miFíHiâ 




DRAMA EM UM ACTO 

(Representada com applauso no theatro Gil Vicente) 



PREÇO 160 RÉIS 



O 

I 

o 

I 

o 




LISBOA 

TYP. EDITORA DE MATTOS MOREIRA & COMP.» 

Praça de D. Pedro, 67 
1873 



tfi/a o-o- 



>-o o^gft 




yGooQle 



-r^z 



Digitized byV^OOQlC 



DIOGO JOSÉ SKIOMÉNHO 




4f f f^ 4 ***** fçf t*** 

Qbnôi» àd mt particular anTgo Aepisft Cem dl Yiiconcdkt 

1 /." : 



Bsoriptorio, rn* 40 Oi«4flro^ 0t;9> 
• :> i LISBOA, • •• 



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PERSONAGENS 

ITAffT ft Guilhermina. 

f.jj.-..^..<k. Júlia, t 

R.;v...f. .. j^ Lar; 

rapo,*...; «*.*>.. • £'•*• •*•■ •§•••• ?er 
k & • . i* • • • • fi* • • • ff • 1 • : • • V • • jr . . . .. . 

Pinto. 

Coro, d'aldeãos e aldeãs 



kwowm 



A scena representa uma sala térrea mobilada 

SCENA I 
DOROTHEA e MARIA (bordando o manto) 

Dorothea. Que serão tão grande, se não tivesses 
que acabar esse manto, para Nossa Senhora, ha que 
tempos estaria dormindo. Já pouco te deve faltar? 

Maria. Está quasi prompto, porém tenho tanto 
somno que mal posso N continuar, sinto pouco a pou- 
co serrarem-se-me o s o lhos, e se não fosse para 
a Virgem Santa... mas,~minETtia, que tal lhe pa- 
rece? (niostra-lhe o manto). 

Dorothea. Lindíssimo! 

Maria. Martinho teve muito bom gosto, não é 
verdade? Pobre rapaz, quantos sacrifícios lhe cus- 
tou esta piedosa promessa... 

Dorothea. E* verdade, todo ò anno, andou jun- 
íandopara comprar essa seda, e elle é tão pobre. 



Haria. Sfu^í Bpbra,» r «|#s uajjiVí^ftrado- 
Maria. Eu, que soj* <HBha e pobre, nunca pen- 



yGooQk 



ÀOfcWL* 3 

sari* em poder levar á egrcja, teste' manto, :seM o 

geoMOSo auãio d'aquâlle que ha seisamao? 6 me^ 

tarie da «minha vida... >....• i 

. Dorotèea. Queres^lhe muito? , j .: 

Maria. Sim, minha tia, penso rieile, coma so 
estiMseé sonhando* em ^razerm* onf ttaaaurosi e 
em ãeshfltahrantes palácios, lembrottoe constantes 
morta .da sua Magoaij e cre^oqpe «oa.nossos sus-i 
pifOKad abraçam no espaoo. A tíajdotgosta que 6 
ame; mas &me imposfflveliDCcuttaita-i : . » 

Jtorathea. finganas*te Maria,) eu* cuido somente 
do teu futuro, e emprego os meios, d&r^umpríi 
pontualmente ' a vónUdo»dô teus., pafesi B para <|ie 
lo he*de opcultar, entraoiamojr^aíartinhp, <|ie 
nada tem; que vive de «mesquinho» trabalho, pasrç 
aaqdQr hofts '6 hora*„itóB famas ido# campo* entr« 
esse artor que nãomenrecorda como oiro ohpman 
lhei.; platebico^ ntâ parece, çp^nàim id botioacio/ 
p«k^»<re«esse timop..*íí^iuto^ queria te ásse-j 
gÉtajpfo nem- te çffetece jutt: feqn fu£wOr e o da 
s^-ftqo*. jpfewâll dia! estáimatófaica ctfamor poq 
ti, e que é n'esta terra, o mais «rifití; JUfoprletailo, 
nit vaâilomm duvido* f&te-tó d# «aitÉdlo, p»r- 
que:iáo. quero* qiiesoffrwaQ^^jpAbi^^nâb maisi 
trabalhos. Estou velha Maria, 4f*dta i$aftid0 n»i- 
te^defcngftoos, e.eÊá^íHtóivíu^a^s^malfaia- 
do.mriulQÚ ?q coata^vfekcidá^eipeli dinheiro. . .,». 
; <..Mari*<;iÀ Mtfdaã&nãd é esaaí ; » i , , t • * 

Dorothea. Entretanto não é possível 4ospfeza«4 
o filho do sr. Ambrozio. E^noesar wnk&ioiifi ém 
tfo^mfyA... teutiadev6^1he..w t, f\zi ■ 4 

Maria. Bem o sei. >• * •% 

Dorothea. Vamos! seria uma; mgrMfdlo. da lua 
parte e^ír ■' • * ••* .:-•-' . < 



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I a ourai 

< liaria Percebo! À ingrata seria eu, esqnecenlo 
qae depois da morte de meus pães, vossemecês 
me perfilharam. A fatalidade foi ó. ter inspirada ao 
sr. Júlio esse amor tão ardente, e iâa vulcanizo, 
como a tia diz. 

- Bonoibea* E assim é~. Pois não o Tês todas as 
noites rondando-te a porta. A' pouco me dístee Joio, 
o «eu jardineiro, qpe por ordem «Feito, tinha feito 
dois ramos C(»ia soberba í creio que s5o d-um ta- 
manho immensol E como sabe que te fizeram mor- 
doma da festa, tal presente não pode vir em ibe- 
Ihor oooasiSo*. 

fiaria* Pois bem não lh'os «coitarei. 

f)orelh*a. Ora eesai ,E aceitarás os que 1e «tio 
preparando «>s mdçosi como costumam todos os ao- 
*ofc?< Isso seria benifot Tomariani Martinho, por 
teu apaixonado, e um esoandalo seria certo; togo 
que oisr. folio soubesse, que tu não lha cones- 
pendias ao seu amor. Depois seu pae, se Tfegarta, 
mandando *$ut «justiça, embargar* tudo a teu tio, 
irara cobrar as tfohdas atr&adas. K" i9to que queres? 
exilaria. Minha tia. /... 

'ItorotSbta. Digo-tó sem rodeios, que toj» çae 
fezes. £u 6 que oio posso desfettoar o $r. Wio... 
'Haria* ftanto D«ds t : ,»*•>' i ! -i .*.:■. 

t>oro4hea. Nem tac^ pouco, tenho cutp* de qua 
se namorasse <ie ti. %temn$andõ*$ê). Pensa bem, e 
verás que não te aconselho mal. E o toaste está 
prorapte? i * 

ilaria. Agora mesmo. 

Dorothea. Vou lá dentro arranjal-O, e togo iremos 
á egreja. ' ' ' • * T . •■:• 

daria. Aqtá a espero. 

Dorothea. Jesus, não posso mecher-me*.. úffit 



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àohphí 5 

noite inteira trabalhando! Olha como teu tio res- 
sona! Já o faço espertar. (Salta j«ta porta lateral 
etqutorda, Immdo o manto, Maria fica abatida), 
1 Maria (canta) ' * 

Ninguém diga que i riefuez^ 
>>* ; tf elioiáftde « eéa4ar qmz, * 

Nós vivemos na fjúbreza, 
Vid&^legreenjui feli?. 

(Declamando). Hoje vejo tudo por outro prisma 
differente. » . 

.._ ..; Cantft •: \ 

ímihte^uerMos, ] • ^' Aí àfeés ilftossés * • • 
«nta«iItnB&, . '> > de virgina| amor 

que acarieiíjya : /- - ; jnorohaa^ já , . 

mfett jC^r^çao. r .. ,.,,,' . co^u^rnaipaUor, 

. AmbnaiQ (ap«rte), NSrt. nrtí «ngaueí* (<*ffofc M*- 
lia! h<^ madjrogou minto! ^ '. , 

■ária. Ah! está rompendo o!tttt»w comecei a 
trabalhar á noite;- •* - C -.V-v;. • 
., Aiwtarpw). •tontos . .* ■■ •• r • » 
■ Maria. ítevkatatar OfjmaiUo^arâ Nossa Senhoià, 
- Amhroaiq. Bm atai pois ebruou 4 qp»nta.,.,fê»- 
a^iiwdmgariun pwtóito : 

-;AMft. Bd senhor**. ;»■• 
.,: Aa$>n^, SiaM ^ 

Vam^néáercs- saber d^mteos, mimaptirog 
4mret y i|9ssmdoíagpra.p9r aquvwi*te.<* ? co»o ha 
liartartetemp<>qu$,te èesejo faBa»; . 
:. fSupIfl^. A>iatfmr? ; ^- ..- > . ;.- f - . i- , 

Aistapit». -Sta^. ftoté* sem testemunhas* poiv 
4P* * a^aapto ó grave, mas querendo tu... *uem 
«be^ talvez fiQuemo^ amigwft 



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6 A ORPHl 

Maria.* Comot . / • ' :,.'••.• 

4 Ambrozi^ lá' te zangte? u «;l «• ' ■ » 

jfcria. Eui Jíío compifchendo... meu Deh»l* - 

Ambrósio. Vamos mulher! acaso te importuno? 

Maria. Nãa senhof. . '. 

Ambrozio (aparte). Aproveiteiftos a occa&ião de 
sabir de duvidas, (ofti): "Vamos a ver se me aju- 
das a esclarecer uma questão, sentemo^noa. (sen- 

Maria (aparte). Jesus? .' '.w\ -fl.». 1 

Ambrozio. A occasiJtonijato é opportuna, no en- 
tanto decidojfte vis^oy encontrar-te .'.96|>ri^wnw^ 
Maria, dizem cfue és uma deslumbrante torinoaura, 
e quem ,te jwrvô «feHar, ou te vê,' deseja -togo 
amar-te. ÒrpnS deède 4 oá primeiros annosf è obSòtíra 
na pobreza, possues todavia dois preciosos besou- 
ros, a formosuf»/ ^# vtf faSè* *ès que te contem- 
plami tio piua^e bell»y deviam tavaptap omiliriono 
régio á tua belleza, e utaialtar á tua TÍrtu4ôJ : v 
••• «arfou Sentòrh /*:•. •■ i-»» ' r.À .suaí/. 

Ambrozio. Attende Maria! TeBbo> wm ifflho^ a 
quem quero muito, e em seu nera,.te<ps$B4iue 
.me èseutes. KiUo»idesde'<itie concluiu^enà.floÉilbra 
os sei» éilpdos, mais eôâç tàlveaidé quao-rir- Que- 
ria, veiu para'tóir#deto,<*ôhd$ te encuntrfouiraaÉB 
formosa do que nunca, e pensa ^am» ; chéhw»**tta 

e perno tampo •dqptiteb tiv^ oeceáfiai de»í $¥- 
sèiwar, que wttva apa*wm»*^ lou«r 0ei2 «r- 
tar o mal pek*'<*alz ? v mas toda foi àrinUl.^qpè 
sô obtendo a tua mão se considera felitf. Pms^fem, 
exigo<qàe wtà tbdá a Uteftqpeza r mte «gafa *er- 
dad* es^ueòeiMioMtè dè' qúie è mau :âÉ#, r dafr» 
xando fallar francaDatetíte* o- coração^ Já /dtfafrto- 



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A01ÍHA 7 

nhecer quaes são as nrifibas ideias, resta-me agora 
saber as tuas. 

Maria. Senhor^: m <pngara> íallar... mas não 
posso. .•.-..- -i 

Ambrósio. O que te détem?' ' 

Maria. O medo d&tatyodler, e o de callar. 

Aiwtoiyirip. Já. te disse que attendas *o coraç5p> 
e não disfarces os teus sentimentos, foges mal* o» 
vacíllar, acaso te j obrigo? não. Diz-me á TOtitafe 
Mariàf:.. tião conheces .o motivo jterque dotí est£ 
passo. É dizem que Iteriho um cofação rude... eíb- 
ganam-se. Diz-me poip; çom (oda a franqueza ha 
obstáculos?... * "' .'.'*. 

Maria (com decisoo). Pois bem. 

Dorothea (entranéfi. *Q sr^Ambrosio aqui! 

Ambrozio (com aspereza). Sim senhora! i 

(com intenção): ( Mas,; -que & isto Ataria, *áinâl te 
não trouxeram os ram^ítótaffáaH).!(J«dfeíéljflh 

Ambrósio (aparte). Qu& diabo /dd BtaUMCl <r r- 
tyHothsa; São.os mapas \do togar {dteMtrfbrlna- 

Jmasatrimte pmq 4 wto^o) julg^ 

Mtttisào -(/foa)-*fflflifi >a)*anltoL..* ' ú *■ -•" .> 
Maria (aparte). Ah! que prazer ê Martinho. (Atft- 

brrns^) fatia, da ^mnéla <wm.*oarm&&i?MàrMtiap- 

. ->p -SCENA.IU/ ...*/.' >.-\ •<• 

* r -< - <• << : (Caiitalii) " ^ ^./i' \V*. ■ 

Ha já djsp qup na aldeia, . f ,",' x Di#s, jQlas se çs^parw», 
a áéd témpò o sol nãò'.sáhe; t do sitio dò âeu nmlio, ' 
còmd ha de' elle flíáditigar .' l ^éèttois 1 dè^Rtgír': vieram 141 
se de teu lade se vae. a buscar o teu carintoi.i u\ 



yGooQle 



S A01PHÃ 

(Coro) . 

Abre essa janelUu 
4u* o sol brilha já, 
e se tu não yens 
do céaseiffi- ; 

l(*rabía)s-té Marta Êntao minhas d^te/ 

tt&Bdo te abraçava Eram teus amôreè/ « 

Jtatarfelift* Déófe*r*te ítffcçto*, 

Itea são lest^muabav E colher- te nos jardins, 

lie comfj tçanjava. A* n^ s telias noréâ. 



O meai 

SCENÀIV * ' L "- i '- 
} pa^epaoB^írJPMQíefto^ 

Ifauria {áptítte). Ahl o seu . riaaúo jt 
- \Mioi En periso desculpai 

Ambrósio. Porque te retiraste da quinta agtes de 
eu ir ÒMto te havia dfio? * r 

* Jidtov jfitss&fne o João que era casUme ir pela 
madrugada offereçer os ramos e presentes á mor- 
doma da festa... (Miarw apptòaHmúwi4*»janÊUa, 

Dorotiiea/ Assim é..,, estafe a boba em quase 
costumam trazer os ramos (Afaria pegando »'am 
do* ramos). Vô... vê;:. Qúã bèm que cheiram. 

A«1^0(tíj)ârfó)^ 

Varia. Estava-me e 4esge(^ndo do rancho... (/í~ 
^ando /w/tò) ainda aquí!...* 

Mio. ffyda ffia mas forrçtosa, ,e iiaa hei <xe.„ 

Maxía (sempre á jawlla% li tudo ve» ás ja- 
nell». ; . i ■ ,■ 



yGooQle 



▲ orphX 9 

Ambrósio» £' natural.,, jâ é dia,.. 

OoroCfcM. £ a qpen não despertaram as>cigaiv 
ras? 

ÉÉrtroiffi (ao tofcsmt file *ft>tcg* os rumos}, João 
we i fegrqa,' e entrega esses ramos ao sr. padre 

IhOflfté. 

' ifcurifc Jttat atai e nfio te esqueças de dar esta.* 
i&JMnmsafm ptío fundo latente os ramos}* . 

Dorothea. £ o sr. Júlio não se assenta? {èánlhe 
mmá mdèérà). Ajnvntè-se. O sr* Ambronio aMtfnão 
vdi * pretente qra mibba sobrinta cfiereee i Vfr- 
gem? Vetóiri ver. • ' » .: • 

Ambrósio. Vatabs iá, espierém aqm. 

Btonrthea. (Tatvea tenham algema cotóâ qtíe di- 
»r, e assim naoi tosai qwm os estorve. 

Martai aparte*. Meri Deus, $* eoroellet 

Ambrósio (a- liana). *•«* **» **W* resfeMsr 
^ virtude, e quando q não saiba, aquitfró qadm 
lh'o ensine. ; 

Dofóthsa (aporte^ Qoé lhe estai* dizendo, se 
podesse adtónhár. (Jife)v N5o vem sr. Antfmaúo? 

Ambraío. Vamos... {sahe. jtâ* porta kuered). 
- Mêiísl (aparte). Se vem Martinho! ipau**, Milio 
approícim<Xhse de Maria, falta w meifrwxí). . 

../.'•.. << .' . • ♦ ^ « . ■ i .. 

folia; fiostoa 4asr flores, Mariquinha*? 

Maria (cm timidez). Sfc milito bonitas lati - 

Jnlio. Mas não tanto, ganido deveriam sel-4> para 
egualarem, as rosas que em sen Bembiaíitaaiscem, 
de cada sorriso, pistas oômo o tféu* - 

Maria. Ah! (qumhda ntirm-sè). 



yGooQle 



10 a oimí 

Júlio. Acaso. a «hoemmodol Pertendará* qtie me 
-calft. quando occutto um -amor qpe.parjaateteapo 
não posso abafar? Já o deve saber, não é segredo, 
o que meus suspiros, raspmtan ft estos/éiàires 
qoe me queimam. Eu^ao sapptmha qi»o jitow» 
ao atravessar o mundo, tivesse que curvar-âonMli 
jesctasa ao atoar, qu^paUa mim teta ftiflfe atértpra 
um sonhai Am(>a Maria, ^ôiitregq a\miaba^vctàtar 
ra, ftas sitas mão»; ..? ..;vi. ', • .í .r ver ti 

Marte <Mfo!u. a JuM<0... >..« M^sfâ^f «i«» 
<)bstàculí> imniemò (}ue pãde anaip, anafo Hiaiaira 
gratidão que devo a meus nobres, protebtoiès, <pi£ 
me perfilhará^ desda içara itíadel, / .ais '■ .^ 
* Júlio. Pára o v«rriadei»0' atíior tóe JwnJrtttMcu- 
los Maria 1. A fone eormafy <pfriorm0»i*s; ehuws 
de inveitMi'ipBeoâpíta-36 dtí bntfihas* e âAtt^lfilta 
•púr fyái a parte, «iurol^Mse em *lias retttafeftiim- 
phas otoii • gtgíwtesco -impulso,. ..&) safU "t.. : d*- 
tem ! Essa corrente é o meu amor/ que>-fe»ge de 
poder acalmariam v&dtojiMQÊfàN) 9 j&âbetba, e 
ró una palavra sua /podará stflbjugaM),. ahaiquitodo 
seu «traádoBo rugidp^Ama palavra stiaJHariíLw:*. . . 
c JUrta»;Njtolu..0 cUTafao/dtaide nasfleuseMW af- 
fecto, deiua^se semxim^a^guiattpar um desejo es- 
tranho. O sr. Júlio não deve procurar a sua com- 
panheira d'alma, n'uíis/ KiÉènde choupana! Nós... 
ás aldeãs, pensamqs doutro mp^o. 

Júlio. De outro tííodóf Nío cómprehetído... 

Maria. Basta, o: senhor é liwe, e fcu aãftj* sou. 

Júlia: NSo,0!é?.!Qaem^.poiso.,àQ^d^âWco- 
jaçpe, que me rotobtí^ eça awwr. 

Maria* Um juramento. •> 

Júlio. Que mítica <se «rapará! Nasci cora altivez, 
e antes que o destina, me ^ahrigi^a^^^^iOsèra- 



Coo^k 



A OftFltX |i 

ços de outro homem, m ái, ou elle morreremos. 
(apparm Martmko w fundo). 
< *ui*. Essa sanjyreirta ameaça, mostra ti veneno 
da sua ira.:/ . . 

" Júlio. Sim, a ira..'.' ò despeito... tudo quántò en- 
tendftv<< \ • • . \ tM ^ » ' 

Martinho {interrctàèeàiúM)); k cobardia!... a in- 

kÊÊtisunyi ■' ;*'. •■■ • • • , . : - ... . 
Maria. MartinhftT '-" '•• '• ' 

• '<Mu*ieàVcairtááí) >: 

JSàp é b^iem.de bern^ A> cotei* me eega* ., «•■• 

aqqelte me auma Jtuwqr,' sinto aqui um Yt^lcâo. , . 

com mes ameaças, ,) seu anior é cTòutro," 

Seu aiinor, impòVquer: ' ' dispôz do seu cofàçSò. 



( J^ . .j /, \ .'fcarfohá 



'í 



O jràe é de pobre berço, ,, Maria, oh!. meu anjo, . 

e sente assim o amor, minha vió>, minha iUusao 

é muito mais plebeu, ! - - iiio assuste tua alma 

que o pobre trabalhador. sua criminal paixão. .^ • 5 

Martinho, oht meu bem Eu te amo, eu te. adoro» 

mjnha vida, minha ilJus|o, serei' teu de$hsojr, ' ., 

nao assusta hpima alma;* não há para mimthèáouirq, 

fcuâ cricaátial pâixào. -\ '; l ' maior <£ie ate* amon> • 



Mana 

. i •- •• tf ;• :. . •. : • : ( . 
Eu te amo, eu te adoro, 
meu nobre jdefensor, 
t&o hâ para 1 mim thesouro, 
maior qtiè o leu amor. 



i 



yGooQle 



£S ÀORPHÃ 

Eu sinto que em minh'alma, Eu % a amoj ea a afloro, 

nao.exjste outra jBusão, memtéu, está eti setaaiÊor, 

e mê roubou a alma maldito seja o ouro> 

esta fatal paixão. se triumpha o trabalhador. 

(no fim do terceto/ desapparece pelo fuwfy 

SCBNAVII 

Os mesmos, menos JÚLIO, AMBROZIO, DORQTHBÀ 
e ANDRÉ depoia .^. (• 

Martinho. Que fuja da nossa rpresQB».' Talvez: 
nem mesmo seu pae saiba, como eu, <pfr%Ue 
será capaz de fazer p?ra yipgar-se. 

Maria. E tu sofrerás 1 por minha causa Martinho. 

Jfartinhd» !Wo,> Maria, efcêfe ttoç& está doido. 
Lembimi-seum.di*(tes«r.t$u flpívo, mas dentro 
em pouco ha de esquecer-se. d'esse amor tão forte 
como o...'fo!iío. Fomos creados ifift ^óm-outro, e 
se elle não perdeu asiàanhas da dictode «o o ar- 
ranjarei. W muito atrevido ! Fte hoje um àoíno teve 
também uma questão.., não te recordas,., por og- 
casião da feçta do lugar?... 
. Maria. Ah! sim!... Com o filho dó Marques... 

Martinho. Justamente! era outro estouvado. As- 
sim qi^e viu a Rosinha, que Deus tenha em santa 
gloria. . ■ • , ■ 

Maria. Para que me recordas a minha boa ami- 
ga. (Ambrozio apparece). 

HartiaUo. O seu nomo vem muiio a proposto 
tfesta occasião, e jâ que por casualidade Mei 
n'ella, não hei-de occultar-t*. 

Maria. Que queres dizer Martinho? 

Martinho. A verdade. 

Ambrozio (a Martinho)* Silencio, Martinho. 

Dorothea (entirando)i O sr* Jujio não está?... 



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* êtáml 13 

Çmtnmâá). NIo posso advinha*. 
- Variai RcroeUa-me esse segredo por Deus te 
peço Martinho. 

Xarth** (úpãrte). -Isso é cpie «toca. (olhando 
Ãmbr&ziú). Já ftè ia esquecendo a promessa... 
fóttrte). Wte necête sr. Ambrósio. 

.Ambrósio. Vamos, Maria!... À' egreja!... (sefi* 

Borothea. Vêem buscar a festeira!... 

André. Bkt que turba de eôôhopàs!... vénhià... 
▼enham... s2o maia de duit&duaias!... : 

Ambrozio. Vem commigo Martinho... {ápatàe). k 
Uflo qm voto dar a meu filho ha de ser terrível, e 
exemplar. (Sahem pelo fuméò ao mesmo êmpè fm 
em*a & -*6rô de mulkms, com ramm dfe flétes. 
Durante * eôto, Sorothea fm tem êahiâo pela <ti* 
rtita, mta com o vnantú n'uma bandeja, e põe a 
Bnrto; tm fefottito. Ao terminar o afro, todo*, me* 
m$ André, sahem peto fundo). 

SCENÀ VBJ 1 

MARTA, ÍDOHOTB3BA, AXÚKk, e ôòro de ftldâSs 

(Cantai* oôro) 

Maria linda Maria, ... Maiiatu éapi^anjo, 

EV cachopa mui gentil. Tens oorpo de seraphám, 

E*à mais oella que a rosa Tetís olhos que encaíitam, 

Bm ftesea maafà fabril. E Imdos dentes de marfim. 

Vetaiaté & egreja. Vamos á egreja 

* adorar, adorar; 

A Santa Virgem, Á 3a»U t*rgem> 

neattar. s*alUr. 

(sentem-se tocar os sinos) 
9CKNAIX 

ÀNDRÈ, JOTtó * éapétB AUBEOZIO 

Jtalrè. Otxe dia de folgança deve ter hoje mi 



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nha sobrií^trftf© poderei seque* dormir assa**... 
qual... poi&bem &. de*ejáva. Otó, alguém seappro 
xima. (apparece Júlio). 

Júlio, Sou. w sn AndrtJ íeseja¥a faltaihlke; 
...Aadj*. ComUMgQ? (qpaarte). Que quererá vtttfte 
estróina, (aíío). E»r$ce ^oe vens assustado.! Qua 
timtf ..-'.■ /.•;■/ > , :' .C>/ 

Júlio. Diga-me uma coisa. Jteçorda^e da totaiii 
dade das suas -dwdatf»- •*, i ; . ; .,/ ./.• -« v. 
.. ÉudiA.. PeiíeitaiBeute,, teso «*d se^efljueoQk.*. 

Júlio. E.... .existe algum documento? alguas *e* 

<&bP8?\ , V ... • -:'■. :.,-»■.'• . .'^^i • 

An4#. Já ; $e iv&t,e em todoSíèscarwptdwiaB^ 
ufa? firnft, e>d«YQ.« daya.Á . -. v> 
. fei^o (tim fabolmuns popôis e e#anmarO$. Esta 
operaç^o^maís^inipl^.u &'.-iOpwd* a ^wfc.. 
ciarantae*^ JUfor^^ de 

trigo} vQue feri* vosÊjemetó 4mifayw..4t nefrsoa que 
um dia lhe dissesse: ,«$r^4wte£ pode. vertia f livra 
d'essa enonne divida^ * / j ^ 

André, Qfferecçr : $ie^& à^B0^.^,jpa^,^so 
é possível? "* '** ' /^ 

Júlio (pausadamente). lE' sè, M èm troca de simi- 
lhante favorç 'vossetaecd fizesse outro... 1 ' -* f ;■ «'■ - T 

André (me^tónrfòX. Bii, a ti?. Oh f caHa-te (|ue- 
rgrias talvez.^ JSãò-I,., que éj^ià, cjrwae,., miserá- 
vel I (depois de pequena lucta, arrqncarlhe os papeis). 
Pobre' Maria, (apparece ao funda Atybrozio). 

Júlia (mHamhhsik). Meu pae!.. - A - r \ 

Ambroai*rgfcn, teu pae, que depeHo ^segue os 
teus passos. . -.*%,.«•.' 

( ô# mesmos e AMBfiCOZIO . 

Amftrozio. Não, me engwy itfmet tudo lei, 



yGooçle 



iLOWHA IS 

dftste qoe.te segui pela áenáa do vUio, a i*s lai- 
cidadeSy até conheder 0$ teusiplaio*. 

André. Tome estes capeis! o infante pedia-rae a 
deshonra de Maria 1 : ' .»• r ; : 

Ambrozio. Cobarde! Rosa morrei*,' era vfa tojo 
tftiáo Maria, «roedftomáo Mm amor* dum oritni- 
noso iDibusteiro, e antes que o mundo tivesse ca* 
fiMimertodasiprdesli^ ao&pesãrefc. . . 

Aftdrtt Ppbrfeípae. ($di«)i , 

v.t. --'SCENA.Xi ■..■ • . f, . 

ANDRÉ e JUWO . ,-- . i . 

Énbkuào (JiJXimío-ô)/iámha^ pobites caite^bian- 
<*>*<kpelhe da 1 ffiinka honrai, esfâo mánohadaa, ttai- 
dor! e és tu> que» as proftna& (rapifo). Xna mão 
levei-a pura ao a&uve honrada te fez nascer. Os 
teus erros foram Jg#j& fyti$P> SftpÊ os teus desejos 
não se cumpriram. 

Júlio. Meu pae! Oh! pvft piedade! ' 

Ambrozio. Cnorá Jufêpiapa braços pátemaes, que 
estão abertos..* .um pae, perdoa senipre os erros 
de pçff jfityiQg» (qbraQcwreé).. Eis ; amri, coma eu 
sehtencéio as tuas faltas, (sente-sè ruído próximo). 

Ambrozio. Silencio Uftcuijtp essa emmoção. (en- 
tra Maria, AndrÁ+$avtirúio e Dorotím). 

':$mk xn 

Os mesmos MARIÍAV ANDRÉ; MíâJÊTINHO 
e^BOBOnCPA V 

Dorothea. Ora a^é,q^ ( cufligríste a tua sagrada 
promessa. 

Ambrozio. Vamos Maria, e t u também Martinho, 
já «rita^ejfwâitei)^^ 
ataâoçtteHtiix^ Sfl»t%Jirgwn.,; 

Dorothea. E' verdade, agora temos que pé$i~lhe 
mm preseate. , .. — 



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M 

• AmteoricL Onero 4ar4he qni Arte*., a fitinha 
casa da Ribeira, e um conto de reis, paca casar 
com o Martinho» i > 

Maria. Meu querido Martinho. 

Martinho. Maria! . . ' , 

Maria (a Ambmzti)* Tuèo devemât ao ir. Att? 
brozáo. 

. Ambrtpo. Não íaça mais gfee reparar as culpas 
que outro commetteu, meu Ého delinquiu, ô justo 
que eu remedeie seus etfosu. André... aqui tem... 
quei-me essesí papeis* ■ • . • 

André. Oh! sr. Ámbròziof muito QbrijpKfo.» 

Ambrósio. Meu filho já foi perdoado, agora abra* 
çem-se, e sejam todos felizes, (ohraçam+se). 

Maria (chorando). OhJ como aou felk* 

(Mártiaio cauta) 

Nâo chores anjo qnartdo 
Enxuga depressa esse pranto, 
Para ó anno bordarás, 
A* Virgem Bant* antro muita. 

Maria. Cboiro, mas sío lagrimas ito felicidade* 

(Cauta) 

Minguem diga que â rftjueta, 
Felicidade o céo tw qaiz, 
Tto08 vivMo da pítorôr 
Viva alegra a maÃtiz*» 

(buttorAtoro) 



* propriedad* <T**ta **ça «fcfttnd» . 
SitoH, 4*'B^ srí. Atttttio Aluumdrt Hpoa do 
(Mito-. 

TYP. EDITORA-Praça dt D. FMk* W^ 1 ' 

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OB CHUSSD'1 RETiTO 



COMEDIA ORIGINAL EM UM ACTO 



POR 



DIOGO J. SEBOMÊNHO E A. DA S1IVA CARVALHO 



Representada com gemes applausos no theatro de 

D. Maria 11 em benefício, yehi sociedade moleza The Gaietá M 

Dramático Cluli: no theatro do Príncipe Real, nas pro- 1 

zuncias, taes como Porto, Braga, Coimbra; ele; na ilha da 

Natleira, no theatro «Esperança», e em Madrid nos 

theatros Circo e Luzon, traduzida para hespanhol por 

Augusto César de Vasconcellos. 

2.» Edição Correcta 



\ D. J- S- &: 



THEATRO CONTEMPORÂNEO ' 

. BIBLIOTHECA FUNDADA EM 1869 

DIOGO SEROMLiNHO — EUJTOR 
EicaiPTomo da Empheza . Iua i\u\ a do Almada, 24, 2.° 

• • ' LISr.OÂ.-1884 



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PERSONAGENS 

Jorge de Mello, pintor .. . 27 annos. 

Pantaleão, proprietário 50 » 

Elvira, modista 22 » 

A scena passa- se em Lisboa. — Actualidade. 



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ACTO ÚNICO 



theatro representa um atelier de pintura, portas ao fundo 
e lateraes, alguns quadros ha parede sem symetria. Um ca- 
valete à esquerda, uma meza á direita, e vários utensílios 
de pintura espalhados pela êcena. 

