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Full text of "Obras. Conforme a ediçao impressa de 1771 e os códices manuscritos das bibliotecas de Coimbra, Porto e Evora; com pref. e notas de Mendes dos Remedios"

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Sobsídlos para o estndo da História da Literatora Portngoêsa 

XXf 



Obras de 
Fr. Agostinho da Cniz 



Conforme a edição Impressa de 1771 

6 os Códices manuscritos das Bibliotecas 

de Coimbra, Porto e Évora 



Com prefacia e nota* de Mendes dos Remedias 




COIMBRA 

FliANÇA yíMADO - EDITOU^ 
1918 



Obras de 
Fr. Agostinho da Cruz 



Composto e impresso na Tipografia França Amado, 
Rua Ferreira Borges io3 — Coimbra. 



Sobsídíos para o estado da História da Literatura Portugalsa 

XXI 



Obras de 
Fr. Agostinho da Cruz 



Conforme a edição Impressa de 1771 

e os Códices manuscritos das Bibliotecas 

de Coimbra, Porto e Évora 



Com prefácio e notas de JMendes dos Remédios 




COIMBRA 

Fli^ANÇA Q^MADO- EDITOIl 
1918 



V"\\t 




FR. AGOSTINHO DA CRUZ 



I 
O HOMEM 

Dentro de bem poucos meses — precisa- 
mente no dia 14 de março próximo futuro - - 
completar-se hám três séculos em que, quase 
octogenário, mirrado pela doença e pelo rigor 
da vida monástica, que exercera durante 
59 anos, que tantos foram aqueles em que se 
amortalhou no seu hábito querido de Capuchi- 
nho, tendo ainda passado 14 destes na mais 
estreita vida eremítica, mas serenamente, no 
meio do maior fervor cristão, os olhos postos 
no crucifixo que lhe haviam posto à cabeceira 
do seu pobre leito de enfermo e a alma ele- 
vada aos paramos do infinito, no meio das 
oraçÕis que mais que com os lábios, ia acom- 
panhando com o pensamento — se extinguia 
o Poeta, que é o autor desta obra, que hoje 
entra, honrando-a, na série da minha colecção 



Fr. Agostinho da Cruz 



de Subsídios para o estudo da Historia da 
Literatura Portuguesa. 

Extinguira-se num nimbo mais que de poe- 
sia, de santidade. Em volta dos seus restos 
mortais acercaram-se à compita as multidõis 
na ânsia de o poderem vêr, como se essa visão 
fosse uma benção. E nobres senhores, como 
gente do povo, todos queriam o talisman duma 
relíquia desse velho, cujos despojos olhavam 
compungidos, mas que haviam tido a dita 
de encerrar uma alma, que conservara com 
Deus. 

A morte não o transfigurara. O seu rosto 
ressequido tinha o mesmo riso fagueiro e 
acolhedor de quando na Serra encontrava o 
visitante. E era para lá, para esse amado 
retiro, que a sua lira tantas vezes nobremente 
cantara, era para lá, que se resolveu transpor- 
tar o cadáver. O Duque de Torres Novas, o 
Marquês de Porto Seguro, frades, gente do 
povo, todos formaram o cortejo, e dous dias 
após o falecimento, a i6 de Março, por entre 
o cântico solene e majestoso dos ofícios fúne- 
bres, o cadáver de Fr. Agostinho ficava inu- 
mado junto à Igreja da Arrábida, fora das 
grades, do lado da Sacristia. 

Durante anos e anos foi esse um logar pie- 
doso. Não consta que se lhe lavrasse epitáfio, 
que encimasse o humilde coval, mas bem o 
conheciam todos, porque a fama das virtudes 
supria essa vanglória fácil e tantas vezes men- 
tirosa. 



Fr. Agostinho da Cruz 



Mas. . . rodaram os anos, e desde o dia em 
que a vicissitude dos tempos atirou para a 
miséria tantas criaturas, que nenhum outro 
mal faziam senão o de concentrarem a vida 
numa santificação contínua — desde esse dia 
não mais se soube onde dormia o último sono o 
pobre monge. Mostrava-se apenas ao curioso 
ludo quanto dele restava — a caveira (i), essa 
mesma destinada a desaparecer. 

A ignorância e a maldade deram-se as 
mãos para fazerem sumir-se os vestígios desses 
pregoeiros da penitência e tudo, quase tudo, 
desde as obras dos homens às da natureza, 
desde as capelinhas dos monges às estalactites 
e estalagmites das grutas e lapas, — tudo foi 
sendo destruidp e arrazado metodicamente, 
friamente, estupidamente. Pode o viajante 
preguntar, ao menos, onde era a cela, pouco 
menos que sepultura, do venerável Fr. Agos- 
tinho. 

Lá existiu durante mais dum século, conver- 
tida em Ermida (2), mas de nada valeu isso 
para a proteger. Pouco a pouco tudo foi sendo 
derruído embora com os protestos dos raros 



(i) Arrábida, publicação comemorativa... [ cit. na 
nossa Bibliog.], pg. 53. 

(2) Desde 1720. A Ermida fora dedicada a Santo 
António no tempo da Guardiania do Convento nas 
mãos de Fr. José da Esperança. Cfr. Chr. da Arrábida, 
n.° g3, pg. 66. 



8 Fr. Agostinho da Cruz 

cultores do sentimento tradicional, até mesmo 
estranjeiros (i). 

Mas nem tudo se sumio no pó dos séculos. 
Restam do velho Capuchinho as suas poesias, 
chama imarcessivel, que não se extinguirá 
nunca, e que, enquanto durar a lingoa em que 
ele traduzio as emoçõis do seu espirito de 
eleito, serão amoravelmente lidas e recor- 
dadas. 

Quem era este Poeta que conciliou sempre 
em volta do seu nome a enternecida admiração 
de raros ? Vejamos primeiro os traços princi- 
pais da sua vida, depois estudaremos o seu 
valor como escritor e conheceremos o logar 
que de direito lhe cabe na série dos homens 
que, pelo talento de escrever, ajudaram a tor- 
nar imortal a nossa pátria. Fr. Agostinho da 
Cruz não merece o quase esquecimento em 
que jaz aos olhos da nossa geração ; como 
homem é um nobre exemplo de virtudes, como 
escritor merece um logar de destaque entre os 
que como seu irmão Bernardes, como Gami- 



Y (O O Príncipe de Lichnowíky escrevia nas Erinne- 

\ rungen aus dem lahre 1842 ( Mainz, 1843): « Das 

\ Kloster von Arrábida enthalt keine Kunslwerke ; wenig- 

stens ist ieijt nichts davon ju sehen ; seine Poesie ist in 

seiner Geschichte, in seiner Lage und in der Trauer 

eines verwaisten Gotteshauses ». Cfr. pg. 266. 

E um pouco antes : « Nur der bõseste Wille oder 
krasse Ignoran:^ konnten dertei Vermuthungen aufstellen, 
die an Ort und Stelle durch nichts gerechtfertig rver- 
den ». Cfr, pg. 264. 



Fr. Agostinho da Cruz 



nha, Miranda, Ferreira e tantos mais, soube- 
ram cimentar a grandeza literária de Portugal. 



Tratando dele concisamente o seu primeiro 
biógrafo começa : « Jacta-se o lugar da Ponte 
da Barca no arcebispado de Braga de aver dado 
ao mundo o P. Fr. Agostinho da Cruz. . . » (i), 
e o Cronista da Arrábida : « nasceu na villa da 
Ponte da Barca, limitada povoação de poucos 
visinhos... » (2) e condizendo cora ambos de 
dois José Caetano de Mesquita : e A villa da 
Ponte da Barca. . . foi ella onde nasceu o vene- 
rável servo de Deus. . . » (3). 

Como foi perfilhada a opinião por parte 
dalguns escritores de ser o logar do seu nasci- 
mento Ponte do Lima ? (4). Certamente por 
causa do irmão Diogo Bernardes que sem 
maior exame, foi reputado oriundo dessa vila. 
Seria o próprio Diogo Bernardes quem assim 



(i) Jeronymo Cardoso, Agiologio Lusitano, 11, i5i 
( 12 de março ) e 146. 

(2) Fr. António da Piedade, Chronica da Arrábida, 
% >'70. 

(3) Cfr. a Vida anteposta à ed. feita pelo mesmo 
Mesquita Esta Vida saiu em ed. separada. 

{4) Afirma-o o Sr. Theophilo Braga : « Nasceu Diogo 
Bernardes em Ponte do Lima, como elle o declara no 
titulo das Varias Rimas ao Bom Jesus, impressas em 
sua vida em Lisboa ». Historia dos Quinhentistas, 
pg. 244. 



IO Fr. Agostinho da Cruz 

terminantemente o afirmara no título das 
Varias Rimas ao Bom Jesus. Sucede, porém, 
que uma simples investigação conscienciosa 
demonstrou que em nenhuma das ediçôis — e 
duas foram elas — impressas em vida do Poeta 
há qualquer referência à naturalidade do seu 
autor. 

É em ediçõis posteriores à sua morte que 
tal indicação aparece, circunstância que lhe 
tira todo o valor. Quem primeiro exarou essa 
afirmação deixou-se levar pelas muitas passa- 
gens em que o Poeta canta o seu doce Lima, 
não atendendo sequer a outros dados auto- 
biográficos, que das suas poesias poderia colher 
com maior e melhor individuação. Neste caso 
está aquela passagem da Egloga 2.*, denomi- 
nada Flora, que começa : 

Num solitário valle, fresco e verde 

Onde com veia doce e vagarosa 

O Vez no Lima entrando o nome perde ; 

Numa tarde rosada, graciosa 
Quando no mar seus raios resfriava 
O sol, deixando a terra saudosa 

Ouvi huma voz triste que soava 
Tam brandamente ali, que parecia 
Hum rio que com outro murmurava 

Nesta nossa ribeira ambos nascidos (i)- 



(i) Gfr. O Lyma, ed. 1761, pg. 10. 



Fr. Agostinho da Cruz 



Se ambos os irmãos nasceram na fo\ do Ve{, 
o mesmo é dizer, que nasceram em Ponte da 
Barca (i). De resto um só é o fácies da região, 
é a mesma a sua linha estrutural de beleza 
campestre, igualmente capaz de inspirar o 
bucolismo dos dois amoraveis cantores. Pelos 
mesmos sítios passaram o seu período de 
meninice e primeiros anos de infância, de lá 
saíram para onde os acasos da vida os leva- 
ram, bem diferentemente a um e a outro, pois 
a vida de Bernardes desenrolou-se noutro sce- 
nário, sendo mais agitada que a do pobre 
Monge, mas um e outro cantaram nas suas 
pastorais aquela paisagem doce e serena, que 
afinal englobaram na mesma designação de 
€ Lima ». Deixemos Bernardes entregue em 
boas mãos de cuidadosos e beneméritos esme- 
riladores das suas acçóis e merecimentos (2) e 
tratemos nós de quem no momento nos inte- 
ressa. 

Nascido em 1540 vamos encontrá-lo aos 
quinze anos na casa dum dos maiores fidalgos 
do reino — D. Duarte, neto delrei D. Manoel, 



(i) a Basta consultar um simples mapa de Portugal 
para se vêr que é justamente no termo da Ponte da 
Barca que se dá essa junção ». Sr. Hemeterio Arantes, 
Fr Agostinho da Cru:^, pg. 2a ; e Sr. J. Gomes de Abreu, 
Diogo Bernardes, pg i3. 

(2} Sr. Álvaro Pimenta da Gama, Diogo Bernardes, 
apontamentos genealógicos e biographicos no Instituto, 
vols. 57 ( 1910 ) e 58 ( 191 1 ). 



Fr. Agostinho da Cruz 



filho do Infante D. Duarte e de D. Isabel. 
Um ano mais novo que Agostinho Pimenta, 
que esse era o nome de família do futuro ere- 
mita da Arrábida, o Infante tinha a sua casa 
independente desde o falecimento do Infante 
D. Luís em ib55, à qual andara adicta por 
determinação de D. João III. 

Tornara-se assim naturalmente avisado e 
cortesão, como quem de moço fora criado em 
palácio e amado por suas muitas partes dos 
principais senhores deste reino (i). Nesse meio 
de eleição desabrochou e se foi desenvolvendo 
o talento do moço poeta. 

Entre os fidalgos que concorriam aos Paços 
de D. Duarte contavam-se, entre os maiores, 
D. Álvaro, Duque de Aveiro, sobrinho do 
i.° Duque de Aveiro D. João de Lencastre, 
e D. Jorge, Duque de Torres Novas, que o 
Poeta memora nas suas poesias. 

É à Duquesa de Aveiro que ele dedica as 
suas composiçõis místicas, porque as outras, 
arrependido, confessa êle tê-las queimado. 

Os versos que cantei importunado 
Da mocidade cega a quem seguia 
Queimei ( como vergonha me pedia ) 
Chorando por haver tão mal cantado (2). 



(i) J. Cardoso, Agiologio, já cit. 
(2) Cfr. Son. 1° desta nossa ed. 



Fr. Agostinho da Cruz i3 

Foi essa alta Princesa, que se tornou sua 
protectora, que impediu que ele fizesse a esses 
versos religiosos o mesmo que fizera 

... de quantos tinha feito 

Na ribeira do Lima, em tenra idade, 

Por dar algum remédio a meu defeito (i). 

Mais tarde, no seu retiro, poucas serão as 
lágrimas para chorar o que êle chama • os des- 
varios da sua desaproveitada mocidade » (2). 
Sendo os versos da sua última feição os que 
nos restam teríamos a lamentar uma perda 
total sem a intervenção da ilustre fidalga. Mas 
a ela o Poeta obedece vencido da amizade e da 
gratidão. Doente, cruciado de dôies morais, 
nunca lhe faltou o amparo de tão generosos 
protectores, èm cuja casa ou sob cuja prote- 
cção mais imediata e directa êle viveo durante 
o período de doze anos. É à Duquesa que êle 
se dirige f antes de se ir para o Ermo » (3) 
desculpando-se de não ter escrito por falta de 
saúde. Vê-se que êle toma parte em todas as 
alegrias, como em todos os desgostos de tam 
nobre familia, mais, naturalmente nestes, que 
naquelas. Fora êle quem instigara D. Mariana, 
filha da Duquesa, a seguir a vida claustral. 



(i) Cfr. o Son xyvi, pg. i85. 

(2) Cfr. o Sou. xc, pg. 2Í7. 

(3) Cfr. Carta. • •, pg 3 19. 



14 Fr. Agostinho da Cruz 

« Fidalga, rica, fermosa » êle sabe aconselha la 
com moderação a seguiressa vida: 

Se quereis fazer extremos, 

Os que deveis de fdzer 

Só por Deos devem de ser 

A quem só servir devemos. . . (i) 

Numa carta escrita da Serra da Arrábida 
indica-lhe esse caminho como o do verdadeiro 
bem, o da maior perfeição. Se ela não pôde 
c por lhe faltar a liberdade » concluir os seus 
propósitos, não é isso motivo para os abando- 
nar. Descanse, « repouse na divina saudade », 
e que 

Não haja quem te possa desviar 
Do caminho que levas acertado 
Que muitos não quiseram acertar. 

Galcula-se a angústia da desolada mãi quando 
os votos da filha se tornaram uma realidade. 
E ela quem lhe escreve, pela pena do Poeta, 
contando-lhe as amarguras da ausência, que 
não poderá evitar, mas que não tem também 
a coragem de sofrer. Por isso lhe suplica que 

Ambas, adonde vós quiserdes mais 
Havemos de viver, ou nas estranhas 
Terras, ou nestas vossas naturaes. 



(i) Elegia a D. Mariana, pg. 304. 



Fr. Agostinho da Cruz i5 

Mas adivinhando o impossível destes dese- 
jos acaba por se confortar pedindo somente 
a Deos 

Que, ou me tire da absencia o sentimento 
Ou vos abrande vosso coração (i). 

Vê-se, pois, que a amizade que o moço de 
quinze anos soubera grangear naquele meio 
fidalgo em que entrara, veio com o tempo a 
acrisolar-se e robustecer-se. 

Ao lado dos representantes da mais lídima 
raça portuguesa Agostinho Pimenta encontra- 
ria vários intelectuais, dum escol de talento e 
de mocidade : s^u irmão, por exemplo, mais 
velho que êle apenas sete anos, a quem as 
musas sorriam desde o berço ; Pedro de 
Andrade Caminha que desde i556 se encon- 
trava como mordomo-mór da casa do Infante 
D. Duarte; por ventura também o Dr. António 
Ferreira, ligado pela mais estreita amizade 
com Bernardes, a quem lera, no meio de 
enternecido entusiasmo, a sua famosa Castro. 
E outros. Alguns, cavaleiros e fidalgos no 
desempenho de funçõis no Paço dos reis, 
como D. Diogo Lopes de Lima, Comendador 
de Victorino e das Pias, camareiro do Infante 
D. Luís e, depois, como Caminha, do senhor 



(i) Carta que compôs á Duquesa de Aveiro, etc , 

pg. 321. 



i6 Fr. Agostinho da Cruz 

D. Duarte (i), D. Francisco Barreto de Lima (2), 
védor da casa real e cavaleiro exforçado, a 
quem o Poeta tece o mais entusiástico elogio, 
a ambos os quais dedica poesias, cousa rara 
no nosso Poeta, onde vagamente perpassam 
outras personagens — um amigo que não no- 
meia (3), uma pessoa amiga que também não 
nomeia (4), uma tal D. Branca (5), e ninguém 
mais. 

Propositadamente o poeta esquece o mundo, 
os seus prazeres, as suas relaçÕis. Vê-lo hemos 
na concentração, íamos dizer, na absorpçao do 
sentimento divino que o norteia. Fora disso 
êle só aspira a morrer bem, lavando nesse ins- 
tante supremo a sua alma da ganga, que a 
passagem pelo mundo nela por ventura ainda 
deixasse aderente, repetindo com Petrarca : 

Ghe un bel morrir tutta la vita onera (6). 



(i) A este dedica a Ode II, pg. 119. 

(2) Dedica-lhe a Ode III, pg. 121 e a Carta III, pg. 134. 

(3) Vid. pg. 34. 

(4) Vid. pg. 95. 

(5) Vid. pg i3í. 

(6) Gfr. pg. 320. O lindo verso do Florentino entrou 
como um ditado em quase todas as lingoas. Encontra-se 
na Canção xxv. Gfr. Rime de Mess. F. Petrarca. . ., 
Roma, 1893, pg. i63. Outro verso italiano se nos depara 
na obra de Fr. Agostinho, a pg. 124, 1. 2.» Foi bem mais 
sóbrio que o irmão, que gostou de entremear nos seus, 
numerosos versos italianos. 



Fr. Agostinho da Cruz i 7 



Mas que determinou o Poeta a abandonar 
este meio de tam galharda distinção, trocando-o 
pelo isolamento duma congregação afamada 
pela sua pobreza e rigores ? 

Nenhum dos seus biógrafos desvendou este 
misterioso passo da sua vida. « Com todas 
distinçoens, escreve um deles, e commum 
applauso promeitia o mundo a Agostinho 
Pimenta os maiores adiantamentos, e fortu- 
nas ; mas Deus que o reservava para outro 
destino mais alto, lhe fazia entre ellas experi- 
mentar dissabores, e amarguras, que melhor 
excitão o animo para conhecer o caduco, e 
«nganoso dos bens com que o mesmo mundo 
lisongea. Observava elle, que todas aquellas 
amizades unicamente lhe servião para entre- 
ter o tempo que só aproveitaria bem, se o 
occupasse comsigo, e com Deos. Da parte 
dos que lhe invejavão a sua fortuna encon- 
trou emulação : em algumas pretepçoens teve 
o successo menos feliz : os amigos a quem 
se prendia muito estreitamente pela ternura, 
e bondade de seu coração, lhe não corres- 
pondião como elle lhe merecia : tudo isto 
lhe trazia muitas vezes à lembrança, que 
o voltasse de todo para quem lho aceitasse 
seguramente, e lhe pagasse com muita van- 
tagem. 

b 



Fr. Agostinho da Cruz 



a De todos os seus escritos se entende facil- 
mente quanto temos observado sobre os moti- 
vos da sua conversão » (i). 

Percebe-se nestas palavras o que quer que 
seja com pretensõis a responder a uma inter- 
rogação, que todos os espíritos a si próprios 
ham de fatalmente dirigir-se ao passarem este 
váo da existência do famoso Arrábido. 

Duvido que aiguem se dê por satisfeito. Sam 
vagas alusôis, que não explicam nada. Essas 
inferências fazemo-las nós ao lermos várias 
passagens das suas poesias, aqui e àlêm, mas 
pouco podemos avançar desajudados doutras 
luzes, de que o citado biógrafo não quis ou 
não soube tomar conta. 

Temeu, talvez, deminuir o valor moral do 
seu biografado, expondo o vítima duma doença 
de alma, a que nenhum raro espírito pôde 
subtraír-se. Essa doença sofreu-a êle decerto, 
e o abalo que lhe produzio deveria ser enorme, 
para que assim na quadra mais ridente da 
existência abandonasse o mundo num propó- 
sito, que não teve mais quebra na sua vida. 

Dificilmente, é certo, se fundamentará tal 
hipótese nas poesias, que nos restam, e em 
que quase só se divisa o lado místico, ainda 
naquelas que mais ferem a nota de coração, o 
aspecto sentimental. 



(i) Gfr. Mesquita, obr. cit., pg. 3. 



Fr. Agostinho da Cruz 19 

Como os seus contemporâneos ele gosta de 
definir o amor, descreve-o, caracteriza-o, pro- 
curando para isso as expresseis mais subtis, 
como neste passo 

Amor acende, inflama, amor tem tudo 
Seta, lança, escudo ; dá vida e mata 
Cativa, desbarata, solta e prende. . . (i) 
Etc. 

Mas quem clama nestes versos é o homem 
interior, dominado por um sentimento do alto, 
que só o eleva e engrandece. O seu pensamento 
vai direito a Jesus, cammha direito ao Cruci- 
ficado, em cuja contemplação se absorve (2). 

Nas églogas há mais dum ponto que lhe res- 
peita, mas pouco se encontra de concreto e de 
positivo, fora da afirmação da sinceridade dum 
convertido, que desprezou o mundo e todos 
os seus encantos. 

Foi com vinte anos contados que ele tomou 
o hábito no Conventinho de Santa Cruz da 
Serra de Sintra em dia da Vera-Cruz. É o 
seu ano de noviciado, que encetou com o bene- 
plácito do Infante, a quem servia, e sob as 
ordens do Provmcial Fr. Jácome Peregrino, o 
Tio. E logo passado um ano fez a sua pro- 
fissão expressa e formal, entrando na rigo- 
rosa Ordem depois de ter dado provas da 



(O Cfr. pg. 28. 
(2) Cfr. pg. 21 3. 



20 Fr. Agostinho da Cruz 

mais sincera e decidida vocação. Era no dia 
3 de maio de i56i, também dia da Vera-Gruz, 
em que, pôde dizer-se, morria para o mundo, 
deixando desde então o seu apelido de família, 
para o mudar no de religião por que ficou 
sendo conhecido — de Fr. Agostinho da Cruz. 
Ele próprio é quem no-lo diz 

Nasci e renasci na casa em dia 

De Santa-Cruz, da Cruz o nome tenho (i). 

Segue-se um período de mais de quarenta 
anos, em que nada de notável se passou na 
vida do novo Capuchinho. Entregue à oração 
e à meditação a sua lira só tem acentos para 
chorar os erros da vida passada, para exaltar 
a sua emenda (2), a sua inalterável confiança 
em Deus (S).» 

Moço de vinte anos ao entrar no ermo, bem 
podia dizer que nele envelhecera, sem que 
nunca a sua vontade sentisse o menor desfale- 
cimento (4). 

Quando alguma vez voltou ao mundo, isto 
é, à convivência que lhe destinavam as suas 
relaçõis e os seus conhecimentos numa esfera 
social elevada foi para regressar ao isolamento 
mais decidido e mais convicto. Ele próprio o 
confessa aludindo a uma terceira vê^ em que 



(i) Gfr. pg. 335. 

(2) Cfr, pg. 228. 

(3) Cfr. pg. 229. 

(4) Cfr. pg. 289. 



Fr. Agostinho da Cruz 



determina não mais abandonar a Serra fazendo 
aí a sua sepultura (i) 

Contava 63 anos quando, a rogos do Pro- 
vincial Frei António da Assunção, grande pa- 
triota, amigo e partidário de D. António, pelo 
que não era bem visto pelo intruso Felipe (2), 
teve de aceitar a guardiania do Convento dè 
S. José de Ribamar. Mas de curta duração 
devia ser esta sombra de mando para quem 
até a essa havia renunciado. Nesse mesmo 
ano obteve licença do Provincial para ir viver 
eremiticamente na Serra. Não foi sem resis- 
tência. Eram grandes as provaçÕis, e embora 
conhecido o animo do solicitante, receiava-se 
uma quebra de energia da parte de quem era 
conhecido na austeridade em que vivia por 
uma bondade comunicativa, que o fazia muito 
procurado e estimado de quantos desejavam o 
conforto dum conselho, a esmola duma pala- 
vra amiga, um gesto de perdão. Mas não 
houve modo de prolongar a dilação, talvez 
também porque outro companheiro o prece- 
dera nos rogos e na satisfação deles. Fora 
Fr. Diogo dos Inocentes, que se recolhera ao 
ermo, indo viver na cela pertencente a S. Pedro 
de Alcântara, 

O alvoroço com que o pobrezinho de Cristo 
recebeu a licença 1 



(1) Cfr. pg. i5. 

(2) Cfr. Chronica, % 1 163, pg. gsg. 



Fr. Agostinho da Cruz 



Viviam por essa época nos seus Paços de 
Azeitão os seus antigos protectores e amigos 
D. Álvaro, Duque de Aveiro, e seu filho o 
Duque de Torres Novas. Fr. Agostinho antes 
de se retirar ao cenóbio foi procurá-los para 
lhes apresentar as suas despedidas, ouvindo 
então da boca do velho Duque, entre gracejos, 
bondosamente : 

-^ Como se esqueceu da Arrábida, tanto que 
se vio em S. José de Ribamar ? 

Fora o seu cargo de Guardião, que o manti- 
vera afastado da sua querida Arrábida, bem o 
sabia o ilustre fidalgo, porém o que não espe- 
raria era a resposta que ouvio : 

— Mas se, rçplicou Fr. Agostinho, nunca 
pensei tanto nela, como agora, em que de todo 
vou a buscá-la ! 

E comunicou ao Duque a sua resolução aco- 
lhida com a natural estranheza, mas engrande- 
cida também com o natural louvor. E assim 
se despedio o velho monge com aquela alegria 
de santidade, que lhe fazia escrever ao iniciar 
a ascensão da Íngreme ladeira 

Aqui, Senhora minha, onde soía 
Cantar na minha leve mocidade 
O muito que de vossa saudade 
Desejei de acender nesta alma fria. 

Aqui torno outra vez, Virgem Maria (i). 



(i) Cfr. pg. 4. Gompare-se com o soneto A mudança 
da vida, pg. 12. 



Fr. Agostinho da Cruz 23 

Vem, depois, o hino que chamarei do homem 
livre, que se vê solto dos liames do mundo, 
na contemplação só do bem a que aspirava. 
Veja-se como êle canta 

Agora que de todo despedido 
Nesta Serra da Arrábida me vejo 
De tudo quanto mal tinha entendido. 

Com mais quietação, livre desejo, 
Nella quero cavar a sepultura, 
Que não junto do Lima, nem do Tejo . . 
Etc. (i). 

Enquanto o Duque lhe não mandava cons- 
truir uma pequena cela, que o recolhesse, fez 
êle uma choupana com ramos de árvores, oní^e 
viveu durante seis meses, após os quais come- 
çou de pensar em mais sólido abrigo fazendo 
uma gruta para o que aproveitava a disposição 
natural dos terrenos. Era o trabalho superior 
às suas forças e valeu-lhe nesse aperto a visita 
dos Duques. Foi o próprio D. Jorge quem 
escolheu o terreno e fez menção de abrir os 
alicerces, o que provocou ao velho este dito : 
— . . . e a paga de eu ter cantado nos meus 
versos o seu nascimento. 

Aludia à Piscatória, que começa : 

Queres ouvir cantar um pescador 

Pobre, que de marisco se sustenta, 

E segundo o que dizem foi pastor ?. . .(2) 

(i) Cfr. Elegia VI, pg. 101. 
(2) Cfr. pg. 70. 



34 Fr. Agostinho da Cruz 



Duas palavras sobre o logar escolhido pela 
grande, penitente-poeta, para se compreender 
o que seria a sua vida de cenobita 

O convento da Arrábida pertencia à ordem 
de S. Francisco. A. Província daquelle nome 
fora criada a instâncias do Cardeal D. Hen- 
rique (i) peio Geral Fr. Francisco de Samora 
no Capítulo que celebrou em o Convento de 
S. José, cabeça da Província. Ficou tendo 
como armas, como « selo maior », a imagem 
de Nossa Senhora no alto da Serra, e a seus 
pés à mão direita S. Francisco e à esquerda 
Santo António com a Cruz. Ao pé do monte 
três frades de joelhos. . . (2). 

Chamavam-se Capuchos do capelo ou capuz 
com que cobriam a cabeça. Traziam hábito 
de burel pardo, capa, capuz bicudo, usavam a 
barba comprida, donde lhes vinha também o 



(i) O Cronista da Arrábida afirma que foi D. João 
de Lencastre i.° Duque de Aveiro e portanto um dos 
primeiros fidalgos do reino como primeiro neto del-rei 
D. João II, quem ofereceu a Serra da Arrábida a Frei 
Martinho de Santa Maria, que assim teve o ensejo de 
se tornar o fundador do Convento sito na afamada 
Serra. Cfr. a Chronica no capitulo iv. A esse fidalgo 
deu D. Manoel o título de Marquês de Torres Novas e 
D. João III o de Duque de Aveiro. 

(2) Fr. Cristóvão de Lisboa, Jardim da Sagrada 
Escriptura, Lisboa, i653, pg. 7. 



Fr. Agostinho da Cruz 25 

nome de Barbadinhos, faziam voto de pobreza 
e viviam de esmolas. 

A Província da Arrábida tinha vinte e um con- 
ventos e dous hospícios. A igreja e mosteiro da 
Arrábida foram mandados construir a expen- 
sas do seu padroeiro D. João de Lencastre, 
i.° Duque de Aveiro, edificaçõis que ficaram 
constituindo o Convento novo, para as destin- 
guir das primeiras casas destinadas a recolher 
os poucos frades, que lá se foram estabelecer. 
As obras continuaram com o andar dos tempos, 
mas sem mudar a feição do que estava, nem na 
sua extensão, nem na sua modéstia. O aper- 
tado da ordem não convidava senão almas de 
escol, e essas mesmo muito depuradas na fé. 
O primeiro cenobita, Fr. Martinho de Santa 
Mana, vivia na maior austeridade, que pouco 
se atenuou com a chegada de S. Pedro de 
Alcântara e outros frades vindos de Espanha. 

Os religiosos andavam descalços, sem admi- 
tir nenhum género de calçado e dispôs-se que 
os hábitos fossem do mais vil e grosseiro pano, 
< os quais no comprimento não passariam dos 
tornozelos dos pés, e na largura não excederião 
a de dez palmos em roda, como também os 
mantos não passarião da ultima juntura das 
mãos, estando os braços estendidos ». Viviam 
de esmolas, sendo proibido para os frades sãos 
pedir « carne, nem peixe, e muito menos vinho 
ou ovos ». 

As celas estavam sem o mínimo ornato, 
dormindo os Frades sobre uma cortiça ou 



26 Fr. Agostinho da Cruz 

esteira, podendo usar duma manta ou saial 
quatro meses do ano — março, abril, setem- 
bro e outubro, de duas em novembro, dezem- 
bro, janeiro e fevereiro, e de nenhuma nos 
outros. 

No coro tinham diariamente três horas de 
oração mental e faziam também a disci- 
plina, exceptuando aos domingos e festas de 
guarda (i). 

No lado sul da Serra existem várias caver- 
nas ou grutas naturais como a Lapa do Medico, 
no meio da encosta do Monte Abraão, à es- 
querda do caminho que vai da Fonte do Soli- 
tário para o mosteiro, pelo vale de S. Paulo. 
É afamada a Lapa de Santa Margarida junto 
ao mar e outras (2). 

Desta última temos a descrição dum poeta 
do século XVII, que achámos interessante repro- 
duzir, não obstante o sabor gongórico, que por 
completo a desfeia : 



114 
Metido por aquella oculta brenha 
Logo outro religioso me convida 
Para dentro de hi3ma grande penha 
Ver a Lapa de Santa Margarida. 
Pelos montes que aos mares se despenha 
Nos afirmaram ser fácil decida 



(1) Chronica, pg. i36. 

(2) Rasteiro, Arch. Port., já cit. 



Fr. Agostinho da Cruz 27 

E andando meia legoa nesta frágoa 
Nos viemos achar na borda d'agua. 

ii5 

Em húa rocha adonde o mar batia 
Com tão grande clamor, que o mar abala 
Húa pequena boca a pedra abria 
Por onde entrava o mar a visitá-la; 
Os penhascos famosos combatia 
Mas de sorte na Lapa se regala, 
Que se com todos inconstante quebra 
Só com esta visita se requebra. 

116 

Entrei por esta gruta e na verdade 
Tal pavor m'infundio e tal respeito, 
Que então não soube com facilidade 
Qual das cousas em mim fez este efeito, 
Pois com tal intenção, tal igualdade 
Se introduziram juntos em meu peito, 
Que quando quis entrar neste penedo 
Vi confuso o respeito com o medo. 

Referindo-se à celebre Capela, que primiti- 
vamente fôra a cela de S. Pedro de Alcântara 
diz o mesmo autor : 



41 
Na parte do Evangelho esta Capela 
Húa pequena porta nos mostrava, 
Por onde entramos na apertada cela, 
Onde Pedro de Alcântara habitava. 
Húa fresta de hú palmo havia nela 
Por esta a luz do sol escassa entrava. 
Porque tanto do mundo se escondia, 
Que apenas soube o sol donde via. 



28 Fr. Agostinho da Cruz 

42 

Tem a cela dez palmos de comprido 

Para hfl corpo pequena sepultura 

Eu lhe medi com peso e advertido 

Quatro palmos e meio de largura, 

E se hú homem qualquer cousa é mais comprido 

Não pode entrar q^^e é pouca sua altura, 

Mas esta facilmente se acomoda 

Levar em húa mão a cela toda. 

Toda a Serra era revestida de mata formo- 
síssima merecedora dos elogios de quantos 
tiveram a dita de a visitar, pelo menos, uma 
vêz na sua vida (i). Dela podia escrever A. 
Herculano que era 

. . .pátria da paz, deserto santo, 

Onde não ruge a grande voz das turbas I 

Foi a este logar que se acolheu Fr. Agosti- 
nho e imagine-se como lhe decorreriam os dias 
durante o período de catorze anos, em que 
perseverou na vida contemplativa, que livre- 
mente escolhera. 

Ficava-lhe longe e sobranceiro o modesto 
Convento, onde vivia a comunidade. Pois só 
lá ia de oito em oito dias para buscar o pouco 
de pão com que se alimentava. Isso e alguns 



(i) Ainda em i836 o autor do Portugal and Galicia, 
( London, 2.», pg. 38 ) escrevia que lá « are found the 
quercus Australis, the maple, lhe slrawberry-tree and 
the carob, or St. Jonh's bread-tree. . . ». 



Fr. Agostinho da Cruz 29 

frutos lhe bastavam. Aludindo a uns figos que 
tinha a secar e una corvo lhe roubou escreveu 
os interessantes versos, repletos de alegre resi- 
gnação, que começam com o mote : 

Se Agostinho fora Paulo 

O corvo quando viera 

Não levara, mas trouxera. . . (i) 

Leia-se a égloga II « Mincio e Flávio », em 
que este último, que não parece sêr outro 
senão seu irmão Diogo Bernardes, conta àquele 
o modo de viver de Limabeu, disfarce sob que 
se designa Fr. Agostinho : 

Nunca se imaginou tal asperesa 

Não digo dos penedos do deserto 

Mas da fome, do frio e da pobresa. . . (2). 

Aí O representa marchando de pés nús, com 
a boca atravessada por um páo para não falar, 
apenas coberto o corpo por andrajos mal cer- 
zidos. . . e todavia resignado e contente. • Era, 
não obstante tais rigores, muito afável, alegre 
e benévolo a todos », escreve um velho bió- 
grafo. 

Entretinha-se fora das horas de meditação 
nos prazeres mais inocentes, um dos quais o 



(i) Cfr. pg. 343. 

(2) Cfr. o Vilancete de pgs. 337. 



3o 



Fr. Agostinho da Cruz 



de pescar e o de fazer bordõis, de que todavia 
se desculpa contra os maldizentes : 

Em que parte, em que terra 
Se pode vituperar, 
Quem pesca peixes no mar 
Ou coria lenha na Serra ? 

Não admira que êle conheça e nomeie nos 
seus versos variadas espécies da fauna e da 
flora da região, onde vivia. Ele cita o lapari- 
nho, o tordo, o pombo, a perdiz (i), o coelho, 
a lebre, o açor, o porco, o galgo (2), àlêm da 
áspide (3) e os sardos, robalos, douradas (4), 
ruivos, salmonetes, vesugos, choupas, tainhas, 
linguados (5), as ostras, amêijoas (6), birbigõis, 
mexilhõis, as santolas (7), os perseves (8). 

De plantas memora a Jiera, o louro (9), o 
lirio (10), as boninas (i 1), o medronho, a esteva, 
a aroeira (12), o sovereiro (i3), os murtais (14), 



(i) Pgs. 5i. 

(2) Pgs. i36. 

(3) Pgs. 314. 

(4) Pgs 61. 

(5) Pgs. 74. 

(6) Pgs. 80. 

(7) Pgs. 106. 

(8) Pgs. 60. 

(9) Pgs. 2. 

(10) Pgs. 19 e 28. 

(11) Pgs. 40. 

(12) Pg. 74. 
(i3) Pg. i36. 
(14) Pg. 314. 



Fr. Agostinho da Cruz 3i 

OS zimbros (i). Não esquece o perrexil (2), como 
se lembra das rosas (3), e menciona as casta- 
nhas e as maçãs (4) e os figos (5). 

Imerso na natureza, na vida simples que 
levava, dia a dia, hora a hora, mais e mais se 
absorvia na contemplação dos grandes mis- 
térios da vida, que o esperava àlêm túmulo, 
numa radiosa esperança, ou melhor certeza. 
Gomo já sucedera com outros grandes homens 
piedosos, nimbados pela auréola da santidade, 
a sua solidão é animada pela visita « de alguns 
animais silvestres que andavam naquela Serra 
notavelmente esquivos, como veados e genetas 
e lhe vinham comer à mão deixando-se tratar 
dele, como mui domésticos, obedecendo lhe tal 
vez de modo que não se iam sem os despedir, 
e assim mesmo todo o género se volateria » (6). 
Vinham as aves pousar-jhe nos ombros ou no 
colo, diz também o Cronista, que regista a tris- 
teza do bom Capuchinho no dia em que soube 
que a geneta fora procurá-lo ao seu aposento 
« e não o achando, seguio-lhe as pisadas pelo 
faro, até entrar dentro da clausura. Foi sentida 
dos gatos, os quaes armando-se contra ella, a 



(1) Pg. 338. 

(2) Pg. òi. 

(3) Pgs. 28 e 40. 

(4) Pg- ^9- 

(5) Pg. 343. 

(6) Cfr. Agiologio Lusitano, 11, 146. 



32 Fr. Agostinho da Cruz 

mataram... » (i). Era um dos seus bichi- 
nhos, (2) que desaparecia (3). 

Maior tristeza devia sentir com a retirada 
de Fr. Diogo dos Inocentes, a quem a doença 
prostrara obrigando-o a acolher-se a Alcobaça : 

Foi-se-me o companheiro, que aqui tinha, 
Enfermo, sem poder mais aturar. . . 
Etc. (4). 

Ele, agora, mais vivia para o isolamento e 
para a meditação. Algumas vezes foi encon- 
trado em extasis, « suspenso e absorto. . • cousa 
que lhe devia suceder cada dia, pois acaso o 



( 1 ) Chr. da Arrábida, § 1 1 79, pg. 929. 

(2) Cfr. pg 3o8. 

(3) Gineta ou geneta (\at. f a gineta, deminutivo de 
Jugina, segundo Faria, doninha grande, fuinha, e é» 

segundo Bluteau o que alguns denominam o Catus 
Hispanice e outros Panthera minor. E cita Gennero 
que a descreve assim : bestia paulo maior vulpecula, 
colore inter croceum et nigrum, maculis interdum 
nigris, ordine in pelle dispositis, mansueta satis, nisi 
lacessatur. Árdua non ascendit sed in humidibus locis 
et juxta rivos degit, et ibi victum quaerit. Ginettas 
Hispânia mittit forma, et moribus domesticis musteliis 
quas nos foinos vocamus ...» 

Como pôde a tímida e modesta doninha, cuja pele 
lanuginosa é salpicada de negro ou de pardo, como diz 
Fr. Domingos Vieira, ser transformada numa « cavalga- 
dura que levava Fr. Agostinho do seu convento para a 
Capellmha da Serra ? » Pois cfr. Sr. Dr. Th. Braga, Hist . 
dos Qitinh., pg. 320. Veja-se a escapeiização do dislate 
no Sr. H. Arantes, ob. cit., pg. 44 e segs. 

(4) Cfr. pg. 220. 



Fr. Agostinho da Cruz 33 



acharam daquela maneira sendo ele grande 
secretario de suas virtudes » (i). Semelhan- 
tes fenómenos nada tinham de extraordinário, 
sendo consequência das longas oraçõis mentais, 
e tais como se observam noutros místicos, em 
formas mais ou menos acentuadas, mas, no 
fundo, idênticas (2). 

Enfim, chegou também a sua hora. Os pre- 
núncios da morte teve-os em princípios de 
março do ano de 1619. E de tal modo se 
anunciou a doença, que logo foi conduzido 
para Setúbal, onde a Ordem tinha o seu hos- 
pital. Foi fácil o diagnóstico, rápida a sua 
confirmação. Em volta do seu leito junta- 
ram-se os amigos, não lhe faltando os maiores 
— o Duque D. Jorge de Aveiro, que então 
com seu Pai e molher residia nos Paços da 
vila. Em 14 de março expirou. 

Contava 79 anos de idade, 69 de hábito, e 
14 destes de eremita na Serra da Arrábida. 



(i) Cfr. Mesquita, ob. cit., pg. xvi. 

(2) Vid. H. Delacroix, Études <fhistoire et de psycho- 
logie du mysúcisme. Les grands mystiques chrétiens. 
Paris, 1908, pg. 176 segs. 



34 Fr. Agostinho da Cruz 



II 
O POETA 

Todos que em Portugal teem o amor das 
suas glórias literárias conhecem Fr. Agostinho 
da Cruz, pelo menos, através a edição que das 
suas Poesias nos deixou o Prof. do Colégio Real 
de Nobres — José Caetano de Mesquita (i). 

Foram os próprios Frades da Arrábida que 
forneceram a Mesquita o exemplar das poe- 
sias que, copiadas « com o maior cuidado », 
serviram para a impressão (2). 

O que até à data dessa edição — 177 1 — se 
conhecia de Fr. Agostinho era somente o pou- 
quíssimo que fora publicado na Chronica da 
Arrábida em 1728 (3), embora a fama do seu 
talento, como das suas virtudes, fosse já apre- 
goada pelos contemporâneos (4). Aqui está a 



(i) Varias poeifias do venerável Padre Fr. Agostinho 
da Cruj, religioso da Provinda da Arrábida, dedicada 
ao Excel, e Reverend. Senhor D. Fr. Manoel do Cená- 
culo. . ., Lisboa, MDCCLxxi, i vol. de xxxm -j- i63 pgs. 

(2) Cfr. a Vida. . ■ anteposta à ed., a pg. 29. 

(3) Parte i, livro v, caps. 18-20, § 1170. 

(4) Cfr. Fr. Pedro Calvo na Defensam das lagrimas 
dos Justos perseguidos e das sagradas religiões, fructo 



Fr. Agostinho da Cruz 35 

prova em Fr. Rodrigo de Deos f -f* 1622 ), que 
foi Guardião do Convento de Nossa Senhora 
da Arrábida e que nas duas obras que deixou 
inserio poesi^ís de Fr. Agostinho. No Tratado 
dos Passos que se andam na Quaresma ( i * ed. 
1618) (I) apareceu impresso como Proemio o 
soneto : 

Os passos que de dores trespassados 
Etc. (2). 

e o Epigrama : 

A quem desceo do Ceo por nos dar vida 
Etc (3). 

Nos Motivos Espirituais I4) aparecem publi- 
cados os seguintes dois Sonetos, que sam 



das lagrimas de Christo, Lisboa, por P. Craesbeck, 1618, 
que já [sendo ainda vivo] se lembra dele. 

(i ) Tratado dos Passos. . . saido das oficinas de Pedro 
Craesbeck, 1618. Era, portanto, vivo Fr Agostinho, que 
só faleceu em março de 1619. O Tratado... saiu em 
1618 e deste ano sam as licenças para a impressão. 
Insere em primeiro logar um Soneto á Paixão, anónimo. 

(2) Publicado nesta nossa ed. a pg. 193. 

(3) Vid. esta nossa ed. a pg 335. 

(4) Impressos por P. Craesbeck em 1620, mas as 
licenças sam de outubro de 1618 e 1619. Posteriormente 
à redacção da Nota 46 deste vol , pude consultar na 
Bibl. Nac. de Lisboa exemplares tanto desta como da 
ed. de i633. 



36 Fr. Agostinho da Cruz 

exclusivos deste livro bastante raro e que vale 
a pena reproduzir : 

Soneio de Frey Agostinho da Cruj a esta obra. 

Âquelle que na vinha do Senhor 
Trabalha por cavar proveito alheo, 
Tanto do próprio seu fica mais cheo, 
Quanto mais do commum foi cavador. 

Costuma a pagar divino amor, 
A quem buscar o quer por este meio. 
Primeiro : como a quem mais tarde veio, 
E tanto como o mais madrugador. 

Aqui nesta doutrina claramente 

Se ensina porque via, como & quando 

OfFerta faz a Daos mais excellente 

Todo o que dignamente comungando 
OfFerece a Deos Padre omnipotente, 
Seu filho, sua gloria acrescentando. 

Outro. 

O' vós que andais de achar cá desejosos 
Modos de honrar sem fim mais a Trindade, 
O melhor se vos dá aqui com brevidade 
Nestes motivos santos amorosos. 

Nelles tendes louvores copiosos 
De summo grau & grande dignidade, 
De quem trata & recebe a magestade, 
Que temem olhar no Ceo os gloriosos. 

O alto sacrificio de honrar digno 
A vós tam proveitoso, a Deos aceito. 
Com que he toda a Trindade engrandecida. 



Fr. Agostinho da Cruz Sy 



Sagrada Hóstia, viatico divino, 
Que offerecida ao Padre com efíeito 
Lhe deu gloria infinita & sem medida. 



Trinta e oito anos após a morte do Poeta, 
em 1657, o sábio autor do Agiologio Lusitano 
chamando ao irmão Diogo Bernardes « insigne 
poeta » acrescenta : « e ele o não foi menos 
porque na Arrábida fez alguns poemas ao 
divino, que sam muito estimados pelo engenho 
& spiritu grande que nelles mostrou » (1). 

Por cópias manuscritas, derivadas do autó- 
grafo, que hoje se pôde reputai perdido, se foi 
alargando a fama da inspiração do Poeta da 
Arrábida. Que nos dizem esses Manuscritos 
de novo ou de inédito ? 



os MANUSCRITOS 

Conhecem-se três manuscritos mais ou me- 
nos numerosos, mas todos três importantes, 
das poesias de Fr. Agostinho da Cruz. Além 
destes há referências a um Códice do convento 
de Verberena da Província da Arrábida, que 
Barbosa Machado afirma sêr c da sua própria 
mão ». Vê-lo hia o douto abade de Sever? 
Ele ou quem o teve sob os olhos descreve-o 
assim : « esta colecção poética fez á petição 



(i) Cfr. II, i5i ( 12 de março) e Anotações, ao §/. 



38 Fr. Agostinho da Crur 

da Duquesa de Aveiro e a dedicou á mesma 
Senhora, da qual existia um traslado na Biblio- 
teca do Cardeal de Sousa. Constava de vinte 
e uma Eglogas assim pastoris como piscatórias, 
cartas, odes, endechas, redondilhas e vilhan- 
cicos. Entre os Poemas que compôs he cele- 
bre o de Santa Catharina, Virgem e Martyr, 
em oitava rima ». O título era — Diversas 
Poesias ao Divino (i). 

Teríamos, pois, aqui um autógrafo por todos 
os títulos valiosíssimo mas de que não há, à 
hora atual, vestígios do seu paradeiro. Estará 
irremediavelmente perdido ? 

Inocêncio da Silva no seu precioso Dicioná- 
rio Bibliográfico fâla-nos dum outro Códice» 
que talvez prestasse elementos importantes se 
se tornasse conhecido. Não seria autógrafo, 
mas parecia c ter sido escripto logo depois da 
morte do Venerável Padre. Consta de 164 fls., 
4.", letra do sec. xvii •. Inocêncio, que vio 
este manuscrito, diz nos que êle compreendia: 
dois epigramas, oitenta e um sonetos, uma 
égloga à ingratidão, quinze elegias, três eglo- 
gas, cinco odes, vários motes e glosas, quatro 
cartas ou epístolas inéditas, um epigrama, um 
epitáfio, oitavas sobre o c Flevit amare », 
cincoenta e sete oitavas sobre a Vida de Santo 
Eustáquio, e a Vida de Santa Catarina (2). 



(i) Btbl. Lus , vb. Verberena. 

(2) Op. cií.y vb. Agostinho da Cruz, i, pg. 16. 



Fr. Agostinho da Cruz 89 

Qual a sorte deste Códice ? Perdido tam- 
bém para sempre ? 

Estes os desaparecidos, a que outros natu- 
ralmente se poderão, em hipótese, juntar, por- 
que várias cópias deveriam sêr tiradas para 
enviar ou para os Conventos da mesma ordem, 
ou pelo menos para aqueles que mostrassem 
desejos de possuí-los, e também para pessoas 
piedosas, que não deixariam de tér em alto 
apreço leitura para elas tam sugestiva e impre- 
gnada de misticismo. 

Demos agora logar aos Mss. existentes, que 
chegaram ao nosso conhecimento e de que nos 
servimos para a elaboração deste trabalho. 

A — Mss. Conimbricense n ° 400. Pertence 
à Biblioteca da Universidade de Coimbra. 
Grosso vol. de 448 pgs., numeração moderna, 
já descrito e catalogado pela pena autorizada 
do nosso amigo Sr. Dr. Augusto Mendes Simões 
de Castro. As poesias do nosso auiôr abrem 
o vol. e vão até pgs. 68. Rpigrafe ao alto da 
pg : € Varias Poesias do Padre Fr. Agostinho 
Bernardes, Religioso Capucho arrabido irmão 
do grande Diogo Bernardes » e termina : 
€ Aqui Jinalisa esta obra do irmão de Diogo 
Bernardes ■. 

Infelizmente todas as poesias neste Mss. 
contidas se encontram publicadas (excepto os 
dous sonetos de fl. 6, v. ) no vol. impresso 
em 1771. Os dous sonetos que fazem exce- 
pção encontram-se neste nosso vol., a pgs. 169 



40 Fr. Agostinho da Cruz 

e 2o3. Procedem entretanto de fonte diversa 
da que sérvio a Mesquita para aquela sua ed. 
de 1771 e sam, por isso, um subsídio para 
fixar o sentido dalguns logares obscuros ou 
deturpados, como o verifiquei cotejando para- 
lelamente os logares e aproveitando a parte 
essencial nas notas e esclarecimentos, que vam 
no fim desta nossa edição. 

B — Mss. Portuense (1). Pertence à Bibl. 
Municipal do Porto, onde tem o registo antigo 
i.ioo e o mod. 63 1. Ambas essas numeraçóis 
se lêem em dous rótulos colados nas lombadas 
do vol. No verso interior da capa há também 
num Ex-libris da Bibl. o A^.° geral i 100. 

Colocação F — 2. Voluminho in-8." Pesa 
i65 grs. Tamanho 10X15*". Papel de linho, 
amarelado. Encadernado toscamente em per- 
gaminho. O canto superior externo da capa 
está roido. No princípio há duas folhas custo- 
des em branco. Frontespício verdadeiro não 
existe. Na última v. há. todavia, o título 
da primeira composição : Tercetos em louvor 
da Immaculada Concepção da Virgem nossa 



(i) Devemos a descrição deste Códice à Senhora 
D. Carohna Michaelis de Vasconcelos. Foi também a 
ilustre Senhora quem nos forneceu cópia das poesias, 
que vam insertas neste nosso volume (acompanhadas de 
rápidos comentários elucidativos ) e que sam exclusivas 
deste Mss. Aqui consignamos a S. Ex.» o nosso vivís- 
simo reconhecimento. 



Fr. Agostinho da Cruz 41 



Senhora e Sonetos vários de Santos, o que 
está escrito com a mesma letra do texto. 

Com letra muito mais moderna (primeira 
metade do sec. xix) lese na mesma pág. : 
Frei Agostinho da Crui — Irmão de Diogo 
Bernardes, mas estes dizeres foram depois 
apagados propositadamente. Em letra mais 
antiga, mas posterior á do escrevente principal, 
está lançada ao alto da primeira pág. do texto 
a nota Da Livraria de Grijó. O texto abrange 
i5o fols., pág. no recto. Está muito bem cali- 
grafado. Letra do séc. xvii — apógrafo por- 
tanto — parecida com a de Bernardes, Ferreira, 
Resende, etc. No fim falta uma fl. de texto 
(pelo menos) com as últimas quatro oitavas 
da Visão de Santa Erigida e provavelmente 
outra, branca, custode. As composiçÕis não 
numeradas, mas sempre marcadas por uma 
bandeirinha, sam 282 : portug. 190, castelha- 
nas 42, de mistura. 

O nome de Fr. Agostinho encontra-se várias 
vezes em epígrafes ou junto às epígrafes de 
certas poesias. A designação Do mesmo ou 
Do Autor refere-se também a Fr. Agostinho. 

Eis a lista dessas indicaçõis: 

1 — f. a8 V., Himno á Cruz : de Fr. Agostinho. 

2 — f. 3i V., Elegia a Jesu na Cruz : de Fr Agostinho. 

3 — f. 32 V,, Elegia ao divino amor : do mesmo. 

4 — f. 34, Elegia Spiritual : do mesmo. 

5 — f. 35, Lagrimas de São João Euangelista ao pee 

da Cruz : de Fr. Agostinho. 

6 — f. 55 V., Outra Elegia a Serra da Arrábida : de Fr. 

Agostinho. 



42 Fr. Agostinho da Cruz 

7 — f 58 V., Endexas : de Fr. Agostinho. 

8 — f. 59 V., Outras endexas : do mesmo. 

9 — f. 60, Vilancete : do mesmo. 

10 — f. 81, Elegia de Fr. Agostinho da Cru;; a dona 

Mariana filha do Duque d'Aveiro, etc. 

11 — f. 82 v„ Egioga de Fr. Agostinho da Cruj, etc. 

12 — f. g% Elegia á morte de diogo Bernardes Irmão 

do Autor. 
i3 — f. loi, Eitígia á morte : do mesmo. 
14 — f. III V., Reposta a Soror Mariana filha do Duque 

de Aveiro : do Autor Fr. Agostinho da Cruj. 
i5 — f. 112, Carta que escreveu a Duqueza de Aveiro 

antes de se ir pêra o Ermo. 
16 — f. ii3, Carta que o Autor compôs a Duqueza de 

Aveiro á absencia da madre Soror Mariana, 

sua filha. 

Temos, portanto, oito vezes a designação 
clara e nominal do Autor. 



Outras provas da autenticidade da atribui- 
ção de muitas das 232 composiçõis do Cod, 
Port. sam as seguintes : 

a) 5o delas sam idênticas com outras tantas 
impressas em 1771 por Mesquita. Essas mes- 
mas encontram se também no Cod. Conimbr, 
que é privativo de Fr. Agostinho. 

b) 148 dessas poesias sam comuns ao Cod, 
Port. e ao Conimbr. 



Das obras impressas em 1771 faltam no Cod, 
Port.: I — As Eglogas 1-12, a última das 



Fr Agostinho da Cruz 



quais termina com um soneto ( o de Limiana), 
e com o Epitáfio de Limiana e Limabeu. 

2 — O soneto A seu irmão Diogo Bernardes. 

3 — O Vilancete que constitue o desfecho da 
Elegia da Ausência conjugal. 4 — A Carta 
em resposta à de seu irmão Diogo Bernardes. 
5 — O Mote Ao Nascimento de Nosso Senhor. 



Privativos do Cod. Conimbr. sam apenas os 
dous sonetos : Aquele que na vinha do Senhor 
( pg 23o), e Oh vós que andais ( pg. 23 1 ). 

Privativos do Cod. Port. sam as quarenta e 
duas composiçõis castelhanas, que vam publi- 
cadas nesta nossa ed. [pgs. 369 a 416]. 

C — Mss. Conimbricense. Pertencente à 
Bibl. da Universidade, onde, quando Bibliote- 
cário deste notável Estabelecimento, o encon- 
trei, aproveitando-o imediatamente para a 
publicação que empreendi no Archivo Biblio- 
graphico da Bibliotheca da Universidade de 
Coimbra, que havia fundado um ano antes, 
deixando desde então exarada a promessa da 
edição autónoma, que só agora consigo levar 
a cabo (i). 



(i) E não foi mais cedo pelas razõis que deixei adi- 
vinhar em outro logar e que aqui não explano para não 
avivar um fogo-morto. A promessa então feita foi-me 



44 Fr. Agostinho da Cruz 

O Códice compreende vinte e três cadernos 
e é todo da letra de Joaquim Inácio de Freitas, 
professor do Colégio das Artes, bem conhe- 
cido de todos os bibliófilos (i). 

Não tem capa de resguardo, nem título, nem 
outra indicação mais que uma fl. envolvente já 
despedaçada onde, em letra moderna, decerto 
cópia doutra antiga, se lê: t Poesias de Fr. 
Agostinho da Ci'u^ ». Numeração moderna 
de I a 64 por laudas, abrangendo oito cader- 
nos somente. A numeração do punho de Inácio 
de Freitas começa no caderno sétimo até ao 
último, somente por página, somando sessenta 
e quatro, esta última em branco. Na 63 v. 
tem, porém, em seguida ao título Outras 
[Endechas], que começam : 

Já nSo digo um dia 
Nem menos uma hora 
Etc. (i). 

Fls. em branco 18 v., 20 v., 5o, 5i, 62. 

Tamanho da mancha manuscrita i66"""X95°'"' 
Peso 220 grs. 

A caligrafia das poesias é toda igual, perfei- 
tamente legivel e correcta. Raramente inter- 
vém a correcção de Inácio de Freitas, cuja 



recordada penhorantemente há pouco pelo nosso dis- 
tintíssimo maestro Sr. Viana da Mota. 

(i) Cfr, Inoc, Dic. Bibl, iv, pg. 85. 

(2) Vid. pg. 367 deste nosso volume. 



Fr. Agostinho da Cruz 



letra pequenina, tímida, cheia de discrição, se 
encontra, apenas, na numeração das estrofes e 
na paginação do caderno sétimo em deante, 
como dizemos acima. Rebuscamos todos os 
papeis daquelle infatigável trabalhador, infe- 
lizmente muito poucos e dispersos. Freitas 
aproveitava tudo para lançar as suas notas — 
qualquer pedaço de papel, um velho sobre- 
scrito, tudo lhe servia. Isso concorreria para se 
dispersar muito do seu labor. O cuidado e 
asseio do apógrafo augustiniano dá, porém, 
a entender que êle cuidaria na sua impres- 
são, como procedera com André Falcão de 
Resende, cujas obras êle salvou de perecerem 
totalmente e que só mais tarde publicadas 
ainda aguardam a caridade de serem concluí- 
das (i). Nada se nos deparou que nos eluci- 
dasse sobre qualquer ponto. Do que nos não 
restava dúvida é que estávamos em presença 
dum rico espólio, contendo, sem dúvida, o 
melhor, e por ventura, a quase totalidade das 
poesias do ilustre Capuchinho, devendo ser 
esses cadernos cópia dalgum exemplar oriundo 
do convento da Serra da Arrábida. Ele vinha 
lançar nova luz sobre a personalidade do 
Poeta, representado apenas na edição de 1771, 
que, se é mesquinha literariamente e merece- 
dora das censuras do bibliógrafo, muito mais 
o é editorialmente considerada, impressa como 



(1) Cfr. laoc, Dic. Bibl., viu, pg. 62. 



46 Fr. Agostinho da Cruz 

está no papel que o tempo ameaça tornar ih- 
givel, manchado caprichosamente e numa com- 
posição cerrada que é, em absoluto, antipática 
e irritante a quem lê (2). 

Era uma obra de justiça reparar tanto des- 
mazelo. Tê la hei eu realizado? 



Assim como estes Manuscritos não encerram 
talvez, tudo o que saiu da veia inspirada do 
seu auiôr, também nem tudo o que contêem é 
absolutamente dele. Os Quinhentistas costu- 
mavam trasladar para seu próprio gozo espiri- 
tual as poesias, que mais os impressionavam, 
sem cuidar de indicar o verdadeiro autor. Daí 
a confusão da atribuição rigorosa, que tam 
facilmente conduzio alguns escritores a falar 
em plágios, sem se lembrarem que nessa 



(2) Claro que nisso não teve culpa alguma o modesto 
Prof. Teve-a sim, em não dedicar maior cuidado ao 
Poeta, que queria tornar conhecido, como procedeu 
com os Opúsculos latinos de Diogo de Teive, a Vida de 
D Fr. Bartolomeu dos Mártires de Fr. Luís de Sousa, 
a Vida do Beato Henrique Suso atribuida ao mesmo, as 
Poesias de Diogo Bernardes, e o Compendio da doutrina 
Cristã de Fr. Luís de Granada. Cfr. Inoc, Dic. Bibl , 
IV, pg 283. Mesquita foi um operoso trabalhador, mas 
desajudado de auxílios que compensassem o seu zelo. 
Soma tudo — é para agradecer-lhe o suor no arrotear de 
leiras, onde tantos, melhor afortunados, então e hoje e 
sempre, só deixam criar cardos e ortigas. 



Fr. Agostinho da Cruz 47 



acusação envolviam os que, como Camões, 
pairavam muito acima dessas pequenas misé- 
rias inúteis à sua glória. Não era para que se 
quisessem atribuir o que era de outros, mas 
porque muito lhes agradava lê las sempre 
deante dos olhos e retê las ou comenta las, 
que uns poetas inseriam nos seus cadernos 
manuscritos poesias, que eram da lavra de 
outros, sem pensarem que esses textos lhes 
sobreviviam gerando a confusão, que era natu- 
ral que se desse. Os leitores téem as provas 
especialmente nas poesias espanholas deste 
nosso volume, seguidas, no seu logar compe- 
tente, das notas eruditas da Sr.* D. Carolina 
Michaêlis. 

Não quisemos inserir outras, como as Lagri- 
mas de S. João Evangelista integradas, como 
obras de Bernardes, nas Vargas Rimas ao Bom 
Jesus desde a edição de 1594, não obstante no 
Cod. Port. virem incluidas entre as de Fr. 
Agostinho. 

Descontando as que possam com segurança 
ou mesmo dubitativamente atribuir-se a outros 
poetas — e que como tais vam indicadas nas 
Notas lançadas no fim deste volume — a parte 
autêntica é mais que suficiente para firmar 
no bronze da história da literatura o nome de 
Fr. Agostinho. 

Se possuissemos a parte da sua obra, que 
êle implacavelmenie fez desaparecer para sem- 
pre, não pôde restar dúvida de que o seu nome 
se aureolaria de mais radiante fama. 



48 Fr. Agostinho da Cruz 

Há nas suas poesias um acento dolorido, o 
selo da tristeza que punha em tudo que o 
rodeava, a nota do mistério do àlêm^ que lhe 
domina e sobjuga a existência, que faz dessas 
poesias verdadeiros trenos impregnados de 
religiosa piedade. 

Da vida passada só se divisam sombras de 
sombras inatingíveis. 

Canta o « doce Lima » como aquele que o 
vio nascer, o « Mondego e o Tejo », que 
o viram crescer e prosperar (i), especialmente 
este último (2), a que parece ligar recordaçõis 
de ternura e de saudade. 

Só no deserto vê remédio para a sua tris- 
teza, que não tem par: 

He mui diferente 
A minha tristeza 
De quanta se sente 
Noutra natureza. 
Vamos ver da Serra 
Do monte deserto 
O ceo de mais perto, 
De mais longe a terra (3). 

As alusõis vagas e imprecisas ao seu pas- 
sado encontram-se principalmente nas Eglogas, 

(i) Cfr, o princípio da Elegia, pg 289. 

(2) O Tejo vem com frequência à sua pena. Cfr. 
pgs. 22, 3o, 35, 38, 82, associando-o ao pátrio Lima — 
pgs. 100, loi, 104, 289. Outras vezes só fala deste — 
pgs. 120, 121, i35. 

i3) Vid. as Endechas de pg. i63 e comparem-se com 
as de pgs. 365 e 367. 



Fr. Agostinho da Cruz 49 

onde pôde vêr-se êle próprio sob o nome de 
Limabeu, e seu irmão Diogo Bernardes no de 
Mincio. 

A égloga primeira é dedicada à sua conver- 
são. O poeta escreve-a )unto a ura claro rio, 
que lhe sugere o da terra natal. No solilóquio 
em que explica a mudança psíquica e moral, 
que nele se operou, faz a apologia da Serra, 
como o único logar onde pode achar repouso 
a sua alma : 

Não falta nos desertos agoa clara ; 
A lapa, que da calma me defende, 
Se ventar ou chover também me ampara . 

Aqui não temerei a cruel guerra. 
Daqui verei no Ceo formosas cores, 
Assi me esquecerão cousas da terra. 

Na quarta égloga figuram Limabeu e Mincio. 
E' este, decerto, o irmão querido, que começa 
como que repreendendo-o pela sua mudança, 
tendo-o deixado num isolamento, que não me- 
recia : 

Companheiro te fui no sentimento, 
Nunca me viste rir, quando choravas ; 
Menos chorar no teu contentamento. 

Com igual amor tu o meu pagavas. 
Isso me fez sentir não te lembrar, 
Que te partias donde me deixavas. 

O que o pastor Mincio quere saber é o 
motivo daquela retirada para a aspereza do 

d 



5o Fr. Agostinho da Cruz 

deserto, aquele abandono de tudo — < cabras, 
pasto, pastor, cabana e fato >. 

Limabeu então queixa-se de sêr acusado e 
perseguido injustamente. Um amigo o atrai- 
çoou, um amigo que muito diversamente o 
devera tratar, mas que o difamou com os 
outros pastores. 

Quem fosse cego e mudo, que não visse, 
Muito menos sentisse quanto entende. 

Na Egloga VII encontramos de novo os 
dois irmãos. Fr. Agostinho devia estar ainda 
há pouco na Arrábida, como da leitura desta 
poesia se infere, e parece que se propu- 
nha abandoná-la pelo menos temporariamente. 
Mincio pede-lhe que lhe diga os motivos desse 
procedimento aludindo a um outro pastor 
Lauro, que depois vemos figurar na égloga 
imediata. 

A Egloga XII reveste um caracter de con- 
fidencia indecifrável. Limabeu dirigindo-se ao 
irmão diz-lhe : 

Bem sabes quanto ri, quanto folguei 
De cantar e tanger, que graça tinha, 
Quantas apostas fiz, quantas ganhei 

e alude a uma personagem, natural do Lima, 
de quem se apartou para sempre, mas àcêrca 
de quem dirige ao irmão a seguinte pregunta : 

Dize-me que se fez de Limiana, 
Que chorando ficou ó pé de faia ? . . . 



Fr. Agostinho da Cruz 5i 

Essa misteriosa Limiana morreu, para ela 
voa o pensamento do monge numa evocação 
sublime. Vê-se, adivinha-se, que foi ela a 
criatura dos seus sonhos, a mística esposa que 
lhe orientou a vida e o pensamento. Essa é a 
t santa t, que uma mesma sepultura de sonho 
uniria junta a ele, sob o mesmo Epitáfio que 
lavrou e diz : 

Eu vi do Ceo na terra a fermosura 
No vestido dum pobre peregrino 

Da terra para o Ceo voar segura 
Fosse ventura minha, ou seu destino : 
Por minha mão lhe dei a sepultura, 
Pela sua a levou amor divino : 
De Lima naturaes em Lapa Oceana 
Se enterrou Limabeu com Limiana, 

Finalmente Bernardes figura ainda noutra 
égloga versando ambos os irmãos o mesmo 
tema indecifrável. 

Diogo Bernardes foi sempre o amigo querido 
do grande solitário. Por sua vêz este dedicava 
ao irmão uma enternecida estima. O Soneto 
que lhe consagrou a propósito da composição 
do Lima (i) revela um sentimento de conten- 
tamento bem evidente. A Carta que lhe ende- 



(i) Cfr. pg. 18. Este Soneto foi publicado como 
Introdução do Lima, Lisboa, 1 596. 



52 Fr. Agostinho da Cruz 

reça (i) em resposta à que dele recebera (2) é 
um hino de afectos, em que confessa a sua 
gratidão por tantos conselhos recebidos e 
que lhe faz exclamar enternecidamente « meu 
Mestre ! », enfim sentem-se as lágrimas em 
cada um dos tercetos das Elegias, que consa- 
grou à sua morte (3). 

Quem sam as personagens das demais 
Eglogas ? 

De positivo nada se pode afirmar. Por 
toda a parte existe aquele tom de vago e de 
impreciso, que tanto se presta a divagaçÕis ten- 
tadoras. Inútil é o trabalho de procurar sempre 
sob os criptónimos dos pastores personagens 
históricas e autênticas para servirem as hipó- 
teses que formulamos. É bastante lembrar 
que os nomes dalguns foram sugeridos ao 
Poeta por designaçõis dos locais ou sítios, 
que êle conhecia da vida da Serra, tais os de 
Galapo e Alportuxo. 

c A comenda de Arrábida, diz um escritor 
nosso contemporâneo, tinha pelo sul o mar, 
pelo nascente a comenda e concelho de Pal- 
mela, numa linha de Galapo ao monte de 
S. Francisco...» (4). E « tinham transposto 



(i) Cfr. pg. 128. 

(2) A Carta de Diogo Bernardes é a vin do Lyma e 
anda publicada a pg. 147 da ed. de 176:. 

(3) Cfr. Elegias IX e X, pgs. in e ii3. A primeira 
foi inserida nas Rimas Varias, pg. 219 da ed. 1770. 

(4) Arrábida.. ., cit. 1896, pg 4. 



Fr. Agostinho da 'Cruz 53 

a poria de Alportuche, aonde o alcantilado 
da serra se quebra. . . » (2). 

E os dois irmãos figurarão unicamente sob 
os nomes de Limabcu e Mincio ? Não é natu- 
ral. Tem-se suspeitado que na Egloga V figu- 
ram como interlocutores o Poeta (Gualbano) 
e Fernão Lopo Soropita (Laurino), aquele 
que, como diz o título, t foi reduzido a Reli- 
gião », isto é, convertido. Infelizmente nem 
nas obras publicadas, nem nas inéditas do 
famoso satírico, há vislumbre de informação 
aclaradora das reiaçõis mútuas dos dous poe- 
tas, diferentes em idade, segundo a suspeita 
de Camilo Castelo Branco, cerca de vinte anos, 
e muito mais diferentes em génio, em fantasia, 
e em motivos emocionais inspiradores. 

Nos Manuscritos de Soropita apareceram 
intercaladas algumas poesias de Fr, Agostinho, 
como esta Egloga V, nos do Poeta da Arrá- 
bida algumas atribuídas a Soropita. Portanto 
daqui nenhum esclarecimento proveio, nem 
provirá. E nessa ignorância continuaremos, 
pois que os Mss. do Convento da Arrábida 
ou não diziam cousa de maior monta além do 
que foi explorado por Mesquita em tempo em 
que tam fácil lhe fora colher quaisquer indica- 
çôis, ou realmente continham elementos pre- 
ciosos para o estudo do Poeta e podem consi- 
derar-se como irremediavelmente perdidos. 



(2) /*., pg. 7. 



54 Fr. Agostinho da Cruz 

Nos Códices manuscritos por nós explorados 
nada se nos deparou de elucidativo. 

Em parte alguma uma nótula marginal, a 
mais simples cota de indiscrição. Contéem 
a transcrição das obras do Poeta e é tudo 
para a sua glória e pouco, quase nada, para a 
nossa curiosidade. 

Todas as poesias dos Manuscritos de Coim- 
bra e do Porto sam de caracter profundamente 
religioso, revelador do estado d'alma de quem 
as redigio. Elas acompanham passo a passo a 
vida do monge penitente, sam um diário duma 
alma de eleição, que se eleva até Deus desde 
o levantar da cama (i) até o recolher à noute 
para dormir (2), entretendo constantemente o 
pensamento nos mistérios divinos mais augus- 
tos, como a Imaculada Conceição (3), a Encar- 
nação (4), Paixão e morte de Jesus Cristo, e 
mais passos que lhe dizem respeito (5), e tam- 
bém na contemplação das virtudes dos santos, 
como S. João Baptista (6j, S. Francisco (7), 
Santa Clara (8), Santo António (9), etc. 



(i) Gfr. pg. 174. 

(2) Gfr. pg. 184. 

(3) Gfr. pg. 186. 

(4) Cfr. pg. 187. 

(5) Gfr. pgs. 189, 191, 193-197, etc. 

(6) Gfr. pgs. 4, 201. 

(7) Gfr. pgs. 16, 204. 

(8) Gfr. pg. 8. 

(9) Gfr. pgs. 14, 200. 



Fr. Agostinho da Cruz 55 

A lira de Fr. Agostinho é impregnada duna 
sentimento tam sincero de verdade e de 
naturalidade, que impressiona profundamente. 
É a alma dum verdadeiro crente, resignado, 
compassivo, amoravel, que se nos desvenda 
em cada página. Entretanto a sua obra per- 
maneceu até hoje quase esquecida e ignorada 
ainda mesmo dos que tinham nos seus planos 
vantagem especialíssima em o conhecer. Em 
duas Colectâneas modernas consagradas a reu- 
nir ou fazer menção de tudo quanto em Por- 
tugal e em todas as épocas se imprimio em 
louvor da Virgem Maria (i) debalde se pro- 
curará o nome de Fr. Agostinho, de cuja pena, 
aliás, saíram tam soberbos cânticos (2). 

E note-se que em ambos figura o nome de 
Diogo Bernardes, que, como se vê, não foi 



(i) Cfr. Abílio Augusto da Fonseca Pinto — Parnaso 
Mariano, 2.* ed., Coimbra, 1890, i vol, xin-|- 3o4 págs. ; 
Manoel Anaquini, Subsídios para a Bibliographia Ma- 
rianna em Portugal — O Génio portugue^ aos pés de 
Maria. Lisboa, 1904, i vol, xiv-f-3o6 págs. 

(2) Basta vêr, para exemplo, só a Canção de Nossa 
Senhora, de pgs. 273 : 

Virgem pura, escolhida, honesta, santa 
Humilde serva, mãe, esposa, filha. 
Etc. 

E os lindos Sonetos de pgs. 186 à Imaculada Concei- 
ção, de pgs. 199 à Assunção, e o Poema em tercetos de 
pg. 233, etc. ? 



56 Fr. Agostinho da Cruz 

bastante para sugerir o do querido e talentoso 
irmão. 

Acordará esta nossa publicação a hora da 
justiça que se deve ao solitário da Arrábida ? 

Desenha-se neste momento por todo o mundo 
a aspiração insaciável duma vida mais pura, 
mais alta, com outro ideal além do circunscrito 
nos horizontes desta vida tam dolorosa de viver 
à hora atual. 

A leitura das Poesias, que preenchem este 
volume, leva-nos para muito longe das misérias 
terrenas. Sam versos que téem alma e fazem 
sonhar alcandorando-nos até onde se não sente 
o rugir da fera humana, como se nos fosse 
dado mergulhar naquele indefinido descanso, a 
que tanto aspirou o autor que os escreveu com 
o seu grande espirito de Poeta e de Crente. 



Mendes dos Remédios. 



OBRAS 

DE 

FR. AGOSTINHO DA CRUZ 



SONETO I. 
A quem ler. 

Os versos, que cantei importunado 
Da mocidade cega a quem seguia, 
Queimei (como vergonha me pedia) 
Chorando, por haver tão mal cantado. 

Se nestes não ficar tão desculpado 

Quanto o mais alto estilo requeria, 

Não me podem negar a melhoria 

Da mudança, que fiz d'hum n'outro estado. 

Que vai que sejam bem. ou mal aceitos ? 
Pois os não escrevi para louvores 
Humanos, pelo menos perigosos, 

Senão para plantar em frios peitos 
Desejos de colher divinas flores 
A' força de suspiros saudosos. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



II. 
Ao triste estado. 

Passa por este valle a primavera, 
As aves cantam, plantas enverdecem, 
As flores pelo campo apparecem, 
O mais alto do louro abraça a hera ; 

Abranda o mar ; menor tributo espera 
Dos rios, que mais brandamente descem, 
Os dias mais fermosos amanhecem, 
Não para mim, que sou quem dantes era. 

Espanta-me o porvir, temo o passado; 

A magoa choro d'hum, d'outro a lembrança. 

Sem ter já que esperar, nem que perder. 

Mal se pôde mudar tão trrste estado \ 
Pois para bem não pôde haver mudança, 
E para maior mal não pôde ser. 



III. 
A' Lei de Deos. 

Que cousa mais suave, doce, e branda, 
Que nos liberte mais, que mais releve, 
Que guardar huma Lei na vida breve, 
D'hum peos, que por amor amar nos manda ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Qual he o coração que não se abranda, 
Duro que pedra mais, frio que neve ? 
Suave o jugo seu, a carga leve: 
Pois ella pende toda á sua banda ? 

