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Full text of "Obras de Luis de Cámoens"

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OBRAS 

DE CAMOENS, 



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OBRAS 

DE luís 

DE CAMOENS. 

NOVA EDIÇÃO. 

TOMO SEGUNDO. 



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PARIS, 

A ctJSTA DE Pedro Gendron. 

VENJDE SJE EM LISBOA^ 

Em cafa deBoNARDEL&DuBsux, 
Mercadores de Livros. 



M. D C C. L I X. 



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Luís DE CAMOENS. 



SONETOS. 



E. 



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iM quanto qitiz FottuxU , que tivetftf 
E^érança de algum conceacamenco » 

goílo de hum fuave peoíameaco» 
Me fez , que fcus eíFeicos efcreveíTc i 

Poc^m ccrocado Amor , que ayifo dcitt 
Xfinha.eTcricura a algum juízo iievto» 
Efcureceome o engenho co tormento ^ 
Pata que feus enganos nam dicede» 

O vòs » quWmoc obriga a fct fugeítot 
A diyeifai ronudes » quando lerdes 
Num bccve livro caCos tam diverfos j 

Vttàstács puras Taó > & ;iam defeitos « 

1 fabel 9 qúe fegundo o amor tiverdes > 
Tereis o catcpdiíncwo de meus verfos. 

Tom, //. " A 



V I. 

iLLUSTits , 6c dino ramo dos Me&efè»^ 
Aos quaes o prudcnce & largo Cea 
, i Que errar aam fabe ) em doce cencedeo 
RompeTe 09 Mahometicof amefe». 

Defpreíaiido a Fortuna , 9c feus rerefé» , 
Ido paca onde o Fado vos moyeo , 
Xrguei flamas no mar alto Erichreo i 
£ fereis nova luz aos Pofcuguefts. 

Oprimi com^ cam firme , & force peitei 
O pirata iníolence y qve fe eTpaACc , 
f. crema Taprobana , òc Gedrolia , 

Dai nova cauíW á cor do Arábio eílriieo ^ 
A^ 9 que a roxo mar daqui em dianc& 
O feja y íò ca fiingue de Turquia. 

VII. 

No tempa, que de amor viver fohia^ 
Nem fempre andava aa cema fcrrolhado.» 
Antes agora livre , agora atado 
£m varias flamas variamente ardia; 

Que ardefle num ío fogo nam queria 
O Ceo, porque tivcflc exprimentàda , 
Que nem mudar. as caufas a& cuidado » 
Mudança na ventura me faria. 

£ fe algum pouco ten^ andava izento ^ 
Fui coma quem ca pefo defcanfou. , 
Por tornar a caníar cóm mais alento. 

Louvado fe|a amor em meu tormeota^ 
Pois paca paílatempo feu tomou 
fií^ mçu Mni c^nfado. fofivncntQK • 



I>£ L» DE CaMO£NS. j 

VIII. 
Amou, que ogefto humano n^ahna cTcrtfVe, 
Viras faifcas me moftrou hum dia , 
Do&de hum puro criâal Sé derretia 
Por entre vivas rofas , & alva neve. 
^ A viíla que em íi mefma nam fe acrcTe 
Por fe certificar do que alli vii » 
Poi convertida em fonte » que fazU 
A dor ao fofrimenco doce , &. leve » 

Jura amor , que brandura ét vontade ^ 
Caufa o primeiro eâèito , o penfamento 
Sndoudece, fe cuida que he vetá^iàc : 

Olhai como amor gera num momento ^ 
De lagrimas de iioneíU piedade , 
Lagrimas de immortad contentamento* 

I X. 

Tanto de meu eftado me acho incerto , 
Que em vivo ardor tremendo eílou de frio f 
Sem caufa juntamente choro y&c rio , 
O mundo todo abarco , de nada aperto , 

He tudo quanto íinto hum defconcerto , 
D'alma hum fogo me fae » da viíU hum rio , 
Agora efper o , agora defconâo » 
Agocji defvario » agera acerto. 

Eftando em teria chego ao Ced voando , 
Hum hora acho mil annos , 6c de geito , 
Que em-mil annos nam poflo achar hú hora. 
Se me pregunta alguém porque aífi ando ? 
Hefpondo , que nam lei > porém fufpeito , 
Que ÍJ6 porque vos vi , minha fenhora. 

- • • • 

A 11) 



3f Sonetos 

X. 

Tu AMsroiLM Ast O atuadoc til coiira ãmiàii 
For vircude da muito imaginar , 
Nam tenho logo mais qUedefejar > 
Pois em mi coiho a parte deftfada. 

Sc nella eftâ minha alma transformada , 
Que mais defeja o corpo de alcançar ^ 
f m íi fomente pòdc defcanfar , 
Pois ooníigo tal ahna eftâ Hada. 

Mas efta linda , & pura femidSa » 
Que como o accidônte cm feu fugeito , 
/iíTi com a alma minha fe conforma : j 

Eftâ no peníkmento como idèa , 
B o viyo , & puto amor , dequefou feiCo> 
Como matéria fimpks bufca a fèrma. 

'XI. 

Passo por nieus trabalhos tam isento > 
Pe fenrimento grande , nem pequeno » 
Que íe pola vontade , axn que pene , 
Me £ca amor devendo mais tormenta , 

Mas vaime amor matando tam atenta ^ 
Temperando a triaga ,^co veneno > 
Que da penar a ordem defordefio , 
Porque liam maconfèhte o fofrimento» 

Pordm fe cfta fineza ò amor fente » 
B pagarme meu mal com mal pretende ^ 
Torname co prazer como aa Sol neve j 

Mas fo me vè cos males tam contente » 
Paiife avaro da pena , porque entendo ^ 
Que quaaio mais mo faça | mads mç devc^ 



DE L. 0£ Camoens. 7 

X I I. 

Sm flor vos arrancou , de então crefcída , 
Ah Senhor Dom António , a dura Corte , 
Donde fazendo andava o braço forte , 
A Fama dos antigos erquecida. 

Huma fh razáo tenho conhecida , 
Com que tamanha magoa fe conforte , 
Que pois no mundo havia honrada morte , 
Que nam podíeis ter' mais larga vida. 

Se meus humildes verfos podem tanto 9 
Que co defejo meu Ce iguale a arte , 
fípeclal matéria me fereis , 

£ celebrado em triíle & longo canto , 
Se morreftes nas máos do fero Marte , 
Na memoria das gentes vivireis. 

XIII. 

Num jardim adornado de verdura , 
A que efmalcáo por cima varias flores 
Entrou bum dia a Deofa dos amores 
Com a Deofa da caça , ic da efpeflura. 

Diana tomou logo húma Rofa pura > 
Vénus hum roxo Lirio dos melhores , 
Mas excediáo muito às outras flores , 
As Violas na graça , & fermoíbra , 

Perguntio a Cupido , que alli e/lâva > 
Qual d*aquelks três flores tomaria » 
por mais fuave , pura & mais fermofa > 

Sorrindofe o minino lhes tornava , 
Todas fermofas faô , mas eu queria 
VioU antçs , <|ae iinoj nem <^ue KqC^ 



t Sonetos 

X I V. 

Todo animal da calma repouTaTa » 
Sò Lifo o ardor delia nam feiícia » 
Que o repouTo do fogo > em que ardia > 
Coníiftia na Ninfa y que bufcava. 

Os montes parecia , que abalava 
O criíle fom das magoas , que dizia , 
Mas nada o duro peito commovia » 
Que na vontade d'outrem poílo eíUva» 

Canfado ja da andar pela efpeflura > 
No tronco.de huma faya » por lembrança , 
Efcreve eílas palavras de ttifteza t 

Nunqua ponha ninguém fua efpeiança f 
Em peito feminil , que de natura 
Somente em Ter mudável tem firmeza. 

XV. 

Busque Amor novas artes>8c novo enggenho 
Para matarme , & novas efquivanças , 
Que nam pode tiracme as efperaaças » 
Pois mal me tirará , o que eu nam tenho. 

Olhai de que efperaaças me mantenho > 
Vede que perígofas feguraQças , 
Que nam temo contraíles , nem mudanças ^ 
Andando em bravo mar , perdido o lenho. 

Mas com quanto nam pôde haver defgofto. 
Onde efpecança falta , lá mo efconde 
Amor num mal » que mata y te nam fe vé $ 

Que dias ha que n'alma me tem poílo , 
Hum nam fei que , que uafce , não fei donde» 
Vcóiy nam fei como , U doe, nam fei porque 



]>E L. DE C A M O £ N S. f 

XVI. 

QgKM yè , fenhora » claro , & manifèft« 
O lindo fer de rodos oibos bcHos , 
Senam perder a vifta fò em vellos , 
Ja nam paga 9 o que dère a toÍK) gefto. 

Efte me parecia preço honefto , 
Mas eu por de rencagem merecellos , 
Dei mais a yida , & alma por queretlof j. 
Donde ja me íica mais de refto- 

Afli que a vida , & alma , & efperança ^ 
B tudo quanto tenho , tudo he voílo » 
E o proveito diílb eu fò o levo » 

Porque he tamanha bemavcncurança y 
O darvos quanto tenho , & quanto podo 9 
Que quanto mais vos pago , mais vos deve« 

XVII. 

QuAKDO da bella vifta , & doce riíb 
Tomando eftaó meus olhos mançimenco > 
Tam enlevado íinto o pefamenco , 
Que me faz ver na terra o paraíso. 

Taato do bem humano eflou divifo y 
Que qualquer outro bem julgo por vento ^ 
Aífi que em cafo ul , fegundo fento 9 
Adaz de pouco faz , quem perde o fifo* 

£m vos louvar , feitora > nam me flindo, ^ 
porque quem vodas couías claro f^nte , 
Sentirá que nam pôde conheccllas. 

Que de ^nta eílranheza fois ao tiiundo y 
Que nam he de eftranhar , dama excellenre ^ 
Qcic > quem vos fc^ , fizede Cco> $c Eíbclbs^ 



!• SONBTOS^ 

X V I I [. 

Doces lembranças da paflâda glona » 
Que me cicoa Fornma r oubadora y 
Deixaime repoufar em paz buma bora 
Que comigo ganbais pouca yicoria. 

Impreíta cenho n^atma larga hiftorta 
Deíle pa(!àclo bem » q^ue nunqaa fora 9 
Ou fora , & aam pafiáca , mas ja agora 
£m mi oam pàde haver mais que a memoria* 

Vivo em lembranças » morro de efqueckloy 
De quem icmpfe devera fer lembrado , 
Se lhe lembrara eftadotam coacence. 

Oh quem tomar pudâca a fer nafcido ! 
Soaberame lograr do bem paílado , 
Se conhecer foabera a mal preíènse* 

AitMA minha gentil , que ce parciíb 
Tam cedo deíbi vida defcontente • 
Kepoufa U na Ceo ecemamence > 
£ viva eu cà na terra ílSmpre triíle» 

Se U no aíTencaecheteo y onde fubiíle > 
Memoria defta vida fe confence y 
Kam te efque^is d'aquelle ansor ardente % 
Que ja nos olhos meus tam puro viíle* 

£ fe vires , que pôde merecerte 
Algum coufa a dor > que me ficou 
Da magoa fem reniedio de perderte ; 

Roga a Deos , que teus annos encurtou > 
Que cam cedo de câ me leve a verte » 
Quam cedo de meiw olhos te Uvoíi^i 



]>£ L. J>2 CaMOENS* It 
X X. 

Kuiá bofque , que dsu Nia£tt & habitara » 
Sybila Ninfa linda andava hum dia , 
£ fobi4a n*uma anrore fombtia » 
As amaiellas flores apanhava. 

Cupido y que allt fempre coftumâva 
A vic paliar a fcíla à fombra 6:ia » 
Num ramo o arco , Bí fecai , que craiia , 
Antes , que adormeceile pendurava. 

A Ninfa , como idóneo tempo vira > 
Para umanha empreza , nam dilata , 
Mas com as armas foge ao moço eíquívo. 

As Tetas traz nos olhos , com que tira , 
Oh paílores íug;i , que a todos mata » 
SenAo a mi > que de maurme vivo. 

XXI. 

Os Refnos , & os Impérios poderoíbs , 
Que ena grandeza no mundo mais creícèráo » 
Ou poc valor de esforço florecèr-áo , 
Ou por varoens nas letras eípantofos. 

Teve Grécia Themiílocles famofos , 
Os Scipioeris a Roma engrandecerão , 
Doze pares a França gloria dèráo , 
Cides a Kfpanha , U Laras bellicofos* 

Aq ooíTo Portugal ( que agora vemos 
Tam álSetcnte de (éu fer primeiro ) 
Os vodos dèráo honra , & liberdade. 

£ em vòs grão fucceílor , & novo etdeico ^ 
Oo Braganção eftádo ha mil eftremos , 
l£U4Ís ao Cangue, ^ mores > que a idade* 



U SONSYOS 

XXII. 

Ds yòs me aparto , ò vida « 8c é cai áuidiçài 
Sinco vivo da morte o fentimcBto ^ 
^am fei para que he ter contentamento y 
Se mais ha de perder , quem maif alcança^ 

Mas cbuvos efta fitme fcgurança ^ 
Que pofto que me mate meu tormento » 
Poias agoas do eterno eíqueciménto > 
Segura paflarâ minha lembrança. 

Antes fem Vós meus olhos fe cntriíleçad» 
Que com qualquer coufa^outra fe contentem» 
Antes os efqueçais ^ que vos efqueçáo , 

Antes nefta lembrança fe atormentem » 
Que com efquecimento defmereçâo 
A gloria , que em foírer tal pena ícntem» 
XXIII. 

Caua minha inimiga em tuja máo 
Pez meus contentamentos a ventura f 
Falcouce a ti na terra fepultura > 
Porque me falte a mi confolaçáo* 

Eternamente as agoas lograr&o ^ 
A tua peregrina formofura » 
Mas em quanto me a mi a vida dura i 
Sempte viva em minh'alma te acharftÓ » 

£ Tc meus rudos verfos podem canto > 
Que poílaõ prometerte longa hiftoria , 
Daquelle amor tam puro , & verdadeiro t 

Celebrada feras fempre em meu canto , 
Porque é quanco no mundo ouver memoria 
Sei4 miaha efcricuia teu letreiro. 

XXIV» 



PE L DE C AM 0£KS. t% 

XXIV. 

Aquella trifte , & leda madrugacU , 
Chea coda de magoa , & de piedade j 
hm quanto ouver no mundo faudade 9 
Quero que fcja fempre celebrada* 

£lla ró quando amena , & ix^chetada 
Sahia dando ao mundo claridade , 
Vio apartarfe de huma outra vontade , 
Que nunqua poderá verfe aparuda. 

EUa sò vio as lagrimas em fio y 
Que de hús , de de outros olhos diriradat 
Se acrefcentaõ em grande Ôc largo rio s 

£Ua vio as palavras magoadas , 
Que puderaõ tornar o fogo frio , 
£ dar defcanfo às almas condenadas* 

XXV. 

Se quando vos perdi minha erperança, 
A memoria perdera juntamente 
Do doce bem paíTado , Ôc malprefente , 
Pouco fencira a dor de tal mudança : 

Mas amor « em quem tinha confiança y 
Me reprefenta muy miudamente 
Quantas vezes me vi ledo , & contente » 
For me tirar a vida efta lembrança. 

De coufas > de que nam havia final » 
Por as ter poftas )â em efquecimento , 
Deftas me vejo agora perfe^uido : 
Ah dura eílrella rainha ! an gram tromeuto! 
Que mal pôde fer mór y que no meu mal 
Ter Ibmbrança do ben^ > que he )i perdido i 
Têm. Âl. B 



14 SOKETÔS 

XXVI. 
£m fermofa Lethea fe confia » 
Por oade a vaidaide tanco alcança > 
Que tornada em foberba a confiança , 
Com os Deofes celcftes competia. 

Porque nam foife avante a oufadia 
( Que nafcem muitos erros da tardança) 
Em cíTeito puzcrío a vingança > 
Que tamanha doudice merecia. 

Mas Oleno perdido por Lethea , 
Nam lhe fofrcndo amor , que foporuíle 
Caftigo duro tanta ícrmofura , 

Quiz padecer em fi a pena alhea > 
Mas porque a morte o amor nam ap^rtgíle , 
Ambos tornados faõ em pedra dura. 

XXVII. 
-t- Ma LE s , que contra mi vos conjuraíles p 
Quanto hâ de durar tam duro intento ! 
Se dura , porque dura meu toruiento ! 
Bailevos quanto jà me atormentares. 

Mas fe aíC porfiai^ , porque cuidaftes 
Derrubar meu tam alto penfamento , 
Maispòde a caufa delle , em que o fuílenio , 
Que vós , que delia mefma o Ter tomaftes. 

£ pois vofíOi tenção com minha morte 
Ha de acabar o mal deíles amores , 
Dai jà fim a tormento tam comprido : . 

Porque de ambos contence Teja a forte p 
Vôs , porque me acabaftes , vencedores , 
E eu I porque acabei de vòs vei:cido. 



BE L. DS CaMOENS. iç 

X X V I I r. ^ 

tsTAsn a Primaveta trafladando 
Em roda vifta defeitõfa , & hanefta , 
Na* lindas faces , & olhos , boca , fie tcíU , 
Boninas ^ Lirios , Rofas dibuxando. 

Oe force voilo gèíèo matizando , 
Natura quanto pôde manifcfta , 
Que a monrc » o campo , o tia, & a florcft»» 
S« cílaó de YÔs , fenhora , namorando. 

^ agora nam qucreU, que quçm vos au»^ 
Poffa colher o fruitctdeftas flore» ,, 
PcrderSa toda a gwça yoílo» olhos ^ " 

Porque pouco aproreita , linda dam*^ 
Que femcáíle amoeem ròiamorcs^ 
Sç yolTa cpudiçiô produ* abtolhow 

S8TB aimosdc PaftoF Jacob fcrrk 
tabão , pay de Rache! , ferrana bcllà,^ 
Ma^ nam fervia aapajt, fervia a ella ,. 
Que a cfla sò por premio pretendia. 

Oi diasoft efperança de hum sò ^ 
VãfíãT^ , content andofe com veUa s 
Porem o pay ufando de cawclla , 
Hm hiçarde Rachel ,.Ibe dava Lya. 

V^do o txiílc Paíloc , que com enganos. 
Lhe fofa aâi negada fua Paftora , 
Como íe a nam tivera merecida , 

Começa de fervir outros fete annos , 
Dizendo,. mais fcn^ira, fenáo fora 
Para tam long^o amor tam curta a vida. 



1$ SONBTOS 

XX X. 

Esta' o lafcivo . & doce paflarinho , 
Com o biquinho as penas oticnando , ' 
O vcrfp fcm medida , alegre , & brando 
Expedindo no raftico raminho. 

O cruel caçador , que do caminho 
Se vem calado , & manfo , dcfviando , 
Ma pronta vifta a fcta cndcrclundo , 
Xm morte lhe converte o cato ninho. 

Defta arte o cotação , que livre andara 
( Pofto que iâ de longe deftinado ) 
Onde menos temia , foi ferido. 

Porque o frecheiro cego me cfpctâva , 
pata que me tomaflc dcfcuidado , 
Em vofloi claros olhos efcondido. 

XXXI. 
Pede o defcjo , daftia , que vos veja , 
Kam entende , o que pede , cftà enganado > 
He cfto amor tam fino , & tam delgado , 
Que quem o tem , nam fahc o que dçfcia- 
Nam ha ahi coufa , a qual natural feja , 
Que nam queira perpetuo fcu eftado , 
I4am quer logo o defcjo o dcfejado, 
Forque nam falte nunqua onde fobeja . 
Mascfte puro afFcfto cm mi fe dana , 
Que como a grave pedra tem por attc , 
O centro dcfejar da natureza j 

Afli o pcnfamento pela parte , 
Que vai tomar de mi tcrreftc , & humana , 
Epi > fenhora , pedir efta baixeza , 



riL. DE Camocns. 17 

XXXII. 

PonQ^s qpctcú , fenhora , que oflFcreçi 
A yida a tanto mal , como padeço ? 
Se vos nafce do pouca , que mereço , 
Bem por nafcer eftâ , quem tos mereça. 

Sabei em fim > por muito y que vos peça y 
Que poíTo merecer » quanto vos peço 9 
Que nam coofente amor^que em baixo preço^ 
Tam alço penfamento Te conheça* 

Aífi que a paga igual de minhas dores » 
Com sada fe reâaura , mas deveiíma > 
Por fer capaz>d« tantos disfavores. 

E fe o valor de voíTos fcrvidorcs , 
Houver de íet i]gital com vofco mefma , 
Vos sò com vofcQ mefma andai dç amores.. ' 

XXXIII. 
Sb canta pfta» tenho merecida > 
£m pago de foârer tantas durezas > 
Provai , fenhora » em mi voílas cruezas » 
Que aqui tendes huma alma oiíetecida > 

Nellaefpetimentai > fe fois fervida , 
Defprezos , disfàyores , &: afperezas» 
Que moref fofrimencos , & firmezas 
Suílentacei na guerra defta vida. 

Mas contia voílos olhos , quaes feráo í 
He forçado , qup tudo fe lhe renda , 
Mas porei poir efcudo o cotação : 

Porque em tam- dura , & afpera contenda » 
He bem , qu& pois nam acho defenfaõ , 
Com me meter nas lanças me defenda. 

B ii) 



iS Sonetos 

XXXIV. 

Quando o Sol cncuberto yai moftraiuio 
Ao mundo a luz quieta , & duvidofa , 
Ao longo de huma praya dcleitofa » 
Vou na minha inimiga imaginando. 

Aqui a vi os cabcUos concertando » 
Alli CO a mio na face tam fermofa , 
Aqui fatiando alegre , alli cuidofa , 
Agora cftando queda , agora andando. 

Aqui efteve aíTcntada , alli me vio , 
Erguendo aquelles olhos tam izenios , 
Aqui movida hum pouco , alli fegura. 

Aqui fc entriftccco , alli fc rio 5 
Em fim neftcs canfados penfamentos , 
Palio cfta vida van , que femprc dura. 
XXXV. 

Hum mover de olhos brando , & plcdofo 
Sem ver de que , hfl rifo brando , & honcfto , 
Quafi foiçado , hum doce , & humilde gcfto 
De qualquer alegria duvidofo. 

Hum defpejo quieto , & vergonhofo , 
Hum rcpoufo graviílimo , & modefto , 
Huma pura bondade , manifefto 
Indicio d'alma , limpo , & graciofo. 

Hum encolhido oufar , huma brandura » 
Hum medo fem ter culpa , hum ar fereno > 
Hum longo , & obediente fofrimento: 

Eíla foi a celefte fermofura 
Pa minha Circe , Ôc o magico veneno » 
Que pode transformar meu penfamenro. 



BE L. PS Camokns. 19 

XXXVI. 

ToMOTTME Yoíta vifta foberana 9 
Adonde rinha as armas mais á mâo y 
Pormoílrar, que quem bufcadefeníSo 
Contra cflesbeUos olhos , que fc engana. 

Por ficar da vitoria mais ufana ^ 
Deizoume armar primeiro da razão : 
Cuidei de me falvar , mas foi cm váo y 
Que contra o Ceo nam valdefenfa humana» 

Mas porem fe yos tinha prometido 
O voífo alto deílino cfta vitoria , 
Servos tudo bem pouco eftâ fabicto t 

Que pofto que eíliveíle apercebido , 
Kam levais de vencerme grande gloria ^ 
Mayor a icvo eu de Ter vepcido, 
XXXVII. 

Nam paífês caminhante, quem me chama ^ 
Huma memoria nova , & nunca ouvida , 
De hum , que trocou finita , Qc humana vid» 
Por divina , infinita , & clara fama. 

Quem he^ que tam gentil louvor derramai 
Quem derramar feu Tangue nam duvida , 
Por feguir a bandeira efclarecida 
De hum Capitão de Chrifto , que mais ama. 

Ditofofim , ditofo facrificio , 
Que a Deos fe fez , & ao mundo juntamente^ 
Apregoando direi tam alta forte. 

Mais poderás contar a toda a gente , 
Que fempredeo fua vida claro indicio^ 
De vir a merecei tam fanta moccc* . 



%o Sonetos 

XXXVIII. 

Foi.Mo$05 olhos y que xu idade aoOÀ 
Moftrais do Ceo cerciflimos finais , 
Se quereis conhecer quanto poílais , 
Olhaime a mi , que fou feirara yoílã , 

Vereis , que de viyer me de(a poiU 
Aqueile rifo , com que a vida dais , 
Vereis , como de amor nam quero mais , 
For mais que o tempo corra , & o dano pofla. 

£ fe dentro nefta alma ver quiíerdes , 
Como num claro efpclho » alU cereis 
Também a voílâ angélica > U ferena : 

Ma; eu cuido , que s6 por nam me verdes, 
Vecvos em mi ) Tenhota , nam quereis y 
Tanto gofto levais de minha.pcna. 

XXXIX. 

o f o«o , que na branda cera ardia , 
Vendo o rofto gentil » que eu n*alma veje 
Se accndeo de outro fqgo do defeio » 
For alcançar a luz » que vence o dia. 

Como de dous ardores Te encendia » 
Da grande impaciência fez defpeíp > 
E remetendo com furor fobejo » 
Vos foi beijar na parte onde fe via» 

Ditofa aquella flama , que fe atreve 
Apagar feus ardores » l$c tormentos » 
Na viíla , de que o mundo temer deve f 

Namoráofe > fenhora , os elementos , 
De vôs , 8c queima o fogo aquella neve , 
Que queima coragens ^ 8c pcn£uneatos. 



9E L. DE C AMO CMS. tf 

X L. 

AtiGnss campos , rerdes arvoredos » 
Claras » & frefcas agoas de crífUl , 
Que emvòs osdibuxais ao natural » 
Diícorrendo cia altura dos rochedos. 

Silveíbres montes , afperos penedos , 
Compoftos em conccno deiigual , 
Sabei 9 que fem licença de meu mal » 
Jâ nam podeis fazer meus olhos !edos» 

I pois me jâ náo vedes^ como viíles » 
Nam me ategrem verduras deteitofas » 
Kem agoos, que correndo afegrcí vem». 

Semearei em vòs lembranças trííles » 
Hegandovos com lagrimas faudofas » 
X naíceiiâ íàudadcsde meu benu 

X L r. 

Qv ATITAS veaes do fufo Ce efi|ueci)a 
Otaliana banhando o lindo feyo , 
Tantas^Yczes de hum afpero receyo. » 
$S(^ceâdo Laurenio a cor perdia. 

Itia y que a Silvio , mais que a G. queria^ 
Para podelo ver nam tinha me/o : 
On como curará ama) atbeyo 9 
Qoem o feu mal eam mal curar fabia t ' 

tXte y que vio tam claro efta verdade j^ 
Com fohxços dista ( que a efpéíTura 
Comovia de magoa a piedade > 

Como pôde a deíbrdem Asl nacur* 
Fazer tam diâfèrentes na vontade 9^ 
A quem fez tam conformes na ventura) 



2J> SOKETOV 

X L I I. 

Limpo fútil trançado , <^ue ficaUe 
£m penhor do remçdio > que mereço , 
Se sò contigo , vendote , endoudeço » 
Que fora cos cabellos , que apectafte } 

A<]uellas trançasde ouro , queligaíle 9 
Que os raf os do Sol tem em pouco preço » 
Náo fei 9 fe pata çngano , do que peço , 
$e sò para me atar qs defaraíle* 

Lindo trançado , çm minhas máoste vejo » 
£ por fatisfaçáo de minhas dores 9 
Como quem náo tem outra > hei de tomarte* 

£ fe náo for contente meu defejo , 
pitlhehei , que neAa regra dos amores » 
Pelo todo também fe toma a parte. 
X L I I I, 

O Cisme quando fente íbr chegada 
A hora , que põem termo a fua vida » 
M uíica com voz alta , & muy fubida 
Levanta pela praya inhabitàda. 

Dcfeja ter a vida prolongada » 
Chorando do viver a deQ>edida » 
Com grande íaudade da partida , 
CelebsA o trifte fim defta jornada. 

AíH 9 minha fenhora « quando via 
O trifte fim » que davaõ meus amores » 
£llando poílo \i no çíhemo fío , 

Com mais fuave canto , & armonia 
Defcanrei pelos voflbs disfavores , 
(.4 vueí^ra falia fè ^ y cl amor mio. 



x>eI. i>£Camoek$. h 

XLI V* 

Petos extremos raros » qae moftroà 
Em faber Palias , Vénus em fermofa , 
IMana em caíla y Juno em animofa ; 
Africa f Europa > 6c Afia > as adorou. 

AqucUc faber grande > que ajuntou 
Efprito , Sc corpo em liga generofa , 
£íbt mundana machina luftrofa , 
De sò quatra Elementos fabricou. 

Mas mÒT milagre fez a natureza 
Em rós > fenhoras , pondo em cada huma i 
O que por todas quatro repartio* 

A vòs feu refplendordeu Sol , & Lua , 
A yòs com yiva luz , graça , & pureza , 
Ar f Fogo > Terra , Sc Agoa vos fervio. 

X L V. 

Tomava Deliana por vingança 
Da culpa do paftor > que tanto amava » 
Cafar com Gil vaqueiro , & em fi vingava 
O erro alheyo y te pérfida efquivança- 

A difcriçáo fegura , a confiança , 
As rofas , que feu roílo dibuxava , 
O defcontentamento lhas fecava > 
Que tudo muda huma afpera mudança. 
' Gentil planta diípofta em feca terra > 
Lindo fruito de dura ma5 colhido , 
Lembranças d*outro amor , & íè perjura : 

Tomârio verde ptado em dura ferra , 
Interefle enganofo > amor fibgido^ 
fizerlo dcCÚitoía a fermofuia. 



'X4 S o N £ T o t 

X L V I. 

G1.AM tempo ha )à que foube da vejinixa , 
A vid», qne me tinha defiináda , 
Que a longa experiência da paílada « 
Me dava claro indicio da futura. 

Amor fero , cruel , Fortuna efcura , 
Bem tendes voíTa força exprimeniâday 
Aílolai , deílrui , nam fique nada , 
Vingaivos defta vida , que inda dura* 

Soube amor da ventura , que a nam tinha> 
£ por que mais fentifTe a falta dcUa , 
De imagês impoíliveis me mantinha. 

Mas vàs , fenhora , pois que minha eílrella 
Nam foi melhor , vivei nefta alma minha , 
Que nam tem a Fortuna poder nella« 

X L V I I. 

Se alguma hora em vòs a piedade 
De tam longo tormento Ce fentira , 
Nam confentira amor , que me partira 
De voílos olhos , minha faudade. 

Aparteime de vòs , mas a vontade , 
Que pelo natural n'alma vos tira , 
Me faz crer , que eíla aufencia he de mentira» 
Mas ainda mal porem , porque he verdade. 

Irmehei , fenhoía , & nefte aparumento, 
Tomaràõ triíles lagrimas ^ngança 
Nos olhos , de quem foftes mantimento : 

£ àíli darei vida a meu tormento , 
Que em fim me achará minha lembrança 
SepulMdo no voílò efquecimento , 

XLVIII. 



J 



DE L. I>S C A MOENS. %f 

X L V I I I. 

O* COMO fe me alonga de anno em amio 
A peregrinação canfada minha ! 
Como Ce encurta , 6c como ao fim caminha 
£ftc meu breve , & vÍo difcurfo humano ! 

Vaife gaftando a idade , Sc crefce o dano » 
Perdefeme hum remédio , que inda tinha , 
Se por experiência fe advinha 9 
Qualquer grade efperança he grande engano* 
^ Corro a poz eíle bem , que nam fe alcança» 
Komeyo do caminho me fallece > 
Mil vezes cayo , & perco a confiança : 

Quando ellc foge, eu tardo, & na tardança 
Se os olhos ergo a ver fe inda aparece , 
PaviíU Ce me perde , 6c da efperança. 

X L I X. 

Tempo he fâ , que minha confiança 
Sc deça de huma falfa opinião , 
Mas fe amor nam fe rege por razão , 
Nam podo perder logo a efperança : 

A vida fi , que huma afpera mudança 
Nam deixa vivec tanto hum coraçáo > 
£ eu na morte tenho a falvaçáo l 
Si y mas quem a defeja nam a alcança. 

Forçado he logo , que eu efpere , & viva , 
Ah dura ley de amor , que nam confente 
Quiícaçâo n'huma alma , que he cativa. 

$e hei de viver em fim forçadamente , 
Para que quero a gloria fugitiva , 
P^huma efperança van 9 que me atormenta} 

;rçm. //. Ç 



fc*" Sonetos 

AiAOH , cô a eíjperinça |à petxflda > 
Tcu fobcrano templo vifitci , 
Por'fínal do naufrágio , que paffei > 
£m lugar dos veílidos puz a vida. 

t^ue queres mais de mi , que deftnihidâ 
Me Cens a g!õria coda , que alcancei i 
Náo cuides 4e forçarme , que náofei 
Tornar a entrar onde náp ha fahida. 

Vès aqui alma , vida , & efperança > 
Defpojos doces de meu bem paflado , 
£m quanto quiz aquella , em quem cu mpro> 

'Kella p6des tomar de mi vingança, 
£ fe inda nam eftàs de m! vingado , 
Contencate co as lagrimas > que choro. 

L I. 

ApolIo , & as nove Mufas defcantando ^ 
Com a dourada lyra me influ/âo 
Na fuave armonia , que faziâo > 
Quando tomei a pena > começando s 

Ditofo feja o dia , & hora quando 
Tam delicados olhos me feriâo , 
Ditofos os Temidos , que fentiáo » 
Eílarfe em feu defe)o traf^aíTando. 

tífCi cantava , quando amor virou 
A roda à efperança , que corria , 
Tam ligeira , que quafiera inviíivel. 

CoAverteofeme em noite o claro dia • 
£ fe aigúa efperança ms fícou , 
^A de ffla^o^mal, fc for poáiyeL 



Z>Z L* D E C A M o £ M S. %J 

t I I. 

IzMBkAMÇA$ faudofas , Cç cuidais 
De me acabar a vida ueílq eíUdo , 
Nam vivo com meu mal cam enganado. j^ 
Que náo eípece delle muito mais. 

De muito lonçe |ârme coílumais 
A viver de al^um bem deferperâdo ^ 
Já tenho co a Fortuna concertado 
De fofrer os trabalhos , <^ue me dais. 

Atada ao remo tenho a paciência , 
Para «quantos defgoílos der a vida , 
Cuide em quamo quiser ò penfamçnto ^ 

Que pois náo ha ahi outra reíiAencia « 
para tam certa queda de fubida , 
Apararlhej^i dçbaixo o fofcimeoto^ 

L I I I, 

ApAJiTav49E Nifede Moneano « 
£m cuja alma partindofe ficava , 
Que o paílor Da memoria a dibuxâva ^ 
Por poder ruílenranfe àdh engano* 

Pelas pragas do Indico Ocçeano , 
Sobre o curvo cajado fe ençoftiva > 
£ os olhos pelas a^oas alongava » 
Que pouco fc dobiaô dç feu dano. 

Fois com tamanl^a magoa , & faudad^ 
< Dizia ) quiz deixarme a em q^ue eu moro ^ 
Por teAemunhascomo Ceo , & eArellas : 

Mas fe em vòs ondas mora piedade , 
Levai também as lagrimas , que choro ,^ 
Pois a^ me levais a çaufa delias. 

cu 



%t Sonetos 

L I V. 

Qn ANDO vef o , que meu deftino ordena » 
Que pot me czprimenur dVôs m*apane > 
Deixando de meu bem tam grande pane , 
Que a meíjna culpa fica grave pena. 

O duro disfavor , que me condena » 
Quando pela memoria Ce reparte , 
Endurece os fenúdos de tal arte , 
Que a dor d*aurencia fica mais pequena. 

Pois como p6de íèr , que na mudança 
D*aquillo , que mais quero , cftè um fòra » 
De me nam apanar cambem da vida » 

£u refrearei tam afpera efquivança » 
Porque mais fencirei partir > fenhora > 
Ssm íencir muito a pena da partida. 

L V. 

Dbpoís de tantos dias mal gaftadof » 
Depois de cantas noites mal dormidas » 
Depois de cancãs lagrimas vertidas » 
Tancos fufpiros váos vanmence dados. 

Como nam fois vós jâ defenganados » 
Defejos , que de coufas elquecidas 
Quereis remediar morcaes feridas , 
Que amor fez fem temedio,o cempo,os Fados^ 

Senão civereis )& experiência 
Das fem razoes de amor , a quem ferviftes , 
Fraqueza fora em vôs a refiftencia y 

Mas pois por voíTo mal feus males viftes , 
Que tempo nam curou , nem longa aufencía^ 
Que bem delie efperats defeios triftes l 



DE- L. DE C AMOENS. Z^ 
L V I. 

NikTADE$ vâs , que os tios habitais » 
Que os íâudofos campos vão regando , 
Pe meus oUios Tereis eíbr manando 
Oucros y qpe quafi aos voíTos íao iguais : 

Oriadss , vòs que as íècas atiçais , 
Os fugitivos cecvo» derribando , 
Outros olhos veteis , qi»e tciunfaado » 
Perribáo cotações > que valem mais^ 

Deixai logo as aljavas , & agoas frias , 
£ vinde Nin£u núohas > fe qocceifi 
$aber como de hús olhos w^ilcctt magoas» 

Verds comofç páflaõ em váa os dias 
Mas nam vireis em váo , que cà achareis / 
Nosièus as &tas > & nos micas as agoaa. 

t V I I. 

MuDÀésE os bempfks» mudaõíe as vontades 
Mudafe o fcr > mudafe a confiança , 
Todo mimdo he compoílo de mudança > 
Tomando fempre nàvas qualidades. 

Contmuameate vemos novidades , 
DiíFerentes e*Ti todo da efperança , 
Po mal fica6as magoas da lembrança » 
t do bem ( fe algum houve ) as faudadcsi. 

O tempa cobre o chão de verde manto % 
Que jà çubattQ íqí de neve fria y 
£ em mi converta em choro o doce canta. 

£ a fòraefte mudarfe cada dia , 
Qiitra mudança^ faz de môr eTpanto , 
Que vam íc wa4a jíi coma fobia. 



$m SONETOt 

L V I I I. 

Ss as penas, co«i 4 amor tam mal me trata>. 
-Quixer , que tanco tempo viva delias , 
Que veja efcuro o lume das eftrellas , 
£m cuf a vifta o meu fe acende , te maca* 

£ fe o tempo , que tudo desbarau y 
Secaras frefcas rofasíem colheitas , 
Moílrando a linda cor das tranças bellas , 
Mudada de ouro fino em branca prau. 

Vereis , fenhora , entaõ também mudado 
O penfamento , & afpereza vofla > 
Quando nam firva já fua mudança , 

Sufpirareis entáo pelo pagado , 
Em tempo , quando executar fe poda , 
£m voflb arrepender minha vingança. 

L I X. 

QvEM faz no gram fepulcro y que deícrere 
Tam illuftres Gnais no forte efcudo ? 
Ninguém > que niilo em fim fe torna tudo , 
Mas^oi , quem tudo pode , & tudo tere. 

Foi Rey , fez tudo quanto a Key Ce deve ^ 
Poz na guerra , &'na paz devido eftudo , 
Mas quam pefado foi ao Mouro rudo , 
Tanco lhe fe ja agora a terra leve. 

Alexandre feri , ninguém fe engane , 
Que fuftencar , mais que adquirir fe eílima » 
Setk Adriano gram fcnhor do mundo ? 

Mais obfecvante foi da Icy de cima , 
He Numa? Numa liam , mas he Joaune ^ 
Qe Porcu|al Tecceiro j fçm fegundcu 



D £ L. D B C A M o £ N S. 1 1 

L X. 

Quem pôde livre fer , gentil fenlioni , 
Vendovos com juízo foíTegàdo y 
Sc o minino , que de olhos he privado , 
Nas mininas dos voilos olhos mora ? 

Alli manda , alli reyna , ai li. namora y 
Alli vive das gentes yeneiàdo y 
Que avivo lume , 8c o rofto delicada > 
Imagés faõdc amor em tod'a hora. 

Quem vê,que em branca neve nacem ro(as> 
Que fioscreTpos de ouro vão cercando-. 
Se por entre efta luz a vifta paíTa , 

Hús rayos de ouro vè, que asduvidoCis 
Almas eftáo no peito craTpaflando , 
AÍ& como hum criíUl o Sol tcarpaíla*» 

L X I 

Como fízefté, Porcia , ul ferida^ 
Foi voluntária , ou foi por innocencik ^ 
Mas foi fazeramor experiência , 
Se podiaXofrer tirarme a vida 9 

£ com teu propzio Cangue te convida 
A nam pores á vida refiftencia )• 
Ando me coílumandoà paciência ». 
Porque o temor a morte nam impida* 

Pois porque comes logo fogo ardente^ 
Se a ferro te coílumas) porque ordena. 
Amor , que moira y Sc pene junamenCQ» 

E tens a dor do ferro por pequena, l 
Si , que a dot coftum&da nam fe Tente » 
f. ctt nam qucio a none ífiin a pena* 



;£ SoKBros 

L X I I. 

Ds tam divino aceato , & vos karnana » 
De cam doces palavras petepioas » 
Ben Tct , que niiáHWobnBB^m iaõ dinaa 
Que o rudo cngcitko meu me dpíeiígana. 

Ivfas de vofloseícmoi corre » 9c mana 
licor y que vence as agoas Cabaliiiat , 
E c«m vo£co do Tejo as fiotcs fiaas ^ 
Faràõ enve)a i copia Manynana » 

X pena vòt ^ de íinam fendo araras » 
As fiUias de Mnemofixie formola 9 ^ 
Partes dadas vos tem ao mundo duas s 

A fBHika Mufa > & a vofla cam famofa » 
Ambas poflo dumar ao mundo ràias , 
A voík de altt , a minha de cavtiofo, 

L X I I I. 

Debaixo ddfta pedra eílâ metido > 
Dasfanguinofas annasdeCcanfadoy 
O Capitáo ittaftre affinaHído , 
Dom Fernando de Caftco efclarecido« 

Fot todo o Of «piis iam temido , 
E da envefa da Siima tam cantado , 
Efte pois fA agora fcpulaàdo , 
Iftà a^ j&em «esca convertido. 

Ategrate , o gncrivira tufitania , 
For cÃe Vifia«0 , <|ue «tiafte , 
E chora o pefdido «ternamente. 

Exempto coma mfto de Dardanla , 
Qu€ fe a Rema com elte aniquilaílc , 
Kem fot 100 Çatcago «ÍU tovmuf* 



DE L. o S C AM 0£ N S. )][ 

L X I V. 

Qu« rençais no Oriente ranços Reys , 
Que de novo nos deis da índia o eftâdo , 
Que efcureçais a Fama , que ganhado 
Tinhaô , os que a ganharão a infiéis ; 

Que do tempo tenhais Vencido as Icys , 
Que tudo em fim vençais , co tempo armado» 
Mais he vencer na pátria deíaimâdo > 
Os monílruos , & as chimeras , que venceii > 

£ afli fobre vencerdes tanto imigo, 
B por armas fazer , que fem fegnndo 
Vodo nome no mundo ouvido feja : 

O que vos dà mais nome inda no mundo f 
He vencerdes , fenhor y no Reyno amigo y 
Tantas ingratidões , cam grande inve)a. 

L X V. 
^ Vossos olhos , fenhora , qu« competem 
Co Sol em fcrmofura ,. Sc. claridade, y 
Enchem os meus. de cal fuavidade , 
Que em lagrimas de velos Te derretem. 

Meus femidos vencidos Te fornecem ^ 
Afii cegoía tanta mageílade » 
Z da trifte prifaõ da efcuridade> 
Cheiros de medo por fugir remetem.. 

Masfenifto me vedes por acerto 
O afpera defprezo , com que olhjús y. 
Toma a efpertar a alma enfraquecida» 

Oh gentil cura » & eftranho dcfconcerto > 
Que fará o favor , que vos nam dais , 
Quando o vofto defprezo tocoa a vida ( 



34 SOKIVOS^ 

L X V I. 

f OILMOSUS.A do Ceoa nòs deTcicU » 
Qi«e nenhum cocaçáo deixas uc nt^ » 
Satbíauodo» to4o.f!ieo£iOKBCo » 
Sem feresiie acnhMm bem eoceodkU*. 

.Qoe UngyApQdciUiret cam atitridtL^ 
Que ceo^ de loj«rai<c atnvmieitfo.y 
Pois a paicf mayor do. epieodimeoca , . 
L Mo mcnof , ^ue em ti ba >Xe v^ perdida > 

Se teuvaloE covcmplo » a mellikoc partç 
Veado 9 <|ae abre oa letfa bom patajTo » 
O ençenbo me £ika , o eípiko mia^ua : 

Mas o que mais me colhe i^da louvarce 
fUt f que qoaiuia te Te}o. 9 perco a linçua ^ 
£ quando ce nam Te|o , perco o fifo< 

L X V I I. 

Poii tneut olhos namçanfaÇ de chorar 
Triílezas , que aara caufad de caniacme 1 
Pois nam ahraodao fogo , em c^e abtaratme- 
pôde , quem eu fâ mais pude abrandar. 

Vam caufe o cego amoc de me guiar » 
A pasce donde nam frigia toroarioe , 
Nem deixe o mundo todo de efcutarme » 
£m quanto [me a voz fraca nara deixar. 

£ fe nos montes y tios,, ou em vales , 
Piedade meta , ou dentro mora amor » 
£m feras aves , prancas , pedras , agoas t 
f Ouçâo a longa biftocia de meus males ^ 
^fcucem fua dor , com minha dor , 
Que grandes magoas podem çuias m^gpav 



L XV III. 

D A2MB h&i Uf , feBhora > de qtftrtrro^ |f 
iQue a yiaircb Copcaa de cnojarvos , 
<5ae a íè , qãe me Qbriga a taaco aoiatvos ,' 
íarâ , que fique cm Uy <jiA obedececvos. 

Tudo me defbadai > ícmib £Ò vcrroi , 
£ denao aa minh' alma coatemplarvos , 
Que fc affi asm chcgat a (xiateacarvos , 
Ao menos que aam cfaegiRe aborreceiTfif . 

£/e eC» coadt^o cruel , õc efi^va » 
Que me deis ley de vida iiais oonfcote , 
I>âima> feniM^rt jà , fcja <fa m«te : 

Se nemefla mcdatt^ ii»bem que vira* 
Sem fabn come yif^ , ecifteméncc , 
Ma» cono^fice p^rèm dt miftba fiiccf» 

I- X I X. 

O forte & diiK^ Telepiío iMMdo , 
Por aquclle , qjue na «gi» l^i i«Qcid« j 
A quem ferro neeiíumcDfcaí podia* 

Ao ^^ittneo oraciíli» pcdk » 
CoofcUso para Ter rtítoíd^ I 
Rcfpofldco , que toraagÀafer ftfidir* 
Por 4piaA<> jè fcútã i «s nira(t«. 

Alfi ^ fe«à«ra , q«tr mtaJwi TtoJa» ,1 
Que ferido de verv« âaiamence'» 

Com yo» cornar a v«r> 4zâor ma cm» s 
Masiat tam cbov iroffii fcrmofiiii»^ 

Que fico como faidnipiov doeme » 
Que CO babtrtt» aMftl mâUbour*. 



}( S o N z r o • 

L X X. 

Na meiíde do Ceo fubido ardia ^ 
O claro Almo paílor , quando deixavio 
O verde pafto as cabras , ic buTcaváo 
A írefcura fuaveda agoa fria. 

Com a folha das anrores fombria y 
1>o rayo ardente as aves Ce amparáva6 , 
O modulo cantar , de que ceí&yaó » 
Sò nas roucas Cigarras fe fentía. 

Quando Lifo paftor , num campo verde ^ 
Nacetcia crua Ninfa sò bufcáva , 
Com mil fufpirot triftes « que derrama i 

Porque te vâs , de quem por ti fe perde ^ 
Para quem pouco té ama í ( fufpirâva ) 
O £cho lhe refponde , pouco te anuu 
L X X I. 

Ja a faudofa Aurora deftoucáva 
Os feus cabellos de ouro delicados , 
E as flores nos campos efmaltidos » 
Do crillalino orvalho borrifava. 

Quando o fetmofo gado fe efpalhira 
De Silvio , 8c de Laurente pellos prados p 
Faitores ambos , & ambos apartados , 
De quem o mefmo amor nam fe apartara» 

Com verdadeiras lagrimas Laurente, 
Nam fei ( dizia ) ô Ninfa delicada , 
Porque nam morre )à , quem vive aufente ^ 

Po*s a vida.lem ti , nam prefta nada ! 
Refponde Silvio , amor nam o confence y 

Qu« olkBdo as^cfj^aofu da (oaUda« 

LXXII, 



DE £.a>E CAftCílEMS. jjy 

L X X I li 
^o AMDa (lfi.9iinbas m^oasa «empioda 
Maginaçaõ , os olhos me udotiof». 
Em íodÍu» aqúeila alma me aparece 
Que para fliíibironhondlavãda^ - 

Làa'iima £oleda<ie , únáeo&aaàsdm 
A viíla. pekr canpo desÊUeoe ;. . 
Corro para ella » & ella èbcaõ-fMroece^ 
Que mais ác mi Ce alonga, coaipèlida* 

Brido ^nam me iu}ais (ainina imminu ^ 
£Ua (os oliios em mi com bivado^jo , 
Como quem diz , quejâ nanrjpádeief.) . 

, Toma afiig«me , & easgrícaiMlar^'l)illa g 
Antes que^ digo: Mene , acòcdo » dê Vejo > 
Que nefa;htiiiii4re?e e&gano ftífí^^st^ - 
L-X X I 11. 

Suspsjeos iàflamádos , qpi» cáocais ' 
A triíleza , com quèeu vnri com ledo « 
Eu morrç , & ipam vos levo , porque «i f iw f fa 
Que ao pafiar do Leche vos percais. 

Efcriíos para Cempce ^ fipais y 
'Oode vos moiltatâó todos CO ikd<» y ' 
Como ^€yÉéts^\0 de males , que^ii concedo , 
Que |at^ aviíb de oi^tròs efte^ais^ 

Em quem pois virdes fáUàieí^tism^ã» > 
De Aoior , Sl da Foccuna ^ eu|o» dane» 
AlgUQs terâó pet bem avencusanças ; 

OizeiUie 9 qué os Cervifte^ bauicbs áflnos j, 
2<|iit emFoitiina tudo fad mud^mças , 
t que em Ampt f xum ha kmtú engwWH 



)S ' &0Í H É T -D í -^ 

1 X X I V» 

JbQpnMJLfíoí humana , (pieenciqaMi 
Suipreíjpaípciíoiatynuiia , '^ 
Deftas miiifaas«Aaanfaas , oode ccú.- . 
Amoc hum mal «.que falta qiúndo creçe* 

Se aaila o Ceo mofirou ( coàu> faxeoe ) . 
Quanto moílrar so mundo pcetendia > 
Porque, dcjniçhaTtda fe injuriai 
Forque de mi^ha morte (e eraoboce)^- - 

I^Qim. em fim fublimai i^fla Titoria , ^ 
Senhpia » com vencerme » fie caârarme f 
Fazei dí Ao no mundo larga hifioria i > ^ 

^C^ f Qums.-que vos veja naltraranne > 
Já me ficQ logta&do defta glóna . 
De yei^y quetsodcstaDU demasaétue. . . 
^L X X V.J 

Dnofio feia aqudle , que 'fómcnce ' 
Se qupixa de amoioras efquiTanças^ ^ 
fQÍa|)or.eIUt nam perde as e^ranças 
De poder ^Igum tempo íèt concerne >s 

Ditofo fej^ y quem eftando auCencie > . 
Kam feACo^mais ,.que a pena das IcmbvaU^ttS 
Vflf^w.M^m^s ^<i temade mndan^» 
Menos fe teine a dor , quando feiiiAiiei» ^ 

I^iloiCo re|a em fim qualquer eft4de ^-: 
Onde «ngan08>.d«rptezos 9 fi6 isenção ^. . ; 
Trazem o cQOMgáoiacoraMntido: ' ■- >■ 

^ Mai ("Ac , quem Te Tente magpádo. 
De erros ,xm que pam p^dehaji^.pctidáatt ^ 
Sen)^£MÇA'akM^ffli^Qa4^p«ccâdo« ^. L 



s ^ Lj DE Camões s. ^ 

L X,X V L ) 

Quem foíTe acompanhazulo jOBCiUXiente » 
For eíTes verdes campos a ayefishik.9 ■ 
Que deTpois de perder hum bem , que.cínha » 
Kam fabe mais , que coufa be fer coocente > 

£ quem fòíTc aparcandofe d4 gence. 
£lla porxompanheira > & por ykinha 9 
Me ajudaílc^ a cborar a penamiaba > 
£a a ella o pezar y que tanto fente. 

Ditoía ave , que ao menos £e a nacura 
A Teu primeiro bem nam dá fegundo » 
Dâlbe o fertriâe afeu concentameiíco. 

Maitrifte , quem de longe quiz yencura p 
Que para refpirar Ibe falce o venço 
£ para tudo , em fim > Ibe falte o mundo» 

L X X V I L 

O CULTO divinal fe celebrava 
Ko templo , donde toda a creacura 9 
Louva o Feitor divino , que a feitura y 
Com Teu fagrado Tangue reftauràva. 

Alli amor , que a tempo me aguardava ^ 
Onde a vontade tinba mais fegura 
Nua celeíle , & angélica figura 
A vifta da razáo me falceàva. 

Eu crendo , que o lugar me defendia , 
£ feu livre coftume nam fabendo , 
Quenenbum confiado Ibe fugia, 

Dei][eime carivâr , mas já que entendo p 
Senbora , que por voílb me queria, 
Po tempo ) que fui livie j me arrependo» 

Dij 



1 



4o 5-0 N £ T o S 

L X X V I I I. 

IioA fettnkUde deleitofa , 
Que reprcfenta em terra hum pamyíb » 
^tre rubí$ , & pcirlasdoce rifo , 
Debaixo de ouro , òc nere , cor de rolSu 

Preíènça moderada , & gracioíâ , 
Onde eaíiiiando eftáo defpefo , & íilb , 
Que fe p6de por arte » flc por av iTo » 
Como por aacureza fer fermofii. 

Fa]a , de quem a morte , 8r vida pende» 
Kara » fuave , em fim > fenhoca', Tofla > 
Kepoufo nella alegre , & comedido » 

Iftas as armas âot com que merende, 
S me cativa Amor , mas nam quepoflà 
Deíjpolarme da gloria de rendido. 

L X X I X. 

Bfm fei Amor , que he certo y o que receo^ 
Mas tu porque com ifto mais te apuras » 
De mankofo mo negas , U mo juras , 
£ffi teu dourado arco , & eu tocreo* 

A mâo tenho metida no teu feo , 
£ nam vejo meus danos às efcuras , 
£ tu com tudo tanto me aíleguras , 
Que me digo , que minto , & que me enleo ^ 

Nam fi&mence confinco nefte engano , 
Mai inda to agradeço , & a mi me nego 
Tudo , o que ye)o , & finto de meu dano^ 

Oh poderofo mal , a que me entrego , 
Que no meyo do jufto defengano , 
Me pofiâ inda cegar hum moço cego» 



f>l L. D£ CamOSBMS. 4t 

L X X X.: 

Como quando do mar tetnpeftuofo 9 
O matinheiro laíTo , & Cf abalfaâdo , 
D*hiuii naufrágio cruel , )â falyo anàdo^ 
Sô ouvir fatiar nelle o faz mèdrofo. 

£ jura , que' em que veja bonangoTo 
O violento mar > & foílegàdo > 
Nam enore nelle mais > mas vai forçada» 
Pelo muito incerefle cubiçofo. 

Aífi , Ceahora > cu que dacormenta^ 
De voíla viAa fujo , por falvarme > 
Jurando de nam mai$ em outra verme : 

Minh'alma , que de vô; nunca fe auTcnta^ 
Damç por preço vervos y faz tornarme , 
Donde fugi tam perto de petdermc* 
^ L X X X r. 

Amou he bum fogo » que arde. £em fé rtt > 
He ferida , que doe> & naxnCe fence-» 
He hum contentamento deícontente , 
He dor « que defacina Tem do^r*. 

He hum nam querer mais» que bem querer, 
He hum andar foUtariac^tre tf gente ^ 
Henunqua c9ntenufle.de contence». 
He hum cuidar , quq ganha. emCe pesdei • 

He querer eílar preTo poi;-%onude > ' 
He fervi^ ^quem« vence o vencedor, 
He ter , com quem nos mata ^ lealdadfti; 

Mas como caufar pôde Ccurfavoc 
Nos coraçoeasiiumaaos amizade ^ 
Sc tam contiaxio a fi. hc e mcímo amor i 



41- S O.N » T o ». 

L X XXI I, 

Se peoa por amarvos fe merece » 
Quem delia livre eftâ » ou quem izento* 
Que ^auL , que razáo , que entendimeoco 
Xm yervot feiuun rende , & obedece? 

Que m6r gloria na vida fe oftrece » 
Que occuparfe em yòs o penTamcnco } 
Toda a pena cruel , todo o tormento * 
£m yervos rcnamTente , mas efquece. 

Mas Tq merece pena , quem amando 
Contino vos eftá > Ce voi oftende 9 
O mundo matareis , que todo he roflo. 

£m ml podeis , fenhora , ir começando , 
Que cl^ro fe conhece > & bem fe entende , 
Amarvos quantodero > & quanto poflb. 
L X X X I I I. 

Que levas cruel morte ? hum dato <Ga , 
A que hosas o tomafte } amanhecendo y 
Incendes q que levas } nam o entendo , 
Pois quem to íàn levar? quem o entendia4 

Seu corpo quem o goza ? a terra fria > 
Como ficou fua luz ? anoitecendo : 
Luíícania , -que diz > fica dizendo , 
£m fim , nam mereci dona Maria. 

Matàfte quem a vio? jâ morta eílàva , 
Que diz ocruel amor >. falar nam oufa ^ 
£. quenrò fàz calar > minha vontade. 

Na corte > que ficou ? faudade brava 3 ; 
Que fica lá que ver ? nenhuma couík , ' 
fAãs fi«a f que chorar fUa beldade. ' 



DE L. DE CaMOENS. 4$ 
L X X X I V. 

Ondapos fios de ouro teluzente » 
Que agora da mão bella recolhidos 
Agora fobre as roías cftendidos , 
Fazeis que (iia belleza fe acreTcence. 

Olhos , que vos moveis tam docemente ^ 
Em mil divinos rayos acendidos , 
Se de cá me levais alma , & fentidoc , 
Que fora , fe de vòs , nam fora aufente } 

Honefto rifo , que entre a mòr fineza , 
De perlas , & coraes nafce , & perece , 
Se n*alma em doces eccosnam o ouvifle } 

Se imaginando sò tanta belleza , 
De fi , em nova gloria a alma fe efquece ^ 
Que feri quando a vir ? ah quem a vide. 

L X X XV. 

Foi )â num tempo doce coufa amar » 
£m quanto me enganava a eíperança » 
O coraçáo com ella confiança > 
Todo fe desfazia em defe jar 9 

Oh vam , caduco , & débil efperar 9 
Como fe deíêngana huma mudança ! 
Que quanto he mor a bem aventurança ^ 
Tanto menos fe crè , que ha de durar. 

Quem )â fe vio contente , & profperado 9 
Vendofe em breve tempo em pena tanta > 
Kazáo tem de viver bem magoado , 

Porém quem tem o mundo exprimentádoj 
Nam o magoa a pena , nem o efpanta , 
Que mal fc cftranbacà o coftumádo. 



44 S o N Z T o f 

L X X X V I. 

Dos illuftres antigos , que deixarão 
Tal nome , que igualou Fama k memoria f 
Ficou por luz do cempo a larga hiftoria 
Dos feitos, em que mais fe aflinalàoão* 

Se Ce com coufas deftes cotejarão 
Mil voílàs y cada huma tam notória y 
Vencera a menpr delias a mòr gloria y 
Que elles em tantos annos alcançarão. 

A gloria fua foi , ninguém lha tome > 
Seguindo cada hum vários caminhos , 
Eilátuas levantando no feu templo. 

Vòs honra Portugueza , & dos Coutinhos^ 
lUuftre Dom Joam , com melhor nom)e , 
A vò$ encheis de gloria, & a nò$deex;emplo« 
L X X X V I I. 

Conversação domeítica afteiçoa y 
Hora em forma de boa , & fan vontade j^ 
Hora de huma amorofa piedade . 
Sem olhar qualidade de peíToa. 
' Se deQ>ois por ventura vos mago^ 
Com defamor , & pouca lealdade , 
Logo vos faz mentira da verdade 
O brando amor , que tudo em fi perdoa» 

Namfaô íAq > que fallp > conjeturas ^ 
Que o penGimentQ julga na ajtparencia » 
For fazer delicadas efcrituras , 

Metido tenho a maô na confciencia ^ 
E nam fallo fenam verdades puras , 
Que mç eniiaou ^ vira e^ecicAciftif 



DE L. DE C A MO INS. 4f 

L X X X V I I I. 

tsionçogranide igual ao peníâmemo > 
Penfamencos em. obras divulgados , 
E oam em peito timido encerrados , 
£ desfeitos defpois em chuva , 8c vento < 

Animo de cobiça baixa izento , 
Dino por iílo (6 de altos cftâdos , 
Fero açoute dos nunqua bem domados 
Povos do Malabar fanguinolento: 

Gentileza de membros corporaes , 
Ornados de pudica continência > 
Obra por certo rara de natura. 

Eftas virtudes , 8c outras muitas mais f 
Dinas todas de Homérica eloquência > 
Jazem debaixo deíla fepultura. 

L X X X I X. 

No nundo quíz hum tempo,que íe acbaífe* 
O bem , que por acerco y ou forte vinha > 
£ por expiimentar , que dita tinlia , 
Quiz que a Fortuna em mi exprimentaíTe. 

Mas>porque meu deftino me moftrade p 
Que nem ter efperanças me convinha , 
Nunqua neíla tam longa vida minha 
Coufa me deixou ver , que defeiaílè. 

Mudando andei coftume, terra , &c eft&do» 
Por ver Ce fe mudava a forte dura , 
A vida puz nas mãos de hum leve lenho 9 

Mas fegundo o que o Ceo me tem moftràdo^ 
7i fei y que deAe meu bufcar ventura » 
Achado tenho |â , que uam a tenho. 



4^ Soneto^' 

X c. 

A vEnreiçAô , a graça , o doce geíto f 
A primaveta chea de frcfcura » 
Que fempce em vós florece , a que a vencun 
X a rasâo entregarão efte peito : 

Aquelle criftalino » & puro afpeico y 
Que em d comprende toda a fermofura , 
O refpUador dos olhos , & a brandura , 
De que amor a ninguém quiz cerrcfpeito ; 

Se ifto , que em vos fc vè , ver defe|ais » 
Como dino de verfe claramente , 
For mais , que vòs de amor vos izentais : 

Trjiduzido o vereis tam bellamente , 
No meyo defte efpirito , onde eílais. 
Que vendo vos fintais , o que elle fencc. 

X C r. 

:^^ Vos que de ollios fuaves , & ferenos^ 
Com juftacaufa a vida cativais , 
£ que os outros cuidados condenais , 
Por infulfos , por baixos , & pequenos. 

Se.inda do amor domefticos venenos » 
Nunca provaíles , quero que faibais , 
Que hc tanto mais o amor defpois que a mais» 
Quanto faõ mais as caufas de fer menos. 

£ nam cuide ninguém , que algum defeito. 
Quando na cauCa amada fe aprefenta » 
Foíla diminuir o amor perfeito : 

Antes o dobra mais , & fe atormenta » 
Foúco , ^ pouco defculpa o brando peito , 
Que amor com reusconctarios fe acreíccatt* 



»z i. DS Camobms. 4)f 
X c 1 r. 

Qas-pcklirKi do mundo fá querer » 
Que n*aquillo , em que puz taxnanho amor ^ 
Mamyifenam defgoílo , defamor ^ 
£ mone em fim , que matsuam f ôder fer* 

Fojt vida me nam farta de yiver, - 
Pois )â fei y que nam mata grande dor > 
Se cduTa ha hi ,' que magoa-dê mayot , 
£u a yerei , que tudo poílò Ter. 

A morte a meu peíàr me aííegurou y 
De quamo raâl me viniia , )á petdi ,' 
O que perder o medo me enimou : 
* Na vida -^ defaáior somente ti , 
Na morte , a grande dor , que me ficou ^ 
Vareae> qut plua iílb sò-nafci^ 
X C I I L 

PiNsaMivTos , que agora nâyamencr 
Cuidados váos em mi refuTcitais y 
Dizeime > ainda nam vos contentais y 
De terdes , quem vos tem tamderooncente í 

Que fantafia he eâa, que prefeare 
Cada hora ance meus olhos me raoftraiil 
Com fonl^Qs y &l com fombras acentais , 
Quem nem porfonhos pôde fer contente i 
^ .Vjciov os peniamentos alterados y 
£ nam quereis de efquivos dedararme» 
Que he i&o , que vos traz tam enleados. 

Nam me negueis y fe andais pára negarme ^ 
Que ie contra mi eílais alevantàdos , 
f u vos ajudacei mcrmo a matarmc» 



4l SaNtTOS 

X C I V. 

Sb tomax minha pena em p«aitc0£ia « 
po erro « em que cahio o penfamencg $ 
Nam abranda , mas dobra meu tocmeojco f 
A }&o t & a mais obri^ a paciência, 

£ fe húa cor de morro na aparência p . 
Hum efpaliiar fufpiros váos ao vento , 
%m vòs nam faz , fenhora , movimento , 
Fique meu mal cm voíla conTciencia. 

I,Ccde qualquer afpera mudança > 
Toda a vontade izenta amor caâiga » 
{ Como eu vi bem no mal » que me condena. ) 

£ fe em vós nam Te entende avet vingança » 
Será forçado ( pois amor me obriga } 
Que eu sò de voíla culpa pa^ue ji pen4« 

X C V, 

e: \ Aoy EX.LA » que de pura caftidade » . . . 
^ De íi mefma tomou cruel vingança > 
Por hú^ breve , & íubita mudança » 
Contraria á fua honra > & qualidade : 

Venceo a fermofura a honeftidade ^ 
Venceo no fim da vida a efperança ^ 
Porque ficaíTe viva tal lembrança , 
Tal amor > tanu fè > ttnta verdade. 

De íi 9 da gente , & do mundo efqoecida^ 
Ferio jcom doto feno o brando peito , 
Banhando em Tangue a força do tyrano* 

Oh eftranha oufadia y efiranho feito , 
Que dando morte breve ao corpo humano ^ 
Tenha fua meotom larga Tid^ I 

XQVU 



dbL.deCahoens. 4^ 

. X C V I. 

Of reftidos Elifa revolvia. 
Que lhe Eneas deixara por memoria ^ 
Doces defpolos da padàda gloria , 
X>ocet 9 quando o Teu Fado o confcncta. 