SCENAI 

Jorge (pensativo recostado sobre a meza) 

rilasões da vida! o que valem esses filhos da arte, atrela- 
dos ao carro da gloria, sem o sentir do coração? o que va- 
lem todas as grandes aspirações sem um atôrno d 'essa vi- 
vificante luz do amor, coada pelas floridas esperanças de 
uma alma de vinte annos?!... Nada !. . . A gloria kô mais 
rico diamante da coroa do artista, mas é o diamante tosco 
e sem brilho, quando lhe não venha resplandecer o reílexo 
d 'esse sói tão querido da mocidade... Quem ha ahi filho 
do trabalho, que não tenha o seu anjo salvador, que lhe 
ajude a tecer a coroa glqriosa do futuro, na madrugada 
da existência?. . . quem na?. . . ninguém !. . . Todo o ho- 
mem que fôr verdadeiro artista, deve ter coração. . . e to- 
do o homem de coração, deve inevitavelmente amar.. . 
quantas e quantas vocações ainda no alvorecer, naufragam 
desanimadamente no occeano da arte, porque lhes falta 
alem o fulgurar da sua estrella, que lhes aponte o cami- 
nho da salvação e da gloria... Mas quantos e quantos tam- 
bém tril bando apenas os primeiros passos na senda do tra- 



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_ 4 — 

balho, deparam rom uma rorôa no primeiro degrau da vi- 
da, magneticamente tecida pelos vT.í s do coração... O ijue 
o estudo omitas vezes nào consegue, consegue-o o an.or, 
que éa verdadeira inspiração do artista. 

SCENÀ 11 

Jor.Gií e Elvira 

i 

k\.vira — (empurrando a porta do fundo) E' perniittido a 
uma simples morbal transpor os umbr&es do santuário da 
arte? 

jorgr— (aparte) E' ellaf .., (pura Elvira) Oh! minha que- 
rida, visinha, pois não! madrugai hoje bastante. . . 

ki.vír a— E\ verdade, mas. . T a;rora reparo, e<tava talvez 
entivnue ao seu trabalho, e vim incommodal-o, nào é as- 
sim"... 

jorgr— Incommodar me, visinha!. . . é possível que uma 
boeca tào gentil profira tal biasphemia !. .. 

KLVíRA- Lisongeiro ! . . . 

jokge— Nào; não sou lisongeiro. . . pois cré que me pos- 
sa meommodar o anjo que envergando o manto mysterio- 
so de mulher baixou á terra para dar alma ao obscuro ar- 
tista... que me anima e engrandece a meus próprios 
olhos. . . que me engrinalda a vida n'uma cadeia suspiro- 
sa d 'amor. . . que me conduz docemente para o caminho 
da gloria. . . cfue com uru sorriso me deixa antever o pa- 
raizo? Oh! nào pode incommodar- me esse ente, que é uma 
partícula da minha vida. 

b)L\'iR\~(enrergvnhada) Olhe, senhor Jorge, sè soubesse 
qiia estava disposto a cassoar comigo, não vinha cá. . . 

jorge— Não costumo cassoar com aquelles que amo, por- 
que nunca pude mentir ao coração. . . 

rlvira— C >raçào!. . . o senhor tem lá coração. . . ha ho- 
mem algum que" tenha coração?. . . 

jorgr -Diz bem, não ha homem algum que tenha cora- 
ção, quando encontre uiiia mulher de gelo, como a vm- 
ntu. insensível a todas as eommoefies duma alma apaixo- 
na la. . - 

EMiuk—frindo) E quem é qu3 está apaixonado ? O se- 
nhor talvez?. . . 

jouojà— Eu, sim, que a amo com todas as forças da iul- 



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ti I í.i .ilina. . . que a amo como posso adorar a gloria de ar- 
tista que tanin ambiciono, ma* que nunca alcançarei. 

Ri/vHu— Não rreio! Todos os homens são assim. . . apai- 
xonam-se com muila facilidade... dizem-nos phrazcs mui- 
to bonitas.. . mas se uma pobre rapariga rae na asneira 
de t;$ acreditar, só encontra falsidades e desengauos. • . 

jorge— Muito .bem, é essa uma theoria com (pie muito 
ha de aproveitar, (pcij(indo4he na mão) Ora diga-me. nunca 
amou? nunca teve mesmo (piem lhe consagrasse uma par- 
tícula de amor verdadeiro? não porque se assim fosse, fa- 
ria mais justiça a esta minha sincera reVelaeào Quarido se 
é viotiiua de pungentes Hlusõés. não se acredita nem-na 
própria realidade I ... > 

F.LViRv— Assim é : mas muitas vezes 'è o dever que nos 
insliga a não acreditarmos nas primeiras impressões.. . a 
rosa que colhemos uma manha, ostentando as suas gailas, 
tamhem ás vezes occuka os espinhos cjmque nos fere. .. 

joríjr — Quer dizer. . . 

KL.VUIA— Quero dizer que não posso acreditar na verda- 
de tias suas palavras, sem que o tempo a venha corrobo- 
rar. 

jorgr — Obrigado. Elvira. Dá-me ao menos uma esperan- 
ça, que será a imagem feiticeira dos meus sonhos d'aoior e 
de gloria, e feliz então me julgarei se o tempo conseguir 
fazel-a eomprehender as aspirações da ininlfalma. • - 

rlvira— Veremos; Deus queira (jue um dia não tenha o 
de-gosto de ver a hypocrisia disfarçada debaixo do domi- 
no da ingenuidade do artista. Adeus, até logo. (soe). 

SCKNA III 



JORGE (SÓ; 

iorgk— Bravo! Kl vira, muito bem... que óptima escola! e 
que experien«'ia... e^ta rapar. ga ou tem sido u n.t gra ide 
nainorade "ra. ou ó victima mf.dU .1'alguni crime tia moei-ia- 
de! ipensUioo) Mis seja como for. o que sin.o é que a amo 
loura nente! O intimo prazer «pie m apodera de !oim quau- 
do a vejo, é prova sufíicienle de que não posso ja viver 
sem ella.. • (batem á porta, Jorye vte abrir) Quem será ? 



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-6 — 
SCENA IV 

Jorge e Pantaleão 

pantaleao — (assomando á porta do fundo) Tem a«bon- 
dade de me dizer se mora aqui um rapaz que é pintor, cha- 
mado Jorge de. . . de. . . de. . . . esqueceu- me o resto. 

}qmr— (atalhando) £' este' seu creado, tem a bondade 
de entrar. 

v km kuilo— (entrando) E' o senhor? muito bem, pois eu 
vinha para lhe pedir um favorsinho. . . já se vô, pagando 
aquillo que for justo. . . 

jokgk - Kstnu às suas ordens, tem a bondade de sentar- 
se. (indica lhe uma cadeira). 

pantalrao — (sentando-se e puxando por uma caixa de ra- 
pé, que oferece a.Jorgej Quer sorvir-se? 

l;í\ge— Agradeço. 

pamalkâo— Pois olhe, nâo sabe o que perde. . . e prin- 
cipalmente se o meu amigo. . . sim, porquo isto. . . rapa- 
res todos i.« : fa?-(Mi (.s ( » ( ;íu» podemos • . quero dteer, se o 
d cu amigo lambem se costuma apaixonar com facilidade... 
Isfo é óptimo para desenvolver as ideias. . . mas vamos ao 
que in poita. Eu venho aqui para pedir ao meu amigo um 
favm-sinho. . . Sim, eu parece- me que ja disse isto. . -• rua* 
é o mesmo. 

MHGE- (aparte) E' massador! 

pantaleao— Ora o qne eu quero, é uma cousa muito 
sin pies. . . jamais sabendo por tradição que o meu amigo 
é um perfeito artista.. . muito natural e consciencioso na* 
sums obras. . . muito. . . 

jamvi— (interrompendo) V. S. a coníund '-me. 

pantaksÃo— Nào senhor ; o seu a seu dono. .. eu gosto 
de elogiar o meiecimento do artista, pois sou um grande 
enthusiasta pelas artes... olé! ver uma obra artística é to- 
do <! meu filé !. . . mas vamos ao (pie importa : preciso de 
uma obrasinha. (puxa pela caixa do rapé eioma uma pitada) 

J0R8K- (aparte) Custa-ilie a desembuchar. 

pantaleao— Como ia dizendo... preciso d'Uma obrasi- 
nha. . mas uma obrasinha feita a capricho. .. quero que o 
meu amigo empregue com ella todos os cinco sentidos. 

johgjí — Parece me qne adivinho. . . 

imntai.kao— Sim? Enlâo o que é ?! o que é ?. . . 



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-7- 

jorge— Provável mente o seu retrato. 

pantaleâo-— Deu no vinte... não, não deu no vinte, che- 
gou só a dezenove ; inda lhe falta uni ponto.. . E' um re- 
trato, é verdade, mas não é o meu. 

jorge — !S*esse. ™so é o retrato da sua querida. . . 

pantaleâo — (levu ntando- se t abraçando Jorge com alegria) 
Agora... agora adivinhou. Já vejo que o meu amigo é um 
rapaz de espirito ; pois eíTecti vãmente é um retrato d'uma 
pequena por quem eu ando louco de amor, e a quem o de- 
seja ofTereeer na primeira oceasião. 

jorge—Poís quanto ao meu trabalho pode ficar descan- 
sado, que farei o que estiver nos escassos limites dos meus 
recursos artísticos, (aparte) Quando um homem d'esta ida- 
de se apaixona, o que deve então fazer um rapaz?... Quem 
sabe, talvez seja mais feliz do que eu. 

pantaleâo— Obrigado, rneu amigo, obrigado ; peço- lhe 
também muita discrição n'este negocio (tirando uma pho- 
tographia da algibeira) E' um negocio muito simples, que 
nào contproiíieile ninguém; no entanío o segredo é sempre 
bom, quando se prepara uma surpreza. . . Eis a photogra- 
phia d'esse anjo que o meu amigo, graças ao seu talento, 
irá reproduzir ii'um quadro primoroso. 

jorgk — (negando na photographia e vendo Aparte, muito 
exaltado) O retrato de Elvira !:. . Nào é possível. . . Meu 
Deus, estarei sonhando !» . . (a (firmando- se j Nào é um so- 
nho, é realidade; nào me resta a menor duvida, é o retra- 
to d'ella! 

pantaleâo— Ora diga-me, tem alguma cousa ?. .. está 
tão pallido! Está incommo 'ado ? 

jorge— fafíectando seremdadej Não tenho nada, uma pe- 
quena perturbação occasionada por... pela friagem da ma- 
nha talvez. . . 

pantaleâo— E está, está uma manhã bem doentia. . . 

iouge— (aparte) Custa me a acreditar que Elvira levas- 
se a sua loucura a ponto de dar o seu retrato a um velho 
tão imbecil!. . . Mas se assim é, juro que heide vingar-me, 
e a primeira vielima será este monstro! . . fco rendo para 
Pantaleâo e detendo-se subitamente) Mas que vou fazer ?. . . 

pantaleâo— (aparte) O rapaz endoudeceu... (alio) Com 
franqueza, o sr não está bom Veja se precisa de alguma 
cousa, em que lhe possa ser útil, não faça ceremonia Go:n- 
miço.' (aparte) Estou morrendo más é por me safar. . . * 

jorge— E' verdade, sinto-me indisposto. . . e n'esse caso 



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— 8-- 

pedia aV. S. a o obsequio de cá voltar mais tarde, para tra- 
tarmos do seu trabalho. 

pantaleao— Ora essa pois não. . . Já podia ter dito 

isso ha mais tempo, (apertando -lhe a wão) Kntfio adeusi- 
nho, alé logo... o heide estimar as melhoras, sim?... 

jorgk — Obrigado, (aparte) Nâo sei como possa conter- 
nie... 

pantaleao— (sahindo e aparte) Que tal está. hein?. .. se 
o rapaz endoudecia eflerti vãmente, e lhe dava para tocar 
a rebate n'esta freguezia. . * Safa 1 f$ae). 

SGENA V 

JORGE (SÓ> 

jorge— Elvira enganar-me d 'esta forma. . . amava-a tan- 
to... toda a minha aspiração era grangear do trabalho 
inspirado pelo seu amor um nome brilhante de gloria pa- 
ra um dia lhe depor a sens pés um futuro risonho de feli- 
cidade. Apenas aprecio a vida para lh'a offerecer em holo- 
causto do seu amor. Vêr n'um momento destruídas as il- 
^ iusorias esperanças de toda a minha moeidarie : . . È horrí- 

vel! (depois d' um momento, rindo de$]>rcpr>$itndamtnte) Insen- 
sato que suu! Ter a desfaçatez de ligar importância, de iue 
apaixonar. . . por «ma volúvel que escarnecendo talvez os 
meus sentimentos; ridicularisar-me-hia ; rindose á minha 
custa com o primeiro que lhe apparecesse. E sobre tudo o 
papei ridículo que tenho feito em tudo isto... sempre sou 
muito tolo!. .. em crer no amor das mulheres, (continua a 
rir). 

SGENA Vi 

Jorge e Elvira 

elvira— Esfá a rir sóinho ? o que qurr isso dizer? 

jorge — (aparte) E lia comigo. . . vem em boa occasião... 
(rindo sarça sticamentej Ainda me está parecendo impossí- 
vel como ainda agora sustentei por alguns minutos o pa- 
pel de apaixonado, sem desatar ás gargalhadas. 

elvira— Nào entendo. . . 

jORf.H— Tinha desconfianças que*havia de ser um ! om 
gala dramático, e quiz fazer uma experiência com a visi- 
nla. 



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-9~ 

ELviRA—Uma experiência I. ? pui» a declaração <Jue me 
fez era. 

jorcs— Brincadeira — pois acreditou? (rindo) Parece 
impossível que a menina Elvira>me julgasse tão tolo, a pon- 
to de me crer apaixonado por tuna mulher do século 19!... 
klvira — (zanqada) Senhor ! . . . (aparte) Bem o proph di- 
zei, e já o amava tanto ; em tudo son infeliz. . . nasci em 
má hora... jamais conhecerei a verdadeira felicidade... 
(canta) 

Desde o berço que a sorte adversa 
Me tem feito chorar e sofifrer. 
Tndo é magoa no trilho da vida, 
Nem um sonho sequer de prazerf. .. 

Se no peito alimento uma esp'rança 
E* qual triste, vaporosa illusão. 
Se em mính'alma renasce uma crença, 
E' bem cedo pisada no chão. 



) - 



Quem mais triste? quem mais desditosa, 
D'esta vida no lúcido alvor?. . . 
Nem um breve sorrir da ventura 
Nem sequer um momento d'amor. 

Malfadada vegeto no mundo 

Minha estrella não tem esplendores. 

Tudo são inconstaneias na vida, 

Tudo são desenganos. . . e- dores !.. . . (chora). 



jorge— {canta) 



Visinha, não lamente a sua sorte, 
Vrctima de perdidas i Ilusões. . . 
Todos temos mais ou menos que soffrer, 
Anda tudo n'esta vida aos trambulhòes. . 

Inconstante é até o próprio mundo 
Que nos rouba a todos nós a felicidade f 
Inconstante é o sol quando escurece, 
Inconstante pr'a o captivo a liberdade I. . 

Inconstante é a florinha sem aroma .. 
inconstante a primavera sem verdores I. 



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— 10- 

Té a própria natureza é inronsf.-tnfê. . . 
Inconstante a mulher nu seus amures. . . 

Não creia pois visinha nYsla vida^ 
Onde tudo sào amargas illitsòes !. . . 
Todos somos mais ou menos inconstantes, 
Anda tudo n'este mundo aos tramhulhões ! 

(declamatido) Vamos, Elvira, v soffrâmos com paciência. . . 
(aparte) Quer vôr se me sinsibilisa. . Eu que tão cedo 
soffri o desengano. .. 
elvira— Bem m'o adivinhava o coração. 

jorge— (rindo) Coração ! . . . pois a visinha tem coração? 

elvira — Não, é talvez o sr. com essas gargalhadas satâ- 
nicas em face da nmlher que teve a fraqueza d« mostrar- 
Ihe que o ama ... é o senhor que tem coração ! ?. . . 

jorgk— E tenho, sim senhora. . . e a prova é que o sin- 
to aqui bater (indicando o ^eito) como nunca o çenti. 

elvira— Basta de cassoda, senhor, a* minha eondenina- 
vel credulidade não lhe dá o direito de oscarnecer-ine 
d 'essa forma, 

jorge— (aparte) Mau. . . que tentos mudança de scena... 
falto) Mas... socague. . per dois dias que temos que viver, 
não vale a pena a gente alterar-senem um momento... é 
necesNario encarar este mando com o maior sangue frio, 
para que um dia não tenhamos de sossohrar vergonhosa- 
mente n'este occeano de desenganos. . . Um ultimo ca^o 
que se deu comigo.. . a minha única illusão perdida. . . 
tornou- me o maior cynico do mundo. . . se hoje faço uma 
declaração amorosa a uma mulher.. . amanhã dou o meu 
retrato 'a outra. . . no dia seguinte. . . (aparte) não perce- 
beu!... nem a mais leve perturbação, (alto) no dia seguin- 
te rojo-me aos pés d'uma terceira. . . e se apparecer uma 
quarta. . . uma quinta . . . uma sexta. . . e uma sétima. . . 
a todas faço a minha declaração amorosa. . . sem comta- 
do sentir amor algum por ellas. . . a isto. visinha, é que 
se chama cumprir á risca as leis vigentes da moda !. . . 

elvira— Bravo, senhor Jorge ! , . . é essa a theoria do 
amor?... 

jorge— E» verdade, visinha; porem são as mulheres que 
fazem com que nós não creiamos no amor. . . pois no sé- 
culo presente a mulher é o svnoniaio da inconstância e 
volubilidade... 



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-H- 

eía-ira— Obrigada, senhor Jorge. . . obrigada; agradeço- 
lhe em nome do meu sexo tão lisonjeira affirmaçào . . 

jorge— Não tem quo agradecer, visinha, esta «ohição na- 
da tem de lisongeira; mas verdadeira e real. 

elvira— D 'essa forma encara as mulheres por um pris- 
ma bem vergonhoso. 

jorge— Que quer... se eu perdi todas as i Ilusões da mo- 
cidade e do amor n'um só momento, mas paciência! Foi. 
mais um desengano na minha vida, sempre cheia de ol s- 
taculos a vencer. 

elvira— Aposto que não me pôde provar o que tem dito. 

jorge— Se po9so. . . bastava abrir-lhe o meu coração. . . 
mas não, não quero. . . rir-se-hia de mim. 

elvíra— Juro- lhe. 
. jorge — Não posso. . . 

elvira— Não tem confiança em mim ... 

jorge— Ter confiança em mulheres. . . que fraqueza! 

elvira— An editar nos homens. . . que asneira!. . . 

jorge -Smi ! ?. . . pois vou-lho provar a verdade d'esta 
asserção. . . 

elvira— Peço- lhe. 

jorgk— Pois bem, ouça.. Foi um caso passado na minha 
infância, mas do qual bem me recordo, pois o archivei no 
meu coração. Perto da casa de meus pães vivia um artis- 
ta, com quem travei amisade. pobre, mas honrado, sonhan- 
do com a gluria, ideal de todo o artista, quando uma ma- 
nhã reparou que defronte de sna casa, morava uma mu- 
lher. . . uma fada de celestial formosura. Vendo- a, amou-a 
louca è apaixonadamente, como se ama aos vinte annos; 
fui correspondido... acreditou em seus juramentos. n'uma 
palavra, só tinha uma aspiração, um desejo. . . desposal-a; 
para isso, trabalhava constantemente^ para adquirir gloria 
e nome para tudo depor a seus pós. . . quando n'um dia, 
oh! fatalidade! soube que um velho feio e ridículo, possuía 
o retrato do seu ideal, dizendo que era o retrato da mu- 
lher que amava, (fitando Elvira e aparte) rubor não lhe 
subiu ás faces!. . . é de mais! (alto) Ficou louco de pesar; 
ha soíTrimenlos na vida que não tem discripção. . . No pri- 
meiro momento teve vontade de descarregar toda a sua 
cólera sobre o infame velho, mas susteve- se porque tal ri- 
val era indigno d'elle. Deixou de trabalhar, soíTreu muito, 
pois urn primeiro amor deixa recordações para toda a vi- 
da. • • Passado algum tempo cenfessoua si mesmo queto- 



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~12- 

da a mu'her era falsa e inconstante, e descreu completa- 
mente d<» am »r, tornaiido-se um grande cynico... Kis uma 
historia verdadeira. Que diz a isto. Elvira.? Terei eu lam- 
bem razão para descrer das mulheres ?. . . 

klviba— Creio mie não : um facto excepcional, não lhe 
dá o direito de duvidar de todas as mulheres. 

jorgr— (aparte) Finge nào perceber. 

elvira— Quem sabe mesmo se essa mulher era culpada? 
Se seria a fatalidade quem urdiu todos esses factos tene- 
brosos para condemnar a pohre infeliz ? quem me diz que 
esse velho não passaria d 'um fátuo, gabando-se de ser" ama- 
do por uma mulher de quem unicamente possuísse o retra- 
to?... 

jorge — (alhando-a fixamente) Convenha nisso; mas como 
explica a posse do retrato? 

klvira— Não sei í. . . Em todo o caso, nunca é bom jul- 
gar pelas apparencias, porque ás vezes i Iludem. . . 

jorge— Se assim fosse... (aparte) Como seria feliz!... 

elvira— (aparte) Ha grande mysterio na vidad'este ra- 
paz... (retira- se para um canto da sala). 

SCENA VH 

Os mesmos e Pantaleao, faa$omando á porta sem vér Elvira) 

pantaleao — Eis-me aqui outra vez. 

jokgií— f aparte) Ainda bem, chegou em boa occasião ! 

pANTALEÂo—fTfcwotcfo à ecena) Então como vae o meu 
amiíro? Sente- se melhor? 

jorge— (com afectação) Um pouco melhor, muito obri- 
gado... 

elvira— (aparte) Melhor!... pois elle estava doente? per- 
cebo... a historia que me contou... o enfado que mostron 
quando me viu. . . aqoelie rnysterioso cynismo. . . (choran- 
do) Adeus, meus sonhos de felicidade!- . . (sae a correr pe- 
lo funde sem que Jorge a veja). 

SCENA VIII 

Jorge e Pantaleao 

pantaleao — Pois creia que estimo tanto as suas melho- 
ras como se fossem para mim. . . 



yGoogl 



e 



-i3- 

jorge — Mil vezes obrigado. . . mas v a! ,ios ao que impor- 
ta. O que ihe digo, meu caro senhor, é que chegou numa 
bulia occúMão para tralarmos tio que lhe diz respeito. 

paatat,bâo— Sim! ainda bfMii. 

juttoifi — E' verdade, (aparte) vou desmascaral-a. (procu- 
ra Elvira com o olhos e não a vendo fica svrprehendido. Apar- 
te/ òà 2>c fui. . . é uma prova convincente da sua crimina- 
lidade!... 

p anta leão— (aparte) Está- me parecendo que o pobre ra- 
paz ainda nào está completamente restabelecido... (alto) 
Poi> meu amigo, n'esse caso desejo saber em primeiro lo- 
gar, qual o preço que tenho de pagar pela minha obra. . . 

jouge— O preço da sua oura? (aparte) Mato esse maroto! 
falto, ironia mente) Pois. não. . . muito barato, baratíssimo, 
lev.:r-lhe-hei o modiVo preço... (infurecido) dum duelo... 

i» xNtaubÃo— D'um duelo !? d 'um duelo ! . . . (aparte) Não 
ha que ver. . . está doido. . . pobre rapaz. . . (alta) Ora o 
amigo deu- lhe agora para casH>ar comigo, hein?. . . : 

jorge— Não cassôo, falto serio, muito sério ; repito, hade 
bater-se comigo n'um d uello de morte! 

pantale x o— (muito assustado) De morte ! . . . de morte? ! 
(aparte) Então, hein? não querem lá verem que bons lea- 
çóes estou mettido. . . (altoj mas venha cá, isso é impossí- 
vel . . • bem vê que ... 

jorge— Já disse, não: admitto -replicas. 

pantaleao— Pois sim, sim... não ponho duvida algu- 
ma, mas, mas. . . mas guarde isso lá mais para diante. 

jorge— Não, hade ser hoje mesmo, senão quer que lhe 
chame tão vil como cobarde! 

pantaleao— Pois sim, sim... serei o que o amigo quizer, 
mas hade concordar que. . . 

jorge— Hesita, não é assim? pois bem, vou assassinal-o! 

pantaleão— Assassinar-me ! assassinar-me í Senhor, o 
corpo do cidadão é inviolável . - . isto é uma infâmia, uma 
traição. :; . • 

jorge— Nem mais uma palavra, senhor... (abrindo uma 
gaveta da mezaj. 

pantalkÃo— Assassinar-me!. . . que atroz situação a mi- 
nha! que traição ! .. Õftí da guarda !... quem me acode... 
Oh : da guarda ! . . - 



TSnogle 



— 14 — 

SCENA ULTIMA 

Os mesmos e Elvíra 

Elvira— (entrando pelo fundo muito assustada) Que é isto, 
sr. Jorge? que aconteceu? 
jorgk — (aparte) Meu Deus, que fiz euf 
pantaleÂo — (encarando Elvira) Estou perdido ! . . . per- 
cebo tudo; a rapariga de quem eu tinha o retrato... é pro- 
vavelmente a mulher do gintor. (lançanéo-se aos pés de Jor- 
ge) Perdão, senhor, perdão. . . mas quem teve a culpa de 
tudo isto foi aquelie maldito photographo. 
Jorge— O photographo? I . . . 

pantaleÂo— photographo, sim senhor, (de joelhos) Per- 
dòa-me, sim, perdôa-me?. . . 
jorge— Levante-se : está perdoado, mas etplique-se. . . 
pantaleÂo— Ora lá vae : sou muito furioso em possuir 
retratos de carinhas bonitas, e tanto assim que tenho lá em 
casa um muzeu, para onde destinava o quadro que lhe en- 
commendei. . . Ora, a semana passada fui a casa do meu 
photographo e vi lá o retrato d/esta menina ; não o queria 
trazer. . . sim, eu não o queria trazer; mas o maldito pho- 
tographo ateimou, e não tive remédio senão comprar-h'o... 
elvíra— {aparte) O meu retrato ? 
pantaleÂo— Ora já ve que n'isto não tive culpa alguma; 
mas sim aquelie maldito photographo, que heide amaldi- 
çoar toda a minha vida. 

jorge— (aparte) Elvira innocentef . . . E procedi tão pre- 
cipitadamente ! 

elvíra— Senhor Jorge, não comprehendo uma palavra de 
tuio isto. 

jorgb— Perdão, Elvira, vou contar-lhe tudo. . . Este se- 
nhor apresentou- se-me- aqui com o seu retrato para eu lhe 
fazer uma copia a óleo,.. 
pantaleÂo— Era para figurar lá no museu. 
jorge— Dizendo que estava extremamente apaixonado 
pelo originai, e por isso lh'o queria oíTerecer como prova 
do seu amor. . . 

pantaleÂo— (aparte) Mau... (alto) Mas isso era brinca- 
deira, então o amigo não percebeu? Ora, ora . . . 
jorgb— imagine oo.no cu tkar.a, querida Elvira, a) ou- 



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- iò* -. 

vir unia tal revelação, que me roubava para sempre, o 
ideal da minha felicidade. 

elvira— E o sr. Jorge acreditou que eu fosse capaz 
de... 

jorge— Perdão/ Elvira, perdão; fui muito precipitado, é 
verda<-p. . . mas a lucta terrível que se travou na minh'al- 
ma era mais forte do que a voz da minha consciência. 

elvira — Agora percebo tudo. N'esse caso a historia que 
me contou. . . 

jorgk — Era a historia dos nossos amores, que eu julga- 
va perdidos para sempre. 

elvira—Louco . . . e acreditou? 

JORGE—Não, Elvira... agora, sou mais feliz do que nun- 
ca . . . porque sei que me ama. 

pantaleao- Pois senhores, se soubesse o mal que aqui 
havia de vir fazer com aquelU maldito retrato, nunca mais 
queria retratos lá no muzeu. 

Jorge— Socegue : é verdade que me fez bastante mal, 
mas ás vezes» ha males que vêem por bens. Até aqui vivia 
n'uma cruel incerteza, por não saber se era verdadeira- 
mente amado. Esse facto, porem, veio destruir todas as 
suspeitas que ousei fazer recair sobre o amor de Elvira... 
e hoje julgo-me feliz por ver coroado este sentimento que 
em breves dias nos unirá para sempre, (tomando at mãos 
de Elvira) Não é assim? 

pantaleao— Gomo ? pois o amigo não é ainda o marido 
d 'esta menina? 

jorge— Ainda não; mas Deus hade permittir que dentro 
em pouco tempo lhe possa dar o nome de espoga. . . 

pantaleao — Pois senhores, visto isso, -uma vez que fui 
o causador de o meu amigo ter suspeitado d'esta senhora, 
quero em compensação. . . ser o padrinho do casamento... 
acceitam?... 

ambos— Acceitamos. 

jorgb— Boa lembrança. . . será o padrinho do nosso ca- 
samento. 

pantaleao— Mas olhem que é com uma condição. . . 

jorge— Qual é?-.. 

pantaleao— E' a de me darem os seus setratos lá para 
o muzeu. 

jouge— Está dito. 



yCooQFe 



— 16 - 

pàntài.gXo — (canta) 



COVPLET FL\AL 



Meus senhores, vou ser o padrinho 
D'este tão desejado hymeneu; 
Ai, fiquei a chuchar no dedinho, 
Ninguém ha infeliz como eu. 



Mas embora! que sejam felizes, 
Já que a espVança de amor feneceu 
Vou pedir- lhes. . . não* sei se me atreva, 
Quaíio palmas também p'ra o muzeu. 



CAE O PANNO 



Typ. da Livraria Económica. 



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o 



POR CAUSA 

D'UMA PERDIZ 



COMEDIA EM i ACTO 



POR 



Diogo Josó Seromônlio 



Condecorado com a medalha ao mérito, 

. Sócio honorário do Grémio Litterario portuguez 

do Pará, da Associação dos Jornalistas e 

Escriptores, etc. 



Representada com applawos 



S&AAAAAAAAAAAAV 

$ D. J- S- fe 



' TMXATRO CONTEMPORÂNEO 

BIBLIOTHECA FUNDADA EM 186» 

DIOGO SEROMÊNHO- EDITOR 

EsawBTOtue da Empreza, Rua Nova do Almada, 94, %? 

LISBOA -1883 



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PERSONAGENS 
/oÃo — Jaymb— Emjía — Mi8«EL, r creado. 

ACTO ÚNICO 

 scena passa-se n r uma casa de campo ; jardim ao fundo, 
portas laierae*, etc. 

SCENA I 

Emma, Miguel, depois Jayme 

emma— Abre todas as janellas, preciso ar, sinto-jne boje 
muito aborrecida. 

miguel— Ahi vem o sr. Jayme. 

emma— Não me larga, é a minha sombra. 

jayme— (com um ramo de flores) O meu coração oíTerece 
estas flores a v. ex. a . perguntando-lhe ao me*smo tempo 
uuando faz a minha felicidade? 

emma— Está com muita pressa. . . Ainda não sabe bem 
quem eu sou. Se sou viuva, casada, ou solteira. . . 

jayme— V. ex.» é viuva. 

emma— Engana-se. Casaram-me muito nova na minha 
terra, na America do Sul. No fim d'um mez nem eu nem 
meu marido podíamos viver um com o outro. Descobrimos 
então que quando nos casaram tinham faltado a uma for- 
malidade indispensável; e aproveitando este pretexto, o pa- 
pa annulouo nosso consorcio. Separamo-nos e nunca mais 
vi meu marido. 

jayme— E' uma verdadeira excentricidade americana... 
viuva com marido vivo! 

emma— Era meu dever contar-lhe tudo, antes do nosso 
casamento. Agora rogo-lhe que junte cá, e se demoro um 
bocadinho emquanto vou dar algumas ordens, (sue). 

SCENA II 

Jayme, depois Joio 

jayme— Bem me importa a mim que seja viuva ou capa- 
da, o que eu quero é apanhar a grande fortuna qu* pos- 
sue. f ouve -se um tiro) Um caçador no jardim ! 

joao— {entra com uma esp-ngurda e uma perdiz) Até que 



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_4- 

a matei! (reparando em Jayme) Tu aqui ? Desculpa ter en- 
trado assim, mas ando ha mais de duas horas atraz cTel- 
la. . . (mostra a perdiz) Até que a matei no teu jardim! Es- 
tá muito calor; manda-me dar alguns refrescos, e depois 
jantarei comtigo. . . 

SCENA III 

Os mesmos e Míguel 

MiGiEL— (entrando) V. ex. a chamou? 
íq ao— (dando- lhe a perdiz) Arranja depressa essa perdiz. 
Jantaremos ás cinco horas. 
míguel— Farei a diligencia, (sae). 

SGEiNA IV 
JoÂo e Jayme 

jayme— Homem, tu estás enganado; esta casa não é mi- 
nha, mas sim da sr." D. Emma. 

joão— E eu que tào arrebatadamente dei ordem para o 
jantar! E' o mesmo; se a dona da casa nào me der de jan- 
tar, quero que me restitua a minha perdiz. 

SCENA V 
Os mesmos e Emma 

fmma— (entrando e aparte) Valha-me Deus! Meu marido! 

joao— (cumprimentando, aparte) Bonito ! Minha mulher ! 
(a Emma) Minha senhora, andava caçando e vim atraz 
d'uma perdiz, até dentro do seu jardim, depois julgando- 
me em casa do meu amigo, mandei fazer a perdiz para o 
jantar, convidandr-me. 

emma— -Aporá sí.u eu que o convido. 

joãu— Aceeito. (aparte) Tem graça ! Jantar com minha 
íjiiiilitfi! 

jayme— Vou escrever uma carta de importância: já vul- 
to, (sae). 