Inda que alma ditosa não lograra, 
O que na guarda delia está tão certo, 
Com isso só ficava satisfeito : 

Quanto mais com tão cedo ver tão clara 

Aquella luz divina de tão perto, 

Por quem he nada tudo o que se engeita I 



IV. 
As Chagas. 

Divinas mãos, e pés, peito rasgado. 
Chagas era brandas carnes imprimidas, 
Meu Deos, que por salvar almas perdidas, 
Por ellas quereis ser crucificado. 

Outra fé, outro amor, outro cuidado, 
Outras dores ás vossas são devidas, 
Outros corações limpos, outras vidas, 
Outro querer no vosso transformado. 

Em vós se encerrou toda a piedade, 
Ficou no mundo só toda a crueza \ 
Por isso cada hum deu do que tinha : 

Claros sinaes d'amor, ah saudade! 
Minha consolação, minha firmeza, 
Chagas de meu Senhor, redempção minha. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



V. 
A Nossa Senhora da Arrábida 

Aqui, Senhora minha, onde soía 
Cantar na minha leve mocidade 
O muito que de vossa saudade 
Desejei d'accender nesta alma fria: 

Aqui torno outra vez, Virgem Maria, 
Desenganado já, mais de verdade. 
Pois me mostrou do mundo a falsidade, 
Que a lagrimas comprei quem me vendia. 

Conselham-me tão claros desenganos 
Que comece de novo nova vida 
Nesta Serra deserta, alta, e fragosa ; 

Mas são conselhos vãos, leves, humanos, 
Que vós nunca quisestes ser servida, 
Se não por puro amor, Virgem fermosa. 



VI. 
A S. João Baptista. 

Daquelle, que não tinha inda pisado 
A terra com seus pés, quando saltava 
Nas entranhas da mãi, donde alcançava 
O Senhor nas da Virgem encarcerado ; 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 



Daquelle de quem Deos foi baptizado, 
Daqueile que era voz do que clamava, 
Daquelle São João, que tanto amava 
A Deos, e que de Deos foi tanto amado, 

As graças infinitas, os favores. 
As forças que lhe deu divino amor, 
As novas liberdades, os poderes, 

Mal as podem dizer os peccadores; 

Basta, que delle só diz o Senhor : 

« Que não nasceu maior d'antre as mulheres. > 



VII. 
Ao mesmo Santo. 

Nas entranhas da mai alumiado 
Da luz, que nas da Virgem dentro via, 
Sentio João quamanho bem seria 
Trocar pelo deserto o povoado. 

Delle fugindo vai todo abrazado 
Do fogo, que em seu peito arder sentia, 
Mais quer de animaes brutos companhia, 
Que ser de gente humana acompanhado. 

A troca foi ditosa em tenra idade, 
A solitária vida he majs segura. 
Que do mundo cruel a falsidade. 

Nas pedras do deserto achou brandura, 
Nas serpentes da serra piedade, 
E nas pelles das feras cobertura. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



VÍII. 
A S. João Evangelista. 

Na derradeira Cêa do Senhor, 
João, ceando todos, só dormia 
Sobo-lo peito, donde elle sabia 
Que não sabia cousa outra melhor. 

Naquelle somno achou outro sabor 
Mais suave que quanto se comia, 
Que em fim he differente iguaria 
O repouso de seu divino amor. 

A dormir se lançou no fogo puro, 
Ardendo repousou no meio delle, 
Como quem tudo o mais tinha seguro. 

João Evangelista foi aquelle, 

A quem disse o Senhor do Lenho duro 

A' Virgem : — que seu filho era aquelle 1 



IX. 
A Cru\. 

Em ti, suave Cruz, inda que dura 
Por ver sangue innocente derramado, 
Pregados pés, e mãos, aberto o Lado, 
Donde minha esperança se pendura*, 



i 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Em ti de piedade, e de brandura 
Doce penhor do penitente errado, 
Em ti Christo Jesus dependurado 
A salvação do mundo dependura ; 

Em ti se consumou toda crueza, 

Que em corações humanos se accendia 

Contra todas as leis da natureza. 

Mas em si se tornou, em alegria 

Da nossa redempção, toda a tristeza ; 

Oh Cruz defensão nossa, nossa guia. 



X. 
A mesma. 

Oh Cruz, que no Calvário sustentaste 
Os membros de que foste sustentada, 
Quando, pisados elles, tu pesada 
Antes de lá chegar desconjuntaste. 

Como sendo instrumento que mataste 
Por mãos de gente ceg^i, gente errada, 
Não somente ficaste desculpada. 
Mas ainda da culpa triunfaste. 

Se tu representaras tão somente 
A salvação do mundo resgatada 
Sem sangue do Cordeiro paciente ; 

Vira-me, com te ver, mais consolado, 
Porque parara em ver meu bem presente, 
Sem ver nelle meu mal representado. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



XI. 
A Santa Clara. 

Oh Clara, que tão clara resplandeces, 
Nos olhos da divina claridade ; 
Clara que desterrastes a vaidade 
Das vidas, que na vida favoreces : 

As palmas cujas flores oífereces 
Aquelle, que na flor da tua idade 
Guiou para si só tua vontade, 
Te dem quantos louvores tu mereces. 

Elias a quem na terra tu mostraste 
A via, que escolheste mais segura, 
He justo, que te louvem, eu que tema. 

Oh Clara que tão cedo contemplaste 

Segredos da divina fermosura, 

Clara, que das mais claras foste a gemat 



XII. 
A Deos. 

Que lugar acharei no pensamento 
Tão áspero, medonho, triste, escuro. 
Onde, meu Redemptor, este seguro 
De mais vos offender hum só momento ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Não digo pelo meu contentamento, 
Que brando me faria outro mais duro; 
Mas por não ser ingrato a amor tão puro, 
Que morreu por me dar merecimento. 

Gomo vos servirei, pois vos não amo ? 
Como vos amarei, pois vos oífendo, 
E sempre cada vez mais gravemente ? 

Nestes frios suspiros que derramo 
Sem servir, sem amar, Senhor, entendo 
Que não ha poder ser viver contente. 



XIII. 
Da Oração. 

Doce quietação de quem vos ama 
Em serviços. Senhor, que tanto quanto 
Amado sois, tão longe o fim de tanto, 
Subindo mais, e mais, mais se derrama : 

Ardendo por arder em viva chamma 
D'amor do vosso amor, a voz levanto ; 
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto 
Ao som doutra suave que me chama. 

Onde se vai. Senhor, quem vos offende ? 
Donde levais, Deos meu, a quem vos segue ? 
Onde fugir se pôde huma de duas ? 

Morto por quem o mata que pretende, 
Ou que extremos d'amor ha que nos negue 
Quem culpas nossas chama oftensas suas ? 



IO Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



XIV. 
A Jesus Crucificado. 

Perdoai-me, Senhor, que se faltara 
Pôr os olhos em Vós crucificado, 
O menos que de muito tenho errado, 
Noutros maiores erros me lançara. 

Triste quanto perdi, e quanto achara 
Inda assim de desculpas carregado. 
Se por onde Vós tendes caminhado 
Guiada esta alma minha caminhara. 

Culpado fui primeiro que nascido ; 
Engeitei a razão pela vontade; 
Amiga do meu mal, do bem imiga. 

Meu Deos por mim á Cruz offerecido, 
Alembrai-vos da vossa piedade 
Tão larga em perdoar, e tão antiga. 



XV. 

Á Magdalena. 

Tal luz á Magdalena alumiava 
(Fermosa desd'antão, dantes tão feia) 
Que não lhe pareceu ser casa alheia 
Aquella, onde o Senhor de tudo estava. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



E como quem por tal o confessava, 
Não teme, não duvida, não receia 
Mostrar sinaes de dôr, de que alma chea 
Tão longe, de tão perto suspirava. 

Na terra jaz lançada, está regando 
Com lagrimas as plantas do Senhor, 
A cuja sombra colhe doce fruito. 

Muito lhe perdoou, porque amou muito-, 
E muito mais lhe deu depois, que amor 
Em lagrimas de dôr se foi banhando. 



XVI 
Á mesma. 

Diante do Senhor está lançada 
A Magdalena triste, e vergonhosa, 
Qual na força do sol vermelha rosa 
Dos seus ardentes raios transpassada. 

A nova, e grave dôr lhe tem roubada 
( Sinal do que padece ) a voz queixosa ; 
Lembra-lhe que passou tão perigosa 
Vida, da vida sua descuidada. 

Os pés que dos seus passos foram guia 
Em lagrimas banhados alimpava 
Com os cabellos de. que se cubria. 

Alli do Redemptor, a quem buscava, 

Encaminhada foi; porque queria 

Que amasse muito mais ; que tanto amava 1 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



XVII. 
A mesma indo ao Sepulcro. 

Depois que não achou na sepultura 
Seu Senhor a fermosa Magdalena, 
Os seus longos cabellos desordena, 
Vmgando-se na sua fermosura . 

— Ingrata fui, Senhor, fui cega, e dura, 
\, Dizia) minha culpa me condena. 
Que se temia dor, tormento, ou pena, 
Em que parte estivera mais segura ? 

Se donde vos deixei não me apartara, 
Não me roubara assi, quem me roubou ; 
Tantas forças amor dar-me podia ! 

Porque me fui daqui ? que mais queria 
Que matar-me. Senhor, quem vos matou ? 
Pôde ser que comvosco me levara. . . 



XVIII. 
A mudança da vida. 

Tempo foi que pastava neste prado 
Bem fora de cuidar que poderia 
Tornar a ver me nelle inda algum dia, 
De tantos mil cuidados descuidado. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



O Senhor, que me trouxe a tal estado, 
Quando castigos graves merecia, 
Dando-me muito mais do que pedia, 
Para sempre já mais seja louvado ! 

Estas agoas correntes, estas flores, 
Estes bosques cobertos de verdura, 
Os passarinhos nelles escondidos, 

Aqui lhe dem comigo mil louvores, 
Sem fim o louve toda a creatura, 
Não sintam outra cousa meus sentidos. 



XIX. 

A noite de Natal. 

Era noite de inverno longa, e fria, 
Cobria-se de neve o verde prado; 
O rio se detinha congelado, 
Mudava a folha a cor, que ter soía 

Quando nas palhas de huma estrebaria, 
Entre dous animaes brutos lançado. 
Sem ter outro lugar no povoado 
O Minino Jesus pobre jazia. 

— Meu filho, meu Amor, porque quereis 
( Dizia sua Mãi ) nesta aspereza 
Accrescentar-me as dores, que passais ? 

Aqui nestes meus braços estareis; 
Que se vos força amor soffrer crueza, 
O meu não pôde agora soffrer mais. 



14 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



XX. 
Ao mesmo. 

Que saudade d'alma, e que brandura, 
Virgem Senhora minha, se vos deve 
Em tempo que paris ó vento, á neve, 
O Creador de toda a creatura ! 

No feno, que ficou na terra dura, 
Pisado de r.nimaes, lançado esteve 
O Minino Jesus, ah ! que não teve 
Casa, berço, lugar, nem cobertura ! 

Não sou Rei, nem Pastor, que me appareça 
Estrella que me guie. Anjo que chame. 
Por isso a Vós não vou, de mim não parto : 

E não tenho cordeiros que oíFereça, 
Ouro, incenso, mirra, amor que inflamme, 
Com que vos visitar, Virgem no parto! 



XXI. 

A Santo António. 

Que louvores direi do nosso Santo 
António, pelo mundo tão louvado, 
Que seja seu louvor todo igualado 
Com seu merecimento tal, e tanto ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz t5 

Por mais livre voar de tudo, quanto 
Na terra tinha já renunciado, 
Depois da patna sua ter trocado, 
Com S. Francisco quis trocar o manto. 

Assi mais docemente assegurando 
Com trocas tão ditosas, tão suaves, 
Amor, que por amor quer que te deixes, 

Os passos vás na terra conformando 
Com Francisco, que nella prega ás aves, 
António, o que no mar pregas aos peixes. 



k 



XXII. 
A Nossa Senhora da Arrábida. 

Oh Virgem Mãi de Deos, Senhora minha, 
A quem me soccorri, por quem chamava, 
A quem servir minha alma desejava 
Nesta Serra do Ceo vossa vizinha. 

Tornar-me á saudade que me vinha. 
Quando mais docemente contemplava, 
Como com favor vosso caminhava, 
Daqui donde mais livre se caminha. 

Esta terceira vez que determino 
(Se Vós assim também determinais) 
Sem mudança fazer a sepultura, 

Mostrai-vos liberal de amor divino, 
Arca neste meu peito tanto mais, 
Quanto mais vos dotou de fermosura. 



\6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



XXIII. 
A nosso Padre S. Francisco. 

Seráfico Francisco, assinalado 
Naquellas cinco partes, donde estava 
Amor, quando por si se trasladava 
Para mostrar em ti o seu traslado : 

Assi como na Cruz fora pregado, 
Assi consigo mesmo te pregava : 
Das chagas de que nella se chagava. 
Dessas mesmas te deixa a ti chagado. 

Que seguro te deu de gloria sua, 
Sellado com seu sello, impresso, escrito 
Vivendo na vencida carne tua ! 

Vencida então conforme a teu esprito. 
Que nú se apartou delia em terra nua, 
Qual o Senhor da Cruz em ti bemdito. 



XXIV. 
À saudade de hum t^to. 

Que coração tão duro, secco, e frio 
Se poderá livrar do sentimento. 
Vendo com vagaroso movimento 
Fugir as claras agoas deste rio ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 17 

Tamanho mal em tantos males crio, 
Que não fica logar ao pensamento 
Para chorar sequer hum só momento 
A seccura, e dureza, em que me esfrio. 

A corrente das agoas branda, ou tesa, 
Mal pôde desfazer minha seccura. 
Pôde mal abrandar minha dureza ; 

A saudade d'alma branda, e pura. 

Em que se ha de accender minha frieza, 

Consiste na divina fermosura. 



XXV. 

Da Serra da Arrábida. 

Do meio desta Serra derramando 

A saudosa vista nas salgadas 

Agoas humildes, quando e quando inchadas, 

Conforme a qual o tempo vai soprando, 

Estou comigo sô considerando. 
Donde foram parar cousas passadas, 
E donde irão presentes mal fundadas, 
Que pelos mesmos passos vam passando. 

Oh ! qual se representa nesta parte 
Aquella derradeira hora da vida 
Tão devida, tão certa, e tão incerta ! 

Em quantas tristes partes se reparte, 

Dentro nest'alma minha entristecida, 

A dor, que em taes extremos me desperta ! 



i8 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



XXVI. 

A seu irmão Diogo Bernardes. 

Do Lyma, donde vim já despedido, 
Cavar cá nesta Serra a sepultura, 
Não sinto que louvar possa brandura, 
Sem me sentir turbar do meu sentido. 

A laã de que me vem andar vestido, 
Torcendo em varias partes a costura, 
Os pés que nús se dam á pedra dura. 
Nem me deixam ouvir, nem ser ouvido. 

O povo cujo applauso recebeste, 
Vendo teu brando Lyma dedicado 
A Principe Real, claro, excellente. 

Louvará muito mais quanto escreveste. 
De mim, meu caro irmão, menos louvado,^ 
Louva comigo a Deos eternamente. 



ÉCLOGAS. 

ÉCLOGA I. 

A sua conversão. 

Lançou-se Limabeu antre huns penedos 
Donde via correr hum claro rio, 
Acostumado a ouvir os seus segredos. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 19 

Com os olhos num bosque alto, sombrio, 
A quem a primavera já pagava 
A perda que lhe fez o tempo frio. 

— Aquillo í começou ) que vos contava, 
Plantas, agoas, penedos, foi engano; 
Já me desenganou quem me enganava. 

Mais foi a perda sua que meu damno, 

Mas (como dizem ) tudo tempo cura, 

Pois o que perde o mês, não perde o anno. 

Engeita-se no campo a fermosura 
Do lírio já colhido, que não cheira : 
Mais ha de ter o bosque que verdura ! 

Inda mal ! pois não foi esta a primeira 
(Como devera ser) que me levara, 
Donde não vira mais esta ribeira. 

Não falta nos desertos agoa clara, 
A lapa que da calma me defende. 
Se ventar, ou chover, também me ampara. 

Alli tem liberdade, alli se estende 

O pastor solitário com seu gado; • 

Não se offende d'alguem, ninguém offende. 

Não tenho que fazer no povoado ; 
A razão me conselha que me guarde, 
Eu não me atrevo nelle andar guardado. 

Se escutar sempre quem me diz, que aguarde, 
Nunca já buscarei, a quem me espera ; 
E pior me será nunca, que tarde. 

Ainda que mais males não tivera. 
Quem bens na terra tem, que ser cativo 
Delles, por isso só fugir devera. 



20 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Após dum gosto falso, fugitivo, 
Leve, de noite vou, cego, ás escuras, 
Sem me lembrar que para morrer vivo. 

Quebraram-se, meu Deos, as pedras duras ; 
Mostrou o sol e lua sentimento; 
E não vossas humanas creaturas ! 

Eu só, meu Redemptor, vos atormento ! 
Eu fiz os vossos cravos, cruz, e lança, 
Por obra, por palavra, e pensamento. . . 

E Vós encheis minh'alma de esperança 
Com tão claros sinais de piedade, 
Que quasi já não sei temer vingança. 

Longe está de sentir suavidade 
Divina, cá na terra, quem não nega 
Pela vossa, Deos meu, sua vontade. 

A alma, que em vossas mãos presa se entrega 
Não tem de que temer, nada recêa, 
A névoa deste mundo não na cega. 

Nas lagrimas de dôr, em que semêa, 
Colhe suave fruito de alegria, 
Saudoso da sua em terra alhêa. 

Se aquelles a quem guerra não fazia 
Nenhum dos nossos mores três imigos, 
Porque a serpente então pouco podia : 

(Fallo daquelles nossos pais antigos, 
Que não lograram inda hum dia inteiro, 
Quando livres estavam de perigos), 

Que farei eu de sua culpa herdeiro, 
Com tantas sobre tantas nesta vida, 
Antes mais propriamente cativeiro ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Em peccados, Senhor, foi concebida, 
Em peccados minh'alma foi creada, 
De peccados tão mal arrependida ! 

Mas pois no vosso sangue foi lavada 
(Força de poderoso amor divino ! ) 
He justo que em Vós viva confiada. 

Viestes amostrar ao peregrino 
O caminho da sua natureza ; 
Querer ir lá por outro he desatino. 

A carga que causou minha fraqueza 
Os passos me detém, faz-me que deça, 
E quanto deço mais tanto mais pesa. 

Não vos peço, Senhor, porque mereça 

Graça para ficar antre esta Serra, 

Mas porque Vós quereis que vo la peça. 

Aqui não temerei a cruel guerra ; 
Daqui verei no Ceo fermosas cores ; 
Assi me esquecerão cousas da terra. 

Não colhem sem suar os lavradores ; 
Não nasce sem morrer primeiro o trigo : 
Os mimosos não são para pastores. 

O vigiar escusa de perigo, 

O padecer levou muitos á gloria, 

Desenganado emfim estou comigo, 

Que sem guerra não pôde haver victoria. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



ÉCLOGA II 

Mincio, e navio. 

No anno do Noviciado. 

Mincio. 
Trazes mudada a côr, mudado o rosto, 
O coração não sei se anda mudado ? 

Flávio 
Eu, Mincio, não nasci para ter gosto. 

Mincio. 
Folgo de te ver já desenganado. 
Ninguém me lia de tirar de meu juizo: 
No mundo' ninguém vive consolado. 

Huma hora vejo pranto, outra hora riso, 
E muito menos riso do que pranto, 
Emfim rir se de tudo será siso. 

Que me dá a mim, que nunca tenha quanto 
Eu desejo de ter, pois que te vejo 
Tão triste com te ver ter outro tanto ? 

Depois que vim pastar junto do Tejo, 
E vi que lanto gado não bastava 
Para matar a fome do desejo, • 

Antes cada vez mais se accrescentava. 
Disse comigo : — Mincio, aqui não soa 
O som, a que dançar eu esperava. 

Cousa não tenho vista má, nem boa, 
De que possa tirar honra, ou proveito, 
Mas convém que homem faça de pessoa. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



O bem, só por ser bera, sem mais respeito 
Consola a quem o faz •, nunca verias 
Que podésse ser máo o ter bem feito. 

Lembra-te quantas vezes me dizias. 
Que se de teu tivesses, alguma hora, 
Hum pedaço de pão, que te ririas 

De tudo quanto visses ? pois agora 
Que tens ainda mais do que sonhaste, 
Como teu coração suspira, e chora ? 

Flávio. 
Dize-me tu primeiro, se acabaste 
De fallar tantas cousas escusadas ? 

Mincio. 
De fallar as verdades te aggravaste ? 

Flávio. 
Verdades de que servem declaradas 
A quem magoas presentes entristecem 
Na lembrança de tantas mal lembradas ? 

Que se por estes campos nos falecem 
Verdes hervas, e claras agoas, frias, 
Peccados nossos muito mais merecem. 

Acabaram se as nossas alegrias, 
Secaram-se os altivos pensamentos; 
Quantas mudanças em tão poucos dias ! 

Deixaram de ventar aquelles ventos, 
Em cuja fúria tantos tinham postos 
Os seus (já derribados) fundamentos. 

Mas para que he sentir faltarem gostos, 
A quem de mim zombava, se me ouvia. 
De quão falsa matéria eram compostos ? 



24 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Inda mal porque vemos cada dia 
Desejos similhantes doutros tantos, 
A quem o mesmo vento cega, e guia. 

Mas pois nós não podemos curar quantos 
Erros o mundo tem, será melhor 
Deixarmos tudo a Deos, ou aos seus Santos. 

Quero-te dar razão do rosto, e côr 
Mudados, que me viste, quando vinha, 
Sinais de coração cheio de dôr. 

Bem sabes que na vida mais não tinha 
Para me consolar que hum só amigo, 
Tão verdadeiro amigo d'alma minha. 

Este depois que não pôde comsigo 
Levar-me, por meu mal tão mal sentido, 
Fugindo foi de mim como de imigo. 

Disseram-me que estava cá mettido 
Junto do mar Oceano numa serra, 
Dum novo, não sei qual, amor ferido. 

Por elle só deixou quanto na terra 
Tinha, com tudo o mais que ter pudera, 
Por elle anda comsigo em x:ruel guerra. 

Se não chegara a vê-lo, não o crera! 

Quasi mudou de todo a natureza, 

Que não he Limabeu, mas ferro, e cera. 

Nunca se imaginou tal aspereza. 
Não digo dos penedos do deserto, 
Mas da fome, do frio, e da pobreza. 

Dos pés até á cabeça anda coberto 
De laã de alheas cabras, remendado 
De mil cores, sem ordem, sem concerto. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Traz huma corda grossa, a que anda atado 
Pelo meio, descalço, sem mais nada •, 
Sem bolsa, sem surrão, e sem cajado. 

Barba, e cabeça traz toda rapada. 
Qualquer cousa que quebra, fende, ou fura, 
No seu pescoço a leva pendurada. 

Os pés se por compasso pôr não cura, 
Quer gretados do frio, quer doentes. 
Também nelles lhe põem huma atadura. 

Não pôde responder aos mal dizentes. 
Nem dar razão de si, que se boqueja 
Atravessado leva hum pao nos dentes. 

Os olhos se alevanta, ou pestaneja. 
Nem inda para quem falia com elle. 
Hum panno lhe põem nelles que não veja. 

Hum principal de seis nas costas delle 
De tal maneira faz soar as varas, 
Que não lhe queiras tu jazer na pelle. 

Emfim se de me ouvir não te enfadaras, 
Contara tanto mais do soffrimento. 
Com que tudo padece, que pasmaras. 

Porque não fica dor, pena, ou tormento, 
De cruel mvenção, qualquer maneira. 
Que deixe de softrer hum só momento. 

Debaixo de hum penedo na ladeira 

Do monte todos tem cada hum seu ninho; 

Mas o triste sempre anda na carreira. 

Mincio. 
Basta, não digas mais : esse caminho 
Bem sei adonde vai, e donde para : 
O bom de Limabeu he Capuchinho. 



20 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Ah ! Limabeu, Limabeu ! quem cuidara, 
Que do meio de tantas vaidades. 
O Senhor para si só te chamara ! 

Quantas vezes as nossas novidades 

Se perdem, como claramente vemos : 

Que não quer Deos que chova nas herdades'. 

A culpa disso, todos nós sabemos, 

Que não a tem os bois, mas quem semêa. 

E por ventura os mais dos que colhemos. 

Não ha pastor tão néscio que não crêa 
Que nascemos, aqui neste degredo. 
Desterrados da nossa em terra alhêa. 

E quem viver debaixo do penedo 
Como Limabeu vive, he mais seguro; 
Pois tudo ha de acabar ou tarde, ou cedo. 

Mas se bens da minha alma não procuro, 
Porque quero andar eu como morcego, 
Que sempre anda a buscar o mais escuro ? 

Por não ver o melhor me faço cego, 
E por mais me cegar me faço mudo, 
E quando não, mil sem razões allego. 

Que bárbaro cruel se vio tão rudo. 
Que deixe de entender que não acerta 
Em querer dar Jançada em seu escudo ? 

Creou nosso Senhor alma liberta. 
Conforme as nossas forças nos obriga ; 
Que para todos tem a porta aberta. 

Flávio. 
Queres, amigo Mincio, que te diga. 
De meu fraco saber o que comprendo? 
A carne sempre da alma foi imiga. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 27 

Eu não quero fazer segundo entendo, 
Que para me salvar mais me releva; 
Assi me vou matando, assi perdendo. 

Mincio. 
He verdade o que dizes, mas quem leva 
Limabeu dantre nós, inflamma, accende, 
Que no divino amor todo se enleva ? 

Quem lhe faz tanta força, quem o rende ? 
Quem o rege, e governa ? quem o ensina, 
Quem o sustenta cá, quem o defende ? 

Quem tal mudança fez tão repentina 
Dos seus, do seu, de si, de toda a vida ? 
Quem de cousa mundana fez divina ? 

Flávio. 
Inda agora ha pastor que isso duvida ? 
Não sabes que o Senhor a lodos chama, 
Todos quer para si, todos convida ? 

Por todos todo seu sangue derrama. 
Pregado numa cruz ? mas justamente 
Alcança delle mais quem o mais ama, 

E por isso na paga he diíferente \ 
Que não acha capaz o preguiçoso 
Das graças, que merece o diligente. 

Mas se mais algum pouco vagaroso 
O seu dourado carro governara 
O filho de Latona o mais fermoso, 

Que versos tão suaves te cantara, 
D'alguns que Limabeu agora canta, 
Inda que minha voz pouco soara ! 



28 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mincio. 
Antes elle não leva pressa tanta, 
Se não para que soltes mais depressa 
A tua doce voz dessa garganta. 

Inda que não tivera n'alma impressa 
A força da divina saudade ; 
Bastara quanto nisso se interessa. 

Flávio. 
Mandas-me ? negarei minha vontade ? 

Meu Deos, que cousa pôde ser tão forte, 
Que género de morte, que tormento, 
Que dor, que sentimento, que tristeza, 
Que pena, ou que aspereza em toda a vida. 
Que numa alma ferida de verdade 
Da vossa saudade, causa espanto ? 
Que não digo, por quanto nisso alcança; 
Pois numa só lembrança, inda que breve, 
A muito mais se atreve, mais deseja^ 
Mas porque se despeja tanto mais 
No muito que lhe dais do vosso muito, 
Que contemplando o fruito, do que espera 
Na doce primavera colhe flores 
De tão diversas cores tão fermosas. 
Que lírios, e que rosas de contmo 
Semêa amor divino nesta serra, 
Onde tanto se encerra, e se derrama ! 
Amor accende, inflama, amor tem tudo 
Setta, lança, escudo ; dá vida, e mata, 
Cativa, desbarata, solta, e prende. 
Amor livra, e defende, planta, e rega ; 
Amor freta, e navega, amor segura ; 
Amor cria brandura na dureza, 
E converte a tristeza em alegria ; 
A noite escura em dia fresco, e claro. 
Amor he meu amparo, e meu descanso ; 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 29 



Amor he brando, e manso, piedoso, 
Suave, e saudoso, doce, e puro 
Forte, firme, e seguro, verdadeiro. 
Amor pôs num madeiro meu Senhor, 
Trespassado de dôr, aberto o lado ; 
De mãos e pés pregado : ai ! e quão tarde 
Senti de amor, que amor por amor arde ! 

Mincio. 
Quão differentes versos chora, e canta 
Quem dos suspiros d'alma anda colhendo 
Quanto divino amor semêa, e planta ? 

Flávio. 
A sombra dos outeiros vai decendo, 
O fumo das aldeãs vai subindo, 
Quero-me ir com meu gado recolhendo. 

Mincio. 
Antes isso te vai persuadindo. 
Que fiques esta noite aqui comigo. 
Irte-has pela manhã, o sol sahindo. 

Temos do leite, e nata, e do pão trigo, 
Castanhas, e maçans, e mais da boa 
Vontade, de que sei que és mais amigo. 

Flávio. 
Não gasto tempo em vão, Mincio, perdoa, 
Que nunca faltará boa vontade ; 
Se não faltar, então basta da broa. 
Não ha manjar melhor que liberdade. 

Sem ver, nem conversar mais que penedos, 

Que só amigos da minha saudade 

São firmes, e são mudos, não são tredos. 

Não te respondo mais, fica-te embora ! 



3o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



ÉCLOGA III. 

Silvestre, e Rodrigo. 

Silvestre. 
Mais cedo te buscara, se não fora 
Este gado que guardo da Madrasta, 
A quem querem que falle por senhora. 

Seu avô lho sonhou, pois lhe não basta 
Deixar-lhe minha mãi a casa chea, 
Se não inda com seus filhos se agasta. 

Porém se m'ella a mim muito esquerdea, 
Pôde ser que lhe faça huma, e boa, 
Que tenha que fallar a nossa aldeã. 

Arrenega, Rodrigo, da pessoa, 
Que primeiro que deça com cajado, 
Ha de buscar a parte que mais doa. 

Rodrigo. 
E com'ora já tenho arrenegado ! 
Mas que lhe hei de fazer, pois a ventura 
Também me fez pastor de alheo gado. 

Aquelle que mais serve, e mais atura, 
Pagam-lhe sô, depois de ser desfeito, 
Com lhe dizer que foi sua feitura. 

Na requia esteja a alma de Bieito, 

Que fugio de pastar junto do Tejo, 

Que era homem que queria andar direito. 

Levem comsigo á cova o seu sobejo, 

Cubice quem quiser suas valias, 

Que nunca mas Deos dê, se lhas desejo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Não faltam cá no monte as agoas frias. 
Verdes hervas por donde nos lancemos, 
Quer venham, quer se vão, noites, e dias. 

Silvestre. 
Se quiseres, Rodrigo, que deixemos 
De querer governar vidas alheas, 
Huns versos, que homem fiz, aqui cantemos. 

Rodrigo. 
Ainda tu de amores não receas 
Cantar versos ao som do leve vento ? 
Quão pouco colherás do que sêmeas ! 

Silvestre. 
Não sei qual he tamanho atrevimento, 
A quem eu não descubro meu segredo, 
Qu' adivinhar s'atreva o pensamento ? 

Quantas vezes mostrei meu rosto ledo, 
Quando meu coração triste chorava ? 
E quantas me movi estando quedo? 

Mas se queres ouvir o que cantava, 
Antes que deste vaile nos partamos, 
Dirás, quão mal, Silvestre, te julgava. 

Eu quero-me esconder antre estes ramos 
E tu dalli de trás daquelle freixo 
Verás se nos amores concordamos. 

Rodrigo. 

Ora escuta bem de que me queixo: 
Se tanto vos offendo n'um só ponto, 
Poderoso Senhor, de toda a vida, 
Que conta vos darei, pois não tem conto ! 



32 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Que conta, ou que peso, que medida ? 
Inda que menos dias mal gastara 
Que pena ás minhas culpas he devida ? 

Silvestre. 

Que pena ou que dôr me atormentara, 
Se nunca Deos de mim íora offendido. 
Quanto pouco temera, e quanto amara ! 

Rodrigo. 
Quão pouco custa andar oflferecido 
A soffrer sem razões, fomes, e frios, 
A quem d'amor divino anda ferido ? 

Silvestre. 

A quem bosques nos deu verdes, sombrios. 
Louvores infinitos sejam dados 
Dos brutos animaes, peixes dos rios. 

Rodrigo. 

Dos brutos, e das feras, e dos prados 
Aprendamos a dar a Deos louvores. 
Pois elles para nós foram creados. 

Silvestre. 
Pois elle cria fruito, cria flores 
Nos montes, e nos valles, nas montanhas, 
Donde nunca se encurvam lavradores. 

Rodrigo. 
Donde todo pastor veja quamanhas 
Cousas nos ha de dar em nossas terras, 
Quando tantas nos dá cá nas estranhas. 

Silvestre. 
Quando paz acharei em tantas guerras 
Em quantas não sei que me desafia 
Ainda com viver antre estas serras ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 33 

Rodrigo. 
Ainda me importuna, inda porfia 
Comigo hum não sei que, que nunca cansa : 
Ora rosna, ora ladra, ora se ínvia. 

Silvestre. 
Ora me fere a setta, outr'ora a lança •, 
Cansado vivo já de defenderme; 
Alas ai que de ferir-me nunca cansa! 

Rodrigo. 
Não posso, meu Senhor, nem sei valer-me; 
Peço-vos por quem sois que me ajudeis, 
Pois sem vós está certo em mim perder-me. 

Silvestre. 
Meu Deos, e meu Senhor, não me julgueis 
Segundo vos merecem meus peccados 
Abaste que por elles padeceis. 

Rodrigo. 

Quantos pastores andam mal julgados 
Aqui por estes montes ? quem cuidara 
Que linhas tu. Silvestre, estes cuidados ? 
Prouvera a Deos que o dia mais durara, 
Ou que estivera mais perto a malhada, 
Que esta noite comtigo aqui ficara. 

Silvestre. 
Não falta ( a Deos louvores ) na pousada, 
De que fazer a cêa com bom rosto. 
Nelle, e nella te nunca faltou nada : 
— Outro dia será mais a teu gosto. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



ÉCLOGA IV 
Em que se queixa de hum amigo. 

Limabeu, e Mincio. 

Mincio. 

Se tu para tão longe te partias, 
Porque razão ( sequer ) fica-te embora, 
Oh Mincio, que me vou, não me dizias ? 

Quanto mais acertado, e melhor fora 
Soffrer, e não mudar o pasto antigo, 
Por não t'arrependeres algum dia. 

Se cuidas que fugindo d'hum perigo, 
Noutra parte estarás doutro seguro, 
Não te deixes levar a ti comtigo. 

Que nunca foi sinal d'homem maduro 

Dar com sua cabeça no penedo, , 
Para depois julgar se he mole ou duro. 

De que me serve ser triste nem ledo. 
Ter mais leite, mais lãa, melhor cabana, 
Se tudo ha de acabar ou tarde, ou cedo ? 

Eu não sei que te cega, que te engana, 
Limabeu ; pois te move qualquer vento, 
Assi como se fosses leve cana. 

Companheiro te fui no sentimento. 
Nunca me vistes rir, quando choravas ; 
Menos chorar no teu contentamento. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 35 



Com igual amor tu o meu pagavas, 
Isso me fez sentir não te lembrar, 
Que te partias donde me deixavas. 

Mas comtudo não deixo duvidar 
Que nunca da ribeira te partiste, 
Sem algum bicho grande te ladrar. 

Conta-me, Limabeu, de que fugiste ? 
Quem aos olhos te tem atravessado, 
Que bem se vê nos teus quanto sentiste ? 

Limabeu. 

Que queres que te conte hum magoado 
Da setta, que atirou aquelle braço. 
Do qual elle devera ser guardado ? 

Passara hum coração que fora d'aço, 
Quanto mais este meu, que de brandura 
E de amor puro nunca foi escasso ! 

Costumava queixar-me de ventura 

Em qualquer outro mal ^ mas no presente, 

Não ha senão morrer de magoa pura. 

O que sinto daqui principalmente 
He ver que me faltou agoa num rio 
Tão claro (ao parecer) alto, e corrente. 

Quero morrer de fome, calma, e frio 

Nesta Serra deserta, onde não vejo 

Quem cuida mal de mim, se zombo, ou rio. 

Não faço força nisto ao meu desejo, 
Por ver que se secaram quantas flores 
Com lagrimas reguei junto do Tejo. 



36 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



As ribeiras não são para pastores, 
Cujas palavras mostram as entranhas, 
Cujos olhos não vem fingidas cores. 

Mdl poderá fugir de tantas manhas, 

De tanto riso leve, contrafeito. 

Se não viera dar nestas montanhas. 

Eu não posso entender porque respeito 
Me querem magoar; mas o que entendo, 
He que me fazem mal sem ter mal feito. 

Cabras suas guardei, não me arrependo, 
Assaz vingado estou ; porque bem sei. 
Quanto cora me perder ficam perdendo. 

Aquelle de quem mais me confiei, 
Aquelle por quem mais me desvelava, 
A coima, que não fiz, fez que paguei. 

Bem mal me pareceu, mal suspeitava, 
Que podesse caber em peito humano 
Cousa, que nem por sonhos me lembrava. 

Ou fosse por malicia, ou por engano. 
Ou por se descuidar de ser christão, 
A mim me quis ferir, a si fez damno. 

Matou Caín Abel, seu próprio irmão; 
José d'onze que tinha foi vendido, 
Naboc' apedrejado de ambição. 

Foi Job de seus amigos affligido 
Quando mais consolado ser devera, 
Eu dos meus accusado, e perseguido. 

Quantas voltas o triste Mincio dera 
Com suas próprias mãos á sua orelha, 
Se de falsos amigos não temera ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 3j 

O mesmo nosso Deos nos aconselha 
Doendo-se de nós, que nos guardemos 
Do lobo, que vestir pelle d'ovelha. 

Limabeu. 

E como conhecer, Mincio, podemos 
Que possam ser cruéis lobos aquelles, 
Que com pelles de ovelhas brandas vemos? 

Mincio. 

Como ? diz o Senhor, — do fruito delles : 
Dá má planta máo fruito, bom dá boa : 
As obras mostram, cujas são as pelles. 

Limabeu. 

Nosso Senhor te livre da pessoa, 

Que por fazer dançar mais a teu gosto 

O seu próprio arrabil desencordoa. 

Mincio. 

Se tu me has de contar o teu desgosto 
(Como deves de crer que to mereço) 
Vai-se fazendo tarde, o sol he posto. 

Limabeu. 

Ando fora de mim, pasmo, esmoreço 
Em cuidar, que não posso consolar- me 
Com te contar os males, que padeço. 

O que posso fazer será queixar-me 
Na minha rouca voz. triste, confusa : 
Tempo virá que possa declarar-me. 

Mincio. 
Ora começa já, não dês escusa. 



38 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Limabeu. 
Verdes campos do Tejo, claras agoas, 
Se para chorar mágoas me lembrais, 
Quanto sentirei mais neste meu peito 
Hum tamanho defeito de hum amigo, 
Que pastava comigo tão seguro ! 
Triste de mim ! quão puro se mostrava ! 
Mai ai! quão longe estava da pureza, 
Que a minha natureza merecia! 
Se mal lhe parecia, bem poderá 
Dizer-me, que não era gosto seu 
Pascer o gado meu pela ribeira. 
Donde não ha silveira, em que se fira. 
E quando me não vira sepultar, 
Para nunca tornar a povoado, 
Então de mim, do gado se vingara, 
E não me difamara com pastores. 
Que não conhecem flores penduradas 
D'amizades fundadas nas divinas. 
Tanto podem malinas creaturas. 
Que por fazer escuras as estrellas, 
Dizem que falta nellas claridade ! 
Pouco vai a verdade dos pequenos ! 
Tudo nelles vai menos; a cubica 
Em lugar da Justiça reina agora. 
Ah ! quanto melhor fora padecer 
Mil mortes, que não ver nossos vizinhos 
Por tão tortos caminhos possuir, 
Roubar, e destruir honras, e vidas ! 
Assaz de destruidas nos ficaram 
Nos poucos que escaparam dos imigos. 
Quantos feitos antigos, que façanhas 
Por terras tão estranhas semeadas 
Vemos já sepultadas pelas mãos 
Dos filhos, dos irmãos, em tempo breve ! 
Assim paga quem deve ! justa pena 
De seu peccado ordena, quem deseja 
Que seu próximo seja perseguido, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 39 

Desprezado, abatido injustamente ! 
Este nial não se sente, chora, e geme. 
De quem a Deos não teme ; assi vai tudo ! 
Quem fosse cego, e mudo que não visse, 
Muito menos sentisse, quanto entende! 
Do pouco que me rende meu juizo 
Julgo por grande aviso sepultar-me 
Aqui, donde buscar-me ninguém venha. 
Não falta aqui da lenha para o frio, 
Agoa clara no rio alto, e suave. 
Que beba, em que me lave, contemplando 
Gomo se move brando n'uma parte, 
E noutra se reparte furioso. 
Tornando vagaroso para cima. 
Como murmura, e lima a pedra dura, 
E como se pendura o ramo verde ; 
Como seus raios perde antes da tarde 
O sol, quando mais arde d'outra banda. 
Por antre a folha branda o passarinho 
O seu redondo ninho anda escondendo, 
Mil mudanças fazendo com seu canto, 
A cujo som levanto meu esprito. 
Choro, suspiro, e grito : Meu Senhor, 
Que morre por amor de quem o mata ! 
Ah ! gente dura, ingrata, gente cega. • 
Que prende, accusa, e prega n'um madeiro 
Hum tão manso Cordeiro, antre ladrões ! 
Ah! cruéis corações! crueza minha! 
Adonde triste tinha o pensamento 
Qual outro sentimento, quaes aggravos 
Se não Coroa, e Cravos, Lança, e Cruz, 
Vossa morte, e paixão, doce Jesus. 

Mincio. 
Quantas mercês recebes do Senhor! 

Limabeu. 

Ainda muitas mais do que imaginas. 



jfjO Obras de Fr, Agostinho da Cruz 

Mincio. 
Que posso imaginar do seu amor, 

Se não que rosas são antre as boninas 
As injustas cruezas dos mortaes, 
Para mais apurar graças divinas ? 

Não vemos nós nos seus outros sinaes 
Mais claros, mais seguros, nem mais certos^ 
Para de cada vez arderem mais ? 

Caminhos são do Ceo na terra abertos, 
Por onde mais seguro hum pastor anda, 
Sem se mover daqui destes desertos. 

Limabeu. 
Nós temos de passar esia agoa branda 
Lá por cima d'um tronco d'um salgueiro. 
Que desta s'encurvou áquella banda : 

Vamos cantando ao som deste ribeiro. 
Quanto lastima, e fere hum peito ingrato;. 
E como acaba em fim por derradeiro, 
Cabras, pasto, pastor, cabana, e fato. 



ÉCLOGA V. 

Do tempo que trouxe hum a Religião. 

Gualbano, e Laurino. 

Gualbano. 
Que buscas por aqui por esta Serra, 
Que, segundo o que julgo, vás errado ? 

Laurino. 
Antes quem cedo julga ás vezes erra. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 41 

Gualbano. 
Perdoa-me se tenho mal julgado. 
Que não me pareceu, que tomarias 
Mal folgar de te ver encaminhado. 

Laurino. 
A quem já caminhou tão longos dias 
He néscio quem mostrar quer a estrada : 
Qu'a mudança do tempo muda as vias. 

Gualbano. 
Mais néscio he quem traz b-anqueada 
De tão poucos cabellos a cabeça, 
E dá resposta tão mal ensinada. 

Laurino. 
Ora não ha ninguém que se conheça : 
E de quantos mais pretos essa tua 
Coberta te parece que appareça ? 

Gualbano. 
Cada hum lá se avenha com a sua. 
Que cor não tão somente, mas eíTeito 
Muitas cabeças brancas tem da lua. 

Laurino. 
Paliemos, como dizem, a bem de feito: 
Porque me perguntaste que buscava ? 
Ou que te vai, que vá tono, ou direito ? 

Gualbano. 
Queres saber porque te perguntava ? 
Por ver s'era conforme o meu desgosto, 
O que subir a Serra te forçava. 

Laurino. 
Tão claro se descobre no meu rosto 
O que no coração trago encuberto ? 
Pouco diftere a tarde do sol posto. 



42 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Gu^lbano. 
Quanto mais que ninguém busca o deserto, 
Em quanto lhe parece que a tristeza 
Seu coração não mostra descuberto. 

Da magoa, em que aprendi esta certeza 
Não me pude livrar se não deixando 
Nas suas próprias mãos a natureza. 

Assi me fui de todo acostumando 
A tudo quanto quis fazer de mim, 
Que já agora me fica governando. 

Laurino. 
Bem fora de contar porque me vim 
Do campo para a Serra agora vinha ; 
Nem menos o porque me desavim. 

Mas o que está por vir mal se adivinha \ 
Posto que quem no mato vai atento, 
Como desatentado não s'espinha. 

Folgara de saber o teu intento 
Teu nome, tua vida, onde nasceste, 
E se moras aqui sempre d'assento ? 

Gualbano. 
He possivel que tu não conheceste, 
Laurino amigo meu, quem te conhece ? ! 

Laurino. 

Valha-me Deos que assi te desfizeste ! 

Gualbano. 
Não passa tempo em vão, nunca s'esquece 
De fazer mil mudanças, mil extremos : 
Hum dia nos alegra, outro entristece. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 43 

Laurino. 
O' pé deste rochedo renovemos, 
A' vista destas agoas do Oceano, 
Quanto cantámos já, quanto tangemos. 

Com tanta perda nossa tanto damno, 
Com tanta sem razão, tamanha inveja ; 
Queres que tanja, e cante hum peito humano ? 

[Gualbano.] 
Tu vês algum pastor, que senhor seja 
De comer o cabrito, que lhe nasce. 
Livre da lingua má lhe pôr vareja ? 

Do que dentro do seu serrado pasce, 
Lhe faz pagar a coima quem inventa 
Armadilha a seu gôsio com que cace. 

A terra, já não sei, como sustenta 
Tão depravada gente, tão malina. 
Tão mal acostumada, tão praguenta. 

Ora se fazem aves de rapina, 
Ora lobos cruéis, orá serpentes. 
Monstros que dos bons tem fome canina. 

Os vizinhos da porta, os meus parentes 

No tempo em que tusqueio, ordenho, e queijo 

Aguçam contra mim unhas, e dentes. 

Laurino. 

Também, amigo meu, eu como, e visto 
Do suor de meu rosto, noite, e dia, 
E reparto com quem murmura disto. 

E já do mal o menos tomaria 
Levarem tudo já por força ou manha, 
Não façam da minha honra iguaria. 



44 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Deixem-m'aqui viver nesta montanha, 
Matem-m'á fome, e sede na fazenda, 
Pois o tomar o alheio não s'estranha. 

Mas já que isto não pôde ter emenda, 
Fique-se para o dia do juizo : 
Quero quietação, e não contenda. 

Gualbano 
Se queres que fallemos mais de siso, 
Nota, Laurino, bem o que te digo, 
Olha por onde vou, que terra piso. 

Eu sou o que no mal sou mais comtigo ; 
Os meus peccados são causa de tudo; 
Eu faço todo o mal a mim comigo. 

Se surdo me fizer, se cego, e mudo 
A quanto succeder, e no meu braço 
Trouxer a paciência por escudo; 

Se do mundo quiser fazer retraço, 
E folgar que de mim o mundo faça, 
Que Imgua temerei, que setta, ou laço ? 

Laurino. 

Não ha mais que fatiar, mas muita graça 
Ha mister do Senhor para comprar 
Isso, que nunca vi vender na praça. 

Assi me queres tu santificar 
Vestido nesta minha fraca pelle. 
Que não sinta quem nella me picar? 

Gualbano. 
Não duvides que tudo pôde aquelle 
Que nas mãos d'hum Senhor preso s'entrega, 
Que preso, e morto foi por amor delle. 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Quem todos seus desejos Nelle emprega 
Sem querer mais fallar, vêr, nem ouvir, 
Inda bem não semêa, quando sega. 

Laurino. 
Confesso que bem posso desistir. 
De tudo quanto tenho nesta vida, 
Mas não sei como possa não sentir. 

Gualbano. 
Antes o que não sente isto, duvida, 
E não quem )á sentio quanta duçura 
Nas suas cousas Deos tem escondida. 

A dureza converte-se em brandura, 
Florece em todo o tempo a primavera, 
Torna-se em claro dia a noite escura. 

Ah! se ne$se-teu peito s'accendera 
Huma faisca só do amor divino. 
Quão docemente em si te convertera ! 

Não cuides que máo fado, ou máo destino, 
Estrella em que nasceste, alegre, ou triste 
Faz hum pastor ditoso, outro mofino. 

Na vontade de Deos tudo consiste: 
Quem não lhe resistir será ditoso. 
Desditoso será quem lhe resiste. 

Laurino. 

Eu nunca duvidei que poderoso 
Fosse nosso Senhor, mas de mudança 
Tão milagrosa estava duvidoso. 

Gualbano. 
O que muito trabalha, muito alcança; 
E quanto mais alcança mais trabalha, 
E quanto mais trabalha mais descansa. 



46 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Primeiro o verde campo se retalha, 
Que faça o lavrador a sementeira ; 
Antes que colha o trigo, sega a palha. 

A negra violeta, porque cheira, 
Colhemos antre as mais ervas do mato: 
Seca-se o lírio branco na ribeira. 

Laurino. 
Bem sei que não venderas tão barato 
O que tão caro custa, se tiveras, 
Ainda por deixar cabana, e fato. 

Gualbano. 

Bem sei que tu também s'ora quiseras, 

Poderias deixar fato, e cabana, 

E fazer bom barato do que esperas. 

Laurino. 

Eu não deixo de ver o que m'engana, 
E com muito mais claros olhos vejo 
Aquillo com que o mundo desengana. 

E sabe Deos de mim quanto desejo 

Acabar de perder a saudade 

A quantos verdes campos rega o Tejo! 

Mas não poder lograr a suavidade, 
Que Deos reparte só com seus amigos 
São culpas, que plantou a mocidade. 

Eu fiz tão poderosos meus imigos. 
Que só nosso Senhor pôde livrar-me 
De laços tão futis, e tão antigos. 

Mas se ora tu quiseres ajudar-me 
Com tuas orações, rjão desconfio, 
Que venha ainda comtigo a conformar-me, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 47 

Não temendo soffrer calma, nem frio, 
Fome. sede, nem dor, trabalho, ou pena, 
Pois basta herva do campo, agoa do rio. 

Gualbano. 
Inda que Christo a Martha não condena 
Occupada em serviço differente, 
Diz que escolheu melhor a Magdalena. 

Tu podes fazer bem a muita gente, 
E grangear o teu sem damno alheio, 
E salvar te vivendo farto, e quente. 

Mas testemunha he Deos, quanto receio 
Desta tão larga vida a conta estreita. 
Posto que menos quente, farto, e cheio, 

Se mais tira da barra quem mais deita, 
Que será lá no Ceo, donde se paga 
Cento por hum do que por Deos s'enjeita ? 

Laurino. 

Mal se pôde curar a mortal chaga 
Reputando a triaga por peçonha, 
E peçonha fazendo da triaga. 

A carne bem sabemos que não sonha. 
Se não no com que mais o nosso esprito 
Se turbe, desordene, e descomponha. 

Amostras me por obra o que tens dito. 
Porque deixar quiseste quanto tinhas 
De puro coração, firme, contrito. 

Pisas com pés descalços as espinhas, 
Morde-te o corpo a lãa de varias cores, 
E não te dá que o ponto amostre as linhas. 



48 Obras de Fr. Agosiinho da Cruz 

Divinos pensamentos dos amores, 

De que teu coração anda ferido, 

Nos ramos dos salgueiros darão flores. 

Gualbano. 
Ora pois tanto tens já compreendido, 
Grave culpa será não te ficares, 
Donde não ficarás mal do partido. 

Laurino. 
Se tu, com ser qual vês, me aconselhares 
Que fique, eu fico, e faço o que me mandas, 
E muito mais de quanto me mandares. 

Gualbano. 
Anda, que tu verás como desandas 
No mal, e desandando, como corres, 
Correndo, como voas, como abrandas 
A vida, com que vives, quando morres. 



ÉCLOGA VI 

A morte de hum amigo. 

Limabeu. 
O meu cordeiro branco que saltava 
O' som da minha frauta, ah I meu cordeiro! 
Tão branco como o leite, que mamava, 

Emquanto vigiava o gado alfciro, 
Huma águia mo levou atravessado 
Nas unhas, lá de trás daquelle outeiro. 

Ah ! fortuna cruel, ah ! cruel fado 1 
Que se de cruéis lobos me vigio, 
Das aves de rapina sou roubado. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 49 

Se nisto ha de parar todo o que crio, 
Como já succedeu da minha corça, 
Que se afogou naquelle negro rio \ 

Convém que a natureza faça força ; 
Porque não se oífereça gosto humano, 
Que primeiro que venha o não retorça. 

Que maior confusão, que mór engano 
Ao triste coração, que se affeiçoa 
Para pagar tributo do seu damno ? 

O simples passarinho que se escoa 
Do visco em que cahio incautamente, 
Com menos penas foge, menos voa. 

Deixei de conversar humana gente 
Para me affeiçoar cá no deserto 
A brutos animais mais brutamente. 

Com que composição, com que concerto, 

Sobre que saudades adormeço, 

Se com tão leves cousas me desperto! 

Como posso chegar, se não começo 
Quando começarei como desejo ; 
Ou como subirei, pois sempre deço ? 

Se qualquer leve cousa me faz pejo 
Para accender no peito amor divino, 
Porque de tudo já me não despejo ? 

Assi convém valer-me de contino; 
Assi fortalecer minha fraqueza, 
Que não sinta descuido repentino. 

Assi soprar de novo esta frieza, 

Atiçar no madeiro, onde se atêa 

O fogo, que desfaz, todo em pureza. 



5o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Nasci para lavrar na terra alheia, 
Terra da maldição, de Deos maldita, 
De cardos, e de espinhos sempre cheia. 

Tenta, move, perturba, afaga, incita 
A buscar o pior, o mais nocivo, 
Não deixa repousar esta alma afflita. 

Nesta contradição, neste incentivo 

De males, que me rende a minha herdade, 

Quasi me sinto já como cativo. 

Mas pois a verdadeira liberdade 
Depende de trazer o pensamento 
Acceso na divina saudade; 

De tudo o que me fôr impedimento 
Para poder lograr hum bem tamanho, 
Determino fazer apartamento. 

Experiência tenho do que ganho 

Essas vezes, que saio da cabana, 

Pois que no campo limpo inda m'arranho. 

Muito pequena cousa turba, e dana 
Huma composição clara, e serena, 
Emquanto respirar na vida humana ! 

Foge do povoado a Magdalena, 
Vai fazer no deserto vida nova 
Depois de ter perdão da culpa, e pena. 

Alli mettida dentro numa cova 
Chora, suspira, geme noite, e dia \ 
D'uma noutra aspereza se renova. 

Procure quem quiser a companhia, 
Branda conversação d'outros pastores, 
Que só me quero a mim por outra via. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 5i 

Muitas capellas fiz de muitas flores 
Compassando nos olhos a pintura 
Belia, por variar fermosas cores. 

Escolhendo da fruta a mais madura 
Pelos bosques agrestes m'espinhava, 
Deixando o gado meu posto em ventura. 

Do louro laparinho que tirava, 
O tralhão que cahia na costella, 
O tordo que na vara se enforcava. 

O pombo que cevava na courella ; 
A perdiz que picar vinha na lousa, 
Ou metter o pescoço pela tela. 

Emfím que naò colhi, nem cacei cousa, 

Que para dar não fosse; mas quem rega 

Plantas, a cuja sombra não repousa, 

Não deixa de pagar quão mal se emprega. 



ÉCLOGA VII. 

Da mudança da Arrábida. 

Libameu, e Mincio. 

Mincio. 
Eu tenho para mim ( segundo as queixas, 
Que na Mata do Lobo me contaste ), 
Que não sem causa agora a Serra deixas. 

Mas ha tão pouco tempo que chegaste, 
Que darás que fallar lá na Ribeira 
De quam cedo na Serra te enfadaste. 



52 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Libameu. 
Bem sei que cada hum que diz da feira, 
Como nella lhe vai ; e que não diga, 
Não falta quem do bem mal dizer queira. 

Justa desculpa tem o que se obriga 
A fazer a vontade do que manda \ 
Que quem bem obedece não periga. 

Acostumei-me d'uma, e d'outra banda 
A repousar de noite na cortiça, 
E de dia a comer toda a vianda. 

Nem ter, nem valer mais me faz cubica : 

Tanto me dá que vá, como que venha: 

Por mais que este me assopra, estoutro atiça. 

Não tenho sobre que me desavenha. 
Nem de que contender muito, nem pouco ; 
Ora tenha razão, ora não tenha. 

Eu já para cantar me sinto rouco; 
E posto que não fora, me fingira, 
Fingira-me de todo cego, e mouco. 

E quando por taes meios não sentira 
Poder-me quietar mais facilmente, 
De buscar outros mais não desistira. 

Mincio. 
Ainda que não fico descontente 
Dessas contas, que fazes tão bem feitas, 
Como servo de Deos, como prudente, 

Folgara de saber o que suspeitas 
(Se se pôde dizer) desta mudança. 
Que contra natureza alegre aceitas ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 53 



Libameu. 

Tu cuidas que me pesa, ou que me cansa, 
O que tenho por vida ha tantos dias ? 
Ou que ponho meu gosto na balança ? 

Não vemos nós seccar plantas sombrias, 
As flores, as boninas pelos prados ? 
Perder o uso seu as agoas frias ? 

Não vemos abater altos estados? 
Não vemos levantar os abatidos, 
E tornar a abater os levantados ? 

Não vemos quanto valem os validos, 
Que não valiam mais, e por ventura 
Menos, que seus vizinhos conhecidos ? 

Não pôde ser maior desaventura, 
Que não saber fugir de hum fugitivo 
Mundo, que em si não tem cousa segura. 

Bem sabem de que trato, e de que vivo; 
Com que folgo, que busco; e que pretendo. 
De cuja natureza me cativo. 

A causa, que perguntas, não defendo : 
Faça quem mais puder melhor seu fato. 
Que isso não me descose o meu remendo. 

Cem mil virtudes tem hervas do mato 
Para curar cem mil enfermidades •, 
Huma não podem só d'um peito ingrato. 

Rogo-te, amigo meu, que não t'enfades 
De ouvir a confusão deste meu canto ; 
Que a dor me destruio as saudades. 



54 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mincio. 
Eu tenho padecido, e visto tanto 
Desse mal incurável, que me contas, 
Que da torpeza delle não me espanto. 

Trago também de longe minhas contas 
Feitas para soífrer qualquer combate 
D'outros, e deste só que agora apontas. 

Folgara de saber já, por remate, 
Se tiveste com Lauro desavença ? 
Porque também sobre isso houve debate. 

Libameu 
Quem bem considerar a differença, 
Que vai de nós a Lauro, entenderia, 
Que tomo de fallar larga licença. 

O que imitar não sabe a melodia 
Dos doces passarinhos \ porque imita 
O rouco murmurar da fonte fria ? 

De ter, ou de não ter com Lauro dita 
Todos podem julgar a seu prazer; 
Mas o seu pelo meu nãp se limita. 

Alembra-me que já lhe ouvi dizer, 
Que folgava comigo lá na Serra; 
Mas o que fôr, será, se houver de ser. 

Obrigação lhe tenho em qualquer terra 
Para pedir a Deos que com Liana 
(Liana que lhe fez tão cruel guerra) 

Logre conformidade soberana, 
Ambos a gosto seu, e tantos, tantos, 
Que excedam quantos ha na vida humana. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 55 

Excedam seus intentos todos, quantos 
O ceo na terra apura ; e em tal estado, 
Antes de lá subir se vejam santos. 

Confesso que fui sempre aífeiçoado 
A solitários bosques do deserto, 
Que ensinam a viver desenganado. 

Do portal da choupana, que coberto 
Tinha de hum verde louro, me assentava 
A ver o largo mar ao longe, ao perto. 

D'um valle noutro valle caminhava 
Até á Lapa de Santa Margarida, 
Donde, para comer, peixes pescava. 

Andava sustentando a pobre vida 
Minha, sem murmurar da vida alheia ; 
Por onde sinto mais esta partida. 

Mincio. 

Alma, que no deserto se recrêa, 

Nas saudades delle se sustenta, 

Das quaes recolhe mais quem mais semêa. 

Sabe Deos quanto a mim me descontenta 
A má repartição do que reparte. 
Ou seja na bonança ou na tormenta! 

Desconsolar-se pôde numa parte, 
O que noutra qualquer se consolara. 
Do qual desconsolado outro se parte. 

Finalmente que nisto se declara 

Aquelle verdadeiro adagio antigo : 

Que quando Paulo enferma, Pedro sara. 



56 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Bem se sabe de ti que és mais amigo 
Da Serra que do campo, inda que colhas 
Silvestre fruito nella, e nelle trigo. 

O que te libertar para que escolhas 

Assaz de ganho fica ; pois não queres 

Os fruitos, que outros querem, mas as folhas. 

Comtudo se na Serra pretenderes 
Lograr quietação com mais cautella, 
Convém que nas palavras te temperes. 

Dizendo cem mil males dos bens delia, 
E dos males do campo bens sem conto : 
Então degradar te-ham delle para ella. 

Libameu. 

Como queres que esteja sempre a ponto 

Para dobrar a minha singeleza. 

Pois não coso remendos com posponio ? 

Por não contrafazer a natureza. 
Sinto tornar a ver-me antre pastores, 
Cuja conversação tanto me pesa. 

Elles querem colher no campo flores : 
Eu medronhos na Serra antre penedos ; 
Assim desconcordamos nos humores. 

Elles no povoado cantam ledos 

Os gostos de que vivem ; eu chorando 

Por acabar debaixo dos rochedos. 

Mas pois tudo se vai contrariando 

Na Serra", nem na terra buscarei 

Cousa, que o tempo possa andar mudando. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 5j 

Por donde quer que fôr, levantarei 
Os meus olhos ao Ceo, de cuja vista 
Aquellas saudades colherei, 

Coni que possa fazer nova conquista 
Para me consumir no fogo puro 
D'amor, de cujo amor divino vista 

Est'alma, caminhando mais seguro, 
Que buscando repouso nas montanhas ; 
Pois no gosto da terra me aventuro 

A não poder lograr cousas tamanhas 
Do Ceo, em toda a parte tão fermoso, 
Que pôde penetrar duras entranhas. 

Mincio. 
Ditoso, Libameu, ah ! quão ditoso 
Quem sabe temperar nestas branduras 
Os discursos do tempo duvidoso ! 

Libameu. 
Ditoso, Mincio meu, quantas mais duras 
Cousas de duros tempos temperaste, 
Vendo ficar a muitos ás escuras ! 

Mincio. • 

Assim como de mim já te apartaste 
Assim também de ti me aparto agora. 

Libameu. 
Essa lembrança queres tu que baste ? 

Mincio. 
Baste não poder mais : fica-te embora ! 



58 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



ÉCLOGA PISCATÓRIA VIII. 
Libameu, e Lauro. 

Libameu. 

Emquanto se dilata a pescaria 

(Pois será por demais provar ventura 

Mofino pescador, maré vazia), 

Debaixo desta rocha antiga, e dura, 
Que d'um noutro penedo sustentada 
Por cima desta praia se pendura, 

Se queres ouvir de novo a soada 

D'uns versos, que cantei em Sampeneda, 

Emquanto a rede ó mar tinha lançada, 

Verás que vida logra quem se arreda 

Da communicação dos pescadores \ 

E qual quem nos conselhos seus se enreda. 

. Lauro. 

Ah ! não danes com versos sem sabores 
Huma tarde, que tarde me acontece : 
Se queres cantar bem, seja d'amores. 

E se de todos inda te parece 
Melhor cantar do meu justo, e suave, 
(Que do mal que me fez já se conhece) 

Não queiras que com rogos mais te aggrave, 
Nem deixes de cantar, posto que vejas 
Lagrimas derramar, em que me lave. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 59 

Libameu. 

Se tu d'amor cruel ouvir desejas 
Aggravos, sem razões, duros conceitos, 
Cuja victoria cuidas que festejas, 

Alembre-te que em passos tão estreitos 
Te pôde entristecer qualquer lembrança ; 
Que amor tem jurdição em tenros peitos. 

De que serve no tempo de bonança 

Alevantar de novo tempestades 

No naar donde escapou tua esperança ? 

Rompendo por cem mil adversidades, 
De terra em terra alheia te levaram 
Justas, mal tarde pagas, saudades. 

Quantas vezes os remos te faltaram 
Depois das vellas rotas pelos ventos, 
Que na firmeza tua se quebraram ! 

Prolongaram se os teus merecimentos. 
De perigo em perigo navegando, 
Alagado no mar dos sentimentos. 

Quantas vezes na praia murmurando 
Conforme a seu juizo, ou seu desejo, 
A tua causa andava mariscando! 

He muito de notar com que despejo 
O néscio pescador sentenciava 
Aquillo, que contar inda me pejo. 

Em que fera, em que pedra não soava 
O teu nome, Liana ? que serpente, 
Se de parir deixou, não te criava ? 



6o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Desviado teu nome andou da gente 
De Liana em Liona : nem m'espanto, 
Pois tratavas teu sangue cruelmente. 

Lauro. 
Desejoso de ouvir suave canto 
Te roguei que de amores me cantasses, 
E tu provas de amor reprovas tanto. 

Se tu nas redes suas te pescasses, 
Não cuido que tão pouco estimarias 
Queixumes seus, que delles te queixasses. 

Antes a mariscar me ajudarias 
Ameijas nas arêas revolvendo, 
Tirando mexilhões das penedias. 

Arrancando preseves, que pretendo 
Levar para Liana este cestinho, 
Que veja se m'esqueço, não a vendo. 

Libameu. 
Dart'ei que leves. mais hum passarinho 
De verde, azul, e branco salpicado, 
Que sem pena furtei á mãi do ninho. 

Dentro num búzio irá todo pintado 
De pardo, e de vermelho, que Palemo 
Para Marfida tinha soterrado. 

Não sei que cousa foi, não sei que demo 

Tomou tal formosura, tal aviso, 

Por quem nem ter na mão sabia o remo. 

Depois que a causa foi posta em juizo, 
Também nós demos cá nossa sentença •, 
Que poucas tem firmeza, menos siso. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 6i 



Que desculpas darás a tão immensa 

Culpa da fé, Marfida, que quebraste. 

Se não se contra anior não houve ofFensa ? 

Que negar tu não podes que negaste 
Aquelle firme teu primeiro amante, 
Depois que Diamante te tornaste. 

Que ser não pôde hum ser tão inconstante, 
Se não quem já perdeu a natureza, 
Em meteria d'amor tão importante. 

Mas deixemos motivos de tristeza: 
O nosso cabazinho concertemos, 
Lavado muitas vezes n'agoa tesa. 

Verdes limos debaixo lhe poremos ; 
O verde perrexil de cima posto, 
Fazendo d'esperança dois extremos. 

O presente no meio bem composto 

Por ordem, que lhe dê muita mais graça . 

Assi de lho levar muito mais gosto. 

Que queres que por ti, Lauro, mais faça 
Com desejos das forças difterentes, 
Onde a pobreza minha m'embaraça ? 

Mas inda pôde ser que te contentes 
Muito mais de me ver pescar á cana, 
De que possas fazer mores presentes. 

Porque da Ponta gorda até Trezana 
Hum sô dia que vem de marulhadas 
Pesco para comer toda a semana. 

Que pescarias fiz tão estremadas ! 

E mais de peixe limpo em breve espaço 

De sardos, de robalos, de douradas ? 



I 



62 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Que ? cuidarás que cuido neste passo 
Do galardão, daquelles que comeram, 
O que pescava á força do meu braço ? 

Lauro. 

Que posso cuidar eu do que fizeram, 
Se não que seus intentos taes seriam 
Na sua ingratidão, quaes elles eram ? 

Mas que dirás dos que de mim fugiram, 
Quando com menos barcos, menos redes 
Sem mais affronta sua andar me viam ? 

Eu te concederei, que tu me excedes 
Agora na pobreza ; sem descanso 
Se avantejada vida me concedes. 

Libameu. 
Se tu vás tanto ó mar, eu largo o lanço. 
Que por não contender com bravas ondas^ 
Com menos me contento no remanso. 

Lauro. 
Nunca te faltará que me respondas \ 
Na tua própria causa, e nas alheias 
Escura parte tens, onde te escondas. 

Lavadas para ti tens as areias, 
As saudosas agoas Oceanas, 
Onde, pescando, a vida remedeias. 

Soubeste desprezar cousas humanas, 
Soubeste grangear cousas divinas. 
Desenganado assi nos desenganas. 

Assaz claro, e seguro nos ensinas 

O caminho do Geo, pois que não tiras 

Da própria mão do remo as disciplinas. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 63 

Se tu também comnosco repartiras 
O que buscas no Ceo, como na praia, 
Com differente dom tornar me viras. 

Libameu. 
Oh! quão liberalmente amor espraia 
Os dons da sua graça em toda a parte, 
Que parte n'alma tem onde ella caia. 

Poderá antre huns penedos amosirar-te 
Huma Lapa redonda, lá mettida 
Noutra, que dentro noutras se reparte. 

Vista não pôde ser, nem presumida 
De quem na Lapa grande vir enirar-me, 
Donde a passagem fíca retorcida. 

Alli depois que deixo de accusar-me, 
E de tomar da vida conta estreita. 
Propondo na futura melhorar-me ; 

Diante de huma Cruz, que se foi feita 
Por mãos da natureza, me suspende 
Na causa do porque foi tão perfeita. 

Primeiro que alguns outros encomende 
A Deos, dous corações num convertidos 
Minh'alma oôerecer alli pretende. 

Hum só sentido sintam seus sentidos 
Na carga singular, .vida serena, 
D'amor celestial favorecidos. . . 

Não sei que pescador de cá me acena 
Daquelle batel novo. . . vai-te embora! 
Que ouvir muito contar também dá pena. 

Lauro. 

Antes de ouvir tão pouco a sinto agora. 



64 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



ÉCLOGA IX. 

Da mudança de pastor em pescador. 
Galapo, e Almilão. 

Galapo. 

Duas cousas receio, duas faço 
Contra qiiietação da natureza 
Mmha, que em qualquer delias satisfaço : 

Hunoa, pedir áquelle, que despreza 
A petição do pobre, cuja estrella 
Gahir nas duras mãos foi da pobreza ; 

Outra, que não difere muito delia, 
He perguntar a quem dá má reposta 
Quanto lhe custa a boa mais do que ella. 

Eu fiz com dous pastores huma aposta, 
Que já nas minhas mãos cuido que tenho; 
Posto que nas alheas fica posta. 

De seu consentimento agora venho, 
A que tu nos desates a porfia : 
Que porfiar não quero por ingenho. 

E porque me criei na pescaria 
Julguei, que também nella te criaste •, 
Pois como pescador pescar te via. 

Elles dizem que sempre te prezaste 
Da fruita, do surrão, e do cajado, 
Que poucos dias ha que desprezaste. 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 65 



Almilão. 

He verdade que sempre guardei gado 
No campo, na montanha erma, deserta, 
Com cujo branco leite fui creado. 

Mas quem guardar alheio gado acerta, 
Acertar pôde mal, quando seu dono 
Para notar descuidos anda alerta. 

Pois nunca (s'ora nisto não me abono) 
Alguma vez perdi cabra, ou cabrito, 
Antes muitas por elles o meu sono. 

Seja louvado Deos, seja bemdito ! 
Que tal mudança fiz tão desejada 
Do solitário meu cansado esprito ! 

Caminhei longo tempo pela estrada 
Mais larga, e mais seguida dos antigos 
Pastores, que não deixa de ir errada, 

Desejando escapar d'alguns perigos, 
Em que via cahir a meus vizinhos 
Cubiçosos do gado, e dos pacigos. 

Determinei dos valles montezinhos 
(Que da ribeira já tinha fugido, 
Trocando lirios seus pelos espinhos), 

Buscar algum lugar tão escondido, 

Debaixo de tão altas penedias. 

Que nem pudesse ouvir, nem ser ouvido. 

E porque me tomou sob-los dias 
Tal determinação, posta em eôeito, 
Quero que saibas mais do que querias. 



66 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Pôde ser que por justo algum respeito 
Esses, que vão saber, se me arrependo 
Do que sem parecer seu tenho feito. 

Bem lhes podes dizer, que não dependo 
Daquillo que dirão ; para que deixe 
De remendar as redes, que remendo. 

Que nunca m'arrependa, nem me queixe 

Da differente vida, mas segura ; 

Que elles comem da carne, nós do peixe. 

Galapo. 
Não pôde ser môr dita, môr ventura 
Que acertar de te ouvir para curar 
Hum mal que não cuidei que tinha cura. 

Eu sempre folgaria d'apostar, 
Inda que môr aposta se perdesse, 
Do que esta minha foi para ganhar. 

Toda a quietação, todo o interesse 
Cuidei que consistia em ser pastor. 
Posto que de seu gado não tivesse ; 

E que ser não podia outro pior 
Successo da fortuna dura, imiga, 
Que nascer junto d'agoa pescador. 

Des hoje mais convém que me desdiga 
Da minha opinião mal entendida, 
E que por acertada a tua siga. 

Almilão. 

Afiflrmo te que duma, e doutra vida 
Seus males, e seus bens considerados 
Por conta certa, assaz peso, e medida. 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 67 

Que ficam sempre bem differençados 
No repouso, no gosto, e no descanso, 
E no mais, os enxutos, dos molhados. 

Que se pesco, ou não pesco no remanso, 

Ora seja com rede, ora com cana, 

Com cabra, ou cabrão ruivo, não me canso. 

Se me desisca o peixe, e se me engana. 
Quando no torto anzolo se magoa, 
Não me magoa o trigo que se dana. 

A voz do rouco mar que bravo soa. 
Quando romper se vem nestes rochedos, 
Não pôde ser de lobo, que me roa. 

Aqui descobrir posso meus segredos 

Para desabafar meu triste peito : 

Que não tem peitos de homens os penedos ! 

Nesta lavada areia, em que me deito, ^ 
Versos diversos canto dos primeiros, 
Que como pueris agora engeito. 

Galopo. 

Quero-me aproveitar dos verdadeiros 
Conselhos, que me dás : se dás licença, 
Que me vá despedir dos companheiros. 

Que não me soffre já fazer detença 
O muito que desejo de saber 
Fazer nos bens, e males differença. 

Deixa-rae só comtigo aqui viver ; 

Não tomes mais na mão cana, nem rede ; 

Que peixe não nos ha de falecer. 



68 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Logra quietação, como te pede 

O teu suave esprito \ tange, e canta : 

Que eu te matarei fome, frio, e sede. 

Pôde ser que com tua doce, e santa 
Vida remediar possa esta minha. 
Que boa sombra faz a boa planta. 

Seguro vai o cego que caminha 

Pelos passos da guia ; que se teme 

De pôr seu pé descalço em secca espinha. 

Almilão. 

Suspira est'alma minha, chora, e geme 
Por não ver, nem ouvir quem falle, ou veja : 
De qualquer sombra humana pasma, e treme. 

Abasta pouco a quem pouco deseja ; 
Não basta muito a quem deseja muito; 
O que nos outros falta me sobeja. 

D'inverno, e de verão sempre dão fruto 

Os penedos da praia regadios, 

Nos quaes mariscar posso a pé enxuto. 

Inda que não tem folha são sombrios, 
Não se abalam, nem mudam suas cores, 
Por ventos, nem por calmas, nem por frios. 

E sobre tudo longe de pastores; 
E de me constranger necessidade 
A conversar ainda a pescadores. 

Com tudo eu t'agradeço essa vontade ; 
Que não sou deshumano, nem despreso 
As mostras, que me mostras de amizade. 



i 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 69 

G alapo. 
Assi me deixa a tua inda mais preso ; 
Pôde ser que me escutes algum dia, 
De que canto também, e de que reso. 

Farta-te de viver só muito embora, 
Que também viver só quero comigo, 
E sem mim ( se podesse ! ) melhor fora. 

Com' haja nos trabalhos mais antigo 
Pescador desta praia, não receio 
Na baixa, ou preamar algum perigo. 

Ou seja por atalho, ou por rodeio 

A pena, a magoa, a dor, que me lastima, 

Com muita paciência remedeio. 

Almilão. 
Muito faz quem se esforça, e quem se anima 
A soffrer, e calar, mostrar bom rosto : 
Que he contra o duro ferro a dura lima. 

Galapo. 
O teu verso será melhor composto. 
Cantado muito mais suavemente ; 
Mas o meu mais conforme a meu desgosto. 

Não faltará do teu quem se contente, 
Nem do meu faltará, quem julgar queira ; 
Que sempre o néscio cuida que he prudente. 

Almilão. 

Eu costumo pescar com singeleira. 

Galapo. 
Pois eu vi pescar muitos com tresmalho. 
Que nadando se vem perder á veira. 



7© Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Almilão. 
Não cuides que rodeio, quando atalho 
Neste breve caminho, em que me pus, 
Alegre de me ver posto em trabalho. 

Eu por dia nasci de Santa Cruz : 
Em Santa Cruz troquei o pobre fato : 
Nella sem elle foi posto Jesus, 
Com cujo nó de amor tudo remato. 



ÉCLOGA PISCATÓRIA X. 

Ao nascimento do Duque D. Jorge de Lencastre. 

Galapo, Alportuxo, Almilão. 

Galapo. 
Queres ouvir contar hum pescador 
Pobre, que de marisco se sustenta, 
E segund'o que dizem foi pastor ? 

Não sei donde, nem como, ou que tormenta 
O lançou nesta praia ha poucos dias : 
Que nem sempre do norte o vento venta. 

Naquellas solapadas penedias 
Huma lapa buscou escusa, e escura, 
Que não se deixa ver d'outras sombrias. 

Dalli forçado sahe da fome pura 
A buscar o salgado mantimento. 
Duro de se arrancar da pedra dura. 

