(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Obras de Luiz de Camões; precedidas de um ensaio biographico, no qual se relatam alguns factos não conhecidos da sua vida;"

Google 



This is a digital copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as part of a projcct 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, cultuie and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commercial parties, including placing lechnical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfivm automated querying Do nol send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machinc 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogXt "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this projcct and hclping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countiies. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can'l offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search mcans it can bc used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Googlc's mission is to organize the world's information and to make it univcrsally accessible and uscful. Google Book Search hclps rcadcrs 
discover the world's books while hclping authors and publishers rcach ncw audicnccs. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http: //books. google .com/l 




s' 




OBRAS 



DE 



LUIZ DE CAMÕES 

PREGEDIOAS DE UH ENSAIO BI06RAPHIC0 

NO QUAL SE RELATAM 

ALGDNS FACTOS NiO GOKIDOS DA SUA VIDA 



PELO 



VXSCXmSB DE JUROMfiRHA 



VOLDME m 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

4862 





\ 



OBRAS 



1)K 



LUIZ DE CAMÕES 



OBRAS 



DH 



LUIZ DE CAMÕES 



PRECEDIDAS DE UM ENSAIO BI06RAPHIC0 

NO QUAL SE RELATAM 

ALGUNS FACTOS NÃO CONHECIDOS DA SUA VÍDA 

AUQMBMTADAS 

COR ALGdiAS COMPOSIÇÕES INÉDITAS DO POETA 

PELO 
VISCONDE DE JUROMENHA 



VOLUME III 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

I8(H 



EGLOGAS 



EGLOGA I 



INTERLOCUTORES 



LMBRANO, FAONDELIO E AONIA 



Que grande variedade vão fazendo, 
Frondelio amigo, as horas apressadas! 
Gonoo se vão as cousas convertendo 
Em outras cousas várias e insperadas! 
Hum dia a outro dia vai trazendo 
Por suas mesmas horas ja ordenadas; 
Mas quão conformes são na quantidade, 
Tão differenles são na qualidade. 

Eu vi ja deste campo as várias flores 
Ás estrellas do Ceo fazendo kivejá; 
Adornados andar vi os pastores 
De quanto por o mundo "se deseja; 
E vi co'o campo compelir nas cores 
Os trajes, de obra tanta e tão sobeja, 
Que se a rica matéria não faltava, 
A obra de mais rica solfejava. 



o 



E vi perder seu preço ás brancas rosas, 
E quasi escurecer-se o claro dia 
Diante de huas mostras perigosas, 
Que Vénus mais que nunca engrandecia. 
As pastoras, emfim, vi tão formosas, * 
Que-o Amor de si mesmo se temia; 
Mas mais temia, o pensamento falto 
De nâo ser para ter temor tâo alto. 

Agora tudo esta tao differente, 

Que move os corações a grande espanío; 

E parece que Júpiter potente 

Se enfada ja d'o mundo durar tanto. 

O Tejo corre turvo e descontente. 

As aves deixâo seu suave canto, 

E Q gado, irida que a herva lhe fallecc». 

Mais que da falta delia se emmagreco. 



FRONDELIO . 

Umbrano irmão, decreto be da natura, 
Inviolável, fixo e sempiterno. 
Que a todo bem succeda desventura, 
E não haja prazer que seja eterno : 
Ao claro dia segue a noile escura. 
Ao suave verão o duro inverno; 
E se ha cousa que saiba ter firmeza, 
He somente esla lei da natureza. 

Toda alegria grande e sumptuosa 
A porta abrindo vem ao triste estado: 
Se hum'hora vejo alegre e deleitosa. 
Temendo estou do mal ap[)arelhado. 



Não vês que mora a serpe venenosa 
Entre as flores do fresco e verde prado? . 
Ah! não te engane algum contentamento: 
Que mais instável he que o pensamento. 

E praza a Deos que o trisle e duro fado 
De tamanhos desastres se contente; 
Que sempre hum grande mal inopinado . 
He mais do que o espera a incauta gente: 
Que vejo este carvalho que queimaío 
Tão gravemente foi do raio ardente. 
Não seja ora prodigio que declaro 
Que o bárbaro cultor meus campos are. 

UMbHANO 

Em quanto do seguro azambujeiro 
Nos pastores de Luso houver cajados, 
Com o valor antiguo, que primeiro 
Os fez no mundo tão assinalados, 
Não temas tu, Frondelio companheiro, 
Qu'em algum tempo sejão sobjugados, 
Nem que a cerviz indómita obedeça 
A outro jugo qualquer que se lhe ofFreça. 

E postoque a soberba se levante 
De inimigos a torto e a direito, 
' Não crêas tu que a força repugnante 
Do fero e nunca ja vencido peito, 
Que (lesde quem possue o monte Atlante 
Adonde bebe o Hydaspe têe sujeito, 
O possa nunca ser de força alheia, 
Em quanto o sol, a terra e o ceo rodeia. 



8 



FRONDEUO 



Umbraiio, a temerária segurança 
Qu'em força, ou em razão não se assegura, 
He falsa e vãa; que a grande confiança 
Não he sempre ajudada da ventura. 
Que lá junlo das aras da esperança, 
Némesis moderada, justa e dura, 
Hum freio lhe está pondo e lei terribil. 
Que os limit(?s não passe do possibil. 

E se attentares bem os grandes danos 
Que se nos vão 'mostrando cada dia, 
Porás freio lambem a esses enganos 
Que te está figurando a ousadia. . 
Tu não vês como os lobos Tingitanos, 
Apartados de toda cobardia, 
Mátão os cães do gado guardadores, 
E não somente os cães, mas os pastores? 

Pois o grande curral, seguro e forte. 
Do alto monte Atlas não ouviste 
Que Gom sanguinolenta e fera morte 
Despovoado foi por caso triste? 
Oh triste caso! oh desastrada sorte, 
Contra quem força humana não resiste! 
Que alli também da vida foi privado 
O meu Tionio, ainda em flor cortado! 



UMBRANO 



Em lagrimas me banha rosto e peito 
Desse caso terrível a memoria", 



Quando vejo quão sábio e quão perfeilo, 
E quão merecedor de longa historia 
Era esse leu pastor, que sem direito 
Deo ás Parcas a vida transitória. 
Mas não ha hi quem d'herva o gado farte, 
Nem de juvenil sangue o fero Marte. 

Porém, se te não fôr muito pezado, 
(Ja qu esta triste morte me lembraste) 
Canta-me desse caso desastrado 
Aquelles Êrandos versos que cantaste, 
Quando hontem, recolhendo o manso gado. 
De nós-outros pastores te apartaste; 
Qu'eu também que as ovelhas recolhia. 
Não te podia ouvir como queria. 



FRONDELIO 



Como queres renove ao pensamento 
Tamanho mal, tamanha desventura? 
Porqu'espalhar suspiros vãos ao vento. 
Para os que tristes são, he falsa cura. 
Mas, pois te move tanto o sentimento 
Da morte de Tionio, triste c escura, 
Êu porei teu desejo em doce effeito. 
Se a dôr me não congela a voz no peito. 



UMBBANO 



Canta agora, pastor, que o gado [)ace 
Entre as húmidas hervas socegado; 
E lá nas altas serras, onde nace, 
O sacro Tejo á sombra recostado. 



Co'os seus olhos no chão, a mão na face, 
Está para te ouvir apparelhado; ' 
E com silencio triste estão as Nymphas 
Dos olhos destillando claras lymphas. 

O prado, as flores brancas e vermelhas 
Está suavemente presenlando; 
As doces e solícitas abelhas, 
Com susurro agradável vão voando: 
Ás cândidas, pacíficas ovelhas, 
Das licrvas esquecidas, inclinando 
Ás cabeças estão ao som divino 
Que faz, passando, o Tejo crystallino. 

O vento d entre as arvores respira, 
Fazendo companhia ao claro rio; 
Nas sombras a ave gárrula suspira. 
Sua mágoa espalhando ao vento frio. 
Toca, Frondelio, toca a doce lira ; 
Que d'aquelle verde álamo sombrio 
 branda Philomela entristecida 
Ao mais saudoso canto te convida. 



FRONDELIO 



Aquelle dia as aguas não gostarão 
As mimosas ovelhas; e os cordeiros • 
O campo encherão d'amorosos gritos. 
E não se pendurarão dos salgueiros 
As cabras, de tristeza; mas negarão 
O paslo a si, e o leite a os cabritos. 
Prodigios infinitos 
Mostrava aquelle dia. 



% 



t 



\\ 



Quando a Parca queria 

Princípio dar ao fero caso triste. 

E tu também (ó corvo) o descobriste, 

Quando da mão direita em voz escura, 

Voando, repetiste 

A tvrannica lei da morte dura. 

Tionio meu, o Tejo crystallino, 

E as arvores que ja desamparaste 

Chorão o mal de tua ausência elerna. 

Não sei porque tão cedo nos deixaslc! 

Mas foi consentimento do Destino, 

Por quem o mar e a terra se governa. 

A noite sempiterna, 

Que tu tão cedo visle 

.Cruel, acerba e triste. 

Sequer de tua idade não te dera 

Que lograras a fresca primavera? 

Não usara comnosco tal crueza. 

Que nem nos montes fera, 

Nem pastor ha no campo sem tristeza. 

Os Faunos, certa guarda dos pastores, 

Ja não seguem as Nymphas na espessura, 

Nem as Nymphas aos cervos dão trabalho. 

Tudo, qual vês, he cheio de tristura: 

Ás abelhas o campo nega as flores, 

Como ás flores a aurora nega o orvalho. 

Eu que cantando espalho 

Tristezas todo o dia, 

A frauta que soia 

Mover as altas arvores tangendo, 

Se me vai de tristeza enrouquecendo: 



\2 



Que tudo vejo triste neste monte: 

E tu também correndo 

Manas envolta e triste, ó clara fonte. . 

As Tágides no rio, e na aspereza 

Do monte as Oreádas, conhecendo 

Quem te obrigou ao duro e fero Marte; 

Como em geral sentença vão dizendo, 

Que não pôde no mundo haver tristeza 

Em cuja causa amor não tenha parte. 

Porqu'elle, emfim, destarte 

Nos olhos saudosos, 

Nos passos vagarosos, 

E no rosto, que Amor com phantasia • 

Da* pallida viola lhe tingia, 

A todos de si dava sinal certo 

Do fogo que trazia; 

Que nunca soube amor ser encoberto. 

Ja diante dos olhos lhe voavão 

Imagens e phantasticas pinturas, 

E\ercicios do falso pensamento; 

Ja por as solitárias espessuras 

Entre os penedos sós, que não fallavão, 

Paliava e descobria seu tormento. 

Em longo esquecimento 

De si, todo embebido, 

Andava tão perdido, 

Que quando algum pastor lhe perguntava 

A causa da tristeza que mostrava, 

Como quem para penas só vivia. 

Sorrindo, lhe tornava: 

Se não vivesse Irisle. morreria. 



<5 

Mas como esle tormenlo o sinalou, 

E tanto no seu rosto se mostrasse, 

Entendendo-o ja bem o pae sisudo, 

Porque do pensamento lho tirasse, 

Longe da causa delle o apartou ; 

Porque, emfim, longa ausência acaba tudo. 

Oh falso Marte rudo, 

Das vidas cobiçoso! 

Que donde o generoso 

Peito resuscilava em tanta gloria 

De seus Antecessores a memoria, 

Alli, fero e cruel, lhe destruiste, 

Por injusta victoria. 

Primeiro que o cuidado, a vida triste. 

Parece-me, Tionio, que te vejo, 

Por tingires a lança cobiçoso 

Naquelle infido sangue Maurijiano, 

No Hispânico ginete bellicoso, 

Que ardendo também vinha no desejo 

De atropellar por terra ao Tingitano. 

Oh confiado engano 1 

Oh encurtada vida! 

Que a virtude opprimida 

Da muhidão forçosa do inimigo 

Não pôde defender-se do perigo; 

Porqu*assi o Destino o permitlio; 

E assi levou comsigo 

O mais gentil pastor que o Tejo vio. 

Qual o mancebo Euryalo enredado 
Entre o poder dos Rutulos, fartando 
As iras da soberba e dura guerra : 



N 



u 



Do crístallino rosto a cór mudando, 

Cujo purpúreo sangue, derramado 

Por as alvas espaldas, tinge a serra; 

•Que corno flor, que a terra 

Lhe nega o mantimento, 

Porque o tempo avarento 

Também o largo humor lhe lee negado, 

O collo inclina languido e cansado: 

Tal te pinto, ó Tionio, dando o esprito 

A quem to tinha dado; 

Qu este he somente eterno e infinito. 

Da congelada boca a alma pura, 
Co'o o nome juntamente da iniqiiga 
E excellente Marfida, derramava. 
E tu, gentil Senhora, não te obriga 
A pranto sempiterno a morte dura 
De quem por ti sómenle a vida amava? 
Por ti aos ecos dava 
Accentos numerosos; 
Por ti âos bellicosos 
Excrcicios se deo do fero Marte. 
E lu ingrata o amor ja n'outra parte 
Porás, como acontece ao fraco, intento: 
Que, emfim, emfim, dest'arte 
Se muda o feminino pensíimento. 

Pastores deste valle ameno e frio. 
Que de Tionio o caso desastrado 
Quereis nas altas serras (jue se conte; 
Hum tumulo, de flores adornado. 
Lhe edificai ao longo deste rio. 
Que a vela enfreie* ao duro navegímte: 






E o lasso caminhanlc. 

Vendo tamanha mágoa, 

Arraze os olhos d'ágoa, 

Lendo na pedra dura o verso escrito, 

Que diga assi: Memoria sou, que grito 

Para dar testimunho em toda parte 

Do mais gentil Esprito 

Que tirarão do mundo Amor e Marte. 



TM BR A NO 



Qual o quieto somno aos cansados 
Debaixo de algum'arvore sombria; 
Ou qual aos sequiosos encalmados 
O Vento respirante e a fonte fria; 
Taesme forão teus versos delicados, 
Teu numeroso canto e melodia: 
E ainda agora o tom suave e brando 
Os ouvidos me fica adormentando. 

Em quanto os peixes húmidos tiverem 

As areosas covas deste rio, 

E correndo estas aguas conhecerem 

Do largo mar o antiguo senhorio; 

E em quanto estas hervinhas pasto derem 

Ás petulantes cabras, eu te fio 

Que em virtude dos versos que cantaste 

Sempre viva o pastor que tanto amaste. 

Mas ja que \k)uco a pouco o sol nos falta, 
E dos montes as sombras Se accrescentão ; 
De flores mil o claro Ceo se esmaha, 
Que tão ledas aos olhos se presentão; 



H\ 



Levemos por o pé desla serra alta 
Os gados, que ja agora se contentâo 
Do que comido lee, Frondelio amigo: 
Anda; que ale o outeiro irei comtigo. 



FRONDELIO 



Anles por este valle, amigo Umbrano, 
Se Taprouver, levemos as ovellias; 
Porque, se eu por acerto não me engano, 
De lá me sóa hum eco nas orelhas : 
O doce accenlo não parece humano. 
E, se em contrário tu não m aconselhas. 
Eu quero descobrir que cousa seja; 
Que o tom m'espanta, e a voz me faz inveja. 



UMBRANO 



Comligo you, que quanto mais me chego, 
Mais gentil me parece a voz que ouviste, 
Peregrina, excellente; e não te nego 
Que me faz cá no peito a alma triste. 
Vôs como tee os ventos em socêgo? 
Nenhum rumor da serra lhe resiste: 
Nenhum pássaro vôa, mas parece 
Que, do canto vencido, lhe obedece. 

Porém, irmão, melhor me parecia 
Que não fossemos lá; que estorvaremos; 
Mas sobidos nesfarvorc sombria. 
Todo o valle de aqui descobriremos. 
Os çurrões e cajados, todavia, 
N(*sle comprido tronco ixuiduremos: 



i7 



Para subir fica homem mais ligeiro. 
Deixa-me lu, Frondelio, ir primeiro. 



FRONDELIO 



Espera, assi, dar-te-hei de pé, se queres: 
Subirás sem trabalho e sem ruido; 
E despois que subido lá 'sliveres, 
Dar-me-has a mão de cima; que he partido. 
Mas primeiro me dize, se o puderes 
Ver, donde nasce o canto nunca ouvido; 
Quem lança ô doce accento delicado. 
Falia; que ja te vejo estar pasmado. 



UMBRANO 



Cousas não costumadas na espessura, 
Que nunca vi, Frondelio, vejo agora: 
Formosas Nymphas vejo na verdura, 
Cujo divino gesto o Ceo namora. 
Huma de desusada formosura, 
Que das outras parece ser Senhora. 
Sobre hum tristç sepulchro, não cessando, 
Está perlas dos olhos destillando. 

De todas estas altas semidéas, 
Qu em tomo estão do corpo sepultado, 
Humas, regando as húmidas arêas, 
De flores tee o tuniulo adornado; 
Outras, queimando lagrimas Sabêas, 
Enchem o ar de cheiro sublimado; 
Outras em ricos pannos, mais avante, 
Envolvem brandamente hum novo infante. 

TOMOIIi 



v 



\» 



Huma, que d'entre as outras se apartou, 
Com gritos, que a montanha entristecerão, 
Diz, que despois que a morle a flor cortou 
Que as estrellas somente merecerão. 
Este penhor charissimo ficou 
Daquelle, a cujo império obedecerão 
Douro, Mondego, Tejo e Guadiana, 
Até o remoto mar da Taprobana. 

Diz mais, que se encontrar este menino 
A noite intempestiva, amanhecendo, 
O Tejo, agora claro e crystalhno. 
Tornará a fera Alectò em vulto horrendo: 
Mas que, a ser conservado do Destino, 
As Êenignas estrellas promeltendo 
Lh'estão o largo pasto de Ampelusa, 
Co'o monte que em máo ponto vio Medusa. 

Este prodígio grande a Nympha bella 
Com abundantes lagrimas recita. 
Porém, qual a eclipsada clara estrella, 
Qu'entre as outras o Ceo primeiro habita : 
Tal coberta de negro vejo aquella, 
A quem só n'alma toca a grã desdita. 
Dá cá, Frondelio, a mão; e sobe a ver 
Tudo o mais qu'eu de dor não sei dizer. 



FRONDELIO 



Oh triste morte, esquiva e mal olhada, 
Que a tantas fonnosuras injurias! 
Áquella deosa bella e delicada 
Sequer algum respeito ter devias. 



49 



Esta he, por certo, Aonia filha amada 
Daquelle grã Pastor, qu'ein nossos dias 
Danúbio enfreia, manda o claro Ibero, 
E espanta o moradòi* do Euxino fero. 

Morreo-nos o excellente e poderoso, 
(Que a isto está sujeita a vida humana) 
Doce Aonio, d' Aonia charó Esposo. 
Ah lei dos fados, áspera e tyrana I 
Mas o som peregrino e piedoso, 
Com que a formosa Nympha a dor engana. 
Escuta hum pouco. Nota e vô, Umbrano, 
Quão bem que sôa o verso Castelhano. 

AONlA 

Alma, y primero amor dei alma mia, 
Espíritu dichoso, en cuya vida 
La mia estuvo en cuanto Dios queria! 

Sombra gentil de su prision salida, ^ 
Que dei mundo á la pátria te bolviste. 
Donde fuiste engendrada y procedida ! 

Recibe allá este sacrifício triste. 
Que te oflfrecen los ojos que te vieron ; 
Si la memoria dellos no perdiste. 

Que, pues los altos Cielos permitieron, 
Que no te acompanasé en tal jornada, 
Y para ornarse solo á ti quisieron ; 

Nunca permitirán, que acompanada 
De mi no sea esta memoria tuya. 
Que está de tus despojos adornada. 

Ni dejará, por mas que el tiempo huya. 
De estar en mi con sempiterno Uanto, 
Hasta que vida y alma se destruya.^ 



20 

Mas tú, gentil Espírilu, entretanto 
Que otros campos y flores vas pisando, 
Y otras zamponas oyes, y otro canto;. 

Agora embevecido estes mirando * 
Allá en el Empireo aquella Idea, 
Que el mundo enfrena y rige con su mando; 

Agora te posuya Citherea 
En el tercero asiento, ó porque amaste, 
O porque nueva amante allá te sea; 

Agora el sol te admire, si miraste 
Como vá por los Signos, encendido, 
La3 tierras alumbrando que dejaste: 

Si en ver estos milagros no has perdido 
La memoria de mi, ó fué en tu mano 
No pasar por lás aguas dei olvido; 

Buelve un poço los ojos á este Uano, 
Verás una, que á ti èon triste lloro 
Sobre este màrmol sordo llama en vano- 

Pêro si entraren en los Signos de oro 
Lágrimas y gemidos amorosos, 
Que muevan el supremo y santo coro; 

La lumbre de tus ojos tan hermosos 
Yo la veré mui presto; y podre verte: 
Que á pesar de los hados enojosos 
Tambien para los tristes hubo muerle. 

' EGLOGA II 

» 

INTERLOCUTORES 
ALMENO E AGRÁRIO 

Ao longo do sereno 

Tejo, suave e brando, 

N'hum valle d'altas arvores sombrio 



2\ 



Estava o triste Almeno 

Suspiros espalhando 

Ao vento, e doces lagrimas ao rio. 

No derradeiro fio 

O tinha a esperança, 

Que com doces enganos 

Lhe sustentara a vida tantos annos 

N'hua amorosa e branda confiança; 

Que quem tanto queria, 

Parece que não erra, se confia. 

A noite escura dava 

Repouso aos cansados 

Animaes esquecidos da verdura; 

O valle triste estava 

Go'huns ramos carregados, 

Qu'inda a noite fazião mais escura* 

Oflfrecia a espessura 

Hum temeroso espanto: 

As roucas râas soavão 

N'hum charco de agua negra, e ajudavão 

Do pássaro nocturno o triste canto: 

O Tejo com som grave 

Corria mais medonho que suave. 

Como toda a tristeza 

No silencio consiste. 

Parecia que o valle estava mudo. 

E com esta graveza 

Estava tudo triste, 

Porém o triste Almeno hiais que tudo: 

Tomando por escudo 

De sua doce pena, . 



22 



Para poder soffrella, 

Estar imaginando a causa delia; 

Qu'em tanto mal he cura bem pequena. 

Maior o he o tormento, 

Que toma por aUívio hum pensamento. 

Ao rio se queixava 

Com lagrimas em fio, 

Com que as ondas crescião outro tanto. 

Seu doce canto dava . 

Tristes agíias ao rio, 

E o rio triste som ao doce canto. 

Ao sonoroso pranto, ^ 

Que as aguas enfreava, 

Responde o valle umbroso. 

De tanta voz o accento temeroso 

Na outra parte do rio retumbava; 

Quando, da phantasia 

Q silencio rompendo, assi dizia: 

Corre suave e brando 

Com tuas ckiras ágoas, 

Sabidas dé meus olhos, doce Tejo ; 

Fé de meus males dando. 

Para que minhas mágoas 

Sejão castigo igual de meu desejo: 

Que, pois em miip não vejo 

Remédio, nem o espero; 

E a morte se despreza 

De me matar, deixando-me á crueza 

Daquella por quem meu tormento quero; 

Saiba o mundo meu dano. 

Porque se desengane em meu engano. 



25 



Ja que minha ventura, 

Ou a causa qu'a ordena, 

Quer qu'em pago da dor tome o soffrella; 

Será mais certa cura 

Para tamanha pena 

Desesperar d'haver ja cura nella. 

Porque se minha estrella 

Causou tal esquivança. 

Consinta meu cuidado 

Que me farte de ser desesperado. 

Para desenganar minha esperança : 

Pois somente nasci 

Para viver na morte, e ella em mi. 

Não cesse meu tormento 

De fazer seu oflBcio, 

Pois aqui tee hum'alma ao jugo atada: 

Nem falte o soffrimento, 

Porque parece vício 

Para tão doce mal faltar-me nada. 

Oh Nympha delicada, 

Honra da natureza I 

Cemo pôde isto ser. 

Que de tão peregrino parecer 

Pudesse proceder tanta crueza? 

Não vem de nenhum geito 

De causa divinal contrário effeito. 

Pois como pena tanta 

He contra a causa delia? • 

Fora he do natural minha tristeza. 

Mas a mi que m'espanta? 

Não basta (ó Nympha bella) 



Que podes perverter a natureza? 

Não he a gentileza 

De teu gesto celeste 

Fora do natural? 

Não pôde a natureza fazer tal : 

Tu mesma (ó bella Nympha) te fizeste; 

Porém, porque tomaste 

Tão dura condição, se te formaste? 

Por ti o alegre prado 

Me he penoso e duro ; 

Abrolhos me parecem suas flores. 

Por ti do manso gado, 

Como de mi, não curo, 

« 

Por não fazer offensa a teus amores. 

Os jogos dos pastores, 

Âs lutas entr'a rama, 

Nada me faz contente: 

E sou ja do que fui tão differenle, 

Que quando por meu nome alguém me chama. 

Pasmo, porque conheço 

Qu'inda comigo próprio me pareço. 

m 

O gado, que apascento, 

São n'alma os meus cuidados ; 

As flores, que no campo sempre vejo, 

São no meu pensamento 

Teus olhos debuxados, 

Com qu'estou enganando o meu desejo. 

Do frio e doce Tejo 

As aguas se tornarão 

Ardentes e salgadas, 

Despois (jue minhas lagrimas cansadas 



25 



Com sea puro licor se mislurárão; 

Gomo quando mistura 

Hyppanis co o Exampêo sua agua pura. 

Se ahi no mundo houvesse 

Ouvires-me algum'hora, 

Assentados na praia deste rio ; 

E d'arte te dissesse 

O mal que passo agora, 

Que pudesse mover-te o peito frio ! . . . 

Oh quanto desvario, 

Qu'estou imaginando! 

Ja agora meu tormento 

Não pôde pedir mais ao pensamento, 

Qu'este pbantasiar, donde penando 

A vida me reserva. 

Querer mais de meu mal será soberba. 

Ja a esmaltada Aurora 

Descobre o negro manto 

Da sombra, que as montanhas encobria. 

Descansa, frauta, agora, 

Pois meu escuro canto 

Não merece que veja o claro dia. 

Não canse a phantasia 

D'estar em si pintando 

O gesto dehcado, 

Em quanto traz ao pasto o manso gado 

Esse pastor, que lá só vem fallando. 

Callar-me-hei somente; 

Que o meu mal nem ouvir se me consente. 



26 



AGRÁRIO 



Formosã manhãa clara e deleitosa, 
Que, como fresca rosa na verdura, 
Te mostras bella e pura, marchetando 
Âs Nymphas, espalhando seus cabellos 
Nos verdes montes bellos; tu só fazes, 
Quando a sombra desfazes triste e escura, 
Formosa a espessura e a clara fonte. 
Formoso o alto monte e o rochedo, 
Formoso o arvoredo e deleitoso, 
E emfim tudo formoso co o teu rosto 
D'ouro e rosas composto e claridade; 
Trazes a saudade ao pensamento, 
Mostrando em hum momento o roxo dia, 
Com a doce harmonia nos cantares 
Dos pássaros a pares, que voando 
Seu pasto andão buscando nos raminhos. 
Para os amados ninhos que mantém. 
Oh grande e summo bem da natureza ! 
Estranha subtileza de pintora. 
Que matiza em hum'hora, de mil cores 
O ceo, a terra, as flores, monte e prado! 
Oh tempo ja passado I quão presente 
Te vejo abertamente na vontade! 
Quão grande saudade tenho agora 
Do tempo que a pastora minha amava, 
E de quanto prezava a njinha dor! 
Então tinha o amor maior poder, 
Quando em hum só querer nos igualava; 
Porque quando hum amava a quem queria, 
Logo eco respondia d'affeição 
No brando coração da doce imiga. 



27 



Nesta amorosa liga concertavão 
Os tempos, que passavão com prazeres. 
Mostrava a flava Ceres por as eiras 
Das brancas sementeiras ledo fruto, 
Pagando seu tributo aos Lavradores; 
E enchia aos pastores todo o prado 
Pales do manso gado guardadora. 
Hião Zéphyro e Flora passeando. 
Os campos esmaltando de boninas; 
Nas fontes cristallinas triste estava 
Narciso, qu inda olhava n'agua pura 
Sua linda figura e delicada : 
Mas Eco, namorada de tal gesto. 
Com pranto manifesto, seu tormento 
No derradeiro accento lamentava. 
ÁUi também se achava o sangue tinto 
Do purpúreo jacintho; e o destroço 
De Adónis bello moço ; morte fêa 
Da bella Cytherêa tão chorada; 
Toda a terra esmaltada destas rosas. 
HiSo Nymphas formosas por os prados; 
• E os Faunos namorados apoz ellas, 
Mostrando-lhes capéllas de mil cores. 
Ordenadas das flores que colhião: 
As Nymphas lhe fugião espantadas. 
As faldas levantadas, por os montes. 
Yia-se a agua das fontes espalhar-se; 
Vertumno transformar-se alli se via; 
Pomona, que trazia os doces fruitos ; 
Alli pastores muitos, que tangião 
Gaitas, que bem se ouvião, e cantando 
Estavão enganando as suasi penas, 
Tomando das Sirenas o exercicio. 



28 



Ouvia-se Salicio lamentar-se; 
Da mudança queixar-se crua e fêa 
Da dura Galathêa, tão formosa : 
E da morle invejosa Nemoroso 
Ao monte cavernoso se querella, 
Que a sua Elisa bella em pouco espaço 
Cortou inda em agraço. Áh dura sorte! 
Oh immatura morte, que a ninguém 
De quantos vida têe jamais perdoas! 
Mas tu, tempo, que voas apressado, 
Hum deleitoso estado quão asinha 
Nesta vida mesquinha transfiguras 
Em mil desaventuras, e a lembrança 
Nos deixas por herança do que levas I 
Assi que sé nos cevas com prazeres, 
He para nos comeres no melhor. 
Cada vez em peor te vás mudando : 
Quanto vees inventando, qu'hoje approvas, 
Logo ã manhãa reprovas com instancia. 
Oh penersa inconstância e tão profana 
De toda cousa humana, inferior, 
A quem o cego error sempre anda annexo ! 
Mas eu de que me queixo? ou eu que digo? 
• Vive o tempo comigo? ou elle tem 
Culpa no mal que vem dà cega gente? 
Por ventura elle sente, ou elle entende 
Àquillo que defende o ser divino? 
Elle usa de contino seu officio, 
Que ja por exercício lhe he devido : 
Dá-nos fructo colhido na sazão 
Do formoso verão; e no inverno, 
Com seu humor eterno congelado, 
Do vapor levantado co'a quentura 



29 



Do sol, a terra dura lhe dá alento, 
Para que o mantimento produzindo, 
Este sempre cumprindo seu costume. 
Àssi que não consume de si nada, 
Nem muda da passada vida hum dedo: 
Antes sempre está quedo no devido, 
Porqu'este he seu partido e sua usança; 
E nelle esta mudança he mais firmeza. 
Mas quem a Lei despreza, e pouco estima. 
De quem de lá de cima está movendo 
O Ceo sublime e horrendo, o mundo puro. 
Este muda o seguro e firme estado 
Do tempo, não mudado de verdade. 
Não foi naquella idade d'ouro claro 
O firme tempo charo e excellente? 
Vivia então a gente moderada ; 
Sem ser a terra arada dava pão; 
Sem ser cavado o chão as fcuctas dava; 
Nem aguas desejava, nem quentura; 
Suppria então natura o necessário. 
Pois quem foi tão contrário a esta vida? 
Saturno, que, perdida a luz serena. 
Causou, qu'em dura pena, desterrado. 
Fosse do Ceo lançado, onde vivia; 
Porque os filhos comia, que gerava. 
Por isso se mudava o tempo igual 
Em mais baixo metal : e assi descendo 
Nos veio, emfim, trazendo a este estado. 
Mas eu, desatinado, aonde vou? 
Para onde me levou a phantasia? * 
Qu'estou gastando o dia em vãas palavras? 
Quero ora minhas cabras ir levando 
Ao Tejo claro e brando; porque achar 



30 



No raundo qu emendar, não he d'agora: 
Basta que a vida fóra delle teniío : 
Com meu gado me avenho, e eslou contente. 
Porém, se me não mente a vista, eu vejo 
Nesta praia do Tejo estar deitado 
Almeno, que enlevado em pensamentos, 
Âs horas e os momentos vai gastando: 
Vou-me a elle chegando, só por ver 
Se poderei fazer que o mal que sente, 
Hum pouco se lhe ausente da memoria. 

ALMENO 

Oh doce pensamento! oh doce gloriai 
São estes por ventura os olhos bellos. 
Que têe de meus sentidos a victoria? 

São estas, Nympha, as tranças dos cabellos, 
Que fazem de seu preço o ouro alheio. 
Como a mi de mi mesmo só com vellos? 

He esta a alva columna, o lindo esteio, 
Sustentador das obras mais que humanas, 
Qu'eu nestes braços tenho, e não o creio? 

Áh falso pensamento, que me enganas I 
Fazes-me pôr a boca onde não devo, 
Com palavTas de doudo, ou quasi insanas! 

Como a alçar-te tão alto assi me atrevo? 
Taes azas dou-tas eu, ou tu mas dás? ' 
Levas-me tu a mi, ou eu te levo? 

Não poderei eu ir onde tu vàs? 
Porém, pois ir não posso onde tu fores. 
Quando fores, não tornes onde estás. 



õ\ 



AGRÁRIO 



Oh que trisle successo foi de amores, 
O que a este pastor aconteceo, 
Segundo ouvi contar a outros pastores I 

Tanto emfim, por seu damno se perdeo, 
Que o longo imaginar em seu tormento, 
Em desatino Amor lh'o convérteo. 

Oh forçoso vigor do pensamento, 
Que pôde em outra cousa estar mudanâó 
A forma, a vida, o siso, o entendimento! 

Está-se huift triste amante transformando 
Na vontade daquella, que tanto ama, 
De si a própria essência transportando. 

E nenhum'outra cousa mais desama. 
Que a si, se vè qu'em si Ha algum sentido, 
Que deste fogo insano não se inflama. 

Almeno, que aqui 'stâ tão influido 
No phantastico sonho, que o cuidado 
Lhe traz sempre ante os olhos esculpido, 

Está-se-lhe pintando, de enlevado, 
Que tee ja da phantastíca pastora 
O peito diamantino mitigado. 

Em este doce engano estava agora 
Fatiando como em sonho, mas achando 
Ser vento o que sonhava, grita e chora. 

Dest'arte andavão sonhos enganando 
O pastor somnolento, que a Diana 
.Andava entre as ovelhas celebrando; 

DesVarte a nuvem falsa, em forma humana, 
O vão pae dos Centauros enganava : 
(Que Amor quando contenta, sempre engana) 

Como este, que comsigo só fallava, 



52 

Cuidando que fallava, de enleado, 

Com quem lhe o pensamento figurava. * 

Não pôde quem quer muito, ser culpado 
Em nenhum erro, quando vem a ser 
Este amor em doudice* transformado. 

Amor não será amor, se não vier 
Com doudices, deshonras, dissensões, 
Pazes, guerras, prazer e desprazer ; 

Perigos, linguas mas, murmurações 
Ciúmes,' arruidos, competências, 
Temores, nojos, mortes, perdições. 

Estas são verdadeiras penitencias 
De quem põe o desejo onde não deve, 
De quem engana alheias innocencias. 

Mas isto tee o amor, que não se escreve 
Senão donde he iUicito e custoso; 
E donde he mais o risco, mais sa atreve. 

Passava o tempo alegre e deleitoso 
' O Troiano pastor, em quanto andava 
Sem ter alto desejo e perigoso. 

Seus furiosos touros coroava, 
E nos álamos altos escrevia 
Teu nome (Enone) quando a ti só amava. 

Os álamos crescião, e crescia 
O amor qu elle te tinha : sem perigo, 
E sem temor, contente te servia. 

Mas deSpois que deixou entrar comsigo 
Illicito desejo e pensamento, 
De sua quietação tão inimigo ; 

 toda a pátria poz em detrimento 
Com mortes de parentes e de irmãos. 
Com crii incêndio, e grande perdimento. 

Nisto fenecem pensamentos vãos: 



ÒO 



Tristes serviços mal galardoados, 
Cuja glória se passa d'entre as mãos. 

Lagrimas e suspiros arrancados 
D'alma, todos se pagão com enganos : 
E oxalá forao muitos enganados! 

Andão com seu tormento tão ufanos, 
Que. gastão na doçura d'hum cuidado 
Âpoz huma esperança muitos anos. 

E tal ha tão perdido namorado, 
Tão contente co'o pouco, que daria 
Por hum só volver d'olhos todo o gado. 

Em todo povoado e companhia. 
Sendo ausentes de si, se vem presentes 
Com quem lhes pinta sempre a phantasia. . 

Co'hum certo não sei que andão contentes, 
E logo hum nada os toma, ao contráriQ, 
De todo ser humano diíferentes. 

Oh tyrannico- Amor, oh caso vario, 
Que obrigas a hum querer que sempre seja 
De si contínuo e áspero adversário ! 

E qu'outrhora nenhuma alegre esteja. 
Senão quando do seu despojo amado 
Sua inimiga estar triumphando veja. 

Quero fallar com este, qu'enredado 
Nesta cegueira está sem nenhum tento. 
Acorda ja, pastor, desacordado. 



ALMKNO 



Oh porque me tiraste hum pensamento. 
Que agora estava aos olhos debuxando, 
De quem aos meus foi doce mantimento? 

Toio 111 , :{ 



r>4 



AGBARIO 

I 



I 

Nesta imaginação estás gastando 
O tempo e vida, Almeno? Perda grande I 
Não vés quão mal os dias vás passando? 



ALMENO 

Formosos olhos, ande a gente e ande; 
Que nunca vos ireis dest alma minha, 
Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande. 

AGRÁRIO 

Quem poderá cuidar que tão asinha 
Se perca o curso assi do siso humano. 
Que corre por direita e justa linha? 

Que sejas tão perdido por teu dano, 
Almeno meu, não he por certo aviso; 
He só doudice grande, grande engano. 

« 

ALMENO 

Ó Agrário meu, que vendo o doce riso, 
E o rosto tão formoso, como esquivo, 
O menos que perdi foi todo o siso. * 

E não entendo, desque sou captivo, 
Outra cousa de mi, senão que mouro: 
Nem isto entendo bem, pois inda vivo. 

Á sombra deste umbroso e verde louro 
Passo a vida, ora em lagrimas cansadas, 
Ora em louvores dos cabellos d ouro. 

Se perguntares porque são choradas. 
Ou porque tanta pena me consume, 
Revolvendo memorias magoadas; 

Desque perdi da vida o claro lume. 



oo 



E perdi a esperança e causa delia, . 
Não choro por razão, mas por costume. 

Jamais pude cp'o fado ter cautelia; 
Nem houve nunca em mi contentamento. 
Que não fosse trocado em dura estrella. 

Que bem livre vivia, e bem isento, 
Sem qu'ao jugo me visse submettido 
De nenhum amoroso pensamento! 

Lembra-me, amigo Agrário, que o sentido 
Tão fora d'amor tinha, que me ria 
De quem por elle via andar perdido. 

De várias cores sempre me vestia; 
De boninas a fronte coroava; 
Nenhum pastor cantando me vencia. • 

 barba então nas faces me apontava; 
Na luta, na carreira, em qualquer manha, 
Sempre a palma entre todos alcançava. 

Da minha idade tenra, em tudo estranlia, 
Vendo (como acontece) affeiçoadas 
Muitas Nymphas do rio e da montanha; 

Com palavras mimosas e forjadas, 
De solta liberdade e livre peito, 
As trazia contentes e enganadas^ ' 

Mas não querendo Amor, que deste geito 
Dos corações andasse triumphando. 
Em quem elle criou tão puro affeito; 

Pouco a pouco me foi de mi levando 
Dissímuladamente ás mãos de quem 
Toda esta injúria agora está vingando. 

AGRÁRIO 

Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem 
O princípio e o fim; que Nemoroso 



56 



(Contado tudo isso, e mais, me tem. 

Mas (quero-te dizer) se este enganoso 
Amor he tão usado a desconcertos, 
Que nunca amando fez pastor ditoso; 

Ja que nelle estes casos são Ião certos, 
Porqu'os estranhas tanto, que de mágoa 
Te chorão valles, montes e desertos? 

Vejo-te estar gastando em viva fragoa, 
E juntamente em lagrimas; vencendo 
A grã Siciha era fogo; o Nilo em ágoa. . 

Vejo que as tuas cabras, não querendo 
Gostar as verdes hervas, se emmagrecem, 
As tetas aos cabritos encolhendo. 

Os campos, que co'o tempo reverdecem, 
Òs olhos alegrando descontentes, 
Em te vendo, parece, se entristecem. 

De todos teus amigos e parentes. 
Que lá da serra vem por consolar-te, 
Sentindo na alma a pena, que tu sentes, 

Se querem de teus males apartar-te. 
Deixando a choça e gado vás fugindo. 
Como cer\o ferido, a outra parte. 

Não vês que Amor, as vidas consumindo. 
Vive só de vontades enlevadas 
No falso parecer d'hum gesto lindo? 

Nem as hervas das aguas desejadas 
Se farlão; nem de flores as abelhas; 
Nem este Amor de lagrimas cansadas. 

Quantas vezes, perdido entr'as ovelhas, 
Chorou Phebo de Daphne as esquivanças. 
Regando as flores brancas e vermelhas? 
• Quantas vezes as ásperas mudanças 
O namorado Gallo tee chorado 



57 



De quem o linha envolto em esperan^^as? 

Estava o triste amante recostado, 
Chorando ao pé d'hum freixo o triste caso, 
. Que o falso Amor lhe tinha destinado. * 

Por elle o sacro Pindo e o grão Parnaso, 
Na fonte de Aganippe destillando, * 
Se fazião de lagrimas hum vaso. 

O intonso Apollo o vinha alli culpando, 
 sobeja tristeza perigosa 
Com ásperas palavras reprovando. 

Gallo, porqu'endoudeces? que a formosa 
Nympha, que tanto amaste, descobrindo 
Por falsa a fé, que dava, e mentirosa; 

Pór as Alpinas neves vai seguindo 
Outro bem, outro amor, outro desejo; 
Como inimiga, emfim, de ti fugindo. 

Mas o misero amante, que o sobejo 
Mal empregado amor lhe defendia 
Ter de tamanha fé vergonha ou pejo; 

Da falsifica Nympha não sentia 
Senão que o frio do gelado Rheno 
Os delicados pés lhe offenderia. 

Ora se tu vês claro, amigo Almeno, 
Que d' Amor os desastres são de sorte. 
Que para matar basta o mais pequeno. 

Porque não pões hum freio a mal tão forte, 
Qu'em estado te. pôe, que sendo vivo, 
Ja não se entende em ti vida nem morte? 

ALMENO 

Agrário; se do gesto fugitivo. 
Por caso de fortuna desastrado, 
A1gum'hora deixar de ser captivo: 



á8 



Ou sendo para as Ursas degradado, 
Adonde Boreas tee o Oceano 
Co'os frios Hyperboreos congelado; 

Ou doilde o filho de Climene insano, 
Mudande a côr das gentes tolalmenie, 
As terras apartou do trato humano; 

Ou se ja por qil&lquer outro accidenie 
Deixar este cuidado tão ditoso, 
Por quem sou de ser triste tão contente ; 

Este rio, que passa deleitoso, 
Tornando para traz, irâ negando 
A natureza o curso pressuroso. 

As cabras por o mar imo buscando 
Seu pasto ; e andar-se-hão por a espessura 
Das hervas os delfins apascentando. 

Ora se tu vés, n alma quão segura 
Deste aníior tenho a fé, para qu'in$istes 
Nesse conselho e prática tão dura? • 

Se de tua porfia não desistes, 
Vae repastar teu gado a outra parte; 
Qu'he dura a companhia para os tristes. 

Huma só cousa quero encomendar-te, 
Para repouso algum de meu engano. 
Antes que o tempo, emfim, de mi te aparte: 

Que s'esta fera, qu'anda em traje humano. 
Por a montanha vires ir vagando, 
De meu despojo rica e de meu dano, 

Com os vivos espritos inflammando 
O ar, o monte e a serra, que comçigo 
Continuamente leva namorando ; 

Se queres contentar-me, como amigo. 
Passando, lhe dirás: Gentil pastora, 
Não ha no mundo vício sem castigo. 



59 

Tornada em puro inarniore não fora 
A fera Anaxarete, se amoroso 
Mostrara o rosto angélico aigmniiora. 

Foi bem justo o castigo rigoroso: 
Porém' quem te ama (Nympha) nãí) queria 
Nódoa tão feia em gesto tão formo^. 

AGRÁRIO 

Tudo farei, Almeno, e mai& faria 
Por algum dia ver-te descansado, 
Se s'acabão trabalhos algum dia. • 

Mas bem vês como Phebo ja empinado 
Me manda que da calma iniqua e crua, 
Recolha em alguqpi valle o manso gado. 

Tu nessa phantasia falsa e nua, 
Para engano maior de teu perigo. 
Não queres companhia mais que a sua. 

Vou-me d'aqui, e fique Deos eomtigo; 
E ficarás melhor acompanhado. 

ALMENO 

EUe eomtigo vá, como comigo 
JMe fica acompanhando o meu cuidado. 

EGLOGA III 

INTERLOCUTORES 

ALMENO E BELISA 

Passado ja algum tempo que os amores 
D'Almeno, por seu mal, erão passados, 
Porque nunca Amor cumpre o que promette; 
Entr'huns verdes ulmeiros apartado. 



40 



Regando por o campo as brancas flores. 

Em lagrimas cansadas se derrete: 

Quando a linda pastora, que compete 

Co'o monte em aspereza, 

Co o prado em gentileza, 

Por quem o pastor triste endoudecia. 

Por a praia do Tejo discorria 

A lavar a beatilha e o trançado: 

O sol ja consentia 

Que sahisse da sombra o manso gado. 

Ja acordado daquelle pensamento 

Que tâo desacordado sempre o 4eve, 

Vio por acerto o bem, que incerto tinha. 

É porque donde amor a mais se atreve, 

Alli mais eniraquece o entendimento, 

Não lhe soube dizer o que convinha. 

Como homem que á aprazada briga vinha, 

A quem de fora engana 

A confiança humana, 

E despois, vendo o rosto a quem resiste. 

Treme,, e teme o perigo 6 não insiste ; 

Ja se arrepende, a audácia lhe fallece: 

Dest'arte o pastor triste 

Ousa, receia, esforça e enfraquece. 

E lendo assi ja attonilo o sentido, 
Cometteo com furor desatinado, 
E tirou da fraqueza coração. 
Comettimento foi desesperado: 
Qu'huma só salvação tee hum perdido. 
Perder toda a esperança á salvação. 
As mágoas, que passarão, se dirão: 



4\ 



Mas as qu'ella dizia, 

liembrando-lhe que via 

As aguas murmurar do Tejo amenas, 

Remetto a vós, ó Tágides Camenas; 

Queu, de mágoa, não posso dizer tanto; 

Porqu'em tamanhas penas 

Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto. 

BEUSA 

Que alegre campo e praia deleitosa! 
Quão saudosa faz esta espessura 
A formosura angélica e serena 
Da tarde amena t Xjuão saudosamente 
A sesta ardente abranda, suspirando, 
De quando em quando o vento alegre e frio! 
No fundo rio os mudos peixes saltão ; 
Os ceos se esmaltão todos d'ouro e verde, 
E Phebo perde a força da quentura. 
Por a espessura levão, passeando, 
O gado brando ao som das çanfoninas, 
Pizando as finas e formosas flores. 
Os Guardadores, que cantando o gesto 
Formoso e honesto das pastoras qu'amão, 
. Por o ar derramão mil suspiros vãos. 
Hum louva as mãos, louva outro os raios bellos. 
Outro os cabellos d'ouro, em som suave: 
E a amorosa ave leva o contraponto. 
Mas oh que conto e saudosa historia 
Que na memoria aqui se m'off rece ! 
Se não m'esquece, ja deste lugar 
Ouvi soar os valles algum dia, 
E respondia o eco o nome em vão 
N'hum coração, Belim relumhando. 



42 



Estou cuidando como o tempo passa, 
E quão escaca he toda alegre vida; 
E quão comprida, quando he triste e dura. 
Nesta 'spessura longo tempo amei : 
Se m'enganei com quem do peito amava, 
Nãe me pezava de ser enganada. 
Fui salteada, emfim, d'hum pensamento. 
Que hum movimento tinha casto e são. 
Conversação foi fonte dest'engano 
Que, por meu dano, entrou com falsa €ôr. 
Porque ò amor na Nympha, que he segura, 
Entra eni figura de vontade honesta. 
Mas que me presta agora dar desculpa? 
Pois se houve culpa, foi do firme amor 
Só, n'hum pastor, que nunca sol nem lua. 
Ou serra algua, desde o Ibero ao Indo, 
Outro tão lindo virão, tão manhoso.- 
Nesfamoroso estado, e fé que linha 
Nesfalma minha tão secretamente, 
Vivi contente, amando e encobrindo. 
EUé fingindo mentirosos danos, 
Que são enganos que não cuslão nada; 
Tendo alcançada ja no entendimento 
A f é e intento meu só nelle posto; 
. (Que logo o rosto mostra os corações, 
E as affeições co os olhos se praticão 
Que mais publicão muito, que palavras) 
Com suas cabras sempre á parte vinha, 
Ond'eu mantinha os olhos do desejo. 
Tu, manso Tejo, e tu, florido prado. 
Do mais passado, emfim, que aqui não digo, 
Sereis, m'obrigo, testimunho certo; 
Pois descoberto vos foi tudo e claro. 



45 



Oh tempo avaro! oh sorte nujnca igual! 
Quão grande mal quereis á humana geote ! 
Porque hum contente estado assi trocastes? 
Vós me tirastes do meu peito isento 
O pensamento honesto e repousado, 
Ja dedicado ao coro de Diana; 
Vós n'huma ufana vida me puzesles, 
E alli quizestes que gozasse o dano 
Do doce engano, que se chama amor, 
Com cujo error' passava o tempo ledo : 
E vós tão cedo me tirais hum bem, 
Que Amor ja tem impresso n'alma minha, 
Despois qu'a tinha envoha em esperanças ; 
E com lembranças tristes me deixais? 
Mal me pagais a fé que sempre tive. 
Mas assi vive quem sem dita nace. 
Mas ja a face alegre o sol esconde; 
E não responde alguém a tantas mágoas, 
Senão as aguas, que dos olhos sahem. 
As sombras cabem ; vão-se as alimárias, 
Fartas das várias hervas, seu caminho; 
Buscão seu ninho os pássaros sem dono: 
Ja por o sono esquecem o comer. 
Quero esquecer também tão doce historia, 
Pois he memoria que traz mór cuidado. 
Isto he passado; e se me deo paixão, 
Os dias vão gastando o mal e o bem ; 
E não convém querer-me magoar 
Do qu'emendar não posso ja com mágoas. 
Nas claras aguas deste rio brando, 
Que vão regando o valle matizado. 
Este trançado lavar quero emfim ; 
Que ja de mim m'esqueço co'a lembrança 



Desta mudança, qu'e$qQecer pão sei: 
Bem qu*eu verei mudar a opinião, 
Pois homens são: a quem o esquecimento 
Depressa faz mudar o pensamento. 

ALMENO 

Se a vista não m'engana a phantasía, 
Gomo já m'enganou mil vezes, quando 
Minha ventura enganos me soffria: 

Parece-me, que vejo estar lavando 
Huma Nympha .algum véo no claro Tejo, 
Que se m'está Belisa figurando. 

Não pôde ser verdade isto que vejo: 
Que facilmente aos olhos se figura 
Aquillo que se pinta no desejo. 

Oh acontecimento, qu'a ventura 
Me dá para mór damno ! Bsla he, certo ; 
Que não he d'outrem ianta formosura. 

Se poderei fallar-lhe de mais perto? 
Mas fugir-me-ha. Não pôde ser; qu'o rio 
Para acolá não têe caminho aberto. 

Oh lemor grande 1 oh grande desvario, 
Qu'a voz m'impede, e a lingua negligente 
Assi m'está tornando, e o peito friol 

De quanto me sobeja, estando ausente, 
Qúe para lhe .fallar sempre imagino. 
Tudo mè faUa quando estou presente. 

Oh aspecto suave e peregrino! 
Pois como? tão asinha assi s'esquecc 
Huma fé verdadeira, hum amor fino? 



45 



BELISA 

^h altas semídeast pois padece 
Em vosso rio a honra delicada 
De quem tamanha força não merece: 

Ou seja por vós, Nymphas, preservada; 
Ou em arvore alguma, ou pedra dura 
Me deixai velozmente transformada. 

ALMENO 

Ah Nympha ! não te mudes a figura : 
Nem vós, deosas, queirais qu eu seja parte 
De se mudar tão rara formosura. 

Porqu'a quem falta a voz pára fallar-te, 
E a quem falta o despejo da ousadia, 
Também faltarão mãos para tocar4e. 

BELISA 

Que me queres, Aimeno, ou que porfia 
Foi a tua tão áspera comigo? 
Minha vontade não to merecia. 

Se com amor o fazes, eu te digo, 
Qu'amor, que tanto mal me faz em tudo, 
Não pôde ser amor, mas inimigo. 

Não es tu de saber tão falto e rudo, 
Que tão sem siso amasses, como amasie. 



ALMENO 



Onde viste tu, Nympha, amor sisudo? 

Porque ja não te lembra que folgaste 
Com meus tormentos tristes, e algumlioia 
Com teus formosos olhos ja m'olhaste? 
' Como t'esquece ja (gentil pastora) 



Que folgavas de ler nos freixos verdes 
O que de ti 'screvia cada Jiora? 

Porqu a memoria tão â pressa perdes 
Do amor que me mostravas, qu eu não digo, 
Se o vós, ó altos montes, não disserdes? 

E como te não lembras do perigo, 
A que só por. m'ouvir l'aventuravas, 
Buscando horas de sesta, horas d'abrigo? 

Co'a maçãa da discórdia me tiravas ; 
Qu'a Vénus, qu'a ganhou por formosura, 
Tu, como mais formosa, lha ganhavas. 

E escondendo-te logo na 'spessura, 
Hias fugindo, como vergonhosa 
Da namorada e doce travessura. 

Não era esta a maçãa d'ouro formosa 
Com qu'encoberta assi d'astucia tanta 
Cydippe ^'enganou por cubiçosa, 

Nem a que o curso teve d'Atalanta; 
Mas era aquella, com que Galathea 
O pastor captivou, como elle canta. 

Se más tentações puzeiub nodoá fèa < 
Em nosso firme amor, d'inveja pura, 
Porque pagarei eu a culpa alhêa? 

Quem desta fé, quem dest^amor não cura, 
Nunca teve sujeito o coração; 
Que o firme amor com a alma eterna dura. 



BEUSA. 



Mal conheces, Almeno, huma aíTeição; 
Que s'eu desse amor lenho esquecimento, 
Meus olhos magoados to dirão. 

Mas teu sobejo e livre atrevimento, 



47 



E leu pouco segredo, descuidando, 
Foi causa deste longo apartamento. 

Vês as Nymphas do Tejo, que mudando 
Me vão ja pouco a pouco, o claro gesto 
N'outra mais dura forma traspassando. 

Hum só segi-edo nleu te manifesto: 
Que te quiz muito em quanto Deus queria; 
Mas de pura affeição, d'amor honesto. 

E pois de teus descuidos e ousadia 
Nasceo tão dura e áspera mudança, 
Folgo; que muitas- vezes to dizia. 

Fica-le embora, e perde a confiança 
De ver-me nunca mais, como ja viste :^ 
Que assi se desengana huma esperança. 



ALMENO 



Oh duro apartamento! oh vida triste! 
Oh nunca acontecida desventura! 
Pois como, Nympha? assi te despediste? 

Assi s'ha d*ir tornando (ah sorte dura!) 
Nesta sylvestre e 'áspera rudeza 
Tão branda e excellente formosura? 

Tua nunca entendida gentileza, 
E teus membros assi se transformarão, 
Negando-se-Ihe a própria natureza? 

Desfarte os teus cabellos se tornarão 
(Deixando ja seu preço ao ouro fino) 
Em folhas, que a côr têe do que negarão? 

S'este consentimento foi divino, 
Gonsinta-me também que perca a vida, 
Antes que a mais m'óbrigue o desatino. 

Pois se aiortuna sempre embravecida 



I 

t 



48 



Em meu tormenlo tanto se desmede, 
Não viva mais hum'alma tâo perdida. 

E vós, feras do monte, pois vos pede 
Minha pena o remédio derradeiro, 
Fartae ja de meu sangue vossa sede. 

E vós, paslores rudos deste outeiro. 
Porque a todos, emfim, se manifeste 
Que cousa he amor puro e verdadeiro; 

Á sombra deste fúnebre cypreste 
Me fareis hum sepulchro sem arrôo 
De boninas que o prado ameno veste. 

As desusadas fliusicas de Orphèo 
Aqui me cantareis; e desta sorte 
Não haverei inveja ao mausolèo. 

E porqu'a minha cinza se conforte, 
Ein vossos metros doces e suaves 
As exéquias direis de minha morte. ' 

Alli responderão as altas aves. 
Não módulas no canto nem lascivas, 
Mas de dor ora roucas, ora graves. 

Não correrão as aguas fugitivas. 
Alegres por .aqui, mas saudosas, 
Que pareça que vem dos olhos vivas. 

Nascerão por as praias deleitosas 
Os ásperos abrolhos em lugar 
Dos rôxõs lirios, das pudicas rosas. 

Não trarão as ovelhas a pastar 
De redor do sepulchro os guardadores; 
Pois nada comerião de pezar. 

Virão os Faunos, guarda dos pastores, 
Se morri por amores, perguntando; 
Responderão os ecos: Por amores. 

Dos que por aqui forem caminhando, , 



49 



Hum epitaphio triste se lerá, 
Qu'esteja minha morte declarando. 

E no tronco de huma arvore estará, 
N'huma rude cortiça pendurado, 
Escripto co'huma fouce, e assi dirá: 

Almeno fui, pastor de manso gado. 
Em quanto o consentio minha ventura, 
De Nymphas e pastores celebrado. 

Se algum, dia, por caso, na espessura 
Se perder o amor e a affeição, 
Tirem a pedra desta sepultura, 

E em figura de cinza os acharão. 

EGLOGA IV 

INTERLOCUTORES . , 

FRONDOSO E DURUNO 

Cantando por hum valle docemente 
Descião dous pastores, quando Phebo 
No reino Neptunino se escondia : 
De idade cada qual era mancebo ; 
Mas velho no cuidado, e descontente 
Do. que lh'elle causava parecia. 
O que cada Jium dizia 
Lamentando seu mal, seu duro fado, 
Não sou eu tão ousado, 
Que o pretenda cantar sem vossa ajuda : 
Porque se a minha ruda 
Frauta deste favor vosso for dina. 
Posso escusar a fonte Gaballina. 

Em vós tenho. Helicon, lenho Pegáso; 
Em vós tenho Calliopc e Thalia ; 

TOMO III 



50 



E as outras sele irmãas, co'o fero Marle ; 
£m vós deixou Minerva sua valia; 
Em vós estão os sonhos do Parnaso; 
Das Pierides em vós s'encerra a arte. 
Com qualquer pouca parte, 
Senhora, que me deis d'ajuda vossa 
Podeis fazer, qu'eu possa 
Escurecer ao sol resplandecente: 
Podeis fazer, que a gente . 
Em mi do grão poder vosso s'espante; 
E que vossos louvores sempre cante. 

Podeis fazer que cresça d'hora em hoia 

O home Lusitano, e faça inveja 

A Esmirna, que d' Homero s'engrandeee. 

Podeis fazer lambem que o mundo veja 

Soar na ruda fraula o que a sonora 

Githara Mantuanà só merece. 

Ja agora me parece, 

Que podem começar os meus pastores 

A cantar seus amores. 

•o 

Porqu'inda que presentes nao estejâo 
As qu'elles ver desejão, 
Mudança de lugar, menos d'eslado. 
Não muda hum coração do seu cuidado. 

Ja deixava dos montes a altura, 
E nas salgadas ondas s'escondia 
O sol, quando Frondoso e Duriano, 
Ao longo d'hum ribeiro, que corria 
Por a mais fresca parte da verdura. 
Claro, suave e manso, todo o ano. 
Lamentando seu dano. 



5Í 



Vinhão ja recolhendo o manso gado. 

Hum estava callado, 

Em quanto hum pouco o outro se queixava; 

Apoz elle tornava 

A dizer de seu mal o que sentia; 

E em quanto este fallava, aquelle ouvia. 

Vinhão-se assi queixando aos penedos, 

Aos sylvestres montes e á aspereza, 

Que quasi de sgus males se doiâo. 

Alli as pedras perdião a dureza; 

Alli correntes rios estar quedos, 

Promptos ás suas queixas parecião. 

Somente as que podião 

Estes males curar, pois os causavão, 

O ouvido lhes n^avão, 

Por perderem de todo a esperança: 

Mas elles, que mudança 

D'amor com tantos damnos não faziâo. 

Com ellas fallando inda, assi dizião : 



FRONDOSO 



Isto he ó que aquella verdadeira 

Fé, com que t'amei sempre, merecia, 

Sem nunca te deixar hum só momento? 

Como (cruel Belisa) l'esquecia 

Hum mal, cuja esperança derradeira 

Em ti só tinha posto o seu assento? 

Não. vias meu tormento? 

Não vias tu a fé, com que tramava? 

Porque não t'abrandava 

Est'amor, que me tu tão mal pagaste? 



52 





Mas pois jã me deixaste 

Co'a esperança de ti toda perdida, 

Perca, quem te perdeo, também a vida. 

DURIÂNO 

Se os males que por ti tenho soffi-ido 

(Oh Silvana, em meus males tão constante 1) 

Quizesses que algum'hora te dissera, 

Inda que, qual duríssimo diamante. 

Fora o teu cruel peito endurecido, 

Creio que a piedade te movera. 

Ja agora em branda cera 

Os montes são tornados e os penedos; 

E os rios, qu estão quedos. 

Sentirão meus suspiros, minhas queixas. 

Tu só, cruel, me deixas, 

Qu'es mais, que montes e penedos, dura, 

E fugitiva mais qu'a fonte pura. 

FRONDOSO 

Ond'está aquella falia, que sohia 

Só com seu doce tom, que me chegava, 

Avivar-me os espíritos cansados? 

Onde está o olhar brando, que cegava 

O sol resplandecente ao meio dia? 

Ond'estão os cabellos delicados, 

Que ao vento espalhados 

Escurecião o ouro, a mi matavão; 

E a quantos os olhavão. 

Causa vão também novos accidentes? 

Porque, cruel, consentes 

Qu'outro goze da gloria a mi. de vida? 

Perca, quem to perdeo, também a vida. 



53 



DURIANO 

I 

Nenhum bem vejo, que a meu mal espere, 

Senão fosse esperar que morle dura 

Me venha emfim a dar a saudade. 

Vejo faltar-me a tua formosura; 

A vontade me diz que desespere, 

Gòntradiz-me a razão esta vontade. 

Diz qu'em huma beldade, 

Em quem mostrou o cabo a natureza. 

Não ha tanta crueza, 

Qu'hum tão constante amor desprezar (yieira, 

E fé tão verdadeira; 

Mas tu, que de razão jamais curaste, 

Porqu era dar-me a vida, ma tiraste. 

FRONDOSO 

A quem, Belísa ingrata, t'entregaste? 

A quem deste, cruel, a formosura, 

Qu'a meu tormento só, só se devia? 

Porqu^hiima fé deixaste, firme e pura? 

Porque tão sem respeito me trocaste. 

Por quem só nem olhar-te merecia? 

O bem que t'eu queria, * 

E que não perderei senão por morte. 

Não he de maior sorte. 

Que quanto a cega gente estima e preza? 

Só a tua crueza 

Foi nisto contra mi endurecida. 

Perca, quem te perdeo, também a vida. 

DURIANO 

Levaste-me o meu bem n'hum só momento; 
Levaste-me com elle juntamente 



54 



De cobrá-lo jamais a confiança : 

Deixaste-me em lugar delle somente 

Huma contínua dor, hum grão tormento, 

Hum mal, de que não pôde haver mudança. 

Tu, qu'eras a esperança 

Dos males que, cruel, tu me causaste, 

De todo te trocaste, 

Com Amor conjurada em minha morte. 

Porém se a minha corte 

Consente que por ti seja causada, 

Morte nãp foi mais bem-aventurada. 

FRONDOSO 

Não nasceste d'alguma pedra dura; 

Não te gerou alguma Tigre Hyrcana ; 

Não te criaste, não, entre a rudeza. 

A quem, cruel, sahiste deshumana? 

No Ceo formada foi lai formosura. 

Onde a mesma brandura he natureza. 

Pois, logo, essa dureza 

Donde teve princípio, ou a tomaste? 

Porque, dura, enfeitaste 

De hum verdadeiro amor, que tu bem vias, 

A fé, que conhecias. 

Por outra de ti nunca conhecida? 

Perca, quem te perdeo, também a vida. 

DURIANO 

Vai-se co'o seu pastor o manso gado. 
Porque d'amor entende aquella parte, 
Qu'a natureza irracional Ihensina. 
O rústico leão sem algum'ai1e. 
Do natural instincto só ensinado. 



55 



Aonde sente amor, logo se inclina. 

E tu, que de divina 

Não tens menos que Vénus e Cupido, 

Porque sequer coo ouvido 

Hum amor verdadeiro não soccorres? 

Ah ! porque te não corres 

De que o leão te vença em piedade, , 

Senão te vence Vénus na beldade? 

FRONDOSO 

A mi não me faltava o que se preza 
Entre os celestes deoses, que formarão 
A tua mais que humana formosura: 
Em mi os voluntários ceos faltarão ; 
Em mi se perverteo a natureza 
D'huma cruel formosa creatura. 
Mas, pois, Belisa dura, 
Qjie do mais alto Geo a nós vieste, 
E ein teu peito celeste 
Hum tal contrário pôde aposenlar-se, 
Não he contrário achar-se 
Tamanha fé, tão mal agradecida. 
Perca, quem te perdeo, tachem a vida. 

DURIÂNO 

Por ti a noite escura me contenta; 
Por ti o claro dia m'aborrece; 
Abrolhos me parecem frescas flores; 
A doce Philomela m'entristece : 
Todo contentamento m'atbrmenta 
Com a contemplação de teus amores; 
As festas dos pastores, 
Que podem alegrar toda a tristeza. 



56 



Em mi lua crueza 

Faz que p mal cada hora vá dobrando. 

Oh cruel ! até quando 

Ha de durar em li tal pensamento, 

E a vida em mi, que soífre tal tormento? 

FRONDOSO 

Fugiste d'hum amor tão conhecido. 
Fugiste d'huma fé tão clara e firme; 
E seguiste a quem nunca conheceste. 
Não por fugir d'amor, mas por fugir-me; 
Pois bem vês, quanto eu tinha merecido 
Esse amor que tu a outro concedeste. 
A mi não me fizeste 
Alguma semrazão; que bem conheço 
Que tanto não mereço : 
Fizeste-a áquelle bem firme é sincero 
• Que sabes que te quero, 
Em lhe tirar a gloria merecida. 
Perca, quem te perdeo, também a vida. 

DimiANO 

» 

Cresce cad'hora em mi mais o cuidado, 

E vejo qu'em ti cresce juntamente' 

Cad'hora mais de mi o esquecimento. . 

Oh Silvana cruel 1 porque consente 

Esse peito formoso e delicado 

Que s'esqueça hum tão áspero tormento? 

Tal aborrecimento 

Merece hum capital teu inimigo: 

Não eu, que só comligo 

Estou contente, e nada mais desejo, 

Se algum'hora te vejo. 



57 



Tu és hum só meu bem, huma só gloria, 

Que nunca se m'aparta da memoria. 

■ 

FRONDOSO 

Olhos que virão lua formosura; 
Vida, que só de ver-le se sostinha; 
Vontade, qu'em ti 'stava transformada ; 
Almaj qu'ess'alma tua em si só tinha, 
Tão unida comsigo, quanto a pura 
Alma co'o débil corpo está liada; 
E que agora apartada 
^ Te vê de si com tal apartamento. 
Qual será seu tormento? 
Qual será aquelle mal que tee presente? 
Maior he que o que sente 
O triste corpo em ultima partida. 
Perca, quem te perdeo, também a vida. ^ 

DURIANO 

Regendo em outro tempo o manso gado. 

Tangendo a minha frauta nestes vales, 

Passava a doce vida alegremente: 

Não sentia o tormento destes males; 

Menos sentia o mal deste cuidado; 

Que tudo então em mi era contente. 

Agora não somente 

Desta vida suave m'apartaste. 

Mas outra me deixaste. 

Que ao duro mal que sinto cá no peito, 

Me tee ja tão affeito. 

Que sinto ja por gloria a minha- pena. 

Por natureza o mal, que me condena. 



58 ' 

FRONDOSO 

Juntamente viver compridos anos, 

Os fados le concedão, que quizerio 

Ajuntar-te com tal contentamento. 

Pois os bens para ti todos nascerão, 

Nascerão para mi todos os danos, 

Logra tu tua gloria, eu meu tormento. 

Nenhum apartamento, 

Belisa, me fará deixar d^amar-te; 

Porqu'em nenhuma parte 

Poderás nunca estar sem mi hum'hora. 

Consente pois agora, 

Qu'em pago desta, fé tão conhecida, 

Perca, quem te perdeo, também a vida. 

' DURUNO 

Veja-t'eu, crua, amar quem te desame. 

Porque saibas que cousa he ser amada 

De quem tanto aborreces e desprezas. 

Veja-Veu ser ainda desprezada 

De quem tu mais desejas que te ame. 

Porque sintas em ti lyas cruezas, 

Sintas tuas durezas, 

E quanto pôde o seu cruel effeito 

N'hum coração sujeito. 

Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora, 

Espero qu'algum'hora 

Faça o teu próprio mal de mi lembrar-te, 

Ja que não pôde o meu nunca abrandar-te. 

FRONDOSO 

Mil annos de tormento me parece 
Gad'hora que sem ti, sem esperança 



50 



Vivo de poder mais tornar a ver-le. 

A vida só me dá tua lembrança; 

A vida sobre tudo m'entristece; 

A vida antes perdera, que perder-te. 

Mas eu se, por querer-te 

Hum bem qu'em ti só tee seu firme assento. 

Padeço tal tormento, 

Qu'esperará de ti quem te desama, 

Ou quem ao menos te ama 

Com algum fal&o amor, ou fé fingida? 

Perca, quem te perdeo, também a vida. 

DURUNO 

Então, cruel, verás se te merece 

Com tamanho desprezo ser tratada 

Hum'alma, que d'amar-te só se preza. 

Mas como poderás ser desprezada, 

Se o menos qu'em ti fora se parece, 

Pode abrandar dos montes á aspereza? 

Porque se a natureza 

Em ti o remate poz da formosura, 

Qual será a pedra dura, 

Qu'a teu valor resista brandamente? 

Que fará a fraca gente. 

Se ao humano parecer não se defende, 

E, a mesma Vénus deosa ao teu se rende? 

FRONDOSO 

E pois fé verdadeira, amor perfeito, 

Tormento desigual e vida triste, 

Junta com hum contino soffrimento, 

E hum mal, em que o mal todo, emtim, consiste. 

Não poderão mover teu duro peito 



60 



A mostrares sequer contentamento 

De ver o meu tormento ; 

Antes tudo, soberba, desprezaste, 

E a outrem ^entregaste 

Por nada me ficar em qu'esperasse, 

Senão quando acabasse 

A vida, a pezar meu, ja tão comprida. 

Perca, quem te perdeo, também a vida. 

DURIANO 

Longo curso de tempo, e apartado 

Lugar a hum coração, que vive entregue. 

Não podem apartar de seu intento. 

Porque foges, cruel, a quem te segue? 

Não vês que teu fugir he escusado, 

Pois sem mim não estás hum só momento? 

Nenhum apartamento, 

Inda que a alma do coi*po se m'aparte. 

Poderá ja ausenlar-te 

Desfalma triste, que continuamente 

Em si te têe presentQ. 

Torna, cruel; não fujas a quem t'ama: 

YeiQ a dar vida, ou morte a quem te chama. 

A noite escura, triste e tenebrosa, 
Que ja tinha estendido o negro manlo, 
D'escuridade a terra toda enchendo, 
Fez pôr a estes pastores fim ao canto, 
Que ao longo da ribeira deleitosa 
Vinhão seu manso gado recolhendo. 
Se aquillo, qu'eu pretendo 
Deste trabalho haver, que he todo vosso. 



61 



Senhora, alcançar posso; 

Não será muito haver também a gloria 

E o louro da victoria, 

Que Virgílio procura e haver pretende, 

Pois o mesmo Virgilio a vós se rende. 



EGLOGA V 



FAIXA UM SÓ PASTOR 



A quem darei queixumes namorados 
Do meu pastor queixoso e namorado? 
 branda voz, suspiros magoados, 
A causa porque 'n'alma he magoado? 
De quem serão geus males consolados? 
Quem lhe fará devido gasalhado? 
Só vós. Senhor famoso e excellente. 
Especial em graças entr'a gente. 

Por partes mil lançando a phantasia, 
Busquei na terra estrella, que guiasse 
Meu rudo verso, em cuja co|ppanhia 
A santa piedade sempre andasse 
Luzente e clara, como a luz do dia, 
Que o rudo engenho meu m^allumiasse; 
E em vossas perfiúções, grão Senhor, vejo 
Ainda além cumprido o meu desejo. 

A vós se dão, a quem junto se ha dado 
Brandura, mansidão, engenho e arte, 
D'hum esprito divino acompanhado. 
Dos sobrehumanos hum em toda parle: 
Em vós as graças todas se hão juntado; 



62. 



De vós em oulras partes se reparte, 
âois claro raio, sois ardente chamma; 
Gloria e louvor do tempo, azas da fama. 

Em quanto eu apparelho hum novo esprilo, 
E voz de cysne tal, que o mundo espante, 
Com que de vós, Senhor, em aho grito 
Louvores mil em toda parte cante ; 
Ouvi o canto agreste em tronco escrilo. 
Entre vaccas e gado petulante': 
Que quando tempo for, em melhor modo 
Ha de m'ouvir por vós o mundo todo. 

As vâas quereUas, brandas e amorosas, 
Sejão de vóis tratadas brandamente ; 
Verdades d'alma pouco venturosas, 
Sabidas com suspiro vivo e ardente: 
Em vossas mãos s'entregão valerosas, 
Porqu'ao futuro vivão entr'a gente. 
Chorando sempre a anligua crueldade, 
Para mover as almas a piedade. 

Já declinava o sol contra o Oriente, 
E o mais do roxo dia era passado, 
Quando o pastor co'o grave mal que sente, 
Por dar.allívio em parte a seu cuidado. 
Se queixa da pastora docemente, 
Cuidandode ninguém ser escutado. 
Eu que o escutei, n'hun>a aryore escrevia 
As mágoas que cantou ; e assi dizia : 

Ou tu do monte Pindaso és nascida, 
Ou marmor te pario formosa e dura : 



65 



Não pode ser que fosse concebida 
Pureza tal de humana creatura: 

• 

Ou quiçá qu'és em pedra convertida, 
Ou tens da natureza tal ventura; 
Porém não fez em ti boa impressão, 
Só de marmor tomar-te o coração. 

Ja, ja com minha voz rouca e chorosa 
A gente mais austera moveria; 
E com esta corrente lagrimosa 
Os tigres em Hyrcania amansaria. 
Se não fosses cruel, quanto formosa, 
Meu longo suspirar Tabrandaria: 
Mas suspirar por ti, mas bem querer-fe. 
Que fazem senão mais endurecer-te? 

Se deixaras vencer a crueldade 
De lua tão perfeita formosura; 
Hum pouco viras bem minha vontade, 
E viras a fé minha, limpa e pura. 
Por ventura, que houveras ja piedade, 
E tivera eu quiçá melhor ventura: 
Mas nunca achou igual tua belleza, 
Se não se foi em ti tua dureza. , 

Ja hum peito abrandara, que não' sente, 
Este meu grave mal, segundo he forte; 
Se descera do inferno ao Polo ardente, 
A piedade movera a própria morte. 
. Pois se^huma gotta d'agua brandamente 
Toma brando hum penedo, duro e forte, 
Tantas lagrimas minhas não farão 
Hum pequeno sinal n'hum coração? 



Na testa fonte viva tenho d'agua, 
Que por meus olhos tristes se derrama; 
E no peito de f(^o viva fragoa, 
Que tudo em si converte, tudo inflama: 
Amor em de redor, por maior mágoa, 
Voando mais accende a ardente chama. . . 
Se queres ver se ardentes são seus tiros, 
Olha se são ardentes meus suspiros. 

Quando grita e rumor grande se sente, 
Porque fogo se ateia em casa, ou torre, 
De pura compaixão vai toda a gente, 
Agua ao fogo gritando; e cada hum corre. 
Desfarte anda o meu peito em chamma ardente, 
E com a agua dos olhos se soccorre; 
Que quem me abraza, outra agua me defende. 
Porque com esta o fogQ mais se accende. 

Quando vemos que sahe lã no Oriente 
O sol, seu curso antigo começando, 
Formoso, intenso, puro, refulgente, 
O monte, o campo, o mar, tudo alegrando; 
Quando de nós s'esconde no Ponenle, 
E em outras terras sahe, allumiando. 
Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro. 
Chorão por ti meus olhos, e eu suspiro. 

Caminha o dia todo o caminhante, 

E, emfim, lhe chega a noite, em que descança; 

Trabalha na tormenta o navegante, 

Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança; 

Recobra o fructo fértil e abundante 

Da terra o lavrador, se nclla cança: 



65 



Mas eu de meu cuidado e mal Ião forte 
Tormento espero só, só crua morte. 

D'ouvir meu damno as rosas matutinas, 
Condoidas se cerrão, semmurchecem ; 
Com meu suspiro ardente as cores finas 
Perdem o cravo, o lyrio, e nao florecem. 
Go'a roxa aurora as pallidas boninas, 
Em vez de se alegrarem, s'entristecem : 
Deixão seu canto Progne e Philomena; 

Que mais Ihe^ doe, que a sua, a minha pena. 

» 

Responde o monte concavo a meus ais, 
E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido; 
Os indómitos feros animais. 
Sem humano sentir, mostrão sentido: 
Mas em ti minhas dores desiguais 
Nunca movem o peito endurecido: 
Por muito que te chame, não respondes; 
E quanto mais te busco, mais.l'escondes. 

Naquella parte donde costumavas 
Apascentar meus olhos e teu gado ; 
Alli donde mil vezes me mostravas, 
Qu'era o pastor de li mais desejado. 
Vezes mil te busquei, por ver se davas 
Algum breve descanso a meu cuidado. 
Busco-le em vão no valle, em vão no monte, 
Qual o ferido cervo busca a fonte. 

Este lugar de ti desamparado. 
Com cujas sombras frias ja folgaste. 
Agora triste, escuro he ja tornado; 

TOMO ll( 



06 



Que todo o bem comtigo nos levaste. 
Eras tu nosso sol mais desejado; 
Não temos luz, despois que nos deixaste. 
Toma, meu claro sol ; toma, meu l)em : . 
Qual he o Josué que le detém? 

Despois que deste valle l'aparlaste, 
Nâo pasce ja algum gado, com seccura; 
Seccou-se o campo, des que lhe negaste 
Dos teus formosos olhos a luz pura; 
Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste, 
Quando menos, que agora, áspera e dura; 
Nega sem ti a terra, ouvindo gritos, 
Ás cabl*as pasto e leite aos cabritos. 

ê 

Sem ti, doce cruel minha inimiga, 
A clara luz, escura me parece: 
Este ribeiro, quando a dor m'obriga, 
Com meu chorar por li conlino crece. 
Não ha fera, a que a fome não persiga ; 
Algum prado sem li ja não florece: 
Cegos estão meus olhos; nada vem, 
Porque não podem ver seu claro bem. 

O campo, como d'antes, não s'esmaha 

De boninas azues, brancas, vermelhas; 

Falta agua ao pasto, e, sentem d'agua a falta 

As cândidas pacíficas ovelhas: 

Bem conhecem também que o Ceo lhes falta 

As doces e solícitas abelhas: 

Com lagrimas, que manão dos meus olhos, 

A terra nos produz duros abrolhos. 



&T 



Torna pois ja, pastora, ao nosso prado, 
Se reslituir-lhe queres a alegria : 
Alegrarás o valle, o campo, o gado, 
E aquelle espelho teu da fonte fria. 
Torna, toma, meu sol tão desejado, 
Farás a noite escura, claro dia; 
E alegra ja esta vida magoada, 
Em que só tua ausência he Parca irada. 

• 

Vem, como quando o raio transparente 
Deste nosso horizonte, (ju'escondido, 
Deixa hum certo temor á mortal gente, 
Causado de ver o Orbe escurecido; 
E quando torna a vir claro e luzente,- 
Alegra o mundo todo entristecido: 
Que assi he para mi tua luz pura 
Claro sol, como a ausência noite escura. 

4 

Mas tu'squecida ja do bem passado, 
E do primeiro amor, que me mostraste. 
Teu coração de mi tees apartado. 
Não menos que do valle l'apartasle. 
Não te quero eu a li mais qu'a meu gado? 
Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste? 
Onde o meu erro viste, ou desvario, 
Que pôde merecer-le hum tal desvio? 

Bem yês que por Amor se move tudo, 
E que delle não ha quem seja isento; 
O mais simples animal, mais baixo e rudo, 
O de mais levantado pensamento: 
Debaixo d'agua fria o peixe mudo 
Também lá tPe d'ardor seu movimento. 



68 



Pois as aves, que no ar cantando vôão, 
Não menos humas d'outras s'affeiçôão. 

A musica do leve passarinho 
Que sem concerto algum solta e derrama, 
De hum raminho saltando a outro raminho, 
Mostra que por amor suspira e chama. 
Em quanto no secreto amado ninho 
Não acha aquelle, que só busca e ama. 
No canto, a nós alegre, triste chora. 
Porque teme perder a quem namora. 

A. fera, que he mais fera, e o leão. 
Sempre aoha outro leão, sempre outra fera. 
Em quem possa empregar huma affeição, 
Que o conversar no peito seu lhe gera : 
Também sabe sentir sua paixão, 
Também suspira, morre, desespera; 
Acena, salta, brada, fer\^e e geme; 
E não temendo a nada, a Amor só temo. 

O cervo, qu'escondido e emboscado. 
Temendo ao cobiçoso caçador. 
Está na selva, monte, bosque, ou prado, 
Alli donde anda e vive, vive amor. 
De temor e d'amor acompanhado. 
Com justa causa amor tee e temor: 
Temor a quem para feri-lo vinha, 
Amor a quem ja, ja ferido o tinha. 

Pois se a fera insensivel, que não sento, 
Também sente d'Amor a frecha dura, 
Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente. 



69 



Que procede da tua formosura? 
Porqu'escondes a luz do sol á gente, 
Que nesses olhos trazes bella e pura? 
Mais pura, mais suave, mais formosa, 

Que lyrio, que jasmim, que^jravo e rosa. 

» 

Pôde ser, se me visses, que sentiras 
Ver liquidar hum peito em triste pranto ; 
E bem pouco fizeras, se me viras, 
Pois eu só por te ver suspiro tanto : 
A^ mágoas, os suspiros, que m'ouvíras 
Te puderâo mover a grande espanto, 
A dor, a piedade, o sentimento, 
E a mais, que para mais he meu tormento. 

Os pensamentos vãos, que o vento leve ; 
O suspirar em vãotambem ao vento; 
Hum esperar á calma, á chuva, ã neve, 
E nunca poder ver-te hum só momento; 
Tormento he, que somente a ti se deve. 
E se pôde inda haver maior tormento, 
' Quem te vio, e se vê de ti ausente. 
Muito mais passará mais levemente. 

Faz mossa a pedra dura em sifa dureza 
Com a agua que lhe toca brandamente; 
Abranda o ferro forte a fortaleza. 
Se lhe toca também o fogo ardente: 
Em ti só desconheço a natureza; 
Que, a ser de pedra ou ferro totalmente, 
Ja teu peito cruel fora desfeito 
Das aguas e das chammas do meu peito. 



70 



Quando d formosa Aurora mostra a fronte, 
Alegra toda a terra, vendo o dia; 
Quando Phebo apparece no horizonte, 
Manifesta lambem grande alegria; 
Contente pasce o gado ao pé do monte, 
Contente a beber vai na fonte fria: 
Está tudo contente, alegre tudo; 
Eu só, só pensativo, triste e mudo. 

Se ja d alma e do corpo tens a palma, 
E do corpo sem alma não tens dó, 
Ha dó do corpo só, qu está sem alma. 
Pois sem alma não vive o corpo só. 
Nas chammas e no ardor, no fogo e calma, 
Na afifeição, no querer cu sou hum só : 
Não acharás vontade tão captiva: 
Nem outra como a tua tão esquiva. 

Se le apartas por não ouvir meu rogo. 

Onde estiveres te hei d'importunar: 

Postoque vás por agua, ferro, ou fogo, 

Comtigo em toda parte m'has d'achar; 

Que o fogo efn q ardo, e a agua em que m'affogo, 

Emquanto eu vivo for, hão de durar; 

Pois o nó, que m enlaça, he de tal sorte, 

Que não se ha de sohar em vida, ou morte. 



Neste meu coração sempr'estarás, 
Emquanto a alma estiver com elle unida : 
Também o meu esprito possuirás 
Despois que a alma do corpo for partida. 
Por mais e mais que faças, hão farás 
Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida: 



71 



Impossível será qu'eternamente 
Ausente estes de mim, estando ausente. 

Cá m'acompanhará vossa memoria, 
Se o rio, que se diz do esquecimento. 
Da minha não borrar tão longa historia, 
Tão grave mal, tão duro apartamento. 
Até quando vos veja entrar na gloria, 
Viverei n'hum contino sentimento: 
E ainda então vereis (s isto ser possa) 
Esta minh'alma lá servir. a vossa. 

Aqui com grave dor, com triste accento, 
Deo o triste pastor fim a seu canto: 
Co'o rosto baixo e alto o pensamento. 
Seus olhos começarão novo pranto : 
Mil vezes parar fez no ar o vento, 
E apiedou no Ceo o- coro santo: 
As circumstantes sylvas s'inclinárãtí. 
Condoídas das mágoas qu'escutárão. 

Com hua mão na face, reclinado. 
Tão enlevado em sua dor estava, 
Que, como em grave somno sepultado, 
Não via que ja o sol no mar entrava. 
Berrando andava em roda o manso gado, 
Que o seguro curral ,ja desejava: 
Nas covas as raposas, e em seus ninhos 
Se recolhem os simples passarinhos. 

Ja sobre hum secco ramo estava posto 
O mocho com funesto e triste canto: 
Ao som delle o pastor ergueo o rosto, 



72 



E vio a terra envolta em negro manto. 
Quebrando então o fio de seu gosto, 
E o fio não quebrando de sfeu pranlo, 
Por não se descuidar de seu cuidado. 
Levou para os curraes o manso gado. 



EGLOGA VI 



LNTERLOCUTORES 



AGRÁRIO, pastor — AUciTO, pescador 

A rústica contenda desusada 
Entr'as Musas dos bosques, das areias, 
De. seus rudos cultores modulada; 

 cujo som altonilas e alheias 
Do monte as brancas vaccàs estiverão, 
E do rio as saxatiles lampreias; 

Desejo de cantar. Que se moverão 
Os troncos ás avenas dos pastores, 
E ja sylvestres brutos suspenderão.' 

Não menos o cantar dos pescadores 
Ás ondas amansou do fundo pego, 
E fez ouvir os mudos nadadores. 

E se por sustentar-se o moço cego 
Nos trabalhos agrestes a alma inflamma, 
O que he mais próprio no ócio e no socego; 

Mais maravilhas dando á voz da fama. 
No mesmo mar undoso e vento frio 
Brazas roxas accende a roxa flama. 

Vós, ó ramo d'hum Tronco alto e sombrio, 
Cuja frondçnte coma ja cobrio 
De Luso todo o gado e senhorio; 



75 



E cujo são madeiro ja sahio 
 lançar a forçosa e larga rede 
No mais remoto mar que o mundo vio; 

E vós, cujo valor tão alto excede, 
Que, a canta-lo com voz alta e divina, 
A fonte do Parnaso move. a sede; 

Ouvi da minha humilde çaníonina 
A harmonia, que vós ja levantais 
Tanto, que de vós mesmo a fazeis dina. 

Mas se agora que affabil m^escutais, 
Não ouvirdes cantar com aha tuba 
O que vos deve o mundo, que dourais; 

E se os Reis avós vossos, que de Juba 
Os Reinos debellárão, não ouvis 
Que nas azas do excelso verso suba ; • 

Se não sabem as frautas pastoris 
Pintar de Toro os campos semeddos « 
D'armas e corpos forles e gentis ; 

Por hum moço animoso sustentados, 
Contra o indómito Rei de toda Hespanha, 
Contra a fortuna vãa e injustos fados : 

Hum Moço, cujo esforço, brio e manha. 
Do Olympo fez descer o duro Marte, 
E dar-lhe a quinta esphera, que acompanha ; 

Se não sabem cantar a menor parte 
Do sapiente peito e grão conselho. 
Que pôde, ó Reino illustre, descansar-te; 

Peito, que ao douto ApoUo faz, vermelho. 
Deixar o sacro Monte e as nove Irmãas, 
Porque a elle se aíTeitem como a espelho ; 

Saberão bem cantar, em nada vãas, 
D'Alicuto as contendas e d'Agrario; 
Hum d'escamas coberto, outro de lãas. 



74 



Vereis, Duque sereno, o estylo vário, 
A nós novo, mas n'oulro mar cantado 
De hum, que só foi das Musas secretario: 

O pescador Sincero, que amansado 
Tee o pego de Prochyta co o canto 
Por as sonoras ondas compassado. 

Deste seguindo o som, que pôde tanto, 
E misturando o antigo Mantuano, 
Façamos novo estylo, novo espanto. 

Partíra-se do monte Agrário insano 
Para onde a força só do pensamento 
Lh'encaminhava o lasso pezo humano. 

Embebido em hum longo esquecimento 
De si, e do seu gado e pobre fato, 
Apoz hum 'doce sonho e fingimento. 

Rompendo as sylvas hórridas do mato. 
Vai por cima d'outeiros e penedos, 
Fugindo, em fim, de todo humano trato. 

Ante os seus olhos leva os olhos ledos 
Da branca Dinamene, qu'enverdece 
Só co'o meneo valles e rochedos. 

Ora se ri comsigo, quando tece 
Na phantasia algum prazer fingido ; 
Ora falia; ora mudo s'entristece. 

Qual a tenra novilha, que, corrido 
Tee montanhas fragosas e espessuras, 
Por buscar o comigero marido; 

E cansada nas húmidas verduras 
Cahir se deixa- ao longo d'hum ribeiro, 
Ja quando as sombras vem cahindo escuras; 

E nem co'a noite ao valle seu primeiro 
Se lembra de tornar, como sohia, 
Perdida por o brulo companheiro: 



75 



Tal Agrário chegado, emfim, se via 
Onde o gr^o pego horrisono suspira 
N^huma praia arenosa, húmida e fria. 

Tanto que ao mar estranho os olhos vira, 
Tornando erá si, de longe ouvio tocar-se 
De douta mão não vista e nova lira. 

Fez-lhe b som desusado desviar-se 
Para onde mais soava, desejando 
D^ouvir e cohversar, e de provar^se. 

Muito não tinha proseguido, quando 
Em a concavidade d'hum penedo, 
Que pouco a pouco fora o mar cavando. 

Topou hum pescador, que prompto e quedo, 
* N'huma pedra assentado, brandamente 
Tangendo, faz o mar sereno e ledo. 

Mancebo era d'idade florecente, 
Pescador grande do alto, conhecido 
Por o nome de toda húmida gente : 

Âlicuto se chama: que perdido 
Era por a formosa Lemnoria; 
Nympha que tee o mar ennobrecido. 

Por^Ua as redes lança noite e dia; 
Por ella as ondas túmidas despreza; 
Por ella soffre o sol e a chuva fria. 

Co'o seu nome mil vezes a braveza 
D'irados ventos amansou co'o verso, 
Que remove das cochas a dureza. 

E s^ora em som de voz, suave e terso. 
Está seu nome aos ecos ensinando 
Por estylo do agreste som diverso. 

Ouvindo Agrário, attqnito, affrouxando 
Da phantasia bum pouco seu cuidado. 
Suspenso esteve os números notando. 



76 



Mas Alicuto, vcndo-se estorvado 
Por hum pastor da musica divina, 
O rosto levantou bem socegado, 

E disse assi: Vaqueiro da campina, 
Que vens buscar ás arenosas praias,* 
Onde a bella Amphilrite só domina? 

Ou6 razão ha, pastor, para que sai^s 
A este nosso escamoso e vil terreno 
Dos teus floridos myrtos e altas faias? 

Pois s'agora o mar vês brando e sereno, 
E estender-se estas ondas por a areia. 
Amansadas das mágoas, com que peno. 

Logo verás o como desenfreia 
Eolo o vento i)or o mar undoso, 
De sorte que Neptuno* se receia. 

Responde Agrário: Oh musico e amoroso 
Pescador I eu não venho a ver o lago 
Bravo e quieto, ou vento brando e iroso ; 

Mas o meu pensamento, com que apago 
As fl9.mmas ao desejo, me trazia 
Sem ouvir e sem ver, suspenso e vago: 

Até que a tua angélica harmonia 
M'acordou, vendo o som, com que aqui cantas 
A tua perigosa Lemnoria. 

Mas se de ver-me cá no mar l'espantas, 
Eu m'espanto também do estylo novo 
Com que as ondas horrisonas quebrantas. 

Porém se com verdade o louvo e approvo, 
Desejo de o provar contra o sylvestre . 
Antigo pastoril, qu'eu mal renovo. 

E tu, que no tocar pareces mestre. 
Bem julgarás se lia clara difl*erença 
Entr o canto marilimo e o campestre. 



• 



77 



Não ha (disse Alicuto) em mi detença ; 
Alvoroço antes ha, por mais que veja 
Que a tua confiança só me vença. 

Mas, porque saibas que nenhuma inveja 
Os pescadores temos aos pastores 
Do som que pelo mundo se deseja, 

Toma a lyra na mão, que os moradores 
^ Do vitreo fundo vendo estou juntar-sê 
Para ouvir nossos rústicos amores. 

Bem vês por essa praia presentar-se 
Nas conchas varia côr á vista humana; 
E o mar vir por entr'ella8 e torhar-sò. 

Socegada do vento a fúria insana, 
Encrespa brandamente o ameno rio, 
Que seu licor aqui mistura e dana. 

Este penedo concavo e sombrio, 
Que de cangrejos vês estar coberto. 
Nos dá abrigo do sol, quieto e frio. 

Tudo nos mostra, emfim, repouso certo, 
E nos convida ao canto, com que os mudos 
Peixes sabem ouvindo ao ar aberto. 

Assi se desafião estes rudos 
Poetas, nos pfficios discrepantes; 
Nos engenhos porém subtis e agudos. 

Eis ja mil companheiros circumstantes 
Eslavão para ouvir, e apparelhavão 
Ao vencedor os prémios semelhantes. 

As bem sonantes lyras se tocavão; 
Agrário começava, e da harmonia 
Os pescadores todos s^admiravão; 
E dest'arte Alicuto respondia. 



78 



AGRÁRIO 

Vós scfnicapros deoses do alto monte, 
Faunos longevos, Satyros, Sylvanos; 
E vós, deosas do bosque e clara fonte, 
E dos troncos que vivem largos annos; 
Se tendes prompla hum pouco a sacra fronte 
A nossos versos rústicos e humanos, 
Ou me dae ja a capella de loureiro, 
Ou penda a minha lyra d'hum pinheiro. 

a 

AUCUTO 

Vós húmidas deidades deste pego, 
Tritões cerúleos, Próteo, com Palemo; 
Vós, Nereidas do sal em que navego. 
Por quem do vento as fúrias pouco temo; 
Se ás vossas sacras aras nunca nego 
O congro nadador na pá do remo, 
Não consintais, que a tnusíca marinha 
Vencida seja aqui na lyra minha. 

AGRÁRIO . 

Pastor se fez hum tempo o moço louro. 
Que do sol as carretas move e guia ; 
Ouvio o rio Amphriso a lyra d 'ouro, 
Que o seu claro inventor alli tangia, 
Io foi vacca; Júpiter foi touro: 
Mansas ovelhas junto d'agua fria 
Guardou formoso Adónis; e tomado 
Em bezerro Neptuno foi ja achado. 

ALICITO 

Pescador ja fói Glauco, e deos agota 
He do mar; e Prolêo Phocas guarda. 



79 



Nasceo no pego a deosa, que he senhora 
Do amoroso prazer, que sempre taría. 
Se foi bezerro o deos, que cá se adora, 
Também ja foi delfim. Se se resguarda, 
Vê-se que os moços pescadores erão. 
Que o escuro enigma ao primo Vate derão. 

AGRÁRIO 

Formosa Dinamene, se dos ninhos 
Os implumes penhores jl furtei 
Á doce Philomela; e dos murtinhos 
Para ti (feral) as flores apanhei; 
E se os crespos medronhos nos raminhos 
Com tanto gosto ja te presentei. 
Porque não dás a Agrário desditoso 
Hum só revolver d'olhos piedoso? 

ALICUtO^ 

Para quem trago d'agua em vaso cavo 
Os curvos camarões vivos saltando? 
Para quem as conchinhas ruivas cavo 
Na praia, os brancos búzios apanhando? 
Para quem de mergulho no mar bravo 
Os ramos de coral vou arrancando, 
Senão para a formosa Lemnoria, 
Que co*hum só riso a vida me daria? 

AGRÁRIO 

Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno 
D'atras nuvens vestido, hórrido e feio, 
Ennegrecendo á vista o Ceo superno, 
Quando os- troncos arranca o rio cheio; 
Raio^, chuvas, trovões, hum triste inferno, 



80 



Que ao inundo mostra hum pallido receio: 
Tal o amor he cioso, a quem suspeita 
Que outrem de seus trabalhos se aproveita. 

AUCUTO 

Se alguém vê, se alguém ouve o sibilante 
Furor lançando flammas e bramidos, 
Quando as pasmosas serras traz diante, 
Hórrido aos olhos, hórrido aos ouvidos : 
A braços derribando o jl nutant^ 
Mundo, co'os elementos destruidos: 
Assi me representa a phantasia 
A desesperação de ver hum dia. 

AGRÁRIO 

Minha alva Dinamene, a primavera, 
Que os deleitosos campos pinta e veste, 
EJ rindo-se huma- côr aos olhos gera, 
Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste; 
As aves, as boninas, a verde hera, 
E toda a formosura amena agreste 
Não he para os meus olhos tão formosa, - 
Como a tua, que abate o lirio e rosa. 

ALICUTO 

As conchinhas da praia, que presentao 
A côr das nuvens, quando nasce o dia; 
O canto das Sirenas, que adormentão; 
A tinta, que no Murice se cria; 
O navegar pol- ondas, que se assentão 
Co o brando bafo, com que o sol s enfria, 
Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me, 
Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me. 



81 



AGRÁRIO 

A deosa, que na Lybica lagoa 

Em forma virginal appareceo, 

Cujo nome tomou, que tanto sôa, 

Os olhos bellos lêe da côr do Ceo : 

Garços os tee; mas huma, que a coroa 

Das formosas do campo mereceo, 

Da côr do campo os mostra graciosos. 

Quem diz, que não são estes os formosos? 

AUCUTO . 

Perdoem-me as deidades; mas tu, diva, 

Que no liquido mármore és gerada, 

A luz dos olhos teus, celeste e viva, 

Tces por vício amoroso atravessada: 

Nós petos lhe chamámos; mas quem priva 

De luz o dia, baixa e socegada 

Traz a dos seus nos meus^ qu'eu o não nego; 

E com toda esta luz sempre estou cego. 

Assi cantavão ambos os cultores 
Do monte e praia, quando os atalharão; 
A hum pastores, a outro pescadores. 

E quaesquer a seu Vate coroarão 
De capellas idóneas e formosas. 
Que as Nymphas lhes t<3cêrão e ordenarão : 

A Agrário de murtinhos e de rosas; 

A Alicuto d'hum fio de torcidos 

* 

Búzios, e conchas ruivas e lustrosas. 

Estavão n'agua os peixes embebidos 
Com as cabeças fora; e quasi em terra 
Os músicos delfins estão perdidos. 

TOMO III 






82 

Julgavão os pastores que na serra 
O cume e preço está do antigo canto; 
Que quem o nega, contra as Musas erra. 

Dizem os pescadores, que outro tanto 
Tce na sonora frauta, quanto teve 
O monte pastoril da antigua Manto. 

Mas ja o pastor d'Admeto o carro leve 
Molhava n'agua amara, e compellia 
A recolher a roxa tarde e breve: 

E foi fim da contenda o fim do dia. 

EGLOGA VII 

INTERLOCUTORES . 
SATYRO I E SATYRO 11 

As doces cantilenas, que cantavão 
Os semicapros deoses, amadores 
Das Napêas, que os montes habitavão, 

-Cantando escreverei : que se os amores 
A sylvestres deidades maltratarão, 
Ja ficão desculpados os pastores. 

Vós, Senhor Dom António, aonde acharão 
O cíaro Appollo e Marte hum ser perfeito, 
Em quem suas altas mentes assinarão; 

Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito, 
Bem sabe onde se salva, pois pretende 
Levantar com a causa o baixo effeito. . 

Em vós minha fraqueza se defende; * 
Em vdip instilla a fonte do Pegáso, 
O que o meu canto por o mundo estende. 

Vedes que as altas Musas do Parnaso 
Cantando vos estão na doce lira, 
Tomando-me das mãos tão alto caso. 



85 



Vedes o louro Apollo, que me tira 
De louvar vossa estirpe, e escurece 
O que a vosso louvor meu canto aspira. 

Ou por me haver inveja me fallece, 
Ou por não ver soar na frauta ruda 
O que a sonora cithara merece. 

Pois sei dizer, Senhor, que a lingua muda, 
Em quanto Progne triste o sentimento 
Da corrompida irmãa co'o pranto ajuda; 

E em quanto Galatea ao manso vento 
Solta os cabellos louros da cabeça, 
E Tityro nas sombras fsuz assento; 

E em quanto flor aos campos não falleça, 
(Sc não recebeis isto por affronta) 
Fará qu« o Douro e o Ganges vos conheça. 

E ja que ^ lingua nisto fica pronta. 
Consenti que a minha Écloga se conte. 
Em quanto Apollo as vossas cousas conta. 

No cume do Parnaso, duro monte. 
De sylvestre arvoredo rodeado. 
Nasce huma crystallina e clara fonte, 

Donde hum manso ribeiro derivado, 
Por cima d'alvas pedras mansamente 
Vai correndo suave e socegado. 

O murmurar das ondas excellente 
Os pássaros íncits, que cantando 
Fazem o verde monte mais contente. . 

Tão claras vão as aguas caminhando. 
Que no fundo as pedrinhas delicadas 
Se podem, huma e huma, estar contando. 

Não se verão em derredor pizadas 
De fera ou de pastor, que^alli chegasse, 
Porque de espesso monte são vedadas. , 



84 



Hen^a se não verá, que âllí criasse 
O monte ameno, triste ou venenosa, 
Senão que lá no centro as igualasse. 

O roxo lirio a par da branca rosa, 
A cecém pura,, a flor que dos amantes 
A côr tee magoada e saudosa; 

Alli se vem os myrtos circumstantes 
Que a crystallina Vénus encobrirão, 
Escondendo-a dos Faunos petulantes. 

Hortelãa, mangerona, allí respirão, 
Onde nem frio inverno, ou quente estio, 
As murcharão jamais, ou seccas virão. 

Dest'arte vai seguindo o curso o rio, 
O monte inhabitado -e o deserto 
Sempre com verdes arvores sombrio. 

Aqui huma linda Nympha, por acèrto 
Perdida da fragueira companhia, 
A quem este lugar era encoberto: 

Cansada ja da caça vindo hum dia, 
Quiz descansar á sombra da floresta, 
. E tirar nas mãos alvas d'agua fria. 

A novidade vendo manifesta 
Do sitio, e como as arvores co'o vento 
As calmas defendião da alta sesta; 

Das aves o lascivo movimento, 
Qu'em seus módulos versos occupadas 
As azas dão ao doce pensamento; 

Tendo notado tudo, ja passadas 
As horas da grã sesta, se tornou 
A buscar as irmãas, no centro, amadas. 

Despois que largamente lhes contou 
Do não visto lugar, que perto estava 
E tanto por extremo a namorou, 



85 



Que ao outro dia fossem, lhes rogava, 
 lavar-se em aquella fonte amena, 
Que tão formosas aguas distillava. 

Ja tinha dado hum giro a luz serena 
Do grão pastor d'Âdmeto, e ja riascia 
Âos ditosos amantes nova pena, 

Quando as formosas Nymphas em porfia 
Para o lugar do monte caminhavão. 
Rompendo a manhãa roxa, alegre e fria. 

D'huma os louros cabellos s'espalhayão 
Por o formoso coUo sem concerto, 
E com mil nós suaves s'enlaçavão; 

Outra, levando o collo descoberto, 
Por mais despejo em tranças os atara. 
Havendo por pezado o desconcerto. 

Dinamene e Ephyre, a quem topara 
Nuas Phebo em um rio, e encobrirão 
Seus delicados corpos n'agua clara; 

Syrinx e Nyse, que das mãos fugirão 
Do Tegêo Pan; Amanta e mais Elisa, 
Destras nos arcos mais que quantas tirão; 

A linda Daliana, com Belisa, 
Ambas vindas do Tejo, que como ellas 
Nenhuma tão formosa as hervas pisa: 

Todas estas angélicas donzellas, 
Por o viçoso monte alegres hião, 
Quaes no Geo largo as nitidas estrellas. 

Mas dous sylvestres deoses, que trazião 
O pensamento em duas occupado, 
A quem de longe mais que a si querião, 

Não lhes ficava monte, valle ou prado, 
Nem arvore, por onde quer que andaVão, 
Que não soubesse delles seu cuidado. 