*__ _^=_„^^___^n: 



SCENA VI 
João « Emma 

joao— Então que tal tem passado dJrante estes cinco [j** 
annos que nos tem separado? ^" 

emma— Perfeitamente. 

joâo— Pizeiíio» muito bem em nos separarmos ; os nos- 
sos génios eram incompatíveis... V. ex. a era insupporta- 
vel. 

emma— E o sr. insoffrivel! 

joão— Apesar d 'isso estou para casar. 

emma— Também eu. 

joão — Tem graça! 

emma— Muita graça! 

joão— Em quinze dias caso com a menina Gloria Pi- 
menta. 

emma— Conheço perfeitamente... Desejo-lhe que seja fe- 
liz. Ahi vem o sêu amigo; agora retiro-me, até logo. (sat.) 

SCENA VII 

JoÃo, Jayme e depois Miguel 

joão— E' muito sympathica. 

jayme— Amo-a loucamente, e em breve será minha es- 
posa. 

joão— (aparte) Espera por isso. (alto) Nào sabes que e 
casada? 

jayme— Já o nào é. 

joão— E com um marido terrível, arrebatado, ciumento! 
O teu casamento é impossível! 

jayme— Nào sabes o que dizes.- 

joão— E' verdade; nem eu sei o que digo. (aparte) En- 
tão nào me vou apaixonando por minha mulher?. . . (alto) 
Vamos dar uma volta? 

Miguel— (mirando) A perdiz já está ao lume. 

joão- (aparte) Oh! que ideia! (alto) A quinta tem algum 
pombal?. 

mígukl— Tem, no fundo do jardim,, 

joão— Vem d'ahi. (sasm). 



yGooçle 



— 6 — 
SCENÁ VIU ' 

Miguel e Eiwà 

W HK-r*ntrando) Aonde estão os meus convidados? 

SCENA IX 
JoÂo, Miguel, depois Emma> 

embrulhada n'um tango; Esta % ldo o ? .? a f ^ S ô e - 

b l£2ffiào.nI. ama a me»'™ Gloria» 

G-loria. 

B°MM A "-sf ella lhe perguntar ^^ r ™ Pta,eD ' 
to diea-lhe que é por causa do major roíycarpu. 
'joKuando deve ser entào o casamento? 
smma— Qual casamento? 
joio— O nosso. t _ _ A 

iMMA-Dei a minha palavra a Jayme. 

/ 

^ Digitizedby VjOOQj^^ _^ . 



y Google 



~ 8 — 

SCENA ULTIMA 
João, Emma, e Jayme (darmindoj 

bmma— /entrando) Em que estado, meu Deus! 

joio— Todos es defeito* e viciosl 

emm A—Que horror! 

joão— Desejava um pretexto, creio que este... 

emma — £' suficiente... (meiga) Mae não me dirá como 
tanta raiva se transformou em amor? 

joio— Não a tinha conheeido bem; era um louco! 

bmma— Agora adeus. 

joão— Tinha-me convidado para jantar, mas visto que 
quer que me retire, hade ao menos aar-me metade. . . 

emma— Metade de que? 

joão— Da minha perdiz, que está ao lume. 

emma— Qual perdiz? 

joão— A que fez a minha felicidade, pois foi ella que pa- 
ra aqui me conduziu. 

emma— N*esse caso comel-a-hemes juntos, fsmte-se rmeo- 
nar) E o que havemos de fazer de Jayme? 

joão— Escreva-lhe um bilhete de despedida, para o re- 
ceber quando acordar. 

emma— Está dito. Agora vamos jantar. 



CAE O PANNO 



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Uma sogija mqdewju jcoiaedíá em 3 a*5tôs,'44i. 3» m.. . . 24A 

Exemplo a casado*, comedia em 2 actos, 4 ti*. 9 «i'» . 4 240 
Viajar incógnito, oaçujdia em % actos* 7 &«&> m,» > — . 240 
Descrenças, dram* em {. a>cto, 2 b. 4 m, . . r , < . . . . . . , 160 

A qrphâ» íirama etp.J ficlo, 4 h. 2 v....... , «. ^,w •• . • . v IM 

A ultima crença, drafi& «ai i acto. % Ji, lm.«. .., » . * 120 
Por causa de $m Rcrft^p, comedia ^al acto. ,2 b.1 m» 

2.' edição, ,.. . : ,;,, „ v . ..v. .. -.^ v iflf 

Viva o exercito! e viva o duque ! comedia em i acto . 

4. h. í fn.Wí- ♦}..., ,... M .. ? ... . .,s. .i — ,w, 160 

Doidos políticos, qouiejia em I acto, 4 h. i ia.. . .•. * 120 
A noite dos noivados, .comçdia eu* i acto, 2 h> 2 m«. . 120 
Mabiquiniías a estalajadeira, comedia ettt 1 a«t©, 2 U, 

1 m. 2. a çdiçâo. ..«.<.. ....... ,r.*, Tt .^.. ^...*vr 120 

Um poetar comedia em i acto, 4 h. 2 ai f •-,.-, 120 

Aventuras de um garío, comedia era 1 acto, 3 èi. 2 m. » 1W 



yGooQle 



O que faz o medo; comedia em 1 acto, 4 h. 2 m iiú 

legado, comedia em i acto, 3 h. 3 m. . . '. 120 

Portal b jHfSPÀifJiu, còmédM %i' 1 a<|fc^a^. 4 m. . .'* 120 

A. m ô., comedi* em i *etò,*3 k.4 m.*; ■& à *.\ < . * . * 420 

Somma e segue, cpwetfia em 1 acto, % h. % m 120 

Os primos, comedia ém 1 acto, 2 h. 1 m 120 

A furiosa D*AjiéR,»comeli3 oar *♦ aetoj^S h*. %n< / f .*. . . 120 

amante emprestado, comedirem 1 acto, \ h. 2 iii. . . 120 

Casar' ou morrer, comedia em 1 acto, 5 li. 2 m 12(3 

A mosquinha morta, coneáiaren 4. meto, 3 h. 2 m 120 

V. £x. a desculpe, comedia em 1 acto, 4 h. e 1 m 120 

No campo da opposiçAo, comedia em 1 acto, 2 h. 2 m . 120 

A loira, comedia em i acto, 3h. 3rp v . 120 

Um rapaz tímido, comedia em ^ aoto^ 3 L 3 $$.. \. ... . 120 

Maldita casaca, comédia em 1 acto, ih. $ m.. '*.. . . .,. 120 

Casado e solteiro, comedia 0m i acto ^3 ( fc.-3 pi.. .^. . 120 

A gaiola de ouro, comedia em 1 acto, 3 n. 1 m. . . . . . f 20 

Meias solas « tacões, comedi* et» 1 acto, $ h. 2 m; . . 120 

Oh) DA GUARDA... LADROES, CO1B0dkt'eill f AOtO, 3 h. 2 Dl. ISO 

Tem sobreloja, comedia em 1 acto, 3 h. 2 m. . 120 

dentista, comedia em 1 acto* 4 h. 1 m.. v 120 

Três #ac|^^b>^s, oometflaíwn {f> a€lo, @)«$ él- < . . C 120 

Marido e mulher, comedia em 1 acto, ih. iro 120 

A mulher do próximo, comedia em Lacto. 2 h. 2 jn.. . 120 

Uma após* Aj f éômèfflá ém f acíd,"? tf. 'i df.r. Vi r.V. . . 120 

Por causa d' uma perdiz, comedia em 1 aeto, 3 h. 1 m. 12$ 

HW roupas brancas» comedia em 4 ârfto\ '34t. f to.. . .' 120 

O Vado clássico, comedia em 1 acto, 2'h. 1 m. . 120 

A visinha tio 8> andar j eowedla em 1 {teto, 2 h. 1 m. 120 

À êstanqueira «o LoftfiVOr coraetfk em 1 aclo, ih. Iiíi. 120 

Otf doidos ungidos, còrnelia era t act$ 3h. 1 m — .' 120 

Astúcias de ha^o*ada, domédia em 1 ! «eto, 44i. 2 m.. 120 

(V íivro amarrllo, conlediar em* 1 afeto, 3 h. t nr.i . . . 120 

U«k casa para alugar, eo media em 1 acto, 8 h. 3 m-. 120 

Continua... comedia em 1 aetò, 2 h. I iri,. / 120 

Uma cAsa de doidos, comedia effi 1 acto, 3 h." 2 m. /. . . 120 
ÍíòVe retratos dois tostões, comedia em 1 acto, 6 H. 

3 m ' :....;■ ,:.< ; . 120 

museu do sr. Custodio, comedia em 1 acto 2 h. 1 m. 120 

Oft bois rivaes, dbntedia em 1. acto, í ♦>. 1 m. ...:... . 120 

JFum hotel; comedia enrf 1 acto, 2 h. 1 ir. ...;.. . 120 

Os encantos rm Narcizá, comedia eto 1 acto, 2 h. 1 m. 120 

Casamento ás escuras, comedia em 1 acto, 2 h. 1 irL J20 

Pôr causa ds Julig Verne; comedia ém 1 acto, 4'h. f jto. 190 

CIsamento desigual, comedia' em 1 aéto, ih: i m 120 



. s "" Digitized by VjOOQLC 

^f**--^r^D^^ij.i.uJiiiiJii«lll , j--~« 



o 



IS CADSA 1 III 11 

COMEDIA EM UM ACTO 

POR 

Diogo José Seromenho 

Condecorado com a medalha de mérito, 
Sócio honorário do Grémio Litterario Portuguez do 
Pará, da Associação dos Escriptores, etc. 



Kepresentada com geral applanso no theatro 
Luiz de Camões, em Belém, etc. 




. THEATRO CONTEMPORÂNEO 
v Empreza fundada em 1869 
DIOGO DE SEROMENHO — EDITOR 
i JEscriptor-io da Empreza — Rua Nova <k Almada, 24, 2.° 
LISBOA— Í886 



y Google 



AO MEU AMIGO 

mZÊ SOMES .DE MENEZES 



ÔrpEBEÔE 



!Diogo $osè Seromenfa. 



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PERSONAGENS 



Euzebio 25 annos 

Joaquim 47 annos 

Júlio 50 annos 



Mr. Castenet.. 40 annos 
Maria 2C annos 



jsm 



A.OTO ÚNICO 

A scena passa-se ri uma casa de pasto na Perna de Pau. 
No primeiro andar tia uma janella deixando ver a 
cabeceira d' uma meza, em roda da qual estão os con- 
vidados festejando um casamento; a parte do jardim 
está illuminado com balões. Os convidados fazefâ 
gravde bullia . 

SCENA I 

Joaquim e Maria 

^JOAQUIM — Divirtam-se, meus amigos*, bebam, co- 
mam, feçam despeza, que é o que eu quero. 

MARIA — Accendi os balões porque se espera o sol- 
e-dó da travessa das Almas, para com as suas musi- 
cas fazerem dançar a boda. 

JOAQUIM— Deve ser festa rija! muito melhor! 

MARIA — Que tal lhe parece a minha illuminaçao, 
meu pae? 

JOAQUIM — Obra aceiada! Os noivos e seus convi- 
dados devem ficar de boca aberta. Mesmo por que é 
gente pouco acostumada a estas festas, de tudo se ad- 
miram... até mesmo da horrível michordia, a que eu 
chamo vinho. 



y Google 



_ 4 — 

MARIA — E' verdade, são muito estúpidos! Pergun- 
taram-me d' onde era o vinho, e eu respondi-fhes que 
era de Torres Npvasl 

, JOAQUIM— Tem graça! E' preciso serem muito ta- 
pados! É segundo disseram vieram para aqui guiados 
pela fama dos meus bons petiscos! E modos agradá- 
veis! E' enorme a minha fama! Por isso. tenho ganho 
tanto dinheiro. E' para o teu dote, Maria, se cazares 
a meií contento. 

MAtllA— A musica já se demora. E' tão bom um 
dia de noivado! 

TOAQUIM — Para os entreter, vou levar-lhes vinho 
do Porto. Aposto que já pensas em casar. 
1 MARIA — Bravo o luxo! Olá se penso. 

JOAQUIM — Deixa estar que eu te cazarei, mas pri- 
meiro preciso arranjar-te o noivo. ' 

MARIA — Não é preciso, já o arranjei. E' um bom 
rapaz, terno, amável, e com um génio de pomba sem fel. 

JOAQUIM— E como se chama essa avis raris? 

MARIA— Euzebio Pimenta. 

JOAQUIM— Não conheço. 

MARIA— Admira. Elle vem aqui passar todos os 
domingos. 

JOAQUIM— Aposto que é um todo peralta, que gos- 
ta muito de fallar de politica, e còm quem costumo 
cavaquear. t 

MARIA— E' esse mesmo. 

MARIA— Pois é um brejeiro bem dissimulado, por 
que nunca me disse que te amava, nem que queria 
casar comtigo! 



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— 5 — 

MARIA— E' porque tem acanhamento, e um tio, de 
quem elle depende, é que não quer que elle caze. 

JOAQUIM— Começam as difficuldadeç. E o tio tem 
dinheiro? 

, .MARIA— Tem uma grande fortuna, mas é um gran- 
de, maniato' que parece fugido de Rilhafolles. 

JOAQUIM— E não dá ao sobrinho nem ao menos o 
seu copseitfimento. Estás feliz, rapariga! 

MARIA 7-t.E' um grande uzurario, ; pór isso é tão 
rico! . 

JOAQUIM— Deixa lá, eu filiarei ao teu namorado, 
t €.se me,3gradar, fica o resta por minha conta, 
. MARIA— rO.brigada, meu pae; elle não pode tardar 
por ahi, soube que vinha hoje cá tocar o sol-e-dó, e 
\em paWudauçar comigo. 

. JOAQUIM— Sim seinhor,. vocês teem tudo "bem con- 
binadq, p peior è se não estou pelos ajustes. (Uma 
voz dentro — Oh tio Joaquim). Lá vou, lá vou. (me) 

SCENA II 
IVXarift & Evizebio 

/ EUZEBIO — (entrando) Aqui me tens, anjo querido. 
' MARIA— Esperava te tom impaciência, teãlio ujjia 
boa noticia para te dar. 
.EUZEBIO— E eu uma noticia tristíssima. 
,MARIA— Fallei a irçeu pai e não se oppõe ao no§so 
casamento . . , 

EUZEBIO — O nosso casamento é impossível! 
MARIA— Meu pae foliará a teu tio. 



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— 6 — 

JOAQUIM— Não o poderá ir procnrar. 

MARIA— Porque, aonde está elle? 

EUZEBIO— Na lua! 

MARIA— Endouceste? 

EUZEBIO— Para doudo pouco me falta; mas quem 
está doudo não sou eu, é meu tio. D'autes tinha a 
mania da musica, tocava clarinete como qualquer pa- 
deiro ; depois poz de parte o clarinete, e assim que 
leu o romance de Júlio Verne, «Da Terra á Lua», nao 
pensa senão na astronomia. Ha mezes que está ro- 
deado de todos os livros que tratam d^stronomia, e 
não faz senão gritar:— Júlio Verne tem razão, a lua é 
habitada, e preciso lá ir, quero ver o que lá se passa.» 

MARIA— Não tem que ver. está doidol 

EUZEBIO— E' como te digo, dà-me muito cuidado 
a sua mania, já méxonvidou para o acompanhar á lua! 
imagina! Quem mais lhe tem desenvolvido a mania é 
Mr. Gastenet, um areonauta que tem feito ascensões 
no Campo de SánfAnua, jo seu balão— Cidade de 
Lisboa; — para o disfructar e divertir-se com a sua ma- 
nia, tem lhe mettido na cabeça taes ideas com refe- 
rencia á lua, que o traz mesmo perdido de cabeça. 
Por fim hoje convenceu-o a partir com elle para a lua 
no seu balão. 

MARIA— Que grande cassoada! 

EUZEBIO— Não é cassoada, é especulação. Appro- 
veitando-se da monomania de meu tio. convenceu-o a 
que partia para i lua com elle no seu balão, mandou 
fazer uns cartazes enormes, com um grande balão pin- 
tado, annunciando em letras garrafaes, que levaria por 



y Google 



— 7 — 

esses ares, em sua companhia, um cavalheiro bem co- 
nhecido em Lisboa, e obtém assim, excitando a curio- 
sidade publica, uma enchente real na praça do Cam- 
po de SanfAnna, o que nunca lhe tem acontecido, 
porque o povo vê de toda a parte a ascensão de gra- 
ça, escusa d'ir gastar dinheiro á praça. Mas d'esta 
vez, como já disse, por curiosidade, enche- se tudo, é 
uma enchente real. 

MARIA — Vai então para a lua, abandonandó-te. 

EUZEBIO— Infelizmente é verdade. 

MARIA — Que importa, jà não precisamos do con- 
sentimento de teu tio, meu pae resolverá o assumpto. 

EUZEBIO— E' impossível, sou menor, e meu tio é 
meu tutor. 

MARIA— Então faze a diligencia para seres maior 
o mais depressa possível. 

EUZEBIO— Tratarei d'isso. 

SCENA ffl 
Os mesmos e Joaquim 

TOAQUIM — (dentro chamando) Maria f Maria! 

MAMA— Meu pae chama-me, vamos contar-Ihe tu- 
do. 

JOAQUIM — (entrando) Não ouves chamar, Maria? 
(reparando em Euzebio) Olá ! temos mouro na costa f 
Não é preciso ser muito esperto para adivinhar que 
o sr. é o tal pretendente à mão de minha filha» 

EUZEBIO— Sou eu mesmo. 

JOAQUIM— Antes de resolver o assumpto, preciso 



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— 8 — 

^irar algumas informações a seu respeito. E' verda- 
de, qual e a sua profissão? 
. .EUZEBIO— Sou litterato. 

'JOAQUIM— Litteraío? não sei o qae é! 

EUZEBIO — Escrevo para os jornaes e para o thea- 
tro, è sou também poeta. 

,. JOAQUIM- Bem, experimentarei o seu talento, pe- 
dindo : lhé me faça um annuncio em verso, recommen- 
dando o meu estabelecimento. Mas antes preciso fat- 
iar com seu tio; leve-me ao sitio onde elle está. Te- 
nho oue lhe dizer. 

EUZEBIO -r- Isso é impossível, porque meu tio... 
{aparte a Maria) Será preciso dizer-lhe que está na 
lua? ' 
... MARIA— Isso não. 

1DAQUIM— Aonde está? explique-se. . . 

EUZEBIO— N' este momento, com franqueza, não 
sei aonde elle está I (ouve-se musica) 

MARIA — Bem, ahi chçga o sol-e dó. 

JOAQUIM — Já que deseja ser meu genro, deve aja* 
dar-me nos meus trabalhos, e para começar venha 
comigo á adega para me ajudar a encher, as garrafas, 
e» se ficar satisfeito com o seu trabalho, darei licença 
a minha filha para dançar comsigo.' Tu, vae lá acima 
e dize aos noivos e convidados que já chegeu o sole- 
dó e que o baile pôde comççar quando quizerem. (Ou- \ 
ve-se a bulha de instrumentos a afinar), E nós vamos 
para a adega. (A'sjanellas chegam os convidados, mui- 
to alegres, vozes — Vamos á dança, á dança). 

MARIA— Vou-me fartar de dançar! {olhando para o 



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— 9 — 

cêó) Mpu Dens! Qae será isto?! Mea páe, acuda-me! 
(Os convidados descem das janellas e fogem atravessan- 
do a sema e gritando muito. Começa a descer um enor- 
me aereostato, trazendo na barquinha Mr. Castenet e 
Júlio. Maria foge tombem). 

SCPíAIV 
]&Ii> Castenet e Jixlio 

MR. CASTENET— Senhor Júlio, âcordte que já che- 
gámos. 

JUiÀO-^-folhahdo espavorido) Não vejo nada! 

MR. CASTENET— Olhe bem, nSo yê tantas cazas?! 

JÚLIO — E' verdade, lá estão. E ainda haverá quem 
duvide de que â lua é habitada? E diga-me, mr. Cas- 
tenet, em que parte da Iça estamos? 

MR. CASTENET— Estamos ao sul. (dparte) Pobre 
homem, julga se àa lua! E' nm maniaco divertido. # 
o caso é que não sei qual é. o sitio em que viemos 
cahirf (O baião toca no chão, mr. Castenet salta epren- 
de-o com tinia' cofdã a um tronco de arvore; 1 Mio saU 
ta tarnbem): ' ; " : ' 

JtLIO— Méticaro aipigo, não posso explicar-lhe a 
satisfação quj^sinttf em ter chegado á lua, sem pèri : T 
sar nos pètígbs da : viagem, porque dormi admiraVèj^ 
mente. ' • ' * > • : •* 

MR. CASTENET r- (dparte) Mal sabes que fui eií 
quem te deu um narcótico, n^mi copo de vtoho, te* 
mente alguma tolice tua. (alto) E que grande somno! 
Ha três annos que está a dormir! 



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— 10 — 

JÚLIO — Está cassoando! Ainda não ha ama hora 
que nós partimos do Campo de SanfAnna! E não era 
possível dormir tanto tempo, sem acordar de Vez em 
quando, ao menos para comer e. . . 

MR. CASTENET— Em se passando das regiões or- 
dinárias, e chegando ao vácuo, não é preciso comer 1 

JÚLIO — D'aqui á terra deve ser um bom bocadi- 
nho 1 

MR. CASTENET— Já lhe disse. São noventa e qua- 
tro mil novecentas e setenta e sete léguas e meia. 
Quer ver a terra de longe? 

JÚLIO— Quero. 

MR. CASTENET— (mostrando-Ihe a lua) Está ali. 

JÚLIO— E' celebre, parece a luat 

MR. CASTENET — A distancia produz essas mira- 
gens, e além d' isso este globo é muito parecido com 
o nosso. 

JÚLIO — Isso é verdade. Estou com curiosidade de 
vêr os habitantes da lua. (começa a procurar por to- 
dos os cantos). 

MR. CASTENET— (aparte emquanto Júlio semffásta) 
Pobre louco I Como elle imagina estar na lua ! Deixe- 
mol-o n'esse erro que lhe não pode ser funesto, e vol- 
temos a Lisboa a contar o resultado da ascensão, de- 
pois venho buscar o balão. O meu &m está brilhan- 
temente preenchido; o nome do rico capitalista Júlio 
Pimenta, posto no alto dos cartazes, produziu uma 
enchente real, e deu-me em resultado muito bom di- 
nheiro, (alto) Sr. Júlio, eu já venho. 

JÚLIO — Então deixa-me só? 



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— 11 — 

MR. CASTENET— Vou cuidar nos descobrimentos 
que havemos de fazer. 

JÚLIO — Não se demore, imagine os embaraços em 
me veria se algum habitante me. viesse fatiar. . . não 
sabendo eu a lingua lunática! 

MR. CASTENET— Não tenha esse receio, que o hão 
de entender perfeitamente. Em toda a parte se falia 
portuguez. e na lua então perfeitamente. 

JÚLIO — Então não se demore. 

MR. CASTENET— O menos possível. (*<fe) 

SCENA V 
Julio (só) 

Até que emfim consegui o meu grande desejo! Es- 
tou na lua! E auando voltar a Lisboa, dizendo que vi 
a lna ! Com certeza nío me acreditam, sucia de estú- 
pidos! Ohrígado, Júlio Verne. meu querido Júlio Ver- 
ne, se não fosse o teu celebre romance não me acha- 
va eu agora aqui. Hei-de escrever a historia dos cos- 
tumes da lua. Tomara já ver os habitantes, (senta-se 
em um banco) 

SCENA VI 
JTulio* Joaquim, Euzebio e Afanar 

(Joaquim e Euzebio saem da adega com uma lanter- 
na e um cesto com garrafas.) 
JOAQUIM— Não ouço a musica! 
EUZEBIO— Não vejo ninguém! 



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— 12 — 

TOÀQUIM— Para onde iriam? (chamando) Maria! 
Maria t 
MARIA — (chegando á janella) Que é, meu pae? 
JOAQUIM— Aonde estio os noivos, convidados e o 
sol-e-dó? 

MARIA — Não sei, não os vejo, nem os sinto. Fu- 
giram! 

IOAQUIM— Estamos roubados, safaram-se sem pa- 
gar. E' ufiaa ladroeira! Vamos, Euzebio, poete a ca- 
minho, vê se os agarras, ainda não podem ir muito 
longe; vê se ao menos agárraá um, que esse pagará 
por todos. Anda, safa-te, cuida nos intereses da fa- 
mília. 
EUZEBIO— Bem, lá vou. (sáe correndo) 
JOAQUIM — Não havia nada melhor, comer, beber, 
gritar e dançar; e depois porem-se ao fresco, sem pa- 
gar Que patifes! 

MARIA — Olhe, meu pae, ali sentado debaixo da 
parreira está um: homem! 

JOAQUIM — Fallei antes de tempo. Ha-de ser algum 
dos convidados. 

MARIA — E está escrevendo, (retirasse da janella) 
JOAQUIM— Naturalmente está calculando a despeza, 
vamos a ver se estamos d'accordo. . . (cwnprim&ntan- 
doo) Meu caro senhor. . . 

JULIO-^(aparfó) Quem será este homem? Bom ty- 
po! 

JOAQUIM - (aparte) Não tenho idéa de o ter visto 
na boda. Vamos com alguns rodeios saber o que elle 
faz. (alto) Então está satisfeito? 



OOQ ■"-— ■* 



— 13 — 

JÚLIO— {aparte) E falia portuguez! Mr. Castenet ti- 
nha razão, {alto) Até agora não tenho razão de queixa. 

JOAQUIM— Então deixaram-n'o só? 

JÚLIO — Por pouco tempo, d'aqui a pouco veennne 
buscar. Pois é verdade, este seu planeta é bem Eo- 
nito! 

JOAQUIM — Planeta ! Eu chamo-lhe — «Retiro dos 
Amadores». 

JULIO^Tem graça! O sr. é um homem d'espiritò; 
lá pela terra não ha d'isso, é tudo estupidez! 

JOkQVlM-^{dparte) De que terra será elle? 

JULIO-^Tenciono escrever uma obra em vinte vo- 
lumes, e o meu amigo ha-de me dar os apontamen- 
tos, quero que me dê conta de tudo. 

JOAQUIM- {aparte) Elle que pede a conta, é por- 
que tenciona pagar, (alto) Está dito, dar-lhc-hei a con- 
ta. Não quer tomar nada? 

JÚLIO — Venha lá um pequeno petisco, seja o que 
for, qué eu não sou de cerimonias. 

JOAQUIM— Tenha a bondade de entrar. 

JÚLIO — Espero que me venham buscar, por isso 
comerei aqui mesmo. 

JOAQUIM— Está dito, como lhe agradar 

JÚLIO — Uma comida leve, seja o que fôr, mesmo 
porque me veria em embaraços para lhe dizer o que 
queria; era capaz de lhe pedir alguma producção da 
terra, que o sr. não conhece. 

TOAQUIM— {admirado) Pois o sr. não tem comido 
producções da terra? 

JÚLIO— Tenho, mas aqui não quero pedir impossi- 



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— 14 ~ 

veis. Dê me do qae tiver melhor' sobre a superfície 
do seu globo. 

'Joaquim— Do meu globo! 

JÚLIO — Sim, ô qué o seu planeta produzir de mais 
saboroso. 

JOAQUIM— (admirado) O meu planeta! 

JÚLIO — A sua bola, e olhe que é bem grande, vê- 
se de longe. • .» . 

JOAQUIM— (aparte) Cada vez percebo meoosl (sáe) 

JÚLIO —O homem parece tapado. Se tortos, os ha- 
bitantes forem assim 1 ;l .. 

SCENA VII ' 
Joaquim^ Jvxlio 9 e Maria» 

MARIA — (trazendo o, almoço) Aqui está o almoço! 

JÚLIO — Boa noticia, (aparte) A lunática, é bem 
boa ! . . . 

JOAQUIM — (baixo a Maria) Eu vou acabar a con- 
ta, não percas de vista este original» que me parece 
ter pancada na mola. (alto) Eu já volto, vou acabar a 
conta que me pediu, (sáe) 

JÚLIO — Pois sim, vá. Tem graça! Bife!... ovos fri- 
ctos!... exactamente como na terral... O' lunaticasi- 
nha, esqueceulhe vinho! 

MARIA— (aparte) Que me chamou elle?! (alto) Qae 
vinho quer? 

JÚLIO — Do melhor. {Maria sáe) Entretanto lance- 
mos algumas notas no meu livro de lembranças — «Na 
lua comem- se bifes e ovos frictos». 



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— 15 — 

SCENA VIII 
jToaquim e Júlio ^ 

JOAQUIM — (trazendo um papel na mão) Aqui está 
o que me pediu. 

JÚLIO — Eft não pedi nada. 

JOAQUIM— Nada de chalaças, leia e pague. . 

JÚLIO— Xeia e pague! Que quer dizer? 

JOAQUIM — E' a conta" das despezas que fez na .mi- 
nha casa de pasto! , .. 

JÚLIO — Não ha de ser grande a tal conta, só. cjmi 
dois ovos e meio bife. Vejamos a somma. . . 37#140 
réis . . . Isso é engano? 

JOAQUIM — Eu nunca me engano! 

JÚLIO— Pelo menos um erro de 36#900 réis. 

JOAQUIM— O sr. está mangando comigo/ Ora exa- 
mine as parcellas. 

JÚLIO— (lendo) Hluminação, 2#400; louça e vidros, 
4#500; jantar no salão, 30#O0O; almoço, 240 réis.— 
Não fui eu que mandei accender os balões, risque ; 
não quebrei nada, nem fui ao seu salão, risque tudo; 
agora emquanto ao almoço. 

JOAQUIM— Também risco? 

JÚLIO— Não, pago, aqui tem cinçaJftstões, pague- 
se. f~ r * 

JOAQUIM— Nada de chalaças, venha o resto. 

JÚLIO — O' homem, deixe-me, você é imprudente; 
devia respeitar os estrangeiros. Vá para o diabo que 
o carregue. 

JOAQUIM— Vocc é um ladrão e vae já ser preso. 



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_ 16 — 

JÚLIO— Ladrão é vocêl Veja como falia! 

SCENA IX 
Os mesmos, Eixzet>io e Maria 

EUZEBIO — (entrando a correr) Sr. Joaquim, sr. Joa- 
quim ! 

MARIA— E's tu; querido Euzebio? 

EUZEBIO — Boas noticias. Primeiro que tudo saib* 
que meu tio está aqui, e os noivos e os convidados 
vêem ahi. (vendo Mio, corrfipara elle e abraça-o) Meu 
querido tio! 

JOAQUIM— (a Júlio) Queira perdoar o meu erro e 
as minhas palavras, não o conhecia 1 

JÚLIO — Bem, está perdoado, (a Euzebio) Então que 
balão te trouxe para aqui? 

EUZEBIO— Vim no char-á-hanc do Silvestre, que 
faz carreiras para a Perna de Pau. "' 

JÚLIO— Que dizes tn!- Parra a Perna de Pau?! 

EUZEBIO— Sim, meu tio. Nós estamos na Perna de 
Pau, e o meu querido tio foi victima d'um especula 
dor, qne á custa da sua credulidade, conseguiu ter 
uma enchente real no Campo de SanfAnna. 

JÚLIO— Isso não é possível, tu não feabes o que di- 
zes ! 

EUZEBIO — Quer-se convencer? Leia o que diz o 
Jornal da Noite n seu respeito. (dá4he um jornal) 

JÚLIO— (lendo) «Viagem do sr. Júlio Pimenta á lua!» 
(interrompendo) Ouçam com attençaa. «Júlio Pimenta, 
depois de ter feito as mais patheticas ^despedidas ao 



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— 17 — 

povo de Lisboa, offerecendo-lhes os seus serviços na 
lua, partiu no balão de mr. Gastenet e na sua com- 
panhia, ás 4 horas da tarde, da praça do Campo de 
SanfAnna, e um quarto de hora depois caiu no quin- 
tal da bem conhecida casa de pasto na Perna de Pau, 
aonde assustou e poz em fuga um casamento que se 
estava festejando. Elle, pohre maníaco, julga-se na lua 
e está no Hotel da Perna de Pau!»— Oh! que grande 
pouca vergonha! 

TOAQUIM — Console-se, sr. Júlio; enganaram-n'o, 
isso pôde acontecer a muita gente boa. 

JÚLIO— Patife! 

JOAQUIM— Olhe, meu c?ro sr. Júlio, seu sobrinho 
ama minha filha» e eu pedia-lhe o seu consentimento 
para este casamento, que fará a felicidade de ambos. 

JÚLIO — Pois sim, casem-se e deixem-me. Que ve- 
xame ! escarnecido! ludibriado! E ainda por cima os 
jornaes mangando comigo! Estou furioso! (canta) 

(COUPLET FINAL) 

Se cahi n'esta arriosca, 
E puz tudo em confusão; 
Dai me ao menos duas palmas 
P'ra alegrar meu coração. 