Entre elles a fermoTa eTpada via , 
Que o inftrumenco foi da crifte hiâoria » 
£ como quem de fi tinha a vitoria , 
Com ella afli fallando » lhe dizia: 

Fermofa , Sc nova efpada > fe ficafte , 
Sò para executares os en^juxoty 
De quem te quiz deixar em minha vidai 

Sabe 9 qne tu comigo te en^anafte y 
Que pata me tirar de tantos danM , 
Sobcjame a ttíAeia da partida. 
X C V I I. 

(y qaa<n caro me cufta o entenderte , 
Molefto Amor, que sò por aicançarce 
De dor em dor me rés trazido a parte , 
Onde em ti 9 ódio » & ira fe converte. 

Cuidei» que para em tudo conhecette. 
Me nam faltaílè experiência > & ane , 
Agora ve)o n*alma acrefcentarte 
Aquillo , que era cauTa de perderte. 

Eftávas tam fecreto» no meu peito. 
Que eu mefmo , que te tinha , nam Cábiã 
Que me fenhore&vas defte g^ito : 

Defcubtifte te agora , fc foi por via , 
Que teu defcobrimento , ic meu defeito , 
Hom me envergonha > de outro me in^uda. 
Toou n. £ 



'50 Sonetos 

X C V I I I. 

Se depois de cíperança cam perdida > 
Amor pola ventura coníentiíle , 
Qae ainda alguma hora alegre viíTe , 
De quantas triâes vio tam longa vida : 

Huma alma ja tam fraca 9 & cam cahida , 
Por mais alto , que a forte me íublíle 9 
Nam tenho para mi , que coníèmiflè 
Alegria tam carde confentída. 

Nam tãm fomente Amor^me nam moftroM 
Hum hora , em que vivefie alegremente , 
De quantas nefta yidà me negou : 

Mas ittda tanta pena me confente. 
Que CO cogicentamenco me tirou 
O gofto d*4lgum hora fer contente*. 
X C I X. 

Nao vãs ao monte , Nife y com teu gado • 
Que eu là vi > que Cupido te bufcava , 
Por ti fomente a todos perguntava 
No geílo menos plácido , que irado : 

£Ue publica 9 em fim , que lhe has roubad* 
Os melhores farpões da fua aljava , 
E com hum <lardo ardente afleguraya 
Traspa£r«ir efle peito delicado : 

Fuge de verte là nefta aventura > 
Porque fe contra ti o tens irofo , 
Pôde fer que te alcance com máo dura : 

Mas ay ! que eça vào te advirto temerofo , 
Sff á cua incomparável fermofura 
$e ceade o dacdo Ccu mm fodeiof». 



HE L. SE C AMOEN S. 5Z 
C. 

No mundo poucos annos , & caníâdoft 
Vivi , cheos de vil miferia dura y 
Foime tam cedo a luz do dia cicuta» 
Que najn vi íinco luílros acabados » 

Corei terras , & mares aparcàdos , 
BuTcando à vida algum remédio , ou cu» ^ 
Mas aquillo , que em fim nam quer ventura^ 
Nam no alcanção trabalhos arrifcàdos* 

Crioume Portugal na verde , & cara 
Pátria minha Alam^quer y mas àr corruto^ 
Que neíle meu terreno vafo tinha , 

Me fez manjar de peixes , em ti bruto 
Mar , que bates na Abafia fera , & avàra^ 
Tam longe da ditofa pátria minha* 

C r. 

Que me quereis perpetuas CãndideSf 
Com que efperança ainda me enganais ? 
Que o tempo , que fe vai , nam torna maisy 
£ fe toma , nam tornáo as idades 7 

Raaâo he fà , ò annos > que vos vadet» 
Porque eílès tam ligeiros , que paílais , 
Nem todos para hum godo fáo iguais , 
Nem fempre ÍSo conformes as vontades : 

Aquillo , a que |à quiz , he tam mudado , 
Que quafi he outra coufa > porque os diat 
Tem o primeiro gofto fà danado. 

Efperanças de nâvas alegrias , 
Nam mas deixa a Fortuna,& o tempo errado^ 
Que do cmitentameato fiío efpias^ 

ti) 



j% SONETOS 

C I I. 

Vc».DAi>i y amor , razáo , meredmemo , 
Qualquer alma faráõ fegura , & forte , 
Porém Fortuna , cafo , tempo , òc forte , 
Tem do confuib mondo o regimento. 

Effêicos mil revolve o penfamento , 
E nam fabe , a que caufa fe reporte , 
Mas fabe , que o 4 be mais , 4 vida, & mortf » 
Que nam o alcança humano entendimento. 

Doutot varoens daràó razoens fubidas , 
Mas Ckú experiências mais provadas » 
E por ifto he melhor ter muito vifto. 

Coa(as hàhi , que paílaõ fem fet cridas , 
E cqufas cridas ha , fem fer paíladas , 
Mas o melhor de tudo hecrec cm Chtifto. 

C I I I. 

F10U.S8 o coração de muito izento $ 
De íi , cuidando mal , que tomaria 
Tam illicito amor , tal oufadia » 
Tal modo nunqua vifto de tormento $ 

Mas os olhos pintarão um atento p 
Outros » que vifto tem na fantafia » 
Que a razio temerofa y do que via » 
Fugio , deixando o campo ao penfamento. 

O' Hypolito cafto , que de gcito 
De Pedra , tua madrafta fofte amado. 
Que nam fabia ter nenhum refpeito : 

Em mi vingou o Amor teu cafto peito > 
Mas eftà defle agravo tam vingado , 
Que fe arrepende jâ , do que tem ieico. 



»i L. DE Camoens. 5$, 

C I V. 
QaíM quizcr ver d*Amor buma^ccllcncia. 
Onde Au fineza mais fe apura , 
Atente onde me põem minha ventura y 
Por ter de minha fc experiência. 

Onde lembranças matáo a longa aufencta » 
Em temerofo mar , em guerra dura , 
Alli a faudade eftà fegura , 
Quando mòr rifco corre a paciência. 

Mas ponhame a Fortuna , & o duro Fads 
Em nojo , morte , dano , & perdição , 
Ou em fublime , ôc proípera ventura : 
i Ponhame emfim,em baixo, ou alto cftâdo. 
Que ate na dura morte me acharàó , 
Na lingoa o nome , n'alma a vifta pura. 

C V. 

Vos Ninfas da Gangetica cfpeílura , 
Cantai fuaveniente em voz fonora , 
Hum grande Capitão , que a roxa Aurora 
Dos filhos defendeo da noite efcura. 

Ajontoufe a caterva negra , & dura , 
Que na Áurea Cherfoncfo affouta mora , 
Para lançar do caro ninho fora 
Aquelles , que mais podem , que a ventuía* ^ 
1^ Mas hum force Leão com pouca gente , 
A multidão um fera , como necia , 
Deftruindo caftiga , & torna fraca. 

Pois, ò Ninfas , cantai , que claramente ^ 
Mais do que Leonidas fez em Grécia , 
O nobre Leonis fez em Malaca. 

U) 



J4 SONBTOS' 

C V I. 

Doei conce&tameiíto )à ftSjàdo » 
Em que todo meu bem sò confiftia , 
Quem vos levou de minha companhia 9 
£ me deixou de vòs cam apanàdo i 

Quem cuidou , que fe viílè nefte cRàdo f 
NaqueUas breves horas d*alegria , 
Quando minha ventura confentia , 
Que de enganos vivede meu cuidado } 

Fortuna minha foi cruel , & dura » 
Aquella , que caufou* meu perdimento , 
Com a qual ninguém pode ter cautela y 

Nem fe engane nenhuma creacura 9 
Que nam pôde nenhum impedimento , 
Fugir do que lhe ordena fua eíltella. 

C V I I. 

C A XTANDO eftava hum dia bem fegitro f 
Quanto padando Sylvio me dizia , 
i Sylvio , paílor antigo , que fabia 
Pello canto das aves o futuro ) 

Metis , quando quizer o Fado efcuro f 
Oppiimirte viráo, em hum sò dia, 
Dous lobos : logo a voz , & a melodia ^ 
Te fugirão > & o fom fuave , ic puro. 

Bem foy aífi } porque hum me degolou 
Quanto gado vacum paílava , & tinha , 
De que' grandes foldadas efperava. 

£ o outro por meu danno me matoa 
A Cordeyra gentil , que eu tanto amava 9 
Ferpenu íaudade d'alma mintuu- 



Í>E L. DB C AMOE NS, 5f 

C V I I I. 

I u cantey {à , & agora vou cliocando y 
O tempo y que cantey tam confiado , 
Parece , que no canto jâ paílado , 
S'eílayâo minhas lagtymas criando» 

Çantey : mas fe me alguém pregúca quâdo ? 
Naô fey : que também fuy niíTo enganado : 
He tam triíle efte meu preCcnte eftado , 
Que o paílado , por ledo > eftou julgando. 

Fizeraó me cantar manhofamente , 
Contentamentos naõ , mas confianças , 
Cantava ^ mas jà era ao fom áçs ferros. 

De quem me queixarey ? que tudo mence» 
Mas eu , que culpa ponho ás eCpetanças ? 
Onde a fortuna injuíU he mais y que os erros i 

C I X. 

DocE$ agoas , & claras do Mondego , 
Doce repouTo de minha lembrança » 
Onde a comprida , & pérfida efperança. 
Longo tempo após fi me trouxe cego. 

De vós me aparto , mas prurem náo nego » 
Que inda a memoria longa , que me alcança. 
Me naõ deixa de vos fazer mudança , 
Mas quanto mais me alongo mais me achego» 

Bem pudera Fortuna efte ijidromento 
Dalma levar por terra nova , Sc eftranba » 
Offerecida ao mar remoto , & vento. 

Mas a alma y que de cá vos acompanha , 
Nas azas do ligeiro penfamenco , 
Para vòs ^ agoas , voa , & em vòs fe banha* 



Sonetos 

c X. 

Pòn faa Nimpha Cephalo deixara > 
A Aurora , qac por el!e fe perdia i 
Pofto que dà principio ao claro dia 9 
Pofto que as roxas flores imitara. 

£lle , que a bella Procris tanto amara » 
Que sô por ella tudo engeitaría , 
Defeja d*atentar fe lhe acharia , 
Tam firme fe , como ella nelle achara ; 

Mudado o trajo , tece o duro engano > 
Outro fe finge prezo por diante , 
Quebrafe a fe mudarei , & confente » 

Oh engenho fotil para feu dano ! 
Vede que manhas bufca hum cego amante ^ 
Para que íèmpre íefa defconcenie. 

CXI. 

Sentihdosb tomada a bella efpofa 
De Cephalo , no crime confentido , 
Para os montes fugia , do marido , 
£ naô fey fe de aftuta , ou rergonhofa. 

• Porque elle em fim fofrendo a dòr doía 9 
D*amor cego , & forçofo compellido « 
Após ella fe ray como perdido , 
Já perdoando a culpa criminofa. 

Deitafe aos pês da Nimpha endurecida^ 
Que- do ciofo engano eftá agrarada » 
Já Ihs pede perdão , já pede a rida. 

Oh força de afeição , defatinada , 
Que da culpa contra elle comettida » 
Pwdão pedia á pane ; que hc culpada l 



i^S L. X> E C A M o E N S. $7 

C X I I. 

SsNKot. ToAo Lopez , o meu baixo eftado » 
Ontem vi pofto em grão cam ezcellence , 
Que TÒs , que fots enve|a a coda a geme » 
Sò por mim tos i^uizereis yer trocado. 

Vi o gefto ftiave , Sc delicado , 
Qiie )à, Yoc fer contente , & defcomence » 
Lançar ao vento a voz tam docemente , 
Que fez ao ar fereno , 6c focegado. 

Vilhe em poucas palavras dizer , quanto 
Ninguém diria em muitas. £u sò cego » 
Xlagoado fiquey na doce falta s 

Mas mal aja a Fortuna ^U o moço cego i 
Hum porque os coraçoens obriga a tanto p 
Outra porque os eftados defiguaUa. 

C X I I I. 

O Cio » a terra , o vento focegado » 
As ondas , que fe eílendem peila área , 
Os peixes , que no mar o fomno enfrea p 
O nodlumo filencio repoufado. 

O peícador Aonio y que deitado » 
Onde CO vento a agoa fe menca , 
Chorando , o nome amado em va6 nomea , 
Que naõ pôde fer mais , que nomeado» 

Ondis, dizia » antes que amor me mate^ 
Tornayme a minlia Ntmpba , que taô cedo » 
Me fizeíles-à morte eftar fogctta. 

Nii^oem lhe fatia y o mar de longe bate , 
Moveíè brandamente o arvoredo , 
Levalhe o vento a voz , que ao vento deita* 



^S Soneto» 

c X I V. 
- - EB.1LOS meus , mà Fortuna , amor ardente, 

^ Em minha perdiçio fe coniuraraó » 

Os erros , & a Forcuna fobejaraó , 
Que para mim baftava o amor fomente. 

Tudo paíTey , mas tenho tam prcfcnte 
A gcande dòr das coufas > que paflaraó ^ 
Que-as magoadas irai me enfinaraõ 
A náo querer jà nunca fer contente. 

Errey todo o difcurfo de meus annos p 
Pey caufa i que a Forcuna caftigafle 
As minhas mal fundadas efperanças. 

D*amor naõ vi fenaó breves enganos p 
O* quem tanto podede , que farcalle 
Eíle meu duro génio de vinganças ! 

C X V. 

Ca ncfta Babilónia « donde mana 
Matéria a quanto mal o mundo cria , 
Câ onde o puro Amor naõ cem valia , 
Que a máy , que manda mais , tudo profana. 

Cà onde o mal fe afina , & o bem íe dana « 
E pôde mais que a honra a tirannia 9 
Cá onde a errada , 2c cega Monarchia 9 
Cuyda 9 que hum nome vão a defengana. 

Cà nefte labarincho , onde a nobreza , 
Com esforço , Òc fabçr pedindo vaõ 
A*s porcas da cubica , & da vileza. 

Çà neíle efcuro Chãos de confuzaõ , 
Comprindo o curfo eílou da natureza » 
Vè» íe m^rquççerey de ci> $iaó. 



BE L. pt C A M Ol N S. 5f 
C X V I. 

ConkZM turvas as agoas dcfte Rio , 
Que as do Ceo, òc as do monte as entutbáradj 
Os campos florccidos fe fecàraÓ , 
Intiatayel fe fet o valie , 6c frio ; 

PaiTou o veráo f paílbu o ardente eftio » 
Húas coufas por outras fe trocarão » 
Os fementidos fados jà deixarão » 
Dú mundo o regimento , ou defvatio. 
Tem o tempo Tua ordem |á iâbida^ 
O mundo nam : mas anda um confuzo > 
Que parece , que delle Deos fe aquece* 

Cafos , opinioens y natura , & uzo , 
Fazem , que nos pareça deíla vida , 
Que naõ ha neila mais , que o que parece. 
C X V I I. 
Vos outros , que bufcais repouTo cert« 
Na vida com diverfos exercícios , 
A quem vendo do mundo os beneficios^ 
O regimento feu eftâ encubetto. 

Dedicay y fe quereis , ao defconcerto 
Hovas honras , fie cegos íacriâcios» 
Que por caftigo igual de anriguos vícios; 
Quer Deos , que as couíàs andem por acerto. 

Naõ cahio neíle modo de caitígo , 
Quem poz culpa à Fortuna , quem fomenn 
Crè , que aconcecimentos ha no mundo. 
A grande experiência he graõ perigo , 
Mas o qne a Deos he judo fie evidente y 
Farcce injuAo aos homens >. fie pcofundo* 



lio SO)9BT08 

C X V I I I. 
Despoxs quevio Cibellc o corpo huraan* 
Do fermoTo Acis , feu yerde piaheiro , 
£iii piedade o yÍo furoc primeiro 
Convertido , chorou feu grave danno» 
£ fazendo a fua dòr iiluftre engano « 
A Júpiter pedio , que o verdadeiro 
Preço da nova palma , & do loureiro. 
Ao feu pinheiro de0e foberano. 

Mais lhe concede o filho poderofo , 
Que as eílrellas , fubindo , tocar poílà , 
Vendo os iègredos lá do Ceo fuperno» 
O* ditofo Pinheiro 9 6 mais ditoCo « 
Quem fe vir coroar da folha yoÍ7a 9 
Cantando i roda fombra verfo eterno* 

C X I X. 
ItLUSTiLE , & digno ramo dos Menezes , 
Aos quaes com larga mio o alto Ceo p 
Que errar naõ (abe , em dote concedeo , 
Romper os Mahometicos arnezes } 

Defprezando a Fortuna , & fens revezes , 
Ide , por onde a forte vos moveo 9 
Ergue/ âammas no mac alto Ericrco > 
M fereis nova luz aos Portuguezes. 

Opprimi com taõ firme , & forte peito 
O Pyrata infolente , que fe efpante , 
£ crema Taprobana , & Gedroíia. 

Day nova caufa á cor do Arábio Eftrcíto , 
Aífi que o roxo mar d'aqui em diante , 
Oièja jò CO ikngiK de Xurquia« 

cxx. 



DE !• Dfi CaMOEHS. 6t 
C X X. 

Ma dêfeípctaçaõ já repoufava 
O p^ito iongameoce magoado , 
£ com feu danno eterno concettado 9 
Jâ naó cernia » }à naõ defejava. 

QUandohumaíbmbra vau me aflegorava» 
Que algum bem me podia eílar guardado » 
£m caõ fermoia imagem , que o treílada 
N'alma fícou , que nella fe enlerava. 

Que credico y que dá taõ facilmence y 
O coração áquillo > que defeja , . 
Quando lhe efquece o fero feu deftino ! 

Oh deixem me enganar^que cu fou cótente^ 
Que poílo que mayor meu danno reya , 
Ficamc a gk^ria já do que imagino. 

C X X I. 

Semhoa A núnha , fe a Fortuna hmga » 
Que em minha fim com todo o Ceo c^mTpira i 
Os olhos meus de ver os yoííos t^ia , 
Porque em mais graves cafos me perílga* 

Commigo levo eft* alma , que íe obriga > 
Na mor preíla de mar , de fogo , de ira , 
A darvos a memoria , que fufpira » 
Sò por fazer convofco eterna liga. 

Neít^ alma , onde a Fortuna pôde pouco » 
Tam viva vos cerey , que frio , & fome » 
Vos nam poíTaó tirar , nem vãos perigos. 

Antes com fom da voz, tremulo, & roucojt 
Bradando por vòs , sò com vodb nome , 
f atey filgir os ventos , & os imigos. 
Jtfm. //• F 



ix 5 o N £ T o f 

C X X I L 

Auroi^E » cu|o pomo bcUo fc brando » 
Natureza de leyte » & faague piaca » 
Onde a puresa de rergonha cinca » 
fiiU virgíneas faces imitando , 

Nimca da ira, & do yenco , que actaiicA&d» 
Os troncos yaõ , o teu injuria íiaca » 
Nem por malícia de ar » te £e)a extinta 
A còr , que eftá teu fruyto debuxando. 

Que pois me épíeAas doce,& idóneo abrígo> 
A meu contenumento , & favoreces , 
Com teu faave cheiro > minha gloria } 
, Se naõ te celebrar como mereces > 
Cantandote fe quer farey contigo > 
Doce f nos caTos triíles » a memoria» 

C X X I I I» 

PoK cima d*eílas agoas fotte > & fitm* 
ífty por onde as fortes ordenarão » 
Pois por cima de quantas me choráraâ 
Aquelles claros olhos , pude virme. 

Jà chegado era o fim de defpedicme p 
Já mil impedimentos fe acabàraÕ , 
Quando Rios d*amor fe atravedáraõ » 
A me impedir o pado de partirme* 

. Pafley os eu com animo obítinado , 
Com que a morte forçada^ & gloriofa f 
Faz ó vencido )à defefperado. 

£m que figura , ou geílo defuzado , \ 
Pôde já fazer medo a morte irofa » 
. A quem cem a feus pès ceadido , 8c aud* | . 



]> J L. DE C AMOBN a. tf} 

C X X I V. 

o Filho de Latona efclarecido , 
Que com feu rayo alegra a hiuBana gente» 
O hórrido Pychoa , brara fcrpence , 
Matou , fendo das gentes caõ temidou 

Ferio com arco » & de arco foi ferido « 
Com ponta aguda de ouro reluzente » 
Nas Theâàlicas prayas docemente > 
Polia Nympha Penea andou perdido a 

Naõ lhe pode valer para feu danno « 
Sdencia , diligencias , nem refpeito » 
De fer alcQ , celefte , Qc foherano. 

Sc eftc nunca alcançou nem hum engano » 
De quem era tam pouco em feu refpeito > 
£u 4 cípero de hu fer , 4 he mais que humanai 

C X X V. 

PnESEHçA bella » angélica %ura , 
tm quem, quanto o Ceo tinha nos tçta dado^ 
Gefto al?gre > de rofa& femeado , 
£ntre as quaes fe e(U rindo a fermofura. 

Olhos , onde tem feito tal miífaira % 
tm chrilbil branco o preto marchetado » 
Que Yctncfi já no verde delicado » 
Naõ eípcrança , mas enveja efL:ura. 

Brandura, avifo, & graça,que augmetanda 
A natural b&Uc%a c*hum. dçfprefo > 
Com ^ue mais defprefada mais fe augmenta « 

5aõ as Prifoens d'hum coração, que prcfo,^ 
$çu mal ao fom. dos. ferrrus vay cantandç ^ 
ComQ fa% 4 Secc^ na cgirmenta^ 



^4 Sonetos 

c X X V I. 

DivE».so$ dons leparce o Ceo benigno y 
E qoer , que ca.la buma hum (ò poílua » 
Aífi ornou de cafto peito a Lua , 
Ornamento do aflento criftalino^ 

De graça a máy fermofa do menino » 
Que n'e(Ià vida tem perdido a fua : 
Palias de difcriçiô , que imite a tua : 
I>o yalor funto , sò de império digno. 

Mas funto agora o mefmo Ceo derrama» 
£m ty o mais , que tfaiia » & foy o menos , 
£m refpeito do Author da natureza « 

Que a feu pexar te d2o , fermofa dama ^ 
Diana lioneítidade , & graça Venos » 
Falias o avifo feu » Juno a nobreza. 

C X X V I I. 

Tal moftra dà de fi voílà figura , 
Sibella , clara luz da redondeza , 
Que as forças , & o poder da natureza f 
Com fua claridade mais apura. 

Quem vio humã* confiança taõ fegura > 
Taô fiogular efmalte da belleza , 
Que naõ padeça mais , fe ter defeza 
Contra vofia gentil viíla procura? 

£u pois por efcuzar eíla efquivança , 
A razaõ fogeitey ao penfamento , 
Que rendida os fentidos lhe entregarão \ 

Se vos ofiênde o meu atrevimiinco , 
Inda podeis tomar nova vingança 
Nas relíquias da vida, que efcapàraâ* 



DE L« BB CaMOBNS. €% 

C X X V I I I. 

A Morte que da vida o nò deOtfa , 
Os QÒs , que dà o aznor , cortar quisera » 
^^aufeacia > que he concr*ellc efpada fera » 
E CO tempo , que tudo desbarata. 

Duas contrarias > que huma a oucr^maca » 
A morce contra o aojior a}unu » 8c altera % 
Huma he razão contra a Foctuna aufterjk» 
Outra contra a razão Fortuna ingrata. 

Mas moíbre a íua imperial potencia 
A morte , * em apartar dbium corpo a alma ^ 
Duas nVm corpo o amor ajunte y, & uxuu 

Porque afli leve triumpbanjce a palma 
Amor da morte , a pezar d'aurencia > 
Po tempo 9 da razão , Sc da Forttuia^ 

C X X I X. 

Qn N017 muy r^ro esforço ao. grade A^anjse^ 
Com que a celefte machina fuílenta > 
Honrou Ceu alto engenho eíTe , que intenta 
Grécia do, quarto. Cço levallo avante* 

Coxoon ià Q Amor o Er me amante 
Orpheo % firme na paz. 9 & na tormenta 2 
Afpirou a ventura em tudo izenta 
ACeíar , de quem Coy hum tempa amante^ 

Tu çxaltaíle , ò^ fama % a gloria alta. 
P^Hercules , (obic o monj:e ,, em qjiie r^íldes i 
Mas CaíbrQi , em que o Ceo feus dojof derraina», 

Mais orna > honra » coroa » a^íra» exalta» 
<X Atláte, HofnecQyOrpheQyÇcíar» & Alci.deS|^ 
(ifor^Qj Engenho» Amor» Ventiira , & HuMm 



4S SOKETOS 

C X X X. 
CoTTADO 4 cni hum tempo choro 9 8e rio 9 
Efpçro & remof quero fie aborreço , 
Jiincamente me aligro , & entrífteço , 
De huma coufa confio , 0c desconfio. 

Voofem azas , eftou cego & g;uio , 
£ no que valho mais , menos mereço » 
Calando grito , falo , & emmudeço » 
Nada me contradis & eu porfio- 

Queria fe pudeíle o impoííivel , 
Poder mudarme a bum tempo,8c eíUr quedo» 
Ufar de Uberdade , & fer capcivo. 

Queria vifto fer , 6c inviável , 
Defenredarme , & maisaífi me enredo » 
'Tais os eílremos faó em que hora vivo. 

C X X X I. 

Se grande gloria me vem (5 de olharce 9 
He pena defigual deixar de verte , 
Se prefamo com obras merecerte , 
Grande paga do engano he defelarte. 

Se quero por quem es tal vez louvarte 9 
Sei certo , por quem fou , que he oSèndene , 
Se mal me quero a mim por bem quererte , 
Que premio quero eu mais que íò o amarre ? 

Eftremos faõ de amor , os que padeço , 
O* humano thefouro , ò doce gloria » 
£ fe cuido que acabo encaô começo. 

Aífi te trago fempre na memoria » 
Nem fei fe vivo 9 ou morro , mas conheço j^ 
Que ao fim da baulha he » yiâocia» 



DE L« DE C AMOENS. 6j 
C X X X I I. 

7ui;6 AME a gente coda por perdido , 
Vendome cam entregue a meu cuydado 9 
Andar fempre dos homens apartado , 
£ dos tratos humanos efquecido. 

Mas eu » que tenho o mundo conhecido y 
£ quaíi , que fobre elle ando dobrado , 
Tenho por baixo , ruftico , enganado > 
Quem não he com meu mal engrandecido» 

Váo revolvendo a terra, amar, & o vento, 
Bufquáo riqucfas , & honras , a outra gente , 
Vencendo ferro , fogo , frio , 2c calma , 

Que eu cum humilde eílado me contento^ 
E trazer efculpído eternamente 
Voílo fcrmófo gefto dentro n'alma. 
C X X X I I I. 

Sem PM a razáo vencida foy d'Amor , 
Mas porque afli o pedia o coraçáo , 
Quis Amor fer vencido da razío \ 
Ora que cazo pode aver mayor > 

:Novo modo de morte , & nova dor , 
Eftranhcza de grande admiração , 
Que perde fuás forças a afeição , 
Porque náo perca a pena o amador , 

Pois nunca ouve fraqueza no querer , 
Mas antes muito mais fe esforça aflim , 
Hum contrario com outro por vencer. 

Mas a razão , que a luta vence era fim , 
Não creio , que he razáo , mas ha de fer 
Incttnaçáo « que eu cenho contra mim» 



'4Í S o M E T o 9 

' C X X X I Y» 
DzLOADAs agoas claras da MaDcícgo*» 
Poqe repouzo de minha lembrança , 
Onde a comprida ^ & lúbrica eCperança^ 
|.ongo cempo , após fi me trouxe cego. 

De TÒs me aparto , & porem oáo. nego ^ 
Que inda a memoria longa , <),ufi me alcança » 
Me náo deixa de vos Fazer nouidança , 
Mas quaaco. mais me alongo,mais.me aclvgo^ 

Bem pudet^ a Fortuna eíle indrumenta 
P/alma levar por nava cerra eíbanha > 
OâTcrecida a mar remoto > 6c. a vento. 

Mas a almak» <|ue úcl câ vos acompanha ^ 
l^SLS azas do Kgeiro penfamento , 
para^vòs ,.agoas , voa ,.&; em vò^ Ce. hanhA» 
C X X X V^ 
O SL41TO de ouro fino Te eftendU 
Fcllo mundo]d'Aui?oi;a marchetada» 
Quando Nife paílora delicada y 
Ponde a vida deixava Ce, pactia.. 

Do^ càhoji , com (^ue as almas nficendSèi 
X^artindo , toda em lagrymas banhada j^ 
Da Fortuna » & do tempo magoada % 
Pondo o; oihos no Cqo » aâí dizia^ 

Nv« ferenq. Solaleçte , $c ardenje j 
ífçlarefe ferfflofa , ^ ró:» Aurora , 
Quál<)ue.r alm^ aUgra^do. djeícontenee» 

QuQ a WÍQha„ fgbe t;u > ^uç deCde agc«« 
7à míW« M yidft * podes. ve.r çoAteiite» 



DE L. DE C A &I O E K S» éi^ 

C X X X V I. 

QuB modo cão focil da oatureza f 
Para fugir ao mundo , òO. Céus enganos , 
Pcrmicc , que fe efcpnda em tenros aimoSy 
Debaixo de bum burel cama bellcza ? 

Mas náo pode eCconderfe aquetia alceza f 
E gravidade d'ollios foberanos , 
A cujo refplandor encre os hnmanoi , 
Reíiilencia náo finco y ou fortaleza. 

Quem quer liyre ficar de dòr , & pena» 
Vendoa , ou trazendoa na memoria i 
Na mefma razáo fua fe condena. 

Porque quem mefeceo ver tanta gloria f 
Capcivo ha de ficar , que amor ordena , 
Que de juro cenha ella efta viâorla. 

C X X X V I I. 

SCGUTA aquelle fogo , que o guiava , 
Leandro contra o mar y de concra o vento ^ 
As forças the faitaváo |i , & o alento » 
Amor lhas refazia > 8c renovava. 

Defpob que vio , que a alma lhe faltava f 
Náo cfmorefe , mas no penfamento 
( Que a lingoa jâ náo pode ) feu intento » 
Ao mar , que lho compriílê encomendava ^ 

O' mar ( dizia -o moço ÍÒ configo ) 
Ji te náo peço a vida , f^ queria y 
Que a de Ero me falves > náo me veja* 

Bfte meu corpo morto , lâ o deCvia 
Da«]uella Torre y fe-me niílo amigo > 
Bois no meu mayot bem me ouvefte envc]«* 



yd Sonetos 

C X X X V I I I. 

PA1.À íc namorar da que criou > 
Te fei Deos Saem Phenix Vi^em puta i 
Vede y que tal feria efta feicura i 
Que a fcs qoeca para fi íb- a guardou» 

No (eu (anão conceito te formou 
primeiro , que a primeira creatura > 
Para q^e única fõile a compoftura ^ 
Que de tam longo tempo fc eftudou. 

Nâo fey , f« direy niílo quanto baftç^ 
Para exprimir as fanras çaitdades » 
Que quis criar em ty , quem tu criafte ^ 

£s Bliuij mãy > Sc efpofa } £ fe akanfafift 
Huá fò y três. tão altas dignidades 9 
foi 3 por4 aores , &; hum. Cò. » tanto agtad>íU« 

C X X X I X. 

Decs do CcQ imjnenfo Deos benina 
P^ta encatnar na Virgem fobetana > 
porque deçe EUvino çm coufa humana 
Para fubir o humano a fer Divino* 

. Pqís comQ vem tam pobre, & tam minÍQO^ 
Kendendofe ao poder da mâo tyrána i 
Porque vem teçeber morte inhumana ^ 
P^ra pagar de Adão o defacino. 

Pois como? Ad4o 9 ^ £v;i o fruico comem 
Que por feu próprio DeQS lhe foi vedado. 2 
$i , pprque Q próprio Cer de Dcqfes tomçm«. 

£ por eíla ra^io foi humapado i 
Çi. Porque foi com caufa decretado , 
Sç Q kQm <iu^C<;r (^q$ i ^^ç P^os Cç^a hQm& 



C X L. 

Bt>^ Ceos à terra dece a mòr bellesa» 
XJne^fe á carne Boílà > & ía-U nobre > 
fe fendo a humanidade d'aates pobre > 
Ho)e fabida fica à mòr aheza^ 

Bufca o Senhor mais rico a mòr pobreKâ » 
Que como ao mundo o feu amor defcobre t 
De palhas yis o corpo tenro cobre y 
£ por ellas o mefmo Ceo deCprexa. 
- Como , Deos em pobreta à terra dece I 
O que fae mah pobre tanto lhe contenta > 
Que (o rica a pobreza lhe pareceé 

Pobreza efte PreTepio reprefenta y 
Mas tanto por (cr pobre |à merece » 
Que quanto he pobre maiis,mais lhe comesu» 

C X L t. 

PonQOt a tamanhas penas íe oâèrece » 
l^eld peccado alheyò , & erro infano » 
O trino Deos ? porque o íbgeito humano 
Káo pode CO Gaíligo » que merece« 

Quem padecerá as penas ^ que padece > 
Quem fofrerà deshonra > morte > & dano } 
Ninguém > febáo fe for o íbberano ^ 
Que reyna > & fervos matida & obedece« 

F07 a força do homem tam pequena } 
Que náo pode fofter tanta afpetcza > 
Fois não foíleve a Ley , que Deos ordena» 

Soíirea aquella immenfa Fortaleza > 
Por puro amor ^ que a humanai fraqueza ^ . 
f oy para o erro > 8c naõ ja paia a pen^* 



^f Sonetos 

C X L I I. 

FoiLTVMA em mira guardando &VL direito f 
Em verde derrubou mioha alegria y 
O' (juaato fe acabou naquelle dia , 
Cuja criíle lembrança arde em meu peito ! 
' Quando contemplo tudo » bem rofpcito 
Que a tal bem , tal defcanço fe devia 9 
Por tão dizer o mundo , que podia 
Acharfc em feu engano bem perfeito : 

Mas fe a Fortuna o fez por deTcontarme 
Tamanho gofto « em cujo fencimento 
A memoria náo faz fenáo matarme : 

Que culpa pôde darme o fofrimenco « 
Se a caufa que elle tem de acormenurme $ 
£a tenho de fofter o feu tormento. 
C X L I I I. 

Ah Fortuna cruel , ah duros Fadoí « 
Quam afinha em meu dano vos mudaftet 
Padou o tempo 9 que me defcançaftes » 
Agora defcançaes com meus cuidados : 

Deiícaftefme fentir os bens paílados , 
Para mòr dor da dor , que me ordenaftes» 
£acam n*húa hora juncos mos levaftes 
Deixando em feu lugar males dobrados : 

Ah quanto melhor foca náo vos vec 
Goílos que alfi paílaes cam de corrida , 
Que fico duvidofo fe vos vi : 

Sem vòs ja me náo fica que perder , 
Senáo fe for eíla cançada vida , 
Que poj: mòr pecda minha náo perdi. 

CXLIV. 



C X L I V* 

tixTE doudo penfaiTTcnCD he ô qilc figo f 
Apoz que váo cuidado vou correndo ! 
Sem ventura de mim , que náo me entendo jf 
Kem o que cailo fei , nem o que digo. 

Pelefo com quem trata paz comigo , 
De quem guerra me faz , náo me defendo t 
De falfas efperánças , que pretendo ! 
Qttem do meu próprio mal me faz amigo l ' 

Porque » fc naci livre > me cativo ! 
£ poii o quero fer , como náo quero ! 
Porquê me engano mais com defenganos t - 

Sc )i dcfcfpcreí > que mais efperoi 
£ fe inda efpero mais > como não vivo y 
Hperando algum bem de tantos danos I 

C X L V. 

. Oftí>t porei meus olhos y que náò ye]â 
A caufa » donde nace meu tormento * 
Ou a que parte irei com o penfamento j ^ 
Que para defcançar parte me feja ? 

Enganafe quem bufca « ou quem defeja 
Em váo a mòr firmeía no contento » 
Que todo feu prazer he névoa ao vento » 
Onde fempre o bem falta » & o mal fobejâ i 

Anda minha alma cega , anda enganada , 
A lux não bufco , nem me defengano » 
Nem curo de razão , bufco o defejo i 

Apoz hum náo fei que , âpoz hum nada » 
Onde he certo o petigo y & certo o dano | 
Que quanto mais me chego » m«aos vtjo» 
Tom, //. O 



á 



jA Sonetos - 

^ c X L V I. 

QuAKDO cuido no tempo , que contente 
Vi as pérolas , neyc , nofa , & ouro , 
Como quem vc por fonhos hum thcfouro , 
tarccc tenho tudo aqui prcfcnte : 

Mas tanto que fe pafla cftc accidcntc f 
E rejo o quam diftancc.de vós mouro , 
Temo quanto imagino por agouro , 
Porque de imaginar também me auíentc ; 

Jà foráo dias , cm que por ventura 
Vos vi , fcnhora , fe aíTi dizendo poílo 
Com o coração fcguro eftar fem medo : 
Agora cm tanto mal não mo aí&gura 
A própria fantafia , & nojo voflo , 
Eu náo podo entender efte fcgrcdo» 
C X L V I I. 
Q0 AHDO , fcnhora , quiz Amor que amaílo 
Effa gram perfeição , & gentileza , 
Logo deu por fentença , que a crueza 
Em voílo peito Amor acrecentaflc : 

Determinou que nada me apartaíle » 
Nem desfavor cruel , nem afpcrcza , 
Mas que cm minha rariíTima firmeza 
VoíTa izcnçáo cruel fe executaílc t 

E pois tendes aqui ofícrecida 
Efta alma voíla a voíTo facrificio » 
Acabai de fartar vofla vontade : 

Naô lhe alargueis fcnhora mais a vida » 
Acabará morrendo cm fcu oHicio f 
'sua fò dcfciulettdo , íSc lealdade. 



BI L. DE Camoehs. fy 

C X L V 1 I I. 

Zu vivia de lagrimas izento 
Hum engano tâo doce , & deleitofa, • 

Que em que outro amante foíle mais ditoíby 
Nâo valião mil glorias hum tormento : 

Vendome poiliiir tal peníàmehto ^ 
De nenhuma riqueza era envejofo , 
Vivia bem , de nada receofo 
Com doce amor , 6c doce fentimento t 

CobiçoCi a fortuna me tirou 
Deíh meu tâo contente , & alegre eílado 9 
£ pafloufe eíle bem que nunca fora : 

£m troco do qual bem , fò me deixou 
Lembranças , que me matão cada hora « 
Trazendome à memoria o bem paíTado* 

C X L I X, 

Ikdo o trifte Paftor todo embebido 
Ka fombra de feu doce penfamento > 
Taes queixas efpalhava ao leve vento 
CucT' brando Cufpirar da alma fahido : 

A quem me queixarei , cego perdido ! 
Pois nas pedras não acho fentimento ! 
Com qué fallo ! a quem digo meu tormento i 
Que onde mais chamo , fou menos ouvido i 

O bella Nfmpha porque nao reCpondes 2 
Porque o olharme , tanto me encareces > 
Porque queres que fempre me querclle ) 

£u quanto mais te vejo , mais te efcondes! 
Quanto mais mal me ves , mais te endureces t 
Affiin que co mal crefce a caufa delle* 

Cij 



|tt 5 o H I T o S 

C L. 

Si a fortuna inquieu 9 & "^at olha^, 
Qae a juiU Ley do Ceo coníigo infama » 
A vida qoieca » que elia mais defama 
JAc concedera honelU , & rcpouCada ; 

Pudera Ter que a Mufa aUvantada 
Com luz de roais ardente , Òc viva flamas 
Fizera ao Te\o ià na pacria cama 
Adormecer ço foro da lyra amada ; 

Porém 9 pois o delHno uabalhoíb , 
Que me eícureçe a mufa fraca , £c laça 
{.ouvor de canto preço não fuAenta ; 

fL voíTa de louvarme pouco efcaça 
Outro íogetto buíque' valerolb y 
Jal qual em VQ$ ao mundo fe apreCenta» 

.C L U 

pE bum tam íelice engenho ^ produzidc 
pe outro , que o claro Soi não vio maioc 
He trazer coulas altas no (enuda 
Todas dignas de efpanto , òc de louvor ; 

Mufeo £qx anciquiiiÍJio Efcriptor , 
Filofopho , & Poeta conhecido > 
Pifcipulo do Muíico amador , 
■Que CO Ibm teve o inferno rufpendido ; 

híkc pode abalar o monte mudo , 
Cantando aquelle mal , que eu já paílei 
Do mancebo de Abydo mal íizudo : 

Agora contáo )à ( fegundo achei ) 
TaíTo , U o nodo Bofcam , que diíle ntd« 
Pos fegredos ;, qu$ mpvç Q çe^p. Key* 



DE 1. HZ Camosns. 77 

C L I I. 

£f TB amor > que vos ceuho limpo, k puio 
De penfamenco vil nuoca tocado , 
Em minha tenra idade começado , 
Telo dentro ^efta alma ío procuro : 

De haver nelle mudança eílou fegixro $ 
Sem temer nenhum cafo , ou duro fado , 
Nem o fupremo bem , ou baixo eftado p 
Nem o tempo prefenie , nem futuro : 

A bonina , & a flor afinha pada > 
Tudo pòc terra o Inverno » & £(lio deita p 
Sò paia meu amor he fempre Mayo : 

Maisvervos para mim fenhora efcaíla» 
E que cíTa ingratidão tudo me engeita > 
Trás eâe meu amor fempre em delknayo*, 

C L I I I. 

Quem prefumir , fenhora » de louvanros 
Com humano faber , & náo divino , 
Ficará de tamanha culpa digncr, 
Quamanha iicaes fendo em contemplarvos : 

Náo pretenda ningiiem de louvor darvos , 
Per mais que raro feja , & peregrino , 
Que voíla fermofura eu imagino » 
Que Deos a elle ío quiz compararvM : 

Ditofa efta alma voíla , que quizeftes 
£m poílè por de prenda tão .fubida , 
Como , fenhora , foi a quem me dèíles : 

Melhor a guardarei , que a própria vida^ 
Que pois mercê tamanha me fizeíècs > 
De mim feri )à mais noaca cfquccida« 



ift Soneto» 

C L I V. 

Quem poderá fulgarde vos , fenhera i 
Que com ul fee podia affi perdermos > 
K yir eu p«r amor a aborrecervofi y 
Que hei de fazer fem yòs fomente hum hora^ 

Dehcaftes quem vos ama , Ôc vos adora » 
Tomaíles quem quiçá náo fabe vervoi , 
£u fui o que náo foubc merecervos > 
£ tudo cAcendo > & choro trifte s^ora 3 

Nunca, foube entender yoíla vontade , 
Ke«i a' minha moíbarvos verdadeira 9 
Inda que eíU tão clara efta verdade s 

£m mim vivirà elia fempre inteira» 
B fe para perder já a vida he tarde , 
A mor^e náo fará , que vos náa queira» 

Ç L V. 

Vekcido eftá de amor meu penfamcntoi ,1 
O mais que podo fer vencida a vida ^ 
$ogefta a vosíervir inílituida > 
Ofièrecendo tudo a voflo intento f 

Contente deite bem tóuva o momento , 
Cu hora em que íe vio táo bem perdida jj 
Mil vezes defecando a tal ferida « 
Outra vez renovar feu pecdimento 1 

C)om eíTa pretençáo eftá legue a 
A caufa que me guia neíla empreza » 
Tio eftranha » táo doce , hpnroía , & alta | 

Jur^uido náo feguir outra ventura ^ 
Votando Cò por yòs rara firmeza , 



BE I. DE CaMOEKS. f^^ 

C L V I. 

SEMP1.B , crael fenhora , receei y 
Mediado voíla gráo defconíiança , 
Que dède em defamor voíla tardança y 
£ qae me perdeíle eu , pois vos amei : 

Percaíe em fim }á tudo o que efperei » 
Fois noutro amor \à tendes efperança , 
Tâo potente fera voíla mudança , 
Quanto eu encobri fempte o que vos dei s 

Deivos a alma , a vida , & o fentido , 
De tudo o que em mim ha vos fix fenhora V 
Prometeis » & negais o mefmo amor : 

Agora tal eílou , que de perdido 
Haõ fei por onde vou , mas algum hora 
Vos 4^à til lembrança grande dor* 

C L V I I. 

Esses cabeilos louros , & efcolhidos » 
Que o fer ao claro Sol eíláo tirando , 
£ilé ar tam peregrino , em que cuidando 
Ellâo continuamente meus fentidos : 

Eíles furtados olhos táo fingidos , 
Que minha morte , & vida eílâo caufando ,; 
EiTa fermofa graça , que em fallando 
Finge meus penfamentos háo fer cridos t 

£(Ie compaílo certo , eíla medida » 
Que faz dobrar no corpo a gentileza | 
Efià beldade em terra tâo fubida : 

Amoftce piedade , & náo crueza , 
Que ião laços , que Amor tece na vida ,~ 
Eounim de íofrimenco , ^ em yòs durea^; 



to Sonetos 

C L V I I I. 

Dizei , fenhoia, da bclleza idea^ 
Para fazerdes cíle áureo criao y 
Onde foftes bufcar eíTe ouro Bao y 
De que efcondida mina , ou de que vea l 

Dos voiíos olhos eíla luz Phebea » 
XÍIe refpeico de hum Império digno , 
Se o alcançaíles com faber divino , 
Se com eocancamencos de Meda i 

De que efcoodidas conchas cfcolheâes 
As perlas preciofas Orienues , 
Que faltando moftraes no doce rifo i 

Pois vos formaíles ral , como quizeíles , 
Vigiaivos de vos , não vos vejaes , 
Fugi das fontes > lembrevos Naxcifo. ^ 

C L I X. 

Na ribeira de Eufrates ailencado» 
Difcorrendo me achei pella memoria 
Aquellc breve bem y aquelia gloria » 
Que em ti doce Syão tinha paliado : 

Da cauía de meus males pergunudo 
He foi > como náo cancãs a hiftoria 
De teu pafQido bem ^ & da vidoria , 
Que fempre de teu mal has alcançado > 

Não Cabes y que a quem canta fe lhe efquec^ 
O mal 9 inda que grave , & rigurofo 2 
Canta pois , & náo chores defla force : 

Refpondi com fufpiros : Quando crece 
A muiu faudade > o piedofo 
iUmedio he náo cantar^ fen&o a morte» 



PE L. J>JL Camobns. Sr 

C L X. 

£l Tafo reiuziente , y críílaUno ^ 
De Angeles agua clara , y olorofa , 
Vt blauca feda ornado > y frefca rofa 9 
Ligado con cabellos de oro fino : 

Bien claro parecia el don divino 
labrado por la nuno artificioTa 
De aquella blaaca Ninfa gracio(a , 
Más que el rubio luzero macucino : 

Nel vafo vucílto cuerpo fe aÔigura » 
Kaxado de los blancos miembros belloj ^ 

Y en el agua vueftra anima pura : 

La Teda es la blancura , y los cabelloa 
Son las priiiones 9 y la ligadura 
Con que mi libenad fue afida dellos;. 

C L X I. 
PuE â la^imas tratais mis o)os triftes^ 

Y en lagrimas paliais la noche , y dia ^ 
Mirad & es Uanto eAe que os embia 
Aquella por quien vàs tancasi vettiílesi 

Sentid mis ojos bien eiU que viftes j^ 

Y fi ella lo es , Q gran ventura mia , 
Por muy bien empleadas las avria , 
Mil cuencos , que por eíla fola diíles ; 

Mas uoa cofa mucbo de^eada , 
Aunque Te vea cierta , no es çreida ^ 
Quanto mis ei^a , que me es embiada x 

Pêro digo que aunque (ea fingida % 
Que baila que por lagrima fea dada^ 
Porque fca ^qr lagrima ^wi^^ 



tt Sonetos 

C L X I I. 

Quando fe vir com a agoa o fogo ardet » 
E mifturar co dia a notce efcura , 
Z a terra fe vir naquella altura > 
Em que íc vem os Ceos prevalecer : 

O Amor por rezão mandado fer » 
£ a todos fer igual noiía ventura , 
Com tal mudança voíTa fcrmofura y 
Entaó a poderei deixar de ver. 

Porém naõ fendo vifta efta mudança 
Ko mundo ( como claro eftà naõ verfe ) 
Naô fe efpere de mim deixar de vervos s 

Que baila eftar en vòs minha efperança 
O ganho de minha alma , & o perderfe > 
Para naõ deixar nunca de querervos. 
C L X I I I. 

Chorai Ninfas os Fados poderofot 
Daquella foberana fermofura , 
Onde foraó parar na fepultura 
Aquelles reaes olhos graciofos í 

Oh bens do mundo falfos , & enganofos ! 
Que magoas para ouvir , que tal figura 
Jaza fcm refplendor na terra dura 
Com tal rojflro , & cabellos taõ fermofos : 

Das outras que fera ! pois poder teve 
A morte fobre coufa tanto bella , 
Que ella eclipfava a luz do claro dia : 

Mas o mundo naõ era digno delia , 
Por Ifiío mais lu terra naô efteve , 
A» Cco fobio, que jà fe lhe dcyia. 



DE L. D E C AMOINS. 8| 

C L X I V. 

Am imigat cruel , que aparcamemo 
He cíkc i que fazeis da pátria terra l 
Quem do paterno ninho vos deílerra , 
Gloria dos ollios , bem do penfameato i 

Is tentar da Fortuna o movimento f 
£ dos ventos cruéis a dura guerra ^ 
Ver brenhas de agoa, & o mar feito em ferra. 
Levantado de hum vento, òc de outro vento : 

Mas jà que vos partis , fem vos partirdes , 
Parta com vofco o Ceo tanta ventura , 
Que feja mòr que aquella que efperardess 

£ ÍÒ neíU verdade ide fcgura , 
Que íicaó naais íaudades com partirdes , 
Do que breves defejos de chegardes. 

C L X V. 

Sekhoua jà deíla alma perdoai 
De hum vencido de amor as defatinoS| 
£ fcjaó voíTos olhos caõ beninos , 
Como eíle puro amor , que d'alma fai i 

A minha pura fee fomente olhai , 
£ vede meus extremos fe íaõ íinos , . 
£ fe de alguma pena forem dignos , 
£m mim , fenhora minha , vos vingai : 

Naó feja a dor , que abrafa o triAe peiro , 
Caufa por onde pene o coração , 
Que canto em firme amor vos he fugeito : 

Guardaivos do que alguns , dama , dira« , 
Que fendo raro em tudo voílo objeito 
FoSfí, morai cm vòs ingratidão. 



Sonetos 

* C L X V I. 

Quem tos levou de mim ^ DradoTo eíbido^ 
Que tanca fem tazam comigo uTaíies ¥ 
Quem foi por quem raõ ptefto me negâfteS 
Efquecido de todo o bem paílado? 

TrocaíleCme hum defcanço em hú cuidado 
Taõ duro , taô cruel , qual me ordeoaftes > 
A íèe , que tínheis dado , me ncgaíles » 
Quando mais nella eftava confiado : 

Vivia fem receo dcfte mal > 
Fortuna , que tem tudo a fua mercê p 
Amor , com defamor me revolveo t 

Bem fei que neíle cafo nada vai , 
Que quem naceo chorando , juílo he 
Que pague com chorar o que perdco» 

C L X V I I. 

DtvEKsos caTos , vários penCamentos 
Me trazem taó confufo o entendimento ^ 
Que em nada vejo jà contentamento » 
Senaó quando fe vaõ contentamentos : 

£m vários cafos vários featimentos 
Succedem , por moílrar ao fundamento , 
Que he o que fe defeja tudo vento > 
Pois pinta haver defcanço em váos intentos t 

Vefe em grandes difcurfos o defejo , 
Quando ás ocaíioens os tempos mudaô , 
Não ha coufa impollivel a hum cuidado s 

O injufto CO jufto he jà trocado , 
Os duros montes feus allentos muda6 » 
Itt {o aio poíTo ver meu mal mudado. 

CLXVIUf 



2>lL. D£CamO£NS. %f 

C L X V I I I. 

DecB fonho , fuave & foberanò , 
Se por mais longo tempo me durara > 
Ah quem de fonho tal nunca acordara ^ 
Pois havia de yer tal defengano t 

Ah deleitofo bem , ah doce engano» 
Se por mais largo efpaço me enganara , 
Se encaõ a vida mífera acabara , 
De alegria , & prazer morrera ufano : 

Ditofo , nào eftando em mim , pois tive . 
Dormindo o que acordado ter quizera , 
Olhai com que me paga meu deílino ! 

£m fim fòra de mim ditofo eftive > 
Em mentiras ter dita razaõ era , 
Pois fempre nas verdades fui mofino. 

C L X I X. 

Diana prateada efclarecia 
Com a luz , que do claro Phebo ardente , 
Por fer de natureza tranfparente , 
£m fi 9 como em efpelho reluzia : 

Cem mil milhoens de graças lhe influía / 
Quando me appareceo o excellente ' 
K.ayo de voflo afpeâo , difference 
£m graça » & em amor do que fohia : 

£u vendome taõ cheo de favores , 
E taô propinquo a fer de todo voflo » 
Louvei a hora clara , Sc a noite efcura i 

Pois nella dèftes cor a meus amores , 
Donde colijo claro que naõ poflo 
De dia para tòs jà ter yeatura. 

Tonu //. H 



S6 Sonetos ^^- ^ 

C L X X. 

Ala' cn Monte Rcy , cn Bal de Leça, 
A Biolance bibeirade hum rio , 
Tam fermoCa em berdá , que quede frio 
De ber alma imnorcal em mortal maça : 
De hum alto , & lindo copo a feda la^ 
A Paftora facaba fio a £o , 
Quando lhe difle , morro , corta o fio y 
Bolveo , náo cortarei , feguro paíía : 
£ como paliarei , Te eu acâ quedo , 
Se pailar , refpondi , náo bou feguro » 
Que efte corpo íèm alma morra cedo : 

Com a minha , qiie lebas , te aílèguro 
Que náo morras PaAor , Paftora ei medo > 
O quedar me parece mais feguro. 
C L X X I, 
PonQUE me faz Amor inda acà torto , 
O mal te faga Deos desbergonçado , 
Rapaz bil , defcortez , que me has guiado 
A ber a Biolante , que me ha morto : 

Bila y. por más non berme tomar porto 
£n repoufo niogun desbenturado > 
Mas para chorar fempre quede a bado 
As agoas dos meus olhos fom conforto : 

Bem vir fet tua madre Cypríana 
Una mundana aftrofa , deshonefta , 
Cruel , falfa , fem \cy , dura , & tirana ; 

Que a bòs elia fer outra , & náo fer cila , 
Náo tiberas bontà táo deshumana , 
Nem fora coatra mim táo cruda befta. 



-írtt, ©E Camobns. «7 

c L X X I I. 

Olhos fermofos , em quem quiz natura 
Moílrar do feu poder alcos (inais , 
Se qmieidcs faber quanto poí!ais , 
Vedeme a n^im , que (ao voíTa feitura ; 

Pintada em mim fe rè voíla íipira » 
No que eu padeço retratada eftais , 
Que Te eu paílo tormentos defiguais y 
Muito mais pôde voíTa fermofura : 

De mim náo quero mais que o meu de(e|o^ 
Ser vofio , & íô de fer voiío me arreyo , 
Porque o yoílo penhor em mim fe aflélle : 

Náo me lembro de mim, quando vos Te)o p 
Nem do mundo , & nío erro , porque creyo 
Que em lembtarme de v6s cumpro com el!6» 

C L X X I I I. 

£m qaanro Pliebo os montes acendia 
Do Ceo com luminofa claridade , 
Por evitar do ócio a caíUdade , 
Na caça o tempo Delia defpendia ; 

Vénus , que então do furto defcendia » 
Por cativar de Anchifes a vontade , 
Vendo Diana em tanta honeílidade , 
Quâfi zombando delia , lhe dizia : 

Tu vás com tuas redes na efpcílura 
Os fugkivofi cervos enredando , 
Mas as minhas enrcdáo o fentido ; 

Melhor he ( refpondta a Deofa pura ) 
Nas cedes leves cervos ir tomando , 
Que tosnatte alU nelles>teu marido. 



88 Sonetos 

C L X X I V. 

• 

Ah minha 0/iuunene , afli durafte » 
Quem nâp deixara nunca de quererce } 
Ah Ninfa minha , |à não podo verte y 
Tão azinha eíla vida defprezafte^ 

Como |à para fempre te apartaíle 
De quem cão longe eftava de perderte i 
Poderão eftas ondas defenderte , 
Que náo vides quem canto magoafte ! 

Nem fallarce fomente a dura morte 
Me deixou , que táo cedo o negro manto 
£m teus olhos deitado confentifte : 

O' mar , ô Ceo , ô minha ofcura morte { 
Que pena fentirei ^ que valha tanto , 
Que ainda tenho por pouco o viver trifte { 
C L X X V. 

O' i^xGUiLOsA aufencia receada 
De mim fcmpre , mas nunca conhecida , 
Saudade outro tempo tão temida , 
Quanto em meu dano agora exprimentada : 

Ja rtgurofamente começada 
Tendes voíla afpereza em minha vida ^ 
Tanto que temo jà que de oprimida 
(ejaes com eila mui cedo acabada : 

Os dias mais alegres me entriftecem » 
As noites em cuidados as defconto , 
£m que fem vòs fem conto me parecem : 

£m defejo , òç efperança as horas contoj» 
Mas com a vida em fim elles fallecem ^ 
Nío me poflb valer de aflUUr promou 



BE L. BE C A MOENS. %f> 

c L X X V r. 

Se de yoflo fermofo , jSc lindo gefto 
Nacèraó lindas flores para os olhos , 
Que para o peito faõ duros abrolhos » 
£m mim fe vè mui claro , & manifeílo^ 

Pois voílà fermofura , & vulto honefto 
£m os ver , de boninas vi mil molhos p 
Mas fe meu coração tivera antolhos , 
Naó vira em vòs Teu dano o mal funefto t 

Hum mal vifto por bem,hú bem triftonho» 
Que me traz elevado o penfamenco 
£m mil , porém diverfas , fanuíias : 

Nas quaes eu fempre ando,& fempre Conhop 
£ vòs naó cuidaes mais que em meu torméto f 
£m que fundaes as vodas alegrias. 

C L X X V I I. 

Num taõ alto lugar de tanto preço 
Efte meu penfamento poílo vejo > 
Que desfallece nelle inda o defejo y 
Vendo quanto por mim o defmereço ; 

Quando efta tal baixeza em mim conheço^ 
Acbo que cuidar nelle he gram defpejo , 
E que morrer por ellc me he fobcjo , 
£ mòr bem para mim do que mereço : 

O mais que natural merecimento 
De quem me caufabum mal taó duroj&i forte 
O faz que vâ crefcendo de hora cm hora : 

Mas eu naô deixarei meu penfamenco , 
Porque inda que eíle mal me caufa a morte 
Un bel morir tutu lavita honora. 

H u) 



^0 Sonetos 

c l x x v i i i. 

Qu AMDO a fupcema, dor muito me apetu $ 
Se digo que defejo efqueciínento ^ 
He força que fe hz ao penTamento » 
De que a vontade livre defconceru ; 

£ afit de erro taô grave me defperu 
A luz do bem regido entendimento » 
Moftrando que he engano , ou fingimento 
Dizer que em tal dcfcanço mais fe aceru : 

Porque eiTa mefma imagem, que na mente 
Me reprefenta o bem de que careço 
Me faz de hum certo modo fer prefente : 

Ditofa he logo a pena que padeço « 
Pois que da caufa delia em mim Ce Tente 
Hum bem , que iuda fem vervos reconheço. 
C L X X I X. 

Quantas penas Amor , quantos cuidados. 
Quantas lagrimas triftes fem proveito , 
Pe que mil vezes olhos 9 rofto , & peito 
Por ti cego > me vifte jà banhadas : 

Quantos mortaes fufpiros derramados 
Po coração , por tanto a ti fogeito , 
Quantos males em fim tu me tens feito 9 
Todos foraõ em mim bem empregados : 

A tudo fatisfaz ( confeílote ifto ) 
Húa íò viíla branda , Sc amorofa » 
Pe quem me cativou minha ventura : [ 

O* fempre para mim hora ditofa , 
Que poílo temer jà 9 pois tenho viílo 
Com tanto gofto meu ^ taata brandura > 



DE L. DE CAMOENS. >t 
C L X X X. 

Se como cm tu4o o mais foftcs perfeita > 
Fôreis de condição menos altiva > 
Vida pôde efpcrar efta cativa 
Vida , que a voflbs pcs morta fe deita : \ 

Mas quanto de vòs vc , quanto fofpcita, 
Eftorvos faõ , para que mais naô viva , 
E para maior mal a morte cfquivá , 
Vendo que me engeitacs,tambem me engeit»? 

Se nifto contradiz voíla vontade , 
MandaiUie vòs , fenhora , que dè fim 
A vida taó cercada de trifteza : 

Pois ella naò o faz por piedade , 
Que tenha do meu mal , mas porque em mií» 
Vivendo farteis vòs voíTa crueldade. 
C L X X X I. 

O Tempo acaba,o Anno,o Mez, & a HotAy 
A Força , a Arte , a Manha , a Fortaleza , 
O Tempo acaba a Fama , 8c a Riqueza , 
O Tempo o mefmo Tempo de fi chora : 

O Tempo bufca , 8t acaba o onde morft 
Qualquer ingratidão , qualquer dureza , 
Mas naõ pòdc acabar minha trifteza , 
Em quanto naõ quizerdes vòs fenhora. v 

O Tempo o claro dia torna efcuro , 
E o roais ledo prazer em choro trifte , 
O Tempo a tempeftade era graó bonança í 

Mas de abrandar o tempo eftou feguro 
O peito de diamante , onde confiftc 
A pena , & o pcweí dcfta cfperanç*. 



^% SONíTOS 

C L X X X I I. 

Posto me tem Fortuna em tal eftado $ 
E tanto a feus pès me tem rendido y* . 
Naó tenho que perder fâ de perdido , 
Kem tenho que mudar já de mudado : 

Todo o bem para mim he acabado , 
De aqui dou o viver jà por vivido , 
Que aonde o mal he taõ conhecido , 
Também o viver mais fera efcuTado : 

Se me baila querer , a morte quero , 
Que bem outra efperança naó convém , 
E curarei hum mal com outro mal : 

£ pois do bem taõ pouco bem efpero i 
Jà que o mal eíle fò remédio tem , 
Naó me culpem em querer remédio tal. 

C L X X X I I I. 

JA naô fere o Amor com arco forte , 
As fettas cem lançadas jà por terra , 
Coi^io fohia jà naó nos faz guerra , 
Porque a que nos faz he de outra forte: 

Com olhos pelios olhos nos dá morte, 
£ para acerrar o que naô erra , 
Os voílos cfcolhco , em quem fe encerra 
Mais bem do que ha do Sul ao Norte : 

Concedcvos o Amor taõ graô poder. 
Que vòs fejaes do feu livre , & izcnta : 
Apagoufe a candea no meio da confoante. 

Por iífo Feliza fe vos naó contenta , 
Naó vades com o foneto por diante , 
Que he fonho o que a fanccíia rcprefenta* 



D£ L. BE CàUOCKS. f^ 
C L X X X I V, 

iBMBUAKÇAs , 4 lembraes meu bé paflâdoí 
Para que íinta mais o mal ptefente , 
Deixaime ( fe quereis ) viver concence , 
NaÕ me deixeis morrer em cal eílado s 1 

Mas fe cambem de cudo eftá ordenado 
Viver ( como fc vè ) taó deíconccnte , 
Venha ( fe vier ) o bem por accidente » 
£ dé a morce fim a meu cuidado : 

Quemuico melhor he perder a vida , 
Pcrdendofe as lembranças da memoria « 
Pois canco danno fazem ao penfamenco : 

Aífi que nada perde , quem perdida 
A eCperança cràs de fua gloria , v 
Se eíU vida ha de C&z fcmpre em coimcoto^ 

C L X X X V. 

Doce concencamento |â paliada , 
£m que rodo meu bem jà confíftia f 
Quem vos levou de minha companhia , 
£ me deixou de vos caõ aparcado } 

Quem cuidou que fe viíTe nefte eftado^ 
Naquellas breves horas de alegria ! 
Quando minha vencura coníencia , 
Que de enganos viveílè meu cuidado : 

Fortuna minha foi cruel , & dura 
Aquella , que caufou meu perdimenco 9 
Com a qual ninguém pôde ter cautela ; 

Nem fe engane nenhuma creacura , 
Que naô pôde nenhum impedimento 
Fugir do que ordena fua eftrela* 



54 Sonetos 

C L X X X V I. 

MviTO ha que eu foube da venturji 
A vida , que me cinha deílmada , 
Que a looga experiência da paílada 
Me dava claro indicio da fucura : 

Amor fero . & cruel Fortuna efcura » 
Bem tendes vofla força exprime ntada , 
AíTolai 9 deílrui , naô fique nada > 
Vingaivos deíla vida , que inda dura : 

Soube da dica Amor , que eu- a naõ tinha , 
Porque fenciíle mais a falu delia , 
De imagens impoúíiveis me mantinha : 

Mas vòs , fenhora ( pots que minha eílrcUa 
Naó foi melhor ) vivei nefta alma minha , 
Que naõ tem a Fortuna poder nella. 

CLXXXVII. 

Horas breves de meu contentamento» 
Nunca me parcceo, quando vos tinha « 
Que vos viíle mudadas taõ afínha , 
£m huns taó longos dias de tormento : 

As altas torres , que fundei no vento » 
O vento as leveu logo , que as foftinha , 
Do mal , que me ficou , a culpa he minha » 
Pois fobre coufas váas fiz fundamento : 

Amor com falfas moftras apparece , 
Tudo poífivel faz , tudo aílegura , 
£ logo no melhor defapparece : 

Eu o quiz , pois o quiz minh^ ventura , 
Que gemendo , & chorando conhecece 
Quam fugitivo cllc hc , quam pouco dura. 



PZ L. DE Camoeks. ^f 

C L X X X V I I I. 

SasTEMTA meu viver huma efperançji 
Dirivada de hum bem caõ defejado , 
Que quando nella eftou mais confiado , 
Mòr duvida me põem qualquer mudança t 

£ quando inda efte bem na mòr pu]auça 
De feus godos me tem mas enlevado , 
Me atormenta entaó ver eu , que alcançado 
Será , por quem de vòs não tem lembrança s 

Affi 9 que neílas redes enlaçado , 
A penas dou a vida , fuftentando 
Huma nova matéria a meu cuidado : 

Sufpiros d*alma triftes arrancando , 
Dos fílvos de huma pedra acompanhado y 
Eílou macerias triftes lamentando. 

C L X X X I X. 