86 



Quantas vezes os rios, que passavão, 
Detiverão seu curso ouvindo os danos, 
Que aos próprios duros montes -magoavão! 

Quantas vezes amor de tantos anos 
Abrandara qualquer vontade isenta, 
Se em Nymphas corações houvesse humanos ! 

Mas quem de seu cuidado se contenta, 
Offereça de longe a paciência, 
Que Amor d'alegres mágoas se sustenta. 

Que o moço Idalio quiz nesta sciencia 
Que se compadecessem dous contrários. 
Diga-o quem tiver delle experiência. 

Indo os deoses, emfim, por montes vários 
Exercitando os olhos saudosos. 
Ao crystallino rio tributários ; 

Toparão dos pés alvos e mimosos 
As pizadas na terra conhecidas. 
As quaes forão seguindo pressurosos. 

Mas, encontrando as Nymphas que despidas 
Na clara fonte estavâo, não cuidando 
Que d'alguem fossem vistas ou sentidas, 

Deixárão-se estar quedos, contemplando 
As feições nunca vistas, de maneira 
Que vissem, sem ser vistos, espreitando. 

Porém a espessa mata, mensageira 
Da cilada dos dous, com o rugido 
Dos raminhos d'huma áspera aveleira. 

Manifestando claro o escondido, 
Todas huma aha grita levantarão. 
Que o monte pareceo ser deslruido. 

Assi despidas logo se lançarão 
Por a espessura tão ligeiramente, 
Que mais que o próprio vento então voárãó. 



87 



Qual o baodo das pombas quando senle 
A rápida águia, cuja vista pura 
Não obedece ao sol resplandecente; 

Empresta-lhe o temor da morte dura 
Nas azas novo alento; e, não parando, 
Veloz rompendo o ar fugir procura: 

Desfarte as deosas tímidas, deixando 
De seu despojo os ramos carregados, 
Nuas por entre as sylvas vão voando. 

Mas os amantes ja desesperados. 
Que para as alcançar, emfim, se vião 
Nada dos pés caprinos ajudados; 

Com amorosos brados as seguião. 
Hum só (que o outro ainda não tomava 
Fôlego algum da pressa que trazião) 
Desta sorte sentido se queixava: 



SÂTYHO PRIMEIRO. 

Ah Nymphas fugitivas, 

Que só por não usar humanidade 

Os perigos dos matos não temeis! 

Para que sois esquivas? 

Qu'inda de nós não peço piedade. 

Mas dessas alvas carnes, que offendeís. 

Ah Nymphas 1 não vereis 

Que Eurydice, fugindo dessa sorte, 

Fugio do amante, e não da fera morte? 

Também assi Eperié foi mordida 

Da vibora escondida. 

Olhae a serpe occulta na herva verde. 

Quem o rigor não perde, perde a vida. 



88 



Que tigre, ou que leão, 

Que peçonhenta fera venenosa, 

Ou qu'inimigo, emfim, vos vai seguindo? 

D'hum brando coração, 

Que preso dessa vista rigorosa 

De si para vós foge, andais fugindo? 

Olhae que em gesto lindo 

Não se consente peito tão disforme; 

Se não quereis que tudp se conforme. 

Postoque bellas n'agua vos vejais, 

Á fonte não creais. 

Que vos traz enganadas por vingança 

Desta nossa esperança, que enganais. 

Mas ah! que não consinto 

Que nem palavra minha vos offenda, 

Postoque me desculpe a mágoa pura. 

Digo, Nymphas, que minto: 

Pois mal pôde haver nunca quem pretenda 

Negar-vos essa rara formosura. 

Se amor de tanta dura 

Por tanto mal tão pouco bem merece, 

Não estranheis, minh'alma se endoudece: ' 

Que se doudices falia d'improviso. 

Sem tento e sem aviso, 

Queira Deos, que dureza tão crescida 

Me não prive da vida alem do siso. 

Cousas grandes e estranhas 

Por o muAdo tee feito e faz natura. 

Que a quem vos não vio, Nymphas, muito espantão. 

Nas Libycas montanhas 

As Scitales são feras, de pintura 



89 



Tão singular, que só co'a vista encantão. 

As hienas levantão 

 voz tão natural â voz humana, 

Que a quem as ouve, facilmente engana. 

E vós (ó gentis feras) cujo aspeito 

O mundo tee sujeito, 

Tendes de natureza juntamente 

 vista e voz de gente, e fero o peito. 

Das amorosas leis, 

Com que liga natura os corações. 

Andais fugindo (ó Nymphas) na espessura? 

Gomo? E não vos correis 

D'haver em vós tão duras condições, 

Que possão mais que a próvida natura? 

Se vossa formosura 

He sobrenatural, não he forçado 

Que assi tenha também o peito irado: 

Antes ao puro Amor, em cuja mão * 

Os corações estão. 

Por vossa gentileza tão formosa 

Lhe deveis amorosa condição. 

« 

Amor he hum brando affecto. 

Que Deos no mundo poz e a natureza, 

Para augmentar *as cousas que creou. 

De Amor está sugeilo 

Tudo quanto possue redondeza: 

Nada sem este affecto se gerou. 

Por elle conservou 

A causa principal o mundo amado. 

Donde o pae famulento foi deitado. 

As cousas elle as ata >e as conforma 



90 



Com o mundo, e reforma 

A matéria. Quem ha que não o veja? 

Quanto meu mal deseja sempre forma. 

• ♦ 

Entre as plantas do prado 

Não ha machos e fêmeas conhecidas, 

Que junto huma da outra permanece? 

Não estão carregados 

Os ulmeiros das vides retorcidas, 

Onde o cacho enforcado amadurece? 

Não vedes que padece 

Tanta tristeza a rola por a morte 

Da sua amada e única consorte? 

Pois lá no Olympo, a quantos captivou 

Cupido, e maltratou? 

Melhor queu o dirá a subtil donzella, 

Que ja na sua tela o debuxou. 

^ Ah caso grande e grave! 
Ah peitos de diamante fabricados, 
E das leis, absolutas, naturais! 
Aquelle amor suave, 
Aquelle poder alto, que forçados 
Os deoses obedecem, desprezais? 
Pois quero que saibais, 
Que contra o fero Amor nunca houve escudo: 
Costume he seu tomar vingança em tudo. 
Eu vos verei lançar em hum momento 
Suspiros mil ao vento. 
Lagrimas, triste pranto e nova dor 
Por quem tenha outro amor no pensamento. 



9\ 

Mais quizera dizer 

O desditoso amante, que ajudado 

Se via então da mágoa e da tristeza; 

Mas foi-lho defender 

O outro companheiro, como irado 

Com tâo disforme e' áspera dureza. 

Aquillo que a rudeza 

D'huma sciencia agreste lb'ensinára, 

Disse, qual se em ,tal ponto despertara 

D'horrendo sonho com pezado grito. 

O mais que alli foi dito. 

Vós, montes, o direis, e vós penedos; 

Quem vossos arvoredos anda escrito^ 



SATYRO SEGUNDO 



Nem vós nascidas sois de gente humana, 
Nem foi humano o leite que mamastes^ 
Mas de alguma disforme fera Hyrcana: 
Lá no Cáucaso horrendo vos criastes: 
Daqui trouxestes a aspereza insana; 
Daqui os cálidos peitos congelastes. 
Sois Esphinges nos gestos naturais. 
Que de humanas os rostos só mostrais. 

Se vós fostes criadas na espessura. 
Onde não houve cousa que se achasse, 
Agua, pedra, arbor, flor, ave, alma dura, 
Qu'em seu passado tempo não amasse, 
Nem a quem a affeição suave e pura 
Nessa presente forma não mudasse; 
Porque não deixareis também memoria 
Do vós cm namorada e longa historia? 



92 

Olhae como, na Arcádia soterrando 
O namorado Alpheo su'agua clara, 
Lã na ardente Sicilia vai buscando 
Por debaixo do mar a Nympha chara. 
Âssi também vereis passar nadando 
Âtys, que Galatèa tanto amara, 
Por onde do Cyclope a grande mágoa 
Converteo do mancebo o sangue em agua. 

Virae os olhos, Nymphas, ã Erycina 
Espessura; vereis alli mudar-se 
Egeria, e em fonte clara e crj^stallina 
Por a morte de Numa distillar-se. 
Olhae que a triste Byblis vos ensina, 
Com perder-se de todo e transformar-se 
Em lagrimas, qu'em6m poderão tanto, 
Que aecrescentárão sempre o verde manto. 

E S'entre as claras aguas houve amores, 
Os penedos também forão perdidos. 
Olhae os dous conformes amadores 
Lâ no monte Ida em pedra convertidos: 
Lethêa, por cahir em vãos errores 
De sua formosura procedidos; 
Oleno, porque a culpa em si tomava, 
Por escusar a pena a quem amava. 

Tomae exemplo, e vede em Cypro aquella, 
Por quem Iphis no laço poz a vida. 
Também vereis em pedra a Nympha bella, 
Cuja voz foi por Juno consumida, 
E, se queixar-se quer de sua estrcUa, 
 voz extrema só lhe he concedida. 



95 



E tu também, ó Daphnis, que trouxeste 
Primeiro ao moiite o doce verso agreste 1 

Tamanho amor lhe tinha a branda amiga, 
Que em inimiga, emfim, se foi tomando: 
Porque outra Nympha estranha ja o sogiga, 
Suas magicas hervas vai buscando. 
Olhae a quanto a crua dor obriga ! ^ 
Por vingar-se, assi irada, transformando 
O foi em pedra. Oh dura confusão! 
Despois lhe pczaria; mas em vão. 

Olhae, Nymphas, as arvores alçadas, 
A cuja sombra andais colhendo flores, 
Como em seu tempo forão namoradas; 
Do qu'inda agora o tronco sente as dores. 
Vereis, entre as de fructo matizadas, 
Como a côr das amoras he de amores: 
O sangue dos amantes na verdura 
Testimunha de Tisbe a sepultura. 

E lá por a odorífera Sabèa 
Não vedes que de lagrimas daquella, 
Que com seu pae se junia e se recrèa. 
Arábia s-enriquece, e vive delia? 
Lembrai-vos da verde arvore Penéa, 
Que foi ja n'oulro tempo Nympha bella, 
E Cyparisso angélico mancebo; 
Ambos verdes com lagrimas de Pbebo. 

De Phrygia vede o moço deHcado 
No mais alto arvoredo convertido, 
Que tantas vezes fere o venio irado; 



94 



Galardão de seus erros merecido: 
Pois, dã alta Berecynthia sendo amado, 
Por huma Nympha baixa foi perdido; 
E a deosa, a quem perdeo do pensamento, 
Quiz que tamhero perdesse o entendimento. 

O súbito furor lhe figurava 
Que as arvores e os montes se cahião; 
Ja dos pudicos membros se privava, 
Que os horrores a tanto o constrangiâo: 
Ja indignado no monte se lançava: 
De sua morte as feras se doiâo. 
Dest'arte perdeo Alys na espessura, 
Despois de tantas perdas, a figura. 

Lembre-vos quando as gentes celebravãò 
Em Grécia as grandes festas de Liéo, 
Onde as formosas Nymphas se juntavão, 
E os sacros moradores do Licèo. 
Todos em doce somno se occupavão 
Por o monte, despois' que anoitece; 
Mas o deos do Hellesponto não dormia ; 
Que hum novo amor o somno lh'impedia. 

Mas ella emfim, os braços estendendo. 
Em ramos se lhe forão transformando; 
Em raizes os pés se vão torcendo; 
E o nome Loto só lhe vai ficando. 
Vede, Napêas, este caso horrendo, 
Que vos está de longe ameaçando. 
Âssi também daquella, a quem sc^ia 
O sacro Pan, a forma se perdia. 



95 



t)ue vos direi de Filis, pois perdida 
Da saudosa dor com que vivia, 
Á desesperação emfim trazida 
Do comprido esperar de dia em dia? 
Ppr desatar do corpo a triste vida 
Atava ao coIio a cinta que trazia. 
Mas o tronco sem folha por o monte 
Rhodope abraça o lento Demopbonte. 

Nas boninas também vereis Jacinto, 
Por quem Pbebo de si se queixa em vão; 
Vereis o monte Idalio em sangue tinto 
Do neto de seu pae, da mãe irmão. 
Chora Vénus a dor do moço extinlo, 
Maldiz o Ceo e a terra, com razão ; . 
A terra, porque logo não se abrio; 
O Ceo, porque tal morte permiltio. 

E tu, constante ^Clycie, a quem fallece 
A fé de teus amores enganosos, 
No louro amante, que de ti s'esquece, 
S'esquecem os teus olhos saudosos. 
Jíenhum alegre estado permanece; 
Que são do mundo os gostos mentirosos; 
E á tua clara iuz, por quem suspiras. 
Ainda agora em hérva os olhos viras. 

Trago-vos estas cousas á lembrança, 
Porque s'estranhe mais vossa crueza 
Com ver que a criação e longa usança 
Vos não perverte e muda a natureza. 
Dou as lagrimas minhas em fiança, 
Qtt'em tudo quanto está na redondeza, 



96 



Cousa d' Amor isenta, se attenlais, 
' Em quanto vos não virdes, não vejais. 

Ja disse, que d' Amor sempre tiverão 
As cousas insensíveis pena e gloria. 
Vede as sensiveis como se perderão. 
E dir-vos-hei das aves larga historia: 
As penas, qu'em su'alma se soffrêrão, 
Nas azas lhe ficarão por memoria; 
E aquclle altivo e leve movimento 
Lhes ficou do voar do pensamento. 

O doce rouxinol e a andorinha. 
Donde lhes veio o ir-se transformando, 
Senão do puro amor que o Thracio tinha, 
Qu'em poupa ainda a amada vai chamando? 
Clama sem culpa a misera avesínha. 
Que n'areia de Phasis habitando. 
Do rio toma o nome; e quando dama, 
Cruel á mãe, ao pae injusto chama. 

Vôde a que engeilou Palias por fallar, 
(Que dos amores he maior defeito) 
£ aquella, que sucoede em seu lugar. 
Ambas aves, de amor usado effeito; 
Huma, porque fugia ao deos do mar; 
Outra, porque tentara o pátrio leito: 
E Scylla, que a seu pae poz em perigo. 
Só por ser muito amiga do inimigo. 

E Pico, a quem ficarão inda as cores 
Da purpura Real, que antes vestia; 
Esaco, que o seguir de seus amores 



97 



O trouxe a ver Ião cedo o extremo dia : 
Ou vede os dous Ião firmes amadores, 
Que amor aves tomou na praia fria. 
Do Rei dos ventos era genro o triste; 
Mas contra o fado, emfim, nada resiste. 

Estava a triste Halcyone, esperando 
Com longos olhos o marido ausente; 
Mas os ventos indómitos soprando, 
Nas aguas o aíTogárão tristemente. 
Em sonhos se lh'está representando; 
Que o coração preságo nunca mente: 
Só do bem as suspeitas mentirão, 
Mas' as do mal futuro certas são. 

• 

Ao pranto os olhos seus a triste ensaia; 
Buscando o mar com ellos hia e vinha: 
Quando o corpo sem alma achou na praia. 
Sem alma o corpo achou, que n'alma tinha! 
Ó Nereidas do Egêo, consolai-a. 
Pois este pio oíficio vos convinha. 
Consolai-a; sahi das vossas aguas; 
Se consolação ha em grandes mágoas. 

Mas oh néscio de mi! qu'estou fallando 
Das avesinhas mansas e amorosas? 
Pois também teve Amor natural mando 
Entr'as feras montezes venenosas. 
O leão e a leoa, como, ou quando 
Taes formas alcançarão temerosas? 
Sabe-o da deosa Dindymene o templo, 
E a que a Adónis o dava por exemplo. 

TOMO III 



98 



Qaem fosse a mansa vacca di-lo-hia; 
Mas o grão Nilo o diga, pois a adora. 
Que fórina teve a Ursa, saber-se-hia 
Do Pólo Boreal, onde ella mora. 
O caso d'Acteon também diria 
Em cervo transformado; e melhor fora 
Se dos olhos perdera a vista pura, 

Que em seus galgos achar a sepultura. 

# 

Tudo isto Acteon vio na fonte clara, 
Onde a si d' improviso em cer\'o vio : 
Que quem assi desfarte alli o topara, 
Que se mudasse em cervo permittio. 
Mas, como o triste Príncipe em si achara 
A desusada forma,, se partio. 
Os seus, desconhecendo-o, o vão chamando; 
E, tendo-o alli presente, o vão buscando. 

Co'os olhos e co'o gesto lhes fallava; 
Que a voz humana ja perdida tinha. 
Qualquer delles por elle então chamava, 
E a multidão dos cães contr'elle vinha. 
Hum cervo açude a ver (qualquer grilava) 
Acteon, donde estás? açude asinha, 
Que tardar tanto he este? (repetia) 
He este, he este, o eco respondia. 

Quantas cousas em vão estou faltando 
(Oh Napêas esquivas!) sem que veja 
O peito de diamante hum pouco brando 
De quem meu damno tanto só deseja. 
Pois, por mais que de mi me andais tirando, 
E por mais longa emfim que a vida seja, 



99 

Nunca em mi se verá tamanha dor, 
Que Amor a não converta em mais amor. 

Aqui (formosas Nymphas) vos pintei 
Todo d'amores hum jardim suave; 
D aguas, de pedras, d'arvores contei. 
De flores, d'almas, feras, de huma, oiitra ave. 
Se este amor, que no peito aposentei. 
Que dos contentamentos tee a chave, 
Por dita em tempo algum determinasse 
Que de tão longos damnos vos pezasse, 

Quanto mais devagar vos contaria 
De minha larga historia e não alheia? 
E com quanta mais agua regaria. 
Que o rio, de contente, a branca areia? 
Novo contentamento me seria . 
Formar de meu cuidado a nova ideia: 
E vós, gostando deste estado ufano. 
Zombaríeis então de vosso engano. 

Mas com quem fallo ja? que estou gritando. 
Pois não ha nos penedos sentimento? 
Ao vento estou palavras espalhando; 
A quem as digo, corre niais que o vento. 
A voz e a vida a dor m'está tirando, 
E o tempo não me tira o pensamento. 
Direi, emfim, ás duras, esquivanças 
Que só na morte tenho as esperanças. 

Aqui, sentido, o Satyço acabou, 

Com huns soluços que a alma lhe arrancavão. 

Os montes insensiveis, que abalou. 



• m_ 

Nas ultimas respostas o ajudavão. 
Então Phebo nas aguas se encerrou 
Co'os animaes que o mundo allumiavão; 
E co'o luzente gado appareceo 
A cândida pastora por o Ceo. 



EGLOGA VIII 



PISCATÓRIA 



SEIIENO 



Arde por Galatêa branca e loura 
Sereno pescador pobre, forçado 
D'huma estrella, que quer á mingoa moura. 

Os outros pescadores tPe lançado 
No Tejo as redes: elle só fazia 
Este queixume ao vento descuidado: 

Quando virá (formosa Nympha) hum dia, 
Em que te possa dar a conta estreita 
Desta doudice triste e vãa porfia? 

Não vês, que me foge a alma e que m'engeita, 
Buscando em bum só riso d'essa boca, 
NoS' teus olhos azues mansa colheita? 

Se ao teu esprito algua mágoa toca, 
Se d amor fica nelle huma pegada. 
Que te vai, Galatêa, nesta troca? 

Dar-te-hei minh'alma: lá ma tens roubada: 
Não ta demandarei: dá-me por cila 
Huma só voHa d'olhos descuidada. 

Se muito te parece, e minha estrella 
Não consentir ventura tão ditosa, 
Dou-te as azas do Amor perdidas nella. 



\0\ 



Que mais te posso dar, Nympha formosa, 
Inda que o mar d'aljofar me cubríra 
Toda esta praia leda e graciosa? 

Amansãi>-se ondas, quebra o vento a ira: 
Minha tormenta só nunca socega; 
O meu peito arde em vão, era vão suspira. 

Anda no romper d'alva a névoa cega 
Sobre os montes d' Arrábida viçosos, 

« 

Em quanto o solar raio lhes não chega. 

Eu, vendo apparecer outros formosos 
Raios, que a graça è côr ao Ceo roubarão, . 
Se os olhos cegos vi, vejo saudosos. 

Quantas vezes as ondas se encresparão 
Com meus suspiros! quantas com meh pranto 
As fiz parar de mágoa e me escutarão! 

Se na força da dor a voz levanto, 
E ao som do remo, que agua vai ferindo, 
Perante a lua meu cuidado canto; 

Os maviosos delfins m'estão ouvindo; 
A noite socegada; o mar callado: 
Tu só foges d'ouvir-me, e te vás rindo. 

Estranhas, por ventura, o mar cercado 
Da fraca rede; a barca ao vento solta; 
E hum pobre pescador aqui lançado? 

Antes que o sol no Ceo cerre huma volta 
Se pôde melhorar minha ventura, 
Como a outros succede, n'agua envolta. 

Igual preço não he da formosura 
D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia. 
Mas hum amor^ que para sempre dura. 

Vejão teus olhos (bella Nympha) a praia; 
Verás leu nome na mimosa areia. 
Nunca sobre elle o mar com fúria saia ! 



^02 

Vento algum atégora o não salteia: 
Três dias ha que escripto aqui o deixou 
Amor, e o veda a toda força alheia. 

Elle com suas mãos próprio ajudou 
A escolher estas conchas, aíRrmando 
Que o sol para ti só as matizou. 

Hum ramo te colhi de coral brando: 
Antes que o ar lhe desse, parecia 
O que de tua boca estou cuidando. 

Ditoso se o soubessQ inda algum dia! 

EGLOGA IX 

PISCATÓRIA 

« 

PALEMO 

Despois que o leve barco ao duro remo, 
Onde menos das ondas se temia, 
Atou o pescador pobre Palemo ; 

Em quanto as negras redes estendia 
Seu. companheiro Alcão na branca arèa, 
E Lico as longas- cordas envolvia; 

De cima d'huma rocha, a qual rodêa 
O mar, quebrando nella de contino, " 
Começou a chamar por Galatôa. 

Deixa o molle licor e crystallino, 
. (Dizia) ó Nympha, ja, que o sol deseja 
Enxugar teu cabello d ouro fino. 

Inda que tee de ti tão grande inveja, 
Não temas que te queime o rosto brando: 
Basta para abrandar-se que te veja. 

Não te detenhas mais, vem ja cortando 
Com teu cândido peito as brancas ondas, 
Escumas menos brancas levantando. 



\0õ 



Dar-te-hei (com condição que não fescondas 
De mi lá nessas húmidas moradas, 
E que algum'hora, branda me respondas) 

Mil conchas nlium cordão verde enfiadas, 
Todas d'huma feição; não d'huma côr. 
Pois delias são azues, delias rosadas. 

Indaque seja pobre pescador, 
Não sei se em desprezar-me muito acertas, 
Pois rico do amor teu me fez Amor. 

Para ti n'outras praias mais desertas 
Irei pescar por entre pedras duras. 
Que sempre verde musgo têe cobertas. 

As pardas ostras, onde gottas puras 
De fresco orvalho, dentro endurecidas, 
Não podem da cobiça estar seguras. 

Porqile deixas de vir? porque duvidas? 
Por ventura d'algum meu companheiro? 
Inda as redes ao sol tee estendidas. 

Toda a noite pescarão, e primeiro 
Querem dormir a sesta nesta praia. 
Que o barco polo mar levem ligeiro. 

Eu, vigiando aqui como atalaia, 
Te chamarei, até que de cansado 
Hum dia desta rocha abaixo caia. 

Deixando este lugar tão infamado 
Com minha morte, que dos marinheiros 
Com o dedo de lá será mostrado"! 

Dirão os naturaes e os estrangeiros: 
Alli morreu Palemo. Ai triste historial 
Guardae a náo de alli, ventos ligeiros. 

Antes que tal succeda, vê que gloria 
Alcanças com deixar aos navegantes 
Da tua ingratidão esta memoria. 



Í04 



Da nossa differença não te espantes: 
Tu N) mpha, eu pescador : Glauco, deos vosso, 
. Qual eu agora sou, tal era d'anles. 

Também eu entre as hervas achar posso 
Aquella, a quem o Ceo deo tal virtude, 
Que muda n'outro ser este ser nos^. 

Mas este amor, qu'eu cá mudar não pude, 
Inda que vá a morar lá nessas aguas. 
Não temas que a mudança em mi o mude. 

Serão as vivas ondas vivas frágoas, 
Em que estarei ardendo noite e dia, 
Se não tiveres dó de tantas mágoas. 

As horas naturaes da pescaria 
Não vês que vão passando? Como as passas? 
Quem deste passatempo te desvia? 

Ah rigorosa Nympha! ah! não me faças 
Dar em vão tantos grilos: vem; iremos 
Ambos a Icvanlar as verdes naças. 

Ambos os anzoes curvos cobriremos 
De mentirosas iscas, com que os peixes 
A todo prazer nosso prenderemos. 

Assi d'Amor cruel nunca te queixes, 
E dessa formosura as mais formosas 
Nymphãs do mar azul vencidas deixes; 

Que venhas (pois por ti com saudosas 
Lagrimas vou gastando a vida e alma) 
A tirar-me esperanças duvidosas. 

A praia está callada, o mar em calma; 
Por cima desta rocha brandamente 
Zephyro respirando a descncalma. 

Aqui não sinto cousa certamente 
Porque deixes de vir, como sohias. 
Senão, que não és tu disso contente. 



105 



Se desgostas das grossas pescarias. 
Marisco appetitoso aqui não falta, 
Ja* sejão luas cheias, ja vazias. 

Poios pés desta rocha dura e alta 
Irei eu despegando huns como pés 
D'hum pequeno animal, que nella salta. 

E vivos \e darei (se dcUes és 
Amiga) mil cangrejos vagarosos. 
Que verás ir andando de revés. 

Nao te darei ouriços espinhosos. 
Porque te quero tanto, que receio 
Qu'esses teus dedos piquem tão mimosos. 

Faz d'aqui perto o mar hum largo seio, 
Onde de amêijoas lisas, sem trabalho, 
Podemos apanhar hum cesto cheio. 

Mas além de tudo isto hum crespo galho , 
De vermelho coral te darei logo, 
Que por dita arrastou o meu tresmalho. 

Mas ai! qu'em vão te chamo, em vão te rogo; 
Qoe nem tu a meus rogos tens respeito. 
Nem eu, por mais que grite, desaffogo. 

Hum coração em lagrimas desfeito 
Como ja nãa te abranda? quem encerra 
Crueza tal em tão formoso peito? 

Não reina Amor no mar, como na terra? 
Bem sabes que mil vezes ja venceo 
A Neptuno teu Rei em clara guerra. 

Sua formosa mãe onde nasceo, 
Senão no próprio mar em que te banhas? 
Onde Thetis por Péleo cm fogo ardeo? 

Se das pedras nasfcesses nas montanhas. 
Se com leite de tigres te criaras, 
Mais duras não tiveras as entranhas. 



Apparecêras tu, e enlSo tornaras 
Logo a esconder-te, logo, se quizcras 
Nas ondas, que de li me são avaras. 

Com hua mostra só que de ti deras, 
A vida, que me foge em não te vendo, 
Co'os teus formosos olhos detiveras. 

Enião viras os meus, donde correado' 
De lagrimas se vem dous largos rios. 
Que o mar também em si vai recolhendo. 

Ah néscio pescador! que desvarios 
Me deixo aqui dizer! a quem os digo! 
A surdas ondas ja, ja a ventos frios. 

Elles. e ellas ja crescem : ja em pVigo 
O barco vejo: ai! ei-lo combatido. 
Ellas e elles o levão ja comsigo. 

Olhos, que lá me tendes o sentido, 
A culpa he vossa só, que me não vedes. 
Mas, pois o pescador anda perdido, 

Perca-se o barco seu, percão-se as redes. 

EGLOGA X 

PISCATÓRIA 

MELISO 

Enchéo do mar azul a branca praia 
Meliso pescador de mil querellas; 
Meliso, que por Lilia arde e desmaia. 

Despois que á luz da lua e das estrellas. 
Sobre dura fatexa o barco posto. 
As redes recolheo, remos e velas: 

Que gosto, ó Liba (disse), ou que desgosto 
Te move a me negar, vendo qual ando, 
Teus olhos côr do Ceo, leu alvo rosto ? 



107 



Se tu queres que pene desejando, 
Se queres que no mar em fogo viva; 
Ardendo sempre eslê, sempre penando. 

Mas olha, ó branda Lilia (antes esíjuiva), 
Que não merece ser tão mal tratada 
Qum'alma desses olhos tão captiva. 

Vives dos meus cuidados descuidada: . 
Coitado de quem traz a duvidosa 
Vida no mar e terra aventurada! 

Bem podes com razão ser piedosa 
Com quem não quer mór bem, que bem querer-tc 
Não sendo tão cruel como és formosa. 

Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te 
 meus cansados olhos, que de tantas 
Lagrimas são movidos, sem mover-te. 

Se tu me vences, e se tu m'encantas 
Com tua doce falia, doce riso. 
Porque foges de mi? porque te espantas? 

Lembre-te a formosura de Narciso, 
E qual pago lhe deo seu desamor : 
Olha que com amor disto te aviso. 

Mas quando essa crueza tanta for, 
Que mereça do Ceo novo castigo, 
Qual herva será digna de tal flor? 

Amor que me persegue. Amor que sigo, 
Me faz d'hum grave mal andar temendo; 
D'hum mal, qu'eu sinto na alma e fue não digo. 

Quanto mais ledo ja te estive vendo 
Aqui as mansas ondas esperando, 
Que por chegar a ti vinhão correndo, 

E da molhada areia despegando 
Com a cândida mão roxas conchinhas, 
A forma de teu pé nella deixando? 



Daquellas, de que tu mais gosto tinhas, 
Muitas te trago aqui, postoque temo 
Que menos o terás por serem minhas. 

Hum temor tal me chega a tai extremo, 
Que, vencido d'hum triste esquecimento, 
No mar me cahe da mão o duro remo. 

E quando a branca vela solto ao vento, 
Tão descuidado vou do fiei leme, 
Que me leva a perder meu pouco tento. 

Mas quem arde por ti, quem por ti treme, 
Os seus maiores riscos não receia, 
Os teus que sente mais, muito mais leme. 

Despois que te não vi (não sei que creia 
Desta tardança tua e morte minha). 
Sendo a lua vazia, he quasi cheia. 

O tempo, que nos gostos passa asinha 
Detem-se neste mal da saudade, 
Por me dobrar a dor que d'antes tinha. 

Não desprezes, ó Lilia, huma vontade, 
Que por te contentar tudo despreza. 
Tudo julga, sem ti, por pouquidade. 

Se pretendes amor, ja tens certeza 
Que não podes ser nunca mais amada 
Dos que vencidos traz tua belleza. 

Se por ventura estás affeiçoada 
A gentil parecer, a bom engenho, 
A ninguém 4|estas partes devo nada. 

Se fazes caso d*honra, olha que venho 
De geração d'honrados pescadores; 
Se de riqueza, barco e redes tenho. 

Por erros julgarás estes louvores; 
E oxalá não os julgues por doudice! 
Mas quem siso quer ter não tenha amores. 



U)9 



E mais tudo foi pouco quanto disse, 
Pondo os olhos no muito que meu fado 
Nos teus, que ver desejo, quiz que visse. 

Aconteceo-me hum caso desusado, 
(Inda que d'huma cousa n'outra salto) 
Digno, por ser de amor, de ser contado. 

Pescando hontem á tarde no mar alto, 
Suspenso nessa rara formosura, 
A quem com mil leiílbranças nunca falto, 

Gomeceii a cantar: Lilia, mais dura 
Que a mais inculta rocha rodeada 
Do mar, de cujo encontro está segura ; 

Mais alva que jasmins, e mais corada 
Que purpúreas serejas polo Maio ; 
Mais loura que manhãa deseni rançada; 

Não vês . . . dizer queria que desmaio, 
Quando (cousa que mal me será crida) 
No mar, vencido d'hum, do barco caio? 

Alli tivera fim a triste vida. 
Se d'hum brando delfim, que me escuitava, 
Não fora, por ser lua, soccorrida. 

Parece que também vencido estava 
Do mal, de que me via andar vencido, 
Quem em tamanho risco m ajudav^i. 

Trouxe-me sobre si adormecido, 
Nadando ao som das ondas mansamente. 
Até que me sentio em meu sentido. -^ 

Livre deste mortal, bravo accidente, 
Tal foi o espanto meu, tal meu temor, 
Que d'outro me livrei escaçamente. 

Mas logo o amoroso nadadot* 
Me poz junto do barco, que tão perto 
Esteve de ficar sem pescador. 



HO 



O sol era de todo ja coberto, 
Quando eu, entrando nelle, sahi fora 
Do perigo, onde tive o fim tão certo. 

Porém outro maior me cansa agora. 
De que mal sahirci, se te não vir 
Amanhecer aqui co'a nova aurora. 

Não pôde ella tardar em descobrir 
Às suas louras tranças desatadas, 
Das quaes as tuas bem se [Jbdem rir. 

Pois por cima das ondas, acordadas, 
As Halcyoneas ouço lamenlar-se. 
Do seu antigo damno inda lembradas. 

E sinto o fresco orvalho derramar-se 
Mais congelado e frio ; e Vénus bella 
Polo Oriente ja vejo levantar-se. 

Bem podes, Lilia, competir com ella, 
E com Palias e Juno em gentileza; 
Em amor não, pois elle nasceo delia: 

Desterrou-o de ti tua aspereza. 
Que desterra de mi prazer e vida. 
Deixando em seu lugar mágoa e tristeza. 

No silencio da noite, que convida 
A descanso commum, tanto me cança. 
Que não sei se remédio ou morte pida. 

Se tu quizesses dar-me huma esperança 
De te servir de mi ou tarde, ou cedo, 
Nunca me negaria o mar bonança. 

Polas inchadas ondas, que põe medo, 
Eu só, sem mais ajuda, levaria 
Sempre á força de braço o barco quedo. 

Tão seguro por ellas andaria. 
Como polo seu campo o lavrador 
No mais quieto, claro e bello dia. 



ÍH 



Olha que não ha destro pescador, 
Que mais manhoso as redes desencolha, 
Nem os tortos anzoes isque melhor. 

Os peixes deixarei em tua escoUia: 
Aquelles de que fores mais amiga, 
Nunca te faltarão de folha a folha. 

Não sei, Lilia formosa, que mais diga, 
Que mova amor em ti,, que mova mágoa ; 
Sei que mágoa, e que amor a mais obriga. 

Mas antes que o sol dè naquella frágoa, 
Onde*meus ais dilata a triste Ecco, 
Vou-me segurar mais o barco na agua, 

Porque de baixamar não fique em sícco. 

EGLOGA XI 

INTERLOCUTORES 

ANZINO E UMIANO 

Parece-me, pastor, se mal não vejo. 
Que ja te vi mais ledo andar outr'hora 
Nos largos campos do famoso Tejo. 

UMIANO 

Podia ser; que muito tempo fora 
Andei desta ribeira, pátria minlia. 
Onde triste me vês andar agora. 

Tinha lá para mi, que a vida tinha 
Mais socegada cá e mais segura, 
Entre os meus, que com gosto a buscar vinha. 

Foi d'outro parecer minha ventura: 
Discórdias sós achei, e achei dureza. 
Em lugar de socego e de brandura. 



112 



Achei as boas leis da natureza 
Vencidas do interesse; e a gente cega, 
Tanto, que mais que o sangue, o gado pféza. 

Dizem que quando o mar bonança nega. 
Correndo vai aquella não mor prigo, 
Que á desejada terra mais se chega. 

Assi m'aconteceo a mi comigo; 
Seguro sempre ao longe, sempre ledo; 
Triste ao perto, e tratado como imigo. 



ANZINO 



Sempre (pódes-me crer esle segredo) 
Desejei de te ver; mas com desgosto, 
Inda te não quizera ver tão cedo. 

Prestando para cousas de teu gosto, 
Como camaleão não mudo cores; 
Qual he meu coração, tal be meu rosto. 



LIMIANO 



Não são logo assi, não, outros pastores, 
Que de promessas vãas te fazem rico, 
E nunca fruclo dão: tudo são flores. 

Mas deísejo saber com quem pratico. 
Porque não caia em falta, e porque entenda 
A quem tamanho amor devendo fico. 



ANZINO 



Antes que tempo nisso se dispenda, 
Busquemos hum lugar mais fresco e frio, 
Que da calma, que cahe, bem nos defenda. 



\\5 

LIMIAMO 

Vamos alli, qae alli bosque sombrio 
Nos dará fresco abrigo, assento o prado, 
Formosa vista o valle, o monte, o. rio : 

O rio, que verás tão soc^ado. 
Que te parecerá que se arrepende - 
De levar agua doce ao mar salgado. 

Nem cabra, nem ovelha alli offende 
Herva, folha, nem flor, ou ferro duro: 
A planta polo ar livre se estende. 

Verás cahindo em gottas crystal puro 
No vão d'huma caverna carcomida. 
Por entre o musgo molle, verdie-escuro. 

ANZINO 

Quem traz á saudade a alma rendida, 
A saudade busca, onde descansa; 
Mas o descanso delia encurta a vida. 

Com tudo, quem do Ceo na terra alcansa 
Poder gozar-se desta liberdade, 
Que mais deseja ter? que mais o cansa? 

Affirmo-te de mi esta verdade, 
Que muitos valles vi, muitas ribeiras ; 
Mas esta me dobrou a saudade. 

Oh que viçosas murtas! que oliveiras! 
Que freixos! como estão d'hera cingidos! 
Quantas voltas lhes dá de mil maneiras ! 

Os Urios junto d'agua bem nascidos 
Quanta graça que têe entre as boninas. 
Sem ordem, com mais graça entremetidos I 

Vem encrespando as aguas crystallinas 
A branda viração; a folha treme; 
O movimento apenas determinas. 

TOMO III * 8 



\\4 



A rola seu amor suspira c gcine; 
Escondida se queixa Philomella: 
Parece que do campo inda se teme. 

Espanta a quem se atreve, ver aquella 
Rocha por cima d'agua pendurada 
€omo ia se não deixa cabir nella. 

O ribeira do Lima, celebrada 
De mil brandos espritos sempre sejas, 
Sempre de brandas Nymphas povoada. 

Fujão longe de ti duras invejas ; 
Peçonha de pastores, morte sua: 
Tudo sintas amor, tudo amor vejas. 

De dia o claro sol, de noite a lua, 
Em teu favor inspirem de maneira, 
Que çempre fértil seja a praia tua. 

Tomando, emfím, â prática primeira, 
Por dar-te, como queres, de mi conta, 
Larga ta quero dar e verdadeira. 

Apartar-te do gado leva em conta; 
Que, pois com elle fica o pegureiro, 
Que te detenha hum pouco, pouco monta. 

O meu nome he Anzino : fui vaqueiro 
Na grã serra da Estrella, que não tive ; 
Não sei se natural, ou se estrangeiro. 

Hum pastor me criou, que ja não vive; 
De todos por seu filho era julgado ; 
E eu também neste engano hum tempo estive. 

Até que delle soube ser achado 
Em huma anzina envolto em pobres panos; 
E daqui veio, que Anzino fui chamado: 

Neste meu desengano outros enganos 
Fundou de novo a pouca dita minha. 
Com que o vim a servir mais de sete anos. 



4<5 

Tinha muito de seu, e mais não tinha 
De filhos, que huma filha bem formosa, 
Á qual por moile delle tudo vinha. 

Conversação doméstica e damnosa, 
Na livre formosura e tenra idade, 
Em ambos accendeu chamma amorosa. 

Com ella de mi soube esta verdade, 
Com outro amor, com outros exercícios, 
Nella ganhei de novo outra vontade. 

Amor mestre me fez de mil officios 
Para meio do fim que desejava; 
E delle sinal davão mil indicies. 

Tecia alvos cestinhos, quando andava 
Com as vaccas no prado: á noite hum cheio 
De fructa, outro de flores lhe levava. 

Nas mangas muitas vezes e no seio 
As nozes lhe levei com as castanhas, 
Quer do souto do pae, quer d'outro alheio. 

Nos intrincados bosques, nas montanhas, 
Por seu amor as feras perseguia, 
Forças agora usando, agora manhas. 

Vivos os mansos cervos lhe trazia; • 
Vivas medrosas lebres fugitivas : 
Ligeireza de pés não lhes valia. 

Mas, se lhe dava as mansas feras vivas, 
Mortas lhe dava as que por natureza, 
Sem domar-se são bravas, ou esquivas. 

Certo dia achei eu n'huma aspereza. 
Sem mãe, hum cervo branco e pequenino; 
Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o preza. 

Ou ja criação seja, ou ja destino, 
Tanto que não o vê, geme e suspira. 
Como menos fará o triste Anzino? 



Hfí 



Com seu chôro abrandou ao pae amigo; 
Qu'einrim, deixando-a menos magoada, 
Lhe disse que fallasse isto comigo. 

Assi me disse; e que determinada 
Estava a qualquer mal que lhe viesse, 
Antes que ser com Tityro casada. 

Que por mais de mil cabras que tivesse, 
Jamais esta vontade mudaria; 
Que 'buscava saber, não interesse. 

E que de melhor mente casaria 
Com hum qualquer pastor, pobre de gado, 
Se nelle as partes visse que em mi via. 

Por extremo de mi lhe foi louvado 
O pensamento seu; e sem detença 
Tal resposta lhe dei acautelado : 

Se a dar meu parecer me dás Ucença, 
Hum pastor te darei de qualidade. 
Que em nada de mi tenha differença; . 

Nem.de menos saber, nem mais idade; 
Nas manhas outro tal, e em corpo e gesto: 
Da fazenda não sei a quantidade. 

Se esse me fazes bom, daqui protesto 
De não receber outro por marido : 
Me respondia com sembrante honesto. 

Pois sabe (respondi) que ja admittido 
Me tens com gosto teu por teu esposo; 
Que com dar-te-me dou o promettido. 

Não pude dizer mais, de vergonhoso, 
Nem ella me deixou com ouvir tal, 
Suspeitando de mi amor vicioso. 

Logo me respòndeo: Ah desleal! 
Ah deshoneslo irmão t isso pretendes? 
Mas não irmão, imigo capital. 



\\9 



O Ceo, que com injusto amor offendes, 
Tome, cruel, de ti justa vingança, 
Antes que de tamanho error t'emendes. 

Ândavas-me enganando na esperança 
Com esses falsos e indevidos meios 
Ao sangue nosso e minha confiança? 

Fizeste verdadeiros os receios, 
A que confusamente me levavas 
De sombras enganosas com rodeios. 

Desejo no teu peito agasalhavas 
Tão torpe, tãó infame, tão alheio 
Do puro amor, a que obrigado estavas? 

Não te desculpes, não; que ja não creio 
Lagrimas, nem palavras, nem desculpas 
De quem imaginou caso tão feio. 

Timido respondi: De que me culpas? 
Se ouvido me não dás, não tens razão; 
Acaba de me ouvir o fim das culpas. 

Têe-me, Ulina, por teu, não por irmão: 
Se me não queres crer esta verdade. 
De teu pae saberás se minto, ou não. 

Por filho me criou: a flor da idade 
Gastei em o servir por teu respeito: 
Olha o que te merece esta vontade. 

Se com ser isto assi tenho erro feito 
Em grangear-te; que a ti só desejo; 
Eis este ferro aqui, eis este peito. 

Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo, 
Pondo os olhos no chão, formosa e branda, 
E cuido qu'inda assi nos meus a vejo. 

Disse-me: Em que revoltas o amor findai 
No bem, como no mal, também me enleia: 
Inda agora o senti, ja reina e manda. 



420 



Como queres, Aiizino, qa*eu te creia . 
Cousâ que nem sonhada foi tégora? 
Não sabes de quem ama, o que receia? 

Paliarei com meu pae: íica-fembora : 
No desengano seu teu J3era consiste; 
Da palavTa que dei não estou fora. 

Com isto me deixou alegre é triste. 
O começo ja ouviste de meu dano, 
Amigo Limiano: o fim amaino, 
Em que não serei largo, escuita agora. 
Fulgência, outra pastora, que vizinha 
Era d'amada minha e grande amiga, 
(Não sei como isto diga que não moura) 
Pastora branca e loura, que na serra 
Era a segunda guerra dos pastores, 
Por mal dos meus amores me quiz bem. 
Fundava-se porém em casamento; 
E deste fundamento lhe nascia, 
Que, como me não via, o valle, o monte, • 
O bosque, o rio, a fonte rodeava. 
Em busca minha andava aquella sesta; 
Entrou pola floresta, onde nos vio; 
E tudo nos ouvio quanto falíamos, 
Entre huns espessos ramos escondida. " 
Cruelmenle ferida dos ciúmes, 
Foi-se a fazer queixumes (descobrindo 
Mais do qu'esteve ouvindo) ao pae d'Ulina. 
Eis logo desatina o triste velho; 
Eis que sem mais conselho a filha entrega. 
Que com choro se nega e com palabras, 
Âo simple guarda cabras, por esposa. 
Ah hora desditosa I ah sorte dura! 
Daquella formosura desusada, 



i2i 



De tantos desejada, e de mi tanto 
Servida com espanto e puro amor, 
Quizeste, por mais dor, enriquecer 
Quem não sabe entender o preço delia? 
Ó tu, serra d'Estrella, que tal viste, 
Gomo te não abriste; e no teu centro 
Me não cerraste dentro, estando vivo, 
Porque mal tão esquivo não sentira? 
Oh cega, oh cruel ira! oh pae fingido! 
Para me ver perdido me criaste? 
Porque me não deixaste no deserto? 
Menos crueza, certo, então usaras, ' 
Inda que me deixaras (não te aggraves) 
Ás cruas feras e aves da montanha. 
Não vês que o Ceo estranha isso que tratas? 
Não vês que a ti te malas cobiçoso? 
Na porta o novo esposo tropeçou ; 
Na casa não entrou co'6 pé direito: 
Gritou sobolo teito a noite inteira 
A ave, qu'he mensageira de fins tristes. 
O mesmo vós sentistes, cães da aldeia, 
Quando por má estreia, juntos todos, 
Gom differentes modos huiviasles. 
Serranas, qu'esperastes nestas vodas 
Gantar alegres todas Hymeneos, 
Dos vossos alvos seios, alvas flores, 
Em lugar dos licores mais custosos, 
Por cioia dos esposos derramando; 
Ou vendo estar bailando, estando quedas. 
Ao som das gaitas ledas no terreiro 
O moço tão ligeiro á maravilha, 
Que quasi o pé não trilha o junco mole ; 
Qual será que console a triste amiga, 



T 



<22 

A quem a forçâ obriga do pac duro, 
A quem o Amor puro obriga tanto, 
Que n'hum conlino pranto se consume? 
Assi do grande cume da esperança 
Com súbita mudança derribado, 
Me poz em tal estado a triste nova. 
Como sabe por prova quem bem ama. 
Levou a leve fama a minha dor 
A Sincero pastor, meu grande amigo, 
Que com rogos comsigo me levou. 
Do monte, onde me achou, ja noile escura, 
Chorando a desventura em que me via. 
As vaccas, vindo o dia, derramadas, . 
De mi desamparadas, vem bramando. 
Sinal n'aldeia dando em seu bramido 
De qu'era ja perdido o pastor seu. 
Tamanha pena deo á bella Ulina 
(Bella, porém mofma) a pena minha, 
Sobre quantas ja tinha no seu peito. 
Que mais do triste leito não s'ergueo. 
Seu pae adoeceo também de nojo: 
Da morte foi despojo ao dia quinto. 
A dor que daqui sinto he sem mçdida. 
Pois m'ap»rtou da vida, a vida acabe, 
Ou n'alma, onde não cabe, faça pausa. 
Fulgência, que foi causa destes males, 
Des que montes e valles descobrio, , 
Despois que me não vio em toda a serra, 
Deixou, deixando a terra, mágoa aos pais. 
Que delia nunca mais novas souberão. 
Emfím, tal fim tiverão meus amores. 
Chorarão os pastores juntamente 
D'UHna descontente a triste sorte, 



^25 



Do pae a breve morte, e de Fulgência 
A vingadora ausência de seu erro ; 
De mi este desterro em que me pôs. 

Mas mais chorastes vós, tneus olhos tristes, 
Quando de vossa luz, sem a do dia. 
Por terras tão estranhas vos partistes. 

Cuido que meia noite então seria; 
Cantando os gallos ja na triste aldeia, 
Chorava só quem delia se partia. 

Casa de meus suspiros sempre cheia, 
(Disse eu, quando passei pela de Ulina) 
Tal fructo colhe quem amor semeia! 

Fortuna, a mi cruel, sempre benina 
Em tudo seja áquella, que em ti mora, 
Indaqu'em outros braços se reclina. 

Fica-te aqui, minha alma, fica embora. 
Que, pois assi o quiz fado inimigo. 
Jamais- te não verei dia nem hora. 

Dalli nos ricos campos dei comigo. 
Que das aguas do Tejo são regados; 
Onde te vi mais ledo, como digo. 

Por ver s& posso agora a meus cuidados 
Achar algum repouso, algum socego, ' 
Atravessando vou montes e prados. 

Passei as claras aguas do Mondego, 
Das Lusitanas Musas chafo ninho; 
As do Douro despois em turvo p^o. 

Daqui continuando meu caminho. 
Espero ver a casa aos ceos acceita. 
Na terra que da nossa aparta o Minho. 

Onde vou visitar na urna estreita 
Os santos ossos do Varão divino. 
Que pretendeu do Mestre a mão direita. 



<24 

Assi, d'hum lugar n'outro de contino, 
O bcití que ja cantei, chorando venho; 
Tornei-me de vaqueiro, peregrino: 

Tal hábito me vês, tal vida tenho. 

LIMIANO 

Anzino, he breve o dia 

Para poder contar 

O que sinto de tua desventura. 

E sei bem que erraria, 

Se quizesse louvar 

O grave estylo teu, tua brandura. 

Aquella formosura, 

Por quem alegre foras; 

Que tu ledo cantaste, 

E que despois choraste 

T|w) triste, qu'ind'agora triste choras; 

Vivendo eterna nella. 

Será mágoa commum, e louvor delia.* 

As mágoas deixo em fim; 

Também louvores deixo. 

Por grandes ellas, elles por [)equenos. 

Tu, por amor de mim; 

(Dir-te-hei de que me queixo) 

Repousa hoje comigo, quando menos: 

Assi vejas serenos 

Esses teus tristes lumes. 

Abranda a dura mágoa. 

Que lira fontes de ágoa 

Do fogo em que chorando te consumes; 

Dar-te-hei conta mais larga 

Da vida que aqui passo tão amarga. 



<25 

• 

E roais saber desejo 

Se a fama nos engana, 

Que dizi, que o grão pastor dos Lusitaúos, 

Com todos os do Tejo, 

E com fato e cabana, 

Reside ja nos campos Africanos; 

Onde mil soberanos 

Triurophos, delle dinos, 

Lh'ordena a fatal sorte, 

Com grande estrago e morte 

Dos brutos mal nascidos Sarracinos, 

Que de si despejados 

Os curraes deixão ja cheios de gados. 

Que sendo assi, te digo 

Que não espero mais 

Nesta para mi sempre ingrata terra. 

Quem traz guerra comsigo 

Entre seus naturais, 

Não deve d'estranhar estranha guerra. 

Sem mi de serra a serra 

(O Ceo assi o queira) 

Logrem meus inimigos 

Os valles e pacigos 

Desta, donde nasci, fresca ribeira; 

Na qual (se não m'engano) 

IndA será chorado Limiano. 



ANZINO 



Limiano, ja bem tenho entendido 
Quanto sentes meu mal; mas eu te digo 
Que o teu mal he de mi menos sentido. 



<26 

Acerca de ficar hoje comtigo, 
Farei pois (ja qu'assi nos detivemos) 
Tudo o qiie ta quizeres, como amigo. 

E, pois o dia ja passado temos, 
Vamos-nos mais chegando para o gado; 
E lá nas outras cousas fallaremos. 

Todavia de funda e de cajado 
Te vai apercebendo a som de guerra; 
Que não foi tal pastor cá do Geó dado, 

Para não dar ao Ceo tão lai^ terra. 



EGLOGA XII 



INTERLOCUTORES 



DEUO, ALCIDO E GALASIO 



DELIO 



Agora, Alcido, em quanto o nosso gado 
Pasce diante nós manso e seguro, 
Sentemos-nos aqui neste abrigado. 

Logremos este sol sereno e puro, 
Que livre se nos dá, antes que venha 
A noite fria com seu manto escuro. 

O rico com seu ouro lá se avenha; 
Não se farta a cobiça co'a riqueza : 
Mais arde o fogo quando tee mais lenha. 

Com pouco se contenta a natureza. 
Quem isto bem olhasse, certifico 
Que não fugisse tanto da pobreza. 



127 



O sol também m'aquenta, como ao rico ; 
A fonte agua me dá, fructos a terra : 
Com pouco mantimento farto fico. 

Âh! que a mâ vaidade nos faz guerra! 
(Para que gasto tempo em mais palabras?) 
Os olhos da razão esta nos cerra. 

Alcido, tens ovelhas, e tens cabras, 
De que tiras da lãa, tiras do leite; 
E não te faltão campos em que labras. 

Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te 
De fallar claro e sem lisongerias : 
Não hajas medo tu, qu'eu as affeite) 

Tu cantavas Amor, amor tangias; 
Fallava a tua frauta; agora he muda: 
Que mal te mudou lantp em poiícos dias?^ 



ALCIDO 



Muda-se a idade, Delio ; e se se muda 
Com ella a condição, nada m'espanto; 
O gosto m'ajudou, ja não m'ajuda. 

Se ja cantei amor, se amor não canto. 
Culpas do tempo são, que vai mudando 
O meu cantar alegre em triste pranto. 

O tempo, que tão leve vai voando, 
Delio, não torna mais; e assi fugindo. 
Mil claros desenganos nos vai dando. 

Pouco a pouco se veio descobrindo 
O mal d'huma esperança vãa e incerta, 
Que me deixou chorando, e foi-se rindo. 

Quem nasce sem ventura, ou quem acerta 
De fazer fundamento em peito alheio, 
De mil contas que faz nenhuma he certa. * 



128 

/ 

DELIO 

Pois se isso entendes tu, donde te veio 
Sentir tão de verdade as sem-razões. 
Não sendo d'oulra cousa o mundo cheio? 

ALCUK) 

Não queres tu que sintão coraçOes 
Obrigados com dor a sentimento, 
Vendo a razão vencida d'affeições? 

DELIO 

Emfim, todas as cousas querem tento: 
Encobre a dor, e guarda-te d'extremos; 
Que sempre trazem arrependimento. 

Ao nosso doce canto nos tomemos : 
Das nossas Nymphas» bellas inimigas, 
Crueza e formosura celebremos. 

ALCIDO 

Gomo cantarei eu novas cantigas 
Em terra tão estéril, cheia d'ira. 
Que nega flores, e que nega espigas? 

Pendurei n'hum salgueiro a minha lira: 
Ouvi-la ao som do vento he hua mágoa; 
Em lugar de tanger, geme e suspira. 

A Amarilia pintei, pintada trago-a 
Aqui neste meu seio, e também chora: 
Seus olhos me dão fogo, os meus dão-lhe« ágoa. 

Mas vejo vir Galasio. 

DELIO 

Venha embora. 
Galasio, queres tu cantar comigo? 



<29 

GALASIO 

Eu nunca me roguei : menos agora. 

DELIO 

Cantaremos d'Amor cruel iniigo, 
Ou brando e amoroso, em razão posto, 
Tyranno e cego, e cego até comsigo? 

GALASIO 

Cada qual cante do que for seu gosto; 
Quer mimos, quer rigores d'Amor fero; 
Ou d'olhos verdes cante, ou d'alvo rosto. 



ALCIDO 

Em quanto vós cantais, recolher quero 
O gado; que são horas de ordenhar: 
Á noite na malhada vos espero. 

GALASIO 

Isso não: has d'ouvir para julgar 
Qual de nós melhor canta e melhor sente. 

DELIO 

Eu ja não cantarei, sem apostar. 

Aposto o* meu rafeiro, que Valente 
Se chama, e com razão; que o lobo aífasta, 
Se não cantar mais branda e docemente. 

GALASIO 

Hum cervo manso aposto. 

DELIO 

Isso não basta: 
Põe mais um par de cabras. 



TOMO III 



\ 50 

GALASIO 

Deos me guarde; 
Porque, Delio, esle gado he da madrasta. 

4 

ALCIDO 

Fazeis-me vós juiz? Quereis que aguarde? 
Ora cantae sem preço e sem inveja : 
E seja logo, porque ja hc tarde. 

DEUO 

Leárda minha, branca mais que a neve, 
E muito mais corada que a grãa fina; 
S'inda Amor a vencer-te não se atreve, 
Que fará quem* d' Amor por ti se fina? 
Eu morro; e tu meu mal julgas por leve? 
Não vês tu como ja me desatina? 
Ai triste! que me vem valles e montes. 
Regados de meus olhos feitos fontes. 

GÂLASIO 

Mar fida, branca mais que o branco leite; 
Vermelha muito mais que a rosa pura; 
Assi descuido em ti nunca suspeite, 
Assi me trates irida com brandura; • 
Que a cabana, que a vida e a alma engeite. 
Por ti, quando tu mais que marmor dura. 
Testimunhas serão montes e valles, 
A quem dou larga conta de meus males. 

DELIO 

Quando a minha Learda desencolhe 
Os seus, cabellos d'ouro, longo, ondado, 
O sol, de pura inveja, se recolho, 



tõ\ 



Corrido de se ver menos dourado. 
Livre pastor não ha, que bem os olhe, 
Sem se achar logo nelles enlaçado. 
Ail não solles, Learda, os teuscabellos, 
Pois tanto prendem quantos ousão vellos. 

GALASIO 

Os tristes corações se tornão ledos, 

Ouvindo de Marfida o doce canto; 

Os furiosos ventos estão quedos; 

Não guia o claro sol seu carro em tanto. 

Converte-se a dureza dos penedos 

Em brando amor: Amor desfaz-se em pranto, . 

Vencido dessa voz, doce Mar fida;" 

Mas tu nunca d' Amor foste vencida. 

DELIO 

O campo de verdura vejo pobre; 
O Ceo chuivoso sempre, e turvo o rio; 
Da sua leve folha a terra cobre 
O bosque, que foi ja verde e sombrio. 
Mas se Learda o rosto seu descobre, 
Logo desapparece o tempo frio: 
Comsigo a primavera traz Learda. 
Ai quem a visse ja I Ai quanto tarda I 

GALASIO 

A triste Progne ja despareceo; 
A toda flor o frio foi imigo; 
A doce Philomela emmudeceo, 
Rouca de lamentar seu mal antigo. 
Mas venha por aqui quem me venceo 
Com hum só volver d'olhos: qu'eu m'obrigo. 



\õ2 

Que as aves tornem logo a seus amores, 
E os campos se matizem de mil flores. 

DELIO 

A viva chamma, aquelle vivo ardor, 
Que brando sinto ja pelo costume, 
De noite dá de si tal resplandor, 
Que os pastores vem delle a tomar lume. 
Pasmados ficão, vendo em mi d'amor 
O fogo, que me queima e nâo consume : 
E tu, por quem eu ardo noite e dia, 
Quando vès tal ardor ficas mais fria! 

GALASIO 

Eu sempre choro, e tanto ja chorei, 
Vencido da grã dor que n'alma linha, 
Que mil vezes de lagrimas fartei 
Meu gado, quando a fonte a buscar vinha. 
Chorando as duras pedras abrandei ; 
Mas nunca a ti, cruel imiga minha, 
Que vendo que por ti m'cstillo em ágoa, 
Nenhua magoa tens de minha mágoa. 

DELIO 

Quando vires, Learda, o nosso Lima, 
Que lá vai de meu choro acompanhado, 
Tornar com suas aguas para cima. 
De seu curso esquecido, costumado; 
Então embora julga, então estima 
Que tenho n'outra parte o meu cuidado. 
Mas deixarão os rios de correr. 
Primeiro que deixe eu de te querer. 






GALASIO 

Estas serras, Marfida, por certeza 
De minha firme fé só quero dar-te: 
Quando com espantosa ligeireza 
Daqui correr as vires a outra parle, 
Então cuida que falta em mi firmeza, 
Qu'então deixarei eu, meu bem, de amar-te. 
Mas mudar-se daqui bem podem ellas, 
E eu não mudar de mi graças tão bellas. 

« ^ 

ALCIDO 

Se esta vontade minha não deseja 
A vossos versos dar justos louvores, 
Hora nunca na vida alegre veja. 

Acceitae meu desejo, meus pastores: 
Mais vos não pôde dar quem traz o esprito 
De todo entr^e a damnos, mágoas, dores. 

Mas porque dê de vós público grito 
A leve fama, como vedes, deixo 
O vosso canto e o meu juizo escrito 

No liso tronco deste verde freixo. 

Delio neste lugar doce cantou 
Com Galasio, que doce respondia: 
Hum Learda, Marfida outro louvou. 
Cora inveja de qual melhor diria. 
Alcido, que o seu canto bem notou 
Por ver quem a victoria levaria, 
Gomo livre juiz, deo por sentença, 
Que não havia entr'elles diíferença. 



«04 



ÉCLOGA XIII 



PHYLLIS 



Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto 
Aquelle passarinho canta ou chora, 
Chamarei Corydon cora triste pranto. 

Se entre vós, bellas plantas, amor mora 
(Plantas, ja vós amastes) tende mágoa 
De mi, pois que m'ouvis queixar agora. 

Ai cruel Corydon 1 cruel a frágoa 
Em que vivo por til Não tens piedade 
De ver meu peito fogo, os olhos ágoa? 

Ja não amas a Phyllis? Ah crueldade 1 
Ai triste 1 E que farei? Em poucos dias 
Mudaste tu de mi tua vontadp. 

A Phyllis ja deixaste, a quem trazias 
No formoso verão formosas fruilas. 
Sinal do grande bem que me querias? 

Sabes, cruel, que tenho causas muitas 
Para te convencer, de que queixar-me; 
Por isso vás fugindo e não me escuitas. 

Puderão os teus rogos abrandar-me: 
Os meus (triste de mi!) mais te endurecem. 
Ja não acho em que possa confiar-me. 

Aquelles doces versos ja l'esquecem. 
Que tu nos lisos álamos cortavas, 
Onde com teus enganos inda crescem? 

Arder por meu amor nelles mostravas : 
Eu, crendo que era assi, não entendia 
Quanto fíngiste amar, quão pouco amavas. 



155 



Tristes meus fados forão, triste o dia 
Em que nasci: coitada de mi trisie, 
Qu'em mágoa se tornou minha alegria! 

Logo que a tua Galatèa viste, 
Vi eu deste meu mal grandes agouros; 
E tu da parte esquerda hum corvo ouviste. 

E não tee Galatêa mais thesouros, 
Nem tee mais formosura, inda (|ue seja 
Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros. 

Á negra violeta tee inveja 
D branco lirio, porque tal não tem 
O cheiro, que vencido nâo se veja. 

Tityro arde por çii; Tityro, a quem 
Mil Nymphas dão capellas de mil flores; 
Mas elle a mi só chama, a mi quer hem. 

Eu desprezo por li muitos pastores, 
E tu por Galatêa me desprezas I 
Tal pago dás, cruel, a meus amores ? 

Em que te mereci tantas cruezas, 
Quantas usas comigo? Por ventura 
Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas? 

Prouvera a Deos que tão isenta e dura 
Me viras para ti, que nunca viras 
Em mi sinal d'amor, ou de brandura! 

S'eu fugira de ti, tu me seguiras; 
Por mi arderas, não por huma ingrata, 
Por quem choras em vão, em vão suspiras. 

Bem me vinga de ti, pois te maltrata: 
Mas eu te quero tanto, que desamo 
' (Por mais que tu me mates) quem te mata. 

Respondem-me estes montes, quando chamo 
Por ti com triste voz ; Ecco responde 
Das lagrimas, movida, ({ue derramo. 



\õ& 



E tu não me respondes, nem sei onde 
Te leva esse desejo ; mas bem sei 
Que amor e desamor de mi t'esconde. 

Ai triste Phyllisl triste! Onde acharei 
Remédio a tanto mal? O fogo puro 
Em que m'abrazo, com que abrandarei? 

Ja fugira daqui por mais que duro 
Fosse o deixar o ninho em que nasci : 
Mas não ha contra Amor lugar seguro. 

A morte só (mil vezes isto ouvi 
A nossa Gelia) por remédio espere 
Aquelles que a Amor fez senhor de si. 

Então, porque de todo desespere, 
Este cego, a quem cegos nós seguimos, 
A mi por ti, e a ti por outra fere. 

S'eu morrera no ponto em que nos vimos. 
Não vira tanto mal. Mas que da sua 
Sorte fugisse alguém, nós nunca ouvimos. 

Eu me queixo de ti, e tu da tua 
Galatéa te queixas; e não ves 
Que mais piedosa te he, quando mais crua. 

Sendo tu tão cruel (tão cego esl) 
Queres achar piedade? Como queres 
Que te creião teu mal, se o meu não crês? 

Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres, 
Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes, 
Oi} ledos ambos, si: mais não esperes. 

Seivas, que n'outro tempo nos cobristes 
Com frescas sombras lá do ardor de cima, 
Dizei, se a Corydon dizer ouvistes: 

Primeiro ha de tomar o brando Lima 
As aguas de crystal á fonte clara, 
Que no meu peito novo amor s'imprima. 



437 



Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara, 
Me ha de deixar a mi a própria vida. 
Mas quem, por não deixár-te, a não deixáral 

Pois tu, Phyllis, ma dás, eu oflfrecida 
A tenho a teu querer; tu delia ordena 
Como, doce amor meu, fores servida. 

Por ti me será branda a dura pena; 
Por ti suave a dor, leve o tormento, 
A que m'indina o fado, ou me condena. 

Ah falso Gòrydon I teu pensamento 
Era enganar-me: dada a fé me tinhas; 
E a f é co'as palavras leva o vento. 

Mas (ai triste de mi!) também as minhas 
O vento vai levando. O sol he posto. 
Porque, ligeira luz, te não detinhas, 

Ekn quanto eifi meu queixume achava gosto? 



EGLOGA XIV 



INTEftLOCUTORES 



ERGÂSTO, DEUO E LAURENO 
ERGASTO 

. Agora, ja que o Tejo nos rodeia, • 
Neste penedo, donde mansamente 
Murmurando se quebra a branda veia, 

Espera, Delio, até que do Occidente 
D'azul deixe a ribeira matizada 
O sol, levando o dia a outra gente. 

Entretanto daqui verás pintada 
A praia de conchinhas d'ouro e prata, 
E a agua dos mansos sopros encrespada. 



158 



Verás como do monle se desala 
A vagarosa fonte por penedos, 
Que pouco a pouco cava e desbarala: 

E como move os frescos arvoredos 
Favonio, que de flores pinta o prado; 
E como s'es1âo rindo os campos ledos. 

Ditoso o que do €eo foi tão amado. 
Que no campo alcançou passar a vida, 
Livre de pena, livre de cuidado. 

O rouxinol na vara, que vestida 
De verdes folhas, sombra faz ao rio, 
Lhe canta p doc^ verso sem medida. 

Agora ao pé d'hum álamo sombrio 
Vê como dous carneiros s'offerecem, 
Os comos inclinando, a desafio. 

Como ao que vence lodos obedecem 
E.folgão de o ver fora de perigo; 
E outros com face esquiva o aborrecem. 

Ditoso aquelle, que co o ferro antigo 
Lavra os campos do pae, e se contenta, 
Nos seus molhos atando o louro trigo I 

Este a fúria do mar não exprimenta, 
Nem corre, por achar a pedra rica, 
A estranha praia, que outro sol aquenta. 

Onde, quando a esperança o fortifica 
Em adquirir mais ouro e mais riqueza. 
Ouro, esperança, e vida a muitos fica. 

Este vive quieto na pobreza; 
E deste confiarei que a anteponha 
A quanto o mundo mais procura e preza. 

Comendo em mesa vil, não s'en vergonha: 
Antes bebe nas mãos a fonte pura, 
Qu'em precioso metal cruel peçonha. 



459 



Qh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura, 
Inda conversa aqui com os humanos 
A Justiça, fugindo á gente impura I 

Quem visse bem tão claros desenganos, 
E quanto mal nos vicios se apparelha, 
No campo gastaria bem os anos. 

Ao dia a nossa vida se assemelha, 
Porque quando no mar o sol se banha 
Se costuma tingir de côr vermelha. 

Assi, se olharmos bem, sempre se ganha 
Lâ no occaso da mal gastada vida 
Rubicunda vergonha em mágoa estranha. 



DELIO 

A gloria, Ergasto meu, qu'be possuida. 
Nunca sabe de nós ser tida em preço: 
Só despois que se perde he conhecida. 

E desta vida os bens, qu'eu não mereço. 
Quando os perco e o mal da outra ja m'espera. 
Com grandes mágoas d'alma os reconheço. 

Oh se em ditosa sorte me coubera 
Por favor ou destino das estrellas, 
Qu'enlre pastores, eu pastor vivera 1 

Muitas vezes t'ouvíra as luzes bellas 
Cantar da linda Nise, nas quaes arde 
Teu peito, sempre ufano d'arder nellas. 

Buscáe pastor, ovelhas, que vos guarde ; 
Que o Ceo não quer q'eu nlais vos guarde c conte, 
E despois vos recolha, sobre a tarde. 

Não vos verei saltar junto da fonte, 
Cabras minhas, ja meu querido gado, 
Nem da rocha pender no verde monte. 



MO 



KHGASTO 

Consente agora, ó Delío, que chorado 
Em triste verso seja apartamento, 
Que assi me deixa triste e magoado. 

DEUO 

Não: que se dobrará meu sentimento. 
Mas se queres, Ergasto, que m'esqucça 
Partida, que lembrada he só tormento, 

Canta aquelle Soneto, que começa: 
Quantas vezes do fuso s' esquecia. 
Que digas hum dos teus, não sei se o peça. 

ERGASTO 

« 

Se com m'ouvir, a dor se te allivia, 
Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno, 
Que a cantar vezes mil me desafia. 

Cantando venceo ja Tityro e Almeno : 
E eu, inda que sei certo ser vencido, 
Apostar a cantar com elle ordeno. 

LAURENO 

Ergasto, pois o tempo se ha offrecido, 
Celebremos amor e formosura. 
Em quanto o gado á sombra está acolhido. 

^RGASTO 

Postoque ja a victoria tens segura, 
Não cantarei sem preço, porque saia 
Mais, ledo quem cantar com mais brandura. 



\4\ 



LAURCNO 

Eu hum vaso porei de lisa faia, 
Divina obra de Alceo, que celebrado 
Será sempre por claro nesta praia. 

A vide, de que em roda está cercado, x 
Os roxos cachos cobre ; e primor teve 
Em pôr no meio a Dama e Pan cansado. 

Parece que a beija-la o deos se atreve, 
E que ainda dos beijos mal soffridos 
Inclinado lha foge o tronco leve. 

ERGASTO 

Outro vaso porei d'hera cingido, 
No qual Orpheo das aves esquecidas 
E dos suspensos bosques he seguido. 

Não cuido que de faia são sabidas 
De tal arte, lavor de tal maneira : 
Também obra he d' Alceo, das mais polidas. 

Esta, das que me deo, foi a primeira; 
Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda, 
Ouvindo-me cantar nesta ribeira. 

Ouvio-m'então, estando desta banda; . 
E dando-ma, dizia-me: Este seja 
O premio, Ergasto, dessa Musa branda. 

LAURENO 

Delio o nosso cantar pondere, e veja 
Qual dos dous a voz dá mais docemente; 
Que huma tal. causa tal juiz deseja. 



M2 






DELIO 

Se o meu juizo cada qual consente, 
Tu, Ergasto, ao doce canto dá começo; 
Tu responde, Laureno, juntamente: 

E eu fico que nenhum perca o seu preço. 

ERGASTO 

Alcida, que pa côr o leite puro, 
E a rosa da manhãa deixas vencida, 
Culpa he dos olhos teus, nelles o juro, 
Est'amor de qu'estâs tão offendida. 
Castiga-os com me verem; qu'eu seguro 
Que a vingança será delles sentida: 
Nem temas tu d'os meus alegres serem, * 
Vendo tristes taes olhos por me verem. 

LAURENO 

Violante minha, cuja côr iguala. 

Mas antes vence os cravos, vence a lieve; 

Desta dor, que atéqui minha alma cala, 

Teu amoroso riso a culpa teve. 

Se só por viver delia e por ama-la. 

Julgas que algum castigo se me deve, 

A ver-te sempre rindo me condena, 

Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena. 

ERGASTO 

Com a mãe, que maçãas colhendo andava, 
Inda pequena, á bella Alcida -vinha: 
Eu os ramos da terra ja tocava, 
Ja fácil para amar o tempo tinha. 
Nâo sei que fogo ou neve se p;issava 



Daquelles olhos seus a esfaima minha, 
Que me deixáiâo posto em tal extremo, 
Que até de cuidar nelles ardo e tremo. 

« 

• LAURENO 

No bosque a Violante vi hum dia. 
Doce princípio destas doces dores; 
A flor cahia nella, e parecia 
Dizer cahindo: Aqui reinão. amores, 
tíumilde em tanta gloria ella sç ria, 
E errando hião sobre ella as várias flores : 
Eu, que vencido fui d'hum error cego, 
Áquelle honesto riso esfaima entrego. 

ERGASTÓ 

Pastora deste bosque, que buscais. 
Anoitecendo, o lume por costume; 
Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais, 
Que destes meus suspiros leveis lume. 
Accesos sabem d'alma os doces ais 
No ardor, que pouco a pouco me consume; 
Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito, 
Accendêrão jamais hum frio peito. 

V 

t 

LAURENO 

Pastores, que buscais «a sombra amada 
A fonte, por fugir o ardor do estio. 
Vinde a mi, porque d'agua destillada 
Por meus olhos, se solta hum largo rio; 
Tal, que a sede d' Amor nunca apagada, 
Farta-la ja de lagrimas confio. 
Mas com choro de tanla qu<antidade 
Não movo afpiellos olhos a piedade. 






\44 



ERGASTO 

Se quando a minha Alcida esl'alma visse 
Nos meus olhos, d' Amor tão maltratada; 
Se quando a grave dor fora sahisse 
Entre suspiros mil rota e quebrada, 
Sequer com brandos olhos m'admittisse, 
Ficando de vergonha mais corada; 
Ditoso fora, vendo-a, juntamente 
Com ser mais bella, d^te amor contente. 

> 

LAURENO 

Se á vista de Violante derramadas 
As lagrimas d'amor, que vive nellas, 
Tal força lhe fizessem, que orvalhadas 
Lhe ficassem de dor ambas estrellas, • 
E as rosas entre a neve semeadas, 
Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas; 
Ditoso me fizera. Hora ditosa. 
Se a vira ser mais bella e ser piedosa I 

ERGASTO 

Claros olhos, que ao sol fazeis inveja, 
Que l3randos vos mostreis ja vos não peço ; 
Mas que poder-vos ver paga me seja. 
Se por tamanho amor tanto mereço: 
Armados d'esquivança então vos veja 
Cheios d'hum não sei que, com que pereçxí ; 
Que doce me será tal esquivança. 
Doce o morrer, qu'em olhos taes s'?ilcança ! 

LAURENO 

Olhos, que vos moveis tão docemente, ' 
Que traz vós todo o mundo ides levando. 



Eu não sei se tomais do Geo luzente 
O movimento seu, se lho estais dando: 
Sei certo (e não m'engano,) sei sómentCj 
Que a vós de mi minh'alma ides passando : 
Mas não posso entender como deixais 
Ao descuido o que vós em vós levais. 



ERGASTO 



Por mais que a minha soberana Alcida 
(Minha não, porque só sua belleza 
Vem a ser minha em ser de mi querida) 
Me trate vezes mil com aspereza; 
Huma só vez que delia acho admittida 
Minha pequena vista na grandeza 
Da luz do rosto seu, sinto tal gloria. 
Que de todo o penar perco a memoria. 



LAURENO 



Quando a minha mais que única Violante 
(Se minha pôde ser a que he tão sua) 
Aquella santa luz hum breve instante 
Me deixa ver, por mais que a veja crua; 
A vista tanto em mi vejo a diante, 
Que não he muito, não, que m'attribua 
A soberba de ser hum'aguia nova. 
Que do Ceo no olho claro a vista prova. 



DEIJO 



Pastores, que alcançar pudestes tanto 
Com vossa branda Musa, que ja nesta 
Idade renovais o antigo canto; 

lOMO III 10 



M6 



Para vosso louvor, que verso presta? 
Qu'hera digna será? que louro dino 
Qu'em premio a cada qual adorne a testa? 

Em parte paga Amor, se de contino 
Por dentro a cada hum gasta os espritos, , 
Pois co'o divino canto o faz divino. 

Nós veremos por annos infinitos 
Nos altos troncos destas faias bellas 
Os nomes Vossos por memoria escritos. 

De únicas flores mereceis capellas: 
Têe Âlcida e Violante sós taes flores ; 
E, pois ellas as tee, dem-vo-las ellas. 

Os vossos prémios recolhei, pastores: 
Cada qual igualmente o seu merece; 
E ambos d'Apollo os mereceis maiores. 

Recolhamos o gado; que anoitece. 



I 

I 



EGLOGA XV 



INTERLOCUTORES 



SOIJSO K SYLVANO 



SOLISO 

De quanto alento e gosto me causava 
A vista da manhãa resplandecente, 
Com que toda a tristeza s'alegrava; 

Que quando vinha o sol claro e luzente, 
Bem claro então em mi se conhecia 
Huma nova alegria di£ferente; 

Tanto agora me oflende o novo dia. 
Vendo que me não mostra a formosura, 
De que só me mantinha e só vivia. ^ 



\47 



E não me quiz deixar trisie ventura 
Esperanças de mais tomar a vellal 
Oh destino cruel 1 oh sorte durai 

Oh querida Natércia ! oh Nyrapha bella, 
Em quem, emfim, mostrou a natureza 
O mais que se podia esperar delia ! 

Se lá no assento da maior alteza 
Te lembras de quem viste cá na terra, 
Para te magoar sua tristeza; 

Lembre-te de contino a cruel guerra, 
Que contínua me faz tua lembrança, 
Esquecido do gado, valle e serra. 

Lembre-te que perdi a confiança 
De ver os olhos teus, e juntamente 
De todo o bem d' Amor toda a esperança. 

Lembre-te que por ti de mi ausente . 
A crystallina fonte me he nojosa. 
Com que ja n'outro tempo fui contente. 

Que por ti a manhãa clara e formosa 
Males cada momento me accrescenta; 
Sendo-me em outros dias deleitosa. 

Por ti o puro sol me descontenta; 
Com seu canto m'offende a Philomella: 
Mas, porque nelle chora, me contenta. 

Por ti, Natércia pura, Nympha bella, 
Na verdura suave deste pradp • 
Os males multiplico só com vella. 

Por ti não curo ja do manso gado: 
Com o mesmo qu'então meu bem crescia, 
Agora vai crescendo o meu cuidado. 

Não sou ja, ja não sou 'quem ser sòhia; 
Mudou-se-me a vontade co'a ventura; 
Mudou-se co'os tormentos a alegria; 



/ 



\4% 



K. 

Trocou-se o claro dia em noile escura : 
Nem he muito que tudo se mudasse, 
Pois se mudou a tua formosura. 

Não via outro reparo, que cuidasse 
Poder aproveitar ao meu tormento, 
Nem outra gloria alguma em qu'esperasse, 

Senão em quanto o triste pensamento 
Sc, punha a contemplar tua beldade, 
Sem lhe lembrar tão longo apartamento. 

Agora que me falta a claridade, 
Que de ver-te a minha alma recebia, 
Ficando-me só delia a saudade; 

Qual ficará hum'alma, que sabia 
Somente desta gloria contentar-se?' 
Gloria de que gozar não merecia! 

Qual poderá ficar quem com lembrar-so 
Mortalmente do bem qu'he ja passado. 
Só toe por melhor vida á morte dar-se? 

E qual se pôde wr quem hum cuidado 
Sostem, que he só da dor certa morada, 
E nelle vive só desesperado? 

Qual ha de ver-se, ó Nympha delicada, 
Humalma que te via; e em te vendo 
O fio lhe cortou a Parca irada?* 

Á causa deste mal eu não a entendo: 
Só entendo que, perdida essa luz pura, 
Por perdida a não ver, vivo morrendo. 

Vejo que me roubou fortuito escura 
Hum bem por quem meu mal me contentava: 
Lembra-te tu de tanta desventura. 

Lembra-te tu, que só de li 'sperava 
Remédio aos males meus; e então verás 
Qual ficou quem em ti só confiava. 



i49 

Lembre-te adoude estou, adoiide estás, 
E que tudo sem ti cá maborrece: 
Dest'arte o estado meu entenderás. 



SYLVANO 



Não sei por que razão nos amaufiece 
Este dia dos outros differente, 
Com que toda a alegria s'entristece. 

O manso gado vejo, que contente 
Buscando hia nos campos a verdura, 
E dos rios a límpida corrente : 

Agora triste errjir pola espessura, 
Alheio d'herva verde e d'agua fria; 
Sinal d'alguma grande desventura. 

Suspensa está das aves a harmonia; 
E em certo modo mostra que lá chora * 
A mesma sequidão da penedia. 

A cândida, rosada, bella aurora, 
Que sempre os altos montes vem dourando, 
Com hum pallor mortal se mostra agora. 

Está-se nestas hervas enxergando 
Tão triste côr, que deUa se conhece 
Que algum mal se nos vai apparelhando. 

Emfim, vejo que tudo s'entristece; 
A causa ignoro. O Ceo piedoso queira 
Que menos seja o mal, do que parece. 

Porque, desde que habito esta ribeira, 
Não m'acórdo de a ver tão carregada. 
Nem de a ouvir murmurar desta maneira. 

Não m'acórdo que visse outra alvorada 
Tão confusa sahir, como esta vejo, 
De profunda tristeza acompanhada. 



450 



Agora aqui tomara quem sem pejo 
A cauça, se a soubesse, m'ensinasse, 
Para satisfazer a meu desejo. 

Porque não posso eu crer que resultasse 
Dalguma baixa causa hum tal eiTeito, 
Que alé nos duros montes se enxergasse. 

O coração cá dentro no meu peito 
M'assegura, que tanla novidade 
Não traz a origem de commum respeito. 

Mas, por entre a confusa claridade, 
Lá vejo vir Soliso com seu gado: 
Delle espero entender toda a verdade. 

Mas não posso cuidar neste cuidado, 
Que nos olhos não mostre onde me chega 
A dor de o ver de dores traspassado. 

Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega. 
Não he muito que passe hum tal tormento; 
Porque todo maJ dá, todo bem nega. 

Em quanto este pastor o pensamento 
Logrou, sem qu'em amores o empregasse, 
Senão só em bqscar contentamento; 

Festa não se fazia em que faltasse 
A. sua frauta, qu'elle assi tangia. 
Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse. 

Ja agora não he aquelle que sohia; 
Vejo-o na condição todo mudado; 
Mudada também delle está a alegria. 

Não cura ja do seu querido gado; 
Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores; 
Aborrece-lhe a gente e o povoado. 

Não lhe lembrão as festas dos pastores; 
Apartando se vai pola espessura. 
Enlevado somente em seus amores. 



\ò\ 



Gontenta-se da noite triste e escura; 
Ódio tee com o sol puro e luzente. 
Quem vio nunca tamanha desventura? 

Com esta vai passando 1ão contente, 
Que diz que, quando o mal mais o atormenta, 
Se gosto sentir pôde, então o sente. 

Neste bosque huma Nympha se aposenta. 
Por quem elle na vida anda morrendo; 
E he causa desta dor que lhe contenta. 

E segundo o que delle agora entendo. 
Se a vista não m'engana o pensamento, 
Ou de vãa phantasia estou pendendo; 

Quando fora maior o grão tormento. 
Que Soliso padece, não pudera 
Igualar-se com seu merecimento. 

Quero chegar-me a elle, em quanto especa 
Que vá descendo o vagaroso gado: 
Saberei delle o que saber quizera. 

Venho, Soliso, a ti com hum cuidado, 
Que lodo m'entristece; e com grão medo 
De grão mal sobre nós inopinado. 

Vês tu como está agora este arvoredo 
Triste e pezado, lúgubre e sombrio? 
Gomo o vento parece que está quedo? 

Vês a communji corrente deste rio 
Que ora tanto se pára, ora anda tanto, 
Deixando de seu curso o certo fio? 

Vês como a Philomella deixa o canto, 
Gom que incita os pastores namorados, 
E multiplica Progne o triste pranto? 

E vês, emfim, por todos esses prados 
Desmaiadas as hervas, que sob ião 
Viçoso pasto dar aos nossos gados? 






152 

Todos estes sinaes, que não se vião 
Nas Auroras a esta antecedentes, 
Algum dámno mortal nos annnncião. 

Eu não sinto o que seja: se o tu sentes, 
Não te seja o dizer-mo mui penoso; 
E entenderei por ti taes accidentes. 



souso 



N outro tempo me fora deleitoso 
• Por extremo, Sylvano, gosto dar-te; 
Mas todo gosto agora me he nojoso. ' 

Bem quizera poder communicar-te 
A causa deste horror; mas antes quero 
Anojar-me a mi próprio, qué anojar-te. 

Porém ja sinto o fado tão severo. 
Que quanto mais me ponho a declara-lo. 
Mais então d'entendê-lo desespero. 

E se acaso o entender para contá-lo, 
Se quero começar, quer a ventura 
Á força de soluços atalhá-lo. 

Que despois que me falta a formosu^ 
Daquella illustre Nympha, que contente 
Pudera bem fazer a noite escura, 

Foi-me faltando o esprito juntamente: 
Em suspirar só gasto a noite e dia, 
Sem me fartar de ver-me descontente. 



SYLVANO 



Novidade maior em mi seria 
O espantar-me de ver-te estar queixando, 
Que o ver em ti desejos d'alegria. 



Rcsponde-me ao que t'hia perguntando 
Da causa desta singular tristeza: 
Não gastes todo o tempo lamentando. 

SOLISO 

Sempre em ti conheci huma dureza, 
E austera inclinação, que bem declara 
Quão conforme he teu nome á natureza. 

Porque se o meu tormento Valcançára, 
O mór bem para ti o mór mal fora; 
E todo o mal maior te contentara. 

Deixa que chore quem com gosto chora : 
Deixa-me lamentar meu triste fado; 
Que a hum triste a hora de choro he melhor hora. 

Tu não trazes agora outro -cuidado 
Mais que buscar no valle a sombra fria, 
Quando te offende o sol mais empinado. 

Coitado de quem passa à noite e dia 
Porfiando em morrer, e a sorte dura 
Em fugir-lhe co'a morte só porfia!' 
' . Oh formosa Natércia 1 a excelsa altura 
Do glorioso Olympo andas pizando ; 
E eu ausente da tua formosura! 

• 

SYLVANO 

Qu'he isso^ que do Ceo estás fatiando? 
Parece-me que ja não és Soliso, 
Ou que de puro amar vás delirando. 

' souso 

Quem ja perdeo aquelle doce riso, 
Que siso produzia e dava vida. 
Não he muito que perca a vida e siso. 



Í5^ 



SYLVANO 



Declara-me que cousa tens perdida, 
De que tanto te queixas ; que ao que sento, 
Natércia destes valles he partida. 



SOLISO 



Quão livre falia aquelle que o tormento 
Alheio vê de fora, mas não sente 
Onde chega tamanho sentimento 1 

A gloria qu'eu perdi não me consente 
Palavras naturaes, razões expertas, 
Que possão declarar a dor presente. 

Mas nesse teu error vejo que acertas; 
Porque com nenhum mal deve turbar-se 
Quem só delle esperanças logra certas. 



SYLVANO 



A quem, Soliso meu, de declarar^se 
Com outro em casos taes falta vontade, 
Nunca faltão razões para escusar-se. 

Não sei donde te vem tal novidade; 
Pois negando-me agora o que te peço. 
Suspeito que me negas a amizade. 

Se pola que te guardo te aborreço. 
Sabe que só hum cego entendimento 
Ás amizades faz perder o preç^. 

Eu te deixarei só com teu tormento; 
Mas não sem dor de ver que tanto a peito 
Tomes hum tão damnoso pensamento. 



:455 



SOLISO. 

Outra he, certo, a razão, outro o respeito 
Que negar-te me fez o que pedias: 
Não creias que de ti tão mal suspeito. 

Bem sei que o meu descanso pretendias; 
E a mesma confiança faz negar-te 
O que destes sinaes saber querias. 



SYLVANO 



Não queiras mais, Soliso, prolongar-te; 
Pois pende o gosto meu da tua vida: 
Se corre risco, dá-me delle parte. 

SOLISO 

De todo a sinto ja desfallecida . 
Nas lembranças daqúella breve historia. 
Que foi para meus males tão comprida. 

Ja me vence a tristissima memoria 
Da gloria que presente me animava. 
Quem pudera voar traz tanta gloriai 
^ Natércia qu'estes montes alegrava, 
E que á casta Diana fez inveja, 
E que com sua vista o sol cegava; 

Âquella a quem render-se só deseja 
Aquelle que de bella mãe presume, 
E a quem as armas dá com que peleja; 

Natércia, que no mundo foi hum lume. 
Onde a belleza de maior estado 
Incêndios aprendia por costume: 

Natércia, por quem ando acompanhado 
De mágoa tal, que só da morte dura 
Espero o feliz fim de meu cuidado; 



/• 



Áo Ceo se foi co'aqueIla formosura, 
Qu'efa mostra do Ceo, gloria da terra; 
Qu'era o sogeito mór da mór ventura. 

Ja Dâo fará no prado ás almas guerra 
Com a vista, senão com a lembrança; 
Guerra em que o damno mais cruel s'encerra. 

Ja de vê-la não tenhas esperança; 
Qu'esta vida trocou de mal cercada 
Por outra, em que do bem não ha mudança. 

E a causa vês aqui de que a alvorada 
Visses desta manhãa tão di£ferente 
De outra qualquer, de ti mais ponderada. 

Dizer-te, o mais não posso, porque sente 
Esfaima no que disse tal tormento, 
Qu'csta memoria apenas ifie consente. 

O espirito ja débil, sem alento, 
No pouco que te tenho referido, 
Nas azas se sostem do pensamento. 

Oh murido! qual he aquelle tão perdido. 
Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano. 
Vendo-te todo em damno instituido? 

Deixas passar hum gosto d'anno em anno, 
Porque, com nosso opprobrio e tua gloria, 
Nos faças mais patente o teu engano. 

Sempre assi vai comtigo a mór victoria, 
Deixando-nos somente por herança 
D'hum possuido bem triste memoria. 

Quem faz de ti 'alguma confiança, 
Sabendo ja que quem de ti confia, 
D'hum engano penoso em fim se alcança? 

Aquelle da belleza novo dia 
Cegaste, quando mais resplandecente 
Triumphos mil d' Amor nos promettia. 



<57 



De qual tigre cruel peito inclemente 
Não se rompe de mágoa, morta aquella, 
Que a tristeza mil vezes fez contente? 

Quem, que vè eclipsada a vista bella, 
Despois de visto haver 5ua beldade, 
E não sabe morrer por hir traz ella? 

Gomo não te applacou tão tenra idade 
Aó cortar do seu fio, ó Parca dura, 
Que agora o mundo matas de saudade? ^ 

Deixae, deixae, pastores, a verdura; 
As frautas deixae ja, e os mansos gados ; 
E chorae todos vossa desventura. 

E vós, sylvestres Faunos namorado^. 
Também chorar podeis, pois ja perderão 
O objecto mais gentil vossos cuidados. 

P^ymphas, a quem os deoses concedoriU) 
Destes sagrados bosques a morada, 
E em quem tamanhas graças esconderão; 

Se aquella piedade costumada. 
De que mais vos prezais, não esquecestes, 
Que sempre foi de vós tão venerada; 

Se ja d'alheio damno vos doestes. 
Do vosso próprio vos doei agora. 
Pois com Natércia todo o bem perdestes. 

Oh Naiadest das aguas sahi fora; 
E de vós agua saia em mal tão forte, 
Pois de vê-lo também o monte chora. 

Oh Napêasl chorae a triste sorte 
Dos miseros pastores, a quem nega 
O fado por mais pena o mortal corte. 

Oh Dryasl vós, a quem Amor s'entrega, 
Tomae todo o cuidado deste pranto, 
Pois sabeis onde a causa delle chega. 



458 



Deixae, ó Amadryas, entretanto 
As plantas que guardais, por ajudar-me, 
Pois deixa a Philomella o doce cantou 

E vós, ó vida minha, pois curar-me 
Ja não podeis, deixae-me juntamente, 
Porque lembranças taes possio deixar-me. 

Mas se delias morreis, morro contente. 



EGLOGA XVI 



Nas ribeiras do Tejo, a huma área 
De rochas coroada, cada diá 
Vinha Ergasto chamar por Galatea. 

Não tinha que esperar, mas não queria 
Çerder sua esperança, e dos penedos, 
Que o Tejo gasta aprende, e aporfia. 

Depois de discorrer por seus segredos 
Huma vez começou, e em tanto teve 
O rio socegado, os ventos quedos. 

Que fica por provar? ou que mais deve 
Fazer, quem por salvar d'um risco a vida 
Muito comette, a muito mais se atreve? 

Roguei, chorei, e a fera embravecida 
Tão firme em ódio tem posta a vontade. 
Quanto de amor mudada, e arrependida. 

Por ventura mostrou qualquer saudade 
Depois de minhs^ ausência? por ventura 
Teve de minhas lagrimas piedade? 

Segue pois fera, segue aquella dura 
Condição que t'ensina, que esperança 
Tenho de teu castigo bem segura. 



\^9 



Prove suas mesmas leis toa esquivança, 
E o Ceo que a meu pezar te vê mudada, 
Qrdene sobre li cruel vingança. 

Ja pôde ser que tendo experimentada 
A seta de que tantas vezes usas, 
Dês a fúria passada por passada. 

Receberás melhor minhas escusas, 
E opvindo-me queixar, dirás comigo. 
Que sem razão minhas razões accusas. 

Que fallo, ou onde estou? a que perigo 
Me põe esta cruel? se eu vivo nella 
Pêra mim peço logo este castigo? 

Vive, pastora, alegre, e huma estrella 
Benigna, influa em ti tantos favores 
Que sejas tão ditosa como és belta. 

Ouças sempre soar em teus louvores 
Esta nossa ribeira, e largamente 
Te dêem as plantas fruto, o prado flores. 

Comigo corra tudo djfferente. 
Não me refresque a viração no estio. 
Nem nos frios do inverno o sol me aquente. 

Quero aqui n'hum lugar ermo, e sombrio. 
Como nocturno pássaro ficar-me. 
De meus olhos fazendo hum largo rio. 

Pastores, que virão por consolar-me 
Vendo que seu trabalho em vão me cansa, 
Por remédio melhor terão deixar-me. 

Galatea cruel também descansa 
Na tempestade o vento furioso, 
Tua fúria somente se não amansa. 

O nosso campo quem te fez odioso? 
Que tu quando por elle passeavas 
A todo o tempo o achavas gracioso. 



460 



Não lhe D^ues a graça que lhe davas, 
Que o gado ja sem ella o não conhece, 
E nascem tojos, onde flor criavas. 

Vem Galatea ver quando amanhece, 
Âs aves i^udar a fresca aurora, 
Tante a ausência do sol as aborrece. 

Verás o Tejo que indinado oulr'ora, 
Sobre esta área sae lançando escuma, 
E escassamente as ondas move agora. 

E tu cruel não queres que presuma 
Inda alguma hora ver teu peito brando. 
Se não que sem remédio me consuma. 

Os pássaros pelo ar de quando em quando 
Párão a meu cantar, mas lem ouvindo 
Teu nome, vôão logo, e o vão cantando. 

Estão estes salgueiros repelindo, 
Co' som de murmurar da verde rama, 
Os versos que em seu tronco estive abrindo. 

Tu Galatea, surda a quem te chama, 
Ingrata a quQm te serve, em pago deste 
Desprezo a quem t'adora, ódio a quem t'ama. 

E tanto em cruel ira t'acendeste. 
Que para me deixar também deixaste 
O surrão que a teus hombros ja trouxeste. 

Porque o mandei fazer o desprezaste. 
Porém nunca vejas, que d'outrem seja, ^ 
Basta que a teu pescoço o penduraste. 

Não falta outra pastora que o deseja; 
Foi feito para ti, ninguém o traga. 
Quem quer que o desejar morra d'inveja. 

Quando o vejo comigo, huma mortal chaga 
Renovo com lembranças saudosas, 
Que o decurso do tempo não apaga. 



\ò\ 



Também tenho guardadas aquellas rosas 
Que te offreci, que m'engeitaste logo, 
Parece que ainda estão de ti queixosas. 

Secou-as tua ausência, e aquelle fogo, 
Que- acendes em meu peito com fugir-me 
E com mais dura estar quanto eu mais rogo. 

Como poderei eu de ti partir-me? 
Se lua imagem dentro em mim faz guerra. 
Sem nunca mais deixar de pers^uir-me. 

Buscarei com meu gado estranha terra. 
Habitarei onde outro sol mais arde. 
Ou onde a neve tem cuberta a sçrra. 

Mas manda Amor dentro n'alma guarde 
Esta dor, porque a traga na memoria 
Quando amanhece, e quando se faz tarde. 

Quem me dissera estando em minha gloria, 
Qiíe avia ainda de ver tão desprezados 
Estes despojos da passada historia. 

Doces despojos por meu mal guardados 
Alegres n'outro tempo, agora tristes, 
Que no seio d'amor fostes criados. 

•Quando a minha Pastora irada vistes 
Disse-vos o mal, que juntos padecemos. 
Como parlir-vos delia consentistes? 

Fizereis-lhe por mim grandes extremos, 
E quando eu pena alguma merecera, 
Por vós disséreis, nos que merecemos? 

Solitário sem vós melhor vivera, 
E as discórdias cruéis qu'esta alma minha 
Quando vos vejo tem, não n'as tivera. 

Ah cruel Galatea tão asinha 
S esquece amor, que tanto fundamento, 
Tantas raizes em teu peito tinha. 

TOMO III II 



\62 



Aquelle tão contino pcfisamento, 
Aquelles sonhos sempre em meu proveito, 
Tudo lanças furiosa ao vento? 

Aquelle monte de firmezas feito, 
Que me vai ja comtigo, ou que me presta, • 
Se tudo em nuvens vans vejo desfeito? 

Tanto segredo alegre, tanta festa, 
Tanta conversação, sem prejuizo. 
Em que passaste ja comigo a sesta. 

As historias, as praticas de rizo, 
As dissimulações por poder ver-te, 
Aquellas zombarias tão de cizo, 
• Podem deixar agora de mover-te? 
Ou com fingido escjuecimento queres 
' Aprender pouco a pouco a esquecer-te. 

S'isto pertendes, nunca tal esperes. 
Que minha fé voando como esprito. 
Lá t'hade perseguir como estiveres. 

Inda agora m'ensaio e m'exercilo, 
Pêra seguir, pêra soffrer durezas. 
Que este meu soffrimento he infinito. 

Chovão sobre mim fúrias e asperezas, 
Que as fachas, que n'esta alma estão ardendo, 
Fogo que não s'apaga as tem accezas. 

Ah rústico Pastor, que andas fazendo, 
Tu buscas Galatea, ella s'esconde, 
E essas tuas razDes que estás dizendo, 
Ouve-tas muito bem, mas não responde. 



ELEGIAS 



ELEGIA r 

O sulmonense Ovídio desterrado 
Na aspereza do Ponto, imaginando 
Ver-se de seus Penates apartado; 

Sua chara mulher desamparando, 
Seus doces filhos, seu contentamento, 
De sua pátria os olhos apartando; 

Não podendo encobrir o sentimento, 
Aos montes ja, ja aos rios se queixava 
De seu escuro e triste nascimento. 

O curso das estrellas contemplava, 
E aquella ordem com que discorria 
O ceo e o ar, e a terra adonde estava. 

Os peixes por o mar nadando via. 
As feras por o monte procedendo 
Como o seu natural lhes permittia. 

De suas fontes via estar nascendo 
Os saudosos rios de crystal, 
A sua natureza obedecendo. 



4G4 



Assi só, de seu proprio natural 
Apartado, se via em terra estranha, 
A cuja triste dor não acha igual. 

Só sua doce Musa o acompanha 
Nos soidosos versos qu'escrevia, 
E nos lamentos com que o campo l)anha. 

Dest'arte me figura a phantasia 
A vida com que morro, desterrado 
Do bem qu'em outro tempo possuía. . 

Aqui contemplo o gosto ja passado. 
Que nunca passará por a memoria 
De quem o traz na mente debuxado. 

Aqui vejo caduca e débil gloria 
Desenganar meu erro co'a mudança 
Que faz a frágil vida transitória. 

Aqui me representa esta lembrança 
Quão pouca culpa tenho ; e m entristeci* 
Ver sem razão a pena que m'alcança. 

Que a pena que com causa se padece, 
A causa tira o sentimento delia: 
Mas muito doe a que se não merece. 

Quando a roxa manhãa, dourada e bella. 
Abre as portas ao sol e cabe o orvalho, 
E torna a seus queixumes Philomela; 

Este cuidado, que co'o somno atalho, 
Em sonhos me parece; que o que a gente 
Por seu descanso tee me dá trabalho. 

E despois de acordado cegamente, 
(Ou, por melhor dizer, desacordado. 
Que pouco acordo logra hum descontente) 

Daqui me vou, com passo carregado, 
A hum outeiro erguido, e alli m assento, 
Soltando toda a rédea a mou cuidado. 



n 



165 



Despois de farto ja de meu lormenlo, 
Estendo estes meus olhos saudosos 
Á parte donde tinha o pensamento. 

Não vejo senão montes pedregosos ; 
E sem graça e sem flor os campos vejo. 
Que ja floridos vira, e graciosos. 

Vejo o puro, suave e rico Tejo, 
Com as concavas barcas, que nadando 
Vão pondo em doce efl'eito o seu desejo. • 

Humas com brando vento navegando, 
Outras com leves remos brandamente 
As crystallinas aguas apartando. 

Dalli fallo com a agua que não sente 
Com cujo sentimento est'alma sae 
Em lagrimas desfeita claramente. 

O fugitivas ondas, esperae; 
Que pois me não levais em companhia, 
Ao menos estas lagrimas levaê. 

Até que venha aquelle alegre dia 
Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo. 
Mas tanto tempo, quem o passaria? 

Não pôde tanto bem chegar tão cedo : 
Porque primeiro a vida acabará, 
Que se acabe tão áspero degredo. 

Mas essa triste morte que virá, 
S'em tão contrário estado me acabasse, 
Esfaima assi impaciente adonde irá? 

Que se ás portas Tartaricas^ chegasse, 
Temo que tanto mal por a memoria 
Nem ao passar do Lethe lhe passasse. 

Que se a Tântalo e Ticio for notória 
A pena com que vai, e que a atormentai, 
A pena que » lá tee, terão por gloria. * 



i&a 



Essa imaginação, einíim, me augmenta 
Mil mágoas no sentido, porque a vida 
Ue imaginações tristes se contenta. 

Que pois de todo vive consumida, 
Porque o mal que possue se resuma, 
Imagina na gloria possuida. 

Até que a noite eterna me consuma, 
. Ou veja aquelle dia desejado 
Em que a Fortuna faça o que costuma ; 

Se nella ha hi mudar-se hum triste estado. 



ELEGIA II 

Â({viella que d'amor descomedido 
Por o formoso moço se perdeo, 
Que só por si d'amores foi perdido; 

Despois que a deosa em pedra a converteo 
De seu humano gesto verdadeiro, 
A ultima voz só lhe concedeo. 

Assi meu mal do próprio ser primeiro 
Outra cousa nenhua me consente, 
Qu'este canto qu'escrevo derradeiro. 

E se huma pouca vida, estando ausente, 
Me deixa Amor, he porque o pensamento 
Sinta a perda do bem d'estar presente. 

Senhor, se vos espanta o soffrimento 
Que tenho em- tanto mal para escrevê-lo, 
Furto este breve espaço a meu tormento. 

Ponjue quem tPe poder para sofTrê-lo, 
Sem se acabar a vida coo cuidado, . 
Também terá poder para dizê-lo. 



<67 

Nem eu escrevo hum mal ja acostumado; 
Mas n'alma minha triste e saudosa 
A saudade escreve, e eu traslado. 

Ando gastando a vida trabalhosa, 
E esparzindo a contínua soidade 
Ao longo d'huma praia soidosa. 

Vejo do mar a instabilidade, 
Como com seu ruido impetuoso 
Retumba na maior concavidade. 

De furibundas ondas poderoso. 
Na terra, a seu pezar, está tomando 
Lugar, em que s'estenda, cavernoso. 

Ella, como mais fraca, lh'está dando 
As concavas entranhas, onde esteja 
Sempre com som profundo suspirando. 

A todas estas cousas tenho inveja 
Tamanha, que não sei determinar-me, 
Por mais determinado que me veja. 

Se quero em tanto mal desesperar-me, 
Não posso, porque Amor p saudade 
Nem licença me dão para matar-me. 

Ás vezes cuido em mi, se a novidade 
E estranheza das cousas, co'a mudança 
Poderião mudar huma vontade. 

* 

E com isto figuro na lembrança 
A nova terra, o novo trato humano, 
A estrangeira progénie, a estranha usança. 

Subo-me ao monte que Hercules Thebano 
Do altíssimo Calpe dividio. 
Dando caminho aó mar Mediterrano; 

D'alli 'stou tenteando adonde vio 
O pomar das Hesperidas, matando 
A serpe que a seu passo resistio. 



468 



Estou-me em^outrâ parte figurando 
O poderoso Antoo, que derribado 
Mais força se lhe vinha accrescentando ; 

Porém do Hercúleo braço sobjugado, 
No ar deixando a vida, não podendo 
*Dos soccorros da mãe ser ajudado. 

Mas nem com isto^ emfím,, qu estou dizendo. 
Nem com as armas tão continuadas, 
D'amorosas lembranças me defendo. 

Todas as cousas vejo demudadas, 
Porque o tempo ligeiro não consente 
Qu'estejão de firmeza acompanhadas. 