Depois sobre hum penedo crespo, e lento 
Ao som d'um arrabil que traz no seio, 
As ondas faz parar, fugir o vento. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 71 

O primeiro de abril alli se veio 
A cantar, e tanger tão docemente, 
Que do mar Oceano fez Lethêo. 

Mas tanto mais alegre, e mais contente, 
Que logo quem ouvisse julgaria, 
Que festejava algum gosto presente. 

Alportuxo. 

Agora sabes tu, que foi o dia. 

Em que fruito nos deu a primavera, 

Fruito que só do Ceo cahir podia. 

Do Ceo por cujo dom já se decera 

Da sua opinião isenta, altiva, 

Mais branda agora, mais que branda cera. 

Mas ah ! livre Liana ! quão captiva 

Te fez o justo amor daquelle teu, 

A quem tu te mostrastes tão esquiva ! 

Agora tu não tua, elle não seu ; 

Hum noutro si ; de dois hum só formado ; 

Tal vos conserva Amor, qual elle o deu. 

Galapo. 

Outros muitos sobre esse tem já dado, 
Que tempo, nem fortuna, dura imiga 
Poderão desatar •, perde o cuidado. 

O bom será cantar huma cantiga, 
Em louvor desta sesta, nesta praia. 

Alporiuxo. 
Começa tu, se queres que te siga. 



7» Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Galapo. 
Esperemos hum pouco antes que caia 
A sombra lá da Serra ; pôde ser 
Que também Almilão da lapa saia. 

Alportuxo. 
Eu tenho para mim que ouço tanger. . . 
Deve de ser aquelle ? vê-lo vem : 
Gomo se vem regando de prazer ! 

Almilão. 
Ouça-me quem quiser; veja-me quem 
Folgar com bens de Lauro, e de Liana, 
Que sempre dos seus bens contarei bem» 

Que fica mais por ver na vida humana, 
Que ver dois corações num convertidos, 
De cuja flor tão doce fruto mana ? 

Que fica por sentir a meus sentidos 

Quando vestida vejo Magdalena 

Dos seus, antes dos meus, pobres vestidos ? 

Eu tomarei na mão hum dia a penna, 
E nem remendo seu, nem graça sua 
Ficarão por cantar, grande ou pequena. 

Das fermosas estrellas, sol, e lua 
As cores mostrarei em Violante ; 
A dos olhos ao ceo se restitua. 

Neíle pois passar quero mais avante 
Convém que vá fazer o meu alforge ; 
Para que mais cedo tanja, e melhor cante» 

Amor tempere a fragoa, accenda, e forge 

Com que festeje dia tão ditoso 

Do novo Anjo do Ceo, ditoso Jorge. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 73 

Detenha-se no bosque saudoso 

A verdura na planta, a flor no valle ; 

Nasceu Jorge, nasceu todo fermoso. 

Antes que desta praia hoje me abale, 
A fera amansarei, o duro seixo 
Ousarei abrandar, farei que falle. 

Já não sei murmurar, já me não queixo ; 
Queixe-se o rouxinol, murmure a fonte, 
Ella de pedra em pedra, elle no freixo. 

D'encarnado, e d'azul nosso orizonte 

Se vista nesta festa, cujas cores 

Calo : que pôde ser que inda se afronte. 

Fazei novas capellas, pescadores, 
Nos salgados penedos, nas arêas, 
A seu Príncipe já cobri de flores. 

Galapo. 
Quaes Alciões na praia, ou quaes sereas 
Igualar já se podem com teu canto 
Em louvor desse Infante, que nomeas ? 

Não sei, qual affeição te ensinou tanto: 

(Mas como cuidarei que se affeiçoa 

Quem não vejo medrar n'hum pobre manto?) 

Almilão. 
Se tratas de interesse da pessoa 
Pelas partes, que tem, não pela renda, 
A tal opinião julgo por boa. 

Comigo que não posso ter fazenda, 

Que fazenda fará o néscio rico. 

Que não pôde emendar, nem ter emenda ? 



74 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Cuidarás por ventura que me pico 

Desse juizo teu, commum juizo, 

Que (como dizem) traz agoa no bico? 

Sabe que com ninguém contemporizo ; 
Que apelo me não falta na amizade 
Singela condição, brandura, aviso. 

Alportuxo. 
Eu, pois cantar não sei da saudade 
Antre taes dois cantores, calar quero ; 
Por não cahir nas mãos da nescedade. 

Mas isto só direi que não tempero, 
Com quem destemperar-se quer comigo, 
A' conta de cuidar que delle espero. 

O que quiser que seja seu amigo. 
Por ser tamanho meu, queira que seja ; 
Não pelo seu, que come só comigo. 

Galapo. 
Queres que o nosso canto sobresteja, 
Emquanto vou buscar que cozinhemos ; 
Que festa sem comer não se festeja ? 

Pescado no batel pescado temos : 
O fogo sahirá da pederneira : 
A lenha pelo mato ajuntaremos. 

De medronho, de esteva, e de aroeira 
Farei curtos espetos aguçados, 
Dos quaes rodearei toda a fogueira. 

De ruivos, salmonetes, carregados 
De vezugos, de choupas, de tainhas, 
E com três sapateiros linguados. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Alportuxo. 
Ainda por cantar taes versos tinhas! 
Eu ferirei o fogo, e trarei lenlia. 

Galapo. 
Já sabemos de ti quão bem cozinhas. 

Alportuxo. 

Não haja quem de nós se desavenha 
De cantar, e tanger, e fazer festa. 

Galapo. 
Por quem não festejar, má festa venha. 

Veremos Almilão para que presta : 
Sabei que se Almilão sahe ao terreiro, 
Que ha de fazer alguém suar a testa. 

Que d'arrabil, de frauta, e de pandeiro 
Nunca ninguém lhe teve a barba tesa. 
Viva Jorge mil annos, mil primeiro 
Viva o Duque seu pai, viva a Duquesa ! 

Almilão. 

Vivam pais, e vivam filhos ! 

Outros destes, doutros mais 

Vivam filhos, vivam pais ! 

Vivam como viver vejo 

Com taes excessos d'amor, 

Que nem menos, nem maior 

Possa ser o seu desejo : 

O gosto com que festejo 

O seu não pôde ser mais : 

Vivam filhos, vivam pais ! 

• 

Galapo. 

Tal amor nelles se veja \ 

Veja-se seu amor tal, 

Tão conforme, e tão igual ; 



j6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que nem mais nem menos seja. 
A festa que se festeja 
Convertida noutras mais 
Festejem filhos, e pais. 

Alportuxo. 
Ditosa foi sua estrella 
A mesma d'ambos ditosa, 
A quem não foi poderosa 
Resistir todo Castella, 
Nasceu Jorge delle, e delia. 

Almilão. 
Elle fez quanto podia ; 
Ella mais do que elle fez; 
Pois se fez sua ; em que pês 
A quantos na Corte havia 
Igual ser poderia, 
Firmeza em peitos reaes; 
Mas no delia muito mais. 

Galapo. 
Ella foi a conquistada, 
Ella firme, ella constante, 
Ella, a quem d'um só amante 
Se quis deixar ser amada : 
Em tudo foi estremada 
Na firmeza muito mais : 
Tal como ella poucas taes. 

Alportuxo. 
Acabemos de dizer 
Por remate, da Duquesa, 
Que foi doutra natureza . 
Dififrente da de mulher ; 
E por isso devem ser 
Seus louvores muitos mais : 
Vivam filhos, vivam pais ! 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 77 



I 



ÉCLOGA PISCATÓRIA XI. 



Almilão. 

Aparta-se de vós, desapparece, 
Agoas do mar azul, o sol dourado, 
Ou com meu triste pranto s'escurece. 

Deixa-me nesta praia trespassado 
O som daquella voz, que trespassou 
Os deste meu no seu ditoso estado. 

Que força, ou que brandura penetrou 
Os corações daquelles pescadores 
Que do barco, e das redes os levou? 

Porque foram mais destros remadores 
Ou por pescar mais peixe mereceram 
Chamados do Senhor ser dos Senhores ? 

Nós sabemos, Deus meu, que precederam 
A quantos de pescar nos sustentamos; 
Vós o porque melhor vos pareceram. 

Quantos a pé enxuto desejamos 
Seguir a doce vossa companhia. 
Tantos na terra em secco nos achamos. 

Entra no mar de noite, entra de dia 
Descalço o pescador, entra despido 
Por segurar melhor a pescaria. 

O que dos vicios d'alma anda cingido, 
Como néscio responde, que também 
S'ha de salvar calçado, e mais vestido. 



78 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Bem pôde ser que seja ; mas porém 
O que mais leve vai, melhor caminha, 
E mais pôde inda mais passar além. 

Vai-se-me consumindo a vida minha 
D'um gosto noutro falso pendurada ; 
Dos quaes hum me remorde, outro m'espinha. 

Resolver-me que foi mal empregada, 
Determinar emenda que aproveita, 
Pois a presente vai qual a passada ? 

Na solitária minha lapa, estreita 
(Minha não digo bem, antes alhea ; 
Pois seu dono, se quer, delia me deita ) 

Não me falta que faça, escreva, e lea, 
Do que foi, do que vai, e donde pára 
Quem funda o gosto seu em leve arêa ? 

E se por tantas vezes não tentara 
Avisar, reprender alguém por verso. 
Ainda agora aqui me não calara. 

SofFre mal coração duro, perverso 
Pequena reprehensão de ser defeito; 
Posto que bem composta em brando verso. 

O pescador debaixo de seu leito 
Depois que deita ferro no remanso, 
Manso discurso faz no manso peito. 

O silencio ihe dobra seu descanso; 
O pouco que deseja não lhe faz 
Cubicar melhor sorte em melhor lanço. 

Os seus dois remos rema em sua paz, 
Que não deixa nas mãos do companheiro, 
Que delles mais que delia foi capaz. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 79 

Recolhe-se em qualquer pequeno esteiro ; 
Que pouca agoa demanda o barco leve, 
Que levemente leva hum só remeiro. 

A mocidade minha me deteve 
No pasto das ovelhas, que guardei 
Ora do sol cortido, ora da neve : 

Onde por muitas partes que notei 

Num pastor pouco atrás da minha idade, 

Com pureza de amor me transformei. 

A taes termos chegou nossa amizade, 
Que fizemos de dois hum só rebanho, 
E de duas também huraa vontade. 

Mas eu a quem dou conta deste estranho 
Caso, senão a vós duros penedos. 
Que com lagrimas tristes triste banho ? 

Seguro vos descubro meus segredos, 
De mim, como de vós, estou seguro, 
Que possam nunca ouvir corações ledos. 

Não porque por amor honesto, e puro 
Extremos soem mal noutros ouvidos ; 
Mas nos alegres fica o caso escuro. 

O pastor, a pastora conhecidos 
Foram dos mais pastores naturaes 
Por jurados, ou quasi recebidos. 

Ella, não sei porque, mostrou sinaes 
De lhe quebrar a fé : tinha razão ; 
Pois nella só ficavam desiguaes. 

Emfim ella foi dar, adonde dão 
Os que não tem remédio na ferida, 
Que se dá no constante coração. 



8o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Ella depois que vio ser homicida 
Do seu firme, leal, primeiro amante, 
Deu nas mãos da tristeza a própria vida. 

Eu dalli me parti naquelle instante, 

De valle em valle vim, de monte em monte^ 

Até não poder mais passar avante : 

Que as agoas Oceanas não tem ponte : 
Neste batel, que remo, qualquer onda 
Em qualquer taboa faz vir huma fonte. 

Aqui busquei já parte onde me esconda, 
Debaixo desta rocha tenho duas 
Furnas, huma comprida, outra redonda. 

Eu já sei das marés, já sei das luas ; 
Das ostras, das amêijoas, também sei 
Delias comer cozidas, delias cruas. 

Aqui com mais repouso acabarei 
O pouco que me fica, suspirando. 
Não pelo verde campo em que pastei, 

Mas por amor suave, doce, e brando 
Daquelle Summo Bem, cuja lembrança 
Da terra o coração vai desterrando 
Confirmando no Ceo sua esperança. 



ÉCLOGA XII. 

Mincio, e Limabeu. 

Mincio. 
Espera, porque foges, Limabeu ? 
Que não sou pescador do mar salgado, 
Do doce Lima si, parceiro teu. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 8i 



Delle por ti me venho desterrado, 
Dando gritos por ti pelo deserto, 
Perguntando por ti no povoado, 

Honte, noite fechada, por acerto 
(Não podendo acenar nunca de dia) 
Achei dois pescadores daqui perto, 

Dos quaes fui avisado que devia, 
Antes que tu me visses, esconder-me ; 
Porque depois em vão te buscaria.. 

Limabeu. 

Pois de tão longe, Mincio, vens a ver-me, 
Pois não pude escapar, como quisera, 
Quero contigo só desencolher-me. 

Não vai lugar no mato á brava fera. 
Não vai ao peixe na agua fundo pego ; 
Menos a mim, se nelle me escondera. 

He verdade que fujo, não to nego. 
De conversar a muitos ; porque sei 
Quão mal no gosto seu meu tempo emprego. 

Bem sabes, quanto ri, quanto folguei 
De cantar, e tanger; que graça tinha. 
Quantas apostas fiz, quantas ganhei ; 

Quantos fardeis enchia do que tinha 
Dentro no meu pombal, no meu poleiro ; 
Enchia de vagar, vazava asinha. 

Tirava do curral, e do fumeiro 
(Jom gosto pelo dar; donde chegava 
Pesado sempre fui, tornei ligeiro. 



82 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Não quero dizer mais do que mais dava; 
Do pago que me deu quem o levou ; 
Se não foi avisar-me quanto errava. 

Enfim lá se ficaram, cá me estou 
Numa lapa, da qual o mar Oceano, 
Depois de a ter lavrada, se afastou. 

Agora julga tu, qual peito humano 
Me quisera largar seu aposento 
Do Tejo natural, ou Limiano ? 

Além disto me deixa o mantimento 
Pegado nos penedos \ porque esteja 
Seguro de mo vir levar o vento. 

Tudo na sua praia me sobeja ; 
Tudo na vista sua me recrea ; 
A tudo fazer posso nella inveja. 

EUe lavra, elle rega, elle semea. 

Eu colho quando quero a sementeira ; 

Olha que amigo achei em terra alhea 1 

Mincio. 

Bem diflerente doutros da Ribeira, 
Que sem nunca lavrar querem colher, 
Depois de limpo, e secco, o trigo n'eira» 

Eu não te posso mais encarecer 
O que vai pelo mundo cubiçoso 
De enganar, de danar, de mal fazer. 

Que se pôde esperar do vicioso, 

Que nunca soube armar lousa, nem laço, 

Ou por não ter ingenho, ou ser mimoso ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 83 

Não se corre de ter o mole braço 

Mais destro em revolver cartas, e dados, 

Que contra os infiéis as pontas d'aço! 

Dá-lhes pouco de serem apoucados, 
Pusilânimes, vis, baixos de esprito, 
E noutros mores erros sepultados. 

Limabeu. 
Basta ! não digas mais do que tens dito, 
Que te quero contar hum caso estranho, 
Que dentro nas entranhas trago escrito. 

Ah ! ditoso succèsso ! bem tamanho ! 

Cuja doce lembrança nesta praia 

As lagrimas detém em que me banho ! 

Mas primeiro que a voz do peito saia, 
Dize-me que se fez de Limiana, 
Que chorando ficou ó pé da faia ? 

Mincio. 
Aquelle mesmo dia da semana. 
Em que tu te partiste, se partio, 
E partindo-se pôs fogo á choupana. 

Finalmente que nunca mais se vio, 

Por mais que em toda a parte se buscou, 

Nem sabemos adonde se sumio. 

/ Limabeu. 

Agora faz dois annos que chegou 
O silencio que rendeo seu esprito ! 
Meu nome deixo escrito, terra, e vida : 
Se de ti for sabida, muito embora. 
Deixa-me por agora brevemente 
Alevantar a mente áquelle immenso. 
AUi ficou suspenso, eu lastimoso: 



84 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Espirito ditoso, que soubeste, 
Do modo que quiseste, confundir-me, 
E para mais ferir-me alli deixaste 
Os versos, que guardaste até partir. 
Tanto para sentir na tua morte 
A minha, e tua sorte declarada 
Na tua costumada letra antiga, 
Estilo que me obriga a ficar mudo*, 
Toma Mincio o papel, saberás tudo. 



Soneto de Limiana. 

Depois que conheci que não podia 
O nosso justo amor ser apartado; 
Como comigo a ti te tinhas dado, 
Me dei comtigo a quem dar-me devia. 

E posto que da minha companhia 
Tanto tempo viveste desviado ; 
Peregrino fui pobre agasalhado 
De ti julgado tal, qual me fingia. 

Foi vontade divina, rogo meu, 
Minha consolação na vida humana, 
Que vendo nosso amor posto no seu, 

Visse nesta final praia Oceana, 
Que sendo conhecido Limabeu, 
De Limabeu não fosse Limiana. 



Chamar-lhe deshumana não m'atrevo, 
Antes louvá-la devo além de santa ; 
Que tão mimosa planta, tão ditosa 
Tanto como fermosa assi crescesse, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 85 

Que no Ceo se colhesse fructo delia, 
Não planta, mas estreila, cujos raios 
Causam cem mil desmaios na leitura 
Dos versos, que escrevi na pedra dura. 



Epitáfio de Limabeu, e Limiana. 

Eu vi do Ceo na terra a fermosura 
No vestido dum pobre peregrino 
Da terra para o Ceo voar segura, 
Fosse ventura minha, ou seu destino: 
Por minha mão lhe dei a sepultura, 
Pela sua a levou amor divino : 
De Lima naturaes na Lapa Oceana 
Se enterrou Limabeu com Limiana. 



k 



ELEGIA I. 

A huma ingratidão. 

Secou-se para mim agoa no rio, 
Secou-se para mim herva no prado, 
Secou-se a folha no bosque sombrio. 

Quantas lagrimas tenho derramado 
Não poderão tolher esta seccura, 
Que sem causa me tem tão lastimado. 

Que mal faz a ninguém haver verdura 
No campo, valle, ou bosque, ou na ribeira 
Regada da divina fermosura ? 



86 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Não sei quem não deseje, não se queira 
Aventurar no mal, que se imagina, 
Por amizade d'alma verdadeira. 

Pouco pôde empecer lingua malina •, 

Pouco pôde morder o dente agudo 

Do máo, que com tal bem tão mal atina. 

Hum Deos que tudo vê, que sabe tudo, 

Me seja testimunha da verdade, 

Que não quero outro amparo, ou outro escudo. 

Movido sô da sua caridade 

Amei, amo, amarei quem mo merece : 

Basta que delle tenho liberdade. 

Se busco, ou se pretendo outro interesse, 
No mal se pôde ver, que me tem feito, 
Quão pouco me perturba, e me entristece. 

Rasguem-me pelo meio este meu peito, 
Tirem-me o coração, vejam-no fora, 
Que bem fora o verão deste defeito. 

Verão, que não suspira, geme, e chora 
Pelo muito que doem dores tamanhas ; 
Mas porque nellas sô padece agora. 

Mandarem-me viver antre montanhas ? 

Que cousa para mim mais natural, 

Que descobrir-lhe magoas tão estranhas ? 

Eu mesmo fui a mim o desleal; 
Eu de mim mesmo fui cruel imigo ; 
Eu mesmo fiz a mim tamanho mal. 

Eu fui o que me fui para o perigo 
De tanta ingratidão, tanta crueza ; 
Eu só o que sô choro a mim comigo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 87 

Neguei a minha própria natureza ; 

Perdi a liberdade, em que vivia ; 

E nunca (por meu mal) perdi firmeza. 

Não fora sem razão haver hum dia 
De quantos esperei, em que cuidara, 
Que tinha nos meus males companhia. 

Pelo menos, sequer, não me faltara 
Saber que da ribeira me convinha 
Fugir; pois para mim já se seccara. 

Queixara-me de mim na magoa minha, 
Dera gritos em vão, em vão gemera, 
Culpara-me na culpa, a quem não tinha. 

E não me desvelara, não temera 
Que podesse passar enfadamento 
Quem dos meus me livrara, se quisera. 

Ora pois de tamanho sentimento 

A lastimosa culpa pôde ser, 

Que me não deixe livre o pensamento. 

Aqui quero fugir, quanto puder, 
De todas as humanas creaturas. 
Esses cansados dias que viver. 

Aqui conversar quero pedras duras, 
Os brutos animaes, feras, serpentes. 
Que não sabem mudar suas figuras. 

Não quero ouvir palavras differentes 
Do que dentro do peito do malino 
Se determina obrar contra innocentes. 

Bem sei que julgarão que he desatino 
Fazer em toda a vida tal extremo, 
Gomo na que me fica determino. 



tJ8 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mas já nesta que vivo me não temo, 
Que me possa mudar outra mudança ; 
Tanto de cuidar nesta pasmo, e tremo. 

Se mal fundei a minha confiança. 
Se tão mal empreguei amor tão puro. 
Porque não tomarei de mim vingança ? 

Quanto mais cruel for, quanto mais duro 
Contra mim, tanto mais serei mais brando; 
Pois todo o mal em mim he mais seguro. 

Assi me irei de todo acostumando 
A ser tamanho imigo do meu gosto, 
Que me fique esta magoa consolando. 

Dous rios correrão pelo meu rosto, 
Envoltos nos meu gritos, derramados 
Noite, dia, manhã, tarde, sol-posto. 

Os tristes versos meus dependurados 
Nos troncos deixarei das verdes plantas, 
Que das seccas assaz estão queimados. 

Nelles escreverei além de quantas 
Cousas já padeci, quantas padeço. 
Por julgarem tão mal muitas tão santas. 

Comtudo, meu Senhor, eu não me esqueço 
Que rogastes na Cruz por gente ingrata , 
Eu por ella também perdão vos peço. 

Se vós, meu Deos, rogais por quem vos mata, 

Como não rogarei a vós. Senhor, 

Que perdoeis a quem tão mal me trata ? 

Bem claro vendo estou, quanto melhor 
He ser injustamente perseguido. 
Que poder ser d'alguem perseguidor. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 89 

A cousa de que mais estou sentido 
He ver que nos meus olhos faltou vista, 
Para ver de que côr era vestido 
Hum coração devoto do Baptista. 



ELEGIA II. 

Da Arrábida. 

Alta Serra deserta, donde vejo 
As agoas do Oceano duma banda. 
E doutra já salgadas as do Tejo : 

Aqueila saudade, que me manda 
Lagrimas derramar em toda a parte, 
Que fará nesta saudosa, e branda ? 

Daqui mais saudoso o sol se parte; 
Daqui muito mais claro, mais dourado, 
Pelos montes, nascendo, se reparte. 

Aqui sob-lo mar dependurado 

Hum penedo sobre outro me ameaça 

Das importunas ondas solapado. 

Duvido poder ser que se desfaça 

Com agoa clara, e branda a pedra dura 

Com quem assi se beija, assi se abraça. 

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura, 
Roidas as entranhas apparecem 
Daquella rouca voz, que lá murmura. 

Eis por cima da rocha áspera decem 
Os troncos meio seccos encurvados, 
Eis sobem os que nelles enverdecem. 



90 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Os olhos meus dalli dependurados, 
Pergunto ó mar, ás plantas, ós penedos 
Como, quando, por quem foram creados ? 

Respondem-me em segredo mil segredos, 
Cujas primeiras letras vou cortando 
Nos pés doutros mais verdes arvoredos. 

Assi com cousas mudas conversando. 

Com mais quietação delias aprendo 

Que outras que ha, ensinar querem fallando. 

Se pelejo, se grito, se contendo 

Com armas, com razão, com argumentos, 

Elias só com calar ficam vencendo. 

Ferido de tamanhos sentimentos 

Fico fora de mim, fico corrido 

De ver sobre que fiz meus fundamentos. 

AUi me chamo cego, alli perdido, 
AUi por tantos nomes me nomeio. 
Quantos por culpas tenho merecido. 

Alli gemo, e suspiro, alli pranteio ; 

Alli geme, e suspira, alli prantea 

O monte, e vai de meus suspiros cheio. 

Alli me faz pasmar, alli me enlea 
Quanto colhendo estou da saudade. 
Que por toda esta terra se semêa. 

Ora me ponho a rir da vaidade. 

Ora triste a chorar com quanto estudo 

Erros solicitei da mocidade. 

Tudo se muda em fim, muda-se tudo, 
Tudo vejo mudar cada momento : 
Eu de mal em pior também me mudo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 91 

Soía levantar meu pensamento 
Assentado sobre estas penedias 
Duras, eu duro mais nellas me assento. 

Punha-me a ver correr as agoas frias 
Por cima de alvos seixos repartidas, 
Que faziam tremer hervas sombrias. 

As flores, que levava já colhidas, 
Passando pelos valles engeitava 
Por outras doutra nova cor vestidas. 

O livre passarinho, que voava, 
Cantando para o ceo deixando a terra. 
Da terra para o ceo me encaminhava. 

Cuidei que se esquecesse nesta Serra 

A dura imiga minha natureza \ 

Mas donde quer que vou lá me faz guerra. 

Oh ! quem vira naquella fortaleza 
Rodeada de fogo de amor puro, 
Daquelle amor divino est'alma accesa 1 

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro 
No campo se posera em desafio ! 
E quão brando sentira o ferro duro! 

Mas se agora de mim me não confio, 
Se fujo, se me escondo, se me temo, 
He porque sinto fraco o peito frio. 

Alevantam-se os mares •, pasmo, e tremo : 

Vejo vento contrario, desfaleço, 

A corrente das mãos me leva o remo. 

Confesso minha culpa, bem conheço 
Que por mais graves males que padeça 
Menos padecerei do que mereço. 



92 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mandais, Senhor, que busque, bata, e peça, 
Eu busco, bato, e peço a vós. Senhor, 
Sem haver cousa em mim que vos mereça. 

Com os braços na Cruz, meu Redemptor, 
Abertos me esperai, c'o lado aberto, 
Manifestos sinaes do vosso amor. 

Ah! quem chegasse hum dia de mais perto 
A ver c'os olhos d'alma essa ferida, 
Que esse coração mostra descoberto 1 

Esse, que por salvar gente perdida 

De tanta piedade quis usar. 

Que deu nas suas mãos a própria vida. 

A sangue nos quisestes resgatar 
De tão cruel, e duro cativeiro. 
Vendido fostes vós por nos comprar. 

Padecestes por nó>s, manso Cordeiro, 
Pisado, preso, e nú antre ladrões. 
Ardendo o fogo posto no madeiro: 
Arcam postos no fogo os corações. 



ELEGIA III. 

Espiritual. 

Senhor ! se minhas culpas me endurecem 
Para me não valer do sentimento, 
Que vossas cinco Chagas me merecem. 

Donde porei, meu Deos, meu pensamento, 
Se não em meditar que esta dureza 
Se abrandará com seu merecimento ? 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz g3 

Armou-se contra Vós toda dureza, 
Malicia, ingratidão de gente cega ; 
Quebrantaram-se as leis da natureza. 

Eis hum que vos accusa, outro que nega ; 

Outro diz : crucifica ! crucifica ! 

Eis iium dos vossos doze, vos entrega. 

Eis huno, eis outro falso testifica ; 
Eis á columna dura vos apegam, 
Que tinta do innocente sangue fica. 

Dalli, meu Redemptor, vos desapegam, 
Arrastado vos levam para a Cruz, 
D'espinhos coroado alli vos pregam. 

Eu fui, eu sou, Senhor, o que vos pus 
Nesse duro madeiro pendurado, 
Donde morreis por mim, doce Jesus. 

Por falta de não ter considerado, 

Ou por falta de amor, que se vos deve, 

Não choro, como devo, meu peccado. 

Ah ! duro peito ! mais frio que neve ! 
Que antre diversas dores tão estranhas 
Lhe falta sentimento em que se enleve! 

Que vês por ti rasgadas as entranhas, 
As brandas mãos, e pés atravessados \ 
E que em lagrimas tristes não te banhas ! 

Não duvido. Senhor, que meus peccados 
Com gemer, e chorar, com pôr emenda 
Diante de Vós sejam perdoados. 

Quereis do peccador que se arrependa ; 
Quereis que ponha em Vós a confiança, 
E que peça perdão por mais que oôenda. 



94 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que fora, se não fora esta lembrança ! . 

Ai que fora de mim, se não tivera 

Tão firme posta em Vós minha esperança 1 

Se ver-vos nessa Cruz me falecera 

Donde morrer quereis por quem vos mata, 

Ai ! triste de mim, triste que fizera ? 

A puro sangue vosso se resgata 
A minha salvação ; custa-vos cara, 
E Vós oftereceis-ma tão barata ! 

Novo caso de amor! quem penetrara 
Quanto s'encerra em passo tão estreito 1 
Fere-vos, meu Senhor, o que me sara. 

A mim que tantos erros tenho feito, 
A mim tão cego, duro, secco, e frio 
Os braços estendeis, abris o peito ? 

Pouco faço, Senhor, se me confio 

Nos extremos de amor, que me mostrais ; 

Posto que de Vós tanto me desvio. 

Que em fim Vós me dizeis que não chamais 
Justos, mas miseráveis peccadores ; 
Inda que outro nenhum possa ser mais. 

Eu confesso que sou o mór dos mores ; 
Accuso-me por tal, qual Vós sabeis ; 
Alembrai-vos da dor de vossas dores, 
Vosso sou, meu Senhor, não me engeiteisl 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz gS 



ELEGIA IV. 

Na tribulação de huma pessoa amiga. 

Quero chorar-me agora aqui cercado 
De plantas, e penedos nesta Serra ; 
Pois não tenho de quem seja chorado. 

Cruel me foi a minha própria terra 
Em que nasci; cruel, e deshumano 
O sangue meu, que nella me fez guerra. 

Movido de tão claro desengano, 
Desconfiado vim de nunca mais 
Tornar a confiar em peito humano. 

Mas o que me faltou nos naturaes. 

No peito que busquei, ah ! verdes plantas ! 

Que tal ouvis contar, que não seccais ! 

O Senhor me quis dar além de tantas 
Graças numa alma só em terra alhea 
Nascida d'outras mais entranhas santas. 

Por isso se esta minha aqui prantêa 
Com tão estranha dôr, tão soltos gritos, 
He pela ver de tantas magoas chea. 

Não me lembram meus males infinitos^ 
Desgostos nenhuns já neste meu peito 
Trago, senão os seus agora escritos. 

Oh ! Virgem, se não foi meu rogo aceito 
A Vós para aliviar de tantas dores, 
Das lagrimas, que choro, havei respeito 1 



96 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Se Vós servos fazeis dos peccadores, 
Como não cuidarei que me fareis 
Vosso, posto que seja o mór dos mores. 

Vós sois A que por mim offereceis 

A quem vistes morrer por me dar vida 

Quantos dos meus suspiros comprendeis. 

Já vo-la tenho, Virgem, offerecida ; 
Peço-vos que tenhais delia lembrança. 
Pois não pôde de mim ser esquecida. 

Em Vós tenho, Senhora, a confiança, 
Que tudo lhe dareis quanto deseja ; 
Que quem em Vós confia tudo alcança. 

Não he justo, Senhora, que lhe seja 

Menos firme, fiel, menos leal. 

Por mais longe que delia agora esteja. 

Que bem pouco aproveita, pouco vai 
Não poderem ver olhos o que querem 
Para diminuir firmeza tal. 

Façam, desfaçam tudo o que quiserem ; 
Que tolher se não podem saudades 
D'amor, que por amor divino ferem. 

As justas bem fundadas amizades. 
Que só Christo Jesus tomam por guia, 
Não se desfazem, não, com novidades 

Mudanças de tristeza, ou d'alegria 
De tempo, de lugar, longe, nem perto 
Nunca mudarão ser do que soía. 

Quantas lagrimas cá neste deserto 
Tenho por tua causa derramadas 
Por te encerrar naquelle peito aberto? 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cru2 97 

Naquelles pés, e mãos na Cruz pregadas, 

Naquellas cinco Chagas do Senhor, 

De quem tantas mercês tens alcançadas ; 

Que não podes teus olhos nella pôr, 
Que não fique tua alma consolada, 
Seja atribulação quamanha fôr. 

Enfim se viver queres descansada, 
Da lança, cravos, Cruz, e da Coroa 
D'espinhos sempre vive trespassada. 

Outra cousa na vida te não doa ; 
Noutra não vás buscar contentamento, 
Confuso donde quer qu'esta não soa. 

Não. faças doutra cousa fundamento, 
Não deixes passar nunca levemente 
Outra nenhuma pelo pensamento. 

Qualquer pequena dor do mal presente 
Não vos deixa sentir quamanho bem 
He soôrer por Deos tudo alegremente. 

Bem cegos são os olhos, que não vem 
Quanto podem durar gostos humanos. 
Com tantos quantos seus desgostos tem. 

Passam dias, e meses, passam annos, 

A vida com o tempo vai fugindo, 

E nós dos seus, ou nossos desenganos. 

Assi se nos vai tudo consumindo; 
Assi de mal em mal imos cavando 
A negra terra, que nos vai cobrindo. 

"Quantas vezes me deixo ir suspirando 
Aqui por esta Serra só comtigo, 
E quantas tu comigo só chorando ! 



98 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



He muito pouco tudo quanto digo; 
He muito mais do que podes cuidar, 
Se sabes estimar tamanho amigo. 

Bem pôde falecer agoa no mar, 

Bem podem deixar pedras de ser duras, 

Mas tu não deixarás de me lembrar. 

As amizades d'alma são seguras : 
No Ceo não pode haver senão pureza 
De cousas muito claras, muito puras. 

A rocha, que de sua natureza 

Em todo o tempo está firme, e segura, 

Não me faz aventagem na firmeza. 

Nascem algumas plantas na espessura 
Do bosque, que por calma, nem por frio, 
Nunca perdem já mais sua verdura. 

Não deixa de correr o claro rio 
Por encontrar com duras penedias, 
Antes nellas se faz mais corredio. 

O Senhor te dê tantas alegrias, 
Quantas aqui lhe peço de contino : 
Elle nos faça arder noites, e dias 
No seu divino amor, amor divino. 



ELEGIA V. 

Da Ingratidão. 

Claras agoas nascidas das entranhas 
De tão duras, desertas penedias. 
No meio de tão ásperas montanhas. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 99 

Se vós me segurais que estas sombrias 
Plantas não perderão sua verdura, 
Nem vós o curso vosso, oh ! agoas frias ! 

Direi o galardão, que da brandura 
Da minha condição tenho alcançado 
De toda a viva humana creaiura. 

Trazia o meu salteiro temperado 

O' som do gosto alheo ; aqui cantava 

Sem me lembrar de mim, nem ser lembrado. 

Na ribeira, no valle, em que pastava, 

Rosas, lirios, violas repartia ; 

E com menos quinhão me contentava. 

Sabe Deos quantas vezes as colhia 
Em lagrimas banhadas, sabe quanto 
Sangue d^s carnes minhas as tingia ! 

Se no bosque soava o doce canto 
Do livre passarinho, longe ou perto, 
Soava muito mais meu triste pranto. 

Ajudavam-me os montes do deserto 

A chorar, e gemer o mal alheio ; 

Que farão quando o meu fôr descoberto ? 

Dum mal noutro maior a tanto veio 
A fera ingratidão dum noutro peito, 
Que deixou este meu de magoas cheio. 

Cheguei a ver-me em passo tão estreito, 

Que quasi duvidei se consentira 

Em me pesar do bem, que tinha feito. 

Ah ! quem não tivera olhos com que vira 
Tomar hum coração ingrato, e duro, 
Armas com que de novo se ferira 1 



100 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Bem sei que já não posso estar seguro 
De me doer do mal, que outrem padece , 
Porque me obriga amor por amor puro. 

Mas tanto cresce a dor, tanto mais cresce 
A magoa de trocar minha esperança ; 
Que, se me não perturba, me entristece. 

Quem tão mal empregou a confiança 
Não se espante da dôr, que assi lastima, 
Antes de haver no mal tanta tardança. 

Primeiro me queixei junto do Lima-, 
Agora muito mais junto do Tejo : 
Pouco me aproveitou mudar o clima. 

Não soube limitar o meu desejo ; 
Cuidei que quanto mais, tanto melhor; 
Não vi que do bem máo faz o sobejo. 

Nas hervas nasce folha, fructo, e flor, 
Nas ovelhas a lã, na palha o trigo, 
No coração ferido nova dôr. 

Não sei para que quero ser amigo ; 
Pois só pura amizade me faz guerra, 
E nenhum outro mal pôde comigo ? 

Fallo da que no meu peito se encerra, 
De que em lugar de fructo colho espinhas: 
Ah 1 doudo, que mais tem que dar a terra 1 

Daquellas esperanças, que sostinhas. 
Cuja magoa de novo inda pranteas. 
Que menos do que vês já visto tinhas? 

Porque te cegas mais, porque te enleas ? 
Que esperas de colher das pedras duras, 
Donde plantas amor, donde sêmeas ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Aquellas saudosas fermosuras, 
Que fazem refinar alma em pureza, 
Enxergam-se em mui poucas creaturas. 

Não soífre amor divino que dureza 
Dure no coração, donde se accende; 
Que seu he mudar nossa natureza. 

O que mais puramente amar pretende 
Quanto mais ama só, tanto mais ama ; 
Que enfim o repartido menos rende. 

O rio, que correndo se derrama, 

Mais tarde ciiega ó mar, que vai buscando : 

A planta sobe mais com menos rama. 

Ah ! quanto mal me faz hum ser tão brando ! 
Que com peitos humanos toda minha 
Quietação estou despedaçando, 
Sem proveito, sem cura, nem mezinha. 



ELEGIA VI. 

Estando na Arrábida. 

Agora que de todo despedido 
Nesta Serra da Arrábida me vejo 
De tudo, quanto mal tinha entendido; 

Com mais quietação, livre desejo, 

Nella quero cavar a sepultura, 

Que não junto do Lima, nem do Tejo. 

Aqui com mais suave compostura 
Menos contradição, mais clara vista 
Verei o Creador na creatura. 



102 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

As forças cresceram com que resista 
A dizer-vos humanos pensamentos, 
Para que dos divinos só me vista. 

Naquelles mais fermosos aposentos 
Repouso buscarei acompanhado 
Doutros mais saudosos sentimentos. 

De plantas, de penedos rodeado, 

Que não perdem verdura, nem firmeza 

Por tempo em tempo mais destemperado. 

Renovarei motivos de tristeza, 
Para mais suspirar, considerando 
A sujeição da fraca natureza. 

Dum valle noutro valle vagueando, 
Hum lugar buscarei medonho, escuro, 
Donde comigo só me este queixando. 

Quão triste ficarei, e quão confuso ! 

De ver aves, e feras desculpadas 

De culpas, que não sei, como me accuso! 

Por meio dos rochedos semeadas 
Verei dependurar silvestres plantas 
Verdes em pedras duras sustentadas. 

Quantas cousas verei, maiores quantas 
De cuja creação, de cujo objecto 
Resultam confusões tantas, e tantas ? 

Se aqui não derreter neste meu peito 
A congelada neve, em que me esfrio, 
Mal, a que já de longe estou sugeito, 

Em qualquer outra parte desconfio 

Da minha pretensão-, pois qualquer leve 

Cousa cortar me deve o fraco fio. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz io3 

Que fructo colher pôde nesta breve 
Vida quem para a morte vai correndo 
Sem nunca descansar, que mais releve ? 

Se pelo largo mar olhos estendo, 
Se nestas penedias os penduro, 
Ora subindo o sol, ora descendo, 

Certificado mais, muito mais puro. 
De todo se resolve o pensamento. 
Que quanto mais deserto, mais seguro. 

Discorrendo dum noutro fundamento, 
Huma vez me perturbo, outra m'indigno*, 
Outra com puras magoas arrebento. 

Poderoso Senhor, manso, benino. 
Quem pôde penetrar mercês tamanhas. 
Recebidas de Vós desde minino ! 

Que campos, que ribeiras, que montanhas 
Pastei, passei, subi, com vossa ajuda 
Por terras naturaes, e por estranhas ! 

Oh ! como se converte, rende, e muda 
Aquella alma ditosa que trespassa 
De amor celestial a setta aguda 1 

Quão leve, quão ligeira voa, e passa 
Pelos laços sutis da vida humana; 
E como na divina se compassa ! 

Na doce perenal fonte, que mana 
Do Ceo, toda banhada se recrea. 
Segura de tocar noutra profana. 

O que nos largos campos se passea, 
Subindo nesta Serra se caminha 
Atalhando o que nelles se rodea. 



104 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Oh ! Serra das estrellas tão vizinha, 
Quem nunca de ti, Serra, se apartara ! 
Ou quando se partira esta alma minha 
Da terra, nesta tua me enterrara ? 



ELEGIA VII. 

Ao fim da vida. 

Como cisne, que canta na ribeira, 
O repouso da vida festejando. 
Que sente naquella hora derradeira ; 

Eu que da minha já me vou cercando 

Aqui quero cantar ( se cantar deve 

Quem deve dentro d'alma andar chorando). 

Adonde vai parar a vida breve, 
Convertida a velhice em mocidade, 
Huma pesada tanto, outra tão leve ? 

Com quanta confusão se persuade 
A nossa depravada natureza 
A seguir a mundana vaidade? 

Oh ! quão cega se deixa levar presa 
Dum falso gosto seu, dum vão desejo ! 
Qual convertido em dor, qual em tristeza : 

Eu do Lima me vim pastar ó Tejo; 
Depois detrás da Serra nas salgadas 
Agoas, que para mim tão doces vejo. 

Ajudam-me a chorar culpas passadas ; 
Das que se representam me defendem 
Nas lapas, que por tempo tem lavradas. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz io5 

As suas roucas ondas me reprendem 
De não considerar taes aposentos, 
Quaes levar, e lavrar sempre pretendem. 

Convida-me a criar remordimentos 

A limpeza daquellas penedias, 

Mais limpas do que são meus pensamentos. 

Em quantas cousas mais por tantas vias 

Acho tantos motivos de afrontar-me 

Por ser que todas mais de entranhas frias ? 

Pôde quem tudo pôde melhorar-me, 
Tanto no que pretendo, inda que indigno, 
Que sinta de amor seu todo abrazar-me. 

Suave, doce meu amor divino, 
Aqui donde vim ter, como sabeis, 
Acabar suspirando determino. 

Suspiro porque nunca me deixeis 
Apartar-me de Vôs hum só momento, 
Nem já mais Vôs de mim vos aparteis. 

Bem vos posso allegar merecimento 

Da morte, e paixão vossa, antes da minha, 

Da minha redempção, vosso tormento. 

Inda vossa bondade me não tinha 
Formado, Senhor meu, quando morrestes 
Por me salvar na Cruz, que vos sostinha. 

Alli, manso cordeiro, ofierecestes 
Nas mãos dos cruéis lobos vossa vida, 
Que tirada, tirar-lha não quisestes. 

Abriram-vos no peito huma ferida ; 
Quatro nos pés, e mãos, depois que estava 
Vossa carne de açoutes já delida. 



io6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

A. piedade então donde morava 
Aquella, que quebrou as pedras duras, 
Que corações humanos não quebrava ? 

Eis o sol perde a luz, fica ás escuras : 
Rompe-se o véo do Templo ; a terra treme ; 
Os mortos vivos saem das sepulturas. 

Quem não chora, Deos meu, suspira, e geme ! 
O' quem de pura dor não arrebenta ! 
Quem toma mais na mão remo, nem leme ! 

Que me colha no mar huma tormenta, 
Ficando a salvação posta em perigo, 
Podendo lograr pobre vida isenta? 

Desn' hoje mais parente, nem amigo 
Me busque, nem me falle, nem me veja ; 
Tanto me dá moderno como antigo. 

Tudo me cansa Já, tudo me peja, 
E pouco basta já para soster 
O pouco que da vida me sobeja. 

A praia tem marisco que comer 
Amêijoas, bribigões na branca arêa. 
Que facilmente posso revolver. 

A pedra que dos mares se rodea, 
Chea de lapas pardas apparece, 
De negros mixilhôes mda mais chea. 

A vermelha santola não falece, 
Outro com seu pé curto revirado. 
Seu não, antes de cabra me parece. 

E quando se mostrar muito alterado 
O mar, que seu marisco me defenda, 
O bosque está daqui pouco afastado. 



Obras de Fr, Agostinho da Cruz 107 

Quer suba a planta nelle, quer se estenda, 
Escolherei no ramo o mais maduro 
Fructo sem damno alheo, e sem contenda. 

E se caçar quiser eu pelo escuro 

( Deixo na arribação dos passarinhos ) 

A pouco na pobreza me aventuro. 

Que bem sei enlaçar pelos caminhos 
Huns animaes que trazem na cabeça 
Dois ramos cada qual cheios de espinhos. 

E se na larga praia, ou mata espessa 
O premio falecer do meu trabalho ; 
Não temo que de cima me faleça. 

Não me posso perder por este atalho; 
Posto que tarde vou, que não perderão 
Por tarde os desta vinha, em que trabalho, 
Na qual os derradeiros precederão. 



ELEGIA VIII. 

Da ausência justa conjugal. 

Se neste apartamento me faltara 
Hum desejo enganado de esperança, 
A vida consumida me deixara. 

Quanto lastima mais, quanto mais cansa 
Cuidar que faço offensa a amor tão puro, 
Que não pôde sofFrer desconfiança ? 

Inda que me não pôde dar seguro 

Aceso em peitos nossos differentes, 

Que sempre o da mulher he menos duro. 



io8 Obras de Fr, Agostinho da Cruz 

Veja-se nos extremos dos absentes 

Quem pôde resistir a saudades. 

Quem lagrimas seccar, tristes correntes ? 

Em tantas, e tão feras tempestades, 
Quem pôde assossegar, para que conte 
Adversas, e diversas novidades. 

Tristes dos olhos tristes, que defronte 
Vem branquejar d'além huma sô parte, 
Escurecer d'aquem o raio ao monte ! 

Que licença me dá, para que aparte 
A. vista, brando amor, donde m'encerra, 
Se em parte outra nenhuma se reparte ? 

Deixem-me caminhar a breve terra. 
Que não podem tolher o pensamento; 
Verão quão pouco temo inglesa guerra. 

Formara horrível som fero instrumento, 
Reluzira de perto o ferro imigo, 
Faltara-me da absencia o sentimento. 

Se para me livrar de môr perigo 
Se foi, e me deixou, não o deixando , 
Errou não me levar antes comsigo. 

Que mal se fica a vida segurando, 
Quando de dor se vai mais consumindo, 
Sempre numa só cousa imaginando ? 

Poderá divertir-me vendo, e ouvindo 

Do mal que está por vir, não do presente, 

Que sem ver nem ouvir-me está ferindo. 

Se me concede amor tão justamente 
Não ter meu coração do seu diviso. 
Porque lhe não defende estar absente ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 109 

Não sei para que mais contemporizo. 
Temendo que dirão quando me fôr: 
— A triste por amor perdeu o siso. 

Ficarei por ventura então pior, 
Ficando do meu mal remediada 
Pondo por obra as leis do justo amor. 

Que possa ser de néscios mal julgada, 
Quero : que de prudentes reprendida 
Não me será melhor que sepultada? 

O que me dilatou esta partida, 
Não sofire dilação já neste estado; 
Que se vai esgotando a triste vida. 

Quem fez amor igual mais libertado 
Ah ! triste ! que não sei quanto he igual ; 
Pois nisto o sinto enfim desigualado ! 

Que presta, de que serve, que me vai 
No nosso apartamento hum pinhor certo ? 
Por certo que inda foi para mór mal. 

Que viva na cidade, ou no deserto, 
Quando lhe dei a minha mão direita. 
Não se apontou tal cousa no concerto. 

Queres-me consolar, pouco aproveita, 
Usando de palavras de brandura ? 
Pois a vista não fica satisfeita. 

Não sei qual outra mór desaventura 
Possa criar em mim maior tristeza. 
Que ser firme sem ser de pedra dura. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Ah ! quem trocar pudera a natureza ! 
Imitando da planta a folha leve, 
E da rocha mais dura mór dureza. 

Que firme, e brando peito não se atreve 
A poder resistir a mal tamanho, 
Quamanho delle a absencia mo descreve. 

As lagrimas de amor, em que me banho, 
Testimunhas me sejam do que sinto ; 
Pois por obedecer não acompanho. 

Nesta tamanha magoa ás vezes pinto 
Cruel o meu amor, ah ! quem pudera, 
Sonhar este só bem, que não consinto ! 

Por ventura que assi me defendera : 
Fosse por breve espaço neste peito, 
Onde o fogo repousa em branda cera. 

Que mal, meu justo amor, te tenho feito, 
Que me negas a vista doce, e branda 
Minha, e tanto minha por direito ? 

Não vês que se quiser fazer demanda, 

Manifesta justiça me sobeja ? 

Não vês que a lei de Deos assim o manda? 

Manda que adonde estás também esteja, 
Tu que estejas adonde estar me mandas; 
Agora ordena tu como isto seja, 

— Não queiras que antre nós haja demandas. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



VILANCETE. 

Que desculpa pôde dar 

Amor a quem 

Passando deixou áquem ? 

Que poderá succeder 

Por mais mal que succedera, 

Que menos mal não soífrera 

Do mal, que possa soíFrer ? 

Que tem mais que bem querer 

Quem quer bem 

Sem dar desculpa a ninguém ? 

Eu não sei que Amor me manda 

Se manda que não te sig.i, 

Menos seja quem te obriga. 

Pois me deixas desta banda. 

A mim só amor abranda, 

Não a quem 

Se foi, e deixou-me áquem. 



ELEGIA IX. 

A morte de seu irmão Diogo Bernardes. 

Claras agoas do nosso doce Lima, 
Seccou no Tejo já vossa corrente, 
Onde me sécca a dôr, que me lastima. 

Lembranças de vos ver suavemente 
Correr ó som da voz, que em vós soava, 
Não me deixarão já viver contente. 



lia Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Lembra-me a tenra idade que passava, 
Logrando-me daquella companhia, 
A quem tanta brandura acompanhava. 

Lembra-me quantas vezes succedia 
Das plantas, e das fontes convidados 
Aceitar sombras frescas, agoa fria. 

Outros mil pensamentos renovados 

A magoa me ofFerece, imaginando 

Que nunca hão de tornar tempos passados. 

Fique-se o mundo já desenganado. 

Que não se abranda a morte com brandura; 

Pois a não abrandou teu peito brando. 

Que mór consolação, que mór ventura 
( Antes quanto favor de Deos alcança ) 
Quem dá na vida á vida sepultura 1 

Ah ! claro, e charo Irmão ! que confiança 
Me fica neste passo, saber certo 
Que tinhas lá no Geo tua esperança ! 

Sabias que da morte andavas perto. . . 
Perto também de Deos a desejavas, 
Como dantes me tinhas descoberto. 

Que nem sempre do Lima praticavas. 
Nem sempre cá no Tejo só comigo, 
Nem tudo era poesia o que tratavas. 

Eras além de irmão mais meu amigo 
Por me veres do mundo despedido, 
Cujos males chorar vinhas comigo. 

Tinhas chorado assaz, tinhas gemido 
O tempo vão da verde mocidade, 
Na velhice madura conhecido. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 1 13 

Não se deixa sentir a vaidade 
No principio da vida grangeada, 
Quando contra razão reina vontade. 

Dum gosto noutro falso encaminhada, 
Não sofFre mais ouvir, do que deseja, 
Nem sabe desejar cousa acertada. 

He necessário pois que se proveja 
D'alheo parecer na causa sua ; 
Porque na sua o seu sempre manqueja. 

Mas porque mais não note, nem argua 
Os defeitos comrauns da natureza, 
Dos meus quero tratar na morte tua. 

Eu cuidava bastar a fortaleza 

Da solitária Serra, em que eu habito, 

Para fortalecer minha fraqueza. 

Mas nella se abalou mais meu esprito. 

Que chorando não fica consolado 

Nas lagrimas de amor, em que se banha. 



ELEGIA X. 

Ao mesmo. 

Junto das bravas agoas Oceanas 
Choro quanto cantei na mocidade 
O' som daquellas mansas Limianas ; 

Daquellas, que já foram noutra idade 
Com nome de Letheas celebradas 
Por lhes faltar do curso a liberdade. 



1 14 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que estando tanio tempo represadas, 
O tempo lhes deu nome d'esquecidas, 
Até lho dar Bernardes de lembradas. 

Mostrai-vos, claras agoas, tão sentidas, 
Quanto vos deu Bernardes de brandura, 
Vejam-vos de correr ficar corridas. 

Deixai seccar nos campos a verdura, 
Como já nos do Tejo se seccou, 
Por darem a Bernardes sepultura. 

Mostrai mais do que nelles se mostrou ; 
Pois o ser natural mais vos obriga, 
Além de quanto mais vos obrigou. 

Cuidai que não se achou memoria antiga, 
Que tanto vosso nome celebrasse. 
Quanto não faltará quem melhor diga. 

Ainda que se agora não deixasse 
De lhe dar o louvor que se lhe deve. 
Não faltaria quem me desculpasse. 

Mas quem tão differente do que teve 
A vista dos seus olhos, desencolhe, 
Quanto mais quer louvar, menos se atreve. 

Que de humanos louvores não se colhe 

Outro fructo, senão remordimento 

De quem semea, e mais de quem recolhe. 

Podera-me abalar o sentimento 
Da fraca humanidade noutra terra, 
Não nesta, em que só pobre vivo isento. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz ii5 

Mettido numa lapa desta Serra, 
Que tenho que esperar ou que temer 
Nos successos da paz, ou nos da guerra? 

A morte já não tem que me empecer, 
A vida pouco já deve durar, 
A conta não me fica por fazer. 

Poderam-se os gentios quietar, 
Sem gosto da christã filosofia, 
Com gostos desta vida desprezar. 

Quanto mais o que delles se desvia, 
Escolhendo o melhor, e mais seguro, 
Por outra mais suave, e doce via ? 

Onde se faz mais claro o mais escuro, 
Onde muito mais leve o mais pesado, 
Onde muito mais brando o que mais duro. 

Onde se o pé descalso he magoado, 
Se cura com lembrar que seu Senhor 
O foi nos pés, e mãos, cabeça, e lado. 

A tanto se estendeu o Redemptor, 
Que pelo meu trocou seu amor, sendo 
O seu de Deos, o meu de peccador. 

Daqui não sei passar, aqui suspendo, 
Quanto posso alcançar, quanto sentir; 
Pois que me vejo amar de quem offendo. 

Donde posso acabar de concluir. 

Que quando não puder chegar amando. 

Suprirei com desejos de servir. 



1 16 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Pôde ser que se abrande, desejando, 
Tanto no peito meu minha dureza, 
Que de duro se venha a fazer brando. 

Para que sinta esta alma em fogo accesa 
Tanto quanto mais nelle arder deseja, 
Sem mais contradição da natureza, 
Da que divino amor quiser que seja. 



EPIGRAMMA. 

Á morte de hum moço. 

Alma já tão ditosa entre as ditosas, 
Em paz goza de quem lá te levou, 
Livre das mortaes ondas furiosas, 
Que, posto que esta minha suspirou 
Por ti com muitas outras, saudosas. 
Não se esquece de dar a Deos louvores, 
Por não fiar do vento as brandas flores. 



Outro ao mesmo. 

Tamanha foi a dor, a magoa minha. 
Que me queixei do Ceo, porque levava 
O seu, que para si na terra linha. 
Havê-lo de levar não duvidava, 
Mas sofFre mal amor ser tão asinha. 
Levar o Ceo o seu não foi crueza. 
Mas que farei ás leis da natureza ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 117 



ODA I. 

As mudanças do tempo. 

Largos campos do Tejo, 

A cuja vista crescem 
Tristes queixumes de cruéis lembranças; 

As flores que em vós vejo 

Alegres me entristecem, 
Por ver que são sugeitas a mudanças. 

As minhas esperanças, 

Que tinha por seguras, 

Já não tornarão mais, 

Que como vos seccais 
Assi me deixam ellas ás escuras. 

Ah ! leves fundamentos ! 
Flores que seccas levam leves ventos ! 

O mal que não se espera 

Traz outro mór comsigo, 
Que não pôde ser bem remediado. 

Conheço que devera 

De imaginar comigo, 
Que sécca agoa na fonte, herva no prado*, 

Mas inda neste estado 

Todas as magoas minhas 

Me não deixam morrer: 

Não vemos nós nascer 
Rosas muito fermosas nas espinhas ? 

Assi na mór crueza 
Se apura muito mais toda firmeza. 

Se tão suavemente 
O passarinho canta, 
Movido só da sua saudade *, 



ii8 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que fará quem se sente 

Magoado de tanta 
Misturada com faltas de amizade ? 

Mudanças da vontade, 

Que pena mereceis 

Por serdes argumento 

Dum novo sentimento 
Maior que quantos males me fazeis ? 

Triste de quem se engana 
Com folha, que o sol secca, o vento abana ! 

Se no valle, ou na serra. 

Povoado, ou deserto, 
Minha alma sem o bem doutra deseja 

Algum gosto na terra. 

Quer seja longe, oú perto, 
Sem quantas cabras tenho inda me veja ! 

Por mais verde que seja, 

Se seque a verde planta, 

O sol me seja frio, 

Não ache agoa no rio, 
Se quero mais que ver huma alma santa, 

Buscando de contino 
Com tão puro desejo amor divino. 

Confio só naquellas 

Chagas, que padeceu 
Por todos meu Senhor liberalmente, 

Que por cima de estrellas 

No Empiréo ceo 
Viveremos com elle eternamente. 

Meu Deos Omnipotente, 

Vós só por nossa guia, 

Sem viva creatura. 

Na vossa fermosura 
Abrazai duas almas noite, e dia ; 

Por vós arcam, Deos nosso. 
Arcam de puro fogo d'amor vosso. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 119 

Não julgue mal ninguém, 

Não será condemnada 
A tenção, com que julga o que não deve ; 

Veja primeiro bem, 

Se tem tenção damnada 
Aquelle que julgar outrem se atreve. 

Faz o juizo leve 

Da verdade mentira ; 

Faz muitas differenças, 

Torcer muitas sentenças ; 
Faz amolar o ferro, faz que fira. 

Ditoso quem padece 
Alegremente, quanto se oflerece 1 



ODA II. 
A D. Diogo Lopes de Lima. 

Senhor, se me esquecera 

Da minha natureza, 
A quem nunca se nega o que se deve, 

Ainda que correra 

Com sua agoa mais tesa 
O Lima, que de seu tão branda a teve ; 

Não passará tão leve 

Por elle o pensamento, 

Que não fora forçado, 

Sentindo-me obrigado 
A pagar o devido sentimento 

A' minha saudade •, 
Pois para amar não falta liberdade. 

Daqui d'antre estes montes 
Tão pobres de verdura, 
Como nunca vos vejo, .de alegria, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Dos novos orizontes 

Antiga fermosura 
Ora me inflama todo, ora me esfria : 

Não ha noite, nem dia 

Na vida, que tornasse; 

Inda que desviado 

Do curso acostumado 
O carro de seu pai já governasse 

Faeton, desejoso 
De fazer seu imigo mentiroso. 

Não sei para que cansa 

Quem sempre mais deseja, 
Se não morre de fome, nem de frio ? 

De que serve a privança 

Por mais alta que seja, 
Se nunca com os meus olhos me rio? 

Por força corto o fio*, 

Porque outrem me não corte 

Do meu próprio gosto, 

Todos me dão de rosto. 
Té que vem a quebrar pelo mais forte. 

Então me desengano. 
Que basta pouco pão, e pouco panno. 

He muito differente 

Do que ó longe apparece 
O verde bosque visto de mais perto! 

Nem para toda a gente 

Mais fermoso apparece 

O dia pelos valles do deserto! 

Quantas vezes desperto 

Gritando ó nosso Lima 

Porque se não consuma 

No mar, como costuma, 
Pois livre correr pôde para cima? 

Quem vos visse apartadas. 
Doces agoas do Lima, das salgadas ! 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i»i 



ODA III. 
A Francisco Barreio de Lima. 

O tempo que fugindo 

Com tamanhas mudanças 
Desengana quem nelle se confia, 

Abatendo, e subindo 

Diversas esperanças. 
Me faz, Lima, cuidar o que faria 

Se faltasse agoa fria, 

Se me escusasse a tua, 

Por mais clara que seja 1 

Quem me tolhe que veja 
Claro de dia o sol, de noite a lua, 

Buscando a fermosura 
De quem fez tão fermosa a creatura ? 

Confias na corrente 

Com que te vás ó mar ; 
Lima, meu doce Lima, onde feneces ? 

Olha quam brevemente 

Salgadas vás tomar 
As doces agoas nelle, com que deces 1 

Se do tempo te esqueces. 

Em que te faltou agoa 

Para livre correr ; 

He muito de temer, 

Que chores outra magoa, 

E por ventura quando 
Não tenhas quem comtigo este chorando. 

Posto que por ribeiras 
De verdes arvoredos. 



it2 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Por cima d'alvos seixos vás correndo, 

As arêas primeiras, 

Que por antre penedos 
D'huns noutros murmurando vás volvendo, 

Em montes vão crescendo, 

As hervas afogando, 

Que não deixam dar fruito. 

A mim custa-me muito 

Andar desareando, 

Vendo por culpa alhea 
Os tristes olhos meus cheios de área. 

Por mais claro que saias 

Da tua fonte clara, 
Lima, também de limo vás coberto. 

O campo donde espraias, 

Seu fruito não negara, 

Se de todo ficara descoberto. 

Rústicos lavradores 

Colhem o que Deos cria; 

Eu não duvidaria. 

Que fruito dessem flores 

Orvalhadas de cima ; 
Pois quanto a terra dá no Geo se lima. 

Aquelle que deseja 

O que por si não pôde, 
Aquillo ha de buscar com que se alcança. 

Não pôde ser que seja 

O que mais tarde acode, 
Pelo menos sem culpa de tardança. 

Quem sofre outrem descansa, 

Mil vezes se arrepende, 

Outras tantas se queixa, 

Que em mãos alheas deixa 
Aquillo, que alcançar tanto pretende. 

Erra quem se grangea, 
Devendo ser a sua á custa alhea. 



J 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i23 

Que me presta que faça 

Por mim, por almas santas, 
Ainda muito mais do que me pedes ? 

Pôde ser maior graça, 

Que chorar quando cantas ? 
E que para ti peça o que m'impede ? 

Alembre-te que medes, 

E que has de ser medida ; 

Regista com a vida 

O que tenho pedido, 

Verás que se dilata 
A petição, que pedes tão barata. 

Orou o Sacerdote 

No templo do Senhor 
Por Anna reprendida, e mal julgada ; 

Orou ella de sorte, 

E com tanto fervor, 
Que sua petição foi outorgada. 

Oração ajudada 

De quem n'ade lograr 

He muito mais aceita. 

Quem a dormir se deita 

Que espera d'alcançar? 

Alma, que está disposta, 
As mercês do Senhor tem por resposta. 

A força do desejo, 

Que não soffre razão, 
Sepultada no gosto a que se entrega, 

Ordena mal sobejo. 

Que dor de coração 
E não poder valer a quem desejo ! 

A vaidade pega, 

A malicia crece. 

Adulação governa. 

Gloria, e pena eterna 

Na vida se merece. 



124 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Duas almas num Lima ! 
€ Bisogna questa mia salvar prima ». 
Vai confiado, vai donde te mando, 

Duro papel, ou brando^ 
Que no fogo de amor tudo se apura, 
E noutro muito pouco se aventura. 



ODA IV. 
Na condição da vida humana. 

Verdes bosques da Serra 

Por antre penedias 
Por mãos da natureza repartidos. 

Que me fica na terra 

No fim já de meus dias, 
Tristes tão nesciamente consumidos, 

Se não dobrar gemidos 

Envoltos na lembrança 

De tamanha cegueira, 

Pois que na flor primeira 
Trabalhei por cortar minha esperança ? 

Ah ! quem se consumira 
Desta magoa primeiro que cahira ! 

Por mais que se combata 

Com furiosos ventos, 
O mar fora não sahe do limitado*, 

A creatura ingrata 

Com leves movimentos 
Se desmanda do que lhe está mandado ! 

Oh ! desventurado. 

Triste modo de vida! 

Iniiga liberdade ! 

D'amor suavidade. 



A 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz laS 

Que meus peccados deixam destruída ! 

O mar guarda a lei sua ; 
Mas eu, Senhor, não guardo a minha, e tua! 

Os montes levantados, 

Os valles abatidos 
No seu lugar antigo permanecem 

Em parte avantejados; 

Pois que não compungidos 
Do sentimento d'alma que carecem; 

E com tudo obedecem 

Com nunca se mover, 

Movendo-me á tristeza. 

Diversa natureza 
Da sua, a que não turba obedecer ! 

Livres montes, e valles 
De sentir, e gemer, de chorar males. 

Nas feras, e nas aves, 

Posto que sensitivas, 
Alheas de sentir perda tamanha. 

Acho cousas tão graves, 

Tão desconsolativas, 
Que a mesma confusão me desentranha. 

Tanto, que na montanha 

Por tudo quanto vejo 

Me desejo trocar. 

Por ver melhor guardar 
A lei, que contradiz o meu desejo. 

Criado nestas feras 
Entranhas d'aves mais, mais que de feras. 

Inda nas pedras duras, 

Na sorte differentes 
Da minha, muito mais dest'alma imiga, 

Não se criam branduras 

Passadas, e presentes, 
Onde por hum descuido se periga ; 



126 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



A sua lei antiga 

Guardando firmemente 

Sem mais contradição 

Da sua condição, 
Desta minha me fazem descontente, 

Que sendo no bem dura, 
No mal só por meu mal cria brandura. 

Ai triste que desculpa ! 

Ou qual fingida escusa 
Darei da vida minha mal gastada ! 

Eis o mar que me culpa ; 

A terra, que me accusa, 
Mostrando merecer pena dobrada. 

Toda cousa criada 

Me afronta, e me reprende 

Com justiça sobeja. 

Toda me faz inveia, 
E toda finalmente me suspende 

Vendo-me, e nella vendo 
Que louva o Greador, a quem offendo. 

Oh ! quanto mais se aggrava 

Aqui neste deserto 
A triste confusão da culpa minha ! 

Pois quando imaginava 

Tamanho desconcerto 
Poder remediar, quamanho tinha ; 

Deste lugar me vinha 

Huma doce lembrança. 

Que me dava seguro 

Deste meu peito duro, 
Que como dantes inda aqui me cansa. 

Que lugar, ou que parte 
Acharei, que de mim mesmo me aparte ! 

Que presta, que aproveita 
Fazer-se mil mudanças 



k 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 127 

No trajo, na feição, e no pacigo ? 

Que faz quem tudo engeita, 

Quem perde as esperanças 
Do mundo, se se perde assi comsigo? 

Se acabara comigo 

Fazer apartamento 

De mim, como fizera 

Se mais força pusera 
Na decomposição do pensamento 

Quamanho bem lograra ? 
Em quantos grãos d'amor me levantara ? 

Mas pois que tal me sinto, 

Que não sinto resguardo 
Em mim para escapar do que mereço, 

Que se promeíto, minto; 

E se não minto, tardo ; 

E tardando, de todo desfaleço. 

A Vós, meu Senhor, peço 

Graça, favor, ajuda. 

No que tanto me vai ; 

Pois a folha, que cahe 
No chão, da verde planta, não se muda 

Sem vossa permissão, 
Quanto mais hum pesado coração ! 

Como pai piedoso 

Em tudo liberal, 
Fácil em perdoar, manso, benigno, 

De mim tão vicioso. 

Fero bruto animal. 
De cada vez mais fero, e mais maligno, 

De toda pena dino. 

Vos mova á piedade 

O muito que softresles 
Vestido desta nossa humanidade, 

Pregado num madeiro, 
Antre lobos cruéis manso cordeiro. 



128 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



EPITÁFIO. 

A huma fermosa n'alma, e no corpo. 

Aqui debaixo desta pedra dura 
Hum corpo se converte em terra fria 
Da mais suave, e branda creatura, 
De quantas me mostrou a luz do dia. 
Bem claro se vio nelle a fermosura 
D'alma, que para o Geo sempre subia, 
Sem nunca na tormenta, ou na bonança 
Faltar á paciência, ou temperança. 



CARTA I. 

Em reposta á de seu irmão Diogo Bernardes. 

Se tanto penetrou toda a «dureza 
O som do teu suave, e doce canto, 
Que fará numa branda natureza ? 

Culpas o meu amor, e dizes quanto ; 

Me tinhas ; muito foi ; não sei se diga, 
Que tenho agora mais sempre outro tanto. 

A lei do Redemptor não desobriga, i 

A quem a professou, ser obrigado ^ 

Daquillo, que a razão humana obriga. í 

t. 
Se quis que nosso imigo fosse amado, 
Como não quererá que nosso amigo 
Seja no mesmo amor avantejado ? 



\ 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 129 

Não sinto que passasse mór perigo 
Para carecer desta liberdade, 
Que desejar viver só lá comtigo. 

Tamanha força tinha a saudade 
De leve mininice bem gastada 
Após da tua grave mocidade. 

Então só foi de mim mais estimada 
Sobre todas as mais esta esperança, 
Quanto d'altos espritos cubicada. 

Trazia-a pendurada da lembrança, 
Que na vista dos bosques não parava . 
Oh ! gosto d'outra firme confiança 1 

Assi tinhas de teu o que buscava 
Noutros, que se moveram de interesse, 
Cuja nódoa na vida mal se lava. 

Ah ! claro, e charo irmão, quem te cá desse 
Com essa tua voz antre esta Serra, 
Que tão altos conceitos não perdesse 1 

Ora suave paz, outr'ora guerra 

Cruel, mas necessária, contarias 

A quem divino amor busca na terra. 

No pasto da tua alma sentirias 
Doçuras de tamanhas novidades, 
Que tu mesmo de ti te esquecerias. 

Nascem no sentimento estas verdades, 
Mal as pôde dizer quem as não sente, 
E pior quem sentir taes saudades. 

Das plantas, que regou tua corrente, 
Outro fructo não tens, outro não colhes, 
Senão queixar-te em vão da estéril gente. 



i3o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Acolhe-te a quem sempre te recolhes, 
Não faças d'outra cousa fundamento, 
Mais boninas do campo não desfolhes. 

Guardar a Lei de Deos he mantimento ; 
O ter menos do mundo, mais seguro; 
O suspirar por Deos, contentamento. 

Não temas que te falte no futuro 
A provisão daquelle, que manteve 
Com pão celestial povo tão duro. 

Muito mais tem de seu, quem tanto teve, 
De quem lhe deu fugir dos que confiam 
Naquillo de que mais fugir se deve. 

Os lirios do campo, que não fiam, 
Vestidos de tamanha fermosura 
Vejamos com os olhos que não viam. 

Do que não semeou na terra dura 
O passarinho colhe com licença 
Do Creador de toda a creatura. 

Tardar quero que julgues por oíFensa 
E não ( sem to dizer ) pôr em eíFeito 
Teu próprio parecer, tua sentença. 

Que guardados trazia no meu peito 
Muitos conselhos sãos, que tu me deste, 
Para no torto andar sempre direito, 

Lembram-me aquelles versos, que escreveste 
Naquella Egloga antiga saudosa, 
Onde tanto a pobreza enriqueceste. 

Pois olha agora quanto mais ditosa 
Hum'alma por seu Deos pobre seria ; 
E quanto nos seus olhos mais fermosa ! 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i3i 

Nesta nossa christã filosofia, 

O Senhor, que de graça nos sustenta, 

Diante foi de nós por nossa guia. 

Quem após elle vai na mór tormenta, 
Maior quietação, forças maiores 
Para mais o seguir mais accrescenta. 

Verdes plantas sombrias, alvas flores, 
Agoas, que mansamente is murmurando, 
Fermosos orizontes, novas cores ; 

Amor, que por amores suspirando 
Não podes repousar se não ardendo. 
Amor, divino amor, meu amor, quando 

Em ti, por ti, comtigo irei sustendo 
Nos hombros da minh'alma minha cruz, 
O Lima no Leihêo convertendo, 
Chamarei por Maria, e por Jesus? 



CARTA II. 

A Dona Branca. 

Gomo queres que negue a teu esprito, 
Branca, serva da branca Virgem pura, 
Mostrar o que me pedes por escrito ? 

Não sei eu por qual outra creatura 
Os tristes versos meus desenterrara 
Debaixo de tão alta sepultura. 



i3z Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mas pois de branca queres fazer clara, 

Aquella luz divina te esclareça, 

Que nunca a bons desejos desampara. 

Não imagines cousa que te deça 
Do caminho do Geo breve, e seguro, 
Por mais que trabalhoso te pareça. 

Com penas immortaes do reino escuro 
Não te quero espantar ; pois seguir queres 
A Cruz de teu Senhor por amor puro. 

Que podes esperar, por mais que esperes, 
Do mundo, que te tem desenganada, 
Que te pôde faltar, se a Deos te deres? 

Se vires que por tudo deixas nada. 
Por nada deixarás o que descansa 
No curso desta vida tão cansada. 

A tanto subirás nesta mudança, 

Que não haverá dor, por mór que seja. 

Na qual não cresça mais tua esperança. 

Assim de culpas minhas eu me veja 
Tão longe, como perto essa alma tua 
Daquillo, que esta minha ver deseja. 

Que vás após de quem á custa sua 
Por nos levar ó Ceo, donde nos chama, 
Na terra padeceu morte tão crua. 

Hum firme coração, que em Vós se inflamma, 
Ardendo por se ver de Vós amado, 
Por vos amar. Senhor, tudo desama. 

Do tempo, que gastei tão mal gastado, 
Dera melhor razão, do que daria 
De vos seguir, Senhor Crucificado ; 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i33 

Mas nunca a fraca voz me faltaria 
Para dizer do mundo a falsidade. 
Gomo quem nelle andou cego sem guia. 

Levanta os olhos teus á saudade 

Do Summo Bem dos bens, e nella aprende 

Aquillo, que mais fôr sua vontade. 

A Fenis, que do tempo se defende, 
Antes que lhe faleça força, e vida, 
No fogo se renova, em que se accende. 

Não se põe mais a rola, carecida 

Do seu primeiro amor, em verde ramo ; 

Foge da fonte clara aborrecida. 

Testimunha me seja por quem chanoo, 
Da verdade que escrevo brevemente 
Nos versos, que por seu amor derramo. 

Que não podes sem elle ser contente, 
Sem elle, que dilata seu castigo. 
Por não negar perdão ao penitente. 

Busca falsas razões o duro imigo, 
Para nos impedir que de mais perto 
Possamos contemplar tamanho amigo. 

Ah ! braços estendidos, Lado aberto ! 
Quanto se sentem mais as vossas dores 
Nesta quietação deste desejo ! 

Nascem nesta aspereza brandas flores, 
E nella tão suave, doce fruito. 
Como tu colherás, como lá fores. 
Amando muito mais quem amas muito. 



i34 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



CARTA III. 

A Francisco Barreto de Lima estando preso» 

Andei de mes em mes, de dia em dia 
Buscando hum'hora só desoccupada 
Para satisfação do que devia. 

E quando m'a pintou facilitada 

A força do desejo em minhas mãos, 

Nas alheas a vi renunciada. 

Más se não pude ser dos temporãos, 

Dos serôdios ser posso difterente, 

Pois delles huns são pobres, outros sãos. 

Quanto padece mais, quanto mais sente 
O que não pôde ver o que deseja, 
Desejando de ver o que está ausente ? 

Causa pôde ser tal, que a mesma seja, 
A que dous peitos mova a saudade ; 
Mas que num delles só mór parte esteja. 

Não foi escasso amor de liberdade. 
Quanto de forças foi a natureza •, 
Pois sem ellas senhor he da vontade. 

Ou seja n'alegria, ou na tristeza 
De mui vários successos da ventura, 
Aventurar não deixa a fortaleza. 

A barbara, infiel, ingrata, e dura 
Terra de Berbéria, que negou 
A tantos esforçados sepultura ; 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i35 

Inda que desta nossa te apartou, 

Apartar nunca pôde o sentimento 

De quem sempre de cá te acompanhou. 

Poderá desculpar o pensamento, 
Se nesta conjunção se descuidara. 
Por ser o mal de pouco soffrimento ; 

Poderá, s'inda agora me calara. 

Não danar outro estilo merecido, 

De quem melhor nas armas te louvara. 

Nas armas onde estava conhecido 
Esforço em tenra idade, antecipado, 
Nos campos africanos repartido. 

Aquelle esforço teu dos teus herdado, 
Que dos campos do Lima se estendeu 
A vencer os que o Ganges tem regado. 

Ah ! quanto neste passo se moveu 
O meu coração triste a suspirar ! 
Mas seja tão somente pelo Ceo ! 

Pois que ninguém na terra limitar 
Pôde, quanto de nós mais determina; 
Quem pôde quanto quer determinar ? 

Enquanto esta alma nossa peregrina. 
Com tão mal inclinada carne unida. 
Que de mal em pior sempre se inclina ; 

Convém que se registe a breve vida 
Pela morte por quem ella se mede, 
Não respeitando ser desconhecida. 

A quantos impedio matar a sede, 

Que tinham de fartar cruéis intentos 

Que a lei justa de Deos tão pouco impede ? 



i36 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

A quantos derribou os fundamentos 

De seus vãos appetites derivados ? 

A quantos outros tantos pensamentos ? 

Quão ditosos, quão bem considerados 
Os dias são daquelles, que fugindo 
Pelos desertos vão despovoados ! 

Agora do coelho vão seguindo 

Os passos que lhe mostra o cão ligeiro, 

Que busca, corre, salta, e vai latindo. 

Ora se vai trepar no sovereiro, 
Donde, sem ser ferido, o porco fira, 
Que por ferir escuma no terreiro. 

Ora no campo raso onde se estira 
O galgo após da lebre fugitiva, 
No cansado rocim se ponha á mira. 

Ora tome caçando a perdiz viva 

Das mãos do seu açor, ou do seu laço, 

Ficando a presa dum, doutro capiiva. 

E se de condição for mais escasso, 
No rio vá pescar peixes á cana, 
Que Marateca tem como bagaço. 

Alli pôde caçar toda a semana. 
Onde não pôde ver andar á caça 
Contra divina lei malicia humana. 