Jâ naõ finto , íenhora , os defenganos , 
Com que minha aífèição fempre trataíles , 
Nem ver o galardão , que me negaftes » 
Merecido por íè ha tantos annos : 

A magoa choro (ò » (d choro os danos 
De ver, por quem , fenhòra, me trocaíles^ 
Mas em tal cafo vos (o me vingaftes 
De voíTa ingratidão , voíTos enganos t 

Dobrada gloria áà sl qualquer vingança , 
Que o oi¥èndido toma do culpado , 
Quando fe fatisfaz. com coufa jufta : 

Mas eu de voflos males , & efquivança y 
De que agora me vejo bem vingado y 
Naõ o quizera cu. tanto à vofta cuíbu 



9^ SONETO» 

C X c. 

QuB pôde jà fazer minha ventura i 
Que feja para meu contentamemo ! 
Ou como fazer devo fundamento 
De coufa , que o náo cem , nem hefegurat 

Que pena pôde fer cáo cerra, Sc dura. 
Que poda fer mayror , que meu tormento f 
Ou como receará meu penTamenco 
Os males , fe com elles mais fe apura i 

Como quem íe coftuma de pequeno 
Com peçonha criar por maõ fcienie , 
Da qual o ufo jà o tem feguro : 

Mas eu acoftumado ao veneno , 
£ ufo de fofrer meu mal prefente 
Me faz nap fentir |à nada o futuro. . 
C X C I. 

Los òios que con blando movimiento 
Al paliar enterneceu la alma mia , 
Si detenerfe vieíTe folo un dia 
Mi pecho librarian de tormicnto : 

Pues de un amotofo fentimiento 
£1 importuno mal fe acabaria , 
O afli el accide^te creceria , 
Que la vida acabaíTe en un momento ; 

O fi tu cfquivez lo permitieíle , 
Que en prefencia de tu femblante hermo& 
A manos de tus ojos me muriefle : 

O 6. los deftruyeíle , quan dichoío 
Seria a quel momento , en que me vieíTe 
Çohiu cUos U vtcU > 7 cl repofo. 

cxcri 



DE L. DE CaMOEKS. 57' 

c X c I r. 

A fermofura deíla fírefca ferra y 
£ a fombra dos verdes caftanheiros f 
O manfo caminhar deíles ribeiros , 
Donde toda a triíleza fe defterra ; 

O rouco fom do mar , a eftranha tettA § 
O efcoader do Sol pellos ouceiros, 
O recolher dos gados derradeivos , 
Das nuvens pcUo ar a branda guerra: 

£m fim tudo o que a rara natureza- 
Com tanta variedade nos ofrece , 
Me eftá ( fe uáo te vejo ) magoando : 

Sem ti tudo me enoja , & me aborrece f 
Sem ti perpetuamente eftou paiíkndo 
Nas mores alegrias , mòr triíleza. 

C X C I I I. 

SospECHAs , que en mi rrífte fimcefia 
Pueftas hazeis la guerra a mi Temido y 
Bolviendo , y rebolviendo el afligido 
Pechb con dura mano noche , y dia : 

Ya fe acabo la refiílencia mia y 
Y la fuerça dei alma , ya rendido 
Vencer de vós me dexo arrepentido 
De averos contraftado en tal porfia : 

Ilevadme a aquel lugar tan efpantable , 
Que por no ver mi muerte alli efculpido y- 
Cerrados hafta aqui tuve los ojos : 

Ias asmas pongo ya , que concedida 
No CS tan larga defenfa ai miferablc , 
4;;olgad en vueiko cairo mis dcrpo)os«^ 
fom. II. \ 



9? Sonetos 

C X C I V, 

No bailava que Amot puro » y ardiçnte 
For cermiaos la vida me quitaíTe > 
Sino quc: dcfamor fe aprefuraíle 
Con un tau deshumano accidence : 

Mi alma no refiíle , ni coníience , 
Que el amorofo curfo fe &cajaile > 
Porque nunca )amàs fe exprimcncade » 
Que muera a defamor quien amor íience t 

Mas vueAca voluncad tam poderofa , 
Como vueilra bermofuj^a , me ordenaioa 
Impoílible crueldad , jamás oida : 

Ãqliei iiero defden , y la amorofa 
Fúria » de uu golpe folo me quitaron 
Con dòs muerces contrarias una vida. 

C X C V. 

Vos , que efcutais em ^mas derramado 
Dos fufpiros o Tom , que me alentava 
Na (uvenil idade , quando andava 
£m oucio em parce do que fou mudado : 

Sabei » que bufca ío do ja cantado » 
No tempo , em que ou temia , ou eíperava 
De quem o mal provou » que eu tanto amava» 
Piedade , & naõ perdaó , o meu cuidado ; • 

Pois vejo que tamanbo fentimento 
Sò me reodeo fer fabula da gente 
( Do que comigo mefmo me envergonho )• 

Sirva de exemplo claro meu tormento , 
Com que todos conheçâo claramente > 
Que quanto ao mudo apraz he breve foubo^ 



DZL. DE CaMOENS. 5^ 

C X C V I. 

De Amor efcrevo, de Amor trato» 0c viro» 
1>e Amor roe nafce amar , fem fer amado , 
De tudo Te defcuida o meu cuidado » 
Quanto não feja fer de Amor cativo : 

De Amor , que a lugar alto voe altivo, 
B funde a gloria fua em fer oufado , 
Que Ce veja melhor purificado 
No immenfo refpládor de hum rayo efquivo : 

Mas ay , que canto amor íb peoa alcança ! 
Mais conílante ella, & elle mais coníUncc> 
De feu triunfo cada qual ío trata : 

Nada,em fim,me aproveita, que a erpetáça 
Se anima alguma vez a hum trifte amante » 
Ao perto vivifica , ao longe mata. 

C X C V I I. 

Moa ADORAS gentis j & delicadas 
Do claro & áureo Tejo , que metidas 
Eílaes em Tuas grutas efcondidas y 
£ com doce repouTo foíTegadas: 

Agora eílaes de amores inflamadas^ 
Nos criílalinos pados entretidas > 
Agora no ezercicio embevecidas , 
Das tellas de ouro puro matizadas : 

Movei dos lindos roftros a luz pura 
De voíTos olhos bellos , confentindo » 
Que lagrimas derramem de triftura : 

£ afli com dor mais própria hireis ouvindo 
As queixas , que derramo da ventura , 
Que com penas de amor me vai feguiado* 



too Sonetos 

C 5c C V I I I. 

Bs.ANOA$ agoas do Tejo, que padando 
Por eíles verdes campos , que regaes , 
Plantas , ervas , & flores , òc antmaes , 
Paftores ,. Ninfas , ides alegrando : 

Nâo fei ( ah doces agoas ! ) naõ fei quando 
Vos tomarei a ver , que magoas taes , 
Vendo como vos deixo , me caufaes , 
Que ia vou de tornar defconfiado t 

Ordenou o deftino , dorejofo 
De converter ifteus goftos em pezarcs , 
Partida, que me vai cuftando tanco; 

Saudofo de vòs , delle queixofo > 
Incherei de fufpiros outros ares , 
Turbarei outras agoas com meu pranto; 
C X C I X. 

Novos cafos de Amor , Hovos enganos ^ 
Envoltos em iifonjas conhecidas , 
Do bem promeílas falfas, Ôc efcondidas f 
Onde do mal fe cumprem grandes danos : 

Çotno nâo tomais ja por defenganos 
Tantos ais , tantas lagrimas perdidas , 
Pois em a vida naõ baíla nem mil vidas 
A tantos dias triftes j tantos annos : 

Hum novo coração miíler havia 
Com outros olhos menos agravados « 
Para tornar a crer o que eu naõ cria ; 

Andais comigo > enganos , enganados | 
£ Te o quizeres ver » cuidai hum dia 
Q que Ce di« dos bem acuúUdos^ 



i>E L. DÊ Camoens. IO? 

c c. 

7a do Mondego as agoas apparecem 
A meus olhos , naó meus , antes alheos , 
Que de outras diferentes vindo cheos , 
l^a, fua branda viíU inda mais crecem : 

Parece que também forçadas decem , 
Segundo fe detém em feus rodeos , 
Tride ! por quantos' modos , quantos meos 
As minhas faudades me entriftecem ! 

Vida de tantos males (alteada , 
Amor a põem em termos , que duvida 
De confeguir o fim defta jornada : 

Antes fe dà de todo por perdida , 
Veado que naó vai da alma acompanhada > 
Que Ce deixou ficar onde tem vida« 

C C I. 

Hum firme coração poílo em ventura y 
Hum defejar honefto , que fe engeite , 
De voíTa condição , fem que refpeice 
A meu tam puro Amor , a fe tam pura : 

Hum vervos, de piedade , & de brandura ^ 
Sempre inimiga , fazme qqe fofpeite 
Se alguma Hircana fera vos deu leice , 
Ou fe nafceíles de hum a pedra dura : 

Ando bufcando cauía que difculpe 
Crueza tão eftranha , porem quanto 
Niílo trabalho mais ,' mais mal me' trata s 

ponde vem, que náo ha qué nos não culpe, 
A vós , porque matais quem vos quer tanto , 
A mim f por querer tanto a quem me matai 



101 S o N C T o S 

C C I I. 

y^ Am. f que de meus furpiros vejo chefo> 

Terra cançada )a com meu tormento » 
Agoa y que com mil lagrimas fuílento » 
Fogo y que mais acendo no meu ceyo : 

' £m paz eilais em mim , & aflim o crejro > 
Sem eílè fer o voílo próprio intento , 
Pois em dor onde falu o fofrimento , 
A vida fe fuftem por roíTo meyo ; 

Ay imiga Fortuna ! ay vingativo 
Amor ! a que difcurfos por vós venho f 
Sem nunca vos mover com minha magoai 

Se me quereis matar , para que vivo 2 
£ como vivo , Te contrários tenho 
Amor y Fortuna > Ar y Terra » Fogo , & Âgoa> 

C C I I I. 

7a claro vejo bem , )a bem conheço 
Quanio aumentando vou o meu tormento f 
Pois foi q fundo em agoa , efcrevo em ventos 
E que o cordeiro manfo ao lobo peço ; 

Qual Arachne , pois )a com Palias teço > 
Que a Tigres em meus males me lamento , 
Que reduzir o mar a hum vafo intento , 
Afpirando a cíIe Ceo , que naõ mereço : 

QuQro achar paz em hum confufo iafcmo> 
Na noite , do Sol puro a claridade > 
S o fuave Veraó no duro Inverno » 

Bufco em luzente Olympo efcundadCf 
E o defejado bem no mal eterno > 
iMcaudo amor ea& yoílk crueldad«^ 



DE L. D£ CaMOEMS. IO) 

C C I V. 

De câ donde fomente o ^maginatvos 
A rigurofa aufencia me confence, 
Sobre as azas de Amor , oufadamente 
O mal fo&ido efprito vai buTcarvos : 

£ fe naõ receara de abrafarvos 
Nas chamas , que por vod^bcauTa fente ^ 
Là ficara com voTco , 8c vós. preíènce 
Aprendera de vòs a comencarvos : 

Mas pois que eftar aufencc lhe he forçado^ 
Por fenhora de cá vos reconhece , 
Aos pès de imagens voíTas inclinado : 

£ pois vedes a fô j que vos oilèrece » 
Ponde os olhos , de li , no feucuidado ^ 
£ darlheeis inda mais. do que merece. I 

C C V. I 

K Aõ ha louvor que arribe â menor parta ' 

De quanto em vòs Ce vê , bella fenhora , 
Vós fois voíTo louvor , quem vos adora 
Ktdai- fomente a efte o engenho ., & arte i 

Quanto por muitas dama» Ct reparte « 

De bello' Òc de fermofo , en^vòs agora 
Se ^a) unta em- modo tal, que pouco íotA 
Dizer > que fois a todo , ellas-a parte & 

Culpa logo 9 nad he , fe vou louvairof 
Ver incapazes todos os louvores » 
Pois tanto quiz o Csò aventajarvos : 

Sela ft culpa de voíTosirefplandores > 
E a que cllcs tem. vos dou , fó para,danro9 , 
O ni6c louvor de todos Qtms^iotfit*. 



J04 S o N l T o « 

C C V I. 

A Vloieu mais bclla , q^ae amanhece 
No valle por efmalte da verdura , 
Com feu pailido Uiftre , & fermofara , 
por mais bella , Violante , te obedece ; 

Perguncafme porque ? porque apparece 
Seu nome em ti , 8c Tua cor mais pura y 
£ eftudar em rofto ih procura 
Tudo quanto em beldade mais florece : 

O' luuiinofa flor ! d Sol mais claro ! 
Único roubador de meu fentido , 
fiAo permittas que Amor me feja ayaro : 

O' penetrante fetca de Cupido ! 
Que queres i que te peça por reparo 
Ser ncfte valle £neas , deíla IMdo. 

C C V I I. 

ToiLif AI eila brancura à alva Açucena ^ 
£ eíla purpúrea cor âs puras Kofas > 
Tornai ao Sol as chamas luminoCas 
]>eílâ vifta , que a roubos vos condena : 

Tomai à fuaviifima Sirena 
peíía VOE as cadencias deleitofaí, 
Tomai a graça as graças, que queixofas 
Xftáo de a ter por vôs menos ferena : 

Tomai a bella Vénus a belleza , 
A Minerva o faber y o engenho , & a arce^ 
f, a pureza à caftiílima Diana : 

Oeípojaivos de toda eíla grandeza 
De does , & ficareis em toda a parte 
Com vofco (ò 9 que he fò feir inhnmana. 



M I. Dl C A M O í N S. lOJ 

c c V I r r. 

Db mil furpeicas vans fe me levancaõ 
Trabalhos > & dcfgoíkos verdadeiros » 
Ay ! Que eíles bens de Amor faô feiticeiros f 
Que com hum naõ fci q* coda alma encanraó ! 

Como Sereas docemente cancaó ,. 
Paca enganar os criiles marinheiros , 
Os meus aíGm me acraem lifongeiros y 
£ depois com horrores mil me efpancaó : ■ 

Quando cuido que como porco , ou cerra ^ 
Tal vento fe levanta em hum inílance , 
Que fubito da vida defconfio : 

Mas eu fou quem me faz a maior guerra ^ 
Pois conhecendo os rifcos de hum amante 
Fiado a ond^ de Amor , delUs me fio, 

C C I X. 

Mil vezes determino naô vos ver ^ 
Por ver fe abranda mais o meu f>enar ^ 
£ fe cuido de affim me magoar , 
Cuidai o que fera , fe ouver de fer : 

Pouco me importa jà muito fofrer , 
Depois que Amor me poz em tal lugar , 
£ o que inda me dos mais , he fò cuidar > 
Que mal fem efta dor poílb viver. 

• Afli naõ bufco eu cura contra a dor , 
Porque bufcando alguma , entendo bem » 
Que neíle me(mo ponto me perdi : 

Quereis que viva , emfim , nefte rigocl 
Sòtmence o querer vollo me convém ; 
Affi quereis que feja i (cja a^ 



lOi^ S O N S T O S 

A CHAGA que , fenhora , me fizeíles» 
fiio foi para curarfe em hum (ò dia » 
Porque crecehdo vai com cal porfia , 
Que bem defcobre o interno que cÍTeftes t 

De caufac tanca dor vos nio doeftes l 
Mas a doer vos , dor me náo feria , 
Pois |á com efperança me veria , 
Do que vòs,que cm mim viíTe, náo quizeftes: 

Os olhos , com que todo me roubaAes, 
Poráo caufa do mal , que vou paflando » 
£ vòs ellae jctingido » o nâo caufaíles : 

Mas eu me vingarei , & fabeis quando! 
Quando vos vir queixar » porque deizaftet 
Irfe a minha alma nelles abtaíando. 

C C X I. 

Sb com defptefos , Ninfa , te parece f 
Que podes defviar do feu cuidado 
Hum coração confiante , que fe ofrece 
A ter por gloria o fer atormentado : 

jDçixa a tua porfia , £c reconhece , 
Que mal fabes de Amor defenganado» 
Pois nâo fentes, nem vès, 4 cm teu malcrecSj 
Crecendo em mim /de ti mais defamado ; 

O efquivo defamor com que me tratas 
Converte em piedade > fe náo quetes , 
Que creça o meu querer em teu defgofto s 

Venccrme com cruezas nunca efperes » 
Bem me podes matar, & bem me matas , 
Miu fçmpre ha de viver oieu prefuppoilo» 



í>£ L. DE CaMOENS. XC^ 
C C X I I. 
SekNôilà minha , fe eu de yòs aufenw 
Me dcfeodeta de hum penar fevero , 
Sofpcico , que ofifendèra o que vos quero 9 
Efquecido do bem de eílar prefence : 

Trás eíle logo finco oucro accidente ^ 
E hc ver que Te da vida defefpero , 
Perco a gloria , que vcndovos efpero > 
£ affi eílou em meus males di£Ferencc t 

£ nefta difiêrença meus frnâdos 
Combatem com táo aTpera porfia » 
Que )ulgo efte meu mal por deshumanot 

Encre fifempre os vejo divididos , 
£ fe a cafo concordão algum dia » 
He iò conjuração para meu dano« 
C C X I I I. 
No xegaço da Maem Amor éftava 
Dormindo , ráo fermofo , que movia 
O coração 9 que mais izenco via , 
£ a fua própria toky de amor maçava s 
Ella com os olhos nelle contemplava 
A quanto ellrago o mundo reduzia> 
£Ue , porem , fonbando lhe dizia > 
Que todo aquelle m^il elU caufava : 

Soliib , que graduado em feus amorçf 9' 
De faber de ainbos mais teve a ventura 9 
Afii foiçou a duvida aos Paí^ores : 

Se bem me ferem fempre , fom ter cu» > 
Do Minino os ardentes padadores , , 
Mais me fere da Macm a fcrmofura* 



YbS Sonetos 

C C X I V. 

EcTB tetrefte Caos com feus vapores 
Wo pôde condenCar as nuvens tanto , 
Que o daro Sol nâo rompa o negro manto 
Com fuás bellas , 8c luzentes cores : 

A ingratidão efquiva de rigores 
Oppofta nuvem he , que dura em quanto 
Nos náo converte o Ceo em trifte pranto 
Suas vans efperanças , feus favores : 

Pòdefe contrapor ao Ceo a terra » 
£ eftar o Sol por horas edjrplado , 
Mas náo pôde ficar efcurecido t 

Pôde prevalecer a voíTa guerra » 
Mas a pelar das nuvens declarado 
Ha de fer voflo Sol , 6c obedecido. 

C C X V. 

Ht?MA admirável erva fe conhece , 
Que vai ao Sol feguindo de hora em hoUf 
Logo que elle do Eufrates fe vè fòra , 
£ quando eftà mais alto , então florece : 

Mas quando ao Occeano o carro dece , 
Toda a fua belleza perde Flora , 
Porque ella fe emmurchetfe , Ôc fe defcòta^ 
Tanto CO a luzauíente fe eatriftece : 

Meu Sol , quando alegraesefta alma voílà^ 
Moftrandolhe efle roftro , que dá vida , 
Cria flores em feu contentamento : 

Mas logo em náo vos vendo , entriíledda 
Se murcha , &ie conTume em gráo tormento. 
Nem ha quem voíla aufenciji íofrer poíla. 

ccxyi 



c c X V r. 

^HEèÈi àctè]o meú , pois qúe à VéntUfà 
9à vos cera áos feus braços levantado ^ 
Oue a belU caHfa de que tots gerado ^ 
O mais dicoíb fim vò^ aílegurá t 

Se afpitaes pòr oúfadò a canta attúrà » 
Káo VOs efpante iiáver áo Sòl chegado > 
l*orqiie ^e ât Agiiia Real VoSò cuidado ^ 
Que quanto mais ò fòfte , mais fe apurai 

Animo , coração , qiie o pènfaMénCd 
Te pôde inda Fazer mkís glóríofo > 
Sem que refpelte à teu meíe<^iméntO t 

t^i^exreças inda mài& , he já fórçofo > 
Porque fe foi de oufado ò teu intento > 
Agora àe atrevido he venturór<K 

C C X V I. U 

He o gotaáo bem em àgoa ehrrftò ^ 
Vive no defejàr , morre nò efícito ^ ^ 
O defejado tempre he mais perfeito ^ 
Porque xem parte àlgunia de infínito i 

í^r a humaàliàa immottal gozo prefctiti^ 
£m rtrdadeiro amor , fora dèíièlto , 
Por inodo Tu^rior > não impetfeico > 
Sois tzceiçáo de quá&tò aqui lin^ico : 

De húmã efpetançà Aunca conhecida » 
Da do defecar náo alcançada 
$ejreià nuis derejáda {>o{íuida t 

Nàõ foàiti» da eíperánçá iíer àmáda » 
Vifta podereis íeí » dL eúxáú mais tri^ ^ . 
Porém náí> ícm agravo compai^adâ»' 
Tênu //» K 



lltik $ o N í T o 1 

C C X X I I. 

Que moda ego TubtU da ixaturcxA^ 
rara fugir *o mundo , & fcus. enganos % 
Sl^ejmittCy que cfconda em tenros anaoí^ 
Debaixo de hum buiel canta bçUeia '. 

Masnâo pôde eCconderCe aquella alte.3»» 
X graviílade de oUios fobcranos. , 
> cufo.tcfpUivdoí entre os bumanoa 
Heíiftencia não íinco , ou forcajleia : 

Quem quer livie ficai; de dgr ^ & pena t 
Vendoa ii » \i crazsndoa na mcmona » 
l^a metbaa ta3;4o íTua Ce condena ; 

Porque queoa iitiercceo ver tanu glotUii 
Çi^lvo ha de ficar , que fíxaot ordena > 
Quç de iujca tci^» ^^ ^ vitoria « 

Ç Ç X X I I í. 

Na margem, dç huni ribeira,, que fçpdía 
^o*n liquidç. criíUl hum. vetdc prada ,, 
O trifte Paftor Liip dçbruçado » 
Sobre o ttcoacct dç hum Crcixo., gfli di^Rl 

Ah ! Naiarcia, cruel > quem te defyiA 
IfTq cuidado teu , do meu cuidado í 
Sc tanto hei de penar dereng2gu.do x 
enganado ^e « yiyçr queria ;. 

Que foi daquella ft , que tu nic d.èftç » 
paquelle putQ amoi: , que me moílraâe í 
Quem tudo trocar pode tam aíinh^ i 

Quando eÃçs olho^ teus noutro puzefte ^ 
Çónío te não lembrou » que m,e juraíle 
fcu; \oásk a fu^Iui . ^e e.ra.s {q mi.al%í|.i 



1>E L.*I>t CaMO<XS. 11)1 

C C X X I V. 

Si mé^vexn rama gloria fò de oliuíice » 
Hefeiiá deâgiiat deixar de retce ', 
Se prefiLtão com obras nierecerte , 
C^ráo paga de hvtm engano iie defe^arte : 

€6 afpko' 9 por ^aem. e» , a celebracte y 
Sei cerco y por quem fou , 4 iieide oiFenderce» 
Se mai me qu^io a mi , por bem^quererte > 
Que premtot^uerer poílo , mais que amaite l 

Porque h& xAo rato Affiorfláomefoccocceí 
O hufluuo «faefoOTo ^ ò doce gloria ! 
Dicofo quem á «lorcepor eircorre ! 

Sempre eíçripia eftarás tiefUr memofia y 
£ efta alma vivirà » pois por ú mocre « 
Porque ao fim da batalha he a..viâQCÍa* 

C C X X V, 

CKxotr a naicareza damas bellas.» 
Queforjio de alcospleâ]!o»> celebradas y, 
I>elias cornou as parces mais preoadas » 
£ a ▼&$ , íètthora , fez do melhor delias ; 

Hlasdiaoce vos fâo as eftcella&». 
Que ficão com «vos ver logo ecly^íadas^ 
Mas fe ella-cempor Sol eíTas roéàda& 
Luzes de Sol-ma)K>r y felices ellas ! 

Em- perfeição , em graça 9 àc gemtlesa » 
Por hum modo , encre humanos » pwegriso^ 
A codo o bello excede eilà beUeatat 

O quem civera parces de divino » 
Parii vos merecer ! mas fe pueexa 
De Âmoc 'Val anie vòs , ánfò^íott dino^ 



1^4 S o N » T o a . 

C C X X V I. 

Quem dillo ? canfe foi ? Hunu mwiangu 
Vòs yida , Q0mok eftait^ Sem eíperwi^i. 
Que diíeis coração } Que muko <|uero* 

Que fentis alma vds.^ Que AjaiQr.hefeto% 
£ «m fim coma viveis l^ Sicm confiança. 
Quem voifu^nu logo ? Htfma iembcao^ 
% fò iiellae^perais?'6ò nella efpero* 

£m ^ue podeis paiaci NiAo em que eftotk 
X em quecftata vò&í Em acabar a vida^ 
B tendelo pòc bcmí- Amor aquec*^ 

Quem vos obrigai af&i Saber quem (ba« 
S quem Càai Quem 4e todo eíU rendida^ 
Aquomrclididfteftais^ Ahumi&querer^ 

c C X X V I u 

Sb algum hoca cilà vifta mait fuave 
A cafo a^fflim volreia» em hum momentc^ 
Me íinio com hum cal concentamento » 
<^us náo tema que dana algum, me í^rave s 

Masquando-çom defdeme£quivo»& gcave^ 
O bellarofto i^e moftraia ieenta». 
Huma doi provo làt > hum tal' tormento ^ 
Que muito vêm a fer » que nâo.me acabe » 

KSl eftà minha vida > oul minha morte ' 
liQ^ yolyec di^lles. o&os , poia podeis 
Par c^una voka deUts mocte , ou vida > 

Ditofo eui^que aCeaquec> ou minha Cotccg 
Q(|e pu vida pam darvola me deia^ 



1 » 
i 



BB !• Dl CaMOEKS. ll^ 

C C X X V I I I. 

Tamto Ce foráo , Niofa , coftomaodo 
Meus olhos a chotar tua dureza , 
Que v3ip padando |à por natureza , 
O que pof accidcnce hiáo paflando : 

No que ao fono fe deve eftou yebBdojí 
E venho a tcUt íò minha trifteza » 
O choro não abranda efta afpereza , 
£ meus olhos eftáo fempre chorando : 

Afli de dor em dor > de magoa em magOA » 
Confumindofe via inutilmente , 
£ efta Tida também vâo confanúnda : 

Sobre • fogo dfi Amor inútil si^oa I 
Pois eu em choro eftou continuamente , 
£ da que you chorando 9 te vàs rindo* 

C C X X I X. 

Eu mfi aparto de vos , Ninfas do Tefo, 
Quando menos temia efta partida y 
£ fe a minha alma vai entriftecida , 
Nos olhos o Tereis , com que vos Tejo 1 

Pequenas eTperanças , mal fobe^o » 
Vonude y que a razáo leva vencida ^ 
Prefto veráo o fim à trifte vida , 
Se vos náortorno a ver comodeTejo : 

Nunc^ a noite enue tanto , nuoca o dU ^ 
Verio partir de mim voâà lembran^ » 
Amor , que vai comigo o certifica : 

Por m^is que no tornar haja tardança.» 
Me faráo /empre trifte companhia 
Saud«d99 do bem > ^tc em voe me fica«. 



IXí- . S o NI T o 9 
. Ç C X X X. 

DirxNA conpanhia y que nos fodot 
Do claro Eiirotat, ou no Olimpa monte ^ 
Ou fobre a» margens da CaAalta fome , 
Voílos eftudos tendes mais farpados :.' 

,Pois poc deítíno dos immov^eis. fados » 
Quereis «jue em voiTo numero me come 
No eterno templo de Belcrofome , 
Ponde em- bronsee eftes verfos emalhados t 

«Setiíò ( porqite em fsculos fniuios 
Se veja da bellcza o que merece > 
Quem dèiâèéaidaudtée a mente inflama 8 

Seus eícrjpccis da forte yà. firguros 
A eíl^ aras em huma mâo ofrece , 
£ a aUna em õutça á fua beiia Dama» 

C C X X X 1. J 

A LA margendel Tafoen claro dia ^ 
Con ra/ado marfii peinando eftava 
Nacareia.ftts cabellos , y quicara 
Con ^us ofos la luz ai Sol > que ardia i 

Solifo, que qual Clicte la feguia> 
Lexos de  y mas cerca delU. eftava p 
Al fon de fu zampfaofía celebraT» 
La caufa de fu ardor » y a(£ dizia*: < . 

rSi tantas r como tu tienes- cabeUos^ 
Tuviera Vidas yo , me las lleváras * 
Colgada cada qual dei uno deilos :.. 

De no tenerlas tu me confoiàras p • 
Si tancas vezes mil como fon ellos > 
Ja elios I la que cengo , me eoredàsaCr 



i»E L, n£ Ca HO CMS.' 117 

c c X X X I I. 

PoB. glpria CUTC un tiempo eircrpeccU4a» 
Perdiame de puro bien canado , 
Gane quando perdi fcr libertado » 
Ubce ágorsi ms vcq más vencido : 

Venci > quaD4Q de Nize fui rencUdof 
Rendimc > por nQ fer delia, dexada , 
Pex^me en I4 memoria el bien paílada » 
Paila agora a llorar 1q que he fervido ; 

Servia ai premio dç la lu% y «^ue amava » 
Amimdola > efperavale por çierto , 
InciertQ me faliò quanto eípcrava ; 

La efperança Ce queda en deíconcierco ^ 
l\ conciercQ en el mal , que no penCava 
£1 pcJoTamiçiito con up fin inçierto* 

C C X X X I l I. 

Rebuelyq en la inçeíTable fautafia « 
Quando me he vifto en màs diçhofo eAadOf 
Si agora , que de Amor vivo inflamado » 
Si quaado.de fu ardor libre vivia : 

£nconcc$ dcíla, llama TqIo huia » 
Peíprecíando em mi vida fu cuidado ^^ 
Agora coA dolor de {o paiTado , 
Tengo pór gloria aquello que temia ; 

Bien veç , que era vid^ deleitoía 
Aquella que lograva ^ temoresi. 
Quando guílos de Amor tuve por viento. « 

Mas viendo oy a Natareia can hermofa » 
^Uq en eíU priíion glorias mayores , 
y cn perdetUs ^ poi; Ubre , bailo ^onn^^i;^ 



iiS Sonetos 

c C X X X I V. 

Las penas recumbavan ai gemido 
Del mifero zagal , que lamentava 
£l dolpr , que a Ai alma laílimava 
De un obftinado defamor nacidò : 

£l mar , que las bacia , fu bramido 
Con los retumbos delias ayuntava y 
Confufo fon ai vicnto derramava 
£n cavemoros vailes repetido : 

Refponden a mil Uanto duras peSasy 
Ay de mi ! ( dixo ) Ia mar brama yj gime p 
Los eccos fuenan de trifteza Ilenos : ' 

Y tu^por quien la muerte en mi fe imprímef 
De -oir Ias anfias mias te defdenas , 
Y quando lloro mis , te ablando menos* 
C C X X X V. 

£n una felva ai defpuiitar de! dia , 
Eftava Endemion crifte , y Uorofo y 
Buetto ai rajro dei Sol , que preruroToy 
For la falda de un monte decendia : 

Mirando ai turbador de fu alegria , 
Contrario de fu bien , y fu repofo , 
Trás un fufpiro , y ocro congoxofo ^ 
Razones femejantes le dizia : 

Luz clara , para mi la más eibura » 
Que con elle paíleo aprefurado , 
Mi Sol con tu ciniebla efciíreciíle : 

Si allá pueden moverte en efla altura 
Las quexas de un Paílor enamorado » 
No tardes en bolver adó falifte. 



]>K L. DE CaMOENS. Ilf 
CCXXXVI. 
OnPHEo enamorado , que canía 
Por la perdida Ninfa , que buícava y 
£n el arco implacable y donde eftava , 
Coa la Arpa , y con la voz la encerneda : 

La Tueda de Ixion no fe movia , 
Ningun atormentado fc quescava , 
Ias penas de los ocros ablandava , 

Y folo Ias de todos èl fentia : 

£1 fon pudo obligar de tal manera , 
Que en dulce galardon de lo cantado » 
Los infernales Reyes condolidos , 

Le mandaron bolver fu compancra } 

Y bolviòla a perder el defdichado , 
Con que fucron entrambos los perdidoí» 






J!''^f^ 



^ 



xxxxxxxxxxxxxxxixxxxxxxxxxxxxx 






Jà. 



CANÇOENS 

D E 

LUlS DE CAMOENS. 



F 



C A N Ç À M L 



SUMOS A , tí gentil dama > qttândo ve)« 
A tefta d'ouro 8c neve > o lindo afpeíto y 
A boca graciofa /o dfo hoheftb > 
O colo de criílal » o branco peico , 
De meu nam quero mais > que meu ^lefejo $ 
Nem mais de vòs, que yer cam linclogefto» 

AlU me nuinifeílo 
por vodo a Deos, & ao mudo *, alU m*infiamo 

Nas lagrimas , qiie choro > 

£ de mi , que vos amo > 
£m ver , que foube amarvos , n\e namoro l 
E fico por mi fô perdido de arte > 
l^ue çi ciúmes de mi por yoíla part«« 



CaNÇÔ£KS Btt. ÔE CAMÓ£Kâ. ti|: 

Se poi. Ventura vivo defcontente > 
Por fraqueza de efprito padecendo 
A doce pena , que entender nam fei s 
Fujo de mi , 8c aColhome correndo 
A* Toílà yifta y & fico tam comente » 
Que zombo dos rormencos , que paílci ^ 

De quem me queixarei , 
Se tòs me dais a vida defte geito , 

Nos males , qUe padeço j 

Senam de meu fogeito > 
Que nam cabe com bem de táúto pfeçd) 
Mas iúda iflo de mi cuidar nam poíTo > 
De eftar muito foberbo com fcr voíTo. 
Se pOU algum acerto amor vos erra , 
Por parce do defejo cometendo 

Algum nefando , 8c torpe defatino í ~?^ 

Se ainda mais , que ver em fim pretendo 9- 
Fraquczas íàó do corpo , que he da terra 9 
Mas nam do penfamento , que he divino s 

Se tam alto ima^no y 
Que de vifta me perco , ou pecco nifto ^ 

Deiculpame o que vejo 9 

Porque fe em fim refifto y 
Contra tam atrevido , & vaõ defejo , 
Paçome forte em voda vifta pura 9 
£ armome de voiTa fermofura. 

Das delicadas fobrancelhas pretas 
Os arcos , com que tira y amor tomou > 
£ fez a linda corda dos cabellos : 
£. porque de vòs tudo lhe quadtâu > - ' 
7om. //• L 



IX& Can^obns 

Dos rayos deíles olhos fez as feus 9 

Com que fere > quem alça os feus a vcUos^ 

Olhos que íaõ um bellos » 
DaÔ armas de ventagem ao amor » 

Com que as almas deílrue i 

Porem fe he graode a dor , 
Com a alteza do mal a refticue > 
E as armas , com que mata faõ de forte » 
Que ainda lhes ficais devendo a morte. 

Laguimas , & fufpiros , penfameucos. 
Quem delles fe queixar , fermofa dama > 
Mimofo eftà do mal , que por vòs fente : 
Que mayor bem defeja « quem vos ama f 
Que eftar defabafando feus tormentos , 
Chorando , U imaginando docemente i 

Quem vive defcontente » 
Nam ha de dar alivio a feu defgoílo » 

Porque fe lhe agradeça : 

Mas com alegre rofto , 
Solu feus males > para que os mereça : 
Que quem do mal fe queixa > que padece 9 
Fallo , porque eila gloria , mm conhece. 

De modo , que fe cae o peníamento , 
Em alguma fraqueza de contente y 
He porque efte fegredo nam conheço : 
AíC que com razoens > nam tam fomente 
Defculpo ao amor de meu tormento » 
Mu inda a culpa fua lhe agradeço : 

P&r efta íc mereço 
A gra^ que eíTcs olhos acompao^. 



9E L. T)E C A M o E N S. li| 

O bem do doce rifo j 
Mas porèiD naó fc ganha , 

Com hum paraífo , outro parai fo y 

£ aífi de enleada a efperança , 

Se fatisfaz co bem , que nam alcança* 
Se com razoens eTcufo meu remédio , 

Sabe cánçam , que he porque nam vejo , 

Engano com palavras o defejo. 



A 



C A N Ç J M I L 



I14STABILXDADZ da Fortufia » 
Os enganos fuaves de amor cego , 
( Suaves fe darâraó longamente ) 
Direi , por dar à vida algum foíTego ; 
Que pois a grave pena me importuna ^ 
Importune meu canto a toda a gente ^ 
£ fe o paílàdo bem co mal prefeute , 
Me endurecer a voz no peito frio , 

O grande dervarío , 
Dará da minha pena (mal certo y 
Que hum erro em tantos erros he concerto s 
E pois nefta verdade me confio 
( Se verdade fe achar no mal , q^ue digo ) 
Saiba o mundo de amor o deCconcerto » ^ 
Que )à com a razaõ fe fez amigo y . 
Sò poc nam deixar culpa fem caftigo» 

J a' amou fez leys,fem ter comigo algui«»i| 
Já fe tomòU de cego arrazoado » 
Sò por ofar cotnigafem razoens , 

L i| 



U4 Camçoen» 

£ fe em alguma coufa o tenho errado » 
CoiQ íiTo grande dor nam vi nenbuou » 
Nem elle deo Tem erros aífèiçoeos , 
Mas por iifar de Tuas Ueoçoens , 
Bufcou fingidas càuTas por macacme » . 

Que para dercubarme 
Em o abifmo infernal de meu tormento » 
Nam foi foberbo nunqua o penfamenco , 
Nem pretende mais alto levancarme 
DaquUlo , que elle quiz , & fe elle ordcpa f 
Que eu'pague feu ouíàdo atrevimento , . 
Saiba > que o mefmo amor» que me condena > 
Me fez cahir na culpa , & mais na pena. 

Os OLHOS , que eu adoro » aquelie dia f 
Que defçcraõ ao baixo penfamento » 
N'alma os apofentei fuavemente ; 
£ pretendendo mais , como avarento f 
O coração lhe dei por iguaria » 
Que a meu mandado tinha obediente : 
Porem como ante fi lhe foi ptefente , 
Que entenderão o fim de meu defejo^ 

QvL por outro defpejo , 
Que a lingoa defcubrio por defvario* 
Pe fçde morto eílou pollo num rio , 
Onde de meu fervido o fruito yejo , 
Mas logo fe alça , fe a colhello venho » 
f. fogeme a agoa 9 fe beber porfio » 
AijS , que em fome , (^ fede me mantenho , 
tHííin tem Tântalo a pena » que eu foílenho. 
pESPou q aquella^em que minh*aima vive 



Dl L. DE CaMOENS. TX5'f 

Qtti2 alcançar o baixo acrcvimenco , 
Debako deíle engano a alcancei : 
A nuvem do contino peníamento , 
Ma afigimm jux braços 9 6c affi rire » 
Sonhando , o que acordado dcTefei » 
£ porque a meu defejo me gabei > 

£>e iúcançaf ha Ai bem de tanto preço 9 

Âièm do que padeço , 
Atado em huma roda eftou penando , 
Que em mil mudanças me anda rodeando^ 
Onde fe a algum bem Tubo , logo dtíp » 
£ aífi ganho , ttc perco a confiança : > 

£ aíll de mi fugindo > trás mi ando » 
B aífi me tem atado huma vingança , 
Como Ixiam , tara firme na mudança» 

QuA^NBo a viíla fuave , & inhumana» 
Meu humano defejo de atrevido , 
Cometeo , fem faber , o que fa^ia , 
Que de fua fermofura foi nafcido. 
O cego moço , que co a feta infana y 
O peccado Vingou defla oufadia : 
£ aiòca- efte mal , que eu merecia > 
Me deo outra maneira de tormento > 

Que nunqua o penfamenco , 
Que fempre voa de huma a outra parte , 
Deflas entranhas triftes bem fe farte , 
Imaginando , como o fanutlento , 
Que come mais , & a fome vai crefcendo ^ 
Porque de atormentarme cam fe aparte , 
Aâi que para a pena eflou vivendo ; 

L iii 



'tl.6 CANÇÒENt 

Sou oucro novo Ticio , & nam me «atendei 
De roNTADCs alheas > que eu coubàra > 
E que enganofaiiiente recolbúi. 
Em mea fingido peico me mantíiúta ; 
De manetnt o engano lhe fingia > 
Que defpois que a meu mando asfojugâ^ay 
Com amot as matava , que eu xum (inha » 
Porém logo o caftigo » que ^uvinha , 
O vingativo amor me fez Centifr >' 

Faieodome Cubir 
Ao monte de afpereza , que em voi vejo 9 
Co pefado penedo do deCejo , 
Que do cume do bem me vai cahir » 
Torno a fubilo ao defejado aflento , 
Torna a cahirme 9 em balde em fim peleJQ ^ 
SiQfo , nam te efpantes defte alento > \ 
Que às cq(Us o fiibi do rofrimem». 

Dest^ arte fummo bem fe me oBFeiece 
Ao faminto defejo , porque finta i 
A perd^ de perdçUo mais penofa , 
Cpmo o avaro » a quem o fonho pinta % 
Achar thpfouro grande , onde enriquece ^ 
£ farta fyia fede cobiçofa s 
^ acordando com fúria prefuroCa y 
Vai <;avar o lugar , onde fonháva : 

Mas tudo , o que bufcáva , 
the converte eip çarvaõ a defvcntura > 
AIU fua cobiça » mais fe apura 9 
por lhe faltar aquillo , que efperàva ; 
Dçfta attc axoo]; me Saj, perdei o ã£o. 



91 L« BI Ca MOEM s. 1X7^ 

For^oe aque^les , que eíUõ na noite efcma» , 
Nunqua fentiràõ tanto o triâc obíCá, 
Se igaqrarem o bem do paraífo. 

CAMçAM>nam mais, 4 í^ axmikij qne ^1^0% 
Mas porque a ÓQi me fisja menos £bcte » 
Diga o prçgaô a caufa déâa morte^ 

C A N Ç A M III. 
T 

J a' roxa manhaá claca 9 
Do Oriente as portas vinha abrindo jf 

Dos montes defcubriudo 
A negra eTcuridaâ da luz avara : 

O Sol , que nunqua pára , 
De Tua alegre vifta faudofo , 

Trás ella predurofo y 
Nos cavallos canfados do trabalho , 
Que rcípiraõ nas erras frefco orralho , 
Se eftende claro , sdegre , & luminofo \ 

Os paíTaros voando > 
De taminho , em raminho , vaô fakandov ^ 
£ com fuave , & doce melodia , 
O claro dia eftaõ manifeílando. 

A- MANHA A bdla, fie amena^ 
Seu lofto defcubtindo , a eTpeíTura - 

Se cobre de verdura > 
Clara » fuave , angélica , ferena \ 

Oh deleitofa pena k 
Oh e£S9to de amor , alço , 8c potente | 



Que onde quer , 4 ™^ *^^^ ' ^ ^''^^ eftels^ 

'Sempre o Serafim Teja > 
Por quem de viver trííle foa comente : 

. . M;rs ta Aurora por»» 
De tanto -yein <lâ graça« â voitura , 
Pois a foi pòc em ci tam ezcelUnoe 9 
Que teprefentes tanta fermoCura* 

( A. \Ú» fuàve , & leda , 
A meus olhos me moftra , por quem mouro , 

£ nos cabcUos de ouro » 
Nam t§ritla os que vi , mas arremeda » 

£fta he a luz , que arreda 
A negra efcurtdaõ do fentbnento 9 

Ao doce penfamento ; 
O orvalho das flores delicadas 9 
Saõ nos meus olhos lagrimas caníadas , 
Que eu chor* do prazer de meu tormento : 

^ Os paâaros , que cancaõ , 
Meus elpiritos íaõ , que a to^ kvantaõ > 
Manifeftando o geâo peregrino > 
C091 tamdiyino fom,que omundo e^anuó. 

Assi ,coMo acontece , 
A quem a cara vida eftâ perdendo , 

Que era quanto vai monwad^ 
Alguma vifaó (anta lhe aparece : 

A mi em quem fallece 
A vida , que fois vòs , minha Teohora , 

A eíla alma > que em vòs mora 
i Em qiianto da prifaó íè eAâ apartando } 
Vos cíUis junumencp apreíeAjcandp^ 



DB t. 0B CaUOKNS^ t%$ 

Em fòtma da fermofa « òc roxa Aurora } 

O dicoTa partida ! 
Oh gloria foberana , alta y & Tubida ! 
Se mo nam impedir o meu defejo , 
Por(|ue o que vejo. em fim , me corna a Tidct 

PouBM a natureza , 
Que nefta yifba pura fe mantinha 9 

Me falca tam afinha, 
Qua5 aíinha o Sol falta à redondeza s 

Se houverdes , que he fraqueza » 
Morrer em tam penoCb , &c trlAe tíkàdof 

Amor íerà culpado y 
Ou yôs , onde elle vive tam izento » 
Que cauCailes um largo apartamento , 
Porque perdeíle a. vida co cuidado ^ 

Que fc viver nam poflo> 
Homem íbrmado Cou de carne > & o^To p 
£(bi vida 9 que perco > amor ma. deo , 
Que nam fou meu, Ce morroyO dano Ke voíToit 
CANÇAMde C^fne , feiuem hora eftrema^ 
Na dura pedra fria 
0a memoria , te deixo em companhia 
Do letreiro de minha fcpulcura 9 
Que a fombra efcura jà me impede o dia» 

cjNÇjM ir. 



V 



A M as ferena» agoas » 
Do Mondego deícendo , 
Tam manfamonsç, <iuc atè o w^t nam pàra6f 



A 



ijo Cakçóimí 

Por onde minhas magoâS » 

Pouco a pouco crefceado » 
Para nuii4^ acabar fe começarão p 

Alti fe me a}unuraô , 

Nefte lugar ameno» 

Aonde agora mouro , 

Tefta-de neve , & ouro , 
Rifo brando , & fuave , olhar Tereiío » 

■ Hum gefto delicado , 
Que fempre na alma me eftarà pintado. 

Nesta florida terra. 

Leda , freíca , & ferena , 
Ledo y 'de contente para mi Yiyia : * 
t Em pat com minha guerra , 

Contente com a pena , 
Que de um beltos olhos procedia » 
* Hum dia no outro dia > 

O efperar me engaiiàva , 

Longo tempo paíTei , 

Com a vida folguei » 
5ò potque em bem tamanho, me emproava : 

Mais que' me prefta jà , 
Que tam fermefos olhos nam os ha ? 

Oh quem me allidiflcra » 

Que de amor tam profundo , 
O fim pudeíle ver inda algum hora ! 

Oh quem cuidar pudera , 

Que houveíle ahi no mando » 
Apartarme eu de vòs ^ minha Cenhora » 

^ara que defde agoca , 



DB L* DE CaMO£>IS. 1 3 S 

PcrdeíTc a cfperança, 

£ o vaõ penfamento , 

Desfeito em hum momento ', 
Sem me poder ficar mais , que a lembrança 

Que femprc eftatà firme 
Atd o derradeiro defpedirme. 

Mas a mòk alegria , 

Que daqui levar poílo , 
Com a qual defenderme trifte cipero , 

He , que nunqua fencia , . 

No tempo , que fui voffo , 
Qucrcrdcfmc vòs, quanto vos cu quero, 
' Porque o tormento fero ^ 

De voílo apartamento y 

"Nam vos dará tal pena , 

Como a que me condena > 
Que mais fentirei voíTo fentimento , 

Que o que minha alma fente : 
Morra cu , fenhora , & vòs ficai contente» 

Camçam , tu eilarás 

Aqui acompanhando y 
Eftcs campos , & cftas claras agoas , 

£ por mi ficarás , 

Chorando > & fufpirando , 
£ a o mundo moftrando tantas magoas ^ 

Que de tam larga hiftoria , 
Minhas lagrimas fiquem por memoria* 



iljl CANÇOIMt 

C A N Ç A M F. 

13 E efte meu penfamento 

Como he doce , & Aiave , 
Da alma pudeíle vir gritando fora , 

Mòílrando feu tormento , 

Cruel aTpero , 6c grave , 
Diante de vòs sò , minha fenhota* 

Pudera fer , que agora 

O voflo peito duro , 

Tomara manfo , 6c brando » 

£ eu que fempre ando 
Paílàto folitario , humilde , obfcuro. 

Tornado hum Cifne puro , 
.Anuído y & fonòro |>eIo ár voando ^ 

Com canto maniíeílo , 
jPintàra meu tormento , & voflb gèíte. 

PiNTAiLA os olhos bellos , 

Que trazem nas mininas 
D minino , que os feus nelle cegou : 

£ os dourados cabellos » 

Em tranças de ouro finas , 
'A quem o Sol feus rayos abaixou t 

A tcfta , que ordenou 

Katurà tam fcrmofa , 
^ O bem proporcionado 

Nariz lindo , afilado y 
t2^e cada parte tem da frefca rofii , ' 

A bpca giaciofa « 

QttC 



DE L. DE CaMOENS. 1)1 

,Que querella lourar he efcufado ^ 

Em fim he hum thefouro » 
Petolas dentes , & palavras ouro. 

ViRASE claramente , 

O* dama delicada , 
Que em vós fe efmerou mais a natureza ^ 

£ eu de gente , em gente 

Trouxera nafladada 
Bm nfta tormento voíla gentileza ; 

Somente a aípereza. 

De voíTa condição , 

Senhor;^ , nam diilèra , 

Porque fenam foubera 
Que em vòs podia haver algum fe nam i 

£ fe alguém com razaõ ^ 
Porque morres , difleííe > refpondera 9 

Morro , porque he tam beila , 
Que inda nam fou para morrer por cUu 

£ SB PELA ventura 9 . 

Dama , vos oftendeííe 
ETctevendo de vòs o que nam fento 

£ voíla fermofura 

Tanto à terra defceíTe , 
Que a alcançaíTe humilde entendimento > * 

Seria o fundamento 

Daquillo , que cantade , 

Todo de puro amor , 

Porque voílo louvor 
f m figura de magoas fe moílraíle i ' ' 

íondefcjulgaffe ' 



754 Cançobns 

A caufa pelo eí(eko y mioba doe 

Diria alli ,. fem medo » 
Quem me fencir verá » de quem procedo* 

Entaõ a medraria , 

Os olhos faudofos » 
S o rufpirar ^ que traz a alma coníigo ; • 

A fingida alegria , 

Os pálios vagarofos , 
O fallar , & efquecerme do que digo ^ 

Hum pelejar comigo > 

£ logo difculparme > 

Hum recear oufando , 

Andar meu bem bufcando > 
B de poder acballo acovardarme , 

£m fim averiguarme , 
Que o fim de tudo quanto eílou fallando > 

Saó lagrimas , & amores , 
Saõ voíTas izençoens , & minhas dores. 

Mas quem terá , fenhora > 

Palavras , com que iguale 
Com voda fermofnra miiúia pena , 

Que em doce voz de fora 

Aquella gloria falle , 
Que dentro na minh'alma amor ordena ^ 

Nam pôde tam pequena 

Força de engenho humano 

dom carga tam pefada , 

Senam for ajudada , 
Pe hum piedofo olhar , de hum doce enganO| 

Que fazendo me o danno 



DC C, X^S C AMO t N S. íjy 

Tam deleicofo , & a dor cam moderada , 

£m fim fe conyerteíTe 
Nos go/los dos louvores , que efcreveílè. 
Cançam, nam digas mais, & Te teus verfos 

A* pena vem pequenos , 
Nam quciraõ de ti mais , que dirás menos* 

C A N Ç A M VI. 

V^oM força deAifada ^ 
t Aquenta fogo eterno , 
Homa Ilha là nas partes do Oriente p 
De eílranhos habitada > 
Aonde o duro inverno y 
Os campos reverdece alegremente ^ 
«^ • . A Luíitana gente > 

PcA: aiteas fanguínoTas > 
Tem ddia o fenhorio : - 
Cercada eftá de hum rio ^ 
De maritinus agoas faudofas, . 

. Das ervas,' que aquinaTceniy- - 
Os gados funcameóte , & os olhosT pacenui 
Aqui minha ventura, 
% Qui2 que huxna grande parte 
Da vida 9<qiie nam tinha , fe paílaíle , 
Paeaqae a fepultara , 
Nas mjlos do fero Marc4 , 
De íàngue , 8c de lembranças , matízaíle \ 
Se amordeterminalle , 
QM9 a troco deiU vida- , 

M i) 



De mi qualquer memoria » 

Fica^e como hiíloria , 
Que de hums fermofos olhos fbfle lida ^ 

A vida 9 U alegria , 
Por cam doce memoria trocaria* 

Mas este £ngimeaco , 

Por minha dura forte , 
Com {alfas çfperanças me convida p 

Nam cuide o penfamenta > 

Que pôde achar na morte , 
O que nam pode achar tam longa vida i 

, £ílà )à tio perdida 

A m|nlia confiança > 

Que de defefperádo , 

Eip ver meu trifte eftàdo » 
Também da morte perco a efperança %. 

Mas oh y que fe algum dia 
•Defcfperar pudeíle , viviria ! 

T)t QUAHTO tenho vifto t 

Jà agora lum me cfpanto y 
<2ue arè defefpetar fe me defende s 

Outrem foi caufa difto > 

Que eu nunqua pude Unto » 
Que cauiaíTe .efte fogo , que me encende f 
, Se cuidaò , que me ofiènde , 

Temor de efquecimento » 

Ox^U meu perigo y 

Me fora tam amigo » - . 
Cue algum temor deixara o penlamento \ 

Quem vio tamanho cnleo^ ■ 



DE 1. Dfi C AMO^ lis, t^f 

Que hourcíTc ahi efperança fcmVeceò? 
« * "QtítM TEM , qilíe perder pofla 9 

Sô''pòdc recear « 
Mas ttiífe qutím nam pôde )à perder j 
^ ' SeiíHora , a culpa hè vpfíá ^ 

Que para me matar , ' 
Baftàraliuin hora sòde tos haín vèr-; 
<• ''~ "Pòfetteme em poder ■ '• 

De^fklfas efperançai , 
• "*• E do que mais me'cípântôV - ^ 

Qtie' minqua vaHi- tanto 
Que viilé tanto bem como efqtiitáDçâs : 

«Valia tam pequena , ' ' ' 

Nam pode merecer tam doce pena. 

Ouve SE amor comigo 

Tam brando , Ôc pouco irado y 
Quanto agora em meus males fe conhece^ 

Que nam ha mòr caftigo , 

Para quem tem errado , 
Que negarlhe o cailigo , que merece » 

E bem como acontece , 

Que aíC como ao doente j 

Da cura defpedidb, 

O medico fabido ,- 
Tudo quanto dereja lhe con^ente^| 

Aífi me confentia > 
Efperança , desejo ; & oufadía» * 

£ Agoka venho a ç(ar 

Coiu:a do bem pafiado ,. 
k dU tp£U vida 9 & longa aufencias 

MiiJ 



rQuem pôde tnuginar , 

Que houTeíIe em mi pecçado ^ 

Que 'mereça cam ^ave penitcjida i 

CÚbÚ p ^nc be confcieuyqia „ , 
Por )ium.cam pecjueno ecto> 
-Senhora », tanu pena :,.,,<-, 
liam. vedes » que he onzena •^. ' 

Itlas Te cam longo » 6c mifero defteno » 
Vos dá concenumenco > . ^ 

Nun(|ua me ^cabe nelle meu, cpcmeixo* 
Rxo f fijLMoso ^ & claro ]| 
. £ yòs ò^ arvoredos , 

Que os juftos vencedores coroais > 
£ ao cultor avaro • 
Concinuamente ledos , 

De hum cronco í& diveríos fruto» dú» t 
AíH nunqua iintais » 
Do tempo. injuria algúa^ 
Que em vos achem abrigo 
As magoas , que aqui digo > 

Em quanto dèc o Sol virtude à Lua } 
Porque de gcnrc « em gente , 

Saibaõ » que já nam mata a^ vida attfsote. 
Cançam y nefte defterro vivirás 
V^z nàa , 6c defcubertj^ , 

Ate que o tempo e;m ecco te converUi. 

C J NÇ J M FJl' 

JVIaniíame amor , 4 cante docemente j 
Oqu^^c ]á tm imnb'alm4 tem impreco /• 



Com pieAipoAo ds deíabafarpie > 
£ pocqae com meu mal feja çonteoce » 
Diz , que pw 4p:,um liados olhos piefo » 
Concalle^ htiítaâa a coatentarme : 
£fte escceljeBtf modo de enganaime j^ 
Tomara eu fò ds amot ppr ^ficereíTp ^ 

Se aam fe acrependefle 
Com^peaa^o ei^geaho efcurecendo.:. 

Porèm^a.mais me acievo , 
£m^ viiaidp^ áo ^efko 9 de que efocyp y, . 
£ fe hei^ais o qÚACjMHo, qiie<Qique enGendoj^. 

In^ypciO fl.Ui¥lo afpeico ,. ^ 
Que podo m^:) qjie amor , em. meu deffsico* , 

$EM «piMiBC£|i «mqr Yivec fioihia , 
Seu arco » ^ CouSi ctaganos defpKzando j^ - 
<^uando fáv^ondo delies me maítfioha i 
O amor.çi^ancío» que Enfiar - 
Mil vontades aliíeas , eog^nandcvy 
Me fazia zomlsac 4e quem .0 úi)hA » 
No touro emrava Eebo ^ âc Pro^ne vinha > 
O corno de /n^heloo Flora entotnÀya».. 

Quand».o.amQjr foltàva 
Oi fios <^ -oura» a& tranças encrerpàdítf % 

Ao docç vento efquivas , 
Os fios i^uciando chamas vivas» 
2 as roÇuj entre a neve femeàdas >. 

Cori(io.i;?ia.gaUaceL^ , 

Que hum p^cp (^sfí^ra de diamante*. 

^XfíAM lei que Auive refpiranxlo 1^ 
Çíiurava buç^ a4<Qwadp: > ^ aoyo cCp^^o ^ ^ 




Que as coufâs ibfbnfiveis o (etíáiii^$ 
£ as^garrul «s ftvts levantando 
Votes dtfordenadas em fen danto > 
Como no meu defejo fe èneéikUK^ | 
As fontes ctiíhlinas nam cotriaô » , * 
Inflamadas da linda vifta pura "i 

Florecia a yerdâra , 
Que y ndandoy cos divinos pd» u 

Os ramos fe abaxáVáò , 
Ou de 'inveja das hervas , iqac pifiivi»» 
Oa pof<^c^ciido'-aine ella lê Abaltávlu 

Nam hoQte coufft-èoi €m , 
Qúe nam pafítiàSe dôlLi , ÒCwáe tnfm. 

PoKQue ^tutedo vi dar encejidimento. 
A's califas , que' o nam tinliflò ^-o* temor 
Me fea cuidair , <]vte eflèl to^ em ilii faria : 
Conhecime nam rer conhedmeílto » 
£ nifto sò 'O tíve , por amor 
Mo deixou 9 porque viíle o que podia : 
Tantt vingança amor de mi qu^ri» , 
Que mudava a liumana natureza' , 

Nos montes , & a durcsa ' 
Dellesem mi por troca trafpaflàvai 

Oh que gentil partido ^ 
Trocar o fer do monte fem fentkto >' 
Pclio que num fuizo humano eftiva t 
Olhai que doce engano y * ' 
Tirar comum proveito de meti dano. 

Assí <^UB indo perdendo o fentimenCa^ 
A( parte, racional- me encciAecia ; 



DzL. D£ Cakoems. X4r 

Vella #^jbiim apetite fometida , 

Mas dencio na alma o fim do penlàmeiíro « 

Por tam fublime cauía me dizia , 

Que eia razaô fer a lazad yencida : 

A mefma perdição a reftauràva 

£ em manfa paz eíUva , ' 
Cada hum com feu contrario num Axgeito t 

Qh grande concerto- efte ! 
Qfiem fera 9 que nam julgue , por celefte 
A i^Cà , donde vem tamanho eSeito $ 

. Que faz d'um coração « 
Que venha o apetite a fer razão i . 

Aqvi íènti de amor a mòr fineza ^ ' j 
Como foi ver fentir o infenfivel , 
£ o ver a mi de mi meímo perderme , 
Em fim í^nd negarfe a natureza » 
Por onde ^ri , que tudo era poffivel , 
Aos lindos olhos fcus , fenam quererme f 
Defpois, que já fcnti desfallcccrmc , 
Em lugar do fentido , que perdia , , 

Nam íei quem me eCcrevia , 
Dentro n*alma co as letras da memoria > 

: O mais defte proceílb , » 

Co claro gefto juntamente impreíio » 
Que foi a caufa de tam longa hiâoria , 

Se bem a declarei » 
Eu nam a efcrevo y d'alma a traíladel. 

Camçam , fe quem te ler , 
Mam crer dos olhos lindos , o que dizes ^ 

PellQ que enxãCc efcoAde ; . 



f4t CitMÇOtKS 

Of fcncidos humanos , lhe reTpoiuie^ 
Vam podem dos divinos fer |iiizea> 
Senam de hum penfamento » 
fQue a faka fupra a fè do entendimento* 

CaNÇAM viil 

X o M B I a triAe p^u > 

7à de dçfesperado , 
De voi lembrar as muitas, que padeço f 

Vendo , que me condena 

A £car eu culpado , 
Q mal > f lie me tratais , & o que eu mereço i 

Confeflo que conheço , 
< Que em parte a caufa dei 

Ao mal 9 em que me ve}o , 

Pois ièmpre meu defejo ^ 
A t»m largas promeílas entreguei t 

Mas ixam tire fufpeita > 
Que fegutíTeis tençaõ cam imperfeita. 

%t ÍM voílb erquecimento > 

Tam condenado eftoU , ' 
Como os finais demoftrao , que mdíhàis y 
' Viv^ nefte tormento , 

Lembranças mais nam dou , 
Que as que de efta lazaõ tomar queirais s 

Olhai ^que me tratais , 

Aífi de dia y em dia , 
^ Com voffas erquivanças^ 

£.as voilas efpcrançaci 



»£ L*. D £ C A M o E 19 S. Z4| 

De que vaQmente eu )â me enriquecia , 

Renovaõ 4 memoria » ^ > 

Pois com tella de vò& ÍÒ tenho gloria* 
£ SB ISTO coaheceíTeis 
: ^r a verdade piif ^ > . . ^ i 

Mais que de Arábia o ottco reluzente j| ' 
; Ioda que naraquifeíteis,., 
A. condição cam 'duta i 

Mudáreis n'oucia muito diíi€7encf & 
£ eu como innoceacc » 
Que eftou em.e(le cafoj 
lílo em as mâo^purera^ » 

De quem fentènçat dera*. 

Que ficaíle o direito |uílo , & razo» 
Quando oam receara 9 

Que a vòs por mi , & a mi por vòs macâra« 
' Em vòs efcritã vi 
Voila grande dureza , 

% na alma efcrica eftâ, que de v^ virt^ 
Nam que acabaãè alli , , 
Sua grande firmeza ^,', 

O aiíb jdefengano , que entáo tivç } , 

P^orque ançes que a dorprirç 
De todo meus .içntidos ^ 
Ao grande tormento 
Acode o entendimeiíco^ 

Com dous fortes Toldados | gua^eddos 
De rica pedraria» 

Que ficáo fendo minha luz » ^ guiji* 
D^STBi acompattha4o ,. 



144 Carçoen» 

EApu pofto fem medo 

ii tudo 9 o que o faul deítino ordene i 
Pôde fer que canfado » 
Ou feja tatde ou cedo ^ 

Com pena de penarme me defpene & 
£ quando mo condehe 
< Que ido he que mais efpeco ) 
Inda a mayores dotts-^ 
' Perdidos os temores , 

Por mais que venha , nam direi nam quero s 
Com tudo eftou tam forte y 

Que nem mudarme pôde a mefraa morte. 
Canç^ 9 fe )à nam querei 
Ver tanta crueldade , 

lÀ vàs onde yeràs minha verdade. 

* - ' * 

CANÇAM IX. 

*J UNTO de hum fcco , fero , & efterillttdlitíí 
Inútil 9 & ddC^ido , calvo , & informe , 
Da natureza em tudo aborrecido , 
Onde nem ave voa , ou fera dorme y 
Kem rio claro corre , ou ferve fonte ^ 
Nem verde ramo faz doce ruído : ^ 
Cujo nome do vulgo introduzido ^ 
He felix por antiphrafi infelicc r 
'" ■ O qual a natureza 
Situou junto á parte y 
Onde "hum braço de mar alto reparte 
Aba^ y dc' Arabicft aTpeceu ^ ' 

pfldd 



tos L D£ CamoeKs» t4f. 

t!rjide /andada fà foi Bercnicç , 

Ficando a paire donde 
O Sol , que Áella ferve » fe lhe éfironde» 

Nbllb aparece o cabo > com que a coíhl 
Africana y t|ue vem do Auftro correndo > 
limice faz ,. Aromata chamado : 
Aromara outro tempo > que correndo 
O tempo , a rada língua mal compoftá 
Dos próprios outro nome lhe cem dado t 
Aqui no mar , que quer aprefurado 
entrar pola garganta, defte braço , 

Me trouxe hum tempo , & (evft 

Minha fera ventura } 
Aqtti nefta remou , afpera , àc dura 
Parte do mundo . c^vAz que a vida brevd 
Também de íi dtixaíle hum breve efpaço > 

Porque ficaílè a vida 
^elo mundo em pedaços reparddít» 

Aqui me achei gaftaitdo hús triíles díâS % 
Triftes » foiçados , mãos 6c folitacios » . 
Trabalhofos , de dor & de ira cheos f 
Nam tendo tam fomente por conttariof 
A vida > o Sol ardente , & agoas frias ^ 
Os ares groíTos > fervidos « àc feos ^ 
Mas os meus peníamemos « qua faõ mef os f 
Para enganar a própria nacureu > 

Também vi contra mi , . 

Trazendòme á memoria 
Algúa jà pailàda , £c breve gloria » 
Que «a no mundo vi jà lyuiid^ vivi » . 
Tom, II. N 



'24^ Cançoihs 

por me dobrar dos males a afpereza » 

Por me moftrar , que havia 
Ko maado muitas horas de alegria. 

Aqui eltíve eu com eftes peníamentos 
Gaftando o tempo,8c a vidados qaaes cam alto 
Me fubiaõ nas azas , que cahia 
( £ vede fe feria leve o falto ) 
De fonhados , & váos contemamentos> 
Em defefperaçio de ver hum dia y 
Aqui o imaginar fe convertia , 
Kum fubito chorar , de nâs fufpirot » 

Que tompiáo os ares s 

Aqui a alma cativa , 
Chagada toda eftava em carne TÍva , 
De dores rodeada , & de pefares p 
Deíamparada » & defcuberta aos tiros 

Da foberba Fortuna , 
Soberba > inexorável , & importuna. 

Ham tinha parte donde fe deitade. 
Nem efperança algua , onde cabeça 
Hum pouco recUnaíle por defcanfo : 
Tado dor lhe era y & cauíà , que padeça : 
Mas que pereça nam y porque pailaâè 
O que quiz o deftino nunqua manfo : 
O que efte irado mar gritando amaníb > 
Eftes ventos da voz importunados , 

Parece que fe enfircáo: 

Somente o Cco íèrero , ' 

As eftrellas , & o Fado fempre fero « 
Con^incu perpetuo dano fe recccáo 9 . 