Vi ja que a Primavera, de contente, 
Em variadas cores revestia 
O monte, o campo, o valle, alegremente. 

Vi ja das altas aves a harmonia. 
Que até duros penedos convidava 
A algum suave modo d'alegría. 

Vi ja que tudo, emfim, me contentava, 
E que, de muito cheio^de firmeza, 
Hum mal por mil prazeres não trocava. 

Tal me lee a mudança e estranheza, . 
Que se vou por os prados, a verdura 
Parece que se sécca de tristeza. 

Mas isto he ja costume da ventura; 
Porque aos olhos que vivem descontentes, 
Descontente o prazer se lhes figura. 

Oh graves e insoffriveis accidentes 
Da Fortuna e d'Amorrque penitencia 
Tão grave dais aos peitos ikinocentesl 

Não basta examinar-me a paciência 
Com temores e falsas esperanças, 
Sem que também me tente o mal de ausência? 



^ 



\69 



Trazeis hum brando espirito em mudanças, 
Para que nunca possa ser mudado 
De lagrimas, suspiros e lembranças. 

E s'estiver ao mal acostumado, 
Também no mal não consentis firmeza, 
Para que nunca viva descansado. 

Ja quieto m'achava co'a tristeza; 
E alli não me faltava hum brando engano, 
Que tirasse desejos da fraqueza. 

Mas vendo-me enganado estar ufano, 
Deo á roda a Fortuna; e deo comigo 
Qnde de nova choro o novo dano. 

Ja deve de bastar o que aqui digo. 
Para dar a entender o mais que calo 
A quem ja vio tão áspero perigo. 

E se nos brandos peitos faz abalo 
Hum peito magoado e descontente. 
Que obriga a quem o ouve a consolá-lo ; 

Não quero mais senão que largamente, 
Senhor, me mandeis nova^ dessa terra; 
Que alguma delias me fará contente. 

Porque se b duro Fado ftie desterra 
Tanto tempo do bem, que o fraco esprito 
Desampare a prisão onde s'encerra ; 

Ao som das negras agitas do Cocito, 
Ao pé dos carregados arvoredos 
Cantarei o que n'alma tenho escrito. 

E por entre estes hórridos penedos 
A quem negou Natura o claro dia. 
Entre tormentos ásperos e medos, 

Com a tremula voz, cansada e fria, 
Celebrarei o gesto claro e puro, 
Que nunca perderei da phantasia. 



^ 



170 



O Musico de Tfaracia, ja seguro 
De perder sua Eurydice, tangendo 
Me ajudará ferindo o ar escuro. 

As namoradas sombras, revolvendo 
Memorias do passado, me ouvirão; 
E com seu choro d rio irá crescendo. 

Em Salmonéo as penas faltarão, 
E das filhas de Belo juntamente 
De lagrimas os vasos s'encherão. 

Que se amor não se perde em vida ausente, 
Menos se perderá por morte escura: 
Porque, emfim, a alma vive eternamente, 

E amor he effeito d'alma, e sempre dura. 



ELEGIA III 

* 

O poeta Simonides fallando 
Go'o Capitão Themistocles hum dia, 
Em cousas de sciencia praticando; 

Hum'arte singular lhe promettia, 
Qu'então compunha, com que lh'ensinasse 
A lembrar-se de tudo o que fazia; 

Onde tão subtis regras lhe mostrasse. 
Que nunca lhe passassem da memória 
Em nenhum tempo as cousas que passasse. 

Bem merecia, certo, fama e gloria 
Quem dava regra contra o esquecimento. 
Que sepulta qualquer antigua historia. 

Mas o Capitão claro, cujo intento 
Bem diíferenle estava, porque havia 
Do passado as lembranças por tormento; 



\7\ 



Oh illustre Simonides! (dizia) 
Pois tanto em teu engenho te confias, 
Que mostras â memoria nova via ; 

Se me desses hum'arte, qu'em meus dias 
Me não lembrasse nada do passado, 
Oh quanto melhor obra me farias ! 

S'este excellente dito ponderado 
Fosse por quem se visse estar ausente, 
Em longas esperanças degradado; 

Oh como bradaria justamente, 
Simonides, inventa novas artes; 
Não midas o passado co'o presente I 

Que se he forçado andar por varias partes 
Buscando á vida algum descanço honesto. 
Que tu, Fortuna injusta, mal repartes; 

E se o duro trabalho, he manifesto 
Que por grave que seja, ha de passar-se 
Com animoso esprito e ledo gesto; 

De que serve ás pessoas o lembrar-se 
Do que se passou ja, pois tudo passa. 
Senão d'entristecer-sa e mago^r-se? 

S'em outro corpo hum'alma se traspassa, 
Não como quiz Pythagoras na morte. 
Mas como quer Amor na vida escassa ; 

E s'este Amor no mundo está de sorte, ' 
Que na virtude só d'hum lindo objecto 
Têe hum corpo, sem alma, vivo e forte; 

Onde este objecto falta, qu'he defecto . 
Tamanho para a vida, que ja nella 
M'está chamando á pena a dura Aleclo ; 

Porque me não criara a minha Estrella 
Selvático no mundo, e habitante 
Na dura Scythia, e no mais duro deila? 



<72 



Ou no Cáucaso horrendo, fraco infante 
Criado ao peito d'huma tigre Hircana, 
Homem fora formado de diamante ; 

Porque a cerviz ferina e inhumana 
Não submettêra ao jugo e dura lei 
Daquelte que dá vida quando engana. 

Ou em pago das aguas qu'estilei, 
Âs que passei do mar, forão do Lethe, 
Para que m'esquecôra o que passei. 

Porque o bem que a esperança vaa promellc, 
Ou a morte o estorva, ou a mudança, 
* Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete. 

Ja, Senhor, cahirá como a lembrança, 
No mal, do bem passado he triste e dura, 
Pois nasce aonde morre a esperança. 

E se quizer saber como se apura 
Em almas saudosas, não s'cnfade 
De ler tão longa e misera escriptura. 

Soltava Eolo a rédea e liberdade 
Ao manso Favonio brandamente, 
E eu a tinha ja solta á saudade. 

Neptuno tinha posto o seu tridente; 
 proa a branca escuma dividia. 
Com a gente marítima contente. 

Q coro das NereidasTios seguia ; 
Os ventos, namorada Galatôa 
Comsigo socegados os movia. 
> Das argênteas conchinhas Panopêa 
Andava por o mar fazendo molhos, 
Melanto, Dinamene, com Ligêa. 

Eu, trazendo lembranças por antolhos, 
Trazia os olhos n'agua socegada, 
E a agua sem socego nos meus olhos. 



\7Ò 



 bem-âventurança ja passada 
Diante de mi tinha tão presente, 
Como se não mudasse o tempo nada. 

E com o gesto immolo e descontente, 
Co'hum suspiro profundo e mal ouvido, 
Por não mostrar meu mal a toda a gente, 

Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido 
Em puro amor tivestes, e inda agora 
Da memoria o não tendes esquecido ; 

Se por ventura fordes algum'hora 
Adonde entra o grão Tejo a dai- tributo 
A Tethys, que vós tendes por Senhora; 

Ou ja por ver o verde prado enxuto. 
Ou ja por colher ouro rutilante, 
Das Tagicas areias rico fruto; 

Nellas em verso erótico e elegante 
Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes; 
Pôde ser que algum peito se quebrante. 

E contando de mi memorias tristes, 
Os pastores do Tejo, que me ouvião, 
Oução de vós as mágoas que me ouvistes. 

Elias, que ja no gesto m'entendião. 
Nos meneios das ondas me mostravão . 
Qu'em quanto lhes pedia consentião. 

Estas lembranças, que me acompanhavão 
Por a tranquilliijade da bonança, 
Nem na tormenta triste me deixavão. 

Porque chegando ao Cabo da Esperança, 
Começo da saudade que renov^. 
Lembrando a longa e áspera mudança; 

Debaixo estando ja da estrella nova 
Que no novo.Hemispherio resplandece, 
Dando do segundo axe certa prova ; 



^74 



Eis a noite com nuvens ^escurece; 
Do ar subitamente foge o dia; 
E todo o largo Oceano s'embravece. 

A macbina do mundo parecia 
Qu'em tormentas se vinha desfazendo ; 
Em serras todo o mar se convertia. 

Lutando Boreas fero e Noto horrendo. 
Sonoras tempestades levantavâo, 
Das náos as velas concavas rompendo. 

As cordas co'o ruido assoviavão: 
Os marinheiros, ja desesperados, 
Com gritos para o Ceo o ar coalhavão. 

Os raios por Vulcano fabricados 
Vibrava o fero e áspero Tonante, 
Tremendo os Poios ambos de assombrados. 

Amor alli, mostrando-se possante, 
E que por algum medo não fugia, 
Mas quanto mais trabalho, mais constante; 

Vendo a morte presente, em mi dizia: 
Se algum'hora. Senhora, vos lembrasse, 
Nada do que passei me lembraria. 

Emfím, nunca houve cousa que mudasse 
O firme amor intrínseco daquelle 
Em quem alguma vez de siso entrasse. 

Huma cousa. Senhor, por certa asselle, 
Que nunca amor se aifina, nem se apura. 
Em quanto está presente a causa delle. 

Dest'arte me chegou minha ventura 
A esta desejada e longa terra. 
De todo pobre honrado sepultura. 

Vi quanta vaidade em nós s'encerra. 
E nos próprios quão pouca; contra quem 
Foi logo necessário termos guerra. 



Í75 



Humâ Ilha que o Rei de Porca tem, 
E que o Rei da Pimenta lhe tomara, 
Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem. 

Com huma grossa armada, que juntara 
O Viso-Rei, de Goa nos partimos 
Com toda a gente d armas que se achara. 

E com pouco trabalho destruimos 
A gente no curvo arco exercitada : 
Com morte, com incêndios os punimos. 

Era a Ilha com aguas alagada, 
De modo que se andava ein almadias ; 
Emfim, outra Veneza trasladada. 

Nella nos detivemos sós dous dias, , 
Que forão para alguns os derradeiros. 
Pois passarão da Estyge as ondas frias. 

Qu'estes são os remédios verdadeiros 
Que para a vida estão apparelhados 
Aos que a querem ter por cavalleiros. 

Oh Lavradores bem-aventurados ! 
Se conhecessem seu contentamento, . 
Como vivem no campo socegados! 

Dá-lhes a justa terra o mantimento; 
Dá-lhes a fonte clara d'agua pura; 
Mungem suas ovelhas cento a cento. 

Não vem o mar irado, a noite escura, 
Por ir buscar a pedra do Oriente; 
Não temem o furor da guerra dura. 

Vive hum com suas arvores contente, 
Sem lhe quebrar o somno repousado 
A grã cobiça d'ouro reluzente. 

Se lhe falta o vestido perfumado, 
E da formosa côr de Assyria tinto, 
E dos torçaes Attalicos lavrado: 



476 



Se não tee as delícias de Corinto, 
E se de Pario os mármores lhe faltão, 
O pyropo, a esmeralda e o jacinto; 
. Se suas casas de ouro não s'esmaltão; 
Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,. 
Onde os cabritos seus comendo saltão. 

Alli lhe mostra o campo várias cores ; 
Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno; 
Alli se ailina o canto dos pastores. 

Alli cantara Tityro e Sileno. 
Emfim, por estas partes caminhou 
A sãa Justiça para o Geo sereno. 

Ditoso seja aquelle que alcançou 
Poder viver na doce companhia 
Das mansas ovelhinhas que criou ! 

Este bem facilmente alcançaria 
As causas naturaes de toda cousa; 
Como se gera a chuva e neve fria : 

Os trabalhos do sol, que não repousa; 
E porque nos dá a lua a luz alhèa, 
Se tolher-nos de Phebo os raios ousa : 

E como tão depressa o Ceo rodea; 
E como hum só os outros traz comsigo; 
E se he benigna ou dura Cythcrôa. 

Bem mal pode entender isto que digo. 
Quem ha de andar seguindo o fero Marte; 
Que sempre os olhos traz em seu perigo. 

Porém seja, Senhor, de qualquer arte. 
Pois postoque a Fortuna possa tanto, 
Que tão longe de todo o bem me aparte: 

Não poderá apartar meu duro canto 
Desta obrigação sua, em quanto a morto 
Me não entrega ao duro Radamanto; 

Se para tristes ha tão leda sorte. 



m 



ELEGIA IV 

é 

Despois que iMagalhães teve tecida 
A breve historia sua, que illustrasse 
A Terra Santa Cruz, pouco sabida; 

Imaginando a quem a dedicasse, 
Ou com cujo favor defenderia 
' Seu livro d'algum zoilo que ladrasse; 

Tendo nisto occupada a phantasia, 
Lhe sobreveio hum somno repousado, 
Antes que o sol abrisse o claro dia. 

Em sonhos lhe apparece todo armado 
Marte, brandindo a lança furiosa, 
Com- que fez quem o vio todo enfiado; 

Dizendo em voz pezada e temerosa : 
Não he justo que a outrem se ofTereça 
Obra alguma que possa ser famosa. 

Senão a quem por armas resplandeça 
No largo mundo com tal nome e fama, 
Que louvor immortal sempre mereça. . 

Disse assi: quando Apollo, que da flama 
Celeste guia os carros, de outra parte 
Se lhe presenta, e por seu nome o chajnd, 

Dizendo: Magalhães, postoque Marte 
Com seu terror t'espante, todavia 
Comigo deves só, de aconselhar-te. 

Hum Varão sapiente, em quem Thalia 
Poz seus thesouros, e eu minha sciencia. 
Defender tuas obras poderia. 

He justo que a escriptura na prudência 
Ache só defensão; porque a dureza 
Das armas he contrária da eloquência. 

TOMO 111 12 



Í78 



Assi disse: e tocando com destreza 
A cithara dourada, começou 
A mitigar de Marte a fortaleza. 

Mas Mercúrio, que sempre costumou 
Pacificar porfias duvidosas, 
Co'o Caducêo na mão, que sempre usou, 

Determina compor as perigosas 
Opiniões dos deoses inimigos 
Com suaves razões e ponderosas. 

E disse: Bem sabemos dos antigos 
Heroes, e dos modernos, que provarão 
De Belona os gravissimos perigos. 

Como tão bem mil vezes concordarão 
As arma& com as letras; porque as Musas 
A muitos na milicia acompanharão. 

Nunca Alexandre, ou César, nas confusas 
Guerras o estudo deixão grande espaço; 
Que as atmas jamais delle são escusas. 

N'huma mão livros, noutra ferro e aço; 
Aquella rege e ensina; esfoulra fere: 
Mais co'o saber se vence, que co'o braço. 

Pois, logo, hum Varão grande se requere, 
Que com teus does (ApoUo) illustre seja, 
E de ti (Marte) palma e gloria espere. . 

Este vos darei eu, em quem se veja 
Saber e esforçx) no sereno peito, 
Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja. 

Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito^ 
Todas nove nos braços o tomarão, 
Criando-o co'o seu leite no seu leito: 

As Artes e as Sciencias lh'ensinárão ; 
Inclinação divina lh'influírão 
Ás virtudes moraes, que logo o ornarão. 



179 

Daqui nos exercícios o seguirão 
Das armas no Oriente, onde primeiro 
Hum soldado gentil instituirão. 

Alli taes provas fez de Cavalleiro, 
Que, de Christão magnânimo e seguro, 
Á si mesmo venceo por derradeiro. 

Despois, ja Capitão forte e maduro, 
Governando toda a Áurea Chersoneso, 
Lhe defendeo co'o braço o débil muro. 

Porque vindo a cercá-la todo o peso 
Do poder dos Achens, que se sustenta 
De alheio sangue, em fúria todo acceso; 

Este só que a ti, Marte, representa, 
O castigou de sorte, que vencido 
De ter quem vivo fique se contenta. 

E logo qu'este Reino defendido 
Deixou, segunda vez com maior glória 
Para o ir governar foi elegido. 

Mas não perdendo ainda da memoria 
Os amigos o seu governo brando. 
Os imigos o damno da viètoria ; 

Huns com amor intrínseco esperando 
Estão por elle, e os outros congelados 
O estão com frio medo receando. 

Vede pois se serião debellados 
Por seu claro valor, se lá tomasse, ' 
E dos Indicos mares degradados. 

Porqu'he justo que nunca lhe negasse 
O conselho do Olympo alto e subido 
Favor é ajuda com que pelejasse. 

Aqui só pôde ser bem dirigido 
De Magalhães o estudo: este só deve 
Ser de vós, claros deoses, escolhido. 



^80 

Assi Mercúrio disse; e em termo breve 
Conformados se vem Apollo e Marle; 
E voou juntamente o somno leve.' 

Acorda Magalhães, e ja se parle 
A offerecer-vos, Senhor claro e famoso, 
Tudo o que nelle poz sciencia e arte. 

Tee claro estylo, e engenho curioso, 
Para poder de vós ser recebido, 
Com mão benigna, de animo amoroso. 

Pois se só .de não ser favorecido 
Hum alto esprito fica baixo e escuro; 
Este seja comvosco defeqdido, 

Como o foi de Malaca o débil muro. 



ELEGIA V 

Aquelle mover de olhos excellente, 
Aquelle vivo espirito inflammado 
Do crj^stallino rosto transparente; 

Aquelle gesto immoto e repousado, 
Qu'estando n'alma propriamente escrito, 
Não pôde ser em verso trasladado; 

Aquelle parecer, que he infinito 
Para se comprender d'engenho humano; 
O qual offendo em quanto tenho dito ; 

Tanto a iYiflamar-me vem d'hum doce engano, 
£ tanto a engrandecer-me a phanlasia, 
Que não vi maior glória que meu dano. 

Oh bem-aventurado seja o dia 
Em que tomei" tão doce pensamento. 
Que de todos os outros me desvia ! 



\f^\ 



E bem-aventurado o soiTrimento 
Que soube ser capaz de tanta pena, 
Vendo que o foi da causa o entendimento 1 

. Faça-me quem me mata, o mal que ordena, 
Trate-me com enganos, desamores ; 
Qu'entâo me salva, quando me condena. 

E se de tão suaves desfavores 
Penando vive hum'alma consumida, 
Oh que doce penar I que doces dores 1 

E se huma condição endurecida 
Também me nega a morte por meu dano, 
Oh que doce morrer! que doce vida! 

E se me mostfa hum gesto lindo humano, 
Como que de meu mal culpada se acha. 
Oh que doce* mentir ! que doce engano ! 

E s'em querer-lhe tanto ponho tacha, 
Mostrando refrear o pensamento. 
Oh que doce fingir! que doce cacha! 

Assi que ponho ja no soffrimento 
A parte principal de minha glória, 
Tomando por melhor todo tormento. . 

Se sinío tanto bem só co'a memoria 
De ver-vos, hnda Dama, vencedora; 
Que quero eu mais que ser vossa victoria? 

Se tapto a vossa vista mais namora, 
Quanto eu sou menos para merecer-vos ; 
Que quero eu mais que ter-vos por senhora? 

Se procede este bem de conhecer-vos, 
E consiste o vencer em ser vencido, 
Que quero eu mais, Senhora, que querer- vos? 

S'em meu proveito faz qualquer partido, 
Só na vista d'huhs olhos tão serenos. 
Que quero eu mais ganhar que ser perdido? 



\S2 



Se, emfim, os meus espritos, de pequenos, 
A merecer não chegão seu tormento, 
Que quero eu mais, que o mais não seja menos? 

A causa, pois, m'esforça o soffrimento; 
Porque, a pezar do mal que me resiste, 
De todos os trabalhos me contento; 

Que a razão faz a pena alegre, ou triste. 



ELEGIA VI 

Entre rústicas serras e fragosas, 
Compostas d'asperissimos rochedos, 
De salitradas lapas cavernosas; 

Onde gretando os húmidos penedos * 
Orvalhados de neve branca, e fria. 
Brotando estão de si mil arvoredos; 

Huma floresta fez verde e sombria 
A natureza experta, que rodeia, 
Como elevado muro, a serrania. 

Neste formoso sítio se recreia 
O lascivo Cupido entre as boninas. 
Que sempre hum brando Zephyro meneia. 

Da cândida cecém, das clavellinas, 
Da salva, mangerona e das mosqueias. 
Das rubicundas flores hyacinthinas, 

Muitas capellas tece, que de setas 
•Lhe servem contra peitos de donzellas, 
A quem d'inveja traz sempre inquietas. 

Não são d'huma só côr as flores bellas; 
Que humas esmalta verde, outras rosado, 
Entre as azues crescendo as amarellas. 



J85 

« 

Dos agrestes loureiros rodeado, 
Fa^ o valle huma sombra deleitosa, 
Quando apparece o sol mais levantado. 

E por cima da relva bem graciosa 
As gottas de crystal quasi imitando 
Estão do aljôfar puro a luz formosa. 

As crystallinas fontes, que brotando 
Por entre alvos seixinhos se derivâo. 
Das arvores os troncos vão banhando. 

Entre as limpidas aguas, qu'inda es((uivão 
O formoso pastor que se perdeo, 
Preso das falsas mostras que o captivão, 

Cresce a por cuja causa s'esqueceo 
A linda Cytherêa de Vulcano, 
Quando presa d'Amor se lhe réndeo. 

Na brancura do rosto soberano^ 
Inda as cruéis feridas apparecem 
Do javali cerdoso e deshumano. 

As rosas que de sangue resplandecem, 
As cândidas boninas marchetadas. 
Qual roxo esmalte á vista bem se off recém. 

Do matutino orvalho rociadas, 
As flores rutilantes e cheirosas 
Estão como por cima prateadas. 

Os húmidos botões abrindo as rosas, 
Que os agudos espinhos vão cercando. 
No prado se vem rindo deliciosas. 

A mellifera abelha, susurrando 
Por cima das boninas que rodeia. 
Está co'o som das aguas concertando. 

Do trémulo regato a branda areia 
De jacinthos se cobre e de vieiras, 
Qu'encrespão da corrente a })ranca veia. 



\S4 



Os álamos s'abração co'as videiras 
De sorte, que s'enxérga escassamente 
Se são os cachos seus, se das parreiras; 

E pendendo por cima da corrente, 
Outro formoso bosque debuxando 
Estão no fundo delia brandamente. 

Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando , 
Do pérfido cunhado a crueldade, 
Magoas em melodias tiansformando. 

A solitária rola com soidade 
Desfaz o rouco peito, ja cansada 
De que não move a morte a piedade. 

A domestica Progne anda banhada 
No sangue de seus filhos, em vingança 
Da triste Philomela profanada. 

De competir co'o medo não descança 
O gárrulo calhandro, qu'enrouquece 
Por não perder callado a confiança. 

Em quanto o pobre ninho ajunta e tece 
O sonoro canário, modulando 
Engana a grave pena que padece.* 

Alguns versos s'escuta derramando 
O vário pintasirgo, tão saudáveis. 
Que produzem memorias d'amor brando. 

Por os direitos troncos ha notáveis 
Epigrammas; alguns d'antigua historia, 
Quç contra o duro tempo são duráveis. 

Huns de cruel tormento, outros de gloria. 
Conforme a liberdade do qu'escreve. 
Estranhos casos mostrão á memoria. 

O que neste lugar contente esteve, 
Contente declarou seu pensamento, 
E os prazeres também que nelle teve. 



485 



Mas outros, declarando o sentimento 
Que dos olhos destila^tristes ágoas, 
Deixarão mil lembranças de tormento. 

Abrazando-se alguns em vivas frágoas, 
Escreverão do bosque em muitas partes 
Gostos d'Amor agora, agora mágoas. 

Porque, cruel menino, o premio partes 
 quem serás tyranno se lho negas, 
E injusto e desigual, se lho repartes? 

Porqu'enganas as almas que tão cegas 
Arrastas apoz ti, de error captivas? 
Porque a cruéis rigores as entregas? 

Para que contra hum peito assi t'esquivas, 
Que humilde se sujeita a teu cuidado. 
Com enganos de sombras fugitivas? 

Levas, como a menino, hum pobre a nado, 
N'huma apparencia falsa embevecido. 
Quando co'os braços corta o mar inchado. 

Querendo-se tomar, vê-se perdido ; 
Ja grita que se affoga; e tu zombando, 
Da praia entre os penedos escondido! 

O triste, que conhece ir-se affogando. 
No meio da arriscada zombaria 
Por divino soccorro está clamando. 

Mas eu de que m'espanto, se dizia 
Hum sábio que d'enganos se temesse 
O que tomasse a hum cego tal por guia? 

Nunca ndle a firmeza permsftiece; 
Se nos dá gosto algum, muda-se logo; 
Ja chora, ja se ri, ja s*enfurece. 

Anda coos corações sempre em hum jogo; 
Humas vezes os faz de pedra fria, 
Outras os faz de neve, outras de fogo. 



Tornando ao bosque meu que descrevia, 
Despois de ter contado da frescura 
Que nelle tão pomposa apparecia, 

Referir quero agora huma aventura 
Que nelle ao vão Narciso aconteceo, 
Digna.de se chorar com mágoa pura. 

Castigo foi que o moço mereceo 
Por se mostrar esquivo com aquella, 
Qu'em viva pedra Juno converteo. 

Ardia em fogo d alma a vãa donzella, 
Soffrendo hum duro peito; que a Narciso, 
Quando ella mais se abraza, mais congela. 

E quando a fraca Nympha mais. de siso 
Mostrava hum signal certo de firmeza, 
Então se provocava o moço a riso. 

Ja d'huma profundíssima tristeza 
A descora o rigor que a consumia. 
Como diz desfavor mal com belleza! 

O gelado pastor folgava e ria; 
Mas vendo-a de seu gosto andar contente, 
Por não a contentar s'entrislecia. 

He tal o seu rigor, que não consente 
Que seja o gosto próprio festejado; 
Antes disso se mostra descontente. 

Mas o cego Cupido, d affrontado, 
Em vingança da fé que desprezou. 
Fez que fosse de si mesmo enganado. 

Casualmente hum dia se chegou 
A beber n'huma fonte crystallina, 
Que de si nova sede lhe causou. 

Vendo a sua figura peregrina 
Que a fonte dentro em si representava, 
Sc perdeo por imagem tão divina. 



487 



Como ja, d'enlevado, não cuidava 
Nos enganos que a sombra lhe fazia, 
Vendo o formoso rosto, suspirava. 

Por as avaras aguas se metia; . 
E quanto mais molhava os tenros braços, 
Então mais vivamente o fogo ardia. 

Vendo-se assi prender em duros laços, 
Ao sentimento obriga a paciência. 
Dando, fora de si, ao vento abraços. 

Embevecido todo n'apparencia, 
Sem saber de cuidado o que sentia, 
Não fez. ao doce engano resistência. 

Ao ver-se longe mais, mais perto via 
O peregrino gesto; e se chegava, 
Então para mais longe lhe fugia. 

Vendo, emfim, como em tudo o remedava, 
Cahio no torpe engano que tivera» 
A tempo que de si ja preso estava. 

A belleza que a tantas morte dera, 
De si mesma se abraza e se captiva. 
Quão longç então de si ver-se quizeral 

Ella se abranda própria; ella se esquiva; 
E sendo ella somente a que se amava, 
Ella se chama ingrata e fugitiva. 

A formosura, pois, que namorava. 
Com tal dificuldade era seguida, 
Qu*estando dentro em si, mui longe eslava. 
, A solitária Nympha, qu'escondida 
Ja nas cavernas concavas se via. 
Dos inales que lhe ouvio foi commovida. 

Das namoradas mágoas que dizia 
O namorado moço, ella somente 
Os últimos accentos repetia. 



\ÁS 



EUe vendo-se estar alli presente, 
Âs cr} stallinas aguas accusava 
De que ellas o fazião descontente. 

Outras \^zes á fonte, quando a olhava, 
Ja cego, e sem juizo, agradecia 
A figura que dentro lhe mostrava. 

Mas vendo qu^ella em* nada se dohia 
De seu grave tormento, grita e chora. 
Quanto erra quem de sombras se confia! 

Ja lhe ^ede que saia para fora. 
Ignorando que sempre fora esteve 
 belleza que nelle próprio mora. 

Despois que longo espaço se deteve 
Nestes queixumes seus tão lastimosos. 
Que com tão longo ser, julgou por breve; 

Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos. 
Do valle se despede e da espessura. 
Dando soluços da alma vagarosos. 

Entregue na vontade da ventura, 
Ou, por melhor dizer, de seus enganos, 
Ao centro se arrojou da fonte pura. 

Dest'arte feneceo em tenros anos 
Narciso, dando exemplo á formosura 
De que tema, se he tal, também seus danos. 

Sentimento mostrou da sorte dura 
O namorado Júpiter, mudando 
Ao moço em flor purpúrea-, qu'inda dura. 

Aquellas claras aguas rodeando, 
Onde por seus amores se perdeo, 
Está despois da morte acompanhando. 

Tanto no seu engano procedeo, 
Que não sabe na morte inda apartar-se 
Dos erros que na vida commetteo. ' , 



\S9 



Bem pode o coração desenganar-se. 
Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado, 
Não costuma na morte resfriar-se. 

Porque despois do corpo sepultado. 
Prisão onde s'encerra o fraco esprito, 
Eternamente chora o seu cuidado. 

E das escuras aguas do Gocito 
A rápida corrente refreando, 
Celebra o. lindo gesto n'alma escrito. 

Lá se está co'os favores recreando; 
E se foi desprezado, lá padece, 
As duras esquivanças lamentando. 

Nem dos avaros olhos lá s'esquece. 
Que de formoso verde a terra esmaltão, 
Por não ver os do triste qu'endoudece. 

Assi que os desfayores nunca' faltão, 
Até despois da morte perseguindo * 
Hum triste coração que desbaratão. 

Triste de quem em vão lhe vai fugindo I 



ELEGIA VII 

Ao pé d'hum'alta faia vi sentado, 
N'humvalle deleitoso e bem florido, 
A Álmeno, pastor triste e namorado. 

Outro no mundo pôde haver nascido ' 
Mui queixoso de Amor; porém não tanto. 
Como este amante, por amar perdido. 

Ja Vénus hia recolhendo o manto 
Escuro com que a terra se mostrava. 
Para ajudar d'Almeno o triste pranto. 



Apollo sobre os montes derramava 
Seus dourados cabellos, que fazião 
Ao triste inda mais triste do qu'estava. 

As flores por o prado s'estendião. 
E das que fmas mais erão as cores, 
Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião. 

Ja guiavão seus gados os pastores. 
Que, deixahdo-os no campo deleitoso, 
Com ellas praticavão só d'amores. 

Mas era esta alegria hum perigoso 
Estado para Almeno entristecido; 
E por isso a deixava pressuroso, 

Buscando outro lugar: contra Cupido 
Claramente exclamava, e o arguia 
De contrário, d'astuto e fementido. 

De quando em quando a frauta que tangia, 
Números dava ao ar tão docemente. 
Que as aves provocava a melodia. 

Cego assi desta dor, deste accidente, 
Com os olhos em lagrimas banhados, 
Postos no Ceo, dizia tristemente: 

Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados, 
Porque mos deste tu para offender-te, 
Quando livre vivia nestes prados? 

Não vês quanto me negas merecer-te 
O bem que me mostravas, se deixasse 
Ferir meu coração para soffrer-te? 

Qual bem me has dado, Amor, que me durasse? 
Ou qual me has promettldo, que hajas dado? 
Ou qual deste, que muito não custasse? 

Mostra-me quem puzeste em tal estado. 
Que pudesse viver de ti contente. 
Ou quem de ti não fosse lastimado? 



i9i 



Inimigo cruel de toda a gente, . 
Ja nâo quero leu bera, só meu mal quero ; 
Se de ti nem meu mal se me consente. 

Inda que de teus bens ja desespero, 
Não desprezo dos males o tormento; 
Antes o prezo mais, quando he mais fero. 

Arrebatado deste pensamento 
Hia o triste pastor com hum contino 
Pranto, que lhe avivava o sentimento» 

Quando entrou n'hum vergel d esmalte fino, 
Qu*era de Amor plantado ; e parecendo 
Lhe está menos humano que divino. 

Nelle a dor sua esteve suspendendo: 
Porém não, como cervo, eslá ferido. 
Reparo ao mal que leva pretendendo. 

Apparecia o sítio tão florido, 
Que provocava a não vulgar espanto. 
Entre huns altos ulmeiros escondido. 

D'hum crystallino orvalho tinha o manto, 
Quando entrou nelle o misero pastor, 
E as tenções explicou neste seu canto. 
* Ó bellas rosas, vós que sois amor, 
He por dita humildade, ou he baixeza, 
O ter apar de vós murta, que he dor? 

Papoulas conversais, que são tristeza! 
Não desprezais o cardo, que he tormento I 
Admittis a hortelãa, sendo crueza I 

Dos goivos longe vejo o sentimento ; 
Dos jasmins perto estou vendo o perigo; 
Do malmequeres vejo o. soffrimento. 

Deste me temerei como inimigo; 
Mas traz por armas salva, que he razão: 
Com ella acabará também comigo. 



192 



As minhas vem a ser huma aíTeição, 
Que são os puros cravos misturados 
Co'a vontade sujeita, que.be limão. 

Ai mosqueias, que sois d^amor cuidados! 
Ai crespa mangerona, que és prazer! 
Vós sós devieís adornar os prados. 

Não podem dous oppostos juntos ser: 
Onde se põe giesta, que he lembrança, 
Jiínto do rosmaninho, que he 'squecer? 

Bepi peza do leve álamo a mudança; 
Do roxo goivo anima o pensamento 
Do cypreste odorífero a esperança. 

O trevo, que he sentido apartamento. 
Cerca o mangerícão, que se interpreta 
Memoria a quem oifende o esquecimento. 

Mais importuna que o jardim de Creta, 
A ameixieira a flor está soltando: 
A segurelha vejo, que he discreta. 

As hervas que daqui irei tomando. 
São a pura cecém, que he saudade; 
Cravos, medo de ver qual de amor ando. 

E, de ter mui perdida a liberdade, 
Tomarei madresylva entendimento; 
.Legação tomarei, porqu'be verdade. 

Marmeleiro me dá arrependimento : 
Por a salva, que he gosto, tomarei 
Coentro opposto ao meu contentamento. 

Conhecimento firme nunca achei, 
Que violetas são ; e, quando o houvera, 
Qual meu damno então fora, bem o sei. 

Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera 
Ver-vos aqui menor, pois sois victoria, 
Que de mi alcançou chamma severa! 



Í93 



Mas se quereis que tenha alguniâ gloria; 
Por galardão d'amar e ser sujeito, 
Perderei de tormentos a memoria. 

Porém, pois mo negais, de todo engeito 
A palma, qu'he ventura; e na parreira, 
Qu'he 'sperança perdida, me deleito. 

Entretanto co'a flor da laranjeira, 
Qu'he desafio duro e arriscado. 
Posso ai^ir da hora derradeira. 

Ja não se quer deter o meu cuidado 
Com a romãa descanso: a brevidade 
Das maravilhas só tee desejado. 

E vós, ovelhas minhas, sem piedade 
Vós apartae de mi, se algum desejo 
Tendes de ter do pasto mais vontade. 

Se muita de me verdes em vós vejo, 
Toda a minha de ver-vos-hei perdido 
Á força do poder d'amor sobejo. 

Lograe do Tejo o plácido ruido;^ 
Sós lograe estas veigas florecidas: 
Pois se perde o pastor vosso querido, 

Não gosteis de com elle ser perdidas. 



ELEGIA Viu 

Belisa, único bem desta alma triste, 
Descanso singular de minha vida, 
Throno donde o poder d'Amor consiste ; 

Formosa fera, a quem está rendida 
D'Âmor a que he mais livre liberdade, 
Ganhada mais, se mais por ti perdida; 

TOMO III ,13 



\^i 



Quão contrario parece na beldade, 
Que os corações captiva com brandura. 
Alguma nódoa haver de crueldade! 

Quão contrario parece em formosura, 
Que deixa muito atraz quanto he humano, 
Esquiva condição, ou alma dura ! 

Quão mal parece em quem só co'hum engano 
Pôde dar vida ao coração sujeito, 
Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano! 

Quão mal parece que hum amor perfeito 
Não seja d'outro igual remunerado, 
Inda que seja, acaso, contrafeito! 

Quão mal parece estar desesperado 
Quem tanto por ti soffre e têe soffrido, 
Devendo estar de penas alliviado! 

Porém peor parece quem rendido 
Não for a hum parecer que tudo rende, 
Por mais qji^em seu rigor viva oifendido. 

E inda peor parece quem defende 
O ser essa belleza sempre amada, 
Por mais qu'em vão se canse o que a pretende. 

Se quem te mostra amor te desagrada, 
Só podes pretender o não ser vista, 
Mas não despois de vista o ser deixada. 

Quão mal sabe o valor de tua vista 
Quem cuida que o que delia acaso alcança 
Pôde achar coração que lhe resista! 

Quão bem pareceria huma esperança 
Ja concedida a meu amor ardente, 
Não sempre huma mortal desc(mfiança! 

Se hum padecer por ti constantemente 
Pudesse ser reparo a quem mais te ama, 
Inda esperar pudera o ser contente. 



<95 

Mas eu temo que aquella immensa chama 
Com que a teu bello império me levaste, 
Te enfrie tanto a ti, quanto m'inflama. 

Se a Olympica belleza assi imitaste, 
Que brandamente move hum amor puro, 
Porque tão dura condição tomaste? 

Qual elevado, qual soberbo muro 
Este mal, que m'occupa o pensamento, 
Contado, não tornara menos duro? 

Tu, qu'és a causa só de «leu tormento. 
Tu, que somente podes gloriar-me. 
Queres que as minhas queixas leve o vento? 

Tu, que me pagarias com matar-me, 
Inda a morte me negas vezes tantas? 
Ai, que me deras vida em morte dar-me ! 

Usa piedade, tu, que o mundo espantas 
Co'os bellos olhos, com que o douras tanto. 
Se acaso a vê-lo brandos os levantas. . 

Estende-se na terra o negro manto, 
E ã noute dá alegria a luz alheia; 
Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. 

Toma a manhãa despois alegre è cheia 
Da luz que o choro enxuga á bdla Aurora; 
Mas do meu choro nunca enxuga a veia. 

Lagrimas ja não são qu'esta alma chora, 
Mas amor he vital que dentro arde, 
E por a luz dos olhos salta fora. 

Como inda a morte quer que mais s^arde? 
Não tarda ja, mas corra a mal tão fero. • 
Mas ja por mais que corra virá tarde. 

Nem no supremo trance de ti 'spero 
Qu'inda com ver o estado em que tne has posto 
Queiras, crua, entender quanto te quero. 



496 



Ai! se volveres esse bello rosto 
Ao lugar triste em que morrer me vires, 
Não por desgosto teu, mas por teu gosto, 

Não quero de ti, não, que alli suspires, 
Nero que de dar-me a morte te arrependas, 
Mas que os olhos de ver-me então não tires. 

Assi nunca pastor a quem te rendas, 
Te faça conhecer o que me fazes. 
Para que com teu mal meu mal entendas! 

Como ja agora não te satisfazes 
Das penas deste amor, que por querer-te. 
De teu merecimento são capazes? 

Pois quem com outro mérito render-te 
Presume (oh raro monstro tle belleza!), 
Muito mais longe está de merecer-te. 

Este si, que merece a grã crueza 
Com que tu d'acabar-me a vida tratas, 
Pois diante de ti, de si se preza. 

Se cuidas que com isto desbaratas 
O meu constante amor, porque não viva, 
Elle mais vive quando mais me matas. 

Se o dar-me morte tens por glória altiva. 
Eu m'inclino a que mates ; tu finclina 
A matar mais de branda que d'e$quiva. 

S'esta alma tua julgas por indina 
Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde, 
Do descoberto mal a faze dina. 

Onde (ai!) voz acharei que baste (ail), onde, 
A poder reduzir-te a ser piedosa? 
Ou m'acaba de todo, ou me responde. 

Mas por mais que te mostres rigorosa, 
Deixar meu pensamento ni'he impossivel, 
Igualmente que a ti não ser formosa. 



\97 



E por mais qu'esta dor seja terrível. 
Somente o contemplar a causa delia, 
Inda que a faz maior, a faz soifrivel. 

Porém chegando a não poder soffre-la, 
Perdendo a vida; quando a morte chame, 
Não perderei o gosto de perde-la. 

He justo qu'eu por ti mil mortes ame: 
Mas vè tu se te illustra, quando offensa 
Minha mortal o teu valor se chame. 

Bem vês que huma beldade tão immensa 
De vencer-me tee gloria bem pequena. 
Pois só render-me tomo por defensa. 

Mas ja que amor tão puro me condena, 
Contente fico assaz desta victoria; 
Que não me dão meus males tanta pena, 

Quanto o serem por ti me dá de gloria. 



ELEGIA IX 

A vida me aborrece, a morte quero : 
Será eterno o meu mal, segundo entendo, 
Pois na mór esperança desespero. 

Sem viver vivo, por morrer vivendo 
Por não verdes. Senhora, como eu vejo, 
Quanto de mi por vós me ando esquecendo. 

Seja-me agradecido este desejo ; 
Ingrata não sejais a quem vos ama 
Com puro e honestíssimo despejo. 

A culpa que me pondes, ponde-a á fama, 
Que pregoa de vós celeste vida 
Que os corações d'amor divino inflama. 



f 



498 



Humana, quando não agradecida, 
Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso. 
Antes que a alma do corpo se despida. 

Mas que posso eu fazer, pois ja não posso 
Hum tormento domar tão forte e duro, 
Homem formado só de carne e de osso? 

Em minha fé segura me asseguro; 
Porqu'esta, quando he grande, jamais erra, 
Se resultar d'amor sincero e puro. 

Essa beldade santa me faz guerra; 
Por ella hei de morrer, inda que veja 
Tomar o brando rio em dura serra. 

Que cousa tenho eu ja que minha seja? 
Quem não deseja a vossa formosura, 
Não pôde ass^rar que o Ceo deseja. 

De qu'eu sempre a deseje estae segura: 
Neste desejo meu nunca mudança 
Hão de ver as mudanças da ventura. 

A vida tenho posta na balança 
Da gloria singular, do damno esquivo; 
Que o perde-la por vós he mór bonança. 

Se vos offendo, cuido que não vivo: 
Olhae se muito mais que de ofiender-vos. 
Das esperanças do viver me privo. 

Q que temo somente he só perder-vos; 
O que quero somente he só adorar-vos; 
O que somente adoro he só quarer-vos. 

Querer-vos sem deixar de venerar-vos: 
Desejar-vos somente por servir-vos; 
Por servir a amor vil não desejar-vos: 

Somente ver-vos, e somente ouvir-vos 
* Pretendo; e pois somente isto pretendo. 
Deveis a estes sentidos permittir-vos. 



499 



Isto somente (oh cego!) estou dizendo, 
Como se fõra pouco isto somente l 
Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo? 

Se o não merece o meu amor decente; 
Se morte por amar-vos se merece, 
Morra eu, Senhora; e vós ficae contente. 

Se vos aggrava quem po^ vós padece; 
Se vos vee a offender quem vos quer tanto, 
Quem desta sorte errou não desmerece. 

Que quando os olhos da razão levanto 
Ao ceo d'essa rarissima belleza, 
De não morrer por ella só m'espanlo. 

Deixae-me contentar desta tristeza, 
E fazer de meus olhos largo rio; 
Se algum pôde abrandar vossa dureza. 

Correndo sempre as lagrimas em fio, 
Farei crescer as hervas por os prados, 
Pois ja d'outra alaria desconfio. 

No monte darei pasto a meus cuidados; 
E serão de mi sempre entre os pastores 
Esses divinos olhos celebrados. 

Aprenderão de mi os amadores 
Aquillo que se chama amor sublime, 
Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores. 

E nenhum haverá que a pena estime 
Mais soberana por a causa delia, 
Que a que teve até então não desestime ; 

E qu* inveja não mostre á minha estrella. 



200 



ELEGIA X 

Que tristes novas, ou que novo dano, 
Qu'inopinado mal incerto sõa, 
Tingindo de temor o vulto humano? 

Que vejo? a3 praias húmidas de Goa 
Ferver com gente attonita e turbada 
Do rumor que de boca ^n boca vôa! 

He morto D. Miguel (ah crua espada!) 
E parte da lustrosa companhia 
Que alegre s'embarcou na triste Armada: 

E d'espingarda ardente e lança fria 
Passado por ó torpe e iniquo braço, 
Que nossas altas famas injuria. 

Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço. 
Não animo d'avós claros herdado, 
Com que temer se fez por longo espaço. 

Não ver-se em de redor todo cercado 
D'irados inimigos, qu'exhalavão 
A negra alma do corpo traspassado. 

Não as fortes palavras que voavão 
A animar os incertos companheiros. 
Que timidos as costas lhe mostravão. 

Mas ja postos, nos termos derradmros, 
(Rotos por partes mil e traspassados 
Os membros, no valor somente inteiros) 

Os olhos (de fiiror acompanhados, 
Qu'inda na morte as vidas amedrentão 
Dos duros inimigos espantados) 

Postos no Ceo, parece que presentão 
A alma pura á suprema Eternidade, 
Por quem os ceos e a terra se sustentão. 



204 



E pedindo dos erros, que na idade* 
Immatura e innocente ja fizera, 
Perdão â pia e justa Magestade, 

As rosas apartou da neve fria; 
E, como débil flor, a quem fallece 
O radical humor de que vivia. 

Nas mãos do Coro Angélico, que dece, 
S'entrega; e vai lograr a vida eterna, 
Que com morte tão justa se merece. - 

Yai-te, alma, em paz á gloria sempiterna; 
Vai, que quem por a Lei sacra e divina 
A solta, áquelle a dá que o Ceo governa. 

Mas se de tal valor foi morte dina, 
A ausência que do gosto nos saltêa, 
A perpétua saudade nos inclina. 

Deixa pois tu, formosa Cytherèa, 
Do gentil filho e neto de Cyniras 
O pranto por a morte hórrida e fèa. 

E tu, dourado ApoUo, que suspiras 
Por o crespo Jacintho, moço charo, 
Por quem a clara luz ao mundo tiras; 

Vinde e chorae hum moço em tudo raro, 
Não de ferino dente vulnerado. 
Nem de risco sujeito a algum reparo: 

Mas só de ferro imigo traspassado; 
Que sem duvida incerta, ou frio medo, 
A vida poz nas mãos de Marte irado. 

Também tu, moço Idalio, assiste quedo; 
Deixa de dar o venenoso mel 
A beber por os olhos, triste e ledo. 

Pois os formosos olhos de Miguel 
Ja cobertos se vem do escuro manto 
Da lei geral a todos mais cruel. 



202^ 

E vós, ilibas de Thespís, que co'o canio 
Podeis bem mitigar a dor immensa 
Dos irmãos generosos e alto pranto; 

Não consintais que facão larga c^ensa 
Á grande integridade, a que se devem 
Aguas não só, do damno recompensa. 

Que ja diante os olhos me descrevem, 
Quando as bocas da Fama voadora 
Ao pátrio e claro Tejo as novas levem, 

A profunda tristeza ; qu'em hum'hora 
Tal posse tomará dos altos peitos, 
Que delles o discurso lance fora. 

AUi de dor os corações sujeitos 

Hão de lançar de si toda a memoria 

* 

D'exemplos claros, sólidos respeitos. 

Mas, porém se igualais a vida á gloria, 
Ó claro Dom Philippe, e pretendeis 
Deixar-nos de acções vossas lai^a historia; 

Eu não vos persuado a que estreiteis 
O coração na Estoica disciplina, 
Onde livre d aifectos vos mostreis. 

Que mal a natureza determina 
Medo, esperanças, dores e alegria, 
Como o Cynico velho nos ensina. 

Immanidade estúpida (dizia 
O Sulmonense canto) e vil rudeza, 
He não sentir affectos que a alma cria. 

Porém se o sentir nada for bruteza, 
E se paixão devida se consente, 
Também o sentir muito he ja fraqueka. 

Em vós hum soifrer alto s'exprimente, 
Qual nos fortes Varjões foi conhecido, ' 
Como em estranha, em Lusitana gente. 



205 



Bem conheço que o corpo assi perdido, 
Como de illustre lumulo carece, 
Será de brutas feras consumido. 

Mas consoIa-n)e, em6m, que se parece 
Ao grande bisavô, que por a vida 
Real, a sua á Maura lança oifrece. 

Em pedaços a gente enfurecida 
O corpo alli lhe deixa; e com mão dura 
'Lhe nega a sepultura merecida. 

Fácil he a perda aqui da sepultura: 
Diógenes prudente, e Theodoro 
Pouco sentem do corpo essa jactura. 

Âssi formoso e inteiro, assi decoro 
Adorna quem o têe, como o tomou, 
Quando se ouvir o extremo som canoro. 

Mas ai I qual terror súbito occupou 
O vosso claro peito, ó Portugueses? 
Qual pávido temor vos congelou? 

Que lançadas, que golpes, que revezes 
Vos íizerão fazer tamanha injuria 
Aos fortes Lusitanicos arnezes? 

Ou ja de Capilão sobeja incúria, 
Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava 
Com seu peito dos bárbaros a fúria. 

Ou ja do férreo cano a força brava 
Com estrondos que atroão mar e terra, 
Os corações ardentes congelava? 

Ah ! quem vos fez que os Ímpetos da guerra 
Não sustentásseis com valbr ousado, 
Desprezando o temor que a vida encerra? 

A vida por a Pátria e por o Estado 
Pondo nossos avós, a nós deixarão, 
Em terra e nrar, exemplo sublimado. 



204 

EUes a desprezar nos ensinarão 
Todo temor. Pois como agora os nelos 
Subitamente assi degenerarão? 

Não podem, certo, não, viver quietos 
Gom feia infâmia peitos generosos, 
Ja em públicos lugares, ja em secretos. 

Mortos d'Esparta os Heroes valorosos 
Da fera multidão, fazendo extremos, 
Taes epitaphios tinhão gloriosos: 

Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos 
Passados do inimigo ferro, em quanto 
As santas Leis da Pátria obedecemos. 

Fugindo os Persas vão com frio espanto. 
Mas achão as mulheres no caminho, 
Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto. 

Pois do damno fugis, vendo-o visinho, 
Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião) 
Outra vez no materno e escuro ninho. 

Yêde quaes com mais gloria íicarião, 
Se aqudles que morrerão por o Estado, 
S'estes a quem mulheres injurião? 

Mas tu, claro Miguel, que ja acordado 
Deste sonho tão breve, estás naquella* 
Torre do Ceo, seguro e repousado; 

Onde, com Deos unida a forte e bel la 
Alma, com teus Maiores reluzindo. 
Trocaste cada chaga em clara estrella; 

Co'os pés o crystallino Ceo medindo, 
Nada d'essas altíssimas Espheras, 
Nem da terreste aos oAos encobrindo: 

Agora hum curso e outro consideras. 
Agora a vaidade dos morlaes. 
Que tu também passaras se viveras. 



1 



205 



- ELEGIA XI 

Se quando contemplamos as secretas 
Causas, por que este mundo se sustenta, 
E o revolver dos ceos e dos planetas; 

E se quando á memoria se presenta 
Este curso do sol tão bem medido. 
Que hum ponto só não míngua, nem s'augmen1a; 

Aquelle efifeito, tarde conhecido, 
Da lua na mudança tão constante, 
Que minguar e crescer he seu partido; 

Aquella natureza tão possante' 
Dos ceos, que tão conformes e contrários 
Caminhão, sem parar hum breve instante; 

Aquelles movimentos ordinários, 
A que responde o tempo, que não mente, 
Co'os effeitos da terra necessários; 

Se quando, emfim, revolve subtilmente 
Tantas cousas a leve phantasia, 
Sagaz escrutadora e diligente; 
* Bem vê, se da razão se não desvia, 
Aquelle único Ser, alto e divino. 
Que tudo pôde, manda, move e cria. 

Sem fim e sem principio, hum Ser contino; 
Hum Padre grande, a quem tudo he possibil. 
Por mais que o diificulte humano atino: 

Hum saber infinito, incomprehensibil ; 
Huma verdade que nas cousas anda. 
Que mora no visibil e invisibil. 

Esta potencia, emfim, que tudo manda. 
Esta Causa das causas, revestida 
Foi desta nossa carne miseranda. 



206 



Do amor e da justiça compellida, 
Por os erros da gente, em mãos da gente 
(Gomo se Deos não fosse) deixa a vida. 

Oh Gbristão descuidado e negligente 1 
Pondera-o com discurso repousado; 
E ver-te-has advertido facilmente. 

Olha aquelle Deos alto e increado, 
Sienhor das cousas todas, que fundou 
O ceo, a terra, o fogo, o mar irado; 

Não do confuso caos, como cuidou 
A falsa Theologia, e povo escuro, 
Que nesta só verdade tanto errou; 

Não dos átomos «leves d'Epicuro; 
Não do fundo Oceano, como Thales, 
Mas só do pensamento casto e puro. . 

Olha, animal humano, quanto vales. 
Pois este immenso Deos por ti padece 
Novo estylo de morte, novos males. 

Olha que o sol no Olympo s'escurece, 
Não por opposição de outro Planeta; 
Mas só porque virtude lhe fallece. 

Não vês que a grande machina inquieta 
Do mundo se desfaz toda em tristeza, 
E não por causa natural secreta? 

Não vès como se perde a natureza? 
O ar se turba? o mar batendo geme. 
Desfazendo das pedras a dureza? 

Não vês que cabe o monte, a terra treme? 
E que lá na remota e grande Âthenas 
O docto Areopagita exclama e teme? 

Oh summo Deosl tu mesmo te condenas, 
Por o mal em qu'eu só sou o culpado, 
A tamanhas affrontas, tantas penas? 



207 



Por mi, Senhor, iio inundo reputado 
Por falso, 6 violador da sacra Lei? 
A fama a ti se põe do meu peccado? 

Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei. 
Pois como entre ladrões eu não padeço? 
A pena a ti se dá do qu'eu errei? 

Eu. servo sem valor, tu immenso preço, 
Em preço vil te pòes, por me tirares 
Do captiveiro eterno que mereço? 

Eu por perder-te, e tu por me ganhares 
Te dás aos soltos homens, que te vendem. 
Só para os homens presos resgatares? 

A ti, que as almas soltas, a ti prendem? 
A ti summo Juiz, ante Juizes 
Te accusão por o error dos que te offendem? 

Chamão-te malfeitor; não contradizes: 
Sendo tu dos Prophetas a certeza. 
Dizem que quem te fereprof^etizes. 

Rim-^se de ti ; tu choras a crueza 
Que sobre elles virá: a gente dura. 
Por quem tu vens ao mundo, te despreza. 

O teu rosto, de cuja formosura 
Se veste o ceo e o sol resplandecente. 
Diante quem pasmada está a Natura, 

Com cruas bofetadas da vil gente. 
De precioso sangue está banhado, 
Cuspido, atropeUado cruelmente. 

Aquelle corpo tenro e delicado, 
Sobre todos os Santos sacrosanto, 
A açoutes rigorosos desangrado; 

Despois coberto mal d'hum pobre manto, 
Que se pegava ás carnes magoadas 
Para dobrar-lhe as dores outro tanto. 



208 



Magoavão-DO as chagas não curadas, 
Hum tormento causando-lhe excessivo 
Ao despir por as mãos cruéis e iradas. 

As venerandas barbas de Deos vivo 
De resplandor ornadas, s'arrancavão 
Para desempenharia Adão captivo. 

Com cordas por as ruas o levavão, 
Levando sobre os hombros o trophéo 
Da victoria qu'as almas alcançavão. 

Ó tu, que passas, homem Cyrenêo, 
Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro, 
Que agora, como humano, enfraqueceo. 

Olha que o corpo afflicto do marteiro, 
E dos longos jejuns debilitado. 
Não pôde ja co'o peso do madeiro. 

Oh não enfraqueçais, Deos incarnado! 
Essas quedas, que tanto vos magôão, 
Supportae Cavalleiro sublimado. 

Aquellas altas vozes, que lá soão, 
Dos Padres são, que o Limbo tee escuro, 
E ja de louro e palma vos corôão. 

Todos vos bradão que subais o muro 
Da cidade infernal, e que arvoreis 
Em cima essa bandeira mui s^uro. 

Oh Santos Padres I não vos apresseis; 
Pois muito mais a Deos, que a vós, custarão 
Essas duras prisões em que jazeis. 

Aquellas mãos que o mundo ediGcárão, 
Aquelles pés que pízão as estrellas, 
Com duríssimos pregos s'encravárão. 

Mas qual será o humano qu'as querelias 
Da angustiada Virgem contemplasse. 
Sem se mover a dor e mágoa delias? 



209 



E que dos olhos seus não destillasse 
Tanta copia de lagrimas ardentes, 
Que carreiras no rosto sinalasse? 

Oh quem lhe vira os olhos refulgentes 
Convertendo-se em fontes, e regando 
Aquellas faces bellas e excellentes! 

Quem a oqvíra com vozes ii* tocando 
As estrellas, a quem responde o Geo, 
Co'os accentos dos Anjos retumbando! . 

Quem vira quando o puro rosto ergueo 
A ver o Filho, que na Cruz pendia, 
Donde a nossa saúde descendeo! . 

Que mágoas tão chorosas que diria 1 
Que palavras tãõ miseras e tristes 
Para o Geo, para a gente espalharia! 

Pois que seria, Virgem, quando vistes 
Com fel nojoso, e com vinagre amaro 
Matar a sede ao Filho que paristes? 

Não era este o licor suave e claro, 
Que para o confortar então daríeis 
A quem vos era, mais que a vida, charo. 

Como, Virgem Senhora, não corríçis 
A dar as puras tetas ao Cordeiro, 
Que padecer na Cruz com sede vieis? 

Não era só, não, esse o verdadeiro 
Poto, que vosso Filho desejava. 
Morrendo por o mundo em hum madeiro; 

Mas era a salvação que alli ganhava 
Para o misero Adão, que alli bebia 
Na fonte que do peito lhe manava. 

Pois, ó pura e Santissima Maria, 
Que, emGm, sentistes esta mágoa, quanlo 
A grave causa delia o requeria; 

TOMO III li 






2I0_ 

D'essa Fonte sagrada e peito santo 
M'alcançae huma gotta, com que lave 
A culpa que me aggrava e pesa tanto. 

Do licor salutifero e suave 
M'abrangei, com que mate a sede dura 
Deste mundo tão cego, torpe c grave. 

Assi, Senhora," toda criatura ^ 
Que vive e vivirá, e não conhece 
A Lei de,vosso Filho, a abrace pura; 

O falsissimo herege, que carece 
Da graça, e com damnado e falso esprilo 
Perturba a Santa Igreja, qucflorece; 

O povo pertinaz no antiguo rito. 
Que só o desterro seu, que tanto dura. 
Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito; 

O torpe Ismaelita, que mistura 
As Leis, e com preceitos tão viciosos 
Na terra estende a seita falsa e impura; 

Os idolatras máos, supersticiosos, 
Vários de opiniões e de costumes. 
Levados de conceitos fabulosos; 

As mais femotas gentes, onde o lume 
Da nossa Fé não chega, nem que tenhão 
Religião alguma se presume; 

Assi todos, em fim. Senhora, venhão 
A confessar hum Deos crucificado, 
E por nenhum respeito se delenhão. 

E d'hum e d outro o vício ja deixado. 
O seu nome, co'o vosso nesse dia, 
Seja por todo o mundo celebrado; 

E respondão os Ceos: Jksus, Maria. 



2<i 



ELEGIA XII 

(ACIlOáTICAj 

Juízo exlremo, horriíico e tremendo, 
E Juiz senipilerno, alto e celeste, 
Significará a terra, humedecendo. 
Ver-se-ha nella hum suor que manifeste 
Como em carne vem Deos, para que o veja 
Homem^ toda esta machina terreste;' 
Rei justo, que dos corpos e almas seja 
Juiz; e quando o mundo cego e inculto 
Sohre espinhos cruéis deitado seja, 
Todo vão simulacro e gentil culto 
Ousará engeitar a gente; e guerra 
Fará coo mar o fogo, e cru tumulto. 
Immensa luz, que as carnes desenterra, 
Lançará fora as portas vaas dtí Averna, 
Hum Justo e outro alçando á santa terra. 
Outros, que são os máos, no fogo eterno 
Deitará, dcscobrindo-se os segredos, 
E sendo claro todo feito interno. 
Desfeitos serão montes e penedos, 
E será tudo pranto e estridor, duro ; 
Obras de grande dor e tristes medos. 
Será tomado o sol de todo escuro, 
E destruida a machina do mundo, 
Sem luz as luzes todas do Orbe puro; 
Altos serão os valles, e em profundo 
Lugar se abaterão os ahos montes; 
Vibrará mares vento furibundo: 
Averá só de chammas vivas fontes: 



212 

De trombeta tremenda som terribil, 
Ouvido, fará paUídas as frontes. 
Responderá dos máos gemido horribíl. 



ELEGIA XUI 



Se obrigações de fama podem lanlo, 
Qiíe inda de Helena vive hoje a memoria. 
Fazendo cad^yez maior espanto ; 

Se também de Lucrécia a Livia historia, 
Inda que ja passada, cá florece, 
E por fama, e triumpho hoje tee gloria; 

Se a perfeição de Laura nunca esquece, 
Também he que por fama laureada, 
Nos ficou por Petrarcha, e hoje crece; 

E se aquella cruel Troyana espada, 
Deo com a morte vida ã formosura 
De Dido, porVirgilio celebrada: 

E se Vénus formosa, hoje segura 
Se apresenta em mil versos, e Diana 
€om as nove Irmãas d'Apollo tee ventura ; 

Que fará a formosura soberana 
De Figueiroa illustre, de quem quero 
Cantar com doce Lyra, e Mantuana? 

Mas se me ella não fatia, delia espero 
Cantar, não destas ja, que ja acabárâo ; 
Destas cante Virgilio, cante Homero: 

Que se outras com seus versos celebrarão, 
*Foi, que por sua idade, a desta dama 
(Por inda estar no Ceo) nãtfna alcançarão. 



243 



Mas tinha-lhe a venlura Oriental cama, 
Guardada lá em Damão, porque nascendo, 
Perder fizesse ás outras gloria e fama. 

E em quanto alegre declarar pretendo, 
Vós, Pae de tal thesouro, dae-me ouvidos. 
Para delle dizer, mais do que entendo. 

Não reproveis meus versos d'atre vidos, 
Antes dae-lhe louvor, para que sejão 
De tal dama, e de vós favorecidos: 

Que milagres d'amor farei que vejão? 
Direi os olhos bellos, boca e riso. 
Mil partes, que outras damas ter jjpsejão. 

Cabellos d'ouro, emfim seu grande aviso, 
Sua arte, perfeição, e formosura, 
Que na terra nos mostra hum paraiso? 

Que mais? O grave aspeito, e a brandura, 
A boca de rubis, cheia de perlas. 
Das crystallinas mãos a nev6 pura? 

Senhora Dona Maria, entre as mais bellas. 
Vós sois, quem nossa idade hoje enriquece, 
E entre ellas sois qual sol entre as estreitas. 

Por vós Damão, Senhora, hoje florece. 
Por vós as Musas ja do sacro monte» 
Donde contino o louro verde crece, 

Vos vem apresentar, da clara fonte. 
De pallidas violas coroadas. 
As pegaseas flores de Heliconte. 

A vós se vem cábtando, rodeadas 
Das Nymphas, que o dourado Tejo cria. 
Com suas doces Lyras temperadas. 

E com seu suave canto, e melodia, 
Chegadas a vós ja dizem cantando. 
Esta he por quem Apollo emmudecia. 



* 



2M 



Esta he por quem Vertamno desprezando 
Pomona, de contino se abrasava, 
Na menos parte sua ima^nando. 

Esta he por quem em fonte se tornava 
O avô de Phaelonte, e porque Orpheo . 
As fúrias infemaes aquebrantava; 

Esta he por quem só Troya se perdeo, 
Esta he a quem Paris deo a maçãa d ouro, 
E esta por quem Orlando endoudeceo. 

Esta he quem desd o Ganges até o Douro, 
Só sem falta compoz a natureza, 
Do Indico Oriçntal todo o thesouro; 

Estahe qtiem trouxe a luz toda á nobreza 
. Dos de Lião Fajardos, que descende 
Do Real tronco Ingrez, na mór alteza^ 

Esta he a flor do Lago, que se estende, 
E em quem do novo nasce a Real planta, 
Esta he a quem o mesmo Amor se rende. 

Esta he por quem a 'Aurora se levanta. 
Na parte Oriental, mais clara e pura, 
Esta he por quem morrendo o Cisne canta. 

Esta he por quem nos dotou só a ventura. 
De mil primores cheia, coUocada, 
Em rara perfeição de formosura. 

Esta será de nós sempre cantada, 
E dos novos Poetas mil louvores 
Terá com fama eterna e sublimada. 

Na festa de Deos Pan ceni^mil pastores 
Desta felice terra a ti cantando, 
Mil ramos levarão cheios de flores. 

A ti as suas lutas dedicando, 
Seus jogos pastoris de cem mil partes. 
Com versos \c estarão sempre louvando. 



2J5 

£ tu, que de (eu ser nuoca te parles 
Com formosura e graça de contino, 
Com que par fama ao mundo te repartes; 

Com rosto branco, alçgre e peregrino 
Acceitarás seus versos, coroada 
De rosas e de louro a ti só dino. 

D'alli do nosso choro venerada 
Terás cargo da selva de Diana, 
E entre nós tu serás mais estimada. 

D'alli, ó alta Dea e soberana. 
Governarás o Indico Oriente, 
E todo Estado além da Taprobana. 

D^alli correndo irá de gente, em gente 
Tua fama, fazendo esquecida 
A das antigas Damas do Occidente, 

Ganhando teu louvor immortal vida. 



ELEGIA XIV 

Não porque de algum bem tenha esperança 
Vos escrevo meu mal em tal estado. 
Que sei, que em vós fará pouca, mudança. 

Mas ja perdido, triste e magoado 
Para remédio tomo escrever dores; 
Esperar de vós outro he escusado. 

O que não faz amor em meus amores, . 
Ò que lagrimas tristes não fizcrão, 
Bem menos o farão causas menores.' 
- Pois onde as mais tégora se perderão, 
Percão-se estas palavras de meu ser, 
Que pouco me doem ja, ja me docrão. 



246 



Sempre deste meu mal tive suspeita, 
Não que de todo em todo me faltasse 
Hua esperança vãa em fim desfeita. . 

Fazia-me o desejo que esperasse, 
A rasão d'outra parte, que temesse, 
E de esperanças vãas não confiasse. 

Que olhasse, que por ellas não perdesse 
A doce liberdade, o riso, o canto, 
De que depois em vão me arrependesse. 

Amor, que tudo pôde, pôde tanto, 
Que para ver o mal em que me vejo. 
Me não deo olbos mais que para pranto. 

Não curei a rasão, segui o desejo, 
Outras cousas segui, de qualidade, 
Que choro, e callo, por não ser sobejo. 

Pela vossa neguei minha vontade, 
Logo como vos vi, no mesmo ponto 
Vos entregou a vida a liberdade. 

O que passou despois, não vo-lo conto: 
De que serve contar cousas sobejas, 
A quem lhe soube dar hum tal desconto. 

Ah esperanças minhas, ja perdidas! 
Agora, para mais ter que contar. 
Soube que fostes vãas, fostes fingidas. 

Em que posso, ou que devo hoje esperar? 
Onde acharei de novo outros enganos. 
Que possão desenganos enganar? 

Mas he vento cuidar enganar danos, 
Ó triste, que nem na alma tem alento, 
Tee seu remédio só no fim dos anos ! 

Ja não espero ver contentamento, 
Perdi quanto esperei n*huraa só hora, 
E não perdi em muitas o tormento. 



2^7 

E sobre tantas perdas, inda. agora, 
Qae esperava de vos a vós queixar-me, 
Não mo consente Amor, que na alma mora. 

Põe-se diante, a flm só de estorvar-me, 
Que vos ofFenderei, mostrando aqui, 
Que tanta fé pagaes com maltratar-me. 

E enlão este temor deixa-me assi. 
Além de magoado, frio, e mudo, 
Rependido de quanto escrevi. 

Cousas de vosso gosto ainda cudo, 
Como se não cuidasse, o que não creio, 
Não perdelr isto, como perdi tudo. 

Mas vá-se o medo ja, pois que ja veio 
O desengano, sem se ter sabida. 
Que a certeza podia ter receio. 

Agora não me dá perder a vida, 
Nem a deve receiar quem a despreza, 
Matai-me, se de mim sois offendida. 

Senão mate-iAe ja minha tristeza. 
Que este só bem me fica, este me vai. 
Se mo não estorvar vossa crueza. 

Quem se não espantará, vendo-me tal? 
Temer, que o triste fim, que me ordenastes. 
Mo negueis por remédio de meu mal. 

Entre silvestres feras vos creastès, 
Pois dais por galardão do que esperava 
Cruezas desusadas do que usastes. 

Quantas lagrimas triste derramava, 
Quantos suspiros dava noite e dia. 
Se vos não via, e em quanto vos olhava? 

Tremia diante vós, ausento ardia. 
Abrandava este mal, tor para mim 
Que sentia meu fogo essa alma fria. 



< • 



2W 



Mas muílo dííTerentc foi o íim 
De tudo o que cuidava no começo. 
Por onde de hum mal n^outro, a tantos vim. 

Vida para lai vida não vos peço, 
Morte para tal morte qual me mata 
Me podeis dar, que bem vo-lo mereço. 

Porque com a dor a lingua se desata, 
E com grilos vos chama, e com rasâo 
Sem fé, desamoravel, cruel, ingrata. 

Por isso acabai ja vossa 'tenção, 
Fartai, Senhora, ja vossas cruezas 
No saiigue deste triste coração. 

Acabai de acabar tantas tristezas; 
Pois acabastes ja vãas esperanças. 
Acabem ja também minhas firmezas. 

Acabe a vida, acabarão lembranças, 
Mas tudo está por vós tão acabado, 
Como muitas em mim as confianças. 

Que tanto me trouxerão enganado. 



ELEÍJIA XV 

Foi-me alegre o vi\er, ja me he [Hjsado, 
Que do contentamento que sentia 
Á minha custa estou desenganado. 

Ao regaço da morte a dor hie guia, 
Porém, porque com vida mais me mata, 
Dilatando-ma vai de dia em dia. 

Manda-mc amor fugir da morte ingrata, 
(Pois não solTre limite em vós amor) 
Que elle os laços ordena, (»lle os desata. 



219 



Lancei contentamentos a voar. 
Tarde o§ espero ver, que he seu costume 
Ter azas ao fugir, freio ao tornar. 

O pensamento posto em alto cume, ♦ 
Para sacrificar-se á vossa vista, 
No coração me guarda elemo lume. 

Com o pensamento os olhos tee conquista, 
Pois sempre em vós está, porque os nâo leva, 
Que elle muro não tee, que lhe resista. 

Ainda que minha alma em vós se enleva, 
Em todo tempo não deixa de arder. 
Quando o monte arde em calma, ou quando neva. 

Vivei, cuidados, em quanto eu viver, 
Ou porque em sombras vossas sempre viva. 
Ou porque me apresseis para morrer. 

Vontade minha, sempre sois captiva, 
Meu pensamento, nunca sois mudado, 
Flamma de amor, sereis sempre em mi viva. 

Suave capliveiro, doce estado. 
Brando fogo de amor, que em vós guardais 
A fim de meu desejo retratado ; 

Nunca nesta alma a minha, aonde estais 
Falteis, porque então falta a esperança, 
Sem quem me falta a vida muito mais. 

Senhora, em cujo peito ódio e mudança 
Lanção fora o Amor, e sua firmeza, 
Que daes esquecimento por lembrança. 

Armada dos espinhos da crueza, 
Trazeis por.apparencias a brandura 
No rosto, a qual o peito pouco preza. 

Mostrou-me hum leve bem minha ventura, 
Paguei-o logo com longo tormento. 
Que o gosto fogo sempre, e a pena dura. 



220 



A tanta dor hum leve sentimento 
Nunca em vós pude ver, quanto em vão digo, 
Mais mudável que o vento o daes ao vento. 

No principio meu Fado me foi amigo, 
Naveguei pelo mar deste desejo, 
Que leva de hum perigo a outro perigo. 

Em vós he pouco o amor, em mim sobejo, 
Cresce em mim, faha em vós, e de maneira, 
Que de quanto em vós vi, ja nada vejo. 

Mostrou-se-me o tormento na primeira 
Com rosto alegre, para que o seguisse, 
E lancei-me ao seguir nesta cegueira. 

Fortuna, porque quiz que eu o sentisse, 
Mostra-se, por mostrar qual dentro era. 
Eu choro meu engano, e ella risse. 

Quem em contentamentos vãos espera, 
Espere cedo de desenganar-se. 
Que tee breves limites sua espera. 

Porém quem ha, que mais queira livrar-se 
De tão doce prisão? ou quem deseja 
Dos nós desses cabellos desatar-se? 

Os olhos, a queiQ as luzes tee inveja. 
Que em vós o Amor de amor tendes vencido, 
Quem ha que vos não ame, e vos não veja? 
* Rosto formoso, em quem está esculpido 
. O mór bem, que se pôde ver na terra. 
Quem ha, não queira ser por vós perdido? 

Olhai, Senhora, as horas apressadas. 
Que vem cobrindo o ouro dos cabellos 
De neve, e toma as rosas descoradas. 

Ireis ver ao crystal os olhos bellos, 
E ja os não vereis quaes d'antes erão. 
Pois quaes então serão, não qiieiraes vellos. 



221 



Usai dos bens, que vão como nascerão, 
Olhai, que tudo desce de alto estado, 
Que também os prazeres meus descerão. 

Mas não descerá nunca meq cuidado. 



ELEGIA XVI 

Nunca hum apetite mostra o dano 
Antes de ser de todo effeituado, 
Mas no fim vem mostrar o desengano. 

Dureza a causa, e eu desesperado, 
Pelo que imaginou o pensamento, 
Ando por esta serra desterrado. 

Espalhando a voz ao leve vento, 
Delle só consolado, delle ouvido, 
O faço sabedor de meu tormento. 

^ Que monte ha, que não tenha ja movido, 
Que áspera montanha, ou roca dura, 
A força de meu mal não merecido. 

Nas duras pedras acha-se brandura. 
Falta nesse cruel humano peito. 
Quem vio nunca maior desaventura 1 

Pouco pôde em ti amor perfeito. 
Quando de hum movimmto vive indíno, 
Que jamais se negou a hum sogeito. 

Da ventura, de vós, de meu destino, 
Pois todos contra mim são conjurados, 
Este valle farei de meu mal dino. 

Com elle a noite, e o dia meus cuidados 
Passarei em acerba e longa vida 
Em queixas, e em suspiros desusados. 



9*>9 



Porque sei que serás disso servida. 
Nâo deixarei dos monles a dureza, 
Até lua vontade ser movida. 

Aqui me subirei na mór alteza 
Da serra, onde logo contemplada 
Será tua perfeição, tua crueza. 

A alma em ti só prompta e occupada 
Estando de tormento esquivo c duro, 
Opprimida será de ti levada. 

Discorrendo hum passo, e outro escuro, 
De mal em mal, de hum em outro dano, 
A paga tal verá de hum Amor puro. 

E vendo aqui tão claro o desengano, 
C os olhos feitos fontes mudará 
Lugar tão infelice, e deshumano. 

E o que mór tormento lhe dará 
A, lembrança de algum contentamento. 
Que inda que pequeno, magoará. 

Fará por divertir o pensamento 
Desta parte tristissima mudando 
Hua lembrança cheia de tormento. 

AUi algum espaço porfiando, 
Tendo por impossível esquecer-te, 
Ficará ao vento vozes dando. 

AUi se queixará de conhecer-te, 
AUi dura, cruel, despiedosa 
Dirá: Dize, que podes ja mover-te. 

Mais que Vénus (dirá) dize, formosa. 
Quando nessa belleza pura e rara 
Se verá hua hora piedosa. 

AUi dirá, cruel, e quem cuidara 
De hum espirito tão resplandecente 
Tão fera condição, e tão avara? 



225 

Alli vivirá triste, âili aíiseiUe, 
O costumado mal por si soífrendo. 
De o quereres tu tmito contente, 

Como o mundo está ja conhecendo. 



ELEGIA XVII 

La sierra fatigando de contino 
Los passos vagarosos voy moviendo, 
Perdiendo de la vida todo el tino, 

De mis suspiros tristes no pudiendo 
El alma apartar, e el pensamienlo 
De aquella por quien yo estoy muriendo : 

Que aunque la ausência es grave tormiento, 
Que te olvide en ello es impossible, 
Que con amor no puede apartamiento. 

Veote con espirito invisible: 
En el muy vivo tengo aquel meneo 
Tan fiero para mi, y tan terrible. 

Todo lo más alegre triste veo, 
. El fresco yalle, el monte, la espessura, 
La clara fuente enoja aun el deseo. 

El dia se me buelve en noche escuro, 
No puede amanecer de dó ausente: 
Tus claros ojos son, de tu hermosura. 

Permitte ya, Senora, que presente, 
Do quiera que tu luz es detenida 
Sean el alma, y vida juntamente. 

En tu servicio alli prompla la vida 
Porné en alma sola en contemplar-te, 
Aunque me seas siempre endurecida. 



f- 



224 



El mal que hazes dulice eo toda parle, 
Sabroso es el 4ormieotO) yo lo quiero, 
Pues es tu voluntad no ablandarte. 
' Que quando una hora venga, que no espero, 
Piedosa, y blanda mas que las passadas, 

Y me quieras oir, viendo que miiero. . 
Las tristes no seran de mi dexadas. 

Que no sabre vivir sin el estado 
De penas, tanto tiempo ya provadas. 

Hablo como furioso, y transportado. 
Fido lo que me es más enojoso, 
Holgando de me ver tan olvidado. 

Quien fatigado es, no dà reposo, 
Que sufras con paciência te conviene, 
Las quexas dei, que a si se es odioso. 

Al tiempo que bolando ya mas viene 
Mis desusadas bozes encomienda. 
Que assi la triste boz en ti detiene. 

La fuerça dei dolor ninguna emienda 
Puede tomar em mi, que satisfaga 
Lo menos que la quexa em mi te ofíenda. 

Incurable parece una Úaga, 

Y lo es, que reciba de tu mano. 

No quiera Amor, que yo jamâs desbaga 
Su voluntad en esto, que es en vano. 



ELEGIA XVm 



De pena en pena muevo las passadas, 
La tristissima boz ai ayre dando 
Voy cantando mis quexas desusadas: 



225 



Incierlo en cl camino, que pisando 
De un monte esquivo, ai otro me encamina, 
En médio dél estoy en ti pensando, 

Ó rigoroso passo, y quan indigna 
El alma veo aqui de sola una hora 
Poder en ti pensar cosa tan digna. 

Si el alma aun no es merecedora 
Puríssima, e perfecta, y que me puede 
De esperança quedar en ti, Seíjora? 

Mas que puedo querer, Fortuna ruede, 
Llevando-me de un triste en otro eslado, 

Y si es tu voluntad un bien no quede. 
En mi UQ vive ya, es transformado 

En ti, el triste espirito, que tenia 
De ti sola se quiere ver mirado. 

Que aunque en fatigas passe noche y dia 
De tu mano se viesse, ó en passo estrer'' > 
La firme .voluntad no mudaria. 

Y si por realeza un blando pecho, 
Que tanto tiempo fue endurecido 
Quisiesse ya mostrar un nuevo hecho. 

Adó'me llegaria aquel sonido 
De tu nueva mudança, y mi ventura, 
Al eco, ai valle, ai monte empedernido. 

Dó no se cantaria tu blandura, 
En que region estrana, o nueva parte 
Quedara por loar a tu hermosura. 

Quien no pusiera estúdio, ingenio y arlo, ' 

Y quando lodo nó, mucho dixiera. 
Mostrando que cupiera en ti ablandarle. 

Que roble, que leon, que tigre huvicra. 
Que áspera montaria intratada. 
Que mis mudadas vozes no overa. 

TOMO III ir; 



226 

Mas no quiere Amor, que la usada 
Quea, en estas sierras esparzida 
De tanto tiempo ya sea dexada. 

Ni tu querrás que yo dexe la vida. 
Para me dar lormiento aun más fierò, 
Ni con tan luenga usança interrompida. 

Cada hora más áspera te espc?ro. 
Que vengas pido, el mal sea mas duro, 
Que el que puedo sufrir, ya no lo quiero. 

Pruevase este amor perfecto y puro 
En fatigas mayores, en crueza, 
Quanto fuere mayor, es más seguro. 

Excedes en las fíeras en dureza, 
Quando se ha visto, en esta pura y rara 
Gracia, dei duro monte la aspereza. 

De los bienes que puedes dar avara, 
.Al que puedes dar vida, y \)ov li pena, 
Pues niegas lo que el mundo no pcnsaçn, 

Haze en tu voluntad, como ella ordena. 



ELEGIA XIX 

Illusire e nobre Silva, descendido 
Do grão filho de Anchises valoroso, 
Por armas, e por sangue esclarecido. 

Que como forte, ousado, e piedoso 
As costas salvou o pae de longos anos 
E o filho pela mão tenro e mimoso. 

E os Penates, que tinhão os Troyanos, 
Tirou no mor conflicto da. Cidade, 
Em que Gregos fizerão kintos danos. 



227 



Crescendo foi de hua em outra idade 
Esta íllustre progénie generosa 
Em virtude, valor, lionra, e bondade. 

Até chegar á nossa tão ditosa, 
Pois nelle o Ceo a ti Silva nos deu, 
Que a fazes com tuas obras mais formosa. 

Aonde o Ínclito Rei de motu seu, 
Movido' pelo *spirito, que o guia 
A maiores proesas, que a Theseo. 

Pelas partes, que em ti ja conhecia, 
Ou decreto de cima te escolheo 
Por começo do fim t|ue pretendia. 

De Capitão do Tanger te proveo 
Em tempo que o Maluco assaz valente 
O grande Império de Africa venceo. 

E sendo esta eleição do Rei valente, 
Da cega inveja foste murmurado, 
Porque ninguém escapou ao maldizente. 

Não te negarão seres esforçado. 
Mas dizião, que á guerra em lai idade 
Servia Capitão exprimentado. 

E que em tempo de tal necessidade 
Convinha velho amparo, e forte escudo. 
Em quem não possa haver temeridade. 

Mas bem ao contrario se vio tudo, 
Pois prudência, e esforço juntamente 
Em ti exprimentou o Mouro rudo. 

Quando com grão conselho, e pouca gente 
Atravessaste os campos Africanos, 
Como grão Capitão, velho, valente. 

E foste a parte, onde os Mauritanos * 
Não tinhão visto lança de Christãos 
Havia longos tempos, longos anos. 



^, 



J28 

Tomaste descuidado hum Capitão 
No lompo, e assi na guerra exprimenlado, 
Em quem se confiava Teluão. 

Alafe, irmão de Alafe, nomeado, 
Que nào só o seu campo defendia, 
Mas entrava no nosso confiado. 

Este, que toda a grande Barl>eria 
Tinha por mui prudente e animoso, 
Agora, o tens na tua estrebaria. 

Que pode aqui dizer pois o invejoso, 
Onde tão claro vê, que nessa idade 
Suppre o nobre sangue generoso. 

Não le dirá, que foi temeridade 
Para feito como este tão valente. 
Com ter seguro o campo e a cidade. 

Nem te pode negar seres prudente, 
Pois tempo e conjunção foste escolher 
Em ({ue não arriscaste a tua gente. 

Mas assi te soubeste recolher 
Com grão despojo feito, denso dano, 
Sem hum dos que levaste se perder. 

Ó felice Varão, Silva Troyano, 
Quem te pode louvar, como venceste, 
Pois no dia menor, que linha o ano 

O maior feito em Africa fizeste. 



ELEGIA XX 



Saião desta alma triste e magoada 
Palavras magoadas de tristeza, 
E seja ao mundo a causa declarada. 



229 



Saia do peito a voz, com que a gravcza 
Sogiga, doma, e as gentes move tanto, 
Por mais e mais que tenhão de dureza. 

E vós meus olhos tristes entre tanto 
Em lagrimas esta alma derretida 
Chorai, que amargo choro è o meu canto. 

Quanto de mim a causa foi sentida, 
Seja de vós chorada, e juntamente 
Choremos hiia morte, e hua vida. 

A bondade choremQ3 innocente, 
Cortada em flor, que pela acerba morle 
Nos foi arrebatada d'entre a gente. ' 

E aquella immensa dor, e dura sorle 
Da magoada mãe, cuja alma triste 
Também cortada foi com agudo corte. 

O espirito gentil, que ao Ceo subiste, 
Porque engeitaste a minha companhia, 
E acompanhar-te eu não consentiste. 

Este he o canto heróico, e de alegria, 
Que eu ja em teu louvor apparelhava. 
Como o tornou a morte em Elegia? 

Esta he a esperança, que nos dava • 
De ti, tua tenra è alegre mocidade. 
De quem tão grandes cousas se esperava? 

O Hymineo, qfle em mais perfeita idade 
Com honras mil te andava apparelhando 
A mãe, de quem não houveste piedade: 

Que agora, como Hecuba, anda bramando. 
Buscando em vão a casa em toda a parte: 
Amado filho meu, por ti bradando? 

Quem me vedou os olhos teus cerrar-te. 
Que em tão amarga e triste despedida 
Pudera esta alma minha acom|)anhar-te? 



250 

Quem te privou da chara e doce vida, 
Meu filho tão formoso e mal logrado, 
Dous corações passou hua só ferida. 

Em terra de desterro, ai filho amado, 
Deixando-me sem ti desamparada, 
Quizeste ser de eslranhos sepultado. 

Se hias para fazer tão giâo jornada, 
Não levaras em tuá companhia 
Esta misera mãe desconsolada? 

Quiçá que algum soccoi^ro te seria, 
Que vendo vir a espada em alto erguida, 
Filho, com húm grito meu te avisaria. 

Ou recebera o golpe nesta vida, 
Mettendo-me no meio, e tu viveras, 
Fartara de meu sangue esse homicida. 

Ai filho, meu amor, que tu só eras 
Quem com tua vida alegre algum descanço 
A meu viver cançado dar puderas. 

E tu serás também quem manco a manco 
Me acabarás a vida, que eu queria * 
Sem ti ver acabada de hum só lanço. 

E vós também, mulheres, que paristes 
Ajudai-me a chorar, por que em mal tanto 
Não satisfazem só meus olhos tristes. 

Assim com grave dor de cailto a canto 
Até nos corações de mór dureza 
Soa hua voz confusa, hum amargo pranto. 

Ó tu, honra e primor da naturpza, 
Ulustre e formosissima Maria, 
Não trates mal. Senhora, tal belleza. 

Pois só custodia és, d'onde alegria 
Defunta, e tal chorada em dia amargo 
Resurgirá em outro alegre dia. 



251 



Que»a ti deu o movedor do mundo o cargo 
De alegrares a mãe chorosa e trisle, 
Que alegre vi virá por tempo largo. 

Posto que a dor do irmão muito senlisle 
Não destruas as lindas tranças bellas. 
Pois o remédio nisso não consiste. 

Não trates mal as nitidas estreitas 
Dos olhos* teus com lagrimas ardentes, 
Pois tee mais resplendor que todas ellas. 

Não offendas as faces refulgentes, 
Obra de Deos, com mão despiedosa, 
Da pátria honra, e louvor das gentes. 

Mas vai com doce voz, branda e amorosa 
Consola a triste mãe desconsolada 
Com tua vista alegre, e tão formosa. 

Promette-lhe, que em si resuscitada 
Verá sua alegria ja perdida, 
De todos tão sentida, e tão chorada. 

Pois teu remédio está só em sua vida, 
Que haja de ti materna piedade, 
Não de tanto lugar á dor crescida. 

Bem se permitte á fraca humanidade 
Por filho tal, e tanto tempo ausente 
Hum moderado pranto, huma saudade. 

Mas tão contínua dor, que espante a gente, 
E põe em tal estremo a vida amada, 
Nqpi o mundo o quer, nem Deos não o consente. 

Não foi a morte de Heitor *sempre chorada 
Da triste mãe, que além de filho amado, 
Era ][Sor elle só Troya amparada. 

Mas ja despois de morto, e arrastado 
Com Grego applauso, vozes e alarido, 
O corpo houve ás mãos desconjuntado. 



252 



l%dida a côr, o eollo recahitk), 
Não parecia Heitor, que (l'antes era. 
De [)ó, de sangue, e de suor tingido. 

Com seus olhos iavou-lhe a chaga fera, 
Com suas mãos o rosto lhe alimpava 
Sem alma o sangue, ja de crtr de cera. 

Mas vendo em fim quão pouco aproveitava 
Seu choro, e nem por mais que en^ vão bradan(b 
Chamava Heitor^ Heitor resuscilava. 

De lagrimas os olhos enchugalido^ 
Desenganada ja do filho amada 
Se foi com a amada filha consolando. 

Nem sempre o fero Achiles foi chorado 
De Thetis sua mãe, <do branco coro, 
Principe Grego tão assinalado. 

Também pagou á morte o antigo foro, 
E a Deosa não valeo ser prevenida, 
Nem suspiros valerão, nem seu choro. 

Também a este acabou mortal ferida, 
Sendo meio immortal, e filho amado 
De Deosa de Nereo tão querida. 

Nas aguas de Acheronte foi banhado. 
Porque em batalhas, como o fero Marte, 
Dó ferro não pudesse ser cortado. 

Mas a agua não chegou áquella parte. 
Que esquadrinhou a setta aguda e forte. 
Que contra ella não vai engenho e arte. 

Chorarão as Gr^as gentes sua morte, 
Os Phocas e Delphins também chorarão; 
Chorou do grão Nereo toda a corle. . ' 

Tantas lagrimas tristes derramárãa. 
Tanto chorou a mãe, que muito o amava. 
Que o Xanto e o Simois accrescentárão. ■■• 



253 



Mas vendo que o chorar não aproveitava, 
E que era dor perdida, e desatino, 
Os seus formosos olhos alimpava. 

E com alegre rosto de ar benino 
O Ceo, a Terra, o Mar, tudo alegrando, 
E os cidadãos do Reino crístaHno. 

Os seus verdes cabellos espalhando 
Ao vento, de mil Nyraphas rodeada, 
Tomando a vista atraz de quando em (]uando: 

De Pausilipe e Oricia acompanhada, 
De Doris, Menalipe, e de Melanto, 
Se foi para Nereo consolada. 

Deixai pois ja, Senhora, o amargo pranto, 
A pena, a dor, o mal que tanto crece, 
E dai lugar ao meu inculto canto. 

Com grão diificuldade se ofTerece 
A grandes desventuras; taes como esta: 
A dar-lhe iguaes palavras, quaes merece. 

Por tanto eu. Senhora, agora nesta 
Não as hei de buscar por consolar-te, 
Que aos tristes consolar só a rasão presta. 

Também serão perdidas nesta parle 
Consolações, que em choro de amargura 
Força não tee, por mais que tenhão d'arte. 

Se as lagrimas não vence a rasão pura, 
Fortuna sempre a outras accrescenta, 
Guarde-te Deos de mór desaventura. 

Não digo, que a alma este de mágoa isenta, 
Porque humano he sentir, mas he fraqueza, 
Não soífrer o que Deos nos apresenta. 

Não he este mundo a nossa natureza, 
Estrada si, por onde caminhamos, 
Pretendendo chegar á Summa Alteza. 



234 



Neste caminho hum passo estreito adiamos, 
Morte se chama horrenda, e desabrida. 
Divida, que Adão fez, e nós pagamos. 

A todos he commum esta partida, 
Quem morre, não morreo, partio primeiro, 
E o que ha depois da morte he eterna vida. 

Todo animal que nasce está foreh-o 
A passar este passo estreito tanto, 
. Todos lá havemos de ir por derradeiro. 

Deixa, Senhora, deixa o amargo pranto, 
Teu fdho bstá no Ceo resplandecente, 
Ja entre os Cidadãos de Coro santo, 

Nossas memorias tristes não as sente, 
Ja livre, e de theatro está olhando 
Com olhos immortaes a immortal gente. 

Da visão beatifica gozando. 
Sem medo, ou sobresalto de perdella 
O mundo e seus afagos desprezando. 

D'alli contempla de huma e de outra estrella. 
Ou fixa e errante, o curso e movimento, 
Tendo, sem se mover, os pés sobre ella. 

Veloz, qual o ligeiro pensamento, 
Passa de polo a polo, e o Ceo conhece 
Que seu caminho hi com passo lento. 

E porque o mar contínuo mingua e crecc, 
Comprende, e a quinta essência pura e neta, 
E com que luz a Lua resplandece. 

Nem nos espanta no ar qualquer cometa. 
Os pontos sabe de hum e de outro signo, 
Por onde faz seu curso o grão Planeta. 

Hum Anjo novo tens, santo e beninò, 
Vive, Senhora, alegre e consolada, 
Que, por ti roga ao Padre de contino. 



235 

Ô alma pura em alto alevantada, 
Que lâ estás nesse Ceo luzente e claro, 
Desta mortal prisão ja desatada. 

Ó Senhor meu Dom Telo, amigo charo 
Que do terreno Sol, onde viveste 
Te arrebatou sem tempo o tempo avaro. 

Se ao passar dp Lethe não perdeste 
A memoria de mim, que tanto te amo, 
E por intimo amigo me tiveste, 

Com attenção escuta o meu reclamo, 
Não desprezes de ouvir là dessa altura 
A baixa e rouca voz, com que te chamo. 

Que quando concedido da ventura 
Me for o que eu por ti agora peço, 
Não borrará o teu nome a fama escura. 

Em tanto as baixas Rimas te offercço 
Em penhor da vontade e amor profundo. 
Até cumprir o que hora aqui profeço. 

Que então te cantará por todo o mundo, 
Com linguas mil a fama soberana, 
E occupará teu nome sem segundo 

Do pátrio Tejo além da Taprobana. 



ELEGIA XXI 

Não mê julgueis, Senhora, a atrevimento 
O que me faz fazer hum mal tão forte, 
Que não me basta nelle o soíTrimento. 

Que tal me traz ja agora minha sorte, 
Que me faz buscar vossa crueldade, 
D'onde só por remédio espero à morte. 



25 6 ^ . 

Não vos pude callar esta verdade, 
Porque força não têe poder humano 
Contra outro, que não tee humanidade. 

Amor, que tudo faz para mór dano 
Me deu mal, levou-me o soffrimento, 
Ah duro Amor, cruel, e deshumano! 

Não vos lembre. Senhora, meu tormento, 
Que este bem o merece a ousadia 
De eu empregar em vós meu pensamento. 

Lembro-vos hum amor, que cada dia 
Em mim tão verdadeiro e firme crece. 
Que alheio me traz ja do que sohia. 

Não peço que o pagueis, como merect». 
Que não mereço eu tanto, mas só peço, 
Que por mim não cuideis que desmerece. 

Porque se só por si he de tal preço, 
Que a supprir basta seu merecimento 
Quanto eu de minha parte desmereço. 

Bem vejo que em tomar o soffrimento 
Para viver, melhor remédio fora, 
Que hum tão desordenado atrevimento. 

Mas eu, que do viver menos, ja agora 
Que de todo a livro, pois crescendo 
Vão com a vida os males cada hora, 

Vos quiz manifestar meu mal, sabendo 
A quanta desventura se aventura, 
Quem pretende fazer o que eu pretendo. 

Quizesse, ó oxalá, minha ventura, 
Que castigásseis vós esta ousadia 
Com bua cruel morte triste o dura. 

Que não seria morte, mas seria 
Hum suave remédio doce e brando 
Deste mal, que me mata cada dia. 



237 



Até quaodo, Senhora, e até quando 
Terá lugar em vós vossa crueza, 
E a morte não em mim, que a estou chamando? 

Abrande meu amor vossa dureza, 
Que esta alma em si transforma com tal cura, 
Que ja não he amor, mas natureza. 

Abrande ja huma vida, em que só dura 
A alma, porque veja, e exprimente, 
Que não tee íim a grão' desavcntura. 

Abrande ja huma dor, que juntamente 
A vida penetrou, e a alma triste, 
E lhe roubou o estado seu contente. 

Mostrai-vos poderosa em quem resiste 
Em' desobedecer, ou enojar-vos, 
E não ja contra quem vos não resiste. 

Em quem cuidar que digno foi de amar-vos. 
Mostrai vosso poder, pois o merece. 
Em mim não, que o não sou tão só de olhar-vos. 

Attentai por huma alma, que se esquece 
De si, porque em vós poz sua lembrança, 
E tal, que em nenhum tempo desfallece. 

Nem suspeito que possa haver mudança, 
N'hum coração, que mais que a si vos ama, 
Dai-lhe ja morte, ou vida, ou esperança, 

Que tudo será gloria por tal dama. 



ELEGIA XXII 



Rei bemaventurado, em quem parece 
Aquella alta esperança ja cumprida, 
l)e quanto o Ceo e a terra te offerece. 



258 



De Deos formosa planta, concedida 
A lagrimas de Amor e lealdade, 
Bem nosso só, de nossa vida vida. 

Em quanto esta innocente e branda idade, 
Por Deos crescendo vai felicemenle. 
Té o mundo encher de nova claridade. 

Em quanto este teu Povo, e do Oriente, 
Novo accrescentamento por ti esperão. 
De outros Reis, d'outras terras, d'outra gente. 

Taes promessas os Ceos de ti nos derão 
No teu tão milagroso nascimento, 
E esprito igual em ti a ellas puzerão. 

Eu levado de amor, de santo intento 
(Quem ante essa brandura temeria) 
Deter-te com meu verso hum pouco espero. 

Depois virá hum tão ditoso dia. 
Que as tuas Reaes Quinas despregadas 
Na multidão de toda a Barberia. 

As victoriosas frotas carregadas 
Das caplivas coroas e bandeiras, 
De outro esprito maior sejão cantadas. 

Agora ouve, Senhor, as verdadeiras 
Musas, que levão os Reis a esta alta gloria, 
Tendo por armas só vélas ligeiras. 

Quantas amuadas conta a antiga historia, 
Quantos grandes exércitos perdidos, ' 

Deixarão aos mais pequenos a vicloría. 

Esses tanto no mundo conhecidos, 
Cujos nomes vencerão tantos anos, 
Não forão só por força obedecidos. 

Não se subjugão corações humanos 
, De boa vontade, á força hum peito aberto 
Os vence de bom amor, sem arte e enganos. 



259 



Nesta sombra, onde tudo anda encubcrio, 
Quem da verdade vê mais que a figura! 
Quem sèu passo direito leva, e certo! 

Huns falsos longes de hua vãa pintura^ 
Com sua côr, ao parecer lustrosa, 
QuantQS detém com falsa formosura! 

Não tee cores nem dobras a formosa 
Verdade, que buscaes, ó geiite cega, 
Humilde e nua está, não tão custosa. 

Não he hum só Cupido, que almas ceg^a, 
Mais ha no mundo que huns sós vãos amores, 
Que he tudo o que ã vontade mal se entrega. 

Aquelles, que do Amor forão pintores, 
Que os^ olhos lhe tirarão, e o descubrírão, 
Pintarão para Reis e Imperadores. 

Altos engenhos, que em figura virão 
As forças desle próprio amor imigo. 
Que moço, e cego, e nu, e cruel fingirão. 

Cada hum traz em ú mesmo seu perigo. 
Herdado desta natural fraqueza. 
Que tanto fazem homem de si amigo. 

Iguaes somos. Senhor, na natureza, 
Assi entramos na vida, assi sahimos, 
O entendimento he nossa fortaleza. 

Iguabnente de hum só principio vimos, 
Igualmente a hum fím todos corremos, 
E hua estrada commum igual seguimos. 

Na terra a morte, a vida nos Ceos temos, 
Qua^nto esla terra mais que os Ceos olhamos, 

« 

Tanto' caminho do bom fim perdemos. 

Cegos de nós,«' que nos tão mal trocamos, 
Que & parte vil e baixa senhoreia, 
E o mais alto ao mais baixo captivamos. 



240 



Força cruel, que dentro em nós guerreia. 
Vemos a cega vontade, a rasão clara, . 
E leva assi de nós victoria feia. 

Aquelle lume, que a alma illustra e aclara, 
Apagado por nós, nelle he perdido, 
Como mortos nos deixa, e a desamparai 

Deu o remédio Deos, eis hum erguido 
Por elle em poder alto, do que o povo 
He ja por bem levado, ou constrangido. 

Não he nome de Rei titulo novo, 
Com elle começou o mundo, e dura, 
Por fabulas antigas não me movo. 

Depois que daquella alta formosura 
Veio o primeiro homem, e a triste sorte 
O envolveo nesta sombra grossa e escura. 

Fugio a luz, entxou armada a morte, 
Cumprio nova vigia, e guarda, e lei, 
Que o cego mostre a luz, e obrigue o forlc. . 

Elegeo Deos Pastor a sua Grei, 
Vio também a rasão necessidade, 
Eis-aqui eleito hum Rei, eis outro Rei. 

Conforme, e junto o povo n'hua vontade, 
N'hum ^ó por bem coramum todos poderes, 
Promettendo obediência e fieldade. 

Obrigarão suas vidas, seus haverQS, 
Prometteo o bom Rei justiça e paz, 
E remédio e soccorro a seus misteres. 

D'alli sujeito ao Rei o povo jaz, 
D'alli sujeito o Rei á boa rasão, 
Da mesma luz,, que em si -esta força traz. 

A quem todos seus bens e vidas dão, 
Por os livrar da injuria e violência, 
Sc lh'as elle fizer, a quem se irão? 



24* 



Será juiz a justa consciência, . 
E aquelle santo e natural preceito, 
Deterá lei o que a fez obediência. 

Quem o caminho ha de mostrar direito, 
Se torce delle, e segue a falsa estrada, 
Como terá seu Povo á lei sujeito? 

Poz Deos na mão do Rei a vara alçada 
Para guia do Povo errado e cego, 
Mas não foi só ao seu desejo dada. 

Como deslro Piloto no alto pego, 
Co'o leme guia a náo, hora a bua parte, 
Hora a outra a desvia do váo cego. 

Não valem alli forças, vai só arte, 
Arte vence do mar a ira espantosa, 
Arte sem ferro vence o fero Marte. 

Hydra de mil cabeças enganosa. 
Pego de tantos ventos revolvido, 
Não se vence, Senhor, com mão forçosa. 

Em duas iguaes partes repartido 
Te deu Deos teu poder, em premio, em pena, 
Dê-se a cada hum o que lhe for devido. 

Aquelle que á sua vontade ordena 
Todas as cousas, olha com que amor 
Paga o bem logo, e de vagar condena. 

Não se acha alli respeito nem favor, 
Tanto vai cada hum, quanto merece, 
Iguaes ante elle são servo e senhor. 

Olha-te bem, grão Rei, e a ti conhece. 
Nascido só para reger a tantos, 
E dessa grande Alteza t) teu fim dece. 

Ver-te-has igual na humanidade a quantos 
Mandas, verás o fim tão duvidoso, 
Como quem também morre, e nasce em prantos. 

TOMO III 1C 



242 



Que presta ser na terra poderoso, 
Sc o alto fim do Ceo se põe em sorte, 
Que até ao Filho de Deos foi tão custoso. 

Corte o bom Rei primeiro por si, corte, 
Mais vence o exemplo bom, que o ferro e o fogo, 
Nâo pode errar quem contra si he forte. 

Nem a própria aflfeição, nem brando rogo 
Tire a força á rasão, ou á igualdade, 
Nem se lhe faça sempre falso jogo. 

Somente em Deos rasão he a vontade. 
Absoluto poder não o ha na terra, 
Antes fora injustiça e crueldade. 

Qup vontade mortal. Senhor, não erra, 
Se a justa lei, e rasão a não enfreia, 
De que nasce a injustiça, e cruel guerra. 

Cada hum pinta em seu peito aquella ideia, 
A qual ou mal, ou bem, se se affeiçoa, 
Assi lhe sabe formosa, ou lhe sabe feia. 

A boa guia he a inclinação boa, 
A qual nasce do claro entendimento, 

E com fácil discurso ao melhor voa. 

» 

Tanlo vai, tanto pode o santo intento, 
Que só por si a honra e louvor crece, 
E a obra que vai dez, faz valer cento. 

E quando humanamente erro acontece, 
(Quem pôde acertar sempre?) a culpa heleve, 
E todo o bom juizo a compadece. 

Que injustiça será, que não releve 
Não sahir á vontade a obra igual. 
Pois pelo intenta só julgar se deve. 

No livre peito, e coração real. 
Está o bem commum sempre fundado, 
Não pode de tal fonte manar mal. 



245 



Ama o Povo o bom Rei, e he dellc amado, 
Ledo, c facil em crer e julgar bem, 
Imigo de todo o animo dobrado. 

Sempre a mão larga, sempre aberto tem 
O generoso peito ao premio justo, 
E triste e vagaroso à pena vem: 

Este he chamado Bom, e Grande, Augusto, 
Da Pátria Pae, Prazer, e Amor do mundo, 
Mortal imigo do tyranno injusto. 

Este logo de hum aho e de hum facundo 
Engenho até ás estrellas bem cantado, 
Voando vai: na terra sem segundo. 

Tal nos cresce, grão Rei, por Deos ja dado, 
Inda maior que as nossas esperanças, 
Maior que sua Estrella, e alto Fado. 

Cedo teu esprito vencerá as tardanças 
Do tempo e idade, e cedo renovando 
Irás dos santos Reis altas lembranças. 

Começa-te ja agora hír costumando 
A pôr em nós teus olhos reaes serenos, 
O mansissimo Avô teu imitando 

iDleiro e humano, aos grandes e aos {liequenos. 



ELEGIA XXIII 

Duvidosa esperança, certo medo. 
Senhora, de me não ouvir meus danos, 
Fizerão que não iiz isto mais cedo. 

Mil remédios busquei, busquei enganos. 
Por encobrir o mal que me causais 
Temendo outra mór dor dos desenganos. 



244 



Mas tudo quanto fiz, fiz por demais: 
Amor, que como quer, de mi o ordena, 
Não soffre que tal dor encubra mais. 

A ser vosso, Senhora, me condena: 
Nisto mercê me faz: se a vós oflende, 
A culpa ao amor dai, a mi a pena. 

Não cuideis que minha alma se defende 
De cousa de que vós fordes contente, 
Porque só isso busca, isso pertende. 

Ditosa. dor a. que por vós se sente: 
Ditoso, pois conheço esta verdade, 
Para não ser das minhas descontente. 