Nem deve parecer mal esta traça 
A' rara, clara, e chara companheira 
D'alma, que Deos conserve em sua graça. 
Ou seja em Azeitão, ou na Landeira. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz iSy 



MARTYRIO, E VIDA DE SANTA GATHARINA. 

Penas, tormentos, dor, e fortaleza 
Cantar quero de Santa Catharina, 
Dotada de sciencia, e de pureza, 
D'amor celestial, graça divina, 
Cujo favor invoco nesta empresa, 
D'outra mais branda voz, mais doce digna ; 
Porque danar não possa ao verso rudo, 
De rodas de navalhas fio agudo. 

No tempo que Máxencio Imperador 
Exercitava sua tyrannia, 
Imigo dos amigos do Senhor 
Christo Jesu, quem elle perseguia ; 
Procedendo de mal para pior. 
Posto no tribunal de Alexandria 
Mandou que a todo povo se escrevesse, 
Que certo dia todo alli viesse. 

Com somma de diversos animaes 
Correm a sacrificar solemnemente 
No templo de seus deoses immortaes, 
Adonde elle queria estar presente 
Com todos de seu reino principaes, 
Por ser o sacrifício differente 
De quantos tantas vezes feitos tinha ; 
Aparelha-se o mais como convinha. 

Havia na cidade huma donzella 
De rara perfeição, de bello rosto, 
Mas na pureza d'alma inda mais bella. 
Prudente Virgem, filha d'ElRei Costo, 
Que vendo prepararse para aquella 
Festa vizinhos seus com tanto gosto, 



i38 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

O verdadeiro quis buscar á custa 
Da vida com disputa clara, e justa. 

E como muitas vezes desejara 
Sacrificar a vida a quem lha dera, 
E depois de lha dar inda a comprara, 
Quando na Cruz por todos padecera *, 
Com tanto fervor d'alma se prepara 
A dar-lhe cem mil outras se as tivera, 
Que não pôde encobrir naquelle instante 
Quão leda dalli parte, e quão constante. 

Da sua gente vai acompanhada, 
Antes em companhia mais segura 
D'amor, com quem se tinha desposada, 
Que branda lhe fazia aquella dura 
Mão do cruel Tyranno alevantada. 
Para dar melhor corte á formosura : 
Que tal não tinha vista noutro espelho. 
Qual naquelle cutello assi vermelho. 

Passa por animaes brutos atados, 

Que pondo os olhos nella estão bramando 

De verem com seu sangue venerados 

Aquelles, que sem fim estão penando ; 

Adonde tendo já considerados 

Quantos nos erros seus se estão culpando, 

A Maxencio mandou dizer da porta 

Do templo: que fallar-lhe logo importa. 

Respondeu-lhe Maxencio que importava 
Muito mais acabar o começado 
Sacrificio dos deoses, em que estava 
Degolando naquelle manso gado ; 
Mas pois a mesma causa a convidava 
A festejar o dia festejado, 
Que entrasse a pôr por obra o seu intento 
Por não perder o seu merecimento. 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz iSp 

A Virgem, que levava outro conceito 
DifFerente do que elle presumio, 
Entrou naquelle templo, açougue feito 
Do sangue, em que o Tyranno se tingio ; 
E revolvendo dentro no seu peito, 
O que seu doce Esposo lhe imprimio, 
Com brando parecer, sereno, £ grave 
Começou levantar a voz suave. 

f — Oh 1 bárbaro, cruel, endurecido, 
Fero, bruto, animal, cego tyranno, 
Que não tens nos teus erros consentido, 
Por deixar de entender o teu engano 
Tão manifestamente conhecido, 
Se não por te prezar de deshumarto ; 
Pois quando néscio foras na verdade, 
Deras mostras se quer de piedade. 

c Por onde podes mal dissimular 
A tua natureza dura, e fera 
Exercitada em tão sujo lugar. 
Qual outro a piedade não movera ; 
O gosto que tu levas de matar. 
Oh ! que matando mais se embravecera ! 
Chamas-te Imperador, e não attentas 
Que figura matando representas ? 

c Mas pois tua malicia assim te cega 
Para não poder ver idolatrando, 
Como quem seu juizo cego entrega 
A cego, que seus passos vai guiando. 
Manda vir á disputa quem te prega, 
E verás como venço disputando, 
Moça de tenros annos, sabedores ; 
Escolhe de teus reinos os maiores. 

« Verás quão pouco basta para crer 
Que não soffre razão serem honrados 



I40 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Por deoses homens máos de máo viver, 
Nem menos nos altares levantados 
Os Ídolos, que tu mandas fazer 
De pedra, de metal, ou páo lavrados. 
Adora quem te fez, deixa o madeiro 
Que tu mandas fazer ao carpinteiro. 

€ A gloria, o louvor, a adoração 
A Deos Omnipotente só se deve. 
Que por perfeiçoar a Redempção 
Universal, na Cruz pregado esteve ; 
Sem cuja sempiterna permissão 
Não se move na planta folha leve. 
Põe nelle os olhos, tem da mão o ferro 
Envolto em sangue, mais nesse teu erro. » 

Perturbado, e confuso está no meio 
O Tyranno daquelles argumentos. 
Da dura reprensão que dar-lhe veio 
A Virgem reprovando seus intentos ; 
Sem mais outro respeito nem receio 
Delle, nem dos sagrados aposentos ; 
Não soube como delia se livrasse, 
Se não com lhe mandar que se calasse. 

Recolhido já dentro do seu paço, 

Depois da funeral festa acabada. 

Mandou que a Virgem fosse em breve espaço 

Da sua imperial parte chamada ; 

A qual com rosto alegre, e grave passo 

Honesta, e vergonhosa presentada, 

Com muita confiança escuta, e cala 

O néscio Imperador, que assi lhe falia : 

« — Quero saber que letras aprendeste, 
Teu nome, cuja filha és, como ousaste ? 
Se sabes ponderar o que fizeste 
Quando tão soltamente reprendeste, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 141 

E dos immortaes deoses blasfemaste ? 
Que por elles te juro que não sei, 
Como comtigo a mim me não matei » ? 

« — Sou filha d'ElRei Gosto ( Gatharina 
Respondeu ) desn'o berço doutrinada *, 
Mas logo desprezei a tal doutrina, 
Como me vi com Christo desposada ; 
Porque em comparação do que elle ensina 
Todo o saber do mundo fica nada : 
Elle criou o Ceo, criou a Terra ; 
E tudo quanto mais nelle s'encerra. 

« As letras que aprendi d'homens humanos 
Contradizer se podem disputando; 
Mas não tão manifestos desenganos, 
Como no templo estive declarando; 
Devias desistir de teus enganos, 
Falsas superstições abominando 
Desses teus falsos deoses condemnados, 
Das fúrias infernaes atormentados. » 

Espantou-se o Tyranno da resposta, 
Que da boca da Virgem tinha ouvida, 
Avisada, subtil, e bem composta. 
Com tanta liberdade repetida ; 
E como vê que a tudo estava posta 
Até perder por Christo a própria vida, 
Começou a dizer mil desvarios, 
Que a Virgem reprovou como sandios. 

E por não se atrever a mais contenda, 
Vencido finalmente por razões ; 
« — Eu, disse, buscar quero quem te renda. 
Que a mim me não convém tratar questões : 
Antes privar da vida, e da fazenda 
Quem sustentar quiser opiniões 



142 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Em desprezo dos deoses poderosos, 
A quem chamaste falsos, mentirosos. » 

Entretanto mandou que lha pusessem 
No cárcere até quando se juntassem 
Os mores sabedores que pudessem, 
Para que com a Virgem disputassem, 
E que da sua parte lhe dissessem, 
E dos immortaes deoses exhortassem, 
Que nisto consistia seu Império, 
Ganhar honra perpetua, ou vitupério. 

Chegando já grão numero daquelles, 
Que para disputar foram buscados, 
Maxencio começou tratar com elles 
Aquillo para que foram chamados; 
E que considerassem pender delles 
Serem seus próprios deoses desprezados, 
O seu Imperador posto em ventura 
De mais alegre, ou triste creatura. 

E como quem deseja de vencer 
Na guerra, lhe parece duvidoso 
Tudo quanto lhe pôde succeder, 
Imaginando mais industrioso 
Aquillo de que mais se ha de prover 
Para ficar em fim victorioso ; 
Assi quis o Tyranno assegurar-se, 
Como quem não queria aventurar-se. 

Dizendo a todos juntos, que teriam, 
Vencendo, largos prémios ; mas vencidos 
Com gravíssimas penas pagariam 
Ficarem os seus deoses abatidos, 
E que por esta causa se deviam 
Aparelhar com todos os sentidos ; 
Pois elle também nella se perdera. 
Se o mandá-la calar lhe não valera. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 143 

Hum de todos aquelles que se tinha 
Por mais avantejado na sciencia 
Diz ao Imperador que muito asinha 
Tomaria do caso experiência ; 
Posto que disputar lhe não convinha 
Com quem tinha tão fraca resistência ; 
Mas que elle proporia tão profunda 
Questão, que não houvesse outra segunda. 

Festejou o Tyranno tão immensa 
Soberba do Filosofo, cuidando 
Abastar este só para que vença 
A Virgem ante o povo disputando. 
E por isso mandou que sem detença 
Se fosse sua vinda abreviando 
Desejoso de vê-la qual se vira, 
Quando vencido delia se partira. 

Mas antes que chegassem á cadêa, 

Aonde Catharina tinham presa, 

De luz divina foi a casa cheia ; 

EUa de mais sciencia, mais firmeza, 

A disputa dos sábios não recêa ; 

Que de vence los já tinha certeza 

Por hum Anjo do Geo, que lhe mandou 

Aquelle, em cujas mãos se encommendou. 

« — Oh! Catharina (disse) teu Esposo 
Por mim, seu Anjo, manda visitar-te. 
Para contra este numero odioso 
De sábios, antes néscios, confortar-te, 
E depois por martyrio glorioso 
Com elles no seu reino aposentar-te ; 
Dando-te graças taes, tão eminentes, 
Que de néscios fazer possas prudentes. 

« Alegra-te, que tens a Deos propicio; 
Alegra-te de seres tão ditosa, 



144 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que fazendo da vida sacrifício 
Farás ess'alma tua mais fermosa ; 
Alegre-te tamanho beneficio, 
Oh ! Virgem Gatharina gloriosa *, 
Lá te vou esperar no Ceo Empírio, 
Onde tens a coroa do martyrio. » 

Esta visitação celestial, 
Que assi deixou a Virgem transformada 
Naquillo, que dizer se pôde mal, 
Não deu lugar Maxencio a ser lograda, 
Que logo se subio no Tribunal, 
Mandando que assi fosse apresentada 
Gatharina antre aquelles escolhidos. 
Que vinham a vencer, não ser vencidos. 

Aquelle principal mais arrogante. 
Que da victoria fez larga promessa, 
Mostrando-se mais destro, e mais constante, 
A disputar primeiro se arremeça, 
Propondo, e concluindo num instante 
Maravilhas dos deoses, que professa, 
De Júpiter, Apollo, de Neptuno, 
Vénus, Minerva, Geres, Thetis, Juno. 

Gatharina que estava sobre aviso, 
Além do natural, outro divino. 
Alegre de se ver posta em juizo 
Daquelle Imperador cego, malino; 
Tão claramente prova de improvizo 
Hum Deos Eterno, só ser Uno, e Trino, 
Que não somente deixa convertido 
O sábio, mas á morte offerecido. 

Os outros, que na Virgem contemplaram 
De raras perfeições, altos extremos. 
Todos juntos por terra se lançaram 
Dizendo: — « nós também nos convertemos 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 145 



Dos erros, em que os nossos nos criaram \ 
Abasta o que com nossos olhos vemos ; 
Que só na lei de Christo verdadeira 
Pôde lobos vencer huma cordeira. » 

O Tyranno que vio como perdera 
Diante do seu povo a confiança ; 
E como disputando se atrevera 
Huma moça fazer leve mudança •, 
Naquelles cincoenta, que escolhera, 
D:terminou fazer cruel vingança, 
iMandando que queimassem todos quantos 
Por hum só Deos quisessem perder tantos. 

Os verdadeiros sábios, que então viram 
Aparelhar-se o fogo, não s'esfriam, 
Antes por padecer nelle suspiram. 
Accrescentando mais outro, em que ardiam ; 
Alegres todos juntos se partiram 
Da Virgem, que ficar alegre viam, 
Dizendo: t Por nós roga •. Ella dizendo: 
a Encomendai me a quem vos encomendo. » 

Depois que para o Ceo purificadas 
Se partiram aquellas cincoenta 
Almas, por Catharina encaminhadas, 
O Tyranno de novo prova, e tenta 
Com palavras de amor affeiçoadas, 
(Que seu desejo vão lhe representa) 
Sc pôde por qualquer via que seja 
A Virgem converter, como deseja. 

Ella que nada mais delle pretende, 
Martyrio, que favor, morte, que vida ; 
Com tão duras palavras o reprende, 
Que lhe faz vomitar a concebida 
Fúria de huma paixão, em que s'accende 
Pela vêr cada vez mais atrevida. 



146 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Dizendo : • Quero ver se com tormentos 
Abrandar posso teus atrevimentos. 

Seja com duras vergas açoutada 
Até que das blasfémias se desdiga, 
Em que perseverou, como obstinada 
Dos deoses immortaes cruel imiga. 
Amostra-se da lei desobrigada ? 
Da piedade a lei me desobriga. 
Não fique membro são, nem sangue nelle, 
Nem sobre suas carnes fique pelle. » 

Quaes lobos vigiando dos outeiros, 
Que viram sem pastor a mansa ovelha. 
Famintos, furiosos, e ligeiros 
Da pelle branca vão fazer vermelha : 
Taes foram os algozes carniceiros. 
Tanto que a voz soou na sua orelha 
Da boca do Tyranno, que não ca-nsa 
De bradar contra aquella ovelha mansa. 

Mas ella nos tormentos florecendo, 
Como lirio nos valles regadios, 
Tanto mais na firmeza vai crescendo, 
Quanto de sangue mais crescem os rios. 
Eis o Tyranno vai desfalecendo 
Do furor, desfalecem os sandios 
Ministros seus, cansados de ferir 
Quem mais ferida os faz mais confundir. 

Vendo Maxencio já forças, e manhas, 
Desprezadas daquella, que lançava 
Pela rotura fora das entranhas 
Aquelle resplendor, que dentro estava ; 
Obrando maravilhas tão estranhas, 
Que todo aquelle povo se abalava. 
Mandou que par' o cárcere tornasse. 
Até que algum martyrio se inventasse. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 147 

A fama que voava deste peito 
Augusta Imperatriz moveu contrita 
A visitar naquelle carcer' estreito 
Catharina, que n'alma tinha escripta. 
E para poder pôr isto em efteito 
O capitão Porfírio solicita, 
Que com duzentos seus secretamente 
Augusta a Catharina s'apresente. 

Entrando na prisão, antes soltura, 
Adonde Catharina se recrea. 
Contemplando naquella formosura, 
De cuja saudade estava chea, 
Tamanho resplendor, tanta doçura 
Naquelles circumstantes se semea, 
Que confessam a lei, cujos effeitos 
São brandura de amor em duros peitos. 

t Oh ! dito a Senhora, quaes amores 
Em tão duras prisões, taes asperezas, 
Augusta disse, criam brandas flores 
Crescendo, quanto mais no fogo accesas ! 
Quaes olhos podem ser merecedores 
De ver á sua luz cousas defesas, 
Não vos tendo servida por Senhora, 
Serva de outro Senhor que vos namora ? 

• De mim, e destes vossos, que comigo 
A verdadeira lei seguir queremos, 
Convertidos no nosso error antigo. 
Que com suspiros d'alma lavaremos, 
Vos alembrai. Senhora, que não digo 
O gosto, com que todos morreremos ; 
Mas que outro mór Tyranno tomaria, 
Se noutro pôde haver mór tyrannia ? » 

t Augusta Imperatriz, e todos quantos 
(Respondeu Catharina) t'acompanham, 



148 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Ditosos escolhidos entre os Santos, 

Que por seu Deos no seu sangue se banham : 

Os tyrannos cruéis não podem tantos 

Tormentos inventar, quantos se ganham 

Eternos bens, morrendo, e desejando 

Que cresçam penas, gloria accrescentando. 

Antes' de poucos dias lá naquellas 

Celestiaes moradas vivireis, 

Passeando por cima das estreilas, 

Adonde mais fermosas vos vereis, 

Que quanta formosura creou nellas 

Aquelle, por quem vós padecereis 

Com tanta fortaleza, esforço tanto. 

Que seja gloria a Deos, ó mundo espanto. » 

Firmes, e consolados se apartaram 
Da Virgem, que no cárcere onze dias 
Sem mantimento as guardas encerraram; 
Mas o Senhor mandou por outras vias, 
Que por suas, humanas não serraram: 
Hunia pomba lhe traz taes iguarias, 
Que quando foi levada ao tribunal 
De quaes ellas seriam deu sinal. 

O doce Esposo seu, que não se esquece 
De quem nas suas mãos se sacrifica, 
Tão claro, e tão fermoso lhe apparece, 
Consola, esforça, anima, e fortifica ; 
Que não cárcer, mas gloria lhe parece 
Aquelle, onde de amor mais presa fica, 
Desejando de ver-se no tormento 
Hum não, mas que d'hum só se façam cento. 

Porfiando outra vez, prova tentá-la 
Com palavras Maxencio, com branduras, 
Pois não podem tormentos abrandá-la. 
« Que tentas, ou que intentas, que procuras. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 149 

Mover hum coração, que não se abala 
Por amor ou temor das creaturas ? » 
(Respondeu Gatharina ) tão isenta, 
Que elle só dar-lhe morte prova, e tenta. 

Hum dos seus cubiçoso de privança, 
Conforme a seu senhor na natureza, 
Prometteu de fazer leve mudança 
Naquella constantíssima Princesa, 
Assegurando sua confiança 
Num tormento inventado da crueza, 
Composto dumas rodas rodeadas • 

De navalhas espessas aguçadas. 

Posta já no tormento que moveram 
Os algozes, porque ella se movesse, 
Em pedaços as rodas se fizeram, 
Sem que tocar algum nella podesse ; 
Matando aquelles néscios, que quiseram, 
Que no tormento a Virgem fenecesse ^ 
O povo que esperava a prova disto 
Confessa por seu Deos a Jesus Christo. 

O Tyranno blasfema, grita, e brama 
De ver ficar a Virgem tão serena. 
Destruindo dos deoses honra, e fama, 
E zombando de quanto elle lhe ordena. 
A fúria no seu rosto se derrama, 
Encobrindo no peito quanta pena 
Lhe dá vêr o seu povo alvoroçado, 
A risco de perder o seu estado. 

E querendo seguir a morte injusta 
Na Virgem, que nas penas se deleita ; 
Eis Porfirio lhe clama, eis clama Augusta 
Dizendo : i Imperador, que te aproveita 
Atormentar a Santa pia, e justa 
Nas obras, e palavras tão perfeita ? 



i5o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Pede-lhe, que te ensine, como possas 
Saber o que ensinou ás almas nossas. » 

O furioso então Maxencio volta 
Contra sua mulher a fúria sua, 
E contra o capitão Porfírio solta 
Palavras com pregão de morte crua. 
Eis recrece no povo outra revolta, 
Com que o triste Tyranno mais se encrua, 
Por ver duzentos inda no martyrio 
Companheiros de Augusta, e de Porfírio. 

A Virgem, que da terra para o Ceo 

Tantas almas primeiro vio subir ; 

Da saudade delias se venceu 

De modo, que não soube resistir 

(,Ao bem, que dos bens delias pretendeu,) 

Ás queixas de mais tarde se partir; 

Mas o seu doce Esposo, a quem se queixa, 

Dilatar sua morte mais não deixa. 

Permittindo que fora da cidade 
Logo fosse levada a degolar. 
Achando nos algozes liberdade 
Facilmente de tempo para orar ; 
Onde pede á divina Magestade, 
Que seu corpo lhe mande sepultar 
Naquelle santo monte, donde deu 
A lei santa a Moisés, privado seu. 

Depois que se acabou aquella breve, 
E final oração da Virgem Santa, 
O Ministro cruel não se deteve 
Em sepultar o ferro na garganta, 
Do qual correndo leite branco esteve; 
Milagre de que o povo mais se espanta 
Por ver hum corpo morto, que criava 
Com leite aquellas almas, que guardava. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i5i 

Do seu fermoso corpo degolado 

Aquella alma ditosa despedida 

Nos braços repousou do seu Amado, 

Em cujo amor se tinha derretida. 

O corpo foi dos Anjos sepultado 

Na parte, que lhe fora concedida 

Por Virgem, e por Martyr, e por Sabia, 

No naonte de Sinai, monte de Arábia. 

Sobre o t Flevit amare ». 

Aquelle bom Pastor, que conhecia 
Na fraqueza do seu medroso gado, 
Como dos cruéis lobos fugiria 
Quando ficar o visse preso, atado. 
Seus olhos, quando já mais não podia, 
Negar não quis áquelle, que negado 
O tinha, porque nelles enxergasse 
Qu'inda o receberia, se tornasse. 

Ah ! Pedro, quanto mais te magoou 
Daquelles claros olhos a brandura. 
Que chorar teu peccado te ensmou ! 
Ensinou-te a buscar a cova escura, 
Que d'outra mais escura te livrou. 
Onde também cahiras porventura 
Assim como cahio teu companheiro. 
Hum por cubicar vida, outro dinheiro. 

Que vida foi aquella que cuidavas 
Que vivendo melhor conservarias ? 
Pois pelo mesmo caso que negavas 
A verdadeira vida, te perdias. 
Mal podias viver, pois te matavas, 
E mal matar-te já, pois não vivias, 
Dizia Pedro triste, arrependido. 
Na cova donde estava já mettido. 



i52 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Ah ! triste velho, triste, inda mais triste 
No triste fim de quantos ter poderás, 
Que podestes deixar a quem seguiste, 
Que podestes negar a cujo eras ! 
Que medo foi aquelle, em que te viste, 
Para te não lembrar que prometteras, 
Que inda que visses todos fugir delle, 
A ti veria só morrer com elle ? 

Elle delle me vio também fugir. 
Como delle fugio toda a manada ; 
Depois me vio tornar, mas a mentir, 
Mentira com três juras affirmada. 
Mas se fugindo errei, tornando a vir 
A fugida emendei com a tornada ; 
Que se por huma vez não fui fugindo, 
Constante por três vezes fui mentindo. 

Jurei, menti, neguei summa verdade, 
Erro grave, mortal, enorme, e feio, 
Crime contra divina Magestade, 
Culpa dum não sei qual leve receio, 
Nascido já no fim da minha idade. 
Que neste miserável parar veio, 
Por não dar por resposta áquelles perros^ 
Preso sou, disse, preso por meus erros. 

Preso de seu amor, não seu captivo, 
A morte que lhe dais, não ma tireis ; 
Escondei neste peito o ferro esquivo, 
A malar por amor começareis. 
Matai-me, que não quero ficar vivo; 
Matai, cujo Senhor matar quereis: 
Isto devera então de responder, 
E deixar-me matar para viver. 

Deixar o barco, e redes que prestou, 
Daquella voz levado, que levara 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i53 

O mar de Galiléa, onde me achou, 
Cuja força se bem considerara, 
Quando o Senhor primeiro me avisou 
Que havia de negá-lo, não negara ; 
Mas dissera três vezes : Já pequei : 
Dai-me perdão de três que vos neguei. 

Que posto que por eile estava dito, 
O que dito por elle estava feito ; 
Se, como agora, então me vira afflicto, 
Algum remédio dera a meu defeito ; 
Criara em mim de novo hum novo esprito, 
Com que fortalecera o fraco peito ^ 
Porque se fraco fora da primeira, 
Não fora da segunda, e da terceira. 

Oh ! lingua mentirosa, que disseste ? 
Desenfreada lingua, que causaste ? 
Quanto tempo passou que prometteste ? 
Quantas horas havia que affirmaste ? 
E porque causa assi te desdisseste 
Com testimunho falso, que juraste. 
Que tal Mestre, e Senhor não conhecias, 
Pois a tal, e em tal tempo lhe fugias ? 

Fugio-mo coração que dantes tinha, 
Quando meu Senhor nelle repousava, 
Fugindo, me fugio a lingua minha, 
Que minha covardia governava. 
Bem claro se mostrou, com quanta vinha ; 
Pois bastaram perguntas de huma escrava, 
Para negar alli sem mais tormento, 
Além daquellas três, três vezes cento. 

Que menos se esperava da fraqueza, 
Que assi se foi de mim senhoreando. 
Depois que vi levar atada, e presa 
Por cima das calçadas arrastando 



i54 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

A huma Soberana fortaleza, 
Que de longe segui, não me lembrando 
Quanto mais refinada no presente 
Se mostrava em mostrar-se paciente. 

Mostrou-se tal por obra, qual dissera 

Por palavra na Gea derradeira \ 

Ah ! ditoso se nunca anoitecera 

Nest'alma minha aquella Quinta feira! 

Ditoso fora então, se então morrera ! 

• • • 

Que já não smto morte, que me queira; 

Pois daquella fugi tão desejada. 

De quem morrer deseja morte honrada. 

Que mór ventura minha, ou que maior 
Honra poderá ser naquelle instante, 
Que vêr seguir o servo a seu Senhor, 
Com o nome de fiel, firme, constante ? 
E não do que ganhei de sêr traidor, 
Que nunca deixará de sêr bastante 
Para me niagoar além da magoa, 
Que já lavar não podem rios d'agoa. 

Que assi me aproveitei de huma doutrina, 
Duma conversação tão amorosa 
Tão branda, e tão suave, e tão benina, 
Duma vista das vistas mais fermosa. 
Ah! saudade minha, luz divina! 
Ah ! velhice mofina desditosa ! 
Qual te fora melhor deixar de vê-la. 
Ou ver que te perdeste com perdê-la ! 

A perda que meu mal me representa 
Não tem conto, nem peso, nem medida ; 
Que tanto cada vêz mais se accrescenta, 
Quanto mór culpa tenho comettida. 
Não sei como esta cova me sustenta ; 
Posto que sua luz tem escondida, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i55 

Ou por m'aborrecer, como culpado, 
Ou por se escurecer com meu peccado ! 

Aquelles cruéis lot^s,que chegaram 
A prender o mansíssimo Cordeiro, 
De quanta piedade então usaram, 
Se provaram seu ferro em mim primeiro ? 
Que com suas palavras me provaram 
Para fazer-me delias companheiro; 
Ai ! quão brando sentira o ferro duro 
No peito antes de ser falso, perjuro 1 

Qual outro se vio nunca já nascido, 
Ou por nascer está, que tal se veja, 
Que depois de tão alto ter sobido, 
Em tão baixo, e tão vil estado esteja ? ! 
Nem basta haver também outro cahido, 
Porque dambos a culpa a mesma seja \ 
Qu'elle não o vendeu mais duma vêz, 
Mas eu antes do gallo o neguei três. 

Antes d'ouvir cantar o gallo, digo, 
Que se não fora termo limitado. 
Que meu Senhor quis pôr a meu perigo, 
Tantas vezes de mim fora negado, 
Quantas de qualquer seu mais fraco imigo 
Este mais fraco fora preguntado : 
Enfim, que se três vezes não ouvira 
Cantar o gallo, mais de três mentira. 

De quem me queixarei em mal tamanho, 
Pois queixar-me de mim pouco aproveita ? 
Pouco \ se em tristes lagrimas me banho, 
E pouco a pouco dor, que a morte engeita : 
Oh ! culpa nunca vista, caso estranho ! 
Qual rústica nação, barbara seita, 
Soffre quebrantar fé, por guardar vida. 
Que guardada não fique mais perdida ? 



i56 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Como se pôde vêr na que não vejo, 
Se não para chorar tão triste sorte 
De mal tão desestrado, tão sobejo, 
Que fêa me pintou fermosa morte, 
Sem dar satisfação a meu desejo 
Para saber se fui fraco, se forte : 
Que se fraco, devera emudecer; 
E se forte, devera não temer. 

Mas eu, que forte fui para negar, 

E para confessar fraco, covarde, 

Em qual outra prisão me posso achar 

Por mais que espere já, por mais que aguarde? 

Que como forte possa confessar, 

E como fraco só de mim me guarde. 

De mim, que se de mim só me guardara, 

Nunca tão cego povo me cegara. 

Ah ! que me não cegou, quando tentei 
Mata lo todo junto, o meu cutello, 
Que de seu sangue tinto embainhei ; 
Mas eu que forte fui em comettê-lo, 
Tão fraco em responder-lhe então fiquei, 
Que fiquei desculpado de oôendê lo, 
Tanto que ninguém pode presumir. 
Que eu pudesse arrancar, menos ferir. 

Deste noutro successo differente 
Dei na mór perdição que inda té gora 
Nunca foi dar passado nem presente. 
Nem dar outro se não só Pedro fora; 
Pedro que nesta cova já não sente, 
Já não prantea, não suspira, e chora 
Pelos bens que perdeu, mas pela ofTensa 
Feita contra seu Deos, bondade immensa. 

Esta, que neste estado me tem posto 
Para nunca afírouxar hum só momento 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz iSy 

D'em lagrimas banhar meu triste rosto, 
Meu falso peito em novo sentimento ; 
Aqui desconsolado, e descomposto, 
Onde vivo me deu enterramento. 
Morto me deixará sem terra nova 
Cobrir meu corpo dentro nesta cova. 

Que veja quem por erro ou por acerto 
( Erro qual foi o meu não digo tal ) 
Chegar a vêr meu corpo descoberto, 
Que ficou para mais fraco sinal 
De não querer a terra ter coberto 
Quem para com seu Deos foi desleal ; 
Que se nisto mór pena me não dera, 
Já se abrira comigo, e me sorvera. 

Da pena me dá pouco, que padeça, 
Da culpa nada basta a consolar-me. 
Que não pôde acabar donde começa, 
Nem pôde começar para acabar-me •, 
Nem menos pôde sêr que culpa esqueça, 
Culpa, em que por três vezes fui culpar-me, 
Assim triste de mim num, noutro extremo. 
Da pena me não dá, da culpa gemo. 

Gemer, e suspirar em magoa, em pranto, 
Manjar será dest'alma minha, ingrata, 
Dest'alma, que da carne tratou tanto. 
Para tratar de si quão pouco trata. 
Disto se manterão ambas emquanto 
Sua fraca prisão não se desata, 
Atadas no seu erro ambas padeçam. 
Ambas desconhecidas se conheçam. 

Assaz desconhecido estou de mim 
Para não desculpar meu desatino ! 
Que fugi, que tornei, que fui, que vim, 
Que de velho me vim fazer minino : 



i58 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Perdendo, ai ! que perdi poder no fim 
Trocar o ser humano por divino : 
Se trocar não quisera huma verdade 
Tamanha por tamanha falsidade. 

Ora pois desta troca succedeu, 
A quem seu próprio Deos foi em pessoa 
Chamar do mar á terra para o Ceo, 
Perder do mesmo Geo huma coroa •, 
Que amor nas suas mãos lhe oftereceu 
Cousa, que assi lastima, assi magoa l 
Não quero dilatar o fim que espero *, 
Por não desabafar, calar me quero. 



MOTE. 

Antre as cousas mais formosas 
Busca a mais fermosa delias ; 
Mais que o sol, lua, e estrellas. 
Mais que lírios, e que rosas. 

Busca a summa formosura, 
Que tudo faz, tudo cria ; 
Só daquella te confia, 
Que sempre dos sempres dura : 
Se vires cousas formosas, 
Como são sol, lua, e estrellas, 
Passa tu por cima delias, 
Pisarás lírios, e rosas. 

Não te envolva o pensamento 
No gosto da vida humana ; 
Que a folha que o vento abana 
Não se defende do vento. 
Ha cousas muito fermosas, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz iSg 

Muito claras, muito bellas, 
Huma só muito mais que ellas, 
Mais que lirios, mais que rosas. 

Quanto mais formosa for 
A cousa que podes ver, 
Verás que não pôde ser 
Sem ser mais o Creador : 
Se vires lirios, e rosas, 
O sol, a lua, as estrellas, 
Busca no Creador delias 
Outras muito mais formosas. 

Quem tudo fez para nós 
Fazer-nos quis para si. 
Põe os teus olhos em ti, 
Verás quem os em ti pôs : 
Que lirios vistes, que rosas, 
Que sol, que lua, que estrellas, 
Que não venhas a ver nellas 
O Senhor das mais formosas ? 



MOTE. 

Quem muito deseja amar. 
Muito tem do que deseja. 
Sem que sinta, sem que veja. 

Amor por mais sêr amado 
No peito, donde s' accende, 
Docemente lhe defende 
Saber se tem começado : 
Porque assi mais esforçado 
Muito mais amar deseja. 
Sem que sinta, sem que veja. 



i6o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Não se deixam comprehender 
Efteitos de amor divino ; 
Mas desejar de comino 
He claro sinal de arder: 
Donde se pôde esconder 
Amor porque se não veja 
Se não donde se deseja ! 

Não se queixe o coração, 
Se sentir em si seccura, 
Que a lenha que muito dura 
No fogo, faz-se carvão : 
Nem cuide que sopra em vão, 
Posto que arder não se veja. 
Que quem sopra arder deseja. 



VOLTAS. 

A Tra los Montes. 

Por longe que vá 
Donde quer que for, 
Quem tiver amor, 
Lá me buscará ; 
Pouco me dará 
De me não buscar 
Quem me não amar. 

Se mal empreguei 
O meu bem querer, 
Lá posso saber 
O que cá não sei ; 
Desenganarm'ei 
De me não amar 
Quem me não buscar. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz lòi 



Quem me quiser bem 
Quando me não vir, 
Não ha de sentir 
Passar inda além 
Dos montes; mas quem 
Não quiser passar, 
Não me vá buscar. 

Se lá vir perdida 
A minha esperança. 
Não terei mudança, 
Que fazer na vida. 
Com esta partida 
Me posso acabar 
De desenganar. 

Que perco perdendo 
Cuidados humanos, 
De cujos enganos 
Me vou acolhendo ? 
Quanto me arrependo 
De me descuidar 
Do que devo amar ! 



REDONDILHAS. 
A Nossa Senhora. 

O' Maria 
Doce porto, certa guia, 
Gloriosa Virgem pura, 
Qual Mãi sua vos faria. 
Quem fez toda a formosura ? 



i62 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Não me atrevo 
A louvar-vos quanto devo 
Antre duras penedias ; 
Porque borro, quanto escrevo 
Nas minhas entranhas frias. 

De que rosas 
Farei capellas formosas, 
De que lírios, de que flores, 
Com que versos, com que prosas, 
Cantarei vossos louvores ? 

Sois Aquella, 
Que do mar se chama estrella, 
Dos tristes consolação. 
Rosa que se criou nella 
Toda a nossa Redempção. 

Sois Rainha 
Do Ceo ; mas nossa vizinha, 
Tão solicita de nós, 
Que menos tarda a mezinha, 
Do que chamemos por Vós. 

Sois Senhora, 
Que dum'alma peccadora, 
Que vos tem por avogada. 
Do mesmo Deos, que em Vós mora^ 
A quereis fazer morada. 



ENDECHAS. 

O meu nascimento 
Que tal ser devia. 
Nunca hum só momento 
Tive de alegria. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i63 

A estrella rainha 
Qual devia ser, 
O bem que não linha 
Me pôde tolher. 

Fortuna que fere, 
Que sente ferido. 
Não soffre que espere 
Cobrar o perdido. 

Tudo me magoa, 
Tudo me lastima, 
Huma dôr em cima 
Doutra que mais doa. 

He mui differente 
A minha tristeza, 
De quanto se sente 
Noutra natureza. 

Alma entristecida 
Façamos concerto; 
Vamos fazer vida, 
Vida num deserto. 

Antre penedias. 
E valles medonhos. 
Onde nem por sonhos 
Lembrem alegrias. 

Não haja mais ver 
Quem falle, quem veja ; 
Tudo, tudo seja 
Chorar, e gemer. 

Claros desenganos 
Dão nestes extremos, 



164 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Quantos vistos temos 
Em tão poucos annos ! 

Chorei saudades ; 
Criei pensamentos ; 
Fiz mil fundamentos 
De mil vaidades. 

Os dias não cansam ; 
Cansa a vida nelles : 
Que será daquelles, 
Que nella descansam ? 

Que busco, que quero ? 
Que choro, que rio ? 
Em que me confio ? 
Que tenho, que espero? 

Que presta, que vai 
Quanto o mundo tem ? 
Como terá bem 
Quem escolhe mal ! 

Se choro, se canto. 
Se calo, se grito ; 
Falta-me o esprito 
Para sentir tanto. 

Que guerra tão crua, 
Que esforço, que manhas, 
As suas entranhas 
Contra huma alma sua I 

Que forças as minhas, 
Com que armas pelejo 
Contr' o meu desejo, 
Coberto de espinhas ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i65 

Alma magoada, 
Se tanto desejas 
Viver descansada, 
Não ouças, não vejas. 

Fujamos, fujamos, 
Donde restauremos, 
Quanto mal choramos, 
Quanto bem perdemos. 

Vamos vêr da serra 
Do monte deserto 
O Ceo de mais perto. 
De mais longe a terra. 

Vamos acabar 
Numa lapa escura ; 
Sem mais alembrar 
Viva creatura. 

No monte, no valle 
Tenho onde me esconda •, 
Sem têr com quem falle, 
Nem quem me responda. 

O bruto animal, 
A fera serpente. 
Por bem não faz mal, 
Como faz a gente. 

Plantas, e penedos 
Mostram o que tem, 
Sem têr mais segredos 
Do que os olhos vem. 



i66 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



AO NASCIMENTO DE NOSSO SENHOR. 

Tânia formosura 
Numa estrebaria 
JESUS, e MARIA? 

Chove, venta, e neva, 
Congela-se o rio. 
Meu Senhor ao frio 
Com' os filhos d'Eva ! 
Pelo que releva 
Numa estrebaria 
JESUS, e MARIA? 

Nasce a nova luz ; 
Nasce a flor das flores ; 
Amor dos amores, 
No berço, e na cruz 
MARIA, e JESUS. 
Numa estrebaria 
JESUS, e MARIA? 

Deshumana gente, 
Que não agasalha 
A quem só na palha 
Ficará contente. 
Ai ! quão pobremente 
Numa estrebaria 
JESUS, e MARIA? 

Fermoso Menino, 
Meu Senhor eterno. 
Por tempo de inverno 
Pobre peregrino ; 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 167 



O amor divino 
Numa estrebaria 
JESUS, e MARIA ? 

Por terras estranhas, 
A vossa pousada 
Tem o tempo armada 
De têas de aranhas ? 
Nasce das entranhas 
JESUS, e MARIA 
Numa estrebaria ? 



i68 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



SONETO I. 

Que lugar, tempo, estado, ou esperança, 
Me podem segurar do meu desejo, 
Que me disfarça o mal, em que me vejo, 
Com bens, que antes de vir, fazem mudança ? 

Sombras vans d'enganada confiança 
Fazem que o bom desprezo e o mal elejo ; 
E vendo-me perdido, inda me pejo 
De ter do que já foi, dôr, ou lembrança. 

Desejo vencedor, razão vencida. 
Poderoso querer, fraco sujeito. 
Compridas esperanças, curta vida ; 

Mouro, como ordenaes, mas satisfeito; 

E mais dissera, mas amor duvida, 

Que caiba em lingua o que não cabe em peito. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 169 



II. 

A uma absencia. 

Posto que sofra amor apartamento, 
Por não fazer ofFensa á confiança, 
Desconfiando vou nesta mudança, 
De poder enganar meu pensamento. 

E pois negar não posso o sentimento, 
Que mais me cansa a mim, por que vos cansa, 
Lembre-vos que sem ter de vós lembrança, 
Não posso respirar uni só momento. 

Tal me parti de vós, que não cuidava 
Que, pois dentro nesta alma vos trazia, 
Noutra nenhuma parte vos deixava. 

Mas depois que cá vi que vos não via, 
Entendi na partida qual estava 
Quem dos olhos, não d'alma se partia. 



III. 
Ás lagrimas duma despedida. 

Quando d'ambos os ceos cahindo estava 
O rico orvalho, em pérolas formado, 
E sobre as frescas rosas derramado 
Igual belleza recebia e dava \ 



lyo Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Amor, que sempre presente ali estava 
Como competidor de meu cuidado, 
Num vaso de crystal, douro lavrado, 
As gottas, uma e uma, enlhesourava. 

Eu cos olhos na luz, que aquelle dia 
Entre as nuvens do novo sentimento 
Escassamente os raios descobria, 

Se me matar, dizia, o apartamento, 
Ao menos não fará que esta alegria 
Não seja paga igual de meu tormento. 



IV. 



Pús em tamanha altura o pensamento, 
Que o perde já de vista a confiança. 
Cansado de o seguir minha esperança 
Parou em descobrir meu atrevimento. 

Por elle mouro em áspero tormento. 
Mas não cansará a fé, como não cansa, 
Inda que o tempo faça outra mudança, 
De que eu deva ter mór sentimento. 

Bem pode amor cruel, se ha quem o mande. 
Esta sombra da vida desfazer-me. 
Seguindo seu costume deshumano. 

Só nunca poderá, por mais que ande, 
Fazer que me arrependa de perder-me 
Com pena, espanto, dôr, força, ou engano. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Que cousa seja amor, não se comprende, 
Quão caro custa amar, minha alma o sente, 
Um lhe chania aíTeição, outro accidente, 
Mas quem mais o tratou, menos o entende. 

Quando se não recea, então offende. 

Entra dissimulado e facilmente, 

Encobre no desejo frecha ardente, 

Que o peito, que he mais frio, mais accende. 

Gasta a vida, esperança e sofrimento, 
A' sombra dum engano, a que sujeita 
Qualquer baixo ou altivo pensamento. 

Triste de quem provou sua mão direita, 
E o pôs em tal estado seu tormento. 
Que já de aborrecido a vida engeita ! 



VI. 



Perdi-me dentro em mim, como em deserto. 
Minha alma está metida em labyrintho, 
Contino contradigo o que consinto, 
Cem mil discursos faço, em nada acerto. 



17a Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Vejo seguro o damno, o bem incerto; 

Comigo porfiando me desminto, 

O que mais atormenta, menos sinto, 

O bem me foge, quando está mais certo. 

E se as asas levanta o pensamento 
Áquella parte, onde está escondida 
A causa deste vario movimento, 

Transforma-se por não ser conhecida, 

Porque quer a pesar do sofrimento 

Pôr as armas da morte em mão da vida. 



VIL 



Acostumado tinha o sofrimento 
A um mal, que ja de antigo não sentia, 
E, posto que era grave, nelle via, 
Que o uso diminue o sentimento. 

Ordenaram-me os Ceos novo tormento 
No tempo, que esperei nova alegria \ 
Dantes somente amor me perseguia. 
Agora amor, fortuna e pensamento. 

A lembrança dos bens, que noutro estado 
Teve este peito meu, que em chamas arde. 
Está levando sempre meu cuidado. 

Choro a noite, a manhã, a sesta e a tarde, 

Mas não devo estar desesperado, 

Pois não se escusa a morte, inda que tarde. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 173 



VIII. 



A peregrinação dum pensamento, 
Que dos males fez habito e costume, 
Tanto da triste vida me consume, 
Quanto cresce na causa do tormento. 

Leva a dor de vencida ao sofrimento, 
Mas a alma está de entregue tão sem lume. 
Que enlevada no bem, que haver presume, 
Não faz caso do mal, que está de assento. 

De longe receei, se me valera 
O perigo, que tanto á porta vejo, 
Quando não acho em mim cousa segura ; 

Mas já conheço, e nunca conhecera ! 
Que entendimentos presos do desejo 
Não tem remédio mais que o da ventura. 



IX. 



Vai-me gastando amor num pensamento. 
Que me inclina a seguir meus próprios damnos, 
A força, a esperança, o ser, os annos, 
Que pêra mim são mil cada momento. 



174 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Os suspiros que em vão entrego ao vento, 
Paga-nnos quem os causa em desenganos, 
He seguro fingir novos enganos, 
Não mo quer consentir o entendimento. 

Se pretendo mostrar quanto padeço, 
Falta-me a voz, o alento e o sentido, 
E a triste vida não, porque a aborreço. 

O peito em vivas chamas convertido 
Enfim mostra meu mal, pois ja conheço, 
Que nem dizer-se pôde, nem sêr crido. 



X. 
Ao levantar da cama. 

Graças vos dou. Senhor, que da escura 
Noite e perigos delia me livrastes, 
Deste dia ver a luz deixastes 
A mim, humilde vossa creatura. 

Fazei que esta alma seja nelle pura 
E limpa de peccado, pois a amastes, 
E pêra ma salvar do Geo baxastes, 
Tomando a carne nossa e a figura. 

Gom todo coração, e de vontade, 
Gom a palavra, obra e pensamento, 
Vos sirva, louve e ame neste dia. 

Louvando vossa eterna magestade, 
A meu obrar dareis merecimento, 
Pêra gozar no Geo vossa alegria. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz lyS 



XI. 
A protestação da Fé. 

Em um Deos creo só, da terra e Ceo 

Omnipotente Padre creador. 

Em Ghristo filho seu, nosso Senhor, 

Que do Espirito Santo a Virgem concebeo. 

Do ventre virginal delia nasceo, 

E em tempo de Pilatos regedor. 

Em cruz morreo, porém foi com primor 

Sepultado, ao inferno descendeo. 

Resurgindo subio com gloria tanta 

Ao Ceo, que com Deos Padre está assentado. 

Virá julgar a toda alma nascida. 

No Sp'rito Santo creo, Igreja Santa, 
União dos Santos, vénia do peccado, 
Resurreição da carne, eterna vida. 



XII. 
Ao Padre Nosso. 

Eterno Padre nosso creador. 
Que lá nos Ceos estaes por divindade, 
De vosso nome reine a santidade. 
Venha a nós vosso reino, e vosso amor. 



176 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Feita seja neste orbe inferior, 
Como se faz no Ceo, vossa vontade ; 
O grão, de que se tem necessidade, 
Nos dai o dia de hoje com favor. 

As dividas, que somos obrigados 
A pagar, nos perdoai, e do modo 
Que a nossos devedores perdoamos. 

Não permittaes que sendo nós tentados, 
Nos vença o inimigo, mas que em todo 
Livrados do mal delle, vos sirvamos. 



XIII. 
A Ave Maria. 

Deos vos salve sagrada Virgem pia, 
De graça toda cheia, o grão Senhor, 
Do Ceo, do mar e terra creador, 
Comvosco he em vossa companhia. 

Bemdita entre as mulheres sois, Maria, 
Bemdito Jesus, nosso Salvador, 
Fruito do vosso ventre, que sem dor 
Nasceo em pobre lapa em noite fria. 

O' Virgem mãi de Deos, intercessora 
Dos míseros mortaes e advogada. 
De quem a culpa segue a triste sorte. 

Ouvi minha oração, pia Senhora, 

Rogai por mim a Deos, de mim lembrada, 

E por todos em nossa vida e morte. 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 177 



XIV. 
Á Confissão Geral. 

Ao alto Deos confesso meus peccados, 
E á Virgem sua mãi, santa Maria, 
A são Miguel Archanjo em hierarchia, 
Ao Baptista, auctor dos baptizados. 

A Pedro, a Paulo, Apóstolos sagrados, 
E a Santos da celeste Monarchia, 
Que em tudo o que cuidei, fiz e dizia, 
Contra meu Deos pequei e seus mandados. 

Por isso á mesma Virgem rogo e peço, 
Como advogada que he dos peccadores, 
E a todos, de que acima fiz memoria ; 

Pois meus erros accuso e os confesso, 
Me sejam ante Deos intercessores. 
Que mos perdoe, e dê a sua gloria. 



XV. 
Ao Anjo Custodio. 



Anjo Custodio meo, a quem foi dado 
Ter cargo de minha alma nesta vida. 
Havei respeito a sêr por Deos remida. 
Ainda que sujeita ao vil peccado. 



tyS Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Por vossa via seja eu perseverado 
De modo, que não fique homicida 
Em culpa contra ellc commettida, 
Mas antes de mim seja sempre amado. 

Livrai-me da malicia e torpe engano 

Do nosso inimigo, e alcancemos 

Da carne, mundo e delle tal victoria, 

Que sem temor de pena e mal de dano, 
Com vosco a alma minha e eu gozemos 
Na outra vida os bens da eterna gloria. 



XVI. 
A todos os Santos» 

Angélicos espíritos creados 

Pêra louvar a Deos e engrandecer 

Da magestade sua o immenso ser. 

Por quem em graça fostes confirmados^ 

Collegio d' Apóstolos sagrados, 
Martyres gloriosos, que por crer 
Na fe de Christo e pola defender 
No mundo, fostes cá martyrizados ; 

Profetas, Patriarcas, Confessores, 
Virgens, que lá de Deos estaes gozando, 
Se o Ceo vos deixa ter de nós memoria. 

Ouvi as orações dos peccadores. 
Intercedei por nós, a Deos rogando 
Nos dê cá seu amor, no Ceo a gloria. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 179 



XVII. 
Ao sahir de casa. 

Se destes, meu Senhor, anjo a Tobias, 
Que o caminho certo lhe ensinou, 
E a casa de seu pai salvo o tornou, 
De mercês vossas cheio e de alegrias ; 

Outro anjo me dai, que em vossas vias 
Me guie e me acompanhe onde vou, 
E endireite os passos, que agora dou, 
E desta vida dér nos breves dias. 

Sendo por anjo vosso encaminhado, 
As passadas, que dér, serão bemditas, 
Sendo-lhe do Ceo a graça influída. 

Vosso nome será glorificado. 
As gentes louvarão as infinitas 
Misericórdias vossas nesta vida. 



XVIII. 
Ao entrar na Igreja, 

Entrarei em vossa casa, meu Senhor, 
Em vosso templo santo adorarei 
Vossa eterna magestade e louvarei 
A vossa omnipotência e vosso amor. 



i8o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Com o coração humilde e com temor, 
Meu spirito a vós levantarei, 
De meus erros perdão vos pedirei, 
Contrito d'haver sido peccador. 

Não permitaes que aonde orar mandastes, 
Seja vossa magestade offendida, 
Mas devação ahi nos dae perfeita. 

Se ao Padre eterno orar nos ensinastes, 

A oração por vós instituida, 

De vós querei que seja e d'elle acceita. 



XIX. 
Ao levantar da Hóstia. 

Adoro-vos, Senhor Deos escondido. 
Nesta hóstia divina encorporado, 
Creio que estaes ahi substanciado, 
Deos e homem verdadeiro, a Deos unido. 

Sois Deos, filho do Padre, e concebido 
Na Virgem, onde fostes humanado. 
Pelo Spirito Santo fostes dado 
Ao mundo pêra sêr por vós remido. 

P'ra termos de tão grande beneficio 
Lembrança, vida usastes desta traça, 
De maravilhas vossas breve historia. 

Por nós vos dais ao Padre em sacrificio, 
Alcançando-nos por esse meio graça, 
Que por ella e por vós nos dê a gloria. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



XX. 

Ao levantar do Cálix. 

Divino sangue, que do corpo e lado 
De Christo, Salvador nosso, emanastes, 
E pêra nosso bem vos esgotastes 
Na Cruz, aonde foi crucificado. 

Adoro-vos, e creio confiado 

Com firme fé que a Deus por nós pagastes, 

E a nossa penitencia habilitastes 

Pêra nos ser por ella o perdão dado. 

Da improvisa morte nos livrai, 
Dando graça ao nosso entendimento, 
Que sirva e louve a eterna magestade. 

Por vosso grande mérito nos dai 
De nossas culpas arrependimento, 
Pcra lograr no Ceo a eternidade. 



XXI. 
Ao estar á Missa. 



Omnipotente Padre, que deixastes 
Sêr vosso filho Deos crucificado. 
Pêra remir a culpa e o peccado 
De Adão, primeiro homem, que creastes. 



i82 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Deste benefício além passastes; 
Quereis que em sacrifício renovado 
Seja este bem, de nós continuado 
Em vosso santo templo, que ordenastes. 

De mysterio tão alto e tão profundo 
Obre em nós a assistência e a tenção 
Tão admirável, pio e santo efifeito, 

Que não tenha lugar em nós do mundo, 
Da carne, do inimigo a tentação, 
Mas seja vosso amor em nós perfeito. 



XXII. 
Á benção da mesa. 

De lá do vosso eterno firmamento, 
Omnipotente Deos, uno e trino, 
Lançae a benção e favor divino 
A nós, a esta mesa, ao mantimento. 

Tudo de vossa mão nos seja bento, 
A nossos corpos útil e benino \ 
Não permittaes que seja algum indino, 
De lhe dardes cada dia este alimento. 

Se destes de comer em campos ermos 
A muitas gentes mil com pouco pão, 
E sobejou mais d'outro tanto; 

Virtude dai a quanto aqui comermos 

Por nossa corporal sustentação, 

E aqui nos dê sua graça o Spirito Santo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i83 



XXIII. 
As graças depois de mesa. 

Graças, Senhor, vos damos, que quisestes 
Dar-nos a refeição de cada dia, 
E que com oração devota e pia, 
Por nós pedir ao Padre pretendestes. 

Por esta, e as mais mercês, que nos fizestes, 
No Ceo vos louve toda a hierarchia, 
E cá vos sirva toda a Monarchia, 
E reconheçam rei o que lhe destes. 

A todos, que por vós bem nos fizeram, 
E fazem, concedei. Senhor, por isso 
Eternos bens e graça meritória. 

Ás almas dos fieis, que já morreram, 
Zelando vossa fé, vosso serviço. 
Lhe dai eterna paz e vossa glória. 



XXIV. 
Ao tanger das Ave Marias. 

A' Virgem deo o Anjo a embaixada, 
Que no alto consistório se ordenou 
Pêra ser mãi de Deos, mas duvidou 
Sendo Virgem, têr de mãi a nomeada. 



184 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Vendo-a Gabriel assi turbada, 
c Maria, não temais », lhe replicou, 
€ Vossa pureza a graça em Deos achou, 
Sereis do Espirito Santo amparada ». 

Aquietando a Virgem o pensamento, 

Diz com vontade humilde : — «o mandada 

Se faça nesta serva do Senhor ■. 

Dizendo a Virgem ^a/, no momento 
O Verbo eterno foi nella encarnado, 
E a creatura unida ao Creador. 



XXV. 
Ao recolher á noite para dormir. 

Omnipotente Deos, que o sol creastes 
Presidente da luz do claro dia, 
E o governo da noite escura e fria 
A' inconstante lua encarregastes ! 

Por refugio das gentes ordenastes 
O repousado somno, que allivia 
O diurno trabalho e agonia, 
A que nossa natureza obrigastes. 

Pois deste se aproveita o inimigo, 
Representando em sonhos e abusões, 
Com que a vossa magestade oôendamos. 

Livrai-nos do mal delle, e do perigo 
De seus ardis e torpes invenções, 
Por que dormindo ainda vos sirvamos. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i85 



XXVI. 
A Duquesa d' Aveiro. 

Quando na verde planta, ou pedra dura, 
Me mandava escrever minha tristeza, 
Nunca me pareceo, alta Princesa, 
Que podessem meus versos ter ventura 

Pêra cuidar que houvesse creatura, 
A quem taes partes desse a natureza, 
Que podesse mover minha dureza 
A não lhes dar no fogo sepultura. 

Como já fiz de quantos tinha feito 
Na ribeira do Lima, em tenra idade, 
Por dar algum remédio a meu defeito. 

Mas pois Vossa Excellencia tem vontade 
De lhos dar, eu me dou por satisfeito, 
Que tudo pôde enfim pura amizade. 



XXVII. 
Chora o vicioso emprego da sua vã mocidade. 

Nasci junto do Lima saudoso, 
Donde nunca já mais falta verdura, 
Levou-me sem saber minha ventura, 
Que fosse, ou que não fosse venturoso. 



i86 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Comecei a seguir o vicioso 
Na vida, que buscava na brandura, 
Sem vêr a falsidade da pintura, 
Que certo quer juntar o duvidoso. 

Mas em me encaminhar indo perdido, 
Sentindo que já não me desculpava 
A mocidade vã mal consumida, 

Não vos lembrou, Senhor, ser offendido, 
E qu'inda d'ofFender-vos não cessava 
Pêra na vida d'alma me dar vida. 



XXVIII. 
A Intmaculada Conceição de Nossa Senhora, 

Lá nesse ethereo assento, Virgem pura, 
Da trina e uma essência coroada, 
De thronos, cherubins sempre adorada, 
Gozando estaes eterna formosura. 

Lá, onde a luz jamais perde a figura. 
Sois vós, porque quereis, Virgem sagrada, 
Nosso guião de paz, nossa avogada, 
Sois sol, que nos livrou da noite escura. 

Sem macula espelho, poço d'agoa, 
Sinada fonte, em quem da sede humana 
Os peccados de todos se lavaram! 

Cerrado bosque, rosa soberana, 
Lirio, que entre espinhos vos acharam, 
Livrai-nos, por quem sois, da eterna mágoa ! 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 187 



XXIX. 
A mesma. 

Virgem fermosa, que do sol vestida, 
De luzentes estreitas coroada, 
Do sol supremo fostes tão presada. 
Que em vós trouxe sua luz e nossa vida. 

Virgem, do alto esposo recebida, 
Tanto mais humil, quanto mais alçada, 
Só vós pêra o Creador fostes creada, 
Só vós entre as humanas escolhida. 

Qual sahe a aurora, que trazendo o dia, 
O ceo esmalta de purpura e d'ouro, ' 
E as negras nuvens fogem d'improviso: 

Tal vós, estrella clara e nossa guia. 
Trazendo á terra vosso alto thesouro 
Convertestes o pranto d'Eva em riso. 



XXX- 

 Encarnação. 

Do Ceo á terra Deos omnipotente 
Vestir-se vem da nossa humanidade, 
E dando-nos a sua divindade, 
Em nós fica, e nós nelle eternamente ! 



i88 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Sarando a mordedura da serpente 
Com fruito liberal da sua herdade, 
Porque não tem limites a bondade 
De quem tudo dispõe suavemente. 

Com dizer e mandar, feito e mandado 
Foi tudo quanto quis meu Deos fazer, 
E fará quanto tem determinado. 

Que se quis a si mesmo desfazer, 
E fazendo-se em nós Deos humanado. 
Nos deo divino ser por nosso ser. 



XXXI. 
Ás palhas do presépio de Belém, 

Ó venturosas palhas de Belém, 
Que hoje a Deos menino agasalharam, 
Como em fogo d'amor não se abrazaram 
Com as divinas chamas, que em si tem ? 

Pastores, que gozaram tanto bem, 
Como d'estas palhinhas se apartaram? 
Ou como a ellas logo não tornaram 
Por gozar do que os Anjos sempre vem ? 

Deixai, pastores, já, deixai o gado, 
Tornai a este cordeiro, que ficou 
N^s palhas de Belém desamparado. 

Que, pois que lá do Ceo por nós baixou, 
Bem he que de vós seja acompanhado 
Cá nestas palhas frias, que acceitou. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 189 



XXXII. 
Ao nascimento, paixão e ascensão. 

Estando o mundo todo em paz composto, 
Nascendo á mea noite, longa e fria, 
Das mãos de sua Mai, Virgem Maria, 
No presépio Jesus pobre foi posto. 

Mas Herodes temendo sêr desposto 
Do reino, por matar quem não podia. 
Os meninos matou, quantos havia, 
Ficando, com seo reino descomposto. 

E depois de fugido para o Egypto, 
Tornou o Redemptor manifestado 
A cumprir quanto deile estava escrito. 

Enfim que morto foi resuscitado 
A' gloria, como d'antes tinha dito. 
Da nossa salvação assinalado. 



XXXIII. 
A Quinta feira da Cea do Senhor. 

O' divino banquete, onde foi dada 
Toda a gloria do Ceo por iguaria, 
Nunca aparteis desta alma o santo dia 
Da morte de meu Deos, por mim causada. 



igo Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Pagando em cruz o amor sem dever nada, 
Inda lhe pareceu que nos devia 
No tempo, em qu;; de nós se despedia, 
Ir-se, e ficar numa hóstia consagrada. 

Finos toques d^amor, raros extremos, 
Se os Anjos vos não podem entender, 
Os que somos humanos, que faremos ? 

Contento-me, Senhor, basta-me crer. 
Que nessa hóstia sagrada, onde vos temos, 
Mais, nem menos, no Ceo não podeis ser. 



XXXIV. 

Quae non rapui. Ume exsohebam. 
(Psalm. LXVIII. 5) 

Com cordas á columna foi atado, 
E com pregos pregado no madeiro 
O nosso liberal, manso Cordeiro, 
Que pagou o que não tinha furtado. 

Assi da terra sendo aievantado, 
Cativo levou nosso cativeiro, 
E não sendo da culpa alhea herdeiro, 
Morreo, como se fora o mais culpado. 

Não tinha outro remédio a salvação 
Do mundo, que só Deos salvar podia, 
Se não da sua sancta encarnação ; 

Porque Jesus nascendo de Maria 
Podesse padecer morte e paixão. 
Na qual nosso bem todo consistia. 



i 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 191 



XXXV. 
A Chrisío preso á columna. 

Meu Deos, nessa columna estaes atado 
Pera do nó da culpa desatar-me \ 
Pera de vossa gloria coroar-me, 
Vos vejo estar de espinhos coroado. 

Na cruz entre ladrões crucificado 
Sofreis sêr deshonrado por honrar-me; 
Por da terra convosco levantar me, 
Estaes de duros cravos trespassado. 

A cruel lança do divino peito 
Fez porta para a bemaventurança, 
Pera que o amor se dê por satisfeito. 

Elle faça nesta alma tal mudança, 
Que sinta em si com amoroso effeito 
Columna, espinhos, cruz, cravos e lança. 



XXXVI. 
Ao mesmo. 



Se não posso pregar meu pensamento 

Na Cruz, em que, meu Deos, fostes pregado. 

Da columna, a que fostes atado, 

Não sinta desatar meu pensamento. 



ig2 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que se dentro desta alma represento 
Pouco do que ellas tem representado, 
Sendo de qualquer delias sustentado, 
Sinta que de ambas juntas me sustento. 

Mas a fraqueza humana acostumada 
A vaguear por partes perigosas, 
A memoria me leva derramada 

Sem me deixar gozar as mais fermosas 
Da columna e da cruz ensanguentada, 
Nos cravos, que sostem vermelhas rosas. 



XXXVII. 

A coroa d'esptnhos. 

A que vindes, Senhor, do Geo á terra, 
Terra, que sendo vossa, vos engeita, 
E que tanto vos honra e respeita, 
Que em vos não receber insiste, emperra ? 

Ah ! quanta ingratidão nella s'encerra ! 
Quam mal da vinda vossa se aproveita ! 
Pois se põe a tomar-vos conta estreita, 
Mais brava contra vós, quanto mais erra. 

E vós de vosso amor puro forçado 
As malditas espinhas lhe pisaes, 
Das quaes ainda sendo coroado, 

A maldição antiga lhe trocaes 

Na benção, que lhe daes crucificado. 

Quando morto d'amor, d'amor mataes. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz igS 



XXXVIII. 
A Chrisio na Cru^ 

Eterno sacerdote, que hoje alçado 

Na grande ara da cruz, onde morrestes, 

A Deos em sacrifício ofFerecestes 

A vós mesmo, em amor todo abrazado. 

Supremo Rei, não d'ouro coroado, 
Mas de cruéis espinhos, que escolhestes. 
Que por senhor dos reinos, que vencestes, 
No throno dessa cruz estaes jurado. 

Guerreiro capitão, que assi ferido 

Com a lança, que ao ombro alevantastes, 

A morte, que morreis, tendes vencido. 

Entrai, Senhor, nesta alma, que buscastes, 

E nella pêra sempre recolhido 

Os titulos tomai, que hoje ganhastes. 



XXXIX. 

Ao mesmo. 

Como estaes, luz sem luz, vida sem vida, 
Sol sem curso, com sede fonte pura, 
Imagem do pai eterno sem figura 
Do mesmo pai, palavra emudecida ! 

i3 



194 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Vara santa de Arão, já não florida, 
Bello espelho do ceo sem fermosura, 
Doce favo de Sansão entre amargura, 
Torre de David forte enfraquecida ! 

Mas sem vida dais vida, luz sem luz. 
Vossa sede farta ao mundo, e a imagem, 
Que tendes, me faz vêr onde vos pús. 

Calando ensinaes, immovel moveis 
Mais duros corações, que a dura lagem, 
Morto espelho mais bello pareceis. 



XL. 
Ao mesmo. 

Assi como vos vejo nessa cruz 
Nú, despido, de todo assi me veja, 
E como vós estaes, meu Deos, esteja, 
Sem haver em mim mais, que o meo Jesus, 

Que pois eu fui aquelle, que vos pús 
Despido nessa cruz, despido seja 
De quanto me desvia, turba e peja, 
Pêra não contemplar a vossa luz. 

Quisestes vós morrer na cruz despido. 
Sendo vós senhor meu; eu servo vosso, 
Não pago vossa morte com morrer. 

Que, pois, por mim já tendes padecido, 
Nem com morrer por vós pagar-vos posso, 
Pois o morrer por vós é mais viver. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz igS 



XU. 
A Paixão. 

Se queres, ó christão, gozar da gloria, 
E fugir aos abismos do inferno, 
A affligida paixão de Deos eterno 
Traze sempre esculpida na memoria. 

Nella tens de tormentos longa historia, 
Um mar alto sem fim de amor interno, 
Despreza o livro antigo e o moderno, 
Que este lhes leva a palma e a victoria. 

Verás o bom Jesus escarnecido. 
Derramando do horto ao Calvário 
Rios de sangue, dores de contino. 

O' finezas de amor extraordinário ! 

Que um Rei da terra e Geo por povo indino 

Não descanse, senão na cruz subido ! 



XLn. 
Ao mesmo. 

Os passos, que de dores trespassado 
Christo Jesus passou ajoelhando, 
Vamos por seo amor todos passando, 
Pois tanto o nosso e seo lhe tem custado. 



196 Obras de Fr, Agostinho da Cruz 

Pelo rasto do sangue derramado 
O seo caminho iremos acertando, 
Pêra o monte Calvário caminhando, 
Onde delle foi tudo consumado. 

O descanso do peso, que levou, 
Mudando nos seus membros o madeiro, 
Dos ombros pêra as costas se passou. 

E ficando do seo seo companheiro, 

Assi no seo pregado se ficou, 

Morto por nós no seo nosso cordeiro. 



XLIII. 
Ao mesmo. 

Se vós, meo Senhor, dais consentimento 
Pêra ser dos imigos preso, atado. 
Não me negueis comvosco ser levado. 
Atado a vós, sequer do pensamento. 

Que já que em mim não há merecimento 
Pêra serdes de mim acompanhado. 
Pelo menos ser muito desejado 
Não deixe de crescer um só momento. 

Não faltam. Senhor meo, cordas banhadas 
No próprio sangue vosso pêra atar 
As entranhas dos vossos desatadas ; 

Nem faltam pregos vossos, que me dar, 
Nos vossos pés e mãos, na cruz pregadas. 
Pêra comvosco nella me pregar. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 197 



XLIV. 
Ao ferro da lança, que ahrio o lado de Christo. 

Duro ferro cruel, lança homicida, 
Mais inda que homicida, pois ousaste 
Tocar o sacro lado, onde passaste 
O termo da crueldade além da vida. 

Lança de fraca mão, mas atrevida. 
Como de vêr tal Deos não te assombraste, 
Como, quebrando as pedras, não quebraste, 
Como de não quebrar não estás corrida ? 

Não é perversa mão a que se atreve 
A abrir-nos na divina humanidade 
O thesouro, que o mundo descativa? 

Mas nunca melhor lança o mundo teve, 
Pois quando estanca a humana crueldade, 
Ella nos fez correr a fonte viva. 



XLV. 

A firmeza do amor. 

Quem me pôde apartar de vosso amor. 
Imprimido por vós neste meo peito, 
Que além de ser por vós, meu Senhor, feito, 
Feito quisestes ser meo Redemptor ? 



igS Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Em que tribulação, tormento, ou dôr, 
Em que passo da morte tão estreito, 
Me posso vêr em cinza e pó desfeito, 
Que cada vez amor não seja mór. 

Das penas, meo Senhor, que padecestes 
Do berça até sêr na cruz pregado, 
A dureza em brandura convertestes. 

O ferro, com que fostes trespassado 
Frio, por nós despois doce fizestes. 
No sangue de amor vosso temperado. 



XLVI. 
A Crui. 

Amor trouxe a Jesus da gloria á cruz, 
Amor nos leva a nós da cruz á gloria, 
Amor nos descobrio gloria na cruz. 
Amor nos deo na cruz posse da gloria. 

Amor me dê a gloria pela cruz. 
Amor de cruz ensina amor de gloria. 
Amor, que gloria quer, funda-se em cruz, 
Amor fundado em cruz, pára na gloria. 

Amor é peso igual de gloria e cruz. 
Amor nuve é de cruz, e sol de gloria. 
Amor porto é de .gloria em mar de cruz. 

Amor ama na cruz, goza de gloria, 
Amor une ceo, terra, gloria e cruz. 
Amor, donde ha mór cruz, tira mór gloria. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 199 



XLVII. 
A Ascensão. 

Lá vos tornaes, Senhor, onde subistes 
Pêra lá nos subir, donde descestes ; 
Nascestes para nós, por nós morrestes, 
Morto por nos dar vida resurgistes. 

A nossa humanidade, que vestistes, 
Vestida pêra o ceo levar quisestes ; 
E tudo quanto nella merecestes, 
Comnosco livremente repartistes. 

O nascer, o morrer, o resurgir, 
O subirdes ao ceo por nos mostrar 
O caminho, por onde havemos d'ir ; 

Tudo tem muito em si que contemplar; 
Mais muito mais em mim vêr-vos partir, 
Sem vos poder, Deos meo, acompanhar. 



XLVni. 
A Assumpção de Nossa Senhora. 

A terra feita ceo, de sol vestida, 

Sobe com nova gloria e magestade 

A ser único espelho da Trindade, 

De anjos rainha, de homens honra e vida. 



aoo Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

A luz, que esteve cá neila escondida, 
Por que iguale o triumpho a dignidade, 
Vem receber a mãi, cuja saudade 
Leva tudo após si nesta partida. 

O resplendor da igreja militante 
Abrindo, como aurora um novo dia, 
Faz hoje mais fermosa a triunfante. 

Já goza o que esperava, amava e cria. 
Que logo mereceo no mesmo instante. 
Que Deos a fez mãi sua, e nossa guia. 



XLIX. 
A Santo António. ' 

Se o sacro Evangelista mereceo 

Que Deos lhe desse o peito, onde aprendesse, 

E são Francisco tanto se enriquece 

Das suas cinco chagas, que lhe deo ; 

Pois se o divino António se escolheo 

Pêra que o mesmo Deos nas mãos trouxesse. 

Parece sêr que muito mais merece 

Que quem o peito, ou chagas recebeo. 

Quando nas mãos de António Deos estava, 
E nellas se quis pôr, e se sostinha, 
Nellas, por pagar tanto, se deteve, 

Fiava-se Deos delle, e bem convinha 

Que desse António a Deos o mais, que teve. 

Se Deos a António deo o mais, que tinha. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



L. 

A Degolação do Baptista. 

Tendo o rei adultero e deshumano 
Ao grão Baptista preso, e não contente, 
Como quem tal crime inda não sente, 
Outro peor commette o máotyranno; 

E doura assi seo ódio com engano, 
Que com saber sêr santo, e luz da gente, 
Por mais males fazer, matar consente 
Um anjo tal de Deos com tanto dano. 

Glorioso Baptista e pregoeiro 

Com tanta fé, fervor, tal humildade, 

Da terra pêra o ceo caminho e norte. 

Dos nascidos em tudo és o primeiro 
Martyr, que por falares a verdade, 
Te dá um rei cruel tão cruel morte. 



LI. 

A' ida de Magdalena ao sepulcro. 

Magdalena de amor toda roubada, 
Confusa, triste, só, sem luz, sem guia, 
Busca fora de si quem nella ia, 
Com passos desiguaes, e alma abrazada. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Não teme a noite, as guardas, a jornada, 
Porque não tinha vista, nem sentia, 
Que o coração seu mestre o possuia, 
E os olhos, sem o ver, não viam nada. 

Chorando chega enfim onde deseja, 
Vasio acha o sepulcro, de anjos cheio, 
Que o lugar de Jesus só elle o peja. 

Mas como de o achar o melhor meio 

São lagrimas de amor, quer Deos que veja 

Nellas vivo, quem morto buscar veio. 



LII. 
A sua morte. 

A corte dos celestes moradores 
Da virtude da cruz hoje se espanta. 
Que entra uma peccadora triunfante 
A dar posse da gloria a peccadores. 

Quem das lagrimas fez conquistadores, 
Bandeiras de victoria no ceo plante \ 
E a gozar dos thesouros se levante, 
De que os pés de Jesus foram penhores. 

Delle tira o remédio efficaz, 

Que o ceo, a terra, a vida, a morte, a culpa, 

Abre, apura, reforma, vence, apaga. 

Alquimia, que da offensa fez desculpa, 
Diluvio, em que se salva quem se alaga. 
São milagres de amor, que só Deos faz. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 3o3 



Lin. 
As SS. Marta e Maria. 

Aqueixava-se Marta de Maria, 

Que servir seu Senhor não lhe ajudava; 

Mas o Senhor Maria desculpava, 

De quem, mais que de Marta, se servia. 

Porque, quando ella mais se distrahia 
No serviço de quem agasalhava, 
Sem se bolir Maria donde estava, 
Os pés do Redemptor mais merecia. 

Do qual foi a queixosa respondida, 
Que andava em muitas cousas occupada, 
Sendo só necessária uma na vida, 

Que nunca poderia ser tirada 
A Maria, de quem fora escolhida, 
Escolhida de quem fora ensinada. 



LIV. 
A S. Jacinto. 

Jacinto, já vestido doutras cores 
Differentes daquellas, que vestido 
Tinhas no verde campo, onde colhido 
Colheste do Senhor largos favores. 



204 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Em que passos de amor, em que amores 
Teu brando coração íoi derretido, 
O teu suave nome convertido 
Ora fosse de pedra, ora de flores ? 

De pedra preciosa rodeada 

De brandas, alvas flores na pureza, 

Das estrellas do ceo encastoada, 

Tal festejada cá nesta baixeza, 

Tal na maior alteza festejada, 

Tal na festa do Duque e da Duquesa. 



LV. 
A S. Francisco. 

Seráfico Francisco, sprito puro. 
Profundo mar de amor e de humildade, 
Exemplo de pobreza e caridade, 
De faustos e honras vans imigo duro. 

De santa fé columna e forte muro, 
Espelho de limpeza e castidade. 
Clara fonte de clara e sã bondade. 
Sempre servo de Deos firme e seguro. 

Como é próprio de amante desejar-sc 
Na cousa amada todo transformado, 
E vós com tanto amor o desejastes, 

Deos, de vosso ardor santo namorado, 
Quis também nesse habito encerrar-se, 
E vós no próprio Deos vos transformastes. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz ao5 



LVI. 

A entrada da Madre Soror Meda 
na Madre de Deos. 

Qual ave, que do laço vai fugindo. 
Qual cerva, dos monteiros acossada. 
Qual pedra, d'alto monte despenhada, 
Qual vem o raio ardente a nuve abrindo; 

Qual sae do arco a setta, o ar ferindo, 
Qual imaginação desenfreada, 
Qual do rio a corrente arrebatada, 
Qual fogo a sua esphera vae subindo; 

Tal corre a esposa, ouvindo a voz do amado, 
De delicias a cruz, de honra a desprêso, 
Do mundo a Deos, das pompas á pobreza. 

Effeitos de Jesus crucificado. 

Que faz suave o jugo, e leve o peso, 

£ faz que a graça vença a natureza. 



Lvn. 
A' mesma. 

Pôs Deos da gloria o ceo na mór altura, 
Pôs na mór humildade o ceo da graça, 
E d'ambos deo amor (com nova traça) 
Por meio do Creador, posse á creatura. 



2o6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Com mortal veo a eterna formosura 
Descendo dum a outro se disfarça, 
E a cruz por nós com tal excesso abraça, 
Que os que a buscam, já nella acham doçura. 

Esta pedra evangélica preciosa 

Buscou, achou, comprou por quanto tinha 

A martyr de desejo valerosa. 

Fez rica a pobre, a serva fez rainha, 

A soberana sorte venturosa, 

Devida a quem por cruz a Deos caminha. 



LVIII. 

Delitice mece, esse cum filiis hominum. 
Prov. 8. 3i. 

Sc são vossas delicias, meo Senhor, 
Estar com filhos de homens nesta vida, 
Que será na que tendes escolhida 
Pêra mais refinar o vosso amor? 

Por elle nú na cruz vos fostes pôr, 
Por elle nossa carne em vós vestida. 
Por elle nossa morte destruída. 
Por elle feito santo o peccador. 

E se vossas delicias são estar 

Com os filhos dos homens, quaes as suas, 

Que consistem somente em vos amar. 

Contemplando nas vossas carnes nuas 
Com que fogo d'amor quereis formar, 
E fazer uma só cousa de duas. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 207 



LIX. 

Quid enim mihi esí in coelo? et a te quid volui 
super íerram ? Psalm. 72. âS. 

Que tenho mais no ceo, ou que na terra 
Que vós, meo Deos, por queno foi tudo feito, 
Ficando terra e ceo a vós sugeito 
Com tudo quanto mais nelles se encerra ? 

Que quem por vós de tudo se desterra, 
Trazendo-vos só dentro no seo peito. 
Sem terra, e sem ceo fica satisfeito, 
E nú, comvosco só, vivo se enterra. 

Como se pode ver nesta figura, 

Em quem da carne nossa foi vestido. 

Por vestir de si mesmo a creatura. 

Por cujo amor morreo na cruz despido, 
Vestindo-nos da sua fermosura, 
Sem despir nosso e seo roto vestido. 



LX. 
A Nosso Senhor. 

Mostrai-me, meo Senhor, em que deserto, 
Em que ribeira," valie, monte, ou serra, 
Em quanto me deixaes andar na terra, 
Do ceo me deixareis andar mais perto. 