DE L. DE CaMOENS. 147 

Moí^randofe pocentcs , òc indignados , 

Contra hum corpo terreno , . 
Bicho da terra vil , Sç tam pequeno. 

Se de tantos trabalhos sò tiveíTe 
Saber inda por certo , que algum hora 
Lembrava a bus claros olhos , que '\i ri f 
£ fe efta trifte voz rompendo fora > 
As orelhas angélicas toca^e 
Dsquella , em cu|a yi^a jà vivi : 
A qual tornada hum pouco A>hic íiy 
Revolrendo na mcotç ^refurora « 

Os tempos |i paiUdos « 

De meus doces errores» 
De meus Cuaves males > & fucorei 9 
Por ella padecidos , &c bufcados > 
Tornada ( inda que tarde ) piedofa » 

Hum pouco lhe pefaCe , • ■ 
£ coníigo por dura fe julgaile : 

Isrwg 96 , que foubeíle , me Teria 
Defcanfo pata a vida , que me fica » 
Com ifto afagaria o Cofrlmento : 
Ah fcnhora , fcnhpra , U que tam rka 
£ftais , que cá tam longe de alegria j 
Me Cuílentais cum doce fingimento 9 
£m vòs adegurando o peníamento , 
F9ge tpdo o trabalho , toda a pena 1 

Sò com Toitas lembranças >. 

Me acho feguro , 6c forte , 
Contra o rofto ferox da fera morte $ 
£ fe me ajumaõ logo as efperanças , 

M i| 



'14* Cançobks 

Com que a fronte cornada mais CereQ^^ 

Toma os tormentos graves > 
£m faucUdes brandas , & íuaves. 

Aqui com elies fico perguntando 
Aos ventos amorofos , que reCpirío 
Pa parte donde eftais , por vos fenfaora » 
As aves , que aHi voaõ , fe vos virio > 
Que fazeis , & que eftaveis praticaBdo } 
Onde , como, com quem , que dia, e q hora í 
iíUi a vida canfada fe melhora , 
Toma erpiritos novos , com que vença 

A Fortuna , & trabalhos : 

Sò por tornar a vervos ^ 
$è por ir » fervirvos , & qucrcrvos , 
Pí^me o tempo , que a tudo dará ta&o , 
Mas o deíe)o ardente , que detença 

Nunqua fofreo , ^m tento 
Me abre as chagas de novo ao Cofrimento. 
Assi vivo , & fe alguém te prcguntafle, 

Cançam ^ como nam mouro , 
Podes lhe refpondeç , que porque momo. 



V. 



CANÇAM X. 



z N D B cá meu tam certo fecretajâo ,' 
Pos queixumes , que fcmprc ando faxendaj» 
Papel , cqm quem a pena deíàfogo : 
As femrazoens digamos , que vivendo 
}Ác faz o iij^xoravel , & contrario 
Peiliqo i fuido a lagrimas » &; a ro^Q ^ 



DE L. D£ Camoens. 149- 

Dcittmos agoa pouca em mako fogo , 
Acendafe com gritos hum cormjenco , 
Que a codas as memorias feja eftranho > 

Digamos mal tamanho 
A Deos,ao mudo, à gente, U emfim ao vencoy 
A quem já muitas vezes o contei , 
Tanto de balde , como o conto agora : 
Mas jà que paca errores fui nafcido , 
Vir eíle a fcr hum delles nam duvido , 
Que pois jà de acertar eílou tain fòira f 
Nam me culpem cambem fe ujJko erreis 
Se quer elle refugio Co cerei , 
Fallar , & ertar íem culpa Hvremente , 
Trifte quem de cam pouco eilà contente^ 

Jm me defenganei , que de queixacme » 
lizm fc alcança remédio , mas quem pena ^ 
Forçado lhe he gritar , fe a dor he grande : 
Gritarei » mas he débil ^ &: pequena 
A voz para poder defabafarme , 
Porque nem com gritar a dor Ce abrande i 
Quem me dará fe quer > que fora mande 
Lagrimas 9 8^ ruípiros iofinicos , 
Iguais ao mal » que dentro n'alma mora S 

. Mas quem pôde algum ^ora , 
Medir o mal com lagrimas , ou gritos i 
(míuix direi aquiUo 9 que me eníináo 
A ira , a magoa > íc deUas a lembrança ^ 
Que he outra dor por 6. n»is dura , fie firme j^ 
Chegai defeíperados para oUvirme > 
£ fujáo os quç vivem de cfpenuiça 9 

N iii 



J50 C A N Ç o E N S 

Ou aquelks , que nella fc imaginâo » 
Forque Amor , & Fortuna determhiâo 
Pe lhe darera poder para entenderem « 
^* medida dos mabs , que tiverem. 

Quando yim da materna fepultura 
Pe novo ao mundo , logo me fizerâo 
Bftrellas infelices obrigado : 
Com ter livre afvedrto mo nam derâo , 
Que eu conheci mi! vezes na ventura 
O melhor , &: o peor fegui forçado y 
£ para que o tormento conformado 
Me deíTem com a idade , quando abrílle j| 
]nda minino , os olhos brandamente ^ 

Mandão que diligente 
Hum minino fem olhos me fcríSc i 
Jls lagrimas da in&ncia )à Aianaváo ^ 
Com huma faudade namorada : 
O fom dos gritos , que no berço dava f- 
3 ti como de fufpiros me foava , 
Com a idade , & Fado concertado , 
Porque quando porcafo meemballavio , 
$e vcrfos de. amor ttldes me camtavão , 
logo me adormecia a natureza , 
Que tam conforme eftava co a trifteza. 

Foz MINHA ama huma fera,quc o deftino 
JCam quiz , que mulbct foíTé , a que tiveíXo 
yal nome para nri , nem a haveria j 
i^di criado fui , porque bebeílè 
Q YÇneno amopofo de minino j^ 
Qiiç jw pij^yot I4adç HÍKtW, 



DE t. BI CaMOINS. IJl 

B ' por çoíhime nam me mataria : 
Logo então via imagem , & femelhança > 
p*aquella humana fera tam fermofa , 

Suave , Sc venenofa , 
Que me criou aos peitos da eíperança « 
De quem eu vi defpois o original > 
Que de todos os grandes defatinos , 
Faz a culpa foberba , & foberana : 
Pareceme que tinha fbrma humana , 
Mas cintilláva efpiritos divinos y 
Hum meneo , Sc prefença tinha tal , 
Que fe. vangloriava todo o mal 
Na viíla delia : a fombra » co a viveza ^ 
Excedia o poder da natureza. 

Que 6EMERO tam novo de tormento 
Teve amor , que nam fòlle , nam fomenCQ 
Provado en mi , mas todo executado l 
Implacáveis durezas , que o fervente 
Defejo , que dà força ao penfamento j, 
Tinháo de feu propoíito aballado ji 
£ de fe ver corrido , & injuriado » 
Aqui (bmbras fantafticas , trazidas 
De algumas temerárias efperanças „ 

As bemaventuranças , 
Nellas também pintadas , & íingidas ^^ jr 
Mas a dor do defprezo recebido , - 
Que a fantafla me defatinava , 
Eftes enganos punha em defconcerto » 
Aqui o adevinhar , & ter por certo.. 
Que esft yetdade <|ttanto adeyifihaya ^ 



xji Cançoxns 

£ logo o derdixerme de corrido , 
.Dar As couías', que via , oucro fentido: 
£ para tudo em iim bufcar razoens , 
Mas craõ muitas mais as femrazoens. 

N AM SEI como faiba eílar roubando 
Cos rayos as entranhas , que fugiáo 
For eila pellos olhos futilmente : 
Pouco a pouco invencivets me fahiáo , 
Bem como do vèo húmido exalando 
£ílá o fútil humor o Sol ardente > 
£m fim o gcílo puro fie tranfparente , 
Para quem fica baixo , fie Cem valia 
Deíle nome de bello , &c de fermofo : 

O doce , fie piedofo , 
Mover de olhos , que as almas rufpendia , 
Fotáo as. hervas magicds , que o Cco 
Me fez beber , as quaes por longos aimos > 
Noutro fer me tlveráo transformado : 
£ tam contente de me ver trocado , 
Que as magoas enganava cos enganos , 
£ diante dos olhos punha o yèo , 
* Que me eiicobrifie o mal , que aíC creceo > 
^ Como quem com afagos fe criava , 
Daquelle , para quem crecido eíUva* 

Pais QUEM pode pintar a vida aufente» 
Coai hum çle^contentarme quanto via > 
£ aquelle eíUr tam longe donde cftavai 
O falUr > Cem faber , o que dizia » 
Andar , fem ver por onde , fie )untamentc 
Sufpirar , fem fabcr , que fufpi^ava > 



1>£L. DeCaMOEKS. If} 

Pois quando aqueile mal me atormentava > 
£ aquella dor , que das Tarcareas agoas 
Sahia ao mundo , 6c mais que todas doe j^ 

Que cantas vezes foe y 
Duras iras tornar em brandas magoas » 
Agora CO futor da magoa irado > 
Querer , & nam querer deixar de >mar , 
£ mudar noutra parte por vioçança 
O defejo privado de efperança , 
Que tam mal Ce podia fá mudar i 
Agora a faudade do paflado 
Tormento puro > doce > & magoado j^ 
Fazia converter eftes furores 
£m magoadas lagrimas de amores* 

Que nESCjUiPAs comigo sò bufcava» 
Quando o fuave amor me nam fofria 
Culpa na coufa amada j fiç tam amada > 
£m fim eraõ. remédios , que fii\gia 
O medo do (ormemo , que enílnava. 
A vida Aiftentaríe de enganada : 
Nifto huma parte delia foi paâàda , 
Na qv^al fe tive algum contentamento » 
Prevê , imperfeito « timido , indecente ^ 

Nam foi fenam femence > 
Pe hum cumprido » 6c amariflimo tonncn^ 
(fte curfo condoo de trifteza » 
£ftes paí!os tam vanmente efpaUiado», 
Me ^Q'^ apagando o ardente gofta» 
Que tam de fiib n'aima tinha pofto , 
Pc aquellet penCan^entos nam<va,d<M % 



zf4 Cançoens 

Em que eu criei a tenra natureza , 
Que do longo coftume da aTpereza 9 
CoQtra quem força humana nam reíiíle , 
Se converceo no gofto de fec tride. 

Desta arte a vida n'outra fui trocando p 
£u nam , mas o deAino fero irado » 
Que. eu inda aífi por outra a nam trocira ; 
Fefme deixar o pátrio ninho amado , 
Paliando o longo mar « que ameaçando 
Tantas vezes me eíleve a vida cara i 
Agora experimentando a fúria rara 
De Mane , que cos olhos quiz que logo 
Viíle , U tocaíTc o acerbo fruto íeu , 

£ nefte efcudo meu , 
A pintura veràó do infefto fogo , 
Agora peregrino , vago , & errante > 
Vendo Jiaçoeos , linguagens , & coftumes^ 
Ceos vários ^ qualidades difibrentes > 
Sò por feguir com paflos diligentes, 
A ti Fortuna injufta , que confumes 
As idades , levandolhe diante 
Huma efperança em vifta de diamante ; 
Mas quando das mãos cae fe conhece » 
Que hc frágil vidro aquillo , que aparece. 

A PIEDADE humana me faltava > 
A gente amiga ji contraria via , 
No primeiro perigo , & no íegundo : 
Terra , em que por os pcs me fallecía y 
Ar para rcfpirar fe me negava , 
£ fakavame em fim o tempo > & o mundo y 



DE L. DE CaMOENS. ly^ 

Qae (è^edo tam ardoo » & cam profundo » 
Nafcer para viver , & para a vida , 
Falcarme quaaco o inundo tem para ella » 

£ nam poder perdella , 
Eftaado cancãs v«zes }à perdida ! 
Emfim nam houve trance da Fortuna , 
Nem perigos , nem cafos duvidofos 
( Injuftiças daquelles , que o confuCo 
Regimento do mundo antigo abufo 
Faz fobre os outros homens poderoíbs.) 
Que eu nam pailaíle atado à fiel coluna 
Do fofrimeoto meu , que a importuna 
Perfeguiçâo de males em pedaços 
Mil vezes fez á força de ieus braços. 

Nam conto tantos males , como aquelle , 
Que dcCpois da tormenta pcocellofa > 
Os cafos delia conta ^jn tempo ledo > 
Que inda agora a Fortuna fluâuofa 9 
A tamanhas miferias me compelle , 
Que de dar hum Cò paíTo cenho medo } 
Jà de mal , que me venha , nam me arredo p 
Nem bem , que me falleça , fá pretendo , 
Que para mi nam vid aílucia humana > 

De força foberana , 
Da providencia em fim divina pendo } 
Ifto que cuido , fie ve|o » às vezes tomo j 
Para confolaçdo de tantos danos , 
Mas a fraqueza humana quando lança 
Os olhos na que corre , fie nam alcança ^ 
Szmm inemocia dos paílados annos i • 



.^5^ Cançozks 

4s agoas que entá« bebo , & o pad que como» 
lágrimas criftes faó » que eu nuaqua domo 5 
Seaam com fabrícat na faaufia > 
Fanuílicas pinturas de alegria. 

Q u E 5E poffivcl fodc , que tornaílk 
O tempo pata trás , como a memoria » 
Peilos veíligios da ptiineira idade y 
£ de Bovo tecendo a antiga hiíloria » 
De meus doces errores me levafle' 
Pellas flores , que vi da mocidade : 
E a iembraâça da longa faudade , 
£ntia íoíTe mayor concencamemo > 
Vendo a converfaçáo leda » & fuave * 

Onde húa , & outra chave > 
Kfteve de meu ú.ovo peníamento > 
Os campos , as paíladas , os íinais » 
A fermoíura , os olhos * a brandura 9 
A graça • a manlidáo , a corteíia » 
A íingella amiiade > que defvia 
Toda a baixa tenção , tearena impura > 
Como a qual outra algúa nam vi mais 9 
Ah vás memorias onde me levais 
O fraco coração « que iada nam poíTo 
Domar efte tam vaó defeto voílo ? 

N AÓ MAIS Cançam,naõ mais,^ irei fallãdo^ 
Sem o Centir mil annos ^ & fe acafo 
Te culparem de larga , & de pefada » 
Nam pôde Ter ( lhe dize ) limitada 
A agoa do mar em tam pequeno vaCo | 
Nem eu delicadezas vou cantando > 

Co 



i>eL. deCamoens. 157 

Co goílo do louvor , mai explicando 
Puras verdades jâ por mi paíladas » 
Oxalá foraó fabulas fonhadas. 

C A N Ç A M XI. 

CSLEBRASE HUM A RARA TERMOS l/Rji 
natural fim emfeiu algum ^ & em cada 
ramo pondera huma parte fua , dizendo 
que cem ella podia render hum Planeta. 



N, 



s M roxa flor de Abril , 
Pintor do campo ameno » & da verdura 

Colhida entre outras mil 
Foi nunca aifi agradável à àonzella 

Corcez , alegre , & bella , 
De Tua mâo cuidado , & gloria pura , 
Como a mi foi a inculu fnmofura 

Natural , que pudera 
A Saturno render na fua esfera* 

. Natuhal fonte agrefte » 
Kaó lavrada de artífice excellente » 

Nem por arte celeíle 
Derivada de ruftico penedo ^ . 

Naô fez ja mais taô ledo 
Cançado caçador por Cèíla ardente , 
Quanto o cuidado a mi me faz comente 

De ver taó defcuidado , 
Que faz fereno a Júpiter irado. 

Fa.uiTA , ()ue Cem concerto 
Tom II. O 



Ij8 CançOENS 

Natuialmence em ramos fe pendura » 

Achada por acerco , 
A quem pintada a vè de Tangue , & lôce ^ 

Náo lhe dará o dcleÍEe , 
Que eíla graça me dá fem compoftuca > 
Ornamento da mefma fermofura y 

£o Cfiucado fem arte , 
Que tornará Paftor ao bravo Mane. 

A MENHAA gracioía. 
Que derramando fae dentre os cabellos^ 

A Flor , o Lyrio , a RoTa 
Sem #)uda de ornato , ou de arcificío , 

Naó fat o .beneficio , 
Que faz a luz de toÍTos olhos bellos 
A quem o^ vè taõ puros , & ângeilos , 

£ eile innocente rifo , 
Por quem ApoUo o Tejo torna Amphryfo. 

OuTEiKos coroados 
Das arvores > que fazem a efpeflura 

Com os ramos copados , 
Alegre , que maõ deílra os naõ cultiva , 

Gra^a taõ excefliva 
Naõ tem na fua natural verdura » 
Quanta na deiles olhos clara , U pura 

Depoíitá a efperança » 
Com 4 A mor gõí1x> , a mây tormento alcança* 

Doi SIMPLES pailarinhos 
A mufíca fem arte concenada , 

De entre os verdes raminhos 
Taõ fuave xuõ hc , taõ deleitofa^ 



DZ L. DE C AMOE^NS. I>^ 

A quem na felva umbroía 
Com mente , ouvindoa cftâ toda elevada , 
Quanto a mim eila falta doce agrada > 

£ o natural avifo , 
Que roubaó a Mercúrio cetro , & fifo. 

De f ilescoSl rios agoa , 
Qtic clara encre arvoredos Te deriva 9 

Caindo de alta frâ^oa , 
Ifnyilrando de pérolas no prado 

O verde delicado, 
Com brando Tom aos olhos fugitiva , 
Naô nos alegra , quanta a graça efquiva 

De çila luz foberana , 
<^e faz córtex a ruítica Diana. 

A TAL LUZ ( ò^ Cançam, que ouíaíle vella ) 
•■ Vendo eíUs }à poftrado 
Saturno trifte , Júpiter irado » 
Bravo Marte , áureo Apofio , Vénus bella ^ 
E Mercúrio , & Diana , & toda EíheUa. 

CJNÇAM XII. {*) 

ji HUM P O M A k^ 

\J Pomar, venturofo , 
Onde com a natureza 

i^) As três Cançoens Jiguintes anéã& com 
muitos erros in^rejpas nas Aíifccllaneas de 
Miguel Leytào , he certo ferem de Luis de 
CamoenSj como/è colhe de alguns manufcri^ 
tos , a quem ftguimos , . & com quem as em- 
mendamoê» O i) 



x^o Cançoems 

A fubtil acce tem demanda incerta » 
Que em fitio tam fetmoTo 
A mayor Aibtileza 

De engenho , em ci nos moftra dofçilberta ! 
Nenhum juizo acerta 
De cego , & de enlevado , 
Sc tem em ti mais parte 
A natureza , ou a arte ; 

Se terra , ou Ceo de ti tem mais cuidado , 
Pois em feliz terreno 

Gozas dç bum ar mais puro , & maisíbreiío* 
Db, teu fermofo pefo 
Se moftra o monte ledo , 

£ o caudelofo Zezare re eílranha , 
Porque olhas com derprcfo 
Seu criíbi puro » & quedo f 

Qup com Pêra os teus pès rodea , & baniuu 
£m ti pintura eftranha , 
A que Apelles cedera « 
Enigmas intricados , 
£ mirtos animados 9 

Vemos , que o próprio Efcopas naó fizera : 
£m ti co a paz interna 

Tem o íanto Prazer morada eterna. 
Os lA&DiNs d^ famofa 
Babel taõ nomeados , 

Por maraviliia o mundo naõ levante > 
Inda que com gloriofa 
Voz , que eílaõ pendurados 

Po inftavel àt a Fama antiga cancQ } 



PE L. DE CaMOENS. I^I 

Nem haja quem fe efpance 

Dos íamofos de Alcino , 

Nem as mais doâas penas 

Cantem os de Mecenas , 
Culcor de rodo engenho peregrino y 

Mas onde quer que voe , 
De ti £ò falle a Fama , & te pregoe. 

Que se era antigamente 

De pomos de ouro bellos 
O iardim das Hefperidas ornado «' 

£ a pefar da ferpente , 

Que os guardou , fô colhetlos 
Pode o famofo Alcides de esforçado : 

Tu mais avantejs^do , 

Moíltas a huma Alma caftá^^ 

Seguir o que detcja , 

Fugir da torpe inveja 
( Pomos de ouro , ^ ^ cerapo uad contraíb ) 

£m fim com charidade , 
Vencer o Inferno , abrir a Eternidade. 

PoK TAMTO da ventura , 

Para ti refervada » 
Tc deixa o Ceo gozar perpetuamente , 

Porque fejas figura 

Da gloria avantejada 
Delle mefmo , & que em fi fe reprefente > 

Porque era quanto fuftcnte 

O Ceo , o Mar , & a Tetra 

Seus feitos mtlagrofos , 
Myfieâos*mais glociofos , 

O uj 



16% Can^òbns 

Com que a morte das almas nosdefttrra 9 

Por onde em noílas almas 
Cô mais pompas criâfa , & com mais palmas. 

Goza pois longamente 

Teu venturoTo Fado'» 
Da máy do teu Auchor bem poííuido 9 

Que em ti fempce contente 

De feu fublime eftado » 
A atma dos feus alegra , & o fentido , 

Cada qual preferido 

Nas glandes qualidades 

Ao fabio Neftor feja , 

Para que o mundo os veja 
excederas longuiâSmas idades , 

E com a longa vida 
. Seja fua memoria ennobreoida. 

Cançaõ , pois mais famoTa 

Por ti naô podem fer 
Pefte monte as eftancias deleitofas , 

Bem pôde Cucceder > 
Que aquelle que os teus números governa 
Por quetellas cantar Ce faça eterna. 

CANÇAM XIII. 

MçsTRA O Poeta naò proj>uzis.mm 
as caufas feus communs efeitos tuUe , 
mas outros contrários. . 

\Jy E M com folido ínteat* 
Os íc^xzàoi bufcac da natureza. 



DE L. DE CaMOEHS. I^) 

Quanto de Athcnas preza , 
Entregue ao mar irado , ao leve rcnto > 

£m forjar meu tormento 

Nova Piíilofophia 
Oe experiências feita Amor me eníina. 
Das leys do antigo tempo bem declina , 
Que Amor & a natureza em mim varia ^ ^ 
Donde efcolas de fabios nunca vio 

£m natural fogeito , 
Quanto Amor em meu peito defcobrio. 

As AVES no ar fsreno , 
O gado de Proteo nas agoas pace , 

Vive o homem , & nace 
Nefte mutido , qual mundo mais pequeno | 

Eu tudo defordeno 

Em todos dividido , 
Na boca o ar , na terra o entendimento : 
Dame eíle Amor , dame efta © pcnfamcnt» , 
O coração no fogo he confumido : 
Mas a agoa , que dos olhos fompre defce 

Tem effeito taó vario , 
Que cm hum humor contrario o fogo crefce* 

Da vista Amor fohia 
Abrir ao coração fegura entrada ) 

Ley he )à profanada , 
Que quando a luz de huns olhos me feria ^ 

Amando o que naô via , 

Qual de efcopeta o lume , 
Primeiro o querer vi , que a caufa viílc ^ 
Quem o defcjo com a cfpcrança unifl^ 



1^4 Cançozhs 

Cego iiia apox cego , & vil coftume , 
Que eu deíU alnu das Icyes do mundo izeota^ 

Morta a efpcrança ve)o » 
Onde fempre o deiejo íe fuíienca* 

£m vAõ fe confidera 
Que hum fcmelhante a oucrp bufca , & ama, 

£ que foge , & xlefama 
Todo morul a moite cíquÍTa 9 & fera , 

Se|a huma linda fera 
. Que efconde era viíU humana 
Coração de diamante , & peito de aço , 
De meu íangue £uninta , & fatisfaço 
Com cruel morte a fede deshumana : 
Afii que fendo em tudo difièrente 

Corro apoz minha forte , 
£ fe me entrego á morte eílou contente, 

Cae em mayor deiFeito 
Quem cuida fer fciencia clara } & cetu , 

Que a caufa defcuberta 
Sempre produz aífi conforme o e£Feito : 

Rendco me hum lindo objeito , 

Que fendo neve pura 
Vivo me abrafa , & o fogo interno aviva ? 
Que efta fermofa fera fugitiva , 
Com fer neve de fogo fe aíTegura : 
Donde infiro por cerco ( òc ceíle a fama 

Vãa mcntiroía , & leve ) 
Que nâo desfaz a neve ardente chama« 

Bem mo efièico fe fente 
CeíTsu: , ceílando a caufa donde pende i 



I) E L. D E C AMOíN S. l6$ 

Que o fogo mais fc acende , 
Eíbmdo á vifta donde mais auTente $ 

Mas na alma vivamente 

A trazem díbuxada , 
De noite Amt)r , de dia o penfamcnto , 
E quando Apolfo deixa o claro aflento , 
Por entre fòmbras vejo a Nympba amada ^ 
Pois íe fem luz Amor os olhos ceva , 

Cego que naó concede , 
Que cm nada Amor impede a efcura treva» 

£b.ra quem atrevido 
Pregoa fer maior que a parte o todo : 

Amor me tem de modo , 
(^le eílou numa alma minha convertido a 

Defta gloria ha uacido 

O temor de perdcUa , 
E pofto que o receo a muitoi^ finge 
Là na imaginação Chjrmera , Sc Esfinge , 
De mal futuro , que i^rde imiga eftrella » 
Vcfo cm mim , por incógnita fegredo^. 

Quando eftou mais contente » 
Que fó do bem prefente nafce o medo^ 

Temse por manifcfto 
Parecerfe ao fogeito o accidente , 

Mas inda em mim fe feate 
O penTamento , a cor , o rifo , ageílo, . 

Da vida |à perdido 
Ncíle tormento meu táo duro, & cfquivo, 
£ fendo mosco \à vive o fentido > 
Porque fente que na alma defpedid;» ^ 



té4 C A N Ç O E N S 

Pôde cm meu mal unirTe 
O Acar , 6c o partirre , a morte , & a vida. 
Dk STAs razoens , Canção , infiro, Sc creo. 
Que ou Te mudou em tudo a forma ufada 

Da natural firmeza , 
Ou cenho a natureza em mi mudada. 

CANÇAM Xir. 

Sua ma teria tbm I. ds C 

tombem na Canf^ %, &4* & na EgL i« 
63* ^tfc fio Jbtthos* 

V^UB he ifto? ronhd? ou vejo a Ninfa para. 

Que fempte na alma vejo ! 

Ou me pinta o defejo' 
Ò bem f que em váo cada hora me al&gura ! 

Mal pôde a noite efcuca 

Amando a fombra fria , 
Mandarme em fonho a luz fermofa 9 fie beOa, 

Que fe naõ torne em dia 
De feus luzentes rayos inflamada. 

O' vifta defejada 
De graciofa Nympha., & vira eftrella ! 
Que ha tanto que por eíle mar navego , 
( Spm ver meu claro Polo ) efcuro , & cega 
N B s s E s fermofos olhos de enlevado 

Minha alma fe efcondeo » 

Quando ordenava o Ceo, 
Que viveile comigo defterrado. 



DE L. DE CaMOEHS. l6f 

Vos a mais c^rta eftrada 

De ver a Sumtna Alteza , 
Do effêito a caufa abris a efta alma minha , 

A(& mortal belleza 
Sò delia nafce , & delia Ce refume ^ 

Affi celefte lume 
Lâ dos Ceós fe deriva , & lâ caminha , 
Pois como a Deos unirme a vifta poíTa ,' 
Porque a negaes , meu Sol , a eíla alma voffá; 
Se me quereis prender de parte a parte 

Cabbllo ondado, & louro» 

Teceime a fede de ouro f 
£mque prendeo Vulcano a Cypria 6c Marte • 

Defque com gentil arte ' 

Vcftis de flores bcllas ' 
A cerra , em que tocaes com a bella planta , 

Quantas vezes com vellas , 
Qdiz numas deiíTas flores transformarme i 

Porque vendo pifarme 
De efle cândido pè , que a neve efpanta » 
Pôde Ter que na flor mudado fora , 
Que deu a Juno irada a linda Flora '; 
Mas onde te acolhcfle ( ò doce vld«) 

Mais leve , & prefurofa , 

Do que na felva umbrofa , 
Cerva de aguda fetta vai ferida i 

Se para tal partida 

Meus olhos vos abriftes « 
Cctcaravos o fommo eternamente , 

Antes que vcrvos triftes > 



1(8 CançO£H s 

Perdendo câo fuave , & doce engano : 

Agora y com meu dano , 
Vedes para mòr magoa , claramente , 
rícílc bem fugitivo , 6c fomno J[eve , 
Que mal náo ha mais longo, ^ ^ú bem breve : 
Ditoso Endimiâo > que a Deofa cara , 

Que a noite vai guiando , 

Teve em braços fonhando ! 
Ab y quem de fonho tal nunca acordara \ 

Tu fò y Aurora avara 9 

Quando os olhos feriftc , 
Me matafte , cruel , de inveja pura : 

Mas fe deíla alma criíle 
A negra efcuridão vencer quizeíle « 

Sabe , que em vão nafceftc , 
Que para desfazerfe a névoa efcura 
De meus olhos , importa eílar prefente 
Oupro Sol , outra Aurora , outro Oriente. 

Se a luz de meu Planeta 
Não me aviva 9 Canção , branda , & quieta > 
Qual flor de chuva em breve confumida 
Verás desfeita em lagrimas a vida. 



C A N Ç A M XV. 



P 



O «. meyo de humas ferras mui ftagolàs, 
Cercadas de fylveftres arvoredos , 
Retumbando por afperos penedos , 
Correm ^erenues agoas deleitofas : 
Na ribeira de Buijia , affi chamada , 

Celebrada, 



DE L. DE CAM.OENS. l6^ 

■Celebrada i 

Porque em prados 

Efmaludos . 

Com frefcura 

De verdura , 
Afli fe moftra amena , a/}i gractoCa y 
Que excede a qualquer oucro miis Fermofa. 

As CORRENTES fe vem ^ que aceleradas y 
As aves regalando , &• as boninas , 
Se vâo a entrar nas agoas Neptuninas y 
For diverfas ribeiras derivadas:' 
CoiA mil brancas conchinhas a aur ca área f 

fiem fe arrea , 

Voáo aves , . . 

Mil fuaves 

Paflatinhos . 
>.\Nos raminhos 
Acordcmeiv^c eââo fempre cantando , 
Com doce accento os ares abrandando» 

O D o c B Roixinol num ramo canta 9 
Edo outro o Pinraíirgo lhe rd*ponde , 
A Perdiz , de entre a mata , em 4 ^e efconde , 
O caçador fentindo , fe levanta : 
Voando^ vai ligeira mais' que o ventp , 
. Outro aílento . 

Vai bufcando ; 

Porem quando 

Vai fugindo 

SUtinindo , 
TrasLolla mais valoz a íctta corre > 
Tom. //. P 



X70 CAHÇÔtH> 

De que ferida logo cae , fie mone. 

Aqui Pregue és hú. ramo cm outro ramOf 
Com o peico enfanguencado anda voando f 
Gibaco para o ninho anda bufcando « 
A leda Codorniz vem ao reclanio 
Do fagaz caçador , que a rede eftende > 

£ pretende 

Com engano 

Fazer dano 

A' coitada > 

Que enganada 
D« hum efparzsdos graõs do louro ctígo t 
Nas maõs vai a cair de feu imigo. 

Aqui foa a Calhandra na parreira f 
A Rola geme , paira o Eftorninho ^ 
Sae a cândida Pomba de feu ninho y 
O Tordo poufa em cima da oliveira ; 
Vaõ as doces abelhas fudUrtande , 

E apanhando 

O todo 

FiefcQ ,UfnOf 

Por o prado 

De erva ornado » 
Com que o bravo licor fazem 9 que deit 
A' humana gente a induftria de Atifteu* 
A Q u I as uvas luzidas penduradas 
Das pampinofas vides refplandecem 9 
As frondiferas arvores (e ofrecem , 
Com diffêrentes fruitos carregadas : 
Os peixes 4U agoa clara andáo íalcaad^ f, 



j>t L. BE Camobns. IJt 

Levâocando 

As pedrinhas , 

£ as conchinhas 

Rubicundas , 

Que as jocundas 
Ondas CQQÍigo trazem > crepitando 
Por a praya alva com ruido brando. 

Aqui por entre as felvas fe levantão 
Animaes Calidonios , & os Veados 
Ka fugida inda m^l aílègurados > 
Porque do Tom dos próprios pès fe eípancio : 
He o Coelho , a Lebre (ae manhofii , 

Da frondofa 

Breve mata » 

Ponde a cata 

Caõ ligeiro » 

Mas primeiro » 
Ooe elU ao contrario fèrvido Ce entregue p 
A*s vozes deixa em branco a quem a fegue. 
L u z £ M as brancas & purpúreas flores » 
Com que o brando Favoaio a cerra e&nalta , 
O fermofo lacinto alli não falu » 
lembrado dos antigos (eus amores : 
Isda na flor fe moftraõ efcutpidot 

Os gemidos 3 

Aqui Flora 

Sempre meara , 

£ com RoTas 

Mais fermoíàs , 
Com Uitot > & boninas mil fragantes 

Pij 



lyi ''CaNÇOENí 
Alegra os feus amores inconíUnces. 
Aqui Narcifo em liquido criíbl 
Se namora de fua fermoTura , 
Nelle os pendentes ramos da efpeílura > 
Dibuxandofe eíla6 ao natural , 
Adónis y com que a linda Cytherea 

Se recrea. 

Bem florido » 

Convertido 

Na bonina » 

Que Ericina 
Por imagem deixou de qual feria 
Aquelle , por quem ella fe petdia. 

LuGAK alegre , frefco , acomodado » 
Para fe deleitar qualquer amante , 
A quem com fua ponta penetrante 
O cego Amor civeíTe derribado s 
£ para memorar ao Tom das agoas 

Suas magoas 

Amorofas y 

As cheirofas 

Flores vendo y 

Efcolhendo 
Para fazer preciofas mil capellas , 
£ dar por grão penhor a Nymphas bellas. 

Eu DELLAs por penhor- de meus amores» 
Huma capelia à« áiInha Deofa dava , 
Que lhe queria bem , bem lhe moílrava 
O bem me queres entre tantas flores : 
Porem > cpmo fe fora mal me queres « 



Df L. DE CaMOEMS. 175 

Oi poderes 

Di, crueldade 

Na beldade 

Bem moftrou ; 

Defprezou 
A dadiva de flores « naô por minha , 
Mas porque muicas mais ella em íi tinha* 

CANÇAM Xri. (*) 



u 



ANO AMB Amor,4 ci^» o 4 ^^™^ Tente^ 
Cafo , que nunca em verfo foy cantado » 
Nem d'antes entre gente acontecido ; 
Pagame aííi em parte o meu cuidado , 
Pois que quer , que me louve, ôc reprefente 
Quaô bem foube no mundo fer perdido. 

Soa PAR.TE , & naô Terei da gente crido > 
Mas be tamanho o goílo de lou^rme » 

£ de manifeíhrme , 
For cativo de gefto tam fermofo , 

Que todo impedimento 
Rompe , õc desfaz a gloria do tormento r 
Peregrino , fuave 9 9c deleitofo , 

Que bem fei que 9 o que canto , 

(*) Efia Canção duas vfí^es ffíf o Author 
tom os mefinos conceitos « mas termos tam 
diferentes , <pt£ totalmente, he outra : huma 
fe imprimio que começa^ Mandame Amor que 
cante doceméte : e/iahe tam boa, que nàoj^ 
deixa ver qual he a que elic aceitou , 6» a 
émbas faô merecedoras defi imprimir. 

P li) 



174 CANÇOlMf 

Ha d*achar menos ciedito , que efpanto* 

£u VIVIA do cego Amor izemo 
Porem cam inclinado a viver prefo > 
Que me dava defgoílo a liberdade : 
Hum naniral defcjo tínha accefo 
D'algum ditofo , & doce penfamento » 
Que me illufttalle a iníana mocidade : 

TouNAvA do anno jà a primeira idade » 
A revcftida cerra íe alegrava , 

Quando Amor me moílrava 
Em fios douro humas tranças defacadat 

Ao doce vento eílivo. 
Os olhos rutilando em lume vivo y 
As rofas entre a neve femcadas , 

O gofto grave , & ledo 
Que juntos move em mim defejo , & medo. 

[ ^fie fvmo eftã ^uafi todo , na que tfii 
imprejfa, ] 

Hum naÔ fei que fuave reTpirando , 
Caufava hum defufado , & novo efpanco , 
Que as coufas infenfivcis o fentiâo : 
Porque as gárrulas aves cnrre tanto , 
Vozes defordânadas levantando , . 
Como eu em meu deíèjo fe accndiÍo« 

As Fo.N7£s criílalinas não corrião ^ 
Inflamadas na viíla clara , & ^jira » 

Plorecia a verdura , 
Que andando cos ditoíbs pès tocavat 
p« ramos fe «baijíaYáp ^ 



Dt L. -D« C A M-O^ N S. * I75 

Cu <l*enye|a das hervas que pizavâo , - 
' Ou porque tudo ante elles fe. abaixá^y^. % 

O ar y o vento , o dia 
Eípirítps contÍQUos inBuhia. 

£ QUAXPo. vi que dava eofe^diíçu^to. 
A coufas fora dclle imagÍBel 9^ 
Que milagres faria Qin mim >.que o tinha ^ 
Vy f que me defatou.da minha ley , - 
Frivandome de todp feAÚpieQto ,. 
£ n*ouci:a» trati^ormando a vida n)inha : ; 

Ç<XH TAHA){HQS poderes dq ^moc vinha 
Que o ufo.dos Centidos n^e ti»va 9 

£ n^o Cei CQpaq o dava 
C09t:j:;i.o,podQr , & ofdcm de Natura. 

As arvQres y aos montes » 
A. rud<^a das heivas , ficadas fontes > 
Que conhecerão logo a viíla pura x . ■ 

Fiquei eu íò torn^o.» 
Quaíi jai'um rudp uonco de admirado. 
De SP Q IS dç ter perdido o ft^ntimento 
De humano > hum fò defeco me ficara , 
£m que toda a raa^áo Cd convertia ; . 
Mas néo fey ^uçm.po peito me bradava ^ 
Que por fâ^.fUco , ^ doce penTamenço ,. 
Com razáo a ra3;áo ic me perdia : . 

^LQUP q^j^ido maispçrdiiida %VÍ9 
Na Tua mefma perda fe ganhava 3 

£m d«ce paz edava 
Com feu coucrario. oroprio num íbgeitQn; 

O* Cftfo cílranho ^ U novo ^ 



17^ Cançobns 

por altn certamente & grande appróro 
A caufa , donde vem tamanho e&ico « 

Qjc hz num coração , 
Que hum defeió tem fer , Tefa razáo. 

Divots de ii encregue a meu defelo » 
Ou <|uafi todo nelle convertido , 
Solitário , filycftre , & inhumano > 
Tio contente iiqnef de fer perdido , 
Que me parece tudo » quanto Tefo , 
^(bufado , fe náo meu próprio 4Íaao. 

Bbbbmdo efte fuave , 8c doce engano , 
A troco do fentido , que perdia , 

Vy , que Amor me inCculpia 
Dentro n'alma a íigura honefta , te IxUa » 

A gravidade , o fifo , 
A manfidio , a grsuga , o doce rifo , 
£ porqu» náo cabia dentro nella , 

De bens tamanhos tanto » 
Sae pola boca convertido em canto. 

Cavçaô 9 Ce te naó crerem > 
Daquelte claro gefto quanto dizes > 
Polo que em â lhe eiconde t 
Os^íbntidot humanos ( lhe refponde ) 
Na^jkKkm do divino fer juixeu > 

Se naó bum pcnfamenco » 
Que i itlu fupra a £è do entesdimentoi» ' 



^ 



F. 



B Br Ls D E- C A M p BN S. -.Vj^y 

CANÇAM XriL * 

S E X T I It A. 



O G 1 M E pouco , & pouco à cuipca vida f 
Vayfeine o breve tempo dance os olhos , 
£ do viver me vay levando p gofto ; 
Choro pelo paflkdo , mas os dids 
Naõ fe detém por iíTo de fea curfo 
Pafláfe emfim a idade, & fica »peiiji«' 

Que maneira taõ afpera de pena , 
Que nunca hum paflo deo um longa vicbt > 
Fora de ttâbalhofo , & criíle curfo , r 
Se no proceíTo meu eftendo os olhos , 
Tam cheyosde trabalhos ve) o ps dias. 
Que jà naô goflo , nem do mefmo goílo. 

Os PH AzFREs , o canto , o rifo , o goílo $ 
A continuaçáo da grave pena 
Me levou , que naó ponho culpa aosi dias* 
A culpa he do defttno » porque a vida 
Sempre celebrará os bellos olhos , 
Pòr mais que do viver fe alongue o .curfo» 

S X 6 A õ os Ceos os feu najtural curfo > 
A toda a gente dem triílexa , qu gofto : 
Façáo em fim mudiuiças qye meus olhos. 
Nunca verão no mundo fe nâo pena , 
Nem defcanfo terei já nefta vida > 
Para poder em paz.paílaç os dias. 

Yaõ soccEDEHdo hums dias a outros dias^ 
Nada de fcu curfo naõ perde o tempo ^ 



tyl Cakçobns 
Perde fomente a curu'9 8c breve yicU » 
Fogelhe como fombt» a idade , 8c o gofto » 
Vay felh' acreceatando magoa » 8c pena » 
De que faõ ccftemimhas os meus olhos. 

Mas vvvca da minh* alma, òdasos olhos» 
Vo% podetaó tirar os longos dtas « 
Creça quanco quiser trabalho , 8c pena » 
Que pois para detrás na^ tonu o cutfa 
Dos annos « i^o (^ cerei por gofto , 
Par^ poder pa^âr o mais <ia vida* 

Cavçaó lá tive vida 9 jà meus oUxot 
, Me deraõ algnm goílo , mat os dias , 
Com Tai ligeiro cnrfo ma^ 8c pena. 

CANÇÂM XFIIL '{*) 

S Z X T I S A. 



F. 



o o I me pouco a pouco a ^rta yida 
( Se por cafo he verdade que ioda vivo ) 
Vaileme o breve rempo d'aace os olhos ^ 
Choro peUo paílado , 8c em quanto fallo» 
Se me paíIàO os dias paâo , te pado » 
Vailème emíim a idade , 8c fica a pena. 
<^\ MAXEíiiA tam afpera de pena» 
Qqc- nunca huii^ hora vio ram longa vida , 

{*) Alguns ftntimcntos divcrfof com que 9 
Poeta €UU)rnoti af^inte Cangam « TTierecem 
tem que em obftquio fio fi imprima ; naà 
ohfiame fir qiià^i a mejfna nos eonctitos c 



2>t l* D£ CaMO.ENS. Ift 

£m que pofla de mal moyerfe hum pado ^ 
Que mais me monta fec mocco » que vivo 2 
Para qtte choto em fim , para que fallo > 
Se lograrme nam pude de meus olhos l 

OH f E11M0S09 gentis , & claros olhos » 
Cuja aufencia me move a tanta pena. 
Quanta Tenam comprende em quanto fallo ^ 
Se no fim de cam longa > Sc cUrta vida 
De vòs me inda inflamaCe o rayo vivo » 
Por bem tecia tudo quanco paílo* 

Mas BfiM fei >.4 pi^inieiro o eiltemo pa& 
Me ha de vir a cerrar os criftes olhos 9 
Que amor me moílre aquelles ,. porque viVOj 
Teftemunhas feraó a tinta , & pena , 
Que efçrcVeraõ de cam moleíU vida 9 
O menos que paíTei , de o mais., que fallo* 

Oh qu£ nam fei , 4 efcrevo > nem 4 fftUo S 
Que (e de hum penfamento noutro pado> 
Vejo tam ttifte gencco de vida » 
Que Te lhe nam valerem tantos olhof ^ 
Nam pbilo imaginar qual feja a. pena ^ 
Qire traílade efta pena » com que vivo. 

N'AtMA cenho coocino hum fogo vivo, 
Quefenam reCpicaíIe no que fallo » 
l^ftaria ji feita dnxa a pena ', 
Mas Cobre a mtfof dot , que fofto , ic paiTo , 
Me Feinf«ra6.as lagrimas dos olhos. 
Com que fugindo nam fe acaba a vida» 

Mon^AiMPO eftou na vida.&é mprta vivo» 
Ve|o Cem olhos .^.& Ctm Ungoa újití., 
I (uocameace paíTo gloria U pena* 



tio G A H { o £ N * 

' C ANCA M XIX. 

S E H T 1 NA, 

1^ huns olhos ^ cujo rigor & brandura celebra, 

x\ CULPA át meu mal sò Vem meus olhos» 
Pois que detaô a Amot entrada ha alma , 
Para que perdeíle eu a liberdade ; 
Mas quem pôde fugir a huma brandura y 
Que depois de vos pÒr em tantos males , 
Dà por bens o perder por ella vida ! 

Assaz ofi pouco faz quem perde a vida • 
Por coftdiçaó taõ dura , & brandos olhos Í 
Pois de tal qualidade faõ meus males » 
Que o mais pequeno delles tocana alma , • 
Kâo fe engane com moíhras de brandura 
Quem quizer confervar a liberdade. 

RouBADOKA he de toda a liberdade 
( E oxalá perdoaíTe à trifte vida ! ) 
£{la , que ofalfo Amor chama brandura* 
Ay , meus antes imigos , qúie meUs olhos » 
Que mal vos tinha feito efta iroila alma , 
Para vòs lhe fazerdes taíicos males ! 

C iL E ç A õ de dia em diá embora os males, 
Percafe embora a antiga libttàSídc , 
Transformefe em Amor efta teiílc alma , 
Padíça cmi)ora efta innocenté yida , 
Quie bem me pagaõ tudo cíles BOàMi olhos , 
Quádo de outros, fe os vem, vtm a brandura. 
• " •' - , • MAg 



t>Í L DE CaMO£19S. tH 

Xf AS COMO ncllei pòd« haver btandut» ^ 
§e caufadotet íkò áe timos males ! 
feagago foi de Amor » porque meus olho! 
Vcãfim por. bem perdida a liberdade » 
Ja naó te^bo que dar > fenaó a vida ^ 
Se a vida ja naó deo > quem |a deo almâ* 

QuB f M>8 f« efperar > queib a fua a alma 
Cativa.eceraa fta de huma brandon > 
Que quaado vos dà morte > dia que faie vida l 
forçado me he gritar neftes meus males , 
Olhos -meui , pois por yòs a liberdade 
^nrdi y de TÒs me queixarei , meus olboi* 

Ctfoa.Ai meus olhos (èmpie danos<ia almâf 
^is dais a liberdade a ul brandura , 
Que pacardac mais males > dà mais vida» . 

CAÍfÇAM XX. 

S JS X T I » A^ 

'Jt moru ãt Natércia « como 4 Êglogã if ^ 
& ntlU fi vem muitos penfamtntos 

\J t%»tt y ò teúcbrofo , ô cmel dia 
Amanhecido lò para meu dano ! 
Pudefteme apattar daquelia viílâ 
Porquem tiyia com meu mal contente 1 
Ah ! iè o Cupremo foras deila vida » 
Que tm ti r< começara a minha gloria» 
Tem. Âí. Q 



lSt Cakçoems 

Mas como eu naõ naci para ter gtork^ 
Senaõ pena , que creçi cada dia , 
O Ceo me eftà neguido o fim da vida , 
I*orque naó tenha fim con\ ella o dano « 
Para que nunca pofla Ter contente > 
Da viíU me tirou aquella vifta« 

Su A yJB , deleitofa , alegre vifta^ 
Donde pendia toda a minha gloria > 
forquem na raòr trifteza fui contente ^ 
Quando £erá que ve|a aquella dia , 
£m que deixe de ver tam gtave dano s 
£ em que me deixe tam penoíà vida i 

Como DBEiiA&Ej humana vida 
Auzente de huma mais , que humana vifta ^ 
Que, um glorioTo me fazia o dano i 
Ve)o o meu dano fem a fua gloria , 
A* minha noice ^Ica jà feu dia : 
Triftc tuco fc vê , nada contente. 

Pois SEM. ti ^ naõ poílo íêr contente $ 
Mal poíTo defejar fem ti a vida , 
Sem ti )à vet naõ poílo claro dia : 
Naõ foQo fera te ver defclar viíU , 
Na tua viíla sò fe via a gloria » 
Naõ ver a gloria tua , hc ver meu dano. 

Naõ VIA mayor gloria , que meu danO| 
Quando, do dano meu eras contente , 
Agora me he tormento a mayor gloria » 
Que pôde promecerme Amor na vida; 
Pois tornarte naõ pode à minha viíia y 
Que sòna tua. achara a luz do dia» 



DE L. DE C A M 0£ N S. Jt% 

S POIS de dia em dia crefce o dano » 
Kaõ poílo fcm tal vifta fcr contente > 
Sò com perder a vida achatei glotia. 



s 



CANÇAM XXL 

SSXTXKA, 
Compofla úo mefino intento da paffhdom 



SMvnB me queixarei deíla crueza 
Que amor ufou comigo , quando o tempo ií 
A pefar de meu trifte » & duro Fado , 
A meus males queria dar remédio , 
£m apartar de mim aqueila vifta > 
Por quem me contentava a tcifte vida. 

Levakame , oxalit , com ella a vida^ 
Para que naõ fentira efta crueza 
De me ver apartado de tal vifta» 
E praia Deos naó veja o próprio tempo 
Em mim 9 Cem efperança de remédio » 
A defefperaçaõ de hum trifte Fado. 

PonEM ja acabe o trifte, & duro Fado ^ 
Acabe o tempo ja taõ trifte vida » 
Que em fua morte ío tem feu remédio* 
O deixarme viver he mòr crueza , 
Pois deTefpero ja de em algum tempo 
Tomar a ver aqueila doce vifta. 

DuiLO Amor , fe pagara C6 tal vifta 
Todo o mal , que por ti me fez meu Fado^ 
Porque quizefte que o kvaíle o tempo I 



tS4 C AN ç o I N s, «rc, 

B tittbem (k quiacAe , porque a vkb 
Me deixa», para ver tanta crueza , 
Quando em nÍo vella fò vejo o rcmediçi} 

Tu fó de minha dor eras remédio > 
Suave, deleitofà , (ic bella yifta , 
Sem ti , ^ue poílo eu yer , fcnáo crueza » 
Sem ti 9 qual bem me pôde dar o Fada j 
Senaõ confemir que acabe a vida? 
Mas çlle delia mç dila» q t^mpo, 

A9A$ para roar vejo no tempo , 
Que com voar , a muitos foi remédio ,; 
E tíi mà voa para a minha vida , 
Fará que a quero eu íbm tua vííla > 
para que <juer também o irifte Fado, 
Que i^a6 acabe o tempo tal crueza^ 

Nao podeiáó fazer crueza, ou tempo ^ 
Força de Fado, ou falta de remédio. 
Que ella viAa me ef^ueça cm toda 9l ri^ 




ODES 

D E 

luís de camoens. 



ODE L 

\ Jetbm hum pouco, MuTa^o largo pranto^ 

Que Amor te abre da peito , 
E yeílida de rico , & ledo manto , 

Demos Konra , Ic reCpeito , 

A'queUa, cuio objeito. 

Todo o mundo alumia , 
Trocando a noite efcura cm claro dia y 
Oh Delia , que a pefar da neyoa groiU|i 

Cos teus rayos de prata » . 
A noite efcura £azes , que nam poíU 

Encontrar , o que trata , 

£ o que n'alma retrata , 

Amor 9 por teu divino 
Kíofto > porque endoudeço , U defatino^ 

Qu| 



Tv y QUi de fermoíiinma&eftreEat > 
CoroM » & rodcas 
Tcos cabellos de pc^ta , & &tce$ belUt, 
f. os cjun{»os fcrmoreas > 
Co as roías , que rcmca& » 
Co f 5 boxUnas , que gera 
O teu celoftç amor ma^prímaverju 

PQiS,Delia|do9 céus Ceos vedo eftàs quitai 
Furtoi de piitfdades , 
Suff iros , nmgoas , ays » ixmíica« , cantos j 
Al cQnfQrmes vQQt^des ^ 
Httmas por fiiudades ^ 
Outras por cràs indicio» « 
f atem das próprias vidas facrificiofk 
}a' veto En^imilQ por çftes montes ji 
Q CcQ furpenfo olhando « 
S teu nome cos olhos feitos fontes , 
Era vio fcmpre chamando a 
Pedindo , & fuf)>iráadci 
Mefcès ^ VWL beldade , 
Que ache em ti ^Ig^ma hora piedadie. 
PoB. Tz ^^it» T^oz de branca çada^ 
Nas felvas foHtarra» » 
S& de Teu penfamento acompanhado, 
Cpgvecf^ as ahmacias » 
Pe todo amor contraria» » 
Ma» iwtn çonK> ^i duras 9 
Onde U°ow^ X ^ çbçra dcíVeumias, 
Pam K» Ç«aíd<^ o fítie freíbo de Iba» 



D£ L. DE CaMOENS. tt^ 

Fjira ti no Erytnanco o lindo Opilio , 

As nuis purpúreas roías , 

£ as drogas cheirofas 

De efte noflo Oriente « 
Guarda a felice Arábia mais contente. 
De que Panthera , Tigre » ou Leopardo ^ 

As afperas entranhas , 
fim temerão o agudo , 8c fero dardo , 

Quando peitas montanhas 

Muy remotas , 8c eílranhas , 

ligeira atraveiSivas * 
Tam fermofa , que amor de amor matavas ? 
Das casta$ virgens fempte os altos gricoa^n 

Clar^ Luçina » ouviíle , 
Kenovandolhe a força , 8c os efpritos 9 

Mas os daquelle triíle 

7à Qunqua confentií^ 

Ouvillos hum momçnto « 
Pará fer menos grave fòu tormento. 
Nam fufasde mi afli , nem a^ te efcondai 

De hum cam fiel amante > 
itfha como furpiraó eílas ondas ^^ 

J. como o velho Atlante , 

O Teu cotio 2irr<}gante , 

Move piedoOunenre , 
Ouvindo a. minha voz firaca , Ac doenns 
Tm STB de mi, que me he peor queijcarme^ 

Pois minhas queixas digo , 
A quero )l ergueo a mâo para matarmi ^^ 

Como a cruel imiço ^ 



188 Odes 

Mas eu meu Fado íigo » 

Que a iílo me deílina » 
E sò iílo pretende , & sò me enílna. 
Oh qu anto ha já^que o Ceo me defengana^ 

£ eu fempre porfio 
Cada vez mais na minha ceima. iofana ! 
. Tendo livre alvedrio , 

Nam fu)o o defvaiio , 

£ eíle , que em mi vejo > 
Sngana co a efperança meu deíèjo. 
Oh quanto melhor fora, que dormiílêfli 

Hum fono perennal 
files meus olhos criíles , & nam viíTem 

A cauía de feu mal ! 

Fugira hum tempo tal , 

Mais que de antes protcrva f 
Mats cruel que Uílk , mais fugaz , que Cerva. 
Ay DE MI y que me abrafo em fogo vivo» 

Com mil mortes ao lado , 
% quando mouro mais, entaõ mais vivo l 

Porque aífi me ha ordenado 

Meu infelice eliado » 

Que quando me convida 
A morte para a morte , tenha vida. 

SECB.ETA Noite amiga , a que obedeço^ 

Eftas rofas ( por quanto 
Meus queixumes ouviíle ) te oíFcreço » 

£íle frefco Amarantho , 

Inda húmido do pranto > 

£ lagrimas da efpofa 
Do doTo Titháo branca , & fermoGu 



BI L. BI Camozns. xt]^' 
ODE I L 

X A M fuave , tam frefca » & um fennoCiy 

Nunqua no Ceo fahio 
A Auro):a> Do principio do veráo» 
A's flores dando a graça coftumida i 
Como a fermofa minha fçra , quanda 
Hum penfamenCQ vivo me inípirou^ 

Forquem mc dçfçonhcço. 
BoMiKA pudibunda , ou frefca roía ^ 

Nvnqua no campo abrio > 
Quando o% r^yos do SqI no Touro çíUo ^ 
Pe corot diíFerçnccs eíxnaltada 9 
Como efta flor , que os olhos inclinando % 
O fofrimento nifte coílumon 

A pena, que padeço. 
LxsEiiLAy bella Ninfa y linda» irofii^ 

Han; crço y que feçuio 
Satyro » dujo brando coração , 
Pe amores commoycSç fera irada » 
Que affi fode fugindo , 8c defprezando 
Me tormento y adonde amor moíhou 

Tam profperq começo. 
Nunqua em fim coufa bella x & Bgurol^ 

Natura prqdiizio , 
Que iguale aqqella fcMii^ 9 ^ condição « 
Que as dores , etp que yiro , eítima em nada; 
Mas com um doce geílo , ifado > & brando, 
Q fçntimenco , & a vida me enlevou , 

Qae a pen^i lhe agcside^ 



l$o Odes 

Bem cudei de exaltar em verCo , ou ptofii> 

Aquillo , que a alma vio , 
Antre a doce dureza , & roanfidâo , 
Primores de belleza defuí^da f 
Mas quando quiz voarão Ceo canUndo« 
Entendimento , & engenho me cegou , 

Luz de cam alto preço. 
Naquflla alta pureza dcíeicofa , 

Que ao mundo fe encubrio » 
£ nos olhos angélicos , que do 
Senhores defta vida deftinada , 
£ haquelles cabellos , que foltando 
Ao manfo vento , a vida me enredou y 

Me alegro , & entriíleço. 
Saudade , & fuTpeita perigofa > 

Que amor coníltcuhio y 
Por caftigo daquelles. , que fe vâo : 
Temores , penas , da atma defprezada ^ 
Fera efquivançay que me vai tirando 
O mantimento , que me fuftentou , 

A tudo me oi&reço» 



ODE I IL 



s. 



lE DE meu penCunenco 
Tinta razaõ tivera de alegrarme , 
Quanto de meu tormento 
A tenho de queixarme , 
Poderás iriíle lyisi confolarme. 
£ MINHA voi canfada^ 



DE L. DE C AMOENS. X^t 

Que noutro tempo foi alegre , & pura , 

Nam fora aífi tornada y 

Com ranta defventura y 
Tam rouca , tam pefada , nem tam dura p 

A SEiL como fohia y 
Pudera levantar voíTos louvores , 

Vòs minha Hierarchia 

Ouvireis meus amores , 
Que exemplo faõ ao mundo )à de dores. 

Alegres meus cuidados , 
Contetites dias , horas , & momentos y 

Oh quaó bem alembrados 

Sois de meus penfamentos , 
Reinando agora em mi duros tormentoSf. 

Aj GOSTOS fugitivos y 
Aí gloria )à acabada , & confumida » 

Cruéis males efquivos , 

Qual me deixais a vida y 
Quam chea de pefar, quam deftruída! 

Mas como nam he morta 
A triíle vida )à , que tanto dura i 

Como nam abre a porta « 

A tanta defventura y 
Que em vaô co feu poder o tempo cura I 

Mas PAB.A padecella , 
le esforça meu fugeito , Sc convalcce ^ 

Que sÀ para dizetla » 

A força me falece , 
i, de todo me canfa , 6c enfraquece* 

O* SIM afoicunado » 



Tu 9 que alcinçafte com lira c<3gRU > 

Orfeo , íer ^cucado > 

Do ^ero Rhadamante > 
E Cós teus oUios ver a doce amaau» 

As INFIUNAES figUtaS > 

Moveíle com teu caato docemente % 

As três furtas cfcuras > 

Implacáveis á gente > 
Quietas fe tornarão de repente» 

Ficou como pafmado ^ 
Todo o Stf gio Rejrno co teu canto ) 

E quaíi defcaníado > 

De Teu eterno pranto * 
Cçdou de alçar Siâfo o grave canto* 

A OKDBM Te mudava 
Das penas » qite ordenava alli Plutaõ > 

Era defcanfo tornava 

A roda de Ixiaõ > 
£ em gloria quantas penas "alli faó* 

Pilo qual admirada 
A Raynha infernal » 6í commovida g 

Te deo' á defejada 

Efpofa f que perdida- 
De cantos dias )á tivera vida. 

Pois MINHA deCventura 
Como jà naõ abranda huma alma humana } 

Que he contra mi mais dura , 

£ mui mais deshumana > 
Que o furor de Caliroe profana * 

Qh caua , cfquiva , & fera , 

Dur9 



DE L. DB Ca MO IMS. 1^5 

Buro peito , cruel y cmpedeniido , 
De alguma tigre fera , 
Da Hytcania nafcido » 

00 d*a]itrc as duras rochas produzido* 

Mas qub digo coitado , 

1 de quem fio em vaô minhas quereílai} 

Sò vòs y ò , do fagrado 

Húmido Reyno , bellas « 
£ claras Ninfas > condoeivos delias* 

£ DE euro guarnecidas 
Voílas louras cabeis levantando , 

Sobola agoá erguidas f 

As tranças gotefando , 
Sahi alegres todas , ver qual ando. 

Sahi em companhia , 
Cantando, 8c mais colhendo as lindas flores f 

Vereis minha agonia y 

Ouvireb meus amores y 
£ fenttreis meus prantos , meiis clamorcfc 

VE1I.E1S o mais perdido , 
£ mais mofino corpo y que he gerado » 

Que eftâ )a convc|rtido 

£m choro y 6c neíle eftado , 
Somente vive aellc o &a cuidado. 



ODE ir. 



F. 



EH M OS A fera humana » 
^m cu)o coração fobérbo y & ittdo » 
A força fobenuM 
Tom. //. ^ 



t94 O D z s 

Do vingativo Amor , que vence tudo» 

As pontas amoladas , 
De quantas Tetas tinha , tem quebradas. 

Amada Circe minha 
Pofto que minha nam , com tudo amada > 

A quem hum bem , que tinha 
Da doce liberdade defejada , 

Pouco a pouco entreguei » 
B fe mais tenho inda entregarei. 

Pois natureza irofa 
Da razaÕ , te deo partes tam contrarias > 

Que fendo tam fermofa , 
Folgues de te queimar em flamas varias y 

Sem arder em nenhuma , 
Mais que em quanto alumia o mundo a Lua. 

Pois triunfando vás 
Com diverfos defpo}Os de perdidos , 

Que cu privando eftás 
De razaõ , de fuizo , & de fentidos , 

£ quaíi a todos dando 
AqucUe bem , que a todos vâs negando. 

Pois tanto te contenta , 
Ver o Doíhitho moço «m feno envolto , 

Debaixo da tormenta 
De Júpiter, em agoa , & vento folto, 

A poru , que impedido 
J.hc tem feu bem de magoa adormecido. 

Po&QTJB nam tens receyo , 
Qfic tantas infolencias , & elquivanças , 

A Deofa ^ que poeip freyo 



DE L. DE CaMOENS. l<^f 

A foberbas & doudas efperanças , 

Caftigue com rigor , 
E contra ci Ce acenda o fero amor 2 

Olha a fermofa Flora « 
De defpc^os de mil rufpiros rica , 

Pelo Captcaõ choca , 
Que U em Theílalia em fim vencido fica # 

£ foi fttblime canto , 
Que altares lhe deo Roma , & nome Cantow 

ptHA em Lesbos aqucUa > 
No feu pralterio infigne conhecida y 

Dos mificos que por elU 
Se perderão , perdéo a cara vida ^ 

Na toch^ , que fe infama » 
Com fef remédio eíVremo , de quem amt» 

Pelo moço efcolbido > 
Onde mais fe moílravaô as. crés graças ,. 

Que Vénus efcondido 
Para G, teve hum tempo entre a& alfaça% 

Pagou com morte fria > 
A mi vida , que a muitos \k daria. - 

£ v£MZ>Qs£ deixada 
DaqiieUe » por quem ranços já dexára^ 

Se foi dcfefpcrada 
Precipitar da infame rocha cara.» 

Que o mal de mal querida , 
Sabe f que vida lhe he perder a yiài^ 

Tom A iME bravos mares 9 
Tomatroe vòs-, pois outrem me deixoa» 

£ aíli dos a^tos ares , 

Rh 



J9€ Odes 

íendendo cof& furor fe arremcçou i 

Acode tu fuaye , 
Acode podetofa , 6c divina artf. 

Tom A- A nas azas tuas » 
Miaiao pio , illefa 9 & fem perigo } 

Antes <i|ie neílàs cràas 
Agoas cahiudo , apague o fogo antigo » 

He dino amor tamanho 
Detiver , Òc ler tido por eftranho ? 

Nam , QUi he razaó y que fefa 
Para as lobas izenras > que amor vendem 9 

Exemplo onde fe Te)a , 
Que também ficaõ prezas » at que preoden f 

Aífi deo por fencença 
Ktmefisy que amor quix y que tudo rençt. 



ODE r. 



N. 



u N Q u A manhaá fuare , 
Eftendendo feus rayos pelo mundo , 

DeCpoti de noite grave » 
Tempeftuofa , negra , em mar profuncfo t 
Alegrou tanto Nao , que ]i no ftindo » 

Se vio em mares groíTos , 
Como a luz clara a mi dos olhos voílos. 

Aqublla fermofura , 
Que sò no virar delles refplandece , 

Com quem a fombra efcura 
Clara fe faz , & o campo reverdece , 
Quando a meu penfamenio fe entriftece 



Tyi L. D£ CamOENS. 197 

£lla 9 & a Aia yiveza 9 
Me desfazem a nuve da crifteza* 

O MEU peito , onde eftais» 
He para tanto bem pequeno yafo , 

Quando acafo virais 
Os olhos , que de mi nam fazem cafo} 
Todo y gentil fenhora > então me abrafo 

Na luz , que me confume 9 
Bem como a borboleu faz no lume. 

Se mil almas tivera , 
Que a tam fermofos olhos entregara f 

Todas quantas pudera y 
Polas peílanas delles pendurara 9 
£ enlevada na viíla pura , & clara 

( Pofto que diilo indinas ) 
Se andàraõ fempre vendo nas mininag. 

£ vos Qus defcuidada 
Agora vivireis de tais querellas 9 

D'almas biinhas cercada , 
Nam pudeíTeis tirar os olhos delias » 
Nam pôde Ter , que vendo a voíTa entre ellas , 

A dor , que lhe moílraílem 
Tantas , huma alma fò nam abrandaílem. 

Mas pois o peito ardente 
Htuna sò pôde fer fermofa dama > 

Bafta que efla somente , 
Como fe foíTem duas mil vos ama : 
Pata que a dor de fua ardente flama > 

Com Yofco tanto poíTa y 
Que nam queicais vei cinza húa alma voíla» 

u) 



1^1 Odes 

ODE ri. 



P. 



ODE hum defe|o inuncnro 

Arder no peito tanto > 
Que i branda , U i viva alma o fogo incenft 
Lhe gaíle as nodas do terreno manct , 
t purifique em tanta alteza o efprito 9 

Com olhos immortais 9 
Que fax que lea mais , do que vê efcrito , 

QuB A flama , que fc acende » 
' Alto canto alumia» 
Que fe o nobre defejo ap bem Ce eftende 9 
Que nuaca vio aufente claro dia » 
£ U vé do que bufca o natural ^ 

A graça » a viva cor » 
N*otttra efpecie melhor , que a corporal. 