Cae o panno 



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JP©4lro Catoral 

As cerejas, comedia era 3 actos, 3 h: 3 m 30O 

Marinheiros tM terra, comedi» era 1 acto, 3 h. 2 m.. 120 

U**a extravagância, comedia em I acto, 2 h. 3 m. 120 

JTttlio !Rôeha 
tribulações d'uíha solteirona, comedia em 1 acto, 21 h. 

3 m... : •; ..../ ;... '.......'. i«l 

Uma victima da tragédia, comedia em | acto, A h. i íll. 120 

Sem amor e sem cochicho, comedia em 1 acto, 3 hl 1 m. 120 

*Jom4* Romano 

A. Jraviata, parodia em 4 actos, h. 3 m 400 

«: .A* H.. . P«%UbMiej6í • . . 

Por ser EcoNOMiCA^cotnedia em 4 acto, 3 t». 2 rn.. «. -. 12o 

ALpGAM-sÉ quartos, comedia era 1 acfo, J ti. i m. J.» 
édiçâo. f :..;.. . ; . . r .,.'. , ;. . : w : .; ; . ,..,.. v . . , , 16*» 

r«Jo?ra*e . &alffi*eix*o 

Ctjrmo e merc&rrv comedia 0oi I acto, 4 h. 3 m 120 

' ' át. ' IR* Olm^feã ' 

A' duqueza pp% um... sabió* scena cómica, 1 .fi r , 60 

parlo® <je. 9 Al^ei<çIa/ 3 , 

vwicfK ^isu^j5aíiçpnetaíÇom^4 ,h.* . < •,— * » ; - • • t>0 

Fantoches, (sem tordêJ), cançoneta, 1 h; .«.-: .' tiO 

Os heroes, piKísia^í, Ji,.„»*.. ...*„. ,**,->*, i i t \ 40 

, .« J£. IíqoImí .... 

0. prego, cançoneta cómica, I h. SL* edição-. :'. ........ CO 

CONf ÓS . SEM PÔÉSÍ A 
DIOGO 0rOÍ$# S£.&atôtftHO 

Un Tolttne Biliéarténto tmprést» èotflMJt to finfes wigíiatt 
I VallcT áds Y dèsgràçIdosT ' V '' W X' iíâvalha." 



II As reuniões do sr. í*ro* 

copio. 
III Uma tragedia *era fatiíí- 
Ha." 



"V As fiflras fà ir* Ignes 
vi Fiem-sè em inulheres. 

VII Márlyrios sôeiaes. 

VIII Pena de TâlSo. 



PORTUGAL 500 RÉIS=BRAZIL i»Ò0O RÉIS 



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UM RAPAZ TÍMIDO 

COHDIA IH 1 A5T0 

POR 
I 

DIOGO JOSÉ SEUOHÈNHO 

Condecorado com a medalha ao mérito, 
Swio honorário do Grémio litterario pdrtuguei no Pará, ela 




DIOGO 8BROMÊNHO 
JGXfrXTCOJR. 

LISBOA— 1879 



yGõogk 



A- 



Para te provar que nunca de ti me esqueço, de- 
dico-te esta simples comedia, escripta nos poucos 
ócios do meu lidar constante. Acceita-a e desculpa 
a mesquinhez da offerta. 

Ao teu 



Povoa de Santo Adrtão. 
Setembro de 1877. ^ 



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UM RAPAZ TÍMIDO 

COMEDIA EM UM ACTO 



PERSONAGENS 

AMÉLIA. I CARLOTA. I JOAQUIM. 

AUGUSTA.. I JOSÉ, | GERMANO. 

Actualidade 



ACTO TJ3SITOO 

Sala decentemente mobilada, portas ao fundo e lateraes, cart< ira 
com livros, tinteiro, uma caixa com charutos. Campainha com 
o competente cordão, etc, etc. 

SGENAI 
jOAQUira, e depois amelia 

joaqui». Nada, Dão está aqui, não a vejo!... Aonde 
diabo metteria eu a minba ditosa cartei raj.. Querem ver 
que a perdi!... Mas ainda esta manhã a metti na algibeira 
(Teste casaco com a carta de Antónia, pedindo-me uma en- 
trevista... talvez a perdesse na casa de jantar. Se cáeera 
poder de minha mulher estou arranjado!... Vou pergun- 
tar â criada... não seja o diabo negro! (Pucha a campai- 
nha com força, não apparece ninguém, e continua a to- 
car até que parte o cordão da campainha J Esta não é* 
má, estará surda!... 

asiblia (entrando). Porque fazes tanta bulha? 

joaqvim. Pois nem assim mesmo, Carlota apparece. 
Naturalmente está á janella fallando com o der rico! não 
ouve! parece incrivel, tem os ouvidos tapados... 

amklia. Para que a queres? 

JOAQUIM. Para lhe perguntar se encontrou a minba 
c arteira na casa de jantar. 



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_4 — 

amei/ia. E para un\a coisa tão insignificante fazes- 
tanta bulha! Por uma simples carteira! 

joaquim. Não é pelo que a carteira vale, mas sim 
pplo que tem dentro. Mas isto é de mais. (Continua a 
chamar.) 

ameua. Muito mais rasoave! era ires procura I-a em 
logar de fazeres tamanho berreiro! 

joaqvim. E para que lhe pago eu dois mil réis por 
mez? É para servir-me, ou é para estar todo o dia à ja- 
nella fallando com o estúpido ali de defronte. [Parte o 
cordão da campainha). Bem, agora parti o cordão da cam- 
painha!... Artes ella partisse uma perna. 

Amélia. É verdade com esse maldito génio que tens 
eras capaz... 

*OAQUinu Nunca me queixo com rasao? Sim, Carlota 
faz muito bem em nào vir quando a chamo? 

amelia. Não digo isso... porém tu queres que n'um 
momento em quedas uma ordem sejas iogo servido com 
a velocidade docaminho de ferro. 
■ joaqvim. Pois olha parece-me que a Carlota, corre 
ao meu chamamento n'um char à-banc. 

amelia. Abi a tens. 

SCENA II 
o« me*mos e ca ii lota, entrando 

cahlota» Os senhores chamaram? 

joaqijim. Nào, não chamámos, toquei a campainha 
até partir o cordão!... Aonde estavas mettida? 

Carlota. Na cosinha. 

joaqvim. E porque não viestes assim que te chamei? 

carlota. Então eu não vim correndo?... 

joaquim. Sim? Pois previno-te que se continuas a 
correr assim ponho te na rua. 

carlota. Pois eu dou causa a isso?! 

joaquim. Estás todo o dia na janella fallando com o 
carvoeiro ali de defronte, e não cumpres com a tua obri- 
gação, ainda acbas pouco? 



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I 

Carlota. Isso não é assim, eu faço tudo que posso* 
visinbo carvoeiro é meu patrício, c está-rae sempre a 
perguntar noticias dajerra, hei de rèsponder-Ihe, bem vê... 

joaquim. Menos conversa e mais obediência. Dize-me, 
vistes uma carteira que me ficou ainda agora na casa de 
jantar? 

Carlota. Uma carteira? Aonde o senhor guarda os 
cigarros? 

joAfuin. Isso ô uma cigarreira. 

CARLOTA. NãO VÍ. 

joaquim. Mas aonde poria eu a tal carteira? 

AMÉLIA. Talvez a pe; desses na rua. 

#oaqvim. Não pôde ser, porque ainda não saf . Vis- 
tes bem debaixo da mesa? 

carlota. Espere um bocadinho. 

joAQuim, que; sabes aonde eila está? 

carlota. A carteira? 
^ joaquim. Sim. 

* carlota. Não senhor. Porém esta manhã, quando 
varria, encontrei este papel no chão, próximo da sua ca- 
deira. (Dando-lhe uma carta.) * 

joaquim (aparte). Serã a carta de Antónia. 

amelia. Que papel é esse? 

joaquim. É a conta do alfaiate. Retira-te e procura a 
carteira por toda a parte. E quando a encontrares traze-ra'a 
logo. 

carlota. E se não a encontrar, que farei? 

joaquim. Continuar a procurai a. 

carlota. Vou já. (Aparte.) Vçu, mas é fallar com o 
meu noivo, que a carteira apparecerá quando quizer, que 
eu com isso me não importa. (Sáe.) 

SGENA III 

AMÉLIA e JOAQUIM 

amelva. Deixa-me ver essa conta. 
joaquim (aparte). Valba-me Deus. (Alto.) Que capri- 
cho! E para que a queres ver? 



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— 6 — 

amelia. Tu achas que é capricho, pois seja, dá-a cá. 

joAQuira. Está muito mal escripta... não a entendes. 

amelia. Não importa. 

JOAQUIM. Pois sim, já fadou.., porém filha, quem te 
fez esse vestido? Está muito mal feito. 

ANBLiA. Quem havia de ser? a modista. 

joaquim. Pois é preciso tomar outra immediatamen te, 
que máo gosto no talhe e nos enfeites, decididamente de- 
ves mudar para outra. Porque não mandas chamar a de 
tua prima, que dizem ter mãos de fada... 

amelia. Sim, e a conta? 

joaquim. A da modista? - 

amelia. Não, atfio alfaiate... 

joaquim. Do alfaiate... ah! já me esquecia... Mas... 

aonde a N puz... f Procurando nas algibeiras.) Aoui não 

' está... nem aqui... querem ver que a perdi..* Isto faz zan» 

gar um santo!... Tenho a memoria perdida!... Nunca sei 

aonde ponho as coisas. 

AMKLiA. Vê na algibeira do peitor 

joaquim. Não me lembrava de similhante algibeira. 

amelia. Que casualidade! 

joaquim. Parece-me que perdi a memoria... N'outro 
dia aconteceu -me uma coisa muito ratona... Imagina tu 
que eu estava... 

amelia. Bem, bem, logo me contarás... agora dà-me 
a conta... 

joaquim. À historia é pequena... Imagina que eu es- 
tava no café Martinho... 

amelia. Joaquim! a tua insistência em não me dares 
esse papel, Jaz-me suspeitar que me enganas. Dá-me já 
essa conta... 

joaquim (aparte). Vae rebentar a bomba. (Âlto.)En- 
ganar-te eu!... toma a conta... (Dá lhe a carta.) 

amelia. Uma carta!... mas não dizias que era uma 
conta? Desgraçado de ti, se as minhas suspeitas se trans- 
formam em realidades. 

joaquim (aparte). 12 a carta ie Antónia, estou arran- 
jado!' 



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— 7 — 

AmvLWAflendoJ. «Querido amigo.» Com.quefranquesa 
te trata o teu alfaiate! «Quando receberes esta já haverá 
chegado meu Olho a Madrid. » 

joaquih. Ai! que não é... 

a» eli a. que?... 

joAocra. A conta! Essa carta é do meu amigo Ro- 
berto, que recebi esta manhã. 

ambma. Ao mesmo tempo que a conta? 

joaquim. Exactamente, por isso confundi. ( Aparte J 
Respiro, d'esta escapei eu... 

ahília. Talvez tenhas a conta no fundo da algibeira, 
deixa ver?... 

joaqum. Procura o que quizeres... # Julras-me capaz 
de te enganar?... (Amélia procura nas algibeiras do ca- 
saco.) Vamos, estás convencida? 

ahelia. Por emquanto estou, toma a tua carta, po- 
rém não deixo de desconfiar de ti, o teu proceder faz-me 
suppor que me enganas. Por agora adeus. 

joaquim. Vaes sair? 

amelia. Vou fazer umas compras, mas não me de 
moro. 

joaquim. Então, até logo. 

AMÉLIA. Até lOgO. 

Joaquim (aparte), ft preciso cautella, não descubra 
ella alguma coisa. 

AMBLiA (dando-lhe uma pancada no kombro). Previ- 
nó-te que sigo os teus passos:.. Cuidado comigo!... (Sae.) 

SCENAIV 

JOAQUIM SÓ 

Minha mulher sabe alguma coisa! Ouentão desconfia" 
mas de que? Dava o que quizessem para o saber. É con- 
veniente estar prevenido c ião apparecer por estes dias 
em casa de Antónia. Ago. a o que mais me interessa é en- 
contrar a minha carteira, e cumprir o encargo que me fez 
meu sobrinho antes de morrer. Devolver o maço de car- 
tas a Augusta, sem que o marido o saiba. A commissão é 



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• 



— 8-^ 
delicada, e se não fosse meu sobrinha, não me encarre- 
gava d'ella... E agora me lembro, tenho que ir saber se 
já chegou o 6iho do meu amigo, e pôr-me á sua disposi- 
ção. Devo acompanhai o aos divertimentos, émostrar-lbe 
tudo quanto ha de notável na capital, pois o tal menino 
nunca veio a Lisboa, tenho de ser o seu mentor. Segundo 
me diz ó pae. é muito innocente, e muito ignorante. Hei- 
de-me divertir com elle, mas agora vou ao meu escripto- 
rio ver se encontro a carteira! Ainda que tenho a certesa 
i que a deixei na casa de janiar. (SaeJ 

SCENA V 

♦ CARLOTA 6 JOSé 

carlota (entra' atraz de José que se senta J. Posso 
saber por quem pergunta? 

«o»». Estou muito cangado, não se pôde andar em ca- 
minho de ferro. 

carlota (aparte). Gosto da franquesfi!... 

«ò*B» Agradeço a tua amabilidade, minha pequerru- 
cha. 

carlota* Não sou pequerrucha, sou Carlota. 

joȎ Carlota, bonito nome. 
• carlota» V. 8.* quer-rae dixer quem procura? 

josé. Pois ainda te não disse?... 

carlota. Não, senhor. 

«osK. Não faças caso, este meu génio tímido... (Collo- 
cando as pernas em cima diurna cadeira J é necessário 
um gancho para me pescar as palavras... E se não fosse 
a9sim ha muito tempo que estava deputado, ministro, que 
sei eu!!.. Porém esta maldita timidez faz com que nunca 
possa sair da esphera em que estou col locado, e por mais 
esforços que a minha famiiia, e os meus amigos façam!... 
nada consigo, falta-me ó principal, a ousadia, o descara- 
mento, e sem estes predicados nada se consegue n'este 
mundo. (Tirando um charuto da caixa e accenden- 
doo.j 

carlota. Então o que faz? 



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— 9 — 

josé. Não vés, fumo. 

carlota. Mas, esses charutos são do patrão. 

josb. Bem sei, então acreditas que se fossem d'outro 
dono, eu me atreveria... bonito^genio tenho para isso... 
sou capaz de morrer de fome, só para não p «dir... E são 
bem bons charutos, vcu tirar outro para logo. (Tira ou- 
tro charuto que guarda na algibeira./ 

ca b lota. Olhe que eu chamo o senhor! 

joiíé. Não te zangues, minha bella, tu não sabes quem 

eu sou, se soubesses, não te zangavas. Eu tenho direito a 

'tudo quanto esta casa tem. séiu que seu dono com' isso se 

importe. Ora, anda cá efàllemos como bons amigos. Tens 

namorado? 

Carlota. Isso nunca se pergunta. 

josé. !£ que tal, é bonito? 

caulota. É o carvoeiro ali de defronte. 

josé. Que provir tão negro te esperai Pois para veres 
como sou franco, toma, dá -lhe estes dois charutos da mi- 
liba parte. [Tira-os da caixa e dá Ih' os.) 

Carlota. Só dois! quatro tiro eu todos ps dias paira 
ellé sem que o patrão dô por isso. 

josé. Boa idéa. (Aparte.) Estes génios atrevidos é que 
eu invejo. (Alto.) Mas não estejas de pé assenta-te a meu 
lado. (Baixo.) Tem bonitos olhos... (Offerece-lhe a cadeira 
em que tinha os pèsj 

carlota. É que tenho lá dentro que fazer. (Assen- 
ta se. j 

josé. Não tenhas pressa, que todo o tempo que ao pé 
de^mim estiveres não o perdes. E em paga toma lá, não 
quatro charutos como costumas tirar a teu amo, mas seis. 
(Tira-os da caixa e dáWos.) 

■ carlota. Muito obrigado; mas se meu amo dá por 
isso... 

josé. Já te disse que eu pos"so fazer o que quizer. Sa- 
bes que tenbo muita pena que as tuas mãos se estraguem 
na cosinba! São muito bonitas!... (kpertando-lh* as J Como 
foi que teu namorado se declarou? 

carlota Um dia que fui comprar carvão, pegou-me 



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na mão, e disse-me: Carlota, gosto muito de ti, quero-te 
muito... 

jo8^. ( Uma coisa que eu não fazia, dizer a uma mu- 
lher que gostava d'ella. (Passa a mão-pordetrazde Car- 
lota, e abraçaa.) 

carlota (deixando-se abraçar). Que faz, senhor? 

joié. Mo faças caso, continua... 

carlota. senhor é muito mão!... 

SCENA VI 

O» MBOMO* ô JOAQUIM 

joaquim (entrando). Muito bem. 

carlota (levantandose). Heu amof... 

joaquim. Que escândalo é este... Posso sfber senhor, 
com que direito... 

jomé. Tenha a honra de estar fallando com* o sr. Joa- 
quim Vicente? 

JOAQUIM, Um seu criado.*., mas antes queria saber... 

jooá. De cá um abraço. 

Joaquim. que? 

jomé. Pois não me conhece? 

joaqcim. Eu não. 

josé. Pois não conhece o 61ho do seu amigo Roberto? 

joaquim. Ab! então o senhor é o José, não o via desde 
pequeno... Então como está o meu amigo Roberto? 

joaÉ, Perfeitamente, encarregou me repetidas vezes de 
lhe dar um abraço da sua parte. Isso mesmo estava eu 
contando á sua cria4a quando o senhor entrou, e para que 
o comprehendesse bem... 

joaquim. Àbraçava-a... 

josé. Exactamente... Recebeu a carta de meu papá? 

joaquim. Recebi, e agora mesmo ia ao. caminho de 
ferro offerecer-lhe os meus serviços. 

josé. Muito obrigado. 

joaquim. E tu Carlota, sem me avisares... 

joaÉ. À culpa não foi d'ella, mas sim minha', que com 
este génio tão tímido que tenho... receei importunal-o. 



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— H — 

joAQtura. De moclo nenhum. Que fazes abi Carlota, 
Safa-te, e vê se me procuras a carteira. v 

carlota (aparte). Se não aparecer senão quando eu 
a procurar. (Sae pela esquerda.) 

SCENAVII - 

JOAQUIM e JOSÉ 

joaquim. Assente-se, meu querido José! 

loró. Com licença. (Assentasse.) 

joAQDiM. Então que tal foi a viagem? 

joué. Muito encommoda porque não pude fechar os 
olhos em toda a noite. Imagine o meu amigo que tinha à 
minha esquerda um republicano, e á minha direita um 
monarchico . 

joaqvim. Discussão segura. E então gosta de Lisboaf 

josé. Gosto muito, apesar de que ainda pouco vi. 

joaquiml Pois ém cá estando algum tempo ha de gos- 
tar. Aqui ha muito que admirar, a frontaria da acade- 
mia real das sciencias, o mercado da praça da figueira, as 
grades dtf passeio publico, o bairro da Alfama, etc, alugue 
um trem, e com uma lista que eu lhe der, và ver tudo. 
(Aparte.) Assim me livro de o acompanhar,. 

som*,. Eu tinha pensado outra coisa. 

joaquim* Diga. 

josé. Que o meu amigo me acompanharia, para me 
dar as explicações necessárias... , » 

joaquim. Com muito gosto. (Aparte.) Estou apanha- 
do... ,,. , 

josé E também me parefce, que em logar d irmos de 
trem, é melbor irmos a pé, para admirarmos tudo que 
se encontrar no caminho. • 

joaquim. D'accordo. (Aparte.) Que grandes estafas 
vou apaabar. N • 

josé. Fica combinado, todos^os dias depois de almoço 
passeio... voljamos a casa, jantamos, e depois* toca a pas- 
seiar... e á noite... 

Joaquim. Também passeiar? 



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— 12 — 

ib. A noite, aos theatros. Cada noite iremo3 a um, 
principiaremos por S. Carlos e acabaremos peias Varie- 
dades. 

joaquim. Boa idéa. 

jotró. Por esta forma em poucos dias vé-se em Lisboa 
tudo que ha de notável. Depois o meu amigo apresentar- 
me-ha a todos os seus conhecimentos, íevar-me-ba a todas 
as reuniões, e todas as semanas dará um baile, a ver se 
por esta forma consigo mudar de génio, perder estp minha 
timidez... 

joaquim (aparte). Deixa estar que eu te arranjarei, 
tu na tuâ casa e eu najninha, e depois não te ap pareço... 

SCENA V1H 

OM MKNMOB, CARLOTA C depOÍS UtU 7/tOÇO 

com alguns objectos 

CARLOTA. Patrão. 

JOAQUIM. que é, appareceu a carteira? 

carlota. Não senhor. 

Joaquim. Então o que queres, eu não te chamei. 

carlota. Está abi um moço que traz uma baga- 
gem. 

joaqubih. Bagagem ! E engano, dize-lhe que nào é 
para aqui. 

jomk. Ao contrario, dize-lhe que entre. 

joaquim. que!... 

jo«É. Essa bagagem é a minha... Percebi que o meu 
amigo me destinaria aposentos em sua casa, que não con- 
sentiria que eu fosse para uma hospedaria, e com preben- 
dando os seus (iesejos, mandei vir a bagagem. 

.joaquim. Sim... é verdade... (Aparte./ Que tal eslá 
a intallação!.'.. 

j jomé. A não ser assim, nunca iue tinha atrevido, bo- 
nito génio tenho eu para isso... Agora o meu amigo diga- 
nie qual é o quarto que me está destinado, para eu col lo- 
car a minha bagagem... 

joaquim. que? 



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— 13 — 

joaé. Nada de incommodo, em qualquer parte me ar- 
ranjo... e como sou um cavalheiro... 

joaoch» À raiçha casa é tão pequena... 

josk. Qualquer cantinho me serve, em tendo uma sala, 
ou um quarto com janellas me basta... 

joA$fin ( aparte J. Assim mesmo não é exigente... 

ctniiOTA. Que digo ao moço? 

joaqiii». Que ponha a bagagem n'aquefla casa. 

ciRiOfA. Vou já!... (Sae.J 

jomf, Então ,o meu amigo\ não me apresenta a sua se- 
nhora? Tenho muitos desejos de a conhecer. 

jOAQuiM. Saiu ba um quarto de hora, mas não se pôde 
demorar. (Entra Carlota, e o moço com a bagagem.) 

cablota.' Por aqui. (Indicando a porta da direita ao 
moço, por onde entra.) 

. : jM»*é Cuidado com essa caixa, que vae dentro uma 
cousa muito delicada. 

jOAQijira. É algum objecto d 'arte? , 

jH>«É. É um cornetim. 

joAonn (asftatado). senhor, toca cornetim? 

jíomé. Não senhor, ê um remédio para as grandes fria- 
gens que eu padeço. 

joaquiji* R receitaram-lbe um cornetim? 

jo*<R. medico disse-me que todas as vezes que sen- 
tisse frio, tocasse no cornetim cora todas as minhas for- 
ças, que topo ruivinha o calor. 

j(iA$rin. E costuma tep frio muito a miúdo? 

joné. Duas ou três vezes por dia. 

«ofrQuwmi (aparte/. Estou bem arranjado. (Entra Car- 
lota peia direita com o moço.) 

Carlota, Está tudo arrumado. 

jumk. meu amige faz favor, paga atri ao moço, que 
eu não lenho dinheiro trocado. * 

joAQinra (aparte). Ainda mais isto. (Alto.) Toma, e 
vae-te embora. (Dá dinheiro ao moço que sae, aparte.) Pa- 
rece-me que não está cã por muitos dias. (A Carlota, alto.) 
Não deixes de me procurar a carteira, e se a encontrares 
não a entregues* ã senhora. 



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— 14 — 

cablota. Fique descansado. (Sae.) " 

SCBNA IX 

JOSÉ 6 JOAQUIM 

josé. Parece-me que tem grande interesse em achar 
a carteira? 
joaquoi. Está cheia de papeis importantes. 
josé. Cartas amorosas, não é verdade? 
joaquim. Nada, recibos, procurações, escripturas. 
José. Que o meu amigo não quer que a sua esposa veja, 
vamos, seja, franco comigo. N'essa carteira também ba 
uma car'a escripta por uma mulher... 
JOAQUIM* que? 

josé. Meu pae disse-me que o senbor era muito apai- 
xonado pelo sexo gentil. Aposto que é alguma modista, é 
género muito travesso... 
Joaquim. Mas^.. 

josÉ. Nâo tenba medo de me confessar a verdade. Eu 
não digo uma palavra, faça de conta que tudo que me dis- 
ser caiu a um poço* E de mais o meu amigo bem vê o meu 
génio, que é preciso picar-me para eu fallar. 
joaquim. É verdade, bem vejo... 
josé. Então o meu amigo diz-me que é uma modista. 
joaquim. Eu não lbe disse nada... 
josé. Mas deu -o a entender, que é o mesmo. E ba muito 
tempo que o senbor tem relações com essa mulher? 
joaquim. Falle mais baixo. 
josé. Mas, diga ba muito tempo.;. 
joaquim (aparte). Este bomern é o diabo. (Alto. ) Pro- 
mette guardar segredo, olbe que d' isso depende a minha 
tranquillidade... 
joaÉ, Pôde ficar descançado. 
joaquim. Sendo assim, digo-lhe que baverá seis ân- 
uos dancei no baile de mascaras da Trindade uma valsa 
com ella. 
jo«é. Com a modista? 
joaquim. Outra vez! Não é modista. Resultou d'a- 



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— 15 — 

quella walsa o amor. . . e como era de esperar, d'ali a tempo 
era pae, um annd depois morreu a creança. Quiz acabar 
com aquellas relações, mas não tive animo para o fazer. E 
imagine que para evitar um escândalo, passo por solteiro 
para com essa mulher. Eu desejava romper com ella mas 
tenho medo que venha aqui e diga tudo a minha mulher. 

josk. Aonde mora? 

joaqijiih. Aqui perto, na rua do Outeiro 310, 3.° , 

josÉ. feu o livrarei d'essè compromisso. 

JOA9VM. De que forma. / 

josb. Ainda o não sei, porém hei de livral-o. 

*oaqiiih. Faz-nie o senhor um grande favor... porém 
peço-lbe o maior segredo... sobre ttído que minha mulher 
não o saiba... 

josé. Fique descançado. Segredo que a mim se con- 
fia... Olhe ainda hontem no caminho de ferro um viajante, 
a quem eu inspirei confiança, me contou uns amores que 
teve com uma mulher que boje está casada com um velho, 
e elle tem um maço de cartas e alguns retratos, e o tal 
chamase Germano das Neves... 

JOAQUIM. Conheço perfeitamente. 

jom. Pois confiou -me o segredo e eu prometti guar- 
dal-o. que me não lembro é o nome d'ella. 

joaqukm. E diz o senhor que chegou bontem a Lisboa? 

jomé, É verdade. 

joaqukm {aparte). Esta só pelo diabo. Já não posso 
ir a sua casa entregar o maço de cartas a sua mulher. 

SCENA X 

OS MB8MOB O OBBMAlfO 

«bbhano. Dá licença. 
joaquim* Pôde entrar, amigo Germano. 
jo«é. meu companheiro de viagem!... 
«EBHAiio. Por aqui, meu amigo!... 
joaquim. Estávamos precisamente fallando do meu 
amigo. 
«EBnâiio. De mim?... 



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— 16 — 

jo*é. Estava contando ao nosso amigo os seus amores, 
com certa dama que está hoje casada. 

«cbmako (aparte). Esta só pelo diabo. (Alto.) Então 
o amigo disse... 

jobé. Tudo menos o nome d'ella, que n'este instante 
me não lembra. 

clkriwaivo (aparte). Respiro! Sè o soubesse dizia ao 
maridof... 

josé. Tem o meu amigo a bondado de dizer o nome? 

cleruiÁko. Eu!... (Aparte.) Este homem compromet- 
te-mp. (Alto.) Desculpe-me, mas é uma cotèa seria, e eu 
não posso... 

josé. Não tenha receio. Exactamente aqui ao nosso 
amigo lho acontece uma coisa egual. 

CKitMAfto. Deveras?... 

*oaqiji*i (baixo a José/. Calle-se!... (Alto ) Não faça 
caso. 

jom£. Tem relações com uma mulher ba muito tempo, 
e trata de devolver-lhe as cartas. 

jOAQuira (a José baixo). Calle-se homem (Alto.) Posso 
saber a que devo a honra Ha sua vinita amigo Germano. 

joi«#:. Porém d 'estes amores existffnm filho. # 

joaquim. É brincadeira do nosso amigo. 1Ápai*te a 
José.) Cale -se com um milhão de diabos. 

jo*é. Não tenha cuidado que por mim não saberá n»da. 

joaqu m 'aparte). Já se vô. (Alto./ Então o que manda 
Germano? 

«num ano. Tinha que consultalo sobre uma.questão 
judicial que tenho ha cinco annos.- 

joAQum. Então vamos para o meu escripiorio. 

«KiiitiAivo. Como quizer. Até Io°o meu aniigo. (Baixo 
á José.) Não diga nada do que falíamos no caminho de 
ferro. 

joaquim. Até logo, fará de conta que está em sua 
casa. 

jaei;. Muito obrigado. 

joaquim (aparte). Maldita hora em que apparecestes 
cá. (Alto.) Vamos Germano. (Saem pela esquerda.) 



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— 17 — 

SCENA XI 

JOSÉ, depOtS CARLOTA 

jo«é. É bom homem este Joaquim... É porico corn- 
am unicativo... mas isso é uma virtude... Eu embirro com 
as pessoas que não podem guardar um segredo... Mas eu 
n'esse ponto eslou bem, por causa do meu geme acanha- 
do... f Entra Carlota com um chambre J Aonde vfitee en- 
cantadora Carlota? 

cai»i,4»ta« Levar ao patrão, o chambre, que lhe es- 
queceu na casa de jantar. 

joié. Agora tem elle muito que fazer, e se lá fosses 
podia ralhar comtigo, e eu não quero que soffras desgos- 
tos. Olha, dá cá o chambre, visto-o eu, que é o mesmo. (Tir 
ralhe o chambre e veste o.) 

CARLOTA. Mas senhor... 

josé. De mais a mais não trouxe o meu, e fazia-me 
falta. Repara como me fica bem?... 

cablota. E o que dirá o patrão? 

josé Nada, absolutamente nada. Estou cer toquem 'o 
ofereceria!... Olá! uma carteira!... Deve ser a que procura 
com tanto afan. 

cwrlota, Dé cá que eu lh'a dou. 

#osb. Espera. (Abre-a.) Notas do banco... e na verdade 
eram-me bem precisas... Se aqui estivesse offerecia-nVas 
logo. (Guarda-as.) Um roasso de cartas. k . São sem duvida 
da mãe do pequeno. Oh! que idéa! Eu prometti acabar* 
Ibe com essas relações, e este é o meio. Ouve cá lindi- 
nha, manda este masso de cartas á rua do Outeiro, 310, 3.° 
Porém immediatamente que é negocio urgeute. (Dá4he o 
maço das cartas. j 

CARLOTA. E por queifa perguntarei? 

«oeá. Perguntas pela senhora do menino. 

carlota. É alguma virgem, nossa senhora. 

josé. Não, esta, não é virgem. Dize lhe que o senhor 
Joaquim morreu de repente, e que lhe envia as suas car- 
tas, e as suas despedidas. 



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-18- 

carlota, que? morreu!... Quando? 

tose. Agora mesmo. Matei-o eu!... 

cablota. senhor! Assassino! Soccorrof... Soccor- 
ro!... 

josé. Callasrte maldita!... Teu amo não morreu; está 
vivo. ê 

carlota. Então porque disse... 

josé. Porque convém dizer a essa senhora quemorreu. 

cablota* Já entendo, digo-Ihe que meu amo morreu, 
mas que passa de perfeita saúde. 

josé. Não, que morreu e nada mais. Vae-te e não te 
demores. (Carlota sae.) 

* SCENÀ XII 

osé, e depois joaquim, pela esquerda 

, jo»é. É verdade, é uma idéa magnifica. Quanto me 
vae agradecer. 

joaquimi (entrando). Aonde poria o livro? 

José. Venha de lá um abraço. 

joaquvm* Logo, agora tenho muita pressa. 

josé. Tenho que lhe participar uma noticia que lhe 
ha de dar muito prazer. 

Joaquim. quel Seu pae escreveu-lhe, e manda-o 
regressar já? 

joaé. Nada disso, eu vim para ser o seu salvador. 

joaquim (aparte). Antes não viesses. (Alto.) Em fim 
que aconteceu? 

, josé. Que estão acabadas as suas relações com a se- 
nhora do menino. 
. joaquim. Falle baixo. que diz?... 

josé. Que está livre d'esse encargo. 

.joaquim. E como fez isso? 9 

josé. Admiravelmente. Em primeiro logar appareceu 
a sua carteira, 

joaqvim. Ainda bem, e aonde estava? 

josé. Na algibeira do seu chambre. 

joaquim (aparte). Então não vestiu o meu chambre!... 



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— 19 — 

josé. Aoui a tem. (DMhe a carteira.) Em segundo 
logar, mandei dizer a essa senhora que o meu amigo ti- 
nha morrido de repente... 

joaquim (aparte). Que tolice!... 

josÉ. E lhe mandava entregar as suas cartas. 

joaquim, Que cartas? 