2o8 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que pois, ora encoberto, ou descoberto, 
Me faz cruel imigo cruel guerra, 
De quanto dentro em mim mesmo se encerra 
Lugar de defensão tenha mais certo. 

Mas como, e donde posso defender-me, 
Em quanto fôr de mim acompanhado, 
Com tanta experiência de perder -me. 

Senão sendo metido em vosso lado 
Pêra todo de mim mesmo esquecer-me, 
E só de vós, meo Deos, ser alembrado ? 



LXI. 

Ao mesmo. 

Quando será, Senhor, quç desatado 
Deste peso mortal comvosco esteja, 
E vendo esta alma em vós o que deseja, 
Veja quanto de vós tem desejado ? 

Que inda que sêr não pôde coroado 
Quem valerosamente não peleja, 
Basta, por muito mais fraco que seja. 
Quererdes vós por jmim ter pelejado. 

Aqui se fortifica a confiança, 
Aqui se certifica meu desejo, 
Que quem muito deseja, muito alcança. 

E se pena me dá, se me faz pejo 
O sentimento grave da tardança. 
Desejando acharei o que desejo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 209 



XLII. 
Ao mesmo. 

Se desejo, meo Deos, de vos amar, 
E sei que desejaes de sêr amado, 
Como tendes amor tão limitado. 
Que no desejo meo possa parar ? 

Que posso fazer mais que desejar, 
Nem tanto, se de vós me não for dado ? 
E pois de mim não basta o desejado, 
O que vós desejaes, me haveis de dar. 

E se de libValidade e brandura 
Quereis mostrar d'amor maior affeito 
Sem mal, nem bem da. vossa creatura, 

Creai coração limpo no meo peito, 
Abrazado na vossa fermosura, 
Onde todo de amor seja desfeito. 



LXIII. 
Ao mesmo. 

Se vós quereis, Senhor, a quem vos quer, 
Com vos querer alcanço o bem querido, 
Mas porque melhor fique do partido, 
Fique nas vossas mãos o bem querer. 

14 



310 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Assi que nem falar, ouvir, nem vêr, 
Nem desejar me seja permittido 
Mais daquillo, que mais fordes servido, 
Seja quanto penoso poder sêr. 

Que não receio dôr, pena, ou tormento, 
Buscando quanto em vós achar pretendo 
Por obra, por palavra, ou pensamento. 

Donde vem que de vós, Senhor, aprendo. 
Que entre ambos não sofreis apartamento, 
Pois só com vos querer me estaes querendo. 



LXIV. 
Ipse dixit, et fada sunt. Psalm. 148. 5. 

Se bastou só dizer para sêr feito, 

E mandar pêra sêr tudo creado, 

O que também a mim me está mandado, 

Como não tem em mim o mesmo efteito ? 

E que seja maior este preceito 
De sêr Deos sobre tudo mais amado, 
E que em mim só não seja effeituado, 
Que tal deve de sêr o meo defeito ! 

Dous estremes d'aqui fico notando,. 
Que me confunde meo entendimento 
As causas dos effeitos discursando. 

Num vejo quanto pôde o mandamento, 
Noutro quam pouco em mim só fica obrando, 
E de ambos falta em mi o sentimento. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 211 



LXV. 
Deus caritas est. Joan. Ep. I, IV, 8 e 16. 

Habita n'alma Deos, se nella habita. 
Como em sagrado templo a caridade; 
Sem ella, qual sem Deos, a liberdade 
D'alma em officio inútil se exercita. 

ITirtude, que a virtude informa e incita 
Ao summo bem, nem sofre que a vontade 
Ande em campo menor, que a eternidade, 
Ou queira menos gloria, que infinita. 

Generosa princesa, em quem receio, 
Em quem pena não há, que lhe dê vida, 
Da ardente hierarchia a melhor palma. 

E' spirito divino, é suave meio. 

Que ajunta uma alma a Deos, e lhe dá vida, 

Antes é o mesmo Deos, que é vida d'alma. 



LXVI. 

Satiabor cum apparuerit gloria tua. 
Ps. XVI, i5. 

Quando verei, meo Deos, chegar-se a hora, 
Que a desagasalhada alma deseja. 
Pêra que só comvosco em vós me veja, 
E os mais cuidados vãos fiquem de ióra ? 



aia Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Pasma o juizo, o peito se afervora 
No vosso amor, que todo outro despeja, 
Rouba-me o sprito a saudade sobeja, 
Mas nada satisfaz a quem cá mora. 

Se buscar-vos faz n'alma estes affeitos, 
Achar vos que fará ? perca-se o tino, 
Tornem-se os olhos rios, fogo os peitos. 

Mouramos todos deste amor divino, 
Que só nelle consiste o sêr perfeitos, 
E o atinar do mundo é desatino. 



LXVII. 

Pr ceterit figura hiijus mundi. 
I Corinth. Vil, 3i. 

O' cegos, que buscaes na morte a vida, 
Na terra quietação, no ar morada. 
Se sois, se haveis de sêr, se fostes nada. 
Onde está o conto, o peso e a medida ? 

Se alma em deseios vãos anda embaida; 
Dizei-me, gente vil, desatinada, 
Que cousa vos engana desejada. 
Que vos não desengane possuída ? 

Quem não conhece a Deos, nem se conhece, 
O que ha- de aborrecer, isso deseja, 
E o que ha-de desejar, isso aborrece. 

Meu Deos, dai-me outros olhos, com que veja, 
Que o mundo em apparencia se esvanece, 
E vós sejais meo fim, para que eu seja. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 21 3 



LXVIII. 
Voto de ardente amor divino. 

Quem me dera por lingua um raio ardente, 
Que os corações abrira e abrazára, 
E os derretera, unira e transformara. 
No amor, que arde e inflamma suavemente. 

Amor, que tudo quer, nada consente, 
Amor, que se não vê, sendo luz clara. 
Amor, que do ceo vem, e no ceo pára. 
Amor, que quem o sente, não se sente. 

Amor que n'alma imprime um sêr divino, 
Que alumiado abre, abnndo accende, 
Derrete unindo, e une transformando. 

Amor, que cá na terra é peregrino, 
Amor, que attrahe o spirito e o suspende, 
Amor, enfim, que só se aquire amando. 



f LXDC. 

Da oração. 

Assi como, meo Deos omnipotente, 
Não costumaes negar petição justa, 
Assi não concedeis qualquer injusta, 
Concedendo e negando justamente. 



•íeslí-:'.. 



214 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

A justiça guardando igualmente 
Em tudo, quanto mais, ou menos custa 
Na fraca natureza, ou na robusta 
Com desejo, das forças differente. 

Mas não haja quem perca a confiança 
D'alcançar o que pede a tal Senhor, 
Que quem nelle confia, tudo alcança. 

Pois a tanto se extende o seu amor, 
Que pêra dar a bemaventurança 
Em breve, justo faz do peccador. 



LXX. 
Ao mesmo. 

Aquelle, que caminha, desejando 
Chegar a vêr-se donde se deseja, 
Ainda que chegado não se veja. 
De cada vez se vai mais achegando. 

Então já de mais perto renovando 
O desejo lhe dá força sobeja 
Tanto, que mais penoso inda lhe seja 
Deixar de caminhar, que caminhando. 

Não sofre amor divino haver tardança, 
Por pequena que seja, em caminhar. 
Pois o que mais caminha, menos cansa. 

E pêra finalmente descansar. 
No caminho da bemaventurança. 
Deixando de correr, ha de voar. 



Obras de Fr. Agostinho da Grur 21 5 



LXXI. 

Omniaflumina intrant in maré, et maré non 
redundai. Eccles. /, 7. 

Os rios, donde nascem, vão correndo, 
Seu repouso no mar alto buscando, 
Com suas doces agoas nelle entrando, 
Que em salgadas se ficam convertendo. 

Então seo claro engano conhecendo, 
De novo a correr tornam, murmurando 
Do mal com que lhes fica o mar pagando 
As voltas, que por vê-lo vão fazendo. 

Doces rios, deixai de murmurar, 
Senão de vós, tão mal considerados. 
Que correndo vos is lançar no mar. 

De cima pêra baixo ides errados, 
De baixo pêra cima sem errar. 
Os caminhos do ceo vão acertados. 



LXXII. 
Gutta cavat lapidem. Ao effeiio da perseverança. 

A fonte, que de seu curso Inurmurava, 
Cahindo do mais alto do rochedo. 
Nos mostra que cavando no penedo 
A dureza se vence com brandura. 



2i6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Assi quem persevera, espera, atura, 
Com seos olhos banhados, tarde, ou cedo 
Achega a penetrar este segredo. 
Como o figurado na figura. 

Se contra toda a lei da natureza 
A brandura com ser continuada 
Basta pêra vencer toda a dureza, 

Que não fará nesta alma renovada 
A faisca d'amor divino accesa 
Pêra ser nelle toda transformada ? 



LXXIII. 
Quanto importa um bom desejo. 

Um bosque, que de longe apparecia. 
Quando mais claro o sol se nos mostrava, 
Desejapdo de vêr, não acabava, 
Arreceando quanto custaria. 

Assi passando fui sem vêr um dia 
O que vêr tantas vezes desejava. 
Que muitas sêr devendo a carne escrava, 
Usurpa d'alma sua a senhoria. 

Enfim depois de bem considerado. 
Rompendo pelo mais difficultoso. 
Achei que em caminhar tinha acertado. 

Que quem deseja vêr o mais fermoso, 

Se não chegar a vêr o desejado, 

A mais chega em se vêr mais desejoso. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 217 



LXXIV. 
Finis cujusque mali principium esí futuri. 

Do fim de qualquer mal, que me persegue, 
O principio de outro se me apega, 
Porque quando um de mim se desapega, 
Outro no mesmo instante se me apegue. 

Assi do que se acaba, outro se segue, 
E áquelle, que por vir está, me entrega, 
E inda este não se vai, já outro chega, 
Sem que para acabar-me, nenhum chegue. 

E pois, quando um acaba, outro começa, 
De um só (se d'ambos não) fico forçado 
A que de novo sempre me entristeça. 

Já que tão mal me tenho aproveitado. 
Que não faltando males, que padeça, 
Na paciência minha haja faltado. 



LXXV. 
A temperança. 

No fim da vida humana discursando, 
Dos males e dos bens fiz conta certa, 
Vendo como tem sempre a porta aberta 
O tempo, que nos cansa, não cansando. 



2i8 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que todo se consume desejando 
Os fugitivos bens da vida incerta ; 
E se nos males seos se desconcerta, 
Nos bens menos se fica concertando. 

Temendo Salomão summa pobreza, 
Das riquezas lemeo summa abundança, 
Confessando de si sua fraqueza. 

Assi d'ambas pedio a temperança 

De tão destemperada natureza, 

Que nos males e bens a todos cansa. 



LXXVI. 
A vaidade humana. 

De que serve, que presta, que aproveita, 
Tudo quanto se acaba em tempo breve, 
Qual cera ao fogo, ou qual ao sol a neve, 
Que não pôde deixar de ser desfeita. 

Tal o que só jio mundo se deleita. 
Querendo do pesado fazer leve. 
Sem temer o castigo, que se deve 
A quem por temporal eterno engeita. 

As flores, que nos campos apparecem, 
Abatem sua mesma fermosura 
Antros olhos, de quem desapparecem. 

Amostra-nos o tempo que é pintura. 
De quantas cousas dá, todas fenecem, 
Senão o Greador da creatura. 



Obras de Fr. Agostinho da Cnu 219 



LXXVIL 
A dignidade da alma e vaidade da vida. 

Quem podesse mostrar o que tem n^alma 
Pêra desenganar em tudo a vida ! 
Mas não sinto ninguém, que trate d'alma, 
E todos a esperança pÕe na vida. 

O ceo é verdadeiro lugar d'alma, 
E á terra baste dar-lhe o corpo e a vida, 
Pois não podem têr fim os males d'alma, 
E passam, como sombra, os bens da vida. 

St queremos saber o preço d'alma, 
Vejamos que pôs Deos por ella a vida, 
E viveremos nelle, elle em nossa alma. 

O mundo é sonho vão, que enlêa a vida. 
Quem nelle está melhor, tem peor alma, 
E quem o desprezou, tem alma e vida. 



LXXVIII. 

A' Senhora da Memoria na ausência 
de Fr. Diogo dos Innoceníes. 

Se vós me não deixaes, Senhora minha, 
Seguro estou de nunca vos deixar, 
Porque se em mim não ha que segurar, 
Assegura-me ter-vos por vizinha. 



k 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Foi-se-me o companheiro, que aqui tinha, 
Enfermo sem poder mais aturar ; 
E pois doença e morte hão-de chegar, 
Fazei que a morte chegue mais asinha. 

Segura-me, Senhora, a confiança 

De vossa piedosa condição, 

Tão liberal comigo aqui neste ermo. 

Para não recear qualquer mudança, 
Que quem de mim se serve, quando são. 
Não me lançará fora, quando enfermo. 



LXXIX. 
Á mesma e ao mesmo respeito. 

A saudade d'alma a vós devida, 
De vós. Senhora minha, se sustenta. 
Que todos quantos bens me representa, 
Nascem de merecerdes ser servida. 

• 

Servir-vos é viver suave vida, 
Doce, quieta, branda, livre, isenta ; 
A paga do serviço se accrescenta 
Aqui no vosso altar da vossa ermida. 

Que graças dar-vos posso ? que louvores ? 
Pois quanto posso mais, tanto mais devo, 
E quanto devo mais, tanto mais rico. 

E mais rico, mais devo das maiores ; 
Mas quando no que devo mais me enlevo, 
Libertado do amor mais preso fico. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 221 



LXXX. 
A mesma e ao mesmo respeito. 

Daqui, minha Senhora, fui forçado 
Da santa obediência á cidade ; 
Mas mais forçado vim da saíidade 
Vossa, que me tornou mais esforçado. 

E se fui, e não vim acompanhado, 
Como cuido que foi vossa vontade, 
Ndo pode ser que aparte a piedade 
Quem nunca vi d'amor vosso apartado. 

Eu não posso encobrir o sentimento 
De tão suave e branda companhia, 
Serviço vosso, meo contentamento. 

Mas tudo sofrerei com alegria, 

Com tanto que não haja apartamento 

Do meo doce Jesus, Virgem Maria. 



LXXXI. 
Na Serra da Arrábida. 

No meo 4esta Serra, onde se cria 

Aquella saudade d'alma pura. 

Que no duro penedo acha brandura, 

Ardente fogo dentro nagoa fria, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Ouço no passarinho a melodia. 
Vejo vestir o bosque de verdura, 
Variar-se no ceo outra pintura, 
Que em vários sentimentos me varia. 

Pasmando de quam mal se gasta a vida 
De quem da terra quer subir ao ceo, 
Pois caminhar enfim ninguém duvida, 

Menos da vida estreita, que escolheo, 
Dos seos mais escolhidos, mais seguida, 
Christo Jesus, que numa cruz mbrreo. 



LXXXII. 

Da contemplação na mesma. 

Dos solitários bosques a verdura. 
Nas duras penedias sustentada, 
Nesta Serra, do mar largo cercada, 
Me move a contemplar mais fermosura. 

Que tem quem tem na terra mór ventura, 
Nos mais altos estados arriscada, 
Se não tem a vontade registada 
Nas mãos do Creador da creatura ? 

A folha, que no bosque verde estava. 
Em breve espaço cahe, perdida a flor, 
Que tantas esperanças sustentava. 

Por isso considere o peccador, 
Se quando na pintura se enlevava 
Não se enlevava mais no seo pintor. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 223 



LXXXIII. 
Da perseverança na penitencia, na mesma. 

As cabras, que inda guardo nesta Serra, 
São lagrimas chorar por meos peccados 
Na lembrança dos tempos mal gastados, 
Vendo quem mais acerta, ou quem mais erra. 

Triste vida se vive sobre a terra, 
E triste muito mais nos povoados, 
Dos meos e dos alheos semeados, 
Por cima d'hervas más da mesma terra. 

Quão pouco dura a vida, bem se entende, 

E bem o pêra que foi concedida, 

E quanto bem, ou mal no fim nos rende. 

Ora seja mais breve, ou mais comprida, 
A nenhum outro bem maior se estende, 
Que a ganhar com mortal immortal vida. 



LXXXIV. 
Da experiência. 

Que me fica por ver na mortal vida. 
Dos meos immortaes bens tão alongada, 
Que por mais que o seo tudo seja nada. 
No mais do tudo seo vejo perdida ! 



224 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Ah ! quanto se dilata esta partida, 
Com perigo desta alma dilatada, 
Que antes de ser nascida, foi culpada, 
Culpada mais, depois de ser nascida. 

A taes termos chegou minha esperança, 
Que do remédio estou desenganado 
Tanto, que cuidar nelle inda me cansa. 

Porque passou o tempo limitado, 
Que não pode sofrer tanta tardança 
Da morte, de que estou desconfiado. 



LXXXV. 
Ao mesmo. 

Dos males, qiie por mim já tem passado, 
Os que estão por passar tenho aprendido, 
Vendo quanto mais vai sêr perseguido 
Sem causa, que com ella sêr louvado. 

Na terra, que não sofre o curvo arando 
Nas rasgadas entranhas revolvido, 
Não pode o novo trigo sêr colhido, 
Que pêra se colher foi semeado. 

A natureza humana mal sofrida, 
De vários successos encontrada. 
Mal poderá deixar de sêr ferida. 

E que deixe de sêr, sendo louvada, 
Sofrendo sêr sem causa perseguida, 
Ainda a vigiar fica obrigada. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 22 5 



LXXXVI. 
Da quietação. 

Dentro na minha Lapa recolhido 
Para chorar um mal novo presente, 
Soltando a rouca voz mais brandamente 
Disse, depois de tudo concluído : 

— Se sempre são hei-de ir, e vir ferido, 
E se triste tornar, indo contente. 
Nem por amor de amigo, ou de parente, 
Sahirei fora donde estou metido. 

Nem ver, nem visto sêr quero neste ermo, 
Nem mal, nem bem tratar mais que de mim, 
Pois já da vida tenho feito termo. 

Deixem-me morrer donde morrer vim, 

Não queiram que mais viva o velho enfermo, 

Nem queiram mais matar, sem dar-lhe fim ! 



LXXXVII. 
Ao mesmo. 

Dos males, que passei no povoado. 
Fugi pêra esta Serra erma e deserta, 
Vendo que quem servir seo Deos acerta, 
Certo tem tudo o mais ter acertado. 



220 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

E pera mais pureza sou forçado 
Mostrar a paciência descoberta, 
Que quando o tentador se desconcerta, 
O paciente fica concertado. 

Passou a furiosa tempestade, 
Ouve-se a voz da rola em nossa terra, 
Soando com maior suavidade. 

Cobrio-se d'alvas flores toda a Serra, 
A minha alma de doce saudade, 
Em paz me fez amor divina guerra. 



LXXXVIII. 
Ao mesmo. 

No silencio da noite, em que vigio, 
Desterrado da terra o pensamento. 
No que dentro nesta alma represento, 
Ora me aquento mais, ora me esfrio. 

E pera temperar fogo com frio, 

Em que me esfrio mais, ou mais me aquento, 

Dos efleitos do puro sentimento, 

Na minha saiidade chorja e rio. 

Depois destes contrários temperados 
Na mór quietação, na mór brandura, 
Meus pensamentos ficam sepultados. 

Temperada a frieza na quentura 
Do meo divino amor tão apurados, 
Que me deixam em paz na sepultura. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 227 



LXXXIX. 
Ao peccado original. 

Se sendo, meo Senhor, por vós formado 
Adão, antes de ser o mal nascido, 
Peccou, que fará quem foi concebido 
Nas entranhas, que já tinham peccado ? 

Comer de um fruito só lhe foi vedado, 
Tudo mais a seo gosto concedido, 
E por uma só vêz haver cahido. 
Por muitas sêr não posso alevantado. 

Tão fraca ficou minha natureza. 
Que levantar não deixa o pensamento 
Da terra, a que está atada e presa, 

Tão imiga do meo merecimento. 
Que se morder não pôde na pureza, 
Não deixa de ladrar um só momento. 



XC. 

Chora os desvarios da sua desaproveitada 
mocidade. 

O' montes altos, valles abatidos. 
Verdes ribeiras de correntes rios. 
Ora por baixo de bosques sombrios. 
Ora por largos campos estendidos ; 



228 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Onde mais claros vejo repetidos 
Meos mal considerados desvarios 
De pensamentos vãos, baixos e frios, 
Emendados tão mal, quam mal sentidos. 

Passei a mocidade sem proveito, 
Antes contra meo Deos accrescentando 
Culpas a quantas culpas tenho feito \ 

Cuja pena a velhice está purgando 
Pêra passar da morte o passo estreito, 
Se não se no seo sangue for nadando. 



XGI. 
Da emenda. 

Concluído me tenho a mi comigo 
De deixar o caminho, que levava, 
Vendo com razões claras quanto errava 
Em não me desviar do mais antigo. 

Pois no trabalho seo, no mór perigo, 
Meo amigo consigo a mi me achava ; 
E quando no meo mal algum buscava, 
Achava-me comigo sem amigo. 

Agora dei a volta por caminhos 

De solitários bosques enramados 

De feras bravas, mansos passarinhos \ 

Que inda que entre os espinhos conversados. 
Mais quero pés descalços entre espinhos. 
Que dos homens humanos espinhados. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 229 



XCII. 
A sua inalterável confiança em Deos. 

Ancorou-me a velhice no remanso 
Deste mar Oceano, largo e brando, 
Onde não tenho já que andar remando, 
Nem querer noutra parte melhor lanço. 

Neste repouso meo, em que me lanço, 
E me levanto sempre desejando, 
As forças se me vão accrescentando 
Pêra alcançar um bem, que não alcanço. 

E tendo já no mar ferro lançado, 
A confiança minha não se altera, 
Por mais que o bravo mar vejo alterado. 

Antes mais firme e forte persevera, 
Que quem só no seo Deos tem ancorado, 
Do bem se logra já, que ter espera. 



xcm. 

A morte. 

Os correos da morte são chegados 

Por caminhos antigos, impedidos, 

Mal com meo» olhos, mal com meos ouvidos, 

Mal com meos pés, do chão mal levantados. 



23o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

E mal, por não chorar bem meos peccados, 
Que sendo sete, e cinco meos sentidos, 
Por serem tantas vezes repetidos, 
Impossivel será serem contados. 

Se não viera a. morte acompanhada 
De conta, que dar devo tão estreita. 
Não fora tão penosa imaginada. 

Mas a que vivo e morto tenho feita, 
Tenho com meo Senhor na cruz pregada, 
Onde o ladrão contrito não se engeita. 



XCIV. 
Soneto. 

Aquelle, que na vinha do Senhor 
Trabalha por cavar proveito alheo. 
Tanto do próprio seo fica mais cheo, 
Quanto mais do commum foi cavador. 

Costuma a pagar divino amor 
A quem buscar o quer por este meio 
Primeiro, como a quem mais tarde veio, 
E tanto como o mais madrugador. 

Aqui nesta doutrina claramente 

Se ensina por que via, como e quando, 

Oflerta faz a Deos mais excellente. 

Todo o que dignamente commungando 
Ofterece a Deos Padre omnipotente 
Seo Filho, sua gloria accrescentando. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 23 1 



xcv. 

Soneto. 

O' vós, que andaes de achar cá desejosos 
Modos de honrar sem fim mais a Trindade, 
O melhor se vos dá aqui com brevidade, 
Nestes motivos santos amorosos. 

Nelles tendes louvores copiosos 
Se summo gráo, e grande dignidade 
De quem trata e recebe a magestade, 
Que temem olhar no ceo os gloriosos. 

O alto sacrifício d'honras dino, 

A nós tão proveitoso, a Deos acceito, 

Com que é toda a Trindade engrandecida. 

Sagrada Hóstia, Viatico divino. 
Que offerecida ao Padre em effeito, 
Lhe dou gloria infinita e sem medida. 



XCVI. 
Soneto. 

Lembranças de meu bem, doces lembranças, 
Que tão vivas estaes nesta alma minha. 
Que mais quereis de mim que os bens que tinha, 
Vê-los em poder todos de mudanças ? 



232 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Ai cego amor ! ai falsas esperanças, 
De que eu no meu bom tempo me mantinha l 
Agora deixareis quem vos sostinha, 
Acabaram co'a vida as esperanças. 

Co'a vida acabaram, pois a ventura 

Me roubou num momento aquella gloria, 

Que mostra um grande bem quam pouco dura. 

Se após o prazer fora a memoria, 
Ao menos estivera a alma segura 
De ganhar-se com ella mais victoria. 



XCVII. 
Soneto. 

Contentamentos meus, que já passastes, 
Trocando a vida alegre, que vivia, 
Por este mal, que passo, que um só dia 
Me não deixam, depois que me deixastes. 

Acabar me convém, pois acabastes 
De darme o desengano, qu'encobria 
Uma esperança vã, que me trazia 
Contente, a qual também me já tirastes. 

Os olhos, que amor sempre guiava 
Aonde eu tinha firme o pensamento, 
Quando vossa presença os alegrava, 

Agora choram vosso apartamento, 

Que lhe tirou um bem, que os sustentava, 

E só de vós ficou o sentimento. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 233 



OITAVAS. 

Fortuna destruio minha esperança, 
Desenganou-me amor, que a ventura 
Que perdesse de tudo a confiança 
Com mil claros sinaes da dor futura. 
O' quantos males fez uma só mudança 
E quam incerta nclles fica a cura, 
Depois que vós de mim vos apartastes. 
Contentamentos meus, que já passastes! 

O summo bem, que tinha, me avisava 

Da pena, que padeço justamente, 

Que em tão baixo valor mal se empregava 

Um tão felice estado, e tão contente. 

A causa, por que dantes triunfava 

Do tempo, sem cuidar no mal presente, 

Comvosco se. me foi o contentamento, 

E só de vós ficou o sentimento. 



PROEMIO. 

Tercetos em louvor da Immaculada Conceição 
da Virgem Nossa Senhora. 

Cantar pretendo aquelle alto mysterio, 
Que Deos obrou na mais alta creatura, 
A que entregou do ceo e terra o império. 

A pura Conceição da Virgem pura. 
Que pêra mai de Deos foi escolhida, 
No eterno tribunal da empyria altura. 



234 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mas falar cego em luz e morto em vida, 
Em resplandor da gloria a escuridade, 
Em fogo ardente a neve empedernida, 

E' mór soberba, é mór temeridade, 

Que emprender esgotar o grande Oceano, 

E que medir dos ceos a immensidade. 

Não é empresa enfim d'engenho humano, 
Sem luz particular do sol divino, 
Que se escondeo no ventre soberano. 

Esta me alcança, ó Virgem, inda que indino, 
Pois tudo te entregou quem pode tudo, 
De teus naerecimentos premio dino. 

Illustra o entendimento deste rudo. 

Alumia o espriío deste cego, 

Desata e abraza a lingoa deste mudo. 

Pois rudo, cego e mudo a ti me entrego, 
Reforma tudo em mim pêra louvar-te, 
E não perder me em tão profundo pego. 

Que o que dar pode a natureza e arte, 

Não basta para tão alto sujeito, 

Se de ti não recebo o que íiei-de dar-te. 

E pois só gloria tua é o respeito. 
Que move esta alma do teo amor roubada, 
Enche de teo favor voz, penna e peito. 
Que sem elle não sou nem posso nada. 



Antes que houvesse tempo, ceos e terra. 

Antes que na suprema hierarchia 

Se levantasse a horrenda e nova guerra, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 235 

Antes que a divisão da noite e dia 

Das grandes luminárias se fiasse, 

Por quem se rege o mundo e se alumia -, 

Antes que o mar da terra se apartasse, 
Antes que em seo lugar cada elemento 
O Autor da natureza colocasse-, 

Antes que do estrellado firmamento 
O resplendor, o curso, a magestade, 
Dessem do seo poder conhecimento ; 

Nas Ideas de sua eternidade. 
Querendo o amor divino insaciável 
Unir ao Verbo nossa humanidade \ 

Predestinou uma Virgem admirável, 
Que sem perder á virginal pureza, 
Fosse mãi ó mysterio inexplicável ! 

O' excesso das leis da natureza! 
O' thesouro da eterna sapiência, 
Que tanto enriqueceo nossa pobreza ! 

Desta escolha se infere uma consequência, 

Tão infallivel, e tão bem provada, 

Que haver não pôde mais clara evidencia. 

Que esta Virgem por Deos predestinada, 
Pêra mãi sua necessariamente, 
Da culpa original foi preservada. 

Que a casa pêra Deos era decente, 
Sêr santa em tudo sempre qual dissera, 
O real Profeta delia expressamente. 



236 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

E noutra parte diz, que Deos pusera 

No sol seo tabernáculo, figura 

Da luz e resplendor, que á Virgem dera. 

Na criação do mundo e na escritura, 
Isto em vários lugares representa, 
Isto nos significa e nos figura. 

Esta fé autoriza, esta sustenta, 

O filho diviníssimo Cordeiro, 

Que antre os lírios celestes se apascenta. 

O grande, immenso, eterno e verdadeiro, 

Omnipotente Deos maravilhoso, 

De quem já mais ninguém foi conselheiro ; 

O ceo fez lúcido, claro e fermoso, 
Cuja influencia varia e deleitosa. 
Nas creaturas o faz mais glorioso. 

A terra creou fértil e amorosa. 

Que sem humana industria e sem cuidado, 

Nos dava fruito e flores copiosa. 

Já posto em feição tudo o creado, 
A' sua imagem cria e semelhança, 
Um summario do mundo abreviado. 

Deo-lhe a posse de tudo e a governança. 
Aos anjos quasi quis que se igualasse, 
E assi coroa de gloria alcança. 

Porque a justiça da alma conservasse. 

Luz sobrenatural lhe concedeo, 

Com que o servisse, conhecesse e amasse. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 23/ 



E de sciencia infusa o enriqueceo, 

Que as cousas mais occuitas penetrando, 

Nada do natural se lhe escondeo. 

Porque as mercês se vão multiplicando, 
Companheira lhe deo com que se unisse, 
Em paz na terra o ceo representando. 

Pêra que tanta gloria possuísse, 
Seguro de mudança e de ruina, 
E a mais altas contemplações subisse, 

Por morada lhe escolhe e lhe destina 
O paraiso terrestre, onde abrevia 
As delicias do ceo a mão divina. 

Tudo o que ali creara delles fia, 

Só comerem do fruito, que lhe aponta. 

Da sciencia do bem e mal prohibia. 

O' cega ingratidão, perpetua affronta, 

Digna de sêr chorada eternamente. 

Que sem Deos todo o mundo nada monta ! 

Quebraram o percepto incautamente. 
Perdendo a Deos ficaram enganados, 
Adão da esposa e Eva da serpente. 

Da original Justiça despojados, 
Tudo se lhes rebela e os desconhece, 
Ficando a morte e a dores condemnados. 

O' quanto a culpa acanha e empobrece, 
Que na sua patna Adão fez peregrino, 
E se não cava e sua já perece! 



a38 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

E não parou só nelle o desatino, 

Que a todos comprendeo este peccado, 

Por ordem do Juiz justo e divino •, 

Mas estando ab eterno decretado 
Não sêr nesta geral lei comprendida 
A custodia do Verbo desejado \ 

Representando-a na arvore da vida, 
Porque Adão não podesse tocar neíla, 
Depois da mortal culpa commettida. 



Tu és a oriental, cerrada porta, 
Do rico e venerável santuário, 
Onde varão entrar não se supporta. 

Sagrado tribunal, limpo sacrário, 

Do Verbo que encarnou do Esprito Santo, 

Feito qual pêra Deos foi necessário. 

Aqui a alma enlevada em novo espanto, 
Das potencias não usa, acha-se indina, 
Que em finito saber não cabe tanto. 

Vacila o entendimento, e não atina, 
A vontade não pode o que pretende, 
A memoria confusa desatina. 

Nenhum discurso humano te comprende, 
Mas se elle para o amor a lingua move, 
A publicar o ardor, que o peito accende, 

O mesmo amor o esprito me renova, 
Pêra tal te cantar qual te contemplo, 
E o que razões não provam, elle o prove. 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 289 

Quis Deos que o sábio Rei fundasse um templo, 
Que na forma, grandeza e artificio, 
Não teve, nem terá no mundo exemplo. 

O intento principal deste edifício 
Tão rico, sumptuoso e admirável 
Foi fazer-se a Deos nelle sacrifício, 

E traçar um sacrário inextimavel, 
Onde esteja em lugar santo e decente, 
A arca do testamento venerável. 



Se d'ouro puro, pedras do oriente, 
Prata fína, riquissimos metaes, 
E dos cedros do Libano eminente 



Ornou Deos com mercês tantas e taes 
O templo material, onde se faça 
Sacrifício de brutos animaes. 

Como ornaria o spiritual da graça, 
Custodia da lei viva, santa e pura. 
Em quem comnosco Deos se une e abraça ? 

Por quem já não em nuve, nem figura. 
Mas em pessoa he Deos sacrificado, 
Feito pão d' Anjos, luz da alma, e fartura. 

Se na figura Deos, com tal cuidado 
Pôs tanta perfeição, mal sofreria 
Macula original no figurado. 

Que grande agravo a si mesmo fazia, 

E injuria aos Anjos, que em graça creára, 

Dar-lhe Senhora em quem faltado havia. 



240 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Também no mesmo templo, expressa e clara 

Figura foi da original limpeza 

O que nas pedras delle Deos obrara ; 

Donde as tinha formado a natureza, 
Cortadas pêra a obra soberana, 
Vinham justas no assento e na grandeza. 

Ordem divina, donde tudo mana, 
Foi virem tão iguais e compassadas. 
Sem mais medida, ou nova traça humana. 

Vinham todas tão limpas e acertadas, 
Que, emquanto a obra durou, nunca soaram 
D'instrumentos mecânicos pancadas. 

As pessoas divinas te crearam 

Tão pura e tão conforme á dignidade. 

Que a ella a conceição proporcionaram. 

Vieste lá da eterna magestade, 

Tão limpa, tão perfeita e compassada. 

Quanto convém do filho a humanidade. 

Medida no ceo foste lá traçada, 
E ao conceber a graça te influiram. 
Que declarou a Angélica embaixada. 

Se Deos a Eva e a Adão, que o desserviram, 

Original justiça lhes concede. 

Com antevir a culpa em que cahiram, 

A Virgem que em servi-lo e amá-lo excede 
A todos, e impeccavel sempre esteve, 
Porque lha não daria o que lhe impede ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 241 

Dizer não quis he dar o que querer teve 
Falta : dizer não pôde a omnipotência 
Quem num ou noutro pôr falta se atreve ? 

Tudo quis, tudo pôde a providencia 
Divina dar á mãe por não mostrar-lhe 
No menos dando o mais menor clemência. 

E o não cahir não tira aproveitar-lhe, 
A redenção de Christo antes a honra, 
Mais em a preservar, que em perdoar lhe. 

Falta fora em um Rei, nota e deshonra, 
Dar a seo filho herdeiro mais cativa. 
Do mór imigo do seo estado e honra. 

Deos ao filho por quem quer que reviva, 
O mundo não dá mãi, que fosse escrava, 
De quem dos bens da graça e gloria priva. 

Saul quando David em campo entrava 
Co bravo Filisteo, soberbo e horrendo, 
Das reaes armas próprias o armava. 

O rei celeste a mãi pura elegendo, 
Pêra que contra o imigo pre.valeça. 
De graça original a armou em sendo. 

Em sendo quer que a tema e reconheça, 
E se cumpra a palavra, que lhe dera, 
Que ella quebrantaria sua cabeça. 

Figura disto próprio o velo era. 

Que vira Gedeão d^orvalho cheo, 

Sem se molhar a terra em que estivera. 

16 



242 Orras de Fr. Agostinho da Cruz 



Tendo todos ferrete escuro e feo 
Das culpas paternaes hereditárias, 
A graça original só á Virgem veo. 

Joseph fazendo as terras tributarias 
Todas do Kgypto, lemos que eximira 
Franca a "Socerdotal de pagar párias. 

Christo, mór Sacerdote, a Virgem tira 
Da dura servidão, por não poder-se 
Chamar mái de Jesus e filha d'ira. 

E por no efteito a causa conhecer-se, 
A livrou de sentir no parto dores, 
E de seo corpo em terra converter-se. 

Que em pena se deo isto aos successores- 
De Adão, c como a Virgem não peccasse 
Não padece as paixões dos peccadores. 

Mandou Deos a Israel que, quem tratasse 
D'ouvir sua voz, o primeiro q,ue a ouvisse 
O sprito e coração santificasse. 

Pois como se ha-de crer que consentisse 
Falta na Virgem pura e mãi bemdiía, 
Querendo que o gerasse e que o parisse ? 

Formou, antes da terra ser maldita, 

O Adão primeiro ; doutra é bem que forme 

O segundo, em que falta não se admitta. 

A culpa d'Eva fez, que a Deos conforme 
Presuma o homem ser, por onde empenha 
A alma, a quem de fermosa a fez disforme. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 243 

A graça de Maria faz que venha 

Deos sêr conforme ao homem, e por ella 

O tenhamos em nós, e em si nos tenha. 

Semelhança de sêr gerada nella 

Foi a sarça que, sem queimar-se, ardia 

Quando Deos a Moysés quis falar delia. 

Entre as chamas mais verde se fazia 
Contra o natural curso e propriedade, 
Que o fogo prender nella não podia. 

Só da parte usa aqui da claridade, 

Que a outra do abrazar vencida fora 

Do ramo, em que Deos pôs sua divindade. 

Assi com sêr a Virgem successora 
De Adão, põr privilegio milagroso, 
Da culpa original foi vencedora. 

Deste mysterio tão prodigioso 

Ficou Moysés com tal lemôr e espanto, 

Que está do que vê claro, duvidoso. 

Mas com acatamento e fé de santo 
Intenta de mais perto assegurar-se, 
Que não quer dos sentidos fiar tanto. 

Caminha e pára, não ousa, e quer chegar-se, 
Ora fica suspenso, ora se abala, 
E sem de todo enfim determinar-se, 

Vê que da mesma sarça Deos lhe fala, 
Que antes de dar mais passo se descalce, 
Que a terra ali por santa lhe assignala. 



k 



244 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



O Patriarcha por que mais realça 
Sua humildade, e com mór aífeito 
De todo o coração a Deos exalce, 

Pondo o sprito no Ceo, na terra o peito, 
Obedece, ficando arrebatado. 
Em amorosas lagrimas desfeito. 

E assi quem presumir entrar calçado 
De indevotas razões neste Ceo puro, 
Da concepção na sarça figurado, 

Merece achar este mysterio escuro, 
Ás leis geraes a Virgem submettendo, 
Signal de peito frio e animo duro. 

Deos na sarça annuncia que entendendo 

O clamor e afflição do cativeiro, 

Que o povo está no Egypto padecendo, 

Desce como Senhor e padroeiro, 

A livra lo, e que a terra haja e possua 

De promissão, e a logre como herdeiro. 

Também na Conceição alegre tua, 

Anunciou descer a libertar-nos, 

E dar-nos posse em ti da gloria sua. 

Esta grande mercê deve obrigar-nos 
A com fé viva e animo incansável 
Gratos na defensão delia mostrar-nos. 

Christo, verdade eterna, mdubitavel, 
Canonizando o angélico Baptista, 
Depois de o declarar por inculpável, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 245 

Disse, como refere o Evangelista, 
Que entre os nascidos não se levantara 
Outro maior, que foi honra não vista. 

E nisto expressamente nos declara. 
Que a Virgem não cahio, que se cahira, 
Ou menor que o Baptista, ou igual ficara. 

Da culpa original a esposa a tira, 

Nos Cantares, pois diz que a doce amiga 

Toda fermosa e sem macula a vira. 

A mesma opinião consta, que siga 
O santo Job, da Virgem celestial, 
E que do Verbo eterno e delia diga : 

Que a noite do peccado original 

Não vira a luz, que é Christo, nem a aurora, 

Que é a mãi clara, pura e virginal. 

Isto confirma e testemunha agora 
A Igreja universal e o Pastor delia. 
Vigário do Senhor, que o mundo adora. 

Pois entre as festas, que celebra nella 
Quis, que a da Conceição tivesse dia 
Particular, e dedicado a EUa. 

E a Igreja santa não consentiria 

Festejar-se com duvida ou peccado. 

Que, enfim, nunca peccar pôde quem a guia. 

E assi protesto aos teus pés prostado, 
Que emquanto houver em mim vital alento, 
Será este dia sempre festejado. 



246 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mas quem terá favor, graça e talento, 
Pêra exercicio tão santo e sublime, 
Não tendo o teu favor por fundamento ? 

Quando se há por indino e se reprime 

O sprito de Moysés, e á vista treme 

Da sarça, aonde achou Deos que o anime, 

O meu, que entre o pesar e a culpa teme, 

Cheo de confusão e de cegueira. 

Qual náo em temporal, sem luz, nem leme, 

Se tu, Senhora, mãi e padroeira. 

Não fazes que a si mesmo e ao mundo negue, 

Pêra ter a paz da alma verdadeira, 

Que centro pôde achar, onde assossegue, 
Quem me pôde valer, quem amparar-me. 
Pois tudo o que há na terra, me persegue ? 

Tu podes soccorrer-me e animar-me 
Em todo lugar, tempo, estado e trance, 
E com outro ser novo reformar-me ; 

Abrir-me o coração pêra que lance 

De si todo o amor vão, ou arrancar-mo, 

Dando outro em seu lugar, que te ame e alcance. 

E pois que da tua pane pêra dar-mo 
Nada falta, não sejam meos peccados 
Bastante occasião pêra negar-mo. 

Erros tenho não vistos, nem cuidados, 
Nenhuma emenda, muita confiança. 
Bons propósitos nunca executados. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 247 

Pondo os olhos em mim perco a esperança, 
Pondo-os em ti, que a todos por costume 
Soccorres sempre, em tudo, c sem tardança, 

Cobrando alento o animo, presume 
Ganhar por ti um amor, com que nereça 
Sahir a alma de trevas com teo lume. 

Não queiras que chamando-te pereça, 
O foro me sustenta de acudir-me. 
Porque teu filho não me desconheça. 

Obrigue-te, Senhora, pêra ouvir-me,. 

Ver quem és, os poderes e a valia. 

Que tens pêra num ponto a Deos unir-me. 

Dos Patriarchas honra e alegria. 
Dos Profetas saudade, objecto e zélo, 
Dos Apóstolos sol, conselho e gui.í. 

De Evangelistas mestra, penna, e ^ello, 
Dos mariyres valor, força, e victon.i, 
Dos pontífices luz pêra bem sê-lo. 

Dos doutores favor, lingua, e memoria, 
Dos confessores certo e doce amp >, 
Das virgens palma, flor, coroa e gi na. 

Jesus, meu bom Senhor, teu filho charo, 
Destas ordens de santos escolhidas 
Exemplo cá te fez, lá lume claro. 

Porque os does e virtudes repartidas. 

Em todos se conheça por ti virem. 

Em quem Deos as quis, por juntas e unidas. 



248 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

E por lugar condigno possuirem, 
Sobre os choros angélicos te exalça, 
Por anjos, como cá, lá te servirem. 

Sobre todos tua graça e luz realça, 
Qual o mostra a visão do Evangelista, 
Que te veste do sol e da lua calça. 

Por tal antes de ser foste prevista, 
Por tal á Coneeição isto se.applica, 
Por delia o resplandor mostrar na vista. 

È por Rainha gloriosa e rica, 

Dos nove choros d'anjos se declara, 

Que este numero tal se lhe dedica. 

E pelos meses celebres que andara 

Jesus no virginal ventre materno. 

Mar de graça, onde mais ella inundara. 

No nome de tua mái e no paterno. 

Mostrou bem de quam longe te honra e ama, 

E por limpa te approva o Rei eterno. 

Joaquim — preparação do Senhor chama, 
Anna — graciosa diz pêra que entenda, 
Que tudo é graça em ti quem graça clama. 

Também amor que trate me encomenda, 
Do nome que escrever na alma desejo, 
Porque a transforme, apure, arme, defenda. 

Faz duvida e temor o que em mim vejo, 
Antes que o signifique e pronuncie, 
Mas pôde a razão menos que o desejo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 249 

Elle me esforce a voz e a penna guie, 
Pera que iguale o fim ao presuposio, 
E tudo o ai despreze e renuncie. 

De cinco letras foi por Deos composto 
O nome, que apregoa e profetiza 
Neste numero estar nosso bem posto. 

Ter cinco o de Jesus o mesmo avisa, 
E as chagas o confirmam preciosas, 
Da humana redempção fecho e devisa. 

Prerogativas tem maravilhosas, 

Mas sem que Deos suspenda o esprito e o roube, 

Quem cousas tratará tão mysteriosas ? 

Milagre que só Deos conhecer soube, 
Arca em que do diluvio nos salvamos. 
Relicário divino em que Deos coube. 

Imagem do Senhor, que nella achamos, 
Arvore que por fruito a Jesus teve, 
Por quem o Ceo da terra conquistamos. 

O que Deos nos concede a ella se deve, 
Que os thesouros do Ceo ella os possue. 
Depois que o Senhor delles nella esteve. 

Tudo o bem que elle dá nella se inclue, 
Mostra o lá seu lugar, cá toda a cousa. 
Qual o seo nome o diz e o que elle influe. " 

Maria quer dizer ( ah ! que não ousa 
A lingua indigna e ruda ir por diante ! ) 
Mas declare-o o Senhor, que em ti repousa. 



k 



/ 

25o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Maria é nome grande, triunfante, 
Nome, em que tudo cabe, tudo se acha, 
Nome, que a terra e o ceo quer Deos que cante. 

Maria é luz sem névoa, sombra ou tacha, 
Consolação, favor, remédio, ajuda, 
Que com Jesus nos vai e nos despacha. 

Maria é firme fé, que se não muda, 
Certa esperança, caridade immensa. 
Que faz que Deos nos ouça, e nos acuda. 

Maria é salvação, couto e defensa 

Nossa, por cuja mão franca e suave, 

Dos bens da graça e gloria Deos dispensa. 

Maria é de David gloriosa chave, 

Fonte, mas antes mar, de mar sem fundo, 

Piscina, onde Deos quer, que a alma se lave. 

Maria é verão florido e jocundo. 

Que em nós flores sem fim cria e descobre, 

E faz fermoso o ceo, alegre o mundo. 

Maria é veo que a Deos mostra e o cobre, 
E de toda a Trindade incompreensível 
Recolhimento e leito puro e nobre. 

Maria é um retrato intelligivel 

Do que o Padre em nós pode, e sabe o Filho, 

E ama o Spirito d'ambos impassível. 

De quanto alcanço em ti me maravilho, 

O menos alcançando e assi confuso 

Em vez de te louvar, me rendo e humilho. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 



Do pouco que te dou, Virgem, me accuso, 
Não me esquecendo o muito, que te devo, 
Mas desta tal lembrança bem mal uso. 

Quanto imagino mais, menos me atrevo. 
Vendo Anselmo, Maiheos, Lucas, Bernardo, 
O que de ti escreveram, e o que escrevo. 

Pois como calo, ou pêra quando guardo, 
O que Dionísio diz chegando a vêr-te 
Tão cheia d'humildade e de resguardo? 

Diz quasi um ser divino conhecer-te, 
Que se a fé e doutrina não repugnaram. 
Cuidara de, por mais que humana, haver-te. 

Se os membros todos línguas se tornaram, 
De quantos Deos creou os elementos, 
As plantas, animaes, e aves falaram. 

Igual louvor a teos merecimentos 
Dar não podiam, inda que excederam, 
Na copia, estylo e arte, aos pensamentos. 

Como logo meos versos se atreveram, 
Formados em tal peito e tal sentido? 
Salvo se o ser de meos em ti perderam. 

E já que no louvar fui atrevido. 

Não quero no pedir 3êr acanhado, 

Pois Deos de lhe pedir se há por servido. 

Que espero quanto mais haja alcançado, 
Mais digno de servir te cá me faça, 
Com alma, coração, vida e cuidado. 



aSa Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Pêra que ao meu intento satisfaça, 

Peço a immensa liberalidade 

Da eterna e rica mina da sua graça. 

De Pedro a fé, de Paulo a caridade, 
Do bom ladrão o lume, a esperança, 
De Francisco a pobreza e humildade. 

Do Centurio fiel a confiança. 

As lagrimas, o amor, e a penitencia, 

Com que a paz da alma Magdalena alcança. 

Do santo Abrahão a prompta obediência, 
De Isaac a mansidão e sofrimento, 
De Joseph a pureza e paciência. 

E se parecer novo atrevimento 

O pedir tanto a quem contino offendo, 

Quem tira a culpa, dá o merecimento. 

E todas as virtudes que pretendo, 
São pêra te louvar mais dignamente, 
Com luz divina as tuas conhecendo. 

E vendo a gloria então clara e patente 

Da tua Conceição immaculada, 

Que a culpa conhecer nem vêr consente, 

Dentro na alma por elle alumiada 
Comporei outros versos mais acceitos 
Fazendo ( pêra ser melhor louvada ) 
Do amor lingua e das lagrimas conceitos! 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz i53 



OITAVAS. 
Vida e Morte de S. Eustachio, mulher e filhos, 

I 

Se dos pais e dos filhos me fôr dado 
Favor, pêra cantar o que se escreve, 
Conforme a tudo quanto se lhes deve, 
No verso ficarei aventajado. 
O trabalho será suave e leve, 
E nos seus quatro santos Deos louvado, 
Eustachio e Theopiste d-ando a Christo 
Dous filhos seus Agapio e Theopisto. 

2 

Foi no tempo dos dous Imperadores 
Tito e Vespasiano um tal varão, 
Que por ser estremado capitão, 
Mereceo alcançar muitos favores. 
De branda, natural inclinação, 
E dotado de muitos mais primores, 
Que alem dos mais officios que servia, 
Capitão foi da mais cavallaria. 

3 
Segundo Metaphrastes concordando 
Com Joseph, escritor da antiguidade, 
Foi Plácido na vã gentilidade, 
Gentio com gentios conversando. 
Mas depois que alcançou luz da verdade, 
Neste que tem d'Eustachio trocando, 
Trocou a lei gentia, falsa, errada, 
Naquella que de Deos lhe foi mostrada. 



a54 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



4 
O tempo que das guerras lhe ficava, 
Costumava gastar andando á caça 
A' caça delles andou divina graça, 
Que nos desertos seus amor caçava. 
Com ditosa invenção, divina traça, 
Ferindo almas ditosas que sarava, 
Dos que seguindo a caça perseguindo, 
Assi mesmo persegue Deos seguindo. 

5 
Succedeu na montanha alevaniar-se 
Um cervo de grandeza differente, 
Que Plácido seguio ligeiramente. 
Sem doutro nenhum seo acompanhar-se. 
E depois de alongado da mais gente, 
O cervo que fugio anteparar-se, 
E mostra-se-lhe, estando anteparado, 
Antre os cornos Jesus crucificado. 

6 
O qual com sua voz penetrativa 

— a Porque, Plácido (diz) me persegues? 
Essa lei dos gentios, que tu segues, 

A mim de ti, a ti de mim me priva. 
Não me negues essa alma que me deves 
Comprada a sangue meo sendo cativa. 
Eu sou Christo Jesus, que te appareço 
Mercê doutras maiores, que começo ». 

7- 
Do seu cavallo abaixo se lançou 
Plácido, perturbado e esmorecido, 
E tal qual outro Paulo offerecido. 

— « Que mandaes, meo Senhor? lhe perguntou. 
Eu servo como teo servo convertido 
Prestes pêra servir-te em tudo estou. 



Obrss de Fr. Agostinho da Cruz 255 

Manda que farei quanto tu quiseres, 
Se quanto nae mandares tu me deres ». 

8 
— « Mando, disse o Senhor, que na cidade, 
Com mulher e com filhos vás buscar 
Sacerdote christão que conformar 
Na minha lei te possa da verdade, 
E depois todos quatro baptizar 
No nome da Santíssima Trindade, 
Então correndo aqui buscar-me vem 
Para te declarar o que convém ». 

9 

Os nomes dos gentios já deixados 

No bauiismo de novo outros tomaram 
Eustachio e Theopiste se chamaram 
De Plácido e de Trajano despresados. 
Os filhos seus seus nomes não mudaram 
Posto que com seus pais já baptizados 
Eustachio se tornou donde deixara 
Seu Deos, que alli tornar já lhe mandara. 

iO 

Ali seu coração posto no Ceo 
Em profunda oração seu Deos espera. 
Que cumprindo a palavra que lhe dera 
Muito mais claro então lhe appareceo. 
E dando lhe louvor do que fizera 
Lhe disse o que depois lhe aconteceo, 
Que o tentaria aquelle antigo imigo, 
Como fizera a Job no tempo antigo. 

II 

Mas que estivesse forte e confiado 
Porque nunca já mais lhe faltaria, 
Fosse quam cruel fosse a bataria. 
Do poder infernal soberbo inchado. 



25b Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Porque com sua ajuda venceria, 
E vencendo seria coroado, 
Alcançando no Geo a sua gloria, 
Devida a quem na terra tem victoria. 

12 

Dali se foi o novo cavalleiro 
Dos pés de seo Senhor, armado e forte, 
Havendo por ditosa sua sorte, 
D'ouvir e vêr a seu Deos verdadeiro. 
Não teme nenhum género de morte 
A troco de se vêr dos Geos herdeiro, 
A Theopiste dá conta de tudo, 
Tomando a paciência por escudo. 

i3 

O diabo que já andava alerta 
Pêra tentar aquella alma ditosa, 
Com peste começou contagiosa 
A dar-lhe a bataria descoberta. 
E depois de deixar a lastimosa 
Casa de quanto tinha erma e deserta, 
Dos escravos do gado e da fazenda, 
A deixou despejada e da mais renda. 

E não se contentando o duro imigo 
Com lhe tirar das mãos toda a riqueza, 
Mas inda dos imigos da pobreza, 
Tão bem lhe não deixou nenhum amigo. 
Enfim que acompanhado de tristeza 
O rico capitão no tempo antigo. 
Com filhos e mulher pobre se parte, 
A buscar seu remédio noutra parte. 

Os pais levando dous filhos meninos 
Partindo pêra Egyptu como Abrahão, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 257 

Com sua mulher assi se vão 
A sêr, como elles fôram, peregrinos. 
Mas d'Eustachio foi mór a tentação 
Forjada dos espíritos malinos, 
Que lhe tem uma náo aparelhada 
Pêra sua mulher lhe sêr roubada. 

16 

O patrão desta náo, tanto que vio 
De Theopiste a rara fermosura, 
Honesta, casta, humilde compostura, 
Tomá-la a seu marido presumio. 
E com armada mão por força pura, 
Com seus filhos Eustachio despedio, 
Que não lhe aproveitando a resistência 
Se quis aproveitar da paciência. 

Mas Deos que em casos taes não desempara 
A fraca castidade que resiste, 
Como com Sara usou, com Theopiste 
Contra o duro patrão também usara ; 
Que do seu máo propósito desiste 
E da vida que a morte aparelhava. 
Enfim que ella ficou limpa e constante, 
Como relataremos ao diante. 

18 
O paciente Eustachio qual iria 
Com dous filhos sem mãe, que alma lhe arranca, 
Cuidando como aquella ovelha branca 
Por força já trocara a companhia, 
A fonte dos seus olhos não se estanca 
Soando o nome seu que repetia : 
« O' minha Theopiste, Theopiste, 
Que tal ficar te vi qual tu me viste 1 » 

»7 



258 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



19 
Assi com seus dous filhos que levava, 
Discursando dum noutro desvario, 
Acertou de se achar junto dum rio, 
Que por aquella parte atravessava. 
Pasmado ali ficou suspenso e frio, 
Receando o perigo que esperava, 
Por ver nos tenros filhos fraca idade, 
Pêra supprir a tal necessidade ; 

20 
Dos quaes um delles só passou dalém, 
E vindo pelo que daquém deixara, 
Um lobo lhe levou o que levara, 
Um leão fez o mesmo no d'aquém. 
Enfim que sem nenhum delles ficara. 
Enquanto pelo rio vae e vem, 
Vendo dous filhos seus em doces agoas, 
Nas salgadas da mai renovar mágoas. 

21 
Tal fica o pobre pae, triste marido, 
Sem fazenda, sem filhos, sem mulher, 
E sem mais outra cousa que perder. 
Pois tinha quanto tinha já perdido. 
E depois de chorar e de gemer, 
Se lembra como fora prevenido 
Dos males e dos bens, por derradeiro, 
Promettidos a quem soffre primeiro. 

22 
« Ora (disse), pois já tenho sofridos 
Os males, dos bens tenho confiança, 
Que, posto que em chegar haja tardança^ 
Não ha que duvidar pois promettidos. 
Firme posso já têr minha esperança, 
Que males a bens foram preferidos 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 259 

Enfim que em bens por vir ou males vindos 
A Deos darei louvores sempre infindos ». 

23 

E caminhando só por terra alhea, 

Deo comsigo na aldeã de Radiso, 

Onde, como varão de muito aviso, 

A fome com trabalho remedea. 

E com muita humildade e bom juizo 

Um lavrador buscou naquella aldeã, 

Com o qual se alugou, viveo quinze annos, 

Até que Deos quis dar fim a seus danos. 

Entretanto Trajano imperador 
Desconfiado já de defender se, 
Discursando mil modos de valer-se 
Concluio-se de todos no melhor : 
Que foi se por ventura achar pudesse 
Plácido, ficaria vencedor; 
Assi com grandes prémios foi buscado 
De quem mais brevemente fosse achado. 

Dos prémios a cobiça pôde tanto. 
Posto que o rosto já perdera o cheiro, 
Que Plácido se achou por derradeiro 
Com arado na mão com pobre manto. 
Assi de lavrador em cavalleiro 
Trazido foi com gosto e mór espanto. 
Trajano não se farta d'abraçá lo 
Antes que elle se desça do cavallo. 

26 
Depois dando-lhe conta por miúdo 
Do passado na guerra, e do presente, 
O campo lhe entregou com toda a gente 
E finalmente o ser senhor de tudo. 



k 



200 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Por têr satisfação sufficiente, 
De forte, d'esforçado e de sisudo, 
O valeroso Plácido se anima, 
Sentindo já favores lá de cima. 

27 
E posto no seu Deos seu pensamento, 
Os imigos comete, fere, e mata. 
Vence, queima, destrue, e desbarata, 
Com louvor seu, geral contentamento; 
Custando-lhe a victoria tão barata. 
Que não somente foi sem detrimento, 
Mas todos de despojos carregados. 
Com Plácido se vão ricos, honrados. 

28 
Fôram-se descansar numa pequena 
Aldeã, que do campo estava perto, 
E contando mil contos por acerto, 
Ou mais certo, porque Deos tudo ordena, 
Um daquelles soldados mais experto 
Alevantando a voz clara e serena, 
Do pai, da mãi, de si, dum irmão. 
Contou vida, successo e perdição. 

Do pai que Capitão fora famoso, 

Da mãi que lhe ficara em um navio, 

De seu irmão menor, que alem dum rio 

Vivo o levara um lobo furioso. 

E tornando por elle o pai vazio, 

Vazio o pai tornou e piedoso. 

Que um leão me levou também nos dentes 

Assi se derramaram os parentes. 

3o 
Mas entendo que foi traça divina, 
A quem dou e darei sempre louvores, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz a6i 

Porque o leão bradando-lhe uns pastores, 
Sem damno meu largou sua rapina; 
Os quaes além de usar outros primores, 
Me deram panno, e pão, e mais doutrina, 
De meu irmão o caso foi igual, 
Mas não sei que ventura fosse tal. 

3i 

Eis d'antre todos um correndo grita : 

« Irmão meu, charo irmão, dá me um abraço, 

Antes que se me acabe, em breve espaço, 

A vida, sem lograr tamanha dita; 

Que como a ti também no mesmo passo 

Um lobo, sem romper a carne afflicta, 

Largou a sua presa aos lavradores, 

Como o fez o leão aos teus pastores. » 

32 

E porque de Deos fosse maior gloria, 
E elle mesmo ordenou que assi se achasse, 
A mãi que seus dous filhos abraçasse, 
Contando-lhes da vida a sua historia. 
Na qual de ser mãi sua confirmasse. 
Dos seus pequenos filhos a memoria, 
Despois a mãi e filhos ordenaram, 
Tornar-se á sua terra, que deixaram. 

33 
A mãi ao Capitão se vai vestida. 
Como naquelia aldeã andou servindo, 
E com os olhos no chão lhe está pedindo 
Licença, e provisão pêra a partida. 
Suas necessidades referindo, 
E dando relação de toda a vida, 
E levantando os olhos postos nelle. 
Conhecido foi delia, ella foi delle. 



202 Obras de Fr. Agostinho da Cruz ' 

34 

« Graças te dou, meu Deos, que me mostraste. 

(Eustachio disse), quanto me disseste, 

E que no fim de tudo concedeste 

Vêr a mulher e filhos, que guardaste, 

E por quantas mercês mais me fizeste, 

E de quantos perigos me livraste. 

Do patrão, e das feras, e da fome, 

Bento seja, meu Deos, teu bento nome. 

35 
c Da terra já não tenho que querer. 
Do Geo só a meu Deos eterno quero, 
Nelle confio só, só nelle espero, 
Que como fez, fará o por fazer. - 
Pois só por amor seu, só, puro e mero, 
E só por querer mais o bem que quer. 
Quis destes quatro seus fazer christãos, 
Que ninguém tirará das suas mãos. » 

36 
E depois de três dias descansado, 
O campo pêra Roma foi marchando, 
Donde victorioso já chegando, 
Eustachio foi de todos festejado. 
Posto que o tempo já fora mudando, 
O mando do que fora já mandado, 
Porque sendo mandado de Trajano, 
Quando veo achou, que era Adriano. 

O qual querendo dar aos immortaes. 
Antes seus falsos deoses, os louvores 
Da guerra, em que não foram vencedores, 
Os que padecem penas infernaes; 
Notou Eustachio ser dos professores 
Da lei dos baptizados capitães 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 263 



Por não querer entrar nos profanados 
Tenoplos, a falsos deoses dedicados. 

38 
E querendo vingar este desprezo, 
O cego Imperador, cruel, tyranno, 
Arreceando mais seu próprio dano, 
Mandou levar Eustachio dali preso ; 
E pêra se mostrar mais deshumano, 
Em furor infernal seu peito acceso, 
Também mulher e filhos prender manda, 
Que a fúria em cruel peito não se abranda. 

E pêra abreviar as dilações, 
Mandou levar os quatro maniatados, 
Que fossem a leões bravos lançados, 
Lançados a seus pés bravos leões ; 
De leões em cordeiros já tornados, 
Pêra abrandar os duros corações 
Daquelles infiéis, que claro viam, 
Cujos pés os leões mansos lambiam. 

40 

Manda inda este cruel, bruto animal, 
Bárbaro sem temor, e sem respeito, 
Mandou que de metal fosse um boi feito, 
Pêra se derreterem no metal. 
Da fúria que se accende no seu peito, 
Seus abrazados olhos dão signal, 
Que manda aquella mansa companhia 
Entrar naquelle boi, que em fogo ardia. 

Os martyres que noutro estão ardendo, 
Do seu divino amor aconselhados, 
Com seus olhos ao Ceo alevantados, 
Oração a seu Deos estão fazendo; 



264 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que delles e dos seus encommendados 
Geral perdão lhes fique emendado, 
De todos seus peccados concedendo, 
E de graça divina prevenidos. 

42 
Ouviram uma voz suave e clara, 
Da sua petição ser concedida, 
A palma do martyrio merecida 
No fogo, que o tyranno lhe prepara. 
A vontade dos quatro numa unida, 
Ao som daquella voz, que Deos mandara. 
Cantando pais e filhos repousaram 
No boi, em que três dias os fecharam. 

Depois que aberto foi o boi fechado, 
Os corpos destes quatro gloriosos 
Vistos foram, mais claros, mais fermosos, 
Do que dentro no boi tinham entrado; 
Que pêra si não só foram ditosos, 
Mas pêra a conversão do povo errado. 
Que de perto e de longe vem a vê-los. 
Sem lhe faltar um só de seus cabellos. 

44 
Ditoso fim de tão ditosa vida. 
Apurada no boi do fogo ardente. 
Donde filhos e pais vão juntamente, 
A possuir a gloria merecida ! 
E posto que por via diíferente 
Caminha esta alma minha enfraquecida, 
Santos, rogai por mim aparelhado, 
A sêr no vosso boi de fogo assado. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 265 



Visão de Santa Brígida. 

T 

Visão que a Santa Brígida foi feita, 
Estando em Belem, já como lhe fora 
Em Roma promettido da Senhora, 
Despois de já quinze annos mais perfeita, 
Mostrando-lhe o successo daquella hora, 
A Deos e todo mundo tão acceita, 
Do parto virginal, puro, divino. 
No qual Deos, sendo Deos, se fez menino. 

2 

Estando no presépio do Senhor, 

Em Belem, o logar donde nasceo, 

Vi uma Virgem prenhe em branco véo, 

Com vestidos subtis da mesma côr ; 

Por cima dos quaes vêr me concedeo 

A fermosa Senhora o resplandor 

Do seu virginal ventre alevantado. 

Com seu filho e seu Deos nelle encarnado. 

3 

Esta fermosa Virgem acompanhava 
Um velho de admirável perfeição, 
Que no presépio atou com sua mão 
Um asno e mais um boi, que ali estava ; 
E sahido da pobre habitação, 
Acendeo a candea que levava, 
E pregada no muro tornou fora 
Por não estar ao parto da Senhora. 

4 
A Virgem, que se vio na desejada 
Hora do parto seu, aparelhou-se, 



í66 Obras de Fr. Agostinho da Grur 

E com muita prudência accomodou-se, 
Sem sapatas, sem manto, destoucada, 
A dourada madexa derramou-se 
Por cima de alva neve desatada. 
Que luz amanheceo, que lirio, ou rosa, 
Pêra comparar Virgem tão fermosa ? ! 

5 
Trazia esta Senhora concertados 
Seis pannos para seu filho embrulhar, 
Quatro de linho e Iam pêra faixar 
Aquelles membros tenros delicados, 
E de linho outros dois pêra toucar. 
Que pôs com suas mãos assi pegados, 
Estando tudo a ponto prevenido 
Pêra se usar a seu tempo devido. 

6 
Então depois que tudo preparou, 
Em joelhos se pôs contra o Oriente, 
Deixando o presépio ao Occidente, 
Os olhos e mãos ao Ceo alevantou ; 
E transportada assi tão docemente, 
Vi mover no seu ventre o que ficou. 
No mesmo instante fora escurecendo 
A luz, que na parede estava ardendo. 



7 
E pouco de tal luz dizer me atrevo, 
Inda que muito mais dizer pudera, 
Porque a do sol mais claro escurecera, 
Sem saber escrever delia o que escrevo, 
Além da brevidade, que tal era, 
Que encarecer não sei quanto mais devo, 
Sem vêr, nem saber qual membro primeiro 
Nascido foi, nem qual o derradeiro. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 267 



Mas vi jazer no chão o glorioso 
Infante, em carne limpa, branca e nua, 
Mais branca, muito mais que a branca lua, 
Mais fermoso que o sol, que fez fermoso; 
E vi na secundina pelle sua, 
Em volta um resplandor maravilhoso, 
E neste breve espaço, que isto via, 
Ouvi dos anjos doce melodia. 



A Virgem com seu ventre despejado, 
Ficou na sua antiga compostura, 
E sentindo que já na terra dura 
Seu Deos e filho seu tinha lançado. 
Inclinada com graça e com brandura 
Lhe disse, des que foi delia adorado, 
— t Bemvindo seja aquelle que me deu 
Sêr meu Deos, meu Senhor, e filho meu! » 

10 
O menino Jesus então chorando, 
E tremendo de frio, em terra fria, 
Na qual em branda carne nú jazia 
Refrigério da mãi andou buscando, 
A qual já neste tempo o recolhia 
E cos braços seus brandos abraçando, 
De dous amores foi um só composto, 
Fazendo de dous rostos um só rosto. 



II 

A qual na terra fria se assentou. 
Pondo no seu regaço o tenro infante, 
E com seus subtis dedos num instante, 
O seu embigo brando lhe cortou. 
No qual como no mais de semilhante 
Nem sangue, nem licor outro manou, 



a68 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



E logo começou suavemente 

A pensar filho e Deos omnipotente. 

12 

E dos seus pannos dous de linho escolhe, 
Pêra seu filho tenro embrulhar nelles, 
E nos de branda lã, por cima delles, 
Seus brandos pés e mãos colhe e recolhe. 
E depois de enfaixar as brandas pelles, 
Os outros dois de linho desencolhe, 
E com elles toucados na cabeça, 
E' justo que Joseph justo pareça. 

i3 

Entrando o velho justo onde aquelle 
Senhor teve por bem de ser nascido 
No colo da Senhora já vestido 
Chorando se lançou diante delle. 
Com lagrimas d'amor oíferecido, 
Alegre com vêr quanto via nelle, 
E d'ambos ao presépio foi levado, 
E d'ambos de joelhos adorado. 



Beati qui lungent. 

I 

Se amor do Geo se cria e acha em lagrimas, 
Quem não se venderá por comprar lagrimas ? 
Que o thesouro escondido está nas lagrimas 
E a paz divina acquire se com lagrimas; 
Mas convém para vêr fructo de lagrimas, 
Fogo no coração que accenda as lagrimas, 
As asas da alma são saudade e lagrimas 
Com que voa a quem é preço de lagrimas. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 269 



2 

Magdalena tornada um mar de lagrimas, 
As culpas aíiogou vencendo em lagrimas, 
Quem antes a venceo fora das lagrimas, 
Que o que tudo não pôde, podem lagrimas. 
Pedro, que o mór milagre foi das lagrimas, 
Nos diz, depois de estar cego de lagrimas, 
Que não há luz sem Deos, nem Deos sem lagrimas, 
E que do mesmo Deos triunfam lagrimas. 

3 
.David perdido em si, banhado em lagrimas. 
Semente d'alegria chama as lagrimas-, 
Jacob chega a render anjos com lagrimas, 
D'esteril Samuel nasceo por lagrimas. 
A Ezechias, ao cego, ao ladrão, lagrimas. 
Alcançam vida, vista, gloria : lagrimas, 
A Mónica dão filho, ao filho lagrimas, 
O transformaram em Deos ditosas lagrimas. 

4 
Nas lagrimas se alcança, que são lagrimas, 
Piscina milagrosa dalma ; lagrimas, 
Do naufrágio da culpa táboa ^ lagrimas. 
São as aguas que estão sobre os ceos ; lagrimas 
Nascem da pedra, viva Jesus; lagrimas 
Só nelle como em centro param ; lagrimas 
São raios seus, que as névoas tiram; lagrimas 
São escadas do Geo, que é fim das lagrimas. 

5 
As lagrimas são vozes da alma, lagrimas 
Fim das trevas, da luz principio, lagrimas 
Pregoeiras do amor divino, lagrimas 
Settas que o peito a Deos penetram, lagrimas 
Tiros que batem o Geo e o rendem, lagrimas 
Ghaves da celestial cidade, lagrimas 



270 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Vigarias da Paixão de Christo, lagrimas 
Não se pôde louvar senão com lagrimas. 

6 

Virgem nuvem do Ceo que com taes lagrimas, 
No presépio adorastes nossas lagrimas, 
Que teve Deos na Cruz sede de lagrimas, 
E seu peno sacrário fez de lagrimas. 
Pois é terra sem agoa, alma sem lagrimas, 
E o Verbo a vós desceo, porque houve lagrimas, 
Ponde os olhos em mim pêra ter lagrimas, 
Que alcancem a promessa feita lagrimas ! 



ODE. 
Aos desenganos. 

I 

A vista derramada 

Por cima da verdura 

Dos saudosos bosques desta Serra, 

Do largo mar cercada, 

Batendo a rocha dura, 

A que de novo faz antiga guerra, 

Deixando mar e terra, 

No Ceo fica suspensa, 

Naquella antiga e nova fermosura, 

Que para sempre dura, 

Da summa perfeição, bondade immensa. 

Perdendo a natureza 

Em quanto foi d'amor divino presa. 

2 

E quando se desata, 
Tornando diíTerente 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 271 

Daquella, que da Serra se partira, 

Por que mais não se abata, 

Suave e docemente, 

Esquecida de si geme e suspira, 

Ah ! quem livre se vira 

De carga tão penosa 

Pêra poder passar 

O 'que fica da vida perigosa, 

Pois que sem resistir 

Não se livra do mal, que está por vir ! 

. 3 

A pretensão humana, 

Que na terra semea, 

Que espera colher do fruito delia, 

Entende que se engana, 

Mas não se remedea. 

Por quanto gosto tem de viver nella ; 

Por isso se desvela, 

Como se não tivera 

Conta, que dar de seus merecimentos. 

Breves contentamentos 

Seguindo vai. de que fugir devera, 

Gemidos e chorados. 

Quando podem ser mal remediados I 

4 
A cega mocidade 
Passa pelo perigo 

Sem saber que vai mal encaminhada. 
Guiada de vontade, 
Que não sente castigo 
Se não depois da culpa. 
Então alumiada 
Daquella luz divina, 
Que nunca a bons desejos desempara. 
Por via plana e clara 
Caminhar mais direito determina, 



a72 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Forte, firme, e constante, 

Sem olhar pera trás, passar avante ! 

5 
Campos, valles, ribeiras, 
Cheos de varias flores, 
Nas ervas e nas plantas derramadas 
Seccaram-se as primeiras, 
Vossas fermosas cores, 
Que nossas vistas tinham recreadas. 
Mas aquellas plantadas, 
Que no ceo aparecem. 
Dando de si mais claro desengano, 
Não se secam cada anno, 
Mas taes quaes sempre foram permanecem, 
Amostrando na terra 
A quem não busca o Ceo quanto mais erra l 

6 
Dos successos humanos 
Presentes e passados, 
Que vemos, que sentimos, que choramos? 
Os claros desenganos 
Dos tempos mal gastados, 
Por seguir gostos nossos, engeitamos. 
Mas os couces que damos 
São contra o aguilhão. 
Que não fere sem ser acouceado, 
Dos couces magoado. 
Meus mesmos pés em mim couces se dão 
De quantos mais atiro, 
De tantos contra a mim me firo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz %j3 



Canção a Nossa Senhora. 

I 

Virgem pura, escolhida, honesta, santa, 

Humilde serva, mãe, esposa, filha 

Do autor da luz, do Rei da eternidade, 

Sacrário da mais alta maravilha, 

Por quem a humanidade se levanta 

Unida no teu ventre á divindade. 

Que estylo ou suavidade 

De prosa, ou verso humano, 

Sem favor soberano, 

Te quererá louvar, que não te oftenda ? 

O raio de tua luz minha alma accenda, 

O esprito se levante a contemplar te 

Com tal fervor, que entenda 

Como te hei de servir, como louvar-te. 

2 

Virgem da providencia soberana, 

{ P'ra throno seu ) da culpa preservada, 

Que a tal Senhor convinha tal pureza, 

De tantos, tantos annos esperada, 

Por vêr aberto o Ceo com chave humana, 

E a graça triunfar da natureza, 

A spiritual riqueza, 

Por Eva já perdida, 

Por ti restituida. 

Se communica agora, eternamente. 

Ah ! quem dizer soubera o que a alma sente l 

Mas se não faJar, baste-me que amo, 

E mais efficazmente, 

Com amor, que com vozes, por ti chamo! 

18 



374 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

3 

Virgem benigna, sabia, gloriosa, 

Por quem o mundo ingrato é sustentado, 

Por quem livre se vio do reino escuro, 

Depois de tanto tempo mal gastado, 

Em vida tão incerta e perigosa. 

Em 11 só me confio e asseguro, 

Tu és porto seguro, 

De casos da fortuna *, 

Tu és firme coluna 

De nossas esperanças, Virgem pia, 

Tu és raio do sol do eterno dia, 

Que as trevas rompe e os montes nos descobre^ 

Que o Rei profeta via, 

Donde ao cego vem luz, soccorro ao pobre ! 

4 
Virgem chea de graça, admirável, 
Que o Verbo eterno, amando, concebeste 
No ventre virginal, templo divino. 
Quem não cabe nos Ceos, nelle escondeste 
Por sobrenatural modo ineffavel, 
Mysterio só de Deos e de ti dino, 
Orvalho crystallino, 
Do Verbo milagroso, 
Pão vivo precioso. 

Que a dar-nos vida eterna, do Ceo veio, 
Milagre dos milagres, que do seio 
Do Padre vio o estremo da humildade, 
E delle tira um meio, 
Que fez preço do Ceo, nossa vontade. 



Virgem, visão de paz, arca segura, 
Do diluvio geral, por Deos traçada, 
Pêra que habite a gloria em nossa terra, 
Custodia da lei, santa, immaculada, 
Que em mais perfeito gráo mosta a doçura 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz ayS 

Dos divinos preceitos que eila encerra, 

Aurora que desterra 

A noite ci'alma cega, 

Nuvem que os justos rega 

Com agoa viva do divino sprito, 

Livro em que foi por elle o nome escrito, 

Que enche o Ceo, salva o mundo, o inferno rende, 

Cujo preço infinito, 

Mostrou, posto na Cruz, quem só o entende ! 

6 
Virgem do eterno Rei, santa cidade, 
Rica, nobre, fermosa, e triunfante, 
Fira de toda a celeste architectura; 
Teu muro é de fortíssimo diamante, 
Espelho da catholica verdade, 
Por quem luz do Creador teve a creatura. 
As torres, cuja altura 
Só medem mãos divinas. 
São d'esmeraldas finas, 
Donde tua esperança a Deos namora \ 
Teus passos de rubis, em que elle mora. 
A tua caridade mostram nelle, 
Por quem o Ceo te adora, 
E a terra veio a ser mais alta qu elle. 

7 
Virgem resplandecente, que subsiste 
D'anjos acompanhada, triunfando, 
Ao thalamo em que estás sobre as estrellas, 
Com resplandor eterno, sempre dando 
Louvores ao Senhor, que cá pariste, 
A elles alegria, e luz a ellas, 
> Numero achar delias. 
Meter numa gotta o mar, 
Pesar o fogo e o ar, 

E' menos que o meu pobre engenho e rudo, 
Sendo nada tratar de quem é tudo, 



vj6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Só digo dentro n'altna, que te devo, 

Por têr-me o espanto mudo, 

Que és mais que santa, e deosa não me atrevo. 