Pois vòs ò claro exemplo 

De viva fermofura , 
Que de tam Ipnge cà nòco & contemplo 
N*alma > que eíle defejo fobe , & apura , 
l^am creais » que nam vejo aqucUa imagem t 

Que as gentes ounqi^a vem , 
ie de humanos nam tem muita vçntagem ^ 

Que $e 0$ olhos aufentes , 

Nam vem a compaíTada 
Proporção , que das cpres excellencet 
Pe pureza » &: vergonha he variada : 
Pa qual a poefia > que contou 

Atèqui Sfò pinturas , 
Com mortacs fermofuras igualou , 



BE L. DE CxkOEKS. t^f 

S E K A u vem or cabellos^ 9 , 

Que o yulgo chama de ouro » 
E fenam vem os claros olhos bellos , 
De quem cantão , que faõ do Sol thefouro » 
£ fenam rem do roílo as exi^Uencias , 

A quem diráo , qiie deve 
Rofa , crlíbl , Sc neve as aparências 3 

Vem logo a graça- puta » 

A luz alta , U fevefa » 
Que he rayo -da divina fermofura 9 
Que n*alma imprime , Sc fòra reverbera > 
AíC como criftal do Sol ferido ^ 

Que por fòra derrama 
A recebida ikmma , efclarecido. 

£ VEM a gravidade 

Com a viva alegria. 
Que mifturada tem , de quafídadjr » 
Que huma da outra nunqua Ce defWa % 
Kem deixa huma de fer arreceada , 

Por leda , Sc por fuave , 
Mem outra por fer gravê^ muito araadiiv 

S VEM do honefte fiíb » 

Os altos refplandores , 
Temperados co doce , & lèdo^ rifo » 
A cu}o abrir abrem no campo as floresj^ 
As palavras difcreus, Sc fuaves , 

Das quaes o movimento. 
Faca deter o vento , Sc as altas aves.^ 

Dos OL»os o virar 

Que torna tudo afo- , 



\ 



lOO o D 1 « 

Do qual nam íabe o engenho diviiàr 9 
Se foi por artificio , ou feito a cafo ; 
Da prefença 0$ meneos , & a poftura ^ 

O aadar 9 & o moTerfc 
Donde pôde aprenderfe fermofura* 

Aquelle nam fei que , 

Que efptra nam fei com^y 
Que inviíivel (ahindo a vifta o vè » 
Mas para o comprender nam lhe acha tomo , 
O qual coda a Tofcana poeíla t 

Que mais Febo reftaura , 
£m Beatriz. y nem Laura nunqua via. 

£m V òs a noíla idade > 

Senhora , o pode ver , 
Se engenho , & fciencia , & habilidade , 
Igual á fermofura voíla der t 
Como eu vi no meu longo apartamento > 

Qual em aufencia o vejo : 
Tais azas dá o defejo ao penfamento. 

Pois se o defejo afina 

Huma alma acefa^ tanto , 
Que por vòs ufe as partes da divina ; 
Por vòs levantarei nam vifto canto , 
Que o Bcthis me ouça, & o Tibre nie levante. 

Que o noíTo claro Tejo 
Envolto hum pouco o vejo , & diííonante. 

O CAMPO nam o efmaltáo 

Flores , mas sò abrolhos 
O fazem feo » U cuido que lhe faltá« 
Ouvidos pata m , paca vòs olhos i 



TTE L. SrE C A M O E N $. Xel 

Mtt faça o que qtrizer o vil coftumc > 

Que o Sot , que em vòs eftà 
Ka cTcurídão dará mais claro lume» J 



A 



ODE FIL 



QUEM darâÕ de Pindo ás moradoras 

Tam doutas como bellas » 

Florecentes capellas 
Do triunfante louro , ou myrto ycrde > 
Da gloríofa palma , que nam perdt 

A prefumpçaõ fubtime , 
Nem por foi^a do pefo algum fc oprime I 
A QUEM traraõ na fralda 

Rofas a roxa Ctoris , 

Conchas a branca Doris » 
Eftas flores do mar, da cerra aquellaf V 
Argênteas , ruivas 9 brancas , Sc aniarcllai «' 

Com danças » & cocèas , 
De fermofas Nereidas , Sc Napeas I 
A QUEM faraó os HymnDS » Odes, Cantos i 

Em Thebas Anfion, 

£m Lesbos Arion , 
Senam a vòs , por quem reílicmda 
Se vè da pbdíia |à perdida 

A honra , & gloria Igual , 
Senhor Dom Manoel de Portugal ! 
iMiTANro os efpritos fà paíTados» 

Gentis , altos , reais , 

Honra benigna dais 



101 Odes 

A meu tam baixo , quam zclofo cagcnho/ 
Por Mecenas a vòs celebro , & tenho , 

£ facro o nome voílo 
Farei , fe alguma coufa cm vcrfo poíTo. 
O RU DO canto meu , que rcfufcitt 

As horas fepulcadas. 

As palmas jà padadas , 
Dos bellicófos noílos Lufitanos 9 
Para thefouro <ios futuros annos » 

Convofco fe defende 
Da \cy Lethea i à qual tudo fe rende. 
. Na vossa arvore ornada de honra>& glona 

Achou tronco excellente , 

A era ílorecente , 
Para mim atèqui de baixa eftima 9 
Na qual para trepar fe encòíU , & arrima p 

£ nella fubíreis 
Tam alto , quanto os ramos eílendeis. 
SsMPiLE forão engenhos peregrinos 

Da Fortuna envejados » 

Qiie quanto levantados , 
Por hum braço nas azas faõ da Fama » 
Tanto por outro a forte , que os defama p 

Co pefo , & gravidade , 
Os opprime da vil neceílidade. 
Mas altos coraçoens , dinos de império y 

Que vencem a Fortuna > 

Foraõ fempre coluna 
Da fctencia gentil ; Oâaviano , 
Scipiaõ 9 Alexandre > & Giaciano ^ ' 



DE L. DB C A M O E N S lOJ 

Que yemos ímmortais , 
£ vhs y que noílo feculo dourais. 

Pois logo em quanto a cychara fonora f 

Se eílimar pelo mundo , 

Com lom douto , & jucundo , 
£ em quanto produzir o Te)o , & o Douro , 
Pcicos de Marte , & Febo crefpo , ôc louro » 

Tereis gloria immortal , 
Senhor Dom Manoel de Portugal. 

ODE riit. 



A 



QUELT.E único exemplo y 
De fonaleza heróica , & oufadia , 

Que mereceo no tempo 
Da Fama eterna ter perpetuo dia , 
O graó filho de Thctis , que dez annof] 
Flagello foi dos miferos Troyanos^ 

Nam ucmos enfinado 
Foi nas ervas , & medica policia > 

Que deftro , & coftumado ^ 
Ho foberbo exercício da milicia , 
Aíli que as máos , que a tantos morte ddráo « 
Também a muitos vida dar pudèráo. 

£ NAM íe defprezou 
Aquelle fero , & indómito mancebo , 

Das artes , que eníinou 
Para o languido corpo o intonfo Febo > 
Que fe o temido Heitor matar podia » 
Também chagas mortaes cucai fabia* 



ftC4 Odes 

Tais ailtes aprendeo t 
Do fexniviro meftre , & douto 9 velho » 

Onde tanto creCcco 
£m virtude , fdencia > & em conTelho 9 
Que Telcfo por cllc vulnerado , 
Sò deile pôde fer defpois curado. 

Poisa vòs , ò exceliente » 
£ BluílriUimo Conde , do Ceo d^do , 

Paca fazer pcefente 
De altos Heroes o feculo paflado ; 
Em quem bem traíladada eftá a memoria 
De voflos afceadentes , honra , & gloria. 

Posto que o peníàmento 
Ocupado tenhais na guerra infièfta , 

Ou do fanguiaolento 
Taprobano , ou Achem , que o mar moleíb , 
Ou CO Cambayo oculto imigo noflo^ 
Que qualquer delles teme o nome voílo. 

Favorecei a antiga 
$dencia , que )á Achiles eftimou : 

Olhai , que vos obriga 
Verdes , que em voíTo tempo rebentou 
O fruto daquella Orta , onde florecem 
Plantas novas, que os doutos nam conhecem. 

Olhai , que era voíTos annos 
fíuma Orca produzio varias ervas , 

Nos campos Indianos , 
As qiiaes aquellas doutas , & protervas » 
Mcdea^ & Circe nunqua conhecerão , 
r©ílo que i ley da Magica excederá©. 

£ TiDI 



DE L. DE CaMOINS. !•; 

£ vEDi Gurregado 
D*aimos , & traz a varia ezpetiencU 

Hum velho y que eníinado 
Das Gangeticas Mufas na fcicncia 
Podaliria Aicil , & arte filveftre > 
Vence o velho Chiron de Achiles meílre* 

O QUAL eftà pedindo 
Voflo fav^9 & ajuda ao graõ volume , 

Que impreíío à luz fahindo > 
Dará da medicina hum vivo lume y 
1 dcTcubrir nos ha fegredos certos 
A cbdos os antigos encubertos. 

Assi QUE nam podeis 
Negar ( como vos pede ) benigna aura , 

Que fe muito valeis 
Na fanguinofa guerra Turca y & Maura ^ 
Ajudai , quem ajuda contra a morte , 
% Tereis femelhante ao Grego forte. 



ODE IX. 



F, 



O O c M as neves frias 
Dos altos montes , quando reverdecem 

As arvores fombriasy 

As verdes ervas crecem 9 
E o prado ameno de mil cores tecem* 

Z E 1 1 & o brando efpira , 
Suas Teus apior afia agora» 

Progne trifte fufpira > 

£ Filomela chora» 
Tmn. II. i 



O Ceo da frefca terra Te namora* 

Vai Vehus Cythetea 
Com/ os coros das Ninfas rodeada f 

A linda Panopea 

Defpida , & delicada j 
Com ás duas Irmaás acompanhada* 

£m quanto as oíficinas 
Dos C/clopes Vulcano eíU queimando > 

Vaõ colhendo boninas 

As Ninfas , & cantando > 
A cerra co ligeiro pè tocando. 

Dece do duro monte 
Diana )à canfada da eípedura , 

Bufcando a clara fonte , 

Onde por forte dura 
Peifdco Aâeon a natural figura. 

Assi SE VAI paílando 
A verde primavera , & feco eílio > 

Trás elle vem chegando 

Defpois inverno o frio , 
Que também paílarà por certo fio. 

Irseha embranquecendo 
Com á frigida neve o feco monte > 

£ Júpiter chovendo 

Turbará a ciara fonte , 
Temeiào marinheiro o Orizorlte. 

PoKQUE emfim tudo paíla > 
Nam fabe o tempo ter firmeza cm na<U> 

£ noda vida efcaíla 

Foge cam aptcflada ^ 



BE L. DE CaMOENS. 107 

Que quando fe começa he acabada. 

Que fouaõ dos Troyanos y 
Heâor cernido , Eneas piedofo i 

Confumicaõte os annos , 

O' CreíTo tam famofo « 
Sem te valer teu ouro preciofo. 

T o D o o contentamento 
Crias , que eftava no thefouro ufano i 

Oh falfo penfamento , 

Que à cuíla de teu dano 9 
Do douto Sólon creíle o defengano ! , 

O BEM , que aqui fe alcança > 
Nam dura por poílance , nem por force , ,. 

Que a bem aventurança 

Durável , de outra force. 
Se ha de alcançar na vida para â morte ^ 

PoKQUE em fim nada baila 
Coptra o terrível fim da noite eterna» 

Nem pode a Deofa cada > 

Tornar à luz fuperna 
Hypolito da efcura noite Averna. 

Kem Theseo esforçado 
Com manha 9 nem com força riguroíà , 

Livrar- pode o ouíàdo 

Pirithoo da efpantofa 
Frifaõ Lethea , efcura > òc cenebrofa. 



^ 



Sij 



tot Odes 

ODE X. 



A. 



QU E 1 1 B moço fero , 
fia Pelecronia cova doutrinado » 

Do Centauro fevero 9 

Cujo peito esforçado 9 
Com tutanos de Tygrcs foi crcado s 

Na agoa fatal minino 
O lava a máy , prefaga do futuro > 

Para que ferro fino 

Nam paíle o peito duro 9 
Que de íi mefmo a fi fe tem por fflui^ 

A CAUNE lhe endurece y 
Que fer nam poíla d'armas oíFendidat 

Cega 9 que nam conhece 9 

Que pôde haver ferida 
N^alma , que menos doe perder a vida* 

Que aomde o braço irado 9 
Pos Troyanos paliava arnês,, & efcudo 9 

Alli fe vio paffado 

Daquelle ferro agudo 
Do minino 9 que em todos pôde tudo* 

Allz se vio cativo 
Da cativa gentil , que ferve , & adora « 

Alli fe vio , que vivo 

Em vivo fogo mora 9 
Porque de feu fenhot fe vè fenhor«* 

JA TOMA a branda lyra 
Na maõ , que a dura Polias meoeàra 2 



DE L. de.Camoens. 1^ 

AUi canta y & fuípira > 

Nam como lhe eníinára 
O velho 9 mas o moço , que o cegara* ^ 

Pois logo » quem culpado 
Será f fe <ie pequeno ofiêrecido 

Foi logo a feu cuidado » 

No berço iuftituido> 
A nam poder deixar de fer ferido { 

Quem. logo fraco infante » 
Doutro mais poderofo foi fugeito^ 

Que para cega amante 

Foi de principio feito 9 
Com lagrimas banhando o brando peito 2 ' 

Se AG0B.A foi ferido 
Da penetrante feta > & força de erva 9 

£ fe amor he fervido , 

Que íirva a linda ferva , 
Para que minha eílreUa me referva* 

O césTO bem talhado , 
O airofo meneo 9 & a poftura j 

O rodo delicado , 

Que na viíla aíTegura 9 
Que fe çníina por arte a fermofura. 

Como pode deixar 
De cativar , quem tenha entendimento l 

Que a quem nam penetrar 

Hum doce gèílo atento y 
. )f am lhe he nenhum louvor viver isento» > 

Que aqueiles, cujos peitos 
Ornou d'altas fciencias o dcílino , 



^10 o D 1 9 

Efles foraõ fugeitos 

Ao cego , & vaõ minino ^ 
ArrelMitados do furor divino. 

O RiY famofo Hebreo f 
Que mais que todos fonbe , mais Mxaovt, 

Tanto que a Deos aUieo> 

FalTo facrifícou » 
Se muito foube , & teve , muito ertou. 

£ o GRAõ fabio 9 que eníina , 
f afleando os fegredos da Sofia % 

A' baixa concubina * 

Do vil Eunucho Hermra 
E^eo aras , que aos Deofes sò dbvki^ 

A K A t ergue , a quem ama » 
P Filofofb iníi^ne namorado > 

Doefe a perpetua Fama » 

Egríta , que culpado 
De ieià divindade he accufado» 

7a' foge donde babtca » 
là paga a culpa enorme com defterto-y 

Mas ò grande deTdica \ 

fiem moftra tamanho erro » 
Que dostos coraçoens nam ra6 de ferro» 

Antes na altiva mente , 
|Ío Aitil Tangue , & engenho .mais perfóto » 

Ha msíis conveniente, 

£ conforme fugeito , 
€íadé (9 impcicui p brando , òc doce efièito% 



BI t, B£ Camoems. ^ir 
ODE XI. 

IdJiORBS D» PeLJBO com THJRTTS ^ 
& coma de entrambos. nafcfio o forte 



N^ 



AQUELLC tempo brando » 
%m que (è ve do mundo a fennofúra > 

Que Thetís cfeíbinçando 
De feu trabalho eftâ fermofa , & pura ,' 

Cançava Amor o peito 
Do mancebo Pelco de hum duro affêito* 

Com ímpeto fbrçofo 
Lhe avia ]Í fugido a betia Nympha y 

Quando no tempo aquoíb 
Noto irado revolve a clara lympha ^ 

Serras no mar erguendo > 
Que os cumes àos outeiros vem lambendo* 

• EspEKAvA e mancebo 
Com a profunda dor , que na alma Tente 

Hum dia , em que jà Phebo 
Começava a moílratfc ao mundo ardeojs ^ 

Soltando as tranças de ouro ,, 
Em que Clycie de amor faz fhi thefòuro* 

£b.a no mez , que Apoltb 
Entre os irmáos celtflres paíTa o temjio ^' 

O vento enfirea £oh> y 
Faca qu&o deleitofõ paí!atempa 
Seja quieto , 6c mudo , 
Que 1 tud» Âaoc obri^ ^ 6c vence tudb» 



O LUMINOSO dia 
Os amorofos rayos <l«rpeitava 

A' cega idolatria y 
Que ao peito maiscobtenta , & mais agrara^" 

Onde o cego^meiíiiio 
Faz que os humanos creaó que he divino. 

Qu AMDO a fcrmofa Nyropha 
Com todo o ajuntamento venetando 

iNa criAalina lympha 
O criftalino corpo eiU banhando y 

Nas agoas , o qual vendo 
Nelle , alegre de o vei , fe cftà revendo- 

O PEITO diamantino , 
£m cuja branca teu Amor fe cria , 

O geilo peregrino , 
Cuja prefença torna.a noite em dia > 

A gracioíà boca« 
Que -Amor com feus amores mais provoca* 

Os K u B z s graciofos , • 

As pérolas , que eCcoodem vivas roCis 

Dos jardins deleilofos. 
Que Q Ceo plantou çm faces taõ fermofasy 

O transparente collo , 
Que ciúmes a Daphne faz de ApoUo. 

O SUBTIL movimento 
Dos olhos , cuja vifta a Amor cegou , 

A Amor , que com tormento 
Gloriofo , niinca delles íe apartou > 

Pois elles de contino 
Nas meninas o trazem por meniao* . 



©E L. DE Camoens. II j 

Os FIOS derramados 
9aqaeUe ouro > que o peito mais cobiça » 

Donde Amor , enredados 
Nos coraçoens hamanos fogo atiça , 

E donde com defejo 
Mais ardente , começa a Ter fobejo. 

O MANCEBO Peleo y 
Que de Neptuno eftava aconfelhado , 

Vendo na terra o Ceo y 
Em uõ bella figura trafladado , 
Mudo hum pouco ficou » 
Porque Amor logo a falia lhe tirou. 

£ M f I M querendo ver 
Quem tanto mal de longe lhe fatia ,' 

A vifta foi perder , 
Porque de puro amor , Amor nâo via ^ 

Viofe aíE cego , & mudo , 
Por a força de Amor , que pode tudo* 

A 6 ou A fe aparelha 
Para a batalha , agora remetendo , 

Agora fe aconfelha « 
Agora vai , agora eftà tremendo , 

Quando ja de Cupido 
Com nova fetta o peito vio ferido. 

Remete o moço logo 
Para onde eftava a chaga fem foccgo y 

E com o fobefo fogo , 
Quanto mais perto eftava , entaó mais cego y 

E cego , & cum fuípiro , 
Ha fermoOi DonzeUa emprega o tiro* 



aT4 O D X S 

Vingado affi Peleo , 
Nafceo deAe sunotoCS ajunumento 

O forte LariíTeOy 
Deífauiçaõ do Phrygio penfamencoy 

Que por naõ fer ferido 9 
Foi nas agoas £Aygias fubmergido. 



ODE X I L 



X 



A A CALMA nos deíxou 
Sem flores as ribeiras deleitoOis ^ 

Ja de todo fecou 
Cândidos lyrios , rubicundas rofas , 
Fogem do grave ardor os paflarinhos 
Para • fombrio amparo de feus ninhos. 

M E N £ A os altos freixos 
A branda viração de qMando em quando ^ 

£ de entre vários feixos 
O liquido criftal fae murmurando 
As gotas , que das alvas pedras faltaô , 
O Prado , como pcroUs , efmaltaô. 

Da CAÇA ja cançada 
Bufca a cafta Titânica a efpeflura , 

Onde à fombra inclinada 
Logre o doce repoufo da verdura y 
E fobre o feu cabello ondado , & louro 
Deixa cair o bofque o feu thefouro* 

O C E o defempedido , 
Moíèrava o lume eterno das EílrcUas, 

^ de flores veítidg 



Di L. DE Ca*MOENS. II j; 

O campo , brancas , roxas , & amarellas. 
Alegre o bofque tinha , alegre o monte , 
O prado , o arvoredo , o rio , a fbncc. 

Porém como o menino , 
Que a Júpiter por a Águia foi levado 

Ao cerco criftalino , 
For do amante de Clicie viíicado , 
O Bofque chorara , chorará a Fonte , 
O Rio , o Arvoredo , o Prado , o Monte. 

O M A B. , que agora brando ^ 
He das Nereidas cândidas cortado , 

Logo fe irá molhando 
Todo em crefpas efcumas empoUado ^ 
O foberbo furor do negro vento 
Fará por toda a parte movimento* 

Lbt HE DA natureza 
Mudarfe deíla forte o tempo leve y 

Succeder à belleza 
Da Primavera o fruto , a elle a neve » 
£ tornar outra vez por certo fio 
Outono 9 Inverno , Primavera , Eftio^ 

Tudo im fim' faz mudança^. 
Quanto o claro Sol vè ^ quanto alumia > 

Naõ fe acha fegurança 
Em tudo quanto alegra o bello dia , 
^udaõ fe as condiçoens , mudafe a idade > 
A bonança , os eílados , & a vontade* 

SOMENTE a minha imiga 
A dura condição nunca mudou , 

Par^ qpe o mundo diga^ 



íi6 Odes 

Que aeUa Icy tio certa Te quebrou f 

£m naõ verme , cila sò fempre eftâ firme ^ 

Ou por fugir de Amor , ou por fug^rme. 

M A s I A fofrivel fora » 
Que em macarme elia sà moftra firmeza f 

Se naõ achara agora , 
Também em mim mudada a natureza 9 
Pois fempre o coração tenho turbado 9 
Sempre de efcuras nuvens rodeado. 

S E M p iL E exprimento os fios , 
Que em continuo receo Amor me manda 9 

Sempre os dous caudaes rios j 
Que em meus olhos abrio quem nos feus anda 
Correm , fem chegar nunca o Verão brando f 
Que tamanha afpereza và mudando. 

O Sol seilemo , te puro 9 
Que no fermofo rodo refplandece , 

Envolto em manto efcuro , 
Do triíle efqueci mento , nâo parece 9 
Deixando em triíle noite a trifte vida p 
Que nunca de luz nova he foccorrida. 

P o iL £ M feja o que for , 
Mudefe por meu dano a natureza , 

Perca a inconílancía Amor , 
A fortuna inconílante ache firmeza 9 
Tudo mudável feja contra mi , * 
Mas eu firme eílarei no que emprendl. 



ÉCLOGAS 






^44 



H 

^ 






ÉCLOGAS 

D E 

luís de CAMOENS; 



ÉCLOGA L 

'já MORTS DE D, ^HTO ÍTXO DB 
NORONHA , que morreo em Africa ^ & à 
morte de D, Joam Príncipe de Portugal ^ 
jMty delRey D* Sthaftiam, 

UMBR»ANO de F&ONDELIO , Pefiorei. 

U M B B. À K o* 

V^UB grande variedade râõ fáZendo > 
Frondelio amigo , as oras apreíladas y 
Como fe vaó as coufas convertendo « 
Em outras coufas varias , Sc infperadast 
Hum dia a outro dia vai trazendo , 
Por Afãs mefmas horas jà ordenadas : 
Mas quam conformes faõ i&a quancidade 
N Tom. II. T 



iiS K c I o 6 À s 

Tam difiêrentes faõ na qualidade* 

£u VI ia' deAe campo as varias flores J 
K^s eftrellas do Ceo fazendo inveja i 
Vi andar adornados os paftores 
De quanto pelo mundo fe defeja :< 
£ vi CO campo competir nas cores 
Os trajos de obra tanta , & tam fobeja p 
Que fe a rica matéria nam faltava > 
A obra de mais rica fobejava. 

E VI PEUDBJL fcu preço as brancas rofaí| 
£ quafi efcurecerfe o claro dia , 
Diante de humas moftras perigofas , 
Que Vénus mais que nunqua engrandecias 
£mfim VI as paftoras tam fermofas , 
Que o amor de fi mefmo fe temia i 
Mas mais temia o pcnfamento falto , 
De nam fer para fer temor tam alto* 

Agoka tudo eíU um diífèrente , 
Que move os corações a grande efpanto» 
£ parece , que Júpiter potente 
Se enfada jà do mundo durar tanto : 
O Tejo corre tucvo & defcontente > 
As aves deixáo feu fuave canto 9 
£ o gado em ver , que a erva liie falece» 
Mais que de a nam comer , nos emmagcecc* 

FHONDEIIO. 

Umbk^amo irmio 9 decreto he da nacum 
Inviolável » fixo , & fempiterno , 
Que a todo o bem fucccda defventura» 
£ nam haja ptazec > que feja eterno : 



^o claro dia fegue a noice efcura , 
Ao veraó fuave o duro inverno , 
£ Ce hahi quem faiba cer firmeza , 
I^e somente eíla ley da natureza. 

Toda alegria grande , & funtuoía 
A porta abrindo vem ao triíle eftado : 
Se Ifuma hora vejo alegre 9 & deleitoía j 
Temendo eílou do mal aparelhado : 
Kam ves , que mora a ferpe venenofa 
Edcre as flores do Frefco òc verde prado ! 
Nam te engane nenhum contentamento > 
Que mais inílavel he que o penfamcnto. 

£ PS. AZ A a Deos que o triíle, & duro Fadoj; 
De tamanhos deíaílres fs contente : 
Quç fempre hiim grande mal inopinado 
He mais , do que o efpera a incauta gente s 
Qi|^ vejo eíle carvalho , que queimado 
Tam gravemente foi dorayo ardente ^ 
Nam fefa ora prodígio » que declare 
Que bárbaro cultor meus campos are i 
U M 1 IL A M o. 

Em Q(7Anto do feguro azambugeiro 
Nos paftores de Lufo houver cajados , 
£ o .valor antigo , que primeiro 
Os fez no mundo tam aúSnalados : 
Nam temas ta Frondelio companheiro , 
Que em nenhum tempo fejâo fojugadosy 
Nem que a cerviz indómita obedeça 

A outro )ago algum , oue fe oflTereça* 
£ ffOSTO que a foberba fe levante 

TiJ 



^lô C C L o G A 9 

Do inimigo a torto , & a direito y 
NamcreastUy que a fbrça repunante 
Po fero , & nunqua )â vencido psito , 
Que d^rde quem poiTue o monte AthlanteJ 
Atê onde bebe o Idafpe , cem fugetro , 
O poílà nunqua fcr de força alhea > 
Im quanto o Sol a terra , & o Ceo rodesu 
Fi.o)iDZLxe. 

Umbkamo , a temerária fegurança 9 
Que em força , ou em razaõ nam f» aflorai 
He falTa , Sc vaá , que a grande confiança y 
Naiii he fempre a)udada da ventura : 
Que lá junto das aras daeQ>erança , 
I*leníeíis moderada , |ufta , & dura y 
Bum ftcyo ihe eftà pondo 9 ley tcrtiveí i 
Que os limites nam paíle do pofllv^eL 

£ SB atentares bem os grande danos j 
Que fe nos yaó moílrando cada dia y 
Porás freyo também a e(Ies enganeis y 
Que te eftá afigurando a oofòdia } 
Tu nam. ye$ como os lobos Tingintanosg 
Apartados de toda a covardia , 
Mataó o» caés do gado guardadores, 
E nam somente os caés , mas os paílores \ 

E o GB.AHDB curral íègufo & focie , 
Do alto monte, de Achias , nam ouvifte; 
Que. com ftng^iinolenta , & fca morte , 
Peípovoado foi por cafo trifte l 
Oh cafo defeftrado .»- à dura forte í 
ContTji quem força Jbunuuia na» refifte ^ 



l^ae alU cambem da vida foi privado , 
Tionio âieu > ainda em flor cortado. 
U M B n A N o. 

]>£ LAGRIMAS me banha todo o peico V 
Deíle cafo cercivel a memoria , 
Quando vejoy quam fabio, & quam petíèico^ 
£ quam merecedor de longa hiftoria » 
£ra eílè teu paftor, que Cem direito » 
Deo às Parcas a vida craníitoria : 
Mas nam hahi quem de erva o gado farte i 
Nem do juvenil Tangue o fero Marte. 

POX.EM fe te nam for muito pefado p 
Ji ique efta trifte mone me lembràíle » 
Cantares deíle cafo defeftrado 
Aquelles brandos verfos f que cantafte , 
Quando ontem recolhendo o manfo gado» 
De nofoucros paílores ce apartafte > 
Que eu também 9 que as ovelhas recolhia ^ 
Nam te podia ouvir como queria. 
F1.OMDEL10. 

Como quês , que renove ao peníàmenta 
Tamanho mal 9 tamanha defventura i 
porque efpalhar fufpiros váos ao vento » 
Para os que triíles faõ ^ he &lfa cura ; 
Mas pois cambem ce move o fentimento 
Da morte de Tionio criílc > Sc efcura , 
£u porei teu defejo em doce eflèito , 
Se 3i dor me nam congela a voz no peico» 

U M B H A N o. 

Canta agora paítor , que o gado pace 

Tii) 



tit £ c t o 9 il s 

Ancre as húmidas becvas foílegaclo > 

£ li nas altas ferras 9 onde nace 

O facro Tejo à fombra recoílado » 

Com Teus olhos no chaÕ » a maõ na face j 

£ftâ para te ouvir aparelhado , 

E com (Hencto túHç eílaõ as Nhifàs> 

Pos olhos eílilando claras lynfas. 

O vnADo as fioxes brancas , bc yetmel|ja» j 
)^ftà fu.avemente aprefentando , 
êí6 doces 8c foUcitas abelhas , 
Com bum brando fuHirro raõ voando i 
As manfas 8c pacificas ovelhas , 
Do comer efquecidas > inclinando 
As cabeças eílaô ao Com divino , 
Que faz paíTando o Tcfo criíbGno, 

O vsMTQ dentre as arvores refpira > 
iFazendo companhia ae claro rio , 
Kas fombras a ave gárrula fufpira » 
Suas magoas efpalhando ao vento ftio | 
Toca , Çrondelio , coca a doce lira , 
Cue daquelle verde álamo fombrío , 
A branda Filomela entriílccida , 
Ao í^udbfo cántp te convida. 

F&ONDELIO. 

Aqucilb dia as agoas nam goílàrad ^ 
As raimbfas ovelhas , 8c os cordeiros , 
O campo encherão de amorofos gritos ,• 
^am fe depeuduráraà dos fatgueiros 
At cabras de nií^csa , mas negáraú 
O çafto > fl. , ^ alçiçç ws cabritos. 



íyt\j. cí CamoeNS. ixjj 

Prodígios infinitos 
Moftrava aquelle dia , 
' Quando a Parca queria 
Principio dar ao fero cafo trifte » 
E tu também , ô corvof j o defcubrifte , 
Quando da mâo direita em voz efcura 9 

Voando repetifte 
A t^rannica ley da morte dura. 

'TiONio meu , o Tejo çriílalino , 
£ as arvores , que )á defamparaíle , 
Choraõ o mal de tua aufencia eterna ; 
Nam fei porque tam cedo nos deixafte t 
Mas foi conCentimenco do deílino , 
Por quem o mar , & a terra fe governa t 
E a noite ferapiterna » 
Que tu tam cedo vifte ^ 
Cruel , acerba , òc triíle 9 
Se quer de tua idade , nam te dera ^ 
Que lograras a frefca primavera > 
Nani ufara com nofco tal crueza , 
Que nem nos mentes fera f 
Nem paftor ha no campo fem trííleza; 

Os FAUífOS , certa guarda dos paílores , 
7à nam feguem as^Ninfas na efpeílura , 
Nem as Ninfas aos cervos daó trabalho » 
Tudo , qual ves , he cheo de triftura : 
A's abelhas o campo nega as flores , 
E às flores a Aurora nega o orvalho j 
Eu , que cantando efpalho 
Tiiftezas todo o dia , 



^14 £ C L o o A s 

A frauca » que fohia 
Maver as alças atvores tangendo » 
Se me vai de criíleza enrouquecendo J^ 
Que tudo vejo trííle nefte monte , 

£ tu tanfl^^ correndo , 
Xíanas envolu ^triíle , ò clara fontes 
As Tágides no rio , & na afperexa 
Do monte as Oreadas conhecendo 9 
Quem cç obrigou ao duro , & fero Marte c 
Como geral fencença vaõ dizendo , 
Que nam pôde no mundo haver triíleza f 
Em cuja caufa amor nam tenha pane j 

Porque aífi defta arte 

Nos olhos faudofos , 

Nos paflos vagarofos » 
No roílo , a que o amor , & a fantafía i 
Da pallida viola lhe tingia ^ 
A todos de íi dava íínal certo , 

Do fogo , que trazia » 
Que nunqua foube amor fer encuberto^ 

Ja diante dos olhos lhe voavão 
Imagens & fantaílicas pinturas , 
Exercícios do falfo penfamento : 
£ pelas folitarias efpeiluras , 
Entre os penedos sòs , que nam falaváo ij 
Falava , & defcubria feu tormento j 

Num longo efquecimento > 

De ã todo embebido'» 

Andava tam perdido , 
Que quando algum PaAor lhe perguntara^ 



DE L» i>z Camoens. 11|^ 

A caufa de criíleza , que moftrava » 
Como quem para penas sò vivia > 

Sorrindo lhe cornava « 
Senam viveílè crifte morreria. 

Mas como efte tormento o aíTioalou ^ 
£ timo no feu roílo fe moftraUe , 
Entendido mui bem do pay feCudo » 
Porque do penfamento lho tiraíle , 
Longe da caufa delle o apartou , 
Porque em fim longa aufencia acaba tudo f, 

Mas ò ru Marte rudo , 

Das vidas cobiçofo » 

Que aonde o generofo 
Peito refufciuva em tanta gloria , 
De Teus antecedores a memoria , 
Alli fero , Sc cruel lhe deftruifte y 

Por iu|uâa vitoria , 
primeiro , que o cuidado , a vida trífta4 

Pauecehe 9 Tionio , que te vejo > 
Por tingires a lança cobiçofo , 
Naquelle infido fangue Mauritano, 
£m IÍ|>ano ginete bellicofo , 
Que ardendo tombem vinha no de(è|Q jl 
De derrubar por terra o Tingitano s 

Oh confiado engano i 

Oh. encurtada vida \ 

■ Que a virtude oprimida 

Da multidão forçoTa do inimiga» 

K^m pode defenderfe do perigo i 

forque aífi o deftino q permitia ^ 



%%€ E C L o G A f 

E affi levou configo « 
O mais gentil paftor y que o Tejo vio» 

Q o A L o mancebo Euryalo enredado ^ 
Entre o poder dos Rutuios fartando 
As iras , dã foberba , 2c dura guerra , 
Do criílalino roílo a cor mundando > 
Cujo purpúreo Tangue derramado , 
Pelas alvas efpaldas tinge a ferra , 
Que como flor , que a terra 
« Lhe nega o mantimento » 
Porque o tempo avarento ^ 
Também o largo humor lhe tem negado â 
O collo inclina languido y & caofado | 
Tal te pinto Tionio dando o efprito p 

A quem to tinha dado y 
Que efte he (òmente eterno , & infinito* 

Da boca congelada a alma pura» 
Co„pome juntamente da inimiga y 
£ excellente Marfida derramava i 
£ tu ) gentil fenhora , nam te obriga, 
A pranto fempiterno a roçrte dura » 
De quem por ti íòtnente a vida amavâ I 
. . Por ti aos eccos dava 
Acentos numerofos » 
Por ti aos bellicofos 
Ixercicios fe deo do fero Marte y 
£ tu ingrata , o amor já noutra parte 
Porás y como acontece y ô fraco intento ^ 

Que emfim delia mefma arte , 
Se muda o. feminino penfamento. 



Pastores defte vaile ameno » fie fiio ^ 
«^ue de Tionio o caio defeftrado 
Quereis nas alças ferras , que fe cante s 
Hum cumulo , de flores adornado , 
Lhe edificai ao longo defte rio « 
Que a vella enfree ao duro navegante $ 

£ ao laíTo caminhante » 

Vendo tamanha magoa , 

Arrase os olhos de agoa » 
lendo na pedra dura o verfo efcrito » 
Qiie diga aâi , Memoria fou que grito » 
Pata dar teftemunho em toda a parte , 

Do mais gentil efprito , 
Que tiràraô do mundo amor » £c Marte. 

U M B 1. A M o. 

Qu A L O quieto fono aos canfados « 
Debaixo d*alguma arvore fombria » 
Ou qual aos fequiofos y 6c encalmad«s ». 
O vento refpirante > a fonte fria , 
Taes me foraõ tens verfos delicados , 
Teu numerofo canto , & melodia ; 
£ ainda agora o' tom fuave & brando » 
Os ouvidos me fica adormentando. 

£m quanto os peixes húmidos tiveren» 
As arenofas covas deíle rio , 
£ correndo eftas agoas conhecerem 
Do largo roár o antigo fenhorio t 
E em quanto eílas ervinhas pafto derem 
A't petulantes cabras » eu te fio 
<Que toi viuttde dos vetfos , que caacaftc| 



lãS E c t o 6 A s 

Sempre viva o paftor , que tanto sanaãei 

M AS j A que pouco a pouco o Sol nos falOÍ 
E dos montes as fombras fc acrcfceniáo , 
De flotcs mil o dato Ceo fc cfmalta , 
Que tam ledas aos olhos fc aptefcmáo , 
Levemos pelo pè deíbi ferra aka » 
Os gados , que |à agora fe contenção , 
Do que comido tem > Frondelio amigo i 
Anda que atè o outeito irei contigo. 

FX.ONDELXO. 

A H T s s por efte yalle, amigo Umbraao', 
Se te aprouver , levemos as ovelhas , 
Que fe eu por defacerco nai9 me engano , 
Daqui me foa hum ecco nas orelhas : 
O doce accenco nam parece humano , 
£ fe iu nefte cafo me aconfelhas » 
£u quero ver daqui , que coufa feja y 
Que o com me efpanca,fic a vos me faz enveja; 

U M S B. A M o. 

CoKTiGO VOU , que quanto mais me chego 
Mais gentil me parece a voz , qne ouviíU » 
Peregrina , excellence , ôc nam te nego > 
Que me fax cà no peito a alma triíle » 
Vès como tem os ventos em foílego í 
Nenhum rumor da ferra lhe reíiíle , 
Nenhum pailaro voa , mas parece 
Que do canto vencido lhe obedece. 

P9&EM , irmão , melhor me parecia » 
Que nam foíIemos>U , que eftorvaremos : 
^as fubidos neíU arvore fombcia ^ 

Todo 



OE L. SI CaMOSNS. XX5^ 
Todo o Valle daqui defcubrkemos i 
Os çurcoens , & cajados todavia , 
Neíle comprido tronco penduremos» 
Para fubir , fica liomem mais ligeiro , 
Deixame tu Froadelio ir primeiro. 

FX.OHDSLIO. 

£svf s. A zíR y darceiíei de pè > fe queres > 
Subirás Tem trabalho , & fem ruido , 
£ defpois que fubido iâ eíliveres y 
Darmehas a maõ de cima > que be partido | 
Mas primeiro me dize , fe puderes 
Ver , donde nafce o canto nunqua ouvido y 
Quem lança o doce acento delicado : 
Fala ^ que )à te ve}o eílar pafmado. 

U M,B 1. A M o. 

Cousas nam coftumadas na erpeíTura, 
Que nunqua vi y Frondelio , vejo agora.^ 
Fermofas Ninfas vejo na verdura , 
Cujo divino gèílo o Cco namora ; 
■Huma de defuCada fermofura , 
Que das outras parece Ter fenhora 9 
Sobre hum triíle íepulcro nam ceifando 
Bftá perlas dos olhos deílilando. 

De todas eftas altas femideas y 
Que em torno eílaõ do corpo fepultado^ 
Humas regando as húmidas arèas , 
De flores tem o tumulo adornado i 
Outras queimando lagrimas Sabèas , 
Enchem o ir de cheiro fublimado * 
Outras em ricos panos m^is avance , 

TQm. //. V • 



i)« Éclogas 

Earolvem brandamente hum novo infante. 

HUMA f que d'antre as oucras £c apartou » 
Com gritos , que a montanha «ntriftecèraõ , 
Diz , que defpots que a morte a flor cortou « 
X2ue as eftrelias somente merecerão : 
Que eíle penhor chatiffimo ficou j 
Daquelle , a cujo Império obedecerão 
Douro , Mondego » Tejo , 8c Guadiana ; 
Tè o remoto nur da Taprobana. 

Diz mais , que fe encontrar efte minino » 
A noite intempeftira amanhecendo , 
Que o Tejo agora claro , & criAalino , 
Tornará a fera Alcâo em vulto korrendof 
Mas fe (br confervado do deftino , 
Que as eftrellas beninas prometendo 
the eftaõ o largo pafto de Âmpelufa , 
Co monte , que em mao ponto vio Medaíà. 

£ s T B prodígio grande a Ninfa bella 9 
Com abundantes lagrimas recita » 
Mas qual a eclypfada clara eílrella , 
Que entre as outras o Ceo primeiro habita , 
Tal caberta de negro vç^ aquella , 
A quem sò n*a1ma toca a graõ defdita : 
Dacà , Frondelia , a maõ , & fobe a ver 9 
Tudo o mais que cu de dor nam fei dizer. 

F&OMDStJO. 

' Ok tuiste morte, erquiva, &c maloUuda^ 
Que a tantas fermofuras injurias , 
Daquella Deofa bclla , & delicada » 
Sc qu^r algum cçípeito ter devias : 



/ DE L* 9C Camoins. I|| 

MÍkà he por certo Aonia , âlba amada 
Paqueile graõ paftor, que em noíTos dial 
Danúbio ciifrea » & manda 9 claro Ibèco , . 
Sípanta o morador do Euxiiió fero. 

M0K.R.E0LHE o excellente , & poderoTOf 
( Que a ifto eíli fugeita a rida humana > 
Doce AoQÍo de Aonia caro erpofo » 
Ah ley dos Fados afpera , Sc tyrana t 
Mas o fom peregrino , & piedofo » 
Com que a fermoTa Ninfa a dctr engana $ 
Efcisra hum pouco 9 nòca , & vê Umbrano, 
Quaõ bem que foa a Terfo Caftelhano. 

k o V 1 A, 

Alma , j primero amor det alma mia^ 
Erpiricu dicho£b, em cuya ^ida » 
La mia eíluvo y em quanto Dios queria % 

Sombia gentit de fu priíion falida » 
Que dcl mundo a Ia pátria te bolviile » 
Donde fuiíle ei^endrada « y procedida \ 

Recibe allá elfacrifício triíle » 
Que te ofírecem Io» o}o5 , que te víeteo ^ . 
Si Ia memoria dellos no perdxíle , 

Que pues los altos ciclos permitteroQ p 
Que no te acompanaíTe en tal fornada ^ 
Y para omafe foto a t» quiíleron : 

Nunqaa permitiràn , que acompaõadaí 
De mi no íèa eíla memoria tua ^ 
Qpe eftà de tus defpojos adornadli» 

Ni dexeràn , por más que e^tiempohupa ^ 
De eíbu: em mi com fcmpitcmo !lanto , 

Vi| 



%^% Éclogas 

Hafta que vida , y alma fe dcfttuya , 
Mas tu gentil cfpirito entretanto , 
Que otros campos , y flores vàs pifando f 
y otras çamponas oycs , y otto canto ; 

Aora embevecido cftès mirando 
AIU en el Empíreo aqueUa idea , 
Que el mundo enfrea , y rige con fu mando 

Aora te poflea Cytherea » 
In fu tctccro afliento , ò porque amafte , 
O porque nueva amante allà te fca: 
. Aora el Sol te admire , íi miraíle y 
Como và por los ílgnos encendido , 
Las tierras alumbtando , que dexafte : 

Si en ver eftos milagros no has perdido 
la memoria de mi , ò fue en tu mano 
liQ padar por las agoas dei olvido ; 

Buelve un poço los ojos a eíle Uano , 
Verás una , que a ti con trifte lloro , 
Sobre eftc marmol fordo llama en vano : 

Pêro fe cntrarcn cn los ílgnos de oro 
l^imas 9 y gemidos amorofos , 
Que muevan el fupremo fanto coro , 

L^ iumbre de tus ojos tan hermofof p 
Yo la vcrè muy prefto , y podre verte , 
Que a pefar de los hados enojofos , 
ITambien para los triíles huvo muettc- ' 



^ 



ÉCLOGA II. 

iULMENO Sc AGRÁRIO. 



A 



,o LONGO do fereno 

Tejo fuave , & brando « 
Hum Taile de altas arvores fombtxOjí 

Eílaya o trifte Almeno 

Suipiros eípalhaodo 
Ao TcaCD \ & doces lagrimas ao rio j^ 

No derradeiro fio 
. O tinha a efperança y 

Que com doces enganos 
Lhe fuílencâra a Tida tamos annos » 
Natna amoroTa ^ fie branda confiança j 

Que quem tanto queria , 
Parece que nam erra fe confia* 

A KoxTE efcura dava 

Riepoufo aos canfados 
Animais , efquecidos da verdura % 

O valle triíle eílava 

Cuns ramos caregados 9 
Qdc a noite faziáo roais efcura s 

Moftrava a efpeíTura 

Hum temerofo efpanto^ 

As roucas rás Toavão > 
Kum charco de agoa negrg , & ajudaváo jí 
Do paflaro noâurno o triíle canto : 

O Tejo com fom grave , 

V" • •» 
\\\ 



iy^. EctOGAS 

Corria mais medonho , que fuave% 

Como toda a criíbza , 

No filencio coaíifte i 
Pareaa que o valle eftava mudo s 

£ com eíla graveza 

Eftava tudo trifte , 
porem o trifte Almeno mais que tudo : 
. Tomando por efcudo 

De fua doce pena > 

Para poder fofrella y 
Eftat imaginando a cauía delia : 
Que em tanto mal he cura bem pequena > 

Mayor he o tormento , 
Que toma por alivio o penfamento* 

Ao mo SE queixava » 
« Com lagrimas em £o , 
Com que as ondas crefdáo outro tanto i 

Seu* doce canto dava > 

Triftes agoas ao rio » 
B o rio trifte fom ao doce canto s 

Ao canfado pranto , 

Que as agoas refreava y. 

Refponde o ,valle umbrofo s 
Da manfa voz o acento temerofo 
Ma outra parte do rio retumbava » 

Quando da fantaiia , 
O 0encio rompendo , afli dizia»> 

A L M B M o. 

C o IL B. E fuave y & brando , 
Com tuas dacas agoas , 



DE L. DE CaMOENS. ^}f 

Sabidas de meus olhos ( doce Tejo > 

Fè de meus inales dando f 

Paca que minhas magoas 
Se|aõ caítigo igual de meu dcfejo ; 

Que pois em mi nam vejo 
■ Remédio , nem o efpero » 

£.a morte fe defpreza 
De me maçar , deixandome à crueza 
Daquella , por quem meu cormenco queron 

Saiba o mundo meu dano f 
Porque fe defengane em meu enganos 

J A Qu B minha ventura » 
• Ou quem me a caufa ordena f 

Que por paga da dor come fofcella , 

Será mais cerca cura ^ 

P^ra camanha pena, 
I>ererperar de haver ;à cura nella t 

Porque fe minha eftrella , 

Caufou cal efquivança > 

Coníinca meu cuidado » 
Que me farce de fer defefperado ,• 
Para defenganar minha efperaiiça^ 

Que para iflb nafci , 
Para viver na morce , &: ella em mi. 

Nam cesse meu tormenco 

De fazer feu oíHcio , 
Que aqui huma alma tem ao jugo Sitzdif 

Nem falte o fofri mento 9 

Porque parece vicio , 
Faca cam doce mal , fakarme nada 1 



%lé IS c I o C A s» 

oh Nin£ai delicada ^ 

Honra da natareza » 

Como pôde ifto fer » 
Que de um peregtino paiecer » 
Pudeíle proceder tanu crueza ! 

Nam vem de nenhum geito » 
Pa caufa divinal contrario effèipo. 

Pois COMO pena tanta 

He contra a caufa delia l 
Foca he de natural minha triíleza ^^ 

Mas a mi que me'erpanta y 
, Nam baila ô Ninfa bclU » 
Qufi podes peiverter a natureza ^ 

Nam he a gentileza 

De teu gèfto celefte 

Fora de natural) 
Nam pôde a natureza fazer tal , 
Tu mefma , belta Ninfa , te fizeíb » 

Potcm porque tomafte 
Tam dura condição > fe te fotmafte i 

Poa. TI alegre o prado 

Me he pefado y & duro y 
Abrolhos me parecem fuás flores | 

Por ti do manfo gado > 

Como de mi nam curo , 
por nam fazer ofiFeníà a teus amores > 

Os jogos dos paílores , 

As lutas entre a rama » 

Nadfi me faz contente , 
£ fou já do que fui tam diâêrente , 



Qae qttando por meu nome algoé m*chama, j 

PaTmo quando coaheço , 
Que ioda comigo mermo me pareço. 

O c A D o , que apacenco , 

Saõ n*alma meus cuidados f 
l as flores , que oo campo fempre ve^Oi^ 

Saõ , no meu penCamento , 

Teus olhos debuxados , 
Com q;uc cíloa enganando meu dcTelo t 

As agoas frias do Tefo , 

De doces fe tomáiaò 

Ardences , 8c íalgadas , 
I>e€pcMs que minhas lagrimas can&dat^ 
Com íeu puro licor fc miíluraraó s 

Como quando miftura 
"Bfoami CO Exampeo fua agoa puni. 

Se ahi HO mundo houyefiè^ 

Ouvirefme alguma hora , 
AHeacada na praya dcfte rio , 

£ de arte t& didefie , 

O mal y que paflo agora » 
Qjoe pudeílc moverte o peico frio l 

O quanto defvario , 

Que eílou afigurando ! 

Já agora meu tormento 
NjUB pôde pedir mais ao penfamento , 
Qoc eíle iancaíiar , que imaginando 

A rida me referva , 
Qoecer mais de meu mal fera foberbai 

Ja' a £$2&atau>a Aurosi^ 



I3S I. C L o Ú A i 

Defcobre o negro manto 
Pa fombra , que as montanhas aicubria 9 

Defcan(k, frauca, agon^ 

Que meu canfado canto , 
Kam merece 9 que veja o claro di^ ^ 

Nam canfe a fantafia « 

De eftar cm íi pintando 

O gèfto delicado 9 
£m quanto traz ao pafto o manfo gado , 
Efte paftor , que lá sò vem fallando : 

Calarmehei íòmente. 
Que meu mal nem ouvir fe me oonlènte. 
Acha hio, Pafior, 
FiHUOsA manhai clara « & deleitoíà. 
Que como frefca rofa na verdura , 
Te moftras bella , fie pura , marchetando 
As Ninfas , efpalhando íêus cabellos 
Nos verdes montes bellos, tu sò faxes , 
Quando a fombra desfazes , trifte , £c eficuta» 
Fermofa a efpeílura , & frefca a fonte , 
Fermofo o alto monte , & o rochedo» 
Fermoib o arvoredo 9 & delettoTo 9 
£m fim 'tudo fermofo com teu roflo > 
D'ouro y & roGis compollo , flc claridade* 
Trazes a faudade ao penfamento , 
Mpftrando n'hum momento o roxo dia ^ 
Com a doce armonia nos cantares 
Dos paílaros a pares , que voando » 
Seu pado and4o bufcando nos raminhot 
Para os amados xúohos, que manrcm» 



1>E L. DE CaMOEKS. tjjf 

Oh gnmde , & fumo bem da natureza > 

Eftranha fucilez^ de pintora , 

Que matiza n'huma liora de mil cores 

O Ceo f a tena , as flores , monte , & prado i' 

Oh tempo }á paílado 9 quam prefente 

Te vejo abertamente na vontade , 

Qiiamanha íaudade tenlio agora 

Do tempo f que a paftora minha an^rt ^ 

£ de quanto prezava minha dor : 

Entaõ tinha o amor ma^or poder 9 

Entaô num sò querer nos igualava y 

Porque quando hú chamava , a qucmqueriaj^ 

O ecco refpondia de a£Fêiçaó , 

No brando coração da doce imiga , 

Nefta amorofa liga conceruvaõ , 

Os tempos , que paílavaõ com prazeres ^ 

Moftrava a flava Ceres polas eiras , 

Das brancas fementeiras ledo fruto , 

PagandoAu tributo aos lavradores , 

E enchia aos paftores todo o prado , 

Pales do manfo gado guardadora : 

2Lefiro 9 & frefca Flora paflèando , 

Os campos efmaltando de boninas : 

Nas agoas criflalinas trifle eíUva 

Narcifo , que inda olhava na agoa pura ^ 

Sua linda figura delicada : 

Mas Ecco namorada de feu gèílo » 

Com pranto manifeflo , feu tormento 

No detradeito acenco lamentava > 

AlU tambcm fe achava o íangue tinto 



'%^a Éclogas 

Do purpúreo Jacíncho , & o deílroço 
De Adónis , lindo moço , morte fea , 
Da bella Cycherèa cam chorada , 
'^CMta.a terra efmaltada dedas rofas , 
Aili as Ninfas fermofas pellos prados , 
Os Faunos.Jiamorados apoz elU$ > 
Moftrandolhe capellas de mil cores ^ 
Que fatiaó <las flores , que colhiio p 
As Ninfas Ibe fugiáo amedrentadas , 
^s fraldas levantadas pellos montes , 
A frefca agoa das fontes erpalharfe.) 
Vextumno transformarfe alli fe via » * 
Pomona , que trazia os doces fruytos 9 
Alli paílores muitos , que tangiaõ 
As gaitas , que traziáo > ic cantanda 
£ílaváo enganando fuás penas » 
Tomando das Sirenas o exercido > 
Ouviafe Salicio lamencarCe % 
Da mudança queixarfe criU f & fea ^ 
Da dura Galathea tam fermofa , 
£ da morte «nvejofa Nemerofo , 
Ao monte cavernofo fe querella , 
Que fua Etifa bella em pouco efpaço « 
Cortara inda em agraço a dura forte. 
O* ioimatuta morte , que a ninguém 
De quantos vidas tem , nunqua perdoas! 
Mas tu tempo , que yoas apreíládo , 
Hum deleitofo eílado » quam afinba 
Nefta vida meíquinha transfiguras 
£m mil defavcoturas ,òc a, lembrança , 

Nm 



%1 L. Dt Camoeks; 1^4 

Kbs deixas por herança do que Uvas , 
Aíli que fe nos cevas com prazeres, 
He para nos comeres no melhor , 
Cada vez em peor re vàs mudando 9 
Quanro vens inventando , que hoje aprovas } 
Logo à manhaá reprovas co^Mnllancia , 
Oh eílranha inconftancia , &gam profana , 
De coda*a caufa humana inflnor , 
A quem -o cego error fempre anda anexo ! 
Mas eu de qile me queixo; ou o que digo ! 
Ví^^e a rcmpo Comigo , ou elle cem 
Culpa no mal , que vem da cega gente í 
Por ventura elle fence j ou elie entende 
Aquillo , que defende o fer divino l 
Elle ufa <le comino feu officio » 
Que jà por exercido lhe he devidos 
Danos fruito devido na fazio 
Do fermofo verão 9 & no inverno « 
Com feu humor eterno congelado , 
Do vapor levantado co a quentura 
DoISbl à terra dura lhe dá alenco y 
Para que 9 o mantimento produzindo ^ 
£ftè fempre cumprindo feu cuílume > 
Afli que nam confume de íi nada f 
Nem muda da paíTada vida hum dedo , 
Antes fempre eftá quedo no devido , 
Porque eíte he feu patcido , & fua ufançaV 
^ nelle efta miídança he mais firmeza : 
Ma& quem ale/ defpreza , & pouco eAima j 
De quem de lá de cima eíU movendo 
Tom. li. ^ 



%^% Éclogas 

o Ceo fiiblime , & horrendo » o mundo por» 

£ muda o fcgaco, & firme eftado 

Do cempo , nam mudado da verdade. 

Nam foi naquelia idade de ouro claro » 

O £rme tempo caro , õc excellente \ 

Vivia encaõ a gMte moderada , 

Sem Tec a terra JHpida dava paó , 

Sem fer cavado ^h&aõ as frutas dava ^ 

Nem chuva defejava « nem quentura ^ 

Supria entáo natura o neceílario : 

Pois quem foi tam contrario a efta vida I 

Saturno , que , perdida a luz ferena > 

Caufou f que em dura pena defterrado > 

Foíle do Ceo deitado onde vivia , 

Porque os filhos comia , que gerava » 

Por ido fe mudava o tempo igual 

£m mais baixo meul , & afli decendo 

Nos vcyo aífi trazendo a efte eftado. 

Mas eu defatinado adonde vou i 

Para onde me levou a fantafia } 

Que eftou gaftando o dia em vis palavrail 

Quero ora minhas cabras ir levando 

Ao manfo Tejo brando , porque achar 

No mundo , que emendar , nam he de agora ^ 

Baila que a vida fòra delle tenho , 

Com meu gado me avenho , eftou contente ^ 

Porém fe me nam mente a vifta » eu vejo 

Nefta praya do Tejo cftar deitado 

Almeno>que enlevado em peufamentos ^* 

Al hoias p õc momentos vai gaftando j 



DE L. DE CaMOENS. 14 f 

^arlelle vou chegando sò por ver 
Se poderei fazer , que o mal que fente 9 
Hum pouco fe lhe aufence dá memoria. 
A L M B MO fonhando. 
Oh doce penfamenco » ò doce gloria 9 
Saó cftes por ventura os olhos bellos , 
Que cem de meus fencidos a vitoria i 

Saô eílas , Ninfa y as tranças dos cabelloi p 
Que fazem de feu preço o ouro alheo 9 
£ a mi de mi mefmo sò com vellos ! 
^ He efta a alva coluna , o lindo efteo » 
Suílentador das obras mais que humanas , 
Qf eu nos meos braços tenho, & nam no creò t 

Ah falfo penfamenco , que me enganas 9 
Fazefme pòr a boca onde nam devo « 
Com palavras de doudo , 6c qua(i infanat* 

Como alçarce tam alco aifi me atrevo I 
Taes azas , doutas eu » ou cu mas dásl 
Leváfme cu a mim , ou eu te levo 2 

Nam poderei eu ir onde tu vás { 
Forem pois ir nam poilo onde cu fores ^ 
Quando fores nam cornes onde eílás» 

A 6 H A H I o» 

O H Q u B criíU fucceíTo foi de amoret i 
O que a efte paftor aconceceo > 
Segundo ouvi concar a outros paílores » 

Que tanto por (èu dano fe perdeo 9 
Que o Iqi^o imaginar em feu tormento j^ 
£01 de(atino o amor lho converteo. 

forçoíb vigoc do penfimento» 

Xii 



l44 £ c L o 6 A $' 

Que pôde D*oucra coufa eftar mudando 
A fornia 9 a vida 9 o íifo , o entendimento f 
f Eftá-fe hum triíle amante transformando > 
Na Tontade daquelia , que tanio ama y 
De íi fua própria eflència trafportando $ 

£ nenhuma outra coufa mais defama ^ 
Quea íi > fe vè > que em fi lia algum fcL ído ^ 
Que deíle fogo infano nam fe inflama. 

Almeno 9 que aqui eftà tam influido . 
No fantaftico fonho , que o cuidado 
Lhe traz fempre ante os olhos efculptdo \ 

£ftà felhe ptnundo de enlevado > 
Que tem jà da fantaftica paftora 
O peicp diamantino mitigado. 

Em efte doce engano eftava agora , 
Talando como em fonhot , mas achando 
Ser vento o que fonhava , grita , & chora» 

Defta arte andavaõ fonhos enganando j 
O paftor fonolento , que a Diana 
Andava entre as ovelhas celebrando. 
, Defta arte a nuvem falfa em forma humaioi 

vaõ pay dos Centauros enganava 

1 Que amor quando contenta fempre engana ) 

Como a efte , que coníigo sò falava , 
Cuidando , que falava de enlevado 
Com quem lhe o penfamento figurava. 

Nam pôde , quemquer muito , fer culpado 
^m nenhum erro , quando vem a fer 
O amor em doudice transformado. 

Nam be amor^ amor ^ fe n<m vice 



DZ L. D£ CaMOEHS. IJ^f 

Cotn doudices , deshonras y diíTcnçocns , 
Pazes , guerras , prazer , & defprazer y 

Perigos y línguas más , murmuraçoens f 
Ciúmes 9 arroidos , competências , 
Temores , morte» > nojos , perdíçoens x 

Eílas faó verdadeiras penitencias 
De quem põem o defejo onde nam deve^ 
De quem engana aliíeas innocencias. 

Mas ido tem amor , que nam fe efcteve ^í 
Senam onde he illidto , & cuílofo , 
£ onde he mòr perigo , mais fe atreve. 

Paílava o tempo al^re , & deleitofo p 
O Troyano pafior, em quanto andava 
Sem ter alto defejo , & perigofo , 

Seus furiofos touros coroava , 
^ nos alamos altos efcrevia y 
Teu nome , Enone , quando a ti s6 amavAj^ 

Creciáo os altos alamos » crecia 
O amor > que te tinha , fem perigo^ 
£ fem temor contente te fervia. 

Mas defpois que deixou entrar coaíigo 
Illicito defejo , & penfamento , 
De fua quietação um inimigo* 

A toda a pátria poz em detrimento » 
Com mortes de parentes , & de kmáos» 
Com crà incêndio , & grande perdimento^ 

Nifto fenecem penfamencos váos > 
Triftes ferviços mal galardoados » 
Cuja gloria fe pailà d*entre as máos. 

Lagrimas^ 6c fufpiros arrancados 



54^ E c L o c A í 

D*alnix, todos fc pagaó com enganos j 
£ oxalá foíTem muitos enganados. 

Andaó com feu tormento tam ufanos » 
Gaftando na doçura de hum cuidado > 
Apoz huma efperança tantos annos. 

£ qual ha tam perdido namorado ^ 
Tam contente co pouco , que daria 
Por hum sò mover de olhos todo o gado ,' 

£ em todo o povoado , & companhia , 
Sendo aufences de fi , eftaó prefcntes , 
Com quem lhe pinta fempre a fanuíia » 

Com hum certo nam Cei q andaó contentes^ 
£ logo hum nada os corna ao contrario > 
De todo o fer humano diferentes. 

Oh tyranico amor » ò cafo vario , 
Que obriga a hum querer , que fempre fcji 
De ã contino , òc afpcro advcrfario ! 

£ outra hora nenhuma alegre eíleja » 
Se nam quando do feu defpojo amado 
Sua inimiga eílar triunfando veja. 

Quero fallar com cfte , que enredado 
Neíla cegueira eftà , fem nenhum tento i 
Acorda )à y Paftor defacordado. 

A I. M E N o. 

Oh porque me tirafte hum penfamento y 
Que agora eílava aos olhos debuxando, 
De quem aos meus foi doce movimento? 
A Ó K. A IL I o. 

Nessa imaginação eílàs gaftando 
O tempoy U a vida^ Almeno^ ò peida grande^ 



h^ I. DE Camosks. %47 

fJãta yès quão mal os dias vàs padando l 
Á L M E N o. 
f ES.MOSOS olhos , ande a gente , & ande p 
Que nucqua vos ireis deíla alma minha , 
Por fluis^4 ^ cc°3po corra, & a morte mande* 
A 6 s. A n j o. 
Quem pudera cuidar , que tam aúnha 
Se perca o curfo afli do íifo humano , 
Que corre por direita & juíla linha l 
Que fejas tam perdido por teu dano , 
Almeno irmáo , nam he por certo avifo , 
Mas mui grande doudice , & grande engano* 
A X M s N o. 
Oh Agka&io y que vendo o doce rifo , 
% o roílo tam fermofo , com cfquivo y 
O menos que perdi foi todo o (Ifo. 

E nam entendo , defque foi cativo y 
Outra coufa de mi , fenam que mouro y 
^íem ifto entendo bem , pois inda vivo y 

A' fombra defte umbrofo , Ôc verde louro, 
PaíTo a vida > ora em lagrimas canfadàs , 
Ora .em louvores dos cabellos d*ouro» 

Se perguntares porque faó choradas.. 
Ou porque tanta pena me confumc , 
Kcvolvendo memorias magoadas ? 

befque perdi da vifta o claro lume, 
]^ perdi a ef^erança , & a çaufa delia > 
>iam choro por razão , mas por coftumc , 

Jà mais pude co Fado ter cautela , 
Kcm Ijouve nunqua eiA mi contçAC^mearo jf 



%j^t Éclogas 

Que fiam fbíle trocado em dura eftrelU 9 

Que bem' livre yivia » & bem izento , 
Sem nunqua Ter ao jt^o fometido , 
De nenhum amoroTo penfamenco. 

Lembrame^ Agrário amigo , que o fentido 
Tam fòra de amor tinha > que me ria , 
|>e quem poi elle via andar perdido. 
De varias cores fempre me veítia , 
De boninas a fronte coroava y 
Nenhum paílor cantando me vencia. 

A barba entáo nas faces me apontava ^ 
Ha luta , úo correr , & em qualquer manha f 
Sempre a palma entre todos alcançava* 

Da minha idade tenra era tudo eftranha » 
Vendo , como acontece , afieiçoadas 
Muitas Niníàs do rio , & da montanha. 

Com palavras mimofas , & forjadas 
Da folta liberdade , & Uvre peito « 
As trazia contentes , 6c enganadas. 

Mas nam querendo Amor , que deíle gelct 
Dos coraçoens andaíle triunfando , 
2m quem elle crieu tam puto e£fèito* 
Pouco & pouco me foi de mi levando 
Diíllmuladamente às mãos, de quem 
Toda eiU injuria agora e(U vingando* 
A G SL A & I o. 
De STB teu cafo , Almeno» eu Cd mui bem» 
'O principio & o fim , que Nemorofo , 
Jflo tudo contado , & mais me tem. ' 
Mas querote dizer , fc o enganofo 



V 



i>s:L< DE CamO£Ks; t4§ 

Amor he coílumado a defconcercos i 
<^ue nunqua amando fez paílor dicofo.j 
Jà que nellp eftes cafos faó uoi cercos , 
Porque os eftranhas ^co , que de magoa 
Te choraó às montanhas , & os defercos } 
. V«ioce cAar gaíUndo em viva íragoa , 
£ juntamence em lagrimas , vencendo 
A gráo Sicilia em jFogo , & o Nilo cm agoa ^ 

Vejo que as tuas cabras , nam querendo 
Goílar as verdes hervas fe emmagrecem , 
As tecas aos cabritos encolhendo. 

Os campos ^ que co cempo reverdecem f 
Os olhos alegrando defconcences y 
Em, te vendo parece , que encriftecem , 
Todos os teus amigos , & parentes » 
Quf U da ferra vem por confolacce , 
Sentindo n^alma a pena ^ que cu fences : . 

Se querem de teus males aparurce > 
Deixando a cafa » & gado > vás fugindo , 
C^mo cervo ferido , a outra parte. 

Nam vès que Amor as vidas confuminda 
Vlv^ 9Ò de vontades enlevadas , 
No falfo parecer de hum gèfto lindo ? 
Nem as hervas das agoas 4efejadas 
Se fartáo , nem de flores as abelhas y 
Nem efte Amor de lagrimas canfadas* 

Quantas vezes , perdido entre as ovelhas ^ 
Chorou Fcbo de Dafne as efquivanças , 
Regando as flores brancas , & vermelh^ií 
Quantas vezes as afpera» mudanças | 



%f 1 S c 1 Ò c  f 

De meu defpojo rica , 8c de meu dano 1^ 

Com os TÍYos cfpritos inflamando 
O ar , o monte > 8c a ferra , que configo 
Conrinuameoce leva namorando : 

Se queres concencarme como amigo y 
Fadando lhe dirás , gentil paftora , 
Nam ha no mondo vicio , fem caAigo» 

Tornada em duro mármore nam £oray; 
A.. fera Anazerece , fe amorofo 
Moftràra o rofto angélico algum boca : 

Foi bem jufto o caftigo rigutofo ; 
Porém quem te ama , Ninfa > nam queria 
Noda tam fea em gèfto tam fermofo. 
A 6 K A s. I o. 

Tudo farei , Almeno , 8c mais laria f 
Por te ver algum dia defcanfado » 
Se fe acabâo trabalhos algum dia. 

Mas bem vès como Febo ji empinado 
Me manda , que da calma iníqua , 8c crât 
Recolha em algum valle o manfo gado > 

Ttr nefla fantafia falfa y òc nàa , 
Para engano mayor de teu perigo > 
Nam queres companhia fenam fua. 

Voumé daqui , 8c fic^ue Deos contigo |^ 
£ £caràs melhor acompanhado. 
Almeno. 

£ L L B contigo vâ , como comigo 
Me fica acompanhando meu cuidado* 



ÉCLOGA HL 



p 



»■"* "À t M: E N o & ' Bi L I í A i ^ 

continuando com a pairada» 



A s s A D O já %um'rempò,cfue ò^amorreí 
l>e Almeno # jfòr^u'-Tnal , eraõ ^riflados , * 

Entte htrttfiVètátíulihífirm 'apartados , 
Heganda^W^ténipo as bcaiiéaí flofct, • • 
Em Ugrti&as cáÁrádas fe derfecé i; ^ 
Quaádo a Iiliftl&'^àftora ,' qúe- compete 

C^YttÚ^^m gentilt?zâ<,"' ' *•■■' ' 
Poc ^èMAT-b tfifliè MfBCno chãànéfídá , ^ 
Fella prarítUrTèfòdircurríA^ - '" « ^ 
A4«raiQa>betdi^^^ íc otrsíiiçaífo'^ - - 

Já o Sol. coftfdnfta ; <' 
Qiie íà&tfie '<b fosibra o mahfó gliHo; 

£ ACQ&i»At>o^4Adopeafait^iitb^V '^*'' 
Que tam defòcotdado o fempte teVe »'- ' 
Vio tporâcéivo o bem , qud^la^dftd tih1ià> 
£ porqae donde Amor a mais^fé á^eve-y - 
idK* íBais xa&mfBUiCe o uitMctíraétim ^ !' 
Nam Ibe foiíbeidizer > o qftie^oo»^íQha ; 
Coino'hdhi0iQ>v^uc á aprazai-la l^d^Vítlha y 
4rqueni'4<^ fora engaita- - i ' 
A con4íáaça hufmana , ' ' ' 
£ d^òis^ttká&o Toílo , a i^hi reíifte, 
Treine ,t teíaè^^o-pèrigo j flc'Aa«k infiftt'j 
Tom, II. . Y 




Ji fe arrepende , a audácia lhe fallçcei 

• Deílj^arce^^ paftoF-^riAe^-' ' 
Oufa t arrcçea n««forçi , fi^ çnfiíiqucçB^ 

£* TÊM do' aíir atónito o Tentidío 1 
Cometed 'cõin furor deHíctnado ^ "" 
£ cúou da fraqueza çoraçáiij) ;. .^7 x ^ . . 
Comecimento ,fol .deíerparadQ ^ o.tí r -i . 
Que huma sq falvaçáo ten> bum:'|«c4âd|i^i 
Perder toda a efperaoça -àr falv^ç^^. » , 
As ma^>as , qao paíláráofe ditàó^- " - /. 
Maf ^ -íjae dia dÍ2Mt> ..• .r. l 
^ Lei;^rattdolhe , queiVMrl n .rf •. , 
As agoasmu^iDurat do T.ejc^ j|fii«94r# 
Remeto a vos ,6 T^iÚQt- Ç^^itt^Sc^ 
Que de^fÇji^BM fiam pqííoi 4l>l^l6íi¥W^y >^ 

Porque em tamaul^as ;p^aft^ .... 
Me canía ^^aí^^4<»t m^mfééíCrOiaaktQà, 
fi B. L I s 4.\> .^ '. 

Qu^tAi-^c^K campo , JèCçtàyítáetBStQià^ 
B quam faudofii faz «fta (ií))«^«v ^ 
A fern^ofura angélica , & fer^na^ ...;.; .^ 
Pa tarde amena , & qu^nt Oindioiàinetite 
A feíU arden^ fit>raiida,- forcando 
De qua4çkQltíl «Hiaadoo veoccâlegn^ £no. 
No fundo :cio.os> mudos pdxc» Édcaa , 
No àr fe.eônali^o os Ceos d'<>uco , & vocdey 

* 

£ Febo perde..a,iorça da .quesMiora^ 
Pola cfpeiTura ievaõ paiteaadM^ > • < 
O gado branudo j ao fom das'çanlbniii]Sf > ' 
Pifa^4fl.g%€«W*^ fctiaoôs^iiofesjj v....-; 



DE L. PE Camob^^ns. ^5j 

Os guai^cUdores , que cantaiuio o gèílo , 
FeripoTo & hoaeílo das paíloiras , que amáo ^ 
Áo ár dercapaáo mil rufpiros váos , 
Hum louva fis mãos, de outro os olhos belloa^ 
Outro os çabellos de .ouro 9 em fom fuave ^ 
A amorpfa ave leva o contraponto , 
Mas p que. cooto , & faudoCa hiftoria » 
Que oa mcmocta aqui fe me ofterece i 
Seiíam me efquece 9 jâ nefte lugar 
Ouvi foac Qos valles , algum 4ia « 
£ reCppndia o eçcp o nome em vâo 
Num coração , Beliúi retumbando ', 
^ílou .cuidando como o tempo paíTa ^ 
£ quam. efcaílã he toda alegre vida , 
£ quam cumprida quando he triile , & dura t 
Neâa efpeílura longo tempo amei , 
Se me enganei 9 com quem do peito amava ^^ 
Nam me pefava de Ter enganada ^ 
Fui falteáda emfim de hum penfamento , 
Que hum movimento tinha caílo , Ôc fam ^ 
Converfaçáo foi fonte deíle engano , 
Que por meu dano entrou com falfa cor , 
Porque o amor na Ninfa , que he feguca , 
£ntra em figura de vontade honeíU , 
Mas que me preíla agora dar difculpa , 
' Se abi houve culpa pola o arme amor , 
Sò num paílor , que nunqua o Sol , nem Lua 9 
Ou ferra algúa dcfde o Ibero ao Indo , 
Outro tam lindo viráo , tam manhofo ^ 
Neíle amorofo eftado ^ de fe que tinha , 



ftfíf E C 1 o G A $ 

Que ]t*alma minha tam fecreumeâlte » 
VfvT tontencrfamanclo , & encobrindo p 
Tile fingindo mefitirofos danos ,. 
Que &Õ enganos ^ que nam cuftio-iuida ^ 
Tendo alcançacb^iá no entcftdiniettto- » " 
A fò , & tateiitò meu sò neUe-pofto , 
Que logo o roito moftra o» cocaçoeçs y 
% as afeiçoem cos oHíos fè ^racidâo > " 
Que mais fé pabficão muito , que palavra» 
Com fuás cabras fempre à pattb vinha , 
Onde cftr mantinha os olhos , 06 o dieíejo* 
Tu maníb Te|o , 8c tu florido p^àdo' , • 
Do mais paíYado emfim , que aqui nam digo» 
Sereis me obrigo teftemtinho certo , 
Que defcuberto vos foi tudo , ôc clare^ 
Oh tempo avaro , ô forte nunqua igual ! 
Quamanho raat quereis à humana gente ^ 
Porque hum conceftte eftado aífi ttocaftes f 
Vòs me tiraftes , do meu pcíco^ tftato , 
O penlamento honeíVo , & repoufado f 
3à dedicado ao coro de Diana. 
Vòs n*ua ufana vida me pufeftes y - ^ 
J. atii quifeftec que gozaílb o dano 
Po doce engano ^ que íb chama, amor , 
Com cujo error paílava o tempo lèdp i 
B vòs tam cedo me tirais hum bem , 
Que amor' fá tem impreíion'atma minha^ 
Dcfpois que a trnhá envoha em efperanças^ 
£ com lembranças triíles me deixais ,, 
Mal me pagais a fè , que fempre tive | 



DE L. DB CaMOZNS* I57 

Mas afli vive , quem fem dica nace. 
Mas )á que a face alegre o Sol efconde , 
£ nam refponde alguém a tantas magoas ^ 
Senam as agoas , que dos olhos faem , 
As íombcas caem , òc Taõfe as alimárias . 
Das ecvas varias fartas , feu caminho 
Bufcando o ninho os pailaros íem dono^ 
Já pelo fono efquecem o comet , 
Quero efquecer também um doce hiíloria , 
Pois he memoria , que tcaz mòr cuidado , 
Ifto he paílado , & fe me deo paixão 9 
Os dias vaõ gaíUndo o mal , & o bem f 
£ nam convém quererme magoar , 
Do que emmendar nam poíTo )à com ma^as> 
Nas claras agoas deAe rio br^dp , 
Que vaó reganJo o campo matizado » 
£íle trançado lavar quero cm fim , 
Que )à de mi me cCqueço co a lembrança 
Dcíla mudança , que efquecer nam -fei : 
Bem , que eu virei mudar opinião , 
Que em fim faõ homés a que o erquecimento 
Depreila faz mudar o penfameato. 
A L M s N o. 

Sb a vifta nam me enganava a faneafia 
Como- já me enganou mil vezes , quando 
Minha ventura enganos me foftta^ 

Pareccme , que vejo eftar lavando 
A húa Ninfa hum véo no claro Tejo 9 
Que fe me eílà BcUfa afigurando. 

Nam pôde fet verdade illo que vejp ^ 

y iij • 



±^% £ e t o 6 A s 

Que factlmence aos olhos fe afigura 
Atjuitlo , que fe pinça no defejo. 

Oh acontecimento , que a rcncura 
Me dà para mór dano , eíla he por certo ^ 
Que nam he d'outrem cama fermofuta. 

Se poderei fakrlbc de mais perco * 
Mm fugirmeha , nam ipòde fer , que o rio 
Para acolá nam tem caminho aberto. 

Oh temor grande , 6 grande defrario ! 
Que a voz me impede , & a hngua negligente 
X>elta arce eftá tornando o peite frio. 

De quanco me fobef a- eftando aufence ^ 
Que para lhe fatiar fempre imagino- , 
Tudo me falta agora em eílar prefente > 

Oh afpeiío fuave , & peregrino » 
Pois como cam azinha aííi fe efquece » 
Huma â Tccdadeira , hum amor fino ^ 

B E 1 X S A. 

Ok akas femidèas , pois padece 
Tm vodo rio a honra delicada > 
De quem tamanha força nam merece» 

Ou feja por ròs , Ninfas , referrada » 
Ou n'alg(ia arvore alta , ou pedra dura ^ 
S^ por vòs asinha transformada. 

A L M E N o. 

Ah Ninfa , nam te mudes a figura » 
Nem Vòs Deo^s queirais , que eu feja parte 
De Ce mudar tamanha fcrmoTura. 

Porque a quem falta a voz para faltarte > 
% 4 ^uem fallece a língua > Sc ouíadia p 



DE L. DE CaMOENS. 1^4 

Também faltarão mãos para cocarte. 

B E L X S A. 

Que me queres , Almeno , ou qtte porâi 
Foi a tua tam afpera coinigo > 
Minha vontade nam to merecia. 

Se com amor o fazes , eu te digo , 
Que amor , que tanto mal me faz em tudo , 
Nam pôde fer amor , mas inimigo. 

Nam es tu de faber tam falto, 6c ruda^ 
Que tam fem fifo amafles , como amafte^ 

A. L M E N o. 

Otide vifte tu , Ninfa , amor fefudo ? 

Porque te nam alembra , que folgafte 
Com meus tormentos triftcs , & afgum hook 
Com teus fermoTos olhos |à me olhaíle ? 

Como te efquece (à , gentil paílora > 
Que folgavas de let nos freixos verdes , 
O que de ci efcrevia cada hora ? 

Como tam preftes a mcnKH:ia perdes 
Do amor, que me moftTavas,que eu nam diga 
Se Q vòs , ò altos montes , nam diderdes ? 

Porque te nam alembras do perigo 9 
A que sò por me ouvir te aventuravas » 
Bufcando horas de feíla , horas de abriga? 

Co a maçan da difcordia me tiravas , 
Que a Vénus , que a ganhou por fermofura , 
Tu como mais fermofa lha ganhavas. 

E cfcondcndotc entre a efpeflura , ^ 
Hias fugindo como vetgouhofa 
PSi namorada , bc doce traveiTuta» 



^^O £ C L o G A f 

Nam era cíU a maçan d'oaro fermofa » 
Com que encuberta aífi de aífaicia cancã » 
^dipe Ce enganou de cobiçoía. 

Nem a que o curfo ceve de Achalaoca^ 
Mas era aqueUa , com qus Galachea 
O paílor cacivou , como elle cancã. 

Se más cençoens puferáo noda fea 
Em noílo firme amor de enveja pura , 
forque pagarei eu a culpa albea i 

Quem deAa £c, quem deíle amor nam cura^ 
Nunqua ceve fugeico o coraçáo : 
O firme amor , co alma ecerna dura. 

fi £ L I $ A. 

Mal conheces , Almeno huma aflêiçaó y 
Que fe eudcíleamor cenho eCquecimenco , 
Meus olhos magoados to diràõ. 

Mas ceu fobejo , & livre acrevimenco , 
£ ceu pouco fcgcedo dcfcuidando , 
Foi caufa defte longo aparcamenco. 
. Vès as Ninfas do Tejo « que mudando 
Me yaó já pouco a pouco o claro gèilo , 
N*oucra forma mais dura craCpaíIando i 

Hum sò Cegredo meu ce maaifeílo , 
Que ce quiz muico , em quanco Deos queria ^ 
Mas de pura afteiçâo , & amor honeílo > 

£ pois ceu mao cuidado , & ouíadia 
Caufou cam dura òc afpera mudança » 
Folgo , que muicas vezes co dizia. 

Ficace embora , 6c perde a confiança , 
Que mais me nam verás , como )à viAe « 



DE L. DE CàKOE^ S. tfX 

Que i^ fe defengana huma' e%etaiifft; 

A L M E M o. 

Ok duro apaptamenco , ô rkla trtfte » 
Oh nunqua acomecida deOreiltura ! • / - • 
Pois como , ò Ninfa , a£ ce deTpedifte ? 

Afli fe ha de it tornando fem ter cura y. 
Nefla filveíhre , & afpeta dutesa , 
Tam branda , & excellence fetmofuta è 

Tua nunqua entendida gentileza 
£ teus membros aifi fe transformarão j^ 
Negando felhe a própria nacureaa ? 

Deíla arte teus cabellos fe tomárâ» y 
Deixando )á feu preço ao ouro fino , 
£m folhas , que a cor tem do « que negàiâol 

Se efte confentimento foi divino^ ^ 
Coníiaeame também que perca st vid» f 
Antes que a mais me obrigue o defatino« 

Que Ce a Fortuna dura , embravecida , 
Tanto na meu tormenro fe defmede y 
Nam viva mais hunxa alma tam perdida^ 

£ yòs feras do monte , pois vos podo 
Minha pena o remédio derradeiro , 
fartai ji de meu fangue voíTa fcdç* 

£ vòs paftores rudos defte outeiro « 
porque a todos em fim fe manifefte 
Que coufa he amor puro , & verdadeiro | 

Ao pè deâe funéreo aciprefte , 
lAe Careis hum fepukro fem arreo , 
Pe boninas . que o prado ameno vede ^ 

Com dçfuíadas n^uíic^s de QsfqQ ^ 



tiíl r '£ C X O G ▲ S. 

Que me irè&.f4nuc<;i$ , & deíU Torce 
Nam haverei Inveja ao MauColeo } 

£.p9f^ç'mii3iha ciaza íe conforte 
Im voííos mccros doces , & Aiaves > 
As exéquias fareis de minha morte : 

AiU ceiponderão as aUas aves , 
Nam modulas no canto , n^m laTciras » 
Mas de dor , hora roucas , hora graves. 

Nam correcáo as agoas fugitivas 
Alegres por aqui » mas faudoías , 
Que pareçáo « que vem dos olhos yiyso^ 

Nacer&o pelas prayas deleitoCu 
Os afperos abrolhos , em lugat 
Pos roxos lírios » das pudicas rofas* 

Nam traráó as ovelhas a paíUr 
Derredor do Cepulcro os guardadores , 
Que nam comeráo nada de pezar. 

Viráo os Faunos , guarda dos paílores» 
Se morri por amores preguntando , 
R.erp.ondcrão os eccos , por amores. 

Dos que por aqui forem caminhando ^ 
Hum epitáfio triíle fe lerá » 
Que efteja minha morte declarando j 

£ no tronco de huma arvore eftarâ ^ 
Numa ruda cortiça pendurado , 
Sfcrito cuma fouce , aífi dirá : 

Almcno fui paftor de manfo gado > 
Em quanto o conCentio minha ventura » 
Pe Ninfas , & paftoras celebrado. 

Sc alguma hora por dita na cípeíTura > 



O amor fe^^cder , 80 a aíEnt^âO'^» n" 
Tíiemi.a pedtk defta fcpohuca.,^" oS irn .-" 
$ em fignardet cinila 0is<achàrà6«<- ' o.> 






T .-^»*^i -^.«.wA iU**..^^ 



V^ ANi^WiJ a £Íor hufa yáUc dòcwíícnié y ^ - 
Deciáó dous pâftorcs i 4liandõ' Fírbó'' ^ J- 1' ?^i 
No Rcynb à^ ^feptúfra£S'é^cÒtícfía .-^^ 
De idft'(ífe táfla^hum d:á-^'àííic^b6'';:-'^St' ^'Ji> 
Mas velho nò cuitlacfòv^ 2feícòdtèiitc , 

Lamcntaíido- íctt"mal ', feit -dàtó íad©^,"-'^- ;>- 
•^^^'híáííí' fea eu ta^- ourado '; ' '^ ' ' ^ 
Que ó<>mÍi'cânlàiCd^ vtí^àà]iiík>y '^ '- 

Por<|ufe Tc 3 minha tuda ' .;: " •^' "-" • "^ 
Frkgtftnégfté -fâ^or yoffo-fórfaigôttíi r * - ^ " 
Podo %if(iôfíif'íf' fonte -Cábâllítta;'^ í;; •' ' ' •^• 
E *i V ô%' teàlio -Helíòèâ / ccflèc?Pé|afb-i- 
Em r«*i4enhcr 'tealiôpe , emVòsTtàliííV' ' ^* 
£ as outras fece^ftmáás "ccy^rrMâiífc , 
Em vÒ69^(ftâe Mtncr9a^W' valia', i *' ' '* ' 
Em Vòs eftão^ ròtihò»"ÊfôíPôfH§tfo', 
Ql0rÍP^#eÍ'<Mft vos Ce"eíiidttA hl àtcé^ --^ 

Co a mais peic|ueiiã ^aíFté; i ' 
Senhora , <iiití\tffc^déis de -ajuda vòíli," ' *^ 

.£!-pôdels'íâ2cr , que eu j^íTá ; ' 
£rcm»Kt-'4qi SfiA 4reí^Uukkc(itif^V ' ' ' 



• Podeis Ô4tt ,. qoc. a .^oote. í .. 

ím mi do gráo' p«bÉ Tòffi> feirante-, 
£ quo volSto:loiurof«sjfetnptâ~;cânc^^- n- . 
P o D 1 1 s fatcr , qiie ctcça d'hota em hor» 
O nomel.uítanc>V ficífeçi *n"«àja i '- 
A Smirna , que ie^Homero/c engrandece , 
Podeis fàiéf tâmVein ; qdc o mteHõ'^éi* ^^ 
Soat u^.tuiajíjtaiitai , .0 qwe ^ ÍJíWç», „ ^ ^ / 
Çichará N^antu^Bí^t^íò, merece»,. -..^/^ ryt,iy^- : 
Jiagoca/flQçVrííCc.,. '^,ot j'A '■ 
Oue pMeip.cpflâ^ai;,6?.me¥\B^OI!ciL: - -" 

Porque inda. q^i^^^çr^r^p^^i? .Ujpi çftpj4p., ,.. 

As que í.4lsjl8ç yer de^íq, , o 
Mudança' 4© IwgAr » |nçnos<U e%dQ., . . 
Nam muda )}\mLWW^^^ MonlíUdo. 

E nas Talgadasr.©íMÍai C? e£çófí^4.^ : " 
O Sol , ^antlo ft^oBdofo fo^rPjTiluif^i 

Ao longo dç>ijfisi ÚbeiíO^iqii^iqeWof. - 
i;ela.majsji;erca parte, da yei;4ura6 / >< " 
Clarok., ("«an^ç-, .■&! maí^b cp^c^a^a^i^ , .-.: . 
^ Lamei\undo feií.daaoly , ^ i . o 

Vinha jà,riÇflsl^Qi\do,;Qínapro.jj^kí^jov . 

E; hum :câímd(^ caladp^j.^ rOv :.- 
£m qu^nço.^un;! f^|i»vc0 o oMi^íCObrp.^iQitoieic 

Apoz ^eili^ C^r94va • ...-r r. '._* 
A dizer dn ícu.m^l ., o que íeoicUp . .. •.*■ ;•. 
í em quaacp'«lteÍaUftV^ ». A.<Ãiftobft9VÍa. 

ViMHAõ^ jiUi^ucixswdf) k» p«fiedQs,r 



Dfz li.. j»^Cr%uoi^ s. ii^i^ 

AUi as pecfeftã pÈ^iád^íuv/dlaii^ísi»» ' / -'> « 
AUi os co)r^^fis$^Mw«ila£i4f|f«^^l 

De :ftiiior JoatBfksduíis toáiséttáím^faziáo , 

Istro »E o-q« í c ^á^ ^à^àwU<ièír*^''- .;.viv a 
Fè , C4^^âií tfcííitói «ençtfe';'itófrèdà ;' ' ' * 
Sem nuit(^iet»HltfriE^ãí^9è!^(^efit(í^ O 
Como , cralt^BdiíllP, «íttfííáftíeabJíi^^i^. -.í-. J 

Hum maú i^^A^^lj^difisiAeâftcieiiè 
Em ti ^tèiàt» ^fía feú^íu^JWef» pkji-j-^iuSii 
Namssâ«^<«aedto^«i)<iftJtff «^ -^ 

Eftb i^dl>, i(|lle%f(f túítah) íM"(i^gaê}'>^P 
Co a típtttsaiçí,'i3» ti còdá j^ikta , 

Se os tiiaic»v qu<'{>br «i tttèiòiiíêAàla ^ ^ 
( O' Silvana cmmenfií maks támí&iflíiant^ ) 
Quifctas 9 • <{||« -aígiiBífd IxHíft «0^ ctifiera^ - 
Tom. il. Z 



Dos msLletyXjobvat luxnici eaisGtfte »i 
De tosio te troca(èe »:; , . 

Com Ainor<cioB|uradáem mi&ka'«UHS)a;i 
PorètQ fo minha ■ fiirce. • ■ 

Coirfey s-V Tq^t por ci £B|a!caiiía<ÍA;» > .. 

Morte nam foLdBais-4>ein*teciCui«(i|U 

NAKnaoeâe de bígama pcdxa 4ttM t 
Kam te gero» ságttma úgcc Hircana » 
Níftn;%cua críi^o c^e A, rudeza t . . 
A qaem,cmbl:,'7£ahiftedesiuip3ftiia.S > 
No^Coo formada foi coar ficn^oâtm «. - - 
Oikiè-' á mcfani btandsca hc jtacutcaa i 
«LEÉft4iiá floreia , -i i .. ..' 
Ponde tereptincipí^ , oua tfiQia0c K. 

Parque 4^0. engetçaAcj 
Husi ve«áadHro amor , que ttf bem Ti»2 

A ^ que iconlieciíts <. . 
^or outra de dnuiKpia coabedda^ . 
Perca » quem te perdeo , cambiai «yida* 

:D U ÍL I A -N^O 

Vjizse CO &u paí^r o. n^afifo.gado . . 
Porque de amor entende , àqUtUa parce 
^ue a natureza irracionallbe cnítaa « 
O ruílico.Ijeaó Cem nenbuna .arte » . 

Po inftiocõ natural sò eti&iado»' 
Aonde Tente amor allt fe inclina- : 

B tu , que de divina 
Kain tén« menos » que Vénus , & Cii|^ido > 

i^prquc fe quer co oarido , 



D£ L. DZ CaMOINS. i^^ 

Hum amor verdadeito nam foccorres \ 

Ou porque te nam co(res 
Que ce vença o Leaõ em piedade , 
Se Vénus nam te vence na beldade i 

FS.ONDOSO. 

A MIM nam me faltava , o que fe preza ^ 
Entre os celeftes DeoTes , que formarão 
A tua mais que humana fermofura , 
£m mim os voluntários Ceos faltarão » 
Em mim fc pervertco a natureza 
I>e buma cruel íermofa creatura ; 

Mas pois , Belifa dura , 
Que do mais alto Ceo a nòs vieftc , 

Em teu peito celefte 
Hum tal contrario pôde apofentarfe i 

Mam he contrario acbarfe 
Tamanha fè , tam mal agradecida ? 
Perca , quem te perdco , umbem a vida» 
D u K X A K o. 
F o R. ti a noite efcura me contenta > 
Por ti o claro dia me aborrece , 
Abrolhos para mi faó frefcas flores 5 
A doce Filomela me cntriftece , 
Todo o contentamento me atormenta , 
Com a contemplação de teus amores; 

As feftas dos paftorcs , 
Que podem alegrar toda a trifteza , 

Em mim tua crueza 
Faz, que o mal cada hora váo dobrando» 
Oh cruel , ate quando 

Z íi| 



2.70 Éclogas 

Datará em ti hum aborrecimento , 

£ a Tida em mim , que fofte cal cormeõtoS 

FlLONDOSO. 

Fugiste de hum amot cam conhecido y 
Fugifte de huma fè cam clara « Òc litme , 
E fugiíle , a quem nunqua conhecefte : 
Nam pot fugit de amot , mas pot fugirme y 
Que bem vias , que cinha merecido 
O amor, que tu a ouccem concedefte j 

A mi nam me fizefte 
Kenhuma femrazão , que bem conheço , 

Que canto nam mereço : 
Fizeíle á quellc bem firme & fincèro , 

Que fabes , que ce quero 9 
Em lhe tirar a gloria merecida , 
Perca, quem te perdeo , cambem a vida. 

D U H I A M o. 

Ckece cada hora em mim mais o cuidado, 
S vejo que cm ti crecc }untamence 
Cada hora mais de mim o efquecimenco : 
Oh Silvana cruel , porque confence 
O ceu feminil peito delicado , 
Efquecerlhe hum cam afpero cormenco ? 

Tal aborrecimento 
Merece hum capical ceu inimigo , 

Namja eu , que sò concigo 
£ftou concence , & nada mais defejo : 

Sc alguma hoca ce vejo , 
Tu es hum sò bem meu , huma sò gloria , 
Que uunquc fe me aparta da memoria» 



Dl L^ DB CA<Mt>BNS. 17! 

•F.fL o^N D O s xy, 
OiHoc , que virio já nia fermoAu» » 
Vida 9 ifue sò ds verte fe foftinfajk^ 
Vontade, que em ti era transformada^ 
Huma alma ,- que a tua em â sò tinlia > 
Tam unida coníigo 9 quanto a puta 
Alina CO débil corpo eftà 'liada 1 ^ 

£ agora apartada 
Se ^è de íi com tal apartamento ^ 

Qual fera feu tormento ! / 
Qual Terá aquelle mal , que tem prefeoGe l > 
Mayor he , que o que fencc t 

O rriílc corpo na ultima parúda : 
Perca , quem te perdeo , também a TÍdâ* * 
D u n I A M o. 
Regehdo n*outro tem^po o manfogado^ 
Tangendo minha írauta neftes vales» 
PaíTava a doce vida alegremente i 
Kam featia o tormento dellcs males » . 
Menos Cencia o mal defte cuidado , 
Que tudo então em mim era conteafi? j 

Agora nam (òmente 
Defta vida fuave me apartafte> 
Mas outra me deixaíle » 
Que ao duro mal , que finco cá no peito ^ 

Me tem |à tam aficito , 
Que finto )à por gloria minha pena > 
Por natureza o mal , que me condena. 

F&ONDOSO. 

7UMTAMEVTB viver compridos annos. 



471 . E c t O G A s • 
Os Fados te <oiicedâo , que 'qoUetáo 
AjuBcarte com ul coneentamcBCo ^ 
Pois os bens todos para ti nafcesáo » 
TospEUUtos^ara mim , males , 8c danos } 
Ix>gca ta jò teu l>em em mou tprmemo , 

Nenhom apartamento » 
Belifa f me fará deixar de amacte , 

Porque em nenhuma parte 
Puderas nunqua eftar fem mim huma hotii 

Coníèote pois agora * 
Qu£ cm pago defta fè tam conhecida , 
Perca , quem te petdeo « também a vida. 

Vbiatb eu, crua > amar , quem te defame, 
Porque íatbas ) que coufa he Cer amada 
Pe quein tu aborreces , & defprezas : 
Vejace eu fer ainda defprezada , 
De quem tu mais deíbjas que te ame y 
porque fintas em ti tuas cruezas , 

Sintas tuas durezas , 
B quanto pode o feu cruel efieito 

Num cotação fogeito ^ 
Porque em fentíndo o maiy4 cu ^^o Sígoti > 

Efpero que alguma hora , 
Faça 6 teu ppoprio mal de mim lembrarte 
Jâ que nam pode o meu nunqua abrandarcc* 

F IL Ò N D Ó S o. 

Mil ankos de tormento me parece 
Cada hora , que fem ti , .& fem efperança 
Vivo de'podci mais cornar a verte i 



DE L. l^E C A M o IN $. Xyf 

SuftentaiÃè efta rida tuà Urribràniíá , 
A vida fobré-iudo me cntriftecé, 
A vida antes perdera • qúé pcrdfcrte ;- 

Mas cu fe por qucrçrtè 
Hum bem, que em ci sò cein-fett âifme afiéntOg' 

Padeça tál tormento ': 
Qaè inda*efpera de ti , quem tedefama » ■ 

Ou 'aó' menos fe ama , 
Com algum faUb amor , oufè fingida^ 
Perca: $ <)it«^ tp,pçi;d«Q » também a vkU». 

Ent^^i^citímI * vefás Ce te meceçe 
Com camanhoiderpr^zo Cec U'.acada ■ i 
Hmna alma' » <|ye d^ amaste sò- fç ^re?^ % ■ 
Ma$:oQmD podes cu £er deípreza^da» -^i ^ 
Se o menos , que, en» ti fòrare.paicpe y 
Abcsiubr pòd^ SMMites , ^. ^pçresa \ , ) 

Porque fe a natureza ^í .. . 
^m ti <3 rçmat^ po;». da ferqiofiKt », : : 

Qual fera a pcdradiura;, . . 
Q|ie a !i%ví ryalpr je^íb òcandan»eate ) / 7 ; 

Quanto' mais fraca, gente < 

Que ao humano parecer nam fe defende» 
E 9 mefmá Veiws Deofa ao teu fe tenit*. 
P 1^ o w » o s ©► • \ ' '.^ 

E pois Í5è verdadeira , amot perfei» ,.. 
Tormento defiguai , Ôc vida trifte-. 
Junca com hum conjinuô fiifriroeitto r 
I hum mal , cm que todo o mal conôft©, 
Nam pudèrâo-m^artt teu duro^ito , 



Em TA»/as çaLijáS' codfs fe l^ip ^udo 
I>c vòs envoíWíls partc$fe,çepai:Ec,j, 
Sovi4ft!*i»)í«>ÍW.a«^€nícçhain», .. 
Gloria , & louVQtHdo xdvoçq ^^íã&fd» Fama« 

^ic QUAure^^ ^parçlho h^w aoyo siprito 
E voi.jde Cifitte.r^ ,. «ji^ç o n^uçidx^ çfpa^tc;. 
Com qae de vòs , fenhor , em alço grito , 
louvocêsV^il èíiQ tè^ á;^rt^ cSme >\^ 
Ouvi o canto agrefte em trooco efccico , 
Entre yacas, ^^àdtrfctálatM; 
Que.quaifdo fçmpp.for.eni melhor mo46> 
Ha me de ouvir. por vos o mund(^ todo. * 

As VIS ,(g^çreUs. brandas^ ide ámorofas^ 
$e|áo dê yòs tratadas branda^mcnte . . 
Verdade;^ d'aihia pouco vcntúrófas , 
Sahida&comíurpiro Vivo, Sc àrdçncé.y - 

Que ^^](Ç^}x^?^ ^^ !^^^^'^èÍ97r^^^^^^^ 
Para defpois .y;^vje^ejfn entre a gente V * 

CboraixdQ fcmpxe a antiga cnttlcUdé , ' 

E os coracocns movem a piedade. '. 

. Ja' sbculmava o Sol contra ò Orièiice , 

E iâ do dia o pi^ ejra padado , 

Quan<^.o^aitor^ co grave míjil , que' feote. 

Por dar aUvio^m parte' a Ccu"cuí(íadò , 

Se qoeixa^^iaftora dçcemcúte , ' / ' " 

Cuidando de ninguém fcr eícutaáo ;* 

£n ,qiuí o ouvi , numa arv^orp cTcrévu 

As magoas , que cantou V te âiTi dizia. " * 

Oxj Tt^i no monte. Caucaíb és." n^cida ^ 

Pu tp i ^tmo i: ;tc:parÍQ ^ íbrinoíã ^ & dura , 

Qaè 



BE Li «rCAMOEHS. l^T/ 
Que tuu» p^ fát fe)a cooiéefbtcU^ - . ' 
IXireza; iM dé- haitiana creatfora s ' 
Ou CS quiçá ;^ni p«<tra convAtcida^^v ; 
£*ntfis da' natifroKa tal vemufa 9^ ^ 
Porém ttatn^etem d boaimptt^Oy . 
Sò dt matmoct^fiarte-o ccAraçfio; : 

Ja' bsta ítÚBhAiôz rouca , & chorofa^ ' 
A gence mi^» reiíioca movetia-f ^ '-' 

£de ^Icááè a voa Ugrimora « . ^ •• - 
Os Tigres ciH^ itíscãtúã am<ui£tfkí1^ ^^ . w 
Seoam fotas croel quaiico fecmofa^ ■ 
Meo -longt) • fufpiraD te abrandatbi > c ...... •' 

Mas íu^ar fot ti , & . bem querecte ^ : . . . 
Que fazem < ftaam' mais ehdureaexoc^l •-. » ' 

'St Df lícAtLAV vencer $a ciaeldadc 
De tua tam pfftféita fetmofura o:: 
Hum-^ucai viras bem minlia voimadev- 
£ viras eíla £è tam limpa 9 6c puiouj . '\'' > - 
Por veh£i)íra > que houv^as piddode , '^^ 
£ civètft«u quiçá melhor vent;ara^ . 
Mas mioqua' achou igual tua b^Ueia-, - 
Senam Te foi em>ci tua duÈ^za; ' -' ^ .'^a' 

^7a' tíVM peitbabrandàif&i ^-qU^nam iente ' 
Mensuro -y l^gf avcmal , feguádo h^ ídico « 
Se deG:df a aõ tí^étno fero > & ardente , . . 
Méi^a-à^ittdadeamirma-raoite ; .. 
Se huma sò gOtãPdi^ agoa braiidamdnte 
Torna bi1i6dcy^um penedo duro ,-^ fòiXê f 
Tantas la^maaí minhas nam âitáó « ' ■ 
^um |t4«Aaa> 4iiial num cotação \ < ^ 
Jonu II, Aft 



l^O .t E G t o C A f 

Tu eras itofTo Sol mais deTefado > 
Nam temos lui , defpois qàe nos defzafte j| 
Toma meu claro Sol , vemíjà-ttieii 1>cm , 
Qual he o JoTuè , que to détein ? 

Dsffois que deftc ralleteapartafte , 
Nam pace b manfo gado com fécaráf 
Secou-féo campo , defque Ihcnegafle 
Dos teus fermofos olhos á hâz para : 
Secou^e a fonte , donde \i te olhafte , 
Quando menos » que agora-, aCpeca' , 6c diusy 
Kega tem ti a terra dando gritos , 
Paílo às cabras , & leipe aós cabtfVòs.' 

Sem ti , doce cruel , minha inimiga , 
9í clara lux , efcura me f arète , • • 
Efte ribeieo , quando amor me obriga , 
Com meu ríiorar por ti continuo crece t 
l^am ha fera, que a â^me nam perfiga ^ 
Nem o campo fem ti )à nam florece , 
Cegos eftâo méus olhos , fà nam vem , 
Pois que nam podem ver meu claro bem. 

O c AM^ como dantes nam fe efmatta p 
De boninas atues , brancas , vermelhas , 
Nam Vem ao pafto , & fentenv da *agoa a fakft 
As maiiOii & pacificas ovelhas: 
Também ; cruel , contigoo Ceo lhe falta » 
Nam acháo flor melifluasabeliias ; 
Com lagrimas , que manam dos meus olhos ^ 
A terra nos produz duros abrolhos. 

TonH À pois )i , paftora , a iefte prado ^ 
C l^^icuiris efta alegria , 



I- - 



DE I. DB CaMOBNS. &g( 

Alegrarás o monte » o campo » & gado , 

Alegrarás também a fouce fria : 

Torna y vem jâ , meu foi , tam defecado ^ 

Farás a noice efcura claro dia 9 ^ 

£ alegra }á efta magoada vida » 

£m tua auíencia coda confomida. 

Vem como quando o rayo traníparence » ' 
Defte noíío Orizonce , que efcondido 
Deixa hum certo temor á mortal gente 9 
Que lhe caufa ver o orbe efcurecido , 
£ quando toma a vir claro , & luzente , 
Alegra o mundo todo entriílecido , 
Afli he para mim tua luz pura 
Claro Sol » & a aufencia noite efcura. 

Tu ESQUECIDA )á do bem paílado , 
£ do primeiro amor , que me moftrafte y 
Teu coração de mim tens apartado > 
£ cambem o lugar' defemparafte t 
Nam te quero eu a ti , mais que a meu gadol 
í^stm fou eu mefmo aquelle , que tn amafte i 
Pois onde ineoeci cam graó dcfvio? 
Ouveme , pois me vès )á morto 8c ítíOb 

Bem vESy que por amorfe move tudo » 
£ nam ha , quem de amor fe veja izento , 
O animal -mais íimples baixo, &rudoy 
O de mais levantado penfamento : 
Atè debaixo da agoa o peixe mudo , 
Lá tem de amor também feu movimento , 
A ave que no ár cantando voa , 
Também por outra ave fe aO&içoa. 

A a ii) 



%%% : 1 C L o G À l' 

A MUSICA do leve paiTarinho 9 
Que fcm concerto algum folta , & derrama^ 
D*um raminho íalundo a outro raminho , 
Cantando com amor , fuíjpira , & chama ; 
Em quanto em fcu amado 8c doce ninho 
Nam acha aqueUe , a quem sò bufca , & ama, 
tUain cefla do trabalho , que tomàta , 
Tendo sò feu dcfcattfo , em quem achira. 
^ A FiiLA , que he mais fera , & o Leão , 
Sempre acha outro Leáo , U otítra fera , 
Em quem poíla empregar huma affeiçáo, 
Que lhe a converfaçâo no peito gera : 
Também fabe fcntir fua paixão , 
Também fufpira , morre , Ôc dcfefpera » 
Acena , falta , brada , ferve , & geme , 
E , nam temendo nada , amor sò teme. 

O CHB.VO , que efcondido , ôc embeiçado» 
Temendo o cubiçofo caçador , 
Eftà na feltra , monte , bofque , ou prado > 
AlU onde anda & vive , vive amor •, 
De amor, de de temor acompanhado , 
Com iiifta caufa amor tem:6c temor » 
Tcmoi y de quem alli fetálo vi^a. , 
£,amor » a quem )à ferido .0 ti^ha* 

$ E p .aaimal infeaíivel y que nam fente 1 
Também fente de amot a frçcba d«ra , 
Porque te nam abranda o fdgo ardente , 
Que proceda ds tua fermofura? 
Porque eCcondes a luz do Sol à gente > 
Que neiles olho» trazes J^IJa ; ^ f ui;« > . 



; -^ 



DE L. BE C AM CENS. xSj 
Mais bclla , mais íuavc , & mai^ fcrmofa , 
Que lirio , que jafmin , que cravo , & rofa. 
PÔDE. fer , fe me viras , que fenciras - 
Ver desfazer hum peito em triftc pranto j 
f. bem pouco-fizeras fe me viras , 
Jà que eu sò ppr te veç fufpixo canto : . 
As magoas , & fufpiros , que me ouviras f 
Te puderáo mover a grande eCpanto , 
A iiot y a piedade , ôc fencimento , 
£ a mais , que para mais he meu tormento* 

Os FEMSAME^iTOs váos ao veuto leve , 
O fufpirat em vão também ao vento y . 
O efperar à calma , â chuva , à neve , 
E nam te poder ver hum sò momento \ 
Tormento he , que somente a ti fe deve » 
£ fe pôde inda haver mayor tormento , 
Quem te vio , & fe vè de ti aufqnte ^ 
I^uito mais paflará mais levemente. 

Faz "ínoça a pedra dura em fua dureza y 
Co agoa , que lhe toca brandamente y 
Abranda o ferro forte a fortalezíi , 
Se 'lhe toca também o fogo ardente ; 
Sò em ti nam conheço a natureza. 
Que a fer de pedra , ferro , ou de ferpente ^ 
Jà teu peito cruel fora desfeito , 
Ou do fsigo , ou das lagrimas , que deito* 

Qu ANDO a fermofa Aurora moítra a irunte^ 
Alegra toda a. terra veodo o dia , 
Quando Febo aparece no Oiizonte > 
Maoifcâa c^iobein grande alegria ; 



/ 



1S4 E e L o 6 A t 

Contente come o gado ao pè do monte 9 
Alegre vai beber á fonte fria , 
Tudo contente eftà , U alegre tudo » 
Eu 9Ò , só penfativo , trifte , & mudo. 

Se da alma , & do corpo tensa palma , 
£ do corpo Cem alma nam tens dò > 
Ha dò do corpo sò , que eftà fem alma , 
Pois fem alma nam vive o corpo sò : 
Bm a chama , no ardor , no fogo , & calma , 
Ha aâêiçáo, no querer » eu fou hum sò , 
Nam acharás vontade mais cativa , 
Nem outra , como a tua , tam efquiva. 

Se te apartas por nam ouvir meu rogo » 
Onde eftiveres te ei de importunar , 
Poík> que vàs por agoa , ferro > ou fogo » 
Contigo em toda a parte me has de achar i 
Q' o fogOjcm 4 arfo,6c a agoa, em 4 m*afogo, 
£m quanto eu vivo for , ha de durar , 
£ o nò , que tne tem prefo , he de tal force , 
Que nam fe ha de fohar em vida , ou morte. 

Neste meu coraçáo fempre eftaràs , 
£m quanto a alma eftiver com elle unida > 
Meu efprico também poíTuiràis , 
Defpois que a alma do corpo for partida i 
]'or mais , S^ mais , que faças , nam farás 
Que nam te ame iiefta Òc na outra vida y 
Impoífivcl fcrà , que eternamente 
Eftcs de miaufentc , eftando anfente. 

Ca^ m^ acompanhará tua memoria 9 
Sc o tiOy*que fc diz do crquecimento , 



Da músha , nana borrar cam longg hiíloria , 
Tam àçavc mal, tam duro apartamento : 
Acc quíbdo te vVcja entrar na gloria , 
Vivirei^um continuo fentimtnto , 
£ ainda Vâtão irá , fe ífto fer poíla > 
Efta minài alma lá fervir a voíla. 

AQtri cim grave dor , com triftt acento^ 
Dea õ trifte paftor fim a feu canto , 
Co rofto baixo , fie alto o pcnfamcnto » 
Seus olhos começarão novo pcánro : 
Mil vczcr fez parar no ar o vento , 
£ apiedou no Ceo o con) fánto , 
As drcunftàlitís felvas fe abaixarão , 
De dò das tt^ftes magoas , que efcutàrâo. 

Com Ruma mão na face , 8c cncoíladojl 
Bm Ciía dòr tàita enlevado eftava , 
Que cotrto etngrave fono fepultado y 
Nam vioo Sol , que jà nó mar eiltrava : 
Berrandd andava em roda o manfo gado , 
Que o feguro curral fà defcjava , 
Nas covas às ràrpofas , ôc em 1'eus ninhot ' 
Sc^ íeéol!iém os fim^les paílarinhos 

Ja< sdMiB huín feco ranao «ftava pofto 
O mocho , com ftiriefto , & triAe canto , 
AV^uj^ fora o paftor ergueo-o rofto , 
E vio a terra envolta em n«gro manto ; 
Quebrando então o fio a feu defgofto , 
Mas nam quebrando o fio a feu pranto y 
Para melhor cuidar em feu cuidado » 
IXTou paca os cutrues o maxtfio gado«( 



%Z6 -Éclogas^ - 

ÉCLOGA F I^ 

AO DUQVE DE A FE I RO. 
ALICUTO pefiMior. AGRA&IO pmfioÊr. 



A 



& u s T I c A cootenda defuTada 
Entre as }AuÇãS do bQr<|UC > &. das aiêas j^ 
De fçus tudos cultores modulada % 

A cu}o fom atconitas , & alheas 
Do monte as manfas yacas eAivexáo ^ - 
£ do rio as faxaciles lampreas : 

Dcfçjo de canur , que fe moveráa . 
Os troncos as avenas dos paíloces , 
f" os íilveftres brutos Curpenderáo : 

Nam menos o cantar dos pefcadores ^ 
t ondas amanfou }i do alto pego , 
£ fex ouvir os mudos nadadores : 

^ fe por Cuílentarfe o moço cego 
Nos trabalhos ^greftes a alma infama , 
0<iue he mais próprio no ócio, & no Coãcgoi 

Mais maravilhas dando á voz da Fama > 
Karneímo mar undofo , & vento frio , 
Brafas vivas acende a roxa âama* 

Vòs ò ramò'd*hum tronco alto & fombriOji 
Cuja frondente coma jà cobrio 
Pe Lufo todo o gado > & fenhorio } 

£ cfijo faõ madeiro ^à fahio 
A lançar a fbrçofa , & larga rede 9 
Ko mais remoto mar> que o. mundo jhk 



DE L; 91 C A M o S N 5. itf 

E vòsoifo valor tam alto cjiçedt y 
Que «cancalo com vo» alta , & divina g 
A fonte de PaFnaTo move a fede : - 

Ouvi^dá minlia humilde çanfoniaa 
A atmoniar, que vòs alevaouíis 
Tanto , que de vòs mefmo a fazeis dina* 

Etfe agora , qae afável me-efcucais, 
Nam ouvirdes éantar com alta tuba , 
O que vos deve o muado , quekloiirais : 

Se os Refs , Avós voâos , que de JubA 
Os R.e)rno« áef^ai&ráo , naiU^mivis ^ 
QuotJfiCt aias do verfo etcelíb ílibá « 

Senam Cabem ^s franuspaíloris. 
Pintar <de Tcuo os campo» (èmeadot»' 
De arraass àc còtpos fortes ^ &i' gentis , 

Poc hum moço animoíb-fuâen«ado9> 
Contra o indómito pay de toda^ Efpanha ^ ' 
Contra a-'Fotcana van > & injuftos' Fados» ' 

Hfltn moçOyCufò esforço t^t]ime,6e manha 
Fez do OHtBpo decèr o duro-Marce-, •.• 
£ darlhe a quinta Esfera , q[Ue 'afcofflj^aúha : 

Senam fabem cantar atneáor parte 
Do fapiente pei£o , 6C grâjo confelho , 
Que pôde y ò Reyno illuâre', defcaníàrte. > 

Peico , que o dputo Âpolio f(^z Verixídlho , 
Deixaf o facto monte , & as^ nove irmãs , 
Diz que a elle feaffòitem , cOB>o>a efpelho s 

Saberáú sò cantar as fuás vás - 
Contendas de Alicúcovil y & Agrário > ' 
Hum de eícamas cuberto^ otttfo ^deJi^ 



- i 



\%9' E C L OG 'iC $.! -. 

Vereis , Pu^ue íetcno , o-ditilo|ratíd.' - 
A^òs oovo , uia»'n*Qutto.iivu: cantado» 
'P'huni que $ò foi das MuTas fecnstaiio. • 

O peficador Sincero , que junaoTado 
Tem o peico de ^ocrica co capco > 
Poias ibooras ondas comparado* . 

Deite feguiado o fom , que pôde laato f 
£ mifturando o .ntigo Mautuanoy . 
laçaos novo eilillo , & novo. pranto* 

Paruçafe do monce Agrário 4B£uia» . 
Para ondç a força sòi do peníaoiesuo 
Lhe encaminhada o laflo*,pe^ humano} 

£mbcb^4o óuni Longo «rquo^ioieACo . 
De li ,. fc do Tau gado , .& ppiare. Êico , 
Após l^^ni ^Qqc,ipaho , âc ii^giuMoio* . - 

RooapcpdQ as fiívãs hórridas do. jsuiço , 
Vai po^ cima- d«>pi|Ceicos , ',ii ^oaedoy p . 
Fugindo .cmfim dc.codp huni^^M (fato. 
^ Ansf. O8,|cí»«fplho8 leva q%;o1^ lèdof . 
Da branca, pinaixiene, que, cnyerdoce ^ 
Sò CO mfacft oft vallcs > íç «f whedo*. 

Ora íe. ri CQ&iigo 9 qvan4a i^ê ^ 
Na fsiatfi^wúlgtis^]^fjízçt $icig)d«> 1 
How.ÉUla., hor^ mudo fc. çfttcjítcçe, 
, Qual: -a- ICBC^ novilha ^ qj|o>corrido 
Tem jDoncaiihii^fragoras^» jlií :erp«âufas » 
SojiJbuTca 5. o,,cofoigcr© mat idfii , ... 

£ canlada nas hum»<^as)ycf duras ^. 
Cahir fc deixa- ao {cago. do ríUfitro , 
Já qtiiQáP d^fí^ibiLas yeni ^««udo deusas;. 

£ neQ 



^l^nemi CO a noite ao vaile feu primeLcQ 
Se lembra de cornai , como fohia , 
Pecdida pelo bruço companheiro : 

T;^ Agrário chegado emfím fe via p 
Oade o gráo pego horrifono fufpira , 
Nttipa:pt^a arenofa , huqiida , & fria. 

Tanco que ao mar eftranho os olhos vira j 
Tornando em ÍI , de longe ouvio tocarfe 
De douca máo , nam vifta , & nova lyra» 

Pelo .fom deTuíado defviarCe % 
Para onde mais foava , <ie£e)ando 
De ouvir , ãc converfar , & de provaríe» 

Nam tinha muico efpaço andado , quando 
Numa concavidade de hum penedo , 
Que pouco ,-& pouco fora o ,mar cavando : 
, Topou hum pefcador,que pronco, & quedo 
Numa pedra aílentado brandamence 
Tangeiído 9 fazia o mar fereno , & ledo. 

Mancebo era de idade âorecence , 
Pefcador grande do alço , conhecido 
Pelo nome, de coda a húmida gence* 

Aliçuix>jCe chama , que perdido 
Era pela íermofá Lemnoria , 
Nio^ :9ue tem o mar ennobrecído» 

Ppit^ella as redas lança noite , & <tii ^ 
Por êlla as ondas túmidas defpreza , 
Por tplla íbfre o Sol , Ôc a chuva fria. 

Co feu nome mil vezes a brave;(a 
Dos ypncos feros amanTou co verfo» 
Que remove dàs rochas a dureza. 
Tçm, //. B b 



f^o E c L o o Á s 

B agora em fom de voz fiiavc , 6C térío^ 
Eftà leu nome aos eccos eníinaiidb , " 
Por cílilo do acgrefté fom diverfò : 

Do qual Agrário attonito afrouxando 
Da fantafía hum pouco fcu cuidado , 
Sufpcuro efteve, os números notando,* 
* Mas Alicuto vendofe cftòtvadb 
Pelo paftot da irtufica divina , *^ ' 
_ Albvantando o rofto foílcgado^. 

Lhe diz afli : Vaqueiro da campina , 
Que vens bufcar as arenofas prayas , 
Onde a bclla Anfitrite $ò domina? 
' Que razáo hapaftor , porque te fajras 
Para o noffo efcatnofo & vit tertcho. 
Dos mui floridos inyrtos , 6c altarfôfasí 
' Que fe agora ó mar vès brando , «fereno 
E eftenderemfe as ondas pela arèa , 
Amanfadas das agoas , com que^peíno:- 

Logo verás o como dcfcnfrca ' 
Eolo o Vento pelo mar undoTa ,' ^ - - 
De forte , que Neptuno o âttecea. ' "^ 

Rcfponde Agrário , òmúfíèoít^tiíofo 
Pefcador , eu nam venho a ver óla|<?' -*' - 
Bravo, & quieto , ou vento brando,' íc írófe % 
Mas o meu penfamento , corá qiKra^go 
As flamas ao defejo , mo trazia '^ ' J - "*- ; 
Sem ouvir & fem ver , fufpenfo ; Jlíc vágôí- ' 
Atèque a rua angélica armÒiila' '■' • ■* ' 
Me acftrdou. Vendo o fom, com 4 a<5pi"cantas 
A tua pcrigofa'Lcttinoria. - ' • - 



DE L. db-Camob-ns. 29 1 

Mas fe de verme câ nq. mar te cfpantas 1^ 
Ea me efpauco cambem d9 c(l|llo i^ovo > ■ 
Com ^ue. as' ondas horrifonas quebraucas. 

O qijal, poíto que certo, ^ouvo, ôc aprovoji' 
Defejo de provar contra o íilveftre 
i^ntigo paAoríl 9 que ea mal re.noyo y 

£ cu que no cocar pareces medre _y 
Fòdes jalgar fe he clara a diíFerença 
fncre o cavo marítimo , èc o campeílre. , 

. Nam ha , diíle Alicuto , çm mi detença ,, 
Mas antes alvproço , inda que veja 
Oftc eíla tua confiança sò nic vença« 

Mas porque faibas , que nenhuma envej<i( 
Os pefcadores temos aos paílores , 
14o fom, que pelo mundo fe def^ja : 

Toma a If ra na mão , que os moradores 
Do vitreo. fundo vejo jà junrarfe , 
i^ara ouvir noííos ruílicos amores. 

E bem vès pela {Hraya aprefenrarfe , 

Nas conchas varia cor á viíla humana ^ 
£ o mar vir por entre ellas , Sc tornafe ^ 

Soílegada do vento a fúria infana , 
Encrefpa brandamente o ameno rio , 
Que aqui de feu licor miílura , & dana« 

£íle penedo concavo , & fombrio , 
Que de cangrejos ves eílar cnberto , 
Nos dâ abrigo do Sol quieto , & frio* 

Tudo nos moílra emíim repoufocerto 9 
E nos convida ao canto , com que os mudoí 
Feixes Caem ouvindo ao àr aberto. 

Bbij 



lí^l E C t o G A é 

' Affi fe defafiáo eftes rudos 
Poetas y nos offidos idifcrepances y 
X^os engenhos porém futis , & agudos^; 

E já niil companheiros circunftant»» 
Bftavào para ouvir , ôc aparclhaváo 
Ao vencedor os prémios íemelhances , 

Quando jà a$ tfras Cubico tocaváo» 
Agrário começava , & da armonia 
Os pefcadores todos fe admiravio j 
X deíla arte AUcuco refpondia. 

A G B. A «. I o. 

VÒ5 fcmicapros Dcofes do aíto moncfr^ 
Taunos longevos , Satyros , Sylvanos ^ 
I vòs Deofas do bofquc , & clara foncc , 
Oij dos troncos , <jue vivem largos annos , 
$e' tendes pronta hum pouco a facra ironta 
A noflbs verfos riifttcos , & humanos^. 
Ou me dai jà a coroa de loureiro , 
Ou penda a minha lyra dum pinheiro. 
A L r c u T o. 
Vòs húmidas Deidades defte pego , 
TTritoetis cerúleos , Proteo , com Palcmo , 
Vòs Nereidas do fal , em que navego , 
Por qtiem. do vento as fúrias pouco temo 9 
$e às vt)ílas ricas aras nunqua nego , 
O congro nadador na pâ do remo 9 
t^am coníintais , que a mullca marinha 
yencida feja aqui na lyra minha. 

A o H A IL I o. 

Pa$TO|^ fç fbs hum tempo o moço loato ^ 



DE L. I>£ C AM OSNS. 1*9} 

Que do Sal as carretas move , & guia | 
Ouyio o rico Anfrifo a lyra douro y 
Que o feu facro inventor alli tangia ; 
io foi vaca , Júpiter foi couto , 
Manfas ovelhas junto da agoa fria 
^u%rdou o bello Adónis , 6c tornado ' 
£xx\ bezerro Neptuno foi )á achado. 
A L I c u T o. 
Pescabob. )à foi Glauco , o qual agora 
Deos he do mar y & Proreo Focas guarda } 
Kaceo no pego a Deofa , que he Senhora ' 
Do amocofo prazer , que fempse urda : 
^e foi bezerro o Deos , que o mar adora f 
Também já foi Delfim , Sc quem refguard^ 
Verá 9 que os moços peícadores eráOy 
Que o efcuro enima ao vate dèrão. 

A € IL A B. I o. 

FE^^fOSA Dinamene , fe dos ninho] 
Os implumes penhores |á furtei 
A' doce filomela , &c dos.murtinhos , 
Para ci , fera , as flores apanhei ; 
£ fe os crcrjpQs medronhos nos taminhos^ 
A ti com tanto goâo aprefentei , 
Porque nam dás a Agrário defditoTa} 
Hum sò revolver de olhos piedofo i 
A L I , c u T p« 

Pau A quem trago de agçaem vafo cava 
Os curvos camaroens vivos faltando ? 
Para quem as conchinhas rgivas cavo » 
Na pra/a os (ecos búzios apanhando è 

B b iij 



194 Éclogas 

Vara quem de mergulho no mar brar# 
Os ramos de coral venho arrancando > 
Senam para a fermofa Lemnoria , 
Que cum sò rifo a rida me daria i 
A o ■. A H I o* 
QircM vio o defgrenhadoyfic creQ)0 inyenM 
De altas nuves veftido > hórrido , & fêo , 
Ennegrecenda a viíla o Ceo Tupcmo , 
Quando o» croncos ananca o rio cheo : 
Kajros, churas, croToens, hum criAe inferno^ 
Moftra ao mundo hum pallido receo , 
Tal he o amor ciofo >.a quem furpeiea , 
Que outrem de feos trabalhos fe aproyeica» 
A t 1 c u T o. 

Ss alguém ylo pelo alto o -itbSlante 
Furor , deitando flamas , & bi^mtdos. 
Quando as pafmofas ferras trás diante > 
Hórrido aos olhos , hórrido aos otnridos ^ 
A braços derrubando o )i nutahCe 
Mundo , cofretemehtos deflruidos i 
Afli me reprefenta a fantaíia , 
A deíbípcraçio' de yér hum diá. 
A o X A n I o. 

MiHHA alva Binamene , a Primavera ,' 
Que os campos ddeitofos pinta , & vcftc , 
£ rindofe huma cor aos olhos gera , 
Com que ha terra vem o arco çelefte , 
O cheiro , rofas ; fforet , a verde era , 
Com roda a fermoÀira amena agrefle , 
Nam he paf ft mcm olhos tam fermofa , 



DE t. DE CaMOENS. 1^ j' 

Como á tua , que abate o lírio , & roía. 
Al I c u to. 

A s conchinhas da praya , que aprefentaõ 
A cor das nuves , quando nace o dia ^ 
O canto das Sirenas que adorraentaõ , 
A tinta , que no murice fe cria i 
Navegar pelas agoas , que fe aítentaò 
Co brando bafo , quando a feda he fíia ^ 
Natn pôde Ninfa minha aíH a prazerme > 
Como verte huma hora alegre verme. 
 G K A n I o. 

A Deosa , que na Lybica alagoa f 
Xm forma virginal apareceo , 
Cu)b nome tomou , que tanto foa y 
Os olhos bellos tem da cor do Ceo : 
Garços os tem , mas huma , que a cOroa 
Das fermofas do campo mereceo , 
Pa cor do campo os moíbra graclofos , 
Quem di% , que nam faõ eftes os fermofos ) 
Àlicuto. 

Ferdoemme as Deidades , mas tu Diva « 
Que no liquido marmor ès gerada 7 
A luz dos olhos teus celqfte f & viva » 
Tens por vicio amorofo atraveíTada : 
Nos peitos lhe cbamaníós , mas quem priva 
De luz o dia baixa , & foílegada , 
Traz a dos feus nos meus , que o nam nego- » 
B com tudo ido ainda aíH eftou ccgOé 

Afli cantâvaô ambos os cultores 
^o monte , •& praya -, quando os acalhàra»^ 



%f6 E C t O G A ^ 

A hum paílores , a oucto pefcadores^ 

£ quacCqucE a Teu vace coroarão 
Pe-capellas idóneas , & fermofas , 
Que as Ninías lhe ceceraó , £c ordenarão.' 
A Àerario de murtinhos ^ 6c de roías ^ 
A Alicuco de hum fio de corcidos 
Búzios , & conchas ruivas , &c laftrofas. 
Bíl^avâo na agoa os peixes embebidos , 
Com as cabeças fóra , &.quaíi em terra > 
Os muíicos delfins eflaõ petfdidos. 

Julgiraõ os paílores , que na ferra 
O cume , & preço eílà do antigo .canco , 
Que quem o nega contra as Mufas erra. 

Dizem .os pçfcadores , que outro canto 
Tem da fonora frauta , quanto tcvç 
O campo paíloril do antigo Manco. 

Mas jà o paílor de Admeto o carro leve 
Molhava n'agoa amara , & compellia 
A recolhera roxa tarde ^.^ breve., 
£ foi fim da contenda o. fim dó dia* 

•• J? CIO GA vil. 

«DÓS FAUNOS; 



A 



,S DC|cç$ cantilenas, que cantavaõ 
Os fcmiçapros Deofes amadores 
pas-Napèas, que os montes h^b^tavaõ * 

Cantando, efcreverei , que fe os amores 
Aos filvçftres Deofes maltratarão y 
^4 fiçaõ defculpados os PaAores* 



Vôs, feÀbor I>om António, àònde achatai 
O claro ApoUo , & Marte hum fcr peifeito » 
Em quera fuà» altas mentes affinàrad* - - 

Se meu engenho he rudo , & imperfeito » 
Bem I^e onde (è-falva , pois pretende 
Levantar com á caufa o baixo efièito : 

£m vò» minhè fraqueza fe <leíende ^ 
£m vòs inítilla^a fonte de Pe^o , 
O que meu canto pelo mundo' eítendet 

Vedes as akits Mofas do Parnafo > ' ' 
Cantando vos eíl&ô na dbceljrrá » 
Toraandome dks mios tam alto cafb $ - 

Vtàti o louro Apòllo , que mê tira - 
De louvar voífá eíHrpe , & eícuréce > 
O que em voíkí louvor meu canto aleira | 

Ou pòr me haver enve)a me falleCe , 
Ou por nam vef íbar na frauta ruda > 
O que a fonora cythara merece. 

Pois fei. Senhor, dizer, que a língua mudai 
(jn quanto Progfíe ttifte o fentiotento 
Da corrompida irmã co pranto ajuda : 

£ «in quanto Galathea ao manfo vent% 
Solta os cabellos louros da cabeça , 
£ Tytiro nas fombras faz afiento , 

£ em quanto flor ao campo nam faleça , 
( Senam recebeis iAo por afronta > 
Fará que o Douro , & o Ganges vos conheça» 

£ )á que a lingoa niílo fica pronta , 
Confenti que a minha Écloga fe conte , 
£m quanto ApoUo as voflas coufas eoi^ci^ 



M9p £ C L C • .A I 

Outn^lcTfliuio o coUo d^fcubetto ^ 
Por mais çlçfpçjo cm trsfflg^f ps. atara , 
Haf «iiclo por prcKuio o ^efcoacctto. j 
EUaamçnc, ôc Efirc-a qugm. topara 
Nuas, Fçbo » mum rio , ôc. qicobtiraó 
Seus delicados corpos na agoa ; clara ^ 

Sirene ,Jfe.ííifc , qtie das, mãos fugirão 
X)0(Tc«eo.Paa , Anaaata * «c qaais Elyía , . 
Dèfttas Bo^ .«iéQ« míús , que quaiuas títaó t 

A linda Daliana > com . Belifa , 
Ambí».yindas do Tejo, que como dias 
Nenhuma .wm fcrmoía as hecvas pifa* 

Todai eftas angélicas dooxeUas , 
pelo yíçoCo monte alegres iôaõ » 
Quae$ ftoi C<o lajrgo as niçidas cteUaâ. 
Mas.^us.filKcftrcs Deoí^t i q^&tcazi^é 
O, penTamenco em duas oçUpaá^.> 
A qacífts.de lopge mais » qu^ a ^ quedaó t 
^ Hftm Uiç âcaya monte ^ v^lle » ou prado , 
Nem arvow > por onde qUer f^iZ9àvf9Ó » 
Que nan^ foabeíle deUos ^DJ^uidado. 

.Quantas, vezes ao rio ^ qsie fa^^raó » 
Dociveraó fett curfo , OUvivdo:0$c<l««Qt 9 ' 
Que atè os4nros montes: magoava^i 
Q»ljiiB{as;vezes amor de.taiicps anão» 
Abrandàra.qiialquer vontade izema » 
Se em-Ninfii^ toraçoeas ovireâiê humanos} . 