Com tudo, a não poder huma vontade 
Tão pura, e lanto a medo offerecida, 
Mover- vos de meu mal a piedade; 

Não quero mais viver, não quero vida: 
Melhor me será morte, que desgosto 
A quem tanto desejo ver servida. 

Banhem pois minhas lagrimas meu rosto; 
Suspire o coração, que treme, e arde; 
Chorar e suspirar seja o meu gosto. 

Não queirão os meus fado^ que me guarde 
De sentir nova dor, novo tormento, 
Que sinto muito mais senti-lo tarde. 

Quizera, desde que tivje entendimento, 
Por ver se com firmeza vos movia, 
Não ter em outra cousa o pensamento. 

Em vós cuidar a noite, em vós o dia ; 
Por vós sentir prazer, por vós tristeza; 
Sem vós ter para mim que não \ívia. 

Mas nem por isso haja inda em vós crueza: 
Soffre-se mal n'hum peito delicado: 
Parece cousa contra natureza. 



I 



245 



Olhai que em vivas chammas abrazado 
Por remédio, Senhora, ante vós venho : 
Busca-lo n'outra parte he escusado. 

Porque não vai saber, força, nem engenho, 
Pedras, palavras, hervas de virtude. 
Contra o golpe d'an)or, que n'àlma tenho. 

Se vossos olhos podem dar saúde 
Se neste grave mal me nâo soccorrem, 
Deixem-me morrer ja, ninguém me ajude. 

Ditosos são os tristes quando morrem 
No começo dos damnos, que não sentem 
Quão vagarosas as tristezas correm. 

Porém se as ^peranças me não mentem, 
Espero deste conto inda ser fora, 
Que cruezas em vós não se consentem. 

Émfím, a fim de tudo isto he, Senhora, 
Que se me não valeis, tenhais por certo, 
Que cedo verei a derradeira hora. 

Ja que meu mal vos tenho descoberto, 
Havei de mim dó: não seja isto, emfim, 
(Como dizem) dar vozes em deserto: 

Valei-me, que por vós me perco a mim. 



ELEGIA XXIV 

A Aonio que de amor solto fugia, 
A bella- Gaklea em vão chamava : 
E Aonio, Aonio o Eco respondia. 

E agora comsigo só fallava. 
Ora co'mar, ora co'a triste sorte 
Ora co'o Tejo onde chorando eslava. 



246 



Pois me não ouve Aonio em mal tão forte, 
Ouvi ondas a propriedade que imitava 
A causa porque estou chorando a morte. 

Que a Iroco de amor puro, e de verdade 
(Quem haverá no mundo que isto crea?) 
Me deixa em pranto, e triste saudade. 

Dizia-me, ó cruel minha Galatea, 
Primeiro que eu deixe o vosso Tejo, 
Tornará atraz co'o curso a rica área. 

Mas ay triste de mim, que ainda vejo 
Como de antes levar ao Occeano 
E a ti não, que he só o que desejo ! 

Se com quem te deu .a alma usaste engano, 
Ingrato, quem espera de ti ja agora. 
Tirar nunca senão vergonha e dano? 

Vas-te cruel da pátria fora 

Por esse mar entregue ao fero vento, 
Fugindo de quem te ama, e quem te adora? 

E deixas assi só isento 

Esta pura corrente, este Iranquillo 
E socegado porto ao fresco vento? 

Onde move hum som com suave estillo 
Sem sabresaltos da aurora peregrina * 
A vontade de quem cá quer ouvi-lo. 

E se a rogos mortaes o Geo se inclina, 
Peço-lhe que o mar te traga e ponha' espanto, 
Vingando-me da fé falsa e malina. 

Porque a ninguém tão puro, honesto e santo 
Amor deixar não queira, antes procure 
Louva-lo com suave, e amoroso canto. 

Porque não haja alguém que se assegure 
A buscar por o mar injusto e fero, 
Empregos cm que a vida se aventura. 



Mas, sem ventara ay! para que quero 
A morte ver daquelle ingrato, e duro, 
Se delle ja ter bem não espero? 

Seja-lhe sempre o Geo sereno, e puro 
O mar, o vento brando, a sqrte amiga, 
O porto que tomar firme e seguro. 

Para que nunca mais alguém nâo diga 
Que minhas cousas forão causa, ou parte 
De ser-lhe irado o Geo, Fortuna imiga. 

O quarn^ suave tu em toda parte 
Possas correr co'o Geo doce e brando. 
Levaste este que me leva a melhor paite. 

Que etf por assombra, por a luz passando 
Ficarei sempre em minha dura sôrle, 
Sem descansar hum'hora suspirando; 

Ou veja a Aonio, ou veja a dura morte. 



FXEGIA XXV 

(ixbdita) 

Ganhei, Senhora, tanto em querer-vos, 
Que nenhum desfavor me dá tormento. 
Que me não dê maior gloria merecer-vos. 

Não quero para meu contentamento 
Senão meus olhos, pois vos vêem. Senhora, 
E a vossas cruezas soffrimento. 

Ditoso o dia foi, ditosa it hora 
Que alcancei ver vossa gentileza, 
Gujo mal não soffrer, mais mal me fora. 

Sinto com vos servir tanta estçanheza, 
Sinto voar tão alto o pensamenio, 
jQuc todo o outro bem julgo baixeza. • 



248 



E por experimentar meu soffrimenio 
Vos mostrais contra mim endurecida, 
Oh ! que doce paixão, doce tormento. 

Se vossa condição desconhecida 
Me não quer dar o fim pêra mor dano, 
Oh ! que doce morrer, que doce vida. 

E se de seu favor me sinto ufano 
Quando de meu mal culpada se acha, 
Ohl que doce enganar, que doce engano. 

E se em querer-vos tanto ponho tacha. 
Mostrando refrear meu pensamento, 
Ohf que doce fingir, que doce cacha. 

Assim que ponho ja no sofFrigiento 
A parte principal de minha gloria, 
Tomando por melhor todo o tormento. 

Se sinto tanto hem, só na memoria 
De vos ver, triumphar por vencedora. 
Que quero eu mais que ser vossa a victoria? 

Se tanto vossa vista mais namora 
Quanto sou menos pêra merecer-vos, 
Que quero eu mais que ter-vos por Senhora? 

Se procede este bem de conhecer-vos 
E consiste o vencer, em ser vencido. 
Que quero cu mais. Senhora, que querer-vos? 

Se em proveito faz qualquer partido 
Só na vista de huns olhos tão serenos, 
Que quero eu mais ganhar que ser perdido? 

Se meus baixos 'spiritos de pequenos 
Ainda não merecem d'alcançar-vos, 
Que querd eu mais, que o mais não seja o menos? 

Fico emfim satisfeito em desqar-vos, 
^ se nisto tal bem tenho alcançado, 
Quem pôde tanto que podesse amar-vos. 

Bem poderia ser de vós amado. 



249 



ELEGIA XXVI 



« (ihbdita) 

Quando os passados bens me representa 
No mais secreto d^alma o pensamento, 
Que quanto mais o vér, mais se atormenta. 

Tal forma tomão neste apartamento . 
Que nada me dá agora mais tristeza, 
Que o que me dava mór contentamento. 

E quanto tive a gloria em mais largueza, 
Tanto he maior agora a perda delia 
Que onde o poder he mór, he mór a preza. 

E ja se consentira a minha estrella 
Que tivera esperança de cobra-la 
Gomo tive receo de perde-la. 

Somente aquelle allivio de espera-la 
Na força do que quero sustentada, 
Me alcançará vigor para alcança-la. 

Mas, segundo do tempo sou tratado. 
Bem posso recear que algum descuido 
Me roube o galardão de meu cuidado; 

E quando aquella fé que eu nunca mudo 
No mór perigo seu melhor guardada, 
A quem tudo entregou merece tudo. 

Então dos bellos olhos desprezada 
Com tão pouca razão será esquecida. 
Com quanta deve sempre ser lembi^ada. 

E se para isto só grangeo a vida, 
Muito melhor partido me seria 
Antes de mais perder, vé*la perdida. 



250 



Por ventura que assim descançaria, 
E metendo-me a vida em tanta affronta, 
Acharia na morte cortesia. 

Nestes medos amor meus bens disconta, 
E não me vale a minha confiança, 
Que se muito montou nada ja monta. 

Cança-pie o tempo, cança-me a tardança 
Com que elle corre, e a alma que trabalha, 
Quando elle tarda mais menos descança; 

Então em vãos suspiros, vãos espalha, 
E qualquer bem que pôde descança-la, 
Sempre amor lho atalhou, sempre lho atalha. 

Pois se os males que passa accaso falia, 
Não tem parelha a dor dos que descobre 
Com o grão tormento dos que callá; 

Antes quantos mais são mais os encobn\ 
Até que para crecerem juntamente 
Dobrando-se o segredo, o mal se dobre; 

Porém como lhe lembra que o que sente 
De lá de vós lhe vem, nunca he tão triste 
Que logo isso o não faça ser contente. 

E como o seu bem todo em vós consiste, 
Comvosco só SC vale, a vós se acolhe, 
Que onde vós assistis só gloria assiste. 

La na luz desses olhos se recolhe, 
Onde com larga mão se lhe conc<)de 
Quanto cá juntamente se lhe tolhe. 

Mas de[)ois que he forçado que se arrede 
Outra vez de seus males combatida, 
Em. vão se queixa, em vão itierces vos pede. 

Assim passo huma ausência tão comprida, 
E se ainda tenho vida desta sorte, 
He por que entende amor (}ue a propriu vida 

Vivendo eu como vivo, he mais que morte. 






251 



KLEGIA XXVII 



Quem poderá passar tão triste vida, 
Quem não espera ja contentamento 
Senão quando de todo for perdida. 

Quem poderá soffrer tão grão tormento, 
Tão áspero, cruel, tão duro e forte. 
Quem morta a esperança e soffrimenlo; 
. Quem pôde imaginar tão dura sorte, 
Que faz crecer o mal continuamente, 
E por não dar remédio não dá a morte. 

Quem ha emfim tão triste e descontente 
Que sempre ande ò passado imaginando, 
E em aborrecimento do presente. 

Se lá onde tu estás vês qual ando. 
Senhora, e o nosso amor inda lá dura, 
Bem creo que meu mal estás chorando. 

Que faltando-me a tua formosura. 
E a tua alegre e doce companhia. 
Bem vês qual será minha desventura. 

Tudo ja me entristece, a noute- e o dia, 
E o que mais me atormenta he a lembrança 
Do bem que n'oulro tempo possuia. 

Ja perdi de cobra-lo a confiança, 
E cónft isto perdi de ser contente, 
Quamanho mal he a falta de esperança ! 

Se lá nessa outra vida se consente 
Sentir-se o mal que cá se anda passando. 
Senhora minha, o meu não vos atormente. - 



252 

Porque segundo me elle vai tratando 
E o desejo de ver-te da outra parte 
Ja para ti me vai encaminhando. 

Perto me vejo ja de hir a buscar-te, 
Entre tanto te baste esta certeza, 
. Porque a mim só me basta contemplar-te. 

Ali se acabará nossa tristeza, 
Amor acabará de atormentar^nos 
Não terá ali lugar sua crueza; 

Mas te-lo-hemos nós para alegrar-nos. 



ELEGIA XXVIII 

(iridita) 

Eu só perdi o verdadeiro amigo. 
Eu só heide viver nesta saudade, 
Sabe Deos a tristeza com que o digo. 

O meu Silveira era huma vontade, 
Hum amor, hum desejo, huià querer, 
Ambos hum coração, e huma amizade. 

Não tenho.ja razão de vos fazer 
Meus castellos de vento sobre o mar. 
Que cousa ha hi ja no Gange para ver? 

Que cousa nelle ha que desejar? 
Foi-se daquesta vida o meu Silveira, 
Tudo o bom na outra se hade achar. 

Que espada nas batalhas foi primeira, 
Ou qual entre os imigos mais prezada, 
Ou qual se achou mais na derradeira? 

E ora de seus soldados ajudada 
Fora delles huma hora mais seguida. 
Fora delles melhor acompanhada. 



255 

Que aquella ilha delles tão temida, 
Ellc a tinha ja em tal estreiteza 
Que durar^ não pudera hum'ora em vida. 

Mas gentes que não tem ^e natureza 
Esforço, espirito, sangue e condição, 
O seu natural be mostrar fraqueza. 

Deixão morrer seu próprio Capitão, 
Deixão perder as forças que os sostem, 
E tudo lhes consente o coração. 

Não tratão da gloria deste bem, 
Deste viver na fama sempre e vida, 
O que lhe dizem disto não o crêem. 

Quem a victoria vio mais conhecida, 
A não se ver dos seus desemparado 
Qual esteve mais certa ou mais subida? 

Com que saber o porto foi tomado 
Á gente do Barem que o defendia. 
Com que esforço foi tudo começado? 

Que temor nos imigos ja se via. 
Que victoria tão clara aquella estava. 
Que cousa aquelie espirito não faria? 

Que receio ja nelles se enxergava. 
Que derão pelas vidas se quizera 
Aquelie que tirar-lhas desejava? 

Mas que ouro, que preço então poderá 
Fazer tornar atrás tanta ousadia. 
Ou quem fora que aquisto commettera? 

Quem se atrevera ahi, quem ousaria 
Com os Ihesouros de Crasso accometer, 
A quem só honra e fama pertendia? 

Forçado neste caso se hade crer 
Que o coração lhe não dava lugar 
A mais que n'aquisto podia ter. 



254 

Por onde quiz por obra começar 
Aquella crua peleja receando, 
Concertos que a soem desviar, 

A presteza da couga está mostrando 
A vontade que tinha e o desejo 
De se ver ja na pátria pelejando. 

Aquella hora, momento, aquelle ensejo 
QuaAtas vezes alli desejaria 
Verem-no pelejar Nymphas do Tejo. 

Que vezes por ellas chamaria, 
Com que esforço seria esta lembrança, 
Quantas vezes a alguma invocaria. 

Com que graça e arte e confiança 
Se parte na praia dos primeiros, 
Quão longe de fazer atrás mudança. 

Aquestes bons espíritos verdadeiros, 
De que não digo o terço do que callo 
Que desprezar faria dos frecheiros; 

Que longe de poderem enfada-lo 
Aquelles insoffriveis alaridos 
Daquella gente iniqua de cavallo. 

Rodeado de mortos e feridos, 
Que aquelle forte braço derribava, 
Sendo os seus ás náos ja recolhidos, 

Deo a alma a quem a desejava. 
Com tanto gosto e contentamento 
Que de tal esforço se esperava. 

O bom desastre alegre esquecimento. 
Por vós o meu Silveira está na gloria, 
Por vós lá lhe repousa o pensamento; 

Por vós eternamente na memoria 
Correrá a este caso seu louvor, 
De que se pôde fazer larga historia. 

Quem a vida sacrificou ao Redemptor. 



\ 



255 



ELEGIA XXIX 



(inédita) 

' Divino almo pastor, Delio dourado 
 quem de Amphrisio ja virão os prados 
Guardar formoso, rico e branco gado. 

Aos quaes adormentavas enlevados 
No doce som da lyra, e alternando 
Com versos e cantares namorados. 

E as Nymphas e pastores ensinando 
O caminho de Cipro e dos amores, 
As ondas, feras e aves enlevando. 

O formosura e honra dos pastores, 
Que d'hum a outro polo do horisonte ^ 
A natureza pintas de mil cores. 

O pai das nove Innãas, Senhor da fonte, 
A quem as ondas cedem de Letheo, 
Posta no mais excelso e sacro monte. 

Por que causa me dize Almo Timbreo, 
O Ceo resplandecente hoje cobriste 
De tão mal assombrado e negro veo. 

Se lembranças te fazem Phebo triste. 
De Daphne para ti tão fera e crua, 
A (|uem com tal vontade ja seguiste. 

Também te lembrará como por tua 
Causa foi transformada em verde rama 
Por não se ver da. roupa casta nua. 

Por donde aquella dor e aquelia chama 
No insensato corpo diíTundida, 
Nenhum vigor nem força ja derrama. 



256 

Pois tu da praia Hesperiá esclarecida 
Adonde Thetis, Xanlo e Gallalêa 
A teus cavallos vem tirar a brida; 

E a fermosa Clio e Panópêa 
Com Doris sobre as ondas levantadas, 
Te vem a receber com boa estrôa. 

Ainda estás âquem duas jornadas, 
E no outro hemispherio a nout€ escura 
Tem as nocturnas sombras encerradas. 

S'acaso a caida e má ventura 
De Phaeton te lembra, cuja morte. 
Te deu sempre jamais tanta tristura. 

O nãk) teres tu culpa te conforte, 
Que o moço de soberbo não podia 
Cair em menos miserável sorte; 

Mas vós, castas Irmãas, que noute e dia 
Cantais en^ versos Elcyos o choro, 
Com o cândido Cisne em companhia. 

Unidas todas ali vinde em choro, 
Hum padre consolai tãcp descontente, 
Em modulo cantar doce e canoro. 

S'a dor que manifesta e mostra a gente 
Desta causa procede, mas parece 
Que outra pena maior he a que sente. 

Pois a prenhada terra brota e crece. 
De mil flores enchendo os verdes prados, 
E tarda bem o tempo que anoutece. 

Eolo nas montanhas encerrados, 
Os cruéis ventos tem mais furiosos, 
De mil prisões de ferros carregados. 

Só Zephiro e Phavonio d'amorosos 
Spiritos cheo brandamente aspira 
Por. estes valles verdes e formosos. 



257 



Ciais formosa por amor suspira, . 
E Flora em companhia d'alvora(Ia, 
Que agora o seu veneno tem mais ira. 

Pois tu no Touro fazes a morada, 
Deixando Aquário e Piseis de mau brio ■ 
Com Vénus antre os cornos assentada. 

O qual meteo Europa no mar frio, 
Assim que bem olhado e bem sentido 
Triumphas do inverno e secco estio. 

Se mortal rogo foi jamais ouvido, 
Delio immortal de ti, se n'aígu'a hora 
A piedade foste commovido, 

Dize-me por que causa o mundo chora, 
Mostrando taes sinais e tal tristura, 
Escondendo a rosada e fresca aurora; 

Que segundo os segredos da natura 
Nos mostrão claramente os elementos, 
O mundo não será de muita dura. 

Vejo o furor do mar e bravos ventos, 
Das estreitas e signos e planetas 
De seus lugares fora e firmamentos. 

Vejo coriscos, raios e cometas, 
Relâmpagos, trovões mui accendidos 
Sahir por differentes e altas metas. 

E nos mais altos montes e subidos 
De Pellio, Emo, Ossa, Pindo, Atlante, 
Os robustos carvalhos destruidos. 

Quer por ventura algum novo gigante 
Subir por estes ao firmamento 
E derrubar a Júpiter possante? 

O qual movido de soberbo intento. 
Qual os de Phiegra que sâo ja passados 
Em pago de tamanho atrevimento? 

TOMO III 17 



258 

Os eixos dos dous orbes ordenados 
A sustentar a maquina mundana 
Parecem ja desfeitos e quebrados. 

Ó menle baxa de matéria humana, 
Cega no bem e vista na maldade 
Que tão soberba vás e tão ufana, 

Que vás buscando a fonte da verdade, 
E cega-te a mentira de maneira 
Que não vês palmo ja de claridade; 

Põe os olhos da fé pura e sincera 
Nas altas cimas do Calvário monte, 
Por donde irás á gloria verdadeira. 

Verás a crystallina e clara fonte 
Da vida pura posta em hum madeiro 
Por te livrar da barca de Acheronte. 

O verdadeira luz, justo cordeiro, 
Jesus benigno, manso e piadoso, 
Filho do Padre Eterno e verdadeiro. 

Que causa te moveo, Rei poderoso, 
Tão escondida lá na mente eterna, 
A padecer fim tão deshonroso; 

E deixares a mais alta e mais superna 
Cadeira e vida pela niais escura 
De quantas a mortal fama governa? 

Se te moveo. Senhor, esta feitura, 
Á morte condenada eternamente 
Tor a lei quebrantada de nalura; 

Lembra-te quão malvada c má semente 
He esta a quem te dás crucificado, 
Que sempre te tem pago ingratamente. 

O mundo ingrato, cego, descuidado, 
Cheo de falsidades enganosas. 
Em peccados e vicios occupado, 






259 

Qae não derramas lagrimas chorosas 
Em tanta quantidade que pareça. 
Mostrar siquer entranhas amorosas. 

Tu, mar, que não levantas a cabeça 
Por tornar a cubrir o que cubriste 
Para que tudo acabe e que pereça. 

Vós, ventos, a quem nada emfim resiste. 
Que não transtornais tudo em desconcerto, 
Tu, dura terra, porque não te abriste. 

Vós, plantas, feras e aves do deserto, 
Que não chorais, pois chora a natureza 
Vendo-se posta em tamanho aperto. 

Vós, altos Ceos, de lá da mór alteza, 
Bem sei quanto sentis a Divindade 
Em tal miséria posta e tal baxeza. 

Pois vedes, o Senhor da magestade, 
Que vos criou de nada, submettido 
Por amor puro, aos pés da humildade. 

Senhor que'amor foi este tão crescido 
Que tão dobradas forças faz singellas, 
Só tão alto, baixo e abatido. 

O preciosas chagas roxas, bellas 
Luminárias da noute tenebrosa, 
De toda luz privada das estrellas. 

Ó Cruz bemdita, chara, preciosa, 
Contempla bem o passo que te derao 
Ó coroa d'espinhos amargosa. 

Vós, santos cravos, quando vos meltêrão 
Á força de martello, logo á ora 
As serpentes e dragos s'escondêrão. 

O coração, ó alma que não chora 
Vendo-te, Redemptor, com tantas dores. 
Em pedra viva de diamante mora. 



260 



Que não contemplais isto peccadores, 
E derramais mil lagrimas no dia 
Vendo o Senhor Ião triste dos Senhores. 

Tu, Virgem pura, Santa Ave Maria 
Cheia de graça, esposa, filha e madre 
Mais formosa que o sol ao meio dia, . 

Que vás buscando ao esposo, filho e padre, 
Qual cordeira perdida da manada 
Sem guarda de paslor, nem cão que ladre ; 

Vai Rainha dos Anjos mui amada 
E preciosa pedra diamantina, 
De perfeições e graças esmaltada; 

Vai estrella do mar, vai luz divina 
Escolhida do Ceo, vai cordeirinha. 
Branca açucena e rosa matutina; 

Vai caminho da gloria, vai pombinha 
Branca sem fel, bemdita antre as mulheres, 
Vai mãe da lei da graça, vai asinha 

Ao monte Calvário, se ver queres 
Ao leu precioso filho antes de morto, 
Desconsolada vai, vai, não esperes. 

Ao qual acharás bem sem conforto. 
Posto na Cruz por partes mil chagado. 
Por nos dar socegado e manso porto. 

Escarnecido, só, desemparado 
Antre dous malfeitores condenados 
De phariseus e armas rodeado. 

O duros corações desatinados, 
Cegos, malditos, torpes de má casta, 
Lobos, no sangue justo encarniçados. 

Dizei que Tigre Hircano ou que Cemsta, 
Q'Aspe, Basilisco, ou que Dipsarta, 
Das quaes a quente Lybia he chea e basta; 



^ 



26 < 

Que Thracia, Grécia, Colchos, Scythia, Sparla 
De trágicos insultos nunca faria 
Ou que barbara gente crua e fera, 

Humana não deixara e não perdera 
A crueldade toda, se te vira, 
Jesus benigno, posto na Cruz vera. 

Mas vós cruéis, perversos, cheos de ira. 
Cora grila e escarneo, riso tudo mixto 
Estais asidos todos na mentira; , 

Dizendo em alta voz: se tu és Christo, 
Desce-te dessa Cruz em que estás posto; 
Não bastando os milagres que haveis visto. 

E tu, Senhor, melido em tal desgosto, 
Estás, sofifrendo penas tão estranhas 
Com humilde, sereno e manso rosto. 

Ó algozes ingratos de más manhas, 
De troncos e penedos produzidos 
Nas mais altas e ásperas montanhas. 

Que não vos humilhais, dizei perdidos, 
E não pedis perdão do que vos toca. 
Que segundo he meu Deos, sjereis ouvidos. 

Pois elle com humilde rogo invoca 
Ao Padre por vós benignamente, 
Deitando o fel e sangue pela boca; 

Dizendo: Padre meu Omnipotente 
Pedir-te quero, antes que me acabem : 
Que tudo isto perdoeis a esta gente. 

Pois o que fazem, cerlo nSo no sabem, 
O palavras altissimas celestes 
Nas quaes secretos e mistérios cabem: 

Mas vós, malditos, como não soubestes 
Senão idolatrar como gentios. 
Nenhuma cousa destas conhecestes. 



2«2 

Que sempre caminhaste por desvios, 
Deixando a lei de Deos sagrada e pura, 
Desterrados por montes, selvas, rios. 

Quem cuidará. Senhor, na tua brandura, 
Misericórdia grande e piedade 
Que excede ser e ordem de natura, 

Por mais duro que seja na maldade. 
Que nSo derrame sempre noite e dia 
Lagrimas, qual hum rio em quantidade. 

Leitor que lendo vás esta Elegia, 
Quero-te perguntar d amor vencido 
Se contemplando lá na phantesia 

Alguma vez acaso no sentido, 
Vendo raiar o Sol na mór altura, 
De rubicundos raios accendido ; 

E depois que se põe a formosura 
De diversas estrellas espalhadas. 
Quando Hechate cobre a terra dura; 

E as ondas do mar bravo salgadas 
Tão sugeitas n'hum ser sem s'espalharem, 
Nem de rios ou chuva acrescentadas, 

Os quaes cursando sempre sem faltarem, 
Digo de muitos que ha hi que são famosos. 
Que correm sempre sem janjais pararem ; 

Se ver os campos verdes deleitosos. 
Qual formoso pavão, feras e aves 
Nos apartados bosques mais sombrosos; 

As quaes com cantos doces e suaves 
Saudão a manhãa mui prezenteiras. 
Com passos ora agudos, ora graves ; 

Se ver os ritos, vidas e maneiras 
Tão diversos, que áhi por nosso dano 
Nas apartadas gentes estrangeiras; 



265 

Se ver tanta mudança n'hum só anno, 
Escuro, claro, chuva, frio e calma, 
E tudo para prol do bem humano, 

Contemplaste 1^ dentro na tu'alma; 
Por ventur'algu' dia separado 
Da pesada mortal terreste salma, 

Em tantas criaturas que ha creado 
O Creador do mundo Padre Eterno, 
No alto Ceo com qs olhos enlevado. 

E neste pensamento tão superno. 
Com tão ligeiras%azas desprezando 
A trabalhosa vida deste inferno; 

Pois olha peccador que vás nadando 
Nas procellosas ondas deste mundo. 
Nos mistérios divinos contemplando, 

E verás o mais alto sem segundo 
Posto na vera Cruz, no monte Santo, 
Por te livrar do lago mui profundo. 

Não, aquelle que lá te punha espanto. 
Fabricado na mente que sempre erra, 
Coberto de mortal e cego manto, 

Mas o próprio que fez o ceo e a terra, 
E tantas maravilhas que cá vemos, 
Afora as outras que comsigo encerra. 

Dizei, dizei mortaes, que lhe daremos. 
Por mais que o amemos ou sirvamos. 
Que a mais pequena parte lhe paguemos. 

Este domingo atrás nos alegrámos. 
Senhor, com festas, danças e alegrias . 
Dando-te capas 6 olorosos ramos; 

E agora por cumprir as prophecias 
Pelos prophetas santos declaradas, 
Te vemos morto dentro em cinco dias. 



264 



Com as caraes feridas e chagadas, 
De mil açoutes cheo, arrepelado 
De couces, empurrões e bofetadas. 

Estás Jesus benigno qual uq prado 
O lyrio branco fica descomposto, 
Do homicida ferro derrubado; 

Ou qual o sol se mostra antes de {losto 
De cores tristes, ou qual branca rosa 
De frio trespassada ou mez d'agost^; 

Ou qual cisne na ribeira umbrosa, 
Que presago do fim brando enternece 
* A circumstante selva em vós melosa. 

Senhor, com cuidar isto s'entristece 
A minha alma de modo, e meu sentido, 
Que do seo próprio alento desfallece. 

Contemplo-te meu Deos na Cruz sobido, 
E vejo-te com os olhos verdadeiros 
Cercado de mil anjos e servido; 

Os quaes voando leves e ligeiros, 
Qual enxame d'abelhas pressurosos, 
Trabalhão por curar os teus marleiros: 

Huns cobrem com unguentos olorosos, 
E outros com vasos de poção divina. 
Os teus sagrados membros preciosos. 

Outro com agua pura e cristalina 
Está lavando as chagas, e outros prestes 
Acodem com toalha rica e fina. 

Outros parecem antre todos estes 
Com cálices do novo testamento, 
Tomando as gotas de liquor celeste. 

Outros batendo as azas sempre ao venlo, 
Parece que trabalhão (juanto podem 
Por te tornar a dar vilal alento. 



265 



Outros de novo pelo ar acodem, 
E outros feitos bizarros soldados 
Com espadas na mão, postos em ordem, 

Querem hir cometer mui denodados 
Âquella gente torpe endiabrada; 
Mas tu, Senhor, os tens só refreados. 

Vendo quão pouco ganhão na jornada, 
Por que se tu quizeras d'hum aceno, . 
Só Pedro os destnyra sem espada. 

Recebe, pão de vida, este pequeno 
Sacrifício de mim, á sombra escripto 
D'hum alto freixo deste valle ameno. 

E dá-me tanta graça e tanto espirito, 
Para que sempre louve, qual espero, 
O teu saber profundo e infinito. 

Tomara serVirgilio ou ser Homero, 
Somente no saber que foi divino. 
Que ser que elles forão não n'o quero, 

Pêra poder cantar ó Rei benino, . 
Em puro choro as chagas que te vejo 
A dor das quaes provoca a desatino: 

Mas ja que ver não posso este desejo, 
O qual tomara só para louvar-te 
Meu Deos de dar-te pouco não me pejo ; 

Porque eu para dar mais, sou pouca parle. 



DA CREACiO E COMPOSICiO DO HONEN 



CANTO I 

Na mais fresca e aprazível parle do anno, 
A Vénus dos antigos dedicada, 
Vcnus, amor de Marte e (Je Vulcano, 
Formosa estrella, do ar e terra amada; 
Por cujo influxo amjgo e sobrehumano 
Se mostra a primavera namorada, 
Guiando a destra mão da natureza 
O summo Creador da redondeza: 

Quando a liberai terra, e agradecida 
Co'a humidade do céo e temperança, 
De verde e vario esmalte revestida, 
Mostra dos doces fruitos a esperança; 
E em toda a planta e arvore florida 
Com coroa odorifera a Avondança 
Então parece mais ornada e bella 
No vigor brando da amorosa estrella: 



268 

E cm sua liberdade as vagas aves, 
Com ledo canto o ar sereno enchendo; 
As manhãas saudosas mais suaves 
E aprazíveis do fresco Abril fazendo, 
Convidam a doce somno os corpos graves, 
Em leves sonhos vãos os entretendo, 
Ajuda o rouco som da clara fonte. 
Que ao verde prado desce do alto monte: 

Em huma manhã destas prompto e experto 
Me detinha um profundo e são cuidado 
Da estranha providencia e alto concerto 
Do Creador em tudo o que ha creado: 
Como despois de dar numero certo 
E ordem ao mundo espherico formado. 
Formou logo com seu saber profundo 
D'alto artifício outro pequeno mundo. 

Que assim como fez só pela virtude 
De sua alta palavra lá de cima 
Daquellc grande cahos desforme e rude 
Da vazia e da vã matéria prima 
Com certa ordem, *e tal, que não se mude, 
Os ceos de grão vigor, virtude e estima, 
E os elementos vários corruptíveis 
Em suas qualidades compassiveis : 

E assim também como em cada elemento 
Formou diversos corpos de mistura, 
Vários na creação e nascimento, 
No ser, na condição e na figura; 
Ás aves dando o ar por quasi assento, 
Aos peixes agua, aos brutos terra dura. 



269 

E dâs quatro compostas qualidades 
Tantas fez d'animaes diversidades: 

Como despois de tudo ultimamente 
Da terr^ n'um logar mais fresco e ameno 
Quiz crear e formar, distinctamcnte 
Daqueste grande mundo, outro pequeno, 
Também em duas partes differente, 
N'uma delias caduco, vão, terreno, 
N'outra esp'rito immortal, alto, divino, 
De razão e do Ceo capaz e dino. 

Que como no ceo quarto o illustre pharo, 
Aquelle olho do mundo luminoso, 
De toda luz visivel fonte e amparo, 
Corre como gigante e alegre çsposo: 
Assi o entendimento, outro sol claro. 
Neste mundo menor e artificioso 
Lustra na parte delle mais superna. 
Discorre com sua luz tudo e governa. 

E quaes os animaes inferiores, 

Seu appetito só brutal amando, 

Na baixa e escura terra habitadores. 

Só delia os gostos vãos andam buscando: 

Tal no baixo e vil homem supViores 

A razão se os sentidos vão mandando, 

■ 

Razão, que differente o faz da fera, 
D'esp'ritual em bruto d^enera. 

Porque, em que o fez do mais baixo elemento. 
Deu-lhe mil perfeições em abastança, 
Deu-lhe akna racional e entendimento, 



270 

E fê-lo em fim á sua similhança: 
De todo o outro animal do baixo assenio 
Lhe deu o senhorio e a governança; 
Tudo lhe sujeitou debaixo os pés, 
Deixando-o só sujeito a quem* o fez. 

Este pequeno mundo, homem chamado, 
Prevaricando em sua obediência, 
Do paraízo, em que estava, foi lançado, 
Perdendo o bom estado da innocencia: 
Mas, nunca do Senhor desamparado, 
De seu peccado em fim fez penitencia, 
Trocando a vida alegre em morte dura, 
Até vir Deos tomar sua figura. 

Deos fez-se homem, Deos summo, omnipotenlc, 
Na pessoa do Filho tão subida; 
E ao mundo amou d'amor tão eminente, 
Que a própria vida deu por dar-nos vida: 
Mortal, humilde, em fim pobre paciente, 
Sofíreo pregado ser n'hua cruz erguida. 
Com mil dores, tormentos e deshonras, 
Pêra aos homens subir a eternas honras. 

* 

Mas d^entre os mortos logo resurgido 

Com glorioso corpo triumphante, 

E ao Empyreo c'os Santos seus subido 

Na união da Igreja militante, 

Deixou ao homem, por seu sangue remido, 

De suaves remédios ja abundante, 

Com que, vencendo sempre com victoria, 

Podesse entrar na pura e eterna gloria. 



27 \ 



Nesta imaginação assim passando 
Estava eu a manhã d'hum fresco dia, 
Quando me em licor húmido banhando 
O lento somno ja me adormecia; 
E daquiilo, que estava imaginando, 
Ás espécies tomando a phantasia. 
Sonhava hum* sonho assas estranho e doce, 
Dado que verdadeiro e certo fosse. 

Porque quanlo os sentidos interiores 
Em sua figura assim me appresentavão, 
Me parecia ser que os exteriores 
Em tudo claramente alli o tractavão; 
Cousas maravilhosas, e maiores 
Que o humano entendimento, me mostravão 
Como aqui mostrarei, se copia tanta 
Me conceder cantando a Musa santa. 

Ja todos meus espVitos sensitivos 
Dos húmidos vapores congelados 
No frio cérebro, onde eslavâo vivos, 
Parecião de lodo sepultados; 
E impedindo-me as obras dos motivos 
Membros, quedos m os tinha e repousados 
O Somno, vindo da Cimmeria cova. 
Por me mostrar visão tão doce e nova. 

Quando d'hum alto Esp'rito poderoso 
Arrebatado ser me parecia, 
E levado a hum jardimS onde o abondoso 
E fresco corno a Copia diffundia: 
Porque era em tudo verde e deleitoso, 
De fruito e flores cheio e d^alegria ; 



272 

E assim o Ceo benigno o temperava, 
Que hum perpetuo verão representava. 

De quatro frescos rios e caudaes 
Regado era este campo tão florido, 
D'arvores, plantas, hervas e animaes 
De toda espécie ornado e abastecido: 
Pastava o manso gado sem curraes, 
Do lobo ou do leão pouco temido; 
Viam-se as feras de maior braveza 
Com mansidão aqui e domestiqueza. 

Em tamanha abondança e variedade 
D'individuos em perfeição creados 
Tudo era paz, amor, tranquill idade, 
Huns não sendo dos outros aggravados; 
Em conversação útil e amizade 
Sincera e pura todos conformados; 
Na terra, agua, ar, o bruto, o peixe, a ave 
Tinhão vida pacifica e suave. 

Por este fresco e bom jardim do mundo 
A vista derramando alegremente. 
Hum edifício* vi, nobre e jucundo, 
D'alta composição e obra excellente, 
E tal architectura, que segundo 
O que se via de fora, e mais presente, 
O de dentro seria mais perfeito, 
E muito mais pêra quem fora feito. 

Mostrava ser o sitio e bom assento 

Inexpugnável ao combate duro 

Da guerra, e pêra a paz bello aposenlo, 



275 

Cercado de lustroso e forte muro; 
E com toda abastança e provimento 
Por dentro e fora estar firme e seguro; 
E tudo em quanto a vista s'estendia, 
Em obrigação contente, que o servia. 

Levantava-se ao modo d'hum castello 
Sobre este campo, quasi senhor delle: 
Mas logo vi outro edifício^ bello 
E formoso nascer da costa delle; 
E por poder melhor nota-lo e vê-lo, 
Querendo-me eu chegar de perto a elle, 
Ambos estes castellos parecião, 
Ao desobedecer, que alli caíão. 

Desta infelice queda* e triste sorte 
E súbita mudança a mi me vinha 
Hum sentimento intrínseco, e tão forte. 
Como que neste mal grão parte tinha: 

■ 

Cria, que me causava a mesma morte 
Esta desaventura tanto minha; 
E com grande pezar, que me cercava, 
O fresco campo em lagrimas banhava. 

Então tive por mais misera e estranha 
A queda desta grande fortaleza, 
Quando de perto vi que era tamanha. 
Com primor tanto obrada e tal destreza : • 
E logo cri, que por engano e manha, 
E mais por traição que por fraqueza, 
Caíra este edifício em tal ruína. 
Que ergue-lo só podia a mão divina. 

TOMO 111 18 



274 

Mas a este assento ja tão verde e ameno 
Com pranto e dor de todo ia eu deixando, 
Ja me nao parecendo o àr sereno, 
Mas triste, escuro e grave me aspirando: 
Quando: «Não terás tu quinhão pequeno 
«Nesta perda Ião grande (ouvi bradando); 
«Que o mal, que a lodos toca geralmente, 
«Insensível será* quem o nao sente. 

«E verás que o Divino Entendimento 
«Tem de longe o remédio apercebido; 
«Quem tudo vê de seu supremo assento, 
«Suavemente a tudo tem provido. 
«A qualquer culpa é o arrependimento 
«Hum remédio ante Dcos bem recebido; 
«E como justo e bom, com mão amiga 
«Perdoa muito mais, do que castiga. 

«Os castellos, que viste em gloria tanta, 
«Que com prosperidade e grão potencia 
«Senhoreavão tanta terra, quanta 
«Ver não podes, a summa Providencia 
«Dispoz com seu poder, com ordem santa, 
«Que estivessem á sua obediência; 
«E delia em qualquer tempo se saindo, 
« Perdessem o que estavão possuindo. 

« Que o Senhor, a quem tem dado homenagem 
«Destes castellos os Alcaides mores, 
«Fê-los com grande amor á sua imagem, 
« De perfeições dotados e primores : 
«Mas por comer d'um fruito d'ua pomagem 
«Vedada, ficando elles transgressores, 



275 

«E oífendendo o Senhor, pagão tal erro 
«E má culpa em trabalhos e em desterro. 

«Mas porque vejas que ama a piedade 
«Mais que o rigor este Senhor, que digo, • 
«Como quem é toda a summa bondade, 
«Não quiz ao fim chegar neste castigo: 
«Porque elle mesmo em tanta adversidade 
«Soccorrendo ao vassallo, como amigo, 
«O remédio lhe deu, que não podéra 
«Jamais alguém lhe dar, se elle o não dera. 

«Consola-te, que a bom Senhor servimos, 
«Que sempre quiz e quer que o homem viva: 
«O bem do summo bem vir sempre vimos 
« De sua perfeição e gloria altiva : 
«O mal, a quem o passa, o altribuimos, 
«E de sua mesma culpa se deriva: 
«Tem (por o mundo ja não ser desfeito) 
«Por elle o Senhor delle satisfeito. 

«Olha o novo edifício reformado ^ 
«Capaz d'outra maior e immortal gloria, 
«Do que aquella, em que o viste situado, 
«Que em fim, pois teve fim, foi transitória; 
«Mil vezes soccorrido e visitado 
«Por o Senhor, que lhe alcançou vicloria 
«Do mão, que com engano o conquistando, 
«Se andava em sua pena vangloriando. 

«Foi este imigo em nossa jerarchia 
«Dos principaes; mas ensoberbecendo, 
«Trocou a gloria em pena, e em noite o dia. 



276 

. • 

«Em seu máo zelo vão permanecendo: 
«Com isto a este edifício combatia, 
«Té que enganosamente o foi vencendo. 
«Fuge a soberba, e sigue a alta humildade 
«Com firme fé, esperança e caridade.» 

.E nisto então, como eu ja claro visse 
Ser este o Esp*rito bom, que me guiara : 
«Ó creatura angélica, lhe disse, 
«Se tua luz me não acompanhara 
«Em tanta escuridão, que não caísse, 
«Nenhuma humana industria me livrara: 
«Pois pêra ver agora esta lamanha 
«Obra e maravilhosa, me acompanha. 

«As bellas mostras vejo e a boa figura 
«Da fortaleza, que antes via formosa; 
«Mas quero notar bem sua compostura, 
«Seu fundamento e traça artificiosa; 
«Especular por dentro obra tão pura, 
«Tão polida, excellente e sumptuosa, 
« Que mostra, sendo obra em tanto extremo, 
«Ser delia o architecto alto e supremo.» 

r 

«E como dizes tudo; e porque sejas 
«Mais prompto no que vires e notares, 
' «(Me respondeu o EspVito), pois desejas 
«Ver deste assento as mais particulares 
«Peças, convém sem mim que aqui te vejas, 
«Mas sem mim nunca em parte alguma andares: 
«Tornar-me-hâs ver, despois que o discorreres 
«Por dentro e fora, se o entender quizeres.» 



277 

Isto disse; e de mim jâ se apartava, 
Deixando-me entre confusão e medo: 
Mas como sobre tudo me apertava 
Desejo de saber este segredo 
Deste forte, que se me appresentava, 
Com quanto me pezou ir-se tão cedo 
O bom EspVíto, que me alli guiara, 
Movi o passo a ver cousa tão rara. 

E como ja me achava mais ao perlo, 
E se a vista melhor certificasse, 
Maravilhou-me o sitio, a arte, o concerto 
Do castello, e que assim se reformasse: 
'Stava posto em um grande campo aberto, 
Como que dalli tudo senhoreasse. 
Alto, grande, formoso, e era em tal modo, 
Que em duas columnas^ sobreestava todo. 

Mais que d'alvo alabastro e d'obra prima, 
Eram lizas, polidas, torneadas, 
De subtil artifício e grande estima. 
Sobre dous pedestaes^ bem assentadas: 
O mais grosso e pesado estava em cima. 
Do mais delgado em baixo sustentadas; 
E quando os pedestaes dous se movião, 
Todo o peso comsigo em si trazião. 

E era tudo tão primo e tão perfeito, 
Que alegremente a vista descançava; 
No alto, baixo, largo, e mais estreito 
Proporção ordenada se mostrava. 
No chapiteo tinha hum dourado tcilo, 
Que a todo este edifício mais ornava, 



278 

Do qual uns raios d'ouro dependião, 

Que ao longe mais que o sol resplandecião. 

Nunca acabara assas d'obra tão clara 
Especular o engenho, arte e bondade, 
Se a vista então dalli me não levara 
Minha importuna e vã curiosidade: 
Porque senti que enião se começará 
Deste edifício quasi na metade 
Dos seus materiaes huma fortaleza 
Da mesma compostura e natureza. 

Como nas linhas entendi e na traça 
Ser este similhante ao outro assento, 
E que viria a ter a mesma graça 
E forma, ao fazer delle puz-me altento: 
E vi que da matéria e própria massa, 
De que era feito o primeiro aposento, 
De três grandes sobrados, que em si tinha, 
No mais baixo a fazer-se esl'outro vinha. 

Neste sobrado baixo ua casa havia. 
De grande engenho e artificio feita, 
Na qual com espantosa geometria 
A uma parte quasi á mão direita 
Hum gentil mestre d'obra* esta fazia, 
Mui regulada, certa, mui bem feita, 
Sendo o mestre previsto, ardido e quente. 
Esperto, vivo e muito diligente. 

O ([ual, antes que nada começasse 
De pôr em perfeição e sua figura. 
Toniou materiaes^ (;oiii ([ue cerrassi» 



279 

Huma abobeda'^ alli húmida e escura: 
E deixou só, por onde respirasse, 
Hum pequeno postigo" e abertura, 
E por onde viesse o provimento 
A toda a obra, e seu suslentamento. 

E como que não 'stava ainda seguro 
Porque ficasse bem fortificada, 
Na abobeda fez dous pannos" de muro, 
Que assim de fora a tinhâo mui guardada; 
E por colher o mais sobejo e impuro 
Da escoria, que era d'esta obra lançada, 
E tudo o que pêra ella era contrario, 
Admitlindo somente o necessário. 

Despois disto assim ter nesta ordem posto 
No forte, começou perfeiçoar-sc. 
Tudo com tal saber e arte composto, 
Que pode encarecer-se, e não conlar-se; 
Estando edificado, e ja disposto 
Pêra poder de novo povoar-se. 
Com seus quartos, retretes e aposentos, 
Janellas, atalaias, cataventos. 

Em parte parecia inda com tudo 
Faltar alguma cousa á foilalcza, 
Gomo quem vê a estatua d'hum membrudo 
Corpo, a que falta o espVíto e a viveza; 
Ou vè a hum campo solitário e mudo 
Sem cousa viva mais que sua nudeza: 
Finalmente este forte era acabado, 
Como hum corpo sem alma afigurado. 



280 

E desejando eu ver, em que parava 
Esta obra tão estranha e peregrina, 
Huma donzella*^ vi, que nella entrava, 
Clara, bella, immortai, pura e divina; 
E d'improviso delia se apossava, 
Como senhora, mais que delia dina, 
A quem logo, no forte quaiito havia, 
Servindo alegremente, obedecia. 

Tão perfeita vinha esta alta senhora 
Á fortaleza, e assim armava nella. 
Como que feita alli nella então fora 
Pêra ornamento, e ser, e forma delia: 
Logo ás partes de dentro e as de fora 
Se começarão de mover com ella, 
E se vivificárâo de tal sorte, 
Que o forte se refez muito mais forte. 

Via-se tudo ir j a de dia em dia 
Com tão nova senhora em crescimento; 
A fortaleza em perfeição crescia, 
Em boa ordem, concerto e regimento : 
E ja que não coubesse parecia 
Naquelle baixo e húmido aposento, 
Onde fora composta e bem traçada 
Por a mão de seu mestre delicada. 

A grande fortaleza, que em si tinha 
Est'outra ja também se carregava 
Com tanto impedimento, e mal sostinha 
O grande peso e pejo, que lhe dava : 
E bem que quanto bom de fora' vinha, 
Pêra a fabrica delia desejava 



28^ 

E mantimento, ja de si com tudo 
Desejava deita-la sobre tudo. 

Até que, vindo tempo conveniente, 
E conjuncção pêra o effeito disto, 
Per natureza e industria sufficiente, 
E por saber do Aríifice previsto, 
O forte ^^ quasi milagrosamente 
Fora lançado alli de mi foi visto, 
Com força e com trabalho assi arrojado 
Desta torrO) em que fora principiado. 

E como â luz do sol e fora esteve 
Da escura região e seu começo, 
Logo outro parecer crescendo teve. 
Outro ser e figura de mais preço: 
A formosa donzella, a quem se deve 
Deste alto crescimento o bom processo, 
E louvor muito, estava satisfeita 
De ter o mando em cousa tão perfeita. 

Era de todos muito obedecida. 
Era em tudo servida e venerada; 
E com quanto em prisão quasi relida, 
Estava em parte aqui nesta morada: 
Não era por não ser delia então tida 
Por sua casa própria e muito amada. 
Mas porque desta casa a origem vira 
Aqudla antiga torre, que caíra. 

Porque as ach^as e materiaes. 
De que era feito este novo edifício, 
Tinhão ^s mesmas partes integraes 



282 

D'outro primeiro, o rastro inda do vicio: 
Que as primeiros duas torres principacs 
Não só caíram em culpa e malefício, 
Mas desle mal deixarão por herança 
Na matéria e cimento a similhança. 

Daqui vinha que no discurso e augmenio 
Da torre, que crescia sem detença, 
A donzella real em seu aposento 
Por vezes teve alguma desavença: 
Foi bom logo em principio o regimento 
Sem alguma discórdia ou diflerença; 
Mas des que a torre em forças foi crescendo, 
Mal foi a gente delia obedecendo. 

Com tudo a bella dama amava tanto, 
Em que o original mal aborrecia. 
Que vezes mil dissimulava quanto 
Esta rebelde gente lhe fazia : 
Oulr'ora ameaçava com espanto, 
Que a governança delia deixaria, 
E que, como ella assim delia se fosses 
Perderia seu ser, figura e posse. 

Mas ja pela união e liança estreita,'^ 
Que em casa tinha, consentia outrora, 
E da culpa em seu mesmo damno feita 
Parecia que ella era a causadora: 
Porque os descobridores da suspeita 
Do mal ou bem, que sentião de fora, 
Muitas vezes o mal por bem trazião, 
E a senhora e os criados conscntião. 



285 

Outr'ora resistia com prudência, 
Por ser d'alto e real entendimento, 
E convinha a sua alta preminencia 
Não ter no mal nenhum consentimento ; 
Que pêra tudo tinha sulficiencia, 
E do bem e do mal conhecimento: 
Mas ja da fortaleza parecia 
Que em perfeições crescer mais não podia. 

Com 4oda a policia edificada, 
De todos os primores abundante, 
Em tudo parecia consummada, 
E que em nada podia ir mais avante: 
Toda de fora se mostrava ornada 
D'uma viveza e graça triumphante, 
Forte, nova, alta, fresca, florecente. 
Rica, servida bem, leda e contente. 

E como por de fora assim estivesse 
Com tanto lustre, graça e formo3ura, 
Desejei de ver se a isto respondesse 
A fabrica de dentro em*compostura: 
E porque nisto me satisfizesse. 
Me pareceo com vista clara e pura 
Que via por de dentro e com espanto 
Tudo, como o direi nest'outro Canto. 



284 



CANTO 11 



Altas obras, soberbas e arrogantes 
D'espaDtosa e subtil architectura 
Houve em tempo passado; outras galantes 
De pincel, perspectiva e d'esculptura: 
Mil illustres varões, como Timanthes, 
Protogenes, Polycles na pintura, . 
Hum Phidias, hum Lysippo, hum Praxiteles, 
Zeuxis, Parrhasio, e o celebrado Àpelles. 

Dédalo o labyrintho embaraçado, 
E Semiramis fez muro espantoso, 
Chares colosso em Rhodes sublimado, 
Fez-se em Epheso o templo sumptuoso: 
Fez ao marido seu Mausolo amado 
Artemisa sepulcro alto e honroso ; 
Theatros houve, e grandes edifícios, 
E de maravilhosos artifícios. 

Mas como feitos são por mão humana, 
Não podem dilatar-se em infinito: 
Por terra^jaz o templo de Diana, 
E jazem as pyramides do Egypto ; 
Mil columnas d antiga obra romana, 
Arcos, estatuas d'ako e vivo espirito, 
O tempo, que consume e tudo aterra, 
Os tem desfeitos ja posto por terra. 



285 

Mas aquella symetria compassada 

E sobrenatural proporção viva, 

Em que não pôde o tempo ter alçada, 

Do corpo humano e architectura altiva, 

De idade a idade a vemos propagada. 

Por a fazer perpetua, e que reviva, 

Âquella mão divina lá de cima, 

Que a fez de nada, e lhe deu ser e estima. 

Os philosophos grandes com sciencia 
E incançavel industria, que alcançarão 
Das cousas naluraes a própria essência, 
E todas altamente especularão. 
Nenhuma de mais alta arte e excellencia 
Entre todas, que o corpo humano, acharão, 
De forma e de matéria um só composto. 
Com tamanho primor feito e composto. 

Mas tomando a meu sonho, que contente 
Me tinha, desejando eu ver de perto 
O mais da fortaleza alta e excellente. 
Que por dentro me estava inda encoberto, 
Não sei como assim logo estranhamente 
Me foi tudo mostrado e descoberto. 
Como eu parte por parte aqui contara, 
Se me a fraca memoria não faltara. 

Estava a fortaleza repartida 
Assim toda por riba em três sobrados,* 
Ou três principaes quartos, e cingida 
Por de fora de muros bem lavrados: 
Corrião-se estes quartos com medida 
E justa proprção mui compassados, 



1 



286 

E linha cada hum deites sen mordomo,^ 
Ou veador de grande cargo e tomo. 

E querendo olhar eu logo o do meio,^ 

Por lhe ver mais estado, ricamente 

De tudo ataviado, ornado e cheio, 

Parecendo mancebo ainda e valente; ' 

Maravilhou-me ver hum bom meneio 

E movimento seu continuamente, 

E com muito ar, sem ser força ou defeito, 

Mas de seu natural um dom perfeito. 

Dava-lhe grande auctoridade e brio 
Hum tabardo de mangas, que vestia. 
Com que mostrava mando e senhorio 
Em toda a gente, que na torre havia: 
E por seu aposento ser d'estio 
E muito quente, sempre se servia 
De muitos pagens* seus, que o abanarão, 
E d'ar sereno e frio o refrescavão. 

Por estar n'uma estufa muito quente^ 
Movendo-se contino, assim convinha. 
Pêra o qual d'obra o mestre diligente 
Bem junto delle dous abanos^ tinha; 
Aos quaes ar frio e incessantemente 
E pêra refrigério seu lhe • vinha, 
Por huns canos^ de fora o admittindo, 
O mais quente e fumoso despedindo. 

Desta estufa era sempre bem provida 

E sustentada toda a fortaleza, 

Por seus canos lhe dando espVilo e vida, 



1 



287 

E de seu vivo fogo a tendo accesa: 
Pêra este fim n'ua casa alli escondida 
Com promptidão estava e com viveza 
O subtil mestre da obra, que servia 
D'accender este fogo, e o repartia. 

E como esta grã fabrica e estranlia obra 

Nos aposentos três se dividia, 

Como mais principaes, o mestre** d'obrá 

Por todos providehle discorria, 

Fazendo semprç imporlantissima obra 

Em todo o edifício e companhia; 

E em que neste do meio mais morava, 

Nos outros dous, mudando o nome, andava. 

Mas com mover-se sempre, e com grã calma, 

O mordomo, que disse, valeroso, 

Sujeito estava aos accidentes da alma,^ 

Ora ledo, ora triste, ora medroso: 

Outr'ora a ira, que tanto accende e encalma, 

O dominava, outr'ora vergonhoso, 

Com esperança, e sem 'sperança outr'orn, 

Se alterava e mudava cada hora. 

Que com conhecimento falso, ou certo, 
As cousas, que de fora procedião,*® 
Ao mestre d'obra, sempre vivo e experto, 
Deste seu aposento commovião: 
Fazendo-o estar as tristes encoberto, 
Por toda a torre as ledas o trazião * 

Com tanta variação, que de tal ver-sc 
Eslava a risco .ós vezes de porder-so. 



288 

Mas como tinha, a fim de recrear-se, 
Este rico mordomo os dous abanos, 
Também delles soía aproveitar-se 
N'outros serviços seus por outros canos; 
Porque no meio delles vi formar-se 
Huma frauta^^ coberta de dous pannos, 
Que até o entrar na torre ia direita. 
Fazendo varia musica e perfeita. 

* Huma porta subtil estava obrada, 
E no fim delia uma cabeça ou chave,'' 
Que dos pagens e d'outros bem tocada 
Causava esta harmonia tão suave; 
E no tom, que querião, temperada. 
Soava ou alto ou baixo, ou agudo ou grave, 
Com que gosto e proveito recebia 
O veador e toda a companhia. 

Tinha fortificado a este aposento 
E reparado em roda um forte muro," 
E da parte de fora em bom assento 
Duas fontes** n'um quasi contra-muro, 
Que, trazendo de dentro o nascimento, 
O fazião ornado e mais seguro; 
Mas estas duas fontes parecião 
Estar seccas*' então, e não corríão. 

Despois d'eu visto ter parte por parte 
Desta casa do meio a forma bella, 
A fabrica, o concerto, a ordem e arte, 
A providencia e bom serviço delia ; 
Como se alimentava cada parte 
De toda a fortaleza, assim por ella 



289 



Repartindo com grande provimento 
Seu liquido e apurado mantimento: *^ 

Daqui ao aposento mais de cima 
Me passei logo, e ao mais alto sobrado; 
E se o do meio tive em muita estima, 
Deste fiquei ainda mais maravilhado, 
Por ver sua perfeição, sua obra prima, 
£ o logar, em que estava situado 
Sobre a entrada da torre, com formosa 
E aprazivel vista, alta e espaçosa. • 

Procedia com muita auctoridade 
Deste quarto o mordomo nobre e antigo 
D'huma abobeda forte na metade. 
Por ser o logar alto e de perigo. 
D'hum sist era maduro e gravidade. 
Velho, branco, e das letras muito amigo; 
E assi gastar philosophando o tempo 
Havia por mór gosto e passatempo. 

Vestida tinha huma opa roçagante, 
Que por todas as partes o cobria, 
N'huma casa d'abobeda galante, 
E armada de gentil tapeçaria. 
Atada por detraz e por diante*^ 
Por junturas, que a abobeda fazia, 
N'outro panno de fora, que a guardava, 
E pêra o mais serviço armado estava. 

E além deste grão panno, que a cercava, 
Por de fora tinha outros dous**^ em roda, 
Com que provida e mais forte ficava, 

TOMO III 19 



290 

E parecia eslar cerrada toda: 

Também d'hum musgo e d'herYas*^ mais s ornava 

De fora a superfície e toda a roda, 

Que estando em alto assim do sol lustrada, 

Mostrava huma formosa cór dourada. 

Em oito partes*^ era dividida, 
Bem que contínua e junta em sua figura. 
Esta abobeda, e tão cerrada e unida, 
Que não se divisava ter costura: 
Mas pelas «m que estava repartida, 
Servindo-se exhalava de mistura 
Todo o fumo sobejo, que lhe vinha 
Dos sobrados de baixo e da cozinha.^' 

Mas o sábio ancião** e bom mordomo, 
Que neste alto aposento residia. 
Com grão cuidado e vigilância, como 
Experto e prompto, estava noite e dia 
Em sua esphera, como em celeste pomo, 
Ora do mundo a grande monarchia, 
Outr'ora ao fazer delia e de tudo 
Contemplava em contino e vario esludo. 

Pêra isto hua livraria de diversos*^ 
Auctores tinha grande e mui polida, 
De vários casos prósperos ou adversos, 
Em três camarás juntas repartida : 
A primeira ou em prosa, ou doces versos. 
Continha a alegre fabula fingida; 
Leis a segunda e a philosophia amiga; 
A terceira a historia grave e antiga. 



29 ^ 

E (lesta livraria de maneira 
Compassadas estavão as estantes, 
Que as da segunda camará e primeira 
Tinhão livros mudados e inconstantes: 
Mas os outros da camará terceira 
Estavão fixos quasi e mais constantes, 
Onde o que mais das duas lhe aprazia, 
Nesta terceira** sempre o recolhia. 

Da sua condição e natureza 
A par de si o sábio hua filha ^ tinha, 
Que a fabrica de toda a fortaleza 
Quasi em logar do velho pae sustinha: 
E a torre, ora inclinada, outr'ora tesa 
Fazia estar, segundo lhe convinha. 
Por meio d'hua columna*^ d'artificio, 
A que encostado estava este edificio. 

De por detraz da abobeda descia 
Esta columna até o fim dos sobrados, 
Pela parte de dentro ôca e vazia. 
Mas de trinta canudos*^ mui ligados: 
E em que por dentro vãos, de cantaria 
Erão firmes, direitos, torneados, 
Ficando assi a columna desta sorte 
Coberta de dous pannos*^ muito forte. 

Por dentro da columna discorrendo 
Do velho a filha andava diligente, 
EUa e o pae nas mãos atadas tendo 
Setenta e cinco cordas*® longamente; 
As quaes, por toda a torre se estendendo, 
Despertavão pêra o serviço a gente, 



292 

Dando força e vigor ao movimento, 
Que necessário era, e ao sentimento. 

Destas nervosas cordas^ sete pares 
O velho estudioso governando, 
Cos cinco pares delias os logares 
xMais secretos da abobeda espertando, 
Os mais criados e os familiares 
Da casa, e os dous mais ia ligando; 
E os trinta pares repartidos tinha 
Por toda a torre a filha onde convinha. 

Mas porque dos trabalhos excessivos 
Da torre os servidores e exercicio 
Podessem refazer-se, e andar mais vivos 
E esforçados cada hum em seu officio; 
Foi concedido logo aos sensitivos 
E aos motivos por grande beneficio 
Um repouso^* e descanço conveniente, 
A que chamamos somno vulgarmente. 

Delle era a causa immediata e certa 
O subtil mestre d'obra,^* que habitava 
No aposento do meio,^^ e tinha experta 
Da fortaleza a gente, e alimentava; 
E quando tinha alli mais encoberta 
Sua virtude, e o fogo consenava, 
Repousava da torre a companhia, 
E o velho e a filha as cordas não movia. 

Ajudava também, que as humidades 
E fumos, que exhalavão e que subião 
Da cozinha e das mais concavidades, 



293^ 

A esta virtude o caminho impedião:^^ 
E adormecido o velho e os mais alcaides, 
Da torre os servidores não bolião, 
Do movimento a causa assim cessando, 
E sentimento então e nada obrando. 

Pela parte de fora do edifício, - 
No sobrado mais alto e luminoso, 
Junto do chapitel, no frontispicio. 
Hum molde de janellas vi formoso : 
Erão três pares,^ cada par seu oflRcio 
Diverso tinha, e muito proveitoso. 

Às mais ahas de estranha formosura, 

• 

Varias no sitio, officio, e na figura. 

Cada huma delias tinha sua espia 

E atalaia de grande vigilância. 

Que ao longe e ao perto d'alto descobria 

Tudo o que parecia de importância; ' 

Apresentando logo o que sentia, 

A hum atalaia mór,^ que n'outra estancia 

Desta abobeda estava aposentado. 

Pêra este cargo dentro deputado. 

Assentadas estavão sobre fmo 
Marfim as duas janellas ^^ alterosas, 
Com vidraças d'hum puro crystallino. 
Que as fazia mais claras e formosas: 
E pêra defender-se do ar malino 
E d'outros damnos, humas proveitosas 
Cortinas^ de cadilhos se cerravão, 
Quando era necessário, e a abrir tornavão. 



29Í 



Por cima da cortina e corrediças 

Cada jandla tinha sua cimalha^^ 

Pêra repairo, arcadas e mociças, 

Cobertas d'huma curta e secca palha: 

Erão como convinhão, movediças, 

Ambas d'hum lavor mesmo e d'huma igualha; 

E além de reparar de chuva e vento, 

E do grão sol, davão graça e ornamento. 

Logo em direito estavão e além destas 
Outras duas janellas,*® mas d'outra arte, 
Descobertas ao vento e manifestas, 
Cada huma a cada mão do baluarte: 
E em caracol e em voltas duas frestas 
Tinhão feitas na mais intima parte, 
Das quaes duas escuitas de vigia 
Cada huma aviso dava do que ouvia. 

Abaixo destas quatro as outras duas^' 
Por cima do portal da torre estavão, 
Com grande engenho feitas, e com suas . 
Espias, que do cheiro só avisavão: 
Dos dous sobrados altos duas ruas 
Aqui vinhão, por onde se purgavão 
As superfluidades, que descião, 
E dentro o fresco vento recolhião. 

« 

Das quaes hum pouco abaixo a tudo ornava 
O grão portal ** da torre e a serventia 
Nesta mais alta parte, em que mostrava 
Estranha archHectura e geometria : 
Que por aqui o necessário entrava 
De tudo o de que a torre se servia; 



295 

E pêra isto poder ser sem trabalho, 

Se ordenou hum remédio e grande alalho. 

Que sobre os dous sobrados derradeiros 
E mais baixos, cada hum a sua parte, 
Estavão dbus robustos carreteiros*^ 
De mui grande serviço, engenho e arte : 
E além de grandes, erão tão ligeiros, 
Que chegavâo correndo a qualquer parte, 
Acarretando tudo com presteza 

Pêra conservação da fortaleza. 

* 

Estes dous carreteiros sustentados*^ 
Erão por seu serviço e provimento 
Da mesma torre, sendo alli criados 
Com todo o necessário mantimento, 
Tendo delles cada hum cinco criados,*^ 
Que a tudo davão grande aviamento; 
E porque em seu trabalho sempre andavão. 
As cabeças de bons cascQS*^ armavão. 

Servião com cuidado e diligencia 
Estes criados dez continuamente^ 
Sendo o principal toque e experiência 
Do húmido ou do secco, ou frio ou quente:*' 
Em qualquer arte e» mechanica sciencia 
Além d'obrarem necessariamente, 
Com armas resistião a toda a offensa 
Da torre, sendo delia a mór defensa. 

« 
E de fora na entrada e serventia 
Da torre dous porteiros ** sempre estavão. 
Lustrosos e vestidos d'alegria, 



I 



4 



296 

Que as portas com cuidado bem guardavão: 
Também o som*^ da frauta e harmonia 
Com movimento seu perfeiçoavâo; 
E assim dos três mordomos dos sobrados 
Erão por isto em tudo alimentados. 

Das portas para dentro logo entrando, 
De grande fabrica hum moinho*^ linha, 
O qual moendo estava e preparando 
Tudo o que havia de ir pêra a cozinha, 
Moído e brando dentro assim mandando 
O mantimento, que de fora vinha, 
E com justa porção e conveniente 
Se repartia lá por toda a gente. 

Nesle moinho junto aos dous porteiros 
Estavão juntamente em seu officio 
Duros e rijos trinta e dous moleiros'^* 
De grande força e útil exercicio : 
Daqui tirados fora outros primeiros 
Forão ja por fraqueza sua e ncio; 
E os que agora moíao com destreza, f 
Todos branco vestião por limpeza. 

¥t tinha cada hum delles sua morada 
Em dous lanços de forte penedia.'* 
Entre elles uma dona*^^ exp'rimentada, 
Experta e prompta andava noite e dia; 
E delia era approvada ou reprovada 
 farinha de quanto se moía, 
Provando se era saborosa e alva. 
Porque era ella gentil mestra da salva. 



297 

Em toda a fortaleza ora importante 
O cargo desta dona reverenda, 
Sendo pharaule e interprete elegante 
Em tudo além do mando da moenda. 
Dava também ao som ^* doce e galante 
Da frauta ar, compasso, graça e emenda: 
Toda a fabrica em fim desta tão clara 
Torre sem esta dona mal passara. 

Mas por ser fêmea em fim hum quasi freio. 
Por não ir longe a tinha presa e atada, 
Bem que em nove criados^ d'um arreio 
E d'hua libré andava ella encostada: 
Que por ser de tal graça e bom meneio, 
Servida era de todos e acatada; 
E por julgar os gostos na verdade, 
Cercada sempre estava d'humidade. ^ 

Mas porque então ás vezes a enfadava, 
Sem que a gente de dentro aproveitasse. 
Duas esponjas"^ tinha, em que tomava 
E recolhia o mais, que sobejasse: 
E porque ainda aos de dentro importunava 
Todo o húmido sobejo e ar, que entrasse. 
Tinha mais além uma anteporta*® 
Contra o desnecessário e ar vão da porta. 

Além desta anteporia parecião 
Os dous principaes cannos ^^ desta torre : 
Por hum delles os frescos ares iam, 
Com que o veador do meio se soccorre; 
Por o outro cano tudo o que moíam 
Os moleiros, e que á cozinha corre; 



298 

E nella do primeiro cozimento 
Se preparava todo o manlimenlo. 

Mas ao quarto do meio e está cozinha 
Huma grossa parede^ os dividia, . 
Porque aqui perto sua morada tinha 
O mordomo, que nelia presidia : 
E porque estando delle tão vizinha, 
O fogo e o fumo delia o anojaria, 
Co' a parede guardado e defendido 
Ficava seu aposento e dividido. 

Com três canos,^* por onde era provida 
Toda a fabrica e gente, que aqui estava, 
Estando esta parede entrerompida, 
Nella o quarto do meio se acabava : 
E n'huma grã cozinha e bem servida 
Porque o quarto de baixo começava, . 
Eu também, nella logo começando, 
Tudo o que nella havia, fui notando. 

Capaz era a cozinha*' e sufíiciente 
Pêra cozer-se nella o mantimento, 
Que podessc bastar a toda a gente, 
E de muito artificio e provimento: 
Com vivo fogo estava sempre quente 
Pêra todo serviço e cozimento, 
N'hum vaso de duas boccas,^ bem obrado, 
Sendo tudo cozido e preparado. 

Por a bocca mais alta se meltia 
O que vinha a cozer-se e digerir-se; 
Por a outra baixa o mais se despedia, 



299 



De que menos havião de servir-se; 
E junto desta bocca baixa havia 
Huns quatro canos,^* pera repartir-se 
Hum certo manjar brando, inda imperfeito, 
Neste primeiro cozimento feito. 

E desta mesma bocca outros maiores 
Seis canos*' juntamente procedião, 
Por onde da cozinha os servidores 
As fezes e supérfluo despediâo. 
Destes canos também outros menores,^ 
Por mais se apurar tudo, inda nascião, 
Por uma teia grossa derramados, 
Com proveito e limpeza assi ordenados. 

E destes seis no mais baixo somente 
Huns três moços *^ havia de serviço, 
Que, por ser este entre elles mais corrente, 
Estavão nelle postos pera isso: 
E no remate delle uhimamente 
Estavão outros quatro também nisso, 
Promptos em alimpar, cerrando e abrindo, 
E como outros na torre bem servindo. 

Presidia neste ultimo sobrado 

E quarto o outro principal mordomo,^ 

De grão negocio, muito venerado. 

Muito importante, e bem servido, como 

Cada hum dos outros dous, alcatruzado 

Hum pouco, muito grave, e homem de tomo. 

Triste no parecer,- mas no vestido 

Alegre, n'hum capuz de grã vestido. • 



500_ 

Junto á cozinha tendo seu aposento, 
Mandava de lá vir por ordenança 
Só da primeira instancia e cozimento 
De lodo o manjar branco** em abastança: 
Fazia então todo este mantimento 
Outra vez recozer^^ com temperança, 
Que mais puro a cada hum por sua via 
Entre todos na torre se partia. 

E assim despois de ja bem recozido 
Este manjar, que a todos sustentava. 
Sendo em quatro licores^* convertido 
Diversos, ser hum só na côr mostrava: 
Mas destes, mal conforme ou desmedido. 
Se algum muito minguava ou sobejava 
Fora de proporção e sem concórdia, 
Em toda a fortaleza havia discórdia. 

Pelo contrario, em justa cantidade 
N'hum liquido vermelho misturado 
Se este manjar se dá com suavidade, 
Todo este assento está delle abastado: 
Daqui deste aposento per metade 
Da torre corre a hum e a outvo sobrado, 
E por cobertos canos ^ vai manando, 
 toda a gente delia alimentando. 

E com quanto assim leva sua mistura 
Pêra abastar a todos, em chegando 
Ao sobrado do meio, alli se apura 
Summamente, e se vai adelgaçando: 
E daqui o mordomo com mão pura, 
Despois que bem o atina, o está mandando 



50 < 

Purificado a toda a fortaleza 

Por outros subtis canos ^^ com destreza: 

Mais tinha este mais baixo em sua estancia 
A par de si por grande beneficio 
Da torre dous criados d'importancia, 
E provido cada um em seu officio: 
O primeiro com summa vigilância, 
Sentindo haver seccura no edifício, 
Por certos canos, que pêra isso tinha, 
Espertava grão sede na cozinha. 

Vestia-se d'hum verde ^* sempre escuro. 
Por extremo cholerico e agastado, 
E tão azedo, que por todo o muro 
Se via Mndar ás vezes de anojado : 
Também causava ser o manjar puro 
Da cozinha e o supérfluo relançado 
Por hum dos canos seis da torre fora. 
Quando pêra isso via tempo e hora. 

O segundo criado era tristonho ^^ 
No corpo e no vestido, e homem baço, 
Melancholizadissimo e enfadonho, 
De má conversação e pouco passo: 
Era medroso em si, e era medonho. 
Morto de fome sempre, e muito escasso; 
Mas o comer pedia pêra a gente, 

E nisto e em apura-lo diligente. 

• 

Abaixo destes outros dous^^ estavam 
No apurar do comer também servindo; 
No corpo, traje e idade conformavão, 



502 

N'um mesmo oíBcio não se desavindo: 
Toda a supérflua agua a si chamavão 
Por seus canos, dos outros geraes vindo, 
Tendo nas mãos liuns vasos coadores, 
Que coavão esta agua e máos humores. 

Em si retendo só a potagem boa. 
Toda outra agua coada se mettia 
Por dou s canos sublís n'huma alagôa," 
Que de grande artificio dentro havia. 
Esta agua, que salgada aqui se côa. 
Da torre fora em fim se despedia 
Por outro caoo^^ em voltas, e mais grosso, 
O qual, quando era tempo, abria hum moço. 

• 

Este aposento baixo se cerrava 

Com paredes^ também, e com seu muro, 

Com que amparado e quente assim ficava 

Aos perigos de fora mais seguro: 

Onde era necessário, brando estava 

Em parte, e n'outras partes firme e duro; 

Finalmente de tudo mui provido. 

De gente de serviço bem servido. 

E porque esta tão bella fortaleza 
Nunca o tempo de todo a desfizesse, 
O mestre da obra ordenou com destreza, 
Que de fora da torre sempre houvesse 
Dous naturaes irmãos,^ cuja viveza 
Outros materiaes esp'ritos desse 
Pêra se refazer novo edificio 
Por delicados meios e artificio. 



505 

Todos três aposentos e sobrados 
Sobre duas columnas®* se assentavão, 
E ao pé d'elles, entre ellas gazalhados. 
Estes dous naluraes irmãos estavão. 
As columnas seus pedestaes^^ pegados 
Na mais delgada parte ter mostravão, 
E o mais grosso por cima, como tinha 
A outra torre, de que esta nascer vinha. 

Sendo pois, como disse, tão formoso 
Este novo edifício e tão polido, 
D'engenho tão subtil e artificioso, 
Por dentro e fora ja por mi corrido; 
No artifice cuidando poderoso, 
Que de tudo o fizera tão provido: 
Estava eu contentando a vista nelle, . 
Sem de todo a poder apartar delle. 

Quando enlevado assim me parecia, 
Que com triste mudança, estranha e dura. 
Este grande edificio descaía 
De sua graça alegre e formosura: 
Tanto, que pouco a pouco desfazia 
Todo ornamento seu e sua frescura. 
Té de todo cair por derradeiro, 
Como no Canto contarei terceiro. 



504 



CANTO III 



Oh vida humana, vã, caduca e breve 1 
Oh gloria delia, ou falsa, ou imperfeita! 
Que a que mais dura, he qual hum somno leve, 
E ás mudanças do tempo em fim sujeita! 
Quem mais conta fez delia, e em mais a teve. 
Com mór dor e tristeza a vio desfeita; 
Passa, e seu fim remata em pranto e mágoa, 
Enchendo, como o fumo, os olhos d'ágoa. 

Em que parou da terra o mór tyranno? 
Com próspera fortuna, ou com adversa, 
Em que parou o grão sccptro Romano? 
Em que o Grego, o Medo, o Assyrio, o Persa? 
D'huma hora incerta hum certo desengano, 
Daquella hora Gnal, dura e perversa, 
Triste e odiosa a todos, tudo enterra 
Em muito esquecimento e pouca terra. 

* 

Na antiga idade d'ouro, em que avondança 

Laíidavel da terra florecia. 

Em que a segura e útil temperança 

Nos homens e elementos mais havia; 

Dos innumeros annos a abastança 

A muitos pouca e breve parecia, 

Que o calado ladrão, que a todos furta, 

A longa vida faz parecer curta. 



505 ' 

Quem vive por viver só nesla vida 
Docemente, no fim chorosa e amarga, 
Bem que do Géo lhe seja concedida 
Que a de Mathusalem muito mais larga; 
Que mais faz, que na misera partida, 
Em que ha de ir nú e só, levar mór carga? 
Mas quem somente aspira á eterna e santa. 
Pêra ella alegre e leve se levanta. 

Levanta-se a alma leve á mór altura, 

Do seu cárcere amigo desatada. 

Ou das obras levada clara e pura. 

Ou a prisão perpetua condemnada : 

Toda a inferior cousa e creatura 

De matéria e de forma fabricada, 

Por mais que viva, em fim seu fim espera. 

Que assim o quiz quem fez a grande esphera. 

Mas nunca a ninguém basta esta certeza. 
Pêra que a dura Parca inexorável 
Espanto lhe não cause, dor, tristeza 
Com seu golpe cruel e irreparável. 
Assim vendo eu da bella fortaleza 
A miserável queda, em que durável 
Sabia não ser nada, entristeceo-me, 
E cousa estranha e grave pareçeo-mc. 

Nem sonhava eu que via desfazer-se 
Com supita ruína este edificio. 
Mas que por tempo o via envelhecer-se, • 
Cada parte cessando em seu officio: 
E o bom governo e economia perder-se. 
Faltando a ordem certa e são exercicio, 

TOMO III • 20 



506 

Não servindo os vassallos a senhora, 
Té que ella Irisle se saía fora. 

Triste se ia por mal obedecida, 
E também porque mal obedecera 
Ao grão Senhor, que a esta envelhecida 
Casa sua a mandara, e vir fizeraj 
Triste se ia, confusa e arrependida 
Do máo viver; mas mais viver quizera 
Na antiga ainda e clara morada, 
Que só por terra jaz desamparada. 

Fazendo mal os grandes e os menores* 
Da torre seu serviço e r^imento, 
Nem mandando os mordomos e voadores 
A cada hum seu devido provimento: 
Veio o commum manjar com seus licores 
Todos quatro a um tal corrompimento. 
Que as partes principaes, e as outras logo 
Enfraquecerão, e s'esTriou seu fogo. 

Porque daqui Yiasceo, que consumindo 
Se foi o mestre da obra* diligente, 
E com elle de mal em peor indo 
Os capitães^ da torre, e a outra gente: 
Em tudo Ds servidores mal servindo, 
Os de dentro e os de fora juntamente, 
Em todos s'enxergava huma frieza 
D'estranha, enferma e misera fraqueza. 

Os mais dos trinta e dous brancos moleiros, 
Que estavão no moinho, se sairão, 
Del)ilitados ja, como os primeiros. 



4 



507 ' • 



E sem jKxler moer, fora caíão: 
Outros sem seu vigor (inda que inteiros 
Ficavão) por fraqueza não servião; 
E por 'starem alli mais arreigados, 
Como velhos ficavão aposentados. 

Envelhecendo assim tanto o edifício, 
De fora a graça e luslre ia mudando, 
E até do chapiléo e frontispicio 
Murchas as flores^ se ião descorando; 
Porque ja não lhe sendo tão propicio 
O calor e alimento, como quando 
Em seu vigor e perfeição estavão, 
Em fria e branca a côr d'ouro tornavão. 

Aquelles dous robustos e valentes 
Carreteiros* cançadamente andavão, 
E ja mui frouxamente e negligentes 
O necessário á torre acarretavão: 
Também os dez criados^ diligentes, > 
Como tolhidos, mal se meneavão; 
E ja as columnas^ grossas, que traziào 
O peso sobre si, fracas tremião. 

Com tal fraqueza e continos tremores 
Ameaça a torre a final queda; 
Estavão sem re[louso os veadores, 
E toda a gente fraca e pouco leda: 
Da salva a mestra^ ja deixa os sabores, 
E cada hum de seu cargo ja se arreda; 
Arruinado por mil partes o muro, 
Abalado se mostra e mal seguro. 



' 508 

Em tal extremo vendo a fortaleza, 
Vigilante e sollicita acodia 
A todas partes a immortal princeza,*^ 
Sempre animando a toda a companhia: 
Com quanto via ja sua defesa 
Ser tão fraca, deixa-la não queria; 
Todo o raro remédio e exquisito 
Procura em vão ao forte, fraco e afflicto. 

Nesta ultima agonia pois estando 

 desconfortadissima senhora, 

Eu também, triste assas, via sonhando 

Desforme hum velho " e feio vir de fora, 

Sumida a carne, os ossos só mostrando, 

Do carcomido rosto os olhos fora, 

D'espantosa e terrível catadura, 

Fraca a voz, mas soberba, e com soltura. 

O qual as mãos lançando descarnadas 
E torpes sobre este edificio enfermo, 
Deu-lhe hum medonho abalo, e alteradas 
Tremendo as partes, nelle fez grão lermo. 
Traz isto, com palavras mui pesadas 
Á princeza faltando, disse : t O termo 
■ Final, e triste, e a tua hora he chiada; 
«Sáe-te ja da caduca e vã morada.» 

Ficou sobresaltada e temerosa 
A princeza com voz tão grave e horrenda. 
Mas inda assim lhe respondeo chorosa: 
t Espera-me algum tempo pêra emenda 



V 

c Minha, e desta morada perigosa; 



E o prazo final mais se nos estenda : 



509 

Darei ordem que em tão triste partida 
Não deixe a casa toda destruida.» 

Grão tempo ha ja, lhe replicou o velho, 
Que nesta torre vives, e o tiveste 
Pêra tudo ordenar com são conselho; 
Sabias isto bem, mal o fizeste: 
Á casa*' esse remédio outrem cá dô-lh o, 
E a ti o que, estando n'ella, mereceste: 
Não posso esperar nlais, vem-te comigo; 
Mais tenho que fazer, que aqui comtigo.» 



Isto disse, e pegando rijamente 
Outra vez com mão dura e com crueza, 
Cahio toda por terra fínalmente 
Com grande terremoto a fortaleza: 
Cahio com ella morta toda a gente, 
E a grão regente nella e alta princeza 
Me desappareceo, e o velho a essa hora, 
Sem saber mais ninguém certo onde fora. 

Attonito com grave dor e espanto 
Que ficava eu então me parecia 
Com tão fero espectáculo, e com tanto 
Estrondo lagrimoso, como ouvia; 
Porque de fora estar n'um alto pranto 
Muita gente funesta e triste via, 
A mortifera queda deste forte 
Carpindo, e da sua gente a fria morte. 

E o que mais me espantava sobre tudo 
Da machina lançada assim por terra. 
Que o material todo, e o corpo mudo 



5«0 

Hum vil panno de lenço dentro o encerra ; 
E a quem, estando em pé, foi pouco tudo, 
Que em cahindo, o cobria hua pouca terra. 
Cuidoso eu nisto, e estando triste e afflicto. 
Tornava a parecer-me aquelle Esp'rilo. 

Aquellc EspVito *' bom, formoso e puro. 
Que ao entrar desta torre me deixara. 
Com cuja companhia eu mui seguro 
Por arriscados passos ja passara: 
Tornou-se-me com elle o trisle, escuro 
Tempo, claro e sereno, e a noite clara; 
E pondo eu ledo e leve os olhos nelle, 
Assim me começou de fallar elle : 



Que fazes, fraco, aqui? que cuidas, triste? 
Mortal, terreno, cego, descuidado. 
Porque não te aproveitas do que viste. 
No mal d'outrem por teu bem doutrinado? 
Não he vão sonho, não, o em que consiste 
Perderes-te, ou salvares-te, coitado: 
Os olhos abre ja, experto e prompto. 
Regula a vida só por este ponto. 

Quem te creou, e quem te fez de nada, 
Dando4e o ser e a forma intellectiva 
Nesta terreste massa encarcerada. 
Não foi pêra que nella sempre viva; 
Mas pêra merecer nesta morada 
Com sãs obras a outra eterna e altiva. 
Com sãs obras, tingidas no puríssimo 
Sangue do bom Cordeiro innocentissimo. 



5n 



Pera isto vive, e só pêra islo estima 

Qualquer bem temporal, que este he seu prei^-ío: 

O que não for pera isto, desestima, 

E no fim o despreza e no começo: 

O bem perfeito está dos Céos em cima, 

Sem falta lá se goza, e sem excesso, 

Dá-se immenso a cada hum no claro assento, 

Mas medido por seu merecimento. 

• 

Dá-se pena a quem islo desmerece 
Sem nenhum fim também, e sem medida, 
A qual por culpas suas só padece, 
Pospondo a vida eterna á breve vida: 
Esta em virtude, ou vicios envelhece, 
Até ver-se de todo consumida; 
Mas n'alma o galardão se justifica, 
E o que da terra he, só na terra fica. 

Isto he quanto tens visto, e o que notaste 

No processo e discurso deste forte. 

Que não he mais, se o bem consideraste. 

Que hum vivo homem sujeito á commum morle: 

Tu por dentro e por fora o especulaste, 

E viste cada parte de tal sorte, 

Que, ser hum corpo humano organizado 

Declarar-te, haverei por escusado. 

Fê-10'Deos, como a ti, mortal, terreno, 
Mas fé-lo racional, capaz do Ceo; 
Fez o grão mundo, e fez este pequeno, 
E nelle por salva-lo em fim desceo: 
Desceo a fazer-se homem, c'hum aceno 
Quem pôde desfazer a terra e o Ceo; 



342 



Descco, até n'bua Cruz ser levantado, 
Pêra trazer a si todo o creado. 

Remir-te, ó homem, quiz Deos sempiterno 
Chum resgate d'amor maravilhoso, 
Dando por ti seu Filho co-elerno; 
O qual fazendo-se homem, piedoso, 
Por te livrar da morte e escuro inferno, 
Deu sua vida e sangue precioso: 
Pois com que vidas tu pagar-lhe entendes, 
Se com a que te deu tanto o offendes? 

Será que desça Deos de sua altura 
Á baixa terra, só por dar-te vida, 
OfTerecendo a sua, santa e pura, 
Com tanto excesso e tanta dor crescida, 
A tanta injuria, a Cruz, a morte dura; 
E que seja tão mal agradecida, 
Que elle assim morra, só por vida teres, 
E tu que vivas só para a perderes?! 

Enganado, perdido, ingrato e cego. 
Gomo dormir, como viver te atreves. 
Como afogar-te no profundo pego 
Não temes, carregado do que deves? 
Da má vida emenda e muda o emprego. 
Em quanto tempo tens, que as horas breves 
Se vão, sem esperar, nemhe segura 
Para a emenda a final, tão triste e escura. 

No diluvio cruel, e mar contrario 

De teus vicios, cm que andas engolfado. 

Buscar do bom Noé te he necessário 



545 

A santa arca, que o mundo tem livrado: 
No monte Gordio não, mas no Calvário, 
Monte em Jerusalém tão celebrado, 
Busca d'Adão segundo a arvore santa. 
Que elle (por salvar nella o mundo) planta. 

Colhe pois sem receio, e confiado, 
Delia o fruito da vida tão jocundo; 
Não o que a Adão primeiro foi vedado, 
Mas o que deu a todos o segundo: 
Do Ceo vindo, na terra foi plantado. 
Pêra que nella viva o morto mundo; 
D'hum puro lyrio nasce hua flor tão pura 
No valle, por subir tudo á altura. 

Olha na sagrada arvore pendendo 

Do ventre virginal o fruito suave, 

Pêra dar bens, os braços estendendo, 

E como rei, posta a coroa grave: 

Por te espVar (se da vista o vás perdendo). 

Pregados pés e mãos tem na alta trave ; 

E pêra recolher-te (no deserto 

Perdida ovelha), o lado tem aberto. 

• 

Ó lado, ó fonte viva, donde mana 
Com sangue e agua a sã graça infinita, 
Que gostando-te bem a gente humana. 
Que vive \ida morta, resuscita; 
Glorificação da Corte soberana. 
Consola a quem se apura em fogo afflicta: 
Tu, puríssima fonte, tudo regas, 
E a quem gostar te quer, nunca te n^as. 



3M 



De tua perennal, clara correDie 

Nascem divinos rios sem discórdia, 

E r^ão a Cidade refulgente 

De Deos, que tem a terra em sã concórdia; 

Quatro rios, de graça sufficiente, 

De justiça, d'amor, misericórdia; 

E todo o bem, que aos seus Deos communica, 

Em ti, ó fonte santa, o purifica. 

A ti os que áb vida sede trazem, 
Tua agua salutifera buscando, 
Quanto em ti delia mais se satisfazem, 
Tanto com gosto a estão mais desejando: 
Por ti renasce pura; e se refazem. 
Seu bom estado em graça renovando. 
Os que te bebem, e os teus rios habitão, 
E debaixo o guião da Cruz mililão. 

A tão liquida, viva e doce fonte 
Corre pois, peccador, lava-te nella ; 
Levanta os baixos olhos ao alto monle, 
Áquelle monte santo, onde nasce ella: 
E vè-la ensanguentada não te affronte. 
Que assim mais formosa he, que toda estrella; 
E esse divino sangue, em que tingida 
Vês a santa agua, te he saúde e vida. 

Faze tua morada nesta viva 

E angular pedra, onde a doce agua nasce, 

E donde mel e leite se deriva. 

Que o Ceo e terra alegremente pasce: 

Sube por esta escada estranha e altiva. 

Que o grande Jacob vio que ao Ceo chegasse; 



Õ15 



Por ella Anjos do Ceo á terra descem, 
Sobem ladrões ao Ceo se a reconhecem. 

Vai banbar4e doente je tão leproso 
Neste divino e sacro Jordão; 
Passa o da lepra ja são e formoso, 
Pêra na terra entrar de promissão; 
Fuge, e sae-te do Egypto trabalhoso, 
Onde te tem teus erros em prisão : 
Livre delia, e do máo peccado velho. 
Passa desta agua e sangue o mar vermelho. 

Olha a sagrada letra,^^ que Ezcchias 
Em Jerusalém vio impressa e escripta 
Na testa dos que cstavão d'agonias 
Cheios, e tinhão a alma triste e afflicta: 
Enche os corações esta d'alegrias 
Perpetuas, e lhes dá graça infinita 
Agora c um signal nelles impresso, 
Escripto bem com sangue alto, e sem preço. 

De metal no deserto em cruz erguida 
Olha a medicinal morta serpente. 
Que só co'a vista dá saúde e vida 
Aos que feria o venenoso dente: 
Representava ser serpe, e esculpida 
Serpe era no metal, serpe apparente: 
Assim posto na Cruz, como culpado. 
Quem nunca o pôde ser, sara o peccado. 

» 

Esta harpa de David, tão branda e santa. 
Coro vozes tão divinas e accordadas, 
Se loção na Cruz posta com dor tanta 



ô\6 

Os nervos seus e cordas delicadas, 
Afugenta o imigo máo, e o espanta, 
Desfaz e desbarata suas ciladas : 
Toca pois a santa harpa, adora e ama, 
Mil lagrimas d'amor nella derrama. 

Com esperança, amor e firme fé 
Os teus tão cegos olhos lava e cura 
K*a clarissima fonte Siloé, 
Sairás da cegueira triste e escura: 
Verás, por onde pões o enfermo pé, 
Ser tudo engano e má desaventura 
Da vil carne, do vão mundo pobrezas, 
Do máo sempre malicias e torpezas. 

Logra-te desta certa medicina, 
Bastantissima a toda infermidade, 
Que o bom e universal medico ensina 
Com tão sincero amor e boa verdade: 
Entra nesta probatica piscina, 
E a tua paralytica maldade 
Converler-se verás (por a virtude 
Desta agua efficacissima) em saúde. 

De Deos com puro amor olha o Cordeiro, 
Cujo sangue purissimo, innocente. 
Derramado com tanto e cmel marteiro, 
Do lobo te livrou e leão rugiente; 
Sangue tanto sem preço, e por dinheiro, 
Por vil preço vendido injustamente: 
Mas assim ás más culpas livramento, 
E ás obras boas dá merecimento : 



5<7 

Ás obras, que assim n'elle resplandecem, 
Como n'um lao capaz e claro espelho, 
E todas perfeições sem fim parecem, • 
E os santos does do espVito e são conselho: 
As virtudes mais sempre aqui florecem, 
Tintas no fino esmalte e bom vermelho: 
Vê-te bem neste espelho, imila e goza, 
Verás toda a virtude aqui formosa. 

Se a sempre igual justiça, firme e forte 
Ver queres, vê que o homem, condemnado 
Por sua mesma culpa a eterna morte, 
Por elle Deos pagando, he perdoado: 
Deos fez-se homem mortal e mata a morte ; 
Morte innocente, e mata o máo peccado; 
Com suas chagas cura a antiga chaga; 
Pôde e quer, como Deos; como homem, paga: 

E se misericórdia branda e amiga, 
Que mais se pôde ver, que a piedade, 
Com que ao bom Filho o eterno Pae castiga, 
Por perdoar do máo servo a maldade? 
Olha a que estado desce, e a que se obriga, 
Se queres ver altissima humildade; 
Se a sã modéstia, vê com que estreiteza 
Nasceo, viveo, morreo, sempre em pobreza. 

Vê com que mansidão, com que innocencia 
O Redemptor do mundo se offerece 
Ao summo sacrifício e obediência 
Até a morte tão crua, que padece: 
E em tanta injuria tanta paciência, 
Que por seus homicidas não se ei^quece 



5<8 

E inimigos rogar, assim os amando, 
Tudo com alto amor bem rematando. 

Amor lhe fez do Ceo que á terra desça; 
Amor, na terra ser n'hua Cruz subido; 
Amor, nos pés, no corpo, mãos, cabeça 
Com cravos, lança, espinhos ser ferido; 
Amor, que com tormentos mil pareça 
Hua chaga ser, e por leproso havido; 
Amor, que assim amasse ao mundo tanto. 
Que nelle fique em carne, e em corpo santo. 

Deos, sendo amor puríssimo e perfeito, 
Quiz pelo mesmo amor communicar-se. 
Fazendo Ceo d^huma alma e humano peito, 
E nelle Deos e homem agazalhar-se; 
E roais se alegra em logar tão estreito, 
Que no espaçoso e largo Empyreo achar-se; 
Que este he só corporal morada nua 
D'alma e espVito, e o outro imagem sua. 

Pêra esta união santa e amorosa 
A divina Eucharístia instituindo 
Com discrela invenção maravilhosa, 
Dos discipulos seus se despedindo 
Naquella final cêa lagrimosa, 
Debaixo das espécies se encobrindo 
De pão e vinho, em doce mantimento 
Se dá a comer aeste alto Sacramenlo. 



Que como transformado e convertido 
Em quem o come, o mantimento fica, 
Assim a alma do homem a Deos unido 



3<9 



Por amor se sustenta e vivifica: 

Que este manjar divino, recebido 

Dignamente, dá vida, e glorifica 

A quem sua carne come e sangue bebe, 

Dá morte ao indigno e impuro, que o recebe. 

Quem bem o come, em Deos fica, e Deos nelle 
Fica, em Deos, como próprio membro vivo; 
E o summo Deos, como a cabeça delle, 
Hum ser 'spirilual lhe dando altivo, 
Faz-se hum corpo assim mystico por elle 
Por este meio d'amor puro e unitivo; 
E o filho assim d' Adão, o filho d'ira, 
Fica filho de Deos, e a Deos aspira. 

Pica assim da Sanlissima Trindade 

Sacra custodia hum peito, delia dino, 

Aposento de toda a Divindade, 

De todo o povo angélico e divino; 

Que onde o amor summo está, summa bondade. 

Está rodeado d' Anjos de contino: 

Tanto pôde hum amor com Deos unido. 

Que hum mortal baixo em Deos he convertido. 

Ama, pois com amor tanto és amado 
Da cousa digna mais de ser querida, 
Daquelle summo bem, nunca contado, 
Summa de perfeições, nunca entendida: 
Do cume de virtudes sublimado, 
Saudc inestimável, luz e vida, 
Curâr-te, ver, viver podes, se queres, 
E amar, por de tíil bom amado seres. 



520 



Não tem o alto Senhor necessidade 
De teu amor, de nada nunca a lendo ; 
Mas por teu bem, por sua grande bondade 
Amà-te pêra ti, teu amor querendo: 
Não podes tu pagar-Ihe em quantidade, 
Nem calidade o que lhe estás devendo ; 
Masdo que cabe em li, se contenta elle 
Co' a proporção que houver de li pêra elle. 

Que este amor santo foi hum alto meio 
Pêra poder a Deos o homem ajuntar-se: 
Só pôde amor, se a graça lhe proveio. 
Com justo amor a Deos remunerar-se: 
Todo o outro bem, de Deos que ao homem veio. 
Não pôde com retorno igual pagar-se; 
Deos dá ao homem bens com sua mão pura, 
E não ao Creador a creatura. 

O Senhor por teu bem só quiz amar-te. 
Por dar-te o bem, que a ti melhor viesse; 
Que por suave amor a si quer dar-te, 
E ao seu reino, sem paga, ou interesse. 
Amado e venerado assim desta arte 
Quer elle ser de ti, como merece, 
Com amor d'amizade e firme fé. 
Principalmente amado por quem he. 

Também por outro fim deves ama-lo, 
Menos principal que este, e n'alma tê-lo: 
Por te crear do nada, venera-lo; 
Por teu Redemplor só reconhece-lo; 
Pelas mercês, que delle tens, louva-lo. 
Pelas que esperas ter, engrandece-lo; 



1 



521 



Em todo o lempo, e cousa, sempre, e em ludo, 
N'almã, e na vida, àma-lo sobre tudo. 

Vive constante amando, e persevera 
Na fonte do amor puro a alma embevida ; 
Abraça (qual amiga e fie] hera) 
Da saudável Cruz a arvore erguida : 
Come o bom pão de vida, e a vida fera 
Perdendo irás, ganhando a eterna vida 
O pão sobresubstancial de graça, 
Que, de terreno, angélico te faça. 

Esperta ja, Christão dormente, esperta 
Pêra este bem, que tanto te convinha, 
Que a satisfação tem tão boa e certa, 
Cavando do Senhor sempre na vinha: 
Do mão peccado á chaga n'alma aberta 
Âpplica esta suave e sã mezinha; 
Os bens do mundo tem por sonho e riso, 
E o que me ouviste em sonho, por aviso. » 



Assim me estava o bom Anjo faltando. 
Que ao doce som <la sua voz divina 
Dormia mui quieto, repousando 
Na visão deleitosa matutina, 
Não crendo eu"que isto fosse sonho; quando 
Chua branda vara e inspiração divina 
No coração tocar me parecia, 
E despertar do somno me fazia. 

Fiquei confuso, attonito e assombrado, 
Ja de todo acordado, e só em meu leito, 
Daquelle Esprito bom desemparado, 

TOMO III 21 



522 



De seu colloquio santo, e brando aspeito; 
E do que vira e ouvira, inda lembrado, 
Que impresso me ficou dentro em meu peito, 
(Comecei a fazer contas comigo, 
Quaes todo homem fazer deve comsigo. 

Misero peccador, mortal, terreno. 

De pó, de cinza e terra um triste sacco, 

Que quero abraçar eu, bicho pequeno, 

A terra e ceo. como outro zodiáco?! 

Eu m'engano, eu me perco, eu me condemno. 

Culpado, vão, perdido, cego e fraco. 

Nascido em dor, em lagrimas, peccado, 

E nelle, e em mil misérias enterrado. 

Que espero mais, que não me desengano 
Com tanta inspiração, tanta doutrina. 
Que vou de dia em dia, d'anno em anno 
A cura dilatando a esta alma indina? 
Ahl cruel a mi mesmo e deshumano. 
Que tão presente e santa medicina. 
Qual se me offerecendo está tão certa, 
Deixo de pôr na mortal chaga aberta! 

A viva fonte vejo permanente. 
Sempre manancial, nunca escorrida. 
De que manando ^está perpetuamente, 
E sem cessar, saúde, luz e vida: 
Vejo-me a mim, mortal, cego e doente, 
Chegar não quero á cura offerecida; 
E com damnosa sede, e em triste estrago 
A beber vou no venenoso lago. 



\ 

\ 



525 

A fortaleza, que eu sonhando via 
Florente edificar-se, e em tanto ter-se, 
Té que por tempo em fim me parecia 
Cair por terra, e nella desfazer-se; 
Donde a immortal senhora se saía, 
E sem pêra onde fosse então saber-se; 
Se era o meu triste e frágil corpo humano, 
E o de todos, que não me desengano? 

Âhl não seja assim ja, não durma tanto 
Minha vida no grave e máo lethargo, 
Que, esquecido da eterna, com espanto 
 perca, e sem fim moura em pranto aníargo! 
Daquella santa fonte e rio santo, 
Sempre aho, copioso, doce e largo, 
Ja quero agua gostar, e pãi) da vida, 
Que m'a conserve e de comsigo unida. 

Por li quero viver, ó pão divino, 

Que dás a vida, e és vida por essência ; 

Por ti, com tua graça, eu fraco e indino 

Quero e posso fazer sã penitencia; 

E com ella mais limpo, de contino 

Quero amar-te e gozar com mais frequência 

A ti, que és amor summo, e bem supremo, 

Sem quem mouro, com quem morte não temo. 

E bem que eu merecer tanio não possa, 
Nem por mim ao que devo satisfaça, 
Teu purissitno amor a tudo adoça, 
Tua misericórdia tudo abraça: 
Tu queres sempre a conversação nossa 
Amiga, se tua graça nos dá graça ; 



/» 



Õ24 



Se o rico, ou [íoLre, ou alto, ou baixo póile 
Gliamar-te, logo o teu poder lhe acode. 

Tu, (3 Senhor, usar lai piedade 

Só [>odes, e o remédio dar seguro; 

Tu, allissimo Deos, lanta humildade, 

Que hum servo communicas baixo e escuro; 

Tu, que vestindo nossa humanidade 

No ventre virginal e sangue puro, 

Tu, que por nós na Cruz o teu derramas. 

Te nos dás a comer: tanto nos amas! 

Pois se ha de haver desagradecimenlo 

De tal mercê, a mi c a todos feita; 

Se justo nâo se achar conhecimento 

Dentro em minha alma, em que entrar Deos acceila; 

Se eu tiver delia algum esquecimento, 

De mim se esqueça a minha mão direita; 

E a lingua em fim se me apegue á garganta, 

Se eu não louvar e amar mercê tão santa. 



NOTAS EXPLICATIVAS, PERTENCENTES AOS TRÊS CANTOS 
DA CREAÇlO E COMPOSIÇÃO DO HOREHI 



Canto I 

* Jardim: — Paraíso terreal. 

2 Edifício: — Adflo, o primeiro ho- 
mem. 

3 Edipeio : — EwdL. 

* Queda : — Peccado original. 

' Edifício reformado : — O homem re- 
mido. 

* Columnas: — Pernas. 
' Pedestaes: — Pés. 

' Mestre de obra: —O espirito geni- 
tivo, ou o calor natural. 

* Materiaes: — Venalis sanguis et se- 
minalis. 

^^ Abobeda: — Secundina, chamada 
prima matricis. ^ 

" Postigo : — Umbilicus. 

'2 Pannos: — Panniculí alii matricis. 

" DonzeUa: — Alma racional. 

'♦ O forte: — O filho nascido. 

*' Liança írfreíte: — Sentidos exte- 
riores. 

Canto II 

* Três sobrados: — Cabeça, peito, 
ventre. 

2 Mordomo : — Miolo, coraçSo, fígado. 
^ Odo meio : — Coração. 

* Pagens : — Músculos que movem os 
bofes. 

* Estufa muito qítenie: — O calor na- 
tural, ou espirito genítivo. 

* Abanos: — Os Ixífes. 



■^ Canos ; — O gargalo dos bofes e ca no. 

8 O mestre: — Chaina-se por três no- 
mes: espirito vital, calor natural, espí- 
rilo genilivo. 

* Acddentes da alma: — Paixões do 
coraçáo. 

i<> As cousas, que de fora procediam : 

— Sobejo prazer, ou sobeja paixão po- 
dem matar, movendo os espíritos sobe- 
jamente. 

" Umafrauta: — Trachi artéria, ou 
gargalo. 

12 Cabeça ou chate : — A noz da gar- 
ganta. 

13 Forte muro: — Ossos e carne. 
1* Duas fontes: — Peitos e tetas. 

*5 Estar seccos: — Seccos, por serem 
de varão. 

i« Mantimento ; -^ O sangue venal. 

1'' Atada por detraz e por diante: — 
Pericraneo. 

18 Outros dous : — Couro e muscules 
da cabeça. 

15 Musgo- e d'hej^as: — Cabellos. 

2í> Em oito partes: — Oito ossos, de 
que está composto o casco. 

21 Cosinha : — Estom a go . 

22 Mas o sahio ancião: — O miolo, c 
sentidos interiores. 

2i Pêra isto húa livraria de diversos: 

— Tres ventrículos' do cérebro, em nue 
est«lo as três potencias sensitivas: a 1.**, 



526 



imaginativa ; a 2.*, estintativa ; a3.*,mc- 
innrativa. 

2* Nesta terceira: — Na memoria. 

25 F///ia; — Nuca. 

2fi Columna : — O espinhaço. 

2*^ Trinta canudos : — Tri n la ossos, ou 
vinte c oito espondylos, de que se com- 
põe o espinhaço. 

2* Coberta de dois j)annos : — Couro 
e panniculo carnoso. 

'^ Setenta e cinco cordas : — Os ner- 
vos, que nascem da nuca e miolo. 

3» Nenosas cordas: — Os nervos, que 
nascem do cérebro para os cinco senti- 
dos exteriores. 