8 
Virgem, guarda fiel do mór thesouro, 
Nova revelação do Esprito Santo, 
Em quem, de quem, por quein Deos nos foi dado, 
O Rei que a ti desceu te sobio tanto, 
Que á mão direita, em pé, vestida d"ouro, 
Te pôs, da qual David tinha cantado. 
Já tens a honra alcançado. 
Por ti profetizada, 
Que bemaventurada, 
Todas as gerações te chamariam. 
Cá de servir-te os homens se gloriam, 
E os santos, que nos Ceos com brancas vestes 
O cordeiro seguiam, 
Te cantam, sem cessar, hymnos celestes. 

9 
Virgem de gloria, e honra coroada, 

Novo sol dos celestes hori-sontes, 

A quem os Serafins servem d'estrado 

Nas cinco perennaes divinas fontes, 

Abertas na tua alma transformada, 

Em teu filho e Senhor crucificada \ 

Estava represado 

O mar de teus prazeres. 

Em que de seus poderes 

Soltou a presa, a eterna omnipotência, 

Porque houvesse nos prémios respondencia, 

Das bemaventuranças que louvou, 

Com tam alta eloquência, 

A mulher que o Evangelho celebrou. 

IO 

Virgem, por quem há tanto que porfia, 
Teu filho com esta alma ingrata e morta, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 377 

Que no Ceo bata, o busque, o peça, o queira ; 

Se elle me houver d'abrir, tu és a porta ; 

Se quer que o possa achar, tu és a guia ; 

Se dar-me bens, tu és a dispenseira, 

Tu foste medianeira 

Do despacho fermoso. 

Do ladrão venturoso. 

Magdalena, por ti, a graça achou; 

Paulo se converteu, Pedro chorou. 

Enfim, Deos pêra nós te fez mãi sua, 

Confiado a ti, vou, 

Pois o que é meu remédio, é gloria tua. 



ODE. 
Hjrtnno á Cru\. 

Insignia triunfal, honrosa e santa, 
Chave do Ceo, penhor da eterna gloria, 
Que com lesu da terra nos levanta. 

Sacrário em que ficou viva a memoria 
Do immenso amor divino, onde se alcança 
Dos imigos domésticos, victoria. 

Signal que, após diluvio, traz bonança, 
Por quem o mundo novo é reformado, 
E se converte o espanto em esperança. 

O' Cruz, minha saudade, e meu cuidado. 
Que sustentar pudeste o doce peso 
De nossa redempção, tão desejado ! 



2-jB Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

O' Cruz onde lesu sofre estar preso, 
Pêra soltar me já da culpa antiga, 
Porque o passo do Geo aie era defeso ! 

O' Cruz, pregão da paz, amor, e liga, 
Entre a divina e humana natureza, 
Arvore victoriosa, alegre, amiga ! 

O' Cruz onde se humilha a mór grandeza, 
O mór poder, mais alta magestade, 
E onde se engrandece a mór baixeza ! 

O' Cruz onde offerece a humildade 
Do meu lesu, seu sangue precioso, 
Por nós ao Padre, ó summa bondade ! 

O* bom lesu, quam manso e amoroso, 
Sofrido, brando, humilde, e obediente, 
Vos mosiraes nessa Cruz, e quam piedoso ! 

Se vos quero imitar, não mo consente 
A vaidade, ambição, soberba, e ira. 
Que tem preso o juizo, e cega a mente. 

Mas abraçando a Cruz, logo se tira 
O temor de perder-vos, e perder me, 
Quem fugira de si e á Cruz se unira ! 

Conhecer-vos pudera, e conhecer-me, 
Vós pregando amar, eu ser ingrato. 
Vós perdoar, eu nunca arrepender-me. 

Se alguma hora comigo me retrato, 
Temo de vêr quam caro me comprastes, 
Porque cousas vos vendo tão barato. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 279 

Mas pêra emenda disto me alcançastes 
Tanta graça na Cruz, que num momento 
Me entrega a vós, que a mim vos entregastes. 

Nella alcançou de vós o claro assento, 
O bom ladrão, vencendo a errada vida, 
Num breve, mas fiel conhecimento. 

Que alma haverá tão dura e tão perdida, 
Que da Cruz de lesu, vendo-se perto, 
Não seja a graça e amor restituída ? 

Soccorro universal, remédio certo, 

De quem te busca, achado em toda a parte, 

Na cidade, no campo, e no deserto. 

Quem levar sabe a Cruz, seguro parte, 

Pêra todo lugar, estado, e sorte. 

Mas quem se disporá, ó Cruz, a levar-ie ? 

Serpente milagrosa, vital, forte. 
Que só pondo-lhe os olhos, dá saúde 
Na venenosa chaga, e vence a morte. 

Dos máos é confusão, dos bons virtude. 
Com que se fortifica o espnto enfermo. 
Seguro de mudança haver que o mude. 

Tu levaste o Baptista ao Ceo do ermo, 
Paulo do cego horror, Pedro da rede, 
Magdalena da culpa, a amar sem termo. 

Ah 1 quem de ti, Cruz santa, houvera sede, 
Correndo ao lado aberto, sacra fonte. 
Correi todos, amai, esperai, crede 1 



a8o Obras de Fr. Agostinho da Grut 

O' glorioso calvário, monte santo, 

Que em breve espaço ajuntas Ceo e terra 

Pêra dar luz a um e outro horisonte. 

O' soberana Cruz, onde se encerra 
O mais alto mysterio, ó Cruz divina, 
Principio da mór paz, fim da mór guerra. 

Columna dos apóstolos, doctrina 
D'Evangelistas, santa e verdadeira, 
Que alma guia, arrebata, accende, afina. 

Dos gloriosos Martyres bandeira, 

E justificação dos Confessores ; 

Das Virgens guarda, luz, firmeza inteira. 

Ah ! honra e salvação de peccadores, 
Leva-me, após meu Deos, todo influído. 
Nas chagas de lesu e nas suas dores. 

Renove se outro sêr no meu sentido, 
Outro amor e aífeição, que me transforme, 
E eu seja ao mundo e elle a mim perdido. 

Triste de quem descansa, espera, e dorme 
Nos prazeres da terra, emascarados, 
Cujo fructo é pesar e fim disforme. 

Eu só da Cruz me fio, onde os cuidados 
Param todos em Deos, que faz suaves 
O jugo, pena, dôr dos mais tentados. 

Peço-te, minha Cruz, que esta alma encraves, 
Com esse Redemptor, verbo divino, 
E na sacramental piscina a laves. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 281 

Mas quem de tanta gloria será dino, 
Que voe do mais baixo á mór altura. 
Quem se inclinar á Cruz, que me inclino ? 

As aves quando voam na figura 

Da Cruz, se alçam da terra, e o Ceo alcançam, 

Que esta só faz voar toda a creatura. 

O' venerável Cruz, com que se lançam 

Os demónios confusos e vencidos, 

E as tempestades d'alma se abonançam. 

Em ti prendo as potencias e os sentidos, 
Cos olhos em Jesus, que por levar-me. 
Espera tanto, ah ! c'os pés detidos. 
Que só lesu e a Cruz podem salvar me! 



ELEGIA. 
A' Quinta-feira da Cea do Senhor. 

Que lingua, que saber, que estylo ou arte, 
Comprenderá, Senhor, vossa grandeza, 
Pois nunca foi capaz de toda a parte ? 

O' incessavel mina de riqueza, 
Spiritual, eterna, sem medida," 
Abysmo, onde não vai nossa rudeza ! 

Pois vós verdade sois, caminho, e vida, 
Dai luz, guia, fervor, e esprito vosso, 
A esta, com que em vós fique influída. 

Que quando ofFerecer tudo o que posso. 
Partindo só de mim, sem peito, entregue 
De todo ao vosso amor, livre do nosso ! 



aSa Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Mudo parecerei, por mais que pregue, 

Que saber vos louvar, de vós se aprende, 

E sempre alcança mais, quem mais vos segue. 

E pois, só quem vos ama vos entende, 
E não há amar sem sêr de vós amado; 
Amai, a quem só dar-se-vos pretende. 

Lembro-vos, meu Senhor, que é já chegado 
O tempo de render a omnipotência. 
Ao peccador mais pobre e desprezado. 

Estai por graça, em mim, dai-me vehemencia 
De caridade, com que hoje vos cante, 
Pois sois principio e fim da mór sciencia. 

Já todo humano sprito se levante. 
Pois tanto, meu Jesus, vos abaixastes, 
Pondo a vingança atrás, o amor diante. 

Hoje trouxestes Deos, homens levastes, 
A divida pagaes, que outrem cjevia, 
Mas tudo padecei, pois tudo amastes. 

Grande, maravilhoso, alegre dia. 

Dos thesouros do Ceo mór pregoeiro. 

Em que dos homens Deos mais trata e fia! 

Dia que o celestial, manso cordeiro, 
Seu corpo e sangue deu por mantimento, 
Descanso e lume d'alma verdadeiro! 

O' ineffavel, santo sacramento, 

Onde o juizo pára e perde o tino, 

E a fé triunfa em nós, do entendimento 1 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 283 



Mysterio incomprensivel e só dino. 

Da sapiência do Padre, que elle encerra, 

Diluvio universal do amor divino ! 

Amor que fez prostrar lesu por terra, 
A pés de mortaes, fracos peccadores, 
Por fazer cum desprezo, ao outro guerra. 

Ah ! Rei dos reis, Senhor sobre os senhores, 
Que até a ludas cego, ingrato, imigo, 
Dás de perdão e amor tantos penhores ! 

Porque se o coração leva comsigo. 

Ao menos os pés fiquem damor presos, 

Mas cobiça não quer Deos por amigo. 

E vendo a ingratidão e o ódio accesos. 
Pondes justiça e amor logo em balança. 
Mas a do amor levou todos os pesos. 



Ah ! quem pusesse os olhos na lembrança 
De tam raro triunfo de humildade, 
Pêra pôr só em Deos toda a esperança ! 

Aqui venceo o amor, a magestade 
Divina em desafio, e por memoria 
Lhe deu trajo servil de humanidade \ 

No qual promette, em pago da victoria, 
Neste exemplo tam santo e necessário. 
Dar por alhea culpa a própria gloria. 

Inexorável, pérfido, falsario. 

Pois teu mestre e senhor a ti se entrega, 

Que esperas noite e sitio solitário ? 



284 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Por prata dás um Deos, que os pés te rega 
Com lagrimas ardentes e amorosas ; 
Ah ! troca desigual, horrenda e cega ! 

Se te move interesse nas piedosas 

Mãos de Jesu, tens mais do que aceitaste 

Das Ímpias, farizaicas, rigorosas. 

Mal te lembrou o emquanto avaliaste 
O unguento de Maria, há poucos dias, 
Quando em tão pouco a Christo arremataste. 

Em trezentos dinheiros inda havias 

O licor dado a Deos, por mal vendido, 

E em trinta hás que a Jesu mui bem vendias. 

O' coração de tigre, endurecido. 

Que a quem mais te honra e ama, mais offendes, 

Do teu Deos e de ti tão esquecido ! 

Porque o conheces mal, por isso o vendes, 
Deixas de o conhecer, porque o desamas, 
E porque amor não tens, não te arrependes. 

Quanto o peito de Christo arde em mais chamas 
De amor. por reduzir-te ao grémio santo, 
Tanto obstmado o teu mais d'ira inflammas. 

De sofrer-te Jesu nada me espanto. 
Mas tremo de cuidar na recompensa 
Que dás a este Senhor, que te dá tanto. 

Elle beija teus pés com dor immensa, 
Tu com beijo de paz, á morte o levas, 
Nova misericórdia e nova ofíensa. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz a85 

Cuida bem na traição em que te enlevas, 

Olha que sem Jesu tudo é inferno, 

Mas como verá a luz quem vive em trevas? 

A todos deu remédio o Verbo eterno, 
A ti, por membro alheo, já te engeita, 
E te risca do seu vital caderno. 

A doctrina, milagres, vida estreita, 

Que ao choro e luto, seu divulgar manda. 

Confirma aos onze, em ti nada aproveita. 

Por lavar igualmente a todos anda, 

Mas tu ficas mais torpe, elles mais puros, 

Qual sol que o barro secca, e a cera abranda. 

Claro annuncio de teus males futuros, 
Passar Jesu por ti, e os pensamentos 
No desejo do mal ficar seguros. 

A Pedro os passos move e movimentos 
D'espanto, nelle faz ver tal, quem antes 
Lhe entregou sua Igreja e Sacramentos. 

Pasma das mãos divinas, triunfantes, 
Pedir-lhe os pés, duvida, cuida e teme, 
E busca de os negar rezóes bastantes. 

Sem poder formar vóz, suspira e geme 

Vendo-se peccador, e que os peccados 

Põem a seus pés um Deos, de que o Ceo treme, 

E cos olhos em lagrimas banhados, 
Tornando em si, lhe diz: — « como é possível, 
Que hajam de ser meus pés de vós lavados ? 



286 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

c Eu fraco peccador, vós Deos terrivel, 
Eu sombra vã, vós sol divino e puro, 
Eu limitado, vós incomprensivel. 

í O servir-vos é meu, isso procuro, 
Vosso o crear, o remir, o dar-me graça, 
Mas lavar Christo a Pedro, é caso duro ! » 

— « Isto que faço agora te embaraça, 
Lhe responde Jesu, e não no alcanças, 
Mas vê-lo-has alcançar depois que o faça. » 

O discípulo entregue inda ás mudanças. 
Que o peito combatiam, não consente, 
E resoluto, diz, sem mais tardanças: 

— « Meus pés não lavareis eternamente ; 
Perdoai-me, benhor, pois vos conheço, 
Ser nisto mais cortez, que obediente. 

« No ai, como a meu Deos vos obedeço, 
Por tal vos confessei, por tal vos tinha, 
Por tal vos nego, os pés e alma oftereço. » 

— « Refusas o que tanto te convinha, 
Repete o Redemptor, não te lavando, 

Não terás parte em mim, nem cousa minha. » 

O Apostolo, tremendo e desmaiando 
De ouvir tal ameaça, antes que creça 
Mais a culpa, as palavras apressando, 

Responde : — a Senhor, pés, mãos e cabeça^ 
Lavai, fazei de mi quanto quiserdes. 
Não me aparteis de vós em que o mereça. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 287 

c Se no centro da terra me puserdes 
Na região do ar, no fogo e na agoa, 
Alegre estarei lá, se em mim estiverdes. 

t Sem vós, a vida é morte, o prazer mágoa, 
O descanso trabalho, a gloria pena, 
O ar, de que respiro, ardente frágoa. 

€ Creatura sou vil, baixa e pequena, 
Mas vossa e pêra vós, e isto mais monta. 
Que os erros que a ignorância minha ordena. 

< E pois, fazeis de mim, ao lavar, conta, 
Levai me á Cruz também, que não é justo. 
Que achando-me ás mercês, falte na affronta. 

€ Lembrai-vos, meu Creãdor, quanto vos custo, 
Não me fieis de mim, convosco acabe. 
Pois de vós me há de vir não sêr injusto. 1 

Mas Jesu, como todo o porvir sabe, 
E vê chegar-se tanto a hora sua, 
Testemunha do amor, que nelle cabe, 

A Pedro atalha e quer que se conclua 
O lavatório já, por ir-se ao monte 
Donde, dando-se a nós, o imigo exclua. 

E pondo-se aos discípulos defronte. 

Os avisa e doutrina e nelles fica 

Do seu immenso amor, abrindo a fonte. 

O' fonte perennal, divina e rica, 
Que alimpa, sara, salva, alegra, farta. 
Consola, nutre, anima e fortifica 1 



a88 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Depois de ensinar todos, tres aparta, 

E com elles se vai trás o desejo, 

Que sem deter-se um ponto faz que parta. 

Quam desagasalhados ficar vejo 
Os discipulos órfãos e saudosos, 
Que tem asas no amor, nos passos pejo. 

Presos da obediência, os chorosos 

Olhos e corações a Jesu seguem. 

De o não seguir co mais bem pesarosos. 

E depois de o não ver onde assosseguem, 
Os spiritos não acham, co a dor bramam, 
Até que á mesma dor a vida entreguem. 

Buscam o seu Jesu, por elle chamam, 
Todos o acham •, menos nenhum ousa 
Persuadir-se, que é ido, porque o amam. 

O' bom Jesu, em quem a alma repousa, 
Em quem só se aquieta e se recrea, 
Esquecendo por vós toda outra cousa. 

A que mais se vos dá, menos recêa 
Os laços, tantaçÔes, sombras, vaidades, 
Que sendo imagem vossa, a fazem fêa. 

A minha de amor chêa e de saudades 
Vos entrego, Senhor, inda que indina. 
Com vosco ma levai, ou não vos vades. 

Com voscD ma levai, pois determina 
De mim tanto alhear-se, até que veja 
O fructo em si, que dá vossa doutrina. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 289 



Com vosco ma levai pêra que seja 

Na gloriosa paixão habilitada, 

E alcance a parte delia que deseja. 

Com vosco ma levai á Cruz pesada, 
A' columna, á cadea áspera e grossa, 
Aos espinhos, ao fel, não fique nada. 

Com vosco ma levai, porque não possa 
Haver cousa no mundo que a detenha, 
Tendo-a, meu bom Jesu, toda por vossa, 
Pêra que ella, por seu todo, vos tenha. 



) 



ELEGIA. 

Na ribeira do Lima fui nascido, 
Na do Mondego e Tejo fui creado, 
E na serra, em que vivo envelhecido, 

Onde esperando estou o desejado 

Fim dos meus longos annos mais vizinho, 

Quanto de cada vêz mais alongado. 

Assi vou, pouco e pouco, meu caminho, 
Não sem queixas da dura natureza. 
Em cuja companhia ainda me espinho. 

Que mais custa abrandar sua dureza 
Importuna, cruel, que padecer. 
Quanto sofrer se pode de aspereza. 

Pois tantas quantas v^zes commetter, 

Não basta sêr de todas resistida. 

Se não que em todas sempre hei-de vencer. 

'9 



igo Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que te posso fazer, alma ferida, 
Que em tanto se dilata tua cura, 
Emquanto te sentir endurecida. 

Olha, de cujo Deos és creatura, 
Olha, em cujo sangue resgatada ; 
Ah ! nâo se perca em ti sua feitura 1 

Ainda que no cabo da jornada, 

Com poucas forças vamos caminhando, 

A porta do Geo nunca está serrada. 

Do pouco que podemos trabalhando, 
Não deixamos do pouco que podemos 
De accrescentar no muito desejando. 

Enfim, que em não poder, não reparemos 
Da fraqueza da carne aconselhados, 
Pois não pode tolher, que desejemos. 

Que desejos d'amor continuados. 
De novo criam forças, reverdecem, 
Com sangue do Senhor na Cruz regados. 

Os cravos, que nas rosas apparecem, 
Daquelles pés e mãos atravessados. 
Esforçam, dão vigor, e fortalecem. 

As carnes á columna dura atadas, 
Açoutadas, pisadas e moidas, 
Nunca das minhas sejam desatadas. 

Pois por querer sarar nossas feridas, 

Nellas não ficou parte por ferir. 

Nem dor de que não fossem consummidas. 



I 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 291 

Mas não que se podesse consumir 
No Senhor a clemência do perdão, 
Que pêra os malfeitores quis pedir. 

Ouvindo, que em lugar de galardão, 
Não deixaram ali de blasfemar, 
Do que morre por sua salvação. 

Que nem bastou na Cruz pregado estar, 
Coroado d'espmhos, o Senhor, 
Pêra sua crueza se fartar. 

No meio dos ladrões o foram pôr, 
Que buscando lugar mais affrontoso, 
Não puderam achar outro peor; 

Onde seu brando peito piedoso, 
Depois de morto, abrio o povo imigo. 
Por não ficar da morte duvidoso. 

Não me deixe ficar amor comigo, 
Sem á columna atar meu pensamento, 
Ou na arvore da Cruz pregar corasigo. 

Pode sêr que alguma hora o sentimento, 
Dentro desta alma minha suba tanto, 
Que faça de mim doce apartamento. 

E quando não puder chegar a quanto 
Se deve, a tal Senhor, tal amor seu, 
Comigo ficarei fazendo pranto. 

Que quero aqui neste ermo mais de meu. 
De quanto esta alma minha mais deseja, 
Que dar-me a quem por mim todo se deu? 



292 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Que se saber não posso qual esteja 
No meo, de todo seu, lhe ser acceito, 
O seu não pode ser, que alheio seja. 

As maravilhas vejo que tem feito, 
Sarando d'alma e corpo peccadores, 
Dos quaes um leva ás costas o seu leito. 

Chamou do mar os pobres pescadores, 
Pêra fazerem de homens pescaria, 
Nos fins da terra toda pregadores. 

Elle diz que é verdade, vida e via, 

Que tomou, por salvar-nos, carne humana, 

Da rainha dos Ceos, Virgem Maria, 

De cujo bem dos bens todo bem mana. 



Elegia da Arrábida. 

Comvosco e dentro em vós, Serra batida 
Mais das ondas humanas, que marinhas. 
Cantarei, como cisne, a despedida. 

Testemunha sois vós das queixas minhas, 
E porque quero, mais antes que gente, 
As feras e serpentes por vizinhas. 

Tanto, que nem d'amigo, nem parente, 
Inda agora não faço difterença. 
Se seu amor do meu for dififerente. 

A nenhum delles nisto faço oífensa, 
Se algum seu interesse só pretende, 
Pois iielle só consiste a desavença. 



Obras de Fr. Agostinho da Crux 293 

Experiência tenho do que rende 
A palavra sem obra confirniada, 
Que em vão pêra comigo se despende. 

Resposta, que mil vezes tenho dada 
A quem já sei que nada dar-me quer, 
Que pois nada quer dar, não quero nada. 

Nem elle de mim deve de querer 
Levar-me sem nenhum merecimento, 
O que me doe a mi, sem lhe doer. 

O descanso do doce pensamento, 

O repouso do livre coração. 

Não se deve perder um só momento. 

Qual deve ser a minha pretensão 

Antre os bosques desertos, velho e enfermo, 

Se não não ver em mi um só senão ? 

Os juizos rasteiros dos do termo. 
Que todos, o qual mais me perseguia, 
Já por mercê de Deos, fizeram termo. 

Que quem dos seus ardis me defendia, 
Ordenou redundar em meu proveito, 
Quanto mais encontrá-lo parecia. 

Finalmente, que nunca fora feito, 

O menos do que a mi mais me importava, 

Se entortar não quiseram o direito. 

Tanto na paixão sua se cegava 

O que mais trabalhou por me lançar. 

Que não vio que de muro me cercava. 



294 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Ora já que me deixam descansar, 
Trabalharei de novo, descansado, 
Por nada já da terra me cansar. 

De todo em todo tão desapegado, 
Que não me lembre viva creatura, 
Nem queira de nenhuma ser lembrado. 

Passando os olhos meus pela verdura 
Das plantas, que plantou a natureza. 
Me mostraram no Geo nova pintura. 

Onde a minha alma em puro fogo accesa, 
Não sinta, nem consinta, outro desejo, 
Se não ficar d'amor divino presa. 

Em cuja clara luz mais claro vejo 
Por onde caminhar posso seguro, 
Emquanto agora a terra não despejo. 

Não vejo Job lançado no monturo. 

Queixoso de amigos carregosos, 

E como assi dos meus mais me asseguro. 

Não vejo o de que são mais cobiçosos. 
Que pretendo do mundo falso e cego, 
Por passos de caminhos perigosos ? 

Mas porque brado em vão, ou a quem prego, 
Se não a mim, de mim tão esquecido, 
Que do meu próprio bem me desapego? 

Quanto em menos tempo tem colhido 
O fruito que se colhe trabalhando, 
Que, por não trabalhar, tenho perdido? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz agS 

O que daqui me fica magoando, 
Determino emendar pelo mais certo 
E mais breve caminho, caminhando. 

Sem me desviar, já, neste deserto, 
Por atalho nenhum, nenhum rodeo, 
Senão pelo que fôr do Ceo mais perto. 

Não me venha turbar o gosto alheo, 
Que menos penitencia diz que basta. 
Porque a virtude, diz, consiste em meo. 

Em vão pêra comigo o tempo gasta. 
Quem mais quer alongar meus longos dias, 
Que a morte, inda que tarda, não se afasta. 

Venha quando quiser, por quaesquer vias, 
Que por nenhuma já pôde vir cedo 
Despir as enrugadas carnes frias. 

Deixe-me o coração arder um Credo 
Naquelle amor divino a quem me dei, 
Enquanto vivo aqui neste degredo. 

No meo Deos, em quem só me confiei, 
Porque por mi pregado foi na Cruz, 
Confiado só nelle acabarei, 
Chamando por Maria e por Jesus. 



ELEGIA. 



Quantas vezes cuidei, que me apartava 
Pêra mais não vos ver. Serra deserta, 
E conforme a razão, não me enganava. 



296 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mas inda a sepultura tenho aberta, 
Que quanto a morte vem mais devagar, 
Tanto de tardar pouco está mais certa. 

Entretanto, mais quero conversar 

Com brutos animaes, que não com gente, 

Que descansar não quer, sem me cansar. 

De que fera cruel, brava serpente, 
Se vio no bemfeitor a mordedura, 
O cabello enriçar, bater o dente ? 

E se do que padece mais se apura 
Na paciência seu merecimento, 
A perdê-la mais vezes se aventura. 

Por isso eu, como fraco, me contento, 
Com fugir, donde vim, também mordido, 
Que não se estende a mais o meu talento. 

Só na minha choupana, recolhido. 
No silencio da Serra me suspendo. 
Dos humanos agravos esquecido. 

Que busco, porque espero, que pretendo. 
Tanto monta no mar, como na terra, 
Onde com suspirar olhos estendo ? 

Vestida de verdura vejo a Serra, 

O mar, por muitas vezes, de mil cores ; 

Umas horas de paz, outras de guerra. 

Assim nem sempre podem pescadores 
As redes estender na agoa salgada, 
Nem lavrar sempre a terra os lavradores. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 297 

Que nem sempre ser pode cultivada, 
Nem sempre recolher a sementeira, 
Sem ser da mão divina temperada. 

Tal herança deixou a mãi primeira 
Aos tristes filhos seus, de tal herança 
Convinha a alma também ficar foreira. 

Assi que se faltar a temperança, 
No povo do Senhor não deixaremos 
De vêr, na terra e mar, destemperança. 

Por tanto nos convém que trabalhemos, 
Caminhando por onde caminhou 
Aquelle a quem conta dar devemos. 

Alembrados de quanto lhe custou 
Sêr preso dos Judeos, como ladrão, 
No horto, que de seu sangue regou. 

Onde por Judas foi dado á prisão, 
E por imigos seus preso e levado 
A padecer por nós morte e paixão. 

De açoutes na columna carregado, 
Com sua Cruz ás costas caminhando, 
Pêra nú padecer nella pregado. 

De rogar a seu Padre não cessando, 

Por aquelles ingratos, cobiçoso 

De dar a vida a quem lha está tirando. 

Escurécese o sol claro e fermoso, 
Choram seu Creador os elementos, 
O feito foi cruel, mas proveitoso. 



298 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Confiado nos seus merecimentos, 

Acabarei o pouco que me resta 

Em levantar da terra os pensamentos. 

De que me serve a mi, ou que me presta, 
Tudo quanto ter posso em toda a vida, 
Senão pêra pagar a quem ma empresta ? 

Qual branda cera ao fogo derretida, 
No fogo do meu Deos minha alma seja, 
Quer sarada por elle, quer ferida. 

Onde quer que estiver com elle esteja. 
Esteja com seu Deos, sua cativa. 
Sem elle só um momento se não veja. 
Com elle morra, só com elle viva. 



ELEGIA. 

Deixei de cantar já, como sohia. 
Por ver se poderia, não cantando. 
Seguir o summo bem de que fugia. 

Que pouco vai cantar suave e brando. 
Nos ouvidos de quem não tem brandura, 
Perdendo quanto mais sinto calando. 

O bosque que se veste de verdura, 
Vestem os meus desejos d'esperança, 
Obra do Creador na creatura. 

O mar também me faz sua lembrança 
Com suas próprias ondas variadas, 
Quando mais se enbravece ou se amansa. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 299 



Finalmente que dou por escusadas, 
Palavras das humanas creaturas, 
Pois estas faliam mais sempre caladas, 
Doces versos envoltos em branduras. 



De contemplar procede o sentimento, 
Que deixo de lograr mais docemente, 
Quanto menos quieto, o pensamento. 

Mal se pode escrever o que se sente. 
No meio do silencio sepultado, 
Consumido de amor em fogo ardente. 

Não quer ouvir o mal acostumado 

A quem curar deseja seu defeito, 

Mais quer não se curar, que ser curado. 

O mal que agasalhou dentro no peito, 

Inclinou a fazer sua vontade, 

Sem medo, sem vergonha, e sem respeito. 

O que mais claro vir esta verdade, 
Não tem pêra que mais se desvelar 
Em versos da divina saiidade. 

Sem syllabas medir, e sem trovar, 
Se logre dos conceitos, que de cima 
Pelo de cima, fazem suspirar. 

Escuse de limar em prosa ou rima, 
Porque sem se limar a rima ou prosa, 
Nem por isso no Ceo menos se estima. 

Não deixa de cheirar melhor a rosa. 
Por se colher nascida das espinhas. 
Sem desfolhar-se, fica mais íermosa. 



Soo Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Das prosas que limei, das rimas minhas, 
Que proveito colhi, senão vergonha, 
Nas estranhas nações e nas vizinhas ? 

Não falta quem me diga, que componha 
Versos pêra accender os frios peitos, 
E que pelos compor me descomponha. 

Bem posso descubrir novos conceitos, 
Bem posso repetir os descobertos. 
Mas mal posso crear brandos sugeitos. 

Os caminhos do Ceo estão abertos 
Pêra quem mais quiser correr a posta, 
Que eu já me aposentei nestes desertos. 

A quem me pede aquillo de que gosta, 

Ou quer do temporal o que deseja. 

Que sou mór peccador, dou por resposta. 

Quero-lhes dar, enfim, que poder seja, 
E mais que seja tudo á custa minha, 
Será quando de Dcos mais perto esteja. 

A Senhora que tenho por vizinha, 

E' rica, liberal, e não se enfada. 

Pois é branda em ouvir, era dar rainha. 

O que geme e suspira, grita e brada, 
Por despacho da sua petição. 
Não perde por lhe sêr mais dilatada, 
Pois assegura mais a salvação. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 3o i 



Elegia penitencial. 

Aqui neste deserto, sêcco e pobre, 
Só de medonhos monstros habitado, 
Que a morte com sua sombra cobre, 

Nesta imagem de bruto transformado, 
Por mão da consciência vingadora, 
Sou todos os momentos castigado. 

E se alevanto os olhos alguma hora 
Ao Ceo, que não cansa de chamar-me 
Por ver se minha sorte se melhora *, 

Ainda bem não tento levantar-me. 
Quando outra vêz me abaixa a gravidade, 
De que eu tão sem razão quis carregar-me. 

E foi tal minha prodigalidade, 
Com que desbaratei tanta riqueza, 
Nos jardins encantados de vaidade, 

Que quando agora a força da pobreza 
Me offerece, entre brutos, mantimento. 
Sei que meto em afFronta a natureza. 

Lembra-me aquelle ingrato pensamento, 
Que como Jeroboão se levantou 
Contra o throno real do entendimento. 

E tanto que por Rei se coroou 
Como Ídolos, em alto levantados, 
Os seus próprios conceitos adorou. 



3o2 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Lembra-me aquelles bárbaros cuidados, 
Que com profanos fogos abrazaram 
Os edifícios pêra o Ceo lavrados. 

E depois que ao iuizo a luz tiraram, 
Como Nabuzardão, com sua gente, 
Os propósitos santos profanaram. 

Lembra-me o aviso vão, que ousadamente 
Os segredos do Ceo saber queria, 
Também como Saul desobediente. 

Até que em tantos dias veo um dia. 
Que lhe pôs a cabeça pendurada, 
Onde sua soberba merecia. 

Lembra-me a affeição, mal empregada, 
Que entre apetites máos ficou por terra, 
Qual outra lesabel despedaçada. 

Mas é tal o veneno que se encerra 
Nestes pedaços que ficaram delia, 
Que assi despedaçada me faz guerra. 

Lembra-me, sobre tudo, a nobre estrella, 
Que com o Divino lume resplandece 
Nesta alma que algum tempo foi tão bella, 

E se por mercê sua o Ceo quisesse, 
Que este lume de lá favorecido 
Noutro lume d'amor se convertesse. 

Quão prestes fora nelle consumido, 
Este profano altar onde amor cego 
Com tantos sacrifícios, foi servido! 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 3o3 

E postos meus desejos em sossego, 

O rebelde estandarte recolheram, 

Que eu tantas vezes com o Ceo desprego. 

Bem sei que ao contrario mereceram 
Minhas desordens, que com tal soltura, 
No caminho da morte se perderam. 

Mas vós, Senhor do Ceo, que a fermosura 
Do vosso rico amor communicastes 
Tão largamente a toda a creatura, 

Obrai agora em mim o que já obrastes, 
Quando entre gente tão desconhecida 
Tantos raios de amor manifestastes ; 

Que sou aquelle Lazaro sem vida, 

Que a graça, que por graça esta alma tinha, 

Com tanto damno meu tenho perdida. 

E posto que faltei quando convinha, 
Vossa misericórdia é tão immensa, 
Que não pode encurtá-la a falta minha. 

Sou aquelle leproso, onde a detença 

De tantas culpas tão contagiosas, 

Só com o exemplo seu faz tanta oôensa. 

Culpas de cada vez mais perigosas. 

Pois o mesmo uso máo que mas sustenta, 

Só pelas não deixar mas faz fermosas. 

Sou o mudo a que o Ceo se representa. 

Rico de preço, pêra libertar-me 

Deste Senhor cruel, que me atormenta. 



3o4 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mas o sprito que houvera d'ajudar-me, 
De sorte neste cárcere emmudece, 
Que não sabe pedir-lho e resgatar-me. 

Sou aquelle doente que parece 

Paralytico, já desconfiado, 

De quem o mundo seu também se esquece. 

E se por vós não fora remediado, 
Esta fé que assi sêcca está comigo. 
Iria também por presa do peccado. 

Sou o cego, que traz ura mal que sigo. 
Os mal guiados passos, tão mal rejo, 
Que dum perigo, vou noutro perigo. 

E pôs-me tantas névoas o desejo 

Na luz, com que a alma ennobrecestes. 

Que a mim mesmo me busco e não me vejo. 

Vós que os remédios todos nos pusestes 
Nessa Cruz onde a gloria se conquista, 
Dar-me delia podeis, como já destes. 
Vida, limpeza, fala, força e vista. 



ELEGIA. 

A Dona Mar ianna, filha do Duque de Aueiro, 
incitando-a e animando-a a ser religiosa. 

Daquella que cantei felices annos, 
A que sendo de poucos promettia, 
Sabendo desprezar gosios humanos. 



Obras de Fr Agosrinho da Gruz 3o5 



Se verdadeira foi a profecia. 
Agora se vê nella já mais clara 
Do que se pode vêr a luz do dia. 

Pois nesta tenra idade inda não pára 
De subir para o Ceo, firme e segura, 
A' vontade de quem tal a plantara. 

Cultivada com tanta fermosura, 
Com tanta gravidade tão estranha, 
Que as flores apparecem na verdura. 

As lagrimas d'amor em que se banha, 
Que lá de cima estão nella chovendo, 
Com suaves suspiros acompanha. 

Ditosa quem na terra está colhendo 
As rosas, que do Ceo estão cahindo 
No fogo, que com ellas vai crescendo ! 

E quanto cresce mais, mais vai subindo 

Levando lá comigo o sentimento, 

Que das brandas entranhas vai fugindo. 

Daqui não passa avante o pensamento, 
xMas se não vem de dentro o coração, 
De fora pôde vir o fundamento. 



Na sua branda e doce inclinação, 

Na sua bem composta natureza, 

Que Deos governa e tem da sua mão; 

Mostrando-lhe o caminho da pureza, 
Por onde o mesmo Deos quis caminhar, 
Fazendo aos caminhantes a despesa. 



3o6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Não haja quem te possa desviar 
Do caminho que levas acertado, 
Que muitos não quiseram acertar. 

Aquelle que lançou mão ao arado, 

Olhando pêra trás se fez indino 

Do bem, que já bem tinha começado. 

Sem caminhar não chega o peregrino 
A se vêr no lugar que desejava, 
Quanto mais quem deseja amor divino. 

Achou a Magdalena o que buscava, 
Porque perseverando amor buscou, 
E com buscar achou a quem tanto amava. 

Na sua petição perseverou 
A Cananea firme e confiada, 
E cora perseverar tudo alcançou. 

A justa petição perseverada, 
Deante do Senhor é concedida, 
Posto que por bem nosso dilatada. 

Entende que sem ser favorecida. 
Do Senhor que desejas de servir, 
Não poderás deixar de sêr vencida. 

Mas pois te não fizeram desistir 
Os imigos do bem que determinas, 
Armas não terão já com que ferir. 

Armada forte, tu, d'armas divinas, 

Da progénie real de que nasceste, 

Que são do Redemptor as cinco quinas. 



Obras de Fr. Agostinho da Crui Zoj 

E com estas, enfim, enfraqueceste 
O poder infernal em tenra idade. 
No primeiro combate que venceste. 

Ora pois te falece liberdade 
F'era se concluir no que desejas, 
Repousa na divina satldade. 

Que posto que de mim absente estejas, 

Daqui te levarei por esta Serra 

Por parte donde o Ceo mais perto vejas. 

Verás ondas marinhas fazer guerra, 
Combatendo penedias encurvadas. 
Que defendendo estão a fraca Serra. 

Verás no mar Oceano alevantados 
Os golfinhos dar saltos pêra o Ceo, 
Da fermosura delle convidados. 

Verás mais claro o sol donde nasceo, 
As nuvens variar de cem mil cores, 
E doutras tantas donde se escondeo. 

Verás por toda a parte donde fores. 
As entranhas das duras penedias 
Abertas e cobertas d'alvas flores. 

Verás tanto abraçar plantas sombrias, 
Que façam próprios seus braços alheios. 
Mostrando o sêr reaes, celestes vias. 

Verás d'animaes brutos montes cheos, 
Dos homens racionaes arreceosos, 
E da brutal presa tem receos. 



3q8 Obras de Fr. Agostinho da Grui 

Verás dos baixos valles satidosos 
Alevantar, cantando os passarinhos, 
Do Geo mais que da Serra cobiçosos. 

Verás dos verdes bosques mais vizinhos, 
Donde foram nascidos sahir fora, 
E vir a vizitar-me os meus bichinhos. 

Verás junto da casa da Senhora, 
Por cima dos rochedos retorcidos. 
Os passos da Paixão pintar agora. 

Contados, meditados, e- medidos 
Do Senhor desta Serra, renovando 
Aquelles com que nós fomos remidos, 
Nos quaes te deixo agora contemplando. 



ELEGIA. 
A Jesu na Cru'{. 

A ti, bom Jesu, que tanto offendi, 

A ti repouso dos atribulados, 

Firme esperança de quem espera em ti \ 

A ti peço perdão de meus peccados. 
Tão dinos de temer e de chorar. 
Pouco de mim temidos e chorados. 

Por elles, ó meu Deos, te vejo estar 

Crucificado nesse duro lenho. 

Por elles tardei tanto em te buscar. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz Sog 

Não me engeites, Senhor, se tarde venho, 
A culpa de temor me está cercando, 
Segura-me a esperança que em ti tenho. 

Se te viram. Senhor, estar rogando 
A teu Eterno Padre por perdão, 
Daquelles que te estão crucificando ; 

Se dizes com voz doce ao bom ladrão 
« Hodie mecum erts in paradiso » 
Que querem medos, como se não vão ? 

Mercês tamanhas feitas d'improviso 
Me fazem ter mui certa confiança, 
Que não entrarás commigo em juizo. 

Se te meus erros movem a vingança, 
Lembra-te que por mim puzeste a vida, 
Abranda teu furor nesta lembrança. 

Alma a tão grande amor endurecida, 

Que não sentes minha alma o grande amor, 

Com que por quem te fez, foste remida ? 

Sente o que por ti sente com mais dor, 
Olha que por dar vida á creatura. 
Tão pouco estima a sua o Greador. 

E tu, coração meu de pedra dura. 

Se vês quebrar as pedras com tristeza, 

Como não quebras de tristeza pura ? 

Como encerras em ti tão grão dureza, 
Sendo tão brando de teu natural, 
E ellas tão duras de sua natureza ? 



3 IO Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Entranhas de ferro ! ah ! camanho mal ! 
Em tantas magoas sentimento duro, 
De mui pequeno amor dá grão sinal. 

Ai que sem ti, Senhor, tudo é escuro. 
Tudo são nuvens vans, tudo é um sonho, 
E cego entendimento é o mais seguro. 

Quando meus olhos nessas chagas ponho, 

E me vejo de frieza rodeado, 

D'ellas, de mim, e do mundo me envergonho. 

O' chagas suaves, ó suave lado, 
Este meu peito frio em vosso amor. 
Quem o visse, ah ! quem o visse abrazado ! 

Spirito novo cria em mim. Senhor, 
Pêra que a ti só tema, a ti só ame, 
A ti só, que a ti só devo louvor. 

Por si suspire sempre, por ti chame. 
Por ti me negue a mim, e tudo negue, 
Por ti saudosas lagrimas derrame. 

A ti busque, a ti ache, a ti me entregue, 
Com hmpo coração, pura vontade. 
Nunca de ti minha alma desapegue. 

Um desejo vivo, viva saudade. 
Tenha sempre de ti, isto te peço. 
Que sem ti, tudo enfim é vaidade. 

Muito peço, Senhor, pouco mereço, 
E tão pouco que não mereço nada, 
Se o teu muito ao meu nada não dá preço. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 3ii 

Esta alma tantas vezes enganada, 
No verdadeiro caminho encaminha, 
Que se por ti não vai, vai muito errada, 
Doce Jesu, doce esperança minha ! 



ELEGIA. 
Ao divino amor. 

Como o cervo cansado e ferido 
Busca as fontes de agua deleitosa, 
Remédio a seu animo affligido; 

Assi a minha alma saUdosa, 
Dessa vossa divina fermosura, 
Toda ardendo em sede amorosa •, 

Busca a vós, ó fonte de doçura, 
Fonte viva, aonde achará 
Remédio e toda sua fartura. 

O' Deos ! quando apparecerá 
Diante de vosso rosto divino ? 
Este ditoso dia quando virá ? 

Estas lagrimas minhas de contino, 
São o meu pão de que eu me sustento, 
A' tarde e no tempo matutino. 

As lagrimas são meu contentamento, 

As lagrimas mitigam minha dôr, 

E fazem mais sofrivel meu tormento. 

Já me consumira de tanto amor, 

Quando todos me dizeis cada dia 

— Aonde está teu Deos e teu Senhor? 



3í2 Obras de Fr Agostinho da Cruz 



Tendo isto sempre nâ fantasia, 
Derrama minha alma de pura vontade 
Ante vós, Senhor, a quem tanto queria. 

Quando passarei desta saudade 
A.O tabernáculo maravilhoso. 
Morada de vossa eternidade ? 

Onde tudo é suave e deleitoso, 

O' vozes d'alegria e 

O' banquete eterno e glorioso ! 

Pois alma minha, porque rezão 
Andas triste e descontente. 
Porque assi entregue á paixão ? 

Ainda que o teu mal seja presente, 
Viva sempre a dor e a lembrança, 
E o teu somno seja mui ausente. 

Espera em Deos, tem nelle confiança. 
Põe nelle teu desejo e teu amor, 
E não será em vão tua esperança. 

Porque ainda confessarei ao Senhor, 
Que é elle minha gloria desejada, 
O meu ultimo fim, meu Salvador. 

Minha alroa de mim mesmo cansada. 
Chora sua misevavel condição 
Vendo se de vós longe, desterrada. 

Mas desta terra do rio Jordão, 
E deste Hermonio monte pequeno, 
Levantarei a vós a coração. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 3i3 



Ainda que seja vil e terreno. 
Todo cheio de baixas affeições, 
Espera de se vêr no Ceo sereno. 

O' abysmo de minhas afiBiçôes, 
Chamo o abysmo de vossa piedade, 
Que vence as ondas das tentações. 

Aqui em muito grande cantidade 
Me cercam, como mar embravecido, 
Mas sobre tudo é vossa bondade. 

Não sois vós, Senhor, de mim esquecido, 
Não tem esquecimento quem tem amor, 
Ah ! Deos ! e sois de mim tão mal servido í 

A misericórdia mandaes, Senhor, 
De dia e noite em contemplação, 
Cantar vossas maravilhas e louvor. 

Assi a vós será minha oração, 

A vós, a vós, ó Deos de minha vida. 

Meu Redempior, e minha salvação. 

Pois, Senhor, porque será tão esquecida 
A minha alma de vós, que está chorando 
Vêr-se de seus imigos perseguida ? 

Olhai, meu Jesu, que se vão gastando 
Meus ossos e se consumem com dôr, 
E meus imigos estam triunfando. 

Dizendo : — onde está o teu Senhor, 

E o teu Deos por que suspiras, 

A quem amas com tão firme amor ? 



3 14 Obras de Fr, Agostinho da Cruz 

O' alma, porque me dás tu tormento, 
Espera e terá o teu mal cura, 
Espera e verás teu contentamento. 

Espera e verás sua fermosura, 
Verás sua eterna magestade, 
Verás a sua divindade pura, 
E assim fartarás tua vontade. 



Ao Sepulcro da Esperança. 

Ao pé deste carvalho áspero e duro, 
Contra quem quanto o vento mais se cansa, 
Tanto mais firme o deixa e mais seguro; 

No meo da floresta, da mudança, 
Onde tem mil jardins a fermosura, 
Por amor o sepulcro da esperança, 

Um áspide a matou na espessura, 

Que entre espessos murtaes tinha escondida, 

D'inveja de meu bem, minha ventura. 

Eu por ella mil vezes dera a vida, 
Se com vida tão mal afortunada, 
Pudera a sua sêr restituída. 

Mas pois também do Ceo me foi negada 

Essa pequena parte de alegria, 

Só porque era de mim tão desejada ; 

Na banda deste bosque mais sombria, 

Defronte do sepulcro venturoso, 

Que encerra todo o bem que eu pretendia, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 3i5 

Sempre alheo de mim, sempre queixoso, 
Contarei meus queixumes aos penedos, 
Algum delles quiçaes será piedoso. 

E pelos troncos destes arvoredos, 
Que tantas vezes já são costumados 
A saberem de mim os meus segredos ; 

Em grandes letras deixarei cortados 
Poderosos signaes de meu tormento. 
Que das Nynfas serão sempre guardados. 

E tu, ó mal nascido pensamento. 
Que nas asas d'amor alevantaste 
O teu tão temerário atrevimento. 

Agora que por pena me ficaste, 

Entre as rumas de teus vãos castellos, 

Que sobre as nuvens vans tão mal fundaste, 

Se ainda ousares ver os olhos bellos. 

Em cujo doce fogo anda abrazado, 

O mesmo amor, que te ensinava a vê los, 

Dar-lhe-has da minha parte este recado, 

— Que ainda que a esperança aqui está morta, 

Que não morreo por isso meu cuidado. 

Fortuosa no que é seu dispensa e corta, 
E como dá os favores brutamente, 
Brutamente também lhe cerra a porta. 

Mas a fé que amor fez tão excellente. 
Como nunca á fortuna está sujeita. 
Qual foi, tal ha-de ser perpetuamente. 



3i6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

E se nunca chegar a sêr-lhe acceita, 
Quanto menos tiver de interessada, 
Tanto mais terá d'alta e de perfeita. 

E tu, minha esperança, em flor cortada. 
Se nessas agoas lá do esquecimento, 
Fores do que te quis inda lembrada, 

Põe os olhos de lá neste tormento, 
Que em lagrimas de fogo convertido, 
Sobre o sepulcro teu eu te presento. 

E se de ti também não for ouvido 

Este meu desatino tão sisudo. 

Este ganho terei d'estar perdido, 

Que não tem que perder, quem perde tudo. 



A morte dum contentamento. 

Despojos tristes dum contentamento, 
Que amor, como tyranno, sepultou 
Nas entranhas cruéis de meu tormento ; 

Agora que o desejo vos deixou 

Na melhor parte d'alma levantados, 

Em signal da victoria que alcançou; 

Assi tintos em sangue, assi banhados, 
De piedoso orvalho, noite e dia, 
Sempre tristes sereis, sempre acatados. 

Tempo foi que a ventura concedia. 
Com mão tão larga tudo a meu cuidado, 
Que pródiga comigo parecia. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz Siy 

Um bem noutro mór bem continuado, 
Gloria á doce gloria do presente. 
Mil suaves lembranças do passado. 

O sol mais bello e mais resplandecente, 

A novas alegrias me chamava, 

Quando dourava as portas do Occidente. 

E quando d'esmeraldas se toucava 
A terra alegre e de diversas cores, 
O natural toucado ataviava. 

Na verdura dos campos e das flores, 
Como em signal de gloria e d'esperança, 
Incitava o desejo a bens maiores. 

Mas o desejo imigo que não cansa 
D'espedaçar o bem que n'alma nasce, 
Entre apressadas rodas da mudança; 

Se consentio que o tempo levantasse 
A tanta gloria meu contentamento, 
Foi porque de mais alto o derrubasse. 

Bem vejo que lhe devia acatamento, 
Por sêr d'aquelles olhos procedido, 
Onde o poder d'amor tem rico assento. 

Mas o que por alli lhe era devido. 
Perdeu só por sêr meu em espaço breve, 
Das rodas da mudança foi ferido. 

Ali, sobre elle, a morte a mão deteve, 
Ali tingio seu sangue a terra dura, 
Que de vê-lo acabar magoa não teve. 



3i8 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Só vós, fermosas Nynfas da espessura, 
Que adornadas de lírios e de rosas 
Fazeis mais poderosa a fermosura ; 

Só vós, por entre as arvores saudosas, 
Que já alguma hora attentas me escutarano, 
A males ião cruéis fostes piedosas. 

As flores que também vos imitaram, 
As lagrimas que então ali chorastes, 
Em pérolas tornadas as guardaram. 

E vós lembranças tristes que ficastes 
Por retrato do bem que esta alma chora, 
E que em vós tanto ao vivo debuxastes ; 

Duro allivio me sois que tanto outr'hora 
O bem vivo presente me alegrava, 
Quanto em lastima vê trocado agora. 

Este é o galardão que me esperava. 
Esta a illustre pompa da victoria, 
Que á fé victorioso amor guardava. 

Sei que é morta de todo minha gloria, 
Mas assi morta pêra mais matarme 
Tem vivos os effeitos na memoria. 

Se de tamanho mal ouso queixar-me, 
Os queixumes dos ventos engeitados 
Se tornam contra mim atormentar-me. 

E se da causa delles espantados 

Em defeito da lingua que emmudece, 

Sem lingua a amor se queixam meus cuidados. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Só amor como cruel os aborrece, 
Sendo cUes de meu mal rico tributo, 
Que a alma em tanto aperto lhe offerece, 
Ha dias entendi que são sem fruto. 



Carta que o Autor escreveo á Duquesa d* Aveiro 
antes de se ir para o Ermo. 

Desejando escrever-lhe, nunca pude, 
Taes correram os meses, taes os dias, 
Que ha muitos que não tive um de saúde. 

Umas horas ardentes, outras frias, 

Devíeis de acabar, pois acabei 

De ver ondas do mar, plantas sombrias, 

Cuja vista se doze annos logrei. 
Deviam de não ser horas tamanhas. 
Como de um triste só que cá passei. 

Quantas vezes revolvo nas entranhas 
O mal que me forçou deixar a terra, 
Suave e natural pelas estranhas! 

Deixei ( que mais não pude ) a branda Serra, 
Que pêra brandos peitos se criou, 
Quem com duros a dana, inda mais erra. 

Mas quem culpou o néscio que chamou 
Aquella Serra branda, Serra dura, 
Se tal como elle foi quem o julgou ? 



320 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

O bosque não se veste de verdura, 
Pera rústicos olhos que se vem, 
Não penetra seu peito a fermosura, 

Aquella saUdade que me vem 

Dos louros e da fonte sofro mal, 

Mas a dos pães e filhos, mal nem bem. 

E porque já não posso fazer ai, 
Testemunha me seja o sentimento 
A quem curar Galeno pouco vai. 

Não foi mal desculpado meu intento, 
Que tal me succedeo qual o pintei, 
Num mal me aventurei, fugi de cento. 

Nestes campos do Tejo onde cheguei, 
Achei graça, bom rosto, e gasalhado, 
Que noutros meus amigos não achei. 

E tanto me senti mais obrigado. 
Quanto mais fraco e enfermo me senti, 
Sem nunca me sentir desamparado. 

Desta pura amizade me venci, 

Que mais me obriga quem comigo chora, 

Do que me obriga quem comigo ri. 

Mas se Deos permittir inda alguma hora. 

Espero de morrer como desejo, 

Que « un bel morir tuta la pita honor a ». 

Já para mim não são campos do Tejo, 
De tantos lavradores cultivados, 
Onde planta sombria nunca vejo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 32 1 

E se não me impedirem meus peccados, 
A parte buscarei mais apartada 
Dos campos e dos valles povoados. 

Alli, quando vier menos pesada 
A morte, me será mais leve a vida, 
Ambas, uma por outra, registada. 

Enquanto se dilata esta partida, 
A graça do Senhor dos reaes peitos, 
Dos pais seja nos filhos repartida, 
Com quem já repartio altos conceitos. 



I 



Carta que compôs á Duquesa de Aveiro 
á absencia da Madre Soror Mariana sua filha. 

Primeiro que partísseis, filha minha, 
Os males, que da absencia receava, 
(Que não pude vedar) chorado tinha. 

Já meu coração triste adevinhava 
Que tudo quanto foi sêr poderia. 
Pois meu poder tão pouco aproveitava. 

Chorar e suspirar não me valia, 
Nem ter da minha parte a razão clara 
Que, enfim, prevaleceo quem mais podia. 

Cpmtudo, filha minha, se cuidara 
Quam longe e quanto tempo desterrada 
Estaríeis de mim, já me enterrara. 



322 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Mas cuido que me tem inda guardada 
Pêra algum grande mal, fortuna imiga, 
Se me vir de vos ver desesperada. 

Alembre-vos de mim, que não me obriga 
Desejar de vos vêr outro interesse, 
Senão em vos amar ser mais antiga. 

Que, se tanto comvosco amor pudesse, 
Quanto triste de mim pôde comigo, 
Não duvido que já vos não rendesse. 

Muitas vezes me vi posta a perigo, 
Ou de vos ir buscar, ou de perder-me, 
( Se tenho que perder, pois vos não sigo. ) 

Em tanta dilação não sei valer-me, 

Menos sofrer tamanhas saiidades. 

De que não sei, nem posso defender-me. 

Imagino cem mil difificuldades. 
Que todas contra mim terão vigor 
Em tempos de tamanhas novidades. 

Que, se como foi tudo, tudo for. 
Que tenho que esperar ou que querer, 
Senão chorar de novo a minha dor ? 

Se da vontade alhea hei-de pender, 
Bem posso e bem podeis estar segura, 
Eu de vos vêr a vós, vós de me vêr. 

Bem se pôde abrandar a pedra dura. 
Bem se pôde abrandar a brava fera. 
Mal se pôde abrandar minha ventura. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 333 

Tudo já, finalmente, lhe sofrera, 
Como tudo lhe tenho já sofrido ; 
Uma cousa não mais me concedera ; 

Que nos deixe entre nós fazer partido, 
Pois rezão e justiça me sobeja 
Pêra me ser meu bem restituido. 

Que, ou me mandeis viver onde vos veja, 
Ou vós venhaes viver onde vejaes, 
Quem sem vos vêr nenhum gosto deseja. 

Ambas, adonde vós quiserdes mais, 
Havemos de viver, ou nas estranhas 
Terras, ou nestas nossas naturaes. 

Que não podem sofrer brandas entranhas 
De mãi tão deshumano apartamento, 
Tendo sofrido já magoas tamanhas. 

Sabe Deos, filha minha, meu inteiito, 
Deixo nas suas mãos a conclusão : 
Que, ou me tire da absencia o sentimento, 
Ou vos abrande vosso coração. 



EGLOGA. 

Almilão, e Galapo. 

Almilão. 
Alegre venho a vêr-te no teu ermo, 
Onde, depois de sete annos passados. 
Tuas perseguições fizeram termo. 



324 Obras de Fr. Agostinho da Crur 

Dizem que os estrangeiros vão pasmados 
De vêr quam nesciamente os naturaes 
Em perseguir-te foram obstinados. 

Digo, dos irmãos teus os principaes, 
Com seus familiares cobiçosos 
De serem no governo officiaes. 

E' muito natural dos preguiçosos, 
Que querem merecer, não trabalhando, 
O sêr dos diligentes invejosos. 

Assi, da diligencia murmurando, 
Acostumam dizer que, por ventura, 
Merecem muito mais não trabalhando. 

Não pôde sêr maior desaventura. 
Que não querer louvar o que trabalha, 
E quer sêr louvado o que murmura. 

Enfim, que com buscar de que se valha, 
Accusado de seu remordimento. 
Cuidando rodear o néscio atalha. 

A virtude tem firme fundamento, 

E muito firme mais sendo encontrada, 

E quanto mais maior merecimento. 

Tanto que, se não for contrariada, 
E dos mores imigos perseguida, 
Não pôde sêr de todo refinada. 

E pois que já ficaste de vencida, 
Dá-me conta de quanto o teu geral 
Pastor passou comtigo nessa ermida. 



k 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 325 

Galapo 
Nosso geral pastor he pastor qual 
O Senhor escolheo no seu rebanho 
Antre todos, mais dignos, outro tal. 

A naudança foi breve, o caso estranho, 
Que se por nosso bem não succedera, 
Succeder não pudera um bem tamanho. 

Nasceo de novo aqui a primavera, 
Ouvio-se a voz da rola em nossa terra, 
O ferro converteo se em branda cera. 

Depois que com seus pés subio a serra. 
Entrando nesta lapa e nesta cella, 
A paz prevaleceo, cessou a guerra. 

Mas eu que, velho e calvo, escapei delia. 
Não deixo de entender que a vida humana 
Acha sempre cabellos que arrepella. 

O tempo que passei me desengana 
No que passando vou. vou qual a folha 
Leve que, em tronco sêcco, o vento abana. 

E posto que, quieto, me recolha. 

Convém o vigiar-me como grou. 

Que a morte descuidada me não colha. 

Aquelle que viver mais desejou. 
Pintando seus cabellos d'ouira cor. 
Os seus annos mais breves não pintou. 

Por tanto, amigo meu, seja o que for, 
Determinado estou de me esquecer 
De quem tomar- me quer por valedor. 



326 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Os mais de todos quantos me vem ver, 
Todos cuidam que vem fazer fazenda, 
Despachando primeiro seu querer. 

No mando, na demanda, na mais renda, 
Nos ricos mais honrados casamentos, 
E no breve despacho da Gommenda. 

Nos gostos seus, nos seus contentamentos, 

Nas suas vaidades esquecidos, 

Fazendo em cousas vans, vãos fundamentos. 

Querendo, dos meus dias consumidos 
Na velhice, por calma, fome e frio, 
Roubar-me, se alguns tenho merecidos. 

Eu, coitado de mim, não fio 

De meus graves peccados o perdão, 

Que, por meio da Virgem, haver confio. 

E querem que despache a petição 
Conforme o gosto seu, inda que seja 
Com perigo da sua salvação. 

E posto que mais livre agora esteja 
Pêra lhe responder, segundo entendo, 
O seu mesmo desgosto inda me peja. 

E pois que ninguém quer o que pretendo 
No caminho do Ceo, que mais importa, 
Valha-lhes Deos, a quem os recommendo. 

Almilão. 

Os que querem entrar por outra porta 
Mais larga e mais seguida dos mundanos, 
Pouco lhes dá que vão por via torta. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz Say 



Embrulham gostos seus com seus enganos, 

De bens nem males fazem differença, 

Nem dos proveitos seus, nem dos seus danos. 

Não se querem curar desta doença, 
Porque da penitencia a purga amarga, 
Posto que revocar faça a sentença. 

Com quanto menos pejo e menos carga 
Pela via do Ceo se vai subindo. 
Que na terra descendo pela larga ! 

Galapo. 
Ah ! quanta saiidade está sentindo 
Aquella alma ditosa no deserto, 
De quem seu próprio Deos se está servindo. 

Contemplando no Ceo caminho aberto, 
A força dos suspiros que lhe ensina 
O desejo de vê-lo de mais perto. 

Ah ! doce saudade, alta, divina, 

Da visão de seu Deos, em que se accende, 

C quanto accesa mais, mais se refína. 

Almilão. 
O som desses teus versos me suspende 
O silencio, me pede teu esprito, 
Que de meu baixo esprito me reprende. 

Affrontado do mal que tenho escrito, 

Calando esperarei até que venha 

A morte levantar seu interdito 

Que, presto, pega o fogo em sêcca lenha. 



SzS Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



EGLOGA. 



Lattrino, e Fontano. 



Fontana. 

Que novas me darás de nosso amigo, 
De tres seus companheiros engeitado, 
Como se remedea só consigo ? 

Laurino. 
O primeiro se foi necessitado, 
O segundo e terceiro constrangidos 
Da santa obediência do prelado. 

Outros amigos seus, ofterecidos 
Se tinham a fazer-lhe companhia, 
Mas cuido que estam já arrependidos. 

As novas que do velho te daria. 
São conselhos maduros de viver, 
Que me deu pêra vêr o que não via. 

Nos quaes todos se vem a resolver, 
Que por muitas razões e perfeição 
Humana, só consiste em padecer. 

Com muita paciência e mansidão, 
Como nos ensinou o Redemptor, 
Na Cruz posto por nossa salvação \ 

Cujo suave, brando e doce amor, 
Tão valeroso faz um fraco peito 
Que seja, padecendo, vencedor. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 3a6 

Não ficando já passo tão estreito 
No caminho do Geo por alargar, 
Que quem quiser não possa ir lá direito. 

Os ermos se sohiam povoar 
Com rara penitencia, toda a vida, 
Dos que nelles queriam contemplar. 

Cuja imitação foi mal sofrida 
E dos mais ociosos murmurada, 
E doutros contrastada e perseguida. 

A qual, se fora menos encontrada, 
Menos merecimento lhe rendera, 
Que no fogo se estilla agoa rosada. 

Fontano. 

Certo, amigo Laurino, que me dera 

Muita consolação ver Limabeo, 

Se desculpar meu erro me atrevera. 

Que, sendo pontual amigo meu, 
O achei amigo sempre no meu mal, 
Não me achando comsigo no mal seo. 

Assi, que sendo amigo pontual, 
Faltei na pontual sua amizade 
Com me afastar no tempo principal. 

Amigos tem quem tem prosperidade, 
Mas amigos não tem quem na não tem 
Não ha que duvidar nesta verdade. 

Limabeo não se queixa de ninguém, 

Alheo do passado e do presente. 

Sem lhe dar do que vai, nem do que vem. 



33o Obras de Fr, Agostinho da Cruz 

Quieto, vive só, livre e contente, 
Com plantas e com feras conversando, 
Não conversando amigo, nem parente. 

Assi, noites e dias vão passando, 
Tendo posta no Ceo sua esperança, 
E da terra a si mesmo desterrando. 

Enfim, que não repousa nem descansa, 
Senão no summo bem que só deseja. 
Enlevado na bemaventurança. 

Ainda que tão longe agora esteja 
Do que vi, do que ouvi, do que notei, 
O velho não me faz pequena inveja. 

Por muitas vezes já determinei 
Ir ver o velho calvo no seu ermo, 
Mas na vergonha minha reparei. 

Nem menos quis usar dum justo termo, 

Oíferecendo-se obra piedosa 

Pêra ser visitado, estando enfermo. 

Dilatou-se-lhe a morte vagarosa. 
Escapou dos imigos encubertos, 
Escapou da tormenta furiosa. 

Escapou doutros muitos desconcertos. 
Que consumindo foi o tempo largo 
Da larga penitencia dos desertos. 

De mim não posso dar outro descargo, 
Por sêr contrario ó Ceo e contumaz, 
Cuja contradição agora amargo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 33 1 

Porque de tanto bem não fui capaz, 
Perda que assi me turba, assi lastima, 
Por não participar da sua paz. 

Enfim, Laurino, tudo vem de cima, 
No mal como no bem, nosso ou alheo, 
Onde o mal se reprova o bem se lima. 

O máo quer do fermoso fazer fêo, 
O bom quer do fêo fazer fermoso, 
Um vazio do mal, o outro cheio, 
Um desditoso, enfim, outro ditoso. 



EGLOGA. 

Almilão, e Galapo. 

Almilão. 
Pois que nos ajuntamos nesta praia, 
Cantemos a que vimos, nesta tarde, 
Antes que lá da Serra a sombra c^ia. 

Galapo. 
Quem quereis, Almilão, que mais aguarde, 
Inda que as redes fiquem por lançar, 
Nem que pêra melhor lanço se guarde ? 

Quem devemos com versos celebrar, 
Senão principes, nossos pescadores. 
Que juntos, peixes juntos vem fisgar? 

Estes dous excellentes amadores 

Do fruito, que de Deos tem )á colhido, 

Embarcarão comsigo a flor das flores. 



33» Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Almilão. 

Dentro na minha Lapa recolhido, 
O barco vi passar das agoas ciaras, 
Naquelle breve curso obedecido. 

Ditosa embarcação, se frequentaras 
O teu mar Oceano, a lua renda 
Com muito peixe nosso acrescentaras. 

Mas, pois, aqui não vens fazer fazenda. 
Como vem constrangido o pescador 
Buscar com que da fome se defenda : 

Ouçam cantar e dar a Deos louvor, 
Porque do mar e terra quis fazer 
Uma Senhora tal um tal Senhor ; 

Que partiram depois de amanhecer, 

E feita de vagar a pescaria, 

Se tornaram com sol a recolher. 

Nunca de peixe a praia está vazia, 
A Serra de perdizes e veados, 
E doutra muita caça em demasia. 

Os bosques, nos penedos sustentados. 
Dão pasto ás bravas feras na verdura, 
E nos pés de seus troncos gasalhados. 

Cercada a Serra está de rocha dura, 
E das agoas salgadas, desta parte 
E doutra a maior já se cerca e mura. 

De todos quantos doens o Geo reparte, 
Com estes excellentes escolhidos, 
Um só te contarei, para alegrar-te: 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 333 

Que nunca entre estes de amor unidos 
Se viu em cousa alguma differença, 
Senão que um rompe mais menos vestidos. 

Daquella liberal bondade immensa, 
Doutras mores mercês tenho esperança, 
Que só pêra calar-me dá licença. 

A fonte perennal nunca descansa, 
Nem cansa quando mais agoa derrama, 
Antes quando mais lança menos cansa. 

Tanto subindo vai a verde rama, 
Quanto esse mesmo tronco vai subindo, 
E tanto o coração, quanto mais ama. 

As minhas altas vozes repetindo, 
O cavernoso valle me reprende, 
Que com calar não ficarei ouvindo. 

Aquelle que no mar a rede estende, 
Por manha quer pescar ou com engano. 
Não quem com tanta fisga o peixe fende. 

Com muito pouco custo e pouco dano. 
Os senhores do mar vem pescar nelle, 
Quando muito, três vezes d'anno em anno. 

Mas se bem não parece ella sem elle, 
Também bem não parece elle sem ella, 
Venha elle com ella e ella com elle; 

Que não os ajuntou divina estrella 
Pêra ser apartados um momento. 
Quer ambos vão a remos, quer a vela. 



334 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Ambos logrem um só contentamento, 
Ambos um só querer, uma vontade, 
Nem quero dispensar no pensamento. 

Se havemos de cantar, da saíidade 
Deixemos nestas agoas ancorada. 
Dos dous a perennal conformidade, 
Com favores divinos confirmada. 



O' quam ligeiramente vai fugindo, 
Pêra nunca tornar, a própria vida. 
Tão mal considerada e mal sentida 
De mi, que dum mal noutro vou cahindo ! 
Entendo que estou perto da partida, 
Mas folgo d'ouvir quem me está mentindo, 
Não querendo acceitar os desenganos, 
Querendo-me enganar cos meus enganos. 

O' como vai fugindo a mocidade, 

Do que não mais que seu gosto pretende, 

Fazendo pouco caso do que entende, 

E trocando a rezão pola vontade! 

E quando desta troca se arrepende, 

Perdida tem de todo a liberdade 

Pêra se restaurar como pudera, 

Se mais do coração se arrependera. 

Galapo. 

O' quanto tempo passa tão ligeiro, 
Sem respeito de grande, nem pequeno, 
E como desordena quanto ordeno, 
Do que quero fazer por derradeiro ! 
E com quanta mais magoa me condeno 
Por querer sêr no bem aventureiro. 
Da temporal cobiça aconselhado, 
Por me deixar em vão mais magoado. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 335 



Epigramma ql Paixão. 

A quem desceo do Ceo, por nos dar vida, 
Pagamos com lhe dar a morte crua, 
Dada por nós, por elle padecida 
Por nós na Cruz, despida a carne nua, 
Que por salvação nossa fôi vestida, 
Por tudo padecer á custa sua : 
Enfim, que nosso Deos o fez de sorte, 
Que nos deu sua vida e sua morte. 



Epigramma. 

Nasci e renasci na casa em dia 
De Santa-Cruz, da Cruz o nome tenho ; 
Tenho quem nella foi morto por guia, 
Nas entranhas abertas me sustenho, 
Que não pôde cerrar quem as abria : 
E quando neste passo me detenho 
Gemendo e suspirando, não duvido, 
Que me sare quem foi por mim ferido. 



Epigramma. 

Aqui, Deos da minha alma, onde cheguei, 
O como vós sabeis, dar fim á vida, 
Outra de novo aqui começarei 
Nesta despovoada, antiga ermida 
Da Virgem vossa mãi \ não deixarei 
De servir-vos, com ella ser servida. 
Que qual amor d'esposo. filho e pai, 
Tal o mesmo d'esposa, filha e mãi. 



336 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Acerca do tempo. 

A desigual balança 

Da vil fortuna cega, 

Fiada d'infieis repartidores 

Com violenta mudança, 

Desordenada, entrega 

Aos máos sempre o governo dos melhores; 

Faz servos dos senhores, 

Aos mais baixos levanta 

Sem mais aucção, nem custa, 

Que uma eleição injusta, 

Que o Ceo escandaliza e a terra espanta : 

Por onde o venturoso 

Tyranniza o lugar do valeroso. 

A dura tyrannia, 

Dos grandes empossada. 

Triunfa da justiça e da verdade. 

O interesse guia, 

A rezão desterrada 

Chora o direito seu dar-se á maldade. 

O amor e a lealdade 

Da pátria perseguida, 

Já desagasalhados 

Dos principaes estados, 

No vulgo baixo e pobre acham guarida ; 

E tal se tornou tudo. 

Que quem falou verdade, agora é mudo. 

O zelo desprezado 

He desfavorecido, 

Queixar-se, nem buscar remédio ousa. 

Al bom tempo passado, 

De poucos entendido, 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 33j 

Quem cuida mais em vós, menos repousa ! 

Cerca-nos tanta cousa, 

Que já o entendimento, 

Apezar do receio, 

Não achando outro meio, 

Rebenta com soltar vozes ao vento, 

Mas se Deos não soccorre, 

Pouco monta dar vozes a quem morre. 



VILANCETE. 
A desculpa de pescar, e fa\er bordões. 

Em que parte, ou em que terra 
Me deixarão repousar, 
Pois que não pude escapar 
Entre os penedos da Serra ? 

Que vai peçonha fazer 
A cega malícia humana 
De pescar peixes á cana 
Pêra lhe dar a comer. 

Em que parte de que Serra 
Se pudera imaginar, 
Que aparelhos de pescar 
Fossem munições de guerra ? 

Se cortando pela rama 
Dos zimbros muito cortei. 
Cuido que menos pequei, 
Que cortando pela fama. 



338 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Em que parte, ou em que terra 
Não fora peor cortar 
Homens, que Deos manda amar, 
Que páos, que nascem na Serra ? 

Não sinto que culpa tenha, 
Se lhe negam ser louvado, 
Tão longe do povoado 
Pescar peixes, cortar lenha. 

Em que parte, em que terra 
Se pode vituperar 
Quem pesca peixes no mar, 
Ou corta lenha na Serra ? 

Disse Deos: não matarás 
Homens, mas não disse peixes ; 
Nem tão pouco disse : feixes 
De zimbros não cortarás. 

Julgue-sc agora quem erra. 
Se quem quer homens matar, 
Se quem peixes vai pescar. 
Ou corta zimbros na Serra. 

Se direitos', ou pensões 
Devia do mar, ou mata, 
O' Duque, paguei « pro rata » 
Peixes, cruzes e bordões. 

Paguei ó Senhor da terra. 
Paguei ó Senhor do mar, 
O' do Ceo ha-de pagar 
Quem sem causa me faz guerra. 

Eu se corto, ou se pesco 
Peixes, ou bordões no mato, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz SSg 

Homens não corto, nem mato, 
Senão páos e peixe fresco. 

Que não pecca, que não erra, 
Acabai já de provar, 
Que pescar não é peccar, 
Menos cortar páos na Serra. 



MOTE. 

Enganos da vida humana, ' 
Mal vos pode penetrar 
Quem folga de se enganar. 
Pois quando se desengana, 
O tempo não dá lugar. 



GLOSA. 

Do que vi e do que vejo. 
No que o mundo representa, 
Mais me canso e mais me pejo 
Por vêr, que venta e não venta 
Conforme ao meu desejo. 
Assi busco o meu querer, 
Querendo o que mais me ingana 
Pêra me poder perder, 
Pois me não basta entender 
Enganos da vida humana. 

O tempo, que vai fugindo, 
Gasto no gosto da vida, 
Ambos se vão consumindo 
Mal, que quando estou sentindo, 
íl' já no fim da partida. 
Então dos gostos passados 



340 Obras de Fr Agostinho da Cruz 

Começo a me queixar, 
Dizendo: quem se enganar 
Comvosco, gostos passados, 
Mal vos pode penetrar. 

O caminho leva errado 
Quem por seu gosto se guia, 
Trabalha, sua, e porfia 
Em querer por outra via 
Sêr melhor encaminhado. 
Que grande desaventura 
E' não querer acertar 
Por sua vontade pura, 
Pois que não pode ter cura 
Quem folga de se enganar. 

Camanho mal me tem feito 
O meu gosto, que sustento 
A torto e a direito, 
Sem razão, nem fundamento, 
Nos enganos, que apontei. 
Se disser que não se engana 
Quem de enganado notei, 
Então lhe perguntarei : 
Pois quando se desengana ? 

Donde fui, andei e vim. 
Fui e vim e andei comigo. 
Comigo, de mim imigo, 
A mim sigo, a mim persigo. 
Por sêr imigo de mim. 
Pelo que posso affirmar 
Que quem anda grangeando 
O mal, com que quer folgar, 
Que se desengana, quando 
O tempo não dá lugar. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 341 



MOTE. 

Que forte fortuna sigo, 
A que grande estremo vim, 
Que já não vejo o perigo, 
Pêra mim maior que a mim. 



GLOSA. 

Enganos dum pensamento 
Me trazem senhoreado 
De tal maneira, que é vento 
Discursos do entendimento 
Em tão perigoso estado, 
Porque quanto mais entendo, 
Tanto menos me arrependo 
De me entregar ao perigo, 
Que minha alma chora, vendo 
Que forte fortuna sigo. 

Força d*estrella imiga. 
Contra quem sizo não vai. 
Deve ser a que me obriga 
A que eu mesmo me persiga, 
Buscando o que me faz mal. 
De tudo me arreceei, 
E de nada me guardei; 
Tremo de cuidar em mim 
A quanto me aventurei, 
A que p-ande estremo vim. 

Se alguma hora me desejo 
Livre deste desatino. 
Tem tal força o meu desejo, 
Que me esconde o mal, que vejo, 



342 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Por querer o bem que imagino. 
A razão bem me avisou 
Dos perigos, em que estou •, 
Mas o cuidado, que sigo, 
Tão depressa me cegou. 
Que já não vejo o perigo. 

Fujo do que me convém, 
Corro após o que me dana *, 
E se me aconselha alguém 
O que sei que me está bem, 
Inda cuido que me engana. 
Enfim, que desta mudança 
Ficarei sem esperança 
De terem meus rhales fim, 
Pois a ninguém vi esquivança 
Pêra mim maior que a mim. 



MOTE. 

Que queira quem me não quer, 
Não queira de mim ninguém, 
Que não posso querer bem 
A quem bem me não quiser. 



GLOSA. 

Não posso ter por amigo 
Quem de mim senão doer, 
Nem sei como possa sêr 
Poder acabar comigo 
Que queira quem me não quer. 

Por sêr mal afortunado. 
Não duvido haver alguém, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 343 



Que queira vcr-me enganado ; 
Mas amar sem sêr amado 
Não queira de mim ninguém. 

Quem nne vir desconfiar, 
Entenderá que me vem 
De não ter já que esperar, 
Pelo que pôde affirmar 
Que não posso querer bem. 

Não é justo que me empregue 
Em quem me não merecer, 
Muito menos que me cegue 
De maneira, que me entregue 
A quem bem me não quiser. 



MOTE. 

Se Agostinho fora Paulo, 
O corvo quando viera, 
Não levara, mas trouxera. 



GLOSA. 

Os figos, que no telhado 
Tinha postos a passar, 
Todos levou sem deixar 
Nem por passar, nem passado, 
Foi pena de meu peccado, 
Que se eu guardar não quisera, 
O corvo mos não comera. 

Mas no deserto, onde estou, 
Se tudo logo comer, 



344 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Não me poderei manter 
No comêr, que se acabou. 
Mas mais do que me levou, 
O corvo negro trouxera. 
Se por Paulo me tivera. 