Míli quem de feu cuidafto. Ce contentai 9 
Oífcreça de longe a pacie^da 9 . : 

f^ue^^moc dç alegres niagãfts.i(f Mtut»* 

Q«« 



z>B L» Q E Gamo ii< s. $m 

Que. o moço Vif^io quis Acft^ cicncik » 
Que fe cotnpadecçílem dous concfaript y 
Diga o quem tiver delle egípcrtenoia* 

Indo os Deofes emfim poc montes vários 
Exercitando os .olhos faudpíiait».. ... 
Ao criftalinartõcributaciosi 

Topàçaó d?uiM fès alvos , & niimo6>t .. 
As^^fadas na terra conhecidas^ 
As quaes foraõ feguindo preiljiroro; s 

Mas çncontrando as HmÍM » ^ue .dcTpid^S 
Na clara fonte eftavaõ > nam cuidando 
Que -d^algift m fbilem viftas f à\x renticfas : 

Dcixaraófe eâar quedos ^ contemplando 
As feiçoens nunqua yiílas , 4e, manen;a ^ ■ , 
Que viíTem fem fer viílos ^ e^eicaf^Q* j 

Porém a efpeíTa mata mepJÇigeirà 
Da futura cilada , co rugido* v ; > 
Dos raminhos de huma afnera aveleira • 

Moílrando a hum dos DeoCes efcondido ^ 
Todas tamanha. grita levantarão,»,, .r 
Comp íe foíTe o monte deftruado* ,^ ^ . , 

ÍE logo ^aí£.derpidas fe lançarão... . 
Pela efpeílura tam ligeiramente,/! 
Que mais então , que os ventos avoára,õ. . 

Qual o .bando das pombas ^ quando fenttS 
A fecmofa Águia , cuja vifta pura . 
>]am obedece ao Sol refplandecence : 

Empreftalhe o temor da mQrte dura. 
Nas azas nova força j & nam parando 
Cotuõ o àr , & rompem a efpeííura. 
Tom II. Ce * 



|01 ." E et Cf G AS-* ' ' 
Dtffta arte raô at Ninfa», que ddxanác» 

De Teu def^t^ <» ramos carregibolos ^ - 

Nàas par eutce as filhas va6 Toacido^ 
M»x>^amatic^s )à defefperados , 

Que para asc atàuíçar em fiin'fe viic^ 

Kada dos pès<:áprinc>8 ajudados: 
C<lRi amocofó» bra4os as íeguiâo ^ - 

Hum sò y qii<&-ooacro' ainda nam tomava 

(olegó algnm-, ' da pr^iTa que traziSo ; 

14at defpois de canfado fe qu^iâtia. 

Ah-Niupas fugitivas y 
Que SÃ poi^nam àfar humanidade, 
Os*perigo^ dòí matos ham cetiíets h 

4>araijue fdis cfqaivas"i 
Que inda de nòs' nam peço piddade 9 
Ma5'deftas'áhras! carnes , qtie o^ndeis , 

* Áh I^tifa' nam yereís , 

Que Burydice', fugindo dèíla forte , 
Fugio do amante , 8c nam da fera morte ! 
Também' affi^^èrie foi mordida 

Da bibora efcondida : 
Olhai a ferpc , Ninfas , na erva^erde , 
'«Quem a condição nam perde", perde a «v^ida. 

Que TYGÍ.B , ou que leáo , 
Que peçonhenta fera venenofá , 
Ou que inimigo emfím vos vai íiguiiido ! 
- ' De^huixi brando coração , 
Que prefo dejTa yiiU rigurofa , 



9 C Lr D S C A U o B M S. 50f 

De fi para ròs foge , andais. -fogindo 3. - 

Olhai , que em geílo lindo íj 
Kam fe confence peito tam disforme # • 
Senam quereis, que tudo fc confortíieji • 
Poílo que bellas na agoa to» vejais > ' 

 fonte nam creais ,. . . ' 

Que v&strâs enganadas pot vingança 
Deíla noílà efperança , que enganaisJ 

JkÍAs AH 9 que nam conilato ^< 
Que oem palavra minha vos - oíFenda , • 
Poílo que me defculpa a mágoa pura : 

]hlinfas digo que minto , 
Que nam pôde haver nunqua quem pretenda 
De desfazee cm voíTa fermofura : 

Se amor de tanta dura y. 
For tanto mal tam pouco bem merece » 
Nam eílranheís minha alma «que eodoudecefi 
Que fç falia doudices de improvifo , 

Sem cento , nem avifo , • 
Queira Peos, que dureza tam crecid^tL 
Que me nam tirç a vida alam do iifo. 

CoujSAS grandes , £c eílranhas 
Tem pelo m^ndo feito , & faz natura , 
Q' a que vos nam vio^Nin^sis^muico efpantâo 

^ Mas-Libicas montanhas 
As Scicales faò feras da pintuca 
Tam íiagular , que sò co a vifta encantáo ^ 

As Hienas levantáo 
A voz tam natural à voz humana , 
Que « quem as puve facilmente engana} 

Ce ij 



^^^ E C I. o G A f 

Mas fbi-lho defender 
O outro companheiro como irado 9 
Com tam dlàforme , & fifpera diircia % 

Aquillo , que a rudeza , 
i a ciência agrefte lhe cnfinàra f 
Imaginando , como que acordara 
D'algum fonho, arrancando á*í^mz Kfi grito ; 

O mais y que àlU íoi dico , 
Vòs montês o direis , & vòs penedos , 
Que dbi vodos arvoredos anda efcrico. 

SatTs-o segundo* 

Nem vàs hafcidas fois de gente humana. 
Nem foi humano o leite, que mamaftcsj 
Mas d'alguma disformè^fcra Hircana , 
Lá no Caucafo motite vos creaftes : 
Daqui tomaftes-a afpereza infana , 
Daqui o frio peito congelaftes , 
Sois Sphinges nos gèftos naturais , 
Que o rofto sò^ de humanas amoftraís. 
t 5 B V ò $ foftes criadas na efpeílura ,' 
Onde nam ouve couTa , que fe achafle 
Animal , erva , planta , ou pedra dura , 
Que em feu tempo paíTado nám amaíTe ; 
Nem a i^uem a aflFeiçáo fuave , & pura 9 
KêíTa prefeííte forma nam mudafle , - 
Porque nam deixareis também memoria 
De vòs , em namorada , & longa' hiftoria? 

Qlhai como na Arcádia fotertando . 
O iiiámoi-adõ Alfco fuA agoá ciara , 



DE L. DE CaMOENS. 36f 

I,i na ardente Sicília vai bufcando 
Toz debaixo do mar a NrníTa cara y • 
AíH mefmo vereis paíTar nadando 
Acis , que Galathea tanto amara > 
Por onde do Ciclope a grande magoa , 
Convetteo do mancebo o fangoe em agoa* 

Vir Ai os olhos , Ninfas , à Erycina 
Xfpeflura , vereis alli mudarfe 
Xgeria , & em fonte clara , èc criílalma » 
Pela morte da Numa deftikrfe : 
Olhai -, que a trifte Biblis vos eníina 
Cora pcrderfe de todo , & transformarfe 
£m lagrimas , que emfim pudèraô tanto , 
Que acrefcentàraõ fcmpre o verde manto. 

£ s E ^eritre as claras agoas ouve amores f 
Os penedos também foraõ perdidos , 
Olhai os dous conformes amadores , 
Là no monte' Ida em pedra convertida ^ 
Lethea por cahir em váos errores. 
De fua fermofura procedidos , 
Oleno , porque a tnilpa em íi tomava , 
Por nam ver cáftigar , quem tanto amava. 

Tomai exemplo, & vede em Cyproaquellji 
Por quem Ifis no laço poz a vida 9 
Também vereis eni pedra a Ninfa bella p 
Cuja voz foi por Juno confumida , 
E fe queixar fe quer de fua eftrella , 
A voz eílrema sò Uie he concedida j 
E tu também , ò Dafnis , que trouxcftc 
Pcimcico aomonte o doce vcrfaagrcfto* 



3o8 Éclogas 

Tamanho amor lhe tinha a branda amiga 
Que em imoiiga emfím (e foi cornando » 
Que porque Ninfa eftranha outra o fogiga y 
Suas magicas .ervas vai bufcaado | 
Olhai a crua dor a quanto obr%a t 
Q}]e por vingas Tua ira transformando. 
Se foi em ped^a ^ ò dura confu(aó ! 
Defpois lhe pelaria , mas em vaé. 
i p|.^ A t , .Ninfas , as arvores alçadas , 
^ A cuja fombra andais, colhendo flores. 
Como eflft J(«u,> tempo focaó namoradas 
Que ainda agora o tronco íçnce as dores- 
• Vf^eis também.,, fe fordes alembradas , 
Como a, cor das amoras he de amores, 
O Tangue dos amantes na vecdura ,/ 
Teílemunha de.Tfsbe a fepultura^ 

£ LA^ pela^ odorífera Sabéa , 
b^un redes , que de lagrimas daquella » 
Que C091 feu psiy « & fe a}unu , 6c fe reciea , 
Arábia fe enriquece , 8c vive delia 2 
Vede mais a verde arvore Penea , 
Que foi yà n'outro tempo Ninfa bclla^ 
E CypariíTo angélico mancebo , 
Ambos verdes com lagrimas de Febo* 
E s T a' a moço de Frigia delicado 
Ko mais alto arvoredo convertido. 
Que tançâs Tezes fere o vento irado , 
Galardão de feus erros merecido : 
Que, da aka fierecinthia fendo amado • 
Poc huma Ninfa baixa foipeidido , 



BE t.*l)E CaMOINÍ. 30J 
£ A Deofa , a qoem pcrdco do penfatnento , 
Quiz , que também perdefle oentendimento* 

O SÚBITO furor lhe afigurará , 
Que o monte , as cafas , & acvores cahiaò. 
Já dos pudicos membros fe priyáv'a > 
Que a Deofayãc a fúria grande o conftrangiaõ: 
Já no mdino monte fe lançava 9 ^ 
De fua morte as feras fe dohiaô : 
Ueíla arte perdeo Athis na efpeiíara y 
Defpoi^ de tantas perdas , a figura. 

Lembuevos quando as gentes celebrava6: 
£03 Grécia as grandes feftas de lyèo ^ 
Onde as fermofas Ninfas fe juntavaõ » 
£ os íàcros moradores de Lyceo : 
Todos em doce fono fe ocupavaÒ 
Pelo monte , defpois que anoiteceo , 
Mas o Decs do Helefponto nara dormia , 
Que hum noyo amor o (bno Uie impedia. 

Mas ELt^ emfim os braços ei^ndcndo ^ ' 
£ni ramos (e lhe foraó transformando , 
£m raízes os pès fe vaó torcendo > 
£ o nome de Lotho sò lhe vai ficando 9 
Vedes Napeas efte cafo horrendo. 
Que vos eílá de longe ameaçando ? 
Que aíG umbem d'aquella , a quem feguia 
O facro Pan , a forma fe perdia. 

£ QUE direis de Filis , que perdida 
Da faudofa dor , em que vivia , 
A* defe^raçaô emfim trazida 
Do comprido cfperar de dia em diiai 4 



^id Écloga* 

f oc defatar do corpo a criAe vida , 
^t4^a ao^colç a cio ca , que tiazia ^ 
Mas o tconco íem folha pelo monte 
|LhoçU>pe<ajbraça o lento Deniofonte. 

N A $ boninas umbem vereis Jaciacho , 
Poc quem-^ejbo de íi Te queixa em vatn , 
Vereb o mont^Idallo em Cangue cinco 
Do neto deXfsu.pax , da mãy irmam : 
Chota Vénus a dor do moço extinto , 
Maldii o Ceo^ fie a Terra com razaó , 
A Terra porque logo nam fe ab;cio , 
O Ceo porque tal morte permitio. 

E TU confiante Clycie ^ a qi^em falece 
A fè de teusjamores enganofos. 
No louro amante , que de ti Ce eCquece^ 
Se erquecem.QS teus olhos faudofos : 
Nenhuin ale^e eftado pennanece , 
Que faõ do mundo os godos mentiroíbs g 
£ a tua clara luz, por quem rufpiras, 
Amda agora em hecva a folha viras. 

T&AGOvos eílas coufas á lembrança » 
Porque fe eílraohe mais voiía crueza , 
Com ver que a creaçaó ôc a longa ufança 
Vos nam perverte , ôc muda a natureza : 
Dpu as lagrimas minhas em fiança » 
Qke em tudo quanto eflà na redondeza, 
Coufa de amor izenca y fe atentais , 
£m quanto vos nam virdes nam vejais, 

Ja' disse , que de amor íêrapre civeráo^ 
As coufas infeníivcis pena 9 & gloria « 



DE t. DB .CaMOENS. jH 

Vede as (eníiyeis como fe perderão , 
£ diryoshei das aves hrga hiíloria , 
Que as penas , que em fua alitià fe fofreirád 
Nas azas lhe íicàráo por memoria > ^ 
£ aquslle ahivo , U lèvc mbylmeàtb , 
Lhe« ficou do Voar do penra]!áienco. ' 

O DOCB Ro:xin<:>I , & a Andorinha , 
De donde eilás Ce forâo transformando,' 
Sexíam do piíro amor , que o^ Trado tinha 
Qf em poupa aánda a amada anda chamando^ 
Clama feih cútpa a mifera avezinha ,' ' ' ^ 
Que na praya de Faíis habitando > 
Do tio toma o nome , & affife vai ' 
Chamando à mãy cruel , & infuílo võ pay^. 

V H D B atjuem engeitou Falias por fallár ,' 
Que dor Simorcshe mayor dtfFeico , 
E aqutlTa , tjue fiicedc em Cc\i lugar ; ' 
Ambas aves db amor ufado eflèito , ' ' 
Htmia, pôrqué ^ugia ao Deos dó mar , 
• Outra , porque tentara o pátrio leitò , 
£ Scylla , que aíeu pay poz em perigo., 
Sò por fer muito amiga do inimiga; 

£ P I c ò a quem âcáráo ainda as cores 
Da purpura Real , que ter fohia , 
£ Efaco , que o feguir de feils amores , 
O trouxe a ver tam cedo o eAremo dia i 
Ou vede os dous tam firmes amadores , 
Que amor aves tornou na praya fria , 
Do Rey doS ventos era genro o ttifte , 
Que Alcione lu ptaya morto viAc» 



«k 

^ 



ft% EcLOGAr 

Estava a crifte Alcione efperaAdo 
Com longos olhos o marido aufence , 
Mas os irados ventos aííoprando ^ 
Kas agoas o afogarão crií^emence t 
Em fojihos Ce lhe eíU reprefencando ^ 
Que o cqraçáo prefago nunqua mence, 
Sò do hem as fufpeius mentirão , 
Porque as do mal futuro cercas íàó. 

Ao FiLAMTo os olhos feus a triile eníàf a j 
Bufcando o mar cora elles hia , Sc vinha , 
Quando 9 coçpo fem alma achou ha praya 
Sem alma o corpo achou , que n*alma tinha, 
Oh Nereidasi do £geo confolaya , 
Pois càc.xii^ oíficio vos convinha » 
Confolaya y fahi das voílas ajgoa^. 
Se confolação ha em grandes miagoas. 

M A s ò necio de ml , cÃou, fallaiicLo 
Das avezinhas manfas , fie ambroíàs , 
Se tamhpmjcve amor , poder , & mand« 
Entre jis feras montezcs venenòías': 
O Leaõ , & a teoa , como , ou, quando 
Taes^^formas alcançarão tcmeroíàs i 
Sabero,da Deofa Dindymene o templo , 
E a que o deu a Adónis por exemplo. 

Quem fbíe a manfa vaca dilohia , 
Mas o graó Nilo o diga , que a adora | 
Que forma teve a Urfa faberfchia 
Do Polo Boreal , ©nde ella mora : 
O cafo de Aéleon também diria 
Em cerro naiwforuwdo , «ç giclhor fo^a, 

Quí 



Que dos elhgs perdera a yifta ^ura , 
Que. efcolher > nos feus galgos fc^ulcura* 

Tudo iílo A^eon viona fonte clara • 
Onde a íi de improvifo em cervo vio^ 
Que quem aâi deíla arce aUi o topara , 
Que fe muda0e e.m cerro p^rmicio-: . • 
Mas como o^ priíle amante «mlS hocâra 
A deTu^^ fòrma 9 Te partio s 
Os reusy4 o nam conhecem, o Vaõ chamando^ 
E eílandoalliprefente o vão bufcaçdo. . 

Cos OLHOS j ,& .Cp g^Ao lhes fallava , 
Que a yoz humana ià mudada tinha ^ . , , 
Qualquer delles por elle entlo chatpava ^ . . 
£ a multidão dos caens contra ette vinha s 
Que vieíle yer hum cervo lAe gritava ^ 
Aâcon aonde eftàs \ açude aíinha , 
Que tardar tanto he efte? lhe dizia : 
He efte , he eâe o ecco refpondia. 

Quantas couías em vão eftou fallando ^ 
( O efquivas Napeas ) fem que ve|a 
O peito de diamante hum pouco brando » 
De quem meu dano tanto sò^defefa ; 
Pois por mais que de mi me andeis tirando » 
£ por 'mais longa emfim , que. a vida.re}a > 
Nunqua em mi fe verá tamanha dor y 
Que amor a nam converte em. maisftmoc* 

Aqvi i ò Ninfas minhas ). vos pintei * 
Todo de amores 'hum jardim fuave y 
Das aves , pedras, agoas vos cfomei » 
Sem me íicar bonina | fera > ou ave a 
Tonu //. ' © 4 



5X4 È et o o A s" 

Se cílc amor que i^o peico apofentef , 
Que dos conteaUmencòs tem 4'chaye , 
Por dit4 ení tempo atgum determiuaílè , 
Que de tam longos annos vos pefaíle j 

QuAnto mais devagar vos contaria y 
De minha larga htftoria , 5c nam alhea y 
£ com~ quanta' mais agoa regaria 
De contente > que rio , á branca arèa: 
l4ovo contentamento me Teria', 
Foimar de mèu cuidado a nova idda , 
£ vòs goílândo defte eíbdó íifano , ' 
Zombaríeis entáo de voíTo engano. 

Más coii qliém falIo,ou o 4 eftoôigritandoy 
Poi^ nam ha nos penedos fentimentõ i 
Ao vedtõ eílbu pátavras eCpalhando , 
A quem At digo ,' corre mais que o vento : 
A voz , &a vida SL dor me eftà tirando , 
£ nam me tira o tempo o penfamemo > 
Dkèl en fim ás duras efquivariçás , 
Que sò na morte tenho as efperanças , 

A Q u X o triíle Satjrro acabou , 
Com faiaços, que a alma lhe arrancayáoyt 
£ os montes inTeníiveis , que abalou > 
Nas ultimas repoftas o ajudav$o : 
Quando Febo nas agoas fe encerrou , 
Cos a^imaci »' que o mundo alumiavâo ^ 
£ CO luzente gado apareceo , 
A celcíle paílora pelo Ceo. 



J 



.ç 



A. 



D £ I,. DE ÇaMP^N S. iH 

ECLOGJ-FTIT. 

P IS-CA T OK LA* 



.KDB ^ poc Galachea bçanc^ , & loura > 
^ereiío! pfiCcadoc « pobre forcado ^ . . . 
D'hun}R/eAc9Jila ^ que quer á miogoa moura ^ 

0& curros pefcadores rem lajigado ^ 
Ho Tejo a;i redes , el|e sò fazia 
£íle« qvill^^me ao venço <ídjf\^d^» 

QuandQ. virá , ò Ninfa heUa • o dia 
£çi quqtepoí](a dar a conc;^ eilrei^f t,. , 
Defta doudipe. rrifte , fie vaa.pxírfia? 

>Unx)Kès,>4 °^* ^óge alou» &; 4 me.engeica> 
Bulcando jiu^ sò rifo da coa bo^a • 
N9S réus olhos azuis manfa colheita \ 

Se iE]j$íle;efpi;icçi alguma magoa coca X. . 
Se (^'amor £ca nelle huma pegada > . . 
Que re'yai. Galathea nefta troca \ 

p^^teJi^i QÚoha alma , U^ma cens rouba^da^^ 
Nam ta deiiik^f^darei » damç por ella 
Hyo9i|a,sòi^yol(a de olhos defçuidada* 

Se n^iúto. te parece > & çúoha eftrelU 
Nam confeqtic ventura tam dicofa , 
Douce-as- a9;j»&^4o amor perdidas nella. 

^Qiie mais te poílo dar ^ Ninfa fermofa. ;^ 
Inda que q mar de aÍ)o^r,fne cubrira 
Toda efia praya Idda , hc graciofa I 

CaUo a$ ondas 9 quebra o vento a irá» 

Minha cor aienta crtílK oftin. fon.ega > 

Dd i| 



'xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx; xxxxxxxx 
xxvyxyxyxxxy)*xxxx<:xxxxxxxyx 



•• 



ELEGIAS 

D E 

tUISDECAMOENS, 



EL E G I A L 

Vj Poeta Slmonides fallando 
Co capicáo Temiftocles hum dia y 
Em coufas de fciencia praticando , 

Huma arte fingular lhe prometia y 
Que entáo compunha , com que lhe enfinail< 
A fe lembrar de tudo , o que fazia. 

Onde tam futis regras lhe moílraíTe , 
Que nunqua lhe paíTalIc da memoria , 
Em nenhum tempo as coufas , que padàíTe : 

Bem merecia certo Fama > & gloria , 
Quem dava regra contra o efquccimento , 
Que cnceru em íi qualquer antiga hiíloiúu 



Mas o capitão claro y cujo intento 
Bem dií^fèrente eilava , porqae havia ■" 
As paífadas lembranças por tormento» 

O* íHuftre Simonldes , dizia , 
Pois canto em teu engenho te confias , 
Que' moftras â memoria nova via v 

Se me deães huma arte y queem metiS dia9 
Me nam lembraflê nada do pafíadò-. 
Oh quanto melhor obra me fatias 1 ' 

Se eile excellente dito ponder;kio 
Foíle y por quem fé viíle eftar aufente ^- • 
£m longas efperanças degradado 'y 

Oh como bradaria juílamente-y 
Simonides , inventa novas arre$> 
Nam meSas o paíTádo co preíbnte } 

Que fe he íbrçado andar por varias partes , 
Bufcando â vida algum defcanfo honeílo > 
Que tu Fortuna injufta , mal repartes s • 

£ fe o duro trabalho he roanifèíbo-. 
Que por grave que feja ha de paflarfe y 
Com animofo efprito , ledo geíla. 

De que ferve às peílbas alembrac fè- • 
Do que fe paílou jà y pois tudo paíTa > 
Senam de encriftecerfe , &- magoarfe ? 

Se n^outro corpo hunAaalma fé tfafpafla • 
Kam como quis Pychagoras na morte » 
Mas como manda amor na vida efcaíla 

£ fe '«de amor no mundo eftâ de forre , 
Que na virtudé^sò de hum lindo objeâo', 
Tem hiun corpo fem alma fivo f 96 íòttê « 



^lO. E t S C I A s 

Ondeeftcobjeâo falta y que be defe£U)r 
Tamaobo para a vida > que ]à neUa , 
Mc «6á cibÃinando à pena a dora Aleâo s 

Porque me nam criara minh^eftrella > 
Selvático no mundo , & babicante 
Ka dura.^çytbia » ou na afpereza delia » 

0u no Cíiucafo,borrendo.renro infante > 
Criado^ ao peito de buma tygre Hyrcana , 
Homemjfoca foripado de diamante. 

Porque a cerviz ferina « òc inbumana , 
Kan^Conie(Qrft)»O.Íugo , & dura Icy , 
Daquelle | que dà vida » quando engana , 

Ou em pago das agoas, que eftilei , 
As que do ms^r peidei foraõ de Lethe > 
Para ^ me efquecèra > o que ^aíZei , 

Que o bem , que a efperaçça, van promete » 
Ou amesrce o eftorva > ou a mudança. 
Que ^0 mal ,-9 4 ^^ 4lma em (agrimas derrete. 

Jà (enbpr cabirà como a lembrança 
No ipal do bem paíTado he triíle > 6c duia> 
Pois naçQadonde morre a eíperança , 

£ fequifief fáber como fe apura 
N't^qilia alma faudofa , nem fe enfade 
De l^.Caoa. Ipng^ & mifera eíçricura*. 
, SoicavaEolo ai,s^dea & libçrdadc 
Aq maaiò Favonio brandamente^ 
£ /PU4à.a;tinba folu à faudade. 

, i^eptuno cmbiil. poAo, fcu Tridence 
A proa a braa^.efcoma diyt4^a ^ 
Pom a gen^e^iuciúma conteate. . 



o Coro das ^Êreidas noí Téguia^ 
€)s ventos namorada Galachea 
Coníigo foilegados os movia. 

* Das argênteas conchinhas Panò|>eà »' 
Andava pelo mar fazendo molhos ^ 
Melánto , Dinamene , com Legea. 

£u trazendo lembranças por antolhos j; 
Trazia os' olhos na agoa foâegada > 
£ a ágóa Ctm fdiTego nos meus olhos. 

A bemáventurança jà paiTadá , 
Diante de mi tinha tam prefente , 
Como febaih mudaíle o tempo nada. ' 

E cdm o gèfto imtnòto , & defcontente ^ 
Cum fuípiro profundo , 6c niál ouvido , 
For nam moftrar meu mal ã toda a génte^ 

Dizia 9 ò claras Ninfas , íè o lentido 
£m puro amor tiveftes y Sc iúdsL agora 
Pa memoria o nam tendes efquccido i, 

• Se por ventura fordes algum hora , - 
Aonde entra o graõ Tejo dar tributo' 
A*Thétis , que vòs tendes por ftnhorá : 

Ou por «verdes o prado verde enxuto , 
Ou por colherdes outo rutilante y 
Das Tascas arèas^ rico frtíto^ 

Nellas em verfo heróico , & elegante , 
Ifcrevei numa-concha y o que em mi viíles j 
pôde Ter que algum peito Te quebrante , 

£ contando de mi memoria» triíles y 
Os paftores do Te|o « que mé ouviâo , 
Oução de yòs as magoas , que me ouviftei* 



Elias , que ji.no gèílo o;«,en.ceiidiâay> 
Nos meneos d^s ondas me ipoílxavãp > 
Que cm quanto lhe pedia coufenciáQ* 

Eílas lembranças > que me açompaaháyâo 9 
por tranquilidade da bonança » , . , 
Nem na tornxenca graye me deixáv^ : 

Porque chegando ao Cahp ^ EípezaBça 
Começo da Caudade^ que re^9;ya.,^^ 
lembrando a longa , &f afpeca.cc^dajDça : 

Debaixo cAando já da eílrellf.nova». 
Que no novo^ Emisferio reCpian^efx \ - 
Dando do fegundo axe çert^ projiça^^f / 

^is a Jioice çom nuves fe efçuçece » 
Po 4r fiibicamence foge o dia , , 
£x> largo Occeano íe embravece).., 

A, machina do mundo pa^ef i^^ , 
Que em cormçnca Ce vinha desfazendo, ^. 
£m ferras todo o .nur fe convertei» 

Lutando Borcas fero , 6c Noto horrendo*' 
Sonora^ cempeílades leyanxayãoy, 
Pa& o^os as vellas concavas rompendo. ' 

A$ cpf das ÇQ r^ido aíÍQy iavão ^ ^ 
Os marinheiros |i defefperados , • 
Com gritos para Q Ceo o àr çQalha.váa» 

p^ rayçfs por,VulcanQ fabricados.. 
Vibrava, o fcrq.,. ^fic afpero Tofjuintc , 
Treipen4oo$ Poios ambos de ailombrados* 

Alli amor çioílpandofe pQ0aiti^é , 
J. que por nenhum medo nam íugi^ ,: . 
.Mas^^uanco m»Us, trabalbo «. mais cojjdUojce* 



CE L; ^t Ca'M'OÉNS. ^Ij! 

V^âò'i'ÍÁt>ixk 'diante , tih ihi Hizía^,"- 
Sc algutna'lífòta*', feíihòfa , vos ItiUbrSiàe , ^ 
Nada do'^^Fei mo lembraria.' ' - ' *- 

Emfim flUtííifià houve cátlfa , 'qiié múdaíTe 
O firme a!iíò'è^mtrinfecodaqtieIIe; ■■ '^ ■ '- -^ 
Cujo peito hama vei de fífô erítrafleV ' -' 

Humfe còtifa , feriíior , pôf Ceftd àíífelle. 
Que nunqtiâ âSibr íc affitia ,'ncm'{fe kpúra ^ 
Em quanto eftà prefcnte a caúfa' dóllè'/- 

©efta^àtre ftié thegou níínha Vèntíitá ; 
A efta defejàda , & longa terra , ' ' ' " ' 
De todo '6 pôbte honrado fcpoltutá. 

Vrquanta Vaidade em nòls fc encéfrá , 
E dos proptibs quam pouca , contra quem 
Foi logo netèflario termos guerra. 

Que huma Ilha , que oRey de Pòrcàtem p 
Que o"^ Reyda Pimenta lhe romàta , 
Fomos tomarlha , ôc fuccedeonosbem. 

Com humà armada grolTa , que ajuntara 
O Vifotréy , dé Goa nos partimos " 
Com toda a gente d*armas , que fc achara ,* 

Erom pouco trabalho deftruímo^ ' 
A gente no curvo arcomtereitâda. 
Com mortes , còm incêndios os^puniriíos. 

Efa-a -Ilha com agoasalàgadé , • 

De modo , qfeé fe andava em àkttíádiàíi 
Em fim outra Veheza traíladáda. 

Nella nos'de«vemos sòf dõus dtóí ', ' 
Que foráopâfráalgums os der-radJ^oS, 
Que paflàráô^^c Styg^ *s agoiíffftias; - 



^4 E Xr £ Ó X A s 

Que eftcs faó os remédios v^pccUdetioi i 
Que para a vida cftaó aparelhados , . 
Aos que a querem ter por cavaleiros*. 
, Oh lavradores bemayentuxados» 
Se conheceíTem íèu contentamcDto , 
Como vivem no campo foílegados ! 

Dàlbes a |ufts^ rerrao mantimeaco , 
Dálhes a fonte clara á agoa pura » 
Mungem fuás. ovelhas cento a cento. 

Nam vem o mar irado , a noite cTcílcaiA 
Por ir bufcar a pedra do Oriente » 
Nam temem o furor da guerra dura. 

Vive hum com fuás arvores contente y 
Sem lhe quebrar o fono foíTcgado 
Algum cuidado do ouro reluzente. 

Se lhe falta o veftido perfumado , 
£ da fermofa cor de AlTyria tinto , 
£ dos torçais Atalicos lavrado : 

Senam tem as dilicias de Coríntho ^ 
£ fe de Pario os mármores lhe faltáo » 
O Plropo., a Efmeralda , & o Jacinto. 

Se fuás cafas d'ouro nam fe efmaltáo y 
£fmalta felhe o campo de mil ^res , 
Onde os cabritos feus comendo faltáo. 

Alli amo^ra o campo varias cores , 
Vemfe ramos* pçnder co fruto ameno » 
Alli fe affin^ o canto dos pa^lores. 

Alli cantara Titiro , & Sileno , 
'BmRpi por eftas. partes caminhou 
A fan iHÍtiça pj&tg o Ceo fe|«io^ 

Ditofo 



t>£ L. DS CAMOEKS. Jtjf 

Ditofo feja aquetle , que alcançou 
Poder viver na doce companhia 
Das manfas ovelliinhas ^ que criou» 

£fte bem facilmente .alcançada 
A% caufas nacuraes de coda a coufa , 
Como fe ^ra a chuva , 6c neve fria: 

Os trabalhos do Sol , que nam.repou(à p 
£ porque nos dá a Lua a luz alhea , 
Se tolhemos de Febo os rayx» oiifa;. 

£ como tam depreda o Ceo rodèa , 
£ como hum sò os outros traz. coniigo ^ . 
£ fe he benigna , ou dura Cycherca. 

JBem mal pôde entender iílo que digo f 
Quem ha de andar (Iguindo o fero Mane» * 
Que traz os olhos íèmpie em feu perigo* . 

Porém feia » Cenhor , de qualquer aice , 
Que poílo , que a Fortuna poíTa canto , 
Que tam longe de todo o bem me aparte > . 

Nam poderá apartar meu duco canto . 
Defta obrigação fua , em quanto a morte ' 
Me nam entrega ao duro Radamaato ^ 
Se paia* ctiftes ha tam leda foite* 

ELEGIA II. 

x\ cfú £ L L A , que de amor defcomedido , 
Pelo fermofo moço fe perdeo , \ 

Que sò poc fi de amores foi perdido ; - 

Defpois que a Dcofa em pedra a conveiteo;| 
De feu humano gèílo verdadeiro > ' 
fi ultima voz tò IM coAcédeo. 

Tom. li. iç 



fté £ L £ G I il S 

Afll meu nul do prpprio (er prímeiro»» 
Outra couia nenhnma me conreuce , 
Que efto canto » que efictevo derradeiro : 

£ fe ainda alguma vida efta&do auTente p 
Me deixa amor , be porq^e o pcnTamento 
Sinu a pecda do bem de eíUr preTcnte. 
- Senhor t Ce vos e%anta o Ceotinaento » 
Que teahoem tanto mal pata eíctevelo , 
Furto efte breve tempo a meu tormento ; 

PQr(|ue quem tem poder pata fofreloy 
Se V ík acabat a vida co cuidado » 
Também teri poder para dizelo. 

T Uçia eu efcrevo mal tam ooílamado, 
Ik^ n'alma minha úifte , fc CuidoGi , 
A randadeoTcreve , fie eu aaílado , 

Ando gaftan4o a vida trabali^oCa , 
Xfpalbaado a continua íaudade » 
Aq longo de huma praya íâudoíÀ. 

Veio do mar a infiabiUdade , 
Como oom feu ruído impetuoíb » 
Retumba na mayor concavidade ^ 

£ com fua branca eícunaa furioâ»^ 
Na tcrr^ a feu pcfar Ibc eílà tomando 
Lugar oode fc eíleiída cavernofo. 
. ^ %IU como m^is fraca lhe eftà d^ido 
As concavas çnfranbas , onde efteiít 
Suas Talgadas ondas eCpalbanda » 
'; A. todas e0as cou£as tenho inveja 
Tamanha » que nam fei decerminacme » 
l*oc mais decciminado tpc me veja. 



Dl L: m C A M o IN s. 3iy 

Sc quero cta MQto xnal deCerperarme , 
Kam poflo , porque amor Ôc faudade 
Nem licença rae daõ para macarmew 

* A's vezes cuida em mim fis a novidade | 
£ eftranbeza das coufas co a mudança , 
Se poderão msdar huma voncadv , 

£ com tfto afiguro na lembrança 
A nova cerra j o novo traço Kumano , 
A cArangeira gente f Sc cíbaEiha ufança* 

Suborne ao monte , que Hercubs Thtfbtno^ 
Do alciífimo Calpe dividto , 
Dando caminho ao mar Medieeftaix^. 

Dalli éftou ceoceaado aonde vio 
O pomar das Heíperidas, matando 
A fepe , que a feu paflo refiftio. 

Em outra parte eftòu afigurando 
O poderofo Ancheo , que derrubado 
Mais força fe lhe eíUva acrefceMando» 
> Mas dos Herculfos bcaços fogigado f 
No àr deixou a vida, nara podendo 
Dã madre Terra jà Ter ajudado j 

£ nem com lílo em fim, que eíloiidizeiido> 
Kcni com as armas tam continuada); , 
De lembraoças pafladas liie defeiídò. 

Todas as coufas vejo demudadãs' ,- 
Porque o tempo ligeiro nam coi^eâte , 
Que eílejad de firmeza acompánb^das. 

Vi )à que a Primavera de contente 
De mil cores alegres reveftia 
O monte , "O lio , o campo alegremente t 

l€ ij 



'^XZ £ I E 6 I iA i^ 

Vi |i das alças aves a armonia t 
Que atè aos montes duros convidada , 
A hum modo Tuave de alegria» 

,Vi já que tudo em fim me coocencant p 
E que de muito cheyo de firmei , 
Hum mal por.mil praxeíes. nam trocava» . 

Tal me tem a mudança Sc eâtanheza > 
Que fe Tou pellos campos » a verdura 
Parece que fe feca de trifteza. 

Mais ifto be ]i coílume da ventura ; 
Que aos olhos , que vivem defcontiqptes ^ 
Defcontocite o jpra^r fe lhe aâgura> 

Oh graves & infufriveis accidentes 
pé Fortusu & de Amor, que penitcnd* 
Tam grave dais aos peitos innocemes l 

Nam bafta exprhnentarme a.paçiencia » 
Com temores ^ & falias e%erança5 y 
Sem 4 também me atente o m^l de aufencia* 

Tra3;eis a hum brando animo em miudanças 
Para que nunqua po0a fer mudado , 
De lagrimas., Cufpiros , & lembranças. 

£ fe eltíver ao mal acoâumado > 
Também AO mal nam confentis firmeza p 
Para que Qunqtia viva defcanfado. 

Vivia ^u foílc^aido na ttifteza., 
]E aUi i^am me (altiva hum brando eogaxio> 
Que tira^co^defejios da fraqueza:,- - 

£ ven4Qn^e engana,do ei^ac ufi^no ^ 
peo à roda Fortuna , & deo comido 



'» 



D£ L; l^£ C A MO tNS. ^^ 

7â dere de baftar , õ4)Uò aqai diço"^ 
Bara dar a entender o mais » ^uc callo > 
A qocm |i rio um a^en» ^ert^ 

£ fe nos bravo» peitos faS attíttUt»^ 
Hum petio magoada, & deífonrente. 
Que obrsgá y^a querii o' ouve VâTcòfifbrtafl^ 

Nam ífAtro liiais', f^sttam-cpMPlar^aiiieAce» 
Seifaor , me laíauikis aovas dedk teiza , 
Ao menos poderei vlVcr ctíocm^eí^ 

Porque (c o dusc^o Fado me deftecra ^ 
Tanto c^mpo do bem , que o fraco efprko 
Defempare a ^WkÔ , onde fe tnitíW, ' 

A» fom das negras agoas do^Cocicõ , . 
Ao pè dos can^^dos arvoredos', 
Cantarei ,- o que n'alma tenho eí^ricòV ' ■ 

£ por entre eílès hórridos peiiedOÍ'> 
A quem negou natura o claito dia^ , 
Entre torhientos afperos , & médò^A 

Com a tremula voz canfada'^ 8£ fna , 
Celebrarei o gcfto claro , & puro , 
Que nunqua perderei da fantaíia $ 

£ o mufico ^e'TÍiracia |à feguro 
De perder fua £urydice tangendo > 
Me ajudará ferindo o ár efcuro. 

As namoradas fombras revolvendo 
Memorias do paílado mé ouvtráõ , 
£ com feu choro o rio irá crefcendo. 

£m Salmoneo as penas faltarão y 
£ das filhas de Belo juntamente , 
t)c lagrimas os vafi»s fe encberáó. 

£e ii) 



}3o t i ^ G 1 A S' 

Que Te amor oam Te petde em y ida auTente^ 
Menos (c perderá por mocce efoHra ,. 
Porque em ém a alma vive ececuamence , 
£ amor he efeco d*alma * 6c íempçe duza^ 

^ELEGIA II J, 

V^y -tfULMOimMsa Q^idiadeâerrado 
Na afpereza dò^Ponto » imagifitndo . 
Verfe de fcuí. parentes apartado ; 

Sua cara mulher defemparando , 
Seus doces filhot , feu contenumeaco ^ 
De fuá j>anria os olhos apartando : 

Nam podendo encubrir o fenúmeato s 
Aos montes U às agoas fe queixava 
De Teu çfcuro , & trilU xurcioKnto. 

O cuffo das cftrelUs contemplava , 
I como ppr fua ordem difcurria 
O Ceo y «^ Ar » fie a Terra adonde eíUva* 

Os,peixe^|)elo mar nadando via > 
As feras pe,lQ monte , procedendo 
Como feu i)a;ural lhes permitia. 

De Tuas fontes via eitar ^lacendc» . 
Os raudofqs rios de criftal 9 
A^ fua nature2ia obedecendo, 

AíH s^ de feu pfoprio natural > 
Apartado fe via em terra eftranha , 
A cuja triAe dor nam acha igual. 

Sò fua doce Mufa o acompanha , 
Nos vçrfos faudofos , que efcrevia , 
£ choro , c^m^ que alii o campg banha ^ 



©fi Ia. DE Oamoi^s. 3JÍr 

Défta àfcç me afigura a fasuaíia > - 
A vida , . com que vivo deftertacUx ; . ' 
Do bem , que n'oucta tempo poítúhia j • 

Alli çofitcmplo o gofto já paílàdo , 
Que^aunqua^paáTarà pela. memoria y . 
De quam o tem na mente xlèbaxadò. 

Aliit ré)0 a caduca & dcbil gloria , 
Defenganar meu erro co a mudança f • 
Que faz a frágil vida tranâcoria s : 

Alli mereprefenca efta lembrança, ■ 
Quam pouca culpa tenho j & mo -eiKnuece f 
Ver fem razão a pena y que me akan^a.» 

Que a pena, que com c«tt&-i«tãdcce> 
A^(;auífl:.újEar aa iencimejico ddU > 
Mas muito doiõ , a que fe nam inecece* 

Quando a roxa manhaá f^imoià-, ^ belU 
Ahi^ íis.porrtfts ao $ol, &x;a« o oçvalUo, . 
£ toma fi fi»u$ queixume^} F^loineU » ^ 
I^Cte cuidado , que ca fpno a&alho » 
Em fonhos tnc parece , que-, o<iue a çente , : 
P^r feu defçanío tem , me dà tsabalho ; 

E defpçis dç acordado cegamente 
( Ou por. i^EieUior dizer defâtcqrdado , '. 

Que pouco aqocdo tem hum defcontcptc) 

DalU me vou com paffocarr€ga4o , 
A hum outeiro erguido , & alli me aflento, * 
Soltando a tedea toda a meu cuidado. 

Defpois de farto jà.dcnaçtt toirocnto , 
DalU eftcndi) os olhos faudofps < 
A patw.a^Adfi twli»:Q P«ftÍ3Wi«í»!^* 



Nara T^o feDam montes pedregoíof , 
^ os campotfiem gnça Sc iècos vejo > , 
Qne }4 floridorrin ,>& gtacioCos. 

Vejo o poro 9 fuaivtt , Sc brando Te|o> 
Com as coBcav» i>arcas , i^e nacUodo 
Vaó pondo em doce eí&íto reudefqo.' 

Humascoibrahdo vento navegaoflar^ 
pmçai^cos kV4S remos brandameace 
As criftahnas4ig«is aparcando.. 

Dalli failo eó a agoa , que. naxn £ínte » 
Com cafo nafcimepco a alma fae 
£m lagrimas desfeita cUramence . 

Oh fíigitiras <o!ndas efpcrat , 
Que pois me natn levais em conpanhia^^ 
Ao menoc' etia» lágrimas levai. 
. Atè 4ue venha ^qutoUe alegre* dia , 
Que eu vâ oodt^vos iiis , contente , te ledo : 
Mas tanto tcrhpo , quem o padaria 1 

Nam pôde canto bem cbegat tam cedo , 
Porque primeiro a vida acabará , 
Que fe-acabe tam afpero degredo. • 

Mas eftá triftc. morte , que virá , 
Se etn tam contrario cftado me acabaffe , 
A íilma impaciente , adonde irà ^ ' 

Que íe às portas Tartarcas chegaffe » 
T«mo , que tanto mal pela memoria , 
Nem ao paflar do techc , Ibe paíTafie. 

Que fc â Tântalo , & Tycio for nowria 
A pena , com que vai , que atormenta , 
A pena f ^iie U tem, te^áô por gloria. 



£íla tmagioaçâo sò nie acrefcença 
Mil magoas no fentido , porque a wiéx 
De imagmaçocns criftes fe fuAcnca. 

Que pois de todo vive conCumida » 
Porque o txnd 9 que poíTue , fe refumA 
Imagina; d» gloria pofiuida. 

Acè que a noice eterna me conTuma y 
Ou ve)a aquelle dia deCejado 9 
£m que Fortuna faça » o que coíluma p 
Sc n*eiia bahi mudar hum triíle cAado. 

ELEGIA ir. 

AtAlXAM DE CHRISTO 
Nosso Senhor.. 



s 



£ quando contemplamos as íècretat 
Caufas , porque o mundo fe fuftenta 9 
O revolver dos Ccos , & dos Planetas ; 

£ fe quando à memoria fe aprefenta 
£íle curfo do Sol , que he taõ medido , 
Que hum ponto sò naõ mingua, néfe augmécai 

Aquelle eíFeito tarde conhecido , 
Pa Lua , em fer mudável , tam confiante ^ 
QuQ minguar , & crecer he feu panidó s 

Aqudlla natureza tam poíTante 
pos Ceos , que tam conformes , & contrario* 
Caminhão, fem parar hum breve inftanee i 

Aquellòs movimentos ordinários , 
A que refponde o tempo ^ que naQtttcacç^ 
Cos eôòicos da terra neceflarioi í 



534 E t I G T À s- 

Se (guando exnfim tCYohre funlmencé 
Tantas caufasa leve fantaíía , 
S^az y efcniradora , 8c diligente } 

Vc bem < fc da razáo fc naó defyia, ) 
O Altiflimo fcr , puro , 6c divino > 
Que tudo pòdc , manda , move , fie cria. 

Seni fim, 8c fcm começo, hum fcr contino. 
Hum padre grande , a quem tudo he poffivei , 
Por mais árduo que feja ao homem indino , 

Hum fabcr infinito incomprehenfívc! » 
Húa verdade , que nas couTas anda.. 
Que mora no vilivel , 6c invifivel ? 
^ £fta po^ncia em fim , que tudo manda » 
Eíla caufa das caufas , rcveftida 
Foy deíla nodà carne miferanda. 

Do Amor ; & da Juíliça , compelUda 
Poios erros da ^cnte , era núos da gente » 
Como íe Ocos naó foíTe , perde a vida. 

O* Chriíláo defcuydado Òc negligente y 
Pondera ifto ,.que digo , rcpoufado» 
Kaó paíles por aqui cam levemescc. 

Naó , que aqueUe Deos alto , òc tncreado» 
Senhor das coufas codas « quefundou 
O Ceo , a terra , o fogo , >8c o mar trado } 

Naõ do coníufo Cat)s , como cuidou 
A- falta Theologia > 8c povo efcuro , 
Que ncAa ío v^vàstátt raato errou : . 

Naõ dos apomos falfos de Epicuro» 
Na.<^ do largai Oceano como Tafes » 
híãisò do pepCaoiento cai^o» 8c piuo. 



DE L. DE CaJííOENS. X^f 

Ollui f flUimal hunuino , quamo vales « 
Que por et eíle grande Deos padece 
Novo modo de morte » novos soâles* 

Olha y que o Sol oo Olympo Te efcurece » 
Ka6 por oppofíçáo d^outro Planeta y 
Maf fó porque virtude like falece, 

Naó ves * que a grande machina inquieta 
Do mundpfe desfaz coda em criftcxa , 
£ aaó por natural caufa £ecreta l 

Naó ves , como fe perde a natureza , 
O ar feturba » o mar batejuio geme , 
Desfazendo das pedras a dureza? 

Naó ves, que os montes cac^ a terra treme? 
£ que até na remota & grande Àthcnas , 
O fabio Dionyáo ícnte , Ac teme? 

0*>(ummo Deos , tu mefmo te condenas 
Polo mal , em que eu £ò fou taõ culpado , 
A umanhas afrontas, cantas penas I 

Poc mkn » fenhor , no mundo reputado 
Por falío , & por quebrantador da Lcy , 
A fama a ti fe põem de meu pcccado. 

Eu , fenbor « fou ladraõ , tu fummo Rey ^ 
£u ío furcey , tu com ladroens padeces , 
A pena a ti fe dá , do que eu pequey. 

£u iètvo fem valor , tu fumtno preço y 
tmpceço vil te poens por me túrares 
Do cativeiro eterno , que mereço. 

£u por perder te , & tu por me ganharei 
Te das aos homens baixos , que te vendem 
Só para oi l^mens preibs^cdfl^aiarcs* 



Á ti , qae as aUnas (òlcas > a ti prendem > 
A ti , fummo Juii , ante Juizes , 
Te accuí«lo y polo error dos que tfr offimdem» 

Chamaúte malfeitor , naõ contradizes , 
Sendo tu dos Propbetas a certeza , 
Dizem , que quem te fere , prophetizes. 

Rimfe de ti *, tu choras a crueza 
Que fobre elles virá. K gente dura* 
Por quem tu vensaomundo , tederpreza. 

O teu roÍh> , de cuja fcrmofura 
Se veíU o Ceo , & o Sol refplandecente » 
Diante de quem muda eftà a Natura } 

Com cruas bofetadas da vil gente • 
De preciofo Tangue eftá banhado , 
Cufpido, arrepellado cruelmente í 

Aquelie corpo tenro & delicado « 
Sobre todos os Sancos Sacrofanto , 
De açoutes r^urofos* flageliado ! 

Defpois cuberto mal de hum pobre mantOf 
Que Ce pegara ás carnes magoadas , 
Para dobrarlhe as dores outro tanto ! 

Magoaváono as chagas náo curadas , 
Hum tormento canHindolhe, exceifivo » 
Ao defpir pelas máos cruéis & iradas. 

As Cantiífimas barbas de Dcos vivo , 
De refplandor ornadas , lhe arrancaváo. 
Para defempenhar Âdaõ captivo. 

Com cordas pelas ruas o levaváo » 
Levando fobre os hombros o Tropheo 
Das yicoiias , que as alisas aUaA^avâo. 

O' tu. 



»E i. DE Camoxns. 5J7 

O' tu , que paffas , homem Cyrinco , 
Ajuda hum pouco cílc Homem verdadeiro > 
Que agora como humano enfraqúeceó. ' 

Olha , que o corpo aflito de marteiro , 
£ dos loâgos ]e]úí debilicado « 
Naõ pôde iâ co pefo do madeiro. 

0'naô enfraqueçais, Deos encarnado ', 
Edas quedas , que tànco vos mágoão > 
SopportayCavalleicoTublimado. 

Que aquellas altas vozes , que lá foáo , 
Dos Padres faõ » que eftaõ no Limbo efcuro'^ 
Que |â de Louro 8c Palma vos coroáo. 

Todos vosbràdâo , que fubais ao muro 
Da Cidade infernal , & que arvoreis 
Esicima eííà bandeira muy Ceguro. 

O* Santos Padres , naõ vos appreíleís , 
Que muito-mais a Deos , que i vós cuftáráo 
£llas duras. priíbens , em que )azeis» 

Aquellasmâos, que o mundo edificarão, 
Aquc)lcs pés , que pifão as Eftreltas , 
Com duriiCmos pregos fe encravarão. 

Mas qual fera a peííoa , que as querellas 
D'anguftiada Virgem contemplaflc y - 
Que não fe mova à dòr , & à magoa d'eUas i > 

£ que dos olhos feus náo eílillalTe 
TaUita copia dç lagrimas ardentes , 
Que carreiras no, rofto aíCnalaííe ? 

Oh quem.lhe'vifa os olhos refulgente». 
Desfaxendofe em lagrimas , regando 

Aqucjlas bpllas focpR eJfcellçaicíy. J . ; 

Tom. //. Ff 



158 Eleaxas 

Quem a vka cos gritos ti tocinclo 
As «ftrellas , a quem ceípoiulQ o Coo , 
Cos acceucos dos Anjos recuiobaodo 1 

Quem vira quando o claro roAo ergaco 
A ver o Filho , que na Ctuz pendia , 
Donde a no0à íaude defcendeo ! 

Que magoas um iàudoiàs , que ditiay 
Que palavcastam mifecas > & triftes 
Para o Ceo , para a gente cTpaUiaria ! 

Pois que feria , Virgem » quando viârs 
Com fel nojofo » & com vinagre amaco ^ 
Jdaiar a fede ao Filho , que pariftes ! 

Mão era efte o licor fuave y Sc claro , 
Que para o confortar y encáo darieis 
A quem vos era « mais que a vida > cbaro. 

Come y Virgem Senhora » oio coiticis 
A dar as'tecas puras ao Cofdeiro , 
Que padecer na Cruz com fede viets^ 

Náo fò era ede , Senhora, o verdadeiro 
Porto , que voflo Elho defejava > 
Morrendo pelo mundo n*hum miadeiío. 

Mas a falvaçáo £6, que alii ganhava 
Para o mifero Adão , que alli behta 
Naiboibe » que do peito lhe manava. 

Pois v^pura , & fantiflima Maria » 
Que em fim (enciftes cíla magoa , qiianco 
A gravidade delia o requeria , 

£l*efla fonte fagrada , & peito fanto 
Mc alcançai húagpca, còm que lave 
A culpa 9 qiie me aguva y U peCi taaco« 



Dl L. 1>E C A M Ofi N S. 3f9 

Do licor falutifero, flcfuave 
Mc abrangey , com que mace a fede dura 
D*c(le muado tão cego , torpe 6c grave* 

Aíli , ScQhora, toda a criatura. 
Que vive , & vivirà , que náo conhece 
A ley do voílo Filho , Tanta & pur^j 

O falílíltmo iiereje , que carece 
Da graça , òc com danado & falfo fprico 
Perturba a Tanta Igreja , que florece , 

O povo pertinaz no antigo rito , 
Que rd o dcfterro Teu , que tanto dura , 
Lhe diz , que hc pena igual ao feu delito» 

O torpe Ifmaclita , que miílura 
As Icys, & com preceitos viciofos 
Na rerra eftende a feita falfa impara; 

O idolatras mãos {upcríUciofos . 
Vários de opinioens > & de coílumé 
Levadcs de conceitos fabulofos. 

As mais remotas gentes , onde o lume 
Da noílà Fè náo chega , nem , que tenha» 
Religíáo algiLÍa fc prsiiime: 

Aíli todos em fim , Senhora , venkáa» 
ConfeíTar hvm sò Decs crucificado • 
£ por nenlium refpeito fe detenh^ó* . 

Mas de todos o vicio )â paíiado y 
O feu nome co. voílo neíle dia » 
Seja por todo mundo celebrado, 
£ lerpoiKlão os Ceof » J e su » > M a b. i.A* 



I 



Ff i| 



54^ £ L z o I A s 

E L E G I A V. 

AO DOUTOR MESTRE BELCHIOR. 

Em louvor di fua filha Dona ^^Riuí JDM 
FlGUEiROA , na índia <m Damão* 

O^ obrigaçoens de fama podem tanto , 
Que inda de Helena vive hoje a memoria. 
Fazendo cada vez mayor cfpanto ; 

Sc também de Lucrécia a Livia hiftoiia , 
Inda que jà paflada , câ florece , 
B por fama , 6c triumpho hoje tem gtoria 5 

Se a perfeição de Laura nunca cfquece , 
Também hc que por fama laureada , 
Nos ficon por Petrarca , & hoje crecc 5 

E fc aquella cruel Troyana efpada » 
Deo com a morte vida à fermoíura 
De Dido , por Virgílio celebrada : 

Efe Vénus fermofa , hoje fegura 
Se aprezenta em mil verfos , & Diana 
Comas nove Irmàs d'Apollo tem ventura , 

Que fará a fcrmofura foberana 
De Figuciroa illuftre , de quem quero 
Cantar com doce Lira « & Mantuana > 

Mas fd n^e elia náo falta , delia eípero 
Cantar , náo deftas Jà , que \\ acabarão > 
Deílas cante Virgílio , cante Homero: 

Que fe outras com feus verfos cçlebraráo , 
Foy , que por fua idade , a deíla dama 
I Pj^ inda dlar no Cco) náo na alançarâo« 



BE Lj; i>s Ca m o EN S. f4> 

M;^ tíobãliip :4 veocura Ojricacal .CAfpa , 
Cuardada U«ai .Damão , por quo uacâado „ 
Perder 'íifeíjp.à^.opufts gk>ría &. fama. 

£ en}^(|<IaACo>alegi:e deciarat prece ado^ 
Vòs Pay jdc tal (hefouro , daif&c ouvido^ » ' 
Para delle dizer » 'iiiais do que entendo. • 

Não teptovci^meus verfos d^atrevjdQS». 
Aues dailhe lottvpc , pata que íciáo- - 
De ul dama,. -fififlie. vós faViMCÔdot: 

Que fnUa{r«9jd'ainoc , £ar«i qve-.v^âo.t 
Ditei otioUuifi heUoA , boca , & rista /■ . 
Mil pacneS) quij;oaEcas damas ter defej ao» 

CaUdlo^ d'ottto^ jciníim feu grande aviso. 
Sua arte , pcrÍBÍ^ , &í fermofoia > 
Que na lenamos inoftra hum PdúayCoi : 

Qiie.máis:)< o giáve afpeito ,. te a baíaáúti f 
A boca de rubis '^ cbça de peilas y " : - 
Das cryfUltnas «lAfis, a neve parai : 

Scahotá Donatária, cnacas'roais.beiias, 
Vòs foik;» qittm aodà idade hofe cor iquece , 
£ emce ^a» fois <piai foi entre af fiftreUas» . 
For vòs DanáDv Senhora , ho|e fiòrecd , 
Por vòs.asMuGu }à do íacro mobte » * 
Donde contino o Louro verde crece , 

Vos vem. apcecentar , da clara fome f 
De palUdas violas coroadas , 
As pegafeas flores de Eliconte. 

A vòs fe vem cantando rodeadas 
Das Ninphas : qtie o dourado Tejo cria , 
Com fuás doces lÂras temperadas» 

Ff ii) 



^4* E t t G I -A « • ' 

£ com feu fuare canto , 9c taelocUá , 
Chegadas a yòs )Â dizem canfAâdo > 
Eíla be por 'qaem Apollo 'emmadecia. 

E(èa he , por quem Vertoao ^efprczándo 
P«mona» de- contino fe abraiCava, 
Na menos parte fua imaginando. 

fifta he fk>rquem em fonte íe toraaTá 
O avô de Pbaetooce , & porque Otpheo 
As furiM infecvais aquebrinsava.}' 

tEfta be , , por ^uem íd.lrojra £s perdeo ^ 
Kfia hey â «^eiti Paris deo^dtinaçaá d*ouro, 
£ efta por quem Orlando endoudocdo. 
. Efta. be^ , <|iicm defdo Canges áitd <» iDouro, 
S6 fem £alta coropoz a namrezá , 
Do Indico Oriental todo o thefoaro $ 

£ila' b«'4 qtttm troaxe a los todac ànobreza 
Pos de Liaóf^^^dos , 4]ae defcende 
Do Real tr^meo Ingrez , na mòralcaza* 

iibíltr a ílor do Lago > que fe èftende » 
E emqiiem-éonoyo nacr a iReaLplanta , ' 
JEÍla bo y«qiiem o meâtfO' Amorie rende ,- 
, Eftaiièf ;pór,quem.a'Auròc«(è ieranta. 
Na parte Ociental , mais clara > Sc "puca » 
£ÍU be , .por quem morrendo o.Cifne canta. 

£iU:bc $ por quem nos docou G> a vcntucay 
De mil primores cbea cok>caJEÍa » 
£m rara pcrfeiçáo de feaSnoTavií. ^ 

Efta rerà<ie.iiòs fempre cantada , 
J. áp$ DQvos Poetas mil loiíyores 
Terá com £èim ^USA^ ^iublúoadt» 



i»i li BE Ca Mô INS. 54f 

Ka feftí^e Deos Pan cem mil paftoitf 
9e(la felice tetra a ti cantando y 
Mil ramos leyàf aõ cheos de fiores. 

Ací as faas lutas dedicando , 
Seus jogos paíloris de cem dáll partes , 
Com yetfos te eftaraó fempre loavando» 

£ ttt , que-deteu Ter minfiate^p^niles 
Com fermofura , & graça de cooclno « 
Com que por fama ao mundo te cçp^rtesy 

Com rofto branco > alegfe 9. & peregrino 
AceitatÀs.feus verfos , cornada 
De rofas , &-de louro ati sò dino» 

]>ali 4o aoiTo choro venerada 
Terás cargo da felva deDiaofit 
£ entre aó»tu fcrâs mais eftimada» 

Dali , ô alta Dea & foberana 
Governarás o Indico Oriente 9 
£ todo Eílado alem da Taprobana* - • 

Dali correndo irá de gente em gene* 
Tua fama 9 fazendo efquecida 
A das antigas Damas do Occidente % . j 

Canhando teu louvor immOrtfil vida.' 



^ 



}44 . E, i> •» « I A $ - • 

E L E G I A r L 

• - * 

A' morte de D. MJQUIBZ J>B Mssr^SES , 
filho de Dom- Henrique de. Menefes , 
CovernodQr d4,CÃfa do Civd ^ ^úe morreo 
na índia, 

UBiMI«âi^tifftc»fio, quetiorodanol 
Que mal ífOipiBaciê incetto foa , 
Tia^nd* ittf cetaor )> ^rulto huitiâino ? 

<Que yef o as prayas húmidas áe<Goa 
Fcrrer com geiitt 4KtODÍca , 6e to#va4Ía 
Do rumor , ^^ At boca em boca foa. 

ffc morto Dom Mt^et , ak crua efpada , 
E parte dji loiti^* companhia , • 
Que fe embarcou na alegre , 8c trifte atmada» 

E de efpingktóá árdeuce , Se laoça fria 
Paílado pello torpe , & iniqtto bra^o , - 
Que nofíâs-aflrat áimas infuria. 

Náè lhe valeo rodela , ou pdto de aço i 
Kem ankno de Av^ altos herdado , 
Com que te defisiideo camatthò éf^açõ». 

Nâo tette etn derredor todo cercada 
De* corpos de inimigos , que exhalayâo 
A^ negra alma de corpo tranrpaífado. 

Nâo com palavras fortes y que Toayáo- 
A animar os incertos companheiros , 
Que fortes caem , & tímidos viraváo. 

Mas |a poílos nos termos derradeiros , 
PaíTados por rail partes , & cortados 
Os membros ío do nobre esforço inteiros. 



©E L. »i Camoíns. 541 

#s olhos de furor acompanhados , 
Que inda na morte as vidas amedrentâo 
Dos fracos inimigos efpantados. \ 

Poftos no Cco , parece que aprefêntáo 
A pura alma à Suprema Eternidade , 
l*or quem os Ccos , & terra fe fuftentáofc 

E pedindo dos erros , que na idade 
Verde , & quafi innocentc , |a fazia y 
Pcrdáo á pia & jufta Mageftade : 

As rofas apartou da neve fria , 
E como flama fraca , a quem fallece 
Sen húmido licor, de que vivia : 

Nas máos do choro Angelical , q«e dcce^ 
Sc entrega , Ce vai gozar da vida eterna , 
Que com táo jufta mone fe merece. 

Vaire alma em paz à gloria icmpiterna p 
Vai , que quem pella Ley fanta 6c divina 
Morre , a dâ à Dcos , que os Ceos governa» 

Quafndo pella razão devida , Ôc dina 
Do Rey , da Pátria , & honra dos paflado* 
Sacrificar a vida nos eníína. 

Nos aflentos de eftrellas efmaltados 
. Lhe dá lugar a aUiflima Clemência 
Entre os Hcroes à gloria dcftinados. 

Mas ah, quem fofrerá perpetua aufencia 
De táo charo Senhor , táo fido amigo V 
Quem porá contra magoas refiftencia l 

Aquaie animo grande , que do antijo 
De feus uiayores era alto retrato , 
Dcfprezadot de todo o vil perigo. 



f^6 - Elegias 

Miífairado com <loce , & brando trato 
Cos igoaes jancamence , & cos loeaores 
A codos amorofo , a todos graco. 

Aqqelie efprito nobre» onde nuiforcs 
Efpcranças crcfciáo, fe o cão dato 
CaTç , as náo cottàra era novas flores ! 

Era vctdc idade , fifo ja maduro , 
Alegre rifo , ledo , òl aberto peito , 
Em tepoafado cfpirico Teguro. 

Náo Cobcrbo , & por arte contrafeito , 
Mas todo pUTQ , & cm fim da Dacureza , 
Mais para o Cco, <|ae para a terra feito. 
^ Também do corpo a liumana gentileza , 
O bem calhado geílo « que moíkava 
Forças ignaes» &. manhas com dcíbeza. 

. A cor , que o frcfiio rofto maàzava 
As rpías , íbres novas de alegria , 
Com qae o Yctáo as faces adornara. 

Tudo os fios da morte , que dcfvia 
I>os propofiios noflosy 2c faltca, 
C)rcârão cruamente, quando abria. 

Deixa pois tu , fermofa C7thetea , 
Do gentil filho , & neto de Cyairas" 
O pranto pclla morte horrenda , & fca > 

£ tu .dourado Apollo, que fufptTas 
Feilo crcfpo Hyaciuto , moço charo , 
Por quem a^ ciara luz ao mundo tiras» 

Vinde , £c chorai hu moço ao mundo raiO) 
Kio de ferino dente vulnerado , 
Hcm de animal atgum , que haja reparôá 



Dl L. Dt Camotns. Í47 

Mas (ò do fero imigo trafpadado , 
Que Cem duvida incerta , ou pio medo 
A ^ida poz nas mãos de Marte irado. 
£M tu também moço Tdalio t^uedo , 
Desa de dar o venenofo mel 
A beber peilos olhos triíle , & ledo. 

Que ya os fermofos olhos de Miguel 
Cttberros faô do negro & efcuro manto 
Pa ley geral à todos > mais cruel. 

£ TÒs filhas de therpis , que do canto 
Podeis bem mitigar a ley immenfa 
Vcs irmãos generofos , Sc alto pranto > >- 
Hiô coníintaes que facão larga oftenfa 
A grande integridade , que fe devem , 
Nâo Glo agoas do dano recompenfa. 

Que ja diante os olhos me defcrcvem» 
Quando as bocas da faroà voadora 
Ao pátrio , 6c claro Tejo as novas levem. 
A profunda trifteza , que em hum hora 
TalpoflTe tomará dos altos peitos. 
Que á razão quaíi quafi deite íòra. 
AHí de dor os coraçoens fogeitos 
Peladas lhe fcráo confolaçocns , 
E pezados exemplos , 8c rcfpeitos. 

Pequena he certo a dor , que com razoens 
• Se pôde refrear , nem com memoria 
De outrofr^antigos , & íntegros varocns.- 
Mas pj6Tèm fe iguâlaes a rida á gloria 
Mtn grande Dom Phclippe , & pretendei» 
Deixar der roflas obtaí larga hiftoria. 



)4S Elegias 

Eu n4o vos admuefto, que cftreiccis 
O coração na Eftoica difciplina , 
Onde livre de cíFcitos vos moílrcis , 

Que mal natura noda determina 
Medo, efperanças, dores, & alegria, 
Cozno o Cynico velho nos eníina. 

Immanidade eflupida diria 
O Sulmoncnfc canto , & vil rudeza 
He não fentir cfíeitds , que a alma cria. 

Porem fc não fentir nada, he bruteza, 
E fc paixão de vida fe confente , 
Também o.fcntit muito he ja fraquera. 

Sc doe a opinião do mal prcfente , 
E medo > &. opinião do mal futuro » 
Saó cm fim tudo opiniocns da gente. 

O verdadeiro fabio cftâ feguro 
Pc leves alegrias , ôc de cfpanto , 
Pe dor , que turba dã alma o licor puro. 

Inda antes que aconteça o rifo, &: o pcanro 
Os tem ja no fentido meditados , 
Livre tftà de alvoroço , & dje quebranto. 

E como de alta torre vê cuidados 
Humanos vaós , &: aquella dificrença 
De ambiçoens , & cobiças , & peccados. 

Todo cafo acha nelle fó pjre^epça , 
Que como. as febres Cio da ca^jae humana, 
^Ufi os eífeiros d'alma faó doença. . 

Se elbi doiitrina^credes , que he profana , 
Ponde os olhos nf noíla , que he divina , 
£ fobrç todas fanca 6c foberan^. 

Vereis 



DE I;* DE ÉaMOENS. v|4^ 

Vereis Aram » que naõ fe contamina 
Sobre os montes feus y que defendida. * ' 
A dor lhe foi da fanca difdplina* 

Não ciiega a ver parentes > qu&xia vid» 
Partidos fáo > que na alma a Deos agrada , 
Que nenhúa afflicçâo do mundo impida» 
. Nos fomos geraçàôa Deosdicada 
Sacerdotal , que em tempo nenhum dev^fr 
Do gentílico culto £er tocada. 

Se dos antigos Padres fa fe efcreve, • \ 

Que chorando > áos mortos enterrarão 
Com dor « & pranto publico ^ & não leve} 

£ra porque inda as porus náo quebràtáa 
Do Ceo fereno aquellas mãos cravadas , 
Que os. antigos contágios alimparão. 

£ também por ornar as fempre uíâdas 
Pompas do funecal enterramento 
Com publicas exéquias coftumadas. 

£Aa alça fortaleza, & fofrimenco 
Como a force Varão vos he devido , 
£ como ley do fanto documento. 

Bem conhpço , que o corpo aíli perdido^ 
Que do fepulcro nobre aqui carece .• 

Será de aves,, ou íieras confunUdo. 

Mas cambem niAo vi que fe tpafecc 
Ççdo gram BUav.ò» que pcUa.vjdaj '. .^ 
Rcal.a,iua.iàs, lanças oíFcfece.^ , . '. 
2 ■ £aze{i$ÍQ com f&uimembroi impedida 
A , paílagem aos fei^^os Tiogiunqs , ' 
f icott .Çç^^ fepuhm::^ jq6i»ííd#. ^ i ^ . ' 



'5^o Elegias. 

£ ÍSl nos apofencos foberanos 
O Tecebem da palma coroado , 
Deíprecaado do corpo baixo os danos. 

£ eUe <jÁz , qse das geuces eucerrado 
<|«alqiier corpo feri ,. mas jquctn morreo 
Por Deos , h« fò dos Anjos fepultado. 

Que noais rko , 6c ferraofo Maufoleo » 
Que pyramides akas , que £gtira 
0e mortalha, qne chegue aeftar no Ceo* 

Fácil he a perda aqui da repuUuxa i 
Diógenes pradente, & Theodòro 
^•uco fentem do corpo eda jaílura» 

Aífi fermoGa , inteiro , affi decoro > 
Adora quem o tem , como o tomou 
Quando fe ouvir o exuemo fom fonoro. 

'Mas oh , que temor fupico occupou 
Voffo perto famofo , 6 Portugueíès, 
Qae pávido -xeroor vos lanceou. 

Que 'lançadas, que golpes, que reveíes y 
Vos ficeráo faser tamanha iajntla 
Aos Lufitanos bellicos arnefes? 
> Os^de Capitáo fobej» incúria ? 
Ou a íraqdejta ? Náo , qoe cHe fuftentaYa 
Co feu corpo dos bárbaros a fúria. 

OH do ierreo cano a fórça brava 
Com eftrohdos , que acroâô mar , & tem ^ 
Que os coraçoens no peiro congelava. 

(fnquemv^s^fez quê bslmpetos-da guerra 
Náo fuílcnteis com valòt Ifempre oufado , 
Pefprezando o furor-, ^ue a vida et^oma« 



2>E L. DE C Ali OE>7&. i f% 

A vida, pelU pattia > & peliò eftada 
Poado , voilas Avós a nos deixarão 
Terras , mares , 6c exemplo fublimado* 

Elies k defpieiar nos eníináráo 
Todo o temor , pois como agora «)s iiecoí - 
Subicamente aiZl degenerarão* 

Náo podem certo não viver quietos. 
Com fea infâmia peitos generoíos 
£m públicos higarts , nem fccretòs» 

Mortos os Eípartanos valerofos» 
Pa feta multidão fazendo eílremo£ '.^ 

Taes epicapbios tinbáo glociofos. 

Dirás h>>rpede tu , que aqui ^axemon 
Paílados do inimigo fé|:o , em quanto 
A*s íantas leys da patri\ obedecemos. .. 

Fugindo os Per(as vão c>stm frk> efpaiuo » 
>ías acbâo as múiiíeres no caminho 
Amoílrandolhe o vemre Tem ter manto» 

Pois fiigis do periga , que hc vifínho » 
Ff aços 9 vinde eícondet vos ( lUç diziáo > 
Outra vez no materno efcuro ninho. 

Vedes quaes com mais gloria fícarião- 
Se aquelles que em fim morre pello lílado» * 
S« os QUtros , que as mulheres injuriáo } 

M^tu dard Miguel > que )a acordada 
Pçíle fonbo caõ bteve cftâs naqueUa 
Torre do.-Cco fegufo, & rcpauiado r 

Onde cpm Deos unida 4 force » & bcfla 
Altna 9 com teus mayores rehizindo y 
Por cada chaga cens bua Qlara eftrçlbi^ „ 

C&ii 



^5^ £ X S 6 I A s 

Os pes o criílalino Ceo tnedinda 9 
Pizando €Ílàs luciferas Esferas , 
Ja da tenena os olhos encobrindo* 

Agora hum curfo, & oucro conliderats 
Agora a vaidade dos morrais , 
Que cu também pailáras , fe viveras : 
Mais a pena cantara» a poder mais. 

ELEGIA VIL 

'^ MO^TM D B Do M \T B ZZ(^ ^ 

que matàrào na índia :.€ukoufe em hum 
mamtfcripto do ^rcebijpo Dom Rodrigo 
da Gunhà ^ feito no anno de i^6%» 



s 



AYAó deíla alma trifte 8c ma^a<i« 
Palavras- magoadas de crifteza , 
£ Teja ao mundo a caufa declarada. 

Saya do peito a voz , com que a gravcza 
Sogiga , doma , & as gentes move' tanto ^ 
4Por mais Scmais que tenhaõ de dureza. 

£ vòs meus olhos triftes entre tanto 
£m lagrimas <ÍÍa alma derretida 
Chorai , que amargo choro he o meu canto» 

Quatiro de 4nim a caufa foi fentidâ , 
Seja de vòs chorada, U. funtamente 
Choremos bua morce , & liúa vida. 

. A bondade choremos innocente » 
Cortada em lior , que polia acerba noocti 
Nas foi arrebauda dentre a- geme. 



DE Ia Òl CaMO£KS. fff 

E aqtretía iaime&Ià dor , & dilea forte 
Da magoada mSy , bifa alma frífte ' 
Também cortada foi com agudo 'cerre:' '• 

Ccfpirko-gefltH -, que aio" Céo fufeíftè ,' 
Porque - engeicaílt ú minha compánbi* > 
£ acompanharce eú hão confenrffte. ' ' * 

Ide he o cauto- heróico , 6c tie á!b^is > 
Que ea ^a cm teir louvor aparelhará,' " 
Como o tornou à' morte em Elegia ? " -' 

£fta he á cfperatiçá , que iios dávii' 
De ti , tua tenfa &. alegre mocidade ,'• ~ '<^- 
De quem ^ão grandes couTas fe ãCçntàtrínt-^ 

O Hymliíeo', qCie em maei pet&ltaridatie 
Com ^nraíK mit :ce andava aparethajulo ; » 
A máy , dé^^iiem uáo ouvefte piedade » ^ 

Que agbra, ctSmoHeeuba, anda bfaims&b^ 
Bufcando^em' rama caÀ eth toda a partíe 
Amado- Filbo ihéu'» por ci bràda1;âé'^'' 

Quem thérbé^iítx» olhos ceiitfíerfátt»^. 
Que em tam amarga, 6c ttitíê dèfpedida - 
Pudera efta alma mfnba acoinf anbatie ^ . 

Quem te privou da chara , St éoct v^á , 
Xleu Filhou táo fermoTo & mal iogràdá; ' 
Dous coraçoens pa0ou hôa (o ferida. ' 

Em terra dedeftcrro^ ay filho amado ^ 
Deixandome fem ti defemparada , 
Quizefte fer de eílranhos íèpultado. 

Se hias para fazer táo gráo jornada» 
Não levaras em twa companhia 
Efta mifera mãy dcrconfdiada ? 

Gg ii). 



154 . '£ L E 6 X A $^ 

Qviçà quQ>algum foccQtfp tp feria » 
Que yendo viç a cfpacU em alto erguida y 
fílhp., com hum grito meu te avifaria. 

Ou recebera. o golpe nefta vida, 
Met^adome no meio , ^ tu viveras^ 
Fartara de meu Tangue eíle homicida. 
, Ay filho, meu amoj; ,, que, tu s6 erat 
Quem com tua vida alegre algum delcanç» 
A meu- viver cançado dar puderas* 

£ tu feris também quem man/ço amando 
Me acabarás a vida , que cu queria 
Sem ti; ver acabada de hi|m fò jlanço. 
. £ yfòt também mulheres» qpepariftes 
AjudaÂme i chorar , poc qup em. mal tancc» 
Nâo fatilíatem X6: mçus. glhos criftes. 
,.Â/Il còm grave dor ,de.)çaotp^ a /santo 
Até 430S coráçoen^ de mor, duce^ 
Soa húa*vatconfura, humafnai^pfanto. 

.O w, ho»{A) dç primpí.4a natuçeia , 
UUiftre, & £(miofi0ima Maria».. 
Náò traCBS. mal , fenhoca,. cal bellexa. 
. fmk fó cuftodia es , donde alegria 
Defunta, &: tal chorada em dia amargo 
Refurgirà em outro alegre dia* 

jQue a ti deu o movedor do mundo o carg» 
De alegraras : a máy choroía , & triíU , 
Que alegre vivirá por tempo largo. 

Vqf^q que a dor do irmaõ muito fentiíle 
Haõ deílruas as lindas tranças bcUas , 
Pois o remédio míTo naõ conílfte^ 



»E L. DB G AM Cl N S. }$ J 

Nlo trates mal as nicidas cítrcUas - 
Dos olhos teus com lagrimas ardentes., - 
Pois tem mais rcfplendor (jue rodas cilas* - 
- listo ofendas as faces refulgentes , 
Obra. de. Dcos , com máo. defpledofa , -. 
Da pátria honra, fe louvor das geptes.. 

Mas vai com doce voz, branda, & amorofa 
Coofola a trifte máy defconíblada . 
Com tua vifta alegre , & taó fçrmofa. * „ . 

Prometelhe, que em 6. xnQifçifMÀ 
Verá fuj^j^lçgria ja perdida^ . > . 
De todos tam fentida , & tain. cboirada. 

Ppis teu -remédio eftà fò em Tua vida « 
Que hã\SL de ti materna pie^dade^ 
Naó dè tanto lugar à dor crçcida. 

Bem fe permitte â fraca humanidacle 
For filho tal , 6c tanto tempo auíente 
Hum moderado pranto , huma faudade* 

Mas taó Continua dor, que eQ>ante a gente, 
B põem cm. tal eftremo a vida amada , . 
Kem o mudo o quer ,nê Deos naõ o. confente. 
liâo foi a morte de Heitor fcmpre. chorada 
Da trifte máy, que alem de filho amado,. 
Ira por elle sô Troya amparada. 

Masja defpois de morto, ôc arraílado 
Coro Grego applaufo., vozes, & alarido, , 
O corpQ houve às mãos defconjuntado. 

Perdida a cor , o coUu .reeaido , 
Naõ parecia Heitor , que dantes era , 
De pò , de fangue, & de íuor tingido. , 



1^5^ E t E 6 I Â 5 

Com feas olhos la^oulhe a chaga £enr» 
Coita fuás ma6s o rofto lhe alimpara 
Sem alma , & Tangue , \z de cor de cera* 

Mas vendo em fim quio pouco aproveitava 
Seu choroy & né por mais 4 em vaó bracUnda 
Chamara Heitor , Heíror reTuTdtaTa. 
■ iDe lagrimas os olhos enxugando , 
^fenganada fa do Filho amado 
Se foi com a amada filha confolandof. 

Nem fcmpre o fero Achiles foi chorado 
I>e Theeit Tua míy , do branco coro , 
Príncipe Giego ra6 a(&nalado. 

Também pagou Í morte o antigo fbco , 
1 à Deofa nio vareo fer prevenida , 
Nem fufpitos VafèraÓ', nem féu choro. 

Também a eíle acabou mortal ferida , 
Sendo meio immortat , & filho amado 
De DeoTa de Nercô taÓ querida. 

Nas agoas de Acheronte foi banhado » 
ror(|ue em batalhas , como o fero Marte > 
Do ferro nâo pudeíTe fer cortado. 

Mas a agoa nlo chegou àquelía parte » 
Que efquadrinhou' a fecta aguda , & forte , 
Que contra ella não vai engenho, & arte* 

Chorarão as Gregas gentes fua morte, 
Ós Phocas 9 & Delphins também choráráo » 
Chorou do gram Ncreo toda a corte. 

Tantas lagrínias triftes derramarão , 
Tanto chorou a máy, que muiro o amava , 
Que o Xanto y 8c o Simois acrefccntàráo. 



Dl L. DE Camoe*ns. 3 57c 

XCas Tendo que o chorar naõ aproveiuva , 
E que era dor perdida ^ 8c deíatifió > 
Os feus fermofos olhos alimpada. 

£ com alegre roílo de ar benino 
O Cco , a Terra , o Mar, tudo alegrando ,", 
£ os cidadãos do Rejrno criílaltno. 

Os feus verdes cabellos efpalhando 
Aé yeneo , de mil Ninfas rodeada , 
Totaando a vifta atraz de quando ê quando t 

De Paoíilipe , & Odeia acompaniãada , 
De Doris , Menalipc , 8c de Mclanco , 
Sc foi para Nereo confolada. 

. Deixai pois ja , fenhora y o amargo pranto^ 
A pena ,.'a dor , o mal que tamo crece , 
£ dai logac ao meu inculco canto. * . . 

Coar graõ difficuldade fe oilèrece 
A grandes deCvemuras ; taes como c&z t 
A darlhe iguaes palavras , quaes merece. . 

Por tanto eu íenhora., agora nefta 
Naõ as hei ide bufcar por confpUrce , 
Que aos ttiííes confolar fó. ãirazaõ prefta.- 
. Tambeoiriefaõ perdidas nefia parte 
Çoníbhiçociks > que em jchom de .amargura. 
Força nao t^m , por mais-qiie tcvthiió .d'arte** 

Se asiagrimas naõ yenc« arazap puja, 
Portuna íêmpte a outras aci$fc.ei>):a , 
Cuardete 'Déos de mõr defav^ntura. 

Kaõ digo, que a alraacAé dfi.magpa izenta* 
Parque humano he fentir , mas he fraqueza i 
>iIÍo fofrei o qucDeos &o« aprefenca. 



I^t £ £ X e T A s 

Háo he eâe roíiado a nofla nararcadis 
libada ft» poc onde caminhamos , 
Pretendendo chegai â. Summa Alteza. 

Nefte caoúnho hum paflo eftreito achaoaot^ 
Motte fe chama horrenda , fie defabrida » * 
DíWda , <itie Adam fez , & nos pagamos* 

A todos he commum eíla partida , 
Quem morre » não morreo > partio primeiro^ 
2 o que ha depois da morte he eterna vida* 

.Todo anima! que nace eili fbreipo 
A paítar eíle paflb eftrekp tanto , 
Todos lâ havemos de ir por derradetro» 

Deixa, fcnhora » deixa o ama^^o pcanio» 
Tei| filho eíU no Ceo refptandecenfie-» 
Ja entre os Cidadãos de Coro fanto> 

NoíTas^ memorias triftes- náo as fente^ 
Ja livre , 6r. de theatro eftâ olhando 
Com olhos munortaes a immorral gentes 

Da tíCiÓ beatiâca gozando , 
Sem medo ^ ou fobrefalco de pecdella 
Omundo , de (bus afagos defprezando. 

DaIU oontépla de huma^ Ôc de outea «ÍId^> 
Ou fixa , &c errante , o curfe , & movimento^ 
Tendo 9 Tem fe mover , os pês febre ella. 

Veloz 9 qual o ligeiro penfamento , 
pada de polo a polo ,' & o Cço conhece 
Que fpu caminho £zx com paíio' lento. 

£ porque o mae continuo mio^oa» & cosce,. 
Gomprcnde,6c a quinta edencia pura,& iiea> 
£ com que lux 4k Lua refplwdece» 



>kin DOS eípaata no ar qualquer cometa ^ 
Os pontos fabe de hum , £c de outro íigno , 
Por onde hz feu curfo o graõ Planeta. 

Hum Anjo QOYO tens , íaoto ^^ beniao^ 
Vivç fenhora alegre , & confolada , 
<2ue por ti roga ao Padre de contino. 
, O' alma pura em alto alevantada , 
"Que U eâás neíTe Ceo luzente , & claro ^ 
De&^ morulprilaó }a ^fatada. 

O' fcnhor meu l>om Telo , ami^o cbftm 
<iue do terreno Sol , ondç viviífte 
3^-e arrebatou fcm tempo o tempo avaro^ 

Sc ao paliar de Ledbe naõ perdeftc ! 

A meraori^de mim , que tanto te amo, 
£ por intimo amigo me tivefte, 
, Com actençaõ cfcutao meu reclamo, 
Naô dcfptcxes de ouvir U dcíla altura 
A baixa & touca voz , opm que te chamo,. 

Que quando concedido da ventura 
M^ for o que eu por ti ^ora peço , 
ViÒ borrado teu nome a fama efcura. 
^ . £m unto as baixas Rimas te ofFcrcço 
Em fsa^ da vontade , & amor profundo , 
^cumprir o que hora aqui ptOjfeço. 

9jip. cwaó. te cantará por rodo o mundo , 
Com línguas , mil a fama foberana * 
% ooçuparâ teu nome fem fegundo 
D^ jBatsio Tejo alem d&TaprobfUUU . 



|60 £ L E 6 I A t 

ELEGIA VIII. 

-^ H u M A Dama. 



n 



A 6 me julgueis , fenhora a acrerimenco 
O que me faz fazer hum mal cio force ^ 
Que naõ me baila nelle o fofcimento. 

Que cal me traz )a agora rainha forEc^ 
Que me faz bufcar voíia craeldáde , 
Donde Cò por remédio efpeto a motte. 
* Nâo vós pude callar etta verdade '» 
Porque força nâo tem poder humano 
Contra outro ^que nâo tem humanidadcb 

Amor , que tudo faz para mòr dano 
Me deu mal , leroume o fofriíaento , > 
Ah duro Amor , cruel , & deáhumano ! 

Naõ vos lembre', fenhora , mentorooencor 
Que eftebem 6 merece a'oufádia 
De eu empregar em vds meu p^n^rni^to. • 
Lembrorbs hum amor , que cada -dia ^ 
Em mim caó verdadeiro , 8c -ficme crece» 
Que ãlheo me trazja do quefòhia. - ' 
Nâo peço que o pagueis ,' coriíò-tterccc > 
Que náõ . mereçcy eu tanto , it^ási^fieço , 
Que por.' mim nâo- cuideis qifc dcíhnrttecc*"- 
p Pbk]^ TeHfò pdr fí hc de =tat ^réç» ,' 
Que a fupHi: bâfta feu mèrecínfcnçd*** ■' - 
Quanto cu--clé minha parttf dcfttt-reça.- • ^ 
Bem Vfc]o que. èm tomar- cr fofdmetfttf "* 
Para viver » melhor -remédio fora , 
Que hum câo dcfordènado atrevimento. 

Mas 



D£L. deCamoeí^s. ^St 

Mas cu , <}ue do viver menos , ja agora 
Qtte de todo a livro > fois ctefcendo 
Vio com a vida os males cada hota y 

Vos qaiz manifeílat meu mal , Tabend^ 
A* quanta defvencura fe aventura , 
Quem pretende fa&fr o que eu pretendo» 

Quizeílc , ò oxalá , minha ventura » 
Que caftigaílèis vòs efta oufadia 
Com liuà cruel morte triílc , & dura» 

Quc' náo feria morte » mas feria 
Hum fuave cemòdio doce> ^ braado 
D«ftç cnaly que me mata cadjirdia» 

. Acà quando y fenhora > & atè quando 
Terá lugar em vòs voíla crueza , 
£ a morte náo em mim , q a eílou chamando^ 

Abrande meu amor voíla^ duceta , 
Que efta aUna em fi transforma com tal cura > 
Que |a náo be amor , mas natureza. 

Abrande ja bunu vida , em que sò dura 
A alma , porque ve|a , &: exprimente , 
Que naõ tem fim a gtaó defaventura» 

Abrande ja huma dor , qpe juafiamenta 
A vida penetrou , & a alma trifte y 
E lhe roubou o eílado feu conoeni». 

Moílcalvos poderofa em quem reíUla 
£m defobedecer , ou enojarvos « 
B naõ ja contra quem vos naõ reââe. 

Em quem cuidar que digno foi de amatTOS» 
Moílralvoílo poder , pois o mecece * 
I» ai miin naõ , 4.0 naó fou caõ sò de; c^tovoi* 
Tom. U. H h 



^í% Elegias 

Actentat pdr huma alma , que Te efqacee 
De íi , porque cm yòs poz fua lembrança ^ 
£ tal , que em nenhum tempo desfallecc- 

N«m fofpetto que poda aver muda&ça , 
Num coração ^ que mais que a íi vos ama ^ 
Dailhe \á morte , ou vida f ou efperança » 
Que tudo feri gtocia por cal dama* 

TkaI>U CC\AM dos Verfos Propheueoê 
da Sibílla Erithrea , que refere Santo 
^gsjlaiko /. 1 8. c« 1 3 . da Cidade de Deas , 
nos quaes pelUs primeiras Uttras fr Um 
Jssu Christo Filmo j>m De os* 
jB Salvador^ ^ 



j 



u I z o eftremo , horrífico , & tremendo , 
£ Juiz fempiterno , alto , & celefte 
Significará a terra humedecendo. 

Verfeha nella hum fuor , que manifeftc 
Como em carne virá Deos , a quem yefa 
Ho crédulo , & incrédulo tetreíle. 

Rey juílo , que alma» , Sc que corpos re|4 
Juiz fera , quando eíle mundo inculto 
Sobre efpinhos cruéis deitado feja. 

Todo o vâo fimulacro , & rico culto 
Oufarà cngeitar a gente , & guerra 
Fará co mar o fogo , & cru tumulto. 

Immenfa a luz , que as catnes defcnterraf 
Lançará fora as portas váas do Avemo j 
Hec juftos feus levando à iaau tcrisu 



i>eL.i>£Camoens. 3^3t 

^Outros que faõ os mãos , no fogo eterno 
l>eitarà « defcobrindofe os fegredos 9 
£ fendo claro rodo o feiro interno. 

Desfaríèha a terrados monces,& os penedos,,' 
Z ferjà cudo pranto , & eâridot duro , 
Obras de grande dor , 0c tciftes medos» 

Será tornado o Sol de todo efcaro , 
£ deftruida a machina do mundo, 
$em luz a Lua , Eftrella^» & Orbe pufo» 

Altos feraõ os valles , Sc em prpfundo 
tugar fe abaixarão os altos monteji 9 
Vfrfeha no mar o vento furibundo. 

Haverá sò de fogo vivas fontes : 
Da trombeta medrofa o fom terrivet 
Ouvido fará pâUdas as frontes , 
Kefpondecà dots mãos gemido hoicirel. 

^^E L E G J A IX, 

J[\| Aõ porque de algum bé tenha efperança 
Vos efccevo meu mal cm tal ^&.9áo » 
J^ue fei , que em vos facá.poucji mudança* 

Mas |a perdido 9 ctiíle , & magoado. 
Pata remfidio tomo efcrevor dosesi 9 
Efperac de vòs outro be efcufado. 
,. O que nâo faz amor em meus amores y 
O qiie lagrimas triftes não fizeraô , 
Bem menos o far^ cauías menores^ 

Pois onde as nuis tègora fe perderão ^ 
jperçâofe eftas pakyrasi de meiffçr» 
Q^fi pouco m« doem )a^ |a me doeraõ» 

Hhi| 



1^4 £ t E G I A S 

Sempre defte meu mal tire fo(ípeiat% 
KSo qae de todo em todo me fakailê 
Húa eíperança vâa em fim desfeita. 

Faziame o defejo que efperafle, 
A razaõ d*oucra parte , que tesneííe , 
1 de efperanças váas naõ confiaile. 

Que othâile , que por eilas naó perdeíTe 
A doce Uberdade > o rifo , o canto , 
Dt que depois em tÍo me arrependeffe» 

Amor , que tudo pôde , pode tanto , 
Que pata Ver o mal em que me Tefo , 
Me naò deu othos mais que para pranto* 

Náo curei a raiâo » fegui o defejo > 
Outras coufiis fegui y de qualidade. 
Que choro, 6c callo, por njo (èr fobqo. 

Fella voiía neguei minha vontade , 
logo como vos vi , no mefmo ponta 
Vos entregou a vida a liberdade. 

O que pafiott depois , náo v^ Io cooso , 
De que ferre contar coufas fobefas , 
i|k quem llie foube dar hum tal defcontob 

Ah efperanças minhas , )a perdidas. 
Agora, para mais ter que contar, 
Soube que £dãa vias , foftes' <»«^gHai. 

£m que poílo , ou que devo hoje cCpav % 
Onde acharei de noro outros enganoc^ 
Que poílâo defenganos enganar. 
, alfas he vento cuidar enganar danos , 
O* triíle , que nem na alma tem alento ^ 
T«n íkv, rçmçdiQ i^ np fim dos anoosi 



DE L. DE CamOENS. 5íy 

7a Báo efpero vet conteatamenco » 
Perdi quanto eTperei ntuna fô hora > 
B oáo perdi em muicaC' o cormenco* 

£ íbbre tantas perdas , inda ag«ra y 
Que efperaTa de vôs a vós queixarme, 
Náo mo contente Amor , que na altaa mon« 

Poemtê diante , a fim íhdt eftorvarme , 
Que ¥os offênderei, moftrando aqui 
Que canta fe pagaes cem maitratarme. 

£ cemáo efte temor deixame aíG » 
Alem de magoado, frio, êc mudo-y 
Jbepondido de quanto cfcceyi. 

Cottías de voílo gofto ainda ctidb » 
Gomofe náo cuidaíTe, o que não creo^ 
Não -perder ifto , como perdi tudo. 

Mas yafie o medo la , pois que )a veo 
O deíengano , Tem íe ter fabida. 
Que a certeza podia tei recee. 

Agoi;a nio me dà perder a vida , 
Nem a deye recear quem a deíprea»» 
Mataime , iie de mim- fois oâèndida* 

Çenâo mateme \í minha uifteza , 
Que efte íèk bem me fica, efteme yal , 
Se ma não eftorvar voíla crueza. 

Quem; fe n4o efpantarâ, yendome tal i 
Temer , que o trifte fim , que me ordenaftes , 
Mo negueis poc remédio de meu maL 

ínitc íilvcftrcs feraiS vos criaíles. 
Pois dais por galardão do que efperava 
Cruezas dcíufadas do que uíâAcs. 

Hh iij 



,|tftf E t Z 6 Z A s 

Quantas lagrimas trifte derramaTa Í 
Quaacos ÍUrpirós dava noite , 6c dia , 
Se vos náo via , & em quanto vos olhava. 

Ttemia diame. vos , aufeoEc ardia , 
Abrandava efte mal ter para mim * 
fQyke fentia meu fogo e0a alma íiia* 
, ^áas m»icQ diftncsue foi o fia» 
De tudo o que cuidava no começo , 
For.onde <k kwaa mal n*outro , a tantos vi». 

Vidf para cal vida náo vos feço , 
Mor^e para tal nksrte.qual me mata 
Me podeis dar y que bem vo lo meveço^ 

Vpi^úc com A .dor a hngoa fe deíàu» 
$ com ^ttos vos chama , iU com riMq' 
Sem fé» defamoravel , cruel, ingrata** 
' ^OK iílo acabai, ia voâa tençaõ ^ 
Fartai , fenhòca > ia vaílas crutfvaa 
No fângue deile. eriíle coração. 

Acabai de acabar cantas triilezas , 
Pois acaMles |a váasi efpecanças , 
Acab«m ia umfaem minhas firmezas. 

Acabe a vida , acabarão lembranças, 
>^4s tudo Ciftá por vôs taõ acabado , 
Cq^o muitas em mim as oonfiançatj 
Que canto me trouaeráo encanado. 

E L B G I A X. 

Xr Olme alegre o viver , jâ me hc pcrado, 
Quf do contentamento que fentia 
A' minha cuíla cAou dcfen^nado. 



BE L. I>£ CàMOEI^S. 9^7 

Ao rj^gaço da motte a dor liie guia , 
Forem , porque com vida mais me mata > 
PiUcandoma vai de dia em dia* 

Maudame amor fugir da morte ingrata , 
( Pois não fofre limice em vds amor ) 
Que elle os laços ordena , elle os defaca. 

Lancei contenràmencos a roar , 
Tarde os -cfpero ver , que he fen coftume 
•^cr azas. ao fugir', frcyo ao rorttar.' 

O pcnfamento pofto em alto c ume -, ' 
• l^ara facrificárfe á voffà vifta ^ " -' • 
'No cora^aõ me guarda eterno lume. 
» Cotn o penfamento os olhos tem çdnqtrifta » 
Pois femprccm vos eftâ , porque os naô leva ^ 
Que éUe nniro naô tem , que lhe reíiíla. ' 

Ainda que minha sAmA em vós fe enleva , 
«Em todo tempo ilaô deixa de arder > ' 
Qu4do o mote atde é calma 9 ou quádo neva* 

Vivei cuidados em quanto eu viver , 
Ou porque em íbmbras voílas fempre viva , 
Ou porque me apprcileis para morrer. 

Vontade minha , fempre fois cativa , 
Meu penfamento > nunca fois mudado » 
Flamma de amor , fereis fempre em mi vira^ 

Suave cativeiro, doce eftado, . 
Brando fogo de amor , que em vòs guardae$ 
A fim de- meu defejo retratado* 

Nunca nefta alma a minha 9 aonde eí^aes ^ 
Falteis , porque então falta a efperança , 
Sem quem me falta a vida muito mães. 



I^s K t £ e I A s 

. SeiUiora , em cujo peico ódio & mudança 
, lançãQ font o Amor , & fua firmeza , 
Que daes efquecimenco por lembrança. 

Armada dos eípinhos á» crueza , 
Trazeis por apparencias a' brandura 
Ko roílo , a qual o peito pouco preza. 

Moftroume hum leve bei|i msAha ventura, 
. Paguey o logo com longo tormento , 
Que o^oftofoge (êxx|pr&9 & a- pena dom* 

A tanta dor hum leve.remtmento 
Nunca em vós pude ver,, quáco em vão digo , 
Mais -mudável :que o vento ^dais- ao vento. 

N<^ principio meu Fado xas foi amigo , 
Naveiguei. pello mar deíie defcjo , 
Quelevia de hum perigo a .outro perigc^ 

£m yôs he pouco o amor 9 em mim fobejo, 
Crefce em mim, falta em v6s> & de maneira» 
.Que de quanto em vós vi 9 ja nada vejo. 

MoftrouCeme o tormento na primeira 
(Com roftro alegre > para que o feguiíle » 
£ lanceime ao feguir nefta cegueira. 

Fonuna , porque quiz que eu o fentiíle « 
Moílrafe , por moftrar qual dentro era , 
^u choro meu engano y ^ ella riíle. 

Quem em contentameiítos vãos erpcra » 
ffpere cedo de defenganarfe , 
Que tem breves limites ftia efpera* 

Porém quem ha , que mais queira UvrarTf^ 
De tão doce priíao , ou quem defeja 
Dosnôs dqíTcs cabeUosdcíatarre i 



. D Z L. D £ C A M o Z N Ss 3 ^^ 

Os elhos 9 a quem as luzes tem tnveia 
Que em yòs o Amor de amor tédes Tecido » 
Quem ha que vós nâo ame j & vos naõ ve)a( 

Roílo fecmoTo , em quem eílà eCculpida 
môt bem ^ que fe p6de vei na tecra » 
Quem ha , não queica Ter pof yòs perdido 9 
• Oihai , fenhoca > as horas apresadas » 
Que Ttm cobrindo o ouro dos cabellos 
De neve , 6c corna as roías deCcóradás. 

Ireis ver ao críftal os olhos beilos , 
£ )a os. naé vereis quaes dantes etaô > 
PoB quaes èmao Ceraô , naõqúeiraes vefiov 

Uíai dos bens > que vaõ como nafcèraõ » 
Olhai , que tudodefce de alto eftado y 
Que também os prazeres meus deceram » • 
Mas na6 deícerà nunca meu cuidado. 



N. 



ELEGIA X L 

U V e A hum apetite moftra o dano 
Antes de fet de todo eíFeituade , 
Mas no fim vem moftrar o defengano. r 

Dureza a cauia , & eu deiè^erado,. 
Pello que imagiuou o penfamento , • . f 
Ando pòr eíia ferra defterrado. 

Efpalhando a voz ao leve vento, 
Delle íò confolado > delle ouvido y 
O façoiabedor de meu tormento. 

Que monte há » qaenio t^nha ja movido^ 
Ove afpeta montanha » ou roca dura , 
A iorça^demeu rnsl aaé mçfecidQ^ 



)7^ £l£6IAS 

Nas duras pedras achafe brandura y 
Falta neile cruel humano peito , 
' Quem vio nunca mayor defaventura l 
Pouco pôde em ti amor perfeito , 
Quando de hum movimento vive indigiM^ 
Que ja mais Ce negou a hum ibgeico. 

Oa ventara ^úcvòs, de meu defttnoy 
Pois todos contra mim faó conjurados , 
Eíle valle farei de meu mal digno. 

Co eilc a noite , & o dia meus culdadot 
Fadarei em acerba & longa vida 
JEm queixas , & em fufpifos defuíàdos* 

Porque fci que feras dillo fervida , 
Naõ deixarei dos montes a dureza. 
Até tua vontade fec movida. 

Aqui me ibbirei na mor alteza 
Daferca, onde It^o contemplada 
Será tua perfeição , tua crueza. 

A alma em ti fò prompu , & ocupada 
Eftando de tormento efquivo , & duro , 
Oprimida. £erâ de ti levada. . 

DiTcorrendo hum paíTp , & outro efcuto. 
De mal em mal , de hum em ouçco dano» 
A paga tal verá de hum Amor puro. 
E v^ndo aqui taõ claro o dcfcngano , 
Cos olhos feitos fontes mudara 
lugar táo infeiáce , & dcshumaao. 

£ o que mor tormento lhe dará 
A lembrança de algum contentamento à 
Que inda que pequeno « magoatA. 



BK L. D£ CaMOKKTS. 57! 

fará por divertir o penfamento 
Beíla parte triftiílima mudando 
Húa lembrança chéa de tormento» 

Alli algum erpaço porfiando , 
Tendo por imp<^vel eCquecerte^ 
ficará ao vento vozes dando. 

Alli fc queixará de conhecertc, 
Alli dura, cruel, defpiedoTa 
Dirá : Dize , que podes ja moverte. 

Mais que Vénus (dirá) dize^ fermoía^ 
Quando nelTa belleza pura, & rara 
Sc verá húa hora piedofa. 

AUi dirá , cruel , & quem cuidara 
De hum tfpirito taó refplandecente 
Táo fera condição , & taó avairar 

AIK viycrá trifte , alli aufente , 
O coíhimado mal por íi fofrendo , 
De o quereres tu tanto contente. 
Como o mundo eilâ ja conhecendo. 

_ ELEGIA XII. 

I l A íierra fatigando de contino 
Los paílbs yaragofos yov moviendo > 
Pcrdiendo de la vida todo el tino. 

De mis fuTpiros triftes no pudiendo 
El alma apartar, y el penfamiento 
^ De aquella por quien yo cftoy muríendo : 
Que aunque ia anfencia es grave tormento» 
Que te olvide en ello es impoflible , 
jj^ue con amor no puedc apanamiento^ • 



571 £ I B G I A S 

Veote con fpirico invUibl» 
£n cl muy vivo ccngo êquú menco 
Tan íiero para mi « y tan tenible. 

Todo lo mà« alegre crífte veo, 
£1 frefco v^le » cl monte , la erpeíTura , 
La. clara fuence eao)a aun el defeo. 

£1 dia fe me bueive cn nocbe efcnta» 
No puede amanecet de dó auíènte 
Tus claros ojos fon , de cu hermofura. 

P^ermitce ya » Teàora , que preience » 
Do quiera que - tu lui es decenida 
Seao el alma , y yida juncamence. 

En cu fervido alU prompu la vida 
Pomè en alma Tola sn coucemplarce » 
Aunque me £eas fiempre enducecicbu 

El mal que hazes dulce en coda parte 9 
Sabrofo es el tormienco, yo lo quieto 9 
Pues es tu voiunud no abbndar te. 

Que quando una hora venga > 4 '^^ efpcroy 
Piedofa , y blanda mâs que las padadas, 
Y me quietas oir , yiendo que muero. 

Las ttífies no feran de mi dexadas » 
Que no Cabrè vivir íin el eftado 
De penas, tanto tiempo ya provadas. 

Hablo como furiofo , y tranfportado y 
Pido lo que me es más enojoCo , 
tíolgando de me ver tan olvidado. 

Quieu fatigado es , no dá repofo 9 
Que fufras con paciência te conviene 9 
fcas quexas dei , que a ú íe es odiofot 

AI 



DE L. DE CaMOÈNS. J7f 

AI tíempo que bolando ya más vieue 
Mis dcfuíacUs bozes eQcomienda , 
Que aâi la triile boz en ti dedene. 

La fuerça dei dolor nioguna emienda 
Puede coroar em mi, que fatistaga 
Lo menos que la quexa em mi ce ofíenda* 

Incurable parece una llaga , 
Y lo es 9 que ceciba de tu mano » 
Ho quíera Amor 9 que yo {amas deshaga 
Stt voluntad en eílo , que es en vano. 

ELE G IA XIII. 

i Je pena en pena muero las pafladas 9 
La triftiífima boz ai ayrc dando 
Voy cantando mis quexas defufadas : 

Incterto en el camino , q«c pifiindo 
De un monte cfquivo , ai otro me encamina » 
En médio dél eftoy en ti pcníàndo , 

O* rigoíofo paflo-, y quan indigna 
£1 alma veo aqui de (ola una hora 
Poder en ti poi^ coía tan digna* 

Si cl alma aua no es merecedora 
Puriffima , y perfeda , y que me puede 
Pe efperança quedar en ti , fenora í 

Mas que puedo querer , Forrana rucde , 
Llevandomc de un ttifte en otro cflado , 
y fi es tu voluntad un bicn no quede. 

En mi no vive ya , es transformado 
En ti , el trifte d^Snao , que tenia 
pe ti Cola íe qoicre ver mirado. 
Tom- //. ^ » 



1^74 Elegias 

Que aunque en fatigas paíle noche 9 y dia 
De cu mano fe vieíTe , 6 en paílb eftrecbo 
La firme volunud no mudaria. 

Y ã por realeza un blando pecho , 
Que tanto ciempo fuc endurecido 
QuKieâe ya moftrar un nuevo hccho. 

Adó me llegaria aquel fonido 
De tu nueva mudança 9 7 mi ventura , 
Al eco y ai yalle » ai monte empedernido. 

Dó no fe cantaria cu blandura , 
En que region eftrana 9 ô nueya parte 
Quedara por loar a tu hermofura. 

Quien no puíiera eftudio , ingenio , y arte, 
Y quando todo nò , mucho dizieia « 
Moftrando que cupiera en ti ablandatte. 

Que roble , que leon , que tigre huvieta » 
Qfse afpera montana intratada , 
Que mis mudadas vozes no oyera. 

Mas no quiere Amor« que la uCuía 
Quea, en eftas íierras efparzida 
De tanto tiempo ya, fea dexada. 

Ni tu querrás que yo dexe ia vida » 
Para me dar tormiento aun mâs fiero , 
t^í con tan luenga ufança interrompida* 

Cada hora más afpera te efpero , 
Que vengas pido , el mal fea mis ditro , 
Que el que puedo fufrir , ya no lo quiero. 

Pruevafe eíle amor perfieâo, y por» 
En fatigas mayores , en crueza , 
puaoto fueie B»yoi, es nÃifcgur*. 



DE L. DE CaMOSNS. 375 

Excedes en las fieras en dureza , 
Quando fe ha vifto , en eíb pura y rara 
Gracia, dei duro monte la afpereza* 

De los bienes <^c puedes dar avara « 
Al que puedes dar vida , y por ti pena » 
Paes megas lo que el mundo no peníãra , 
Haze en tu voluncad, como cila ordena* 

ELEGIA XI r. 

Ao ILLUSTRZ S E N H O ML 
P B D & O DA S T. L V A, 



I 



Llusthe & nobre Sylva , defcendido 
Do gram filho de Anchifes valerofo , 
For armas , & por Tangue efclarecido. 

Que como forte y oufado , & piedoTo 
A*s coílas falvou o pay de longos annos 
£ o filho pella maó tenro & mimofo. 

£ os Penates , que tinhaô os Troyanos ^ 
Tirou no mór confliâo da Cidade y 
£m que Gregos fízeraõ tantos danos. 

Crefcendo foi de bua em outra idade 
£fta iltuftre pr»genie generofa 
£m virtude , ysllor , honra , & bondade* 

Até chegar á noíía tam ditofa , 
Pois neile o Ceo a ti Sylva nos deu 9 
Que a . fazes com tuas obras niais fermofa. 

Aonde o ínclito Rey de motu feu» 
Movido pello (pirito, que o guta 
A mayorei proefas, que a Thefeo* 

II 4| 



37^ Elegias 

Fellas partes , <|ue em ti ja ctmhccu , 
Ou decreto de dma te cTcolheo 
Por começo do fim <]ue pretendia. 

De Capitão de Tanger te proyeo 
£m tempo que o Maluco aflaz valente 
O grande Império de Africa veoceo. 

£ feodo efta eleição do Key valente» 
Da cega inveja foíle mormurado , 
Porque ninguém efcapoa ao maldizente. 

Naõ te ncgâraó feres esforçado « 
Mas diziaõ « que 4 guerra em cai idade 
Servia Capita'6 czprimentado. 

£ que em tempo de tal neceffidade 
Convinha velho amparo , & forte efcudo y 
Em quem Daõ pofla haver temeridade. 

Mas bem ao contrario fe vio tudo » 
Pois prudência, & esforço juntamente 
Em ti exprimentou o Mouro rudo. 
^ Quando com gram confelho,& pouca gente 
Atraveflafte os campos Africanos » 
Como gtam Capitão , velho » valente. 

£ foAç a pane , onde os Mauritanos 
Naô tinhaõ viâo lança de Chriftaõs 
llavia longos tempos, longos annos. 

Tomafte defcuidado hum Capitão 
No tempo > & adi na guerra ezprimcntado. 
Em quem fe confiava Tetuaõ. 

Alafe y irmaõ de Alafe , nomeada ». 
Que naõ fó o feu campo defendia» 
Mas encrava no noâo confiado. 



»i L. DE Camoens. yjf 

Uke 9 que tcxla a grande Berbéria 
Tinha >«por mui prudente , 8c âimofo , 
Agora o tens na tua ellrebaria. 

Que pôde aqui dizer pois o invejofo , 
Onde caõ daro yé , que neâa idade 
Sopre o npbre Tangue gcneroCo^ 

Naé re dirá , que foi temeridade . 
Para feito como eíle tam valente 9 
Com tcLrfeguro o. campo , & a cidade* 

Nem te pôde negar feres prudente , . 
Pois tempo y &c conjunção fofte efcolher 
Em que n4o arrifcaíle a tua genfe* 

Mac aífi te foubeíle . recolher 
Com jgram defpojo feito , denfo dano f 
Sem l^um dos que levaílp fe perder. 

O* felice Varaó , Sylya Troyano , 
Quei9 Ce pôde louvar , como venoefte > 
Pois nç dia menor j que tinha o amw» 
O mayor feito em Aâica fiíeíle* 




I i ií| 



P E T I Ç A M 

^9 Regedor , em nume dehuma nobre Mo^ã, 
prefa no Limoeiro ^forft àk\tr^ quefijena 
adultério « feu marido » que eftava na Inr 
dia y feita por Luís DS CAifOMJiSm < 

O P *- < "i^ o Talerofo , co jo eftado 
O alço Debs profpere 6c acrefccnte » 
Kegendo o fiel R^yno deCamfyáo , 
Com rMa feliciffina , 6c contente:' 
/V vòs , em quem o humi! neceíficado 
Acha fempre favor , & amor ardente , 
Peço <]Ueir2is ouYÍr y que na verdade » 
Zelo 9 & amor de Deos me perfuáde. 

N A õ vos leja pefado o atrevecme 
A querer emprender fujetco alheyo » 
Porque fizeraõ iagrimas moverme 
Vir ante vòs oufado , & fem receyo* 
£ fe por tal quiferdes conhecerme , 
Servindovos de mim , por algum mejro » 
O nome , o bra/ço , a Muía , & quanto poílo» 
Ha }â muito , Senhor, que tudo he vofio. 

Quem vos ifto offerece dirá quanto 
Defejo muito ha já fervos aceito , 
Porque com voílo zelo , o favor fanto y 
Faça meu rude verfo algum proveito i 
Que cobrindome vós com voílo manto f 
^ eu fer nobre tendo algum refpeito , 



Pi L. ©E C AM o INS. ijfí 

Sey que fo^o canhar » o que náct tenho , 
Pois me aâõ.fãdtáo forças, ncmeogei^* 
Porem ifto , Senhor , deizaivio i patcc » 
Que razão he derúU , a quç me gaia , 
A y6s venho <onk força , engenho , d( arte , 
Por influxo do Çeo , que a yds me. envia ; ■ 
A vós , a quem cem dado Apollo, & Macce» 
De feus-chefouroft parte , 8e melhoria , 
Venho cantar com voz rouca* U choraCa « 
Por húa encarcerada de&lifoGi* 

Avós venho , Senhor » na confiança 
Do vofiò nome pondo mcii fentido , 
Que quem em vÔ6 confia , tudo alcança^ 
Sendo conía » de que Deos he fervido ) 
F pois elle vos deo juíla balança , 
Para pezar jtiftiça , 8c dar ouvido 9. 
Ouvi apetição da miferavel ^ 
Com quem Tomina foi tão pouco aíÕiveU 

Ouvi da p6lbre Dona Catharina 
O grande <dereinpairo inopinado, 
A quem nenhum remédio determina j^ ' 
Ou pcrmicte fcu duro , & cruel fado â 
Que fe na tenra idade foi mofina , 
Sua vida entregando ao vão cuidado, 
A^a niíTo caftigo com brandura , 
Porque o medo a fará viver feiura 

Aja , Senhor, c&idar , quehe moça pobre. 
Que pobreza riaõ lem nenhum refpeito , 
È mais não tendo idade , que lhe fobre , 
Para fabec fagiç do que he mal feito t 



^Sii R I M A f 

A|a também cuidar, que bc fanguc ttobre t 
£ ao )ugo da Igre)a hida fugesto y 
E que p6dc nacer de tal ptoceílo 
Hum grande , & cnicliffimo fucccíío. 

C B n T o que comraiâo urgente , ôc cUia 
Tem algfia razaõ a infelice , 
Que fc ninguém recolhe , nem ampara 
A crifte orfaá na flor da menioice > 
A' Fortuna cruel , em tudo avara , 
Para lhe acarretar triftc velhice 9. 
lhe -entrega a honra , te puta caftidaic 
Nas máos de tóía viul neccffidade. 
..Bem s b I , que de ter culpa nâo carece , 
S6 por naõ fcr do fangue fett lembrada , 
Mas dcfclhc, o caftigo, que merece, 
£ naó para cáo longe defterrada : 
Que fe para là for , bem^e conhece , 
Quam vilmente feri vituperada y 
pando motivo ao rude marinheiro 9 
Que fe)a incontinente carniceiro. 

V.B D E , Senhor , o rifco , a que fe obriga 
A defditoíà 9 & frágil mocidade , 
Se honra naó vai bufcar » ou parte amiga» 
Que ^le defenda fua honeftidade»' 
Naõ queirais náo, Senhor, que o mundo diga» 
Ah , que grande rigor, & crueldade ! 
Como )à vai dizendo , ic murmurando 1 
Sua grande ignorância dífinilpando. 

£ u CERTO nâo duvido , que o Piloto , 
O Meftre , o Marinheiro , o Capitão 



st L. DE C AM OEM S. ^%Í 

VCcm do coftumado vicio roto 

Com todas , as que em Teas poderes vâo : 

Daime vós , Senhor , tium , que eíVè teinoc*' 

De tal di)icia , nefta occafiaò ^ 

£ eu direi fer falfo , o que voe digo » 

Tomando fobre mim todo o cafttgo. 

7 a' V a o ha hi Joáo pofto em deferto ^' 
Que fe|â ao Ceo , por caílo , táo aceito , 
Nem ha , quem naô cometta defconcetto p 
Neílà torpeza brutu^ 8c vil fugeito: 
2k náo ha bi Hieronymo (Ío certo , 
Que y com pedra na mio « ferindo o peito 9 
Da carne fttmutado , aíS lhe diga y 
Na6 te chegues a mim , carne inimiga. 

A CULPA he dos parentes defcaidados ^ 
Que, vendoa Tem amparo & Tem abrigo , 
£m tempo , que os mais ricos & esforçados p 
Temendo a Deos , fugiaó feu caftigo : 
Hús para feus jardins determinados , 
Outros por onde o Ceo lhes fofle amigo , 
A deixarão tam sò nefta Cidade , 
Batalhando co a vil neceflidade. 

Pois , quem ouvera ahi , que na6 cahira ^ 
Vcndofc em tal eftremo , cm tal miferia , 
Qual Anbemifa aqui naõ confcntira , 
Qual Romana Sofronia, ou qual Valeria! 
£ qual Lucrécia fora que ifto vira , 
Que naõ rendera o )ugo à vil matéria i 
Qual Thehsna Thimochia , ou linda Sara , 
Ou qual mulher de Uliííes fe negara } 

Qual fota , a que Tc vira ciii taõ infeíU 



)8l R I M A € 

Baulha » turbulenta » & crpantoíà » 
Exercitando a morte rija & mcfta » 
Seu duro officio , brava , & riguroía. 
Que Nympha ouvera ahi , que Deofa Veftsi 
£m virginal eíUdo poderofa , 
Que na6 rendera a tudo o cafto Aotne , 
Poc naÓ morrer nas maós da dura fome! 

Ah» VALEB.OSO fprico , cafo he iílo , 
l^ara fe dar perdão à fraca ovelha , 
Naõ feia o perdão Teu , feja de Chriílo 9 
Pois clle a perdoar nos aconfelha : 
/í^ nos altos Ceos rejais bem quUlo f 
£ vos incline Deos attenta orelha , 
Que vos lembre , Senhor , feu defempaio » 
Pois Tois dos pobres pay Òc amigo claro. 

PoK. ido olhai , Senhor « o quanto importa 
Cortar occafíoés com fio agudo , 
Porque. naõ fe cortando, abrefe porta 
Do laCcivo deCejo ao Nauta rudo. 
£,,íè, como vos digo, eíla fc corta» 
Olhando bem as leys do claro eíludo^ 
Será grandeza vofla muy fobida , 
JDeíIa real proTapia produzida. 

Olhai , que tem , Senhor , húa minina 
Do aufente conforte , & filha fua , 
Muito defemparada , 6c pequenina , 
Fora do natural , defpida & nua. 
Sedtvòst Senhor, agoa da Pifcína, 
A voílo zelo tudo fe attribua , 
Que, movcndovos elle, naõ duvido^ 
.Que tudo a ella feja concedido. 



DE L. DE CaMOENS. }8} 



C A P I T Vi O. 

x\ Qu B L L 8 moycr de olhos cxccUentc » 
Aquelle vivo eíptico inflamado 
Do cníblino rofto tranfparence ^ 

Aqttclle géfto immòio » & repouTado 9 
Que eftando n*alma propriamente efcrito , 
Nam pôde fer em yerfo traíladado : 

Aquelle parecer que he infinito 9 
Para Ce comprender de e^igenho humano 9 
O qual ofiendo em quanto tenho dito : 

Me inflama o coração d*hum doce engano , 
Me enleva , & engrandecera faniafia , 
Que nam vi mayor gloria , que meu dano. 

Oh bemaventurado feja o dia , 
Em que tomei tam doce penTamento ^ 
Que de todos os outros me defvia. 

B bemaventiirado o fofrimento , 
Que foube fer capaz de tanta pena y 
Vendo que o foi da caufa o entendimento ! 

Façame , qué me mata , o mal, que ordena» 
Trateme com enganos , defamores , 
Que cntáo me falva , quando me condena: 

£ fe de tam fuaves disfavores 9 
Penando vive húa alma confumida , 
Oh que doce penar , que doces dores l 

K íc hua çondiç4Õ «oduretida» 



1^4 Rimas 

Também me nega a morte por meu dano ^ 
Oh que doce morrer , que 4oce vida ! 

£ Te me mo%a hõgefto brando, & human» 
Como que de meu mal culpada fe acha» 
Oh que doce mentir , que doce engano ! 

Eu em querelhe tanto ponho tacha , 
Moftrando reârearo peafamento , 
Oh que doce fingir , que doce cacha ! 

A£ que ponho fà no fiafriíiienco 
A parte principal de mmha gloria » 
Tomando por meUioc todo o tormenco. 

Sc íinto tanto bem fò na memoria 
De Yos ver , linda dama , rencedoca ^ 
Que quero eu mait qiK fer roda a yitoiiíi^ 

Se canto voila viíla mais namora » 
Quanto eu fou me&4M para mececerros , 
Que quero eu mais que tenros por fenhoca l 

Se procede efte bem de conhecenros, 
£ confiíle o vencer era Ter vencido » 
Que quero eu mais, fenhoca^ que qaetervos > 
Se em meu proveito ias qualquer partido f 
Sd na villa de hus olhos cun lèrenos , 
Que quero eu mai^ganhar , que fer perdidoi 

^ meus baixoe eTpritof de pequenos , 
Ainda nam merecem feu tormento ,. 
Que quero eu maia, 4 ^ ^^ ^^^ {e^meaodt 
A cauía emfim me esfiraça o íbfcnDenco» 
Forque a peíàr do mal , (pie me refifte. 
De (odQS.os. trabaUks me contento^ 
f3fi9 a razaõ fase a pena alegre » ou criâe. 

A* B* C* 



•"^ 

^i 



BE L. 0£ C AMaXNS. )Sf 

mÊÊÊÊÊmÊÊimÊÊÊÊÊmÊÊSMÊmimmÊÊmÊtÊÊÊÊÊitÊÊÊmÊÊtÊm 

A« B. C. Feitos em mottes, 

A» A» A* A* 

X\ NUA quizefte^ que foílc 

O voíTo nome da pia 

Pará mòr minha agonia* 
Apelles Tc fora vivo , 

fi a vetvos alçapçâra > 

Por vòs retratos tirara* 
Achille^ morreo no teinpto- 

Cpatemplaiuio de giolbos j, 

Bk quando yefo eíles olkos. 
Artemifa fepulcou 

A feu irmaõ , & marido ; 

Vò&a jainx> 6c a meu ficncidor 



B 



B. 



E M vejo que fols folho» 
Eftremoda fermofura > 
Para minha íèpulcura» 



c 



€. C. 



LSOPATHAfe matou ^ 
Vendo morto a feu amante i 
E eil por vòs em Cct conftante« 

CaíTandra diíte de Troya> 
Que havia Ter deíVruida , 
Eeu por vòs d'alma , & da vid«» 

Tom. U^ K k 



D. D. 

XJ IDO morreo por £nea$ f 
£ vòs macaes quem vos ama ^ 
Julgai fe fois cruel dama* 

Pianira innocence 
Da mà morte caufadom , 
Vòs da minha fabedora. 



E 



£. 



uiuzDzcEfota cau(a 
De Orpheo hir ao inferno^ 
Vòs de fer meu mal eterno. 

F. F. 

X^-i D n A -sò de puro amor 
Morreo por feu enceado , 
£u morro de defamado. 

Febo vai efcurecendo 
Ante voíla claridade , 
£ eu fem ter liberdade. 



G 



Ç. G. 



A L A T E A fois Cenhota > 
Da Fermofura eftremo , 
£ eu perdido Polyphemo. 
Genebra , que foi Rainha , 
Se perdeo por Lançarote , 
£ ròs fot me dai a monof 



3t L. 2>x CamOens. $Zj 

Hri« n« 
EKcuLEs, huma camiTa 
De chamas , o confumio , 
Mmha nima defqae vos vio. 
Hebis , & Dido morrerão 
Cotn o rigor da mudança » 
£u Tcndo voíla cfqmvança. 

JJ. J. 
vti' I TH que o duro Holoíernei 
Degolou^, fc viva fora , 
Mate>Uie déreis fenhoía* 
7ulioCefar conqmilou * 

O mundo com fortaleza , 
Vòs a mim com geneilésa, 

JJ. J. 
ULrxò CisAit fe livrou 
Qds imigos com abrolhos^ 
lEu náo podo deíiés olhoi. 
Jazia fe o Minotauro ' ' ^ 

Prefo-no feu laberintho ,• 
Mas eit mais prefo me finto^ 

Li,» L* • 

B-AÍÍDJLOfeâfogDII, 

£*foi fua caufa Hero ) 
£•« ríátía, o que rós quero. ' 
Xeandto fe afogou 

No mar de fua bonança , 
£V ao de yofla efpcrança* ' 



f SI Rimas 

I V £ B. y A dizem que (c^ 
£ Palias Deofas da guexca , 
£ vòs , fenhoia » da teoia. 
Medca foi mui cruel , 
Mas Dão chegou a metade 
De voflà gtam crueldade* 

XT ^* ^' 

^i A n c I so O fiTo perde« 
£m Tpndo a fua figuca » 
£u por yofla fermofiicu 

Nimphas engaaia mil FaMaas 
Com leu ar & fermoTura ^ 
£ a mim volla figura* 

O. O. 

h oUios chocaõ o d«iio> 
Que em vos verem Teodrio ^. 
Mas etji pago o que elle$ ririoii 
Çrpheo com a doce Arpa 
Venceo o reyno de Plucáo , 
y òs a mio^ com perfei§áoy ^ 

p. P. 

A n 1 9 a Helena roubou » [ 
Por quemTroya foi perdida » 
£.yò$.a^mim alma» de vida* 
|>f rrho matou Policeoa 
Perfeita em todos íinaes » 
£ yàs ar fliiim me moucB ^ 



a 



p 



ftE L. DE CAll'drENS. 1^' 

Q. Q: 

, , V^ú A M T o mais deCcjjOt/vtrfos , 
Menos vos vejo fcnhoca : : 
Náo vos ver meUior me fora* 
Querendo ver z Diana ,- . 
ASteúD. perdeo a Vida^ 
Que eu por vòs trago perdida* 



R 



K* • &• 



E 111 B D X O nenhum naô ve>o > 
Que remedee meu mal » 
Mem cruexa à vodà iguak 
Roma o mundo fogeita 
Com < armas , faber , temor ^ 
Vòs a mim sò pòc amor» 

Ob & e n a na mÒr Fortuna 
Com enganos vai cantando 
£ vòs fempre a mim matando*' 

T. T. 



T 



H 1 s B B motreo por Pyramo ji 
A ambos matou o Amor j 
A mim voílo disfavor. 
Thisbe pello feu amante 
Motreo com amor fobefo , 
Mas eu mais morto me vejo* 

Kk il) 



}^« Rimas 

. V s ^ 9V<pie por tuas £enaotz é 
Lht de« Psfis » ituiçiki y 
Naõ foi quaato yòi ioiiçía » 

Vénus lev0ii-a:iiiaiçáat 9 
Por vòs^âdié ftrcbft > Cbalioia , 



X 



.X. X. 



9 6 ▼o». acabe em graça « 
£ vos.faça; piedoía , 
Tjmco , ^lumco íbis &tmciíj|> 
KaDCopea tomou atra^ 
fqr Apopio ji iavocac y 
I YÒ* 1109 a mw 4iat9a9» 







DE L'ÍDl CamÒENS. tOl 



E ST A N C. A S 

Ka medtdA ttftt^/que tem duas contra-- 
riedadts , huvttndo , & deflcftívãrtdo . ktan» 
Dama* ^ : 

'^ 

oisk«iàa^]>aiiM De gtaô merecer » 

Das feas do «ttttiiia , Soi^bem :a^caaa , 



De coda a mik &iUA 
Sois cabo pcofiiftdd' 

Avoflafiga«i 
Naõ be-p^a-iret 
£m volfo pbdec 
Kaõ ha fermoruiira » 

Foftes dotada » 
De tojflaa makUde » 
Perfeica beldade 

* - - ' 

De vòs hç úf^da 

Sois muito acabada 
De taçba, & de ^loCa, 



•AadtfesãloBgada 
Do beift fttffècer* 

Bem càiroinoílraei 
Em vôs fM^de y 
Naõ hâ hí maldade , 
Que náí&prdcedaes. 

De fccíCQTaraõ ^ 
Vos vejo auiente , 
Em vàs.he ptcfcntc 
A mà coadiçaô. 

Em ter perfeição 
Mui attiea «ftaes , 



Pois qu^o a fermoía Mui muito alcaqçaet 
Em vòs naõ ha nada De poucs taxaó. 






%9^ ,- y :. % l U JkiSj. 



* -4 



i aM o-.íTaTv.Ev. .: 

> Oãtherina i^mpromtWf 
Ora mâ, como ctU nuntc^ 



c 



• V 



ATHEiLiMA he maís fermoâ 
Pai» -mi* que a lnurdDcílUi 
]if^5 nal& fefmqpt^ fiBflMr» ; ^ 
Se lUã foíle^encirQril : . • . 
Boje íi vejo piedoô:*'' • 
A mentiáa taô differcate i 
Que fempre cuido que. mente. 

Çb-QMEti;ome onte^ do TÍr ^ 
Kaaca mais apparççíçft.^ . 
Creo que naõ promeceo ^ 
4SeQâ& sò por me mstítf r : 
¥»me em Hm ckorar» & rír^ 
Rioiqnando me promete , 
Maa choro quando me mente. 
.^QiLouME aqueltá cadetlá 
De vir pella alma , que tlolia , 
Sc^nourns , aciinha a minha, 
..Itei^hie pouco de perdella 9 
A vida gafto apo^ clU » 
Porque ma dà # Te promete , 
Mas cir4ma , quapdo mente. 

Ma' , mísflcirora , malvada > 
Dizei y porque me mentis ^ 



ÔE L. 1>S CaM ÕCKS. i$% 

Prometeis , & cncaõ fugis , • 
Pois fem cornar , tndbhe nada s 
Naõ fois bem aconfelhada t ., 
Que quem promete , íe mente f 
O que perde naõ -o £mce. 
. Tudo vos confentitia 
Quanto qutze.íTeis fazer, t 
Se efte voíTo prometer 
Foíle por me ter hum dia s . 
Todo entaõ me desfaria 7 

Com gofto , 8c vòs de çontettfe p 
Zombaríeis de quem mente.. , 

íyíAs poi^ folgaes de mentir ^ 
Xhrometendp de me ver p \ 
£u 70S deixo o prometer ^ , 
Deixaime vòs o fervir 5 
Haveis CBtaô de (èmk 
Quanto a minha vida fente 
O fervir a quem iiie mente. 

Cathekima me mentio 
Mftitas vezes , fem ter lei > 
E tbdas Ihé perdoei 
Por huma 19 que cun^rio : 
Se como me confentio 
^anarlhe , o mais me coníbnte ^ 

líliiaca mais <firei que mente. 

' - ' ■ -' 



jff4 . Rimas 

M o T t E. 
sem vòs « & com meu aãiãêoí 

G L O S ^, 

V^UEUtNDO Amor cfcoodetTo»^ 
Em parte qtie vos naõ yifle , 
Com eftremos de querer vos , 
Ccgoume os olhos com vcrvos 
Levou os , fem qàe os viflc. 
' £u CEGO , mas atinado , 
Quando vi que vos nad via p 
Bo mefino Amor' indignado , ^ 
7a vedes qual ficaria/ ' • 

Sem vds y 8c com meu cuidado» 

M a T T I, . 

\A alma, que efiã djfrecieU^ 
jí tudo ^ nada lhe he foru « 
^i/i foffa o bem da vida « 
Como paffa q mal da monç, , 

G L O 5 ^. ' 

f\ . . y ^ , 

ys jkUNEi&A me fuccecie,; 
que (cmo , & o que defeiípp. 
Que fempre o que temo , veja 
Nunca o que a vontade pede* 

Tevko tanioficrocida 
4bnA^ & vida a toda a íor^ej^ 



• )>£ L. BE Camoems. 5^1 

Que ido me dera da morte , 
G«ixk> ja me dà da vida» 

M O T T E» 

r 

Ferrp ^fogo y fito » & calma 
Todo o mundo acabarão « 
Mas nunca vos tirardò 
^Ima minha da minha aimai- 



N^ 



' G l" O S A. 



Aõ VOS guardei quando yinh^ 
£m torre , força ou engenho 9 
Que mais guardada vos tenho 
£m yòs que íbis alma minha. 

Alli nsm frio , nem calma » 
Kaõ podem ter jurdiçaó , 
Ma vida iim , porçm naõ 
£m yòs , que tenho por alma»! 

M O T T E. 

EJptrei , ja naô ejpero 
Z)c mais vosfirvirfenkora. 
Pois mefa:(cis cada hora 
Tanto mal , que 'defijperom 



p 



GLOSA. 



o X s fei certo que folgaes , 
Quando mais mal me faitis » 



^4 lllMA$ D|I. DE CaMOEIM^ 

£ que Quoca deTcançaes f 
Senaõ quandu^vie moíltaes 
Quaõ pouCo bém me quereis* 
ServirvQS mais naõ efpero » 
pois meu yiver émpeora » - 
Com-tít^-hMetdes , ícnhora > 
Tanto mat; ^tíBISíltfefpcro. 



I.AVS OEO. 



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