José. As suas. Um masso que estava dentro da car- 
teira. 

joaqijm (aparte). Valha-me Deus. (Alto.) E man- 
dou-lb'as? r 

jos«. Á rua do Outeiro. 

joaqijiji. Comprometteu-me! (Aparte.) Às cartas de 
Augusta, que lhe direi quando m'as pedir? E que dirá a 
outra quando as receber, julga que mango com ella, e è 
capaz de vir aqui. (Alto.) Mas quem o mandou?*.. 

josé. Para o obsequiar... 

joaquim. Mas, se essas cartas... ( Tocam á campainha 
com muita força, da direita.) Talvez seja ella! Bonito es- 
cândalo!... (Continua a campainha.) 

jo§é, Mas o amigo não queria acabar com as rela- 
ções?... 

JOAQUIM. Sim. Eu safo-me. Gonvença-a a que se vá 
embora. 

josé* Fie-se em mim que eu arranjarei tudo. 

joaqcim* Diga-lhe que não estou em casa. 

josé. Fique descançado. (Sáe Joaquim pela esquerda J 

SCENAXM 

josé e depois amblia 

* josé. Tenho que andar com toda a diplomacia. A tran- 
quillidade do meu amigo, depende do meu bom êxito. É 
preciso salval-o, e eu o salvarei. 

amsiiIa (aparte). Fartei-me de tocar, e a porta aber- 
ta!... Olá! um estranho com o chambre de meu marido!... 
(Alto.) Senhor... 

josé (cumprimentando). Minha senhora... (Aparte.) 
E vem muito socegada!... Mas é muito feia. 



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a»bl*a« A qiiem teafaoa honra?..'. 

*o«é« Sou intimo amigo do Joaquim. V. ex.« natural- 
mente esperava encontrai o em casa? 

amelia. Porque? não está?... 

josé. Não, minha senhora, acaba de sair n'este mo- 
mento, com o seu amigo Germano*. 

ambua. Pois está cã o Germano? 

josá. Sim, minha senhora. 

ahelia (aparte). Naturalmente vem detotaep-me as 
cartas. 

*osé. Fallemos com claresa,. minha senhora. Eu es- 
tou encarregado de tudo. 

abielia. De tudo!... 

#osé» É necessário q ue ar ranjemos isto amigavelmente . 

ameua* Não o entendo. 

*obé. Pois é muito simples. Sei que o meu amigo Joa- 
quim caiu na tolice de lhe diaer que a amava. 

AHBxiA. Senhor!,.. (Aparte./ Será doido!... 

*o«é. Ouviu o que eu disse? - 

a» elka. Ouvi, mas não entendo... 
!>, #ose. Pois bem, as circumstancias tem varfado uaiito. 
| ambua. que? ■ 

José Sempre tem que. o saber, por conseguinteéiaa- 
til occultal-o por mais tempo. Saiba que o meu atnigo Jfoa- 
quim . . . (Aparte. J Rebenta a bomba. (Mo.) Não é solteiro. 

AMEiiiA (rmdo/. Serio... ah! ahl ah!*.. 

*©»é "(aparte). F ri-se! % 

amexia. E conta-me is % so a mim... 

*o»á. Então já o sabfa? 

amelia. Naturalmente! Mas drga-rae uma coisa, sabe 
com quem falia? 

*osé. Então não havia de saber! 

AmELiA, Pois admira-me!... 

#o**« Se l^e falta d'este modo, é porque estou aoclo- 
risado pelOiíoeu partícula* amigo para romper para sem- 
pre as suas relações com elle. 

abielia. que diz?... 

josé« Vamos, não se zangue, e alteada as rasõea que 



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-21 — 

a isso o obrigam. Elle 6 um homem casado t, pôde cke* 
gar um dia aos ouvidos da mulher... 

amei/ia. Mas de que mulher?... 

josé. Da esposa delle. 

amelia. Butão eu o que sou?' 

José. A senhora!... sua esposa... appareotemeflte^.* 

amema. Então tem outra mulher?... 

«osé. Então não hYo disse já? 

amblia. Infamei... Hei de tirar-Hie oa olhos! 

jm»sé (aparte). Rebentou a trovoada!... (Alto,/ k se* 
nhora o que deve fazer é esquecei o; eunir-se a atiro ko- 
mem. 

amelia. Que diz!... 

josé. EUe não a quer, confessou-m , o ha poucos mo- 
mentos!... 

amelia. Então ama outra?... 

josé. Naturalmente. Hatmntotempoquejátemdado 
este passo, se não fosse o pequenito. 

amelia. Que pequenito?... 

jmé. Ora adeus, o que ella teve ha seis anãos. 

amelia. Então ella tem um fittio d'esse homem? 

*oaé. Não, da senhora. 

amelia. De mim!... senhor está doido; 

SCENA XIV 

OS MESMOS e CARLOTA 

cablota (entrando/. Senhor, já 6z o qàe me man- 
dou, 6cou furiosa, c disse-me que vinha cá. » 

josb. E já veio, vô se a conheces. 

caklota. que? Esta é minha ama. 

José* que? a esposa do Joaquim? 

CARL0TI. A mesma. 

josé. Ah!desculpe-me, miotn senhora, toaei*a por 
outra... (Aparte./ Oh! ?^lbam-me todos ossastog, oeu 
que lhe fui dizer... (Toca fora a campainha.) 

carlota. Estão tocando, vou abrir. (Soe petoâirekm./ 
; (aparte). Deve ser a outra, Jesus se se encontram 



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— 22— • 

aqui as duas! (Alto,) Tenha a bondade de se recolher ao 
seu quarto. 

amblia. Mas preciso que antes me explique... 

josb. Tudo que quizer, mas retire-se primeiro. (Em- 
purrada para a porta da esquerda.) 

A«Bi,iA* De modo nenhum. Quero esperar por meu 
marido, para saber a verdade^. * 

jose (aparte). Isto vae ser bonitol (Mio.) Pois bem, 
seu marido está ali dentro. (Empurra-a para a primeira 
porta da esquerda.) 

ambi/ia; Vou tirar-lbe os olbos! (Sae.) 

^••á. É preciso entretel-a em quanto a outra se safa. 
(Sae.) 

SCENAXV 

AV«V«TA» CABLOTA« e depOlS JOAQVI» 

CAB&OTA (entrando). Vou já chamal-o, (Sae.) 
av«osia. Aqui o espero. É. necessário quemeentfe- 

Sue as cartas que podem transtornar a minha tranquilid- 
ade, e esquecer para sempre o desgraçado. Germano^ 
láo ciumento, que nunca me atrevi a dizer-lbe nada. (En- 
tram Carlota e Joaquim 1 , em seguida Carlota sae.) 

joaqíjkm* É a sr.* D. Augusta? procura7a-a. «» 

AiavtiA. Sou eu. Talvez seja uma indiscrição da 
minha parte, porém agora mesmo é necessário que me 
entregue as cartas que lhe deu seu sobrinho. 

joaquim. Coto muito gosto lh'as dava, porém... não 
estão em meu poder!... 

AuaimrrA, Não estão em seu poder?! 

JOAQUIM. Não, minha senhora. Um amigo meu, com- 
metteu a estupidez de as mandar para a rua do Outeiro. 

AueiJOTA. Estou perdida. Todos vem a saber o que 
conteem as cartas, e por fim chegará aos ouvidos de meu 
marido, que é um Olhelio. 

«EBJiAivo (fora). Joaquim? Oh! Joaquim? aonde te 
mettestes?... 

aucujsta. À voz de meu marido!.. . Se me eneontra 
aqui estou perdida* Esconda-me por Deus!... 



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— 23 — 

joaquim. Entre aqui n'este gabinete. (Auguftasae 
pela direita.) 

SCENA XVI 

JOAQUIM, AHILU, JOSÉ « (kpOÍS GBBMA1» 

ahblijl *Apanhei-te!... 7 

joA^vm (aparte). Oi! minha mulher... (Fugindo.) 

jo»é (aparte). Não a pode conter. 

AffliMA. Que mulher é essa que escondestes 11'aquelle 
quarto? Responde. 

joaqum. Eu... sim. 

aublu. Naturalmente é a mãe do tal filho? 

joaqiiisi. Que filho?... 

amblia. teu. Sei tudo, infame. Enganaste-me omito 
tempo, porém hoje, graças a este senhor, descobri a ver- 
dade. 

joaquii*, Este senhor nãorsabe o que disse. (Aparte.) 
Maldita a bora em que veio a minha casa. 

joȎ. Em quanto a isso, permitta-me que lhe diga que 
o amigo mesmo m'o disse. 

^ JOAQUIM. Eu!... (Aparte.) Este homem quer-me per- 
der. 

josé. E se esta senhora o sabe, a culpa é sua, fez com 
que eu a tomasse por sua amante. 

Joaquim (aparte). Cada vez enreda ajais o caso. 

amblia. Negue-o agora. 

joaquim. Já se vô que nego. 

«bbhaio. que é isto? Que ha de novo? 

JOAQUIM 'aparte). marido! isto acaba mal. 

amblia. É meu marido, que tem uma mulher escon- 
dida n'aquelle quarto. 

«kbbmauo. Que diz?... 

joaqubm. Não faças caso, Germano, são illusões de 
minha mulher. 

joné (aparte). É preciso salvar o Joaquim. 

amelia. Pois se são illusões deixa-me entrar. 

joaqubm. De modo nenhum. 

amelia. Bem vô que é verdade. 



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— ai— 

MtofsÉA (aparte). Acaba-se o mondo. 

#os« (a Germano baixo). Diga que é sua mulher, (Al- 
to,) P0Í3 bem, é certo, «'esse quarto está uma senbora... 

jqaqijim (aparte). Este homem quer que o mate. 

(BKBnAwo (a José, baixo). Porém, eu... 

*osé /'òatoo a Germano). É a nrâe do fifbo, em que lhe 
faltei ainda -agora, já vê que é preciso salvar o Joaquim. 
(Alto.) Essa senbora é .. • 

AMtiAvSua amante! " c 

joiié. Não, senbora. A mulher d'este cavalhero. 

joaquim. que? 

amelia* Nao é posgi vel. 

jo*é. É a pura verdade. E para corrvencel-a vou apre- 
*etfl*i-a a *cto esposo, e elie lbe dirá se minto. (Passa á 
iHreila.) 

*04Quim* Porém, goe vae fazer. 

#ft*fc/<t Joaquim). Calle-se que o estou salvando. (En- 
tra pela direita.) 

smitycvtm (aparte). Gosto da maneira de me salvar!... 

*osé» Tem a bondade de sair, minba senhora. Aqui a 
tem. (Baião a Augusta.) Tenha serenidade... % 

«CENA ULTIMA 

OS MESMOS, AWCLUSTA t depOÍS CARLOTA 

jOAQtrin (aparte). Vou resar o credo... 

«eemaho. Minba mulher! 

jonê. Então é verdade. (Baixo a Augusta.) Dissimule 
por Deu*... 

AvtumvA» Meu marido! ... 

oebmano. Raios e coriscos. Senhor, está certo que 
esta senhora é a mãe do menino? (Tomando4he a mão e 
fallandè-ike bavxo.) 

«osé. Gerlissimo. Porém continue fingindo. 

#OAQDiaf« Amigo Germano, é preciso* que eu lhe ex- 
plique. 

OEifeHASo (pucha uma pistola). Miserável! . . . vou ma- 
4ar-te... (aponta a Joaquim.) 



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— 25 — 
joaquim. Acudam! . . . Soccorro! ... 
AHBiiA. Sr. Germano!... 
auousta. Maridinho!... 

*o«á. Que lhe aconteceu?... Socegue! Perdeu o juí- 
zo?... 
omsiAMo, Ea^ão eras o amante de minha mulher? 

JOAQUIM. Eu?... 

AV6IHTA. que dizes!... 

joaá. É verdadeiramente seu marido?... 

Joaquim. Sim, homem, sim, o senhor perdeu-me: 
Germano, aqui ha um equivoco. 

fiEB»Ano« Tenho provas. Este senhor affirma-o... 

joséu Porque elle mesmo m'o disse... 

ahb&ia. Será possível... Já são dois!... 

augusta. Sr. Joaquim, semelhante calumnia... 

iOA$cm. Mas eu não disse tal coisa... 

josé (a Germano) Não disse? Intentará negai o? Exac- 
tamente eu contei-lhe depois os amores que elle teve com 
uma mulher que está hoje casada... 

AueiTSTA. que?... 

amklia f aparte). Grande Deus!... 

josé. Com... Amélia de Sousa... Até que emfim me 
lembrou o nome. 

joaquim. Com minha mulher! 

auousta. E apoquentava-me com ciúmes!... 

jotié. que? Esta senhora é?... 

joAQuini. Senhor, necessito uma explicação. 

6BIHA10, Pois bem, é verdade que esta senhora e eu 
nos amámos, porém foi antes de ser casada com o senhor. 
E para convencel-o, lhe entregarei umas cartas que estão 
em meu poder. Porém minha mulher... 

joaquim. Veio receber umas cartas que me tinha dado 
meu sobrinho antes de morrer... flaviam-se amado... 

cablota (entrando a Joaquim). Senhor. Trouxeram 
isto da parte da senhora do menino. (Dá-lhe um maço de 
cartas atado e uma em separado.) 

Joaquim. Venham as cartas. Aqui tem a innocencia 
de sua esposa. (Dá-lhe as cartas.) 



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— 26 — 

aucwbta. à minha única falta, foi n&o te eooiar a 
verdade. Mas temia os teus crimes... 

ctEBHAiio (aparte). Vou lel-as para me ©Osaveacer. 

amelia. De modo que tu... 

#©aqcim Ygu* íem estado a ter a carta,/. Fui culpado, 
porém \ip» sincero arrependimento tudo. remedeia. 

a»blia. Porém esse filbo... 

*oa$ virou Morreu, e sua, mãe me escreve dizoaáfr-me 
que parte para Eivas com um tenente de cavallar». 

*Mé. No fiot todos se entenderam. Mas bom trabalho 
tive para isso... (Ao pMico.) 

CANTA 

Se não fosse a timidez /~ 
E tão acanhado ser, 
N'esta balbúrdia havíeis 
D'admirar meu proceder. 
Mas assim estou vexado, 
E só vos posso dizer: 
Que nos animeis com palmas 
Para a timidez vencer. 



cae o PANO 



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*y 



UM» STCR* «RffitLO 

COMEDIA KM * ACTOS 



,. DIOGO JOSÉ SESOMÊPO, /. 

• •»■■■• -r^rv;:^!^ 

Còndccbraiio fom.f medalha ao Dierity,, &MM^ n WW?9i '> 
do Grémio Littenrio Portuguéi no Pará, etc. 



Representada m ajp&ilàos 'm tftâlri*fc"tò dos Condes, . 
• «Mrlwtíiielosoirwsoíittht^ftfrrtt ' 

.,i f ,| .„.,.",. ..; , ; ,.| ■ M •»,.■ K..». ■-•.«ri iis-.i ( '■' . Híj 
• ■!-. -n.l ."> ,1 .■>"»: • : - 1 'M,! • "*> i..Iimíii K «:■$■ í » *T ^ ,M " 

tia •-'!•.; /iôm^^^ v;j 

''" " .jnr.fliM ..!.,,.:• <.;,.-. 1»;* ..!•:■ .■•» rf !«m."i 




LISBOA =1881 









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Pf^OtftfG#J$ 



W. Amélia — D. Angnsui -*• *ulia 
to — Pr. Costa (advogado) — Dr. M. 
Aaevedo (medico) — lim ereado* 

LISBOA — ACTUALIDADE 

ACTO I 

A sceàa répresénta uma sala «j* cjAalqbè* Ikrtfcl de pri- 
meira ordem. Doas portas de cada lado, outra ao fundo da 
direita; á esquerda baixa uma janella aberta dVrade se vé 
o jardim. Éobifia elegante, sofás, divauz etç. 

SCENAI 

Eraestoe Augusta ; 

Ernesto, (wtftoado f>4a etfwrda.) Não consegui dor- 
mir nem um momento, e tenho mpdo de adoecer. Também 
a culpa é minha, quem me manda ser condescendente. Ora 
Deus queira que a minha complacência não traga funestas 
consequências. 

D. Augusta, (entrando.) Olá, estavas aquit Agradeço- 
te muito, o comprazeres com o meu pedido! Quando hon- 
tem á noite me dhsaés&s que não, tiveiuk^rande desgos- 
to. Mas emfim coittpreh^|de|tesj|ieèrÍ pouco delicado 
nao a hires espèfact Masaudavae-^ vestir, que se fax 
tarde. 

Ernesto. Estás enganada minha querida, não me le- 
vantei . maia cedo, para ir eomtigo; é que me fazia mal o 
calor da cama, e sínto-me doente com febre. 

D. Augusta. Queres que mande chamar o medico * Vê 
lá, n'esse cazo também eu não saio. 

Ernbsto. Nâ» Ifka^fettSlBWàdaúAAliiffitò chegartua 
mãe e não encootw i&ífctta* (te ufa natação a esperada. 
Anda váe, quando regressa^ já me acharás reatabde- 

D. Augusta. Se assim o queres, vou, até logo. {sae.) 



yGOQgl 



• Eiwfesrfo. Qw*tTélúHm\vt(\ ErtiXd^Gngir, vae-me 
eéMtt&r oa eate' qtte á ahotíteçoV iAtçuètà íièseja quê á esti- 
me como se realmente fòsfee minha mãe, tiras é imposSive!; 
fl§# só éeHera-útáanA^iyla; («*nta-$*jkm<fo a ca#*ffc emre 
a$ mãos) *''•" ^'' ' :Í|? 'V '- ' * 1 IJ i : : 

Chkado. (entrando Wm mMèl úhctoètkúàe cafí:ptwAtpé- 
t**«tftâ v.v.i!n. - • •■■• 1 

•**flUMtoJ (bwi tter * ^#o*by E"hofrfvfell 

lOttiAúo./ A(|ííi <*s«#d étttef ' 

Eánmo: ÇtiêMto 6 (^«trfo>Denea-a ém cima d*essa merai. 
(tf crtatto sáeytyibéftwr ê s*fa*-fde atnuw 4* ellas vaítém, 
assim retardarei o momento de a conhecer. Deixo iritett 
dÍÉtfe 4* httMs pífra a Augusta; dando-me ama desculpa 
qualquer, per exemplo que vou almoçar com qaalquW 
amigú; òu" qfce vou tratar de Um ne^io urgente, (vàeá 
Mzae mòWret •amais fm*c**de vtièe** penha na tháttèkáàó 
cafè\) Augusta conhece 'logty qaé^trm pretesto, e x\(3Sà 
UiÀfeettoi M*k -'lÊMtí+i tiptú O tftié quiíefrem, vou âjtoo- 
çar tranquilio a qualquef loj* áe béfeidas, ( 'ès&elífj x em 
graça! Tenho a cabeça tào fràhéldfitada, que é&tòu ajes- 
BÍ^ cómt^iffeah© méfattt^óldeftrf 1 " ' : " . ' 

"Dá. ^os^Aiflfenlr-o^N&aprètei^tjfeie me áimtiracifcs., 

Ernesto. Ahi vem o Dr. • ; '"* 

^- < ■•■» ,: • ;■■ •"•8o»À v nr •■" •,' • •" , '* H 

•*•'•»-'. •■ •• .:. jí, "«' "■-. ■; .wii, t-...j t '.x .*„ ..: » !:"'... ♦. ; 
.:» us*' » l§ »i- . 1 1 . ; . : »J# . !■•..> i. .« • » »' íl. * ti« mi- . 

-•. u l)S'"C*ÍA.. , ' i SÍttiía ll âái t, to<«aV«l(i;'è- a» A#mt90- 
M-titó de •<« Wàtortaí/Mil^íítáií 'àflrhíríillo «Wt* 
fiflfttdb'» «teltiWQhe ròí(%e í-fcrtir; • ' rr " '■'• ■ 
: ''*fflffcW»: !*& áKfifl fctó&W (Mtoh'. • -'" " ' u •■''•' ' 

«•'IkáWib^íltííHli .'■■"■"•'■' '"-•" -"• •* , " ks) ,,u 



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Dr. Costa. Homem estás com um modo esquisito. Em- 
panou- se o brilho á tua lpa^q^l. Tiveste seena domes» 
tiea? 

Ernbsto. êtitoPf9r^kÊ*9itètcMfVnilJllksta < f 

Jfe, ; P*f aditam»* mst^iJ^m^e^fmtm 

gostava* d e]Ia,.qiifí>syij^athk!*, *ifp*fy inMifpot*4*#r, 
gwi. <ie todos, jos ^speitp^d^omeiíageJW» tui,- •.-. .>,i> .» m 
. .tywftfffr. Poí» l(l rag^of^ r n^jío^p^jfi^-Gazeiwft 
ella, poVque sempre julguei que não tínba mãe. . V nr k\ 

Ernesto. Escuta, quando comecei o conhecer a A^gniUfi 
vivia ell ( a com qm *Í9,.e sep^^^f taro* fcrç^ã, dei^mdo 
por esse motivo caminhar a minha, paÂfâpj4f j|al. maaejra 
queqipni-o soube qjje sua iqãs &jft<U #*$** nio pôa4fr#r- 
r^no^r dp coação . a sqa i^gen^^ 
P%' ■ /r ..., /^ nA :. i «.i - ■•■ "ii i. i •?• •!>.,, ■ -.- r 
, , Di*. Costa. Tudo ,«sq :]á^/sfM|JfeLimbl TO S**líh 

, Ernesto. NaQ, comprejiwidf s? Jfais.v^s^pfieheBdGft 

,,,g* ,Çosta Tu nàa^é ^ú^xb^^vimXi^ 
W?q Quern? wint* «ográiK ; , i „,.., , t *•.,., , « ,1 -,« , 
Costa- A n?^e d'Aug#l^ 4 • /, • uU-T umiL 
esto. Já se vê quem haije s^ a,^i^ -^gw, ^Ã^ 
a mãe de minha moJberl )È e«tá a ^hegair p^o |^f da 

,la(la, . t C O I. • * • .Oi-.rlJ 

Dr. Costa E o que tem isso de notável? 

Ernesto. Não tem njajJa^ py çj>e-te couza de pouca un- 
jportancia a chegada d um inimigo semelhante; bem se vé 
meu amigo q#e 4£P &#*»&• íW^é^l' v * a muito feliz 
com minha mulher, a mãe ue* Augusta não pensava em eá 
vir. Minha *wfttw jjqfcft ftrfflW$#> > m mWftím * 
jrn^ v W tar t j^ 

-41a, aw ..pfyfia jvir^poxqu^^sfeíWi^adepinaifntj)? n|o fofa 
xavam.Era coacjjizâo, . contava,, com unja sogra §JW$)W 
léguas de distancia., ^Tinba feUjj^ njínlfô ca^a ura uaicaíio; 
porem como me Mtavkaserpá^ 

Dr. Costa. Nao sejas ridículo, q^j^nja^^s^, 



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— 5 — 

'jm qne te funda* para: jtrigares tão ' mal ilw 
og/a. 'n «■:*. •. « .1- i • ' , . ••< *:ÍVi) 

Erneot*. Bn que mefcaidot na i*gra geral,' lá'dií ali- 
ado sograneui de barro * poria. . ••«', r.ifui/ 

Dr. toa**. Ma* toa sogra, pód* $er ama erfcepçà*, * 

Ernesto. Não creio, são Ioda*» mesmo, atfcdta? multe 
aos provérbios, porque dão a sabedoria àãVTkdfcw^ 

Dk. ^o*a- Deisa-le de«asiieiras, estás Der*fro;t!*ieUtoe 
co«toe*es<i& éegfaf «»i ,•'-. v • .- :-,-»i.,..<j i .1 .« l •>• «upa 

Ermi^-i», w Fè|»|bieBt6 nào ;q coDbéço. -L .1. -'-rp / %■ 

Da, £*r*. Nàd safes. <p» tal sara, è a jutal-afor Afll l 
filha, não se pode formar (Telia má opinião. Não tensatf» 
gum retrato* 040 ttns .cartas/ per iasò podíamos feteroba 
ideia do seu caracter. ,% M 

E*m*?o Miniu iqulber- te«i *luitor<«rUis e a jtrt^ar 

Sor étlas tem mp eantfter beihissfwo e>um «génio oMi)eiifaM 
orei»*ào me fio, Amraha desgraça? éteerfá. I*aiu*f<!f*Éo 
de lodos o* meios para ver se «osseguraque àão^vleeto'; 
mas nada, teimou e eá a lenjos. FVzqs-ine nmfavort .w* 

Dr. Costa. Dize. í !■::!.;•« ^ 

Ernesto, ^ica para almoçares eomnpsw/asifcwgtfto- f i 
nos com o teu apoio não tèrel tanto medo i ' f : r T 1 

Dr. Costa. Pois si*»* fanas èbúi^áaoiedaheçoaiísài se- 
nhora, não me posso apfrsBtdaf} cttai esteláto, voa âiea- 
aa madal-o e vòtoi - 1 : ! r.I r.TT ' ..V < .'. ...v T 

Ernesto. Pois slniy v^ onsnâft té tteiportsa : ! 

Dt'. GftSfAlAtdHogVU (^.()í;:l .', j : . , . (] .... , \ 

Ernesto. Até lego. Agradeço-te muito. .*.')§* 

•«"ti :• . Ill* i » \í -j : b KIO» OIlO (^YtWU.; iioí '(>(! 

SCENA I¥ ' '.ró.--. r.i/M 

' ■ I' •>'!»-! .»hi»i-». >'..'.;. li!"- O 1 » -Oi, .'..,: ! . ,>t/íi,'i , 
■'.1 ■rru-f) ' I .• : 1, r>ih c \i'i »i'j^> | M . :jí , "í7 CU8 

Ernefllo, o creaM, e o ttr. Aàefyedo^ 

c :;• • ].' >! .»Vi.,tl" 

Creado (anntinctatiito) sr. dr*. llam#WA,afe»^4w 

Ernesto. Entre entre dr. ' ' lf : ' , *\ . ;; •? , ,a 

k Doro*. Eafão flogw eat* pmkXW «ja/esp$pa, % .1 

Ernesto. Muito beta psfnu desconfiada qn4 mjçhaigjty- 

ft»r>f «a*fott, ebMW^fttia flHmRtfp#0 se», j>ff9zao 



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-*- à 

Mrqu4 estou efe pérfeit* saúde**, foi deaamfiaS 
aelía porque não quiz sahir esta manhã. ■ 

. jDtorltau Nito ftahti^yit me tinkim raapdadb chamar,! 
vinha fazerl-he ama vizita dfam/igoe *ao lie nedtfso- f 
Erjusto. Ainda be», ^rqfia 5erá míiiâ,*>ittpridA. 

. ; Dourai. H*oho dias quem; «eu vizinho * 
EUNssvovJtnlito mudou»0e doutor* 1 , - • ...-4 » 

,. J)oí1wb< ítío «e nmdeu poromii una s«raanfr <pue vivo 

aqui ao lado, no palácio do Marquez de Selle jftio*******; 
queza desde que seoltòuos prbnei nw ámptumaa <fo dàr á 
w* q*i* ffl* asdivâaa» ao «q. ia4ín, e aqui «sita á oito 

. -BnKWto, JDe^e*- ter p»fsad# ura tnntpQ omuio dever* 
tido. . 

•.eJNfwa. Jrt^fitMi. ftfe()<qn«rein que e&sftia, qms agora 
dita* qtt») víaha pafa aqui e àa***nl» que. n» ueaham 
otanar,! aporta quo^nã^pttsulineta^orai Quer #0* cta- 
TéfaMdáMe ufncharnta, Emetto aagmle+odiitealudíji, qu* 
mãné*9t com mm finfara) O meu araígo está muito dis- 

n trahidof . , . 

i\ «Eaim*». Hm por isso. ■ * . i 

Doutor. Estiam temut lindo.. ,<.-';. 

- ■ Bhmswí (ídwírdb?^ B veiriadni. . 

- / Doutor, (4> quê ha do p^icaíj .>.-.„ n:i . -• . 

Ernesto, (distrahido) Nada. Ha sogro*! . a-^ (1 
DoutcrJ ftqudi fogfes *no enteado! '/!.... 
Ernesto.' Desculpe, não fc<a oaioifenbQAfeeabeflsem 

agua. .'♦•■! «>..,.l., tí j/, .. -i .« * 

Doutor, (aparte) Que terá elle! (afto) Fallemos deqaaí- 

quercouza. y. , / : <^ 

Ernesto. Fallemos do que quizer, agradou-me muito a 

sua vjzitaj, doís 4 nrecizo diftrahirrae. E gereizojnesmo 

a suí bpiníao. ° *' **" '*'* c "■* " ** 

Doutor. Sobre qye? 

EHÉWÉãriá fcélfrfe âs sogras: '\ '•/ * • ' '- 
Doutor. Isso é chalaçai ' ■'■ v? '"' • í '- 
Ebnés»&' 'Na^ê^hâtttó*; péçG-ft**>é><l*Í sumopíàião 

- «MrtíW MtettM^fl»^- ,/Ir? ' a ' - T i* ' . '"'"•"••^ •'■■ 



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as âioton *** f ■•• , . / , /. i 

vuçjNNlfc. E c#wo viveu com ellas? ,. • r . , 

& Joutob. PecfetiameB*ei . % ,i V , N . , 

Ernesto* É um valente (ppiviHvdo-iheamv*} it • t 
Doutob. Todas as nfeb*6 w wJheces já uwr*tram> pflfem ' 
ih sogras nven» todas, ' :.- . 4 ... i .- « <i 
Ernesto. As logras nunca. «tonem. 
Doutor. Eq fui muito fe)i*.FM) *s pÂitiba$», • » , ./ <i 
Ernbsvo. liso admir*! ,-,„ 4iJ ..•.».-.;. o 

Doutor. É coofonne*;* maaeira^ viver c#m 4tee mu- 
sa lhes wmtnr os deiaçs,, aada de Gapde^ct^aei*!* fro- 
clamar sempre e abeotpt»roo, 4,e*tado sou eq. E ftip*» 
as tomar a serio, se lhe mQ*lrára9*.flMl4? «AWW*.a*»- 
jados. (sente-se parar um trem} -^ -, ,■ .,, , , H . vt 
Ernrsi* Mmi Deqs! 4 ella? , ,„ , . 4 ,. »/,.(: 

Douto*. E4la quea? ",<. .- .«..;.:(* ' 

Brnbsto. Minha sogf*, qua flbe§a d« vjagem«*./gueifwi 
yerpela f>rw?ira w^iitim^ê umr n f úmQ:Mdàm) •«!• 

Doutor. Amigo não passeipor.gfteOTOt^ái^b^feÀ, 
porta. '' • » r • • ' .' ,,.;;.... 

Ernesto, levantando-se e sahin4Q)>Tm.M&ft*tVWtfW*- 
l>el*a. .• V í. : ,í.h -i .. .• . * • •• * .< 

Doutor. Estefhqrmm »5o tei^^niwaipw^iiiad*. , 

■ - ' SCftNA V •■ • 'm*. ■■'• 

»r. Ase vedo* Kmestp, jD* ,A«4f o#ta, 
»* Aurélia e D* *uMa , . {/ f j 

D. Augusta, {entrando), Que *rtjimw« as fe^age/fs^ri- 
uzrando no doiitor) Como está dontçr,, cejriò, achou, ineu 
narido? . ,. >,,...»., .., ,".",-,/ ' ,.-,. /' '] 
Doutor. Perfeit^õpeitfe, . i , ,. . .,'■ , ».,> 

D. Augusta. Doutor /jpjÇesépto-lbe ròirçl^ mae. ,',.''. 
DquTíjR^^nbâ.ifiuitp prft&cx em çonfieçer v^ ^ex f *.V. . , 
D. r Au$suA., Ee/i tam$em ; dôitfor.;/' ^ r , , H '^ :j 
D- .AuqíÍjsía m ,l^e$^Íq^p\Mi^ i T&^J^ t st .J f qitó ó 
comq dissésáe a.mi^ sc^on^.^^e^pqi^^^-n^p,^ ^Hff~ 
ma-med^sde que fiasco (cbwipr^nía^-^j* ^ ,,. ^ 



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-8- 

» ^ *SfaeM»i#o^ifMrto <My lAMff^)* Wío sefttirejfiãonfedeixesô 

D. Augusta. Vou tirar-lhes os chapw» (*ffttot* todas t 
chapeos, D. Aurelicftxm os <X)Uwàlo$ ( enfio slados aos jo? 
lhos analisa com impertinência lados os ôbjêófbs). 