Mas pois que por culpa minha 
Sou de Paulo differente, 
Ficarei mais penitente, 
Sem ter os figos, que tinha. 
O corvo, que a Paulo vinha 
Trazer, também me trouxera. 
Se em Paulo me convertera. 

Do que este corvo me faz 
Não deixo de presumir, 
Que no que devo servir 
Inda fico muito atrás. 
O corvo leva, e não traz : 
Se não levara, o trouxera, 
Com Paulo me parecera. 

Não fora contra razão 
Entre os corvos daninhos 
Matar antes passarinhos 
No tempo da arribação ? 
O corvo negro ladrão. 
Se por Paulo me tivera, 
Não levara, mas trouxera. 

Não deveras de ajudar 
Os que tão mal me trataram, 
Baste que já me raparam, 
Não me venhas tu rapar. 
Que se eu poderá estar 
Tão longe, como quisera, 
De rapazes não temera. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 345 

Menos mal foi rapar figos, 
Que rapar as barbas minhas. 
Peor do que tu vizinhas, 
Vezinharam meus amigos. 
Se quiseram os antigos 
Comigo estar á vara, 
Nenhum rapaz me rapara. 



Reposta a Soror Mariana, Jilha do Duque 
de Aveiro 



MOTE. 

Não passou meu pensamento 
De desejar de servir, 
Sem vo-lo dar a sentir. 



GLOSA. 

O muito, que em vós havia, 
O pouco, que em mim achava, 
Meu desejo limitava, 
Meu pensamento abatia. 
Nunca cuidei que podia 
Chegar a mais que servir, 
Sem vo-lo dar a sentir. 

Desesperei com razão 
Do que sem ella esperei; 
Porque nunca imaginei 
Qual fosse vossa tenção. 
Nunca esperei galardão 
De desejar de servir. 
Nem tal pude presumir. 



346 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Se quereis fazer estremos, 
Os que deveis de fazer, 
Só por Deos devem de ser, 
A quem só servir devemos. 
Quereis que nos conformemos? 
Seja em amar e servir 
Quem morreo por nos remir. 

Que vos fale, que vos veja, 
E* por demais, não canseis, 
Que por mais que trabalheis, 
Já não pôde sêr que seja. 
O que minha alma deseja 
E' poder-vos concluir 
Que só Deos deveis servir. 

Se sois firme, branda e pura, 
Em tudo mais venturosa, 
Fidalga, rica, fermosa. 
Tudo sei quam pouco dura. 
Escolhei vida segura. 
Que não vos possa fugir, 
Servi a quem vim servir. 



MOTE. 

Rodeado nesta Serra 
De firmeza e confiança 
Sustento a esperança. 

GLOSA. 

Destas rochas a dureza, 
Destes bosques a verdura, 
Qual esperança figura, 
Qual me figura firmeza. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 847 

As obras da natureza 
Me fazem doce lembrança 
De suster a confiança. 

A rocha sem se abalar 
Aqui vejo no deserto, 
Da verde folha cuberto 
O bosque sem se seccar. 
Enquanto me rodear 
De firmeza e de esperança 
Não perderei confiança. 

Mas de que me serve vêr 
Rochas firmes, verdes plantas, 
Vendo em mim faltar quantas 
Cousas eu desejo têr 
Pêra mais me entristecer, 
De firmeza e de esperança 
A Serra me faz lembrança. 

As feras vejo pascendo. 

As aves ouço cantando, 

As ondas do mar quebrando 

Nas rochas, que estão batendo, 

Quanto mais ouvindo e vendo 

Se renova a confiança 

No silencio da lembrança ! 



MOTE. 

Tanto é o bem, que espero, 
Que nas penas me deleito. 

GLOSA. 

Desejo de padecer 

Por amor do que mais quero 



k 



348 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Todo O mal cruel e fero, 
E mais, se mais pôde ser 
Nos estremos do querer, 
Tanto é o bem, que espero. 

Daqui nasce a confiança 
Firme dentro no meu peito, 
Que só em penar descansa, 
Sem outro nenhum respeito, 
Com tão suave esperança, 
Que nas penas me deleito. 



MOTE. 

Neste meu remanso 
Manso, doce e brando, 
Ando amor buscando. 
Quanto mais descanso, 
Ganso descansando. 



MOTE. 

Do mundo desapegado. 
Dos homens desempedido. 
Do tempo desenganado, 
Da terra mais esquecido, 
Quando do Ceo mais lembrado. 



ECOS. 

Que mal não queres sentir ? Ouvir. 
E que virtude escolher ? Sofrer. 
E que bem folgas guardar ? Galar. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 349 

Logo te podes gabar 
Vencer o maior perigo, 
Quando acabares comtigo 
Ouvir, sofrer, e calar. 



Qual dos bens mór bem te faz ? Paz. 
E na paz qual é melhor ? Amor. 
E tem Amor igualdade ? Charidade. 

Logo a communidade 
Está de brigas segura, 
Quando se nella procura 
Paz, Amor, e Charidade. 



Qual é de tudo mais forte ? A morte. 
E delia que mal ouviste ? Ser triste. 
E tem mais que ser penosa ? Espantosa 

Escusado é têr mimosa 
Vida que tão pouco dura. 
Pois o tempo lhe procura 
A morte triste e espantosa. 



Quem de todo o bem te tira ? Ira. 
Quem pôde mais que a razão ? Paixão. 
Quem do que deve se esquece ? Interesse. 

Logo com razão merece, 
Que não seja conhecido 
Quem traz no peito escondido 
Ira, paixão, e interesse. 



35o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Redondilhas a Nossa Senhora. 

Nesta Serra, 
Onde me não falta guerra, 
Servindo na vossa ermida 
Gastarei, Senhora, a vida, 
Até me cobrir a terra. 



Confiado, 
Que serei sempre amparado 
De quem sempre me emparou, 
Que menos medroso estou, 
Pois o mais forte é passado. 

A baixeza, 
A que minha alma está presa, 
Espero que desateis, 
E que servindo me deis. 
Pêra servir mais firmeza. 



Quem pudera 
Servir-vos quanto devera 
Sem cessar um só momento, 
Levantando o pensamento 
Tanto, que nunca descera. 

E' verdade. 
Que tanta suavidade 
Consiste em vosso serviço, 
Que servir-vos só por isso 
E' summa felicidade. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 35 1 

Quem mais quer, 
Ou que mais deseja ter, 
Antes de se vêr nos Ceos, 
Que servir a Mãi de Deos 
Sem nunca desfalecer ? 



Chansonetas ao Nascimento de Nosso Senhor. 



1 

Pasmem d'alegria 
na terra e nos Ceos, 
vendo a noite — dia, 
vendo o homem — Deos. 

2 
Commercio admirável, 
que o amor descubrio; 
mysterio inefável, 
que o Ceo nos abriol 

3 

Como em um supposto 
caiba esta união, 
não é presupposto 
de humana rezão. 

4 

Senão obedece 
o juizo á fé, 
nada se conhece 
daquelle, que é. 



352 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

5 
Pelos ares voa 
Celeste armonia ; 
e o que nella sôa, 
só d' Anjos se fia. 

6 

Feitos esquadrões 
O seu rei seguindo, 
vam dando pregões, 
que a salvar é vindo. 

7 
O' ditosa culpa, 
caso nunca ouvido, 
que busque a desculpa 
quem é oíFendido ! 

8 
Toma o que em nós há, 
dá-nos o que é seu : 
que lingua dirá 
que toma, e que deu ? 

9 

Toma pena e morte, 
dá-nos gloria e vida : 
a causa mais forte 
foi d'amor vencida 1 

IO 

Fermosa victoria, 
que a terra Ceo faz, 
de que a Deos vem gloria, 
e aos homens paz. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 253 



II 
Acaba a mór guerra, 
entra a-mor, concórdia, 
tem Deos chea a terra 
de misericórdia. 

12 

Os cegos já viram, 
os mudos falaram, 
os surdos ouviram, 
os coxos andaram. 

i3 
Os mortos tem vida, 
os vivos não morrem, 
os bens á medida 
do desejo correm. 

A summa bondade 

nos manda por guia 

a luz e a verdade, 

que David pedia. Salm. 42. 

i5 
A justiça sua 
hoje nos revela, 
nasce o sol da lua, 
sendo maior quella. 

16 
Sem abrir-se a fonte, 
sahe delia o mar; 
vão de monte a monte, 
tudo ha-de alagar. 

*3 



354 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



'11 
Milagre inventado 
do divino esp'rito, 
qae do limitado 
saia o infinito. 

18 
Na Virgem caber 
quem nos Ceos não cabe, 
como pode ser ? 
quem o fez o sabe. 

19 

Nova maravilha 
do divino amor, 
mãi, esposa e filha 
dum mesmo Senhor. 

20 
Deu a flor suave 
o fructo esperado, 
já vimos a chave 
do jardim cerrado. Cant. 4, 12. 

21 

O divina Aurora, 
só em vós se vio 
dar mais luz na hora, 
em que o sol sahio. 

22 
Sol, que apparecendo 
almas rouba e inflamma \ 
sol, que em se escondendo 
levanta mór chama. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 355 

23 

E' lume do lume, 
que elle só faz vêr, 
no qual se resume 
tudo o que tem sêr. 

24 

Fez a vóz humana 

Outro sol deter. Josué, 10. 12. 

fez a soberana 

este a nós descer. 

26 
Lá figurou isto 

Deos por Isaías, Is. 38. 8. 

no relógio visto 
delRei Ezechias. 

26 
Pêra o segurar 
da mercê, que íèz^ 
o sol fêz tornar 
dez linhas atrás. 

27 

Quando o mundo alcança 
o de que era indino, 
a mesma mudança 
fêz o sol divino. 

28 
Deixa Anjos no Ceo, 
seus coros passou, 
ao homem desceo, 
e nelle parou. 



356 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



29 

Aqui a humildade 
de Deos triunfou, 
forma a divindade 
de servo tomou. 

3o 

Se o não conhecera 
por Deos e Senhor, 
isto parecera, 
doudice d'amor. 

3i 
Por Deos seu thesouro 
todo em nossa mão: 
este é o altar d'ouro, 
que vio São João. Apocal. 8. 3. 

32 

Leão de Judá, 
que o Ceo nos conquista, 
Cordeiro, que o dá, 
e honra o Baptista. 

33 
Triunfo e lucerna Apocal. 21. 23. 
da Cidade santa, 
que com gloria eterna 
se adora e se canta. 

Grão do Ceo cahido, 
que o fructo, que deu, 
só nelle é sabido, 
que é celeiro seu. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz SSy 

35 
Na terra cahio, 
de Deos mui amada, 
que foi na que vio 
Moysés figurada. 

36 

Virgem soberana, 
se a fé me deixara, 
serdes mais que humana 
de vós afifirmára. 

37 

Custodia segura 

da sabedoria, 

que os Anjos mais pura, 

que os santos mais pia. 

38 

Do Ceo desejada, 
porque vos conhece, 
da terra engeitada, 
que vos não merece. 

3& 

Querendo-lhe dar 

Rei, vida, luz, graça, » 

chega a lhe negar 

lugar, em que nasça. 

4a 

Do mundo é senhor, 
não tem lugar nelle, 
tudo pôde amor, 
pois o trouxe a eile. 



358 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



41 

Se o não abrasara 
saudade da cruz, 
quiçaes nos deixara 
com nosco e sem luz. 

42 
De homens racionaes 
é Deos engeitado, 
só entre animaes 
achou gasalhado. 

43 

Senhor dos senhores, 
vós entre os animaes, 
e reis peccadores 
em paços reaes ! 

44 

E' Deos tal amigo, 
tão bom de servir, 
que em nada comigo 
se quer desavir. 

Sofre companhia 
tão imprópria nelle, 
por que neste dia 
ninguém fuja delle. 

46 
Por mais semilhança 
que cos brutos tenha, 
não perca a esperança, 
venha, venha, venha ! 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 3^9 



47 
Lapa gloriosa, 
dos Geos invejada, 
que elles mais fermosa, 
mais alumiada. 

48 

Mil Anjos a ornaram, 

nenhum apparece, 

que a luz, que adoravam, 

a sua escurece. 

49 

Nella os serafins 
são mais abrasados, 
nella os cherubins 
mais arrebatados. 

5o' 

Nella nasce Deos, 
nella hoje se encerra 
o melhor dos Ceos, 
o melhor da terra. 

Hoje os homens vem 
o Verbo encarnado, 
por quem, pêra quem 
tudo foi creado. 

62 
Quando a Virgem vio 
da gloria o penhor, 
tudo se cubrio 
do seu resplendor. 



36o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

53 

Em tal claridade 
a sua alma ardia, 
que toda a Trindade 
nella se revia. 

54 

Lá lhe mostra agora 
Quem nella morou 
e quem nesta hora 
cá lhe revelou. 

55 
Meu Jesu, que é isto! 
em presépio vós, 
e que a causa disto 
sejamos nós, nós ! 

56 
Dizei-me Anjos seos, 
• pastores e reis. 
se tal está Deos, 
em que o conheceis ? 

Em que no amor tem 
a gloria escondida, 
só por que a dar vem 
pelos seus a vida. 

58 
E na adoração 
da mãi e do esposo, 
que ambos raios são 
deste Sol fermoso. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 36i 

A mão soberana 
seu poder mostrou 
na Trindade humana, 
que aqui ajuntou. 

60 
No esposo santo 
da Virgem sem magoa 
SC enche alma d'espanto, 
e os olhos d'agua. 

61 
Vendo o que deseja, 
do Anjo avisado 
o presépio beja, 
nelle transformado. 

62 
Do mais serlndino 
cuida o Patriarcha, 
que inda que é menino, 
terra e Ceos abarca. 

63 

Anjos, reis, pastores 
por divina traça 
são annunciadores 
do auctor da graça. 

64 

Pêra nos mostrar 
que nesle senhor 
ha três que adorar, 
Deos, rei e pastor. 



302 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

65 
Palhas tem por leito 
quem Anjos deixou, 
porque accenda o peito, 
que o mundo apagou. 

66 
Choraes, meu Jesu, 
de frio tremeis. 
Quem vio a Deos nu, 
pobre o Rei dos Reis ! 

67 

O rica pobreza ! 
ó falta abundante ! 
ó alta baixeza ! 
ó divino amante ! 

São tudo mysterios, 

que nos apregoam, 

que honras, pompa, impérios 

não são o que soam, 

O' cega ambição, 
mais cega vaidade, 
que da opinião 
fêz necessidade. 

70 

Pelo Deos visivel, 
que já conhecemos, 
no amor do invisível 
nos arrebatemos. 



Obras de Fr. Agostinho da Grur 363» 



71 
Alma, que hoje teve 
tão nova mercê, 
pois toda se deve, 
toda se lhe dê. 

72 
Lembrai-lhe senhora, 
porque a não exclua, 
que o sêr pecoadora 
não tira sêr sua. 



MOTE A NOSSA SENHORA 

Antes de parir, 
Parindo e parida 
Virgem escolhida. 



GLOSA. 

Quem vos escolheo 
Rainha dos Ceos, 
foi o mesmo Deos, 
que de vós nasceo. 
de vós procedeo 
vossa eterna vida. 
Virgem escolhida. 

Muito alcançastes, 
muito merecestes, 
porque muito amastes, 
muito padecestes. 
Virgem, que nos destes 
o Autor da vida, 
Virgem escolhida. 



364 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Os vossos louvores 
não podem ser ditos, 
que são infinitos, 
cada vêz maiores ; 
destes fructo e flores, 
déstes-nos a vida, 
Virgem escolhida. 

O Sol, as estrellas, 
os lírios, as rosas, 
sendo mais fermosas, 
vós o sois mais qu'ellas. 
Das cousas mais bellas 
fostes escolhida 
pêra nos dar vida. 

Toda sois fermosa. 
Virgem, minha amiga, 
em amor antiga, 
do amor mimosa; 
doce, satidosa, 
parindo e parida 
de Deos escolhida. 



MOTE. 

Saudade minha, 
quando vos veria? 



GLOSA. 

Este doce quando 
vós o sabeis certo, 
se longe, se perto, 
se duro, se brando. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 365 

vivo contemplando 
no bem, que seria, 
quando vos veria. 

Desejo de vêr 

um bem que desejo, 

cousa em mim não vejo 

pera poder ser. 

sem vos merecer, 

saudade minha, 

quando vos veria ? 

Quem fazer pudera 
comvosco um partido, 
que inda que perdido, 
nunca vos perdera, 
que allivio me dera 
saber que vos tinha, 
saudade minha. 

Esta piedade 
(ah! não ma negueis) 
que não me priveis 
da vossa amizade, 
minha saíidade, 
saudade minha, 
quando vos veria ? 



ENDECHAS. 

I 

Fiz conta comigo, 
achei-me enganado, 
porque tenho achado, 
que não tenho amigo. 



366 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Não foi culpa minha, 
Foi minlia ventura 
esperar brandura 
de quem a não tinha. 

3 
Peitos deshumanos, 
ingratos, esquivos, ' 
senti-vos nocivos 
no fim de os meus annos. 

4 
Tenra mocidade, 
quando te partiste, 
então descobriste 
tua vaidade. 

5 
Desertas montanhas, 
se em vós me criara, 
nunca me queixara 
de magoas tamanhas. 

6 
Campos povoados, 
povoados valles, 
em vós nascem males, 
sem ser semeados. 

7 
Quem nunca vos vira, 
nunca em vós pascera, 
nunca se vendera, 
nunca se sentira ! 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 867 



Quam tarde se sente, 
quam tarde se entende 
quanto bem depende 
de fugir da gente ! 

o ... 9 

Solitária vida, 
suave, ditosa, 
vida saudosa, 
vida só vivida ! 



OUTRAS. 

I 
Já não digo um dia, 
nem menos uma hora; 
um momento fora 
sequer d'alcgria. 

2 
Em que respirara 
de mágoas tamanhas, 
tantas, tão estranhas, 
antes que acabara. 

3 
Se cada anno perde ' 
sua folha a planta, 
cada anno outra tanta 
lhe nasce mais verde. 

O no, que corre, 
vai pêra tornar; 
entra e sahe do mar, 
assi nunca morre. 



368 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

5 
Mas onde se vio 
que tornasse a vida, 
depois de partida, 
donde se partio ? 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 369 



MOTE . 
A Nuestra Senora. 

Para bien os sea el parto, 

Virgen hermosa y pura ! 
Para bien sea ! para bien ! 

GLOSA. 

Bendita seais, senora, 
pues creyendo concebistes ! 
y bendita'ansi ia hora 
en la qual, Virgen, paristes 
ai que el cielo y tierra adora. 

Aca os alaben harto 
como en el Empíreo cielo, 
de los quales no me aparto, 
mas diziendo en baxo buelo : 
para bien os sea el parto l 



24 



370 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Como de Dios sois criada 
sin mancilla original, 
ansi quedastes sellada 
en vuestro parto y qual 
dei Angel annunciada. 

Tal madre en la blancura 
a tal hijo convenia, 
quedando-vos criatura 
pariendo le luz dei dia, 
Virgen hermosa y pura / 

Quedastes mas sin lesion 
quel cristal dei sol herido, 
puerta abierta de perdon, 
dei yerro de Eva nacido 
, y velo de Gedeon. 

Pues de todos no aya quien 
vuestro parto no alabe, 
ya que estais como en Bellen, 
aca diga y en esto acabe : 
para bien sea ! para bien ! 



11. 



Grandes nuevas ; Dios nacido, 
por amor ; 
a él 1 a él, pecador. 

GLOSA. 

Ya la tierra está hecha cielo, 
Maria donzella y madre, 
baxando angeles ai suelo, 
el hombre subido de un buelo 
a la derecha dei padre. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 371 

Ya las culpas se perdonan, 
ya se cobra el perdido, 
los Archangeles entonan 
dulce musica y pregonan : 
grandes nuevas: Dios nacido! 

Grandes nuevas : Dios nacido ! 

dilúvios de amor derrama*, 

la madre de mar ha salido, 

muestra el verbo ai hombre remido 

quanto puede, sabe, y ama. 
Pudo en un nino esconder-se, 

supo unir suervo y sefíor, 

tanto amó que vino hazer-se 

hombre para deshazer-se 

Por amor t 

Triunpha con nueva gloria 

la criatura dei criador: 

el vencido es vencedor, 

y ambos quedan con vitoria. 
Por una oveja perdida 

el soberano pastor 

de las noventa se olvida; 

y pues viene a dar-te vida, 

a él ! a él, pecador ! 



m. 

A la circunce^ion. 

Oy sangran a nuestro Dios 
y segun la sangre está, 
sin duda que morerá. 



372 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



GLOSA. 

Dime, amor, sabes que heziste 
en hazeres a Dios hombre ? 
A mi a ser Dios subiste, 
y Dios tener por renombre 
mi forma que tu le diste. 

Hoy verás en uno, dos; 
criatura, el criador ; 
por el no, solo por nos 
y solo por su amor : 
oi sangran a nuestro Dios. 

Entre brutos nel invierno, 
embuelto en viles panos, 
mas Dios trino y uno eterno 
nacio aer por nuestros danos, 
y oi se sangra tan tierno. 

Quien iàmas pues dudara 
si el viene, morir de hecho 
y que mas por nos hará 
estando oi en tal estrecho, 
_y segun la sangre está. 

Mas ia tenia ordenado 
su eterno y summo padre, 
quel nino fuesse humanado 
quedando Virgen la madre. 

Mas aquel bien pagará, 
que hizo Adan y Eva, 
y ansi nos salvará 
5' como Matheo lo prueva: 
sin diida que morir á. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 373 



OITAVAS 1. 
A Christo no Horto. 

Divino sol, en cuya imagen pura 
le desean ver los angeles dei cielo, 
y en cuyo nonnbre toda criatura 
humilde se arrodilla por el suelo, 
nuestra culpa eclipso vuestra hermosura 
dessas gotas de sangre con el velo, 
que amor vos ha humanado por tal arte, 
que seendo Dios temeis por vuestra parte. 

Este es un acto raro y sobrehumano, 
en que mas vuestro amor aveis mostrado, 
pues sin entrevenir agena mano 
fue cuchillo el temor, mano el cuidado. 
Vuestro mesmo dolor Dios soberano 
os tiene por mis culpas desagotado : 
vos por me libertar sangre sudais, 
yo vivo dei sudor que derramais. 



II. 

A Christo acoutado. 

De la planta dei pio a lo mas alto 
de la cabeça, que el oido serena, 
ni un pequeno lugar le quedo falto 
de los vestigios de la injusta pena. 



374 Obras de Fr, Agostinho da Cruz 

Dió ai poder divino amor assalto 
y quedo dei amor la mano Uena 
de triunfos, y el Dios dei alto ciclo 
Ueno de golpes dei cruel flagelo. 

Prodígio enamorado Christo mio, 
que por enriquecer la esposa ingrata 
desnudo estais ai rigoroso frio, 
roto el vestido de la humana plata. 
Quanto baxastes el divino brio, 
mas es ai amor la imagen grata : 
y aun si ai padre os mostrais en esse estado, 
pregonará que sois su hijo amado. 



III. 
A Christo coroado. 

Salid, hijas dichosas de Sion, 
con passo presto, com veloz corrida ! 
mirad de vuestro amado Salamon 
la cabeça sagrada enriquecida. 
Que esta es de su imortal coronacion 
la fiesta a que ab eterno se combida, 
como dulce y real preparatório 
dei nuevo inseparable desposorio. 

Pêro, mi buen Jesus, Salamon nuevo, 
aunque tanto os preciais dessa corona, 
quando los ojos a miraros muevo 
con Uanto su dolor mi alma abona. 
Aunque llorar no puedo quanto devo, 
que es mejor la razon que me apassiona 
mas, amado Jesus, mis culpas siento, 
que son las que an dade esse tormento. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 375 



IV. 

A Christo com a cru\ nas costas. 

Adonde, mi dulce Dios, cargado 

de Adan com los vilissimos despojos, 
que podreis de Michol ser despreciado, 
segun humilde os miran nuestros ojos. 
El choro celestial todo admirado 
pasma de tanto amor en los anlojos, 
viendo que ai peso de la cruz se humilla 
aquel a quien el cielo se arrodilla. 

Santo Isaac, que a los ombros inocentes 
la leiía ansi llevais dei sacrifício, 
porque para el remédio de las gentes, 
iguala amor las fuerças ai servicio 
Pues por modos hazeis tan excellentes 
vuestra la pena, mio el beneficio, 
una parte me dad de vuestra cruz, 
porque pueda seguiros, buen Jesus ! 



V. 
A Christo crucificado. 

Serpiente de metal, que en el desierto 
a los ojos dei mundo levantada 
ai hombre vida dais, que estava muerto, 
con el veneno de la sierpe airada. 



376 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Felice, buen Jesus, ha sido cierto 
la culpa en vuestros ombros descargada 
que en esse mar de sangre pura 
muere el tirano que matar procura. 

Gorred pues, ovejuellas desgarradas, 
a la voz dei pastor que tanto os ama, 
que dexando sus penas olvidadas 
por la vida os dar muriendo os llama. 
Reved de las corrientes regaladas, 
que por todas sus venas ais derrama ; 
llegá-os, fatigado pueblo humano, 
ai pecho dei divino pelicano. 



MOTE. 

l Como es possible, mi Dios, 
que hecho nino esteis llorando, 
estando angeles cantando 
paz ai hombre, y gloria a vos ? 



VOLTAS. 

Van cantando que en Belen 
hecho niíío sois nacido, 
y que de una virgen parido 
sois oi para nuestro bien. 
Si es aquesto assi, mi Dios, 
l como naceis oi llorando 
estando angeles cantando 
pa:{ ai hombre, y gloria a vós ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 877 



Si a vuestro padre ofreceis 
mi Dios, aquesta venida, 
y aun el alma y la vida 
y la sangre que teneis, 
l como es possible, mi Dios, 
que nazcais nino, llorando, 
estando angeles cantando 
pa:{ ai hombre^ y gloria a pós ? 



DIALOGO ENTRE PECADOR E XRISTO. 

Si, que más puede el amor. 

P. i Que azeis, nino y senor, 

nel suelo tan pobrezito ? 
X. Crio-me para pastor. 
P. i Tu pastor, Dios infinito ? 
X. Si, que más puede el amor. 

P. No eres tu dei cielo seííor 
quen ansi te ha mudado? 
X. Deseos de ser pastor. 
P. i Dios ha de guardar ganado ? 
X. Si, que más puede el amor. 

P. Pues dime, nino e senor, 

si es pastor i como es tu nombre ? 

X. Jesu, nuestro Redemptor. 

P. i Dios eterno ha de ser hombre ? 
Si, que más puede el amor. 



378 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



ROMANCE. 



Ao Ser a/i CO Padre São Francisco. 



l Quien será aquel cavallero, 
que trae el Rei de la gloria 
el cuerpo lleva herido, 
Dizen que en el monte Alverne 
en cinco partes dei cuerpo 
Vino volando dei cielo 
do estava el santo padre, 
con lagrimas de sus ojos 
viendo como el Rei dei cielo 
por re[de]mir a los hombres 
el criador por la criatura, 
Dios eterno por el hombre 
El alma se le salia 
pensando como en la cruz 
sin tener quien lo consuele 
Qual lo peensa, tal lo vido 
con alas de serafin 
con um semblante amoroso 
se abaxo ado el estava 
y tanto lo apretó consigo 
Tan lierna y tan dulcemente, 
que ni el puede dexar a Christo 
Tal es el laço de amor 
con el sello de Dios vivo. 



entre todos estremado, 
de sus armas senalado ? 
el coraçon trespassado, 
un Seraphin lo ha llagado, 
que son pies, manos y lado. 
hazia aquel monte sagrado 
en oracion enlevado ; 
el campo liene regado, 
quiso ser crucificado, 
que contra el avian peccado 
el senor por su vasallo, 
mal herido y mal tratado, 
de compassion de su amado 
fue en todo atormentado 
de todos desamparado, 
en los aires levantado 
en fuego todo abrasado 
qual nadie, basta contarlo, 
y en sus braços lo ha llevado, 
que en el fico afigurado, 
entre si se an abraçado 
ni Christo queere dexarlo. 
Con que los dos se an atado 
su cuerpo fico sellado. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



379 



Las senales de su passion 
por las renovar en el mundo, 
imprimio-las Christo en el 
Quien viere bien la pintura, 
pues tal debuxo como este 
sino fuera en San Francisco 



en el las ha renovado : 
que las tenia olvidado 
como en siervo más privado, 
bien verá quien la ha pmtado 
ya mas se vio debuxado 
por ser de Dios tam amado. 



38o Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



MOTE 
A' Cru:{. 

Cruz, remédio de mis males, 
ancha sois, pues cupe en vos 
el gran pontifice Dios 
con cinco mil cardenales ! 



GLOSA. 

Dulcíssima cruz sagrada, 
consvelo en la conversion, 
cruz en quien hasta un ladron 
halló, quando no esperada, 
vida eterna y salvacion. 

Cruz a quien Dios concedió 
sus poderes celestiales, 
cruz, que puedes quanto vales, 
cruz, con quien Dios se medió 
cru:{, remédio de mis males. 

El [que no tiene medida 
medió el cuerpo humanado 
con vos por nuesiro peccado ^ 
quedastes por dar-nos vida 
maior que el cuerpo sagrado. 

Infalible conclusion 

es, si os medis con Dios, 
quedando iguales los dos, 
que sois ancha, y con razon 
ancha sois, pues cupe en vos. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 38 1 

Quien durará, cruz divina, 

vuestra grandeza excellente, 

que no vea claramente 

que el mismo Dios se os inclina 

y baxa a la cruz la frente. 
Es notable maravilla 

mediros solos los dos, 

y que os haja sola a vos 

nel Calvário ara y silla 

el gran pontífice Dios. 

No quedo Dios satisfecho, 

quando con vos se medió, 

ser solo pêro llevó 

el amor dentro en el pecho, 

que en vos le crucifico. 
Y por quedardes maior 

demás de quedar[desj iguales 

y dar vida a los mortales, 

tuvistes Dios y el amor 

con cinco mil cardenales. 



ECOS. 

I 

l Quien me tiene sin honor ? 

Amor! 
l Quien me tiene sin sentido ? 

Olvido! 
•l Quien acaba mi esperança ? 

Mudança ! 
Pues mi passion nó alcança 
remédio por ningun modo, 
oi me destruen de todo 
Amor, olvido j" mudança. 



382 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



l Quien me tiene sin alento ? 

Tormento ! 
l Quien me tiene en cadena ? 

La pena. 
l Quien me tiene sin vigor ? 

Dolor. 
Pues me falta el favor 
de quien pensava aiudar-me, 
por fuerça aura de acabar-me 
Tormento, pena f dolor. 



^ Quien me quita el passatiempo? 

El tiempo ! 
l Quien me procura estorvar ? 

El lugar ! 
l Quien me dá moléstia alguna ? 

Fortuna. 
Si el resplandor de la luna 
basta un nublado quitar, 
mal puedo yo conquistar 
Tiempo, lugar j fortuna. 



4 

l Quien me derruba ai profundo ? 

El mundo ! 
l Quien me oprime como António ? 

El demónio ! 
l Quien ay que nel alma me encarne? 

La carne. 
Acertado es que descarne 
dei coraçon y dei pecho, 
como gente sin provecho 
ai mundo, demónio y carne. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 583 



l Quien se saca de peccar ? 

Penar ! 
l Quien de dar-se ai malbiver ? 

Gemer ! 
^ Quien de seguir ai plazer ? 

Arder ! 
Si en tal trance se á de ver 
quien pretende cosa injusta, 
malgusto tiene el que gusta 
de penar, gemer j' arder. 



l Que causa ha mundano gusto ? 

Desgusto ! 
l Que ay debaxo de su manto ? 

Llanto ! 
l Que dá pêra descansar ? 

Pesar ! 
Luego no cy que confiar, 
ni que tenerse esperança 
de quien tan solo se alcança 
desgusto, llanlo y pesar. 



l Quien me bolverá a mi ser ? 

No ver ! 
l Quien me podrá revivir ? 

No oir ! 
l Quien me vendrá a remediar ? 

Callar! 
Si con esso he de cobrar 
lo que he venido a perder, 
forçoso me avrá de ser 
no ver, no oir, y callar. , 



384 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



8 

^ Quien podrá dar-me solaz? 

La paz ! 
l Quien podrá dar-me consuelo ? 

El cielo ! 
l Quien alegrar mi memoria ? 

La gloria ! 
Si salgo con la vitoria, 
que he pretendido alcançar, 
por devisa he de sacar 
la pa\, el cielo y la gloria. 



l Quien dá descanso sin guerra ? 

La tierra ! 
l Quien dá segura posada ? 

El azada ! 
l Quien los peligros taja ? 

La mortaja ! 
En vano luego trabaja 
quien más procura acquerir [sic] 
de lo que puede cobrar: 
la tierra, a^ada, y mortaja. 



10 

l Quien da lo que no se vê ? 

La fee ! 
l Quien lo más dudoso alcança 

La esperança ! 
l Quien lleva a la eternidad ? 

La caridad 1 
Aquessa es liana verdad, 
y ansi de oi mas quiero hazer 
que esten siempre en mi poder 
fee, esperança y caridad. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 385 



MOTE. 

En sola la miséria de mi vida 

nego fortuna su comun mudança ! 
,; Adonde podré huir que sacudida 
un rato sea de mi la grave carga ? 
Por mil razones pienso que es cordura 
renovar tanto el mal que me atormenta, 
que a morir venga de tristeza pura. 



GLOSA. 

Triunpha el tiempo, y con mudable rueda 
la fortuna se buelve en un instante •, 
el que estava delante atrás se queda, 
quando el que tropeio puso delante. 
Ningun estado ay trisie, que no pueda 
esperar un efeto semejante, 
y veo esta esperança estar perdida 
én sola la miséria de mi vida. 

Qualquiera, triste, espera la ventura, 
que sabe ser mudable y lisonjera, 
que aora con los bienes se apressura 
y con los danos luego firme espera. 
Mas esperança en mi fuera locura 
pues claramente el alma considera, 
que en mi desdicha y mi desconfiança 
nes:ó fortuna su comun mudança 

No ay lugar que no ocupe el desengano, 
y aunque quisiera huir, fuera impossible, 
porque no me dexara el próprio dafío 

35 



386 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

ni a la suerte cruel fuera invesible, 
que sacudida esta pêra mi dano, 
l que dura ? i que tirana ? i y que terrible ? 
; que peligrosa y fiera que ha salida ? 
r adonde podre huir que sacudida ? 

Ni tiempo ay, ni fortuna, ni mudança, 
ni remédio a mi dano que es forçado, 
ni me curan enganos de esperança 
ni a sus o)os conozco mi cuidado ; 
desenganada está mi confiança, 
que un dia no avrá tambien llegado, 
que devertida en pena que es tan larga 
un rato sea de mi la grave carga. 

En aspereza y mal tan duro y fuerte 
no sé como la vida se detiene, 
que ningun lance tiene ya la suerte, 
que otro remédio [de] a mi desdicha. 
Necedad es no dar-me própria muerte, 
porque biviendo más no muera y pene^ 
pêro si mi querer ansi se apura 
por mil ra^ones pienso que es cordura. 

Si crece el merecer en sufrimiento 
quando contra la suerte se pelea, 
no vea io en mi mal ningun contento, 
ni la causa se obligue ni me vea. 
En sacrifício a amor doy mi tormento^ 
y para que más noble y puro sea 
me satisfaze y agrada y contenta 
renovar tanto el mal que me atormenta^ 

No muera yo de estar desenganado, 

ni de ver que mudanças se han perdido, 
ni de estar de mi bien desesperado 
y mi tan firme amor puesto en olvido. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 387 

Biva triste, penoso y desgraciado, 
más triste que los tristes que lo an sido 
hasta que tanto canse la ventura, 
que a morir venga de triste\a pura. 



CANCION A LA MUERTE. 



Rompe los lazos de la prision fuerte, 
anima venturosa, en la partida 
con que saldrás de amargas confusiones 
para la eiernidad e imortal vida, 
por la estrada comun que llaman muerte 
y es termino de enojos y passiones ! 
Dexarás de seguir las ilusiones 
de los sentidos debiles, que enganan*, 
y mientras te acompanan, 
aunque baxos, grosseros, se inclina 
tu parte más divina, 
que va pedir socorro ai aposento 
de los fantasmas dei entendimiento. 

2 
Desnuda quedarás de la librea, 

que de color mortal humores vários 

para hazer-te a su mano, te componen, 

ni de elementos entre si contrários 

ofenderá tus fuerças la pelea, 

con que lo que an compuesto discomponen ; 

l No miras que peligros se te oponen ? 

l mientras cubierta desta vil corteza 

escondes la nobleza, 

que a tu criador te buelve semejante ? 

Camina, y en un instante 



388 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

te bailarás libre, en la gran pátria, fuera 
de adonde el tiempo sigue su carrera ! 

3 /. 

Quando veas dei cuerpo desasirte 

no temas el morir, que tu no mueres : 
sola la tierra en tierra se deshaze ! 
Como de mortal mano hechura no eres 
espirito desnudo has de partir-te : 
assi ai movedor primero aplaze *, 
las obras son senal dei que las haze. 
Mientras te tiene el cuerpo en sus cadenas, 
cosas de cuerpo agenas 
entendiendo y amando, tal te paras, 
que entre tus obras declaras 
poder estar sin cuerpo, y si esto puedes, 
l quien podrá hazer-te que imortal no quedes? 

4 
No la triste vejez, no enfermedades, 

no riesgos de la mar y de la tierra, 

no batalla sangrienta y peligrosa •, 

solo ai cuerpo estas cosas hazen guerra. 

Tu que traes con él contrari_'dades, 

mal puedes ser con el la misma cosa. 

Manda la voluntad imperiosa, 

han de servir los miembros obedientes; 

son cosas diferentes, 

uno que manda, el otro que obedece; 

lo mismo es que acontece 

entre el entendimiento y los sentidos 

de parte a parte en votos divididos. 

5 
La continua ambicion, la mortal hambre 
de hacer eterno el curso de la fama, 
que con cien lenguas y cien alas vuela, 
de esperanças urdir perpetua trama, 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 389 

pensando que las parcas con su estambre 

podran hacer incorrutible tela 

bivir como soldado en sentinela, 

lo porvenir buscando en las estrellas, 

l que son sino centellas 

de la inmortalidade ? con cuya lumbre 

por natural costumbre 

colunas, letras, arcos, mausoleos, 

contra los anos dexas por irofeos. 

6 

Ni con esto se quieta el movimiento 
de un deseo que corre a rienda suelta 
trás cosas que de un soplo desvanecen, 
aun no las halla bien quando dá vuelta 
sin parar hasta el mas sublime assiento, 
do las vidas sin muertes permanecen. 
Otros más anchos campos se le ofrecen, 
do sin trocar verano o invierno 
se goza un prado eterno; 
otras montarias, selvas, rios, fuentes, 
cuyas limpias corrientes 
hazen con que de todo allá se enfria 
la ardiente sed de nuesira hidropesia. 

7 
Dexa este vaso que es de vil escoria, 
todo de llanto, y de dolor compuesto, 
hediondo, quebradizo, y corrutible, 
quando buelvas despues ai mismo puesto 
redundará de ti en el tal gloria, 
que lo haga ágil, sotil, claro, impassible : 
espectáculo aora tan horrible, 
verásse en tu presencia todo hermoso, 
un cuerpo glorioso, 
libre dei yugo de mortal estado, 
tanto mejor ornado 



Bgo Obras de Fr Agostinho da Cruz 

quanto eterna beldad es má;5 perfecta, 
que estobra que a la muerte está sujeta. 

8 
En este dia, que piensas que es postrero, 
será con más razon tu nacimiento ! 
Mira los passos bien por do veniste : 
nueve vezes con próprio movimiento 
renovado ha la luna su luzero ; 
y en el maternal ventre te estuviste \ 
desta prision a ver la luz saliste, 
mas no clara dei todo, que ha quedado 
enbuelta en un nublado, 
y aun assi no puedes bien gozalla, 
que son para miralla 
dos ventanas tus ojos, cuyas puertas 
aora estan cerradas, aora abiertas. 

9 , 
Es todo quanto miras frágil cosa, 
débil este aire, y su luz reparte 
descansando una noche a cada dia. 
l Que es lo que te acobarda a no passar-te 
para la otra region mas clara y hermosa 
do habita eternamente el alegria ? 
Oh quien allá se viera ! y que seria 
a una alma ver que en todo lo passado 
a escuras ha andado, 
quando juzgue por burla y por mentira 
quanto aora la admira, 
ni tema escuridad, ni sienta pena, 
toda de luz divina y gloria Uena. 

10 

Renacerás aora, y este segundo 
nacimiento te lleva a mejor vida; 
tambien en el primero atada estavas 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz • Sgi 

desata-te otra vez; que entretenida 

en la carcel estás dei cuerpo inmundo 

con el oficio vil de tus esclavas. 

Verás que sin respeto te quexavas 

de las oras que buelan con presteza •, 

dio-te naturaleza 

esta vida, ella misma te procura 

otra con gran usura. 

Agravias la en llorar, hombre siente 

como hiziste ai nacer, nino inocente. 

II 

Vé-te a tu pátria, que no será qualquiera 
de los estrechos limites dei suelo, 
esta o aquclla region, cindad, o villa ; 
mas será todo el estrellado cielo 
sobre los fuertes axes de la esfera, 
donde el supremo juez tiene su silla. 
Oh siempre nueva y antiga maravilla 1 
montes eternos cuyo gran deseo 
por las sombras que veo 
me llevará seguro entre esquadrones 
de barbaras naceones, 
aunque vea procurar ai duro Geta 
en mi desnudo pecho su saeta. 

12 

Conviene reposar en breve sueno , 
han sido trabajosas las jornadas 
trás quien se halla descanso sin medida. 
Adiós, mis prendas ; fuesies-me prestadas 
por poço tiempo \ pide-vos el dueno ; 
no me importa saber por quien vos pida, 
o vos venga a buscar mano homicida 
o traicion, o dolência, o duro caso. 
Basta, que llega el plazo; 
muchos caminos van a este camino, 
Ya ya, me determino : 



392 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



lo mismo es ir sorviendo gota y gota, 

que de un trago, pues todo ai fin se agota. 

i3 
Tocan a recoger : en paz se vaya 
la alma a eterno reposo. 
^ Quien hay que en un naufrágio temeroso 
no quiera ir-se a la playa ? 
Si esto es nuevo bivir, i que más pretendo ? 
En tus manos, oh muerte, me encomiendo. 



MOTE. 



Las tristes lagrimas mias 
en piedra hazen senal, 
y en vos nunca, por mi mal. 



GLOSA. 

Los rios naturalmente 
corren derecho a la mar, 
y su ligera corriente 
en saiiendo de la fuente 
se inclina siempre a baxar. 

Al contrario van comendo 
de alia siempre subindo 
a vos por estranas vias, 
y en bivas Uamas ardiendo 
las tristes lagrimas mias. 

Y como el agua subir 
no puede sin otra fuerça, 
el alma triste ai salir 



Obras de Fr. Agostinao da Cruz SgS 

le representa do á de ir 
y con esto la esfuerça. 

Mas no tanto que se atrevan 
a fiar de si que os muevan, 
aunque su poder es tal, 
que dei impetu que llevan 
en piedras ha\en serial. 

Y no deve de espantar 
tal estremo a quien provo, 
que fuerça tiene el llorar*, 
mas solo no os ablanda 
lo que a ellas ablandó. 

Son lagrimas sin ventura 
a quien razon assegura 
duelo de anciã tan mortal 
hasta en una pena dura, 
^ en vos nunca, por mi mal. 



MOTE. 



Lagrimas que no pudieron 
vuestra dureza ablandar, 
yo las bolveré a la mar, 
pues de la mar salieron. 



GLOSA. 



Des que el pecho abraso 

el rayo de vuestros ojos, 

el amor que lo encendió 

de tus cenizas salió 

con más fuerça y más despojos. 



394 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Y SUS intentos crueles 

el alma abrasar quisieron, 
mas dos fontes se corrieron 
con tantas y tan fieles 
lagrimas que no pudteron. 

Aunque el alma socorrida 
pudo contrastar la llama, 
siendo de amor encendida 
no podrá escapar la vida, 
que enfin no bive quien ama ! 

Y ansi de vuestro sosiego 

ya no vengo a no me espantar, 
que assi ame y nos haze amar 
l como podran agua y fuego 
viieslra dureza ablandav? 

Ondas mis lagrimas son, 
que de la mar se levantan, 
y anegando el coraçon 
luego en vuestra condicion, 
como en rocha le quebrantan. 

Ya que la vista de mi fee 
aguas me hazen acabar, 
do pense de me salvar, 
pues de la mar las saque, 
yo las bolveré a la mar. 

Siendo cosa natural, 

que quien muere restituya 
viendosse en un trance tal 
buelvo ai sofrimiento el mal, 
la vida ai amor que es suya. 

Mis gutos a las mudanças, 
que siempre los persiguieron, 
mis anciãs ado naçieron, 
a la mar las esperanças 
puesque de la mar salieron ! 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz SqS 



MOTE 
A El Rei Phelippe o Segundo. 

l Di, contento, adonde estás ? 
que no [te] tiene ninguno : 
quien piensa tener alguno 
no sabe por donde vas ! 

GLOSA. 

Lo que se deve entender, 
fortuna, de tu caudal, 
es que siendo temporal, 
no puedes satisfazer 
ai alma que es inmortal. 

Tu me diste y me vas dando 
honra, estado, reino y mando; 
y es tan poço quanto das, 
que digo de quando en quando*, 
^ di, contento, adonde estás ? 

No estás entre los favores 
deste mundo y sus flores, 
ni en el fin de sus de.seos, 
ni en riquezas y amores, 
ni en vitorias y trofeos. 

En fin, no te halla alguno, 
que todos dizen de no. 
Y entienda el mundo importuno, 
que pues no te tengo yo, 
que no te te tiene ninguno. 



396 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Buscar contento en la tierra 
es buscar pena en el cielo, 
y en el abismo consuelo, 
tranquilidad en la guerra 
y calor dentro en yelo. 

Dentro ni fuera de Hespana 
no le ay, porque acompana 
en su trono ai trino y uno ; 
y fuera de aqui se engana 
quien piensa íener alguno. 

Quien te busca antre contentos, 
contento, tenga entendido, 
que te perde y va perdido, 
porque entre los descontentos 
sueles estar escondido^ 

Y si Dios, fuera de ti, 
padecio penas por mi, 
para entrar onde estas, 
el que no va por aqui 
no sabe por donde vas. 



MOTE. 

En ningun médio puedo sustentar[me], 
estando los estremos tan Uegados, 
que me ayais de valer ó aborrecer. 



GLOSA. 

El destino cruel que me detiene 
en dura servidumbre tantos anos, 
por do viene a olvidar lo que conviene 
ai alma que escogió bivir de enganos 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 897 

Porqne menos me entienda y más no pene, 
te escondi a ti mi fee y a ti mis danos 
de suerte que se llegó a entender me 
en ningun médio puedo susíeníar-me. 

Voyme trás mi cuidado a rienda suelta 
sin ver de ado parti, ni ado camino; 
el cielo da una buelta y otra buelta 
y siempre me alia en quexa de contino. 

La razon y el querer trago en rebuelta 
lo que no puede ser, esso imagino, 
l que alivio me dareis, mis fieros hados 
estando los estremas tan llegados? 

Mostra-me un solo bien en tal estado 
si tristes pueden ver lo que desean, 
que sepan quien me lleva el deseado 
fin daquella prision que otros grangean. 

Quiçá vendré moriendo a ser llorado 
de los ojos que hazeis que no me vean 
yescusaré de a vos ofrecer-me 
que me ayais de valer o aborrecer. 



MOTE. 

Este mi mal tan estrano, 
si os viesse, aunque mayor, 
nunca seria dolor 
por mucho que fuesse el dano. 



GLOSA. 

Pudieron médios injustos 
quitar su sol a mis ojos, 



SgS Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

dando-me estranos enojos, 
como naturales gusios, 
llueven rayos de disgustos. 
A su centro llega el dano 
y aun no me desengano 
si el bien puede hazer-me mal, 
que ha quedado natural 
este mi mal tan estrano. 



Si mejorara mi suerte 
aun de perdidas passadas 
como en llagas apretadas 
se hiziera el dolor más fuerte 
acercarasse mi muerte. 

Pêro todo templa amor, 
y si creciera el dolor 
de haver dejado de os ver, 
menor fuera el parecer 
si os viesse, aunque mayor. 

Pudiera cobrar tal brio 

el alma en vuestra presencia 
que quitara la potencia 
dei dolor ai alvedrio 
un licito desvario. 

Do razon fuera peor 
hallaria tal sabor 
en el mal de que muriera 
que por mucho que doliera 
nunca seria dolor. 

Ay mis locos pensamientos ! 
que de bienes invisibles 
hazer provechos possibles, 
son vanos atrevimientos, 
vayan, pêro, mis intentos. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz Sgç 

Ado los lleva este engano 
si llegasse un bien tamano, 
de mil dificiles hechos 
seria mucho el provecho 
por mucho que fuesse el dano! 



MOTE. 



j Pluguiera a vos, mi Dios, que no nasciera, 
o ya que nasci, nunca ai mundo amara, 
o ya que amé, solo en vos me empleara, 
Senor, que mi amor me agradeciera ! 



GLOSA. 

Estoy de lepra fea tan llagado, 

que hasta lo interior tengo podrido, 

que ya no siento aver a Dios dexado, 

ni menos el porque le he ofendido. 

Sin amor mi coraçon tengo yelado, 

la alma sin luz, el pecho endurecido ; 

y pues fuy para vos quien no debiera, 

} pluguiera a vos, mi Dios, que no nasciera t 

Quien me robô, senor, la libertad 
la qual en me formando me dotaste ? 
l que es de mi entendimiento y voluntad 
y mi memoria con que mi alma ornaste ? 
i Dexé-os, via y luz, vida y verdad, 
con que dexar ai mundo me ensenaste ! 
Ah 1 quien no nasciera I o ya acabara 1 
/ o ya que nasci nunca ai mundo amara l 



400 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Dexé-me enganar de mil enganos, 
(que como cego cegue) y vanidades 
sin nunca echar de ver los desenganos 
dei mundo y sus mentiras y falsidades, 
y despues que gaste mis largos anos 
en gustos vanos, plazeres, novedades 
disse : j ah quien, mi Dios, solo en vos, los gastara 
o ya que amé, solo en vos me empleara ! 

Si vos para servir-me todo hizistes 
y todo a mi para vos solo amaros 
para que ame ai mundo permitistes 
o no me acabastes antes que dexaros, 
que [no] nos da o haze el mundo sino tristes 
y que bienes no nos dais solo en daros. 
j Ah quien, mi Dios, con vos ya allá se viera 
Seííor, que mi amor me agradeciera ! * 



MOTE. 

Passo la vida solo en contemplar-te, 
y en la contemplaçion me desespero, 
no podiendo hazer más que desearte. 



GLOSA.. 

El coraçon más preso, el pensamiento 
más suelto buela a la region suprema 
y sin interromper-se de su intento 
en Ia esphera de amor sus alas quema. 
Ansi queda más firme y su aposento 
haze en ti, mi senora, hasta la estrema 
hora, y pues en ninguno ay olvidar-se, 
passo la vida solo en coníemplar-te. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 401 

Contemplo en la ocasion de mis enojos, 
y como porfiados permanecen 
ei contrario en el bien, que a un voltar de ojos 
sus glorias van huyendo y desvanecen. 
Todo son fantasias, todo antojos, 
y si apretallos quiero, no parecen : 
contemplo que son algo y temo y espero, 
y en la contemplacion me desespero. 

Perdida la esperança y quasi muerto 
en alto mar me quedo en soledad ; 
si a salir pruevo el camino incierto 
si las ondas contrasto, es vanidad. 
Impedido dei todo veo el puerto 
y vencida ya mas la tempesiad 
de lexos con el faro oso mirarte, 
no pudiendo ha\er mas que desearte. 



MOTE. 

No pudieron más subir 

mis pensamientos, mi Dios; 
y ansi solo estan en vos. 



GLOSA. 

Quando, mi Dios y senor, 

veo que tanto me amais, 

que aun despues de muerto echais 

dei pecho rios de amor 

con que mis erros lavais, 
No hay razones ni desculpas 

con que mi verguença huir, 

pues que por [los] redemir 

36 



402 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

tanto os baxaron mis culpas 
no pudieron más subir. 

Y ya que conozco que soy 
quien os ha crucificado 
doy me a vos por el pecado, 
aunque muy poço os doy, 
pues doy lo que me haveis dado. 

Mas si dei precio las sobras 
muriendo pagais por nos, 
crucificar quiero en vos 
mis palabras y mis obras, 
mis pensamientos, mi Dios. 

Justo es que aqui me dessangre 
en los clavos que os rompieron, 
que si en vos sangre vertieron 
dar [debo] dei alma la sangre 
a quien ellos vida dieron. 

Todo el rigor se asserena 
viendo-os mis ojos, mi Dios, 
que en mi ven ia pena atroz 
y en vos ya paga la pena 
y ansi solo estan^ en vos. 



OUTRA GLOSA AO MESMO MOTE. 

En aquella eterna luz, 

que dende la empiria cumbre 
a todo el hombre da lumbre 
y haze occidente en la cruz, 
porque hasta el infierno alumbre, 

Mi viejas alas ardieron 
para de otras me vestir, 
con que solo ai cielo he de ir, 
mas si Dios en la cruz vieron, 
non pudieron más subir. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 4o3 

Fueron de ícaro mis alas 

ai sol dei divino amor, 

y en el mar de mi dolor 

se anegaron plumas malas 

porque volaste mejor 
Que como en si Uevan dentro 

el fuego de aquella voz, 

que ai bien llama a todos nos, 

solo en vos allan su centro, 

mis pensamieníos, mi Dios. 

Corre el fuego a su region, 
y el aiie a la sua en buelo, 
la agua ai mar, la piedra ai suelo, 
y a Dios las almas, pues son 
partes dei todo dei cielo. 
Gloria inmensa allan alli 
con vosco estando, mi Dios, 
dexaros es caso atroz, 
pues sin vos no estan en si, 
y ansi solo estan en vos. 



404 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



SONETO I. 
A Assunção de Nossa Senhora. 

En turquesadas nubes y celajes 
estan en los alcazares empirios, 
con blancas achas y [con] blancos cirios, 
dei sacro Dios los soberanos pajés. 

Humean de mil suertes y linajes 
entre amaranto y plateados lirios 
inciensos índios y pevetes sirios 
sobre alhombras de lazos y follajes. 

Por manto el sol, la luna por chapines 
llegó la virgen a la empírea sala : 
visita que esperava el cielo tanto. 

Echaronse a sus pies los seraphines, 

cantaronle los Angeles la gala, 

y asentóla a su lado el verbo santo. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 4o5 



II. 

Ao Advento de Chrisio. 

l De do venis, Dios alto ? — dei altura. 
l Que motivo traeis ? — de enamorado. 
l Y que librea es essa ? — de encarnado. 
l Y quien os la vestió ? — la Virgen pura. 

l Porque venis criador ? — por la criatura. 
l Y que quereis por esso ? — ser amado. 
l De quien reçebis fuerça ? — de mi grado. 
l Por quê ? — por dar reparo a mi echura. 

l Que tal bailais el alma ? — endurecida. 

l Pues porque le hazeis bien ? — porque es mi officio. 

l Que tanto es vuestro amor ? — es sin medida. 

l Con que os lo pagaran ? — con buen servicio. 
l Que más haran por vós ? — dar-me la vida, 
Pues yo le di la mia en sacrifício. 



III. 
A Christo no Horto. 

* Dezid, senor, si no teniades animo 
para bever el cálix que dixistes : 
l por que causa a beverlo os oíFrecistes 
con pecho fuerte y coraçon magnânimo ? 



4o6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Y si entonces mostrastes viril animo, 
l porque tan presto os cnflaqueçistes ? 
Acabad Ia hazanha que emprendistes, 
que no es de Dios mostrar-se pusilânime. • 

t — Pecador, mi flaqueza no te assombre, 
que quando prometi la vida dar-te, 
como era solo Dios, nada temia. 

Mas como soy agora Dios y hombre, 
teme la carne que es de vuestra parte, 
el spirito no, que es de la mia ». 



IV. 
A Chrisío crucificado. 

Este largo martirio de la vida, 
la fee sin ella, y la esperança muerta, 
el alma recordada y tan despierta, 
ai dano y ai remédio tan dormida ; 

La voluntad ai gusto tan rendida, 
entrar el mal, cerrar trás si la puerta 
con diligencia y gana descubierta, 
que el bien no halle entrada, ni saida. 

Ser los alívios mas sangrientos laços, 
y riendas livres de los desconciertos, 
efectos son, Senor, de mis pecados, 

l De que me an de livrar esses tus braços, 
que para recibir-me estan abiertos, 
y por no castigar-me estan clavados ? 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 407 



V. 
Ao Menino no presépio. 

Si sois dei cielo gloria y alegria 
dezi-me, nino i porque estais llorando ? 
Si dais luz ai sol que está alumbrando, 
l porque naceis en noche escura y fria ? 

Si sois dei Padre la sabiduria 

; porque ansi chiquito estais callando ? 

Si Angeles de vos estan temblando 

l porque temblais, dezid vos, gloria mia ? 

Si sin principio sois, i como nacido ? 

si criador, ; como [sois] criatura ? 

si quedais en el cielo, i aqui como venido ? 

Estremos son de amor, que a mas altura 
ha os llevado Dios, porque ha querido 
nacer de una madre virgen y pura. 



VI. 
Ao mesmo. 

Si sois tan grande Dios, imenso, eterno, 
que apenas en el cielo aveis cabido 
^como naceis chiquito, assi despido, 
llorando ai frio en médio dei invierno ? 



4o8 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Del Padre aquel amor immenso y tierno 
ansi lo ha procurado y ansi querido 
para que pague (sin lo aver devido) 
de Adan la culpa y pena dei infierno. 

Como leon se estava allá en el cielo, 
mas amor dei hombre le ha forçado, 
que nazca hècho cordero oi en el suelo. 

Porque dei suelo el hombre llevantado 
con las alas de amor, llegue de un buelo 
ai cielo donde ha oi por el baxado. 



VII. 
A São Francisco. 

Si acaso, gran Francisco, yo os aliara 
sin habito y cordon, desnudo os viera, 
por Dios crucificado os conociera, 
y como ai mismo Dios os adorara. 

Y si apar de vos Dios se aiuntara 
desnudo como vos, me detuviera, 

ni a vos, mirando a Dios, por Dios tuviera, 
ni a Dios luego por Dios le declarara ! 

Viera qual Dios Francisco esclarecido: 
Uagas, gloria, humildad, un Dios sincero, 
que, ai parecer, con Dios no ai diíFerencia. 

Pêro si os viera luego con vestido, 
llamara-le a Dios, Dios verdadero, 

Y a vos Francisco, Dios en aparência. 



Obras de Fr. Agostinao da Cruz 409 



VIII. 
Ao mesmo. 

De vos a Dios, Francisco, el pensamiento 
no pone mas de aquella differencia, 
que en Dios la magestad y la potencia, 
y en vos obedecer es mandamiento. 

Las llagas tuvo Dios, mas fue un momento, 
y vos tuvistes, santo, tal paciência, 
que lo que mato ai Christo sin clemência, 
os da a vos la vida sin tormento. 

Que cosa es ser [de] Dios vuestra herida, 
y las de Dios de hombre ? y fue de suerte, 
que estais con las de Dios mui mas ufano, 

Pues quedais con vitoria y con la vida, 
y Dios, aunque en vitoria, fue con muerte 
con ser Dios y vos, Dios, Francisco humano. 



IX. 
A* ordem de São Francisco. 

Ochenta y seis províncias y conventos, 
dos mil e siete cientos computados, 
cinco en Hierusalem, siete fundados 
entre Turcos y Tártaros sangrientos. 



410 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 



Mártires veintc y seis y quatrocientos, 
y santos veinte y três canonizados ; 
de quinientos que estan beatificados 
duran eternamente los assientos. 

Quatro papas, quarenta cardenales, 
quinientas mitras, y seiscientas plumas, 
Reis veinte y cinco con stirpe honrosa. 

Estos tiene por ramos inmortales 
con diez hijos de reis y otros Numas 
de Francisco la Orden milagrosa. 



X. 
A Santa Maria Magdalena. 

Perdido el nombre, dei peccado esclava, 
esclava de Dios se hizo de limpfije^a, 
limpie'{a abraça y dexa la torpe\a, 
torpe'{a juzga ai mundo y lo que amava. 

Amava ai mundo que la despertava, 
despenava el sentido en su bruíe:{a, 
bruteza le ofuscava la noble^a, 
nobleia oi le declara quanto errava. 

Errava Magdalena, el blanco errando, 
errando acierta y bive de amor llena, 
llena de un fuego, en otro se resuelve ; 

Resuelvesse en amar, y ama llorando, 
llorando lava, y mata culpa y pena ; 
pena por ella el cielo, a quien se buelve. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 411 



XI. 

Aos Moradores de Arrábida. 

Alta sierra [de] riscos encumbrados, 
rudos arboles, valles cavernosos, 
desiertos solitários y espantosos, 
mar [de] donde salis, densos nublados ; 

Spiritos que habitais tan apartados 
y daquel bien tan deseosos, 
dexando atrás los casos enganosos, 
seguros alevantais vuestros cuidados. 

Aunque fueran mui largos vuestros anos 
y los bienes dei mundo mui seguros, 
más valen por aqui los desenganos. 

Dichosos que temiendo los futuros 
y con discursos livres caminando 
viven contentos en penascos duros. 



xn. 



El canto de las aves en la sierra 
alegra el pensamiento y el oido; 
el olor de las flores desparcido 
muestra el herraoso cielo aca en Ia tierra; 



412 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Las fieras que el salvaje bosque encierra 
causan plazer ai animo afligido ; 
la fuente despenada con ruido 
el estivo calor templa y destierra ; 

La yerva que la verde selva cria 
y el arco es a las ninfas agradable, 
dulce el fermoso Tajo en el estio. 

A mi solo el morir me agradaria, 

pues sufro un mal que nunca hizo mudable 

ave, flor, fiera, fuente, yerva, arco o rio. 



XIII. 



No me persigas más, vana esperança, 
que apesar dei deseo y sus enganos 
me an llegado a términos mis danos, 
que ni temo, ni espero otra mudança. 

Ya bivo sin temor ni confiança, 
fruto de mis tan mal gastados anos, 
y ansi tengo los bienes por estranos, 
que aun me aflige dellos la lembrança. 

En este miserable estado puesto, 

l que mal puede venir que el alma estrafie 

estando el pecho a males tan dispuesto ? 

Tiempo, fortuna, amor se desengane, 

que contra ellos tome por presupuesto, 

que quien no espera bien, no ay mal que dane. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 41 3 



XIV. 
A honrra do mundo. 

i Que ciega y general idolatria ! 
j que voluntária muerte y mortal vida ! 
i que reina tan tirana y tan servida ! 
i que áspide dulce y ponzonosa arpia ! 

j Que íiero encanto y loca frenesia ! 
i que senda tan estrecha y sin salida ! 
i que lei tan dura y tan obedecida ! 
j que injusta y mal fundada monarquia ! 

; Que bellicosa paz ! \ que civil guerra ! 
j que nave sin timon lexos dei puerto ! 
i que infernal fúria contrapuesta ai cielo ! 



i Que berdugo dei alma ado se encierra 
que sepulcro de bivos siempre abierto 
es la que Uaman honra acá en el suelo. 



XV. 
Em vitupério da pobreia. 

Hambrienta, rota, inquieta, disgustada, 
pálida, débil, triste, congoxosa, 
cortês, humilde, inútil, temerosa, 
mansa, cruel y mal ocasionada. 



414 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

De todo el mundo con razon odiada, 
de quantas cosas mira descosa, 
en sujetos honrados vergonçosa, 
y en los que no lo son desvergonçada. 

Sin voto, sin razon, sola, afligida, 
noche de la virtud y entendimiento, 
ruina dei valor y de la nobleza. 

Riguroso verdugo de la vida, 
y de las almas infernal tormento, 
eres, infame y misera pobreza. 



XVI. 

Es la esperança un mal bien reputado, 
que promete los biénes de que priva; 
es un ânsia mortal o muerte biva, 
augmento dei deseo y dei cuidado. 

Es un desesperar tan rebocado, 
que quiere que por gloria se reciba; 
CS prision de que el gusto se captiva 
por venir de se ver desenganado. 

Es mortal enemiga a sus efectos ; 
bive de no complir lo prometido ; 
mucre en los estados mas perfectos. 

E« hechizo eficaz para el sentido, 

pues, compreendendo en si tantos defectos, 

no bive el que está delia dividido. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 41 5 



XVII. 

Si ai curso mas veloz tan solo atenden 
essas ruedas fatales de las vidas, 
si se suelen levantar trás sus caidas 
con igualdad los grados que compreenden. 

Sin duda son las almas que suspenden 
por danoso milagro detenidas 
e nel profundo mar, do siempre asidas 
mientras más sacrifican, más te offenden. 

Y si indica essa mano oras dudosas 
muestra en su variedad distintamente, 
que es de reloj comun a toda altura, 

Y que ay clima en que se oyen las dichosas 
y como en esta region perpetuamente 

las perezosas, de mi desventura. 



XVIII. 



Essas ruedas de amor que no suspenden 
varias tormentas que causando ignoras, 
si tiempo indican con la mano y oras, 
oras fatales de tu mano penden. 



4i6 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

De cuya voluntad no se defenden, 
las penas que renovas y mejoras, 
atenta solo ai tiempo que empeoras 
a las que más rendidas mas te oftenden. 

Inexorable parca de las vidas 

con beneficio sin los hilos cortas, 

que estan en lo profundo de tus ruedas 

Y con piedosas manos homicidas 
oras, vidas y tormento junto cortas, 
si con ultimo mal vingada quedas. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 417 



EGLOGA. 

Mincio, e Limabeu. 

D. S. A. G. D. f 

Do Senhor Agostinho da Cruz. 

Mincio. 
Soias de cantar onde pastavas, 
pastar onde teus versos escrevias, 
escrever onde mais plantas achavas. 

Da serra pêra o campo, se descias, 
se sobias, do campo pêra a serra, 
as saudades de ambos repetias. 

Por mais que te fizesse cruel guerra 

não te pode tirar fortuna imiga 

cantar, tanger, folgar em qualquer terra. 

Não sei que de ti cuide nem que diga, 
que tu não folgas já, tanges, nem cantas, 
cousas com que qualquer a dor mitiga.. 

27 



41 8 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Limabeu. 
Assaz pouco tu sentes, pois te espantas 
de não me ver folgar, cantar, tanger, 
nem versos escrever nas verdes plantas. 

Acabou de secar, de emmudecer 
agora a pena ; já não determino 
senão de suspirar e de gemer. 

Se foi ou se não foi meu canto dino 
dos ouvidos de quem melhor sentia 
não sei ; mas o que sei, que foi mofino. 

Saber quão pouco vale a poesia 
por falta de haver quem docemente 
sinta a sua suave melodia. 

Entre muitos e muitas i qual prudente ? 
^ qual avisado, brando e qual saudoso ? 
l e qual julga melhor e melhor sente ? 

O campo que parece mais fermoso 
nos olhos de um pastor, fica mais feio 
nos daquelle que foi mais cobiçoso. 

Uns quando de boninas o vem cheio 
lhes parece melhor, e outros quando 
de cevada, de milho, ou de centeio. 

Assi se vão desejos variando 

sem poder concordar a natureza 

de qual duro nasceu, qual nasce brando. 

Tempo foi que causava em mi tristeza 
poder imaginar de um peito humano, 
que pagasse brandura com dureza. 



Obras de Fr Agostinho da Cruz 419 

Agora, inda que seja com meu dano 
alegro-me com ver que me aproveito 
deste tão lastimoso desengano, 

Seja quão duro for um cruel peito, 

ingrato, falso e fero, já não temo, 

que me faça mais mal do que tem feito. 

Porque, depois que dei num doce estremo, 

se não vejo gemer o meu amigo 

do meu próprio mal, do seu não gemo ; 

Logra-se do seu gosto só comsigo 
e quando lhe sucede algum desgosto 
então vem consolar-se só comigo. 

Se no seu mal me quer achar disposto 

para me entristecer ^ por que rezão 

não quer que no seu bem tenha algum gosto ? 

Mincio. 

Não vos ouçam tratar esta questão 
baixa entre pastores apostados 
a buscar a divina perfeição, 

Que quando suceder ser afrontados 
dos amigos que mais temos servido, 
então devemos ser mais consolados. 

Foi nosso Deos por nós oferecido 

á cruz, e por seus mesmos matadores 

os principaes, de seu povo escolhido. 

A nós, que da cruz sua professores 
somos, não nos convém qneixar de nada, 
mas sofrer como seus imitadores. 



420 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

Pouco pode durar esta jornada : 

amar nossos imigos nos ensina 

a correr pêra o ceo por limpa estrada, 

Que nunca nos mandara a lei divina 
cousa tão trabalhosa, se não fora 
quanto no seu amor mais se refina. 

Dar-te-hei outra rezão ainda, afora 
esta, com que confesso ser verdade 
de quem na sorte sua se melhora. 

Pois quem guardou pureza na amizade 
não pode padecer remordimento, 
como qualquer que trata falsidade. 

Limabeu. 
Não quero tratar mais deste argumento, 
que porfiar bem sei que desconcerta 
quem concertado traz seu pensamento. 

Mincio. 
l Pudeste nunca achar cousa mais certa 
pêra se concertar que pena e lira, 
na terra povoada ou na deserta ? 

Limabeu. 
Digo que já comtigo consentira 
em cantar e tanger ca desta banda, 
se Laura ou se Liana o permitira, 

Que nunca pena ou lira senti branda, 

que dirigir deixasse a seus ouvidos 

como seu puro amor me obriga e manda ; 

Que versos bem cantados, bem tangidos, 
brandos, de grave estilo, altos conceitos, 
estimados não são, se não sentidos. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 421 

Pois não penetram versos outros peitos, 

cantemos destes dois cuja ventura 

num so quis converter taes dois sujeitos. 

Convida-nos a fonte que murmura, 
o sol que ja no mar se vai metendo, 
variando no ceo nova pintura. 

O gado que no campo anda pascendo 
também se alegra com o nosso canto 
se não se for comigo, entristecendo, 
que, emfim, ou cantarás, ou farei pranto. 



Mincio. 
O bosque que se veste de verdura, 
o campo que se cobre de mil cores, 
de boninas, de rosas, de outras flores, 
variando na cor a fermosura, 
a musica de dois competidores 
suaves rouxinoes entre a espessura 
nunca nos olhos meus, nos meus ouvidos 
serão dois corações num convertidos. 

Limabeu. 
O bosque acompanhado de verdura, 
o campo variado de mil cores, 
coberto de mil rosas, de mil flores, 
acrescentando graça á fermosura, 
suaves rouxinoes competidores 
tardes, noites, manhãs entre a espessura, 
nunca a meus olhos, nunca a meus ouvidos 
poderão alegrar entristecidos. 

Adindo. 
Do nosso claro Lima, saudoso 
o curso quando vi mais encontrado 



4*2 Obras de Fr. Agostinho da Cruz 

por cima de penedos apressado 
por baixo de arvoredos vagaroso, 
donde vinha a beber o manso gado, 
nos olhos do pastor mais gracioso 
nunca me pareceu como parece 
amor que de dois peitos num florece. 

Limabeu. 

Do nosso Lima claro e saudoso 
quando seu curso vi mais encontrado, 
por cima de alvos seixos apressado, 
por baixo dos carvalhos vagaroso, 
donde saltando vinha o manso gado 
á vista do pastor mais gracioso 
não me pareceu nunca o que parece 
quando meu coração mais se entristece. 

Mincio. 

Aqueles corações que desejava 

de ver em puro amor mais conformados, 

vi com taes excessos confirmados, 

quaes nunca poder ver imaginava 

seus justos pensamentos, seus cuidados, 

seus desejos, que o ceo encaminhava, 

vejo gozar a mor conformidade 

que amor nesta criou, ou noutra idade. 

Limabou. 

Os tristes corações que desejava 
de ver na mor tristeza conformados, 
nunca cuidei de ver tão confirmados 
quanto deste meu triste imaginava; 
meus tristes pensamentos, mal cuidados 
que pêra maior mal encaminhava 
a tristeza, sem tal conformidade 
qual nesta, se não viu, nem noutra idade. 



Obras de Fr. Agostinho da Cruz 423 

Mincio. 
Tudo quanto na serra ver podia 
de quanto criar pode a natureza, 
ou no duro rochedo de firmeza 
ou nas aguas da fonte que corria, 
em tudo imaginei sempre certeza 
de nunca se mudar tanta alegria 
suave, doce, branda, clara e pura 
pêra da terra ao ceo voar segura. 

Limabeu. 
Quanto no monte ou serra ver podia, 
tudo quanto ali criou a natureza, 
ora fosse rochedo com firme?a, 
[ora fosse agua clara que corria], 
tudo me confirmou na mor certeza 
de nunca já poder ter alegria 
tão cativo me tem tristeza pura, 
<que de me libertar está segura. 

Mincio. 
Deixemos de cantar, pois que não deixas 
de te queixar de Lauro nem de Liana ! 
Um só te desterrou, d'ambos te queixas ! 
Faltará noutra serra outra choupana ? 
Falta donde pescar peixes á cana ? 
•donde possas cantar como naquela ? 



Limabeu. 
Falta ! pois falta foi de minha estrela 
não me poder queixar sem ela deles 
e pois não pode ser dele sem ela 
muitos anos viva ela e viva ele ! 



FIM 



NOTAS E ESCLARECIMENTOS 



Pg. 4-5. O son. VI « A S. João Baptista » encon- 
tra-se a fl. iSg do Cod Portuense, noutro logar descrito 
pela Sr.» D. Carolina Michaèlis, sem variantes dignas de 
nota. O último v. do 2." terceto, aspado, é tradução 
daquele conhecido passo do Ev. de S. Mateus XI, 11: 
« Amen dico vobis, non surrexit inter natos mulierum 
major Joanne Baptista. . . ». Impregnado da leitura da 
Biblia sam frequentes os passos em que Fr. Agostinho 
da Cruz se inspirou já aproveitando uma ou outra pas- 
sagem quase literalmente e já, e é naturalmente o maior 
número, procurando apenas o seu significado místico. 
Em qualquer dos casos é do próprio coração que tudo 
mana, instintivamente, sem o mmimo esforço ou o vis- 
lumbre de preocupação erudita ou literária. 



Pg. 4. Este soneto de arrependimento dedicado « A 
Nossa Senhora da Arrábida » é interessante. O Poeta 
reconhece a sua fraqueza. Volta outra vej, agora mais 
resoluto, mais decidido. Vai prosseguir de novo a sua 
via espiritual cheio dos desenganos colhidos no mundo. 
O Cod. Portuense apresenta uma variante notável no 
último terceto : 

Porque quanto mais longe dos humanos 
Tanto, Virgem, sereis melhor servida 
E servida, louvada em verso e prosa. 



4^6 Notas e Esclarecimentos 



O Cod. Conimbricense, n." 400, dá a versão impressa, 
que nos parece por todas as razõis preferível. 



Pg. 6, son. VIII. O último v. do 2° terceto alude à 
passagem do Ev. de S. João, xix, 26 : « Cum vidisset 
ergo Jesus matrem, et discipulum stJníem quem dilige- 
òat, dicit matri suce : Mulier, ecce filius tuas ». 

4 

Pg. 10 O 2." v. da 2 « quadra trá-lo o Cod. Conim- 
bricense n." 400 nesta variante : 

Inda assim de culpas carregado. 

O verso tecnicamente não fica melhor, e a modificação 
não me parece exegída pelo sentido. 

5 
Pg. II. Talvez o último v. do son. xvi ficasse melhor 

Que amasse muito mais quem tanto amava ! 

não obstante a lição impressa seguida é a do Cod. 
Conimbricense, n." 400, conteste. 



Pg. 12. O son. xviii correspondente ao de fl. 134 do 
Cod. Portuense também se encontra na Cr. da Piedade 
[Vide Bibliografia] pg. 984 com algumas pequenas 
variantes sendo no 3." v. do i * quarteto a falta de inda, 
que é essencial, aliás, e no 4.° v. do mesmo, que traz 
vãos em vez de mil. O que nos alegra porque ira- 
tando-se de códices ou fontes diversas indica de certo 
modo a fixidez do texto desejável. 



7 
Pg. i5. O son. xxn, a fl. 85, sem variantes, do Cod. 
Portuense, merece destacar-se pela indicação auto- 
biográfica que traduz, visto deduzir-se dele que ires 
foram as tentativas do grande Isolado para renunciar 
ao mundo. Que lutas tremendas naquele amoravel 



Notas e Esclarecimentos 427 



espírito ! Todo o soneto é cheio de doçura e de resi- 
gnação. Raras vezes se deparam termos ou formas 
antiquados no nosso Poeta. Mas note-se o arca no 
2.° V do 2.° terceto em vez de arda, aliás empregado 
em Sá de Miranda e outros Quinhentistas e várias vezes 
por ele mesmo [cfr. por ex , 2 vezes, pg. 118, últimos 
versos]. Já atrás, no son. xii, apareceu a forma este 
que é, como se sabe, a forma sincopada de esteja, 
também frequente nos Quinhentistas. 



Pg. 16. Eis variantes do Cod. Conimbricense, n.»40o, 
1.» quarteto, 3.» v. : 

Amor, quanto por si te trasladava 

i." terceto, 3." v. : 

Unindo na vencida carne toa 

».• terceto, i.» v. : 

Vencida e tam conforme a teu esprito, 

única que me parece aproveitável. 

9 
Pg. 17. O 4." v. da I.» quadra aparece tanto no Cod. 
Portuense, como no de Coimbra, n." 400, assim : 

Conforme o vario vento vai soprando, 

que é preferível à lição do texto. 



Pg. 18 Este lindo soneto dedicado ao querido irmSo 
anda impresso como Introdução do Lyma, desde a ed. 
de 1596, e não vem nem no Cod Portuense, nem no 
Conimbricense n." 400. Diogo Bernardes ouvia e aca- 
tava a opinião do humilde Capucho e muito se satisfez 
em vê-lo engrandecer o nome daquele a quem dirigia 
as suas líricas — D. Álvaro D'Allemcastro, Duque de 
Aveiro, « Príncipe real, claro, excelente ». 