51 Um repouso: — O sonmo. 

52 O subitt mestre d'obra : — Calor na- 
tural. 

55 Ni aposento do m«o: — No cora- 
ção. 

5^ A esta virtude o caminho impedião : 
— O calor natural recolhido faz no miolo 
impotência de sentimento e movimento. 

5J Eram três pares : — Sentidos exte- 
riores. 

56 A um atalaia môr: — Sentido com- 
mnm. 

57 Duas janellas: — Olhos. 

5ii Cortinas: — Pálpebras e pestana.s. 

5^ Cimalha : — Sobrancelhas . 

^^ Outrcu duas janellas: — Orelhas e 
ouvidos. 

*^ As outras duas: — Narizes e ven- 
tas. 

*2 O fprâo portal: — A bocca. 

^5 Robustos carreteiros : — Braços. 

4* Sustentados: — De sangue e nervos. 

*'^ Cinco criados : — Dedos. 

^6 Cascos : — Unhas. 

17 Do húmido ou do secco, ou frio ou 
tpienfe: — Qualidades tangiveis. 

48 Porteiros: — Beiços. 

w O som : —Voz. 

^» Um moinho : — A bocca por dentro. 

^* Trinta e dois moieiros : — Os den- 
tes. 

^2 Dois lanços de fo rte penedia : - Q uei- 
xadas e dentuça. 

*5 Uma dona : — Lingua. 

** Soto;— Vnz. 

5j Abre criados: — Músculos da lin- 
gua. 

56 De humidade: — Saliva e cuspo. 

57 Duas esponjas : — As galhas. 

5« Uma ante-porta: — O gOto e cam- 
painha. 

^ Os dois principaes canos: — Respi- 
radouro e tragadeiro da garganta. 



^ Uma grossa parede: — Panniculo 
chamado diaphragma. 

6^ Com três canos : — Tragadeiro, veia 
cava, artéria aorta, sAo os três canos que 
trespassam o diaphragma. 

® A cozinha: — O estômago. 

^^5 Vaso de duas boccas: — Por onde 
entra a comida ao estômago, e vae para 
o fígado. 

M Uns ouatro canos: — Quatro veias, 
que vAo do estômago para o fígado, e 
levam o chylo. 

65 Seis canos : — Seis intestinos ou tri- 
pas. 

66 Outros menores : —Músculos ou tri- 
pas. 

67 Uns três moços : — Músculos do fun- 
damento. 

6* Pnncipal mordomo: — O fígado. 
*^' Manjar branco: — Chylo. 

70 Outra vez recorrer : — Segunda es- 
tancia. 

71 Quativ licores: — Quatro humores 
misturados no sangue, se., ^ngue, cho- 
iera, phlegma, melanconia. 

72 E por cobertos canos : — Veias. 

75 Por outros subtis canos : — Por veias 
e artérias do coração. 
7* Vestia-se de um verde: — O fel. 

75 Tristonho: — O baço. 

76 Outros dois : — Os rins. 

77 A lagoa : — A bexiga. 

76 Por outro cano : — Col lo da bexiga. 
79 Paredes: — Panniculos, pelle e 
músculos. 

60 Dois naiuraes irmãos : —Genitália. 

61 Columnas: — Pernas. 

62 Pedestaes : — Pés, 

Canto m 

1 .Fazendo mal os grandes e os meno- 
res: — Declina tio letatis. 

2 Mestre da obtxi : — Calor natural. 

5 Os capitães : — Os principaes mem- 
bros, e menores. 

* Trinta e dois brancos mcieiros:^ 
Dentes. 

5 As flores: — Os cabellos e câs. 

6 Carreteiros : — Braços. 

7 Dez criados : — Dedos. 
6 Columnas: — Pemâs. 

6 lf(ps/ra; — Lingua. 
w Prineeza: — Alma. 
" Um velho : — A morte. 
<2 A casa: — Ao corpo. 
>5 Aquelle £«p Vt/o ; — Anjo Iwin. 
'* A sagrada letra: — A letra T. 



PEÇAS RELATIVAS 



AOS 



TRÊS CANTOS 




I 



SEXTINA 



EM QUE O AUCTOR DIRIGIU A OBRA AO DUQUE DE AVEIRO, 

QUE MORREU EM AFRICAI 



lUustrissimo Duque, em cujo nome 
Tão clarp q caro, e em cujo real sangue^ 
A fama resplandece pelo mundo 
Da Cas' de Villa Real de immorlal vida; 
Virtudes d'alma clara, nunca o tempo 
As escurece, nem consume a morte. 

Despois que o pae primeiro á herdada morte 

Deu tanta jurdicção, poder e nome, 

O fratricida máo sem dó, sem tempo 

Do bom e irinocenle Abel derrama o sangue; 

Mas morte em fim lhe acaba a longa vida, 

Que breve aos máos parece e ao cego mundo. 



> Na batalha de Alcácer Quibir com El-Rei D. Sebastião. Este é o segundo du- 
que de Aveiro, D. Jorge de Lancastre, filho de D. João de Lancastre, neto de D. Jor- 
ge, duque de Coimbra, e bisneto d'Él-Rei D. João II. (Nota do sr. Freitas.) 

2 As palavras, completas ou incompletas, cscripUis em itálico, são as que se 
não liam no MS., e foram suppridas conjecturahnente pelo sr. Freitas, mediante 
o auxilio da critica, ou da rima. (Nota do Editor.) 



530 

O que mal edifica neste mundo 
Por se livrar do esquecimento e morte, • 
Erra o caminho certo da outra vida: 
Prosápia antiga, casas d alto nome, 
Copiosos morgados, claro sangue, 
Titules vãos, tudo em fim gasta o tenipo. 

Só fora desta alçada sâo do tempo 
As sãs obras fundadas no outro mundo, 
Tintas do bom Cordeiro em puro sangue, 
Que nos segurão da perpetua morte; 
Obras, a que Deos dá sempre honra e nome, 
E a quem as faz, sem fim gloriosa vida. 

Tu, claríssimo Duque, em cuja vida 
Tão piás obras vê este nosso tempo. 
Que te acquire na terra immortal nome, 
E no Ceo gloria ante o Senhor do mundo, 
Vês que elle também morre, e mata a morte, 
Por nos lavar em seu precioso sangue. 

E pois vemos que a^ ferro, a fogo, a sangue 
Assi consume a toda humana vida 
A mão cruel da irreparável morte, 
Notemos a fraqueza em todo o tempo 
Desta nossa prisão e menor mundo, 
Que he nosso corpo humano n'oulro nome. 

Debaixo de teu nome e illustre sangue 

Este Pequeno Mundo tenha vida, 

E a lodos com bom tempo lembre a morte. 



551 



SONETO 

AO BIESMO DUQUE DE AVEIRO 

Do magnânimo e iiivicto João Segundo, 
Do santo Rei, bisneto, a nós primeiro 
Da Casa de Coimbm e da d'Aveiro 
Pnmeiro e bem nascido sol jucundo: 

///ttstrissimo Duque, em todo o mundo 
Honra, luz delle, e espelho verdadeiro; 
A li, a quem se deve o mundo inteiro, 
Favor pede, e se dá o Pequeno Mundo. 

Neste piouco, que dou, mostro o que dera, 
E o muito, que a hum tão alto Senhor se deve 
Se á sã vontade a obra respondera : 

a 

Mas neste menor mundo se descreve 
Quanto se pôde ver na grande Sphera, 
O ben^ da eterna vida, e o mal da breve. 



EPISTOLA 

QUE MANDOU AO MESMO DUQUE DE AVEIRO, 
QUANDO LHE DIRIGIU A OBRA 

Do mundo o máo saber e vã doutrina. 
Clarissimo Senhor, ser ignorância, 
O fazedor de tudo no-lo ensina. 



532 



Medindo os allos ceos com vigilância 
Sophislas vãos da terra e diligentes, 
Dos Ceos os desviou sua arrogância: 

E pelos ermos sós fugindo ás gentes. 
Ao mtindo e seu saber, vão conquistando 
O reino dos Ceos* simpres e insipientes. 

Dos humildes a voz está sqando 
O bom louvor de Deos, que assim nos clama, 
Que o temamos e amemos epsinando. 

Temer e amar a Deos, que a todos ama. 
Que tudo tem e pode, e que vê tudo, 
Verdadeiro saber e bom se chama. 

Que bruto terá ser, que animal rudo, 
Que corpo dementai, que creatura, 
Se o Creador o não prover em tudo? 

Toda a cousa em seu ser e compostura 
Conhece e dá devido acatamento 
 Deos por lei, ou natureza pura; 

As que têm ser, ou vida, ou sentimento, 
E o homem, que sobre isto juntamente 
Tem livre alvedrio e alto entendimento. 

Mas este, mais que as outras excellenlc. 
Errando o f>m, pêra que foi creado, 4 

Se mostra ingrata e desobediente. 

Nosso appetitô vão desordenado, 
Traz quem confusamente ir-nos deixamos, ' 
E consentimos, he nisto o culpado. 

Traz nosso próprio amor cegos andamos, 
Que nossas obras sempre á morte guia; 
E o de Deos, que dá vida, não provamos. 

Deste bem nasce fructo d alegria, 
E em summa [)erfeição descanço eterno; 
E do outro mao trabalhos noite e dia: 



533 



Desle quietação e bom governo 
Pera a alma c vida; e daquell'outro pena: 
Deste em fim Ceo; e daquelUoutro inferno. 

iVesta Ião breve vida e Ião pequena 
Duas cousas se amão só principalmente, 
Huma nos salva, e outra nos condemna: 

Ou se ama o Creador* omnipotente; 
Ou se ama alguma baixa creatura 
Das a quem mais cada hum inclinar-se sente. 

Assm nossa vontade errada, impura, 
A si mesma o amor próprio dar podendo, 
Ámar-se só mais que a ninguém procura. 

Então nenhuma cousa nossa tendo, 
Que nossa mais com mais razão ser possa, 
Que o amor, mal delle o emprego imos fazendo. 

Nenhuma cousa outra ha, que seja nossa. 
Nem bens do corpo, ou da fortuna, ou terra. 
De que nossa cubica assim se apossa. 

Isto ludo c'o corpo vil se enterra, 
E fica em fim, tudo acaba e perece. 
Quanto no mundo cego e vão se encerra. 

O que mais nosso he, mais nosso parece. 
Isto á vontade nossa oíTerecemos, 
Que he nosso amor, que com ella entorpece. 

E amor só sendo o que de nosso temos. 
Quanto temos, he mao, elle mao sendo; 
E não sendo elle bom, bons não seremos. 

E assim também de nosso mais não tendo. 
Que aqueste amor, se a cousa indigna o damos, 
Ou se o perdemos, tudo imos perdendo. 

Ter bom amor, virtude lhe chamamos ; 
Ter mao amor, pelo contfario he vicio: 
Taes em fim somos logo, como amamos. 



554 



Amar a Dcos he hum summo beneficio, 
Que só nos enrufuece e beatifica; 
O próprio amor he summo malefício. 

O amor de Deos em tudo muhiplica; 
Sua infinita e universal bondade 
A todos dar-se pode e communica. 

D aqui aos bons, que o tèm, nasce difnizade, 
Concórdia, paz, amor, contentamento, 
Avondança de tudo, e boa verdade: 

E nasce hum bem de firme fundamento. 
Que a todos tem unidos, satisfeitos 
Em justo, igual e são conimtamento. 

A cada hum tocão os mais geraes respeitos, 
Sendo mais seus, quanto mats são de todos , 
Alegrão-se nos rostos e nos peitos. 

O próprio amor por differentes modos, 
Como he particular e insufficiente, 
Satisfazer não pôde nunca a Xodós: 

Antes se quem o tem, algum bem setiíe, 
He brevissimo, falso e misturado 
De males e temor forçadamente. 

Nunca vive quieto e socegado, 
Sollicito do bem d'outrem lhe pêza. 
Por crer que o seu lhe tem sempre usurpado. 

E assim de amor de Deos como (em firmeza 
Sempre o bem possuindo) o plazer nasce, 
Assim do próprio amor nasce tristeza. 

De vão desejo, d ódio e inveja pasce. 
No mal alheio busca seu inl'resse, 
E nunca no bem próprio satisfaz-se. 

Lembra-lhe o mundo só, de Deos se esquece. 
Seu mesmo damno trabalhando alcança, 
E d'outrem o proveito lhe aborrece. 



555 



D'aqui rancor procede, ira, vingança; 
E se em vão cumpre seu falso appetito, 
Cuida triste em trabalhos que descança: 

Que além que he temporal, fraco, finito 
O gosto possuido com maldade, 
Sempre he no fim hum desgosto infinito. 

E como o plazer quer ociosidade. 
Do falso, bem pêra poder lograr-se, . 
Foge do são exercicio e honestidade. • 

Não quer no bom trabalho exercitar-se; 
E porque "b espVito traz de todo morto, 
A carne em nada quer morlificar-se. 

Alagando-se etn fim no próprio porto 
Dos vicios, que he morrer em sua torpeza, 
Até o profundo vai do desconforto. 

^ a falsa honra, a gloria, a riqueza 

Não lhe vai p'ra mais que p'ra accrescentar-lhe 
A pena, a dor sem fim, sempre em pobreza. 

A Lazaro o pedinte, que molhar-lhe 
Queira a abrazada lingua, o rico pede; 
Cá nada deu, lá tudo vio fahar-lhe. 

De todo pejo e peso se despede 
Quem corre, ou quem caminha algila jornada, 
E de si deita tudo o que lhe impede. 

E pêra esta da vida trabalhada, 
Por onde de contino caminhamos. 
Buscamos sempre a carga mais pesada. 



> Na copia do sr. Freitas nSo vem supprida a palavra, que aqui syiSo Ha no 
MS. Será —AUi— ? ou —Então^ ? (Nota do Editor.) ^ 

2 Nada mais se lia, porque faltava aqui no MS. ao menos uma folha, que o 
reclamo — D'encar — accusava. (Nota do sr. Freitas.) 



556 



DOCTORIS AC MEDICI ERUDITISSIMI 



PETRI GUOMEZII 



CARMINA 



IN OPERIS LAUDEM 



Doctiloqiii quondam cantabat Musa Maronis, 
Ut Danaúm cecidit flammis incensa dolísqiic 
Troia, fuit quanlo demum populata furore; 
Inque novas Naso mutabat corpora formas, 
Lucanusque fremens civilia bella canebat; 
Multaque sic vario versu cecinere poètae. 
Cunctorum verum sileant jam carmina, namquc 
Teetus Apollineis nosler Resendius armis 
Apparet viridi devinctus têmpora lauro: 
Cui dedil ipse suum plectriím Thymbracus Apollo, 
Ca/liopea dedilque lyram, nectarque dederc 
Pierides gustare suum, quo corpris omnes 
Depingit partes, mulato nomine in arcem, 
Quam íingit media fundatam in valle virente. 
Hanc arcem mira fabricator maximus arte 
Condidit, et muro totam valloque sepivit. 
Illico constituit dominam, quae legibus illam 
• /mperet, et gcntem posset fraenare superbam. 
fcstituit fâmulos dispersos brdine muitos, 
Jlfunia qui céleres statuto tempore complent. 



557 

* noster cecinit praeclara você poeta: 

3 



Carmina Virgilius,nec quae^ facundus Homcrus, 
Quam quae, Lysiadum lotius gloria gentis, 
Andreas clarus diserto* protulit ore. 



< Também se não acha «upprida na copia do sr. FreiUs a palavra, que aqui 
se não tia no MS. Será —Haec—f (Nota do Editor.) 

2 Na copia do sr. Freitas vem indicada com pontos a falta, que no MS. havia 
n'este logar, de algum ou alguns versos, que certamente escaparam ao copista, 
como o contexto claramente demonstra. Ficaria supprido o sentido, intromettendo 
aqui este verso ou outro equivalente: — Nee tam auieia doetaque sunt quae ceci- 
nit olim—. (Nota do Editor.) 

3 No MS. lé-se — necque—, O sr. Freitas, ao copiar, emendou para — nec 
quae — ; porém depois tornou a substituir á margem — quae — por — que—; 
emenda, que rejeitámos, por se nSo compadecer nem com a metrificação, nem 
com o sentido grammaticat. (Nota do Editor.) 

♦ No MS. vem — claro diserto — . O sr. Freitas emendou para — clarus dis- 
urto—. Rejeitámos também a emenda de — diserto—, aproveitando a de — cla- 
rus—, (Nota do Editor.) 

TOMO III ti 



NOTAS ÁS RIMAS 



Eram somente oito as eglogas de Camões que possuíamos impressas nas pri- 
meiras edições; o padre Thomás José de Aauino na que publicou no anno de 1779 
addicionou mais sete que encontrou nos MSS. de Manuel de Faria e Sousa, a sa- 
ber: cinco que o commentador das obras do Poeta assevefa serem usurpadas por 
Diogo Bernardes, e mais duas entrando n'estas ultimas a decima quinta escripta 
á morte de D. Cathariua de Atbaide. Que o Camões escreveu mais que as oito 
primeiras eglogas, me parece a mim, senão certo, pelo menos muito verosimil, 
porquanto na priu^eira carta escripta da índia a um amigo enviando-lbe a egloga i, 
se expressa por esta forma :><rHuma Egloga fiz sobre a mesma matéria, a qual 
também trata alguma cousa da morte do Príncipe, que me parece melhor que 
quantas fiz». Este modo de se explicar parece referir-se a uma collecçSo mais 
copiosa. 

Mas foram ou nSp estas eglogas que se addicionaram furto litterarío, plagiato 
do poeta do Lima? É isto questão que divide os críticos, encostando-se entre ou- 
tros á opinião de Manuel ae Faría e Sousa, que primeiro denunciou a supposta 
fraude, Thomás José de Aquino editor das mesmas eglogas, os da edição de Ham- 
burgo de i834, José Maria da Costa e Silva, e, seguindo a opinião controversa, o 
Morgado de Matheus e o sr. bispo de Yizeu D. Francisco Alexandre Lobo na sua 
memoria critica sobre Camões. Uma asserção porém de uma tal natureza, era 
Torçoso que fosse corroborada com argumentos deduzidos de maneira que podes- 
sem plenamente convencer; assim julgou o zeloso commentador articular um 
arresoado apontando os fundamentos para a accusação, e com que fez preceder 
estas poesias que intentava dar á luz publica. Julgámos pois do nosso dever, para 
perfeito esclarecimento do leitor, expor aqui os argumentos pro e contra, ence- 
tando estes com o prologo da edição de 1779, onde vem inserida a dissertação de 
Faria e Sousa, a qual addicionaremos nos logares próprios com algumas outras 
observações do mesmo commentador aue encontrámos nos seus manuscriptos; 

Eelo lado opposto apresentaremos as ooservações do Morgado de Matbeus e sr. 
ispo de Yizeu, pedindo licença para rematar com algumas observações nossas 
sobre este delicaao assumpto, prevenindo desde já que, sem seguirmos uma opi- 
nião inteiramente decisiva, de alguma maneira nos encostámos em parte ao pa- 
recer do illustre prelado. 

Thomás José de Aquino, no prologo do tomo ui da sua edição, que só extra- 
ctámos na parte que aiz respeito ao nosso assumpto, depois de haver declarado 
como por intervenção do padre fr. Vicente. Barbosa, bibliothecarío do real con- 



540 

vento de Nossa Senhora da Graça de Lisboa, poderá extrahir copia das egiogas 
novamente publicadas, passa a declarar-nos os Jogares em que Manuel de Pana 
e Sousa allude a ellas nos commentarios impressos. —Em vários logares (diz) dos 
seus commentarios impressos affirma e prova Manuel de Faria que Luiz de Ga- 
mões compozera mais de oito egiogas, o que também nos instigou a fazer Ioda 
a diligencia para conseguirmos ver os refendos originaes. Expondo a sextínam, 
diz sobre a primeira estancia: 9 El assunpto desta Sextina ésàmismo deJàEffo- 
ga XV., que el Poeta escriviô a la muerie de m querida Natércia; y en essa te haUa- 
ran todos loi términos que se ven fuados nesta Sextina». Aqui mesmo sobre a es- 
tancia II diz : « Todo esto se vè en la Egloga xv ». 

tt Commentando o primeiro verso da egloga vin, faz o mesmo Faria mençSo da 
egloga IX. No discurso que nos commentarios impressos precede as oito egiogas, 
pag. i60, col. 2.* n.*^ 6; íallando de Luiz de Camões diz: « JFW su contiemporam 
Diego Bernardes, que puUicò mudias Egiogas, razonables en lo rústico, ku que 
puedèn ser suyas; por que las màs delias usurpo el a huis de Carnes; como h tm- 
trarè en un Discurso; que precederá a la nona: NSo só n^este discurso, em mui- 
tos outros logares dos commentarios aos sonetos, e sobre as oitavas a Santa Úr- 
sula (usurpadas a Luiz de Camões, por este mesmo versejador), põe Manuel de 
Faria patente o plagiato de Bernardes. Também achámos este discurso, oue Faria 
diz que havia de preceder a Egloga ix, o qual damos aqui gostosamente ao pu- 
blico, para que se veja a animosidade com que o bom Bernardes se aproveitou do 
trabalho alheio, para vender como próprio. E para que nSo perca nada na oossa 
traducçâo, ou nos digam que se traduziu menos fielmente, irá na mesma ener- 
gia castelhana, em que seu auctor o escreveu. Aqui conhecerSo os nossos leito- 
res, que nSo toem o conhecimento necessário em matéria de estylos^ o quanto até 

agora viveram enganados com os poemas de Diogo Bernardes Cremos que 

os nossos leitoras, com o que até aqui temos dito, ficam sufficientemente infor- 
mados; e por não molesta-los mais, passámos a dar-Ihe o discurso que Fana es- 
creveu para preceder a esta {)rimeira egloga, que também n'esta nossa edição é 
nona, fazendo conta com as oito que váo no fim do tomo antecifsdente. É pois o 
referido discurso como se segue: 

ff Las ocho egloffas antecâlentes son las oue asta agora anduvieron impressas, 
desde la primera edicion que se hizo destos Poemas vários de mi Poeta. Las siete 
que se siguen, por la misma orden que llevan, hallè yo en nn manuscripto, que 
casi todo és de obras suyas; aunque notablemente viciadas de los copiadores. 
Entre ellas ay algunas agenas, pêro tan poças, que (segun los títulos con que se 
hazen conocer) no excedeu de las que nombrarè, poroue sirve esto a lo que luego 
he de dezir. En la boja i. aparece la carta septima de Diego Bernardes a Pedro de 
Lemos, secretario de la marqueza de Alcanizas. Del mismo, adelante, la egloga 
oue entre las suyas es la xrv. En la hoja 45. un soneto, que dize ser dei duque 
cie Aveiro; e es el cxxxin de mi Poeta. En la hoia 48. unas estancias, que son 
de la egloga n de Bernardes: en la 50, un soneto ae Luis de Crasto ai Rei D.Se- 
bastian; y otro amoroso de Luis Franco; e el de Garcilasso, que empieça: Ó dul- 
ces prendas, etc. En la 54 otro de Luis Franco a un desafio que tuvo en Castilla 
D. Martín de Castelobranco. En la 55 otro, que dize ser de Simon deVeyga a 
D. Luis de Ataide; y siempre fue impresso por de Luis de Camões, y es el lxiv 
entre los suyos : y a el se sigue otro dei mismo D. Luis, en respuesta, que es el cxcvi 
de mi Poeta. Esto es lo que en este manuscripto se halla con otros nombres, que 
no sea el de mi Poeta : y tambien sin el, se hallan otras cosas (poças) que dará* 
mente se vè, que no son suyas, por ser disparates. Todo lo otro es suyo; aonque 
no todo tiene su nombre. Sm su nombre está la egloga m, y la cancion i, y mo- 
chos sonetos que indubitablemente son suyos : con el está por suya la egloga xv. 
Mas porque Ias ix, x, xi, xn, xiii y xnr estan sin nombre alguno, y m ix, x, 
XI, XII y xin andan impressas por de Diego Bernardes (en su livro intitulado el 
Lima, que consta de veinte egiogas, y de trinta e três cartas), y yo tengo por 
cierto que son de Luis de Camões, y las pongo aqui por suyas, so^ obligado a 
dar la razon porque lo bago, para que no parezca, qpe sin ella quiero quitar a 
alguno su gloria; y mas quando con esto no se puede anadir alguna a Luis de 



54 < 

Gam<Ses: porque la que el no meredere por lo impresso (que fue lo oue se hailó 
mas correto) mai la podria merecer por lo que se halla tan estragado. Però no 
es justo (sea lo que fuere) que de un tan grande hombre se pierda cosa alguna 
de las que se hallaren con luz de suyas ; porque la suya fue tal, que aun por 
entre essas tinieblas se descubre. 

« Digo, pues, que lo que me oblíga a tener por de Luís de Gamões essas cinco 
eglogas que andan impressas por de Diego Bernardes, és lo que se sigue distri- 
buído por números de razones. 

«Que para auien conoce de estylos, es cosa clara que son de Luis de Camòes : 
y esta razon sofá bastava, quando no uviesse más. Al grande Apelles, que nunca 
ei otro pintor avia visto, conociò el solamente por una linea, gue avia echado 
en una tabla. Quien tendrá conocimiento de los pinceles poéticos de Gamões, 
y de Bernardes, que pueda creer, que es de los deste, lo que es de los de aquel ? 
En Bernardes no ay erudidon; no ay affectos; no ay conceto considerable ; no 
ay elevacion alguna; no ay constância; porque si acaso tiene dos versos suficien- 
te los ahoja con mil sin numero, y con mil desaires. Pues si en estas cinco 
eglogas ay todo esto tan próprio de Luis de Gamões, como dexaran elias de buena 
gana de ser suyas, por ser de quien nunca pudo tanto? Bernardes usó de una 
llaneza, que aunque mal cultivaída, se hizo lugar en el vulgo. 

«Que Bernardes viendo muerto a mi Poeta, y que sus obras sueltas andavan 

Eerdidas, se quiso apropriar algunas delias: como consta claramente de sus li- 
ros intitulados: Flores dd Lima, y Rimas de detxtcion, en que ay algunas cosas 
conocidamente de Luis de Gamões, como en sus lugares voy mostrando. 

«Que las cosas que se ven en el manuscripto, con evidencia de ser de Luís 
de Camões, y estampadas por Diego Bernardes en su nombre, estan menos cor- 
rectas, y con mas defetos en la estampa, que en el manuscripto : y no és de creer 
3ue si ellas fueran de Bernardes avia el de estampar lo peor; sinò, aue slendo 
e Camões, que ias fue limando, Bernardes usó de las que avia bailado antes 
de limadas. 

«Que Luis de Gamões el afio de i3£»5 escribió en la índia una carta a un 
amigo, avisandole, de que havia compuesto la egloga primera a la muerte do ' 
D. António de Noroúa, y dei Príncipe D. Jnan ; y en el^ dize esto : Esse soneto 
que hize a la muerte de U, António ds Noroiia os emhio, por senal de quanto delia 
me peso. Una egloga hize sol>re la própria matéria, que tarnbien trata algo de la 
muerte dei Principe; la qual me parece mejor, que quantais hize. Claramente dá a 
entender, que avia hecho muchas eglogas, y hasta oy no se han impresso ni visto 
suyas mas de ocho; y una delias és essa pnmera de que dava quente: y las siete, 
que quedan, no son tantas, que un homore por elias solas ubiesse de dezir, 911^ 
quantas hize: porque este modo de bablar, denota mucho maior numero que el 
de siete; y mucho más si se considera, que três delias, que son la quarta, quinta 

Íj otava, no son capaces de aue un tan ^ran hombre se acordasse de ellas: de 
a quarta y quinta por ser ae sus princípios de moço; Ia otava, porque és de 
ningun cuerpo : v de Ias auatro que quedan, para las siete, dos a lo menos son 
hecnas despues de haver nuelto de la índia : de modo, que entre las siete, no 
auedan mas de dos ò três gue pudiessen ser escritas antes de partir para la In- 
aia; y no avia de dezir Luis de Gamões, aue aquella le parecia mejor que quan- 
tas avia hecho, no aviendo hecho más ae dós ò tres : ni este modo de bablar, 
en un hombre que habló siempre con tanta medida, pudo caer sino sobre aver 
hecho muchas eslogas. Y pues esto és assi ; y que en Ia índia escribiria algunas, 
pues anduvo allá diezeseis aúos, y que tambien escribiria algunas en el reyno 
despues de belver, aviendo vivido aun en el diez aúos ; necessariamente hemos 
de creer que hizo muchas eglops: y de todas estas no uvo hasta agora mas 
de ocho: y agora halló yo más siete en este manuscripto de sus obras, y cinco 
delias son de las que andan impressas en nombre de Diego Bernardes, que im- 

{irimiò veinte; y dfelias tengo yo por suyas solamente la primera, y la sexta, y 
a doze, y la catorze, y la xvi; y las xvni, xix y xx, dudo mucho si son suyas; 
porque siendo en castellano. que el hablava con mucho error, tienen mucho de 
aquella limpíeza con que Luis de Gamões le hablava, como consta de lo que 



542 

permanece suyo en castellano; además dei aire próprio dei estylo.Desto sesí- 
gue, que entre las veinte eglogas que Bernardes publico, no ay más de cinco, 
ò seis, que parezcan suyas; y las catorze, ò quinze, en mucho estan mostrando 
ser de Luis de Gamões, auoque faltas de la ultima lima, sobre el estrago que en 
todas sus Rhytbmas varias nizieron los copiadores, por haver el fallecido sin 
darias a la estampa. Assi, pues, las catorze que destas veinte pu&den ser suyas, 
y las ocho que andan impressas en su nombre, y dos que jo hallè de nuevo, 
hazen veinte y cuatro: y aun estas no son muchas, para quien viviò 25 aúos, 
despues de aver dicho, que avia escrito muchas .'Però yo no quiero poner aqui 
por suyas de todas ias catorze, que me parecen serio, y andan por de Bernardes, 
sino las cinco que se ven en este manuscripto, sin que en ellas este el nombre 
de Bernardes, estando ellas entre otras de Luis de CamOes, que tambien no tie- 
nen su nombre. 

«Que quando se halla un manuscripto, en que ay poemas de differentes au- 
thores, se deve presumir que los que estan sin nombre son de aquel author que 
tiene la mayor parte en aquel manuscripto : y en este que tiene más de cien no- 
jas, las noventa son de obras de Luis de Camões; unas que tienen su nombre, y 
otras que aunque no le tienen, son conocidas por suyas, y por suyas andan im- 
pressas : y pues en este manuscripto ay siete eglogas, unas trás otras, y entre 
ellas una de las impressas de Luis de Camões, que és la tercera, tambien sin 
nombre suyo ; siguese, que assi como esta no dexa de ser suya, por no tener su 
nombre, no lo dexan de ser las otras, por no tenerle : antes és más creible, que 
por ser el manuscripto casi todo suyo, se escuso el ponerse su nombre en cada 
poema; y que se pusiera, si fuera aj^eno. Agora entremos a hazer examen de 
cada una de las cinco eglogas que se siguen, y son las ix, x, xi, xn y xiii, y dei 
sacaremos nuevas razones, para assegurar que son de Luis de Camões, y no de 
Diego Bernardes. Prosigue el numero de las razones. 

« La egloga ix és dei Tajo, y de Galatéa, y por esto és compafiera de la otava, 
que tambien és de Galatéa en el Tajo; y concurren ambas en unos mismos con> 
cetos, y Diego Bernardes no cantava dei Tajo. sino dei Lima, de que era na- 
tural: y por esto, de três librillos que impriroió, los dós primerosse intitulan, 
uno Flores dei Lima, que és el de los sonetos, y otro, vários poemas, y otro 
Lima, que és el de las ejrlogas, e cartas. 

«En esta egloga ix dize que irá a pescar en playas remotas las perlas para 
oífrecer a Galatéa: y esto dá claramente a entender, que escribiò esta egloga ai 
tiempo que andava de partida para la índia, adonde Ias perlas se cogen: pues 
en algunos lugares destas Rhytbmas confiessa, que por niejorarse de algun cau- 
dal avia becho este viage ; para el qual estuvo alistado el aúo de 1550, aunque 
no partiò sino el de i553. Y assi pudo esta edoga ser hecha en este tiempo; 
en el qual Diego Bernardes estava bien fuera de hazer tal viage; ni hizo otro, 
que el de Africa el afio de 1578, passando con el Rei D. Sebastian. 

« Esta egioga ix en el manuscripto está sin dedicatória, y la tiene en la im- 
pression de Diego Bernardes, adonde és la onze: y claro está, que si Luis de 
Camões la ubiera dedicado, no faltara alli la dedicatória: y tambien claro, que 
no faltara la dedicatória, si ella fuera de Bernardes: de que se sigue, que Ber- 
nardes se aprovechó delia dedícandola. 

«Que la dedicatória que delia hizo Diego Bernardes anda en el próprio ma- 
nuscripto solamente con este titulo, Octava$: porque son siete octavas, sin dizir 
que és dedicatória de egloga alguna : y ella está tan desviada delias, que ellas 
van en la boja 48 y ella se queda en la 3. 

« Que estas otavas en el manuscripto estan puntualmente conformes con las 
impressas: y ai contrario la egloga tiene mucha differencia de la impressa ai ma- 
nuscripto, estando mejor en el. 

« Que por ser estas otavas dedicatória de aquella egloga a un seúor, ubieran 
de ser de estylo mas elevado que ella, y a lo menos igual, y parecido : y que el 
de la egloga és grande, y el de la dedicatória és mui miserable. Y para que esto 
se vea con claridad he de copiar aqui dós otavas, que seran la primera, y la ul- 
tima : 



545 

Illustre Senhor meu, a quem me manda 
Minlia fatal estrelia que só cante 
Com Musa natural, ^o doce, e branda; 
Que a toda a estrangeira vença, e espante; 
Apezar da cruel, que em mim desanda 
A sua roda, sempre irei avante, 
Seguindo pouco a pouco este desejo. 
De que só digno vós, outro não vejo, etc. 

Acceilaí entre tanto por começo. 
Do que pagar espero inteiramente, 
Esta pequena offerta, que offereço 
A vós, grande Senhor, devotamente. 
Se por tão pouco, tanto bem mereço, 
Os olhos ponde nella alegremente. 
Ficarei satisfeito, e at]'evido, 
Para poder cumprir o promettído. 

« De las siete otavas desta dedicatória me parece que estas dós son las mejo- 
res, y en ellas no ay un verso oue tenga algun adarme de espiritu : y en la egloga 
sin espiritu casi no ay verso. Vease ailá. Las otavas, luego, son de un, y la egloga 
de otro : y de quien ella, y ellas pueden ser, queda claro. 

«Que las otavas no declaran lo que se dedica con ellas, si és egloga, ó otro 
poema ; y Luís de Camóes no hizo dedicatória de egloga, en que no declarasse el 
argumento, como se puede ver de las suyas iv, v y vi, que son dedicadas. 

• Que esta egloga se escribió a imítacion de las i, y ii de Sanazzaro, como de 
las notas se puede ver; y Luis de CamOes le tenia por maestro de las piscató- 
rias, y se preciava de imitarle, como consta desta misma egloga, pues los dós 
tercetos que principian, DevÈando este lugar tão infamado, son expressa imita- 
cion deste lugar de Sanazzaro en la egloga ii. 

Scilicet! hsec olim veniens, seu littore curvo 
Caietffi, seu Cumarum navalibus altis. 
Dum loca transibit, raucus de puppe magister 
Hortatus socius ; dextrum deflectite (dicet) 
In latus, ó socii, dextras deflectite in undas. 

Y los quatro que empieçan : 

Glauco, deos vosso/ 

tambien son clara imitacion de estotros versos dei mismo Sanazzaro en la eglo- 
ga i: 

Qnos mihi nunc divse scopulos, quse panditis antra 

Nereides! Quas tu secreti littoris nerbas 

Glauce pater, qnse monstríferis mihi gramina succis 

Ostendes nunc Glauce! Quibus tellure relicta: 

Ah miser, & líquidi factus novus incola ponti 

Te sequar in médios^ mutato corpore fluctus. 

Et fenam biíida spumantia marmora cauda! 

Nam quid e^o, (heu!) solis vitam sine Phyllide terris 

Exoptem miserT etc. 

Si ya DO lo és de estos de la ii, que és la que principalmente imita en esta: 

• 

Scilicet exiguae videor quód navita cjrmbs, 
Quodque leves hamos, nodosaque retia tracto 
Despíeis? an pátrio non hoc quoque littore GUucus 
Fecerat? iEquoris Glaucus scrutator aren»? 
Et nunc ille quidem tumidarum numen aquarum. 



544 

No tratando por aora de otras imitaciones dei mismo Sanazzaro, que reservamos 
para las notas, onde se poderan ver, y de las muchas que deste autfaor descobri- 
mos en todas estas rhytnroas : cosa que no se bailará en todas las de Bernardes. 

« Agora passamos a la écloga x, aue en Diego Bernardes és la xm, y és tam- 
bíeii piscatória; y aunaue piscatória la pudo tarobien hazer Bernardes, ya aaeda 
mostrado arriba, que ei Gamões se preciava de imitador de Sanazzaro en ellas,y 
bazia clara demonstracion de agradarle este género de poemas: y esta és imitada 
de la tercera de aquel poeta. 

« Que el Poeta en esta misma esloga dize, que trae aventurada la vida en el 
mar, y en la tierra; y esto no succeaiò a Diego Bernardes, sino a Luis de Camões, 
que anduvo pormucbas tierras, y naveçò muchos mares, siempre con gran ries- 
go, como consta de todas sus obras, y de la publicidad. 

«Que en esta misma egloffa dize a la nympba, aue si está aficionada a pes- 
cador de gentil presencia, y Duen ingenio, etc. en el tfene Io que desea. Y esto 
son cosas de que mi Poeta se precia en estas rbythmas, como en la egloga n. 
Yease tambien la Lusiada, canto ix, onde se representa en Leonardo : y luego 
aqui mismo la dize, que si quiere pescador noble, que tambien el lo és, porque 
deciende de honrados pescadores; y esto no lo podia dizir Bernardes con tanta 
confiança,. como Camões; porque este era cavallero notório, y essotro un esco- 
dero, de cuyos padres non ay noticia. 

• La egloga ii, que en Bernardes és la xv, contiene más razones. Entra An- 
zino diziendo a Limiano, que ya en otro tiempo le viò alegre en el Taio,adoode 
agora le vè triste : y el le responde^ que assi podia ser, porque dei Tajo era, y 
avia andado mucbo tiempo ausente, y buelto alli con deseo de estar entre los 
suyos, V que de ellos se vè de nuevo perseguido : y esto no lo podia dizir Diego 
Bernardes, porque ni era dei Tajo, ni avia andado tierras : y assi esta egloga fue 
eseripta despues que Camões bolviò de la índia a Lisboa; y és suya. 

« En el manuscripto dize Anzino, y no peregrino, como lo dize lo impresso 
de Bernardes: y ay otros nombres mudados, como el de Tityro en Siivano; el 
de Fulgência en Laurencia : y estes nombres serian dei intento de Camões, y mu- 
dados por Bernardes ai suyo. 

« En esta misma egloga ii dize Limiano (que és el aue representa a mi Poeta) 
que experimento quan vanas eran las promessas de los Sefiores : y esto le su- 
cediò a el, y principalmente con Pedro de Barreto, en la forma que se verá, de 
lo que diremos sobre este lugar. Aqui mismo, Limiano, que és el pastor delTaio, 
y representa a mi Poeta ensefia a Anzino, como a estrangero, que no sabia los 
si tios de aquella tierra, uno en que se pueden recoger: luego el Camões és el 
pastor dei Tago^y autor desta egloga, en q quiso b*atar de sus cosas. 

«Que siendo Bernardes natural dei rio Uma, y pudiendo por esto llamarse 
Limiano, no dexára de representarse con este nombre en esta eglosa, si el U 
ubiera èscripto; y se acaso el se representa en ella, és con el nombre de Anzino; 
porque lo que dize Limiano, todo muestra que Limiano representa a Camões, 
porque dize que és dei Tajo, y que anduvo mucbo tiempo fuera, y que fue mal- 
tratado de su pátria, y que bolviò a ella, y que halló engaúos en los bombres, 
y todo esto sucediò puntuaiissimaroente a Luís de Camões. 

« Que aqui mismo, Anzino que és el pastor estrangero habla con Limiano, 
que és natural dei Tajo, como con persona muy conocida; y el ai estrangero le 
pergunta quien és, para saber a quien debe el amor, respeto, y cortezia coá qae 
le habla, y se duele de su mal : y esto era que Camões era mui conocido, y po- 
dia desconocer ai otro, aunque represente ai próprio Bernardes, que era conocido 
de poços: y yá puede ser que no le tratasse, sino despues de venido de la índia. 
Esto en caso que Bernardes se represente aqui en Anzino; lo que yo no creopor 
las razones que se sig;uen. 

« Dize Anzino a Limiano, que fue bailado en la sierra de Ia Estrella exposito; 
y Bernardes que se podia presumir representado en Anzino, era natural de Ponte 
de Lima, y alli vivió siempre; y la historia que Anzino allí cuenta no és verda- 
dera, sino trasladada de la de Abindorraes, y Xarifa, contada por Jorge de Mo&- 
temavor en su Diana. 



345 

« Dize mas Anzino a Limiano, que vá peregrinando pur el Mundo, y que desde 
el Tajo adonde a^ora se halla, ha de ir a Sant-Iago de Galicia : y si Anzino íúera 
Bernardes, vendria a dizir en esto un despropósito; porque Bernardes era natu- 
ral y morador en Ponte de Lima, que és Viila muy cercana a Sant-Iago de Gali- 
cia, y por esso és bien creible, aue no estaria sin aver visitado la Iglesia de 
Sant-Iago : y aqui dize, por noveaad, y como peregrino, la irá a visitar : y assi 
eslo no quedana siendo peregrinacion, sino seria bolverse a su pátria. De todo 
se sigue, que Bernardes no entra en esta egloga, y que GamOes entra en ella di- 
ziendo cosas que son próprias suyas, y de su vida; y assi el la escribió. Y el po- 
dia dizir de si, qiie andava peregrinando, y que determinava ir a visitar la Igle- 
sia de Sant-Iago: y bien puede ser lo biziesse; porque estando ella en Galicia, 
sus majores fueron Gallegos, y allá está el solar de los Gamões : y los ay en Por- 
tugal, q procedicron de Vasco Pires de Gam(]tes, que passo a servir en este reino 
ai Rei D. Fernando, el ano ^e i370. Y deste Cavallero, que fue gran Seúor en 
Portugal desciende mi Poeta, deste modo: de Vasco fue hno Juan: de Juan, que 
tambien fue gran Seíior, fue hijo António: de António lo fue Simon: y de Simon 
lo fue mi Poeta : y puede ser que no tanto por visitar a Sant-Iago tuviesse intSto 
de ir a Galicia, quanto por ver a sus parientes. De todo sacamos en Umpio, que 
assi Anzino, como Limiano, representan en esta egloga ambos a mi Poeta; refi- 
riendo uno unos successos suyos, y otro otros, y que no entra aqui Diego Ber- 
nardes; y por esto, no el, sino CamOes, puede ser el Autbor desta egloga. 

«Que en esta egloga ay muchos versos más en lo impresso por amardes, de 
los que ay en el manuscripto; y assi si ella fuera de Bernardes estu viera en el 
manuscrípto lo que está en lo impresso : mas como ella era de Gamões, y el la 
limo despues, quitandola iuntamente versos escusados, por escusar prolixidad, el 
Bernardes no alcançandola limada, sino los primeros borradores, los puso todos 
assi como los hallò. Otras razones más se ballaran por las notas a esta egloga. 

«Entramos en Ia egloga xii, que entre las de Bernardes és la tercera. En ella 
son interlocutores Alcido, Delio, y Galasio en el manuscripto; y en lo impresso 
está Galicio, por Galasio; aunque esto importa poço. Alcido és el próprio nom- 
bre que Bernardes tomo para si en todas sus Rhythmas, y Delio representa a 
Luís de Camões: y en todas las egiogas de Bernardes nò ay el nombre Delio: y 
ay le en la xiv, que sin duda és de Camões. 

m Que esta egloga xiv, que és sin duda de Camões, és la misma que essotra, 

ãue és tercera en Bernardes, en argumentos, en concetos, en invencion, y en or- 
en; sino que el Camões desagradado dei modo con que la escribiò la primera 
vez, la bolviò a escribir segunda, y Ia mejorò mucbo; y como Bernardes no al- 
canço esta, sino essotra, essotra puy: y claro és, que si bailara la mejor, no 
pusiera la peor, y tambien és claro, que si fueran ambas suyas las pusiera, por- 
que el imprimiò todo lo que avia escripto; y de Camões quedo perdido todo lo 
que eran Rbythmas varias, porque nó imprimiò sino el. Poema neroico. Y que 
sea cierto que estas dós egiogas son una misma, se verá delias próprias. Amnas 
entran tratando dei peligro que traen consigo las riquezas, y la codicia. Ambas 
vienen a ser expressa imitacion de la tercera de Virgílio: y en ambas se ven los 
peosamientos tan unos, que las estancias que en competência cantan los pasto- 
res, conforman en ambas mucho : y las xxiv, y xxv de la xii, que és de que se 
aprovechò Bernardes, son puntualmente las xxi, xxn en la xrv, que és sin duda 
de Camões. Dexo otras mucbas seílales, que por allá se veran en Ias notas. De 
todo se sigue, que quien escribiò la una, escribiò la otra. Y pues queda claro 
que Camões escribiò la xrv, y que esta és la mejor, y que Bernardes no tiene 
esta, sino la primera, siguese que la primera és de quien la. segubda, y que am- 
Ins son de Camões, pues una e otra estan juntas en su manuscripto, no estando 
la segunda, que es mejor en lo impresso por Bernardes. 

« En esta egloga, que en Bernardes és (como yá dixe) la tercera, és Alcido 
uno de los interlocutores; y en ella su nombre el Lima, de donde Alcido (que 
és Bernardes) era natural : y en la dei manuscripto (que como dixe és la misma) 
no ay Alcido por interlocutor, ni se nombra el Lima: y de aqui infiero yo, que 
Luís de Camões quando bizo la de que Bernardes se aprovechò, estava conforme 



V. 



346 

f 

« 

con el, y por esso (en gracia suya) se acordo dei Lima: y despues (discordantes 
por ventura) no le introduxo en ia que bolvio a hazer de nuevo. Y aon paede 
ser que essa discórdia le hizo que hiziesse en ella esta mudança: como sucedió 
a T. Tasso, que haviendo dedicado su Poema de la Liberata ai Príncipe de Par- 
ma, disgustado dei, le hizo de nuevo, y le intitulo Conquistada, dedicandole ai 
Nepote de Clemente YIII. 

« Agora la egloga xiii, que és la ultima de las cinco que hallo en el manos- 
crípto de las obras de Camões, y que en Bernardes és la quarta, y qoe en el 
tiene un soneto dedicatorío, sin el qual se vè en el manuscripto: y éscierto, 
que si el Camões le ubiera dedicado, estu viera alli aquel soneto; y tambien és 
cierto que estuviera con elia, si Bernardes la ubiera escrípto. 

«Aquel soneto dedicatorío és dei próprio estylo que son las^otavas coo que 
Bernardes dedico la egloga xi, que aqui és la ix y ay sobre esto las niismas ra- 
zones que allá dimos, para que la egloga fuesse de Camões, y la dedicatória de 
Bernaraes; que son, ser el estylo de la dedicatória con gran distancia inferior 
ai de la eglojra, deviendo ser ai contrario. Luego siendo próprio de Bernardes 
el estylo humilde, y de Camões el elevado, este hizo esta egloga, y essotro la de- 
dicatória. Quien lo puede negar? La eglop ahi se está para que se vea so es- 
tylo : el soneto dedicatorío pondré yo aqui, para que se vea quan inferior és a 
la egloga. Dize assi : 

As lagrimas de amor, os tristes ais, 

A fé quebrada em parte, onde segura 

Devera mais estar, entre brandura, 

Cruezas descobrir tantas, e tais, 

Aqui vereis, Senhor, se ouvidos dais 
A duas tristes Nympbas sem ventura, 
Conformes em aviso, e formosura, 
iNas mágoas, e nas queixas, inda mais. 

Do Lima se vâo ao Tejo aggravadas: 
A culpa quem a tem, e sempre teve, 
Senáo amor, ingrato a bõos amores? 

Favor por estrangeiras se lhes deve : 
Nâo se vejam também lá desprezadas. 
Como se viram cá de seus Pastores. 

« No avrá quien tenga conocimiento dè estylos, que diga que este soneto és 
de quien és la egloga, por ser ella elevada, y el baxissimo. 

« El soneto dedicatorío dize, que se verá en la esloga dõs pastoras quexosas 
de sus pastores; y en ella no ay más de Ia pastora Pnyllis, quexosa de Corydoo; 
y la pastora Galatéa, muy fuera de quexosa, antes dava causas de quexa a Co- 
rydon, por no hazer caso dei, quando el por ella dexava a Phyllis. 

« Phyllis en esta egloga se compara a la violeta negra, en respeto de Galaiéa, 
por quien se via dexada, diziendo delia, que era blanca: y bien puede ser q esta 
Phyllis fuesse la negra de quien mi Poeta fue amante (como consta de su oda x) 
y que estuviesse quexosa dei, porque la avia dexado por una blanca. 

«De manera, que son treinta las razones que hallamos, para ser de Luis de 
Camões estas egíogas. Las que puede aver en contrario no son mas dedos: nna, 
que se hallan impressas por de Diego Bernardes; y esso se queda facilmente des- 
haziendo con ser cierto que el usurpo algunas cosas a Camões; y quien lo h\u> 
en unas, lo haría en quantas pudiesse : y no imprímiò sus obras sino despues de 
la muerte de Camões. Otra, que en algunos lugares de algunas destas cinco eglo- 
g[as se habla dei Lima, de donde era natural Bernardes: y tampoco estarazon 
uene vigor considerable, porque bien pudo Camões, en gracia de Bernardes, eon 
quien trataria amigablemente algunos dias, hablar dei Lima, y introduzir en sus 
obras a Alcido, q és el nombre de Bernardes en sus Rhythmas. Y ya diximos 



547 

que en la egloga xiv no babla dei Lima, avieado bablado dei en la xn que és la 
que reformo con la xiv. Yease lo que duLÍmos sobre esto, arriba. 

« Aviendo dado fin a las rasones que ten^o oara creer que estas cinco eglogas 
fueroQ usurpadas por Diego Bernardes a Luís oe Camões; quiero dar algunas de 
las que me obligan a creer que ie usurpo otras, aunque no Ias pongo aqui, por 
no bailarias en el roanuscrípto, como bailo las cinco. Sea la primera, que en el 
manoscripto no estan muchos Poemas de que realmente se sabe que son de Ca- 
mões, y assi lo pueden ser estas eglogas, aunque no esten en el : y despues desta, 
digo lo que se sigue. 

« La egloga que está por nrimera en Dieco Bernardes, és a la muerte dei Prín- 
cipe D. Juan, a la aual és la ultima làitad de la egloga primera de Camões; y 
siendo este assunto ae tanta grandeza, parece que en el avia Bernardes ecbar el 
resto; y aquella egloga suya és tan miserable, quanto puede ser, principalmente 
desde que entra en unas lyras, que alternadamente cantsui Franco, y Limiano ; 
de Ias quales la primera estancia és esta : 

Cansados olhos, se des que partistes 

Donde tal perda vistes, 

Nunca fizestes ai, senão cborar : 

Que razão me dareis de não cegar? 

Pois para descansar, 

Vendo, não podeis ver contentamento. 

«Y luego prosigue Limiano, tomando este ultimo verso, para principio de su 
estancia, y dize : 

Vendo não podeis ver contentamento, 
Olhos, que morrer vistes tal Pastor. 
Ah dura estrellal Ah nunca vista dor! 
Ab surdo e cego amor! 
Surdo e cego mais cego em tão grão mágoa. 

« £ assi van tomando estos pastores el uno dei otro los versos últimos, para 
principio de los suyos, con tanta frialdad, como se vè en essas dos estancias; 
que esse era el modo de proceder de Bernardes, como lo puede ver quien qui- 
siere bazer examen de sus escríptos. 

• Luego se sigue la segunda egloga, que és a la própria muerte dei Príncipe 
D. Juan; y empieça deste modo: 

N'bum solitarío valle, fresco, e verde, 

Onde com vea doce, e vagarosa, 

O Vez, no Lima entrado, o nome perde, etc. 

« Y esta egloga és tan differente de essotra en estylo, como és la noche dei dia. 
El Vez, que alli dize, és un rio pequeno, que muere entrando en el Lima, que 
és mayor: y para llorar la muerte dei Príncipe, no era necessarío que quien la 
llorava (antes descuido) acordarse de rios de tan poça fama, estando abi el Tajo 
de tanta, y sobre cuya margen avia fallecido aquel Príncipe natural suyo. Y esto 
és tanto assi, que escríbiendo mi P. la ej^lo^a primera en la índia a la muerte 
de D. António ae Noroiia, y dei próprio Prmcipe, ambos naturales de Lisboa, ba- 
úada dei Tajo, y podendo bablar dei Indo, y dei Ganges, rios famosos de aquella 

Carte dei Mundo, en que escribia la egloga, haze que el theatro delia sea el Tajo. 
' assi yo creo que esta egloga ii cn Bernardes, a la muerte dei Principe, és de 
CamOes, y que alli en lugar dei Lima, estava el Tajo ; y en lugar dei Vez, que 
entra en el Lin», estava alffuno de los que entran en el Tajo: ò que diria el 
Tajo, adonde pierde el nombre entrando en el mar, que és adonde falleciò el 
Principe, porqdé en aquel paraje de Lisboa adonde falleciò el Principe se pierde 
en el mar el Tajo ; y que Bernardes, para bazer suya la egloga, mudo los nom- 
bres de los rios. 



S^8 

«£n esta egloga son interlocatores Tini, y Melibeo, Uoraodo alternadameote 
esta muerte en esUncias de canciones: y ay en ellas cosas tan próprias de Lais 
de Camões, que no puedo tenerlas por de otro ingenio, q más le supiesse imitar: 
y destas qaiero poner aqui solamente una por exemplo, y sea esta .* 

Porque quando deixei 

De ver os verdes olhos, por quem mouro, 

Rosas em viva neve, tranças de ouro, 

Logo me transformou amor esquivo 

Em pedra nâo, nem louro; 

Em fonte de agua pura, e fogo vivo. 

«Ay en estos poços versos vivamente el frequente estylo de Camões: laego 
dos cosas propriamente suyas: una los ojos verdes de que era apassionado, como 
consta d*estas Rhytbmas suyas, y en particular en la egloga vi, est . . . y las re- 

dondillas Otra la transformacion de si en piedra con el próprio termino 

usado dei en su Lusiad. Canto lu, est 142: 

Que o conçSo converte oue tem preso, 
Em pedra nâo, mas em aesejo acceso. 

«Que puntualmente és esto que ahi se queda: 

Logo me transformou amor esquivo 
Em pedra nâo, etc. em fogo vivo. 

« Eji la egloga, que és otava en Bernardes, y empieza. 

Vistes quando abrio boje, ó Melibeo, 

As rosadas janellas o Oriente 

A branca Aurora ao louro amigo seo, etc. 

hablando dei pastor Limiano, dize dei esto : 

Que Pbebo inspirou nelle graça tanta. 

Que lá no seu Parnaso o receoeo, 

De que se alegra o Tejo, antes se espanta. 

« Pues si este pastor Limiano era tan grande Poeta, que le avia admittido por 
tal el Parnaso, y de esto no solamente si alegrava el Tejo, antes se admirava; 
quien avia de ser, sino Luis de Camões natui'al dei Tajo, y adiniracion dei Par- 
naso? Ay en esto algunas cosas dignas de reparo, y son las que se siguen: Ber- 
nardes ni se alabò jamás desta manera, ni se podia alabar : y Luis de Camões ae 
dá a si próprio muchas vezes estas alabanças; y quando Bernardes ll^ra a pre- 
sumir de si tanto^ no se acordara dei Tajo, pues no era natural dei como Camões: 
acordárase dei Lima como natural suyo^ que esse era el que podia hazer caso 
dei. Y por esto el Camões, ai bazer un elogio grande a Virgílio, ai fin dei Canto t 
de su Lusiada, est. 87, dize que el Tibre está sobervio, porque Virgilio cantava 
a sus margenes : però el Mincio, rio a cuya margen avia nascido, mostrava on 
natural aíTecto de oirle cantar, como hijo suyo. Vease Luis de Camões se baae a 
si próprio algunas vezes morador dei Psimaso: esto se verá claro de la esloga ví 

est. 2 de la vi, desde el num En su Lusiada Cant. iii, est. 2 adonde dize que 

se está bafíando en la fuente dei Parnaso. Y és cierto* q avia compuesto un libro 
intitulado el Panuuo de Lmís de Camões, el qual se pei^diò en mis próprias ma- 
nos, por la razon que luego dirè. Siendo pues tan própria de Luis de CamiSes 
esta alabança, dada por si a si mísmo, y siendo cierto que Bernaities no le alabò 
en algun Poema suyo, alabando en ellos a aquellos Poetas de su esfera, que vi- 
vian quando el, siguese que esta egloga no es suya, sino de mi P., que se ala- 



549 

bava a si próprio en ella, de la suerte que lo hizo en tantos lugares de sus Rhy- 
thmas, coroo a cada passo se encuentra. En esta misma egloga ay esto : 

Quando o formoso sol appareceo 
Esta fresca manhSa fora do Gange, etc. 

« Y realmente este modo de haj[)lar és mas próprio de quien estava en Ia tierra 
por onde corre el rio Ganges, que és la Inuia, ò la Ásia : y allá estuvo mi P., 
y nunca penso estar allá Bernardes. 

« En Ia egloga, que és xvii en Bernardes, ay esto : 

Inda naquelle tempo tu não eras 
Tão coberto de barbas, mas de força 
A ninguém lá, nem cá vantagem deras. 

« Y esto no lo podia dizir de si Bernardes : y dixolo de si mi Poeta algunas 
vezes. Egloga ii, num. 35 : 

A barba então nas faces me apontava : 
Na luta, no correr, em qualquer manha. 
Sempre a palma entre todos alcançava. 

«Y en estos três versos está el tiempo en que mi Poeta era aun de poça barba, 
y de mas fuerça que todos; que és lo que contienen èssotros três arriba copiados. 
Semejantes razones pudiera traer para mostrar, que de las veinte eglogas, que 
andan impressas por de Bernardes, solaroente parecen suyas la ii, la xii, la xvi, 
Y la xvn. Quien leyere estas con attencion, verá la differencia que ay delias a 
ias otras. 

« Finalmente en aquellas eglogas que Bernardes impriroiò por suyas, y que 
yo tengo por de CamGes, ay tantas cosas que observar, que lo dexo por largo : 
y tambien porque ni essas eglogas, ni las cinco, que solamente aqui pongo por 
bailarias en el manuscripto, que casi todo és de Poemas suyos, le pueoen adqui- 
rir inayor fama, que la adquirida por lo impresso. Y quien sobre todos estes 
fundamentos tuviere para si que yo me engailo en este juizio, tenga en hora 
buena por de Diego Bernardes todo lo que yo tengo por de Luis de Camões : y 
no quiera mudarme de mi parecer, pues yo no le vedo el suyo. 

« Ni és solo Diego Bernardes el que yo creo se aprovechò de las obras de mi 
Poeta, viendolas andar perdidas por su muerte. Ahi arriba acabe de dizir, que 
en mis manos se avia perdido una, y és deste modo: Mi Abuelo Estacio de Fa- 
ria concorriò con Luis de Gamões en tiempo, y fue su amigo en Lisboa, despues 
qpie el vino de la' índia. O yá porque poço antes de la enfermedad de que muriò, 
k ubiesse fiado aquel libro q compuso, intitulado Parnaso de Luis de Camões; ò 
yá porque despues desso le veniesse a las manos, entre las cosas que dei, por su 
muerte, qnedaron a mi madre, avia algunos papeies y libros, y entre ellos un ma- 
nuscripto de prosas y versos; obra que yo tuve por de mi Abuelo, por aver el 
sido de grande ingenio; hasta que en una de las Décadas de Diego de Couto hallé 
escripto, que Camões avia hecho aquel iibro, y que haziendo el mismo Couto en 
Lisboa mucha diligencia, despues de fallecido el Camões, por alcançarle, no le 
avia sido possible. Desde entonces tuve para mi que este libro (no era grande en 
tomo) era aquel, porque acordandome aun de algunas clausulas, bailava en ellas 
el alíento de Luis de Camões. Al tiempo que empece a estudiar, que fue por los 
afios de i600, y los onze de mi edad, me cogió este libro un moço, que luego se 
íae a estudiar en Coimbra, aonde entonces florecia Francisco Rodrigues Lobo, 
que entonces publico su libro intitulado Primavera, que consta de prosas y ver- 
sos, V siempre me pareciò que en el avia algunas cosas de las que estavan en 
aquel libro. Mas Dorq yo no vi este de Lobo luego quando saliò, tiempo en que 
de easotro teria algo en la memoria, sino mucho despues, quando ya no la tenia 
dei, no pude assegnrarme bien: però imagino que unas otavas, que alli tiene 



550 

Lobo, luego ai principio, a que Uama la historia de Sileno, estavan eii aquel li- 
bro; y tambien unas coplillas, que estan antes delia; y tambien una cancion. que 
se vè a Ia entrada de la Floresta sexta. Las otavas empieçan assi : 

Sileno sou, que em fonte convertido, 
Vou regando a verdura deste prado : 
Nas ribeiras do Lena fui nascido, 
E nas do Lis guardava manso gado : 
Amor, de quem vivi mais esquecido. 
Com transformar-me assi ficou vingado : 
Que foi para este mal, que me condena, 

Homicida na culpa, algoz da pena. 

* 

« Dos cosas ay en esta primera estancia, de aquellas que son 22, mui pró- 
prias de Camões: una és dizir, que viviendo libre de amor, fue preso dei en gran 
manera; y esto dize de si con ffran ponderacion algunas vezes mi P., como se 
puede ver en algunos sonetos de los suyos; y en la est. 2 de la Cancion vii, y 
tambien en la egloga ii. Otra lo que dize en estos dos últimos versos, qae total- 
mente és lo que mi Poeta dize de si, en otros dos, con que fenece la est. 2 de b 
Cancion ii, assi : 

Saibam que o mesmo amçr, q me condena 

Me fez cahir na culpa, e mais na pena. 

« Las coplillas empieçan assi : 

r 

Quem poz seu cuidado 
Em Pastora loura. 
Nem veja a Lavoura, 
Nem sirva o arado, etc. 

tt Y aunque ellas no sean cosa grande, porque esta suerte de composidon no 
dá mucho oe si, no dexan de tener lances parecidos a los de Camões. La caneioa 
empieça : 

Qual o cervo ferido 

Da venenosa setta atormentado. 

Ligeiro corre o monte, e a espessura, etc. 

« Y aunque el Lobo en sus escriptos tiene algunas cauciones, ninguna iguala 
a esÉa. Las três primeras estancias conlienen três comparaciones : ia primera dei 
ciervo; la segunda de la mariposa; la tercera de un nifio; y estas son próprias 
de mi Poeta. És la cancion ai assunto de ser vencido de la hermosura de una 
dama, vista en el campo : y a este mismo és la cancion vii de mi Poeta. Fenece 
una estancia desta cancion de Lobo con esto : 

Se se foi tão asinha 

Por levar como roubo huma alma alhea, 

E de furtos se arrea; 

Ah não ma restitua. 

Que eu confessarei logo, que era sua. 

*Y además de ser este estylo tan próprio de mi P., és suvo esse pensamiento, 
de que aunque la amada le robô la alma, no quiere pedirsela : en la egloga vra. 

Dar-te-hei minha alma : lá ma tées roubada. 
Náo te condemnarei, etc. 

• Contjene la estancia sesuinte, que fue sueíío aquella vista : y destos sueúos 
de ver a su querida ay muchos en mi P. Alfin pudiera hazcr en los escriptos de 



55 ^ 

Lobo muchas observaciones destas; però dexolas, porque en unos niismos pensa- 
mientos pueden concorri r los Poetas sin verse, y porque no me asseguro: però 
asseou rouie, que en todas las obras de Lobo no ay poemas que igualen a esta 
caocion, v a aquellas otavas; y que en ella, y en eilas, ay mucho de los modos 
de dizir ae mi Poeta. Y de burtos baste esto.» 

Até aoui Thomás José de Aquino e Faria e Sousa ; vejamos agora o que nos 
diz José Maria da Costa e Silva no seu Ensaio Biographico^ritico sobre os melho- 
res poetas portuguezes, 

« Diogo Bernardes passou sempre por um dos nossos melhores poetas bucó- 
licos, mas a sua reputação soffreu muito por um facto, que eu desejaria bem 
poder oroittir. Manuel de Faria e Sousa, nos seus commentarios ás rimas de Luiz 
de CamCes, accusou Bernardes nada menos, que de baver roubado ao cantor dos 
Lusíadas as eglogas que no Lima téem os números iii, iv, xi, xiii e xv, e o poema 
de Santa Úrsula, dando estes seis poemas como ^eus, fazendo-lhe alguns acres- 
centamentos e pequenas mudanças. 

«Uma accusaçâo t&o grave, e vergonhosa para um auctor conhecido e esti- 
mado, não podia admittir-se sem provas, e Manuel de Faria, que não ignorava 
isso, não se descuidou de apoiar a sua asserção com grande apparato de rasôes 
e de raciocinios, que pela maior parte não admittem duvida nem rontradicçâo 
rasoavel. Se as eglogas de que se trata estivessem nas Rymas Varias, ou em qual- 

âuer dos outros volumes publicados depois da morte do auctor, assim como a 
anta Úrsula, ainda a culpa de plagiato podia ser imputada á ignorância, negli- 
gencia, ou má fé dos editores, pois não é cousa nova, o admittirem estes obras 
alheias nas collecçdes posthumas dos escriptores que dão á luz; mas desgraça- 
damente para Bernardes as cinco eglogas estão no Lima que elle publicou no 
ultimo anno da sua vida; e se não foi elle o editor, teve conhecimento da edi- 
ção, pois o teve seu irmão Frei Agostinho da Cruz, .que falia do Lima, no so- 
neto XXVI, em que dirigindo-se aonPoeta diz: 

O Povo cujo aplauso recebeste 
Vendo teo brando Lima dedicado 
A Príncipe, Real, claro excellente, 

A citação não admitte duvida, pois o Lima dedicado 

A Príncipe, Real, claro excellente 

nSo p6de entender-se pelo rio Lima, mas sim pelo livro que se imprimio em Lis- 
boa em 1596, dedicado ao duque de Aveiro D. Álvaro de Alencastro; e como po- 
dia Bernardes, vivendo em Lisboa, ignorar o que era sabido do pobre capucni- 
nho, que fazia vida eremitica na solidão da serra da Arrábida? £ não é ae toda 
a probabilidade, que Bernardes, que muitas vezes o visitava, fosse o próprio que 
communicasse aquelle livro a seu irmão, que de certo se não occuparia em man- 
dar a Lisboa comprar livros de poesia? 

« O que custa a entender é : I .^ que um poeta tão rico de seu próprio fundo, 
cahisse na leviandade de se attribuir obras alheias, e obras de um contemporâ- 
neo, sern receiar que tarde ou cedo fosse descoberta a fraude; 2.<^, aue as poesias 
de Luiz de CamOes fossem tão pouco conhecidas, que havendo-lne Bernardes 
usurpado cinco eglogas, e a Santa Úrsula, ninguém desse por isso desde 1594 até 
168o em que Manuel de Faria e Sousa publicou o» seus commentarios ás rimas 
de Luiz de Camões. 

a Seia como for, a opinião de Faria e Sousa ten) sido adoptada por quasi to- 
dos os bons entendedores, e especialmente pelo padre Thomás de Aquino, e por 
José Victorino Barreto Feio, os dois melhores editores de Camões; e eu não posso 
deixar de seguir o mesmo parecer, porque tendo examinado, e confrontado aquellas 
eglogas com as de Bernardes com toda a attenção que em mim cabe, fiquei ple- 
namente convencido de que o tom de composição, o colorido poético, o estylo, 
a linguagem d^aquelles poemas se afastam tanto da maneira habitual de Bemar- 



352 

des quanto se approximam ao modo de compor de Camões; e para me decidir 
hastava a versiiicaçflo, cujo apuro e harmonia não permitte attribui-Ia nem a 
Bernardes, nem a qualquer outro escriptor contemporâneo, excepto Camões. Junto 
a isto, que tudo o que n*estas eglogas foi acrescentado por Bernardes como a 
dedicatória da egloga xi, é muito inferior pelo estylo, pensamentos e metro ao 
resto da obra, a que foi acrescentado. 

« É evidente que doesta fraude comprovada, resulta um preconceito muito des- 
favorável contra Bernardes; peias obras d'este, as de Ferreira, Sá de Miranda, e 
Caminha, nos consta que n'aquelle século floresceram muitos outros poetas muito 
estimados e admirados, como António de Castilho, Francisco de Sá de Menezes, 
sem ser o auctor da Malaca, D. Joáo de Castello Branco, Luiz de Alcáçova Car- 
neiro, e outros de que chegaram a nós os nomes, e nSo as obras; e quem nos 
afiança, que algumas d'estas náo foram usurpadas por Bernardes, e se leiam en- 
tre as suas? Respeita-las-ia elle mais do que as de Camões? Isto não é uma af- 
firmativa que eu f^ço, pôde ser que assim náo succedesse. e eu o desejo muito 
por honra dò cantor do Lima, mas a suspeita seria legitima,' á vista do que se 
acaba de expor; mas deixemos já estas misérias da fraqueza humana, e digamos 
alguma cousa acerca das epistolas de Diogo Bernardes.» 

Audi alteram partem: — «As rasões que allega Manuel de Faria e Sousa (diz o 
Morgado de Matheus) para attribuir as sete eglogas, impressas nas obras de Ber- 
nardes, a Luiz de Camões náo me convencem. Á excepção da piscatória intitu- 
lada Lilia, cuja poesia mais se approxima da maneira de Camões, as outras pa- 
recem-me de Bernardes, que nSo merece ser tratado com tanto desprezo por Ma- 
nuel de Faria, o qual supposto ter feito milhões de versos, não deixou um só que 
se conserve na memoria, em quanto o poeta do Lima nos deixou muitos que re- 
tém os amantes da poesia. Camões era assas rico para excusar ou deixar este pe- 
queno despojo a Diogo Bernardes.» 

« Não é possível (assim se expressa o sr. bispo de Viseu) dar juizo sobre as 
eglogas de Camões som tocar primeiro a questão, que acerca do seu numero tem 
feito mover a critica zelosa, ou o capricho de Manuel de Faria e Sousa. Este eru- 
dito attribue ao nosso Poeta, alem das oito em que concordam todos, outras sete, 
onde entram, cinco que andam impressas no Lima de Diogo Bernardes, como 
obras d'este ultimo. Se Diogo Bernardes teve o pouco primor de se arrogar os 
bens que pertenciam a outrenâ, rasão é que lhe sejam tirados, e restituídos ao 
seu legitimo auctor. Mas por isso que o crime é muito grave pede a justiça que 
diga com a sua gravidade o peso e clareza das provas; para so não correr o 
risco de referir a um, com erro torpe, o que de bom direito toca ao outro (|ue 
o possue. E quaes são as provas allegadas por Faria e Sousa n^esta causa im- 

Çortante de dar ou tirar a seu dono o que na verdade lhe pertence? O padre 
homás de Aquino, na edição que das obras do nosso Poeta fez em Lisboa em 
1779 e i780, nos offerece como extrahidos de um manuscrípto que se conserva 
na livraria da Graça da dita cidade, os argumentos de Faria e Sousa; e pelas suas 
mesmas palavras, segundo o que elle muito de sizo attesta, e eu não tenho du- 
vida de acreditar. Uma e outra vez, e com bastante attenção, como convinha, li 
estes argumentos, e considerei a força verdadeira de cada um e de todos juntos. 
O mais forçoso d'elles seria, sem duvida, o da identidade de estylo entre as eglo- 
gas de que se controverte e as oito de Camões. Este argumento bem sei que nSo 
é ainda de força absoluta irresistível; porque alguns escriptores imitam muito fe- 
lizmente o estylo alheio, como certos pintores arremedam com grande similhança 
as obras dos illustres mestres. É comtudo o mais valente entre os propostos por 
Faria e Sousa n'este caso : e se a identidade podesse afiirmar-se com arrazrâdo 
fundamento, ficaria até certo ponto vacillante o direito de Beiíiardes. Mas ou eu 
me engano muito, ou o estylo das eglogas, de que 6e move questão, é todo pare- 
cido com o de Bernardes, e bastantemente diverso da usual maneira de Camões i. 

1 A minha opiniílo nesta maleria é ao justo contradictoria de Faria e Soosa. Esle dit qae «pan 
qnien conoce de estilos, és cosa clara que son de Luís de Gamões: y esta rason sola hastava, quando 
no nviesse mas». Eo digo acima o oppoftto inteiramente. leitor que tiver essa curiosidade, fofa por 
si a comparação e determine-se. 



/^ 



555 

Na substancia tem uma ternura profunda e doce, uma propriedade pastoril ou 
piscatória, certa siweleza accomraodada ao género, que diz muito e tudo com as 
outras producções de Bernardes, e que debalde se irão procurar nas eglogas que 
sâo indubitavelmente de Camões; e no verso tem pela maior parte um cortado 
de bemistichio i, uma cadencia singularmente numerosa e branda, que Camões 
pelo commum não emprega na sua versificação, e que é proeminente distinctivo 
de Bernardes; d' onde lhe procedeu em todo o tempo o gera| conceito, e até o 
appellido de suave. Não digo que Camões não é nos seus versos bem numeroso e 
cadenciado; quero somente dizer que o é ao seu modo, e não ao de Bernardes; 
e que o numero e cadencia das cinco eslogas procedem mais de accordo com os 
do ultimo, do gue com os de Camões. Não achando pois n'este argumento a pre- 
tendida efficacia, e tendo cada um dos outros ainda menos; nem cada um por si, 
nem aggregados me parecem capazes de mover um bom entendimento a favor da 
opinião de Faria e Sousa; e d'aqui concluo que a justiça não pôde, em virtude 
dos seus allegados, desapossar o immemorial possuidor. Tambçm me custa a com- 
prehender como cinco eglogas de um poeta tão conhecido, e composições n'este 
género de tanta valia, de tal modo se perdessem de vista, que podesse a salvo 
occupa-las Diogo Bernardes, maiormente indicando tanto a similbança de estylo, 
como suppõe Faria e Sousa, o seu verdadeiro auctor, e em um tempo, cm que 
pessoa tão curiosa como entendida, se empenhava com diligencia em colligir as 

Êoesias de Camões; porque a edição da primeira parte das Rimas por Fernando 
kodri^es Lobo Surrupita appareceu em 1595, e appareceu logo no seguinte a 
primeira edição do Lima de Bernardes. Mais de rasão me parece, por todos estes 
motivos, ter a opinião de Faria e Sousa por eifeito mero aos seus prejuízos, que 
tiraram de um manuscripto de duvidoso credito, não as illações mais naturaes, 
porém as que lhe eram mais agradáveis. Faria e Sousa não foi affeiçoado a Ber- 
nardes; trata-o em muitos logares, ou em toda a parte, com injustiça manifesta; 
no seu conceito, muitas vezes declarado, não passa de um versejador ou poe- 
tastro, que nos voos mais remontados, não sobe aiem do grau de mediano K Os 
homens de roais seguro entendimento não foram n'isto do seu parecer, antes ti- 
veram sempre o censor por poetastro, e o censurado por bom poeta; porém este 
juizo dos avisados não era próprio para diminuir as desaffeições de Faria e Sousa, 
e mais próprio era o contrario para as augmentar; e eu convirei facilmente em 
que ajudou a critica de Faria e Sousa a descobrir no seu manuscripto boas pro- 
vas da usurpação de Bernardes, e nas eglogas o estylo mesmissimo de Camões. « 
Taes são os argumentos pro e contra que se apresentam n*esta contestação 
litteraria : esperando que me não seja taxado de temeridade emittir voto, depois 
de t2o eruditos escríptores, direi comtudo desassombrado de toda a paixão, e com 
imparcialidade, o que sinto sobre este assumpto. Não soutle opinião que todas 
estas eglogas fossem usurpadas a Camões, especialmente a xi, xn e xiii, que são 
no Lima de Bernardes as ui, iv e xv, não só porque me parecem ser es criptas 
no próprio estylo do poeta do Lima, mas porque n^ellas ha referencias inteira- 
mente estranhas a Camões, e que só dizem respeito áquelle poeta, e ao seu de- 
cantado Lima, o que se manifesta mais ás claras na egloga xi em que figura uma 
certa Ulina; e de nenhuma força ou antes contraproducente acho o reparo de 
Faria e Sousa, em que nota que sendo Bernardes natural e morador de Ponte 
de Lima, villa não mui distante de S. Thiago de Galliza, diga que iria em peri- 
grinação á igreja do santo, onde é natural que tivesse ido, em rasão da yisi- 
nhança, como se isto fosse uma forçosa necessidade; bem pelo contrario me pa- 
rece que este projecto de romaria era próprio de quem tinha pessoa consangui- 
nea na extrema dos dois reinos, como sabemos que acontecia a Bernardes, cojo 

i A wxU syllaba do verso porlngnez de onze, tem proeminência, e com ella o reparte maito agra- 
davdiDetite. Esto repartição, a que chamo cortado de hemittickio, nâo falta em Gamões, mas ordinaria- 
mente é maito mais sensível nos versos de Bernardes. * 

< Avia entonces en el Reyno aliiunos llamados poetas, y entre ellos contovan a Diogo Bernardes 
que propríamoite era uo versiftcador pooo limado, aanqne suave en Io que escrevia de estilo humilde. 
totAunente ageno de la grandeza hcroyca. ... El Cardinal D. Enrigue tio de! Rej, que como era incli- 
nado a in^enios triviales, nunca favorecio a Luís de Camões, avíendo favorecido murho a Franciaco 
de Sa y Miranda, mni seroejante ai Bernardes. Fana e Sousa, Segtmda vida, % 37. 

TOMO ii| V 2.3 



554 

sobrinho era parocho na igreja de MonçSo, aqueUe JoSo Pimenta a quem dirige 
a carta xxxnr. l 

Por todos estes fundamentos sou de uma opinião contraria á de Faria e Sousa 
e d'aquelles que o seguiram relativamente ás três egiogas citadas; porém con- 
fesso que o meu animo vacilla muito emquanto ás outras duas, a ix e a x, oue 
entre as de Bernardes sSo a ix e a xur, náo só porque a scena é differente oas 
do poeta do Lima, isto é, se passa junta ao mar, mas porque me parece o estylo 
mais elevado e approximado com o de Camões, e encontro referencias apropria- 
das ao nosso Épico, como allusões ao desterro da pátria e vida aventurosa c^w 
sabemos que elle teve, e embora Faria e Sousa assevere que o estylo da dedica- 
tória que acompanha a egloga ix na collecçâo das que temos impressas tirada de 
Bernardes, onde é a xi, e que o commentador, bem como Thomás de Aquino náo 
juntaram á mesma egloga, por a ter achado o mesmo Faria em logar differente 
do manuscripto onde vinham, nâo é de Camões, por achar pouca elevação nesta 
poesia, a miro me parece pelo contrario enxergar n'eUa a phraseologia e estylo 
próprio de Camões, resentindo-se comtudo d'aquella frouxidão que necessaria- 
mente comportam assumptos tão estéreis como estas dedicatórias. 

Este juízo porém relativo a Bernardes eu não o faria, ae, como já adverti em 
outra parte d'e$te trabalho, não tivesse a certeza, e pela própria boca do mesmo 

Soeta, que algumas das suas poesias andavam em nome de outro, isto é, havia 
uvida de propriedade entre outros poetas, como nas oitavas a Santa Úrsula es- 
criptas em vioa de Camões e Bernardes, pois de lhe terem sido usurpadas se 
queixa na dedicatória á infanta D. Maria, fallecida em vida dos dois poetas, no 
anno de i578, quando seu sobrinho, o malfadado rei D. Sebastião, regressava da 
sua primeira expedição da Africa. Acresce também, como já adverti, a coinci- 
dência da glosa de algumas d'estas poesias de origem duvidosa, por poetas con- 
temporâneos, feitas sobre as lições com que foram publicadas pelos editores das 
poesias de Camões. Não posso descobrir a causa doestes factos, ás vezes de pouca 
entidade, a não ser que certos poemetos tivessem grande voga na alta sociedade, 
nos círculos de damas, ou mesmo nos saraus do paço onde fossem laureados. 

Ainda na minha mocidade estou certo que encontraria poeta que tivesse alento 
para a epopéa, que dispensasse a fama que Ihe^resultasse do complemento de tão 
árdua composição, a troco de uma charada que se reproduzisse de boca a boca 
de damas delicadas, ou da letra feliz para uma modinha. 



EGLOGA X 



Interlocutores: — Umbrano, Fronddio e Aonia. 

Esta egloga era, coma já vimos, a favorita do seu auctor; e na verdade pela 
limpeza de estylo e pela expressão dos aílectos é uma maravilhosa poesia. Com- 
tudo José Maria da Costa e Silva, no seu Ensaio Biographico soore os poetes 
p&rtugwzes, discorda da opinião de Camões, dando a preferencia á vi, que não é 
menos beJla, e alguns notam o implexo do assumpto, parecendo que por este 
motivo forma dois poemas, pois chora n'ella as duas mortes, a do. seu amigo o 
joven D. António de Noronha, e a do príncipe D. João, pae d'el-rei D. Sebastião. 
O mesmo Faria e Sousa, seu commentador e tão seu enthusiasta, não absolve o 
Poeta por ter emparelhado pessoas tão desiguaes, porque no se iqualan en assim- 
t<is príncipes e vassallos. Mas, como são as cousas, como são dífferentes as apre- 
ciações! n'isto lhe acho eu a principal belleza, e uma perfeita unidade de assum- 
pto. O Poeta teve em vista fazer sonresair o seu pezar pela morte tão desastrada 
de um intimo amigo, emparelhando juntamente as duas catastrophes, e fazendo 
sobresair a dor que lhe causava a do amif^o, á que experimentava pela do prín- 
cipe, que era nem mais nem menos o primogénito do reinante; temos estricta 
obrigação como cidadãos de acatar os príncipes, mas não téem estes mais impe- 



355 

rio no coração dos seus súbditos do que aquelles que o conquistam pelas suas vir- 
tudes, n'isto trocam-se as posições; o coração é que impera e os reis são os pre- 
tendentes, 08 aduladores ; e o peior é que os reis muitas vezes não conhecem esta 
theoria. De mais havia entre os dois mancebos uma certa analogia para aqui os 
emparelhar; no celebre torneio de Xabregas, onde o príncipe havia tomado as 
primeiras armas, havia sido o seu justador o joven D. António, e agora a ambos 
ao mesmo tempo arrebatava a morte na aurora da vida; esta simiihança no pri- 
meiro acto de hombridade e na morte antecipada dava um certo jus ao dupli- 
cado lamento de duas mortes occorridas na mesma epocha. 

Abre a egloga com uma pintura do estado de tristeza em que se achava a corte, 
que outr'ora conhecera tão festiva, por estas duas mortes. Discorrem os dois 
pastores, Umbrano e Frondelio, sobre a insolência com que os mouros affronta- 
vam as nossas armas, e conta o pastor Frondelio a desastrada morte de D. Antó- 
nio de Noronha. No primeiro volume dissemos quem era este D. António» e tran- 
screvemos o honroso epitaphio que conjunctamente com a ossada dos outros seus 
irmãos, todos mortos no campo de batalha, cobria os seus ossos. Na presente 
egloga relata com as mais patneticas expressões esta morte, e os motivos que o 
levaram á Africa onde pereceu, que foi desejar o pae desvia-lo de certos amores 
com D. Margarida da Silva, filha de D. Garcia de Almeida é neta de D. João de 
Almeida, segundo conde de Abrantes, a aual depois da morte de D. António casou 
com D. João da Silva, herdeiro da casa ae Portalegre. 

A segunda parte d'esta poesia é dedicada, como já dissemos, a chorar a morte 
do príncipe D. João, casado com a princeza D. Joanna, filha de Carlos V : havia 
o príncipe fallecido poucos dias antes do nascimento de seu filho o malaventu- 
rado D. Sebastião, e a sua morte havia enchido de luto a corte; a princeza, que 
era de um génio um pouco arrebatado, não accompanhou a educação do filho, e 
deixando-o ainda nas fachas infantis, se retirou para Madrid onde fundou um con- 
vento, e junto a elle uma casa da miserícordia, única cousa, diz Faria e Sousa, 
que lhe deve Portugal, porque a fez á imitação da que viu em Portugal, inven- 
tor d'este insigne orneio de piedade. Os mesmos pastores, Umbrano e Frondelio, 
indo já em retirada, ouvem uma toada ao longe, e subindo a uma arvore d'ena 
enxergam um grupo de nymphas a que preside uma que representa debaixo do 
nome Aonia, que é o anagramma da princeza D. Joanna, e as quaes cercam um 
tumulo, sobre o qual derramam flores, orvalham com lagrimas, entoam hymnos 
e fazem subir odoríferos aromas; a nyiiipha que preside termina esta cqmposição 
poética com uma elegia na lingua castelhana. O quadro é mui gracioso, e tanto 
que, a meu ver, nada perdia em ser passado á tela. N'esta egloga já Camões Ua 
ao príncipe aquelle falso vaticinio que depois repete nos seus Lmiadas, isto é, 
que estava destinado para derrubar o poder mauritano; fa-lo ainda no borco, e 
n'esta parte podemos absolver o mestre que carregou com a culpa de todos, e 
d'aq[ui vimos que já com o leite lhe davam a beber este grandioso pensamento, 
CQJa má e imprudente execução só temos a lamentar. A vida de D. Sebastião, es- 
cnpta com a imparcialidade necessária, parece-me que está ainda por fazer. 

Encerra esta egloga bellezas de primeira ordem; é maravilhosa a oitava com 
que Umbrano responde a Frondelio, que manifestava receios que os mouros se 
apoderassem das nossas praças da Afríca : 

Em quanto do seguro azambujeiro 

Nos pastores de Luso houver cajados, "^ 

Com o valor antiguo, que'primeiro 

Os fez no mundo tão assinalados. 

Não temas tu, Frondelio companheiro, 

Qu'em algum tempo sejão sobjugados. 

Nem que a cerviz indómita obedeça 

A outro jugo qualquer que se lhe ofiTreça. 

Não omittirei aqui a anedocta que deu logar a estes versos tão enérgicos do 
nosso Poeta. Quando el-rei D. João I ganhou aos mouros a cidade de Ceuta, que 



556 

foi no anno de Í415, quiz deixar capitão para a defender. Posto o negocio em 
conselho, escusavam-se os fidalgos allegando diíferentes motivos; e chegando a 
noticia d'isto a D. Pedro de Menezes, filho de João AíTonso Teílo de Menezes, pri- 
meiro conde de Vianna, oue andava jogando a choca, acertou qae o cajado com 
que jogava era de azamougeiro, e largando o jogo, com aqoelie mesmo veia 
onde estava el-rei, e alcançando-o, galhardamente lhe disse : « Com este só me 
atrevo a defender esta praça contra todo o poder da Africa.» Gomes Eannes de 
Azurara na chronica do conde D. Pedro nSo conta este caso táo especificada- 
mente, mas diz : « Mettendo-lhe (o rei) logo um pau na mão dizendo : « Que o to- 
masse em hora, que lhe desse Deus muita honra com victoria dos infiéis >. 

Felizes tempos em que o espirito de cavai! eiró estava tSo incarnado entre os 
portuguezes. Esta epocha de D.João I é um lindo poema histórico. 

Umbrano convida Frondelio a que chore aquelle desastrado caso; e a pintara 

ãue faz da tristeza da natureza que afina o sentimento com as magoadas vozes 
e Frondelio, é hella. Frondelio rompe abruptamente revelando os agouros aae 
Srecederam tão triste caso, e nos mais tristes versos narra o acontecimento. &&> 
e uma belleza inimitável os versos em que pinta a prematura morte do mance- 
bo; nunca a morte foi appelidada com epithetos mais convenientes: 

A noite sempiterna, 

Que tu tão cedo viste 

Cruel, acerba e triste. 

Sequer de tua idade não te dera 

Que lograras a fresca' primavera? 

Os seguintes versos em que Frondelio, o Poeta personificado no pastor, ex- 
prime a tristeza que experimenta pela morte do amigo, são mais expressivos: 

A frauta que soia 

Mover as altas arvores tangendo. 

Se me vai de tristeza enrouquecendo ; 

Que tudo vejo triste neste monte : 

E tu também correndo 

Manas envolta e triste, ó clara fonte. 

Como enrouquece o verso I diríamos que se destemperam os clarins one acom- 
panham o guerreiro á ultima mansão dos jnortos onde se quebram ttoas as es- 
padas. Que lúgubre e melancholica cadencia téem especialmente os dois últimos 
Versos I 

A pintura do estado apaixonado de D. António, o empallidecer do rosto, o 
quebrantamento do corpo, o embrenhar-se pelas espessuras, fallar aos penedos, 
recusar o trato dos amigos, dava claros indicios da paixão que o dominava, e 
é tudo descripto pelo Poeta com aquella verdade de quem expierimentou os mes- 
mos eíTeitos amorosos. 

É vivo e expressivo o quadro de D. António montado no fogoso cavailo, 
anhelando por derrubar aos seus pés os mouros. O Poeta, que conhecia pessoal- 
mente aquelle galhardo mancebo de animo tão marcial, representa estar ven- 
do-o n'aqueila actitude guerreira : 



Parece-me, Tibnio, que te vejo. 
Por tingires a lança cobiçoso 
Naquelle infido sangue Mauritano, 
No Hispânico ginete bellicoso. 
Que ardendo também vinha no desejo 
De atropellar por terra ao Tingítano. 



Que o estatuário copie, e tereis um grupo que faria honra a Canova, Thor- 
waldsen ou Pradier. 



• 557 

Representa-o qual o mancebo Earyalo, cercado de inimigos e vendendo cara 
a vida; como flor a quem a terra nega o mantimento 

O collo inclina languido e cansado. % 

Este verso é de muita belleza. Não se conforma porém Faria e Sousa que o 
Poeta descreva um mancebo com as cores com que se pinta uma dama, posto- 
que elle tivesse por guia outros engenhos maiores que elle commentador. Se 
attendermos a que D. António era um mancebo a quem devia apenas apontar a 
barba, e que roais de uma vez se diz proverbialniente era una florj para desi- 
gnar as qualidades de perfeição physicas ou moraes de um mancebo, acharemos 
ociosa a observação do commentador. 

O infeliz e apaixonado mancebo, juntamente com a alma solta da congelada 
bdca o nome da sua Maríida, que elle tanto amou, por quem se deu aos exerci- 
dos bellicosos de Marte, e que agora ingrata tem posto o pensamento n'outra 
parte e não a obriga a pranto sempiterno a morte aura do amante. Tanta ingra- 
tidão por parte da dama para com o seu amigo, o revolta; exprobra-a e lança 
uma epiphonema contra a inconstância feminina: 

Que emfim, emílm, desfarte 

Se muda o feminino pensamento. 

Termina esta primeira parte da egtoga convidando os pastores a edificar ao 
amigo um tumulo adornado de flores, onde se grave um epitaphio que dô teste- 
munho 

Do mais gentil Esprito 

Que tirarão do mundo Amor e Marte. 

A segunda parte da egloga não é tão affectuosa como aquella em que deplora 
a morte do amigo; porém termina com uma elegia na lingua castelhana, em que 
a princeza D. Joanna, mulher do príncipe fallecido, pranteia a morte do marido, 
e é esta poesia cheia de sentimento e ternura. 

A esta egloga se refere, alem do próprio Poeta, o seu amigo, poeta e cama- 
rada Fernão Alvares do Oriente n'estes versos: 



D'esta mudança de que já cantarão 
F rondei io lá no Tejo, e Umbrano outr'ora, 
Quando do seu Tionio celebrarão 
Exéquias que inda entoa o Echo agora. 

£ glosando a estancia que começa: 

Toda alegria grande e suntuosa, etc. 

Na egloga ii do livro i da sua Lusitânia Transformada : no MS. de Luiz Franco 
vem com o titulo de egloga funérea. 

Que grande variedade vão fazendo. 
Que grandes variedades vão fazendo. 

MS. de Loii Franco. 
Tão differentes são na qualidade. 
Tão differentes vem na qualidade. 

MS. de Loii Franco. 



358 ■ 

Adoifiados andar vi os pastores. 
Vi andar adornados os pastores. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Lais Franeo. 
De quanto por o mundo se deseja. 

De quanto pello mundo se deseja. 

Edif So de 1595. 

De quanto polo mundo se deseja. 

MS. de Luiz Franco. 
As pastoras, emfim, vi tão formosas. 

Em firo, vi as pastoras, tSo fermosas. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luix Franco. 

Que move os corações a grande espanto. 

Que 08 corações move a hum grande espanto 

MS. de Lais Franco. 

E o gadoj inda que a herva lhe fdlece. 
Mais que da falia delia se emmagrece. 

E o gado, em ver que a herva lhe falece. 
Mais que de a não comer nos emmagrece. 

£diç3o de 1595 e MS. de Loiz Franco. 
Ao suave verão o duro inverno. 
Ao ver2o suave, o duro inverno. 

EdiçSo de 1595. 

E ao veráo suave, o duro inverno. 

MS. de Laiz Franco. 
E se ha cousa que saiba ter firmeza, 

E se ha hi quem saiba ter firmeza. 

EdiçSo de 1595. 

E se ha hi a que saiba ter firmeza. 

MS. de Luiz Franco. 
A porta abrindo vem ao triste estado. 

Á porta vem bradando ao triste estado. 

MS. de Laiz Franco. 
Ah t não te engane algum contentamento. 

Não te engane nenhum contentamento. 

EdiçSo de 1595. 

Nem te engane nenhum contentamento. 

MS. de Lniz Franco. 
Não seja ora prodigio que declare. 

E nJo seja prodígio que declare. 

MS. do Luiz Franco. 



559 

Com o valor antigiui, que primeiro. 
£ o valor antigo que primeiro. 

Edição de 1595 o MS. de Luiz Franco. 

Não temas tu, Fronddio companheiro, 
Qu'em algum tempo sejão sobjugados. 

Não creas tu (Frondelio companheiro), 
Qu'em nenhum tempo sejão sojugados. 

, £diçio de 1995. 

Que em nenhum tempo sejfto sogigados. 

MS. de Loiz Franco. 
A outro jugo qualquer que seUie offreça, 

A outro jugo algum que se ofTereça. 

Ediçlo de 1995 e MS. de Luiz Franco. 

De inimigos a torto e a direito. 
Do imigo a torto e a direito. 

£di{Iode'i995. 

Do inimigo a ^ torto e a direito. 

MS. de Laiz Franco. 
Não eréas tu que a força repugnante. 

NSo creas tu que a força repunhante. 

MS. de Luiz Franco. 
Adonde bebe o Hydaspe tee sujeito. 

Até onde behe o Hydaspe tem sugeito. 

£diçao de 1505. 

Até quem bebe o Hydaspe tem sugeito- 

MS. de Luiz Franco. 
Bum freio lhe está pondo e lei terribiL 

Hum freio lhe está pondo a lei terribel. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
Que os limites não passe do possibil. 

Que os lemites n2o passe do possibel. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
E se altentares bem os grandes danos. 

£ se attentas bem os grandes danos. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Que te está figurando a ousadia. 
Que te está afigurando a ousadia. 

Edição de 1595. 

E não somente os cães, mas os pastores. 
£ nSo somente os cães, mas aos pastores. 

MS. de Luiz Franco. 



560 

Pois o grande curral, seguro e forte. 
E o grande curral^ seguro e forte. 

Ediç&o de 1395 e MS. de Luix Franco 
Oh triste caso! oh desastrada sorte. 
Ó caso desastrado! ó dura sorte. 

Edicao de 1595. 

Ó caso desastrado e d{ira sorte! 

MS. de Loiz Franco. 
O meu Tionio, ainda em flor cortado, 

Tionio meu ainda em flor cortado. 

MS. de Lais Franco. 

Em lagrimas me banha rosto e peito. 
De lagrimas me banha rosto e peito. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
Desse caso terrível a memoria. 
Desse caso terribel a memoria. 

EdiçSo de 1595 o MS. de Lniz Franco. 
Nem de juvenil sangue o fero Marte. 
Xem do juvenil sangue o fero Marte. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

fJá qu'esta triste morte me lembrastej. 
Já que a triste morte me lembraste. 

Edição de 1593 o MS. de Luiz Franco. 

Cantíi-me desse caso desastrado. 
Cantares desse caso desastrado. 

Ediçio de 1595 o MS. de Luiz Franco. 

Como queres renove ao pensamento. 
Como quer que renove ao pensamento. 

Ediçio de Í595. 

Como queres que renove ao pensamento. 

MS. de Luiz Franco. 
Mas, pois te move tanto o sentimento. 

Mas pois também te move o sentimento. 

Ediçio de 1595. 

Mas pois também te toca o sentimento. 

MS. de Luís Franco. 
Se a dar me não congHa a voz no peito. 

Se a dor nfio me empedir a voz no peito. 

Ediçio de 1595. 



361 

Se a dor me nfto impedir a voz no peito. 

MS. de Luiz Franco. 

Canta agora, pastor, que o gado pace 
Entre (u húmidas hérvas socegado. 

Canta, pastor, que agora o gado pasce 
Antre as húmidas hervas socegado. 

MS. da Luix Franco. 
Co'os seus Mos no chão, a mão na face. 

Com seus olhos no châo^ a mSo na face. 

% Edição de 1595. 

E com sUencio triste estão as Nymphas. 
£ em silencio triste estão as Nymphas. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Loís Franco. 
Dos olhos destUlando claras lymphas. 

Dos olhos estíllando claras lymphas. 

EdiçSo de 1595. 

Dos olhos espalhando claras linfas. 

MS. de Luiz Franco. 

Está suavemente presentando. 
Está suavemente apresentando. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Com susurro agradável vão voando. 
Com hum brando susurro vSo voando. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

As candidaSj pacificas ovelhas. 
As mansas e pacificas abelhas. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco 

Das hervas esquecidas, indinando. 
De comer esquecidas incrinando. 

Ediç&o de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

O vento d'entre as arvores respira. 
O vento d'antre as arvores respira. 

EdiçSo de 1595. 

O vento d'antre as arvores aspira. 

MS. de Luiz Franco. 

Nas sombras a ave gárrula suspira. 
As sombras a ave gárrula suspira. 

MS. de Luiz Franco. 

Sua mágoa espalhando ao vento frio. 
Suas magoas espalhando ao vento frio. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Laiz Franco. 



362 

Ao mais saudoso canto te contnda. 
Ao saudoso canto te convida. 

Edição de 1595. 

E não se pendurarão dos sdgtieiros. 
Não se dependurarão dos salgueiros. 

Edição de 1595 o MS. de Luis Franco. 
E as arvores que ja desamparaste, 
E as arvores que tu ja dcsémparaste. 

Edição de 1S95. 

£ as arvores que tu desemparaste. 

US. de Loíi Franco. 

A noite sempiterna. 
E a noite sempiterna. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Não usara comnoseo tal crueza. 
Não usara comnosco tal aspereza. 

MS. de Lois Franco. 
Tudo, qual vês, he cheio de tri^ra. 

Tudo, como vés, he cheo de tristura. 

Edição de 1995 e MS. da Laia Franco. 
Como em geral sentença vão dizendo. 
Gomo geral sentença vão dizendo. 

Edição de 1595 e MS. de Lais Franco. 
Porqu'eUej emfim, descarte. 
Porque assy d'est'arte. 

Edição de 1995 e MS. de Loii Franco. 

E no r^o, qike Amor com phantasia. 
No rosto que o amor e fantesia. , 

Edição de 1595 o MS. de Luiz Franco. 
Da paUida viola lhe tingia. 

De pallida viola lhe tingia. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Exercidos do falso pensamento. 
E exercicios do falso pensamento. 

Edição de 1595. 

Ja por as solitárias espessuras, 
E pelas solitárias espessuras. 

Edição do 1595. 



363 



Em longo esquecimento. 
N'hum longo esquecimento. 

Edição de 1595 e MS. de Luii Franco. 
A causa da tristeza que mostrava. 



A causa pêra a pena que mostrava. 



Ediçlo de 1595. 



Mas como este tormento o sinalou. 



Ifas como este tormento o assignalou. 

MS. de Laii Franco. 
Entendeníkho ja bem o pae sisudo. 

Entendendo mui bem do pai sisudo. 

Edição de 1595 e MS. de Loiz Franco. 

Oh falso Marte rudo. 
Mas ó falso Marte rudo. 

Edição de 1595 e MS. de Lois Franco. 
Que donde o generoso. 

Que aonde o generoso. 

Edição de 1595 e MS. de Luix Franco. 
No Hispânico ginete bdlicoso. 

No Hispano ginete bellicoso. 

MS. de Lnix Franco. 
Por as dvas espaldas, tinge a serra, 

Pellas alvas espaldas tinge a serra. 

Edição de 1095. 
Tal te pinto, ó Tionio, dando o esprilo. 

Tal te pinto, Tionio, dando o espirito. 

Edição de 1095. 

Da congelada boca a alma pura. 
Da boca congelada a alma pura. 

Edição de 1595. 
Quereis nas cdtas serras que se conte. 

Quereis nas altas serras que se cante. 

Edição de 1595. 

Hum tumulo, de fiares adornado. 
Hum tumulo de flores rodeado. 

MS. de Lniz Franco. 
Lendo na pedra dura o verso escrito, . 

Lendo na pedra dura hum verso escrito. 

MS. de Lnix Franco. 



MS. d« Luís Franco. 



364 

Do mais gentil Esprito, 
Do mais gentil Sprito. 

As areosas covas deste rio. 
As arenosas covas deste rio. 

MS. de Laii Franco. 
Do largo mar o antiguo senhorio. 

Do largo Geo o antigo senhorio. 

MS. de Loii Franco. 

Que tão ledas aos olhos se presentdo. 
Que táo ledos aos olhos se apresentSo. 

Ediçlo de 1505. 

Levemos por o pé desta serra alta. 
Levemos pello pé desta serra alta. 

EdíçSo de 1595. 

Porque, se eu por acerto não me engano. 
Que se eu por acerto nSo me engano. 

Ediçio de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

De láme sôa hum eco nas orelhas. 
Daqui me soa hum eco nas orelhas. 

EdiçSo do 1595 e MS. de Laiz Franco. 

Ej se em contrário tu não m'aconsdhas. 
£ se tu neste caso me aconselhas. 

Edição de 1595 e MS. de Loiz Franco. 
Eu quero descobrir que cousa seja. 

Eu quero ver daqui que cousa seja. 

Ediçio de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Comtigo vou, que quanto mais me chego. 
Comtigo vou que mais m'achego. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Loíi Franco. 
Que, do canto vencido, lhe obedece. . 

Que do seu canto vencido lhe obdece. 

MS. de Laiz Franco. 
Espera, assi, dar-te-hei de pé, se queres. 

Espera asi darfei de pé, se queres. 

Ediçlodel995. 
E despoiê que tubido lá 'stiveres. 

E depois que subido ja estiveres. 

MS. de Lniz Franco. 



565 

Mas primeiro me dize, se o puderes. 
Mas primeiro me dize, se poderes. 

. EdifSo de 1595 e MS. de Lois Franco. 
Está perlas dos oíhos destUlando. 

Está dos olhos perlas destilando. 

MS. de Laii Franco. 

Humas, regando as húmidas aréas. 
HQa, regando a& húmidas áreas. 

EdiçSo de 1595. 

HumOy que d'entre as outras se apartou» 
Huma que dantre as outras se apartou. 

Ediçio de 1505. 

Este penhor charissimo ficou. 
Qu'este penhor charíssimo ficou. 

Edição de 1595 e MS. de Laia Fraoco. 

Douro, Mondego, Tejo e Guadiana, 
Douro, Mondego, Tejo, Guadiana. 

MS. de Laia Franco. 
Até o remoto mar da Taprobana, 

Té o remoto mar da Taprobana. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Lata Franco. 

O Tejo, agora claro e crystaUino, 
Qu'o Tejo, agora claro e cristallino. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Laís Franco. 

Mas que, a ser conservado do Destino. 
Mas se for conservado do destino. 

Edição de 1595 e MS. de Loia Franco. 
As benignas estrellas promettendo. 

Que as estrellas benignas promettendo. 

Edição de 1595 e MS. de Lait Franco. 
Este prodígio grande a Nympha bella. 

Este prodigio grande a ninfa bella. 

MS. de Luii Franco. 

Porém, qual a edipsada clara estreUa. ^ 

Mas, qual a eclipsada e clara estrella. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luix Franco. 

Dá cá, Frondelio, a mão; e sobe a ver. 
Dá tu cá a máo (Frondelio); e sobe a ver. 

MS. de Laiz Franco. 



como 



366 

Áquella deokt beUa e ddicada. 
De aquella Deosa bella e delicada. 

Edição de 1595 e MS. de Laii Franco. 
Danúbio enfreia, manda o daro Ibero, 

Danúbio enfrea, e manda o claro Ibero. 

EdifSo de 1995 e MS. de Lnii Franco. 

Morreo-nos o excelente e poderoto. 
Morreo-lhe o excellente e poderoso. 

£diç9o de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
Doce Aonio, d'Aonia ckaro Espoto, 

Doce Aonio^ d'Aonia doce Esposo. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Mas o tom peregrino e piedoso. 
Mas o som peregrino e piadoso. 

MS. de Luiz Franco. 
Ni dejará, por mas que el tiempo huya, 

Ni dexaran, por mas que el tiempo huya. 

BAS. de Loii Franco. 

Agora te posuya CithereS, 
Aora te posuya Schyterea. 

Edição de 1595. 

Aora te possuya Githerea. 

MS. de Laiz Franco. 
En el tercero asienio, ó porque amaste, 

En su tercero assiento, o porque amante. 

Edição de 1595 e ãlS. de Laiz Franco. 
Agora el sol te admire, si miraste. 

Aora el sol te admire, se miraste. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
Verás una, que á ti con triste Uoro. 

9 

Y verás una, que a ti con triste lhano. 

MS. de Loiz Franco. 
EGLOGA II 

* Interlocutores : — Almeno e Agrário, 

Esta egioga parece ser escripta quando o Poeta estava deportado no Ribatejo, 
10 se vé da sua descripção : 



Ao longo do sereno 

Tejo, suave e brando, 

N'hum valle d'altas arvores sombrio, ele. 



567 

o Tejo com som grave 

Coma mais medonho que saave, etc. 

De tanta voz o accento temeroso 
Na outra parte do rio retumbava, etc. 

Do frio e doce Tejo 

As aguas se tomarão 

Ardentes e salgadas, 

Despois que minhas lagrimas cansadas 

Com seu puro licor se misturarão. 

Por €stas e outras citações se vé que o Poeta escrevia esta composição nas 
margens do Tejo, onde elle se estreita e as aguas correm doces; á similhança das ' 
lagrimas misturadas com o rio, com o Hepanis e Exampéo, dá a entender que 
tinha presente o Zêzere misturando-se com o Tejo. 

N^estes versos parece o Poeta alludir aos amores do paço : 

Callar-me-bei somente; 

Que o meu mal nem ouvir se me consente. 

Almeno (que aqui representa o Poeta) no maior delírio de amor fallando com 
o seu pensamento, indica a impossibilidade ou antes prohibição de ir onde elle 
vae; 

Não poderei eu hir onde tu vas? 

Porém, pois ir não posso onde tu fores 

Quando fores, não tornes onde estás. 

Agrário descreve a situação delirante e apaixonada de Almeno, a quem pre- 
tende consolar: 

O que triste successo foi de amores, 

O que a este pastor aconteceo, 

Segundo ouvi contar a outros pastores. * 

E o Poeta parece descrever, nos seguintes versos, as varias phases dos seus 
amores : 

Amor não será amor, se não vier 
Com doudices, deshonras, dissensões. 
Pazes, guerras, prazer e desprazer, 

Perigos, linguas más, murmurações. 
Ciúmes, arruidos, competências, 
Temores, nojos, mortes, perdições. 



Mas isto tée o amor, que não se escreve 
Senão donde he illicito e custoso ; 
E donde he mais o risco, mais se atreve, etc. 

Em seguimento especifica o perigo de se elevara altos amores, exemplificando 
com o que aconteceu a Tróia, por causa do roubo de Helena feito por Paris, e 
toma o Poeta a repetir a expressão de illicito: 

Illicito desejo e pensamento, etc. 

Novamente declara que foi privado da vista da sua amada : 

Des-que perdi da vista o claro lume 
£ perdi a esperança e causa deUa, etc. 



• « 



568 

O Poeta nos seus primeiros anãos andava isento de amores, e ria-se de qnem 
por elles se perdia; vendo n'este tempo de sua tenra idade 

Muitas Nynfas do Rio e da Montanha. 

que se lhe afTeiçoavam, as trazia enganadas com palavras mimosas e forjadas; 
mas tudo pagou ficando captivo da sua dama. 

A esta isenção dava logar a idade e o seu merecimento, como declara: 

Nenhum pastor cantando me vencia, 

A barba então nas faces me apontava; 

Na luta, na carreira, em qualouer manha 

Sempre a palma entre todos alcançava. • 

Diz-lhe Agracio, que sabe d'este seu caso, o principio e o fim oue Nemoroso, 
amigo do Poeta (sem duvida) lh'o tem contado, e intenta consola-lo. Rejeita Al- 
meno (o Poeta) a consolação do amigo, prolestando-lhe que para onde quer que 
seja desterrado, proseguirá firme nos seus amores. 

Ou sendo para as Ursas degradado 
Adonde Boreas tem o Occeano 
Co'os frios Hyperboreos congelado; 

Ou donde o filho de Climene insano 
Mudando a cór das gentes totalmente 
As terras apartou do trato humano, etc. 

Pede com tudo a Agrário, como grande favor e obsequio, que quando vir a 
sua querida pela montanha 



lhe diga que 



Com os vivos espíritos inflamando 
O ar, o monte e a serra que comsigo 
Continuamente leva namorada. 

Não ha no mundo vicio sem castigo. 



e lhe aponte o exemplo de Anaxarete tornada em mármore, em castigo da morte 
de Iphis, seu amante, a que deu causa com os seus rigores. Mais de uma vez o 
Poeta alíude nas suas poesias a esta fabula. 

Diz Faria e Sousa no seu commentario a esta egloga, que, se a primeira é 
a princeza das eglogas, desejava que esta o fosse também; porém vistoque Ca- 
mões deu sentença em causa própria, julgando-a melhor de todas, a primeira 
seja esta, a segunda a infanta, postoque sem segunda. 

Encarece o commentador, e com rasão, a belleza da introducçSo; e na ver- 
dade, principalmente o ramo que começa: 

A noite escura dava, 

é de uma belleza inimitável. 

Co'hun$ ramos carregados. 

Chuns ramos carregados. 

EdiçSo de 1595. 

Qu*inda a noite fazião mais escura. 
Que a noite faziam mais escura. 

• EdiçSo de 1595. 



569 

Que a noite fazia mais escora. 

MS. de Loiz Franco. 
Offreda a espessura. 

Mostrava a espessara. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz FraDco. 
I^hum charco de agua negra, e ajudavão. 

N'huin charco d'agoa negra, e ajudavão. 

Ediç&o de 1595. 

Com que as ondas crescião outro tanto. 
Com que cresciáo as ondas outro tanto.* 

, Edição de 1595. 

Ao sonoroso pranto. 
Co cansado pranto. 

Ediçio de '1595 e MS. de Luic Franco. 
Que as aguas enfreava. 

Que as aguas refreava. 

MS. de Luiz Franco. 

De tafUta voz o accento temeroso. 
Da mansa voz o acento temeroso. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Loiz Franco. 

Ou a causa qu'a ordena. 
Ou quem m'a causa ordena. 

Edição de 1595 o MS. de Luiz Franco. 

Quer qu'em pago da dor tome o soff^eUa. 
Quer por paga de dor tome soffrella. 

Edição de 1595 e MS. de Lniz Franco. 

Causou tal esquivança. ^ 
Causou tanta esquivança. 

MS. de Laiz Franco. 
Pois somente nasà. 

Que para isso nasci. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Pois aqui tèe hum*altna ao jugo atada. 
Que aqui tem uma alma ao jugo atada. 

Edição de 1595. 

Que aqui tem sempre hum'alma ao jugo atada. 

MS. de Luiz Franco. 
TV» mesma (ó beUa NymphaJ te fizeste. 

Tu mesma (bella nympha) te fizeste. 

lEdição de 1595. 
TOMO III 21 



570 

Tu mesma ninfa bella te fizeste. 

MS. de Loii Fraoco. 
Tão dura condição, $e te formaste, 

TSo crua condição se te formaste. 

MS. de Laii Franco. 

Me he penoso e duro. 
Me he pesado e duro. 

EdiçSo de 4595 e MS. de Laix Franco. 

PasmOj porque conheço. 
Pasmo, quando conheço. 

EdiçSo de 1595 e MS . de Laix Franco. 

Qu*inda comigo próprio me pareço. 
Que inda comigo mesmo me pareça 

MS. de Luix Franco. 

São n'alma os meus cuidados, 
Sâo n'alma meus cuidados. 

Ediçio de 1595. 
As flores, que no campo sempre vejo, 

E as flores que no campo sempre vejo. * 

Ediçio de 1595. 

Do frio e doce Tejo 
As aguas se tomarão. 

As aguas frias do Tejo 
De doces se tornarão. 

Edição de 1595 o MS. de Lait Franeo. 

Hyppanis câo Exampêo sua agua pura. 
Hypanis co'o Exampéo n'agua pura. 

Ediçio de 1595. 

Com o Exam e Hinopis a agua pura. 

MS. de Luii Franco. 

Visivelmente errado. 

Qu*Htou imaginando. 
Que estou afigurando. 

EdiçSo de 4595 e MS. de Laix Franco. 
Qu'este phantasiar, donde penando. 

Que este phantasiar que imaginando. 

EdiçSo de 1595. 

Que este pensamento que imaginando. 

MS. do Laix Franco. 
Descobre o negro manto. 

Descobre o triste manto. 

* MS. de Luix Franco. 



57\ 

Da sombraj que as monUmhas encobria. 
Das sombras, que as montanhas encobria. 

MS. de Lnii Fraobo. 
Pois meu escuro canto, 

. Que meu cansado canto. 

Edição de i595 e MS. de Lnii Franco. 
Esse pastor, que lá só vem faUando. 

Este pastor, que lá só vem fallando. 

Ediçio de 1595. 

As Nymphcu, espalhando seus cabdlos. 
As nuvens e espalhando teus cabellos. 

MS. de Laii Franco. 

Formosa a espessura e a clara fonte, 
Fermosa a espessura, e fresca a fonte. 

Edição* de 1595. 

Fermosa a espessura e a fresca fonte. 

MS. de Loit Franco. 
Mostrando em hum momento o râxo dia. 

Mostrando n'hum momento o roxo dia. 

Edição dei595. 

Que matiza em hum*hora, de mU cores. 
Que matizas nfia ora de mil cores. 

MS. dff'Laix Franco. 
Quão grande saudade tenho agora. 

Quamanha saudade tenho agora. 

Edição de 1595. 

Quamanha vontade tenho agora. 

MS. de Loii Franco. 
Quando em hum só querer nos igualava. 

EntSo n'um só querer nos igualava. 

EdiçSo de i595 e MS. de Lais Franco. 
Porque quando hum amava a quem queria. 

Porque quando hum chamava a quem queria. 

Edição de 1595 e MS. de Lnii Franco. 

Logo eco respondia d*affeiçõo. 
O echo respondia da affecçAo. 

Edição de 1595 e MS. de Loix Franco. 

Mostrava a flava Ceres por as eiras. 
Mostrava a flava Ceres pelas eiras. 

adição de 1595. 



572 

Hião Zéphyro e Flora paueando. 
Zefyro e a fresca Flora passeando. 

Ediçio dfl i995 e MS. de Lnii Franco. 

Nas fontes enstaUinas triste estava. 
Nas aguas cristalinas triste estava. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Loii Franco. 
lias Eco, namorada de íal gesto. 

Mas ecbo namorado de seu gesto. 

Ediçio de i595 e MS. de Luíx Franco. 
Do purpúreo jacintho; e o destroço. 

O purpúreo jacinto : e o destroço. 

MS. de Luit Franco. 

De Adónis bello moço; morte féa. 
De Adónis lindo moço, morte fea. 

Edição de 1595 e MS. de Laix Franco. 

Hião NympHas formosas por os prados. 
Alli as Nympbas formosas pellos prados. 

Edição de 1595 e MS. de Loii Franco. 

Ordenadas das flores que ocUhiSo. 
Que faziSo das flores que colhião. 

Edição de i595 e MS. de Luii Franco. 

As Nymphas lhe fugião espantadas. 

f 

As Nympbas lhe fugiSo amedrontadas. 

Edição de 1595 e MS. de Laix Franco. 

As faldas letxmtadas per os montes. 
As arvores alçadas pelos montes. 

MS. de Loix Franco. 

Via-se a agua das fontes espaUhar-^. 
A fresca agua das fontes espalhar-se. 

Kdiçio de i595 e MS. de Lnix Franco. 

Pomona, que trazia os doces fruitos. 
£ Pomona que trazia os doces frutos. 

MS. da Lnix Franco. 
Gaitas, que bem se ouvido, e cantando. 

As gaitas que trazião e cantando. 

Edição de 1595. 

Cortou inda em agraço. Ah dura sorte. 
Cortara inda em agraço. Ah dura sorte. 

MS. de Lttix Franco. 



575 

De quantos vida tèe jamais perd<ms. 
De quantos vida tem nunca perdoas. 

MS. de Luii Franco. 
Oh perversa inconstância e tão jnvfana, 

ó estranha inconstância e táo profana. 

Edíç3o de 1593. 
Mas eu de que me queixo? ou eu que digo? 

Mas eu de que me queixo ? ou que digo. 

£diçio de 1595. 

Dchnos fructo colhido na sazão. 
Dá-nos fruto escolhido na sazSo. 

MS. de Luii Franco. 
Do formoso verão; e no inverno. 

Do formoso verão e do inverno. 

MS. de Laiz Franco. 
Do sol, a terra dura lhe dá alento. ' 

Do sol da terra dura lhe dá o alen(o. 

MS. de Laiz Franco. 

Nem aguas desejava, nem quentura. 
Nem chuvas desejava, nem quentura. 

£diçao de 1595 e MS. de Laiz Franco. 

Fosse do Ceo lançado, onde vivia. 
Fosse do ceo deitado donde vivia. 

£diçÍo de 1595 e MS. de Laiz Franco. 

Nos veio, emfim, trazendo a este estado. 
Nos veio assi trazendo a este estado. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Ao Tejo claro e brando; porque achar. 
Ao manso Tejo e claro porque achar. 

Ediç3o de 1595. 

Vou^me a elle chegando, só por ver. 
Para elle vou chegando só por ver. 

Ediçio de 1595 e MS. de Laii Franco. 

Oh doce pensameníol oh doce gloria! 

« 

O doce sentimento e doce gloria. 

MS. de Loiz Franco. 

Como a mi de mi mesmo só com vellos. 
£ a mi de mi mesmo só com vellos. 

Ediçito do 1595 e MS. de Laiz Franro. 



574 

E de que toma lux o dia em vellos. 

^S. de Loic Franco. 
Qu'eu nestes braços tenho, e não o creio. 

Que eu nos braços tenho e nâo no creo. 

Ediçio de 1995. 

Ah falso pensamento, que me enganas. 
Ó falso pensamento que m'engana8. 

US. de Lqú Franeo. 

Com palavras de doudo, ou quasi insanas. 
Com palavras de doudo • quasi insanas. 

Ediçio de 1595. 

Com palavras de hereje e qyasi insanas. 

MS. de Laii Franco. 

Como a alçar-te tão alto assi me atrevo. 
Gomo alçar-te tfto alto assi me atrevo. 

EdiçSo de 1595. 

Como t2o alto alçar-te assi me atrevo. 

MS. de Laii Franco. 
Quando fores, não tomes onde estás. 

Quando fores nSo tornes donde estás. 

Edição de 1595. 

Tanto emfím, por seu damno se perdeo. 
Que tanto por seu dano se perdeo. 

Ediç9o de 1595 e MS. de Loii Franco. 

Çjue pôde em outra cousa estar mudando. 
Que pôde n'outra cousa estar mudando. 

* * Ediçio de 1595 e MS. de Luii Franco. 

A forma, a vida, o siso, o entendimento. 
A forma, a condição, o entendimento. 

MS. de Loii Franco. 
De si a própria essência transportando. 

De si sua própria essência transportando. 

MS. do Loix Franeo. 

Que tõe ja da phantastiea pastora. 
Que tem ja da falsifica pastora. 

MS. de Lqíi Franco. 

Em este doce engano estava agora. 
E n'este doce engano estava agora. 

MS. de Laii Franco. 



575 

FaUando como em wnho, mas achando 
Ser vento o que sonhava, grita e chora 
Dest'arte andavão sonhos enganando. 

Paliando codio em sonhos, mas achando 
Ser vento o que cuidava, grita e chora. 
D'est'arte andava o sono enganando. 

MS. deLaii Franco. 

O vão pae dos Centauros enganava, 
O v2o pai do centauro contentava. 

MS. de Luix Franco. 

Como este, que comsigo só fatiava. 
Cuidando que fatiava, de enleado. 

Como a este, que comsigo só fallava, 
Cuidando que fallava, de enlevado. 

EdiçSo de 4595. 

Com quem lhe o pensamento figurava. 
Com quem lhe o pensamento afigurava. 

MS. de Laix Franca). 

Este amor em doudice transformado. 

« 

O amor em doudice transformado. 

Ediç9o de 4595. 

Amor não será amor, se não vier. 
NSo amor, amor, se nSo vier. 

Edif ao de 1395. 

O Amor nSo he amor se nSo vier. 

MS. de Luix Franco. 

Temores, nojos, mortes, perdições. 
Temores, mortes, nojos, perdiçoens. 

* EdiçSo de 1595 a MS. de Luiz Franco. 

Estas são verdadeiras penitencias. 
Estas sSo verdadeiras experiências. 

Edição de 1595. 

Estas sSo as verdadeiras penitencias. 

MS. de Luiz Franco. 
Mas isto têe o amor, que não se escreve. 

Mas isto tem amor que não se escreve. 

MS. de Luiz Franco. 

E donde he mais o risco, mais se cUreve. 
E onde he mor o perigo, mais se atreve. 

Ediç9o de i595 c MS. de Luix Franco* 

Passava o tempo alegre e deleitoso. 



576 

Passava alegre tempo deleitoso. 

Ediçto de 1995. 

0$ álamos erescião, e crescia 

O amar qu'eUe te tinha : sem perigo. 

Crescião os altos álamos e crescia. 
O amor que te tinha: sem perigo. 

Ediçio de 1995 e MS. de Laii Fraooo. 

E sem temor, corUerUe te servia. 
£ sem rumor contente te servia. 

HS. de Luís Franco. 

Com mortes de parerUes e de irmãos. 
Coro morte de parentes e de irmSos. 

EdiçSo de 4995 e MS. de Lais Franco. 

Que gasíão na doçura d*hum cuidado 
Apoz huma esperança muitos anos. 

Gastando na doçura d'hum cuidado 
Após hum'esperança tantos anos. 

Ediçio de 1595 e MS. do Loii Franco. 

Por hum só volver d'olhos todo o gado. 
Por bum só mover d'olhos todo o gado. 

£díç9o de 1995. 

Em todo povoado e companhia. 

E em todo o povoado e companhia. 

£diç9odel595. 

Sendo ausentes de si, se vem presentes. 
Spído auzentes de si estáo presentes. 

Edição ae 1593 e MS. de Lnis Franco. 

Como quem Uies pinta sempre a phantasia. 
Como quem lhe pinta sempre a fantasia. 

Edição de 1595 o MS. de L«ii Franco. 

Co'hum certo não sei que andão contentes. 
Co hum certo não sei que, e^táo contentes. 

MS. de Lais Franco. 
E qu'outr'hora nenhuma alegre esteja. 

E outr'bora nenhUa alegre esteja. 

Edição de 1595. 

Sua inimiga estar triumphando veja. 
Sua imiga estar triumphando veja. 

Edição de 1595. 



377 

Que agora esUxca aos oUios debuxando. 
Qu'agora estava os olhos debuxando. 

EdiçSo de 1595 e BIS. de Lnis Franco. 

Nesta imaginação estás gastando 

O tempo e vida, Almenof Perda grande. 

Nessa imaginação estás gastando 

O tempo e a vida Almeno? ó perda grande. 

EdiçSo de 1595. 

O tempo e a vida, Almeno? Ah! perda. 

MS. de Loic Franco. 

Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande. 
Por mais qu'o tempo corra, e a morte o mande. 

EdiçSo de 1595. 

Almeno meu, não he por certo aviso 
He sô doudice grande, grande engano. 

Almeno irmSo, não he por certo aviso 
Blas mui grande doudice, e grande engano. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luii Franco. 
Ó Agrário meu, que vendo o doce riso. 

Ó Agrário, que venda o doce riso. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Laiz Franco. 
E não entendo desque sou captivo. 

E nSo entendo des que fui cattivo. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Laiz Franco. 

Jamais pude co'o fado ter cautella 
Nem fumve nunca em mi contentamento 
Que não fosse trocado em dura estreUa. 

Assim foi emendado este terceto, no MS. dos Commentarios de Faria e Sousa 
que o editor submetteu ao tribunal para impressão das poesias commentadas, 
bem como também foram riscadas algumas observações que o comroentador fa- 
zia nos mesmos commentarios : as questões theologicas de que tanto abundaram 
os dois séculos, tanto aquelle em qae viveu o Poeta como o commentador, da- 
vam logar a esta nimia, e hoje escusada severidade, aindaque houvesse censura, 
porque as idéas religiosas, postoque pareça levantar-se grande tormenta, estão 
fixas para os que acreditam e sujeitam sua opinião á auctoridade da Igreja, e só 
olham nos novos ataques apenas a repetição de erros antigos que já o tempo 
dissipou. Mas voltando ao terceto, como se lia no MS. era por esta tórma: 

Não se pôde com o fado ter cautella 
Nem pôde haver nenhum contentamento 
Que não seja trocado em dura estrella. 

E no manuscripto de Luiz Franco, por este modo : 

Não se pôde com o fado ter cautella. 
Nem pôde nenhum grande dontentamento 
Fugir do que lhe ordena sua'eslrella. 



378 

N'esta ultima lição a idéa do fatalismo estava mais pronunciada. Em poesia, 
as mais das vezes, a linguagem é figurada e fingida, e as asserções dos poetas 
nSo se devem ter sempre como sentenças e axiomas; por exemplo, qual é o ])oeta 
que não morre de amores; porém lá vSo comendo e bebendo, e de ordinário as 
viandas mais appetitosas e os vinbos mais generosos. 

Que bem livre vivia e bem isento. 
Que eu bem livre vivia e bem isento. 

MS. de Luii Fraooo. 

Sem qu'ao jttqo me visse submetido. 
Sem nunca ser ao jugo sometido. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Loix Franco. 

Lembra-me, amigo Agrário, que o sentido, 
Lembra-me, Agrário amigo, que o sentido. 

Edição de i595 e MS. de Luii Fraoco. 

Na luta, na carreira, em qualquer manha. 
Na luta, no correr, em qualquer manha. 

Edição de 1595 o MS. de Laii Franco. 
M(u não querendo Amor, que deste geito. 

. Nem consentindo Amor, que deste geito. 

MS. de Luii Franco. 

Em quem ále criou tão puro affeito. 
Em quem elle criou táo puro efieiío. 

Edição de 1596. 

Toda esta injúria agora está vingando. 
Tod^esta injuria agora está pagando. 

EdiçSo dê 1595. 

Mas (quero-te dizer) se este enganoso 
Amor he tão usado a desconcertos. 

Mas quero-te dizer se o enganoso 
Amor é costumado a desconcertos 

EdiçSo de 1595 e MS. de Loix Franco. 

Que nunca amando fez pastor ditoso, 
E nunca amando foi pastor ditoso. 

MS. de Luix Franco. 

Te diórão valles, montes e desertos. 
Te chorão as montanhas e dezertos. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Loii Franco. 
A grã Sicilia em fogo, o NHo em ágoa, 

O monte Ethna em fogo, e o Nilo em água. 

MS. de Lníz Franco. 



579 

Gostar as verdes hervas, se emmagrecem. 
(xostar as verdes hervas, eminagrecein. 

MS. de Lqíz Franco. 

Em te vendo, parece, se entristecem. 
Em te vendo, parece, que entristecem. 

EdiçSo de 1595. 

De todos teus ami^s e parentes. 
Todos os teus amigos e parentes. 

EdiçSo de 1595. 

Deixando a choça e gado vás fugindo. 
Deixando a casa e gado, vás fugindo. 

£diç9o de 1595 o MS. de Luiz Franco. 

Se fazião de lagrimas hum vaso, 
O faziSo de lagrimas hum vaso. 

Edição de 1595. 

O intonso Apolh o vinha dli culpando. 
Vinha o intonso Apollo ali culpando. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Por as Alpinas neves vai seguindo. 
Polas Alpinas neves vai seguindo. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Outro bem, outro amor, outro desejo. 
Outro amor, outro hem, outro desejo. 

EdiçSo de 1595. 

Como inimiga, emfim, de ti fugindo. 
Como imiga, emfim, de ti fugindo. 

MS. de Luiz Franco. 

Por caso de fortuna desastrado. 
Por caso .da fortuna desastrado. . 

EdiçSo de 1595. 

Algum'hora deixar de ser captivo, 
N'algum tempo deixar de ser cativo. 

MS. de Luiz Franco . 
Adonde Boreas tèe o Occeano. 

Onde o Bootes tem ao Occeano. 

MS. de Luiz Franco. 
Ou donde o filho de Climene insano. 

Ou onde o filho de Climene insano. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 



380 

^Ou ieja por qualquer outro aecidente. 
Ou se por qualquer outro aecidente. 

Edição de 1995. 

Ou se por outro qualquer aecidente. 

MS. de Laíi Fraooo. 
Tomando para traz, irá negando. 

Tornando por de traz irá negando. 

^diçio de 1995 e MS. de Loii Fnoco. 

As cabras por o mar irão buscando 

Seu pasto; e andar-se-hão por a espessura. 

As feras pelo mar irão buscando. 

Seu pasto; e andar-se-h2o polia espessura. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Lnix Franco. 

Deste amor tenho a fé, para qu'insistes. 
Tenho esta fé, e amor porque insistes. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz FnnxK 

Sede tua porfia não desistes. 
Se tu dessa porfia nSo desistes. 

BIS. de Loiz Franco. 
Que s'esta fera, qu'anda em traje humano. 

Que se esta fera, que anda em trage humano. 

Edição de 1596. 

Por a montanha vires ir vagando. 
Vires pola montanha andar vagando. 

MS. de Loii Franco. 
Com os vivos espritos inftammando. ' 

Com os espíritos vivos inflamando. 

EdiçSo de 1595. 

Nódoa tão feia em gesto tão formoso. 
Dano tâo feio em gesto t2o formoso. 

MS. de Lmi Franco. 
Por algum dia ver-te descansado. 

Por te ver alguma ora descansado. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Laii Franco. 
Tu nessa phantasia falsa e nua. 

tu nessa fantasia falsa tua. 

EdiçSo de 1595. 
Não queres companhia mais que a sua. 

NSo queres companhia seqSo a sua. 

EdiçSo de 1595. 



T 
1 



584 

. Vou^me d'aqui, e fique Deos conUigo. 
Voa-me 48 ti, e nque Deus comtigo. 

MS. de Lais Franco. 

EUe conUigo vá, como comigo 

Me fica acompanhando o meu cuidado. 

Esse comtigo vá, porque comigo 
AbasUme que fique meu cuidado. 

MS. de Lnii Franco. 
B6L0GA III 

Interlocutores : — Almeno e Bdiza. 

Na edição de lò95 vem com este titulo : « De Almeno e Beliza continuando com 
a antecedente. » Parece ter relação esta egloga com uma entrevista que teve lo- 
gar ao voltar do degredo do Ribatejo, em que a dama manifestando-lbe o seu 
amor, comtudo persistiu em uma ruptura postoque forçada. 

Passado já algum tempo que eram passados os amores de Almeno, divagava 
ella junto ás margens do Tejo, espalhando as suas maguas as quaes Almeno, que 
lh'as ouviu, remette ás Tágides Camenas para as contar, que a dor e a pena lhe 
impede o canto. Começa Beliza com uma descripçSo da tarde : descreve a saudosa 
historia dos seus amores, como tiveram começo 

Fui salteada, em fim, d'hum pensamento. 
Que hum movimento tinha casto e sSo, 
Conversação foi fonte desfengano, etc. 

(Sobre esta conversação vide o soneto lxxxvii) como empregou este seu amor 

Só n'hum pastor, que nunca sol nem lua. 
Ou serra algtLa, desde o Ibero ao Indo, 
Outro tão lindo virão, tão manhoso, etc. 

como este lhe tirou do peito isento 

O pensamento honesto e repousado, 
Ja dedicado ao coro de Diana, etc. 

Mas quer esquecer tão doce historia, pois não eonvem maguar-se do que não 
pôde emendar com maguas. Almeno que andava phantasiando em seus amores, 
ao enxergar Beliza dirige-se a ella : 

Oh aspecto suave e peregrino ! 

Pois como? tão azinha assi se esquece 

Huma fé verdadeira, hum amor nno? etc. 

Beliza ao julgar-se acommettida invoca as nymphas suas companheiras que 
lhe valham n'este aperto, e a transformem antes em pedra ou arvore do que sof- 
fra a sua honra. 

Pede Almeno que não mudo a figura, e ás nymphas que não ouçam o seu 
rogo, porquanto não dará logar a uma tão dura resolução. 

Queixa-se Beliza de uma áspera porfia, causa de terem fim estes amores, e 
da loucura e pouca discrição com que foi amada : 

Não és tu de saber tão falto e rudo. 

Que tão sem siso amasses, como amaste, etc. 



582 

Onde viste tu,^ Nympha, amor sesudo? 

lhe torna Almeno, e lhe traz á lembrança o tempo em que lia gostosa os seus 
escríplos e se aventurava, com risco seu, para o ouvir. 

E como te nSo lembras do perigo, 
A que só por m'ouvir t*aventuravas, 
Buscando horas de sesta, horas d'abrigo? 

Desculpa-se Almeno da culpa que Beliza lhe carrega, dizenda que procedeu 
dos invejosos, e que n2o é justo que elle pague a culpa alheia. 

Se más tentações puzerSo nódoa féa 
Em nosso firme amor, d'inveja pura, 
Porque pagarei eu a culpa aíbéa? etc. 

Beliza, sendo accusada por Almeno de se esquecer do amor que lhe tinha, lhe 
responde (já começando a metamorphose) que se engana, que seus olhos magua- 
dos lhe dirSo quanto o amou, que nSo foi falta de amor, mas o seu atrevimento, 
a causa de o ter deixado. 



Mal conheces, Almeno, huma affeiçSo; 
Que s'eu desse amor tenho esquecimento, 
Meus olhos magoados to dirão. 

Mas teu sobeju e livre atrevimento, 
E teu pouco segredo, descuidando, 
Foi causa deste longo apartamento. 

Vés as Nymphas do Tejo, que mudando 
Me vão ja pouco a pouco, o claro gesto 
N'outra mais dura forma traspassando. 

Hum só segredo meu te manifesto: 
Que te quiz muito em auanto Deus queria; 
Mas de pura affeição, d amor honesto. 

E pois de teus descuidos e ousadia 
Nasceo tâo dura e áspera mudança, 
Folgo; que muitas vezes to dizia. 

• 

Em um manuscripto, que Faria e Sousa encontrou, vinham por esta fónna 

estes últimos versos : 

He verdade; mas ja tenho perdida 
Essa afTeiçáo que em ti mal empreguei 
E n'outra mais honesta convertida. 

Amor casto, divino amor tomei, 
Amor, a cujo amor está sugeito 
Quanto vive; por este te deixei. 



Esta variante parece dar a entender que a dama teve o pensamento de se en- 
cerrar na clausura, ou que sentimentos religiosos lhe fizeram abandonar estes 
amores. 

Aò ver a transfiguração de Beliza, e táo duro apartamento, Almeno rompe 
em exclamações invocando a morte; pede ás feras da espessura fartem n'elle a 
sua sede, e aos pastores lhe cavem sepultura á sombra de um fúnebre cypreste. 



585 . 

e para que a todos seja manifesto que cousa seja amor puro e verdadeiro, escre- 
vam n'uma rude cortiça pendurada no tronco de uma arvore este 

EPITAPmO 

Almeno fui, pastor de manso gado, 
Em auanto o consentio minha ventura. 
De Nymfjhas e pastores celebrado. 

Se algum dia, por caso, na espessura 
Se perder o amor e a affeição. 
Tirem a pedra desta $epullura, 

E em figura de cinza os acharão. 

Entr'huns verdes ulmeiros apartado. 
Entr'buns verdes ulmeiros apartados. 

EdiçSo de i595 e MS. de Luiz Franco. 

Regando por o campo as brancas flores. 
Regando pelo campo as brancas flores. 

Ediç&o de 1595. 

Por quem o pastor triste endotidecia. 
"Por quem o triste Almeno endoudecia. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Laiz Franco. 
Por a praia do Tejo discorria. 

Pella praia do Tejo discurría. 

Ediçio de 1595. 
O sol ja consentia. 

Já o sol consentia. 

Ediç9o de 1596 e MS. de Lais Franco. 

Ja acordado daqueUe pensan^ento. 
E acordado ja do pensamento. 

Ediçio de 1595 e MS. de Laiz Franco. 

Que tão desacordado sempre o teve. 
Que tao desacordado o sempre teve. 

EdiçSo de 1595. 

E porque donde amor a mais se atreve. 
E porque onde amor a mais se atreve. 

Edição de 1595. 

AUi mais enfraquece o entendimento. 
Alli mais enfraquece o atrevimento. 

MS. de Luiz Franco. 

E tendo assi ja attonito o sentido. 
E tendo assi attonito o sentido. 

Ediçio de 1595 e MS. de Luiz Franco. 



Kdiflo de IBW. 



584 

E tirou da fraqueza coração. 
E tirou da fraqueza o coraçSo. 

ComeUimenlo foi desesperado. 
Cometimento faz desesperação. 

Edição de 1595. 

Qa'eu, de mágoa, não posso dizer tanto. 
Que, de magoa, nSu posso dizer tanto. 

EdiçSo de 1595. 

Que, de mágoa, n2o posso escrever tanto. 

BIS. de Laix Franco. 

Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto. 
Me causa a pena, e a dor m'impide o canto. 

MS. de Lais Franco. 
Quão saudosa faz esta espessura. 

E quSo saudosa faz esta espessura. 

Ediç2o de 1595 e MS. de Loiz Franco. 

A formosura angélica e serena 

Da tarde amena t Quão saudosamente. 

A fermosura angélica e serena 

Da tarde amena ! e quão saudosamente. 

Ediçio de 1595. 

Os ceos se esmattão todos d'ouro e verde. 
No ar se esmaltfto os ceos d'ouro e verde. 

Edição de Í595. 

Por a espessura levqo, passeando. 
PoUa espessura levam, passeando. 

Edição de 1595. 

Formoso e honesto das pastoras qu*amão. 
Fermoso e honesto dos pastores que amSo. 

EdiçSo de 1595. 

Por o ar derramão mil suspiros vãos. 
Ao ar derramfio mil sospiros vSos. 

Edição de 1595 e MS. de Lais Franco. 
Hwn louva as mãos, louva outro os raios bellos. 

Hum louva as mSos, e outro os olhos bellos. 

Ediçio de 1595 e MS. de Lnix Franco. 

E a amorosa ave leva o contraponto. 
A amorosa ave leva o contraponto. 

Ediçilo de 1595 e MS. de Lais Franco. 



385 



Se não m^esquece, ja deste lugar . 
Se não m^esquece, ja neste lugar. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Lais Franco. 
Ouvi soar os valles algum dia. 
Ouvi soar nos valles algum dia. 

EdiçSo de 1595. 

Pois se houve culpa, foi do firme amor. 
Se ahi houve culpa^ pola o firme amor. 

£diç2o de 1595 e MS. de I^iii Franco. 

Só, n'hum pastor, que nunca sol nem lua 
Ou serra algOa, desde o Ibero ao Indo 
Outro tão lindo virão, tão manhoso. 

Só n'hum pastor que nunca o sol nem Ida, 
Ou serra algOa desa'o Ibero ao Indo. 
VirSo outro tão lindo, tdo manhoso. 

Edição de 1595 e MS. de Laii Franco. 

N'est*alma minha tão secretamente, 
Qua n*alma minha tão secretamente. 

EdiçSo de 1996. 

Cá n'alma minha tão secretamente. 

MS. de Laii Franco. 
Ond'eu mantinha os olhos do desejo. 
Onde eu mantinha os olhos e o desejo. 

EdiçSo de 1595. 

Pois descoberto vos foi tudo e daro. 
Que descuberto vos foi tudo e claro. 

Ediçlo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Quão grande mal quereis á humana gente. 
Gamanho mal quereis á humana gente. 

Ediçlo do 1995. 

E vós tão cedo me tirais hum bem. 

Que Amor ja tem impresso n'alma minha. 

E vós tão cedo me tirastes hum bem 
Que Amor tem ja impresso n'alma minha. 

MS. de Laif Franco. 

Mas ja a face alegre o sol esconde. 
Mas ja que a face alegre o sol esconde. 

MS. do Laii Franco. 

TOMO III ^ 



386 



Asjombras cahem; vão-se as alimárias. 
Fartas das várias hertxis, seu caminho. 

As sombras caem e v2o-se as alimárias, 
Das ervas varias fartas, seu caminho. 

Ediçio de 1595 e MS. de Lnii Franco. 

Buscão seu ninho os pássaros sem dono : 
Ja por o sono esquecem o comer. 

Buscando o ninho ós pássaros sem dono : 
Jà pelo sono esquecem o comer. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Loix Franco. 

Quero esquecer também tão doce historia, - 
Pois he ínemoria que traz mór cuidado. 

Quero esquecer também t2o triste historia, 
Pois he memoria que trás mais cuidado. 

'Edição de 1595 e MS. de Lníi Franco. 
Qut vão regando o vaUe matizado. 
Que vSo regando o campo matizado.- 

EdiçSo de 1595 e MS. de Lute Franco. 

Bem qu'eu verei mudar a opinião. 
Pois homens são: a quem o esquecimento. 

Inda qa'eu mudarei a opinião, 

Qu'emfim homens sSo a que o esquecimento. 

Ediçio de 1595. 

Como ja m'enganou mU vezes, quando. 
Como me ja enganou mil vezes, quando. 

MS. de Lnis Franco. 

Huma Nympha algum véo no daro Tejo, 
Que se m'está Beltsa figurando. 

A huma Nympha hum véo no claro Tejo, 
Que se m'está Beliza afigurando. 

EdiçSo de 1595 o MS. de Luiz Franco. 

Que facilmente aos olhos se figura. 
Que facilmente aos olhos s'affigura. 

EdiçSo de 1595. 

Para acolá não tõe caminho aberto. 
Par' acolá não tem caminho aberto. 

EdiçSo de 1595. 

Qu'a voz m'impede, e a lingua negUgenle. 
Que a voz mlmpide e a lingoa negligente. 

EdiçSo de 1595. 



387 

Assi m*está tomando, e o peito frio, 
D'est'arte está tornando o peito frio. 

Edição de 1595. 

Tudo me falta quando estou presente. 
IJudo me falta agora em estar presente. 

Edição de 1595 e MS. de Loix Fraoco. 

Ok altas semideasl pois padece. 
Ó sacras semideas!'pois padece. 

MS. de Loif Franco. 
Ou seja por vós, Nymphas, preservada. 

Ou seja por vós, Nyniphas, reservada. 

Edição do 1595 e MS. de Laii Franco. 

Ou em arvore alguma, ou pedra dura 
Me deixai velozmente transformada. 

Ou n'a]gQa arvore alia, ou pedra dura 
Seja por vós asinha transformada. 

Edição de 1595 e MS. de Lais Franco. 
De se mudar tão rara formosura. 

De se mudar tamanha formosura. 

Edição de 1595: 

Em se mudar tam rara fermosura. 

MS. de Luiz Franco. 
E a quem falta o despejo da ousadia, 

E a quem fallece a lingoa e ousadia. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
Se com amor o fazes, eu te digo. 
Se com o amor o fazes, eu te digo. 

Edição de 1595. 

Porque ja não te lembra que folgaste. 
Porque te não alembra que folgaste. 

Edição de 1595 c MS. de Loii Franco. 
Com teus formosos olhos ja m'olhaste. 
Com teus fermosos olhos me olhaste. 

Edição de 1595. 

Com teus olhos angélicos me olhaste. 

MS. de Laix Franco. 

Como t'esquece ja {gentU pastora)i 
Como te esquece a ti gentil pastora. 

MS. do Luif Franco. 



588 

Porqu'a memoria tão á pressa perdes. 
Como t2o prestes asi a memoria perdes. 

EdiçSo de 1595. 

Como tSo prestes a memoria perdes. 

lis. da Luís FraDCo. 
Do amor que me mostravas, qu'eu não digo. 
Do amor que mostravas, qu*eu nSo digp. 

Edição de 1595. 

E como te não lembras do perigo. 
Porque te nSo alembras do perigo. 

EdJçSp de 1595 o MS. de Lais Franco. 

Qu'a Vénus, qu'a ganhou por formosura. 
Que Vénus, que a ganhou por formosura. 

Edição de 1595 e MS. de Lais Franco. 
E escondendo-te logo na 'spessura. 
E escondendo-te antre a espessura. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Lais Fraoeo . 
Não era esta a maçãa d'ouro formosa. 
Mâo era esta a maçSa d'ouro fermosa. 

Edição de 1595. 

Com que encoberta assi d'astucia tanta. 

Assim emendou a censura, porém no MS. de Luiz Franco e no que servia 
para a impressão das obras do Poeta commentadas por Faria e Sousa, se lia : 

Com que no Templo de Diana Santa. 

Cydippe s'enganou por evinçosa. 
Cydippe s'enganou de cubiçosa. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Lais Franco. 
Que o firme amor com a alma eterna dura. 
Que o íirme amor co'a alma eterna dura. 

EdiçSo de 119S. 
Meus olhos magoados to dirão. 

Meus olhos magoados o dirSo. 

MS. de Lais Franco. 
Mas de pura affeição, d'amor honesto. 

Mas de pura affèiçáo e amor honesto. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Lois FraAco. 



389 



E poi» de teus desctiidos e ousadia 
Nasceo tão dura e áspera mudança. 

£ pois teu máo cuidado e ousadia 
Causou tão dura e áspera mudança. 

EdiçSo de 1S95 e MS. dd Loii Franco. 

De ver-me nunca mais, como ja viste. 
Que mais me não verás como ja viste. 

EdiçSo de 1595 e US. de Loíi Franco. 
Âssi s*ha d'ir tomando (ah sorte dura!) 

Assi se hade ir tornando sem ter cura. 

Edição de 1595 e MS. de Lnii Franco. 
iVesto sylvestre e áspera rudeza. 

Nessa sylvestre e áspera rudeza. 

Edição de 1595. 
Destarte os teus cabdlos se tomarão. 

Desfarte teus cabellos se tornarão. 

Edíçlo de 1596. 

Consinta-me tombem que perca a vida. 
Consente-me também que perca a vida. 

MS. de Lnix Franco. 
Pois se a fortuna sempre embravecida. 

Que se a fortuna dura embravecida. 

Kdiçlo de 1595 e MS. de Laii Franco. 

Em meu tormento tanto se desmede. 
Tanto em meu tormento se desmede. 

Edíçio de 1595. 

Não viva mais hum'alma tão perdida. 
Não viva mais pessoa tão perdida. 

MS. de Lais Franco. 
Fartae ja de meu sangue vossa sede. 

Ó fartae de meu sangue vossa sede. 

MS. de Lnii Franco. 

Á sombra deste fúnebre cypreste. 
Ao pé de um funéreo cy preste. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

As desusadas musicca de Orphéo 
Aqui me cantareis ; e desta sorte. 

Com as desusadas musicas de Orpheo 
Que me cantareis, e desta sorte. 

EdiçKo de 1595 e MS. de Luiz Framo. 



590 

Não haverei inveja ao matuoléo. 

NSo averei inveja ao Mausoleyo. 

MS. da Loii Franco. 

E porqu'a minha cinza se conforte, 
E porque minha cinza se conforte. 

Ediçio de 1595. 

As exéquias direis de minha morte. 
As exéquias fareis de minha morte. 

Ediç9o de 1595 e MS. de Laiz Franco. 
Que pareça que vem dos olhos vivas. 
Que paresçSo que vem dos olhos vivas. 

Edição de 1595. 

De redor do sepuichro os gtutrdadores. 
D'arredor do sepuichro os g[uardadores. 

EdiçSo de 1595. 

Pois nada comeriâo de pezar. 
Que não comerSo nada de pezar. 

MS. de Luii Franco. 
Dos que por aqui forem camif^ndo. 

E para os que aqui forem caminhando. 

Edi(9o de 1595 e BIS. de Loii Franeo. 
IThuma rtêde cortiça pendurado, 
N'híla ruda cortiça pendurado. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Laiz Franco. 

De Nymphas e pastores celebrado. 
De Nymphas e pastoras celebrado. 

EdiçSo de 1996. 

Se algum dia, por caso, na espessura. 
Se algda hora por dita na espessura. 

Ediçio de 1595 e MS. de Laiz Franco. 

E em figura de cinza os adiarão, 

E em figura de cinza se acharSo. 

Edição de 1595 o MS. de Laiz Franco. 

EGLOOÂ I\' 

Interlocutores: ^-Frondoso e Duriano, 

Na primeira edição traz este titulo: «A huma Dama». É dedicada a uma da- 
ma, provavelmente a sua amante; diz-lhe que se o favorecer nSo precisa da 



594 

fonte do Parnaso ou Helicon, nem das Musas, pois ella é a sua verdadeira Musa, 
e que p<kle fazer com que engrandeça em estylo heróico a fama portugueza : 

Podeis fazer que cresça d'hora embora 

O nome Lusitano, e faça inveja 

A Esmirna, que de Homero 8'engrandece. 

Podeis fazer também que o mundo veja 

Soar na ruda frauta o que a sonora ^ 

Githara Mantuana só merece, etc. 

A mesma promessa faz á sua dama na ode vi : 

Por vós levantarei nSo visto canto, etc. 

Nas differentes ediçóes a egioga v traz esta declaração : « Escrípta pelo auctor 
na sua puerícia, continuando com a passada «. Sendo assim, o roeta concebeu 
de mui verdes annos o pensamento do seu poema épico; porém eu persuado-me 
oue foi escrípta em idaae mais madura, não só por que faz protestos á sua dama 
ae a amar, apesar da sua ingratidão, em qualquer parte,*para onde vá, o que in- 
culca o pensamento de uma ausência; mas porque se queixa -da vida se lhe pro- 
longar: 

A vida, apezar meu, ja tão comprida. 

O argumento d'esta egioga são queixas por o deixar por outro : 

Fugiste d'bum amor tão conhecido. 
Fugiste d'huma fé tão clara e firme; 
E segwste a quem nunca conheceste. 
Não por fugir d'amor, mas por fugir-me; 
Pois bem vés, quanto eu tinna merecido 
Esse amor que tu a outro concedeste, etc. 

E a outrem fentregaste 

Por nada me ficar em qu'esperasse, etc. 

Termina dirígindo-se á mesma senhora da invocação : 

Se aquillo, au'eu pretendo 

Deste trabalno haver, que he todo vosso, 

Senhora, alcançar posso; 

Não será muito haver também a gloría 

E o louro da victoria. 

Que Virgilio procura e haver pretende. 

Pois o mesmo Virgilio a vós se rende. 

EIsta egioga reputa Fana e Sousa ser a composição roais frouxa que achou 
em todas as Rimas, comtudo diz que n'ella encontrou algumas estancias dignas 
da sublimidade do seu mestre. 

No reino Neptunino se escondia. 

No reino de Neptuno se escondia. 

SdiçSo de 1595. 

De idade cada qual era mancebo. 
De idade cada hum era mancebo. 

Edição do 1595. 



392 

Que o pretenda cantar sem vossa ajuda. 
Que o oase cantar sem vossa ajuda. 

EdiçSo de 1995. 

Frauta deste favor vosso for dina. 
Frauta deste amor vosso dina. 

Edípio de 1595. 

Em vós tenho CaUiope e Thalia; 
E as outras sete irmãas, co'o fero Marte; 
Em vós deixou Minerva sua viúia ; 
Em vós estão os sonhos do Parnaso. . 

Em vós tenho Calliope, tenho Thalia; 
E as outras sete irmSas, do fero Marte; 
Em vós perde Minerva sua valia; 
Em vós estão os sonhos do Parnaso. 

* EdiçlodelSOS. 
Com qualquer pouca parte. 



Edi^So de 1595. 



Com a mais pequena parte. 
.A cantar seus amores. 
Tratar de seus amores. 

EdiçSo de 1595. 

Por a mais fresca parte da verdura. 
Polia mais fresca parte da verdura. 

Edição de 1595. 

Vinhão ja recolhendo o manso gado. 
Vinha ja recolhendo o manso gadp. 

EdiçSo de 1595. 

Hum estava càllado. 
E um estando calado. 

' EdiçSo de 1695. 

E em quanto este fatiava, aqudle ouvia. 

E em quanto o outro fatiava, o' outro ouvia. 

EdiçSo de 1595. 

AUi as pedras perdido a dureza. 
Alli as pedras perdi2o sua dureza. 

EdiçSo de 1595. 

Somente as que podião 

Estes males curar, pois os causavão, . 

O ouvido lhes negavão, 

E só as oue podiSo 

Estes males curar, que ellas causavão, 

O ouvido lhe negavão. 

EdiçSo de 1595. 



595 

D'atnor com tantos damnos não faziSOj 
Com eUas fatiando inda, asH dizião. 

De amor com tantos males n2o faziSo, 
Paliando inda com ellas lhes dizião. 

EdiçSo de 1595. 

Quizesses que (úgmChora te dissera, 
Inda que, qual durissimo diamante. 
Fora o teu crud peito endurecido. 

Quizeras que alffu'hora te dissera, 
Ainda que, de duro diamante, 
Fora teu cruel peito endurecido. 

Ediçfio de 1595. 
E fugitiva mais qu'a fonte pura* 

E fugitiva mais que agoa pura. 

Edição de 1595. 

Avivar-me os espnitos cansados. 
A avivar-me os espiritos cansados. 

EdiçSo de 1595. 

Escurecião o ouro, a mi matavâo.^ 
O ouro escureciáo, e a mi matav2o. 

Edição de 1595. 

Qu'outro goze da gloria a mi detnda. 
Que goze outro a gloria a mi devida. 

EdiçSo de 1595. 

Senão fosse esperar que morte dura 
Me venha emfim a dar a saudade. 

Se nSo he esperar que morte dura 
Em fim me venha a dar tua saudade. 

EdiçSo de 1595. 

DtjE qu'em huma bddàde.' 
Diz que n'hCla beldade. 

EdiçSo de 1595. 

Qu'hum tão constante amor desprezar queira. 
Qn'hnm tSo firme amor desprezar queira. 

EdiçSo de 1595. 

E fé tão verdadeira. 
E huma fé verdadeira. 

EdiçSo de 1595. 

Qu'a meu tormento só, só se devia. 
Que só a meu tormento se devia. 

EdiçSo de 1S95. 



594 

O bem que t'eu queria. 
E o bem que te queria. 

Bdiçio de 1895. 
Levaste-me o meu bem n*hum $ó momento. 

Levaste-roe meu bem n'hum só momento. 

Edição de 1596. 

Huma continua doTj hum grão tormento. 
Huma contínua dor, e hum tormento. 

EdiçSo de 1996. 

Hum mal, de que não pôde haver mudança. 
Hum mal, em que nSo pôde haver mudança. 

Ediçio de 1505. 

Dos males que, erud, tu me causaste. 
Dos males que me tu, cruel, causaste. 

Ediçio de 1595. 
Não te criaste, não, entre a rudeza. 

NSo foi tua creaçSo entre' a rudeza. 

Ediçio de 1595. 

No Ceo formada foi tal formosura. 
No Ceo formada foi tua formosunh 

EdiçSo de 1595. 

Pois, logo, essa dureza. 
Esta tua dureza. 

Ediçio de 1596. 
De hum verdadeiro amor, que tu bem vias. 
Hum verdadeiro amor, que tu bem vias. 

Ediçio de 1595. 

A fé, que conhecias. 
Huma fé, que conhecias. 

Ediçio de 1595. 

Qu'a natureza irracional lh'ensina. 
Que a bruta natureza lhe ensina. 

Ediçio de 1596. 

o rústico leão sem algum'arte, 
Dotnaturd instincto só ensinado. 
Aonde sente amor, logo se inclina. 

O rústico lefio sem nenhCla arte, 
Do- instincto natural só ensinado, 
Aonde sente amor, alli se inclina. 

Ediçio de 1595. 



595 

Ahl porque te não corres 

De cpie o leão te vença em piedade. 

Ou porque te nSo corres 

Que te vença o leão em piedade. 

Ediçio de i595. 

lyhuma cruel formosa ereaiura, 
D'hOa cruel formosa creatura. 

EdiçSode.i595. 

E em teu peito celeste. 
E em peito celeste. 

EdiçSo de 1995. 
Abrolhos me parecem frescas flores» 

Abrolhos pêra mim são frescas flores. 

Ediçio de 1595. 

Faz que o mal cada hora vá dobrando. 
Faz que o mal cad'hora vá dobrando. 

Edição de 1595. 

Ha de durar em ti tcd pensamento. 
Durará em ti hum tal avorrecimento. 

Edição de 1595. 

Pois bem vês, quanto eu tinha merecido 
Esse amor que tu a outro concedeste. 

Que bèm vés, que tenho merecido 
O amor que tu a outro concedeste. 

Ediçio de 1595. 

Alguma semrazõo; que bem conheço. 
Nenhuma semrazSo; que bem conheço. 

. EdiçSo de 1596. 

Esse peito formoso e ddicado. 
O teu femenil peito delicado. 

EdiçSo de 1595. 

Que s'esqueça hum tão áspero tormento. 
Esquecer-lhe hum tão áspero tormento. 

Ediç3o de 1595. 

Tu és hum só meu bem, huma só gloria. 
Tu és hum só bem meu, huma só gloria. 

Ediçio de 1595. 
Olhos que virão tua formosura. 

Olhos que virão' ja tua formosura. 

Edição de 1595. 



596 

Vontade, qu'em ti 'stava transformada; 
Alma, qtt*e$8'alma tua em $i to tinha. 

Vontade, que em ti era transformada; 
Huma alma que a tua em si só tinha. 

EdiçiodelSOS. 

Alma eo'o débil corpo está liada. 
Alma c'o débil .corpo está pegada. 

Ediçio de 1595. 
E que agora apartada. 

E agora apartada. 

Ediçio dê 1595. 

o triste corpo em última partida. 
O triste corpo na ultima partida. 

EdiçSo de 1595. 

Regendo em outro tempo o manso gado. 
Tangendo a minha frauta nestes vedes. 

Regendo n'outro tempo o manso ffado, 
Tangendo minha frauta nestes valJes. 

Ediçio de 1595. 

Que sinto ja por gloria a minha pena. 
Que sinto ja por gloria minha pena. 

Ediçio de 1995. 

Pois OS bens para ti todos nascerão, 
Nascerão para mi todos os danos, ' 
Logra tu tua gloria, eu meu tormento. 

Pois para ti os bens todos nascerão. 
Tormentos para mi, males e danos, 
Logra tu só teu' bem, eu meu tormento. 

EdiçSo de 1595. 

De quem tanto aborreces e desprezas. 
•De quem tu avorreces e desprezas. 

Edição de 1595. 

Cad'hora que sem ti, sem esperança. 
Cada hora que sem ti, e sem esperança. 

EdíçSo de 1595. 

A vida some dá tua lembrança. 
Sustenta-me esta vida tua lembrança. 

Ediçio de 1995. 

Padeço tal tormento. 
Padesce tal tormento- 

£diç9o de 1595. 



597 

Qa'HperaTá de ti quem te desama. 
Ou (pum ao menos te ama, 

Qu'inda espere de ti quem te desame, * 

Ou ao menos te ame. 

Edição de 1095. 

Mas como poderás ser despregada. 
Mas como podes tu ser de^rezada. 

Ediç9odel595. 

Pôde abrandar dos montes a aspereza. 
Abrandar pôde montes e aspereza. 

Edição de 1595. 

Que fará a fraca gente. 
Quanto mais fraca gente. 

Edição de 1505. 
Se ao humano parecer não se defende. 

Que ao humano parecer nSo se defende. 

Edição de 1595. 

E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste, 
E hum mal, em que todo o mal consiste. 

Edição de 1595. 

De ver O meu tormento. 
De veres o meu tormento. 

Edição de 1596. 

Antes tudo, soberba, desprezaste. 
Mas antes isto, tudo desprezaste. 

Edição de 1595. 

Por nada me fkar em qu'esperasse. 

Por nSo me ficar nada em que esperasse. 

Edição de 1595. 

A vida, a pezar meu, ja tão comprida, 
A vida, que a meu mal he tSo comprida. 

Edição de 1595. 

Pois sem mim não estás hum só momento. 
Que sem mim nunca estás hum só momento. 

Edição de 1595. 

Jnda que a alma do corpo se m'aparte. 
Inda que a alma úo corpo se aparte. 

Ediçãode 1595. 
Poderá ja ausentar-te. 

Poderá ausentar-te. 

Edição de 1895. 



398 



Vem a dar vida, ou morte a qaem te chama. 
Vem a dar morte, ou vida a quem te chama. 

EdiçSo de 1595. 
E o louro da vidoria. 



E o lauro da victoria. 



£dicSodolS95. 



E0L06Â V 



Em todas as ediçjjes antigas, menos na primeira, traz este titulo : cF«ito do 
Auetor na sua puericta », titulo que trasladaram da edição de 1598. Faria e Soasa 
parece seguir a opinião de que fosse escripia na puericta, aindaque constante- 
mente se admira que um rapaz apresentasse um tal alento poético. Mirm him 
$\ hervia todo ApoUo en el pecho de un rapaz que tal cosa pronunsiava, exclama 
elle commentando este verso : 

E voz de cisne tal qu'o mi^do espante. 

Na primeira edição vem por esta forma : «A Dom AnUmio de Noronha, Cm- 
tinuanao com a passada». Isto é, a iv. 

Eu sou porém de unl^ opinião contraria, isto é, estou persuadido que esta 
poesia foi escripta em idade mais adulta do Poeta, não só porque a egloga está 
repassada de uma certa cór de saudade que inculca ausência, mas porque, pela 
estancia que começa por este verso : 

Em quanto eu apparelho hum now esprito, 

verso rque me parece uma imitação d'este de Âriosto 

Che nominar con laude m'apparechio. 

se vô que o Poeta começava a tratar do poema épico, e assim é verosímil crae 
fosse talvez escripia já da índia. É, como se vô do título da primeira ^ção, ab- 
dicada a D. António de Noronha; não pôde porém ser este o joven amigo do 
Poeta, fallecido em Ceuta, cuja morte, como já vimos, deu assumpto á primeira 
egloga, o que pão só claramente revela o teor da dedicatória, a qual pelo epi- 
theto de grão Senhor e outros accessorios bem deixa ver que é dingida a pessoa 
de outra idade, e mais gravidade e intportancia para dar protecção, do que um 
mancebo de annos tão verdes; mas porque sendo escripta, como eu supponhOjjá 
da índia lhe não podia escrever, salvo se fosse para o outro mundo. 

Sendo o theatro das outras eglogas antecedentes o Tejo, n'esta não oiarca o 
local, e somente a hora do dia em que começa; igualmente não declara o nom^e 
do pastor nem da pastora objecto das suas queixas. 

Ao declinar da tarde o pastor, julgando não ser escutado, para dar algum alli- 
vio ao seu cuidado, queixa-se em sentidos versos da dureza da sua fxutora, a 
qual, ausente, o deixou sepultado na mais escura tristeza, e, endurecida, despreza 
o seu amor; roga-lhe que se apresente aos seus olhos, e diz-lhe que se se aparta 
por não ouvir seus rogos, que se engana; porque em toda a parte a ha de impor- 
tunar, e por mais que faça não poderá impedir que a ame não só n'esta vida, 
mas ainda na outra. 

Hade m'ouvir por vós o mundo todo. 

D'esta maneira de dizer : Hade-me, tira Faria e Sousa a inducção que o Poeta 
era natural de Lisboa (o que hoje não padece duvida) e não de Coimbra ou San- 
tarém, pois só os lisbonenses usam d'esta locução viciosa, em logar de Eo-im de. 



599 

Quando grita e rumor grande $ê sente, ele. 

Esta estancia imitou, on quasi trasladou o nosso Poeta da do Serafíno : 

Dove si sente qualche gran romore, 
O ver s'accende foco in casa, o torre, 
Per vera compassion, per gran dolore, 
Gridando ai foco ogn'un con acqua corre : 
E costei che m'accese il peito, e il core 
. Sempre con maggior foco mi socorre. 

É notável que o celebre Ercilla, contemporâneo de CamOes, d'elle ou do pró- 
prio Serafino imitou a mesma estancia na sua Âraucana : 

Como el furioso fuego de repente^ 
Quando en un barrio, ò vizmdad se enciende. 
Que con rebate súbito la gente / 

Corre con priessa, e ai remédio atiende, etc. 

Torna, meucclaro sol; toma, meu bem: 
Qual bei o Josué que te detém? 

É muito curioso ver n'esta estancia o nosso Poeta imitar o auctor da Menina 
e Moça, do mavioso Bernardim Ribeiro, seu contemporâneo, e porventura ami- 
go, em uma canção (inédita) dirigida á infanta D. Beatriz, filha d'el-rei D. Ma- 
nuel, e mulher de Carlos III, duque de Saboya, a aual, segundo é fama, apaixo- 
nadamente amou, e deu logar á sua celebre novella da Menina e Moça. r^'esta 
canção se liam estes versos. 

Vós, Senbora, que soys esta Luz minha. 
Descuidada estareys, onde ora estays, 
' De aquella grave dor, que por vós tem. 

Quem não tem mais, que o ser gue vós lhe days. 
Puraue tardays, meu sol ? Ah vinde azinha, 
Qual he o Josué que vos detém? 

O ultimo verso é o mesmo em Bernardim Ribeiro e Camões. Uma imitação 
tão saliente, feita por um poeta como Camões a um poeta contemporâneo, equi- 
vale ao mais exagerado elogio, e é sufficiente para conservar na justa reputação 
em que é tido pela posteridade o poeta a quem, dizem, o mesmo Camões cha- 
mava o seu Ennio. É pena que Fana e Sousa, que nos conservou algumas poe^ 
sias semsabores de outros auctores, nos não desse aqui na integra esta canção 
de Bernardim Ribeiro; eu possuo outro fragmento d'eila que pude descobrir na 
farroupagem dos manuscriptos do commentador. Depois da estancia que começa : 

Neste meu coração sempre esl^urás, 

segnia-se a seguinte estancia que Faria e Sousa encontrou em um manuscripto, 
e que nenhuma das edições traz ; esta estancia foi eliminada pela censura. 

Não podeis impedir. Ninfa excelente. 
Com darme a morte o ser de mim amada. 
O corpo sentirá ter-vos ausente, 
Como carne que da alma está apartada. 
Porém a alma que vive eternamente, 
Em vós, por leys de amor he trasladada. 
Amada, pois, sereis desta em eterno. 
Ou ja no Ceo esteja, ou ja no inferno. 



400 

Cá m'aeompanhará oosia memoria. 
Assim se emendou; nos manuscríptos vinha: 

Lá me acompanhará nesta memoria. 
Faria e Sousa commentando este verso 

NSo sou eu mesmo aquelle que tu amaste? 

insiste novamente em querer provar que esta egloga foi escripta' aos 14 annos 
do Poeta; estorce-se, porém encontrando contradicções, e empurra o assumpto 
para o amigo, D. António de Noronha, pretendendo que n'ella se descrevem os 
amores do joven fidalgo e da sua ingrata Marfída. Porém nada d*isto pôde oom- 
binar-se, pois se fosse escripta aos i4 annos do Poeta, estaria aquelle mancebo 
ao collo da ama, por isso ôue sendo escolhido para instar no torneio em. que 
tomou as armas o príncioe D. JoSo, de 16 annos de idade, é natural tfue fosse 
o justador da mesma idaae, e n'este tempo tinha já Camões 29 annos. Deve por- 
tanto abandonar-se este mhroqlio e assignar pelo menos o anno de,i549 a esta 
composição^ por imitações visíveis que se encontqyn n'ella de Boscan e Garci- 
lasso, escriptores de que o Poeta não poderia ter conhecimento antes doesta epo- 
cha, salvo em manuscriptos. 

Jleu Tuào verso, em cuja companhia. 

Meus rudes versos, em cuja companhia. 

Edi(9o dfl 1595. 

Ainda além cumprido o meu desejo. 
Cumprido inda além o meu desejo. 

Edi(9o de i695. 

Afjóe te dão, a q^em junto $e ha dado. 

« 

A vós se dem, a quem junto se ha dado. 

Ediçio de 1505. 
Ha de m'ouwr por vós o mundo todo. 

Per vós me ouvirá o mundo todo. 

Ediçio de 1595. 

Em vossas mãos s'enireq5o valerosas. 
Qu'em vossas mãos se entregão valerosos. 

EdiçSo de i595. 

Porqu'ao futuro vivõo entr'a gente. 
Pêra depois viverem entre a gente. 

Ediçio de 1595. 

Para mover as almas a piedade. ^ 
E os corações moverem a piedade. 

EdiçSo de 1595. 

E o mais do roxo dia era pdssctdo. 
E o mais do dia ja era passado. 

Ediçio de 1595. 



404 



Eu que o eícutei, n'huma arvore 'escrevia. 
E que o ouvi, de huma arvore escrevia. 

Ediçlo de i595. 
Ou tu do monte Pindaso és nascida. 

Ou tu do monte Pindaro és nascida. • 

Ediçlo de 1595. 
Não pôde ser que fosse concebida. 

Que n$o pôde ser sejas concebida. 

EdiçSo de 1593. 
Ou quiçá qu'és em pedra convertida. 

Ou és quiçais em pedra convertida. * 

Ediçlo de i595. 
Ou tens da natureza tal ventura. 

E tens de natureza taP ventura. 

/ EdiçSo de 1595. 

Só de marmor tomar-te o coração. 
Tomar- te só de mármore o coração. 

Edição de 1595. 
Ja, ja com minha voz rouca e (horosa. 

Ja esta minha voz rouca e chorosa. 

Edição de i595. 

Os tigres em Hyrcania amansaria. 
A gente mais remota amansaria. 

Edição de 1595. 

Se não fosses crud, quanto formosa. 
Se não fosses cruel quanto formosa. 

Edição de i595. 

Mas suspirar por ti, mas bem querer-te. 
Mas suspirar por ti, e bem querer-te. 

Edição de i695. 
E viras a fé minha, limpa e pura. 

E viras esta fé tão limpa e pura. 

Bdiçao de 1595. 
Por ventura, que houveras ja piedade. 

Por ventura, que ouveras piedade. 

EdiçSo de id95. 

E tivera eu quiçá melhor ventura. 
E tivera eu quiçáes melhor ventura. 

EdiçSo de 1595. 
TOMO III S6 



402 

Mas nunca achtju igual tua beUeza, 
Se não $e foi em ti tua dureza. 

Mas nunca achei melhor tua beUeza, 
Senão com ver-se em ti sua dureza. 

EdiçSo de 1595. 

Ja huffí peito abrandara, que não sente. 
Este meu grave mtú, segundo he forte ; 
Se descera do inferno ao Polo ardente, 
A piedade movera a própria morte. 
Pois se huma gotta d*agua brandamente 
Toma brando hum penedo, duro e forte, ' 
Tantas lagrimas minhcu não farão, 

• 
ia hum peito abrandara, que nSo sente, 
Meu duro-e grave mal, segundo he forte; 
Se descora ao inferno fero e ardente. 
Movera a piedade a mesma morte. 
Se huma ffotta de affoa brandamente 
Abranda num penedo, duro e forte. 
Como lagrimas tristes n2o farão. 

.Edi(ftodei595. 

Na testa fonte vita tenho d'agua. 

Na testa tenho huma fonte viva d'agoa. 

Ediçfto de iS95. 

E no peito de fogo viva fragoa. 

Que tudo em si converte, tudo inflama. 

No peito está de fogo huma viva fragoa 
Que tudo em si converte, e tudo inflama. 

Ediçio de 1595. 

Se queres ver se ardentes são seus tiros, 
E se queres ver se ardentes são seus tiros. 

Ediçio de i59S. 

Quando qrita e rumor grande se sente, 
Porque fogo se ateia em casa, ou torre. 

Quando rumor algum grande se sente. 
Que se acende fogo em casa, ou torre, 

Ediçio de iS95. 

r 

Agua ao fogo gritando; $ cada hum corre. 
Gritando agoa ao fogo; e cada hum corre. 

Ediçio de 1595. 

jye$t*arte anda o meu peito em dkamma ardente. 
Assim anda meu peito em chamma ardente. 

Ediçio de 1595. 



405 

Quando vemos que sahe lá no Oriente 
O sd, seu curso antigo começando. 
Formoso, intenso, puro, refulgente, 
O monte, o campo, o mar, tudo alegrando. 

Quando o sol sae lá no Oriente 
O seu anti(^uo curso começando, 
Formoso, intenso, puro e refulgente, 
O monte, campo, mar, tudo alegrando. 

Edição de 1595. 
E em outras terras sahe, allumiando. 
E n'oatras terras sae, alumiando. 

Edição do 1595. 

Sempre, em ^nto vai dando ao mundo giro, 
Charão por ti metu olhos e eu suspiro. 

Sempre, em quanto dá ao mundo giro, 
Por ti meus olhos chorão e eu suspiro. 

Ediçlo de 1595. 

E, emfim, lhe éhega a noite, em que deseança. 
Vem, acabado a noite, em que descansa. 

Ediç9o de 1595. 

Trabalha na tormenta o navegante, 
Traz-lhe a dará manhãa feliz bonança; 
Recobra o fructo fertU e abundante. 

Trabalha na tormenta o mareante, 
Gosa o dia sereno e de bonança; 
Recobra o anno fértil e abundante. 

Ediçio de 1595. 

Mas eu de meu cuidado e mal tão forte 
Tormento espero só, só crua morte. 

Mas eu de meu trabalho e mal táo forte 
Tormento espero, em fim, e crua morte. 

EdiçSo de 1595. 

D'ouvir meu damno as rosas matutinas, 
Cpndoidas se cerrão, s'emmurchecem. 

Co'ouvir meu mal as rosas matutinas. 
De dó de mim, se cerrão e emmurchecem. 

Edição de 1595. 

Os indómitos feros animais. 

Sem humano sentir, mostrão sentido. 

As arvores do campo, os animaes, 
Mostrão sentir meu mal, sem ter sentido. 

Edição de 1595. 



404 



Mas em ti minhas dores desiguais 
Nunca movem o peito endurecido : 
Por muito que te chame, não respondes. 

E a ti as minhas dores dosiguaes 

N2o movem esse peito endurecido: 

Por mais e mais que chatpe n2o respondes. 

EdiçSo de 1596. 

NaqueUa parte donde costumavas 
Apascentar meus olhos e teu gado; 
AUi donde mil vezes me mostravas, 
Qu'era o pastor de ti mais' desejado. 
Vezes mil te busquei, por ver se davas 
Algum breve descanso a meu cuidado. 
Busco-te em vão no vaUe, em vão no monte. 

NaqueUa parte adonde costumavas 

Apascentar teus olhos e teu gado; 

Alli donde mil me mostravas, 

Ser eu de ti o pastor desejado, 

Mil vezes te busquei, por ver se davas 

Ainda algum descanso a meu èuidado. 

No campo em vão te busco, e busco o monte. 

Edição de 1595. 

Agora triste, escuro he ja tomado. 
Agora triste e escuro he ja tornado. 

Ediçio de iS05. 

Eras tu nosso sol mais desejado. 
Tu eras nosso sol mais desejado. 

EdiçSo de 1595. 
Não pasce ja algum gado, com seccura. 

Nfto pasce o branco gado, com secura. 

Edição de 1595. 
Quando menos, que agora, áspera e dura. 

Quanto melhor, q\ie agora, áspera e dura. 

Ediçio de 1595. 

Jega sem ti a terra, ouvindo gritos, 
s cabrcu pasto e leite aos cabritos. 

* 

Nega sem ti a terra, dando gritos, 
Pasto ás cabras, e leite aos cabritos. 

EdiçSo de 1595. 

Este ribeiro, quando a dor m'obriga. 
Este ribeiro, quando amor m'obriga. 

EdiçSo de 1595. 

Não ha fera, a que a fome não persiga; 
Algum prado sem ti ja não florece. 

Nâo ha fera, que a fome nSo persiga; 
Nem o campo sem ti ja nfto florece. 

Ediçio de 1595. 



405 



CeQO$ esião^meuê olhos; nada vem. 
Porque não podem ver seu claro bem. 

Cegos esUo meus olhos; ja n2o vem, 
Pois que não podem ver meu claro bem. 

• Edic9o de 1595. 

Falta agua ao pasto, e sentem d*agua a falta 
As canàidas pacificas ovdhas: 
Bem conhecem também que o Ceo lhes falta 
As doces e solicitas abelhas. 

NSo chove ao pasto, ja qu'a d'agoa falta 
As mansas e pacificas ovelhas : 
Sem ti perecem, e o Ceo também lhes íklta. 
Nem acnSo flor as melifluas abelhas. 

Edição de 1595. 

A terra nos produz duros abrolhos. 
Produz a terra ja ásperos abrolhos. 

Ediç9o de 1595. 
Se restituir-lhe queres a alegria : 
Alegrarás o valle, o campo, o gado, 

E restituirás esta alegria: 
Alegrarás o campo, o monte, o gado. 

' EdiçSo de 1595. 

Torna, toma, meu sol tão desejado. 
Farás a noite escura, claro dia; 
E alegra ja esta vida magoada. 
Em que só tua ausência he Parca irada. 

Torna, vem ja meu sol táo desejado, 
Faze esta noute escura, em claro dia; ' 
E alegra ja esta magoada vida, 
Toda em tua ausência consumida. 

Edição de 1595. 

Vem, como quando o raio transparente. 
Deste nosso horizonte, qu'escondido. 

Vem, como guando o raio eminente 
Do nosso Orizonte, que escondido. 

Edição de 1595. 

Causado de ver o Orbe escurecido. 
Que causa ver o Orbe escurecido. 

Edição de 1595. 

Que assi he para mi tua luz pura 
Claro sal, como a ausência noite escura, 

Assi he para mim tua luz pura 
Claro sol, e ausente noite escura. 

Edição de 1595. 

Mas tu'squecida ja do bem passado. 
Tu esquecida ja do bem passado. 

Edição de 1595. 



♦ 



406 

ííúo menos que do valle fapartaste, 
E o lagar tambeoi desemparaste. 

Edição de 4595. 

Onde o meu erro viste, ou desvario. 
Que pôde merecer-te hum tal desvio? 

Pois onde merece táo grão desvio, 
Ouve-me, pois me vez ja morto e frio? 

£diçiodel995. 

E que dellê não ha quem seja isento. 
E não ha quem d'amor se veja isento. 

Ediç&o de 1595. 

O mais simples animal, mais baixo e rudo. 
O animal mais simples, baixo e rudo. 

EdiçAo de 1595. 

Debaixo d*agua fria o peixe mudo 
Também lá tèe a ardor seu movimento. 
Pois as aves, que no ar cantando vóão. 
Não menos humas d' outras s'affeiçáão. 

Ate debaixo d'agoa o pexe mado 

Lã tora d*amorseu movimento, 

A ave, que no ar cantando vóa, 

Também por outra ave, também se aífeiçôa. 

EdiçSo de 1595. 

De hum raminho saltando a outro raminho, 
Motíra que por amor suspira e diama. 
Em quanto no secreto amado ninho 
Não acha aquelle, que só busca e ama. 
No canto, a nós alegre, triste chora. 
Porque teme perder a quem namora, 

« 

Saltando de raminho em raminho, 
Cantando com amor suspira e chama. 
Té achar no amado e doce ninho 
Aquelle a quem busca, e a quem ama. 
Descansa do trabalho que tomara. 
Tendo só seu descanso em quem achara. 

Edição de 1595. 

Sempre acha outro leão, sempre outra fera. 
Sempre acha outro leão, e outra fera. 

Ediçlo de 1595. 
Que o conversar no peito seu lhe gera. 

Que lhe a conversação no peito gera. 

£diç3o de 1595. 

E não temendo a nada, a Amor só teme. 
E não temendo nada, amor só teme. 

Ediç9o de 1595. 



407 

Temendo ao cobiçoso caçador. 
Temendo o cubiçoso caçador. 



Edição de i595. 



AlH donde anda e vive, vive amor. 

De temor e d*amor acompanhado. ^ 

Ali onde está e vive, vive amor, 
D'amor e de temor acompanhado. 

Edição de i59S. 

Temor a quem para feri-lo vinha. 
Amor a quem ja, ja ferido o tinha. 

Temor de que ali ferillo vinha, 
E a amor a quem ja ferido o tinha. 

EdiçSo de 1595. 

Pois se a fera insensível, que não sente. 
Se o animal insensível, que nSo sente. « 

Edição de i595. 

Porqu*a ti não fabranda hum fogo ardente. 
Que procede da tua formosura? 

Porque te nâo abranda o fogo ardente, 
Que procede de tua formosura? 

Edição de ISèS. 

Mais pura, mais suave, mais formosa, 
Qw* lyrio,, que jasmim, que cravo e rosa. 

Mais bella, mais suave, e mais formosa, 
Que o lirio, o jasmim, o cravo, a rosa. 

Edição d» 1595. 

Pôde ser, se me visses, que sentiras 
Ver liquidar hum peito em triste pranto. 

Pôde ser se me viras que sentiras 

Ver desfazer hum peito em triste pranto. 

Edição do 1595. 

As mágoas, os suspiros, que m'oumras. 
As mágoas e suspiros que me ouviras. 

Edição de 1595. 

Hum esperar á calma, á chuva, á neve, 
E nunca poder ver-te hum só momento. 

O esperar á calma, á chuva, á neve, 
E não te poder ver hum só momento. 

Edição de 1595. 

Quem te vio, e se vê de ti ausente. 
Quem te vio, e se vé de si auzente. 

Edição de 1695. 



468 

Com a agua que Uie toca brandamente. 
Go'a agoa que lhe toca brandamente. 

Ediçlo de 1595. 

Em ti 8Ô desconheço a natureza. 
Só em ti nfto conheço a natureza. 

Ediçio de IS9S. 

Que, a ser de pedra ou ferro totalmente 
Que, a ser de pedra, ferro, ou de' serpente. 

Ediçio de 1595. 

Das aguas e das chammas ao meu peito. • 

Do fogo e das lagrimas que deito. 

EdiçUo de 1595. 

Contente pasce o gado ao pé do monte. 
Contente a beber vai na fonte fria: 
Está tttdo contente, alegre tudo. ^ 

Contente come o gado ao pé do monte, 
Alegre vai beber á fonte fria : 
Tudo contente está, alegre tudo. 

EdiçSo de 1595. 

Se ja d'alma e do corpo tens a palma. 
Se da alma e do corpo tens a palma. 

EdiçSo de 1595. 

Nas chammas e no ardor, no fogo e calma. 
Na chamma, no ardor, no fogo e calma. 

EdiçSo de 1595. 
Não acharás vontade tão captiva. 

Não acharás vontade mais cativa. 

EdiçSo de 1596. 

Postoque vás por agua, ferro, ou fogo, 

Comtigo em toda parte m'has d'achar; 

Que o fogo em q ardo, e a agua em que m'affogo, 

Emquanto eu vivo for, hão de durar; 

Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte. 

Posto que vá por agua, ferro, ou fogo, 
Comtigo em toda a parte m'hasde achar; 
Que a chamma que me abraza he de tal fogo. 
Que em quanto eu vivo for, hade durar; 
E o nó, que me tem preso, he de tal sorte. 

Ediçio de 1595. 

Também o meu esprito possuirás. 



Meu espirito também possuirás. 



Ediçio de 1595. 



409 



Que deixe o amar-te nesUi e ess'outra vida. 
Que nfto te ame nesta e na outra vida. 

Edição de 1595. 
Ausente estes de mim, estando ausente. 

Estás de mim ausente, estando ausente. 

Edição de 1595. 

Cá m'acompanhará vossa memoria. 
Cá me acompanhará tua memoria. 

EdiçSo de i595. 
Até quando vos veja entrar na gloria. 

Até que eu te veja entrar na gloria. 

Ediç9o de 1595. 

E ainda então vereis (s'isto ser possaj 
Esta minh'alma lá servir a vossa. 

Inda então será, s'isto ser possa, 
Servir esta alma minha lá a vossa. 

EdiçSo de 1595. 

Co'o rosto baixo e alto o pensamento. 
Co rosto baixo e alto o pensamento. 

EdiçSo de 1595. 

MU vezes parar fez no ar o vento. 

Mil vezes fez parar no ar o pensamento. 

Edição de 1595. 

« 

As circumstantes sylvas s*inclinárão, 
Condoidas das mágoas qu'escutárão. 

As circumstantes selvas se abaixarão, 
De dó das tristes mágoas que escutarão. 

Edição de 1595. 
Com hOa mão na face, reclinado. 
Tão enlevado em sua dor estava. 

Com huma mão na face e encostado, 
Em sua dor tão enlevado estava. 

Edição de 1595. 

Não via que ja o sol no mar entrava. 
Não vio o sol que ja no mar entrava. 

"" Edição.de 1595. 

Berrando andava em roda o manso gado. 
Berrando anda em roda o manso gado. 

Edição de 1595. 

Ao som ddle o pastor ergueo o rosto. 
A cujo som o pastor ergueo o rosto. 

Edição de 1595. 



440 

Quebrando então o fio de seu gosto, 
E o fio não auehrando de seu pranto. 
Por não se descuidar de seu cuidado. 

Quebrando então o fio a seu gosto, 
Mas nSo quebrando o fio a seu pranto, 
Para melhor cuidar em seu cuiaadq. 

. Ediçio de 4595. 
E6L0GA VI 

Interlocutores: — Agrário, pastor, Alicuto, pescador.* 

Dedicada ao duque de Aveiro, filho do Mestre de S. Thiago D. Jorge, e neto de 
D.João II. Para mostrar quanto o duque era entendido em matéria de poesiaitraz 
Faria e Sousa um soneto, composto por elle, muito bem trabalhado, que começa: 

Que fiz, amor, que tanto me maltratas? etc. 

e uns versos de arte menor em castelhano : 

Alma mia, no te veo, etc. 

Esta ègloga se nSo foi enviada da índia, foi feita depois da chegada do Poeta 
a Lisboa, pois na dedicatória o trata por duque, titulo que el-rei D. JoSo III lhe 
deu, por morte de seu pae, no anno de 1557, commutando para a villa de Aveiro 
o de Coimbra, que era o de seu pae. 

Vereis, Duque sereno, o'estylo vário, etc. 

Pelo teor da dedicatória se vé que foi escripta esta egloga em idade madura 
do duque; louva-o, alem da clara estirpe d'onde procede, pelos seus merecimentos 

Sessoaes, pelo seu valor, engenho, sciencia, inclinação ás musas e pela gravidade 
o seu conselho nos negócios do estado. 

Se náo sabem cantar a menor parte 

Do sapiente peito e gráo conselho. 

Que pôde, ó Reino iílustre, descansar-te, etc. 

Declara o Poeta ser o introductor da egloga piscatória em Portugal. 

Vereis, Duque sereno, o estylo vário, 

A nós novo, mas n'outro mar cantado 

De hum, que só foi das Musas secretario, etc. 

■ 

Deste seguindo o som, que pôde tanto, 
E misturando o antigo Mantuano, 
Façamos novo estylo, novo espanto, etc. 

Pretende Faria e Sousa que o Poeta, debaixo do nome de Alicuto, introduz 
o duque, fazendo referencia aos seus amores com D. Guiomar, mulher do infante 
D. Fernando, e que deram logar ao longo pleito que houve antes do dito casa- 
mento; porém eu me persuado que náo, porquanto eram já passados muitos an- 
nos que teve loear a morte d'esta senhora (1534), ou antes a tragedia que extin- 
guiu a easa de Marialva; alem d'isto Alicuto é aqui representado como um man- 
cebo. 

Agrário, embebido nos seus amorosos pensamentos, fugindo ao trato humano, 
póe-se a caminho, e por entre silvas e matos vae por cima de outeiros e pene- 



4i\ 

dos, e dá comsígo em um logar marítimo que parece ser a serra da Arrábida. Ao 
lançar os olhos ao mar sente uma doce musica, e vae topar com o pescador que 
a tangia em uma concavidade cavada pelo mar. Era este mancebo de idade flo- 
rescente, seu nome Alicuto, perdido pela formosa Lemnoria 

Nympha que têe o mar ennobrecido, 

cujos louvores ali tangia sentado n'aquella gruta. Maravilhado de ver um pastor 
estranho, o pescador pergunta-lhe que vem ali fazer, se o traz a curiosidade de 
ver o largo mar? Responde-lhe Agrário que nada d*isto o move, mas que vinha 
perdido e embebido nos seus amores até que o acordou o suave som que cantava 
a soa perigosa Lemnoria, e que só elle se admira de o ver, elle nSo se admira 
menos do estylo novo com aue o jouvia quebrantando ás ondas do mar; louva-o 
e convida-o a provar com elle o antigo canto pastoril, com o novo piscatório, e 
como mestre que é, julgará se ha dífiferença entre o canto marítimo e o campes- 
tre. Aceita Alicuto o certame, e convida-o á sombra d'aquel]e conéavo penedo, 
apto para o repouso, e que os abriga do sol, a começarem. Circumdam-no pas- 
tores e pescadores, anciosos de os ouvirem, com prémios accommodados aos dois 
géneros de canto, apparelhados para os vencedores, e começam a cantar alterna- 
damente: Agrário as perfeições de Dinamene e Alicuto as de Lemnoria. Os ou- 
vintes decidem que se um é um Theocrito em um estylo, o outro é um Virgílio 
no outro. 

Perdoem-me as deidades; mas tu, diva. 

Que no liquido mármore és gerada, 

A luz dos olhos teus, celeste e viva,. 

Tées por vicio amoroso atravessada: 

Nós petos lhe chamámos; mas quem priva, etc. 

Por esta estancia vemos que a dama de Alicuto atravessava alguma cousa os 
olhos, o que aqui encarece como graça, apontando o exemplo de Vénus que pre- 
tendem possuia este defeito. Em algun)as edições lia-se pretos em logar de peíos 
erradamente, porque náo só era absurdo dizer-se que os olhos eram pretos, ten- 
do-se dito no terceiro verso da estancia que eram azues; mas porquanto se diz 
petos, vocábulo portu^uez derivado do latim pakis, e significa olhos que téem um 
certo piscar, um gracioso defeito, como explica Nebrissa: «Cuius oculi sint depra- 
vati amabili vitio»; muito differente do strabismo, isto é, olhos vesgos e tortos^ 
differença que se nota n'estes versos de Horácio (satyra iii, livro i), em que nos 
ensina que devemos encobrir os defeitos alheios : 

At pater ut gnati, sic nos debemus amici, 
Si quod ut vítium non fastidire : strabonem 
Apellat poetum pater; et pullum male parvus. 
Si cui filuis est, etc. 

Anacreonte no poema do retrato que queria da sua amante, diz que fossem 
ardentes como o fogo, azues como os dfe Minerva, e petos como os de Vénus. 

A exemplo da sétima de Virgílio e da terceira de Sanazaro, cantam os com- 
petidores seis estancias cada um; estas eglogas, a terceira de Garcilasso e a sétima 
de Benivieni imitou o Poeta n'esta, assim como na decima segunda e decima 
quarta. 

Os troncos ás avenas dos pastores, 
E ja sylvestres brutos suspenderão. 

Os troncos e as avenas dos pastores, 
E os sylvestres brutos suspenderáo. 

Edição de 1599. 



4<2 

As ondas amansou do fundo pego. 
As ondas amansou do alto pego. 

Ediçio de i595 

Que, a canta-lo com voz aUa e divina. 
Que, canta-lo em voz alta e divina. 

EdíçIo de 1595. 

Mas se agora que affabil m'escutais. 
E se agora que afiabil m'escutai8. 

Ediçio de 1595. 

E se os Reis avôs vossos, que de Juba • 
Os Reinos debellárâo, não ouvis 
Que nas azas do excelso verso suba. 

Se os Reis avós vossos, de Juba 
Os Reinos devastarão, n2o ouvis 

Ediçio de 1595. 

D'armas e corpos fortes e gentis. 
De armas, corpos fortes e gentis. 

Ediçio de 1593. 

Hum Moço, cujo esforço, brio e manha. 
Do Olympo fez descer o duro Marte. 

Hum moço, cujo esforço, animo e manha. 
Fez descer do Olympo o duro Marte. 

Ediçio de 1595. 

Se não sabem cantar a menor parte. 
Se nâo sabem cantar a menos parte. 

Ediçio de 1595. 
Peito, quCy^ao douto ApoUo faz, vermelho. 

Peito, que o douto Apollo fez, veripelho. 

Ediçio de 1595. 

Porque a díe se affeitem como a espelho. 
Diz que a elle se affeitem como a espelho. 

• Ediçio de 1595. 

Saberão bem cantar, em nada vãos, 
D'Alicuto as contendas e d' Agrário. 

Saberão só cantar as suas vSas, 
Contendas de Alicuto vil e Agrário. 

« ' Ediçio de 1595. 

Tde o pego de Prochyta co'o canto 
Por as sonoras ondas compassado. 

Tem o canto de Procrita co canto 
Pelas sonoras ondas compassado. 

Ediçio de 1595. 



443 



Façamos novo estylo, nocò espanto. 
Façamos novo estylo e novo espanto. 

Edição de 1595. 
Embebido em um longo esquecimento. 

Embebido n'hum longo esquecimento. 

Ediç3o de 1595. ' 

Da branca Dinamene, qu'enverdece 
Só co*o meneo voltes e rochedos. 

Da branca Diamene, que enverdece 
Só CO meneo os valles e rochedos. 

Ediç3o de 1595. 

Ja quando as sombras vem cahindo escuras, 
Ja quando as sombras vem descendo escuras. 

EdiçSo de 1595. 
Perdida por o bruto companheiro. 

Perdida pelo bruto companheiro. 

Ediçlo de 1596. 

Muito não tinha vroseguido, quando 
Em a concavidade d'hum penedo. 

NSo tinha muito espaço andado ouando 
N'hua concavidade de humjpenedo. 

£diç9o de 1595. 
Topou um pescador, que prompto e quedo. 

Topou c'hum pescador que pronto e quedo. 

EdiçSo de 1595. 
Tangendo, faz o mar sereno e ledo. 

Tangendo fazia o mar sereno e ledo. 

EdiçSo de 1595. 

Por o nome de toda húmida gente, 
Pello nome de toda a húmida gente. 

EdiçSo de 1595. 

Era por a formosa Lemnoria, 
Era pela formosa Lemnoria. 

EdiçSo de 1595. 

D'irados ventos amansou co'o verso. 
Dos ventos feros amansou co'o verso. 

EdiçSo de 1595. 

Ouvindo Agrário, attonito, affrouxando. 
Do qual Agrário attonito afloxando. 

EdiçSo de 1595. 



4H 



Por hum pastor da rnusica divina, 
O rosto levantou bem sonegado. 

Pelo pastor da Musica divina, 
Âlevantando o rosto socegado. 

EdiçSo de 4595. 

Que razão ha, pastor, para que saias 
A este nosso escamoso e vil terreno 
Dos teus floridos myrtos e altas faias? 

Que rasáo ha, pastor, porque te saias 
Para o vosso escamoso e vil terreno 
Dos mui floridos myrtos e altas faias? 

EdiçSo de 4595. 

Amansadas dM mágoas, com que peno. 
Amansadas das agoas com que peno. 

EdiçSo de 1595. 

Logo verás o como desenfreia 
Eolo o vento por o mar undoso. 
De sorte que Neptuno se receia. 

Verás logo como desenfrea ' 
Eolo o vento pello mar undoso, 
De sorte que Neptuno o arrecea. 

Ediçio de 1595. 

Bravo e quieto, ou vento brando e iroso. 
Bravo, quieto ou vento brando e iroso. 

EdiçSo de 1595. 

A tua perigosa Lemnoria. 
Aa tna perigosa Lemnoria. 

Éáiç^ de i595. 

Porém se com verdade o lotivo e approvOy 
Desejo de o provar contra o sylvestre. 

O qual posto que certo louvo e aprovo. 
Desejo ae provar contra o sylvestre. 

EdiçSo de 1595. 

Bem julgarás se ha dará differença 
Entro canto maritimo e o campestre. 

Podes julgar se he clara differença 
Entre o novo maritimo e campestre. 

EdiçSo de i595. 

Alvoroço arUes ha, por mais que veja 
Que a tua confiança só me vmça. 

Mas antes alvoroço, inda que veja 
Que essa tua confiança só me vença. 

EdiçSo de 1595. 



4\p 

Os pescadores temos aos pastores 
Do som que pelo mundo se deseja. 

Os pescadores tem aos pastores 
No som que pelo mundo se deseja. 

EdiçSo de 4595. 

Do Vítreo fundo vendo estou juntar -^e. 
Do vitreo fundo vejo ja juntar-se. 

Edição de 1595. 

Bem vês por essa praia presentar-se. 
£ bem vés pella praia apresentar-se. 

Ediçio de 1595. 

E o mar vir por entr'eUas e tomar-se. 
£ o mar vir antr'ellas e tomar-se. 

Ediçio de 4595. 

Eis ja mH companheiros circumstantes. 
E ja mil companheiros circunstantes. 

Ediçio de 4595. 

As bem sonantes lyras se tocamo. 
Quando ja as lyras subilo tocavSo. 

Ediçio de 4595. 

Ou me dae ja a capdla de loureiro. 
Ou me dae ja a coroa de loureiro. 

Ediçio do 1595. 

Por quem do vento as fúrias pouco temo. 
Por que do vento as fúrias pouco temo. 

Ediçio do 1595. 

Se ás vossas sacras aras nunca nego. 
Se às vossas ricas aras nunca nego. 

Ediçio de 1595. 

Pescador ja foi Glauco, e dios agora 
He do mar; e Protéo Phocas guarda. 

Pescador ja foi Glauco, o qual agora 
Deos he do mar Protheo, e focas guarda. 

Ediçio de 1595. 

Se foi bezerro o deos, que cá se adora, 
Também ja foi delfim. Se se resguarda. 

Se foi bezerro o deos que amor adora, 
Também ja foi Delfim a quem resguarda. 

Ediç3o de 1595. 



4^6 



Vé-se qne os moços pescadores erão. 
Que o escuro enigma ao primo Vate derão. 

Verá que os moços pescadores erSo, 
Que o escuro enigma ao Vate derâo. 

Ediç9o de 4595. 

Com tanto gosto ja te presentei. 
A ti com tanto gosto apresentei. 

Ediçlo de 15K(. 
Para quem trago d'agua em vaso caw. 
Para quem trago eu d'agua em vaso cavo. 

Ediçio de i595. 

Os ramos de coral vou arrancando. 
Os ramos de coral venho arrancando. 

Ediçio de 1595. 
Que co*hum só riso a vida me daria. 
Que c'hum só riso a vida me daria. 

EdíçSo de 1595. 

Quem via o desgrenhado e crespo Inverno 
D'atras nuvens vestido, hórrido e feio. 

Quem vio ja o desgrenhado inverno 
D'altas nuvens vestido, hórrido e feo. 

Kdiçlodel595. 

Quando os troncos arranca o rio cheio, 

I 

Quando arranca* os troncos o rio cheo. 

Edição de 1596. 

Que ao mundo mostra hum pallido receio. 
Mostra ao mundo hum pallido receio. 

EdiçSo de 1595. 

Tal o amor he cioso, a quem suipeita. 
Tal he o amor cioso, a quem suspeita. 

EdíçSo de 1595. 

Se alguém vê, se alguém ouve o sibilante 
Furor lançando flammas e bramidos. 

Se alguém vio, pelo alto o sibilante 
Furor deitando flammas e bramidos. 

EdiçSo de 1595. 

A braços derribando o ja nutante. 
A braços derrubando o ja nutante. 

Ediçio de 1595. 



4^7 

Mifiha alva Dinamene, a primavera. 
Que os deleitosos campos pinta e veste. 

Minha alva Dinamene a Primavera, 
Que os campos deleitosos pinta e veste. 

Ediçlo de 1595. 

Qu'em terra lhes faz ver o Arco cdeste; 
As aves, as boninas, a verde hera. 

Com c[ne na terra vêem o arco celeste ; 
O cheiro, rosas, flores, a verde bera. 

Ediçio de 1595. 

As eondiinhas da praia, que presentão. 
Ás conchinhas da praia, que apresentão. 

Ediçlo de 4595. 

O navegar por ondas, que se assentâo 
Co*o brando bafo, com que o sol s'enfria, 

O navegar polias aguas, que se assentâo 
Co brando nafo, quando a sesta he fria. 

Ediç2o de 4595. 

Com o ver-te, se em tanto chego a ver-me 
' Gomo verte, huma hora alegre ver-me. 

Edição de 1595. 

A deosa, que na Lybica lagoa. 
A deosa que na Lybica alagda. 

Ediçio de 4595. 

Que no liquido mármore és gerada. 
Que no liquido marmol és gerada. 

EdiçSo de 1595. 

De luz o dia, baixa e socegada 

Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego; 

E com toda esta luz sempre estou cego. 

Do dia o lume, baixa e socegada 

Traz a dos seus nos meus, que o nSo nego; 

E com tudo isso índa assim estou cego. 

. Ediçio de 1595. 

O monte pastoril da antigua Manto. 
O campo pastoril de antigo Manto. 

Ediçio de 1596. 
EGLOOA VII 

Interlocutores : — Satyro i e Satyro n. 

Na edição de 1595 traz este titulo : ^Egloga dos Faunos derigida a D, Antó- 
nio de Noronha». Esta é, como se vé do seu titulo, a celebre egloga dos Faunos, 
em que a censura amputou algumas estancias. 

TOMO III 87 



4^8 

Começa por uma dedicatória a D. António, que exalta pelo seu valor e enge- 
nho poético, promettendo-Ihe faze-lo claro pelos seus versos, e que por elles o 
Douro e o Ganges o conheça; por esta promessa de o fazer conhecido na índia, 
parece ser escrípta esta egloga na proximidade da partida, ou quando já estava 
n^aquella parte dos dominios portuguezes. 

Nos versos que começam : 



No cume do Parnaso, duro monte, etc. 

descreve uma ribeira que nasce do cume do Parnaso, e presume Faria e Soasa 

3ue o Poeta allude aqui a Bernardim Ribeiro, fundando-se em encontrar em to- 
os os manuscriptos escrípto Bibeiro com i? maiúsculo. A esta deliciosa ribeira, 
que o Poeta descreve minuciosamente, tendo vindo parar por casualidade uma 
Imda nympha perdida das companheiras que vagavam pelo monte, encantada do 
ameno e maravilhoso do sitio, convidou as companheiras para se irem banhar 
áquella fonte no dia seguinte. Os dois Faunos, que andavam perdidos de amores 
por duas d'e8tas nymphas, indo seguindo as pizadas dos delicados pés, foram to- 
par com ellas nuas banbando-se na fonte; porém presentindo as nymphas esta 
cilada, se lançaram a fugir pela espessura. 

Os satyros desesperados porque as não podiam seguir, porque se viam 

Nada dos pés caprinos ajudados, 

rompem em sentidas queixas mostrando-lhes, com o exemplo de Eurídice e och 
tras, o períffo a que se aventuraram outras nymphas por terem fugido a quem 
as amava. Mostram-lhes, com exemplos que as mesmas deusas, e tudo que existe 
na natureza, se rende ao poder do amor, por isso ellas nfto devem seguir a única 
excepção. 

Imitou o Poeta n'esta egloga a iii de Garcilasso e o poema Saít£«s de Sannazaro, 
e nos versos que começam : 

Ah Nymphas fugitivas, ele. 

o fragmento de uma canção *de Bernardim Ribeiro; o fragmento é este: 

* Porque foges á vida desdenhosa? 

De quem te segue e ama e te deseja? 

Volve esse rostro a mim tâo desejado, 

Ve que o fugir mil males tem causado: 

Exemplos te dirão do tempo antiguos * 

Quanto lhe sfto naturaes os perigos. 

Olha bem que fugindo 

Podes de huma má bicha ser mordida. 

Que estará entre essas hervas escondida. 

Euridice fugindo temerosa 

^De Aristeo pastor quando a seguia. 

De huma bicha mordida venenosa. . 

As companheiras da nynipha são oito, e a maior parte nomes a que o Poeta 
se refere nas suas poesias: Dinameiíe, Eíire, Sirene, Nise, Amanta, Ehsa, Daliana 
e Beliza. As duas ultimas porém especifica : 

Ambas vindas do Tejo, que como ellas, 
Nenhuma tão formosa as hervas piza. 

Ediçio de 4595. 

Quer Faria e Sousa que estas nymphas sejam as Musas, e que o Poeta quiz 
talvez descrever a corte da infanta D. Maria, cuja casa era, como todos sabem, 



4^9 

ama academia de senhoras illnstres pelo seu saber. Seriam as duas vindas do Tejo 
as duas Si^eas? Julga também Faria e Sousa que os interlocutores sejam o Poeta 
e D. António de Noronha; inclíno-me alguma cousa a este pensamento, bem como 
me quer parecer que a egloga seja uma allegoria do paço. Esta composição é 
recommendavel, porque parece ter sido o ensaio do canto ix dos Lusiadasj com 
o qual tem certa analogia; n'ella se entregou o Poeta ao mesmo gosto de uma 
descriptiva algum tanto lasciva, como no díto canto do poema épico. 

Na primeira edição das Rimas (1595) vem a declaração que se cortaram duas 
oitavas, que eram as que se seguiam á que começa : 

Quem fosse a mansa vaca di-lo-hia. 

o que se conhece pela falta de connexfto com a seguinte : 

Tudo isto Acteon vio na fonte clara. 

N'estas duas estancias descrevia lascivamente a Diana no banho. Faria e Sousa, 
referindo-se a esta amputação que soífreu a egloga n'este ponto, diz nos seus 
commentarios (Mss.): «Entre esta estancia e la seguiente se quitaron dòs estan- 
cias como advierte la edicion primera; e isto sin duda ftie porque escrupulearon 
los que vieron esto para impremírse, en que el P. discribia con alguno desenfado 
^an a Diana desnuda en la agua, porque la estancia seguiente entra dandole a 
entender assi, diziendo: «Todo esto vio en la fuente Acteon,» e todo esto que el 
vio nos quitaron de la vista aquellos inportunantissimos escrúpulos. De creer es 
que aquella discrípcion ou pintura de Diana desnuda seria egual a la de la des- 
nuda vénus en los Lusiadas, C. ii, estancias xxxiv, xxxv, xxxvi y xxxvn, que 
es la mayor que asta oy se ha logrado : e assi como está nunca fue daiiosa ai 
bien publico tambien esotra no lo fuera. Zelos ignorantes son ». 

O mesmo Faria e Sousa, para nos indemnisar da amputação aue os censores 
fizeram a esta poesia, roubanclo-nos dos olhos as mimosas formas aa deusa trans- 
parecendo no.crystal das aguas, nos quíz apresentar um quadro do mesmo as- 
sumpto traçado por escriptor que tratou a mesma fabula de Acteon, o doutor 
Mira de Mescava. Esta descrípção porém é de ura estylo exagerado e gongorico, 
por isso não vale a pena de a apresentar ao leitor; mas se o poeta castelhano foi 
exagerado na pintura da deusa no banho, é tâo natural e tâo hábil na dos gal- 
gos fatigados que nâo deixa nada a desejar, e nSo podemos resistir ao gosto de 
aqui transcrever os seus naturalissimos versos, obra prima de descripção. 

El pecho en tierra estan, y ensanprentadas 

Las manos tienen iuntas, y tendidas 

Los canes, que pulsando las hiiadas 

Estriban en las piernas encogidas. 

Las lenguas anhelando estan sacadas, ^ 

Y las-orejas floxas, y caídas, 

Ni ai sueno, ni ai manjar, ni ai agua atentos 

Solo con rispirar ostan contentos. 

Na verdade é uma descripçSo bem poética, natural e verdadeira. Alem does- 
tas estancias da Fahvla de Acteon, se cortou mais outra que se lia entre a que 
começa : 

Lembre- vos quando as gentes eelebravSo. 

e a que se segue : 

Mas ella emíim, os braços estendendo, 

em que o Poeta descrevia os amores de Priapo e a nympha Latho; e nSo só fo- 
ram mandados riscar os versos, mas o commentario em que Faria e Sousa, em 



420 



prosa» fazia a de.scripçSo que o Poeta tinha feito em verso. Também na estancia 
que começa : 

Tudo isto Acteon vio na fonte clara, 

se mudaram o terceiro e quarto verso, que se liam assim : 

Que a pura Deusa de tal vista avara, 
Liberal de sua agoa o permittio. 

Que nas edições se lêem : 

Que quem assi desfarte alH o topara. 
Que se mudasse em cervo permittio. 

Isto consta da censura que tenho á vista. É notável que tendo eu encontrado 
alguns manuscriptos das poesias já impressas do Poeta, com difSculdade tenho 
encontrado as eglogas, isto é, as primeiras, e em um só Ms.; e nunca me foi pos- 
sível alcançar estai 

A gyltmtres deidades maUratárão. 

A sylvestres Deosas maltratarão. 

Ediçlo de 1505. 

Em quem guas dtas mentes assinarão; 
Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito. 

Em que suas altas mentes assinarão ; 
Se meu engenho he rudo, e imperfeito. 

Ediçlo de 1593. 
Levantar eom a causa o baixo effeUo, 

Levantar co'a causa o baixo effeito. 

Ediçlo de iOM. 

O que o meu canto por o mundo estende. 
Vedes que as altcu Musas do Parnaso. 

O oue meu canto pelo mundo estende. 
Yédes que altas Musas do Parnaso. 

Ediçlo de 1595. 

O que a vosso louvor meu canto aspira. 
O que em vosso louvor meu canto aspira. 

Ediçlo de 1505. 

Pois sei dizer, Senhof, que a lingua muda. 
Pois sei-vos. Senhor, dizer que a língua muda. 

Ediçlo de 1595. 

Fazem o verde monte mais contente. 
Fazem o monte verde mais contente. 

Ediçlo de 1505. 

' Se podem, huma e huma, estar cofitando. 

Se pôde, huma e huma, estar contando. 

Ediçlo de 1595. 



42\ 

Não se verão em derredor pizadas. 
NSo se verão em redor pizadas. 

Edição de 1595. 
A cecém pura, a flor que dos amantes. 

i 

A cecém branca e a flor que dos amantes. 

EdiçSo de i595. 

Escondendo-a dos Faunos petulantes. 
De companhia dos Faunos petulantes. 

Edição de 1595. 

A quem este lugar era encoberto. 

A quem este alto monte era encuberto. 

Edição de 1595. 

A novidade vendo manifesta. 
E vendo a novidade manifesta. 

Edição de 1595. 
E tanto por extremo a namorou. 

Que tanto por extremo a namorou. 

Edição de 1595. 

A lavar-se em aquella fonte amena. 
A lavar-se naquella fonte amena. 

Edição de 1595. 

D'huma os louros cahellos s'espalhavão 
Por o formoso coito sem concerto, 
E com mH nós suaves s'enlaçavão. 

De huma os cabellos louros s'espalhavSo 
Pello formoso collo sem concerto. 
Com dous mil nós suaves s'enlaçavSo. 

Edição de 1596. 

Seus delicados corpos n'agua dará. 
Seus delicados corpos n'agoa clara. 

Edição do 1595. 

Do Tegéo Pan; Amanta e mais Elisa. 
Do Tegéo Pan; Amanta e Elysa. 

Edição de 1595. 

Por o viçoso morite alegres hião. 
Pello viçoso monte alegres hiSo. 

Edição de 1595. 

Que aos próprios duros montes magoavão. 
Que até os duros montes magoavão. 

Edição de 1595. 



422 

Da cilada dos dottê, com o rugido. 
Da futura cilada co rugido. 

Edição de 4593. 

Manifestando daro o escondido, 
Todas huma alta grita levantarão. 
Que o monte pareceo ser destruidá. 

Mostrando hum dos Deoses escondido, 
Todas tamanha grita allevantárão, 
Gomo se fosse o monte destruído. 

Edição d« 4596. 

^t despidas logo se lançarão 

Por a esjpessura tão ligeiramente. 

Que mats que o próprio vento então voarão. 

£ logo assi despidas se lançarão 
Pella espessura tão ligeiramente, 
Que mais então que os ventos avoávSo. 

EdtçSo de 4595. 

A rápida águia, cuja vista pura. 
A formosa águia cuja vista pura. 

EdíçSo de 1595. 

Nas azas novo alento; e, não parando. 
Veloz rompendo o ar fugir procura. 



\ 



Nas azas nova força; e, não parando, 
Cortão o ar e rompem a espessura. 

Edição de 1595. 

Dest'arte as deosas timidas, deixando. 
Descarte vão as nymphas, que deixando. 

Ediçlo de 1596. 

Desta sorte sentido se queixava. 

Mas depois de descançado se queixava. 

^ EdiçSo de 1595. 

Também assi Eperie foi mordida 
Da vibora escondida. 
Olhae a serpe occulta na herva verde. 
Quem o rigor não perde, perde a vida. 

Também assi Alcíthoe foi mordida 

Da bibora escondida. 

Olhae que toda a Nympha na herva verde. 

Que a condição não perde, perde a vida. 

EdíçSo de 1595. 

Postoque bellas n'agua vos vejais. 
Posto que bellas n'agoa vos vejais. 

Edição de 1595. 



423 



DiqOj Nymphcu, que minto : 

Pois mal pode haver nunca quem pretenda 

Negar-vos essa rara formosura. 

Nymphas, digo, que minto : 

Que nSo pôde haver nunca quem pertenda 

De desfazer em vossa formosura. 

Edição de 4595. 
Que se doudices faUa d'improviso. 
Sem tento e sem aviso. 

Que se falia doudices dimproviso. 
Sem tento nem aviso. 

Edição de 4595. 
Me não prive da vida alem do siso. 

Que me não tire vida alem do siso. 

Ediçio de 1595. 

Por, o niundo tèe feito e faz ncUura, 
Tem pello mundo feito e faz natura. 

Edição de 1596. 

As Sdtales são feras, d^ pintura. 
Os crocodilos feros, de pintura. 

Edição de 4595. 

As hienas levantão 
A voz tão natural á voz humana. 
Que a quem as ouve, facilmente engana, 
E vós (ó gentis feras) cujo aspeito, 

A sua voz levantáo 
Tão própria e natural á voz humana, 
Que a quem a ouve, facilmente engana. 
E vós o gentis feras cujo aspeito. 

Edição de 4595. 

* 

Andais fugindo (ò NymphasJ na espessura? 

Como? e não vos correis 

lyhavèr emvóstão^ duras condições. 

Andais fugindo (Nymphas) na espessura? 

Como nSo vos correis 

Que aja em vós tão duras condições. 

Edição du 4595. 

Antes ao puro Amar, em cuja mão. 
Mas antes ao amor, em cuja mão. 

Edição de 1595. 

Nada sem este affecto se gerou. 



Nada sem este afleito se gerou. 
Entre as plantas do prado. 
Entre as hervas dos prados. 



Edição de 4595. 



Edição do 4595. 



424 

Que junto huma da outra permanece. 
£ junto hama da outra permanece. 

EdiçSo de i595. 

Tanta tristeza a roUk por a morte. 
Tanta tristeza a róia pela morte. 

Ediçio de IS9S. 

Melhor qu'eu o dirá a st^tU donzela. 
Melhor.qu'eu o dirá a sutil donzella. 

Ediçio de 1595. 

Costume he seu tomar vingança em tudo. 
Eu íx)s verei lançar em hum momento. 

O seu costume he vingança em tudo. 
E vos verei deitar em hum momento, 

Ediçio de 4596. 

D'huma sciencia agreste lh'ensinára, 
Disse, qual se em tal ponto despertara 
D'horrendo sonho com pezado grito. 

E huma sciencia agreste lhe ensinara, 

Imaginando como que acordara 

D'hum sonho arrancando d'alma hum grito. 

Ediçio de 1595. 

Mçís de alguma disforme fera Hyrcana: 
La no Cáucaso horrendo vos criastes : 
Daqui trouxestes a aspereza insana; 
Daqui os cálidos peitos congelastes. 

Mas d'alguma fera disforme, fera Hircana : 
La no Cáucaso monte vos criastes : 
Daqui tomastes a aspereza insana; 
Daqui o frio peito congelastes. 

Ediçio de 4595. 

Que de humanas os rostos só mostrais. 
Que o rosto só de humanas amostrais. 

Ediçio de 1695. 

Agua, pedra, arhor, flor, ave, alma dura. 
Animal, herva verde, ou pedra dura. 

Ediçio de 1595. 

Assi também vereis passar nadando 
Atys, que GakUéa tanto amara. 

Assi mesmo vereis passar nadando , 

Acis, que Gaiathéa tanto amara. 

Ediçio dé 1596. 

Espessura; vereis aUi mudar-se 
Egeria, e em fonte clara e crystaUina 
Por a morte de Numa distiUar-ie. 



425 



£si)es8ura; vereis ali tornar 
* Egéria em fonte clara e cristalina 
Pella morte de Numa distillar-se. 

Ediçio de 4595. 

E 8'efUre as claras aguas houve amores. 
Se entre as claras agoas houve amores. 

Edição de 1595. 

Lá no monte Ida em pedra convertidos. 
No monte Ida em pedra convertidos. 

Edição de 1595. 

Por escusar a pena a quem amava. 
Por náo ver castigar quem tanto amava. 

EdiçSo de 1595. 

E tu também, ó DapkniSj que trouxeste. 
£ tu também (ó Daphne) que trouxeste. 

Edição de 1595. 

^ Tamanho amor lhe tinha a branda amiga. 
Tamanho amor tinha á branda amiga. 

Edição de 1595. 

Porque ouira Nympha estranha ja o sogiga. 
Porque outra Nympha estranha o sogiga. 

Edição de 1595. 
Olhae a quanto a crua dor obrigai 
n Por vingar-se, assi irada, transformando 
O foi em pedra. Oh dura confusão. 

Olhai a crua dor a quanto obriga! 
Que por vingar, sua ira, transformando 
Se foi em pedra, ó dura confdsSo. 

Edição de 1595. 

Do qu'inda agora o tronco sente as dores. 
Vereis, entre as de fructo matizadas. 

Que inda agora o tronco sente as dores. 
Vereis, também se fordes aiembradas. 

Ediçio de 1593. 
O sangue dos amantes, na verdura. 

Em sangue dos amantes na verdura. 

Ediçio de 1595. 

Que com seu pae se junta e se recréa. 
Que com seu se ajunta e se recréa. 

Edição de 1595. 

Lembrai-vos da verde arvore Penéa. 
Vede mais a verde arvore Penéa. 

Edição de 1595. 



426 

De Phrygia vede o moço delicado. 
Esta o moço de Phrigia delicado. 

£diç9o de 1595. 

Pois da aUa Bereeynthia sendo amado. 
Que da alta Bereciothia sendo amado. * 

Edíçio de 4995. 

O súbito furor Uie ficava 

Que as arvores e os montes se eahião, 

O súbito furor lhe afigurava 

Que o monte, as casas e arvores cahiSo. 

Ediçlo de 1595. 

Que os horrores a tanto o constrangião : 
Ja indignado no monte se lançava, 

Qu'a Deosa e a fúria grande o constrangiSo; 
Ja no indino monte se lançava. 

Ediçio de 1595. 

Por o monte, despois que anoiteceo. 
PeUo monte, de que anouteceo. 

Ediçio de 1595. 

E o nome Loto só lhe vai ficando. 
E o nome Lotho só lhe vai ficando. 

* Edição de 1995. 

Assi também daqueUa, a quem seguia 
O sacro Pan, a forma se perdia. 

Que assi (ambem aquella, a auem seguia 
O sacro Pan, a forma só peraia. 

EdiçSo de 1595. 

. Que vos direi de Filis, pois perdida 
Da saudosa dor com que vivia, 
A desesperação emfim trazida. 

E que direis de Philis, que perdida 

Da saudosa dor em que vivia, 

Ck>m desesperação emfim trazida. . 

Edição de 1595. 

Mas o tronco sem fdha por o monte. 
Mas o tronco sem folha pello monte. 

EdiçSo de 1595. 

E atua dará lus, por quem suspiras, 
E tu ó clara luz, por que suspiras. 

EdiçSo de 1595. 

Dou as lagrimas minhas em fiança, 
Dou>te estas lagrimas minhas em fiança. 

Ediçio de 1595. 



427 



Cousa d'amor isenta, se aUentais, 
' Em (pianío vos não virdes, não vejais. 
Ja dtsse, que d' Amor sempre tiverão. 

Coysa ba de amor isenta, se aUentais, 
Em quanto a vós nSo virdes, não vejais. 
Ja vos disse, que de amor sempre tiverSo. 

£diçSo de 4595. 

As penas, qu'em sualma se soffrérõo. 

Que as penas, que em sua alma se soífrérSo. 

Edição de 1595. 

E aqueUe aUivo e leve movimento 
lhes ficou do voar do pensamento» 

E aquelle alívio e leve movimento 
Lhe ficou só por dor do pensamento. 

EdiçSo de 4595. 

Donde lhes veio o ir-se transformando. 
De donde ellas se forSo transformando. 

£díç3o de 4595. 

Qu'em poupa ainda a amada vai chamando f 
Clama sem culpa a mísera avesinha. 
Que n'areia de Phasis habitando. 
Do rio toma o nome; e quando dama, 
Cruel á mãe, ao pae injusto chama. 



Que em poupa inda armado a anda chamando ? 
Chama sem culpa a misera avesinha, 
Que nas áreas ae Assis habitando. 
Do rio toma o nome; e assi se vay. 
Chamando á mSe cruel, mouro ao Pay. 

^ Edição de 4595. 

Ambas aves, de amor usado effeito. 
Ambas aves, do mar usado eifeito. 

Edição de 4595. 

Outra, porque tentara o pátrio leito. 
Outra, por que temera o pátrio leito. 

Edição de 4595. 

E Pico, a quem ficarão inda as cores 
Da purpura Red, que antes vestia; 
Esaco, que o seguir de seus amores 

A elle lhe ficárSo ainda as cores 
Da purpura real, que soia; 
Esaco, que segundo seus amores 

Edição de 4595. 

Mas os ventos indómitos soprando. 
Mas os irados ventos assoprando. 

Edição de 4595. 



, 428 

Ó Nereidas do E^éo, coruolaira. 
Pois este pio oficio vos convinha. 

Nereidas do Egéo, consolai-a. 
Pois este triste officio vos convinha. 

Ediçio de 1595. 
Pois também teve Amor natural mando. 

Se também teve amor poder e mando. 

Ediçio de 1595. 

E a que a Adónis o dava por exemplo, 
£ a que o deu a Adónis' por exemplo. 

Edição de 1595. 

Mas o grão NHo o diga, pois a cuiora. 
Que forma teve a Ursa, saber-se-hia 
Do Pêlo Boreal, onde eUa mora. 

Mas o grSo Nilo o diga, que a adora. 
Que força teve a Ursa, saoer-se-hia 
Do Polo Boreal, donde ella mora. 

EdiçSo de 1595. 

Se dos olhos perdera a vista pura. 
Que em seus galgos achar a sepultura, 

ê 

Que dos olhos perder a vista escura, 
Que escolher nos seus galgos sepultura. 

Ediçio de 1595. 

Onde a si d'improviso em cervo vio: 
Que quem assi destarte atti o topara. 

Aonde a si d'improviso em cervo vio : 
Que assi quem desta arte ali o topara. 

Ediçio de 1595. 

Mas, como o triste Principe em si achara. 
Mas, como o triste amante em si notara. 

Ediçio de 1595. 

Os seus, desconhecendo-o, o vão chamando; 
E, tendo-o aUi presente, o vão hiucando. 
Co* os olhos e co'o gesto Úies faltava; 
Quç a voz humana ja perdida tinha. 

Os seus, que o não conhecem, o v2o chamando; 
Estando alli presente, o vão buscando. 
Cos olhos e co gesto lhes fa liava; 
Que a voz humana ja mudada tinha. 

Edição do 1595. 

Ihm cervo açude a ver (qualquer grilava) 
Acteon, donde estás? açude asinha. 
Que tardar tanto he este? (repetia). 



429 

Que viesse ver hum cervo, lhe gritava, 
Acteon, aonde estás? açude asiooa, 
Que tardar tanto he este (lhe dizia). 

Edição do 1595. 

fOh Napétu esquifxu I) sem qm veja. 
Ó esquivas Napéas, sem que veja. 

Ediçio de 1595. 

Poiiy por mais que de mi me andais tirando* 
Pois, por mais que de mi andeis tirando. 

Ediçio de 1595. 

Aqui (formosas Nymphas) vos pintei. 
Aqui, ó nymphas minhas, vos pintei. 

Ediçio de 1595. 

D'aguas, de pedras, d'arvores contei. 

De flores, d'alm<u, feras, de huma, outra ave. 

Se este amor, que no peito aposentei. 

Das aves, pedras, agoas vos contei, 
Sem me ficar bonina, fera ou ave. 
Se o amor, que dos peitos que deixei. 

Edição de 1595. 

Que o rio, de contente, a branca areia? 
Novo contentamento me seria 
Formar de meu cuidado a nova ideia. 

De contente, que o rio, a branca área ? 
Entre os contentamentos me seria 
Este hum nSo cuidado e grande ideia. 

Edição de 1595. 

Zombarieis então de vosso engano. 

Mas com quem fallo jaf que estou gritando. 

Zombareis entáo de vosso engano. 

Mas com quem fallo? ou que estou gritando. 

Edição de 1595. 

A VOZ e a vida a dor^m'está tirando, - 
E o tempo não me tira ú pensamento. 

A voz e a vida a dor me estão tirando, 
E nSo me tira o tempo o pensamento. 

Edição de 1595. 

Aqui, sentido, o Satyro acabou. 

Com huns soluços que a alma lhe arrancavão. 

Os montes insensiveis, que abalou. 

Aqui o triste Satyro acabou, 

Com soluços gue a alma lhe arrancavão. 

E os montes insensíveis, que abalou. 

Edição de 1595. 



450 

Então Pheho nas aguas se encerrou. 
Quando Phebo nas agoas se eneerroa. 

Edição de 1595. 

E co*o luzente gado appareeeo 
A cândida pastora por o Ceo. 



E CO luzente gado appareeeo 
A celeste pastora pelo Ceo. 



EdiçSo de 1995. 



E6L0GÁ Vin 

Interlocutor : — Sereno. 

Quer Faria e Sousa que esta egloga seja escripta ao mesmo assumpto da eglo- 
ga VI, isto é, aos amores do duque de Aveiro com D. Guiomar. 

Sereno pescador expressa a Galathea, nympha formosa, quanto a adora; esta 
Galathea tinha olhos azues como a Leronoria da eglo^a vi. Não me parece com 
effeito ter relação com o poeta, mas sim que diz respeito a pessoa estranha. Fa- 
ria e Sousa esforça-se para provar que esta poesia é toda ailusiva aos amores e 
celebre pleito do duque de Aveiro com D. Guiomar, filha herdeira do conde de 
Marialva, e com quem casou depois o infante D. Fernando, filho d*el>rei D. Ma- 
nuel; diz que os poetas do tempo fizeram versos a este assumpto, e pretende que 
o Crisfal de Chrístovão Falcáo, se referia todo a elle. Por estes versos 

Anda no romper d'alva a névoa cega 
Sobre os montes d'Arrabida viçosos. 
Em quanto o solar raio lhe nâo chega, 

se vé que esta poesia foi escripta n'aquella serra, que pertencia á casa dos duques 
que faziam sua principal habitação em Setúbal. 

Quando virá (formosa NymphaJ hum dia. 

Quando virá, fermosa nympha, o dia. 

Edição de 1595. 

Buscando em hum só riso d'essa boca. 
Buscando n*hum só riso da tua boca. 

Edif9o de 1595. 

Se ao teu esprito algOa magoa toca. 
Se a esse espirito algua mágoa toca. 

Edição de 1595. 

Amansão-se ondas , quebra o vento a ira: 
Minha tormenta só nunca socega; 
O meu peito arde em vão, em vão suspira. 
Anda no romper d*alva a névoa cega. 

AmansSo ondas, quebra o vento a ira : 
Minha tdrmenta triste não socega; 
Arde o peito em vão, em vão suspira. 
Ao romper d* alva anda a névoa cega. 

Edíç$odel595. 



45\ 

Em quanto o solar raio lhes não chega. 
Eu, vendo apparecer outros formosos. 

Era quanto a elles a luz do sói nSo chega. 
Eu, vejo aparecer outros fermosos. 

EdiçSo de 1595. 

Se os olhos cegos vi, vejo saudosos. 
Fic2o meus olhos cegos, mais saudosos. 

£di(9o do 1595. 

E ao som do.remo, que agua vai ferindo. 
Perante a lua meu cuidado canto. 

E ao som âo remo, que a agoa vai ferindo. 
Por alta lua meu cuidado canto. 

Ediç3o de 1595. 

Tu só foges d^ouvir-me, e te vás rindo. 
Só Galathea foges, e vás rindo. 

Ediçio de 1595. 

Antes que o sol no Ceo cerre huma voUa. 
Antes que o sol dé no ceo huma volta. 

Edição de 1595. 

Como a outros succede, n'agua envolta. 
Como acontece aos outros, na agoa envolta. 

Edição de 1595. 
D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia. 

Área d'ouro, que o rico Tejo espraya. 

EdiçSo de 1595. 

Vento algum atégora o não salteia. 
Que até agora nem vento e ar saltea. 

Edição de 1595. 

Amor, e o veda a toda a força alheia. 
EUe com suas mãos próprio ajudou 
A escolher estas conchas, affírmando 
Que o sol para ti só as matizou. 

Amor, guardando-o a toda força alhea. 
EUe com suas mãos mesmo ajudou 
Escolher estas conchas, que guardando 
Huma e huma para ti só ajuntou. 

Edição de 1595. 
O que de tua boca estou cuidando^ 

O que eu de tua boca estou cuidando. 

Edição de 1595. 



452 



BGLOGA IX 

Interlocator : — Paletno. 

É esta a primeira egioga das que se sappõem usurpadas a Camões por Diogo 
Bernardes. Se, como já dissemos, não achamos grande fundamento para a accu- 
saçSo que se formula contra o Poeta do Lima. na totalidade do furto d'estas poe- 
sias, não podemos deixar de confessar que encontrámos vehementíssiroos indí- 
cios para suppor que elle incorreu no crime de que é accusado n'esta écloga e 
na que se lhe segue. É notável que entre todas as quei escreveu Bemaraes nSo 
appareçam piscatórias senão estas duas com referencias estranhas á sua vida, e 
qiie nenhum dos poetas seus contemporâneos, permitta-se-me a expressSo, da 
sua eamarUha, as usasse, se exceptuarmos Pedro de Andrade Caminna na ^o- 
ga IV, que intitulou Proiheo, que de piscatória tem só o titulo. Nem Sá de Ifi- 
' randa ou Ferreira trataram este género, apesar do primeiro, na egioga que escre- 
veu á morte de Garcilasso, introduzir Sannazaro, introductor d'esU forma de po^ 
sia na Itália, á imitação do qual as compoz, pela primeira vez em Portugal, Ca- 
mões, variando na egioga vi o estvlo, pela mistura do pastoril e piscatório, como 
na dedicatória da mesma egioga declara ao duque de Aveiro : 

Vereis, Duque sereno, o estylo vário, 
A nós novo, mas n'outro mar cantado 
De hum, que só foi das Musas secretario : 
/ O pescador Sincero, que amansado 
Têe o pego de Prochyta co'o canto 
Por as sonoras ondas compassado. 

Deste seguindo o som, que pôde tanto, 
E misturando o antigo Mantuano, 
Façamos novo estylo, novo espanto. 

Viria a repugnância da parte dos poetas contemporâneos em seguir esta nova 
forma de eglogas de serem introduzidas por Camões, com quem estes poetas pa- 
rece que se achavam em divorcio, ou de nSo reputarem a vida agitada dos pes- 
cadores, cheia de trabalhos, própria para ser tratada em uma composição, na qual 
os actores devem discorrer sobre assumptos agradáveis e em harmonia com uma 
existência tranquilla? É o que não podemos dizer, mas sim que o Camões foi 
quem exclusivamente tratou esta forma de poesia. Assim apparecendo estas doas 
eglogas em um estylo não tratado por os outros, mas por elle, que não aiuiza 
temerariamente quem Ih'as attribuir. É alem d'isto o argumento e theatro aesta 
poesia mais análogo a Camões do que a Bernardes, que provavelmente só fez 
conhecimento com o mar, qnando saiu na expedição com el-rei D. Sebastião, e 
cujas scenas bucólicas, (guando muito, nunca passam de fluviaes, pela maior parte 
do acanhado limito do no Lima. Aqui porém Palemo, emquanto seu companneiro 
Alcino estendia as redes na praia, e envolvia as longas cordas, sobe a uma rocha, 
e, estendendo a vista pelo vasto Oceano, começa a chamar por Galathea, e re- 
passado da mais intima saudade, pede-lhe que se apresente aos seus olhos; pro- 
cura convence-la com rogos, com rasões, e offerece-lhe dadivas; mas ella não o 
attende, e as suas supplicas são lançadas ás surdas ondas e aos ventos frios. Entre 
outras cousas lhe diz : 

Para ti n*outras praias mais desertas 
Irei pescar por entre as pedras duras. 
Que sempre verde mus^o têe cobertas. 

As pardas ostras, onde gottas puras * 

De fresco orvalho, dentro endurecidas. 
Não podem da cobiça estar seguras. 



455 

> 

Se esta egioga tem referencia a Camões, parecem estes vei*sos uma allusAo á 
projectada viagem para a índia. Tanto esta como a outra egioga, são uma con- 
iitante imitação de Sannazaro. 

Deixando este lugar táo infamado, etc. 

Scilicet hsec olim, veniens seu litore curvo 
Cajetoí, seu Cumarum navaiibus altis 

Vitemus scopulos infames morte Lyconis. 

Não continuo para não me alargar mais, pois teria que o fa2er em mais larga 
escala em toda esta poesia. Em Bernardes vem acompannada esta poesia de uma 
dedicatória que comprehende umas sete oitavas, e começa : 

Illustre senhor meu, a quem me manda 
Minha fatal estrella que só cante, etc* 

Estas oitavas vinham separadas da egioga no manuscrlpto d*onde copiou Fa- 
ria e Sousa, e somente com o titulo de Oitavas, sem designar ser dedicatória* e 
tão separada a egioga das oitavas, que aquellas vinham a folhas 48 e a egioga 
a íl. 3. 

tt Hay en toda esta egioga (termina o seu commentario (Ms.) Faria e Sousa) 
miichas cosas que estan en el manuscripto diferentes de lo que se ve en la im- 

Íiression de Bernardes, no las apunto por ser de poça importância; esta vê. con- 
òrme ai manuscripto, porque en el estan mejoradas alg unas delias. Esto próprio 
digo de las quatro que se siguen por no dizirlo eR cada una, y en todas apun- 
tare solamente los lugares en que ubíere alguna considerable diferencia ou alte- 
racion. « 

EGLOGA X » 

Interlocutor : — Mdiso, 

N'esta egioga, como na antecedente, são frequentes as ínií tacões de Sannazaro, 
começando por usar do mesmo nome do pescador de que usa o poeta napolitano : 

Pastor Melissus ab alto* 

Sannaxaro, Egioga ii. 

O pescador Meliso, depois de ter recolhido as redes, remos e velas, e atado 
o barco á fateixa, começa as suas auerelas contra a sua Lilia endurecida, sen- 
tado na praia á luz das estrellas e aa lua. Pinta-lhe o seu estado amoroso, diz- 
Ihe que não despreze o seu amor, pois de ninguém será tão amada. Se pretende 
amor^ quem tem por ella mais do que elle? Sb gentil parecer e engenho, a nin- 
guém deve nada; se honra, vem de geração de honrados pescadores. 

Narra depois um facto que lhe aconteceu em uma occasíão que pescava no 
mar alto: cantando a formosura, e ao mesmo tempo o rigor da sua belia, ao pro- 
nunciar que desmaiava, de facto desmaiou e foi salvo por um ieltim ; parece que 
o Poeta quiz applicar a si a fabula de Arion salvo por um delfím. Hoga á sua 
Lilia que appareça ao despontar da aurora, e que não ha a quem possa ter iii- 
\eja, pois vence a Vénus, Palias e Juno. Termina pedindo-lhe que lhe dé alguma 
esperança, pois com ella aíTrontará os Ímpetos e tormentas do mar, e terá a seu 
serviço o mais fino e dedicado amante. Ha n'esta egioga referencias que não po- 
dem applicar-se a i3emardes, como, por exemplo, esta: 

Coitado de quem traz a duvidosa 
Vida no mar e terra aventurada* 

TOMO III 28 



454 

Comtudo náo posso assegurar aue esta poesia diga respeito pessoalmente a 
Gamões, embora seja escripta por elle, porquanto no retrato que faz de Lilia, fi- 
guram os olhos azues, sabendo nós que os da sua D. Catharína de Athaide eram 
verdes; pelo menos não foi dirigida á sua amante. Ha modos porém de dizer que 
parecem indubitavelmente de Camões. A ameaça que faz a Liiia com o destino 
de Narciso : 

Lembre-te a formosura de Narciso, 
E qual pago lhe deo seu desamor, 

é frequente nas suas poesias, e por duas vezes com especialidade trata esta fabula, 
uma em poesia original, e outra trasladando-a de auctor italiano : 

As Halcyoneas ouço lamentar-se, 

é próprio do Poeta, e assim usou nos Lmaãot: 

As Alcioneas aves, triste canto, etc. 

Lembrando-se de seu passado canto. 

O emparelhar a amante com Vénus, Palias e Juno, é também de Camões, e a 
este assumpto escreveu um soneto : 

Se fazes caso de honra, olha que venho 
« De geração de honrados pescadores, 

parece que teve em vista estes versos de Ovídio :. 

Si genus excutias, equites ab origine prima 
Usque per inúmeros inveniemur avos. 

Parecem-me estas egiogas feitas por occasiSo de alguma viagem marítima, 
porventura alguma expedição militar, e representam actor diíTereute de Camões, 
talvez algum amigo ou personagem' con^o em outras poesias. 



EOLOtiA XI 

Interlocutores: — Anzino e lAmiano. 

Esta egloga é a xv de Bernardes, e n'ella, mais que em nenhuma das outras, 
ha alterações que desdizem do Ms. d'onde trasladou Paria e Sousa; em Bernar- 
des os interlocutores sãu Peregrino e Limiano, e no Ms. Limiano e Anzino. Um 
dos fundamentos principaes para Manuel de Faria e Sousa a nSo attríbuir a Ber- 
nardes, é dizer-Anzino a Limiano que o vira outr'ora andar ledo 

Nos largos campos do famoso Tejo^ 

e dar-lhe em resposta Limiano : 

Podia ser; que muito tempo fora 
Andei desta ribeira, pátria minha. 

Porém mais abaixo se lê que Bernardes escrevia no Lima : 

Affirmo-te de mi esta verdade. 

Que muitos valles vi, muitas ribeiras; 

Mas esta me dobrou a saudade. 



'IO o 

Depois exclama ' 

Ó ribeira do Lima, celebrada 

De mil brandos espritos sempre sejas, 

Sempre de braodas Nymphas povoada^ 

O dizer Anzino ^ Limiano que o vira andar ledo no Tejo» podia ser por se ha- 
verem encontrado na corte, e responder-lhe Anzino que muito tempo andara fora 
desta ribeira p€Uria sua, deixaria em duvida a naturalidade, porque escrevendo 
Bernardes no Lima, e referindo-se ao Tejo, devera dizer dessa ou d'aque)la ribeira. 

Os dois pastores Anzino e Limiano, ao abriffo de uma sombra aprâ&ivel,'con- 
tam a sua vida : Anzino foi vaqueiro na serra da Estrelia, creado por um pastor 
como filho, e como tal por lodos julgado; tinha o pastor uma filha mui formosa 
por nome Ulina, e com ella como irmão foi creado, vivendo na mais pura e in- 
tima amizade. Um dia, á sombra de uns medronheiros, por hora de sésta^ faz-lhe 
ella uma triste confidencia : O pae obriga-a a casamento com um pastor, porém 
elia protestou-lhe c[ue só casana com um em quem reconhecesse as qualidades 
que via n'elle Anzino. 

Ao ouvir isto Anzino, que tinha ficado estupefacto com t2o súbita e estra- 
nha nova que desfazia a sua ventura, lhe volve que se é verdade o que diz e 
o que sente, o remédio é prompto, pois n'elle tem marido e amante. Horrorisa-se 
pila julgando que lhe propõe um amor incestuoso; porém elle lhe explica como 
fora falsamente tido por filho do pae d'ella Ulina, embora como tal o creasse. 

A revolução que esta súbita nova operou no animo de Ulina é descripta com 
tanta singeleza como correcção e graça : 

Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo, 
Pondo os olhos no chão, formosa e branda, 
E cuido qu'inda assi nos meus a vejo. 

Disse-me : Em que revoltas o amor anda ! 
No bem, como no mal, também me enleia : 
Inda agora o senti, ja reina e manda. 

Despedem- se os dois, já dois amantes, ficando ella de tudo revelar ao pae, 
e promettendo de fazer firme a sua promessa. N^isto Fulgenciai que amava Anzi- 
no e que espreitava esta conferencia^ foi falsamente contar ao pae mais do que 
tinha presenciado; o pobre velho desatina, e contra vontade a entrega ao pastor 
rico que a pretendia. Ulina adoeceu logo para mais se não levantar da cama; o 
pae de nojo adoeceu também, e ao quinto dia falleceu, e Fulgência^ que tinha ur- 
dido o trama, desappareceu da casa paterna sem mais se lhe saber o fim< Anzino, 
atormentado pela sua triste sorte, aoandona a terra onde se consummou a sua 
desventura para ver se pôde achar algum repouso ou socego aos seus cuidados, 
e vae desatinado atravessando montes e prados, e ao sair lança uma saudosa des- 
pedida á casa de Ulina : 

Casa de meus suspiros sempre cheia, 
(Disse eu, quando passei pela de Ulina) 
Tal fructo colhe quem amor semeia! 

Deu comsigo nas praias do Tejo, onde vira a Limiano; mais ledo passou as 
claras aguas do Mondego 

* Das Lusitanas Musas cbaro ninho ; 
As do Douro despois em turvo pego, 

e d'aqni se dirige em romaria a S. Thiago de Compostella. Onde está aqui em 
toda esta historia cousa que possa accommodar-sc a Camões? Eu confesso que a 



•156 

iiáo enconiro; comfudo, apesar de tudo isto, Faria e Sousa pretende que Aazinu 
re{)resenta aqui CarnOes. Liiniano (que parece personifícar Remardes) convida 
o pastor Anzino a pernoitar na sua pousada, procura consola-lo, e a seu turoo lhe 
confca a vida amarga que ali passa, entre guerra de naturaes e vklima da ingrati- 
dão d'etleS| queixume que o poeta do Lima faz em outras poesias suas, e inquire 
de Anzino se pôde dizer-lhe se D. Sebastião se prepara para passar á Africa, por- 
que, sendo assim, abandonará a sua pátria ingrata para o acompanhar, embora 
logrem os inimigos 

Os valles e pacigos 
* Desta, donde nasci, fresca ribeira; 

Na qual (se não m 'engano) 
Inda será chorado Lkniaoo. 

Pelos sevuinfes versos se vé bera que esta egioga foi escripta na proximidade 
4a partida a'el-rei D. Sebastião: 

E mais saber deseja 

Se a fama nos engana^ 

Que diz, que o grão pastor dos Lusitanos, 

Com lodos os do Tejo, 

E com fato e cabana, 

Reside ja nos campos Africanos. 

Devia pois ser escripta pelos annos de i578, quando passou á Africa. No Ms. 
qde copiou Paria, e Sousa* está: 

Reside ja nos campos Africanos, 

e em Bernardes se W : 

Passa nos campos Lusitanos. 

Adoptando-se a primeira versão, podia referír-se á primeira expedição do mes- 
mo rei a Tanger, j^nzino termina aconseihando-o a munir-se de cajado e funda 
para a guerra: 

Que não foi tal pastor cá do Ceo dado. 

Para não dar ao Cco tão larga terra. 

Em qualquer dos dois caso» acima apontados não se refere esta poesia a Ca- 
rnOes, porque segundo a interpretação: 

Reside ja nos campos Africanos, 

se pôde tomar pela primeira expedição, e então não tinha que preparar-se, por- 
que a ella, me parece, acompanhou ainda Camões o rei, como adverti na bio^-* 
phia; e para a segunda não tinha que preparar-se, porque se achava impossibi- 
litado pela doença. Faria e Sousa do eommentarío a esta egioga não deixa de 
fazer um dos seus comprimentos do costume a Dio^o Bernardes, referindo que 
se dizia que elie fora chamado pelo rei ou pelo ministro para, como testemunha 
de vista, traçar um poema sobre a batalha e a victoría. 

Não sei con> que fundamento Faria e Sonsa, commentando estes versos: 

Espanfaf a quem se atreve, ver aquella 
Rocha por cima d'agua pendurada, 

diz que o Poeta, sem duvida, escrevia esta egioga á vista da altissima rocha da 
Nazitreth. 



\ 



457 

Eiilre o manuscripto d'onde Paria e Sousa copiou e o impresso existem va- 
riantes; alem disto na ediçáo das oòras de Bernardes, encontram-se mais versos 
do que apresenta o manuscripto: 

Entre irmãos de que servem comprimentos ! 

* 

Pretende Faria e Sousa que o Poeta imita aqui a historia de Abendarraes e 
Xarifa, primorosamente escripta por Jorge de Monte Mayor, na sua DM^a, li- 
vro IV. 

EOLOGA XII 

Interlocutores: — Delio, Akido e Galasio. 

Esta egioga é a terceira entre as de Diogo Bernardes e a quarta ia ordem 
em que as encontrou Paria e Sousa no manuscripto, o qual quasi todo constava 
de obras que notoriamente eram de Camões, e ali se encontravam sem o seu no- 
me. Observa Faria e Sousa que, sendo a egioga xiv indubitavelmente do Poeta, 
ali entra Delio em competência com Ergasto, e Laurenio é que é o juiz. 

Delio e Galasio cantam em certame, um os louvores de Learda, e o outro os 
de Maríida, e nomeiam Alcido arbitro, o qual dá por sentença que entre ambos 
não houve diíTerença no cantar. Esta egioga é da mesma invenção da xiv, que 
indubitavelmente é de Camões. N'esta os dois nastores cantam alternadamente 
os louvores de Learda e Marfida, n'aquella os ae Violante e Alcida; aqui apos- 
tam um rafeiro contra um cervo, n^aquella dois vasos de raro artifício. Pretende 
Faria e Sousa que o Camões, a exemplo do que praticou com a cançáo vii que 
repetiu mais de uma vez, melhorara esta egioga na xiv; porém confesso que, 
apesar de achar alguma similhança n'esta com o estylo de Camões, me parece 
comtudo mais humilde e pastoril do que o da egioga xiv. A reproducçSo da mes- 
ma invenção pôde attribuir-se a haverem ambos imitado aVirgilio na egioga iii. 
Alcido, que aqui parece representar Bernardes, apresenta-se passado o estio da 
idade, e maltratado do tempo e do amor. Pelo contrario Laurenio, na egioga xiv 
(variante de Lourenço de Caminha), figura um mancebo que se ensaia n'estc gé- 
nero de poesia. 



KGUKiA xai 

Interlocutor : — Phyllis. 

Esta egioga é a quarta entre as de Diogo Bernardes, e no Ms. que encontrou 
Faria e Sousa se seguia á antecedente, e a etla se seguia no próprio Ms. a iii 
de Camões. 

Phyllis, que arde de amor por Coridon, queixa-se com as mais sentidas ex- 
prrssões da sua crueldade e ingratidão, pois navendo-lhe jurado a fó mais pura 
e firme, a abandona por Galatéa que o despreza, emquanto que ella, adorada por 
Tityro (a quem mil nymphas dão capellas), o não attende, assim como a outros 
pastores que se dariam por bem paços com o mais pequeno agrado da sua parte. 
Queixa-^e, delirante, aos montes e bosques, e Echo responde ás suas vozes, mo- 
vida das lagrimas que derrama. Leva-lne o vento as queixas, e o sol vem pôr 
cobro ao mesmo prazer do seu queixume. 

Este monologo é repassado dfe sentimento e expressão, e tem bastante belieza 
poética. O estalo é visivelmente de Bernardes; o verso muito melodioso e nip- 
lancholico, e ò poema encerra mais vivacidade do que algumas das outras suas 
poesias. Apesar comtudo de n'elle encontrar diíTerença do estylo halHtunl de Iter- 
nardes, ndo obstante as obsorvarõos do Faria e Sousa, di'ix»Mnos ao Poeta do Li- 
ma osla composição. 



r 



458 



EGLOGA XIY 

Interlocutores: —£rí^aí/o. Deito e Laureno, 

Esta egloga foi escripta no Ribatejo, como se indica em o seu principio: 

Agora, ja que o Tejo nos rodeia, 
Neste penedo, donde mansamente 
Murmurando se quebra a branda veia. 

£)rgasto por meio da tarde, avistando Delio, o detém, e discorrem ambos so- 
bre a vaidade do mundo e socego da vida do campo: Delio manífesta-lhe o de- 
sejo de ali viver e acabar seus dias, desejo que o Poeta, talvez personificado em 
Delio, manifesta em outras poesias; ali lhe ouvira cantar as perfeições da sua' 
Nise: 

Muitas vezes fouvíra as luzes bellas 

Cantar da linda Nise, nas auaes arde 

Teu peito, sempre ufano d arder nellas. 

O professor de rhetorica António Lourenço de Caminha publicou esta egioga, 
bem como a xvi, que tem algumas variantes, e entre ellas esta que se refere 
a este logar : 

^ Muitas vezes fonvira as chammas bellas 
Dos olhos da tua Alcida, e as louras tranças 
Cantar a uso delles, preso delias. 

Muitas vezes ao som' das agoas mansas 
Agerio, que por Nise em amor arde. 
Seu fogo, sua fé, d^ila esquivanças. 

Pelos seguintes versos claramente se vé que esta poesia foi escripta na pro- 
ximidade de uma ausência, e premeditada : 

Mas se queres, Ergasto, que m'esqueça 
Partida, que lembrada be só tormento. 

Náo posso comtudo afiirmar se para Ceuta ou para a índia; tem porém esta 
composição muita analogia com a elegia iii, escripta quando partiu para a índia, 
onde se expressam quasi identicamente os mesmos sentimentos. 

Emquanto os dois pastores discorriam sobre amores, inconstância e vaidade 
do mundo e socego da vida campestre, apparece Laureno que mais de uma vez 
desafiara a Ergasto para cantar com elle em competência; desafiam-se tomando 

Eor arbitro a Delio, e canta Ergasto os louvores de Alcida, e Laureno os de Vio- 
mte: 

Cantando venceo ja Tityro e Almeno. 

Na elegia ni se lé : 

AUi cantara Tityro e Sileno. 

Não deveria talvez emendar-se assim, pois Almeno pôde talvez referir-se ao 
Poeta, aindaque não era a primeira vez que punha o seu elogio na boca própria: 

No bosque a Violante vi hum dia, 
Doce principio destas doces dores; 
A flor cabia nella, e parecia 
Dizer ca h indo ; Aqui rei não amores. 



459 

Humilde em tanta gloria ella se ria, 
E errando hião sobre ella as várias flores : 
Eu, que vencido fui d'hum error cego, 
Áquelle honesto riso esfaima entrego. 

Esta estancia imitou ainda Camões de Bernardim Ribeiro, ou antes ambos 
08 poetas imitaram a Petrarcha na canção xxvii. Porei em seguida aos versos do 
nosso Poeta, os trechos dos outros dois, para mostrar como, com justiça, a palma 
cabe ao auctor da Menina e Moça; e alguma cousa é, aindaque momentanea- 
mente, tomar o vôo a duas águias como Petrarcha e Camões. Que pena é, repito, 
náo possuirmos na integra esta canção que, pelos fragmentos que apresento, era 
das bonitas cousas que possuiamos em poesia na nossa lingua. 

Estando na suavidade do cantar, 

As aves, Ceo e terra tudo alento, 

De huma nuvem de flor vos vi cuberta, 

Derramada de hum fresco e manso vento : 

Tomava na agoa e terra seu logar .- 

Ditosa a que cair, em vós acerta: 

Entre si tinhSo ellas gram referta 

Sobre qual aos cabellos ha de ir ter. 

Por pérolas sobre ouro parecer : 

E as que nelles cahião 

Por certo o pareciam ; 

Por aqui (disse então) anda o amor, 

E com o vento das azas cae a flor. 

É preciso convir que ha aqui muita belleza de poesia, um modo mui delicado 
e gracioso de expressar, e uma maneira descriptiva excessivamente encantadora. 
Os versos de Petrarcha são estes: 

Da' be rami scendea 

Dolce nella memoria. 

Una piog^ia di fior 8ovra'l suo grembo; 

Ed ella SI sedea 

Umile in tanta gloria, 

Coverta già deir amoroso nembo : 

Qual fior cadea sul lembo : 

Qual su le treccíe bronde ; 

Ch'oro forbito e perle 

Eran quel di a vederle : 

Qual SI posava in terra, e qual su Tonde : 

Qual con un vago errore 

Girando paréa dír : qui regna Amore. 

Parece-me que nSo sou exagerado em dizer que Bernardim Ribeiro excedeu 
,n*esta occasiSo os dois grandes poetas. Na edição de António Lourenço Cami- 
nha, alem de outras variantes, termina esta egloga de uma maneira diflerente. 
Depois da estancia que começa : 

Claros olhos que ao sol fazeis inveja, etc. 

faltam as três seguintes, que são substituídas por esta : 

ÍMureno 

Não peço eu ja, por mais que me desfaça, 
A dor que á tua vista me condena, 
Que a teus formosos olhos mágoa faça 
Mas paj(a-me com rir do minha pena. 



1 



! / 



í-iO 

• 

I 

(jiie pois Ic verei rir coaquella graça, 
Que abre as flores no campo e o ur serena; 
Doce me deve ser, se me nílo engano, 
Teu riso inda que seja de mea dano. 

Depois- do terceto que começa : 

Nos veremos por annos infinitos, 

faltam os dois últimos tercetos com que acaba nas obras de Camões, c sáo sub- 
stituídos por este fina) : 



imantando amor, cantando as Ninfas bcllai, 
Nenhum de vós venceo nem foi vencido, 
Ambos d'amor vencidos sois por ellas. 
• Até o peito no mar tem ja metido 
O sol, não tardará, que o manto frio 
Nfto seja sobre as terras estendido. 

Vamo-nos que he ja tarde, e do sombrio 
Valle, recolheremos nosso gado, 
Amanhã nos achemos neste rio. 

Ergasto 

O meu copo, Laureno, que alcançado 
Foi em premio do canto que alternei, 
Em premio de cantar te será dado. 

ÍMureno 

Mas eu, ó meu Ergasto, te darei, 
Não ser vencido, a mim premio me seja, 
Que pois vencido aqui eu não fiquei, 
Vencido de teus dons ninguém me veja. 

Em quanto ao soin do rio ao pé da faia 
Com doce flauta tento a Musa leve, 
Favorecei, Senhor, a quem s'ensaia 
Para o verso, qu'a vós alto se deve. 

Não queirais que a louvar-vos inda saia 
Meu enêenho, que a tanto não s'atreve, 
E se por não poder, vos não levanto. 
Levantai, pois podeis, meu baixo canto. 

Tanto esta egioga, como a xv que publicou o professor Caminha, ambas c/)ni 
as iniciaes de Bernardim Ribeiro, são de Camóes; é preciso ser muito hospede 
em est> lo para poder attribui-las ao auctor da Menina e Moça, 

A dedicatória que vem na variante do Caminha é interessante para podermos 
formar um juizo, alem de ser toda, como outras, no estylo de Camões. Declara 
n'ella c|ue era um mancebo que se ensaiava na poesia humilde, para cantar n'ou- 
tra mais alta a pessoa a quem a dirige. Aindaquc fosse escrípta na velhice de Ber- 
nardim Ribeiro, não «airia tão limpa de dicção, e apresentaria certos archaisroos 
próprios do tempo em que escreveu aquclle auctor, que alem d*isto coropoz to- 
das as outras suas eglogas em metro mflerente. Esta egioga é pois inteiramente 
própria de Camões, e bem escripta, e em nome d'elle a encontrou Faria^e Sousa 
no MS. d'onde a trasladou. Coriiparando-a rom as que se dizem usurpadas, ft' 
conhece bem que n'esta ha mais nervo. 



Ml 



EGLOGA XV 

I í) terlocutores : — Soliso e Syha no. 

Esta egloga estava no manuscripto d'onde Faria e Sousa copiou as outras; 
era ali a ultima e tinha este titulo: «Egloga de Luiz de Camões á morte de D. Ca- 
iharina de Ataíde, Dama da Rainha.» A esta interessantíssima descoberta do com- 
nientador devemos saber o nome da amante do Poeta e a éua qualidade. Camões 
escreveu outras poesias á morte d'esta senhora, e entre estas o inimitável soneto 
de todos conhecido, que começa : 

' Alma minha gentil que te partiste, etc. 

Soliso rompe em queixas contra a sorte dura que lhe rouijou a sua amante, 
que lhe fazia ooce a sua pena, e de queiA esperava ainda remédio aos seu9> males. 
Siivano, atemorísado dos signaes tétricos que observa na natureza e nos próprios 
animaes, preoccupa-se, julgando isto prognostico de grandes males, quando en- 
contra a Soliso engolfado na mais profunda tristeza, a Soliso, que antes que fosse 
perdido de amor, conhecera tão alegre em todas as festas, onde a sua frauta não 
havia outra que a igualasse, e desde que dedicou o seu amor a uma dama habi- 
tadora d'estes bosques, aborrece-lhe a gente, e solitário anda pela espessura, en- 
levado só nos seus amores e cevando-se da pena que o contenta. Pretende Syl- 
vano inquirir do amigo a causa de uma mudança que se nota nos seres animados 
e inanimados; repelle elle, ao principio, a importunação do amigo, porém em 
seguida narra-lhe a catastrophe que o arrojou para um estado tão desesperado. 
Na apostrophe íinal ás Naiades, Napeas, Drias e Amadrias, imitou Camões a 
Sannazaro; a meu ver parece-me que esta apostrophe ficaria melhor se se limi- 
tasse ás nymphas como personificando as companheiras de D. Cathtirina no paço. 
Observa Faria e Sousa, e parece-me que com rasão, que o Poeta teve grande cui- 
dado em acabar esta poesia com uma exclamação, para evitar que Syivano, tão 
desejoso de saber as causas de tanta tristeza, lhe respondesse alguma cousa; dando 
a entender aue sendo ella tal, cerrava a boca a todos os discursos, a todas as 
rasôes e a touas as consolações; e assim o deixou mudo para acabar de engran- 
dece-la, tecendo de propósito com este arteficio esta poesia. A primeira vez que 
esta egloga apparece impressa, é na edição do padre Thomás José de Aquino 
(1779), 

De quãnio alento e gosto me causava 

A vista da manhãa resplandecente^ 

Com que toda a tristeza s'alegrava ; 
Que quando vinha o sol claro e luzente. 

Bem claro então em mi se conhecia. 

De camanho alvoroço me causava 
A vinda da manhOa resplandecente, 
E quanto a clara aurora me alegrava: 

Que quando via o sol claro e luzcnt(?, 
Bem claramente então se conhecia. 

MS. de LuizFranro. 

Tanto agora me offendc o novo dia. 
Tanto me mala agora o novo dia. 

MS. Mo Luiz Tranco. 

De que só me mantinha e só viria. 
• E não me qtiiz deixar triste rontnrn 

Esperanças de mais tornar n relln! 
Oh destino cruel! oti xnrtc dum! 






Oh querida Natércia! oh Nympha bella, 
Em quem, em fim, mostrou a natureza 
O mais que se podia esperar delta ! 

Se lá no assento da maior alteza 
Te lembras de quem viste cá na terra. 

De que só me alegrava e só vivia. 

E não me qui^ deixar minha ventura 
Esperança de mais tornar a vella! 
Ó lado cruel, triste, ó sorte dura! 

O formosa Natércia! nympha bclla, 
Em que mostrou o cabo a natureza 
De quanto se podia esperar delia! 

Se lá onde tu estás ua mór alteza 
Te lembras de quem fica cá na teria. 

MS. de Luii Fraocso. 

Lembre-te de contino a crMel guerra. 
Que continua me faz tua lembrança. 
Esquecido do gado, valle e $en'a. 

Lembre da continua cruel guerra, 
Em que sempre me traz tua lembrança, 
Sem me lembrar do gado, nem da serra. 

MS. de Luiz Fraoco. 

De ver os olhos teus, e juntamente 
De todo o bem d' Amor toda a esperança, 
Lembre-te que por si de mi ausente 
A crystallina fonte me he nojosa. 

De poder jamais ver-to, e juntamente 
De todo o outro bem a esperança. 
Lembre-te que por ti a agoa corrente 
Deste fermoso rio me he nojosa. 

MS. de Luiz Franro. 

Que por ti a manhãa clara e formosa. 
Males cada momento me accrescenta ; 
Sendo-me em outros dias deleitosa. 

Por ti o puro sol me descontenta ; 
Com seu canto m'offende Philomella : 
Mas, porque ndle chora, me contenta. 

Por ti, Natércia pura, Nympha bella. 
Na verdura suave deste prado 
Os males multiplico só com relln. 

Por ti esta manhSa clara e fermosa 
Os males cada ora me acrescenta; 
Sendo-me n'outro tempo deleitosa. 

Por ti o claro sol me descontenta: 
Com seu canto me mata Philomella : 
E Progne, porque chora, me contenta. 

Por ti, casta Natércia, Nympha bella, 
A verdura suave deste prado 
Os maios me acrescenta sí'» com vella. 

MS. do Lttiz Franro. 



 í \ 



Com o mesmo quentão meu bem crescia. 
Agora vai crescendo o meu cuidado. 

E aquillo em que entíio meu bem crecia, 
Com isso creoe agora o meu cuidado. 

MS. de Luii Franco. 

Não sou ja, ja não sou quem ser sohia. 
Por ti não sou ja agora o que soia. 

MS. de Loiz Franco. 

Miuku-se co'os tormentos a alegria ; 
TrocoU'Se o claro dia em noite escura : 
Nem he muito que tudo se mudasse. 

Mudou-se-me c'o tormento a alegria; 
Mudou-se o dia claro em noute escura; 
Nem he muito que o bem se me mudasse. 

MS. de Loiz Franco. 
Não via outro reparo, que cuidasse. 

Nâo via outro remédio, que cuidasse. 

MS. de Luiz Franco. 

Nem outra gloria alguma em qu* esperasse. 
Nem outro nenhum bem em que esperasse. 

MS. de Lniz Franca) 

Que de ver-te a minha alma recebia. 
Que de te ver a minha alma recebia. 

MS. de Luiz Franco. 

Qual ficará hum'almaj que sabia 
Somente desta gloria contentar-se? 
Gloria de que gozar não merecia ! 

Qual ficará hum'alma, que sohia 
Desta gloria somente contentar-se? 
Gloria de que eu gozar nSo merecia! 

MS. do Luiz Franco. 

Mortalmente do bem au'he ja passado^ 
Só tèe por melhor viaa á morte dar-se? 

E qual se pôde ver quem hum cuidado 
Sostem, que he só da dor certa morada, 
E neUe vive sò desesperado? 

Qual hade ver-se, ó Nympha delicada. 
Hum' alma que te via ; e em te vendo 
O fio lhe cortou a Parda irada? 

A causa deste mal eu não a entendo : 
Só entendo que, perdid<i essa luz pura. 
Por perdida a não ver, vivo morrendo. 

Vejo que me roubou fortuna esatra. 

Somente deste hcm que he ja passado, 

Faz que nâo venha a morte eru mal dohrar-so ? 



-i4! 



Qual poderá iiquar quein liuin cuidado 
Sustem, que do mal he certa morada, 
E vive ja do bem desesperado? 

Qual íicará, ó Nyropha delicada, 
IlQa alma que vio; e em te vendo « 
O fio te cortou a dura fada? 

A causa desto mal eu não entendo: 
Entendo só, que vi tua formosura, 
E que pella náo ver, vivo morrendo. 

Vejo que me roubou a morte dura. 

JiS. de Luiz Fraiir.). 

Lembra-te <u, que só de Wsperava 
Remédio aos males meus ; e etUâo verás 
Qtud ficou quem em ti só confiava. 

Lembrete adonde estou, adonde estás, 
E f{ue tudo sem ti cá m'aborrece : 
Dest'artc^ o estado meu entenderás. 

Lembra tu, que Ae ti só esperava 
Remédio a meu mal; então verás 
Qual ficou quem etn ti se confiava. 

Lembra-te onde estou! E onde tu estás, 
E que sem ti o bem me aborrece : 
E do mal de meu bem te lembranus. 

MS. lie Luiz Franra. 

Não sei por que razão nos amaíihece, 
Nilo sei porque rasão assi amanhece. 

MS.il o Luiz Franco. 

Com que toda a alegria s' entristece 
O manso gado vejo, que contente 
Buscando hia íto.s* campos a verdum, 
E dos rios a limpida corrente: 
Agora triste eiTar poln espessura 
Alheio d'herva verde e d'agua fria. 

Em que toda a -alegria sentristcce. 
Por()ue o manso gado, que contente 
Buscava pelos campos a verdura 
E nos rios a clara agoa corrente 
Agora o vejo andar pella espessura 
Sem lhe lembrar o campo e agoa fria. 

MS. (lo Luiz Franco. 

Suspensa está das ares a harmonia; 
E em certo modo mostra que tá chora 
A mesma sequidão da penedia. 

A cândida, rosada, bella aurora. 
Que sempre os altos montes vem dourando. 
Com hum pallor mortal se mostra agora. 

Philomella não cura d'armonía ; 
Progne seu canto dobra cada hora, 
Também se mostra triste a penedia. 

Sobre tudo tambom a clara aurorn. 
Que os seus cabellos d ouro vem mostrando, 
Sondo sompre contente hc triste aprora. 

MS de LníJ! Frnnro 



Tão triste eér, que ddla se conhece. 
Humti tristeza donde se conhece. 

MS. lie Lui£ Trunco. 

Em fim, vejo que tudo sentristece ; 
A causa ignoro. O Ceo piedoso queira. 

E vejo que agora tudo se inlristece; 
E que a causa nSo sei. Deus ora queira. 

MS. de Luiz Frauco. 

Por (me, desde que habito esta ribeira. 
Não m acordo de a ver tão carregada. 
Nem de a ouvir murmurar desta maneira. 

Não m* acordo que visse outra alvorada 
Tão confusa sahir, como esta rejo. 
De profunda tristeza acompanhada. 

Agora aqui tomara quem sem pejo 
A causa, se a soubesse, m' ensinasse. 

Que, desde que aqui conheço esta ribeira, 
NSo rne lembra que a visse tAo pezada, 
Correndo com hum tom desta maneira. 

Não me lembra a que visse a alvorada 
Tão triste esclarecer, como esta vejo, 
Vir toda de tristeza acompanhada. 

Folgara ter agora quem sem pejo 
Desta causa, a raziXo, me declarasse. 

MS. de Luix Franco. 

Poríjue não po^so eu crer que resultasse. 
Porque náo posso eu crer que se gerasse. 

MS do Luiz Franco. 

Que até nos duros montes se enxergasse. 
Que até nas duras pedras se enxergasse. 

MS. de Luiz Franco. 

O coração cá dentro no meu peito 
M* assegura, que tanta novidade 
Não traz a origem de commum respeito. 
Mas, par entre a confusa claridade. 

Porque o coração dentro no peito 
Me diz, que esta tamanha novidade 
Se mostra por algum grande respeito. 
Mas, se não cega esta claridade. 

MS. de Luiz Franco. 

Delle espero entender toda a verdade. 
' De quem posso saber toda a verdade. 

MS. do Luiz Franco. 

Que nos olhos não mostre onde me chega 
A dor de o ver de dores traspassado. 

Mas aquelle, que a Amor cruel s' entrega, 
Não he muito que passe hum tal tormento; 
Porque todo o mal dá, iodo bem nega. 



-!48 



Tomes hum Ião damnoso pensamenio. 
OtUra hc, certo, a razão, oulro o resiteilo 
Que ncgar-te me fez o que pedias : 

Te sugeiias a bum Vclo pensamento. 
Outra era, razão, outro o pensamento 
O que me fez negar-le o que pedias: 

MS. de Luiz Fr:uiro. 

Bem sei que o ikeu descanso pretendias : 
E a mesma confiança faz negar-te 
O que destes sinaes saoer querias. 

Não queiras mais, Soliso, prolongar Ae; 
Pois pende o gosto meu da tua tida : 
Se corres risco, dá-me delle parte. 

Bem sei que meu proveito pertendias; 
Esta obrigação me fez negar-te 
O ({\ic de mim saber tanto querias. 

Vejo tanto em dizer-mo proiongar-te. 
Que ja suspeito mal por tua vida: 
Que queiras acabar de declarar-te. 

MS. ÓB Luic Franeo. 

De todo a sinto ja desfaUecida 
Nas lembranças daquella brere historia. 
Que foi para meus males tão comprida. 

Ja me vence a tristíssima memorin 
Da gloria que presente me animava. 
Quem pudera voar traz tanta gloria ! 

A alma sinto ja desfaUecida 
Lembrando-me somente aquella historia, 
Que he pêra meus males tâo comprida. . 

Porque sento em mi de novo a memoria 
Daquelle bem que o meu só sustentava. 
() quem poderá hir traz tanta gloria! 

MS. de Loii Franco. 
E que á casta Diana fez inveja, 
E que com sua vista o sol cegava ; 

Aquella a ouem render-se só deseja 
Aquelle que m bella mãe presume, 
E a quem as armas dá com que peleja ; 

Natércia, que no mundo foi hum lume. 
Onde a beÚeza de maior estado 
Incêndios aprendia por costume; 

Natércia, por quem ando acompanhado 
De mágoa tal, que sò da morte dura 
Espero o feliz fim de meu cuidado ; 

Ao Ceo se foi co'aquella formosura, ^ 
Qu'era mostra do Ceo, gloria da terra; 
Qu'era o sogeito mòr da mór ventura, 

Ja não fará no prado ás almas guei'ra. 

E á casta Diana fez inveja^ 

E com sua bclla vista o sol cegava; 

Natércia que era em perfeição sobeja 
Em que a natureza poz o cume, 
De quanto cm huma Nympha se deseja; 



44<è 



Natércia que ao mundo foi o lume, 
De feroiosura tal que usurpado 
Tinha quasi ao amor o seu. costume: 

Natércia, por quem ando rodeado' 
De tanto mal, q^ie só a morte dura 
, Espero que dé íim a meu cuidado; 

. Ja nSo amostrará aquella fermosura, 
Com que alegrar sohia toda a terra ; 
E fazia contente a noute escura. 

Aos pastores ja n2o fará guerra. 

M3. de Laii Franco. 

Guerra em qw o damno mais cruel 8'encerra, 
Ja de vé-la não tenhas esperança. 

Guerra em que maior dano s'encerra. 
Ja de velia he perdida a esperança. 

MS. de Laix Franco. 

E a causa vês aqui de mte a alvorada 
Visses desta manhâa tão aifferente 
De outra qudquer, de ti mais ponderada. 

Dizer-te o mais não posso, porque sente 
Esfaima no que disse tal tormento, 
Qu'esta memoria apenas me consente, 

E por esta razSo esta alvorada 
Das outras que passarão d i Aferente 
Vedes, de sinais tristes rodeada. 

Não me atrevo a dizer-te mais, que sente 
Alma, ha no que digo tal tormento. 
Que quasi esta memoria não consente. 

íMS. de Lnix Franco. 

Segue depois no manuscripto : 

Sylvano 

Se a mim não engana o entendimento 
Natércia <leste mundo he partida; 
Dize-me se verdade ou fingimento. 

Sdiso 

Não queiras renovar-me esta ferida; 
Natércia he morta! Ceo tão endurecido 
Que me dura sem ella a triste vida. 



Em seguida continua Svlvano: 



Oh mundo t qual hefiquelle tão perdido, 
Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano, 
Vendo-te todo em damno instituido? 



Ó mundo cruel e triste, quam perdido 
Anda o que em tuas mostras se confia, 
E a quanta desventura ofTerecido? 

MS. de Luíx Franco. 
10MO III 29 



^{50 



Continua no nianuscripto csle terceto: 

O teu contentamento e alegria, 
O teu bem que dás pêra mór dano, 
Que sâo senão de males huma guia? 

Porque, com nosso opprobrio e tua gloria. 

Nos faças mais patente o teu engano. > 

Sempre (usi vai comtigo a mór victoria. 

Porque, com maior mal nosso e tua gloria, 
Vennas a declarar- nos teu engano. 
Assim comtigo vai sempre a victoria. 

MS. de Luii Franco. 

D' hum possuido bem triste memoria. 
Quem faz de ti alguma confiança. 
Sabendo ja que quem de ti confia, 
D7mm engano penoso em fim sakança. 

Do bem que nos roubaste a memoria. 
Perdida he em ti toda a cx)nrtança, 
Que só de falsidade' e enganos, 
Se deve ter em ti certa esperança. 

' MS. de Luit Franco. 

Entre este ultimo verso,^ 

D'hum engano penoso emfim s'alcança, 
e o verso: 

Deixae, deixae, pastores, a\erdura; 

se lêem no manuscripto os seguintes versos: 

Quem cuidara que huns tSo tenros annos 
E huma tal claridade, que excedia, 
Quanto podem cuidar peitos humanos, 

E aquelle olhar brando que fazia 
Ao mesmo Amor guerra livremente 
Podesse perecer em algum dial 

Qual ne o peito duro (j^ue isto sente 
Que gueira vida mais, pois morta he pquella 
Que fazia o viver ledo e contente? 

Morta he ja aquella vista bella 
Que alegrar a tristeza bem poderá 
E a quem nSo a tem também trazella. 

Ah morte! morte dura e fera! 
Como não te movia huma beldade. 
Que até as duras pedras commov(^ra! 

Como não te moveo huma tenra idade. 
Como nSo te moveo a sorte dura 
Dos que agora sentem sua saudade! • 

Deixae, deixae, pastores* a verdura; 
As frautas deixae ja, e os mansos gados ; 
E chorae todos vossa desventura. 

Deixai, tristes pastores, a verdura; 
Deixai as frautas ja, e os mansos gados; 
E vinde chorar vo.ssa desventura. 

MS. d(» Luiz Franco. 



451 



Tombem chorar podeis^ pois ja nerdérOo 
O objecto mais gentil vossos cuidados, 

Chorae tamanho mal, pois ja perderão 
Seu remédio e seu bem vossos cuidados. 

MS. de Luiz Franco. 
Destes sagrados bosques a morada. 
Destes bosques espessos a morada. 

MS. de Lnix Franco. 
De que mais vos prezais, não esquecestes. 
De que assi vos prezais não esquecestes. 

MS. dp Luiz Fraoco. 

Se ja d' alheio damno vos doestes. 
Do vosso próprio vos doei agora. 
Pois com Natércia todo o bem perdestes. 

Pois do albeo mal sempre vos doestes, 
Vinde chorar o próprio vosso agora, 
Pois vossa gloria e nonra ja perdestes. 

MS. de Loiz Franco. 

E de vós agua saia em mal tão forte. 
Pois de vê-lo tambçn o monte chora. 

Oh Napéas ! chorae atriste sorte 
Dos miseros pastores, a quem nega 
O fado por mais pena o mortal córle. 

Oht Dryasl vós, a quem Amor s' entrega, 
Tomae todo o cuidado deste pranto. 
Pois sabeis onde a causa deite chega. 

Vinde chorar comigo hum mal tão forte, 
Que até o duro monte também o chora 

Ó Nymphas! chorai a triste sorte 
Dos coitados pastores, a quem nega 
Ampr para maior mal a triste morte. 

Ó DriadesI a quem Amor s'entrega, 
A vós dou o cuidado deste pranto, 
Pois sabeis este mal onde nos chega. 

MS. de Luiz Franco. 

Pois deixa a Philomella o doce canto. 
E vós, ó vida minha, pois curar-me 
Ja não podeis, deixae-me juntamente. 
Porque lembranças toes possão deixqr-me. 
Mas se delias morreis, morro contente. 

Pois deixa a Philomella o alegre canto. 
Que puis não podeis remediar-me 
Vinde deixar- me, porque juntamente, 
Lembranças deste mal possa deixar-me. 
Que em quanto vos tiver, terei presente. 

MS. de Luiz Franco. 



-552 



EGLOGA XVI 

Sendo, como indubitavelmente é, de Gamões, iwi minha opinião, a egioga xiv, 
esta, escripta no mesmo local e no mesmo estylo, é igualmente sua; e, como de 
um mesmo auctor, estava junta no manuscripto d*onde copiou o professor Antó- 
nio Lourenço Caminha. 

Ergasto nas rib. iras do Tejo, em uma área coroada de rochas, vem desafogar 
contrai a ingratidão de Galatbea, que nSo mostrou a mais pequena saudade pela 
sua ausência, e lhe esqueceu o amor antigo; pragueja contra ella, mas termina 
desejando-lhe mii venturas e que só elie seja o desgraçado. Estes versos 

Tnnto segredo alegre, tanta festa, 
Tanta conversação, sem prejuízo. 
Em que passaste ja comigo a sesta. 

As historias, as praticas de rizo, 
As^dissi mutações por poder ver-te, 
Aquellas zombarias tão de cizo. 

apresentam muiti similhança com essoutros da egioga iii : 

E como te não lembras do perigo, 
A que só por m 'ouvir faventuravas. 
Buscando noras de sesta, horas d'abrigo? 

Co'a maç^a da discórdia me tiravas; 
' Qu'a Vénus, gu'a ganhou por formosura. 
Tu, como mivrs formosa, tha ganhavas. 

E escondendo-te logo na'«pessura, 
Hias fugindo, como vci^nhosa 
Da namorada e doce travessura. 

Pelos seguintes versos parece que, quando escreveu esta poesia, reinava já 
o pensamento de se passar á índia : 

Buscarei com meu gado estranha terra, 
Habitarei onde outro sol mais arde, 
Ou onde a neve tem cuberta á serra. 



ELEGIA I 

Esta elegia refere-se ao degredo do Ribatejo. Gompara-se n'ella a Ovidio, que, 
desterrado no deserto do Ponto, mífigava a aspereza do exilio com a sua Musa. 
A aridez da terra onde o poeta latino vegetava entre bárbaros uma vida solitária, 
longe da pátria e das mais caras raízes cfue prendem o homem á terra, não tem 
analogia com essas encantadoras e vecejantes margens do nosso Tejo, que mais 
de unia vez tenho percorrido; mas quem não sabe que a saudade pôde tornar os 
logares mais aprazíveis em áridos e escabrosos, converter as flores em abrolhos? 
E assim acontecia ao Poeta: 

Não vejo senão montes pedregosos; 
E sem graça e sem flor os campos vejo, 
Que ja floridos vira, e graciosos. 

Gamões nos pinta a vida que levava n'estes sitios: ao romper do dia fa-se 
rom posso carregado a um outeiro, e ahi se sentava entregando-se ás suas refle- 
xõcs amorosas, e vendo os barcos que desciam o rio, se dirigia ás aguas d*elle. 



455 

pedindo-ihes que levassem de mistura as suas lagrimas á parte onde iatn, ate que 
elle podesse ir onde ellas chegavam. Mas nSo pôde tanto bem chegar tâo cedo, 
porque primeiro se lhe acabará a vida do que se acabe Uio áspero degredo. Nem 
com a mesma morte se poderá extinguir a memoria dos seus amores; emqijanto 
porém esta não vem cevará a sua imaginação com a gloria possuida, até que 
surja o dia táo desejado que ponha termo a este degredo ou o consuma a mesma 
morte. Temos n'esta poesia a notar duas cousas: uma, a certeza do degredo, e a 
outra a injustiça d'elle. 

Dest^arte me figura a phantasia 

A vida com que morro, desterrado, etc. 

Nâo pôde tanto bem chegar tão cc^o; 
Porque primeiro a vida acabará. 
Que se acabe táo áspero degredo. 

à injustiça do degredo se refere n''estes ^'ersos: 

Aqui me representa esta lembrança 
Quão pouca culpa tenho; e m^entristeoe 
Ver sem rasão a pena que m'alcança. 

Aos montes ja, ja aos rios se queixara. 

Aos mont.es e ás agoas se queixava. 

Edição de iOSS. 

Aos montes, ás altas agoas se queixava. 

MS. do LuizFi^aHos. 

E aqufiUa ijrdem icom que discorria. 
E como por saa ordem discorria. 

EdiçSo de 1593 e MS. de Luix Fraoco. 

O eeo eo ar, e a terra adonde estava. 
O ceo, o ar e a terra adonde estava. 

EdiçKo de 1395. 

Os peixes por o mar nadando via. 

Os peixes pelo mar nadando via. • 

Edição de 1595 e MS. de Luix Franco. 

As feras por o monte procedendo. 
As feras pelo monte procedendo. 

Edição di' i593. 

Nos toidosos versos qu' escrevia, 

E nos lamentos com que o campo banha. 

Desfarte me figura a pkantasia. 

Nos versos saudosos que escrevia, 

£ lagrimas com que aili o campo banha. 

Dest*arte me afigura a fantesia. 

Edição de 1595 e MS. do Luiz Franco. 
A rida com que mon^o, desterrado. 

A vida com que vivo, desterrado. 

MS. de Luiz Franci). 



•Í54 



Do bem quem outro tempo possuía. 
No bem que em outro tempo possuía. 

Edição de 1595. 

Aqui contemplo o fosto ja passado, 
Que nunca passara por a memoria 
De quem o traz na mente debiucado. 

Alli contemplo o gosto ja passado, 
Que nuiiqua pa&sará pola memoria 
De quem o tem na mente debuxado. 

\ Edição de 1595 e MS. de Loix Fraooo. 

Aqui vejo caduca e dehil gloria. 
Alli vejo a caduca e débil gloria. 

Edição de 1995. 

Alli vejo a caduca e fraqua gloria. 

MS. de Loiz Franeo. 
Qve faz a frágil vida transitotna. 

Que faz a hábil vida transitória. 

MS. do Luix Franco. 

Aqui me representa esta lembrança 
Quão pouca culpa tenho; e m'entristece. 

Alli me representa esta lembrança 

Quam pouca culpa tenho; e me entristece. 

Edição de 1599. 
Quando a roxa manhãa, dourada e bella. 

Quando a roxa manhSa fermosa e bella. 

Ediçlo de 1595. 

Quando a manhãa fermosa, clara e bella. 

As. do Luíe Franco. 
Por seu descanso têe me dá trabalho. 

Para descanso tem me dá trabalho. 

Edição de 1595 e MS. de Loix Franco. 

Que pouco acordo logra hum descontente. 
Daqui me vou, com passo carregado. 

Que pouco acordo tem hum descontente. 
Dalli me vou, com passo carregado. 

Edição de 1595. 

Soltando toda a rédea a meu cuidado. 
Soltando a rédea toda a meu cuidado. 

Edição de 1595. 

Estendo estes meus olhos saudosos 
Á parte donde tinha o pensamento. 

DalU estendo os olhos saudosos 
A parte onde tinha o pensamento. 

Edir.lQ lie 1!)95 G MS. dn Lniz Franco. 



455 



E sem graça e sem flor os campos rejo. 
£ os campos sem graça e secos vejo. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Vejo o puro, suave e rico Tejo, 
Vejo o puro, suave e brando Tejo. 

Edição de 1595 e MS. de Lniz Franco. 

Vão pondo em doce effeito o seu desejo. 
y&o em «ffeito pondo o seu desejo. 

MS. dfi Laia Franco. 
Outras com leves remos brandamente. 

Outras c'os leves remos brandamente. 

Edição de 1595. 

D'aUi fallo com a agua que não sente. 
Dalli falo co'a agoa que nâo sente. 

EdiçSo de 1595. 

Com cujo sentimento esfaima soe. 
Com cujo sentimento a alma sai. 

Edição de 1595 e MS. de Laia Franco. 

Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo. 
Que eu vá onde vós his contente e ledo. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Que se acabe tão áspero degredo. 
Mas essa triste morte que virá. 

Que se acabe este áspero degredo. 
Mas esta triste morte que virá. 

MS. de Luiz Franco. 

Esfaima assi impaciente adonde irá? 
A alma impaciente adonde irá? 

Edição de 1595 e MS. de Lniz Franco. 
Que se ás portas Tartaricas chegasse. 
Quem ás portas Tartarias a cheg^se. 

MS. de Luiz Franco. 

Temo que tanto mal por a memoria. 
Temo que tanto mal pola memoria. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
Que se a Tântalo e Tido for notória. 
Que s*a Tântalo e Ticio for notória- 

)fs. do Lniz Franco. 



456 

A petia com que vai, e que a atoi*menta, * 

A pena com que vai, que a atormenta. 

EdíçSo de 1593. 
Essa imaginação, emfim, me aíigmenia. 

Esta imaginação me acrescenta. 

Edição de i595. 

Esta imaginação me representa. 

MS. de Lu» Franco. 
De imaginações tristes se contenta. 

De imaginações tristes se sustenta. 

• MS. de Lnii Fraiioo. 

Em que a Fortuna faça o que costuma. 
Em que fortuna faça o que costuma. 

EdiçSo de 1599. 

8e nella ha hi mudar-se hum triste citado. 
Se nella ha hi mudar bum triste estado. 

Edição de 1595 e MS. de Laii Fraqco. 

Esta elegia na primeira edição (Í595) traz este titulo: mAD, António de No- 
ronha, estando na índia». Do seu conteúdo porém se vé que foi eseripta em Ceuta; 
e o Poeta formalmente o declara. É este um dos muitos erros com que anda- 
vam^ os manuscriptos d'onde Fernando Rodrigues Lobo Surrupita copiou, e com 
o set9 escrúpulo conservou. N*esta poesia o Poeta expressa ao seu amigo a sau- 
dade em que vive n'aquelle desterro, e como em vão procura mitiga-la com as 
armas e estranheza da terra, e pede-Ihe novas da amante; na variante do meu 
manuscripto se vé que o Poeta se julgava desalmado, e se mostra pungido do 
ciúme. É curioso ver o Poeta descrever aqui um dos seus hábitos, o andar em 
passeios solitários, como tão apropriadamente diz em uma composição: solitário 
ajHirtado da manada, entregando^se ás suas reflexões amarguraaas. 

No degredo do Ribatejo o Poeta subia-se a um monte, e dahi, invejoso das 
barcas que navegavam peio Tejo abaixo, pedia ás a^uas do rio que levassem de 
mistura as suas lagrimas á sua amante. Aqui, nos intervallos que as armas lhe 
permittiam, subia-se ao monte que Hercules 

Do altíssimo Calpe devidio, 

isto é, o Abila, e ahi procurava, com meditações estranhas ao seu amor, distra- 
hir-so : 

Mas nem com isto, emfim, qu*estou dizendo, 

Nem com as armas tão continuadas, 

D'amorosas lembranças me defendo. 

A fabula das columnas de Hercules agradava ainda no tempo em que Camões 
aqui militou, de modo que me lembra de ver no archivo da Torre do Tombo 
umas instrucções para a fortificação d'csta praça, das quaes consta que uma das 
torres se chamava a torre de Hercules, e se ordenava lhe não coUocassccn artilha- 
ria. Faria e Sousa, commentando o verso : 

Do altíssimo Calpe devidio, 



457 

pretende que entre o cfo e o aUissimo se devia, coni todo o rigor, fazer synalepha, 
porém que o Poeta industriosamente a não fez, porque o pronunciar-se o verso 
sem ella, faz uma viva representação da excessiva altura do monte. 

Continua o Poeta pedindo ao amigo, indirectamente, novas da amante, o que 
faz directamente na variante do meu MS., e termina segurando-lhe que se aca- 
bar n*aquelle desterro, entrará ainda pelo Tártaro, e ao som das aguas negras do 
Coeyto, e d'aquelles carregados arvoredos cantará o que na alma tem escripto, 
porque o seu amor é tal, que nem com a morte pôde acabar : 

Porque, emfím, a alma vive eternamente, 
E Amor he eflfeito d'alma, e sempre dura. 

Aquella quê d'amor descomedido. 

Aquella cujo. peito em flama ardido. 

Mca MS. 

Por o formoso moço se perdeo» 
Pelo fermoso moço se perdeo. 

Ediçio do 1595. 

Despois que a deosa em pedra a converteo. 
Depois que amor em pedra a converteo. 

Meu MS. 

E se huma pouca vida, estando ausente. 
E se algQa pouca vida, estando ausente. 

Edição de 1595. 

£ se pouca algtia vida estando auzente. 

Meu MS. 

Senhor, se vos espanta o soffrimento. 
Se, Senhor, vos espanta o sentimento. 

Meu MS. 

Furto este breve espaço a meu tormento. 
Furto este breve tempo a roeu tormento. 

Meu MS. 

Nem eu escrevo hum mal ja acostumado. 
Nem eu escrevo mal tSo costumado. 

Edição de 1595. 

Mas nalma minha triste e saudosa 
A saudade escreve, e eu traslado. 



Mas em minha alma triste e saudosa 
A grave dor escreve, e eu treslado. 

E esparzindo a continua soidade 
Ao longo d' huma praia soidosa. 



Meu MS. 



Espalhando a continua saudade 
Ao longo de hnnia pra>a saudosa. 

Kdição de lo95. 

As niaguas espalhando c a saudado 
Ao longo de hfla praia saudosa. 

Mou MS. 



Mn MS. 



458 

V^o do mar a insk^ilidcuie. 
Do mar contemplo a instabilidade. 
De furibundas ondas poderoso. 
£ com sua branca espuma furioso. 

Edição de 1595. 

£ com sua branca escuma saudoso. 

Meo MS. 

Na terra, a seu vezar, está tomando 
Lagar, em que s estenda, cavernoso. 

Na terra, a seu prazer, lhe está tomando 
Lugar, onde se esconda, cavernoso. 

Meu MS. 

Sempre com som profundo suspirando. 
Suas salgadas ondas espalhando. 

Edjçlo de 1595 e meo MS. 

Ás vezes cuido em mi, se a novidade. 
Ás vezes cuido em mim, se a novidade. 

Edi(lo de 1595 e mea MS. 

E estranheza das cousas, co'a mudança. 
Se a estranheza das cousas com a mudança. 

Men MS. 

Poderião mudar huma vontade. 
Se poderão mudar huroa vontade. 

BdiçSo de 1595 e meo MS. 
E com isto figuro na lembrança. 

£ com isto aOguro na lembrança. 

# Edi(Ío de 1595 e meo MS. 

A estrangeira progénie, a estranha usança, 

A estrangeira gente, e estranha usança. 

Edição de 15». 

Com a estrangeira gente, estranha usança. 

Mea MS. 
D'aUi 'stou tenteando adonde vio, 

D'alli estou tenteando aonde vio. 

EdiçSo de 1595. 

o pomar das Hesperidas, matando, 
O jardim das Hesperidas, matando. 

Mea MS. 
Estou-^e em outra parte figurando. 

Em outra parte estou afigurando. 

Edição de 1595. 



459 

O poderoso Anteo, que derribado 
Mais força se lhe vinha accrescentando, 

O poderoso Anteo, que derribado 
Mais força se lhe estava acrescentando. 

EdiçSo de Í59S o meu BIS. 

Porém do Hercúleo braço sobjugado. 
No ar deixando a vida, não podendo 
Dos soccorros da mãe ser ajudado. 

Mas do Hercúleo braço sojugado, 
No ar deixou a vida, n9o podendo 
Da Madre terra ja ser ajudado. 

BdifSo de Í599 e meu MS. 

Nem com as armas tão continuadas. 
Nem com as armas ja t2o continuadas. 

MeoMS. 

D' amorosas lembranças me defendo. 
De lembranças passadas me defendo. 

Edição de 1595 o mca MS. 
Todas as cousas vejo demudadas. 

Todas as cousas vejo remudadas. 

EdiçSo de 1595. 

Todas as cousas vejo remendadas. 

Meu MS. 
Qu'e$tejão de firmeza acompanhadas. 

Que estejSo de firmezas sobjugadas. 

Meu MS. 

Em variadas cores revestia. 
De mil cores alegres revestia. 

EdiçSo de 1593. 

De terrestres estrellas revestia. 

Meu MS. 

o monte, o campo, o vaUe, alegremente. 
O monte, o rio, o campo, alegremente . 

EdiçSo de 1595. 

O monte, o campo, o vallc, alegremente.' 

Meu MS. 

Que até duros penedos convidava 
A algum suave modo d*alegria. 

Que até aos montes duros convidava 
A bum modo suave de alegria. W 

EdiçSo de 1505. 

Que ao mesmo triste convidava 
A hum suave modo de alegria, 

Meu MS. 



460 

Que $e vou por os prados, a verdura. 
Que vou pellos campos, a verdura. 

EdiçSo de 1595 e mcii MS. 

Porque aos olhos que vicem descontentes. 
Porque os olhos que vivem descontentes. 

Edição de 4395. 

Descontente o prazer se lhes figura. 
Descontente o prazer se lhe afigura. 

KdíçSo de 1595 c meu MS. 

* 

Da Fortuna e d' Amor! que penitencia. 
De fortuna que amor e penitencia. 

Meu MS. 
Não basta examinar-me a paciência. 

Não basta experimentar-me a paciência. 

Cdiçio de 1595 e moa MS. 

Sem que também me tente o mal de atisencia f 
Sem que também m'atente o mal de auzencía? 

EdiçSo de 1593 e meu MS. 
Trazeis hum brando espirito em mudanças. 

Trazeis hum .brando animo em mudanças. 

EdíçSo de 1595 e meu MS. 
De lagrimas j suspiros e lembranças. 

De lagrimas, suspiros e esquivanças. 

Meu MS. 

Ja quieto m'achava co'a tristeza. 
Vivia eu socegado com a tristeza. 

Ediçlo de 1995 e meu MS. 

E aUi não me faltava hum brando engano. 

E ali me nâo faltou bum brando engano. 

• .Meu MS. 

Que tirasse desejos da fraqueza. 
Que tirasse os desejos da fraqueza. 

Edif So de 1595 e meu MS. 

Mas vendo-me enganado estar ufano. 
E vendo-me enganado estar ufano. 

^ Edição de 1595 c mou MS. 

• Deo á roda a Fortuna ; e doo comigo. 

Deu a fortuna á roda c deu comigo. 

Mni MS. 



46\ 

Em seguida ao verso 

Onde de noto choro o mvo dano, 

entram no meu Ms. cinco tercetos que nfiío vem em nenhuma edição, variante 
muito notivel, em que o Poeta se dirige a um amigo pedindo novas da amante 
que tinha deixado em Lisboa, e ao dizer do Poeta, ou ao seu suspeitar, tendo va- 
riado de amor. No meu Ms. faltam os três tercetos que começam: 

Ja deve de bastar o que aqui digo, etc. 

E se nos brandos peitos faz abalo, etc. 

Não quero mais se não que largamente, etc. 

e terminando a variante pega com o resto da elegia no verso : 

Porque se o duro Fado me desterra, etc. 

ih versos inéditos sâo os seguintes: 

Mas ó vós charo íiel e doce amiguo 
Que de amor fero, livre e scos errores 
Nunqua vistes as magnas que aqui diguu. 

Assi nunqua as vejais, nem seus ardores 
Abrazem nem congelem vosso peito 
Com desejo, com supitos temores. 

Não passeis nunqua aquelle passo estreito 
l)e serdes desamado e mal querido 
Vendo-vos, sem remédio, ser sugeito. ' 

Que a este amiguo, vosso amiguo fido, 
Não negueis hum papel que o todo seja 
Mais cheio d'antre hnhas que polido, 

No qual só da minha alma novas veja. 
Que lá ficou vaguando nessa terra 
Com quem mais que a mim ama c desejn. 

E se no$ brandos peitos faz abalo. 

E se nos bravos peitos faz abalo. 

Ediçilo (Ic 1595. 

Que alguma delias me fará contente. 
Ao menos poderei viver contente. 

Edição de i593. 

Desampare a prisão onde s'encerra. 



Desampare a prisão donde s'encerra. 
E por entre estes hoiriíos penedos. 
E antre estes orridos penedos. 
O Musico de Thracia, ja seguro. 



Blou MS. 



.Meo MS. 



E o musico de Thracia, ja seguro. 

EdiçSn dr 1593 p meu MS. 



U2 



Em Salmonéo a$ penas faUarão, 
E dai filha» de Belo juntamente 
De lagrimas os vasos s'encherão. 

De Tântalo as maçãas não fugirão, 
E as filhas de Bel lo juntamente 
De lagrimas os vasos encherão. 



Meo MS. 



Porque, emfim, a dma vive eternamente, 
E amor he effeito d'alma, e sempre dura. 

Que, emíim, nossa alma vive eternamente, 
E amor que efTeito d'almai sempre dura. 

Men MS. 

ELEGIA III 

o poeta Simonides, fallando um dia com Tbemistocles, lhe offerecia uma arte 
de Mnemónica, a que o capitão lhe contestou, que se lhe dess^ uma arte que o 
podesse fazer esmiecer do passado, muito maior serviço lhe faria. Assim também 
de que serve ao Poeta lembrar-se do passado senão de entristec^r-se e magoar-se, 
porque o bem que a esperança promette, ou a morte ou a mudança o estorva. 
 propósito d'esta arte ae mnemónica, nos diz Faria e Sousa que corriam no seu 
tempo livros impressos, porém sem proveito, o que não acontecia com o utilís- 
simo ensino de Manuel Ramires Carion, seu conhecido, que ensinava a fallar os 
mudos. « Lo que este admirable varon enseua, como Dios lo enseúo, (diz Faria 
e Sousa) y el no revela a alguno, aparece evidentíssimo em sus discipulos; mas 
por el arte que ay impresso no se saca alguno fruto, como ni dei otro de Memo- 
ria, que nos obligò a dexar aqui esta de el Autor de tan útil arte ». D'onde ve- 
mos que esta tão caritativa arte tem mais antiguidade do que se suppõe. N'esta 
elegia o Poeta, fallando com a pessoa a quem a dirige, lhe relata o seu embarque 
e viagem para a índia; como se arrancou da pátria onde lhe ficava o coração, 
e com a amante a lembrança de toda a bemaventurança passada; a tormenta que 
passou no cabo da Boa Esperança, onde a saudade da amante lhe renova, tor- 
menta que o Poeta já descreve com penna de mestre; a sua chegada a Goa 

De todo pobre honrado sepultura; * 

a expedição em que logo se achou, e embarcou com o vice-rei'D. AíTonso de No- 
ronha por fim de novembro de 1553, que teve o resultado de tomar uma ilha que 
o rei de Pimenta tinha tomado ao de Cochiin, succpsso militar que o Poeta narra 
com a singeleza de um soldado veterano. Depois de haver contado a vida agitada 
em que o traz a fortuna, volve-se com uma apostrophe, em que imita aVirgilio, 
ao socego que se gosa na vida campestre, que inveja. Mas quão longe está d'este 
socego, elle a quem a fortuna traz peregrinando e continuamente entregue á fú- 
ria de Marte; porém em qualquer condição da vida, por áspera que seja, emquanto 
esta lhe durar não poderá apartar o seu canto dos louvores da sua amante. 

A lembrar-se de tudo o que fazia* 
Onde tão subtis regras lhe mostrasse. 
Que nunca lhe passasseA da memoria, 

A se lembrar de tudo o que fazia. 
Onde tão sutis regras lhe mostrasse, 
Que nunqua lhe passasse da memoria. 

Edi{<1o de 4595 MS. de Luiz Frantíò. 
Que sepulta qualque%' antiqua historia . 



465 

Que enterra em si qualquer antigua historia. 

MS. de Luís Franco. 

Do passado as lembranças per tormento. 
As passadas lembranças por tormento. 

MS. de Laiz Franco. 

Se me desses hum'arte, qii,'em meus dias. 
Se me desses hda arte que em meus dias. 

Edição de 1595. 

S'este exeeUente dito ponderado. 
Se este excellente dito ponderado. 

MS. de Luiz Franco. 

Não midas o passado co'o presente, * 
Náo meças o passado com o presente. 

Ediçlo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
De que serve á$ pessoas o lembvar-se. 

De que serve ás pessoas alenibrar-se. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

S'em outro corpo hum*alma se traspassa. , 
Se n'outro corpo htía alma se traspassa. 

Ediçlto de 1595. 

Mas como quer Amor na vida escassa. 
Mas como manda Amor na vida escassa. 

MS. de Luiz Franco. 

Selvático no mnndo, e habitante. 
Selvática no mundo, e habitant^. 

Edição de 4595. 

Na dura Scythiaj e no mais duro delia. 
Na dura Scytbia, ou na -aspereza delia. 

Edição de 1595. 

Na dura Scythia, na aspereza delia. 

MS. de Luii Franco. 
Criado ao peito d'huma tigre Hircana, 

Criado ao. peito d'algtia tigre Hyrcnna. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

As que passei do mar, forão do Lethe, 
As que passei do mar, forâo de Lethe. 

Edição de 1595. 

As que do mar passei, forSo do Lethe. 

MS. de Luiz Franco. 
Porq^ie o bem q^ie a esperança rõa promette. 



i64 

Que o bem que a esperança vila proniette. 

Ediçlo de 1995 e MS. de Luix Franco. 
E se quizer saber como se apura. 

Pois se quizer saber como se apura. 

MS. de Loiz Franco. 

Em almas saudosas, não s'enfade. 
N'hGa alma saudosa, não se enfade. 

EdíçSo de 1395 e MS. de Laiz Franco. 

E eu a tinha ja soUa á saudade. 
E eu ja tinha solta á saudade. 

Edição de 1395. 

E eu ja a tinha solta á saudade. 

MS. de Luiz Fvnco. 

Com a gente maritima contente. 
E a gente maritima contente. 

EdiçSo de 1595. 

Os ventos, namorada Galaléa. 
Os ventos, namorava Galatéa. 

MS. de Laiz Franco. 

Das argênteas conchinhas Panopéa, 
Das argênteas conchas Panopôa. 

MS. de Loiz Franco. 
Melanto, Dinamene, com Ligéa. 

Meilanto^ Dinamene, com Legéa. 

EdiçSo de 1393. 

E com o gesto immota e descontente. 
Com geito immoto e gesto descontente. 

MS. de Laiz Franco. 

Co'hum suspiro profundo e mal ouvido. 
Chum suspiro profundo e mal ouvido. 

EdiçUo de 1393. 

Com suspiro profundo mal ouvido. 

MS. de Laiz Franco. 
Em puro amor tivestes, e inda agora. 

E puro amor tivestes, e inda agora. 

MS. de Luiz Franco. 
Adonde entra o grão Tejo a dar tributo. 

Aonde entra o grau Tejo a dar tributo. 

Ediçfto de 1395. 

Onde entra o Tejo a dar o grSo tributo. 

MS. de Loiz Franco. 

Ou ja por ver o verde prado enxu$o, 
Ou ja por colher ouro rutilante. 



1 



405 

Ou por verdes o prado verde enxutd, 
Oa por colherdes ouro rutilante. 

£di(2o de 1595 e MS. do Lutx Franco. 
Das Tagicas areias rico fruto. 

Das Tegeas áreas rico fruto. * 

MS. de Lniz Franco. 
NeUas em verso erótico e elegante. 

Nellas em verso heróico e elegante. 

MS. do Loif Franco. 

Qu'em quanto Ikes pedia consentião. 
- Que aquillo que pedia concediSo. 

MS. do LuicPranco. 

Por a tranquUlidade da bonança. 
Polia tranquilidade da bonança. 

Edição do 1595. 

Nem na tormenta triste me deixavão. 
Nem na tormenta grave me deixavão. 

, EdiçSo do 1595 e BIS. do Luii Franco. 

Porque chegando ao Cabo da Esperança. 
Porque chegado ao cabo da Esperança. 

Ediç9odeí595. 
Eis a noite com nuvens s* escurece; 
Do ar subitamente foge o dia. 

Eis a noite com nuvens escurece; 
Do ar supitamente foge o dia. 

EdiçSo de 1595. 

E todo o Utrgo Oceano s'embrav€ce, 
E o largo Occeano se embravesse. 

Ediçio de 4595 e MS. de Luiz Franco. 

Qu"em tormentas se vinha desfazendo. 
Que em tormenta se vinha desfazendo. 

MS. do Lniz Franco. 

Das náos as velas concavas rompendo. 
Da náo as vellas concavas rompendo. 

MS.de Lniz Franco. 

Amor alli, mostrando-se possante. 
Aly amor, mostrando-se possante. 

. MS. dp Luiz Franco. 

E que por cugum medo não fugia. 
E que por nenhum modo nSo fogia. 

EdiçSo de 1595. 

TOMO III 



30 



E que pornenlium medo náo fogia. ^ 

MS. de Luii Franco. 
Vendo a morte presente, em mi dizia. 

Vendo a morte diante, em mi dizia. 

£dição de IS95. 

Vendo a morte diante my, dizia. 

MS. de Luís Franco. 
Nada do que passei me lembraria. 

Ó a quam bom lugar a minha alma heria. 

MS. de Laiz Franco. 

O firme amor intrínseco daqueUe 
Em quem alguma vez de siso entrasse, 

O firme amor do intrínseco daquelle 

Em cujo peito huma vez de ciso entrasse.^ 

Ediçilo de 1595 e MS. de Loiz Franco. 

Huma cousa. Senhor, por certa asselle. 
Huma cousa, Senhor, por certo asselle. 

MS. de Laii Franco. 

De todo pobre honrado sepultura. 

Vi quanta vaidade em nós s'encerra 

E nos próprios quão pouca; contra quem. 

De todo o pobre honrada sepultura. 

Vi quanta vaidade nossa encerra 

E dos próprios quSo pouca; contra qi|em. 

MS. de Laiz Franco. 

Huma nha que o Rei de Porca tem. 
Que huma ilha que o Rei de Porca tem. 

Edição de 1595 e MS*, de Luiz Franco. 
E que o Rei da Pimenta lhe tomara. 

E que El-Rei da Pimenta lhe tomara. 

MS. de Luiz Franco. 
Com huma grossa armada, que juntara. 

Co'huma armada grossa, que ajuntara. 

Ediç9o de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Com morte, com incêndios os punimos. 
Com mortes, com incêndios os punimos. 

Ediçfto de 1593. 

Com mortes e incêndios os punimos. 

MS. de Loiz Franco. 
Pois passarão da Estyge as ondas frias. 

Pois passarão da Estyge as agoas frias. 

Edição do 1593 c MS. de Luiz Franco. 



467 

Dá'lhes a fonte clara d' agua pura. 
Da-lhes a fonte clara a agua pura. 

Edíçio de 1595 o MS. de Luiz Franco. 

Não temem o furor da guerra dura. 
NSo temem o temor da guerra dura. 

MS. de Luiz Franco. 

Sem lhe attebrar o somno repousado 
A grã cooiça d*ouro reluzente. 

Sem lhe quebrar o sono socegado 
O cuidado do ouro reluzente. 

EdiçSo de 1595 e MS. de Luiz Franco. 
E da formosa cór de Assyria tinto. 

E da formosa cór de Assyríca tinto. 

' EdiçSo de 1595. 

E da formosa cÓr da Siria tinto. 

MS. de Laiz Franco. 

AUi lhe mostra o campo várias cores. 
Alli amostra o campo varias cores. 

Ediçaio de 1595. 

Alyiimostra o monte varias cores. 

MS. de Luiz Franco. 

A sãa Justiça para o Ceo sereno. 
A virgem justa para o ceo sereno. 

MS. de Luiz Franco. 

E sehe benigna ou dura Cytheréa. 
E se he benigila ou dura Scytharéa. 

Edição do 1595. 

E se he benigna ou triste Cytheréa. 

MS. de Luiz Franco. 

Bem mal pode entender isto que digo. 
Bem mal pôde entender isto que eu digo. 

MS. de Luiz Franco. 
Que sempre os olhos trazem seu perigo. 

Que traz os olhos sempre em sieo perigo. 

Edição de 1595 e MS. de Luiz Franco. 

Pois postoque a Fortuna possa tanto. 
Que posto que a fortuna possa tanto. 

Edição de 4595. 

Que ainda que a fortuna possa tanto. 

MS. de Luiz Franco. 

Não poderá apartar meu duro canto 
Desta obrigação sua, em quanto a morte. 



4f)8 

NSo poderá apartar meu mdo canto 
Desta obrigação, em quanto a morte. 

MS. de Lais Franco. 
Me não entrega ao duro Radamanto, 

Me nSo entrega ao duro Rhadamànto.' 

£di(9o de 1595. 
ELEGIA IV 

Tendo Pedro de Magalhães concluído o seu livro da Historia de Santa Cruz, 
e imaginando a quem o dedicasse, e que o amparasse, adormeceu; apparecen- 
do-the depois em sonhos Marte armado, dizencio-lhe que não é justo que seja 
offerecida a sua obra senão a quem por armas resplandeça, de outra parte lhe 
apparece Âpollo, dizendo-lhe que só um varão sábio a poderá defender. N*ísto 
Mercúrio compõe as opiniões dos dois deuses, dizendo que mais de uma vez, en- 
tre os antigos heroes, concordaram as armas com as letras, e que ninguém está 
mais n'este caso do que D. Leoniz Pereira, insigne em ambas, e de quem faz o 
elogio. Mercúrio disse : e conformados já os deuses, acorda Magalhães, e parte 
a ofTerecer o seu livro ao heroe de Malaca. Porei aqui a resumida apreciação 
que Camões faz do livro : 

Tée claro estylo, e engenho curioso, 

Para poder de vós ser recebido. 

Com mão benigna, de animo amoroso. 

Nunca vi exemplar algum d'este livro, que é mui raro, e se imprimiu em Lis- 
boa no anno de id76. Faria e Sousa diz que é pouco volumoso: será una mano 
en quartila, 

D. Leoniz Pereira foi filho illegitimo de D. Manuel Pereira, terceiro conde da 
Feira, e foi um dos nossos famosos capitães da índia, o qual estando em Malaca, 
e sendo esta praça atacada no anno de 1568 pelo rei de Achem, com uma pode- 
rosissima armada, a soube defender valorosamente. A esta insigne victona es- 
creveu Camões o soneto ccxxvii, que começa : 

Vós Nymphas da Gangetica espessura, etc. 

A breve historia sua, qtie illustrasse, 

A breve historia sua, qu'illustrasse. 

Edição de 1588. 

Tendo nisto oçcupada a phantasia, 
lhe sobreveio hum somno repousado. 
Antes que o sol abrisse o claro dia. 
Em somos lhe apparece todo arrrtúdo. 

Tendo nisto oçcupada a fantasia, 
• Lhe sobre véo hum sono. repousado, 

Antes. qu'o sol abrisse o claro dia. 
Em sonhos lh'aparece todo armado. 

Edifio de IS98. - * 

Kão he justo que a outrem se offereça 
Obra alguma que possa ser famosa. 

Não he justo qu'a outrem s*oflereça 
Nem húa obra que possa ser famosa. 

Edição de 1598. 



469 



No largo mundo com tal nome e fama. 
No mundo todo com tal nome c fama. 

Edição ac 1598. 

Disse assi: quando ApoUo, que da flama 
Celeste guia os carros, de outra parle. 

Isto assim dito: ApoUo, que da flama 
Celeste guia os carros, d 'outra parle. 

Edição de 1598. 

Poz seus thesouros, e eu minha sciencia. 
Por seus thesouros, e eu minha sciencia. 

Edição do 1598. 

He justo que a escriptura na prudência. 
He justo qu'a escriptura na prudência. 

EdiçSo do 1598. 

A cithara dourada, começou 
A mitigar de Marte a fortaleza. 

A cythara dourada, começou 
De mitigar de Marte a fortaleza. 

Edição do 1596. 

Pacificar porfias duvidosas, 

Co'o Caducéo na mão, que sempre usou. 

Despartir porfias duvidosas, 

Co Caduceo na mSo, que sempre usou. 

EdiçSo de 1598. 

Com suaves razões e ponderosas. 
Com razões boas, justas e amorosas. 

EdiçSo d.; 1598. 

Como tão bem mil vezes concordarão 
As armas com as letras; porque as Musas 
A muitos na milicia acommnhárão. 

Nunca Alexandre, ou César, nas confusas 
Guerras o estudo deixão grande espaço; 
Que as armas jamais deUe são escusas. 

Que também muitas vezes ajuntarão 
Ás .armas eloquência, porqu'as Musas 
Mil capitães na guerra acompanharão. 
Nunqua Alexandre, ou César, nas confusas 
Guerras deixarão o estudo em breve spaço; 
Nem armas da sciencia são escusas. 

Edição do 1598. 

N'huma mão livros, n'outra ferro e aço; 
Aquella rege e ensina; est*outra fere: 
Mais co'o saber se vence, que co*o braço. 
Pois, logo, hum Varão grande se requere. 

N'hGia mSo livros, n'outra ferro e aço; 
A hOa rege c ensina ; a outra fere : 



470 

Mais c'ú saber se vence, que c'o braço. 
Pois, logo, varSo grande se requere. 

Ediçlo de 1596. 
Este to» darei eu, em quem ie veja. 

Este vos darei, em que se veja. 

Ediçlo de 1996. 

Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja. 
Qu'he Dom Leoniz que faz ao mundo inveja. 

Edição d9 1996. 

As Artes e as Sciencias lh'ensinárão. 
Ás artes e sciencia lh'enánár2o. 

Ediçiode^g06. 
Daqui nos exercidos o seguirão. 

Daqui os exercidos o seguirSo. 

Ediçio de 1998. 

• 

Despois, ja Capitão forte e maduro. 
Governando toda a Áurea Chersoneso, 
Lhe defendeo co'o braço o debU muro. 

Depois, ja CapiULo forte e maduro, 

Governando toda Gfiersoneso, 

Lhe defendeo c'o braço o débil muro. 

Edicio de 159S. 

Do poder dos Achens que se sustenta 
De aiheio sangue, em fúria todo aceeso; 
Este só que a ti, Marte, representa, 
O castigou de sorte, que vencido. 

Do poder dos Achens que se sostenta 
De sangue alheo em fúria aceso; 
Este só qu'a ti, Marte, representa, 
O castigou de sorte, qu*o vencido. 

EdiçSodelSOS. 

E logo qu'este Reino defendido 
Deixou, segunda vez com maior glória. 

Pois tanto qu'o grSo defendido 
Deixou; segunda vez com mayor glória. 

Ediçio de 1596. 
Mas não perdendo ainda da memoria. 

E não perdendo ainda da memoria. 

Edicfto de 1598. 

Os imigos o damno da victoxia; 
Huns com amor intrinseco esperando. 

Os imigos o danno da victoria ; 
IlGs com amor intrinseco esperando. 

EdiçSo de 1598. 
O estão com frio medo receando. 



471 

Vede pois se serião debellados 
Por seu claro valor, se lá tornasse, 
E dos Indicos mares deçiradados. 
Porqu*he justo que nunca lhe negasse, 

O vão com temor frio receando. 
Pois vede se seriSo desbaratados 
De todo por seu braço, se tornasse, 
£ dos mares da índia degradados. 
Porqu'he justo que nunqua lhe negasse. 

Edição de 1598. 

Aqui só pôde ser bem diritjido 
De Magalhães o estudo : esle só deve 
Ser de vós, claros^ deoses, escolhido, 

Assi Mercúrio disse ; e em termo breve 
Conformados se vem Apollo e Marte ; 
E voou juntamente o somno leve. 

Pois amii certo está bem dirigido 
De Magaináes o livro: este só deve 
De ser de vós ó Deoses, escolhido. 

Isto Mercúrio disse : e logo em breve 
Se conformarão nisto Apollo e Marte; 
E voou juntamente o sono leve. 

Edição de 1598. . 

A offerecer-vos. Senhor claro e famoso, 
Tudo o que nelle poz sciencia e arte. 
TBe claro estylo, e engenho curioso. 

A vos offcrecer, Senhor famoso, 
Tudo o que nelle pos sciencia e arte. 
Tem claro estilto, engenho curioso. 

Ediç.1o de 1598. 

Com mão benigna, de animo amoroso. 
Pois se só de não ser favorecido 
Hum alto esprito fica baixo e escuro ; 
Este seja comvosco defendido. 
Como o foi de Malaca o débil muro. 

Com mSo benigna, d*anímo amoroâo. 
Porque só de não ser favorecido 
Hum claro sprito fica baixo e escuro; 
Pois seja elle comvosco deffendido, 
Como foy de Malaca o fraco muro. 

Edição do 1598. 
ELEGIA V 

O Poeta bemdiz o dia em que tomou o doce pensamento dos seus amores, que 
o desvia de todos os outros, e dá por bem aventurado o soflfri mento que soube ser 
capaz de tanta pena, vendo qiie o foi da causa o entendimento. Esforça-se com 
a soblimidadé dfa causa, que lhe dá forcas para supportar todo o tdf mento que 
possa provir do desamor da amante. Por estes dois versos pode deprehender-se 
que esta composição foi escripta em ausência: 

Se sinto tanto bem só co'a memoria 
De ver-vos, linda D.ima, vencedora. 



• 



« 



472 

Em todas as edições antigas vem estes tercetos com o titulo de CapUtdo. 
Aqu^Ue mover de olhos excellenle, 

■ 

Aquelle mover d'oIho8 excellente. 

Ediçlo de 1595. 

Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano, 
. E tanlo a engrandecer-me a phantasia. 

Me inflama o coração d'hnm doce engano, 
Me enleva e engraiidesce a fantasia. 

Ediçlo de 1595. 
Penando vive hum'alma consumida. 

Penando vive hfla alma consumida. 

Ediçio de 1595. 

E se me mostra hum gesto lindo humano. 

£ se me mostroq hum gesto brando humano. 

Edição de 1595. 
Se sinto tanto bem só co*a memoria 
De ver-voSy linda Dama, vencedora; 
Que quero eu mais que ser vossa victoriaf 
Se tanto a vossa vista mais namora. 

Se sinto tanto bem só na memoria 

D«) vos ver, linda Dama, vencedora;' 

Que quero eu mais que ser vossa a victoria? 

Se tanto vossa vista mais namora. 

Edição do 1595. 

Se, emfim, os meus espritos, de pequenos, 
A merecer não chegão seu tormento. 

Se, meus baixos spritos, de pequenos. 
Ainda não merecem seo tormento. 

Edi(«o de 1593. 

A causa, pois, m' esforça o soffrimento, 
i\ causa, emíim, nresforça o soffrimçnto. 

Edição de 159S. 
ELEGIA VI 

Encontrou Faria e Sousa esta elegia e a vii em uma collecçSo de prosas e poe- 
sias em Escalona, e tinha no íim esta declaração: «Acabou-se de trasladar a 29 
de julho de 1593, em Évora, por Francisco Alvares, de alcunha o Sócio, por uma 
copia de Manuel Godinho, que diz a tirou do próprio original, anno 1562. Se 
agui houver erros eu o trasladei assim como estava, porque o Godinho não sa-> 
bia latim. Tinha por titulo: Fabvla de Narciso», 

Comprehendia mais o manuscripto um sermão na lingua portugueza, em se- 
guida á de^ripção que o doutor João de Barros fez da comarca de Entre Douro 
e Minho, e depois varias poesias em castelhano, a maior parte d'ellas más, na opi- 
nião de Manuel de Faria e Sousa. Descreve o Poeta uma graciosa floresta, se- 
meada de flores delicadas, e povoada de pássaros, que n'ella fazem ouvir os seus 
Sorgfios, e onde se lêem pelos troncos lembranças de amores felizes, e também 
e- tormentos de amor. Apostropha o amor, causa da cruel guerra em que traz os 



475 

corações, o termina relatando a fabula de Narciso. O principio d'esta elegia pa- 
rece descrever-se em sitio á beiramar : 

Entre rústicas serras e fragosas, 
Compostos d'asperissimos rochedos, 
De salitradas lapas cavernosas. 

e os últimos versos, que téem toda a análoga com o final da elegia ii escripta 
na Africa, me Induzem a acreditar que foi feita pelo mesmo tempo. A mesma ana- 
logia se nota em parte das oitavas ou* epistola a D. António de Noronha, que eu 
reputo compostas pela mesma epocha. Os últimos quatro versos doesta elegia pro- 
vam que o Poeta principiava a experimentar contratempos n^ seus amores, e ^ 
o ultimo verso que por este respeito começavam as suas perigrinações : 

Assim que os desfavores nunca fattâo 
Até depois da morte proseguindo 
Hum triste coração que desbaratão 
Triste de quero em vão lhe vai fugindo. 

A natureza experta, que rodeia, 

A natureza experta, que rodea. 

Neste fermoso sitio se recreia. 

Neste famoso sitio se recrôa. 



Edição de Í68G. 



Edição de 1685. 

Que sempre hum brando Zephyro meneia. 
Que sempre hum brando Zephiro menea. 

Ediç9o de 1685. 
Das rubicundas flores hyaciníhinas. 

Das rubicundas flores jacin tinas. 

Ediçio de 1685. 
Lhe servem contra peitos de donzellas. 

lihe servem contra peytos de donzellas. 

Edição de 1685. 

Faz o valle huma sombra deleitosa. 
Faz o valle huma sombra deleytosa. 

EdiçSo do 1685. 

As gottas de crystal quasi imitando. 
As gotas de crystal quasi imitando. 

EdiçSo de 1685. 

As crystallinas fofites, que brotando ' 
Por entre alvos seixinhos se derivão. 
Das arvores os troncos vão banhando. 

Entre as límpidas aguas, qu'inda esquivão 
O fonnoso pastor que se peraeo. 
Preso das falsas mostras que o captivão. 

Cresce a por cuja causa sesqueceo 
A linda Cylheréa de Vulcano, 
Quando presa d' Amor se lhe rmdeo. 



474 

As crystalinas fontes, que banhando 
Por entre alvos seyxinhos se desvião, 
Das arvores os troncos vão banhando. 

Entre as límpidas aguaç, que inda esquivSo 
O fermoso pastor que se perdeo, 
Preso das falsas mostras que o cativSo, 

Crece a por cuja causa se esqueceo 
 Unda Citherôa de Vulcano, 
Quando presa de amor se lhe rendeo. 

Inda as cmeis feridas apparecem. 

fnda as cruéis feridas aparecem. 

Edição de 1685. 
Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem. 

Qual roxo esmalte á vista bê se offrece. 

Edição de 1685. 

As flores rutUanles e cheirosas. 
As flores rutilantes e cbeyrosas. 

Edição de 1683. 

Os húmidos botões abrindo as rosas, . 
Os humedos botões abrindo as rosas. 

EdiçSo de i685. 

Por eima das boninas que rodeia. 
Por cima das boninas que rodéa. 

Edição de 1683. 

Do trémtdo regato a branda areia 
De jacinthos se cobre e de vieiras, 
Qu^encrespão da corrente a branca veia. 

Do trémulo regato a branda área 

De jacintos se cobre e de vieyras. 

Que encresp&o da corrente a branca véa. 

Edição de 1685. 

De sorte, que s'enxerga escassamente 
Se são os cachos seus, se das parreiras. 

m 

De sorte, que se enxerga escassamente 
Se sam os cachos seus, se das parreyras. 

Edição de 1685. 

Outro formoso bosque debuxando ^ 

Estão no fundo delia brandamente. \ 

Outro fermoso bosque dibuxando 
Estam no fundo delia brandamente. 

Edição do 1685. 

Desfaz o rouco peito, ja cansada 
De que não move a morte a piedade. 

Desfaz o rouco peyto, ja cansada 
De que não move a morte a piedade. 

Edição do 1685. 



475 

9 Da triste Philometa frofutanada. 
Da triste Filomena profanada. 

Edição de 1685. 

O garrvio calhandro, qu'enrouquece 
Por não perder eaUado a confiança, 

O gárrulo calhandro, que enrouquece 
Por nam perder callado a confiança. 

Edição de 1685. 

Alguns versos s'escuta derramando 
O fjario vintasirgOf tão saudáveis. 
Que proauzem memo7'i<is d'amor brando. 
Por os direitos troncos ha notáveis, 

Alguns versos se escuta derramado 
O vario Pintasirgo tSo saudaveys 
Que produzé memorias de amor brando. 
Por os direytos troncçs ha notaveys. 

EdiçSo de 1685. 

Que contra H) duro tempo são duráveis. 
Que coritra o duro tempo sSo duraveys. 

Edição de 1685. 

Conforme a liberdade do qu'esereve. 
Estranhos casos mostrão á memoria. 

Conforme á liberdade do que escreve, 
Estranhos casos mostrSo á memoria. 

Edição de 1C85. 

Deixarão mil lembranças de tormento. 
Abrazando-se alguns em vivas frágoas. 

DeyxárSo mil lembranças de tormento. . 
Abrazando-se alguns em vivas frágoas. 

Edição de 1683. 

Gostos d' Amor agora, agora mágpas. 
Gostos de amor agora, agora mágoas. 

Edição de 1685. 
A quem serás tyranno se lho negas. 

A quem serás Tirano se lho negas. 

Edição de 1685. 

Porqu'enganas as almas que tão cegas 
Arrastas apoz ti, de error captivasf 
Porque a cruéis rigores as entregas? 

Porque enganas as almas que t2o cegas 
Arrastras após ti, de error cativas ? 
Porque a crueys rigores as entregas? 

Edição de 1685. 

Para que contra hum peito assi fesquivas, 
Que humilde se svjeita a teu cttidado. 



476 



Para que contra hum peyto assi te esquivas 
Que humilde se sogeyta a teu cuidado. 

EdiçSo de 1685. 
N'huma apparencia falsa embevecido. 

Numa apparencia falsa embevecido. 

Ediçio áo 1685. 

Da praia entre os penedos escondido. 
Da praya entre os penedos escondido. , 

Edição de 1683. 

* Aias eu de que m^espanto, se dizia 
Hum sábio que d* enganos se iemeue. 

Mas eu de que me espanto, se dizia 
11 um sábio que de enganos se temesse. 

Edição de 168S. 

Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece, 
Ja chora, ja se ri, ja se enfurece. 

Edição de 1685. 

Despois de ter contado da frescura. ^ 
Despoys de ter contado da frescura. 

Ediçio de 1685. 

Castigo foi que o moço mereceo. 
Castigo foy que o moço mereceo. 

Edição de 1685. 

Qu'em viva pedra Juno converteo. - 
Ardia em fogo d'alma a vãa donzeUa, 
Soffrendo hum duro peito; qtie a Narciso, 
Quando ella mais se abraza, mais congela, 
E quando a fraca Nympha mais de siso 
Mostrava hum signal certo de firmeza. 

Que em viva pedra Juno converteo. 
Ardia em fogo da alma a vSa donzelia, 
Soíf rendo hum duro peyto; que a Narcizo, 
Qu3do ella mays se anraza, mais cõgelia. 
E quando a fraca Ninfa mais de siso 
Mostrava hum sinal certo de firmeza. 

Edição do 1683. 
Ja d*huma profundíssima tristeza. 



Ja de huma profundissinia tristeza. 

Como diz desfavor mal com belleza. 
Condiz disfavor mal com a belleza. 
Por não a contentar s* entristecia. 
Por nSo a contentar se entristecia. 



Edição de 1685. 



Edição de 16fô. 



Edição de 1685. 



477 

Mas o cego Cupido, d'affrontado. 
Mas o cego Cupido, de aíTronUdo. 

Edi(9o de 1685. 
A beber n'kuma fonte crystaUina, 

A beber noma fonte cristalina. 

Ediç9o de 1685. 
Como ja, d'enlevado, não cuidava. 

Como ja, de elevado, nAo cuydava. 

Edição do 1685. 

Vendo o formoso rosto, suspirava. 
Vendo o fefrooso rosto suspirava. 

Ediç9o de 1685. 

E quanto mais molhava os tenros braços. 
Então mais vivamente o fogo ardia. 

E quftto mays molhava os tenros braços, 
EnULo*mays vivamente o fogo ardia. 

Ediç9o de 4685. 

Embevecido todo n'apparencia. 
Sem súber de cuidado o que sentia. 

Embevecido todo na apparencia. 
Sem saber do cuydado o que sentia. 

Edição de 1685. 
Ao ver-se longe mais, mais perto via. 

Ao ver-se longe niays, mays perto via. 

Edição de 1685. 

Então para mais Umge lhe fugia. 
Ent2o para mays lopge lhe fugia. 

Edição de 1685. 

De si mesma se abraza e se captiva. 
De si mesmo se. abraza e cativa. 

Edição de 1685. 

A formosura, pois, que namorava. 
A fermosura, poys, que namorava. 

Edição de 1685. 

Qu'estando dentro em si, mui longe estava. 
A sditaria Nympha, qu' escondida. 

Que estando dentro em si, muy longe estava. 
A solitária Ninfa que escondida. 

Edição de 1G85. 

As crystallinas aguas accusara. 
As cristalinas aguas accasava. 

Edição dl* 1685. 



; 



478 

Ouiras vezes á fonte, quando a olhava. 
Outras vezes á a fonte, quando a olhava. 

Edíç9o de 1685. 

Mas vendo qu'eUa em nada se dohia. 
Mas vendo que ella em nada se doía. 

Edicao de 1685. 

Ja lhe pede que saia para fora, 
Ja lhe pede que saya para fora. 

Ediçio do 1685. 

Nestes queixumes seus tão lastimosos. 
Que com tão longo ser, julgou por breve. 

Nestes queyxumes seus tâo lastimosos, 
Que com tao \6go ser, julgou por breve. 

Edição de 1685. 

Desfarte feneceo em tenros anos 
Narciso, dando exemplo á formosura. 

Desta arte feneceo em tenros annos 
Narciso dando exemplo á fermosura. 

Ediçio de 1685. 

Ao moço em flor purpúrea, qu'inda dura. 
Ao moço em flor purpúrea q inda dura. 

Edição do 1685. 

Está despois da morte acompanhando. 
Esta despoys da morte acompanhando. 

Ediçio de 1685. 

Que o fogo d*hum querer, n'alma inflammado. 
Que o fogo de hum querer na alma inflamado. 

Ediçio do 1685. 

Porque despois do corpo sepultado,- 
Prisão onde s'encerra o fraco esprito. 
Eternamente chora o seu cuidado. 
E das escuras aguas do CocUo. 

Porque despoys do corpo sepultado, 
Prisão onde se encerra o fraco esprito, 
Eternamente chora o seu cuydado. 
E das escuras aguas de Coei to. 

Ediçio de 1685. 

Celebra o lindo gesto n*abfia escrito. 
Celebra o lindo gesto na alma escrito. 

Ediçio de 1685. 
E se foi despre::ado, lá padece. 

E so foy dfpsprozado, lá padece. 

• ErIicSn dr ir>85. 



479 

Nem dof avaros olhos lá $* esquece. 
Que de formoso verde a terra esmaUão, 
Por não^cer os do triste qu*endoudece. 

Nem dos avaros olhos lá se esquece, 
Que de fernioso verde a terra esinaltáo, 
Por não ver os do triste que endoudece. 

Edição do 4685. 

AU despois da morte perseguindo. 
Até despoys da morte perseguindo. 

Edição de 1685. 
Triste de quem em vão lhe vai fugindo. 

Triste de quem em vão lhe vay fugindo. 

Edição de 1685. 
ELEGIA VII 

Esta elegia tinha por titulo no manuscripto que Manuel de Faria e Sousa en- 
controu: Vergel de Amor. É uma espécie de egloga ou idylio. Almeno, pastor 
triste e namorado, ao alvorecer do dia vae pelo campo espalhando as suas ma- 
guas, e lança imprecações contra o amor, causa dos tormentos que experimenta. 
Arrebatado no seu pensamento, encaminha-se para um vergel plantado pelo amor, 
tão delicioso que parece mais divino que humano. Entra n'elle, e dirige-se ás flo- 
res e arvores que o povoam, declarando a significação emblemática de cada uma; 
é uma espécie de diccionario symbolico de flores. Faria e Sousa commenta mi- 
nuciosamente esta elegia na parte que diz respeito ás flores, e mostra que o Poeta 
umas vezes seguiu Reynaldo e Pélegrino, outras está em contradicção. Fr. Izidoro 
de Barreira escreveu um Tratado das significares das plantas, flores e fructos que 
se referem Tia Sagrada Escrijitura, Lisboa, 1622, 4.^ mas foi posteriormente a Ca- 
mões. Pensei que esta poesia seria alguma carta disfarçada, e tentei decifra-la, 
porém vim no conhecimento que esta phraseologia emblemática não fazia sentido 
libado. Foi [>rovavelmente das primeiras cousas feitas por Camões depois da sua 
vinda de Coimbra para Lisboa, e escripta nas margens do Tejo, talvez durante 
o tempo do primeiro desterro. 

Lograe do Tejo o plácido ruido. 

Ao pé d*hum'alta faia vi sentado, 
N'hum vaUe deleitoso e bem florido. 

Ao pé de hum'aUa faya vi sentado, 
Num valle deleytoso e bem florido. 

Edição de 1685. 

Outro no mundo pôde haver nascido 
Mui queixoso de Amor; porém não tanto. 

Outro no mundo pôde haver nacido 

Tão queyxoso de Amor; porém não tanto. 

Edição de 1685. 
Para ajudar d'Almeno o triste pranto. 

9 Para ajudar de Almeno o triste pranto. 

Edição de 1685. 

Ao triste inda mais triste do qu'estata. 
As flores por o ])i*ado s'ostendião. 



480 



E das que finai maú trõú as cores. 

Brancas, ríSocas, as Nymphas mais coíhião. 

* 

Ao triste inda pays triste do que estava. 
As flores por d prado se estendiSo 
E das que finas mays erSo as cores, 
Brancas, roxas, as Ninfas mais co1hi2o. 

Edição do 4685. 

Que, deixando-os no campo deleitoso. 
Com ellas praticavão só a amores. 

Que, deyxando-os no campo deleytoso, 
Com ellas praticavSo só de amores. 

EdicSo de 1683. 

E por isso a deixava pressuroso. 
£ porisso a deyxava pressuroso. 

BdiçSo de Í68S. 

De contrário, d'astuto e fementido. 
De contrário de astuto e fementido. 

EdiçSo de 1683. 

Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados. 
Se, amor, eu te offendi com meus cuidados. 

Edição de 1685. 

O bem que me mostravas, 'se deixasse. 
O bem que me mostravas, se deyxasse. 

Ediçlo de 1685. 

Ou qual deste, que muito não custasse. 
Ou qual deste, que muyto nSo custasse. 

EdiçSo de 1685. 

Antes o prezo mais, quando he mais fero. 
Antes o prezo -mais, quSdo he mais fero. 

Ediçito de 1685. 

Quando entrou n'hum vergel d^esmcite fino, 
Qu'era de Amor plantado; e parecendo. 

Quando entrou n'um versei de esmalte fino, 
Que era de Amor plantado; e parecendo. 

Edíçio de 1685. 

Entre huns altos ulmeiros escondido. 
D'hum crystaUino orvalho tinha o manto. 

Entre huns altos ulmeyros escondido. 
De hum cristalino orvalho tinha o manto. 

EdiçSo de 1685. 

He por dita humildade, ou he baixeza. 
He por dita humildade, ou he bayxeza. 

Edic9o de 1685. 



Papoulas conversais, oue são irtúeza ! 
Não despreza» o carão, que he tormento ! 
AdmUíis a horteloa, sendo crueza! 

Papoulas conversays, que sSo tristeza ! 
NScpdesprezays o cardo, que he tormento! 
Admitis a ortelSa, sendo crueza! 

Ediçio de 1685. 

Deste me temerei como inimigo^. 
. Deste me temerey como enemigo. 

Edição de i68S. 
* Co*a vontade sujeita, que he limão. 

Ai mosquetas, que sois d' amor cuidados ! 

Go'a vontade sogeita, que he limSo. 

Ai mosquetas, que soys de Amor cuydados! 

Edição de 1685. 
Vós sás devieis adornar os prados. 

Vós sós devieys adornar os prados. 

£díçSodel685. 

Onde se põe giesta, que he lembrança. 
Junto do rosmaninho, que he'squecer? 
• 
Onde se opõem giesta, que he lembrança, 
Junto do rosmaninho^ que he crecer? 

]fidiçSodel685. 

Memoria a quem offende o esquecimento. 
Memoria a quem offende o esqueci meto. 

Edição de 1685. 
A ameixieira a flor está soltando, 

A ameyxieira a flor eçtá soltando. 

Edição de 1685. 

As hervas que daqui irei tomando. 
As ervas que de aqui irey tomando. 

Edição de 1685. ^ 

E, de ter mui perdida a liberdade, 
Tomarei madresylva entendimento, 

E, de ter muv perdida a liberdade, 
Tomarey Madresylva entendimento. 

Edição de 1685. 

Marmeleiro me dá arrependimento: 
Ptir a salva, que he gosto, tomarei, 

Marmeleyro me dá arrependimento : 
Por a salva, que he gosto tomarey. 

Edição de 1685. « 

Conhecimento firme nunca achei. 
Conhecimento firme nunca achey. 

Edição de 1685. 
TOMO III 31 



482 

Qual meu damno enião fora, bem o sei. 
Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera 
Ver-vo8 aqui menor, pois sois victoria. 

Qaal meu dano entSo fora, bem sey. , 

O queip, erva cidreyra, 6 quem pudera 
Ver-vos aqui menor, poys soys vitoria. 

EdiçSo de 1685. 

Mas se onereis que tenha alguma gloria, 
Por galardão d* amar e ser sujeito. 
Perderei de tormentos a memoria. 

Porém, pois mo negais, de todo engeito 
A palma, qu*he ventura; e na parreira, 
Qu'he 'sperança perdida, me deleito. 

Entretanto co'a flor da laranjeira, 
Qu'he desafio duro e arriscado, 
Posso arguir da hora derradeira. 

Ja não se quer deter o meu cuidado 
Com a romãa descanso : a brevidade 
Das maravilhas só tee desejado. 



Mas se quereys qu6 tenha alguma gloria, 
Por galardão do amar e ser sogcylo, 
Perderey de tormentos a memoria. 

Porém, poys mo negays, de todo engeyto 
A palma, que he ventura; e na parreyra. 
Que hc esperança perdida, me deleyto. 

Entretanto co'a flor da larangeira, 
Que he desafio duro e arriscado. 
Posso arguir da hora derradeyra. 

Ja nSo se quer deter o meu cuydado 
Com a romãa descanso : a brevidade 
Dás maravilhas só tõc desejado. 

EdiçSo de 1685. 

Vos apartae de mi, se algum desejo 
Tendes de ter do pasto mais vontade. 

Se muita de me verdes em vós vejo. 
Toda a minha de vei*-vos hei perdido 
Á força do poder d'amor sobejo. 

Lograe do Tejo o plácido ruido; 
'Sós lograe estas veigas florecidas: 
Pois se perde o pastor vosso querido. 

Não gosteis de com elU ser perdidas. 



Vos apartay de mi, se algum desejo 
Tendes de ter do pasto mays vontade. 

Se muyta de me verdes em vós vejo, 
Toda a minha de ver-vos bey perdido 
Á força do poder de amor sobejo. 

Logray do Tejo o plácido ruído; 
Sós logray estas veigas florecidas : 
Povs se perde o Pastor vosso querido, 

Nilo gosteys de com elle ser perdidas. 

EdiçSo de 1G85. 



485 



ELEGIA Vm ' 

Qneixa-se da amante nSo corresponder ao seu amor, pede-lhe tenha compai- 
xSo dos tormentos que motiva, e protesta-Ihe que embora o trate com rigor, 'é 
maior a gloria que leva em soffrer os seus maleá por a causa qué lh'os faz soffrer, 
do que os mesmos males. Esta elegia encontrou Faria e Sousa em um manuscri- 
pto em nome de Francisco de Andrade, auctor bem conhecido que escreveu a 
cbronica de el-/^i D. Jo2o lII, em nome de Felicía, e muito acrescentada, pois 
ali trazia oitenta tercetos, quando aqui não tem mais de quarenta. 



T!hT(3ffto donde o poder d' Amor consiste; 

Formosa fera, a quem está rendida 
D' Amor a qtie he mais livre Uberdade, 
Ganhada mais, se mais por ti perdida : 

Quão contrario parece na beldade. 
Que os corações captiva com brandura. 

Trono donde o poder de Amor consiste; 

Fermosa fera, a quem está rendida 
De Amor a que he nihys livre liberdade, 
Ganhada mays, se ma/s por ti perdida; 

Quam contrario parece na beldade, 
Que os coraçocns cativa na brandura. 

Edição áv (685. 

Quão contrario parece em formosura. 
Que deixa muito atraz quanto he humano, 

Quam contrario parece em fermosura, 
Que deyxa muito atraz quanto he humano. 

Edição de 1685. 

Quão mal parece em quem só co'hum engano 
Pôde dar vida ao coração suieilo, 
Dar4he, em lugar de vida, num mortal dano ! 

Quão mal parece que hum amor perfeito 
Não seja d'outro igUal remunerado, 
Inda que seia, acaso ^ contrafeito! 

. Quão mal parece estar desesperado 
Çluem tanto por ti soffre e tfe soffrido, 

Quam mal parece em quem só eo*hQ engano 
Pôde dar vida ao coraçSo sogeyto, 
Dar-lhe, em lugar de vida, hQ mortal danoK 

Quam mal parece que hQ amor perfeito 
NSo seja de outro algum remunerado, 
Inda que seja, acaso, contrafeytol 

Qaam mal parece estar desesperado 
Quem tanto por ti sofre e tem sofrido. 

EdiçXo de 1685. 

Por mais qu'em seu rigor vira offendido. 
Por mays q em seu rigor viva olTendido. 

£diçio de 1685. 
Por mais qu*em vão se canse o que a pretende. 



484 



Por mays que em yfto se canse o q a perteode. 

Ediçlo de 1685- 

Mas não despois de vitía o ser deixada. 
Quão mal sabe o valor de tua vista 
Quem cuida que o que delia acaso alcança. 

Mas nfto despoys de vista o ser deyxada. 

Quam mal sabe o valor de tua vista 

Quem cuyda que o q delia acaso alcança. , 

EdiçSo dê 1685. 

Quão bem pareceria huma esperança. 
Quam bem pareceria buma esperança. 

Edifio de IS85. 
iVcío sempre huma mortal desconfiança. 

Não sempre hCUi mortal desconOança. 

SdiçIodelSSS 

Pudesu ser reparo a quem mais te ama. 
Pudesse ser reparo a quem mays te ama. 

Edição de 1885. 

Te enfrie tanto a ti, quanto m'\nfi4ma. 
Se a (Hympica belleza assi imitaste. 
Que branaamente move hum amor puro. 

Te enfría tanto a ti, quanto me inflama. 
Se a Olimpica bellesa assi imitaste, 
Que branaamente. mova bQ amor puro. 

EdiçSo de IS85. 

Este mah^ que m'o€eupa o pensamento. 
Este mal, que me ocupa o pensamento. 

Ediçlo de 1S85. 
Tu, qu'ês a causa só de meu tormento. 

Tu, que és a causa só de meu tormento. 

EdiçSo de tS85. 

Queres que as minhas queixas leve o vento? 
Queres q as itainhas queyzas leve o vento?- 

Ediçlo de iS85. 

Ai, que me deras vida em morte dar-me. 
Ay, que deras vida a morte dar-me. 

Ediçlo de IS85. 
Co'os bellos olhos, com que o dourtu tanto. 

Co'os bellos olbos, com q o douras tanto. 

Ediçlo de 1685. 

E á noute dá alegria a luz alheia. 



E à noyts dá alegria a luz alhea. 



Ediçlo dc^685. 



485 

Torna a manhãa despois alegre e áieia 
Da luz que o choro enxuga á bella Aurora; 
Mas do meu châro nunca enxuga a teia. 

Lagrimas ja não são qu*esla alma dhora, 

• Torna a manhâa despoys alegre e chea 
Da luz ^ o choro enxuga á bella aurora; 
Mas do meu choro nunca enxuga a vea. 
Lagrymas ja não sâo que esta alma chora. 

£dif9o de 4685. 

Como inda a morte quer que mais aguarde? 
Não tarda ja, mas corra a mal tão fero. 
Mas ja por mais que corra f?irá tarde. 

Nem no supremo trance de ti 'spero 
QuHnda com ver o estado em que mehas posto 
Queiras, crua, entender quanto te quero. 

Ai! se volveres esse bem rosto. 

Como inda a morte quer que mays aguarde? 
Não tarde ja, mas corra a mal tSo forle. 
Mas ja por mays que corra virá tarde. 

Nem no supremo trance de ti espero. 
Que inda com ver o estado em q me has posto 
Queyras, crua, entender quanto te quero. 

Ay! 86 volvesses esse bello rosto. 

£diçSo de 16S5. 

Nem que de dar-me a morte te arrependas. 
Mas que os olhos de ver-me então não tires. 

Nem que dar-me a morte te arrepêdas. 
Mas q os olhos de ver-me então não tires. 

EdiçSo de 1085. 

Pois quem com outro mérito render-Ae, 
Poys quem com outro mérito render-te. 

. ' Edição de 1685. 

Muito mqis Umge está de merecer-te. 

Este si, que merece a grã crueza 
Com qtie tu d*acabar'me^a vida tratas. 
Pois diante de ti, de si se preza. 

Se cuidas que com isto desbaratas, 

Muyto mais longe está de merecer-te. 

Este si, que merece a grflo crueza 
Com que (u de acabar-me a vida tratas, 
Poys diante de ti, de si se preza. 

Se cuydas que com isto disbaratas. 

£dlç9o de 1685. 

EUe mais vive quando mais me matas. 
Elle mays vive quando mays me matas. 

Edição de 1685. 

Eu m'indino a que mates ; tu t'inclina 
A matar mais de branda que d*esquita. 









486 ■ 

S'esta alma tua jnlgas por indina 
Daqíielie grande bem qu'em ti $'esconde. 
Do desco6erto mal a faz dina. 
• Onde (ai!) voz acharei que baste fail), ande, 
A podei* reduzir Ae a ser piedosa? 
Ou m acaba de todo, ou me responde. 

Mas por mais que te mostres rigorosa. 
Deixar meu pensamento m* he impossível. 
Igualmente que a ti não ser formosa. 

E por mais qu'esta dor seja terrivel. 

Eu me inclino a que mxtes, tu te inclina 
A matar mays de branda que de esquiva. 

Se esta alma tua julgas por indigna 
De aquelle grande bem q em ti se esconde, 
Do doscuberto mal a faze digna. 

Onde (ay!) voz acharoy q baste (ay!), onde, 
A poder reduzir-te a ser ptadosa? 
Ou me acaba de todo, ou me responde. 

Mas por mays que te mostre rigurosa, 
Dc^-xar meu pensamento me he impossivel, 
Igualmente que a ti nâo ser fermosa. 

£ por mays que esta dor seja terrivel. 

fidiçfto dn IG85. 

índa que a faz maior, a faz soffrivel, \ 
Inda que a faz mayor, a faz sofri vel. 

' Edição do 1G83. 

Não perderei o gosto de perde-la, 
He justo qu'eu por ti mil mortes ame, 

Nilo perderey o gosto de perdela. 
• He justo que cu por ti mil mortes ame. 

Edição de liXH 

De vencer-^ íêe gloria bem pequena, 
Pois só render-me tomo por defensa. 

De vencer-ine tem gloria bem pequena, 
Poys só rendcr-me tomo por drfensa. * 

EJic.lo do lfi85. 
ELEGIA IX 

Encarecimentos platónicos do seu amor exaltado e queixas contra a tyran* 
nia da amante que o trata com tanto rigor. Não pretende mais que vé-la e ouvi-la; 
mas que diz se na ausência a está vendo! Fará crescer as hervas com as suas la- 
grimas, dará pasto aos seus cuidados, e irá celebrahdo os seus olhos divinos en- 
tre os pastores, que aprenderão d'elle o que ú amor sublime; e sabendo a causa 
soberana da sua tristeza haverão inveja á sua estrella. Diz Faria e Sousa que o 
Poeta fez esta elegia no começo dos seus amores, c que fora das suas primeiras 
composições. 

Pois na môr esperança desespero. 

Poys na mór esperança desespero. 

EdiçSo de 1685. 

Quanto de mi por rós me ando esquecendo. 



A«7 

Qíiãto de mi por vós me aaUo esquecendo. 

Edif ao de i685. 

Ingrata não sejais a quem vos ama. 
Ingrata não seja}'8 a quem vos ama. 

EdiçSo de iC85> 

Que os corações d^arnor divino inflama» 
Que os corações de amor divino inflama. 

Edição de 1985. 

Vos mohtrae ao mal meu, que me, faz vosso. 
Vos mostray ao mal meu, que me faz vosso. 

Ediçiodot685. 

Mas que posso eu fazer, pois ja não posso. 
Mas que posso eu fazer, poys ja nSo posso. 

Edição do 168S. 

Porqu'esta, auando he grande, jamais erra. 
Se resuUar a amor sincero e puro. 

Porqu*estay quando he grande, jamays erra, 
Se resulta de Amor sincero e puro. 

Ediçio do 1686. 

Por ella hei de morrer, inda que veja. 
Por ella hey de morrer, inda que veja. 

EdiçSo de 1685. 

Quem não deseja a vossa formosura. 
Quem nflo deseja a vossa fermosura. 

Edição de 1685. 

De qu'eu sempre a deseje estae segura. 
De que eu sempre a deseje estay segura. 

EdiçSo de 1685. 
Da gloria singular, do damno esquivo. 

Da gloria singular, do dano esquivo. 

EdiçSo de 1595. 

Se vos offendo, cuido que não vivo: 

Olhae se muito mais que de offender-vos. i 

Se vos offendo, cu)[do que não vivo : 
Olhay 86 muito mais que de offender-vos. 

EdiçSo do 1683. 

Querer-vos sem deixar de venerar-vos. 
Querer-vos sem deyxar do venerar-vos. 

EdiçSo de IG85. 

Pretendo; e pois somente isto pretendo. 



Pertendo ; e poys somente isto pertendo. 

Ediçio de leSS. 

Morra eu, Senhora; e vós ficae contente. 
Se tos aggrava quem por -rós padece ; 
Se vos v^e a offender quem vos quer tanto. 

• 

Morra'eu, Senhor; e vós ficay contente. 
Sc vos ajrrava quem por vós padece; 
Se vos vé a offender quem vos quer táto. 

Ediçio de 1685. 

Ao ceo d' essa raríssima belleza. 
Ao ceo d'essaYaríssiraà Belleza. 

Ediçio de 1685. 

Deixae^me contentar desta tristeza, 
Dexay-me contentar desta tristeza. 

Ediçio de 1685. 

Farei crescer as hêrvas por os prados , 
Pois ja d'outra alegria desconfio. 

No monte darei pasto a meus cuidados; 
E serão de mi sempre entre os pastores. 

Farey crecer as ervas por os prados, 
Poys ja de outra alegria desconfio. 

No monte darey pasto a meus cu y dados; 
E serão de mi sempre entre pastores. 

Ediçio de 1685. 

Mais soberana por a causa delia. 
Mays soberana por a cansa delia. 

Ediçio de 1685. 
E qu' inveja não mostre á minha estreita. 

. E que enveja nflo mostre á minha estrela. 

Ediçio de 1685. 
,* 

ELEGIA X 

Diz Manuel dte Faria e Sousa, que esta elegia vem nos manoscriptos com o se- 

Siinte titulo : «A morle de D.Miguel de Menezes, na índia, filho de D. Henrique de 
enezes Governador da Casa do CtrW ». Com o mesmo vem no manuscripto aonde 
trasladou o editor da edição de 1668, isto ó, se não cofiou dos próprios copiado- 
res de Manuel de Faria e Sousa. Diz o comn^entador que indagando com todii 
diligencia, não poderá descobrir quando morreu este fidalgo na índia; necessa- 
ríainente tinham que ser baldados os sens esforços, porquanto fallecea na fitsl 
batalha de Alcácer Quibir, conforme consta de um alvará de tença concedida a 
sua mãe em atlenção aos serviços de D. Miguei de Menezes, seu filho, que acom- 
panhou el-rei D. Sebastíão.á Africa, onde falleceu, e a vagar por sua morte uma 
comenda de 80^^000 réis. É datado o alvará de 4 de dezembro de 1579. (Arcbivo 
Nacional, livro. 46.° de D. Sebastião, fl. 36.) De uma chroniea manuscripta de 
D. Si>bastião, aue relata os mortos, feridos e captivos da iUustre família dos Me- 
nezes, na batalha de Alcácer Quibir, ao todo uns dezoito dos primeiros, entrando 
dois bispos, o de Coimbra e o de Miranda, e dos segundos onze, se faz meiiçâb 
do D. Miguel que ahi pereceu conjunctamente com seu irmão primogénito, ambos 
lilhos de D. Manuel de Mi^nezes e netos de D. João, sexto sennor de Cantanhede. 



489 

Pelos seguintes versos coHige-se que esta poesia fóra feita em Goa, postoque 
o Poeta^ ás vezes ausente, se transpõe ao logar dos acontecimentos : 

Que vejo? as praias húmidas de Goa 
Ferver com gente attonita e turbada 
Do rumor que de boca em boca vóa, etc. 

Quando as bocas da Fama voadora 

Ao pátrio e claro Tf^jo as novas levem, etc. 

NSo me parece pois escrípta ao desastre de Alcácer Quibir, porque se houvera 
sido composta em relaçAo áquella fatalissima calamidade não deixaria sem duvida 
Camões de emittir gemidos mais dolorosos sobre a catastrophe que aflligía geral- 
mente a todos, e lançar algumas lagrimas, e essas ardentes, sobre a sorte da pá- 
tria e do infeliz rei, e assim resentir-se esta composição de tão triste aconteci- 
mento. Pelo contrario parece referir-se a um revés, postoque desairoso para as 
nossas armas, de muito menos importância. 

He morto D. Miguel (ah crua espada!) 
£ par^e da lustrosa companhia, etc. 

Não posso concordar que estes versos tenham referencia a D. Sebastião: 

Ou ja de Capitão sobeja incúria, 

Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava 

Com seu peito dos bárbaros a fúria. 

Limitar-se-ha Camões, fallando de um rei que acabava tão infeliz, mas heroi- 
camente, de um facto que deixava em orphandade a sua nação, a estes lacónicos 
versos? De certo não. Estamos pois que alludem a outro fidalgo e a outra catas- 
trophe. 

Mas consola- me, emíim, que se parece 
Ao grande bisavó, que por a viaa 
Real, a sua á Maura lança oíTerece. 

Refere-se n'estes versos ao conde deVianna D.Duarte, que estando em Africa, 
e tendo el-rei D. Affonso V feito uma imprudente cavalgada na serra de Benacofú, 
contra os mouros, o conde poz o seu peito e vida por escudo para salvar o seu 
rei. Tendo o cavailo morto, e estando efle ferido, traoalhou o conde de Monsanto, ' 
seu cunbado, de o pôr n*outro càvallo; porém sendo us loros compridos, e como 
era pequeno de corpo, não pôde ganhar com a perna a sella, e sendo arrastado 
pelo cavailo, caíram sobre eile os nfouros e o despedaçaram de maneira, diz Fa- 
rt^ e Sousa, que nem um só dedo poderam trazer á sua sepultura. Ao mesmo 
conde, e a este acto de dedicação e lealdade, se refere Camões nos Lusiadcu, oi- 
tava xxxviii do canto viu. 

A apostrophe violenta que faz aos companheiros de D. Miguel, que cobarde- 
mente o abandonaram; é enérgica e tem grande valentia de poesia; conhece-se 
a penna de quem nos ÍAuiadas nos deixou a bella falia do condestavel aos portu- 
guezes, oue vacillavam em pór as vidas em defeza da pátria. É dirigida esta poe- 
sia a D. Filippe, irmão do fallecido a quem intenta consolar. 

Quê tristes novas, ou que novo dano, 
Qu' inopinado mal incerto sóa. 

Que novas tristes são, que novo dano! 
Que mal inopinado incerto sóa. 

Edição (Ic 1668. 



490 



Qite vejo? cu pratos húmidas de Goa 
Ferver eom gente attonita e turbada 
Do rumor que de boca em boca vóa. 

Que vejo? as prayas húmidas de Goa 
Ferver com gente attonita e torvada 
Do rumor que boca em boca sóa. 

EdiçiodelMS. 

Que aleffre s'embarcou na trUte armada: 
E d^esmngarda ardente e lança fria 
Passado por o torpe e iniquo oraço. 

Que se embarcou na alegre e triste armada: 
E de espingarda ardente e lança fria 
Passado pelu torpe e iniquo braço. 

£díc3o de 1668. 

Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço. 
Não animo d'avós daros herdado. 
Com qtie temer se fez por longo espaço. 
Não ver-se em de redor todo cercado. 
Doirados inimigos, qu'ej^alavão. 

Nâo lhe valeo rodila, ou poito d'aço, 
Nem animo de Avós altos herdado, 
Com que se defendeo tamanho espaço. 
Nilo ter-so em derredor todo cercado 
De corpos d'enen)igos, qu^exhalavão. 

Edição de 1668. 
iVcIo as fortes palancas que voavão. 

NSo com palavras fortes que voávãe. 

Ediflo de 1668. 
Que tímidos as costast lhe mostravão. 

Que fortes caem, e tiniidos viravSo. 

EdíçSo de 1668. 

(Rotos por partes mil e traspassados 
Os membros, no valor somente inteiros) 

(Passados por mil partes e cort^idos 

Os membros só, do nobre esforço inteuros.) 

£di(iodelfl68. 

(Qu'inda na morte as vidas amedrentão 
Dos duros inimigos espantados) 

Postos no Ceo, parece que presentão 
A alma pura à suprema Eternidade, 
Por quem os ceos e a terra se sustentão. 

Que inda na morte as vidas araedrentáo 
Dos fracos enemigos espantados 

Postos no ceo, parece que aprezentâo 
A pura aluía á Suprema Eternidade, 
Por quem os Ceos e terra se susteutio. 

Ediç2o de 1668. 



49\ 

Immaiura tnnoeeníe ja fizmra. 
Verde e quasi innocenCe ja fazia. 

Bdição de 16C8. 

E, como débil flcn\ a quem fallece 
O radical humor de que viria. 

Nas mãos do Coro Angélico; que dece, 
S' entrega; e vai lograr a vida eterna. 
Que com morte tão justa se merece. 

E, como flama fraca, a quem fallece 
Seu húmido licor de que vivia. 

Nas mãos do choro Angelical, que dece, 
Se entrega; e vai gozar da vida eterna> 
Que com táo justa morte se merece. 

Kdição de 1668. 

Vai, que quem por a Lei sacra e divina 
A solta, áquelle a dá que o Ceo governa. 

Vai, que quem pella Ley santa e divina 
^Morre, a dá a Deos que os ecos governa. ^ 

Edição de 1668. 

Falia o terceto que começa: 

Mas se de tal valor foi morte dina, 

e cm se^ruida ao antecedente 

Vaí-te, alma, em paz á gloria sempiterna, 

seguem-^e os onze seguintes em que descreve as raríssimas qualidades do nohre 
mancebo seu amigo, que niSo se encontram nas outras edições: 

Quando pella razáo devida e dina 
Do Rey da Pátria e honra dos passados 
Sacrificar a vida nos ensina. 

Nos assentos de estreilas esmaltados 
Lhe dá lugar a altissima Clemência, 
Entre os Heroes á gloria destinados. 

Mas aht quem sofrera perpetua auzencia 
De tão charo Senhor tão iido amigo, 
Quem porá contra mágoas resistência. 

Aquelle animo grande, que do antigo 
De seus mayores era alto retrato, 
Desprezador de todo o vil perigo. 

Misturado com doce e brando trato 
Cos iguaes juntamente, e c'os menores, 
A todos amoroso a todos grato. 

Aquelle 'sprito nobre onde mayores 
Esperanças cresciSo, se o tão duro 
Caso as não cortara em novas flores! 

Em verde idade sizo ja maduro, 
Alegre rizo, ledo e aberto peito 
Em repousado espirito seguro. 

Não soberbo c por arte contrafeito, 
Mas todo puro, o emíim da natureza, 
Mais para o i)co que para a t'?rra feito. 



492 



TaD)bem do corpo a humana gentiLesa, 
O bem talhado gesto qae mostrava 
Forças igoaes e manhas com destreza. 

A cor que o fresco rosto matizava, 
As rosas, flores novas de alegria, 
Com que o verão as faces adornava; 

Tudo os fios da morte que desvia 
Dos propósitos nossos e salteâ, 
Ck)rtáras cruamente quando abria. 

O pranto por a moríe hórrida e féa. 

O pranto pella morte horrenda e féa. 

Edição da 1608. 

Por o crespo Jacintho, moço eharo. 

Pello crespo Hyacinto, moço charo. 

Ediçio do 1M8. 

Vinde e chorae um moço em tudo raro. 

Vinde e chorai hum moço ao mundo raro. 

BdiçiodelfiSS. 

Nem de riico sujeito a algum reparo : 
Mas só de ferro imigo traspassado. 

Nem de animal algum que haja repaco, 
Mas só do fero imigo traspassado. 

£diçiodel668. 

Tambim tu, moço Idalio, assiste quedo. 
Está tu também, moço Idalio, quedo. 

Ediçio «e 1666. 
A beber por os olhos, triste e ledo. 

Pois os formosos olhos de Miguel 
Ja cobertos se vem do escuro manto 
,pa lei geral a todos mais cruel. 

E vós, filhos de Thespis, que co*o canto 
Podeis bem mitigar a dor immensa. 

A beber pellos olhos trjste e ledo. 

Que ja os fermosos olhos de Miguel 
Cubertos sâo do negro e escuro manto 
Da ley geral a todos mais cruel. 

E vós, filhas de Thespis, que do canto 
Podeis bem mitigar a ley immensa. 

fidiçiodot668. 

Á grande integridade, a que u dhem 
Aguas não só, do damno recompensa. 

Á grande integridade, que se devem 
Náo só, agoas do dano recompensa. 

Edif io de 1668. 

A profunda tristeza; qu'em hum'fiora. 
A profunda tristeza; que em hum hora. 

Ediçio de 1668. 



493 



Quõ deUes o discur$o ktnee fora. 
AUi de dor os corações sujeitos 
Hão de lançar de si toda a memoria 
D'exemplos claros, sólidos respeitos. 

Que a raz$o quasi, qiiasi deita fora. 

Alli de dar os coraçOes sogjBítos 
PezadaA lhe serSo consolações 
E pezados exemplos e respeitos. 

Edição de 1668. 

Segue depois este terceto que não vem nas outras edições : 

Pequena he certo a dor que com razões 
Se pôde refrear, nem com memoria 
De outros antigo^ e Íntegros* varões. 

Mas, porém se igualais a vida á gloria, 
ó daro Dom Philippe, e pretendeis 
Deixar^nos de acções vossas larga historia ; 
Eu não vos persuado a que estreiteis. 

Mas, porém se igualaes a vida á gloria, 
Meu grande Dom Pbeiippe, e pertendeis 
Deixar de vossas obras larga historia; 
Eu nSo vos admoesto que estreiteis. 

£di(Io de (668. 
Onde livre d*affectos vos mostreis. 
Que mal a natureza determina. « 

Onde livre de eifeitos vos mostreis. 
Que mal natura nossa determina. 

Ediçlo de 1668. 
MmSnidade estúpida, dizia. 

Immunidade estúpida, diria. 

Ediçlo de 1668. 

He não sentir affectos que a alma erifi, 
• Porénk se o sentir nada for bruteza. 

He nSo sentir effeitos que a alma cria. 
Porém se nfio sentir nada be bruteza. ' 

Edição de 1668. 

Seguem-se depois eetes tercetos que nSo vem nas outras edições : 

Se doe a opinião do maí presente 
E medo e o])Miiao do mal futuro, 
SSo tudo opiniões da gente. 

O verdadeiro sábio está seguro 
De leves alegrias e espanto. 
De dor, que turba da alma o licor puro. 

Inda antes que aconteça o riso e o pranto, 
Os temia ja no sentido meditados, 
Livre está de alvoroço e de quebranto. 

E como de alta torre vé cuidados 
Humanos váos, e aquelia differença 
De ambições, e cobiças e peccados. 



• 494 

Todo caso acha neite só presença, 
Que como as febres são da carne humana, 
Assi os eífeitos d'aiffla são doença. 

, Se esta doutrina credes que he profana, 
Ponde os olhos na nossa que he divina 
E sobre todas santa e soberana. 

Vereis Aram que não se contamina 
Sobre os montes seus que defendida, 
A dor lhe foi da santa disciplina. 

Não chega a ver parentes que da vida 
. Partidos são, que na alma a Deos agrada, 
Que nenhuma afflição do mundo imnida. 

Nós somos geração a Deos dedicaaa. 
Sacerdotal, que em tempo nenhum deve 
Do gentílico culto $er tocada.. 

Se dos antigos Padres ja se escreve. 
Que chorando, aos mortos enterrarão 
Com dor e pranto publico e não leve. 

£ra porque inda as portas não quebrarão 
Do Cco sereno aquellas mãos cravadas, 
Que os antigos contágios alimparão. 

E também por ornar as sempre usadas 
Pompas do funeral enterramento 
Com publicas exéquias costumadas. 

Esta alta fortaleza e sofrimento^ 
Como a forte varão vos he devildo, 
E como ley do santo documento. 

/ ; ' • 

Falta o terceto que começa : ' 

Em vós hum solTrer alio s'experlmente, 
e depois continua : 

Como de iUutíré tumulo carece. 

Que do sepulcro nobre aqui carece. 

EdipSo áé 1668. 

Faltam mais os dois tercetos que se seguem, que são suppridos por estes 

Mas também nisto vi que se parece 
Co' do grande Bisavó, que pella vida 
Real, a sua ás lanças onerece< 

Fazendo com seus membros impedida 
A passagem aos feros Tingitanos, 
Ficou sem sepultura^ merecida* 

£ lá nos aposentos soberana 
O recebem da palma coroado. 
Desprezando do corpo baxo os danos* 

£ elle diz, que das gentes enterrado^ 
Qualquer corpo será; mas quem morreo 
Por Deos, he só dos Anjos sepultado. 

Que mais rico e fermoso Mausoléo, ' 
Que pyramides altas, que figura 
De mortalha que chegue a estar tio Ceo. 

Aui formoso e inteiro, assi decora 
Adorna quem o tee,. como o tomatí 



495 



Assi fermoso e inteiro, aesi deeoro 
Adora quem o tée, como o tomou. 

EdiçSo do 16C8. 

Mas ai! anal terror $ubito oecupou 
O vosso claro peito, ô Portuguezesf 
Qual pávido temor vos congelou? 

Mas oh! guc temor supito oecupou 
Vosso peito famoso ó Portuguezes? 
Que pávido temor vos lanceou? 

Edí(9o de 1668. 

Aos fortes Lusitanicos amezes. 
Aos Lusitanos bellicos arnezes. 

EdiçHo de 1668. 

Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava 
Com sen peito dos bárbaros a fúria. 
Ou ja do férreo cano a força braça. 

Ou a fraqueza? Não: que elle sustentava 
(>om seu corpo dos bárbaros a furía. 
Ou do férreo cano a força brava. 

EdiçUo de 1668. 

Os corações ardentes congelava? 

Âh I quem vos fez que os Ímpetos da guerra 
Não sustentásseis com valor ousado. 
Desprezando o temor que a vida encerra? 

A vida por a Pátria e por o Estado 
Pondo nossos avôs, a nós deixarão. 
Em terra e mar, exemplo sublimado^ 

Que o\ coraçoens no peito congelava? 

Ou quem vos fez que os Ímpetos da guerra 
Nâo sustenteis com valor sempre ousado, 
Desprezando o furor que a vida enterra? 

A vida pella pátria e pelio estudo 
Pondo, vossos Avós a nós deixarão, 
Terras, mares e exemplo sublimado. 

EdíçHo de 1668. 

Com feia infâmia peites generosos, 
Ja em públicos lugares, ja em secretos. 
Mortos d'Esparta os Heroes vakrosos. 

. Com fea infâmia peitos generosos. 
Em públicos lugares, nem secretos. 
Mortos os Espartanos valerosos. 

Edição de 1668. 

Ás santas Leis *da Pátria obedecemos. 
Ás Santas leys da pátria obdecemos. 

Edição do 1^. 

Mostrando^lhes o ventre, em terror tanto. 
Pois do damno fugis, vendo-o visinho. 

Administrando-lhe o ventre, sem ter manto. 
Pois fugis do perigo, que he visinho. 

Edição de 1668. 



•196 



Outra vez no materno -e esêuro ninho. 
Vede quaes com mais gloria ficariõo. 
Se aqueUes que morrerão por o Estado, 
Suestes a quem mulheres injuriãof 

Outra vez no materno escaro ninho. 

Vedes quaes com mais gloria ficaríSo, 

Se aqueUes que, emíim, morrem pello estado, ' 

Se os outros que as mulheres injuriflo? 

Ediçiode4668. 

Trocaste cada chaqa em dará estreita; 
Co'os pés o crystaUino Ceo medindo. 
Nada d' essas attissimas Espheras, 
Nem da terreste aos olhos encobrindo. 

Por cada chaga tens hfia clara estrella ; 
Os pés o cristalino Ceo medindo, • 

Pizando essas luciferas Esferas, 
Ja da terra os olhos encobrindo. 

Edt(Íodet668. 

Nas outras edições parece incompleta esta poesia, porém na de 1668 a con- 
cluo com o seguinte verso : » 

Mais a pena cantara a poder mais. 



BLEtíU XI 

Esta ele^a vem na segunda parte das Rimas (1616), com este titulo: •A Fai- 
xam de Christo N. Senhor ». N'ella imita a lamentação da morte de Ghristo, de 
Sannazaro, De morte Christi Domini lamentatio ad mortales. Faria e Sousa, sem- 
pre t2o enthusiasta do Poeta, critica este poema, que lhe parece florido de mab 
para o assumpto, e principalmente quando trata da Virsem, notando descrever 
Camões a sua belleza physica, e attribuir-lhe afifectos de desesperação pela morte 
de seu Santissimo Filho. Ê também digna de attenção a maneira como o Poeta 
caracterisa apropriadamente os que atacam a Igreja. O hereje, de falsíssimo por 
ser renegado, o judeu de pertinaz, o mabometano de vicioso e torpe, e os idola- 
tras de cegoSi levados de conceitos fabulosos. 

Da lua na mudança tão constante. 
Que mingoar e crescer he seu partido. 

Da lua em ser mudável tão constante, 
Que mingoar e crescer he seu partido. * 

Edição de 4616. 

Se quando, emfim, revolve subtilmente. 
Tantas cousas a leve phantasia. 

Se quando, em fim, revolve sutilmente, 
Tantas cousas a leve fantasia. 

Edição de 1616. 

Bem vê, se da razão se não desvia, 
Aquelle único Ser, alto e divino. 



Vé bem se da razão se não desvia, 
O Altíssimo ser, puro e divino. 



EdíçXo d^ 1616. 



497 



Sem fim e sem principio, hum Ser cotUino; 
Hum Padre grande, a quem tudo he possibil. 
Por mais que o diffMte humano atino: 

Hum saber infinito, incompr^iensibiL 

Sem fim e sem começo, bom ser contino; 
Hum padre grande, a quem tudo he possi\iel, 
Por mais ardao que seja no homem indino : 

Hum saber infinito, incomprehensivel. 

Edição de 1616. 

Que mora no visibil e invisibil. 
Que mora no visível e invisivel. 

EdiçSo de 1616. 
{Como se Deos nõo fosse) deixa a vida. 

Gomo se Deos não fosse, perde a vida. 

EdiçAo de 1616. 

Ponderà-0 com discurso repousado; 
E^ ver-te-has advertido facilmente, 
' Oíha aqueUe Deos oito e increado. 

Pondera isto, que digo, repousado; 
NSo passes por aqui tãò levemente. 
Ngo que aquelie Deos alto e increado. 

Edição de 1616. 

o peo, a terra, o fogo, p ntâr irado. 



Edição de 4646. 



O Ceo, a terra, o fogo e mar irado. 

A falsa Theohgia, e povo escuto, 
A falta Theologia, e povo escuro. 

Edição de 1616. 

Não dos átomos leves d' Epicuro; 
Não do fundo Occeano, como Thcdes. 

Nso dos átomos falsos d*Epicuro; 
NSo do largo Occeano, como Thales. 

Edição de 1616. 

Pois este immenso Deos por ti padece 
Novo estylo de morte, novos males. 



Que por ti este grande Deos padece 
Novo modo de morte, novos males. 



Ediç9d de 1616. 



E não por causa natural secreta. 
£ n$o por natural causa secreta. 



£diç9o de 1616. 



Não vês que cahe o monte, a terra treme? 
E aue lá na remota e grande Athenas 
O docto Areopagita exclama e teme? 

TOMO III 



U 



498 



Não vés que os montes caem? a terra treme? 
E que até na remota, e grande Athenas 
O sábio Dyonisio sente e teme ? 

£diçSodel616. 

Por o mal em qu'eu sô sou o culpado. 
Polo mal em que eu só sou tão culpado. 

Ediçio de 1616. 

Por falso f e violador da sacra Lei? 
A fama a ti se põe do meu peccado f 

Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei. 
Pois como entre ladrões eu não padeço? 
Á pena a ti se dá do qu'eu errei? 

Eu servo sem valor, tu immenso preço. 

Por falso, e por quebrantador da ley? 
A fama a ti se põem de meu peccado? 

Eu, Senhor, sou ladrão, tu sumo Rev. 
Eu só furtey, tu com ladrões padeces f 
A Pena a ti se dá, do qn'eu pequey? 

Eu servo sem valor, eu sumo preço. 

EdiçSo de 1616. 

Do captiveiro eterno que mereço. 
Do cativeiro eterno que mereço. 

EdiçSo de 1616. 

Te dás aoé soUos homens, que te vendem. 
Te dás aos homens baxos, que te vendem. 

Ediçio de 1616. 

A ti, que as almas soltas, a ti prendem? 

A ti summo Juiz, ante Juizes 

Te accusão por o error dos que te offendem? 

A ty, que as almas soltas, a ty prendem? 

A ty summo juiz, ante juizes 

Te accusáo polo error das que te offendem? 

Edição de 1616. 

Por quem tu vens ao mundo, te despreza. 
O teu rosto, de cuja formosura. 

Por qu5 tu vens ao mundo, te despreza. 
O teu rosto, de cuja fermosura. 

EdiçSo de 1616. 

Diante quem pasmei está a Natura. 
Diante quem muda está a natureza. 

EdiçSo de 1616. 

Cuspido, atropdlado cruelmente. 
Cuspido, arrepelado cruelmente. 

EdiçSo de 1616. 
A açoutes rigorosos desangrado. 



499 



De açoutes rigorosos flageliado. 

Edição de 16t6. 

Ao despir por as mãos cruéis e iradas. 

As venerandas barba-s de Deos tivo 
De resplandor ornadas, s'arrancavão 
Para desempenhar a Adão cantivo. 

Com cordas por as ruas o levavão. 

Ao despir pelas milos cruéis e iradas. 

As santissimas barbas de Deos vivo, 
De resplendor ornadas, lhe ai'rancaTão 
Para desempenhar Adão caplivo. 

Com coroas pelas ruas o levavSo. 

Ediç9o de 1616. 

Da victoria qu'as almas akançavão. 
Das vitorias que as almas alcançavISo. 

EdiçSo de 1616. 

Ajuda hum pouco a est'Hómem verdadeiro. 
Ajuda hum pouco este homem verdadeiro. 

Edição de 1616. 

OUia que o corpo afflicto do morteiro, 
E dos longos jejuns debilitado, 
Não pôde ja co o peso do madeiro. 
Oh não enfraqueçais, Deos incarnado! 

Olha que o cor|)o aflito do marteiro, 
E dos longos jeitLs debilitado, 
Não pôde ja co peso do madeiro. 
Ó nSo enfraqueçais, Deos encarnado I 

Edição de 1616. 
Supportae Cavalleiro sublimado. 

Aquellas altas vozes, que lá soão. 
Dos Padres são, que o íimbo têe escuro, 
E ja de louro e palma vos cordão. 

Todos vos bradão que subais o muro. 

SuDportay cavalleiro sublimado. 

Que aquellas altas vozes, que lá soão. 
Dos padres sáo, que estão no Limbo escuro, 
Que j a de Louro e Palma vos corôáo. 

Todos vos bradão que subais ao muro. 

Edição de 1G16. 

Em cima essa bandeira mui seguro. 
Emcima essa bandeira muy seguro. 

Edição de 1616. 
Pois muito mais a Deos, que a vós, custarão. 

Que muito mais a Deos, que a vós, custarão. 

Edição de 1616. 

Com durissimos pregos s'encravárão. 
Com durissimos pregos se encravarão. 

Edição de 1^16. 



500 



Mas qual será o humano qu'as querellas 
Da angustiada Virgeni contemplasse. 
Sem se mover a dor e mágoa delias? 

E que dos olhos seus não destillasse. 

Mas qual será a pessoa que as querellas 
D'angustiada Virgem contemplasse, 
Que não se mova a dor, e a má^oa delias? 

E que dos olhos seus não estilasse. 

Edição de 1616. 

Que carreiras no rosto sifwlasse? 

Oh quem lhe vira os olhos refulgentes 
Converlendo-se em fontes, e regando 
Aquellas faces bellas e excdlentes ! 

Quem a ouvira com vozes ir tocando. 

Que carreiras no rosto n2o sinalasse? 

Ó quem Ibe vira os olhos refulgentes 
Desfazendo-se em lagrymas, regando 
Aquellas bellas faces excellentesi 

Que a vira com gritos ir tocando. 

Edição de 1616. 

Co'os accentos dos Anjos retumbat^do! 
Quem vira quando o puro rosto ergueo. 

Cos accentos dos Anjos retumbando! 
Quem vira quando o claro rosto ergueo. 

Ediçlo de 1616. 
Não era este o licor suave e daro. 

Não era este o liquor suave e claro. 

EdiçSo de 1616. 

A dar as puras tetas ao Cordeiro. 
A dar as tetas puras ao cordeiro. 

Ediçio de 1616. 
Não era só, não, esse o verdadeiro. 

Não só era esse, Senhora, o verdadeiro. 

EdiçSo de 1616. 

^^Morrendo por o mundo em hum madeiro; 
Mas era a salvação que aUr ganhava. 

Morrendo polo mundo n'hum madeiro; 
Mas a salvação, que ally ganhava. 

EdíçSo de 1616. 
A grave causa delia o requeria. 

A gravidade delia o requeria.' 

Ediçào de 1616. 

M'alcançae huma gotta, com que lave 
A culpa que me aggrava e pesa tanto. 

Do licor salutifero e suave 
M'abrangei, com que inate a sede dura 
Deste mundo tão cego, torpe e grave. 



501 

Me alcançai huma gota, com que lave 
A calpa que me amvar e pesa tanto. 

Do tiquor salutifero e suave 
Me abrangey, com que mate a sede dura 
D'este rounao iHo cego, torpe e grave. 

KdiçSo de 1616. 
Que tive e vivirá, e não conhece 
A Lei de vosso Filho, a abrace pura. 

Que vive e viverá, que nâo conhece 
A ley do vosso filho, santa e pura. 

£diçSo de 1616. 
Da graça, e com damnado e falso esprito. 

Da graça, e c6 danado e falso sprito. 

£dJçSo de 1616. 
O povo pertinaz no antiguo rito. 

O povo pertinaE n» antigo rito. 

EdiçSodo|6S6. 
Lhe diz qalie pena igual ao seu delito. 

Lhe diz que he pena igual ao seu delito. 

EdiçSo de 1616. 

As Leis, e com preceitos tão viciosos 
Na terra estende a seita falsa e impura. 

As leys, «cora preceitos viciosos 

Na terra estende a ceita falsa, impura. . 

Edição de 1616. 
A confessar hum Deos ci^ucificado. 

Confessar hum só Deos crucificado. 

Edição de 1616. 

E d*hwn e d*oxUro o vicio ja deixado, 
O seu nome, co*o vosso nesse dia. 

Mas de todos o vicio ja passado, 
O seu nome c'o vosso neste dia. 

Edição de 1616. 

.*• 

ELEGIA XII 

Na tfrceira parte das Rimas, edição de 1668, traz esta elegia o seguinte tí- 
tulo: iTraducção dos versos Propheticos' da Sihilía Erithrea», que refere Santo 
Agostinho, liv. xviii, cap. 23." da Cidade de Deos, nos^quaes, pelas primeiras le- 
tras, se lé: Jesu Cbrísto, Filho de Deos e Salvador. É um acróstico em que se 
descreve o juizo universal. 

Como em carne vem Deos, para que o veja 
Homem toda esta macUina ter reste; 
Rei justo, que dos corpos e almas seja 
Juiz : e quando o mundo cego e inculto, 

* Como em carne virá Deos, a quem veja 
O crédulo e incrédulo terreste; 



502 

Rey justo, que almas e que corpos reja 
Juiz será; quando este mundo inculto. 

EdiçSo de 1668. 
Todo vão simulacro e gentil culto. • 

Todo o vão simulacro e rico culto. 

Edição de 1668. 

Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto, 
Immensa luzj que as carnes desenterra. 

Fará co* mar o fogo, e crú tumulto. 
Immensa a luz, que as carnes desenterra. 

EdíçSo de 1668. 

Hum Justo e outro alçando á santa.terra. 
Os justos seus levando á ^anta terra. 

£diçlodel668. 
Desfeitos serão montes e penedos, 

Desfar-se-ha a terra, os montes e os penedos. 

EdiçSo de 1668. 

Sem luz as luzes todas do Orbe puro. 
Sem luz a lua, Estrellas e Orbe puro. 

EdiçSo de 1668. 

Luqar se abaterão os altos montes; 
Vibrará ^mares vento furibundo : ' 
Averá só de chammas vivas fontes : 
De trombeta tremenda som terribiL 

Lugar se abaixarão os altos montes; 
Ver-se-ha no mar o vento furibundo 
Haverá só de fogo vivas foutes: 
Da trombeta medrosa o som terribel. 

EdiçSo de 1668. 
Responderá dos máos gemido horribil. 

Responderá dos máos gemido horribel. 

EdiçSo de 1668. 
ELEGIA XIII 

Esta elegia vem na segunda parte das Rimas de Camões (1616) com este ti- 
tulo: «Ao Doutor Mestre Belchior em louvor de sua filha dona Maria de Figuei- 
roa, na Índia em Damão». Pelos, seguintes versos se vé que esta senhora era na- 
tural d'aqueila cidade: 

Mas tinha-lhe a ventura oriental cama, 
Guardada lá em Damão, porque nascendo. 

• 

Esta poesia foi sem duvida composta no reino, e provavelmente das ultimas 
cousas que o Poeta escreveu, se é que a escreveu. Foi D. Constantino que to- 
mou Damão, e para esta senhora ser o objecto dos louvores que o Poeta aqui 
lhe prodigalisa durante a sua residência na índia, não tinha ella idade, pois de- 
via ser então de mui verdes annos. É possível que esta composição não seja de 



505 

« 

Carnes, mas de Gonçalo Yai de CamGes, seu parente, que foi capitão d'aquella 
fortaleza. 

Se também de Lucrécia a Livia historia. 

Se também de Lucresia a Livia historia. 

EdiçSo de 1616. 
No$ ficou por Petrarcha, e hoje crece. 

Nos ficou por Petrarcha, e oje crece. 

Ediç2o de 1616. 

Deo com a morte vida á formosura. 
Deu com a morte vida á fermosura. 

Ediçlodel616. 
E te Vénus formosa, hoje segura, 

E se Vénus fermosa hoje segura. * 

£diçSodel616. 
Que fará a fonnosura soberana. 

Que fará a fermosura soberana. 

EdiçXo de 1616. , 
Destas cante Virgílio, cante Homero, 

Destas cante Virgílio, destas Homero. 

EdiçSodel616.' 

Guardada lá em Damão, porque nascendo. 

* 

Guardada em DamSo, porque nascendo. 

EdiçSo de 1616. 

Vòi, Pae de tal íhesouro, dae-me ouvidos. 
Vós, Pay de tal thesouro, dai-me ouvidos. 

/ Edição de 1616. 

Antes dae-lhe louvor, para que sejão. 

Antes dai-lhe louvor para que sejão. 

EdiçSo de 1616. 

Direi OS olhos beUos, boca e riso, 
Pintarey os olhos bellos, boca e riso. 

Edição de 1616. 

Cabellos d* ouro, em fim seu grande aviso. 
Sua arte, perfeição, e formosura. 
Que na terra nos mostra hum paraiso? 

Cabellos de ouro, erofim seu grande avizo, 

Sua arte, perfeição e fermosura, 

Que na terra nos mostrão hum Paráyzo? 

EdiçSo dp IG16. 

A boca de rubis, cheia de perlas. 
Das cnjstaliinas mãos a neve pura ? 



504 

A- boca de robis, chea de perlas, , 

Das cristalinas mSos a neve pura? 

Ediçik) de 1616. 

Voê vem apresentar j da clara fonte. 
Vos vem aprezentar, da clara fonte. 

Edição de 1616. 
As pegaseas flores de Heliconte. 

As pegaseas flores de liiconte. 

Edição de 1616. 

Das Nymphas, que o dourado Tejo cria. 
Com suas doces Lyras temperadas. 

Das Nimphas, que o dourado Tejo cria 
Com suas doces Liras temperadas. 

Edição de 1616. 

Esta he por quem Vertumno desprezando. 
Esta hc por quem Veturno desprezando. 

Ediçfto de 1616. 

O avó de Pkaetonte, e porque Orpheo 
As furtas infemaes aquebrantava. 

Q avó de Pbaelonte, e porquê Orpheo. 
As fúrias infernais a quebrentava. 

EdiçSo de 1616. 

Esta he a quem Paris deo a maçãa d'ouro. 
Esta he a quem Pariz deu a maçS d'ouro. 

Edição de 1616. 

Esta he quem desd'o Ganges até o Douro, 
Esta he quem des do Gange até o Douro. 

. Edição de 1616. 

Dos de Lião Fajardos, que descende. 
Dos de Liam Fajardos, que descende. 

Edição de 1616. 

De mH primores cheia, coUoçada, 
Em rara perfeição de formosura. 

De mil primores chea, colocada, 
Em rara perfeiçáo de fermosura. 

Edição de 1616. 

Terá com fama eterna e sublimada. 
Terá com fama eterna e sublimada. 

Edição de 1616. 

Mil ramos levarão cheios de flores. 
Mil ramos levarão cheos de flores. 

Edição de 1616. 



505 

« 

Com formosura e graça de corUino. 
Com formosura e graça de contino. 

Edição de 1668. 

D'alli do nosso choro venerada 
Terás cargo da selva de Diana. 

Dali do nosso choro venerada 
* Terás carguo da selva de Diana. 

Edição de 1616. 
ELBQIA XIV 

N'esta elegia ou epistola, o Poeta desesperado de alcançar remédio aos seus 
amores, toma por consolação descrever as suas penas e, desenganado da má for- 
tuna, deseja que a morte dô fim aos seus tormentos, Éscripta antes de ir para 
a índia : do degredo do Ribatejo ou mais provavelmente de Ceuta. 

Sempre deste meu mal tive suspeita. 

Sempre deste meu mal tive sospeita. 

Ediçio de 1668. 

Ó triste, que nem na alma tem alento. 
o triste, que nem na alma tem alento. 

Edfçio do 1668. 

Como se não cuidasse, o que não creio. 
Como se nSo cuidasse, o que nfio créo. 

EdiçSo do 1668. 

Mas vá-se o medo ja, pois que Ja veio. 
Mas vá-se o medo ja, pois que ja véo. 

EdiçSo do 1668. 

Que a urtezct podia ter receio. 
Que a certeza podia ter recéo. 

Ediçio do 1668. 

Nem a deve receiar quem a despreza. 
Nem a deve recear quem a despreza. 

Ediç2o de 1668. 

Entre silvestres feras vos creastes. 
Entre silvestres feras vos criastes. 

£diç9o de 1616. 
ELB6U XV 

Queixa-se do rigor, mudança e esquecimento com que é tratado pela sua amante ; 

Çorém, apesar de tudo, nSo quer deixar tão suave captiveiro, táo doce prisão, 
ermina aconselhando-a que não deixe murchar a sua formosura, e use dos bens 
de que a natyreza foi tão pródiga com ella. Devia ser éscripta esta composição 
pela mesma epocha da antecedente. 

Foi-me alegre o viveis ja me he pesado. 



* 



506 

Fot-me alegre o viver, ja me he pezado. 

EdiçSo d« 1668. 

Vontade minhãj sempre 9ois eaptiva. 
Vontade minha, sempre sois cativa. 

Edi(So de 1668. 

Brando fogo de amor, que em vós guardais. 
Brando fogo de Amor, que em vós guardaes. 

EdiçSo de 1668. 

Nunca nesta alma a minha, aonde estais. 
Nunca Tiesta alma minha, aonde estaes. 

Ediçiodel668. 
Paguei-0 logo com longo tormento. 

Paguey-o logo com longo tormento. 

EdiçSo de 1668. 

Mais mudável que o vento o does ao vento. 
Mais mudável que o vento o dais ao vento. 

EdícSo de 1668. 

Com rasto alegre, para que o seguisse. 
Com rostro alegre, para que o seguisse. 

Ediçlo de 1668. 

Que em vós o Amor de amor tendes vencidú. 
Que em vós o Amor de amor tendes vScido. 

EdiçSo de 1668. 

Ireis ver ao crystal os olhos bellos. 
Ireis ver ao' cristal os olhos bellos. 

EdiçSo de 1668. 

Qm também os prazeres meus descerão. 
Que também os prazeres meus deceram. 

*Ediç&o de 1668. 
ELEGIA XVI 

Descreve a situação em que anda, qaeixando-se ás serras e valles da cruel- 
dade da sua dama, mais dura que os objectos inanimados que o escutam. Parece 
ser escripta em Ceuta, pela analogia que t^em os seguintes versos com outros es- 
criptos n'este sitio : 

Ando por esta serra desterrado. 
Espalhando a voz ao leve vento, 
Deile só consolado, delle ouvido, etc. 

Aqui me subirei na mór alteza 
Da serra, onde logo contemplada 
Será tua perfeiçílo, tua dureza. 

. Vt'ja-se a elegia ii. 



507 

Quem vio nunca maior desaventúra. 

» 
Qaem vio nunca mayor desaventura. 

Edição de 1668. 

Quando de hwn movimento vive ináino. 

m 

Quando de hum movimento vive indigno. 

£diç9o de 1668. 

> Efte valle farei de meu mal dino. 

Este valle farei de meu mal digno. 

EdiçSo de 1668. 

HUa lembrança cheia de tormento. 
Húa lembrança chea de tormento. 

Edição de 1668. 
EGLOGA XVII 

Anda fatigando a serra com as queixas que lhe arrancam a saudade e crueza 
da sua amante; porém, apesar de um tão duro soífrimento, elle lhe é saboroso, 
porque é vontade sua oraenar-lho. É escripta na língua castelhana, e provavel- 
mente em Ceuta. Tanto na parte descriptiva como no pensamento- tem analogia 
com a elegia antecedente e com a ii, escriptas no desterro. 

. ELEGIA XVIII 

Na mesma lingua e ao mesmo assumpto da antecedente. Anda o Poeta de 
monte em monte espalhando as suas queixas, lamentando os rigores que soíTre 
resignado, porque vem da sua amante; porém se alguma hora se abrandassem, 
com que gosto cantaria esta mudança. 

Dó no se. cantaria tu blandura, 
En aue region estrafia, o nueva parte 
Quedara por loar a tu hermosura, etc. 

. Que roble, que leon, que tigre huviera, 
Que áspera montafia intratada, 
Que mis mudadas vozes no oyera. 

Mas no quiere Amor, que la usada 
Quea, en estas sicrras esparzida 
De tanto tiempo ya sea dexada. 

Por estes versos é quasi evidente que foi escripta em Ceuta; a estranha terra, 
08 leões e tigres que pascem na montanha intratada, e ouvem as suas queixas, 
s2o de uma descriptiva t2o característica que não deixam a menor duvida sobre 
o logar onde foi escripta esta composição. 

ELEGIA XIX 

A D. Pedro da Silva, capitão de Tanger no anno de 1575, a primeira vez que 
el-rei D. Sebastião passou á Africa. Elogia-o, porque tão joven mostrava dis- 
posições de soldado veterano, contra a expectação dos invejosos que murmura- 
vam da sua nomeação, com o receio de temeridades de annos tão verdes. Relata 
uma entrada que fez em terras dos mouros, aprisionando um celebre capitão cha- 
mado Alafe, que era tido cm grande valia em Tetuão. 



508 

Do grão filho de Anchises valoroso. 
Do grSo filho de Anchises valeroso. 

Ediçlqdel668. 

Pois nelie o .Ceo a ti Silva nos deu. 

Que a fazes com iuas obras mais formosa. 

Pois nelle o Gea a ti Sylva nos deu. 
Que a fazes cora tuas obras mais ferroosa. 

Edif ao de 1668. 

Movido pelo 'spirito, que o guia 
A maiores proezas, gúe a -Theseo, 

Movido pelo spirito, que o guia 
A loayores jiroezas, que a Theséo. 

Ediçio de 1668. 

E sendo esta eleição do Rei valente, 

s 

E sendo esta eleiçSo do Rey valente. 

EdiçSo de 1668. 

Quando com grão conselho, e pouca gente. 
Quando com gram conselho, e pouca gente. 

Ediç3odel668. 

Como grão Capitão, velho, valente, 
Comq gram Capitão velho e valente. 

Ediçio de 1668. 

Com grão despojo feito, denso dano. 

I 

€om gram despojo feito, denso dano. 

BdiçSo de 1668. 

Ó felice Varão, Silva Troyano. 
Ó felice varão, Sylva Troyano. 

Edição de 1668. 
SLE6U XX 

A morte de D. Tello de Menezes : é dirigida a uma irmã á qual pede console 
a mãe por este triste acontecimento. Morreu este fidalgo em um desafio em Go- 
chim, onde estava, vindo na apparatosa armada com que o vice-rei foi a Tiracole 
avistar-se e ajustar pazes com o Çamorim. Diogo do Couto faz menção da marte 
doeste fidalgo por esta fórroa: «£ como a gente da armada era muita, e andava 
ociosa, começaram- se a atear em brigas un^ com os outros, e a haver desafios 
particulares, de feição, que se mataram mais de cincoenta homens, em que en- 
trou D. Tello de Menezes, um fidalgo mancebo muito gentil-homem, e bom ca- 
valleiro, que foi morto em um desafio». 

Por esta poesia se vé, que a mãe lhe tinha ajustado um casamento no reino; 
porém o leito nupcial converteu-se em ataúde. Quanto ó verdadeiro o ditado: 
O casamento e a mortalha no céu se talha! ^ 

Esta elegia, na edição de 1668, traz este titulo: •A morte de Dom Tdlo, que 
matarão na índia: achou-se em um manuscripto do Arcebispo Dom Rodrigo da 
Cunha, feito no anno de 1568. 



509 

Sátão desta alma triste e magoada. 
Sayão desta alma triste e magoada. 

Ediç3o de 1668. 

Satã do peito a voz, com que a graveza, 
Saya do peito a voz, coro que a graveza. 

Edição de 1668. 

Cortada em flor, que pela acerba morte. 
Cortada em. flor, que pella acerba morte. 

Edição de 1668. 

Da magoada mãe, cuja alma triste. 
Da magoada mSy, cuja alma triste. 

Edição de 1668. 

A mãe, de quem não houveste piedade. 
A mây, de quem nSo houveste piedade. 

Edição do 1668. 

Síeu filho tão formoso e mal logrado. 
Meu filho tão fermoso e mal logrado. 

Edição de 1668. 

Em terra de desterro, ai fUho amado. 
Em terra de desterro, ay filho amado. 

Edição de 1668. 

Esta misera mãe desconsolada? 
Quiçá que algum soccorro te seria. 

Esta misera mSy desconsolada? 
Quiçaes que algum socorro te seria. 

Edição do 1668. 

Ai filho, meu amor, que tu só eras. 
Ay filho, meu amor, que tu só eras. 

Edição de 1668. 

lUustre e formosíssima Maria. 
Illustre e fermosissima Maria. 

Edição de 1668. 

De alegrares a mãe chorosa e triste. 
De alegrares a 4nãy chorosa e triste. 

Edição de 1668. 
Da pátria honra, e louvor das gentes. 

Da pátria honra, de louvor das gentes. 

Edição de 1668. 

Consola a triste mãe desconsolada 
Com sua vista alegre, e tão foi^osa. 



510 

Consola a triste mSy desconsolada 
Com tua vista alegre, e tSo fermosa. 

EdiçSo de 1668. 

Hum moderado pranto, huma saudade, 

ê 

Hum moderado pranto, húa saudade. 

Edição de 1668. 

Da triste mãe, que além de filho amado. 
Da triste mSy, que além de filho amado. 

lídiçSo de 1668. 
. Perdida a cór, o coUo recahido. 

Perdida a cor, o collo recahido. 

EdiçSo de 1668. 

Seu choro, e nem por mais que em tão bradando. 
Seu choro, e nS por mais q em vfto bradando. 

EdiçSo de 1668. 

De lagrimas os oUios enchugando. 
' De lagrimas os olhos enxugando. 

EdíçSo de 1668. 

De Thetis sua mãe, do branco eóro. 
De Thetis sua mSy, do branco coro. 

EdiçSo de 1668. 

De Deosa de Nereo tão querida. 
Nas aguas de Adheronte foi banhado. 

Da Deosa de Neréo tSo querida. 
Nas agoas de Acheronte foi banhado. 

£diç9o de 1668. 

Mas a agua não chegou áqueUa parte. 
Mas a agoa nSo chegou áquella parte. 

Edição do 1668. 

Chorou do grão Nereo toda a corte. 
Chorou do gram Neréo toda a corte. 

EdiçSo de 1668. 

Tanto áiorou a mãe, qtêe muito o amava. 
Tanto chorou a mSy, que muito o amava. 

Ediçio do 1668. 

Os seus formosos olhos alimpava. 
Os seus fermosos olhos alimpava. 

EdiçSo de 1668. 

Ao vento, de mil Nymphas rodeada, 
Tomando a vista atraz-de quando em quando. 



544 

Ao vento, de mil Ninfas rodeada, 
Tornando a vista atraz de quSdo em quSdo. 

Edição de 1668. ' 

Força não tie, por maU que tenhâo d' arte. 

Força nSo tem, por mais que tenh2o d*arte. 

EdiçSo de 1668. 

f^ão digo, que a alma este de mágoa isenta, , 
Não d,igo que a alma, não este de magoa izenta. 

' Edição de 1668. 
Ja entre os Cidadãos de Coro santo. 

Ja entre os cidadãos do coro Santo. 

Ediçlo de 1668. 
D'aUi contempla de huma e de ouíra estrella. 

Dalli contempla de h(la e de outra estrella. 

Edição de 1668. 

E porque o mar continuo min^ e crece, 
Comprende, e a quinta essência pura e neta, 

E porque o mar continp mingoa e crece, 
Comprêde e a quinta esencia pura e neta. 

Edição de 1668. 
ELE6U XXI 

Pede o Poeta á 'amante se compadeça dos tormentos que lhe faz soíTrer, que 
abrande os seus rigores, e lhe dé vida, morte ou esperança. Parece-nre de um es- 
tylo muito forçado, exagerado e sem verdadeiro sentimento: duvido que fosse 
esta poesia dirigida a D. Catharina de Athaide. * 

D'onde só por remédio espero à morte. 

Donde por remédio espero a morte. 

Edição de 1668. 

Porque força não iee poder humano 
Contra outro, que não fèe humanidade. 

Porque força nSo tem poder humano 
Contra outra, que nSo tem humanidade. 

Edição de 1668. 

Me deu mal, lewu-me o soffrimento. 
Me deu o mal, levou-me o sofrimento. 

Edição de 1668. 

Que alheio me traz ja do que sohia. 
Que alheo me traz ja do que sohia. 

Edição de 1668. 

Que a supprir basta seu merecimento. 
Que a suprir basta seu merecimento. 

Edição do 1668. 



5<2 

Bem vejo que em tomar o $o(frimento. 
Bem vejo que em tomar b sofrimento. 

EdicSo de 1668. 

Com hUa a-uel morte triste e dítra. 
Com hama cruel morte triste e dura. 

Ediçio de 1668. 

E a morte não em mim, que à estou chamando. 
E a morte nâo em mim, q a estou chamando. 

Ediçio de 1668. 

Que esta alma em si transforma com tal cura. 
Que esta alma em si trâsforma com tal cura. 

Ediçio de 1668. 

Abrande ja huma vida, em que só dura. 
Abrande ja htla vida, em que só dura. 

Ediçio de 1668. 

Oue não tee Âm a grão desaveniura. 
Abrande ja numa dor, que juntamente. 

Que não tem fim a grão desaventura. 
Abrande ja hfia dor, que juntamente. 

, Ediçio de 1668. 

Em mim não, que o não sou tão só de olhar'tx)s. 
Attentai por huma alma, que se esquece. 

Em mim não, q o não sou Mo só de olhar-vos. 
Attentai por hoa alma, que se esquece. 

Ediçio de 1668. 

Nem suspeito que posM Haver mudança, 
IThum coração, que maisjue a si tx» ama. 

Nem sospeito que possa haver mudança, 
N'um coração que mais que a si vos ama. 

Ediçio de 1668. 
ELUOIA XXII 

Dirigida a el-rei D. Sebastião nos seus primeiros annos; esta elegia já tinha 
sido impressa, no anno de 1598, nas obras de Ferreira, porém na edição das obras 
de Camões de 4^8 se dá como d'elle, provavelmente por a acharem em algum 
manuscripto com o seu nome; comtudo é evidentemente obra de Ferreira. Dá sa- 
lutares conselhos ao joven príncipe, deprecando-o a administrar recta' justiça, 
e a ser clemente com os sunditos. Como todos os outros, não deixa este poela 
de lisonjear a paixão do inexperiente rei pela guerra. é 

Depois virá hum tão ditoso dia, 
Que as taas Reaes Quinas despregadas 
Na multidão de toda a Barbena. 

As victoriosas frotas carregadas 
Das captivas coroas e bandeiras. 
De outro esprito maior sejão cantadas. ~ 



515 



ELEGIA XXIII 

Esta elegia evidentemente é uma caiia de declaração de amores que se dirigiu 
a uma senhora. Seria endereçada pelo próprio Poeta? seria escripta para servir 
a algum amigo, ou oaga pelo pretendente amoroso? Esta mercadoria que figurava 
em exposição, penuurada no cordel ao lado da comedia e auto popular, data de 
antigos tempos. 

Senhora, de me não ouvir meus danos. 

De nSo ouvirdes, Senhora, os meus danos. 

EdiçSo de I6J6. 

Por encobrir o mal que me causais 
Temendo onlra mór dor dos desenganos^ 

Por encobrir el mal aue me causais 
Temendo outra dor aos desenganos. 

Edição de 1616. 

Nisto mercê me faz: se a vós offende, 
A culpa ao amor dai, a mi a pena, 

Nisto mercê me fas : a vós se offende, 
A culpa ao amor dai, a mim a pena. 

Edição de Í616. 

Porque só isso busca, is$o periende. 
Porque só isso busca, isso pretende. 

EdtçSo de 1616. 

Para não ser das minhas descontente. 
Com tudo, a não poder huma vontade 
Tão pura, e tanto a medo offefecida. 

Pêra não ser das minhas descontente. 
Goffltudo, a náo poder hfia vontade 
Tam para o tanto a medo offerecida. 

Edição de 1616. 

* Suspire o coração, que treme, e arde; 

Chorar e suspirar seja o meu gosto. 
Não queirão os meus fados que me guarde. 

Sospire o coração,' que treme* e arde ; 

Chorar e sospirar seja o meu gosto. 

Não queirão os meus fados que me garde. 

EdíçSo dr 1616. 

Quizera, desde que tive entendimento. 
Quisera, des que ti\^ intendimento. 

EdiçaodolCiG. 

Sem vós ter para mim que não vivia. 
Mas nem por isso haja inda em vós crueza. 

Sem vós ter pêra mim que não vivia. 
Mas nem por isso aja em vós crueza. 

Edlçilo de 1616. 
TOMO III 33 



51 



OUiãi que em niroi ckammat abrazado. 
Olhai que em vivas chamas abrasada 

EdiçSo de 161(;. 
Pedras, palavras, hertas de virtude. 

Pedras, palavras» ervas de vertude. 

EdiçSo de 1616. 

Se vossos offios podem dar saúde. 
Se vossos olhos poden dar saúde. 

Edição de 1616. 
Deixem-me morrer ja, ninguém me ajude, 

Deixem-me morrer ja, ninguém me ayude. 

EdiçSo de 1616. 

No começo dos damnos, que não sentem. 
No começo dos dannos, que nSo sentem. 

Edição de 1616. 

Emfim, a fim de tudo isto hc. Senhora, 
Emfím, a fim de tudo he, Senhora. 

Edição de 1616. 

Que cedo verei a derradeira hora, 
Ja que meu md vos tenho descoberto. 
Havei de mim dó: não seja isto, emfim. 

Que cedo verei a derradeira ora. 

Ja que meu mal yos tenho dtscuberto. 

Avei de mim dó : não seja isto, em fím. 

EdiçSo de 1616. 
ELEGIA XXIV 

Manuel de Faria e Sousa encontrou esta elegia em um manuscripto com o ti- 
tulo áe 19 Tercetos de Luiz de Camões», e diz que não a coliocou entre as outras, 
porque a não achou repetida em outras manuscriptos por onde a podesse emen- 
dar dos muitos erros de que está cheia; não procurando repara-la, porque então 
seria mais d'elle commentador do que do Poeta. Gaiathea, chorosa, queixa-fe 
de ter Aonio abandonado a pátria, deixando-a a ella, e chora a sua triste morte. 



ELEGIA XXV 

Traz o titulo de Capitulo no manuscripto de Luiz Franco. O Poeta ufano ex- 

. prime á dama a quem é dirigida o prazer com que soffre o seu tormento, o qual 

não é digno de merecer, e a gloria que n'isso experimenta. Deve ter sido escrí- 

pta em Lisboa, no começo dos amores, e antes de começarem os contratempos. 



ELEGIA XXVI 

Esta elegia no manuscripto d*onde copiámos tem o seguinte titulo : «A hwma 
Senhora que estava em Scuxtvem em huma quinta sua. — Saudades. 



?)«5 

• 

N'ella descreve o tonnento e a dor que causa n'elle, em t2o longa ausencis^ 
a saudade; faz protestos de uma inabalável constância, e diz que se conforma com 
a causa que o faz sofirer. Pelo seguinte verso não pôde duvidar-se que foi feita 
u'uma ausência, e longa: 

Assim passo huma ausência tão comprida. 

Provavelmente foi escripta na índia. 

ELEGIA XXVII 

Á morte dã sua D. Gatharina de Athaide. Com a falta d'ella não tem conso- 
lação, tudo o aborrece e sô emprega o tempo em a contemplar, em quanto a morte 
o não leva a vô-la no céu; então se acabará a tristeza deixando amor de os ator- 
mentar. Esta poesia, que encontrámos em um manuscripto do século xvii, está 
repassada de ternura e melancholia, e é escripta no mesmo estylo, e ató com ex- 
pressões do inimitável soneto composto ao mesmo triste assumpto, que começa: 

Alma minha gentil, que te partiste. 

ELBGU XXVUI 

Á morte de D. Álvaro da Silveira, filho do conde da Sortelha, e irmão de ou- 
tro seu amigo o jesuita.6onçalo da Silveira; ambos regaram com o seu sangue 
08 dominios portuguezes, este obtendo a palma do martyrio nas terras da Africa - 
oriental, e aquelle no desastrado conflicto do Daharem. D. Álvaro da Silveira mi- 
litou com muita distincção na índia; e acabou ás mãos dos turcos, que lhe corta- 
ram a cabeça, tendo-o primeiro ferido em uma verílha, e depois mortalmente no 
pescoço. Este fidalgo etã não só intimo amigo de CamOes, mas até julgo que pa- 
rente por seu avó Vasco Pires de Gamões; estava despachado com a capitania de 
Ormuz : assim a sua morte devia ser fatal a Camões, pois o poderia melhorar de 
fortuna, levando-o em sua companhia, e assim ficaram derrubados aquelles cas- 
tellos de vento a que allude n'esta poesia : 

Não tenho ia rasão de vos fazer 

Meus casteilos de vento sobre o mar, etc. 

Camões diversifica aqui alguma cousa do modo por aue narra este sinistro 
acontecimento Diogo do Couto, pois diz que os nossos anandonaram o seu ca- 

Sitão, e lhes lança em rosto a sua cobardia. Refere o chronista da Ásia que ten- 
o-se desordenado, logoque os turcos deram sobre elles, D. Álvaro da Silveira, em 
companhia de alffuns fidalgos, que sempre o acompanharam e do guazil de Or- 
muz, sustentara fedo o peso da batalha, ficando por este modo suspensa, até que 
D. Álvaro caiu morto, e depois de o estar, lhe cortaram os turcos a cabeça. 

Quantas vezes alli desejaria 
Verein-no pelejar Nymphas do Tejo. 



Quantas vezes a alguma invocaria, etc. 



Era D. Álvaro cavalleiro enamorado e violento nos seus amores. Surdindo 
no porto de Ormuz, onde estava por governador Bernardim de Sousa, que já em 
Goa tomara bandos por elle até contra o governador, e que era muito seu amigo, 
o foi receber com grandes ofTefrecimentos; porém D. Álvaro, que já vinha em ou- 
tro bordo por mexericos que tocavam em ciúmes de uns amores, não só não 
aceitou os seus ofierecimentos, mas saindo do porto de Ormuz para Baçorá, junto 



5<6 

á fortaleza de Reixel 8obre a foz do Eufrates, tendo encontrado ama embarcação 
nue levava seguro de Bernardim de Sousa, nfto só lb'o não quiz guardar, mas 
Ine tomou a fazenda e o dinheiro. D'Í8to ficou tão indignado, que, arribando de 
novo D. Álvaro a Ormuz, em consequência de uma tormenta, o foi de noite es- 
perar Bernardim de Sousa, julgando que desembarcaria, para se desaffrontar 
d'aquella oíTensa; porém nâo tendo desembarcado, Bernardim de Sousa, desgos- 
toso e apaixonado, caiu de cama, e de modo que d'isto morreu. Estes amores 
eram de Lisboa, pois o Poeta diz que elle estimaria que o vissem pelejar as Nym- 
phas do Tejo, e que no ardor do combate mais de uma vez invocaria a alguma 
u ellas. 

ELB6IA XXIX 

Esta elegia é escripta no estylo da Lamentação á morte de Chrúto, de Sano»- 
zaro; é obra sem duvida do tempo em que cursava os estudos em Coimbra, e 
por isso das primeiras cousas que escreveu. Distingue-sepor certa vangloria em 
mostrar erudição, e revela os conhecimentos que havia adquirido n'aquella uni- 
versidade em todos os ramos da sciencia; é alem d'isto repassada de sentimentos 
religiosos, e de extrema compunção pela tragedia sagrada que libertou o género 
humano, commemorada pela Igreja em sexta feira maior, dia em que esta poe- 
sia parece ter sido recitada pelo Poeta. É também para* notar o exaltado enthu- 
siasmo de que já se achava possuído, em annos tão tenros, por Homero e Virgí- 
lio: 

Tomara ser Virgílio ou ser Homero, 

Somente no saber que foi divino, 

Que ser que elles forão não n'o quero. 

Foi feita, como diz, á somara de um freixo, e é acompanhada do soneto de- 
dicatorio, que eu supponho dirigido a seu tio D. Bento de Camões, prior de Santa 
Cruz de Coimbra. Vem no manuscripto de Luiz Franco. 



DA CREAÇlO E COUPOSIÇÃO DO HOMEM 

• 

Este poema imprimiu-se pela primeira vez em nome de Camões, no anno de 
1615, com este titulo: "Obra do Grande Luis de Camões, Príncipe da Poesia He- 
royca. Da Creação e Composição do Homem. Em Lisboa, por Pedro Crasbeeck, 
anno de 1615. 

Não são de Camões estas oitavas, e não é preciso ser muito atilado para o 
conhecer; logo na dedicatória ao arcebispo D. Rodrigo da Cunha, então bispo de 
Portalegre, que precede a segunda parte das Bimas, advertiu o primeiro editor 
d'e$te poema. Domingos Fernandes, que elle não era de Camões, dizendo: «... e 
na mão de muitos senhores iliustres achei três Cantos da Creação do Homem, era 
oitava rima, que vão no fim deste livro, e tendo-os impressos W. S. me afiirmou 
não serem seus; mas como os tinha impressos, por ser obra rouyto boa e com o 
nome do Author a deixei hir estando esta obra começada». Não era precisa a 
declaração do arcebispo para se conhecer que não eram de Camões, não só pela 
diíTerença de estylo, mas pela aridez do assumpto; e Faria e Sousa chega a di- 
zer: «... y mal criado hombre fue todo aquel a quien se puso en la molera que 
eran de L. de C. aquellas malditas coplas». Hoje não só posso afiirmar com plena 
certeza que não são de Camões, mas, graças ao ex.'"'' sr. Vicente Ferrer Netto 
Paiva, lente de direito na universidade de Coimbra e ministro que foi dos negó- 
cios ecclesiasticos e de justiça, indicar afoutnmcnte o verdadeiro anctor, que foi, 
sim, um amigo de Camões (porém não o Poeta), isto é, André Falcão de Resende, . 
sobrinho do nosso archeologo André de Resende. De um exemplar ainda não 
completo das obras d 'este auctor, aliás interessantes a mais de um respeito, que 
na imprensa da universidade se imprime debaixo da inspecção de s. ex.*, e com 



547 

que delicadamente me brindou, e d'onde pude já extractar uma carta inédita di- 
rigida ao seu amigo Camões, tirei não só as dedicatórias de André Falcão ao du- 
que de Aveiro, que junto, mas os versos latinos do medico Pedro Gomes em elo- 
gio do aurtor, a quem pela sua proíissfio devia extremamente agradar o poema, 
e o qual, na forma usada d'estes encómios, nâo deixa de comparar o nosso An- 
dró Falcão a Homero eVirgilío. 

O assumpto d'esta composição é; conforme Manuel de Faria e Sousa, imitado 
da segunda parte do livro de anatomia aue imprimiu o medico Bernardino de 
Montana, no anno de 1531 com o titulo : 'Suem dei Marquez de Mondejar D. Luig 
Hurtado de Mendonça •. Finge-se que o marquez sonhou ter visto a()uella fabrica 
da composição do homem em forma de um palácio, e pede ao medico lhe vá de- 
clarando o que viu, e o medico vae explicando todas as peças do palácio accom- 
modando-as aos membros exteriores e interiores do homem. Mas se este poema 
não é de Camões, perguntará o leitor, porque motivo se publica n'esta eaição? 
Direi: em primeiro iogar, para seguir o exemplo de todos os outros editores, o 
que sigo ainda com outras poesias no mesmo caso, como a elegia ou epistola do 
poeta António Ferreira a el-rei D. Sebastião, para não ficar a edição truncada. 
Alem d'i8to, especialmente para desenganar o leitor entendido, que, com as poe- 
sias que vão juntas ao poema, poderá formar seu juizo seguro. Acresce que ha 
pyrronicos que apesar de tudo insistam que seja de Camões, e n'este caso se po- 
dem recrear com a sua leitura. E não se julgue que o pyrronismo é seita exiin- 
cta, bem peio contrario; e eu citarei aqui de passagem um caso acontecido com- 
migo, que o prova plenamente. Quando o conde de Reczynsky, ministro que foi 
de sua magestade el-rei da Prússia n'esta corte, com louvável zélo pelas bellas 
artes, tentou estudar a sua historia na nossa pátria, deixando-nos, com as suas 
investigações, um precioso pecúlio; uma das cousas que a elle e a mim nos fa- 
zia bastante confusão, era um tal Grão Vasco, qne tinha exercitado a sua arte, 
com tanta assiduidade e eíEcacia que cem Briareos, e talvez em cem annos, não 
pintassem metade do que o nosso tinha pintado, porque ainda, apesar das gran- 
des perdas que temos experimentado em objectos de arte, não ha igreja, nem 
havia convento que não apresentasse quadros do tal pintor. E como os quadros 
eram de differentes reinados arranjavam um illuminador do tempo de AífonsoV, 

aue, com privilegio de quasi Mathusalem, vinha pintando até o fim do reinado 
*el-rei D. João III. 
Esta trapalhada, permitta-se-me a expressão, não agradava nem a mim, nem 
ao conde, porque o que desejávamos n'estas questões de arte era esclarecer a ver- 
dade, postoque em mim pesava o stigma de aoti-nacionalismo se fizesse evaporar 
o Grão Vasco. Em uma excursão ao Porto, n'uma rápida visita que fiz á bihlio- 
theca publica, encontrei um manuscripto do século xvii, e folheando-o ao acaso 
encontrei noticia de um pintt^r natural deVizeu, que ali era indicado com o epi- 
theto de grande, e com designação dos quadros que n'aauella cidade e subúr- 
bios tinha executado. Fiquei contentíssimo com a descoberta, porque era em 
tempo que se tratava d 'este assumpto, e tendo-a apresentado ao conde, passei 
desde logo a ver se na cidade d'onae este pintor era natural, se podia fazer al- 
guma proveitosa indagação. Felizmente o ex."* sr. cónego Berardo, homem bem 
conhecido pelas suas muitas letras b sciencías, e actualmente sócio da academia 
das sciencias, se deu ao trabalho áe a fazer com o empenho de patrício do pintor; 
e com a perícia que possue pôde, nem mais nem menos, no archivo ecclesias- 
tico do bispado, encontrar a certidão de baptismo que, se a minha memoria me 
não falha, era do anno de 1552, isto é, do fim do reinado d'el-rei D. João III. 
Com esta noticia o conde resolveu-se a ir ao próprio local, e ahi pôde conferir 
e achar os quadros que ind^itava o manuscripto do Porto, e de oois tirou co- 
pia que juntou á sua obra. 0e tudo isto se tira a conclusão lógica, que existira 
sim um pintor, e esse eminente, ao qual parece que appellidaram com o epitheto 
de granae, mas que não pintou nenhum aaquelles quadros, porquanto viveu em 
uma epocha em aue já não predominava aquelle estyio de pintar, pois devia exer- 
cer a sua actividade artística depois do fim do curto reinado de D. Sebastião e 
no dos Filippes, em que já preponderava o gosto italiano, e que aquelles que 



5^8 

comprehendem mais de um reinado, se devem áttríbuir á influencia da escola de 
algum discípulo deVan Heik que porventura aqui deixasse quando veia a Por- 
tugal no reinado d'el-rei D. João I, dedu2Índo-se de todos estes dados mais honra 
e gloria para a nossa pátria, isto é, o saber-se que esta nobilíssima arte se plan- 
tou n'eila desde o seu começo na Europa, e se reproduziu debaixo da protecção 
que especialmente D. Manuel e D. João III deram a mais de um filhQ da nossa 
terra, que a el la se appl içaram. 

Quem duvidará que isto é a verdade mais honrosa, mais nacional? Comtudo 
a obstinação ó tal, que, para a maior parte, embora o anachronismo o" desminta/ 
sSo todos estes quadros Grãos Vascos. Á vista d'isto parece-me que posso tam- 
bém deixar ir este Grão Vasco da poesia, para aquelles que quizerem continuar 
a reputar tal obra como de Camões. 



t 
/ 



índice 



DAS POESUS CONTIDAS N'ESTE VOLUME 



EGLOGAS 

Agora, Alcido, em quanto o nosso gado 126 

Agora, ja aue o Tejo nos rodeia. 137 

Ao longo do sereno 20 

A auem darei queixumes namQrados 61 

Arde por Galatéa branca e loura 100 

A rústica contenda desusada 72 

As doces cantilenas, que cantavSo 82 

Cantando por hum valle docemente 49 

Despois que o leve barco ao duro remo 102 

De auanto alento e gosto me causava 146 

Encneo do mar azul a branca praia 106 * 

Nas ribeiras do Tejo, a huma área 158 

Parece-me, pastor, se mal nfto vejo 111 

Pascei, minhas ovelhas : eu, em quanto 134 

Passado ja algum tempo que os amores 39 

Que grande variedade vâo fazendo 5 

ELEGIAS 

A Aonio que de amor solto fueia 245 

Ao pé d'hum'alta faia vi sentado -. 189 

ATfuella qm d'amor descomedido 166 

Aquelle mover de olhos excellente 180 

A vida me aborrece, a morte quero 197 

Belisa, único bem desta alma triste 193 

De pefia em pefia muevo las passadas 224 

Despois que Magalhães teve tecida 177 

Divmo almo pastor, Delio dourado 255 

Duvidosa esperança, cet to medo 243 

Entre rústicas serras e fragosas 182 

Eu só perdi o verdadeiro amieo — , 252 

Foi-me alegre o viver, ja me ne pesado 218 

Ganhei, Senhora, tanto em querer-vos • 247 

Illustre e nobre Silva, descendido 226 



520 



Juízo extremo, horrífico e tremendo 211 

La sierra fatigando de contíno ... 223 

Náo me julgueis, Senhora, a atrevimento 235 

Náo porque de algum bem tenha esperança 215 

Nunca hum apetite mostra o dano 221 

O poeta Simonides fallando '. 170 

O sulmonense Ovídio desterrado , i(^i 

Quando os passados bens me representa 2i9 

Quem poderá passar tâo triste vida 251 

Que tristes novas, ou que novo dano 200 

Rei bemaventurado, em quem parece Í97 

Saião desta alma triste e magoada ^ 228 

Se obrigações da fama podem tanto 212 

Se quando contemplamos as secretas 205 



DA CREAÇÃO E COMPOSIÇÃO DO HOMEM 

Canto I : — Na mais fresca e aprazível parte do anno 267 

Canto n : — Altas obras, soberbas e arrogantes 284 

Canto m : — Oh vida humana, vfi, caduca e breve 304 





Esta edição das obras de Gamões constará de cinco a sete vo- 
lumes conforme der o texto. Preço 1^51440 réis o volmne, por 
assignatura, pagos á entrega, e I^SIGOO réis avulso. 

Assigna-se em Lisboa nas lojas dos srs. Jo3o Paulo Martins 
Lavado, rua Augusta n.** 8, Livraria Central de José Melchiades 
4 Companhia, rua do Oiro n.° 155. — Coimbra, José de Mesqui- 
ta. — Porto, António Rodrigues da Cruz Coutinho. — L. J. de 
Oliveira. — Paris, Rey et Belhate, Quai des Augustins n.^ 45, N. 
More, 2 bis, rue d'Arcole. 

Yende-se nas lojas acima mencionadas, nas dos conmiissarios 
da Imprensa Nacional, na dos srs. Bertrands aos Martyres n.^ 73, 
e nas mais do costume. 

Está no prelo o 4.° volume. 

OBRA OO MESMO A1KT0R 

Cintra Pinlorcsca oo lemoria Descripiiva daTilIa de Cintra, Collares 

e seos arredores 

Yende-se nas mesmas lojas.