EfiNEsW(fofa> «o»y»i»ío^i>Qatt'lal Hie parece? 
•""Dow*» OéwsiBr dé Hàri» arrebitado. T 

D. Júlia. Parece-nie muito bonitate&#iGQftft, fftâct ten 
mos saudades da quê* tftdhfòmo<. 

D. Aurélia; ílttli *d'éfeiÍL' 

D. Augusta. . Devem trazer vofctadfe de almoçar, evoi 
-*Bfl<fr*lein< 'para- adianta» fr 1*** 4a' ndfcsk refeição. 
-»'M| wflrtW^* i4u^u^a). Ottfeir ateimo dr. Oos** vem aij 
toéÇtfr fcotonosco^èH^^podié demorar. 
~B<ft4AmfttiA< QoBOi-^Mtflhrator,' 

Ernesto. Um amigo meu. r . v ^„ j 

D. Augusta. E o doutor nãb atnioçatèomnose* ?-■ 

Doutor. Almoçarei, se antes não me vierèth chamar, 
i wv[>.! AuftwfeTA. (*(^ >* Mm^tnÀa,. ao criado que entra 
Que árràhjem o aliri^fjuanto-ait^s^ que ponham mai; 
44fe táKiei*e*. <o írfcwfcKsâte,) 

Ernesto (olhando de lado para D. Aurélia). Está ben 
i*méer*ad» pafa aldadei ^ n 

D. Aurélia. Já notei (ilha, aue teu marido falia pouco, 
ainda *ao dist*! mate' q*<» «101a dtònVíhV palavras! Esti 
com cara apoquentada, jdeago^fO-hia a minha vinda para 
sua casa? 



Ern&to. ÍHíTdigk is$ò; aôé Ideia f" 
D. Aurélia.' Nèm àò íhehos ío 



Aos perguntou que tal foi i 
viagem! 

""Ernesto. E* verdade.,' que tal.fbi a viagem? J 
^ t). JuttA. Magnifica'/ •'' 

D. Aurélia. Vinham comnosco uns qoivos, e a mí\ 
d v ella/ que pelo .que vi é heminfélí^Ponito papel vei<| 
fazendo todo caminho (Eu nfc soffrèria tanta raeonvej 
nienciáf Oi noivos não qtrttah comprehèrtder o quantc 
lhes é precisa a aueloHdadb' de r uma mãe, íftite os guie 
'qite os aconselhe, apartajido-ds dor? áb^ánitfs aonde ú sui 
"hVdx^e^encia os po^á' cotidtíziri Ntto pensam como ectf 
Ernesto. Pensados!" (aparte) Estou arranjàdôl 



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♦« W Ataótt. '(vfiEhfiM) Ãtyfttò <ftò 'o Ú. Yorma da$ 'so- 
aras ama opiqião semelhante á que fero a maioria ,do$ cã- 

^ ' ■ \'^tf'é'W'&r1d%portavef; ' - •• • ■ 



«.'A^gf^é^rt^iièrldíàpportaVeT; dm espião do toa.- 
rido,» uma mulher que se nfcttè éta pido, que nadaftie 
*grfa 9 it&\ta#M'/M^to'}:. Vttí tytanno de saías p 
cuia, de cujo domínio é necessário fugir a todo o transe. 
Nlê fiWdigà è&tHtf*tíò. Poísl betà, lenho um propósito de 
o convencer do contrario, e ha desamar stia sdgra cbm } tb- 
do o amor i^éAfftiho. Efi fítè desvanecerei quatqmér pre- 
MxkJílo qâe uMiA^eontta tuim. E basti de discurso, Au- 
gusta, queridà'Slhà vem sentár'-íe ao pé de mftó (Àujfoita 
,senla-se.) Sabes que te enqontrç enais toagrat Tens algum 
deinosto^^bfiftá^rWftidb; fetnbr^teWie soutttâ mãe. 
D. Augusta. Nada tènhoj 1 "^ &)topfetàménte felrz. 
•*• Ò: Abbéul. DèKiár tmeirá qiie me nao enganes, (a Er- 
msto) Não se escandalize ds{ue eu disser. Não acredito 
no que Augusta diz. 
Bfltótb? Pôfy»? * "'>''* ""' •" -'• "'~ " ' ' 
D. Augusta. Mamam! y „ 

fl. Aurélia í Ás mulheres òceultam sempre ás'mães ps 
defeitos dos maridos, para que ignorando-os, os tendam 
èWk mais apreço do que merecem.' Tenho no Porto "uma 
amiga que não pode sér mais infeliz com e marido, e quan- 
do sua mãe com' interesse natural, lhe pergunta se é feliz, 
ella responde: Sou completamente feliz ! Meu marido. é o 
.hotne/n mais carinhoso do infando.. E alem d'este exemplo 
t Dps$q cita/ muitos. Pôr isso nao estranhe que duvide do 
que* minha filha disse. Todos os homens são maus, péssi- 
mos. T /. .' : . ',',;. 

Ernesto- MWo obrigado. 

Doutor. Mil vezes agradecido. r;\ 

B. Aurélia. Eu fallo em g^raí. \ . ,' 

ourem. Por Isso agradecemos os dois.* '' 

Ernesto (á pqrte.) A uma carra^ festas é que éumao 
"irosisto- • • * • •* . 

*Ò. Aurélia. Que tal se jiao n'esta casàf 
4íW fctírtsriò. Mréitamenfel v , ' . , .. 

D. Aurélia. E' ippo>^i»elj)assa^era aqui bem, devem- 
se mudar. 



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Ernesto. JBsja eaq* £ mujto 1^ ^a^rnià* ,4? qwso 
qçiedicõ/ . , '.,./, . . ,„ , 

p. Aubeua. Nà> advido da ppimã^,/|o ( iç«dico, mM ,4- 
los eng^nam-se muita* vc*e$. ^ . * . 

Doutor. E' verdade que pç* desgrjaça.^^ seinorJ^* 
ternos, ..'..>,■/•'. :'..•': -i. , 

D. Aurbua^J* vt^o ftua teufco «a <tagraç* de ftaQ#arm 
da minhji opinião. ,. « ,,..*. 

Érhe$to t (á par.fe) São boas as taes guiões. / . , 

J). AnREUA.puepas&jmo.gosto tivestes M/TioJ)|lia4*^a 
ca^a...í ^rivtjU quofn e*coibeu Qstes meteii? 
M ErjsestOv fui eu. . . . f . : . - . 

D. AiWMA- Lo^ o jini» adivinhado! 5ã^ b©rci yêu ! . 

D.Juua, A mu» paree^me lindo*.. * . < t 

Erhesto. Qoste .mais, pa sua opinião* e ^rad^-lka. 

. ■ ." :" . ; 'scjHfA V! -/■ "■ 

Os meamos* um creado* e 4r« Cost* 

Chiado. sr. doutor .que vá immedia)ampnte a cas^ do 
sf.inarquez. 

Doutor AzevéÍo.. (aespisaindo-se.de todos) J^ògo n <joe 
tíSo me dyixavam almoçar, ; adeus (íáíjj/ ( , ,. 

Br. Costa, (^i/ranáo) Sinto muito se os fiz çsperar, (coqi- 
primenta todos). 

Ernesto. Hia-mos agora para a mesa,, . 
\ D. Aurelía {reparando nodr. Cos/a),' Meu Deus! Ell^f 

Dr.' Gosta (reparando èm D. Aurélia). Weujfteusí ÍJHat 

Céiado. almoço está na mesa. 

D. Aurélia, (aparte) E' elle.l ^ão tem -devida ! . 

Dr. Costa, (qparte) NàQ Jen^ duvida! E*j$ a \!, , .* 

D. Augusta. Para a rn^sa. •.' .. n ,' ; » 

D. AuRELiA.-(a^rwwío) OtTerçça-me ofyrajço, seja deli- 
cado. , ' ' *' " ) . , 

íSkfiWb.Xom rfmítò gosto, (aparte) Qufe castigo, sej>o- 
desse mandava^ empalhar. (O dr. dá o f>raçq,a D. t Augpsta 
e D. Júlia, Ernesto dá o braço a O. Aurelía qpep levçkfltasi 
arrastado). . , ?'.'.'.' -,r . ' i\ 

•""■■ •' r eÁEWPANNO •' " .,.-,' . 



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— ti— 
«AfOflD n 

A mesma deáàajin á*-f>rimein> acto 

■■■■■. • «■££§■!. k. .«*'.-.,. .è .«I 



«tféO • „.!...■.'• |\. 

Ernesto. Devíamos tomar o cjièaejardif*. -m 

! B. Atrmi* BcMqtAÍIe*l.£kaft<u».tol krdortigsJtnAJ 

Ernesto («foMfr^AaraftjiiOO. psrtBrt» pa^sririrnos. 

Ba» Com. Pi^sovdrtar i(^èg^»t««^lj«!iwft , 

D. Augusta, (ao dr. Azevedo.) E yd f * y » « a f (f w ai 
Mi toje o *e* JúrdeiMb J . , / 

ihu AzMHML.Nbês paira* pira. Teafco passado owmi 
•eaq*a<4frefti4itt *. •• .•■ -t r •■ "'• » ••" - 

Criado (>nírando). Sr. doutor* o «r. maH|QeiitfaiidE#- 
ier se tem a bondade de ehegaeiláâ^eáiatjmaftfey 

Dr. Azevedo (^an/rtncío^rMi»^iH^odkaMw#.^Wão 
dtaM*àeaí ■»*áèÍM>raM^tqrotocrffc ( w úto ru ^moá^io- 
te.) Voa Ruoi úteUotte, «lé lego. (*áè.> 1 ;/ li 




D. Auasu*. Ni* per4* nada por ni^ tewra» ett» dela» 
tave! café. (larga a chávena.) Porque não vaes dar utUMfe 
seio. pelo jardim, tu k|te géstem Uèito é» lòres. raa-te 
amanhar esto' tajalhfem 4^ «(as- 

sim faltaremos sós em aèmnptos fefeimiÉiavqaft etopsto» 
de ouvir. • n íi ■*» - .» í 

J3msra ^^*tJMtrite ^©rew}* 4 d*a/araJk*. U 
Db. Costa. Tenho muito gosto «a. teomnshir ^. «*t 
(dá lhe o braço e saem). . ; i > . •• «.m «> ri 

c EaiiHBtoi l^ita«hén tebko de ^a«^ r»'./ - ..' Al 



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— It- 

D. Aurélia. Peço-Ih£^uCSJ8iaíkenho que lhe dizer. 
»• Amélia» M Aiàjééím e Ernesto 

má ideia; mas pouco me importa com isso, o que^Hao 
quero é que as coisas continuem n'este péssimo estado. 
Ernesto. JNãò «Ueode! •> iy. :•»<] ^..!n:i/-»(f ^«v^: M 
D~ AanttftL.Já YatuealeádBn BcMprii viwupíntflde 
minha ifiiba^jqa^gaiaf-a, ácoosáJhal^flTtKna ffalifca, 
quetoiriwèM^uiy *JinifcD;dMÍdiAvarfeieM» •'•- -^ ' i 
EBÈns^^imiégn^iU^ckmk^máfttttepfot estk é 

D. Aurélia. meu filho nãb roeictmfcéor^am^ «* tâtí 
•siimoÉaH^a^tâh.Md^^Smq iBê^end«K»sfiott<kii- 
miga dos que se mettem em negócios aHikièttdfatagoc* 
M^aBtol;iiur>eftá íazeudo^i' jim.h .^ ;«WiM*»n oj/.-uf 

ERruMw^fifiAcliibfinMààHo^ t 1 j *í* mUíumAis h!-»j «j< i .i 
..;B. ÃnuiMkvdãitai^QOoáestaísuMt^n^ »\ "la/asA ..nu 
j£H*! AitafmKu£^inlèt'^ d»«fcaralcL 

D. n Aurelia. Ea é (|ue<«púd òtnsiiitoít^iteuéssatcfiaralft 
fora. 

Ernesto. Senhora... listf.í Jàáiais. 

D. Aurélia, (tirando-lhe o charuto da boca) E demais a 
mais c I êêê õè * +t *t\aUKifi & êmngm t m** m m bím «átoheiro. 
(deitando o charuto fora) Trinta annos fui casada, e nem 
uafcfeeojewnBiitàqtfe raep afaariMfapúft aa; Minha .pire. 

yia^sWK^(^wérte)'íslO*«tà<bpml^íxjJ .n:ihi»:i !;.•*" 
->J>j itoi^A:\Clon^i6u>iaitdizenddiif^en^Yifèri f aMBgiH 
dt^qoeHeaipàio-.iiáiifllello^eiqfttadtau mi > -.hk.ii -.j '•:' - 

Ernesto. Bem se vê. -. nt* I» 

D.inÉAufutiQr» di#a*fnè; ^uant* dá farpei a wiiies"- 
poaa pararta*<fmn>*lfinet0S. : <»?! n <í'h«.iT ./xO <r 

Ernesto. O que ella me pede. Uúwi. \ umm A ... - ^- M. 

D. Aurélia. qrte-l'Não(iteídyii«Bia(qtiantHB certa? 



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— H — 

Isto nao pode continuai;. ^ sp^ Jftfiiçio <fcve dar 9 raa 
mulher trinta mil réis pof jne^ para o» sflis.ajfineíés, j 
EwíksTQj. I^$o pareçe-ipe njjaitô. ;l ,\ . \ \ uf 
D. Au^iV.Ços^.ijiia^lo.í^ta.? .'. . ♦ /;",', ,;.,'/ 
'En^E»TÒ. Eu sei ca quanto gasto. ., 

D. 4^WV N£Q,safae quanto. gasU, i|30 $ pro4jg4Ii'dá^ 
de, pois bem, de hcnraay^aie terá para os sçus gftstoç par 1 
ticulares è.ipénsaes a quantia 4« flois mil reis, ej^ t éa^ 
mais; tçm SQdQ k èm,GÍL^p|^ pf^cisa gaitar por Tq^.j ^.í 
Ebnksio. Ef angraçajfalp que íir f , ,. ., . ,,., ., ', ,r 
D. Áúéema- A c P a IRW*>.Rfls y^ipo»* .#M eB1 * -W (Wr 
vernaV^? , . '.., „,-.„., .;,...„,,!, - .-/...., 

D.Augus^E .mçu.mwido . , . . .„?„.„! 
D. AupLiA. Teama^dj^E; ^danfave.l,! E wççp$sji : 
tes? B^ri t se .conhece quç es ud& ^njo, <jçie ^ejps % uç(i çpjrl- 
cter de joinba, que *offi^ fujjo.sçm tp queixar. Erajbeiji 
feito que f tiv^sè/Iada cqgi. rçnfjt if gsky mp^rQs.que ppjsj- 
prebendem em que consiste a befíeza do càsameny^ <jijp 
sabem quejo dirfbeiro nas mãos ; do marjdo, é um perigo 
constante para a (eljqdád^fecWjufcaL Pôri&o òlto^HÍor, 
sempté o%reíhor, é tírfnftà fllhà tót\ cfcJwe' tfo 'kòfre .' 'as- 
sim iá não.pode com o dinheiro do, casáf stíáftiffer^itiiM; 
e talfer,#téà<íraFrftóátíitílh^..l ' ' ,: f '» « « ' ~ 
• BK^áêrb.SáAbrkf:. rtmtrf^^^ebéã», 1 ' 1 : L '' V " fiíl 
9 D. AtítítoJí.Xé^^^^tytó ^áclináíii^á». 

B/Min^^lfeni, vfejrf ! qrt*teátá ! dtóvenfrfíá, BlíJiíife 1 ™ 
diante minha filha tomará conta de todo qjtbvèhtò tfe caSil 3 . 
E* tim ifyHMh raio^H^''^ 'èittfidttaK Otite ^lflntr 
dárde (jfttó afHÇ^o faiãtfíjÃoáíò, : sSfr osftrafc^dtfn^rtttt: 
Já vi qaé ( íém tini atàfctf, é b qíte avalia pèufctitiè 
sabir. Terá por acaso outro? - ,: ' * •" ' ' "» 

Ernesto. Tenho nwihoiPJ- "} • *•* *■ •■» > ^ ' « '/ (1 
. D. Auwtí*iAJ Pai*'ea «jto ditfpcfcta a teorttur 'pAlataiz 
t*e$ abdioíi OfaiMfos^í»ttridiiiio. sofan >tar*>spd* 
bottiitteoí admitto; »eDtica<<<qaàaéd otfaottqpl «e4^*d#«* 

adquirir outros mais sérifltftifeiwfe ndtttrf. Vsa, èàfiJkè 

um kxèiuplto > '••" i .MJíiiiii .oiiiiíiiu') -.A ./i- 1.» ./ .(1 



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' T&$àa/(llpaW) ttit jfrèrctf í cibé&. V 
D. AuttBitA.Estib ttè ftois juntou, n^áriíà çírHe íftiser- 
no, em que faz muitQ frio, nenhum tem >vpirtbdfe dé,sa)iir> 
A chuva é a terrentes, 1 sémètn-stí'feiíaes vm jttttto do ou- 
tro, um raio de liia àf! fnèHlrumtfca ò sa&cttfarfo. ^ re- 
pente chega uW áftrijp,' èomo áquérte qttff çá e*tçve ainda 
agora edil: Ernesto, vamos tlaruiiiavòf ta... tu respODÍdês; 
mo 'tefccfynává è^hxf: O 'quê T fhias aqui tnepkjfo toda a 
Urde f Ora : andk fàto\\ e til * Ifeviqtas-te, deixas 'tua mu- 
lher e sabes com o teu afnftfó. Cfoé&a afft*ra de jantar e o 
teu áftógo^oíitidá-té ^àritarèsn^iTina casa , dê Jasto^ de- 
pois vão ao thealro etc, empm recolhe 4? tnati^, em 

ué 

linha filha, rôfnha' (juéÇida* filha, p^aue tè 4 éasaste ( 
Para áúê te ubtiíe V cfar. Itòtíièth que te deixa #$aodo- 

nádaf/ ";; ' it; : ;' '; ■; . ,'■ ;; _ ;.-v ,' ■ * p 

Ernesto. Está compl^^fl^e/çíl^^^i^ sçup^QHV, 
eu não estou 4j$gQ$tp r &!amrçw; A suitirawú». Eôiiwha 

D. Aurélia. Que modos sao esses ! 
„ JEtamf - ^W/flMViW WA<W <5P«HJ<*f!^ 4^s <*e a 

Ernesto. E de maisf... = ,,,i ;.. ^,-1 - ' 

D. Augusta. Calla-te, peço-ta mb. '■•".. T . •*• 
xifi>« A^rim^ 0«e«i JHfiiè «rip» é Autista q«# a atura, 

*hee«M{»4a*p<*<ifc <wtai).»aia^^4qi«f»íi». Minha fttfca, 
4ÉI*ít(0«taAJkfr 4^^ ,i. w - ■•■ -íii 

D. Augusta. Ao contrario, mamã, posso et Apatetara. 



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D. AureliJL. Tai^npBas^iBBi gofcà«;n\nMuaiatfâ gaan- 
to tens soffrido. Ta és muite dedgr*íjidau< j .1 . "í 

Ernesto. Ouves, Augiífctrffc »..•,• ,r t \ í . 2 
Ati<nisTi.*)NÍD «M^«^«faiky.«a4lHMrMÍ6, maai. : 
D. Aurélia. fftt€bfl^eàeiitte«aUD»4iel#e'iiwttyi;«>Ea 
mao iftsséfer» p tmimaf tyíkvhÉiè m&ivo m« retina. (I 
Ernesto. Isso é que era uma felicidade. .. < <.j 

®. jAumdkisu AM «per 4p* eb^wè.T^v poUtoãojrdn.tl 
Ernesto, (aparte) Valha-me Deus! * •'<! 

®. Avrcmá* Natíar, na^a y .pewf«ie*oOy.i»oqa0W>wiM-te 
sofrer. Que d«sgraÇa^<<oasám«rtel .poubana jqaioBioMMtf 
obJ vós «ães tfe ftmiiw e vwjaei isèiha ídor egual á rtiint^ 
Ernesto (aparte) Parece a Maria, âa, Verónica! 
D. Aurélia, (chorando) Retiro-abe, « diixo.a viotimUna 
mâa 4o duroa^e/fl» ta *««'>.& verj.filba q&epidfti. Beti- 
ro-me para sempre, adens até >ae ára do iktfo. ...;.- t 

Eunuto. 08nreus p»«e«iií»edt©sv nàa.oiè tinbdmíên- 
gaB&d* D mnasogra. 

D. Aurélia. Aborreço-o, despreso-o, não o posso ter- - 
Ernesto. Idem na. nfesmaflata; <fiie*i)iiiel)iam<HT€é£ ptde 
ir çelo Ateimo ^m\táu> % (saemdaumpor ] sêuHdo^ Akgnkta 
ri»$e.) / ■ •• • •••- ' ••! - 

SCElfrW- - 
». Attg«*rti e rf*^i* £1-1**4*0 " ' 

DwíAugustjl. Ton graça, istaé melhor .do è[ue uiba co 
media. 

Ernesto, (apparecendo á porta) Foi-«e etobwa 4 ser- 
pfiÉtefílsto não sô pode tolerar. 

Bl Aúgúsota. Que remédio» é minha mie. 

JShnh&to. Yisto isso estás disposta a alttral-a! Pare©e-4e 
natura) qne «U ©wisiato a repetirão de scedas d estes 
Pois olha paca iis* é qne não «stou resofrid©. 

1SCK»AV : • ' 
#(i mesmo», l> *m4JM* <p o<4r. <?o»ti(k 

D. Júlia, (entrando.) jardim é magnifico! <. r . : . j 
Ernesto. (aíawatoío>*d cortam leqmê pw.lAe èà&»Au' 
gusta)(íatniiu -.v •fl.jiro--. '='. 



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— 4« — . 

Ernesto. Estoa ariendo- i" ■' : i rfio 

D. Júlia. Está encommodátto?! , O -*..>, •'•* 

Eohbto. Nãaiftnbo.aaáá > «trilo «brigai/a ti<eK.Sf 



Dri Cdota Bstps alterada, é q*e hèdrt? 

D. Ánatjsra; i (a Ih Jrià) Tm* ao» qaestâto-ctm* 
mama. ■• • .. » =.:: .: l •-.•" ;í 

D. i Júlia. Ji eomprebende l«do> «ora d geri* qfhe<0lla 
tem ! :-. •'* .1 ?-« íi-./ ;; 

lômíSTO, Oraaiodá bem «ueV. <ex.* ébnheot* qàe tiHa 
tan um gewio iasdnpqrtateM > « ào é mulher év. . 1 é; . . ama 
sagra f estia dito tudo. Foi infelicidade minha, nae ter 
casado com uma tfrpbãi. » » ; . ' 

? D» augusta: Obrigado. : * ' .> .-..:/ ! 

íi: Jbua: ISào diga isso,, a sogfa é uma segnnáa mãe. 

Ernesto. Assim devia ear, flnasrâk) è. ?. 

D. <IuLu>. Róis hade anta, êHBi» i rae«im8Mejrar ama ex- 
cepção, e comtudo soa a mãe do men ,gen&Q«> Q srl Jem 
-mieí • r ..- < 1/ ./s i«., •/ < 

■MSjtWBstD. fafolaiiieme já não. tenta. 
• D. Jòlia! Bofe bem , deve >eneontrair ama âoisÉitatana 
mãe de Augusta; e ella deve amai o como Olho. 

Ernesto. Assim deviaáerZ /' r ■< 

D. Júlia. A#^MÍ|^^,nmhJB^ 9 é # rdade... 

Ernesto. Péssimo!.. 

D. Júlia; E éaturátaiente quer-se.metlár no» seorf negó- 
cios particulares. . 

Ehmmo! E ? exactól ' - • / • ■ - ■ 

D. Júlia. Pois muito bem, eu evitarei tudo isso, tea lhe 
farei comprehender, que a sua missão á sen ladof, deve 
HÉreamentè redtuír-se a estreitar cada vez mais o laço que 
Offube,e a dissipar todas asnuveas que obscurpcerenu) 
céo da sua ventura. Socegue, que eu arranjarei tudo. 

Ernesto. Muito obrigado* (ájparjte) Muito bondosaé esta 
senhora. t .. w 

D. Júlia. (í/rànáá t*m âiarutoú címYlfàWezctyTume 
um cnarutoí. ■• '• •■ ■ • : '. ' 

- Entàsvto Não f enoomawda o fumo? ?.«••' 

D. Júlia. Ao contrario. (Dando4he um fosfarú.J » \ . 



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— «7— 

- ftawra* llwt«h^Í8»èDv.:((V^£nmiiiu dt&adàl . 
D. Júlia. E ta minWfilhai vem^aaW «ôDwmfco, «mos 

SfHefATnMinte.*, .» !j. • ;'"•,■ i»i/w !,.«": -v 









., D*. ÇpSTA,..(4paríf)^ e% fontes 1 .y i . . . . m 
Ernesto. Vás como eu tinha rasâo? >. . 

1 Da. Çost^.. Em gu£ ^ , » ._•...: .*T .* ..,. i 
Ernesto \ Em dizer que todas são o mesmo* NôbJraa^r 
nas a scena;qtfp. $e,4®P 4fiM : ba pouso. ,Etó* »«Jher ó«ttoa 

Dr. Costa. Nao digas isso, tu nâo sabes o que d*7es„. ! 

Ernesto. Minha sog{y,é jiprdtmonio. 

Dr. Costa. Tua sogra é a mulher mais encantadora 
que eu conheço^f ^Uij^O£t<Httw<yrof*e apaixonado. 

Ernesto. Tu estás doido! 

Dr. Co§ta„S^, ,]5nw*|0, é^Wí^fim^e^iMtllo^isa 
mulher de quem mil rçezes te fp^ho WUdp,>^ viafa.CDm 
quem fiz uow J^gçni.np caminl^ dqferr4, a wicipuilbef 
qrçe me tem Jeito pensar serjamça^ w casamento./ u 

Ernesto. Está doido varrido. 

Da. Gqw*. Sifl,, & a mesma,. Preci$q >U*r e#n dia. 
Nunca mais a tornei a ver desde que foi mi ntapomp rabeira 
n'uma carruagem de 1.* classe. Jáde/wr.rôramflQyeme#s. 
E-elIa é capaz de julgar que nãpj* procurai ^qu^^^aueei, 
é preciso que lhe falte paja Uied^cla.ràf qw wiMftdejxfti 
de a amar. * \ *,'.>. > .:. .. «.. : : • •'• ; 

Erjsssto. E' impossível. tudo quanto esfás dizenõV). . i : 

Dr, Costa. Juro-te, que é verdade. Como havia de sup^ 
pôr que essa senhora çra.tua sogea! Eu; quenio sonhava 
senão em. tornar a vej-a. Sou.felíí» completamente feliz, 
ahrag^me, , r ,,„.., . ' 

í^wístq. Custa-me a acreditar,, çw aqjaelwgeaio, cqhi. 
aqueflaidade? ., 



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— 38 — 

. Bt*. {tara* Iam to goaip detM* pèmb*;^ a tdidê*5o 
é gnftd» 4aRe.ter ÉÉôAata sei» HBiiêi. 

Ernksto. (niufo.) Génio de pombal Coitf£ft #«fa)ét*M 
meu pobre amigo que vãos pmra^Ri lktf< <M (fc . Tétif^i^oéfcU 
annos, parece-me que minha mulher bem o deve saber. 

Dr. Gosta. Que me uy^oçtyqc^ isso, se não parece ter 
tal idade. 

Ernesto. Isso é verdade, ^stá.i^iiitpiem conservada, 
nao o nego, é uma sogra S, prova dê (lynamite, uma sogra 
que não morrerá nunca. 

Dr. Costa. Pois gosto taufW d'ella, que e^íod resolvido 
a casar. 

Ernksto. Tu nnu sogro! Passava a fc<Har-te. £{fo àhi 
ve», safo<me. 

Dr* Com. Swaí, çaftMe «que 1» quêrtf faltar. 

Ernesto (aparte.) Pobre doutor ó, bem digno 4c lasti- 
ma. (Sáe.) 

8CENAVI! 

Dr. Costa. Fingiu aio fine e&nfcecer. ▼erenWé. 

D. Aurélia {tywifte.) EHet meu Bjeus. ' 

Da. Qo&va (cemprimmrtQndo.) Hftiha senhora.,. 
. D. Aomfc.1* (tw»pn*ff«rt«nite-o.) E njeá-genvo nao está 
aqui? 

Dr. Gosta. Sabia agora 'tíiesmo. Sei tudo. Desejava ral- 
lar ttrtft v. ex.* 

D. áoriuaa. -Senhor. . . 

Dr. Costa. Será possível que v. ex. à nlo se recorde de 
mim. Bastaram nove mexes de separação para esquecer 
aquelle a quem jurou amar toda a vida! 

D. àurrlia. Mo me posso recordar d'tun homem que 
étepom de me jurar um amor eterno, desapparece quando 
menos se pebsa. Vou proeorar meu genro. 

fea €ostA. EsCute-me, e com cerlesa depois rtíe per- 
doará. Na ultima noite que tive o prazer de a vér 1 , roceíhr 
um letegramttia dfrriieu p4e diamantioHHie a toda a pressa, 
em consequência de minha mãe estar em perfgo decida' 



yGooQle 



ewrerf uWWffieleMir*. m;*fttt«Mpá*dMhe WomMto, 
e parti... 4,, - i ' ' : 

Dr. Costa. Bw ? fn^teobrtfà^a: l(^a^a t^^^i^- 
pei*^ mfsha mãé cofliptetamettte treMtfbrt^sidh. Atufava 
v. «t* d*»«e mudar e titogiiéÉfírie-swrt^ilíztef pata aíawto. 
Ftqtei desesperado Como -deve suppor. E sô 'btj* thre l> 
praier inespétado tiè % Muar a ter. *E agora eèflèwíte-*** 
omemperdio 

D. Aurélia. Visto ler sido ciso de ftíça mai*fr, ^stá 
perdoado. 

Ou. CofrA. Obrigado. Ainda èem, posso «rtlò a tf da 
aspirar á veèturada Mia ml» T 

D. Aurélia. Pode, mantenho as minhas promessas; 
agora voa ter com meu gfcirô.' 

Dr. Costa. Não é preciso, porque elle ahi vem. 

SCENAVIII 
*ft *»M*M * V*ké*tm jfyté trfoa fuWánêô.) 

' D. Aurélia. E vem 1umanío1 

Ernesto. Exaetatifefit*. 

D. Aurélia. Já vejo que não quer cotírptfatet comigo te» 
nada. - 

Ernesto. Gomo dono da casa hetde sempre fater o que 
qmzer. (atirando4he ffimo pant'6 edta.) 

D. Aurélia. Muito bem. Eu vinha procurado para fa- 
zer-mos uma transaeçlo que evitas^ maiores de$gd£lto p 
mas vejo qtie nada farei porque cada ve« está mais lei- 
moso e menos ratoavèl. Por teso n&o me % possível córtl* 
nuar a viver n'esta casa, tenho que abandonar wírtba fi- 
lha, e abandonai -a em seu poder que a fat tão desgra- 
çada. Vou com o coraçío dHaemdo, o sr . será o respon- 
sável pela minha morte, porque eu pettdo posso durar de- 
pois d^ste desgosto. \cae wbre o soffá finfinêthsedêb- 
matada,) -^ 

Dr. Costa. Hehièto,tepara... ■* ' 

Ernesto. A senhora está sonhando desventuras «pienlo 



y Google 



e*íttm» JWtewsn»^ bom 

pletamente feliz. 

D, Aif#*M*. ..(dmrifr) *ota^ <Hb4v Deigrafadal.. 
.(<*»<? wtr+WZW soffá, fingindo w*ataqm nervoso.) 

Brmistov .Çttajn** arrepjados. (*o dr. Çotfa) I&zeao 
Qfc^p que yád)aj^arx>^c4iw (o (íi-, ,C<#te .«sosí» e «dia 
jMM*cf <fcppt>) Toprn.e 9 si> bqb^âlgwa^.cKM^Í^.a «iro» 
fplhíiw ptgano tinteu*ww t lkêdarp bifar), Ali e> v tkh 
te iro ! Esta mulher faz-me doido, (deita lhe agwqpifarv-) 

P. >u,iu*lia. (jrt<$w<fo) Alt ai ! ,ai 1 1 ; / , , 

Ernesto: Felizmente torna a si. 
\ D. Aurblia. Ai J estou iaelher, 08^ <}ig*rn ,na4a a mi- 
nha filha, quero-lhe poupar jaaisqste desgosto* . 

SCENAIX „•'.'.'.' ■'..' 
Os mesmos* D Augusta e D. Júlia 

D. Aurélia. Minha querida filha, chegou o momento de 
te faIUr,conMoia a frange», £fc.f ^i^|p^i^^(^ abe- 
mos na mesma casa. Lamento do coração a péssima esco- 
lha que fizeste, mas o que, pS^nfeiu renjedjo» remediado 
está. Eu é que não tenho coragem tpa,ra.4$sis1»r ao teu iu- 
farjanio.,. rUir<Hne..> . • 

D. Augusta. Então mamã... 
• p. Aurélia*, Escusa»* de me pedir, estou resolvida^.. 

Ernesto. Bem ouves, está decidida. * 

D. Aubeua* E' uma separação èterqa. Mas açtes de 
partir, ouça-me e não- se esqueça irança d'estas palavras 
(d. Ernesto.) Entreguei -Jke minha filha para que a fizesse 
fahi; mas já que isso não pode ser, procure ao menos re- 
primir e*se caracter violento eirrasciveJ, 

Ernesto* {aparte) Tem graça l 

cAuHfiLiA. Não esqueça es*as palavras d uma mãe, que 
lhe entregou 9 seu t besouro iwis querido, a filha de 
sãos entranhas- (abraçando D, At^gusta) Ai\ querida 
filha. 

Dr. Costa (baixo a Ernesto) Hôm*m.,,U4<> .se te parte o 



y Google 



fimpitk (baiacoraoidti) Tmfti— mil <■ ' / « 

-«•••. SfKNA WJT4MA i. ■ • 

•0 ■MM**» »o«f. Av»~v^«*>ft«**»fra aj>rte«ta$) 

Dto. áxbvbdç. O que aconteceu? QtMpp está doente? 

Ebbbsto. Já dío está ninguém^ feiismeatet IfAsesta sitf 
teve á pouco um grande ataque de Bérvoq. < ! 

Dr. Azevedo. E jáestárestabeleaidaf , , ' •* 

^D. àubhlia. (chorando) Jà estea boq* ... * 

Dr. Azevedo, (baixo a Ernesto) Maaoqueíbi isto?* .'. 

Ernbsto. (èaúw.afc dr*) Quftsa rotp* Jkara o.inférntf. 

D; Amou a. Nàòquerèdèmorar^B^inaá$aqui(«J^Jlu- 
£tf*fa) Dá4ioe o chapeiu faD/Juléa)Jlimòmo& embota. 

D. Í9LIÁ. (a Ernêiêa) Deploro de iodo o coração/ qué se 
deam «ato* Jactos^*. .A '. v ./. n 

EaifsgTo. (a D. Júlia} Ma& vj ai.* não se deve retirai*, 
rogo-lhe... 

-D; Aurema/ Teibde se reêirar, pe^qo^veio CQEmaégD. 

Ernesto. Eu é que não posso consentir. Se deixaste 
partir assim esta. senhoria, podia. ík^etieudo, i|ue Mfeto 
mal hhMi a mulher, Nqce&ito quei esta senhora fiqaey pira 
me fazer justiça, para ser testemunha da felicidade de nÚA 
nàa esposai../ • i r> ' 

D. Aurélia. A minha amiga tem de vir comigo* porque 
assim o querà. :. ,. 

Ernesto. Não se retire, novamente lhe peço. 

D. JbiiAV Em parte Jtem rasáo... .: 

D. Aukeiía. Pois bem, retiro-mesó. Já vô que 3 ou: con- 
descendente, e quando me rouba o amor de minha filha, e 
a companhia daninha amiga. sr. é-we fatak 

Ernesto. Senhora. < * 

D. Jullv (fiaixô a Ernesto) Prudência... 

D. Aurélia, (a D. JuHa) Fjca, fica para te convenceres» 
4a TrnMade d'esse homp™ Nao perciso que me acompa- 
nhes. pr.. dr. Azevedo me fará esse favor. 

Dr. Aze^ho. Com muito gosto, (pega no chapeo e offe* 
Tect-lhe o braço que &ceiÉ*>) 



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— a*— 

D. Aurélia. Adéos môtiba. dllia» J5 ao sr, aborreço-o, 
detesto-o, é ura monstro, que matará minha filha com 
desgostos. Malvado. {SWrttfiiêHlténié arrastando Manuel. 
Ernesto que está desesperado, vae á porta que fecha com 
9Memia, 6o M***nd * 4 k * *é*m*ãdeiens ewottmà**.) . • 

Ernesto. Graças a Deos !.. 

D. àurkliav iappartcendo ájaneUa do jaràun) Otiça, 
tà, onça-dL PitoviDo+o que está fechado com sua sagra. 

Ernesto. que dii? 

D. Augusta e II. Jc&tAw A verdade. 

Ernesto. Expliquemos*. (a&r<«& o fêrta e wntra o dr. 
Azevedo e D. Aureka+tndo.) 

D. Aurélia. A explicação é\\ue o lemos encanado. 

Ewíesto* Será possèvelf (a O. Jataí) A *r. a «niafaa*ograt 

D- Júlia, (afasçand9*o) ÍWfo, -tua apaa, meu filtob. 

D. Augusta. Siat, Ef besto, éa octesa qílerida raataã. 

D. Aurélia, (a Ernesto) A Augusta tnb»we dé*e 
aaversae qtieo sr. .tinha ás sogras, lutemos esta comedia, 
para não começar a odiar a sua. 

Ernesto. Gemprebeodo qoe ré verdade. A «r.* «Ao tfem 
eara de sogra. 

D. AimELiA. Obrigada pela galanteria, 
v Criado, (entrando) Sr. dr., da parte do ar. Màrqftes 
venho dieer-llie... 

Dr. Azevedo, (interrompendo) You já! Não me deixam 
um momento. 

Criado. Que a sr. a matqueza acaba de dar á luz «ma 
meni na com toda a fetiddade. 

Dr. Azevedo. Quando eu nío estava presente 1 E para 
esle resultado estou aqui preso á oito dias t Agora já não 
sou preciso, retiro-me. 

D. Aurélia. Espere um poaco. (Gmplet:) 

Mas paia ttl «otasojoir, 

Do sexo amável a astúcia, 
Mais uma Vçt empregou, 
Sua itaiísiina argúcia. 



Com esta troca de sogras, 
Se desmentiu o ditado, 
Que de todos é sabido, 
fttf 



íaom ratio apphcadD. 
Que nada ka certo «o .mundo 
Mais uma vez se provou, 
Justiça faça ás sogras 
QMl já taato as odiou. 



Resta pois vèr *• ap*ro?aet, 
expediente tomada, 
Demonstra© com applansos, 



S# foi o> vosso agrado. 



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mm IHCOGNiTO... 

COMEDIA EM DOIS ACTOS 

POR 

Diogo José Seromônho 



Condecorado com a medalha ao mérito, 

Sócio honorário do Grémio Litterario portuguez 

do Pará, da Associação dos Jornalistas e 

Escriplores, etc. 



j 
Representada com geraes applausos nos theatros do : úymna- 
sio, Rua dos Condes, Camões, em Belém, no Porto, 
ilha da Madeira, no Pará, etc. 



D- J- S- 

íVVWWVVWWí 



THEATRO CONTEMPORÂNEO 

EMPREZA FUNDADA EM 1869 

DIOGO SXROMÊNHO. — EDITO» 

ESCRIPTORIO DA EMPREZA, R. NOVA DO ALMADA, 24, 2* 

LISBOA-1884 



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Annica— -Brazia — Gervásio de Saues— Leonardo " 
Júlio— José Pinto — Francisco — Regedor — Ybrbàdor 

A scena passa-se na província. 

ACTO PRIMEIRO 

Uma estalagem de provineia, poueo asseiada. Portas ao fundo 
e lateraes, janellas, etc. 

SCENA I 

f Brazia, Francisco, depois Juli& 

Francisco— Vé se te avias. A diligencia está a chegar, 
quero pois tudo em ordem. 

brazia — Isto é um instante. 

Francisco— Não esqueças as minhas reeommendações. 
Se algum passageiro pedir comida, dá-lhe da peor, mas 
grande porção, nào esqueça. Eu não quero que me cha- 
mem ladrão. Agora vou á sessão extraordinária da Cama- 
rá municipal ; não esqueçam as minhas reeommendaçòes. 
Olha, para os freguezes da diligencia, dá-lhe do vinho aze- 
do, que os mais freguezes não querem. 

brazia— Não precisa dizer mais nada, porque segundo o 
costume, os freguezes só pedem* agua fresca e escova pa- 
ra escovar o fato. * 

Francisco— Tens razão, com as diligencias não se ga- 
nha vintém! Mas dentro de poueo tempo a cousa hade can- 
tar d 'outra maneira. O governo prometteu-nos um cami- 
nho de ferre, que em breve aqui teremos. E. então tu ve- 
rás aqui todos os dias mais de cem mil passageiros. 

brazia— Cem mil! 

Francisco— Ou mais. Admiras- te> porque nunca viste 
um cominho de ferro. 

brazia — Também vocemecé não viu. 

francisco— Mas imagino. São muitos trens. amarrados 



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-3 — 

uns aos outros, e qne anilam cem legoas por minuto, pu- 
chados pelo vapor. 

brazia— Mas isso o que é ? 

francísco— O vapor? Pois não sabes ? é o mesmo que a 
electricidade magnética. Muito te custa a comprehcndcr 
as cousas ! Tudo que sei foi o sr. Júlio que m'o ensinou. 
Sabe muito; é um «engenhista», anda sempre a tomar me- 
didas por onde bade passar a linba. (vendo JuiioJ Fallae no 
mau... 

bb azia— Olhae para a porta. 

julio— («tirando com muitos papeis nas algibeiras e um ro- 
lo immenso na mão) Ora Deus esteja n'esta casa. 

Francisco — E o diabo em casa dos frades. Vae então dar 
o seu giro? , 

jrnjo— Vou á estrada levantar uns perfis. Isto em mim jà 
é vicio. 

Francisco— A gente ilâr companhia deve lembrar-se de 
si com algum logar. 

julio— Assim o espero. A Direcção hade dar todo o va- 
lor aos meus trabalhos. Aos olhos fechados conheço toda 
alinha. 

Francisco — O' sr. Julio, se está de maré, queria-lhe pe- 
dir um favorsinho. 

julio— Diga lá. (aparte) Temos estopada. 

Francisco— B' ensinar a minha sobrinha o que é o ca* 
minho de ferro. Julga ella que eu lhe minto. 

julio— (aparte) Todos os dias lhe expíico. (alto) Imagine 
uma serie de wagons, puxados por uma machina locomoto- 
ra animada por vapor, que rapidamente atravessa os rails. 

Francisco — Tal qual eu te dizia. 

brazia— (aparte) Não percebi nadat 

Francisco— (aparte) Não entendi patavina, falto) Não ha 
como o sr. Julio para explicar estas cousas exquisi tas e 
diffieeis. Vamos, sr. Julio, vem d'ahi? 

julio— E' para já, saúde e patacos. 

brazia— E vagar para os contar, (saem). O sr. Julio fal- 
ia de maneira que só os anjos o podem entender, é só pa- 
ra quem está em graça ! Eu acredito tanto no vapor e no 
tal caminho de ferro, como em cousa nenhuma. O que se 
.quer, é que venham bastantes freguezes na diligencia e 
que não peçam só agua fresca para o bofe. e escova para 
o fato. (ouve-e ao lonhe bulha de giseira* que se aproximam) 
Ahi a temos, (corre á janella, com akyna) E vem cheia* 



Soogle —±. 



— ur- 
sinha de gente! Entraram dois sujeitos; vou ver o que el- 
les querem. * *- 

SCENA II 

Brazia, Gervaíio, e Leonardo (trazem muitas malas 
de vários tamanhos e feitios). 

brazia— Por aqui, entrem por aqui. 

gervasio— Oh! pequerrucha! 

lronardo— (aparte) E' bem boa a pequena! 

gbrvasío— Quero dois quartos confortáveis. 

brazia— Tencionam demorar-se aqui muitos dias? 

gbrvasío— Apenas dois ou três dias. 

leonardo— (aparte) Que olhos! que par d'olhos, que dois 
olhos tem esta rapariga í Os olhos são os luzeiros d'alma, 
que grande alma ella /leve ter! 

brazia— (aparte) Graças a Deus que ficam dois hospe- 
des, (alto indicando o quarto da E.) Vou preparar tudo. O 
seu quarto é aquelle, é o melhor que temos cá em casa. 

leonardo— O melhor que ba cá em casa é a menina, 
(colloca as malas no quarto). 

gbrvasío— (olhando pela porta do quarto) Parece mais 
um síilào do que um quarto de cama. 

brazia— Os senhores querem comer alguma cousa? 

gervasio — Só desejo uma escova para o fato. 

leonardo— Pois eu fcomerei qualquer cousa; um presun- 
to ou um paio. por exemplo. 

gervasio— (aparte) Forte alarve! Sempre a comer, (alto) 
Também me preciso lavar. 

brazia— Tudo se nade arranjar. 

leonardo— (aparte) Cada vez me parece melhor a pe- 
quena! Deviam ser prohibidas estas carinhas bonitas, que 
roubam a tranquilidade á gente ! Não sei como não me 
tirou a vontade de comer ! 



SGENA III 

Gervásio e Leonardo 

gervasio— Que fazes com essa cara de tolo? 
Leonardo— Contemplo a belleza d'essa creadinha. 



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/ 
/ 



-5— 

gervasio— 3ào sejas asno e lembra-te das minhas re- 
commendações, esquece o meu nome. 

lbokardo— Parece que andamos a conspirar, ou que fu- 
gimos da policia. 

gervasio— Para não rebentares de curiosidade, vaes sa- 
ber tudo. Viajo para casar. . . eis r»do explicado. 
lbonardo— Já percebi; a sua noiva está aqui. 
gervasio— Não, o meu anjo, o meu ideal, o meu sera- 
phim não está n'esla terra, (etiòptraado conucamentej Como 
eu te amo, mulher incomparável! Estou apaixonado! 

Leonardo— Já sei, são duas paixões, ella também está 
apaixonada E' sempre assim. 

gervasio — Nào tenho a certeza da sua paixão. Apenas a 
visitei oito annos^tres mezes e nove dias. sempre com res- 
peitosa e digna amisade; Nunca lhe declarei o meu amor 
senão com os. olhos. . . Com esses espelhos d 'a Ima, é que 
lhe disse o quanto a amava ! Oh ! linguagem sublime das 
olhadellas! Ve como a contemplava, (põe os olhos e.n alvo, 
fazendo caretas). 
leonardo— O patrão parece um carneiro mal morro 
gervasio— CaHa-te, não profanes tão sublime linguagem. 
Leonardo— Lingoagem que nem o diabo entende 
gervasio— Tu não a entendes porque és parvo! Uma vez 
estava tio muro d 'um lindo jardim uma trigueirinha sedu- 
ctora, com o olhar pedi-lhe uma formosa camélia que ti- 
nha na cabeça, e o marido, que do outro lado lia um jor- 
nal, também comprehendeu o meu pedido. . . 
leonardo— Que o desafiou?. . . 

gervasio— Não, atirou- me com um vaso d 'amores per- 
feitos e quebrou-me- a cabeça. 

leonardo— O lhe que brincadeira t Por uma mulher po- 
de-se morrer, mas não (içar com a cabeça partida!. . . 

gervasio— E' uma lingoagein sublime, (fazendo muitas 
caretas e trejeitos com os olhos) Assim, quer dizer: «asoo-te» 
assim, «cá te espero» ; assim, «até logo». Voltando assim 
os olhos 
leonardo— Rcam olhos de goraz cosido. 
gervasio— Jura pelas estrellas a verdade e a pureza do 
nosso amor. 5 

LEONARDo-yAte um cego deve comprehender tão boa lin- 
pougem. Ma/t) patrão ainda me não disse, co.no posso eu 
nVssi ling&gem perguntar ao meu oareilo «se ao do min- 



yGooçle 



— 6 — 

go vae á missa das 9», «se está melhor dos callos», on «se 
quer ir jautar ao Antouio das caldeiradas?» 

gervasio— O melhor é fazer as perguntas quando lhe 
fallares. Pois afianço-te que as mulheres entendem tudo 
quanto dizemos com os olhos. Dou como testemunha a Va- 
leria. 

leonardo— Não conheço. 

gervasio— Valeria,. o meu namoro, aquella por causa de 
quem fazemos esta viagem, disse- me atiles de partir com 
o padrinho : «Temos v. ex.* na maior consideração»». Não 
se declarou por estar na presença do padrinho. E eu, de- 
pois de suspirar, levei a mão ao coração, e disse- lhe com 
os olhos, (fvzeaíio gestos mm os olhos) «Mil prosperidades 
lhe desejo na sua viagem.» 

leonardo— Percebi perfeitamente. 

gervasio— Depois mandei-lhe uma carta, declarando- lhe 
o ii eu sincero amor. * 

li onardo— K veio resposta? 

cerva sio—D'ahi a dias, dizendo nào ter recebido a mi- 
nha carta. 

leonardo— Grande admiração f Ainda hoje o Diário d* 
Noticias trazia uma coluram de reclamações contra o ser- 
vi ço do correio. . 

gervasio— A sua carta acompanha-me sempre ; podes 
lér. 

leonardo- Estou á espera que o. professor dMnstrucção 
primaria lá da terra receba o ordenado, para aprender a ler. 

gervasio— Então nunca aprenderás, (lendo a carta) «Ex»° 
sr. Estimo que esteja de perfeita saúde. Eu e o padrinho 
ramos vivendo com este calor; elle tem outra vez o callo 
muito infla mmado, e tem tido um tumor no pescoço, que 
só hontem rebentou com papas de linhaça; eu tenho soítri- 
do muitas dores de. dentes; nào respondo á sua carta de 5 
do passado, porque infelizmente não me foi entregue. Sou 
com toda a consideração— Valeria.» N 'estas poucas pala- 
vras se conhece o império que tenho sobre ella, e o amor 
que me dedica. . . 

lronvrdo— Gostando ella tanto do sr., o que devia ter 
feito era >lirigir-ge ao pmito aoude ella está, e pedil-A. . . 

GEHVArio— Não sou rico, sou apenas remediado; Valeria 
tamb >. i é pobre, ca<ar já, seria um sacriHcin para ambos. 

leonardo — Mas isso nào me explica esta viagem myste- 
riosa. 



Di^itizectb.y CoDQQl£_,^_-_ 



— 7- 

gervasio— Jà vaes compreender, (com intenção, ferindo 
\ palavras) i)isseram-me no Porto que existe n'esla terra 
11 velhote podre de rico, por nome Jacintho Gouvéa, que 
nha feito um testamento em que deixava tudo à Valeria, 
íjiit tens decifrados os mysterios da nossa viagem. Por 
orte do Gouvéa fica a minha futura com uma fortuna 
>llossal. E para isso aqui estamos. 
Leonardo— (aparte) Assassinar ó Gouvéa t (alto) Pense 
mi, rrão se cofrtpromettat • 

gervasio— Indaguemos ; se fôr verdade, dá se o ultimo 
salto. 

Leonardo— (aparte) Tem ideias sanguinárias! 
gervasio — O homem está vemo, tem os dias acabados. 
Leonardo— E' horrível, é um crime monstruoso! 
gervasio— Monstruoso és tu! 

Leonardo— Case, mas não mate o Gouvéa í E* um crime 
onstruosissimo! 

gervasio— Tu és um grande bruto! Matar o Gouvéa ! . . 
>is eu catiia n'essa f O que quero é indagar se o velhote 
rico e se deixa tudo á Valeria. Matar o liicho, ou quero 
zer, matar o homem, nunca. Nosso Senhor lhe conserve 
vida. . . por poucas horas. . : ' " 
i.eonardo- Já aqui nào está quem fallóu. Agora percebo 
lo. Também em questões de segredos, em me dizendo o 
e é, adivinho logo. . . Ah ! patrão, sinto uma sensação 

linffoa em dizendo a palavra advinha antes da ceia; se- 
ndo dizia um amigo meu, são duas palavras latinas que 
orem dizer hade haver vtnho, e eu estou com uma fome 
ima sede?. 
3ERVASIÒ— Cada vez esfás mais tolo! Toma bem sentido 

que te disse, que ninguém sonhe quem eu sou, nem 
em tu éi. O que te : disse è um segredo para todos. 
.eonardo - Menos para nós dois, que já o sabemos. 
sERVAsio— Se o Jacintho Gouvéa deixar tudo que tem á 
leria, e eu casar eO'ri eíla,' ficas -admiiih trado r dos meus 

IS r 't, : •...•':•:;■ • 

,eon ardo— Passarei a ser o-sr. tndiministrador ! Viva a 

alhocal " ' i • : ■. í» 

' SCENA IV 

Os mesmos e Brazia 

jervask)— E* negocio para muitos conte/s de * • •. . 
m7A\—(ápan<) Contos áe reis! 



Google 



— 8 — 

leonardd— Vamos ter muita riqueza! 

brazia— Os senhores estão servidos tudo do melhor. 

gurvasio— Vamos lá (a Leonardo) Nem uma palavra. 
(a IlmziaJ A agua? 

brazia— Está no quarto. 

lkonardo— E a comida? 

bhazia— Está promota. 

gbrvasio— Vou-me lavar. (saej. 

lkonardo— Vou à trincadeira. (aparte) Ah! que olhos d* 
rapariga. (*ae). 

y SGENA V 

Brazu e Juuo 

brazia— Estes fidalgotes não faliam senão em contos d* 
reis. Serão ricos? melhor, apanharei grande propina. 

julio— (entrando muito alegre) Viva a alegria! 

buazia— Sahiu-lhe a sorte grande? Vem tão contente! 

julio— Venho louco de alegria (eticostando-se às costa* 
d* uma cadeira e tomando attitudes de orador) E* hoje o tlii 
mais feliz e glorioso da nossa terra! Esta dacta deve &•■ 
lavrada com paginas douro no livro da historia ! O pn- 
gresso. caminhando de braço dado com a scieneia . . Ma: 
deixemo-nos de discursos. . . Escuta o que diz o «Século* 
que o hoticario acaba de mé emprestar. «Um dos homens 
mais emineutes do paiz, pelo seu saber e pela sua fortuu 
o talentoso engenheiro, pela escola de Pariz, o coiiimend.- 
dor Gervásio de Salles, partiu para a florescente provi»*; 
do Minho, atím de estudar a linha do novo caminho de fcr 
ro, que as camarás acabam de conceder á ernpreza orgi 
nizada pelo mesmo senhor. O distincto engenheiro pari. 
em companhia d' um grande capitalista, seu amigo.» Eotá 
não te alegras) 
brazia— Não percebo patavina. 
julio— O couunendador Gervásio tema concessão dog<i 
verno para o caminho de ferro, que hade passar por e<í 
vjlla! Espera-se a toda a hora. Quero ver se o apanho p. 
ra lhe servir de cicerone, e mostrar- lhe os meus estud 
sobre o traçado já approvado pelo governo. Espero que 
lembrará de me dar um logarsinho de coufiança. -. Am«> 
não percebeste? 

brazia— E se for mentira? 

julio— O' iitha, us jouiac* não mentem, especialuieut 



y Google 



- a£g * * --aHC Lg- " 



— 9- 

fle Lisboa. Teu lio logo íjue soube a noticia, safou-se para 
et remara, e iá estão em >e>s,to extraordinária, fli>eu!iiido 
os festejos com que devem ser recebidos tão importantes 
ptisonagens. Teremos discursos, jantares, bailes, muztcas, 
fiijro d.; vistas, salvas de morteiros, ** diabo! 

brazia— Que grande festança ! Mas quando virão esses 
homens grandes? 

julio— Podem chegar d 'um momento para o outro. Po- 
rtem vir na diligencia ; prepara bem esta casa, podem vir 
hospedar- se para aqui. • 

brazia— (afflkta) Vafoa-me Deus J E eu qae nao percebi 
logo. Já aqui estão. 

julio— Que dizes? 

braziâ— Jà aqui estão hospedados por alguns dias! 

julio— Será verdade? 

brazia — Ha pouco fadavam em contos de reis, em* bons 
negócios. Basta olhar para elles, para se ver que são fidal- 
gos ou grandes figurões. 

julio— Por e>ses signaes são elles. Que grande pechin- 
cha. Olha, vae já á camará coutar ao teu tio, ao regedor e 
at» boticário. Que resolvam depressa a festa, xJsto que já 
chegaram ... 

brazia— Vou n*um pulo ! (soe a correr e aos pulos) 

• SGENA VI - ' 
Julio, depois Gervásio 

julio— E* preciso que esteja com mrufcn* azar, para não 
abichar boa posía. Os meus projectos* das pontes de- ferro, 
hâo-de agradar. Assim que agarrar algum- d'elles, não o 
lorgo, mostre- lhe a minha competência im assumpto. Klle 
ahi vem; tem Cara de homem celebrei Tenho a honra de o 
cumprimentar. 

gervasio— A honra é minha. 

julio— (aparte) Tem cara de talento: ■ falto iTetíáa a maior 
honra em saudar aquelle a quem esta terra mais serviços 
vae dever. 

GERVÁSIO — QUC diZ? 

julio— Tendo a honra de cumprimentar o banqueiro mais 
rico e honesto do paiz 

gkrvxsio — fápnrt*) Bravo! 

jllio— Logo que soube da sua chegada senti um grande 
prazer. E toda a villa está em festa, pela chegada de v. ex. a . 



yGooQle 



— 10- 

gervasio— Toda a villaf" 

julio— Mas o meu jubilo ó maior, por saber o motivo que 
traz v. ex.* aqui. 

Gervásio— Pois sabe- 1 (aparte) Com tanto segredo, e ja 
aqui sabem os meus amores com a sympathica Valeria f 

julio— Sabemos perfeitamente, 

gervasio— Kogo lhe o obsequio. . . 

u Lio-r-Compi-ebendo; desejam guardar o incógnito. 

gerva^io ^Deve comprehender... . n'uin negocio tão me- 
lindroso.. . 

julio— V. ex. M vieram palpitar.-. . 

gervasio— Adivinhou, viemos virificar a verdade do que 
se diz. 

jt i.io— Contem comigo, estou às suas ordens. Explica- 
rei a v. ex." tudo quanto desejar. 

gervasio— (aparte) E' muito delicado, (alto) E será ver- 
dade ter muito ? (aparte) Saberei se tem grande fortuna. 

julio— O terreno sàomil kilometros.. 

gervasio— (ájxtrte) Que pechincha ! (alto) E os terrenos 
rendem bem? 

jllio— (lua si todos podem sei: aproveitados para as con- 
struções. 

gekvasio— Bem bom. 

juuo— N'este negocio deve ganhar muitos contos de reis. 

gervasio— Muito agradeço as suas informações. 

julio— Nada tem que agradecer, a respeito d'ella tudo 
lhe explico. 

gervasio— O sr. canheee-a? 

julio— Perfeitamente^ estudo-a ha muito tempo ; o me- 
lhor são as curvas e o perfil! 

gervasio-tO períil é bom? 

ju lo^-Magnifico ) Se eu tivesse dinheiro, tinha-me ati- 
rado, mas v. ex. a está, por todas as razões, primeiro. 

gervasio— Agradeço do coração. , 

julio- A^éschegnei a : ter inveja de v. ex.". 

gehvasio— (ápa9\tej Está mais ao facto das cousas do 
que eu. 

julio— Houve muitos concorrentes? 

gervasio— Muilos. .. 

julio— Sim, mas v. ex. a garante o resultado... 

gervasio— Com certeza, (aparte) Imaginam-me rico; Mi 
tes isso. T< rã. mais valor o meu amor. 

julio— E' uma pechinchai Comum resultado magnifico! 



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— 41- 

gervasio— 'aparte) Em o Gmivéa morrendo. ... falto) En- 
tão entende que devo jà casar? 

julio — {apartei Não entendo o q ue elle diz. (alio) O mais 
depressa possível, (aparte) Pode ser qqe a garantia da 
empreza seja o seu casamento. 

gervasio— Fico-lhe muito grato. 

juu^— Para ganhar mais depressa deve fazer os contra- 
ctos por empreitadas... £ fazer alterações no contracto do 
governo. 

gervasio— Contracto do governo ! 

julio— Mostrarei a v. ex." o nieu projecto. Refiro- me aos 
trabalhos do kilometrp 19, 

gervasio— (àom te) Este diabo tem telha. 

juuo — Deve- lhe fazer conta. 

gervasio— Mas qual conta? 

julio— Fazer um ramal. 

gervasio— (aparte) Aturem-n'o lá. (alta) De que falia? 

julio— Do projecto da sessão Z, aterro B. 

gervasio — (aparte) E' o que eu digo, ó maluco, (alto) O 
sr. sabe o que diz? 

julio — Perfeitamente. 

gervasio— E quem lhe disse o que me traz aqui? 

julio— O «Século». 

gervasio— Qual século, o presente ou o passado? 

julio — (dando-lhe o jornal) Pelo «Século», "jornal que ain- 
da agora li. Aqui o tem, pode ler. (aparte) Aposto que apa- 
nho boa po$ta. 

gervasio— (aparte) Até que percebi-.. Jnlga-me director 
do. caminho de ferro! Boa ideia; assim saberei tudo que 
me convém, sem que ninguém o imagine, (alto) Nào se 
pode dar uni passo sem que os jornaes o declarem. Sào 
os besbilhoteiros da vida alheia. Desejava viajar incógni- 
to, mas os jornaes... 

juuo— O que peço a v. cx.« é que veja com attenyiio o 
meu projecto. 

gervasio— (aparte) Agora é que vae ser o bom e o bo- 
nito, (alto) Com muita satisfação, (aparte) Vou prevenir o 
asuo do Leonardo, falto) Já venho. 

juuo— Peço a v. ex.* a fineza de apresentar os meus res- 
deitus ao seu sócio. 

gervasio— (aparte) Meu sócio! (alto) Ah! sim, com mui- 
to gosto, Passe muito bem; o que precisar de mim. . . 

julio— Agradeço a v. ex. a . Cbamo-iiie Julio de Mello, de- 



Diaitizedbv 



C^onole 



—13- 

senhador d 'obras publicas, e actualmente sem emprego. 
(com acanhamento) Desejava fazer um pedido a v. ex.» 

gkrvasio— (aparte) Temos encosto! (alto) Diga li. 

ji.'lm— Estou desempregado . . . 

GKKVA.S10— (-aparte) E' o ipie «u diga Não me apanha 
mais de ciuco tostões. 

jilto— Eu não sou ambicioso, fico satisfeito com 500: ou 
600:000 réis... 

gervasio— (aparte) Talvez ainda ache pouco, (alto) Uma 
tal exigência.. . 

juuo— Só se ja tem dado todos os togares..» o meu 
maior desejo era ser empregada da confiança de v. «.xv 

gervami>— Percebo agora. Deseja ser m«u empregado. 

ji lio— Deixo a oscolha <k) logar ao seu justo arbitrio. 

gkkvasio— Será sei*vido, come com um bom logar. Eu- 
goiilieiro. inspector, fiscal, qualquer d>lles. . . 

ji lio— Beijo as mãos de v. ex. a . 

gkrvasio— (Ájjarte; Sou um rei. Até já me querem beijar 
as mãos! falto) Eu já veirhô, âdeús. 

jilio— Tenho a honra de cumprimentar a v. e*.\ 

gervasr.— Aeleis. . . adeus... (me). 

SCENA VU 
Júlio, depois Brazia 

julio— E digam lá que nào ha dia3 abençoados ! Este é 
um d'elles Apanhei posta, e posta graú.la. Vou botar' figu- 
ra; vou ser um personagem importante. 

brazia— Já todos o sabem. 

jii.io— Estou muito satisfeito. Sou engenheiro director 
da companhia. Que palavra! até fa^ inchar a gente! 

brazia— Felicito-o pela sua nomeação ; mas tome coita 
nào inche mnito, lemhre-se da rã dà fabula. 

jri.io— Adeus, vou trabalhar, (*ae). 

brazia— Ficou tolo tolo com o emprego! 

SGBNA VIII 

Brazia e Leonardo 

lf.onardo— (vestido ridiculamente) Estou mais janota que 
o deputado cá do circulo, (reparando em Brazia, aparte) 



r Digifeed by VjOOQLC . 



— 13- 

<SMá, a pequena da estalagem, e é bem boa! Se en mo ati- 
rasse... Nada, na minha elevada posição -seria ridículo. 
(alto) Vem cá. f aparte) Adoro esta peou»*rU''ha: voii-mr* d<;- 
<?larar, já me não importa com a minha posição. ( faz- lhe 
trejeitou com a cara) Sabes o que ca quero dizer? (pisca os 
olhos) He para bem ... 

BRAzn~Tem comirkão nos olhos. 

Leonardo— {aparte) E' estúpida, não entende! falto, ele- 
vando os olhos ao teclo) Entendes agora? > 

finxzfA — Entendo, o tecto preefcta caiado. 

Leonardo— -(aparte) tal systeina do patrão, pode ser 
muito bom. mas não me entendo com elle.* (alta) O que eu 
te queria dizer é : qúeés muito bonita; eqiie gosto muito 
de ti. (dá lhe um grande abraço) Viva a fainha da bèlleza! 

BRA35ÍA— Deixè-me, qne meu tio está-thea chamar, (ou- 
ve~se chamar Brdzia em ditos berros). <■ -- : 

Leonardo— Vae, anjo ádorad). (Brazia saej: ' 

SCENA IX 
Leonardo e Júlio ,,; 

Leonardo— '(aparte) Por cansa da creada- ainda faço as- 
neira, (vendo Júlio) Quem será este lypo? . ■ • 

jutio— (aparte) Esto é o socío. (áltô) Já tive a horrrb de 
cumprihientar o seu companheiro, que julgo terá faltado 
cotii-v. ex. af a 'meu respeito. 

leonardo— Já me disse tudo. 

jvUQ~(d«kdo*thv os papeis^ Aqui trago os dèíienhos pa- 
ra lhe mostrar e pedir* lhe a sua opiuiào. Aqui tem o rela- 
tório sobre as escavações s nos jfotafbs elevados. . . 

Leonardo — (vendo os papei* e aparte) Deus queira elle 
não perceba que nm s'ei b?r .'"fdfto) Está tudo milito bem 
feito; o sr. é um talento, (dá-lhe os papeis) Heparei em tu- 
do. . í -..••:■ 

julio— (estendendo um qrandè mappa soltre a meza) Quei- 
ra ver aonde 7 sé dèverti fazer 'modificações no traçado. 

leonardo —(ávàiHe) Que grande estopada I Mas eu ras- 
po-níe. (Sae hòs bicos dos pés, sem Julio dar por isso). 

jixio— Este mappa de toda a linha divide-se por zonas. 
terreno dá-nos mais facilmente. . . (reparando qne está 
tò) Safou-sef não me parece muito delicado. Dou-me me- 
lhor com o outro, a quem tudo explicarei. 



yGooçle 



SCEXA X 
Jcua, o Regrdor, o Vereador, depois Francisco 

julio— Ora viva o sr. regedor. 

regedor— (dando lhe pouca importância) Viva, sr. Júlio. 
Cá estamos eui eommissào* faka apenas o Francisco para 
apresentarmos os nossos respeitos aos dois. beneméritos 
que honram hoje st nossa terra eotn a sua presença. 

jnLio— Fiquem sabendo que fui nomeado director em 
chefe da construcção. 

vereador— Muito* parabéns. 

regedor— Apanhou, seu brejeiro ! O npsso Júlio mere- 
ce-o, porque é um rapaz, de muito merecimento. Disponha 
sempre do meu fraco préstimo, (aparte, a Juho) Conto com 
o amigo para uma pretençâosinha . » . Nâo serei ingrato. 
(alto) Ora até que chegou o sr. Francisco. 

vhancisco— (entrando) Saúde, paz e patacos, que nâo se- 
jam falsos. 

regedor— Está prompta a grande e patriotrica commis- 
são. Fiz um discurso digno de Ri?be)ieu; mas para não me 
esquecer escrevi-o aqui no punho, (mostra o ounho escripto) 

Francisco— Boa iitei%. (aparte) fla de ser bom o tal dis- 
curso, escripto por tal alarve! 

regedor^-Fiz , isto, para aio se tomar o dar a troca que 
se deu o anno passado, no meeting por causa das eleições, 
que em logar de dizer que acataria o governo constitucio- 
nal, disse que o atacaria, (gargelhada^geral). 

julio— Elles abi vem. (aparto) O regedor vale um di- 
nheirão. 

SCENA ULTIMA 

Os mesmos, Gervásio e Leonardo 

gervasio— fen/ríwdo aparte) Elles comigo, (alto) Tenho 
a honra de o cumprimentar. . . 

juuor^Sào as auctoridades da terra, que vêem. . . 

Gervásio— (aparte) Metlei -uos ua cadeia. 

julio— Apresentar os seus respeitos a v. ex." em nome 
d'esta população digna, honrada e leal. 

gkrvas lo^(áparte) Isto hade ser bonito, (alto) O prazer 
{\\w sinto ó immeií&o, assim como o jubilo que me iuuuda 
a alma... 



A 



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-45- 

Francisco — Nós é que sobremaneira estimamos... 

HKGi&DtoK—fàparÇj Falto eu, oh qhr?i algum carro! (alto) 
Cavalheiros dignos (ol Rapara o punho da camizaj. 

GKRYAsro — (aparte) Tomos asneira. . . 

regedor- (J.pvo d'esta povoação popular... 

lkonardo — (ap&rte, rindo) Que data de asneiras. . w 

gervasio— f6/;izo a Leonardo) Queres que a gente vá pa- 
rar á cadeia! Calla-te com um milhão de diabos ! 

regedor— (com fogo, gesto* k*ga 4 voz grossa) Popularisan- 
do os homens celebres, que presentes se acham entre nós, 
e com jubilo,., qjoe ofi abraça, e JhedesejA toda3 as ventu- 
ras de que são dignos, em companhia ;da* illustres famí- 
lias, se as Untai, e se sàq celibatários,, então em companhia 
da pátria, que é a mãe, e por conseguinte a parenta mais 
próxima de todos nós.. . (limpfiwto & mor) Rate pátria que 
tào desprezada tem sido, esta pátria de heróes. . . esta pá- 
tria... 

todos— Bravo, bravo ! Viva o ar; regedor 1 

gervasio— (aparte) Estamos arranjados. . 

REGKDuHr-QUjgado ueia .ovação. Mas como ia dizendo... 
esta pátria que eu aqui represento, como primeira auctori- 
dade.» . esta pátria determina, qut) sendo eu o represen- 
tante d'el|a, venham todos na minha companhia. . . 

gkrvasio — Mas para onde f 

regedor— Para a minha pobre choupana, onde. serão 
tratados coimo meus, filhos dilectos. 

FRANcisco—Sr. regedor, eu Umbem sou Alho da pátria, 
e acho injusto jque. me queiram palmar os meus iliustres 
hospedes. 

vereador— A casada Gamara está às ordens de v. ex". 

rkgiçdor— Eu sou aqui a primeira auetoridade, represen- 
to ei-rei o sr. D. Luiz, e visto que aqui não ha palácio real, 
é em minha casa que se devem hospedar. . Ji toca a mar- 
char, que .são horas; a ceia nos espera; (agarra Gervásio e 
Leonardo, cada wh j>or seu bra^o) .Vamos, é marchar! 

FRANÇisçQr=-íCutào p sr. regedor lera-aue os hospedes? 
regedor-— Em nome d'el-rei, em nome da #a4ria> em ner 
me do povo, Içvo- os, cproigq, j#ra aspirem ás grandes 
festas que vao sèr dadas em sua hourá. Vamos a cauuV 
nho! (grande ^balbúrdia, todo* querem sahir ao mesmo tempo; 
o pantw desce com rapidez). .. ;. 

FIM DO PRIMEIRO ACTO 



yGOQgl 



— Tfl- 
AOTO SEGUNDO 



Uma tala reanlar á antiga, em rasa dn reaeâhr ; pertos ' ao 
fundo, janetías e porias á direita s á esquerda. Mobília tos- 
. <a e antiga, ete. 

SCENA I 

Annica, GiorvASio, Leonardo, Regedor Iituc. 

Francisco e VkrraOOR (estão todos á mesa comendo e 

bebendo. Muita algazarra* Faliam todos). 

Francisco— A' «ande dos nossos ii lustres hospedes ! (to- 
éos bebem). 

gkrvasio— A gradeço, meus senhores. 

rkgkdor— Bebo á saúde dos regeneradores doesta terra. 

julio— Bebo á «rode dos progressistas d'esta terra. 

«BRVÀsio-^bebo é saúde dos tépobli&mos d'esta terra. 

FRANciscxv*^Bebo á saúde dos constituintes dVsta terra, 

gkrvasio— Alto, estilo intfluHos nos regeneradores. Já 
vejo que n-Vísta mexa estão representados todos os partidos 
políticos, (mtrita animação; bebem todos). 

rbv.kdor— Sào liofras de partirmos. 

gervasio— (aparte) Kslou arranjado. s Yímrftfóm«& todos, 
menos tronarão que cfmtmna ' a comer) ' "• '.' 

•prancisco— As orderts^dè v. ex* está um eatallo purís- 
simo. 

«krva^io '(áparié)* Temos trambolhão! 

treORDoR— Vamos a isio tiíeús senhores, afó já. (sae com 
Francisco eo vereador). ' * ,v • « - 

grrvaskv— Até já: ■-->»: < • . «••> '■• • 

juuo->-Agora era tão boa occasiào ddr. es** examina- 
rem os meu» trabalhos; pouco falta nara concluir. 

Gmvmo-fâparte) E&comtfititigffdò. fô/foj Só Verei quan- 
tto estiver concluído. 

jclío— Como quizer; Agora rètiro-me por alguàs minu- 
tos. f*w/ 

annica— Sr. Gervafio, estou completamente ao seu dis- 
por, (levantam a mezcl) Tenho muito prazer em ò servir, é 
só pedir por boca... (aparte) Sinto o meu facatás por es- 
te homem, (sae direita). 



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-47 — 

SGENA II 
Gervásio e Leonardo 

6KRVAS10— Eu rebento ! í)óu urií^stoiro maior do qufr 
uma peça d'artilheria! 

lkonarimv— E sabe alguma cousa. do» sr. Jacioto ã> Goa- 
veà? O que descobri*»? .«, 

gkrvasio — Nada! K que tempo temos nós, se temos pas- 
sado a vida a comer. Vulta a meia, a uieza posta ) Es! a 
gente imagina que as pessoas ricas levam toda a vida a 
comer. Se ao menos a comida fosse boa, mas nada ! Car- 
ne de porco assada ao almoço, ao lanche, ao jaatar, á me- 
renda e á ceia. Detesto o tal porco. 

lKonardo— Qual porco? ,. 

gervasio— O que nós romenos ã todas as horas. 

lkonardo— Doesse posto eu. 

GKRVASio— E por epilogo d'esses banquetes pantagruelí- 
cos, uma passeiata a eavallo, eu que nem qiesmo sei moa- 
tar um burro! Vou ficar com os ossos n f um feixe. 

lkonardo— Isso é cobardia! Aperte -lhe bem as pernas. 

okrvasio— Falias bem, mas eu á que não me entendo 
com eavallos! Nada, decididamente nào monto. . . 

Leonardo— Com essa teimosia vae fazer com que descu- 
bram que nào somos quem elles julgam; e que nos vão ao 
peito. 

Gervásio- Tens razão! Tenho que me sujeitar a tudo, por 
amor das eostellas... 

SCENA III 

Gervásio, Leonardo e Regedor 

regedor— A comitiva espera respeitosa e anciosa a pre- 
sença de v. exA Infelizmente os deveres afficiaes do meu 
cargo não me permiltem que o acompanhe. Recebi diver- 
sos olhcios importantes, e entre elles um que me diz que 
o Governador Civil, meu augusto chefe, chega em breve a 
esta teria. Que honra! Que! inuuensà honra! 

o rvasio— E* verdade, que aiti.ssiiua honra para esta 
terra. (à[nniej Cada vez se torna mais horrível a minha 
situação! 

ruJld^r - Que detenijiua v. ex.*? 



yGooQle. 



— !S- 

gervasio— ~A caminho f (aparte) Offereço-te o sacrifício 
da minha vida, Valeria, vi-la minha J (baixo, a Leonardo) 
Se eu morrer, manda enterrar o msu cadáver e vae con- 
tar a Valeria que arrisquei a vida por causa ..d'ella. 

LvmAjm-^fbaixo) Naò lenha medo! Os hoiiiens são bru- 
tos, mas boas pessoas. 

GKftvAsio-^NãD tenho- niedò dòs hón}en^»mas.sUndòs. 
cavados. (soe com o regedqr). 

SCENA IV 

Leonardo (sô)j ; depois Âwick ,..*'.' 

Leonardo— Que consideração com que nos tratam. ; pa- 
rece que somos pessoas reaep f Se elles advinbassém . . • 
Isso sim, ttmos typõs de homens sérios, ninguém é capaz 
de desconfiar. . . 

annica— -(mirando) O seu amigo sahití? 

Leonardo— Ha pouco tèmpu. 

ANNicA—O sr é muito ámigó d v elíe. .Diga-me, é casado? 

Leonardo— Quem, eu? 

annica— Não, o seu amigo: ' 

lbonardo— Estamos aqui para isso. 1 ., (aparte) Bonito, 
lá me ia desfcòzendo. 

annica— E* solteiro? 

leonardo— (com emphaee) Temos a honra de ser soltei- 
ros. Até logo, liiinhá senhora, vòu estudar uma operação 
bancaria... (aparte) Isto é uma rica vida.' comer e dor- 
mir; já comi, agora vou dormir. , (cumprimeiíta com impor- 
tância e soe). 

SCENA V. 

Annica e Regedor 

ANNtcÀ— Que talento! Que elegância 1 Que maneiras I Á 
leguá se conhece que sãohoniens tía rriáís alta ^òsicãb so- 
cial, (pondo comicàrneni e d níãò solve ô' cófçifuo) Àh f cora- 
ção indísérèpio! palpitas cótn vioienciát. . . amas osympa- 
thico e ideal Gervásio. ' - ; .' 

reged K-(eniratido) Isto de ser ti primeiro entre os pri-. 
meiros cá da terra, tem ! que selhe diga. Tenho sempre 
que fazer, não chego para as encomendas. Se me chama- 
rem, estou no meu gabinete, (sae, í)!). ' ' ' 



f^itized by 



— 19- 

ànnica— Pois sim. OU ! Deus queira não se demore o 
meu adorado. 

SCENA VI 

Annica e José Pinto 

pinto— (entrando) Preciso fallar ao sr. regedor. 
annica — Está trabalhando no seu gabinete.. 
pinto— Tenho <jue lhe dizer. 

annica— Vou já. (aparte) t Também não desg09to d'este. 
(sae, D.J. , 

SCENA Vil 

Pinto (só), depois Regedor 

pinto— Tenho pena que saibam da minha vinda. Natu- 
ralmente hesbilhotice d 'algum jornal. Segundo disseram 
ao meu cocheiro, preparam -se grandes festas ! Embirro 
eom estes espalhafatos que nada significam. Pedirei ao re- 
gedor para que nada se faça. 

ííkgrdoíí— (entrando) Descuipe a demora. Com as festas 
ando n'uma,dobadoira, não lenho um momento de meu. 

pinto— Pròèurei-o por causados festejos. 

begbdor— Já percebo, vem ver as fesías. Com franque- 
za nade gostar. Desde que chegaram os directores, ainda 
não parei. 

pinto— Os directores! E quando vieram? 

regedor— Hontem. , 

pinto— (aparte) Apodefáfam-sc do meu nome, os pati- 
fes I 

regedor— Foram ver o terreno. 

pinto— (aparte) Essa não éraál;. . ♦ . 

regedor— V. ex."é amigo d^llès? '.. /. 

pinto— Muito, (aparte) One grantfés pitife&T 

regedor— tím pouco tempo deyetn es(ar de volta. Ago- 
peço desculpa, prenso o' ir á Câmara. " 

pinto— irei também dar un^a . volta,- (ápar^JJIsJou mor- 
real; por conliecer o inou outro eu, o meu Sócia. 

regedor — Os amigos dos nossos amigos, nossos. amigos 
sào; por is-o escusado é diV/er que estou ao seu dispor. 

pinto— Penhora- me a. sua deapad^za. Até log<?. (sae, F.J. 



yGooçle 



-20— 

SCENA VIII 

Leonardo (só), depois Gervásio (com o fato wqo r 
chapéu amachucado e á calça rota no joelho). 

leonardo— Sonhai que estava ira cadeia. 
gkrvasio— (entrando) Os diabos levem o caminho de fer- 
ro e todos estes brutos! 

LEONARDO— EstàO qHC foi? 

gervasio— Aconteceu o que eu tinha diio. Escarrancha- 
ram-me n\im cavallo preto, tjúe parecia deitar fogo pelas 
ventas: um cavallo ao qual o dono tinha posto o engraçado 
nome de vapor. Partimos; no fim de meia dúzia de passos 
perdi os estribos e tive qné me segurar às crinas. D*ali a 
instantes estava esteniddo num enorme lodaçal. d*onde 
sahi como vés. Á vista d'isto trocaram -me o cavallo por 
um bui'ro cego e coxo, mas ainda assim cahi uma dúzia 
de vezes. E aqui estou eu mais morto do que vivo. Depois 
aquelles excommúngados sempre a comer; no caminho of- 
fereceram-me quatro banquetes. Vime tão desesperado, 
que estive quasi a declarar que nãe era o que parecia. 

leonaroo— Estávamos felizes. 

Gervásio— Olha, sabes que mais, váe arranjar as baga- 
gens, porque nos safamos já. Estou farto de arriscar a vi- 
da sem graça nenhuma. \ 

leonardo- Vou u'i]m pklo. (soe, E.). 

Gervásio— Se escapo d'esta, muito heMe contar, (repa- 
rando em Annica que entra) V. ex. a por aqui! 

SCENA IX 

Gervásio e Annica 

annica— Então gostou do passeio? 

gervasio — Nem por isso. 

annica— Estava anciosa pelo seu regresso, (aparte) Nao 
está mais na minha mão; sinto por este homem o coração 
aos tombos. 

gervasio — (aparte) Sempre me deita uns olhares tão jer- 
Uus! (alto) Muito obrigado. 

annica— V. ex. a gosta desta terra? 

GERVÁSIO— Milito. 

annica— Puis aómira, costumado a Lisboa. 



yGoógk 



— 21- 

cervàsio — Lisboa é uma cidade como qualquer outra. 

annica — Não diga isso* Lisboa são os meus encantos, o 
n:eu ideal. Quem ore dera lá viver... 

Gervásio— K' possivel que v. ex. a ainda para lá và, na 
companhia d'um esposo adorado. 

annica — (olhando-o com ternura) Oh ! quem dera. 

gervasio— E' o que* eu digo. . 

annica— Porque não casa. sr. Gervásio?... Deve haver 
urna mulher que o ame muito... 

gervasio — Ku, casar... (chamam dentro por Annica) Cha- 
mam por v. ex.v 

annica— Naturalmente é por causa da ceia. 

gervasio— (aparte) Mais comida. E' impossível quo não 
apanhe alguma indigestão, (a Uo) Podeis ir, nada de incoin- 
n iodos por minha causa. 

annica— Kntào adeusinho, até logo. 

gervasio— Ás ordens* de v. ex. a . 

annica— (aparte) E' encantador este homem: sinto o co- 
ração aos pulos. (*ae, fundo). 



SCENA X 
Gervásio, Leonardo, depois Regedor 

gervasio— Estava a ver quando ella me declarava o seu 
4 mor. UV verdade que não Lem mau gosto; eu não sou pa- 
ra desperdiçar. Mas silencio, coração rebelde, só devo pen- 
sar na virg rii dos meus sonhos, na adorável Valeria. 

Leonardo- f entrando) Tudo prompto. 

gervasio— Teca a safar, antes que nos impinjam a ceia* 

leonardo — A minha opinião é que devemos esperar pe- 
a ceia. 

gervasio— Já quem* comer outra vez? Safa! que bruto! 

lkonardo ápnrte) Bom o vejo. 

regkdor — (entrando) Estou louco de alegria ! Que festa, 
jue gralRle festa! Só foguetes comprei dez dúzias! iian lei- 
;Hyior toda a parte 1 Arcos de buxo, galh.-.níetes ! Ním 
is%sias do Gamões e do Marquez de Pombal em Lisboa! 
i\\ cã sou oSm:.o.. í.sp^raní-se £r.;iiJes ovações] Aluguei 
•em homeiv. cuni vo/.es valentes para dareni vivas a quem 
leierminar. 

UKRVA5io--Goní irnmensa magoa lhe declaro que nego- 



— 22- 

cios da mais alta importância me chamam immedialamen- 
te a Lisboa. . . 

regedor — Isso uao consentirei eu. Depois de se ter gas- 
to um dinheirão nos festejos ! Kspero que se demorem eã 
três ou quatro dias. Nào o deixaremos partir de maneira 
nenhuma. Os festejos sao jà ião fatiados, que ha pouco che- 
gou um seu amigo de Lisboa, para assistir a elles. 

Gervásio— Um amigo rneuJ 

regedor— Sim senhor, disse que era muito seu amigo. 

Gervásio — (aparte) Estou arranjado! 

Rrc.Fnínr (aparte) Olhe, elle ahi vem. fapparece Pinto 
ao fundo). 

gewv \*io- (aparte) Se me podesse safar! 

regedor— V. ex. a pode entrar. Aqui está o sr. Gervásio. 

SGENA XI 

Os mesmos e Pinto 

pinto— Como está, sr. Pinto, amigo velho. 

gervasio— (muito assustado) Graças a Deus, menos mal, 
obrigado... 

pinto— (a Leonardo) Estimo. . . e o amigo bem? 
* leonardo — Muito bem, muito obrigado. 

gervasio — (baixo a Leonardo) Não desconfia de nada. 

pinto— Estimo eneontral-o, pensei já não me conheces- 
se... 

gervasio— Ora essaf 

pinto— Aquelles nossos negócios na praça. 
• gervasio— (áparle) Só se foi na praça da Figueira! 

pinto— Venha um abraço, (abraça-o). 

regedor — São muito amigos? 

pinto— Muito. Já sei que vieram percorrer o caminho. 

gervasio— Viemos, (aparte) Dizem elles. 

pinto— (aparte) Estou com dó d 'elles, parecem pouco e«- 
perio>. (alto/ Eu desejava alguma empreitada, ou concor- 
rer ao concurso, se o abrirem ^ 

Gmv.\<io -(ápariff-j Valha-me Santo António ! (alto/"Sòs 
não abrimos concurso. 

p \rj— Desejava a empreitada do kilometro 18. 

leonxrdo— {baixo, a Gervásio) Veja o que lhe responle. 

g-íhvnsio— (idem) IVix .-;- 1 comigo, (alto) Pensarei s^nv 
o s.íu pedido, pois um peiido de tal ordem, é pedido que 



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-23- 

precisa maduramente pensado... pedido que. . . pensa- 
rei. . . pensaremos. . . 

pinto— Desejava também saber se terá de se fazer algum 
ninei? fe 

gervasio— fmtri* atrapalhado) Sim, terá de se fazer um 
túnel debaixo do- chão, afim do comboy passaj? pur cima 
do túnel, ou quer dizer por debaixo do chão. . 

regedor— Tenho que dar algumas ordens, e loii.o venho. 
(aparta) Vou escrever uma correspondência para o «Diá- 
rio de Noticias», narra tido as festas, (me). 

pinto— -Abaixo as mascaras, 

gervasio— (assombrado) Que diz ? 

pinto— Conheço o seu ínfatne proceder! 

gkrvasio— Faliu baixo, senhor. 

pinto— O seu procedimento é indigno !... Não calculam 
quem eu seja?! 

gervasio— Não podemos imaginar, (caindo de joelhos) E' 
o Governador Civil? 

pinto— O sr. e eu somos um só* 

gehvasio— Chama-se?. . . 

pinto— José Pinto. 

gervasio— Agora comprehendo tudo. Sr. Pinto, perdoe 
pelo amor de Deus. 

leonardo— Perdoe, seu Pinto. 

gervasio— A culpa não foi nossa. . . 

pinto— (rindo- se) Percebo, tomaram- n'os por mim. 

gervasio — E* verdade, mas. . . 

pinto— Devem- lhe ter feito muita festa. 

gervasio— Immensa, teem-me posio em salada. . . Eu 
digo a v. ex.» como tudo se passou. 

pinto— Não é preciso; advinho tudo. Rrtgo-lhes a fineza 
de continuarem a fingir que sou eu. Quero guardar o incó- 
gnito... 

gervasio — E faz muito bem. Senão obrigam-n'o a comer 
a todo o momento, e sempre a mesma cousa, carne de 
porco. 

pinto— E eu então que padeço dô estômago. E' preciso 
muito cuidado que nao descubram a marosca; senão iri- 
am parar á cadeia. 

gehvasio— Valha-me Deusf 

pinto — Eu mn vista de negócios importantes parto ho- 
je para Lisboa. 

gervasio — (aparte) Que pechhxha! 



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— 24- 

pinto— Amanha á noite devo estar em Coimbra. 

gervasio— Também eu preciso ir, vou c;i«ar. • 

pinto— Tem graça! Pois eu casei lá ha uni mez. 

gei-.vasio — ÍCiii Coimbra? 

plnto— Sim, eom uma senhora de Lisboa, chamada Va- 
leria na Silveira. 

gekvasto — (aparte) Estou morto! (desmaia em cima de Leo- 
nardo). 

leonabdo— Não serei mordomo. 

pinto — Afiligiu-se? 

gervasio — (tornando a si) Já passou! .< . E r do calorí. . . 
ff i2 arte) Tinha graça, se lhe digo o fim da minha viagem. 

pinto— Estimarei as melhoras, e até logo. fsae). 

gilrvasio— Adeus. . . sou muito desgraçado ! li* preciso 
fugir immediatamente. 

leonárdo— Ahi vem a sr. a D. Annica. 

gervasio— Toca a safar! (vendo Annica) Até já, vou com 
Limita pressa, (saem ambos pela E.). 

^SCKNA XII 

Annica, Hkgedor, e Gervásio (espreitando da porta) 

rkgedor— Annica! 

annica— Que mandai 

RKGkDf r— Está tudo prompto ? E' preciso matar os pa- 
tos para amanha. 

annica— Tenho muito dó! 

regedor— Deixa -te de pieguices. 

annica— Mato só um? 

regedor— Faze lá o que quizeres. Eu vou sahir ; acabo 
de s;»l cr que alguns descontentes me preparam um dissa- 
bor Mas cuidado comigo, que sou feroz í {dando um mur- 
ro nu weza) Comigo ninguém brinca! 

ge vasio— (aparte) Valha- me Santo António."" 

regedor— Juro que use heide vingar. A mim ninguém 
me engana in punemepte. Já sei quem sào os taes inalau- 
dnwi. 

gervasio — Yão-me ao pello. 

regedor— Adeus; nào esqueça o nossa combinação. 

geu vasio— (aparte) Que combinação será? 

regedor — Gomo tens dó, mata so um. 

gervasio -(acarte) Malvado! 



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— 25 — 

RFGEDOR- Mala o mais Vfllm. 

GnivASiu— {aparte; mais velho sou eu ! 

regedor- Da-ihe bastantes copos d'aguardente de Hes- 
panha. e depois. . . 

annica- É eu* que lhes queria Unto. 

gervasio— Coração d'ouro. 

regedor— Deixa te de asneiras, é preciso matal-o. Ho- 
mens como estes merecem até muito mais. 

gervasio — ( aparte) Canalha! (esconde-se). 

regedor— Adeus, (me, F.J. • 

SCENA XIII 

Gervásio e Leonardo 

gervasio— (assustado) Fujamos, sem perda de tempo! 

Leonardo — E' verdade o que disse? 

gervasio— Estás em perigo de vida. Querem matar o 
mais velho. 

leonardo— Então é o sr. 

gervasio— O melhor é fugirmos já. (olha por todas as 
portas) Não vejo ninguém, toca a safar, sem demora, {di- 
rige-se ao Fj. 

leonardo— Por ahi apanham-nos. . . 

gervasio— Tens razão. Fugiremos por aquella janelia que 
deita para o pateo. 

leonardo— E para já! (vae para saltar). 

gervasio — Não, primeiro eu. 

leonardo— Não se demore, que nos podem apanhar. . . 
(Gerúasio salta, Leonardo quer imital-o. Ouve-se ladrar um 
w). 

' ^rvas io— Larga, urso, larga, (torna a entrar pela janel- 
t>or aqui não se faz nada, à cão parece ter fome, que- 

vme devorar. 

leonardo— E agora por onde fugiremos? 

gervasio— Por aqueila porta, descemos ao jardim e pas- 
semos o pé. 

leonardo— Tomara já ver-me na rua . . . 

gervasio — E dois. Toca a safar, (vão para a porta quan- 
do apparece Annica com uma garrafa e copos). 



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— 26 — 
SCKNA XLV 

Os mesmos e Annica 

annica— Eis- me de volta. 

gkrva sio— [aparte j Que grande lesma! 

Leonardo— (aparte) Maldita ! 

annica — Aposto qne já tem appetite. 

Leonardo — (aparte j Eu Cenho. 

gervasio — Agora Dão tomo nada, agradeço, (aparte) Se, 
mo>trando-me apaixonado, podesse escapar á sorte que- 
ine espera. Experimentemos... 

annica— Só um copinho... Sr. Gerva/k), rogo-lhe que 
aceite. ' 

gervasio— (baixo a Annica) Sereis capaz de tal, querida 
Annica? 

annica— Que diz? Querida Annica? 

gervasio— Sim, querida, porque te amo, nao posso yi- 
ver sem ti. 

annica— Oh ! meu Deus f Como sou feliz. 

gervasio— Sei tudo. 

annica Tudo, que? 

gervasio— Escutei á porta, e tive a prova do teu amo- 
ra vel coração. Escutei a opposiçào que fizeste ás ordens 
de teu irmão. 

annica— Agora percebo. E sabe só isso? 

gervasio — Só issol Aposto que não serás capaz de fazer 
tal morte. 

annica— Eu nunca Bem sei que nem todos são assim ; 
mas não tenho mais na minha mão, adoro os animaes, * 
então aquelles que eu vi nascer. . . 

gervasio— O que! de que falias? 

annica— Dos patas! 

gervasio — Oh! felicidade! 

Leonardo— Oh! ventura \ 

annica— Que quer dizer esse nome —Felicidade? 

gervasio— E' o nome de minha mãe. 

leonardo— E Ventura é o de meu pae. 
annica— Bem percebo, (baixo, a Gervásio) E' então cer- 
to e verdadeiro o teu amor? 

gervasio— (baixo, a Annica) ítepara no meu amigo! 
nica— Agora reparo. Não te esqueças de me pedir a 
irmão. 



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, — 27- 

gervasio— Fira desbancada. 

annwa— Até logo, nioxi "anjo, vou á eosinha. (%ae. E.J. 
gkrvasío— Adeus, minha pomba, (aparte) Forte tola I 
leonaroo— -Tem graça ! 

SCENA XV 

Gervásio, Leonardo, Regedor, depois Pinto 

regedor— (entrando) Venho satisfeitíssimo. Ôs festejos 
são deslumbrantes. Os meus adversários políticos é que 
«stão desesperados í Andam a dizer que hãode apedrejar 
os directores, que estão em raiana casa ; mas eu estou 
alerta, e a cousa nade sahir-lhes cara. . . 

pinto— (entrando) Tenho a honra de os cumprimentar. 

gkrvasio— A honra é nossa, (baixo, a Pinto) Tenha dó 
de nós, querem correr-nos á pedra! (faliam baixo). ■ 

pinto— Venham comigo, que já tenho o carro prompto. 

gervasio e Leonardo— O sr. é um anjo! 

pinto -(dà um oficio a Gervasio) Este officio servirá de 
pretexto para se safar. 

gervasio— (aparte) Ohrigado, meu Deus! 

regedor— fsahindo dajanella) Que grande illuminação f 

SGENA XVI 
Os mesmos, Francisco, Vereador % Julio 

. Francisco— Tudo concluído. 

vereador— Que rica festal 

julio— (a Gervasio) Aqui está tudo para v. ex.* ver. . . 

gervasio— Depois vejo, estão muito bons. 

julio — E' favor de v. ex. a . 

gervasio— Meus senhores, .com o coração a verter pran- 
to, tenho a honra de lhes dizer que me retiro já. . . 

regedor— Isso nunca! 

vereador— E' uma desfeita!. . . 

julio— O povo levaria a mal. . . 

pinto— Ha nttgocios de tal transcendência. . . 

gkiivasic,— Acabo de receber este officio. . . em que sou 
•hamrufo ao paço. O ministério estan.io em crise, pediu a 
demissão, e estou nomeado presidente do Conselho e mi- 
nistro da Fazenda. 



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- 28 - 

i todos — Viva o $r. ministro ! (todos o cumprimentam. Mui- 

ta animação). 

SGENA ULTIMA 
Os mesmos e Annica 

annica— (aparte) Presidente do Conselho de ministros, 
; /^ e ministro d# Fazenda ! (alto) Então ja se retiram? 
L leonalido— Neste mesmo instante. 

annica — (41 Gervásio) l)eixas-me, rneu anjo ? 

Gervásio— fápa rle) Depois volto, para casar comtigo. . . 
(alto) Meus senhores, nunca me esquecerei. . . (ouve-se ai- 
y gaznrra de povo e uma phitarmonica desafinada, aparte) Es- 

ta agora só pelo diabo ! 

pinto -(aparte) Maldita muzica ! Que desafinação ! 

regedor — (â janelta) Chega a banda! O povo deseja cum- 
primentar a v. ex.*. (muitos vivas, avena muito animada). 
/ Gervásio - Obrigado, meu povo, obrigado! (a muzica pa- 

ra. Ouvem-M v<>zes de — morra! — Gervásio leva a mão á ca- 
beça gritando:) Estou perdido i 

todos— O que foi? 

Gervásio— Um pedregulho que me partiu a cabeça! 

regedor— Foi obra dos meus adversários polidos, (van- 
timia o povo em grande grita chamando os directores). 

pinto— (a Gervásio) Ò povo chama -o 

Gervásio -São capazes de tue matar á pedrada. . . 

pinto— (baixo, a Gervásio) E'.mais um sacrilieio que não 
pode evitar. 

gervasio— (dirige-se á janella com medo) Poríugnezes e 
meus concidadãos. . . (muitos bravo* e vivas) N'éáte mo- 
mento sagrado e solemne, faltaria ao mais sagrado dos de- 
veres, a gratidão, se não deixasse de vos dizer «Adeus !» 

todos —Vivai viva! 

regedor— Que talento ! 

gervasio— Adeus, meus senhores, obrigado por tudo; fi- 
co sempre ás suas ordem*. 

annica— (aparte) Até breve, senhor dos meus olhos. 
"■■ gervasio— Até brtívtv anjo querido, (aparte) Nunca mais 

me tornas a pOr a vista em cima. 

todos— Viva ! viva! (Germsio abraça tidos; a muzica con- 
tinua a tocar; todos acenam com o$ ieriços. Grande algazarra, 
e c<\e o panno I. ç 

FIM DO SEGIND0 K ULTIMO ACTO 



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