428 Notas e Esclarecimentos 



Pg. 22. Toda esta Egloga « No atino do Noviciado » 
é notabilíssima como sugestão auto-biográfica e dela se 
aproveitará o necessário noutro logar. Para que não 
restassem dúvidas nos disfarces destes pastores lá vem 
bem claro no último v. de pg. 25 : 

O bom do Limabeu he Capuchinho. 



Pg. 3o. Há nesta Egloga um sentido enigmático, que 
escapa a toda a concretização. O emprego de certos 
termos não é menos de notar. No 7.° v. esquerdeia no 
sentido de pôr ou criar estorvo ou embaraço e no 7.° 
terceto 

Na requia esteja a alma de Bieíto 

requia será equivalente a requiem, adulterado nas cópias^ 
que serviram para a impressão ? Infelizmente a Egloga 
falta nos Cods. Portuense e Conimbricense. 

i3 

Pg 35. O 4." V. deve emendar-se como traz o Cod. 
Conimbricense n." 400 : 

Mas comtudo não deixo de cuidar, 

o que torna o sentido perfeitamente inteligível. E o 8." 

Que máos olhos te tem atravessado, 

que no texto impresso de Mesquita, reproduzido, pouco 
menos é que enigmático. 

•4 
Pg. 36. O último terceto desta página, assim como o 
imediato, pertence a Mincio, o que não foi indicado por 
não vir no texto de 1771. Mas o Cod. Conimbricense 
n.° 400 assim o indica nitidamente e é o que deve ser. 



i5 

Pg. 36, 8." terceto. Naboc, em vez de Naboth, per- 
sonagem bíblico mencionado no 3 Reg., XXI, 2, e segs/ 



Notas e Esclarecimentos 4*9 



que negou ao rei Achab uma vinha e que foi por isso 
lapidado. • . . .eduxerunt eum extra civitatem et lapi- 
dibus interfecerunt », como diz o v. iS.", e vem apropo- 
sitadamente citado por Fr. Agostinho. 

16 

Pg. 40. A epígrafe desta Egloga V não é bem expli- 
cita. O Cod. Conimbricense n." 400, diz melhor: Egloga V 
em a qual dá conta como redu^io hum a Religião. Aparte 
pequenas divergências é notável a omissão dum terceto, 
que seria o 8.° na pg. 43 e que copiamos daquelle Mss. 

Dam-me na face minha o falso beijo 

De Judas, que vendeo a Jesus Christo, 
Rapam-me a minha lã, o leite e o queijo. 

17 
Pg. 48. Esta Egloga é muito interessante pelo ar de 
rusticidade que a envolve. Enquanto vigia o seu gado 
alfeiro, ou entretido a pastar livremente [ segundo A. 
Coelho, Dicc.y o termo proveio do árabe ], o triste pas- 
tor conhece todas as inocentes distraçõis do isolamento. 
Por isso lembra nos últimos tercetos a caça aos passa- 
rinhos por meio do costeio ou da vara, recorda o fugitivo 
e timido coelho, faz menção das flores que ajuntava e 
dos frutos que colhia. Tudo, porem, para dar ! 

. ..não colhi, nem cacei cousa 
Que para dar não fosse. . . 

18 

Pg. 53, V. 7." Perder o uso melhor será lêr com o 
Msi. Conimbricense n." 400 : Perder o curso. 



19 

Pg. 60. O i.° terceto desta pág. falia no Mss. Conim- 
bricense. Descuido ? Propósito ? 



Pg 67, V. 6. O Mss. Conimbriceiyse n.° 400 traz : Com 
cabra ou sarda ruivo. Talvez melhor. Um pouco adiante, 
pg. 59, V. 22 diz : Eu costumo pescar com singeleira. 



43o Notas e Esclarecimentos 



Á pesca de cana para que se servia, como isca, da cabra 
ou sarda, preferia a pequena rede daquele nome, usada 
para a pesca do peixe miúdo, diferente do iresmalho, 
também muito usada na pesca do peixe dos rios. Veira, 
ibid., em vez de beira ? O Mss. Conimbricense n." 400 
termina esta Égloga com uma pequena variante prefe- 
rível ao texto : Pois no dia nascia. . . etc. 



21 

Pg. 70 Esta Égloga, dirigida à comemoração do 
nascimento do Duque D. Jorge de Lencastre, aparece 
no Mss. Conimbricense n.° 400 coip variantes, a mais 
importante das quais é pg. 71, 1.» terceto : 

O primeiro de abri! ali se ouvio 
Cantar e tanger tam docemente, 
Que as vozes ao Oceano transferio 

Na pg. 72, 2.» terceto : 

Eu tenho para mim que ouço tanger. . . 
Deve de ser aquele que lá vem. 
Como se vem recreando de prazer ! 

E nesta mesma pg., v. 25 : 

Amor tempere, a fragoa acenda e forge 

que dá, positivamente, melhor sentido que o que se 
seguiu no texto em obediência à ed. de 1771. 
Ainda na pg. 75, o v. 25 é substituído por est'outro : 

Seu nome seja imortal. 



Pg. 77. Logo o i." terceto desta Égloga aparece mais 
correcto no Mss. Conimbricense n.» 400 : 

Apartam-se de vós, desaparecem 
Agoas do mar azul e sol dourado 
E com meu triste pranto se escurecem. 

Já é discutível a variante de pg. 78, v. 17 : 

Avisar, repreender a quem converso 



Notas e Esclarecimentos 43 1 



23 

Pg. 89. Esta Elegia não escapou em nenhuma das 
fomes conhecidas — no Cod. Portuense, fl. 34 v.. no 
Canc. de F. Tomás, fl. 77 v., e lá está impresso na Chr. 
de Arrábida, pg. o36. Emendemos o erro do v. 10 : 
Aqui sobre o mar e registemos, como preferivei, a lição 
do Mss. Conimbricense n." 400 no v. 9 de pg. 90 : 

Que de outras que ensinar querem falando. 

É o que deve sêr. O impresso não se entende Na 
mesma pág . v. 16 leia-»e : Alli me acho, etc. E no v. 19: 
O monte vão de meus suspiros cheio, variante que toma 
perfeitamente correcto o verso anterior casando-se 
ambos harmonicamente no sentido. Suprimo outras 
variantes para citar as dos dous versos, que terminam 
a Elegia : 

Ardeo o fogo posto no madeiro 
Ardam postos no fogo os corações. 

Acho assim a frase mais incisiva e mais bela. 



24 

Pg. o5. Esta Elegia trá-la o Cod Portuense. O Mss. 
Conimbricense n.» 400, também a insere com» varian- 
tes aproveitáveis. Destaquemos no v. 23 : A Vós pêra 
livrar. . . lição, decerto^ melhor que a exarada no texto. 

25 

Pg. 101. Esta Elegia figura no Cod. Portuense, pg. 56 
e no Conimbricense n.* 400 e corre impressa na Chro- 
nica, pg 934 Também há algumas variantes que acla- 
ram notavelmente o sentido. Por ex., pg. io3, v. 3." 
«■ Sem nunca descansar qual vento leve. 

26 

Pg. 104 Nesta Elegia VII deve emendar-se em har- 
monia com os dois Códices do Porto e de Coimbra o 
V. iJ.» : « Convertida em velhice a mocidade ». O Conim- 
bricense melhora o v. o" de pg. io-5 exarando : Por ver 
que todos são de entranhas frias. Na pg. io3, o v. 9.» 
hcaria melhor como o traz o Mss. Conimbricense: « Por 
vér que todos são de entranhas frias- 



432 Notas e Esclarecimentos 



27 

Pg. 107. O Cod Portuense epigrafa esta Égloga : 
« De húa molher á absencia de seu marido sendo par- 
tido para a guerra «. Variantes preferíveis ao texto no 
Mss. Conimbricense n° 400, pg. 108, v. 9° : a Escurecer 
daquem o rajo monte «. O Cod. Portuense diz : . . .0 
alto monte. No v. i5.° o Cod. Portuense: Verão quam 
pouco temo a cruel guerra ; mas o Conimbricense man- 
tém a lição impressa. Creio que há razão para a man- 
ter, como noutro logar provarei. Na pg. 109, o v. 25." 
deve modificar-se : Querer-me... O 2° v. do último 
terceto, pg 1 10 é preferível assim: Ou que estejas... 
E o último : Não quero. . . 

28 . 

Pg. III. A Elegia à morte de seu irmão anda im- 
pressa na ed. das Flores do Lima de 1770. Esta Elegia 
está incompleta no texto, faitando-lhe nada menos que 
14 tercetos, que aqui seguem extraídos da ed. impressa 
das Flores do Lima, com as variantes do Cod. Portuense, 
onde vem a fl. 98. O que é extranho é a mesma omis- 
são existir no Cod Conimbricense n.° 400. As fontes dos 
dous textos impressos foram de certo diversas, como 
as dos Mss., pois em todos se notam divergências. 
O Conimbricense melhora algumas passagens, como 
pg. 112, V. 23. ''-24." : Nem sempre cá do Tejo só comigo 
— Nem tudo poesia o que tratavas. 



29 

Pg. II 3, V. 14» : Da solitária Serra, em que habito. 
Segue o texto que é o ccnplemento natural da 
Egloga : 

Mas nella se abalou mais meu esprito 

acrecentando mais o sentimento 

de um brando coração num peito aflito, 

Que mal resistir pode o pensamento, 
onde se estendem mais as saudades 
a quem nunca neguei consentimento. 

Ha nos bosques cem mil diversidades 
no fructo, folha e flor e nos rochedos 
rotos das oceanas tempestades. 



Notas e Esclarecimentos 433 



Por cima de uns nos outros arvoredos 
voar vejo cantando uns passarinhos, 
outros ouço cantar, estando quedos. 

Vejo nos montes rasos mais vezinhos 

as fugitivas feras ir torcendo 

os passos por pa»sar entre os espinhos. 

Triste I com que remédios vou detendo, 
na vista dos meus olhos, magoas minhas, 
que nas aves e feras vão crescendo. 

Nestas me lembra a doce voz que tinhas *, 
naquellas quantos passos retorcidos 
por colher brandas flores entr'espinhas. 

Quam tristes penetrar vão * meus gemidos 
as entranhas das duas penedias 
tão tristes tornar ' delias repetidas. 

Que ainda que das ardentes dem nas frias 
indâ que destas brandas dem nas duras 
pêra me responder estão vazias. 

Abr-andão-se as durezas em branduras, 
podem magoas mudar as naturezas 
-quando mudar não podem as venturas. 

Os claros desenganos, as certezas 
da vida, que já vai de foz em fora, 
não soffrem mais estremos de tristezas. 

Tratar de como irá convém agora 
e da * que já se foi mais não tratar, 
como se derradeira desta fora. 

Vida que tarde ou cedo ha de acabar, 
morte que por fugir mais não dilato, 
de ambas '" devo temer, ambas chorar, 

Que com o temor e choro de que trato • 
assi me posso haver nesta primeira, 
que a segunda me custe mais barato. 



' 1770. Nestas me lembra o som da voz que tinha. — • PenetriTio. 
^ tornáo delias repartidas. — ' C. P. e io — 1770 — E da que )á se foi, 
mais não tratar. — ' 1770. Ambas. — • Que com temor e choros. 

28 



434 Notas e Esclarecimentos 



Mas quem só naquella hora derradeira 

espera descansar por ter cansado 

( se cansa quem faz conta derradeira ). 

Nem o temor o traz inquietado, 
nem o choro lhe da pena tamanha, 
que chorando nSo fique consolado 
nas lagrimas de amor "^ em que se banha. 

3o 

Pg. 117. Esta Ode repete-se nos Mss. do Porto e 
Coimbra. Verso i3.<* no Conimbricense: Flores que 
secam levam leves ventos. Versos 2i.»-22» Magoas 
minhas — Me não deixam mover. Pg 118, v. 21 ° : Se 
quero mais querer. . . E os últimos desta pág : Por vós 
ardam, Deos nosso — Ardam no puro fogo de amor 
vosso. 

3i 

Pg. 116. O epíteto teso no 5." v. da Ode //poderia 
hoje merecer reparo, como já o apontou Gosta e Silva 
(Ensaio biogr. critico, 11, 261), mas « agoa tesa quer 
dizer agoa que corre com força ou agoa alta, dahi vem 
as expressões marítimas vento teso, mar teso, e o cha- 
mar-se teso a um outeiro, ou elevações de terreno. 
Tembem se chama teso a um homem, que tem firmesa 
de. caracter e que não cede facilmente ». Fr. Agostinho 
empregou o vocábulo pelo menos outra vez — Cfr. 
pg. 61, V. 12.» 

32 

Pg. 128. Esta Carta é, como diz o título, resposta à 
de seu irmão Diogo Bernardes, e que pôde lêr-se em 
O Lyma, Carta VIII. Um terno sentimento de doce e 
amarga saudade envolve de encanto especial toda esta 
linda poesia, até à recordação do elogio da pobreza 
( pg. i3o, terceto 9."*) feita pelo irmão — alusão à 
Égloga III — Liarda — inserta em O Lyma. 

33 

Pg. 134. Esta Carta, cujo final é duma côr regional 
interessantíssima, apresenta algumas variantes no Cod. 



' Nas lagrimas da morte. 



Notas e Esclarecimentos 435 



Conimbricense, que melhoram a contextura e o sentido. 
Assim no g.» verso podres contrastando com sãos, e não 
pobres O i.° V do 3 " terceto : A causa pode sèr que a 
mesma seja. Na pág. imediata o 3." v do penúltimo 
terceto fi^nrá mais correcto assim : Não respeitando ser 
descomedida Pg. i36 o v. 21 ' Que Marateca tem como 
bagaço, precisa duma aclaração para alguns leitores. 
Marateca é uma pequena povoação na comarca e con- 
celho de Setúbal, próxima do rio do mesmo nome, que 
é um afluente do Sado com 33 quil. de curso. A alusão 
de Fr Agostinho torna-se assim evidente se suposermos 
esse rio abundante em peixe. [ Pinho Leal, Portugal 
ant. e mod., v, s. v. ] O Mss Conimbricense menciona 
Lameira em vez de Landeira no último verso. A qual- 
quer delas podia referir-se o Poeta, mas esta última está 
abonada também pelo Cod. Portuense. 



34 

Pg. i38. O Cod. Conimbricense ajuda a repor muita 
deturpação do texto infeliz de Mesquita. Em regra as 
variantes dadas por esse Mss. sam de receber. Não é pos- 
sivel apontar tudo, que ficará, querendo Deos, para uma 
2.* ed Mas ressalvemos o essencial Antes de mais a 
deturpadissima oitava final de pg. 140 com falta dum 
verso inteiro I Deverá ficar assim : 

Quero saber que letras aprendestes, 
Teu nome, cuja filha e como ousaste ! 
Se sabes ponderar o que fizestes 
Quando tam soltamente reprovaste. 
O sacrifício a mim repreendeste 
E dos imortaes deuses blasfemaste, 
Que por eles te juro que não sei 
Como comtigo a mim me não matei. 

Na pg. 147, a 3." oitava deve principiar: Oh! ditosa, 
A estância imediata está também incompreensivel. 
devendo ser : 

De mim. . . 

A verdadeira. . 

Convertidos de nosso erro antigo 

Que com suspiros da alma lavaremos 

Nossas culpas, Senhora, que não digo 

O gosto. . . 



436 Notas e Esclarecimentos 



35 

Pg. i56. O 2." V. da 3.' estância está totalmente 
deturpado, devendo corrigir-se : Metê-lo todo Junto ao 
meu cutelo, no que sam concordes os Mss. Portuense e 
Conimbricense. 

36(1) 

A Tra los Montes — pg. i6o. Essa epígrafe quer 
dizer que as Voltas de Frei Agostinho parafraseiam o 
Vilancete ou Cantar velho : 

Tra-los montes 
me irei morar ! 
Quem me bem quiser 
lá me irá buscar ! 

já tratado por Francisco de Sá de Miranda ( n.» 5i. 
Gfr pg. 746 da ed. de G. M. de Vasconcellos ). Jorge 
Ferreira de Vasconcellos ciiou-o na Ulysippo. 

Ambos dizem todavia Naquela serra irei morar. ( Var. 
Naquela alta serra ) 

O Cod. Conimbricense traz o Mote com a epígrafe 
Atrás dos Montes : 

Atrás dos montes 
Me irei morar. 
Quem bem me quiser 
Lá me irá buscar. 



37 

As Endechas — pg. 162 e 365 e 367 — lembram as 
de Gamões : « Vai o bem fugindo », as de Caminha : 
« Vai-se a vida e foge » e as de Diogo Bernardes : « En 
mis esperanzas ». 

38 

,^'Que lugar, tempo, estado, ou esperança -^ pg. 168.1 
Este soneto, contido em ambos os códices, é atribuído, 
a Martim de Castro, ou Castro do Rio, no. Canc. de A.i 
F. Thomas &.. 4. Isto é a um Quinhentista e Camonista 
de talento que figura com versos ( Sonetos ) em todas 
as Miscelâneas poéticas do seu tempo ( sobretudo nas 



(i) À excepção das notas 45, 46, .7, 48 e ^5 todas as demais, daqui 
por deante, sam devidas à pena autorizadíssima da Senhora D. Carolina 
Michaêlis de Vasconcelos. 



Notas e Esclarecimentos A^^ 



Eborenses ) e escreveu, segundo Faria e Sousa, muitos 
versos, dignos de que Luis de Camões os estimasse. 

Vid. C. M. de Vasconcellos, Sonetos e Sonetistas, 
pg. 41, 43, 85 e 87. 

39 

Posto que sofra amor apartamento — pg. 169. Este 
soneto ( que figura no Cod. Portuense duas vezes, a 
fl. 77 e 86 ) é atnbuido no Canc. de A. F. Thomas 
( fl. 11 v. ) a Fernão Rodrigues Lobo Soropita. 

40 

^ Quando de ambos os ceos caindo estava — pg. 169. 
Este soneto, de amor profano. As lagrimas de uma 
despedida, foi impresso por Camilo Castelo Branco ( era 
lição defeituosa ), nas Poesias e Prosas do Soropita 
(pg 43). 

E como obra deste poeta está também no Canc. de 
A. F Thomas fi 84 . 

Num Canc. ( inédito ) coleccionado por Faria e Sousa 
para o onde de Haro, ha ( salvo erro ) uma redacção 
castelhana, que prmcipia 

Cuando de entrambos cielos el rocio 

Como desconheço todo o resto, não posso avaliar 
qual seria o texto origmal, e qual mera traducção 

4« 

Perdi me dentro em. mim como em deserto — pg. 171. 
Com variantes está no Canc de A. F. Thomas fl. a. 
Com atribuição a Fernão Corrêa de Lacerda 

No Canc. de Évora cxiv-2-», explorado com pouco 
critério por A. F. Barata, anda sem nome de autor 
( PP- '47 ) 

De autor incerto, portanto. 

■4a 

A peregrinação de um pensamento — pg. 173. Foi 
atribuído a Luis de Camões pelo fantasioso Faria e 
Sousa ( Rimas, vol. 11, 353 ), embora no manuscrito em 
que o encontrou, estivesse com autoria de Martim de 
Crasto. 

Por isso foi traduzido por Storck ( n.» 293 ) e por 
Tommaso Cannizzaro ( pg. 268 ). 



438 Notas e Esclarecimentos 



Em redacção castelhana fígura num Canc particular 
do Conde de Villamediana ( Paris, 6o5 fl. 48 v ). 

Em português aparece com o nome de Martim de 
Crasto no Canc de A. F. Thomas fl 10. 

Vid. C M. de V , Sonetos e Sonetisías, pg. 43. 

43 

Vai-me gastando amor e um pensamento — pg 173. 
Atribuído a Lms de Camões no Canc. de A F, Thomas 
fl. I So ; publtcndo com > obra dele por T. Braga no seu 
Camões : obra épica e lyrica 191 1 ( pg. 226 ) ; e tradu- 
zido por T. Cannizzaro ( n » 892 ). 

Certo é que esse soneto mal pode ser obra de um 
rapaz que aos vinte se fez capucho. 

Vid. G. M. de V., Sonetos e Sonetistas, pg. 43. 

44 

Como estaes, luif, sem luj f vida sem vida t — pg. igS* 

Amor trouxe a Jesus da gloria d cruj — pg 198. 

Quem me dera por lingua um raio ardente — pg. 21 3. 
São, a meu ver, obras legítimas de Frei Agostinho, pro- 
pagadas em copias por serem belíssimas, infelizmente 
sem nome de autor. 

O primeiro foi metido por Miguel Leitão de Andrade 
na sua Miscelânea (1629). onde sai da boca de Maria 
Magdalena, abraçada ao pé da cruz, com os olhos cheios 
de agua e olhando para o Cristo Crucificado, pg 84 

Os outros dois estão no Cod. Eborense, cxiv-2-2. sem 
autoria. E foram publicados por A F. Barata, no Canc. 
Geral, pg. 160 e i38 — Brito Rebelo reconheceu, que 
a poesia Amor gloria e cruj era obra de Frei Agostinho. 

Vid. Arquivo Histórico, 1, 1 38-148. Cfr. El canto de 
las aves. 

45 

Pg. 193. O soneto xxxix esplendido na forma, riquís- 
simo no conceito, foi publicado por Miguel Leitão de 
Andrade na sua Miscelânea, pg. 84, como anónimo, 
apresentando algumas variantes menos felizes. 

46 
Pg 195 Este primeiro son. A Paixão, entranhado de 
cândido misticismo, pf<de parecer ousado na afirmação 
do V 7.0 — Desprega o livro antigo e o moderno. É como 
diz o texto do Cod. Conimbricense e o do Portuense. 
Já no A/55. Portuense uma sigla marginal antiga indica 
a extranheza dalgum leitor curioso. Gomo compreen- 



Notas e Esclarecimentos 489 



der-se que espirito tam bem equilibrado nas suas 
expressõis religiosas mandasse desprezar o livro antigo 
e o moderno ? Que mais diria um heresiarca despreza- 
dor dos Livros Santos ? Mas tudo se explica com uma 
leve emenda. Se suposermos o verso assim saído da 
pena de Fr. Agostinho : 

Despreza o livro antigo pelo moderno 

poderá ainda afigurar-se ousado aquele verbo despregar, 
mas a passagem mantém todo o seu vigor pondo em 
relevo, numa frase que, explicada, se encerra em perfeita 
ortodoxia, a excellência do Novo sobre o Antigo Testa- 
mento. Ainda nesta pág. son Ao Mesmo. Frei Rodrigo 
de Deos ( + '622 ), que foi Guardião do Convento de 
Nossa Senhora da Arrábida tinha em muita estimação 
as poesias de Fr. Agostinho da Cruz. As duas obras 
que deixou, ambas vêem enriquecidas com sonetos 
dele. No Tratado dos Passos que se andam na Qua- 
resma . ■ (I.* ed. 1681 ) vem como Proemio este — Os 
passos que de dôr trespassado . . . e o Epigrama : A quem 
deceo do Ceo para nos dar vida, publicado a pg. 335 
desta nossa ed. Também nos Motivos Espirituais 
[Lisboa, i6zo]. que não pude ver, vêem secundo o 
testemunho de Inoc [ Dic. Bibl , vii, 169], no princípio, 
dous sonetos em louvor da obra, que não andam 
incluidos na colecção impressa. 

47 
Pg. 208 O mesmo tema foi cantado pelo irmão 
Diogo Bernardes nas Varias Rimas, pg. gS, no soneto 
paralelo O Jacinto entre pedras preciosas. Pelo soneto 
anterior do mesmo Bernardes se vê que o Santo fora 
« agora novamente canonizado », [ « agora » — i5 de 
abril de iSgi segundo o Agiol Dominicano de Frei 
Manoel de Lima, iii, 441 J daí os versos e as prosas, 
a que alude. Quem quiser confrontar o talento dos 
dois irmãos veja especialmente os temas que ambos 
cantaram O verso final do soneto claramente indica 

Sue o Santo também contava como seus devotos os 
>uques de Aveiro, tam notáveis, de resto, pela sua 
piedade. 

48 

Pg. 210-22 1. O soneto A Senhora da Memoria chora 
a ausência do pobre monge Fr. Diogo dos Inocentes 
que, quasi octogenário e enfermo, se vio obrigado a 



440 Notas e Esclarecimentos 



recolher-se ao Convento de Alcobaça. Ao mesmo pro- 
pósito sam consagrados os imediatos. A Chr. da Arrá- 
bida transcreve os deus primeiros [§ 1189]. 

49 

Lembranças de meu bem, doces lembranças — pg 23 1 . 
Foi atribuído por P'aria e Sousa a Luis de Camões 
(Rimas, II, pg 334, n.» 358 = 291 de T. Braga ) — e tra- 
duzido como tal por Storck ( 269 ) e Cannizzaro ( 291). 

O polihistor confessa todavia que andava em nome de 
Martim de Crasto no manuscrito que explorou. 

Já então { 1645 ) tinha sido impresso em Florença entre 
as Rimas do Dr Estevam Rodrigues de Castro (1623 ). 

E no Canc. de A F. Thomas aparece igualmente em 
nome desse poeta ( fl. 269 ). 

De autor incerto, portanto. 

Vid. Sonetos e Sonettstas, pg 85. Aí disse eu que os 
dois versos ioiciaes do soneto foram glosados moder- 
namente. 

5o 

Contenícmentos meus que já passastes — pg. 232. 
Este soneto profano ocorre duas vezes no Canc. de A. 
F. Thomas a fl. 3 como obra de Francisco de Andrada ; 
a fl 16 com atribuição a Luis de Camões. 

Como cbra dele foi publicado por T. Braga em 
Camões, Obra eptca e lyrica, 1911, ( pg 221) ; e por 
isso traduzido para italiano por T. Cannizzaro (igiS, 
/ Sonetti ). 

Frei Agostinho glosou o verso inicial, e o ultimo em 
duas oitavas E seria por ventura somente como Mote 
que ele colocara o texto alheio à testa da sua paráfrase. 

Vid. Sonetos e Sonettstas, pg. 1 14. 

5i 

Aqui neste deserto, seco e pobre — pg. 3o i. Esta 
Elegia Penitencial que está tanto no Cod. Conimbri- 
cense como no Portuense com um lapso, ( salto de três 
ve^^os ) é atribuída a Soroptta, no Canc de A F. 
Thomas, fl 66. 

E em nome dele, com a epígrafe Elegia da minha 
penitencia, está nas Poesias e Prosas inéditas tiradas por 
C. C. Branco de um ms vindo do Mosteiro de Tibaes. 
( Vid pg. 147 e cfr. pg xxviii, assim como T. Braga, 
Quinhentistas, pg. 3 \g-320). 



Notas e Esclarecimentos 441 



52 

A ti bom Jesu que tanto ofendia — pg. 3o8. Esta Ele- 
gia a Jesu na Cruz é de Diogo Bernardes, Rimas Varias 
ao bom Jesus, pg. 8. 

Também se encontra no Canc. Juromenha a fl. 5i, 
com importantes divergências. 

Vid. Zeitschri/t, viii, pg 443 e ix, 364. 



53 

Despojos tristes dum contentamento — pg. 3 16. Esta 
Elegia Á Morte de um Contentamento ( — epígrafe 
exarada em ambos os manuscritos ) — obra profana 
cheia de reminiscências tristes de um passado feliz, 
representado talvez por um retrato da amada, figura no 
Canc. de A. F. Thomas a fl. 53 v. como Capitulo do 
Soropita. 

E estava também no Ms. de Tibaes das obras dele. 

Vid Prosas e Poesias pg. 29. 



Que forte fortuna sigo — pg. 341. O Mote é de 
Crtstovam Falcão, ou de Bernardim Ribeiro. Quero 
dizer que pertence ao grupo de pequenas poesias que 
na edi ão de i559 da Menina e Moça e das Trovas de 
Crisfal (Colónia) ocupam as folhas i53 171 e foram 
reimpressas por Epifânio Diaz, na Revista Lusitana, 
IV, Ds. 14.6. Cfr. Ed. Delfim Guimarães, pg. 55. 



55 

Pg 343. A Chr. da Arrábida, pg. 940 traz esta poe- 
sia com falta das duas últimas estâncias. As variantes 
publicadas sam insignificantes. 

56 

Saudade minha ^ quando vos veria ? — pg. ^64 Mote 
antigo em estilo popular — ou Cantar velho parafra- 
seado por Sá de Miranda ( n *• 59 Cfr pg. 681 e 746), 
por Camões, e diversos outros Quinhentistas e Seiscen- 
tistas 

Vid C M. de Vasconcelloa, A Saudade Portuguesa, 
Í9i4> ( pg- 9 e 90-98). 



442 Notas e Esclarecimentos 



5? 

Cru:^, remédio de mis males — pg. 38o. Cod. Por- 
tuense, fl 53 O Mote é uma Quadra, cujo último verso 
não compreendo, a não ser que, sendo satírico, queira 
dizer que cinco mil Cardeaes teriam cabido na cruz = 
teriam merecido a cruz ! ? 

Foi no ano de 1627 que um joven fidalgo castelhano, 
repetindo boatos que corriam em Espanha, atribuiu a 
Quadra a Felipe II. 

Vid. Panegírico de la Poesia de D. Fernando de Vera, 
que possuo na reimpressão de i88g. 

De lá passou a um opúsculo de T. Braga, intitulado 
Camões e Philippe II — I^89 

A Glosa de Frei Agostinho, publiquei-a eu no meu 
estudo sobre Sonetos e Sonetistas, pg. 102-106. 

58 

Ecos, port. e cast. — pg. 38 1. São imitação, boa e 
bela, daqueles que Cervantes meteu no seu D. Qiiixote, 
I, Cap. 27 : 

Quien menoscaba mis bienes ? 
Desdenes. 

59 

Rompe los lajos de la prision fuertc — pg. 887. Cod. 
Portuense, fl. 69. Esta Cancion á la Muerte — ou antes 
à Alma, cuja imortalidade é o assunto principal — nem 
é inédita, nem é de Frei Agostinho. 

Foi impressa em 1623 em Florença como composição 
de Estevam Rodriguez de Castro ; e nas Rimas dele, 
publicadas pelo filho, Francisco de Castro — fnz parte 
de uma obra narrativa de vulto, a Fabula, clássica, de 
Arion ( fl. 66-77 ). 

Como obra desse médico filosofante foi elogiada e 
citada : 

a) por Faria e Sousa, nas Rimas de Camões, { iii, 

pg- ' ) ; 

b) por Gallardo no Ensayo, na descrição do volume 
florentino ( vol. tv, pg. 229, n " 3670 ) ; 

c) pelo mesmo, na descrição do Canc. do Conde de 
Haro, coligido por Faria e Sousa ( vol 11, cap. 994, 
n.° 268 ) ; 

d) por Garcia Perez, que o reimprimiu no seu Cata- 
logo (pg. 485). 



Notas e Esclarecimentos 443 



Compreende-se que Frei Agostinho gostasse da Can- 
ção e a copiasse, para seu uso particular. 

Embora Francisco de Castro metesse no volumito 
das Rimas alguns poemas de diversos, como de boa fé 
declara ( por ex. de Sá de Miranda, Correia de Lacerda, 
Francisco Rodriguez Lobo o Soropita, Bernardo Rodri- 
gues, a Fradinho da Rainha, a Fabula com a Canção 
pertence, a meu ver, ao número dos originaes que, 
quasi violentando-o, arrancou das mãos do pai. 

Vid. Sonetos e Sonetistas, pg. 102, nota 3. 



60 

Las trisjes lágrimas mias — pg. 393. God. Portuense, 
pg. 73o. Este Mote é um Vilhancico antigo, muito glos- 
sado. Entre Voltas e Glosas, port e cast , conheço pelo 
menos umas 20 paráfrases posteriores a i55o, algumas 
superiores à de Frei Agostinho. 

61 

Lagrimas que no pudieron — pg. 3q3. Cod. Portuense, 
fl.74. Este Mote também é antigo. Foi citado por Gra- 
cian na sua Agudejajy- Arte de Ingenio, no Discurso 33 
por causa da ambiguidade que há no último verso em 
que de la mar significa dei amar. 



62 

Di, contento, adonde estás f — pg. SgS. Cod. Por- 
tuense, ú. 62. Esta quadra, profana e humana, mas 
moralizadora que, segundo o Cod. Portuense foi, com 
a correspondente Glosa, dedicada por Frei Agostinho 
a el Rei Phelipe II, é atribuída ao próprio Monarca 
pelo mesmo D Fernando de la Vera que lhe atribue a 
Quadra à cruz — boato esse que foi propagado também 
por Faria e Sousa no Cancioneiro que colecionou para 
o Conde de Haro ( Gallardo, Ensayo, 1, c. 1000, n." 2 168). 
Vid. Sonetos e Sonetistas, pg. 102-106, onde publiquei 
a Glosa de Frei Agostinho — e mais outra, com diversas 
considerações. 

Se esta foi dedicada a Felipe II, iria em troca da 
Quadra relativa à cruz, mandada pelo rei para o Poeta 
a parafrasear ? ? ? Mas quando ? e como ? e por inter- 
venção de quem ? 



444 Notas e Esclarecimentos 



63 

Este mi mal tan estrano — pg. 397. Cod. Portuense» 
fl. 80. Tudo é alheio. Nada de Frei Agostinho O Mote 
é de Sá de Miranda e pertence à Egloga de Alexo, 
{ V. 879 e seg. ). 

A Glosa é de Estevam Rodriguez de Castro, que evi- 
dentemente era um dos autores predilectos de Frei 
Agostinho. Encontra-se nas Rimas, dele (a fl. 5i). 
E foi reimpressa por Garcia Perez no Catálogo, pg 489. 

Gallardo cita-a como fazendo parte do Canc. do Conde 
de Haro, coleccionado por Faria e Sousa (Ensayo, 
n.o 2168). 

64 

Pluguiera a vos, mi Dios, que no naciera — pg 399. 
Cod. Portuense, fl. 80. O Mote é de Gregório Silvestre. 
E talvez também a Glosa seja dele. Não o posso dizer 
com certeza porque tenho a desgraça de não possuir as 
obras dele. Vid. Sonetos e Sonetistas, pg. 3g. 

65 

Passo la vida solo en contemplarte — pg. 400. Cod. 
Portuense, fl 76. No Ensayo de Gallardo, na descrição 
das Rtmas de Estevam Rodriguez de Castro ( Vol. iv a. 
229 n.° 3670 ) aprendi que o Terceto-Mote é obra desse 
autor. 

E como a Glosa dele, infelizmente não reimpressa, 
conste de três Oitavas, como a que se lê no Cod Por- 
tuense, é provável que essas também sejam mera copia. 

Embora a edição de Florença se publicasse depois 
da morte de Frei Agostinho, as obras que contêm, são 
provavelmente anteriores à ida do Cristão Novo ( n. 
em 1339 ) para fora do reino. O próprio íilho diz que 
sairam de Portugal. 

66 

En turquesadas nubes y celajes — pg, 404. Este son. 
é de Pedro Espinosa e foi publicado em i6o3 nas Flores 
de Poetas ilustres^ 

É o n.» 244, pg. 287 da admirável ed. moderna de 
D. Francisco Rodriguez Marin. 

Entrou, elogiado por causa da felicidade da metáfora 
e pola propriedade, viveza e formosura das imagens, no 
Parnaso ( tomo v ) de Sedano e no Cancioneroy Roman- 
cero ( tomo 35 da Bibl. de Ant. Esp ). 



Noras e Esclarecimentos - 445 



b7 

El canto de las aves de la sierra — pg. 411. Cod. 
Portuense, fl 65. Este lindo Soneto foi metido por 
Faria e Sousa no Cancioneiro que colecionou para o 
Conde de Haro, sem nome de autor. 

E Gallardo achou-o digno de reimpressão (n." 2168). 



68 

No me persigas más, vana esperança — pg 412. Cod. 
Portuense, fl 67 Esse Soneto figura também no Canc. 
do Conde de Haro, col por F S ; aparentemente num 
ramalhete de Sonetos dedicados a Felipe II por ocasião 
da Morte da Rainha de Espanha em Badajoz ( D Ana 
Maria de Áustria •{• a 26 de Out. de i58o ). Sem nome 
de autor. 

Gallardo não o reimprimiu (Ensayo, n.» 2168). 

69 

Hambrienta, rota, inquieta, disgustada — ,pe- 4i3. Cod. 
Portuense, fl. 78 v Este Soneto afamado À Pobreza ou 
Em vitupério da Pobreza é atribuído no Canc. coleccio- 
nado por Faria e Sousa a D. Juan de Silva, Conde de 
Portalegre. 

Foi publicado por Gallardo, no Ensayo 11 an. 996. 
Cfr. 992. 

Mas já fora acolhido em 1629 por Miguel Leitão de 
Andrade, na sua Miscelânea, Dial. xvii, pg. 899 na ed. 
de 1876 

Vid. Sonetos e Sonetistas, pg. 76. 



BIBLIOGRAFIA <•> 



Abreu ( João Gomes de ) — Diogo Bernardes ( A sua 
naturalidade ), Ponte do Lima, 1907, i folh., 19 págs. 

Arantes ( Hemeterio ) — Frei Agostinho da Cruj. 
Notas á margem duma « Historia dos Quinhentistas », 
Lisboa, 1909. 1 folh. 

Archivo Bibliographico da Bibliotheca da Universidade 
de Coimbra, i, (1901) pg. 17, onde, começando a publica 
ção do Códice, que tornamos conhecido nessa Revista, 
emitimos pela primeira vez o propósito, que só hoje 
levamos a efeito Cfr. nesta Bibliografia — Remédios 
( Mendes dos ) — Almanach, etc. 

Arrábida — Numero único. Setúbal, i de Julho de 
1899, 8 págs. Colaborado por diversos, a principiar por 
D. Anna de Castro Osório, A J. Marques da Costa, 
Arronches Junqueiro, Adolpho Portela, Júlio Augusto 
de Oliveira, Oliveira Parreira, etc. O artigo deste último 
m Os amadores de Arrábida » com interesse pelas refe- 
rências a um passeio com Oliveira Martins e ao encon- 
tro que tiveram com o último eremita Fr. José de N. 
Senhora, que apareceu, um dia, morto na ermida de 
Santa Catarina em 11 de Novembro de 1870. 

Arrábida — Publicação commemorativa da festividade 
celebrada pelo antigo Cirio de Setúbal. Ano de 1896, 
55 págs. A pg. 5o e 5 1 transcreve como de Fr. Agos- 
tinho da Cruz dois sonetos, cuja autenticidade é licito 



^1) Como se verá, lembramos na nossa resenha os artigos oa pablica- 
ç6is consagradas à Arrábida, porque é raro falar-se da famo$a Serra sem 
aludir ao seu exímio Cantor. Algumas delas transcrevem até poesias de 
Fr. Agostinho, como por ex., a de Bulhão Pato, A. Portela, etc, adiante 
citados. 



448 Bibliografia 

pôr em dúvida. Dizem-se inéditos, mas não se declara 
a fonte ou proveniência. Um principia : 

ff Adeus, ingrata, adeus, que a tirania » 

E o outro : 

« Quando do amor fiei minha vontade ». 

O artigo é assinado por M. ( Manoel ) M, ( Maria ) P. 
< Portella ). 

Artes e Letras^ i, 1892, artigo de Bulhão Pato, pgs. 81 
e 97, sob o título : « O Palácio de Galhariz — Diogo 
Bernardes — Frei Agostinho da Cruz — A Serra da 
Arrábida ». 

Barata ( António Francisco ) — Miscelânea histórico- 
rommtica, pg 63, 

Bernardes ( Diogo ) — Carta ao P. Fr. Agostinho da 
Cru^jf. E a VIII, pg. i52 de « O Lyma », ed. de 1761. 

Braga ( Th. ) — Revista contemporânea, v, 1864-1865, 
artigos seus a propósito de Fr Agostinho e Fr. António 
das Chagas, considerados como poetas místicos. 

— Id. Estudos da Edade Media, 1870, pgs 168-182; 
Historia dos Quinhentistas, 1871, c. v, pgs. 3ii-32i; 
Historia da Litteratura Portuguesa, 11, Renascença, 
Porto, 1914, pgs. 357-362. Etc. 

Branco e Negro, 1896, 1 " ano, número de 7 de junho, 
pgs. 14-15. Gravura do Convento e Serra da Arrábida 
com artigo de Fialho de Almeida. 

Cardoso ( Jeronymo ) — Agiologio Lujiíano, 2.% 
pg. 146 e Comentário de 12 de Março, letra F. 

Cardoso ( P. Luiz ) — Diccionario Geographico, ar- 
tigo « Arrábida ». 

Castro ( João Baptista de ) — Mapa de Portugal. 

Discrição da Serra da Arrábida — Mss. n.° 399 da 
Bibhoteca da Universidade de Coimbra compreendendo 
i34 oitavas. Principia : Canto da Europa a terra ven- 
turosa — e termina : Não nos sucedeu cousa na jornada. 
Anónimo. Letra do séc. xvm. Pág moderna de pgs loi 
a 134. Faz parte duma grossa Miscelânea, que se pôde 
vêr descrita no Cardlógò'dos Mss., \t\ Arch. Bibl. da 
Bibli da Univ. de Coimbra, vol. vi { 1906 ), pg. 10. 

Gonçalves ( J. C. de Sousa) — Uma excursão á Serra 
da Arrábida, 1902. 



Bibliografia 449 



Illustração Portuguesa n." iSi de 18 de Janeiro de 
1909 
— Id., n" 209 de 21 de Fevereiro de 1910. 

Longfelow ( Henry W. ) — Poems of Places edited 
by..., Boston, 1877. A pg. 67 do vol 2.° figura a poe- 
sia de Fr. Agostinho « Arrábida » traduzida para inglês 
por J. Adamson. 

Pg. 6S o"tra de Robert Southey intitulada « Written 
after visiting the Convent of Arrábida, near Setúbal ». 

Pg. 70, outra de Francisco Manoel traduzida para 
inglês por Robert Southey — « The Arrábida Convent ». 

Vid. Southey ( Robert ). 

Machado ( Barbosa ) — Bibliotheca Lusitana, i, s. v., 
biografia em que fala do Cod. de Verberena, a que na 
Introdução fazenoos referência. No vol. 11, pg. 617 no 
artigo sobre João de Brito e Melo ( -|- 1682) diz que 
êlp compôs a Chr. da Provinda de Santa Maria da 
Arrábida dividida em 5 livros, que ficou Mss. e natu- 
ralmente se perdeu Cfr. Piedade, Chr. da Arrábida, 
adiante cit. 

Mesquita e Quadros ( José Caetano de) [1726-1799], 
o Metatesio Cilenio da Arcádia de Lisboa — Vida do 
N. P. Fr. Agostinho da Cru:^ Religioso da Provinda 
da Arrábida, Lisboa, na Reg. Ofic Tvp , 1 7q3, 8.» de 
57 págs. Cito segundo Inoc. Dic. Bibl , iv, 283. É a 
impressa à frente do vol. Poesias de Fr. Agostinho da 
Cruj, de que em 1771 foi editor o mesmo Mesquita. 

Monteiro ( P. Ignacio ) — Descripção da Arrábida. 
Mss. da Bibl. Nac. de Lisboa Principia : 

Desvanecido o sol que procurava 
Lograr da bella sarça a bizarria 

e termina na estanca i33 : 

Em Lisboa me vejo finalmente 

Com que venho dar fim a minha historia. 

O autor é o mesmo de que fala Inoc, Dic. Bibl , iii, 
pg. 212, dando-o aí como natural de Lamas, no bispado 
de Viseu, mas neste Mss. diz-se « Descripção... feita 
pelo R. P , natural da Ilha da Madeira ». 

Occidcnte — n." 776 — Julho de 1900. 
>9 



45o Bibliografía 



Pato ( Bulhão ) — Vid. Artes e Letras. 

Paulo (José Agostinho^ — artigo publicado no n.» 
5175 de 14 de Junho de 1896 do jornal O Século — 
« A Serra da Arrábida » com várias gravuras. 

Piedade ( Fr. António da ) — Espelho de Penitentes e 
Chr. da Provinda de Santa Maria da Arrábida, da 
regular e mais estreita observância da Ordem do Sera- 
phico Patriarcha S. Francisco no Instituto Capucho, 
Lisboa, MDCcxxviii, part. 1, liv. v, caps. 18 e 20, pgs. 940 
e 941, I 1170. 

Pimentel ( Alberto ) — Memoria sobre a historia e 
administração do Municipio de Setúbal. Lisboa, 1877, 
I vol , pg. 22( e segs. 

Portela ( M. M. ) — Ecos do Ermo, versos de..., 
Setúbal, 1872. pgs. 127, 169 e 176 

Purificação ( Fr. António da ) Crónica dos Eremitas 
de Santo Agostinho, 2.* Parte ( i65o), pg. «74. 



Rasteiro ( J. ) — artigo intitulado « Os frades meno- 
res da Arrábida » em O Recreio, Lisboa, 1896, 21.* série, 
pg 67. 

— Id. « Notas históricas sobre a Península da Arrá- 
bida » no Boletim da Soe. de Geogr. de Lisboa, 8.' série, 
pg. 527 ; Noticias archeologicas da Península da Arrá- 
bida in — O Archeologo Portugue^, iii, pgs. 1-48. 

Rebelo ( Brito ) — Carta de Diogo Bernardes a 
António de Castilho ( 1574 ) in — Arch. Hist., i. 

Remédios ( Mendes dos ) — Almanach ilustrado « O 
Comercio do Lima », coordenado por António de 
Magalhães, 1910, (4.° de publicação) pgs. i85-i88 
a Fr. Agostinho da Cruz ». 

Revista Universal Lisbonense, vol. 4.°, pg. 408, artigo 
de R. Gusmão, sem valor. 



Silva { Inoc. Francisco da) — Dicc. Bibl, i, i5-i6, 
fala do Cod. Marreca, a que na Introdução faço a 
devida referência. 

Silva ( José Maria da Costa e ) — Ensaio biografico- 
critico sobre os melhores poetas portugueses, vol. 11, 
pgs, 229-269. 

Soriano ( J. da Luz ) — RevelaçÕis da minha vida, 
na I.* ed a pg 23. 

Southey ( Robert ) — Lettres written during a short 
residence in Spain and Portugal, Bristol, 1797. Traz : 
Musings afier visiting the Convent of Arrábida, pgs. 476 



Bibliografia 451 



e 484 — A Letter XXV termina transcrevendo a poesia 
de Francisco Manuel : 

No baxes temeroso o peregrino. . . 

Torresão ( Guiomar D. de Noronha ) — Folhetim 
do « Diário de Noiicias » assinado • 3o de setembro 
de 1867 », com o título « Digressão á Arrábida. — 
Ascensão. — Altar problemático. — Gruta com privi- 
legio de álbum — Paguei o tributo. — Salto á Lapa. 
— Encontro com a brisida. — A propósito da dita que 
transige admiravelmente com o Sado. — Boileau ». 

Trata dum passeio ao famoso local. Fecha com uns 
medíocres versos feitos pela autora na ocasião desse 
passeio, que se realizou a 24 de setembro de 1867. 

Vidal Júnior ( G. A. ) — « Uma excursão á Serra da 
Arrábida u nos — Annais da Academia dos Estudos 
livres, Lisboa, 1902. 



índices 



I 



ÍNDICE DAS POESIAS POR ORDEM 
ALFABÉTICA 



Pág. 

A corte dos celestes moradores 202 

Acostumado tinha o sofrimento 1^72 

A desigual balança 336 

Adonde, mi dulce Dios, cargado 375 

Adoro-vos, Senhor Deus escondido 180 

A fonte que de seu curso murmurava 2i5 

Agora que de todo despedido loi 

Alegre venho a ver-te no teu ermo :í23 

Alma já tão ditosa entre os ditosos 116 

Alta serra deserta, donde vejo 89 

Alta sierra [de] riscos encumbrados '411 

Amor trouxe a Jesu da gloria á cruz 198 

Ancorou-me a velhice no remanso. 229 

Andei de mes em mes, de dia em dia i34 

Angélicos espirites creados 178 

Anjo custodio a quem foi dado 177 

Antes de parir 363 

Antre as cousas mais formosas i58 

Ao alto Deus confesso meus pecados 177 

Ao pé deste carvalho áspero e duro 3 14 

Aparta-se de vós, desaparece 77 

A peregrinação dum pensamento 173 

A que vindes, Senhor, do Céo á terra 192 



4^4 índices 

Páf. 

Aqueixava-se Marta de Maria 2o3 

Aquelle bom Pastor, que conhecia i5i 

Aquelle que caminha desejando 214 

Aquelle que na vinha do Senhor 23o 

A quem desceo do Geo por nos dar vida 335 

Aqui debaixo desta pedra dura 128 

Aqui, Deos da minha alma, onde cheguei 335 

Aqui neste deserto seco e pobre 3oi 

Aqui, Senhora minha, onde soía 4 

A saudade d'alma a vós devida 220 

A terra feita Ceo, de sol vestida 199 

A ti bom Jesu que tanto ofendi 3o8 

As cabras que inda guardo nesta Serra 223 

Assi como, meu Deus omnipotente 2i3 

Assi como vos vejo nessa cruz 194 

A' Virgem deu o Anjo a embaixada i83 

A vista derramada 270 

Cantar pretendo aquelle alto mysterio 233 

Claras agoas do nosso doce Lima 1 1 1 

Claras agoas nascidas das entranhas 98 

Comvosco e dentro em vós, Serra batida 292 

Com cordas á columna foi atado 190 

Como cisne, que canta na ribeira «04 

Como es possible, mi Dios 376 

Como estaes, luz sem luz, vida sem vida 193 

Como o cervo cansado e ferido 3i i 

Como queres que negue a teu esprito i3i 

Concluído me tenho a mi comigo 228 

Contentamentos meus, que já passastes 232 

Cruz, remédio de mis males 38o 

Daquela que cantei felices annos • 3o4 

Daquele que não tinha inda pisado 4 

Daqui, minha Senhora, fui forçado 221 

l De do venis, Dios alto ? — dei altura 4o5 

Deixei de cantar já, como sohia 298 

De lá do vosso eterno firmamento 102 

De la planta dei pie a lo mas alto 373 

Dentro na minha lapa recolhido 225 

Depois que conheci que não podia 84 

Depois que não achou na sepultura 12 

De que serve, que nresta, que aproveita 218 

Desejando escrever-lhe nunca pude 3 19 

Despojos tristes dum contentamento 3i6 

Deus vos salve sagrada Virgem pia 176 

De vos a Dios, Francisco, el pensamiento 409 

Dezid, senor, si no teniades animo 4o5 

^ Di, contento, adonde estás ? SgS 



índices 455 

Pág. 

Diante do Senhor está lançada 1 1 

Divinas mãos, e pés, peito rasgado 3 

Divino sangue, que do corpo e lado i8i 

Divino sol, en cuya imagen pura 373 

Do ceo á terra, Deus omnipotente 187 

Do fim de qualquer mal, que me persegue 217 

Do Lyma, donde vim já despedido 18 

Dos males que passei no povoado 225 

Dos males que por mim já tem passado 224 

Do meio desta Serra derramando 17 

Do mundo desapegado 348 

Doce quietação de quem vos ama 9 

Dos solitários bosques a verdura 222 

Duas cousas receio, duas faço 64 

Duro ferro cruel, lança homicida 197 

El canto de las aves en la sierra 411 

En aquella eterna luz 402 

Emquanto se dilata a pescaria 58 

Em que parte, ou em que terra 337 

Em ti, suave cruz, inda que dura • . 6 

Enganos da vida humana 339 

En turquesadas nubes y celajes 404 

Em um Deus creio só, da terra e Ceo 175 

En ningun médio puedo sustentar[me] 396 

En sola la miséria de mi vida 385 

Entrarei em vossa casa, meu Senhor 179 

Era noute de inverno longa e fria 1 3 

Es la esperança un mal bien reputado 414 

Espera, porque foges, Limabeu ? 80 

Essas ruedas de amor que no suspenden 415 

Estando o mundo todo em paz composto 189 

Este largo martírio de la vida 406 

Este mi mal tan estrano 397 

Eterno Padre nosso Creador 175 

Eterno sacerdote, que hoje alçado 193 

Eu tenho para mim seeundo as queixas 5i 

Eu vi do ceo na terra a fermosura 85 

Fiz conta comigo 365 

Fortuna destruio minha esperança 233 

Graças, Senhor, vos damos, que quisestes i83 

Graças vos dou, Senhor, que da escura 174 

Grandes nuevas ; Dios nacido 3^0 

Habita n'alma Deus, se nella habita ai i 

Hambrienta, rota. inquieta, diigustada 41 3 

Insígnia triunfal honrosa e santa 277 

Já não digo um dia 36^ 

Jacinto, já vestido doutras cores ao3 



456 índices 

Pág. 

Junto das bravas agoas Oceanas 1 1 3 

Já nesse ethereo assento, Virgem pura i86 

Lagrimas que no pudieron SgS 

Lançou-se Limabeu antre huns penedos i8 

Largos campos do Tejo 117 

Lá vos tornaes, Senhor, onde subistes 199 

Las tristes lagrimas mias 3g2 

Lembranças do meu bem, doces lembranças 23i 

Magdalena de amor toda roubada 20t 

Mais cedo te buscara se não fora 3o 

Meu Deos, nessa columna estaes atado .'.... 191 

Mostrai-me, meu Senhor, em que deserto 207 

Na derradeira Cêa do Senhor 6 

Na ribeira do Lima fui nascido 289 

Não passou meu pensamento 345 

Nas entranhas da mãi alumiado 5 

Nasci e renasci na casa em dia 335 

Nasci junto do Lima satldoso i85 

No me persigas más, vana esperança 412 

No pudieron más subir 401 

Nesta Serra 35o 

Neste meu remanso 348 

No fim da vida humana discursando 217 

No meio desta Serra, onde se cria 221 

No silencio da noute, em que vigio 226 

O' cegos, que buscais na morte a vida 212 

Ochenta y seis províncias y conventos 409 

Oh ! Clara, que tão clara resplandeces » 

Oh ! cruz, que no Calvário sustentaste 7 

O' divino banquete, onde foi dada 189 

O' Maria 161 

O' montes altos, vales abatidos 227 

Oh ! Virgem, Mãi de Deos, Senhora minha i5 

O meu cordeiro branco que saltava 48 

O meu nascimento 162 

O tempo que fugindo 121 

O' venturosas palhas de Belém 188 

O' vós que andaes de achar cá desejosos 23 1 

Omnipotente Deos, que o sol creastes 184 

Omnipotente Padre, que deixastes 181 

Os correos da morte são chegados 229 

Os figos que no telhado 343 

Os passos, que de dores trespassado igS 

Os rios, donde nascem, vão correndo 2i5 

Os versos, que cantei importunado i 

Oy sangran a nuestro Dios 37 1 

Para bien os sea el parto 369 



índices 457 

Pág. 

Pasmem d'alegria 35 1 

Passa por este vale a Primavera 2 

Passo la vida solo en contemplar-te • . 400 

Penas, tormentos, dôr, e fortaleza i3y 

Perdido el nombre, dei peccado esclava 410 

Perdi-me dentro em mim, como em deserto 171 

Perdoai-me, Senhor, que se faltara 10 

Pluguiera a vos, mi Dios, que no nasciera 309 

Pois que nos ajuntamos nesta praia 33 1 

Por longe que vá 160 

Pôs Deos da gloria o ceo na mór altura 2o5 

Posto que sofra amor apartamento 169 

Primeiro que partísseis, filha minha 32i 

Pús em tamanha altura o pensamento 170 

Qual ave, que do laço vai fugindo ao5 

Quando d'ambos os ceos caindo estava 169 

Quando na verde planta, ou pedra dura i83 

Quando será, Senhor, que desatado 208 

Quando verei, meu Deos, chegar-se a hora 211 

Quantas vezes cuidei que me apartava 295 

Que buscas por aqui, por esta Serra 40 

i Que ciega y general idolatria ! 4i3 

Que coração tão seco, duro e frio 16 

Que cousa mais suave, doce, e branda 2 

Que cousa seja amor, não se comprende 171 

Que desculpa pode dar 1 1 1 

Que forte fortuna sigo 341 

Que lingua, que saber, que esryio ou arte 281 

Que louvores direi do nosso Santo 14 

Que lugar acharei no pensamento 8 

Que lugar, tempo, estado ou esperança 168 

Que males não queres sentir ? Ouvir 348 

Que me fica por ver na mortal vida ... a 223 

Que novas me darás do nosso amigo 328 

Que queira quem me não quer 342 

Que saudade d'alma, e que brandura 14 

Que tenho mais no ceo, ou que na terra 207 

Quem me dera por lingoa um raio ardente 2i3 

Quem me pode apartar de vosso amor 107 

Quem muito deseja amar iSg 

Quem podesse mostrar o que tem n'alma 219 

Quem vos escolheo 363 

Quero chorar-me agora aqui cercado 95 

Queres ouvir contar hum pescador 70 

; Quien me tiene sin honor ? 38i 

Quien será aquel cavallero 378 

Rodeado nesta Serra 346 

5o 



458 índices 

Pág. 

Salid, hijas dichosas de Sion 874 

Saudade minha 364 

Se amor do Ceo se cria e acha em lagrimas 268 

Se bastou só dizer para ser feito 210 

Secou-se para mim agoa no rio 85 

Se desejo, meu Deos, de vos amar 209 

Se destes, meu Senhor, anjo a Tobias 179 

Se dos pais e dos filhos me fôr dado 253 

Se não posso pregar meu pensamento 191 

Se neste apartamento me saltara 107 

Senhor, se minhas culpas m'endurecem 92 

Senhor, se me esquecera 119 

Se Agostinho fora Paulo 343 

Se o sacro Evangelista mereceo 200 

Seráfico Francisco assinalado 16 

Seráfico Francisco, sprito puro 204 

Se queres, ó Christão, gozar da gloria 195 

Se são vossas delicias, meu Senhor 206 

Se sendo, meo Senhor, por vós formado 227 

Se tanto penetrou toda a dureza 128 

Se tu para tão longe te partias 34 

Se vós, meu Senhor, dais consentimento 196 

Se vós me não deixais, Senhora minha 219 

Se vós quereis. Senhor, a quem vos quer 209 

Serpiente de metal, que en el desierto 375 

Si acaso, gran Francisco, yo os aliara 408 

Si ai curso más veloz tan solo atenden 41 5 

Si, que más puede el amor 377 

Si sois dei cielo gloria y alegria 407 

Si sois tan grande Dios, imenso, eterno 407 

Soias de cantar onde pastavas 417 

Tal luz á Magdalena alumiava 10 

Tamanha foi a dôr, a magoa minha 116 

Tanto é o bem, que espero 347 

Tempo foi que pastava neste prado 12 

Tendo o rei adultero e deshumano 201 

Trazes mudada a côr, mudado o rosto 22 

Um bosque que de longe apparecia 216 

Vai-me gastando amor num pensamento 173 

Verdes bosques da Serra. «24 

Virgem formosa, que do sol vestida 187 

Virgem pura, escolhida, honesta, santa 273 

Visão que a Santa Brígida foi feita 265 



II 



índice das POEblAS POR ORDEM 
DA PUBLICAÇÃO NESTE VOLUME 



PARTE I 

POESIAS DA ED. DE MESQUITA, 1771 
[Pag. 1-167] 

Pág 

Soneto I — A quem lêr i 

Soneto II — Ao triste estado a 

Soneto m — A' Lei de Deus 2 

Soneto IV — As Chagas 3 

Soneto V — A' Nossa Senhora da Arrábida 4 

Soneto VI — AS João Baptista 4 

Soneto VII — Ao mesmo Santo 5 

Soneto VIII — AS. João Evangelista 6 

Soneto IX — A' Cruz 6 

Soneto X — A' mesma 7 

Soneto XI — A Santa Clara H 

Soneto xii — A Deos 8 

Soneto XIII — Da oração 9 

Soneto XIV — A Jesus Crucificado 10 

Soneto XV — A' Magdalena 10 

Soneto xví — A' mesma 11 

Soneto xvii — A' mesma indo ao Sepulcro ..... 12 

Soneto XVIII — A' mudança da vida 12 

Soneto XIX — A' noute de Natal i3 

Soneto XX — Ao mesmo 14 

Soneto xxí — A Santo António 14 

Soneto XXII — A nossa Senhora da Arrábida .... i5 

Soneto XXIII — A nosso Padre S. Francisco 16 

Soneto XXIV — A' saudade de hum rio , . 16 



4^0 índices 

• Pág. 

Soneto XXV — Da Serra da Arrábida 17 

Soneto XXVI — A seu irmão Diogo Bernardes .... 18 

Egloga I — A' sua conversão 18 

Egloga II — Mincio e Flávio. No ano do Novi- 
ciado 22 

Egloga III — Silvestre e Rodrigo 3o 

Egloga IV — Limabeu e Mincio — Em que se 

queixa de hum amigo 84 

Eglbga V — Gualbano e Laurindo — Do tempo 

que trouxe hum a Religião 40 

Egloga VI — Limabeu — A' morte de hum Amigo 48 
Egloga VII — Limabeu e Mincio — Da mudança 

da Arrábida 5 1 

Egloga vni — Limabeu e Lauro — Piscatória. ... 58 
Egloga IX — Galapo e Almilão — Da mudança de 

pastor em pescador 64 

Egloga X — Galapo, Alportuxo, Almilão — Pisca- 
tória I — Ao nascimento do Duque D. Jorge de 

Lencastre 70 

Egloga XI — Almilão. Piscatória 77 

Egloga xn — Mincio e Limabeu 80 

Soneto de Limiana 84 

Epitáfio de Limabeu e Limiana 85 

Elegia I — A hua ingratidão 85 

Elegia II — Da Arrábida 89 

Elegia III — Espiritual 92 

Elegia IV — Na tribulação de huma pessoa amiga. 95 

Elegia V — Da ingratidão 98 

Elegia VI — Estando na Arrábida loi 

Elegia MI — Ao fim da vida 1 04 

Elegia vui — Da ausência justa conjugal 107 

Vilancete — Que desculpa pôde dar n 1 

Elegia IX — A' morte de sen irmão Diogo Ber- 
nardes Ill 

Elegia X — Ao mesmo 1 13 

Epigrama — A' morte de hum moço u6 

Outro ao mesmo 116 

Oda I — Ás mudanças do tempo 117 

Oda II — A D. Diogo Lopes de Lima 119 

Oda 111 — A Francisco Barreto de Lima 121 

Oda IV — Da condição da vida humana 124 

Epitáfio 128 

Carta i — Em resposta á de seu irmão Diogo Ber- 
nardes 1 28 

Carta ii — A Dona Branca i3i 

Carta lu — A Francisco Barreto de Lima estando 

preso k 134 



índices 461 

Pig. 

[ Poema (i) sobre o ] Martírio e vida de Santa 

Catharina 1 87 

[ Poema (11) ] Sobre o « Flevit amare » i5 1 

Mote — ' « Antre as cousas mais fermosas • i58 

Mote — a Quem muito deseja amar » i59 

Voltas — A Tra-los-Montes 160 

Redonddhas — A Nossa Senhora 161 

Endechas 1 òi 

Ao Nascimento de Nosso Senhor 166 



PARTE II 

POESIAS DO "COD. CONIMBRICENSE" 
[ Pag. 168-368 ] 



Soneto I 1 68 

Soneto 11 — A uma absencia 169 

Soneto iti — Ás lagrimas duma despedida 169 

Soneto IV 1 70 

Soneto V 1 7 1 

Soneto VI 171 

Soneto vil 172 

Soneto VIII 1 73 

Soneto IX 1 73 

Soneto X — Ao levantar da cama 174 

Soneto XI — A' protestação da Fé 173 

Soneto xu — Ao Padre Nosso 175 

Soneto XIII — A' Ave-Maria 176 

Soneto XIV — A' Confissão Geral 177 

Soneto XV — Ao Anjo Custodio ■. . . . 177 

Soneto XVI — A todos os Santos 178 

Soneto XVII — Ao sair de Casa ijg 

Soneto xviii — Ao entrar na Igreja 179 

Soneto XIX — Ao levantar da Hóstia 180 

Soneto XX — Ao levantar do Cálix. ..." 181 

Soneto XXI — Ao estar á Missa 181 

Soneto xxii — A' benção da Mesa 182 

Soneto xxiH — Ás graças depois da Mesa iSS 

Soneto XXIV — Ao tanger das Ave-Marias i83 

Soneto XXV — Ao recolher á noute para dormir . 184 

Soneto XXVI — A' Duquesa d' Aveiro i83 



4^2 índices 

Pág. 
Soneto xxvíi — Chora o vicioso emprego da sua 

vã mocidade i85 

Soneto xxviii — A' Imaculada Conceição de Nossa 

Senhora i86 

Soneto XXIX — A' mesma 187 

Soneto XXX — A.' Encarnação 187 

Soneto XXXI — Ás palhas do presépio de Belém. . 188 

Soneto XXXII — Ao nascimento, paixão e ascensão i8q 

Soneto XXXIII — A Quinta-Feira da Cêa do Senhor 189 

Soneto xxxiv — Quae non rapui, tunc exsolvebam 190 

Soneto XXXV — A Christo preso á columna 191 

Soneto xxxvi — Ao mesmo 191 

Soneto xxxvii — A coroa de espinhos 192 

Soneto xxxviii — A Christo na Cruz ig3 

Soneto XXXIX — Ao mesmo 193 

Soneto XL — Ao mesmo 194 

Soneto XLi — A' Paixão 19I) 

Soneto xLii — Ao mesmo igS 

Soneto XLiii — Ao mesmo igó 

Soneto XLiv — Ao ferro da lança, que abrio o lado 

de Christo 197 

Soneto XLv — A' firmeza do Amor 197 

Soneto XLVi — A' Cruz 198 

Soneto XLVii — A Ascensão 199 

Soneto XLviii — A' Assumpção de Nossa Senhora 199 

Soneto XLix — A Santo António 200 

Soneto L — A' degolaçao do Baptista 201 

Soneto L[ — A' ida de Magdalena ao sepulcro . . . 201 

Soneto LH — A' sua morte 202 

Soneto Liii — Ás SS Marta e Maria 2o3 

Soneto Liv — AS. Jacintho 2o3 

Soneto Lv — A S Francisco 204 

Soneto Lvi — A' entrada de Madre Soror Mecia 

na Madre de Deus 2o5 

Soneto Lvn — A' mesma 2o5 

Soneto Lviii — Delitias meae esse cum filiis hominum 206 

Soneto Lix — Quid enim mihi est in coelo ? 207 

Soneto Lx — A Nosso Senhor 207 

Soneto LXi — Ao mesmo 208 

Soneto LXd — Ao mesmo 209 

Soneto Lxiii — Ao mesmo 209 

Soneto Lxiv — Ipse dixit, et facta sunt 210 

Soneto Lxv — Deus caritas est 211 

Soneto Lxvr — Satiabor cum apparuerit gloria tua 211 

Soneto Lxvii — Prasterit figura hujus mundi ..... 212 

Soneto XLviii — Voto de ardente amor divino ... 2i3 

Soneto LXix — Da oração 2 1 3 



índices 463 

Pág. 

Soneto Lxx — Ao mesmo 214 

Soneto Lxxi — Omnia ilumina intrant in maré ... 2i5 
Soneto LxxH — Gutta cavat lapidem. Ao efFeito 

da perseverança 2 1 5 

Soneto Lxxni — Quanto importa um bom desejo. 216 
Soneto Lxxiv — Finis cujusque mali principium 

est futuri 217 

Soneto Lxxv — A' temperança 217 

Soneto Lxxvi — A' vaidade humana 218 

Soneto Lxxvii — A' dignidade da alma e vaidade 

da vida 219 

Soneto Lxxviii — A* Senhora da Memoria na au- 
sência de Fr. Diogo dos Innocentes 219 

Soneto Lxxix — A' mesma e ao mesmo respeito . 220 

Soneto Lxxx — A' mesma e ao mesmo respeito . . 221 

Soneto Lxxxi — Na Serra da Arrábida 221 

Soneto Lxxxii — Da contemplação na mesma .... 222 
Soneto Lxxxiii — Da perseverança na penitencia, 

na mesma 223 

Soneto Lxxxiv — Da experiência 223 

Soneto Lxxxv — Ao mesmo 224 

Soneto Lxxxvi — Da quietação 225 

Soneto Lxxxvii — Ao mesmo 225 

Soneto Lxxxvm — Ao mesmo 226 

Soneto Lxxxix — Ao pecado original 227 

Soneto xc — Chora os desvarios da sua desapro- 
veitada mocidade 227 

Soneto x<:i — Da emenda 229 

Soneto xcii — A' sua inalterável confiança em 

Deos 229 

Soneto xciii — A' morte 229 

Soneto xciv 23o 

Soneto xcv 33 1 

Soneto xn VI 23 1 

Soneto xcvn 232 

Oitavas 233 

[ Poema em ] Tercetos em louvor da Imaculada 

Conceição da Virgem Nossa Senhora 233 

[ Poenia em ] Oitavas — Vida e morte de S. Eus- 

tachio, molher e filhos 253 

[ Poema da ] Visão de Santa Brígida 265 

Beati qui lugent 268 

Ode — Aos desenganos 270 

Canção a Nossa Senhora 273 

Ode — Hymno á Cruz 277 

Elegia — A' Quinta- feira da Cea do Senhor 281 

Elegia 289 



464 índices 

Pág. 

Elegia da Arrábida 292 

Elegia [ A' Arrábida ] 295 

Elegia 298 

Elegia penitencial 3oi 

Elegia — A D. Mariana, filha do Duque de Aveiro, 

incitando-a e animando-a a ser religiosa 3o4 

Elegia — A Jesus na Cruz 3o8 

Elegia — Ao divino amor 3i i 

Ao Sepulcro da Esperança 3i4 

A' morte de hum contentamento 3 16 

Carta que o Autor escreveo á Duquesa de Aveiro 

antes de ir para o Ermo 319 

Carta que compôs á Duquesa de Aveiro á absen- 

cia da Madre Soror Mariana sua filha 32i 

Egloga — Almilão e Galapo 323 

Egloga — Laurino e Fontano 32S 

Egloga — Almilão e Galapo 33 1 

Epigramma — A' Paixão 335 

Epigramma • 335 

Epigramma 335 

Acerca do tempo 336 

Vilancete — A' desculpa de pescar e fazer bordões 337 

Mote — « Enganos da vida humana » — . SSg 

Mote — « Que forte fortuna sigo » 341 

Mote — « Que queira quem me não quer » 342 

Mote — «Se Agostinho fora Paulo » 343 

Mote — n Não passou meu pensamento » — Re- 
posta a Soror Mariana, filha do Duque de Aveiro 345 

Mote •:— n Rodeado nesta Serra » 346 

Mote — « Tanto é o bem, que espero » 347 

Mote — » Neste meo remanso » 348 

Mote — «Do mundo desapegado » 348 

Ecos 348 

Redondilha a Nossa Senhora 35o 

Chansonetas ao Nascimento de Nosso Senhor. ... 35 1 

Mote a Nossa Senhora « Antes de parir » 363 

Mote « Saudade minha ■ 364 

Endechas 365 

Outras 367 



índices 465 



PARTE III 

POESIAS DO " COO. PORTUENSE " 
[Pag 369-416] 

Pag. 

Mote — « Para bien os sea el parto ■ — A' Virgem 

Maria 369 

Mote — « Grandes nuevas ; Dios nacido • 370 

Mote — o Oy sangran a nuestro Dios » — A la 

circuncezion 371 

CMtavas i — A Christo no Horto 373 

Oitavas II — A Christo azoutado 373 

Oitavas III — A Christo coroado 374 

Oitavas IV — A Christo com a cruz nas costas . . . 375 

Oitavas V — A Christo crucificado 3jb 

Mote — « Como es possible, mi Dios » 376 

Dialogo entre Pecador e XRisto 377 

Romance — Ao Seráfico Padre São Francisco . . . 378 

Mote — « Cruz, remédio de mis males • 38o 

Ecos 38i 

Mote — « En sola la miséria de mi vida » 383 

Cancion a la muerte 387 

Mote — o Las tristes lagrimas mias » 392 

Mote — « Lagrimas que no pudieron » SgS 

Mote — « A El Rei Phelippe o Segundo • 3g5 

Mote — « En ninguno medio puedo sustentar[me] 396 

Mote — « Este mi maio tan estrano » 397 

Mote — • Pluguiera a vos, mi Dios, que no nas- 

ciera » 399 

Mote — « Passo la vida solo en contemplar-te » . 400 

Mote — «No pudieron más subir » 401 

Outra glosa ao mesmo Mote 402 

Soneto I — A' Assunção de Nossa Senhora » 404 

Soneto II — Ao Advento de Christo 4o5 

Soneto iii — A Christo no Horto 40> 

Soneto IV — A Christo crucificado 406 

Soneto V — Ao Menino no presépio 407 

Soneto VI — Ao mesmo 407 

Soneto vn — A São Francisco 408 

Soneto VIU — Ao mesmo 409 

Soneto IX — A' Ordem de S. Francisco 409 

3i 



466 índices 

Pág. 

Soneto X — A Santa Maria Magdalena 410 

Soneto XI — Aos nrjoradores de Arrábida 411 

Soneto XII 4 " 

Soneto XIII 412 

Soneto XIV — A honra do mundo 4i3 

Soneto XV — Em vitupério da pobreza 4' 3 

Soneto XVI 414 

Soneto XVII 4' -^ 

Soneto xvni 4' 5 



PARTE IV 

CXIV 

POESIA DO CANCIONEIRO DE ÉVORA 



22 



Ègloga — Mincio e Limabeu l 417 



LISTA DAS PRINCIPAIS 
ERRATAS 



Pág. 









Erro 


Emenda 


3 verso 


7 


satisfeito 


satisfeita 


7 


» 


8 


si 


ti 


7 


u 


20 


resgatada 


resgatado 


9 


» 


12 


serviços 


servir-vos 


1 1 


» 


23 


mais, que 


mais quem 


46 


» 


24 


futis 


sutis 


63 


» 


23 


carga 


larga 


7» 


1> 


23 


sesta 


festa 


122 


» 


3o 


sofre 


sobre 


i33 


» 


24 


desejo 


deserto 


176 


» 


3 


grão 


pão 


aoo 


» 


iq 


eslava 


esteve 


2l5 


11 


i5 


murmurava 


murmura 


220 


J> 


22 


das 


dar 


238 


» 


25 


renova 


renove 


268 


a 


20 


rosto 


rasto 


Epígi 


■afe 


lungent 


lugent 


274 


verso 


i 3J 


mosta 


mostra 


275 
281 


D 


20 


passos 


paços 


U 


16 


de toda 


do todo 


3o6 


. 


25 


forte 


foste 


3i4 


» 


i3 


por 


pôs 


324 


1) 


i5 


quer 


querer 


328 


» 


14 


e 


a 


344 


» 


18 





e 


355 


U 


«4 


fez 


faz 


357 


• 


9 


pôr 


3ÔS 


38 1 


» 


8 


haya 


laga 


382 


a 


9 


aura 


avrá 


394 


'• 


3i 


gutos 


gustos 



MENDES DOS REMÉDIOS 



<^ 



História da Literatura Portuguesa desde as origens até á actua- 

iidade, 4.» ed., i vol. brochado, iííf>5oo. Cartonado... ií{í>6oo 

Introdução á História da Literatura Portuguesa, 3.» edição, muito 

melhorada ^^^ 

Subsidios para o estudo da História da Literatura Portuguesa : 
«^, I. _ Fidalgo Aprendiz, de D. PVancisco Manuel de Mello,. 

2.» edição 3oo 

II. — Poesias inéditas de D. Thomás de Noronha, poeta saty- 
rico do século xvii .' 3oo 

III. — Lusíadas ( ?.• ed. anotada, para as escolas), bro- 

chado, 5oo. Cartonado 6úO 

IV. — Foguetario (poema heroi-comico ), de Pedro de Aze- 

vedo Tojal 3oo 

V, — Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do gordo 

Sancho Pança ( opera jocosa ), de António José da 
Silva 3oo 

VI. — Guerras do Alecrim e Mangerona ( opera joco-seria ), 

de António José da Silva 200 

VII. — Sentenças de D. Francisco de Portugal, i.° Conde òe 
Vimioso, seguidas das suas poesias, publicadas no 

« Cancioneiro de Garcia de Rezende » 3oo 

VIII a X. — Consolaçam ás Tribulaçoens de Israel, por Samuel 

Usque, 3 vòls ^oí» 

r^XI, XV e XVII. — Obras de Gil Vicente, ( completas ), 3 vols. i ^ Soo 
™-Xn. — Memorias de José da Cunha Brochado 2J0 

XIII. — Chronica do Infante Santo D. Fernando 400 

XIV. — Chronica do Condestabre de Portugal Dom Nuno Alvarez 

Pereira ^o" 

XVI, — Escritoras doutros tempos 40<* 

XVIII. — A Castro, de António Ferreira 400 

'XIX. — Miscellanea, de Garcia de Resende... 5oo 

XX. — A Castro, de Domingos dos Reis Quita 400 

XXL — Obras de Fr. Agostinho da Cruz. 
Filosofia elementar, 2.» edição refundida, 1916, \ vol. broch. i íí>700 

Os Judeus em Portugal, i vol. broch ií{í)000 

Os Judeus Portugueses em Amsterdam, i vol. broch 700 

Sousa Martins e a Serra da Estreita, ( Exgotado ). 

Cartas inéditas de El-Ret D. Pedro V, ( Exgotado). 

Uv^a Bíblia hebraica da Biblioiheca da Universidade de Comíbra, 

': 'clh. iKxgotado ). 
AíútJas romanas da Bibliotheca da Universidade de Coimbra 

( ensaio de catalogo ) • •. .• • ^<^ 

As Horas do Nossa Senhora da Bibliotheca da Universidade de 
Coimbra, 1 ío!h. (Exgotado). 

Philomena de S. Boaventura • • 200 

Carta exhortatona aos Padres da Companhia de Jesus .... 200 




PQ 
9191 
H 
1918 



Agostinho da Cruz, Brother 
Obras 



I 

1 



UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY